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+Project Gutenberg's Nova Castro: tragedia, by João Baptista Gomes Junior
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Nova Castro: tragedia
+ quinta edição, correcta de muitos erros, e augmentada com
+ a brilhante scena da coroação
+
+Author: João Baptista Gomes Junior
+
+Release Date: September 4, 2007 [EBook #22508]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVA CASTRO: TRAGEDIA ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
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+
+[Gravura representando Inês de Castro, acompanhada pelos filhos, prostrada
+aos pés de D. Afonso V.]
+
+Eis, ó Senhor, os filhos de teu filho.
+Que vem com tristes lagrimas rogar-te
+Que d'esta triste Mãi te compadeças.
+ Act. IV. Scen. III
+
+
+
+
+NOVA CASTRO,
+
+TRAGEDIA
+
+DE
+
+JOÃO BAPTISTA GOMES JUNIOR.
+
+QUINTA EDIÇÃO
+
+CORRECTA DE MUITOS ERROS, E AUGMENTADA
+COM A BRILHANTE SCENA
+
+DA
+
+COROAÇÃO.
+
+
+LISBOA,
+
+Na Impressão Regia. 1830.
+
+Com Licença da Mesa do Desembargo do Paço.
+
+ * * * * *
+
+Vende-se na Loja de Livros de João Henriques,
+
+Rua Augusta N.o 1.
+
+
+ACTORES.
+
+D. AFFONSO IV Rei de Portugal.
+
+D. PEDRO Principe.
+
+D. IGNEZ DE CASTRO.
+
+D. SANCHO Mestre do Principe.
+
+COELHO Conselheiro.
+
+PACHECO Conselheiro.
+
+D. NUNO Camarista do Rei.
+
+O EMBAIXADOR DE CASTELLA.
+
+ELVIRA Aia de D. Ignez.
+
+DOIS MENINOS Filhos de D. Pedro, e D. Ignez.
+
+
+_A Scena he em Coimbra, n'huma Sala do Palacio, em que reside D. Ignez._
+
+_A Acção começa ao romper do dia._
+
+
+
+
+ACTO I.
+
+
+SCENA I.
+
+_Ignez, e Elvira._
+
+
+_Ign._(1) Sombra implacavel! Pavoroso Espectro!
+Não me persigas mais... Constança! Eu morro.(2)
+
+ (1) _Ignez entra na Scena delirante, e horrorisada._
+
+ (2) _Assenta-se desfallecida._
+
+_Elv._ Que afflição!.. Que delirio!.. Oh Deos!
+Senhora...
+
+_Ign._(3) Onde está... onde está o meu Esposo?...
+
+ (3) _Ainda fora de si, e atemorisada._
+
+_Elv._ O Principe, Senhora, inda repousa,
+Tudo jaz em silencio: tu sómente,
+Negando-te ao socego, atribulada,
+Neste Paço, ululando, errante vagas?
+Que dor acerba o coração te rasga?
+Que sonhadas visões assim te ancêão?
+
+_Ign._ Contra Ignez se conspira o Ceo, e a Terra.(4)
+Té das campas os mortos se levantão
+Para me flagellar: continuamente
+Negros fantasmas ante mim voltêão...
+Que horror!.. Oh Ceos!.. Agora mesmo, Elvira,
+Debuxados na mente inda diviso
+Os medonhos espectros, que, girando
+Em torno de mim, me assombrárão...
+Surgir vejo Constança do sepulchro,
+Que em furias abrazada a mim caminha...
+Relampagos fuzilão, treme a terra...
+Eis-que lá dos abysmos arrojados
+Impios Ministros da feroz vingança
+No peito agudos ferros vem cravar-me:
+Debalde agonisante o Esposo invoco...
+Proferido por mim seu doce nome
+Exacerba os furores de Constança,
+Que á morada dos mortos me arremessa.
+Oh do crime funestas consequencias!...
+Desgraçados mortaes!
+
+ (4) _Levantando-se._
+
+_Elv._ ............ E póde hum sonho...
+
+_Ign._ Não he hum sonho, Elvira, são remorsos.
+
+_Elv._ Devem elles acaso inda ralar-te?
+Não bastou Hymenêo a suffoca-los?
+Ah! Se antes que os seus laços te cingissem,
+Succumbiste do amor á paixão céga,
+Assaz tens expiado este delicto,
+Delicto mais que todos desculpavel.
+
+_Ign._ Huma alma como a minha jámais julga
+Ter assaz expiado seus delictos:
+Embora de Hymenêo os sacros laços
+Agora o meu amor licito fação,
+Este amor foi no crime começado.
+Mirrada de pezares, sim, foi elle,
+Quem despenhou Constança no sepulchro,
+Constança, essa Princeza desgraçada,
+Que, a não ser eu, talvez fosse ditosa,
+Talvez, do Esposo amada, inda vivesse;
+Eu fui a origem dos seus males todos;
+Trahi sua amizade, fui-lhe ingrata,
+Sua rival, oh Ceos! assassinei-a.
+Oh crime involuntario! Horrendo crime!
+Tuas iras são justas, sim, Constança;
+Arrasta-me comtigo á sepultura,
+Acaba de punir-me, e de vingar-te...
+Mas ah! Que digo!.. Não... poupa-me a vida,
+Nella a vida do Principe se int'ressa:
+Tu não has de querer envenenar-lha:
+A morte não, não póde certamente
+A paixão extinguir de que morreste;
+Mesmo lá do sepulchro inda o adoras...
+E talvez compassiva me desculpes.
+Quem melhor do que tu conhecer deve,
+Que aos affectos de Pedro, aos seus extremos
+Humanas forças resistir não podem?
+Se tu, sem ser amada, tanto o amaste,
+Deixaria eu de ama-lo sendo amada?
+Sabe o Ceo quanto tempo em viva guerra,
+Contra o meu coração lutei debalde:
+Quantas vezes chamando em meu soccorro
+A virtude, e a razão... auxilio inutil!
+Immudece a razão quando amor falla.
+Triunfar de paixões iguaes á minha...
+Os miseros mortaes não podem tanto...
+Que profiro infeliz? Até blasfemo!...
+Perdoa, Summo Deos, ao meu delirio:
+A meu pezar, Senhor, fui criminosa;
+Porém tua Justiça adoro, e temo.
+
+_Elv._ O Ceo he justo, Ignez, o Ceo te absolve:
+Tua alma, onde morou sempre a virtude,
+Tem por graves delictos leves faltas;
+Tranquilliza, Senhora, os teus sentidos,
+Modera as afflicções.
+
+_Ign._ ............. Em breve a morte
+Ás minhas afflicções virá pôr termo.
+
+_Elv._ Oh Ceos! Na primavera de teus annos,
+Engolfada em fataes, loucos pezares,
+Tu propria buscas terminar teus dias,
+Sem que ao menos te lembres que depende
+Da tua vida a vida do Consorte;
+Que numa lagrima só que tu derrames,
+Se o Principe jámais a divisasse,
+Seria de sobejo a envenenar-lhe
+O terno coração, que affagar deves!...
+Se neste estado agora elle te achasse,
+Em que estado sua alma ficaria!
+Por seu amor, te rogo, enxuga o pranto,
+As afflicções desterra, em que soçobras.
+
+_Ign._ Oxalá que podesse desterra-las!
+Mas buscarei ao menos reprimi-las,
+Porque não participe o caro Esposo
+Dos males, dos horrores que me cercão.
+Embora o Ceo me opprima, e me castigue,
+Entorne sobre mim suas vinganças;
+Porém sobre elle só prazeres mande:
+O seu socego, mais que o meu, desejo:
+A fim de lhe mostrar alegre o gesto,
+A que esforços me não dou continuamente?
+Para o não affligir... ah! Quantas vezes
+Calco, suffoco dentro do meu peito
+Afflicções, que no peito me não cabem!...
+Quantas vezes, sumindo-se a seus olhos,
+Dos meus ao coração recúa o pranto!
+Mas ah, que os meus pezares, meus martyrios,
+Quanto mais os escondo, muais se azédão,
+Nem podem já ter fim senão co'a vida.
+A qualquer parte, oh Ceos, que os olhos mande,
+Motivos d'afflicção sómente encontro.
+Do passado a lembrança me horrorisa,
+E do futuro a idéa me intimida:
+Contra mim conspirada a intriga, a inveja,
+Sobranceiras as iras d'hum Monarcha,
+Tudo me vai cavando a sepultura:
+O coração m'o diz.
+
+_Elv._ .......... Elle te illude:
+Que podes tu temer, quando enlaçada
+Ao mais digno dos Principes do Mundo,
+Ao melhor dos mortaes que os Ceos formárão,
+O seu braço invencivel te defende?
+Em vez de recear sonhados males,
+Olha os immensos bens, a fausta sorte,
+Que propicio futuro te apparelha;
+O Lusitano Solio, que te espera;
+O respeito, o amor dos Portuguezes,
+A gloria de imperar sobre este povo,
+A quem teme, e venera o Mundo inteiro...
+Tudo, tudo, Senhora, te promette
+Permanentes venturas: nada temas.
+
+_Ign._ Essas mesmas quimericas venturas,
+Esses bens illusorios, que me apontas,
+Justos motivos são dos meus temores.
+Oxalá que D. Pedro não tivesse
+Hum Throno por herança que offertar-me!
+Então fôra eu feliz, passára a vida
+No regaço da paz, e da alegria:
+Não haveria então quem se oppozesse
+Á perpetua união das nossas almas;
+Nem barbara politica empecêra
+De nossos ternos corações a escolha:
+Hum do outro na posse, ambos ditosos,
+Aos transportes d'amor sem susto entregues,
+Rodeados dos tenros, caros filhos,
+Sem ter que desejar, o Throno excelso,
+Todos esses fantasmas da grandeza
+Nem huma vez sequer nos lembrarião;
+Mas o fado nao quiz...
+
+_Elv._ .............. Ahi vem D. Sancho.
+
+_Ign._ Que motivo o conduz a procurar-me?
+Venero as suas cãs, e o seu caracter;
+Como elle, junto aos Reis, achão-se poucos.
+
+
+SCENA II.
+
+_D. Sancho, Ignez e Elvira._(5)
+
+ (5) _Elvira, logo que D. Sancho entra na Scena, retira-se para o
+ fundo della, e pouco depois desapparece._
+
+_Sanc._ O Ceo neste lugar faz que eu te encontre:
+He preciso, Senhora, com franqueza
+Mostrar-te os imminentes precipicios,
+Que só tua virtude evitar póde.
+O Principe despreza os meus conselhos,
+Meus rogos não attende, nem já céde
+Ás lagrimas d'hum velho que aprecia,
+Mais do que a propria vida, a sua gloria:
+D'hum velho, que incumbido de educa-lo,
+Sempre a núa verdade ante os seus olhos
+Tem feito apparecer, buscando sempre
+Afastar-lhe a lisonja dos ouvidos,
+Esse das Cortes pessimo veneno,
+Que os corações dos Principes corrompe.
+Seu caracter violento, caprichoso,
+Agora por amor mais inflammado,
+Já não deixa dobrar-se ás minhas vozes;
+Cégo resiste aos Paternaes preceitos;
+He necessario pois que a obedecer-lhe
+O resolvas tu mesma. Bem conheces
+Do inflexivel Affonso o genio iroso.
+Já tres vezes o tem chamado á Corte,
+Sem que D. Pedro cumpra os seus mandados,
+Nem queira pesar bem seus ameaços:
+Muito do Rei severo temo as iras,
+Por crueis Conselheiros atiçadas:
+Vendo talvez do filho a rebeldia,
+Se esqueça de que he Pai. Cumpre, Senhora,
+Que atalhes as funestas consequencias,
+Que podem resultar da pertinacia
+Em que o Principe insiste: que o convenças
+A beneficio seu, e em teu proveito,
+A cumprir sem demora os seus deveres:
+Eu sei que na sua alma podes tudo,
+E das tuas virtudes tudo espero.
+
+_Ign._ O teu zelo, candura, e probidade
+Assaz louvo, e respeito. Não te enganas
+Em suppor-me capaz de emprender tudo,
+Inda mesmo arriscando a propria vida,
+Para chamar D. Pedro aos seus deveres;
+Não tem sido por falta de lembrar-lhos,
+Que elle ás ordens de hum Pai tem resistido.
+(Tu, não menos do que eu, seu genio sabes)
+Nem attender-me quer quando lhe imploro,
+Que á Corte vá lançar-se ás Regias Plantas.
+Todavia, D. Sancho, eu te prometto,
+Que não hão de cessar minhas instancias;
+Embora, longe delle, Ignez saudosa,
+Ao furor dos seus émulos exposta,
+Venha talvez a ser victima triste
+De insidiosa politica: antes quero
+Morrer, do que lembrar-me que sou causa
+De que o Principe falte aos seus deveres.
+
+_Sanc._ Quem nutre em si tão nobres sentimentos,
+Inda sendo opprimida, he venturosa.
+Zombou sempre a virtude da desgraça,
+Debalde a emulação, armando a intriga,
+Conspira contra ti: mas he preciso
+Seus designios frustrar: sim....
+
+_Ign._ ........................ Eis D. Pedro.
+
+_Sanc._ Queira o Ceo que o convenças! Eu vos deixo.
+
+
+SCENA III.
+
+_D. Pedro, e Ignez._
+
+_Ped._ Quanto são vagarosos, cara Esposa,
+Os poucos melancolicos momentos,
+Que distante de ti saudoso passo?
+Só ao teu lado, Ignez, socêgo encontro,
+Não existo senão quando te vejo.
+
+_Ign._ Quanto me adoras sei, Principe amado;
+Mais terno cada vez, mais extremoso,
+As tuas expressões meu pranto excitão;
+Porém d'amor agora não tratemos:
+Bradando estão deveres mais sagrados
+Que preencher te cumpre: antes de tudo
+Tenho, Esposo, hum favor que supplicar-te:
+Negar-mo-has tu, Senhor?
+
+_Ped._ ................ Ignez, que dizes?
+Tu, que tens na minha alma todo o imperio,
+Ah! Podes duvidar que eu te obedeça?
+
+_Ign._ Pois bem, Senhor, attende á tua Esposa,
+Ouve meus rogos, e a meus rogos céde:
+Se tu só junto a mim socêgo encontras,
+Tambem só junto a ti socêgo eu tenho;
+Porém quer o destino, o dever manda,
+Que te apartes de mim por algum tempo.
+
+_Ped._ Apartar-me de ti? Oh Ceos! Que escuto!
+Apartar-me de ti? Castro he quem falla?
+
+_Ign._ He Castro, sim, Senhor, aquella mesma,
+Que preza mais que tudo a tua gloria;
+Aquella, cujo brio não tolera,
+Que seja o terno amor, que lhe consagras,
+Motivo de infringires teus deveres.
+Bem o sabes, Senhor, em nenhum tempo
+Procurei ardilosa fascinante:
+Cedi ao teu amor, porque te amava,
+Porque em ti divisei huma alma terna,
+Alma que o Ceo formou para encantar-me,
+De todas as virtudes adornada.
+Agora pois te cumpre conserva-las,
+E a mim não consentir que as abandones:
+Eu de mim propria assaz me horrorizára
+Se visse que as perdias por amar-me.
+Não, Principe querido, eu te supplico
+Por este mesmo amor que a ti me prende,
+Que á Corte sem demora te dirijas,
+Onde teu Pai, talvez já fatigado
+De te chamar em vão, te espera ancioso.
+Obedecer aos Paternaes preceitos
+He lei da Natureza, he lei sagrada;
+Cumpri-la deves: vai...
+
+_Ped._ ............... Basta: Eu conheço
+Quaes meus deveres são, e sei cumpri-los;
+Sei que he devida aos Pais a obediencia;
+Mas igualmente sei que tem limites
+A Paternal, sagráda authoridade.
+Tenho pensado bem no que obrar devo:
+Justos motivos, que não sabes inda,
+Exigem que eu não cumpra as Regias ordens.
+Obedecêra a hum Pai, se Pai tivera...
+Mas eu não vejo mais do que hum tyranno
+Nesse que o ser me dêo...
+
+_Ign._ ................. Senhor, suspende:
+He teu Pai; muito embora cruel seja;
+Tu deves respeita-lo, e obedecer-lhe.
+
+_Ped._ Se quer que lhe obedeça, e que o respeite,
+Não me imponha preceitos deshumanos.
+
+_Ign._ Não prometeste ha pouco á tua Esposa
+Conceder-lhe o favor que te pedisse?
+
+_Ped._ Vê pois quando não posso comprazer-te,
+Se terei razões justas que me estorvem
+De obedecer a hum Pai!
+
+_Ign._ .............. Não póde have-las.
+
+_Ped._ Tyrannos... que nos julgão seus escravos!(6)
+Para nos flagellar o ser nos derão!
+
+ (6) _Sem attender a Ignez, transportado._
+
+_Ign._ Tu me fazes tremer.
+
+_Ped._ .................. Sabe em fim tudo.
+Affonso, e o Monarcha de Castella
+Acabão de firmar a nova alliança,
+Em que sem meu consenso contratárão,
+Qu'eu daria a Beatriz a mão de Esposo:
+Para este fim á Corte sou chamado.
+Affonso, não contente da violencia
+Que ao meu coração fez, quando forçado
+De rôjo me levou ante os altares
+Para unir-me a Constança em laço eterno,
+Pezado laço, que rompeo a morte;
+Não contente de haver sido o motivo
+De... Mas que digo? Não, ah! não foi elle;
+Eu em lhe obedecer fui o culpado:
+Que desenfrêe agora as suas iras;
+Que rogue, que ameace; mesmo quando
+Em secreto Hymenêo não estivessem
+Ligadas para sempre nossas almas,
+Debalde intentaria submetter-me
+A hum jugo que a vontade recuzasse,
+Reconheço porém que a pertinacia,
+O despotico orgulho de seu genio,
+Sem que attenda senão ao seu Tractado,
+Quererá que por força o desempenhe.
+Não convém descobrir nosso consorcio;
+E outra escusa qualquer que eu fosse dar-lhe
+D'irrita-lo inda mais só serviria.
+Agora julga pois se partir devo.
+Se me devo ir expôr, talvez... quem sabe!
+A faltar-lhe ao respeito inteiramente...
+Mas tu choras?.. Que vejo!.. Acaso temes?...
+
+_Ign._ Nada temo por mim, por ti só temo:
+Sim, quando vejo sobranceiros males,
+Por desditoso amor originados;
+Quando vejo engrossar a tempestade,
+Que me denota proxima ruina;
+Nem por isso me assusto: o que me afflige,
+He vêr hum Pai, hum Reino, e o proprio Esposo,
+Tudo por meu respeito alvorotado.
+Em situação tão ardua, e tão penosa,
+Té chego a desejar... (infeliz Castro!)
+Que o sacrosanto nó que a mim te prende,
+Este laço tão doce, e desejado,
+Dos bens o maior bem que Ignez possue,
+A ser possivel, hoje se rompesse,
+Só porque tu podesses livremente
+Obedecer a hum Pai, fazer ditosos
+Por hum feliz consorcio dois Imperios.
+Muito embora Beatriz te possuisse...
+Mas que digo? Ai de mim! Nos braços d'outra!..
+Nos braços d'outra vêr o amado Esposo!
+Ah! não... não posso tanto, antes a morte.
+
+_Ped._ He teu meu coração, será teu sempre.
+Os laços de Hymenêo são as mais debeis
+Prizões que a ti me ligão. Quando amamos,
+Desnecessarios são ritos, promessas:
+Mais força tem amor que os juramentos.
+Inda que ante os altares sacros votos
+De permanente fé, de amar-te sempre
+Não tivesse a teu lado proferido,
+Seria sempre teu, sempre te amára;
+Sem que jámais podesse força humana
+Separar corações, que amor uníra.
+
+_Ign._ Mas que, talvez em breve sopeados,
+Aos golpes da politica succumbão.
+
+_Ped._ Para lhe resistir basta o meu braço.
+
+_Ign._ O teu braço, Senhor, só deve armar-se
+Para emprezas mais dignas do teu nome:
+No lance melindroso em que nos vemos
+Convém, mais que os furores, a brandura;
+E apezar das razões que ponderaste,
+Julgo que deves dirigir-te á Corte;
+Pois talvez, se não corres a embarga-los,
+Teu Pai avance os começados passos
+Para as nupcias da Infanta de Castella,
+Na esperança de ser obedecido,
+E a ponto chegue que depois não possa...
+
+_Ped._ Sem lhe dizer porque, já fiz saber-lhe,
+Que taes nupcias jámais celebraria.
+
+_Ign._ Mas não fôra melhor...
+
+
+SCENA IV.
+
+_D. Pedro, Ignez, e D. Sancho._
+
+_Sanc._ ................... Senhor: ah! corre,
+Vem esperar teu Pai.
+
+_Ign._ .............. Oh Ceos!
+
+_Ped._ ...................... Que dizes?
+
+_Sanc._ Dirigido a Coimbra em veloz marcha
+Partio da Corte Affonso, aqui não tarda.
+
+_Ign._(7) Agora sim, minha desgraça he certa.
+
+ (7) _Fallando comsigo mesma._
+
+_Ped._ (8) Meu Pai? oh Ceos!.. meo Pai?
+
+ (8) _Pensativo, e admirado._
+
+_Sanc._ ........................ Coelho, e Pacheco,
+Seus crueis Conselheiros, o acompanhão:
+Toda a Corte, Senhor, em sobresalto
+Ficou co'esta partida inesperada:
+Mendonça que ligeiro vem trazer-te
+A importante noticia, assim o affirma:
+Murmura o Povo já de recusares
+As nupcias de Beatriz, que applaudem todos.
+
+_Ped._ Murmure muito embora, embora venha
+Armado de poder, ardendo em raiva,
+Da vingança, e das furias escoltado,
+Esse a quem por meu mal devo a existencia;
+Que, se intentar comigo ser tyranno,
+Ha de em seu filho achar hum inimigo
+Capaz dos mais tremendos attentados;
+Que em casos taes os crimes não são crimes,
+São forçoso dever das almas grandes.
+Espera-lo não vou.
+
+_Sanc._ ........... Senhor, que fazes?
+
+_Ped._ O que me apraz fazer.
+
+_Ign._ .................... Oh Ceos! Nem posso
+Das tuas expressões horrorizada,
+Soltar do coração tremulas vozes:
+Fallem por mim as lagrimas que choro...
+Não me consternes mais. Ah! vai, não tardes;
+Vôa a encontrar teu Pai, se ver não queres
+Estalar de afflicção a tua Esposa.
+
+_Ped._ (9) Eu vou satisfazer-te, sim eu parto;
+Vou rasgar do segredo a cauta venda:
+Saiba, sim, saiba Affonso antes que chegue
+Estes sitios a entrar, que Ignez habita,
+Que a deve respeitar como Princeza;
+Que inquebravel prizão a Ignez me liga.(10)
+
+ (9) _Depois de ficar hum pouco pensativo, diz resoluto._
+
+ (10) _Em acção de partir, e D. Sancho retendo-o._
+
+_Sanc._ Oh Ceos! Não faças tal, melhor discorre;
+Para lhe revelar hum tal segredo
+Occasião mais opportuna espera:
+A cólera azedar não vás de Affonso;
+No transporte cruel das suas iras,
+Bem sabes que he capaz...
+
+_Ped._ ................... De que? De nada:
+Mais de mim, do que eu delle, tremer deve...
+Se ousasse contra Ignez... Ah! nem pensa-lo.
+Para vingar o seu menor insulto
+Seria pouco todo o sangue humano.
+
+_Ign._ Bem me dizia o coração presago...
+Meu mal he sem remedio; o proprio Esposo
+He quem vai despenhar-me no sepulchro.
+Meus crueis inimigos não me assustão:
+O popular tumulto, hum Rei severo
+Nada temo, ai de mim! a ti só temo.
+Ah! Lembra-te, Senhor, do que juraste
+Antes de conduzir-me ás sacras Aras,
+Onde eu te não seguira, se primeiro
+Tu me não prometesses guardar sempre
+O devido respeito ao teu Monarcha,
+E a paz não perturbar dos seus Dominios:
+Tu não has de faltar, o tempo he este,
+Que eu já prevía então: oh caro Esposo!
+Lança do coração fataes transportes;
+Não percas tempo, vai, corre a prostrar-te
+Aos pés do grande Affonso; mas submisso,
+Ao beijar de teu Pai a mão augusta,
+Sobre ella de teus olhos chova o pranto.
+Pondera que te perdes, que me perdes,
+Se com elle furioso praticares;
+Só nos pode salvar docil brandura:
+Se não queres matar-me, sê submisso.
+
+_Ped._ O temor de affligir-te pode tudo.
+Respeitoso serei, terei brandura,
+Se elle brandura igual usar comigo.
+Nada temas, Princeza: Adeos. Eu juro
+Pelos Ceos outra vez, e por ti mesma,
+Que inda que o Mundo inteiro se me opponha,
+Castro ha de ser de Portugal Rainha.(11)
+
+ (11) _Parte._
+
+_Ign._ Não te apartes, D. Sancho, do seu lado:
+Moderem teus conselhos seus transportes.
+
+_Sanc._ Dai forças, justos Ceos, ás minhas vozes,
+Lançai a Portugal piedosas vistas.
+
+
+SCENA V.
+
+_Ignez só._
+
+Que temor, infeliz! de mim se apossa!(12)
+Caro Principe!.. Esposo!.. oh Deos, quem sabe
+Se a ver-te tornarão inda os meus olhos.
+Vai, ó Castro, abraçar-te aos caros filhos,
+E entrega-te nas mãos da Providencia.
+ (12) _Sem poder despregar os olhos do caminho que tomou D. Pedro._
+
+
+
+
+ACTO II.
+
+
+SCENA I.
+
+_D. Affonso, e D. Pedro._
+
+_Af._ Basta, Principe, basta: prescindamos
+De justas arguições, de escusas futeis;
+Não quizeste ir, vim eu. Quero esquecer-me,
+Perdoar quero mesmo as tuas faltas,
+Huma vez que obediente hoje as repares.
+Concluão-se estas nupcias proveitosas,
+Que para teu prazer, e a bem do Estado,
+Prudente contratei. Verás com gosto,
+Quando Lisboa entrares a meu lado,
+Com quanto regozijo o Povo todo,
+Teu consorcio applaudindo, a festeja-lo
+Com pompa jámais vista se prepara.
+Que doçura não he para os Monarchas,
+Espalhar alegria entre os Vassallos!
+Vê-los mandar ao Ceo ardentes votos,
+Pela conservação da Regia Prole,
+Que lhe segura a paz, a dita, a gloria!
+Vêr que as suas acções o Povo approva,
+E contente abençôa o seu Reinado,
+Curvando-se de grado ao leve jugo,
+Que sómente os máos Reis fazem pezado!
+Mil graças dou aos Ceos, pois satisfeitos
+Julgo estarão de mim os Lusitanos.
+E nada mais desejo que deixar-lhes,
+Em meu filho, outro eu, que sempre os ame,
+E que por elles seja sempre amado.
+Começa desde já neste consorcio
+A firmar o seu bem. Sim, hoje mesmo
+Deves partir comigo para a Corte,
+A fim de o celebrar, logo que chegue
+A Infanta de Castella, digno objecto
+Que escolhi para Esposa de meu filho.
+
+_Ped._ Ah! Que seja possivel, por meu damno,
+Que o melhor dos Monarchas do Universo,
+Igualmente não seja o Pai mais terno!
+Que hum Rei, que desvelado buscou sempre
+Fazer os seus Vassallos venturosos,
+Queira fazer seu filho desgraçado!...
+Contratares, Senhor, sem consultar-me
+Hum consorcio, ignorando se teu filho
+Pode, ou quer d'Hymenêo ás leis cingir-se!
+Se essa, que lhe destinas para Esposa,
+Pode ao seu coração ser agradavel!
+Acaso julgas tu desnecessaria
+A minha approvação para estas nupcias!
+Não será livre hum coração ao menos
+Na escolha d'huma Esposa, que amar deve...
+Ah! Não queiras, Senhor, com tal violencia...
+
+_Af._ Immudece, insensato; não prosigas
+Indignas expressões que me envergonhão...
+Bem conheço a razão porque assim pensas.
+Que indignos sentimentos, que fraqueza,
+Para quem deve hum dia ser Monarcha!
+Como, quando do Imperio as redeas tomes,
+Quando na mão a espada formidavel
+Da severa Justiça sustentares,
+Das paixões punirás o torpe effeito,
+Sendo tu proprio das paixões escravo?
+Como jámais serás obedecido,
+Se tu mesmo ao teu Rei desobedeces?
+Com quanta repugnancia os Portuguezes,
+Murmurando, verão no Luso Solio,
+Que de tantos Heróes tem sido assento,
+Hum Rei dado ás paixões, afeminado,
+Incapaz de empunhar o Sceptro augusto!
+
+_Ped._ Mas capaz de os reger, e defende-los.
+Se das grandes paixões sou susceptivel,
+A molleza detesto, bem o sabes:
+Quando cumpre, Senhor, em campo armado;
+Ensinado por ti, brandindo a espada
+Sei por acções mostrar que sou teu filho;
+Nem para ser bom Rei (Senhor, perdôa)
+Eu julgo necessario huma alma dura;
+Mas antes me persuado não devêra
+O que fosse insensivel reger Homens.
+Corações que á ternura se não rendem,
+Jámais sabem carpir alheios males;
+Nem doêr-se das lagrimas do afflicto.
+
+_Af._ Apagada a razão, cégo deliras;
+Isentos de paixões os Reis ser devem;
+Manão dos seus os publicos costumes:
+Se exemplificão mal os seus Estados,
+Os vicios dos Vassallos são seus vicios;
+Devem sacrificar os seus desejos;
+Ser comsigo crueis a bem dos Povos,
+Que o Ceo lhes confiou; e os que se ensaião
+Para lhes dar as Leis, devem mostrar-se
+Capazes destes nobres sacrificios.
+Os consorcios dos Principes são obra
+Dos int'resses do Estado, elles decidem,
+Elles dispõe de nós. Deixem-se ao Vulgo
+Caprichosos melindres com que exige,
+Que aos laços d'Hymenêo Amor presida.
+As doçuras de Amor para os Monarchas
+São de pouca valia: a nossa gloria
+Não se firma em tão fracos alicerces.
+
+_Ped._ Se aos que devem reinar he necessario
+Ceder dos privilegios, dos direitos
+Que a Natureza deo aos Homens todos;
+Por tal preço, Senhor, não quero o Throno!
+Laços formar, que o coração repugna,
+Origem de desgraças, e de crimes...
+Assaz o exp'rimentei... grilhões tão duros,
+Por tuas mãos lançados, longo tempo
+Com bem custo arrastei... Supportar outros...
+Ah! Não, Senhor, não posso.
+
+_Af._ ...................... Temerario!
+Basta já de soffrer hum filho ingrato.
+Se aos rogos, ás razões de hum Pai benigno
+Tu não queres ceder; cede aos preceitos
+De hum Monarcha severo, e justiçoso.
+Eu dei minha palavra, has de cumpri-la:
+Os tratados dos Reis não são falliveis:
+Debalde pois te oppões...
+
+_Ped._ ................... Mas ah! Pondéra...
+
+_Af._ Tenho em fim decidido. Acaso queres,
+Deixando de cumprir o meu Tratado,
+Entre os Povos soprar horrenda guerra?
+Queres vêr Portugal nadando em sangue?
+Contra nós conspirada a Europa inteira,
+Abraçando o partido de Castella,
+Vir vingar sua injuria? Ah!...
+
+_Ped._ ......................... Que recêas?
+Portugal vencedor, nunca vencido,
+Zombará do poder do Mundo inteiro.
+Tão ousada será, tão nescia a Hespanha,
+Que contra nós se atreva a mover guerra?
+Não ha de inda lembrar-se o seu Monarcha,
+Que te deve os Dominios que possue?
+Que ha bem pouco, cercado de inimigos,
+Vendo nas mãos o Sceptro vacillante,
+Mandou a propria Esposa, filha tua,
+A implorar-te que fosses soccorre-lo,
+Ou antes sobre o Throno sustenta-lo?
+E que do filial pranto commovido,
+Não contente em mandar-lhe tuas Tropas,
+Tu proprio á testa dellas generoso
+Quizeste ir debellar seus inimigos,
+E segurar-lhe a C'roa na cabeça?
+Ha de offender quem soube defende-lo!
+Quem pode, apenas queira, anniquila-lo?
+Não; quem vio pelejar, ao teu commando
+Nas margens do Salado os Portuguezes,
+A atacar Portuguezes não se atreve;
+E se o tanto chegar a sua insania,
+Á maneira dos seus antepassados,
+Chorando o opprobrio de ficar vencido,
+Caro lhe custará seu louco arrojo.
+Oxalá que elle á guerra nos convide!
+Poderia teu filho então mostrar-te,
+Que te sabe imitar quando he preciso,
+Novos louros cingindo ao teu Diadema.
+
+_Af._ Que desatino! Oh Ceos!.. Eu me envergonho
+De te haver dado o ser: de te ouvir tremo...
+Tristes Vassallos meus, amados filhos,
+Que Monarcha vos deixo sobre o Throno!
+Tu desejas a guerra? Esse flagello,
+Que envergonha, e devasta a Humanidade?
+O capricho dos Reis que imposta aos Povos?
+Ouve as lições de hum Pai, posto que iroso
+Só devêra tractar do teu castigo.
+Eu não posso deixar quando te escuto,
+De reprender-te, ó filho, e de ensinar-te:
+Talvez por ti mandado á sepultura,
+Bem depressa no Throno me succedas;
+Não te esqueças então dos meus dictames:
+Poupa o sangue dos miseros Vassallos,
+Do mais infimo delles préza a vida
+Outro tanto que a tua; teme a guerra,
+Que ao proprio vencedor sempre he funesta:
+No meio do triunfo os bons Reis chorão.
+Nessa mesma tão célebre batalha,
+Que julgas me cingio de louro eterno,
+Quando juncavão do Salado as margens
+Os montões de cadaveres sem conto
+De infieis derrotados inimigos;
+Por perder trinta só dos meus Soldados,
+Muito cara julguei esta victoria,
+E, dentro de mim proprio recolhido,
+Mais pranto derramei, do que elles sangue.
+Os Reis devem ser Pais de seus Vassallos;
+Nada mais que o seu bem deve importar-lhes...
+Elle exige estas nupcias, que te ordeno;
+Suas vozes escuto, e não as tuas.
+Já te disse que dei minha palavra,
+E torno-te a dizer que has de cumpri-la.
+Affonso he teu Monarcha: mando, e basta.
+Hoje mesmo comigo para a Corte
+Vê que deves partir, vai preparar-te.
+
+_Ped._ Teus passos seguirei, porém debalde...
+Celebrar o consorcio que pertendes...
+Quizera obedecer-te, mas não posso...
+Sem que te diga mais, assaz te digo.
+
+
+SCENA II.
+
+_D. Affonso só._
+
+He possivel, oh Ceos, que assim meu filho
+Temerario resista aos meus preceitos!..
+Que cegueira! Que arrojo! He necessario
+Desarraigar-lhe d'alma por violencia
+A funesta paixão que o traz de rojo:
+Mas de que modo?.. Cumpre medita-lo...
+Seja em fim como for, desempenhado
+Meu Tratado ha de ser: o ingrato filho,
+Em vez de hum Pai benigno, hum Rei severo
+Ha de encontrar em mim. Oh lá, D. Nuno.(13)
+
+ (13) _Chamando._
+
+
+SCENA III.
+
+_D. Affonso, e D. Nuno._
+
+_Nun._ Que me ordenas, Senhor?
+
+_Af._ ....................... Os Conselheiros
+Vai chamar... mas espera, ahi vem Pacheco.
+
+
+SCENA IV.
+
+_D. Affonso, Pacheco, e D. Nuno._
+
+_Af._(14) Quem tal dissera, Amigo! Eu me envergonho
+Sómente de o pensar: o iroso aspecto
+De hum Monarcha, de hum Pai, razões, ameaços
+Nada bastante foi: ousa o rebelde
+Ás nupcias recusar-se, aos meus preceitos;
+Mas ha de obedecer-me, aos Ceos o juro.
+Os meios estudemos, que efficazes
+A sua contumacia vencer possão:
+Se necessario for, inexoravel,
+Rigoroso serei.
+
+ (14) _D. Affonso se dirige a Pacheco, e D. Nuno se afasta para o
+ fundo da Scena._
+
+_Pach._ ......... Dever funesto
+He, Senhor, na verdade, o de hum Vassallo,
+Que fiel ao seu Rei, bem que sensivel,
+Na precisão se vê de supplicar-lhe,
+Que suffoque a piedade, e que castigue...
+Mas o int'resse do Estado, e mais que tudo
+O decoro do Throno assim o exigem.
+De incorrupta lealdade claras provas
+Eu protesto dar sempre ao Rei, e á Patria.
+Longe de desculpar, porque he teu filho,
+Do Principe a Paixão, funesta origem
+Da sua contumacia; com franqueza
+Direi meus sentimentos, sem que possa
+Tolher-me as expressões o temor justo
+De perder o favor, de ser odiado
+De hum Principe que adoro, e que respeito.
+Se queres que teu filho te obedeça,
+Corta a indigna prizão que maniatado
+O coração lhe traz, e que o estorva
+De entrar em seus deveres: pune, extingue
+Esse objecto fallaz que a alma lhe encanta:
+De contrario, Senhor, serão baldados
+Outros meios quaesquer que projectares.
+
+_Af._ Seja punida, sim, seja punida
+Mulher que tantos males origina;
+Que impera mais do que eu, e que se atreve
+A usurpar-me do filho a obediencia.
+Seu crime... Mas que digo!.. por ventura
+Não he meu filho mais culpado qu'ella!
+Serei eu parcial punindo Castro,
+Sem que seja igualmente castigado
+Quem deve mais do que ella ser punido?
+
+_Pach._ O Principe he teu filho, tanto basta
+Para ser absolvido, e desculpado:
+A condição d'Ignez he mui diversa.
+
+_Af._ Não puno condições, puno delictos.
+Antes de tudo interroga-la devo.
+D. Nuno, chama Ignez.(15) Ouvi-la quero,
+Sondar seu coração; depois veremos
+Se he digna de castigo.
+
+ (15) _Parte D. Nuno._
+
+_Pach._ ................ Ah! Se attenderes
+Suas vozes, Senhor, suas escusas,
+Por seu astuto pranto subornado,
+Deixarás por piedoso de ser justo.
+Quem foi capaz de fascinar o Filho,
+Pode o Pai fascinar. Arte impostora
+A peitos feminís Amor suggere:
+Quando as abraza criminosa chamma,
+Negão as expressões o que a alma sente,
+E c'o auxilio das lagrimas convencem.
+Attende, attende só ao bem do Estado,
+Ao exemplo que deves ao teu Povo,
+Que, murmurando já, talvez se azede
+Se vir que em nova guerra o precipita
+Do Principe a paixão escandalosa.
+Não soffrerá Castella a grave affronta
+De ser, do seu Tratado em menoscabo,
+Por teu Filho Beatriz repudiada:
+E o consorcio D. Pedro não celebra,
+Sem que até da lembrança Ignez lhe affastes.
+Atalha em quanto podes tantos males:
+Muitas vezes punir he ser piedoso.
+
+_Af._ Tu me fazes entrar nos meus deveres.
+Para me resolver a castiga-la
+Basta o bem do meu Povo que me lembras.
+No coração de hum Rei digno do Throno,
+Se os int'resses do Estado a voz levantão,
+Compaixão, amizade, natureza,
+Tudo, tudo immudece. Exterminada,
+Em remota clausura Ignez reclusa,
+Da presença do Principe se affaste:
+Não torne a ver meu filho essa que o céga,
+Em quanto, da razão accêso o facho,
+As tochas de Hymenêo arder não faça;
+E se isto não bastar, mão lançaremos
+De outro mais efficaz, duro remedio.
+
+_Pach._ Não bastará talvez; por mais que seja
+Recatado, e remoto qualquer sitio,
+Que para o seu desterro escolher possas,
+Lá mesmo irá teu Filho arrebata-la.
+Eu calo o mais que sinto, e só te lembro
+Que a quereres com ella ser piedoso,
+Poupando-lhe hum maior, justo castigo,
+De Portugal ao menos a desterres.
+Occasião, Senhor, tens opportuna
+De envia-la ao Monarcha de Castella,
+Que zeloso da filha no decoro,
+Guardará providente em segurança
+A rival que se atreve a disputar-lhe
+O coração do Principe. Este arbitrio
+Segue pois, se te apraz, bem que inda o julgo
+Para tão grande mal remedio fraco.
+
+_Af._ Seguirei teu conselho; porém antes
+Já de brandura usando, já de ameaços,
+Quero tentar o coração de Castro;
+Vêr se a posso mover a que ella mesma
+As chammas que accendeo apagar busque...
+Mas ella para aqui já se encaminha.
+
+
+SCENA V.
+
+_D. Affonso, Ignez, Pacheco, e D. Nuno._(16)
+
+ (16) _Pacheco afasta-se para o fundo da Scena, logo que Ignez se
+ chega ao Rei, e D. Nuno que a conduz te retira._
+
+_Ign._ Eu desfalleço... Oh Ceos... Excelso Affonso,
+Permitte que a teus pés Ignez prostrada...(17)
+
+ (17) _Prostra-se aos pés do Rei._
+
+_Af._ Levanta-te, ardilosa. Não he digna
+De beijar a Mão Regia huma vassalla,
+Que a perpetrar se atreve altos delictos.
+
+_Ign._ Eu perpetrar delictos! Quaes são elles?
+Fiel sempre ao meu Rei, vassalla humilde,
+Ignoro em que offendesse a Magestade.
+
+_Af._(18) Além de criminosa, inda impostora!..
+A fallaz artificio em vão recorres.
+De sobejo sciente do teu crime.
+Tua simulação mais me enfurece:
+Ousarás tu negar que amas meu filho?
+
+ (18) _Contemplando-a iroso._
+
+_Ign._ Não, Senhor, a nega-lo não me atrevo...
+Nem, por mais que eu quizesse, poderia
+Deixar de confessar o que os meus olhos,
+O rubor de meu rosto assaz te explicão:
+Sim, se he delicto amar, e ser amada,
+Meu coração, Senhor, he criminoso...
+Mas eu não sou culpada.
+
+_Af._ .................. Que proferes?
+Se confessas tu mesma o teu delicto,
+Dizes não ser culpada?
+
+_Ign._ ................ Sou ingenua.
+Em chamar-me impostora te enganaste:
+Tenho-te dicto assaz... e mais dissera,
+Se licito me fosse.
+
+_Af._ .............. Acaba, dize:
+Que cegueira fatal, que louco arrojo,
+Vãs, altivas idéas te inspirárão?
+Como intentaste ousada ter imperio
+No coração d'hum Principe? Não vias
+A distancia empinada, inaccessivel,
+Que do teu berço vai ao Throno excelso?
+
+_Ign._ Quando amante paixão nos predomina,
+Offuscada a razão, a ninguem lembrão
+As distincções fataes do berço, e sangue.
+São iguaes ante amor os mortaes todos:
+De virtude sómente se enamora
+Huma alma virtuosa: só virtudes
+Convidárão Ignez a amar teu filho.
+
+_Af._ E atreves-te a fallar inda em virtude?
+Não profanes palavra tão sagrada;
+Antes dize que estólida esperança,
+Avidez de reinar, te fez culpada.
+Talvez da minha já cançada vida
+Contando os longos importunos dias,
+Te tardava o momento suspirado,
+Em que, baixando Affonso á sepultura,
+Vazio o Throno, aos teus desejos franco,
+Te cingisse o Diadema a indigna fronte.
+
+_Ign._ Que injustiça!.. Minha alma não conheces,
+Não conheces de amor o desint'resse:
+Quem ama, só deseja ser amado.
+E a par de hum coração como o de Pedro,
+Os Diademas que são? Que vale o Mundo?
+Quem de seu terno peito o imperio obteve,
+Mais imperio não quer: nem se deslumbrão
+As almas grandes c'o esplendor do Throno.
+Quando a amor succumbi, do Solio estava
+Mais longe que o meu berço a minha idéa;
+Por isso não medi como devêra
+A declive distancia que os separa;
+Mas hoje a vejo assaz, e mais deploro
+A condição do Principe, que a minha;
+Quizera que tivesse antes nascido
+Vassallo o meu amante, que eu Princeza:
+Longe de o cobiçar, detesto o Throno:
+Nelle diviso só barreira odiosa,
+Que entre peitos sensiveis sorte adversa
+Alçou para que nunca unir-se possão...
+Sei que sou infeliz... e o serei sempre.
+
+_Af._ Podes inda evitar maior desgraça;
+Quem logo que o conhece o crime atalha,
+A innocencia recobra. Extingue, ó Castro,
+As criminosas chammas que sopraste;
+Quanto são detestaveis não ignoras,
+E bem vês que nutri-las mais não podes.
+Antes pois que do Principe te affastes,
+(A tão graves delictos leve pena,
+Que hum benigno Monarcha te destina)
+Teu completo perdão merecer busca.
+Tu mesma de seus erros o dissuade,
+E o convence a cingir-se aos dignos laços
+Do plausivel consorcio que lhe ordeno:
+Concorre para o público socego,
+Em vez de o perturbar: não exacerbes
+Pertinaz em teu crime as minhas iras.
+Teme o castigo atroz de que és credora,
+Se ao coração do Principe as que urdiste
+Prisões abominaveis não desatas.
+
+_Ign._ Muito exiges de mim!.. Ah! Se eu podesse
+As algemas romper que nos vinculão,
+Só por te obedecer (crê-me) o fizera:
+Mas como n'hum momento arrancar posso
+Do peito de teu filho sentimentos,
+Que amor, e sympathia originárão?
+Para sempre deixar a terna amante,
+E subito ir lançar-se em braços de outra!..
+Se elle tivesse huma alma tão voluvel,
+Por ama-lo increpada eu não seria?
+Que proferi?.. Deliro... Oh Ceos... Perdôa...
+Perdôa-me, Senhor, talvez o tempo...
+Extinguir poderá... Não sei que digo.
+
+_Af._ Basta: immudece já, mulher soberba.
+De sobejo em tua alma tenho entrado.
+Ousas alardear, ante mim proprio,
+Do mais nefando crime! Ah! que castigos
+Bastarão a punir teus attentados!
+Tudo quanto ha de horrivel...
+
+
+SCENA VI.
+
+_D. Affonso, Ignez, Coelho, e Pacheco._
+
+_Coel._ ...................... De Castella
+Embaixador chegou, que Audiencia pede.
+
+_Af._ Entrar póde.
+
+
+Scena. VII.
+
+_D. Affonso, Ignez, e Pacheco._
+
+_Af._ .......... Retira-te atrevida;
+De meus olhos te affasta; vai, que em breve
+Te serão minhas ordens intimadas.
+
+_Ign._ Humilde, e respeitosa hei de cumpri-las.
+Mas só te rogo que, antes de punir-me,
+Te dignes sem paixão sondar meu crime;
+Pois se pezares bem os meus delictos,
+Espero que me julgues desculpavel.(19)
+
+ (19) _Retira-se Ignez, e D. Affonso fica pensativo, em quanto
+ Pacheco falla._
+
+
+SCENA VIII.
+
+_D. Affonso, e Pacheco._
+
+_Pac._ Que insolente altivez ostentar ousa!..
+Eu te lamento, ó Rei, quando te vejo
+Na dura precisão de repellires
+Da tua alma os impulsos compassivos,
+Constrangido a punir asperamente,
+Para evitar terriveis consequencias.
+
+
+SCENA IX.
+
+_D. Affonso, Coelho, Pacheco, e o Embaixador._
+
+_Emb._ A Filha do meu Rei, que te saúda,
+Já dos Dominios teus piza as fronteiras;
+Mas o boato geral de que teu filho,
+Por violenta paixão allucinado,
+De Beatriz ao consorcio se recusa,
+Aos ouvidos chegou do meu Monarcha,
+Que me ordena te diga, e te assegure,
+Que se com tal repulsa, em seu desdouro,
+O Tractado solemne for violado,
+(O que elle não espera) dignamente
+Saberá sustentar a toda a força
+O decoro da filha, e do seu Throno.
+
+_Af._ Dize da minha parte ao teu Monarcha,
+Que para dissipar seus vãos receios,
+Bastaria lembrar-se que os Reis Lusos,
+Fidelissimos sempre, seus Tractados
+Sabem desempenhar: não porque temão,
+Quaesquer que sejão, estrangeiras forças;
+Mas por dever, por gloria, e por costume.
+E para lhe mostrar como procedo,
+Hoje mesmo desterro de meus Reinos,
+E á sua guarda entrego Ignez de Castro,
+Que elle julga estorvar da Infanta as nupcias.
+Podes certificar-lhe, que consorte
+Ha de meu Filho ser da Filha sua.
+
+_Emb._ Nem era de esperar que hum Rei tão sabio
+Procedesse jámais d'outra maneira,
+Prompto vou expedir ao meu Monarcha
+A plausivel resposta, que lhe envias.
+
+
+SCENA X.
+
+_D. Affonso, Coelho, e Pacheco._
+
+_Af._ Sem demora, Pacheco, apromptar faze,
+Para Ignez conduzir, segura escolta:
+Vai, Coelho, dizer-lhe que se apreste:
+Partirá hoje Ignez para Castella,
+E meu filho comigo para a Corte.
+
+_Coel._ Oxalá que assim seja! Mas duvido.
+Em castigar avaro em demasia,
+Além de ser, Senhor, simples desterro
+Aos delictos de Ignez pena mui leve;
+Receio que de horriveis attentados
+Seja origem fatal este projecto.
+Fôra talvez melhor lançar mão logo
+Dos efficazes, ultimos remedios.
+Eu conheço o caracter de teu filho:
+Mal souber que roubar-lhe Ignez intentas,
+Dos filiaes deveres esquecido,
+Com braço armado, temo que se atreva
+Contra seu proprio Pai.
+
+_Af._ .................. Nem tal profiras:
+Não faças a meu filho essa injustiça:
+De tão feio attentado basta a idéa
+Para me horrorisar. Ide ligeiros
+Fazer que as minhas ordens se executem.
+Ah! Se alguem se atrevesse a contravi-las,
+Seu tremendo castigo serviria
+De memorando exemplo ao Mundo inteiro.
+
+
+
+
+ACTO III.
+
+
+SCENA I.
+
+_Ignez só._
+
+Miseranda!.. Que trance! Oh desventura!..
+Oh sentença, cruel!.. Venceste, ó Fado.
+Apraziveis lugares, testemunhas
+Do mais ardente amor, ah, para sempre
+A malfadada Ignez de vós se aparta...
+Quanto fôra melhor, quanto mais doce
+Deixar a vida, que deixar o amante!
+Que!.. Eu... deixar o amante?.. Oh caro Esposo!..
+Oh Ceos! podeis manda-lo, ou permitti-lo?
+Sereis tambem crueis como os humanos?
+Condemnareis os mesmos, que soprastes,
+Sentimentos d'Amor, da Natureza?
+Para hum castigo tal quaes são meus crimes?..
+Se me queres punir, Deos de vingança,
+Os raios tens nas mãos, accende os raios,
+Meu terno coração reduze ao nada;
+Mas d'outro coração, a que o ligaste,
+Separa-lo jámais... Ah! nem tu mesmo,
+Nem tu, que podes tudo, tanto podes...
+Que proferes, blasfema! Aos Ceos te atreves?..
+Oh virtude! Oh razão! Desamparais-me?..
+Onde, Ignez, onde está tua constancia?
+Aos teus deveres torna, entra em ti mesma.
+Orgão do Ser Supremo, hum Rei te ordena,
+Que do Esposo te apartes; não resistas;
+He força obedecer; enfrêa n'alma,
+Suffoca as afflicções, cala os queixumes:
+Co'as desgraças os crimes não mistures:
+Mas deixa-lo!.. Ai de mim... Deixa-lo!.. Agora,
+Agora he que eu conheço as furias todas,
+Toda a força d'amor: elle triunfa
+Da razão, da virtude, e dos Ceos mesmo.
+
+
+SCENA II.
+
+_Ignez, e Elvira._
+
+_Elv._ Senhora... (Ai triste!.. o pranto me suffoca!)
+Se he certo que impias ordens te condemnão
+A deixar Portugal, a triste Elvira,
+Que protestou viver, morrer comtigo,
+Sempre junto ao teu lado, a qualquer parte
+A que te arroje a sorte, ha de seguir-te:
+Confio que esta graça me concedas.
+
+_Ign._ Ah! Não venhas juntar aos meus pezares
+O quadro da Amizade consternada:
+Para esmagar-me o coração sensivel
+Bem basta Amor, a Natureza basta.
+Não posso resistir a tantos males,
+Aos golpes da saudade que retalhão
+Da atribulada Ignez o peito afflicto.
+Mais pranto com teu pranto não me arranques,
+Que a hum terno coração inda mais custão
+As lagrimas que move, que as que verte.
+He mesmo o ser amado hum bem funesto,
+Que exacerba a desgraça aos desgraçados.
+
+_Elv._ He possivel haver almas tão duras,
+Que hum tão sensivel coração flagellem!...
+Mas ah!.. Porque aos pezares succumbimos?
+D. Pedro he teu Esposo; elle ha de oppôr-se
+Defensor poderoso em teu soccorro;
+Ha de frustrar da tyrannia as ordens;
+Nelle pois confiemos: a excita-lo
+Bastarão tuas lagrimas...
+
+_Ign._ ................... Que dizes!
+Que terrivel idéa me despertas!
+Em vez de confortar-me, vens, Elvira,
+Abater-me a constancia, aconselhar-me
+A que contra seu Pai revolte hum filho?..
+Ah! Não... Embora Ignez infeliz seja;
+Mas nunca origem de rebeldes crimes:
+Amortecida já, mas inda accesa
+Brilha a luz da razão dentro em minha alma.
+Não consintas, oh Ceos, que amor a apague;
+Fortalecei meu peito. Sim, eu devo,
+Eu devo submetter-me ao meu destino:
+Cumprão-se as duras leis do duro fado:
+Amargurada irei longe do Esposo
+Acabar entre as garras da saudade...
+Porém os caros filhos... Ah! comigo,
+Comigo os levarei. Doces penhores
+Do mais constante amor, sereis ao menos
+Na minha adversidade terno allivio...
+Entre os meus braços sempre, sempre unidos
+Da inconsolavel Mãi ao peito anciado,
+Cobertos de caricias, de suspiros,
+Banhados com meu pranto, em seus semblantes
+O semblante verei do Esposo ausente.
+Aprenderão de mim... Mas ah! Que digo!..
+Quereria eu acaso, associando
+Ao pavoroso horror do meu destino
+O destino dos filhos innocentes,
+Tolher sua ventura?.. Não; entregues
+De seu Pai aos desvelos, abrigados
+Á sua sombra fiquem; lembrem-lhe elles
+A miserrima Ignez continuamente...
+O retrato da Mãi nos filhos veja,
+Que eu memorias do Esposo não careço;
+No coração gravada a sua imagem,
+Ante os meus olhos sempre ha de seguir-me,
+Ha de, em quanto viver, viver comigo,
+E comigo baixar á sepultura.
+
+
+SCENA III.
+
+_D. Pedro, Ignez, e Elvira._(20)
+
+ (20) _Ignez, apenas vê D. Pedro, busca enxugar as lagrimas. Elvira
+ affasta-se para o fundo da Scena, e pouco depois se retira._
+
+_Ped._ Ignez, querida Esposa... Mas que vejo!..
+Debalde buscas enxugar teu pranto:
+Aos olhos de hum amante nada escapa.
+Impressas no teu rosto bem diviso
+As afflicçôes, que o coração me partem.
+Que motivo... Mas devo eu pergunta-lo?
+Não sei assaz a origem dos teus males?..
+Eu sou, sim, sou eu mesmo o teu flagello;
+Mas o teu defensor, o teu Esposo:
+Nada receies pois, nada te afflija...
+Porém as tuas lagrimas se dobrão?..
+Oh Ceos!..
+
+_Ign._ .... Amado Esposo, não repares,
+Não te afflijas co'as lagrimas que choro:
+As tuas expressões, tua presença
+Aggravão minha dor, meu pranto augmentão.
+Ah! pelos tristes olhos sahir deixa
+Meu coração em lagrimas desfeito.
+
+_Ped._ Antes em borbotões todo o meu sangue
+Eu quero ver correr, do que o teu pranto.
+De tua alma desterra vãos temores,
+Extermina os pezares, não succumbas
+A males transitorios que te opprimem.
+Os caprichos do Fado, a desventura
+Calcaremos aos pés: sim, cara Esposa,
+Sempre unidos seremos venturosos.
+
+_Ign._ Unidos dizes tu!.. Oh Ceos!.. Unidos?..
+
+_Ped._ Pois quem, quem poderia separar-nos?
+
+_Ign._ O rigor... Ai de mim! Que vou dizer-te?..
+Que raio a triste Ignez vai fulminar-te?..
+Poupar teu coração, oh Ceos, quizera;
+Porém eu a deixar-te não me atrevo,
+Sem que te diga adeos... Ah! caro Esposo!
+Aperta-me em teus braços, e recebe
+As minhas derradeiras despedidas.
+
+_Ped._ Que escuto!.. Que acontece?.. Ignez, que dizes?
+
+_Ign._ Para sempre de ti vou separar-me.
+
+_Ped._ Separar-te de mim!
+
+_Ign._ ................. Atroz conflicto!..
+Caro Principe, Esposo, não te esqueças
+Da desditosa Ignez... Mas ah! Que digo!
+Esquece-me se podes; sê ditoso;
+Vive, vive feliz. Eu só te rogo,
+Que dos queridos filhos te encarregues;
+Que affagues sua infancia, que os ampares;
+Que os defendas da inveja, da impiedade:
+Não cogites de mim, delles só cuida,
+He forçoso ceder ás leis do Fado:
+Longe de ti, mirrada de saudades,
+Vou exhalar meus ultimos suspiros.
+
+_Ped._ Oh desesperação! Que idéa horrivel
+Surge dentro em minha alma! Acaso (eu tremo!)
+Atrever-se-ha meu Pai...
+
+_Ign._ .................. Aos seus preceitos
+Obedecer devemos: intimados.
+Me forão já: de Portugal banida,
+Partir devo hoje mesmo para Hespanha.
+
+_Ped._ Oh Furias! He possivel? Rei tyranno,
+Não levarás ávante os teus projectos...
+Nem elle, nem os Ceos, nem os Infernos
+Poderão arrancar-te de meus braços.
+Desengana-lo vou, parto a fallar-lhe:
+Trema o cruel de mim, se não revoga
+A barbara sentença.
+
+_Ign._ ............. Oh Ceos! Que fazes?
+
+
+SCENA IV.
+
+_D. Pedro, Ignez, e D. Sancho._
+
+_Sanc._ Teu Pai, Senhor, te busca: tudo prestes
+Para voltar á Corte... Mas que vejo!
+Elle mesmo he que vem.
+
+_Ped._ ................ Querida Esposa,
+Retira-te, eu to rogo... Nada temas.
+
+_Ign._ Eu me retiro, sim; mas só te imploro,
+Que te lembres que és filho, e que és vassallo.
+
+_Ped._ Mas Esposo tambem, que he mais que tudo.
+
+
+SCENA V.
+
+_D. Affonso, D. Pedro, e D. Sancho._
+
+_Af._ Então, quem nestes sitios te demora?
+Eia, segue-me já.
+
+_Ped._ ........... Quem, eu!.. Seguir-te?..
+Abandona-la! Não, não te obedeço.
+
+_Af._ Que escuto, oh Ceos!
+
+_Ped._ .................. Inda não disse tudo.
+Attende-me, Senhor: he necessario
+Declarar-me comtigo; o véo se rasgue;
+He tempo, he tempo em fim que me conheças.
+Entra em meu coração desesperado,
+De virtudes capaz, capaz de crimes,
+Se a crimes o excitar a tyrannia.
+Sabes que adoro Ignez, e projectavas
+Rouba-la ao meu amor? Que infernal furia
+Te aconselha a punir huma innocente,
+Que he só culpada, se a virtude he crime?
+E esperavas acaso que eu podesse
+Covarde tolerar seu menor damno,
+A injustiça maior, sem defende-la,
+Sem oppôr-me aos designios da impiedade?
+Eu fôra dos mortaes o mais abjecto,
+Se deixasse opprimir...
+
+_Af._ .................. Ah! Não prosigas:
+Immudece, rebelde. Não sei como
+Reprimir posso a colera... Que arrojo!..
+Ousas tu murmurar dos meus Decretos?..
+
+_Ped._ Não só murmuro, atrevo-me a frustra-los.
+A razão, e os Ceos mesmos me authorisão.
+Defendendo a minha Esposa.
+
+_Af._ ..................... A tua Esposa!..
+
+_Ped._ A minha Esposa, sim. Sabe que os laços
+Do sagrado consorcio a Ignez me ligão.
+Intentarias pois inda opprimi-la?..
+
+_Af._ Não julgues illudir-me, não te creio:
+A tão subtil ardil em vão recorres.
+Que! Esposa de meu filho huma vassalla!..
+
+_Ped._ Huma vassalla, sim, para quem fôra
+Do Mundo todo o Imperio inda pequeno:
+Não duvides, Senhor. Que encontras nella
+Que indigna de teu filho julgar possas?
+Eu não quero fallar do Regio sangue,
+Que, dos teus ascendentes derivado,
+Lhe circula nas veias: outros dotes
+Mais bellos, mais sublimes a ennobrecem:
+Vassalla, a quem os Ceos prodigos derão
+Todas as perfeições que os Ceos dar podem,
+Para ser do teu filho digna Esposa,
+Ser filha de Monarchas não precisa.
+Se Ignez he virtuosa, que lhe falta?
+Quem mais digna do Throno que a Virtude!
+Mas dos seus predicados prescindamos.
+Castro he minha Consorte, tanto basta;
+He Princessa, por tal a reconhece,
+E o decoro lhe guarda de que he digna.
+
+_Af._ Sim, tratada será como merece...
+Brevemente o verás.
+
+_Ped._ ............. Olha o que fazes...
+Não queiras constranger-me inexoravel
+A perpetrar horriveis attentados:
+Se como Pai benigno, e Rei clemente
+Praticares comigo, has de em mim sempre
+Encontrar hum Vassallo respeitoso,
+E hum filho obediente; mas se acaso
+Insistes em roubar-me a cara Esposa,
+Hum mortal inimigo em mim contempla,
+Que cégo, furioso, e desesp'rado,
+Sem attender senão aos seus transportes,
+Será capaz de horrendos sacrilegios.
+Evitando-os, atalha huma injustiça:
+Revoga pois a barbara sentença.
+
+_Af._ Sim, por outra mais justa, revogada
+(Descança.) ella vai ser. Espadanando
+Ha de ver teu coração da infame o sangue
+As chammas apagar que te devorão.
+
+_Ped._(21) Primeiro que o seu peito a ferir chegues,
+Hão de ser-me as entranhas arrancadas:
+Ha de em rios correr todo o meu sangue
+E o teu sangue tambem, se for preciso.
+
+ (21) _Desesperado._
+
+_Af._ Oh Ceos!.. Tremo de horror!..
+
+_Sanc._ .......................... Senhor, que fazes?
+Ousas contra teu Pai?
+
+_Ped._ ............... Ah! Que proferes?
+Pai? Eu tenho inda Pai?..(22) Nao, não, tyranno,
+Tu meu Pai já não és: não sou teu filho...
+Hum cruel como tu... Porém que digo!..
+Com quem fallo?.. Onde estou?.. Quem me arrebata!
+O inferno, as furias todas me espedação...
+Quem falla não sou eu, trovejão ellas...
+Sacrilego!.. que fiz!..
+
+ (22) _A D. Affonso, no mesmo frenetico arrebatamento._
+
+_Af._ .................. Ceos, estais surdos!..
+Onde os raios estão, que inda não chovem
+Sobre hum monstro, que tanto os desafia?
+Vingança!.. Maldições!..
+
+_Ped._ .................. Tudo mereço.
+Ah! Se os Ceos inda immoveis não fulminão,
+He talvez que, assombrados de escutar-me,
+A desprender os raios não se atrevem.
+Debaixo de meus pés tremendo a terra,
+Quer abrir-se, e não ousa devorar-me...
+Até mesmo os abysmos se horrorisão
+De hum monstro, que soltou tantas blasfemias...
+Oh terror!.. Oh remorsos!.. Crime horrendo!..
+Mas sabe o Ceo, Senhor, que, involuntarias,
+Não teve o coração parte nas vozes,
+Que por meus labios despejou o Inferno...
+O Inferno todo, que no peito encerro.
+Não me julgues capaz... Porém que digo!..
+Infeliz!.. Desculpar-me intento ainda?..
+Horror da Natureza, e de mim proprio,
+Nem me atrevo, Senhor, a supplicar-te
+O perdão... Não, eu delle não sou digno.
+Do pezo da existencia me allivia;
+Vinga da Natureza as leis sagradas,
+O respeito devido á Magestade,
+Que atropellei feroz: eterno exemplo
+Tu deves dar em mim ao Mundo inteiro.
+Salpicadas de sangue estas paredes,
+Que ouvírão minha voz blasfemadora,
+Aos seculos vindouros apregoem
+Meu lastimoso fim: ao vê-las tremão
+As Gerações futuras de imitar-me.(23)
+Eis-me a teus pés prostrado: vibra o ferro;
+Eis meu peito, retalha-o: não te lembres
+Que foste já meu Pai... sou delinquente:
+Lembra-te só que és Rei, castiga o crime.
+Porém... ah! não flagelles a virtude...
+Se me deves punir como culpado,
+Ignez como innocente absolver deves.
+Não me custa morrer; porém não posso,
+Não posso consentir que Ignez padeça...
+Nem ha de padecer em quanto eu viva.
+Pertender separar-nos he debalde;
+Té duvido que a morte possa tanto...(24)
+Releva ao meu amor estes transportes...(25)
+Eu sou sensivel... amo... e sou amado.
+
+ (23) _Prostra-se aos pés de Affonso._
+
+ (24) _Tornando em si._
+
+ (25) _No tom mais pathetico._
+
+_Af._ Todos os meus sentidos perturbados,
+Cheio de ira, e de horror... nem fallar posso...
+Affastem-me da vista esse rebelde.
+Ao proximo Castello conduzido,
+Seja em prizão segura afferrolhado:
+Sua guarda, D. Sancho, eu te confio;
+Em quanto justiçoso, inexoravel,
+Em Conselho d'Estado não decido
+Qual ser deva o castigo de seus crimes,
+E o supplicio da infame, que os motiva.
+Treme do meu furor, malvado, treme:
+Este dia talvez, dia horroroso!
+Será na longa serie das idades,
+De eterno espanto a Portugal, e ao Mundo.
+
+
+SCENA VI.
+
+_D. Pedro, e D. Sancho._
+
+_Ped._ Inda mais horroroso do que pensas
+Certamente será, se não desistes
+De tão crueis designios. Que impiedade!
+O supplicio d'Ignez! Da minha Esposa!..
+Como posso deixar de rebellar-me!
+Como evitar hum crime necessario,
+Que o dever, e a ternura me prescrevem?..
+Hum crime disse?.. Ah, não; longe os remorsos;
+Defender huma Esposa não he crime;
+Crime fôra deixa-la ao desamparo.
+Longe, maximas vãs, leis oppressivas,
+Que a tyrrania impoz sobre a ignorancia,
+Nada se deve aos Pais pela existencia:
+Os desvelos depois, seus beneficios
+São os titulos só que lhes conferem
+Á nossa obediencia hum jus sagrado.
+Meu coração revoca os seus direitos:
+Arrependo-me só de arrepender-me
+Pelos ter justamente sustentado.
+Querias, Rei cruel, afferrolhar-me
+Em segura prisão, para a teu salvo
+Me poderes roubar a cara Esposa?..
+Debalde o projectaste, não...
+
+_Sanc._ ...................... Deliras?..
+Que intentos são os teus?.. Resistir queres
+Ás ordens de teu Pai, que enfurecido...
+
+
+SCENA VII.
+
+_D. Pedro, D. Sancho, e D. Ignez._
+
+_Ign._ Esposo, que fizeste?.. Oh Ceos, eu tremo!..
+Da tua voz medonha horriveis écos
+Inda nestas abobadas retumbão;
+De furor suffocado, o rosto em fogo,
+Affonso espavorido, a longos brados
+Chama pelos atrozes Conselheiros:
+Certamente, faltando-lhe ao respeito,
+Lhe exacerbaste as iras. Que fizeste?
+
+_Ped._ Menos inda talvez do que devia.
+Não te importe o que fiz, faze o que digo.
+As furias não receies do tyranno;
+Vai subito buscar os tenros filhos,
+E dispõe-te a seguir-me.
+
+_Ign._ .................. Como!.. Aonde?..
+
+_Ped._ Deixamos estes sitios, onde imperão
+A discordia, a injustiça, a iniquidade.
+Evitemos o extremo dos horrores:
+Acompanha-me, Esposa, se não queres
+Ver-me inda parricida.
+
+_Sanc._ ............... Oh Ceos!
+
+_Ign._ ........................ Que insania?
+Ah! Que dizes? Que intentas?
+
+_Ped._ ...................... Defender-te,
+E possuir-te em paz; poupar-me ao crime.
+A tua vida, Ignez, ameaçar ousão;
+Affonso pertendia encarcerar-me,
+Talvez para ordenar o teu supplicio:
+Atreveo-se a dizer-mo: he necessario
+Fugir-lhe; ou repellir com braço armado
+Seus barbaros designios: eia, vamos,
+Não te demores mais.
+
+_Ign._ .............. Eu desfaleço!...
+Desgraçada!... Onde queres conduzir-me?
+
+_Ped._ Se necessario for, ao fim do Mundo:
+A meu lado segura, em qualquer parte
+Seremos venturosos; ermas grutas,
+Morada simples de prazeres puros,
+Mais gratas nos serão que aureos Palacios,
+Habitação fatal dos males todos.
+
+_Ign._ Que me propões, Senhor! A voz me falta...
+
+_Sanc._ Ah, Principe! Contempla o precipicio
+Em que vás despenhar-te, e a que me arrastas.
+Responsavel por ti...
+
+_Ped._. .............. A nada attendo.(26)
+Podes tombem, querendo, acompanhar-nos.
+Sim, eu te rogo, vem... De cãs coberto
+Tens conhecido assaz o ar pestilente,
+Que nas Côrtes costuma respirar-se,
+Halito venenoso, que derramão
+A traidora lisonja, a fraude, a intriga,
+Que em torno aos Solios quasi sempre girão.
+Longe de tanto horror, ah, vem ao menos
+Gozar em paz o resto de teus dias.
+
+ (26) _Para D. Sancho._
+
+_Sanc._ Feliz eu, se hontem fosse o derradeiro!
+Ah! Querias que proximo ao sepulchro
+Fosse ao meu Rei traidor? Que concorresse
+Para hum tal desatino?.. Eu, que incumbido
+Da tua educação (funesto emprego)
+Por elle mesmo fui, socio seria
+Em teus crimes, soffrendo que infringisses
+Teu dever!...
+
+_Ped._ ....... Qual dever? Fúteis chimeras!
+O primeiro dever he ser ditoso,
+He seguir d'alma o natural instincto.
+Vamos, querida Ignez.
+
+_Ign._ ............... Oh Deos! Que trance!
+Frenetico... ai de mim!.. Que premeditas?
+Teu nome, tua gloria offuscar queres?
+Seria a triste Ignez tão desgraçada,
+Que, origem de teus crimes, tolerasse
+A infamia de te ver por seu respeito
+A Patria abandonar, e o Throno excelso?..
+Ah, que diria o Mundo...
+
+_Ped._ .................. Que diria?
+Que o esplendor do Solio não deslumbra
+Huma alma como a minha. Eu nada perco
+Em deixa-lo por ti, não, cara Esposa;
+Vale mais ser feliz, que ser Monarcha.
+
+_Ign._ E pode ser feliz quem atropella
+Da sociedade as leis, do sangue as vozes?
+Ah! Desiste, Senhor, de teus projectos;
+Obedece ao teu Rei: jámais esperes,
+Que eu approve, ou consinta os teus delirios:
+Nem te deixo partir, nem te acompanho...
+Eu não quero roubar a hum Pai seu Filho,
+Nem tolher a ventura aos Lusitanos,
+Privando-os do melhor dos seus Monarchas.
+Se os meus rogos...
+
+_Ped._ ............. Teus rogos são inuteis:
+Que! Recusas, Ignez, acompanhar-me?..
+Ah, não vês nestes sitios horrorosos
+Girar em torno a nós a morte, e os crimes!
+
+_Ign._ He para os evitar que eu te não sigo.
+A honra, a gloria valem mais que a vida.
+Entre os crimes, e a morte, a morte escolho.
+Mas ah! porque tão proxima a divisas?
+Decretou-ma teu Pai? Nada me encubras:
+Sabe elle já que em vinculo sagrado...
+
+_Ped._ Tudo lhe revelei: mas o tyranno,
+Fingindo não poder acreditar-me,
+Orgulhoso, tenaz em seu capricho,
+Ameaçou-me... que horror! com teu supplicio;
+E, para a seu sabor poder julgar-te,
+Em segura prizão manda encerrar-me
+No proximo Castello. He pois forçoso...
+
+_Ign._ Obedecer-lhe, sim.
+
+_Ped._ ................. Obedecer-lhe?..
+
+_Ign._ Indispensavel he, vai, caro Esposo;
+Submisso aos Paternaes Regios preceitos,
+Eu to rogo, Senhor, á prizão corre.
+Outro meio não tens para salvar-me;
+Nem eu por outro meio a vida quero:
+Outra vez to asseguro, eu não te sigo;
+Jámais conseguirás...
+
+_Ped._ ............... Basta: não queres
+Estes sitios deixar? Queres ver nelles
+Derramados por mim rios de sangue?..
+De huma austera virtude enthusiasmado
+Ao parricidio, em fim, queres forçar-me?
+Pois bem, a perpetra-lo estou disposto.
+Eu vou, sim, eu vou já...
+
+_Ign._ ................... Cruel; detem-te:
+Meus gemidos, meu pranto já não podem
+Mover-te o coração, domar-te as furias?
+Onde o imperio que Ignez tinha em tua alma?
+
+_Ped._ Não te cances, debalde são agora
+Teus rogos, o teu pranto, os teus gemidos:
+Este dia horroroso he consagrado
+Á desesperação, ao crime, á morte.
+Inflammado em meu peito, só com sangue
+Das furias o tição pode apagar-se.
+Impedir ninguem pode, nem tu mesma,
+Os golpes espantosos, que o meu braço
+Vai já descarregar.
+
+_Ign._ ............. Por mim começa:
+Rasga-me o coração, da Esposa o sangue
+Seja o primeiro sangue que derrames;
+E se elle não bastar a saciar-te,
+Aos sacrilegios todos te arremeça...
+Que horror! Nem ouso em ti fitar meus olhos.
+És tu? Não, tu não és o meu Esposo;
+O meu Esposo detestava os crimes:
+Eu amava hum Consorte virtuoso;
+Virtudes já não tens, já te não amo.
+Vai, monstro sanguinario... Mas que disse?
+Eu deixar de te amar? Não me acredites:
+O terno coração desmente as vozes,
+Que, a meu pezar, de ouvir-te horrorisada,
+Sem tino proferi... Olha o meu pranto.(27)
+Abatida a teus pés, co'elles me abraço...
+Ou tu has de ceder aos meus lamentos,
+Ou ver-me aqui morrer, e aos pés calcar-me.
+
+ (27) _Prostra-se, e abraça-se com os pés de D. Pedro._
+
+_Ped._ Oh Ceos!.. Querida Esposa.(28)
+
+ (28) _Enternecido, querendo levantar D. Ignez._
+
+_Ign._ ......................... Eu não te deixo,
+Daqui me não levanto, sem primeiro
+De tua alma banir as negras furias;
+Sem que tu me promettas obediente
+Ir subito cumprir as Regias ordens.
+Ah! se tu amas inda as minhas preces,
+Não has de resistir...
+
+_Ped._ ................ Nem já resisto.(29)
+Deixar de obedecer-te, ah, quem, quem pode!..
+Para a prizão já parto.(30) Amigo, vamos.(31)
+Poderás duvidar inda do imperio
+Que em meu coração tens?
+
+ (29) _Levanta D. Ignez._
+
+ (30) _A D. Sancho._
+
+ (31) _Voltando-se para D. Ignez, e com a maior ternura._
+
+_Ign._ .................. Oh Deos! Conforto!(32)
+Não me retalhes mais o peito afflicto.(33)
+Á trémula razão ceda a ternura;
+Não te demores mais...
+
+ (32) _Voltando-se ternissimamente._
+
+ (33) _Affectando tranquillidade._
+
+_Ped._ ................ Mas tu...
+
+_Ign._ ......................... Socega;
+Nada temas por mim: o Ceo me inspira
+Os meios de abrandar de Affonso as iras.
+Irei c'os filhos a seus pés prostrar-me:
+Ninguem resiste á voz da natureza:
+Por mais duro que seja o seu caracter,
+Se tem hum coração, ao ver os Netos
+Abraçados em mim, chorar comigo,
+Não poderá deixar de commover-se,
+De perdoar-me em fim; nada receies.
+Adeos, Esposo, adeos.(34)
+
+ (34) _Muito a seu pezar precipitadamente se retira._
+
+_Ped._ ............... Ceos! que supplicio!
+
+
+
+
+ACTO IV.
+
+
+SCENA I.
+
+_Coelho, e Pacheco._
+
+_Coel._ Vão decidir-se em fim nossos destinos:
+Este o dia arriscado, em que a Fortuna
+Segura mão nos dá, ou nos despenha:
+Ou morre Ignez de Castro, ou nos perdemos.
+Resolutos a tudo, he necessario
+Os p'rigos affrontar; deve hum Valído,
+No cume da grandeza vigilante,
+Aos Adversarios seus tramando a ruina,
+Primeiro que o derrubem, derruba-los;
+O futuro prever, prever a itriga,
+E destro em conhece-la, e maneja-la,
+A vida antes perder que o valimento.
+Nosso plano atéqui tem produzido
+O desejado effeito. Affonso irado,
+O Principe em prizão, tudo parece
+Prometter-nos hum exito ditoso.
+Tens tu já prevenido, alliciado
+Os poucos Conselheiros, que nos restão?
+Constantes votarão de Ignez a morte?
+
+_Pach._ Apenas lho propuz, m'o assegurárão;
+Dependentes de nós em gráo mais baixo,
+A hum leve aceno autómatos flexiveis,
+Eccos da nossa voz, a nosso grado
+Amoldando-se a tudo, a tudo prestes,
+Servir nossos caprichos tem por gloria.
+Entre todos D. Sancho unicamente
+Velho estoico, singelo em demasia,
+Que as honras, e os empregos menoscaba,
+Poderá combater nossos designios;
+Mas Alvaro Gonçalves, que se int'ressa
+Igualmente que nós d'Ignez na morte,
+Se incumbio de sonda-lo, e persuadi-lo.
+
+_Coel._ Desnecessario he, que, encarregado
+Da guarda de D. Pedro, elle não pode
+Ao Conselho assistir. Nada mais resta
+Do que azedar a cólera de Affonso,
+Dar-lhe a beber na taça da Justiça
+Adoçado veneno, que o perturbe,
+E a voz da compaixão d'alma lhe affaste.
+Convém não perder tempo: aproveitemos
+Propicia occasião, que fugir pode:
+Vamos...
+
+_Pach._(35) Espera...
+
+ (35) _Pensativo._
+
+_Coel._ ............ Que! tu desfalleces!
+
+_Pach._ Confesso que algum tanto perturbado
+O coração não sei que me annuncia...
+Calculemos melhor sobre o futuro.
+Inda mesmo suppondo inevitavel,
+Suscitada por nós, de Castro a morte,
+He de temer que o Principe ferido
+Na parte mais sensivel da sua alma,
+Raivando inexoravel, desesp'rado,
+Sobre nós descarregue atroz vingança.
+Quem poderá suster?..
+
+_Coel._ .............. Tarde receias:
+Nas bordas já do aberto precipicio,
+He preciso transpo-lo, ou cahir nelle:
+Retroceder o passo não podemos.
+Assaz já sabe o Principe quaes sejão
+As nossas intenções, nossos conselhos;
+Seu odio contra nós he já sobejo.
+Que lucraremos pois, se ora cobardes
+Da começada empreza desistirmos?..
+Apressar nossa ruina, exacerba-la?
+Se foi razão bastante a conspirar-nos
+Contra a vida de Ignez, justo receio
+De ver hum dia alçada sobre o Throno
+A Irmã de nossos feros inimigos,
+Que em nosso damno então fartar podessem
+A perpetua aversão que nos jurárão;
+Se a nossa ruina assim era infallivel;
+Quanto mais o será tendo attrahido
+Do Principe o rancor!.. Proseguir firmes
+He somente o recurso que nos resta.
+Morta Ignez, com o tempo talvez possa
+O Principe, esquecendo-a, sujeitar-se
+Ao Consorcio, que Affonso lhe prescreve,
+E, apagada a paixão, ver-nos sem odio.
+Ou victima talvez d'amor infausto,
+De saudades mirrado, não podendo
+Sobreviver a Ignez idolatrada,
+D'Ignez á sepultura a dor o arraste.
+Affonso ha de entretanto defender-nos,
+E se acaso abortarem finalmente
+Nossos designios todos, então mesmo
+Não me hei de arrepender de os ter forjado:
+Antes quero morrer, inda o repito,
+Do que ser por meus émulos calcado,
+Contemplados Irmãos d'huma Rainha.
+
+_Pach._ Sentimentos iguaes me fervem n'alma;
+Eia, tudo se arrisque; prosigamos:
+Descarregue-se o golpe derradeiro,
+Inda que, errando-o, sobre nós desfeche.
+Eu parto a congregar os Conselheiros,
+Segurar inda mais todos os votos;
+E tu no emtanto ao Rei procura, e move;
+Sua colera atiça; que eu não tardo,
+Juntos os do Conselho, a vir chama-lo.
+
+_Coel._ Bem: não poupes promessas, nem t'esqueça
+Desculpar ante o Rei sempre a D. Pedro,
+Fazendo recahir de seus arrojos
+Sobre Ignez tão somente a culpa toda.
+Affonso para aqui dirige os passos...
+Não percas tempo, vai.
+
+
+SCENA II.
+
+_D. Affonso,_(36) _e Coelho._
+
+ (36) _D. Affonso entra na Scena pensativo._
+
+_Af._ ................. Crueis remorsos!
+Horroroso castigo de meus crimes!..
+Que torpel de afflicções, que acerbos males
+Vem funestar o resto de meus dias!..
+Infeliz Pai!.. Monarcha desgraçado!
+
+_Coel._ Releva-me, Senhor, que ouse, pungido
+Da dor, em que o meu Rei vejo abysmado,
+Recordar-te que deves mitiga-la.
+Tua vida, Senhor, não he só tua.
+Do teu Povo he tambem: ah não, não queiras
+Á força de afflicções abbreviar-lha.
+Sei quanto custa a hum Rei ouvir blasfemias
+De hum filho, que feroz o não respeita:
+Mas deves ponderar que hum tal arrojo
+Tão desculpavel he, quanto he violenta
+A funesta paixão, de que instigado
+Teu filho, a teu pezar, o perpetrára;
+Delicto involuntario...
+
+_Af._ .................. O seu delicto
+Não he só filho da paixão que o céga:
+Força maior o arrasta aos sacrilegios:
+Mais que o seu ímpio arrojo, o que me afflige,
+He ver que assaz mereço hum tal castigo,
+Das maldições celestes justo effeito.
+Oh remorsos crueis!.. Era forçoso
+Que hum filho de tal Pai fosse rebelde.
+Mais do que elle rebelde, filho ingrato
+Eu fui, eu fui tambem... Ardendo em furia
+Atrevi-me, que horror! a tomar armas
+Contra Diniz meu Pai; movi-lhe a guerra,
+Sublevei-lhe os Vassallos, assolei-os;
+Cavei-lhe assim feroz a sepultura;
+Todas as leis calquei da Natureza,
+A Natureza agora quer vingar-se.
+De hum Pai, que contra o Pai se revoltára,
+És, sim, filho rebelde, és digno filho!
+Mais me soffreo Diniz do que eu te soffro;
+Mas tu has de igualar meus attentados,
+Inda os has de exceder; talvez já tardas!
+Nem vós podeis, ó Ceos, jámais impunes
+Sacrilegios deixar tão execrandos.
+Dos Avós implacaveis vingadores
+São, por justo castigo, quasi sempre
+Máos filhos os do Pai, que foi máo filho.
+Diniz! Grande Diniz! Sombra iracunda!
+Terrivel sombra, que ante mim voltêas!
+Sobre a minha cabeça criminosa,
+Por mão do ousado neto, descarrega
+O já tardio, merecido golpe...
+Ah! Sim... bem vejo... ameaçador me apontas
+O tremendo futuro, que m'espera...
+Que flagello! Que horror! Que mar de sangue!..
+Tristes vassallos meus! Ah filho! Filho!
+Suspende...
+
+_Coel._ .... Que delirio te arrebata?..
+Teu grande coração sentir não deve
+Remorsos, que aos malvados só competem:
+Passadas, leves faltas não recordes;
+Males não temas, que atalhar bem podes.
+
+_Af._ Porque não vens, ó morte, alliviar-me
+Do pezo da existencia, e de meus crimes!
+
+_Coel._ Que seria de nós, se os Ceos te ouvissem!
+Em desordens submerso, dessolado,
+Comtigo Portugal acabaria.
+Os clamores escuta do teu Povo,
+Conserva-lhe o seu Rei; tão necessario
+A teus tristes Vassallos jámais foste:
+De mil calamidades ameaçados,
+Só lhes póde valer tua justiça.
+
+_Af._ E como? De que modo evitar posso
+Desordens, que a mim mesmo me soçobrão?
+
+_Coel._ Do mal a causa extincta, o mal expira;
+Extingue a causa pois de tantos males:
+Em quanto existir Castro, que os fomenta,
+Debalde intentarás dar-lhe o remedio.
+
+_Af._ Que dizes? Condemnar Ignez á morte?
+Tão graves são seus crimes, que mereção...
+
+_Coel._ Os seus crimes, Senhor... Ah! por desgraça,
+Nunca o Mundo vio crimes que brotassem
+Tão funestas, horriveis consequencias:
+Desnecessario julgo referi-las;
+Tu bem as sabes, pois assaz te affligem.
+Do Principe ardilosa seductora,
+Se teu filho he rebelde, se he blasfemo,
+Quem, senão ella, o fórça aos sacrilegios!
+Não vacilles, Senhor; o seu supplicio
+Chega a ser, mais que justo, indispensavel.
+Mas não basta o que eu digo a condemna-la:
+Tens melhores, mais sabios Conselheiros,
+Que juntar já mandaste; ouve os seus votos:
+Que se elles zelo igual ao que me inflamma,
+Por ti, pelo bem público, tiverem,
+Hão de todos unanimes rogar-te
+Que o supplicio de Ignez logo decretes;
+Pintar-te co'as mais negras, proprias côres
+De Portugal a ruina, se o dilatas;
+As dissensões crueis, a horrivel guerra,
+Que a vingativa Hespanha vai mover-nos,
+E de que os teus Vassallos, fatigados
+Das recentes batalhas, já murmurão,
+A Viuva, que o Esposo perdeo nellas,
+Não quer perder agora o caro filho,
+Nem o filho, que em lucto inda o Pai chora,
+Desamparando a Mãi, expôr-se á morte.
+Finalmente, Senhor, tudo te brada
+Que sacrifiques huma a tantas vidas;
+Que deixes ao futuro eterno exemplo,
+Para que ninguem mais seduzir ouse,
+Á imitação de Ignez, corações Regios.
+
+_Af._ Se assim o exige o público socego,
+O Conselho decida o que for justo,
+Que eu afflicto não sei o que obrar deva.
+
+_Coel._(37) Que vejo! Ignez!.. He muito! Inda se atreve
+A vir apparecer-te?.. Ah, melhor fôra
+Retirar-te, Senhor, sem dar-lhe ouvidos.
+
+ (37) _Avistando Ignez ainda fóra da Scena._
+
+_Af._ Vamos, sim... Porém não, devo escuta-la.
+
+_Coel._ Talvez os do Conselho já te esperem.
+
+_Af._ Vai tu juntar-te a elles, que eu não tardo.
+
+
+SCENA III.
+
+_D. Affonso, Ignez, Elvira, e os meninos._
+
+_Ign._ Chegai, filhos, chegai, vinde prostrar-vos
+Aos pés de vosso Avô; vinde beijar-lhe
+Pela primeira vez a Mão Augusta.(38)
+Eis, ó Senhor, os filhos de teu filho,
+Que vem com tristes lagrimas rogar-te,
+Que desta triste Mãi te compadeças.
+Chorai, chorai comigo, tristes filhos,
+Intercedei por mim com vosso pranto,
+Pranto mais expressivo do que as vozes,
+Que a vossa tenra infancia não permitte:
+Ajudai meus lamentos, minhas preces,
+Impetrai meu perdão. Sim, Rei clemente,
+Eis a Mãi desgraçada de teus Netos,
+Que abraçada com elles te supplica,
+Que a misérrima vida lhe conserves.
+Sei que vai decretar-se o meu supplicio!
+Alvo da intriga, victima da Inveja,
+Temerosa, infeliz, desamparada,
+A morte já diviso, a injusta morte,
+Que raivosos, tyrannos Conselheiros,
+Illudindo a piedade de tua alma,
+Fulminão contra mim... Que atrocidade!..
+Porque enormes delictos sou punida?..
+Amar, Senhor, teu filho, ser amada,
+Crime acaso será digno de morte?
+Imploro, ouso attestar tua justiça.
+Ah! Consulta, Senhor, tua clemencia,
+Teu coração consulta, que elle mesmo
+Te ha de dizer, que a morte nao mereço.
+
+ (38) _Prostra-se com os meninos aos pés de Affonso, e Elvira se
+ retira._
+
+_Af._ Levanta-te, infeliz...(39) Oh Natureza!(40)
+Oh de hum Monarcha rigidos deveres!..
+Levanta-te, infeliz.(41) Funesta origem
+Das crueis afflicções que me consternão...
+Ao ver-te me enfureço,... e me commovo...
+O Pai quer perdoar-te... o Rei não pode.
+
+ (39) _Enternecido._
+
+ (40) _Vai abraçar os netos, volta o rosto afflicto e exclama._
+
+ (41) _Levanta Ignez._
+
+_Ign._ Ah Senhor! Perdoar aos desgraçados
+He dos Reis o poder mais doce, e augusto:
+Sim, do teu coração segue os impulsos;
+Triunfe a compaixão, e a natureza,
+Não te has de arrepender por ser piedoso;
+Antes porém, se á morte me condemnas,
+Hão de eternos remorsos flagellar-te,
+Incessantes angustias consumir-te:
+De Portugal a gloria, as esperanças
+Vão sobre a minha campa espedaçar-se.
+Verás por ti mandado á sepultura
+Comigo, a teu pezar, descer teu filho.
+Matando-me, Senhor, ah, vê que o matas!
+Os nossos corações, unidos ambos,
+Tão ligados estão, que o mesmo golpe
+Que retalhar o meu, tràspassa o delle;
+Existir hum sem outro não podemos...
+Por elle, e não por mim t'imploro a vida.
+Sim,(42) de rojo outra vez torno a abraçar-me
+Com tuas Regias Plantas. Tem piedade
+Da Esposa de teu filho. Ah, se não fossem
+Estas doces prizões, que me constrangem
+A viver infeliz, e amar a vida,
+Longe de instar por ella, sem queixar-me,
+Tranquilla recebêra o fatal golpe...
+Mas deixar para sempre o que mais amo!..
+Sou Esposa, sou Mãi... Ceos! Desfalleço!(43)
+Queridos filhos... Desgraçados orphãos!..
+E que será de vós quando vos falte.
+A mais terna das Mãis, o Pai mais terno!..
+Ah Senhor! Se inflexivel ao meu pranto,
+A minha situação te não commove,
+Presta ouvidos á voz da Natureza:
+Mova-te a compaixão o desamparo
+Destas victimas tenras, e innocentes:
+Elles culpa não tem dos meus delictos.
+Não te lembres, Senhor, que são meus filhos;
+Ah, não: lembra-te só, que são teus netos...
+Mas tu choras? Que vejo! Os Ceos me ouvírão:
+Tuas lagrimas vem em meu soccorro,
+Ellas o meu perdão já me annuncião.
+Acaba de extinguir os meus temores,
+Dize, dize, Senhor, que me perdoas.
+
+ (42) _Prostra-se outra vez aos pés de Affonso._
+
+ (43) _Abraça os filhos com a maior ternura, e afflicção._
+
+_Af._ Não posso resistir... Oh quem podéra
+Neste instante deixar de ser Monarcha!
+
+
+SCENA IV.
+
+_D. Affonso, Ignez, seus filhos, e Coelho._(44)
+
+ (44) _Ignez, apenas avista Coelho, levanta-se atemorisada._
+
+_Coel._ Por ti, Senhor, se espera: vem, não tardes;
+Que já começa o Povo a amotinar-se.
+
+_Ign._ Oh Deos! Eu morro!
+
+_Af._ .................. Ignez, não desesperes.
+Inflexivel não sou: meu pranto o affirma;
+Mas não posso faltar aos meus deveres;
+Não sou senhor de mim, tenho Vassallos;
+Perante elles, perante os Ceos, e a Terra,
+De tudo quanto obrar sou responsavel;
+Despotico não sou; mas sou piedoso.
+Tens Affonso por ti, nelle confia:
+Ao Conselho d'Estado vou eu mesmo
+Tua Causa advogar. Ceos, inspirai-me.
+
+
+SCENA V.
+
+_Ignez, e seus filhos._
+
+_Ign._ Debalde seductoras esperanças
+Por mais tempo illudir-me já não podem.
+O coração me augura que he chegado
+De meus dias o termo desastroso.
+Sim, proximos estais, queridos filhos,
+A perder vossa Mãi... vinde a meus braços...
+Em breve... ai triste!.. em breve hão de faltar-vos
+Os maternaes, ternissimos affagos...
+Para sempre vos deixo... para sempre...
+Cruel separação!.. dor insoffrivel!..
+Horrorosos momentos! Ceos!.. Nem posso;
+Nem me atrevo... ai de mim! a ver meus filhos:
+Quanto mais os contemplo, mais me afflijo...
+De todo sinto já faltar-me o alento...
+O coração rebenta... que anciedade!
+Ah! parece que a morte... ella já chega...
+A descarnada mão... que horror! Espera
+Suspende, ó Morte... deixa que primeiro...
+Meus filhos onde estão?.. Quero inda vê-los...
+Crueis, não m'os roubeis... Antes que morra,
+Ao menos huma vez quero abraça-los...
+Quem se atreve a arranca-los de meu peito?..
+Ah barbaros!.. Meu sangue... Esposo? Esposo?..
+Onde estás, que não vens em meu soccorro!..
+Mas em vão... Já he tarde... a sepultura...
+
+
+SCENA VI.
+
+_Ignez, seus filhos, e Elvira._
+
+_Elv._ Que vejo, oh Deos!(45)
+
+ (45) _Corre para Ignez._
+
+_Ign._ ................. Abertos os abysmos...(46)
+
+ (46) _Delirante ainda._
+
+_Elv._ Ignez... (que magoa!) Ignez...
+
+_Ign._ .... Que!.. Quem me chama?..
+És tu, Constança, És tu, que vens ainda
+Da habitação da morte perseguir-me?
+
+_Elv._ Torna, Senhora, em ti... Já não conheces,
+Não vês a triste Elvira?..
+
+_Ign._ .................... Quem!.. Elvira...
+És tu? Aonde estou?.. Ah, que me queres?
+
+_Elv._ Mitigar tua dor, chamar-te á vida.
+Os alentos recobra, as esperanças:
+Serás inda feliz, verás em breve
+Trocados em prazer os teus pezares.
+
+_Ign._ Prazeres para mim!.. ah!..
+
+_Elv._ ....................... Que! Não viste
+As lagrimas do Rei, que o teu indulto
+No enternecido aspecto promettia?
+
+_Ign._ Qual quimerico indulto!.. Nada esperes:
+Que importão suas lagrimas, que importa
+Que perdoar-me queira, sé o rodêão
+Vís Cortezão, escandalo do Throno,
+Algozes da innocencia, féros monstros,
+Sedentos do meu sangue, que ardilosos
+Seu coração benigno senhorêão?
+Elvira, a minha morte he infallivel;
+Pouco pode tardar: antes que chegue,
+Toma, toma estes orphãos innocentes,
+Conduze-os á prizão ao meu Esposo;
+Entrega ao triste Pai os tristes filhos,
+E dize-lhe que Ignez... Mas ah, que faço?..
+Retalhar quero do consorte o peito?
+(Co'a noticia fatal da minha morte
+O mortifero golpe antecipar-lhe?..
+Ah, não; bem basta que de dor expire.
+Quando entrar nesta lugubre morada,
+Onde, chamando em vão a extincta Esposa,
+Tristes eccos somente lhe respondão;
+E tintas as paredes do meu sangue,
+Luctuosos vestigios da consorte
+A cada passo espavorido encontre.
+Então, Elvira, então he que eu te rogo
+Lhe digas...(47) Ah, parece que ouço passos...
+Serão talvez meus barbaros verdugos...
+Que cheios de furor, ardendo em raiva
+Venhão cevar-se no meu sangue?.. Ai triste!..
+Ei-los que chegão... não m'engano... Elvira!
+Vamos na minha Camara encerrar-nos:
+Já melhor poderei recommendar-te
+O que exijo de ti; sim, vamos, filhos,
+Quero morrer ao menos junto ao leito,
+Que tem sido até agora testemunha
+D'envenenados, rapidos prazeres,
+Dos continuos remorsos do meu crime,
+Das minhas afflicções, e do meu pranto.
+
+ (47) _Olhando atemorizada em volta da Scena._
+
+
+
+
+ACTO V.
+
+
+SCENA I.
+
+_D. Affonso._
+
+Que afflicção, que tumulto n'alma sinto!
+Vacillante, confuso, atribulado,
+Mal posso respirar. Ceos! que tormento!
+D'hum lado a compaixão, d'outro a Justiça...
+Formidavel Justiça! Em fim venceste.
+Satisfeito estarás, dever tyranno...
+O supplicio de Ignez... Oh Deos, e pude,
+Tremendo, subscrever da sua morte
+A rigida sentença!.. Eu me horroriso:
+Dentro em meu coração queixosas sinto
+Bradar a compaixão, e a natureza...
+Que! surdo á sua voz, consentir devo,
+Que á morte, a meu pezar, severamente
+Seja a Mãi de meus Netos condemnada?
+E por que crimes? Por amar meu Filho?
+Ah, não: he tempo ainda; revoguemos
+A sentença cruel... Porém que faço?..
+O público socego, o bem do Estado,
+O popular clamor, o exemplo, tudo,
+Tudo em fim contra a triste me constrange,
+E me estorva o prazer de perdoar-lhe,
+Ah, dura condição! Pezado Sceptro,
+E haverá quem dos Reis inveje a sorte?
+Tormentoso lugar, terrivel Solio,
+Assento d'afflicções, e de amarguras;
+Desgraçados aquelles que te occupão!
+
+
+SCENA II.
+
+_D. Affonso, e D. Sancho._
+
+_Sanc._ Ah Senhor! Se teu filho inda te he caro,
+Se não queres privar os Lusitanos
+Do herdeiro Augusto de teu Throno, e gloria;
+Não percas tempo, evita, remedeia
+A desesperação que o assassina.
+Eu conter já não posso os seus transportes,
+Nem ver as afflicções que o despedação:
+Humas vezes convulso, delirante,
+Scintilando furor, acceso em raiva,
+Morde, intenta romper os duros ferros
+Da prizão, que o retem; blasfema, e brama:
+Consternado outras vezes, abatido,
+Em profundo lethargo, entre agonias,
+Os olhos razos d'agua, o peito anciado,
+Succumbe á sua dor, cahe, desfallece.
+Eis que subito agora por mim chama:
+"Vai, amigo, (me diz) corre apressado,
+Saber da minha Esposa, e de meus filhos.
+Certamente os perversos Conselheiros
+Ousárão conspirar contra os seus dias:
+Ah, procura meu Pai, por mim lhe falla;
+Por mim de Ignez o indulto lhe supplica;
+O estado em que me vês lhe representa;
+E se elle persistir inexoravel,
+Protesta-lhe por mim..." Ah! nem me atrevo
+A referir-te...
+
+_Af._ .......... Basta: não augmentes
+A minha confusão: oh Deos!
+
+_Sanc._ ................... Perdoa:
+Tu silencio me impões; mas eu não posso,
+Não posso obedecer-te; o grande risco,
+Em que os dias do Principe contemplo,
+O amor que lhe consagro, não permittem
+Que eu cesse de clamar-te que perdoes
+Á miseranda Ignez, de cuja vida
+A vida de teu filho está pendente.
+Ignez já agora he de D. Pedro Esposa...
+É até digna de o ser. Não acredites
+Damnados corações; que seus contrarios,
+D'inveja, d'ambição, de rancor cheios,
+Intentão denegrir o seu caracter.
+Vê, meu Rei, que te illudem: crer-mo deves
+Por meus labios fallou sempre a verdade.
+Ignez huma alma tem singella, e nobre,
+Sensivel de sobeja, a amar propensa;
+Não pôde resistir a amar teu filho:
+Seu delicto he só este, não tem outros;
+D'outros não he capaz, e hum tal delicto,
+Quando tantas virtudes o acompanhão,
+He digno de perdão, he desculpavel.(48)
+Perdoa-lhe, meu Rei, não diga o Mundo,
+Que inflexivel, severo em demasia,
+Nem de teu filho á Esposa perdoaste.
+
+ (48) _Prostra se aos pés de D. Affonso._
+
+_Af._(49) Não, não ha de dizer.(50) Oh lá, D. Nuno!(51)
+Deixar eu de ser Pai por ser Monarcha?..
+Ah! Não.
+
+ (49) _Depois de pensar hum pouco._
+
+ (50) _Chamando para dentro da Scena._
+
+ (51) _Comsigo mesmo._
+
+
+SCENA III.
+
+_D. Affonso, D. Sancho, e D. Nuno._
+
+_Nun._ ... Que determinas?
+
+_Af._ ................... Apressado
+Parte em busca de Ignez; aqui ma envia;
+E aos duros Conselheiros participa,
+Que a sentença revogo; a Ignez perdôo.
+
+_Sanc._ Graças, benigno Rei!..
+
+_Nun._(52) .................. Oh feliz Castro!
+Já proxima ao sepulchro á vida tornas.
+
+ (52) _Partindo._
+
+
+SCENA IV.
+
+_D. Affonso, e D. Sancho._
+
+_Sanc._ Que escuto! Á morte já sentenciada!..
+
+_Af._ Longe de nós lembrança tão funesta.
+O Principe vai pôr em liberdade:
+Que me venha abraçar; Ignez he sua.
+
+_Sanc._ Que jubilo!(53) Ah Senhor! Deixa que eu banhe
+Tua mão generosa com meu pranto,
+Suave pranto, que o prazer me arranca.(54)
+Eu vou... Sim; a alegria azas m'empresta:
+Vou levar a D.. Pedro a feliz nova,
+Restituir-lhe vou a paz, e a vida.
+
+ (53) _Prostra-se, e beija a mão do Rei._
+
+ (54) _Levanta-se._
+
+
+SCENA V.
+
+_D. Affonso._
+
+Oh mil vezes feliz todo o que pode
+Venturosos fazer os desgraçados!..
+Desafogado o coração já sinto...
+Hum Rei sómente he Rei quando perdoa.
+Minha alma d'antemão já saborêa
+O jubilo de Ignez, e de meu filho,
+D'hum, e d'outro os abraços, os transportes,
+A innocente alegria de meus netos...
+Delicia dos mortaes, oh Natureza!
+Cedão ás tuas leis as mais leis todas.
+
+
+SCENA VI.
+
+_D. Affonso, e o Embaixador._
+
+_Emb._ Condoido, Senhor, da infeliz Castro,
+Releva que eu me atreva a supplicar-te,
+Que a decretada morte lhe perdoes:
+Eu sei que a teu pezar foi condemnada,
+Satisfação que dás ao meu Monarcha,
+Quando elle certamente, persuadido
+Da tua fidelissima amizade,
+Não quererá, Senhor, que lha confirmes
+Com o sangue de Ignez, que inda he seu sangue,
+Atrevo-me em seu nome assegurar-to,
+Rogando-te pratiques generoso,
+A piedade que he propria da tua alma.
+
+_Af._ Muito folgo de ver teus sentimentos
+Tão conformes aos meus; sim, eu espero,
+Que o teu Rei me não culpe de piedoso,
+A Ignez já perdoei; fiz mais ainda;
+Reconheci-a de meu filho Esposa.
+Não me atrevo a romper o nó sagrado,
+Em que Hymenêo, e Amor os enlaçava,
+Ignorado por mim, quando sincero
+O Tratado firmei, que promettia
+Com Beatriz de meu Filho os Desposorios,
+Deves pois ao teu Rei fazer sciente,
+Das razões poderosas que os estorvão;
+E por mim segurar-lhe ao mesmo tempo
+Constante, inalteravel amizade.
+
+_Emb._ Teu leal proceder, as razões todas
+Que a decidir assim te constrangêrão,
+Lhe exporei fielmente, e não duvides
+Que tal resolução lhe agrade, e a louve.
+
+_Af._ Dictou-ma o coração, e de abraça-la
+Não me hei de arrepender: nunca a piedade
+Pode manchar as purpuras: se o Mundo
+De Bruto inda com pasmo escuta o nome,
+Mais saudoso de Tito o nome adora.
+Porém que vejo!.. oh Ceos!.. D. Nuno em pranto...
+
+
+SCENA VII.
+
+_Os ditos, e D. Nuno._
+
+_Nun._ Oh fereza!.. Oh desgraça!..
+
+_Af._ ....................... Que acontece?..
+
+_Nun._ A dôr, e o pranto as expressões me tolhem...
+Cheguei tarde, Senhor... Ignez...
+
+_Af._ ............................ He morta?..
+
+_Nun._ Brevemente o será.
+
+_Emb._......Oh Deos!..
+
+_Nun._ .............. Debalde
+Á misera e mesquinha perdoaste:
+De seu preclaro sangue sequiosos,
+Os Ministros crueis se antecipárão...
+
+_Af._ Oh detestaveis, sanguinarios monstros!
+E podestes... acaba.
+
+_Nun._ .............. Mensageiro
+Da piedosa faustissima noticia,
+Á Camara de Ignez veloz caminho;
+Pouco distante ja de seus lamentos
+Parece, que as abobadas gemião:
+Accelero inda mais ligeiros passos,
+E ao tempo que os crueis descarregavão
+Sobre o peito d'Ignez os duros golpes,
+Entro... (que horror!) perdão, perdão, exclamo:
+Á palavra _perdão_ os impios tremem,
+E até da mão os ferros lhes cahírão:
+Em vão porém; que o sangue já corria.
+Servírão só meus gritos de que fosse
+A ferida talvez menos profunda.
+Então Coelho, e Pacheco, estatuas ambos,
+Como espantados do seu crime horrendo,
+Sem proferir palavra largo tempo,
+Olhando hum para o outro espavoridos,
+Apenas a final dizer podérão:
+"Não ha mais que hum recurso; eia, fujamos;"
+E subito os crueis desapparecem.
+Ignez desfallecida, mal ouvíra
+Que tu lhe perdoáras, levantando
+As mãos aos Ceos, e os macerados olhos,
+Mil vezes te bemdiz, por ti mil vezes
+Aos Ceos envia fervorosas preces.
+Cheia de gratidão, inda o seu rosto
+Entre as sombras da morte parecia
+Que ao proferir teu nome s'alegrava;
+Em quanto as tristes Damas, que a rodêão,
+O sangue de seu peito estancar buscão,
+"Por ultimo favor (lhes diz) imploro,
+Que á presença d'Affonso me conduzão;
+Inda quero ir beijar-lhe a mão clemente,
+E a seus pés expirar agradecida."
+C'os filhinhos ao lado a malfadada,
+Buscando-te, Senhor, para estes sitios
+Já com tremulos passos se encaminha.
+
+_Af._ Oh destino!.. Oh fereza!.. Infeliz Castro!..
+Filho infeliz!.. Mais infeliz do que ambos,
+Atribulado Pai!.. Todos os males,
+As furias, as desgraças, e os remorsos
+Desde o berço ao sepulchro me acompanhão.
+Nasci para flagello dos humanos,
+Para opprobrio nasci da natureza:
+Portugal, dos seus Reis na clara historia,
+Chamará com razão ao quarto Affonso
+Máo Irmão, Filho ingrato, e Pai tyranno.
+O culpado sou eu de Ignez na morte,
+Eu que, pelos perversos enganado,
+Tarde o grito escutei da humanidade.
+Ah! fujamos, fujamos destes sitios,
+Que a vêr a desgraçada não me atrevo...
+Mas ai de mim!.. As forças me abandonão:
+Eis ella chega... Amigos, soccorrei-me:
+Affastai-me daqui...
+
+
+SCENA VIII.
+
+_Os mesmos, Ignez, os dois meninos seus filhos, Elvira, e duas Aias._(55)
+
+ (55) _As Aias sustentão Ignez, que vem ferida._
+
+_Ign._ Ah!.... Não me fujas...
+Não me fujas, Senhor... toma os teus Netos...
+Para t'os entregar, agonisante,
+O Maternal amor aqui me arrasta...
+Tristes orphãos, adeos... Adeos, meus filhos...
+Nas tuas mãos, Senhor, os deposito...
+Em teu bom coração abrigo encontrem...
+Ampare-os seu Avô, já que a Mãi perdem...
+Possão elles hum dia, de ti dignos,
+Dignos filhos do Pai mais virtuoso,
+Com virtudes iguaes, egregios feitos,
+Compensar-te o perdão, que me outorgaste...
+E por ultima graça me concede,
+Que inda antes d'expirar meu Pai te chame.
+
+_Af._ Chama-me o teu algoz: não queiras dar-me
+O doce nome que me não compete:
+Bem quizera eu tambem chamar-te Filha:..
+Mas não me atrevo, não; a Natureza,
+Se visse por meus labios profanado
+Nome tão deleitoso, estremecêra...
+Teu sangue está bradando; tu só deves
+O cruel detestar, que te assassina;
+Mas bem vingada estás; mais desgraçado
+Mil vezes do que tu, mil mortes soffro.
+Ah, poupa ao teu verdugo o horror de ver-te
+Exhalar d'alma os ultimos arrancos...
+Eu vou, sim, porque até minha presença
+Deve ser a teus olhos odiosa.(56)
+Ninguem me siga, ah, não; deixem-me todos,
+Fujão todos de mim; quero esconder-me
+A todos os viventes, té que possa
+Nos abysmos sumir-me para sempre.(57)
+
+ (56) _Vai a partir, e vendo que D. Nuno o quer acompanhar, volta-se,
+ e diz:_
+
+ (57) _Parte arrebatadamente._
+
+
+SCENA IX.
+
+_Os mesmos, excepto Affonso._
+
+_Ign._ Ah Senhor!.. mas debalde; não me attende;
+Inda mais este golpe!. Não me custão
+As suas afflicções menos que a morte...
+Oh quantos desgraçados tenho feito!
+O triste Pai, o Esposo... Ai! triste Esposo!..
+E que será de ti!.. Lembrança horrivel!..
+D. Nuno, Elvira, confortai-o todos,
+Á sua dor buscai dar lenitivo...
+Ah, s'eu podesse ao menos vê-lo ainda...
+Morrêra satisfeita... Ceos!.. já sinto
+A agonia da morte... Filhos... Filhos...
+Quanto a sua presença me consterna!..
+Ah, levem-mos daqui... mas para onde?..
+Não; chegai, filhos meus... em vossos labios
+Quero entornar minha alma... nelles quero
+Deixar a vosso Pai depositados
+Meus ultimos suspiros... Ah! são estes...
+São estes... Que anciedade! A luz me foge...
+Adeos, Filhos... adeos, Esposo... Eu morro.(58)
+
+ (58) _Cahe, e espira nos braços das Damas._
+
+_Emb._ Que doloroso trance!
+
+
+SCENA X.
+
+_Os mesmos, D. Pedro, e D. Sancho._
+
+_Ped._(59) ............... Amada Esposa,
+Ignez, querida Ignez, vôa a meus braços,
+Vem completa fazer minha alegria.(60)
+Porém que!.. vós chorais! que infausto agouro.(61)
+
+ (59) _D. Pedro entra na Scena cheio de alegria, sem vêr o cadaver
+ de Ignez._
+
+ (60) _Vendo chorar D. Nuno, e o Embaixador, que estão defronte do
+ cadaver de Ignez._
+
+ (61) _Olha para traz, dá com os olhos em Ignez morta, quer correr
+ a ella, recúa espavorido, e cahe desfallecido nos braços de
+ D. Sancho, e do Embaixador._
+
+_Sanc._ Oh Principe infeliz!.. Mortal angustia!
+Affastai-lhe da vista a extincta Esposa.(62)
+
+ (62) _Elvira, e as Aias retirão da Scena Ignez, e os Meninos,
+ acompanhadas de D. Sancho._
+
+_Ped._(63) A Esposa!.. Onde está ella? Ide chamar-ma.
+
+ (63) _Em delirio._
+
+_Nun._ Ah! Senhor!..
+
+_Ped._ ............ Não tardeis, ide chamar-ma.
+Eu mesmo, eu mesmo vou... Ignez, Esposa!(64)
+
+ (64) _Convulso, quer caminhar, e não póde._
+
+_Emb._ A extrema dôr o priva dos sentidos.
+
+_Nun._ A tua Esposa... oh Deos!.. já não existe.
+
+_Ped._ He morta? Injustos Ceos! Clarão terrivel!(65)
+Ah! Sim, eu mesmo a vi... horrida imagem!..
+E tornarão a abrir-se inda os meus olhos?
+Vi morta a cara Esposa, e vivo ainda!(66)
+Espera, espera Ignez, eu te acompanho,
+Eu já te sigo, sim...(67) Mas não, primeiro
+He preciso vingar a sua morte.
+Quem a matou?.. Dizei... talvez... foi elle,
+Esse tyranno, que meu Pai se chama?
+
+ (65) _Olhando para o lugar onde víra Ignez morta._
+
+ (66) _Em acção de desembainhar a espada._
+
+ (67) _D. Nuno, e o Embaixador impedem que D. Pedro desembainhe,
+ e este reflectindo hum pouco, diz:_
+
+_Nun._ Ah! não, Senhor, teu Pai lhe perdoava,
+Mas Coelho, e Pacheco os ímpios forão,
+Que...
+
+_Ped._ Basta: nada mais.(68) Impios são todos,
+E eu de todos o sangue beber quero.
+Treme, barbaro Rei; cruenta guerra
+Eu protesto fazer-te: sim, eu juro
+Pelo sangue de Ignez, cujos vestigios
+Bradando por vingança alli diviso,
+Juro, cruel, do Throno derrubar-te,
+E em teu lugar, c'roada alçar a elle
+A Esposa que me roubas. A meu lado,
+Mesmo depois de morta, a bella Castro
+Será Rainha, reinará comigo:
+Que importa que o seu corpo não respire,
+Se a sua alma inda existe unida á minha!
+Hão de todos beijar-lhe a mão já fria,
+Tributar-lhe as devidas homenagens:
+Do seu throno degráos por mim calcados
+Os tyrannos serão que a assassinárão:
+Seus corações malvados, das entranhas
+Eu mesmo hei de arrancar, hei de trincar-lhos.
+Ás minhas iras escapar não podem:
+Inda que nos infernos vão sumir-se,
+Lá mesmo, ardendo em raiva irei busca-los.
+Será tal meu furor, minha vingança,
+Que o Mundo tremerá de ouvir meu nome:
+Por toda a parte se hão de ouvir sómente
+Pranto, desolação, e horrores... tantos
+Os estragos serão, as mortes tantas,
+Que ha de em sangue nadar Portugal todo:
+Sangue o Douro, o Mondego, e sangue o Téjo
+Hão de, em vez d'agua, despejar aos mares;
+E os proprios mares arrojar bramindo
+Ondas de sangue ás mais longinquas praias.
+Eu vou já começar a derrama-lo.
+Oh furias! Oh vingança! Acompanhai-me,
+Meus passos dirigi; guiai meu braço.(69)
+
+ (68) _Na mesma furiosa desesperação._
+
+ (69) _Parte furioso arrebatadamente da Scena._
+
+_Emb._ Ah Principe, suspende! Mas quem póde
+Conter as furias, que lhe lutão n'alma!(70)
+
+ (70) _Segue a D. Pedro._
+
+_Nun._ Que espantoso tropel de horriveis males!..
+Oh de cégas paixões funesto exemplo!..
+Misero Esposo!.. Malfadada Castro!..
+De quanta compaixão são dignos ambos!..
+Muito se amavão, desgraçados forão,
+Chore-os o Mundo, e de imita-los trema.(71)
+
+ (71) _Finda a Tragedia quando não ha coroação._
+
+
+SCENA X.[NT1]
+
+_D. Nuno, e D. Sancho._(72)
+
+ (72) _Impaciente._
+
+_Nun._ Onde corres?..
+
+_Sanc._ ............ Oh Ceos!
+
+_Nun._ ..................... Novos desastres
+Acaso sobre nós envia o Fado?
+
+_Sanc._ O nosso Excelso Rei, o invicto Affonso,
+Com força de pezar succumbe aos males,
+E violenta paixão lhe arranca a vida.
+
+_Nun._ Em que montão d'horrores nos abisma
+O destino fatal!
+
+_Sanc._ ......... Oh desventura!
+O Principe me ordena que vos chame:
+Vinde prestes, D. Nuno; elle turbado
+Sente a falta d'hum Pai, da Esposa a perda.(73)
+
+ (73) _Parte_
+
+_Nun._ Morreo em fim?.. Morreo! No centro d'alma
+Soffro as ancias crueis, a dôr mais ímpia!
+
+
+_Acto da Coroação para se representar no fim da Tragedia==Nova
+Castro==de João Baptista Gomes._
+
+ * * * * *
+
+A lembrança de que muitas pessoas desejão vêr no fim daquella optima
+Tragedia huma Coroação, fez com que se imprimisse esta, apezar da falta
+de unidade que ha, o que forma hum erro Dramatico, que o seu Auctor não
+desculparia se existisse.--_Nota do Editor._
+
+ * * * * *
+
+_Mutação._
+
+Magnifica Sala com Docel, e Cadeira de espaldar no meio do Theatro, em a
+qual está D. Ignez assentada, e em lugar competente, e magnifico huma
+Coroa riquissima.
+
+_Sahem D. Pedro, D. Sancho, D. Nuno, Elvira, os dous Meninos, Grandes, e
+Guardas Reaes._
+
+
+_D. Nun._ Esta he a pompa, Senhor, que a brevidade
+Me permittio do tempo.
+
+_D. Ped._ ............. Que impiedade!
+He possivel, Ignez, oh dura sorte!..
+Quem vida me dêo te désse a morte?!
+A sacrilega mão, barbara, e fera,
+Que o teu sangue verteo no duro effeito
+Não cahio com o ferro? Oh quem podéra
+Soldar a pura neve de teu peito!..
+Quem podéra animar-te a luz perdida,
+Repartindo comtigo a minha vida?!
+Quaes serão os castigos acertados
+Que excogite a lembrança desta scena
+Contra estes deshumanos inimigos,
+Sem lei, sem compaixão, e sem respeito?
+Farei abrir com golpes mui profundos,
+As espadoas a hum, a outro o peito;
+E a seus mesmos olhos moribundos,
+Que vírão este Sangue, desejára
+Mostrar os corações, que os animára
+A tão cruel, e aspera fereza,
+Como abortos crueis da natureza
+Para monstros indomitos gerados:
+Choro, meu bem, a tua adversidade,
+E vivo para minha saudade!..
+
+_D. Sanc._ Aqui te outorgo a Corôa...
+
+_D. Ped._ ....................... De outra sorte
+Coroar-te intentei, fiel Consorte;
+Mas preferio á gloria a tyrannia!..
+E vós, meus caros, meus fieis Vassallos,
+Reverentes beijai esta mão fria,
+Que beijar deverieis n'outro estado,
+Se tão impio não fosse o nosso fado.
+
+_D. Sanc._ O primeiro sou eu, que esta mão bella
+Reconheço da minha Soberana,
+Com o respeito que devo a vós, e a ella. _Beija-lha._
+
+_D. Nun._ Com minha gratidão, e o meu respeito,
+Qual Vassallo fiel, cumpro o preceito. _O mesmo._
+
+_Os Grandes beijão-lhe a mão ao som de Musica,
+e no fim diz:_
+
+Mais na morte que em vida respeitado,
+Depressa cobrir faze, Condestavel.
+
+_D. Sancho corre as cortinas._
+
+Com majestoso fausto veneravel
+A levai a Alcobaça, e as estradas
+De tochas estarão illuminadas;
+E o mesmo esplendor fazer quizera
+Se, como dezesete legoas são,
+Dezesete mil fossem; pois venera
+Tanto minha alma a essa cinza amada,
+Que desejo exceder no magestoso
+Aquella maravilha celebrada,
+Que Artimizia erigio a seu esposo.
+E vós, que ainda apezar do esquecimento
+Recommendais com pranto merecido
+Os amores de Ignez ao sentimento,
+E seu nome ao respeito que he devido,
+Com verso humilde aqui vos represento
+O tragico infortunio desabrido,
+Que aconteceo á misera mesquinha,
+Que inda depois de morta foi Rainha.
+
+Fim.
+
+ * * * * *
+
+
+Notas de Transcrição
+
+NT1: No original as últimas duas cenas aparecem ambas identificadas como
+"Scena X".
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Nova Castro: tragedia, by
+João Baptista Gomes Junior
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVA CASTRO: TRAGEDIA ***
+
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+Project Gutenberg's Nova Castro: tragedia, by João Baptista Gomes Junior
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Nova Castro: tragedia
+ quinta edição, correcta de muitos erros, e augmentada com
+ a brilhante scena da coroação
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+Author: João Baptista Gomes Junior
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+Release Date: September 4, 2007 [EBook #22508]
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVA CASTRO: TRAGEDIA ***
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+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
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+
+<div class="ficha_tecnica">
+<br>
+<img src="images/PrimeiraPagina.gif" border="0" alt="Gravura Primera Página">
+<div class="poesia">
+Eis, ó Senhor, os filhos de teu filho.
+Que vem com tristes lagrimas rogar-te
+Que d'esta triste Mãi te compadeças.
+ Act. IV. Scen. III
+</div>
+<br>
+</div>
+<br>
+<div class="ficha_tecnica">
+
+<br>
+<h1>NOVA CASTRO,</h1>
+
+<h3>TRAGEDIA</h3>
+
+<h5>DE</h5>
+
+<h3>JOÃO BAPTISTA GOMES JUNIOR.</h3>
+
+<h4>QUINTA EDIÇÃO</h4>
+
+<h5>CORRECTA DE MUITOS ERROS, E AUGMENTADA<br>
+COM A BRILHANTE SCENA</h5>
+
+<h5>DA</h5>
+
+<h3>COROAÇÃO.</h3>
+
+<img src="images/SeloImprensaRegia.gif" border="0" alt="Selo da Impressão Regia">
+
+<p>LISBOA,<br>
+
+<span class="smallcaps">Na Impressão Regia. 1830.</span><br>
+
+Com Licença da Mesa do Desembargo do Paço.</p>
+
+<hr>
+
+<p>Vende-se na Loja de Livros de João Henriques,<br>
+
+Rua Augusta N.o 1.</p>
+</div>
+
+
+<h2>ACTORES.</h2>
+
+<table width="100%" border="0">
+<tr>
+<th>D. Affonso IV</th> <td>Rei de Portugal.</td>
+</tr>
+<tr>
+<th>D. Pedro</th> <td>Principe.</td>
+</tr>
+<tr>
+<th>D. Ignez de Castro.</th><td></td>
+</tr>
+<tr>
+<th>D. Sancho</th> <td>Mestre do Principe.</td>
+</tr>
+<tr>
+<th>Coelho</th> <td>Conselheiro.</td>
+</tr>
+<tr>
+<th>Pacheco</th> <td>Conselheiro.</td>
+</tr>
+<tr>
+<th>D. Nuno</th> <td>Camarista do Rei.</td>
+</tr>
+<tr>
+<th>O Embaixador de Castella.</th><td></td>
+</tr>
+<tr>
+<th>Elvira</th> <td>Aia de D. Ignez.</td>
+</tr>
+<tr>
+<th>Dois Meninos</th> <td>Filhos de D. Pedro, e D. Ignez.</td>
+</tr>
+</table>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>A Scena he em Coimbra, n'huma Sala do Palacio, em que reside D. Ignez.</i></p>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>A Acção começa ao romper do dia.</i></p>
+<span class='pagenum'>Pág. 3</span>
+
+
+
+
+<h2>ACTO I.</h2>
+
+
+<h3>Scena I.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Ignez, e Elvira.</i></p>
+
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span>(1) Sombra implacavel! Pavoroso Espectro!
+Não me persigas mais... Constança! Eu morro.(2)
+</div>
+
+<p class="notas">(1) <i>Ignez entra na Scena delirante, e horrorisada.</i>
+<br>
+(2) <i>Assenta-se desfallecida.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> Que afflição!.. Que delirio!.. Oh Deos!
+Senhora...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span>(3) Onde está... onde está o meu Esposo?...
+</div>
+
+<p class="notas">(3) <i>Ainda fora de si, e atemorisada.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> O Principe, Senhora, inda repousa,
+Tudo jaz em silencio: tu sómente,
+Negando-te ao socego, atribulada,
+Neste Paço, ululando, errante vagas?
+Que dor acerba o coração te rasga?
+Que sonhadas visões assim te ancêão?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Contra Ignez se conspira o Ceo, e a Terra.(4)
+Té das campas os mortos se levantão
+Para me flagellar: continuamente
+Negros fantasmas ante mim voltêão...
+Que horror!.. Oh Ceos!.. Agora mesmo, Elvira,<span class='pagenum'>Pág. 4</span>
+Debuxados na mente inda diviso
+Os medonhos espectros, que, girando
+Em torno de mim, me assombrárão...
+Surgir vejo Constança do sepulchro,
+Que em furias abrazada a mim caminha...
+Relampagos fuzilão, treme a terra...
+Eis-que lá dos abysmos arrojados
+Impios Ministros da feroz vingança
+No peito agudos ferros vem cravar-me:
+Debalde agonisante o Esposo invoco...
+Proferido por mim seu doce nome
+Exacerba os furores de Constança,
+Que á morada dos mortos me arremessa.
+Oh do crime funestas consequencias!...
+Desgraçados mortaes!
+</div>
+
+<p class="notas">(4) <i>Levantando-se.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> .............. E póde hum sonho...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Não he hum sonho, Elvira, são remorsos.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> Devem elles acaso inda ralar-te?
+Não bastou Hymenêo a suffoca-los?
+Ah! Se antes que os seus laços te cingissem,
+Succumbiste do amor á paixão céga,
+Assaz tens expiado este delicto,
+Delicto mais que todos desculpavel.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Huma alma como a minha jámais julga
+Ter assaz expiado seus delictos:
+Embora de Hymenêo os sacros laços
+Agora o meu amor licito fação,
+Este amor foi no crime começado.
+Mirrada de pezares, sim, foi elle,
+Quem despenhou Constança no sepulchro,
+Constança, essa Princeza desgraçada,
+Que, a não ser eu, talvez fosse ditosa,
+Talvez, do Esposo amada, inda vivesse;
+Eu fui a origem dos seus males todos;<span class='pagenum'>Pág. 5</span>
+Trahi sua amizade, fui-lhe ingrata,
+Sua rival, oh Ceos! assassinei-a.
+Oh crime involuntario! Horrendo crime!
+Tuas iras são justas, sim, Constança;
+Arrasta-me comtigo á sepultura,
+Acaba de punir-me, e de vingar-te...
+Mas ah! Que digo!.. Não... poupa-me a vida,
+Nella a vida do Principe se int'ressa:
+Tu não has de querer envenenar-lha:
+A morte não, não póde certamente
+A paixão extinguir de que morreste;
+Mesmo lá do sepulchro inda o adoras...
+E talvez compassiva me desculpes.
+Quem melhor do que tu conhecer deve,
+Que aos affectos de Pedro, aos seus extremos
+Humanas forças resistir não podem?
+Se tu, sem ser amada, tanto o amaste,
+Deixaria eu de ama-lo sendo amada?
+Sabe o Ceo quanto tempo em viva guerra,
+Contra o meu coração lutei debalde:
+Quantas vezes chamando em meu soccorro
+A virtude, e a razão... auxilio inutil!
+Immudece a razão quando amor falla.
+Triunfar de paixões iguaes á minha...
+Os miseros mortaes não podem tanto...
+Que profiro infeliz? Até blasfemo!...
+Perdoa, Summo Deos, ao meu delirio:
+A meu pezar, Senhor, fui criminosa;
+Porém tua Justiça adoro, e temo.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> O Ceo he justo, Ignez, o Ceo te absolve:
+Tua alma, onde morou sempre a virtude,
+Tem por graves delictos leves faltas;
+Tranquilliza, Senhora, os teus sentidos,
+Modera as afflicções.
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 6</span>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ............... Em breve a morte
+Ás minhas afflicções virá pôr termo.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> Oh Ceos! Na primavera de teus annos,
+Engolfada em fataes, loucos pezares,
+Tu propria buscas terminar teus dias,
+Sem que ao menos te lembres que depende
+Da tua vida a vida do Consorte;
+Que numa lagrima só que tu derrames,
+Se o Principe jámais a divisasse,
+Seria de sobejo a envenenar-lhe
+O terno coração, que affagar deves!...
+Se neste estado agora elle te achasse,
+Em que estado sua alma ficaria!
+Por seu amor, te rogo, enxuga o pranto,
+As afflicções desterra, em que soçobras.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Oxalá que podesse desterra-las!
+Mas buscarei ao menos reprimi-las,
+Porque não participe o caro Esposo
+Dos males, dos horrores que me cercão.
+Embora o Ceo me opprima, e me castigue,
+Entorne sobre mim suas vinganças;
+Porém sobre elle só prazeres mande:
+O seu socego, mais que o meu, desejo:
+A fim de lhe mostrar alegre o gesto,
+A que esforços me não dou continuamente?
+Para o não affligir... ah! Quantas vezes
+Calco, suffoco dentro do meu peito
+Afflicções, que no peito me não cabem!...
+Quantas vezes, sumindo-se a seus olhos,
+Dos meus ao coração recúa o pranto!
+Mas ah, que os meus pezares, meus martyrios,
+Quanto mais os escondo, muais se azédão,
+Nem podem já ter fim senão co'a vida.
+A qualquer parte, oh Ceos, que os olhos mande,<span class='pagenum'>Pág. 7</span>
+Motivos d'afflicção sómente encontro.
+Do passado a lembrança me horrorisa,
+E do futuro a idéa me intimida:
+Contra mim conspirada a intriga, a inveja,
+Sobranceiras as iras d'hum Monarcha,
+Tudo me vai cavando a sepultura:
+O coração m'o diz.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> ............ Elle te illude:
+Que podes tu temer, quando enlaçada
+Ao mais digno dos Principes do Mundo,
+Ao melhor dos mortaes que os Ceos formárão,
+O seu braço invencivel te defende?
+Em vez de recear sonhados males,
+Olha os immensos bens, a fausta sorte,
+Que propicio futuro te apparelha;
+O Lusitano Solio, que te espera;
+O respeito, o amor dos Portuguezes,
+A gloria de imperar sobre este povo,
+A quem teme, e venera o Mundo inteiro...
+Tudo, tudo, Senhora, te promette
+Permanentes venturas: nada temas.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Essas mesmas quimericas venturas,
+Esses bens illusorios, que me apontas,
+Justos motivos são dos meus temores.
+Oxalá que D. Pedro não tivesse
+Hum Throno por herança que offertar-me!
+Então fôra eu feliz, passára a vida
+No regaço da paz, e da alegria:
+Não haveria então quem se oppozesse
+Á perpetua união das nossas almas;
+Nem barbara politica empecêra
+De nossos ternos corações a escolha:
+Hum do outro na posse, ambos ditosos,
+Aos transportes d'amor sem susto entregues,<span class='pagenum'>Pág. 8</span>
+Rodeados dos tenros, caros filhos,
+Sem ter que desejar, o Throno excelso,
+Todos esses fantasmas da grandeza
+Nem huma vez sequer nos lembrarião;
+Mas o fado nao quiz...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> ................ Ahi vem D. Sancho.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Que motivo o conduz a procurar-me?
+Venero as suas cãs, e o seu caracter;
+Como elle, junto aos Reis, achão-se poucos.
+</div>
+
+
+<h3>Scena II.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Sancho, Ignez e Elvira.</i>(5)</p>
+
+<p class="notas">(5) <i>Elvira, logo que D. Sancho entra na Scena, retira-se para o fundo della,
+e pouco depois desapparece.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> O Ceo neste lugar faz que eu te encontre:
+He preciso, Senhora, com franqueza
+Mostrar-te os imminentes precipicios,
+Que só tua virtude evitar póde.
+O Principe despreza os meus conselhos,
+Meus rogos não attende, nem já céde
+Ás lagrimas d'hum velho que aprecia,
+Mais do que a propria vida, a sua gloria:
+D'hum velho, que incumbido de educa-lo,
+Sempre a núa verdade ante os seus olhos
+Tem feito apparecer, buscando sempre
+Afastar-lhe a lisonja dos ouvidos,
+Esse das Cortes pessimo veneno,
+Que os corações dos Principes corrompe.
+Seu caracter violento, caprichoso,
+Agora por amor mais inflammado,<span class='pagenum'>Pág. 9</span>
+Já não deixa dobrar-se ás minhas vozes;
+Cégo resiste aos Paternaes preceitos;
+He necessario pois que a obedecer-lhe
+O resolvas tu mesma. Bem conheces
+Do inflexivel Affonso o genio iroso.
+Já tres vezes o tem chamado á Corte,
+Sem que D. Pedro cumpra os seus mandados,
+Nem queira pesar bem seus ameaços:
+Muito do Rei severo temo as iras,
+Por crueis Conselheiros atiçadas:
+Vendo talvez do filho a rebeldia,
+Se esqueça de que he Pai. Cumpre, Senhora,
+Que atalhes as funestas consequencias,
+Que podem resultar da pertinacia
+Em que o Principe insiste: que o convenças
+A beneficio seu, e em teu proveito,
+A cumprir sem demora os seus deveres:
+Eu sei que na sua alma podes tudo,
+E das tuas virtudes tudo espero.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> O teu zelo, candura, e probidade
+Assaz louvo, e respeito. Não te enganas
+Em suppor-me capaz de emprender tudo,
+Inda mesmo arriscando a propria vida,
+Para chamar D. Pedro aos seus deveres;
+Não tem sido por falta de lembrar-lhos,
+Que elle ás ordens de hum Pai tem resistido.
+(Tu, não menos do que eu, seu genio sabes)
+Nem attender-me quer quando lhe imploro,
+Que á Corte vá lançar-se ás Regias Plantas.
+Todavia, D. Sancho, eu te prometto,
+Que não hão de cessar minhas instancias;
+Embora, longe delle, Ignez saudosa,
+Ao furor dos seus émulos exposta,
+Venha talvez a ser victima triste<span class='pagenum'>Pág. 10</span>
+De insidiosa politica: antes quero
+Morrer, do que lembrar-me que sou causa
+De que o Principe falte aos seus deveres.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Quem nutre em si tão nobres sentimentos,
+Inda sendo opprimida, he venturosa.
+Zombou sempre a virtude da desgraça,
+Debalde a emulação, armando a intriga,
+Conspira contra ti: mas he preciso
+Seus designios frustrar: sim....
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> .......................... Eis D. Pedro.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Queira o Ceo que o convenças! Eu vos deixo.
+</div>
+
+
+<h3>Scena III.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Pedro, e Ignez.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Quanto são vagarosos, cara Esposa,
+Os poucos melancolicos momentos,
+Que distante de ti saudoso passo?
+Só ao teu lado, Ignez, socêgo encontro,
+Não existo senão quando te vejo.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Quanto me adoras sei, Principe amado;
+Mais terno cada vez, mais extremoso,
+As tuas expressões meu pranto excitão;
+Porém d'amor agora não tratemos:
+Bradando estão deveres mais sagrados
+Que preencher te cumpre: antes de tudo
+Tenho, Esposo, hum favor que supplicar-te:
+Negar-mo-has tu, Senhor?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> .................. Ignez, que dizes?
+Tu, que tens na minha alma todo o imperio,
+Ah! Podes duvidar que eu te obedeça?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Pois bem, Senhor, attende á tua Esposa,
+Ouve meus rogos, e a meus rogos céde:<span class='pagenum'>Pág. 11</span>
+Se tu só junto a mim socêgo encontras,
+Tambem só junto a ti socêgo eu tenho;
+Porém quer o destino, o dever manda,
+Que te apartes de mim por algum tempo.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Apartar-me de ti? Oh Ceos! Que escuto!
+Apartar-me de ti? Castro he quem falla?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> He Castro, sim, Senhor, aquella mesma,
+Que preza mais que tudo a tua gloria;
+Aquella, cujo brio não tolera,
+Que seja o terno amor, que lhe consagras,
+Motivo de infringires teus deveres.
+Bem o sabes, Senhor, em nenhum tempo
+Procurei ardilosa fascinante:
+Cedi ao teu amor, porque te amava,
+Porque em ti divisei huma alma terna,
+Alma que o Ceo formou para encantar-me,
+De todas as virtudes adornada.
+Agora pois te cumpre conserva-las,
+E a mim não consentir que as abandones:
+Eu de mim propria assaz me horrorizára
+Se visse que as perdias por amar-me.
+Não, Principe querido, eu te supplico
+Por este mesmo amor que a ti me prende,
+Que á Corte sem demora te dirijas,
+Onde teu Pai, talvez já fatigado
+De te chamar em vão, te espera ancioso.
+Obedecer aos Paternaes preceitos
+He lei da Natureza, he lei sagrada;
+Cumpri-la deves: vai...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ................. Basta: Eu conheço
+Quaes meus deveres são, e sei cumpri-los;
+Sei que he devida aos Pais a obediencia;
+Mas igualmente sei que tem limites
+A Paternal, sagráda authoridade.<span class='pagenum'>Pág. 12</span>
+Tenho pensado bem no que obrar devo:
+Justos motivos, que não sabes inda,
+Exigem que eu não cumpra as Regias ordens.
+Obedecêra a hum Pai, se Pai tivera...
+Mas eu não vejo mais do que hum tyranno
+Nesse que o ser me dêo...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ................... Senhor, suspende:
+He teu Pai; muito embora cruel seja;
+Tu deves respeita-lo, e obedecer-lhe.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Se quer que lhe obedeça, e que o respeite,
+Não me imponha preceitos deshumanos.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Não prometeste ha pouco á tua Esposa
+Conceder-lhe o favor que te pedisse?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Vê pois quando não posso comprazer-te,
+Se terei razões justas que me estorvem
+De obedecer a hum Pai!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ................ Não póde have-las.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Tyrannos... que nos julgão seus escravos!(6)
+Para nos flagellar o ser nos derão!
+</div>
+
+<p class="notas">(6) <i>Sem attender a Ignez, transportado.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Tu me fazes tremer.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> .................. Sabe em fim tudo.
+Affonso, e o Monarcha de Castella
+Acabão de firmar a nova alliança,
+Em que sem meu consenso contratárão,
+Qu'eu daria a Beatriz a mão de Esposo:
+Para este fim á Corte sou chamado.
+Affonso, não contente da violencia
+Que ao meu coração fez, quando forçado
+De rôjo me levou ante os altares
+Para unir-me a Constança em laço eterno,
+Pezado laço, que rompeo a morte;<span class='pagenum'>Pág. 13</span>
+Não contente de haver sido o motivo
+De... Mas que digo? Não, ah! não foi elle;
+Eu em lhe obedecer fui o culpado:
+Que desenfrêe agora as suas iras;
+Que rogue, que ameace; mesmo quando
+Em secreto Hymenêo não estivessem
+Ligadas para sempre nossas almas,
+Debalde intentaria submetter-me
+A hum jugo que a vontade recuzasse,
+Reconheço porém que a pertinacia,
+O despotico orgulho de seu genio,
+Sem que attenda senão ao seu Tractado,
+Quererá que por força o desempenhe.
+Não convém descobrir nosso consorcio;
+E outra escusa qualquer que eu fosse dar-lhe
+D'irrita-lo inda mais só serviria.
+Agora julga pois se partir devo.
+Se me devo ir expôr, talvez... quem sabe!
+A faltar-lhe ao respeito inteiramente...
+Mas tu choras?.. Que vejo!.. Acaso temes?...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Nada temo por mim, por ti só temo:
+Sim, quando vejo sobranceiros males,
+Por desditoso amor originados;
+Quando vejo engrossar a tempestade,
+Que me denota proxima ruina;
+Nem por isso me assusto: o que me afflige,
+He vêr hum Pai, hum Reino, e o proprio Esposo,
+Tudo por meu respeito alvorotado.
+Em situação tão ardua, e tão penosa,
+Té chego a desejar... (infeliz Castro!)
+Que o sacrosanto nó que a mim te prende,
+Este laço tão doce, e desejado,
+Dos bens o maior bem que Ignez possue,
+A ser possivel, hoje se rompesse,<span class='pagenum'>Pág. 14</span>
+Só porque tu podesses livremente
+Obedecer a hum Pai, fazer ditosos
+Por hum feliz consorcio dois Imperios.
+Muito embora Beatriz te possuisse...
+Mas que digo? Ai de mim! Nos braços d'outra!..
+Nos braços d'outra vêr o amado Esposo!
+Ah! não... não posso tanto, antes a morte.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> He teu meu coração, será teu sempre.
+Os laços de Hymenêo são as mais debeis
+Prizões que a ti me ligão. Quando amamos,
+Desnecessarios são ritos, promessas:
+Mais força tem amor que os juramentos.
+Inda que ante os altares sacros votos
+De permanente fé, de amar-te sempre
+Não tivesse a teu lado proferido,
+Seria sempre teu, sempre te amára;
+Sem que jámais podesse força humana
+Separar corações, que amor uníra.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Mas que, talvez em breve sopeados,
+Aos golpes da politica succumbão.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Para lhe resistir basta o meu braço.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> O teu braço, Senhor, só deve armar-se
+Para emprezas mais dignas do teu nome:
+No lance melindroso em que nos vemos
+Convém, mais que os furores, a brandura;
+E apezar das razões que ponderaste,
+Julgo que deves dirigir-te á Corte;
+Pois talvez, se não corres a embarga-los,
+Teu Pai avance os começados passos
+Para as nupcias da Infanta de Castella,
+Na esperança de ser obedecido,
+E a ponto chegue que depois não possa...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Sem lhe dizer porque, já fiz saber-lhe,
+Que taes nupcias jámais celebraria.
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 15</span>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Mas não fôra melhor...
+</div>
+
+
+<h3>Scena IV.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Pedro, Ignez, e D. Sancho.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> ................... Senhor: ah! corre,
+Vem esperar teu Pai.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> .............. Oh Ceos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ...................... Que dizes?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Dirigido a Coimbra em veloz marcha
+Partio da Corte Affonso, aqui não tarda.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span>(7) Agora sim, minha desgraça he certa.
+</div>
+
+<p class="notas">(7) <i>Fallando comsigo mesma.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> (8) Meu Pai? oh Ceos!.. meo Pai?
+</div>
+
+<p class="notas">(8) <i>Pensativo, e admirado.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> ........................ Coelho, e Pacheco,
+Seus crueis Conselheiros, o acompanhão:
+Toda a Corte, Senhor, em sobresalto
+Ficou co'esta partida inesperada:
+Mendonça que ligeiro vem trazer-te
+A importante noticia, assim o affirma:
+Murmura o Povo já de recusares
+As nupcias de Beatriz, que applaudem todos.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Murmure muito embora, embora venha
+Armado de poder, ardendo em raiva,
+Da vingança, e das furias escoltado,
+Esse a quem por meu mal devo a existencia;
+Que, se intentar comigo ser tyranno,
+Ha de em seu filho achar hum inimigo
+Capaz dos mais tremendos attentados;
+Que em casos taes os crimes não são crimes,
+São forçoso dever das almas grandes.<span class='pagenum'>Pág. 16</span>
+Espera-lo não vou.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> ........... Senhor, que fazes?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> O que me apraz fazer.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> .................... Oh Ceos! Nem posso
+Das tuas expressões horrorizada,
+Soltar do coração tremulas vozes:
+Fallem por mim as lagrimas que choro...
+Não me consternes mais. Ah! vai, não tardes;
+Vôa a encontrar teu Pai, se ver não queres
+Estalar de afflicção a tua Esposa.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> (9) Eu vou satisfazer-te, sim eu parto;
+Vou rasgar do segredo a cauta venda:
+Saiba, sim, saiba Affonso antes que chegue
+Estes sitios a entrar, que Ignez habita,
+Que a deve respeitar como Princeza;
+Que inquebravel prizão a Ignez me liga.(10)
+</div>
+
+<p class="notas">(9) <i>Depois de ficar hum pouco pensativo, diz resoluto.</i>
+<br>
+(10) <i>Em acção de partir, e D. Sancho retendo-o.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Oh Ceos! Não faças tal, melhor discorre;
+Para lhe revelar hum tal segredo
+Occasião mais opportuna espera:
+A cólera azedar não vás de Affonso;
+No transporte cruel das suas iras,
+Bem sabes que he capaz...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ................... De que? De nada:
+Mais de mim, do que eu delle, tremer deve...
+Se ousasse contra Ignez... Ah! nem pensa-lo.
+Para vingar o seu menor insulto
+Seria pouco todo o sangue humano.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Bem me dizia o coração presago...
+Meu mal he sem remedio; o proprio Esposo
+He quem vai despenhar-me no sepulchro.<span class='pagenum'>Pág. 17</span>
+Meus crueis inimigos não me assustão:
+O popular tumulto, hum Rei severo
+Nada temo, ai de mim! a ti só temo.
+Ah! Lembra-te, Senhor, do que juraste
+Antes de conduzir-me ás sacras Aras,
+Onde eu te não seguira, se primeiro
+Tu me não prometesses guardar sempre
+O devido respeito ao teu Monarcha,
+E a paz não perturbar dos seus Dominios:
+Tu não has de faltar, o tempo he este,
+Que eu já prevía então: oh caro Esposo!
+Lança do coração fataes transportes;
+Não percas tempo, vai, corre a prostrar-te
+Aos pés do grande Affonso; mas submisso,
+Ao beijar de teu Pai a mão augusta,
+Sobre ella de teus olhos chova o pranto.
+Pondera que te perdes, que me perdes,
+Se com elle furioso praticares;
+Só nos pode salvar docil brandura:
+Se não queres matar-me, sê submisso.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> O temor de affligir-te pode tudo.
+Respeitoso serei, terei brandura,
+Se elle brandura igual usar comigo.
+Nada temas, Princeza: Adeos. Eu juro
+Pelos Ceos outra vez, e por ti mesma,
+Que inda que o Mundo inteiro se me opponha,
+Castro ha de ser de Portugal Rainha.(11)
+</div>
+
+<p class="notas">(11) <i>Parte.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Não te apartes, D. Sancho, do seu lado:
+Moderem teus conselhos seus transportes.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Dai forças, justos Ceos, ás minhas vozes,
+Lançai a Portugal piedosas vistas.
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 18</span>
+
+
+<h3>Scena V.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Ignez só.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+Que temor, infeliz! de mim se apossa!(12)
+Caro Principe!.. Esposo!.. oh Deos, quem sabe
+Se a ver-te tornarão inda os meus olhos.
+Vai, ó Castro, abraçar-te aos caros filhos,
+E entrega-te nas mãos da Providencia.
+</div>
+<p class="notas">(12) <i>Sem poder despregar os olhos do caminho que tomou D. Pedro.</i></p>
+
+
+
+
+<h2>ACTO II.</h2>
+
+
+<h3>Scena I.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, e D. Pedro.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Basta, Principe, basta: prescindamos
+De justas arguições, de escusas futeis;
+Não quizeste ir, vim eu. Quero esquecer-me,
+Perdoar quero mesmo as tuas faltas,
+Huma vez que obediente hoje as repares.
+Concluão-se estas nupcias proveitosas,
+Que para teu prazer, e a bem do Estado,
+Prudente contratei. Verás com gosto,
+Quando Lisboa entrares a meu lado,
+Com quanto regozijo o Povo todo,
+Teu consorcio applaudindo, a festeja-lo
+Com pompa jámais vista se prepara.
+Que doçura não he para os Monarchas,<span class='pagenum'>Pág. 19</span>
+Espalhar alegria entre os Vassallos!
+Vê-los mandar ao Ceo ardentes votos,
+Pela conservação da Regia Prole,
+Que lhe segura a paz, a dita, a gloria!
+Vêr que as suas acções o Povo approva,
+E contente abençôa o seu Reinado,
+Curvando-se de grado ao leve jugo,
+Que sómente os máos Reis fazem pezado!
+Mil graças dou aos Ceos, pois satisfeitos
+Julgo estarão de mim os Lusitanos.
+E nada mais desejo que deixar-lhes,
+Em meu filho, outro eu, que sempre os ame,
+E que por elles seja sempre amado.
+Começa desde já neste consorcio
+A firmar o seu bem. Sim, hoje mesmo
+Deves partir comigo para a Corte,
+A fim de o celebrar, logo que chegue
+A Infanta de Castella, digno objecto
+Que escolhi para Esposa de meu filho.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Ah! Que seja possivel, por meu damno,
+Que o melhor dos Monarchas do Universo,
+Igualmente não seja o Pai mais terno!
+Que hum Rei, que desvelado buscou sempre
+Fazer os seus Vassallos venturosos,
+Queira fazer seu filho desgraçado!...
+Contratares, Senhor, sem consultar-me
+Hum consorcio, ignorando se teu filho
+Pode, ou quer d'Hymenêo ás leis cingir-se!
+Se essa, que lhe destinas para Esposa,
+Pode ao seu coração ser agradavel!
+Acaso julgas tu desnecessaria
+A minha approvação para estas nupcias!
+Não será livre hum coração ao menos
+Na escolha d'huma Esposa, que amar deve...<span class='pagenum'>Pág. 20</span>
+Ah! Não queiras, Senhor, com tal violencia...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Immudece, insensato; não prosigas
+Indignas expressões que me envergonhão...
+Bem conheço a razão porque assim pensas.
+Que indignos sentimentos, que fraqueza,
+Para quem deve hum dia ser Monarcha!
+Como, quando do Imperio as redeas tomes,
+Quando na mão a espada formidavel
+Da severa Justiça sustentares,
+Das paixões punirás o torpe effeito,
+Sendo tu proprio das paixões escravo?
+Como jámais serás obedecido,
+Se tu mesmo ao teu Rei desobedeces?
+Com quanta repugnancia os Portuguezes,
+Murmurando, verão no Luso Solio,
+Que de tantos Heróes tem sido assento,
+Hum Rei dado ás paixões, afeminado,
+Incapaz de empunhar o Sceptro augusto!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Mas capaz de os reger, e defende-los.
+Se das grandes paixões sou susceptivel,
+A molleza detesto, bem o sabes:
+Quando cumpre, Senhor, em campo armado;
+Ensinado por ti, brandindo a espada
+Sei por acções mostrar que sou teu filho;
+Nem para ser bom Rei (Senhor, perdôa)
+Eu julgo necessario huma alma dura;
+Mas antes me persuado não devêra
+O que fosse insensivel reger Homens.
+Corações que á ternura se não rendem,
+Jámais sabem carpir alheios males;
+Nem doêr-se das lagrimas do afflicto.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Apagada a razão, cégo deliras;
+Isentos de paixões os Reis ser devem;
+Manão dos seus os publicos costumes:<span class='pagenum'>Pág. 21</span>
+Se exemplificão mal os seus Estados,
+Os vicios dos Vassallos são seus vicios;
+Devem sacrificar os seus desejos;
+Ser comsigo crueis a bem dos Povos,
+Que o Ceo lhes confiou; e os que se ensaião
+Para lhes dar as Leis, devem mostrar-se
+Capazes destes nobres sacrificios.
+Os consorcios dos Principes são obra
+Dos int'resses do Estado, elles decidem,
+Elles dispõe de nós. Deixem-se ao Vulgo
+Caprichosos melindres com que exige,
+Que aos laços d'Hymenêo Amor presida.
+As doçuras de Amor para os Monarchas
+São de pouca valia: a nossa gloria
+Não se firma em tão fracos alicerces.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Se aos que devem reinar he necessario
+Ceder dos privilegios, dos direitos
+Que a Natureza deo aos Homens todos;
+Por tal preço, Senhor, não quero o Throno!
+Laços formar, que o coração repugna,
+Origem de desgraças, e de crimes...
+Assaz o exp'rimentei... grilhões tão duros,
+Por tuas mãos lançados, longo tempo
+Com bem custo arrastei... Supportar outros...
+Ah! Não, Senhor, não posso.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> ...................... Temerario!
+Basta já de soffrer hum filho ingrato.
+Se aos rogos, ás razões de hum Pai benigno
+Tu não queres ceder; cede aos preceitos
+De hum Monarcha severo, e justiçoso.
+Eu dei minha palavra, has de cumpri-la:
+Os tratados dos Reis não são falliveis:
+Debalde pois te oppões...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ................... Mas ah! Pondéra...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 22</span>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Tenho em fim decidido. Acaso queres,
+Deixando de cumprir o meu Tratado,
+Entre os Povos soprar horrenda guerra?
+Queres vêr Portugal nadando em sangue?
+Contra nós conspirada a Europa inteira,
+Abraçando o partido de Castella,
+Vir vingar sua injuria? Ah!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ......................... Que recêas?
+Portugal vencedor, nunca vencido,
+Zombará do poder do Mundo inteiro.
+Tão ousada será, tão nescia a Hespanha,
+Que contra nós se atreva a mover guerra?
+Não ha de inda lembrar-se o seu Monarcha,
+Que te deve os Dominios que possue?
+Que ha bem pouco, cercado de inimigos,
+Vendo nas mãos o Sceptro vacillante,
+Mandou a propria Esposa, filha tua,
+A implorar-te que fosses soccorre-lo,
+Ou antes sobre o Throno sustenta-lo?
+E que do filial pranto commovido,
+Não contente em mandar-lhe tuas Tropas,
+Tu proprio á testa dellas generoso
+Quizeste ir debellar seus inimigos,
+E segurar-lhe a C'roa na cabeça?
+Ha de offender quem soube defende-lo!
+Quem pode, apenas queira, anniquila-lo?
+Não; quem vio pelejar, ao teu commando
+Nas margens do Salado os Portuguezes,
+A atacar Portuguezes não se atreve;
+E se o tanto chegar a sua insania,
+Á maneira dos seus antepassados,
+Chorando o opprobrio de ficar vencido,
+Caro lhe custará seu louco arrojo.
+Oxalá que elle á guerra nos convide!<span class='pagenum'>Pág. 23</span>
+Poderia teu filho então mostrar-te,
+Que te sabe imitar quando he preciso,
+Novos louros cingindo ao teu Diadema.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Que desatino! Oh Ceos!.. Eu me envergonho
+De te haver dado o ser: de te ouvir tremo...
+Tristes Vassallos meus, amados filhos,
+Que Monarcha vos deixo sobre o Throno!
+Tu desejas a guerra? Esse flagello,
+Que envergonha, e devasta a Humanidade?
+O capricho dos Reis que imposta aos Povos?
+Ouve as lições de hum Pai, posto que iroso
+Só devêra tractar do teu castigo.
+Eu não posso deixar quando te escuto,
+De reprender-te, ó filho, e de ensinar-te:
+Talvez por ti mandado á sepultura,
+Bem depressa no Throno me succedas;
+Não te esqueças então dos meus dictames:
+Poupa o sangue dos miseros Vassallos,
+Do mais infimo delles préza a vida
+Outro tanto que a tua; teme a guerra,
+Que ao proprio vencedor sempre he funesta:
+No meio do triunfo os bons Reis chorão.
+Nessa mesma tão célebre batalha,
+Que julgas me cingio de louro eterno,
+Quando juncavão do Salado as margens
+Os montões de cadaveres sem conto
+De infieis derrotados inimigos;
+Por perder trinta só dos meus Soldados,
+Muito cara julguei esta victoria,
+E, dentro de mim proprio recolhido,
+Mais pranto derramei, do que elles sangue.
+Os Reis devem ser Pais de seus Vassallos;
+Nada mais que o seu bem deve importar-lhes...<span class='pagenum'>Pág. 24</span>
+Elle exige estas nupcias, que te ordeno;
+Suas vozes escuto, e não as tuas.
+Já te disse que dei minha palavra,
+E torno-te a dizer que has de cumpri-la.
+Affonso he teu Monarcha: mando, e basta.
+Hoje mesmo comigo para a Corte
+Vê que deves partir, vai preparar-te.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Teus passos seguirei, porém debalde...
+Celebrar o consorcio que pertendes...
+Quizera obedecer-te, mas não posso...
+Sem que te diga mais, assaz te digo.
+</div>
+
+
+<h3>Scena II.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso só.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+He possivel, oh Ceos, que assim meu filho
+Temerario resista aos meus preceitos!..
+Que cegueira! Que arrojo! He necessario
+Desarraigar-lhe d'alma por violencia
+A funesta paixão que o traz de rojo:
+Mas de que modo?.. Cumpre medita-lo...
+Seja em fim como for, desempenhado
+Meu Tratado ha de ser: o ingrato filho,
+Em vez de hum Pai benigno, hum Rei severo
+Ha de encontrar em mim. Oh lá, D. Nuno.(13)
+</div>
+
+<p class="notas">(13) <i>Chamando.</i></p>
+<span class='pagenum'>Pág. 25</span>
+
+
+<h3>Scena III.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, e D. Nuno.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> Que me ordenas, Senhor?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> ....................... Os Conselheiros
+Vai chamar... mas espera, ahi vem Pacheco.
+</div>
+
+
+<h3>Scena IV.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, Pacheco, e D. Nuno.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span>(14) Quem tal dissera, Amigo! Eu me envergonho
+Sómente de o pensar: o iroso aspecto
+De hum Monarcha, de hum Pai, razões, ameaços
+Nada bastante foi: ousa o rebelde
+Ás nupcias recusar-se, aos meus preceitos;
+Mas ha de obedecer-me, aos Ceos o juro.
+Os meios estudemos, que efficazes
+A sua contumacia vencer possão:
+Se necessario for, inexoravel,
+Rigoroso serei.
+</div>
+
+<p class="notas">(14) <i>D. Affonso se dirige a Pacheco, e D. Nuno se afasta para o fundo da Scena.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Pach.</span> ......... Dever funesto
+He, Senhor, na verdade, o de hum Vassallo,
+Que fiel ao seu Rei, bem que sensivel,<span class='pagenum'>Pág. 26</span>
+Na precisão se vê de supplicar-lhe,
+Que suffoque a piedade, e que castigue...
+Mas o int'resse do Estado, e mais que tudo
+O decoro do Throno assim o exigem.
+De incorrupta lealdade claras provas
+Eu protesto dar sempre ao Rei, e á Patria.
+Longe de desculpar, porque he teu filho,
+Do Principe a Paixão, funesta origem
+Da sua contumacia; com franqueza
+Direi meus sentimentos, sem que possa
+Tolher-me as expressões o temor justo
+De perder o favor, de ser odiado
+De hum Principe que adoro, e que respeito.
+Se queres que teu filho te obedeça,
+Corta a indigna prizão que maniatado
+O coração lhe traz, e que o estorva
+De entrar em seus deveres: pune, extingue
+Esse objecto fallaz que a alma lhe encanta:
+De contrario, Senhor, serão baldados
+Outros meios quaesquer que projectares.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Seja punida, sim, seja punida
+Mulher que tantos males origina;
+Que impera mais do que eu, e que se atreve
+A usurpar-me do filho a obediencia.
+Seu crime... Mas que digo!.. por ventura
+Não he meu filho mais culpado qu'ella!
+Serei eu parcial punindo Castro,
+Sem que seja igualmente castigado
+Quem deve mais do que ella ser punido?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Pach.</span> O Principe he teu filho, tanto basta
+Para ser absolvido, e desculpado:
+A condição d'Ignez he mui diversa.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Não puno condições, puno delictos.
+Antes de tudo interroga-la devo.<span class='pagenum'>Pág. 27</span>
+D. Nuno, chama Ignez.(15) Ouvi-la quero,
+Sondar seu coração; depois veremos
+Se he digna de castigo.
+</div>
+
+<p class="notas">(15) <i>Parte D. Nuno.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Pach.</span> ................ Ah! Se attenderes
+Suas vozes, Senhor, suas escusas,
+Por seu astuto pranto subornado,
+Deixarás por piedoso de ser justo.
+Quem foi capaz de fascinar o Filho,
+Pode o Pai fascinar. Arte impostora
+A peitos feminís Amor suggere:
+Quando as abraza criminosa chamma,
+Negão as expressões o que a alma sente,
+E c'o auxilio das lagrimas convencem.
+Attende, attende só ao bem do Estado,
+Ao exemplo que deves ao teu Povo,
+Que, murmurando já, talvez se azede
+Se vir que em nova guerra o precipita
+Do Principe a paixão escandalosa.
+Não soffrerá Castella a grave affronta
+De ser, do seu Tratado em menoscabo,
+Por teu Filho Beatriz repudiada:
+E o consorcio D. Pedro não celebra,
+Sem que até da lembrança Ignez lhe affastes.
+Atalha em quanto podes tantos males:
+Muitas vezes punir he ser piedoso.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Tu me fazes entrar nos meus deveres.
+Para me resolver a castiga-la
+Basta o bem do meu Povo que me lembras.
+No coração de hum Rei digno do Throno,
+Se os int'resses do Estado a voz levantão,
+Compaixão, amizade, natureza,
+Tudo, tudo immudece. Exterminada,<span class='pagenum'>Pág. 28</span>
+Em remota clausura Ignez reclusa,
+Da presença do Principe se affaste:
+Não torne a ver meu filho essa que o céga,
+Em quanto, da razão accêso o facho,
+As tochas de Hymenêo arder não faça;
+E se isto não bastar, mão lançaremos
+De outro mais efficaz, duro remedio.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Pach.</span> Não bastará talvez; por mais que seja
+Recatado, e remoto qualquer sitio,
+Que para o seu desterro escolher possas,
+Lá mesmo irá teu Filho arrebata-la.
+Eu calo o mais que sinto, e só te lembro
+Que a quereres com ella ser piedoso,
+Poupando-lhe hum maior, justo castigo,
+De Portugal ao menos a desterres.
+Occasião, Senhor, tens opportuna
+De envia-la ao Monarcha de Castella,
+Que zeloso da filha no decoro,
+Guardará providente em segurança
+A rival que se atreve a disputar-lhe
+O coração do Principe. Este arbitrio
+Segue pois, se te apraz, bem que inda o julgo
+Para tão grande mal remedio fraco.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Seguirei teu conselho; porém antes
+Já de brandura usando, já de ameaços,
+Quero tentar o coração de Castro;
+Vêr se a posso mover a que ella mesma
+As chammas que accendeo apagar busque...
+Mas ella para aqui já se encaminha.
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 29</span>
+
+
+<h3>Scena V.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, Ignez, Pacheco, e D. Nuno.</i>(16)</p>
+
+<p class="notas">(16) <i>Pacheco afasta-se para o fundo da Scena, logo que Ignez se chega ao Rei,
+e D. Nuno que a conduz te retira.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Eu desfalleço... Oh Ceos... Excelso Affonso,
+Permitte que a teus pés Ignez prostrada...(17)
+</div>
+
+<p class="notas">(17) <i>Prostra-se aos pés do Rei.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Levanta-te, ardilosa. Não he digna
+De beijar a Mão Regia huma vassalla,
+Que a perpetrar se atreve altos delictos.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Eu perpetrar delictos! Quaes são elles?
+Fiel sempre ao meu Rei, vassalla humilde,
+Ignoro em que offendesse a Magestade.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span>(18) Além de criminosa, inda impostora!..
+A fallaz artificio em vão recorres.
+De sobejo sciente do teu crime.
+Tua simulação mais me enfurece:
+Ousarás tu negar que amas meu filho?
+</div>
+
+<p class="notas">(18) <i>Contemplando-a iroso.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Não, Senhor, a nega-lo não me atrevo...
+Nem, por mais que eu quizesse, poderia
+Deixar de confessar o que os meus olhos,
+O rubor de meu rosto assaz te explicão:
+Sim, se he delicto amar, e ser amada,
+Meu coração, Senhor, he criminoso...
+Mas eu não sou culpada.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> .................. Que proferes?<span class='pagenum'>Pág. 30</span>
+Se confessas tu mesma o teu delicto,
+Dizes não ser culpada?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ................ Sou ingenua.
+Em chamar-me impostora te enganaste:
+Tenho-te dicto assaz... e mais dissera,
+Se licito me fosse.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> .............. Acaba, dize:
+Que cegueira fatal, que louco arrojo,
+Vãs, altivas idéas te inspirárão?
+Como intentaste ousada ter imperio
+No coração d'hum Principe? Não vias
+A distancia empinada, inaccessivel,
+Que do teu berço vai ao Throno excelso?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Quando amante paixão nos predomina,
+Offuscada a razão, a ninguem lembrão
+As distincções fataes do berço, e sangue.
+São iguaes ante amor os mortaes todos:
+De virtude sómente se enamora
+Huma alma virtuosa: só virtudes
+Convidárão Ignez a amar teu filho.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> E atreves-te a fallar inda em virtude?
+Não profanes palavra tão sagrada;
+Antes dize que estólida esperança,
+Avidez de reinar, te fez culpada.
+Talvez da minha já cançada vida
+Contando os longos importunos dias,
+Te tardava o momento suspirado,
+Em que, baixando Affonso á sepultura,
+Vazio o Throno, aos teus desejos franco,
+Te cingisse o Diadema a indigna fronte.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Que injustiça!.. Minha alma não conheces,
+Não conheces de amor o desint'resse:
+Quem ama, só deseja ser amado.<span class='pagenum'>Pág. 31</span>
+E a par de hum coração como o de Pedro,
+Os Diademas que são? Que vale o Mundo?
+Quem de seu terno peito o imperio obteve,
+Mais imperio não quer: nem se deslumbrão
+As almas grandes c'o esplendor do Throno.
+Quando a amor succumbi, do Solio estava
+Mais longe que o meu berço a minha idéa;
+Por isso não medi como devêra
+A declive distancia que os separa;
+Mas hoje a vejo assaz, e mais deploro
+A condição do Principe, que a minha;
+Quizera que tivesse antes nascido
+Vassallo o meu amante, que eu Princeza:
+Longe de o cobiçar, detesto o Throno:
+Nelle diviso só barreira odiosa,
+Que entre peitos sensiveis sorte adversa
+Alçou para que nunca unir-se possão...
+Sei que sou infeliz... e o serei sempre.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Podes inda evitar maior desgraça;
+Quem logo que o conhece o crime atalha,
+A innocencia recobra. Extingue, ó Castro,
+As criminosas chammas que sopraste;
+Quanto são detestaveis não ignoras,
+E bem vês que nutri-las mais não podes.
+Antes pois que do Principe te affastes,
+(A tão graves delictos leve pena,
+Que hum benigno Monarcha te destina)
+Teu completo perdão merecer busca.
+Tu mesma de seus erros o dissuade,
+E o convence a cingir-se aos dignos laços
+Do plausivel consorcio que lhe ordeno:
+Concorre para o público socego,
+Em vez de o perturbar: não exacerbes
+Pertinaz em teu crime as minhas iras.<span class='pagenum'>Pág. 32</span>
+Teme o castigo atroz de que és credora,
+Se ao coração do Principe as que urdiste
+Prisões abominaveis não desatas.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Muito exiges de mim!.. Ah! Se eu podesse
+As algemas romper que nos vinculão,
+Só por te obedecer (crê-me) o fizera:
+Mas como n'hum momento arrancar posso
+Do peito de teu filho sentimentos,
+Que amor, e sympathia originárão?
+Para sempre deixar a terna amante,
+E subito ir lançar-se em braços de outra!..
+Se elle tivesse huma alma tão voluvel,
+Por ama-lo increpada eu não seria?
+Que proferi?.. Deliro... Oh Ceos... Perdôa...
+Perdôa-me, Senhor, talvez o tempo...
+Extinguir poderá... Não sei que digo.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Basta: immudece já, mulher soberba.
+De sobejo em tua alma tenho entrado.
+Ousas alardear, ante mim proprio,
+Do mais nefando crime! Ah! que castigos
+Bastarão a punir teus attentados!
+Tudo quanto ha de horrivel...
+</div>
+
+
+<h3>Scena VI.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, Ignez, Coelho, e Pacheco.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> ...................... De Castella
+Embaixador chegou, que Audiencia pede.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Entrar póde.
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 33</span>
+
+
+<h3>Scena. VII.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, Ignez, e Pacheco.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> .......... Retira-te atrevida;
+De meus olhos te affasta; vai, que em breve
+Te serão minhas ordens intimadas.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Humilde, e respeitosa hei de cumpri-las.
+Mas só te rogo que, antes de punir-me,
+Te dignes sem paixão sondar meu crime;
+Pois se pezares bem os meus delictos,
+Espero que me julgues desculpavel.(19)
+</div>
+
+<p class="notas">(19) <i>Retira-se Ignez, e D. Affonso fica pensativo, em quanto Pacheco falla.</i></p>
+
+
+<h3>Scena VIII.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, e Pacheco.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Pac.</span> Que insolente altivez ostentar ousa!..
+Eu te lamento, ó Rei, quando te vejo
+Na dura precisão de repellires
+Da tua alma os impulsos compassivos,
+Constrangido a punir asperamente,
+Para evitar terriveis consequencias.
+</div>
+
+
+<h3>Scena IX.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, Coelho, Pacheco, e o Embaixador.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Emb.</span> A Filha do meu Rei, que te saúda,
+Já dos Dominios teus piza as fronteiras;
+<span class='pagenum'>Pág. 34</span>Mas o boato geral de que teu filho,
+Por violenta paixão allucinado,
+De Beatriz ao consorcio se recusa,
+Aos ouvidos chegou do meu Monarcha,
+Que me ordena te diga, e te assegure,
+Que se com tal repulsa, em seu desdouro,
+O Tractado solemne for violado,
+(O que elle não espera) dignamente
+Saberá sustentar a toda a força
+O decoro da filha, e do seu Throno.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Dize da minha parte ao teu Monarcha,
+Que para dissipar seus vãos receios,
+Bastaria lembrar-se que os Reis Lusos,
+Fidelissimos sempre, seus Tractados
+Sabem desempenhar: não porque temão,
+Quaesquer que sejão, estrangeiras forças;
+Mas por dever, por gloria, e por costume.
+E para lhe mostrar como procedo,
+Hoje mesmo desterro de meus Reinos,
+E á sua guarda entrego Ignez de Castro,
+Que elle julga estorvar da Infanta as nupcias.
+Podes certificar-lhe, que consorte
+Ha de meu Filho ser da Filha sua.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Emb.</span> Nem era de esperar que hum Rei tão sabio
+Procedesse jámais d'outra maneira,
+Prompto vou expedir ao meu Monarcha
+A plausivel resposta, que lhe envias.
+</div>
+
+
+<h3>Scena X.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, Coelho, e Pacheco.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Sem demora, Pacheco, apromptar faze,
+<span class='pagenum'>Pág. 35</span>Para Ignez conduzir, segura escolta:
+Vai, Coelho, dizer-lhe que se apreste:
+Partirá hoje Ignez para Castella,
+E meu filho comigo para a Corte.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> Oxalá que assim seja! Mas duvido.
+Em castigar avaro em demasia,
+Além de ser, Senhor, simples desterro
+Aos delictos de Ignez pena mui leve;
+Receio que de horriveis attentados
+Seja origem fatal este projecto.
+Fôra talvez melhor lançar mão logo
+Dos efficazes, ultimos remedios.
+Eu conheço o caracter de teu filho:
+Mal souber que roubar-lhe Ignez intentas,
+Dos filiaes deveres esquecido,
+Com braço armado, temo que se atreva
+Contra seu proprio Pai.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> .................. Nem tal profiras:
+Não faças a meu filho essa injustiça:
+De tão feio attentado basta a idéa
+Para me horrorisar. Ide ligeiros
+Fazer que as minhas ordens se executem.
+Ah! Se alguem se atrevesse a contravi-las,
+Seu tremendo castigo serviria
+De memorando exemplo ao Mundo inteiro.
+</div>
+
+
+
+
+<h2>ACTO III.</h2>
+
+
+<h3>Scena I.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Ignez só.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+Miseranda!.. Que trance! Oh desventura!..
+Oh sentença, cruel!.. Venceste, ó Fado.
+<span class='pagenum'>Pág. 36</span>Apraziveis lugares, testemunhas
+Do mais ardente amor, ah, para sempre
+A malfadada Ignez de vós se aparta...
+Quanto fôra melhor, quanto mais doce
+Deixar a vida, que deixar o amante!
+Que!.. Eu... deixar o amante?.. Oh caro Esposo!..
+Oh Ceos! podeis manda-lo, ou permitti-lo?
+Sereis tambem crueis como os humanos?
+Condemnareis os mesmos, que soprastes,
+Sentimentos d'Amor, da Natureza?
+Para hum castigo tal quaes são meus crimes?..
+Se me queres punir, Deos de vingança,
+Os raios tens nas mãos, accende os raios,
+Meu terno coração reduze ao nada;
+Mas d'outro coração, a que o ligaste,
+Separa-lo jámais... Ah! nem tu mesmo,
+Nem tu, que podes tudo, tanto podes...
+Que proferes, blasfema! Aos Ceos te atreves?..
+Oh virtude! Oh razão! Desamparais-me?..
+Onde, Ignez, onde está tua constancia?
+Aos teus deveres torna, entra em ti mesma.
+Orgão do Ser Supremo, hum Rei te ordena,
+Que do Esposo te apartes; não resistas;
+He força obedecer; enfrêa n'alma,
+Suffoca as afflicções, cala os queixumes:
+Co'as desgraças os crimes não mistures:
+Mas deixa-lo!.. Ai de mim... Deixa-lo!.. Agora,
+Agora he que eu conheço as furias todas,
+Toda a força d'amor: elle triunfa
+Da razão, da virtude, e dos Ceos mesmo.
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 40</span>
+
+
+<h3>Scena II.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Ignez, e Elvira.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> Senhora... (Ai triste!.. o pranto me suffoca!)
+Se he certo que impias ordens te condemnão
+A deixar Portugal, a triste Elvira,
+Que protestou viver, morrer comtigo,
+Sempre junto ao teu lado, a qualquer parte
+A que te arroje a sorte, ha de seguir-te:
+Confio que esta graça me concedas.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Ah! Não venhas juntar aos meus pezares
+O quadro da Amizade consternada:
+Para esmagar-me o coração sensivel
+Bem basta Amor, a Natureza basta.
+Não posso resistir a tantos males,
+Aos golpes da saudade que retalhão
+Da atribulada Ignez o peito afflicto.
+Mais pranto com teu pranto não me arranques,
+Que a hum terno coração inda mais custão
+As lagrimas que move, que as que verte.
+He mesmo o ser amado hum bem funesto,
+Que exacerba a desgraça aos desgraçados.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> He possivel haver almas tão duras,
+Que hum tão sensivel coração flagellem!...
+Mas ah!.. Porque aos pezares succumbimos?
+D. Pedro he teu Esposo; elle ha de oppôr-se
+Defensor poderoso em teu soccorro;
+Ha de frustrar da tyrannia as ordens;
+Nelle pois confiemos: a excita-lo
+Bastarão tuas lagrimas...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ................... Que dizes!
+<span class='pagenum'>Pág. 38</span>Que terrivel idéa me despertas!
+Em vez de confortar-me, vens, Elvira,
+Abater-me a constancia, aconselhar-me
+A que contra seu Pai revolte hum filho?..
+Ah! Não... Embora Ignez infeliz seja;
+Mas nunca origem de rebeldes crimes:
+Amortecida já, mas inda accesa
+Brilha a luz da razão dentro em minha alma.
+Não consintas, oh Ceos, que amor a apague;
+Fortalecei meu peito. Sim, eu devo,
+Eu devo submetter-me ao meu destino:
+Cumprão-se as duras leis do duro fado:
+Amargurada irei longe do Esposo
+Acabar entre as garras da saudade...
+Porém os caros filhos... Ah! comigo,
+Comigo os levarei. Doces penhores
+Do mais constante amor, sereis ao menos
+Na minha adversidade terno allivio...
+Entre os meus braços sempre, sempre unidos
+Da inconsolavel Mãi ao peito anciado,
+Cobertos de caricias, de suspiros,
+Banhados com meu pranto, em seus semblantes
+O semblante verei do Esposo ausente.
+Aprenderão de mim... Mas ah! Que digo!..
+Quereria eu acaso, associando
+Ao pavoroso horror do meu destino
+O destino dos filhos innocentes,
+Tolher sua ventura?.. Não; entregues
+De seu Pai aos desvelos, abrigados
+Á sua sombra fiquem; lembrem-lhe elles
+A miserrima Ignez continuamente...
+O retrato da Mãi nos filhos veja,
+Que eu memorias do Esposo não careço;
+No coração gravada a sua imagem,
+<span class='pagenum'>Pág. 39</span>Ante os meus olhos sempre ha de seguir-me,
+Ha de, em quanto viver, viver comigo,
+E comigo baixar á sepultura.
+</div>
+
+
+<h3>Scena III.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Pedro, Ignez, e Elvira.</i>(20)</p>
+
+<p class="notas">(20) <i>Ignez, apenas vê D. Pedro, busca enxugar as lagrimas. Elvira affasta-se
+para o fundo da Scena, e pouco depois se retira.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Ignez, querida Esposa... Mas que vejo!..
+Debalde buscas enxugar teu pranto:
+Aos olhos de hum amante nada escapa.
+Impressas no teu rosto bem diviso
+As afflicçôes, que o coração me partem.
+Que motivo... Mas devo eu pergunta-lo?
+Não sei assaz a origem dos teus males?..
+Eu sou, sim, sou eu mesmo o teu flagello;
+Mas o teu defensor, o teu Esposo:
+Nada receies pois, nada te afflija...
+Porém as tuas lagrimas se dobrão?..
+Oh Ceos!..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> .... Amado Esposo, não repares,
+Não te afflijas co'as lagrimas que choro:
+As tuas expressões, tua presença
+Aggravão minha dor, meu pranto augmentão.
+Ah! pelos tristes olhos sahir deixa
+Meu coração em lagrimas desfeito.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Antes em borbotões todo o meu sangue
+Eu quero ver correr, do que o teu pranto.
+<span class='pagenum'>Pág. 40</span>De tua alma desterra vãos temores,
+Extermina os pezares, não succumbas
+A males transitorios que te opprimem.
+Os caprichos do Fado, a desventura
+Calcaremos aos pés: sim, cara Esposa,
+Sempre unidos seremos venturosos.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Unidos dizes tu!.. Oh Ceos!.. Unidos?..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Pois quem, quem poderia separar-nos?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> O rigor... Ai de mim! Que vou dizer-te?..
+Que raio a triste Ignez vai fulminar-te?..
+Poupar teu coração, oh Ceos, quizera;
+Porém eu a deixar-te não me atrevo,
+Sem que te diga adeos... Ah! caro Esposo!
+Aperta-me em teus braços, e recebe
+As minhas derradeiras despedidas.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Que escuto!.. Que acontece?.. Ignez, que dizes?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Para sempre de ti vou separar-me.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Separar-te de mim!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ................. Atroz conflicto!..
+Caro Principe, Esposo, não te esqueças
+Da desditosa Ignez... Mas ah! Que digo!
+Esquece-me se podes; sê ditoso;
+Vive, vive feliz. Eu só te rogo,
+Que dos queridos filhos te encarregues;
+Que affagues sua infancia, que os ampares;
+Que os defendas da inveja, da impiedade:
+Não cogites de mim, delles só cuida,
+He forçoso ceder ás leis do Fado:
+Longe de ti, mirrada de saudades,
+Vou exhalar meus ultimos suspiros.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Oh desesperação! Que idéa horrivel
+Surge dentro em minha alma! Acaso (eu tremo!)
+<span class='pagenum'>Pág. 41</span>Atrever-se-ha meu Pai...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> .................. Aos seus preceitos
+Obedecer devemos: intimados.
+Me forão já: de Portugal banida,
+Partir devo hoje mesmo para Hespanha.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Oh Furias! He possivel? Rei tyranno,
+Não levarás ávante os teus projectos...
+Nem elle, nem os Ceos, nem os Infernos
+Poderão arrancar-te de meus braços.
+Desengana-lo vou, parto a fallar-lhe:
+Trema o cruel de mim, se não revoga
+A barbara sentença.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ............. Oh Ceos! Que fazes?
+</div>
+
+
+<h3>Scena IV.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Pedro, Ignez, e D. Sancho.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Teu Pai, Senhor, te busca: tudo prestes
+Para voltar á Corte... Mas que vejo!
+Elle mesmo he que vem.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ................ Querida Esposa,
+Retira-te, eu to rogo... Nada temas.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Eu me retiro, sim; mas só te imploro,
+Que te lembres que és filho, e que és vassallo.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Mas Esposo tambem, que he mais que tudo.
+</div>
+
+
+<h3>Scena V.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, D. Pedro, e D. Sancho.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Então, quem nestes sitios te demora?
+Eia, segue-me já.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ........... Quem, eu!.. Seguir-te?..
+<span class='pagenum'>Pág. 42</span>Abandona-la! Não, não te obedeço.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Que escuto, oh Ceos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> .................. Inda não disse tudo.
+Attende-me, Senhor: he necessario
+Declarar-me comtigo; o véo se rasgue;
+He tempo, he tempo em fim que me conheças.
+Entra em meu coração desesperado,
+De virtudes capaz, capaz de crimes,
+Se a crimes o excitar a tyrannia.
+Sabes que adoro Ignez, e projectavas
+Rouba-la ao meu amor? Que infernal furia
+Te aconselha a punir huma innocente,
+Que he só culpada, se a virtude he crime?
+E esperavas acaso que eu podesse
+Covarde tolerar seu menor damno,
+A injustiça maior, sem defende-la,
+Sem oppôr-me aos designios da impiedade?
+Eu fôra dos mortaes o mais abjecto,
+Se deixasse opprimir...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> .................. Ah! Não prosigas:
+Immudece, rebelde. Não sei como
+Reprimir posso a colera... Que arrojo!..
+Ousas tu murmurar dos meus Decretos?..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Não só murmuro, atrevo-me a frustra-los.
+A razão, e os Ceos mesmos me authorisão.
+Defendendo a minha Esposa.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> ..................... A tua Esposa!..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> A minha Esposa, sim. Sabe que os laços
+Do sagrado consorcio a Ignez me ligão.
+Intentarias pois inda opprimi-la?..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Não julgues illudir-me, não te creio:
+A tão subtil ardil em vão recorres.
+Que! Esposa de meu filho huma vassalla!..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Huma vassalla, sim, para quem fôra
+<span class='pagenum'>Pág. 43</span>Do Mundo todo o Imperio inda pequeno:
+Não duvides, Senhor. Que encontras nella
+Que indigna de teu filho julgar possas?
+Eu não quero fallar do Regio sangue,
+Que, dos teus ascendentes derivado,
+Lhe circula nas veias: outros dotes
+Mais bellos, mais sublimes a ennobrecem:
+Vassalla, a quem os Ceos prodigos derão
+Todas as perfeições que os Ceos dar podem,
+Para ser do teu filho digna Esposa,
+Ser filha de Monarchas não precisa.
+Se Ignez he virtuosa, que lhe falta?
+Quem mais digna do Throno que a Virtude!
+Mas dos seus predicados prescindamos.
+Castro he minha Consorte, tanto basta;
+He Princessa, por tal a reconhece,
+E o decoro lhe guarda de que he digna.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Sim, tratada será como merece...
+Brevemente o verás.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ............. Olha o que fazes...
+Não queiras constranger-me inexoravel
+A perpetrar horriveis attentados:
+Se como Pai benigno, e Rei clemente
+Praticares comigo, has de em mim sempre
+Encontrar hum Vassallo respeitoso,
+E hum filho obediente; mas se acaso
+Insistes em roubar-me a cara Esposa,
+Hum mortal inimigo em mim contempla,
+Que cégo, furioso, e desesp'rado,
+Sem attender senão aos seus transportes,
+Será capaz de horrendos sacrilegios.
+Evitando-os, atalha huma injustiça:
+Revoga pois a barbara sentença.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Sim, por outra mais justa, revogada
+<span class='pagenum'>Pág. 44</span>(Descança.) ella vai ser. Espadanando
+Ha de ver teu coração da infame o sangue
+As chammas apagar que te devorão.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span>(21) Primeiro que o seu peito a ferir chegues,
+Hão de ser-me as entranhas arrancadas:
+Ha de em rios correr todo o meu sangue
+E o teu sangue tambem, se for preciso.
+</div>
+
+<p class="notas">(21) <i>Desesperado.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Oh Ceos!.. Tremo de horror!..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> .......................... Senhor, que fazes?
+Ousas contra teu Pai?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ............... Ah! Que proferes?
+Pai? Eu tenho inda Pai?..(22) Nao, não, tyranno,
+Tu meu Pai já não és: não sou teu filho...
+Hum cruel como tu... Porém que digo!..
+Com quem fallo?.. Onde estou?.. Quem me arrebata!
+O inferno, as furias todas me espedação...
+Quem falla não sou eu, trovejão ellas...
+Sacrilego!.. que fiz!..
+</div>
+
+<p class="notas">(22) <i>A D. Affonso, no mesmo frenetico arrebatamento.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> .................. Ceos, estais surdos!..
+Onde os raios estão, que inda não chovem
+Sobre hum monstro, que tanto os desafia?
+Vingança!.. Maldições!..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> .................. Tudo mereço.
+Ah! Se os Ceos inda immoveis não fulminão,
+He talvez que, assombrados de escutar-me,
+A desprender os raios não se atrevem.
+Debaixo de meus pés tremendo a terra,
+Quer abrir-se, e não ousa devorar-me...
+<span class='pagenum'>Pág. 45</span>Até mesmo os abysmos se horrorisão
+De hum monstro, que soltou tantas blasfemias...
+Oh terror!.. Oh remorsos!.. Crime horrendo!..
+Mas sabe o Ceo, Senhor, que, involuntarias,
+Não teve o coração parte nas vozes,
+Que por meus labios despejou o Inferno...
+O Inferno todo, que no peito encerro.
+Não me julgues capaz... Porém que digo!..
+Infeliz!.. Desculpar-me intento ainda?..
+Horror da Natureza, e de mim proprio,
+Nem me atrevo, Senhor, a supplicar-te
+O perdão... Não, eu delle não sou digno.
+Do pezo da existencia me allivia;
+Vinga da Natureza as leis sagradas,
+O respeito devido á Magestade,
+Que atropellei feroz: eterno exemplo
+Tu deves dar em mim ao Mundo inteiro.
+Salpicadas de sangue estas paredes,
+Que ouvírão minha voz blasfemadora,
+Aos seculos vindouros apregoem
+Meu lastimoso fim: ao vê-las tremão
+As Gerações futuras de imitar-me.(23)
+Eis-me a teus pés prostrado: vibra o ferro;
+Eis meu peito, retalha-o: não te lembres
+Que foste já meu Pai... sou delinquente:
+Lembra-te só que és Rei, castiga o crime.
+Porém... ah! não flagelles a virtude...
+Se me deves punir como culpado,
+Ignez como innocente absolver deves.
+Não me custa morrer; porém não posso,
+Não posso consentir que Ignez padeça...
+Nem ha de padecer em quanto eu viva.
+<span class='pagenum'>Pág. 46</span>Pertender separar-nos he debalde;
+Té duvido que a morte possa tanto...(24)
+Releva ao meu amor estes transportes...(25)
+Eu sou sensivel... amo... e sou amado.
+</div>
+
+<p class="notas">(23) <i>Prostra-se aos pés de Affonso.</i>
+<br>
+(24) <i>Tornando em si.</i>
+<br>
+(25) <i>No tom mais pathetico.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Todos os meus sentidos perturbados,
+Cheio de ira, e de horror... nem fallar posso...
+Affastem-me da vista esse rebelde.
+Ao proximo Castello conduzido,
+Seja em prizão segura afferrolhado:
+Sua guarda, D. Sancho, eu te confio;
+Em quanto justiçoso, inexoravel,
+Em Conselho d'Estado não decido
+Qual ser deva o castigo de seus crimes,
+E o supplicio da infame, que os motiva.
+Treme do meu furor, malvado, treme:
+Este dia talvez, dia horroroso!
+Será na longa serie das idades,
+De eterno espanto a Portugal, e ao Mundo.
+</div>
+
+
+<h3>Scena VI.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Pedro, e D. Sancho.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Inda mais horroroso do que pensas
+Certamente será, se não desistes
+De tão crueis designios. Que impiedade!
+O supplicio d'Ignez! Da minha Esposa!..
+Como posso deixar de rebellar-me!
+Como evitar hum crime necessario,
+Que o dever, e a ternura me prescrevem?..
+Hum crime disse?.. Ah, não; longe os remorsos;
+<span class='pagenum'>Pág. 47</span>Defender huma Esposa não he crime;
+Crime fôra deixa-la ao desamparo.
+Longe, maximas vãs, leis oppressivas,
+Que a tyrrania impoz sobre a ignorancia,
+Nada se deve aos Pais pela existencia:
+Os desvelos depois, seus beneficios
+São os titulos só que lhes conferem
+Á nossa obediencia hum jus sagrado.
+Meu coração revoca os seus direitos:
+Arrependo-me só de arrepender-me
+Pelos ter justamente sustentado.
+Querias, Rei cruel, afferrolhar-me
+Em segura prisão, para a teu salvo
+Me poderes roubar a cara Esposa?..
+Debalde o projectaste, não...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> ...................... Deliras?..
+Que intentos são os teus?.. Resistir queres
+Ás ordens de teu Pai, que enfurecido...
+</div>
+
+
+<h3>Scena VII.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Pedro, D. Sancho, e D. Ignez.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Esposo, que fizeste?.. Oh Ceos, eu tremo!..
+Da tua voz medonha horriveis écos
+Inda nestas abobadas retumbão;
+De furor suffocado, o rosto em fogo,
+Affonso espavorido, a longos brados
+Chama pelos atrozes Conselheiros:
+Certamente, faltando-lhe ao respeito,
+Lhe exacerbaste as iras. Que fizeste?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Menos inda talvez do que devia.
+Não te importe o que fiz, faze o que digo.
+<span class='pagenum'>Pág. 48</span>As furias não receies do tyranno;
+Vai subito buscar os tenros filhos,
+E dispõe-te a seguir-me.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> .................. Como!.. Aonde?..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Deixamos estes sitios, onde imperão
+A discordia, a injustiça, a iniquidade.
+Evitemos o extremo dos horrores:
+Acompanha-me, Esposa, se não queres
+Ver-me inda parricida.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> ............... Oh Ceos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ........................ Que insania?
+Ah! Que dizes? Que intentas?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ...................... Defender-te,
+E possuir-te em paz; poupar-me ao crime.
+A tua vida, Ignez, ameaçar ousão;
+Affonso pertendia encarcerar-me,
+Talvez para ordenar o teu supplicio:
+Atreveo-se a dizer-mo: he necessario
+Fugir-lhe; ou repellir com braço armado
+Seus barbaros designios: eia, vamos,
+Não te demores mais.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> .............. Eu desfaleço!...
+Desgraçada!... Onde queres conduzir-me?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Se necessario for, ao fim do Mundo:
+A meu lado segura, em qualquer parte
+Seremos venturosos; ermas grutas,
+Morada simples de prazeres puros,
+Mais gratas nos serão que aureos Palacios,
+Habitação fatal dos males todos.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Que me propões, Senhor! A voz me falta...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Ah, Principe! Contempla o precipicio
+Em que vás despenhar-te, e a que me arrastas.
+Responsavel por ti...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 49</span>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span>. .............. A nada attendo.(26)
+Podes tombem, querendo, acompanhar-nos.
+Sim, eu te rogo, vem... De cãs coberto
+Tens conhecido assaz o ar pestilente,
+Que nas Côrtes costuma respirar-se,
+Halito venenoso, que derramão
+A traidora lisonja, a fraude, a intriga,
+Que em torno aos Solios quasi sempre girão.
+Longe de tanto horror, ah, vem ao menos
+Gozar em paz o resto de teus dias.
+</div>
+
+<p class="notas">(26) <i>Para D. Sancho.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Feliz eu, se hontem fosse o derradeiro!
+Ah! Querias que proximo ao sepulchro
+Fosse ao meu Rei traidor? Que concorresse
+Para hum tal desatino?.. Eu, que incumbido
+Da tua educação (funesto emprego)
+Por elle mesmo fui, socio seria
+Em teus crimes, soffrendo que infringisses
+Teu dever!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ....... Qual dever? Fúteis chimeras!
+O primeiro dever he ser ditoso,
+He seguir d'alma o natural instincto.
+Vamos, querida Ignez.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ............... Oh Deos! Que trance!
+Frenetico... ai de mim!.. Que premeditas?
+Teu nome, tua gloria offuscar queres?
+Seria a triste Ignez tão desgraçada,
+Que, origem de teus crimes, tolerasse
+A infamia de te ver por seu respeito
+A Patria abandonar, e o Throno excelso?..
+Ah, que diria o Mundo...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> .................. Que diria?
+Que o esplendor do Solio não deslumbra
+<span class='pagenum'>Pág. 50</span>Huma alma como a minha. Eu nada perco
+Em deixa-lo por ti, não, cara Esposa;
+Vale mais ser feliz, que ser Monarcha.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> E pode ser feliz quem atropella
+Da sociedade as leis, do sangue as vozes?
+Ah! Desiste, Senhor, de teus projectos;
+Obedece ao teu Rei: jámais esperes,
+Que eu approve, ou consinta os teus delirios:
+Nem te deixo partir, nem te acompanho...
+Eu não quero roubar a hum Pai seu Filho,
+Nem tolher a ventura aos Lusitanos,
+Privando-os do melhor dos seus Monarchas.
+Se os meus rogos...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ............. Teus rogos são inuteis:
+Que! Recusas, Ignez, acompanhar-me?..
+Ah, não vês nestes sitios horrorosos
+Girar em torno a nós a morte, e os crimes!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> He para os evitar que eu te não sigo.
+A honra, a gloria valem mais que a vida.
+Entre os crimes, e a morte, a morte escolho.
+Mas ah! porque tão proxima a divisas?
+Decretou-ma teu Pai? Nada me encubras:
+Sabe elle já que em vinculo sagrado...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Tudo lhe revelei: mas o tyranno,
+Fingindo não poder acreditar-me,
+Orgulhoso, tenaz em seu capricho,
+Ameaçou-me... que horror! com teu supplicio;
+E, para a seu sabor poder julgar-te,
+Em segura prizão manda encerrar-me
+No proximo Castello. He pois forçoso...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Obedecer-lhe, sim.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ................. Obedecer-lhe?..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Indispensavel he, vai, caro Esposo;
+Submisso aos Paternaes Regios preceitos,
+<span class='pagenum'>Pág. 51</span>Eu to rogo, Senhor, á prizão corre.
+Outro meio não tens para salvar-me;
+Nem eu por outro meio a vida quero:
+Outra vez to asseguro, eu não te sigo;
+Jámais conseguirás...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ............... Basta: não queres
+Estes sitios deixar? Queres ver nelles
+Derramados por mim rios de sangue?..
+De huma austera virtude enthusiasmado
+Ao parricidio, em fim, queres forçar-me?
+Pois bem, a perpetra-lo estou disposto.
+Eu vou, sim, eu vou já...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ................... Cruel; detem-te:
+Meus gemidos, meu pranto já não podem
+Mover-te o coração, domar-te as furias?
+Onde o imperio que Ignez tinha em tua alma?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Não te cances, debalde são agora
+Teus rogos, o teu pranto, os teus gemidos:
+Este dia horroroso he consagrado
+Á desesperação, ao crime, á morte.
+Inflammado em meu peito, só com sangue
+Das furias o tição pode apagar-se.
+Impedir ninguem pode, nem tu mesma,
+Os golpes espantosos, que o meu braço
+Vai já descarregar.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ............. Por mim começa:
+Rasga-me o coração, da Esposa o sangue
+Seja o primeiro sangue que derrames;
+E se elle não bastar a saciar-te,
+Aos sacrilegios todos te arremeça...
+Que horror! Nem ouso em ti fitar meus olhos.
+És tu? Não, tu não és o meu Esposo;
+O meu Esposo detestava os crimes:
+Eu amava hum Consorte virtuoso;
+<span class='pagenum'>Pág. 52</span>Virtudes já não tens, já te não amo.
+Vai, monstro sanguinario... Mas que disse?
+Eu deixar de te amar? Não me acredites:
+O terno coração desmente as vozes,
+Que, a meu pezar, de ouvir-te horrorisada,
+Sem tino proferi... Olha o meu pranto.(27)
+Abatida a teus pés, co'elles me abraço...
+Ou tu has de ceder aos meus lamentos,
+Ou ver-me aqui morrer, e aos pés calcar-me.
+</div>
+
+<p class="notas">(27) <i>Prostra-se, e abraça-se com os pés de D. Pedro.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Oh Ceos!.. Querida Esposa.(28)
+</div>
+
+<p class="notas">(28) <i>Enternecido, querendo levantar D. Ignez.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ......................... Eu não te deixo,
+Daqui me não levanto, sem primeiro
+De tua alma banir as negras furias;
+Sem que tu me promettas obediente
+Ir subito cumprir as Regias ordens.
+Ah! se tu amas inda as minhas preces,
+Não has de resistir...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ................ Nem já resisto.(29)
+Deixar de obedecer-te, ah, quem, quem pode!..
+Para a prizão já parto.(30) Amigo, vamos.(31)
+Poderás duvidar inda do imperio
+Que em meu coração tens?
+</div>
+
+<p class="notas">(29) <i>Levanta D. Ignez.</i>
+<br>
+(30) <i>A D. Sancho.</i>
+<br>
+(31) <i>Voltando-se para D. Ignez, e com a maior ternura.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> .................. Oh Deos! Conforto!(32)
+Não me retalhes mais o peito afflicto.(33)
+<span class='pagenum'>Pág. 53</span>Á trémula razão ceda a ternura;
+Não te demores mais...
+</div>
+
+<p class="notas">(32) <i>Voltando-se ternissimamente.</i>
+<br>
+(33) <i>Affectando tranquillidade.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ................ Mas tu...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ......................... Socega;
+Nada temas por mim: o Ceo me inspira
+Os meios de abrandar de Affonso as iras.
+Irei c'os filhos a seus pés prostrar-me:
+Ninguem resiste á voz da natureza:
+Por mais duro que seja o seu caracter,
+Se tem hum coração, ao ver os Netos
+Abraçados em mim, chorar comigo,
+Não poderá deixar de commover-se,
+De perdoar-me em fim; nada receies.
+Adeos, Esposo, adeos.(34)
+</div>
+
+<p class="notas">(34) <i>Muito a seu pezar precipitadamente se retira.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ............... Ceos! que supplicio!
+</div>
+
+
+
+
+<h2>ACTO IV.</h2>
+
+
+<h3>Scena I.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Coelho, e Pacheco.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> Vão decidir-se em fim nossos destinos:
+Este o dia arriscado, em que a Fortuna
+Segura mão nos dá, ou nos despenha:
+Ou morre Ignez de Castro, ou nos perdemos.
+Resolutos a tudo, he necessario
+Os p'rigos affrontar; deve hum Valído,
+No cume da grandeza vigilante,
+Aos Adversarios seus tramando a ruina,
+Primeiro que o derrubem, derruba-los;
+O futuro prever, prever a itriga,
+<span class='pagenum'>Pág. 54</span>E destro em conhece-la, e maneja-la,
+A vida antes perder que o valimento.
+Nosso plano atéqui tem produzido
+O desejado effeito. Affonso irado,
+O Principe em prizão, tudo parece
+Prometter-nos hum exito ditoso.
+Tens tu já prevenido, alliciado
+Os poucos Conselheiros, que nos restão?
+Constantes votarão de Ignez a morte?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Pach.</span> Apenas lho propuz, m'o assegurárão;
+Dependentes de nós em gráo mais baixo,
+A hum leve aceno autómatos flexiveis,
+Eccos da nossa voz, a nosso grado
+Amoldando-se a tudo, a tudo prestes,
+Servir nossos caprichos tem por gloria.
+Entre todos D. Sancho unicamente
+Velho estoico, singelo em demasia,
+Que as honras, e os empregos menoscaba,
+Poderá combater nossos designios;
+Mas Alvaro Gonçalves, que se int'ressa
+Igualmente que nós d'Ignez na morte,
+Se incumbio de sonda-lo, e persuadi-lo.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> Desnecessario he, que, encarregado
+Da guarda de D. Pedro, elle não pode
+Ao Conselho assistir. Nada mais resta
+Do que azedar a cólera de Affonso,
+Dar-lhe a beber na taça da Justiça
+Adoçado veneno, que o perturbe,
+E a voz da compaixão d'alma lhe affaste.
+Convém não perder tempo: aproveitemos
+Propicia occasião, que fugir pode:
+Vamos...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 55</span>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Pach.</span>(35) Espera...
+</div>
+
+<p class="notas">(35) <i>Pensativo.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> ............ Que! tu desfalleces!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Pach.</span> Confesso que algum tanto perturbado
+O coração não sei que me annuncia...
+Calculemos melhor sobre o futuro.
+Inda mesmo suppondo inevitavel,
+Suscitada por nós, de Castro a morte,
+He de temer que o Principe ferido
+Na parte mais sensivel da sua alma,
+Raivando inexoravel, desesp'rado,
+Sobre nós descarregue atroz vingança.
+Quem poderá suster?..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> .............. Tarde receias:
+Nas bordas já do aberto precipicio,
+He preciso transpo-lo, ou cahir nelle:
+Retroceder o passo não podemos.
+Assaz já sabe o Principe quaes sejão
+As nossas intenções, nossos conselhos;
+Seu odio contra nós he já sobejo.
+Que lucraremos pois, se ora cobardes
+Da começada empreza desistirmos?..
+Apressar nossa ruina, exacerba-la?
+Se foi razão bastante a conspirar-nos
+Contra a vida de Ignez, justo receio
+De ver hum dia alçada sobre o Throno
+A Irmã de nossos feros inimigos,
+Que em nosso damno então fartar podessem
+A perpetua aversão que nos jurárão;
+Se a nossa ruina assim era infallivel;
+Quanto mais o será tendo attrahido
+Do Principe o rancor!.. Proseguir firmes
+He somente o recurso que nos resta.
+<span class='pagenum'>Pág. 56</span>Morta Ignez, com o tempo talvez possa
+O Principe, esquecendo-a, sujeitar-se
+Ao Consorcio, que Affonso lhe prescreve,
+E, apagada a paixão, ver-nos sem odio.
+Ou victima talvez d'amor infausto,
+De saudades mirrado, não podendo
+Sobreviver a Ignez idolatrada,
+D'Ignez á sepultura a dor o arraste.
+Affonso ha de entretanto defender-nos,
+E se acaso abortarem finalmente
+Nossos designios todos, então mesmo
+Não me hei de arrepender de os ter forjado:
+Antes quero morrer, inda o repito,
+Do que ser por meus émulos calcado,
+Contemplados Irmãos d'huma Rainha.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Pach.</span> Sentimentos iguaes me fervem n'alma;
+Eia, tudo se arrisque; prosigamos:
+Descarregue-se o golpe derradeiro,
+Inda que, errando-o, sobre nós desfeche.
+Eu parto a congregar os Conselheiros,
+Segurar inda mais todos os votos;
+E tu no emtanto ao Rei procura, e move;
+Sua colera atiça; que eu não tardo,
+Juntos os do Conselho, a vir chama-lo.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> Bem: não poupes promessas, nem t'esqueça
+Desculpar ante o Rei sempre a D. Pedro,
+Fazendo recahir de seus arrojos
+Sobre Ignez tão somente a culpa toda.
+Affonso para aqui dirige os passos...
+Não percas tempo, vai.
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 57</span>
+
+
+<h3>Scena II.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso,</i>(36) <i>e Coelho.</i></p>
+
+<p class="notas">(36) <i>D. Affonso entra na Scena pensativo.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> ................. Crueis remorsos!
+Horroroso castigo de meus crimes!..
+Que torpel de afflicções, que acerbos males
+Vem funestar o resto de meus dias!..
+Infeliz Pai!.. Monarcha desgraçado!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> Releva-me, Senhor, que ouse, pungido
+Da dor, em que o meu Rei vejo abysmado,
+Recordar-te que deves mitiga-la.
+Tua vida, Senhor, não he só tua.
+Do teu Povo he tambem: ah não, não queiras
+Á força de afflicções abbreviar-lha.
+Sei quanto custa a hum Rei ouvir blasfemias
+De hum filho, que feroz o não respeita:
+Mas deves ponderar que hum tal arrojo
+Tão desculpavel he, quanto he violenta
+A funesta paixão, de que instigado
+Teu filho, a teu pezar, o perpetrára;
+Delicto involuntario...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> .................. O seu delicto
+Não he só filho da paixão que o céga:
+Força maior o arrasta aos sacrilegios:
+Mais que o seu ímpio arrojo, o que me afflige,
+He ver que assaz mereço hum tal castigo,
+Das maldições celestes justo effeito.
+Oh remorsos crueis!.. Era forçoso
+Que hum filho de tal Pai fosse rebelde.
+Mais do que elle rebelde, filho ingrato
+<span class='pagenum'>Pág. 58</span>Eu fui, eu fui tambem... Ardendo em furia
+Atrevi-me, que horror! a tomar armas
+Contra Diniz meu Pai; movi-lhe a guerra,
+Sublevei-lhe os Vassallos, assolei-os;
+Cavei-lhe assim feroz a sepultura;
+Todas as leis calquei da Natureza,
+A Natureza agora quer vingar-se.
+De hum Pai, que contra o Pai se revoltára,
+És, sim, filho rebelde, és digno filho!
+Mais me soffreo Diniz do que eu te soffro;
+Mas tu has de igualar meus attentados,
+Inda os has de exceder; talvez já tardas!
+Nem vós podeis, ó Ceos, jámais impunes
+Sacrilegios deixar tão execrandos.
+Dos Avós implacaveis vingadores
+São, por justo castigo, quasi sempre
+Máos filhos os do Pai, que foi máo filho.
+Diniz! Grande Diniz! Sombra iracunda!
+Terrivel sombra, que ante mim voltêas!
+Sobre a minha cabeça criminosa,
+Por mão do ousado neto, descarrega
+O já tardio, merecido golpe...
+Ah! Sim... bem vejo... ameaçador me apontas
+O tremendo futuro, que m'espera...
+Que flagello! Que horror! Que mar de sangue!..
+Tristes vassallos meus! Ah filho! Filho!
+Suspende...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> .... Que delirio te arrebata?..
+Teu grande coração sentir não deve
+Remorsos, que aos malvados só competem:
+Passadas, leves faltas não recordes;
+Males não temas, que atalhar bem podes.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Porque não vens, ó morte, alliviar-me
+Do pezo da existencia, e de meus crimes!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 59</span>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> Que seria de nós, se os Ceos te ouvissem!
+Em desordens submerso, dessolado,
+Comtigo Portugal acabaria.
+Os clamores escuta do teu Povo,
+Conserva-lhe o seu Rei; tão necessario
+A teus tristes Vassallos jámais foste:
+De mil calamidades ameaçados,
+Só lhes póde valer tua justiça.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> E como? De que modo evitar posso
+Desordens, que a mim mesmo me soçobrão?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> Do mal a causa extincta, o mal expira;
+Extingue a causa pois de tantos males:
+Em quanto existir Castro, que os fomenta,
+Debalde intentarás dar-lhe o remedio.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Que dizes? Condemnar Ignez á morte?
+Tão graves são seus crimes, que mereção...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> Os seus crimes, Senhor... Ah! por desgraça,
+Nunca o Mundo vio crimes que brotassem
+Tão funestas, horriveis consequencias:
+Desnecessario julgo referi-las;
+Tu bem as sabes, pois assaz te affligem.
+Do Principe ardilosa seductora,
+Se teu filho he rebelde, se he blasfemo,
+Quem, senão ella, o fórça aos sacrilegios!
+Não vacilles, Senhor; o seu supplicio
+Chega a ser, mais que justo, indispensavel.
+Mas não basta o que eu digo a condemna-la:
+Tens melhores, mais sabios Conselheiros,
+Que juntar já mandaste; ouve os seus votos:
+Que se elles zelo igual ao que me inflamma,
+Por ti, pelo bem público, tiverem,
+Hão de todos unanimes rogar-te
+Que o supplicio de Ignez logo decretes;
+<span class='pagenum'>Pág. 60</span>Pintar-te co'as mais negras, proprias côres
+De Portugal a ruina, se o dilatas;
+As dissensões crueis, a horrivel guerra,
+Que a vingativa Hespanha vai mover-nos,
+E de que os teus Vassallos, fatigados
+Das recentes batalhas, já murmurão,
+A Viuva, que o Esposo perdeo nellas,
+Não quer perder agora o caro filho,
+Nem o filho, que em lucto inda o Pai chora,
+Desamparando a Mãi, expôr-se á morte.
+Finalmente, Senhor, tudo te brada
+Que sacrifiques huma a tantas vidas;
+Que deixes ao futuro eterno exemplo,
+Para que ninguem mais seduzir ouse,
+Á imitação de Ignez, corações Regios.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Se assim o exige o público socego,
+O Conselho decida o que for justo,
+Que eu afflicto não sei o que obrar deva.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span>(37) Que vejo! Ignez!.. He muito! Inda se atreve
+A vir apparecer-te?.. Ah, melhor fôra
+Retirar-te, Senhor, sem dar-lhe ouvidos.
+</div>
+
+<p class="notas">(37) <i>Avistando Ignez ainda fóra da Scena.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Vamos, sim... Porém não, devo escuta-la.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> Talvez os do Conselho já te esperem.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Vai tu juntar-te a elles, que eu não tardo.
+</div>
+
+
+<h3>Scena III.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, Ignez, Elvira, e os meninos.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Chegai, filhos, chegai, vinde prostrar-vos
+<span class='pagenum'>Pág. 61</span>Aos pés de vosso Avô; vinde beijar-lhe
+Pela primeira vez a Mão Augusta.(38)
+Eis, ó Senhor, os filhos de teu filho,
+Que vem com tristes lagrimas rogar-te,
+Que desta triste Mãi te compadeças.
+Chorai, chorai comigo, tristes filhos,
+Intercedei por mim com vosso pranto,
+Pranto mais expressivo do que as vozes,
+Que a vossa tenra infancia não permitte:
+Ajudai meus lamentos, minhas preces,
+Impetrai meu perdão. Sim, Rei clemente,
+Eis a Mãi desgraçada de teus Netos,
+Que abraçada com elles te supplica,
+Que a misérrima vida lhe conserves.
+Sei que vai decretar-se o meu supplicio!
+Alvo da intriga, victima da Inveja,
+Temerosa, infeliz, desamparada,
+A morte já diviso, a injusta morte,
+Que raivosos, tyrannos Conselheiros,
+Illudindo a piedade de tua alma,
+Fulminão contra mim... Que atrocidade!..
+Porque enormes delictos sou punida?..
+Amar, Senhor, teu filho, ser amada,
+Crime acaso será digno de morte?
+Imploro, ouso attestar tua justiça.
+Ah! Consulta, Senhor, tua clemencia,
+Teu coração consulta, que elle mesmo
+Te ha de dizer, que a morte nao mereço.
+</div>
+
+<p class="notas">(38) <i>Prostra-se com os meninos aos pés de Affonso, e Elvira se retira.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Levanta-te, infeliz...(39) Oh Natureza!(40)
+<span class='pagenum'>Pág. 62</span>Oh de hum Monarcha rigidos deveres!..
+Levanta-te, infeliz.(41) Funesta origem
+Das crueis afflicções que me consternão...
+Ao ver-te me enfureço,... e me commovo...
+O Pai quer perdoar-te... o Rei não pode.
+</div>
+
+<p class="notas">(39) <i>Enternecido.</i>
+<br>
+(40) <i>Vai abraçar os netos, volta o rosto afflicto e exclama.</i>
+<br>
+(41) <i>Levanta Ignez.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Ah Senhor! Perdoar aos desgraçados
+He dos Reis o poder mais doce, e augusto:
+Sim, do teu coração segue os impulsos;
+Triunfe a compaixão, e a natureza,
+Não te has de arrepender por ser piedoso;
+Antes porém, se á morte me condemnas,
+Hão de eternos remorsos flagellar-te,
+Incessantes angustias consumir-te:
+De Portugal a gloria, as esperanças
+Vão sobre a minha campa espedaçar-se.
+Verás por ti mandado á sepultura
+Comigo, a teu pezar, descer teu filho.
+Matando-me, Senhor, ah, vê que o matas!
+Os nossos corações, unidos ambos,
+Tão ligados estão, que o mesmo golpe
+Que retalhar o meu, tràspassa o delle;
+Existir hum sem outro não podemos...
+Por elle, e não por mim t'imploro a vida.
+Sim,(42) de rojo outra vez torno a abraçar-me
+Com tuas Regias Plantas. Tem piedade
+Da Esposa de teu filho. Ah, se não fossem
+Estas doces prizões, que me constrangem
+A viver infeliz, e amar a vida,
+Longe de instar por ella, sem queixar-me,
+Tranquilla recebêra o fatal golpe...
+Mas deixar para sempre o que mais amo!..
+<span class='pagenum'>Pág. 63</span>Sou Esposa, sou Mãi... Ceos! Desfalleço!(43)
+Queridos filhos... Desgraçados orphãos!..
+E que será de vós quando vos falte.
+A mais terna das Mãis, o Pai mais terno!..
+Ah Senhor! Se inflexivel ao meu pranto,
+A minha situação te não commove,
+Presta ouvidos á voz da Natureza:
+Mova-te a compaixão o desamparo
+Destas victimas tenras, e innocentes:
+Elles culpa não tem dos meus delictos.
+Não te lembres, Senhor, que são meus filhos;
+Ah, não: lembra-te só, que são teus netos...
+Mas tu choras? Que vejo! Os Ceos me ouvírão:
+Tuas lagrimas vem em meu soccorro,
+Ellas o meu perdão já me annuncião.
+Acaba de extinguir os meus temores,
+Dize, dize, Senhor, que me perdoas.
+</div>
+
+<p class="notas">(42) <i>Prostra-se outra vez aos pés de Affonso.</i>
+<br>
+(43) <i>Abraça os filhos com a maior ternura, e afflicção.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Não posso resistir... Oh quem podéra
+Neste instante deixar de ser Monarcha!
+</div>
+
+
+<h3>Scena IV.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, Ignez, seus filhos, e Coelho.</i>(44)</p>
+
+<p class="notas">(44) <i>Ignez, apenas avista Coelho, levanta-se atemorisada.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Coel.</span> Por ti, Senhor, se espera: vem, não tardes;
+Que já começa o Povo a amotinar-se.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Oh Deos! Eu morro!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> .................. Ignez, não desesperes.
+<span class='pagenum'>Pág. 64</span>Inflexivel não sou: meu pranto o affirma;
+Mas não posso faltar aos meus deveres;
+Não sou senhor de mim, tenho Vassallos;
+Perante elles, perante os Ceos, e a Terra,
+De tudo quanto obrar sou responsavel;
+Despotico não sou; mas sou piedoso.
+Tens Affonso por ti, nelle confia:
+Ao Conselho d'Estado vou eu mesmo
+Tua Causa advogar. Ceos, inspirai-me.
+</div>
+
+
+<h3>Scena V.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Ignez, e seus filhos.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Debalde seductoras esperanças
+Por mais tempo illudir-me já não podem.
+O coração me augura que he chegado
+De meus dias o termo desastroso.
+Sim, proximos estais, queridos filhos,
+A perder vossa Mãi... vinde a meus braços...
+Em breve... ai triste!.. em breve hão de faltar-vos
+Os maternaes, ternissimos affagos...
+Para sempre vos deixo... para sempre...
+Cruel separação!.. dor insoffrivel!..
+Horrorosos momentos! Ceos!.. Nem posso;
+Nem me atrevo... ai de mim! a ver meus filhos:
+Quanto mais os contemplo, mais me afflijo...
+De todo sinto já faltar-me o alento...
+O coração rebenta... que anciedade!
+Ah! parece que a morte... ella já chega...
+A descarnada mão... que horror! Espera
+Suspende, ó Morte... deixa que primeiro...
+Meus filhos onde estão?.. Quero inda vê-los...
+Crueis, não m'os roubeis... Antes que morra,
+<span class='pagenum'>Pág. 65</span>Ao menos huma vez quero abraça-los...
+Quem se atreve a arranca-los de meu peito?..
+Ah barbaros!.. Meu sangue... Esposo? Esposo?..
+Onde estás, que não vens em meu soccorro!..
+Mas em vão... Já he tarde... a sepultura...
+</div>
+
+
+<h3>Scena VI.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Ignez, seus filhos, e Elvira.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> Que vejo, oh Deos!(45)
+</div>
+
+<p class="notas">(45) <i>Corre para Ignez.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> ................. Abertos os abysmos...(46)
+</div>
+
+<p class="notas">(46) <i>Delirante ainda.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> Ignez... (que magoa!) Ignez...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> .... Que!.. Quem me chama?..
+És tu, Constança, És tu, que vens ainda
+Da habitação da morte perseguir-me?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> Torna, Senhora, em ti... Já não conheces,
+Não vês a triste Elvira?..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> .................... Quem!.. Elvira...
+És tu? Aonde estou?.. Ah, que me queres?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> Mitigar tua dor, chamar-te á vida.
+Os alentos recobra, as esperanças:
+Serás inda feliz, verás em breve
+Trocados em prazer os teus pezares.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Prazeres para mim!.. ah!..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Elv.</span> ....................... Que! Não viste
+As lagrimas do Rei, que o teu indulto
+No enternecido aspecto promettia?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Qual quimerico indulto!.. Nada esperes:
+Que importão suas lagrimas, que importa
+Que perdoar-me queira, sé o rodêão
+<span class='pagenum'>Pág. 66</span>Vís Cortezão, escandalo do Throno,
+Algozes da innocencia, féros monstros,
+Sedentos do meu sangue, que ardilosos
+Seu coração benigno senhorêão?
+Elvira, a minha morte he infallivel;
+Pouco pode tardar: antes que chegue,
+Toma, toma estes orphãos innocentes,
+Conduze-os á prizão ao meu Esposo;
+Entrega ao triste Pai os tristes filhos,
+E dize-lhe que Ignez... Mas ah, que faço?..
+Retalhar quero do consorte o peito?
+(Co'a noticia fatal da minha morte
+O mortifero golpe antecipar-lhe?..
+Ah, não; bem basta que de dor expire.
+Quando entrar nesta lugubre morada,
+Onde, chamando em vão a extincta Esposa,
+Tristes eccos somente lhe respondão;
+E tintas as paredes do meu sangue,
+Luctuosos vestigios da consorte
+A cada passo espavorido encontre.
+Então, Elvira, então he que eu te rogo
+Lhe digas...(47) Ah, parece que ouço passos...
+Serão talvez meus barbaros verdugos...
+Que cheios de furor, ardendo em raiva
+Venhão cevar-se no meu sangue?.. Ai triste!..
+Ei-los que chegão... não m'engano... Elvira!
+Vamos na minha Camara encerrar-nos:
+Já melhor poderei recommendar-te
+O que exijo de ti; sim, vamos, filhos,
+Quero morrer ao menos junto ao leito,
+Que tem sido até agora testemunha
+D'envenenados, rapidos prazeres,
+<span class='pagenum'>Pág. 67</span>Dos continuos remorsos do meu crime,
+Das minhas afflicções, e do meu pranto.
+</div>
+
+<p class="notas">(47) <i>Olhando atemorizada em volta da Scena.</i></p>
+
+
+
+
+<h2>ACTO V.</h2>
+
+
+<h3>Scena I.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+Que afflicção, que tumulto n'alma sinto!
+Vacillante, confuso, atribulado,
+Mal posso respirar. Ceos! que tormento!
+D'hum lado a compaixão, d'outro a Justiça...
+Formidavel Justiça! Em fim venceste.
+Satisfeito estarás, dever tyranno...
+O supplicio de Ignez... Oh Deos, e pude,
+Tremendo, subscrever da sua morte
+A rigida sentença!.. Eu me horroriso:
+Dentro em meu coração queixosas sinto
+Bradar a compaixão, e a natureza...
+Que! surdo á sua voz, consentir devo,
+Que á morte, a meu pezar, severamente
+Seja a Mãi de meus Netos condemnada?
+E por que crimes? Por amar meu Filho?
+Ah, não: he tempo ainda; revoguemos
+A sentença cruel... Porém que faço?..
+O público socego, o bem do Estado,
+O popular clamor, o exemplo, tudo,
+Tudo em fim contra a triste me constrange,
+E me estorva o prazer de perdoar-lhe,
+Ah, dura condição! Pezado Sceptro,
+E haverá quem dos Reis inveje a sorte?
+Tormentoso lugar, terrivel Solio,
+<span class='pagenum'>Pág. 68</span>Assento d'afflicções, e de amarguras;
+Desgraçados aquelles que te occupão!
+</div>
+
+
+<h3>Scena II.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, e D. Sancho.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Ah Senhor! Se teu filho inda te he caro,
+Se não queres privar os Lusitanos
+Do herdeiro Augusto de teu Throno, e gloria;
+Não percas tempo, evita, remedeia
+A desesperação que o assassina.
+Eu conter já não posso os seus transportes,
+Nem ver as afflicções que o despedação:
+Humas vezes convulso, delirante,
+Scintilando furor, acceso em raiva,
+Morde, intenta romper os duros ferros
+Da prizão, que o retem; blasfema, e brama:
+Consternado outras vezes, abatido,
+Em profundo lethargo, entre agonias,
+Os olhos razos d'agua, o peito anciado,
+Succumbe á sua dor, cahe, desfallece.
+Eis que subito agora por mim chama:
+"Vai, amigo, (me diz) corre apressado,
+Saber da minha Esposa, e de meus filhos.
+Certamente os perversos Conselheiros
+Ousárão conspirar contra os seus dias:
+Ah, procura meu Pai, por mim lhe falla;
+Por mim de Ignez o indulto lhe supplica;
+O estado em que me vês lhe representa;
+E se elle persistir inexoravel,
+Protesta-lhe por mim..." Ah! nem me atrevo
+A referir-te...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 69</span>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> .......... Basta: não augmentes
+A minha confusão: oh Deos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> ................... Perdoa:
+Tu silencio me impões; mas eu não posso,
+Não posso obedecer-te; o grande risco,
+Em que os dias do Principe contemplo,
+O amor que lhe consagro, não permittem
+Que eu cesse de clamar-te que perdoes
+Á miseranda Ignez, de cuja vida
+A vida de teu filho está pendente.
+Ignez já agora he de D. Pedro Esposa...
+É até digna de o ser. Não acredites
+Damnados corações; que seus contrarios,
+D'inveja, d'ambição, de rancor cheios,
+Intentão denegrir o seu caracter.
+Vê, meu Rei, que te illudem: crer-mo deves
+Por meus labios fallou sempre a verdade.
+Ignez huma alma tem singella, e nobre,
+Sensivel de sobeja, a amar propensa;
+Não pôde resistir a amar teu filho:
+Seu delicto he só este, não tem outros;
+D'outros não he capaz, e hum tal delicto,
+Quando tantas virtudes o acompanhão,
+He digno de perdão, he desculpavel.(48)
+Perdoa-lhe, meu Rei, não diga o Mundo,
+Que inflexivel, severo em demasia,
+Nem de teu filho á Esposa perdoaste.
+</div>
+
+<p class="notas">(48) <i>Prostra se aos pés de D. Affonso.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span>(49) Não, não ha de dizer.(50) Oh lá, D. Nuno!(51)
+<span class='pagenum'>Pág. 70</span>Deixar eu de ser Pai por ser Monarcha?..
+Ah! Não.
+</div>
+
+<p class="notas">(49) <i>Depois de pensar hum pouco.</i>
+<br>
+(50) <i>Chamando para dentro da Scena.</i>
+<br>
+(51) <i>Comsigo mesmo.</i></p>
+
+
+<h3>Scena III.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, D. Sancho, e D. Nuno.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> ... Que determinas?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> ................... Apressado
+Parte em busca de Ignez; aqui ma envia;
+E aos duros Conselheiros participa,
+Que a sentença revogo; a Ignez perdôo.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Graças, benigno Rei!..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span>(52) .................. Oh feliz Castro!
+Já proxima ao sepulchro á vida tornas.
+</div>
+
+<p class="notas">(52) <i>Partindo.</i></p>
+
+
+<h3>Scena IV.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, e D. Sancho.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Que escuto! Á morte já sentenciada!..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Longe de nós lembrança tão funesta.
+O Principe vai pôr em liberdade:
+Que me venha abraçar; Ignez he sua.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Que jubilo!(53) Ah Senhor! Deixa que eu banhe
+Tua mão generosa com meu pranto,
+Suave pranto, que o prazer me arranca.(54)
+Eu vou... Sim; a alegria azas m'empresta:
+Vou levar a D.. Pedro a feliz nova,
+Restituir-lhe vou a paz, e a vida.
+</div>
+
+<p class="notas">(53) <i>Prostra-se, e beija a mão do Rei.</i>
+<br>
+(54) <i>Levanta-se.</i></p>
+<span class='pagenum'>Pág. 71</span>
+
+
+<h3>Scena V.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+Oh mil vezes feliz todo o que pode
+Venturosos fazer os desgraçados!..
+Desafogado o coração já sinto...
+Hum Rei sómente he Rei quando perdoa.
+Minha alma d'antemão já saborêa
+O jubilo de Ignez, e de meu filho,
+D'hum, e d'outro os abraços, os transportes,
+A innocente alegria de meus netos...
+Delicia dos mortaes, oh Natureza!
+Cedão ás tuas leis as mais leis todas.
+</div>
+
+
+<h3>Scena VI.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Affonso, e o Embaixador.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Emb.</span> Condoido, Senhor, da infeliz Castro,
+Releva que eu me atreva a supplicar-te,
+Que a decretada morte lhe perdoes:
+Eu sei que a teu pezar foi condemnada,
+Satisfação que dás ao meu Monarcha,
+Quando elle certamente, persuadido
+Da tua fidelissima amizade,
+Não quererá, Senhor, que lha confirmes
+Com o sangue de Ignez, que inda he seu sangue,
+Atrevo-me em seu nome assegurar-to,
+Rogando-te pratiques generoso,
+A piedade que he propria da tua alma.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Muito folgo de ver teus sentimentos
+Tão conformes aos meus; sim, eu espero,
+<span class='pagenum'>Pág. 72</span>Que o teu Rei me não culpe de piedoso,
+A Ignez já perdoei; fiz mais ainda;
+Reconheci-a de meu filho Esposa.
+Não me atrevo a romper o nó sagrado,
+Em que Hymenêo, e Amor os enlaçava,
+Ignorado por mim, quando sincero
+O Tratado firmei, que promettia
+Com Beatriz de meu Filho os Desposorios,
+Deves pois ao teu Rei fazer sciente,
+Das razões poderosas que os estorvão;
+E por mim segurar-lhe ao mesmo tempo
+Constante, inalteravel amizade.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Emb.</span> Teu leal proceder, as razões todas
+Que a decidir assim te constrangêrão,
+Lhe exporei fielmente, e não duvides
+Que tal resolução lhe agrade, e a louve.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Dictou-ma o coração, e de abraça-la
+Não me hei de arrepender: nunca a piedade
+Pode manchar as purpuras: se o Mundo
+De Bruto inda com pasmo escuta o nome,
+Mais saudoso de Tito o nome adora.
+Porém que vejo!.. oh Ceos!.. D. Nuno em pranto...
+</div>
+
+
+<h3>Scena VII.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Os ditos, e D. Nuno.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> Oh fereza!.. Oh desgraça!..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> ....................... Que acontece?..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> A dôr, e o pranto as expressões me tolhem...
+Cheguei tarde, Senhor... Ignez...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> ............................ He morta?..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> Brevemente o será.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Emb.</span>......Oh Deos!..
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 73</span>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> .............. Debalde
+Á misera e mesquinha perdoaste:
+De seu preclaro sangue sequiosos,
+Os Ministros crueis se antecipárão...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Oh detestaveis, sanguinarios monstros!
+E podestes... acaba.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> .............. Mensageiro
+Da piedosa faustissima noticia,
+Á Camara de Ignez veloz caminho;
+Pouco distante ja de seus lamentos
+Parece, que as abobadas gemião:
+Accelero inda mais ligeiros passos,
+E ao tempo que os crueis descarregavão
+Sobre o peito d'Ignez os duros golpes,
+Entro... (que horror!) perdão, perdão, exclamo:
+Á palavra <i>perdão</i> os impios tremem,
+E até da mão os ferros lhes cahírão:
+Em vão porém; que o sangue já corria.
+Servírão só meus gritos de que fosse
+A ferida talvez menos profunda.
+Então Coelho, e Pacheco, estatuas ambos,
+Como espantados do seu crime horrendo,
+Sem proferir palavra largo tempo,
+Olhando hum para o outro espavoridos,
+Apenas a final dizer podérão:
+"Não ha mais que hum recurso; eia, fujamos;"
+E subito os crueis desapparecem.
+Ignez desfallecida, mal ouvíra
+Que tu lhe perdoáras, levantando
+As mãos aos Ceos, e os macerados olhos,
+Mil vezes te bemdiz, por ti mil vezes
+Aos Ceos envia fervorosas preces.
+Cheia de gratidão, inda o seu rosto
+Entre as sombras da morte parecia
+<span class='pagenum'>Pág. 74</span>Que ao proferir teu nome s'alegrava;
+Em quanto as tristes Damas, que a rodêão,
+O sangue de seu peito estancar buscão,
+"Por ultimo favor (lhes diz) imploro,
+Que á presença d'Affonso me conduzão;
+Inda quero ir beijar-lhe a mão clemente,
+E a seus pés expirar agradecida."
+C'os filhinhos ao lado a malfadada,
+Buscando-te, Senhor, para estes sitios
+Já com tremulos passos se encaminha.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Oh destino!.. Oh fereza!.. Infeliz Castro!..
+Filho infeliz!.. Mais infeliz do que ambos,
+Atribulado Pai!.. Todos os males,
+As furias, as desgraças, e os remorsos
+Desde o berço ao sepulchro me acompanhão.
+Nasci para flagello dos humanos,
+Para opprobrio nasci da natureza:
+Portugal, dos seus Reis na clara historia,
+Chamará com razão ao quarto Affonso
+Máo Irmão, Filho ingrato, e Pai tyranno.
+O culpado sou eu de Ignez na morte,
+Eu que, pelos perversos enganado,
+Tarde o grito escutei da humanidade.
+Ah! fujamos, fujamos destes sitios,
+Que a vêr a desgraçada não me atrevo...
+Mas ai de mim!.. As forças me abandonão:
+Eis ella chega... Amigos, soccorrei-me:
+Affastai-me daqui...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 75</span>
+
+
+<h3>Scena VIII.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Os mesmos, Ignez, os dois meninos seus filhos, Elvira, e duas Aias.</i>(55)</p>
+
+<p class="notas">(55) <i>As Aias sustentão Ignez, que vem ferida.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Ah!.... Não me fujas...
+Não me fujas, Senhor... toma os teus Netos...
+Para t'os entregar, agonisante,
+O Maternal amor aqui me arrasta...
+Tristes orphãos, adeos... Adeos, meus filhos...
+Nas tuas mãos, Senhor, os deposito...
+Em teu bom coração abrigo encontrem...
+Ampare-os seu Avô, já que a Mãi perdem...
+Possão elles hum dia, de ti dignos,
+Dignos filhos do Pai mais virtuoso,
+Com virtudes iguaes, egregios feitos,
+Compensar-te o perdão, que me outorgaste...
+E por ultima graça me concede,
+Que inda antes d'expirar meu Pai te chame.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Af.</span> Chama-me o teu algoz: não queiras dar-me
+O doce nome que me não compete:
+Bem quizera eu tambem chamar-te Filha:..
+Mas não me atrevo, não; a Natureza,
+Se visse por meus labios profanado
+Nome tão deleitoso, estremecêra...
+Teu sangue está bradando; tu só deves
+O cruel detestar, que te assassina;
+Mas bem vingada estás; mais desgraçado
+Mil vezes do que tu, mil mortes soffro.
+Ah, poupa ao teu verdugo o horror de ver-te
+Exhalar d'alma os ultimos arrancos...
+<span class='pagenum'>Pág. 76</span>Eu vou, sim, porque até minha presença
+Deve ser a teus olhos odiosa.(56)
+Ninguem me siga, ah, não; deixem-me todos,
+Fujão todos de mim; quero esconder-me
+A todos os viventes, té que possa
+Nos abysmos sumir-me para sempre.(57)
+</div>
+
+<p class="notas">(56) <i>Vai a partir, e vendo que D. Nuno o quer acompanhar, volta-se, e diz:</i>
+<br>
+(57) <i>Parte arrebatadamente.</i></p>
+
+
+<h3>Scena IX.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Os mesmos, excepto Affonso.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ign.</span> Ah Senhor!.. mas debalde; não me attende;
+Inda mais este golpe!. Não me custão
+As suas afflicções menos que a morte...
+Oh quantos desgraçados tenho feito!
+O triste Pai, o Esposo... Ai! triste Esposo!..
+E que será de ti!.. Lembrança horrivel!..
+D. Nuno, Elvira, confortai-o todos,
+Á sua dor buscai dar lenitivo...
+Ah, s'eu podesse ao menos vê-lo ainda...
+Morrêra satisfeita... Ceos!.. já sinto
+A agonia da morte... Filhos... Filhos...
+Quanto a sua presença me consterna!..
+Ah, levem-mos daqui... mas para onde?..
+Não; chegai, filhos meus... em vossos labios
+Quero entornar minha alma... nelles quero
+Deixar a vosso Pai depositados
+Meus ultimos suspiros... Ah! são estes...
+São estes... Que anciedade! A luz me foge...
+<span class='pagenum'>Pág. 77</span>Adeos, Filhos... adeos, Esposo... Eu morro.(58)
+</div>
+
+<p class="notas">(58) <i>Cahe, e espira nos braços das Damas.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Emb.</span> Que doloroso trance!
+</div>
+
+
+<h3>Scena X.</h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Os mesmos, D. Pedro, e D. Sancho.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span>(59) ............... Amada Esposa,
+Ignez, querida Ignez, vôa a meus braços,
+Vem completa fazer minha alegria.(60)
+Porém que!.. vós chorais! que infausto agouro.(61)
+</div>
+
+<p class="notas">(59) <i>D. Pedro entra na Scena cheio de alegria, sem vêr o cadaver de Ignez.</i>
+<br>
+(60) <i>Vendo chorar D. Nuno, e o Embaixador, que estão defronte do cadaver
+de Ignez.</i>
+<br>
+(61) <i>Olha para traz, dá com os olhos em Ignez morta, quer correr a ella,
+recúa espavorido, e cahe desfallecido nos braços de D. Sancho, e do
+Embaixador.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> Oh Principe infeliz!.. Mortal angustia!
+Affastai-lhe da vista a extincta Esposa.(62)
+</div>
+
+<p class="notas">(62) <i>Elvira, e as Aias retirão da Scena Ignez, e os Meninos, acompanhadas
+de D. Sancho.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span>(63) A Esposa!.. Onde está ella? Ide chamar-ma.
+</div>
+
+<p class="notas">(63) <i>Em delirio.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> Ah! Senhor!..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> ............ Não tardeis, ide chamar-ma.
+Eu mesmo, eu mesmo vou... Ignez, Esposa!(64)
+</div>
+
+<p class="notas">(64) <i>Convulso, quer caminhar, e não póde.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Emb.</span> A extrema dôr o priva dos sentidos.
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 78</span>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> A tua Esposa... oh Deos!.. já não existe.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> He morta? Injustos Ceos! Clarão terrivel!(65)
+Ah! Sim, eu mesmo a vi... horrida imagem!..
+E tornarão a abrir-se inda os meus olhos?
+Vi morta a cara Esposa, e vivo ainda!(66)
+Espera, espera Ignez, eu te acompanho,
+Eu já te sigo, sim...(67) Mas não, primeiro
+He preciso vingar a sua morte.
+Quem a matou?.. Dizei... talvez... foi elle,
+Esse tyranno, que meu Pai se chama?
+</div>
+
+<p class="notas">(65) <i>Olhando para o lugar onde víra Ignez morta.</i>
+<br>
+(66) <i>Em acção de desembainhar a espada.</i>
+<br>
+(67) <i>D. Nuno, e o Embaixador impedem que D. Pedro desembainhe, e este reflectindo hum pouco, diz:</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> Ah! não, Senhor, teu Pai lhe perdoava,
+Mas Coelho, e Pacheco os ímpios forão,
+Que...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Ped.</span> Basta: nada mais.(68) Impios são todos,
+E eu de todos o sangue beber quero.
+Treme, barbaro Rei; cruenta guerra
+Eu protesto fazer-te: sim, eu juro
+Pelo sangue de Ignez, cujos vestigios
+Bradando por vingança alli diviso,
+Juro, cruel, do Throno derrubar-te,
+E em teu lugar, c'roada alçar a elle
+A Esposa que me roubas. A meu lado,
+Mesmo depois de morta, a bella Castro
+Será Rainha, reinará comigo:
+Que importa que o seu corpo não respire,
+Se a sua alma inda existe unida á minha!
+<span class='pagenum'>Pág. 79</span>Hão de todos beijar-lhe a mão já fria,
+Tributar-lhe as devidas homenagens:
+Do seu throno degráos por mim calcados
+Os tyrannos serão que a assassinárão:
+Seus corações malvados, das entranhas
+Eu mesmo hei de arrancar, hei de trincar-lhos.
+Ás minhas iras escapar não podem:
+Inda que nos infernos vão sumir-se,
+Lá mesmo, ardendo em raiva irei busca-los.
+Será tal meu furor, minha vingança,
+Que o Mundo tremerá de ouvir meu nome:
+Por toda a parte se hão de ouvir sómente
+Pranto, desolação, e horrores... tantos
+Os estragos serão, as mortes tantas,
+Que ha de em sangue nadar Portugal todo:
+Sangue o Douro, o Mondego, e sangue o Téjo
+Hão de, em vez d'agua, despejar aos mares;
+E os proprios mares arrojar bramindo
+Ondas de sangue ás mais longinquas praias.
+Eu vou já começar a derrama-lo.
+Oh furias! Oh vingança! Acompanhai-me,
+Meus passos dirigi; guiai meu braço.(69)
+</div>
+
+<p class="notas">(68) <i>Na mesma furiosa desesperação.</i>
+<br>
+(69) <i>Parte furioso arrebatadamente da Scena.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Emb.</span> Ah Principe, suspende! Mas quem póde
+Conter as furias, que lhe lutão n'alma!(70)
+</div>
+
+<p class="notas">(70) <i>Segue a D. Pedro.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> Que espantoso tropel de horriveis males!..
+Oh de cégas paixões funesto exemplo!..
+Misero Esposo!.. Malfadada Castro!..
+De quanta compaixão são dignos ambos!..
+Muito se amavão, desgraçados forão,
+Chore-os o Mundo, e de imita-los trema.(71)
+</div>
+
+<p class="notas">(71) <i>Finda a Tragedia quando não ha coroação.</i></p>
+<span class='pagenum'>Pág. 80</span>
+
+
+<h3>Scena X.<sup><a href="#nt1">[NT1]</a></sup></h3>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Nuno, e D. Sancho.</i>(72)</p>
+
+<p class="notas">(72) <i>Impaciente.</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> Onde corres?..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> ............ Oh Ceos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> ..................... Novos desastres
+Acaso sobre nós envia o Fado?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> O nosso Excelso Rei, o invicto Affonso,
+Com força de pezar succumbe aos males,
+E violenta paixão lhe arranca a vida.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> Em que montão d'horrores nos abisma
+O destino fatal!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Sanc.</span> ......... Oh desventura!
+O Principe me ordena que vos chame:
+Vinde prestes, D. Nuno; elle turbado
+Sente a falta d'hum Pai, da Esposa a perda.(73)
+</div>
+
+<p class="notas">(73) <i>Parte</i></p>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">Nun.</span> Morreo em fim?.. Morreo! No centro d'alma
+Soffro as ancias crueis, a dôr mais ímpia!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 81</span>
+<br>
+<br>
+<p class="instruccoes_cena"><i>Acto da Coroação para se representar no fim da Tragedia==Nova Castro==de João Baptista Gomes.</i></p>
+
+<hr>
+
+<p>A lembrança de que muitas pessoas desejão vêr no fim daquella optima
+Tragedia huma Coroação, fez com que se imprimisse esta, apezar da falta de
+unidade que ha, o que forma hum erro Dramatico, que o seu Auctor não
+desculparia se existisse.--<i>Nota do Editor.</i></p>
+<hr>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Mutação.</i></p>
+
+<p>Magnifica Sala com Docel, e Cadeira de espaldar no meio do Theatro, em a
+qual está D. Ignez assentada, e em lugar competente, e magnifico huma
+Coroa riquissima.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>Sahem D. Pedro, D. Sancho, D. Nuno, Elvira, os dous Meninos, Grandes, e Guardas Reaes.</i></p>
+
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">D. Nun.</span> Esta he a pompa, Senhor, que a brevidade
+Me permittio do tempo.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">D. Ped.</span> ............. Que impiedade!
+He possivel, Ignez, oh dura sorte!..
+Quem vida me dêo te désse a morte?!
+A sacrilega mão, barbara, e fera,
+<span class='pagenum'>Pág. 82</span>Que o teu sangue verteo no duro effeito
+Não cahio com o ferro? Oh quem podéra
+Soldar a pura neve de teu peito!..
+Quem podéra animar-te a luz perdida,
+Repartindo comtigo a minha vida?!
+Quaes serão os castigos acertados
+Que excogite a lembrança desta scena
+Contra estes deshumanos inimigos,
+Sem lei, sem compaixão, e sem respeito?
+Farei abrir com golpes mui profundos,
+As espadoas a hum, a outro o peito;
+E a seus mesmos olhos moribundos,
+Que vírão este Sangue, desejára
+Mostrar os corações, que os animára
+A tão cruel, e aspera fereza,
+Como abortos crueis da natureza
+Para monstros indomitos gerados:
+Choro, meu bem, a tua adversidade,
+E vivo para minha saudade!..
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">D. Sanc.</span> Aqui te outorgo a Corôa...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">D. Ped.</span> ....................... De outra sorte
+Coroar-te intentei, fiel Consorte;
+Mas preferio á gloria a tyrannia!..
+E vós, meus caros, meus fieis Vassallos,
+Reverentes beijai esta mão fria,
+Que beijar deverieis n'outro estado,
+Se tão impio não fosse o nosso fado.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">D. Sanc.</span> O primeiro sou eu, que esta mão bella
+Reconheço da minha Soberana,
+Com o respeito que devo a vós, e a ella. <i>Beija-lha.</i>
+</div>
+
+<div class="poesia">
+<span class="personagem">D. Nun.</span> Com minha gratidão, e o meu respeito,
+Qual Vassallo fiel, cumpro o preceito. <i>O mesmo.</i>
+</div>
+
+<p><i>Os Grandes beijão-lhe a mão ao som de Musica,
+e no fim diz:</i>
+<span class='pagenum'>Pág. 83</span>
+
+<div class="poesia"><span class="personagem">D. Ped.</span> Esse Corpo gentil desanimado,
+Mais na morte que em vida respeitado,
+Depressa cobrir faze, Condestavel.
+</div>
+
+<p class="instruccoes_cena"><i>D. Sancho corre as cortinas.</i></p>
+
+<div class="poesia">A incumbencia do enterro vos entrego:
+Com majestoso fausto veneravel
+A levai a Alcobaça, e as estradas
+De tochas estarão illuminadas;
+E o mesmo esplendor fazer quizera
+Se, como dezesete legoas são,
+Dezesete mil fossem; pois venera
+Tanto minha alma a essa cinza amada,
+Que desejo exceder no magestoso
+Aquella maravilha celebrada,
+Que Artimizia erigio a seu esposo.
+E vós, que ainda apezar do esquecimento
+Recommendais com pranto merecido
+Os amores de Ignez ao sentimento,
+E seu nome ao respeito que he devido,
+Com verso humilde aqui vos represento
+O tragico infortunio desabrido,
+Que aconteceo á misera mesquinha,
+Que inda depois de morta foi Rainha.
+</div>
+
+<h3>Fim.</h3>
+<hr>
+<h4>Notas de Transcrição</h4>
+
+<p class="notas"><a name="nt1">NT1:</a> No original as últimas duas cenas aparecem ambas identificadas como
+"Scena X".</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Nova Castro: tragedia, by
+João Baptista Gomes Junior
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVA CASTRO: TRAGEDIA ***
+
+***** This file should be named 22508-h.htm or 22508-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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