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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:53:48 -0700 |
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PEDRO +1871 + + + + +ADVERTENCIA + + +Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o +distincto maestro Francisco de Sá Noronha, quando a comedia se escreveu +com destino a ser representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o +bom exito theatral o subsidio da musica n'esta composição, e sobrevindo +rasões que desviaram o nosso amigo Noronha de collaborar comnosco em +tamanha futilidade, não pôde por isso a comedia ser submettida á opinião +das platêas. Quem a lêr agora tem de benevolamente disfarçar o seu +fastio de leitura de versos, feitos ou copiados das canções populares, +para se cantarem. Por via de regra, taes trovas são sempre asperas ou +dissaboridas na declamação, mórmente as que formam o _Auto do nascimento +do menino Jesus_, consoante elle se figura nas aldêas do Minho ainda hoje. + +Com referencia á farça não temos que pedir desculpa. Seria +desvanecimento irrisorio recearmos nós que a ponderosa e grave critica +se descesse até coisa tão pequena. + + * * * * * + + + + +A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES + +COMEDIA EM TRÊS ACTOS + + + + +FIGURAS + + D. JOANNA COGOMINHO DE ENCERRABODES, morgada de Val-d'Amores, filha de + PANTALEÃO COGOMINHO DE ENCERRABODES. + FREDERICO ARTHUR DA COSTA, Escrivão da Fazenda de Santo Thyrso. + COSME JORDÃO, Deputado por Guimarães. + MACARIO MENDES, Boticario de Santo Thyrso. + JOÃO LOPES, Lacaio e confidente da Morgada. + FIGURAS DO AUTO DOS TRES REIS MAGOS. + Creados, cantadeiras, camponezes, musicos e outros personagens. + _Scenas da actualidade._ + + + + +ACTO PRIMEIRO + + +Ao fundo, portão de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes. +O restante do palco figura uma alameda e estrada. + + +SCENA I + +FREDERICO _(só)_ + + _(Frederico é um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e + calças pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O + chapéo é de fórma ingleza e alto para tornar mais aguçada a figura. + A cabelleira bironniana em crespas ondulações. Bigodes encerados e + picantes nas guias retezadas. A luneta d'um vidro sem aro obriga-o a + caretear, abrindo a bocca de esguêlha quando fixa mais attentamente + a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fôr necessario fugir, hão + de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A + agilidade da rotação do pescoço deve dar-lhe o que quer que seja de + authomatico e fantasmagorico.)_ + +A razão diz-me que eu estou em perigo de ser moído por estes selvagens +do Minho; mas o coração, este intestino onde o amor e a coragem habitam, +diz-me que não vacille. A rasão argumenta-me que eu, escrivão de fazenda +no concelho de S. Thyrso, não devo arrojar as minhas desenfreadas +ambições até á mão da morgadinha de Val-d'Amores; mas o coração, esta +republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella, +mandando-me lêr n'aquelle brazão _(apontando)_ o epitaphio da fidalguia +de raça, e o monumento levantado não ás tradições ineptas, mas á +restauração da dignidade humana. Além d'isto, eu, homem de aspirações +gigantes, eu, poeta de audaciosos raptos d'alma, eu, que junto á poesia +elevada a poesia profunda, preciso de me arranjar. Sou escrivão de +fazenda; mas esta posição não quadra aos meus instinctos. Ás vezes como +que sinto escaldarem-se-me as arterias com sangue de principe, e me quer +parecer que algum de meus avós foi mais ou menos illudido por alguma das +minhas avós. Reconheço, como filho d'este seculo, que a democracia matou +a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim é; porém, ao mesmo tempo, +não sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta +morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o +que mais me incita a querer-lhe com a adoração dos Paulos e dos Romeus é +a precisão que tenho de me arranjar. + +Eu já manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocação; +e, como me sentisse um dos muitos desventurados que cáem n'este mundo +sem vocação, fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por +serem cousa que a Biblia não diz que o Creador fizesse nos sete dias de +creação. Um sujeito olha para si como Deus para as trevas, e diz «_fiat +lux_» faça-se o litterato; «_et lux facta est_», e o litterato fez-se. +Eu prometto não dizer mais nada em latim, por que tambem não sei mais do +que isto. + +Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever. +Preparava-me para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26 +de supplemento, quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um +diario de Lisboa. A minha reputação estava quasi estabelecida, quando a +empreza me despediu por semsaborão, como se fosse obrigatorio ser +engraçado no paiz mais desgraçado do mundo. Voltei o meu espirito para a +historia universal, e cheguei até a procurar n'um Almanak onde era a +Torre do Tombo com tenção de lá ir consultar os pergaminhos. N'este +proposito estava eu, sentindo já os calores da gloria, quando me +encarregaram de traduzir uma comedia franceza para o Gymnasio. Puz de +parte a Historia Universal, e traduzi a comedia com um esmero indigno do +resultado, porque ella foi pateada visto que tinha, segundo disseram os +criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a virgindade elegante do +texto. Ora eu então fiz-me critico, animado pela grande copia de +sandices que se escreveram contra a minha traducção. N'este modo de vida +achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber +alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira +em jardim de flores; é temivel porque remeche e estraga tudo; levanta +impólas de terra, e suja quando não desvasta a mimosa vegetação. Eu fiz +destroços grandes e escalavrei muitas reputações litterarias, já por +amor da arte, já por amor do estomago, esta coisa onde um homem de genio +não póde crear a luz, porque isto aqui _(indicando o estomago)_ é um +abysmo que só recebe a luz pela bocca. Mas a final, as obras litterarias +que appareciam eram já de natureza que o arpéo da critica não lhes +ferrava a unha. Entreguei-me ao genero chamado _reclame_, e comecei a +chamar a attenção do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia, +romance ou farça. Este officio, posto que o mais aviltante da vida d'um +escriptor, é o mais lucrativo no mundo patarata, em que eu me atasquei. +A consciencia pezava-me pouco, se o estomago sahia pezado de casa do +emprezario do theatro ou do editor do romance. Afoguei muitos escrupulos +em sopa de camarão. Mas o sangue de principe, este não sei quê que me +faz cócegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha missão na +terra, e desde logo atirei um vôo atrevido ás regiões aquilinas da +politica. Estudei trez dias as questões de fazenda em Portugal, e +entendi-as tão claramente como se fossem questões da minha fazenda. +Percebi que o paiz estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma +serie de artigos nos quaes provava que a maneira de matar o _deficit_ +era... sim eu provava que a maneira de matar o _deficit_, esse cancro +roedor das entranhas do meu paiz, era... sim eu provava... não me lembra +agora o que provei... o certo é que me despacharam escrivão de fazenda +de Santo Thyrso, provavelmente para matar o _deficit_. Eis que chego, e +vejo a Morgadinha... _(Ouvem-se os tamborileiros)_ Não convem que estes +barbaros me vejam parado em frente do portão da mulher amada... _(Sáe)_. + + +SCENA II + +PANTALEÃO, DOIS CREADOS, E OS TAMBORILEIROS + + _Entram ao terreiro e páram tocando em frente da porta trez + tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco + depois abre-se a porta, e sáe_ _PANTALEÃO__, com dois creados de + lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um + pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem._ + +1.º Tamborileiro _(o do Zabumba)_ + +Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr.ª morgadinha! + +Os trez + +Biba por muitos annos, biba! + +Pantaleão + +Olé! rapazes! Com que vossês já se vão chegando ao arraial?.. + +1.º Tamborileiro + +Ó promeiro, vamos tocar ós mordomos do Snr. San Joon, que tem festa +d'arromba este anno; e ós despois la bamos pr'ó arraial com Deus. +_(Ouve-se ao longe a toada das cantadeiras que cantam o S. João.)_ + +Pantaleão + +Bebam; mas não se encarraspanem como no anno passado. + +2.º Tamborileiro _(rindo alvarmente)_ + +É berdade, fedalgo! Aquillo é que foi perua! Indas m'alembra! + +Pantaleão + +Pois vê lá se arranjas outra que te faça esquecer a do anno passado. + +3.º Tamborileiro _(bebendo)_ + +Enton la bai á saude de Vossenhoria, a mais da snr.ª morgadinha. + +1.º e 2.º Tamborileiro + +A mesma. + +Pantaleão + +Querem mais? bebam. + +1.º Tamborileiro + +Non faz minga. + +Pantaleão + +Então, rapazes, adeus. Lá nos veremos na romaria. + +Os tres Tamborileiros + +Biba o fedalgo, e mai la obrigaçon. _(Sáem rufando estrondosamente: +cessa o estrondo pouco depois.)_ + + +SCENA III + +PANTALEÃO E OS DOIS CREADOS (QUE POUSAM AS VASILHAS) + +Pantaleão + +Ora venham cá vossês, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses +olhos. Vossês tem obrigação de zelar a honra d'esta casa, por que +nasceram n'ella, cá se crearam, e cá hãode morrer, se me servirem bem. +Aquillo que souberem a respeito do que vou perguntar hão de dizer-m'o. +Aqui quem governa sou eu, percebem? Vossês tem visto de noite alguma vez +por debaixo das janellas d'esta casa o escrivão de fazenda? um homem +muito magro que cá vinha d'antes? + +1.º Creado + +Bem sei quem é o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo, +eu jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu +de regar a cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando +sobre a direita, vi uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que +parecia um abentesma... + +2.º Creado + +Eu tambem já bi esse abentesma, salbo seja, ahi ós pois da mêa noute; +mas aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que +Vossenhoria faça de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim +têzo e hirtego que não bolia c'os pezes. Havéra de ser o mesmo que tu +enxergaste, Antonho! + +Pantaleão + +Pois creiam vossês que não era outro senão o escrivão de fazenda. +N'estes arredores não ha homem d'aquelle feitio senão elle... Sabem o +que eu quero, rapazes? é que lhe dêem uma boa sova de estadulho. + +1.º Creado + +Só se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira. + +2.º Creado + +E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar ás lebres. +_(Ouvem-se risadas de mulheres já perto.)_ + +Pantaleão + +Por ora, nada de tiros; o que mando é que lhe arrumem quatro bordoadas, +sem lhe dizer isto nem aquillo. Vossês zupem-lhe e escamem-se, que eu +com a justiça não quero testilhas; mas não lhe batam, sem o apanharem cá +á volta da casa... Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as +raparigas da freguezia. _(Sáem pela esquerda.)_ + + +SCENA IV + + + _(Rancho de raparigas vestidas de saias de chita com muita roda de + saias e saiotes, capotilhas encarnadas, chinela e meia branca, + acompanhadas d'um tocador de rebeca e outro de violão, que lhes + acompanham as cantigas. Entram pulando alegremente, e pucham por a + estridula sineta do portão.)_ + +O rabequista + +Biba a snr.ª morgadinha de Val-d'Amores! + +Todos + +Biba! Biba! _(Cantam o S. João.)_ + + COPLAS + + Son Joon adromeceu + Nas escadas do collejo; + Deron nas frêras co'elle, + Son Joon ten porbolejo. + Que é aquillo, que é aquillo, que é aquillo? + Son Joon a caçar um grilo. + + Ó meu son Joon da Ponte, + Ó meu bello patusquinho, + Dá-nos anno de bon pon, + Dá-nos anno de bom binho. + Non é nada, non é nada, non é nada, + Son Joon a comer pescada. + + + _(Abre-se o portão de par em par. Sáe a Morgadinha, trajada com + luxo, mas fóra da moda. Vestido de ancas exaggeradas, cabello á + Stuart, e um grosso grilhão ao peito. Segue-a um creado velho, de + niza, com uma cadeira de braços á cabeça, e uma pichorra e caneca na + mão.)_ + + +SCENA V + +MORGADINHA, JOÃO LOPES, E AS CANTADEIRAS + +Vozes + +Biba a snr.ª morgadinha! Biba! Biba! + +Morgadinha _(sentando-se na cadeira)_ + +Adeus, raparigas. Como estás tu, Maria do Quinchoso! e tu Benta do +Cazal? Olha a Marianna da Egreja como está gorda com o cazamento! Ó João +Lopes, dá vinho a essa raparigada toda. + +Uma das moças + +Vossenhoria bai ao arraial? + +Morgadinha + +Podéra não! Já estou preparada, e vou assim que a tarde refrescar, que +quero ver o fogo prezo. + +Outra + +E mai lo auto do Natal, que vem la os d'Arnôzo co'elle. + +Outra + +E como a fidalga está pimponaça! Parece mêmo a Madanela da porcisson de +Passos! + +Outra + +Benza a Deus, que palminho de cara assim, não se topa outra no mundo. +Faz agora um anno que os cassacas do Porto andabon todos enbeiçados +atraz da snr.ª morgadinha no arraial; e enton aquelle goberno que está +em S. Thirso esse é que andava memo azoratado! + +Morgadinha _(rindo)_ + +Qual governo?! + +A mesma + +Aquelle que lhe chamon o das fazendas, ou non sei que deanho... + +Morgadinha + +Ah!.. _(suspirando)_ Ja sei... + +O do violão + +Má rais o parton, que me mandou citar indas hontem! + +O rabequista + +Eu onde le poder ser bon heide medirle o costado de pá a pá cum fueiro... + +Morgadinha + +Ora não sejas bruto, José da Eira! Elle faz a sua obrigação; faz tu a +tua que é pagar o que deves ao rei. + +O mesmo + +Ao rei! Bem me fio eu n'isso... Enton a fidalga pensa que o rei aveza +uma de X do dinheiro que nós demos!! Pois non avezastes! Os governos de +S. Thirso repartem uns c'os outros no fim do anno o dinheiro que don os +lavradores. + +O outro + +É como diz. + +Morgadinha + +Sois uns selvagens. Deixemo'-nos de tolices. Cantem lá alguma coisa vossês. + +Uma das moças + +Quer a _Marianinha_, fedalga? + +Morgadinha + +Pois sim; cantem lá a _Marianinha_. + +COPLAS__ + +_(Tudo mulheres)_ + +(UMA VOZ) + + Ja fui canario do rei, + Ja lhe fugi da gaiola. + +(CÔRO) + + Sim, sim, eu vou lá + Ó Marianinha, + Sim, sim, eu la vou + Ó pequerruchinha. + +(UMA VOZ) + + Agora sou pintassilgo + Destas meninas d'agora. + +(CÔRO) + + Sim, sim, eu vou la, etc. + +(UMA VOZ) + + Pintassilgo está no bosque, + A andorinha no telhado. + +(CÔRO) + + Sim, sim, etc. + +(UMA VOZ) + + So eu não sei onde estou, + Quando não estou ao teu lado, + +(CÔRO) + + Sim, sim, etc. + +(VOZ) + + A andorinha quando chove + Vai metter-se á escuridon + +(CÔRO) + + Sim, sim, etc. + +(VOZ) + + E eu quando o norte é rijo + Metto-me ó teu coraçon. + +(CÔRO) + + Sim, sim, etc. + +Todos + +Biba a snr.ª Morgadinha! Biba! + +Morgadinha + +Então vossês vão já para a romaria? + +Uma d'ellas + +Aindas bamos buscar as cazeiras de Vossenhoria que estão á espera de +nós, e ós pois voltemos por qui. + +Morgadinha + +Pois vão, e voltem. _(Sahem cantando o S. João. A morgadinha fica +pensativa e melancolica, encostando o rosto á mão, em quanto se ouve e +se vai perdendo a toada da cantiga.)_ + + +SCENA VI + +MORGADINHA E JOÃO LOPES + +Morgadinha + +Como estes brutos são felizes!.. E eu sempre apoquentada por causa deste +coração! Ai! eu antes de saber o que era amor tambem cantava... +Lembras-te, ó João Lopes? + +João Lopes + +Ora se lembro! E cantava que nem uma calhandra a fidalga! + +Morgadinha + +Olha se te lembras, João! Eu ia ás espadeladas, ás descamizadas, ás +malhas, brincava, saltava... + +João Lopes + +Até dançava a cana verde, e a chula que era um gosto vêl-a!.. E quando a +menina quiz que eu lhe ensinasse o jogar o páo... + +Morgadinha _(com alegria)_ + +É verdade... + +João Lopes + +E o caso é que vossellencia ahi com duas duzias de lições já me chegava +com o páo. + +Morgadinha _(erguendo-se enthusiasmada)_ + +E d'aquella vez que eu me vesti de rapaz, e puz fóra da eira do Manoel +Tamanqueiro, com quatro partidas de páo, mais de seis mascarados que la +andavam a beliscar as minhas cazeiras! + +João Lopes + +Por signal que a menina deu uma tapona no Zé Torto, que ficou torto de +todo... Ó fidalga, vossellencia hoje já não era capaz de romper ahi com +um marmeleiro p'ra frente d'um homem qualquer!.. + +Morgadinha + +Estás enganado... se me chegassem a mostarda ao nariz... Mas, ai!.. +_(Torna a sentar-se triste.)_ A minha alegria foi-se desde que eu soube +o que era amor!.. Olha lá, João... não o vis-te hoje? não viste o meu +amado Frederico? + +João Lopes + +Falle baixinho, menina. Olhe que o snr. morgado ainda ha todonada me +esteve dizendo que desconfia que elle anda por aqui de noute. A fidalga +acautele-o; que não vão os creados chegar-lhe ao forro da camiza... + +Morgadinha _(erguendo-se colerica)_ + +Façam isso, que os esgano! Que lhe ponham um dedo, e verão quem é a +morgada de Val-d'Amores! + +João Lopes + +Não grite assim, que seu pai, se a ouve, quem as paga sou eu. A fallar a +verdade, eu não desgosto do snr. Frederico; mas, em fim, esta aquella de +ser escrivão, é ruim modo de vida para poder casar com a snr.ª +morgadinha... + +Morgadinha + +Isso que tem!? Todos somos eguaes; e o coração, quando ama, não quer +saber de contos. Uma pessoa não está lá a averiguar se o objecto amado é +fidalgo ou plebeu. Tem-se visto rainhas casarem com pastores, e reis +casarem com pastoras. + +João Lopes + +Cá no conselho de Santo Thirso não me consta, hade perdoar. + +Morgadinha + +Mas lá por esse mundo fóra acontece isso a cada passo. Tu é por que não +lês os livros das historias. Eu te lerei casos que aconteceram... E +então que tinha que eu casasse com um escrivão? + +João Lopes + +Em fim, em fim, o paisinho da fidalga foi capitão-mór, seu avô foi +desembargador, e seu bisavô foi sargento mór de batalha no Roussilhon... + +Morgadinha + +Vai dizendo até chegar a Adão e Eva, vai dizendo, e eu depois te direi +de quem eu e mais tu somos netos. + +João Lopes + +Isso assim é, não ha duvida; mas, diz lá o ditado, lé com lé, e cré com +cré. + +Morgadinha + +Não quero saber de ditados! _(com força)_ Este amor só m'o hade arrancar +do peito a morte! + +João Lopes _(apontando para o brazão)_ + +Fidalga, ponha os olhos nas armas reaes dos seus antepassados. + +Morgadinha + +Ora! não tenho mais que fazer... Cuidas que eu não sei que meu avô casou +com uma creada? Mostra-me onde estão alli as armas da creada. Bem se +importou elle das armas, nem do brezabu que as leve! É o que faltava... +estar-me eu aqui a definhar p'ra'mor da pedra! As armas são de pedra, e +eu sou de carne e osso, ouviste? + +João Lopes + +A fidalga responde a tudo, e não ha remedio senão callar-se um homem, +que a trouxe nos braços desde os trez annos, e sou capaz de me metter no +inferno vestido e calçado por causa da minha menina. _(Sensibilisa-se.)_ + +Morgadinha + +Sei o que tenho em ti, meu João Lopes... Vais tu ahi ao cimo do pinhal a +vêr se o vês pela estrada?.. Elle disse-me que havia de passar para a +romaria ás seis da tarde. Se o encontrares, diz-lhe que meu pai se está +a vestir para ir tambem, e que elle póde demorar-se a conversar comigo +um bocadinho. + +João Lopes + +Vou vêr se o avisto; mas, menina do meu coração, olhe que seu pai anda á +espreita e traz espias... Nós temos grande desgraça pela porta... + +Morgadinha _(energicamente)_ + +Não morro de medo, já te disse. A mulher que ama não tem medo de nada! + +João Lopes + +Seja assim; mas, se lhe quebram o espinhaço a elle! Coitado do homem, é +tão delgadito que, se o apanha o vento d'um páo, elle vai a terra... + +Morgadinha + +Quem lhe hade bater?! Cuidas que elle não anda armado? Que se attrevam +sómente a ameaçal-o!.. + +João Lopes + +Cá vou, cá vou, não se desespere. _(Sáe.)_ + + +SCENA VII + +MORGADINHA + + _(Senta-se quebrantada e triste)_ + +Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!.. +_(Musica de surdina)_ Como eu gosto d'elle! Ha mais de dous annos que +este meu coração padece! Não ha noite em que eu não sonhe duas vezes com +a sua imagem... Quando acordo, e o não vejo, a minha vontade é chorar, +chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio. Os +cirurgiões mandam-me tomar aguas ferreas!.. e só eu sei o que tenho! O +meu mal é aqui!.. _(a mão sobre o coração)_ Oh céos! quanto eu sou +desgraçada sem o meu Frederico! _(Ergue-se, e falla com muito +sentimento. Musica plangente.)_ Quando eu o vi, pela primeira vez, foi +na hospedaria das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu +rheumatico. Estávamos a jantar quando elle entrou, e meu pai +offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle agradeceu, mas não comeu, +dizendo que o seu jantar era um ôvo quente. E d'ahi a pouco, +trouxeram-lhe um ôvo quente n'uma tigella; e elle comeu o ôvo, bebeu um +copo d'água fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e +pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai +ouvir, se podia viver só com um ôvo, e elle respondeu que a sua alma se +sustentava com a esperança de ser amado por mim... e com tres óvos por +dia. Oh! que lembranças estas, que lembranças estas! _(chora)_ E vai +depois, disse-lhe eu: «O snr. está assim magro porque come muito +pouquinho; se gosta d'óvos coma uma duzia d'elles de cada vez»; e elle +pregou-me os seus lindos olhos, e respondeu a suspirar: «Que me importa +o corpo? a mim o que me importa é o coração que é grande; e, se o corpo +é magro, mais depressa me reduzirei a cinzas se V. Ex.ª me desprezar.» +Isto fez-me no peito mossa! fiquei presa d'este dito; senti por aqui +acima uma fogueira que me pôz a cara em brazas vivas, e não lhe disse +coisa de geito porque fiquei um pedaço intallada. Depois, ao +despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe: «amo-vos, +meu bem!» Ora aqui está como começou isto. Desde então para cá apenas +lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho... +Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, não vou longe. Elle +tambem está no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de começar estes +amores, eu pezava cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois +aqui ha oito dias pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim +não podemos viver, nem eu nem elle. _(Com força, que a musica imita.)_ É +preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai quer, quer; +senão quer, quero eu. Uma mulher não póde ser escrava da sua fidalguia. +Antes quero ser esposa d'um escrivão, e viver contente, que ser a +morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pôr na espinha... +_(Ouve-se rumor de vozes fóra.)_ É o meu papá!.. _(Senta-se.)_ Vem-me +empatar as vazas... + + +SCENA VIII + + +PANTALEÃO, MACARIO, E A MORGADINHA + + _(Macario é um sujeito de oculos e casaca de briche, já de annos, e + ar circumspecto)_ + +Pantaleão _(áparte ao boticario)_ + +Veja lá como lhe falla... Olhe que ella é finoria... _(á filha)_ Cá me +vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para não ficares +sósinha. _(Sáe.)_ + + +SCENA IX + +MACARIO E A MORGADINHA + +Macario + +Tenha V. Ex.ª muito boas tardes. + +Morgadinha _(enfastiada)_ + +Viva, snr. Macario, as mesmas. + +Macario + +Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe +mandei fez-lhe bem? + +Morgadinha + +Não o puz: cheirava a pez. + +Macario + +De pez de vergonha era; fui eu mesmo que o manipulei... Então, a snr.ª +morgadinha vae ao arraial? + +Morgadinha + +Vou. + +Macario + +Faz muito bem; que lá hade encontrar pessoa que muito interessa a V. +Ex.ª... enganei-me... pessoa que muito se interessa em vêr V. Ex.ª +queria eu dizer. + +Morgadinha + +Como é isso? não percebi. + +Macario + +Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimarães, onde estive com o +snr. deputado Cosme Jordão, um sabio que tem votado grandes fallas no +parlamento... Ha de ter ouvido fallar V. Ex.ª... + +Morgadinha + +Não sei nada de parlamentos, não leio periodicos. + +Macario + +Pois, minha snr.ª, o doutor Cosme Jordão é um sujeito conhecido em todo +o mundo, e lá na côrte até vae ao palacio do rei e come lá... + +Morgadinha + +Deixal-o comer, que tenho eu com isso? + +Macario _(áparte)_ + +Não faço nada! está hoje levadinha dos diabos. + +Morgadinha + +Vamos, diga lá, snr. Macario. + +Macario + +Pois este deputado vae hoje á romaria do S. João. + +Morgadinha + +Deixal-o ir; que se divirta. Então é esse o homem que me quer vêr? + +Macario + +Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex.ª... + +Morgadinha + +Ainda bem; é signal que não é cego. E que mais? + +Macario + +E que ficou muito agradado de V. Ex.ª... + +Morgadinha + +Pois tem máo gosto e perde o tempo. Que mais? + +Macario + +V. Ex.ª, se o vir, não hade fallar assim. É ainda homem de boa edade, +cheio de corpo, com uns oculos que lhe dão muito respeito á cara. + +Morgadinha + +Ora! oculos de respeito! que me importa cá a mim os oculos do homem? +sabe que mais, snr. Macario? _(Põem-se a bamboar uma perna sobre a +outra, e a trautear o «Pretinho que vem d'Angola».)_ + +Macario + +Finalmente, snr.ª morgadinha, como V. Ex.ª quizer; mas lembre-se de que +seu pae deve á fazenda nacional uns seis contos de réis, e que o snr. +doutor Cosme, casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae não pague +nada, e mesmo no futuro lhe não lancem impostos. + +Morgadinha + +Não me seque, snr. Macario. Vocemecê queria que meu pae pagasse commigo +ao tal Cosme o que deve á fazenda? Pois que pague com o que é d'elle, e +que me deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias. +Metta-se lá na sua botica e não se faça casamenteiro. Vá fazer charopes. + +Macario _(áparte retirando-se)_ + +Apre com a cabra! + +Morgadinha + +Que tal está o sacripanta! + + +SCENA X + +JOÃO LOPES, ESPREITANDO A MORGADINHA, E DEPOIS FREDERICO + +João Lopes + +Psiu, psiu. + +Morgadinha _(sobresaltada)_ + +Viste-o? + +João Lopes + +Elle ahi vem... Eu vou espreitar, e assim que eu tossir que fuja para a +carvalheira. + +Frederico + +Anjo! milagre de bellesa, Joanna querida, não sentes n'estas mãos o +vibrar da alma? + +Morgadinha _(muito terna)_ + +Como estás tu? passaste bem desd'hontem? + +Frederico + +Pergunta ao lirio do valle o que lhe pende a fronte quando o orvalho do +céo lhe não esfria os queimores do sol estivo. + +Morgadinha + +Olha lá, Frederico, tenho a avisar-te, antes de mais nada, que é preciso +andares prevenido... + +Frederico + +Temos sicarios? Ha aqui vampiros? A vindicta paterna tem sêde do meu +sangue? Eis aqui o peito. Que m'o farpem, que m'o fendam, que m'o +alanceem, que m'o lancetem. Tudo por ti, tudo por ti, ó estrella, ó +loira visão dos meus sonhos! _(Rumor fóra.)_ + +Morgadinha + +Foge... esconde-te entre as arvores... _(Frederico sóme-se.)_ + + +SCENA XI + +MORGADINHA, OS DOIS CAMPONIOS QUE VÃO PASSANDO, E DEPOIS FREDERICO + + _(Um camponio tange flautim e outro viola. Duas moças á frente + batendo palmas ao compasso do canto, e saltando)_ + +Um camponio _(cantando)_ + + _Muito bem seja apparecido_ + _Seja apparecido_ + _N'esta funcção._ (Batendo palmas) + +(CÔRO) + + _Bate as palmas c'o seu pexinho_ + _Co' seu pexinho_ + _Co' seu pexão._ (Repete) + + + _(Assim que elles passam, a Morgadinha sáe do portão, e logo + Frederico do escondrijo)_ + +Frederico + +Mas dizias tu, pomba? + +Morgadinha + +Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem +armado. + +Frederico + +Armado! para quê? Tu não sabes que o teu amor é talisman que prostra +gigantes! As minhas armas são os raios de fogo que bebo de teus olhos; +tenho vesuvios na alma capazes de abrazar cidades! + +Morgadinha + +Isto não é chalaça, meu amado Frederico! Peço-te que tenhas cuidado, +muito cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, não temeria +ninguem... Tu verias o que é a morgada de Val-d'Amores... Mas eu não sei +como isto hade ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo... + +Frederico _(interrompendo-a com exaltação)_ + +Fidalgo! que é fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que é fidalgo? a sola +velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! então é certo que teu +pae ignora, que o baptismo de sangue da revolução franceza lavou todas +as manchas da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revolução! o +segundo christianismo! Que é fidalgo? teu pae não sabe que aquelle +brasão d'armas _(apontando)_ está alli como a pedra sepulcral das cinzas +feudaes! Teu pae está debaixo do sol e não sente o calor da fermentação +social! Ouve o estrondear da democracia reinante, e volta a face para os +phantasmas dos avoengos que se somem lá em baixo no abysmo da historia! + +Morgadinha + +Não sei lá d'essas historias; o que te peço é que não te exponhas a +levar alguma paulada á falsa fé. Olha que os meus creados são uns +patifes, e meu pae não é boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se +hade fazer, porque elle não nos dá consentimento para nos casarmos. + +Frederico + +Heide movêl-o com a eloquencia d'um homem aquecido no sol moderno. Heide +convencêl-o, enchendo-lhe o espirito de luz e o coração de ideias novas. + +Morgadinha + +Não te mettas n'essa asneira, que não fazes nada. _(Tem-se já ouvido +toada de musica da chula, e depois a tosse rija de João Lopes. Frederico +some-se sem ser preciso mandal-o. A morgadinha fica.)_ + + +SCENA XII + +MORGADINHA + + + _(Chega uma chulata que vae de passagem para a Romaria. Bando de + raparigas que precedem, bailando; tocadores de rebeca, viola, + clarinete, ferrinhos e requinta. A esturdia pára defronte da + morgadinha, e continúa dançando cada rapariga com o seu parceiro.)_ + +COPLAS DE DESAFIO + + _(Em quanto o cantador deita a cantiga, tange sómente a viola. Entre + os dois primeiros versos e os dois ultimos de cada quadra ha um + espaço que dá logar a que toquem por alguns segundos todos os + instrumentos.)_ + +Cantador + + Agora que eu vou passando, + Faço aqui minha parada; + Para saber da saude + Da incelentissima morgada. + +Cantadeira + + Da incelentissima morgada + Tambem eu quero saber, + Que mais linda creatura + Não na póde o mundo ter. + +Cantador + + Não na póde o mundo ter + Nem terá até ao fim; + Os seus olhos são d'amóras, + Os seus dentes de marfim. + +Cantadeira + + Se tem dentes de marfim, + O seu rosto é uma roza; + E viva sua incelencia + Que não na ha mais fermosa. + +Cantador + + Quero dar a despedida + Á senhora Morgadinha; + Que não ha por estas terras + Mais bonita fidalguinha. + +Cantadeira + + Eu tamem vou espedir-me, + Despedida quero dar; + Adeus, senhora morgada, + Sirva-se de perdoar. + + + _(A morgadinha agradece-lhes com um aceno de lenço. O bando sáe + tocando e dançando. Assim que o descante se ouve froixamente, volta + Frederico.)_ + + +SCENA XIII + +MORGADINHA E FREDERICO + +Frederico + +Tenho odio a estes selvagens que me roubaram horas de vida! Quando +sahirão os lôrpas da face da terra? + +Morgadinha + +É verdade, Frederico! Trouxeste-me os figurinos? + +Frederico + +Eil-os chegados hoje de Lisboa. + +Morgadinha _(examinando-os)_ + +Ai! que demonio de mulheres! Pois ellas trazem estes vestidos assim +incozipados nas pernas!? + +Frederico + +Oh! isto é a elegancia circassiana! é a fórma na sua diafeneidade +sublime; ha aqui a poesia do fino, a mulher parece toda nervosa, é o +lyrismo da plastica... + +Morgadinha _(rindo)_ + +Se eu te percebo, cebo! Boa cataplasma me parece este molho de clinas e +sacarrolhas que ellas tem na cabeça. + +Frederico + +Nâo blasfemes! Ó Joanninha, veste-te assim; realça, sobredoura a tua +bellesa com estes adornos que angelisam a mulher de compleição robusta, +e transformam a mimosa em cousa ideal vestida de vapores. A mulher assim +involta em roupagens etherias é um madrigal de setim que cahiu das lyras +dos anjos. + +Morgadinha + +Pois sim, faço-te a vontade. Vou mandar comprar no Porto esta trapalhice +toda... + + +SCENA XIV + +OS MESMOS E PANTALEÃO + + _(Abre-se o portão repentinamente e apparece subito Pantaleão. + Frederico ainda faz um impeto de fuga, mas contem-se, e corteja mui + urbanamente o fidalgo.)_ + +Frederico + +Passava para a romaria, e, como visse S. Ex.ª _(indicando a morgadinha)_ +vim depor a seus pés os meus respeitosos cumprimentos, e informar-me da +saude de V. Ex.ª + +Pantaleão + +Estou bom, muito obrigado. Onde está o João Lopes? + +Morgadinha + +Foi aparelhar a burra. + +Pantaleão + +Vae tu preparar-te que são horas. + +Morgadinha + +Quer vêr como agora são as modas, papá? olhe. O snr. Frederico vae levar +estes figurinos ás nossas primas de Ruivães. + +Pantaleão + +Pois faz-me o snr. muito favor se me cá não trouxer bonecos a casa. Nós +cá não somos de modas. + +Frederico + +Direi a V. Ex.ª, snr. morgado, que as modas tem certa relação com o +espirito das gerações e das épocas. Agora que o entendimento humano se +adelgaça, o involucro material tambem se subtiliza nas raças finas... + +Pantaleão _(medindo-o d'alto a baixo com ironia)_ + +Bem se vê que o snr. escrivão é d'uma raça muito fina... pelo muito +adelgaçado que está... + +Frederico + +Não me jacto de prosapia heraldica; mas, na jerarchia dos espiritos, +preso-me de pertencer ao bando mais illuminado. Respeito muito o brasão; +mas curvo-me diante da aristocracia do genio e do talento. + +Pantaleão + +Sim, o snr. tem muito talento, bem sei... Já te disse, Joanna, que te +vás arranjar. + +Morgadinha + +Adeus, snr. Frederico, muito obrigada. _(Sáe.)_ + + +SCENA XV + +PANTALEÃO E FREDERICO + +Frederico + +Creado de V. Ex.ª _(Váe a sahir; mas Pantaleão detem-o.)_ + +Pantaleão + +Faça favôr. + +Frederico + +Escuto as suas ordens. + +Pantaleão + +O snr. anda muito mal encaminhado. Minha filha é a morgada de +Val-d'Amores; o snr. é o escrivão de fazenda de Santo Thirso. Estão um +do outro tão longe como aquella pedra d'armas do rebôlo d'um sapateiro, +entendeu? + +Frederico + +Entendi, que V. Exc.ª tem um estylo bastante chato. Entendi, posto que +V. Exc.ª falle uma lingoagem assás gothica em pleno seculo XIX. + +Pantaleão + +Pois se entendeu, tire o seu atrevido pensamento de minha filha, e +procure a fórma do seu pé. Não me obrigue a usar dos usos e costumes dos +meus avós. Quer que lh'os diga? + +Frederico + +Heroismos dos seus ascendentes? Essas Odissêas da aldêa são hoje +impraticaveis. Eu sei em que tempos vivemos, snr. morgado. + +Pantaleão + +Sabe? pois olhe que não sabe em que terra vive. O snr. veio lá de Lisboa +onde qualquer bigorrilhas, que põe gravata, entende que é egual a todo o +homem que põe gravata; o que o bigorrilhas não quer é sêr egual a todo o +homem que não tem gravata. + +Frederico + +Ahi ha certa sublimidade de idêa, de que lhe dou os parabéns. V. Exc.ª +ia quasi escrevendo d'um traço a historia philosophica da democracia +moderna. + +Pantaleão + +Eu não escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo é que isto cá nas +montanhas é outra cousa. Os morgados são morgados; os escrivães são +escrivães; e os sapateiros são sapateiros. Ora, quando acontece alguem +querer sahir da sua classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as +costellas. O snr. sabia isto? + +Frederico + +Eu não sabia que estava na Cafrária. Cuidei que este concelho era um +retalho do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fóco radiara +uma flecha de luz até ao coração de V. Ex.ª que me parece ser uma pessoa +de bons costumes, e não um esquimó. Cuidei finalmente que o Evangelho e +a Carta constitucional livellavam a dignidade humana... _(Ouve-se o +cantar das raparigas que se avisinha.)_ + +Pantaleão + +Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleão Cogominho de Encerrabódes, décimo +oitavo senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com +minha filha hade poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor +d'esta casa. Tenho dito, e acabou-se o cavaco. Saude e juizo. +_(Volta-lhe as costas. Frederico bambôa a cabeça altivamente e retira-se.)_ + + +SCENA XVI + + +MORGADINHA, PANTALEÃO, E O BANDO DAS MOÇAS E TOCADORES QUE APARECERAM +NA TERCEIRA SCENA + + _(A Morgadinha sáe sentada sobre a jumenta. Vem vestida de Amazôna. + João Lopes de farda azul com vivos vermelhos, bota de orelha e + prateleira, colete encarnado, e chapéo embreado, tudo á antiga e + grutesco, vem trazendo a burra pela rédea. As raparigas estão + cantando as seguintes)_: + +COPLAS + +(UMA VOZ) + + Dondes vens ó velha? + Eu venho da feira. + +(CÔRO) + + Que trazes na cesta? + Crá, crá, crá, + Sardinha vareira, + Cri, cri, cri, + Por a retangueira; + Cró, cró, cró, + Se o galo cantou. + +(UMA VOZ) + + Se o galo cantou + Deixal-o cantar. + +(CÔRO) + + Minha rica prenda + Crá, crá, crá, + Lá da beira mar + Cri, cri, cri, + Pela retangueira, + Cró, cró, cró, + Se o galo cantou. + +(UMA VOZ) + + D'onde vens ó velha? + Eu venho d'alli. + +(CÔRO) + + Que trazes na cesta? + Crá, crá, crá, + Que te importa a ti, + Cri, cri, cri, + Pela retangueira, + Cró, cró, cró, + Se o galo cantou. + + + _(Continúa o canto ao descer do panno.)_ + + +FIM DO PRIMEIRO ACTO. + + + + +ACTO SEGUNDO + + Vista de arraial. É noute. Festões de lampadas de papel variegado + pendem dos ramalhos das arvores. Mulheres a frigir, ao lado das + pipas cobertas de ramos de folhagem. Barracas com botequins. + Multidão de povo a beber á volta das pipas. Sinos repicando, e + estouros de foguetes. D'ambos os lados da scena, mas fóra, se canta + o «S. João» com vozes alternadas. Frederico passeia por entre o + povo, mirando as raparigas. Os dois já conhecidos creados de + Pantaleão, com as pernas encruzadas nos varapáos, medem d'alto a + baixo Frederico, e rompem a jogal-os um com outro. Frederico, por + uma das suas evoluções maravilhosas de rapidez, desapparece. O povo + ri-se, e elle reapparece logo, seguido por trez cabos armados. Os + cabos usam bonet com debrum azul. Cessam as cantilenas, e rompe a + banda musical de Santo Thyrso, estrondosa em trompões, a qual entra + em scena tocando uma marcha. Os musicos uniformes, de calça branca, + casaco azul com vivos amarellos, o bonet avivado da mesma côr. As + figuras podem caracterisar-se caprichosamente. Em seguida, entra a + Morgadinha, com o pae, Macario, Cosme Giraldes, e João Lopes. Cosme + Giraldes é um sugeito gordo, aspeito serio, com os seus oculos, um + todo de summa gravidade. Os circumstantes cedem o logar aos + recem-chegados, que formam grupos. + + +SCENA I + +TODOS OS DESCRIPTOS (GRUPO DA MORGADINHA E COSME GIRALDES) + +Cosme _(com gesto de orador e com grandes pausas, á Morgadinha)_ + +A festa animou-se com a auspiciosa chegada de V. Ex.ª O sol do empyreo e +uma senhora bella, que é o sol dos corações sensiveis, onde brilham, +tudo reanimam. Assaz ditoso me julgo em ser o mais feliz dos mortaes que +se sentem influenciados e enthusiasmados pelos lumes encantadores de V. +Ex.ª Falta, todavia, á minha completa dita a certeza de que os meus +affectuosos requebros acham graça nos seus olhos. + +Morgadinha _(com desdem)_ + +Eu não lhe acho graça nenhuma. + +Cosme + +Como assim, divina ingrata? + +Morgadinha + +Já disse ao boticario o que tinha a dizer. + +Cosme + +Pois o seu coração... + +Morgadinha + +Está dado. Eu cá sou franca. Não perca tempo. + +Cosme + +Não ha duvida que ouvi dizer que V. Ex.ª, victima d'uma allucinação, +aceitava a côrte d'um esgrouvinhado arcaboiço que exerce as ladras +funcções de escrivão da fazenda! Heide eu, ó céos! accreditar que... + +Morgadinha + +Sim, snr., acredite, e faça favor de me não incommodar que eu vim á +romaria para me divertir. _(Volta-lhe as costas.)_ Ó papá, quando se faz +o Auto do Natal? _(Ouve-se a musica tocando uma marcha.)_ + +Pantaleão + +É já. Mandei vir as figuras para aqui. Vae começar. Ó amigos, +desempachem o terreiro que chêga o espectaculo. _(O povo retira e +apinha-se entre scenas.)_ + + +SCENA II + +OS MESMOS, E AS FIGURAS ABAIXO DESCRIPTAS EM LOGAR COMPETENTE + + _(A musica entra a passo muito cadenciado com grandes pernadas. + Chegada á bocca do palco, alinha a um lado para dar o passo aos dois + primeiros personagens do auto):_ + + +SCENA I do Auto + +ADONIS E MANASSÉS + + _(Adonis traja de principe de carnaval; Manassés veste de propheta + de procissão; mas toda a fatiota é muito usada e desbotada. Adonis + traz um cavaquinho.)_ + +Adonis _(com declamação muito boçal)_ + +Canta, Manassés, que eu te acompanho; para isso com esta harpa vanho. + +Manassés _(canta com ar inspirado, gesticulando estupidamente)_ + + O céo estrellado, + Sereno e propicio, + Será pois indicio + Do sol desejado. + +(CÔRO DE PASTORES) + + _(Vozes femininas dentro)_ + + Quem o habitará? + Quem o gozará? + +Manassés _(cantando)_ + + Vêde a paz serena d'esta noute; + Nascerá a estrella de Jacó? + O gado socegado adivinha; + Não se bole no ninho a avesinha. + +(CÔRO) + + Quem o habitará? + Quem o gozará? + +Adonis _(declamando, e passeando com grandes passos)_ + +Oh! que terno, caro Manassés, cantastes! O conceito da tua cançoneta +amorosa me traz dôces lembranças. Ainda em nossos dias, veremos +realisadas as porfecias? Não caibo na pelle de estifeito; da-me pancadas +o coração n'este peito! _(Frederico despede um impulso de riso. +Espantam-se os cicumstantes.)_ + +Macario + +O senhor está a mangar d'estes actos sérios?! + +Frederico + +Pois isto é sério! então não ha nada ridiculo n'este mundo senão o snr. +boticario. + +Macario + +O senhor é muito mal criado, é um incivil, é... é... um escrivão! + +Morgadinha + +Snr. Macario, não esteja a interromper o auto. Deixe lá rir quem quer +rir; chore vocemessê, se tem vontade. + +Pantaleão + +Continuem lá vocês co'isso. + + +SCENA II do Auto + +VOZ D'UMA PASTORA, CANTANDO DENTRO + + Ó Deus do céo, e da terra, + Ó vós que podeis tanto, + Ouvide nossos clamores + Sêde propicio, ó Deus sancto! + +CÔRO _(dos pastores)_ + +Do povo amado, +Mandae o desejado. + + _(Os que estão no palco fazem scenas mudas de ternura muito + lorpas.)_ + +Manassés + +Escuta! Não foi Ruiva, a pastora que cantou? + +Adonis + +Foi. E os pastores tambem, que nenhum dorme. + + +SCENA III do Auto + +O VELHO SIMEÃO E RUIVA + + _(O velho vestido de pelles de carneiro. Ruiva de pastorinha, com um + cordeiro branco nos braços)_ + +Simeão _(com os olhos no firmamento)_ + +Incelso, interno rei sobrano, que sobre os crebins tens assento, oubide +os nossos lamentos. + +(CÔRO) + + Do povo amado, + Mandae o desejado. + +Manassés + +Agora creio no mysterio occulto d'esta noite. Rebella que todos os +pastores tem um só pensamento. + +Simeão + +Vinde pastores aqui todos; n'este campo contemplaremos o silencio da +noute, que o auctor d'altos mysterios annuncia. + +Frederico _(escancarando a bocca)_ + +Que semsaboria! + +Macario e Cosme + +Sio! _(prolongado.)_ + + +SCENA IV do Auto + +ENTRAM PASTORINHOS E PASTORINHAS + +Ruiva _(declamando)_ + + Aqui vimos, meus senhores, + Adorar nós o menino: + No seu sancto nascimento + Com grande contentamento. + +(CÔRO) + + Se o menino é nascido, + Nós o bamos précurar; + Aparcei, senhor menino, + Que vos queremos adorar. + + + _(Sáem por diversos lados.)_ + + +SCENA V do Auto + +UM REI TURCO E DEPOIS OUTROS FIGURÕES + +Rei turco + + _(Com uma cara horripilante, e trejeitos assustadores)_ + + Sou o turco rei, que é + Valoroso na arrogancia; + Por ser filho da fortuna + E neto da extravagancia! + + _(Corre brandindo a espada d'um lado a outro.)_ + + De moiriscos reis nasci, + Sou seu filho alentado, + O meu braço furibundo + Deixa tudo escangalhado. + + Co'esta espada sou capaz + De entrar pelo inferno dentro + E pôr tudo em mil pedaços + Que eu sou um rei sanguenolento! + + _(Risada de Frederico.)_ + +Cosme + +Já é pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar +em tão solemne passo! + +Frederico + +Solemne passo, diz o nobre deputado! chamar _solemne passo_ á +prostituição da arte! + +Macario + +O snr. é que é uma prostituição! Bem disse aqui S. Ex.ª que o senhor é +um atheu! um impio que zomba dos mysterios dogmaticos! + +Vozes _(dentro)_ + +Quebra-se-lhe a cabeça!--Bordoada rija!--Vamos a elle! + +Morgadinha _(erguendo-se colerica)_ + +Essa canalha que se calle! Ó João Lopes, onde está o regedor? + +João Lopes + +Saberá V. Ex.ª que o regedor tomou tamanha turca que está a cozel-a no +palheiro d'um lavrador. + +Cosme _(com enfaze)_ + +Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem +social. A auctoridade que dá o exemplo da relaxação dos costumes não +póde educar as massas. É necessario que não se desvirtue e desprestigie +o funccionalismo, com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos +chegados á desmoralisação do Baixo-Imperio! + +Macario + +Apoiado! + +Morgadinha + +Então os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto? + +Pantaleão _(ao Rei turco)_ + +Ó Zé da Custodia, diz lá o que tinhas a dizer. + +Rei turco + +Se isto não leva rumor, acaba-se a pandega! + +Frederico + +Magnificamente! Está a coisa definida: isto é uma pandega, e querem os +moralões que a gente se desfaça em lagrimas! Faça favor de continuar, +snr. rei turco, que eu estou sério, e talvez chore. + +Rei turco + +Agora não sou eu que boto a falla, é o outro rei. Entra, ó Manel +Zarôlho! _(Chamando para dentro.)_ O Manel Zarolho é o rei christão. +_(Explicando.)_ + + +SCENA VI do Auto + + _(Entra um Rei christão com muitos pastores e pastoras)_ + +Rei christão + + Eu trago os meus companheiros + Fieis á minha nação, + Para te convencer, ó turco, + E para te fazer christão. + +Rei turco + + Para onde ides, romanos, + Que tão alegres vos vejo? + +Rei christão + + Festejar o menino nado + Que é todo o nosso desejo + +Rei turco + + Que é do passaporte? + +Rei christão + + Passaporte não trazemos, + Se nos não deixas passar + Para traz nós tornaremos. + +Rei turco + + Para traz não heisde tornar; + Que eu vou buscar algemas, + Que vos quero algemar. + +Pastores e pastoras _(cantando)_ + + Milagroso Deus menino, + Esta obra vossa é; + Ajudai-o a vencer + O turco inimigo da fé. + +Rei christão + + Saca lá da tua espada! + +Rei turco _(arrancando para elle)_ + + Ó cão, que sova tu levas! + + +SCENA VII do Auto + +OS MESMOS E UM ANJO, QUE SE METTE EM MEIO DOS DOIS REIS + +_Canta:_ + + Detem-te, barbaro turco! + Cessa a tua infeliz sorte; + Faz-te christão, que não tarda + Que te apanhe a feia morte. + +CÔRO _(dos pastores)_ + + Faz-te christão que não tarda + Que te apanhe a feia morte. + +Rei turco _(declama)_ + + Eu sou o rei Almeirante + La do reino da Turquia; + Nunca fui prezoneiro, + So do rei da Lixandria! + +O Anjo _(canta)_ + + Detem-te barbaro turco, etc. + +CÔRO _(dos pastores)_ + + Faz-te christão que não tarda + Que te apanhe a feia morte. + +Rei turco _(afflicto)_ + +Que é isto? que sinto? que tenho eu aqui? _(Com a mão sobre o estomago)_ +Que tenho eu aqui? + +Frederico + +Hade ser vinho. _(A Morgadinha ri-se ás escancaras.)_ + +Macario _(sobremodo indignado)_ + +Não ha noticia de tamanho escandalo!.. 0 snr. escrivão está mostrando +que é um homem de sentimentos muito herejes!.. + +Cosme + +E eu assaz me espanto que a snr.ª morgadinha applauda com a sua +hilaridade estas interrupções indecentes! + +Rei turco _(zangado)_ + +Eu cá é que não estou p'ra chalaças!.. Passem por cá muito bem. Por aqui +me esgueiro. Ó rapasiada, vamos embora. Manda tocar a marcha ó Antonho +da Pêga. _(Sáe com os personagens do auto, atraz da Musica, que vae +tocando a marcha.)_ + + +SCENA III + +OS MESMOS, EXCEPTO OS PERSONAGENS DO AUTO + + _(Grande movimento e rapido. Macario gesticula com Jordão, e + Pantaleão com a filha. Alguns camponios de varapáo fazem cêrco a + Frederico. A morgadinha passa por meio d'elles, bamboando a cabeça e + vibrando o chicotinho. Frederico passeia com os cabos. Os camponios + retiram-se, relançando olhos ameaçadores ao escrivão.)_ + +Morgadinha + +Isto já me aborrece, papá... + +Pantaleão + +Vamos embora, menina? + +Morgadinha + +Por em quanto não: quero vêr o fôgo prezo; mas vou descançar um +pouquinho a casa dos cazeiros. + +Pantaleão + +Vae, que eu vou buscar-te assim que principiar o fogo. + +Morgadinha + +Ó João Lopes, vem comigo. _(Sáem. Frederico retira-se pelo outro lado +com os cabos.)_ + + +SCENA IV + +MACARIO, COSME E PANTALEÃO + + _(Formam um grupo á parte, do povo que gira no fundo)_ + +Macario + +Ó snr. morgado, pois V. Ex.ª deixa fugir esta occasião de fazer quebrar +o espinhaço ao morôto? + +Pantaleão + +A occasião boa é; mas é que eu não quero que minha filha assista, por +que ella é capaz de se metter no meio da desordem. + +Cosme + +Pelo que observo, esta sua filha é uma heroina grega ou romana, snr. +morgado! Ella faz lembrar a Pantasilea do Virgilio, e outras façanhudas +mulheres da historia antiga! Nos tempos presentes, sou a dizer a V. Ex.ª +que a mulher quer-se fragil, meiga e timorata; e por tanto permitta que +eu censure a educação que deu a sua filha! + +Pantaleão _(docil)_ + +Que quer V. Ex.ª? É filha unica, ficou sem mãe muito cedo, e foi creada +á laia de rapaz, a trepar ás arvores, a atirar aos passaros, e a jogar o +páo; em fim, confesso que andei mal avisado. Eu então achava-lhe muita +graça; hoje não lhe acho nenhuma; mas já não posso emendar a mão. É +tarde; minha filha tem vinte e seis annos; hade ser difficil +corrigir-se, só se o casamento fizer a mudança, e espero que faça. + +Cosme + +Se o casamento fizer a mudança! Ora essa! Pobre marido que não tem os +focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu cá por mim, snr. morgado, +confesso que tive certos intentos matrimoniaes com ella; á vista, porém, +das suas informações, declaro que desisto e renuncio, por que me não +sinto com forças e habilidade para domesticar uma cobra-cascavel... + +Pantaleão _(formalisado)_ + +Não consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha! + +Cosme + +Isto é uma comparação rethorica, litterariamente fallando. + +Macario + +É rethorica... não se offenda V. Ex.ª;... talvez ignore que a rethorica +é uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis... + +Pantaleão + +Não quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleão Cogominho +de Encerrabodes seja respeitada! _(Volta as costas, e sáe bufando.)_ + + +SCENA V + +COSME E MACARIO + +Cosme + +Isto é uma familia de hotentotes! Cheiram ao sertão estes selvagens! Do +que eu me escapei! Se caio nas mãos d'estes dois barbaros da edade +media! Parece-me uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemecê, snr. +Macario, a dizer-me que esta fidalga tinha uma educação fina! + +Macario + +_Fina_, não disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe que +ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differença, phisicamente +fallando. + +Cosme + +Perdão. Vocemecê disse-me que ella tivera fina educação. + +Macario + +Isso então foi rethorica... + +Cosme + +Eu não admitto rethoricas em objecto tão sério como é o casamento! Olhem +que educação fina a d'este anjo! Trepa ás arvores, atira aos passaros, e +joga o páo! Que predicados estes tão mimosos para augmentarem as graças +virginaes d'uma menina! Não lhe falta senão vestir-se de homem, que é +agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. Uma +menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canhão, e rompe com +elles por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de +amores que nem açafétida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma +muito candida e muito pura dentro do peito que se albarda com um paletó +de homem para arrotar francamente umas phrases de bomba real que nos +fazem comichões nos miolos e arrepios na espinha! Arreda! olha o que me +estava reservado para os quarenta e seis annos! Uma mulher assim +paralisava-me as funcções do intellecto, e lá se me iam as minhas +ovações parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, devo-me á +regeneração da minha patria, sou homem publico; e um homem publico +quando se casa deve fazel-o com dama que o não impeça nem apoquente. A +femea natural do homem politico é a politica; a esposa, para os homens +devotados aos interesses materiaes do seu circulo, significa tão sómente +um supplemento vivo e util ás commodidades domesticas. Percebe vocemecê, +snr. Macario? + +Macario + +Ora se percebo! A minha mulher cá para mim tambem é um supplemento ha +muitos annos; e mais eu faço-a trabalhar na politica enchendo os +bilhetes de votos na eleição. Diz V. Ex.ª muito bem, que nós os homens +publicos não temos tempo para cuidar de mulheres... _(Reparando em +Frederico)_ Ahi vem o atheu... + +Cosme + +Vou-me safando que não quero palestras com este safio. _(Sáe.)_ + + +SCENA VI + +MACARIO E FREDERICO + +Frederico _(encarando o outro com a costumada careta)_ + +O douto pharmacopóla está irado contra mim por que fui causa a +interromper-se o escandalo do auto... + +Macario + +Eu não me metto com o senhor... Tenha a bondade de não embarrar cá por mim. + +Frederico + +A sciencia é sempre orgulhosa. Façamos pazes e alliança, snr. Macario +Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a +sua sciencia do bazalicão e do oleo de mamona, podemos dominar este +concelho, reunidas as duas forças n'uma aspiração unica. Por que me faz +guerra inexoravel e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu +consorcio com a Morgadinha? Por que anda o snr. servindo de alcaiote +d'este alarve de Guimarães, que é o trompão grandioso das maiores +asneiras civicas assopradas na charanga parlamentar? O officio do snr. +Macario, n'este negocio, desacredita um pharmaceutico, que reune ao +conhecimento do gamão, sciencia não vulgar da historia dos doze Pares de +França, e tem orvalhado com lagrimas os fastos sanguinosos de +_Roncesvalhes_. + +Macario + +Vá mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem é +Macario Mendes... _(Sâe.)_ + + +SCENA VII + +FREDERICO, JOÃO LOPES, E CABOS + + _(As cantadeiras que no fim do 1.º acto acompanharam a morgada + entram a cantar a moda com que se fechou o dito acto:)_ + + _D'onde vens, ó velha,_ + _Eu venho da feira_, etc. + + _(N'um intervalo da 1.ª á 2.ª trova João Lopes acerca-se de + Frederico com disfarce)_ + +João Lopes + +Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Estão-se a +preparar os valentões. _(Frederico apita rijo. Apparecem de differentes +sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em quanto se repete a +cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fóra o rumor da desordem, e o +estalido dos varapáos. As cantadeiras fogem alvoroçadas a dar gritos.)_ + + +SCENA VIII + +FREDERICO, CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS + +Frederico _(com intimativa bellica)_ + +Formem em linha. Carregar armas! + +Um cabo + +Estão carregadas. + +Frederico + +Vamos ser atacados pelos desordeiros. Á voz de fogo, atirem. _(Vê-se +atravessar a scena por entre o povo um Desconhecido de chapéo derrubado, +o rosto coberto por um lenço, de caraça, polainas de briche nas pernas e +pés, com um grosso páo de choupa. Proximos de Frederico os valentões +param, com os páos cruzados nas pernas, gingando em attitude ameaçadora. +Frederico, não se desvia dos cabos. De repente, rompem de fóra uns +poucos varrendo o campo a pauladas.)_ + +Frederico + +Cabos de policia, sentido! Preparar armas! _(Sáe perto da bocca da scena +o Desconhecido. Encosta-se ao páo observando os movimentos dos +valentões, os quaes vem já avançando, já recuando, crescendo sobre +Frederico.)_ + +Frederico _(aos cabos)_ + +Aperrar armas! _(Uma paulada faz saltar a clavina das mãos d'um cabo. Os +outros fogem. Frederico recúa, apitando rijamente. No maior aperto, o +Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do páo, e +arremette com os aggressores. Estes, forçados pela destreza, fogem, logo +que o primeiro cáe d'uma paulada. A vozeria cresce no momento em que o +palco está despejado. O Desconhecido trava do braço de Frederico, e o +traz á bocca da scena.)_ + +Frederico + +Quem é o valente homem a quem devo a vida?! quem é? + +Morgadinha _(arrancando o lenço do rosto)_ + +Sou eu! salvei-te, Frederico! + +Frederico + +Ó morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como és ideal e angelica! +_(Ajoelhando.)_ + + +FIM DO SEGUNDO ACTO. + + + + +ACTO TERCEIRO + + Salão da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia. + Reposteiros já envelhecidos com brazões. Alguns retractos. Um piano + moderno. + + +SCENA I + +PANTALEÃO E MACARIO + +Pantaleão + +Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha, +desde que começou a vestir-se á moda, e a tocar piano, está muito +distrahida do troca-tintas do escrivão. Não anda por janellas, não sáe +de casa, e gasta alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a +vestir-se. Isto custa-me um dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado. + +Macario + +E quem é que ensina a snr.ª morgadinha a tocar? + +Pantaleão + +É a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com +loja de fazendas brancas... + +Macario + +Bem sei, bem sei. + +Pantaleão + +Foram lá as primas de Ruivães que fizeram a descoberta; mas o que tem +muita graça é que o homem da mestra é tão ciumento que só a deixa ir a +casas onde não ha homens... + +Macario + +Que tal pezêta é ella!.. + +Pantaleão + +E para vir aqui, pôz por condição que a mulher só viria á noitinha +acompanhada pelo marido que a deixa á porta, e vem por ella duas horas +depois. Eu estive quasi a não aceitar tal professora por saber que o +escrivão de fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que +ella fosse medianeira d'alguma carta... + +Macario + +E tem rasão, snr. morgado... Veja lá!.. olhe que o mundo é um covil de +marotos! + +Pantaleão + +Não ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pôz +fóra da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia +d'ôlho a consorte. + +Macario + +Não que sem licença d'elle não ha maior desmoralisação n'este mundo! +Aquillo tem mesmo idêas de Sardanapalo! Ainda bem que lhe está por um +fio a ladroeira da repartição... + +Pantaleão + +Conte lá isso então. Em que termos está a bernarda? Rebenta hoje ou ámanhã? + +Macario + +Hoje. Está tudo alevantado quando fôr nove horas. Os sinos hão-de tocar +a rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo cáe todo sobre +Santo Thyrso, e faz cêrco para que o escrivão não possa escapulir-se; +que elle é leve como uma penna, e quando a gente mal se precatar, vê-o +fazer vispre, zêpe-zêpe _(expressão sibilante para imitar a rapidez da +corrida.)_ + +Pantaleão + +Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que não +vão os meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que eu +desejo é que elle não appareça mais em Santo Thirso. Lá a respeito da +papellada isso é queimal-a toda; que depois o governo como não tem +cadernos para a cobrança dos impostos, não o manda para cá a elle nem a +outro. + +Macario + +Grande idêa é essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa. +Se a gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer +economias, porque depois não havia quem quizesse servir os empregos. O +sytema é um bocado violento para os empregados, mas eu não vejo outro +meio de os ir acabando... + +Pantaleão + +Não acho isso humanitario! + +Macario + +Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos, +leio jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheço por dentro +e por fóra o paiz e as suas necessidades. Fique certo d'isto; em quanto +se não der fim a uma casa a que os jornaes chamam _burrocracia_, não se +indireita a patria. + +Pantaleão + +Como se chama isso? + +Macario + +_Burrocracia_, que pelos modos é palavra de idioma francez, que vem a +dizer empregado publico. + +Pantaleão + +Snr. Macario, vá indo cá com as minhas idêas moderadas. O melhor systema +de se acabar com os escrivães de fazenda é queimar os cartorios. Eu lhe +ponho uma comparação. Se eu queimar a palha que tenho, e não comprar +outra, que me acontece á minha parelha de machos? Morrem de fome, não é +verdade? + +Macario + +Isso é. + +Pantaleão + +Pois ahi tem: os escrivães, em se lhe queimando os papeis, não tem que +roer. + +Macario _(duvidoso)_ + +Nada; a comparação dos machos não me convence, queira V. Ex.ª perdoar. +_(Com energia)_ Matal-os, matal-os, é o grande _desideratum_. + +Pantaleão + +E os papeis? deixam-se ficar? + +Macario + +Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrivães! Nada +de cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa é causticos e ventosas. + +Pantaleão + +Ora vocemecê, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha +está o processo da execução que a fazenda nacional me move... + +Macario + +Por seis contos d'uma fiança dos bens dos frades, sei muito bem... +Esteja descançado, que não ha de lá ficar papel em que se amortalhe um +cigarro. + +Pantaleão + +Quem é o chefe da revolução? + +Macario + +Á falta d'homens por hora sou eu; mas não sei a que os commandantes das +freguezias decidirão. Já ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex.ª +general em chefe. + +Pantaleão + +Homem, tire isso da cabeça ás freguezias. Vocemecê bem sabe que eu ando +muito adoentado dos intestinos, e não posso deixar de tomar o meu banho +de canôa á noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revolução; +mas entrar nella em pessoa não posso por causa d'esta molestia dos reins +que me não deixa cavalgar; e vocemecê bem entende que um general em +chefe a pé não tem geito, nem pode vêr de longe o inimigo, se nos fôr +necessario entrar em batalha com o exercito. Dispensem-me por tanto de +tamanha honra. + +Macario + +Farei as diligencias; mas receio que... + + +SCENA II + +OS MESMOS E A MORGADINHA + + _(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido + muito curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido ás pernas; + grande laço na cintura posteriormente; sapatos de salto dourado; + cabelleira com estupendos tufos encaracolados.)_ + +Pantaleão + +Vens para o piano, Joanninha? + +Morgadinha _(pondo luneta d'oiro)_ + +Sim, papá, vou estudar a minha lição de escala. _(Senta-se ao piano.)_ + +Macario _(á parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)_ + +Que desmoralisação! Isto é o peccado em carne e ôsso! + +Pantaleão + +Está vocemecê admirado d'estas modas, amigo Macario! + +Macario _(ironico)_ + +São bonitas... _(Grave)_ Mas não acho isto decente para a observancia +dos bons costumes. + +Morgadinha + +Que quer? é moda; andam assim todas as senhoras do tom. + +Macario + +Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim não hão de vestir, se +Deus quizer. + +Morgadinha _(voltando o rosto com aborrecimento)_ + +Então as suas filhas são senhoras? + +Macario + +D'aquella massa se fazem, snr.ª morgada... + +Morgadinha _(dedilha nervosamente nas teclas)_ + +Adeus, adeus. Temos historia! + +Pantaleão _(a meia voz)_ + +Não a zangue... Deixe-a lá... Tomára eu que ella se entretivesse com os +vestidos... + +Macario + +A cabeça... está feito, mas as pernas a vêr-se-lhe, snr.ª morgada! Assim +não se podem observar os bons costumes... _(A Morgadinha canta +acompanhando a escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas +altas. Macario Mendes, offendido pela desharmonia, faz caretas.)_ + +Pantaleão + +Ainda não sabes cantar modinha nenhuma, menina? + +Morgadinha + +A mestra não quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que é o +essencial. _(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario +despede-se, apertando a mão a Pantaleão.)_ + +Pantaleão + +Veja lá os meus papeis, snr. Macario. + + +SCENA III + +OS MESMOS E JOÃO LOPES + +João Lopes _(trazendo castiçaes com luzes)_ + +Está na sala de espera a snr.ª mestra pianista e mais o marido. + +Morgadinha + +Está! Papá, é preciso sahir, tenha paciencia. Bem sabe que ella, se vir +homem aqui, não entra. + +Pantaleão + +Está bom pedaço d'asno o marido! Então elle não sabe que eu sou um homem +sério! + +Morgadinha + +Que quer o papá! Já lhe tenho dito que póde entrar segura de que não +ouve palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que +a mestra fallou com um homem, seja elle quem fôr, não a deixa voltar. + +Pantaleão + +Com certos individuos tem elle rasão; mas nem todos são como o devasso +escrivão de fazenda, que lhe andava a fazer a côrte á mulher, e por isso +foi posto de lá para fóra. Acho justo que elle se acautele dos +tratantes; mas de mim... parece-me bestialidade! Emfim cá vou. _(Sáe.)_ + + +SCENA IV + +MORGADINHA, JOÃO LOPES E DEPOIS FREDERICO + +Morgadinha + +Póde entrar a snr.ª D. Thomazia. + +João Lopes _(para dentro, levantando o reposteiro)_ + +Póde entrar a snr.ª D. Thomazia. _(João Lopes sáe, assim que entra a +supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de véo +espesso, e cachos. Chapéu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir +a cara. Vae direito ao piano. Vê-se a cabeça de Pantaleão que espreita +por uma fimbria do reposteiro. João Lopes tosse.)_ + +Morgadinha _(alto)_ + +Passou bem, snr.ª D. Thomazia!.. _(Baixo)_ Não me falles que meu pae +está espreitando, em quanto João Lopes tossir... _(Tocam e cantam a +escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia nas vozes.)_ + +João Lopes + +O snr. morgado já está no pateo a conversar com o marido do snr. +Frederico; estejam á vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando +eu tossir, vejam lá... + +Frederico _(levanta o véo, abraçando o velho)_ + +Este João Lopes é um prodigio de dedicação! é o typo genuino do antigo +creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, João Lopes, você ha de +progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a +você um habito de Christo! + +Morgadinha + +Deixa-o ir, deixa-o ir... _(João Lopes sáe.)_ + +Frederico _(tomando-lhe as mãos calorosamente)_ + +E os nossos sonhos vão realisar-se, minha fada! Oh! _(contemplando-a +absorto)_ que deslumbrante! que eclipse estás fazendo nos anjos do céo! +Não és só uma bellesa! és um milagre! uma gloria! uma divinisação! Não +ouso beijar-te as mãos... Os pés, os pés! Estes pés requerem tapetes de +labios e almofadas de corações! Consente que t'os beije, houri! + +Morgadinha _(desviando-se)_ + +Não sejas tôlo! Gostas de me vêr assim? + +Frederico + +Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as +fibras intimas do peito! Luz, luz que me cégas, faz-te lavareda, e... +devora-me! + +Morgadinha + +Vamos ao caso... Como estão os negocios? + +Frederico + +Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que será +consagrado nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida, +requerendo tu a tua emancipação, visto que já contas vinte e seis annos; +mas, como receias que eu seja assassinado logo que requeiras ao juiz, +cumpra-se a tua vontade. _(João Lopes tosse. Vão sentar-se rapidamente +ao piano, tocando e cantando a escala. Depois, a Morgadinha vae +espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa voluptuosa que obriga a +Morgadinha a fazer alguns passos de dança. Frederico, arrebatado do +donaire gracioso d'ella, ergue-se de mãos postas fazendo tregeitos de +enlevado.)_ + +João Lopes _(mettendo a cabeça)_ + +Podem conversar, que elle passou para a tulha. + +Frederico _(com transporte)_ + +És divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanças o +pé quebradiço e chinez em attitude dançante, sacodes e impelles brazas á +minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus pés lindissimos. Tudo que +fazes mata e aviventa. Como não serás esbelta, nos salões de Lisboa, +princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos +cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de +felicidade por todos os póros! Ó Joaninha, deixa-me sonhar! _(Fixa os +olhos espantados no tecto da platêa. Musica surda)_ A minha vida vae ser +uma etherisação de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taças +nectáreas do céo, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... +Esse rosto em que se espelham as formosuras não vistas de Angelos nem de +Raphaeis, será o meu Al-korão, porque o summo artifice escreveu ahi a +suprema estrophe do seu poema. Quando os teus olhos se abrirem ao +diluculo da manhã, vêr-me-has de joelhos a beijar os teus cabellos; +quando os fechares, cansados de serem beijados, e as sedosas palpebras +se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me quedarei a teus +pés velando que os sylphos amorosos da noite não ousem perturbar o teu +dormir. Oh! Joanna, Joanna! _(Ajoelha-se-lhe aos pés. João Lopes tosse +com maior força. A morgadinha adverte em vão Frederico que continúa no +seu arrebatamento:)_ Abre-me aqui já o sepulchro, se em alguma hora hei +de sentir-me orphão dos teus carinhos... _(Pantaleão ao fundo, erguendo +o reposteiro.)_ + +Morgadinha + +Ah! + +Frederico _(sobresaltado)_ + +O diabo! _(Desce o véo. Canta qualquer aria conhecida no acto de +ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente á Morgadinha:)_ + + Diz a teu pai que a mestra + Para melhor te ensinar, + Te está cantando uma ária + Das que se usa cantar + No Theatro de Lisbôa: + Prega-lhe a pêta, que é bôa; + E se esta nos não salva, + Nada nos póde salvar. + + +SCENA V + +OS MESMOS E PANTALEÃO + +Pantaleão _(ao fundo)_ + +Então que é isso? + +Morgadinha + +É a minha mestra que me está ensinando uma ária das que se cantam no +theatro de Lisbôa. + +Pantaleão + +Ella tem a voz tão grossa! Não parece voz feminina! + +Morgadinha + +Ella canta na voz que quer.... Então o papá já se esqueceu que o marido +d'ella... + +Pantaleão + +Está bom, está bom; eu vou-me embora. Lá estive conversando com o marido +da senhora, e lhe disse que não tivesse ciumes que eu sou um velho!... +Aquelle seu marido parece-me um doudo!.. _(Rindo)_ Ora andem lá, andem +lá. _(Sáe.)_ + + +SCENA VI + +FREDERICO, MORGADINHA E JOÃO LOPES A INTERVALOS + +Frederico + +Salvei-te ou não? Tu salvaste-me com a força, na romaria; e eu aqui, +salvei-te com o genio! Vês como o amor me deu espirito n'um trance +difficil? Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos +teus olhos, ó formosa! _(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sôa de +diversas longitudes. Rumôr longiquo de vozes.)_ + +Morgadinha + +Que será isto!? Ó João Lopes! + +João Lopes _(dentro)_ + +Que quer, snr.ª morgadinha? + +Morgadinha + +Sabes a que tocam os sinos? é fogo? + +João Lopes _(dentro)_ + +Fogo não me parece. Acho que é bernarda. Estou cá á janella a vêr se +entendo a gritaria. + +Morgadinha + +Diz que é bernarda... + +Frederico _(alvoroçado)_ + +Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sériamente comigo, comtigo, comnosco, +com o nosso futuro, Joanna! + +João Lopes _(dentro)_ + +É revolução. + +Morgadinha + +Revolução! + +Frederico + +Não ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo? + +Morgadinha + +Qual perder-me! Importa-me cá a mim a bernarda! Hei de ser tua! Não +temas, Frederico, que eu sou forte!.. + +João Lopes _(na scena)_ + +Já intendi o que elles dizem... Dão morras aos papeis, e que se queime o +escrivão da fazenda... E trazem musica... Ouvem?... _(Ouve-se +distinctamente, mas ainda longe, o hymno da «Maria da Fonte», á mistura +com os «môrra!»)_ + +João Lopes + +O snr. morgado está na torre a ouvir. Agora bom será que o snr. +Frederico se escape, senão desconfio que o matem, sendo aqui pilhado... +_(Frederico apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha +agarra-o.)_ + +Morgadinha + +Não te deixo sahir agora, que é perigoso. + +Frederico _(muito inquieto)_ + +Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! Dá-me armas que eu +quero defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver +de doze tiros! Quero armar-me até aos dentes, e combater, e morrer +gloriosamente ao teu lado! + +Morgadinha + +Frederico, tu estás maluco!.. Olha que elles não vem cá... Não percas o +juizo! + +Frederico _(muito á tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)_ + +Não vem? Vem! Escuta! escuta! Não ouves o bramido do tigre popular? +Olha... é o leão que ruge, partidos os grilhões de respeito á lei! É a +Libia e a Hircania a vomitarem féras! Olha o lago sujo como se levanta +em vagalhões e como elles roncam! + +Morgadinha + +Vem então esconder-te, vem esconder-te! + +Frederico + +Não! Um homem não se esconde quando olhos como os teus são testemunhas +de tamanha covardia! É mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido +ignobilmente! _(Arranca os vestidos mulheris: fica de quinzena; mas +conserva o chapéo e os boucles)_ Agora, armas! armas! _(A morgada ri-se +apontando-lhe para a cabeça.)_ Por que ris tu, mulher forte! porque ris +tu, se fazes favor?! + +Morgadinha + +Tira a cartola e os cachos, meu amor. + +Vozes _(que sobrelevam o estrondo dos figles)_ + +Morra o escrivão de fazenda! morra! _(Grande catharro de João Lopes.)_ + +Frederico + +É chegada a hora! Dá-me um abraço, querida! Um abraço! e até ao reino +eterno! As nossas nupcias são no céo!.. _(Aponta para o tecto e fica +como extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e sáe com +dous bacamartes de bocca de sino.)_ + +Morgadinha + +Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! _(Ella +aperra o bacamarte.)_ + + +SCENA VII + +OS MESMOS, PANTALEÃO E JOÃO LOPES + +Pantaleão _(estupefacto)_ + +Que vejo? que é isto? como entrou este homem aqui? + +Frederico _(atirando ao chão o bacamarte)_ + +Venho offerecer-me á vingança de V. Ex.ª + +Morgadinha + +Meu papá, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mão de esposa! + +Pantaleão + +Das duas uma: ou o senhor foge, ou é espatifado pelo povo! + +Frederico + +Não sei fugir: sei morrer. + +Pantaleão + +Mas vá morrer a casa do diabo; não quero que o matem aqui. + +João Lopes + +V. Ex.ª tem rasão; matal-o aqui é máo: o melhor é eu ir escondêl-o no +meu quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos +da menina não ficavam com muita saude. + +Pantaleão + +Pois vae escondêl-o... some-o no inferno! + +Morgadinha + +Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha, +sua filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu papá +_(ajoelha-lhe)_ eu já não posso deixar de ser esposa de Frederico, e +juro que sou d'elle na vida e na morte! _(Ergue-se: conduz Frederico +pela mão, e ajoelha com elle)_ Dê-nos a sua benção, querido papá! + +Pantaleão + +Nunca! nunca! _(Ouvem-se fora as acclamações.)_ + +Morgadinha _(erguendo-se soberba)_ + +Então, não tenho pae! tenho só marido! Se o povo o matar, ha de vêr +morrer-me ao pé d'elle... mas vingada!.. _(Lança mão do bacamarte)_ Que +entre o povo! + +Pantaleão + +Em que apertos me vejo! Rebenta-me o coração!.. + +João Lopes _(muito commovido)_ + +Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!.. + +Pantaleão _(a Frederico)_ + +Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa. + +Frederico + +Obedeço, por que m'o ordena o pae d'este anjo. _(Sáe com João Lopes.)_ + + +SCENA VIII + +PANTALEÃO E A MORGADINHA + +Pantaleão + +Perdi a cabeça!.. Estou doudo... não sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!.. +onde está a pianista, que está alli fóra o marido á espera... + +Morgadinha + +A pianista?.. + +Pantaleão + +Sim, a pianista onde está?.. _(Olha para o chão, tropeçando no vestido +de mulher)_ Que é isto? _(levantando o chapéo e os caracoes)_ Que é +isto?! que é isto, Joanna?.. + +Morgadinha _(afflicta)_ + +Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!.. + +Pantaleão + +Então a pianista era... era o escrivão?!.. + +Morgadinha _(soluçando)_ + +Era, sim, snr.! + +Pantaleão + +Que sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o +patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!.. + +Morgadinha + +É meu espôso... perdôe-nos... + +Pantaleão + +Tu és o demonio, mulher! + +Morgadinha + +Sou uma infeliz apaixonada... O meu papá, tenha piedade! Olhe que o +Frederico é muito bom môço. Se não é fidalgo hoje, póde sêl-o ámanhã. O +papá bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr'ó outro. + +Pantaleão + +Ergue-te, ingrata, que déste cabo de teu pae! _(Rompe a musica pelo +interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)_ + + +SCENA IX + +JOÃO LOPES, PANTALEÃO, MORGADINHA, MACARIO + + _(A musica, na vanguarda, ladeia para dar passagem a Macario vestido + de official de ordenanças, mas com chapéo embicado. Traz uma espada + empunhada, e outra debaixo do braço, seguem-no 12 commandantes + subalternos, vestidos a capricho, uns com chapéo redondo e banda e + dragonas, outros de barretina e niza. Um d'estes arvora uma bandeira + de varias côres.)_ + +Macario + +Viva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das forças +populares do Minho! + +Vozes + +Viva! _(Cala-se a musica.)_ + +Macario _(á frente dos revolucionarios com enfaze oratoria)_ + +Snr. morgado! As forças populares de seis freguezias que ahi estão +reunidas fóra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim, +á frente dos seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a +V. Ex.ª que por voto geral foi acclamado general em chefe d'esta +provincia. Eu lhes fiz um eloquente discurso para os tirar d'essa ideia, +allegando com o meu gráo de pharmaceutico que V. Ex.ª soffria dos +intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles não me +attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex.ª a espada de general +em chefe. Aqui está por consequencia esta valente espada que matou em +1810 muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mãos de V. Ex.ª +limpar este paiz de escrivães de fazenda e outros mariolas que nos +desgraçam. Receba V. Ex.ª das minhas mãos esta espada e salve com ella a +patria do snr. D. Affonso Henriques! + +Os commandantes + +Viva o snr. boticario! Viva! + +Macario + +Obrigado, valentes guerreiros! _(A musica executa uma marcha muito +compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada +offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz +signal de que quer fallar. Silencio.)_ + +Pantaleão _(commovido)_ + +Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impressão me fizeram as +vossas palavras e não pude deixar de me commover... Estou realmente +commovido, e sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe +que as minhas doenças e outras desgraças me não permittem tomar o +commando das valentes forças populares que representaes. Não posso, +senhores, não posso. Se a fortuna me tivesse dado um filho, essa espada +estaria já nas mãos d'elle. + +Morgadinha _(tirando a espada da mão de Macario)_ + +Está nas mãos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou +mulher, ha de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle será +digno d'ella! _(Chamando) _Frederico! Frederico! + + +SCENA ULTIMA + +OS MESMOS E FREDERICO + +Frederico _(ajoelhando diante da morgadinha)_ + +Sim! sim! recebo de vossas mãos, Senhora, a espada que ha de decepar as +infinitas cabeças da hydra financeira! _(Espanto geral.)_ + +Macario + +Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!? + +Pantaleão + +Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio! + +João Lopes + +Vae ser o marido da menina... _(a Pantaleão)_ Faça favor de não +desmaiar, por quem é! + +Frederico _(com vehemencia e fogo)_ + +E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos á victoria, +briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por +vós, intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pôdres +em que o prostraram os comilões. Eu fallo assim, porque cada nação, nas +horas criticas, tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da +rethorica. Vamos a elles, filhos da victoria! As nossas bandeiras +desenroladas aos ventos das batalhas, dirão: Riqueza e Moralidade! Em +menos de quatro annos de regimen moral, e dieta aos lambões, o paiz não +deverá nada, e vós não pagareis um pataco de decima. + +Vozes + +Apoiado! + +Frederico + +Cidadãos! Eu tenho estudado profundamente as doenças de Portugal e pude +descobrir onde está o cancro que nos róe. Ahi vae o meu programma: O meu +systema é dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem +seu presidente de eleição popular, quero dizer, cada conselho governa-se +a si, e não quer saber do conselho visinho. Não sei se me percebem... + +Macario + +Muito bem, entendemos muito bem. + +Frederico + +Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que não tem nada com +a republica de Famalicão, nem com a republica de Fafe. Nós cá vivemos +com o que é nosso, fazemos as nossas despezas, e não damos nem vintem +aos de fóra. + +Vozes + +Apoiado! apoiado! + +Frederico + +Aqui está o meu systema que ainda não lembrou a ninguem, e que é o +resultado de quinze annos de estudo. Conseguido isto, não temos a +sustentar tropas, _(Apoiados)_ nem as estradas por onde andam os outros, +_(Apoiados)_ nem theatros onde os outros se divertem, _(Apoiados)_ nem +escrivães de fazenda. _(Apoiados)_ E declaro que me dou já por demittido +do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando: Guerra e morte a +todos os escrivães de fazenda! _(Os populares desembainham as espadas, e +bradam: «guerra de morte!»)_ E, portanto, senhores, beijo esta espada, e +leio na sua lamina, os novos destinos que vão alvorecer para Portugal! +Recebi-a da mão do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E +concedei, cidadãos, que essa bandeira seja arvorada nas mãos da Judith +lusitana! Não mais cahirá aos pés de vencedor algum o estandarte que foi +consagrado pela filha d'este honrado fidalgo! _(Frederico, tem passado a +bandeira á Morgadinha, a qual se colloca de maneira que o pae fica entre +ella e Frederico.)_ Bravos sycambros de Santo Thyrso! agora, á victoria, +á victoria que a patria nos chama! Está inaugurada a republica +confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! _(Os musicos executam. +Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a +bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentões. João +Lopes sentado com os queixos entre as mãos contempla tudo aquillo. Corre +o panno.)_ + + +FIM. + + + + + * * * * * + +ENTRE A FLAUTA E A VIOLA + +ENTREMEZ EM UM ACTO + + + + +PERSONAGENS + + ANICETO DA SILVA, pae de + VICTORINA. + GUTERRES ARTHUR DE MIRAMAR. + JOSÉ PIMENTA. + UM CREADO. + + + + +ACTO UNICO + + Salão de estalagem em Barcellos. Quartos numerados desde 1 a 12, + occupando os lados, e parte do fundo. Um d'elles o n.º 10 tem + sobranceira á porta uma vidraça ou bandeira. Sobre um canapé de + palha está uma viola francesa. + + +SCENA I + + _(Ao erguer o panno vem entrando Aniceto e Victorina precedidos de + um creado com dois saccos de noute e castiçal.)_ + +ANICETO, VICTORINA, CREADO + +Aniceto + +Vamos a saber: temos dois quartos limpos e camas asseadas onde se passe +a noute? + +Creado + +Háde haver. + +Aniceto + +Ha de haver?! Pergunto se ha. + +Creado + +Faça favor de entrar aqui para o n.º 6; e acolá defronte está o n.º 10 +tambem de vago. _(Põe a bagagem dentro dos quartos.)_ + +Aniceto + +Então os outros estão occupados? Pelo que vejo reuniram-se muitos +viajantes em Barcellos. Teem bom gosto! Quem está hospedado cá? + +Creado + +Nos n.os 1, 3, 5, 7 e 9 estão as snr.^as fidalgas de Lanhoso, que são +seis velhas. + +Aniceto + +Que faz por aqui esse mulherío? + +Creado + +Vão para os banhos da Povoa. V. S.ª faça favor de fazer pouca bulha que +ellas recommendaram-me todo o socego, que queriam dormir. + +Aniceto + +Pois que durmam. Ora que me importa cá a mim as fidalgas de Lanhoso! + +Creado + +V. S.ª toma alguma cousa? + +Aniceto + +Queres chá, Victorina? + +Victorina + +Não quero nada. Quero deitar-me, que estou moída. O meu quarto é +aquelle? _(Apontando para o 10.)_ + +Aniceto _(indo examinar o quarto)_ + +Para onde deita aquella janella? + +Creado + +Para o quintal. + +Aniceto _(indeciso)_ + +Para o quintal? está bom... Vá... Vae-te deitar, menina. _(Ao creado)_ +Vá você buscar outra luz. _(O creado sáe.)_ + + +SCENA II + +ANICETO E VICTORINA + +Victorina + +Boas noutes, meu pae. + +Aniceto + +Boas noutes. Se fôr preciso alguma coisa, bate na porta trez palmadas. + +Victorina + +Ai! _(Gemido longo.)_ + +Aniceto + +Deixemo-nos de ais, Victorina. Juizo, juizo e juizo! _(Victorina +recolhe-se. O pae fecha a porta, e tira a chave.)_ + + +SCENA III + +ANICETO E O CRIADO QUE VEM COM O CASTIÇAL + +Aniceto + +Diga-me cá vossê... + +Creado + +Meu amo, que manda? + +Aniceto + +Por aqui é tudo femeas, ou tambem ha machos? + +Creado + +Machos?! + +Aniceto + +Sim, homens! Se estão homens n'estes quartos. + +Creado + +Já disse que não, meu amo. Não ha homens. + +Aniceto + +Da banda do Porto não veio passageiro nenhum? + +Creado + +Não snr. + +Aniceto + +Está bom; dê cá você a luz e vá-se embora. Ás 7 da manhã, chame-me se eu +não estiver a pé, ouviu? + +Creado + +Sim snr. _(Aniceto recolhe-se, e fecha-se por dentro.)_ + + +SCENA IV + +GUTERRES E O CREADO + +Guterres _(com um sacco de viagem)_ + +Olá, Gregorio! + +Creado + +Por cá, snr. Guterres! Como está V. S.ª? + +Guterres + +Bom. Ha quarto? + +Creado + +Hade haver. D'onde vem? + +Guterres + +Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Está cá? + +Creado _(rindo)_ + +Ora V. S.ª que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta é a setima +vez que o vejo n'aste fadario! E o maganão sabe-as escolher! + +Guterres + +Então viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde está ella? + +Creado + +Alli no n.º 10. + +Guterres + +Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dirá que o +meu ideal sonhado ha trinta e seis annos está na estalagem de Barcellos! +Alli! n'aquelle antro! + +Creado + +Sempre V. S.ª está um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do +regedor de Guilhabreu que cá esteve na festa das Cruzes ha cinco annos? + +Guterres + +Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos... + +Creado + +E os versos que V. S.ª lhe botou? a gente sempre se ria... + +Guterres + +Ah! vocês riam-se dos versos? Tens tu a felicidade bestial de te rires +da poesia? O talento póde contar com o couce até em Barcellos... Ora +vamos... onde tenho eu quarto? + +Creado _(indicando-lhe um do fundo)_ + +Está alli o n.º 11. + +Guterres + +Bem. Podes ir. _(Entra na alcova. O creado sáe.)_ + + +SCENA V + +ANICETO SAINDO COM O CASTIÇAL EM PUNHO + +Não posso adormecer com a idêa de que ha uma janella no quarto de +Victorina. Aquelle maldito não me deixa socegar em parte nenhuma. Receio +que elle me siga por que o lobriguei quando passávamos em Vallongo; e +ella tambem o viu. Quem me diz a mim que o tratante nos não persegue, e +anda á volta da casa? Cuidar aquelle valdevinos que se pôde com uma +flauta arranjar uma rapariga com fortuna! Ha dous annos que minha filha +está enfeitiçada por um trocatintas d'um estudante que conseguiu seduzir +o coração d'uma menina que regeitou os melhores casamentos de Penafiel e +Amarante! Afinal, não hasde vencer, sarrafaçal! Eu tolherei todos os +teus calculos. Não me pilharás descuidado um instante! Mas aquella +janella assusta-me. Vou fazer mudar Victorina para o meu quarto. +_(Olhando para o alto da porta)_ E de mais a mais esta porta tem vidraça +em cima. Se elle aqui entrar, ella póde vêl-o d'alli... Que imprudencia +eu ia commettendo! _(Bate a porta)_ Victorina, Victorina! + +Victorina _(dentro)_ + +Quem é? + +Aniceto + +É teu pae. Já estás na cama? + +Victorina + +Não, snr. + +Aniceto + +Que estás a fazer? + +Victorina + +Nada. _(Dando volta á chave.)_ + +Aniceto + +Nada? Posso entrar? _(Áparte)_ Lá está ella a descer a vidraça. _(Alto)_ +Posso entrar? + +Victorina + +Póde. + +Aniceto + +Estavas á janella? + + +SCENA VI + +ANICETO E VICTORINA SAHINDO DA ALCOVA + +Victorina + +Ai! + +Aniceto + +Que estavas a fazer na janella? + +Victorina + +Ora o pae tem manias! Credo! que havia de eu fazer na janella! Estava a +tomar a fresca. Não tinha somno, não podia dormir, estava muito +afflicta, muito opprimida, muito abafada, abri a janella, ai! + +Aniceto + +Pois sim, sim, minha menina. Assim será; mas troquemos os quartos. Vae +para aquelle, que eu vou para este. Dá cá o teu sacco de noute. Vamos. +Leva o castiçal. Dá-me o meu sacco. Muito bem. Agora entra... + +Victorina _(entrando)_ + +Oh céos! + +Aniceto + +Sim, sim. _(Fechando a porta, e tirando a chave)_ Agora vou descançado. +_(Recolhe-se.)_ + + +SCENA VII + +GUTERRES + + _(Caminhando contemplativo com o castiçal em punho e os olhos postos + no quarto d'onde sahiu Victorina. Pousa o castiçal.)_ + +Ella alli está, a formosa como a rolinha adormecida com o bico debaixo +da aza; e eu venho aqui dar pasto ao coração;... mas que pasto tão pouco +nutriente! Pobre poeta! todo o teu alimento são esperanças! Em quanto a +gente prosaica se embrutece com timbaes de pombos e pasteis de camarão, +tu, poeta _(batendo no peito)_ engoles timbaes de esperanças com pasteis +de sonetos. Eu já sou do tempo em que um homem de genio amava com o +auxilio dos sonetos, e fazia consistir toda a sua gloria de fino amante +em gargarejar ternuras para um terceiro andar e recolher-se a casa com o +coração a trasbordar de catarro. Hoje não. Os anjos actuaes se apparecem +de noite á janella é para namorar a lua, ou vêr a cauda d'algum cometa. +Desde que entrou a moda do amor ideal, os olhos d'uma senhora, que +conversa com as estrellas, não descem a procurar na rua um d'estes +amadores fanhosos, que só se sentem inspirados e eloquentes na occasião +em que a patrulha os não deixa fallar. Eram d'uma paciencia adoravel as +donzellas de ha vinte annos, quando em meu coração rebentavam as +primeiras flôres!.. Que sensaborias a gente lhe disparava lá para cima, +e a sancta resignação com que a gente as ouvia a ellas! A virtude +d'aquelle tempo só se explica bem pela temperatura de sorvete em que os +corações se conservavam de parte a parte. Isto agora é outra coisa. Um +homem sente no peito o progresso material. Aqui dentro ha gaz, ha +vias-ferreas, ha fio electrico, ha balões, ha petroleo, ha tudo quanto é +fogo, energia, rapidez, etc. Eu cá pelo menos sinto isso tudo; conheço +que remoço, que amo e que ardo. Tenho phosphoros e ácido prussico aqui +dentro. _(batendo no peito)_ E esta mulher! Como eu amo esta mulher +desde que a vi hontem na Povoa de Varzim! Eu, na minha qualidade de +escrivão do juiz eleito, estava a escrever n'um processo, quando ella +passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo +como largaria um sceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar á meza +redonda do hotel portuense. Comeu apenas uma aza de borracho e meia +banana. Que estomago tão fino! É que alli está um coração immenso cheio +de ternura e com mais poesia que um livro de versos. Sahiram, e eu +segui-os. Vi entrar o pai n'um escriptorio de viação e comprar dous +bilhetes. Perguntei para onde iam os passageiros; disseram-me que para +Barcellos. Pedi bilhete; mas não havia. Ó desventura! que farei? ficar? +não! Ha fatalidades invenciveis, funestissimas! Esta mulher tem o meu +destino nas suas mãos; disse eu comigo. Cumpre-me seguil-a. Mas que +farei? Não ha bilhete. Embora. Alma de poeta, exclamei eu, não +succumbas! Heroicidade na desgraça, homem de coração de bronze! Segue-a! +segue-a! Fui alugar um garrano, e segui-os a galope, terra a terra, a +rédea solta, receando a cada passo que o coração e o garrano me +rebentassem. Aqui estou. Ó mulher, mulher quem és tu? Ave do paraizo, +que estás sonhando delicias do teu Éden, lembra-te, ó Eva, que és +costella do homem, e que está aqui Adão digno de ti. _(Repara na +viola.)_ Uma viola franceza! _(Pega d'ella e corre-lhe as cordas.)_ Está +desafinada. Oh! que saudades me tu fazes, instrumento interprete das +minhas paixões infantis! Que trovas eu descantava em noites de lua cheia +ao arpejar dos teus bordões que gemiam comigo! _(Pensativo)_ Quem sabe? +_(vai afinando)_ Quem sabe? Se tu fizesses o milagre, ó lyra das canções +apaixonadas! Vamos! é o fado que me impelle; mas não vou tocar o fado. +Inspira-me, coração, umas trovas dignas do anjo que alli está dormindo. +_(Avisinha-se da porta, onde presume que está Victorina, e preludía com +tregeitos de vate que invoca a inspiração do céo, e canta)_: + + (MUSICA DA «ALTEA, MIMOSA ALTEA») + + Se tu soubesses, lindinha, + Quanto é grande o meu amor + Não dormiras descançada + Quando eu morro aqui de dôr. + + _(Allegro)_ + + Acorda menina, + Não durmas agora, + Em quanto se fina + De dôr quem te adora. + + Eu na Povoa descuidado + Já não sentia disvelos, + Eis que surges luz brilhante, + E eu te sigo até Barcellos. + + Acorda, menina, + Não durmas agora, + Em quanto se fina + De dôr quem te adora. + + +SCENA VIII + +ANICETO E GUTERRES + + _(Aniceto abre a porta, e sáe de barrete de dormir e rob-de-chambre, + com a luz na mão. Guterres recúa espavorido.)_ + +Aniceto + +Passasse muito bem. + +Guterres + +Viva. + +Aniceto + +Eu já vi o senhor se não me falha a memoria. + +Guterres + +Sim, senhor, já tive a honra de jantar na meza em que V. S.ª estava na +Povoa. + +Aniceto + +É verdade. Pois snr., V. S.ª canta e toca muito bem; n'outra occasião +muito lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o +obsequio de se calar, porque tenho de seguir amanhã viagem e preciso +dormir... + +Guterres + +Pois não, senhor! Eu deponho já o instrumento importuno. + +Aniceto + +Agradeço muito a sua delicadeza. Se não fosse indiscreto, perguntaria +com quem tenho a honra de fallar? + +Guterres + +Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir. + +Aniceto + +Então é estrangeiro? Esse nome não me parece de cá. + +Guterres + +Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exerço funcções publicas. + +Aniceto + +Ah! exerce funcções publicas? Esse emprego deve ser bem bom. + +Guterres + +Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de +bastantes lettras. + +Aniceto + +Ah! de bastantes lettras? então é capitalista... Eu tambem trago um +pouco de dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula? + +Guterres + +O juro? está favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento +ao mez. V. S.ª é do Porto? + +Aniceto + +Não senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva. + +Guterres + +Oh! pois não, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua +ex.^ma filha? + +Aniceto + +A divertir-me não... Isso são contos largos... se V. S.ª por aqui +estiver ámanhã, conversaremos. Agora boas noutes, que são horas de dormir. + +Guterres + +Tem razão, tem razão... Boas noutes. _(Aniceto fecha-se.)_ + + +SCENA IX + +GUTERRES + +Ora ahi está a deidade, que eu eternizei nos meus versos! As esperanças +de muitos poetas, quando se realisam, são pouco mais ou menos como esta. +Este Aniceto, offerecendo-se aos meus devaneios d'alma, é uma imagem que +eu tambem offereço como lição a todos os poetas. _(Vê-se um encapotado +ao fundo, com chapéo de aba derrubada)_. + +Mas, a final, onde é que está a filha? Foi o velhaco do creado que me +enganou! É o couce da proza que bateu no peito da poesia. Filha de +Aniceto, onde quer que estejas, eu te offereço este calix d'amargura, e +boas noutes. _(Vai a recolher-se ao quarto.)_ + + +SCENA X + +JOSÉ PIMENTA E GUTERRES + +Pimenta _(rebuçado)_ + +Boas noutes. + +Guterres _(suspendendo-se)_ + +Boas noutes. + +Pimenta + +Quem é o senhor? + +Guterres + +Não respondo a encapotados de melodrama. Destape-se. + +Pimenta _(deixa cair as bandas do capote)_ + +Eis-me. + +Guterres + +Eis-me o que? Cada vez o conheço menos. + +Pimenta + +O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o +senhor e a filha de Aniceto? + +Guterres + +De commum de dois? temos questão grammatical ou phisiologica? + +Pimenta + +Que tem o senhor que ver com ella? + +Guterres + +Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo, +Barcellos, o rei dos tambores, V. S.ª etc. Falta elle que ver... + +Pimenta + +O senhor sabe que da zombaria ao rewolver não ha mais que um passo? + +Guterres _(sorrindo)_ + +O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em +Barcellos não póde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama, +posso saber? + +Pimenta + +Sou José Pimenta. + +Guterres + +Pimenta? por isso o senhor é tão cálido!... Eu sou de apellido Mira-mar. +Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a +filha d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um coração de poeta e +um respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena? + +Pimenta + +Amo. + +Guterres + +Tambem eu. + +Pimenta + +Tambem o senhor? + +Guterres + +Tambem eu; mas ha uma differença entre nós, e vem a ser que ella a mim +não me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o. + +Pimenta + +Tenho provas d'isso. + +Guterres + +Tem? _(Solemne)_ O senhor sabe que esmagou n'este momento um dos mais +romanticos corações que batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as +florinhas d'um amor nascente que burbulhavam na charneca d'esta alma? +_(concentra-se)_ Coragem! Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E +então o senhor vem aqui fallar-lhe? Sabe que ella está... + +Pimenta _(apontando para o quarto de Aniceto)_ + +Sei que está alli no N.º 10, que m'o disse o creado da hospedaria. + +Guterres _(apontando)_ + +Alli? + +Pimenta + +Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... _(reparando na vidraça +sobranceira á porta.)_ Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles +vidros.. O senhor não vê? + +Guterres + +Sim, eu vejo lá o que quer que seja. + +Pimenta + +É ella que me conheceu a voz. Quer outra prova? + +Guterres + +Não senhor, estou satisfeito. Aquella mulher é sua. Sou magnanimo até aqui! + +Pimenta + +Se me fosse possivel subir á altura da vidraça! Alli está uma mêza. O +senhor guarda segredo? Não revella este arrojo d'um amante apaixonado? + +Guterres + +O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os +caixilhos das vidraças e passar-se lá p'ra dentro. Póde fazêl-o que eu +não digo nada. + +Pimenta _(attento nos vidros)_ + +É ella. É o anjo! Lá está o rosto amado! + +Guterres + +Vá, não perca tempo. Dê-lhe um beijo envidraçado. _(Pimenta aproxima uma +banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a +vidraça com um murro, e põe fóra a cabeça.)_ + +Aniceto + +Ah cão! + +Pimenta _(saltando)_ + +Traição! traição! _(Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.)_ + + +SCENA XII + +ANICETO E GUTERRES + + _(O palco escuro)_ + +Aniceto _(correndo para Guterres)_ + +Ainda aqui estás, ladrão! + +Guterres _(accendendo um phosphoro)_ + +Olhe que está enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o +funccionario da Povoa, Guterres Arthur. _(Continúa a accender phosphoros.)_ + +Aniceto + +Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraça. Onde está o +scelerado, o canalha do flautista? + +Guterres + +Elle toca flauta? São fataes os flautistas... + +Aniceto + +Transtornou a cabeça de minha filha o infame... Onde está elle? + +Guterres + +Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto. +_(Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que +exclama de dentro.)_ + +Voz de velha + +Quem está ahi? + +Guterres + +Enganei-me. + +Voz + +Um homem! que desafôro! um homem! + +Guterres + +Perdão, minha senhora; não grite tanto. V. Ex.ª parece-me bastante velha +pelo metal de voz, e não deve recear-se de homens. + +Voz + +Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora... + +Guterres + +Não se assuste. V. Ex.ª em guerra de paixões é paiz neutro. Esteja +socegada. Durma. _(Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)_ + +Voz + +Quem bate? quem anda aqui, mana? + +Guterres + +Cá está outra inviolavel. Não é nada, minha senhora. A mana não teve +perigo. + +Aniceto _(sahindo com uma luz do seu quarto)_ + +Aqui está luz. Venha cá, snr. Miramolim. + +Guterres + +Miramar, se faz favor. + +Aniceto + +Que me diz á perseguição d'este facinora? O senhor não lhe disse que eu +estava n'este quarto? + +Guterres + +Nada, eu não lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a +espreitar pelos vidros; mas como elle disse «lá está o rosto amado» +cuidei realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. Não se afflija. +O caso tem remedio. Trate a doença de sua filha pelo systema +homoeopathico. _Similia similibus._ Sabe latim? _(Signal negativo)_ Quer +dizer: cura-se a molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer +dizer: a doença de sua filha é causada pelo tal sujeito, não é? _(Signal +affirmativo)_ Pois _similia similibus_ arranje-lhe outro similhante. + +Aniceto + +Dois? tomára eu desfazer-me d'este. + +Guterres + +Outro marido, percebeu? + +Aniceto + +Percebi, sim, senhor; mas eu não acho que a minha filha tenha +necessidade de casar com este nem com o outro. + +Guterres _(com enfaze e rapidez)_ + +Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes +no fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a não soffrem sem que +a especie seja deteriorada por transtornos contrapostos ás evoluções +palyngenesicas da reproducção genesiaca, resultando d'ahi que as +evoluções abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberrações +de graves consequencias: o senhor percebe, eim? + +Aniceto + +As aberrações curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim. + +Guterres + +Miramar, se faz favor. Vejo que V. S.ª não entendeu. Sua filha ha de +dar-lhe grandes penas e trabalhos, se não tiver em quem empregar a +actividade do seu coração: percebeu agora? + +Aniceto + +Muito bem. Aconselha-me então o senhor que lhe procure marido. + +Guterres + +E quanto antes. + +Aniceto + +O senhor é solteiro? + +Guterres + +Sou, sim senhor, porque? + +Aniceto + +Quer casar com minha filha? + +Guterres _(com gravidade)_ + +A sua filha, snr. Aniceto, é uma imagem que me sorria nos meus sonhos +antes de a conhecer. Eu amo-a com este coração de anjo que tenho; e, se +eu já não fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Camões +d'occasião. Mas a sua pergunta á queima-roupa é um choque tal de +felicidade que me burrifica. Deixe-me tomar ar. Ha commoções de alegria +que achatam os bofes e sacodem todas as visceras d'um homem. + +Aniceto + +Não ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguição d'este bandido da +flauta. Se V. S.ª annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde +podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha +Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e ouça fallar. + +Guterres + +Não, senhor. Isto de casamento é um acto sério e solemne. Corações +apanhados de surpreza não me servem. A mulher, que houver de ser minha, +hei de conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo +poetico. Logo que eu conhecer que consegui apaixonar sua filha, então a +contemplarei como objecto matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou +poeta. + +Aniceto + +Então que é preciso? + +Guterres + +É preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus +primeiros ensaios no coração de sua filha empregando os expedientes +sentimentaes. + +Aniceto + +Que vae o senhor fazer n'esse caso? + +Guterres + +V. S.ª não me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em +consequencia de elle tocar flauta? + +Aniceto + +Foi isso. + +Guterres + +Pois eu vou empregar tambem a musica. Póde ser que esta menina tenha a +alma lyrica e philarmonica e que o seu coração só possa ser abalado +instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao seu +quarto, e esperar lá os phenomenos que se forem operando na +sensibilidade de sua filha? + +Aniceto + +Sim senhor, eu cá vou esperar os phenomenos. _(Recolhe-se.)_ + + +SCENA XIII + +GUTERRES _(só)_ + + _(Guterres pega da viola, preludía, aproxima-se do quarto de + Victorina e canta em postura de inspirado)_ + + Eu na Povoa descuidado + Já não sentia disvelos; + Eis que surges, luz brilhante, + E eu te sigo até Barcellos. + + Acorda, menina, + Não durmas agora, + Em quanto se fina + De dôr quem te adora. + + Victorina, escuta os hymnos, + Que te canta o meu amor; + Escuta os versos divinos, + De Guterres, trovador! + + Acorda menina, + Não durmas agora, + Em quanto se fina + De dôr quem te adora. + + _(Escutando declama:)_ + +Ella não se bole. Parece-me que a ouço resonar. É a belleza que ronca +nos seus sonhos innocentes. _(Reparando em José Pimenta que vem +entrando)_ Temos chinfrim. + + +SCENA XIV + +JOSÉ PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA, ANICETO +MAIS TARDE, E O CREADO + + _(José Pimenta entra embuçado, medindo os passos á tragica. Chega ao + meio da scena, arroja o chapéo, deixa cahir a capa, cruza os braços, + relançando um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior + d'uma jaqueta de pelle os canudos d'uma flauta, liga-os, dá dois + passos á frente, e com a maior solemnidade toca a aria da Sombra de + Nino, da Semiramis. Guterres tem passado com a viola para o outro + lado, e faz menção de se defender com uma cadeira, em quanto o outro + não toca. Victorina, assim que José Pimenta tem tocado a primeira + parte da aria, começa aos empurrões á porta.)_ + +Victorina _(dentro)_ + +Josésinho, Josésinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta +porta! _(Aniceto rompe do quarto com os braços no ar, a tempo que +Victorina faz saltar a fechadura e corre aos braços de José Pimenta, +exclamando:)_ José, José, quero morrer nos teus braços. Ai! _(Desmaia +nos braços d'elle.)_ + +Aniceto _(ao creado que tem entrado com a luz)_ + +Você faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades +todas. Ah grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos não ha justiça +que vingue um pae? + +Guterres + +Snr. Aniceto, não mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos +inuteis. Agora conheço que a chaga da sua filha só póde ser curada com o +pêllo do mesmo... do mesmo José Pimenta. Não ha duvida que o coração +d'esta menina está magnetisado pela musica; mas o que é certo é que a +propensão d'ella não é a viola. A alma d'esta senhora inclina-se para +instrumento de sopro. Não é assim, snr.ª D. Victorina? Faça favor de +voltar a si para responder, e desmaie depois se quizer. _(Ella abre os +olhos)_ É verdade ou não? + +Victorina + +Ai! _(Aniceto cáe prostrado n'uma cadeira á boca da scena.)_ + +Guterres _(a Pimenta)_ + +O senhor não tem habilidade senão para a flauta. Aproveite a occasião e +vá com a pequena ajoelhar-se aos pés do velho. Andem para diante. +_(Empurrando-os)_ Parece que nunca estiveram no theatro! + +Pimenta e Victorina _(ajoelhando)_ + +Meu pae! piedade! + +Aniceto _(erguendo-se de impeto)_ + +Oh! _(Grito rouco e prolongado; com os braços affasta tragicamente da +vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)_ + +Guterres + +Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abençôe a união d'essas +creaturas. Deixe-os casar; alegre-se com a esperança de que ha de ainda +vêr meia duzia de netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o +genio de sua mãe, amando uma orchestra de sujeitos distinctos desde a +trompa até á corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante +misericordioso para os propagadores da sua individualidade tipica. + +Aniceto + +Levantem-se d'ahi! _(Erguem-se submissos.)_ + +Guterres + +Bem; estão os senhores absolvidos. Parabens. Ó snr. Pimenta, eu creio +que algum serviço lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador +da sua flauta. Em recompensa, faça-me o senhor o favor de dizer se foi +realmente com a aria da Sombra de Nino que enfeitiçou esta sympathica +joven? + +Pimenta + +Esta aria era a senha com que os nossos corações se entendiam. + +Guterres + +Ah! sim? Eu quero tocar isso no violão; vou experimentar o effeito +d'essa aria no coração de certas pessoas que costumam arrebatar-se +fascinadas pela minha voz de tenor. _(Tange na viola o acompanhamento da +Sombra de Nino, e canta:)_ + + Pobre poeta, ninguem te preza, + Pobre poeta, ninguem te quer; + Nem co'a viola tu conseguiste + Mover o peito d'uma mulher. + +_(No intervalo de uma quadra á outra. A José Pimenta)_ + +Isto vae bem? _(Faz na viola escalas sobre os bordões.)_ + + Mas não importa; vença a flauta + A sympathia das fracas almas; + Que eu antes quero, meus bons amigos, + O vosso affecto e as vossas palmas. + + +FIM. + + + + +Os direitos de representação das duas comedias que formam este volume +pertencem ao auctor. + +Porto, 3 de Fevereiro de 1871. + +CAMILLO CASTELLO BRANCO. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a +Flauta e a Viola, by Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30461 *** diff --git a/30461-h/30461-h.htm b/30461-h/30461-h.htm new file mode 100644 index 0000000..5090231 --- /dev/null +++ b/30461-h/30461-h.htm @@ -0,0 +1,4031 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Theatro Comico, por Camilo Castelo Branco</title> + <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta name="Publisher" content="Viuva Moré--Editora"> + <meta name="Date" content="1871"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + font-family: sans-serif; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + h4 em {font-weight: normal;} + h5 {font-weight: normal; text-indent: -1em; margin-left: 1em; text-align: justify;} + #corpo p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + em {color: blue} + </style> +</head> + +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30461 ***</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 3px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em">CAMILLO CASTELLO BRANCO </p> + +<p>———</p> + +<p style="font-size: 2em">THEATRO COMICO</p> + +<div style="margin: 10%; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em">A MORGADINHA DE VAL D'AMORES</p> + +<p>——</p> + +<p>ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>——————</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +EM CASA DE VIUVA MORÉ—EDITORA<br> +<small>PRAÇA DE D. PEDRO</small><br> +1871</p> +</div> + +<div style="text-align:center;"> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 2em">THEATRO COMICO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><small>PORTO—IMPRENSA PORTUGUEZA</small></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em">THEATRO COMICO</p> + +<p style="font-size: 0.8em">DE</p> + +<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> + +<p>——</p> + +<p style="font-size: 1.5em">A MORGADINHA DE VAL D'AMORES</p> + +<p>—</p> + +<p style="font-size: 1.2em">ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</p> + +<p> </p> + +<p>——————</p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +VIUVA MORÉ—EDITORA<br> +<small>PRAÇA DE D. PEDRO</small><br> +1871</p> +</div> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pn">{v}</span> </p> + +<h2>ADVERTENCIA</h2> + +<p>Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o distincto +maestro Francisco de Sá Noronha, quando a comedia se escreveu com destino a ser +representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o bom exito theatral o +subsidio da musica n'esta composição, e sobrevindo rasões que desviaram o nosso +amigo Noronha de collaborar comnosco em tamanha futilidade, não pôde por isso a +comedia ser submettida á opinião das platêas. Quem a lêr agora tem de +benevolamente disfarçar o seu fastio de leitura de versos, feitos ou copiados +das canções populares, para se cantarem.<span class="pn">{vi}</span> Por via de +regra, taes trovas são sempre asperas ou dissaboridas na declamação, mórmente +as que formam o <em>Auto do nascimento do menino Jesus</em>, consoante elle se +figura nas aldêas do Minho ainda hoje.</p> + +<p>Com referencia á farça não temos que pedir desculpa. Seria desvanecimento +irrisorio recearmos nós que a ponderosa e grave critica se descesse até coisa +tão pequena.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h1>A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES</h1> + +<h4>COMEDIA EM TRÊS ACTOS</h4> + +<h2>FIGURAS</h2> +<ul> + <li>D. J<small>OANNA</small> C<small>OGOMINHO DE</small> + E<small>NCERRABODES</small>, morgada de Val-d'Amores, filha de </li> + <li>P<small>ANTALEÃO</small> C<small>OGOMINHO DE</small> + E<small>NCERRABODES.</small> </li> + <li>F<small>REDERICO</small> A<small>RTHUR DA</small> C<small>OSTA</small>, + Escrivão da Fazenda de Santo Thyrso. </li> + <li>C<small>OSME</small> J<small>ORDÃO</small>, Deputado por Guimarães. </li> + <li>M<small>ACARIO</small> M<small>ENDES</small>, Boticario de Santo Thyrso. + </li> + <li>J<small>OÃO</small> L<small>OPES</small>, Lacaio e confidente da Morgada. + </li> + <li>F<small>IGURAS DO</small> A<small>UTO DOS</small> T<small>RES</small> + R<small>EIS</small> M<small>AGOS.</small> </li> + <li>Creados, cantadeiras, camponezes, musicos e outros personagens. </li> + <li><em>Scenas da actualidade.</em> </li> +</ul> + +<h1>ACTO PRIMEIRO</h1> + +<h5>Ao fundo, portão de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes. +O restante do palco figura uma alameda e estrada.</h5> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h3>FREDERICO <em>(só)</em></h3> + +<h5><em>(Frederico é um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e calças +pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O chapéo é de fórma +ingleza e alto para tornar mais aguçada a figura. A cabelleira bironniana em +crespas ondulações. Bigodes encerados e picantes nas guias retezadas. A luneta +d'um vidro sem aro obriga-o a caretear, abrindo a bocca de esguêlha quando fixa +mais attentamente a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fôr necessario +fugir, hão de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A +agilidade da rotação do pescoço deve dar-lhe o que quer que seja de authomatico +e fantasmagorico.)</em></h5> + +<p>A razão diz-me que eu estou em perigo de ser moído por estes selvagens do +Minho; mas o coração, este intestino onde o amor e a coragem habitam, diz-me +que não vacille. A rasão argumenta-me<span class="pn">{12}</span> que eu, +escrivão de fazenda no concelho de S. Thyrso, não devo arrojar as minhas +desenfreadas ambições até á mão da morgadinha de Val-d'Amores; mas o coração, +esta republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella, +mandando-me lêr n'aquelle brazão <em>(apontando)</em> o epitaphio da fidalguia +de raça, e o monumento levantado não ás tradições ineptas, mas á restauração da +dignidade humana. Além d'isto, eu, homem de aspirações gigantes, eu, poeta de +audaciosos raptos d'alma, eu, que junto á poesia elevada a poesia profunda, +preciso de me arranjar. Sou escrivão de fazenda; mas esta posição não quadra +aos meus instinctos. Ás vezes como que sinto escaldarem-se-me as arterias com +sangue de principe, e me quer parecer que algum de meus avós foi mais ou menos +illudido por alguma das minhas avós. Reconheço, como filho d'este seculo, que a +democracia matou a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim é; porém, ao +mesmo tempo, não sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta +morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o que +mais me incita a querer-lhe com a adoração<span class="pn">{13}</span> dos +Paulos e dos Romeus é a precisão que tenho de me arranjar.</p> + +<p>Eu já manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocação; e, +como me sentisse um dos muitos desventurados que cáem n'este mundo sem vocação, +fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por serem cousa que a +Biblia não diz que o Creador fizesse nos sete dias de creação. Um sujeito olha +para si como Deus para as trevas, e diz «<em>fiat lux</em>» faça-se o +litterato; «<em>et lux facta est</em>», e o litterato fez-se. Eu prometto não +dizer mais nada em latim, por que tambem não sei mais do que isto.</p> + +<p>Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever. Preparava-me +para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26 de supplemento, +quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um diario de Lisboa. A minha +reputação estava quasi estabelecida, quando a empreza me despediu por +semsaborão, como se fosse obrigatorio ser engraçado no paiz mais desgraçado do +mundo. Voltei o meu espirito para a historia universal, e cheguei até a +procurar n'um Almanak onde era a Torre do Tombo com tenção de lá ir consultar +os pergaminhos.<span class="pn">{14}</span> N'este proposito estava eu, +sentindo já os calores da gloria, quando me encarregaram de traduzir uma +comedia franceza para o Gymnasio. Puz de parte a Historia Universal, e traduzi +a comedia com um esmero indigno do resultado, porque ella foi pateada visto que +tinha, segundo disseram os criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a +virgindade elegante do texto. Ora eu então fiz-me critico, animado pela grande +copia de sandices que se escreveram contra a minha traducção. N'este modo de +vida achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber +alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira em +jardim de flores; é temivel porque remeche e estraga tudo; levanta impólas de +terra, e suja quando não desvasta a mimosa vegetação. Eu fiz destroços grandes +e escalavrei muitas reputações litterarias, já por amor da arte, já por amor do +estomago, esta coisa onde um homem de genio não póde crear a luz, porque isto +aqui <em>(indicando o estomago)</em> é um abysmo que só recebe a luz pela +bocca. Mas a final, as obras litterarias que appareciam eram já de natureza que +o arpéo da critica não lhes ferrava a<span class="pn">{15}</span> unha. +Entreguei-me ao genero chamado <em>reclame</em>, e comecei a chamar a attenção +do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia, romance ou farça. Este +officio, posto que o mais aviltante da vida d'um escriptor, é o mais lucrativo +no mundo patarata, em que eu me atasquei. A consciencia pezava-me pouco, se o +estomago sahia pezado de casa do emprezario do theatro ou do editor do romance. +Afoguei muitos escrupulos em sopa de camarão. Mas o sangue de principe, este +não sei quê que me faz cócegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha +missão na terra, e desde logo atirei um vôo atrevido ás regiões aquilinas da +politica. Estudei trez dias as questões de fazenda em Portugal, e entendi-as +tão claramente como se fossem questões da minha fazenda. Percebi que o paiz +estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma serie de artigos nos quaes +provava que a maneira de matar o <em>deficit</em> era... sim eu provava que a +maneira de matar o <em>deficit</em>, esse cancro roedor das entranhas do meu +paiz, era... sim eu provava... não me lembra agora o que provei... o certo é +que me despacharam escrivão de fazenda de Santo Thyrso,<span +class="pn">{16}</span> provavelmente para matar o <em>deficit</em>. Eis que +chego, e vejo a Morgadinha... <em>(Ouvem-se os tamborileiros)</em> Não convem +que estes barbaros me vejam parado em frente do portão da mulher amada... +<em>(Sáe)</em>.</p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>PANTALEÃO, <small>DOIS</small> CREADOS, <small>E OS</small> +TAMBORILEIROS</h3> + +<h5><em>Entram ao terreiro e páram tocando em frente da porta trez +tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco depois +abre-se a porta, e sáe</em> <em>P<small>ANTALEÃO</small></em><em>, com dois +creados de lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um +pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem.</em></h5> + +<h4>1.º Tamborileiro <em>(o do Zabumba)</em></h4> + +<p>Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr.ª morgadinha!</p> + +<h4>Os trez</h4> + +<p>Biba por muitos annos, biba!<span class="pn">{17}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Olé! rapazes! Com que vossês já se vão chegando ao arraial?..</p> + +<h4>1.º Tamborileiro</h4> + +<p>Ó promeiro, vamos tocar ós mordomos do Snr. San Joon, que tem festa +d'arromba este anno; e ós despois la bamos pr'ó arraial com Deus. <em>(Ouve-se +ao longe a toada das cantadeiras que cantam o S. João.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Bebam; mas não se encarraspanem como no anno passado.</p> + +<h4>2.º Tamborileiro <em>(rindo alvarmente)</em></h4> + +<p>É berdade, fedalgo! Aquillo é que foi perua! Indas m'alembra!<span +class="pn">{18}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois vê lá se arranjas outra que te faça esquecer a do anno passado.</p> + +<h4>3.º Tamborileiro <em>(bebendo)</em></h4> + +<p>Enton la bai á saude de Vossenhoria, a mais da snr.ª morgadinha.</p> + +<h4>1.º e 2.º Tamborileiro</h4> + +<p>A mesma.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Querem mais? bebam.</p> + +<h4>1.º Tamborileiro</h4> + +<p>Non faz minga.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Então, rapazes, adeus. Lá nos veremos na romaria.<span +class="pn">{19}</span> </p> + +<h4>Os tres Tamborileiros</h4> + +<p>Biba o fedalgo, e mai la obrigaçon. <em>(Sáem rufando estrondosamente: cessa +o estrondo pouco depois.)</em></p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>PANTALEÃO <small>E OS DOIS</small> CREADOS <small>(QUE POUSAM AS +VASILHAS)</small></h3> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Ora venham cá vossês, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses +olhos. Vossês tem obrigação de zelar a honra d'esta casa, por que nasceram +n'ella, cá se crearam, e cá hãode morrer, se me servirem bem. Aquillo que +souberem a respeito do que vou perguntar hão de dizer-m'o. Aqui quem governa +sou eu, percebem? Vossês tem visto de noite alguma vez por debaixo das janellas +d'esta casa o escrivão de fazenda? um homem muito magro que cá vinha +d'antes?<span class="pn">{20}</span> </p> + +<h4>1.º Creado</h4> + +<p>Bem sei quem é o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo, eu +jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu de regar a +cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando sobre a direita, vi +uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que parecia um abentesma...</p> + +<h4>2.º Creado</h4> + +<p>Eu tambem já bi esse abentesma, salbo seja, ahi ós pois da mêa noute; mas +aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que Vossenhoria +faça de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim têzo e hirtego que +não bolia c'os pezes. Havéra de ser o mesmo que tu enxergaste, Antonho!</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois creiam vossês que não era outro senão o escrivão de fazenda. N'estes +arredores não ha homem d'aquelle feitio senão elle... Sabem<span +class="pn">{21}</span> o que eu quero, rapazes? é que lhe dêem uma boa sova de +estadulho.</p> + +<h4>1.º Creado</h4> + +<p>Só se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira.</p> + +<h4>2.º Creado</h4> + +<p>E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar ás lebres. <em>(Ouvem-se +risadas de mulheres já perto.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Por ora, nada de tiros; o que mando é que lhe arrumem quatro bordoadas, sem +lhe dizer isto nem aquillo. Vossês zupem-lhe e escamem-se, que eu com a justiça +não quero testilhas; mas não lhe batam, sem o apanharem cá á volta da casa... +Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as raparigas da freguezia. +<em>(Sáem pela esquerda.)</em><span class="pn">{22}</span> </p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h5><em>(Rancho de raparigas vestidas de saias de chita com muita roda de saias +e saiotes, capotilhas encarnadas, chinela e meia branca, acompanhadas d'um +tocador de rebeca e outro de violão, que lhes acompanham as cantigas. Entram +pulando alegremente, e pucham por a estridula sineta do portão.)</em></h5> + +<h4>O rabequista</h4> + +<p>Biba a snr.ª morgadinha de Val-d'Amores!</p> + +<h4>Todos</h4> + +<p>Biba! Biba! <em>(Cantam o S. João.)</em></p> + +<blockquote> + <b> COPLAS</b><br> + <br> + Son Joon adromeceu<br> + Nas escadas do collejo;<br> + Deron nas frêras co'elle,<br> + Son Joon ten porbolejo.<br> + Que é aquillo, que é aquillo, que é aquillo?<br> + Son Joon a caçar um grilo.<span class="pn">{23}</span><br> + <br> + Ó meu son Joon da Ponte,<br> + Ó meu bello patusquinho,<br> + Dá-nos anno de bon pon,<br> + Dá-nos anno de bom binho.<br> + Non é nada, non é nada, non é nada,<br> + Son Joon a comer pescada.</blockquote> + +<h5><em>(Abre-se o portão de par em par. Sáe a Morgadinha, trajada com luxo, +mas fóra da moda. Vestido de ancas exaggeradas, cabello á Stuart, e um grosso +grilhão ao peito. Segue-a um creado velho, de niza, com uma cadeira de braços á +cabeça, e uma pichorra e caneca na mão.)</em></h5> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>MORGADINHA, JOÃO LOPES, <small>E AS</small> CANTADEIRAS</h3> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Biba a snr.ª morgadinha! Biba! Biba!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(sentando-se na cadeira)</em></h4> + +<p>Adeus, raparigas. Como estás tu, Maria do Quinchoso! e tu Benta do Cazal? +Olha a Marianna<span class="pn">{24}</span> da Egreja como está gorda com o +cazamento! Ó João Lopes, dá vinho a essa raparigada toda.</p> + +<h4>Uma das moças</h4> + +<p>Vossenhoria bai ao arraial?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Podéra não! Já estou preparada, e vou assim que a tarde refrescar, que quero +ver o fogo prezo.</p> + +<h4>Outra</h4> + +<p>E mai lo auto do Natal, que vem la os d'Arnôzo co'elle.</p> + +<h4>Outra</h4> + +<p>E como a fidalga está pimponaça! Parece mêmo a Madanela da porcisson de +Passos!</p> + +<h4>Outra</h4> + +<p>Benza a Deus, que palminho de cara assim, não se topa outra no mundo. Faz +agora<span class="pn">{25}</span> um anno que os cassacas do Porto andabon +todos enbeiçados atraz da snr.ª morgadinha no arraial; e enton aquelle goberno +que está em S. Thirso esse é que andava memo azoratado!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(rindo)</em></h4> + +<p>Qual governo?!</p> + +<h4>A mesma</h4> + +<p>Aquelle que lhe chamon o das fazendas, ou non sei que deanho...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ah!.. <em>(suspirando)</em> Ja sei...</p> + +<h4>O do violão</h4> + +<p>Má rais o parton, que me mandou citar indas hontem!</p> + +<h4>O rabequista</h4> + +<p>Eu onde le poder ser bon heide medirle o costado de pá a pá cum +fueiro...<span class="pn">{26}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ora não sejas bruto, José da Eira! Elle faz a sua obrigação; faz tu a tua +que é pagar o que deves ao rei.</p> + +<h4>O mesmo</h4> + +<p>Ao rei! Bem me fio eu n'isso... Enton a fidalga pensa que o rei aveza uma de +X do dinheiro que nós demos!! Pois non avezastes! Os governos de S. Thirso +repartem uns c'os outros no fim do anno o dinheiro que don os lavradores.</p> + +<h4>O outro</h4> + +<p>É como diz.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sois uns selvagens. Deixemo'-nos de tolices. Cantem lá alguma coisa vossês. +</p> + +<h4>Uma das moças</h4> + +<p>Quer a <em>Marianinha</em>, fedalga?<span class="pn">{27}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois sim; cantem lá a <em>Marianinha</em>.</p> + +<h4>COPLAS<br> +<em>(Tudo mulheres)</em></h4> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Ja fui canario do rei,<br> + Ja lhe fugi da gaiola.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, eu vou lá<br> + Ó Marianinha,<br> + Sim, sim, eu la vou<br> + Ó pequerruchinha.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Agora sou pintassilgo<br> + Destas meninas d'agora.<span class="pn">{28}</span></blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, eu vou la, etc.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Pintassilgo está no bosque,<br> + A andorinha no telhado.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + So eu não sei onde estou,<br> + Quando não estou ao teu lado,</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4><small>(VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + A andorinha quando chove<br> + Vai metter-se á escuridon<span class="pn">{29}</span></blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4><small>(VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + E eu quando o norte é rijo<br> + Metto-me ó teu coraçon.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4>Todos</h4> + +<p>Biba a snr.ª Morgadinha! Biba!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Então vossês vão já para a romaria?</p> + +<h4>Uma d'ellas</h4> + +<p>Aindas bamos buscar as cazeiras de Vossenhoria que estão á espera de nós, e +ós pois voltemos por qui.<span class="pn">{30}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois vão, e voltem. <em>(Sahem cantando o S. João. A morgadinha fica +pensativa e melancolica, encostando o rosto á mão, em quanto se ouve e se vai +perdendo a toada da cantiga.)</em></p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>MORGADINHA <small>E</small> JOÃO LOPES</h3> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Como estes brutos são felizes!.. E eu sempre apoquentada por causa deste +coração! Ai! eu antes de saber o que era amor tambem cantava... Lembras-te, ó +João Lopes?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Ora se lembro! E cantava que nem uma calhandra a fidalga!<span +class="pn">{31}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Olha se te lembras, João! Eu ia ás espadeladas, ás descamizadas, ás malhas, +brincava, saltava...</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Até dançava a cana verde, e a chula que era um gosto vêl-a!.. E quando a +menina quiz que eu lhe ensinasse o jogar o páo...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(com alegria)</em></h4> + +<p>É verdade...</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>E o caso é que vossellencia ahi com duas duzias de lições já me chegava com +o páo.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se enthusiasmada)</em></h4> + +<p>E d'aquella vez que eu me vesti de rapaz, e puz fóra da eira do Manoel +Tamanqueiro, com quatro partidas de páo, mais de seis mascarados que la andavam +a beliscar as minhas cazeiras!<span class="pn">{32}</span> </p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Por signal que a menina deu uma tapona no Zé Torto, que ficou torto de +todo... Ó fidalga, vossellencia hoje já não era capaz de romper ahi com um +marmeleiro p'ra frente d'um homem qualquer!..</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Estás enganado... se me chegassem a mostarda ao nariz... Mas, ai!.. +<em>(Torna a sentar-se triste.)</em> A minha alegria foi-se desde que eu soube +o que era amor!.. Olha lá, João... não o vis-te hoje? não viste o meu amado +Frederico?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Falle baixinho, menina. Olhe que o snr. morgado ainda ha todonada me esteve +dizendo que desconfia que elle anda por aqui de noute. A fidalga acautele-o; +que não vão os creados chegar-lhe ao forro da camiza...<span +class="pn">{33}</span> </p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se colerica)</em></h4> + +<p>Façam isso, que os esgano! Que lhe ponham um dedo, e verão quem é a morgada +de Val-d'Amores!</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Não grite assim, que seu pai, se a ouve, quem as paga sou eu. A fallar a +verdade, eu não desgosto do snr. Frederico; mas, em fim, esta aquella de ser +escrivão, é ruim modo de vida para poder casar com a snr.ª morgadinha...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Isso que tem!? Todos somos eguaes; e o coração, quando ama, não quer saber +de contos. Uma pessoa não está lá a averiguar se o objecto amado é fidalgo ou +plebeu. Tem-se visto rainhas casarem com pastores, e reis casarem com pastoras. +</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Cá no conselho de Santo Thirso não me consta, hade perdoar.<span +class="pn">{34}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Mas lá por esse mundo fóra acontece isso a cada passo. Tu é por que não lês +os livros das historias. Eu te lerei casos que aconteceram... E então que tinha +que eu casasse com um escrivão?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Em fim, em fim, o paisinho da fidalga foi capitão-mór, seu avô foi +desembargador, e seu bisavô foi sargento mór de batalha no Roussilhon...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vai dizendo até chegar a Adão e Eva, vai dizendo, e eu depois te direi de +quem eu e mais tu somos netos.</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Isso assim é, não ha duvida; mas, diz lá o ditado, lé com lé, e cré com +cré.<span class="pn">{35}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não quero saber de ditados! <em>(com força)</em> Este amor só m'o hade +arrancar do peito a morte!</p> + +<h4>João Lopes <em>(apontando para o brazão)</em></h4> + +<p>Fidalga, ponha os olhos nas armas reaes dos seus antepassados.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ora! não tenho mais que fazer... Cuidas que eu não sei que meu avô casou com +uma creada? Mostra-me onde estão alli as armas da creada. Bem se importou elle +das armas, nem do brezabu que as leve! É o que faltava... estar-me eu aqui a +definhar p'ra'mor da pedra! As armas são de pedra, e eu sou de carne e osso, +ouviste?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>A fidalga responde a tudo, e não ha remedio senão callar-se um homem, que a +trouxe<span class="pn">{36}</span> nos braços desde os trez annos, e sou capaz +de me metter no inferno vestido e calçado por causa da minha menina. +<em>(Sensibilisa-se.)</em> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sei o que tenho em ti, meu João Lopes... Vais tu ahi ao cimo do pinhal a vêr +se o vês pela estrada?.. Elle disse-me que havia de passar para a romaria ás +seis da tarde. Se o encontrares, diz-lhe que meu pai se está a vestir para ir +tambem, e que elle póde demorar-se a conversar comigo um bocadinho.</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Vou vêr se o avisto; mas, menina do meu coração, olhe que seu pai anda á +espreita e traz espias... Nós temos grande desgraça pela porta...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(energicamente)</em></h4> + +<p>Não morro de medo, já te disse. A mulher que ama não tem medo de nada!<span +class="pn">{37}</span> </p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Seja assim; mas, se lhe quebram o espinhaço a elle! Coitado do homem, é tão +delgadito que, se o apanha o vento d'um páo, elle vai a terra...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Quem lhe hade bater?! Cuidas que elle não anda armado? Que se attrevam +sómente a ameaçal-o!..</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Cá vou, cá vou, não se desespere. <em>(Sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(Senta-se quebrantada e triste)</em></h5> + +<p>Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!.. +<em>(Musica de surdina)</em><span class="pn">{38}</span> Como eu gosto d'elle! +Ha mais de dous annos que este meu coração padece! Não ha noite em que eu não +sonhe duas vezes com a sua imagem... Quando acordo, e o não vejo, a minha +vontade é chorar, chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio. +Os cirurgiões mandam-me tomar aguas ferreas!.. e só eu sei o que tenho! O meu +mal é aqui!.. <em>(a mão sobre o coração)</em> Oh céos! quanto eu sou +desgraçada sem o meu Frederico! <em>(Ergue-se, e falla com muito sentimento. +Musica plangente.)</em> Quando eu o vi, pela primeira vez, foi na hospedaria +das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu rheumatico. Estávamos a +jantar quando elle entrou, e meu pai offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle +agradeceu, mas não comeu, dizendo que o seu jantar era um ôvo quente. E d'ahi a +pouco, trouxeram-lhe um ôvo quente n'uma tigella; e elle comeu o ôvo, bebeu um +copo d'água fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e +pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai ouvir, +se podia viver só com um ôvo, e elle respondeu que a sua alma se sustentava com +a esperança de ser amado por mim... e<span class="pn">{39}</span> com tres óvos +por dia. Oh! que lembranças estas, que lembranças estas! <em>(chora)</em> E vai +depois, disse-lhe eu: «O snr. está assim magro porque come muito pouquinho; se +gosta d'óvos coma uma duzia d'elles de cada vez»; e elle pregou-me os seus +lindos olhos, e respondeu a suspirar: «Que me importa o corpo? a mim o que me +importa é o coração que é grande; e, se o corpo é magro, mais depressa me +reduzirei a cinzas se V. Ex.ª me desprezar.» Isto fez-me no peito mossa! fiquei +presa d'este dito; senti por aqui acima uma fogueira que me pôz a cara em +brazas vivas, e não lhe disse coisa de geito porque fiquei um pedaço intallada. +Depois, ao despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe: +«amo-vos, meu bem!» Ora aqui está como começou isto. Desde então para cá apenas +lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho... +Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, não vou longe. Elle tambem está +no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de começar estes amores, eu pezava +cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois aqui ha oito dias +pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim não podemos<span +class="pn">{40}</span> viver, nem eu nem elle. <em>(Com força, que a musica +imita.)</em> É preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai +quer, quer; senão quer, quero eu. Uma mulher não póde ser escrava da sua +fidalguia. Antes quero ser esposa d'um escrivão, e viver contente, que ser a +morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pôr na espinha... <em>(Ouve-se +rumor de vozes fóra.)</em> É o meu papá!.. <em>(Senta-se.)</em> Vem-me empatar +as vazas...</p> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>PANTALEÃO, MACARIO, <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(Macario é um sujeito de oculos e casaca de briche, já de annos, e ar +circumspecto)</em></h5> + +<h4>Pantaleão <em>(áparte ao boticario)</em></h4> + +<p>Veja lá como lhe falla... Olhe que ella é finoria... <em>(á filha)</em> Cá +me vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para não ficares +sósinha. <em>(Sáe.)</em><span class="pn">{41}</span> </p> + +<h2>SCENA IX</h2> + +<h3>MACARIO <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Tenha V. Ex.ª muito boas tardes.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(enfastiada)</em></h4> + +<p>Viva, snr. Macario, as mesmas.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe mandei +fez-lhe bem?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não o puz: cheirava a pez.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>De pez de vergonha era; fui eu mesmo que<span class="pn">{42}</span> o +manipulei... Então, a snr.ª morgadinha vae ao arraial?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vou.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Faz muito bem; que lá hade encontrar pessoa que muito interessa a V. Ex.ª... +enganei-me... pessoa que muito se interessa em vêr V. Ex.ª queria eu dizer.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Como é isso? não percebi.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimarães, onde estive com o snr. +deputado Cosme Jordão, um sabio que tem votado grandes fallas no parlamento... +Ha de ter ouvido fallar V. Ex.ª...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não sei nada de parlamentos, não leio periodicos.<span +class="pn">{43}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Pois, minha snr.ª, o doutor Cosme Jordão é um sujeito conhecido em todo o +mundo, e lá na côrte até vae ao palacio do rei e come lá...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Deixal-o comer, que tenho eu com isso?</p> + +<h4>Macario <em>(áparte)</em></h4> + +<p>Não faço nada! está hoje levadinha dos diabos.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vamos, diga lá, snr. Macario.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Pois este deputado vae hoje á romaria do S. João.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Deixal-o ir; que se divirta. Então é esse o homem que me quer vêr?<span +class="pn">{44}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex.ª...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ainda bem; é signal que não é cego. E que mais?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>E que ficou muito agradado de V. Ex.ª...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois tem máo gosto e perde o tempo. Que mais?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>V. Ex.ª, se o vir, não hade fallar assim. É ainda homem de boa edade, cheio +de corpo, com uns oculos que lhe dão muito respeito á cara.<span +class="pn">{45}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ora! oculos de respeito! que me importa cá a mim os oculos do homem? sabe +que mais, snr. Macario? <em>(Põem-se a bamboar uma perna sobre a outra, e a +trautear o «Pretinho que vem d'Angola».)</em></p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Finalmente, snr.ª morgadinha, como V. Ex.ª quizer; mas lembre-se de que seu +pae deve á fazenda nacional uns seis contos de réis, e que o snr. doutor Cosme, +casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae não pague nada, e mesmo no +futuro lhe não lancem impostos.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não me seque, snr. Macario. Vocemecê queria que meu pae pagasse commigo ao +tal Cosme o que deve á fazenda? Pois que pague com o que é d'elle, e que me +deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias. Metta-se lá na sua +botica e não se faça casamenteiro. Vá fazer charopes.<span +class="pn">{46}</span> </p> + +<h4>Macario <em>(áparte retirando-se)</em></h4> + +<p>Apre com a cabra!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que tal está o sacripanta!</p> + +<h2>SCENA X</h2> + +<h3>JOÃO LOPES, <small>ESPREITANDO A</small> MORGADINHA, <small>E +DEPOIS</small> FREDERICO</h3> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Psiu, psiu.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(sobresaltada)</em></h4> + +<p>Viste-o?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Elle ahi vem... Eu vou espreitar, e assim que eu tossir que fuja para a +carvalheira.<span class="pn">{47}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Anjo! milagre de bellesa, Joanna querida, não sentes n'estas mãos o vibrar +da alma?</p> + +<h4>Morgadinha <em>(muito terna)</em></h4> + +<p>Como estás tu? passaste bem desd'hontem?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Pergunta ao lirio do valle o que lhe pende a fronte quando o orvalho do céo +lhe não esfria os queimores do sol estivo.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Olha lá, Frederico, tenho a avisar-te, antes de mais nada, que é preciso +andares prevenido...</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Temos sicarios? Ha aqui vampiros? A vindicta paterna tem sêde do meu sangue? +Eis aqui o peito. Que m'o farpem, que m'o fendam, que<span +class="pn">{48}</span> m'o alanceem, que m'o lancetem. Tudo por ti, tudo por +ti, ó estrella, ó loira visão dos meus sonhos! <em>(Rumor fóra.)</em></p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Foge... esconde-te entre as arvores... <em>(Frederico sóme-se.)</em></p> + +<h2>SCENA XI</h2> + +<h3>MORGADINHA, <small>OS DOIS</small> CAMPONIOS <small>QUE VÃO PASSANDO, E +DEPOIS</small> FREDERICO</h3> + +<h5><em>(Um camponio tange flautim e outro viola. Duas moças á frente batendo +palmas ao compasso do canto, e saltando)</em></h5> + +<h4>Um camponio <em>(cantando)</em></h4> + +<blockquote> + <em>Muito bem seja apparecido</em><br> + <em>Seja apparecido</em><br> + <em>N'esta funcção.</em> (Batendo palmas)<span +class="pn">{49}</span></blockquote> + +<h4>(CÔRO)</h4> + +<blockquote> + <em>Bate as palmas c'o seu pexinho</em><br> + <em>Co' seu pexinho</em><br> + <em>Co' seu pexão.</em> (Repete)</blockquote> + +<h5><em>(Assim que elles passam, a Morgadinha sáe do portão, e logo Frederico +do escondrijo)</em></h5> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Mas dizias tu, pomba?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem +armado.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Armado! para quê? Tu não sabes que o teu amor é talisman que prostra +gigantes! As minhas armas são os raios de fogo que bebo de teus olhos; tenho +vesuvios na alma capazes de abrazar cidades!<span class="pn">{50}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Isto não é chalaça, meu amado Frederico! Peço-te que tenhas cuidado, muito +cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, não temeria ninguem... Tu +verias o que é a morgada de Val-d'Amores... Mas eu não sei como isto hade +ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo...</p> + +<h4>Frederico <em>(interrompendo-a com exaltação)</em></h4> + +<p>Fidalgo! que é fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que é fidalgo? a sola +velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! então é certo que teu pae +ignora, que o baptismo de sangue da revolução franceza lavou todas as manchas +da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revolução! o segundo christianismo! +Que é fidalgo? teu pae não sabe que aquelle brasão d'armas <em>(apontando)</em> +está alli como a pedra sepulcral das cinzas feudaes! Teu pae está debaixo do +sol e não sente o calor da fermentação social! Ouve o estrondear da democracia +reinante, e volta a face para os phantasmas<span class="pn">{51}</span> dos +avoengos que se somem lá em baixo no abysmo da historia!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não sei lá d'essas historias; o que te peço é que não te exponhas a levar +alguma paulada á falsa fé. Olha que os meus creados são uns patifes, e meu pae +não é boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se hade fazer, porque elle não +nos dá consentimento para nos casarmos.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Heide movêl-o com a eloquencia d'um homem aquecido no sol moderno. Heide +convencêl-o, enchendo-lhe o espirito de luz e o coração de ideias novas.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não te mettas n'essa asneira, que não fazes nada. <em>(Tem-se já ouvido +toada de musica da chula, e depois a tosse rija de João Lopes. Frederico +some-se sem ser preciso mandal-o. A morgadinha fica.)</em><span +class="pn">{52}</span> </p> + +<h2>SCENA XII</h2> + +<h3>MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(Chega uma chulata que vae de passagem para a Romaria. Bando de +raparigas que precedem, bailando; tocadores de rebeca, viola, clarinete, +ferrinhos e requinta. A esturdia pára defronte da morgadinha, e continúa +dançando cada rapariga com o seu parceiro.)</em></h5> + +<h4>COPLAS DE DESAFIO</h4> + +<h5><em>(Em quanto o cantador deita a cantiga, tange sómente a viola. Entre os +dois primeiros versos e os dois ultimos de cada quadra ha um espaço que dá +logar a que toquem por alguns segundos todos os instrumentos.)</em></h5> + +<h4>Cantador</h4> + +<blockquote> + Agora que eu vou passando,<br> + Faço aqui minha parada;<br> + Para saber da saude<br> + Da incelentissima morgada.</blockquote> + +<h4>Cantadeira</h4> + +<blockquote> + Da incelentissima morgada<br> + Tambem eu quero saber,<span class="pn">{53}</span> <br> + Que mais linda creatura<br> + Não na póde o mundo ter.</blockquote> + +<h4>Cantador</h4> + +<blockquote> + Não na póde o mundo ter<br> + Nem terá até ao fim;<br> + Os seus olhos são d'amóras,<br> + Os seus dentes de marfim.</blockquote> + +<h4>Cantadeira</h4> + +<blockquote> + Se tem dentes de marfim,<br> + O seu rosto é uma roza;<br> + E viva sua incelencia<br> + Que não na ha mais fermosa.</blockquote> + +<h4>Cantador</h4> + +<blockquote> + Quero dar a despedida<br> + Á senhora Morgadinha;<br> + Que não ha por estas terras<br> + Mais bonita fidalguinha.<span class="pn">{54}</span></blockquote> + +<h4>Cantadeira</h4> + +<blockquote> + Eu tamem vou espedir-me,<br> + Despedida quero dar;<br> + Adeus, senhora morgada,<br> + Sirva-se de perdoar.</blockquote> + +<h5><em>(A morgadinha agradece-lhes com um aceno de lenço. O bando sáe tocando +e dançando. Assim que o descante se ouve froixamente, volta +Frederico.)</em></h5> + +<h2>SCENA XIII</h2> + +<h3>MORGADINHA <small>E</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Tenho odio a estes selvagens que me roubaram horas de vida! Quando sahirão +os lôrpas da face da terra?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>É verdade, Frederico! Trouxeste-me os figurinos?<span class="pn">{55}</span> +</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Eil-os chegados hoje de Lisboa.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(examinando-os)</em></h4> + +<p>Ai! que demonio de mulheres! Pois ellas trazem estes vestidos assim +incozipados nas pernas!?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Oh! isto é a elegancia circassiana! é a fórma na sua diafeneidade sublime; +ha aqui a poesia do fino, a mulher parece toda nervosa, é o lyrismo da +plastica...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(rindo)</em></h4> + +<p>Se eu te percebo, cebo! Boa cataplasma me parece este molho de clinas e +sacarrolhas que ellas tem na cabeça.<span class="pn">{56}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Nâo blasfemes! Ó Joanninha, veste-te assim; realça, sobredoura a tua bellesa +com estes adornos que angelisam a mulher de compleição robusta, e transformam a +mimosa em cousa ideal vestida de vapores. A mulher assim involta em roupagens +etherias é um madrigal de setim que cahiu das lyras dos anjos.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois sim, faço-te a vontade. Vou mandar comprar no Porto esta trapalhice +toda...</p> + +<h2>SCENA XIV</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E</small> PANTALEÃO</h3> + +<h5><em>(Abre-se o portão repentinamente e apparece subito Pantaleão. Frederico +ainda faz um impeto de fuga, mas contem-se, e corteja mui urbanamente o +fidalgo.)</em></h5> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Passava para a romaria, e, como visse S. Ex.ª <em>(indicando a +morgadinha)</em> vim depor a seus<span class="pn">{57}</span> pés os meus +respeitosos cumprimentos, e informar-me da saude de V. Ex.ª</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Estou bom, muito obrigado. Onde está o João Lopes?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Foi aparelhar a burra.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Vae tu preparar-te que são horas.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Quer vêr como agora são as modas, papá? olhe. O snr. Frederico vae levar +estes figurinos ás nossas primas de Ruivães.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois faz-me o snr. muito favor se me cá não trouxer bonecos a casa. Nós cá +não somos de modas.<span class="pn">{58}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Direi a V. Ex.ª, snr. morgado, que as modas tem certa relação com o espirito +das gerações e das épocas. Agora que o entendimento humano se adelgaça, o +involucro material tambem se subtiliza nas raças finas...</p> + +<h4>Pantaleão <em>(medindo-o d'alto a baixo com ironia)</em></h4> + +<p>Bem se vê que o snr. escrivão é d'uma raça muito fina... pelo muito +adelgaçado que está...</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Não me jacto de prosapia heraldica; mas, na jerarchia dos espiritos, +preso-me de pertencer ao bando mais illuminado. Respeito muito o brasão; mas +curvo-me diante da aristocracia do genio e do talento.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Sim, o snr. tem muito talento, bem sei... Já te disse, Joanna, que te vás +arranjar.<span class="pn">{59}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Adeus, snr. Frederico, muito obrigada. <em>(Sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA XV</h2> + +<h3>PANTALEÃO <small>E</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Creado de V. Ex.ª <em>(Váe a sahir; mas Pantaleão detem-o.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Faça favôr.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Escuto as suas ordens.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>O snr. anda muito mal encaminhado. Minha filha é a morgada de Val-d'Amores; +o snr.<span class="pn">{60}</span> é o escrivão de fazenda de Santo Thirso. +Estão um do outro tão longe como aquella pedra d'armas do rebôlo d'um +sapateiro, entendeu?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Entendi, que V. Exc.ª tem um estylo bastante chato. Entendi, posto que V. +Exc.ª falle uma lingoagem assás gothica em pleno seculo XIX.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois se entendeu, tire o seu atrevido pensamento de minha filha, e procure a +fórma do seu pé. Não me obrigue a usar dos usos e costumes dos meus avós. Quer +que lh'os diga?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Heroismos dos seus ascendentes? Essas Odissêas da aldêa são hoje +impraticaveis. Eu sei em que tempos vivemos, snr. morgado.<span +class="pn">{61}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Sabe? pois olhe que não sabe em que terra vive. O snr. veio lá de Lisboa +onde qualquer bigorrilhas, que põe gravata, entende que é egual a todo o homem +que põe gravata; o que o bigorrilhas não quer é sêr egual a todo o homem que +não tem gravata.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Ahi ha certa sublimidade de idêa, de que lhe dou os parabéns. V. Exc.ª ia +quasi escrevendo d'um traço a historia philosophica da democracia moderna.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Eu não escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo é que isto cá nas +montanhas é outra cousa. Os morgados são morgados; os escrivães são escrivães; +e os sapateiros são sapateiros. Ora, quando acontece alguem querer sahir da sua +classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as costellas. O snr. sabia +isto?<span class="pn">{62}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Eu não sabia que estava na Cafrária. Cuidei que este concelho era um retalho +do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fóco radiara uma flecha de +luz até ao coração de V. Ex.ª que me parece ser uma pessoa de bons costumes, e +não um esquimó. Cuidei finalmente que o Evangelho e a Carta constitucional +livellavam a dignidade humana... <em>(Ouve-se o cantar das raparigas que se +avisinha.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleão Cogominho de Encerrabódes, décimo oitavo +senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com minha filha hade +poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor d'esta casa. Tenho dito, e +acabou-se o cavaco. Saude e juizo. <em>(Volta-lhe as costas. Frederico bambôa a +cabeça altivamente e retira-se.)</em><span class="pn">{63}</span> </p> + +<h2>SCENA XVI</h2> + +<h3>MORGADINHA, PANTALEÃO, <small>E O BANDO DAS MOÇAS E TOCADORES QUE +APARECERAM NA TERCEIRA SCENA</small></h3> + +<h5><em>(A Morgadinha sáe sentada sobre a jumenta. Vem vestida de Amazôna. João +Lopes de farda azul com vivos vermelhos, bota de orelha e prateleira, colete +encarnado, e chapéo embreado, tudo á antiga e grutesco, vem trazendo a burra +pela rédea. As raparigas estão cantando as seguintes)</em>:</h5> + +<h4>COPLAS</h4> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Dondes vens ó velha?<br> + Eu venho da feira.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Que trazes na cesta?<br> + Crá, crá, crá,<br> + Sardinha vareira,<br> + Cri, cri, cri,<br> + Por a retangueira;<br> + Cró, cró, cró,<br> + Se o galo cantou.<span class="pn">{64}</span></blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Se o galo cantou<br> + Deixal-o cantar.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Minha rica prenda<br> + Crá, crá, crá,<br> + Lá da beira mar<br> + Cri, cri, cri,<br> + Pela retangueira,<br> + Cró, cró, cró,<br> + Se o galo cantou.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + D'onde vens ó velha?<br> + Eu venho d'alli.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Que trazes na cesta?<br> + Crá, crá, crá,<span class="pn">{65}</span> <br> + Que te importa a ti,<br> + Cri, cri, cri,<br> + Pela retangueira,<br> + Cró, cró, cró,<br> + Se o galo cantou.</blockquote> + +<h5><em>(Continúa o canto ao descer do panno.)</em></h5> + +<p><span class="pn">{67}</span> </p> + +<h4>FIM DO PRIMEIRO ACTO. </h4> + +<h1>ACTO SEGUNDO</h1> + + +<h5>Vista de arraial. É noute. Festões de lampadas de papel variegado pendem +dos ramalhos das arvores. Mulheres a frigir, ao lado das pipas cobertas de +ramos de folhagem. Barracas com botequins. Multidão de povo a beber á volta das +pipas. Sinos repicando, e estouros de foguetes. D'ambos os lados da scena, mas +fóra, se canta o «S. João» com vozes alternadas. Frederico passeia por entre o +povo, mirando as raparigas. Os dois já conhecidos creados de Pantaleão, com as +pernas encruzadas nos varapáos, medem d'alto a baixo Frederico, e rompem a +jogal-os um com outro. Frederico, por uma das suas evoluções maravilhosas de +rapidez, desapparece. O povo ri-se, e elle reapparece logo, seguido por trez +cabos armados. Os cabos usam bonet com debrum azul. Cessam as cantilenas, e +rompe a banda musical de Santo Thyrso, estrondosa em trompões, a qual entra em +scena tocando uma marcha. Os musicos uniformes, de calça branca, casaco azul +com vivos amarellos, o bonet avivado da mesma côr. As figuras podem +caracterisar-se caprichosamente. Em seguida, entra a Morgadinha, com o pae, +Macario, Cosme Giraldes, e João Lopes. Cosme Giraldes é um sugeito gordo, +aspeito serio, com os seus oculos, um todo de summa gravidade. Os circumstantes +cedem o logar aos recem-chegados, que formam grupos. </h5> + +<p><span class="pn">{68}</span> </p> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h3>TODOS <small>OS</small> DESCRIPTOS <small>(GRUPO DA MORGADINHA E COSME +GIRALDES)</small></h3> + +<h4>Cosme <em>(com gesto de orador e com grandes pausas, á Morgadinha)</em></h4> + +<p>A festa animou-se com a auspiciosa chegada de V. Ex.ª O sol do empyreo e uma +senhora bella, que é o sol dos corações sensiveis, onde brilham, tudo reanimam. +Assaz ditoso me julgo em ser o mais feliz dos mortaes que se sentem +influenciados e enthusiasmados pelos lumes encantadores de V. Ex.ª Falta, +todavia, á minha completa dita a certeza de que os meus affectuosos requebros +acham graça nos seus olhos.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(com desdem)</em></h4> + +<p>Eu não lhe acho graça nenhuma.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Como assim, divina ingrata?<span class="pn">{69}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Já disse ao boticario o que tinha a dizer.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Pois o seu coração...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Está dado. Eu cá sou franca. Não perca tempo.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Não ha duvida que ouvi dizer que V. Ex.ª, victima d'uma allucinação, +aceitava a côrte d'um esgrouvinhado arcaboiço que exerce as ladras funcções de +escrivão da fazenda! Heide eu, ó céos! accreditar que...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sim, snr., acredite, e faça favor de me não incommodar que eu vim á romaria +para me divertir. <em>(Volta-lhe as costas.)</em> Ó papá, quando se<span +class="pn">{70}</span> faz o Auto do Natal? <em>(Ouve-se a musica tocando uma +marcha.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>É já. Mandei vir as figuras para aqui. Vae começar. Ó amigos, desempachem o +terreiro que chêga o espectaculo. <em>(O povo retira e apinha-se entre +scenas.)</em></p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>OS MESMOS, <small>E AS FIGURAS ABAIXO DESCRIPTAS EM LOGAR +COMPETENTE</small></h3> + +<h5><em>(A musica entra a passo muito cadenciado com grandes pernadas. Chegada +á bocca do palco, alinha a um lado para dar o passo aos dois primeiros +personagens do auto):</em></h5> + +<h3>Scena I do Auto</h3> + +<h3>ADONIS <small>E</small> MANASSÉS</h3> + +<h5><em>(Adonis traja de principe de carnaval; Manassés veste de propheta de +procissão; mas toda a fatiota é muito usada e desbotada. Adonis traz um +cavaquinho.)</em></h5> + +<h4>Adonis <em>(com declamação muito boçal)</em></h4> + +<p>Canta, Manassés, que eu te acompanho; para isso com esta harpa vanho.<span +class="pn">{71}</span> </p> + +<h4>Manassés <em>(canta com ar inspirado, gesticulando estupidamente)</em></h4> + +<blockquote> + O céo estrellado,<br> + Sereno e propicio,<br> + Será pois indicio<br> + Do sol desejado.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO DE PASTORES)</small></h4> + +<h5><em>(Vozes femininas dentro)</em></h5> + +<blockquote> + Quem o habitará?<br> + Quem o gozará?</blockquote> + +<h4>Manassés <em>(cantando)</em></h4> + +<blockquote> + Vêde a paz serena d'esta noute;<br> + Nascerá a estrella de Jacó?<br> + O gado socegado adivinha;<br> + Não se bole no ninho a avesinha.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Quem o habitará?<br> + Quem o gozará?<span class="pn">{72}</span></blockquote> + +<h4>Adonis <em>(declamando, e passeando com grandes passos)</em></h4> + +<p>Oh! que terno, caro Manassés, cantastes! O conceito da tua cançoneta amorosa +me traz dôces lembranças. Ainda em nossos dias, veremos realisadas as +porfecias? Não caibo na pelle de estifeito; da-me pancadas o coração n'este +peito! <em>(Frederico despede um impulso de riso. Espantam-se os +cicumstantes.)</em></p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>O senhor está a mangar d'estes actos sérios?!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Pois isto é sério! então não ha nada ridiculo n'este mundo senão o snr. +boticario.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>O senhor é muito mal criado, é um incivil, é... é... um escrivão!<span +class="pn">{73}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Snr. Macario, não esteja a interromper o auto. Deixe lá rir quem quer rir; +chore vocemessê, se tem vontade.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Continuem lá vocês co'isso.</p> + +<h2>Scena II do Auto</h2> + +<h3>VOZ <small>D'UMA</small> PASTORA, <small>CANTANDO DENTRO</small></h3> + +<blockquote> + Ó Deus do céo, e da terra,<br> + Ó vós que podeis tanto,<br> + Ouvide nossos clamores<br> + Sêde propicio, ó Deus sancto!</blockquote> + +<h4><small>CÔRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4> + +<p>Do povo amado,<br> +Mandae o desejado.</p> + +<p><span class="pn">{74}</span> </p> + +<h5><em>(Os que estão no palco fazem scenas mudas de ternura muito +lorpas.)</em> </h5> + +<h4>Manassés</h4> + +<p>Escuta! Não foi Ruiva, a pastora que cantou?</p> + +<h4>Adonis</h4> + +<p>Foi. E os pastores tambem, que nenhum dorme.</p> + +<h2>Scena III do Auto</h2> + +<h3>O VELHO SIMEÃO <small>E</small> RUIVA</h3> + +<h5><em>(O velho vestido de pelles de carneiro. Ruiva de pastorinha, com um +cordeiro branco nos braços)</em></h5> + +<h4>Simeão <em>(com os olhos no firmamento)</em></h4> + +<p>Incelso, interno rei sobrano, que sobre os crebins tens assento, oubide os +nossos lamentos.</p> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Do povo amado,<br> + Mandae o desejado.<span class="pn">{75}</span></blockquote> + +<h4>Manassés</h4> + +<p>Agora creio no mysterio occulto d'esta noite. Rebella que todos os pastores +tem um só pensamento.</p> + +<h4>Simeão</h4> + +<p>Vinde pastores aqui todos; n'este campo contemplaremos o silencio da noute, +que o auctor d'altos mysterios annuncia.</p> + +<h4>Frederico <em>(escancarando a bocca)</em></h4> + +<p>Que semsaboria!</p> + +<h4>Macario e Cosme</h4> + +<p>Sio! <em>(prolongado.)</em></p> + +<h2>Scena IV do Auto</h2> + +<h3>ENTRAM PASTORINHOS <small>E</small> PASTORINHAS</h3> + +<h4>Ruiva <em>(declamando)</em></h4> + +<blockquote> + Aqui vimos, meus senhores,<br> + Adorar nós o menino:<span class="pn">{76}</span> <br> + No seu sancto nascimento<br> + Com grande contentamento.</blockquote> + +<h4><small>(CÔRO)</small></h4> + +<blockquote> + Se o menino é nascido,<br> + Nós o bamos précurar;<br> + Aparcei, senhor menino,<br> + Que vos queremos adorar.</blockquote> + +<h5><em>(Sáem por diversos lados.)</em></h5> + +<h2>Scena V do Auto</h2> + +<h3>UM REI TURCO <small>E DEPOIS OUTROS FIGURÕES</small></h3> + +<h4>Rei turco</h4> + +<h5><em>(Com uma cara horripilante, e trejeitos assustadores)</em></h5> + +<blockquote> + Sou o turco rei, que é<br> + Valoroso na arrogancia;<br> + Por ser filho da fortuna<br> + E neto da extravagancia!</blockquote> + +<p><span class="pn">{77}</span> </p> + +<h5><em>(Corre brandindo a espada d'um lado a outro.)</em> </h5> + +<blockquote> + De moiriscos reis nasci,<br> + Sou seu filho alentado,<br> + O meu braço furibundo<br> + Deixa tudo escangalhado.</blockquote> + +<blockquote> + Co'esta espada sou capaz<br> + De entrar pelo inferno dentro<br> + E pôr tudo em mil pedaços<br> + Que eu sou um rei sanguenolento!</blockquote> + +<h5><em>(Risada de Frederico.)</em></h5> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Já é pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar em +tão solemne passo!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Solemne passo, diz o nobre deputado! chamar <em>solemne passo</em> á +prostituição da arte!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>O snr. é que é uma prostituição! Bem disse<span class="pn">{78}</span> aqui +S. Ex.ª que o senhor é um atheu! um impio que zomba dos mysterios +dogmaticos!</p> + +<h4>Vozes <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Quebra-se-lhe a cabeça!—Bordoada rija!—Vamos a elle!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se colerica)</em></h4> + +<p>Essa canalha que se calle! Ó João Lopes, onde está o regedor?</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Saberá V. Ex.ª que o regedor tomou tamanha turca que está a cozel-a no +palheiro d'um lavrador.</p> + +<h4>Cosme <em>(com enfaze)</em></h4> + +<p>Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem social. +A auctoridade que dá o exemplo da relaxação dos costumes não póde educar as +massas. É necessario que não se desvirtue e desprestigie o funccionalismo,<span +class="pn">{79}</span> com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos +chegados á desmoralisação do Baixo-Imperio!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Apoiado!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Então os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto?</p> + +<h4>Pantaleão <em>(ao Rei turco)</em></h4> + +<p>Ó Zé da Custodia, diz lá o que tinhas a dizer.</p> + +<h4>Rei turco</h4> + +<p>Se isto não leva rumor, acaba-se a pandega!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Magnificamente! Está a coisa definida: isto é uma pandega, e querem os +moralões que a gente se desfaça em lagrimas! Faça favor de continuar, snr. rei +turco, que eu estou sério, e talvez chore.<span class="pn">{80}</span> </p> + +<h4>Rei turco</h4> + +<p>Agora não sou eu que boto a falla, é o outro rei. Entra, ó Manel Zarôlho! +<em>(Chamando para dentro.)</em> O Manel Zarolho é o rei christão. +<em>(Explicando.)</em></p> + +<h2>Scena VI do Auto</h2> + +<h5><em>(Entra um Rei christão com muitos pastores e pastoras)</em></h5> + +<h4>Rei christão</h4> + +<blockquote> + Eu trago os meus companheiros<br> + Fieis á minha nação,<br> + Para te convencer, ó turco,<br> + E para te fazer christão.</blockquote> + +<h4>Rei turco</h4> + +<blockquote> + Para onde ides, romanos,<br> + Que tão alegres vos vejo?</blockquote> + +<h4>Rei christão</h4> + +<blockquote> + Festejar o menino nado<br> + Que é todo o nosso desejo<span class="pn">{81}</span></blockquote> + +<h4>Rei turco</h4> + +<blockquote> + Que é do passaporte?</blockquote> + +<h4>Rei christão</h4> + +<blockquote> + Passaporte não trazemos,<br> + Se nos não deixas passar<br> + Para traz nós tornaremos.</blockquote> + +<h4>Rei turco</h4> + +<blockquote> + Para traz não heisde tornar;<br> + Que eu vou buscar algemas,<br> + Que vos quero algemar.</blockquote> + +<h4>Pastores e pastoras <em>(cantando)</em></h4> + +<blockquote> + Milagroso Deus menino,<br> + Esta obra vossa é;<br> + Ajudai-o a vencer<br> + O turco inimigo da fé.<span class="pn">{82}</span></blockquote> + +<h4>Rei christão</h4> + +<blockquote> + Saca lá da tua espada!</blockquote> + +<h4>Rei turco <em>(arrancando para elle)</em></h4> + +<blockquote> + Ó cão, que sova tu levas!</blockquote> + +<h2>Scena VII do Auto</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E UM</small> ANJO, <small>QUE SE METTE EM MEIO DOS DOIS +REIS</small></h3> + +<h4><em>Canta:</em></h4> + +<blockquote> + Detem-te, barbaro turco!<br> + Cessa a tua infeliz sorte;<br> + Faz-te christão, que não tarda<br> + Que te apanhe a feia morte.</blockquote> + +<h4><small>CÔRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4> + +<blockquote> + Faz-te christão que não tarda<br> + Que te apanhe a feia morte.<span class="pn">{83}</span></blockquote> + +<h4>Rei turco <em>(declama)</em></h4> + +<blockquote> + Eu sou o rei Almeirante<br> + La do reino da Turquia;<br> + Nunca fui prezoneiro,<br> + So do rei da Lixandria!</blockquote> + +<h4>O Anjo <em>(canta)</em></h4> + +<blockquote> + Detem-te barbaro turco, etc.</blockquote> + +<h4><small>CÔRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4> + +<blockquote> + Faz-te christão que não tarda<br> + Que te apanhe a feia morte.</blockquote> + +<h4>Rei turco <em>(afflicto)</em></h4> + +<p>Que é isto? que sinto? que tenho eu aqui? <em>(Com a mão sobre o +estomago)</em> Que tenho eu aqui?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Hade ser vinho. <em>(A Morgadinha ri-se ás escancaras.)</em><span +class="pn">{84}</span> </p> + +<h4>Macario <em>(sobremodo indignado)</em></h4> + +<p>Não ha noticia de tamanho escandalo!.. 0 snr. escrivão está mostrando que é +um homem de sentimentos muito herejes!..</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>E eu assaz me espanto que a snr.ª morgadinha applauda com a sua hilaridade +estas interrupções indecentes!</p> + +<h4>Rei turco <em>(zangado)</em></h4> + +<p>Eu cá é que não estou p'ra chalaças!.. Passem por cá muito bem. Por aqui me +esgueiro. Ó rapasiada, vamos embora. Manda tocar a marcha ó Antonho da Pêga. +<em>(Sáe com os personagens do auto, atraz da Musica, que vae tocando a +marcha.)</em><span class="pn">{85}</span> </p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>OS MESMOS, <small>EXCEPTO OS PERSONAGENS DO AUTO</small></h3> + +<h5><em>(Grande movimento e rapido. Macario gesticula com Jordão, e Pantaleão +com a filha. Alguns camponios de varapáo fazem cêrco a Frederico. A morgadinha +passa por meio d'elles, bamboando a cabeça e vibrando o chicotinho. Frederico +passeia com os cabos. Os camponios retiram-se, relançando olhos ameaçadores ao +escrivão.)</em></h5> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Isto já me aborrece, papá...</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Vamos embora, menina?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Por em quanto não: quero vêr o fôgo prezo; mas vou descançar um pouquinho a +casa dos cazeiros.<span class="pn">{86}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Vae, que eu vou buscar-te assim que principiar o fogo.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ó João Lopes, vem comigo. <em>(Sáem. Frederico retira-se pelo outro lado com +os cabos.)</em></p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h3>MACARIO, COSME <small>E</small> PANTALEÃO</h3> + +<h5><em>(Formam um grupo á parte, do povo que gira no fundo)</em></h5> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Ó snr. morgado, pois V. Ex.ª deixa fugir esta occasião de fazer quebrar o +espinhaço ao morôto?<span class="pn">{87}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>A occasião boa é; mas é que eu não quero que minha filha assista, por que +ella é capaz de se metter no meio da desordem.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Pelo que observo, esta sua filha é uma heroina grega ou romana, snr. +morgado! Ella faz lembrar a Pantasilea do Virgilio, e outras façanhudas +mulheres da historia antiga! Nos tempos presentes, sou a dizer a V. Ex.ª que a +mulher quer-se fragil, meiga e timorata; e por tanto permitta que eu censure a +educação que deu a sua filha!</p> + +<h4>Pantaleão <em>(docil)</em></h4> + +<p>Que quer V. Ex.ª? É filha unica, ficou sem mãe muito cedo, e foi creada á +laia de rapaz, a trepar ás arvores, a atirar aos passaros, e a jogar o páo; em +fim, confesso que andei mal avisado. Eu então achava-lhe muita graça; hoje não +lhe acho nenhuma; mas já não posso emendar<span class="pn">{88}</span> a mão. É +tarde; minha filha tem vinte e seis annos; hade ser difficil corrigir-se, só se +o casamento fizer a mudança, e espero que faça.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Se o casamento fizer a mudança! Ora essa! Pobre marido que não tem os +focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu cá por mim, snr. morgado, confesso +que tive certos intentos matrimoniaes com ella; á vista, porém, das suas +informações, declaro que desisto e renuncio, por que me não sinto com forças e +habilidade para domesticar uma cobra-cascavel...</p> + +<h4>Pantaleão <em>(formalisado)</em></h4> + +<p>Não consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha!</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Isto é uma comparação rethorica, litterariamente fallando.<span +class="pn">{89}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>É rethorica... não se offenda V. Ex.ª;... talvez ignore que a rethorica é +uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis...</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Não quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleão Cogominho de +Encerrabodes seja respeitada! <em>(Volta as costas, e sáe bufando.)</em></p> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>COSME <small>E</small> MACARIO</h3> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Isto é uma familia de hotentotes! Cheiram ao sertão estes selvagens! Do que +eu me escapei! Se caio nas mãos d'estes dois barbaros da edade media! Parece-me +uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemecê, snr. Macario, a<span +class="pn">{90}</span> dizer-me que esta fidalga tinha uma educação fina!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p><em>Fina</em>, não disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe +que ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differença, phisicamente +fallando.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Perdão. Vocemecê disse-me que ella tivera fina educação.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Isso então foi rethorica...</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Eu não admitto rethoricas em objecto tão sério como é o casamento! Olhem que +educação fina a d'este anjo! Trepa ás arvores, atira aos passaros, e joga o +páo! Que predicados estes tão mimosos para augmentarem as graças virginaes +d'uma menina! Não lhe falta senão vestir-se<span class="pn">{91}</span> de +homem, que é agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. +Uma menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canhão, e rompe com elles +por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de amores que nem +açafétida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma muito candida e muito +pura dentro do peito que se albarda com um paletó de homem para arrotar +francamente umas phrases de bomba real que nos fazem comichões nos miolos e +arrepios na espinha! Arreda! olha o que me estava reservado para os quarenta e +seis annos! Uma mulher assim paralisava-me as funcções do intellecto, e lá se +me iam as minhas ovações parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, +devo-me á regeneração da minha patria, sou homem publico; e um homem publico +quando se casa deve fazel-o com dama que o não impeça nem apoquente. A femea +natural do homem politico é a politica; a esposa, para os homens devotados aos +interesses materiaes do seu circulo, significa tão sómente um supplemento vivo +e util ás commodidades domesticas. Percebe vocemecê, snr. Macario?<span +class="pn">{92}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Ora se percebo! A minha mulher cá para mim tambem é um supplemento ha muitos +annos; e mais eu faço-a trabalhar na politica enchendo os bilhetes de votos na +eleição. Diz V. Ex.ª muito bem, que nós os homens publicos não temos tempo para +cuidar de mulheres... <em>(Reparando em Frederico)</em> Ahi vem o atheu...</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Vou-me safando que não quero palestras com este safio. <em>(Sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>MACARIO <small>E</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Frederico <em>(encarando o outro com a costumada careta)</em> </h4> + +<p>O douto pharmacopóla está irado contra mim por que fui causa a +interromper-se o escandalo do auto...<span class="pn">{93}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Eu não me metto com o senhor... Tenha a bondade de não embarrar cá por mim. +</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>A sciencia é sempre orgulhosa. Façamos pazes e alliança, snr. Macario +Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a sua +sciencia do bazalicão e do oleo de mamona, podemos dominar este concelho, +reunidas as duas forças n'uma aspiração unica. Por que me faz guerra inexoravel +e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu consorcio com a Morgadinha? +Por que anda o snr. servindo de alcaiote d'este alarve de Guimarães, que é o +trompão grandioso das maiores asneiras civicas assopradas na charanga +parlamentar? O officio do snr. Macario, n'este negocio, desacredita um +pharmaceutico, que reune ao conhecimento do gamão, sciencia não vulgar da +historia dos doze Pares de França, e tem orvalhado com lagrimas os fastos +sanguinosos de <em>Roncesvalhes</em>.<span class="pn">{94}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Vá mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem é +Macario Mendes... <em>(Sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>FREDERICO, JOÃO LOPES, <small>E CABOS</small></h3> + +<h5><em>(As cantadeiras que no fim do 1.º acto acompanharam a morgada entram a +cantar a moda com que se fechou o dito acto:)</em></h5> + +<blockquote> + <em>D'onde vens, ó velha,</em><br> + <em>Eu venho da feira</em>, etc.</blockquote> + +<h5><em>(N'um intervalo da 1.ª á 2.ª trova João Lopes acerca-se de Frederico +com disfarce)</em></h5> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Estão-se a +preparar os valentões.<span class="pn">{95}</span> <em>(Frederico apita rijo. +Apparecem de differentes sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em +quanto se repete a cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fóra o rumor da +desordem, e o estalido dos varapáos. As cantadeiras fogem alvoroçadas a dar +gritos.)</em></p> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>FREDERICO, <small>CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS</small></h3> + +<h4>Frederico <em>(com intimativa bellica)</em></h4> + +<p>Formem em linha. Carregar armas!</p> + +<h4>Um cabo</h4> + +<p>Estão carregadas.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Vamos ser atacados pelos desordeiros. Á voz de fogo, atirem. <em>(Vê-se +atravessar a scena por<span class="pn">{96}</span> entre o povo um Desconhecido +de chapéo derrubado, o rosto coberto por um lenço, de caraça, polainas de +briche nas pernas e pés, com um grosso páo de choupa. Proximos de Frederico os +valentões param, com os páos cruzados nas pernas, gingando em attitude +ameaçadora. Frederico, não se desvia dos cabos. De repente, rompem de fóra uns +poucos varrendo o campo a pauladas.)</em></p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Cabos de policia, sentido! Preparar armas! <em>(Sáe perto da bocca da scena +o Desconhecido. Encosta-se ao páo observando os movimentos dos valentões, os +quaes vem já avançando, já recuando, crescendo sobre Frederico.)</em></p> + +<h4>Frederico <em>(aos cabos)</em></h4> + +<p>Aperrar armas! <em>(Uma paulada faz saltar a clavina das mãos d'um cabo. Os +outros fogem. Frederico recúa, apitando rijamente. No maior aperto, o +Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do páo, e arremette +com os aggressores. Estes, forçados pela destreza, fogem,<span +class="pn">{97}</span> logo que o primeiro cáe d'uma paulada. A vozeria cresce +no momento em que o palco está despejado. O Desconhecido trava do braço de +Frederico, e o traz á bocca da scena.)</em></p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Quem é o valente homem a quem devo a vida?! quem é?</p> + +<h4>Morgadinha <em>(arrancando o lenço do rosto)</em></h4> + +<p>Sou eu! salvei-te, Frederico!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Ó morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como és ideal e angelica! +<em>(Ajoelhando.)</em><span class="pn">{98}</span> <span class="pn">{99}</span> +</p> + +<h4>FIM DO SEGUNDO ACTO. </h4> + +<h1>ACTO TERCEIRO</h1> + +<h5>Salão da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia. +Reposteiros já envelhecidos com brazões. Alguns retractos. Um piano +moderno.</h5> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h3>PANTALEÃO <small>E</small> MACARIO</h3> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha, desde +que começou a vestir-se á moda, e a tocar piano, está muito distrahida do +troca-tintas do escrivão. Não anda por janellas, não sáe de casa, e gasta +alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a vestir-se. Isto custa-me um +dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.<span class="pn">{100}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>E quem é que ensina a snr.ª morgadinha a tocar?</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>É a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com loja +de fazendas brancas...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Bem sei, bem sei.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Foram lá as primas de Ruivães que fizeram a descoberta; mas o que tem muita +graça é que o homem da mestra é tão ciumento que só a deixa ir a casas onde não +ha homens...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Que tal pezêta é ella!..<span class="pn">{101}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>E para vir aqui, pôz por condição que a mulher só viria á noitinha +acompanhada pelo marido que a deixa á porta, e vem por ella duas horas depois. +Eu estive quasi a não aceitar tal professora por saber que o escrivão de +fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que ella fosse +medianeira d'alguma carta...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>E tem rasão, snr. morgado... Veja lá!.. olhe que o mundo é um covil de +marotos!</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Não ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pôz fóra +da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia d'ôlho a +consorte.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Não que sem licença d'elle não ha maior<span class="pn">{102}</span> +desmoralisação n'este mundo! Aquillo tem mesmo idêas de Sardanapalo! Ainda bem +que lhe está por um fio a ladroeira da repartição...</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Conte lá isso então. Em que termos está a bernarda? Rebenta hoje ou ámanhã? +</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Hoje. Está tudo alevantado quando fôr nove horas. Os sinos hão-de tocar a +rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo cáe todo sobre Santo +Thyrso, e faz cêrco para que o escrivão não possa escapulir-se; que elle é leve +como uma penna, e quando a gente mal se precatar, vê-o fazer vispre, zêpe-zêpe +<em>(expressão sibilante para imitar a rapidez da corrida.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que não vão os +meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que<span +class="pn">{103}</span> eu desejo é que elle não appareça mais em Santo Thirso. +Lá a respeito da papellada isso é queimal-a toda; que depois o governo como não +tem cadernos para a cobrança dos impostos, não o manda para cá a elle nem a +outro.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Grande idêa é essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa. Se a +gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer economias, +porque depois não havia quem quizesse servir os empregos. O sytema é um bocado +violento para os empregados, mas eu não vejo outro meio de os ir acabando... +</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Não acho isso humanitario!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos, leio +jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheço<span +class="pn">{104}</span> por dentro e por fóra o paiz e as suas necessidades. +Fique certo d'isto; em quanto se não der fim a uma casa a que os jornaes chamam +<em>burrocracia</em>, não se indireita a patria.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Como se chama isso?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p><em>Burrocracia</em>, que pelos modos é palavra de idioma francez, que vem a +dizer empregado publico.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Snr. Macario, vá indo cá com as minhas idêas moderadas. O melhor systema de +se acabar com os escrivães de fazenda é queimar os cartorios. Eu lhe ponho uma +comparação. Se eu queimar a palha que tenho, e não comprar outra, que me +acontece á minha parelha de machos? Morrem de fome, não é verdade?<span +class="pn">{105}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Isso é.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois ahi tem: os escrivães, em se lhe queimando os papeis, não tem que roer. +</p> + +<h4>Macario <em>(duvidoso)</em></h4> + +<p>Nada; a comparação dos machos não me convence, queira V. Ex.ª perdoar. +<em>(Com energia)</em> Matal-os, matal-os, é o grande <em>desideratum</em>.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>E os papeis? deixam-se ficar?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrivães! Nada de +cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa é causticos e ventosas.<span +class="pn">{106}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Ora vocemecê, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha está o +processo da execução que a fazenda nacional me move...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Por seis contos d'uma fiança dos bens dos frades, sei muito bem... Esteja +descançado, que não ha de lá ficar papel em que se amortalhe um cigarro.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Quem é o chefe da revolução?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Á falta d'homens por hora sou eu; mas não sei a que os commandantes das +freguezias decidirão. Já ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex.ª general +em chefe.<span class="pn">{107}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Homem, tire isso da cabeça ás freguezias. Vocemecê bem sabe que eu ando +muito adoentado dos intestinos, e não posso deixar de tomar o meu banho de +canôa á noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revolução; mas +entrar nella em pessoa não posso por causa d'esta molestia dos reins que me não +deixa cavalgar; e vocemecê bem entende que um general em chefe a pé não tem +geito, nem pode vêr de longe o inimigo, se nos fôr necessario entrar em batalha +com o exercito. Dispensem-me por tanto de tamanha honra.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Farei as diligencias; mas receio que...<span class="pn">{108}</span> </p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido muito +curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido ás pernas; grande laço na +cintura posteriormente; sapatos de salto dourado; cabelleira com estupendos +tufos encaracolados.)</em></h5> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Vens para o piano, Joanninha?</p> + +<h4>Morgadinha <em>(pondo luneta d'oiro)</em></h4> + +<p>Sim, papá, vou estudar a minha lição de escala. <em>(Senta-se ao +piano.)</em></p> + +<h4>Macario <em>(á parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)</em></h4> + +<p>Que desmoralisação! Isto é o peccado em carne e ôsso!<span +class="pn">{109}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Está vocemecê admirado d'estas modas, amigo Macario!</p> + +<h4>Macario <em>(ironico)</em></h4> + +<p>São bonitas... <em>(Grave)</em> Mas não acho isto decente para a observancia +dos bons costumes.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que quer? é moda; andam assim todas as senhoras do tom.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim não hão de vestir, se Deus +quizer.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(voltando o rosto com aborrecimento)</em></h4> + +<p>Então as suas filhas são senhoras?<span class="pn">{110}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>D'aquella massa se fazem, snr.ª morgada...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(dedilha nervosamente nas teclas)</em></h4> + +<p>Adeus, adeus. Temos historia!</p> + +<h4>Pantaleão <em>(a meia voz)</em></h4> + +<p>Não a zangue... Deixe-a lá... Tomára eu que ella se entretivesse com os +vestidos...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>A cabeça... está feito, mas as pernas a vêr-se-lhe, snr.ª morgada! Assim não +se podem observar os bons costumes... <em>(A Morgadinha canta acompanhando a +escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas altas. Macario Mendes, +offendido pela desharmonia, faz caretas.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Ainda não sabes cantar modinha nenhuma, menina?<span class="pn">{111}</span> +</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>A mestra não quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que é o essencial. +<em>(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario despede-se, +apertando a mão a Pantaleão.)</em></p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Veja lá os meus papeis, snr. Macario.</p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E</small> JOÃO LOPES</h3> + +<h4>João Lopes <em>(trazendo castiçaes com luzes)</em></h4> + +<p>Está na sala de espera a snr.ª mestra pianista e mais o marido.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Está! Papá, é preciso sahir, tenha paciencia.<span class="pn">{112}</span> +Bem sabe que ella, se vir homem aqui, não entra.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Está bom pedaço d'asno o marido! Então elle não sabe que eu sou um homem +sério!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que quer o papá! Já lhe tenho dito que póde entrar segura de que não ouve +palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que a mestra +fallou com um homem, seja elle quem fôr, não a deixa voltar.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Com certos individuos tem elle rasão; mas nem todos são como o devasso +escrivão de fazenda, que lhe andava a fazer a côrte á mulher, e por isso foi +posto de lá para fóra. Acho justo que elle se acautele dos tratantes; mas de +mim... parece-me bestialidade! Emfim cá vou. <em>(Sáe.)</em><span +class="pn">{113}</span> </p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h3>MORGADINHA, JOÃO LOPES <small>E DEPOIS</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Póde entrar a snr.ª D. Thomazia.</p> + +<h4>João Lopes <em>(para dentro, levantando o reposteiro)</em></h4> + +<p>Póde entrar a snr.ª D. Thomazia. <em>(João Lopes sáe, assim que entra a +supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de véo espesso, e +cachos. Chapéu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir a cara. Vae +direito ao piano. Vê-se a cabeça de Pantaleão que espreita por uma fimbria do +reposteiro. João Lopes tosse.)</em></p> + +<h4>Morgadinha <em>(alto)</em></h4> + +<p>Passou bem, snr.ª D. Thomazia!.. <em>(Baixo)</em> Não me falles que meu pae +está espreitando, em quanto João Lopes tossir... <em>(Tocam e cantam<span +class="pn">{114}</span> a escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia +nas vozes.)</em></p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>O snr. morgado já está no pateo a conversar com o marido do snr. Frederico; +estejam á vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando eu tossir, vejam +lá...</p> + +<h4>Frederico <em>(levanta o véo, abraçando o velho)</em></h4> + +<p>Este João Lopes é um prodigio de dedicação! é o typo genuino do antigo +creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, João Lopes, você ha de +progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a você +um habito de Christo!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Deixa-o ir, deixa-o ir... <em>(João Lopes sáe.)</em><span +class="pn">{115}</span> </p> + +<h4>Frederico <em>(tomando-lhe as mãos calorosamente)</em></h4> + +<p>E os nossos sonhos vão realisar-se, minha fada! Oh! <em>(contemplando-a +absorto)</em> que deslumbrante! que eclipse estás fazendo nos anjos do céo! Não +és só uma bellesa! és um milagre! uma gloria! uma divinisação! Não ouso +beijar-te as mãos... Os pés, os pés! Estes pés requerem tapetes de labios e +almofadas de corações! Consente que t'os beije, houri!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(desviando-se)</em></h4> + +<p>Não sejas tôlo! Gostas de me vêr assim?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as fibras +intimas do peito! Luz, luz que me cégas, faz-te lavareda, e... devora-me!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vamos ao caso... Como estão os negocios?<span class="pn">{116}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que será consagrado +nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida, requerendo tu a tua +emancipação, visto que já contas vinte e seis annos; mas, como receias que eu +seja assassinado logo que requeiras ao juiz, cumpra-se a tua vontade. <em>(João +Lopes tosse. Vão sentar-se rapidamente ao piano, tocando e cantando a escala. +Depois, a Morgadinha vae espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa +voluptuosa que obriga a Morgadinha a fazer alguns passos de dança. Frederico, +arrebatado do donaire gracioso d'ella, ergue-se de mãos postas fazendo +tregeitos de enlevado.)</em></p> + +<h4>João Lopes <em>(mettendo a cabeça)</em></h4> + +<p>Podem conversar, que elle passou para a tulha.</p> + +<h4>Frederico <em>(com transporte)</em></h4> + +<p>És divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanças o pé +quebradiço<span class="pn">{117}</span> e chinez em attitude dançante, sacodes +e impelles brazas á minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus pés +lindissimos. Tudo que fazes mata e aviventa. Como não serás esbelta, nos salões +de Lisboa, princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos +cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de +felicidade por todos os póros! Ó Joaninha, deixa-me sonhar! <em>(Fixa os olhos +espantados no tecto da platêa. Musica surda)</em> A minha vida vae ser uma +etherisação de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taças nectáreas +do céo, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... Esse rosto em que +se espelham as formosuras não vistas de Angelos nem de Raphaeis, será o meu +Al-korão, porque o summo artifice escreveu ahi a suprema estrophe do seu poema. +Quando os teus olhos se abrirem ao diluculo da manhã, vêr-me-has de joelhos a +beijar os teus cabellos; quando os fechares, cansados de serem beijados, e as +sedosas palpebras se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me +quedarei a teus pés velando que os sylphos amorosos da noite não ousem +perturbar o teu dormir. Oh! Joanna, Joanna!<span class="pn">{118}</span> +<em>(Ajoelha-se-lhe aos pés. João Lopes tosse com maior força. A morgadinha +adverte em vão Frederico que continúa no seu arrebatamento:)</em> Abre-me aqui +já o sepulchro, se em alguma hora hei de sentir-me orphão dos teus carinhos... +<em>(Pantaleão ao fundo, erguendo o reposteiro.)</em></p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ah!</p> + +<h4>Frederico <em>(sobresaltado)</em></h4> + +<p>O diabo! <em>(Desce o véo. Canta qualquer aria conhecida no acto de +ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente á Morgadinha:)</em></p> + +<blockquote> + Diz a teu pai que a mestra<br> + Para melhor te ensinar,<br> + Te está cantando uma ária<br> + Das que se usa cantar<br> + No Theatro de Lisbôa:<br> + Prega-lhe a pêta, que é bôa;<br> + E se esta nos não salva,<br> + Nada nos póde salvar.<span class="pn">{119}</span></blockquote> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E</small> PANTALEÃO</h3> + +<h4>Pantaleão <em>(ao fundo)</em></h4> + +<p>Então que é isso?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>É a minha mestra que me está ensinando uma ária das que se cantam no theatro +de Lisbôa.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Ella tem a voz tão grossa! Não parece voz feminina!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ella canta na voz que quer.... Então o papá já se esqueceu que o marido +d'ella...<span class="pn">{120}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Está bom, está bom; eu vou-me embora. Lá estive conversando com o marido da +senhora, e lhe disse que não tivesse ciumes que eu sou um velho!... Aquelle seu +marido parece-me um doudo!.. <em>(Rindo)</em> Ora andem lá, andem lá. +<em>(Sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>FREDERICO, MORGADINHA <small>E</small> JOÃO LOPES <small>A +INTERVALOS</small></h3> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Salvei-te ou não? Tu salvaste-me com a força, na romaria; e eu aqui, +salvei-te com o genio! Vês como o amor me deu espirito n'um trance difficil? +Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos teus olhos, ó +formosa! <em>(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sôa de diversas longitudes. +Rumôr longiquo de vozes.)</em><span class="pn">{121}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que será isto!? Ó João Lopes!</p> + +<h4>João Lopes <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Que quer, snr.ª morgadinha?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sabes a que tocam os sinos? é fogo?</p> + +<h4>João Lopes <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Fogo não me parece. Acho que é bernarda. Estou cá á janella a vêr se entendo +a gritaria.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Diz que é bernarda...</p> + +<h4>Frederico <em>(alvoroçado)</em></h4> + +<p>Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sériamente<span class="pn">{122}</span> +comigo, comtigo, comnosco, com o nosso futuro, Joanna!</p> + +<h4>João Lopes <em>(dentro)</em></h4> + +<p>É revolução.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Revolução!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Não ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Qual perder-me! Importa-me cá a mim a bernarda! Hei de ser tua! Não temas, +Frederico, que eu sou forte!..</p> + +<h4>João Lopes <em>(na scena)</em></h4> + +<p>Já intendi o que elles dizem... Dão morras<span class="pn">{123}</span> aos +papeis, e que se queime o escrivão da fazenda... E trazem musica... Ouvem?... +<em>(Ouve-se distinctamente, mas ainda longe, o hymno da «Maria da Fonte», á +mistura com os «môrra!»)</em></p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>O snr. morgado está na torre a ouvir. Agora bom será que o snr. Frederico se +escape, senão desconfio que o matem, sendo aqui pilhado... <em>(Frederico +apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha agarra-o.)</em></p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Não te deixo sahir agora, que é perigoso.</p> + +<h4>Frederico <em>(muito inquieto)</em></h4> + +<p>Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! Dá-me armas que eu quero +defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver de doze +tiros! Quero armar-me até aos dentes, e combater, e morrer gloriosamente ao teu +lado!<span class="pn">{124}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Frederico, tu estás maluco!.. Olha que elles não vem cá... Não percas o +juizo!</p> + +<h4>Frederico <em>(muito á tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)</em></h4> + +<p>Não vem? Vem! Escuta! escuta! Não ouves o bramido do tigre popular? Olha... +é o leão que ruge, partidos os grilhões de respeito á lei! É a Libia e a +Hircania a vomitarem féras! Olha o lago sujo como se levanta em vagalhões e +como elles roncam!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vem então esconder-te, vem esconder-te!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Não! Um homem não se esconde quando olhos como os teus são testemunhas de +tamanha covardia! É mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido ignobilmente! +<em>(Arranca os vestidos mulheris:<span class="pn">{125}</span> fica de +quinzena; mas conserva o chapéo e os boucles)</em> Agora, armas! armas! <em>(A +morgada ri-se apontando-lhe para a cabeça.)</em> Por que ris tu, mulher forte! +porque ris tu, se fazes favor?!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Tira a cartola e os cachos, meu amor.</p> + +<h4>Vozes <em>(que sobrelevam o estrondo dos figles)</em></h4> + +<p>Morra o escrivão de fazenda! morra! <em>(Grande catharro de João +Lopes.)</em></p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>É chegada a hora! Dá-me um abraço, querida! Um abraço! e até ao reino +eterno! As nossas nupcias são no céo!.. <em>(Aponta para o tecto e fica como +extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e sáe com dous +bacamartes de bocca de sino.)</em><span class="pn">{126}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! <em>(Ella +aperra o bacamarte.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>OS MESMOS, PANTALEÃO <small>E</small> JOÃO LOPES</h3> + +<h4>Pantaleão <em>(estupefacto)</em></h4> + +<p>Que vejo? que é isto? como entrou este homem aqui?</p> + +<h4>Frederico <em>(atirando ao chão o bacamarte)</em></h4> + +<p>Venho offerecer-me á vingança de V. Ex.ª</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Meu papá, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mão de esposa!<span +class="pn">{127}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Das duas uma: ou o senhor foge, ou é espatifado pelo povo!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Não sei fugir: sei morrer.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Mas vá morrer a casa do diabo; não quero que o matem aqui.</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>V. Ex.ª tem rasão; matal-o aqui é máo: o melhor é eu ir escondêl-o no meu +quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos da menina +não ficavam com muita saude.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Pois vae escondêl-o... some-o no inferno!<span class="pn">{128}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha, sua +filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu papá +<em>(ajoelha-lhe)</em> eu já não posso deixar de ser esposa de Frederico, e +juro que sou d'elle na vida e na morte! <em>(Ergue-se: conduz Frederico pela +mão, e ajoelha com elle)</em> Dê-nos a sua benção, querido papá!</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Nunca! nunca! <em>(Ouvem-se fora as acclamações.)</em></p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se soberba)</em></h4> + +<p>Então, não tenho pae! tenho só marido! Se o povo o matar, ha de vêr +morrer-me ao pé d'elle... mas vingada!.. <em>(Lança mão do bacamarte)</em> Que +entre o povo!<span class="pn">{129}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Em que apertos me vejo! Rebenta-me o coração!..</p> + +<h4>João Lopes <em>(muito commovido)</em></h4> + +<p>Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!..</p> + +<h4>Pantaleão <em>(a Frederico)</em></h4> + +<p>Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Obedeço, por que m'o ordena o pae d'este anjo. <em>(Sáe com João +Lopes.)</em><span class="pn">{130}</span> </p> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>PANTALEÃO <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Perdi a cabeça!.. Estou doudo... não sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!.. +onde está a pianista, que está alli fóra o marido á espera...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>A pianista?..</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Sim, a pianista onde está?.. <em>(Olha para o chão, tropeçando no vestido de +mulher)</em> Que é isto? <em>(levantando o chapéo e os caracoes)</em> Que é +isto?! que é isto, Joanna?..</p> + +<h4>Morgadinha <em>(afflicta)</em></h4> + +<p>Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!..<span +class="pn">{131}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Então a pianista era... era o escrivão?!..</p> + +<h4>Morgadinha <em>(soluçando)</em></h4> + +<p>Era, sim, snr.!</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Que sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o +patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!..</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>É meu espôso... perdôe-nos...</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Tu és o demonio, mulher!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sou uma infeliz apaixonada... O meu papá,<span class="pn">{132}</span> tenha +piedade! Olhe que o Frederico é muito bom môço. Se não é fidalgo hoje, póde +sêl-o ámanhã. O papá bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr'ó +outro.</p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Ergue-te, ingrata, que déste cabo de teu pae! <em>(Rompe a musica pelo +interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)</em></p> + +<h2>SCENA IX</h2> + +<h4>JOÃO LOPES, PANTALEÃO, MORGADINHA, MACARIO</h4> + +<h5><em>(A musica, na vanguarda, ladeia para dar passagem a Macario vestido de +official de ordenanças, mas com chapéo embicado. Traz uma espada empunhada, e +outra debaixo do braço, seguem-no 12 commandantes subalternos, vestidos a +capricho, uns com chapéo redondo e banda e dragonas, outros de barretina e +niza. Um d'estes arvora uma bandeira de varias côres.)</em></h5> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Viva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das forças populares +do Minho!<span class="pn">{133}</span> </p> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Viva! <em>(Cala-se a musica.)</em></p> + +<h4>Macario <em>(á frente dos revolucionarios com enfaze oratoria)</em></h4> + +<p>Snr. morgado! As forças populares de seis freguezias que ahi estão reunidas +fóra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim, á frente dos +seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a V. Ex.ª que por voto +geral foi acclamado general em chefe d'esta provincia. Eu lhes fiz um eloquente +discurso para os tirar d'essa ideia, allegando com o meu gráo de pharmaceutico +que V. Ex.ª soffria dos intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles +não me attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex.ª a espada de general +em chefe. Aqui está por consequencia esta valente espada que matou em 1810 +muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mãos de V. Ex.ª limpar este +paiz de escrivães de fazenda e outros mariolas que nos desgraçam. Receba V. +Ex.ª das minhas mãos esta espada e salve com ella a patria do snr. D. Affonso +Henriques!<span class="pn">{134}</span> </p> + +<h4>Os commandantes</h4> + +<p>Viva o snr. boticario! Viva!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Obrigado, valentes guerreiros! <em>(A musica executa uma marcha muito +compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada +offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz signal de +que quer fallar. Silencio.)</em></p> + +<h4>Pantaleão <em>(commovido)</em></h4> + +<p>Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impressão me fizeram as vossas +palavras e não pude deixar de me commover... Estou realmente commovido, e +sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe que as minhas +doenças e outras desgraças me não permittem tomar o commando das valentes +forças populares que representaes. Não posso, senhores, não posso. Se a fortuna +me tivesse dado um filho, essa espada estaria já nas mãos d'elle.<span +class="pn">{135}</span> </p> + +<h4>Morgadinha <em>(tirando a espada da mão de Macario)</em></h4> + +<p>Está nas mãos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou mulher, ha +de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle será digno d'ella! +<em>(Chamando) </em>Frederico! Frederico!</p> + +<h2>SCENA ULTIMA</h2> + +<h4>OS MESMOS <small>E</small> FREDERICO</h4> + +<h4>Frederico <em>(ajoelhando diante da morgadinha)</em></h4> + +<p>Sim! sim! recebo de vossas mãos, Senhora, a espada que ha de decepar as +infinitas cabeças da hydra financeira! <em>(Espanto geral.)</em></p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!?<span +class="pn">{136}</span> </p> + +<h4>Pantaleão</h4> + +<p>Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio!</p> + +<h4>João Lopes</h4> + +<p>Vae ser o marido da menina... <em>(a Pantaleão)</em> Faça favor de não +desmaiar, por quem é!</p> + +<h4>Frederico <em>(com vehemencia e fogo)</em></h4> + +<p>E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos á victoria, +briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por vós, +intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pôdres em que o +prostraram os comilões. Eu fallo assim, porque cada nação, nas horas criticas, +tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da rethorica. Vamos a elles, +filhos da victoria! As nossas bandeiras desenroladas aos ventos das batalhas, +dirão: Riqueza e Moralidade! Em menos de quatro annos de regimen moral, e dieta +aos lambões, o paiz não deverá nada, e vós não pagareis um pataco de +decima.<span class="pn">{137}</span> </p> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Apoiado!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Cidadãos! Eu tenho estudado profundamente as doenças de Portugal e pude +descobrir onde está o cancro que nos róe. Ahi vae o meu programma: O meu +systema é dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem seu +presidente de eleição popular, quero dizer, cada conselho governa-se a si, e +não quer saber do conselho visinho. Não sei se me percebem...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Muito bem, entendemos muito bem.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que não tem nada com a +republica de Famalicão, nem com a republica de Fafe. Nós cá vivemos com o que é +nosso, fazemos as<span class="pn">{138}</span> nossas despezas, e não damos nem +vintem aos de fóra. </p> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Apoiado! apoiado!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Aqui está o meu systema que ainda não lembrou a ninguem, e que é o resultado +de quinze annos de estudo. Conseguido isto, não temos a sustentar tropas, +<em>(Apoiados)</em> nem as estradas por onde andam os outros, +<em>(Apoiados)</em> nem theatros onde os outros se divertem, +<em>(Apoiados)</em> nem escrivães de fazenda. <em>(Apoiados)</em> E declaro que +me dou já por demittido do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando: +Guerra e morte a todos os escrivães de fazenda! <em>(Os populares desembainham +as espadas, e bradam: «guerra de morte!»)</em> E, portanto, senhores, beijo +esta espada, e leio na sua lamina, os novos destinos que vão alvorecer para +Portugal! Recebi-a da mão do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E +concedei, cidadãos, que essa bandeira<span class="pn">{139}</span> seja +arvorada nas mãos da Judith lusitana! Não mais cahirá aos pés de vencedor algum +o estandarte que foi consagrado pela filha d'este honrado fidalgo! +<em>(Frederico, tem passado a bandeira á Morgadinha, a qual se colloca de +maneira que o pae fica entre ella e Frederico.)</em> Bravos sycambros de Santo +Thyrso! agora, á victoria, á victoria que a patria nos chama! Está inaugurada a +republica confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! <em>(Os musicos executam. +Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a +bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentões. João Lopes +sentado com os queixos entre as mãos contempla tudo aquillo. Corre o +panno.)</em></p> + +<h4>FIM.</h4> + +<p><span class="pn">{141}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h1>ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</h1> + +<h4>ENTREMEZ EM UM ACTO</h4> + +<p><span class="pn">{143}</span> </p> + +<h2>PERSONAGENS</h2> +<ul> + <li>A<small>NICETO DA</small> S<small>ILVA</small>, pae de </li> + <li>V<small>ICTORINA.</small> </li> + <li>G<small>UTERRES</small> A<small>RTHUR DE</small> M<small>IRAMAR.</small> + </li> + <li>J<small>OSÉ</small> P<small>IMENTA.</small> </li> + <li>U<small>M</small> C<small>READO.</small> </li> +</ul> + +<p><span class="pn">{144}</span> <span class="pn">{145}</span> </p> + +<h1>ACTO UNICO</h1> + +<h5>Salão de estalagem em Barcellos. Quartos numerados desde 1 a 12, occupando +os lados, e parte do fundo. Um d'elles o n.º 10 tem sobranceira á porta uma +vidraça ou bandeira. Sobre um canapé de palha está uma viola francesa.</h5> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h5><em>(Ao erguer o panno vem entrando Aniceto e Victorina precedidos de um +creado com dois saccos de noute e castiçal.)</em></h5> + +<h3>ANICETO, VICTORINA, CREADO</h3> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Vamos a saber: temos dois quartos limpos e camas asseadas onde se passe a +noute?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Háde haver.<span class="pn">{146}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ha de haver?! Pergunto se ha.</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Faça favor de entrar aqui para o n.º 6; e acolá defronte está o n.º 10 +tambem de vago. <em>(Põe a bagagem dentro dos quartos.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Então os outros estão occupados? Pelo que vejo reuniram-se muitos viajantes +em Barcellos. Teem bom gosto! Quem está hospedado cá?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Nos n.<sup>os</sup> 1, 3, 5, 7 e 9 estão as snr.<sup>as</sup> fidalgas de +Lanhoso, que são seis velhas.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que faz por aqui esse mulherío?<span class="pn">{147}</span> </p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Vão para os banhos da Povoa. V. S.ª faça favor de fazer pouca bulha que +ellas recommendaram-me todo o socego, que queriam dormir.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Pois que durmam. Ora que me importa cá a mim as fidalgas de Lanhoso!</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>V. S.ª toma alguma cousa?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Queres chá, Victorina?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Não quero nada. Quero deitar-me, que estou moída. O meu quarto é aquelle? +<em>(Apontando para o 10.)</em><span class="pn">{148}</span> </p> + +<h4>Aniceto <em>(indo examinar o quarto)</em></h4> + +<p>Para onde deita aquella janella?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Para o quintal.</p> + +<h4>Aniceto <em>(indeciso)</em></h4> + +<p>Para o quintal? está bom... Vá... Vae-te deitar, menina. <em>(Ao +creado)</em> Vá você buscar outra luz. <em>(O creado sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> VICTORINA</h3> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Boas noutes, meu pae.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Boas noutes. Se fôr preciso alguma coisa, bate na porta trez palmadas.<span +class="pn">{149}</span> </p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ai! <em>(Gemido longo.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Deixemo-nos de ais, Victorina. Juizo, juizo e juizo! <em>(Victorina +recolhe-se. O pae fecha a porta, e tira a chave.)</em></p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>ANICETO <small>E O</small> CRIADO <small>QUE VEM COM O CASTIÇAL</small></h3> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Diga-me cá vossê...</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Meu amo, que manda?<span class="pn">{150}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Por aqui é tudo femeas, ou tambem ha machos?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Machos?!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Sim, homens! Se estão homens n'estes quartos.</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Já disse que não, meu amo. Não ha homens.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Da banda do Porto não veio passageiro nenhum?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Não snr.<span class="pn">{151}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Está bom; dê cá você a luz e vá-se embora. Ás 7 da manhã, chame-me se eu não +estiver a pé, ouviu?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Sim snr. <em>(Aniceto recolhe-se, e fecha-se por dentro.)</em></p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h3>GUTERRES <small>E O</small> CREADO</h3> + +<h4>Guterres <em>(com um sacco de viagem)</em></h4> + +<p>Olá, Gregorio!</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Por cá, snr. Guterres! Como está V. S.ª?<span class="pn">{152}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Bom. Ha quarto?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Hade haver. D'onde vem?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Está cá? +</p> + +<h4>Creado <em>(rindo)</em></h4> + +<p>Ora V. S.ª que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta é a setima vez +que o vejo n'aste fadario! E o maganão sabe-as escolher!</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Então viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde está ella?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Alli no n.º 10.<span class="pn">{153}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dirá que o meu +ideal sonhado ha trinta e seis annos está na estalagem de Barcellos! Alli! +n'aquelle antro!</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Sempre V. S.ª está um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do regedor +de Guilhabreu que cá esteve na festa das Cruzes ha cinco annos?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos...</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>E os versos que V. S.ª lhe botou? a gente sempre se ria...</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Ah! vocês riam-se dos versos? Tens tu a felicidade<span +class="pn">{154}</span> bestial de te rires da poesia? O talento póde contar +com o couce até em Barcellos... Ora vamos... onde tenho eu quarto?</p> + +<h4>Creado <em>(indicando-lhe um do fundo)</em></h4> + +<p>Está alli o n.º 11.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Bem. Podes ir. <em>(Entra na alcova. O creado sáe.)</em></p> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>ANICETO <small>SAINDO COM O CASTIÇAL EM PUNHO</small></h3> + +<p>Não posso adormecer com a idêa de que ha uma janella no quarto de Victorina. +Aquelle maldito não me deixa socegar em parte nenhuma. Receio que elle me siga +por que o lobriguei quando passávamos em Vallongo; e ella tambem o viu. Quem me +diz a mim que o tratante<span class="pn">{155}</span> nos não persegue, e anda +á volta da casa? Cuidar aquelle valdevinos que se pôde com uma flauta arranjar +uma rapariga com fortuna! Ha dous annos que minha filha está enfeitiçada por um +trocatintas d'um estudante que conseguiu seduzir o coração d'uma menina que +regeitou os melhores casamentos de Penafiel e Amarante! Afinal, não hasde +vencer, sarrafaçal! Eu tolherei todos os teus calculos. Não me pilharás +descuidado um instante! Mas aquella janella assusta-me. Vou fazer mudar +Victorina para o meu quarto. <em>(Olhando para o alto da porta)</em> E de mais +a mais esta porta tem vidraça em cima. Se elle aqui entrar, ella póde vêl-o +d'alli... Que imprudencia eu ia commettendo! <em>(Bate a porta)</em> Victorina, +Victorina!</p> + +<h4>Victorina <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Quem é?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>É teu pae. Já estás na cama?<span class="pn">{156}</span> </p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Não, snr.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que estás a fazer?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Nada. <em>(Dando volta á chave.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Nada? Posso entrar? <em>(Áparte)</em> Lá está ella a descer a vidraça. +<em>(Alto)</em> Posso entrar?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Póde.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Estavas á janella?<span class="pn">{157}</span> </p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> VICTORINA <small>SAHINDO DA ALCOVA</small></h3> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ai!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que estavas a fazer na janella?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ora o pae tem manias! Credo! que havia de eu fazer na janella! Estava a +tomar a fresca. Não tinha somno, não podia dormir, estava muito afflicta, muito +opprimida, muito abafada, abri a janella, ai!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Pois sim, sim, minha menina. Assim será; mas troquemos os quartos. Vae para +aquelle,<span class="pn">{158}</span> que eu vou para este. Dá cá o teu sacco +de noute. Vamos. Leva o castiçal. Dá-me o meu sacco. Muito bem. Agora +entra...</p> + +<h4>Victorina <em>(entrando)</em></h4> + +<p>Oh céos!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Sim, sim. <em>(Fechando a porta, e tirando a chave)</em> Agora vou +descançado. <em>(Recolhe-se.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>GUTERRES</h3> + +<h5><em>(Caminhando contemplativo com o castiçal em punho e os olhos postos no +quarto d'onde sahiu Victorina. Pousa o castiçal.)</em></h5> + +<p>Ella alli está, a formosa como a rolinha adormecida com o bico debaixo da +aza; e eu venho aqui dar pasto ao coração;... mas que<span +class="pn">{159}</span> pasto tão pouco nutriente! Pobre poeta! todo o teu +alimento são esperanças! Em quanto a gente prosaica se embrutece com timbaes de +pombos e pasteis de camarão, tu, poeta <em>(batendo no peito)</em> engoles +timbaes de esperanças com pasteis de sonetos. Eu já sou do tempo em que um +homem de genio amava com o auxilio dos sonetos, e fazia consistir toda a sua +gloria de fino amante em gargarejar ternuras para um terceiro andar e +recolher-se a casa com o coração a trasbordar de catarro. Hoje não. Os anjos +actuaes se apparecem de noite á janella é para namorar a lua, ou vêr a cauda +d'algum cometa. Desde que entrou a moda do amor ideal, os olhos d'uma senhora, +que conversa com as estrellas, não descem a procurar na rua um d'estes amadores +fanhosos, que só se sentem inspirados e eloquentes na occasião em que a +patrulha os não deixa fallar. Eram d'uma paciencia adoravel as donzellas de ha +vinte annos, quando em meu coração rebentavam as primeiras flôres!.. Que +sensaborias a gente lhe disparava lá para cima, e a sancta resignação com que a +gente as ouvia a ellas! A virtude d'aquelle tempo só se explica bem pela +temperatura de<span class="pn">{160}</span> sorvete em que os corações se +conservavam de parte a parte. Isto agora é outra coisa. Um homem sente no peito +o progresso material. Aqui dentro ha gaz, ha vias-ferreas, ha fio electrico, ha +balões, ha petroleo, ha tudo quanto é fogo, energia, rapidez, etc. Eu cá pelo +menos sinto isso tudo; conheço que remoço, que amo e que ardo. Tenho phosphoros +e ácido prussico aqui dentro. <em>(batendo no peito)</em> E esta mulher! Como +eu amo esta mulher desde que a vi hontem na Povoa de Varzim! Eu, na minha +qualidade de escrivão do juiz eleito, estava a escrever n'um processo, quando +ella passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo +como largaria um sceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar á meza redonda do +hotel portuense. Comeu apenas uma aza de borracho e meia banana. Que estomago +tão fino! É que alli está um coração immenso cheio de ternura e com mais poesia +que um livro de versos. Sahiram, e eu segui-os. Vi entrar o pai n'um +escriptorio de viação e comprar dous bilhetes. Perguntei para onde iam os +passageiros; disseram-me que para Barcellos. Pedi bilhete; mas não havia. Ó +desventura! que farei? ficar? não! Ha<span class="pn">{161}</span> fatalidades +invenciveis, funestissimas! Esta mulher tem o meu destino nas suas mãos; disse +eu comigo. Cumpre-me seguil-a. Mas que farei? Não ha bilhete. Embora. Alma de +poeta, exclamei eu, não succumbas! Heroicidade na desgraça, homem de coração de +bronze! Segue-a! segue-a! Fui alugar um garrano, e segui-os a galope, terra a +terra, a rédea solta, receando a cada passo que o coração e o garrano me +rebentassem. Aqui estou. Ó mulher, mulher quem és tu? Ave do paraizo, que estás +sonhando delicias do teu Éden, lembra-te, ó Eva, que és costella do homem, e +que está aqui Adão digno de ti. <em>(Repara na viola.)</em> Uma viola franceza! +<em>(Pega d'ella e corre-lhe as cordas.)</em> Está desafinada. Oh! que saudades +me tu fazes, instrumento interprete das minhas paixões infantis! Que trovas eu +descantava em noites de lua cheia ao arpejar dos teus bordões que gemiam +comigo! <em>(Pensativo)</em> Quem sabe? <em>(vai afinando)</em> Quem sabe? Se +tu fizesses o milagre, ó lyra das canções apaixonadas! Vamos! é o fado que me +impelle; mas não vou tocar o fado. Inspira-me, coração, umas trovas dignas do +anjo que alli está dormindo. <em>(Avisinha-se da porta, onde presume que<span +class="pn">{162}</span> está Victorina, e preludía com tregeitos de vate que +invoca a inspiração do céo, e canta)</em>:</p> + +<blockquote> + <small>(MUSICA DA «ALTEA, MIMOSA ALTEA»</small>)</blockquote> + +<blockquote> + Se tu soubesses, lindinha,<br> + Quanto é grande o meu amor<br> + Não dormiras descançada<br> + Quando eu morro aqui de dôr.</blockquote> + +<blockquote> + <em>(Allegro)</em></blockquote> + +<blockquote> + Acorda menina,<br> + Não durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dôr quem te adora.</blockquote> + +<blockquote> + Eu na Povoa descuidado<br> + Já não sentia disvelos,<br> + Eis que surges luz brilhante,<br> + E eu te sigo até Barcellos.</blockquote> + +<blockquote> + Acorda, menina,<br> + Não durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dôr quem te adora.<span class="pn">{163}</span></blockquote> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> GUTERRES</h3> + +<h5><em>(Aniceto abre a porta, e sáe de barrete de dormir e rob-de-chambre, com +a luz na mão. Guterres recúa espavorido.)</em></h5> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Passasse muito bem.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Viva.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Eu já vi o senhor se não me falha a memoria.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sim, senhor, já tive a honra de jantar na meza em que V. S.ª estava na +Povoa.<span class="pn">{164}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>É verdade. Pois snr., V. S.ª canta e toca muito bem; n'outra occasião muito +lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o obsequio de se +calar, porque tenho de seguir amanhã viagem e preciso dormir...</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Pois não, senhor! Eu deponho já o instrumento importuno.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Agradeço muito a sua delicadeza. Se não fosse indiscreto, perguntaria com +quem tenho a honra de fallar?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir.<span class="pn">{165}</span> +</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Então é estrangeiro? Esse nome não me parece de cá.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exerço funcções publicas. +</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ah! exerce funcções publicas? Esse emprego deve ser bem bom.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de +bastantes lettras.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ah! de bastantes lettras? então é capitalista... Eu tambem trago um pouco de +dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula?<span +class="pn">{166}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>O juro? está favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento ao +mez. V. S.ª é do Porto?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Não senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva. +</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Oh! pois não, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua +ex.<sup>ma</sup> filha?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>A divertir-me não... Isso são contos largos... se V. S.ª por aqui estiver +ámanhã, conversaremos. Agora boas noutes, que são horas de dormir.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tem razão, tem razão... Boas noutes. <em>(Aniceto fecha-se.)</em><span +class="pn">{167}</span> </p> + +<h2>SCENA IX</h2> + +<h3>GUTERRES</h3> + +<p>Ora ahi está a deidade, que eu eternizei nos meus versos! As esperanças de +muitos poetas, quando se realisam, são pouco mais ou menos como esta. Este +Aniceto, offerecendo-se aos meus devaneios d'alma, é uma imagem que eu tambem +offereço como lição a todos os poetas. <em>(Vê-se um encapotado ao fundo, com +chapéo de aba derrubada)</em>.</p> + +<p>Mas, a final, onde é que está a filha? Foi o velhaco do creado que me +enganou! É o couce da proza que bateu no peito da poesia. Filha de Aniceto, +onde quer que estejas, eu te offereço este calix d'amargura, e boas noutes. +<em>(Vai a recolher-se ao quarto.)</em><span class="pn">{168}</span> </p> + +<h2>SCENA X</h2> + +<h3>JOSÉ PIMENTA <small>E</small> GUTERRES</h3> + +<h4>Pimenta <em>(rebuçado)</em></h4> + +<p>Boas noutes.</p> + +<h4>Guterres <em>(suspendendo-se)</em></h4> + +<p>Boas noutes.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Quem é o senhor?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Não respondo a encapotados de melodrama. Destape-se.</p> + +<h4>Pimenta <em>(deixa cair as bandas do capote)</em></h4> + +<p>Eis-me.<span class="pn">{169}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Eis-me o que? Cada vez o conheço menos.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o +senhor e a filha de Aniceto?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>De commum de dois? temos questão grammatical ou phisiologica?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Que tem o senhor que ver com ella?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo, Barcellos, +o rei dos tambores, V. S.ª etc. Falta elle que ver...<span +class="pn">{170}</span> </p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>O senhor sabe que da zombaria ao rewolver não ha mais que um passo?</p> + +<h4>Guterres <em>(sorrindo)</em></h4> + +<p>O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em Barcellos +não póde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama, posso saber?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Sou José Pimenta.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Pimenta? por isso o senhor é tão cálido!... Eu sou de apellido Mira-mar. +Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a filha +d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um coração de poeta e um +respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena?<span +class="pn">{171}</span> </p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Amo.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tambem eu.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Tambem o senhor?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tambem eu; mas ha uma differença entre nós, e vem a ser que ella a mim não +me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Tenho provas d'isso.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tem? <em>(Solemne)</em> O senhor sabe que esmagou<span +class="pn">{172}</span> n'este momento um dos mais romanticos corações que +batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as florinhas d'um amor nascente +que burbulhavam na charneca d'esta alma? <em>(concentra-se)</em> Coragem! +Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E então o senhor vem aqui +fallar-lhe? Sabe que ella está...</p> + +<h4>Pimenta <em>(apontando para o quarto de Aniceto)</em></h4> + +<p>Sei que está alli no N.º 10, que m'o disse o creado da hospedaria.</p> + +<h4>Guterres <em>(apontando)</em></h4> + +<p>Alli?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... <em>(reparando na vidraça +sobranceira á porta.)</em> Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles vidros.. +O senhor não vê?<span class="pn">{173}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sim, eu vejo lá o que quer que seja.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>É ella que me conheceu a voz. Quer outra prova?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Não senhor, estou satisfeito. Aquella mulher é sua. Sou magnanimo até aqui! +</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Se me fosse possivel subir á altura da vidraça! Alli está uma mêza. O senhor +guarda segredo? Não revella este arrojo d'um amante apaixonado?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os +caixilhos das vidraças<span class="pn">{174}</span> e passar-se lá p'ra dentro. +Póde fazêl-o que eu não digo nada.</p> + +<h4>Pimenta <em>(attento nos vidros)</em></h4> + +<p>É ella. É o anjo! Lá está o rosto amado!</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Vá, não perca tempo. Dê-lhe um beijo envidraçado. <em>(Pimenta aproxima uma +banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a vidraça +com um murro, e põe fóra a cabeça.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ah cão!</p> + +<h4>Pimenta <em>(saltando)</em></h4> + +<p>Traição! traição! <em>(Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.)</em><span +class="pn">{175}</span> </p> + +<h2>SCENA XII</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> GUTERRES</h3> + +<h5><em>(O palco escuro)</em></h5> + +<h4>Aniceto <em>(correndo para Guterres)</em></h4> + +<p>Ainda aqui estás, ladrão!</p> + +<h4>Guterres <em>(accendendo um phosphoro)</em></h4> + +<p>Olhe que está enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o +funccionario da Povoa, Guterres Arthur. <em>(Continúa a accender +phosphoros.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraça. Onde está o +scelerado, o canalha do flautista?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Elle toca flauta? São fataes os flautistas...<span class="pn">{176}</span> +</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Transtornou a cabeça de minha filha o infame... Onde está elle?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto. +<em>(Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que exclama de +dentro.)</em></p> + +<h4>Voz de velha</h4> + +<p>Quem está ahi?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Enganei-me.</p> + +<h4>Voz</h4> + +<p>Um homem! que desafôro! um homem!<span class="pn">{177}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Perdão, minha senhora; não grite tanto. V. Ex.ª parece-me bastante velha +pelo metal de voz, e não deve recear-se de homens.</p> + +<h4>Voz</h4> + +<p>Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora...</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Não se assuste. V. Ex.ª em guerra de paixões é paiz neutro. Esteja socegada. +Durma. <em>(Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)</em></p> + +<h4>Voz</h4> + +<p>Quem bate? quem anda aqui, mana?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Cá está outra inviolavel. Não é nada, minha senhora. A mana não teve +perigo.<span class="pn">{178}</span> </p> + +<h4>Aniceto <em>(sahindo com uma luz do seu quarto)</em></h4> + +<p>Aqui está luz. Venha cá, snr. Miramolim.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Miramar, se faz favor.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que me diz á perseguição d'este facinora? O senhor não lhe disse que eu +estava n'este quarto?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Nada, eu não lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a +espreitar pelos vidros; mas como elle disse «lá está o rosto amado» cuidei +realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. Não se afflija. O caso tem +remedio. Trate a doença de sua filha pelo systema homoeopathico. <em>Similia +similibus.</em> Sabe latim? <em>(Signal negativo)</em> Quer dizer: cura-se a +molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer dizer: a doença de sua +filha é causada pelo tal<span class="pn">{179}</span> sujeito, não é? +<em>(Signal affirmativo)</em> Pois <em>similia similibus</em> arranje-lhe outro +similhante.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Dois? tomára eu desfazer-me d'este.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Outro marido, percebeu?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Percebi, sim, senhor; mas eu não acho que a minha filha tenha necessidade de +casar com este nem com o outro.</p> + +<h4>Guterres <em>(com enfaze e rapidez)</em></h4> + +<p>Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes no +fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a não soffrem sem que a especie +seja deteriorada por transtornos contrapostos ás evoluções palyngenesicas da +reproducção genesiaca, resultando d'ahi que<span class="pn">{180}</span> as +evoluções abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberrações de +graves consequencias: o senhor percebe, eim?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>As aberrações curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Miramar, se faz favor. Vejo que V. S.ª não entendeu. Sua filha ha de dar-lhe +grandes penas e trabalhos, se não tiver em quem empregar a actividade do seu +coração: percebeu agora?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Muito bem. Aconselha-me então o senhor que lhe procure marido.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>E quanto antes.<span class="pn">{181}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>O senhor é solteiro?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sou, sim senhor, porque?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Quer casar com minha filha?</p> + +<h4>Guterres <em>(com gravidade)</em></h4> + +<p>A sua filha, snr. Aniceto, é uma imagem que me sorria nos meus sonhos antes +de a conhecer. Eu amo-a com este coração de anjo que tenho; e, se eu já não +fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Camões d'occasião. Mas a sua +pergunta á queima-roupa é um choque tal de felicidade que me burrifica. +Deixe-me tomar ar. Ha commoções de alegria que achatam os bofes e sacodem todas +as visceras d'um homem.<span class="pn">{182}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Não ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguição d'este bandido da +flauta. Se V. S.ª annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde +podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha +Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e ouça fallar.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Não, senhor. Isto de casamento é um acto sério e solemne. Corações apanhados +de surpreza não me servem. A mulher, que houver de ser minha, hei de +conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo poetico. Logo que eu +conhecer que consegui apaixonar sua filha, então a contemplarei como objecto +matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou poeta.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Então que é preciso?<span class="pn">{183}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>É preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus +primeiros ensaios no coração de sua filha empregando os expedientes +sentimentaes.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que vae o senhor fazer n'esse caso?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>V. S.ª não me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em +consequencia de elle tocar flauta?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Foi isso.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Pois eu vou empregar tambem a musica. Póde ser que esta menina tenha a alma +lyrica e<span class="pn">{184}</span> philarmonica e que o seu coração só possa +ser abalado instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao +seu quarto, e esperar lá os phenomenos que se forem operando na sensibilidade +de sua filha? </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Sim senhor, eu cá vou esperar os phenomenos. <em>(Recolhe-se.)</em></p> + +<h2>SCENA XIII</h2> + +<h3>GUTERRES <em>(só)</em></h3> + +<h5><em>(Guterres pega da viola, preludía, aproxima-se do quarto de Victorina e +canta em postura de inspirado)</em></h5> + +<blockquote> + Eu na Povoa descuidado<br> + Já não sentia disvelos;<br> + Eis que surges, luz brilhante,<br> + E eu te sigo até Barcellos.</blockquote> + +<blockquote> + <span class="pn">{185}</span> Acorda, menina,<br> + Não durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dôr quem te adora.</blockquote> + +<blockquote> + Victorina, escuta os hymnos,<br> + Que te canta o meu amor;<br> + Escuta os versos divinos,<br> + De Guterres, trovador!</blockquote> + +<blockquote> + Acorda menina,<br> + Não durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dôr quem te adora.</blockquote> + +<blockquote> + <em>(Escutando declama:)</em></blockquote> +Ella não se bole. Parece-me que a ouço resonar. É a belleza que ronca nos seus +sonhos innocentes. <em>(Reparando em José Pimenta que vem entrando)</em> Temos +chinfrim.<span class="pn">{186}</span> + +<h2>SCENA XIV</h2> + +<h3>JOSÉ PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, <small>NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA, +</small>ANICETO <small>MAIS TARDE, E O</small> CREADO</h3> + +<h5><em>(José Pimenta entra embuçado, medindo os passos á tragica. Chega ao +meio da scena, arroja o chapéo, deixa cahir a capa, cruza os braços, relançando +um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior d'uma jaqueta de pelle os +canudos d'uma flauta, liga-os, dá dois passos á frente, e com a maior +solemnidade toca a aria da Sombra de Nino, da Semiramis. Guterres tem passado +com a viola para o outro lado, e faz menção de se defender com uma cadeira, em +quanto o outro não toca. Victorina, assim que José Pimenta tem tocado a +primeira parte da aria, começa aos empurrões á porta.)</em></h5> + +<h4>Victorina <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Josésinho, Josésinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta porta! +<em>(Aniceto rompe do quarto com os braços no ar, a tempo que Victorina faz +saltar a fechadura e corre aos braços de José Pimenta, exclamando:)</em> José, +José, quero morrer nos teus braços. Ai! <em>(Desmaia nos braços +d'elle.)</em><span class="pn">{187}</span> </p> + +<h4>Aniceto <em>(ao creado que tem entrado com a luz)</em></h4> + +<p>Você faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades todas. Ah +grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos não ha justiça que vingue um pae? +</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Snr. Aniceto, não mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos inuteis. +Agora conheço que a chaga da sua filha só póde ser curada com o pêllo do +mesmo... do mesmo José Pimenta. Não ha duvida que o coração d'esta menina está +magnetisado pela musica; mas o que é certo é que a propensão d'ella não é a +viola. A alma d'esta senhora inclina-se para instrumento de sopro. Não é assim, +snr.ª D. Victorina? Faça favor de voltar a si para responder, e desmaie depois +se quizer. <em>(Ella abre os olhos)</em> É verdade ou não?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ai! <em>(Aniceto cáe prostrado n'uma cadeira á boca da scena.)</em><span +class="pn">{188}</span> </p> + +<h4>Guterres <em>(a Pimenta)</em></h4> + +<p>O senhor não tem habilidade senão para a flauta. Aproveite a occasião e vá +com a pequena ajoelhar-se aos pés do velho. Andem para diante. +<em>(Empurrando-os)</em> Parece que nunca estiveram no theatro!</p> + +<h4>Pimenta e Victorina <em>(ajoelhando)</em></h4> + +<p>Meu pae! piedade!</p> + +<h4>Aniceto <em>(erguendo-se de impeto)</em></h4> + +<p>Oh! <em>(Grito rouco e prolongado; com os braços affasta tragicamente da +vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)</em></p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abençôe a união d'essas creaturas. +Deixe-os casar; alegre-se com a esperança de que ha de ainda vêr meia duzia de +netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o genio de sua mãe, amando +uma orchestra de sujeitos distinctos desde a<span class="pn">{189}</span> +trompa até á corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante misericordioso +para os propagadores da sua individualidade tipica.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Levantem-se d'ahi! <em>(Erguem-se submissos.)</em></p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Bem; estão os senhores absolvidos. Parabens. Ó snr. Pimenta, eu creio que +algum serviço lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador da sua +flauta. Em recompensa, faça-me o senhor o favor de dizer se foi realmente com a +aria da Sombra de Nino que enfeitiçou esta sympathica joven?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Esta aria era a senha com que os nossos corações se entendiam.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Ah! sim? Eu quero tocar isso no violão; vou<span class="pn">{190}</span> +experimentar o effeito d'essa aria no coração de certas pessoas que costumam +arrebatar-se fascinadas pela minha voz de tenor. <em>(Tange na viola o +acompanhamento da Sombra de Nino, e canta:)</em></p> + +<blockquote> + Pobre poeta, ninguem te preza,<br> + Pobre poeta, ninguem te quer;<br> + Nem co'a viola tu conseguiste<br> + Mover o peito d'uma mulher.</blockquote> +<em>(No intervalo de uma quadra á outra. A José Pimenta)</em> + +<p>Isto vae bem? <em>(Faz na viola escalas sobre os bordões.)</em></p> + +<blockquote> + Mas não importa; vença a flauta<br> + A sympathia das fracas almas;<br> + Que eu antes quero, meus bons amigos,<br> + O vosso affecto e as vossas palmas.</blockquote> + +<h4>FIM.</h4> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Os direitos de representação das duas comedias que formam este volume +pertencem ao auctor.</p> + +<p>Porto, 3 de Fevereiro de 1871.</p> + +<p style="text-align:right;">C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small> +B<small>RANCO</small>.</p> +</div> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30461 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta e a Viola + Theatro Comico de Camillo Castello Branco + +Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +Release Date: November 13, 2009 [EBook #30461] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +CAMILLO CASTELLO BRANCO + +------ + +THEATRO COMICO + +A MORGADINHA DE VAL D'AMORES + +----- + +ENTRE A FLAUTA E A VIOLA + +------------ + +PORTO +EM CASA DE VIUVA MOR--EDITORA +PRAA DE D. PEDRO +1871 + + + + +THEATRO COMICO + + + + +PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA + + + + +THEATRO COMICO + +DE + +CAMILLO CASTELLO BRANCO + + +A MORGADINHA DE VAL D'AMORES + + +ENTRE A FLAUTA E A VIOLA + + +PORTO +VIUVA MOR--EDITORA +PRAA DE D. PEDRO +1871 + + + + +ADVERTENCIA + + +Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o +distincto maestro Francisco de S Noronha, quando a comedia se escreveu +com destino a ser representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o +bom exito theatral o subsidio da musica n'esta composio, e sobrevindo +rases que desviaram o nosso amigo Noronha de collaborar comnosco em +tamanha futilidade, no pde por isso a comedia ser submettida opinio +das platas. Quem a lr agora tem de benevolamente disfarar o seu +fastio de leitura de versos, feitos ou copiados das canes populares, +para se cantarem. Por via de regra, taes trovas so sempre asperas ou +dissaboridas na declamao, mrmente as que formam o _Auto do nascimento +do menino Jesus_, consoante elle se figura nas aldas do Minho ainda hoje. + +Com referencia fara no temos que pedir desculpa. Seria +desvanecimento irrisorio recearmos ns que a ponderosa e grave critica +se descesse at coisa to pequena. + + * * * * * + + + + +A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES + +COMEDIA EM TRS ACTOS + + + + +FIGURAS + + D. JOANNA COGOMINHO DE ENCERRABODES, morgada de Val-d'Amores, filha de + PANTALEO COGOMINHO DE ENCERRABODES. + FREDERICO ARTHUR DA COSTA, Escrivo da Fazenda de Santo Thyrso. + COSME JORDO, Deputado por Guimares. + MACARIO MENDES, Boticario de Santo Thyrso. + JOO LOPES, Lacaio e confidente da Morgada. + FIGURAS DO AUTO DOS TRES REIS MAGOS. + Creados, cantadeiras, camponezes, musicos e outros personagens. + _Scenas da actualidade._ + + + + +ACTO PRIMEIRO + + +Ao fundo, porto de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes. +O restante do palco figura uma alameda e estrada. + + +SCENA I + +FREDERICO _(s)_ + + _(Frederico um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e + calas pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O + chapo de frma ingleza e alto para tornar mais aguada a figura. + A cabelleira bironniana em crespas ondulaes. Bigodes encerados e + picantes nas guias retezadas. A luneta d'um vidro sem aro obriga-o a + caretear, abrindo a bocca de esgulha quando fixa mais attentamente + a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fr necessario fugir, ho + de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A + agilidade da rotao do pescoo deve dar-lhe o que quer que seja de + authomatico e fantasmagorico.)_ + +A razo diz-me que eu estou em perigo de ser modo por estes selvagens +do Minho; mas o corao, este intestino onde o amor e a coragem habitam, +diz-me que no vacille. A raso argumenta-me que eu, escrivo de fazenda +no concelho de S. Thyrso, no devo arrojar as minhas desenfreadas +ambies at mo da morgadinha de Val-d'Amores; mas o corao, esta +republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella, +mandando-me lr n'aquelle brazo _(apontando)_ o epitaphio da fidalguia +de raa, e o monumento levantado no s tradies ineptas, mas +restaurao da dignidade humana. Alm d'isto, eu, homem de aspiraes +gigantes, eu, poeta de audaciosos raptos d'alma, eu, que junto poesia +elevada a poesia profunda, preciso de me arranjar. Sou escrivo de +fazenda; mas esta posio no quadra aos meus instinctos. s vezes como +que sinto escaldarem-se-me as arterias com sangue de principe, e me quer +parecer que algum de meus avs foi mais ou menos illudido por alguma das +minhas avs. Reconheo, como filho d'este seculo, que a democracia matou +a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim ; porm, ao mesmo tempo, +no sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta +morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o +que mais me incita a querer-lhe com a adorao dos Paulos e dos Romeus +a preciso que tenho de me arranjar. + +Eu j manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocao; +e, como me sentisse um dos muitos desventurados que cem n'este mundo +sem vocao, fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por +serem cousa que a Biblia no diz que o Creador fizesse nos sete dias de +creao. Um sujeito olha para si como Deus para as trevas, e diz _fiat +lux_ faa-se o litterato; _et lux facta est_, e o litterato fez-se. +Eu prometto no dizer mais nada em latim, por que tambem no sei mais do +que isto. + +Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever. +Preparava-me para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26 +de supplemento, quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um +diario de Lisboa. A minha reputao estava quasi estabelecida, quando a +empreza me despediu por semsaboro, como se fosse obrigatorio ser +engraado no paiz mais desgraado do mundo. Voltei o meu espirito para a +historia universal, e cheguei at a procurar n'um Almanak onde era a +Torre do Tombo com teno de l ir consultar os pergaminhos. N'este +proposito estava eu, sentindo j os calores da gloria, quando me +encarregaram de traduzir uma comedia franceza para o Gymnasio. Puz de +parte a Historia Universal, e traduzi a comedia com um esmero indigno do +resultado, porque ella foi pateada visto que tinha, segundo disseram os +criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a virgindade elegante do +texto. Ora eu ento fiz-me critico, animado pela grande copia de +sandices que se escreveram contra a minha traduco. N'este modo de vida +achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber +alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira +em jardim de flores; temivel porque remeche e estraga tudo; levanta +implas de terra, e suja quando no desvasta a mimosa vegetao. Eu fiz +destroos grandes e escalavrei muitas reputaes litterarias, j por +amor da arte, j por amor do estomago, esta coisa onde um homem de genio +no pde crear a luz, porque isto aqui _(indicando o estomago)_ um +abysmo que s recebe a luz pela bocca. Mas a final, as obras litterarias +que appareciam eram j de natureza que o arpo da critica no lhes +ferrava a unha. Entreguei-me ao genero chamado _reclame_, e comecei a +chamar a atteno do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia, +romance ou fara. Este officio, posto que o mais aviltante da vida d'um +escriptor, o mais lucrativo no mundo patarata, em que eu me atasquei. +A consciencia pezava-me pouco, se o estomago sahia pezado de casa do +emprezario do theatro ou do editor do romance. Afoguei muitos escrupulos +em sopa de camaro. Mas o sangue de principe, este no sei qu que me +faz ccegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha misso na +terra, e desde logo atirei um vo atrevido s regies aquilinas da +politica. Estudei trez dias as questes de fazenda em Portugal, e +entendi-as to claramente como se fossem questes da minha fazenda. +Percebi que o paiz estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma +serie de artigos nos quaes provava que a maneira de matar o _deficit_ +era... sim eu provava que a maneira de matar o _deficit_, esse cancro +roedor das entranhas do meu paiz, era... sim eu provava... no me lembra +agora o que provei... o certo que me despacharam escrivo de fazenda +de Santo Thyrso, provavelmente para matar o _deficit_. Eis que chego, e +vejo a Morgadinha... _(Ouvem-se os tamborileiros)_ No convem que estes +barbaros me vejam parado em frente do porto da mulher amada... _(Se)_. + + +SCENA II + +PANTALEO, DOIS CREADOS, E OS TAMBORILEIROS + + _Entram ao terreiro e pram tocando em frente da porta trez + tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco + depois abre-se a porta, e se_ _PANTALEO__, com dois creados de + lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um + pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem._ + +1. Tamborileiro _(o do Zabumba)_ + +Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr. morgadinha! + +Os trez + +Biba por muitos annos, biba! + +Pantaleo + +Ol! rapazes! Com que vosss j se vo chegando ao arraial?.. + +1. Tamborileiro + + promeiro, vamos tocar s mordomos do Snr. San Joon, que tem festa +d'arromba este anno; e s despois la bamos pr' arraial com Deus. +_(Ouve-se ao longe a toada das cantadeiras que cantam o S. Joo.)_ + +Pantaleo + +Bebam; mas no se encarraspanem como no anno passado. + +2. Tamborileiro _(rindo alvarmente)_ + + berdade, fedalgo! Aquillo que foi perua! Indas m'alembra! + +Pantaleo + +Pois v l se arranjas outra que te faa esquecer a do anno passado. + +3. Tamborileiro _(bebendo)_ + +Enton la bai saude de Vossenhoria, a mais da snr. morgadinha. + +1. e 2. Tamborileiro + +A mesma. + +Pantaleo + +Querem mais? bebam. + +1. Tamborileiro + +Non faz minga. + +Pantaleo + +Ento, rapazes, adeus. L nos veremos na romaria. + +Os tres Tamborileiros + +Biba o fedalgo, e mai la obrigaon. _(Sem rufando estrondosamente: +cessa o estrondo pouco depois.)_ + + +SCENA III + +PANTALEO E OS DOIS CREADOS (QUE POUSAM AS VASILHAS) + +Pantaleo + +Ora venham c vosss, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses +olhos. Vosss tem obrigao de zelar a honra d'esta casa, por que +nasceram n'ella, c se crearam, e c hode morrer, se me servirem bem. +Aquillo que souberem a respeito do que vou perguntar ho de dizer-m'o. +Aqui quem governa sou eu, percebem? Vosss tem visto de noite alguma vez +por debaixo das janellas d'esta casa o escrivo de fazenda? um homem +muito magro que c vinha d'antes? + +1. Creado + +Bem sei quem o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo, +eu jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu +de regar a cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando +sobre a direita, vi uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que +parecia um abentesma... + +2. Creado + +Eu tambem j bi esse abentesma, salbo seja, ahi s pois da ma noute; +mas aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que +Vossenhoria faa de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim +tzo e hirtego que no bolia c'os pezes. Havra de ser o mesmo que tu +enxergaste, Antonho! + +Pantaleo + +Pois creiam vosss que no era outro seno o escrivo de fazenda. +N'estes arredores no ha homem d'aquelle feitio seno elle... Sabem o +que eu quero, rapazes? que lhe dem uma boa sova de estadulho. + +1. Creado + +S se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira. + +2. Creado + +E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar s lebres. +_(Ouvem-se risadas de mulheres j perto.)_ + +Pantaleo + +Por ora, nada de tiros; o que mando que lhe arrumem quatro bordoadas, +sem lhe dizer isto nem aquillo. Vosss zupem-lhe e escamem-se, que eu +com a justia no quero testilhas; mas no lhe batam, sem o apanharem c + volta da casa... Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as +raparigas da freguezia. _(Sem pela esquerda.)_ + + +SCENA IV + + + _(Rancho de raparigas vestidas de saias de chita com muita roda de + saias e saiotes, capotilhas encarnadas, chinela e meia branca, + acompanhadas d'um tocador de rebeca e outro de violo, que lhes + acompanham as cantigas. Entram pulando alegremente, e pucham por a + estridula sineta do porto.)_ + +O rabequista + +Biba a snr. morgadinha de Val-d'Amores! + +Todos + +Biba! Biba! _(Cantam o S. Joo.)_ + + COPLAS + + Son Joon adromeceu + Nas escadas do collejo; + Deron nas frras co'elle, + Son Joon ten porbolejo. + Que aquillo, que aquillo, que aquillo? + Son Joon a caar um grilo. + + meu son Joon da Ponte, + meu bello patusquinho, + D-nos anno de bon pon, + D-nos anno de bom binho. + Non nada, non nada, non nada, + Son Joon a comer pescada. + + + _(Abre-se o porto de par em par. Se a Morgadinha, trajada com + luxo, mas fra da moda. Vestido de ancas exaggeradas, cabello + Stuart, e um grosso grilho ao peito. Segue-a um creado velho, de + niza, com uma cadeira de braos cabea, e uma pichorra e caneca na + mo.)_ + + +SCENA V + +MORGADINHA, JOO LOPES, E AS CANTADEIRAS + +Vozes + +Biba a snr. morgadinha! Biba! Biba! + +Morgadinha _(sentando-se na cadeira)_ + +Adeus, raparigas. Como ests tu, Maria do Quinchoso! e tu Benta do +Cazal? Olha a Marianna da Egreja como est gorda com o cazamento! Joo +Lopes, d vinho a essa raparigada toda. + +Uma das moas + +Vossenhoria bai ao arraial? + +Morgadinha + +Podra no! J estou preparada, e vou assim que a tarde refrescar, que +quero ver o fogo prezo. + +Outra + +E mai lo auto do Natal, que vem la os d'Arnzo co'elle. + +Outra + +E como a fidalga est pimponaa! Parece mmo a Madanela da porcisson de +Passos! + +Outra + +Benza a Deus, que palminho de cara assim, no se topa outra no mundo. +Faz agora um anno que os cassacas do Porto andabon todos enbeiados +atraz da snr. morgadinha no arraial; e enton aquelle goberno que est +em S. Thirso esse que andava memo azoratado! + +Morgadinha _(rindo)_ + +Qual governo?! + +A mesma + +Aquelle que lhe chamon o das fazendas, ou non sei que deanho... + +Morgadinha + +Ah!.. _(suspirando)_ Ja sei... + +O do violo + +M rais o parton, que me mandou citar indas hontem! + +O rabequista + +Eu onde le poder ser bon heide medirle o costado de p a p cum fueiro... + +Morgadinha + +Ora no sejas bruto, Jos da Eira! Elle faz a sua obrigao; faz tu a +tua que pagar o que deves ao rei. + +O mesmo + +Ao rei! Bem me fio eu n'isso... Enton a fidalga pensa que o rei aveza +uma de X do dinheiro que ns demos!! Pois non avezastes! Os governos de +S. Thirso repartem uns c'os outros no fim do anno o dinheiro que don os +lavradores. + +O outro + + como diz. + +Morgadinha + +Sois uns selvagens. Deixemo'-nos de tolices. Cantem l alguma coisa vosss. + +Uma das moas + +Quer a _Marianinha_, fedalga? + +Morgadinha + +Pois sim; cantem l a _Marianinha_. + +COPLAS__ + +_(Tudo mulheres)_ + +(UMA VOZ) + + Ja fui canario do rei, + Ja lhe fugi da gaiola. + +(CRO) + + Sim, sim, eu vou l + Marianinha, + Sim, sim, eu la vou + pequerruchinha. + +(UMA VOZ) + + Agora sou pintassilgo + Destas meninas d'agora. + +(CRO) + + Sim, sim, eu vou la, etc. + +(UMA VOZ) + + Pintassilgo est no bosque, + A andorinha no telhado. + +(CRO) + + Sim, sim, etc. + +(UMA VOZ) + + So eu no sei onde estou, + Quando no estou ao teu lado, + +(CRO) + + Sim, sim, etc. + +(VOZ) + + A andorinha quando chove + Vai metter-se escuridon + +(CRO) + + Sim, sim, etc. + +(VOZ) + + E eu quando o norte rijo + Metto-me teu coraon. + +(CRO) + + Sim, sim, etc. + +Todos + +Biba a snr. Morgadinha! Biba! + +Morgadinha + +Ento vosss vo j para a romaria? + +Uma d'ellas + +Aindas bamos buscar as cazeiras de Vossenhoria que esto espera de +ns, e s pois voltemos por qui. + +Morgadinha + +Pois vo, e voltem. _(Sahem cantando o S. Joo. A morgadinha fica +pensativa e melancolica, encostando o rosto mo, em quanto se ouve e +se vai perdendo a toada da cantiga.)_ + + +SCENA VI + +MORGADINHA E JOO LOPES + +Morgadinha + +Como estes brutos so felizes!.. E eu sempre apoquentada por causa deste +corao! Ai! eu antes de saber o que era amor tambem cantava... +Lembras-te, Joo Lopes? + +Joo Lopes + +Ora se lembro! E cantava que nem uma calhandra a fidalga! + +Morgadinha + +Olha se te lembras, Joo! Eu ia s espadeladas, s descamizadas, s +malhas, brincava, saltava... + +Joo Lopes + +At danava a cana verde, e a chula que era um gosto vl-a!.. E quando a +menina quiz que eu lhe ensinasse o jogar o po... + +Morgadinha _(com alegria)_ + + verdade... + +Joo Lopes + +E o caso que vossellencia ahi com duas duzias de lies j me chegava +com o po. + +Morgadinha _(erguendo-se enthusiasmada)_ + +E d'aquella vez que eu me vesti de rapaz, e puz fra da eira do Manoel +Tamanqueiro, com quatro partidas de po, mais de seis mascarados que la +andavam a beliscar as minhas cazeiras! + +Joo Lopes + +Por signal que a menina deu uma tapona no Z Torto, que ficou torto de +todo... fidalga, vossellencia hoje j no era capaz de romper ahi com +um marmeleiro p'ra frente d'um homem qualquer!.. + +Morgadinha + +Ests enganado... se me chegassem a mostarda ao nariz... Mas, ai!.. +_(Torna a sentar-se triste.)_ A minha alegria foi-se desde que eu soube +o que era amor!.. Olha l, Joo... no o vis-te hoje? no viste o meu +amado Frederico? + +Joo Lopes + +Falle baixinho, menina. Olhe que o snr. morgado ainda ha todonada me +esteve dizendo que desconfia que elle anda por aqui de noute. A fidalga +acautele-o; que no vo os creados chegar-lhe ao forro da camiza... + +Morgadinha _(erguendo-se colerica)_ + +Faam isso, que os esgano! Que lhe ponham um dedo, e vero quem a +morgada de Val-d'Amores! + +Joo Lopes + +No grite assim, que seu pai, se a ouve, quem as paga sou eu. A fallar a +verdade, eu no desgosto do snr. Frederico; mas, em fim, esta aquella de +ser escrivo, ruim modo de vida para poder casar com a snr. +morgadinha... + +Morgadinha + +Isso que tem!? Todos somos eguaes; e o corao, quando ama, no quer +saber de contos. Uma pessoa no est l a averiguar se o objecto amado +fidalgo ou plebeu. Tem-se visto rainhas casarem com pastores, e reis +casarem com pastoras. + +Joo Lopes + +C no conselho de Santo Thirso no me consta, hade perdoar. + +Morgadinha + +Mas l por esse mundo fra acontece isso a cada passo. Tu por que no +ls os livros das historias. Eu te lerei casos que aconteceram... E +ento que tinha que eu casasse com um escrivo? + +Joo Lopes + +Em fim, em fim, o paisinho da fidalga foi capito-mr, seu av foi +desembargador, e seu bisav foi sargento mr de batalha no Roussilhon... + +Morgadinha + +Vai dizendo at chegar a Ado e Eva, vai dizendo, e eu depois te direi +de quem eu e mais tu somos netos. + +Joo Lopes + +Isso assim , no ha duvida; mas, diz l o ditado, l com l, e cr com +cr. + +Morgadinha + +No quero saber de ditados! _(com fora)_ Este amor s m'o hade arrancar +do peito a morte! + +Joo Lopes _(apontando para o brazo)_ + +Fidalga, ponha os olhos nas armas reaes dos seus antepassados. + +Morgadinha + +Ora! no tenho mais que fazer... Cuidas que eu no sei que meu av casou +com uma creada? Mostra-me onde esto alli as armas da creada. Bem se +importou elle das armas, nem do brezabu que as leve! o que faltava... +estar-me eu aqui a definhar p'ra'mor da pedra! As armas so de pedra, e +eu sou de carne e osso, ouviste? + +Joo Lopes + +A fidalga responde a tudo, e no ha remedio seno callar-se um homem, +que a trouxe nos braos desde os trez annos, e sou capaz de me metter no +inferno vestido e calado por causa da minha menina. _(Sensibilisa-se.)_ + +Morgadinha + +Sei o que tenho em ti, meu Joo Lopes... Vais tu ahi ao cimo do pinhal a +vr se o vs pela estrada?.. Elle disse-me que havia de passar para a +romaria s seis da tarde. Se o encontrares, diz-lhe que meu pai se est +a vestir para ir tambem, e que elle pde demorar-se a conversar comigo +um bocadinho. + +Joo Lopes + +Vou vr se o avisto; mas, menina do meu corao, olhe que seu pai anda +espreita e traz espias... Ns temos grande desgraa pela porta... + +Morgadinha _(energicamente)_ + +No morro de medo, j te disse. A mulher que ama no tem medo de nada! + +Joo Lopes + +Seja assim; mas, se lhe quebram o espinhao a elle! Coitado do homem, +to delgadito que, se o apanha o vento d'um po, elle vai a terra... + +Morgadinha + +Quem lhe hade bater?! Cuidas que elle no anda armado? Que se attrevam +smente a ameaal-o!.. + +Joo Lopes + +C vou, c vou, no se desespere. _(Se.)_ + + +SCENA VII + +MORGADINHA + + _(Senta-se quebrantada e triste)_ + +Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!.. +_(Musica de surdina)_ Como eu gosto d'elle! Ha mais de dous annos que +este meu corao padece! No ha noite em que eu no sonhe duas vezes com +a sua imagem... Quando acordo, e o no vejo, a minha vontade chorar, +chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio. Os +cirurgies mandam-me tomar aguas ferreas!.. e s eu sei o que tenho! O +meu mal aqui!.. _(a mo sobre o corao)_ Oh cos! quanto eu sou +desgraada sem o meu Frederico! _(Ergue-se, e falla com muito +sentimento. Musica plangente.)_ Quando eu o vi, pela primeira vez, foi +na hospedaria das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu +rheumatico. Estvamos a jantar quando elle entrou, e meu pai +offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle agradeceu, mas no comeu, +dizendo que o seu jantar era um vo quente. E d'ahi a pouco, +trouxeram-lhe um vo quente n'uma tigella; e elle comeu o vo, bebeu um +copo d'gua fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e +pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai +ouvir, se podia viver s com um vo, e elle respondeu que a sua alma se +sustentava com a esperana de ser amado por mim... e com tres vos por +dia. Oh! que lembranas estas, que lembranas estas! _(chora)_ E vai +depois, disse-lhe eu: O snr. est assim magro porque come muito +pouquinho; se gosta d'vos coma uma duzia d'elles de cada vez; e elle +pregou-me os seus lindos olhos, e respondeu a suspirar: Que me importa +o corpo? a mim o que me importa o corao que grande; e, se o corpo + magro, mais depressa me reduzirei a cinzas se V. Ex. me desprezar. +Isto fez-me no peito mossa! fiquei presa d'este dito; senti por aqui +acima uma fogueira que me pz a cara em brazas vivas, e no lhe disse +coisa de geito porque fiquei um pedao intallada. Depois, ao +despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe: amo-vos, +meu bem! Ora aqui est como comeou isto. Desde ento para c apenas +lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho... +Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, no vou longe. Elle +tambem est no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de comear estes +amores, eu pezava cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois +aqui ha oito dias pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim +no podemos viver, nem eu nem elle. _(Com fora, que a musica imita.)_ +preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai quer, quer; +seno quer, quero eu. Uma mulher no pde ser escrava da sua fidalguia. +Antes quero ser esposa d'um escrivo, e viver contente, que ser a +morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pr na espinha... +_(Ouve-se rumor de vozes fra.)_ o meu pap!.. _(Senta-se.)_ Vem-me +empatar as vazas... + + +SCENA VIII + + +PANTALEO, MACARIO, E A MORGADINHA + + _(Macario um sujeito de oculos e casaca de briche, j de annos, e + ar circumspecto)_ + +Pantaleo _(parte ao boticario)_ + +Veja l como lhe falla... Olhe que ella finoria... _( filha)_ C me +vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para no ficares +ssinha. _(Se.)_ + + +SCENA IX + +MACARIO E A MORGADINHA + +Macario + +Tenha V. Ex. muito boas tardes. + +Morgadinha _(enfastiada)_ + +Viva, snr. Macario, as mesmas. + +Macario + +Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe +mandei fez-lhe bem? + +Morgadinha + +No o puz: cheirava a pez. + +Macario + +De pez de vergonha era; fui eu mesmo que o manipulei... Ento, a snr. +morgadinha vae ao arraial? + +Morgadinha + +Vou. + +Macario + +Faz muito bem; que l hade encontrar pessoa que muito interessa a V. +Ex.... enganei-me... pessoa que muito se interessa em vr V. Ex. +queria eu dizer. + +Morgadinha + +Como isso? no percebi. + +Macario + +Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimares, onde estive com o +snr. deputado Cosme Jordo, um sabio que tem votado grandes fallas no +parlamento... Ha de ter ouvido fallar V. Ex.... + +Morgadinha + +No sei nada de parlamentos, no leio periodicos. + +Macario + +Pois, minha snr., o doutor Cosme Jordo um sujeito conhecido em todo +o mundo, e l na crte at vae ao palacio do rei e come l... + +Morgadinha + +Deixal-o comer, que tenho eu com isso? + +Macario _(parte)_ + +No fao nada! est hoje levadinha dos diabos. + +Morgadinha + +Vamos, diga l, snr. Macario. + +Macario + +Pois este deputado vae hoje romaria do S. Joo. + +Morgadinha + +Deixal-o ir; que se divirta. Ento esse o homem que me quer vr? + +Macario + +Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex.... + +Morgadinha + +Ainda bem; signal que no cego. E que mais? + +Macario + +E que ficou muito agradado de V. Ex.... + +Morgadinha + +Pois tem mo gosto e perde o tempo. Que mais? + +Macario + +V. Ex., se o vir, no hade fallar assim. ainda homem de boa edade, +cheio de corpo, com uns oculos que lhe do muito respeito cara. + +Morgadinha + +Ora! oculos de respeito! que me importa c a mim os oculos do homem? +sabe que mais, snr. Macario? _(Pem-se a bamboar uma perna sobre a +outra, e a trautear o Pretinho que vem d'Angola.)_ + +Macario + +Finalmente, snr. morgadinha, como V. Ex. quizer; mas lembre-se de que +seu pae deve fazenda nacional uns seis contos de ris, e que o snr. +doutor Cosme, casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae no pague +nada, e mesmo no futuro lhe no lancem impostos. + +Morgadinha + +No me seque, snr. Macario. Vocemec queria que meu pae pagasse commigo +ao tal Cosme o que deve fazenda? Pois que pague com o que d'elle, e +que me deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias. +Metta-se l na sua botica e no se faa casamenteiro. V fazer charopes. + +Macario _(parte retirando-se)_ + +Apre com a cabra! + +Morgadinha + +Que tal est o sacripanta! + + +SCENA X + +JOO LOPES, ESPREITANDO A MORGADINHA, E DEPOIS FREDERICO + +Joo Lopes + +Psiu, psiu. + +Morgadinha _(sobresaltada)_ + +Viste-o? + +Joo Lopes + +Elle ahi vem... Eu vou espreitar, e assim que eu tossir que fuja para a +carvalheira. + +Frederico + +Anjo! milagre de bellesa, Joanna querida, no sentes n'estas mos o +vibrar da alma? + +Morgadinha _(muito terna)_ + +Como ests tu? passaste bem desd'hontem? + +Frederico + +Pergunta ao lirio do valle o que lhe pende a fronte quando o orvalho do +co lhe no esfria os queimores do sol estivo. + +Morgadinha + +Olha l, Frederico, tenho a avisar-te, antes de mais nada, que preciso +andares prevenido... + +Frederico + +Temos sicarios? Ha aqui vampiros? A vindicta paterna tem sde do meu +sangue? Eis aqui o peito. Que m'o farpem, que m'o fendam, que m'o +alanceem, que m'o lancetem. Tudo por ti, tudo por ti, estrella, +loira viso dos meus sonhos! _(Rumor fra.)_ + +Morgadinha + +Foge... esconde-te entre as arvores... _(Frederico sme-se.)_ + + +SCENA XI + +MORGADINHA, OS DOIS CAMPONIOS QUE VO PASSANDO, E DEPOIS FREDERICO + + _(Um camponio tange flautim e outro viola. Duas moas frente + batendo palmas ao compasso do canto, e saltando)_ + +Um camponio _(cantando)_ + + _Muito bem seja apparecido_ + _Seja apparecido_ + _N'esta funco._ (Batendo palmas) + +(CRO) + + _Bate as palmas c'o seu pexinho_ + _Co' seu pexinho_ + _Co' seu pexo._ (Repete) + + + _(Assim que elles passam, a Morgadinha se do porto, e logo + Frederico do escondrijo)_ + +Frederico + +Mas dizias tu, pomba? + +Morgadinha + +Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem +armado. + +Frederico + +Armado! para qu? Tu no sabes que o teu amor talisman que prostra +gigantes! As minhas armas so os raios de fogo que bebo de teus olhos; +tenho vesuvios na alma capazes de abrazar cidades! + +Morgadinha + +Isto no chalaa, meu amado Frederico! Peo-te que tenhas cuidado, +muito cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, no temeria +ninguem... Tu verias o que a morgada de Val-d'Amores... Mas eu no sei +como isto hade ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo... + +Frederico _(interrompendo-a com exaltao)_ + +Fidalgo! que fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que fidalgo? a sola +velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! ento certo que teu +pae ignora, que o baptismo de sangue da revoluo franceza lavou todas +as manchas da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revoluo! o +segundo christianismo! Que fidalgo? teu pae no sabe que aquelle +braso d'armas _(apontando)_ est alli como a pedra sepulcral das cinzas +feudaes! Teu pae est debaixo do sol e no sente o calor da fermentao +social! Ouve o estrondear da democracia reinante, e volta a face para os +phantasmas dos avoengos que se somem l em baixo no abysmo da historia! + +Morgadinha + +No sei l d'essas historias; o que te peo que no te exponhas a +levar alguma paulada falsa f. Olha que os meus creados so uns +patifes, e meu pae no boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se +hade fazer, porque elle no nos d consentimento para nos casarmos. + +Frederico + +Heide movl-o com a eloquencia d'um homem aquecido no sol moderno. Heide +convencl-o, enchendo-lhe o espirito de luz e o corao de ideias novas. + +Morgadinha + +No te mettas n'essa asneira, que no fazes nada. _(Tem-se j ouvido +toada de musica da chula, e depois a tosse rija de Joo Lopes. Frederico +some-se sem ser preciso mandal-o. A morgadinha fica.)_ + + +SCENA XII + +MORGADINHA + + + _(Chega uma chulata que vae de passagem para a Romaria. Bando de + raparigas que precedem, bailando; tocadores de rebeca, viola, + clarinete, ferrinhos e requinta. A esturdia pra defronte da + morgadinha, e contina danando cada rapariga com o seu parceiro.)_ + +COPLAS DE DESAFIO + + _(Em quanto o cantador deita a cantiga, tange smente a viola. Entre + os dois primeiros versos e os dois ultimos de cada quadra ha um + espao que d logar a que toquem por alguns segundos todos os + instrumentos.)_ + +Cantador + + Agora que eu vou passando, + Fao aqui minha parada; + Para saber da saude + Da incelentissima morgada. + +Cantadeira + + Da incelentissima morgada + Tambem eu quero saber, + Que mais linda creatura + No na pde o mundo ter. + +Cantador + + No na pde o mundo ter + Nem ter at ao fim; + Os seus olhos so d'amras, + Os seus dentes de marfim. + +Cantadeira + + Se tem dentes de marfim, + O seu rosto uma roza; + E viva sua incelencia + Que no na ha mais fermosa. + +Cantador + + Quero dar a despedida + senhora Morgadinha; + Que no ha por estas terras + Mais bonita fidalguinha. + +Cantadeira + + Eu tamem vou espedir-me, + Despedida quero dar; + Adeus, senhora morgada, + Sirva-se de perdoar. + + + _(A morgadinha agradece-lhes com um aceno de leno. O bando se + tocando e danando. Assim que o descante se ouve froixamente, volta + Frederico.)_ + + +SCENA XIII + +MORGADINHA E FREDERICO + +Frederico + +Tenho odio a estes selvagens que me roubaram horas de vida! Quando +sahiro os lrpas da face da terra? + +Morgadinha + + verdade, Frederico! Trouxeste-me os figurinos? + +Frederico + +Eil-os chegados hoje de Lisboa. + +Morgadinha _(examinando-os)_ + +Ai! que demonio de mulheres! Pois ellas trazem estes vestidos assim +incozipados nas pernas!? + +Frederico + +Oh! isto a elegancia circassiana! a frma na sua diafeneidade +sublime; ha aqui a poesia do fino, a mulher parece toda nervosa, o +lyrismo da plastica... + +Morgadinha _(rindo)_ + +Se eu te percebo, cebo! Boa cataplasma me parece este molho de clinas e +sacarrolhas que ellas tem na cabea. + +Frederico + +No blasfemes! Joanninha, veste-te assim; reala, sobredoura a tua +bellesa com estes adornos que angelisam a mulher de compleio robusta, +e transformam a mimosa em cousa ideal vestida de vapores. A mulher assim +involta em roupagens etherias um madrigal de setim que cahiu das lyras +dos anjos. + +Morgadinha + +Pois sim, fao-te a vontade. Vou mandar comprar no Porto esta trapalhice +toda... + + +SCENA XIV + +OS MESMOS E PANTALEO + + _(Abre-se o porto repentinamente e apparece subito Pantaleo. + Frederico ainda faz um impeto de fuga, mas contem-se, e corteja mui + urbanamente o fidalgo.)_ + +Frederico + +Passava para a romaria, e, como visse S. Ex. _(indicando a morgadinha)_ +vim depor a seus ps os meus respeitosos cumprimentos, e informar-me da +saude de V. Ex. + +Pantaleo + +Estou bom, muito obrigado. Onde est o Joo Lopes? + +Morgadinha + +Foi aparelhar a burra. + +Pantaleo + +Vae tu preparar-te que so horas. + +Morgadinha + +Quer vr como agora so as modas, pap? olhe. O snr. Frederico vae levar +estes figurinos s nossas primas de Ruives. + +Pantaleo + +Pois faz-me o snr. muito favor se me c no trouxer bonecos a casa. Ns +c no somos de modas. + +Frederico + +Direi a V. Ex., snr. morgado, que as modas tem certa relao com o +espirito das geraes e das pocas. Agora que o entendimento humano se +adelgaa, o involucro material tambem se subtiliza nas raas finas... + +Pantaleo _(medindo-o d'alto a baixo com ironia)_ + +Bem se v que o snr. escrivo d'uma raa muito fina... pelo muito +adelgaado que est... + +Frederico + +No me jacto de prosapia heraldica; mas, na jerarchia dos espiritos, +preso-me de pertencer ao bando mais illuminado. Respeito muito o braso; +mas curvo-me diante da aristocracia do genio e do talento. + +Pantaleo + +Sim, o snr. tem muito talento, bem sei... J te disse, Joanna, que te +vs arranjar. + +Morgadinha + +Adeus, snr. Frederico, muito obrigada. _(Se.)_ + + +SCENA XV + +PANTALEO E FREDERICO + +Frederico + +Creado de V. Ex. _(Ve a sahir; mas Pantaleo detem-o.)_ + +Pantaleo + +Faa favr. + +Frederico + +Escuto as suas ordens. + +Pantaleo + +O snr. anda muito mal encaminhado. Minha filha a morgada de +Val-d'Amores; o snr. o escrivo de fazenda de Santo Thirso. Esto um +do outro to longe como aquella pedra d'armas do reblo d'um sapateiro, +entendeu? + +Frederico + +Entendi, que V. Exc. tem um estylo bastante chato. Entendi, posto que +V. Exc. falle uma lingoagem asss gothica em pleno seculo XIX. + +Pantaleo + +Pois se entendeu, tire o seu atrevido pensamento de minha filha, e +procure a frma do seu p. No me obrigue a usar dos usos e costumes dos +meus avs. Quer que lh'os diga? + +Frederico + +Heroismos dos seus ascendentes? Essas Odissas da alda so hoje +impraticaveis. Eu sei em que tempos vivemos, snr. morgado. + +Pantaleo + +Sabe? pois olhe que no sabe em que terra vive. O snr. veio l de Lisboa +onde qualquer bigorrilhas, que pe gravata, entende que egual a todo o +homem que pe gravata; o que o bigorrilhas no quer sr egual a todo o +homem que no tem gravata. + +Frederico + +Ahi ha certa sublimidade de ida, de que lhe dou os parabns. V. Exc. +ia quasi escrevendo d'um trao a historia philosophica da democracia +moderna. + +Pantaleo + +Eu no escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo que isto c nas +montanhas outra cousa. Os morgados so morgados; os escrives so +escrives; e os sapateiros so sapateiros. Ora, quando acontece alguem +querer sahir da sua classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as +costellas. O snr. sabia isto? + +Frederico + +Eu no sabia que estava na Cafrria. Cuidei que este concelho era um +retalho do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fco radiara +uma flecha de luz at ao corao de V. Ex. que me parece ser uma pessoa +de bons costumes, e no um esquim. Cuidei finalmente que o Evangelho e +a Carta constitucional livellavam a dignidade humana... _(Ouve-se o +cantar das raparigas que se avisinha.)_ + +Pantaleo + +Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleo Cogominho de Encerrabdes, dcimo +oitavo senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com +minha filha hade poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor +d'esta casa. Tenho dito, e acabou-se o cavaco. Saude e juizo. +_(Volta-lhe as costas. Frederico bamba a cabea altivamente e retira-se.)_ + + +SCENA XVI + + +MORGADINHA, PANTALEO, E O BANDO DAS MOAS E TOCADORES QUE APARECERAM +NA TERCEIRA SCENA + + _(A Morgadinha se sentada sobre a jumenta. Vem vestida de Amazna. + Joo Lopes de farda azul com vivos vermelhos, bota de orelha e + prateleira, colete encarnado, e chapo embreado, tudo antiga e + grutesco, vem trazendo a burra pela rdea. As raparigas esto + cantando as seguintes)_: + +COPLAS + +(UMA VOZ) + + Dondes vens velha? + Eu venho da feira. + +(CRO) + + Que trazes na cesta? + Cr, cr, cr, + Sardinha vareira, + Cri, cri, cri, + Por a retangueira; + Cr, cr, cr, + Se o galo cantou. + +(UMA VOZ) + + Se o galo cantou + Deixal-o cantar. + +(CRO) + + Minha rica prenda + Cr, cr, cr, + L da beira mar + Cri, cri, cri, + Pela retangueira, + Cr, cr, cr, + Se o galo cantou. + +(UMA VOZ) + + D'onde vens velha? + Eu venho d'alli. + +(CRO) + + Que trazes na cesta? + Cr, cr, cr, + Que te importa a ti, + Cri, cri, cri, + Pela retangueira, + Cr, cr, cr, + Se o galo cantou. + + + _(Contina o canto ao descer do panno.)_ + + +FIM DO PRIMEIRO ACTO. + + + + +ACTO SEGUNDO + + Vista de arraial. noute. Festes de lampadas de papel variegado + pendem dos ramalhos das arvores. Mulheres a frigir, ao lado das + pipas cobertas de ramos de folhagem. Barracas com botequins. + Multido de povo a beber volta das pipas. Sinos repicando, e + estouros de foguetes. D'ambos os lados da scena, mas fra, se canta + o S. Joo com vozes alternadas. Frederico passeia por entre o + povo, mirando as raparigas. Os dois j conhecidos creados de + Pantaleo, com as pernas encruzadas nos varapos, medem d'alto a + baixo Frederico, e rompem a jogal-os um com outro. Frederico, por + uma das suas evolues maravilhosas de rapidez, desapparece. O povo + ri-se, e elle reapparece logo, seguido por trez cabos armados. Os + cabos usam bonet com debrum azul. Cessam as cantilenas, e rompe a + banda musical de Santo Thyrso, estrondosa em trompes, a qual entra + em scena tocando uma marcha. Os musicos uniformes, de cala branca, + casaco azul com vivos amarellos, o bonet avivado da mesma cr. As + figuras podem caracterisar-se caprichosamente. Em seguida, entra a + Morgadinha, com o pae, Macario, Cosme Giraldes, e Joo Lopes. Cosme + Giraldes um sugeito gordo, aspeito serio, com os seus oculos, um + todo de summa gravidade. Os circumstantes cedem o logar aos + recem-chegados, que formam grupos. + + +SCENA I + +TODOS OS DESCRIPTOS (GRUPO DA MORGADINHA E COSME GIRALDES) + +Cosme _(com gesto de orador e com grandes pausas, Morgadinha)_ + +A festa animou-se com a auspiciosa chegada de V. Ex. O sol do empyreo e +uma senhora bella, que o sol dos coraes sensiveis, onde brilham, +tudo reanimam. Assaz ditoso me julgo em ser o mais feliz dos mortaes que +se sentem influenciados e enthusiasmados pelos lumes encantadores de V. +Ex. Falta, todavia, minha completa dita a certeza de que os meus +affectuosos requebros acham graa nos seus olhos. + +Morgadinha _(com desdem)_ + +Eu no lhe acho graa nenhuma. + +Cosme + +Como assim, divina ingrata? + +Morgadinha + +J disse ao boticario o que tinha a dizer. + +Cosme + +Pois o seu corao... + +Morgadinha + +Est dado. Eu c sou franca. No perca tempo. + +Cosme + +No ha duvida que ouvi dizer que V. Ex., victima d'uma allucinao, +aceitava a crte d'um esgrouvinhado arcaboio que exerce as ladras +funces de escrivo da fazenda! Heide eu, cos! accreditar que... + +Morgadinha + +Sim, snr., acredite, e faa favor de me no incommodar que eu vim +romaria para me divertir. _(Volta-lhe as costas.)_ pap, quando se faz +o Auto do Natal? _(Ouve-se a musica tocando uma marcha.)_ + +Pantaleo + + j. Mandei vir as figuras para aqui. Vae comear. amigos, +desempachem o terreiro que chga o espectaculo. _(O povo retira e +apinha-se entre scenas.)_ + + +SCENA II + +OS MESMOS, E AS FIGURAS ABAIXO DESCRIPTAS EM LOGAR COMPETENTE + + _(A musica entra a passo muito cadenciado com grandes pernadas. + Chegada bocca do palco, alinha a um lado para dar o passo aos dois + primeiros personagens do auto):_ + + +SCENA I do Auto + +ADONIS E MANASSS + + _(Adonis traja de principe de carnaval; Manasss veste de propheta + de procisso; mas toda a fatiota muito usada e desbotada. Adonis + traz um cavaquinho.)_ + +Adonis _(com declamao muito boal)_ + +Canta, Manasss, que eu te acompanho; para isso com esta harpa vanho. + +Manasss _(canta com ar inspirado, gesticulando estupidamente)_ + + O co estrellado, + Sereno e propicio, + Ser pois indicio + Do sol desejado. + +(CRO DE PASTORES) + + _(Vozes femininas dentro)_ + + Quem o habitar? + Quem o gozar? + +Manasss _(cantando)_ + + Vde a paz serena d'esta noute; + Nascer a estrella de Jac? + O gado socegado adivinha; + No se bole no ninho a avesinha. + +(CRO) + + Quem o habitar? + Quem o gozar? + +Adonis _(declamando, e passeando com grandes passos)_ + +Oh! que terno, caro Manasss, cantastes! O conceito da tua canoneta +amorosa me traz dces lembranas. Ainda em nossos dias, veremos +realisadas as porfecias? No caibo na pelle de estifeito; da-me pancadas +o corao n'este peito! _(Frederico despede um impulso de riso. +Espantam-se os cicumstantes.)_ + +Macario + +O senhor est a mangar d'estes actos srios?! + +Frederico + +Pois isto srio! ento no ha nada ridiculo n'este mundo seno o snr. +boticario. + +Macario + +O senhor muito mal criado, um incivil, ... ... um escrivo! + +Morgadinha + +Snr. Macario, no esteja a interromper o auto. Deixe l rir quem quer +rir; chore vocemess, se tem vontade. + +Pantaleo + +Continuem l vocs co'isso. + + +SCENA II do Auto + +VOZ D'UMA PASTORA, CANTANDO DENTRO + + Deus do co, e da terra, + vs que podeis tanto, + Ouvide nossos clamores + Sde propicio, Deus sancto! + +CRO _(dos pastores)_ + +Do povo amado, +Mandae o desejado. + + _(Os que esto no palco fazem scenas mudas de ternura muito + lorpas.)_ + +Manasss + +Escuta! No foi Ruiva, a pastora que cantou? + +Adonis + +Foi. E os pastores tambem, que nenhum dorme. + + +SCENA III do Auto + +O VELHO SIMEO E RUIVA + + _(O velho vestido de pelles de carneiro. Ruiva de pastorinha, com um + cordeiro branco nos braos)_ + +Simeo _(com os olhos no firmamento)_ + +Incelso, interno rei sobrano, que sobre os crebins tens assento, oubide +os nossos lamentos. + +(CRO) + + Do povo amado, + Mandae o desejado. + +Manasss + +Agora creio no mysterio occulto d'esta noite. Rebella que todos os +pastores tem um s pensamento. + +Simeo + +Vinde pastores aqui todos; n'este campo contemplaremos o silencio da +noute, que o auctor d'altos mysterios annuncia. + +Frederico _(escancarando a bocca)_ + +Que semsaboria! + +Macario e Cosme + +Sio! _(prolongado.)_ + + +SCENA IV do Auto + +ENTRAM PASTORINHOS E PASTORINHAS + +Ruiva _(declamando)_ + + Aqui vimos, meus senhores, + Adorar ns o menino: + No seu sancto nascimento + Com grande contentamento. + +(CRO) + + Se o menino nascido, + Ns o bamos prcurar; + Aparcei, senhor menino, + Que vos queremos adorar. + + + _(Sem por diversos lados.)_ + + +SCENA V do Auto + +UM REI TURCO E DEPOIS OUTROS FIGURES + +Rei turco + + _(Com uma cara horripilante, e trejeitos assustadores)_ + + Sou o turco rei, que + Valoroso na arrogancia; + Por ser filho da fortuna + E neto da extravagancia! + + _(Corre brandindo a espada d'um lado a outro.)_ + + De moiriscos reis nasci, + Sou seu filho alentado, + O meu brao furibundo + Deixa tudo escangalhado. + + Co'esta espada sou capaz + De entrar pelo inferno dentro + E pr tudo em mil pedaos + Que eu sou um rei sanguenolento! + + _(Risada de Frederico.)_ + +Cosme + +J pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar +em to solemne passo! + +Frederico + +Solemne passo, diz o nobre deputado! chamar _solemne passo_ +prostituio da arte! + +Macario + +O snr. que uma prostituio! Bem disse aqui S. Ex. que o senhor +um atheu! um impio que zomba dos mysterios dogmaticos! + +Vozes _(dentro)_ + +Quebra-se-lhe a cabea!--Bordoada rija!--Vamos a elle! + +Morgadinha _(erguendo-se colerica)_ + +Essa canalha que se calle! Joo Lopes, onde est o regedor? + +Joo Lopes + +Saber V. Ex. que o regedor tomou tamanha turca que est a cozel-a no +palheiro d'um lavrador. + +Cosme _(com enfaze)_ + +Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem +social. A auctoridade que d o exemplo da relaxao dos costumes no +pde educar as massas. necessario que no se desvirtue e desprestigie +o funccionalismo, com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos +chegados desmoralisao do Baixo-Imperio! + +Macario + +Apoiado! + +Morgadinha + +Ento os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto? + +Pantaleo _(ao Rei turco)_ + + Z da Custodia, diz l o que tinhas a dizer. + +Rei turco + +Se isto no leva rumor, acaba-se a pandega! + +Frederico + +Magnificamente! Est a coisa definida: isto uma pandega, e querem os +morales que a gente se desfaa em lagrimas! Faa favor de continuar, +snr. rei turco, que eu estou srio, e talvez chore. + +Rei turco + +Agora no sou eu que boto a falla, o outro rei. Entra, Manel +Zarlho! _(Chamando para dentro.)_ O Manel Zarolho o rei christo. +_(Explicando.)_ + + +SCENA VI do Auto + + _(Entra um Rei christo com muitos pastores e pastoras)_ + +Rei christo + + Eu trago os meus companheiros + Fieis minha nao, + Para te convencer, turco, + E para te fazer christo. + +Rei turco + + Para onde ides, romanos, + Que to alegres vos vejo? + +Rei christo + + Festejar o menino nado + Que todo o nosso desejo + +Rei turco + + Que do passaporte? + +Rei christo + + Passaporte no trazemos, + Se nos no deixas passar + Para traz ns tornaremos. + +Rei turco + + Para traz no heisde tornar; + Que eu vou buscar algemas, + Que vos quero algemar. + +Pastores e pastoras _(cantando)_ + + Milagroso Deus menino, + Esta obra vossa ; + Ajudai-o a vencer + O turco inimigo da f. + +Rei christo + + Saca l da tua espada! + +Rei turco _(arrancando para elle)_ + + co, que sova tu levas! + + +SCENA VII do Auto + +OS MESMOS E UM ANJO, QUE SE METTE EM MEIO DOS DOIS REIS + +_Canta:_ + + Detem-te, barbaro turco! + Cessa a tua infeliz sorte; + Faz-te christo, que no tarda + Que te apanhe a feia morte. + +CRO _(dos pastores)_ + + Faz-te christo que no tarda + Que te apanhe a feia morte. + +Rei turco _(declama)_ + + Eu sou o rei Almeirante + La do reino da Turquia; + Nunca fui prezoneiro, + So do rei da Lixandria! + +O Anjo _(canta)_ + + Detem-te barbaro turco, etc. + +CRO _(dos pastores)_ + + Faz-te christo que no tarda + Que te apanhe a feia morte. + +Rei turco _(afflicto)_ + +Que isto? que sinto? que tenho eu aqui? _(Com a mo sobre o estomago)_ +Que tenho eu aqui? + +Frederico + +Hade ser vinho. _(A Morgadinha ri-se s escancaras.)_ + +Macario _(sobremodo indignado)_ + +No ha noticia de tamanho escandalo!.. 0 snr. escrivo est mostrando +que um homem de sentimentos muito herejes!.. + +Cosme + +E eu assaz me espanto que a snr. morgadinha applauda com a sua +hilaridade estas interrupes indecentes! + +Rei turco _(zangado)_ + +Eu c que no estou p'ra chalaas!.. Passem por c muito bem. Por aqui +me esgueiro. rapasiada, vamos embora. Manda tocar a marcha Antonho +da Pga. _(Se com os personagens do auto, atraz da Musica, que vae +tocando a marcha.)_ + + +SCENA III + +OS MESMOS, EXCEPTO OS PERSONAGENS DO AUTO + + _(Grande movimento e rapido. Macario gesticula com Jordo, e + Pantaleo com a filha. Alguns camponios de varapo fazem crco a + Frederico. A morgadinha passa por meio d'elles, bamboando a cabea e + vibrando o chicotinho. Frederico passeia com os cabos. Os camponios + retiram-se, relanando olhos ameaadores ao escrivo.)_ + +Morgadinha + +Isto j me aborrece, pap... + +Pantaleo + +Vamos embora, menina? + +Morgadinha + +Por em quanto no: quero vr o fgo prezo; mas vou descanar um +pouquinho a casa dos cazeiros. + +Pantaleo + +Vae, que eu vou buscar-te assim que principiar o fogo. + +Morgadinha + + Joo Lopes, vem comigo. _(Sem. Frederico retira-se pelo outro lado +com os cabos.)_ + + +SCENA IV + +MACARIO, COSME E PANTALEO + + _(Formam um grupo parte, do povo que gira no fundo)_ + +Macario + + snr. morgado, pois V. Ex. deixa fugir esta occasio de fazer quebrar +o espinhao ao morto? + +Pantaleo + +A occasio boa ; mas que eu no quero que minha filha assista, por +que ella capaz de se metter no meio da desordem. + +Cosme + +Pelo que observo, esta sua filha uma heroina grega ou romana, snr. +morgado! Ella faz lembrar a Pantasilea do Virgilio, e outras faanhudas +mulheres da historia antiga! Nos tempos presentes, sou a dizer a V. Ex. +que a mulher quer-se fragil, meiga e timorata; e por tanto permitta que +eu censure a educao que deu a sua filha! + +Pantaleo _(docil)_ + +Que quer V. Ex.? filha unica, ficou sem me muito cedo, e foi creada + laia de rapaz, a trepar s arvores, a atirar aos passaros, e a jogar o +po; em fim, confesso que andei mal avisado. Eu ento achava-lhe muita +graa; hoje no lhe acho nenhuma; mas j no posso emendar a mo. +tarde; minha filha tem vinte e seis annos; hade ser difficil +corrigir-se, s se o casamento fizer a mudana, e espero que faa. + +Cosme + +Se o casamento fizer a mudana! Ora essa! Pobre marido que no tem os +focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu c por mim, snr. morgado, +confesso que tive certos intentos matrimoniaes com ella; vista, porm, +das suas informaes, declaro que desisto e renuncio, por que me no +sinto com foras e habilidade para domesticar uma cobra-cascavel... + +Pantaleo _(formalisado)_ + +No consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha! + +Cosme + +Isto uma comparao rethorica, litterariamente fallando. + +Macario + + rethorica... no se offenda V. Ex.;... talvez ignore que a rethorica + uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis... + +Pantaleo + +No quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleo Cogominho +de Encerrabodes seja respeitada! _(Volta as costas, e se bufando.)_ + + +SCENA V + +COSME E MACARIO + +Cosme + +Isto uma familia de hotentotes! Cheiram ao serto estes selvagens! Do +que eu me escapei! Se caio nas mos d'estes dois barbaros da edade +media! Parece-me uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemec, snr. +Macario, a dizer-me que esta fidalga tinha uma educao fina! + +Macario + +_Fina_, no disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe que +ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differena, phisicamente +fallando. + +Cosme + +Perdo. Vocemec disse-me que ella tivera fina educao. + +Macario + +Isso ento foi rethorica... + +Cosme + +Eu no admitto rethoricas em objecto to srio como o casamento! Olhem +que educao fina a d'este anjo! Trepa s arvores, atira aos passaros, e +joga o po! Que predicados estes to mimosos para augmentarem as graas +virginaes d'uma menina! No lhe falta seno vestir-se de homem, que +agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. Uma +menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canho, e rompe com +elles por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de +amores que nem aaftida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma +muito candida e muito pura dentro do peito que se albarda com um palet +de homem para arrotar francamente umas phrases de bomba real que nos +fazem comiches nos miolos e arrepios na espinha! Arreda! olha o que me +estava reservado para os quarenta e seis annos! Uma mulher assim +paralisava-me as funces do intellecto, e l se me iam as minhas +ovaes parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, devo-me +regenerao da minha patria, sou homem publico; e um homem publico +quando se casa deve fazel-o com dama que o no impea nem apoquente. A +femea natural do homem politico a politica; a esposa, para os homens +devotados aos interesses materiaes do seu circulo, significa to smente +um supplemento vivo e util s commodidades domesticas. Percebe vocemec, +snr. Macario? + +Macario + +Ora se percebo! A minha mulher c para mim tambem um supplemento ha +muitos annos; e mais eu fao-a trabalhar na politica enchendo os +bilhetes de votos na eleio. Diz V. Ex. muito bem, que ns os homens +publicos no temos tempo para cuidar de mulheres... _(Reparando em +Frederico)_ Ahi vem o atheu... + +Cosme + +Vou-me safando que no quero palestras com este safio. _(Se.)_ + + +SCENA VI + +MACARIO E FREDERICO + +Frederico _(encarando o outro com a costumada careta)_ + +O douto pharmacopla est irado contra mim por que fui causa a +interromper-se o escandalo do auto... + +Macario + +Eu no me metto com o senhor... Tenha a bondade de no embarrar c por mim. + +Frederico + +A sciencia sempre orgulhosa. Faamos pazes e alliana, snr. Macario +Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a +sua sciencia do bazalico e do oleo de mamona, podemos dominar este +concelho, reunidas as duas foras n'uma aspirao unica. Por que me faz +guerra inexoravel e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu +consorcio com a Morgadinha? Por que anda o snr. servindo de alcaiote +d'este alarve de Guimares, que o trompo grandioso das maiores +asneiras civicas assopradas na charanga parlamentar? O officio do snr. +Macario, n'este negocio, desacredita um pharmaceutico, que reune ao +conhecimento do gamo, sciencia no vulgar da historia dos doze Pares de +Frana, e tem orvalhado com lagrimas os fastos sanguinosos de +_Roncesvalhes_. + +Macario + +V mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem +Macario Mendes... _(Se.)_ + + +SCENA VII + +FREDERICO, JOO LOPES, E CABOS + + _(As cantadeiras que no fim do 1. acto acompanharam a morgada + entram a cantar a moda com que se fechou o dito acto:)_ + + _D'onde vens, velha,_ + _Eu venho da feira_, etc. + + _(N'um intervalo da 1. 2. trova Joo Lopes acerca-se de + Frederico com disfarce)_ + +Joo Lopes + +Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Esto-se a +preparar os valentes. _(Frederico apita rijo. Apparecem de differentes +sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em quanto se repete a +cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fra o rumor da desordem, e o +estalido dos varapos. As cantadeiras fogem alvoroadas a dar gritos.)_ + + +SCENA VIII + +FREDERICO, CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS + +Frederico _(com intimativa bellica)_ + +Formem em linha. Carregar armas! + +Um cabo + +Esto carregadas. + +Frederico + +Vamos ser atacados pelos desordeiros. voz de fogo, atirem. _(V-se +atravessar a scena por entre o povo um Desconhecido de chapo derrubado, +o rosto coberto por um leno, de caraa, polainas de briche nas pernas e +ps, com um grosso po de choupa. Proximos de Frederico os valentes +param, com os pos cruzados nas pernas, gingando em attitude ameaadora. +Frederico, no se desvia dos cabos. De repente, rompem de fra uns +poucos varrendo o campo a pauladas.)_ + +Frederico + +Cabos de policia, sentido! Preparar armas! _(Se perto da bocca da scena +o Desconhecido. Encosta-se ao po observando os movimentos dos +valentes, os quaes vem j avanando, j recuando, crescendo sobre +Frederico.)_ + +Frederico _(aos cabos)_ + +Aperrar armas! _(Uma paulada faz saltar a clavina das mos d'um cabo. Os +outros fogem. Frederico reca, apitando rijamente. No maior aperto, o +Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do po, e +arremette com os aggressores. Estes, forados pela destreza, fogem, logo +que o primeiro ce d'uma paulada. A vozeria cresce no momento em que o +palco est despejado. O Desconhecido trava do brao de Frederico, e o +traz bocca da scena.)_ + +Frederico + +Quem o valente homem a quem devo a vida?! quem ? + +Morgadinha _(arrancando o leno do rosto)_ + +Sou eu! salvei-te, Frederico! + +Frederico + + morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como s ideal e angelica! +_(Ajoelhando.)_ + + +FIM DO SEGUNDO ACTO. + + + + +ACTO TERCEIRO + + Salo da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia. + Reposteiros j envelhecidos com brazes. Alguns retractos. Um piano + moderno. + + +SCENA I + +PANTALEO E MACARIO + +Pantaleo + +Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha, +desde que comeou a vestir-se moda, e a tocar piano, est muito +distrahida do troca-tintas do escrivo. No anda por janellas, no se +de casa, e gasta alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a +vestir-se. Isto custa-me um dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado. + +Macario + +E quem que ensina a snr. morgadinha a tocar? + +Pantaleo + + a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com +loja de fazendas brancas... + +Macario + +Bem sei, bem sei. + +Pantaleo + +Foram l as primas de Ruives que fizeram a descoberta; mas o que tem +muita graa que o homem da mestra to ciumento que s a deixa ir a +casas onde no ha homens... + +Macario + +Que tal pezta ella!.. + +Pantaleo + +E para vir aqui, pz por condio que a mulher s viria noitinha +acompanhada pelo marido que a deixa porta, e vem por ella duas horas +depois. Eu estive quasi a no aceitar tal professora por saber que o +escrivo de fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que +ella fosse medianeira d'alguma carta... + +Macario + +E tem raso, snr. morgado... Veja l!.. olhe que o mundo um covil de +marotos! + +Pantaleo + +No ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pz +fra da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia +d'lho a consorte. + +Macario + +No que sem licena d'elle no ha maior desmoralisao n'este mundo! +Aquillo tem mesmo idas de Sardanapalo! Ainda bem que lhe est por um +fio a ladroeira da repartio... + +Pantaleo + +Conte l isso ento. Em que termos est a bernarda? Rebenta hoje ou manh? + +Macario + +Hoje. Est tudo alevantado quando fr nove horas. Os sinos ho-de tocar +a rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo ce todo sobre +Santo Thyrso, e faz crco para que o escrivo no possa escapulir-se; +que elle leve como uma penna, e quando a gente mal se precatar, v-o +fazer vispre, zpe-zpe _(expresso sibilante para imitar a rapidez da +corrida.)_ + +Pantaleo + +Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que no +vo os meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que eu +desejo que elle no apparea mais em Santo Thirso. L a respeito da +papellada isso queimal-a toda; que depois o governo como no tem +cadernos para a cobrana dos impostos, no o manda para c a elle nem a +outro. + +Macario + +Grande ida essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa. +Se a gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer +economias, porque depois no havia quem quizesse servir os empregos. O +sytema um bocado violento para os empregados, mas eu no vejo outro +meio de os ir acabando... + +Pantaleo + +No acho isso humanitario! + +Macario + +Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos, +leio jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheo por dentro +e por fra o paiz e as suas necessidades. Fique certo d'isto; em quanto +se no der fim a uma casa a que os jornaes chamam _burrocracia_, no se +indireita a patria. + +Pantaleo + +Como se chama isso? + +Macario + +_Burrocracia_, que pelos modos palavra de idioma francez, que vem a +dizer empregado publico. + +Pantaleo + +Snr. Macario, v indo c com as minhas idas moderadas. O melhor systema +de se acabar com os escrives de fazenda queimar os cartorios. Eu lhe +ponho uma comparao. Se eu queimar a palha que tenho, e no comprar +outra, que me acontece minha parelha de machos? Morrem de fome, no +verdade? + +Macario + +Isso . + +Pantaleo + +Pois ahi tem: os escrives, em se lhe queimando os papeis, no tem que +roer. + +Macario _(duvidoso)_ + +Nada; a comparao dos machos no me convence, queira V. Ex. perdoar. +_(Com energia)_ Matal-os, matal-os, o grande _desideratum_. + +Pantaleo + +E os papeis? deixam-se ficar? + +Macario + +Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrives! Nada +de cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa causticos e ventosas. + +Pantaleo + +Ora vocemec, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha +est o processo da execuo que a fazenda nacional me move... + +Macario + +Por seis contos d'uma fiana dos bens dos frades, sei muito bem... +Esteja descanado, que no ha de l ficar papel em que se amortalhe um +cigarro. + +Pantaleo + +Quem o chefe da revoluo? + +Macario + + falta d'homens por hora sou eu; mas no sei a que os commandantes das +freguezias decidiro. J ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex. +general em chefe. + +Pantaleo + +Homem, tire isso da cabea s freguezias. Vocemec bem sabe que eu ando +muito adoentado dos intestinos, e no posso deixar de tomar o meu banho +de cana noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revoluo; +mas entrar nella em pessoa no posso por causa d'esta molestia dos reins +que me no deixa cavalgar; e vocemec bem entende que um general em +chefe a p no tem geito, nem pode vr de longe o inimigo, se nos fr +necessario entrar em batalha com o exercito. Dispensem-me por tanto de +tamanha honra. + +Macario + +Farei as diligencias; mas receio que... + + +SCENA II + +OS MESMOS E A MORGADINHA + + _(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido + muito curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido s pernas; + grande lao na cintura posteriormente; sapatos de salto dourado; + cabelleira com estupendos tufos encaracolados.)_ + +Pantaleo + +Vens para o piano, Joanninha? + +Morgadinha _(pondo luneta d'oiro)_ + +Sim, pap, vou estudar a minha lio de escala. _(Senta-se ao piano.)_ + +Macario _( parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)_ + +Que desmoralisao! Isto o peccado em carne e sso! + +Pantaleo + +Est vocemec admirado d'estas modas, amigo Macario! + +Macario _(ironico)_ + +So bonitas... _(Grave)_ Mas no acho isto decente para a observancia +dos bons costumes. + +Morgadinha + +Que quer? moda; andam assim todas as senhoras do tom. + +Macario + +Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim no ho de vestir, se +Deus quizer. + +Morgadinha _(voltando o rosto com aborrecimento)_ + +Ento as suas filhas so senhoras? + +Macario + +D'aquella massa se fazem, snr. morgada... + +Morgadinha _(dedilha nervosamente nas teclas)_ + +Adeus, adeus. Temos historia! + +Pantaleo _(a meia voz)_ + +No a zangue... Deixe-a l... Tomra eu que ella se entretivesse com os +vestidos... + +Macario + +A cabea... est feito, mas as pernas a vr-se-lhe, snr. morgada! Assim +no se podem observar os bons costumes... _(A Morgadinha canta +acompanhando a escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas +altas. Macario Mendes, offendido pela desharmonia, faz caretas.)_ + +Pantaleo + +Ainda no sabes cantar modinha nenhuma, menina? + +Morgadinha + +A mestra no quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que o +essencial. _(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario +despede-se, apertando a mo a Pantaleo.)_ + +Pantaleo + +Veja l os meus papeis, snr. Macario. + + +SCENA III + +OS MESMOS E JOO LOPES + +Joo Lopes _(trazendo castiaes com luzes)_ + +Est na sala de espera a snr. mestra pianista e mais o marido. + +Morgadinha + +Est! Pap, preciso sahir, tenha paciencia. Bem sabe que ella, se vir +homem aqui, no entra. + +Pantaleo + +Est bom pedao d'asno o marido! Ento elle no sabe que eu sou um homem +srio! + +Morgadinha + +Que quer o pap! J lhe tenho dito que pde entrar segura de que no +ouve palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que +a mestra fallou com um homem, seja elle quem fr, no a deixa voltar. + +Pantaleo + +Com certos individuos tem elle raso; mas nem todos so como o devasso +escrivo de fazenda, que lhe andava a fazer a crte mulher, e por isso +foi posto de l para fra. Acho justo que elle se acautele dos +tratantes; mas de mim... parece-me bestialidade! Emfim c vou. _(Se.)_ + + +SCENA IV + +MORGADINHA, JOO LOPES E DEPOIS FREDERICO + +Morgadinha + +Pde entrar a snr. D. Thomazia. + +Joo Lopes _(para dentro, levantando o reposteiro)_ + +Pde entrar a snr. D. Thomazia. _(Joo Lopes se, assim que entra a +supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de vo +espesso, e cachos. Chapu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir +a cara. Vae direito ao piano. V-se a cabea de Pantaleo que espreita +por uma fimbria do reposteiro. Joo Lopes tosse.)_ + +Morgadinha _(alto)_ + +Passou bem, snr. D. Thomazia!.. _(Baixo)_ No me falles que meu pae +est espreitando, em quanto Joo Lopes tossir... _(Tocam e cantam a +escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia nas vozes.)_ + +Joo Lopes + +O snr. morgado j est no pateo a conversar com o marido do snr. +Frederico; estejam vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando +eu tossir, vejam l... + +Frederico _(levanta o vo, abraando o velho)_ + +Este Joo Lopes um prodigio de dedicao! o typo genuino do antigo +creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, Joo Lopes, voc ha de +progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a +voc um habito de Christo! + +Morgadinha + +Deixa-o ir, deixa-o ir... _(Joo Lopes se.)_ + +Frederico _(tomando-lhe as mos calorosamente)_ + +E os nossos sonhos vo realisar-se, minha fada! Oh! _(contemplando-a +absorto)_ que deslumbrante! que eclipse ests fazendo nos anjos do co! +No s s uma bellesa! s um milagre! uma gloria! uma divinisao! No +ouso beijar-te as mos... Os ps, os ps! Estes ps requerem tapetes de +labios e almofadas de coraes! Consente que t'os beije, houri! + +Morgadinha _(desviando-se)_ + +No sejas tlo! Gostas de me vr assim? + +Frederico + +Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as +fibras intimas do peito! Luz, luz que me cgas, faz-te lavareda, e... +devora-me! + +Morgadinha + +Vamos ao caso... Como esto os negocios? + +Frederico + +Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que ser +consagrado nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida, +requerendo tu a tua emancipao, visto que j contas vinte e seis annos; +mas, como receias que eu seja assassinado logo que requeiras ao juiz, +cumpra-se a tua vontade. _(Joo Lopes tosse. Vo sentar-se rapidamente +ao piano, tocando e cantando a escala. Depois, a Morgadinha vae +espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa voluptuosa que obriga a +Morgadinha a fazer alguns passos de dana. Frederico, arrebatado do +donaire gracioso d'ella, ergue-se de mos postas fazendo tregeitos de +enlevado.)_ + +Joo Lopes _(mettendo a cabea)_ + +Podem conversar, que elle passou para a tulha. + +Frederico _(com transporte)_ + +s divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanas o +p quebradio e chinez em attitude danante, sacodes e impelles brazas +minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus ps lindissimos. Tudo que +fazes mata e aviventa. Como no sers esbelta, nos sales de Lisboa, +princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos +cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de +felicidade por todos os pros! Joaninha, deixa-me sonhar! _(Fixa os +olhos espantados no tecto da plata. Musica surda)_ A minha vida vae ser +uma etherisao de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taas +nectreas do co, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... +Esse rosto em que se espelham as formosuras no vistas de Angelos nem de +Raphaeis, ser o meu Al-koro, porque o summo artifice escreveu ahi a +suprema estrophe do seu poema. Quando os teus olhos se abrirem ao +diluculo da manh, vr-me-has de joelhos a beijar os teus cabellos; +quando os fechares, cansados de serem beijados, e as sedosas palpebras +se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me quedarei a teus +ps velando que os sylphos amorosos da noite no ousem perturbar o teu +dormir. Oh! Joanna, Joanna! _(Ajoelha-se-lhe aos ps. Joo Lopes tosse +com maior fora. A morgadinha adverte em vo Frederico que contina no +seu arrebatamento:)_ Abre-me aqui j o sepulchro, se em alguma hora hei +de sentir-me orpho dos teus carinhos... _(Pantaleo ao fundo, erguendo +o reposteiro.)_ + +Morgadinha + +Ah! + +Frederico _(sobresaltado)_ + +O diabo! _(Desce o vo. Canta qualquer aria conhecida no acto de +ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente Morgadinha:)_ + + Diz a teu pai que a mestra + Para melhor te ensinar, + Te est cantando uma ria + Das que se usa cantar + No Theatro de Lisba: + Prega-lhe a pta, que ba; + E se esta nos no salva, + Nada nos pde salvar. + + +SCENA V + +OS MESMOS E PANTALEO + +Pantaleo _(ao fundo)_ + +Ento que isso? + +Morgadinha + + a minha mestra que me est ensinando uma ria das que se cantam no +theatro de Lisba. + +Pantaleo + +Ella tem a voz to grossa! No parece voz feminina! + +Morgadinha + +Ella canta na voz que quer.... Ento o pap j se esqueceu que o marido +d'ella... + +Pantaleo + +Est bom, est bom; eu vou-me embora. L estive conversando com o marido +da senhora, e lhe disse que no tivesse ciumes que eu sou um velho!... +Aquelle seu marido parece-me um doudo!.. _(Rindo)_ Ora andem l, andem +l. _(Se.)_ + + +SCENA VI + +FREDERICO, MORGADINHA E JOO LOPES A INTERVALOS + +Frederico + +Salvei-te ou no? Tu salvaste-me com a fora, na romaria; e eu aqui, +salvei-te com o genio! Vs como o amor me deu espirito n'um trance +difficil? Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos +teus olhos, formosa! _(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sa de +diversas longitudes. Rumr longiquo de vozes.)_ + +Morgadinha + +Que ser isto!? Joo Lopes! + +Joo Lopes _(dentro)_ + +Que quer, snr. morgadinha? + +Morgadinha + +Sabes a que tocam os sinos? fogo? + +Joo Lopes _(dentro)_ + +Fogo no me parece. Acho que bernarda. Estou c janella a vr se +entendo a gritaria. + +Morgadinha + +Diz que bernarda... + +Frederico _(alvoroado)_ + +Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sriamente comigo, comtigo, comnosco, +com o nosso futuro, Joanna! + +Joo Lopes _(dentro)_ + + revoluo. + +Morgadinha + +Revoluo! + +Frederico + +No ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo? + +Morgadinha + +Qual perder-me! Importa-me c a mim a bernarda! Hei de ser tua! No +temas, Frederico, que eu sou forte!.. + +Joo Lopes _(na scena)_ + +J intendi o que elles dizem... Do morras aos papeis, e que se queime o +escrivo da fazenda... E trazem musica... Ouvem?... _(Ouve-se +distinctamente, mas ainda longe, o hymno da Maria da Fonte, mistura +com os mrra!)_ + +Joo Lopes + +O snr. morgado est na torre a ouvir. Agora bom ser que o snr. +Frederico se escape, seno desconfio que o matem, sendo aqui pilhado... +_(Frederico apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha +agarra-o.)_ + +Morgadinha + +No te deixo sahir agora, que perigoso. + +Frederico _(muito inquieto)_ + +Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! D-me armas que eu +quero defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver +de doze tiros! Quero armar-me at aos dentes, e combater, e morrer +gloriosamente ao teu lado! + +Morgadinha + +Frederico, tu ests maluco!.. Olha que elles no vem c... No percas o +juizo! + +Frederico _(muito tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)_ + +No vem? Vem! Escuta! escuta! No ouves o bramido do tigre popular? +Olha... o leo que ruge, partidos os grilhes de respeito lei! a +Libia e a Hircania a vomitarem fras! Olha o lago sujo como se levanta +em vagalhes e como elles roncam! + +Morgadinha + +Vem ento esconder-te, vem esconder-te! + +Frederico + +No! Um homem no se esconde quando olhos como os teus so testemunhas +de tamanha covardia! mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido +ignobilmente! _(Arranca os vestidos mulheris: fica de quinzena; mas +conserva o chapo e os boucles)_ Agora, armas! armas! _(A morgada ri-se +apontando-lhe para a cabea.)_ Por que ris tu, mulher forte! porque ris +tu, se fazes favor?! + +Morgadinha + +Tira a cartola e os cachos, meu amor. + +Vozes _(que sobrelevam o estrondo dos figles)_ + +Morra o escrivo de fazenda! morra! _(Grande catharro de Joo Lopes.)_ + +Frederico + + chegada a hora! D-me um abrao, querida! Um abrao! e at ao reino +eterno! As nossas nupcias so no co!.. _(Aponta para o tecto e fica +como extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e se com +dous bacamartes de bocca de sino.)_ + +Morgadinha + +Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! _(Ella +aperra o bacamarte.)_ + + +SCENA VII + +OS MESMOS, PANTALEO E JOO LOPES + +Pantaleo _(estupefacto)_ + +Que vejo? que isto? como entrou este homem aqui? + +Frederico _(atirando ao cho o bacamarte)_ + +Venho offerecer-me vingana de V. Ex. + +Morgadinha + +Meu pap, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mo de esposa! + +Pantaleo + +Das duas uma: ou o senhor foge, ou espatifado pelo povo! + +Frederico + +No sei fugir: sei morrer. + +Pantaleo + +Mas v morrer a casa do diabo; no quero que o matem aqui. + +Joo Lopes + +V. Ex. tem raso; matal-o aqui mo: o melhor eu ir escondl-o no +meu quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos +da menina no ficavam com muita saude. + +Pantaleo + +Pois vae escondl-o... some-o no inferno! + +Morgadinha + +Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha, +sua filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu pap +_(ajoelha-lhe)_ eu j no posso deixar de ser esposa de Frederico, e +juro que sou d'elle na vida e na morte! _(Ergue-se: conduz Frederico +pela mo, e ajoelha com elle)_ D-nos a sua beno, querido pap! + +Pantaleo + +Nunca! nunca! _(Ouvem-se fora as acclamaes.)_ + +Morgadinha _(erguendo-se soberba)_ + +Ento, no tenho pae! tenho s marido! Se o povo o matar, ha de vr +morrer-me ao p d'elle... mas vingada!.. _(Lana mo do bacamarte)_ Que +entre o povo! + +Pantaleo + +Em que apertos me vejo! Rebenta-me o corao!.. + +Joo Lopes _(muito commovido)_ + +Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!.. + +Pantaleo _(a Frederico)_ + +Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa. + +Frederico + +Obedeo, por que m'o ordena o pae d'este anjo. _(Se com Joo Lopes.)_ + + +SCENA VIII + +PANTALEO E A MORGADINHA + +Pantaleo + +Perdi a cabea!.. Estou doudo... no sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!.. +onde est a pianista, que est alli fra o marido espera... + +Morgadinha + +A pianista?.. + +Pantaleo + +Sim, a pianista onde est?.. _(Olha para o cho, tropeando no vestido +de mulher)_ Que isto? _(levantando o chapo e os caracoes)_ Que +isto?! que isto, Joanna?.. + +Morgadinha _(afflicta)_ + +Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!.. + +Pantaleo + +Ento a pianista era... era o escrivo?!.. + +Morgadinha _(soluando)_ + +Era, sim, snr.! + +Pantaleo + +Que sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o +patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!.. + +Morgadinha + + meu espso... perde-nos... + +Pantaleo + +Tu s o demonio, mulher! + +Morgadinha + +Sou uma infeliz apaixonada... O meu pap, tenha piedade! Olhe que o +Frederico muito bom mo. Se no fidalgo hoje, pde sl-o manh. O +pap bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr' outro. + +Pantaleo + +Ergue-te, ingrata, que dste cabo de teu pae! _(Rompe a musica pelo +interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)_ + + +SCENA IX + +JOO LOPES, PANTALEO, MORGADINHA, MACARIO + + _(A musica, na vanguarda, ladeia para dar passagem a Macario vestido + de official de ordenanas, mas com chapo embicado. Traz uma espada + empunhada, e outra debaixo do brao, seguem-no 12 commandantes + subalternos, vestidos a capricho, uns com chapo redondo e banda e + dragonas, outros de barretina e niza. Um d'estes arvora uma bandeira + de varias cres.)_ + +Macario + +Viva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das foras +populares do Minho! + +Vozes + +Viva! _(Cala-se a musica.)_ + +Macario _( frente dos revolucionarios com enfaze oratoria)_ + +Snr. morgado! As foras populares de seis freguezias que ahi esto +reunidas fra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim, + frente dos seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a +V. Ex. que por voto geral foi acclamado general em chefe d'esta +provincia. Eu lhes fiz um eloquente discurso para os tirar d'essa ideia, +allegando com o meu gro de pharmaceutico que V. Ex. soffria dos +intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles no me +attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex. a espada de general +em chefe. Aqui est por consequencia esta valente espada que matou em +1810 muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mos de V. Ex. +limpar este paiz de escrives de fazenda e outros mariolas que nos +desgraam. Receba V. Ex. das minhas mos esta espada e salve com ella a +patria do snr. D. Affonso Henriques! + +Os commandantes + +Viva o snr. boticario! Viva! + +Macario + +Obrigado, valentes guerreiros! _(A musica executa uma marcha muito +compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada +offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz +signal de que quer fallar. Silencio.)_ + +Pantaleo _(commovido)_ + +Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impresso me fizeram as +vossas palavras e no pude deixar de me commover... Estou realmente +commovido, e sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe +que as minhas doenas e outras desgraas me no permittem tomar o +commando das valentes foras populares que representaes. No posso, +senhores, no posso. Se a fortuna me tivesse dado um filho, essa espada +estaria j nas mos d'elle. + +Morgadinha _(tirando a espada da mo de Macario)_ + +Est nas mos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou +mulher, ha de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle ser +digno d'ella! _(Chamando) _Frederico! Frederico! + + +SCENA ULTIMA + +OS MESMOS E FREDERICO + +Frederico _(ajoelhando diante da morgadinha)_ + +Sim! sim! recebo de vossas mos, Senhora, a espada que ha de decepar as +infinitas cabeas da hydra financeira! _(Espanto geral.)_ + +Macario + +Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!? + +Pantaleo + +Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio! + +Joo Lopes + +Vae ser o marido da menina... _(a Pantaleo)_ Faa favor de no +desmaiar, por quem ! + +Frederico _(com vehemencia e fogo)_ + +E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos victoria, +briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por +vs, intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pdres +em que o prostraram os comiles. Eu fallo assim, porque cada nao, nas +horas criticas, tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da +rethorica. Vamos a elles, filhos da victoria! As nossas bandeiras +desenroladas aos ventos das batalhas, diro: Riqueza e Moralidade! Em +menos de quatro annos de regimen moral, e dieta aos lambes, o paiz no +dever nada, e vs no pagareis um pataco de decima. + +Vozes + +Apoiado! + +Frederico + +Cidados! Eu tenho estudado profundamente as doenas de Portugal e pude +descobrir onde est o cancro que nos re. Ahi vae o meu programma: O meu +systema dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem +seu presidente de eleio popular, quero dizer, cada conselho governa-se +a si, e no quer saber do conselho visinho. No sei se me percebem... + +Macario + +Muito bem, entendemos muito bem. + +Frederico + +Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que no tem nada com +a republica de Famalico, nem com a republica de Fafe. Ns c vivemos +com o que nosso, fazemos as nossas despezas, e no damos nem vintem +aos de fra. + +Vozes + +Apoiado! apoiado! + +Frederico + +Aqui est o meu systema que ainda no lembrou a ninguem, e que o +resultado de quinze annos de estudo. Conseguido isto, no temos a +sustentar tropas, _(Apoiados)_ nem as estradas por onde andam os outros, +_(Apoiados)_ nem theatros onde os outros se divertem, _(Apoiados)_ nem +escrives de fazenda. _(Apoiados)_ E declaro que me dou j por demittido +do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando: Guerra e morte a +todos os escrives de fazenda! _(Os populares desembainham as espadas, e +bradam: guerra de morte!)_ E, portanto, senhores, beijo esta espada, e +leio na sua lamina, os novos destinos que vo alvorecer para Portugal! +Recebi-a da mo do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E +concedei, cidados, que essa bandeira seja arvorada nas mos da Judith +lusitana! No mais cahir aos ps de vencedor algum o estandarte que foi +consagrado pela filha d'este honrado fidalgo! _(Frederico, tem passado a +bandeira Morgadinha, a qual se colloca de maneira que o pae fica entre +ella e Frederico.)_ Bravos sycambros de Santo Thyrso! agora, victoria, + victoria que a patria nos chama! Est inaugurada a republica +confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! _(Os musicos executam. +Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a +bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentes. Joo +Lopes sentado com os queixos entre as mos contempla tudo aquillo. Corre +o panno.)_ + + +FIM. + + + + + * * * * * + +ENTRE A FLAUTA E A VIOLA + +ENTREMEZ EM UM ACTO + + + + +PERSONAGENS + + ANICETO DA SILVA, pae de + VICTORINA. + GUTERRES ARTHUR DE MIRAMAR. + JOS PIMENTA. + UM CREADO. + + + + +ACTO UNICO + + Salo de estalagem em Barcellos. Quartos numerados desde 1 a 12, + occupando os lados, e parte do fundo. Um d'elles o n. 10 tem + sobranceira porta uma vidraa ou bandeira. Sobre um canap de + palha est uma viola francesa. + + +SCENA I + + _(Ao erguer o panno vem entrando Aniceto e Victorina precedidos de + um creado com dois saccos de noute e castial.)_ + +ANICETO, VICTORINA, CREADO + +Aniceto + +Vamos a saber: temos dois quartos limpos e camas asseadas onde se passe +a noute? + +Creado + +Hde haver. + +Aniceto + +Ha de haver?! Pergunto se ha. + +Creado + +Faa favor de entrar aqui para o n. 6; e acol defronte est o n. 10 +tambem de vago. _(Pe a bagagem dentro dos quartos.)_ + +Aniceto + +Ento os outros esto occupados? Pelo que vejo reuniram-se muitos +viajantes em Barcellos. Teem bom gosto! Quem est hospedado c? + +Creado + +Nos n.os 1, 3, 5, 7 e 9 esto as snr.^as fidalgas de Lanhoso, que so +seis velhas. + +Aniceto + +Que faz por aqui esse mulhero? + +Creado + +Vo para os banhos da Povoa. V. S. faa favor de fazer pouca bulha que +ellas recommendaram-me todo o socego, que queriam dormir. + +Aniceto + +Pois que durmam. Ora que me importa c a mim as fidalgas de Lanhoso! + +Creado + +V. S. toma alguma cousa? + +Aniceto + +Queres ch, Victorina? + +Victorina + +No quero nada. Quero deitar-me, que estou moda. O meu quarto +aquelle? _(Apontando para o 10.)_ + +Aniceto _(indo examinar o quarto)_ + +Para onde deita aquella janella? + +Creado + +Para o quintal. + +Aniceto _(indeciso)_ + +Para o quintal? est bom... V... Vae-te deitar, menina. _(Ao creado)_ +V voc buscar outra luz. _(O creado se.)_ + + +SCENA II + +ANICETO E VICTORINA + +Victorina + +Boas noutes, meu pae. + +Aniceto + +Boas noutes. Se fr preciso alguma coisa, bate na porta trez palmadas. + +Victorina + +Ai! _(Gemido longo.)_ + +Aniceto + +Deixemo-nos de ais, Victorina. Juizo, juizo e juizo! _(Victorina +recolhe-se. O pae fecha a porta, e tira a chave.)_ + + +SCENA III + +ANICETO E O CRIADO QUE VEM COM O CASTIAL + +Aniceto + +Diga-me c voss... + +Creado + +Meu amo, que manda? + +Aniceto + +Por aqui tudo femeas, ou tambem ha machos? + +Creado + +Machos?! + +Aniceto + +Sim, homens! Se esto homens n'estes quartos. + +Creado + +J disse que no, meu amo. No ha homens. + +Aniceto + +Da banda do Porto no veio passageiro nenhum? + +Creado + +No snr. + +Aniceto + +Est bom; d c voc a luz e v-se embora. s 7 da manh, chame-me se eu +no estiver a p, ouviu? + +Creado + +Sim snr. _(Aniceto recolhe-se, e fecha-se por dentro.)_ + + +SCENA IV + +GUTERRES E O CREADO + +Guterres _(com um sacco de viagem)_ + +Ol, Gregorio! + +Creado + +Por c, snr. Guterres! Como est V. S.? + +Guterres + +Bom. Ha quarto? + +Creado + +Hade haver. D'onde vem? + +Guterres + +Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Est c? + +Creado _(rindo)_ + +Ora V. S. que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta a setima +vez que o vejo n'aste fadario! E o magano sabe-as escolher! + +Guterres + +Ento viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde est ella? + +Creado + +Alli no n. 10. + +Guterres + +Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dir que o +meu ideal sonhado ha trinta e seis annos est na estalagem de Barcellos! +Alli! n'aquelle antro! + +Creado + +Sempre V. S. est um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do +regedor de Guilhabreu que c esteve na festa das Cruzes ha cinco annos? + +Guterres + +Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos... + +Creado + +E os versos que V. S. lhe botou? a gente sempre se ria... + +Guterres + +Ah! vocs riam-se dos versos? Tens tu a felicidade bestial de te rires +da poesia? O talento pde contar com o couce at em Barcellos... Ora +vamos... onde tenho eu quarto? + +Creado _(indicando-lhe um do fundo)_ + +Est alli o n. 11. + +Guterres + +Bem. Podes ir. _(Entra na alcova. O creado se.)_ + + +SCENA V + +ANICETO SAINDO COM O CASTIAL EM PUNHO + +No posso adormecer com a ida de que ha uma janella no quarto de +Victorina. Aquelle maldito no me deixa socegar em parte nenhuma. Receio +que elle me siga por que o lobriguei quando passvamos em Vallongo; e +ella tambem o viu. Quem me diz a mim que o tratante nos no persegue, e +anda volta da casa? Cuidar aquelle valdevinos que se pde com uma +flauta arranjar uma rapariga com fortuna! Ha dous annos que minha filha +est enfeitiada por um trocatintas d'um estudante que conseguiu seduzir +o corao d'uma menina que regeitou os melhores casamentos de Penafiel e +Amarante! Afinal, no hasde vencer, sarrafaal! Eu tolherei todos os +teus calculos. No me pilhars descuidado um instante! Mas aquella +janella assusta-me. Vou fazer mudar Victorina para o meu quarto. +_(Olhando para o alto da porta)_ E de mais a mais esta porta tem vidraa +em cima. Se elle aqui entrar, ella pde vl-o d'alli... Que imprudencia +eu ia commettendo! _(Bate a porta)_ Victorina, Victorina! + +Victorina _(dentro)_ + +Quem ? + +Aniceto + + teu pae. J ests na cama? + +Victorina + +No, snr. + +Aniceto + +Que ests a fazer? + +Victorina + +Nada. _(Dando volta chave.)_ + +Aniceto + +Nada? Posso entrar? _(parte)_ L est ella a descer a vidraa. _(Alto)_ +Posso entrar? + +Victorina + +Pde. + +Aniceto + +Estavas janella? + + +SCENA VI + +ANICETO E VICTORINA SAHINDO DA ALCOVA + +Victorina + +Ai! + +Aniceto + +Que estavas a fazer na janella? + +Victorina + +Ora o pae tem manias! Credo! que havia de eu fazer na janella! Estava a +tomar a fresca. No tinha somno, no podia dormir, estava muito +afflicta, muito opprimida, muito abafada, abri a janella, ai! + +Aniceto + +Pois sim, sim, minha menina. Assim ser; mas troquemos os quartos. Vae +para aquelle, que eu vou para este. D c o teu sacco de noute. Vamos. +Leva o castial. D-me o meu sacco. Muito bem. Agora entra... + +Victorina _(entrando)_ + +Oh cos! + +Aniceto + +Sim, sim. _(Fechando a porta, e tirando a chave)_ Agora vou descanado. +_(Recolhe-se.)_ + + +SCENA VII + +GUTERRES + + _(Caminhando contemplativo com o castial em punho e os olhos postos + no quarto d'onde sahiu Victorina. Pousa o castial.)_ + +Ella alli est, a formosa como a rolinha adormecida com o bico debaixo +da aza; e eu venho aqui dar pasto ao corao;... mas que pasto to pouco +nutriente! Pobre poeta! todo o teu alimento so esperanas! Em quanto a +gente prosaica se embrutece com timbaes de pombos e pasteis de camaro, +tu, poeta _(batendo no peito)_ engoles timbaes de esperanas com pasteis +de sonetos. Eu j sou do tempo em que um homem de genio amava com o +auxilio dos sonetos, e fazia consistir toda a sua gloria de fino amante +em gargarejar ternuras para um terceiro andar e recolher-se a casa com o +corao a trasbordar de catarro. Hoje no. Os anjos actuaes se apparecem +de noite janella para namorar a lua, ou vr a cauda d'algum cometa. +Desde que entrou a moda do amor ideal, os olhos d'uma senhora, que +conversa com as estrellas, no descem a procurar na rua um d'estes +amadores fanhosos, que s se sentem inspirados e eloquentes na occasio +em que a patrulha os no deixa fallar. Eram d'uma paciencia adoravel as +donzellas de ha vinte annos, quando em meu corao rebentavam as +primeiras flres!.. Que sensaborias a gente lhe disparava l para cima, +e a sancta resignao com que a gente as ouvia a ellas! A virtude +d'aquelle tempo s se explica bem pela temperatura de sorvete em que os +coraes se conservavam de parte a parte. Isto agora outra coisa. Um +homem sente no peito o progresso material. Aqui dentro ha gaz, ha +vias-ferreas, ha fio electrico, ha bales, ha petroleo, ha tudo quanto +fogo, energia, rapidez, etc. Eu c pelo menos sinto isso tudo; conheo +que remoo, que amo e que ardo. Tenho phosphoros e cido prussico aqui +dentro. _(batendo no peito)_ E esta mulher! Como eu amo esta mulher +desde que a vi hontem na Povoa de Varzim! Eu, na minha qualidade de +escrivo do juiz eleito, estava a escrever n'um processo, quando ella +passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo +como largaria um sceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar meza +redonda do hotel portuense. Comeu apenas uma aza de borracho e meia +banana. Que estomago to fino! que alli est um corao immenso cheio +de ternura e com mais poesia que um livro de versos. Sahiram, e eu +segui-os. Vi entrar o pai n'um escriptorio de viao e comprar dous +bilhetes. Perguntei para onde iam os passageiros; disseram-me que para +Barcellos. Pedi bilhete; mas no havia. desventura! que farei? ficar? +no! Ha fatalidades invenciveis, funestissimas! Esta mulher tem o meu +destino nas suas mos; disse eu comigo. Cumpre-me seguil-a. Mas que +farei? No ha bilhete. Embora. Alma de poeta, exclamei eu, no +succumbas! Heroicidade na desgraa, homem de corao de bronze! Segue-a! +segue-a! Fui alugar um garrano, e segui-os a galope, terra a terra, a +rdea solta, receando a cada passo que o corao e o garrano me +rebentassem. Aqui estou. mulher, mulher quem s tu? Ave do paraizo, +que ests sonhando delicias do teu den, lembra-te, Eva, que s +costella do homem, e que est aqui Ado digno de ti. _(Repara na +viola.)_ Uma viola franceza! _(Pega d'ella e corre-lhe as cordas.)_ Est +desafinada. Oh! que saudades me tu fazes, instrumento interprete das +minhas paixes infantis! Que trovas eu descantava em noites de lua cheia +ao arpejar dos teus bordes que gemiam comigo! _(Pensativo)_ Quem sabe? +_(vai afinando)_ Quem sabe? Se tu fizesses o milagre, lyra das canes +apaixonadas! Vamos! o fado que me impelle; mas no vou tocar o fado. +Inspira-me, corao, umas trovas dignas do anjo que alli est dormindo. +_(Avisinha-se da porta, onde presume que est Victorina, e preluda com +tregeitos de vate que invoca a inspirao do co, e canta)_: + + (MUSICA DA ALTEA, MIMOSA ALTEA) + + Se tu soubesses, lindinha, + Quanto grande o meu amor + No dormiras descanada + Quando eu morro aqui de dr. + + _(Allegro)_ + + Acorda menina, + No durmas agora, + Em quanto se fina + De dr quem te adora. + + Eu na Povoa descuidado + J no sentia disvelos, + Eis que surges luz brilhante, + E eu te sigo at Barcellos. + + Acorda, menina, + No durmas agora, + Em quanto se fina + De dr quem te adora. + + +SCENA VIII + +ANICETO E GUTERRES + + _(Aniceto abre a porta, e se de barrete de dormir e rob-de-chambre, + com a luz na mo. Guterres reca espavorido.)_ + +Aniceto + +Passasse muito bem. + +Guterres + +Viva. + +Aniceto + +Eu j vi o senhor se no me falha a memoria. + +Guterres + +Sim, senhor, j tive a honra de jantar na meza em que V. S. estava na +Povoa. + +Aniceto + + verdade. Pois snr., V. S. canta e toca muito bem; n'outra occasio +muito lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o +obsequio de se calar, porque tenho de seguir amanh viagem e preciso +dormir... + +Guterres + +Pois no, senhor! Eu deponho j o instrumento importuno. + +Aniceto + +Agradeo muito a sua delicadeza. Se no fosse indiscreto, perguntaria +com quem tenho a honra de fallar? + +Guterres + +Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir. + +Aniceto + +Ento estrangeiro? Esse nome no me parece de c. + +Guterres + +Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exero funces publicas. + +Aniceto + +Ah! exerce funces publicas? Esse emprego deve ser bem bom. + +Guterres + +Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de +bastantes lettras. + +Aniceto + +Ah! de bastantes lettras? ento capitalista... Eu tambem trago um +pouco de dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula? + +Guterres + +O juro? est favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento +ao mez. V. S. do Porto? + +Aniceto + +No senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva. + +Guterres + +Oh! pois no, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua +ex.^ma filha? + +Aniceto + +A divertir-me no... Isso so contos largos... se V. S. por aqui +estiver manh, conversaremos. Agora boas noutes, que so horas de dormir. + +Guterres + +Tem razo, tem razo... Boas noutes. _(Aniceto fecha-se.)_ + + +SCENA IX + +GUTERRES + +Ora ahi est a deidade, que eu eternizei nos meus versos! As esperanas +de muitos poetas, quando se realisam, so pouco mais ou menos como esta. +Este Aniceto, offerecendo-se aos meus devaneios d'alma, uma imagem que +eu tambem offereo como lio a todos os poetas. _(V-se um encapotado +ao fundo, com chapo de aba derrubada)_. + +Mas, a final, onde que est a filha? Foi o velhaco do creado que me +enganou! o couce da proza que bateu no peito da poesia. Filha de +Aniceto, onde quer que estejas, eu te offereo este calix d'amargura, e +boas noutes. _(Vai a recolher-se ao quarto.)_ + + +SCENA X + +JOS PIMENTA E GUTERRES + +Pimenta _(rebuado)_ + +Boas noutes. + +Guterres _(suspendendo-se)_ + +Boas noutes. + +Pimenta + +Quem o senhor? + +Guterres + +No respondo a encapotados de melodrama. Destape-se. + +Pimenta _(deixa cair as bandas do capote)_ + +Eis-me. + +Guterres + +Eis-me o que? Cada vez o conheo menos. + +Pimenta + +O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o +senhor e a filha de Aniceto? + +Guterres + +De commum de dois? temos questo grammatical ou phisiologica? + +Pimenta + +Que tem o senhor que ver com ella? + +Guterres + +Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo, +Barcellos, o rei dos tambores, V. S. etc. Falta elle que ver... + +Pimenta + +O senhor sabe que da zombaria ao rewolver no ha mais que um passo? + +Guterres _(sorrindo)_ + +O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em +Barcellos no pde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama, +posso saber? + +Pimenta + +Sou Jos Pimenta. + +Guterres + +Pimenta? por isso o senhor to clido!... Eu sou de apellido Mira-mar. +Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a +filha d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um corao de poeta e +um respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena? + +Pimenta + +Amo. + +Guterres + +Tambem eu. + +Pimenta + +Tambem o senhor? + +Guterres + +Tambem eu; mas ha uma differena entre ns, e vem a ser que ella a mim +no me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o. + +Pimenta + +Tenho provas d'isso. + +Guterres + +Tem? _(Solemne)_ O senhor sabe que esmagou n'este momento um dos mais +romanticos coraes que batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as +florinhas d'um amor nascente que burbulhavam na charneca d'esta alma? +_(concentra-se)_ Coragem! Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E +ento o senhor vem aqui fallar-lhe? Sabe que ella est... + +Pimenta _(apontando para o quarto de Aniceto)_ + +Sei que est alli no N. 10, que m'o disse o creado da hospedaria. + +Guterres _(apontando)_ + +Alli? + +Pimenta + +Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... _(reparando na vidraa +sobranceira porta.)_ Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles +vidros.. O senhor no v? + +Guterres + +Sim, eu vejo l o que quer que seja. + +Pimenta + + ella que me conheceu a voz. Quer outra prova? + +Guterres + +No senhor, estou satisfeito. Aquella mulher sua. Sou magnanimo at aqui! + +Pimenta + +Se me fosse possivel subir altura da vidraa! Alli est uma mza. O +senhor guarda segredo? No revella este arrojo d'um amante apaixonado? + +Guterres + +O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os +caixilhos das vidraas e passar-se l p'ra dentro. Pde fazl-o que eu +no digo nada. + +Pimenta _(attento nos vidros)_ + + ella. o anjo! L est o rosto amado! + +Guterres + +V, no perca tempo. D-lhe um beijo envidraado. _(Pimenta aproxima uma +banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a +vidraa com um murro, e pe fra a cabea.)_ + +Aniceto + +Ah co! + +Pimenta _(saltando)_ + +Traio! traio! _(Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.)_ + + +SCENA XII + +ANICETO E GUTERRES + + _(O palco escuro)_ + +Aniceto _(correndo para Guterres)_ + +Ainda aqui ests, ladro! + +Guterres _(accendendo um phosphoro)_ + +Olhe que est enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o +funccionario da Povoa, Guterres Arthur. _(Contina a accender phosphoros.)_ + +Aniceto + +Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraa. Onde est o +scelerado, o canalha do flautista? + +Guterres + +Elle toca flauta? So fataes os flautistas... + +Aniceto + +Transtornou a cabea de minha filha o infame... Onde est elle? + +Guterres + +Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto. +_(Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que +exclama de dentro.)_ + +Voz de velha + +Quem est ahi? + +Guterres + +Enganei-me. + +Voz + +Um homem! que desafro! um homem! + +Guterres + +Perdo, minha senhora; no grite tanto. V. Ex. parece-me bastante velha +pelo metal de voz, e no deve recear-se de homens. + +Voz + +Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora... + +Guterres + +No se assuste. V. Ex. em guerra de paixes paiz neutro. Esteja +socegada. Durma. _(Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)_ + +Voz + +Quem bate? quem anda aqui, mana? + +Guterres + +C est outra inviolavel. No nada, minha senhora. A mana no teve +perigo. + +Aniceto _(sahindo com uma luz do seu quarto)_ + +Aqui est luz. Venha c, snr. Miramolim. + +Guterres + +Miramar, se faz favor. + +Aniceto + +Que me diz perseguio d'este facinora? O senhor no lhe disse que eu +estava n'este quarto? + +Guterres + +Nada, eu no lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a +espreitar pelos vidros; mas como elle disse l est o rosto amado +cuidei realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. No se afflija. +O caso tem remedio. Trate a doena de sua filha pelo systema +homoeopathico. _Similia similibus._ Sabe latim? _(Signal negativo)_ Quer +dizer: cura-se a molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer +dizer: a doena de sua filha causada pelo tal sujeito, no ? _(Signal +affirmativo)_ Pois _similia similibus_ arranje-lhe outro similhante. + +Aniceto + +Dois? tomra eu desfazer-me d'este. + +Guterres + +Outro marido, percebeu? + +Aniceto + +Percebi, sim, senhor; mas eu no acho que a minha filha tenha +necessidade de casar com este nem com o outro. + +Guterres _(com enfaze e rapidez)_ + +Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes +no fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a no soffrem sem que +a especie seja deteriorada por transtornos contrapostos s evolues +palyngenesicas da reproduco genesiaca, resultando d'ahi que as +evolues abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberraes +de graves consequencias: o senhor percebe, eim? + +Aniceto + +As aberraes curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim. + +Guterres + +Miramar, se faz favor. Vejo que V. S. no entendeu. Sua filha ha de +dar-lhe grandes penas e trabalhos, se no tiver em quem empregar a +actividade do seu corao: percebeu agora? + +Aniceto + +Muito bem. Aconselha-me ento o senhor que lhe procure marido. + +Guterres + +E quanto antes. + +Aniceto + +O senhor solteiro? + +Guterres + +Sou, sim senhor, porque? + +Aniceto + +Quer casar com minha filha? + +Guterres _(com gravidade)_ + +A sua filha, snr. Aniceto, uma imagem que me sorria nos meus sonhos +antes de a conhecer. Eu amo-a com este corao de anjo que tenho; e, se +eu j no fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Cames +d'occasio. Mas a sua pergunta queima-roupa um choque tal de +felicidade que me burrifica. Deixe-me tomar ar. Ha commoes de alegria +que achatam os bofes e sacodem todas as visceras d'um homem. + +Aniceto + +No ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguio d'este bandido da +flauta. Se V. S. annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde +podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha +Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e oua fallar. + +Guterres + +No, senhor. Isto de casamento um acto srio e solemne. Coraes +apanhados de surpreza no me servem. A mulher, que houver de ser minha, +hei de conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo +poetico. Logo que eu conhecer que consegui apaixonar sua filha, ento a +contemplarei como objecto matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou +poeta. + +Aniceto + +Ento que preciso? + +Guterres + + preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus +primeiros ensaios no corao de sua filha empregando os expedientes +sentimentaes. + +Aniceto + +Que vae o senhor fazer n'esse caso? + +Guterres + +V. S. no me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em +consequencia de elle tocar flauta? + +Aniceto + +Foi isso. + +Guterres + +Pois eu vou empregar tambem a musica. Pde ser que esta menina tenha a +alma lyrica e philarmonica e que o seu corao s possa ser abalado +instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao seu +quarto, e esperar l os phenomenos que se forem operando na +sensibilidade de sua filha? + +Aniceto + +Sim senhor, eu c vou esperar os phenomenos. _(Recolhe-se.)_ + + +SCENA XIII + +GUTERRES _(s)_ + + _(Guterres pega da viola, preluda, aproxima-se do quarto de + Victorina e canta em postura de inspirado)_ + + Eu na Povoa descuidado + J no sentia disvelos; + Eis que surges, luz brilhante, + E eu te sigo at Barcellos. + + Acorda, menina, + No durmas agora, + Em quanto se fina + De dr quem te adora. + + Victorina, escuta os hymnos, + Que te canta o meu amor; + Escuta os versos divinos, + De Guterres, trovador! + + Acorda menina, + No durmas agora, + Em quanto se fina + De dr quem te adora. + + _(Escutando declama:)_ + +Ella no se bole. Parece-me que a ouo resonar. a belleza que ronca +nos seus sonhos innocentes. _(Reparando em Jos Pimenta que vem +entrando)_ Temos chinfrim. + + +SCENA XIV + +JOS PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA, ANICETO +MAIS TARDE, E O CREADO + + _(Jos Pimenta entra embuado, medindo os passos tragica. Chega ao + meio da scena, arroja o chapo, deixa cahir a capa, cruza os braos, + relanando um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior + d'uma jaqueta de pelle os canudos d'uma flauta, liga-os, d dois + passos frente, e com a maior solemnidade toca a aria da Sombra de + Nino, da Semiramis. Guterres tem passado com a viola para o outro + lado, e faz meno de se defender com uma cadeira, em quanto o outro + no toca. Victorina, assim que Jos Pimenta tem tocado a primeira + parte da aria, comea aos empurres porta.)_ + +Victorina _(dentro)_ + +Jossinho, Jossinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta +porta! _(Aniceto rompe do quarto com os braos no ar, a tempo que +Victorina faz saltar a fechadura e corre aos braos de Jos Pimenta, +exclamando:)_ Jos, Jos, quero morrer nos teus braos. Ai! _(Desmaia +nos braos d'elle.)_ + +Aniceto _(ao creado que tem entrado com a luz)_ + +Voc faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades +todas. Ah grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos no ha justia +que vingue um pae? + +Guterres + +Snr. Aniceto, no mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos +inuteis. Agora conheo que a chaga da sua filha s pde ser curada com o +pllo do mesmo... do mesmo Jos Pimenta. No ha duvida que o corao +d'esta menina est magnetisado pela musica; mas o que certo que a +propenso d'ella no a viola. A alma d'esta senhora inclina-se para +instrumento de sopro. No assim, snr. D. Victorina? Faa favor de +voltar a si para responder, e desmaie depois se quizer. _(Ella abre os +olhos)_ verdade ou no? + +Victorina + +Ai! _(Aniceto ce prostrado n'uma cadeira boca da scena.)_ + +Guterres _(a Pimenta)_ + +O senhor no tem habilidade seno para a flauta. Aproveite a occasio e +v com a pequena ajoelhar-se aos ps do velho. Andem para diante. +_(Empurrando-os)_ Parece que nunca estiveram no theatro! + +Pimenta e Victorina _(ajoelhando)_ + +Meu pae! piedade! + +Aniceto _(erguendo-se de impeto)_ + +Oh! _(Grito rouco e prolongado; com os braos affasta tragicamente da +vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)_ + +Guterres + +Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abene a unio d'essas +creaturas. Deixe-os casar; alegre-se com a esperana de que ha de ainda +vr meia duzia de netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o +genio de sua me, amando uma orchestra de sujeitos distinctos desde a +trompa at corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante +misericordioso para os propagadores da sua individualidade tipica. + +Aniceto + +Levantem-se d'ahi! _(Erguem-se submissos.)_ + +Guterres + +Bem; esto os senhores absolvidos. Parabens. snr. Pimenta, eu creio +que algum servio lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador +da sua flauta. Em recompensa, faa-me o senhor o favor de dizer se foi +realmente com a aria da Sombra de Nino que enfeitiou esta sympathica +joven? + +Pimenta + +Esta aria era a senha com que os nossos coraes se entendiam. + +Guterres + +Ah! sim? Eu quero tocar isso no violo; vou experimentar o effeito +d'essa aria no corao de certas pessoas que costumam arrebatar-se +fascinadas pela minha voz de tenor. _(Tange na viola o acompanhamento da +Sombra de Nino, e canta:)_ + + Pobre poeta, ninguem te preza, + Pobre poeta, ninguem te quer; + Nem co'a viola tu conseguiste + Mover o peito d'uma mulher. + +_(No intervalo de uma quadra outra. A Jos Pimenta)_ + +Isto vae bem? _(Faz na viola escalas sobre os bordes.)_ + + Mas no importa; vena a flauta + A sympathia das fracas almas; + Que eu antes quero, meus bons amigos, + O vosso affecto e as vossas palmas. + + +FIM. + + + + +Os direitos de representao das duas comedias que formam este volume +pertencem ao auctor. + +Porto, 3 de Fevereiro de 1871. + +CAMILLO CASTELLO BRANCO. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a +Flauta e a Viola, by Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES *** + +***** This file should be named 30461-8.txt or 30461-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/4/6/30461/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/30461-8.zip b/old/30461-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..bb88ed6 --- /dev/null +++ b/old/30461-8.zip diff --git a/old/30461-h.zip b/old/30461-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..458e0d0 --- /dev/null +++ b/old/30461-h.zip diff --git a/old/30461-h/30461-h.htm b/old/30461-h/30461-h.htm new file mode 100644 index 0000000..3c8ac0c --- /dev/null +++ b/old/30461-h/30461-h.htm @@ -0,0 +1,4447 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Theatro Comico, por Camilo Castelo Branco</title> + <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta name="Publisher" content="Viuva Mor--Editora"> + <meta name="Date" content="1871"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + font-family: sans-serif; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + h4 em {font-weight: normal;} + h5 {font-weight: normal; text-indent: -1em; margin-left: 1em; text-align: justify;} + #corpo p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + em {color: blue} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta +e a Viola, by Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta e a Viola + Theatro Comico de Camillo Castello Branco + +Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +Release Date: November 13, 2009 [EBook #30461] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 3px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em">CAMILLO CASTELLO BRANCO </p> + +<p>———</p> + +<p style="font-size: 2em">THEATRO COMICO</p> + +<div style="margin: 10%; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em">A MORGADINHA DE VAL D'AMORES</p> + +<p>——</p> + +<p>ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>——————</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +EM CASA DE VIUVA MOR—EDITORA<br> +<small>PRAA DE D. PEDRO</small><br> +1871</p> +</div> + +<div style="text-align:center;"> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 2em">THEATRO COMICO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><small>PORTO—IMPRENSA PORTUGUEZA</small></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em">THEATRO COMICO</p> + +<p style="font-size: 0.8em">DE</p> + +<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> + +<p>——</p> + +<p style="font-size: 1.5em">A MORGADINHA DE VAL D'AMORES</p> + +<p>—</p> + +<p style="font-size: 1.2em">ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</p> + +<p> </p> + +<p>——————</p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +VIUVA MOR—EDITORA<br> +<small>PRAA DE D. PEDRO</small><br> +1871</p> +</div> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pn">{v}</span> </p> + +<h2>ADVERTENCIA</h2> + +<p>Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o distincto +maestro Francisco de S Noronha, quando a comedia se escreveu com destino a ser +representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o bom exito theatral o +subsidio da musica n'esta composio, e sobrevindo rases que desviaram o nosso +amigo Noronha de collaborar comnosco em tamanha futilidade, no pde por isso a +comedia ser submettida opinio das platas. Quem a lr agora tem de +benevolamente disfarar o seu fastio de leitura de versos, feitos ou copiados +das canes populares, para se cantarem.<span class="pn">{vi}</span> Por via de +regra, taes trovas so sempre asperas ou dissaboridas na declamao, mrmente +as que formam o <em>Auto do nascimento do menino Jesus</em>, consoante elle se +figura nas aldas do Minho ainda hoje.</p> + +<p>Com referencia fara no temos que pedir desculpa. Seria desvanecimento +irrisorio recearmos ns que a ponderosa e grave critica se descesse at coisa +to pequena.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h1>A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES</h1> + +<h4>COMEDIA EM TRS ACTOS</h4> + +<h2>FIGURAS</h2> +<ul> + <li>D. J<small>OANNA</small> C<small>OGOMINHO DE</small> + E<small>NCERRABODES</small>, morgada de Val-d'Amores, filha de </li> + <li>P<small>ANTALEO</small> C<small>OGOMINHO DE</small> + E<small>NCERRABODES.</small> </li> + <li>F<small>REDERICO</small> A<small>RTHUR DA</small> C<small>OSTA</small>, + Escrivo da Fazenda de Santo Thyrso. </li> + <li>C<small>OSME</small> J<small>ORDO</small>, Deputado por Guimares. </li> + <li>M<small>ACARIO</small> M<small>ENDES</small>, Boticario de Santo Thyrso. + </li> + <li>J<small>OO</small> L<small>OPES</small>, Lacaio e confidente da Morgada. + </li> + <li>F<small>IGURAS DO</small> A<small>UTO DOS</small> T<small>RES</small> + R<small>EIS</small> M<small>AGOS.</small> </li> + <li>Creados, cantadeiras, camponezes, musicos e outros personagens. </li> + <li><em>Scenas da actualidade.</em> </li> +</ul> + +<h1>ACTO PRIMEIRO</h1> + +<h5>Ao fundo, porto de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes. +O restante do palco figura uma alameda e estrada.</h5> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h3>FREDERICO <em>(s)</em></h3> + +<h5><em>(Frederico um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e calas +pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O chapo de frma +ingleza e alto para tornar mais aguada a figura. A cabelleira bironniana em +crespas ondulaes. Bigodes encerados e picantes nas guias retezadas. A luneta +d'um vidro sem aro obriga-o a caretear, abrindo a bocca de esgulha quando fixa +mais attentamente a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fr necessario +fugir, ho de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A +agilidade da rotao do pescoo deve dar-lhe o que quer que seja de authomatico +e fantasmagorico.)</em></h5> + +<p>A razo diz-me que eu estou em perigo de ser modo por estes selvagens do +Minho; mas o corao, este intestino onde o amor e a coragem habitam, diz-me +que no vacille. A raso argumenta-me<span class="pn">{12}</span> que eu, +escrivo de fazenda no concelho de S. Thyrso, no devo arrojar as minhas +desenfreadas ambies at mo da morgadinha de Val-d'Amores; mas o corao, +esta republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella, +mandando-me lr n'aquelle brazo <em>(apontando)</em> o epitaphio da fidalguia +de raa, e o monumento levantado no s tradies ineptas, mas restaurao da +dignidade humana. Alm d'isto, eu, homem de aspiraes gigantes, eu, poeta de +audaciosos raptos d'alma, eu, que junto poesia elevada a poesia profunda, +preciso de me arranjar. Sou escrivo de fazenda; mas esta posio no quadra +aos meus instinctos. s vezes como que sinto escaldarem-se-me as arterias com +sangue de principe, e me quer parecer que algum de meus avs foi mais ou menos +illudido por alguma das minhas avs. Reconheo, como filho d'este seculo, que a +democracia matou a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim ; porm, ao +mesmo tempo, no sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta +morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o que +mais me incita a querer-lhe com a adorao<span class="pn">{13}</span> dos +Paulos e dos Romeus a preciso que tenho de me arranjar.</p> + +<p>Eu j manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocao; e, +como me sentisse um dos muitos desventurados que cem n'este mundo sem vocao, +fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por serem cousa que a +Biblia no diz que o Creador fizesse nos sete dias de creao. Um sujeito olha +para si como Deus para as trevas, e diz <em>fiat lux</em> faa-se o +litterato; <em>et lux facta est</em>, e o litterato fez-se. Eu prometto no +dizer mais nada em latim, por que tambem no sei mais do que isto.</p> + +<p>Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever. Preparava-me +para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26 de supplemento, +quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um diario de Lisboa. A minha +reputao estava quasi estabelecida, quando a empreza me despediu por +semsaboro, como se fosse obrigatorio ser engraado no paiz mais desgraado do +mundo. Voltei o meu espirito para a historia universal, e cheguei at a +procurar n'um Almanak onde era a Torre do Tombo com teno de l ir consultar +os pergaminhos.<span class="pn">{14}</span> N'este proposito estava eu, +sentindo j os calores da gloria, quando me encarregaram de traduzir uma +comedia franceza para o Gymnasio. Puz de parte a Historia Universal, e traduzi +a comedia com um esmero indigno do resultado, porque ella foi pateada visto que +tinha, segundo disseram os criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a +virgindade elegante do texto. Ora eu ento fiz-me critico, animado pela grande +copia de sandices que se escreveram contra a minha traduco. N'este modo de +vida achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber +alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira em +jardim de flores; temivel porque remeche e estraga tudo; levanta implas de +terra, e suja quando no desvasta a mimosa vegetao. Eu fiz destroos grandes +e escalavrei muitas reputaes litterarias, j por amor da arte, j por amor do +estomago, esta coisa onde um homem de genio no pde crear a luz, porque isto +aqui <em>(indicando o estomago)</em> um abysmo que s recebe a luz pela +bocca. Mas a final, as obras litterarias que appareciam eram j de natureza que +o arpo da critica no lhes ferrava a<span class="pn">{15}</span> unha. +Entreguei-me ao genero chamado <em>reclame</em>, e comecei a chamar a atteno +do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia, romance ou fara. Este +officio, posto que o mais aviltante da vida d'um escriptor, o mais lucrativo +no mundo patarata, em que eu me atasquei. A consciencia pezava-me pouco, se o +estomago sahia pezado de casa do emprezario do theatro ou do editor do romance. +Afoguei muitos escrupulos em sopa de camaro. Mas o sangue de principe, este +no sei qu que me faz ccegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha +misso na terra, e desde logo atirei um vo atrevido s regies aquilinas da +politica. Estudei trez dias as questes de fazenda em Portugal, e entendi-as +to claramente como se fossem questes da minha fazenda. Percebi que o paiz +estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma serie de artigos nos quaes +provava que a maneira de matar o <em>deficit</em> era... sim eu provava que a +maneira de matar o <em>deficit</em>, esse cancro roedor das entranhas do meu +paiz, era... sim eu provava... no me lembra agora o que provei... o certo +que me despacharam escrivo de fazenda de Santo Thyrso,<span +class="pn">{16}</span> provavelmente para matar o <em>deficit</em>. Eis que +chego, e vejo a Morgadinha... <em>(Ouvem-se os tamborileiros)</em> No convem +que estes barbaros me vejam parado em frente do porto da mulher amada... +<em>(Se)</em>.</p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>PANTALEO, <small>DOIS</small> CREADOS, <small>E OS</small> +TAMBORILEIROS</h3> + +<h5><em>Entram ao terreiro e pram tocando em frente da porta trez +tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco depois +abre-se a porta, e se</em> <em>P<small>ANTALEO</small></em><em>, com dois +creados de lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um +pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem.</em></h5> + +<h4>1. Tamborileiro <em>(o do Zabumba)</em></h4> + +<p>Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr. morgadinha!</p> + +<h4>Os trez</h4> + +<p>Biba por muitos annos, biba!<span class="pn">{17}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Ol! rapazes! Com que vosss j se vo chegando ao arraial?..</p> + +<h4>1. Tamborileiro</h4> + +<p> promeiro, vamos tocar s mordomos do Snr. San Joon, que tem festa +d'arromba este anno; e s despois la bamos pr' arraial com Deus. <em>(Ouve-se +ao longe a toada das cantadeiras que cantam o S. Joo.)</em></p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Bebam; mas no se encarraspanem como no anno passado.</p> + +<h4>2. Tamborileiro <em>(rindo alvarmente)</em></h4> + +<p> berdade, fedalgo! Aquillo que foi perua! Indas m'alembra!<span +class="pn">{18}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Pois v l se arranjas outra que te faa esquecer a do anno passado.</p> + +<h4>3. Tamborileiro <em>(bebendo)</em></h4> + +<p>Enton la bai saude de Vossenhoria, a mais da snr. morgadinha.</p> + +<h4>1. e 2. Tamborileiro</h4> + +<p>A mesma.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Querem mais? bebam.</p> + +<h4>1. Tamborileiro</h4> + +<p>Non faz minga.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Ento, rapazes, adeus. L nos veremos na romaria.<span +class="pn">{19}</span> </p> + +<h4>Os tres Tamborileiros</h4> + +<p>Biba o fedalgo, e mai la obrigaon. <em>(Sem rufando estrondosamente: cessa +o estrondo pouco depois.)</em></p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>PANTALEO <small>E OS DOIS</small> CREADOS <small>(QUE POUSAM AS +VASILHAS)</small></h3> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Ora venham c vosss, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses +olhos. Vosss tem obrigao de zelar a honra d'esta casa, por que nasceram +n'ella, c se crearam, e c hode morrer, se me servirem bem. Aquillo que +souberem a respeito do que vou perguntar ho de dizer-m'o. Aqui quem governa +sou eu, percebem? Vosss tem visto de noite alguma vez por debaixo das janellas +d'esta casa o escrivo de fazenda? um homem muito magro que c vinha +d'antes?<span class="pn">{20}</span> </p> + +<h4>1. Creado</h4> + +<p>Bem sei quem o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo, eu +jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu de regar a +cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando sobre a direita, vi +uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que parecia um abentesma...</p> + +<h4>2. Creado</h4> + +<p>Eu tambem j bi esse abentesma, salbo seja, ahi s pois da ma noute; mas +aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que Vossenhoria +faa de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim tzo e hirtego que +no bolia c'os pezes. Havra de ser o mesmo que tu enxergaste, Antonho!</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Pois creiam vosss que no era outro seno o escrivo de fazenda. N'estes +arredores no ha homem d'aquelle feitio seno elle... Sabem<span +class="pn">{21}</span> o que eu quero, rapazes? que lhe dem uma boa sova de +estadulho.</p> + +<h4>1. Creado</h4> + +<p>S se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira.</p> + +<h4>2. Creado</h4> + +<p>E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar s lebres. <em>(Ouvem-se +risadas de mulheres j perto.)</em></p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Por ora, nada de tiros; o que mando que lhe arrumem quatro bordoadas, sem +lhe dizer isto nem aquillo. Vosss zupem-lhe e escamem-se, que eu com a justia +no quero testilhas; mas no lhe batam, sem o apanharem c volta da casa... +Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as raparigas da freguezia. +<em>(Sem pela esquerda.)</em><span class="pn">{22}</span> </p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h5><em>(Rancho de raparigas vestidas de saias de chita com muita roda de saias +e saiotes, capotilhas encarnadas, chinela e meia branca, acompanhadas d'um +tocador de rebeca e outro de violo, que lhes acompanham as cantigas. Entram +pulando alegremente, e pucham por a estridula sineta do porto.)</em></h5> + +<h4>O rabequista</h4> + +<p>Biba a snr. morgadinha de Val-d'Amores!</p> + +<h4>Todos</h4> + +<p>Biba! Biba! <em>(Cantam o S. Joo.)</em></p> + +<blockquote> + <b>COPLAS</b><br> + <br> + Son Joon adromeceu<br> + Nas escadas do collejo;<br> + Deron nas frras co'elle,<br> + Son Joon ten porbolejo.<br> + Que aquillo, que aquillo, que aquillo?<br> + Son Joon a caar um grilo.<span class="pn">{23}</span><br> + <br> + meu son Joon da Ponte,<br> + meu bello patusquinho,<br> + D-nos anno de bon pon,<br> + D-nos anno de bom binho.<br> + Non nada, non nada, non nada,<br> + Son Joon a comer pescada.</blockquote> + +<h5><em>(Abre-se o porto de par em par. Se a Morgadinha, trajada com luxo, +mas fra da moda. Vestido de ancas exaggeradas, cabello Stuart, e um grosso +grilho ao peito. Segue-a um creado velho, de niza, com uma cadeira de braos +cabea, e uma pichorra e caneca na mo.)</em></h5> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>MORGADINHA, JOO LOPES, <small>E AS</small> CANTADEIRAS</h3> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Biba a snr. morgadinha! Biba! Biba!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(sentando-se na cadeira)</em></h4> + +<p>Adeus, raparigas. Como ests tu, Maria do Quinchoso! e tu Benta do Cazal? +Olha a Marianna<span class="pn">{24}</span> da Egreja como est gorda com o +cazamento! Joo Lopes, d vinho a essa raparigada toda.</p> + +<h4>Uma das moas</h4> + +<p>Vossenhoria bai ao arraial?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Podra no! J estou preparada, e vou assim que a tarde refrescar, que quero +ver o fogo prezo.</p> + +<h4>Outra</h4> + +<p>E mai lo auto do Natal, que vem la os d'Arnzo co'elle.</p> + +<h4>Outra</h4> + +<p>E como a fidalga est pimponaa! Parece mmo a Madanela da porcisson de +Passos!</p> + +<h4>Outra</h4> + +<p>Benza a Deus, que palminho de cara assim, no se topa outra no mundo. Faz +agora<span class="pn">{25}</span> um anno que os cassacas do Porto andabon +todos enbeiados atraz da snr. morgadinha no arraial; e enton aquelle goberno +que est em S. Thirso esse que andava memo azoratado!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(rindo)</em></h4> + +<p>Qual governo?!</p> + +<h4>A mesma</h4> + +<p>Aquelle que lhe chamon o das fazendas, ou non sei que deanho...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ah!.. <em>(suspirando)</em> Ja sei...</p> + +<h4>O do violo</h4> + +<p>M rais o parton, que me mandou citar indas hontem!</p> + +<h4>O rabequista</h4> + +<p>Eu onde le poder ser bon heide medirle o costado de p a p cum +fueiro...<span class="pn">{26}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ora no sejas bruto, Jos da Eira! Elle faz a sua obrigao; faz tu a tua +que pagar o que deves ao rei.</p> + +<h4>O mesmo</h4> + +<p>Ao rei! Bem me fio eu n'isso... Enton a fidalga pensa que o rei aveza uma de +X do dinheiro que ns demos!! Pois non avezastes! Os governos de S. Thirso +repartem uns c'os outros no fim do anno o dinheiro que don os lavradores.</p> + +<h4>O outro</h4> + +<p> como diz.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sois uns selvagens. Deixemo'-nos de tolices. Cantem l alguma coisa vosss. +</p> + +<h4>Uma das moas</h4> + +<p>Quer a <em>Marianinha</em>, fedalga?<span class="pn">{27}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois sim; cantem l a <em>Marianinha</em>.</p> + +<h4>COPLAS<br> +<em>(Tudo mulheres)</em></h4> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Ja fui canario do rei,<br> + Ja lhe fugi da gaiola.</blockquote> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, eu vou l<br> + Marianinha,<br> + Sim, sim, eu la vou<br> + pequerruchinha.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Agora sou pintassilgo<br> + Destas meninas d'agora.<span class="pn">{28}</span></blockquote> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, eu vou la, etc.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Pintassilgo est no bosque,<br> + A andorinha no telhado.</blockquote> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + So eu no sei onde estou,<br> + Quando no estou ao teu lado,</blockquote> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4><small>(VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + A andorinha quando chove<br> + Vai metter-se escuridon<span class="pn">{29}</span></blockquote> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4><small>(VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + E eu quando o norte rijo<br> + Metto-me teu coraon.</blockquote> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Sim, sim, etc.</blockquote> + +<h4>Todos</h4> + +<p>Biba a snr. Morgadinha! Biba!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ento vosss vo j para a romaria?</p> + +<h4>Uma d'ellas</h4> + +<p>Aindas bamos buscar as cazeiras de Vossenhoria que esto espera de ns, e +s pois voltemos por qui.<span class="pn">{30}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois vo, e voltem. <em>(Sahem cantando o S. Joo. A morgadinha fica +pensativa e melancolica, encostando o rosto mo, em quanto se ouve e se vai +perdendo a toada da cantiga.)</em></p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>MORGADINHA <small>E</small> JOO LOPES</h3> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Como estes brutos so felizes!.. E eu sempre apoquentada por causa deste +corao! Ai! eu antes de saber o que era amor tambem cantava... Lembras-te, +Joo Lopes?</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Ora se lembro! E cantava que nem uma calhandra a fidalga!<span +class="pn">{31}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Olha se te lembras, Joo! Eu ia s espadeladas, s descamizadas, s malhas, +brincava, saltava...</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>At danava a cana verde, e a chula que era um gosto vl-a!.. E quando a +menina quiz que eu lhe ensinasse o jogar o po...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(com alegria)</em></h4> + +<p> verdade...</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>E o caso que vossellencia ahi com duas duzias de lies j me chegava com +o po.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se enthusiasmada)</em></h4> + +<p>E d'aquella vez que eu me vesti de rapaz, e puz fra da eira do Manoel +Tamanqueiro, com quatro partidas de po, mais de seis mascarados que la andavam +a beliscar as minhas cazeiras!<span class="pn">{32}</span> </p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Por signal que a menina deu uma tapona no Z Torto, que ficou torto de +todo... fidalga, vossellencia hoje j no era capaz de romper ahi com um +marmeleiro p'ra frente d'um homem qualquer!..</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ests enganado... se me chegassem a mostarda ao nariz... Mas, ai!.. +<em>(Torna a sentar-se triste.)</em> A minha alegria foi-se desde que eu soube +o que era amor!.. Olha l, Joo... no o vis-te hoje? no viste o meu amado +Frederico?</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Falle baixinho, menina. Olhe que o snr. morgado ainda ha todonada me esteve +dizendo que desconfia que elle anda por aqui de noute. A fidalga acautele-o; +que no vo os creados chegar-lhe ao forro da camiza...<span +class="pn">{33}</span> </p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se colerica)</em></h4> + +<p>Faam isso, que os esgano! Que lhe ponham um dedo, e vero quem a morgada +de Val-d'Amores!</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>No grite assim, que seu pai, se a ouve, quem as paga sou eu. A fallar a +verdade, eu no desgosto do snr. Frederico; mas, em fim, esta aquella de ser +escrivo, ruim modo de vida para poder casar com a snr. morgadinha...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Isso que tem!? Todos somos eguaes; e o corao, quando ama, no quer saber +de contos. Uma pessoa no est l a averiguar se o objecto amado fidalgo ou +plebeu. Tem-se visto rainhas casarem com pastores, e reis casarem com pastoras. +</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>C no conselho de Santo Thirso no me consta, hade perdoar.<span +class="pn">{34}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Mas l por esse mundo fra acontece isso a cada passo. Tu por que no ls +os livros das historias. Eu te lerei casos que aconteceram... E ento que tinha +que eu casasse com um escrivo?</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Em fim, em fim, o paisinho da fidalga foi capito-mr, seu av foi +desembargador, e seu bisav foi sargento mr de batalha no Roussilhon...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vai dizendo at chegar a Ado e Eva, vai dizendo, e eu depois te direi de +quem eu e mais tu somos netos.</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Isso assim , no ha duvida; mas, diz l o ditado, l com l, e cr com +cr.<span class="pn">{35}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>No quero saber de ditados! <em>(com fora)</em> Este amor s m'o hade +arrancar do peito a morte!</p> + +<h4>Joo Lopes <em>(apontando para o brazo)</em></h4> + +<p>Fidalga, ponha os olhos nas armas reaes dos seus antepassados.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ora! no tenho mais que fazer... Cuidas que eu no sei que meu av casou com +uma creada? Mostra-me onde esto alli as armas da creada. Bem se importou elle +das armas, nem do brezabu que as leve! o que faltava... estar-me eu aqui a +definhar p'ra'mor da pedra! As armas so de pedra, e eu sou de carne e osso, +ouviste?</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>A fidalga responde a tudo, e no ha remedio seno callar-se um homem, que a +trouxe<span class="pn">{36}</span> nos braos desde os trez annos, e sou capaz +de me metter no inferno vestido e calado por causa da minha menina. +<em>(Sensibilisa-se.)</em> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sei o que tenho em ti, meu Joo Lopes... Vais tu ahi ao cimo do pinhal a vr +se o vs pela estrada?.. Elle disse-me que havia de passar para a romaria s +seis da tarde. Se o encontrares, diz-lhe que meu pai se est a vestir para ir +tambem, e que elle pde demorar-se a conversar comigo um bocadinho.</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Vou vr se o avisto; mas, menina do meu corao, olhe que seu pai anda +espreita e traz espias... Ns temos grande desgraa pela porta...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(energicamente)</em></h4> + +<p>No morro de medo, j te disse. A mulher que ama no tem medo de nada!<span +class="pn">{37}</span> </p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Seja assim; mas, se lhe quebram o espinhao a elle! Coitado do homem, to +delgadito que, se o apanha o vento d'um po, elle vai a terra...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Quem lhe hade bater?! Cuidas que elle no anda armado? Que se attrevam +smente a ameaal-o!..</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>C vou, c vou, no se desespere. <em>(Se.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(Senta-se quebrantada e triste)</em></h5> + +<p>Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!.. +<em>(Musica de surdina)</em><span class="pn">{38}</span> Como eu gosto d'elle! +Ha mais de dous annos que este meu corao padece! No ha noite em que eu no +sonhe duas vezes com a sua imagem... Quando acordo, e o no vejo, a minha +vontade chorar, chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio. +Os cirurgies mandam-me tomar aguas ferreas!.. e s eu sei o que tenho! O meu +mal aqui!.. <em>(a mo sobre o corao)</em> Oh cos! quanto eu sou +desgraada sem o meu Frederico! <em>(Ergue-se, e falla com muito sentimento. +Musica plangente.)</em> Quando eu o vi, pela primeira vez, foi na hospedaria +das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu rheumatico. Estvamos a +jantar quando elle entrou, e meu pai offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle +agradeceu, mas no comeu, dizendo que o seu jantar era um vo quente. E d'ahi a +pouco, trouxeram-lhe um vo quente n'uma tigella; e elle comeu o vo, bebeu um +copo d'gua fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e +pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai ouvir, +se podia viver s com um vo, e elle respondeu que a sua alma se sustentava com +a esperana de ser amado por mim... e<span class="pn">{39}</span> com tres vos +por dia. Oh! que lembranas estas, que lembranas estas! <em>(chora)</em> E vai +depois, disse-lhe eu: O snr. est assim magro porque come muito pouquinho; se +gosta d'vos coma uma duzia d'elles de cada vez; e elle pregou-me os seus +lindos olhos, e respondeu a suspirar: Que me importa o corpo? a mim o que me +importa o corao que grande; e, se o corpo magro, mais depressa me +reduzirei a cinzas se V. Ex. me desprezar. Isto fez-me no peito mossa! fiquei +presa d'este dito; senti por aqui acima uma fogueira que me pz a cara em +brazas vivas, e no lhe disse coisa de geito porque fiquei um pedao intallada. +Depois, ao despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe: +amo-vos, meu bem! Ora aqui est como comeou isto. Desde ento para c apenas +lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho... +Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, no vou longe. Elle tambem est +no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de comear estes amores, eu pezava +cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois aqui ha oito dias +pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim no podemos<span +class="pn">{40}</span> viver, nem eu nem elle. <em>(Com fora, que a musica +imita.)</em> preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai +quer, quer; seno quer, quero eu. Uma mulher no pde ser escrava da sua +fidalguia. Antes quero ser esposa d'um escrivo, e viver contente, que ser a +morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pr na espinha... <em>(Ouve-se +rumor de vozes fra.)</em> o meu pap!.. <em>(Senta-se.)</em> Vem-me empatar +as vazas...</p> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>PANTALEO, MACARIO, <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(Macario um sujeito de oculos e casaca de briche, j de annos, e ar +circumspecto)</em></h5> + +<h4>Pantaleo <em>(parte ao boticario)</em></h4> + +<p>Veja l como lhe falla... Olhe que ella finoria... <em>( filha)</em> C +me vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para no ficares +ssinha. <em>(Se.)</em><span class="pn">{41}</span> </p> + +<h2>SCENA IX</h2> + +<h3>MACARIO <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Tenha V. Ex. muito boas tardes.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(enfastiada)</em></h4> + +<p>Viva, snr. Macario, as mesmas.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe mandei +fez-lhe bem?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>No o puz: cheirava a pez.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>De pez de vergonha era; fui eu mesmo que<span class="pn">{42}</span> o +manipulei... Ento, a snr. morgadinha vae ao arraial?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vou.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Faz muito bem; que l hade encontrar pessoa que muito interessa a V. Ex.... +enganei-me... pessoa que muito se interessa em vr V. Ex. queria eu dizer.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Como isso? no percebi.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimares, onde estive com o snr. +deputado Cosme Jordo, um sabio que tem votado grandes fallas no parlamento... +Ha de ter ouvido fallar V. Ex....</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>No sei nada de parlamentos, no leio periodicos.<span +class="pn">{43}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Pois, minha snr., o doutor Cosme Jordo um sujeito conhecido em todo o +mundo, e l na crte at vae ao palacio do rei e come l...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Deixal-o comer, que tenho eu com isso?</p> + +<h4>Macario <em>(parte)</em></h4> + +<p>No fao nada! est hoje levadinha dos diabos.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vamos, diga l, snr. Macario.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Pois este deputado vae hoje romaria do S. Joo.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Deixal-o ir; que se divirta. Ento esse o homem que me quer vr?<span +class="pn">{44}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex....</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ainda bem; signal que no cego. E que mais?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>E que ficou muito agradado de V. Ex....</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois tem mo gosto e perde o tempo. Que mais?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>V. Ex., se o vir, no hade fallar assim. ainda homem de boa edade, cheio +de corpo, com uns oculos que lhe do muito respeito cara.<span +class="pn">{45}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ora! oculos de respeito! que me importa c a mim os oculos do homem? sabe +que mais, snr. Macario? <em>(Pem-se a bamboar uma perna sobre a outra, e a +trautear o Pretinho que vem d'Angola.)</em></p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Finalmente, snr. morgadinha, como V. Ex. quizer; mas lembre-se de que seu +pae deve fazenda nacional uns seis contos de ris, e que o snr. doutor Cosme, +casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae no pague nada, e mesmo no +futuro lhe no lancem impostos.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>No me seque, snr. Macario. Vocemec queria que meu pae pagasse commigo ao +tal Cosme o que deve fazenda? Pois que pague com o que d'elle, e que me +deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias. Metta-se l na sua +botica e no se faa casamenteiro. V fazer charopes.<span +class="pn">{46}</span> </p> + +<h4>Macario <em>(parte retirando-se)</em></h4> + +<p>Apre com a cabra!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que tal est o sacripanta!</p> + +<h2>SCENA X</h2> + +<h3>JOO LOPES, <small>ESPREITANDO A</small> MORGADINHA, <small>E +DEPOIS</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Psiu, psiu.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(sobresaltada)</em></h4> + +<p>Viste-o?</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Elle ahi vem... Eu vou espreitar, e assim que eu tossir que fuja para a +carvalheira.<span class="pn">{47}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Anjo! milagre de bellesa, Joanna querida, no sentes n'estas mos o vibrar +da alma?</p> + +<h4>Morgadinha <em>(muito terna)</em></h4> + +<p>Como ests tu? passaste bem desd'hontem?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Pergunta ao lirio do valle o que lhe pende a fronte quando o orvalho do co +lhe no esfria os queimores do sol estivo.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Olha l, Frederico, tenho a avisar-te, antes de mais nada, que preciso +andares prevenido...</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Temos sicarios? Ha aqui vampiros? A vindicta paterna tem sde do meu sangue? +Eis aqui o peito. Que m'o farpem, que m'o fendam, que<span +class="pn">{48}</span> m'o alanceem, que m'o lancetem. Tudo por ti, tudo por +ti, estrella, loira viso dos meus sonhos! <em>(Rumor fra.)</em></p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Foge... esconde-te entre as arvores... <em>(Frederico sme-se.)</em></p> + +<h2>SCENA XI</h2> + +<h3>MORGADINHA, <small>OS DOIS</small> CAMPONIOS <small>QUE VO PASSANDO, E +DEPOIS</small> FREDERICO</h3> + +<h5><em>(Um camponio tange flautim e outro viola. Duas moas frente batendo +palmas ao compasso do canto, e saltando)</em></h5> + +<h4>Um camponio <em>(cantando)</em></h4> + +<blockquote> + <em>Muito bem seja apparecido</em><br> + <em>Seja apparecido</em><br> + <em>N'esta funco.</em> (Batendo palmas)<span +class="pn">{49}</span></blockquote> + +<h4>(CRO)</h4> + +<blockquote> + <em>Bate as palmas c'o seu pexinho</em><br> + <em>Co' seu pexinho</em><br> + <em>Co' seu pexo.</em> (Repete)</blockquote> + +<h5><em>(Assim que elles passam, a Morgadinha se do porto, e logo Frederico +do escondrijo)</em></h5> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Mas dizias tu, pomba?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem +armado.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Armado! para qu? Tu no sabes que o teu amor talisman que prostra +gigantes! As minhas armas so os raios de fogo que bebo de teus olhos; tenho +vesuvios na alma capazes de abrazar cidades!<span class="pn">{50}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Isto no chalaa, meu amado Frederico! Peo-te que tenhas cuidado, muito +cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, no temeria ninguem... Tu +verias o que a morgada de Val-d'Amores... Mas eu no sei como isto hade +ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo...</p> + +<h4>Frederico <em>(interrompendo-a com exaltao)</em></h4> + +<p>Fidalgo! que fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que fidalgo? a sola +velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! ento certo que teu pae +ignora, que o baptismo de sangue da revoluo franceza lavou todas as manchas +da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revoluo! o segundo christianismo! +Que fidalgo? teu pae no sabe que aquelle braso d'armas <em>(apontando)</em> +est alli como a pedra sepulcral das cinzas feudaes! Teu pae est debaixo do +sol e no sente o calor da fermentao social! Ouve o estrondear da democracia +reinante, e volta a face para os phantasmas<span class="pn">{51}</span> dos +avoengos que se somem l em baixo no abysmo da historia!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>No sei l d'essas historias; o que te peo que no te exponhas a levar +alguma paulada falsa f. Olha que os meus creados so uns patifes, e meu pae +no boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se hade fazer, porque elle no +nos d consentimento para nos casarmos.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Heide movl-o com a eloquencia d'um homem aquecido no sol moderno. Heide +convencl-o, enchendo-lhe o espirito de luz e o corao de ideias novas.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>No te mettas n'essa asneira, que no fazes nada. <em>(Tem-se j ouvido +toada de musica da chula, e depois a tosse rija de Joo Lopes. Frederico +some-se sem ser preciso mandal-o. A morgadinha fica.)</em><span +class="pn">{52}</span> </p> + +<h2>SCENA XII</h2> + +<h3>MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(Chega uma chulata que vae de passagem para a Romaria. Bando de +raparigas que precedem, bailando; tocadores de rebeca, viola, clarinete, +ferrinhos e requinta. A esturdia pra defronte da morgadinha, e contina +danando cada rapariga com o seu parceiro.)</em></h5> + +<h4>COPLAS DE DESAFIO</h4> + +<h5><em>(Em quanto o cantador deita a cantiga, tange smente a viola. Entre os +dois primeiros versos e os dois ultimos de cada quadra ha um espao que d +logar a que toquem por alguns segundos todos os instrumentos.)</em></h5> + +<h4>Cantador</h4> + +<blockquote> + Agora que eu vou passando,<br> + Fao aqui minha parada;<br> + Para saber da saude<br> + Da incelentissima morgada.</blockquote> + +<h4>Cantadeira</h4> + +<blockquote> + Da incelentissima morgada<br> + Tambem eu quero saber,<span class="pn">{53}</span> <br> + Que mais linda creatura<br> + No na pde o mundo ter.</blockquote> + +<h4>Cantador</h4> + +<blockquote> + No na pde o mundo ter<br> + Nem ter at ao fim;<br> + Os seus olhos so d'amras,<br> + Os seus dentes de marfim.</blockquote> + +<h4>Cantadeira</h4> + +<blockquote> + Se tem dentes de marfim,<br> + O seu rosto uma roza;<br> + E viva sua incelencia<br> + Que no na ha mais fermosa.</blockquote> + +<h4>Cantador</h4> + +<blockquote> + Quero dar a despedida<br> + senhora Morgadinha;<br> + Que no ha por estas terras<br> + Mais bonita fidalguinha.<span class="pn">{54}</span></blockquote> + +<h4>Cantadeira</h4> + +<blockquote> + Eu tamem vou espedir-me,<br> + Despedida quero dar;<br> + Adeus, senhora morgada,<br> + Sirva-se de perdoar.</blockquote> + +<h5><em>(A morgadinha agradece-lhes com um aceno de leno. O bando se tocando +e danando. Assim que o descante se ouve froixamente, volta +Frederico.)</em></h5> + +<h2>SCENA XIII</h2> + +<h3>MORGADINHA <small>E</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Tenho odio a estes selvagens que me roubaram horas de vida! Quando sahiro +os lrpas da face da terra?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p> verdade, Frederico! Trouxeste-me os figurinos?<span class="pn">{55}</span> +</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Eil-os chegados hoje de Lisboa.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(examinando-os)</em></h4> + +<p>Ai! que demonio de mulheres! Pois ellas trazem estes vestidos assim +incozipados nas pernas!?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Oh! isto a elegancia circassiana! a frma na sua diafeneidade sublime; +ha aqui a poesia do fino, a mulher parece toda nervosa, o lyrismo da +plastica...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(rindo)</em></h4> + +<p>Se eu te percebo, cebo! Boa cataplasma me parece este molho de clinas e +sacarrolhas que ellas tem na cabea.<span class="pn">{56}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>No blasfemes! Joanninha, veste-te assim; reala, sobredoura a tua bellesa +com estes adornos que angelisam a mulher de compleio robusta, e transformam a +mimosa em cousa ideal vestida de vapores. A mulher assim involta em roupagens +etherias um madrigal de setim que cahiu das lyras dos anjos.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pois sim, fao-te a vontade. Vou mandar comprar no Porto esta trapalhice +toda...</p> + +<h2>SCENA XIV</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E</small> PANTALEO</h3> + +<h5><em>(Abre-se o porto repentinamente e apparece subito Pantaleo. Frederico +ainda faz um impeto de fuga, mas contem-se, e corteja mui urbanamente o +fidalgo.)</em></h5> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Passava para a romaria, e, como visse S. Ex. <em>(indicando a +morgadinha)</em> vim depor a seus<span class="pn">{57}</span> ps os meus +respeitosos cumprimentos, e informar-me da saude de V. Ex.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Estou bom, muito obrigado. Onde est o Joo Lopes?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Foi aparelhar a burra.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Vae tu preparar-te que so horas.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Quer vr como agora so as modas, pap? olhe. O snr. Frederico vae levar +estes figurinos s nossas primas de Ruives.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Pois faz-me o snr. muito favor se me c no trouxer bonecos a casa. Ns c +no somos de modas.<span class="pn">{58}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Direi a V. Ex., snr. morgado, que as modas tem certa relao com o espirito +das geraes e das pocas. Agora que o entendimento humano se adelgaa, o +involucro material tambem se subtiliza nas raas finas...</p> + +<h4>Pantaleo <em>(medindo-o d'alto a baixo com ironia)</em></h4> + +<p>Bem se v que o snr. escrivo d'uma raa muito fina... pelo muito +adelgaado que est...</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>No me jacto de prosapia heraldica; mas, na jerarchia dos espiritos, +preso-me de pertencer ao bando mais illuminado. Respeito muito o braso; mas +curvo-me diante da aristocracia do genio e do talento.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Sim, o snr. tem muito talento, bem sei... J te disse, Joanna, que te vs +arranjar.<span class="pn">{59}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Adeus, snr. Frederico, muito obrigada. <em>(Se.)</em></p> + +<h2>SCENA XV</h2> + +<h3>PANTALEO <small>E</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Creado de V. Ex. <em>(Ve a sahir; mas Pantaleo detem-o.)</em></p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Faa favr.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Escuto as suas ordens.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>O snr. anda muito mal encaminhado. Minha filha a morgada de Val-d'Amores; +o snr.<span class="pn">{60}</span> o escrivo de fazenda de Santo Thirso. +Esto um do outro to longe como aquella pedra d'armas do reblo d'um +sapateiro, entendeu?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Entendi, que V. Exc. tem um estylo bastante chato. Entendi, posto que V. +Exc. falle uma lingoagem asss gothica em pleno seculo XIX.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Pois se entendeu, tire o seu atrevido pensamento de minha filha, e procure a +frma do seu p. No me obrigue a usar dos usos e costumes dos meus avs. Quer +que lh'os diga?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Heroismos dos seus ascendentes? Essas Odissas da alda so hoje +impraticaveis. Eu sei em que tempos vivemos, snr. morgado.<span +class="pn">{61}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Sabe? pois olhe que no sabe em que terra vive. O snr. veio l de Lisboa +onde qualquer bigorrilhas, que pe gravata, entende que egual a todo o homem +que pe gravata; o que o bigorrilhas no quer sr egual a todo o homem que +no tem gravata.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Ahi ha certa sublimidade de ida, de que lhe dou os parabns. V. Exc. ia +quasi escrevendo d'um trao a historia philosophica da democracia moderna.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Eu no escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo que isto c nas +montanhas outra cousa. Os morgados so morgados; os escrives so escrives; +e os sapateiros so sapateiros. Ora, quando acontece alguem querer sahir da sua +classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as costellas. O snr. sabia +isto?<span class="pn">{62}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Eu no sabia que estava na Cafrria. Cuidei que este concelho era um retalho +do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fco radiara uma flecha de +luz at ao corao de V. Ex. que me parece ser uma pessoa de bons costumes, e +no um esquim. Cuidei finalmente que o Evangelho e a Carta constitucional +livellavam a dignidade humana... <em>(Ouve-se o cantar das raparigas que se +avisinha.)</em></p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleo Cogominho de Encerrabdes, dcimo oitavo +senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com minha filha hade +poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor d'esta casa. Tenho dito, e +acabou-se o cavaco. Saude e juizo. <em>(Volta-lhe as costas. Frederico bamba a +cabea altivamente e retira-se.)</em><span class="pn">{63}</span> </p> + +<h2>SCENA XVI</h2> + +<h3>MORGADINHA, PANTALEO, <small>E O BANDO DAS MOAS E TOCADORES QUE +APARECERAM NA TERCEIRA SCENA</small></h3> + +<h5><em>(A Morgadinha se sentada sobre a jumenta. Vem vestida de Amazna. Joo +Lopes de farda azul com vivos vermelhos, bota de orelha e prateleira, colete +encarnado, e chapo embreado, tudo antiga e grutesco, vem trazendo a burra +pela rdea. As raparigas esto cantando as seguintes)</em>:</h5> + +<h4>COPLAS</h4> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Dondes vens velha?<br> + Eu venho da feira.</blockquote> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Que trazes na cesta?<br> + Cr, cr, cr,<br> + Sardinha vareira,<br> + Cri, cri, cri,<br> + Por a retangueira;<br> + Cr, cr, cr,<br> + Se o galo cantou.<span class="pn">{64}</span></blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + Se o galo cantou<br> + Deixal-o cantar.</blockquote> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Minha rica prenda<br> + Cr, cr, cr,<br> + L da beira mar<br> + Cri, cri, cri,<br> + Pela retangueira,<br> + Cr, cr, cr,<br> + Se o galo cantou.</blockquote> + +<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4> + +<blockquote> + D'onde vens velha?<br> + Eu venho d'alli.</blockquote> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Que trazes na cesta?<br> + Cr, cr, cr,<span class="pn">{65}</span> <br> + Que te importa a ti,<br> + Cri, cri, cri,<br> + Pela retangueira,<br> + Cr, cr, cr,<br> + Se o galo cantou.</blockquote> + +<h5><em>(Contina o canto ao descer do panno.)</em></h5> + +<p><span class="pn">{67}</span> </p> + +<h4>FIM DO PRIMEIRO ACTO. </h4> + +<h1>ACTO SEGUNDO</h1> + + +<h5>Vista de arraial. noute. Festes de lampadas de papel variegado pendem +dos ramalhos das arvores. Mulheres a frigir, ao lado das pipas cobertas de +ramos de folhagem. Barracas com botequins. Multido de povo a beber volta das +pipas. Sinos repicando, e estouros de foguetes. D'ambos os lados da scena, mas +fra, se canta o S. Joo com vozes alternadas. Frederico passeia por entre o +povo, mirando as raparigas. Os dois j conhecidos creados de Pantaleo, com as +pernas encruzadas nos varapos, medem d'alto a baixo Frederico, e rompem a +jogal-os um com outro. Frederico, por uma das suas evolues maravilhosas de +rapidez, desapparece. O povo ri-se, e elle reapparece logo, seguido por trez +cabos armados. Os cabos usam bonet com debrum azul. Cessam as cantilenas, e +rompe a banda musical de Santo Thyrso, estrondosa em trompes, a qual entra em +scena tocando uma marcha. Os musicos uniformes, de cala branca, casaco azul +com vivos amarellos, o bonet avivado da mesma cr. As figuras podem +caracterisar-se caprichosamente. Em seguida, entra a Morgadinha, com o pae, +Macario, Cosme Giraldes, e Joo Lopes. Cosme Giraldes um sugeito gordo, +aspeito serio, com os seus oculos, um todo de summa gravidade. Os circumstantes +cedem o logar aos recem-chegados, que formam grupos. </h5> + +<p><span class="pn">{68}</span> </p> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h3>TODOS <small>OS</small> DESCRIPTOS <small>(GRUPO DA MORGADINHA E COSME +GIRALDES)</small></h3> + +<h4>Cosme <em>(com gesto de orador e com grandes pausas, Morgadinha)</em></h4> + +<p>A festa animou-se com a auspiciosa chegada de V. Ex. O sol do empyreo e uma +senhora bella, que o sol dos coraes sensiveis, onde brilham, tudo reanimam. +Assaz ditoso me julgo em ser o mais feliz dos mortaes que se sentem +influenciados e enthusiasmados pelos lumes encantadores de V. Ex. Falta, +todavia, minha completa dita a certeza de que os meus affectuosos requebros +acham graa nos seus olhos.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(com desdem)</em></h4> + +<p>Eu no lhe acho graa nenhuma.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Como assim, divina ingrata?<span class="pn">{69}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>J disse ao boticario o que tinha a dizer.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Pois o seu corao...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Est dado. Eu c sou franca. No perca tempo.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>No ha duvida que ouvi dizer que V. Ex., victima d'uma allucinao, +aceitava a crte d'um esgrouvinhado arcaboio que exerce as ladras funces de +escrivo da fazenda! Heide eu, cos! accreditar que...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sim, snr., acredite, e faa favor de me no incommodar que eu vim romaria +para me divertir. <em>(Volta-lhe as costas.)</em> pap, quando se<span +class="pn">{70}</span> faz o Auto do Natal? <em>(Ouve-se a musica tocando uma +marcha.)</em></p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p> j. Mandei vir as figuras para aqui. Vae comear. amigos, desempachem o +terreiro que chga o espectaculo. <em>(O povo retira e apinha-se entre +scenas.)</em></p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>OS MESMOS, <small>E AS FIGURAS ABAIXO DESCRIPTAS EM LOGAR +COMPETENTE</small></h3> + +<h5><em>(A musica entra a passo muito cadenciado com grandes pernadas. Chegada + bocca do palco, alinha a um lado para dar o passo aos dois primeiros +personagens do auto):</em></h5> + +<h3>Scena I do Auto</h3> + +<h3>ADONIS <small>E</small> MANASSS</h3> + +<h5><em>(Adonis traja de principe de carnaval; Manasss veste de propheta de +procisso; mas toda a fatiota muito usada e desbotada. Adonis traz um +cavaquinho.)</em></h5> + +<h4>Adonis <em>(com declamao muito boal)</em></h4> + +<p>Canta, Manasss, que eu te acompanho; para isso com esta harpa vanho.<span +class="pn">{71}</span> </p> + +<h4>Manasss <em>(canta com ar inspirado, gesticulando estupidamente)</em></h4> + +<blockquote> + O co estrellado,<br> + Sereno e propicio,<br> + Ser pois indicio<br> + Do sol desejado.</blockquote> + +<h4><small>(CRO DE PASTORES)</small></h4> + +<h5><em>(Vozes femininas dentro)</em></h5> + +<blockquote> + Quem o habitar?<br> + Quem o gozar?</blockquote> + +<h4>Manasss <em>(cantando)</em></h4> + +<blockquote> + Vde a paz serena d'esta noute;<br> + Nascer a estrella de Jac?<br> + O gado socegado adivinha;<br> + No se bole no ninho a avesinha.</blockquote> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Quem o habitar?<br> + Quem o gozar?<span class="pn">{72}</span></blockquote> + +<h4>Adonis <em>(declamando, e passeando com grandes passos)</em></h4> + +<p>Oh! que terno, caro Manasss, cantastes! O conceito da tua canoneta amorosa +me traz dces lembranas. Ainda em nossos dias, veremos realisadas as +porfecias? No caibo na pelle de estifeito; da-me pancadas o corao n'este +peito! <em>(Frederico despede um impulso de riso. Espantam-se os +cicumstantes.)</em></p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>O senhor est a mangar d'estes actos srios?!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Pois isto srio! ento no ha nada ridiculo n'este mundo seno o snr. +boticario.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>O senhor muito mal criado, um incivil, ... ... um escrivo!<span +class="pn">{73}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Snr. Macario, no esteja a interromper o auto. Deixe l rir quem quer rir; +chore vocemess, se tem vontade.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Continuem l vocs co'isso.</p> + +<h2>Scena II do Auto</h2> + +<h3>VOZ <small>D'UMA</small> PASTORA, <small>CANTANDO DENTRO</small></h3> + +<blockquote> + Deus do co, e da terra,<br> + vs que podeis tanto,<br> + Ouvide nossos clamores<br> + Sde propicio, Deus sancto!</blockquote> + +<h4><small>CRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4> + +<p>Do povo amado,<br> +Mandae o desejado.</p> + +<p><span class="pn">{74}</span> </p> + +<h5><em>(Os que esto no palco fazem scenas mudas de ternura muito +lorpas.)</em> </h5> + +<h4>Manasss</h4> + +<p>Escuta! No foi Ruiva, a pastora que cantou?</p> + +<h4>Adonis</h4> + +<p>Foi. E os pastores tambem, que nenhum dorme.</p> + +<h2>Scena III do Auto</h2> + +<h3>O VELHO SIMEO <small>E</small> RUIVA</h3> + +<h5><em>(O velho vestido de pelles de carneiro. Ruiva de pastorinha, com um +cordeiro branco nos braos)</em></h5> + +<h4>Simeo <em>(com os olhos no firmamento)</em></h4> + +<p>Incelso, interno rei sobrano, que sobre os crebins tens assento, oubide os +nossos lamentos.</p> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Do povo amado,<br> + Mandae o desejado.<span class="pn">{75}</span></blockquote> + +<h4>Manasss</h4> + +<p>Agora creio no mysterio occulto d'esta noite. Rebella que todos os pastores +tem um s pensamento.</p> + +<h4>Simeo</h4> + +<p>Vinde pastores aqui todos; n'este campo contemplaremos o silencio da noute, +que o auctor d'altos mysterios annuncia.</p> + +<h4>Frederico <em>(escancarando a bocca)</em></h4> + +<p>Que semsaboria!</p> + +<h4>Macario e Cosme</h4> + +<p>Sio! <em>(prolongado.)</em></p> + +<h2>Scena IV do Auto</h2> + +<h3>ENTRAM PASTORINHOS <small>E</small> PASTORINHAS</h3> + +<h4>Ruiva <em>(declamando)</em></h4> + +<blockquote> + Aqui vimos, meus senhores,<br> + Adorar ns o menino:<span class="pn">{76}</span> <br> + No seu sancto nascimento<br> + Com grande contentamento.</blockquote> + +<h4><small>(CRO)</small></h4> + +<blockquote> + Se o menino nascido,<br> + Ns o bamos prcurar;<br> + Aparcei, senhor menino,<br> + Que vos queremos adorar.</blockquote> + +<h5><em>(Sem por diversos lados.)</em></h5> + +<h2>Scena V do Auto</h2> + +<h3>UM REI TURCO <small>E DEPOIS OUTROS FIGURES</small></h3> + +<h4>Rei turco</h4> + +<h5><em>(Com uma cara horripilante, e trejeitos assustadores)</em></h5> + +<blockquote> + Sou o turco rei, que <br> + Valoroso na arrogancia;<br> + Por ser filho da fortuna<br> + E neto da extravagancia!</blockquote> + +<p><span class="pn">{77}</span> </p> + +<h5><em>(Corre brandindo a espada d'um lado a outro.)</em> </h5> + +<blockquote> + De moiriscos reis nasci,<br> + Sou seu filho alentado,<br> + O meu brao furibundo<br> + Deixa tudo escangalhado.</blockquote> + +<blockquote> + Co'esta espada sou capaz<br> + De entrar pelo inferno dentro<br> + E pr tudo em mil pedaos<br> + Que eu sou um rei sanguenolento!</blockquote> + +<h5><em>(Risada de Frederico.)</em></h5> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>J pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar em +to solemne passo!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Solemne passo, diz o nobre deputado! chamar <em>solemne passo</em> +prostituio da arte!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>O snr. que uma prostituio! Bem disse<span class="pn">{78}</span> aqui +S. Ex. que o senhor um atheu! um impio que zomba dos mysterios +dogmaticos!</p> + +<h4>Vozes <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Quebra-se-lhe a cabea!—Bordoada rija!—Vamos a elle!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se colerica)</em></h4> + +<p>Essa canalha que se calle! Joo Lopes, onde est o regedor?</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Saber V. Ex. que o regedor tomou tamanha turca que est a cozel-a no +palheiro d'um lavrador.</p> + +<h4>Cosme <em>(com enfaze)</em></h4> + +<p>Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem social. +A auctoridade que d o exemplo da relaxao dos costumes no pde educar as +massas. necessario que no se desvirtue e desprestigie o funccionalismo,<span +class="pn">{79}</span> com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos +chegados desmoralisao do Baixo-Imperio!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Apoiado!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ento os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto?</p> + +<h4>Pantaleo <em>(ao Rei turco)</em></h4> + +<p> Z da Custodia, diz l o que tinhas a dizer.</p> + +<h4>Rei turco</h4> + +<p>Se isto no leva rumor, acaba-se a pandega!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Magnificamente! Est a coisa definida: isto uma pandega, e querem os +morales que a gente se desfaa em lagrimas! Faa favor de continuar, snr. rei +turco, que eu estou srio, e talvez chore.<span class="pn">{80}</span> </p> + +<h4>Rei turco</h4> + +<p>Agora no sou eu que boto a falla, o outro rei. Entra, Manel Zarlho! +<em>(Chamando para dentro.)</em> O Manel Zarolho o rei christo. +<em>(Explicando.)</em></p> + +<h2>Scena VI do Auto</h2> + +<h5><em>(Entra um Rei christo com muitos pastores e pastoras)</em></h5> + +<h4>Rei christo</h4> + +<blockquote> + Eu trago os meus companheiros<br> + Fieis minha nao,<br> + Para te convencer, turco,<br> + E para te fazer christo.</blockquote> + +<h4>Rei turco</h4> + +<blockquote> + Para onde ides, romanos,<br> + Que to alegres vos vejo?</blockquote> + +<h4>Rei christo</h4> + +<blockquote> + Festejar o menino nado<br> + Que todo o nosso desejo<span class="pn">{81}</span></blockquote> + +<h4>Rei turco</h4> + +<blockquote> + Que do passaporte?</blockquote> + +<h4>Rei christo</h4> + +<blockquote> + Passaporte no trazemos,<br> + Se nos no deixas passar<br> + Para traz ns tornaremos.</blockquote> + +<h4>Rei turco</h4> + +<blockquote> + Para traz no heisde tornar;<br> + Que eu vou buscar algemas,<br> + Que vos quero algemar.</blockquote> + +<h4>Pastores e pastoras <em>(cantando)</em></h4> + +<blockquote> + Milagroso Deus menino,<br> + Esta obra vossa ;<br> + Ajudai-o a vencer<br> + O turco inimigo da f.<span class="pn">{82}</span></blockquote> + +<h4>Rei christo</h4> + +<blockquote> + Saca l da tua espada!</blockquote> + +<h4>Rei turco <em>(arrancando para elle)</em></h4> + +<blockquote> + co, que sova tu levas!</blockquote> + +<h2>Scena VII do Auto</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E UM</small> ANJO, <small>QUE SE METTE EM MEIO DOS DOIS +REIS</small></h3> + +<h4><em>Canta:</em></h4> + +<blockquote> + Detem-te, barbaro turco!<br> + Cessa a tua infeliz sorte;<br> + Faz-te christo, que no tarda<br> + Que te apanhe a feia morte.</blockquote> + +<h4><small>CRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4> + +<blockquote> + Faz-te christo que no tarda<br> + Que te apanhe a feia morte.<span class="pn">{83}</span></blockquote> + +<h4>Rei turco <em>(declama)</em></h4> + +<blockquote> + Eu sou o rei Almeirante<br> + La do reino da Turquia;<br> + Nunca fui prezoneiro,<br> + So do rei da Lixandria!</blockquote> + +<h4>O Anjo <em>(canta)</em></h4> + +<blockquote> + Detem-te barbaro turco, etc.</blockquote> + +<h4><small>CRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4> + +<blockquote> + Faz-te christo que no tarda<br> + Que te apanhe a feia morte.</blockquote> + +<h4>Rei turco <em>(afflicto)</em></h4> + +<p>Que isto? que sinto? que tenho eu aqui? <em>(Com a mo sobre o +estomago)</em> Que tenho eu aqui?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Hade ser vinho. <em>(A Morgadinha ri-se s escancaras.)</em><span +class="pn">{84}</span> </p> + +<h4>Macario <em>(sobremodo indignado)</em></h4> + +<p>No ha noticia de tamanho escandalo!.. 0 snr. escrivo est mostrando que +um homem de sentimentos muito herejes!..</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>E eu assaz me espanto que a snr. morgadinha applauda com a sua hilaridade +estas interrupes indecentes!</p> + +<h4>Rei turco <em>(zangado)</em></h4> + +<p>Eu c que no estou p'ra chalaas!.. Passem por c muito bem. Por aqui me +esgueiro. rapasiada, vamos embora. Manda tocar a marcha Antonho da Pga. +<em>(Se com os personagens do auto, atraz da Musica, que vae tocando a +marcha.)</em><span class="pn">{85}</span> </p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>OS MESMOS, <small>EXCEPTO OS PERSONAGENS DO AUTO</small></h3> + +<h5><em>(Grande movimento e rapido. Macario gesticula com Jordo, e Pantaleo +com a filha. Alguns camponios de varapo fazem crco a Frederico. A morgadinha +passa por meio d'elles, bamboando a cabea e vibrando o chicotinho. Frederico +passeia com os cabos. Os camponios retiram-se, relanando olhos ameaadores ao +escrivo.)</em></h5> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Isto j me aborrece, pap...</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Vamos embora, menina?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Por em quanto no: quero vr o fgo prezo; mas vou descanar um pouquinho a +casa dos cazeiros.<span class="pn">{86}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Vae, que eu vou buscar-te assim que principiar o fogo.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p> Joo Lopes, vem comigo. <em>(Sem. Frederico retira-se pelo outro lado com +os cabos.)</em></p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h3>MACARIO, COSME <small>E</small> PANTALEO</h3> + +<h5><em>(Formam um grupo parte, do povo que gira no fundo)</em></h5> + +<h4>Macario</h4> + +<p> snr. morgado, pois V. Ex. deixa fugir esta occasio de fazer quebrar o +espinhao ao morto?<span class="pn">{87}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>A occasio boa ; mas que eu no quero que minha filha assista, por que +ella capaz de se metter no meio da desordem.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Pelo que observo, esta sua filha uma heroina grega ou romana, snr. +morgado! Ella faz lembrar a Pantasilea do Virgilio, e outras faanhudas +mulheres da historia antiga! Nos tempos presentes, sou a dizer a V. Ex. que a +mulher quer-se fragil, meiga e timorata; e por tanto permitta que eu censure a +educao que deu a sua filha!</p> + +<h4>Pantaleo <em>(docil)</em></h4> + +<p>Que quer V. Ex.? filha unica, ficou sem me muito cedo, e foi creada +laia de rapaz, a trepar s arvores, a atirar aos passaros, e a jogar o po; em +fim, confesso que andei mal avisado. Eu ento achava-lhe muita graa; hoje no +lhe acho nenhuma; mas j no posso emendar<span class="pn">{88}</span> a mo. +tarde; minha filha tem vinte e seis annos; hade ser difficil corrigir-se, s se +o casamento fizer a mudana, e espero que faa.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Se o casamento fizer a mudana! Ora essa! Pobre marido que no tem os +focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu c por mim, snr. morgado, confesso +que tive certos intentos matrimoniaes com ella; vista, porm, das suas +informaes, declaro que desisto e renuncio, por que me no sinto com foras e +habilidade para domesticar uma cobra-cascavel...</p> + +<h4>Pantaleo <em>(formalisado)</em></h4> + +<p>No consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha!</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Isto uma comparao rethorica, litterariamente fallando.<span +class="pn">{89}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p> rethorica... no se offenda V. Ex.;... talvez ignore que a rethorica +uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis...</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>No quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleo Cogominho de +Encerrabodes seja respeitada! <em>(Volta as costas, e se bufando.)</em></p> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>COSME <small>E</small> MACARIO</h3> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Isto uma familia de hotentotes! Cheiram ao serto estes selvagens! Do que +eu me escapei! Se caio nas mos d'estes dois barbaros da edade media! Parece-me +uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemec, snr. Macario, a<span +class="pn">{90}</span> dizer-me que esta fidalga tinha uma educao fina!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p><em>Fina</em>, no disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe +que ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differena, phisicamente +fallando.</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Perdo. Vocemec disse-me que ella tivera fina educao.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Isso ento foi rethorica...</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Eu no admitto rethoricas em objecto to srio como o casamento! Olhem que +educao fina a d'este anjo! Trepa s arvores, atira aos passaros, e joga o +po! Que predicados estes to mimosos para augmentarem as graas virginaes +d'uma menina! No lhe falta seno vestir-se<span class="pn">{91}</span> de +homem, que agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. +Uma menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canho, e rompe com elles +por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de amores que nem +aaftida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma muito candida e muito +pura dentro do peito que se albarda com um palet de homem para arrotar +francamente umas phrases de bomba real que nos fazem comiches nos miolos e +arrepios na espinha! Arreda! olha o que me estava reservado para os quarenta e +seis annos! Uma mulher assim paralisava-me as funces do intellecto, e l se +me iam as minhas ovaes parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, +devo-me regenerao da minha patria, sou homem publico; e um homem publico +quando se casa deve fazel-o com dama que o no impea nem apoquente. A femea +natural do homem politico a politica; a esposa, para os homens devotados aos +interesses materiaes do seu circulo, significa to smente um supplemento vivo +e util s commodidades domesticas. Percebe vocemec, snr. Macario?<span +class="pn">{92}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Ora se percebo! A minha mulher c para mim tambem um supplemento ha muitos +annos; e mais eu fao-a trabalhar na politica enchendo os bilhetes de votos na +eleio. Diz V. Ex. muito bem, que ns os homens publicos no temos tempo para +cuidar de mulheres... <em>(Reparando em Frederico)</em> Ahi vem o atheu...</p> + +<h4>Cosme</h4> + +<p>Vou-me safando que no quero palestras com este safio. <em>(Se.)</em></p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>MACARIO <small>E</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Frederico <em>(encarando o outro com a costumada careta)</em> </h4> + +<p>O douto pharmacopla est irado contra mim por que fui causa a +interromper-se o escandalo do auto...<span class="pn">{93}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Eu no me metto com o senhor... Tenha a bondade de no embarrar c por mim. +</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>A sciencia sempre orgulhosa. Faamos pazes e alliana, snr. Macario +Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a sua +sciencia do bazalico e do oleo de mamona, podemos dominar este concelho, +reunidas as duas foras n'uma aspirao unica. Por que me faz guerra inexoravel +e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu consorcio com a Morgadinha? +Por que anda o snr. servindo de alcaiote d'este alarve de Guimares, que o +trompo grandioso das maiores asneiras civicas assopradas na charanga +parlamentar? O officio do snr. Macario, n'este negocio, desacredita um +pharmaceutico, que reune ao conhecimento do gamo, sciencia no vulgar da +historia dos doze Pares de Frana, e tem orvalhado com lagrimas os fastos +sanguinosos de <em>Roncesvalhes</em>.<span class="pn">{94}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>V mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem +Macario Mendes... <em>(Se.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>FREDERICO, JOO LOPES, <small>E CABOS</small></h3> + +<h5><em>(As cantadeiras que no fim do 1. acto acompanharam a morgada entram a +cantar a moda com que se fechou o dito acto:)</em></h5> + +<blockquote> + <em>D'onde vens, velha,</em><br> + <em>Eu venho da feira</em>, etc.</blockquote> + +<h5><em>(N'um intervalo da 1. 2. trova Joo Lopes acerca-se de Frederico +com disfarce)</em></h5> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Esto-se a +preparar os valentes.<span class="pn">{95}</span> <em>(Frederico apita rijo. +Apparecem de differentes sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em +quanto se repete a cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fra o rumor da +desordem, e o estalido dos varapos. As cantadeiras fogem alvoroadas a dar +gritos.)</em></p> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>FREDERICO, <small>CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS</small></h3> + +<h4>Frederico <em>(com intimativa bellica)</em></h4> + +<p>Formem em linha. Carregar armas!</p> + +<h4>Um cabo</h4> + +<p>Esto carregadas.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Vamos ser atacados pelos desordeiros. voz de fogo, atirem. <em>(V-se +atravessar a scena por<span class="pn">{96}</span> entre o povo um Desconhecido +de chapo derrubado, o rosto coberto por um leno, de caraa, polainas de +briche nas pernas e ps, com um grosso po de choupa. Proximos de Frederico os +valentes param, com os pos cruzados nas pernas, gingando em attitude +ameaadora. Frederico, no se desvia dos cabos. De repente, rompem de fra uns +poucos varrendo o campo a pauladas.)</em></p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Cabos de policia, sentido! Preparar armas! <em>(Se perto da bocca da scena +o Desconhecido. Encosta-se ao po observando os movimentos dos valentes, os +quaes vem j avanando, j recuando, crescendo sobre Frederico.)</em></p> + +<h4>Frederico <em>(aos cabos)</em></h4> + +<p>Aperrar armas! <em>(Uma paulada faz saltar a clavina das mos d'um cabo. Os +outros fogem. Frederico reca, apitando rijamente. No maior aperto, o +Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do po, e arremette +com os aggressores. Estes, forados pela destreza, fogem,<span +class="pn">{97}</span> logo que o primeiro ce d'uma paulada. A vozeria cresce +no momento em que o palco est despejado. O Desconhecido trava do brao de +Frederico, e o traz bocca da scena.)</em></p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Quem o valente homem a quem devo a vida?! quem ?</p> + +<h4>Morgadinha <em>(arrancando o leno do rosto)</em></h4> + +<p>Sou eu! salvei-te, Frederico!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p> morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como s ideal e angelica! +<em>(Ajoelhando.)</em><span class="pn">{98}</span> <span class="pn">{99}</span> +</p> + +<h4>FIM DO SEGUNDO ACTO. </h4> + +<h1>ACTO TERCEIRO</h1> + +<h5>Salo da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia. +Reposteiros j envelhecidos com brazes. Alguns retractos. Um piano +moderno.</h5> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h3>PANTALEO <small>E</small> MACARIO</h3> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha, desde +que comeou a vestir-se moda, e a tocar piano, est muito distrahida do +troca-tintas do escrivo. No anda por janellas, no se de casa, e gasta +alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a vestir-se. Isto custa-me um +dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.<span class="pn">{100}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>E quem que ensina a snr. morgadinha a tocar?</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p> a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com loja +de fazendas brancas...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Bem sei, bem sei.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Foram l as primas de Ruives que fizeram a descoberta; mas o que tem muita +graa que o homem da mestra to ciumento que s a deixa ir a casas onde no +ha homens...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Que tal pezta ella!..<span class="pn">{101}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>E para vir aqui, pz por condio que a mulher s viria noitinha +acompanhada pelo marido que a deixa porta, e vem por ella duas horas depois. +Eu estive quasi a no aceitar tal professora por saber que o escrivo de +fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que ella fosse +medianeira d'alguma carta...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>E tem raso, snr. morgado... Veja l!.. olhe que o mundo um covil de +marotos!</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>No ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pz fra +da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia d'lho a +consorte.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>No que sem licena d'elle no ha maior<span class="pn">{102}</span> +desmoralisao n'este mundo! Aquillo tem mesmo idas de Sardanapalo! Ainda bem +que lhe est por um fio a ladroeira da repartio...</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Conte l isso ento. Em que termos est a bernarda? Rebenta hoje ou manh? +</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Hoje. Est tudo alevantado quando fr nove horas. Os sinos ho-de tocar a +rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo ce todo sobre Santo +Thyrso, e faz crco para que o escrivo no possa escapulir-se; que elle leve +como uma penna, e quando a gente mal se precatar, v-o fazer vispre, zpe-zpe +<em>(expresso sibilante para imitar a rapidez da corrida.)</em></p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que no vo os +meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que<span +class="pn">{103}</span> eu desejo que elle no apparea mais em Santo Thirso. +L a respeito da papellada isso queimal-a toda; que depois o governo como no +tem cadernos para a cobrana dos impostos, no o manda para c a elle nem a +outro.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Grande ida essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa. Se a +gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer economias, +porque depois no havia quem quizesse servir os empregos. O sytema um bocado +violento para os empregados, mas eu no vejo outro meio de os ir acabando... +</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>No acho isso humanitario!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos, leio +jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheo<span +class="pn">{104}</span> por dentro e por fra o paiz e as suas necessidades. +Fique certo d'isto; em quanto se no der fim a uma casa a que os jornaes chamam +<em>burrocracia</em>, no se indireita a patria.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Como se chama isso?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p><em>Burrocracia</em>, que pelos modos palavra de idioma francez, que vem a +dizer empregado publico.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Snr. Macario, v indo c com as minhas idas moderadas. O melhor systema de +se acabar com os escrives de fazenda queimar os cartorios. Eu lhe ponho uma +comparao. Se eu queimar a palha que tenho, e no comprar outra, que me +acontece minha parelha de machos? Morrem de fome, no verdade?<span +class="pn">{105}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Isso .</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Pois ahi tem: os escrives, em se lhe queimando os papeis, no tem que roer. +</p> + +<h4>Macario <em>(duvidoso)</em></h4> + +<p>Nada; a comparao dos machos no me convence, queira V. Ex. perdoar. +<em>(Com energia)</em> Matal-os, matal-os, o grande <em>desideratum</em>.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>E os papeis? deixam-se ficar?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrives! Nada de +cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa causticos e ventosas.<span +class="pn">{106}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Ora vocemec, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha est o +processo da execuo que a fazenda nacional me move...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Por seis contos d'uma fiana dos bens dos frades, sei muito bem... Esteja +descanado, que no ha de l ficar papel em que se amortalhe um cigarro.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Quem o chefe da revoluo?</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p> falta d'homens por hora sou eu; mas no sei a que os commandantes das +freguezias decidiro. J ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex. general +em chefe.<span class="pn">{107}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Homem, tire isso da cabea s freguezias. Vocemec bem sabe que eu ando +muito adoentado dos intestinos, e no posso deixar de tomar o meu banho de +cana noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revoluo; mas +entrar nella em pessoa no posso por causa d'esta molestia dos reins que me no +deixa cavalgar; e vocemec bem entende que um general em chefe a p no tem +geito, nem pode vr de longe o inimigo, se nos fr necessario entrar em batalha +com o exercito. Dispensem-me por tanto de tamanha honra.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Farei as diligencias; mas receio que...<span class="pn">{108}</span> </p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h5><em>(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido muito +curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido s pernas; grande lao na +cintura posteriormente; sapatos de salto dourado; cabelleira com estupendos +tufos encaracolados.)</em></h5> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Vens para o piano, Joanninha?</p> + +<h4>Morgadinha <em>(pondo luneta d'oiro)</em></h4> + +<p>Sim, pap, vou estudar a minha lio de escala. <em>(Senta-se ao +piano.)</em></p> + +<h4>Macario <em>( parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)</em></h4> + +<p>Que desmoralisao! Isto o peccado em carne e sso!<span +class="pn">{109}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Est vocemec admirado d'estas modas, amigo Macario!</p> + +<h4>Macario <em>(ironico)</em></h4> + +<p>So bonitas... <em>(Grave)</em> Mas no acho isto decente para a observancia +dos bons costumes.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que quer? moda; andam assim todas as senhoras do tom.</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim no ho de vestir, se Deus +quizer.</p> + +<h4>Morgadinha <em>(voltando o rosto com aborrecimento)</em></h4> + +<p>Ento as suas filhas so senhoras?<span class="pn">{110}</span> </p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>D'aquella massa se fazem, snr. morgada...</p> + +<h4>Morgadinha <em>(dedilha nervosamente nas teclas)</em></h4> + +<p>Adeus, adeus. Temos historia!</p> + +<h4>Pantaleo <em>(a meia voz)</em></h4> + +<p>No a zangue... Deixe-a l... Tomra eu que ella se entretivesse com os +vestidos...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>A cabea... est feito, mas as pernas a vr-se-lhe, snr. morgada! Assim no +se podem observar os bons costumes... <em>(A Morgadinha canta acompanhando a +escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas altas. Macario Mendes, +offendido pela desharmonia, faz caretas.)</em></p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Ainda no sabes cantar modinha nenhuma, menina?<span class="pn">{111}</span> +</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>A mestra no quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que o essencial. +<em>(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario despede-se, +apertando a mo a Pantaleo.)</em></p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Veja l os meus papeis, snr. Macario.</p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E</small> JOO LOPES</h3> + +<h4>Joo Lopes <em>(trazendo castiaes com luzes)</em></h4> + +<p>Est na sala de espera a snr. mestra pianista e mais o marido.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Est! Pap, preciso sahir, tenha paciencia.<span class="pn">{112}</span> +Bem sabe que ella, se vir homem aqui, no entra.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Est bom pedao d'asno o marido! Ento elle no sabe que eu sou um homem +srio!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que quer o pap! J lhe tenho dito que pde entrar segura de que no ouve +palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que a mestra +fallou com um homem, seja elle quem fr, no a deixa voltar.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Com certos individuos tem elle raso; mas nem todos so como o devasso +escrivo de fazenda, que lhe andava a fazer a crte mulher, e por isso foi +posto de l para fra. Acho justo que elle se acautele dos tratantes; mas de +mim... parece-me bestialidade! Emfim c vou. <em>(Se.)</em><span +class="pn">{113}</span> </p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h3>MORGADINHA, JOO LOPES <small>E DEPOIS</small> FREDERICO</h3> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Pde entrar a snr. D. Thomazia.</p> + +<h4>Joo Lopes <em>(para dentro, levantando o reposteiro)</em></h4> + +<p>Pde entrar a snr. D. Thomazia. <em>(Joo Lopes se, assim que entra a +supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de vo espesso, e +cachos. Chapu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir a cara. Vae +direito ao piano. V-se a cabea de Pantaleo que espreita por uma fimbria do +reposteiro. Joo Lopes tosse.)</em></p> + +<h4>Morgadinha <em>(alto)</em></h4> + +<p>Passou bem, snr. D. Thomazia!.. <em>(Baixo)</em> No me falles que meu pae +est espreitando, em quanto Joo Lopes tossir... <em>(Tocam e cantam<span +class="pn">{114}</span> a escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia +nas vozes.)</em></p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>O snr. morgado j est no pateo a conversar com o marido do snr. Frederico; +estejam vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando eu tossir, vejam +l...</p> + +<h4>Frederico <em>(levanta o vo, abraando o velho)</em></h4> + +<p>Este Joo Lopes um prodigio de dedicao! o typo genuino do antigo +creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, Joo Lopes, voc ha de +progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a voc +um habito de Christo!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Deixa-o ir, deixa-o ir... <em>(Joo Lopes se.)</em><span +class="pn">{115}</span> </p> + +<h4>Frederico <em>(tomando-lhe as mos calorosamente)</em></h4> + +<p>E os nossos sonhos vo realisar-se, minha fada! Oh! <em>(contemplando-a +absorto)</em> que deslumbrante! que eclipse ests fazendo nos anjos do co! No +s s uma bellesa! s um milagre! uma gloria! uma divinisao! No ouso +beijar-te as mos... Os ps, os ps! Estes ps requerem tapetes de labios e +almofadas de coraes! Consente que t'os beije, houri!</p> + +<h4>Morgadinha <em>(desviando-se)</em></h4> + +<p>No sejas tlo! Gostas de me vr assim?</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as fibras +intimas do peito! Luz, luz que me cgas, faz-te lavareda, e... devora-me!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vamos ao caso... Como esto os negocios?<span class="pn">{116}</span> </p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que ser consagrado +nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida, requerendo tu a tua +emancipao, visto que j contas vinte e seis annos; mas, como receias que eu +seja assassinado logo que requeiras ao juiz, cumpra-se a tua vontade. <em>(Joo +Lopes tosse. Vo sentar-se rapidamente ao piano, tocando e cantando a escala. +Depois, a Morgadinha vae espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa +voluptuosa que obriga a Morgadinha a fazer alguns passos de dana. Frederico, +arrebatado do donaire gracioso d'ella, ergue-se de mos postas fazendo +tregeitos de enlevado.)</em></p> + +<h4>Joo Lopes <em>(mettendo a cabea)</em></h4> + +<p>Podem conversar, que elle passou para a tulha.</p> + +<h4>Frederico <em>(com transporte)</em></h4> + +<p>s divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanas o p +quebradio<span class="pn">{117}</span> e chinez em attitude danante, sacodes +e impelles brazas minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus ps +lindissimos. Tudo que fazes mata e aviventa. Como no sers esbelta, nos sales +de Lisboa, princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos +cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de +felicidade por todos os pros! Joaninha, deixa-me sonhar! <em>(Fixa os olhos +espantados no tecto da plata. Musica surda)</em> A minha vida vae ser uma +etherisao de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taas nectreas +do co, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... Esse rosto em que +se espelham as formosuras no vistas de Angelos nem de Raphaeis, ser o meu +Al-koro, porque o summo artifice escreveu ahi a suprema estrophe do seu poema. +Quando os teus olhos se abrirem ao diluculo da manh, vr-me-has de joelhos a +beijar os teus cabellos; quando os fechares, cansados de serem beijados, e as +sedosas palpebras se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me +quedarei a teus ps velando que os sylphos amorosos da noite no ousem +perturbar o teu dormir. Oh! Joanna, Joanna!<span class="pn">{118}</span> +<em>(Ajoelha-se-lhe aos ps. Joo Lopes tosse com maior fora. A morgadinha +adverte em vo Frederico que contina no seu arrebatamento:)</em> Abre-me aqui +j o sepulchro, se em alguma hora hei de sentir-me orpho dos teus carinhos... +<em>(Pantaleo ao fundo, erguendo o reposteiro.)</em></p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ah!</p> + +<h4>Frederico <em>(sobresaltado)</em></h4> + +<p>O diabo! <em>(Desce o vo. Canta qualquer aria conhecida no acto de +ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente Morgadinha:)</em></p> + +<blockquote> + Diz a teu pai que a mestra<br> + Para melhor te ensinar,<br> + Te est cantando uma ria<br> + Das que se usa cantar<br> + No Theatro de Lisba:<br> + Prega-lhe a pta, que ba;<br> + E se esta nos no salva,<br> + Nada nos pde salvar.<span class="pn">{119}</span></blockquote> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>OS MESMOS <small>E</small> PANTALEO</h3> + +<h4>Pantaleo <em>(ao fundo)</em></h4> + +<p>Ento que isso?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p> a minha mestra que me est ensinando uma ria das que se cantam no theatro +de Lisba.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Ella tem a voz to grossa! No parece voz feminina!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Ella canta na voz que quer.... Ento o pap j se esqueceu que o marido +d'ella...<span class="pn">{120}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Est bom, est bom; eu vou-me embora. L estive conversando com o marido da +senhora, e lhe disse que no tivesse ciumes que eu sou um velho!... Aquelle seu +marido parece-me um doudo!.. <em>(Rindo)</em> Ora andem l, andem l. +<em>(Se.)</em></p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>FREDERICO, MORGADINHA <small>E</small> JOO LOPES <small>A +INTERVALOS</small></h3> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Salvei-te ou no? Tu salvaste-me com a fora, na romaria; e eu aqui, +salvei-te com o genio! Vs como o amor me deu espirito n'um trance difficil? +Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos teus olhos, +formosa! <em>(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sa de diversas longitudes. +Rumr longiquo de vozes.)</em><span class="pn">{121}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Que ser isto!? Joo Lopes!</p> + +<h4>Joo Lopes <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Que quer, snr. morgadinha?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sabes a que tocam os sinos? fogo?</p> + +<h4>Joo Lopes <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Fogo no me parece. Acho que bernarda. Estou c janella a vr se entendo +a gritaria.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Diz que bernarda...</p> + +<h4>Frederico <em>(alvoroado)</em></h4> + +<p>Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sriamente<span class="pn">{122}</span> +comigo, comtigo, comnosco, com o nosso futuro, Joanna!</p> + +<h4>Joo Lopes <em>(dentro)</em></h4> + +<p> revoluo.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Revoluo!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>No ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Qual perder-me! Importa-me c a mim a bernarda! Hei de ser tua! No temas, +Frederico, que eu sou forte!..</p> + +<h4>Joo Lopes <em>(na scena)</em></h4> + +<p>J intendi o que elles dizem... Do morras<span class="pn">{123}</span> aos +papeis, e que se queime o escrivo da fazenda... E trazem musica... Ouvem?... +<em>(Ouve-se distinctamente, mas ainda longe, o hymno da Maria da Fonte, +mistura com os mrra!)</em></p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>O snr. morgado est na torre a ouvir. Agora bom ser que o snr. Frederico se +escape, seno desconfio que o matem, sendo aqui pilhado... <em>(Frederico +apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha agarra-o.)</em></p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>No te deixo sahir agora, que perigoso.</p> + +<h4>Frederico <em>(muito inquieto)</em></h4> + +<p>Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! D-me armas que eu quero +defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver de doze +tiros! Quero armar-me at aos dentes, e combater, e morrer gloriosamente ao teu +lado!<span class="pn">{124}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Frederico, tu ests maluco!.. Olha que elles no vem c... No percas o +juizo!</p> + +<h4>Frederico <em>(muito tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)</em></h4> + +<p>No vem? Vem! Escuta! escuta! No ouves o bramido do tigre popular? Olha... + o leo que ruge, partidos os grilhes de respeito lei! a Libia e a +Hircania a vomitarem fras! Olha o lago sujo como se levanta em vagalhes e +como elles roncam!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Vem ento esconder-te, vem esconder-te!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>No! Um homem no se esconde quando olhos como os teus so testemunhas de +tamanha covardia! mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido ignobilmente! +<em>(Arranca os vestidos mulheris:<span class="pn">{125}</span> fica de +quinzena; mas conserva o chapo e os boucles)</em> Agora, armas! armas! <em>(A +morgada ri-se apontando-lhe para a cabea.)</em> Por que ris tu, mulher forte! +porque ris tu, se fazes favor?!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Tira a cartola e os cachos, meu amor.</p> + +<h4>Vozes <em>(que sobrelevam o estrondo dos figles)</em></h4> + +<p>Morra o escrivo de fazenda! morra! <em>(Grande catharro de Joo +Lopes.)</em></p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p> chegada a hora! D-me um abrao, querida! Um abrao! e at ao reino +eterno! As nossas nupcias so no co!.. <em>(Aponta para o tecto e fica como +extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e se com dous +bacamartes de bocca de sino.)</em><span class="pn">{126}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! <em>(Ella +aperra o bacamarte.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>OS MESMOS, PANTALEO <small>E</small> JOO LOPES</h3> + +<h4>Pantaleo <em>(estupefacto)</em></h4> + +<p>Que vejo? que isto? como entrou este homem aqui?</p> + +<h4>Frederico <em>(atirando ao cho o bacamarte)</em></h4> + +<p>Venho offerecer-me vingana de V. Ex.</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Meu pap, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mo de esposa!<span +class="pn">{127}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Das duas uma: ou o senhor foge, ou espatifado pelo povo!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>No sei fugir: sei morrer.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Mas v morrer a casa do diabo; no quero que o matem aqui.</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>V. Ex. tem raso; matal-o aqui mo: o melhor eu ir escondl-o no meu +quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos da menina +no ficavam com muita saude.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Pois vae escondl-o... some-o no inferno!<span class="pn">{128}</span> </p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha, sua +filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu pap +<em>(ajoelha-lhe)</em> eu j no posso deixar de ser esposa de Frederico, e +juro que sou d'elle na vida e na morte! <em>(Ergue-se: conduz Frederico pela +mo, e ajoelha com elle)</em> D-nos a sua beno, querido pap!</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Nunca! nunca! <em>(Ouvem-se fora as acclamaes.)</em></p> + +<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se soberba)</em></h4> + +<p>Ento, no tenho pae! tenho s marido! Se o povo o matar, ha de vr +morrer-me ao p d'elle... mas vingada!.. <em>(Lana mo do bacamarte)</em> Que +entre o povo!<span class="pn">{129}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Em que apertos me vejo! Rebenta-me o corao!..</p> + +<h4>Joo Lopes <em>(muito commovido)</em></h4> + +<p>Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!..</p> + +<h4>Pantaleo <em>(a Frederico)</em></h4> + +<p>Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Obedeo, por que m'o ordena o pae d'este anjo. <em>(Se com Joo +Lopes.)</em><span class="pn">{130}</span> </p> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>PANTALEO <small>E A</small> MORGADINHA</h3> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Perdi a cabea!.. Estou doudo... no sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!.. +onde est a pianista, que est alli fra o marido espera...</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>A pianista?..</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Sim, a pianista onde est?.. <em>(Olha para o cho, tropeando no vestido de +mulher)</em> Que isto? <em>(levantando o chapo e os caracoes)</em> Que +isto?! que isto, Joanna?..</p> + +<h4>Morgadinha <em>(afflicta)</em></h4> + +<p>Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!..<span +class="pn">{131}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Ento a pianista era... era o escrivo?!..</p> + +<h4>Morgadinha <em>(soluando)</em></h4> + +<p>Era, sim, snr.!</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Que sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o +patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!..</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p> meu espso... perde-nos...</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Tu s o demonio, mulher!</p> + +<h4>Morgadinha</h4> + +<p>Sou uma infeliz apaixonada... O meu pap,<span class="pn">{132}</span> tenha +piedade! Olhe que o Frederico muito bom mo. Se no fidalgo hoje, pde +sl-o manh. O pap bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr' +outro.</p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Ergue-te, ingrata, que dste cabo de teu pae! <em>(Rompe a musica pelo +interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)</em></p> + +<h2>SCENA IX</h2> + +<h4>JOO LOPES, PANTALEO, MORGADINHA, MACARIO</h4> + +<h5><em>(A musica, na vanguarda, ladeia para dar passagem a Macario vestido de +official de ordenanas, mas com chapo embicado. Traz uma espada empunhada, e +outra debaixo do brao, seguem-no 12 commandantes subalternos, vestidos a +capricho, uns com chapo redondo e banda e dragonas, outros de barretina e +niza. Um d'estes arvora uma bandeira de varias cres.)</em></h5> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Viva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das foras populares +do Minho!<span class="pn">{133}</span> </p> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Viva! <em>(Cala-se a musica.)</em></p> + +<h4>Macario <em>( frente dos revolucionarios com enfaze oratoria)</em></h4> + +<p>Snr. morgado! As foras populares de seis freguezias que ahi esto reunidas +fra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim, frente dos +seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a V. Ex. que por voto +geral foi acclamado general em chefe d'esta provincia. Eu lhes fiz um eloquente +discurso para os tirar d'essa ideia, allegando com o meu gro de pharmaceutico +que V. Ex. soffria dos intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles +no me attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex. a espada de general +em chefe. Aqui est por consequencia esta valente espada que matou em 1810 +muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mos de V. Ex. limpar este +paiz de escrives de fazenda e outros mariolas que nos desgraam. Receba V. +Ex. das minhas mos esta espada e salve com ella a patria do snr. D. Affonso +Henriques!<span class="pn">{134}</span> </p> + +<h4>Os commandantes</h4> + +<p>Viva o snr. boticario! Viva!</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Obrigado, valentes guerreiros! <em>(A musica executa uma marcha muito +compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada +offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz signal de +que quer fallar. Silencio.)</em></p> + +<h4>Pantaleo <em>(commovido)</em></h4> + +<p>Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impresso me fizeram as vossas +palavras e no pude deixar de me commover... Estou realmente commovido, e +sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe que as minhas +doenas e outras desgraas me no permittem tomar o commando das valentes +foras populares que representaes. No posso, senhores, no posso. Se a fortuna +me tivesse dado um filho, essa espada estaria j nas mos d'elle.<span +class="pn">{135}</span> </p> + +<h4>Morgadinha <em>(tirando a espada da mo de Macario)</em></h4> + +<p>Est nas mos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou mulher, ha +de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle ser digno d'ella! +<em>(Chamando) </em>Frederico! Frederico!</p> + +<h2>SCENA ULTIMA</h2> + +<h4>OS MESMOS <small>E</small> FREDERICO</h4> + +<h4>Frederico <em>(ajoelhando diante da morgadinha)</em></h4> + +<p>Sim! sim! recebo de vossas mos, Senhora, a espada que ha de decepar as +infinitas cabeas da hydra financeira! <em>(Espanto geral.)</em></p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!?<span +class="pn">{136}</span> </p> + +<h4>Pantaleo</h4> + +<p>Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio!</p> + +<h4>Joo Lopes</h4> + +<p>Vae ser o marido da menina... <em>(a Pantaleo)</em> Faa favor de no +desmaiar, por quem !</p> + +<h4>Frederico <em>(com vehemencia e fogo)</em></h4> + +<p>E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos victoria, +briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por vs, +intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pdres em que o +prostraram os comiles. Eu fallo assim, porque cada nao, nas horas criticas, +tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da rethorica. Vamos a elles, +filhos da victoria! As nossas bandeiras desenroladas aos ventos das batalhas, +diro: Riqueza e Moralidade! Em menos de quatro annos de regimen moral, e dieta +aos lambes, o paiz no dever nada, e vs no pagareis um pataco de +decima.<span class="pn">{137}</span> </p> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Apoiado!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Cidados! Eu tenho estudado profundamente as doenas de Portugal e pude +descobrir onde est o cancro que nos re. Ahi vae o meu programma: O meu +systema dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem seu +presidente de eleio popular, quero dizer, cada conselho governa-se a si, e +no quer saber do conselho visinho. No sei se me percebem...</p> + +<h4>Macario</h4> + +<p>Muito bem, entendemos muito bem.</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que no tem nada com a +republica de Famalico, nem com a republica de Fafe. Ns c vivemos com o que +nosso, fazemos as<span class="pn">{138}</span> nossas despezas, e no damos nem +vintem aos de fra. </p> + +<h4>Vozes</h4> + +<p>Apoiado! apoiado!</p> + +<h4>Frederico</h4> + +<p>Aqui est o meu systema que ainda no lembrou a ninguem, e que o resultado +de quinze annos de estudo. Conseguido isto, no temos a sustentar tropas, +<em>(Apoiados)</em> nem as estradas por onde andam os outros, +<em>(Apoiados)</em> nem theatros onde os outros se divertem, +<em>(Apoiados)</em> nem escrives de fazenda. <em>(Apoiados)</em> E declaro que +me dou j por demittido do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando: +Guerra e morte a todos os escrives de fazenda! <em>(Os populares desembainham +as espadas, e bradam: guerra de morte!)</em> E, portanto, senhores, beijo +esta espada, e leio na sua lamina, os novos destinos que vo alvorecer para +Portugal! Recebi-a da mo do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E +concedei, cidados, que essa bandeira<span class="pn">{139}</span> seja +arvorada nas mos da Judith lusitana! No mais cahir aos ps de vencedor algum +o estandarte que foi consagrado pela filha d'este honrado fidalgo! +<em>(Frederico, tem passado a bandeira Morgadinha, a qual se colloca de +maneira que o pae fica entre ella e Frederico.)</em> Bravos sycambros de Santo +Thyrso! agora, victoria, victoria que a patria nos chama! Est inaugurada a +republica confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! <em>(Os musicos executam. +Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a +bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentes. Joo Lopes +sentado com os queixos entre as mos contempla tudo aquillo. Corre o +panno.)</em></p> + +<h4>FIM.</h4> + +<p><span class="pn">{141}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h1>ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</h1> + +<h4>ENTREMEZ EM UM ACTO</h4> + +<p><span class="pn">{143}</span> </p> + +<h2>PERSONAGENS</h2> +<ul> + <li>A<small>NICETO DA</small> S<small>ILVA</small>, pae de </li> + <li>V<small>ICTORINA.</small> </li> + <li>G<small>UTERRES</small> A<small>RTHUR DE</small> M<small>IRAMAR.</small> + </li> + <li>J<small>OS</small> P<small>IMENTA.</small> </li> + <li>U<small>M</small> C<small>READO.</small> </li> +</ul> + +<p><span class="pn">{144}</span> <span class="pn">{145}</span> </p> + +<h1>ACTO UNICO</h1> + +<h5>Salo de estalagem em Barcellos. Quartos numerados desde 1 a 12, occupando +os lados, e parte do fundo. Um d'elles o n. 10 tem sobranceira porta uma +vidraa ou bandeira. Sobre um canap de palha est uma viola francesa.</h5> + +<h2>SCENA I</h2> + +<h5><em>(Ao erguer o panno vem entrando Aniceto e Victorina precedidos de um +creado com dois saccos de noute e castial.)</em></h5> + +<h3>ANICETO, VICTORINA, CREADO</h3> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Vamos a saber: temos dois quartos limpos e camas asseadas onde se passe a +noute?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Hde haver.<span class="pn">{146}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ha de haver?! Pergunto se ha.</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Faa favor de entrar aqui para o n. 6; e acol defronte est o n. 10 +tambem de vago. <em>(Pe a bagagem dentro dos quartos.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ento os outros esto occupados? Pelo que vejo reuniram-se muitos viajantes +em Barcellos. Teem bom gosto! Quem est hospedado c?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Nos n.<sup>os</sup> 1, 3, 5, 7 e 9 esto as snr.<sup>as</sup> fidalgas de +Lanhoso, que so seis velhas.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que faz por aqui esse mulhero?<span class="pn">{147}</span> </p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Vo para os banhos da Povoa. V. S. faa favor de fazer pouca bulha que +ellas recommendaram-me todo o socego, que queriam dormir.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Pois que durmam. Ora que me importa c a mim as fidalgas de Lanhoso!</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>V. S. toma alguma cousa?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Queres ch, Victorina?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>No quero nada. Quero deitar-me, que estou moda. O meu quarto aquelle? +<em>(Apontando para o 10.)</em><span class="pn">{148}</span> </p> + +<h4>Aniceto <em>(indo examinar o quarto)</em></h4> + +<p>Para onde deita aquella janella?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Para o quintal.</p> + +<h4>Aniceto <em>(indeciso)</em></h4> + +<p>Para o quintal? est bom... V... Vae-te deitar, menina. <em>(Ao +creado)</em> V voc buscar outra luz. <em>(O creado se.)</em></p> + +<h2>SCENA II</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> VICTORINA</h3> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Boas noutes, meu pae.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Boas noutes. Se fr preciso alguma coisa, bate na porta trez palmadas.<span +class="pn">{149}</span> </p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ai! <em>(Gemido longo.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Deixemo-nos de ais, Victorina. Juizo, juizo e juizo! <em>(Victorina +recolhe-se. O pae fecha a porta, e tira a chave.)</em></p> + +<h2>SCENA III</h2> + +<h3>ANICETO <small>E O</small> CRIADO <small>QUE VEM COM O CASTIAL</small></h3> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Diga-me c voss...</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Meu amo, que manda?<span class="pn">{150}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Por aqui tudo femeas, ou tambem ha machos?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Machos?!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Sim, homens! Se esto homens n'estes quartos.</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>J disse que no, meu amo. No ha homens.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Da banda do Porto no veio passageiro nenhum?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>No snr.<span class="pn">{151}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Est bom; d c voc a luz e v-se embora. s 7 da manh, chame-me se eu no +estiver a p, ouviu?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Sim snr. <em>(Aniceto recolhe-se, e fecha-se por dentro.)</em></p> + +<h2>SCENA IV</h2> + +<h3>GUTERRES <small>E O</small> CREADO</h3> + +<h4>Guterres <em>(com um sacco de viagem)</em></h4> + +<p>Ol, Gregorio!</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Por c, snr. Guterres! Como est V. S.?<span class="pn">{152}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Bom. Ha quarto?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Hade haver. D'onde vem?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Est c? +</p> + +<h4>Creado <em>(rindo)</em></h4> + +<p>Ora V. S. que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta a setima vez +que o vejo n'aste fadario! E o magano sabe-as escolher!</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Ento viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde est ella?</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Alli no n. 10.<span class="pn">{153}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dir que o meu +ideal sonhado ha trinta e seis annos est na estalagem de Barcellos! Alli! +n'aquelle antro!</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>Sempre V. S. est um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do regedor +de Guilhabreu que c esteve na festa das Cruzes ha cinco annos?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos...</p> + +<h4>Creado</h4> + +<p>E os versos que V. S. lhe botou? a gente sempre se ria...</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Ah! vocs riam-se dos versos? Tens tu a felicidade<span +class="pn">{154}</span> bestial de te rires da poesia? O talento pde contar +com o couce at em Barcellos... Ora vamos... onde tenho eu quarto?</p> + +<h4>Creado <em>(indicando-lhe um do fundo)</em></h4> + +<p>Est alli o n. 11.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Bem. Podes ir. <em>(Entra na alcova. O creado se.)</em></p> + +<h2>SCENA V</h2> + +<h3>ANICETO <small>SAINDO COM O CASTIAL EM PUNHO</small></h3> + +<p>No posso adormecer com a ida de que ha uma janella no quarto de Victorina. +Aquelle maldito no me deixa socegar em parte nenhuma. Receio que elle me siga +por que o lobriguei quando passvamos em Vallongo; e ella tambem o viu. Quem me +diz a mim que o tratante<span class="pn">{155}</span> nos no persegue, e anda + volta da casa? Cuidar aquelle valdevinos que se pde com uma flauta arranjar +uma rapariga com fortuna! Ha dous annos que minha filha est enfeitiada por um +trocatintas d'um estudante que conseguiu seduzir o corao d'uma menina que +regeitou os melhores casamentos de Penafiel e Amarante! Afinal, no hasde +vencer, sarrafaal! Eu tolherei todos os teus calculos. No me pilhars +descuidado um instante! Mas aquella janella assusta-me. Vou fazer mudar +Victorina para o meu quarto. <em>(Olhando para o alto da porta)</em> E de mais +a mais esta porta tem vidraa em cima. Se elle aqui entrar, ella pde vl-o +d'alli... Que imprudencia eu ia commettendo! <em>(Bate a porta)</em> Victorina, +Victorina!</p> + +<h4>Victorina <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Quem ?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p> teu pae. J ests na cama?<span class="pn">{156}</span> </p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>No, snr.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que ests a fazer?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Nada. <em>(Dando volta chave.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Nada? Posso entrar? <em>(parte)</em> L est ella a descer a vidraa. +<em>(Alto)</em> Posso entrar?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Pde.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Estavas janella?<span class="pn">{157}</span> </p> + +<h2>SCENA VI</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> VICTORINA <small>SAHINDO DA ALCOVA</small></h3> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ai!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que estavas a fazer na janella?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ora o pae tem manias! Credo! que havia de eu fazer na janella! Estava a +tomar a fresca. No tinha somno, no podia dormir, estava muito afflicta, muito +opprimida, muito abafada, abri a janella, ai!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Pois sim, sim, minha menina. Assim ser; mas troquemos os quartos. Vae para +aquelle,<span class="pn">{158}</span> que eu vou para este. D c o teu sacco +de noute. Vamos. Leva o castial. D-me o meu sacco. Muito bem. Agora +entra...</p> + +<h4>Victorina <em>(entrando)</em></h4> + +<p>Oh cos!</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Sim, sim. <em>(Fechando a porta, e tirando a chave)</em> Agora vou +descanado. <em>(Recolhe-se.)</em></p> + +<h2>SCENA VII</h2> + +<h3>GUTERRES</h3> + +<h5><em>(Caminhando contemplativo com o castial em punho e os olhos postos no +quarto d'onde sahiu Victorina. Pousa o castial.)</em></h5> + +<p>Ella alli est, a formosa como a rolinha adormecida com o bico debaixo da +aza; e eu venho aqui dar pasto ao corao;... mas que<span +class="pn">{159}</span> pasto to pouco nutriente! Pobre poeta! todo o teu +alimento so esperanas! Em quanto a gente prosaica se embrutece com timbaes de +pombos e pasteis de camaro, tu, poeta <em>(batendo no peito)</em> engoles +timbaes de esperanas com pasteis de sonetos. Eu j sou do tempo em que um +homem de genio amava com o auxilio dos sonetos, e fazia consistir toda a sua +gloria de fino amante em gargarejar ternuras para um terceiro andar e +recolher-se a casa com o corao a trasbordar de catarro. Hoje no. Os anjos +actuaes se apparecem de noite janella para namorar a lua, ou vr a cauda +d'algum cometa. Desde que entrou a moda do amor ideal, os olhos d'uma senhora, +que conversa com as estrellas, no descem a procurar na rua um d'estes amadores +fanhosos, que s se sentem inspirados e eloquentes na occasio em que a +patrulha os no deixa fallar. Eram d'uma paciencia adoravel as donzellas de ha +vinte annos, quando em meu corao rebentavam as primeiras flres!.. Que +sensaborias a gente lhe disparava l para cima, e a sancta resignao com que a +gente as ouvia a ellas! A virtude d'aquelle tempo s se explica bem pela +temperatura de<span class="pn">{160}</span> sorvete em que os coraes se +conservavam de parte a parte. Isto agora outra coisa. Um homem sente no peito +o progresso material. Aqui dentro ha gaz, ha vias-ferreas, ha fio electrico, ha +bales, ha petroleo, ha tudo quanto fogo, energia, rapidez, etc. Eu c pelo +menos sinto isso tudo; conheo que remoo, que amo e que ardo. Tenho phosphoros +e cido prussico aqui dentro. <em>(batendo no peito)</em> E esta mulher! Como +eu amo esta mulher desde que a vi hontem na Povoa de Varzim! Eu, na minha +qualidade de escrivo do juiz eleito, estava a escrever n'um processo, quando +ella passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo +como largaria um sceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar meza redonda do +hotel portuense. Comeu apenas uma aza de borracho e meia banana. Que estomago +to fino! que alli est um corao immenso cheio de ternura e com mais poesia +que um livro de versos. Sahiram, e eu segui-os. Vi entrar o pai n'um +escriptorio de viao e comprar dous bilhetes. Perguntei para onde iam os +passageiros; disseram-me que para Barcellos. Pedi bilhete; mas no havia. +desventura! que farei? ficar? no! Ha<span class="pn">{161}</span> fatalidades +invenciveis, funestissimas! Esta mulher tem o meu destino nas suas mos; disse +eu comigo. Cumpre-me seguil-a. Mas que farei? No ha bilhete. Embora. Alma de +poeta, exclamei eu, no succumbas! Heroicidade na desgraa, homem de corao de +bronze! Segue-a! segue-a! Fui alugar um garrano, e segui-os a galope, terra a +terra, a rdea solta, receando a cada passo que o corao e o garrano me +rebentassem. Aqui estou. mulher, mulher quem s tu? Ave do paraizo, que ests +sonhando delicias do teu den, lembra-te, Eva, que s costella do homem, e +que est aqui Ado digno de ti. <em>(Repara na viola.)</em> Uma viola franceza! +<em>(Pega d'ella e corre-lhe as cordas.)</em> Est desafinada. Oh! que saudades +me tu fazes, instrumento interprete das minhas paixes infantis! Que trovas eu +descantava em noites de lua cheia ao arpejar dos teus bordes que gemiam +comigo! <em>(Pensativo)</em> Quem sabe? <em>(vai afinando)</em> Quem sabe? Se +tu fizesses o milagre, lyra das canes apaixonadas! Vamos! o fado que me +impelle; mas no vou tocar o fado. Inspira-me, corao, umas trovas dignas do +anjo que alli est dormindo. <em>(Avisinha-se da porta, onde presume que<span +class="pn">{162}</span> est Victorina, e preluda com tregeitos de vate que +invoca a inspirao do co, e canta)</em>:</p> + +<blockquote> + <small>(MUSICA DA ALTEA, MIMOSA ALTEA</small>)</blockquote> + +<blockquote> + Se tu soubesses, lindinha,<br> + Quanto grande o meu amor<br> + No dormiras descanada<br> + Quando eu morro aqui de dr.</blockquote> + +<blockquote> + <em>(Allegro)</em></blockquote> + +<blockquote> + Acorda menina,<br> + No durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dr quem te adora.</blockquote> + +<blockquote> + Eu na Povoa descuidado<br> + J no sentia disvelos,<br> + Eis que surges luz brilhante,<br> + E eu te sigo at Barcellos.</blockquote> + +<blockquote> + Acorda, menina,<br> + No durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dr quem te adora.<span class="pn">{163}</span></blockquote> + +<h2>SCENA VIII</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> GUTERRES</h3> + +<h5><em>(Aniceto abre a porta, e se de barrete de dormir e rob-de-chambre, com +a luz na mo. Guterres reca espavorido.)</em></h5> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Passasse muito bem.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Viva.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Eu j vi o senhor se no me falha a memoria.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sim, senhor, j tive a honra de jantar na meza em que V. S. estava na +Povoa.<span class="pn">{164}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p> verdade. Pois snr., V. S. canta e toca muito bem; n'outra occasio muito +lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o obsequio de se +calar, porque tenho de seguir amanh viagem e preciso dormir...</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Pois no, senhor! Eu deponho j o instrumento importuno.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Agradeo muito a sua delicadeza. Se no fosse indiscreto, perguntaria com +quem tenho a honra de fallar?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir.<span class="pn">{165}</span> +</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ento estrangeiro? Esse nome no me parece de c.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exero funces publicas. +</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ah! exerce funces publicas? Esse emprego deve ser bem bom.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de +bastantes lettras.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ah! de bastantes lettras? ento capitalista... Eu tambem trago um pouco de +dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula?<span +class="pn">{166}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>O juro? est favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento ao +mez. V. S. do Porto?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>No senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva. +</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Oh! pois no, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua +ex.<sup>ma</sup> filha?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>A divertir-me no... Isso so contos largos... se V. S. por aqui estiver +manh, conversaremos. Agora boas noutes, que so horas de dormir.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tem razo, tem razo... Boas noutes. <em>(Aniceto fecha-se.)</em><span +class="pn">{167}</span> </p> + +<h2>SCENA IX</h2> + +<h3>GUTERRES</h3> + +<p>Ora ahi est a deidade, que eu eternizei nos meus versos! As esperanas de +muitos poetas, quando se realisam, so pouco mais ou menos como esta. Este +Aniceto, offerecendo-se aos meus devaneios d'alma, uma imagem que eu tambem +offereo como lio a todos os poetas. <em>(V-se um encapotado ao fundo, com +chapo de aba derrubada)</em>.</p> + +<p>Mas, a final, onde que est a filha? Foi o velhaco do creado que me +enganou! o couce da proza que bateu no peito da poesia. Filha de Aniceto, +onde quer que estejas, eu te offereo este calix d'amargura, e boas noutes. +<em>(Vai a recolher-se ao quarto.)</em><span class="pn">{168}</span> </p> + +<h2>SCENA X</h2> + +<h3>JOS PIMENTA <small>E</small> GUTERRES</h3> + +<h4>Pimenta <em>(rebuado)</em></h4> + +<p>Boas noutes.</p> + +<h4>Guterres <em>(suspendendo-se)</em></h4> + +<p>Boas noutes.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Quem o senhor?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>No respondo a encapotados de melodrama. Destape-se.</p> + +<h4>Pimenta <em>(deixa cair as bandas do capote)</em></h4> + +<p>Eis-me.<span class="pn">{169}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Eis-me o que? Cada vez o conheo menos.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o +senhor e a filha de Aniceto?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>De commum de dois? temos questo grammatical ou phisiologica?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Que tem o senhor que ver com ella?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo, Barcellos, +o rei dos tambores, V. S. etc. Falta elle que ver...<span +class="pn">{170}</span> </p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>O senhor sabe que da zombaria ao rewolver no ha mais que um passo?</p> + +<h4>Guterres <em>(sorrindo)</em></h4> + +<p>O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em Barcellos +no pde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama, posso saber?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Sou Jos Pimenta.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Pimenta? por isso o senhor to clido!... Eu sou de apellido Mira-mar. +Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a filha +d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um corao de poeta e um +respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena?<span +class="pn">{171}</span> </p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Amo.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tambem eu.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Tambem o senhor?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tambem eu; mas ha uma differena entre ns, e vem a ser que ella a mim no +me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Tenho provas d'isso.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Tem? <em>(Solemne)</em> O senhor sabe que esmagou<span +class="pn">{172}</span> n'este momento um dos mais romanticos coraes que +batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as florinhas d'um amor nascente +que burbulhavam na charneca d'esta alma? <em>(concentra-se)</em> Coragem! +Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E ento o senhor vem aqui +fallar-lhe? Sabe que ella est...</p> + +<h4>Pimenta <em>(apontando para o quarto de Aniceto)</em></h4> + +<p>Sei que est alli no N. 10, que m'o disse o creado da hospedaria.</p> + +<h4>Guterres <em>(apontando)</em></h4> + +<p>Alli?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... <em>(reparando na vidraa +sobranceira porta.)</em> Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles vidros.. +O senhor no v?<span class="pn">{173}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sim, eu vejo l o que quer que seja.</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p> ella que me conheceu a voz. Quer outra prova?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>No senhor, estou satisfeito. Aquella mulher sua. Sou magnanimo at aqui! +</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Se me fosse possivel subir altura da vidraa! Alli est uma mza. O senhor +guarda segredo? No revella este arrojo d'um amante apaixonado?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os +caixilhos das vidraas<span class="pn">{174}</span> e passar-se l p'ra dentro. +Pde fazl-o que eu no digo nada.</p> + +<h4>Pimenta <em>(attento nos vidros)</em></h4> + +<p> ella. o anjo! L est o rosto amado!</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>V, no perca tempo. D-lhe um beijo envidraado. <em>(Pimenta aproxima uma +banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a vidraa +com um murro, e pe fra a cabea.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ah co!</p> + +<h4>Pimenta <em>(saltando)</em></h4> + +<p>Traio! traio! <em>(Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.)</em><span +class="pn">{175}</span> </p> + +<h2>SCENA XII</h2> + +<h3>ANICETO <small>E</small> GUTERRES</h3> + +<h5><em>(O palco escuro)</em></h5> + +<h4>Aniceto <em>(correndo para Guterres)</em></h4> + +<p>Ainda aqui ests, ladro!</p> + +<h4>Guterres <em>(accendendo um phosphoro)</em></h4> + +<p>Olhe que est enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o +funccionario da Povoa, Guterres Arthur. <em>(Contina a accender +phosphoros.)</em></p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraa. Onde est o +scelerado, o canalha do flautista?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Elle toca flauta? So fataes os flautistas...<span class="pn">{176}</span> +</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Transtornou a cabea de minha filha o infame... Onde est elle?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto. +<em>(Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que exclama de +dentro.)</em></p> + +<h4>Voz de velha</h4> + +<p>Quem est ahi?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Enganei-me.</p> + +<h4>Voz</h4> + +<p>Um homem! que desafro! um homem!<span class="pn">{177}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Perdo, minha senhora; no grite tanto. V. Ex. parece-me bastante velha +pelo metal de voz, e no deve recear-se de homens.</p> + +<h4>Voz</h4> + +<p>Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora...</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>No se assuste. V. Ex. em guerra de paixes paiz neutro. Esteja socegada. +Durma. <em>(Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)</em></p> + +<h4>Voz</h4> + +<p>Quem bate? quem anda aqui, mana?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>C est outra inviolavel. No nada, minha senhora. A mana no teve +perigo.<span class="pn">{178}</span> </p> + +<h4>Aniceto <em>(sahindo com uma luz do seu quarto)</em></h4> + +<p>Aqui est luz. Venha c, snr. Miramolim.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Miramar, se faz favor.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que me diz perseguio d'este facinora? O senhor no lhe disse que eu +estava n'este quarto?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Nada, eu no lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a +espreitar pelos vidros; mas como elle disse l est o rosto amado cuidei +realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. No se afflija. O caso tem +remedio. Trate a doena de sua filha pelo systema homoeopathico. <em>Similia +similibus.</em> Sabe latim? <em>(Signal negativo)</em> Quer dizer: cura-se a +molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer dizer: a doena de sua +filha causada pelo tal<span class="pn">{179}</span> sujeito, no ? +<em>(Signal affirmativo)</em> Pois <em>similia similibus</em> arranje-lhe outro +similhante.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Dois? tomra eu desfazer-me d'este.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Outro marido, percebeu?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Percebi, sim, senhor; mas eu no acho que a minha filha tenha necessidade de +casar com este nem com o outro.</p> + +<h4>Guterres <em>(com enfaze e rapidez)</em></h4> + +<p>Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes no +fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a no soffrem sem que a especie +seja deteriorada por transtornos contrapostos s evolues palyngenesicas da +reproduco genesiaca, resultando d'ahi que<span class="pn">{180}</span> as +evolues abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberraes de +graves consequencias: o senhor percebe, eim?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>As aberraes curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Miramar, se faz favor. Vejo que V. S. no entendeu. Sua filha ha de dar-lhe +grandes penas e trabalhos, se no tiver em quem empregar a actividade do seu +corao: percebeu agora?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Muito bem. Aconselha-me ento o senhor que lhe procure marido.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>E quanto antes.<span class="pn">{181}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>O senhor solteiro?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Sou, sim senhor, porque?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Quer casar com minha filha?</p> + +<h4>Guterres <em>(com gravidade)</em></h4> + +<p>A sua filha, snr. Aniceto, uma imagem que me sorria nos meus sonhos antes +de a conhecer. Eu amo-a com este corao de anjo que tenho; e, se eu j no +fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Cames d'occasio. Mas a sua +pergunta queima-roupa um choque tal de felicidade que me burrifica. +Deixe-me tomar ar. Ha commoes de alegria que achatam os bofes e sacodem todas +as visceras d'um homem.<span class="pn">{182}</span> </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>No ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguio d'este bandido da +flauta. Se V. S. annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde +podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha +Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e oua fallar.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>No, senhor. Isto de casamento um acto srio e solemne. Coraes apanhados +de surpreza no me servem. A mulher, que houver de ser minha, hei de +conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo poetico. Logo que eu +conhecer que consegui apaixonar sua filha, ento a contemplarei como objecto +matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou poeta.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Ento que preciso?<span class="pn">{183}</span> </p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p> preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus +primeiros ensaios no corao de sua filha empregando os expedientes +sentimentaes.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Que vae o senhor fazer n'esse caso?</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>V. S. no me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em +consequencia de elle tocar flauta?</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Foi isso.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Pois eu vou empregar tambem a musica. Pde ser que esta menina tenha a alma +lyrica e<span class="pn">{184}</span> philarmonica e que o seu corao s possa +ser abalado instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao +seu quarto, e esperar l os phenomenos que se forem operando na sensibilidade +de sua filha? </p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Sim senhor, eu c vou esperar os phenomenos. <em>(Recolhe-se.)</em></p> + +<h2>SCENA XIII</h2> + +<h3>GUTERRES <em>(s)</em></h3> + +<h5><em>(Guterres pega da viola, preluda, aproxima-se do quarto de Victorina e +canta em postura de inspirado)</em></h5> + +<blockquote> + Eu na Povoa descuidado<br> + J no sentia disvelos;<br> + Eis que surges, luz brilhante,<br> + E eu te sigo at Barcellos.</blockquote> + +<blockquote> + <span class="pn">{185}</span> Acorda, menina,<br> + No durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dr quem te adora.</blockquote> + +<blockquote> + Victorina, escuta os hymnos,<br> + Que te canta o meu amor;<br> + Escuta os versos divinos,<br> + De Guterres, trovador!</blockquote> + +<blockquote> + Acorda menina,<br> + No durmas agora,<br> + Em quanto se fina<br> + De dr quem te adora.</blockquote> + +<blockquote> + <em>(Escutando declama:)</em></blockquote> +Ella no se bole. Parece-me que a ouo resonar. a belleza que ronca nos seus +sonhos innocentes. <em>(Reparando em Jos Pimenta que vem entrando)</em> Temos +chinfrim.<span class="pn">{186}</span> + +<h2>SCENA XIV</h2> + +<h3>JOS PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, <small>NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA, +</small>ANICETO <small>MAIS TARDE, E O</small> CREADO</h3> + +<h5><em>(Jos Pimenta entra embuado, medindo os passos tragica. Chega ao +meio da scena, arroja o chapo, deixa cahir a capa, cruza os braos, relanando +um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior d'uma jaqueta de pelle os +canudos d'uma flauta, liga-os, d dois passos frente, e com a maior +solemnidade toca a aria da Sombra de Nino, da Semiramis. Guterres tem passado +com a viola para o outro lado, e faz meno de se defender com uma cadeira, em +quanto o outro no toca. Victorina, assim que Jos Pimenta tem tocado a +primeira parte da aria, comea aos empurres porta.)</em></h5> + +<h4>Victorina <em>(dentro)</em></h4> + +<p>Jossinho, Jossinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta porta! +<em>(Aniceto rompe do quarto com os braos no ar, a tempo que Victorina faz +saltar a fechadura e corre aos braos de Jos Pimenta, exclamando:)</em> Jos, +Jos, quero morrer nos teus braos. Ai! <em>(Desmaia nos braos +d'elle.)</em><span class="pn">{187}</span> </p> + +<h4>Aniceto <em>(ao creado que tem entrado com a luz)</em></h4> + +<p>Voc faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades todas. Ah +grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos no ha justia que vingue um pae? +</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Snr. Aniceto, no mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos inuteis. +Agora conheo que a chaga da sua filha s pde ser curada com o pllo do +mesmo... do mesmo Jos Pimenta. No ha duvida que o corao d'esta menina est +magnetisado pela musica; mas o que certo que a propenso d'ella no a +viola. A alma d'esta senhora inclina-se para instrumento de sopro. No assim, +snr. D. Victorina? Faa favor de voltar a si para responder, e desmaie depois +se quizer. <em>(Ella abre os olhos)</em> verdade ou no?</p> + +<h4>Victorina</h4> + +<p>Ai! <em>(Aniceto ce prostrado n'uma cadeira boca da scena.)</em><span +class="pn">{188}</span> </p> + +<h4>Guterres <em>(a Pimenta)</em></h4> + +<p>O senhor no tem habilidade seno para a flauta. Aproveite a occasio e v +com a pequena ajoelhar-se aos ps do velho. Andem para diante. +<em>(Empurrando-os)</em> Parece que nunca estiveram no theatro!</p> + +<h4>Pimenta e Victorina <em>(ajoelhando)</em></h4> + +<p>Meu pae! piedade!</p> + +<h4>Aniceto <em>(erguendo-se de impeto)</em></h4> + +<p>Oh! <em>(Grito rouco e prolongado; com os braos affasta tragicamente da +vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)</em></p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abene a unio d'essas creaturas. +Deixe-os casar; alegre-se com a esperana de que ha de ainda vr meia duzia de +netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o genio de sua me, amando +uma orchestra de sujeitos distinctos desde a<span class="pn">{189}</span> +trompa at corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante misericordioso +para os propagadores da sua individualidade tipica.</p> + +<h4>Aniceto</h4> + +<p>Levantem-se d'ahi! <em>(Erguem-se submissos.)</em></p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Bem; esto os senhores absolvidos. Parabens. snr. Pimenta, eu creio que +algum servio lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador da sua +flauta. Em recompensa, faa-me o senhor o favor de dizer se foi realmente com a +aria da Sombra de Nino que enfeitiou esta sympathica joven?</p> + +<h4>Pimenta</h4> + +<p>Esta aria era a senha com que os nossos coraes se entendiam.</p> + +<h4>Guterres</h4> + +<p>Ah! sim? Eu quero tocar isso no violo; vou<span class="pn">{190}</span> +experimentar o effeito d'essa aria no corao de certas pessoas que costumam +arrebatar-se fascinadas pela minha voz de tenor. <em>(Tange na viola o +acompanhamento da Sombra de Nino, e canta:)</em></p> + +<blockquote> + Pobre poeta, ninguem te preza,<br> + Pobre poeta, ninguem te quer;<br> + Nem co'a viola tu conseguiste<br> + Mover o peito d'uma mulher.</blockquote> +<em>(No intervalo de uma quadra outra. A Jos Pimenta)</em> + +<p>Isto vae bem? <em>(Faz na viola escalas sobre os bordes.)</em></p> + +<blockquote> + Mas no importa; vena a flauta<br> + A sympathia das fracas almas;<br> + Que eu antes quero, meus bons amigos,<br> + O vosso affecto e as vossas palmas.</blockquote> + +<h4>FIM.</h4> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Os direitos de representao das duas comedias que formam este volume +pertencem ao auctor.</p> + +<p>Porto, 3 de Fevereiro de 1871.</p> + +<p style="text-align:right;">C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small> +B<small>RANCO</small>.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a +Flauta e a Viola, by Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES *** + +***** This file should be named 30461-h.htm or 30461-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/4/6/30461/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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