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+Project Gutenberg's Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. I), by Rui de Pina
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. I)
+
+Author: Rui de Pina
+
+Release Date: August 21, 2005 [EBook #16571]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA D'EL REI D. DINIZ ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net. Produced from
+images provided by Biblioteca Nacional Digital
+(http://bnd.bn.pt)
+
+
+
+
+
+Bibliotheca de Classicos Portuguezes
+
+Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo
+
+(VOLUME LXXI)
+
+CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ
+
+POR
+
+RUY DE PINA
+
+2.ª edição
+
+VOL I
+
+_ESCRIPTORIO_
+
+147--RUA DOS RETROZEIROS--147
+
+LISBOA
+
+1912
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES
+
+Proprietario e fundador
+
+_MELLO D'AZEVEDO_
+
+
+
+
+CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE DOM DINIZ
+
+SEXTO REY DE PORTUGAL,
+
+COMPOSTA
+
+POR RUY DE PINA,
+
+Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.
+
+FIELMENTE COPIADA DO SEU ORIGINAL,
+
+Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.
+
+OFFERECIDA
+
+Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY
+
+D. JOAÕ O V.
+
+NOSSO SENHOR.
+
+
+LISBOA OCCIDENTAL
+
+Na Officina FERREYRIANA.
+
+M.DCC.XXIX.
+
+_Com todas as licenças necessarias_.
+
+
+
+
+SENHOR
+
+Aos Augustissimos pés de V. Magestade chega a minha obrigaçaõ a
+offerecer-lhe a Chronica do senhor Rei D. Diniz seu duodecimo Avô. Esta,
+Senhor, he a Historia de hum dos mais gloriosos Principes, que teve a
+Monarchia Portugueza, porque se fez taõ conhecido pela sua prudencia,
+que dous grandes Reis o elegeraõ por arbitro, e Juiz das contendas, que
+lhe perturbavaõ a paz de seus Vassallos, e foi taõ venturoso, que
+mereceo ter por Espoza uma Matrona, que pela grandeza das suas virtudes,
+e dos seus milagres a veneramos hoje coroada no Ceo. Se me fora licito
+passar dos limites de uma Dedicatoria, bem podia mostrar ao mundo a
+semelhãça do Neto com o Avô, mas bastarmeha dizer, que aquella virtude
+verdadeiramente de Principe, qual he a liberalidade, sendo por ella tam
+celebrado El-Rei D. Diniz, V. Magestade a tem praticado de sorte, que o
+deixa infinitamente excedido. A Real Pessoa de V. Magestade guarde Deos
+como seus vassallos lhe dezejaõ.
+
+_Miguel Lopes Ferreira_
+
+
+
+
+AO EXCELLENTISSIMO SENHOR *D. FRANCISCO XAVIER DE MENEZES*
+
+ Quarto Conde da Ericeira, do Conselho de Sua Magestade, Sargento mór
+ de Batalha dos seus Exercitos, Deputado da Junta dos Tres Estados,
+ Perpetuo Senhor da Villa da Ericeira, e Senhor da de Anciaõ, oitavo
+ Senhor da Caza do Louriçal, Commendador das Commendas de Santa
+ Christina de Sarzedello, de S. Cipriano de Angueira, S. Martinho de
+ Frazaõ, S. Payo de Fragoas, de S. Pedro de Elvas, e de S.
+ Bertholameu de Covilhã todas na Ordem de Christo, Academico da
+ Academia Real da Historia Portugueza, e um dos cinco Censores della,
+ &c.
+
+
+Meu Senhor, buscar o amparo de V. Excellencia he effeito da mais
+prudente rezaõ, porque na sua pessoa se achaõ todas aquellas
+circunstancias, que seguraõ a protecçaõ. He V. Excellencia taõ affavel,
+e taõ benigno para todos, que suavisa, e facilita com estes dotes
+aquelle justo temor que se acha nos que ao mesmo tempo, em que os anima
+o dezejo de conseguirem o que pretendem, os detem, e suspende a grandeza
+de quem procuraõ como valedor. Porém V. Excellencia de tal sorte he
+inclinado a favorecer aos que se valem do seu patrocinio, que lhes está
+offerecendo as occaziões de o occuparem, como se unicamente nacera para
+todos. Naõ fallo na excessiva generozidade, com que V. Excellencia faz
+publica para todo o genero de pessoas a sua copiozissima, e selectissima
+Livraria, beneficio, com que tem attrahido geralmente a todos. E porque
+eu Excellentissimo Senhor, sou hum daquelles que com mais frequencia, e
+com muita especialidade tenho recebido os favores de V. Excellencia tomo
+a confiança de lhe pedir queira pôr na Real presença de Sua Magestade
+esta Chronica delRei D. Diniz, porque desta sorte por meio de taõ
+illustre valedor ficará desculpado o meu atrevimento. A Excellentissima
+pessoa de V. Excellencia guarde Deos muitos annos.
+
+B. as mãos de V. Excellencia
+
+Seu criado
+
+_*Miguel Lopes Ferreira*_
+
+
+
+
+*PROLOGO*
+
+AMIGO LEITOR
+
+
+Aqui te dou na Chronica do Serenissimo Rei D. Diniz de Portugal outro
+argumento da palavra, que te empenhei quando te prometi dar impressas
+todas as Chronicas manuscriptas dos Reis deste Reino. Entre ellas era
+muito digna deste beneficio a delRei D. Diniz, porque sem duvida entre
+os Soberanos desta Monarchia mereceo elle hum lugar de maior distincçaõ.
+Aqui verás hum Principe taõ altamente respeitado, que pela sua grande
+prudencia foi o arbitro para o ajuste de pezadas contendas de dous
+Principes, o que conseguio com a dezejada felicidade, cujos documentos
+poderás ver na Sexta parte da Monarchia Lusitana, e em D. Diogo Jozè
+Dormes nos seus Discursos varios de Historia, impressos em Çaragoça em
+1683, em quarto a folhas 135. Pelo seu conselho foi taõ venerado, como
+temido pela sua espada; com a qual entrou taõ felizmente pelas terras
+inimigas, que mais parecia triunfante, que combatente. Foi taõ
+venturoso, que mereceo ser Espozo da Rainha Santa Isabel, sendo tantos
+os pretendentes daquella Princesa, que parece que lhes prognosticavaõ os
+corações, que havia de ser a gloria da Monarchia, que a tivesse por
+Soberana. Tudo isto he a materia desta Chronica, que se a naõ achares
+escrita em estillo elegante, naõ ponhas a culpa ao Author, põe-na ao
+tempo, que tudo desfigura com as suas necessarias mudanças, porque he
+certo que os Reis de Portugal, que elegeraõ ou a Fernaõ Lopes, ou a Ruy
+de Pina para Chronistas móres deste Reino, haviaõ de eleger a huns
+homens, que fossem merecedores de taõ authorizada occupação pelas suas
+letras, e pela sua elegancia.
+
+
+_Vale_.
+
+
+
+
+*LICENÇAS*
+
+
+DO SANTO OFFICIO
+
+Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica delRei D. Diniz, e
+depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
+sem a qual naõ correrá. Lisboa Occidental 29 de Agosto de 1727.
+
+_Fr. Lancastre. Cunha. Silva. Cabedo_.
+
+
+DO ORDINARIO
+
+Vista a informação pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois
+de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a
+qual naõ correrá. Lisboa Occidental 9 de Outubro de 1727.
+
+_D.J.A.L_.
+
+
+DO PAÇO
+
+SENHOR
+
+Já na cençura da Chronica delRei D. Affonso III que V. Magestade foi
+servido commeter-me, disse, que a maior recomendaçaõ para o prelo, era o
+nome de seu Author. Nesta delRei D. Diniz, e nas mais facilmente se
+distinguirá o que for parto do entendimento de taõ grande Chronista,
+pois de alguns escritos se duvida serem seus. E sendo quem os ler juis
+recto, ficará ao arbitrio da sua prudente critica o exame da verdade
+delle: sendo sempre muito util que se imprimaõ por ser a lição das
+Historias estudo da maior utilidade, porque nellas se achaõ todos os
+principios da verdade, da prudencia, e da sabedoria. Isto mesmo me
+parece quanto ás Historias delRei D. Affonso o IV e delRei D. Duarte em
+que concorrem os mesmos motivos, por naõ multiplicar cençuras. V.
+Magestade mandará o que for servido. Lisboa Occidental 25 de Outubro de
+1727.
+
+_Manoel de Azevedo Soares_.
+
+
+Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo Officio, e Ordinario,
+e depois de impressa tornará á Meza para se conferir, e taxar, e dar
+licença que corra sem a qual naõ correrá. Lisboa Occidental 15 de
+Novembro de 1727.
+
+_Pereira. Oliveira. Teixeira. Bonicho_.
+
+ * * * * *
+
+Nec ut credatur omnibus numeris absolutü, aliud praeter nomé Authoris
+desideratur Augustinus de Castro apud. Sosors. incensur. Emblem.
+
+Librorü Judex statim quicunque voluerit erit Rulãd. de cõmisl. 1 p.l 1
+c. 13. Ex Dionisio Halicasnas. Rulãd. supr. c. 18. n. 5.
+
+
+
+
+_Coronica do muito alto, e esclarecido Principe Dom Diniz sexto Rei de
+Portugual_.
+
+
+
+
+*CAPITULO I*
+
+_Como ElRei D. Diniz sendo Ifante, foi levantado por Rei, e obedecido, e
+das virtudes que teve_.
+
+
+ElRei D. Affonso Conde que foi de Bolonha, faleceo em Lisboa ha vinte
+dias de Março do anno de mil e duzentos setenta e nove annos, (1279) em
+idade de setenta annos, como em sua Coronica jáa se dice, e por seu
+falecimento na mesma Cidade, e tempo foi loguo alevantado, e obedecido
+por Rei de Portugual, e do Alguarve ho Ifante D. Diniz seu filho legitimo
+maior, em idade de dezoito annos, avendo nove mezes, que sem ser cazado
+tinha jáa por ElRei sua caza apartada. Este foi do começo de seu Reinado
+atée ho fim delle sempre em todos seus feitos mui excellente, e por seu
+bom nome conhecido, e estimado por tal antre todolos Reis do mundo, que
+teve em perfeiçam tres virtudes, ha saber verdade, justiça, e nobreza,
+pelo qual hos homens que has tem, como elle teve, claramente sam avidos
+de humanos, por divinos, e de mortais por immortais; e porque cada uma
+destas elle fez com tal temperança, e assi sempre uzou, que em cada huma
+dellas mereceu de ser, e foi com rezam muito louvado, e na justiça foi o
+seu primeiro intento, e cuidado, e punições, da qual quiz loguo reparar
+alguns insultos, e desmandos, que dos tempos de seu padre, e avoo ainda
+avia no Reino, e principalmente em punir, e castigar ladrões, e
+malfeitores, que com merces, que dava, e deligencias, que fazia, aos que
+eram tomados punia com mortes, e grandes escarmentos, e a outros com seu
+temor, espantou, e desterrou da terra, especialmente hos que em
+quadrilhas em alguns ermos onde salteavam tomava, assi como na montanha
+que se diz de Açor, e na serra da Mendigua, e em Alpedris, que por suas
+culpas, e maleficios receberam em suas pessoas cruas penas, de que davam
+testemunho has muitas forcas do Reino que delles estavam cheas.
+
+Foi Principe de bom saber; porque amou ha justiça sobre todalas cousas,
+e por esso foi para todos mui justiçoso, e para si sobre todos
+justiçado, e sua justiça nom era sempre tam severa, que quando alguns
+casos, e tempos ho requeriam nom misturasse com ella muita misericordia,
+e piedade. Nunqua delle se achou que dicesse mentira, nem quebra de sua
+verdade, e defendeo, e favoreceo muito hos lavradores, ha que chamou
+nervos da terra, e do Reino, e teve grande cuidado dos pobres, e
+minguados, ha que sempre proveo com suas ajudas, e esmolas, e nas cousas
+de sua fazenda, e caza foi sobre todos ho mais provido, e solicito, com
+que deu maravilhoso exemplo, para que em seu Reino todos ho fizesem, por
+esso se fez Rei de grandes tezouros, porque has gentes do Reino foram
+tambem em seu tempo mui riquas, e fez muitas leis por bem, e regimento
+da terra, e todas sem alguma quebra por si sempre guardou, e mandou
+inteiramente guardar, e foi Principe tam liberal sem algum vicio de
+prodigo, que por todalas terras elle por sua grande nobreza foi de todos
+mui celebrado, e lembrado, e por ella muitos Senhores de Nações diversas
+vinham á sua Corte pelo ver, e elle assi hos honrava, e tratava, e com
+suas grandes dadivas assi os despedia que da fama, e esperança, com que
+ha elle vinham, nom se achavaõ enganados, e ha todolos outros Fidalguos,
+e Senhores Estrangeiros, que por alguns casos tinham de sua ajuda
+emparo, e soccorro alguma necessidade, elle nunqua em seu Reino lho
+negou, e ha todos recebia com muita honra, e fez grandes merces.
+
+E alguns destes foram ho Ifante D. Joaõ de Castella seu tio irmaõ da
+Rainha Dona Breatiz sua madre, e de D. Reymaõ de Cardona Daraguam, que
+desses Reinos de Castella, e Daraguam eram desterrados, e no de
+Portugual acolhidos, e tambem D. Joaõ Nunes de Lara, Senhor de Bisquaya,
+que ElRei D. Diniz teve prezo, e depois por grandeza ho soltou, e mandou
+poer em sua terra com muitas dadivas, e grandes merces que lhe fez, com
+que honradamente, e com muitos Cavalleiros ho soltou, e mandou poer em
+sua terra, como aho diante se dirá. Este Rei, porque sempre dezejou de
+fazer guerra ahos infiéis, e elle nom tinha terra, que jáa fosse de sua
+conquista trabalhava de lhe fazer continuadamente por maar com armadas,
+e frotas, que contra hos Mouros Dafriqua, e de Grada sempre trazia, e
+nunqua se acha que contra elles fizesse paz, nem lhe desse treguoas, e
+has mais cousas que em sua vida fez por acrescentar e enobrecer seu
+Reino, no cabo desta sua Coronica bremente ha somarei, porque
+verdadeiramente se saibaõ.
+
+
+
+
+*CAPITULO II*
+
+_Como ElRei D. Diniz cazou com Dona Isabel, filha delRei D. Pedro
+Daraguam, e da Rainha Dona Costança, e de suas grandes virtudes, e
+santidade_.
+
+
+Sendo ElRei D. Diniz de vinte annos, idade asáas conveniente para casar,
+foi aconselhado da Rainha Dona Breatiz sua madre, e assi requerido por
+parte do Reino de Portugual, que cazasse para teer esperança de lhe dar
+Deos erdeiro legitimo, que ho succedesse, e loguo lhe foi apontado na
+Ifante Dona Isabel Daraguam, que estava por cazar filha del Rei D. Pedro
+deste nome ho IV, e dos Reis Daraguam houndecimo, e da Rainha Dona
+Costança, filha de Manfreu Rei dambas has Cezilias, que fora filho do
+Emparador Federiquo, ha qual Ifante Dona Isabel por suas muitas
+bondades, e grande fremosura era nas Cortes dos Reis, e Principes
+Christãos muito louvada, e por esso se requeria delles grandes, e mui
+altos cazamentos, no que ElRei D. Pedro seu pai nom podia consentir
+vencido sóomente de grande affeiçam, que lhe tinha, com que nom podia
+padecer ha privaçam de sua santa conversaçam, e da graciosa prezença de
+sua vista, e sendo ElRei D. Diniz por estes respeitos della muito
+contente, estando em Estremoz no anno de mil duzentos oitenta e hum
+annos, (1281) avendo dous annos que jáa reinava, ordenou seus
+Embaixadores, e Procuradores para hirem requerer ha dita Ifante D.
+Isabel; Joaõ Velho, Vasquo Pires, e Joaõ Martins, homens de seu
+Concelho, e pessoas acerqua delle, de grande autoridade, e boa estima,
+hos quaes chegaram á Corte delRei Daraguam, que estava em Barcelona,
+onde sobre ho mesmo caso se acertaram outros Embaixadores delRei de
+Frãça, e delRei de Ingraterra, que para cazamentos de seus filhos
+erdeiros enviavam requerer a dita Ifante.
+
+Pelo que ElRei D. Pedro vendo que algumas destes Principes jáa se nom
+podia escuzar consirando, que com ho filhos delRei de Frãça, e de
+Ingraterra pelos muito conjunctos dividos de sangue, que com elles
+tinha, elle sem dispensação Apostoliqua a nom podia dividamente cazar, e
+que em caso que com cada hum delles cazasse nom saia de sua caza Rainha,
+mas Ifante, ouve por bem de outorgar, que cazasse com ElRei D. Diniz,
+porque sem mais longuas esperanças, ella fosse logo Rainha. Pelo qual ho
+dito Joaõ Velho, que dos sobreditos Procuradores era pessoa para esso
+especialmente deputada, recebeo ha dita Ifante por molher delRei D.
+Diniz, e depois de assinarem tempo certo em que avia de ser trazida, hos
+Embaixadores se tornaram ha Portugual, e porque antre hos grandes
+guostos, e muitos proveitos das Estorias, ha declaraçam verdadeira das
+linhagens, e descendencias dos Principes, e Senhores consegue ho mais
+pequeno, e vejo que hos Istoriquos, que dos Reis, e seus feitos, que
+eram prezentes escreveram elles, porque semilhantes declarações de
+gerações serem ha estes tempos rezentes pubriquas, e mui notorias, has
+calaram, e nom escreveram, e por esso aho diante por ha longura do
+tempo, e has fraquezas das memorias se cauzam duvidas, e confuzoens, que
+muito descontentam.
+
+Por tanto nom sóomente nom pareceo couza injusta mas mui necessaria
+declarar algum tanto de mais longe ha geraçam de que esta Rainha Dona
+Isabel descende, e com que geraçoens Reaes foi liada. Porque he de
+saber, que ElRei D. Pedro deste nome ho terceiro, e dos Reis Daraguam ho
+noveno, cazou com ha Rainha Dona Maria, filha de D. Guilhemo de
+Mompilher de que ouve hum filho, que ho socedeo dito D. James deste nome
+o primeiro, e dos Reis Daraguam ho decimo, este D. James, como nas
+Coronicas Daraguam se affirma, foi concebido ha caso, e seu nome posto
+por milagre, porque ElRei D. Pedro por sua natural condiçam, ou por seu
+vicio era muito dado ás molheres estranhas, e muito pouquo á Rainha sua
+molher, ha que por consentimento de hum Camareiro delRei escondida, e
+mui secretamente se lançou de noite na cama delRei em luguar de huma
+moça, com que elle tinha affeiçam, e aquella noite concebeo do marido, e
+conhecida por ElRei, que do caso foi enverguonhado, ella se nom quiz
+alevantar da cama atée ho outro dia mui claro em que de muitas gentes se
+fez alli vir conhecer, e daquelle proprio dia de que mandou tornar
+pubriquos testemunhos ha nove mezes pario hum filho, com que ElRei ouve
+muito prazer, e por devaçam, e mais segurança de sua vida, mandou loguo
+offerecer ho menino ha huma Egreja, e encomendallo ha Deos.
+
+Preguntando ElRei pelo Officio, ou Psalmos, que se rezevam aho entrar
+della, foi certifiquado, que a este tempo hos Sacerdotes cantavam _Te
+Deum laudamus_, e daquella primeira Egreja ho mandou levar ha outra
+segunda, onde pela mesma maneira soube, que aho entrar della com ho
+menino se dizia _Benedictus Dominus Deus Israel_, e sendo ambos pai, e
+mãi em consulta do nome, que lhe poriam, ha Rainha sua madre dice, que
+sua vontade, e devaçam era parindo filho, que ouvesse ho nome de cada
+hum dos doze Apostolos, e para esso mandou loguo fazer doze cadeas de
+cera por igual medida, e pezo, e em cada hua hum escrito, e em cada hum
+escrito ho nome de cada hu dos doze Apostolos, e com ellas juntas, e ha
+hum proprio momento acezas mandou dizer huma Missa solene do Espirito
+Santo, e no cabo della has candèas todas arderam, salvo ha que em nome
+de San-Tiaguo foi posta, que fiquou mais inteira, e por esso no seu nome
+de James, foi loguo cazado com ha Rainha Dona Lionor, filha delRei D.
+Affonso deste nome ho noveno de Castella, irmãa da Rainha Dona Orraqua
+de Portugual, de que ouve hum filho D. Affonso, que faleceo, e foram
+ambos depois pela Egreja apartados, e depois elle cazou com ha Rainha
+Dona Violante, filha que foi de D. André Rei Dumgria, de que ouve estes
+filhos ha saber: D. Pedro, que apoz elle Reinou em Araguam, e D. James,
+que foi Rei de Malhorqua, e Menorqua, e D. Sancho que foi Arcebispo de
+Toledo, e foi morto em huma batalha em Andaluzia, que ouve com hos
+Mouros, e Dona Costança, que foi cazada com ho Ifante D. Manoel de
+Castella avoo da Ifante D. Costança, molher, que foi delRei D. Pedro de
+Portugual, e D. Violante, que cazou com ElRei D. Affonso ho decimo de
+Castella, avoo delRei D. Diniz de Portugual, e Dona Isabel, que cazou
+com D. Filippe Rei de França, filho e erdeiro delRei S. Luís.
+
+E este Rei D. James foi ho que tomou segunda vez Valença Daraguam ahos
+Mouros por cerquo, e força, porque da primeira vez, que por ho Cide Ruy
+Dias foi tomada, elles Mouros no proprio tempo de sua morte ha tornaram
+ha cobrar, e atée este Rei ha tiveram. E este Rei D. James depois de
+muito velho, e nom podendo jáa sofrer ho pezo, e carreguo do regimento
+de seu Reino fez alevãtar, e obedecer por Rei aho Ifante D. Pedro seu
+filho, e elle meteose Monge no Moesteiro de Santa Cruz, de Monges
+branquos, onde jáas sepultado.
+
+Este Rei D. Pedro seu filho deste nome ho quarto, e dos Reis Daraguam ho
+onzeno, contra vontade de seu pai cazou cõ Dona Costança, filha delRei
+Manfreu, que foi dambas as Cezilias, filho bastardo de Federiquo II
+Emparador Dalamanha, e Rei de Cezilia, e de Napoles, que foi Erege, e
+máo homem, e cruel, e perseguidor da Egreja, assi como fora seu avoo, ho
+outro Federiquo, que diceraõ Barbarroxa, ho qual Emparador Federiquo II,
+sendo doente em Fruelmela Luguar do Reino Dapulha por consentimento de
+hum seu Camareiro foi afoguado, e morto por este seu filho Manfreu, que
+se chamava Principe de Tarento, para loguo aver como ouve, seus
+tezouros, que eram mai grandes, e esta abominavel maldade fez por tal
+que em algum testamento, que o pai podera fazer, nom despozesse de suas
+riquezas ho contrairo do que dezejava.
+
+E deste Emparador fiquou hum filho legitimo, que chamavam Conrado, que
+era em Alemanha, e vindo para Nopeles de Cezilia, que direitamente lhe
+pertencia tambem Manfreu seu irmaõ em hum pastel ho fez matar com
+peçonha, e deste Conrado fiquára hum filho menino erdeiro dito
+Conradino, que em mistura de certos prezentes, e joias tambem seu tio ho
+quizera matar cõ peçonha, mas ha Rainha mãi do menino como mui prudente,
+e receosa das manhas de Manfreu aprezentou em luguar do filho outro
+menino em tudo conforme, que por elle loguo morreo, ho qual Manfreu por
+morte de Conrado seu irmaõ com has muitas riquezas, que tinha occupou
+loguo, e ouve o Reino de Cezilia, que sendo sobre esso pelo Papa
+Alexandre escommunguado, e perseguido com exercito para que deixasse ho
+Reino, elle por sua ajuda meteo em Italia muitos Mouros de Tunes, e
+Dafriqua cõ que desbaratou ha gente do Papa, e fez em Italia grandes
+destroições, e levou della grandes despojos.
+
+Pelo qual ho Papa Urbano IV, enviou em França chamar ha Carlo irmaõ
+delRei S. Luis ha quem fez Alferes da Egreja, e lhe deu hos Reinos de
+Napoles, e de Cezilia, porque os cobrasse de Manfreu, que tiranamente
+hos usurpava, e Carlo ajuntou muita gente, e com ajuda do Papa ouve
+batalha com Manfreu junto de Benavente em Italia onde ho dito Manfreu
+foi morto, de que hos Reinos de Cezilia, e de Napoles fiquaram loguo
+pacifiquos ha Carlo, especialmente, que depois da morte de Manfreu
+tambem Carlo matou em outra batalha ho Conradino neto de Federiquo, ho
+que Manfreu quizera nas joias matar, porque com grande exercito veo
+contra Carlo para cobrar hos Reinos que dizia lhe pertencerem de
+direito, e na contenda foi morto, e sendo Carlo nessa posse dambos hos
+Reinos sobreveo, que por quãto hos Francezes tratavaõ has gentes de
+Cezilia com inhumanos roubos, e cruezas, e desprezos, desonestidades,
+dissoluções: elles todos de que ha Cidade de Palermo, foi ho principio,
+indinados contra hos Francezes sendo jáa para esso secretamente
+exortados, e favorecidos delRei D. Pedro Daraguam, em hum dia hos
+mataram todos, e para vinguança desta rebeliam, e mortindade dos seus,
+ElRei Carlo, que nom era em Cezilia ajudado de grandes potencias veo ha
+Cezillia, e cerquou estreitamente ha Cidade de Mecina, que loguo com has
+outras Cidades da Ilha enviaram pedir soccorro aho dito Rei D. Pedro, ha
+quem pediam amparo, e ajuda, e por esso lhe offereceram ha entregua do
+Reino, que diziam lhe pertencer direitamente pela Rainha D. Costança sua
+molher, filha do dito Rei Manfreu, de que nom fiquara outro erdeiro
+legitimo, que o socedesse.
+
+Por cujas preces, e requerimentos, commovido ElRei, D. Pedro,
+principalmente por cobrar o Reino de Cezilia, que lhofereciaõ, elle com
+grandes frotas veo loguo ha Palermo onde recebeo ha obediencia, e Coroa
+do Reino, e dahi ordenou loguo descerquar Mecina em cuja perda se ha
+perdesse, toda Cezilia se perdia, primeiro mandou requerer ha ElRei
+Carlo, que se partisse, e lhe deixasse seu Reino, que por sua molher
+direitamente lhe pertencia, ho que Carlo desprezou, como ha Embaixada, e
+requerimento de grande soberba, e porém com medo delRei D. Pedro, que
+pelo maar, era muito mais poderoso, receoso de lhe colher hos
+mantimentos para seu exercito, deixou ho cerquo de Macina, e se foi ha
+Calabria, e dahi mandou chamar ha Carlo Principe de Salerno, seu filho
+que era em França, ho qual com grande poder se ajuntou com seu pai em
+Roma, onde se queixaram delRei D. Pedro aho Papa Martinho IV da força, e
+danos de Cezilia feitos contra direito, dizendo que Carlo por armas, e
+em campo lhe faria conhecer seu erro, e tirania.
+
+Ha quem ElRei D. Pedro com escuzas coradas das couzas passadas se mandou
+defender em Roma por seus Embaixadores, hos quaes por guanharem tempo, e
+escuzarem ha ida dos Francezes sobre Cezilia, porque estavam muito
+poderosos concordáram em nome delRei D. Pedro por juramentos solenes,
+que ha contenda desse Reino se partisse por desafio dambos hos Reis em
+pessoas, e com cem Cavalleiros cada hum sôomente, e que fosse em
+Bordeos, que ha esse tempo era delRei Dingraterra, e que aho Rei
+vencedor fiquasse livremente, e sem contradiçam ho dito Reino de
+Cezilia, do que ElRei Carlo foi mui contente, para concordarem ho
+desafio, e ElRei D. Pedro deixou Guovernador, e como Rei de Cezilia
+ElRei D. James seu filho, e veose Araguam, e Carlo para regimento, e
+defençam deixou tambem seu filho Carlo Principe de Salerno, e passou em
+França, para cada hum com suas valias, que levavam por segurança do
+campo irem comprir ho desafio para que era assinado dia certo no mez de
+Junho, ho qual dia Carlo pareceo em Bordeos com hos seus Cavalleiros
+armados, deixando a huma jornada ElRei Felippe de França cõ grande seu
+exercito por segurador.
+
+Mas ElRei D. Pedro nom pareceo pubriquo em Bordeos, e porém se diz, que
+por nom quebrar ho juramento que fizera, se mostrou ahi a alguns em
+secreto, e que de como parecera tomou por sua escuza estormentos, se
+volveo ha seu Reino com grande pressa, e por este enguano de que ElRei
+de França, e Carlo seu tio, e ho Papa juntamente foram muito
+escandalisados, ho Papa escommungou ElRei D. Pedro, e deu contra elle
+Cruzada, e concedeo o Reino Daraguam com grande solenidade, e com grande
+doaçam ha Felippe Conde de Valois, segundo genito delRei Felippe de
+França, que cazou com huma neta delRei D. Carlo seu tio Principe de
+Salerno. E neste tempo antes de se executar ha Cruzada contra ElRei D.
+Pedro, hum Rogerio Delora, Almirante delRei D. Pedro com grande frota se
+foi á vista de Napoles, onde Carlo filho delRei Carlo fiquara por
+Guovernador, ho qual por seu mui riquo sangue de que descendia nom
+podendo sofrer has muitas injurias que do Almirante Daraguam em sua
+pessoa recebera, guiado mais do favor de seu esforço, que do verdadeiro
+sizo, nem dos preceitos de seu pai, que nom guardou, sahio com sua
+frota, que tambem consiguo tinha, e pelejou no maar com ho Almirante, ho
+qual por ser de si mesmo tam afouto, e nas pelejas do maar mui
+afortunado venceo, e prendeo Carlo com muitos homens de sua companhia, e
+prezo com hos seus, loguo foram levados ha Cezilia, e postos em carcere
+em Mecina.
+
+Aho qual infortunio de Carlo, ElRei Carlo seu pai querendo proverse se
+foi ha Guaieta, e porque com effeito nom podia seu dezejo satisfazer, de
+nojo adoeceo, e segundo se diz morreu de tristeza, pelo qual hos de
+Mecina, porque eram por este caso apertados pelo Papa com grandes
+escõmunhões, e antreditos sabendo ha morte delRei Carlo por mais sua
+vinguança se foram ahos carceres, onde estavam hos Francezes para hos
+matarem, e porque hos prezos eram homens, e bons Cavalleiros se poseram
+em defençam, e resistencia, e foram dos Cezilianos nos mesmos carceres
+mortos sem piedade, e queimados, e assi quizeram fazer aho Principe
+Carlo, se ha Rainha Dona Costança molher delRei D. Pedro, que ha esse
+tempo era em Cezilia lhe nom valera, porque estranhou fazerse tam crua
+justiça, sem mandado, nem autoridade delRei D. Pedro seu marido, dalli
+concordaram, que Carlo fosse levado prezo, como foi a Araguam, onde era,
+e avendo quatro annos, que ho dito Carlo era prezo depois da morte
+delRei D. Pedro, Reinando em Araguam ElRei D. Affonso seu filho, foi por
+meio delRei D. Duarte Dingraterra solto sobre ha refens, que Carlo deu
+de tres filhos seus legitimos, e sinquoenta Cavalleiros nobres do
+Condado de Proença, e pelas despezas trinta marquos de prata, com
+condiçaõ, que elle renunciase ho direito que tinha em Cezilia, e fizesse
+renunciar ha Carlo de Valois ho direito que ho Papa lhe dera em Araguam.
+
+E por esto, e por cazamentos que depois antre elles se fizeram fiquou
+ahos Reis Daraguam ho direito no Reino de Cezilia; como quer que sobre
+esta mesma contenda antes de se fazer ha mesma concordia ElRei Felippe
+de França, e este Rei D. Pedro Daraguam faleceram ambos sobre ho cerquo
+de Girona, ha saber, ElRei de França por doença, e ElRei D. Pedro por
+dezemparo, e treição dos seus, foi morto ha ferro, como nas Coronicas de
+Frãça, e Daraguam mais larguamente se decrara. E deste Rei D. Pedro
+Daraguam, e da Rainha Dona Costança sua molher fiquaram estes filhos, ha
+saber D. Affonso filho primeiro ha que disseraõ ho Casto, que apoz este
+Reinou, e sem cazar morreo Frade no abito de S. Francisquo, e D. James
+ha que fiquou ho Reino de Cezilia, depois que elle foi Rei Daraguam, e
+Dona Violante, que depois cazou com ElRei Carlo, irmam de S. Luis Bispo
+de Toloza, e Dona Isabel molher delRei D. Diniz de Portugual.
+
+E tornando ho processo aho fio de seu cazamento, que atraaz leixeei aho
+tempo, que este cazamento se fez em Araguam, eram grandes guerras, e
+differenças em Castella, antre ElRei D. Affonso ho decimo e ho Ifante D.
+Sancho, seu filho, cuja parte ElRei D. Pedro Daraguam favorecia, e
+siguia, e por este caso receando enviar sua filha por terra ha seu
+marido ElRei D. Diniz, ordenava que viesse por maar, mas por outros
+pejos que da vinda do maar se offereciam, ordenou de toda via vir por
+terra, e em sua companhia enviou ho Bispo de Valença, e muitos outros
+Cavalleiros dos milhores de sua terra, e lhe deu mui riquas joias douro,
+e de pedraria, e grande baixella de prata, e com ella veo tambem ElRei
+seu padre atée ho estremo de Castella, onde ante de se espedirem falaram
+ambos apartados por grande espaço, e em se espedindo ElRei della, elle
+com olhos cheos de mui saudosas lagrimas lhe dice.
+
+_Filha, Deos que te chamou pera este cazamento, e lhe prouve que de
+minha caza saisses Rainha, elle neste caminho te queira guardar, pera
+que nom recebas pejo, nem dano algum, e Deos que na terra onde nasceste
+te amou, e quis que de todos sempre fosses amada, enderessa tua vida, e
+teus feitos nessa pera onde vaaz de maneira que sempre faças couzas de
+seu santo serviço, e te dèe sempre avença, e boa concordia com teu
+marido_.
+
+E com esto soltando-a dos braços com que ha teve apertada, chorando lhe
+deitou ha bençam de Deos, e ha sua, e assi se despedio della com sinaes
+de muito saudoso, e como entrou em Castella, veo ha recebella aho
+caminho, ho dito Ifante D. Sancho, seu primo com irmão, porque fora
+filho da Rainha Dona Violante molher delRei D. Affonso de Castella, que
+era mãa delRei D. Pedro Daraguam, e do dito Ifante D. Sancho de que ha
+Rainha Dona Isabel, e todolos de sua companhia receberam muita honra, e
+boom trato, e ho Ifante lhe dice: _Senhora ElRei vosso padre meu tio, em
+minhas necessidades me fez sempre tanto favor, e me deu tam grandes
+ajudas, que por esso, e principalmente por quem vós sois, eu com boa
+vontade atèe Portugual fora com vosquo, mas por estas guerras em que
+ando, que hee necessario que sempre proveja com minha pessoa, ho nom
+posso aguora fazer, e peço-vos que desta culpa me releveis, e sabei que
+pera has cousas de vossa honra, e serviço sempre me achareis deligente,
+e muito aguardecido, mas eu enviarei com vosquo ho Ifante D. Jarnes meu
+irmaõ, que vos acompanhe_.
+
+E assi proseguiram sua viagem atée cheguarem ha Braguança, onde sua
+entrada fora concordada, e alli eram jáa, que esperavam por ella ho
+Ifante D. Affonso, irmaõ legitimo delRei D. Diniz, e ho Conde D.
+Guonçalo, cazado com Dona Lionor, tambem sua irmãa, filha bastarda
+delRei D. Affonso Conde de Bolonha, e assi outros Perlados, e riquos
+homens do Reino de Potugual, e dalli se despedio delia ho Ifante D.
+James, e se tornou pera Castella, e ho Ifante D. Affonso, e hos
+Perlados, e Senhores de Portugual trouxerao ha Rainha ha Tranquozo, onde
+veo ElRei D. Diniz, e ha recebeo em pessoa, e depois de feitas suas
+benções ordenadas pela Egreja, fizeram alli vodas com mui grandes
+festas, e com mui grandes alegrias no mez Daguosto do anno de mil
+duzentos oitenta e dous annos,(1282.) pera ho que no campo de Tranquozo
+se fizeram grandes, e custozas cazas, e ElRei se partio dalli com ella,
+e lhe ordenou loguo caza, e deu seus officiaes, terras, e assentamento
+segundo ha sua honra, e estado compria.
+
+E esta Rainha Dona Isabel posto que por obediencia, e mandado delRei seu
+padre, e por necessidade de bem, e paz destes Reinos, fosse
+corporalmente cazada com ElRei D. Diniz ha que tinha grande amor, ella
+porém com todalas obras, e sinaes de mui Santa, nom leixava
+espiritualmente de ser cazada com Deos, ha quem com tanta abstinencia, e
+continuas orações sempre servia, e contemplava como sempre fizera, sendo
+donzella em caza delRei Daraguam seu padre, porque sendo cazada, por hum
+Breviairo por devoto costume, tinha por seu desenfadamento mais
+familiar, em todolos dias rezava todolas oras Canonicas, e depois desso
+tomava outros livros de couzas espirituaes, e devotas, e por elles lendo
+retraida muitas vezes com muitas lagrimas de devaçam ha viram chorar, e
+depois deste virtuoso officio, que cada dia ordenadamente tinha, por nom
+estar ocioza custumava por suas mãos lavrar, e fazer cousas douro, seda,
+e prata, e sobresso com suas donas, e donzellas praticava sempre em
+cousas devotas, e onestas, e porque sua fée fosse por obras mais
+prefeita, e de moormerecimento, ella ha moor parte de suas rendas dava
+secretamente ha pessoas miseraveis em que sabia, que avia verguonhozas
+necessidades, e ha estas era tam liberal, e piedoza, e com tam limpo
+coração, e tam graciozo rosto lhe dava ho seu, que por ella mui
+verdadeiramente se dizia, que das viuvas, e orfans era piiedoza madre; e
+ella foi sempre em todas suas averssidades, e descontentamentos, que lhe
+socediam, mui armada de paciencia, porque nella nunqua foi conhecida
+ira, nem sanha, huma ora mais que outra, e has vinguanças, que tomava
+dos males, e descontentamentos que dalguem recebia, eram graciosos
+perdões sem querer tomar per si, nem por outrem alguma outra emenda.
+
+Era em suas palavras mui mansa, e em suas obras mui conforme ha toda
+humildade, sem algum alevantamento de soberba, de maneira, que a graça
+do Espirito Santo, de que era aceza de todo, causava em sua alma hum
+louvado assosseguo, e grande devaçam, com que hos dias que ha Egreja
+mandava guardar ella sem quebra dalgum hos jejuava todos ha conduto, sem
+comer mais que huma sóo vez, e alem desso fazia jejuns de paõ, e aguoa
+todalas sestas feiras do anno, e Vesperas dos dias de N. Senhora, e
+sobresso em toda huma quarentena, que vem em cada hum anno de S. Joaõ
+Baptista, atèe Sãta Maria Dagosto, e atèe ho S. Miguel, e outra quoresma
+dos Anjos, que hee des ho dia de N. Senhora Dagosto, e assi de dia de
+todolos Santos atée Vespera de Natal nom comia, nem bebia se nom paõ, e
+aguoa huma sóo vez no dia, de maneira que fazia este tam aspero jejum
+has duas partes do anno, e assi teve outras muitas, e mui singulares
+virtudes, com que pareceo que venceo suas forças humanas, e por ellas
+aprouve ha N. Senhor fazer em sua vida muitos milagres, e depois de sua
+morte muitos mais, e dos de sua vida segundo achei por inquirições de
+testemunhas dinas de fée, e mui autorizadas foi, que em Lisboa ha veo
+ver huma dona do Moesteiro Dodivelas, que por huma apostemaçam, e
+inchaço que tinha no estamago, era muito doente, e desposta ha morte, e
+ha Rainha aho espedir della lha vio, e benzeo com ho sinal da Cruz com
+que no Moesteiro se achou loguo assi sam, como se daquelle mál nunqua
+fora toquada.
+
+E porque esta dona ha todos ho proviquava por milagre, ha Rainha ha
+mandou chamar, e reprendeo-à, e lhe mandou, que mais ho nom dicesse,
+porque se algum bem recebera nom fora de sua maõ, nem della, que era
+peccadora, mas sóo da virtude de Deos, que ho louvasse. E esta Rainha
+por sinal da sua humildade custumava em todas has sestas feiras da
+quoresma lavar por si hos pées ha doze homens, hos mais leprozos, que se
+podiaõ achar, e esto fazia assi secretamente que ElRei particularmente
+ho nom soubesse, e estando em Santarem depois, que hum dia fez este
+lavatorio, mandou dar bem de comer ahos pobres, como sempre fazia, e em
+se elles saindo escuzos do Paço acertouse, que hum porteiro com sanha
+deu ha hum cuidando que era outro homem, tal golpe na cabeça de que
+loguo cahio em terra asaaz ferido, e huma dona, que esto vio, recolheo
+ho pobre em sua caza onde loguo ha Rainha ho foi ver, e depois de ho
+curar por sua mam, e lhe dar dinheiro pera sua despeza se despedio, e
+aho outro dia que mandou saber de sua disposiçam acharaõ no de todo saõ.
+
+E na Semana Santa, na Quinta feira de Lava pées, em lavando ha treze
+molheres pobres enverguonhadas, huma dellas acertou, que tinha hum pée
+comesto de pragua, e dous dedos afistolados, que estavam para cair,
+depois que ha Rainha lhe lavou ho são, ella escondia ho doente, e
+escuzandose por seu mal de ho querer mostrar, forçada dos roguos, e
+despejos da Rainha, lho mostrou, e nom sóomente lho lavou mansamente,
+mas humildosamente lho beijou na propria chagua, e depois que ha todos
+deu de comer, e vestir, como tinha por costume, em se saindo do Paço
+aquella molher doente indo na companhia das outras se achou de todo sam.
+E huma Orraqua Vasques molher da Rainha, era de muitos tempos doente de
+tal dor, que cahia amortecida, e com tormentos, que lhe davaõ
+escassamente, e com difficuldade ha faziam retornar à vida, e sabendo ha
+Rainha, que has muitas meizinhas, e remedios dos Fisiquos lhe nom
+aproveitavam, ella no dia de sua paixam ha benzeo cõ ho sinal da Cruz, e
+aprouve ha Deos, que loguo acordou, e depois foi sempre em sua vida
+livre de taes acidentes. Estando ha Rainha era Alamquer muito doente de
+humores frios pera que hos Fisiquos por meizinha lhe mandavam beber
+vinho no puquaro porque bebia, ella ho nom quiz fazer, trazendolhe aguoa
+pera ella beber milagrosamente se tornou duas vezes vinho no puquaro
+porque bebia. Estes, e outros milagres muitos se achaõ, que N. Senhor
+pelos merecimentos desta Santa Rainha fez em soa vida, e muitos mais
+depois de sua morte, de que aho diante por sua devaçam, e louvor darei
+alguma particular, e breve conta.
+
+
+
+
+*CAPITULO III*
+
+_Do fundamento, e cousas, que ouve pera ElRei D. Diniz aver alguas
+Villas, e Castellos de riba Dodiana, que foraõ de Castella_.
+
+
+Aho tempo que ElRei D. Affonso Conde de Bolonha faleceo, e depois em
+alguns primeiros annos do Reinado delRei D. Diniz, ElRei D. Affonso de
+Castella, seu avoo atée hos derradeiros dias de sua vida, sempre foi
+perseguido de grandes guerras, e muitas necessidades, causadas pela
+errada desobediencia, e desleal alevantamento, que o Ifante D. Sãcho seu
+filho, e hos do Reino de Castella, e de Liam contra elle usavam, pelo
+qual ha Rainha D. Breatiz sua filha, como Rainha virtuosa, e aguardecida
+filha mui piedosa, e por lhe paguar em alguma maneira has dividas, que
+por obriguaçam Divina, e humana lhe devia, loguo como ElRei D. Diniz seu
+filho foi cazado, foi ha ElRei D. Affonso seu pai, que estava em
+Sevilha, pera em tantas suas aversidades, e infortunios, como padecia,
+ella ho soccorrer, e confortar, e aconselhar, sem o nunqua leixar atée
+ora da morte delRei, ha que ella foi prezente, e cuja testementeira
+principal com outro fiquou, e porque ella lhe soccorreo com todo ho
+dinheiro de sua fazenda, e com todolas joias de sua pessoa, e com
+todalas rendas, e gentes, que tinha, e podia aver de Portugual, pelo
+qual neste meio ElRei D. Affonso pelo grande amor, que tinha á Rainha
+sua filha, como jáa dice, e por lhe satisfazer has boas obras, que della
+recebera fez ha ella especial doaçam da Villa de Niebla, que hee em
+Andaluzia ha que chamam Reino, com todolos Castellos, e rendas que ha
+ella pertencem, e assi lhe fez mais doaçam das Villas de Serpa, Moura, e
+Mouram, Noudar, que saõ em riba Dodiana, por carta que foi dada em
+Sevilha quinta feira quatro dias de Março do anno de mil duzentos trinta
+e tres annos. (1233)
+
+E porque Moura, e Serpa, e Mouram eraõ da Ordem do Esprital de S. Joaõ
+de Castella ho dito Rei D. Affonso pera milhor, e mais livremente poder
+dar has ditas Villas á dita Rainha sua filha, por serem conjuntas aho
+dito Reino de Portugual ante algum tempo, que se fizesse ha dita doaçam
+elle por autoridade, que se ouve do Gram Mestre, e por consentimento do
+Prior, e Freires da dita Ordem em Castella fez com elles escaibo das
+ditas Villas pera lhe fiquarem livres, e por ellas deu em Castella pera
+fiquarem á dita Ordem pera sempre Touro, e ha Egreja de Santa Maria da
+Veiga, e hos direitos de Cairola e has Martineguas, e direitos de
+Guaronha, e de Feerne, e de Paralyves, com outros Luguares, e outras
+muitas rendas, e direitos, que saõ expressamente decrarados, ho qual
+escaibo ante da doaçam se fez por carta feita em Santo Estevam de
+Guormas, terça feira onze dias de Março de mil duzentos oitenta e hum
+annos (1281) sobescrita por Guarda de Toledo, Secratairo, ha qual doaçam
+destas Villas ElRei D. Affonso antes tres annos, que falecesse, fez á
+Rainha Dona Breatiz sua filha. Depois da morte delRei D. Affonso Conde
+de Bolonha seu marido, em Reinãdo ElRei D. Diniz, como atraas dice, e
+por virtude destas doações ElRei D. Diniz tinha aquerido ho direito
+destas Villas, que por El Rei D. Sancho de Castella seu tio, e por ElRei
+D. Fernando seu filho lhe foram empedidas, e embarguadas, como aho
+diante direi.
+
+
+
+
+*CAPITULO IV*
+
+_Dos filhos legitimos, que ElRei D. Diniz ouve da Rainha D. Isabel, e
+assi doutros bastardos_.
+
+
+ElRei D. Diniz sendo cazado com muito amor, e concordia com ha Rainha D.
+Isabel, ouve della estes filhos, ha saber, ha Rainha Dona Costança
+molher que foi delRei D. Fernando deste nome ho Terceiro de Castella, de
+que aho diante direi, e ho Ifante D. Affonso filho erdeiro delRei D.
+Diniz, que apoz elle Reinou, ho qual nasceo em Coimbra ha oito dias do
+mez de Fevereiro de mil duzentos e noventa, (1290) de que aho diante em
+sua propria Coronica farei inteira decraraçam. E alem destes filhos
+legitimos, ElRei D. Diniz sendo cazado, ouve doutras molheres com que
+teve afeiçam sete filhos, e filhas bastardos, cada hum dos quaes foi
+filho de huma madre, ha saber D. Affonso Sanches, que se chamou
+Dalbuquerque, ha que ElRei D. Diniz quiz grande bem, e por quem o Ifante
+D. Affonso foi com seu pai em grandes desvairos, como aho diante direi,
+e D. Pedro que foi depois cazado com Dona Branqua, filha de Pedre Annes
+de Portel, filho de D. Joaõ de Boim, e de Dona Costança Mendes, filha de
+D. Mem Guarcia de Souza, e outro D. Pedro, que depois foi Conde em
+Portugual, este foi ho que fez ho livro das linhagens Despanha, e foi
+singular homem, e D. Joaõ Affonso, e D. Fernam Sanches, e Dona Maria,
+que cazou com D. Joaõ de Lacerda, e outra Dona Maria, que foi Monia no
+Moesteiro Dodivellas.
+
+Hos quais filhos bastardos ElRei D. Diniz assi ouve, vencido da sobeja
+deleitaçam de sua propria carne, com que afastandose da Rainha sua
+molher nom lhe guardando ha inteira lei do matrimonio, seguia por
+indusimentos falsos, e máos, ha que se inclinava mais por sua vontade,
+do que sua dinidade Real, e por sua consciencia, e onestidade, sobresso
+devia, e por culpa, e peccado desso se diz, que em quanto ElRei D. Diniz
+se deu ha estes apetitos nom licitos, sempre decrinaram has cousas da
+justiça, que muito amou, e boa guovernança de sua caza, e fazenda, que
+sobre todos soia melhor ter, e ha Rainha posto, que neste tempo era em
+idade, e feições, e desposiçam pera ElRei se della muito contentar, e
+ella dever sentir hos taes apartamentos, e solturas delRei, porém se
+diz, que ella nom mostrava receber por esso paixam, nem escandalo algum,
+antes como esquecida, e nom toquada de dores, e paixões tam comuas ha
+molheres, nom perdia ha devaçam, e exercicio de rezar, e encomendarse ha
+Deos, e de partir alegremente com suas molheres em cousas honestas, e de
+serviço de Deos, e sobre esto fazia ho que parecia mais duro, e menos
+pera fazer, que era dar de vestir às amas, que criavam hos taes filhos
+delRei, e fazer, e procurar merces ahos aios, que hos ensinavam.
+
+E estas virtudes pera outras molheres nom costumadas, vendo-as fazer tam
+sem paixam á Rainha sendo mui moça, cauzavam ha todas mui grande
+maravilha, mas ElRei D. Diniz averguonhado destas suas fraquezas, e
+temendo ha Deos pór emenda de sua justiça, e assi por apaguar nodas, que
+tanto danavam ha limpeza de sua Real dinidade, e singular condiçam se
+apartou dellas inteiramente, e com grande serenidade se privou de todos
+estes defeitos, e se poz no direito, e verdadeiro caminho, que devia, e
+sempre atée sua morte ho seguio, e guardou.
+
+
+
+
+*CAPITULO V*
+
+_Do desacordo, que ouve antre ElRei D. Diniz, e ho Ifante D. Affonso seu
+irmaõ_.
+
+
+ElRei D. Diniz tinha hum irmaõ lidimo ho Ifante D. Affonso, filhos ambos
+delRei D. Affonso Conde de Bolonha, e da Rainha Dona Breatiz, e ha este
+Ifante D. Affonso fez ElRei seu pai doaçam mui solene das Villas de
+Portalegre, e Marvam; e de Castello Davide, e Darronches, pera elle, e
+seus filhos lidimos, ho qual Ifante em vida delRei seu padre, foi cazado
+com ha Ifante Dona Violante, filha do Ifante D. Manuel, filho delRei D.
+Fernando II de Castella, e da Ifante Dona Costança, filha do primeiro D.
+James Rei Daraguam, e ouve della hum filho D. Affonso, que foi senhor de
+Leiria, e faleceo sem filhos, e ouve mais tres filhas, Dona Isabel, e
+Dona Costança, e Dona Maria, que todas cazaram grandemente em Castella,
+ha saber Dona Isabel cazou com D. Joaõ ho torto, filho do Ifante D.
+Joaõ, que se chamou Rei de Liam, que morreo na Veigua de Grada, e de
+Dona Maria sua molher, filha do Conde D. Lopo, senhor do Bisquaia, e
+Dona Costança cazou com D. Nuno Guonçalves de Lara, filho de D. Joaõ
+Nunes de Lara, ha que diceram ho Bom. Estes nom ouveram filhos, e Dona
+Maria cazou com D. Tello, filho do Ifante D. Affonso de Molina irmaõ da
+Rainha Dona Maria molher delRei D. Sancho, e ouveram Dona Isabel, que
+cazou com D. Joaõ Affonso Dalbuquerque neto delRei D. Diniz, filho de
+Affonso Sanches, seu filho bastardo.
+
+E avendo jáa sinquo annos, que ElRei D. Diniz era cazado, e sete que
+Reinava, ouve grande desacordo antre elle, e ho Ifante D. Affonso seu
+irmaõ, e ha cauza principal, era porque ElRei D. Diniz nom queria, nem
+nunqua quiz legitimar, e abilitar has filhas do Ifante D. Affonso pera
+erdarem suas Villas, e Castellos de Portugual depois de sua morte, sobre
+que ha Rainha Dona Isabel molher delRei D. Diniz, e ho Ifante D. Affonso
+seu filho erdeiro, sendo ha esso ambos conformes fizeram solenes
+protestações, e requerimetos pera esta abilitaçam, e legitimaçaõ nunqua
+se fazer por ElRei, nem pelo Papa, aleguando muitos inconvenientes se se
+fizesse, e ouvesse efeito, e ho principal era ha grande deminuiçam, e
+perda que seria do Reino, e Coroa de Portugual se has sobreditas Villas,
+e Castellos, estando no estremo de Portugual, passassem com suas filhas
+do Ifante, que eram cazadas com homens grandes, e poderosos de Castella,
+e ainda se diz, que avia receo do Ifante, que pubriquamente dizia, que
+ho Reino de Portugual lhe pertencia, porque nacera lidimo depois da
+morte da Condeça de Bolonha primeira molher delRei seu padre, e que
+ElRei D. Diniz ainda nacera em sua vida della, e nom podia erdar, mas
+com este defeito era jáa despensado pelo Papa, como na Coronica delRei
+D. Affonso, Conde de Bolonha jáa dice.
+
+E por esta deneguaçam em que ElRei D. Diniz se afirmou, ou por outra
+qualquer couza, o Ifante seu irmaõ nas cousas da paz, e da guerra lhe
+nom obedecia com has ditas Fortalezas assi como ElRei queria, e ho
+Ifante devia, pello qual ouve guerra antre ambos na era de mil duzentos
+noventa e sete, (1297) e ho Ifante D. Affonso com ajuda, e favor que
+seus genros com suas pessoas, e gentes de Castella lhe davam, fazia
+muito dano em Portugual, especialmente, que neste tempo Regnando jáa em
+Castella D. Sancho, filho delRei D. Affonso ho decimo, elle matou em
+Alfaro D. Lopo Conde, e senhor de Biscaya, e D. Dioguo Lopes de Campos,
+que eram pessoas mui principaes, e prendeo ho Ifante D. Johaõ, seu
+irmãao, cujo filho era D. Johaõ ho torto, cazado com D. Isabel, filha
+deste Ifante D. Affonso de Portugual, e pella morte destes senhores, e
+prizaõ do Ifante D. Johaõ, ouve contra ho dito Rei D. Sancho grandes
+guerras em Castella.
+
+E durando ellas ElRei D. Diniz, e ElRei D. Sancho teveram vistas em que
+por bem, e maior assesseguo de seus Regnos, concordaram cazamentos de
+seus filhos, que eram pequenos ha saber, que ho Ifante D. Affonso, filho
+maior delRei D. Diniz, cazasse com ha Ifante D. Breatiz, filha delRei D.
+Sancho, como depois cazou, e que ho Ifante D. Fernando, filho maior
+delRei D. Sancho cazasse com ha Ifante D. Costança, filha delRei D.
+Diniz; e sobre este concerto, que ha tempo certo se avia de fazer, e
+comprir com effeito como estes Principes, e Ifante fossem em idade, hos
+Rexs se tornaraõ ha seus Regnos, e hos genros do Ifante D. Affonso de
+Portugual, e suas gentes, que desobedeciam ha ElRei de Castella, se
+acolheram nos seus Castellos de Portugual, onde has terras, que eram de
+ElRei de Castella faziam muito dano. E porque ElRei D. Diniz era
+sobrinho delRei D. Sancho, irmaaõ de sua mãi ha Rainha D. Breatiz, e por
+pazes de cazamentos, estavam mui concordes, e amiguos, ho dito Rei de
+Castella enviou notifiquar estes danos, e guerra, que das Villas, e
+Castellos de Portugual seus naturaes lhe faziam, pedindolhe que ho
+passado quizesse castiguar, e ho futuro mais contra elle nom se fizesse,
+e se nom lhe desse loguar, que em seu Regno entraasse, e que elle com
+suas forças ho emendaria.
+
+Aho que ElRei D. Diniz respondeo, que de semehantes cousas lhe pezava
+muito, e que fosse certo que nom eram feitas por seu consentimento, e
+prazer, mas que loguo sem ser necessaria sua entrada, proveria como se
+mais contra elle nom fezesse. Pello qual ElRei D. Diniz encomendou, e
+mandou aho Ifante seu irmaaõ, que nom fezesse, nem consentisse que aho
+dito Rei D. Sancho, nem a suas terras, e vassallos, se fezesse guerra,
+nem dano das ditas Villas, e Castellos de Portugual, dos quaes elle era
+obriguado fazer guerra, e manter paaz, segundo elle lhe mandasse. Ha que
+ho Ifante D. Affonso nom quiz inteiramente obedecer assi por respeito de
+seus genros, ha que satisfazia, e aquolhia, como pella deneguaçam da
+legitimaçam de suas filhas, do que se mostrava muito agravado, dando por
+sua escuza ha nom ovedecer com hos Castellos contra sua vontade, que
+elle pellas cousas, e preroguativas de suas doações feitas por ElRei D.
+Affonso seu pai, era de semelhante obriguaçam, e serviço relevado.
+
+Pello que ElRei D. Diniz no anno de mil duzentos noventa e nove annos
+(1299) ajuntou suas gentes, e mandou loguo cerquar Arronhes, e Marvam, e
+ha elle Ifante seu irmaõ, cerquou em Portalegre, e porque ha este tempo
+Castella Davide, que era tambem do Ifante, era termo de Marvam, e Luguar
+entam mais cham que forte, por esso se nom cerquou, e durando este
+cerquo, em que de huma parte, e da outra, em ambos hos Regnos se fez
+danos asaas, entrevieram ha concerto delRei, e do Ifante ambos irmaaõs,
+hos Perlados, e Senhores principaes do Regno, e sobre todos ha Rainha D.
+Isabel, por cujo virtuoso meio ho Ifante D. Affonso entreguou has
+Villas, e Castellos ha Aires Cabral, que hos teve em fieldade, e com
+menagem atée que por elles deram aho dito Ifante has Villas de Sintra, e
+Dourem, com outros Luguares chãos na Comarqua de Lixboa, e antre has
+outras muitas, e mui singulares virtudes, que ouve na Rainha Dona Isabel
+em quanto viveo, foi procurar sempre paaz, e amizade de que se ella
+prezou muito, porque assi ho fazia antre ElRei, e seus vassallos, de que
+tirava todolos dias, e escandalos, e assi antre outro quaesquer
+particulares do Regno, e se por bem das semelhantes concordias compria
+pagua de dinheiro pera emenda dalgumas perdas, e danos ha que has partes
+por algum caso nom podiam comprir, ella porque amizade se nom
+desfezesse, de seu proprio tesouro has mandava, de maneira, que has
+certas bolsas de seu dinheiro nunqua foraõ arquas, nem cofres, mas hos
+ventres, vestidos, e necessidades dos pobres, e cousas piedosas, em que
+todo lançava, e alli tudo lhe crecia.
+
+E este irmaaõ legitimo delRei D. Diniz, e filho delRei D. Affonso Conde
+de Bolonha, e da Rainha Dona Breatiz, faleceo no anno de mil duzentos e
+noventa e nove annos, (1299) e jáas sepultado no Moesteiro de S.
+Dominguos de Lisboa, em hum Moimento de pedra, que estaa á porta do
+Coro, esto ponho por tirar opiniam, e erro, que muitos antiguos teveram
+e eu ho vi, que este que alli jazia, era ho filho que ElRei D. Affonso
+Conde de Bolonha ouve de Dona Matildes Condeça de Bolonha sua molher, ho
+que nom hee (segundo jáa tenho dito) porque esta hee ha verdade, qeu
+affirmo, e eu ha vi no proprio letreiro, que tem ho dito Moimento, e
+assi ho achei por outras escrituras asáas autentiquas.
+
+
+
+
+*CAPITULO VI*
+
+_Do que succedeo do cazamento do Ifante D. Affonso, filho delRei D.
+Diniz, e do Ifante D. Fernando, filho delRei D. Sancho de Castella_.
+
+
+No tempo, que hos ditos cazamentos antre estes Reis, e suas vistas se
+concordáram, foi logo acordado, e assentado pera moor firmeza do
+cazamento do Ifante D. Fernando com ha Infante Dona Costança, porque em
+algum tempo nom ouvesse causa, nem razam pera se leixar de fazer, que
+ElRei D. Sancho pozesse loguo, como poz em poder, e fieldade de
+Portugueses estas suas Cidades, Villas, e Castellos, ha saber,
+Badalhouce, Moura, Serpa, Caceres, Broguilhos, Acharces, Aguilar de
+Neiva, com tal condiçam, que se ElRei D. Sancho, e ha Rainha Dona Maria
+sua molher, ou aquella ha que ho Ifante D. Fernando tevesse em seu
+poder, nom comprissem, e fizessem fazer, ou ho mesmo Ifante aho tempo
+que era limitado, nom quizesse cazar com ha dita Ifante, que nestes
+casos hos ditos Portugueses, que hos ditos Castellos tinham, hos
+entreguassem loguo aho dito Rei de Portugual pera sempre de seu Reino, e
+Senhorio, e mais que depois do cazamento ser assi feito se ho dito
+Ifante D. Fernando leixasse ha Ifante Dona Costança sua molher, e lhe
+nom desse de suas arras des mil maravedìs douro, em que se concordaram,
+que neste caso tambem hos ditos Castellos de Castella se entreguassem ha
+Portugual.
+
+E por esta maneira ElRei D. Diniz poz em fieldade, e poder dos
+Castelhanos hos Castellos, e Cidades da Guarda, e Pinhel, pera que nom
+dando, e entreguando ha dita Ifante aho tempo concordado, que hos
+perdesse, e fossem pera sempre de Castella. Mas ElRei D. Sancho ho nom
+comprio assi; porque desejando de desfazer ho dito cazamento procurou
+contra sua verdade daver hos ditos Castellos da terceria, e ho que pior
+foi, que hos ouve, e tomou com mortes dalguns Alcaides Portugueses, do
+que ElRei D. Diniz foi mui anojado, porque de sua natural, e Real
+condiçam nunqua se achou, que dicesse mentira, assi sentio, e lhe doeo
+muito quebraremlhe tam honestamera te ha prometida verdade; e porque
+antre elles, era tambem concordado, que de pormeio ambos concordassem,
+procurassem, e paguassem has despensassoens Apostoliquas, que se
+requeriam por serem muito parentes.
+
+ElRei D. Diniz enviou loguo por sua parte querella aho Papa; mas ElRei
+D. Sancho mudou sua messagem em outra sustancia, porque enviou ha ElRei
+D. Felippe de França, requerendolhe huma sua filha pera ho Ifante D.
+Fernando, seu filho, antre hos quais ouve loguo prazer, e outorgua pera
+este cazamento se fazer. Ho que ElRei D. Sancho loguo fez saber ha ElRei
+D. Diniz sem asinar causa evidente porque ho fizera, e com esta
+confiança, e esforço de França, elle rompeo ha paaz, que tinha com
+Portugual, e mandou loguo sua frota de naos, gualés aho Alguarve, e
+nellas muita gente que por maar, e por terra fizeram grandes danos, assi
+nos Cristãos, como nos Mouros fóra daquelle Reino, de que levaram muitos
+cativos, e por elles de seus resguates, outra grande soma de dinheiro de
+Portugual, e assi entraram has gentes do Reino de Liam, e queimaram, e
+roubaram, e fezeram grandes danos com mortes de muitos do Reino de
+Portugual.
+
+ElRei D. Diniz maravilhado destas roturas, e sem razões delRei D.
+Sancho, desejando todavia com elle paaz, e por nom virem ha maiores
+danos, rompimentos, lhe enviou por algumas vezes requerer assi ha
+entregua de seus Luguares, que contra direito lhe tinha tomados, como
+emenda dos outros danos, e perdas e tomadias que em seus Reinos
+vassallos, e fazendas delles contra ho assento de sua paaz tinha
+recebidas, e assi que comprisse ho cazamento de seu filho com ha Ifante
+Dona Costança como tinha assentado, sobre ho que lhe enviou por seus
+embaixadores, e Procuradores ho Bispo de Lixboa, e Joaõ Simaõ Meirinho
+moor, que na Corte delRei D. Sancho andavaõ sem algum despacho detidos.
+
+E porque ho cazamento de França, que ElRei D. Sancho tinha por feito se
+desconcertou, e desesperou vendo que de necessidade lhe convinha
+concertarse com ElRei D. Diniz, assi no cazamento de sua filha, como em
+lhe fazer emenda dos males, danos passados, enviou ha elle por
+Embaixador D. Mauzinho Bispo de Palença, por ho qual lhe mandou dizer,
+que sua vontade era de todo concertarse com elle, e que pera esso
+enviasse seus apontamentos ahos ditos seus Embaixadores, que ainda eram
+em sua Corte, com hos quaes se concordariaõ como fosse razam, e ha seu
+contentamento. Aho que ElRei D. Diniz satisfez, mas hos ditos seus
+Embaixadores vendo, que ha concruzam delRei D. Sancho era de longuas, e
+de negações sem causa se tornaram sem duvida ha Portugual sem nhum
+despacho.
+
+E no tempo destas desavenças, e guerra antre ElRei D. Sancho, e ElRei D.
+Diniz, ho Ifante D. Joaõ seu tio, irmãao da Rainha Dona Breatiz sua
+madre, e D. Joaõ Affonso Dalbuquerque, neto delRei D. Diniz, filho de
+Affonso Sanches, seu filho bastardo, acertouse que entraraõ ha correr
+terra de Çamora com muita gente, que levavam com D. Joaõ Nunes de Lara,
+filho que foi de D. Nuno Guonçalves de Lara, que diceram ho Bom, ho qual
+era desavindo delRei D. Sancho, e tendo elle cõsiguo pouquos Cavalleiros
+pera peleja saio, e ho esperou, e na peleja que ouveram foi delles
+prezo, e trasido ha Portugual ha ElRei D. Dininz, ha quem ElRei D.
+Sancho, pello dito Bispo de Palença enviou pedir, que ho quizesse
+soltar, e enviarlho, porque elle ho queria recolher, e servirsse delle,
+e fazerlhe honra, e merce, especialmente tornarlhe suas terras, que lhe
+tinha tomadas, e nom por desleal, mas porque fora sempre ha serviço, e
+da parte delRei D. Affonso, com que ElRei D. Sancho seu filho teve
+guerra, como jáa dito hee.
+
+ElRei D. Diniz, como homem mui liberal sobre todolos Reis de seu tempo,
+enviou loguo com muitos Cavalleiros, e Fidalguos de sua caza, ho dito D.
+João Nunes ha Castella, ha que deu grandes dadivas, e fez muita merce, e
+D. Joaõ Nunes fiquou por vassallo delRei D. Diniz, e ha seu serviço, e
+ha sua boa vontade, e como homem boò, e aguardecido nunqua depois lho
+neguou, e por esso depois em Castella nom compriram com elle assi como
+lhe tinham prometido, e elle por esso se foi ha França, e de guerra
+tornou depois ha Castella, como aho diante direi. E tornando á Estoria
+ha ElRei D. Diniz, elle como vio que ElRei D. Sancho contra direito, e
+rezam lhe falecera de todo, e nom compria alguma cousa das muitas, que
+com elle concordára, bem entendo que nom queria com elle paaz, e amor,
+como por bem, e assesseguo de seus Reinos sempre desejara, e porém
+porque era Rei de grande coraçam, e que álem das perdas que recebera,
+ainda por estes casos recebia alguma quebra de sua grande honra, e boõ
+nome, determinou aparelhar loguo sua fazenda, e ho que lhe compria, e
+mandalo desafiar pera pubriqua guerra, e entrarlhe por sua terra, e
+della nom sair atée nom aver emenda, e em comprimento de todo ho que
+requeria, e de direito lhe era devido.
+
+Neste tempo ante dalguma destas cousas aver efeito, morreo ElRei D.
+Sancho estando na Cidade de Toledo, na era de mil duzentos noventa e
+sinquo, (1295) sendo ainda mãcebo. Ha causa de sua morte antecipada, e
+sua tam pouca vida muitos ha reportaram ha sentença da Lei de Deos, e
+pela desobediencia, e maao trato, que com desamor fezera ha ElRei D.
+Affonso seu pai, como atraas se dice, ElRei D. Sancho leixou á ora de
+sua morte por seus testamenteiros, e tutores de seu filho à Rainha Dona
+Maria sua molher, e ho Ifante D. Anrique seu tio, irmãao del-Rei D.
+Affonso seu padre, ho qual Ifante ha este tempo fora solto da prizam em
+que por muitos annos jouve em Italia, quãdo prezo por Carlo Rei de
+Napoles em Cesilia, na batalha em que Corradino seu competidor nos ditos
+Reinos foi morto, em cujo favor, e ajuda ho dito Ifante viera, e ha
+estes encomendou em seu testamento, que comprissem com ElRei D. Diniz ho
+que tinha concordado, assi no cazamento dos filhos, como na entregua das
+Villas de Moura, e Serpa, e dos outros Luguares que ha Portugal
+pertenciam.
+
+Depois do falecimento dei Rel D. Sancho, loguo ElRei D. Diniz mandou por
+seus messegeiros requerer ha ElRei D. Fernando, que novamente começara
+de Reinar, e assi à Rainha Dona Maria, e aho Ifante D. Anrique, seus
+tutores, que quizessem comprir hos cazamentos, e fazer ha entregua das
+Villas, segundo com ElRei D. Sancho seu pai estava concordado, e elle em
+seu testamento leixara aho tempo de sua morte. Aho que ElRei D. Fernando
+com acordo, e autoridade dos ditos tutores nom satisfez, segundo ElRei
+D. Diniz esperava, antes pelo contrairo, poendo ahos cazamentos
+entreposições de tempo, que tinham semelhança de denegações, e assi
+escuzas à entregua dos Luguares, chamandose Senhor delles em suas mesmas
+cartas, da reposta que enviou, de que ElRei D. Diniz se sentio mui
+escandalizado, e para determinadamente saber ho que por sua honra, e por
+sua justiça compria, tornou ha enviar ha ElRei D. Fernando João Anes
+Redondo, e Mem Rodrigues Rebotim, seus Cavalleiros, e pessoas
+principaes, hos quais estando presentes ha Rainha Dona Maria, e ho dito
+Ifante D. Anrique, e assi muitos Cavalleiros, pessoas principaaes do
+Conselho de Castella, elles pera justificaçam da causa delRei D. Diniz,
+e do Reino de Portugual diceram ha ElRei D. Fernando mui particularmente
+todalas ajudas que elle, e ElRei D. Affonso seu padre tinham feitas ha
+ElRei D. Sancho, e ha ElRei D. Affonso seu padre, e avoo do dito Rei D.
+Fernando, hos quais muitas vezes prometeram fazer entregua dos Luguares
+ha Portugual, mas ainda para acender mais mal com suas gentes por maar,
+e por terra lhe fizeram muitos danos em seus Reinos, e vassalos, sem ho
+quererem emendar podendo o fazer. Pello qual hos ditos Embaixadores,
+diceram contra ElRei D. Fernando.
+
+Senhor estas cousas que asima relatamos tam breves, sam mais
+inteiramente sabidas por certas, e verdadeiras por ha Rainha vossa
+madre, e por estes Senhores, que aqui estam presentes, e por ellas ElRei
+N. Senhor se maravilhou delRei D. Sancho vosso padre poer tardança, e
+escuza na emenda, e satisfaçam dellas, pois eram justas, e de razam, e
+porque ha tençam com que esto fazia elle ho nom entrepretava ha bem, por
+esso em sua vida ho mandou desafiar para entrar, e pór guerra em seus
+Regnos, e aver emenda do que justamente pedia, e depois de seu
+falecimento ElRei N. Senhor por algumas vezes vos enviou roguar como ha
+filho, e aconselhar como amiguo, que has cousas que por ElRei vosso
+padre lhe eram prometidas, vós lhas quisesses comprir, e assi receberdes
+sua filha ha Ifante Dona Costança por vossa molher, assi como antes fora
+concordado, vós na reposta que lhe enviastes em luguar de lhe mandardes
+entreguar hos ditos Castellos, e Luguares de que era forçado, vio nella
+que vos chamastes delles Senhor, e por esso hee muito anojado de vós, e
+de quem vos aconselhou muito escandalizado, e porque este escandalo, e
+agravo que de vós tem, nacem de taes cousas, razões, que por sua honra,
+e estado nom convem passarem sem justiça, e emenda, elle por nós
+finalmente, vos manda dizer huma cousa, que pella esperança que de vós
+tinha, e pellos grandes dividos que antre vós ha lhe he mui cara de
+fazer, e porém hee de sua honra, e serviço aconselhado que sem trespaço
+ha faça ha saber, que vós daqui em diante busqueis outro amiguo que
+ponhais em seu luguar, porque elle quererá com suas forças, e poder
+trabalhar de vos penhorar pera sua entregua nos Regnos de Castella, e
+Liam, e que vos pera esso envia engeitar vossa amizade, e como ha imiguo
+desafiar, pera que vos façais prestes, porque em sua vinda nom tardará
+muito.
+
+Destas razões, e desafio pubriquo, que estes Embaixadores de Portugual
+fezeram ha ElRei D. Fernando de Castella foraõ alguns, que eram
+presentes asaas maravilhados, e outros postos em desvairados
+pensamentos. E porém esperando hos ditos Embaixadores alguma reposta,
+porque lhaa nom deram se tornaram descontentes ha Portugual, onde ElRei
+D. Diniz dobrandose por esso has cousas de sua entrada em Castella,
+ajuntou loguo suas gentes, e com asaas poder se foi à sua Cidade da
+Guarda, pera dahi entrar loguo em Castella, maas antes que entrasse, veo
+hi ho Ifante D. Anrique tio, e tutor delRei D. Fernando, e sobre
+praticas, apontamentos, e concordias, que antre elles sobre estas cousas
+ouve, concertaram que ambos fossem dahi, como foram à Cidade Rodriguo,
+que hee em Castella, onde estavam ElRei D. Fernando, e ha Rainha Dona
+Maria sua madre, e alli outra vez todos se concordaram sobre ho
+cazamento, que atée certo tempo loguo limitado, se ouvesse de fazer.
+
+E assi foi despachada ha entregua de Serpa, e Moura, sobre que a Rainha,
+e Ifante em nome delRei D. Fernando passaram sua carta por hum Estevam
+Pires Adiantado moor do Regno de Liam, que era Alcaide, e tinha has
+ditas Villas de Serpa, e Moura pera que se entreguassem ha Johaõ
+Rodrigues Porteiro da Camara delRei D. Diniz, pera que este has
+entreguasse, como entreguou ha Coguominho, Cavalleiro delRei D. Diniz,
+porque elle poz loguo nellas por Alcaide huum Martim Botelho, e outro
+Lourenço Martins Guanço, que esta carta delRei D. Fernando passou em
+Cidade Rodriguo ha vinte Doutubro do anno de mil duzentos noventa e
+sinquo annos, (1295) aselada com tres selos pendentes, ha saber, ho
+delRei no meio, e ho da Rainha à maõ direita, e ho do Ifante D. Anrique
+à esquerda, e sobre esta concordia, que foi ifirmada com grandes, e
+solenes juramentos, ElRei D. Diniz se tornou pera dentro de seu Regno. E
+sendo depois cheguado ho tempo em que ElRei D. Fernando avia de receber
+por molher ha Ifante Dona Costança, e comprir outras cousas em que
+fiquaram em Cidade Rodriguo concertados, ElRei D. Diniz por seu
+messegeiro hos mandou requerer, porque elle tornou ha Portugual sem ha
+reposta, e concruzaõ que ElRei esperava entonces, e veo com palavras,
+que mostravam craros sinais de verdadeira denegaçam das cousas
+prometidas.
+
+ElRei D. Diniz anojado desso, com coraçam pera sua emenda, e vinguança
+mui cheo de sanha determinou sem mais tardar entrar loguo de guerra em
+Castella, e pera esso concertou, e apercebeo mui bem seus Castellos das
+frontarias, em que leixou bõos fronteiros, e ajuntou outra vez suas
+gentes pera mais poderoso entrar em Castella, e ajuntaremse com ElRei D.
+Diniz contra ho Ifante D. Fernando Rei de Castella, ho Ifante D. Pedro
+erdeiro Daraguam, que depois foi Rei, que era primo com irmaaõ da Rainha
+Dona Isabel de Portugual, e ho Ifante D. Johaõ, que cõtra ElRei D.
+Sancho se chamava Rei de Liam, e era filho delRei D. Affonso ho decimo
+avoo delRei D. Diniz, e D. Johaõ Nunes de Lara, aquelle, que sendo prezo
+em Portugual foi por ElRei D. Diniz enviado solto, e com grande honra
+enviado ha Castella, como atraas dice.
+
+E sendo jáa todos juntos no estremo da Comarqua da Beira pera entrar em
+Castella, veo ha ElRei D. Diniz ha Ifante Dona Margarida, molher que
+fora do Ifante D. Pedro, e com ella D. Sancho de Ledesma seu filho, e
+por descontentamentos, que tinha delRei D. Fernando pedio ha ElRei D.
+Diniz por mercee, que ho recebesse por vassallo, do que ha ElRei
+aprouve, e lhe poz loguo grande contia de dinheiro em seu ordenado, e
+lhe mandou que loguo se aparelhasse pera entrar com elle em seu serviço,
+e porque ho dito D. Sancho, que sóomente viera pera receber muito
+dinheiro que levou, ou por lhe cometerem outros partidos em que mais
+consentio elle, nom tornou ha servir ElRei D. Diníz, e com seu dinheiro
+se foi pera ElRei D. Fernando ho quaal como soube que ElRei tinha todas
+suas gentes percebidas pera entrar em Castella mandou logo perceber em
+Sevilha suas gualees, e frota que de guerra vieram aa costa de Portugal,
+e entraram no porto de Restelo, mea legua de Lixboa, onde tomaram naaos
+de Portugal carreguadas de mercadorias, e has levaram. E ho Almirante de
+Portugal que ha esse tempo estava em Lixboa por cobrar ha preza, e pera
+vinguança do maal que se fezera, armou logo com grande triguança outras
+gualees, e foi empoz da frota de Castella, que ainda alcançou no maar
+onde todos ouveraõ grande, e crua guerra, mas em fim ho Almirante de
+Portugal ficou vitorioso, e tomou ahos contrairos suas naaos, e gualees,
+e mais has que consiguo levavam, e trouxe tudo aho porto de Lixboa.
+
+
+
+
+*CAPITULO VII*
+
+_Como ElRei D. Diniz entrou em Castella, e da crua guerra, que de huuma
+parte e da outra se fazia_.
+
+
+ElRei D. Diniz com suas gentes beem ordenadas entrou por has Comarquas
+de Cidad Rodriguo, e de Ledesma, e na frontaria hos Portuguezes toamraõ
+por força em hum Castello, que dizem Torres, todolos contrairos, que
+nelle acharam, e dahi foi ElRei D. Diniz fazendo crua guerra sem alguma
+rezistencia nem contradiçam corenta leguoas por Castella atée ho Luguar
+de Simancas que hee duas leguoas de Valedolid, onde ElRei D. Fernando
+estava, e ha tençaõ de todos era que ElRei D. Diniz ho hia cerquar pera
+que repartiram suas estancias de que ha huuma parte davam ha ElRei D.
+Diniz, e ha outra cõ ha gente Daraguam davam ha D. Affonso de Lacerda,
+que era com elle contra ElRei D. Fernando, porque se chamava Rei de
+Castella por ser filho primeiro do Ifante D. Fernando de Lacerda, e neto
+delRei D. Affonso ho decimo, e ha outra parte davam aho Ifante D. Joham
+que se chamava Rei de Liam, e porém ho cerquo se nom poz; mas ElRei D.
+Diniz se tornou ha huu Castello de Medina que dizem Pasaldes, e
+tomaram-no sem resguardo, nem rezistencia, e sem reverencia entraram ha
+Egreja, e espedaçaram has Imagens dos Sãctos, e ha despojaram de todo ho
+que nella acharam, e com muita crueza mataram ahos que se nella
+acolheram, sem perdoarem alguua idade de machos, nem femeas.
+
+De que hos Castelhanos movidos primeiramente por sua crueza e depois por
+sua vinguança nos luguares e couzas semilhantes que pera exercitar sua
+sanha se lhes offereciam ho nom faziam menos porque na Comarqua, e
+frõtaria de Riba Dodiana alguus Capitaens, e senhores de Castella, dos
+quaes era D. Affonso Pires de Gusmam se ajuntaram nom pera dar batalha
+ha ElRei D. Diniz, mas pera entrar, como entraram em Portugual, onde
+entraram com muitas gentes Dandaluzia, e da sua frontaria, da quaal
+entrada mataram, e cativaram de Portugual muitos homens, e molheres,
+seem alguua piedade, e levaram grandes roubos da teerra.
+
+Aho encontro do quaal foi ho Mestre Davis com has gentes, que pode, e
+ouveram ambos mui dura peleija em que ouve muitas mortes, e danos dambas
+as partes, no fim da quaal ho Mestre foi vencido por has menos gentes,
+que tinha, e muitos dos seus foram mortos, e nove centos cativos, que
+vendiaõ, e resguatavam em Castella por mui pouquo preço, porque outro
+tanto se fazia de castelhanos cativos em Portugual, porque de huua
+parte, e da outra hos que se cativavam assi se vendiam como servos,
+ainda que se acha que hos Castelhanos nesta qualidade de crueza uzavaõ
+contra hos Portuguezes em mais estremo, e cõ menor piedade, porque ha
+todos se diz que hos punham em barreiras, e nellas mui cruamente hos
+matavam aas setadas; Pelo quaal hos corações de huus, e outros assi eram
+nesta guerra acezos em odio, e ira; que pareciam arder pera todos
+matarem, queimerem, e destroirem seem alguua piedade, nem temperança,
+como faziam.
+
+
+
+
+*CAPITULO VIII*
+
+_Dos grandes maales e danos que de hum Regno ha outro se faziam, e
+dalguns Luguares de Castella, que hos Mouros tomaram_.
+
+
+Hos periguos, danos, mortes, perseguiçoens, e trabalhos durando esta
+guerra eram tantos nos maares, e teerras dambos estes Regnos de
+Portugual, e Castella, em que huus ahos outros por odios e vinguanças se
+guerreavam, que por aspero jáa se nom podiam sofrer, por que a todolos
+Luguares que cheguavam ha que cerquas fortes nom defendiam, logo eram
+entrados, roubados, e destroidos de todo, e hos Castelhanos tornaram a
+cobrar ho Castello de Torres, que fora tomado na frontaria de Castella,
+e dos Portuguezes que ha guardavam nem fiquou nhum que ha ferro nom
+morresse, e com a nova desta crueza de que ElRei D. Diniz foi logo
+certifiquado com suas gentes em mui maior sanha, e pera mais destroiçam
+contra hos Luguares da Comarqua de Salamanca porque andava, porque nom
+valiam Egrejas, nem cazas sagradas, e piedozas ha alguus que se ha ellas
+acolhiam, porque nellas assi eram mortos, roubados, & cativos, como se
+foram outras quaesquer cazas profanas.
+
+E com certidaõ desta crua guerra de que ElRei de Grada foi certifiquado,
+porque era na terra dos Christãos, nom achou quem ho rezistir, entrou
+com maior esforço pela parte Dandaluzia, e assi guerrearam hos Mouros
+que por força guanháram ha fortaleza de Quesada, e Alcaudete, com tres
+outros Castellos, e entraram ho arrabalde de Jaem. E com estas tam
+danosas entradas de taes dous Rex contrairos em Castella, nem ElRei D.
+Fernando nem ha Rainha sua madre, nem hos do seu concelho abrandaram has
+vontades pera cõprir com ElRei D. Diniz ho que lhe tinham prometido,
+crendo que elle por necessidades que ocurriam, ou por grandes despezas
+que na guerra fazia has nom poderia tanto tempo sofrer, e se partiria da
+teerra, mas veendo ElRei D. Fernando, e ha Rainha Dona Maria, e ho
+Ifante D. Anrique seu Tutor, que esta maginaçam pelas obras, e
+continuaçam delRei D. Diniz cada vez mais crecia acordaram de dar ha
+Villa de Tarifa hos Mouros por sua, porque com suas pessoas, e poder hos
+viessem ajudar contra ElRei D. Diniz porque hos moradores Dandaluzia
+eram com entradas, dos infieis jáa taõ destroidos, que vendo ha entrada
+dos Mouros ho quizeram assi fazer.
+
+
+
+
+*CAPITULO IX.*
+
+_Da razam porque ElRei D. Diniz desistio desta guerra, e se tornou ha
+Portugal_.
+
+
+Avia hum anno, e tres mezes que esta guerra antre Castella, e Portugal
+durava tam crua antre hos Castelhanos, e Portugueses, no quaal tempo ha
+Rainha Dona Isabel, que estava em Portugal por seus Sanctos dezejos, e
+muitas virtudes com que nacera recebia desta discordia grande nojo, e
+muita tristeza, e pera que tantos maales com beem, e paaz de todo
+cessassem, de contino cõ devotas, e perseveradas lagrimas fazia suas
+oraçoens ha Deos, pera que cõ sua piedade hos remediasse, com segura
+paaz, pois elle por paaz, e salvaçam do mundo, aho mundo quizera vir, e
+com esto nom leixava hos outros meios, e interesses secretos que pera
+efeito desso ahos Rex, e ahos de seu Concelho sempre apontava, mas
+aprouve ha Deos que vendo ElRei D. Fernando, e seus Tutores, e hos do
+seu Concelho, e principaes senhores de Castella que ha destroiçam de sua
+teerra por armas, e guerra jáa se nom podia cobrar, nem vinguar, antes
+hia cada vez em pior, e mais dano acordaram por melhor tomar ho remedio
+da paaz, e satisfazer ha ElRei D. Diniz nas couzas que juntamente
+requeria, porque com esso outra se remedeasse, e compuzesse em
+asseceguo, como fez.
+
+Porque sobre este acordo loguo enviaram roguar, e pedir ha ElRei D.
+Diniz que andava guerreando Castella que leixasse ha guerra, e que ha
+paaz, e concordia se faria antre elles, como elle quizesse, e com esto
+foi mui contente, e confiou que compririam com elle, e poz loguo defeza
+que mais se nom fizesse guerra nem maal em Castella, e com esto em se
+tornando pera seu Regno veio loguo por riba de Coa, onde loguo por
+cerquos, e combates cobrou ha seu poder ho senhorio de todolos Lugares
+daquella Comarqua, que aguora sam de Portugal, porque eram de D. Sancho
+que se fizera seu vassallo, e de sua contia, e ordenado receberam ElRei
+muito dinheiro, com que depois ho desservio, como atraas dice, hos quaes
+Lugares nom eram entaõ taõ afortalezados como ElRei depois hos fez, e
+por elles se deu booa satisfaçam em Castella aho dito D. Sancho por taal
+que cõ elles fizesse, como fez outro Escaibo antre Portugal, e Castella,
+como aho diante direi.
+
+
+
+
+*CAPITULO X*
+
+_Dos casamentos, e Escaibos que depois da concordia se fezeraõ antre
+estes Rex em Alcanizes_.
+
+
+Como esta concordia antre hos Rex, e seus Regnos foi sobre seguranças
+apontada como dice, ElRei D. Fernando, e ha Rainha sua madre, e ho
+Ifante D. Anrique seu Tutor pera se tudo fazer com mais firmeza, e maior
+autoridade sendo feito por prazer, e consentimento de todolos do Regno,
+chamaram sobre este cazo ha Cortes geraaes que se logo fizeram em
+Çamora, onde por todolos Estados dambolos Regnos de Castella, e de Liam
+foi concordado que por ceçarem danos, perdas, e outros grandes
+inconvenientes que da guerra com Portugal se seguiam era beem que ha
+paaz se fizesse com outorgua dos cazamentos, e das outras couzas, que
+ElRei D. Diniz requeria segundo fora apontado, e concordado antre elle,
+e ElRei D. Sancho e sobre esso enviaram loguo Embaixadores, e Procurador
+ha ElRei D. Diniz que era em Coimbra Alonso Peres de Gusmam pera lhe
+certifiquarem ho que nas Cortes fora asentado, e pera has couzas loguo
+averem devido efeito concordaram vistas das pessoas Reaes no Luguar
+Dalcanizes, que hee em Castella, pera onde hos Rex loguo partiram, e se
+ajuntaram no mez de setembro de mil e duzentos e noventa e sette annos,
+(1297) e com ElRei de Castella foram ha Rainha Dona Maria sua madre, e
+ho Ifante D. Anrique seu Tutor, e defensor dos Regnos, e com elles hos
+Ifantes, e senhores que aho diante direi na Escritura do escaibo onde
+sam particularmente nomeados.
+
+E com ElRei D. Diniz foi ha Rainha Dona Isabel, sua molher que levou
+consiguo ha Ifante Dona Costança sua filha, e ho Ifante D. Affonso
+irmaaõ delRei, D. Diniz, e hos Bispos, e senhores que na carta do
+escaibo particularmete estaõ nomeados, e ho Ifante D. Affonso erdeiro
+ficou na Villa de Trancozo em Portugal hos quaaes todos juntos asentaram
+principalmete entre si, e seus Regnos, e senhorios ha paaz, e seguridade
+por corenta annos, nos quaes fossem verdadeiros amiguos damiguos, e
+imiguos de imiguos, e que todalas pessoas de qualquer estado, e condiçam
+que fossem que de hum Regno aho outro durando ho tempo da paaz fizessem
+guerra, dano, ou maal, que fossem loguo entregues aho Rei, e Regno
+danificados pera delles se fazer justiça inteira segundo fosse ha
+qualidade do crime, e porque ouveram por beem que hos cazamentos que se
+ali haviam de fazer nom se concertassem, nem fezessem atee que todalas
+entreguas e escaibos das Villas, e Laguares de hum Regno ha outro fossem
+feitos, e concordados, e como atraaz elles estaõ apontados. Foi loguo
+feita huma carta de concordia das ditas couzas cujo treslado de verbo a
+verbo tornado fielmente por mim Coronista de Castelhano em Portuguez de
+proprio original que vi, e jaaz no Tombo he que se segue.
+
+ * * * * *
+
+Em nome de Deos amem, saibam quantos esta carta virem, e leer ouvirem
+que como fosse contenda sobre Villas, termos, e partimentos, posturas, e
+preitos antre nós D. Fernando pela graça de Deos Rei de Castella, e de
+Liam, e de Toledo, Dalgezira, Sevilha, e Cardova, e de Murcia, e Jaem, e
+do Alguarve, e senhor de Molina de huma parte, e D. Diniz pela mesma
+graça de Deos Rei de Portugual, e do Alguarve, da outra por razaõ destas
+contendas sobre ditas nacem antre nós muitas guerras, e omezios, e
+excessos em tal maneira que de nossas terras dambos foram muitas
+roubadas, queimadas, e estraguadas em que se feez hi muito pezar ha Deos
+nosso Senhor por morte de muitos homens, vendo, e guardando que se aho
+diante fossem destas guerras, e discordias que estavam nossas terras
+dambos em tempo, e ponto de se perder por nossos peccados, e de vir as
+mãaos dos imiguos da nossa fee, e em fim por apertar tam grande
+desserviço de Deos, e da Santa Egreja de Roma, nossa madre, e tam
+grandes danos, e perdas nossas, e da Christandade, por ajuntar paaz,
+amor, e grande serviço de Deos, e da Egreja de Roma ho sobredito Rei D.
+Fernando com Concelho, e outorguamento, e por autoridade da Rainha D.
+Maria minha madre, e do Ifante D. Anrique meu tio, e meu Tutor, e guarda
+dos meus Regnos, e dos Ifantes D. Pedro, e D. Felippe meus irmãaos, e de
+D. Dioguo de Faram Senhor de Biscaya, e de D. Sancho filho do Ifante D.
+Pedro, e D. Joham Bispo de Tuy, e D. Joham Fernandes Adiantado moor de
+Galiza, e D. Fernam Fernandes de Molina, e D. Pedro Ponce, e D. Guarcia
+Fernandes de Villa maior, e D. Affonso Peres de Gusmam, e D. Fernam
+Pires, Mestre Dalcantra, e D. Estevaõ Pires, e D. Telo Justiça moor da
+minha Caza, e doutros Ricos homens boons de meus Regnos, e da Irmãdade
+de Castella, e de Liam, e dos Concelhos destes Regnos, e de minha Corte.
+
+E eu ElRei D. Diniz, suso dito com cõcelho, e outorgua da Rainha D.
+Isabel, minha molher, e do Ifante D. Affonso meu irmãao, e D. Martinho
+Arcebispo de Braga, D. Joham Bispo de Lixboa, e D. Sancho Bispo do Porto
+e D. Vasco Bispo de Lameguo, e do Mestre do Templo Davis, e de D.
+Affonso meu mordomo móor, senhor Dalbuquerque, e de D. Martim Gil meu
+Alferes moor, e de D. Joham Rodrigues de Briteiros, e de D. Pedro Annes
+Portel, e de Lonrenço Soares de Valadares, e de Martim Affõso, e de
+Joham Fernãdes de Lima, e de Joham Mendes, e de Fernam Pires de Barboza
+meus ricos homens, e de Joham Simam meirinho moor, de minha caza, e dos
+Concelhos dos meus Regnos, e de minha Corte ouvemos acordo de nos
+avirmos, e fazermos avenças antre nós nesta maneira que se segue, a
+saber, que eu Rei D. Fernando sobredito entendendo, e conhecendo que hos
+Castellos, e Villas da terra Darronhes, e Darecena com todos seus
+termos, direitos, e pertenças que eram de direito do Regno de Portugual,
+e de seu Senhorio que hos ouve ElRei D. Affonso meu avoo delRei D.
+Affonso vosso padre contra sua vontade, sendo estes Luguares delRei D.
+Affonso, e que outro si os tiveram ElRei D. Sancho meu Padre, e eu, e
+por esso pus com vosquo em Cidade Rodriguo, que vos desse, e entreguasse
+has ditas Villas, e Castellos, ou escaibos por elles apaar dos vossos
+Regnos de que vós, vos paguasseis, de dia de Sam Miguel que passou da
+era de mil trezentos trinta e quatro annos (1334) atée seis mezes, e
+porque volo assi nom compria douvos por essas Villas, e Castellos, e
+pellos seus termos, e pellos frutos da quelles que ahi ouvemos meu avoo
+ElRei D. Affonso, e meu padre ElRei D. Sancho, e eu outro si atee ho dia
+doje, Olivença, e Campo maior, que sam apaar de Badajoz, e Sam Felizes
+dos Gualeguos com todolos seus termos, e direitos, e pertenças, e com
+todo senhorio, e jurdiçam Real, que ajades vós, e vosso socessores por
+erdamento para sempre assi ha possessam, como ha propriedade, e tiro de
+mim e do Senhorio de meus Regnos de Castella, e de Liam, hos ditos
+Luguares, e todo direito que eu ha hi hei de hos aver, e douvolo, e
+ponho-o em vós, e vossos sucessores, e no Senhorio de Portugual, pera
+sempre.
+
+Outro si meto no vosso Senhorio, e de vossos socessores do Regno de
+Portugual para sempre ho Luguar que dizem Ouguela, que hee junto de
+Campo maior acima dito, com todos seus termos direitos, e pertenças, e
+dou ha vós, e ha todos vossos socessores do Senhorio de Portugual toda
+ha jurdiçam direito, e Senhorio Real que eu tenho, e devo ter de direito
+no dito Luguar Douguela, e tiro de mi, e do Senhorio de Castella, e de
+Liam, e ponho em vós, e em todos vossos socessores, e no Senhorio do
+Regno de Portugual pera sempre salvo ho Senhorio direitos, e herdades, e
+Egrejas deste Luguar Douguela, que hos aja ho Bispo, e Egreja de Badajos
+atee que com elle faça que volas solte assi como deve. Todas estas
+couzas de suso dittas vos faço porque nos quiteis dos ditos Castellos, e
+Villas Darronches, e Darecena e de seus termos, e dos fruitos que dahi
+ouvemos ElRei D. Affonso meu avoo, e ElRei D. Sancho meu padre, e eu.
+
+Outro si eu ElRei D. Fernando entendendo, e conhecendo que vós tendes
+direito em alguns Luguares dos Castellos, e Villas do Sabugual, e
+Alfaiates, e de Castel Rodriguo e Villar maior, e de Castel bom, e
+Dalmeida, e de Castel milhor, e Monforte, e doutros Luguares de riba de
+Coa, hos quaaes vós Rei D. Diniz tendes aguora em vossa maão, e porque
+vòs vos partis, e tiraaes do direito que tinheis em Valença, e em
+Ferreira, e no Esparragual que agora tem ha Ordem Dalcantra em sua maão,
+e do direito que aviades em Aia monte, e em outros Luguares que aviades
+em Liam, e em Gualiza, e assi porque vós vos partis, e tiraaes das
+demandas que me vós fazieis por rezaõ dos termos que sam antre ho meu
+Senhorio, e ho vosso, por esso eu me parto, e tiro dos ditos Castellos,
+e Villas, e Luguares do Sabugual, e Alfaiates, e de Castel Rodriguo, e
+de Villar maior, e de Castel bom, e Dalmeida, e de Castel milhor, e de
+Monforte, e dos outros Luguares de Riba de Coa, que aguora vós tendes em
+vossa maão, com todos seus termos e pertenças, e partome de toda ha
+demanda que eu tenho ou poderia ter contra vós, ou contra vossos
+socessores por rezam destes Luguares sobreditos de Riba de Coa, e cada
+hum delles, e outro si me parto de todo direito, ou jurdiçam, ou
+Senhorio Real tambem na possessam como na propriedade como em outra
+maneira qualquer que ho eu ahi tenha, e ho tiro de mi todo, e de meus
+Senhorios e de meus socessores, e dos Senhorios dos Regnos de Castella,
+e de Liam, e ponho em vós, e em vossos socessores, e no Senhorio do
+Regno de Portugual pera sempre, e mando, e outorguo que se por ventura
+aa alguns privilegios ou cartas ou estromentos parecerem, que forem
+feitos antre hos Rex de Castella, e de Liam, e hos Rex de de Portugual
+sobre estes Luguares sobre ditos davenças, onde posturas, demarcaçoens,
+e em outra qualquer maneira sobre estes Luguares que sejam contra vós ou
+contra vossos socessores, ou em vosso dano, ou em dano do Senhorio de
+Portugal, que daqui em diante nom valham nem tenham ha menagem, e
+firmeza nem se possam ajudar dellas eu, nem meus socessores, has quaaes
+todas revogo pera sempre.
+
+E eu ElRei D. Dinis asima dito por Olivença, e por Campo maior, e por
+Sam Felizes dos Gualegos que me vòs dais, e por Ouguela, que meto em meu
+Senhorio segundo asima he dito, eu me parto, e tiro dos Castellos, e
+Villas Darronches, e Darecena, e de todos seus termos, e direitos, e de
+todas suas pertenças, e de toda ha demanda que eu tenho, ou poderia ter
+contra vós, ou contra vossos socessores por razam destes Luguares
+sobreditos, e de cada hum delles que ElRei D. Affonso vosso avoo, e
+ElRei D. Sancho vosso padre, e vós ouvestes, e recebestes, e destes
+Luguares dou ha vós, e ha vossos socessores todo direito, e jurdição, e
+Senhorio Real, que eu ei, e de direito poderia aver nesses Castellos, e
+Villas Darronches, e Darecena, por qualquer maneira que ho eu ahi
+ouvesse, e ho tiro do meu, e de meus socessores, e do Senhorio do Regno
+de Portugal, e ho ponho em vós, e em vossos socessores, e no Senhorio do
+Regno de Castella, e de Liam, pera sempre, outro si eu ElRei D. Diniz
+porque vós, vos tiraaes dos Castellos, e Villas do Sabugual, e
+Dalfaiates, e de Castel Rodriguo, e de Villar mayor, e de Castel bom, e
+Dalmeida, e de Castel milhor, e de Monforte, e doutros Luguares de Riba
+de Coa, com seus termos que eu aguora tenho em minha maaõ assi como
+asima hee dito, eu tambem me tiro, e aparto de todo direito, que eu ei
+em Valença, e em Ferreira, e no Esparragual, e em Aia monte, outro si me
+parto de todalas demandas que tenho, e poderia teer contra vòs, em
+todolos outros Luguares de todos vossos Regnos, e Senhorios em quaalquer
+maneira, outro si me parto de todalas demandas que eu tinha contra vós
+por razam dos termos que sam antre ho meu Senhorio, e ho vosso sobre que
+era contenda.
+
+Eu ElRei D. Fernando de suso dito por mi, e por todos meus socessores
+com concelho, e outorguamento, e autoridade da Rainha minha madre, e do
+Ifante D. Anrique, meu tio, e meu Tutor, e guarda de meus Regnos prometo
+ha booa fee, e juizo sobre estas couzas asima ditas, e cada huuma dellas
+pera sempre nunqua vir contra ellas por mi, nem por outrem defeito, nem
+de direito nem conselho, e se assi nom fizer que fique por perjuro, e
+por tredor como quem mata seu senhor, outra, e Castello, e nós Rainha, e
+ho Ifante D. Anrique asima dito outorguamos todas estas couzas, ou cada
+huuma dellas, e damos poder, e autoridade ha ElRei D. Fernando pera
+fazellas, e prometemos por booa fee por nós, e por ho dito Rei D.
+Fernando, e juramos sobre hos santos Evangelhos, sobre hos quaes pozemos
+nossas maãs, e fazemos menagem ha vós Rei D. Diniz, que ElRei D.
+Fernando, e nós tenhamos, e cumpramos, e guardemos, e façamos teer
+comprir, e guardar todalas couzas sobreditas, e cada huma dellas pera
+sempre, e de nunqua virmos contra ellas por nós, nem por outrem defeito,
+nem de direito, nem concelho, e se assi ho nom fizermos fiquemos
+perjuros, e tredores como quem mata senhor, ou trae Castello.
+
+E eu ElRei D. Diniz, por mi, e por ha Rainha Dona Isabel minha molher, e
+polo Ifante D. Affonso meu filho erdeiro, e por todolos meus vassallos,
+e socessores, prometo aa booa fee, e juro sobre hos Sanctos Evangelhos
+sobre que ponho minhas mãaos, e faço menagem ha voos Rei D. Fernando por
+voos, e por vossos socessores, e ha voos Rainha Dona Maria, e ha voos
+Ifante D. Anrique de teer, e guardar, e comprir todas estas couzas acima
+dictas, e cada huma dellas pera sempre, e nunqua vir contra ellas por
+mi, nem por outrem defeito, nem direito, nem conselho, e se assi nom
+fizer que fique por perjuro, e tredor como quem mata senhor, ou trae
+Castello. E porque todas estas couzas sejam mais firmes, e mais certas,
+e nom possam vir em duvida, fazemos desto fazer duas cartas em hum teor,
+que hee huma como outra seladas com nossos sellos de chumbo de noos
+ambos os Rex, e dos sellos das Rainhas sobredictas, e do Ifante D.
+Anrique, e em testemunho de verdade; das quaaes cartas cada hum de noos
+hos Rex ha de teer senhas: feita em Alcanizes quinta feira doze dias do
+mez de Setembro da era de mil duzentos noventa e sete annos (1297).
+
+E aalem deste escãibo geral se passaram outras cartas particulares pera
+hos Lugares que se aviaõ denetregar por virtude das quaes ElRei D. Diniz
+mandou tomar posses, que se fizeraõ solenemente com desnaturamentos dos
+vassallos, de Castella, tornando aho Senhorio de Portugal, de que ha
+estromentos na Torre do Tombo, e por estas Villas, & Castellos de Riba
+de Coa, que eraõ de D. Sancho sabeendo ElRei D. Fernando, que lhos avia
+de dar ha ElRei D. Diniz logo por acordo das Cortes de Çamora, deu ElRei
+por ellas em sua satisfaçaõ aho dicto D. Sancho, e ha Dona Margarida sua
+molher has Villas de Galisteu, e de Grada, e de Miranda em Castella, e
+porque destes escãibos poderia nacer duvida, porque Saõ Felizes dos
+Galegos nom hee oje de Portugal, assi como saõ Olivença, e Campo maior,
+e Ouguela, que com elles foraõ dados por Arronches, e Daracena, hee de
+saber, que ElRei D. Diniz ouve delles ha posse, como dos outros Lugares,
+e lhe fez ho Castello, e Alcacer, que teem, mas depois fez delle doaçaõ
+ha D. Affonso Sanches seu filho bastardo, e seu Mordomo moor, que por
+consentimento delRei seu padre, ho deu cõ mais certa soma de dinheiro ha
+D. Affonso de Molina por ametade Dalbuquerque, de que ho dicto Affonso
+Sanches foi Senhor, e porque ElRei D. Affonso ho Quarto, irmaão deste
+Affonso Sanches em vida delRei seu padre, teve cõ elle imizade, e
+competencia, logo como Regnou ho desterrou de Portugal, e se foi pera
+Castella, onde foi mais Senhor de Medelim, e doutras Villas, e se fez
+vassallo delRei D. Fernando, por onde Portugal perdeo Saõ Felizes, pella
+dicta doaçam delRei D. Diniz, e por este desterro de Affonso Sanches,
+nom ouve Albuquerque, como aho diante mais largamente se diraa.
+
+
+
+
+*CAPITULO XI*
+
+_Como ElRei D. Fernando cazou com a Ifante Dona Costança, e ho Ifante D.
+Affonso de Portugal com ha Ifante Dona Breatis de Castella, e das
+menagens, que sobresso se fizeraõ, e da decisaõ, que fez nas contendas
+que avia antre hos Principes Despanha, e da grandeza, e prudencia com
+que nella se ouve, e muitas mercees que fez_.
+
+
+Tanto que foraõ acabados hos dictos escãibos, e concordias, e todalas
+outras couzas sobre que antre hos Rex avia algumas duvidas, e debates,
+logo ElRei D. Fernando recebeo por palavras de prezente ha Ifante Dona
+Costança filha delRei D. Diniz, e pera ho dicto cazamento seer pera
+sempre mais firme, assi no espiritual, como no temporal, ho dicto Rei D.
+Fernando, e ha Rainha Dona Maria sua madre, juraram solenemente que ho
+dicto Rei nunqua por outra nhuma molher deixaria ha Ifante Dona
+Costança, salvo por sua morte, e esto fizeram, porque nom tinham avida
+dispensaçam do Papa, que por serem muito parentes, era necessaria, ha
+quaal logo procuraram, e ouveram, e em se acabando ho dicto recebimento,
+ElRei D. Fernando dice por si aho Ifante D. Anrique, e ahos outros
+Ifantes, e Senhores nomeados, que eraõ prezentes, nesta maneira.
+
+Porque deste cazamento, que Deos quis que fosse, eu sam muito honrado, e
+contente folgaria que por nhum cazo, salvo por morte antre noos ambos
+nunqua se desfizesse, ca vos rogo, encomendo, e mando, que pera maior
+firmeza, e segurança delle jureis aqui ahos Sanctos Evangelhos, e façais
+por voos preito, e menagem ha ElRei D. Diniz, que nunqua leixarei a
+Ifante Dona Costança sua filha, minha molher, e seendo cazo que eu ha
+queira leixar, ho que Deos nom mande, que voos me dessirvaes, sejaaes
+com vossas pessoas, teerras, e vassallos contra mi, e com tudo ajudeis,
+e sirvaes ha ElRei D. Diniz, e ha seus socessores atee que torne ha
+viver com ella, assi como com minha molher em toda sua vida, e se eu for
+vivo, que aalem desso cumpra inteiramente todalas couzas que antre noos
+aqui saõ postas, e concordadas, e pera esto melhor, e mais livremente ho
+poderdes fazer, eu dagora pera entaõ vos ei pera esso por desnaturados,
+e vos quito todolos preitos, e menagens, e juramentos, que tee ho dia
+doje como vassallos me tinheis feito pera quando eu nom comprir ho que
+disse, vos servirdes, e ajudardes ha ElRei D. Diniz, e ha seus
+socessores que vos para esso requererem.
+
+Hos quaes juramentos foraõ solenemente tomados, e assi has menagens
+dadas pera ho sobredicto por si ho comprirem, e manterem de que se
+tomáram estromentos publicos, que ElRei D. Diniz trouxe consigo ha
+Portugal, e outros taes de seus juramentos, e outros juramentos fizeram
+muitos outros grandes Senhores de Castella, que ha este tempo eram
+auzentes, e hos enviaram ha ElRei D. Diniz mui autenticos, porque assi
+foi concordado, mas de huns, nem doutros nom ouve necessidade, porque
+ElRei D. Fernando depois desto viveo beem, e honestamente, e com mais
+amor, e conformidade com ha dicta Rainha Dona Costança sua molher, e em
+seu poder faleceo. E assi hos Rex foraõ sempre depois em toda sua vida
+em muita paaz, e concordia, e sobre ha entrega dos dictos Lugares nom
+ouve, nem se seguio força feita por Castella, nem alguma resistencia.
+
+Acabadas estas couzas ElRei D. Fernando se partio Dalcanizes com ha
+Rainha sua molher, e ElRei D. Diniz trouxe logo pera Portugal consigo, e
+por Esposa do Ifante D. Affonso seu filho, ha Ifante Dona Breatis irmãa
+delRei D. Fernando, filha delRei D. Sancho, e da Rainha Dona Maria, ha
+quaal seendo ainda mui moça, andou mui honradamente em caza delRei D.
+Diniz, em quanto ambos eraõ soomente cazados por palavras de futuro,
+cujo prometimento se fez por elles em Coimbra na era de mil trezentos e
+sete annos onde ElRei Diniz deu logo aho Ifante seu filho, seendo em
+idade de sete annos, caza mui honrada, e de muitos vassallos, e de mui
+ricos homens, e de seu asentamento lhe deu grande contia de dinheiro, e
+muitos Lugares de sua jurdiçaõ, e pera teer pessoas de seu Concelho, e
+pera officiaes de sua caza, e fazenda lhe deu hos homens mais principaes
+que em seu Regno sentio, que eraõ melhores, e mais pertencentes asi,
+como foi D. Martinho Arcebispo de Braga, e ho Conde D. Martim Gil de
+Souza, Alferes moor, e assi outros escolhidos pera todolos outros
+officios. E aalem do ordenado de sua caza, que mui perfeitamente tinha,
+se acha que deu mais aho Ifante D. Affonso oito mil livras, que valiaõ
+do preço dagora ha tres mil e duzentos cruzados, de que pudesse fazer
+beem, e mercee de como quizesse.
+
+E depois ho dicto Ifante recebeo por palavras de prezente ha Ifante sua
+molher, e se fizeraõ suas festas, e vodas em Lixboa, e ElRei lhe deu
+Vianna, e Terena, e ho Castello Dourem, e ha teerra Darmamar junto de
+Lamego, e ha sua molher muitas teerras, e grandes joias, e riquezas,
+como aho diante se diraa.
+
+E posto que estes cazamentos, e booa concordia fosse feita antre estes
+Rex, nem por esso ElRei D. Fernando fiquou em paaz, que nom leixou de
+teer em seus Regnos guerras, e grandes deferenças, com ElRei D. James
+deste nome ho Segundo Rei Daragaõ irmaaõ da Rainha Dona Isabel, molher
+delRei D. Diniz por razaõ do Regno de Murcia, e com D. Affonso de
+Lacerda seu primo com irmaaõ, que tambem se chamava Rei de Castella, e
+com ho Ifante D. Joham seu tio, que se chamava Rei de Liam, hos quaaes
+eram ajudados, e favorecidos de muitos, e grandes Senhores de Castella,
+e de Liam, contra ho dicto Rei D. Fernando, que por teer no mesmo Regno
+tam grandes contrairos, padecia grandes afrontas, e era posto em muitas
+necessidades, nas quaaes se soccorreu muitas vezes ha ElRei D. Diniz seu
+sogro, com que se vio em Fonte guinaldo junto do Sabugal, e em
+Badalhouse, que com gentes darmas, e muito dinheiro de seu tezouro,
+durando suas guerras ho ajudou, e sosteve grandemente, atee que com
+todos hos dictos seus contrairos, e competidores ho poz por si em paaz,
+e asocego, como aho diante direi, porque nas derradeiras vistas, que
+tiveraõ em Badalhouse, que foi na era de mil trezentos e tres annos
+(1303) se acha por certa arrecadaçam da despeza do tezouro delRei D.
+Diniz, que elle deu de graça aho dicto Rei D. Fernando seu genro hum
+milhaõ de maravedis, que segundo ha valia, e conta das moedas faziaõ
+numero de sincoenta e sinco mil cruzados dos nossos, e mais lhe deu huma
+copa de huma esmeralda, que foi avaliada em doze mil e tantas dobras
+douro.
+
+E porque nom fiquem suspensas has cauzas, e fundamentos, que ouve pera
+antre estes Rex, e Senhores aver has guerras, e oompetencias que dice, e
+porque ha Estoria se entenda melhor, e nom fique confuza, farei dellas
+huma breve, e sustancial decraraçam. E primeiramente D. Affonso de
+Lacerda tinha guerra com ElRei D. Fernando ha quaal ficára começada do
+tempo delRei D. Sancho, porque D. Affonso era filho primeiro ligitimo do
+Ifante D. Fernando de Lacerda, e da Rainha Dona Branca filha delRei Saõ
+Luis de França, ho quaal Ifante seendo jurado por erdeiro dos Regnos de
+Castella, e de Liam, faleceo em vida delRei D. Affonso ho Decimo de
+Castelia seu pai teendo jaa filhos, ha saber este D. Affonso de Lacerda,
+e outro D. Fernando, dos quaaes D. Affonso era ho maior, assi por ser
+neto do dicto Rei D. Affonso, como por contrato do cazamento feito antre
+ElRei Saõ Luis de França, e ho dicto Rei seu avoo devera erdár hos
+Regnos de Castella, e de Liam, e por esta cauza ho dicto D. Affonso de
+Lacerda andando desterrado em Aragaõ, elle em vida delRei D. Sancho seu
+tio, em tempo deste Rei D. Fernando de Castella seu filho, se chamou, e
+intitulou Rei de Castella, e porque o titulo, e Regno de Liam elle hos
+deu aho Ifante D. Johaõ seu tio, pera que ho ajudasse, como logo direi.
+
+E porque ho dicto Rei D. Affonso de Castella seu avoo, lhe tinha dado ho
+Regno de Murcia, que elle ganhara ahos Mouros em que tambem por ElRei D.
+Sancho ouve cõtradiçaõ, como atraaz fica decrarado este dicto D. Affonso
+de Lacerda pera teer ajuda, e favor delRei D. James Daragaõ, que era seu
+tio, pera has couzas de Castella lhe deu ho direito, que tinha no Regno
+de Murcia, cõ toda sua Conquista, por beem do quaal assi durando ho
+tempo da titoria delRei D. Fernando em quanto foi moço ho dicto Rei D.
+James ouve, e conquistou ho dicto Regno de Murcia, que pertencia ha
+Castella, e ho nom quizera soltar aho dicto Rei D. Fernando, sobre que
+tinha guerra, ha quaal ElRei D. Diniz antre elles tambem concordou
+quando foi ha Aragam, como aho diante direi, e ho dicto Rei D. Fernando
+tinha mais guerra com ho Ifante D. Johaõ seu tio, irmaaõ delRei D.
+Sancho seu pai, ho quaal Ifante se chamava Rei de Liam com outorga, e
+consentimento do dicto D. Affonso de Lacerda seu sobrinho, que do dicto
+Regno, como Rei de Castella, e de Liam, lhe fizera doaçam, porque fosse
+em seu favor contra ElRei D. Fernando, e lhe ajudasse ha ganhar
+Castella.
+
+E ha este partido contra ElRei D. Fernando, e em ajuda do Ifante D.
+Johaõ favorecia, e ajudava muito D. Johaõ Nunes de Lara, que tinha
+grande teerra com muitas gentes, e Fortalezas, este era dezavindo, e
+fóra do serviço delRei D. Fernando, porque ha Rainha Dona Maria sua
+madre, e ho Ifante D. Anrique seu Tutor, nom compriaõ com elle has
+couzas, que ElRei D. Sãcho lhe prometera quãdo ElRei D. Diniz da prizaõ
+em que estava em Portugal ho enviou solto, e honrado ha Castella, como
+airaaz fica, e por esso elle deixando suas Fortalezas de Castella ha
+recado, se foi ha França, e depois tornandose pera Aragam, e Navarra,
+trouxe destes Regnos consigo muita gente, com que entrou em Castella, e
+fez nella muito dano especialmente na teerra de D. Johaõ Affonso
+Dalfaro, que era delRei D. Fernando, ha quaal teerra correo, e estragou
+por tres dias, no cabo dos quaaes ho dicto D. Johaõ Affonso com muita
+gente delRei que consigo tinha, veio buscar ho dicto Johaõ Nunes, ho
+quaal confiando dos Navarros, e Aragonezes ahos primeiros encontros lhe
+fogiraõ todos, e elle ficou soomente com vinte e seis Cavalleiros de sua
+caza, hos quaaes como boons, leaes, e esforçados morreraõ todos ante
+elle, e sendo muito ferido foi na batalha prezo.
+
+E por esso hos seus das muitas Fortalezas, que por elle tinhaõ em
+Castella nom leixaram sempre de fazer ha guerra como dantes faziam, pelo
+quaal na prizaõ onde ho dicto Johaõ Nunes jazia pera ser solto, ouve
+taal concordia, que elle desse como deu aho Ifante D. Anrique tutor, e
+defensor, por molher ha Dona Johana Nunes, ha que disseraõ Palombinha, e
+que elle Johaõ Nunes cazasse, como cazou com Dona Maria filha de D.
+Diogo Senhor de Biscaya, com grande acrescentamento de dinheiro, por
+contia aalem do que tinha. E tanto era ho poder, e valor deste Johaõ
+Nunes em Castella, que tanto que depois desta sua prizaõ, e desta sua
+concordia delRei D. Fernando, e delle foi feita, logo por ho Ifante D.
+Johaõ, e D. Affonso de Lacerda, que se chamava Rei de Castella, se foi
+logo pera Aragam, e consentio na concordia, que aho diante direi; e ho
+Ifante D. Johaõ por esso tambem leixou ho titulo de Rei de Liam, e
+quebrou hos selos de Rei que trazia, e veio beijar ha maõ ha ElRei D.
+Fernando, e ficou por seu Vassallo, e depois este Ifante D. Johaõ sendo
+Tutor delRei D. Affonso, filho deste Rei D. Fernando juntamente com ho
+Ifante D. Pedro, em huma ora por afronta, e sem feridas, ambos morreram
+na Veiga de Grada, e do dicto Ifante D. Johaõ ficou filho erdeiro D.
+Johaõ, ho que disseraõ ho torto, Senhor de Biscaya, de que atraaz dice.
+
+E feitas assi estas concordias cõ ho Ifante D. Johaõ, e cõ D. Johaõ
+Nunes, ainda ficavaõ ha ElRei D. Fernãdo duas arduas contendas por
+concordar de que se esperavaõ grãdes guerras, e muitos danos se nom se
+atalhassem, e huma era antre ElRei D. James Daragaõ sobre ho Regno de
+Murcia, e ha outra antre D. Affonso de Lacerda, sobre ho Regno de
+Castella como atraaz dice. E seendo neste tempo Prezidente na Egreja de
+Roma ho Papa Benedicto Undecimo, que era homem Sancto, que sobre todos
+mais desejou, e procurou ha paaz, e amizade dantre hos Rex, e Principes
+Chistãaos sabendo desta discordia, que antre estes Rex avia, lhe enviou
+hum Nuncio com seus Breves, encomendandolhe com tantas razoens, que
+dezistissem do maal da guerra, e escolhessem ho beem da paaz, e pera
+antre elles se beem fazer como devia se louvassem em algum boom Juiz,
+que antre elles comprisse, e concordasse suas contendas, e que Sua
+Santidade ajudaria ha comprir sua determinaçaõ.
+
+E hos Rex ambos de Castella, e Aragam obedecendo ahos concelhos, e
+mandados do Papa se concordaram, e enviaram dizer, que antre elles nom
+podia aver melhor Juiz, nem mais competente, que ElRei D. Diniz de
+Portugal, e pediam ha Sua Santidade, que pera elle ho fazer sem escuza,
+e com maior obrigaçaõ lho quizesse encomendar, porque aalem de ser Rei
+mui justo, e de mui craro juizo, tinha com elles ambos mui estreito
+devido, porque era sogro, e primo com irmaaõ delRei D. Fernando de
+Castella, cunhado, e primo delRei D. James Daragam, cazado cõ ha Rainha
+Dona Isabel sua irmãa. Da quaal couza prouve muito aho Papa, e ha
+encomendou com grande afeiçaõ ha ElRei D. Diniz, que por lhe obedecer, e
+fazer couza dina de taal Rei, e assi por has continuas presses da Rainha
+Dona Isabel sua molher com que lho pedia, aceitou ho juizo por sua
+parte, em que tambem entrou ha determinaçaõ, e concordia sobre ha
+contenda, que era antre ElRei D. Fernando, e ho Ifante D. Affonso de
+Lacerda, que trazia o sello, e armas direitas do Regno de Castella,
+sobre que ambos tinham guerra, acerca das quaaes couzas ante de se
+finalmente concordarem ho Ifante D. Johaõ, tio delRei D. Fernando, de
+que atraaz dice, foi como seu procurador ha ElRei D. James Daragam, e
+aho Ifante D. Affonso de Lacerda, e com elles praticou, e asentou hos
+Juizes, que aviam de seer, e has couzas particularmente sobre que ElRei
+D. Diniz avia com hos outros Juizes dentender, e dar sua sentença.
+
+E asentaraõ, que no que tocava ha ElRei D. Fernando com ElRei D. James
+sobre ho Regno de Murcia, fossem Juizes ElRei D. Diniz, e ho dicto
+Ifante D. Johaõ, e D. Ximeno Bispo de Çaragoça, e que na contenda, e
+diferença, que era antre hos dictos Rex D. Fernãdo e D. Affonso de
+Lacerda, fossem Juizes hos dictos Rex D. Diniz e D. James soomente sobre
+huns, e outros fizessem seus compromissos autorizados, e asellados de
+seus sellos de chumbo, ha saber ho delRei D. James Daragam feito ha
+vinte dias Dabril da era de mil trezentos e quatro annos,(1304) e pera
+segurança delle estar pela sentença que se desse, poz em ha refens hos
+Castellos de Arica, e de Verdejo, e de Gomir, e de Borja, e de Malom. E
+ho Compromisso delRei D. Fernando, foi ha tres de Maio da era de mil
+trezentos e quato annos.
+
+E com estes Castellos no dicto Compromisso logo assinados por ha refens,
+e seguranças de comprir qualquer sentença, e determinaçam, que pelos
+dictos Juizes se desse, ha saber Alfaro, Cerveira, Otoom, & Sancto
+Estevaõ, e Atença. E tanto que estes Compromissos foraõ concordados dos
+Rex de Castella, e Daragam, e assi ho Ifante D. Affonso de Lacerda ha
+que tocava, enviaram por seus Embaixadores pedir ha ElRei D. Diniz, que
+logo quizesse hir em pessoa por quanto has dictas contendas finalmente
+se aviaõ de sentenciar, e determinar pelos Juizes atee Sancta Maria
+Dagosto, do que ha ElRei D. Diniz muito aprouve, e se feez logo prestes,
+e se foi aa Cidade da Guarda, donde logo partio, e entrou em Castella
+por Cidade Rodrigo, no mes de Junho da dicta era, e levou consigo ha
+Rainha Dona Isabel sua molher, e ho Ifante D. Affonso seu irmaaõ, e D.
+Pedro seu filho, e ho Conde D. Johaõ Affonso, e Prelados, e Infançoens,
+e Cavalleiros em numero de mil pessoas, afora outras muitas gentes pera
+que feez prestes has gentes de seus Regnos, e na Guarda aprovou, e
+escolheo della ha que quiz, que foi muita, e mui honrada, e ha mais
+riqua, e concertada de suas pessoas, cavallos, arreios, e vestidos, que
+atee aquelle tempo em semelhante cazo se visse, e pera esta ida ouve
+ElRei D. Diniz grandes ajudas de dinheiro de seus poovos.
+
+Ante que ElRei partisse da Guarda, chegou ha elle Diogo Garcia de
+Toledo, Cavalleiro da Caza delRei D. Fernando, e com elle dous seus
+escudeiros com has fraldas das capas cheias de chaves daquellas Villas,
+e Castellos por onde ElRei D. Fernando foi certificado que seria a ida e
+vinda delRei D. Diniz, e nellas lhe fazer prestes has pouzadas,
+mantimentos, e couzas que ha elle, e ha suas gentes comprisse, e mais
+entregar-lhe aquellas chaves, que eram das Villas, e Castellos por onde
+avia de passar pera nellas pouzar, e fazer dellas livremente todo ho que
+quizesse, como de suas proprias. ElRei D. Diniz lhe dice, que ha ElRei
+D. Fernando elle lhe gradecia muito seu convite, e assi ho offerecimento
+de suas Villas, e Castellos, de que lhe rogava, que ho ouvesse todo por
+escuzado, e que por escuzar alguns boliços, e alevantamentos de suas
+gentes com has de Castella, elle nom esperava de pouzar em Villas, e
+povoaçoens, antes ho mais alongado dellas que podesse, pera que levava
+muitas, e booas tendas, em que se alojaria.
+
+E porèm ali por acordo de pessoas, que ho beem sabiaõ concordou todas as
+jornadas, e alojamentos, que faria, atee Aragaõ, e foi acordado, que
+Diogo Garcia, dous, ou tres dias sempre fosse, como foi diante pera lhe
+fazer trazer hos mantimentos, e couzas necessarias, que ElRei mandava ha
+todos pagar mui liberalmente, e por esso lhas traziaõ com booa graça, e
+em grande abastança, em que chegando ElRei D. Diniz aa Villa de Coelhar,
+que hee em Castella, ho veo receber ElRei D. Fernando, e com elle ho
+Ifante D. Johaõ, e outros muitos grandes, e Senhores de Castella, e
+depois de averem prazer, e consultarem antre si has couzas, que pediaõ,
+se partiraõ da li com fundamento de todos irem, como foram atee Soria, e
+foraõ apartados por dous caminhos, e nom muito afastados por rezaõ de
+huns, e outros averem melhor suas provizoens, e mantimentos, e de Soria
+donde ElRei de Castella se espedira delle, ElRei D. Diniz, e ha Rainha
+sua molher, e ho Ifante D. Johaõ de Castella passaram ha Grada, que hee
+do derradeiro Lugar de Castella, fronteiro Daraguam, onde com muitos, e
+nobres Cavalleiros, e Donas Daragam hos veio receber ElRei D. James, e
+ha Rainha Dona Branca, sua molher, e aho outro dia comeraõ todos com
+ElRei D. Diniz, que de baxellas douro, e de prata, e doutros Reaes
+comprimentos, hia tam abastado, e apercebido, como pera convite de
+tantos, e taaes Rex, e em seus proprios Regnos devidamente se requeria.
+
+Acabados hos convites ElRei, e ha Rainha Daragam se volverão ha
+Tarraçona, e ElRei D. Diniz, e a Rainha sua molher, e ho Ifante D. Johaõ
+aho outro dia se foraõ aa mesma Cidade onde era concordado, que pera
+determinação de seus debates todos aviaõ de seer juntos, salvo ElRei de
+Castella, que nom avia de seer prezente, porque ho dicto D. Johaõ seu
+tio por todas suas couzas hia por seu Procurador soficiente. Tanto que
+estes Rex, e Senhores foraõ juntos em Tarraçona ouvirão has partes, e
+seus Procuradores sobre has cousas, que ha cada hum tocava, ElRei D.
+Diniz, e ho Ifante D. Johaõ, e D. Ximeno, Bispo de Çaragoça Juizes
+arbitros, e deputados, que eraõ pera hos debates, e duvidas que avia
+antre ElRei D. Fernando de Castella, e ElRei D. James Daragam sobre ho
+Regno de Murcia.
+
+Ahos oito dias do mez Dagosto do dicto anno, deram sentença ha saber,
+que Cartagena, e Guadamir, e Alicante, e Acheche, com seu porto de maar,
+e com todos seus termos, e com todo ho que lhe pertencia, e podia
+pertencer, assi como Talha Agoa de Segura, antre ho Regno de Valença, e
+antre ho mais alto cabo do termo de Vilhena, tirando desto ha Cidade de
+Inice, e de Molina, e seus termos todos, e outros sobredictos Lugares
+ficassem, e fossem pera sempre DelRei Daragam, e de seu Senhorio, salvo,
+que Vilhena ficasse ha D. Johaõ Manuel, e que o Senhorio, e propriedade
+ficasse ha ElRei Daragam, e que ha Cidade de Murcia, e de Molina, e
+Monte Agudo, e Loreina, e Alfama, com todolos seus termos, e todolos
+outros Lugares, que saõ do Regno de Murcia, tirando hos sobredictos
+Lugares, ficassem ha ElRei de Castella, e que se soltassem prizioneiros
+de huma parte, e da outra, e assi quaaesquer arefens, e segurãças dadas
+por elles, e que este contrato jurasse ElRei D. Fernando em pessoa, e
+fizesse jurar, ha todolos Grãdes Senhores de seu Regno.
+
+E esta sentença com outras muitas crausulas, que aqui nom fazem aho
+propozito, foi dada no Lugar de Torrelhas, sentenceada junto de
+Tarraçona Sabado oito dias do mez Dagosto, da era de mil e trezentos
+annos. E aho pubricar da dicta sentença eraõ prezentes ho dicto Rei D.
+James Daragam por si, e por ElRei D. Fernando como seus Procuradores
+soficientes eraõ prezentes Fernaõ Gomes seu Chançarel, e Notairo moor do
+Regno de Toledo, e Diogo Garcia, seu Chançarel moor do Selo da puridade,
+e Mordomo da Rainha Dona Costança, sua molher, hos quaaes todos
+consentiram na dicta sentença, ha cuja pubricaçaõ eram em pessoas
+prezentes, Grandes Senhores do Regno de Portugal, e de Castella, e
+Daragam, e na dicta sentença saõ particularmente nomeados.
+
+E tanto que esta sentença foi pubricada, logo no mesmo dia, lugar, e
+anno, prezente has mesmas testemunhas, ElRei D. Diniz, e ElRei D. James
+sobre contenda, que era antre ElRei D. Fernando, e D. Affonso de
+Lacerda, que se chamava Rei de Castella por cõcordia dambos, deraõ, e
+pronunciaraõ outra sentença porque ho dicto D. Affonso de Lacerda
+ouvesse pera si no Regno de Castella livres pera sempre estas couzas, ha
+saber Alva de Tormes, e Bejar, e Vai de Arnajem, e Mançanares, e Alga
+boa, e hos montes Daguda de Magam, e Povoa da Çarça com seu Alfoz, e ha
+teerra de Lemos, e Robaina, que hee no Xarafe, e ametade Della, e
+Baldaia, e hos moinhos, e ha Ilha de Sibilla, que foraõ de D. Johaõ
+Mateus, e hos moinhos, e ha Cidade de Fornachuellos, que foraõ de Nuno
+Fernandes de Valdenebro, e Incasta, e hos moinhos de Cordova. E qne ho
+dicto D. Affonso de Lacerda, entregasse ha ElRei D. Fernando certos
+Castellos, que tinha de Castella, e que leixasse pêra sempre ho titulo,
+e selo, que tinha de Rei de Castella, com outras muitas seguranças de
+juramentos, e de Castellos, que ElRei D. Fernando poz em arefens atee
+trinta annos. E ha pubricaçaõ desta sentença ho dicto D. Affonso de
+Lacerda nom quis estar por vergonha em pessoa, posto qne nella
+consentio, e aprovou. Das quaaes sentenças hos dictos Juizes, mandaram
+passar suas cartas ha seladas de seus selos.
+
+E dadas ha cada huma das partes ha que tocava, e com estas concordias
+assi feitas toda Espanha cercada de Rex Christãaos della, ficou em paaz,
+e ha secego, e ElRei D. Diniz, e ElRei Daragam, com has Rainhas suas
+molheres se partiram logo de Tarraçona, e se vieram todos Aguda, onde
+ElRei de Castella com ha Rainha Dona Maria sua madre, hos estava
+esperando, e hos sairam ha receber grandemente, acompanhaados com todo
+seu Estado, e com ha maior honra, que então se pode fazer. E hos Rex
+comeraõ aquelle dia com ho dicto Rei D. Fernando, e has Rainhas Dona
+Isabel de Portugal, e Dona Branca Daragam, comeram com ha ditca Rainha
+Dona Maria de Castella, e alli veio D. Fernando de Lacerda, irmaão menor
+de D. Affonso de Lacerda, chamado por mandado delRei D. Diniz, e trazido
+Dalmaçaõ donde estava pelo Conde D. Pedro seu filho, onde estava, ElRei
+D. Diniz lhe deu grandes joias, e fez grande mercee, e assi ho fez ficar
+por vassallo delRei D. Fernando, que depois lhe fez muita honra, e
+acrecentamento, porque depois do morte do Ifante D. Anrique seu tio, e
+tutor cazou ha dicto D. Fernando com Dona Johana Nunes de Lara, que foi
+molher do Ifante, como atraaz se dice, com que ouve muita teerra, e
+grande fazenda, de que ouve filhos honrados.
+
+E alli em Aguda hos tres Rex Despanha, que eram juntos, e assi ho Ifante
+D. Johaõ por contrato feito firmáram todos quatro suas amizades, e
+lianças, pera dahi em diante elles, e seus sucessores serem pera sempre
+amigos de amigos, e imigos de imigos, e se por ventura alguum delles em
+sua vida, ou depois alguum, que delles descendesse fosse contra esta
+paaz, e amizade, e liança, que hos outros dous fossem contra elle, por
+guerra, ou por outra qualquer maneira lhe fazerem guardar, e cumprir
+esta postura, ha quaal queriam, que fosse confirmada pelo Papa com
+censuras, e penas de grandes excomunhoens, em que logo encorresse aquelle
+que ha quebrasse, e fosse contra ella, e que cada hum sem poder de
+procuraçaõ dos outros podesse por si empetrar, e aver esta confirmaçaõ
+do Papa.
+
+E com esta concordia feita, e acabada, hos Rex mui alegres, e contentes
+se despediram, ha saber ElRei Daragam pera Tarraçona, e ElRei D. Diniz
+pera Soria, onde esperou ElRei D. Fernando seu genro, e ambos dalli por
+desvairados caminhos, se vieraõ ha Valhadolid onde estava ha Rainha Dona
+Costança filha delRei D. Diniz e molher delRei D. Fernando.
+
+E porque nom passassem sem lembrança, e por honra, e louvor delRei D.
+Diniz has muitas grandezas, e grandes nobrezas de que nesta jornada em
+dous Regnos estranhos, e cõ tamanhos Rexuzou hee de saber por certa
+verdade que ElRei D. Diniz chegou ha Tarraçona ante de darem, e
+pronunciarem has dictas sentenças, ElRei D. James Daragam seu cunhado,
+pera ha guerra dos Mouros, e pera outras necessidades, que se lhe
+offereciam lhe pedio emprestados des mil dobras douro, dizendo, que por
+penhor da paga dellas, lhe faria quaesquer escrituras, e daria fieldade
+de quem quizesse atee pagar has dictas dobras, hos Castellos de seu
+Regno, que por beem tivesse, e lhe mandaria delles fazer preito, e
+menage; E ElRei lhe dice, que ho emprestimo das dees mil dobras era
+escuzado, mas que daquellas, e doutras tantas por que fossem vinte mil,
+lhe fazia graça, que pois elle has tinha, que era razam de lhas dar, e
+elle Rei Daragam de has receber delle, pois lhe compriaõ, e dellas tinha
+necessidade, has quaaes logo lhe mandou entregar.
+
+E aalem desso deu mais aa Rainha Dona Branca sua molher muitas, e mui
+ricas joias douro, e pedras preciozas. E assi ho fez ha todolos Senhores
+de sua Corte ha que tambem deu mui ricas joias douro, e prata, de suas
+baxellas, e muitos panos douro, e de seda, de que pera esso foi logo de
+seu Regno mui percebido. ElRei Daragam nom quiz nhuma couza, salvo que
+elle soo sem outro alguum, comeo algumas vezes com elle. Esta maneira
+teve ElRei D. Diniz com ElRei D. Fernando seu genro, aqui em Valhadolid
+se ajuntaram a si has Rainhas Dona Maria, e Dona Costança, ahos Ifantes
+D. Pedro, e D. Johaõ, deu mui grandes dadivas, em joias douro, e
+pedraria de grandes preços, e nom soomente ho fez assi ha todolos
+grandes Senhores, e nobres homens, que eraõ na Corte, mas ainda se acha,
+e lee por mui certa verdade, que ahos que eraõ auzentes lhas enviava por
+seus messageiros, e disto principaalmente foi ElRei D. Diniz muito
+louvado, e ficou delles louvado em perpetua memoria, que tamanhos Rex
+como eram ElRei de Castella, e ElRei Daragam, e has Rainhas suas
+molheres receberam delRei D. Diniz em seus Regnos, e proprias teerras
+tantas, e tam grandes graças, sendo elle tanto pera lhas dar ha elles,
+parecendo beem, e razaõ de ho receberem delle.
+
+E no cabo destas repartiçoens se acha, que hum Cavalleiro honrado, que
+era prezente de que por ventura a nobreza delRei D. Diniz es esquecera,
+se aggravou ha elle em pessoa com palavras, que pareciam de fidalguia,
+estando ElRei comendo em huma meza de prata, que comsigo trazia, ElRei
+com ho rostro mui alegre lha mãdou logo dar, porque era jaa ha peça
+menos principal de seu tezouro, que lhe ficara. E de Valhadolid ElRei D.
+Diniz, e ha Rainha Dona Isabel sua molher se despediram delRei, e das
+Rainhas, e Ifantes de Castella, e alegre, e muito honrado se tornou ha
+seu Regno de Portugal. E nesta jornada tardou da entrada de Junho do
+dicto anno de mil trezentos e quatro, em que entrou em Castella, e elle
+era ha este tempo de idade de quorenta e tres annos, e avia vinte e
+sinco annos, que Regnava.
+
+
+
+
+*CAPITULO XII*
+
+_Das ajudas, que ElRei D. Fernando de Castella, ouve delRei D. Diniz,
+pera ha guerra dos Mouros de Grada_.
+
+
+Posto que ElRei D. Fernando ficasse em paaz com ElRei Daragam, e com D.
+Affonso de Lacerda, como dicto hee, porém elle como era Rei Catholico, e
+de grande coração, ha quiz converter em guerra contra Mouros imigos da
+Fee, especiaalmente em conquistar, e cobrar ho Regno de Grada se
+podesse, e pera mais facilmente, e com menos trabalho ho poder fazer,
+dezejou em sua ajuda ha ElRei Daragam, aho quaal por seus Embaixadores
+convidou pera esta empreza, ho quaal ha aceitou, com taal condição, que
+elle pera ho Regno, e Senhorio Daragaõ ouvesse pera sempre ho Regno
+Dalmeiria, que estimaram seer ha setima parte do Regno de Grada, e com
+este partido antre elles concertado, ElRei D. Fernando estando em Alcalá
+de henares, ho fez saber ha ElRei D. Diniz seu sogro, e lhe pedio, que
+pera guerra ha elle tam justa, e de tam sancta memoria, e principalmente
+pera logo hir sobre Algezira, ho quizesse ajudar com alguumas gentes de
+seus Regnos, e emprestarlhe algum dinheiro de seu tezouro.
+
+Aho que ElRei D. Diniz louvando seu proposito, e confiança satisfez, que
+lhe enviou ho Coade D. Martim Gonçalves de Souza seu Alferes moor, cõ
+sete centos de cavallo beem aparelhados, e mais lhe emprestou dezaseis
+mil e seis centos marcos de prata, em penhor dos treze mil marcos delRei
+D. Fernando, e atee lhos pagar lhe deu ha Cidade de Badalhouce com seu
+alcacer, e com todolos Castellos, termos, rendas, e direitos Seculares,
+e Ecclesiasticos, que ha ella pertencem, e que ElRei nella avia, e que
+ElRei de Castella durando ho dicto empenhamento, nom lançasse na dicta
+Cidade, e seus Castellos, e termos, peitas, nem serviços, nem se fizesse
+justiça por elle, mas por ElRei D. Diniz, e por seus socessores, hos
+quaaes poriam Justiças, nem has gentes serviriaõ ninguem, nem na paaz
+com ElRei de Castella, mas com ho dicto Rei D. Diniz.
+
+Deste empenhamento em que se conteem muitas crauzulas, e solenidades, e
+seguranças se fez carta ha selada do selo de chumbo feito em Volhadolide
+ha tres dias de Julho da era de mil trezentos e nove annos, (1309) com
+outorga da Rainha Dona Costança, e da Ifante Dona Lionor, que era
+dambos, ha filha primeira, e pelos trezentos e seis marcos de prata, que
+ho dito Rei D. Fernondo deu ha penhor, aho dicto Rei D. Diniz, has
+Villas Dslcouchel, e Bragilhos com seus termos, rendas, Justiças, e
+serviço de gentes com todalas crauzulas, e solenidades da carta decima,
+porque ambas foram feitas em hum dia.
+
+E ElRei com seu poder junto, foi cercar Algezira, sobre que jouve hum
+teempo, e durando assi este cerco, D. Johaõ Nunes de Lara, que diceram
+ho Boom aquelle, que se fez vassallo delRei D. Diniz como atraaz dice,
+tomou principaalmente Gibaltar ahos Mouros. E tambeem no dicto cerco,
+foi aho dicto Rei de Castella noteficada ha destroiçam dos Templarios
+sobre que ElRei D. Diniz, e elle se concordaram como aho diante direi, e
+porque falleceram ha ElRei de Castella hos mantimentos pera has muitas
+gentes que tinha, alevantou ho cerco Dalgezira, e ha nom tomou desta
+vez, e tornouse pera Castella, e dahi ha pouco teempo ElRei D. Fernãdo
+de Castella avendo quinze annos, que Regnava, e seendo de idade de vinte
+e quatro annos faleceo em Jaem de morte supitania, e emprazado, seguundo
+fama, por dous Cavalleiros, que contra direito no Lugar de Mattos mandou
+matar, e no dia de sua morte se compriraõ hos trinta dias pera que elles
+ho emprazaram, e por sua morte ficou por seu erdeiro, e socessor ElRei
+D. Affonso seu filho, em idade de hum anno, e vinte dias, como aho
+diante se diraa.
+
+
+FIM DO PRIMEIRO VOLUME
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. I), by Rui de Pina
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA D'EL REI D. DINIZ ***
+
+***** This file should be named 16571-8.txt or 16571-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/1/6/5/7/16571/
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net. Produced from
+images provided by Biblioteca Nacional Digital
+(http://bnd.bn.pt)
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+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
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+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+*** START: FULL LICENSE ***
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
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+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
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+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
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+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
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+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
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+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+electronic work or group of works on different terms than are set
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+*** END: FULL LICENSE ***
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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