summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:53:48 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:53:48 -0700
commitf08a8578fa5187b2ba141a14c562f9885cbf1b98 (patch)
tree0175320f34db7018e7aa57b1cb9049907c18d5a9
initial commit of ebook 30461HEADmain
-rw-r--r--.gitattributes3
-rw-r--r--30461-0.txt3924
-rw-r--r--30461-h/30461-h.htm4031
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
-rw-r--r--old/30461-8.txt4315
-rw-r--r--old/30461-8.zipbin0 -> 51501 bytes
-rw-r--r--old/30461-h.zipbin0 -> 55421 bytes
-rw-r--r--old/30461-h/30461-h.htm4447
9 files changed, 16733 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..6833f05
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,3 @@
+* text=auto
+*.txt text
+*.md text
diff --git a/30461-0.txt b/30461-0.txt
new file mode 100644
index 0000000..9fd7f82
--- /dev/null
+++ b/30461-0.txt
@@ -0,0 +1,3924 @@
+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30461 ***
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+------
+
+THEATRO COMICO
+
+A MORGADINHA DE VAL D'AMORES
+
+-----
+
+ENTRE A FLAUTA E A VIOLA
+
+------------
+
+PORTO
+EM CASA DE VIUVA MORÉ--EDITORA
+PRAÇA DE D. PEDRO
+1871
+
+
+
+
+THEATRO COMICO
+
+
+
+
+PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA
+
+
+
+
+THEATRO COMICO
+
+DE
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+A MORGADINHA DE VAL D'AMORES
+
+
+ENTRE A FLAUTA E A VIOLA
+
+
+PORTO
+VIUVA MORÉ--EDITORA
+PRAÇA DE D. PEDRO
+1871
+
+
+
+
+ADVERTENCIA
+
+
+Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o
+distincto maestro Francisco de Sá Noronha, quando a comedia se escreveu
+com destino a ser representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o
+bom exito theatral o subsidio da musica n'esta composição, e sobrevindo
+rasões que desviaram o nosso amigo Noronha de collaborar comnosco em
+tamanha futilidade, não pôde por isso a comedia ser submettida á opinião
+das platêas. Quem a lêr agora tem de benevolamente disfarçar o seu
+fastio de leitura de versos, feitos ou copiados das canções populares,
+para se cantarem. Por via de regra, taes trovas são sempre asperas ou
+dissaboridas na declamação, mórmente as que formam o _Auto do nascimento
+do menino Jesus_, consoante elle se figura nas aldêas do Minho ainda hoje.
+
+Com referencia á farça não temos que pedir desculpa. Seria
+desvanecimento irrisorio recearmos nós que a ponderosa e grave critica
+se descesse até coisa tão pequena.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES
+
+COMEDIA EM TRÊS ACTOS
+
+
+
+
+FIGURAS
+
+ D. JOANNA COGOMINHO DE ENCERRABODES, morgada de Val-d'Amores, filha de
+ PANTALEÃO COGOMINHO DE ENCERRABODES.
+ FREDERICO ARTHUR DA COSTA, Escrivão da Fazenda de Santo Thyrso.
+ COSME JORDÃO, Deputado por Guimarães.
+ MACARIO MENDES, Boticario de Santo Thyrso.
+ JOÃO LOPES, Lacaio e confidente da Morgada.
+ FIGURAS DO AUTO DOS TRES REIS MAGOS.
+ Creados, cantadeiras, camponezes, musicos e outros personagens.
+ _Scenas da actualidade._
+
+
+
+
+ACTO PRIMEIRO
+
+
+Ao fundo, portão de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes.
+O restante do palco figura uma alameda e estrada.
+
+
+SCENA I
+
+FREDERICO _(só)_
+
+ _(Frederico é um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e
+ calças pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O
+ chapéo é de fórma ingleza e alto para tornar mais aguçada a figura.
+ A cabelleira bironniana em crespas ondulações. Bigodes encerados e
+ picantes nas guias retezadas. A luneta d'um vidro sem aro obriga-o a
+ caretear, abrindo a bocca de esguêlha quando fixa mais attentamente
+ a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fôr necessario fugir, hão
+ de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A
+ agilidade da rotação do pescoço deve dar-lhe o que quer que seja de
+ authomatico e fantasmagorico.)_
+
+A razão diz-me que eu estou em perigo de ser moído por estes selvagens
+do Minho; mas o coração, este intestino onde o amor e a coragem habitam,
+diz-me que não vacille. A rasão argumenta-me que eu, escrivão de fazenda
+no concelho de S. Thyrso, não devo arrojar as minhas desenfreadas
+ambições até á mão da morgadinha de Val-d'Amores; mas o coração, esta
+republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella,
+mandando-me lêr n'aquelle brazão _(apontando)_ o epitaphio da fidalguia
+de raça, e o monumento levantado não ás tradições ineptas, mas á
+restauração da dignidade humana. Além d'isto, eu, homem de aspirações
+gigantes, eu, poeta de audaciosos raptos d'alma, eu, que junto á poesia
+elevada a poesia profunda, preciso de me arranjar. Sou escrivão de
+fazenda; mas esta posição não quadra aos meus instinctos. Ás vezes como
+que sinto escaldarem-se-me as arterias com sangue de principe, e me quer
+parecer que algum de meus avós foi mais ou menos illudido por alguma das
+minhas avós. Reconheço, como filho d'este seculo, que a democracia matou
+a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim é; porém, ao mesmo tempo,
+não sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta
+morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o
+que mais me incita a querer-lhe com a adoração dos Paulos e dos Romeus é
+a precisão que tenho de me arranjar.
+
+Eu já manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocação;
+e, como me sentisse um dos muitos desventurados que cáem n'este mundo
+sem vocação, fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por
+serem cousa que a Biblia não diz que o Creador fizesse nos sete dias de
+creação. Um sujeito olha para si como Deus para as trevas, e diz «_fiat
+lux_» faça-se o litterato; «_et lux facta est_», e o litterato fez-se.
+Eu prometto não dizer mais nada em latim, por que tambem não sei mais do
+que isto.
+
+Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever.
+Preparava-me para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26
+de supplemento, quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um
+diario de Lisboa. A minha reputação estava quasi estabelecida, quando a
+empreza me despediu por semsaborão, como se fosse obrigatorio ser
+engraçado no paiz mais desgraçado do mundo. Voltei o meu espirito para a
+historia universal, e cheguei até a procurar n'um Almanak onde era a
+Torre do Tombo com tenção de lá ir consultar os pergaminhos. N'este
+proposito estava eu, sentindo já os calores da gloria, quando me
+encarregaram de traduzir uma comedia franceza para o Gymnasio. Puz de
+parte a Historia Universal, e traduzi a comedia com um esmero indigno do
+resultado, porque ella foi pateada visto que tinha, segundo disseram os
+criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a virgindade elegante do
+texto. Ora eu então fiz-me critico, animado pela grande copia de
+sandices que se escreveram contra a minha traducção. N'este modo de vida
+achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber
+alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira
+em jardim de flores; é temivel porque remeche e estraga tudo; levanta
+impólas de terra, e suja quando não desvasta a mimosa vegetação. Eu fiz
+destroços grandes e escalavrei muitas reputações litterarias, já por
+amor da arte, já por amor do estomago, esta coisa onde um homem de genio
+não póde crear a luz, porque isto aqui _(indicando o estomago)_ é um
+abysmo que só recebe a luz pela bocca. Mas a final, as obras litterarias
+que appareciam eram já de natureza que o arpéo da critica não lhes
+ferrava a unha. Entreguei-me ao genero chamado _reclame_, e comecei a
+chamar a attenção do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia,
+romance ou farça. Este officio, posto que o mais aviltante da vida d'um
+escriptor, é o mais lucrativo no mundo patarata, em que eu me atasquei.
+A consciencia pezava-me pouco, se o estomago sahia pezado de casa do
+emprezario do theatro ou do editor do romance. Afoguei muitos escrupulos
+em sopa de camarão. Mas o sangue de principe, este não sei quê que me
+faz cócegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha missão na
+terra, e desde logo atirei um vôo atrevido ás regiões aquilinas da
+politica. Estudei trez dias as questões de fazenda em Portugal, e
+entendi-as tão claramente como se fossem questões da minha fazenda.
+Percebi que o paiz estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma
+serie de artigos nos quaes provava que a maneira de matar o _deficit_
+era... sim eu provava que a maneira de matar o _deficit_, esse cancro
+roedor das entranhas do meu paiz, era... sim eu provava... não me lembra
+agora o que provei... o certo é que me despacharam escrivão de fazenda
+de Santo Thyrso, provavelmente para matar o _deficit_. Eis que chego, e
+vejo a Morgadinha... _(Ouvem-se os tamborileiros)_ Não convem que estes
+barbaros me vejam parado em frente do portão da mulher amada... _(Sáe)_.
+
+
+SCENA II
+
+PANTALEÃO, DOIS CREADOS, E OS TAMBORILEIROS
+
+ _Entram ao terreiro e páram tocando em frente da porta trez
+ tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco
+ depois abre-se a porta, e sáe_ _PANTALEÃO__, com dois creados de
+ lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um
+ pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem._
+
+1.º Tamborileiro _(o do Zabumba)_
+
+Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr.ª morgadinha!
+
+Os trez
+
+Biba por muitos annos, biba!
+
+Pantaleão
+
+Olé! rapazes! Com que vossês já se vão chegando ao arraial?..
+
+1.º Tamborileiro
+
+Ó promeiro, vamos tocar ós mordomos do Snr. San Joon, que tem festa
+d'arromba este anno; e ós despois la bamos pr'ó arraial com Deus.
+_(Ouve-se ao longe a toada das cantadeiras que cantam o S. João.)_
+
+Pantaleão
+
+Bebam; mas não se encarraspanem como no anno passado.
+
+2.º Tamborileiro _(rindo alvarmente)_
+
+É berdade, fedalgo! Aquillo é que foi perua! Indas m'alembra!
+
+Pantaleão
+
+Pois vê lá se arranjas outra que te faça esquecer a do anno passado.
+
+3.º Tamborileiro _(bebendo)_
+
+Enton la bai á saude de Vossenhoria, a mais da snr.ª morgadinha.
+
+1.º e 2.º Tamborileiro
+
+A mesma.
+
+Pantaleão
+
+Querem mais? bebam.
+
+1.º Tamborileiro
+
+Non faz minga.
+
+Pantaleão
+
+Então, rapazes, adeus. Lá nos veremos na romaria.
+
+Os tres Tamborileiros
+
+Biba o fedalgo, e mai la obrigaçon. _(Sáem rufando estrondosamente:
+cessa o estrondo pouco depois.)_
+
+
+SCENA III
+
+PANTALEÃO E OS DOIS CREADOS (QUE POUSAM AS VASILHAS)
+
+Pantaleão
+
+Ora venham cá vossês, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses
+olhos. Vossês tem obrigação de zelar a honra d'esta casa, por que
+nasceram n'ella, cá se crearam, e cá hãode morrer, se me servirem bem.
+Aquillo que souberem a respeito do que vou perguntar hão de dizer-m'o.
+Aqui quem governa sou eu, percebem? Vossês tem visto de noite alguma vez
+por debaixo das janellas d'esta casa o escrivão de fazenda? um homem
+muito magro que cá vinha d'antes?
+
+1.º Creado
+
+Bem sei quem é o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo,
+eu jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu
+de regar a cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando
+sobre a direita, vi uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que
+parecia um abentesma...
+
+2.º Creado
+
+Eu tambem já bi esse abentesma, salbo seja, ahi ós pois da mêa noute;
+mas aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que
+Vossenhoria faça de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim
+têzo e hirtego que não bolia c'os pezes. Havéra de ser o mesmo que tu
+enxergaste, Antonho!
+
+Pantaleão
+
+Pois creiam vossês que não era outro senão o escrivão de fazenda.
+N'estes arredores não ha homem d'aquelle feitio senão elle... Sabem o
+que eu quero, rapazes? é que lhe dêem uma boa sova de estadulho.
+
+1.º Creado
+
+Só se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira.
+
+2.º Creado
+
+E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar ás lebres.
+_(Ouvem-se risadas de mulheres já perto.)_
+
+Pantaleão
+
+Por ora, nada de tiros; o que mando é que lhe arrumem quatro bordoadas,
+sem lhe dizer isto nem aquillo. Vossês zupem-lhe e escamem-se, que eu
+com a justiça não quero testilhas; mas não lhe batam, sem o apanharem cá
+á volta da casa... Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as
+raparigas da freguezia. _(Sáem pela esquerda.)_
+
+
+SCENA IV
+
+
+ _(Rancho de raparigas vestidas de saias de chita com muita roda de
+ saias e saiotes, capotilhas encarnadas, chinela e meia branca,
+ acompanhadas d'um tocador de rebeca e outro de violão, que lhes
+ acompanham as cantigas. Entram pulando alegremente, e pucham por a
+ estridula sineta do portão.)_
+
+O rabequista
+
+Biba a snr.ª morgadinha de Val-d'Amores!
+
+Todos
+
+Biba! Biba! _(Cantam o S. João.)_
+
+ COPLAS
+
+ Son Joon adromeceu
+ Nas escadas do collejo;
+ Deron nas frêras co'elle,
+ Son Joon ten porbolejo.
+ Que é aquillo, que é aquillo, que é aquillo?
+ Son Joon a caçar um grilo.
+
+ Ó meu son Joon da Ponte,
+ Ó meu bello patusquinho,
+ Dá-nos anno de bon pon,
+ Dá-nos anno de bom binho.
+ Non é nada, non é nada, non é nada,
+ Son Joon a comer pescada.
+
+
+ _(Abre-se o portão de par em par. Sáe a Morgadinha, trajada com
+ luxo, mas fóra da moda. Vestido de ancas exaggeradas, cabello á
+ Stuart, e um grosso grilhão ao peito. Segue-a um creado velho, de
+ niza, com uma cadeira de braços á cabeça, e uma pichorra e caneca na
+ mão.)_
+
+
+SCENA V
+
+MORGADINHA, JOÃO LOPES, E AS CANTADEIRAS
+
+Vozes
+
+Biba a snr.ª morgadinha! Biba! Biba!
+
+Morgadinha _(sentando-se na cadeira)_
+
+Adeus, raparigas. Como estás tu, Maria do Quinchoso! e tu Benta do
+Cazal? Olha a Marianna da Egreja como está gorda com o cazamento! Ó João
+Lopes, dá vinho a essa raparigada toda.
+
+Uma das moças
+
+Vossenhoria bai ao arraial?
+
+Morgadinha
+
+Podéra não! Já estou preparada, e vou assim que a tarde refrescar, que
+quero ver o fogo prezo.
+
+Outra
+
+E mai lo auto do Natal, que vem la os d'Arnôzo co'elle.
+
+Outra
+
+E como a fidalga está pimponaça! Parece mêmo a Madanela da porcisson de
+Passos!
+
+Outra
+
+Benza a Deus, que palminho de cara assim, não se topa outra no mundo.
+Faz agora um anno que os cassacas do Porto andabon todos enbeiçados
+atraz da snr.ª morgadinha no arraial; e enton aquelle goberno que está
+em S. Thirso esse é que andava memo azoratado!
+
+Morgadinha _(rindo)_
+
+Qual governo?!
+
+A mesma
+
+Aquelle que lhe chamon o das fazendas, ou non sei que deanho...
+
+Morgadinha
+
+Ah!.. _(suspirando)_ Ja sei...
+
+O do violão
+
+Má rais o parton, que me mandou citar indas hontem!
+
+O rabequista
+
+Eu onde le poder ser bon heide medirle o costado de pá a pá cum fueiro...
+
+Morgadinha
+
+Ora não sejas bruto, José da Eira! Elle faz a sua obrigação; faz tu a
+tua que é pagar o que deves ao rei.
+
+O mesmo
+
+Ao rei! Bem me fio eu n'isso... Enton a fidalga pensa que o rei aveza
+uma de X do dinheiro que nós demos!! Pois non avezastes! Os governos de
+S. Thirso repartem uns c'os outros no fim do anno o dinheiro que don os
+lavradores.
+
+O outro
+
+É como diz.
+
+Morgadinha
+
+Sois uns selvagens. Deixemo'-nos de tolices. Cantem lá alguma coisa vossês.
+
+Uma das moças
+
+Quer a _Marianinha_, fedalga?
+
+Morgadinha
+
+Pois sim; cantem lá a _Marianinha_.
+
+COPLAS__
+
+_(Tudo mulheres)_
+
+(UMA VOZ)
+
+ Ja fui canario do rei,
+ Ja lhe fugi da gaiola.
+
+(CÔRO)
+
+ Sim, sim, eu vou lá
+ Ó Marianinha,
+ Sim, sim, eu la vou
+ Ó pequerruchinha.
+
+(UMA VOZ)
+
+ Agora sou pintassilgo
+ Destas meninas d'agora.
+
+(CÔRO)
+
+ Sim, sim, eu vou la, etc.
+
+(UMA VOZ)
+
+ Pintassilgo está no bosque,
+ A andorinha no telhado.
+
+(CÔRO)
+
+ Sim, sim, etc.
+
+(UMA VOZ)
+
+ So eu não sei onde estou,
+ Quando não estou ao teu lado,
+
+(CÔRO)
+
+ Sim, sim, etc.
+
+(VOZ)
+
+ A andorinha quando chove
+ Vai metter-se á escuridon
+
+(CÔRO)
+
+ Sim, sim, etc.
+
+(VOZ)
+
+ E eu quando o norte é rijo
+ Metto-me ó teu coraçon.
+
+(CÔRO)
+
+ Sim, sim, etc.
+
+Todos
+
+Biba a snr.ª Morgadinha! Biba!
+
+Morgadinha
+
+Então vossês vão já para a romaria?
+
+Uma d'ellas
+
+Aindas bamos buscar as cazeiras de Vossenhoria que estão á espera de
+nós, e ós pois voltemos por qui.
+
+Morgadinha
+
+Pois vão, e voltem. _(Sahem cantando o S. João. A morgadinha fica
+pensativa e melancolica, encostando o rosto á mão, em quanto se ouve e
+se vai perdendo a toada da cantiga.)_
+
+
+SCENA VI
+
+MORGADINHA E JOÃO LOPES
+
+Morgadinha
+
+Como estes brutos são felizes!.. E eu sempre apoquentada por causa deste
+coração! Ai! eu antes de saber o que era amor tambem cantava...
+Lembras-te, ó João Lopes?
+
+João Lopes
+
+Ora se lembro! E cantava que nem uma calhandra a fidalga!
+
+Morgadinha
+
+Olha se te lembras, João! Eu ia ás espadeladas, ás descamizadas, ás
+malhas, brincava, saltava...
+
+João Lopes
+
+Até dançava a cana verde, e a chula que era um gosto vêl-a!.. E quando a
+menina quiz que eu lhe ensinasse o jogar o páo...
+
+Morgadinha _(com alegria)_
+
+É verdade...
+
+João Lopes
+
+E o caso é que vossellencia ahi com duas duzias de lições já me chegava
+com o páo.
+
+Morgadinha _(erguendo-se enthusiasmada)_
+
+E d'aquella vez que eu me vesti de rapaz, e puz fóra da eira do Manoel
+Tamanqueiro, com quatro partidas de páo, mais de seis mascarados que la
+andavam a beliscar as minhas cazeiras!
+
+João Lopes
+
+Por signal que a menina deu uma tapona no Zé Torto, que ficou torto de
+todo... Ó fidalga, vossellencia hoje já não era capaz de romper ahi com
+um marmeleiro p'ra frente d'um homem qualquer!..
+
+Morgadinha
+
+Estás enganado... se me chegassem a mostarda ao nariz... Mas, ai!..
+_(Torna a sentar-se triste.)_ A minha alegria foi-se desde que eu soube
+o que era amor!.. Olha lá, João... não o vis-te hoje? não viste o meu
+amado Frederico?
+
+João Lopes
+
+Falle baixinho, menina. Olhe que o snr. morgado ainda ha todonada me
+esteve dizendo que desconfia que elle anda por aqui de noute. A fidalga
+acautele-o; que não vão os creados chegar-lhe ao forro da camiza...
+
+Morgadinha _(erguendo-se colerica)_
+
+Façam isso, que os esgano! Que lhe ponham um dedo, e verão quem é a
+morgada de Val-d'Amores!
+
+João Lopes
+
+Não grite assim, que seu pai, se a ouve, quem as paga sou eu. A fallar a
+verdade, eu não desgosto do snr. Frederico; mas, em fim, esta aquella de
+ser escrivão, é ruim modo de vida para poder casar com a snr.ª
+morgadinha...
+
+Morgadinha
+
+Isso que tem!? Todos somos eguaes; e o coração, quando ama, não quer
+saber de contos. Uma pessoa não está lá a averiguar se o objecto amado é
+fidalgo ou plebeu. Tem-se visto rainhas casarem com pastores, e reis
+casarem com pastoras.
+
+João Lopes
+
+Cá no conselho de Santo Thirso não me consta, hade perdoar.
+
+Morgadinha
+
+Mas lá por esse mundo fóra acontece isso a cada passo. Tu é por que não
+lês os livros das historias. Eu te lerei casos que aconteceram... E
+então que tinha que eu casasse com um escrivão?
+
+João Lopes
+
+Em fim, em fim, o paisinho da fidalga foi capitão-mór, seu avô foi
+desembargador, e seu bisavô foi sargento mór de batalha no Roussilhon...
+
+Morgadinha
+
+Vai dizendo até chegar a Adão e Eva, vai dizendo, e eu depois te direi
+de quem eu e mais tu somos netos.
+
+João Lopes
+
+Isso assim é, não ha duvida; mas, diz lá o ditado, lé com lé, e cré com
+cré.
+
+Morgadinha
+
+Não quero saber de ditados! _(com força)_ Este amor só m'o hade arrancar
+do peito a morte!
+
+João Lopes _(apontando para o brazão)_
+
+Fidalga, ponha os olhos nas armas reaes dos seus antepassados.
+
+Morgadinha
+
+Ora! não tenho mais que fazer... Cuidas que eu não sei que meu avô casou
+com uma creada? Mostra-me onde estão alli as armas da creada. Bem se
+importou elle das armas, nem do brezabu que as leve! É o que faltava...
+estar-me eu aqui a definhar p'ra'mor da pedra! As armas são de pedra, e
+eu sou de carne e osso, ouviste?
+
+João Lopes
+
+A fidalga responde a tudo, e não ha remedio senão callar-se um homem,
+que a trouxe nos braços desde os trez annos, e sou capaz de me metter no
+inferno vestido e calçado por causa da minha menina. _(Sensibilisa-se.)_
+
+Morgadinha
+
+Sei o que tenho em ti, meu João Lopes... Vais tu ahi ao cimo do pinhal a
+vêr se o vês pela estrada?.. Elle disse-me que havia de passar para a
+romaria ás seis da tarde. Se o encontrares, diz-lhe que meu pai se está
+a vestir para ir tambem, e que elle póde demorar-se a conversar comigo
+um bocadinho.
+
+João Lopes
+
+Vou vêr se o avisto; mas, menina do meu coração, olhe que seu pai anda á
+espreita e traz espias... Nós temos grande desgraça pela porta...
+
+Morgadinha _(energicamente)_
+
+Não morro de medo, já te disse. A mulher que ama não tem medo de nada!
+
+João Lopes
+
+Seja assim; mas, se lhe quebram o espinhaço a elle! Coitado do homem, é
+tão delgadito que, se o apanha o vento d'um páo, elle vai a terra...
+
+Morgadinha
+
+Quem lhe hade bater?! Cuidas que elle não anda armado? Que se attrevam
+sómente a ameaçal-o!..
+
+João Lopes
+
+Cá vou, cá vou, não se desespere. _(Sáe.)_
+
+
+SCENA VII
+
+MORGADINHA
+
+ _(Senta-se quebrantada e triste)_
+
+Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!..
+_(Musica de surdina)_ Como eu gosto d'elle! Ha mais de dous annos que
+este meu coração padece! Não ha noite em que eu não sonhe duas vezes com
+a sua imagem... Quando acordo, e o não vejo, a minha vontade é chorar,
+chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio. Os
+cirurgiões mandam-me tomar aguas ferreas!.. e só eu sei o que tenho! O
+meu mal é aqui!.. _(a mão sobre o coração)_ Oh céos! quanto eu sou
+desgraçada sem o meu Frederico! _(Ergue-se, e falla com muito
+sentimento. Musica plangente.)_ Quando eu o vi, pela primeira vez, foi
+na hospedaria das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu
+rheumatico. Estávamos a jantar quando elle entrou, e meu pai
+offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle agradeceu, mas não comeu,
+dizendo que o seu jantar era um ôvo quente. E d'ahi a pouco,
+trouxeram-lhe um ôvo quente n'uma tigella; e elle comeu o ôvo, bebeu um
+copo d'água fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e
+pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai
+ouvir, se podia viver só com um ôvo, e elle respondeu que a sua alma se
+sustentava com a esperança de ser amado por mim... e com tres óvos por
+dia. Oh! que lembranças estas, que lembranças estas! _(chora)_ E vai
+depois, disse-lhe eu: «O snr. está assim magro porque come muito
+pouquinho; se gosta d'óvos coma uma duzia d'elles de cada vez»; e elle
+pregou-me os seus lindos olhos, e respondeu a suspirar: «Que me importa
+o corpo? a mim o que me importa é o coração que é grande; e, se o corpo
+é magro, mais depressa me reduzirei a cinzas se V. Ex.ª me desprezar.»
+Isto fez-me no peito mossa! fiquei presa d'este dito; senti por aqui
+acima uma fogueira que me pôz a cara em brazas vivas, e não lhe disse
+coisa de geito porque fiquei um pedaço intallada. Depois, ao
+despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe: «amo-vos,
+meu bem!» Ora aqui está como começou isto. Desde então para cá apenas
+lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho...
+Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, não vou longe. Elle
+tambem está no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de começar estes
+amores, eu pezava cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois
+aqui ha oito dias pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim
+não podemos viver, nem eu nem elle. _(Com força, que a musica imita.)_ É
+preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai quer, quer;
+senão quer, quero eu. Uma mulher não póde ser escrava da sua fidalguia.
+Antes quero ser esposa d'um escrivão, e viver contente, que ser a
+morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pôr na espinha...
+_(Ouve-se rumor de vozes fóra.)_ É o meu papá!.. _(Senta-se.)_ Vem-me
+empatar as vazas...
+
+
+SCENA VIII
+
+
+PANTALEÃO, MACARIO, E A MORGADINHA
+
+ _(Macario é um sujeito de oculos e casaca de briche, já de annos, e
+ ar circumspecto)_
+
+Pantaleão _(áparte ao boticario)_
+
+Veja lá como lhe falla... Olhe que ella é finoria... _(á filha)_ Cá me
+vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para não ficares
+sósinha. _(Sáe.)_
+
+
+SCENA IX
+
+MACARIO E A MORGADINHA
+
+Macario
+
+Tenha V. Ex.ª muito boas tardes.
+
+Morgadinha _(enfastiada)_
+
+Viva, snr. Macario, as mesmas.
+
+Macario
+
+Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe
+mandei fez-lhe bem?
+
+Morgadinha
+
+Não o puz: cheirava a pez.
+
+Macario
+
+De pez de vergonha era; fui eu mesmo que o manipulei... Então, a snr.ª
+morgadinha vae ao arraial?
+
+Morgadinha
+
+Vou.
+
+Macario
+
+Faz muito bem; que lá hade encontrar pessoa que muito interessa a V.
+Ex.ª... enganei-me... pessoa que muito se interessa em vêr V. Ex.ª
+queria eu dizer.
+
+Morgadinha
+
+Como é isso? não percebi.
+
+Macario
+
+Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimarães, onde estive com o
+snr. deputado Cosme Jordão, um sabio que tem votado grandes fallas no
+parlamento... Ha de ter ouvido fallar V. Ex.ª...
+
+Morgadinha
+
+Não sei nada de parlamentos, não leio periodicos.
+
+Macario
+
+Pois, minha snr.ª, o doutor Cosme Jordão é um sujeito conhecido em todo
+o mundo, e lá na côrte até vae ao palacio do rei e come lá...
+
+Morgadinha
+
+Deixal-o comer, que tenho eu com isso?
+
+Macario _(áparte)_
+
+Não faço nada! está hoje levadinha dos diabos.
+
+Morgadinha
+
+Vamos, diga lá, snr. Macario.
+
+Macario
+
+Pois este deputado vae hoje á romaria do S. João.
+
+Morgadinha
+
+Deixal-o ir; que se divirta. Então é esse o homem que me quer vêr?
+
+Macario
+
+Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex.ª...
+
+Morgadinha
+
+Ainda bem; é signal que não é cego. E que mais?
+
+Macario
+
+E que ficou muito agradado de V. Ex.ª...
+
+Morgadinha
+
+Pois tem máo gosto e perde o tempo. Que mais?
+
+Macario
+
+V. Ex.ª, se o vir, não hade fallar assim. É ainda homem de boa edade,
+cheio de corpo, com uns oculos que lhe dão muito respeito á cara.
+
+Morgadinha
+
+Ora! oculos de respeito! que me importa cá a mim os oculos do homem?
+sabe que mais, snr. Macario? _(Põem-se a bamboar uma perna sobre a
+outra, e a trautear o «Pretinho que vem d'Angola».)_
+
+Macario
+
+Finalmente, snr.ª morgadinha, como V. Ex.ª quizer; mas lembre-se de que
+seu pae deve á fazenda nacional uns seis contos de réis, e que o snr.
+doutor Cosme, casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae não pague
+nada, e mesmo no futuro lhe não lancem impostos.
+
+Morgadinha
+
+Não me seque, snr. Macario. Vocemecê queria que meu pae pagasse commigo
+ao tal Cosme o que deve á fazenda? Pois que pague com o que é d'elle, e
+que me deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias.
+Metta-se lá na sua botica e não se faça casamenteiro. Vá fazer charopes.
+
+Macario _(áparte retirando-se)_
+
+Apre com a cabra!
+
+Morgadinha
+
+Que tal está o sacripanta!
+
+
+SCENA X
+
+JOÃO LOPES, ESPREITANDO A MORGADINHA, E DEPOIS FREDERICO
+
+João Lopes
+
+Psiu, psiu.
+
+Morgadinha _(sobresaltada)_
+
+Viste-o?
+
+João Lopes
+
+Elle ahi vem... Eu vou espreitar, e assim que eu tossir que fuja para a
+carvalheira.
+
+Frederico
+
+Anjo! milagre de bellesa, Joanna querida, não sentes n'estas mãos o
+vibrar da alma?
+
+Morgadinha _(muito terna)_
+
+Como estás tu? passaste bem desd'hontem?
+
+Frederico
+
+Pergunta ao lirio do valle o que lhe pende a fronte quando o orvalho do
+céo lhe não esfria os queimores do sol estivo.
+
+Morgadinha
+
+Olha lá, Frederico, tenho a avisar-te, antes de mais nada, que é preciso
+andares prevenido...
+
+Frederico
+
+Temos sicarios? Ha aqui vampiros? A vindicta paterna tem sêde do meu
+sangue? Eis aqui o peito. Que m'o farpem, que m'o fendam, que m'o
+alanceem, que m'o lancetem. Tudo por ti, tudo por ti, ó estrella, ó
+loira visão dos meus sonhos! _(Rumor fóra.)_
+
+Morgadinha
+
+Foge... esconde-te entre as arvores... _(Frederico sóme-se.)_
+
+
+SCENA XI
+
+MORGADINHA, OS DOIS CAMPONIOS QUE VÃO PASSANDO, E DEPOIS FREDERICO
+
+ _(Um camponio tange flautim e outro viola. Duas moças á frente
+ batendo palmas ao compasso do canto, e saltando)_
+
+Um camponio _(cantando)_
+
+ _Muito bem seja apparecido_
+ _Seja apparecido_
+ _N'esta funcção._ (Batendo palmas)
+
+(CÔRO)
+
+ _Bate as palmas c'o seu pexinho_
+ _Co' seu pexinho_
+ _Co' seu pexão._ (Repete)
+
+
+ _(Assim que elles passam, a Morgadinha sáe do portão, e logo
+ Frederico do escondrijo)_
+
+Frederico
+
+Mas dizias tu, pomba?
+
+Morgadinha
+
+Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem
+armado.
+
+Frederico
+
+Armado! para quê? Tu não sabes que o teu amor é talisman que prostra
+gigantes! As minhas armas são os raios de fogo que bebo de teus olhos;
+tenho vesuvios na alma capazes de abrazar cidades!
+
+Morgadinha
+
+Isto não é chalaça, meu amado Frederico! Peço-te que tenhas cuidado,
+muito cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, não temeria
+ninguem... Tu verias o que é a morgada de Val-d'Amores... Mas eu não sei
+como isto hade ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo...
+
+Frederico _(interrompendo-a com exaltação)_
+
+Fidalgo! que é fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que é fidalgo? a sola
+velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! então é certo que teu
+pae ignora, que o baptismo de sangue da revolução franceza lavou todas
+as manchas da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revolução! o
+segundo christianismo! Que é fidalgo? teu pae não sabe que aquelle
+brasão d'armas _(apontando)_ está alli como a pedra sepulcral das cinzas
+feudaes! Teu pae está debaixo do sol e não sente o calor da fermentação
+social! Ouve o estrondear da democracia reinante, e volta a face para os
+phantasmas dos avoengos que se somem lá em baixo no abysmo da historia!
+
+Morgadinha
+
+Não sei lá d'essas historias; o que te peço é que não te exponhas a
+levar alguma paulada á falsa fé. Olha que os meus creados são uns
+patifes, e meu pae não é boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se
+hade fazer, porque elle não nos dá consentimento para nos casarmos.
+
+Frederico
+
+Heide movêl-o com a eloquencia d'um homem aquecido no sol moderno. Heide
+convencêl-o, enchendo-lhe o espirito de luz e o coração de ideias novas.
+
+Morgadinha
+
+Não te mettas n'essa asneira, que não fazes nada. _(Tem-se já ouvido
+toada de musica da chula, e depois a tosse rija de João Lopes. Frederico
+some-se sem ser preciso mandal-o. A morgadinha fica.)_
+
+
+SCENA XII
+
+MORGADINHA
+
+
+ _(Chega uma chulata que vae de passagem para a Romaria. Bando de
+ raparigas que precedem, bailando; tocadores de rebeca, viola,
+ clarinete, ferrinhos e requinta. A esturdia pára defronte da
+ morgadinha, e continúa dançando cada rapariga com o seu parceiro.)_
+
+COPLAS DE DESAFIO
+
+ _(Em quanto o cantador deita a cantiga, tange sómente a viola. Entre
+ os dois primeiros versos e os dois ultimos de cada quadra ha um
+ espaço que dá logar a que toquem por alguns segundos todos os
+ instrumentos.)_
+
+Cantador
+
+ Agora que eu vou passando,
+ Faço aqui minha parada;
+ Para saber da saude
+ Da incelentissima morgada.
+
+Cantadeira
+
+ Da incelentissima morgada
+ Tambem eu quero saber,
+ Que mais linda creatura
+ Não na póde o mundo ter.
+
+Cantador
+
+ Não na póde o mundo ter
+ Nem terá até ao fim;
+ Os seus olhos são d'amóras,
+ Os seus dentes de marfim.
+
+Cantadeira
+
+ Se tem dentes de marfim,
+ O seu rosto é uma roza;
+ E viva sua incelencia
+ Que não na ha mais fermosa.
+
+Cantador
+
+ Quero dar a despedida
+ Á senhora Morgadinha;
+ Que não ha por estas terras
+ Mais bonita fidalguinha.
+
+Cantadeira
+
+ Eu tamem vou espedir-me,
+ Despedida quero dar;
+ Adeus, senhora morgada,
+ Sirva-se de perdoar.
+
+
+ _(A morgadinha agradece-lhes com um aceno de lenço. O bando sáe
+ tocando e dançando. Assim que o descante se ouve froixamente, volta
+ Frederico.)_
+
+
+SCENA XIII
+
+MORGADINHA E FREDERICO
+
+Frederico
+
+Tenho odio a estes selvagens que me roubaram horas de vida! Quando
+sahirão os lôrpas da face da terra?
+
+Morgadinha
+
+É verdade, Frederico! Trouxeste-me os figurinos?
+
+Frederico
+
+Eil-os chegados hoje de Lisboa.
+
+Morgadinha _(examinando-os)_
+
+Ai! que demonio de mulheres! Pois ellas trazem estes vestidos assim
+incozipados nas pernas!?
+
+Frederico
+
+Oh! isto é a elegancia circassiana! é a fórma na sua diafeneidade
+sublime; ha aqui a poesia do fino, a mulher parece toda nervosa, é o
+lyrismo da plastica...
+
+Morgadinha _(rindo)_
+
+Se eu te percebo, cebo! Boa cataplasma me parece este molho de clinas e
+sacarrolhas que ellas tem na cabeça.
+
+Frederico
+
+Nâo blasfemes! Ó Joanninha, veste-te assim; realça, sobredoura a tua
+bellesa com estes adornos que angelisam a mulher de compleição robusta,
+e transformam a mimosa em cousa ideal vestida de vapores. A mulher assim
+involta em roupagens etherias é um madrigal de setim que cahiu das lyras
+dos anjos.
+
+Morgadinha
+
+Pois sim, faço-te a vontade. Vou mandar comprar no Porto esta trapalhice
+toda...
+
+
+SCENA XIV
+
+OS MESMOS E PANTALEÃO
+
+ _(Abre-se o portão repentinamente e apparece subito Pantaleão.
+ Frederico ainda faz um impeto de fuga, mas contem-se, e corteja mui
+ urbanamente o fidalgo.)_
+
+Frederico
+
+Passava para a romaria, e, como visse S. Ex.ª _(indicando a morgadinha)_
+vim depor a seus pés os meus respeitosos cumprimentos, e informar-me da
+saude de V. Ex.ª
+
+Pantaleão
+
+Estou bom, muito obrigado. Onde está o João Lopes?
+
+Morgadinha
+
+Foi aparelhar a burra.
+
+Pantaleão
+
+Vae tu preparar-te que são horas.
+
+Morgadinha
+
+Quer vêr como agora são as modas, papá? olhe. O snr. Frederico vae levar
+estes figurinos ás nossas primas de Ruivães.
+
+Pantaleão
+
+Pois faz-me o snr. muito favor se me cá não trouxer bonecos a casa. Nós
+cá não somos de modas.
+
+Frederico
+
+Direi a V. Ex.ª, snr. morgado, que as modas tem certa relação com o
+espirito das gerações e das épocas. Agora que o entendimento humano se
+adelgaça, o involucro material tambem se subtiliza nas raças finas...
+
+Pantaleão _(medindo-o d'alto a baixo com ironia)_
+
+Bem se vê que o snr. escrivão é d'uma raça muito fina... pelo muito
+adelgaçado que está...
+
+Frederico
+
+Não me jacto de prosapia heraldica; mas, na jerarchia dos espiritos,
+preso-me de pertencer ao bando mais illuminado. Respeito muito o brasão;
+mas curvo-me diante da aristocracia do genio e do talento.
+
+Pantaleão
+
+Sim, o snr. tem muito talento, bem sei... Já te disse, Joanna, que te
+vás arranjar.
+
+Morgadinha
+
+Adeus, snr. Frederico, muito obrigada. _(Sáe.)_
+
+
+SCENA XV
+
+PANTALEÃO E FREDERICO
+
+Frederico
+
+Creado de V. Ex.ª _(Váe a sahir; mas Pantaleão detem-o.)_
+
+Pantaleão
+
+Faça favôr.
+
+Frederico
+
+Escuto as suas ordens.
+
+Pantaleão
+
+O snr. anda muito mal encaminhado. Minha filha é a morgada de
+Val-d'Amores; o snr. é o escrivão de fazenda de Santo Thirso. Estão um
+do outro tão longe como aquella pedra d'armas do rebôlo d'um sapateiro,
+entendeu?
+
+Frederico
+
+Entendi, que V. Exc.ª tem um estylo bastante chato. Entendi, posto que
+V. Exc.ª falle uma lingoagem assás gothica em pleno seculo XIX.
+
+Pantaleão
+
+Pois se entendeu, tire o seu atrevido pensamento de minha filha, e
+procure a fórma do seu pé. Não me obrigue a usar dos usos e costumes dos
+meus avós. Quer que lh'os diga?
+
+Frederico
+
+Heroismos dos seus ascendentes? Essas Odissêas da aldêa são hoje
+impraticaveis. Eu sei em que tempos vivemos, snr. morgado.
+
+Pantaleão
+
+Sabe? pois olhe que não sabe em que terra vive. O snr. veio lá de Lisboa
+onde qualquer bigorrilhas, que põe gravata, entende que é egual a todo o
+homem que põe gravata; o que o bigorrilhas não quer é sêr egual a todo o
+homem que não tem gravata.
+
+Frederico
+
+Ahi ha certa sublimidade de idêa, de que lhe dou os parabéns. V. Exc.ª
+ia quasi escrevendo d'um traço a historia philosophica da democracia
+moderna.
+
+Pantaleão
+
+Eu não escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo é que isto cá nas
+montanhas é outra cousa. Os morgados são morgados; os escrivães são
+escrivães; e os sapateiros são sapateiros. Ora, quando acontece alguem
+querer sahir da sua classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as
+costellas. O snr. sabia isto?
+
+Frederico
+
+Eu não sabia que estava na Cafrária. Cuidei que este concelho era um
+retalho do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fóco radiara
+uma flecha de luz até ao coração de V. Ex.ª que me parece ser uma pessoa
+de bons costumes, e não um esquimó. Cuidei finalmente que o Evangelho e
+a Carta constitucional livellavam a dignidade humana... _(Ouve-se o
+cantar das raparigas que se avisinha.)_
+
+Pantaleão
+
+Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleão Cogominho de Encerrabódes, décimo
+oitavo senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com
+minha filha hade poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor
+d'esta casa. Tenho dito, e acabou-se o cavaco. Saude e juizo.
+_(Volta-lhe as costas. Frederico bambôa a cabeça altivamente e retira-se.)_
+
+
+SCENA XVI
+
+
+MORGADINHA, PANTALEÃO, E O BANDO DAS MOÇAS E TOCADORES QUE APARECERAM
+NA TERCEIRA SCENA
+
+ _(A Morgadinha sáe sentada sobre a jumenta. Vem vestida de Amazôna.
+ João Lopes de farda azul com vivos vermelhos, bota de orelha e
+ prateleira, colete encarnado, e chapéo embreado, tudo á antiga e
+ grutesco, vem trazendo a burra pela rédea. As raparigas estão
+ cantando as seguintes)_:
+
+COPLAS
+
+(UMA VOZ)
+
+ Dondes vens ó velha?
+ Eu venho da feira.
+
+(CÔRO)
+
+ Que trazes na cesta?
+ Crá, crá, crá,
+ Sardinha vareira,
+ Cri, cri, cri,
+ Por a retangueira;
+ Cró, cró, cró,
+ Se o galo cantou.
+
+(UMA VOZ)
+
+ Se o galo cantou
+ Deixal-o cantar.
+
+(CÔRO)
+
+ Minha rica prenda
+ Crá, crá, crá,
+ Lá da beira mar
+ Cri, cri, cri,
+ Pela retangueira,
+ Cró, cró, cró,
+ Se o galo cantou.
+
+(UMA VOZ)
+
+ D'onde vens ó velha?
+ Eu venho d'alli.
+
+(CÔRO)
+
+ Que trazes na cesta?
+ Crá, crá, crá,
+ Que te importa a ti,
+ Cri, cri, cri,
+ Pela retangueira,
+ Cró, cró, cró,
+ Se o galo cantou.
+
+
+ _(Continúa o canto ao descer do panno.)_
+
+
+FIM DO PRIMEIRO ACTO.
+
+
+
+
+ACTO SEGUNDO
+
+ Vista de arraial. É noute. Festões de lampadas de papel variegado
+ pendem dos ramalhos das arvores. Mulheres a frigir, ao lado das
+ pipas cobertas de ramos de folhagem. Barracas com botequins.
+ Multidão de povo a beber á volta das pipas. Sinos repicando, e
+ estouros de foguetes. D'ambos os lados da scena, mas fóra, se canta
+ o «S. João» com vozes alternadas. Frederico passeia por entre o
+ povo, mirando as raparigas. Os dois já conhecidos creados de
+ Pantaleão, com as pernas encruzadas nos varapáos, medem d'alto a
+ baixo Frederico, e rompem a jogal-os um com outro. Frederico, por
+ uma das suas evoluções maravilhosas de rapidez, desapparece. O povo
+ ri-se, e elle reapparece logo, seguido por trez cabos armados. Os
+ cabos usam bonet com debrum azul. Cessam as cantilenas, e rompe a
+ banda musical de Santo Thyrso, estrondosa em trompões, a qual entra
+ em scena tocando uma marcha. Os musicos uniformes, de calça branca,
+ casaco azul com vivos amarellos, o bonet avivado da mesma côr. As
+ figuras podem caracterisar-se caprichosamente. Em seguida, entra a
+ Morgadinha, com o pae, Macario, Cosme Giraldes, e João Lopes. Cosme
+ Giraldes é um sugeito gordo, aspeito serio, com os seus oculos, um
+ todo de summa gravidade. Os circumstantes cedem o logar aos
+ recem-chegados, que formam grupos.
+
+
+SCENA I
+
+TODOS OS DESCRIPTOS (GRUPO DA MORGADINHA E COSME GIRALDES)
+
+Cosme _(com gesto de orador e com grandes pausas, á Morgadinha)_
+
+A festa animou-se com a auspiciosa chegada de V. Ex.ª O sol do empyreo e
+uma senhora bella, que é o sol dos corações sensiveis, onde brilham,
+tudo reanimam. Assaz ditoso me julgo em ser o mais feliz dos mortaes que
+se sentem influenciados e enthusiasmados pelos lumes encantadores de V.
+Ex.ª Falta, todavia, á minha completa dita a certeza de que os meus
+affectuosos requebros acham graça nos seus olhos.
+
+Morgadinha _(com desdem)_
+
+Eu não lhe acho graça nenhuma.
+
+Cosme
+
+Como assim, divina ingrata?
+
+Morgadinha
+
+Já disse ao boticario o que tinha a dizer.
+
+Cosme
+
+Pois o seu coração...
+
+Morgadinha
+
+Está dado. Eu cá sou franca. Não perca tempo.
+
+Cosme
+
+Não ha duvida que ouvi dizer que V. Ex.ª, victima d'uma allucinação,
+aceitava a côrte d'um esgrouvinhado arcaboiço que exerce as ladras
+funcções de escrivão da fazenda! Heide eu, ó céos! accreditar que...
+
+Morgadinha
+
+Sim, snr., acredite, e faça favor de me não incommodar que eu vim á
+romaria para me divertir. _(Volta-lhe as costas.)_ Ó papá, quando se faz
+o Auto do Natal? _(Ouve-se a musica tocando uma marcha.)_
+
+Pantaleão
+
+É já. Mandei vir as figuras para aqui. Vae começar. Ó amigos,
+desempachem o terreiro que chêga o espectaculo. _(O povo retira e
+apinha-se entre scenas.)_
+
+
+SCENA II
+
+OS MESMOS, E AS FIGURAS ABAIXO DESCRIPTAS EM LOGAR COMPETENTE
+
+ _(A musica entra a passo muito cadenciado com grandes pernadas.
+ Chegada á bocca do palco, alinha a um lado para dar o passo aos dois
+ primeiros personagens do auto):_
+
+
+SCENA I do Auto
+
+ADONIS E MANASSÉS
+
+ _(Adonis traja de principe de carnaval; Manassés veste de propheta
+ de procissão; mas toda a fatiota é muito usada e desbotada. Adonis
+ traz um cavaquinho.)_
+
+Adonis _(com declamação muito boçal)_
+
+Canta, Manassés, que eu te acompanho; para isso com esta harpa vanho.
+
+Manassés _(canta com ar inspirado, gesticulando estupidamente)_
+
+ O céo estrellado,
+ Sereno e propicio,
+ Será pois indicio
+ Do sol desejado.
+
+(CÔRO DE PASTORES)
+
+ _(Vozes femininas dentro)_
+
+ Quem o habitará?
+ Quem o gozará?
+
+Manassés _(cantando)_
+
+ Vêde a paz serena d'esta noute;
+ Nascerá a estrella de Jacó?
+ O gado socegado adivinha;
+ Não se bole no ninho a avesinha.
+
+(CÔRO)
+
+ Quem o habitará?
+ Quem o gozará?
+
+Adonis _(declamando, e passeando com grandes passos)_
+
+Oh! que terno, caro Manassés, cantastes! O conceito da tua cançoneta
+amorosa me traz dôces lembranças. Ainda em nossos dias, veremos
+realisadas as porfecias? Não caibo na pelle de estifeito; da-me pancadas
+o coração n'este peito! _(Frederico despede um impulso de riso.
+Espantam-se os cicumstantes.)_
+
+Macario
+
+O senhor está a mangar d'estes actos sérios?!
+
+Frederico
+
+Pois isto é sério! então não ha nada ridiculo n'este mundo senão o snr.
+boticario.
+
+Macario
+
+O senhor é muito mal criado, é um incivil, é... é... um escrivão!
+
+Morgadinha
+
+Snr. Macario, não esteja a interromper o auto. Deixe lá rir quem quer
+rir; chore vocemessê, se tem vontade.
+
+Pantaleão
+
+Continuem lá vocês co'isso.
+
+
+SCENA II do Auto
+
+VOZ D'UMA PASTORA, CANTANDO DENTRO
+
+ Ó Deus do céo, e da terra,
+ Ó vós que podeis tanto,
+ Ouvide nossos clamores
+ Sêde propicio, ó Deus sancto!
+
+CÔRO _(dos pastores)_
+
+Do povo amado,
+Mandae o desejado.
+
+ _(Os que estão no palco fazem scenas mudas de ternura muito
+ lorpas.)_
+
+Manassés
+
+Escuta! Não foi Ruiva, a pastora que cantou?
+
+Adonis
+
+Foi. E os pastores tambem, que nenhum dorme.
+
+
+SCENA III do Auto
+
+O VELHO SIMEÃO E RUIVA
+
+ _(O velho vestido de pelles de carneiro. Ruiva de pastorinha, com um
+ cordeiro branco nos braços)_
+
+Simeão _(com os olhos no firmamento)_
+
+Incelso, interno rei sobrano, que sobre os crebins tens assento, oubide
+os nossos lamentos.
+
+(CÔRO)
+
+ Do povo amado,
+ Mandae o desejado.
+
+Manassés
+
+Agora creio no mysterio occulto d'esta noite. Rebella que todos os
+pastores tem um só pensamento.
+
+Simeão
+
+Vinde pastores aqui todos; n'este campo contemplaremos o silencio da
+noute, que o auctor d'altos mysterios annuncia.
+
+Frederico _(escancarando a bocca)_
+
+Que semsaboria!
+
+Macario e Cosme
+
+Sio! _(prolongado.)_
+
+
+SCENA IV do Auto
+
+ENTRAM PASTORINHOS E PASTORINHAS
+
+Ruiva _(declamando)_
+
+ Aqui vimos, meus senhores,
+ Adorar nós o menino:
+ No seu sancto nascimento
+ Com grande contentamento.
+
+(CÔRO)
+
+ Se o menino é nascido,
+ Nós o bamos précurar;
+ Aparcei, senhor menino,
+ Que vos queremos adorar.
+
+
+ _(Sáem por diversos lados.)_
+
+
+SCENA V do Auto
+
+UM REI TURCO E DEPOIS OUTROS FIGURÕES
+
+Rei turco
+
+ _(Com uma cara horripilante, e trejeitos assustadores)_
+
+ Sou o turco rei, que é
+ Valoroso na arrogancia;
+ Por ser filho da fortuna
+ E neto da extravagancia!
+
+ _(Corre brandindo a espada d'um lado a outro.)_
+
+ De moiriscos reis nasci,
+ Sou seu filho alentado,
+ O meu braço furibundo
+ Deixa tudo escangalhado.
+
+ Co'esta espada sou capaz
+ De entrar pelo inferno dentro
+ E pôr tudo em mil pedaços
+ Que eu sou um rei sanguenolento!
+
+ _(Risada de Frederico.)_
+
+Cosme
+
+Já é pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar
+em tão solemne passo!
+
+Frederico
+
+Solemne passo, diz o nobre deputado! chamar _solemne passo_ á
+prostituição da arte!
+
+Macario
+
+O snr. é que é uma prostituição! Bem disse aqui S. Ex.ª que o senhor é
+um atheu! um impio que zomba dos mysterios dogmaticos!
+
+Vozes _(dentro)_
+
+Quebra-se-lhe a cabeça!--Bordoada rija!--Vamos a elle!
+
+Morgadinha _(erguendo-se colerica)_
+
+Essa canalha que se calle! Ó João Lopes, onde está o regedor?
+
+João Lopes
+
+Saberá V. Ex.ª que o regedor tomou tamanha turca que está a cozel-a no
+palheiro d'um lavrador.
+
+Cosme _(com enfaze)_
+
+Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem
+social. A auctoridade que dá o exemplo da relaxação dos costumes não
+póde educar as massas. É necessario que não se desvirtue e desprestigie
+o funccionalismo, com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos
+chegados á desmoralisação do Baixo-Imperio!
+
+Macario
+
+Apoiado!
+
+Morgadinha
+
+Então os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto?
+
+Pantaleão _(ao Rei turco)_
+
+Ó Zé da Custodia, diz lá o que tinhas a dizer.
+
+Rei turco
+
+Se isto não leva rumor, acaba-se a pandega!
+
+Frederico
+
+Magnificamente! Está a coisa definida: isto é uma pandega, e querem os
+moralões que a gente se desfaça em lagrimas! Faça favor de continuar,
+snr. rei turco, que eu estou sério, e talvez chore.
+
+Rei turco
+
+Agora não sou eu que boto a falla, é o outro rei. Entra, ó Manel
+Zarôlho! _(Chamando para dentro.)_ O Manel Zarolho é o rei christão.
+_(Explicando.)_
+
+
+SCENA VI do Auto
+
+ _(Entra um Rei christão com muitos pastores e pastoras)_
+
+Rei christão
+
+ Eu trago os meus companheiros
+ Fieis á minha nação,
+ Para te convencer, ó turco,
+ E para te fazer christão.
+
+Rei turco
+
+ Para onde ides, romanos,
+ Que tão alegres vos vejo?
+
+Rei christão
+
+ Festejar o menino nado
+ Que é todo o nosso desejo
+
+Rei turco
+
+ Que é do passaporte?
+
+Rei christão
+
+ Passaporte não trazemos,
+ Se nos não deixas passar
+ Para traz nós tornaremos.
+
+Rei turco
+
+ Para traz não heisde tornar;
+ Que eu vou buscar algemas,
+ Que vos quero algemar.
+
+Pastores e pastoras _(cantando)_
+
+ Milagroso Deus menino,
+ Esta obra vossa é;
+ Ajudai-o a vencer
+ O turco inimigo da fé.
+
+Rei christão
+
+ Saca lá da tua espada!
+
+Rei turco _(arrancando para elle)_
+
+ Ó cão, que sova tu levas!
+
+
+SCENA VII do Auto
+
+OS MESMOS E UM ANJO, QUE SE METTE EM MEIO DOS DOIS REIS
+
+_Canta:_
+
+ Detem-te, barbaro turco!
+ Cessa a tua infeliz sorte;
+ Faz-te christão, que não tarda
+ Que te apanhe a feia morte.
+
+CÔRO _(dos pastores)_
+
+ Faz-te christão que não tarda
+ Que te apanhe a feia morte.
+
+Rei turco _(declama)_
+
+ Eu sou o rei Almeirante
+ La do reino da Turquia;
+ Nunca fui prezoneiro,
+ So do rei da Lixandria!
+
+O Anjo _(canta)_
+
+ Detem-te barbaro turco, etc.
+
+CÔRO _(dos pastores)_
+
+ Faz-te christão que não tarda
+ Que te apanhe a feia morte.
+
+Rei turco _(afflicto)_
+
+Que é isto? que sinto? que tenho eu aqui? _(Com a mão sobre o estomago)_
+Que tenho eu aqui?
+
+Frederico
+
+Hade ser vinho. _(A Morgadinha ri-se ás escancaras.)_
+
+Macario _(sobremodo indignado)_
+
+Não ha noticia de tamanho escandalo!.. 0 snr. escrivão está mostrando
+que é um homem de sentimentos muito herejes!..
+
+Cosme
+
+E eu assaz me espanto que a snr.ª morgadinha applauda com a sua
+hilaridade estas interrupções indecentes!
+
+Rei turco _(zangado)_
+
+Eu cá é que não estou p'ra chalaças!.. Passem por cá muito bem. Por aqui
+me esgueiro. Ó rapasiada, vamos embora. Manda tocar a marcha ó Antonho
+da Pêga. _(Sáe com os personagens do auto, atraz da Musica, que vae
+tocando a marcha.)_
+
+
+SCENA III
+
+OS MESMOS, EXCEPTO OS PERSONAGENS DO AUTO
+
+ _(Grande movimento e rapido. Macario gesticula com Jordão, e
+ Pantaleão com a filha. Alguns camponios de varapáo fazem cêrco a
+ Frederico. A morgadinha passa por meio d'elles, bamboando a cabeça e
+ vibrando o chicotinho. Frederico passeia com os cabos. Os camponios
+ retiram-se, relançando olhos ameaçadores ao escrivão.)_
+
+Morgadinha
+
+Isto já me aborrece, papá...
+
+Pantaleão
+
+Vamos embora, menina?
+
+Morgadinha
+
+Por em quanto não: quero vêr o fôgo prezo; mas vou descançar um
+pouquinho a casa dos cazeiros.
+
+Pantaleão
+
+Vae, que eu vou buscar-te assim que principiar o fogo.
+
+Morgadinha
+
+Ó João Lopes, vem comigo. _(Sáem. Frederico retira-se pelo outro lado
+com os cabos.)_
+
+
+SCENA IV
+
+MACARIO, COSME E PANTALEÃO
+
+ _(Formam um grupo á parte, do povo que gira no fundo)_
+
+Macario
+
+Ó snr. morgado, pois V. Ex.ª deixa fugir esta occasião de fazer quebrar
+o espinhaço ao morôto?
+
+Pantaleão
+
+A occasião boa é; mas é que eu não quero que minha filha assista, por
+que ella é capaz de se metter no meio da desordem.
+
+Cosme
+
+Pelo que observo, esta sua filha é uma heroina grega ou romana, snr.
+morgado! Ella faz lembrar a Pantasilea do Virgilio, e outras façanhudas
+mulheres da historia antiga! Nos tempos presentes, sou a dizer a V. Ex.ª
+que a mulher quer-se fragil, meiga e timorata; e por tanto permitta que
+eu censure a educação que deu a sua filha!
+
+Pantaleão _(docil)_
+
+Que quer V. Ex.ª? É filha unica, ficou sem mãe muito cedo, e foi creada
+á laia de rapaz, a trepar ás arvores, a atirar aos passaros, e a jogar o
+páo; em fim, confesso que andei mal avisado. Eu então achava-lhe muita
+graça; hoje não lhe acho nenhuma; mas já não posso emendar a mão. É
+tarde; minha filha tem vinte e seis annos; hade ser difficil
+corrigir-se, só se o casamento fizer a mudança, e espero que faça.
+
+Cosme
+
+Se o casamento fizer a mudança! Ora essa! Pobre marido que não tem os
+focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu cá por mim, snr. morgado,
+confesso que tive certos intentos matrimoniaes com ella; á vista, porém,
+das suas informações, declaro que desisto e renuncio, por que me não
+sinto com forças e habilidade para domesticar uma cobra-cascavel...
+
+Pantaleão _(formalisado)_
+
+Não consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha!
+
+Cosme
+
+Isto é uma comparação rethorica, litterariamente fallando.
+
+Macario
+
+É rethorica... não se offenda V. Ex.ª;... talvez ignore que a rethorica
+é uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis...
+
+Pantaleão
+
+Não quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleão Cogominho
+de Encerrabodes seja respeitada! _(Volta as costas, e sáe bufando.)_
+
+
+SCENA V
+
+COSME E MACARIO
+
+Cosme
+
+Isto é uma familia de hotentotes! Cheiram ao sertão estes selvagens! Do
+que eu me escapei! Se caio nas mãos d'estes dois barbaros da edade
+media! Parece-me uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemecê, snr.
+Macario, a dizer-me que esta fidalga tinha uma educação fina!
+
+Macario
+
+_Fina_, não disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe que
+ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differença, phisicamente
+fallando.
+
+Cosme
+
+Perdão. Vocemecê disse-me que ella tivera fina educação.
+
+Macario
+
+Isso então foi rethorica...
+
+Cosme
+
+Eu não admitto rethoricas em objecto tão sério como é o casamento! Olhem
+que educação fina a d'este anjo! Trepa ás arvores, atira aos passaros, e
+joga o páo! Que predicados estes tão mimosos para augmentarem as graças
+virginaes d'uma menina! Não lhe falta senão vestir-se de homem, que é
+agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. Uma
+menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canhão, e rompe com
+elles por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de
+amores que nem açafétida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma
+muito candida e muito pura dentro do peito que se albarda com um paletó
+de homem para arrotar francamente umas phrases de bomba real que nos
+fazem comichões nos miolos e arrepios na espinha! Arreda! olha o que me
+estava reservado para os quarenta e seis annos! Uma mulher assim
+paralisava-me as funcções do intellecto, e lá se me iam as minhas
+ovações parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, devo-me á
+regeneração da minha patria, sou homem publico; e um homem publico
+quando se casa deve fazel-o com dama que o não impeça nem apoquente. A
+femea natural do homem politico é a politica; a esposa, para os homens
+devotados aos interesses materiaes do seu circulo, significa tão sómente
+um supplemento vivo e util ás commodidades domesticas. Percebe vocemecê,
+snr. Macario?
+
+Macario
+
+Ora se percebo! A minha mulher cá para mim tambem é um supplemento ha
+muitos annos; e mais eu faço-a trabalhar na politica enchendo os
+bilhetes de votos na eleição. Diz V. Ex.ª muito bem, que nós os homens
+publicos não temos tempo para cuidar de mulheres... _(Reparando em
+Frederico)_ Ahi vem o atheu...
+
+Cosme
+
+Vou-me safando que não quero palestras com este safio. _(Sáe.)_
+
+
+SCENA VI
+
+MACARIO E FREDERICO
+
+Frederico _(encarando o outro com a costumada careta)_
+
+O douto pharmacopóla está irado contra mim por que fui causa a
+interromper-se o escandalo do auto...
+
+Macario
+
+Eu não me metto com o senhor... Tenha a bondade de não embarrar cá por mim.
+
+Frederico
+
+A sciencia é sempre orgulhosa. Façamos pazes e alliança, snr. Macario
+Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a
+sua sciencia do bazalicão e do oleo de mamona, podemos dominar este
+concelho, reunidas as duas forças n'uma aspiração unica. Por que me faz
+guerra inexoravel e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu
+consorcio com a Morgadinha? Por que anda o snr. servindo de alcaiote
+d'este alarve de Guimarães, que é o trompão grandioso das maiores
+asneiras civicas assopradas na charanga parlamentar? O officio do snr.
+Macario, n'este negocio, desacredita um pharmaceutico, que reune ao
+conhecimento do gamão, sciencia não vulgar da historia dos doze Pares de
+França, e tem orvalhado com lagrimas os fastos sanguinosos de
+_Roncesvalhes_.
+
+Macario
+
+Vá mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem é
+Macario Mendes... _(Sâe.)_
+
+
+SCENA VII
+
+FREDERICO, JOÃO LOPES, E CABOS
+
+ _(As cantadeiras que no fim do 1.º acto acompanharam a morgada
+ entram a cantar a moda com que se fechou o dito acto:)_
+
+ _D'onde vens, ó velha,_
+ _Eu venho da feira_, etc.
+
+ _(N'um intervalo da 1.ª á 2.ª trova João Lopes acerca-se de
+ Frederico com disfarce)_
+
+João Lopes
+
+Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Estão-se a
+preparar os valentões. _(Frederico apita rijo. Apparecem de differentes
+sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em quanto se repete a
+cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fóra o rumor da desordem, e o
+estalido dos varapáos. As cantadeiras fogem alvoroçadas a dar gritos.)_
+
+
+SCENA VIII
+
+FREDERICO, CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS
+
+Frederico _(com intimativa bellica)_
+
+Formem em linha. Carregar armas!
+
+Um cabo
+
+Estão carregadas.
+
+Frederico
+
+Vamos ser atacados pelos desordeiros. Á voz de fogo, atirem. _(Vê-se
+atravessar a scena por entre o povo um Desconhecido de chapéo derrubado,
+o rosto coberto por um lenço, de caraça, polainas de briche nas pernas e
+pés, com um grosso páo de choupa. Proximos de Frederico os valentões
+param, com os páos cruzados nas pernas, gingando em attitude ameaçadora.
+Frederico, não se desvia dos cabos. De repente, rompem de fóra uns
+poucos varrendo o campo a pauladas.)_
+
+Frederico
+
+Cabos de policia, sentido! Preparar armas! _(Sáe perto da bocca da scena
+o Desconhecido. Encosta-se ao páo observando os movimentos dos
+valentões, os quaes vem já avançando, já recuando, crescendo sobre
+Frederico.)_
+
+Frederico _(aos cabos)_
+
+Aperrar armas! _(Uma paulada faz saltar a clavina das mãos d'um cabo. Os
+outros fogem. Frederico recúa, apitando rijamente. No maior aperto, o
+Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do páo, e
+arremette com os aggressores. Estes, forçados pela destreza, fogem, logo
+que o primeiro cáe d'uma paulada. A vozeria cresce no momento em que o
+palco está despejado. O Desconhecido trava do braço de Frederico, e o
+traz á bocca da scena.)_
+
+Frederico
+
+Quem é o valente homem a quem devo a vida?! quem é?
+
+Morgadinha _(arrancando o lenço do rosto)_
+
+Sou eu! salvei-te, Frederico!
+
+Frederico
+
+Ó morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como és ideal e angelica!
+_(Ajoelhando.)_
+
+
+FIM DO SEGUNDO ACTO.
+
+
+
+
+ACTO TERCEIRO
+
+ Salão da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia.
+ Reposteiros já envelhecidos com brazões. Alguns retractos. Um piano
+ moderno.
+
+
+SCENA I
+
+PANTALEÃO E MACARIO
+
+Pantaleão
+
+Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha,
+desde que começou a vestir-se á moda, e a tocar piano, está muito
+distrahida do troca-tintas do escrivão. Não anda por janellas, não sáe
+de casa, e gasta alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a
+vestir-se. Isto custa-me um dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.
+
+Macario
+
+E quem é que ensina a snr.ª morgadinha a tocar?
+
+Pantaleão
+
+É a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com
+loja de fazendas brancas...
+
+Macario
+
+Bem sei, bem sei.
+
+Pantaleão
+
+Foram lá as primas de Ruivães que fizeram a descoberta; mas o que tem
+muita graça é que o homem da mestra é tão ciumento que só a deixa ir a
+casas onde não ha homens...
+
+Macario
+
+Que tal pezêta é ella!..
+
+Pantaleão
+
+E para vir aqui, pôz por condição que a mulher só viria á noitinha
+acompanhada pelo marido que a deixa á porta, e vem por ella duas horas
+depois. Eu estive quasi a não aceitar tal professora por saber que o
+escrivão de fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que
+ella fosse medianeira d'alguma carta...
+
+Macario
+
+E tem rasão, snr. morgado... Veja lá!.. olhe que o mundo é um covil de
+marotos!
+
+Pantaleão
+
+Não ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pôz
+fóra da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia
+d'ôlho a consorte.
+
+Macario
+
+Não que sem licença d'elle não ha maior desmoralisação n'este mundo!
+Aquillo tem mesmo idêas de Sardanapalo! Ainda bem que lhe está por um
+fio a ladroeira da repartição...
+
+Pantaleão
+
+Conte lá isso então. Em que termos está a bernarda? Rebenta hoje ou ámanhã?
+
+Macario
+
+Hoje. Está tudo alevantado quando fôr nove horas. Os sinos hão-de tocar
+a rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo cáe todo sobre
+Santo Thyrso, e faz cêrco para que o escrivão não possa escapulir-se;
+que elle é leve como uma penna, e quando a gente mal se precatar, vê-o
+fazer vispre, zêpe-zêpe _(expressão sibilante para imitar a rapidez da
+corrida.)_
+
+Pantaleão
+
+Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que não
+vão os meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que eu
+desejo é que elle não appareça mais em Santo Thirso. Lá a respeito da
+papellada isso é queimal-a toda; que depois o governo como não tem
+cadernos para a cobrança dos impostos, não o manda para cá a elle nem a
+outro.
+
+Macario
+
+Grande idêa é essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa.
+Se a gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer
+economias, porque depois não havia quem quizesse servir os empregos. O
+sytema é um bocado violento para os empregados, mas eu não vejo outro
+meio de os ir acabando...
+
+Pantaleão
+
+Não acho isso humanitario!
+
+Macario
+
+Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos,
+leio jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheço por dentro
+e por fóra o paiz e as suas necessidades. Fique certo d'isto; em quanto
+se não der fim a uma casa a que os jornaes chamam _burrocracia_, não se
+indireita a patria.
+
+Pantaleão
+
+Como se chama isso?
+
+Macario
+
+_Burrocracia_, que pelos modos é palavra de idioma francez, que vem a
+dizer empregado publico.
+
+Pantaleão
+
+Snr. Macario, vá indo cá com as minhas idêas moderadas. O melhor systema
+de se acabar com os escrivães de fazenda é queimar os cartorios. Eu lhe
+ponho uma comparação. Se eu queimar a palha que tenho, e não comprar
+outra, que me acontece á minha parelha de machos? Morrem de fome, não é
+verdade?
+
+Macario
+
+Isso é.
+
+Pantaleão
+
+Pois ahi tem: os escrivães, em se lhe queimando os papeis, não tem que
+roer.
+
+Macario _(duvidoso)_
+
+Nada; a comparação dos machos não me convence, queira V. Ex.ª perdoar.
+_(Com energia)_ Matal-os, matal-os, é o grande _desideratum_.
+
+Pantaleão
+
+E os papeis? deixam-se ficar?
+
+Macario
+
+Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrivães! Nada
+de cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa é causticos e ventosas.
+
+Pantaleão
+
+Ora vocemecê, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha
+está o processo da execução que a fazenda nacional me move...
+
+Macario
+
+Por seis contos d'uma fiança dos bens dos frades, sei muito bem...
+Esteja descançado, que não ha de lá ficar papel em que se amortalhe um
+cigarro.
+
+Pantaleão
+
+Quem é o chefe da revolução?
+
+Macario
+
+Á falta d'homens por hora sou eu; mas não sei a que os commandantes das
+freguezias decidirão. Já ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex.ª
+general em chefe.
+
+Pantaleão
+
+Homem, tire isso da cabeça ás freguezias. Vocemecê bem sabe que eu ando
+muito adoentado dos intestinos, e não posso deixar de tomar o meu banho
+de canôa á noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revolução;
+mas entrar nella em pessoa não posso por causa d'esta molestia dos reins
+que me não deixa cavalgar; e vocemecê bem entende que um general em
+chefe a pé não tem geito, nem pode vêr de longe o inimigo, se nos fôr
+necessario entrar em batalha com o exercito. Dispensem-me por tanto de
+tamanha honra.
+
+Macario
+
+Farei as diligencias; mas receio que...
+
+
+SCENA II
+
+OS MESMOS E A MORGADINHA
+
+ _(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido
+ muito curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido ás pernas;
+ grande laço na cintura posteriormente; sapatos de salto dourado;
+ cabelleira com estupendos tufos encaracolados.)_
+
+Pantaleão
+
+Vens para o piano, Joanninha?
+
+Morgadinha _(pondo luneta d'oiro)_
+
+Sim, papá, vou estudar a minha lição de escala. _(Senta-se ao piano.)_
+
+Macario _(á parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)_
+
+Que desmoralisação! Isto é o peccado em carne e ôsso!
+
+Pantaleão
+
+Está vocemecê admirado d'estas modas, amigo Macario!
+
+Macario _(ironico)_
+
+São bonitas... _(Grave)_ Mas não acho isto decente para a observancia
+dos bons costumes.
+
+Morgadinha
+
+Que quer? é moda; andam assim todas as senhoras do tom.
+
+Macario
+
+Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim não hão de vestir, se
+Deus quizer.
+
+Morgadinha _(voltando o rosto com aborrecimento)_
+
+Então as suas filhas são senhoras?
+
+Macario
+
+D'aquella massa se fazem, snr.ª morgada...
+
+Morgadinha _(dedilha nervosamente nas teclas)_
+
+Adeus, adeus. Temos historia!
+
+Pantaleão _(a meia voz)_
+
+Não a zangue... Deixe-a lá... Tomára eu que ella se entretivesse com os
+vestidos...
+
+Macario
+
+A cabeça... está feito, mas as pernas a vêr-se-lhe, snr.ª morgada! Assim
+não se podem observar os bons costumes... _(A Morgadinha canta
+acompanhando a escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas
+altas. Macario Mendes, offendido pela desharmonia, faz caretas.)_
+
+Pantaleão
+
+Ainda não sabes cantar modinha nenhuma, menina?
+
+Morgadinha
+
+A mestra não quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que é o
+essencial. _(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario
+despede-se, apertando a mão a Pantaleão.)_
+
+Pantaleão
+
+Veja lá os meus papeis, snr. Macario.
+
+
+SCENA III
+
+OS MESMOS E JOÃO LOPES
+
+João Lopes _(trazendo castiçaes com luzes)_
+
+Está na sala de espera a snr.ª mestra pianista e mais o marido.
+
+Morgadinha
+
+Está! Papá, é preciso sahir, tenha paciencia. Bem sabe que ella, se vir
+homem aqui, não entra.
+
+Pantaleão
+
+Está bom pedaço d'asno o marido! Então elle não sabe que eu sou um homem
+sério!
+
+Morgadinha
+
+Que quer o papá! Já lhe tenho dito que póde entrar segura de que não
+ouve palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que
+a mestra fallou com um homem, seja elle quem fôr, não a deixa voltar.
+
+Pantaleão
+
+Com certos individuos tem elle rasão; mas nem todos são como o devasso
+escrivão de fazenda, que lhe andava a fazer a côrte á mulher, e por isso
+foi posto de lá para fóra. Acho justo que elle se acautele dos
+tratantes; mas de mim... parece-me bestialidade! Emfim cá vou. _(Sáe.)_
+
+
+SCENA IV
+
+MORGADINHA, JOÃO LOPES E DEPOIS FREDERICO
+
+Morgadinha
+
+Póde entrar a snr.ª D. Thomazia.
+
+João Lopes _(para dentro, levantando o reposteiro)_
+
+Póde entrar a snr.ª D. Thomazia. _(João Lopes sáe, assim que entra a
+supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de véo
+espesso, e cachos. Chapéu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir
+a cara. Vae direito ao piano. Vê-se a cabeça de Pantaleão que espreita
+por uma fimbria do reposteiro. João Lopes tosse.)_
+
+Morgadinha _(alto)_
+
+Passou bem, snr.ª D. Thomazia!.. _(Baixo)_ Não me falles que meu pae
+está espreitando, em quanto João Lopes tossir... _(Tocam e cantam a
+escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia nas vozes.)_
+
+João Lopes
+
+O snr. morgado já está no pateo a conversar com o marido do snr.
+Frederico; estejam á vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando
+eu tossir, vejam lá...
+
+Frederico _(levanta o véo, abraçando o velho)_
+
+Este João Lopes é um prodigio de dedicação! é o typo genuino do antigo
+creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, João Lopes, você ha de
+progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a
+você um habito de Christo!
+
+Morgadinha
+
+Deixa-o ir, deixa-o ir... _(João Lopes sáe.)_
+
+Frederico _(tomando-lhe as mãos calorosamente)_
+
+E os nossos sonhos vão realisar-se, minha fada! Oh! _(contemplando-a
+absorto)_ que deslumbrante! que eclipse estás fazendo nos anjos do céo!
+Não és só uma bellesa! és um milagre! uma gloria! uma divinisação! Não
+ouso beijar-te as mãos... Os pés, os pés! Estes pés requerem tapetes de
+labios e almofadas de corações! Consente que t'os beije, houri!
+
+Morgadinha _(desviando-se)_
+
+Não sejas tôlo! Gostas de me vêr assim?
+
+Frederico
+
+Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as
+fibras intimas do peito! Luz, luz que me cégas, faz-te lavareda, e...
+devora-me!
+
+Morgadinha
+
+Vamos ao caso... Como estão os negocios?
+
+Frederico
+
+Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que será
+consagrado nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida,
+requerendo tu a tua emancipação, visto que já contas vinte e seis annos;
+mas, como receias que eu seja assassinado logo que requeiras ao juiz,
+cumpra-se a tua vontade. _(João Lopes tosse. Vão sentar-se rapidamente
+ao piano, tocando e cantando a escala. Depois, a Morgadinha vae
+espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa voluptuosa que obriga a
+Morgadinha a fazer alguns passos de dança. Frederico, arrebatado do
+donaire gracioso d'ella, ergue-se de mãos postas fazendo tregeitos de
+enlevado.)_
+
+João Lopes _(mettendo a cabeça)_
+
+Podem conversar, que elle passou para a tulha.
+
+Frederico _(com transporte)_
+
+És divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanças o
+pé quebradiço e chinez em attitude dançante, sacodes e impelles brazas á
+minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus pés lindissimos. Tudo que
+fazes mata e aviventa. Como não serás esbelta, nos salões de Lisboa,
+princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos
+cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de
+felicidade por todos os póros! Ó Joaninha, deixa-me sonhar! _(Fixa os
+olhos espantados no tecto da platêa. Musica surda)_ A minha vida vae ser
+uma etherisação de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taças
+nectáreas do céo, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez...
+Esse rosto em que se espelham as formosuras não vistas de Angelos nem de
+Raphaeis, será o meu Al-korão, porque o summo artifice escreveu ahi a
+suprema estrophe do seu poema. Quando os teus olhos se abrirem ao
+diluculo da manhã, vêr-me-has de joelhos a beijar os teus cabellos;
+quando os fechares, cansados de serem beijados, e as sedosas palpebras
+se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me quedarei a teus
+pés velando que os sylphos amorosos da noite não ousem perturbar o teu
+dormir. Oh! Joanna, Joanna! _(Ajoelha-se-lhe aos pés. João Lopes tosse
+com maior força. A morgadinha adverte em vão Frederico que continúa no
+seu arrebatamento:)_ Abre-me aqui já o sepulchro, se em alguma hora hei
+de sentir-me orphão dos teus carinhos... _(Pantaleão ao fundo, erguendo
+o reposteiro.)_
+
+Morgadinha
+
+Ah!
+
+Frederico _(sobresaltado)_
+
+O diabo! _(Desce o véo. Canta qualquer aria conhecida no acto de
+ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente á Morgadinha:)_
+
+ Diz a teu pai que a mestra
+ Para melhor te ensinar,
+ Te está cantando uma ária
+ Das que se usa cantar
+ No Theatro de Lisbôa:
+ Prega-lhe a pêta, que é bôa;
+ E se esta nos não salva,
+ Nada nos póde salvar.
+
+
+SCENA V
+
+OS MESMOS E PANTALEÃO
+
+Pantaleão _(ao fundo)_
+
+Então que é isso?
+
+Morgadinha
+
+É a minha mestra que me está ensinando uma ária das que se cantam no
+theatro de Lisbôa.
+
+Pantaleão
+
+Ella tem a voz tão grossa! Não parece voz feminina!
+
+Morgadinha
+
+Ella canta na voz que quer.... Então o papá já se esqueceu que o marido
+d'ella...
+
+Pantaleão
+
+Está bom, está bom; eu vou-me embora. Lá estive conversando com o marido
+da senhora, e lhe disse que não tivesse ciumes que eu sou um velho!...
+Aquelle seu marido parece-me um doudo!.. _(Rindo)_ Ora andem lá, andem
+lá. _(Sáe.)_
+
+
+SCENA VI
+
+FREDERICO, MORGADINHA E JOÃO LOPES A INTERVALOS
+
+Frederico
+
+Salvei-te ou não? Tu salvaste-me com a força, na romaria; e eu aqui,
+salvei-te com o genio! Vês como o amor me deu espirito n'um trance
+difficil? Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos
+teus olhos, ó formosa! _(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sôa de
+diversas longitudes. Rumôr longiquo de vozes.)_
+
+Morgadinha
+
+Que será isto!? Ó João Lopes!
+
+João Lopes _(dentro)_
+
+Que quer, snr.ª morgadinha?
+
+Morgadinha
+
+Sabes a que tocam os sinos? é fogo?
+
+João Lopes _(dentro)_
+
+Fogo não me parece. Acho que é bernarda. Estou cá á janella a vêr se
+entendo a gritaria.
+
+Morgadinha
+
+Diz que é bernarda...
+
+Frederico _(alvoroçado)_
+
+Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sériamente comigo, comtigo, comnosco,
+com o nosso futuro, Joanna!
+
+João Lopes _(dentro)_
+
+É revolução.
+
+Morgadinha
+
+Revolução!
+
+Frederico
+
+Não ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?
+
+Morgadinha
+
+Qual perder-me! Importa-me cá a mim a bernarda! Hei de ser tua! Não
+temas, Frederico, que eu sou forte!..
+
+João Lopes _(na scena)_
+
+Já intendi o que elles dizem... Dão morras aos papeis, e que se queime o
+escrivão da fazenda... E trazem musica... Ouvem?... _(Ouve-se
+distinctamente, mas ainda longe, o hymno da «Maria da Fonte», á mistura
+com os «môrra!»)_
+
+João Lopes
+
+O snr. morgado está na torre a ouvir. Agora bom será que o snr.
+Frederico se escape, senão desconfio que o matem, sendo aqui pilhado...
+_(Frederico apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha
+agarra-o.)_
+
+Morgadinha
+
+Não te deixo sahir agora, que é perigoso.
+
+Frederico _(muito inquieto)_
+
+Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! Dá-me armas que eu
+quero defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver
+de doze tiros! Quero armar-me até aos dentes, e combater, e morrer
+gloriosamente ao teu lado!
+
+Morgadinha
+
+Frederico, tu estás maluco!.. Olha que elles não vem cá... Não percas o
+juizo!
+
+Frederico _(muito á tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)_
+
+Não vem? Vem! Escuta! escuta! Não ouves o bramido do tigre popular?
+Olha... é o leão que ruge, partidos os grilhões de respeito á lei! É a
+Libia e a Hircania a vomitarem féras! Olha o lago sujo como se levanta
+em vagalhões e como elles roncam!
+
+Morgadinha
+
+Vem então esconder-te, vem esconder-te!
+
+Frederico
+
+Não! Um homem não se esconde quando olhos como os teus são testemunhas
+de tamanha covardia! É mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido
+ignobilmente! _(Arranca os vestidos mulheris: fica de quinzena; mas
+conserva o chapéo e os boucles)_ Agora, armas! armas! _(A morgada ri-se
+apontando-lhe para a cabeça.)_ Por que ris tu, mulher forte! porque ris
+tu, se fazes favor?!
+
+Morgadinha
+
+Tira a cartola e os cachos, meu amor.
+
+Vozes _(que sobrelevam o estrondo dos figles)_
+
+Morra o escrivão de fazenda! morra! _(Grande catharro de João Lopes.)_
+
+Frederico
+
+É chegada a hora! Dá-me um abraço, querida! Um abraço! e até ao reino
+eterno! As nossas nupcias são no céo!.. _(Aponta para o tecto e fica
+como extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e sáe com
+dous bacamartes de bocca de sino.)_
+
+Morgadinha
+
+Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! _(Ella
+aperra o bacamarte.)_
+
+
+SCENA VII
+
+OS MESMOS, PANTALEÃO E JOÃO LOPES
+
+Pantaleão _(estupefacto)_
+
+Que vejo? que é isto? como entrou este homem aqui?
+
+Frederico _(atirando ao chão o bacamarte)_
+
+Venho offerecer-me á vingança de V. Ex.ª
+
+Morgadinha
+
+Meu papá, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mão de esposa!
+
+Pantaleão
+
+Das duas uma: ou o senhor foge, ou é espatifado pelo povo!
+
+Frederico
+
+Não sei fugir: sei morrer.
+
+Pantaleão
+
+Mas vá morrer a casa do diabo; não quero que o matem aqui.
+
+João Lopes
+
+V. Ex.ª tem rasão; matal-o aqui é máo: o melhor é eu ir escondêl-o no
+meu quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos
+da menina não ficavam com muita saude.
+
+Pantaleão
+
+Pois vae escondêl-o... some-o no inferno!
+
+Morgadinha
+
+Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha,
+sua filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu papá
+_(ajoelha-lhe)_ eu já não posso deixar de ser esposa de Frederico, e
+juro que sou d'elle na vida e na morte! _(Ergue-se: conduz Frederico
+pela mão, e ajoelha com elle)_ Dê-nos a sua benção, querido papá!
+
+Pantaleão
+
+Nunca! nunca! _(Ouvem-se fora as acclamações.)_
+
+Morgadinha _(erguendo-se soberba)_
+
+Então, não tenho pae! tenho só marido! Se o povo o matar, ha de vêr
+morrer-me ao pé d'elle... mas vingada!.. _(Lança mão do bacamarte)_ Que
+entre o povo!
+
+Pantaleão
+
+Em que apertos me vejo! Rebenta-me o coração!..
+
+João Lopes _(muito commovido)_
+
+Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!..
+
+Pantaleão _(a Frederico)_
+
+Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa.
+
+Frederico
+
+Obedeço, por que m'o ordena o pae d'este anjo. _(Sáe com João Lopes.)_
+
+
+SCENA VIII
+
+PANTALEÃO E A MORGADINHA
+
+Pantaleão
+
+Perdi a cabeça!.. Estou doudo... não sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!..
+onde está a pianista, que está alli fóra o marido á espera...
+
+Morgadinha
+
+A pianista?..
+
+Pantaleão
+
+Sim, a pianista onde está?.. _(Olha para o chão, tropeçando no vestido
+de mulher)_ Que é isto? _(levantando o chapéo e os caracoes)_ Que é
+isto?! que é isto, Joanna?..
+
+Morgadinha _(afflicta)_
+
+Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!..
+
+Pantaleão
+
+Então a pianista era... era o escrivão?!..
+
+Morgadinha _(soluçando)_
+
+Era, sim, snr.!
+
+Pantaleão
+
+Que sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o
+patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!..
+
+Morgadinha
+
+É meu espôso... perdôe-nos...
+
+Pantaleão
+
+Tu és o demonio, mulher!
+
+Morgadinha
+
+Sou uma infeliz apaixonada... O meu papá, tenha piedade! Olhe que o
+Frederico é muito bom môço. Se não é fidalgo hoje, póde sêl-o ámanhã. O
+papá bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr'ó outro.
+
+Pantaleão
+
+Ergue-te, ingrata, que déste cabo de teu pae! _(Rompe a musica pelo
+interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)_
+
+
+SCENA IX
+
+JOÃO LOPES, PANTALEÃO, MORGADINHA, MACARIO
+
+ _(A musica, na vanguarda, ladeia para dar passagem a Macario vestido
+ de official de ordenanças, mas com chapéo embicado. Traz uma espada
+ empunhada, e outra debaixo do braço, seguem-no 12 commandantes
+ subalternos, vestidos a capricho, uns com chapéo redondo e banda e
+ dragonas, outros de barretina e niza. Um d'estes arvora uma bandeira
+ de varias côres.)_
+
+Macario
+
+Viva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das forças
+populares do Minho!
+
+Vozes
+
+Viva! _(Cala-se a musica.)_
+
+Macario _(á frente dos revolucionarios com enfaze oratoria)_
+
+Snr. morgado! As forças populares de seis freguezias que ahi estão
+reunidas fóra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim,
+á frente dos seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a
+V. Ex.ª que por voto geral foi acclamado general em chefe d'esta
+provincia. Eu lhes fiz um eloquente discurso para os tirar d'essa ideia,
+allegando com o meu gráo de pharmaceutico que V. Ex.ª soffria dos
+intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles não me
+attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex.ª a espada de general
+em chefe. Aqui está por consequencia esta valente espada que matou em
+1810 muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mãos de V. Ex.ª
+limpar este paiz de escrivães de fazenda e outros mariolas que nos
+desgraçam. Receba V. Ex.ª das minhas mãos esta espada e salve com ella a
+patria do snr. D. Affonso Henriques!
+
+Os commandantes
+
+Viva o snr. boticario! Viva!
+
+Macario
+
+Obrigado, valentes guerreiros! _(A musica executa uma marcha muito
+compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada
+offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz
+signal de que quer fallar. Silencio.)_
+
+Pantaleão _(commovido)_
+
+Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impressão me fizeram as
+vossas palavras e não pude deixar de me commover... Estou realmente
+commovido, e sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe
+que as minhas doenças e outras desgraças me não permittem tomar o
+commando das valentes forças populares que representaes. Não posso,
+senhores, não posso. Se a fortuna me tivesse dado um filho, essa espada
+estaria já nas mãos d'elle.
+
+Morgadinha _(tirando a espada da mão de Macario)_
+
+Está nas mãos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou
+mulher, ha de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle será
+digno d'ella! _(Chamando) _Frederico! Frederico!
+
+
+SCENA ULTIMA
+
+OS MESMOS E FREDERICO
+
+Frederico _(ajoelhando diante da morgadinha)_
+
+Sim! sim! recebo de vossas mãos, Senhora, a espada que ha de decepar as
+infinitas cabeças da hydra financeira! _(Espanto geral.)_
+
+Macario
+
+Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!?
+
+Pantaleão
+
+Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio!
+
+João Lopes
+
+Vae ser o marido da menina... _(a Pantaleão)_ Faça favor de não
+desmaiar, por quem é!
+
+Frederico _(com vehemencia e fogo)_
+
+E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos á victoria,
+briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por
+vós, intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pôdres
+em que o prostraram os comilões. Eu fallo assim, porque cada nação, nas
+horas criticas, tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da
+rethorica. Vamos a elles, filhos da victoria! As nossas bandeiras
+desenroladas aos ventos das batalhas, dirão: Riqueza e Moralidade! Em
+menos de quatro annos de regimen moral, e dieta aos lambões, o paiz não
+deverá nada, e vós não pagareis um pataco de decima.
+
+Vozes
+
+Apoiado!
+
+Frederico
+
+Cidadãos! Eu tenho estudado profundamente as doenças de Portugal e pude
+descobrir onde está o cancro que nos róe. Ahi vae o meu programma: O meu
+systema é dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem
+seu presidente de eleição popular, quero dizer, cada conselho governa-se
+a si, e não quer saber do conselho visinho. Não sei se me percebem...
+
+Macario
+
+Muito bem, entendemos muito bem.
+
+Frederico
+
+Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que não tem nada com
+a republica de Famalicão, nem com a republica de Fafe. Nós cá vivemos
+com o que é nosso, fazemos as nossas despezas, e não damos nem vintem
+aos de fóra.
+
+Vozes
+
+Apoiado! apoiado!
+
+Frederico
+
+Aqui está o meu systema que ainda não lembrou a ninguem, e que é o
+resultado de quinze annos de estudo. Conseguido isto, não temos a
+sustentar tropas, _(Apoiados)_ nem as estradas por onde andam os outros,
+_(Apoiados)_ nem theatros onde os outros se divertem, _(Apoiados)_ nem
+escrivães de fazenda. _(Apoiados)_ E declaro que me dou já por demittido
+do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando: Guerra e morte a
+todos os escrivães de fazenda! _(Os populares desembainham as espadas, e
+bradam: «guerra de morte!»)_ E, portanto, senhores, beijo esta espada, e
+leio na sua lamina, os novos destinos que vão alvorecer para Portugal!
+Recebi-a da mão do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E
+concedei, cidadãos, que essa bandeira seja arvorada nas mãos da Judith
+lusitana! Não mais cahirá aos pés de vencedor algum o estandarte que foi
+consagrado pela filha d'este honrado fidalgo! _(Frederico, tem passado a
+bandeira á Morgadinha, a qual se colloca de maneira que o pae fica entre
+ella e Frederico.)_ Bravos sycambros de Santo Thyrso! agora, á victoria,
+á victoria que a patria nos chama! Está inaugurada a republica
+confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! _(Os musicos executam.
+Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a
+bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentões. João
+Lopes sentado com os queixos entre as mãos contempla tudo aquillo. Corre
+o panno.)_
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ENTRE A FLAUTA E A VIOLA
+
+ENTREMEZ EM UM ACTO
+
+
+
+
+PERSONAGENS
+
+ ANICETO DA SILVA, pae de
+ VICTORINA.
+ GUTERRES ARTHUR DE MIRAMAR.
+ JOSÉ PIMENTA.
+ UM CREADO.
+
+
+
+
+ACTO UNICO
+
+ Salão de estalagem em Barcellos. Quartos numerados desde 1 a 12,
+ occupando os lados, e parte do fundo. Um d'elles o n.º 10 tem
+ sobranceira á porta uma vidraça ou bandeira. Sobre um canapé de
+ palha está uma viola francesa.
+
+
+SCENA I
+
+ _(Ao erguer o panno vem entrando Aniceto e Victorina precedidos de
+ um creado com dois saccos de noute e castiçal.)_
+
+ANICETO, VICTORINA, CREADO
+
+Aniceto
+
+Vamos a saber: temos dois quartos limpos e camas asseadas onde se passe
+a noute?
+
+Creado
+
+Háde haver.
+
+Aniceto
+
+Ha de haver?! Pergunto se ha.
+
+Creado
+
+Faça favor de entrar aqui para o n.º 6; e acolá defronte está o n.º 10
+tambem de vago. _(Põe a bagagem dentro dos quartos.)_
+
+Aniceto
+
+Então os outros estão occupados? Pelo que vejo reuniram-se muitos
+viajantes em Barcellos. Teem bom gosto! Quem está hospedado cá?
+
+Creado
+
+Nos n.os 1, 3, 5, 7 e 9 estão as snr.^as fidalgas de Lanhoso, que são
+seis velhas.
+
+Aniceto
+
+Que faz por aqui esse mulherío?
+
+Creado
+
+Vão para os banhos da Povoa. V. S.ª faça favor de fazer pouca bulha que
+ellas recommendaram-me todo o socego, que queriam dormir.
+
+Aniceto
+
+Pois que durmam. Ora que me importa cá a mim as fidalgas de Lanhoso!
+
+Creado
+
+V. S.ª toma alguma cousa?
+
+Aniceto
+
+Queres chá, Victorina?
+
+Victorina
+
+Não quero nada. Quero deitar-me, que estou moída. O meu quarto é
+aquelle? _(Apontando para o 10.)_
+
+Aniceto _(indo examinar o quarto)_
+
+Para onde deita aquella janella?
+
+Creado
+
+Para o quintal.
+
+Aniceto _(indeciso)_
+
+Para o quintal? está bom... Vá... Vae-te deitar, menina. _(Ao creado)_
+Vá você buscar outra luz. _(O creado sáe.)_
+
+
+SCENA II
+
+ANICETO E VICTORINA
+
+Victorina
+
+Boas noutes, meu pae.
+
+Aniceto
+
+Boas noutes. Se fôr preciso alguma coisa, bate na porta trez palmadas.
+
+Victorina
+
+Ai! _(Gemido longo.)_
+
+Aniceto
+
+Deixemo-nos de ais, Victorina. Juizo, juizo e juizo! _(Victorina
+recolhe-se. O pae fecha a porta, e tira a chave.)_
+
+
+SCENA III
+
+ANICETO E O CRIADO QUE VEM COM O CASTIÇAL
+
+Aniceto
+
+Diga-me cá vossê...
+
+Creado
+
+Meu amo, que manda?
+
+Aniceto
+
+Por aqui é tudo femeas, ou tambem ha machos?
+
+Creado
+
+Machos?!
+
+Aniceto
+
+Sim, homens! Se estão homens n'estes quartos.
+
+Creado
+
+Já disse que não, meu amo. Não ha homens.
+
+Aniceto
+
+Da banda do Porto não veio passageiro nenhum?
+
+Creado
+
+Não snr.
+
+Aniceto
+
+Está bom; dê cá você a luz e vá-se embora. Ás 7 da manhã, chame-me se eu
+não estiver a pé, ouviu?
+
+Creado
+
+Sim snr. _(Aniceto recolhe-se, e fecha-se por dentro.)_
+
+
+SCENA IV
+
+GUTERRES E O CREADO
+
+Guterres _(com um sacco de viagem)_
+
+Olá, Gregorio!
+
+Creado
+
+Por cá, snr. Guterres! Como está V. S.ª?
+
+Guterres
+
+Bom. Ha quarto?
+
+Creado
+
+Hade haver. D'onde vem?
+
+Guterres
+
+Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Está cá?
+
+Creado _(rindo)_
+
+Ora V. S.ª que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta é a setima
+vez que o vejo n'aste fadario! E o maganão sabe-as escolher!
+
+Guterres
+
+Então viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde está ella?
+
+Creado
+
+Alli no n.º 10.
+
+Guterres
+
+Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dirá que o
+meu ideal sonhado ha trinta e seis annos está na estalagem de Barcellos!
+Alli! n'aquelle antro!
+
+Creado
+
+Sempre V. S.ª está um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do
+regedor de Guilhabreu que cá esteve na festa das Cruzes ha cinco annos?
+
+Guterres
+
+Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos...
+
+Creado
+
+E os versos que V. S.ª lhe botou? a gente sempre se ria...
+
+Guterres
+
+Ah! vocês riam-se dos versos? Tens tu a felicidade bestial de te rires
+da poesia? O talento póde contar com o couce até em Barcellos... Ora
+vamos... onde tenho eu quarto?
+
+Creado _(indicando-lhe um do fundo)_
+
+Está alli o n.º 11.
+
+Guterres
+
+Bem. Podes ir. _(Entra na alcova. O creado sáe.)_
+
+
+SCENA V
+
+ANICETO SAINDO COM O CASTIÇAL EM PUNHO
+
+Não posso adormecer com a idêa de que ha uma janella no quarto de
+Victorina. Aquelle maldito não me deixa socegar em parte nenhuma. Receio
+que elle me siga por que o lobriguei quando passávamos em Vallongo; e
+ella tambem o viu. Quem me diz a mim que o tratante nos não persegue, e
+anda á volta da casa? Cuidar aquelle valdevinos que se pôde com uma
+flauta arranjar uma rapariga com fortuna! Ha dous annos que minha filha
+está enfeitiçada por um trocatintas d'um estudante que conseguiu seduzir
+o coração d'uma menina que regeitou os melhores casamentos de Penafiel e
+Amarante! Afinal, não hasde vencer, sarrafaçal! Eu tolherei todos os
+teus calculos. Não me pilharás descuidado um instante! Mas aquella
+janella assusta-me. Vou fazer mudar Victorina para o meu quarto.
+_(Olhando para o alto da porta)_ E de mais a mais esta porta tem vidraça
+em cima. Se elle aqui entrar, ella póde vêl-o d'alli... Que imprudencia
+eu ia commettendo! _(Bate a porta)_ Victorina, Victorina!
+
+Victorina _(dentro)_
+
+Quem é?
+
+Aniceto
+
+É teu pae. Já estás na cama?
+
+Victorina
+
+Não, snr.
+
+Aniceto
+
+Que estás a fazer?
+
+Victorina
+
+Nada. _(Dando volta á chave.)_
+
+Aniceto
+
+Nada? Posso entrar? _(Áparte)_ Lá está ella a descer a vidraça. _(Alto)_
+Posso entrar?
+
+Victorina
+
+Póde.
+
+Aniceto
+
+Estavas á janella?
+
+
+SCENA VI
+
+ANICETO E VICTORINA SAHINDO DA ALCOVA
+
+Victorina
+
+Ai!
+
+Aniceto
+
+Que estavas a fazer na janella?
+
+Victorina
+
+Ora o pae tem manias! Credo! que havia de eu fazer na janella! Estava a
+tomar a fresca. Não tinha somno, não podia dormir, estava muito
+afflicta, muito opprimida, muito abafada, abri a janella, ai!
+
+Aniceto
+
+Pois sim, sim, minha menina. Assim será; mas troquemos os quartos. Vae
+para aquelle, que eu vou para este. Dá cá o teu sacco de noute. Vamos.
+Leva o castiçal. Dá-me o meu sacco. Muito bem. Agora entra...
+
+Victorina _(entrando)_
+
+Oh céos!
+
+Aniceto
+
+Sim, sim. _(Fechando a porta, e tirando a chave)_ Agora vou descançado.
+_(Recolhe-se.)_
+
+
+SCENA VII
+
+GUTERRES
+
+ _(Caminhando contemplativo com o castiçal em punho e os olhos postos
+ no quarto d'onde sahiu Victorina. Pousa o castiçal.)_
+
+Ella alli está, a formosa como a rolinha adormecida com o bico debaixo
+da aza; e eu venho aqui dar pasto ao coração;... mas que pasto tão pouco
+nutriente! Pobre poeta! todo o teu alimento são esperanças! Em quanto a
+gente prosaica se embrutece com timbaes de pombos e pasteis de camarão,
+tu, poeta _(batendo no peito)_ engoles timbaes de esperanças com pasteis
+de sonetos. Eu já sou do tempo em que um homem de genio amava com o
+auxilio dos sonetos, e fazia consistir toda a sua gloria de fino amante
+em gargarejar ternuras para um terceiro andar e recolher-se a casa com o
+coração a trasbordar de catarro. Hoje não. Os anjos actuaes se apparecem
+de noite á janella é para namorar a lua, ou vêr a cauda d'algum cometa.
+Desde que entrou a moda do amor ideal, os olhos d'uma senhora, que
+conversa com as estrellas, não descem a procurar na rua um d'estes
+amadores fanhosos, que só se sentem inspirados e eloquentes na occasião
+em que a patrulha os não deixa fallar. Eram d'uma paciencia adoravel as
+donzellas de ha vinte annos, quando em meu coração rebentavam as
+primeiras flôres!.. Que sensaborias a gente lhe disparava lá para cima,
+e a sancta resignação com que a gente as ouvia a ellas! A virtude
+d'aquelle tempo só se explica bem pela temperatura de sorvete em que os
+corações se conservavam de parte a parte. Isto agora é outra coisa. Um
+homem sente no peito o progresso material. Aqui dentro ha gaz, ha
+vias-ferreas, ha fio electrico, ha balões, ha petroleo, ha tudo quanto é
+fogo, energia, rapidez, etc. Eu cá pelo menos sinto isso tudo; conheço
+que remoço, que amo e que ardo. Tenho phosphoros e ácido prussico aqui
+dentro. _(batendo no peito)_ E esta mulher! Como eu amo esta mulher
+desde que a vi hontem na Povoa de Varzim! Eu, na minha qualidade de
+escrivão do juiz eleito, estava a escrever n'um processo, quando ella
+passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo
+como largaria um sceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar á meza
+redonda do hotel portuense. Comeu apenas uma aza de borracho e meia
+banana. Que estomago tão fino! É que alli está um coração immenso cheio
+de ternura e com mais poesia que um livro de versos. Sahiram, e eu
+segui-os. Vi entrar o pai n'um escriptorio de viação e comprar dous
+bilhetes. Perguntei para onde iam os passageiros; disseram-me que para
+Barcellos. Pedi bilhete; mas não havia. Ó desventura! que farei? ficar?
+não! Ha fatalidades invenciveis, funestissimas! Esta mulher tem o meu
+destino nas suas mãos; disse eu comigo. Cumpre-me seguil-a. Mas que
+farei? Não ha bilhete. Embora. Alma de poeta, exclamei eu, não
+succumbas! Heroicidade na desgraça, homem de coração de bronze! Segue-a!
+segue-a! Fui alugar um garrano, e segui-os a galope, terra a terra, a
+rédea solta, receando a cada passo que o coração e o garrano me
+rebentassem. Aqui estou. Ó mulher, mulher quem és tu? Ave do paraizo,
+que estás sonhando delicias do teu Éden, lembra-te, ó Eva, que és
+costella do homem, e que está aqui Adão digno de ti. _(Repara na
+viola.)_ Uma viola franceza! _(Pega d'ella e corre-lhe as cordas.)_ Está
+desafinada. Oh! que saudades me tu fazes, instrumento interprete das
+minhas paixões infantis! Que trovas eu descantava em noites de lua cheia
+ao arpejar dos teus bordões que gemiam comigo! _(Pensativo)_ Quem sabe?
+_(vai afinando)_ Quem sabe? Se tu fizesses o milagre, ó lyra das canções
+apaixonadas! Vamos! é o fado que me impelle; mas não vou tocar o fado.
+Inspira-me, coração, umas trovas dignas do anjo que alli está dormindo.
+_(Avisinha-se da porta, onde presume que está Victorina, e preludía com
+tregeitos de vate que invoca a inspiração do céo, e canta)_:
+
+ (MUSICA DA «ALTEA, MIMOSA ALTEA»)
+
+ Se tu soubesses, lindinha,
+ Quanto é grande o meu amor
+ Não dormiras descançada
+ Quando eu morro aqui de dôr.
+
+ _(Allegro)_
+
+ Acorda menina,
+ Não durmas agora,
+ Em quanto se fina
+ De dôr quem te adora.
+
+ Eu na Povoa descuidado
+ Já não sentia disvelos,
+ Eis que surges luz brilhante,
+ E eu te sigo até Barcellos.
+
+ Acorda, menina,
+ Não durmas agora,
+ Em quanto se fina
+ De dôr quem te adora.
+
+
+SCENA VIII
+
+ANICETO E GUTERRES
+
+ _(Aniceto abre a porta, e sáe de barrete de dormir e rob-de-chambre,
+ com a luz na mão. Guterres recúa espavorido.)_
+
+Aniceto
+
+Passasse muito bem.
+
+Guterres
+
+Viva.
+
+Aniceto
+
+Eu já vi o senhor se não me falha a memoria.
+
+Guterres
+
+Sim, senhor, já tive a honra de jantar na meza em que V. S.ª estava na
+Povoa.
+
+Aniceto
+
+É verdade. Pois snr., V. S.ª canta e toca muito bem; n'outra occasião
+muito lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o
+obsequio de se calar, porque tenho de seguir amanhã viagem e preciso
+dormir...
+
+Guterres
+
+Pois não, senhor! Eu deponho já o instrumento importuno.
+
+Aniceto
+
+Agradeço muito a sua delicadeza. Se não fosse indiscreto, perguntaria
+com quem tenho a honra de fallar?
+
+Guterres
+
+Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir.
+
+Aniceto
+
+Então é estrangeiro? Esse nome não me parece de cá.
+
+Guterres
+
+Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exerço funcções publicas.
+
+Aniceto
+
+Ah! exerce funcções publicas? Esse emprego deve ser bem bom.
+
+Guterres
+
+Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de
+bastantes lettras.
+
+Aniceto
+
+Ah! de bastantes lettras? então é capitalista... Eu tambem trago um
+pouco de dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula?
+
+Guterres
+
+O juro? está favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento
+ao mez. V. S.ª é do Porto?
+
+Aniceto
+
+Não senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva.
+
+Guterres
+
+Oh! pois não, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua
+ex.^ma filha?
+
+Aniceto
+
+A divertir-me não... Isso são contos largos... se V. S.ª por aqui
+estiver ámanhã, conversaremos. Agora boas noutes, que são horas de dormir.
+
+Guterres
+
+Tem razão, tem razão... Boas noutes. _(Aniceto fecha-se.)_
+
+
+SCENA IX
+
+GUTERRES
+
+Ora ahi está a deidade, que eu eternizei nos meus versos! As esperanças
+de muitos poetas, quando se realisam, são pouco mais ou menos como esta.
+Este Aniceto, offerecendo-se aos meus devaneios d'alma, é uma imagem que
+eu tambem offereço como lição a todos os poetas. _(Vê-se um encapotado
+ao fundo, com chapéo de aba derrubada)_.
+
+Mas, a final, onde é que está a filha? Foi o velhaco do creado que me
+enganou! É o couce da proza que bateu no peito da poesia. Filha de
+Aniceto, onde quer que estejas, eu te offereço este calix d'amargura, e
+boas noutes. _(Vai a recolher-se ao quarto.)_
+
+
+SCENA X
+
+JOSÉ PIMENTA E GUTERRES
+
+Pimenta _(rebuçado)_
+
+Boas noutes.
+
+Guterres _(suspendendo-se)_
+
+Boas noutes.
+
+Pimenta
+
+Quem é o senhor?
+
+Guterres
+
+Não respondo a encapotados de melodrama. Destape-se.
+
+Pimenta _(deixa cair as bandas do capote)_
+
+Eis-me.
+
+Guterres
+
+Eis-me o que? Cada vez o conheço menos.
+
+Pimenta
+
+O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o
+senhor e a filha de Aniceto?
+
+Guterres
+
+De commum de dois? temos questão grammatical ou phisiologica?
+
+Pimenta
+
+Que tem o senhor que ver com ella?
+
+Guterres
+
+Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo,
+Barcellos, o rei dos tambores, V. S.ª etc. Falta elle que ver...
+
+Pimenta
+
+O senhor sabe que da zombaria ao rewolver não ha mais que um passo?
+
+Guterres _(sorrindo)_
+
+O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em
+Barcellos não póde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama,
+posso saber?
+
+Pimenta
+
+Sou José Pimenta.
+
+Guterres
+
+Pimenta? por isso o senhor é tão cálido!... Eu sou de apellido Mira-mar.
+Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a
+filha d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um coração de poeta e
+um respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena?
+
+Pimenta
+
+Amo.
+
+Guterres
+
+Tambem eu.
+
+Pimenta
+
+Tambem o senhor?
+
+Guterres
+
+Tambem eu; mas ha uma differença entre nós, e vem a ser que ella a mim
+não me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o.
+
+Pimenta
+
+Tenho provas d'isso.
+
+Guterres
+
+Tem? _(Solemne)_ O senhor sabe que esmagou n'este momento um dos mais
+romanticos corações que batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as
+florinhas d'um amor nascente que burbulhavam na charneca d'esta alma?
+_(concentra-se)_ Coragem! Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E
+então o senhor vem aqui fallar-lhe? Sabe que ella está...
+
+Pimenta _(apontando para o quarto de Aniceto)_
+
+Sei que está alli no N.º 10, que m'o disse o creado da hospedaria.
+
+Guterres _(apontando)_
+
+Alli?
+
+Pimenta
+
+Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... _(reparando na vidraça
+sobranceira á porta.)_ Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles
+vidros.. O senhor não vê?
+
+Guterres
+
+Sim, eu vejo lá o que quer que seja.
+
+Pimenta
+
+É ella que me conheceu a voz. Quer outra prova?
+
+Guterres
+
+Não senhor, estou satisfeito. Aquella mulher é sua. Sou magnanimo até aqui!
+
+Pimenta
+
+Se me fosse possivel subir á altura da vidraça! Alli está uma mêza. O
+senhor guarda segredo? Não revella este arrojo d'um amante apaixonado?
+
+Guterres
+
+O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os
+caixilhos das vidraças e passar-se lá p'ra dentro. Póde fazêl-o que eu
+não digo nada.
+
+Pimenta _(attento nos vidros)_
+
+É ella. É o anjo! Lá está o rosto amado!
+
+Guterres
+
+Vá, não perca tempo. Dê-lhe um beijo envidraçado. _(Pimenta aproxima uma
+banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a
+vidraça com um murro, e põe fóra a cabeça.)_
+
+Aniceto
+
+Ah cão!
+
+Pimenta _(saltando)_
+
+Traição! traição! _(Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.)_
+
+
+SCENA XII
+
+ANICETO E GUTERRES
+
+ _(O palco escuro)_
+
+Aniceto _(correndo para Guterres)_
+
+Ainda aqui estás, ladrão!
+
+Guterres _(accendendo um phosphoro)_
+
+Olhe que está enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o
+funccionario da Povoa, Guterres Arthur. _(Continúa a accender phosphoros.)_
+
+Aniceto
+
+Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraça. Onde está o
+scelerado, o canalha do flautista?
+
+Guterres
+
+Elle toca flauta? São fataes os flautistas...
+
+Aniceto
+
+Transtornou a cabeça de minha filha o infame... Onde está elle?
+
+Guterres
+
+Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto.
+_(Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que
+exclama de dentro.)_
+
+Voz de velha
+
+Quem está ahi?
+
+Guterres
+
+Enganei-me.
+
+Voz
+
+Um homem! que desafôro! um homem!
+
+Guterres
+
+Perdão, minha senhora; não grite tanto. V. Ex.ª parece-me bastante velha
+pelo metal de voz, e não deve recear-se de homens.
+
+Voz
+
+Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora...
+
+Guterres
+
+Não se assuste. V. Ex.ª em guerra de paixões é paiz neutro. Esteja
+socegada. Durma. _(Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)_
+
+Voz
+
+Quem bate? quem anda aqui, mana?
+
+Guterres
+
+Cá está outra inviolavel. Não é nada, minha senhora. A mana não teve
+perigo.
+
+Aniceto _(sahindo com uma luz do seu quarto)_
+
+Aqui está luz. Venha cá, snr. Miramolim.
+
+Guterres
+
+Miramar, se faz favor.
+
+Aniceto
+
+Que me diz á perseguição d'este facinora? O senhor não lhe disse que eu
+estava n'este quarto?
+
+Guterres
+
+Nada, eu não lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a
+espreitar pelos vidros; mas como elle disse «lá está o rosto amado»
+cuidei realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. Não se afflija.
+O caso tem remedio. Trate a doença de sua filha pelo systema
+homoeopathico. _Similia similibus._ Sabe latim? _(Signal negativo)_ Quer
+dizer: cura-se a molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer
+dizer: a doença de sua filha é causada pelo tal sujeito, não é? _(Signal
+affirmativo)_ Pois _similia similibus_ arranje-lhe outro similhante.
+
+Aniceto
+
+Dois? tomára eu desfazer-me d'este.
+
+Guterres
+
+Outro marido, percebeu?
+
+Aniceto
+
+Percebi, sim, senhor; mas eu não acho que a minha filha tenha
+necessidade de casar com este nem com o outro.
+
+Guterres _(com enfaze e rapidez)_
+
+Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes
+no fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a não soffrem sem que
+a especie seja deteriorada por transtornos contrapostos ás evoluções
+palyngenesicas da reproducção genesiaca, resultando d'ahi que as
+evoluções abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberrações
+de graves consequencias: o senhor percebe, eim?
+
+Aniceto
+
+As aberrações curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim.
+
+Guterres
+
+Miramar, se faz favor. Vejo que V. S.ª não entendeu. Sua filha ha de
+dar-lhe grandes penas e trabalhos, se não tiver em quem empregar a
+actividade do seu coração: percebeu agora?
+
+Aniceto
+
+Muito bem. Aconselha-me então o senhor que lhe procure marido.
+
+Guterres
+
+E quanto antes.
+
+Aniceto
+
+O senhor é solteiro?
+
+Guterres
+
+Sou, sim senhor, porque?
+
+Aniceto
+
+Quer casar com minha filha?
+
+Guterres _(com gravidade)_
+
+A sua filha, snr. Aniceto, é uma imagem que me sorria nos meus sonhos
+antes de a conhecer. Eu amo-a com este coração de anjo que tenho; e, se
+eu já não fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Camões
+d'occasião. Mas a sua pergunta á queima-roupa é um choque tal de
+felicidade que me burrifica. Deixe-me tomar ar. Ha commoções de alegria
+que achatam os bofes e sacodem todas as visceras d'um homem.
+
+Aniceto
+
+Não ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguição d'este bandido da
+flauta. Se V. S.ª annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde
+podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha
+Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e ouça fallar.
+
+Guterres
+
+Não, senhor. Isto de casamento é um acto sério e solemne. Corações
+apanhados de surpreza não me servem. A mulher, que houver de ser minha,
+hei de conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo
+poetico. Logo que eu conhecer que consegui apaixonar sua filha, então a
+contemplarei como objecto matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou
+poeta.
+
+Aniceto
+
+Então que é preciso?
+
+Guterres
+
+É preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus
+primeiros ensaios no coração de sua filha empregando os expedientes
+sentimentaes.
+
+Aniceto
+
+Que vae o senhor fazer n'esse caso?
+
+Guterres
+
+V. S.ª não me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em
+consequencia de elle tocar flauta?
+
+Aniceto
+
+Foi isso.
+
+Guterres
+
+Pois eu vou empregar tambem a musica. Póde ser que esta menina tenha a
+alma lyrica e philarmonica e que o seu coração só possa ser abalado
+instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao seu
+quarto, e esperar lá os phenomenos que se forem operando na
+sensibilidade de sua filha?
+
+Aniceto
+
+Sim senhor, eu cá vou esperar os phenomenos. _(Recolhe-se.)_
+
+
+SCENA XIII
+
+GUTERRES _(só)_
+
+ _(Guterres pega da viola, preludía, aproxima-se do quarto de
+ Victorina e canta em postura de inspirado)_
+
+ Eu na Povoa descuidado
+ Já não sentia disvelos;
+ Eis que surges, luz brilhante,
+ E eu te sigo até Barcellos.
+
+ Acorda, menina,
+ Não durmas agora,
+ Em quanto se fina
+ De dôr quem te adora.
+
+ Victorina, escuta os hymnos,
+ Que te canta o meu amor;
+ Escuta os versos divinos,
+ De Guterres, trovador!
+
+ Acorda menina,
+ Não durmas agora,
+ Em quanto se fina
+ De dôr quem te adora.
+
+ _(Escutando declama:)_
+
+Ella não se bole. Parece-me que a ouço resonar. É a belleza que ronca
+nos seus sonhos innocentes. _(Reparando em José Pimenta que vem
+entrando)_ Temos chinfrim.
+
+
+SCENA XIV
+
+JOSÉ PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA, ANICETO
+MAIS TARDE, E O CREADO
+
+ _(José Pimenta entra embuçado, medindo os passos á tragica. Chega ao
+ meio da scena, arroja o chapéo, deixa cahir a capa, cruza os braços,
+ relançando um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior
+ d'uma jaqueta de pelle os canudos d'uma flauta, liga-os, dá dois
+ passos á frente, e com a maior solemnidade toca a aria da Sombra de
+ Nino, da Semiramis. Guterres tem passado com a viola para o outro
+ lado, e faz menção de se defender com uma cadeira, em quanto o outro
+ não toca. Victorina, assim que José Pimenta tem tocado a primeira
+ parte da aria, começa aos empurrões á porta.)_
+
+Victorina _(dentro)_
+
+Josésinho, Josésinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta
+porta! _(Aniceto rompe do quarto com os braços no ar, a tempo que
+Victorina faz saltar a fechadura e corre aos braços de José Pimenta,
+exclamando:)_ José, José, quero morrer nos teus braços. Ai! _(Desmaia
+nos braços d'elle.)_
+
+Aniceto _(ao creado que tem entrado com a luz)_
+
+Você faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades
+todas. Ah grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos não ha justiça
+que vingue um pae?
+
+Guterres
+
+Snr. Aniceto, não mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos
+inuteis. Agora conheço que a chaga da sua filha só póde ser curada com o
+pêllo do mesmo... do mesmo José Pimenta. Não ha duvida que o coração
+d'esta menina está magnetisado pela musica; mas o que é certo é que a
+propensão d'ella não é a viola. A alma d'esta senhora inclina-se para
+instrumento de sopro. Não é assim, snr.ª D. Victorina? Faça favor de
+voltar a si para responder, e desmaie depois se quizer. _(Ella abre os
+olhos)_ É verdade ou não?
+
+Victorina
+
+Ai! _(Aniceto cáe prostrado n'uma cadeira á boca da scena.)_
+
+Guterres _(a Pimenta)_
+
+O senhor não tem habilidade senão para a flauta. Aproveite a occasião e
+vá com a pequena ajoelhar-se aos pés do velho. Andem para diante.
+_(Empurrando-os)_ Parece que nunca estiveram no theatro!
+
+Pimenta e Victorina _(ajoelhando)_
+
+Meu pae! piedade!
+
+Aniceto _(erguendo-se de impeto)_
+
+Oh! _(Grito rouco e prolongado; com os braços affasta tragicamente da
+vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)_
+
+Guterres
+
+Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abençôe a união d'essas
+creaturas. Deixe-os casar; alegre-se com a esperança de que ha de ainda
+vêr meia duzia de netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o
+genio de sua mãe, amando uma orchestra de sujeitos distinctos desde a
+trompa até á corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante
+misericordioso para os propagadores da sua individualidade tipica.
+
+Aniceto
+
+Levantem-se d'ahi! _(Erguem-se submissos.)_
+
+Guterres
+
+Bem; estão os senhores absolvidos. Parabens. Ó snr. Pimenta, eu creio
+que algum serviço lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador
+da sua flauta. Em recompensa, faça-me o senhor o favor de dizer se foi
+realmente com a aria da Sombra de Nino que enfeitiçou esta sympathica
+joven?
+
+Pimenta
+
+Esta aria era a senha com que os nossos corações se entendiam.
+
+Guterres
+
+Ah! sim? Eu quero tocar isso no violão; vou experimentar o effeito
+d'essa aria no coração de certas pessoas que costumam arrebatar-se
+fascinadas pela minha voz de tenor. _(Tange na viola o acompanhamento da
+Sombra de Nino, e canta:)_
+
+ Pobre poeta, ninguem te preza,
+ Pobre poeta, ninguem te quer;
+ Nem co'a viola tu conseguiste
+ Mover o peito d'uma mulher.
+
+_(No intervalo de uma quadra á outra. A José Pimenta)_
+
+Isto vae bem? _(Faz na viola escalas sobre os bordões.)_
+
+ Mas não importa; vença a flauta
+ A sympathia das fracas almas;
+ Que eu antes quero, meus bons amigos,
+ O vosso affecto e as vossas palmas.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+Os direitos de representação das duas comedias que formam este volume
+pertencem ao auctor.
+
+Porto, 3 de Fevereiro de 1871.
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a
+Flauta e a Viola, by Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30461 ***
diff --git a/30461-h/30461-h.htm b/30461-h/30461-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..5090231
--- /dev/null
+++ b/30461-h/30461-h.htm
@@ -0,0 +1,4031 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Theatro Comico, por Camilo Castelo Branco</title>
+ <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco">
+ <meta name="Publisher" content="Viuva Moré--Editora">
+ <meta name="Date" content="1871">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8">
+ <style type="text/css">
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ font-family: sans-serif;
+ }
+ .pn {
+ text-indent: 0em;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: silver;
+ }
+ #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;}
+ h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;}
+ h4 em {font-weight: normal;}
+ h5 {font-weight: normal; text-indent: -1em; margin-left: 1em; text-align: justify;}
+ #corpo p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;}
+ hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;}
+ hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;}
+ .rodape {
+ font-size: 0.8em;
+ margin: 2em;
+ }
+ em {color: blue}
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30461 ***</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 3px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em">CAMILLO CASTELLO BRANCO </p>
+
+<p>&mdash;&mdash;&mdash;</p>
+
+<p style="font-size: 2em">THEATRO COMICO</p>
+
+<div style="margin: 10%; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em">A MORGADINHA DE VAL D'AMORES</p>
+
+<p>&mdash;&mdash;</p>
+
+<p>ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO<br>
+EM CASA DE VIUVA MORÉ&mdash;EDITORA<br>
+<small>PRAÇA DE D. PEDRO</small><br>
+1871</p>
+</div>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 2em">THEATRO COMICO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>PORTO&mdash;IMPRENSA PORTUGUEZA</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em">THEATRO COMICO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em">DE</p>
+
+<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p>&mdash;&mdash;</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em">A MORGADINHA DE VAL D'AMORES</p>
+
+<p>&mdash;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em">ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO<br>
+VIUVA MORÉ&mdash;EDITORA<br>
+<small>PRAÇA DE D. PEDRO</small><br>
+1871</p>
+</div>
+
+<div id="corpo">
+<p><span class="pn">{v}</span> </p>
+
+<h2>ADVERTENCIA</h2>
+
+<p>Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o distincto
+maestro Francisco de Sá Noronha, quando a comedia se escreveu com destino a ser
+representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o bom exito theatral o
+subsidio da musica n'esta composição, e sobrevindo rasões que desviaram o nosso
+amigo Noronha de collaborar comnosco em tamanha futilidade, não pôde por isso a
+comedia ser submettida á opinião das platêas. Quem a lêr agora tem de
+benevolamente disfarçar o seu fastio de leitura de versos, feitos ou copiados
+das canções populares, para se cantarem.<span class="pn">{vi}</span> Por via de
+regra, taes trovas são sempre asperas ou dissaboridas na declamação, mórmente
+as que formam o <em>Auto do nascimento do menino Jesus</em>, consoante elle se
+figura nas aldêas do Minho ainda hoje.</p>
+
+<p>Com referencia á farça não temos que pedir desculpa. Seria desvanecimento
+irrisorio recearmos nós que a ponderosa e grave critica se descesse até coisa
+tão pequena.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES</h1>
+
+<h4>COMEDIA EM TRÊS ACTOS</h4>
+
+<h2>FIGURAS</h2>
+<ul>
+ <li>D. J<small>OANNA</small> C<small>OGOMINHO DE</small>
+ E<small>NCERRABODES</small>, morgada de Val-d'Amores, filha de </li>
+ <li>P<small>ANTALEÃO</small> C<small>OGOMINHO DE</small>
+ E<small>NCERRABODES.</small> </li>
+ <li>F<small>REDERICO</small> A<small>RTHUR DA</small> C<small>OSTA</small>,
+ Escrivão da Fazenda de Santo Thyrso. </li>
+ <li>C<small>OSME</small> J<small>ORDÃO</small>, Deputado por Guimarães. </li>
+ <li>M<small>ACARIO</small> M<small>ENDES</small>, Boticario de Santo Thyrso.
+ </li>
+ <li>J<small>OÃO</small> L<small>OPES</small>, Lacaio e confidente da Morgada.
+ </li>
+ <li>F<small>IGURAS DO</small> A<small>UTO DOS</small> T<small>RES</small>
+ R<small>EIS</small> M<small>AGOS.</small> </li>
+ <li>Creados, cantadeiras, camponezes, musicos e outros personagens. </li>
+ <li><em>Scenas da actualidade.</em> </li>
+</ul>
+
+<h1>ACTO PRIMEIRO</h1>
+
+<h5>Ao fundo, portão de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes.
+O restante do palco figura uma alameda e estrada.</h5>
+
+<h2>SCENA I</h2>
+
+<h3>FREDERICO <em>(só)</em></h3>
+
+<h5><em>(Frederico é um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e calças
+pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O chapéo é de fórma
+ingleza e alto para tornar mais aguçada a figura. A cabelleira bironniana em
+crespas ondulações. Bigodes encerados e picantes nas guias retezadas. A luneta
+d'um vidro sem aro obriga-o a caretear, abrindo a bocca de esguêlha quando fixa
+mais attentamente a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fôr necessario
+fugir, hão de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A
+agilidade da rotação do pescoço deve dar-lhe o que quer que seja de authomatico
+e fantasmagorico.)</em></h5>
+
+<p>A razão diz-me que eu estou em perigo de ser moído por estes selvagens do
+Minho; mas o coração, este intestino onde o amor e a coragem habitam, diz-me
+que não vacille. A rasão argumenta-me<span class="pn">{12}</span> que eu,
+escrivão de fazenda no concelho de S. Thyrso, não devo arrojar as minhas
+desenfreadas ambições até á mão da morgadinha de Val-d'Amores; mas o coração,
+esta republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella,
+mandando-me lêr n'aquelle brazão <em>(apontando)</em> o epitaphio da fidalguia
+de raça, e o monumento levantado não ás tradições ineptas, mas á restauração da
+dignidade humana. Além d'isto, eu, homem de aspirações gigantes, eu, poeta de
+audaciosos raptos d'alma, eu, que junto á poesia elevada a poesia profunda,
+preciso de me arranjar. Sou escrivão de fazenda; mas esta posição não quadra
+aos meus instinctos. Ás vezes como que sinto escaldarem-se-me as arterias com
+sangue de principe, e me quer parecer que algum de meus avós foi mais ou menos
+illudido por alguma das minhas avós. Reconheço, como filho d'este seculo, que a
+democracia matou a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim é; porém, ao
+mesmo tempo, não sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta
+morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o que
+mais me incita a querer-lhe com a adoração<span class="pn">{13}</span> dos
+Paulos e dos Romeus é a precisão que tenho de me arranjar.</p>
+
+<p>Eu já manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocação; e,
+como me sentisse um dos muitos desventurados que cáem n'este mundo sem vocação,
+fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por serem cousa que a
+Biblia não diz que o Creador fizesse nos sete dias de creação. Um sujeito olha
+para si como Deus para as trevas, e diz «<em>fiat lux</em>» faça-se o
+litterato; «<em>et lux facta est</em>», e o litterato fez-se. Eu prometto não
+dizer mais nada em latim, por que tambem não sei mais do que isto.</p>
+
+<p>Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever. Preparava-me
+para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26 de supplemento,
+quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um diario de Lisboa. A minha
+reputação estava quasi estabelecida, quando a empreza me despediu por
+semsaborão, como se fosse obrigatorio ser engraçado no paiz mais desgraçado do
+mundo. Voltei o meu espirito para a historia universal, e cheguei até a
+procurar n'um Almanak onde era a Torre do Tombo com tenção de lá ir consultar
+os pergaminhos.<span class="pn">{14}</span> N'este proposito estava eu,
+sentindo já os calores da gloria, quando me encarregaram de traduzir uma
+comedia franceza para o Gymnasio. Puz de parte a Historia Universal, e traduzi
+a comedia com um esmero indigno do resultado, porque ella foi pateada visto que
+tinha, segundo disseram os criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a
+virgindade elegante do texto. Ora eu então fiz-me critico, animado pela grande
+copia de sandices que se escreveram contra a minha traducção. N'este modo de
+vida achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber
+alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira em
+jardim de flores; é temivel porque remeche e estraga tudo; levanta impólas de
+terra, e suja quando não desvasta a mimosa vegetação. Eu fiz destroços grandes
+e escalavrei muitas reputações litterarias, já por amor da arte, já por amor do
+estomago, esta coisa onde um homem de genio não póde crear a luz, porque isto
+aqui <em>(indicando o estomago)</em> é um abysmo que só recebe a luz pela
+bocca. Mas a final, as obras litterarias que appareciam eram já de natureza que
+o arpéo da critica não lhes ferrava a<span class="pn">{15}</span> unha.
+Entreguei-me ao genero chamado <em>reclame</em>, e comecei a chamar a attenção
+do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia, romance ou farça. Este
+officio, posto que o mais aviltante da vida d'um escriptor, é o mais lucrativo
+no mundo patarata, em que eu me atasquei. A consciencia pezava-me pouco, se o
+estomago sahia pezado de casa do emprezario do theatro ou do editor do romance.
+Afoguei muitos escrupulos em sopa de camarão. Mas o sangue de principe, este
+não sei quê que me faz cócegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha
+missão na terra, e desde logo atirei um vôo atrevido ás regiões aquilinas da
+politica. Estudei trez dias as questões de fazenda em Portugal, e entendi-as
+tão claramente como se fossem questões da minha fazenda. Percebi que o paiz
+estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma serie de artigos nos quaes
+provava que a maneira de matar o <em>deficit</em> era... sim eu provava que a
+maneira de matar o <em>deficit</em>, esse cancro roedor das entranhas do meu
+paiz, era... sim eu provava... não me lembra agora o que provei... o certo é
+que me despacharam escrivão de fazenda de Santo Thyrso,<span
+class="pn">{16}</span> provavelmente para matar o <em>deficit</em>. Eis que
+chego, e vejo a Morgadinha... <em>(Ouvem-se os tamborileiros)</em> Não convem
+que estes barbaros me vejam parado em frente do portão da mulher amada...
+<em>(Sáe)</em>.</p>
+
+<h2>SCENA II</h2>
+
+<h3>PANTALEÃO, <small>DOIS</small> CREADOS, <small>E OS</small>
+TAMBORILEIROS</h3>
+
+<h5><em>Entram ao terreiro e páram tocando em frente da porta trez
+tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco depois
+abre-se a porta, e sáe</em> <em>P<small>ANTALEÃO</small></em><em>, com dois
+creados de lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um
+pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem.</em></h5>
+
+<h4>1.º Tamborileiro <em>(o do Zabumba)</em></h4>
+
+<p>Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr.ª morgadinha!</p>
+
+<h4>Os trez</h4>
+
+<p>Biba por muitos annos, biba!<span class="pn">{17}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Olé! rapazes! Com que vossês já se vão chegando ao arraial?..</p>
+
+<h4>1.º Tamborileiro</h4>
+
+<p>Ó promeiro, vamos tocar ós mordomos do Snr. San Joon, que tem festa
+d'arromba este anno; e ós despois la bamos pr'ó arraial com Deus. <em>(Ouve-se
+ao longe a toada das cantadeiras que cantam o S. João.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Bebam; mas não se encarraspanem como no anno passado.</p>
+
+<h4>2.º Tamborileiro <em>(rindo alvarmente)</em></h4>
+
+<p>É berdade, fedalgo! Aquillo é que foi perua! Indas m'alembra!<span
+class="pn">{18}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Pois vê lá se arranjas outra que te faça esquecer a do anno passado.</p>
+
+<h4>3.º Tamborileiro <em>(bebendo)</em></h4>
+
+<p>Enton la bai á saude de Vossenhoria, a mais da snr.ª morgadinha.</p>
+
+<h4>1.º e 2.º Tamborileiro</h4>
+
+<p>A mesma.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Querem mais? bebam.</p>
+
+<h4>1.º Tamborileiro</h4>
+
+<p>Non faz minga.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Então, rapazes, adeus. Lá nos veremos na romaria.<span
+class="pn">{19}</span> </p>
+
+<h4>Os tres Tamborileiros</h4>
+
+<p>Biba o fedalgo, e mai la obrigaçon. <em>(Sáem rufando estrondosamente: cessa
+o estrondo pouco depois.)</em></p>
+
+<h2>SCENA III</h2>
+
+<h3>PANTALEÃO <small>E OS DOIS</small> CREADOS <small>(QUE POUSAM AS
+VASILHAS)</small></h3>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Ora venham cá vossês, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses
+olhos. Vossês tem obrigação de zelar a honra d'esta casa, por que nasceram
+n'ella, cá se crearam, e cá hãode morrer, se me servirem bem. Aquillo que
+souberem a respeito do que vou perguntar hão de dizer-m'o. Aqui quem governa
+sou eu, percebem? Vossês tem visto de noite alguma vez por debaixo das janellas
+d'esta casa o escrivão de fazenda? um homem muito magro que cá vinha
+d'antes?<span class="pn">{20}</span> </p>
+
+<h4>1.º Creado</h4>
+
+<p>Bem sei quem é o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo, eu
+jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu de regar a
+cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando sobre a direita, vi
+uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que parecia um abentesma...</p>
+
+<h4>2.º Creado</h4>
+
+<p>Eu tambem já bi esse abentesma, salbo seja, ahi ós pois da mêa noute; mas
+aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que Vossenhoria
+faça de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim têzo e hirtego que
+não bolia c'os pezes. Havéra de ser o mesmo que tu enxergaste, Antonho!</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Pois creiam vossês que não era outro senão o escrivão de fazenda. N'estes
+arredores não ha homem d'aquelle feitio senão elle... Sabem<span
+class="pn">{21}</span> o que eu quero, rapazes? é que lhe dêem uma boa sova de
+estadulho.</p>
+
+<h4>1.º Creado</h4>
+
+<p>Só se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira.</p>
+
+<h4>2.º Creado</h4>
+
+<p>E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar ás lebres. <em>(Ouvem-se
+risadas de mulheres já perto.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Por ora, nada de tiros; o que mando é que lhe arrumem quatro bordoadas, sem
+lhe dizer isto nem aquillo. Vossês zupem-lhe e escamem-se, que eu com a justiça
+não quero testilhas; mas não lhe batam, sem o apanharem cá á volta da casa...
+Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as raparigas da freguezia.
+<em>(Sáem pela esquerda.)</em><span class="pn">{22}</span> </p>
+
+<h2>SCENA IV</h2>
+
+<h5><em>(Rancho de raparigas vestidas de saias de chita com muita roda de saias
+e saiotes, capotilhas encarnadas, chinela e meia branca, acompanhadas d'um
+tocador de rebeca e outro de violão, que lhes acompanham as cantigas. Entram
+pulando alegremente, e pucham por a estridula sineta do portão.)</em></h5>
+
+<h4>O rabequista</h4>
+
+<p>Biba a snr.ª morgadinha de Val-d'Amores!</p>
+
+<h4>Todos</h4>
+
+<p>Biba! Biba! <em>(Cantam o S. João.)</em></p>
+
+<blockquote>
+ <b>            COPLAS</b><br>
+ <br>
+       Son Joon adromeceu<br>
+       Nas escadas do collejo;<br>
+       Deron nas frêras co'elle,<br>
+       Son Joon ten porbolejo.<br>
+ Que é aquillo, que é aquillo, que é aquillo?<br>
+ Son Joon a caçar um grilo.<span class="pn">{23}</span><br>
+ <br>
+       Ó meu son Joon da Ponte,<br>
+       Ó meu bello patusquinho,<br>
+       Dá-nos anno de bon pon,<br>
+       Dá-nos anno de bom binho.<br>
+ Non é nada, non é nada, non é nada,<br>
+ Son Joon a comer pescada.</blockquote>
+
+<h5><em>(Abre-se o portão de par em par. Sáe a Morgadinha, trajada com luxo,
+mas fóra da moda. Vestido de ancas exaggeradas, cabello á Stuart, e um grosso
+grilhão ao peito. Segue-a um creado velho, de niza, com uma cadeira de braços á
+cabeça, e uma pichorra e caneca na mão.)</em></h5>
+
+<h2>SCENA V</h2>
+
+<h3>MORGADINHA, JOÃO LOPES, <small>E AS</small> CANTADEIRAS</h3>
+
+<h4>Vozes</h4>
+
+<p>Biba a snr.ª morgadinha! Biba! Biba!</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(sentando-se na cadeira)</em></h4>
+
+<p>Adeus, raparigas. Como estás tu, Maria do Quinchoso! e tu Benta do Cazal?
+Olha a Marianna<span class="pn">{24}</span> da Egreja como está gorda com o
+cazamento! Ó João Lopes, dá vinho a essa raparigada toda.</p>
+
+<h4>Uma das moças</h4>
+
+<p>Vossenhoria bai ao arraial?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Podéra não! Já estou preparada, e vou assim que a tarde refrescar, que quero
+ver o fogo prezo.</p>
+
+<h4>Outra</h4>
+
+<p>E mai lo auto do Natal, que vem la os d'Arnôzo co'elle.</p>
+
+<h4>Outra</h4>
+
+<p>E como a fidalga está pimponaça! Parece mêmo a Madanela da porcisson de
+Passos!</p>
+
+<h4>Outra</h4>
+
+<p>Benza a Deus, que palminho de cara assim, não se topa outra no mundo. Faz
+agora<span class="pn">{25}</span> um anno que os cassacas do Porto andabon
+todos enbeiçados atraz da snr.ª morgadinha no arraial; e enton aquelle goberno
+que está em S. Thirso esse é que andava memo azoratado!</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(rindo)</em></h4>
+
+<p>Qual governo?!</p>
+
+<h4>A mesma</h4>
+
+<p>Aquelle que lhe chamon o das fazendas, ou non sei que deanho...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ah!.. <em>(suspirando)</em> Ja sei...</p>
+
+<h4>O do violão</h4>
+
+<p>Má rais o parton, que me mandou citar indas hontem!</p>
+
+<h4>O rabequista</h4>
+
+<p>Eu onde le poder ser bon heide medirle o costado de pá a pá cum
+fueiro...<span class="pn">{26}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ora não sejas bruto, José da Eira! Elle faz a sua obrigação; faz tu a tua
+que é pagar o que deves ao rei.</p>
+
+<h4>O mesmo</h4>
+
+<p>Ao rei! Bem me fio eu n'isso... Enton a fidalga pensa que o rei aveza uma de
+X do dinheiro que nós demos!! Pois non avezastes! Os governos de S. Thirso
+repartem uns c'os outros no fim do anno o dinheiro que don os lavradores.</p>
+
+<h4>O outro</h4>
+
+<p>É como diz.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Sois uns selvagens. Deixemo'-nos de tolices. Cantem lá alguma coisa vossês.
+</p>
+
+<h4>Uma das moças</h4>
+
+<p>Quer a <em>Marianinha</em>, fedalga?<span class="pn">{27}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Pois sim; cantem lá a <em>Marianinha</em>.</p>
+
+<h4>COPLAS<br>
+<em>(Tudo mulheres)</em></h4>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Ja fui canario do rei,<br>
+ Ja lhe fugi da gaiola.</blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, eu vou lá<br>
+   Ó Marianinha,<br>
+ Sim, sim, eu la vou<br>
+   Ó pequerruchinha.</blockquote>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Agora sou pintassilgo<br>
+ Destas meninas d'agora.<span class="pn">{28}</span></blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, eu vou la, etc.</blockquote>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Pintassilgo está no bosque,<br>
+ A andorinha no telhado.</blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, etc.</blockquote>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ So eu não sei onde estou,<br>
+ Quando não estou ao teu lado,</blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, etc.</blockquote>
+
+<h4><small>(VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ A andorinha quando chove<br>
+ Vai metter-se á escuridon<span class="pn">{29}</span></blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, etc.</blockquote>
+
+<h4><small>(VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ E eu quando o norte é rijo<br>
+ Metto-me ó teu coraçon.</blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, etc.</blockquote>
+
+<h4>Todos</h4>
+
+<p>Biba a snr.ª Morgadinha! Biba!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Então vossês vão já para a romaria?</p>
+
+<h4>Uma d'ellas</h4>
+
+<p>Aindas bamos buscar as cazeiras de Vossenhoria que estão á espera de nós, e
+ós pois voltemos por qui.<span class="pn">{30}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Pois vão, e voltem. <em>(Sahem cantando o S. João. A morgadinha fica
+pensativa e melancolica, encostando o rosto á mão, em quanto se ouve e se vai
+perdendo a toada da cantiga.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VI</h2>
+
+<h3>MORGADINHA <small>E</small> JOÃO LOPES</h3>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Como estes brutos são felizes!.. E eu sempre apoquentada por causa deste
+coração! Ai! eu antes de saber o que era amor tambem cantava... Lembras-te, ó
+João Lopes?</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Ora se lembro! E cantava que nem uma calhandra a fidalga!<span
+class="pn">{31}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Olha se te lembras, João! Eu ia ás espadeladas, ás descamizadas, ás malhas,
+brincava, saltava...</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Até dançava a cana verde, e a chula que era um gosto vêl-a!.. E quando a
+menina quiz que eu lhe ensinasse o jogar o páo...</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(com alegria)</em></h4>
+
+<p>É verdade...</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>E o caso é que vossellencia ahi com duas duzias de lições já me chegava com
+o páo.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se enthusiasmada)</em></h4>
+
+<p>E d'aquella vez que eu me vesti de rapaz, e puz fóra da eira do Manoel
+Tamanqueiro, com quatro partidas de páo, mais de seis mascarados que la andavam
+a beliscar as minhas cazeiras!<span class="pn">{32}</span> </p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Por signal que a menina deu uma tapona no Zé Torto, que ficou torto de
+todo... Ó fidalga, vossellencia hoje já não era capaz de romper ahi com um
+marmeleiro p'ra frente d'um homem qualquer!..</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Estás enganado... se me chegassem a mostarda ao nariz... Mas, ai!..
+<em>(Torna a sentar-se triste.)</em> A minha alegria foi-se desde que eu soube
+o que era amor!.. Olha lá, João... não o vis-te hoje? não viste o meu amado
+Frederico?</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Falle baixinho, menina. Olhe que o snr. morgado ainda ha todonada me esteve
+dizendo que desconfia que elle anda por aqui de noute. A fidalga acautele-o;
+que não vão os creados chegar-lhe ao forro da camiza...<span
+class="pn">{33}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se colerica)</em></h4>
+
+<p>Façam isso, que os esgano! Que lhe ponham um dedo, e verão quem é a morgada
+de Val-d'Amores!</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Não grite assim, que seu pai, se a ouve, quem as paga sou eu. A fallar a
+verdade, eu não desgosto do snr. Frederico; mas, em fim, esta aquella de ser
+escrivão, é ruim modo de vida para poder casar com a snr.ª morgadinha...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Isso que tem!? Todos somos eguaes; e o coração, quando ama, não quer saber
+de contos. Uma pessoa não está lá a averiguar se o objecto amado é fidalgo ou
+plebeu. Tem-se visto rainhas casarem com pastores, e reis casarem com pastoras.
+</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Cá no conselho de Santo Thirso não me consta, hade perdoar.<span
+class="pn">{34}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Mas lá por esse mundo fóra acontece isso a cada passo. Tu é por que não lês
+os livros das historias. Eu te lerei casos que aconteceram... E então que tinha
+que eu casasse com um escrivão?</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Em fim, em fim, o paisinho da fidalga foi capitão-mór, seu avô foi
+desembargador, e seu bisavô foi sargento mór de batalha no Roussilhon...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Vai dizendo até chegar a Adão e Eva, vai dizendo, e eu depois te direi de
+quem eu e mais tu somos netos.</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Isso assim é, não ha duvida; mas, diz lá o ditado, lé com lé, e cré com
+cré.<span class="pn">{35}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Não quero saber de ditados! <em>(com força)</em> Este amor só m'o hade
+arrancar do peito a morte!</p>
+
+<h4>João Lopes <em>(apontando para o brazão)</em></h4>
+
+<p>Fidalga, ponha os olhos nas armas reaes dos seus antepassados.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ora! não tenho mais que fazer... Cuidas que eu não sei que meu avô casou com
+uma creada? Mostra-me onde estão alli as armas da creada. Bem se importou elle
+das armas, nem do brezabu que as leve! É o que faltava... estar-me eu aqui a
+definhar p'ra'mor da pedra! As armas são de pedra, e eu sou de carne e osso,
+ouviste?</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>A fidalga responde a tudo, e não ha remedio senão callar-se um homem, que a
+trouxe<span class="pn">{36}</span> nos braços desde os trez annos, e sou capaz
+de me metter no inferno vestido e calçado por causa da minha menina.
+<em>(Sensibilisa-se.)</em> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Sei o que tenho em ti, meu João Lopes... Vais tu ahi ao cimo do pinhal a vêr
+se o vês pela estrada?.. Elle disse-me que havia de passar para a romaria ás
+seis da tarde. Se o encontrares, diz-lhe que meu pai se está a vestir para ir
+tambem, e que elle póde demorar-se a conversar comigo um bocadinho.</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Vou vêr se o avisto; mas, menina do meu coração, olhe que seu pai anda á
+espreita e traz espias... Nós temos grande desgraça pela porta...</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(energicamente)</em></h4>
+
+<p>Não morro de medo, já te disse. A mulher que ama não tem medo de nada!<span
+class="pn">{37}</span> </p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Seja assim; mas, se lhe quebram o espinhaço a elle! Coitado do homem, é tão
+delgadito que, se o apanha o vento d'um páo, elle vai a terra...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Quem lhe hade bater?! Cuidas que elle não anda armado? Que se attrevam
+sómente a ameaçal-o!..</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Cá vou, cá vou, não se desespere. <em>(Sáe.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VII</h2>
+
+<h3>MORGADINHA</h3>
+
+<h5><em>(Senta-se quebrantada e triste)</em></h5>
+
+<p>Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!..
+<em>(Musica de surdina)</em><span class="pn">{38}</span> Como eu gosto d'elle!
+Ha mais de dous annos que este meu coração padece! Não ha noite em que eu não
+sonhe duas vezes com a sua imagem... Quando acordo, e o não vejo, a minha
+vontade é chorar, chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio.
+Os cirurgiões mandam-me tomar aguas ferreas!.. e só eu sei o que tenho! O meu
+mal é aqui!.. <em>(a mão sobre o coração)</em> Oh céos! quanto eu sou
+desgraçada sem o meu Frederico! <em>(Ergue-se, e falla com muito sentimento.
+Musica plangente.)</em> Quando eu o vi, pela primeira vez, foi na hospedaria
+das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu rheumatico. Estávamos a
+jantar quando elle entrou, e meu pai offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle
+agradeceu, mas não comeu, dizendo que o seu jantar era um ôvo quente. E d'ahi a
+pouco, trouxeram-lhe um ôvo quente n'uma tigella; e elle comeu o ôvo, bebeu um
+copo d'água fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e
+pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai ouvir,
+se podia viver só com um ôvo, e elle respondeu que a sua alma se sustentava com
+a esperança de ser amado por mim... e<span class="pn">{39}</span> com tres óvos
+por dia. Oh! que lembranças estas, que lembranças estas! <em>(chora)</em> E vai
+depois, disse-lhe eu: «O snr. está assim magro porque come muito pouquinho; se
+gosta d'óvos coma uma duzia d'elles de cada vez»; e elle pregou-me os seus
+lindos olhos, e respondeu a suspirar: «Que me importa o corpo? a mim o que me
+importa é o coração que é grande; e, se o corpo é magro, mais depressa me
+reduzirei a cinzas se V. Ex.ª me desprezar.» Isto fez-me no peito mossa! fiquei
+presa d'este dito; senti por aqui acima uma fogueira que me pôz a cara em
+brazas vivas, e não lhe disse coisa de geito porque fiquei um pedaço intallada.
+Depois, ao despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe:
+«amo-vos, meu bem!» Ora aqui está como começou isto. Desde então para cá apenas
+lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho...
+Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, não vou longe. Elle tambem está
+no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de começar estes amores, eu pezava
+cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois aqui ha oito dias
+pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim não podemos<span
+class="pn">{40}</span> viver, nem eu nem elle. <em>(Com força, que a musica
+imita.)</em> É preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai
+quer, quer; senão quer, quero eu. Uma mulher não póde ser escrava da sua
+fidalguia. Antes quero ser esposa d'um escrivão, e viver contente, que ser a
+morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pôr na espinha... <em>(Ouve-se
+rumor de vozes fóra.)</em> É o meu papá!.. <em>(Senta-se.)</em> Vem-me empatar
+as vazas...</p>
+
+<h2>SCENA VIII</h2>
+
+<h3>PANTALEÃO, MACARIO, <small>E A</small> MORGADINHA</h3>
+
+<h5><em>(Macario é um sujeito de oculos e casaca de briche, já de annos, e ar
+circumspecto)</em></h5>
+
+<h4>Pantaleão <em>(áparte ao boticario)</em></h4>
+
+<p>Veja lá como lhe falla... Olhe que ella é finoria... <em>(á filha)</em> Cá
+me vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para não ficares
+sósinha. <em>(Sáe.)</em><span class="pn">{41}</span> </p>
+
+<h2>SCENA IX</h2>
+
+<h3>MACARIO <small>E A</small> MORGADINHA</h3>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Tenha V. Ex.ª muito boas tardes.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(enfastiada)</em></h4>
+
+<p>Viva, snr. Macario, as mesmas.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe mandei
+fez-lhe bem?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Não o puz: cheirava a pez.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>De pez de vergonha era; fui eu mesmo que<span class="pn">{42}</span> o
+manipulei... Então, a snr.ª morgadinha vae ao arraial?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Vou.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Faz muito bem; que lá hade encontrar pessoa que muito interessa a V. Ex.ª...
+enganei-me... pessoa que muito se interessa em vêr V. Ex.ª queria eu dizer.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Como é isso? não percebi.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimarães, onde estive com o snr.
+deputado Cosme Jordão, um sabio que tem votado grandes fallas no parlamento...
+Ha de ter ouvido fallar V. Ex.ª...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Não sei nada de parlamentos, não leio periodicos.<span
+class="pn">{43}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Pois, minha snr.ª, o doutor Cosme Jordão é um sujeito conhecido em todo o
+mundo, e lá na côrte até vae ao palacio do rei e come lá...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Deixal-o comer, que tenho eu com isso?</p>
+
+<h4>Macario <em>(áparte)</em></h4>
+
+<p>Não faço nada! está hoje levadinha dos diabos.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Vamos, diga lá, snr. Macario.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Pois este deputado vae hoje á romaria do S. João.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Deixal-o ir; que se divirta. Então é esse o homem que me quer vêr?<span
+class="pn">{44}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex.ª...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ainda bem; é signal que não é cego. E que mais?</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>E que ficou muito agradado de V. Ex.ª...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Pois tem máo gosto e perde o tempo. Que mais?</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>V. Ex.ª, se o vir, não hade fallar assim. É ainda homem de boa edade, cheio
+de corpo, com uns oculos que lhe dão muito respeito á cara.<span
+class="pn">{45}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ora! oculos de respeito! que me importa cá a mim os oculos do homem? sabe
+que mais, snr. Macario? <em>(Põem-se a bamboar uma perna sobre a outra, e a
+trautear o «Pretinho que vem d'Angola».)</em></p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Finalmente, snr.ª morgadinha, como V. Ex.ª quizer; mas lembre-se de que seu
+pae deve á fazenda nacional uns seis contos de réis, e que o snr. doutor Cosme,
+casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae não pague nada, e mesmo no
+futuro lhe não lancem impostos.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Não me seque, snr. Macario. Vocemecê queria que meu pae pagasse commigo ao
+tal Cosme o que deve á fazenda? Pois que pague com o que é d'elle, e que me
+deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias. Metta-se lá na sua
+botica e não se faça casamenteiro. Vá fazer charopes.<span
+class="pn">{46}</span> </p>
+
+<h4>Macario <em>(áparte retirando-se)</em></h4>
+
+<p>Apre com a cabra!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Que tal está o sacripanta!</p>
+
+<h2>SCENA X</h2>
+
+<h3>JOÃO LOPES, <small>ESPREITANDO A</small> MORGADINHA, <small>E
+DEPOIS</small> FREDERICO</h3>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Psiu, psiu.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(sobresaltada)</em></h4>
+
+<p>Viste-o?</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Elle ahi vem... Eu vou espreitar, e assim que eu tossir que fuja para a
+carvalheira.<span class="pn">{47}</span> </p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Anjo! milagre de bellesa, Joanna querida, não sentes n'estas mãos o vibrar
+da alma?</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(muito terna)</em></h4>
+
+<p>Como estás tu? passaste bem desd'hontem?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Pergunta ao lirio do valle o que lhe pende a fronte quando o orvalho do céo
+lhe não esfria os queimores do sol estivo.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Olha lá, Frederico, tenho a avisar-te, antes de mais nada, que é preciso
+andares prevenido...</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Temos sicarios? Ha aqui vampiros? A vindicta paterna tem sêde do meu sangue?
+Eis aqui o peito. Que m'o farpem, que m'o fendam, que<span
+class="pn">{48}</span> m'o alanceem, que m'o lancetem. Tudo por ti, tudo por
+ti, ó estrella, ó loira visão dos meus sonhos! <em>(Rumor fóra.)</em></p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Foge... esconde-te entre as arvores... <em>(Frederico sóme-se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA XI</h2>
+
+<h3>MORGADINHA, <small>OS DOIS</small> CAMPONIOS <small>QUE VÃO PASSANDO, E
+DEPOIS</small> FREDERICO</h3>
+
+<h5><em>(Um camponio tange flautim e outro viola. Duas moças á frente batendo
+palmas ao compasso do canto, e saltando)</em></h5>
+
+<h4>Um camponio <em>(cantando)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ <em>Muito bem seja apparecido</em><br>
+      <em>Seja apparecido</em><br>
+      <em>N'esta funcção.</em> (Batendo palmas)<span
+class="pn">{49}</span></blockquote>
+
+<h4>(CÔRO)</h4>
+
+<blockquote>
+ <em>Bate as palmas c'o seu pexinho</em><br>
+      <em>Co' seu pexinho</em><br>
+ <em>Co' seu pexão.</em> (Repete)</blockquote>
+
+<h5><em>(Assim que elles passam, a Morgadinha sáe do portão, e logo Frederico
+do escondrijo)</em></h5>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Mas dizias tu, pomba?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem
+armado.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Armado! para quê? Tu não sabes que o teu amor é talisman que prostra
+gigantes! As minhas armas são os raios de fogo que bebo de teus olhos; tenho
+vesuvios na alma capazes de abrazar cidades!<span class="pn">{50}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Isto não é chalaça, meu amado Frederico! Peço-te que tenhas cuidado, muito
+cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, não temeria ninguem... Tu
+verias o que é a morgada de Val-d'Amores... Mas eu não sei como isto hade
+ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo...</p>
+
+<h4>Frederico <em>(interrompendo-a com exaltação)</em></h4>
+
+<p>Fidalgo! que é fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que é fidalgo? a sola
+velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! então é certo que teu pae
+ignora, que o baptismo de sangue da revolução franceza lavou todas as manchas
+da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revolução! o segundo christianismo!
+Que é fidalgo? teu pae não sabe que aquelle brasão d'armas <em>(apontando)</em>
+está alli como a pedra sepulcral das cinzas feudaes! Teu pae está debaixo do
+sol e não sente o calor da fermentação social! Ouve o estrondear da democracia
+reinante, e volta a face para os phantasmas<span class="pn">{51}</span> dos
+avoengos que se somem lá em baixo no abysmo da historia!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Não sei lá d'essas historias; o que te peço é que não te exponhas a levar
+alguma paulada á falsa fé. Olha que os meus creados são uns patifes, e meu pae
+não é boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se hade fazer, porque elle não
+nos dá consentimento para nos casarmos.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Heide movêl-o com a eloquencia d'um homem aquecido no sol moderno. Heide
+convencêl-o, enchendo-lhe o espirito de luz e o coração de ideias novas.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Não te mettas n'essa asneira, que não fazes nada. <em>(Tem-se já ouvido
+toada de musica da chula, e depois a tosse rija de João Lopes. Frederico
+some-se sem ser preciso mandal-o. A morgadinha fica.)</em><span
+class="pn">{52}</span> </p>
+
+<h2>SCENA XII</h2>
+
+<h3>MORGADINHA</h3>
+
+<h5><em>(Chega uma chulata que vae de passagem para a Romaria. Bando de
+raparigas que precedem, bailando; tocadores de rebeca, viola, clarinete,
+ferrinhos e requinta. A esturdia pára defronte da morgadinha, e continúa
+dançando cada rapariga com o seu parceiro.)</em></h5>
+
+<h4>COPLAS DE DESAFIO</h4>
+
+<h5><em>(Em quanto o cantador deita a cantiga, tange sómente a viola. Entre os
+dois primeiros versos e os dois ultimos de cada quadra ha um espaço que dá
+logar a que toquem por alguns segundos todos os instrumentos.)</em></h5>
+
+<h4>Cantador</h4>
+
+<blockquote>
+ Agora que eu vou passando,<br>
+ Faço aqui minha parada;<br>
+ Para saber da saude<br>
+ Da incelentissima morgada.</blockquote>
+
+<h4>Cantadeira</h4>
+
+<blockquote>
+ Da incelentissima morgada<br>
+ Tambem eu quero saber,<span class="pn">{53}</span> <br>
+ Que mais linda creatura<br>
+ Não na póde o mundo ter.</blockquote>
+
+<h4>Cantador</h4>
+
+<blockquote>
+ Não na póde o mundo ter<br>
+ Nem terá até ao fim;<br>
+ Os seus olhos são d'amóras,<br>
+ Os seus dentes de marfim.</blockquote>
+
+<h4>Cantadeira</h4>
+
+<blockquote>
+ Se tem dentes de marfim,<br>
+ O seu rosto é uma roza;<br>
+ E viva sua incelencia<br>
+ Que não na ha mais fermosa.</blockquote>
+
+<h4>Cantador</h4>
+
+<blockquote>
+ Quero dar a despedida<br>
+ Á senhora Morgadinha;<br>
+ Que não ha por estas terras<br>
+ Mais bonita fidalguinha.<span class="pn">{54}</span></blockquote>
+
+<h4>Cantadeira</h4>
+
+<blockquote>
+ Eu tamem vou espedir-me,<br>
+ Despedida quero dar;<br>
+ Adeus, senhora morgada,<br>
+ Sirva-se de perdoar.</blockquote>
+
+<h5><em>(A morgadinha agradece-lhes com um aceno de lenço. O bando sáe tocando
+e dançando. Assim que o descante se ouve froixamente, volta
+Frederico.)</em></h5>
+
+<h2>SCENA XIII</h2>
+
+<h3>MORGADINHA <small>E</small> FREDERICO</h3>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Tenho odio a estes selvagens que me roubaram horas de vida! Quando sahirão
+os lôrpas da face da terra?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>É verdade, Frederico! Trouxeste-me os figurinos?<span class="pn">{55}</span>
+</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Eil-os chegados hoje de Lisboa.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(examinando-os)</em></h4>
+
+<p>Ai! que demonio de mulheres! Pois ellas trazem estes vestidos assim
+incozipados nas pernas!?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Oh! isto é a elegancia circassiana! é a fórma na sua diafeneidade sublime;
+ha aqui a poesia do fino, a mulher parece toda nervosa, é o lyrismo da
+plastica...</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(rindo)</em></h4>
+
+<p>Se eu te percebo, cebo! Boa cataplasma me parece este molho de clinas e
+sacarrolhas que ellas tem na cabeça.<span class="pn">{56}</span> </p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Nâo blasfemes! Ó Joanninha, veste-te assim; realça, sobredoura a tua bellesa
+com estes adornos que angelisam a mulher de compleição robusta, e transformam a
+mimosa em cousa ideal vestida de vapores. A mulher assim involta em roupagens
+etherias é um madrigal de setim que cahiu das lyras dos anjos.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Pois sim, faço-te a vontade. Vou mandar comprar no Porto esta trapalhice
+toda...</p>
+
+<h2>SCENA XIV</h2>
+
+<h3>OS MESMOS <small>E</small> PANTALEÃO</h3>
+
+<h5><em>(Abre-se o portão repentinamente e apparece subito Pantaleão. Frederico
+ainda faz um impeto de fuga, mas contem-se, e corteja mui urbanamente o
+fidalgo.)</em></h5>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Passava para a romaria, e, como visse S. Ex.ª <em>(indicando a
+morgadinha)</em> vim depor a seus<span class="pn">{57}</span> pés os meus
+respeitosos cumprimentos, e informar-me da saude de V. Ex.ª</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Estou bom, muito obrigado. Onde está o João Lopes?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Foi aparelhar a burra.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Vae tu preparar-te que são horas.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Quer vêr como agora são as modas, papá? olhe. O snr. Frederico vae levar
+estes figurinos ás nossas primas de Ruivães.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Pois faz-me o snr. muito favor se me cá não trouxer bonecos a casa. Nós cá
+não somos de modas.<span class="pn">{58}</span> </p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Direi a V. Ex.ª, snr. morgado, que as modas tem certa relação com o espirito
+das gerações e das épocas. Agora que o entendimento humano se adelgaça, o
+involucro material tambem se subtiliza nas raças finas...</p>
+
+<h4>Pantaleão <em>(medindo-o d'alto a baixo com ironia)</em></h4>
+
+<p>Bem se vê que o snr. escrivão é d'uma raça muito fina... pelo muito
+adelgaçado que está...</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Não me jacto de prosapia heraldica; mas, na jerarchia dos espiritos,
+preso-me de pertencer ao bando mais illuminado. Respeito muito o brasão; mas
+curvo-me diante da aristocracia do genio e do talento.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Sim, o snr. tem muito talento, bem sei... Já te disse, Joanna, que te vás
+arranjar.<span class="pn">{59}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Adeus, snr. Frederico, muito obrigada. <em>(Sáe.)</em></p>
+
+<h2>SCENA XV</h2>
+
+<h3>PANTALEÃO <small>E</small> FREDERICO</h3>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Creado de V. Ex.ª <em>(Váe a sahir; mas Pantaleão detem-o.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Faça favôr.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Escuto as suas ordens.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>O snr. anda muito mal encaminhado. Minha filha é a morgada de Val-d'Amores;
+o snr.<span class="pn">{60}</span> é o escrivão de fazenda de Santo Thirso.
+Estão um do outro tão longe como aquella pedra d'armas do rebôlo d'um
+sapateiro, entendeu?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Entendi, que V. Exc.ª tem um estylo bastante chato. Entendi, posto que V.
+Exc.ª falle uma lingoagem assás gothica em pleno seculo XIX.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Pois se entendeu, tire o seu atrevido pensamento de minha filha, e procure a
+fórma do seu pé. Não me obrigue a usar dos usos e costumes dos meus avós. Quer
+que lh'os diga?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Heroismos dos seus ascendentes? Essas Odissêas da aldêa são hoje
+impraticaveis. Eu sei em que tempos vivemos, snr. morgado.<span
+class="pn">{61}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Sabe? pois olhe que não sabe em que terra vive. O snr. veio lá de Lisboa
+onde qualquer bigorrilhas, que põe gravata, entende que é egual a todo o homem
+que põe gravata; o que o bigorrilhas não quer é sêr egual a todo o homem que
+não tem gravata.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Ahi ha certa sublimidade de idêa, de que lhe dou os parabéns. V. Exc.ª ia
+quasi escrevendo d'um traço a historia philosophica da democracia moderna.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Eu não escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo é que isto cá nas
+montanhas é outra cousa. Os morgados são morgados; os escrivães são escrivães;
+e os sapateiros são sapateiros. Ora, quando acontece alguem querer sahir da sua
+classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as costellas. O snr. sabia
+isto?<span class="pn">{62}</span> </p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Eu não sabia que estava na Cafrária. Cuidei que este concelho era um retalho
+do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fóco radiara uma flecha de
+luz até ao coração de V. Ex.ª que me parece ser uma pessoa de bons costumes, e
+não um esquimó. Cuidei finalmente que o Evangelho e a Carta constitucional
+livellavam a dignidade humana... <em>(Ouve-se o cantar das raparigas que se
+avisinha.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleão Cogominho de Encerrabódes, décimo oitavo
+senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com minha filha hade
+poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor d'esta casa. Tenho dito, e
+acabou-se o cavaco. Saude e juizo. <em>(Volta-lhe as costas. Frederico bambôa a
+cabeça altivamente e retira-se.)</em><span class="pn">{63}</span> </p>
+
+<h2>SCENA XVI</h2>
+
+<h3>MORGADINHA, PANTALEÃO, <small>E O BANDO DAS MOÇAS E TOCADORES QUE
+APARECERAM NA TERCEIRA SCENA</small></h3>
+
+<h5><em>(A Morgadinha sáe sentada sobre a jumenta. Vem vestida de Amazôna. João
+Lopes de farda azul com vivos vermelhos, bota de orelha e prateleira, colete
+encarnado, e chapéo embreado, tudo á antiga e grutesco, vem trazendo a burra
+pela rédea. As raparigas estão cantando as seguintes)</em>:</h5>
+
+<h4>COPLAS</h4>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Dondes vens ó velha?<br>
+ Eu venho da feira.</blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Que trazes na cesta?<br>
+       Crá, crá, crá,<br>
+ Sardinha vareira,<br>
+       Cri, cri, cri,<br>
+ Por a retangueira;<br>
+       Cró, cró, cró,<br>
+ Se o galo cantou.<span class="pn">{64}</span></blockquote>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Se o galo cantou<br>
+ Deixal-o cantar.</blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Minha rica prenda<br>
+       Crá, crá, crá,<br>
+ Lá da beira mar<br>
+       Cri, cri, cri,<br>
+ Pela retangueira,<br>
+       Cró, cró, cró,<br>
+ Se o galo cantou.</blockquote>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ D'onde vens ó velha?<br>
+ Eu venho d'alli.</blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Que trazes na cesta?<br>
+       Crá, crá, crá,<span class="pn">{65}</span> <br>
+ Que te importa a ti,<br>
+       Cri, cri, cri,<br>
+ Pela retangueira,<br>
+       Cró, cró, cró,<br>
+ Se o galo cantou.</blockquote>
+
+<h5><em>(Continúa o canto ao descer do panno.)</em></h5>
+
+<p><span class="pn">{67}</span> </p>
+
+<h4>FIM DO PRIMEIRO ACTO. </h4>
+
+<h1>ACTO SEGUNDO</h1>
+
+
+<h5>Vista de arraial. É noute. Festões de lampadas de papel variegado pendem
+dos ramalhos das arvores. Mulheres a frigir, ao lado das pipas cobertas de
+ramos de folhagem. Barracas com botequins. Multidão de povo a beber á volta das
+pipas. Sinos repicando, e estouros de foguetes. D'ambos os lados da scena, mas
+fóra, se canta o «S. João» com vozes alternadas. Frederico passeia por entre o
+povo, mirando as raparigas. Os dois já conhecidos creados de Pantaleão, com as
+pernas encruzadas nos varapáos, medem d'alto a baixo Frederico, e rompem a
+jogal-os um com outro. Frederico, por uma das suas evoluções maravilhosas de
+rapidez, desapparece. O povo ri-se, e elle reapparece logo, seguido por trez
+cabos armados. Os cabos usam bonet com debrum azul. Cessam as cantilenas, e
+rompe a banda musical de Santo Thyrso, estrondosa em trompões, a qual entra em
+scena tocando uma marcha. Os musicos uniformes, de calça branca, casaco azul
+com vivos amarellos, o bonet avivado da mesma côr. As figuras podem
+caracterisar-se caprichosamente. Em seguida, entra a Morgadinha, com o pae,
+Macario, Cosme Giraldes, e João Lopes. Cosme Giraldes é um sugeito gordo,
+aspeito serio, com os seus oculos, um todo de summa gravidade. Os circumstantes
+cedem o logar aos recem-chegados, que formam grupos. </h5>
+
+<p><span class="pn">{68}</span> </p>
+
+<h2>SCENA I</h2>
+
+<h3>TODOS <small>OS</small> DESCRIPTOS <small>(GRUPO DA MORGADINHA E COSME
+GIRALDES)</small></h3>
+
+<h4>Cosme <em>(com gesto de orador e com grandes pausas, á Morgadinha)</em></h4>
+
+<p>A festa animou-se com a auspiciosa chegada de V. Ex.ª O sol do empyreo e uma
+senhora bella, que é o sol dos corações sensiveis, onde brilham, tudo reanimam.
+Assaz ditoso me julgo em ser o mais feliz dos mortaes que se sentem
+influenciados e enthusiasmados pelos lumes encantadores de V. Ex.ª Falta,
+todavia, á minha completa dita a certeza de que os meus affectuosos requebros
+acham graça nos seus olhos.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(com desdem)</em></h4>
+
+<p>Eu não lhe acho graça nenhuma.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Como assim, divina ingrata?<span class="pn">{69}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Já disse ao boticario o que tinha a dizer.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Pois o seu coração...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Está dado. Eu cá sou franca. Não perca tempo.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Não ha duvida que ouvi dizer que V. Ex.ª, victima d'uma allucinação,
+aceitava a côrte d'um esgrouvinhado arcaboiço que exerce as ladras funcções de
+escrivão da fazenda! Heide eu, ó céos! accreditar que...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Sim, snr., acredite, e faça favor de me não incommodar que eu vim á romaria
+para me divertir. <em>(Volta-lhe as costas.)</em> Ó papá, quando se<span
+class="pn">{70}</span> faz o Auto do Natal? <em>(Ouve-se a musica tocando uma
+marcha.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>É já. Mandei vir as figuras para aqui. Vae começar. Ó amigos, desempachem o
+terreiro que chêga o espectaculo. <em>(O povo retira e apinha-se entre
+scenas.)</em></p>
+
+<h2>SCENA II</h2>
+
+<h3>OS MESMOS, <small>E AS FIGURAS ABAIXO DESCRIPTAS EM LOGAR
+COMPETENTE</small></h3>
+
+<h5><em>(A musica entra a passo muito cadenciado com grandes pernadas. Chegada
+á bocca do palco, alinha a um lado para dar o passo aos dois primeiros
+personagens do auto):</em></h5>
+
+<h3>Scena I do Auto</h3>
+
+<h3>ADONIS <small>E</small> MANASSÉS</h3>
+
+<h5><em>(Adonis traja de principe de carnaval; Manassés veste de propheta de
+procissão; mas toda a fatiota é muito usada e desbotada. Adonis traz um
+cavaquinho.)</em></h5>
+
+<h4>Adonis <em>(com declamação muito boçal)</em></h4>
+
+<p>Canta, Manassés, que eu te acompanho; para isso com esta harpa vanho.<span
+class="pn">{71}</span> </p>
+
+<h4>Manassés <em>(canta com ar inspirado, gesticulando estupidamente)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ O céo estrellado,<br>
+ Sereno e propicio,<br>
+ Será pois indicio<br>
+ Do sol desejado.</blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO DE PASTORES)</small></h4>
+
+<h5><em>(Vozes femininas dentro)</em></h5>
+
+<blockquote>
+ Quem o habitará?<br>
+ Quem o gozará?</blockquote>
+
+<h4>Manassés <em>(cantando)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Vêde a paz serena d'esta noute;<br>
+ Nascerá a estrella de Jacó?<br>
+ O gado socegado adivinha;<br>
+ Não se bole no ninho a avesinha.</blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Quem o habitará?<br>
+ Quem o gozará?<span class="pn">{72}</span></blockquote>
+
+<h4>Adonis <em>(declamando, e passeando com grandes passos)</em></h4>
+
+<p>Oh! que terno, caro Manassés, cantastes! O conceito da tua cançoneta amorosa
+me traz dôces lembranças. Ainda em nossos dias, veremos realisadas as
+porfecias? Não caibo na pelle de estifeito; da-me pancadas o coração n'este
+peito! <em>(Frederico despede um impulso de riso. Espantam-se os
+cicumstantes.)</em></p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>O senhor está a mangar d'estes actos sérios?!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Pois isto é sério! então não ha nada ridiculo n'este mundo senão o snr.
+boticario.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>O senhor é muito mal criado, é um incivil, é... é... um escrivão!<span
+class="pn">{73}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Snr. Macario, não esteja a interromper o auto. Deixe lá rir quem quer rir;
+chore vocemessê, se tem vontade.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Continuem lá vocês co'isso.</p>
+
+<h2>Scena II do Auto</h2>
+
+<h3>VOZ <small>D'UMA</small> PASTORA, <small>CANTANDO DENTRO</small></h3>
+
+<blockquote>
+ Ó Deus do céo, e da terra,<br>
+ Ó vós que podeis tanto,<br>
+ Ouvide nossos clamores<br>
+ Sêde propicio, ó Deus sancto!</blockquote>
+
+<h4><small>CÔRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4>
+
+<p>Do povo amado,<br>
+Mandae o desejado.</p>
+
+<p><span class="pn">{74}</span> </p>
+
+<h5><em>(Os que estão no palco fazem scenas mudas de ternura muito
+lorpas.)</em> </h5>
+
+<h4>Manassés</h4>
+
+<p>Escuta! Não foi Ruiva, a pastora que cantou?</p>
+
+<h4>Adonis</h4>
+
+<p>Foi. E os pastores tambem, que nenhum dorme.</p>
+
+<h2>Scena III do Auto</h2>
+
+<h3>O VELHO SIMEÃO <small>E</small> RUIVA</h3>
+
+<h5><em>(O velho vestido de pelles de carneiro. Ruiva de pastorinha, com um
+cordeiro branco nos braços)</em></h5>
+
+<h4>Simeão <em>(com os olhos no firmamento)</em></h4>
+
+<p>Incelso, interno rei sobrano, que sobre os crebins tens assento, oubide os
+nossos lamentos.</p>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Do povo amado,<br>
+ Mandae o desejado.<span class="pn">{75}</span></blockquote>
+
+<h4>Manassés</h4>
+
+<p>Agora creio no mysterio occulto d'esta noite. Rebella que todos os pastores
+tem um só pensamento.</p>
+
+<h4>Simeão</h4>
+
+<p>Vinde pastores aqui todos; n'este campo contemplaremos o silencio da noute,
+que o auctor d'altos mysterios annuncia.</p>
+
+<h4>Frederico <em>(escancarando a bocca)</em></h4>
+
+<p>Que semsaboria!</p>
+
+<h4>Macario e Cosme</h4>
+
+<p>Sio! <em>(prolongado.)</em></p>
+
+<h2>Scena IV do Auto</h2>
+
+<h3>ENTRAM PASTORINHOS <small>E</small> PASTORINHAS</h3>
+
+<h4>Ruiva <em>(declamando)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Aqui vimos, meus senhores,<br>
+ Adorar nós o menino:<span class="pn">{76}</span> <br>
+ No seu sancto nascimento<br>
+ Com grande contentamento.</blockquote>
+
+<h4><small>(CÔRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Se o menino é nascido,<br>
+ Nós o bamos précurar;<br>
+ Aparcei, senhor menino,<br>
+ Que vos queremos adorar.</blockquote>
+
+<h5><em>(Sáem por diversos lados.)</em></h5>
+
+<h2>Scena V do Auto</h2>
+
+<h3>UM REI TURCO <small>E DEPOIS OUTROS FIGURÕES</small></h3>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<h5><em>(Com uma cara horripilante, e trejeitos assustadores)</em></h5>
+
+<blockquote>
+ Sou o turco rei, que é<br>
+ Valoroso na arrogancia;<br>
+ Por ser filho da fortuna<br>
+ E neto da extravagancia!</blockquote>
+
+<p><span class="pn">{77}</span> </p>
+
+<h5><em>(Corre brandindo a espada d'um lado a outro.)</em> </h5>
+
+<blockquote>
+ De moiriscos reis nasci,<br>
+ Sou seu filho alentado,<br>
+ O meu braço furibundo<br>
+ Deixa tudo escangalhado.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Co'esta espada sou capaz<br>
+ De entrar pelo inferno dentro<br>
+ E pôr tudo em mil pedaços<br>
+ Que eu sou um rei sanguenolento!</blockquote>
+
+<h5><em>(Risada de Frederico.)</em></h5>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Já é pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar em
+tão solemne passo!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Solemne passo, diz o nobre deputado! chamar <em>solemne passo</em> á
+prostituição da arte!</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>O snr. é que é uma prostituição! Bem disse<span class="pn">{78}</span> aqui
+S. Ex.ª que o senhor é um atheu! um impio que zomba dos mysterios
+dogmaticos!</p>
+
+<h4>Vozes <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p>Quebra-se-lhe a cabeça!&mdash;Bordoada rija!&mdash;Vamos a elle!</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se colerica)</em></h4>
+
+<p>Essa canalha que se calle! Ó João Lopes, onde está o regedor?</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Saberá V. Ex.ª que o regedor tomou tamanha turca que está a cozel-a no
+palheiro d'um lavrador.</p>
+
+<h4>Cosme <em>(com enfaze)</em></h4>
+
+<p>Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem social.
+A auctoridade que dá o exemplo da relaxação dos costumes não póde educar as
+massas. É necessario que não se desvirtue e desprestigie o funccionalismo,<span
+class="pn">{79}</span> com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos
+chegados á desmoralisação do Baixo-Imperio!</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Apoiado!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Então os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto?</p>
+
+<h4>Pantaleão <em>(ao Rei turco)</em></h4>
+
+<p>Ó Zé da Custodia, diz lá o que tinhas a dizer.</p>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<p>Se isto não leva rumor, acaba-se a pandega!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Magnificamente! Está a coisa definida: isto é uma pandega, e querem os
+moralões que a gente se desfaça em lagrimas! Faça favor de continuar, snr. rei
+turco, que eu estou sério, e talvez chore.<span class="pn">{80}</span> </p>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<p>Agora não sou eu que boto a falla, é o outro rei. Entra, ó Manel Zarôlho!
+<em>(Chamando para dentro.)</em> O Manel Zarolho é o rei christão.
+<em>(Explicando.)</em></p>
+
+<h2>Scena VI do Auto</h2>
+
+<h5><em>(Entra um Rei christão com muitos pastores e pastoras)</em></h5>
+
+<h4>Rei christão</h4>
+
+<blockquote>
+ Eu trago os meus companheiros<br>
+ Fieis á minha nação,<br>
+ Para te convencer, ó turco,<br>
+ E para te fazer christão.</blockquote>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<blockquote>
+ Para onde ides, romanos,<br>
+ Que tão alegres vos vejo?</blockquote>
+
+<h4>Rei christão</h4>
+
+<blockquote>
+ Festejar o menino nado<br>
+ Que é todo o nosso desejo<span class="pn">{81}</span></blockquote>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<blockquote>
+ Que é do passaporte?</blockquote>
+
+<h4>Rei christão</h4>
+
+<blockquote>
+ Passaporte não trazemos,<br>
+ Se nos não deixas passar<br>
+ Para traz nós tornaremos.</blockquote>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<blockquote>
+ Para traz não heisde tornar;<br>
+ Que eu vou buscar algemas,<br>
+ Que vos quero algemar.</blockquote>
+
+<h4>Pastores e pastoras <em>(cantando)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Milagroso Deus menino,<br>
+ Esta obra vossa é;<br>
+ Ajudai-o a vencer<br>
+ O turco inimigo da fé.<span class="pn">{82}</span></blockquote>
+
+<h4>Rei christão</h4>
+
+<blockquote>
+ Saca lá da tua espada!</blockquote>
+
+<h4>Rei turco <em>(arrancando para elle)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Ó cão, que sova tu levas!</blockquote>
+
+<h2>Scena VII do Auto</h2>
+
+<h3>OS MESMOS <small>E UM</small> ANJO, <small>QUE SE METTE EM MEIO DOS DOIS
+REIS</small></h3>
+
+<h4><em>Canta:</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Detem-te, barbaro turco!<br>
+ Cessa a tua infeliz sorte;<br>
+ Faz-te christão, que não tarda<br>
+ Que te apanhe a feia morte.</blockquote>
+
+<h4><small>CÔRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Faz-te christão que não tarda<br>
+ Que te apanhe a feia morte.<span class="pn">{83}</span></blockquote>
+
+<h4>Rei turco <em>(declama)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Eu sou o rei Almeirante<br>
+ La do reino da Turquia;<br>
+ Nunca fui prezoneiro,<br>
+ So do rei da Lixandria!</blockquote>
+
+<h4>O Anjo <em>(canta)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Detem-te barbaro turco, etc.</blockquote>
+
+<h4><small>CÔRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Faz-te christão que não tarda<br>
+ Que te apanhe a feia morte.</blockquote>
+
+<h4>Rei turco <em>(afflicto)</em></h4>
+
+<p>Que é isto? que sinto? que tenho eu aqui? <em>(Com a mão sobre o
+estomago)</em> Que tenho eu aqui?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Hade ser vinho. <em>(A Morgadinha ri-se ás escancaras.)</em><span
+class="pn">{84}</span> </p>
+
+<h4>Macario <em>(sobremodo indignado)</em></h4>
+
+<p>Não ha noticia de tamanho escandalo!.. 0 snr. escrivão está mostrando que é
+um homem de sentimentos muito herejes!..</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>E eu assaz me espanto que a snr.ª morgadinha applauda com a sua hilaridade
+estas interrupções indecentes!</p>
+
+<h4>Rei turco <em>(zangado)</em></h4>
+
+<p>Eu cá é que não estou p'ra chalaças!.. Passem por cá muito bem. Por aqui me
+esgueiro. Ó rapasiada, vamos embora. Manda tocar a marcha ó Antonho da Pêga.
+<em>(Sáe com os personagens do auto, atraz da Musica, que vae tocando a
+marcha.)</em><span class="pn">{85}</span> </p>
+
+<h2>SCENA III</h2>
+
+<h3>OS MESMOS, <small>EXCEPTO OS PERSONAGENS DO AUTO</small></h3>
+
+<h5><em>(Grande movimento e rapido. Macario gesticula com Jordão, e Pantaleão
+com a filha. Alguns camponios de varapáo fazem cêrco a Frederico. A morgadinha
+passa por meio d'elles, bamboando a cabeça e vibrando o chicotinho. Frederico
+passeia com os cabos. Os camponios retiram-se, relançando olhos ameaçadores ao
+escrivão.)</em></h5>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Isto já me aborrece, papá...</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Vamos embora, menina?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Por em quanto não: quero vêr o fôgo prezo; mas vou descançar um pouquinho a
+casa dos cazeiros.<span class="pn">{86}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Vae, que eu vou buscar-te assim que principiar o fogo.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ó João Lopes, vem comigo. <em>(Sáem. Frederico retira-se pelo outro lado com
+os cabos.)</em></p>
+
+<h2>SCENA IV</h2>
+
+<h3>MACARIO, COSME <small>E</small> PANTALEÃO</h3>
+
+<h5><em>(Formam um grupo á parte, do povo que gira no fundo)</em></h5>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Ó snr. morgado, pois V. Ex.ª deixa fugir esta occasião de fazer quebrar o
+espinhaço ao morôto?<span class="pn">{87}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>A occasião boa é; mas é que eu não quero que minha filha assista, por que
+ella é capaz de se metter no meio da desordem.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Pelo que observo, esta sua filha é uma heroina grega ou romana, snr.
+morgado! Ella faz lembrar a Pantasilea do Virgilio, e outras façanhudas
+mulheres da historia antiga! Nos tempos presentes, sou a dizer a V. Ex.ª que a
+mulher quer-se fragil, meiga e timorata; e por tanto permitta que eu censure a
+educação que deu a sua filha!</p>
+
+<h4>Pantaleão <em>(docil)</em></h4>
+
+<p>Que quer V. Ex.ª? É filha unica, ficou sem mãe muito cedo, e foi creada á
+laia de rapaz, a trepar ás arvores, a atirar aos passaros, e a jogar o páo; em
+fim, confesso que andei mal avisado. Eu então achava-lhe muita graça; hoje não
+lhe acho nenhuma; mas já não posso emendar<span class="pn">{88}</span> a mão. É
+tarde; minha filha tem vinte e seis annos; hade ser difficil corrigir-se, só se
+o casamento fizer a mudança, e espero que faça.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Se o casamento fizer a mudança! Ora essa! Pobre marido que não tem os
+focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu cá por mim, snr. morgado, confesso
+que tive certos intentos matrimoniaes com ella; á vista, porém, das suas
+informações, declaro que desisto e renuncio, por que me não sinto com forças e
+habilidade para domesticar uma cobra-cascavel...</p>
+
+<h4>Pantaleão <em>(formalisado)</em></h4>
+
+<p>Não consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha!</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Isto é uma comparação rethorica, litterariamente fallando.<span
+class="pn">{89}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>É rethorica... não se offenda V. Ex.ª;... talvez ignore que a rethorica é
+uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis...</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Não quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleão Cogominho de
+Encerrabodes seja respeitada! <em>(Volta as costas, e sáe bufando.)</em></p>
+
+<h2>SCENA V</h2>
+
+<h3>COSME <small>E</small> MACARIO</h3>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Isto é uma familia de hotentotes! Cheiram ao sertão estes selvagens! Do que
+eu me escapei! Se caio nas mãos d'estes dois barbaros da edade media! Parece-me
+uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemecê, snr. Macario, a<span
+class="pn">{90}</span> dizer-me que esta fidalga tinha uma educação fina!</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p><em>Fina</em>, não disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe
+que ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differença, phisicamente
+fallando.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Perdão. Vocemecê disse-me que ella tivera fina educação.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Isso então foi rethorica...</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Eu não admitto rethoricas em objecto tão sério como é o casamento! Olhem que
+educação fina a d'este anjo! Trepa ás arvores, atira aos passaros, e joga o
+páo! Que predicados estes tão mimosos para augmentarem as graças virginaes
+d'uma menina! Não lhe falta senão vestir-se<span class="pn">{91}</span> de
+homem, que é agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas.
+Uma menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canhão, e rompe com elles
+por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de amores que nem
+açafétida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma muito candida e muito
+pura dentro do peito que se albarda com um paletó de homem para arrotar
+francamente umas phrases de bomba real que nos fazem comichões nos miolos e
+arrepios na espinha! Arreda! olha o que me estava reservado para os quarenta e
+seis annos! Uma mulher assim paralisava-me as funcções do intellecto, e lá se
+me iam as minhas ovações parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz,
+devo-me á regeneração da minha patria, sou homem publico; e um homem publico
+quando se casa deve fazel-o com dama que o não impeça nem apoquente. A femea
+natural do homem politico é a politica; a esposa, para os homens devotados aos
+interesses materiaes do seu circulo, significa tão sómente um supplemento vivo
+e util ás commodidades domesticas. Percebe vocemecê, snr. Macario?<span
+class="pn">{92}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Ora se percebo! A minha mulher cá para mim tambem é um supplemento ha muitos
+annos; e mais eu faço-a trabalhar na politica enchendo os bilhetes de votos na
+eleição. Diz V. Ex.ª muito bem, que nós os homens publicos não temos tempo para
+cuidar de mulheres... <em>(Reparando em Frederico)</em> Ahi vem o atheu...</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Vou-me safando que não quero palestras com este safio. <em>(Sáe.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VI</h2>
+
+<h3>MACARIO <small>E</small> FREDERICO</h3>
+
+<h4>Frederico <em>(encarando o outro com a costumada careta)</em> </h4>
+
+<p>O douto pharmacopóla está irado contra mim por que fui causa a
+interromper-se o escandalo do auto...<span class="pn">{93}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Eu não me metto com o senhor... Tenha a bondade de não embarrar cá por mim.
+</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>A sciencia é sempre orgulhosa. Façamos pazes e alliança, snr. Macario
+Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a sua
+sciencia do bazalicão e do oleo de mamona, podemos dominar este concelho,
+reunidas as duas forças n'uma aspiração unica. Por que me faz guerra inexoravel
+e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu consorcio com a Morgadinha?
+Por que anda o snr. servindo de alcaiote d'este alarve de Guimarães, que é o
+trompão grandioso das maiores asneiras civicas assopradas na charanga
+parlamentar? O officio do snr. Macario, n'este negocio, desacredita um
+pharmaceutico, que reune ao conhecimento do gamão, sciencia não vulgar da
+historia dos doze Pares de França, e tem orvalhado com lagrimas os fastos
+sanguinosos de <em>Roncesvalhes</em>.<span class="pn">{94}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Vá mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem é
+Macario Mendes... <em>(Sáe.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VII</h2>
+
+<h3>FREDERICO, JOÃO LOPES, <small>E CABOS</small></h3>
+
+<h5><em>(As cantadeiras que no fim do 1.º acto acompanharam a morgada entram a
+cantar a moda com que se fechou o dito acto:)</em></h5>
+
+<blockquote>
+ <em>D'onde vens, ó velha,</em><br>
+ <em>Eu venho da feira</em>, etc.</blockquote>
+
+<h5><em>(N'um intervalo da 1.ª á 2.ª trova João Lopes acerca-se de Frederico
+com disfarce)</em></h5>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Estão-se a
+preparar os valentões.<span class="pn">{95}</span> <em>(Frederico apita rijo.
+Apparecem de differentes sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em
+quanto se repete a cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fóra o rumor da
+desordem, e o estalido dos varapáos. As cantadeiras fogem alvoroçadas a dar
+gritos.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VIII</h2>
+
+<h3>FREDERICO, <small>CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS</small></h3>
+
+<h4>Frederico <em>(com intimativa bellica)</em></h4>
+
+<p>Formem em linha. Carregar armas!</p>
+
+<h4>Um cabo</h4>
+
+<p>Estão carregadas.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Vamos ser atacados pelos desordeiros. Á voz de fogo, atirem. <em>(Vê-se
+atravessar a scena por<span class="pn">{96}</span> entre o povo um Desconhecido
+de chapéo derrubado, o rosto coberto por um lenço, de caraça, polainas de
+briche nas pernas e pés, com um grosso páo de choupa. Proximos de Frederico os
+valentões param, com os páos cruzados nas pernas, gingando em attitude
+ameaçadora. Frederico, não se desvia dos cabos. De repente, rompem de fóra uns
+poucos varrendo o campo a pauladas.)</em></p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Cabos de policia, sentido! Preparar armas! <em>(Sáe perto da bocca da scena
+o Desconhecido. Encosta-se ao páo observando os movimentos dos valentões, os
+quaes vem já avançando, já recuando, crescendo sobre Frederico.)</em></p>
+
+<h4>Frederico <em>(aos cabos)</em></h4>
+
+<p>Aperrar armas! <em>(Uma paulada faz saltar a clavina das mãos d'um cabo. Os
+outros fogem. Frederico recúa, apitando rijamente. No maior aperto, o
+Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do páo, e arremette
+com os aggressores. Estes, forçados pela destreza, fogem,<span
+class="pn">{97}</span> logo que o primeiro cáe d'uma paulada. A vozeria cresce
+no momento em que o palco está despejado. O Desconhecido trava do braço de
+Frederico, e o traz á bocca da scena.)</em></p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Quem é o valente homem a quem devo a vida?! quem é?</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(arrancando o lenço do rosto)</em></h4>
+
+<p>Sou eu! salvei-te, Frederico!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Ó morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como és ideal e angelica!
+<em>(Ajoelhando.)</em><span class="pn">{98}</span> <span class="pn">{99}</span>
+</p>
+
+<h4>FIM DO SEGUNDO ACTO. </h4>
+
+<h1>ACTO TERCEIRO</h1>
+
+<h5>Salão da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia.
+Reposteiros já envelhecidos com brazões. Alguns retractos. Um piano
+moderno.</h5>
+
+<h2>SCENA I</h2>
+
+<h3>PANTALEÃO <small>E</small> MACARIO</h3>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha, desde
+que começou a vestir-se á moda, e a tocar piano, está muito distrahida do
+troca-tintas do escrivão. Não anda por janellas, não sáe de casa, e gasta
+alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a vestir-se. Isto custa-me um
+dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.<span class="pn">{100}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>E quem é que ensina a snr.ª morgadinha a tocar?</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>É a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com loja
+de fazendas brancas...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Bem sei, bem sei.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Foram lá as primas de Ruivães que fizeram a descoberta; mas o que tem muita
+graça é que o homem da mestra é tão ciumento que só a deixa ir a casas onde não
+ha homens...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Que tal pezêta é ella!..<span class="pn">{101}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>E para vir aqui, pôz por condição que a mulher só viria á noitinha
+acompanhada pelo marido que a deixa á porta, e vem por ella duas horas depois.
+Eu estive quasi a não aceitar tal professora por saber que o escrivão de
+fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que ella fosse
+medianeira d'alguma carta...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>E tem rasão, snr. morgado... Veja lá!.. olhe que o mundo é um covil de
+marotos!</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Não ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pôz fóra
+da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia d'ôlho a
+consorte.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Não que sem licença d'elle não ha maior<span class="pn">{102}</span>
+desmoralisação n'este mundo! Aquillo tem mesmo idêas de Sardanapalo! Ainda bem
+que lhe está por um fio a ladroeira da repartição...</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Conte lá isso então. Em que termos está a bernarda? Rebenta hoje ou ámanhã?
+</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Hoje. Está tudo alevantado quando fôr nove horas. Os sinos hão-de tocar a
+rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo cáe todo sobre Santo
+Thyrso, e faz cêrco para que o escrivão não possa escapulir-se; que elle é leve
+como uma penna, e quando a gente mal se precatar, vê-o fazer vispre, zêpe-zêpe
+<em>(expressão sibilante para imitar a rapidez da corrida.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que não vão os
+meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que<span
+class="pn">{103}</span> eu desejo é que elle não appareça mais em Santo Thirso.
+Lá a respeito da papellada isso é queimal-a toda; que depois o governo como não
+tem cadernos para a cobrança dos impostos, não o manda para cá a elle nem a
+outro.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Grande idêa é essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa. Se a
+gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer economias,
+porque depois não havia quem quizesse servir os empregos. O sytema é um bocado
+violento para os empregados, mas eu não vejo outro meio de os ir acabando...
+</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Não acho isso humanitario!</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos, leio
+jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheço<span
+class="pn">{104}</span> por dentro e por fóra o paiz e as suas necessidades.
+Fique certo d'isto; em quanto se não der fim a uma casa a que os jornaes chamam
+<em>burrocracia</em>, não se indireita a patria.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Como se chama isso?</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p><em>Burrocracia</em>, que pelos modos é palavra de idioma francez, que vem a
+dizer empregado publico.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Snr. Macario, vá indo cá com as minhas idêas moderadas. O melhor systema de
+se acabar com os escrivães de fazenda é queimar os cartorios. Eu lhe ponho uma
+comparação. Se eu queimar a palha que tenho, e não comprar outra, que me
+acontece á minha parelha de machos? Morrem de fome, não é verdade?<span
+class="pn">{105}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Isso é.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Pois ahi tem: os escrivães, em se lhe queimando os papeis, não tem que roer.
+</p>
+
+<h4>Macario <em>(duvidoso)</em></h4>
+
+<p>Nada; a comparação dos machos não me convence, queira V. Ex.ª perdoar.
+<em>(Com energia)</em> Matal-os, matal-os, é o grande <em>desideratum</em>.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>E os papeis? deixam-se ficar?</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrivães! Nada de
+cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa é causticos e ventosas.<span
+class="pn">{106}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Ora vocemecê, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha está o
+processo da execução que a fazenda nacional me move...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Por seis contos d'uma fiança dos bens dos frades, sei muito bem... Esteja
+descançado, que não ha de lá ficar papel em que se amortalhe um cigarro.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Quem é o chefe da revolução?</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Á falta d'homens por hora sou eu; mas não sei a que os commandantes das
+freguezias decidirão. Já ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex.ª general
+em chefe.<span class="pn">{107}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Homem, tire isso da cabeça ás freguezias. Vocemecê bem sabe que eu ando
+muito adoentado dos intestinos, e não posso deixar de tomar o meu banho de
+canôa á noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revolução; mas
+entrar nella em pessoa não posso por causa d'esta molestia dos reins que me não
+deixa cavalgar; e vocemecê bem entende que um general em chefe a pé não tem
+geito, nem pode vêr de longe o inimigo, se nos fôr necessario entrar em batalha
+com o exercito. Dispensem-me por tanto de tamanha honra.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Farei as diligencias; mas receio que...<span class="pn">{108}</span> </p>
+
+<h2>SCENA II</h2>
+
+<h3>OS MESMOS <small>E A</small> MORGADINHA</h3>
+
+<h5><em>(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido muito
+curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido ás pernas; grande laço na
+cintura posteriormente; sapatos de salto dourado; cabelleira com estupendos
+tufos encaracolados.)</em></h5>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Vens para o piano, Joanninha?</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(pondo luneta d'oiro)</em></h4>
+
+<p>Sim, papá, vou estudar a minha lição de escala. <em>(Senta-se ao
+piano.)</em></p>
+
+<h4>Macario <em>(á parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)</em></h4>
+
+<p>Que desmoralisação! Isto é o peccado em carne e ôsso!<span
+class="pn">{109}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Está vocemecê admirado d'estas modas, amigo Macario!</p>
+
+<h4>Macario <em>(ironico)</em></h4>
+
+<p>São bonitas... <em>(Grave)</em> Mas não acho isto decente para a observancia
+dos bons costumes.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Que quer? é moda; andam assim todas as senhoras do tom.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim não hão de vestir, se Deus
+quizer.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(voltando o rosto com aborrecimento)</em></h4>
+
+<p>Então as suas filhas são senhoras?<span class="pn">{110}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>D'aquella massa se fazem, snr.ª morgada...</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(dedilha nervosamente nas teclas)</em></h4>
+
+<p>Adeus, adeus. Temos historia!</p>
+
+<h4>Pantaleão <em>(a meia voz)</em></h4>
+
+<p>Não a zangue... Deixe-a lá... Tomára eu que ella se entretivesse com os
+vestidos...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>A cabeça... está feito, mas as pernas a vêr-se-lhe, snr.ª morgada! Assim não
+se podem observar os bons costumes... <em>(A Morgadinha canta acompanhando a
+escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas altas. Macario Mendes,
+offendido pela desharmonia, faz caretas.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Ainda não sabes cantar modinha nenhuma, menina?<span class="pn">{111}</span>
+</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>A mestra não quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que é o essencial.
+<em>(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario despede-se,
+apertando a mão a Pantaleão.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Veja lá os meus papeis, snr. Macario.</p>
+
+<h2>SCENA III</h2>
+
+<h3>OS MESMOS <small>E</small> JOÃO LOPES</h3>
+
+<h4>João Lopes <em>(trazendo castiçaes com luzes)</em></h4>
+
+<p>Está na sala de espera a snr.ª mestra pianista e mais o marido.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Está! Papá, é preciso sahir, tenha paciencia.<span class="pn">{112}</span>
+Bem sabe que ella, se vir homem aqui, não entra.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Está bom pedaço d'asno o marido! Então elle não sabe que eu sou um homem
+sério!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Que quer o papá! Já lhe tenho dito que póde entrar segura de que não ouve
+palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que a mestra
+fallou com um homem, seja elle quem fôr, não a deixa voltar.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Com certos individuos tem elle rasão; mas nem todos são como o devasso
+escrivão de fazenda, que lhe andava a fazer a côrte á mulher, e por isso foi
+posto de lá para fóra. Acho justo que elle se acautele dos tratantes; mas de
+mim... parece-me bestialidade! Emfim cá vou. <em>(Sáe.)</em><span
+class="pn">{113}</span> </p>
+
+<h2>SCENA IV</h2>
+
+<h3>MORGADINHA, JOÃO LOPES <small>E DEPOIS</small> FREDERICO</h3>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Póde entrar a snr.ª D. Thomazia.</p>
+
+<h4>João Lopes <em>(para dentro, levantando o reposteiro)</em></h4>
+
+<p>Póde entrar a snr.ª D. Thomazia. <em>(João Lopes sáe, assim que entra a
+supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de véo espesso, e
+cachos. Chapéu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir a cara. Vae
+direito ao piano. Vê-se a cabeça de Pantaleão que espreita por uma fimbria do
+reposteiro. João Lopes tosse.)</em></p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(alto)</em></h4>
+
+<p>Passou bem, snr.ª D. Thomazia!.. <em>(Baixo)</em> Não me falles que meu pae
+está espreitando, em quanto João Lopes tossir... <em>(Tocam e cantam<span
+class="pn">{114}</span> a escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia
+nas vozes.)</em></p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>O snr. morgado já está no pateo a conversar com o marido do snr. Frederico;
+estejam á vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando eu tossir, vejam
+lá...</p>
+
+<h4>Frederico <em>(levanta o véo, abraçando o velho)</em></h4>
+
+<p>Este João Lopes é um prodigio de dedicação! é o typo genuino do antigo
+creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, João Lopes, você ha de
+progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a você
+um habito de Christo!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Deixa-o ir, deixa-o ir... <em>(João Lopes sáe.)</em><span
+class="pn">{115}</span> </p>
+
+<h4>Frederico <em>(tomando-lhe as mãos calorosamente)</em></h4>
+
+<p>E os nossos sonhos vão realisar-se, minha fada! Oh! <em>(contemplando-a
+absorto)</em> que deslumbrante! que eclipse estás fazendo nos anjos do céo! Não
+és só uma bellesa! és um milagre! uma gloria! uma divinisação! Não ouso
+beijar-te as mãos... Os pés, os pés! Estes pés requerem tapetes de labios e
+almofadas de corações! Consente que t'os beije, houri!</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(desviando-se)</em></h4>
+
+<p>Não sejas tôlo! Gostas de me vêr assim?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as fibras
+intimas do peito! Luz, luz que me cégas, faz-te lavareda, e... devora-me!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Vamos ao caso... Como estão os negocios?<span class="pn">{116}</span> </p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que será consagrado
+nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida, requerendo tu a tua
+emancipação, visto que já contas vinte e seis annos; mas, como receias que eu
+seja assassinado logo que requeiras ao juiz, cumpra-se a tua vontade. <em>(João
+Lopes tosse. Vão sentar-se rapidamente ao piano, tocando e cantando a escala.
+Depois, a Morgadinha vae espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa
+voluptuosa que obriga a Morgadinha a fazer alguns passos de dança. Frederico,
+arrebatado do donaire gracioso d'ella, ergue-se de mãos postas fazendo
+tregeitos de enlevado.)</em></p>
+
+<h4>João Lopes <em>(mettendo a cabeça)</em></h4>
+
+<p>Podem conversar, que elle passou para a tulha.</p>
+
+<h4>Frederico <em>(com transporte)</em></h4>
+
+<p>És divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanças o pé
+quebradiço<span class="pn">{117}</span> e chinez em attitude dançante, sacodes
+e impelles brazas á minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus pés
+lindissimos. Tudo que fazes mata e aviventa. Como não serás esbelta, nos salões
+de Lisboa, princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos
+cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de
+felicidade por todos os póros! Ó Joaninha, deixa-me sonhar! <em>(Fixa os olhos
+espantados no tecto da platêa. Musica surda)</em> A minha vida vae ser uma
+etherisação de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taças nectáreas
+do céo, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... Esse rosto em que
+se espelham as formosuras não vistas de Angelos nem de Raphaeis, será o meu
+Al-korão, porque o summo artifice escreveu ahi a suprema estrophe do seu poema.
+Quando os teus olhos se abrirem ao diluculo da manhã, vêr-me-has de joelhos a
+beijar os teus cabellos; quando os fechares, cansados de serem beijados, e as
+sedosas palpebras se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me
+quedarei a teus pés velando que os sylphos amorosos da noite não ousem
+perturbar o teu dormir. Oh! Joanna, Joanna!<span class="pn">{118}</span>
+<em>(Ajoelha-se-lhe aos pés. João Lopes tosse com maior força. A morgadinha
+adverte em vão Frederico que continúa no seu arrebatamento:)</em> Abre-me aqui
+já o sepulchro, se em alguma hora hei de sentir-me orphão dos teus carinhos...
+<em>(Pantaleão ao fundo, erguendo o reposteiro.)</em></p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ah!</p>
+
+<h4>Frederico <em>(sobresaltado)</em></h4>
+
+<p>O diabo! <em>(Desce o véo. Canta qualquer aria conhecida no acto de
+ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente á Morgadinha:)</em></p>
+
+<blockquote>
+ Diz a teu pai que a mestra<br>
+ Para melhor te ensinar,<br>
+ Te está cantando uma ária<br>
+ Das que se usa cantar<br>
+ No Theatro de Lisbôa:<br>
+ Prega-lhe a pêta, que é bôa;<br>
+ E se esta nos não salva,<br>
+ Nada nos póde salvar.<span class="pn">{119}</span></blockquote>
+
+<h2>SCENA V</h2>
+
+<h3>OS MESMOS <small>E</small> PANTALEÃO</h3>
+
+<h4>Pantaleão <em>(ao fundo)</em></h4>
+
+<p>Então que é isso?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>É a minha mestra que me está ensinando uma ária das que se cantam no theatro
+de Lisbôa.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Ella tem a voz tão grossa! Não parece voz feminina!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ella canta na voz que quer.... Então o papá já se esqueceu que o marido
+d'ella...<span class="pn">{120}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Está bom, está bom; eu vou-me embora. Lá estive conversando com o marido da
+senhora, e lhe disse que não tivesse ciumes que eu sou um velho!... Aquelle seu
+marido parece-me um doudo!.. <em>(Rindo)</em> Ora andem lá, andem lá.
+<em>(Sáe.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VI</h2>
+
+<h3>FREDERICO, MORGADINHA <small>E</small> JOÃO LOPES <small>A
+INTERVALOS</small></h3>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Salvei-te ou não? Tu salvaste-me com a força, na romaria; e eu aqui,
+salvei-te com o genio! Vês como o amor me deu espirito n'um trance difficil?
+Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos teus olhos, ó
+formosa! <em>(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sôa de diversas longitudes.
+Rumôr longiquo de vozes.)</em><span class="pn">{121}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Que será isto!? Ó João Lopes!</p>
+
+<h4>João Lopes <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p>Que quer, snr.ª morgadinha?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Sabes a que tocam os sinos? é fogo?</p>
+
+<h4>João Lopes <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p>Fogo não me parece. Acho que é bernarda. Estou cá á janella a vêr se entendo
+a gritaria.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Diz que é bernarda...</p>
+
+<h4>Frederico <em>(alvoroçado)</em></h4>
+
+<p>Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sériamente<span class="pn">{122}</span>
+comigo, comtigo, comnosco, com o nosso futuro, Joanna!</p>
+
+<h4>João Lopes <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p>É revolução.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Revolução!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Não ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Qual perder-me! Importa-me cá a mim a bernarda! Hei de ser tua! Não temas,
+Frederico, que eu sou forte!..</p>
+
+<h4>João Lopes <em>(na scena)</em></h4>
+
+<p>Já intendi o que elles dizem... Dão morras<span class="pn">{123}</span> aos
+papeis, e que se queime o escrivão da fazenda... E trazem musica... Ouvem?...
+<em>(Ouve-se distinctamente, mas ainda longe, o hymno da «Maria da Fonte», á
+mistura com os «môrra!»)</em></p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>O snr. morgado está na torre a ouvir. Agora bom será que o snr. Frederico se
+escape, senão desconfio que o matem, sendo aqui pilhado... <em>(Frederico
+apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha agarra-o.)</em></p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Não te deixo sahir agora, que é perigoso.</p>
+
+<h4>Frederico <em>(muito inquieto)</em></h4>
+
+<p>Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! Dá-me armas que eu quero
+defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver de doze
+tiros! Quero armar-me até aos dentes, e combater, e morrer gloriosamente ao teu
+lado!<span class="pn">{124}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Frederico, tu estás maluco!.. Olha que elles não vem cá... Não percas o
+juizo!</p>
+
+<h4>Frederico <em>(muito á tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)</em></h4>
+
+<p>Não vem? Vem! Escuta! escuta! Não ouves o bramido do tigre popular? Olha...
+é o leão que ruge, partidos os grilhões de respeito á lei! É a Libia e a
+Hircania a vomitarem féras! Olha o lago sujo como se levanta em vagalhões e
+como elles roncam!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Vem então esconder-te, vem esconder-te!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Não! Um homem não se esconde quando olhos como os teus são testemunhas de
+tamanha covardia! É mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido ignobilmente!
+<em>(Arranca os vestidos mulheris:<span class="pn">{125}</span> fica de
+quinzena; mas conserva o chapéo e os boucles)</em> Agora, armas! armas! <em>(A
+morgada ri-se apontando-lhe para a cabeça.)</em> Por que ris tu, mulher forte!
+porque ris tu, se fazes favor?!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Tira a cartola e os cachos, meu amor.</p>
+
+<h4>Vozes <em>(que sobrelevam o estrondo dos figles)</em></h4>
+
+<p>Morra o escrivão de fazenda! morra! <em>(Grande catharro de João
+Lopes.)</em></p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>É chegada a hora! Dá-me um abraço, querida! Um abraço! e até ao reino
+eterno! As nossas nupcias são no céo!.. <em>(Aponta para o tecto e fica como
+extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e sáe com dous
+bacamartes de bocca de sino.)</em><span class="pn">{126}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! <em>(Ella
+aperra o bacamarte.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VII</h2>
+
+<h3>OS MESMOS, PANTALEÃO <small>E</small> JOÃO LOPES</h3>
+
+<h4>Pantaleão <em>(estupefacto)</em></h4>
+
+<p>Que vejo? que é isto? como entrou este homem aqui?</p>
+
+<h4>Frederico <em>(atirando ao chão o bacamarte)</em></h4>
+
+<p>Venho offerecer-me á vingança de V. Ex.ª</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Meu papá, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mão de esposa!<span
+class="pn">{127}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Das duas uma: ou o senhor foge, ou é espatifado pelo povo!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Não sei fugir: sei morrer.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Mas vá morrer a casa do diabo; não quero que o matem aqui.</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>V. Ex.ª tem rasão; matal-o aqui é máo: o melhor é eu ir escondêl-o no meu
+quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos da menina
+não ficavam com muita saude.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Pois vae escondêl-o... some-o no inferno!<span class="pn">{128}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha, sua
+filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu papá
+<em>(ajoelha-lhe)</em> eu já não posso deixar de ser esposa de Frederico, e
+juro que sou d'elle na vida e na morte! <em>(Ergue-se: conduz Frederico pela
+mão, e ajoelha com elle)</em> Dê-nos a sua benção, querido papá!</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Nunca! nunca! <em>(Ouvem-se fora as acclamações.)</em></p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se soberba)</em></h4>
+
+<p>Então, não tenho pae! tenho só marido! Se o povo o matar, ha de vêr
+morrer-me ao pé d'elle... mas vingada!.. <em>(Lança mão do bacamarte)</em> Que
+entre o povo!<span class="pn">{129}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Em que apertos me vejo! Rebenta-me o coração!..</p>
+
+<h4>João Lopes <em>(muito commovido)</em></h4>
+
+<p>Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!..</p>
+
+<h4>Pantaleão <em>(a Frederico)</em></h4>
+
+<p>Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Obedeço, por que m'o ordena o pae d'este anjo. <em>(Sáe com João
+Lopes.)</em><span class="pn">{130}</span> </p>
+
+<h2>SCENA VIII</h2>
+
+<h3>PANTALEÃO <small>E A</small> MORGADINHA</h3>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Perdi a cabeça!.. Estou doudo... não sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!..
+onde está a pianista, que está alli fóra o marido á espera...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>A pianista?..</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Sim, a pianista onde está?.. <em>(Olha para o chão, tropeçando no vestido de
+mulher)</em> Que é isto? <em>(levantando o chapéo e os caracoes)</em> Que é
+isto?! que é isto, Joanna?..</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(afflicta)</em></h4>
+
+<p>Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!..<span
+class="pn">{131}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Então a pianista era... era o escrivão?!..</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(soluçando)</em></h4>
+
+<p>Era, sim, snr.!</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Que sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o
+patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!..</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>É meu espôso... perdôe-nos...</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Tu és o demonio, mulher!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Sou uma infeliz apaixonada... O meu papá,<span class="pn">{132}</span> tenha
+piedade! Olhe que o Frederico é muito bom môço. Se não é fidalgo hoje, póde
+sêl-o ámanhã. O papá bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr'ó
+outro.</p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Ergue-te, ingrata, que déste cabo de teu pae! <em>(Rompe a musica pelo
+interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)</em></p>
+
+<h2>SCENA IX</h2>
+
+<h4>JOÃO LOPES, PANTALEÃO, MORGADINHA, MACARIO</h4>
+
+<h5><em>(A musica, na vanguarda, ladeia para dar passagem a Macario vestido de
+official de ordenanças, mas com chapéo embicado. Traz uma espada empunhada, e
+outra debaixo do braço, seguem-no 12 commandantes subalternos, vestidos a
+capricho, uns com chapéo redondo e banda e dragonas, outros de barretina e
+niza. Um d'estes arvora uma bandeira de varias côres.)</em></h5>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Viva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das forças populares
+do Minho!<span class="pn">{133}</span> </p>
+
+<h4>Vozes</h4>
+
+<p>Viva! <em>(Cala-se a musica.)</em></p>
+
+<h4>Macario <em>(á frente dos revolucionarios com enfaze oratoria)</em></h4>
+
+<p>Snr. morgado! As forças populares de seis freguezias que ahi estão reunidas
+fóra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim, á frente dos
+seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a V. Ex.ª que por voto
+geral foi acclamado general em chefe d'esta provincia. Eu lhes fiz um eloquente
+discurso para os tirar d'essa ideia, allegando com o meu gráo de pharmaceutico
+que V. Ex.ª soffria dos intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles
+não me attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex.ª a espada de general
+em chefe. Aqui está por consequencia esta valente espada que matou em 1810
+muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mãos de V. Ex.ª limpar este
+paiz de escrivães de fazenda e outros mariolas que nos desgraçam. Receba V.
+Ex.ª das minhas mãos esta espada e salve com ella a patria do snr. D. Affonso
+Henriques!<span class="pn">{134}</span> </p>
+
+<h4>Os commandantes</h4>
+
+<p>Viva o snr. boticario! Viva!</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Obrigado, valentes guerreiros! <em>(A musica executa uma marcha muito
+compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada
+offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz signal de
+que quer fallar. Silencio.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleão <em>(commovido)</em></h4>
+
+<p>Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impressão me fizeram as vossas
+palavras e não pude deixar de me commover... Estou realmente commovido, e
+sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe que as minhas
+doenças e outras desgraças me não permittem tomar o commando das valentes
+forças populares que representaes. Não posso, senhores, não posso. Se a fortuna
+me tivesse dado um filho, essa espada estaria já nas mãos d'elle.<span
+class="pn">{135}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(tirando a espada da mão de Macario)</em></h4>
+
+<p>Está nas mãos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou mulher, ha
+de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle será digno d'ella!
+<em>(Chamando) </em>Frederico! Frederico!</p>
+
+<h2>SCENA ULTIMA</h2>
+
+<h4>OS MESMOS <small>E</small> FREDERICO</h4>
+
+<h4>Frederico <em>(ajoelhando diante da morgadinha)</em></h4>
+
+<p>Sim! sim! recebo de vossas mãos, Senhora, a espada que ha de decepar as
+infinitas cabeças da hydra financeira! <em>(Espanto geral.)</em></p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!?<span
+class="pn">{136}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleão</h4>
+
+<p>Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio!</p>
+
+<h4>João Lopes</h4>
+
+<p>Vae ser o marido da menina... <em>(a Pantaleão)</em> Faça favor de não
+desmaiar, por quem é!</p>
+
+<h4>Frederico <em>(com vehemencia e fogo)</em></h4>
+
+<p>E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos á victoria,
+briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por vós,
+intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pôdres em que o
+prostraram os comilões. Eu fallo assim, porque cada nação, nas horas criticas,
+tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da rethorica. Vamos a elles,
+filhos da victoria! As nossas bandeiras desenroladas aos ventos das batalhas,
+dirão: Riqueza e Moralidade! Em menos de quatro annos de regimen moral, e dieta
+aos lambões, o paiz não deverá nada, e vós não pagareis um pataco de
+decima.<span class="pn">{137}</span> </p>
+
+<h4>Vozes</h4>
+
+<p>Apoiado!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Cidadãos! Eu tenho estudado profundamente as doenças de Portugal e pude
+descobrir onde está o cancro que nos róe. Ahi vae o meu programma: O meu
+systema é dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem seu
+presidente de eleição popular, quero dizer, cada conselho governa-se a si, e
+não quer saber do conselho visinho. Não sei se me percebem...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Muito bem, entendemos muito bem.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que não tem nada com a
+republica de Famalicão, nem com a republica de Fafe. Nós cá vivemos com o que é
+nosso, fazemos as<span class="pn">{138}</span> nossas despezas, e não damos nem
+vintem aos de fóra. </p>
+
+<h4>Vozes</h4>
+
+<p>Apoiado! apoiado!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Aqui está o meu systema que ainda não lembrou a ninguem, e que é o resultado
+de quinze annos de estudo. Conseguido isto, não temos a sustentar tropas,
+<em>(Apoiados)</em> nem as estradas por onde andam os outros,
+<em>(Apoiados)</em> nem theatros onde os outros se divertem,
+<em>(Apoiados)</em> nem escrivães de fazenda. <em>(Apoiados)</em> E declaro que
+me dou já por demittido do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando:
+Guerra e morte a todos os escrivães de fazenda! <em>(Os populares desembainham
+as espadas, e bradam: «guerra de morte!»)</em> E, portanto, senhores, beijo
+esta espada, e leio na sua lamina, os novos destinos que vão alvorecer para
+Portugal! Recebi-a da mão do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E
+concedei, cidadãos, que essa bandeira<span class="pn">{139}</span> seja
+arvorada nas mãos da Judith lusitana! Não mais cahirá aos pés de vencedor algum
+o estandarte que foi consagrado pela filha d'este honrado fidalgo!
+<em>(Frederico, tem passado a bandeira á Morgadinha, a qual se colloca de
+maneira que o pae fica entre ella e Frederico.)</em> Bravos sycambros de Santo
+Thyrso! agora, á victoria, á victoria que a patria nos chama! Está inaugurada a
+republica confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! <em>(Os musicos executam.
+Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a
+bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentões. João Lopes
+sentado com os queixos entre as mãos contempla tudo aquillo. Corre o
+panno.)</em></p>
+
+<h4>FIM.</h4>
+
+<p><span class="pn">{141}</span> </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</h1>
+
+<h4>ENTREMEZ EM UM ACTO</h4>
+
+<p><span class="pn">{143}</span> </p>
+
+<h2>PERSONAGENS</h2>
+<ul>
+ <li>A<small>NICETO DA</small> S<small>ILVA</small>, pae de </li>
+ <li>V<small>ICTORINA.</small> </li>
+ <li>G<small>UTERRES</small> A<small>RTHUR DE</small> M<small>IRAMAR.</small>
+ </li>
+ <li>J<small>OSÉ</small> P<small>IMENTA.</small> </li>
+ <li>U<small>M</small> C<small>READO.</small> </li>
+</ul>
+
+<p><span class="pn">{144}</span> <span class="pn">{145}</span> </p>
+
+<h1>ACTO UNICO</h1>
+
+<h5>Salão de estalagem em Barcellos. Quartos numerados desde 1 a 12, occupando
+os lados, e parte do fundo. Um d'elles o n.º 10 tem sobranceira á porta uma
+vidraça ou bandeira. Sobre um canapé de palha está uma viola francesa.</h5>
+
+<h2>SCENA I</h2>
+
+<h5><em>(Ao erguer o panno vem entrando Aniceto e Victorina precedidos de um
+creado com dois saccos de noute e castiçal.)</em></h5>
+
+<h3>ANICETO, VICTORINA, CREADO</h3>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Vamos a saber: temos dois quartos limpos e camas asseadas onde se passe a
+noute?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Háde haver.<span class="pn">{146}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Ha de haver?! Pergunto se ha.</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Faça favor de entrar aqui para o n.º 6; e acolá defronte está o n.º 10
+tambem de vago. <em>(Põe a bagagem dentro dos quartos.)</em></p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Então os outros estão occupados? Pelo que vejo reuniram-se muitos viajantes
+em Barcellos. Teem bom gosto! Quem está hospedado cá?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Nos n.<sup>os</sup> 1, 3, 5, 7 e 9 estão as snr.<sup>as</sup> fidalgas de
+Lanhoso, que são seis velhas.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Que faz por aqui esse mulherío?<span class="pn">{147}</span> </p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Vão para os banhos da Povoa. V. S.ª faça favor de fazer pouca bulha que
+ellas recommendaram-me todo o socego, que queriam dormir.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Pois que durmam. Ora que me importa cá a mim as fidalgas de Lanhoso!</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>V. S.ª toma alguma cousa?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Queres chá, Victorina?</p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Não quero nada. Quero deitar-me, que estou moída. O meu quarto é aquelle?
+<em>(Apontando para o 10.)</em><span class="pn">{148}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto <em>(indo examinar o quarto)</em></h4>
+
+<p>Para onde deita aquella janella?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Para o quintal.</p>
+
+<h4>Aniceto <em>(indeciso)</em></h4>
+
+<p>Para o quintal? está bom... Vá... Vae-te deitar, menina. <em>(Ao
+creado)</em> Vá você buscar outra luz. <em>(O creado sáe.)</em></p>
+
+<h2>SCENA II</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>E</small> VICTORINA</h3>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Boas noutes, meu pae.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Boas noutes. Se fôr preciso alguma coisa, bate na porta trez palmadas.<span
+class="pn">{149}</span> </p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Ai! <em>(Gemido longo.)</em></p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Deixemo-nos de ais, Victorina. Juizo, juizo e juizo! <em>(Victorina
+recolhe-se. O pae fecha a porta, e tira a chave.)</em></p>
+
+<h2>SCENA III</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>E O</small> CRIADO <small>QUE VEM COM O CASTIÇAL</small></h3>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Diga-me cá vossê...</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Meu amo, que manda?<span class="pn">{150}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Por aqui é tudo femeas, ou tambem ha machos?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Machos?!</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Sim, homens! Se estão homens n'estes quartos.</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Já disse que não, meu amo. Não ha homens.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Da banda do Porto não veio passageiro nenhum?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Não snr.<span class="pn">{151}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Está bom; dê cá você a luz e vá-se embora. Ás 7 da manhã, chame-me se eu não
+estiver a pé, ouviu?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Sim snr. <em>(Aniceto recolhe-se, e fecha-se por dentro.)</em></p>
+
+<h2>SCENA IV</h2>
+
+<h3>GUTERRES <small>E O</small> CREADO</h3>
+
+<h4>Guterres <em>(com um sacco de viagem)</em></h4>
+
+<p>Olá, Gregorio!</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Por cá, snr. Guterres! Como está V. S.ª?<span class="pn">{152}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Bom. Ha quarto?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Hade haver. D'onde vem?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Está cá?
+</p>
+
+<h4>Creado <em>(rindo)</em></h4>
+
+<p>Ora V. S.ª que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta é a setima vez
+que o vejo n'aste fadario! E o maganão sabe-as escolher!</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Então viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde está ella?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Alli no n.º 10.<span class="pn">{153}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dirá que o meu
+ideal sonhado ha trinta e seis annos está na estalagem de Barcellos! Alli!
+n'aquelle antro!</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Sempre V. S.ª está um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do regedor
+de Guilhabreu que cá esteve na festa das Cruzes ha cinco annos?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos...</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>E os versos que V. S.ª lhe botou? a gente sempre se ria...</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Ah! vocês riam-se dos versos? Tens tu a felicidade<span
+class="pn">{154}</span> bestial de te rires da poesia? O talento póde contar
+com o couce até em Barcellos... Ora vamos... onde tenho eu quarto?</p>
+
+<h4>Creado <em>(indicando-lhe um do fundo)</em></h4>
+
+<p>Está alli o n.º 11.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Bem. Podes ir. <em>(Entra na alcova. O creado sáe.)</em></p>
+
+<h2>SCENA V</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>SAINDO COM O CASTIÇAL EM PUNHO</small></h3>
+
+<p>Não posso adormecer com a idêa de que ha uma janella no quarto de Victorina.
+Aquelle maldito não me deixa socegar em parte nenhuma. Receio que elle me siga
+por que o lobriguei quando passávamos em Vallongo; e ella tambem o viu. Quem me
+diz a mim que o tratante<span class="pn">{155}</span> nos não persegue, e anda
+á volta da casa? Cuidar aquelle valdevinos que se pôde com uma flauta arranjar
+uma rapariga com fortuna! Ha dous annos que minha filha está enfeitiçada por um
+trocatintas d'um estudante que conseguiu seduzir o coração d'uma menina que
+regeitou os melhores casamentos de Penafiel e Amarante! Afinal, não hasde
+vencer, sarrafaçal! Eu tolherei todos os teus calculos. Não me pilharás
+descuidado um instante! Mas aquella janella assusta-me. Vou fazer mudar
+Victorina para o meu quarto. <em>(Olhando para o alto da porta)</em> E de mais
+a mais esta porta tem vidraça em cima. Se elle aqui entrar, ella póde vêl-o
+d'alli... Que imprudencia eu ia commettendo! <em>(Bate a porta)</em> Victorina,
+Victorina!</p>
+
+<h4>Victorina <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p>Quem é?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>É teu pae. Já estás na cama?<span class="pn">{156}</span> </p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Não, snr.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Que estás a fazer?</p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Nada. <em>(Dando volta á chave.)</em></p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Nada? Posso entrar? <em>(Áparte)</em> Lá está ella a descer a vidraça.
+<em>(Alto)</em> Posso entrar?</p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Póde.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Estavas á janella?<span class="pn">{157}</span> </p>
+
+<h2>SCENA VI</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>E</small> VICTORINA <small>SAHINDO DA ALCOVA</small></h3>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Ai!</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Que estavas a fazer na janella?</p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Ora o pae tem manias! Credo! que havia de eu fazer na janella! Estava a
+tomar a fresca. Não tinha somno, não podia dormir, estava muito afflicta, muito
+opprimida, muito abafada, abri a janella, ai!</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Pois sim, sim, minha menina. Assim será; mas troquemos os quartos. Vae para
+aquelle,<span class="pn">{158}</span> que eu vou para este. Dá cá o teu sacco
+de noute. Vamos. Leva o castiçal. Dá-me o meu sacco. Muito bem. Agora
+entra...</p>
+
+<h4>Victorina <em>(entrando)</em></h4>
+
+<p>Oh céos!</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Sim, sim. <em>(Fechando a porta, e tirando a chave)</em> Agora vou
+descançado. <em>(Recolhe-se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VII</h2>
+
+<h3>GUTERRES</h3>
+
+<h5><em>(Caminhando contemplativo com o castiçal em punho e os olhos postos no
+quarto d'onde sahiu Victorina. Pousa o castiçal.)</em></h5>
+
+<p>Ella alli está, a formosa como a rolinha adormecida com o bico debaixo da
+aza; e eu venho aqui dar pasto ao coração;... mas que<span
+class="pn">{159}</span> pasto tão pouco nutriente! Pobre poeta! todo o teu
+alimento são esperanças! Em quanto a gente prosaica se embrutece com timbaes de
+pombos e pasteis de camarão, tu, poeta <em>(batendo no peito)</em> engoles
+timbaes de esperanças com pasteis de sonetos. Eu já sou do tempo em que um
+homem de genio amava com o auxilio dos sonetos, e fazia consistir toda a sua
+gloria de fino amante em gargarejar ternuras para um terceiro andar e
+recolher-se a casa com o coração a trasbordar de catarro. Hoje não. Os anjos
+actuaes se apparecem de noite á janella é para namorar a lua, ou vêr a cauda
+d'algum cometa. Desde que entrou a moda do amor ideal, os olhos d'uma senhora,
+que conversa com as estrellas, não descem a procurar na rua um d'estes amadores
+fanhosos, que só se sentem inspirados e eloquentes na occasião em que a
+patrulha os não deixa fallar. Eram d'uma paciencia adoravel as donzellas de ha
+vinte annos, quando em meu coração rebentavam as primeiras flôres!.. Que
+sensaborias a gente lhe disparava lá para cima, e a sancta resignação com que a
+gente as ouvia a ellas! A virtude d'aquelle tempo só se explica bem pela
+temperatura de<span class="pn">{160}</span> sorvete em que os corações se
+conservavam de parte a parte. Isto agora é outra coisa. Um homem sente no peito
+o progresso material. Aqui dentro ha gaz, ha vias-ferreas, ha fio electrico, ha
+balões, ha petroleo, ha tudo quanto é fogo, energia, rapidez, etc. Eu cá pelo
+menos sinto isso tudo; conheço que remoço, que amo e que ardo. Tenho phosphoros
+e ácido prussico aqui dentro. <em>(batendo no peito)</em> E esta mulher! Como
+eu amo esta mulher desde que a vi hontem na Povoa de Varzim! Eu, na minha
+qualidade de escrivão do juiz eleito, estava a escrever n'um processo, quando
+ella passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo
+como largaria um sceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar á meza redonda do
+hotel portuense. Comeu apenas uma aza de borracho e meia banana. Que estomago
+tão fino! É que alli está um coração immenso cheio de ternura e com mais poesia
+que um livro de versos. Sahiram, e eu segui-os. Vi entrar o pai n'um
+escriptorio de viação e comprar dous bilhetes. Perguntei para onde iam os
+passageiros; disseram-me que para Barcellos. Pedi bilhete; mas não havia. Ó
+desventura! que farei? ficar? não! Ha<span class="pn">{161}</span> fatalidades
+invenciveis, funestissimas! Esta mulher tem o meu destino nas suas mãos; disse
+eu comigo. Cumpre-me seguil-a. Mas que farei? Não ha bilhete. Embora. Alma de
+poeta, exclamei eu, não succumbas! Heroicidade na desgraça, homem de coração de
+bronze! Segue-a! segue-a! Fui alugar um garrano, e segui-os a galope, terra a
+terra, a rédea solta, receando a cada passo que o coração e o garrano me
+rebentassem. Aqui estou. Ó mulher, mulher quem és tu? Ave do paraizo, que estás
+sonhando delicias do teu Éden, lembra-te, ó Eva, que és costella do homem, e
+que está aqui Adão digno de ti. <em>(Repara na viola.)</em> Uma viola franceza!
+<em>(Pega d'ella e corre-lhe as cordas.)</em> Está desafinada. Oh! que saudades
+me tu fazes, instrumento interprete das minhas paixões infantis! Que trovas eu
+descantava em noites de lua cheia ao arpejar dos teus bordões que gemiam
+comigo! <em>(Pensativo)</em> Quem sabe? <em>(vai afinando)</em> Quem sabe? Se
+tu fizesses o milagre, ó lyra das canções apaixonadas! Vamos! é o fado que me
+impelle; mas não vou tocar o fado. Inspira-me, coração, umas trovas dignas do
+anjo que alli está dormindo. <em>(Avisinha-se da porta, onde presume que<span
+class="pn">{162}</span> está Victorina, e preludía com tregeitos de vate que
+invoca a inspiração do céo, e canta)</em>:</p>
+
+<blockquote>
+ <small>(MUSICA DA «ALTEA, MIMOSA ALTEA»</small>)</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se tu soubesses, lindinha,<br>
+ Quanto é grande o meu amor<br>
+ Não dormiras descançada<br>
+ Quando eu morro aqui de dôr.</blockquote>
+
+<blockquote>
+       <em>(Allegro)</em></blockquote>
+
+<blockquote>
+    Acorda menina,<br>
+    Não durmas agora,<br>
+    Em quanto se fina<br>
+    De dôr quem te adora.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Eu na Povoa descuidado<br>
+ Já não sentia disvelos,<br>
+ Eis que surges luz brilhante,<br>
+ E eu te sigo até Barcellos.</blockquote>
+
+<blockquote>
+    Acorda, menina,<br>
+    Não durmas agora,<br>
+    Em quanto se fina<br>
+    De dôr quem te adora.<span class="pn">{163}</span></blockquote>
+
+<h2>SCENA VIII</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>E</small> GUTERRES</h3>
+
+<h5><em>(Aniceto abre a porta, e sáe de barrete de dormir e rob-de-chambre, com
+a luz na mão. Guterres recúa espavorido.)</em></h5>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Passasse muito bem.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Viva.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Eu já vi o senhor se não me falha a memoria.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Sim, senhor, já tive a honra de jantar na meza em que V. S.ª estava na
+Povoa.<span class="pn">{164}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>É verdade. Pois snr., V. S.ª canta e toca muito bem; n'outra occasião muito
+lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o obsequio de se
+calar, porque tenho de seguir amanhã viagem e preciso dormir...</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Pois não, senhor! Eu deponho já o instrumento importuno.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Agradeço muito a sua delicadeza. Se não fosse indiscreto, perguntaria com
+quem tenho a honra de fallar?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir.<span class="pn">{165}</span>
+</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Então é estrangeiro? Esse nome não me parece de cá.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exerço funcções publicas.
+</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Ah! exerce funcções publicas? Esse emprego deve ser bem bom.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de
+bastantes lettras.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Ah! de bastantes lettras? então é capitalista... Eu tambem trago um pouco de
+dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula?<span
+class="pn">{166}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>O juro? está favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento ao
+mez. V. S.ª é do Porto?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Não senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva.
+</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Oh! pois não, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua
+ex.<sup>ma</sup> filha?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>A divertir-me não... Isso são contos largos... se V. S.ª por aqui estiver
+ámanhã, conversaremos. Agora boas noutes, que são horas de dormir.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Tem razão, tem razão... Boas noutes. <em>(Aniceto fecha-se.)</em><span
+class="pn">{167}</span> </p>
+
+<h2>SCENA IX</h2>
+
+<h3>GUTERRES</h3>
+
+<p>Ora ahi está a deidade, que eu eternizei nos meus versos! As esperanças de
+muitos poetas, quando se realisam, são pouco mais ou menos como esta. Este
+Aniceto, offerecendo-se aos meus devaneios d'alma, é uma imagem que eu tambem
+offereço como lição a todos os poetas. <em>(Vê-se um encapotado ao fundo, com
+chapéo de aba derrubada)</em>.</p>
+
+<p>Mas, a final, onde é que está a filha? Foi o velhaco do creado que me
+enganou! É o couce da proza que bateu no peito da poesia. Filha de Aniceto,
+onde quer que estejas, eu te offereço este calix d'amargura, e boas noutes.
+<em>(Vai a recolher-se ao quarto.)</em><span class="pn">{168}</span> </p>
+
+<h2>SCENA X</h2>
+
+<h3>JOSÉ PIMENTA <small>E</small> GUTERRES</h3>
+
+<h4>Pimenta <em>(rebuçado)</em></h4>
+
+<p>Boas noutes.</p>
+
+<h4>Guterres <em>(suspendendo-se)</em></h4>
+
+<p>Boas noutes.</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Quem é o senhor?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Não respondo a encapotados de melodrama. Destape-se.</p>
+
+<h4>Pimenta <em>(deixa cair as bandas do capote)</em></h4>
+
+<p>Eis-me.<span class="pn">{169}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Eis-me o que? Cada vez o conheço menos.</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o
+senhor e a filha de Aniceto?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>De commum de dois? temos questão grammatical ou phisiologica?</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Que tem o senhor que ver com ella?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo, Barcellos,
+o rei dos tambores, V. S.ª etc. Falta elle que ver...<span
+class="pn">{170}</span> </p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>O senhor sabe que da zombaria ao rewolver não ha mais que um passo?</p>
+
+<h4>Guterres <em>(sorrindo)</em></h4>
+
+<p>O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em Barcellos
+não póde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama, posso saber?</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Sou José Pimenta.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Pimenta? por isso o senhor é tão cálido!... Eu sou de apellido Mira-mar.
+Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a filha
+d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um coração de poeta e um
+respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena?<span
+class="pn">{171}</span> </p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Amo.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Tambem eu.</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Tambem o senhor?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Tambem eu; mas ha uma differença entre nós, e vem a ser que ella a mim não
+me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o.</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Tenho provas d'isso.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Tem? <em>(Solemne)</em> O senhor sabe que esmagou<span
+class="pn">{172}</span> n'este momento um dos mais romanticos corações que
+batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as florinhas d'um amor nascente
+que burbulhavam na charneca d'esta alma? <em>(concentra-se)</em> Coragem!
+Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E então o senhor vem aqui
+fallar-lhe? Sabe que ella está...</p>
+
+<h4>Pimenta <em>(apontando para o quarto de Aniceto)</em></h4>
+
+<p>Sei que está alli no N.º 10, que m'o disse o creado da hospedaria.</p>
+
+<h4>Guterres <em>(apontando)</em></h4>
+
+<p>Alli?</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... <em>(reparando na vidraça
+sobranceira á porta.)</em> Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles vidros..
+O senhor não vê?<span class="pn">{173}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Sim, eu vejo lá o que quer que seja.</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>É ella que me conheceu a voz. Quer outra prova?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Não senhor, estou satisfeito. Aquella mulher é sua. Sou magnanimo até aqui!
+</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Se me fosse possivel subir á altura da vidraça! Alli está uma mêza. O senhor
+guarda segredo? Não revella este arrojo d'um amante apaixonado?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os
+caixilhos das vidraças<span class="pn">{174}</span> e passar-se lá p'ra dentro.
+Póde fazêl-o que eu não digo nada.</p>
+
+<h4>Pimenta <em>(attento nos vidros)</em></h4>
+
+<p>É ella. É o anjo! Lá está o rosto amado!</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Vá, não perca tempo. Dê-lhe um beijo envidraçado. <em>(Pimenta aproxima uma
+banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a vidraça
+com um murro, e põe fóra a cabeça.)</em></p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Ah cão!</p>
+
+<h4>Pimenta <em>(saltando)</em></h4>
+
+<p>Traição! traição! <em>(Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.)</em><span
+class="pn">{175}</span> </p>
+
+<h2>SCENA XII</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>E</small> GUTERRES</h3>
+
+<h5><em>(O palco escuro)</em></h5>
+
+<h4>Aniceto <em>(correndo para Guterres)</em></h4>
+
+<p>Ainda aqui estás, ladrão!</p>
+
+<h4>Guterres <em>(accendendo um phosphoro)</em></h4>
+
+<p>Olhe que está enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o
+funccionario da Povoa, Guterres Arthur. <em>(Continúa a accender
+phosphoros.)</em></p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraça. Onde está o
+scelerado, o canalha do flautista?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Elle toca flauta? São fataes os flautistas...<span class="pn">{176}</span>
+</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Transtornou a cabeça de minha filha o infame... Onde está elle?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto.
+<em>(Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que exclama de
+dentro.)</em></p>
+
+<h4>Voz de velha</h4>
+
+<p>Quem está ahi?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Enganei-me.</p>
+
+<h4>Voz</h4>
+
+<p>Um homem! que desafôro! um homem!<span class="pn">{177}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Perdão, minha senhora; não grite tanto. V. Ex.ª parece-me bastante velha
+pelo metal de voz, e não deve recear-se de homens.</p>
+
+<h4>Voz</h4>
+
+<p>Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora...</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Não se assuste. V. Ex.ª em guerra de paixões é paiz neutro. Esteja socegada.
+Durma. <em>(Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)</em></p>
+
+<h4>Voz</h4>
+
+<p>Quem bate? quem anda aqui, mana?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Cá está outra inviolavel. Não é nada, minha senhora. A mana não teve
+perigo.<span class="pn">{178}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto <em>(sahindo com uma luz do seu quarto)</em></h4>
+
+<p>Aqui está luz. Venha cá, snr. Miramolim.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Miramar, se faz favor.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Que me diz á perseguição d'este facinora? O senhor não lhe disse que eu
+estava n'este quarto?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Nada, eu não lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a
+espreitar pelos vidros; mas como elle disse «lá está o rosto amado» cuidei
+realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. Não se afflija. O caso tem
+remedio. Trate a doença de sua filha pelo systema homoeopathico. <em>Similia
+similibus.</em> Sabe latim? <em>(Signal negativo)</em> Quer dizer: cura-se a
+molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer dizer: a doença de sua
+filha é causada pelo tal<span class="pn">{179}</span> sujeito, não é?
+<em>(Signal affirmativo)</em> Pois <em>similia similibus</em> arranje-lhe outro
+similhante.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Dois? tomára eu desfazer-me d'este.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Outro marido, percebeu?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Percebi, sim, senhor; mas eu não acho que a minha filha tenha necessidade de
+casar com este nem com o outro.</p>
+
+<h4>Guterres <em>(com enfaze e rapidez)</em></h4>
+
+<p>Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes no
+fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a não soffrem sem que a especie
+seja deteriorada por transtornos contrapostos ás evoluções palyngenesicas da
+reproducção genesiaca, resultando d'ahi que<span class="pn">{180}</span> as
+evoluções abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberrações de
+graves consequencias: o senhor percebe, eim?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>As aberrações curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Miramar, se faz favor. Vejo que V. S.ª não entendeu. Sua filha ha de dar-lhe
+grandes penas e trabalhos, se não tiver em quem empregar a actividade do seu
+coração: percebeu agora?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Muito bem. Aconselha-me então o senhor que lhe procure marido.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>E quanto antes.<span class="pn">{181}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>O senhor é solteiro?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Sou, sim senhor, porque?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Quer casar com minha filha?</p>
+
+<h4>Guterres <em>(com gravidade)</em></h4>
+
+<p>A sua filha, snr. Aniceto, é uma imagem que me sorria nos meus sonhos antes
+de a conhecer. Eu amo-a com este coração de anjo que tenho; e, se eu já não
+fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Camões d'occasião. Mas a sua
+pergunta á queima-roupa é um choque tal de felicidade que me burrifica.
+Deixe-me tomar ar. Ha commoções de alegria que achatam os bofes e sacodem todas
+as visceras d'um homem.<span class="pn">{182}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Não ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguição d'este bandido da
+flauta. Se V. S.ª annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde
+podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha
+Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e ouça fallar.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Não, senhor. Isto de casamento é um acto sério e solemne. Corações apanhados
+de surpreza não me servem. A mulher, que houver de ser minha, hei de
+conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo poetico. Logo que eu
+conhecer que consegui apaixonar sua filha, então a contemplarei como objecto
+matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou poeta.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Então que é preciso?<span class="pn">{183}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>É preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus
+primeiros ensaios no coração de sua filha empregando os expedientes
+sentimentaes.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Que vae o senhor fazer n'esse caso?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>V. S.ª não me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em
+consequencia de elle tocar flauta?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Foi isso.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Pois eu vou empregar tambem a musica. Póde ser que esta menina tenha a alma
+lyrica e<span class="pn">{184}</span> philarmonica e que o seu coração só possa
+ser abalado instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao
+seu quarto, e esperar lá os phenomenos que se forem operando na sensibilidade
+de sua filha? </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Sim senhor, eu cá vou esperar os phenomenos. <em>(Recolhe-se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA XIII</h2>
+
+<h3>GUTERRES <em>(só)</em></h3>
+
+<h5><em>(Guterres pega da viola, preludía, aproxima-se do quarto de Victorina e
+canta em postura de inspirado)</em></h5>
+
+<blockquote>
+ Eu na Povoa descuidado<br>
+ Já não sentia disvelos;<br>
+ Eis que surges, luz brilhante,<br>
+ E eu te sigo até Barcellos.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ <span class="pn">{185}</span>    Acorda, menina,<br>
+    Não durmas agora,<br>
+    Em quanto se fina<br>
+    De dôr quem te adora.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Victorina, escuta os hymnos,<br>
+ Que te canta o meu amor;<br>
+ Escuta os versos divinos,<br>
+ De Guterres, trovador!</blockquote>
+
+<blockquote>
+    Acorda menina,<br>
+    Não durmas agora,<br>
+    Em quanto se fina<br>
+    De dôr quem te adora.</blockquote>
+
+<blockquote>
+             <em>(Escutando declama:)</em></blockquote>
+Ella não se bole. Parece-me que a ouço resonar. É a belleza que ronca nos seus
+sonhos innocentes. <em>(Reparando em José Pimenta que vem entrando)</em> Temos
+chinfrim.<span class="pn">{186}</span>
+
+<h2>SCENA XIV</h2>
+
+<h3>JOSÉ PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, <small>NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA,
+</small>ANICETO <small>MAIS TARDE, E O</small> CREADO</h3>
+
+<h5><em>(José Pimenta entra embuçado, medindo os passos á tragica. Chega ao
+meio da scena, arroja o chapéo, deixa cahir a capa, cruza os braços, relançando
+um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior d'uma jaqueta de pelle os
+canudos d'uma flauta, liga-os, dá dois passos á frente, e com a maior
+solemnidade toca a aria da Sombra de Nino, da Semiramis. Guterres tem passado
+com a viola para o outro lado, e faz menção de se defender com uma cadeira, em
+quanto o outro não toca. Victorina, assim que José Pimenta tem tocado a
+primeira parte da aria, começa aos empurrões á porta.)</em></h5>
+
+<h4>Victorina <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p>Josésinho, Josésinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta porta!
+<em>(Aniceto rompe do quarto com os braços no ar, a tempo que Victorina faz
+saltar a fechadura e corre aos braços de José Pimenta, exclamando:)</em> José,
+José, quero morrer nos teus braços. Ai! <em>(Desmaia nos braços
+d'elle.)</em><span class="pn">{187}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto <em>(ao creado que tem entrado com a luz)</em></h4>
+
+<p>Você faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades todas. Ah
+grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos não ha justiça que vingue um pae?
+</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Snr. Aniceto, não mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos inuteis.
+Agora conheço que a chaga da sua filha só póde ser curada com o pêllo do
+mesmo... do mesmo José Pimenta. Não ha duvida que o coração d'esta menina está
+magnetisado pela musica; mas o que é certo é que a propensão d'ella não é a
+viola. A alma d'esta senhora inclina-se para instrumento de sopro. Não é assim,
+snr.ª D. Victorina? Faça favor de voltar a si para responder, e desmaie depois
+se quizer. <em>(Ella abre os olhos)</em> É verdade ou não?</p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Ai! <em>(Aniceto cáe prostrado n'uma cadeira á boca da scena.)</em><span
+class="pn">{188}</span> </p>
+
+<h4>Guterres <em>(a Pimenta)</em></h4>
+
+<p>O senhor não tem habilidade senão para a flauta. Aproveite a occasião e vá
+com a pequena ajoelhar-se aos pés do velho. Andem para diante.
+<em>(Empurrando-os)</em> Parece que nunca estiveram no theatro!</p>
+
+<h4>Pimenta e Victorina <em>(ajoelhando)</em></h4>
+
+<p>Meu pae! piedade!</p>
+
+<h4>Aniceto <em>(erguendo-se de impeto)</em></h4>
+
+<p>Oh! <em>(Grito rouco e prolongado; com os braços affasta tragicamente da
+vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)</em></p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abençôe a união d'essas creaturas.
+Deixe-os casar; alegre-se com a esperança de que ha de ainda vêr meia duzia de
+netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o genio de sua mãe, amando
+uma orchestra de sujeitos distinctos desde a<span class="pn">{189}</span>
+trompa até á corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante misericordioso
+para os propagadores da sua individualidade tipica.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Levantem-se d'ahi! <em>(Erguem-se submissos.)</em></p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Bem; estão os senhores absolvidos. Parabens. Ó snr. Pimenta, eu creio que
+algum serviço lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador da sua
+flauta. Em recompensa, faça-me o senhor o favor de dizer se foi realmente com a
+aria da Sombra de Nino que enfeitiçou esta sympathica joven?</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Esta aria era a senha com que os nossos corações se entendiam.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Ah! sim? Eu quero tocar isso no violão; vou<span class="pn">{190}</span>
+experimentar o effeito d'essa aria no coração de certas pessoas que costumam
+arrebatar-se fascinadas pela minha voz de tenor. <em>(Tange na viola o
+acompanhamento da Sombra de Nino, e canta:)</em></p>
+
+<blockquote>
+ Pobre poeta, ninguem te preza,<br>
+ Pobre poeta, ninguem te quer;<br>
+ Nem co'a viola tu conseguiste<br>
+ Mover o peito d'uma mulher.</blockquote>
+<em>(No intervalo de uma quadra á outra. A José Pimenta)</em>
+
+<p>Isto vae bem? <em>(Faz na viola escalas sobre os bordões.)</em></p>
+
+<blockquote>
+ Mas não importa; vença a flauta<br>
+ A sympathia das fracas almas;<br>
+ Que eu antes quero, meus bons amigos,<br>
+ O vosso affecto e as vossas palmas.</blockquote>
+
+<h4>FIM.</h4>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Os direitos de representação das duas comedias que formam este volume
+pertencem ao auctor.</p>
+
+<p>Porto, 3 de Fevereiro de 1871.</p>
+
+<p style="text-align:right;">C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small>
+B<small>RANCO</small>.</p>
+</div>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30461 ***</div>
+</body>
+</html>
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..6786681
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #30461 (https://www.gutenberg.org/ebooks/30461)
diff --git a/old/30461-8.txt b/old/30461-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..4632034
--- /dev/null
+++ b/old/30461-8.txt
@@ -0,0 +1,4315 @@
+The Project Gutenberg EBook of A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta
+e a Viola, by Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta e a Viola
+ Theatro Comico de Camillo Castello Branco
+
+Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+Release Date: November 13, 2009 [EBook #30461]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+------
+
+THEATRO COMICO
+
+A MORGADINHA DE VAL D'AMORES
+
+-----
+
+ENTRE A FLAUTA E A VIOLA
+
+------------
+
+PORTO
+EM CASA DE VIUVA MOR--EDITORA
+PRAA DE D. PEDRO
+1871
+
+
+
+
+THEATRO COMICO
+
+
+
+
+PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA
+
+
+
+
+THEATRO COMICO
+
+DE
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+A MORGADINHA DE VAL D'AMORES
+
+
+ENTRE A FLAUTA E A VIOLA
+
+
+PORTO
+VIUVA MOR--EDITORA
+PRAA DE D. PEDRO
+1871
+
+
+
+
+ADVERTENCIA
+
+
+Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o
+distincto maestro Francisco de S Noronha, quando a comedia se escreveu
+com destino a ser representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o
+bom exito theatral o subsidio da musica n'esta composio, e sobrevindo
+rases que desviaram o nosso amigo Noronha de collaborar comnosco em
+tamanha futilidade, no pde por isso a comedia ser submettida opinio
+das platas. Quem a lr agora tem de benevolamente disfarar o seu
+fastio de leitura de versos, feitos ou copiados das canes populares,
+para se cantarem. Por via de regra, taes trovas so sempre asperas ou
+dissaboridas na declamao, mrmente as que formam o _Auto do nascimento
+do menino Jesus_, consoante elle se figura nas aldas do Minho ainda hoje.
+
+Com referencia fara no temos que pedir desculpa. Seria
+desvanecimento irrisorio recearmos ns que a ponderosa e grave critica
+se descesse at coisa to pequena.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES
+
+COMEDIA EM TRS ACTOS
+
+
+
+
+FIGURAS
+
+ D. JOANNA COGOMINHO DE ENCERRABODES, morgada de Val-d'Amores, filha de
+ PANTALEO COGOMINHO DE ENCERRABODES.
+ FREDERICO ARTHUR DA COSTA, Escrivo da Fazenda de Santo Thyrso.
+ COSME JORDO, Deputado por Guimares.
+ MACARIO MENDES, Boticario de Santo Thyrso.
+ JOO LOPES, Lacaio e confidente da Morgada.
+ FIGURAS DO AUTO DOS TRES REIS MAGOS.
+ Creados, cantadeiras, camponezes, musicos e outros personagens.
+ _Scenas da actualidade._
+
+
+
+
+ACTO PRIMEIRO
+
+
+Ao fundo, porto de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes.
+O restante do palco figura uma alameda e estrada.
+
+
+SCENA I
+
+FREDERICO _(s)_
+
+ _(Frederico um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e
+ calas pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O
+ chapo de frma ingleza e alto para tornar mais aguada a figura.
+ A cabelleira bironniana em crespas ondulaes. Bigodes encerados e
+ picantes nas guias retezadas. A luneta d'um vidro sem aro obriga-o a
+ caretear, abrindo a bocca de esgulha quando fixa mais attentamente
+ a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fr necessario fugir, ho
+ de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A
+ agilidade da rotao do pescoo deve dar-lhe o que quer que seja de
+ authomatico e fantasmagorico.)_
+
+A razo diz-me que eu estou em perigo de ser modo por estes selvagens
+do Minho; mas o corao, este intestino onde o amor e a coragem habitam,
+diz-me que no vacille. A raso argumenta-me que eu, escrivo de fazenda
+no concelho de S. Thyrso, no devo arrojar as minhas desenfreadas
+ambies at mo da morgadinha de Val-d'Amores; mas o corao, esta
+republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella,
+mandando-me lr n'aquelle brazo _(apontando)_ o epitaphio da fidalguia
+de raa, e o monumento levantado no s tradies ineptas, mas
+restaurao da dignidade humana. Alm d'isto, eu, homem de aspiraes
+gigantes, eu, poeta de audaciosos raptos d'alma, eu, que junto poesia
+elevada a poesia profunda, preciso de me arranjar. Sou escrivo de
+fazenda; mas esta posio no quadra aos meus instinctos. s vezes como
+que sinto escaldarem-se-me as arterias com sangue de principe, e me quer
+parecer que algum de meus avs foi mais ou menos illudido por alguma das
+minhas avs. Reconheo, como filho d'este seculo, que a democracia matou
+a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim ; porm, ao mesmo tempo,
+no sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta
+morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o
+que mais me incita a querer-lhe com a adorao dos Paulos e dos Romeus
+a preciso que tenho de me arranjar.
+
+Eu j manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocao;
+e, como me sentisse um dos muitos desventurados que cem n'este mundo
+sem vocao, fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por
+serem cousa que a Biblia no diz que o Creador fizesse nos sete dias de
+creao. Um sujeito olha para si como Deus para as trevas, e diz _fiat
+lux_ faa-se o litterato; _et lux facta est_, e o litterato fez-se.
+Eu prometto no dizer mais nada em latim, por que tambem no sei mais do
+que isto.
+
+Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever.
+Preparava-me para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26
+de supplemento, quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um
+diario de Lisboa. A minha reputao estava quasi estabelecida, quando a
+empreza me despediu por semsaboro, como se fosse obrigatorio ser
+engraado no paiz mais desgraado do mundo. Voltei o meu espirito para a
+historia universal, e cheguei at a procurar n'um Almanak onde era a
+Torre do Tombo com teno de l ir consultar os pergaminhos. N'este
+proposito estava eu, sentindo j os calores da gloria, quando me
+encarregaram de traduzir uma comedia franceza para o Gymnasio. Puz de
+parte a Historia Universal, e traduzi a comedia com um esmero indigno do
+resultado, porque ella foi pateada visto que tinha, segundo disseram os
+criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a virgindade elegante do
+texto. Ora eu ento fiz-me critico, animado pela grande copia de
+sandices que se escreveram contra a minha traduco. N'este modo de vida
+achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber
+alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira
+em jardim de flores; temivel porque remeche e estraga tudo; levanta
+implas de terra, e suja quando no desvasta a mimosa vegetao. Eu fiz
+destroos grandes e escalavrei muitas reputaes litterarias, j por
+amor da arte, j por amor do estomago, esta coisa onde um homem de genio
+no pde crear a luz, porque isto aqui _(indicando o estomago)_ um
+abysmo que s recebe a luz pela bocca. Mas a final, as obras litterarias
+que appareciam eram j de natureza que o arpo da critica no lhes
+ferrava a unha. Entreguei-me ao genero chamado _reclame_, e comecei a
+chamar a atteno do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia,
+romance ou fara. Este officio, posto que o mais aviltante da vida d'um
+escriptor, o mais lucrativo no mundo patarata, em que eu me atasquei.
+A consciencia pezava-me pouco, se o estomago sahia pezado de casa do
+emprezario do theatro ou do editor do romance. Afoguei muitos escrupulos
+em sopa de camaro. Mas o sangue de principe, este no sei qu que me
+faz ccegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha misso na
+terra, e desde logo atirei um vo atrevido s regies aquilinas da
+politica. Estudei trez dias as questes de fazenda em Portugal, e
+entendi-as to claramente como se fossem questes da minha fazenda.
+Percebi que o paiz estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma
+serie de artigos nos quaes provava que a maneira de matar o _deficit_
+era... sim eu provava que a maneira de matar o _deficit_, esse cancro
+roedor das entranhas do meu paiz, era... sim eu provava... no me lembra
+agora o que provei... o certo que me despacharam escrivo de fazenda
+de Santo Thyrso, provavelmente para matar o _deficit_. Eis que chego, e
+vejo a Morgadinha... _(Ouvem-se os tamborileiros)_ No convem que estes
+barbaros me vejam parado em frente do porto da mulher amada... _(Se)_.
+
+
+SCENA II
+
+PANTALEO, DOIS CREADOS, E OS TAMBORILEIROS
+
+ _Entram ao terreiro e pram tocando em frente da porta trez
+ tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco
+ depois abre-se a porta, e se_ _PANTALEO__, com dois creados de
+ lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um
+ pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem._
+
+1. Tamborileiro _(o do Zabumba)_
+
+Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr. morgadinha!
+
+Os trez
+
+Biba por muitos annos, biba!
+
+Pantaleo
+
+Ol! rapazes! Com que vosss j se vo chegando ao arraial?..
+
+1. Tamborileiro
+
+ promeiro, vamos tocar s mordomos do Snr. San Joon, que tem festa
+d'arromba este anno; e s despois la bamos pr' arraial com Deus.
+_(Ouve-se ao longe a toada das cantadeiras que cantam o S. Joo.)_
+
+Pantaleo
+
+Bebam; mas no se encarraspanem como no anno passado.
+
+2. Tamborileiro _(rindo alvarmente)_
+
+ berdade, fedalgo! Aquillo que foi perua! Indas m'alembra!
+
+Pantaleo
+
+Pois v l se arranjas outra que te faa esquecer a do anno passado.
+
+3. Tamborileiro _(bebendo)_
+
+Enton la bai saude de Vossenhoria, a mais da snr. morgadinha.
+
+1. e 2. Tamborileiro
+
+A mesma.
+
+Pantaleo
+
+Querem mais? bebam.
+
+1. Tamborileiro
+
+Non faz minga.
+
+Pantaleo
+
+Ento, rapazes, adeus. L nos veremos na romaria.
+
+Os tres Tamborileiros
+
+Biba o fedalgo, e mai la obrigaon. _(Sem rufando estrondosamente:
+cessa o estrondo pouco depois.)_
+
+
+SCENA III
+
+PANTALEO E OS DOIS CREADOS (QUE POUSAM AS VASILHAS)
+
+Pantaleo
+
+Ora venham c vosss, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses
+olhos. Vosss tem obrigao de zelar a honra d'esta casa, por que
+nasceram n'ella, c se crearam, e c hode morrer, se me servirem bem.
+Aquillo que souberem a respeito do que vou perguntar ho de dizer-m'o.
+Aqui quem governa sou eu, percebem? Vosss tem visto de noite alguma vez
+por debaixo das janellas d'esta casa o escrivo de fazenda? um homem
+muito magro que c vinha d'antes?
+
+1. Creado
+
+Bem sei quem o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo,
+eu jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu
+de regar a cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando
+sobre a direita, vi uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que
+parecia um abentesma...
+
+2. Creado
+
+Eu tambem j bi esse abentesma, salbo seja, ahi s pois da ma noute;
+mas aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que
+Vossenhoria faa de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim
+tzo e hirtego que no bolia c'os pezes. Havra de ser o mesmo que tu
+enxergaste, Antonho!
+
+Pantaleo
+
+Pois creiam vosss que no era outro seno o escrivo de fazenda.
+N'estes arredores no ha homem d'aquelle feitio seno elle... Sabem o
+que eu quero, rapazes? que lhe dem uma boa sova de estadulho.
+
+1. Creado
+
+S se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira.
+
+2. Creado
+
+E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar s lebres.
+_(Ouvem-se risadas de mulheres j perto.)_
+
+Pantaleo
+
+Por ora, nada de tiros; o que mando que lhe arrumem quatro bordoadas,
+sem lhe dizer isto nem aquillo. Vosss zupem-lhe e escamem-se, que eu
+com a justia no quero testilhas; mas no lhe batam, sem o apanharem c
+ volta da casa... Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as
+raparigas da freguezia. _(Sem pela esquerda.)_
+
+
+SCENA IV
+
+
+ _(Rancho de raparigas vestidas de saias de chita com muita roda de
+ saias e saiotes, capotilhas encarnadas, chinela e meia branca,
+ acompanhadas d'um tocador de rebeca e outro de violo, que lhes
+ acompanham as cantigas. Entram pulando alegremente, e pucham por a
+ estridula sineta do porto.)_
+
+O rabequista
+
+Biba a snr. morgadinha de Val-d'Amores!
+
+Todos
+
+Biba! Biba! _(Cantam o S. Joo.)_
+
+ COPLAS
+
+ Son Joon adromeceu
+ Nas escadas do collejo;
+ Deron nas frras co'elle,
+ Son Joon ten porbolejo.
+ Que aquillo, que aquillo, que aquillo?
+ Son Joon a caar um grilo.
+
+ meu son Joon da Ponte,
+ meu bello patusquinho,
+ D-nos anno de bon pon,
+ D-nos anno de bom binho.
+ Non nada, non nada, non nada,
+ Son Joon a comer pescada.
+
+
+ _(Abre-se o porto de par em par. Se a Morgadinha, trajada com
+ luxo, mas fra da moda. Vestido de ancas exaggeradas, cabello
+ Stuart, e um grosso grilho ao peito. Segue-a um creado velho, de
+ niza, com uma cadeira de braos cabea, e uma pichorra e caneca na
+ mo.)_
+
+
+SCENA V
+
+MORGADINHA, JOO LOPES, E AS CANTADEIRAS
+
+Vozes
+
+Biba a snr. morgadinha! Biba! Biba!
+
+Morgadinha _(sentando-se na cadeira)_
+
+Adeus, raparigas. Como ests tu, Maria do Quinchoso! e tu Benta do
+Cazal? Olha a Marianna da Egreja como est gorda com o cazamento! Joo
+Lopes, d vinho a essa raparigada toda.
+
+Uma das moas
+
+Vossenhoria bai ao arraial?
+
+Morgadinha
+
+Podra no! J estou preparada, e vou assim que a tarde refrescar, que
+quero ver o fogo prezo.
+
+Outra
+
+E mai lo auto do Natal, que vem la os d'Arnzo co'elle.
+
+Outra
+
+E como a fidalga est pimponaa! Parece mmo a Madanela da porcisson de
+Passos!
+
+Outra
+
+Benza a Deus, que palminho de cara assim, no se topa outra no mundo.
+Faz agora um anno que os cassacas do Porto andabon todos enbeiados
+atraz da snr. morgadinha no arraial; e enton aquelle goberno que est
+em S. Thirso esse que andava memo azoratado!
+
+Morgadinha _(rindo)_
+
+Qual governo?!
+
+A mesma
+
+Aquelle que lhe chamon o das fazendas, ou non sei que deanho...
+
+Morgadinha
+
+Ah!.. _(suspirando)_ Ja sei...
+
+O do violo
+
+M rais o parton, que me mandou citar indas hontem!
+
+O rabequista
+
+Eu onde le poder ser bon heide medirle o costado de p a p cum fueiro...
+
+Morgadinha
+
+Ora no sejas bruto, Jos da Eira! Elle faz a sua obrigao; faz tu a
+tua que pagar o que deves ao rei.
+
+O mesmo
+
+Ao rei! Bem me fio eu n'isso... Enton a fidalga pensa que o rei aveza
+uma de X do dinheiro que ns demos!! Pois non avezastes! Os governos de
+S. Thirso repartem uns c'os outros no fim do anno o dinheiro que don os
+lavradores.
+
+O outro
+
+ como diz.
+
+Morgadinha
+
+Sois uns selvagens. Deixemo'-nos de tolices. Cantem l alguma coisa vosss.
+
+Uma das moas
+
+Quer a _Marianinha_, fedalga?
+
+Morgadinha
+
+Pois sim; cantem l a _Marianinha_.
+
+COPLAS__
+
+_(Tudo mulheres)_
+
+(UMA VOZ)
+
+ Ja fui canario do rei,
+ Ja lhe fugi da gaiola.
+
+(CRO)
+
+ Sim, sim, eu vou l
+ Marianinha,
+ Sim, sim, eu la vou
+ pequerruchinha.
+
+(UMA VOZ)
+
+ Agora sou pintassilgo
+ Destas meninas d'agora.
+
+(CRO)
+
+ Sim, sim, eu vou la, etc.
+
+(UMA VOZ)
+
+ Pintassilgo est no bosque,
+ A andorinha no telhado.
+
+(CRO)
+
+ Sim, sim, etc.
+
+(UMA VOZ)
+
+ So eu no sei onde estou,
+ Quando no estou ao teu lado,
+
+(CRO)
+
+ Sim, sim, etc.
+
+(VOZ)
+
+ A andorinha quando chove
+ Vai metter-se escuridon
+
+(CRO)
+
+ Sim, sim, etc.
+
+(VOZ)
+
+ E eu quando o norte rijo
+ Metto-me teu coraon.
+
+(CRO)
+
+ Sim, sim, etc.
+
+Todos
+
+Biba a snr. Morgadinha! Biba!
+
+Morgadinha
+
+Ento vosss vo j para a romaria?
+
+Uma d'ellas
+
+Aindas bamos buscar as cazeiras de Vossenhoria que esto espera de
+ns, e s pois voltemos por qui.
+
+Morgadinha
+
+Pois vo, e voltem. _(Sahem cantando o S. Joo. A morgadinha fica
+pensativa e melancolica, encostando o rosto mo, em quanto se ouve e
+se vai perdendo a toada da cantiga.)_
+
+
+SCENA VI
+
+MORGADINHA E JOO LOPES
+
+Morgadinha
+
+Como estes brutos so felizes!.. E eu sempre apoquentada por causa deste
+corao! Ai! eu antes de saber o que era amor tambem cantava...
+Lembras-te, Joo Lopes?
+
+Joo Lopes
+
+Ora se lembro! E cantava que nem uma calhandra a fidalga!
+
+Morgadinha
+
+Olha se te lembras, Joo! Eu ia s espadeladas, s descamizadas, s
+malhas, brincava, saltava...
+
+Joo Lopes
+
+At danava a cana verde, e a chula que era um gosto vl-a!.. E quando a
+menina quiz que eu lhe ensinasse o jogar o po...
+
+Morgadinha _(com alegria)_
+
+ verdade...
+
+Joo Lopes
+
+E o caso que vossellencia ahi com duas duzias de lies j me chegava
+com o po.
+
+Morgadinha _(erguendo-se enthusiasmada)_
+
+E d'aquella vez que eu me vesti de rapaz, e puz fra da eira do Manoel
+Tamanqueiro, com quatro partidas de po, mais de seis mascarados que la
+andavam a beliscar as minhas cazeiras!
+
+Joo Lopes
+
+Por signal que a menina deu uma tapona no Z Torto, que ficou torto de
+todo... fidalga, vossellencia hoje j no era capaz de romper ahi com
+um marmeleiro p'ra frente d'um homem qualquer!..
+
+Morgadinha
+
+Ests enganado... se me chegassem a mostarda ao nariz... Mas, ai!..
+_(Torna a sentar-se triste.)_ A minha alegria foi-se desde que eu soube
+o que era amor!.. Olha l, Joo... no o vis-te hoje? no viste o meu
+amado Frederico?
+
+Joo Lopes
+
+Falle baixinho, menina. Olhe que o snr. morgado ainda ha todonada me
+esteve dizendo que desconfia que elle anda por aqui de noute. A fidalga
+acautele-o; que no vo os creados chegar-lhe ao forro da camiza...
+
+Morgadinha _(erguendo-se colerica)_
+
+Faam isso, que os esgano! Que lhe ponham um dedo, e vero quem a
+morgada de Val-d'Amores!
+
+Joo Lopes
+
+No grite assim, que seu pai, se a ouve, quem as paga sou eu. A fallar a
+verdade, eu no desgosto do snr. Frederico; mas, em fim, esta aquella de
+ser escrivo, ruim modo de vida para poder casar com a snr.
+morgadinha...
+
+Morgadinha
+
+Isso que tem!? Todos somos eguaes; e o corao, quando ama, no quer
+saber de contos. Uma pessoa no est l a averiguar se o objecto amado
+fidalgo ou plebeu. Tem-se visto rainhas casarem com pastores, e reis
+casarem com pastoras.
+
+Joo Lopes
+
+C no conselho de Santo Thirso no me consta, hade perdoar.
+
+Morgadinha
+
+Mas l por esse mundo fra acontece isso a cada passo. Tu por que no
+ls os livros das historias. Eu te lerei casos que aconteceram... E
+ento que tinha que eu casasse com um escrivo?
+
+Joo Lopes
+
+Em fim, em fim, o paisinho da fidalga foi capito-mr, seu av foi
+desembargador, e seu bisav foi sargento mr de batalha no Roussilhon...
+
+Morgadinha
+
+Vai dizendo at chegar a Ado e Eva, vai dizendo, e eu depois te direi
+de quem eu e mais tu somos netos.
+
+Joo Lopes
+
+Isso assim , no ha duvida; mas, diz l o ditado, l com l, e cr com
+cr.
+
+Morgadinha
+
+No quero saber de ditados! _(com fora)_ Este amor s m'o hade arrancar
+do peito a morte!
+
+Joo Lopes _(apontando para o brazo)_
+
+Fidalga, ponha os olhos nas armas reaes dos seus antepassados.
+
+Morgadinha
+
+Ora! no tenho mais que fazer... Cuidas que eu no sei que meu av casou
+com uma creada? Mostra-me onde esto alli as armas da creada. Bem se
+importou elle das armas, nem do brezabu que as leve! o que faltava...
+estar-me eu aqui a definhar p'ra'mor da pedra! As armas so de pedra, e
+eu sou de carne e osso, ouviste?
+
+Joo Lopes
+
+A fidalga responde a tudo, e no ha remedio seno callar-se um homem,
+que a trouxe nos braos desde os trez annos, e sou capaz de me metter no
+inferno vestido e calado por causa da minha menina. _(Sensibilisa-se.)_
+
+Morgadinha
+
+Sei o que tenho em ti, meu Joo Lopes... Vais tu ahi ao cimo do pinhal a
+vr se o vs pela estrada?.. Elle disse-me que havia de passar para a
+romaria s seis da tarde. Se o encontrares, diz-lhe que meu pai se est
+a vestir para ir tambem, e que elle pde demorar-se a conversar comigo
+um bocadinho.
+
+Joo Lopes
+
+Vou vr se o avisto; mas, menina do meu corao, olhe que seu pai anda
+espreita e traz espias... Ns temos grande desgraa pela porta...
+
+Morgadinha _(energicamente)_
+
+No morro de medo, j te disse. A mulher que ama no tem medo de nada!
+
+Joo Lopes
+
+Seja assim; mas, se lhe quebram o espinhao a elle! Coitado do homem,
+to delgadito que, se o apanha o vento d'um po, elle vai a terra...
+
+Morgadinha
+
+Quem lhe hade bater?! Cuidas que elle no anda armado? Que se attrevam
+smente a ameaal-o!..
+
+Joo Lopes
+
+C vou, c vou, no se desespere. _(Se.)_
+
+
+SCENA VII
+
+MORGADINHA
+
+ _(Senta-se quebrantada e triste)_
+
+Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!..
+_(Musica de surdina)_ Como eu gosto d'elle! Ha mais de dous annos que
+este meu corao padece! No ha noite em que eu no sonhe duas vezes com
+a sua imagem... Quando acordo, e o no vejo, a minha vontade chorar,
+chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio. Os
+cirurgies mandam-me tomar aguas ferreas!.. e s eu sei o que tenho! O
+meu mal aqui!.. _(a mo sobre o corao)_ Oh cos! quanto eu sou
+desgraada sem o meu Frederico! _(Ergue-se, e falla com muito
+sentimento. Musica plangente.)_ Quando eu o vi, pela primeira vez, foi
+na hospedaria das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu
+rheumatico. Estvamos a jantar quando elle entrou, e meu pai
+offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle agradeceu, mas no comeu,
+dizendo que o seu jantar era um vo quente. E d'ahi a pouco,
+trouxeram-lhe um vo quente n'uma tigella; e elle comeu o vo, bebeu um
+copo d'gua fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e
+pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai
+ouvir, se podia viver s com um vo, e elle respondeu que a sua alma se
+sustentava com a esperana de ser amado por mim... e com tres vos por
+dia. Oh! que lembranas estas, que lembranas estas! _(chora)_ E vai
+depois, disse-lhe eu: O snr. est assim magro porque come muito
+pouquinho; se gosta d'vos coma uma duzia d'elles de cada vez; e elle
+pregou-me os seus lindos olhos, e respondeu a suspirar: Que me importa
+o corpo? a mim o que me importa o corao que grande; e, se o corpo
+ magro, mais depressa me reduzirei a cinzas se V. Ex. me desprezar.
+Isto fez-me no peito mossa! fiquei presa d'este dito; senti por aqui
+acima uma fogueira que me pz a cara em brazas vivas, e no lhe disse
+coisa de geito porque fiquei um pedao intallada. Depois, ao
+despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe: amo-vos,
+meu bem! Ora aqui est como comeou isto. Desde ento para c apenas
+lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho...
+Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, no vou longe. Elle
+tambem est no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de comear estes
+amores, eu pezava cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois
+aqui ha oito dias pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim
+no podemos viver, nem eu nem elle. _(Com fora, que a musica imita.)_
+preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai quer, quer;
+seno quer, quero eu. Uma mulher no pde ser escrava da sua fidalguia.
+Antes quero ser esposa d'um escrivo, e viver contente, que ser a
+morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pr na espinha...
+_(Ouve-se rumor de vozes fra.)_ o meu pap!.. _(Senta-se.)_ Vem-me
+empatar as vazas...
+
+
+SCENA VIII
+
+
+PANTALEO, MACARIO, E A MORGADINHA
+
+ _(Macario um sujeito de oculos e casaca de briche, j de annos, e
+ ar circumspecto)_
+
+Pantaleo _(parte ao boticario)_
+
+Veja l como lhe falla... Olhe que ella finoria... _( filha)_ C me
+vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para no ficares
+ssinha. _(Se.)_
+
+
+SCENA IX
+
+MACARIO E A MORGADINHA
+
+Macario
+
+Tenha V. Ex. muito boas tardes.
+
+Morgadinha _(enfastiada)_
+
+Viva, snr. Macario, as mesmas.
+
+Macario
+
+Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe
+mandei fez-lhe bem?
+
+Morgadinha
+
+No o puz: cheirava a pez.
+
+Macario
+
+De pez de vergonha era; fui eu mesmo que o manipulei... Ento, a snr.
+morgadinha vae ao arraial?
+
+Morgadinha
+
+Vou.
+
+Macario
+
+Faz muito bem; que l hade encontrar pessoa que muito interessa a V.
+Ex.... enganei-me... pessoa que muito se interessa em vr V. Ex.
+queria eu dizer.
+
+Morgadinha
+
+Como isso? no percebi.
+
+Macario
+
+Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimares, onde estive com o
+snr. deputado Cosme Jordo, um sabio que tem votado grandes fallas no
+parlamento... Ha de ter ouvido fallar V. Ex....
+
+Morgadinha
+
+No sei nada de parlamentos, no leio periodicos.
+
+Macario
+
+Pois, minha snr., o doutor Cosme Jordo um sujeito conhecido em todo
+o mundo, e l na crte at vae ao palacio do rei e come l...
+
+Morgadinha
+
+Deixal-o comer, que tenho eu com isso?
+
+Macario _(parte)_
+
+No fao nada! est hoje levadinha dos diabos.
+
+Morgadinha
+
+Vamos, diga l, snr. Macario.
+
+Macario
+
+Pois este deputado vae hoje romaria do S. Joo.
+
+Morgadinha
+
+Deixal-o ir; que se divirta. Ento esse o homem que me quer vr?
+
+Macario
+
+Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex....
+
+Morgadinha
+
+Ainda bem; signal que no cego. E que mais?
+
+Macario
+
+E que ficou muito agradado de V. Ex....
+
+Morgadinha
+
+Pois tem mo gosto e perde o tempo. Que mais?
+
+Macario
+
+V. Ex., se o vir, no hade fallar assim. ainda homem de boa edade,
+cheio de corpo, com uns oculos que lhe do muito respeito cara.
+
+Morgadinha
+
+Ora! oculos de respeito! que me importa c a mim os oculos do homem?
+sabe que mais, snr. Macario? _(Pem-se a bamboar uma perna sobre a
+outra, e a trautear o Pretinho que vem d'Angola.)_
+
+Macario
+
+Finalmente, snr. morgadinha, como V. Ex. quizer; mas lembre-se de que
+seu pae deve fazenda nacional uns seis contos de ris, e que o snr.
+doutor Cosme, casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae no pague
+nada, e mesmo no futuro lhe no lancem impostos.
+
+Morgadinha
+
+No me seque, snr. Macario. Vocemec queria que meu pae pagasse commigo
+ao tal Cosme o que deve fazenda? Pois que pague com o que d'elle, e
+que me deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias.
+Metta-se l na sua botica e no se faa casamenteiro. V fazer charopes.
+
+Macario _(parte retirando-se)_
+
+Apre com a cabra!
+
+Morgadinha
+
+Que tal est o sacripanta!
+
+
+SCENA X
+
+JOO LOPES, ESPREITANDO A MORGADINHA, E DEPOIS FREDERICO
+
+Joo Lopes
+
+Psiu, psiu.
+
+Morgadinha _(sobresaltada)_
+
+Viste-o?
+
+Joo Lopes
+
+Elle ahi vem... Eu vou espreitar, e assim que eu tossir que fuja para a
+carvalheira.
+
+Frederico
+
+Anjo! milagre de bellesa, Joanna querida, no sentes n'estas mos o
+vibrar da alma?
+
+Morgadinha _(muito terna)_
+
+Como ests tu? passaste bem desd'hontem?
+
+Frederico
+
+Pergunta ao lirio do valle o que lhe pende a fronte quando o orvalho do
+co lhe no esfria os queimores do sol estivo.
+
+Morgadinha
+
+Olha l, Frederico, tenho a avisar-te, antes de mais nada, que preciso
+andares prevenido...
+
+Frederico
+
+Temos sicarios? Ha aqui vampiros? A vindicta paterna tem sde do meu
+sangue? Eis aqui o peito. Que m'o farpem, que m'o fendam, que m'o
+alanceem, que m'o lancetem. Tudo por ti, tudo por ti, estrella,
+loira viso dos meus sonhos! _(Rumor fra.)_
+
+Morgadinha
+
+Foge... esconde-te entre as arvores... _(Frederico sme-se.)_
+
+
+SCENA XI
+
+MORGADINHA, OS DOIS CAMPONIOS QUE VO PASSANDO, E DEPOIS FREDERICO
+
+ _(Um camponio tange flautim e outro viola. Duas moas frente
+ batendo palmas ao compasso do canto, e saltando)_
+
+Um camponio _(cantando)_
+
+ _Muito bem seja apparecido_
+ _Seja apparecido_
+ _N'esta funco._ (Batendo palmas)
+
+(CRO)
+
+ _Bate as palmas c'o seu pexinho_
+ _Co' seu pexinho_
+ _Co' seu pexo._ (Repete)
+
+
+ _(Assim que elles passam, a Morgadinha se do porto, e logo
+ Frederico do escondrijo)_
+
+Frederico
+
+Mas dizias tu, pomba?
+
+Morgadinha
+
+Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem
+armado.
+
+Frederico
+
+Armado! para qu? Tu no sabes que o teu amor talisman que prostra
+gigantes! As minhas armas so os raios de fogo que bebo de teus olhos;
+tenho vesuvios na alma capazes de abrazar cidades!
+
+Morgadinha
+
+Isto no chalaa, meu amado Frederico! Peo-te que tenhas cuidado,
+muito cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, no temeria
+ninguem... Tu verias o que a morgada de Val-d'Amores... Mas eu no sei
+como isto hade ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo...
+
+Frederico _(interrompendo-a com exaltao)_
+
+Fidalgo! que fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que fidalgo? a sola
+velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! ento certo que teu
+pae ignora, que o baptismo de sangue da revoluo franceza lavou todas
+as manchas da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revoluo! o
+segundo christianismo! Que fidalgo? teu pae no sabe que aquelle
+braso d'armas _(apontando)_ est alli como a pedra sepulcral das cinzas
+feudaes! Teu pae est debaixo do sol e no sente o calor da fermentao
+social! Ouve o estrondear da democracia reinante, e volta a face para os
+phantasmas dos avoengos que se somem l em baixo no abysmo da historia!
+
+Morgadinha
+
+No sei l d'essas historias; o que te peo que no te exponhas a
+levar alguma paulada falsa f. Olha que os meus creados so uns
+patifes, e meu pae no boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se
+hade fazer, porque elle no nos d consentimento para nos casarmos.
+
+Frederico
+
+Heide movl-o com a eloquencia d'um homem aquecido no sol moderno. Heide
+convencl-o, enchendo-lhe o espirito de luz e o corao de ideias novas.
+
+Morgadinha
+
+No te mettas n'essa asneira, que no fazes nada. _(Tem-se j ouvido
+toada de musica da chula, e depois a tosse rija de Joo Lopes. Frederico
+some-se sem ser preciso mandal-o. A morgadinha fica.)_
+
+
+SCENA XII
+
+MORGADINHA
+
+
+ _(Chega uma chulata que vae de passagem para a Romaria. Bando de
+ raparigas que precedem, bailando; tocadores de rebeca, viola,
+ clarinete, ferrinhos e requinta. A esturdia pra defronte da
+ morgadinha, e contina danando cada rapariga com o seu parceiro.)_
+
+COPLAS DE DESAFIO
+
+ _(Em quanto o cantador deita a cantiga, tange smente a viola. Entre
+ os dois primeiros versos e os dois ultimos de cada quadra ha um
+ espao que d logar a que toquem por alguns segundos todos os
+ instrumentos.)_
+
+Cantador
+
+ Agora que eu vou passando,
+ Fao aqui minha parada;
+ Para saber da saude
+ Da incelentissima morgada.
+
+Cantadeira
+
+ Da incelentissima morgada
+ Tambem eu quero saber,
+ Que mais linda creatura
+ No na pde o mundo ter.
+
+Cantador
+
+ No na pde o mundo ter
+ Nem ter at ao fim;
+ Os seus olhos so d'amras,
+ Os seus dentes de marfim.
+
+Cantadeira
+
+ Se tem dentes de marfim,
+ O seu rosto uma roza;
+ E viva sua incelencia
+ Que no na ha mais fermosa.
+
+Cantador
+
+ Quero dar a despedida
+ senhora Morgadinha;
+ Que no ha por estas terras
+ Mais bonita fidalguinha.
+
+Cantadeira
+
+ Eu tamem vou espedir-me,
+ Despedida quero dar;
+ Adeus, senhora morgada,
+ Sirva-se de perdoar.
+
+
+ _(A morgadinha agradece-lhes com um aceno de leno. O bando se
+ tocando e danando. Assim que o descante se ouve froixamente, volta
+ Frederico.)_
+
+
+SCENA XIII
+
+MORGADINHA E FREDERICO
+
+Frederico
+
+Tenho odio a estes selvagens que me roubaram horas de vida! Quando
+sahiro os lrpas da face da terra?
+
+Morgadinha
+
+ verdade, Frederico! Trouxeste-me os figurinos?
+
+Frederico
+
+Eil-os chegados hoje de Lisboa.
+
+Morgadinha _(examinando-os)_
+
+Ai! que demonio de mulheres! Pois ellas trazem estes vestidos assim
+incozipados nas pernas!?
+
+Frederico
+
+Oh! isto a elegancia circassiana! a frma na sua diafeneidade
+sublime; ha aqui a poesia do fino, a mulher parece toda nervosa, o
+lyrismo da plastica...
+
+Morgadinha _(rindo)_
+
+Se eu te percebo, cebo! Boa cataplasma me parece este molho de clinas e
+sacarrolhas que ellas tem na cabea.
+
+Frederico
+
+No blasfemes! Joanninha, veste-te assim; reala, sobredoura a tua
+bellesa com estes adornos que angelisam a mulher de compleio robusta,
+e transformam a mimosa em cousa ideal vestida de vapores. A mulher assim
+involta em roupagens etherias um madrigal de setim que cahiu das lyras
+dos anjos.
+
+Morgadinha
+
+Pois sim, fao-te a vontade. Vou mandar comprar no Porto esta trapalhice
+toda...
+
+
+SCENA XIV
+
+OS MESMOS E PANTALEO
+
+ _(Abre-se o porto repentinamente e apparece subito Pantaleo.
+ Frederico ainda faz um impeto de fuga, mas contem-se, e corteja mui
+ urbanamente o fidalgo.)_
+
+Frederico
+
+Passava para a romaria, e, como visse S. Ex. _(indicando a morgadinha)_
+vim depor a seus ps os meus respeitosos cumprimentos, e informar-me da
+saude de V. Ex.
+
+Pantaleo
+
+Estou bom, muito obrigado. Onde est o Joo Lopes?
+
+Morgadinha
+
+Foi aparelhar a burra.
+
+Pantaleo
+
+Vae tu preparar-te que so horas.
+
+Morgadinha
+
+Quer vr como agora so as modas, pap? olhe. O snr. Frederico vae levar
+estes figurinos s nossas primas de Ruives.
+
+Pantaleo
+
+Pois faz-me o snr. muito favor se me c no trouxer bonecos a casa. Ns
+c no somos de modas.
+
+Frederico
+
+Direi a V. Ex., snr. morgado, que as modas tem certa relao com o
+espirito das geraes e das pocas. Agora que o entendimento humano se
+adelgaa, o involucro material tambem se subtiliza nas raas finas...
+
+Pantaleo _(medindo-o d'alto a baixo com ironia)_
+
+Bem se v que o snr. escrivo d'uma raa muito fina... pelo muito
+adelgaado que est...
+
+Frederico
+
+No me jacto de prosapia heraldica; mas, na jerarchia dos espiritos,
+preso-me de pertencer ao bando mais illuminado. Respeito muito o braso;
+mas curvo-me diante da aristocracia do genio e do talento.
+
+Pantaleo
+
+Sim, o snr. tem muito talento, bem sei... J te disse, Joanna, que te
+vs arranjar.
+
+Morgadinha
+
+Adeus, snr. Frederico, muito obrigada. _(Se.)_
+
+
+SCENA XV
+
+PANTALEO E FREDERICO
+
+Frederico
+
+Creado de V. Ex. _(Ve a sahir; mas Pantaleo detem-o.)_
+
+Pantaleo
+
+Faa favr.
+
+Frederico
+
+Escuto as suas ordens.
+
+Pantaleo
+
+O snr. anda muito mal encaminhado. Minha filha a morgada de
+Val-d'Amores; o snr. o escrivo de fazenda de Santo Thirso. Esto um
+do outro to longe como aquella pedra d'armas do reblo d'um sapateiro,
+entendeu?
+
+Frederico
+
+Entendi, que V. Exc. tem um estylo bastante chato. Entendi, posto que
+V. Exc. falle uma lingoagem asss gothica em pleno seculo XIX.
+
+Pantaleo
+
+Pois se entendeu, tire o seu atrevido pensamento de minha filha, e
+procure a frma do seu p. No me obrigue a usar dos usos e costumes dos
+meus avs. Quer que lh'os diga?
+
+Frederico
+
+Heroismos dos seus ascendentes? Essas Odissas da alda so hoje
+impraticaveis. Eu sei em que tempos vivemos, snr. morgado.
+
+Pantaleo
+
+Sabe? pois olhe que no sabe em que terra vive. O snr. veio l de Lisboa
+onde qualquer bigorrilhas, que pe gravata, entende que egual a todo o
+homem que pe gravata; o que o bigorrilhas no quer sr egual a todo o
+homem que no tem gravata.
+
+Frederico
+
+Ahi ha certa sublimidade de ida, de que lhe dou os parabns. V. Exc.
+ia quasi escrevendo d'um trao a historia philosophica da democracia
+moderna.
+
+Pantaleo
+
+Eu no escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo que isto c nas
+montanhas outra cousa. Os morgados so morgados; os escrives so
+escrives; e os sapateiros so sapateiros. Ora, quando acontece alguem
+querer sahir da sua classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as
+costellas. O snr. sabia isto?
+
+Frederico
+
+Eu no sabia que estava na Cafrria. Cuidei que este concelho era um
+retalho do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fco radiara
+uma flecha de luz at ao corao de V. Ex. que me parece ser uma pessoa
+de bons costumes, e no um esquim. Cuidei finalmente que o Evangelho e
+a Carta constitucional livellavam a dignidade humana... _(Ouve-se o
+cantar das raparigas que se avisinha.)_
+
+Pantaleo
+
+Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleo Cogominho de Encerrabdes, dcimo
+oitavo senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com
+minha filha hade poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor
+d'esta casa. Tenho dito, e acabou-se o cavaco. Saude e juizo.
+_(Volta-lhe as costas. Frederico bamba a cabea altivamente e retira-se.)_
+
+
+SCENA XVI
+
+
+MORGADINHA, PANTALEO, E O BANDO DAS MOAS E TOCADORES QUE APARECERAM
+NA TERCEIRA SCENA
+
+ _(A Morgadinha se sentada sobre a jumenta. Vem vestida de Amazna.
+ Joo Lopes de farda azul com vivos vermelhos, bota de orelha e
+ prateleira, colete encarnado, e chapo embreado, tudo antiga e
+ grutesco, vem trazendo a burra pela rdea. As raparigas esto
+ cantando as seguintes)_:
+
+COPLAS
+
+(UMA VOZ)
+
+ Dondes vens velha?
+ Eu venho da feira.
+
+(CRO)
+
+ Que trazes na cesta?
+ Cr, cr, cr,
+ Sardinha vareira,
+ Cri, cri, cri,
+ Por a retangueira;
+ Cr, cr, cr,
+ Se o galo cantou.
+
+(UMA VOZ)
+
+ Se o galo cantou
+ Deixal-o cantar.
+
+(CRO)
+
+ Minha rica prenda
+ Cr, cr, cr,
+ L da beira mar
+ Cri, cri, cri,
+ Pela retangueira,
+ Cr, cr, cr,
+ Se o galo cantou.
+
+(UMA VOZ)
+
+ D'onde vens velha?
+ Eu venho d'alli.
+
+(CRO)
+
+ Que trazes na cesta?
+ Cr, cr, cr,
+ Que te importa a ti,
+ Cri, cri, cri,
+ Pela retangueira,
+ Cr, cr, cr,
+ Se o galo cantou.
+
+
+ _(Contina o canto ao descer do panno.)_
+
+
+FIM DO PRIMEIRO ACTO.
+
+
+
+
+ACTO SEGUNDO
+
+ Vista de arraial. noute. Festes de lampadas de papel variegado
+ pendem dos ramalhos das arvores. Mulheres a frigir, ao lado das
+ pipas cobertas de ramos de folhagem. Barracas com botequins.
+ Multido de povo a beber volta das pipas. Sinos repicando, e
+ estouros de foguetes. D'ambos os lados da scena, mas fra, se canta
+ o S. Joo com vozes alternadas. Frederico passeia por entre o
+ povo, mirando as raparigas. Os dois j conhecidos creados de
+ Pantaleo, com as pernas encruzadas nos varapos, medem d'alto a
+ baixo Frederico, e rompem a jogal-os um com outro. Frederico, por
+ uma das suas evolues maravilhosas de rapidez, desapparece. O povo
+ ri-se, e elle reapparece logo, seguido por trez cabos armados. Os
+ cabos usam bonet com debrum azul. Cessam as cantilenas, e rompe a
+ banda musical de Santo Thyrso, estrondosa em trompes, a qual entra
+ em scena tocando uma marcha. Os musicos uniformes, de cala branca,
+ casaco azul com vivos amarellos, o bonet avivado da mesma cr. As
+ figuras podem caracterisar-se caprichosamente. Em seguida, entra a
+ Morgadinha, com o pae, Macario, Cosme Giraldes, e Joo Lopes. Cosme
+ Giraldes um sugeito gordo, aspeito serio, com os seus oculos, um
+ todo de summa gravidade. Os circumstantes cedem o logar aos
+ recem-chegados, que formam grupos.
+
+
+SCENA I
+
+TODOS OS DESCRIPTOS (GRUPO DA MORGADINHA E COSME GIRALDES)
+
+Cosme _(com gesto de orador e com grandes pausas, Morgadinha)_
+
+A festa animou-se com a auspiciosa chegada de V. Ex. O sol do empyreo e
+uma senhora bella, que o sol dos coraes sensiveis, onde brilham,
+tudo reanimam. Assaz ditoso me julgo em ser o mais feliz dos mortaes que
+se sentem influenciados e enthusiasmados pelos lumes encantadores de V.
+Ex. Falta, todavia, minha completa dita a certeza de que os meus
+affectuosos requebros acham graa nos seus olhos.
+
+Morgadinha _(com desdem)_
+
+Eu no lhe acho graa nenhuma.
+
+Cosme
+
+Como assim, divina ingrata?
+
+Morgadinha
+
+J disse ao boticario o que tinha a dizer.
+
+Cosme
+
+Pois o seu corao...
+
+Morgadinha
+
+Est dado. Eu c sou franca. No perca tempo.
+
+Cosme
+
+No ha duvida que ouvi dizer que V. Ex., victima d'uma allucinao,
+aceitava a crte d'um esgrouvinhado arcaboio que exerce as ladras
+funces de escrivo da fazenda! Heide eu, cos! accreditar que...
+
+Morgadinha
+
+Sim, snr., acredite, e faa favor de me no incommodar que eu vim
+romaria para me divertir. _(Volta-lhe as costas.)_ pap, quando se faz
+o Auto do Natal? _(Ouve-se a musica tocando uma marcha.)_
+
+Pantaleo
+
+ j. Mandei vir as figuras para aqui. Vae comear. amigos,
+desempachem o terreiro que chga o espectaculo. _(O povo retira e
+apinha-se entre scenas.)_
+
+
+SCENA II
+
+OS MESMOS, E AS FIGURAS ABAIXO DESCRIPTAS EM LOGAR COMPETENTE
+
+ _(A musica entra a passo muito cadenciado com grandes pernadas.
+ Chegada bocca do palco, alinha a um lado para dar o passo aos dois
+ primeiros personagens do auto):_
+
+
+SCENA I do Auto
+
+ADONIS E MANASSS
+
+ _(Adonis traja de principe de carnaval; Manasss veste de propheta
+ de procisso; mas toda a fatiota muito usada e desbotada. Adonis
+ traz um cavaquinho.)_
+
+Adonis _(com declamao muito boal)_
+
+Canta, Manasss, que eu te acompanho; para isso com esta harpa vanho.
+
+Manasss _(canta com ar inspirado, gesticulando estupidamente)_
+
+ O co estrellado,
+ Sereno e propicio,
+ Ser pois indicio
+ Do sol desejado.
+
+(CRO DE PASTORES)
+
+ _(Vozes femininas dentro)_
+
+ Quem o habitar?
+ Quem o gozar?
+
+Manasss _(cantando)_
+
+ Vde a paz serena d'esta noute;
+ Nascer a estrella de Jac?
+ O gado socegado adivinha;
+ No se bole no ninho a avesinha.
+
+(CRO)
+
+ Quem o habitar?
+ Quem o gozar?
+
+Adonis _(declamando, e passeando com grandes passos)_
+
+Oh! que terno, caro Manasss, cantastes! O conceito da tua canoneta
+amorosa me traz dces lembranas. Ainda em nossos dias, veremos
+realisadas as porfecias? No caibo na pelle de estifeito; da-me pancadas
+o corao n'este peito! _(Frederico despede um impulso de riso.
+Espantam-se os cicumstantes.)_
+
+Macario
+
+O senhor est a mangar d'estes actos srios?!
+
+Frederico
+
+Pois isto srio! ento no ha nada ridiculo n'este mundo seno o snr.
+boticario.
+
+Macario
+
+O senhor muito mal criado, um incivil, ... ... um escrivo!
+
+Morgadinha
+
+Snr. Macario, no esteja a interromper o auto. Deixe l rir quem quer
+rir; chore vocemess, se tem vontade.
+
+Pantaleo
+
+Continuem l vocs co'isso.
+
+
+SCENA II do Auto
+
+VOZ D'UMA PASTORA, CANTANDO DENTRO
+
+ Deus do co, e da terra,
+ vs que podeis tanto,
+ Ouvide nossos clamores
+ Sde propicio, Deus sancto!
+
+CRO _(dos pastores)_
+
+Do povo amado,
+Mandae o desejado.
+
+ _(Os que esto no palco fazem scenas mudas de ternura muito
+ lorpas.)_
+
+Manasss
+
+Escuta! No foi Ruiva, a pastora que cantou?
+
+Adonis
+
+Foi. E os pastores tambem, que nenhum dorme.
+
+
+SCENA III do Auto
+
+O VELHO SIMEO E RUIVA
+
+ _(O velho vestido de pelles de carneiro. Ruiva de pastorinha, com um
+ cordeiro branco nos braos)_
+
+Simeo _(com os olhos no firmamento)_
+
+Incelso, interno rei sobrano, que sobre os crebins tens assento, oubide
+os nossos lamentos.
+
+(CRO)
+
+ Do povo amado,
+ Mandae o desejado.
+
+Manasss
+
+Agora creio no mysterio occulto d'esta noite. Rebella que todos os
+pastores tem um s pensamento.
+
+Simeo
+
+Vinde pastores aqui todos; n'este campo contemplaremos o silencio da
+noute, que o auctor d'altos mysterios annuncia.
+
+Frederico _(escancarando a bocca)_
+
+Que semsaboria!
+
+Macario e Cosme
+
+Sio! _(prolongado.)_
+
+
+SCENA IV do Auto
+
+ENTRAM PASTORINHOS E PASTORINHAS
+
+Ruiva _(declamando)_
+
+ Aqui vimos, meus senhores,
+ Adorar ns o menino:
+ No seu sancto nascimento
+ Com grande contentamento.
+
+(CRO)
+
+ Se o menino nascido,
+ Ns o bamos prcurar;
+ Aparcei, senhor menino,
+ Que vos queremos adorar.
+
+
+ _(Sem por diversos lados.)_
+
+
+SCENA V do Auto
+
+UM REI TURCO E DEPOIS OUTROS FIGURES
+
+Rei turco
+
+ _(Com uma cara horripilante, e trejeitos assustadores)_
+
+ Sou o turco rei, que
+ Valoroso na arrogancia;
+ Por ser filho da fortuna
+ E neto da extravagancia!
+
+ _(Corre brandindo a espada d'um lado a outro.)_
+
+ De moiriscos reis nasci,
+ Sou seu filho alentado,
+ O meu brao furibundo
+ Deixa tudo escangalhado.
+
+ Co'esta espada sou capaz
+ De entrar pelo inferno dentro
+ E pr tudo em mil pedaos
+ Que eu sou um rei sanguenolento!
+
+ _(Risada de Frederico.)_
+
+Cosme
+
+J pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar
+em to solemne passo!
+
+Frederico
+
+Solemne passo, diz o nobre deputado! chamar _solemne passo_
+prostituio da arte!
+
+Macario
+
+O snr. que uma prostituio! Bem disse aqui S. Ex. que o senhor
+um atheu! um impio que zomba dos mysterios dogmaticos!
+
+Vozes _(dentro)_
+
+Quebra-se-lhe a cabea!--Bordoada rija!--Vamos a elle!
+
+Morgadinha _(erguendo-se colerica)_
+
+Essa canalha que se calle! Joo Lopes, onde est o regedor?
+
+Joo Lopes
+
+Saber V. Ex. que o regedor tomou tamanha turca que est a cozel-a no
+palheiro d'um lavrador.
+
+Cosme _(com enfaze)_
+
+Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem
+social. A auctoridade que d o exemplo da relaxao dos costumes no
+pde educar as massas. necessario que no se desvirtue e desprestigie
+o funccionalismo, com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos
+chegados desmoralisao do Baixo-Imperio!
+
+Macario
+
+Apoiado!
+
+Morgadinha
+
+Ento os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto?
+
+Pantaleo _(ao Rei turco)_
+
+ Z da Custodia, diz l o que tinhas a dizer.
+
+Rei turco
+
+Se isto no leva rumor, acaba-se a pandega!
+
+Frederico
+
+Magnificamente! Est a coisa definida: isto uma pandega, e querem os
+morales que a gente se desfaa em lagrimas! Faa favor de continuar,
+snr. rei turco, que eu estou srio, e talvez chore.
+
+Rei turco
+
+Agora no sou eu que boto a falla, o outro rei. Entra, Manel
+Zarlho! _(Chamando para dentro.)_ O Manel Zarolho o rei christo.
+_(Explicando.)_
+
+
+SCENA VI do Auto
+
+ _(Entra um Rei christo com muitos pastores e pastoras)_
+
+Rei christo
+
+ Eu trago os meus companheiros
+ Fieis minha nao,
+ Para te convencer, turco,
+ E para te fazer christo.
+
+Rei turco
+
+ Para onde ides, romanos,
+ Que to alegres vos vejo?
+
+Rei christo
+
+ Festejar o menino nado
+ Que todo o nosso desejo
+
+Rei turco
+
+ Que do passaporte?
+
+Rei christo
+
+ Passaporte no trazemos,
+ Se nos no deixas passar
+ Para traz ns tornaremos.
+
+Rei turco
+
+ Para traz no heisde tornar;
+ Que eu vou buscar algemas,
+ Que vos quero algemar.
+
+Pastores e pastoras _(cantando)_
+
+ Milagroso Deus menino,
+ Esta obra vossa ;
+ Ajudai-o a vencer
+ O turco inimigo da f.
+
+Rei christo
+
+ Saca l da tua espada!
+
+Rei turco _(arrancando para elle)_
+
+ co, que sova tu levas!
+
+
+SCENA VII do Auto
+
+OS MESMOS E UM ANJO, QUE SE METTE EM MEIO DOS DOIS REIS
+
+_Canta:_
+
+ Detem-te, barbaro turco!
+ Cessa a tua infeliz sorte;
+ Faz-te christo, que no tarda
+ Que te apanhe a feia morte.
+
+CRO _(dos pastores)_
+
+ Faz-te christo que no tarda
+ Que te apanhe a feia morte.
+
+Rei turco _(declama)_
+
+ Eu sou o rei Almeirante
+ La do reino da Turquia;
+ Nunca fui prezoneiro,
+ So do rei da Lixandria!
+
+O Anjo _(canta)_
+
+ Detem-te barbaro turco, etc.
+
+CRO _(dos pastores)_
+
+ Faz-te christo que no tarda
+ Que te apanhe a feia morte.
+
+Rei turco _(afflicto)_
+
+Que isto? que sinto? que tenho eu aqui? _(Com a mo sobre o estomago)_
+Que tenho eu aqui?
+
+Frederico
+
+Hade ser vinho. _(A Morgadinha ri-se s escancaras.)_
+
+Macario _(sobremodo indignado)_
+
+No ha noticia de tamanho escandalo!.. 0 snr. escrivo est mostrando
+que um homem de sentimentos muito herejes!..
+
+Cosme
+
+E eu assaz me espanto que a snr. morgadinha applauda com a sua
+hilaridade estas interrupes indecentes!
+
+Rei turco _(zangado)_
+
+Eu c que no estou p'ra chalaas!.. Passem por c muito bem. Por aqui
+me esgueiro. rapasiada, vamos embora. Manda tocar a marcha Antonho
+da Pga. _(Se com os personagens do auto, atraz da Musica, que vae
+tocando a marcha.)_
+
+
+SCENA III
+
+OS MESMOS, EXCEPTO OS PERSONAGENS DO AUTO
+
+ _(Grande movimento e rapido. Macario gesticula com Jordo, e
+ Pantaleo com a filha. Alguns camponios de varapo fazem crco a
+ Frederico. A morgadinha passa por meio d'elles, bamboando a cabea e
+ vibrando o chicotinho. Frederico passeia com os cabos. Os camponios
+ retiram-se, relanando olhos ameaadores ao escrivo.)_
+
+Morgadinha
+
+Isto j me aborrece, pap...
+
+Pantaleo
+
+Vamos embora, menina?
+
+Morgadinha
+
+Por em quanto no: quero vr o fgo prezo; mas vou descanar um
+pouquinho a casa dos cazeiros.
+
+Pantaleo
+
+Vae, que eu vou buscar-te assim que principiar o fogo.
+
+Morgadinha
+
+ Joo Lopes, vem comigo. _(Sem. Frederico retira-se pelo outro lado
+com os cabos.)_
+
+
+SCENA IV
+
+MACARIO, COSME E PANTALEO
+
+ _(Formam um grupo parte, do povo que gira no fundo)_
+
+Macario
+
+ snr. morgado, pois V. Ex. deixa fugir esta occasio de fazer quebrar
+o espinhao ao morto?
+
+Pantaleo
+
+A occasio boa ; mas que eu no quero que minha filha assista, por
+que ella capaz de se metter no meio da desordem.
+
+Cosme
+
+Pelo que observo, esta sua filha uma heroina grega ou romana, snr.
+morgado! Ella faz lembrar a Pantasilea do Virgilio, e outras faanhudas
+mulheres da historia antiga! Nos tempos presentes, sou a dizer a V. Ex.
+que a mulher quer-se fragil, meiga e timorata; e por tanto permitta que
+eu censure a educao que deu a sua filha!
+
+Pantaleo _(docil)_
+
+Que quer V. Ex.? filha unica, ficou sem me muito cedo, e foi creada
+ laia de rapaz, a trepar s arvores, a atirar aos passaros, e a jogar o
+po; em fim, confesso que andei mal avisado. Eu ento achava-lhe muita
+graa; hoje no lhe acho nenhuma; mas j no posso emendar a mo.
+tarde; minha filha tem vinte e seis annos; hade ser difficil
+corrigir-se, s se o casamento fizer a mudana, e espero que faa.
+
+Cosme
+
+Se o casamento fizer a mudana! Ora essa! Pobre marido que no tem os
+focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu c por mim, snr. morgado,
+confesso que tive certos intentos matrimoniaes com ella; vista, porm,
+das suas informaes, declaro que desisto e renuncio, por que me no
+sinto com foras e habilidade para domesticar uma cobra-cascavel...
+
+Pantaleo _(formalisado)_
+
+No consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha!
+
+Cosme
+
+Isto uma comparao rethorica, litterariamente fallando.
+
+Macario
+
+ rethorica... no se offenda V. Ex.;... talvez ignore que a rethorica
+ uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis...
+
+Pantaleo
+
+No quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleo Cogominho
+de Encerrabodes seja respeitada! _(Volta as costas, e se bufando.)_
+
+
+SCENA V
+
+COSME E MACARIO
+
+Cosme
+
+Isto uma familia de hotentotes! Cheiram ao serto estes selvagens! Do
+que eu me escapei! Se caio nas mos d'estes dois barbaros da edade
+media! Parece-me uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemec, snr.
+Macario, a dizer-me que esta fidalga tinha uma educao fina!
+
+Macario
+
+_Fina_, no disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe que
+ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differena, phisicamente
+fallando.
+
+Cosme
+
+Perdo. Vocemec disse-me que ella tivera fina educao.
+
+Macario
+
+Isso ento foi rethorica...
+
+Cosme
+
+Eu no admitto rethoricas em objecto to srio como o casamento! Olhem
+que educao fina a d'este anjo! Trepa s arvores, atira aos passaros, e
+joga o po! Que predicados estes to mimosos para augmentarem as graas
+virginaes d'uma menina! No lhe falta seno vestir-se de homem, que
+agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. Uma
+menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canho, e rompe com
+elles por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de
+amores que nem aaftida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma
+muito candida e muito pura dentro do peito que se albarda com um palet
+de homem para arrotar francamente umas phrases de bomba real que nos
+fazem comiches nos miolos e arrepios na espinha! Arreda! olha o que me
+estava reservado para os quarenta e seis annos! Uma mulher assim
+paralisava-me as funces do intellecto, e l se me iam as minhas
+ovaes parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, devo-me
+regenerao da minha patria, sou homem publico; e um homem publico
+quando se casa deve fazel-o com dama que o no impea nem apoquente. A
+femea natural do homem politico a politica; a esposa, para os homens
+devotados aos interesses materiaes do seu circulo, significa to smente
+um supplemento vivo e util s commodidades domesticas. Percebe vocemec,
+snr. Macario?
+
+Macario
+
+Ora se percebo! A minha mulher c para mim tambem um supplemento ha
+muitos annos; e mais eu fao-a trabalhar na politica enchendo os
+bilhetes de votos na eleio. Diz V. Ex. muito bem, que ns os homens
+publicos no temos tempo para cuidar de mulheres... _(Reparando em
+Frederico)_ Ahi vem o atheu...
+
+Cosme
+
+Vou-me safando que no quero palestras com este safio. _(Se.)_
+
+
+SCENA VI
+
+MACARIO E FREDERICO
+
+Frederico _(encarando o outro com a costumada careta)_
+
+O douto pharmacopla est irado contra mim por que fui causa a
+interromper-se o escandalo do auto...
+
+Macario
+
+Eu no me metto com o senhor... Tenha a bondade de no embarrar c por mim.
+
+Frederico
+
+A sciencia sempre orgulhosa. Faamos pazes e alliana, snr. Macario
+Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a
+sua sciencia do bazalico e do oleo de mamona, podemos dominar este
+concelho, reunidas as duas foras n'uma aspirao unica. Por que me faz
+guerra inexoravel e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu
+consorcio com a Morgadinha? Por que anda o snr. servindo de alcaiote
+d'este alarve de Guimares, que o trompo grandioso das maiores
+asneiras civicas assopradas na charanga parlamentar? O officio do snr.
+Macario, n'este negocio, desacredita um pharmaceutico, que reune ao
+conhecimento do gamo, sciencia no vulgar da historia dos doze Pares de
+Frana, e tem orvalhado com lagrimas os fastos sanguinosos de
+_Roncesvalhes_.
+
+Macario
+
+V mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem
+Macario Mendes... _(Se.)_
+
+
+SCENA VII
+
+FREDERICO, JOO LOPES, E CABOS
+
+ _(As cantadeiras que no fim do 1. acto acompanharam a morgada
+ entram a cantar a moda com que se fechou o dito acto:)_
+
+ _D'onde vens, velha,_
+ _Eu venho da feira_, etc.
+
+ _(N'um intervalo da 1. 2. trova Joo Lopes acerca-se de
+ Frederico com disfarce)_
+
+Joo Lopes
+
+Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Esto-se a
+preparar os valentes. _(Frederico apita rijo. Apparecem de differentes
+sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em quanto se repete a
+cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fra o rumor da desordem, e o
+estalido dos varapos. As cantadeiras fogem alvoroadas a dar gritos.)_
+
+
+SCENA VIII
+
+FREDERICO, CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS
+
+Frederico _(com intimativa bellica)_
+
+Formem em linha. Carregar armas!
+
+Um cabo
+
+Esto carregadas.
+
+Frederico
+
+Vamos ser atacados pelos desordeiros. voz de fogo, atirem. _(V-se
+atravessar a scena por entre o povo um Desconhecido de chapo derrubado,
+o rosto coberto por um leno, de caraa, polainas de briche nas pernas e
+ps, com um grosso po de choupa. Proximos de Frederico os valentes
+param, com os pos cruzados nas pernas, gingando em attitude ameaadora.
+Frederico, no se desvia dos cabos. De repente, rompem de fra uns
+poucos varrendo o campo a pauladas.)_
+
+Frederico
+
+Cabos de policia, sentido! Preparar armas! _(Se perto da bocca da scena
+o Desconhecido. Encosta-se ao po observando os movimentos dos
+valentes, os quaes vem j avanando, j recuando, crescendo sobre
+Frederico.)_
+
+Frederico _(aos cabos)_
+
+Aperrar armas! _(Uma paulada faz saltar a clavina das mos d'um cabo. Os
+outros fogem. Frederico reca, apitando rijamente. No maior aperto, o
+Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do po, e
+arremette com os aggressores. Estes, forados pela destreza, fogem, logo
+que o primeiro ce d'uma paulada. A vozeria cresce no momento em que o
+palco est despejado. O Desconhecido trava do brao de Frederico, e o
+traz bocca da scena.)_
+
+Frederico
+
+Quem o valente homem a quem devo a vida?! quem ?
+
+Morgadinha _(arrancando o leno do rosto)_
+
+Sou eu! salvei-te, Frederico!
+
+Frederico
+
+ morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como s ideal e angelica!
+_(Ajoelhando.)_
+
+
+FIM DO SEGUNDO ACTO.
+
+
+
+
+ACTO TERCEIRO
+
+ Salo da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia.
+ Reposteiros j envelhecidos com brazes. Alguns retractos. Um piano
+ moderno.
+
+
+SCENA I
+
+PANTALEO E MACARIO
+
+Pantaleo
+
+Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha,
+desde que comeou a vestir-se moda, e a tocar piano, est muito
+distrahida do troca-tintas do escrivo. No anda por janellas, no se
+de casa, e gasta alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a
+vestir-se. Isto custa-me um dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.
+
+Macario
+
+E quem que ensina a snr. morgadinha a tocar?
+
+Pantaleo
+
+ a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com
+loja de fazendas brancas...
+
+Macario
+
+Bem sei, bem sei.
+
+Pantaleo
+
+Foram l as primas de Ruives que fizeram a descoberta; mas o que tem
+muita graa que o homem da mestra to ciumento que s a deixa ir a
+casas onde no ha homens...
+
+Macario
+
+Que tal pezta ella!..
+
+Pantaleo
+
+E para vir aqui, pz por condio que a mulher s viria noitinha
+acompanhada pelo marido que a deixa porta, e vem por ella duas horas
+depois. Eu estive quasi a no aceitar tal professora por saber que o
+escrivo de fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que
+ella fosse medianeira d'alguma carta...
+
+Macario
+
+E tem raso, snr. morgado... Veja l!.. olhe que o mundo um covil de
+marotos!
+
+Pantaleo
+
+No ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pz
+fra da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia
+d'lho a consorte.
+
+Macario
+
+No que sem licena d'elle no ha maior desmoralisao n'este mundo!
+Aquillo tem mesmo idas de Sardanapalo! Ainda bem que lhe est por um
+fio a ladroeira da repartio...
+
+Pantaleo
+
+Conte l isso ento. Em que termos est a bernarda? Rebenta hoje ou manh?
+
+Macario
+
+Hoje. Est tudo alevantado quando fr nove horas. Os sinos ho-de tocar
+a rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo ce todo sobre
+Santo Thyrso, e faz crco para que o escrivo no possa escapulir-se;
+que elle leve como uma penna, e quando a gente mal se precatar, v-o
+fazer vispre, zpe-zpe _(expresso sibilante para imitar a rapidez da
+corrida.)_
+
+Pantaleo
+
+Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que no
+vo os meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que eu
+desejo que elle no apparea mais em Santo Thirso. L a respeito da
+papellada isso queimal-a toda; que depois o governo como no tem
+cadernos para a cobrana dos impostos, no o manda para c a elle nem a
+outro.
+
+Macario
+
+Grande ida essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa.
+Se a gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer
+economias, porque depois no havia quem quizesse servir os empregos. O
+sytema um bocado violento para os empregados, mas eu no vejo outro
+meio de os ir acabando...
+
+Pantaleo
+
+No acho isso humanitario!
+
+Macario
+
+Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos,
+leio jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheo por dentro
+e por fra o paiz e as suas necessidades. Fique certo d'isto; em quanto
+se no der fim a uma casa a que os jornaes chamam _burrocracia_, no se
+indireita a patria.
+
+Pantaleo
+
+Como se chama isso?
+
+Macario
+
+_Burrocracia_, que pelos modos palavra de idioma francez, que vem a
+dizer empregado publico.
+
+Pantaleo
+
+Snr. Macario, v indo c com as minhas idas moderadas. O melhor systema
+de se acabar com os escrives de fazenda queimar os cartorios. Eu lhe
+ponho uma comparao. Se eu queimar a palha que tenho, e no comprar
+outra, que me acontece minha parelha de machos? Morrem de fome, no
+verdade?
+
+Macario
+
+Isso .
+
+Pantaleo
+
+Pois ahi tem: os escrives, em se lhe queimando os papeis, no tem que
+roer.
+
+Macario _(duvidoso)_
+
+Nada; a comparao dos machos no me convence, queira V. Ex. perdoar.
+_(Com energia)_ Matal-os, matal-os, o grande _desideratum_.
+
+Pantaleo
+
+E os papeis? deixam-se ficar?
+
+Macario
+
+Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrives! Nada
+de cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa causticos e ventosas.
+
+Pantaleo
+
+Ora vocemec, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha
+est o processo da execuo que a fazenda nacional me move...
+
+Macario
+
+Por seis contos d'uma fiana dos bens dos frades, sei muito bem...
+Esteja descanado, que no ha de l ficar papel em que se amortalhe um
+cigarro.
+
+Pantaleo
+
+Quem o chefe da revoluo?
+
+Macario
+
+ falta d'homens por hora sou eu; mas no sei a que os commandantes das
+freguezias decidiro. J ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex.
+general em chefe.
+
+Pantaleo
+
+Homem, tire isso da cabea s freguezias. Vocemec bem sabe que eu ando
+muito adoentado dos intestinos, e no posso deixar de tomar o meu banho
+de cana noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revoluo;
+mas entrar nella em pessoa no posso por causa d'esta molestia dos reins
+que me no deixa cavalgar; e vocemec bem entende que um general em
+chefe a p no tem geito, nem pode vr de longe o inimigo, se nos fr
+necessario entrar em batalha com o exercito. Dispensem-me por tanto de
+tamanha honra.
+
+Macario
+
+Farei as diligencias; mas receio que...
+
+
+SCENA II
+
+OS MESMOS E A MORGADINHA
+
+ _(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido
+ muito curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido s pernas;
+ grande lao na cintura posteriormente; sapatos de salto dourado;
+ cabelleira com estupendos tufos encaracolados.)_
+
+Pantaleo
+
+Vens para o piano, Joanninha?
+
+Morgadinha _(pondo luneta d'oiro)_
+
+Sim, pap, vou estudar a minha lio de escala. _(Senta-se ao piano.)_
+
+Macario _( parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)_
+
+Que desmoralisao! Isto o peccado em carne e sso!
+
+Pantaleo
+
+Est vocemec admirado d'estas modas, amigo Macario!
+
+Macario _(ironico)_
+
+So bonitas... _(Grave)_ Mas no acho isto decente para a observancia
+dos bons costumes.
+
+Morgadinha
+
+Que quer? moda; andam assim todas as senhoras do tom.
+
+Macario
+
+Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim no ho de vestir, se
+Deus quizer.
+
+Morgadinha _(voltando o rosto com aborrecimento)_
+
+Ento as suas filhas so senhoras?
+
+Macario
+
+D'aquella massa se fazem, snr. morgada...
+
+Morgadinha _(dedilha nervosamente nas teclas)_
+
+Adeus, adeus. Temos historia!
+
+Pantaleo _(a meia voz)_
+
+No a zangue... Deixe-a l... Tomra eu que ella se entretivesse com os
+vestidos...
+
+Macario
+
+A cabea... est feito, mas as pernas a vr-se-lhe, snr. morgada! Assim
+no se podem observar os bons costumes... _(A Morgadinha canta
+acompanhando a escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas
+altas. Macario Mendes, offendido pela desharmonia, faz caretas.)_
+
+Pantaleo
+
+Ainda no sabes cantar modinha nenhuma, menina?
+
+Morgadinha
+
+A mestra no quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que o
+essencial. _(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario
+despede-se, apertando a mo a Pantaleo.)_
+
+Pantaleo
+
+Veja l os meus papeis, snr. Macario.
+
+
+SCENA III
+
+OS MESMOS E JOO LOPES
+
+Joo Lopes _(trazendo castiaes com luzes)_
+
+Est na sala de espera a snr. mestra pianista e mais o marido.
+
+Morgadinha
+
+Est! Pap, preciso sahir, tenha paciencia. Bem sabe que ella, se vir
+homem aqui, no entra.
+
+Pantaleo
+
+Est bom pedao d'asno o marido! Ento elle no sabe que eu sou um homem
+srio!
+
+Morgadinha
+
+Que quer o pap! J lhe tenho dito que pde entrar segura de que no
+ouve palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que
+a mestra fallou com um homem, seja elle quem fr, no a deixa voltar.
+
+Pantaleo
+
+Com certos individuos tem elle raso; mas nem todos so como o devasso
+escrivo de fazenda, que lhe andava a fazer a crte mulher, e por isso
+foi posto de l para fra. Acho justo que elle se acautele dos
+tratantes; mas de mim... parece-me bestialidade! Emfim c vou. _(Se.)_
+
+
+SCENA IV
+
+MORGADINHA, JOO LOPES E DEPOIS FREDERICO
+
+Morgadinha
+
+Pde entrar a snr. D. Thomazia.
+
+Joo Lopes _(para dentro, levantando o reposteiro)_
+
+Pde entrar a snr. D. Thomazia. _(Joo Lopes se, assim que entra a
+supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de vo
+espesso, e cachos. Chapu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir
+a cara. Vae direito ao piano. V-se a cabea de Pantaleo que espreita
+por uma fimbria do reposteiro. Joo Lopes tosse.)_
+
+Morgadinha _(alto)_
+
+Passou bem, snr. D. Thomazia!.. _(Baixo)_ No me falles que meu pae
+est espreitando, em quanto Joo Lopes tossir... _(Tocam e cantam a
+escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia nas vozes.)_
+
+Joo Lopes
+
+O snr. morgado j est no pateo a conversar com o marido do snr.
+Frederico; estejam vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando
+eu tossir, vejam l...
+
+Frederico _(levanta o vo, abraando o velho)_
+
+Este Joo Lopes um prodigio de dedicao! o typo genuino do antigo
+creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, Joo Lopes, voc ha de
+progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a
+voc um habito de Christo!
+
+Morgadinha
+
+Deixa-o ir, deixa-o ir... _(Joo Lopes se.)_
+
+Frederico _(tomando-lhe as mos calorosamente)_
+
+E os nossos sonhos vo realisar-se, minha fada! Oh! _(contemplando-a
+absorto)_ que deslumbrante! que eclipse ests fazendo nos anjos do co!
+No s s uma bellesa! s um milagre! uma gloria! uma divinisao! No
+ouso beijar-te as mos... Os ps, os ps! Estes ps requerem tapetes de
+labios e almofadas de coraes! Consente que t'os beije, houri!
+
+Morgadinha _(desviando-se)_
+
+No sejas tlo! Gostas de me vr assim?
+
+Frederico
+
+Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as
+fibras intimas do peito! Luz, luz que me cgas, faz-te lavareda, e...
+devora-me!
+
+Morgadinha
+
+Vamos ao caso... Como esto os negocios?
+
+Frederico
+
+Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que ser
+consagrado nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida,
+requerendo tu a tua emancipao, visto que j contas vinte e seis annos;
+mas, como receias que eu seja assassinado logo que requeiras ao juiz,
+cumpra-se a tua vontade. _(Joo Lopes tosse. Vo sentar-se rapidamente
+ao piano, tocando e cantando a escala. Depois, a Morgadinha vae
+espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa voluptuosa que obriga a
+Morgadinha a fazer alguns passos de dana. Frederico, arrebatado do
+donaire gracioso d'ella, ergue-se de mos postas fazendo tregeitos de
+enlevado.)_
+
+Joo Lopes _(mettendo a cabea)_
+
+Podem conversar, que elle passou para a tulha.
+
+Frederico _(com transporte)_
+
+s divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanas o
+p quebradio e chinez em attitude danante, sacodes e impelles brazas
+minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus ps lindissimos. Tudo que
+fazes mata e aviventa. Como no sers esbelta, nos sales de Lisboa,
+princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos
+cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de
+felicidade por todos os pros! Joaninha, deixa-me sonhar! _(Fixa os
+olhos espantados no tecto da plata. Musica surda)_ A minha vida vae ser
+uma etherisao de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taas
+nectreas do co, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez...
+Esse rosto em que se espelham as formosuras no vistas de Angelos nem de
+Raphaeis, ser o meu Al-koro, porque o summo artifice escreveu ahi a
+suprema estrophe do seu poema. Quando os teus olhos se abrirem ao
+diluculo da manh, vr-me-has de joelhos a beijar os teus cabellos;
+quando os fechares, cansados de serem beijados, e as sedosas palpebras
+se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me quedarei a teus
+ps velando que os sylphos amorosos da noite no ousem perturbar o teu
+dormir. Oh! Joanna, Joanna! _(Ajoelha-se-lhe aos ps. Joo Lopes tosse
+com maior fora. A morgadinha adverte em vo Frederico que contina no
+seu arrebatamento:)_ Abre-me aqui j o sepulchro, se em alguma hora hei
+de sentir-me orpho dos teus carinhos... _(Pantaleo ao fundo, erguendo
+o reposteiro.)_
+
+Morgadinha
+
+Ah!
+
+Frederico _(sobresaltado)_
+
+O diabo! _(Desce o vo. Canta qualquer aria conhecida no acto de
+ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente Morgadinha:)_
+
+ Diz a teu pai que a mestra
+ Para melhor te ensinar,
+ Te est cantando uma ria
+ Das que se usa cantar
+ No Theatro de Lisba:
+ Prega-lhe a pta, que ba;
+ E se esta nos no salva,
+ Nada nos pde salvar.
+
+
+SCENA V
+
+OS MESMOS E PANTALEO
+
+Pantaleo _(ao fundo)_
+
+Ento que isso?
+
+Morgadinha
+
+ a minha mestra que me est ensinando uma ria das que se cantam no
+theatro de Lisba.
+
+Pantaleo
+
+Ella tem a voz to grossa! No parece voz feminina!
+
+Morgadinha
+
+Ella canta na voz que quer.... Ento o pap j se esqueceu que o marido
+d'ella...
+
+Pantaleo
+
+Est bom, est bom; eu vou-me embora. L estive conversando com o marido
+da senhora, e lhe disse que no tivesse ciumes que eu sou um velho!...
+Aquelle seu marido parece-me um doudo!.. _(Rindo)_ Ora andem l, andem
+l. _(Se.)_
+
+
+SCENA VI
+
+FREDERICO, MORGADINHA E JOO LOPES A INTERVALOS
+
+Frederico
+
+Salvei-te ou no? Tu salvaste-me com a fora, na romaria; e eu aqui,
+salvei-te com o genio! Vs como o amor me deu espirito n'um trance
+difficil? Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos
+teus olhos, formosa! _(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sa de
+diversas longitudes. Rumr longiquo de vozes.)_
+
+Morgadinha
+
+Que ser isto!? Joo Lopes!
+
+Joo Lopes _(dentro)_
+
+Que quer, snr. morgadinha?
+
+Morgadinha
+
+Sabes a que tocam os sinos? fogo?
+
+Joo Lopes _(dentro)_
+
+Fogo no me parece. Acho que bernarda. Estou c janella a vr se
+entendo a gritaria.
+
+Morgadinha
+
+Diz que bernarda...
+
+Frederico _(alvoroado)_
+
+Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sriamente comigo, comtigo, comnosco,
+com o nosso futuro, Joanna!
+
+Joo Lopes _(dentro)_
+
+ revoluo.
+
+Morgadinha
+
+Revoluo!
+
+Frederico
+
+No ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?
+
+Morgadinha
+
+Qual perder-me! Importa-me c a mim a bernarda! Hei de ser tua! No
+temas, Frederico, que eu sou forte!..
+
+Joo Lopes _(na scena)_
+
+J intendi o que elles dizem... Do morras aos papeis, e que se queime o
+escrivo da fazenda... E trazem musica... Ouvem?... _(Ouve-se
+distinctamente, mas ainda longe, o hymno da Maria da Fonte, mistura
+com os mrra!)_
+
+Joo Lopes
+
+O snr. morgado est na torre a ouvir. Agora bom ser que o snr.
+Frederico se escape, seno desconfio que o matem, sendo aqui pilhado...
+_(Frederico apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha
+agarra-o.)_
+
+Morgadinha
+
+No te deixo sahir agora, que perigoso.
+
+Frederico _(muito inquieto)_
+
+Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! D-me armas que eu
+quero defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver
+de doze tiros! Quero armar-me at aos dentes, e combater, e morrer
+gloriosamente ao teu lado!
+
+Morgadinha
+
+Frederico, tu ests maluco!.. Olha que elles no vem c... No percas o
+juizo!
+
+Frederico _(muito tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)_
+
+No vem? Vem! Escuta! escuta! No ouves o bramido do tigre popular?
+Olha... o leo que ruge, partidos os grilhes de respeito lei! a
+Libia e a Hircania a vomitarem fras! Olha o lago sujo como se levanta
+em vagalhes e como elles roncam!
+
+Morgadinha
+
+Vem ento esconder-te, vem esconder-te!
+
+Frederico
+
+No! Um homem no se esconde quando olhos como os teus so testemunhas
+de tamanha covardia! mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido
+ignobilmente! _(Arranca os vestidos mulheris: fica de quinzena; mas
+conserva o chapo e os boucles)_ Agora, armas! armas! _(A morgada ri-se
+apontando-lhe para a cabea.)_ Por que ris tu, mulher forte! porque ris
+tu, se fazes favor?!
+
+Morgadinha
+
+Tira a cartola e os cachos, meu amor.
+
+Vozes _(que sobrelevam o estrondo dos figles)_
+
+Morra o escrivo de fazenda! morra! _(Grande catharro de Joo Lopes.)_
+
+Frederico
+
+ chegada a hora! D-me um abrao, querida! Um abrao! e at ao reino
+eterno! As nossas nupcias so no co!.. _(Aponta para o tecto e fica
+como extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e se com
+dous bacamartes de bocca de sino.)_
+
+Morgadinha
+
+Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! _(Ella
+aperra o bacamarte.)_
+
+
+SCENA VII
+
+OS MESMOS, PANTALEO E JOO LOPES
+
+Pantaleo _(estupefacto)_
+
+Que vejo? que isto? como entrou este homem aqui?
+
+Frederico _(atirando ao cho o bacamarte)_
+
+Venho offerecer-me vingana de V. Ex.
+
+Morgadinha
+
+Meu pap, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mo de esposa!
+
+Pantaleo
+
+Das duas uma: ou o senhor foge, ou espatifado pelo povo!
+
+Frederico
+
+No sei fugir: sei morrer.
+
+Pantaleo
+
+Mas v morrer a casa do diabo; no quero que o matem aqui.
+
+Joo Lopes
+
+V. Ex. tem raso; matal-o aqui mo: o melhor eu ir escondl-o no
+meu quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos
+da menina no ficavam com muita saude.
+
+Pantaleo
+
+Pois vae escondl-o... some-o no inferno!
+
+Morgadinha
+
+Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha,
+sua filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu pap
+_(ajoelha-lhe)_ eu j no posso deixar de ser esposa de Frederico, e
+juro que sou d'elle na vida e na morte! _(Ergue-se: conduz Frederico
+pela mo, e ajoelha com elle)_ D-nos a sua beno, querido pap!
+
+Pantaleo
+
+Nunca! nunca! _(Ouvem-se fora as acclamaes.)_
+
+Morgadinha _(erguendo-se soberba)_
+
+Ento, no tenho pae! tenho s marido! Se o povo o matar, ha de vr
+morrer-me ao p d'elle... mas vingada!.. _(Lana mo do bacamarte)_ Que
+entre o povo!
+
+Pantaleo
+
+Em que apertos me vejo! Rebenta-me o corao!..
+
+Joo Lopes _(muito commovido)_
+
+Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!..
+
+Pantaleo _(a Frederico)_
+
+Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa.
+
+Frederico
+
+Obedeo, por que m'o ordena o pae d'este anjo. _(Se com Joo Lopes.)_
+
+
+SCENA VIII
+
+PANTALEO E A MORGADINHA
+
+Pantaleo
+
+Perdi a cabea!.. Estou doudo... no sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!..
+onde est a pianista, que est alli fra o marido espera...
+
+Morgadinha
+
+A pianista?..
+
+Pantaleo
+
+Sim, a pianista onde est?.. _(Olha para o cho, tropeando no vestido
+de mulher)_ Que isto? _(levantando o chapo e os caracoes)_ Que
+isto?! que isto, Joanna?..
+
+Morgadinha _(afflicta)_
+
+Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!..
+
+Pantaleo
+
+Ento a pianista era... era o escrivo?!..
+
+Morgadinha _(soluando)_
+
+Era, sim, snr.!
+
+Pantaleo
+
+Que sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o
+patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!..
+
+Morgadinha
+
+ meu espso... perde-nos...
+
+Pantaleo
+
+Tu s o demonio, mulher!
+
+Morgadinha
+
+Sou uma infeliz apaixonada... O meu pap, tenha piedade! Olhe que o
+Frederico muito bom mo. Se no fidalgo hoje, pde sl-o manh. O
+pap bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr' outro.
+
+Pantaleo
+
+Ergue-te, ingrata, que dste cabo de teu pae! _(Rompe a musica pelo
+interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)_
+
+
+SCENA IX
+
+JOO LOPES, PANTALEO, MORGADINHA, MACARIO
+
+ _(A musica, na vanguarda, ladeia para dar passagem a Macario vestido
+ de official de ordenanas, mas com chapo embicado. Traz uma espada
+ empunhada, e outra debaixo do brao, seguem-no 12 commandantes
+ subalternos, vestidos a capricho, uns com chapo redondo e banda e
+ dragonas, outros de barretina e niza. Um d'estes arvora uma bandeira
+ de varias cres.)_
+
+Macario
+
+Viva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das foras
+populares do Minho!
+
+Vozes
+
+Viva! _(Cala-se a musica.)_
+
+Macario _( frente dos revolucionarios com enfaze oratoria)_
+
+Snr. morgado! As foras populares de seis freguezias que ahi esto
+reunidas fra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim,
+ frente dos seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a
+V. Ex. que por voto geral foi acclamado general em chefe d'esta
+provincia. Eu lhes fiz um eloquente discurso para os tirar d'essa ideia,
+allegando com o meu gro de pharmaceutico que V. Ex. soffria dos
+intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles no me
+attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex. a espada de general
+em chefe. Aqui est por consequencia esta valente espada que matou em
+1810 muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mos de V. Ex.
+limpar este paiz de escrives de fazenda e outros mariolas que nos
+desgraam. Receba V. Ex. das minhas mos esta espada e salve com ella a
+patria do snr. D. Affonso Henriques!
+
+Os commandantes
+
+Viva o snr. boticario! Viva!
+
+Macario
+
+Obrigado, valentes guerreiros! _(A musica executa uma marcha muito
+compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada
+offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz
+signal de que quer fallar. Silencio.)_
+
+Pantaleo _(commovido)_
+
+Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impresso me fizeram as
+vossas palavras e no pude deixar de me commover... Estou realmente
+commovido, e sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe
+que as minhas doenas e outras desgraas me no permittem tomar o
+commando das valentes foras populares que representaes. No posso,
+senhores, no posso. Se a fortuna me tivesse dado um filho, essa espada
+estaria j nas mos d'elle.
+
+Morgadinha _(tirando a espada da mo de Macario)_
+
+Est nas mos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou
+mulher, ha de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle ser
+digno d'ella! _(Chamando) _Frederico! Frederico!
+
+
+SCENA ULTIMA
+
+OS MESMOS E FREDERICO
+
+Frederico _(ajoelhando diante da morgadinha)_
+
+Sim! sim! recebo de vossas mos, Senhora, a espada que ha de decepar as
+infinitas cabeas da hydra financeira! _(Espanto geral.)_
+
+Macario
+
+Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!?
+
+Pantaleo
+
+Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio!
+
+Joo Lopes
+
+Vae ser o marido da menina... _(a Pantaleo)_ Faa favor de no
+desmaiar, por quem !
+
+Frederico _(com vehemencia e fogo)_
+
+E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos victoria,
+briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por
+vs, intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pdres
+em que o prostraram os comiles. Eu fallo assim, porque cada nao, nas
+horas criticas, tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da
+rethorica. Vamos a elles, filhos da victoria! As nossas bandeiras
+desenroladas aos ventos das batalhas, diro: Riqueza e Moralidade! Em
+menos de quatro annos de regimen moral, e dieta aos lambes, o paiz no
+dever nada, e vs no pagareis um pataco de decima.
+
+Vozes
+
+Apoiado!
+
+Frederico
+
+Cidados! Eu tenho estudado profundamente as doenas de Portugal e pude
+descobrir onde est o cancro que nos re. Ahi vae o meu programma: O meu
+systema dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem
+seu presidente de eleio popular, quero dizer, cada conselho governa-se
+a si, e no quer saber do conselho visinho. No sei se me percebem...
+
+Macario
+
+Muito bem, entendemos muito bem.
+
+Frederico
+
+Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que no tem nada com
+a republica de Famalico, nem com a republica de Fafe. Ns c vivemos
+com o que nosso, fazemos as nossas despezas, e no damos nem vintem
+aos de fra.
+
+Vozes
+
+Apoiado! apoiado!
+
+Frederico
+
+Aqui est o meu systema que ainda no lembrou a ninguem, e que o
+resultado de quinze annos de estudo. Conseguido isto, no temos a
+sustentar tropas, _(Apoiados)_ nem as estradas por onde andam os outros,
+_(Apoiados)_ nem theatros onde os outros se divertem, _(Apoiados)_ nem
+escrives de fazenda. _(Apoiados)_ E declaro que me dou j por demittido
+do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando: Guerra e morte a
+todos os escrives de fazenda! _(Os populares desembainham as espadas, e
+bradam: guerra de morte!)_ E, portanto, senhores, beijo esta espada, e
+leio na sua lamina, os novos destinos que vo alvorecer para Portugal!
+Recebi-a da mo do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E
+concedei, cidados, que essa bandeira seja arvorada nas mos da Judith
+lusitana! No mais cahir aos ps de vencedor algum o estandarte que foi
+consagrado pela filha d'este honrado fidalgo! _(Frederico, tem passado a
+bandeira Morgadinha, a qual se colloca de maneira que o pae fica entre
+ella e Frederico.)_ Bravos sycambros de Santo Thyrso! agora, victoria,
+ victoria que a patria nos chama! Est inaugurada a republica
+confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! _(Os musicos executam.
+Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a
+bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentes. Joo
+Lopes sentado com os queixos entre as mos contempla tudo aquillo. Corre
+o panno.)_
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ENTRE A FLAUTA E A VIOLA
+
+ENTREMEZ EM UM ACTO
+
+
+
+
+PERSONAGENS
+
+ ANICETO DA SILVA, pae de
+ VICTORINA.
+ GUTERRES ARTHUR DE MIRAMAR.
+ JOS PIMENTA.
+ UM CREADO.
+
+
+
+
+ACTO UNICO
+
+ Salo de estalagem em Barcellos. Quartos numerados desde 1 a 12,
+ occupando os lados, e parte do fundo. Um d'elles o n. 10 tem
+ sobranceira porta uma vidraa ou bandeira. Sobre um canap de
+ palha est uma viola francesa.
+
+
+SCENA I
+
+ _(Ao erguer o panno vem entrando Aniceto e Victorina precedidos de
+ um creado com dois saccos de noute e castial.)_
+
+ANICETO, VICTORINA, CREADO
+
+Aniceto
+
+Vamos a saber: temos dois quartos limpos e camas asseadas onde se passe
+a noute?
+
+Creado
+
+Hde haver.
+
+Aniceto
+
+Ha de haver?! Pergunto se ha.
+
+Creado
+
+Faa favor de entrar aqui para o n. 6; e acol defronte est o n. 10
+tambem de vago. _(Pe a bagagem dentro dos quartos.)_
+
+Aniceto
+
+Ento os outros esto occupados? Pelo que vejo reuniram-se muitos
+viajantes em Barcellos. Teem bom gosto! Quem est hospedado c?
+
+Creado
+
+Nos n.os 1, 3, 5, 7 e 9 esto as snr.^as fidalgas de Lanhoso, que so
+seis velhas.
+
+Aniceto
+
+Que faz por aqui esse mulhero?
+
+Creado
+
+Vo para os banhos da Povoa. V. S. faa favor de fazer pouca bulha que
+ellas recommendaram-me todo o socego, que queriam dormir.
+
+Aniceto
+
+Pois que durmam. Ora que me importa c a mim as fidalgas de Lanhoso!
+
+Creado
+
+V. S. toma alguma cousa?
+
+Aniceto
+
+Queres ch, Victorina?
+
+Victorina
+
+No quero nada. Quero deitar-me, que estou moda. O meu quarto
+aquelle? _(Apontando para o 10.)_
+
+Aniceto _(indo examinar o quarto)_
+
+Para onde deita aquella janella?
+
+Creado
+
+Para o quintal.
+
+Aniceto _(indeciso)_
+
+Para o quintal? est bom... V... Vae-te deitar, menina. _(Ao creado)_
+V voc buscar outra luz. _(O creado se.)_
+
+
+SCENA II
+
+ANICETO E VICTORINA
+
+Victorina
+
+Boas noutes, meu pae.
+
+Aniceto
+
+Boas noutes. Se fr preciso alguma coisa, bate na porta trez palmadas.
+
+Victorina
+
+Ai! _(Gemido longo.)_
+
+Aniceto
+
+Deixemo-nos de ais, Victorina. Juizo, juizo e juizo! _(Victorina
+recolhe-se. O pae fecha a porta, e tira a chave.)_
+
+
+SCENA III
+
+ANICETO E O CRIADO QUE VEM COM O CASTIAL
+
+Aniceto
+
+Diga-me c voss...
+
+Creado
+
+Meu amo, que manda?
+
+Aniceto
+
+Por aqui tudo femeas, ou tambem ha machos?
+
+Creado
+
+Machos?!
+
+Aniceto
+
+Sim, homens! Se esto homens n'estes quartos.
+
+Creado
+
+J disse que no, meu amo. No ha homens.
+
+Aniceto
+
+Da banda do Porto no veio passageiro nenhum?
+
+Creado
+
+No snr.
+
+Aniceto
+
+Est bom; d c voc a luz e v-se embora. s 7 da manh, chame-me se eu
+no estiver a p, ouviu?
+
+Creado
+
+Sim snr. _(Aniceto recolhe-se, e fecha-se por dentro.)_
+
+
+SCENA IV
+
+GUTERRES E O CREADO
+
+Guterres _(com um sacco de viagem)_
+
+Ol, Gregorio!
+
+Creado
+
+Por c, snr. Guterres! Como est V. S.?
+
+Guterres
+
+Bom. Ha quarto?
+
+Creado
+
+Hade haver. D'onde vem?
+
+Guterres
+
+Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Est c?
+
+Creado _(rindo)_
+
+Ora V. S. que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta a setima
+vez que o vejo n'aste fadario! E o magano sabe-as escolher!
+
+Guterres
+
+Ento viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde est ella?
+
+Creado
+
+Alli no n. 10.
+
+Guterres
+
+Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dir que o
+meu ideal sonhado ha trinta e seis annos est na estalagem de Barcellos!
+Alli! n'aquelle antro!
+
+Creado
+
+Sempre V. S. est um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do
+regedor de Guilhabreu que c esteve na festa das Cruzes ha cinco annos?
+
+Guterres
+
+Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos...
+
+Creado
+
+E os versos que V. S. lhe botou? a gente sempre se ria...
+
+Guterres
+
+Ah! vocs riam-se dos versos? Tens tu a felicidade bestial de te rires
+da poesia? O talento pde contar com o couce at em Barcellos... Ora
+vamos... onde tenho eu quarto?
+
+Creado _(indicando-lhe um do fundo)_
+
+Est alli o n. 11.
+
+Guterres
+
+Bem. Podes ir. _(Entra na alcova. O creado se.)_
+
+
+SCENA V
+
+ANICETO SAINDO COM O CASTIAL EM PUNHO
+
+No posso adormecer com a ida de que ha uma janella no quarto de
+Victorina. Aquelle maldito no me deixa socegar em parte nenhuma. Receio
+que elle me siga por que o lobriguei quando passvamos em Vallongo; e
+ella tambem o viu. Quem me diz a mim que o tratante nos no persegue, e
+anda volta da casa? Cuidar aquelle valdevinos que se pde com uma
+flauta arranjar uma rapariga com fortuna! Ha dous annos que minha filha
+est enfeitiada por um trocatintas d'um estudante que conseguiu seduzir
+o corao d'uma menina que regeitou os melhores casamentos de Penafiel e
+Amarante! Afinal, no hasde vencer, sarrafaal! Eu tolherei todos os
+teus calculos. No me pilhars descuidado um instante! Mas aquella
+janella assusta-me. Vou fazer mudar Victorina para o meu quarto.
+_(Olhando para o alto da porta)_ E de mais a mais esta porta tem vidraa
+em cima. Se elle aqui entrar, ella pde vl-o d'alli... Que imprudencia
+eu ia commettendo! _(Bate a porta)_ Victorina, Victorina!
+
+Victorina _(dentro)_
+
+Quem ?
+
+Aniceto
+
+ teu pae. J ests na cama?
+
+Victorina
+
+No, snr.
+
+Aniceto
+
+Que ests a fazer?
+
+Victorina
+
+Nada. _(Dando volta chave.)_
+
+Aniceto
+
+Nada? Posso entrar? _(parte)_ L est ella a descer a vidraa. _(Alto)_
+Posso entrar?
+
+Victorina
+
+Pde.
+
+Aniceto
+
+Estavas janella?
+
+
+SCENA VI
+
+ANICETO E VICTORINA SAHINDO DA ALCOVA
+
+Victorina
+
+Ai!
+
+Aniceto
+
+Que estavas a fazer na janella?
+
+Victorina
+
+Ora o pae tem manias! Credo! que havia de eu fazer na janella! Estava a
+tomar a fresca. No tinha somno, no podia dormir, estava muito
+afflicta, muito opprimida, muito abafada, abri a janella, ai!
+
+Aniceto
+
+Pois sim, sim, minha menina. Assim ser; mas troquemos os quartos. Vae
+para aquelle, que eu vou para este. D c o teu sacco de noute. Vamos.
+Leva o castial. D-me o meu sacco. Muito bem. Agora entra...
+
+Victorina _(entrando)_
+
+Oh cos!
+
+Aniceto
+
+Sim, sim. _(Fechando a porta, e tirando a chave)_ Agora vou descanado.
+_(Recolhe-se.)_
+
+
+SCENA VII
+
+GUTERRES
+
+ _(Caminhando contemplativo com o castial em punho e os olhos postos
+ no quarto d'onde sahiu Victorina. Pousa o castial.)_
+
+Ella alli est, a formosa como a rolinha adormecida com o bico debaixo
+da aza; e eu venho aqui dar pasto ao corao;... mas que pasto to pouco
+nutriente! Pobre poeta! todo o teu alimento so esperanas! Em quanto a
+gente prosaica se embrutece com timbaes de pombos e pasteis de camaro,
+tu, poeta _(batendo no peito)_ engoles timbaes de esperanas com pasteis
+de sonetos. Eu j sou do tempo em que um homem de genio amava com o
+auxilio dos sonetos, e fazia consistir toda a sua gloria de fino amante
+em gargarejar ternuras para um terceiro andar e recolher-se a casa com o
+corao a trasbordar de catarro. Hoje no. Os anjos actuaes se apparecem
+de noite janella para namorar a lua, ou vr a cauda d'algum cometa.
+Desde que entrou a moda do amor ideal, os olhos d'uma senhora, que
+conversa com as estrellas, no descem a procurar na rua um d'estes
+amadores fanhosos, que s se sentem inspirados e eloquentes na occasio
+em que a patrulha os no deixa fallar. Eram d'uma paciencia adoravel as
+donzellas de ha vinte annos, quando em meu corao rebentavam as
+primeiras flres!.. Que sensaborias a gente lhe disparava l para cima,
+e a sancta resignao com que a gente as ouvia a ellas! A virtude
+d'aquelle tempo s se explica bem pela temperatura de sorvete em que os
+coraes se conservavam de parte a parte. Isto agora outra coisa. Um
+homem sente no peito o progresso material. Aqui dentro ha gaz, ha
+vias-ferreas, ha fio electrico, ha bales, ha petroleo, ha tudo quanto
+fogo, energia, rapidez, etc. Eu c pelo menos sinto isso tudo; conheo
+que remoo, que amo e que ardo. Tenho phosphoros e cido prussico aqui
+dentro. _(batendo no peito)_ E esta mulher! Como eu amo esta mulher
+desde que a vi hontem na Povoa de Varzim! Eu, na minha qualidade de
+escrivo do juiz eleito, estava a escrever n'um processo, quando ella
+passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo
+como largaria um sceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar meza
+redonda do hotel portuense. Comeu apenas uma aza de borracho e meia
+banana. Que estomago to fino! que alli est um corao immenso cheio
+de ternura e com mais poesia que um livro de versos. Sahiram, e eu
+segui-os. Vi entrar o pai n'um escriptorio de viao e comprar dous
+bilhetes. Perguntei para onde iam os passageiros; disseram-me que para
+Barcellos. Pedi bilhete; mas no havia. desventura! que farei? ficar?
+no! Ha fatalidades invenciveis, funestissimas! Esta mulher tem o meu
+destino nas suas mos; disse eu comigo. Cumpre-me seguil-a. Mas que
+farei? No ha bilhete. Embora. Alma de poeta, exclamei eu, no
+succumbas! Heroicidade na desgraa, homem de corao de bronze! Segue-a!
+segue-a! Fui alugar um garrano, e segui-os a galope, terra a terra, a
+rdea solta, receando a cada passo que o corao e o garrano me
+rebentassem. Aqui estou. mulher, mulher quem s tu? Ave do paraizo,
+que ests sonhando delicias do teu den, lembra-te, Eva, que s
+costella do homem, e que est aqui Ado digno de ti. _(Repara na
+viola.)_ Uma viola franceza! _(Pega d'ella e corre-lhe as cordas.)_ Est
+desafinada. Oh! que saudades me tu fazes, instrumento interprete das
+minhas paixes infantis! Que trovas eu descantava em noites de lua cheia
+ao arpejar dos teus bordes que gemiam comigo! _(Pensativo)_ Quem sabe?
+_(vai afinando)_ Quem sabe? Se tu fizesses o milagre, lyra das canes
+apaixonadas! Vamos! o fado que me impelle; mas no vou tocar o fado.
+Inspira-me, corao, umas trovas dignas do anjo que alli est dormindo.
+_(Avisinha-se da porta, onde presume que est Victorina, e preluda com
+tregeitos de vate que invoca a inspirao do co, e canta)_:
+
+ (MUSICA DA ALTEA, MIMOSA ALTEA)
+
+ Se tu soubesses, lindinha,
+ Quanto grande o meu amor
+ No dormiras descanada
+ Quando eu morro aqui de dr.
+
+ _(Allegro)_
+
+ Acorda menina,
+ No durmas agora,
+ Em quanto se fina
+ De dr quem te adora.
+
+ Eu na Povoa descuidado
+ J no sentia disvelos,
+ Eis que surges luz brilhante,
+ E eu te sigo at Barcellos.
+
+ Acorda, menina,
+ No durmas agora,
+ Em quanto se fina
+ De dr quem te adora.
+
+
+SCENA VIII
+
+ANICETO E GUTERRES
+
+ _(Aniceto abre a porta, e se de barrete de dormir e rob-de-chambre,
+ com a luz na mo. Guterres reca espavorido.)_
+
+Aniceto
+
+Passasse muito bem.
+
+Guterres
+
+Viva.
+
+Aniceto
+
+Eu j vi o senhor se no me falha a memoria.
+
+Guterres
+
+Sim, senhor, j tive a honra de jantar na meza em que V. S. estava na
+Povoa.
+
+Aniceto
+
+ verdade. Pois snr., V. S. canta e toca muito bem; n'outra occasio
+muito lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o
+obsequio de se calar, porque tenho de seguir amanh viagem e preciso
+dormir...
+
+Guterres
+
+Pois no, senhor! Eu deponho j o instrumento importuno.
+
+Aniceto
+
+Agradeo muito a sua delicadeza. Se no fosse indiscreto, perguntaria
+com quem tenho a honra de fallar?
+
+Guterres
+
+Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir.
+
+Aniceto
+
+Ento estrangeiro? Esse nome no me parece de c.
+
+Guterres
+
+Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exero funces publicas.
+
+Aniceto
+
+Ah! exerce funces publicas? Esse emprego deve ser bem bom.
+
+Guterres
+
+Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de
+bastantes lettras.
+
+Aniceto
+
+Ah! de bastantes lettras? ento capitalista... Eu tambem trago um
+pouco de dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula?
+
+Guterres
+
+O juro? est favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento
+ao mez. V. S. do Porto?
+
+Aniceto
+
+No senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva.
+
+Guterres
+
+Oh! pois no, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua
+ex.^ma filha?
+
+Aniceto
+
+A divertir-me no... Isso so contos largos... se V. S. por aqui
+estiver manh, conversaremos. Agora boas noutes, que so horas de dormir.
+
+Guterres
+
+Tem razo, tem razo... Boas noutes. _(Aniceto fecha-se.)_
+
+
+SCENA IX
+
+GUTERRES
+
+Ora ahi est a deidade, que eu eternizei nos meus versos! As esperanas
+de muitos poetas, quando se realisam, so pouco mais ou menos como esta.
+Este Aniceto, offerecendo-se aos meus devaneios d'alma, uma imagem que
+eu tambem offereo como lio a todos os poetas. _(V-se um encapotado
+ao fundo, com chapo de aba derrubada)_.
+
+Mas, a final, onde que est a filha? Foi o velhaco do creado que me
+enganou! o couce da proza que bateu no peito da poesia. Filha de
+Aniceto, onde quer que estejas, eu te offereo este calix d'amargura, e
+boas noutes. _(Vai a recolher-se ao quarto.)_
+
+
+SCENA X
+
+JOS PIMENTA E GUTERRES
+
+Pimenta _(rebuado)_
+
+Boas noutes.
+
+Guterres _(suspendendo-se)_
+
+Boas noutes.
+
+Pimenta
+
+Quem o senhor?
+
+Guterres
+
+No respondo a encapotados de melodrama. Destape-se.
+
+Pimenta _(deixa cair as bandas do capote)_
+
+Eis-me.
+
+Guterres
+
+Eis-me o que? Cada vez o conheo menos.
+
+Pimenta
+
+O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o
+senhor e a filha de Aniceto?
+
+Guterres
+
+De commum de dois? temos questo grammatical ou phisiologica?
+
+Pimenta
+
+Que tem o senhor que ver com ella?
+
+Guterres
+
+Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo,
+Barcellos, o rei dos tambores, V. S. etc. Falta elle que ver...
+
+Pimenta
+
+O senhor sabe que da zombaria ao rewolver no ha mais que um passo?
+
+Guterres _(sorrindo)_
+
+O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em
+Barcellos no pde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama,
+posso saber?
+
+Pimenta
+
+Sou Jos Pimenta.
+
+Guterres
+
+Pimenta? por isso o senhor to clido!... Eu sou de apellido Mira-mar.
+Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a
+filha d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um corao de poeta e
+um respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena?
+
+Pimenta
+
+Amo.
+
+Guterres
+
+Tambem eu.
+
+Pimenta
+
+Tambem o senhor?
+
+Guterres
+
+Tambem eu; mas ha uma differena entre ns, e vem a ser que ella a mim
+no me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o.
+
+Pimenta
+
+Tenho provas d'isso.
+
+Guterres
+
+Tem? _(Solemne)_ O senhor sabe que esmagou n'este momento um dos mais
+romanticos coraes que batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as
+florinhas d'um amor nascente que burbulhavam na charneca d'esta alma?
+_(concentra-se)_ Coragem! Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E
+ento o senhor vem aqui fallar-lhe? Sabe que ella est...
+
+Pimenta _(apontando para o quarto de Aniceto)_
+
+Sei que est alli no N. 10, que m'o disse o creado da hospedaria.
+
+Guterres _(apontando)_
+
+Alli?
+
+Pimenta
+
+Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... _(reparando na vidraa
+sobranceira porta.)_ Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles
+vidros.. O senhor no v?
+
+Guterres
+
+Sim, eu vejo l o que quer que seja.
+
+Pimenta
+
+ ella que me conheceu a voz. Quer outra prova?
+
+Guterres
+
+No senhor, estou satisfeito. Aquella mulher sua. Sou magnanimo at aqui!
+
+Pimenta
+
+Se me fosse possivel subir altura da vidraa! Alli est uma mza. O
+senhor guarda segredo? No revella este arrojo d'um amante apaixonado?
+
+Guterres
+
+O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os
+caixilhos das vidraas e passar-se l p'ra dentro. Pde fazl-o que eu
+no digo nada.
+
+Pimenta _(attento nos vidros)_
+
+ ella. o anjo! L est o rosto amado!
+
+Guterres
+
+V, no perca tempo. D-lhe um beijo envidraado. _(Pimenta aproxima uma
+banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a
+vidraa com um murro, e pe fra a cabea.)_
+
+Aniceto
+
+Ah co!
+
+Pimenta _(saltando)_
+
+Traio! traio! _(Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.)_
+
+
+SCENA XII
+
+ANICETO E GUTERRES
+
+ _(O palco escuro)_
+
+Aniceto _(correndo para Guterres)_
+
+Ainda aqui ests, ladro!
+
+Guterres _(accendendo um phosphoro)_
+
+Olhe que est enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o
+funccionario da Povoa, Guterres Arthur. _(Contina a accender phosphoros.)_
+
+Aniceto
+
+Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraa. Onde est o
+scelerado, o canalha do flautista?
+
+Guterres
+
+Elle toca flauta? So fataes os flautistas...
+
+Aniceto
+
+Transtornou a cabea de minha filha o infame... Onde est elle?
+
+Guterres
+
+Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto.
+_(Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que
+exclama de dentro.)_
+
+Voz de velha
+
+Quem est ahi?
+
+Guterres
+
+Enganei-me.
+
+Voz
+
+Um homem! que desafro! um homem!
+
+Guterres
+
+Perdo, minha senhora; no grite tanto. V. Ex. parece-me bastante velha
+pelo metal de voz, e no deve recear-se de homens.
+
+Voz
+
+Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora...
+
+Guterres
+
+No se assuste. V. Ex. em guerra de paixes paiz neutro. Esteja
+socegada. Durma. _(Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)_
+
+Voz
+
+Quem bate? quem anda aqui, mana?
+
+Guterres
+
+C est outra inviolavel. No nada, minha senhora. A mana no teve
+perigo.
+
+Aniceto _(sahindo com uma luz do seu quarto)_
+
+Aqui est luz. Venha c, snr. Miramolim.
+
+Guterres
+
+Miramar, se faz favor.
+
+Aniceto
+
+Que me diz perseguio d'este facinora? O senhor no lhe disse que eu
+estava n'este quarto?
+
+Guterres
+
+Nada, eu no lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a
+espreitar pelos vidros; mas como elle disse l est o rosto amado
+cuidei realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. No se afflija.
+O caso tem remedio. Trate a doena de sua filha pelo systema
+homoeopathico. _Similia similibus._ Sabe latim? _(Signal negativo)_ Quer
+dizer: cura-se a molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer
+dizer: a doena de sua filha causada pelo tal sujeito, no ? _(Signal
+affirmativo)_ Pois _similia similibus_ arranje-lhe outro similhante.
+
+Aniceto
+
+Dois? tomra eu desfazer-me d'este.
+
+Guterres
+
+Outro marido, percebeu?
+
+Aniceto
+
+Percebi, sim, senhor; mas eu no acho que a minha filha tenha
+necessidade de casar com este nem com o outro.
+
+Guterres _(com enfaze e rapidez)_
+
+Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes
+no fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a no soffrem sem que
+a especie seja deteriorada por transtornos contrapostos s evolues
+palyngenesicas da reproduco genesiaca, resultando d'ahi que as
+evolues abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberraes
+de graves consequencias: o senhor percebe, eim?
+
+Aniceto
+
+As aberraes curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim.
+
+Guterres
+
+Miramar, se faz favor. Vejo que V. S. no entendeu. Sua filha ha de
+dar-lhe grandes penas e trabalhos, se no tiver em quem empregar a
+actividade do seu corao: percebeu agora?
+
+Aniceto
+
+Muito bem. Aconselha-me ento o senhor que lhe procure marido.
+
+Guterres
+
+E quanto antes.
+
+Aniceto
+
+O senhor solteiro?
+
+Guterres
+
+Sou, sim senhor, porque?
+
+Aniceto
+
+Quer casar com minha filha?
+
+Guterres _(com gravidade)_
+
+A sua filha, snr. Aniceto, uma imagem que me sorria nos meus sonhos
+antes de a conhecer. Eu amo-a com este corao de anjo que tenho; e, se
+eu j no fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Cames
+d'occasio. Mas a sua pergunta queima-roupa um choque tal de
+felicidade que me burrifica. Deixe-me tomar ar. Ha commoes de alegria
+que achatam os bofes e sacodem todas as visceras d'um homem.
+
+Aniceto
+
+No ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguio d'este bandido da
+flauta. Se V. S. annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde
+podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha
+Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e oua fallar.
+
+Guterres
+
+No, senhor. Isto de casamento um acto srio e solemne. Coraes
+apanhados de surpreza no me servem. A mulher, que houver de ser minha,
+hei de conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo
+poetico. Logo que eu conhecer que consegui apaixonar sua filha, ento a
+contemplarei como objecto matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou
+poeta.
+
+Aniceto
+
+Ento que preciso?
+
+Guterres
+
+ preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus
+primeiros ensaios no corao de sua filha empregando os expedientes
+sentimentaes.
+
+Aniceto
+
+Que vae o senhor fazer n'esse caso?
+
+Guterres
+
+V. S. no me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em
+consequencia de elle tocar flauta?
+
+Aniceto
+
+Foi isso.
+
+Guterres
+
+Pois eu vou empregar tambem a musica. Pde ser que esta menina tenha a
+alma lyrica e philarmonica e que o seu corao s possa ser abalado
+instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao seu
+quarto, e esperar l os phenomenos que se forem operando na
+sensibilidade de sua filha?
+
+Aniceto
+
+Sim senhor, eu c vou esperar os phenomenos. _(Recolhe-se.)_
+
+
+SCENA XIII
+
+GUTERRES _(s)_
+
+ _(Guterres pega da viola, preluda, aproxima-se do quarto de
+ Victorina e canta em postura de inspirado)_
+
+ Eu na Povoa descuidado
+ J no sentia disvelos;
+ Eis que surges, luz brilhante,
+ E eu te sigo at Barcellos.
+
+ Acorda, menina,
+ No durmas agora,
+ Em quanto se fina
+ De dr quem te adora.
+
+ Victorina, escuta os hymnos,
+ Que te canta o meu amor;
+ Escuta os versos divinos,
+ De Guterres, trovador!
+
+ Acorda menina,
+ No durmas agora,
+ Em quanto se fina
+ De dr quem te adora.
+
+ _(Escutando declama:)_
+
+Ella no se bole. Parece-me que a ouo resonar. a belleza que ronca
+nos seus sonhos innocentes. _(Reparando em Jos Pimenta que vem
+entrando)_ Temos chinfrim.
+
+
+SCENA XIV
+
+JOS PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA, ANICETO
+MAIS TARDE, E O CREADO
+
+ _(Jos Pimenta entra embuado, medindo os passos tragica. Chega ao
+ meio da scena, arroja o chapo, deixa cahir a capa, cruza os braos,
+ relanando um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior
+ d'uma jaqueta de pelle os canudos d'uma flauta, liga-os, d dois
+ passos frente, e com a maior solemnidade toca a aria da Sombra de
+ Nino, da Semiramis. Guterres tem passado com a viola para o outro
+ lado, e faz meno de se defender com uma cadeira, em quanto o outro
+ no toca. Victorina, assim que Jos Pimenta tem tocado a primeira
+ parte da aria, comea aos empurres porta.)_
+
+Victorina _(dentro)_
+
+Jossinho, Jossinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta
+porta! _(Aniceto rompe do quarto com os braos no ar, a tempo que
+Victorina faz saltar a fechadura e corre aos braos de Jos Pimenta,
+exclamando:)_ Jos, Jos, quero morrer nos teus braos. Ai! _(Desmaia
+nos braos d'elle.)_
+
+Aniceto _(ao creado que tem entrado com a luz)_
+
+Voc faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades
+todas. Ah grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos no ha justia
+que vingue um pae?
+
+Guterres
+
+Snr. Aniceto, no mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos
+inuteis. Agora conheo que a chaga da sua filha s pde ser curada com o
+pllo do mesmo... do mesmo Jos Pimenta. No ha duvida que o corao
+d'esta menina est magnetisado pela musica; mas o que certo que a
+propenso d'ella no a viola. A alma d'esta senhora inclina-se para
+instrumento de sopro. No assim, snr. D. Victorina? Faa favor de
+voltar a si para responder, e desmaie depois se quizer. _(Ella abre os
+olhos)_ verdade ou no?
+
+Victorina
+
+Ai! _(Aniceto ce prostrado n'uma cadeira boca da scena.)_
+
+Guterres _(a Pimenta)_
+
+O senhor no tem habilidade seno para a flauta. Aproveite a occasio e
+v com a pequena ajoelhar-se aos ps do velho. Andem para diante.
+_(Empurrando-os)_ Parece que nunca estiveram no theatro!
+
+Pimenta e Victorina _(ajoelhando)_
+
+Meu pae! piedade!
+
+Aniceto _(erguendo-se de impeto)_
+
+Oh! _(Grito rouco e prolongado; com os braos affasta tragicamente da
+vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)_
+
+Guterres
+
+Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abene a unio d'essas
+creaturas. Deixe-os casar; alegre-se com a esperana de que ha de ainda
+vr meia duzia de netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o
+genio de sua me, amando uma orchestra de sujeitos distinctos desde a
+trompa at corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante
+misericordioso para os propagadores da sua individualidade tipica.
+
+Aniceto
+
+Levantem-se d'ahi! _(Erguem-se submissos.)_
+
+Guterres
+
+Bem; esto os senhores absolvidos. Parabens. snr. Pimenta, eu creio
+que algum servio lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador
+da sua flauta. Em recompensa, faa-me o senhor o favor de dizer se foi
+realmente com a aria da Sombra de Nino que enfeitiou esta sympathica
+joven?
+
+Pimenta
+
+Esta aria era a senha com que os nossos coraes se entendiam.
+
+Guterres
+
+Ah! sim? Eu quero tocar isso no violo; vou experimentar o effeito
+d'essa aria no corao de certas pessoas que costumam arrebatar-se
+fascinadas pela minha voz de tenor. _(Tange na viola o acompanhamento da
+Sombra de Nino, e canta:)_
+
+ Pobre poeta, ninguem te preza,
+ Pobre poeta, ninguem te quer;
+ Nem co'a viola tu conseguiste
+ Mover o peito d'uma mulher.
+
+_(No intervalo de uma quadra outra. A Jos Pimenta)_
+
+Isto vae bem? _(Faz na viola escalas sobre os bordes.)_
+
+ Mas no importa; vena a flauta
+ A sympathia das fracas almas;
+ Que eu antes quero, meus bons amigos,
+ O vosso affecto e as vossas palmas.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+Os direitos de representao das duas comedias que formam este volume
+pertencem ao auctor.
+
+Porto, 3 de Fevereiro de 1871.
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a
+Flauta e a Viola, by Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES ***
+
+***** This file should be named 30461-8.txt or 30461-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/0/4/6/30461/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
diff --git a/old/30461-8.zip b/old/30461-8.zip
new file mode 100644
index 0000000..bb88ed6
--- /dev/null
+++ b/old/30461-8.zip
Binary files differ
diff --git a/old/30461-h.zip b/old/30461-h.zip
new file mode 100644
index 0000000..458e0d0
--- /dev/null
+++ b/old/30461-h.zip
Binary files differ
diff --git a/old/30461-h/30461-h.htm b/old/30461-h/30461-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..3c8ac0c
--- /dev/null
+++ b/old/30461-h/30461-h.htm
@@ -0,0 +1,4447 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Theatro Comico, por Camilo Castelo Branco</title>
+ <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco">
+ <meta name="Publisher" content="Viuva Mor--Editora">
+ <meta name="Date" content="1871">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
+ <style type="text/css">
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ font-family: sans-serif;
+ }
+ .pn {
+ text-indent: 0em;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: silver;
+ }
+ #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;}
+ h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;}
+ h4 em {font-weight: normal;}
+ h5 {font-weight: normal; text-indent: -1em; margin-left: 1em; text-align: justify;}
+ #corpo p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;}
+ hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;}
+ hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;}
+ .rodape {
+ font-size: 0.8em;
+ margin: 2em;
+ }
+ em {color: blue}
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta
+e a Viola, by Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta e a Viola
+ Theatro Comico de Camillo Castello Branco
+
+Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+Release Date: November 13, 2009 [EBook #30461]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 3px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em">CAMILLO CASTELLO BRANCO </p>
+
+<p>&mdash;&mdash;&mdash;</p>
+
+<p style="font-size: 2em">THEATRO COMICO</p>
+
+<div style="margin: 10%; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em">A MORGADINHA DE VAL D'AMORES</p>
+
+<p>&mdash;&mdash;</p>
+
+<p>ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO<br>
+EM CASA DE VIUVA MOR&mdash;EDITORA<br>
+<small>PRAA DE D. PEDRO</small><br>
+1871</p>
+</div>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 2em">THEATRO COMICO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>PORTO&mdash;IMPRENSA PORTUGUEZA</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em">THEATRO COMICO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em">DE</p>
+
+<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p>&mdash;&mdash;</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em">A MORGADINHA DE VAL D'AMORES</p>
+
+<p>&mdash;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em">ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO<br>
+VIUVA MOR&mdash;EDITORA<br>
+<small>PRAA DE D. PEDRO</small><br>
+1871</p>
+</div>
+
+<div id="corpo">
+<p><span class="pn">{v}</span> </p>
+
+<h2>ADVERTENCIA</h2>
+
+<p>Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o distincto
+maestro Francisco de S Noronha, quando a comedia se escreveu com destino a ser
+representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o bom exito theatral o
+subsidio da musica n'esta composio, e sobrevindo rases que desviaram o nosso
+amigo Noronha de collaborar comnosco em tamanha futilidade, no pde por isso a
+comedia ser submettida opinio das platas. Quem a lr agora tem de
+benevolamente disfarar o seu fastio de leitura de versos, feitos ou copiados
+das canes populares, para se cantarem.<span class="pn">{vi}</span> Por via de
+regra, taes trovas so sempre asperas ou dissaboridas na declamao, mrmente
+as que formam o <em>Auto do nascimento do menino Jesus</em>, consoante elle se
+figura nas aldas do Minho ainda hoje.</p>
+
+<p>Com referencia fara no temos que pedir desculpa. Seria desvanecimento
+irrisorio recearmos ns que a ponderosa e grave critica se descesse at coisa
+to pequena.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES</h1>
+
+<h4>COMEDIA EM TRS ACTOS</h4>
+
+<h2>FIGURAS</h2>
+<ul>
+ <li>D. J<small>OANNA</small> C<small>OGOMINHO DE</small>
+ E<small>NCERRABODES</small>, morgada de Val-d'Amores, filha de </li>
+ <li>P<small>ANTALEO</small> C<small>OGOMINHO DE</small>
+ E<small>NCERRABODES.</small> </li>
+ <li>F<small>REDERICO</small> A<small>RTHUR DA</small> C<small>OSTA</small>,
+ Escrivo da Fazenda de Santo Thyrso. </li>
+ <li>C<small>OSME</small> J<small>ORDO</small>, Deputado por Guimares. </li>
+ <li>M<small>ACARIO</small> M<small>ENDES</small>, Boticario de Santo Thyrso.
+ </li>
+ <li>J<small>OO</small> L<small>OPES</small>, Lacaio e confidente da Morgada.
+ </li>
+ <li>F<small>IGURAS DO</small> A<small>UTO DOS</small> T<small>RES</small>
+ R<small>EIS</small> M<small>AGOS.</small> </li>
+ <li>Creados, cantadeiras, camponezes, musicos e outros personagens. </li>
+ <li><em>Scenas da actualidade.</em> </li>
+</ul>
+
+<h1>ACTO PRIMEIRO</h1>
+
+<h5>Ao fundo, porto de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes.
+O restante do palco figura uma alameda e estrada.</h5>
+
+<h2>SCENA I</h2>
+
+<h3>FREDERICO <em>(s)</em></h3>
+
+<h5><em>(Frederico um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e calas
+pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O chapo de frma
+ingleza e alto para tornar mais aguada a figura. A cabelleira bironniana em
+crespas ondulaes. Bigodes encerados e picantes nas guias retezadas. A luneta
+d'um vidro sem aro obriga-o a caretear, abrindo a bocca de esgulha quando fixa
+mais attentamente a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fr necessario
+fugir, ho de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A
+agilidade da rotao do pescoo deve dar-lhe o que quer que seja de authomatico
+e fantasmagorico.)</em></h5>
+
+<p>A razo diz-me que eu estou em perigo de ser modo por estes selvagens do
+Minho; mas o corao, este intestino onde o amor e a coragem habitam, diz-me
+que no vacille. A raso argumenta-me<span class="pn">{12}</span> que eu,
+escrivo de fazenda no concelho de S. Thyrso, no devo arrojar as minhas
+desenfreadas ambies at mo da morgadinha de Val-d'Amores; mas o corao,
+esta republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella,
+mandando-me lr n'aquelle brazo <em>(apontando)</em> o epitaphio da fidalguia
+de raa, e o monumento levantado no s tradies ineptas, mas restaurao da
+dignidade humana. Alm d'isto, eu, homem de aspiraes gigantes, eu, poeta de
+audaciosos raptos d'alma, eu, que junto poesia elevada a poesia profunda,
+preciso de me arranjar. Sou escrivo de fazenda; mas esta posio no quadra
+aos meus instinctos. s vezes como que sinto escaldarem-se-me as arterias com
+sangue de principe, e me quer parecer que algum de meus avs foi mais ou menos
+illudido por alguma das minhas avs. Reconheo, como filho d'este seculo, que a
+democracia matou a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim ; porm, ao
+mesmo tempo, no sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta
+morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o que
+mais me incita a querer-lhe com a adorao<span class="pn">{13}</span> dos
+Paulos e dos Romeus a preciso que tenho de me arranjar.</p>
+
+<p>Eu j manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocao; e,
+como me sentisse um dos muitos desventurados que cem n'este mundo sem vocao,
+fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por serem cousa que a
+Biblia no diz que o Creador fizesse nos sete dias de creao. Um sujeito olha
+para si como Deus para as trevas, e diz <em>fiat lux</em> faa-se o
+litterato; <em>et lux facta est</em>, e o litterato fez-se. Eu prometto no
+dizer mais nada em latim, por que tambem no sei mais do que isto.</p>
+
+<p>Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever. Preparava-me
+para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26 de supplemento,
+quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um diario de Lisboa. A minha
+reputao estava quasi estabelecida, quando a empreza me despediu por
+semsaboro, como se fosse obrigatorio ser engraado no paiz mais desgraado do
+mundo. Voltei o meu espirito para a historia universal, e cheguei at a
+procurar n'um Almanak onde era a Torre do Tombo com teno de l ir consultar
+os pergaminhos.<span class="pn">{14}</span> N'este proposito estava eu,
+sentindo j os calores da gloria, quando me encarregaram de traduzir uma
+comedia franceza para o Gymnasio. Puz de parte a Historia Universal, e traduzi
+a comedia com um esmero indigno do resultado, porque ella foi pateada visto que
+tinha, segundo disseram os criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a
+virgindade elegante do texto. Ora eu ento fiz-me critico, animado pela grande
+copia de sandices que se escreveram contra a minha traduco. N'este modo de
+vida achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber
+alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira em
+jardim de flores; temivel porque remeche e estraga tudo; levanta implas de
+terra, e suja quando no desvasta a mimosa vegetao. Eu fiz destroos grandes
+e escalavrei muitas reputaes litterarias, j por amor da arte, j por amor do
+estomago, esta coisa onde um homem de genio no pde crear a luz, porque isto
+aqui <em>(indicando o estomago)</em> um abysmo que s recebe a luz pela
+bocca. Mas a final, as obras litterarias que appareciam eram j de natureza que
+o arpo da critica no lhes ferrava a<span class="pn">{15}</span> unha.
+Entreguei-me ao genero chamado <em>reclame</em>, e comecei a chamar a atteno
+do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia, romance ou fara. Este
+officio, posto que o mais aviltante da vida d'um escriptor, o mais lucrativo
+no mundo patarata, em que eu me atasquei. A consciencia pezava-me pouco, se o
+estomago sahia pezado de casa do emprezario do theatro ou do editor do romance.
+Afoguei muitos escrupulos em sopa de camaro. Mas o sangue de principe, este
+no sei qu que me faz ccegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha
+misso na terra, e desde logo atirei um vo atrevido s regies aquilinas da
+politica. Estudei trez dias as questes de fazenda em Portugal, e entendi-as
+to claramente como se fossem questes da minha fazenda. Percebi que o paiz
+estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma serie de artigos nos quaes
+provava que a maneira de matar o <em>deficit</em> era... sim eu provava que a
+maneira de matar o <em>deficit</em>, esse cancro roedor das entranhas do meu
+paiz, era... sim eu provava... no me lembra agora o que provei... o certo
+que me despacharam escrivo de fazenda de Santo Thyrso,<span
+class="pn">{16}</span> provavelmente para matar o <em>deficit</em>. Eis que
+chego, e vejo a Morgadinha... <em>(Ouvem-se os tamborileiros)</em> No convem
+que estes barbaros me vejam parado em frente do porto da mulher amada...
+<em>(Se)</em>.</p>
+
+<h2>SCENA II</h2>
+
+<h3>PANTALEO, <small>DOIS</small> CREADOS, <small>E OS</small>
+TAMBORILEIROS</h3>
+
+<h5><em>Entram ao terreiro e pram tocando em frente da porta trez
+tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco depois
+abre-se a porta, e se</em> <em>P<small>ANTALEO</small></em><em>, com dois
+creados de lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um
+pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem.</em></h5>
+
+<h4>1. Tamborileiro <em>(o do Zabumba)</em></h4>
+
+<p>Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr. morgadinha!</p>
+
+<h4>Os trez</h4>
+
+<p>Biba por muitos annos, biba!<span class="pn">{17}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Ol! rapazes! Com que vosss j se vo chegando ao arraial?..</p>
+
+<h4>1. Tamborileiro</h4>
+
+<p> promeiro, vamos tocar s mordomos do Snr. San Joon, que tem festa
+d'arromba este anno; e s despois la bamos pr' arraial com Deus. <em>(Ouve-se
+ao longe a toada das cantadeiras que cantam o S. Joo.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Bebam; mas no se encarraspanem como no anno passado.</p>
+
+<h4>2. Tamborileiro <em>(rindo alvarmente)</em></h4>
+
+<p> berdade, fedalgo! Aquillo que foi perua! Indas m'alembra!<span
+class="pn">{18}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Pois v l se arranjas outra que te faa esquecer a do anno passado.</p>
+
+<h4>3. Tamborileiro <em>(bebendo)</em></h4>
+
+<p>Enton la bai saude de Vossenhoria, a mais da snr. morgadinha.</p>
+
+<h4>1. e 2. Tamborileiro</h4>
+
+<p>A mesma.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Querem mais? bebam.</p>
+
+<h4>1. Tamborileiro</h4>
+
+<p>Non faz minga.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Ento, rapazes, adeus. L nos veremos na romaria.<span
+class="pn">{19}</span> </p>
+
+<h4>Os tres Tamborileiros</h4>
+
+<p>Biba o fedalgo, e mai la obrigaon. <em>(Sem rufando estrondosamente: cessa
+o estrondo pouco depois.)</em></p>
+
+<h2>SCENA III</h2>
+
+<h3>PANTALEO <small>E OS DOIS</small> CREADOS <small>(QUE POUSAM AS
+VASILHAS)</small></h3>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Ora venham c vosss, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses
+olhos. Vosss tem obrigao de zelar a honra d'esta casa, por que nasceram
+n'ella, c se crearam, e c hode morrer, se me servirem bem. Aquillo que
+souberem a respeito do que vou perguntar ho de dizer-m'o. Aqui quem governa
+sou eu, percebem? Vosss tem visto de noite alguma vez por debaixo das janellas
+d'esta casa o escrivo de fazenda? um homem muito magro que c vinha
+d'antes?<span class="pn">{20}</span> </p>
+
+<h4>1. Creado</h4>
+
+<p>Bem sei quem o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo, eu
+jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu de regar a
+cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando sobre a direita, vi
+uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que parecia um abentesma...</p>
+
+<h4>2. Creado</h4>
+
+<p>Eu tambem j bi esse abentesma, salbo seja, ahi s pois da ma noute; mas
+aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que Vossenhoria
+faa de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim tzo e hirtego que
+no bolia c'os pezes. Havra de ser o mesmo que tu enxergaste, Antonho!</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Pois creiam vosss que no era outro seno o escrivo de fazenda. N'estes
+arredores no ha homem d'aquelle feitio seno elle... Sabem<span
+class="pn">{21}</span> o que eu quero, rapazes? que lhe dem uma boa sova de
+estadulho.</p>
+
+<h4>1. Creado</h4>
+
+<p>S se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira.</p>
+
+<h4>2. Creado</h4>
+
+<p>E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar s lebres. <em>(Ouvem-se
+risadas de mulheres j perto.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Por ora, nada de tiros; o que mando que lhe arrumem quatro bordoadas, sem
+lhe dizer isto nem aquillo. Vosss zupem-lhe e escamem-se, que eu com a justia
+no quero testilhas; mas no lhe batam, sem o apanharem c volta da casa...
+Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as raparigas da freguezia.
+<em>(Sem pela esquerda.)</em><span class="pn">{22}</span> </p>
+
+<h2>SCENA IV</h2>
+
+<h5><em>(Rancho de raparigas vestidas de saias de chita com muita roda de saias
+e saiotes, capotilhas encarnadas, chinela e meia branca, acompanhadas d'um
+tocador de rebeca e outro de violo, que lhes acompanham as cantigas. Entram
+pulando alegremente, e pucham por a estridula sineta do porto.)</em></h5>
+
+<h4>O rabequista</h4>
+
+<p>Biba a snr. morgadinha de Val-d'Amores!</p>
+
+<h4>Todos</h4>
+
+<p>Biba! Biba! <em>(Cantam o S. Joo.)</em></p>
+
+<blockquote>
+ <b>COPLAS</b><br>
+ <br>
+ Son Joon adromeceu<br>
+ Nas escadas do collejo;<br>
+ Deron nas frras co'elle,<br>
+ Son Joon ten porbolejo.<br>
+ Que aquillo, que aquillo, que aquillo?<br>
+ Son Joon a caar um grilo.<span class="pn">{23}</span><br>
+ <br>
+ meu son Joon da Ponte,<br>
+ meu bello patusquinho,<br>
+ D-nos anno de bon pon,<br>
+ D-nos anno de bom binho.<br>
+ Non nada, non nada, non nada,<br>
+ Son Joon a comer pescada.</blockquote>
+
+<h5><em>(Abre-se o porto de par em par. Se a Morgadinha, trajada com luxo,
+mas fra da moda. Vestido de ancas exaggeradas, cabello Stuart, e um grosso
+grilho ao peito. Segue-a um creado velho, de niza, com uma cadeira de braos
+cabea, e uma pichorra e caneca na mo.)</em></h5>
+
+<h2>SCENA V</h2>
+
+<h3>MORGADINHA, JOO LOPES, <small>E AS</small> CANTADEIRAS</h3>
+
+<h4>Vozes</h4>
+
+<p>Biba a snr. morgadinha! Biba! Biba!</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(sentando-se na cadeira)</em></h4>
+
+<p>Adeus, raparigas. Como ests tu, Maria do Quinchoso! e tu Benta do Cazal?
+Olha a Marianna<span class="pn">{24}</span> da Egreja como est gorda com o
+cazamento! Joo Lopes, d vinho a essa raparigada toda.</p>
+
+<h4>Uma das moas</h4>
+
+<p>Vossenhoria bai ao arraial?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Podra no! J estou preparada, e vou assim que a tarde refrescar, que quero
+ver o fogo prezo.</p>
+
+<h4>Outra</h4>
+
+<p>E mai lo auto do Natal, que vem la os d'Arnzo co'elle.</p>
+
+<h4>Outra</h4>
+
+<p>E como a fidalga est pimponaa! Parece mmo a Madanela da porcisson de
+Passos!</p>
+
+<h4>Outra</h4>
+
+<p>Benza a Deus, que palminho de cara assim, no se topa outra no mundo. Faz
+agora<span class="pn">{25}</span> um anno que os cassacas do Porto andabon
+todos enbeiados atraz da snr. morgadinha no arraial; e enton aquelle goberno
+que est em S. Thirso esse que andava memo azoratado!</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(rindo)</em></h4>
+
+<p>Qual governo?!</p>
+
+<h4>A mesma</h4>
+
+<p>Aquelle que lhe chamon o das fazendas, ou non sei que deanho...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ah!.. <em>(suspirando)</em> Ja sei...</p>
+
+<h4>O do violo</h4>
+
+<p>M rais o parton, que me mandou citar indas hontem!</p>
+
+<h4>O rabequista</h4>
+
+<p>Eu onde le poder ser bon heide medirle o costado de p a p cum
+fueiro...<span class="pn">{26}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ora no sejas bruto, Jos da Eira! Elle faz a sua obrigao; faz tu a tua
+que pagar o que deves ao rei.</p>
+
+<h4>O mesmo</h4>
+
+<p>Ao rei! Bem me fio eu n'isso... Enton a fidalga pensa que o rei aveza uma de
+X do dinheiro que ns demos!! Pois non avezastes! Os governos de S. Thirso
+repartem uns c'os outros no fim do anno o dinheiro que don os lavradores.</p>
+
+<h4>O outro</h4>
+
+<p> como diz.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Sois uns selvagens. Deixemo'-nos de tolices. Cantem l alguma coisa vosss.
+</p>
+
+<h4>Uma das moas</h4>
+
+<p>Quer a <em>Marianinha</em>, fedalga?<span class="pn">{27}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Pois sim; cantem l a <em>Marianinha</em>.</p>
+
+<h4>COPLAS<br>
+<em>(Tudo mulheres)</em></h4>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Ja fui canario do rei,<br>
+ Ja lhe fugi da gaiola.</blockquote>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, eu vou l<br>
+ Marianinha,<br>
+ Sim, sim, eu la vou<br>
+ pequerruchinha.</blockquote>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Agora sou pintassilgo<br>
+ Destas meninas d'agora.<span class="pn">{28}</span></blockquote>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, eu vou la, etc.</blockquote>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Pintassilgo est no bosque,<br>
+ A andorinha no telhado.</blockquote>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, etc.</blockquote>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ So eu no sei onde estou,<br>
+ Quando no estou ao teu lado,</blockquote>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, etc.</blockquote>
+
+<h4><small>(VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ A andorinha quando chove<br>
+ Vai metter-se escuridon<span class="pn">{29}</span></blockquote>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, etc.</blockquote>
+
+<h4><small>(VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ E eu quando o norte rijo<br>
+ Metto-me teu coraon.</blockquote>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Sim, sim, etc.</blockquote>
+
+<h4>Todos</h4>
+
+<p>Biba a snr. Morgadinha! Biba!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ento vosss vo j para a romaria?</p>
+
+<h4>Uma d'ellas</h4>
+
+<p>Aindas bamos buscar as cazeiras de Vossenhoria que esto espera de ns, e
+s pois voltemos por qui.<span class="pn">{30}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Pois vo, e voltem. <em>(Sahem cantando o S. Joo. A morgadinha fica
+pensativa e melancolica, encostando o rosto mo, em quanto se ouve e se vai
+perdendo a toada da cantiga.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VI</h2>
+
+<h3>MORGADINHA <small>E</small> JOO LOPES</h3>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Como estes brutos so felizes!.. E eu sempre apoquentada por causa deste
+corao! Ai! eu antes de saber o que era amor tambem cantava... Lembras-te,
+Joo Lopes?</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Ora se lembro! E cantava que nem uma calhandra a fidalga!<span
+class="pn">{31}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Olha se te lembras, Joo! Eu ia s espadeladas, s descamizadas, s malhas,
+brincava, saltava...</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>At danava a cana verde, e a chula que era um gosto vl-a!.. E quando a
+menina quiz que eu lhe ensinasse o jogar o po...</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(com alegria)</em></h4>
+
+<p> verdade...</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>E o caso que vossellencia ahi com duas duzias de lies j me chegava com
+o po.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se enthusiasmada)</em></h4>
+
+<p>E d'aquella vez que eu me vesti de rapaz, e puz fra da eira do Manoel
+Tamanqueiro, com quatro partidas de po, mais de seis mascarados que la andavam
+a beliscar as minhas cazeiras!<span class="pn">{32}</span> </p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Por signal que a menina deu uma tapona no Z Torto, que ficou torto de
+todo... fidalga, vossellencia hoje j no era capaz de romper ahi com um
+marmeleiro p'ra frente d'um homem qualquer!..</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ests enganado... se me chegassem a mostarda ao nariz... Mas, ai!..
+<em>(Torna a sentar-se triste.)</em> A minha alegria foi-se desde que eu soube
+o que era amor!.. Olha l, Joo... no o vis-te hoje? no viste o meu amado
+Frederico?</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Falle baixinho, menina. Olhe que o snr. morgado ainda ha todonada me esteve
+dizendo que desconfia que elle anda por aqui de noute. A fidalga acautele-o;
+que no vo os creados chegar-lhe ao forro da camiza...<span
+class="pn">{33}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se colerica)</em></h4>
+
+<p>Faam isso, que os esgano! Que lhe ponham um dedo, e vero quem a morgada
+de Val-d'Amores!</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>No grite assim, que seu pai, se a ouve, quem as paga sou eu. A fallar a
+verdade, eu no desgosto do snr. Frederico; mas, em fim, esta aquella de ser
+escrivo, ruim modo de vida para poder casar com a snr. morgadinha...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Isso que tem!? Todos somos eguaes; e o corao, quando ama, no quer saber
+de contos. Uma pessoa no est l a averiguar se o objecto amado fidalgo ou
+plebeu. Tem-se visto rainhas casarem com pastores, e reis casarem com pastoras.
+</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>C no conselho de Santo Thirso no me consta, hade perdoar.<span
+class="pn">{34}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Mas l por esse mundo fra acontece isso a cada passo. Tu por que no ls
+os livros das historias. Eu te lerei casos que aconteceram... E ento que tinha
+que eu casasse com um escrivo?</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Em fim, em fim, o paisinho da fidalga foi capito-mr, seu av foi
+desembargador, e seu bisav foi sargento mr de batalha no Roussilhon...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Vai dizendo at chegar a Ado e Eva, vai dizendo, e eu depois te direi de
+quem eu e mais tu somos netos.</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Isso assim , no ha duvida; mas, diz l o ditado, l com l, e cr com
+cr.<span class="pn">{35}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>No quero saber de ditados! <em>(com fora)</em> Este amor s m'o hade
+arrancar do peito a morte!</p>
+
+<h4>Joo Lopes <em>(apontando para o brazo)</em></h4>
+
+<p>Fidalga, ponha os olhos nas armas reaes dos seus antepassados.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ora! no tenho mais que fazer... Cuidas que eu no sei que meu av casou com
+uma creada? Mostra-me onde esto alli as armas da creada. Bem se importou elle
+das armas, nem do brezabu que as leve! o que faltava... estar-me eu aqui a
+definhar p'ra'mor da pedra! As armas so de pedra, e eu sou de carne e osso,
+ouviste?</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>A fidalga responde a tudo, e no ha remedio seno callar-se um homem, que a
+trouxe<span class="pn">{36}</span> nos braos desde os trez annos, e sou capaz
+de me metter no inferno vestido e calado por causa da minha menina.
+<em>(Sensibilisa-se.)</em> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Sei o que tenho em ti, meu Joo Lopes... Vais tu ahi ao cimo do pinhal a vr
+se o vs pela estrada?.. Elle disse-me que havia de passar para a romaria s
+seis da tarde. Se o encontrares, diz-lhe que meu pai se est a vestir para ir
+tambem, e que elle pde demorar-se a conversar comigo um bocadinho.</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Vou vr se o avisto; mas, menina do meu corao, olhe que seu pai anda
+espreita e traz espias... Ns temos grande desgraa pela porta...</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(energicamente)</em></h4>
+
+<p>No morro de medo, j te disse. A mulher que ama no tem medo de nada!<span
+class="pn">{37}</span> </p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Seja assim; mas, se lhe quebram o espinhao a elle! Coitado do homem, to
+delgadito que, se o apanha o vento d'um po, elle vai a terra...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Quem lhe hade bater?! Cuidas que elle no anda armado? Que se attrevam
+smente a ameaal-o!..</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>C vou, c vou, no se desespere. <em>(Se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VII</h2>
+
+<h3>MORGADINHA</h3>
+
+<h5><em>(Senta-se quebrantada e triste)</em></h5>
+
+<p>Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!..
+<em>(Musica de surdina)</em><span class="pn">{38}</span> Como eu gosto d'elle!
+Ha mais de dous annos que este meu corao padece! No ha noite em que eu no
+sonhe duas vezes com a sua imagem... Quando acordo, e o no vejo, a minha
+vontade chorar, chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio.
+Os cirurgies mandam-me tomar aguas ferreas!.. e s eu sei o que tenho! O meu
+mal aqui!.. <em>(a mo sobre o corao)</em> Oh cos! quanto eu sou
+desgraada sem o meu Frederico! <em>(Ergue-se, e falla com muito sentimento.
+Musica plangente.)</em> Quando eu o vi, pela primeira vez, foi na hospedaria
+das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu rheumatico. Estvamos a
+jantar quando elle entrou, e meu pai offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle
+agradeceu, mas no comeu, dizendo que o seu jantar era um vo quente. E d'ahi a
+pouco, trouxeram-lhe um vo quente n'uma tigella; e elle comeu o vo, bebeu um
+copo d'gua fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e
+pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai ouvir,
+se podia viver s com um vo, e elle respondeu que a sua alma se sustentava com
+a esperana de ser amado por mim... e<span class="pn">{39}</span> com tres vos
+por dia. Oh! que lembranas estas, que lembranas estas! <em>(chora)</em> E vai
+depois, disse-lhe eu: O snr. est assim magro porque come muito pouquinho; se
+gosta d'vos coma uma duzia d'elles de cada vez; e elle pregou-me os seus
+lindos olhos, e respondeu a suspirar: Que me importa o corpo? a mim o que me
+importa o corao que grande; e, se o corpo magro, mais depressa me
+reduzirei a cinzas se V. Ex. me desprezar. Isto fez-me no peito mossa! fiquei
+presa d'este dito; senti por aqui acima uma fogueira que me pz a cara em
+brazas vivas, e no lhe disse coisa de geito porque fiquei um pedao intallada.
+Depois, ao despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe:
+amo-vos, meu bem! Ora aqui est como comeou isto. Desde ento para c apenas
+lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho...
+Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, no vou longe. Elle tambem est
+no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de comear estes amores, eu pezava
+cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois aqui ha oito dias
+pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim no podemos<span
+class="pn">{40}</span> viver, nem eu nem elle. <em>(Com fora, que a musica
+imita.)</em> preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai
+quer, quer; seno quer, quero eu. Uma mulher no pde ser escrava da sua
+fidalguia. Antes quero ser esposa d'um escrivo, e viver contente, que ser a
+morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pr na espinha... <em>(Ouve-se
+rumor de vozes fra.)</em> o meu pap!.. <em>(Senta-se.)</em> Vem-me empatar
+as vazas...</p>
+
+<h2>SCENA VIII</h2>
+
+<h3>PANTALEO, MACARIO, <small>E A</small> MORGADINHA</h3>
+
+<h5><em>(Macario um sujeito de oculos e casaca de briche, j de annos, e ar
+circumspecto)</em></h5>
+
+<h4>Pantaleo <em>(parte ao boticario)</em></h4>
+
+<p>Veja l como lhe falla... Olhe que ella finoria... <em>( filha)</em> C
+me vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para no ficares
+ssinha. <em>(Se.)</em><span class="pn">{41}</span> </p>
+
+<h2>SCENA IX</h2>
+
+<h3>MACARIO <small>E A</small> MORGADINHA</h3>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Tenha V. Ex. muito boas tardes.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(enfastiada)</em></h4>
+
+<p>Viva, snr. Macario, as mesmas.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe mandei
+fez-lhe bem?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>No o puz: cheirava a pez.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>De pez de vergonha era; fui eu mesmo que<span class="pn">{42}</span> o
+manipulei... Ento, a snr. morgadinha vae ao arraial?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Vou.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Faz muito bem; que l hade encontrar pessoa que muito interessa a V. Ex....
+enganei-me... pessoa que muito se interessa em vr V. Ex. queria eu dizer.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Como isso? no percebi.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimares, onde estive com o snr.
+deputado Cosme Jordo, um sabio que tem votado grandes fallas no parlamento...
+Ha de ter ouvido fallar V. Ex....</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>No sei nada de parlamentos, no leio periodicos.<span
+class="pn">{43}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Pois, minha snr., o doutor Cosme Jordo um sujeito conhecido em todo o
+mundo, e l na crte at vae ao palacio do rei e come l...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Deixal-o comer, que tenho eu com isso?</p>
+
+<h4>Macario <em>(parte)</em></h4>
+
+<p>No fao nada! est hoje levadinha dos diabos.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Vamos, diga l, snr. Macario.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Pois este deputado vae hoje romaria do S. Joo.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Deixal-o ir; que se divirta. Ento esse o homem que me quer vr?<span
+class="pn">{44}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex....</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ainda bem; signal que no cego. E que mais?</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>E que ficou muito agradado de V. Ex....</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Pois tem mo gosto e perde o tempo. Que mais?</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>V. Ex., se o vir, no hade fallar assim. ainda homem de boa edade, cheio
+de corpo, com uns oculos que lhe do muito respeito cara.<span
+class="pn">{45}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ora! oculos de respeito! que me importa c a mim os oculos do homem? sabe
+que mais, snr. Macario? <em>(Pem-se a bamboar uma perna sobre a outra, e a
+trautear o Pretinho que vem d'Angola.)</em></p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Finalmente, snr. morgadinha, como V. Ex. quizer; mas lembre-se de que seu
+pae deve fazenda nacional uns seis contos de ris, e que o snr. doutor Cosme,
+casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae no pague nada, e mesmo no
+futuro lhe no lancem impostos.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>No me seque, snr. Macario. Vocemec queria que meu pae pagasse commigo ao
+tal Cosme o que deve fazenda? Pois que pague com o que d'elle, e que me
+deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias. Metta-se l na sua
+botica e no se faa casamenteiro. V fazer charopes.<span
+class="pn">{46}</span> </p>
+
+<h4>Macario <em>(parte retirando-se)</em></h4>
+
+<p>Apre com a cabra!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Que tal est o sacripanta!</p>
+
+<h2>SCENA X</h2>
+
+<h3>JOO LOPES, <small>ESPREITANDO A</small> MORGADINHA, <small>E
+DEPOIS</small> FREDERICO</h3>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Psiu, psiu.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(sobresaltada)</em></h4>
+
+<p>Viste-o?</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Elle ahi vem... Eu vou espreitar, e assim que eu tossir que fuja para a
+carvalheira.<span class="pn">{47}</span> </p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Anjo! milagre de bellesa, Joanna querida, no sentes n'estas mos o vibrar
+da alma?</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(muito terna)</em></h4>
+
+<p>Como ests tu? passaste bem desd'hontem?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Pergunta ao lirio do valle o que lhe pende a fronte quando o orvalho do co
+lhe no esfria os queimores do sol estivo.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Olha l, Frederico, tenho a avisar-te, antes de mais nada, que preciso
+andares prevenido...</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Temos sicarios? Ha aqui vampiros? A vindicta paterna tem sde do meu sangue?
+Eis aqui o peito. Que m'o farpem, que m'o fendam, que<span
+class="pn">{48}</span> m'o alanceem, que m'o lancetem. Tudo por ti, tudo por
+ti, estrella, loira viso dos meus sonhos! <em>(Rumor fra.)</em></p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Foge... esconde-te entre as arvores... <em>(Frederico sme-se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA XI</h2>
+
+<h3>MORGADINHA, <small>OS DOIS</small> CAMPONIOS <small>QUE VO PASSANDO, E
+DEPOIS</small> FREDERICO</h3>
+
+<h5><em>(Um camponio tange flautim e outro viola. Duas moas frente batendo
+palmas ao compasso do canto, e saltando)</em></h5>
+
+<h4>Um camponio <em>(cantando)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ <em>Muito bem seja apparecido</em><br>
+ <em>Seja apparecido</em><br>
+ <em>N'esta funco.</em> (Batendo palmas)<span
+class="pn">{49}</span></blockquote>
+
+<h4>(CRO)</h4>
+
+<blockquote>
+ <em>Bate as palmas c'o seu pexinho</em><br>
+ <em>Co' seu pexinho</em><br>
+ <em>Co' seu pexo.</em> (Repete)</blockquote>
+
+<h5><em>(Assim que elles passam, a Morgadinha se do porto, e logo Frederico
+do escondrijo)</em></h5>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Mas dizias tu, pomba?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem
+armado.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Armado! para qu? Tu no sabes que o teu amor talisman que prostra
+gigantes! As minhas armas so os raios de fogo que bebo de teus olhos; tenho
+vesuvios na alma capazes de abrazar cidades!<span class="pn">{50}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Isto no chalaa, meu amado Frederico! Peo-te que tenhas cuidado, muito
+cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, no temeria ninguem... Tu
+verias o que a morgada de Val-d'Amores... Mas eu no sei como isto hade
+ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo...</p>
+
+<h4>Frederico <em>(interrompendo-a com exaltao)</em></h4>
+
+<p>Fidalgo! que fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que fidalgo? a sola
+velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! ento certo que teu pae
+ignora, que o baptismo de sangue da revoluo franceza lavou todas as manchas
+da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revoluo! o segundo christianismo!
+Que fidalgo? teu pae no sabe que aquelle braso d'armas <em>(apontando)</em>
+est alli como a pedra sepulcral das cinzas feudaes! Teu pae est debaixo do
+sol e no sente o calor da fermentao social! Ouve o estrondear da democracia
+reinante, e volta a face para os phantasmas<span class="pn">{51}</span> dos
+avoengos que se somem l em baixo no abysmo da historia!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>No sei l d'essas historias; o que te peo que no te exponhas a levar
+alguma paulada falsa f. Olha que os meus creados so uns patifes, e meu pae
+no boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se hade fazer, porque elle no
+nos d consentimento para nos casarmos.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Heide movl-o com a eloquencia d'um homem aquecido no sol moderno. Heide
+convencl-o, enchendo-lhe o espirito de luz e o corao de ideias novas.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>No te mettas n'essa asneira, que no fazes nada. <em>(Tem-se j ouvido
+toada de musica da chula, e depois a tosse rija de Joo Lopes. Frederico
+some-se sem ser preciso mandal-o. A morgadinha fica.)</em><span
+class="pn">{52}</span> </p>
+
+<h2>SCENA XII</h2>
+
+<h3>MORGADINHA</h3>
+
+<h5><em>(Chega uma chulata que vae de passagem para a Romaria. Bando de
+raparigas que precedem, bailando; tocadores de rebeca, viola, clarinete,
+ferrinhos e requinta. A esturdia pra defronte da morgadinha, e contina
+danando cada rapariga com o seu parceiro.)</em></h5>
+
+<h4>COPLAS DE DESAFIO</h4>
+
+<h5><em>(Em quanto o cantador deita a cantiga, tange smente a viola. Entre os
+dois primeiros versos e os dois ultimos de cada quadra ha um espao que d
+logar a que toquem por alguns segundos todos os instrumentos.)</em></h5>
+
+<h4>Cantador</h4>
+
+<blockquote>
+ Agora que eu vou passando,<br>
+ Fao aqui minha parada;<br>
+ Para saber da saude<br>
+ Da incelentissima morgada.</blockquote>
+
+<h4>Cantadeira</h4>
+
+<blockquote>
+ Da incelentissima morgada<br>
+ Tambem eu quero saber,<span class="pn">{53}</span> <br>
+ Que mais linda creatura<br>
+ No na pde o mundo ter.</blockquote>
+
+<h4>Cantador</h4>
+
+<blockquote>
+ No na pde o mundo ter<br>
+ Nem ter at ao fim;<br>
+ Os seus olhos so d'amras,<br>
+ Os seus dentes de marfim.</blockquote>
+
+<h4>Cantadeira</h4>
+
+<blockquote>
+ Se tem dentes de marfim,<br>
+ O seu rosto uma roza;<br>
+ E viva sua incelencia<br>
+ Que no na ha mais fermosa.</blockquote>
+
+<h4>Cantador</h4>
+
+<blockquote>
+ Quero dar a despedida<br>
+ senhora Morgadinha;<br>
+ Que no ha por estas terras<br>
+ Mais bonita fidalguinha.<span class="pn">{54}</span></blockquote>
+
+<h4>Cantadeira</h4>
+
+<blockquote>
+ Eu tamem vou espedir-me,<br>
+ Despedida quero dar;<br>
+ Adeus, senhora morgada,<br>
+ Sirva-se de perdoar.</blockquote>
+
+<h5><em>(A morgadinha agradece-lhes com um aceno de leno. O bando se tocando
+e danando. Assim que o descante se ouve froixamente, volta
+Frederico.)</em></h5>
+
+<h2>SCENA XIII</h2>
+
+<h3>MORGADINHA <small>E</small> FREDERICO</h3>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Tenho odio a estes selvagens que me roubaram horas de vida! Quando sahiro
+os lrpas da face da terra?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p> verdade, Frederico! Trouxeste-me os figurinos?<span class="pn">{55}</span>
+</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Eil-os chegados hoje de Lisboa.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(examinando-os)</em></h4>
+
+<p>Ai! que demonio de mulheres! Pois ellas trazem estes vestidos assim
+incozipados nas pernas!?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Oh! isto a elegancia circassiana! a frma na sua diafeneidade sublime;
+ha aqui a poesia do fino, a mulher parece toda nervosa, o lyrismo da
+plastica...</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(rindo)</em></h4>
+
+<p>Se eu te percebo, cebo! Boa cataplasma me parece este molho de clinas e
+sacarrolhas que ellas tem na cabea.<span class="pn">{56}</span> </p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>No blasfemes! Joanninha, veste-te assim; reala, sobredoura a tua bellesa
+com estes adornos que angelisam a mulher de compleio robusta, e transformam a
+mimosa em cousa ideal vestida de vapores. A mulher assim involta em roupagens
+etherias um madrigal de setim que cahiu das lyras dos anjos.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Pois sim, fao-te a vontade. Vou mandar comprar no Porto esta trapalhice
+toda...</p>
+
+<h2>SCENA XIV</h2>
+
+<h3>OS MESMOS <small>E</small> PANTALEO</h3>
+
+<h5><em>(Abre-se o porto repentinamente e apparece subito Pantaleo. Frederico
+ainda faz um impeto de fuga, mas contem-se, e corteja mui urbanamente o
+fidalgo.)</em></h5>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Passava para a romaria, e, como visse S. Ex. <em>(indicando a
+morgadinha)</em> vim depor a seus<span class="pn">{57}</span> ps os meus
+respeitosos cumprimentos, e informar-me da saude de V. Ex.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Estou bom, muito obrigado. Onde est o Joo Lopes?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Foi aparelhar a burra.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Vae tu preparar-te que so horas.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Quer vr como agora so as modas, pap? olhe. O snr. Frederico vae levar
+estes figurinos s nossas primas de Ruives.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Pois faz-me o snr. muito favor se me c no trouxer bonecos a casa. Ns c
+no somos de modas.<span class="pn">{58}</span> </p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Direi a V. Ex., snr. morgado, que as modas tem certa relao com o espirito
+das geraes e das pocas. Agora que o entendimento humano se adelgaa, o
+involucro material tambem se subtiliza nas raas finas...</p>
+
+<h4>Pantaleo <em>(medindo-o d'alto a baixo com ironia)</em></h4>
+
+<p>Bem se v que o snr. escrivo d'uma raa muito fina... pelo muito
+adelgaado que est...</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>No me jacto de prosapia heraldica; mas, na jerarchia dos espiritos,
+preso-me de pertencer ao bando mais illuminado. Respeito muito o braso; mas
+curvo-me diante da aristocracia do genio e do talento.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Sim, o snr. tem muito talento, bem sei... J te disse, Joanna, que te vs
+arranjar.<span class="pn">{59}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Adeus, snr. Frederico, muito obrigada. <em>(Se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA XV</h2>
+
+<h3>PANTALEO <small>E</small> FREDERICO</h3>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Creado de V. Ex. <em>(Ve a sahir; mas Pantaleo detem-o.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Faa favr.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Escuto as suas ordens.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>O snr. anda muito mal encaminhado. Minha filha a morgada de Val-d'Amores;
+o snr.<span class="pn">{60}</span> o escrivo de fazenda de Santo Thirso.
+Esto um do outro to longe como aquella pedra d'armas do reblo d'um
+sapateiro, entendeu?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Entendi, que V. Exc. tem um estylo bastante chato. Entendi, posto que V.
+Exc. falle uma lingoagem asss gothica em pleno seculo XIX.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Pois se entendeu, tire o seu atrevido pensamento de minha filha, e procure a
+frma do seu p. No me obrigue a usar dos usos e costumes dos meus avs. Quer
+que lh'os diga?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Heroismos dos seus ascendentes? Essas Odissas da alda so hoje
+impraticaveis. Eu sei em que tempos vivemos, snr. morgado.<span
+class="pn">{61}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Sabe? pois olhe que no sabe em que terra vive. O snr. veio l de Lisboa
+onde qualquer bigorrilhas, que pe gravata, entende que egual a todo o homem
+que pe gravata; o que o bigorrilhas no quer sr egual a todo o homem que
+no tem gravata.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Ahi ha certa sublimidade de ida, de que lhe dou os parabns. V. Exc. ia
+quasi escrevendo d'um trao a historia philosophica da democracia moderna.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Eu no escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo que isto c nas
+montanhas outra cousa. Os morgados so morgados; os escrives so escrives;
+e os sapateiros so sapateiros. Ora, quando acontece alguem querer sahir da sua
+classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as costellas. O snr. sabia
+isto?<span class="pn">{62}</span> </p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Eu no sabia que estava na Cafrria. Cuidei que este concelho era um retalho
+do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fco radiara uma flecha de
+luz at ao corao de V. Ex. que me parece ser uma pessoa de bons costumes, e
+no um esquim. Cuidei finalmente que o Evangelho e a Carta constitucional
+livellavam a dignidade humana... <em>(Ouve-se o cantar das raparigas que se
+avisinha.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleo Cogominho de Encerrabdes, dcimo oitavo
+senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com minha filha hade
+poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor d'esta casa. Tenho dito, e
+acabou-se o cavaco. Saude e juizo. <em>(Volta-lhe as costas. Frederico bamba a
+cabea altivamente e retira-se.)</em><span class="pn">{63}</span> </p>
+
+<h2>SCENA XVI</h2>
+
+<h3>MORGADINHA, PANTALEO, <small>E O BANDO DAS MOAS E TOCADORES QUE
+APARECERAM NA TERCEIRA SCENA</small></h3>
+
+<h5><em>(A Morgadinha se sentada sobre a jumenta. Vem vestida de Amazna. Joo
+Lopes de farda azul com vivos vermelhos, bota de orelha e prateleira, colete
+encarnado, e chapo embreado, tudo antiga e grutesco, vem trazendo a burra
+pela rdea. As raparigas esto cantando as seguintes)</em>:</h5>
+
+<h4>COPLAS</h4>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Dondes vens velha?<br>
+ Eu venho da feira.</blockquote>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Que trazes na cesta?<br>
+ Cr, cr, cr,<br>
+ Sardinha vareira,<br>
+ Cri, cri, cri,<br>
+ Por a retangueira;<br>
+ Cr, cr, cr,<br>
+ Se o galo cantou.<span class="pn">{64}</span></blockquote>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Se o galo cantou<br>
+ Deixal-o cantar.</blockquote>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Minha rica prenda<br>
+ Cr, cr, cr,<br>
+ L da beira mar<br>
+ Cri, cri, cri,<br>
+ Pela retangueira,<br>
+ Cr, cr, cr,<br>
+ Se o galo cantou.</blockquote>
+
+<h4><small>(UMA VOZ)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ D'onde vens velha?<br>
+ Eu venho d'alli.</blockquote>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Que trazes na cesta?<br>
+ Cr, cr, cr,<span class="pn">{65}</span> <br>
+ Que te importa a ti,<br>
+ Cri, cri, cri,<br>
+ Pela retangueira,<br>
+ Cr, cr, cr,<br>
+ Se o galo cantou.</blockquote>
+
+<h5><em>(Contina o canto ao descer do panno.)</em></h5>
+
+<p><span class="pn">{67}</span> </p>
+
+<h4>FIM DO PRIMEIRO ACTO. </h4>
+
+<h1>ACTO SEGUNDO</h1>
+
+
+<h5>Vista de arraial. noute. Festes de lampadas de papel variegado pendem
+dos ramalhos das arvores. Mulheres a frigir, ao lado das pipas cobertas de
+ramos de folhagem. Barracas com botequins. Multido de povo a beber volta das
+pipas. Sinos repicando, e estouros de foguetes. D'ambos os lados da scena, mas
+fra, se canta o S. Joo com vozes alternadas. Frederico passeia por entre o
+povo, mirando as raparigas. Os dois j conhecidos creados de Pantaleo, com as
+pernas encruzadas nos varapos, medem d'alto a baixo Frederico, e rompem a
+jogal-os um com outro. Frederico, por uma das suas evolues maravilhosas de
+rapidez, desapparece. O povo ri-se, e elle reapparece logo, seguido por trez
+cabos armados. Os cabos usam bonet com debrum azul. Cessam as cantilenas, e
+rompe a banda musical de Santo Thyrso, estrondosa em trompes, a qual entra em
+scena tocando uma marcha. Os musicos uniformes, de cala branca, casaco azul
+com vivos amarellos, o bonet avivado da mesma cr. As figuras podem
+caracterisar-se caprichosamente. Em seguida, entra a Morgadinha, com o pae,
+Macario, Cosme Giraldes, e Joo Lopes. Cosme Giraldes um sugeito gordo,
+aspeito serio, com os seus oculos, um todo de summa gravidade. Os circumstantes
+cedem o logar aos recem-chegados, que formam grupos. </h5>
+
+<p><span class="pn">{68}</span> </p>
+
+<h2>SCENA I</h2>
+
+<h3>TODOS <small>OS</small> DESCRIPTOS <small>(GRUPO DA MORGADINHA E COSME
+GIRALDES)</small></h3>
+
+<h4>Cosme <em>(com gesto de orador e com grandes pausas, Morgadinha)</em></h4>
+
+<p>A festa animou-se com a auspiciosa chegada de V. Ex. O sol do empyreo e uma
+senhora bella, que o sol dos coraes sensiveis, onde brilham, tudo reanimam.
+Assaz ditoso me julgo em ser o mais feliz dos mortaes que se sentem
+influenciados e enthusiasmados pelos lumes encantadores de V. Ex. Falta,
+todavia, minha completa dita a certeza de que os meus affectuosos requebros
+acham graa nos seus olhos.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(com desdem)</em></h4>
+
+<p>Eu no lhe acho graa nenhuma.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Como assim, divina ingrata?<span class="pn">{69}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>J disse ao boticario o que tinha a dizer.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Pois o seu corao...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Est dado. Eu c sou franca. No perca tempo.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>No ha duvida que ouvi dizer que V. Ex., victima d'uma allucinao,
+aceitava a crte d'um esgrouvinhado arcaboio que exerce as ladras funces de
+escrivo da fazenda! Heide eu, cos! accreditar que...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Sim, snr., acredite, e faa favor de me no incommodar que eu vim romaria
+para me divertir. <em>(Volta-lhe as costas.)</em> pap, quando se<span
+class="pn">{70}</span> faz o Auto do Natal? <em>(Ouve-se a musica tocando uma
+marcha.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p> j. Mandei vir as figuras para aqui. Vae comear. amigos, desempachem o
+terreiro que chga o espectaculo. <em>(O povo retira e apinha-se entre
+scenas.)</em></p>
+
+<h2>SCENA II</h2>
+
+<h3>OS MESMOS, <small>E AS FIGURAS ABAIXO DESCRIPTAS EM LOGAR
+COMPETENTE</small></h3>
+
+<h5><em>(A musica entra a passo muito cadenciado com grandes pernadas. Chegada
+ bocca do palco, alinha a um lado para dar o passo aos dois primeiros
+personagens do auto):</em></h5>
+
+<h3>Scena I do Auto</h3>
+
+<h3>ADONIS <small>E</small> MANASSS</h3>
+
+<h5><em>(Adonis traja de principe de carnaval; Manasss veste de propheta de
+procisso; mas toda a fatiota muito usada e desbotada. Adonis traz um
+cavaquinho.)</em></h5>
+
+<h4>Adonis <em>(com declamao muito boal)</em></h4>
+
+<p>Canta, Manasss, que eu te acompanho; para isso com esta harpa vanho.<span
+class="pn">{71}</span> </p>
+
+<h4>Manasss <em>(canta com ar inspirado, gesticulando estupidamente)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ O co estrellado,<br>
+ Sereno e propicio,<br>
+ Ser pois indicio<br>
+ Do sol desejado.</blockquote>
+
+<h4><small>(CRO DE PASTORES)</small></h4>
+
+<h5><em>(Vozes femininas dentro)</em></h5>
+
+<blockquote>
+ Quem o habitar?<br>
+ Quem o gozar?</blockquote>
+
+<h4>Manasss <em>(cantando)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Vde a paz serena d'esta noute;<br>
+ Nascer a estrella de Jac?<br>
+ O gado socegado adivinha;<br>
+ No se bole no ninho a avesinha.</blockquote>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Quem o habitar?<br>
+ Quem o gozar?<span class="pn">{72}</span></blockquote>
+
+<h4>Adonis <em>(declamando, e passeando com grandes passos)</em></h4>
+
+<p>Oh! que terno, caro Manasss, cantastes! O conceito da tua canoneta amorosa
+me traz dces lembranas. Ainda em nossos dias, veremos realisadas as
+porfecias? No caibo na pelle de estifeito; da-me pancadas o corao n'este
+peito! <em>(Frederico despede um impulso de riso. Espantam-se os
+cicumstantes.)</em></p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>O senhor est a mangar d'estes actos srios?!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Pois isto srio! ento no ha nada ridiculo n'este mundo seno o snr.
+boticario.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>O senhor muito mal criado, um incivil, ... ... um escrivo!<span
+class="pn">{73}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Snr. Macario, no esteja a interromper o auto. Deixe l rir quem quer rir;
+chore vocemess, se tem vontade.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Continuem l vocs co'isso.</p>
+
+<h2>Scena II do Auto</h2>
+
+<h3>VOZ <small>D'UMA</small> PASTORA, <small>CANTANDO DENTRO</small></h3>
+
+<blockquote>
+ Deus do co, e da terra,<br>
+ vs que podeis tanto,<br>
+ Ouvide nossos clamores<br>
+ Sde propicio, Deus sancto!</blockquote>
+
+<h4><small>CRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4>
+
+<p>Do povo amado,<br>
+Mandae o desejado.</p>
+
+<p><span class="pn">{74}</span> </p>
+
+<h5><em>(Os que esto no palco fazem scenas mudas de ternura muito
+lorpas.)</em> </h5>
+
+<h4>Manasss</h4>
+
+<p>Escuta! No foi Ruiva, a pastora que cantou?</p>
+
+<h4>Adonis</h4>
+
+<p>Foi. E os pastores tambem, que nenhum dorme.</p>
+
+<h2>Scena III do Auto</h2>
+
+<h3>O VELHO SIMEO <small>E</small> RUIVA</h3>
+
+<h5><em>(O velho vestido de pelles de carneiro. Ruiva de pastorinha, com um
+cordeiro branco nos braos)</em></h5>
+
+<h4>Simeo <em>(com os olhos no firmamento)</em></h4>
+
+<p>Incelso, interno rei sobrano, que sobre os crebins tens assento, oubide os
+nossos lamentos.</p>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Do povo amado,<br>
+ Mandae o desejado.<span class="pn">{75}</span></blockquote>
+
+<h4>Manasss</h4>
+
+<p>Agora creio no mysterio occulto d'esta noite. Rebella que todos os pastores
+tem um s pensamento.</p>
+
+<h4>Simeo</h4>
+
+<p>Vinde pastores aqui todos; n'este campo contemplaremos o silencio da noute,
+que o auctor d'altos mysterios annuncia.</p>
+
+<h4>Frederico <em>(escancarando a bocca)</em></h4>
+
+<p>Que semsaboria!</p>
+
+<h4>Macario e Cosme</h4>
+
+<p>Sio! <em>(prolongado.)</em></p>
+
+<h2>Scena IV do Auto</h2>
+
+<h3>ENTRAM PASTORINHOS <small>E</small> PASTORINHAS</h3>
+
+<h4>Ruiva <em>(declamando)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Aqui vimos, meus senhores,<br>
+ Adorar ns o menino:<span class="pn">{76}</span> <br>
+ No seu sancto nascimento<br>
+ Com grande contentamento.</blockquote>
+
+<h4><small>(CRO)</small></h4>
+
+<blockquote>
+ Se o menino nascido,<br>
+ Ns o bamos prcurar;<br>
+ Aparcei, senhor menino,<br>
+ Que vos queremos adorar.</blockquote>
+
+<h5><em>(Sem por diversos lados.)</em></h5>
+
+<h2>Scena V do Auto</h2>
+
+<h3>UM REI TURCO <small>E DEPOIS OUTROS FIGURES</small></h3>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<h5><em>(Com uma cara horripilante, e trejeitos assustadores)</em></h5>
+
+<blockquote>
+ Sou o turco rei, que <br>
+ Valoroso na arrogancia;<br>
+ Por ser filho da fortuna<br>
+ E neto da extravagancia!</blockquote>
+
+<p><span class="pn">{77}</span> </p>
+
+<h5><em>(Corre brandindo a espada d'um lado a outro.)</em> </h5>
+
+<blockquote>
+ De moiriscos reis nasci,<br>
+ Sou seu filho alentado,<br>
+ O meu brao furibundo<br>
+ Deixa tudo escangalhado.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Co'esta espada sou capaz<br>
+ De entrar pelo inferno dentro<br>
+ E pr tudo em mil pedaos<br>
+ Que eu sou um rei sanguenolento!</blockquote>
+
+<h5><em>(Risada de Frederico.)</em></h5>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>J pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar em
+to solemne passo!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Solemne passo, diz o nobre deputado! chamar <em>solemne passo</em>
+prostituio da arte!</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>O snr. que uma prostituio! Bem disse<span class="pn">{78}</span> aqui
+S. Ex. que o senhor um atheu! um impio que zomba dos mysterios
+dogmaticos!</p>
+
+<h4>Vozes <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p>Quebra-se-lhe a cabea!&mdash;Bordoada rija!&mdash;Vamos a elle!</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se colerica)</em></h4>
+
+<p>Essa canalha que se calle! Joo Lopes, onde est o regedor?</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Saber V. Ex. que o regedor tomou tamanha turca que est a cozel-a no
+palheiro d'um lavrador.</p>
+
+<h4>Cosme <em>(com enfaze)</em></h4>
+
+<p>Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem social.
+A auctoridade que d o exemplo da relaxao dos costumes no pde educar as
+massas. necessario que no se desvirtue e desprestigie o funccionalismo,<span
+class="pn">{79}</span> com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos
+chegados desmoralisao do Baixo-Imperio!</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Apoiado!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ento os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto?</p>
+
+<h4>Pantaleo <em>(ao Rei turco)</em></h4>
+
+<p> Z da Custodia, diz l o que tinhas a dizer.</p>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<p>Se isto no leva rumor, acaba-se a pandega!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Magnificamente! Est a coisa definida: isto uma pandega, e querem os
+morales que a gente se desfaa em lagrimas! Faa favor de continuar, snr. rei
+turco, que eu estou srio, e talvez chore.<span class="pn">{80}</span> </p>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<p>Agora no sou eu que boto a falla, o outro rei. Entra, Manel Zarlho!
+<em>(Chamando para dentro.)</em> O Manel Zarolho o rei christo.
+<em>(Explicando.)</em></p>
+
+<h2>Scena VI do Auto</h2>
+
+<h5><em>(Entra um Rei christo com muitos pastores e pastoras)</em></h5>
+
+<h4>Rei christo</h4>
+
+<blockquote>
+ Eu trago os meus companheiros<br>
+ Fieis minha nao,<br>
+ Para te convencer, turco,<br>
+ E para te fazer christo.</blockquote>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<blockquote>
+ Para onde ides, romanos,<br>
+ Que to alegres vos vejo?</blockquote>
+
+<h4>Rei christo</h4>
+
+<blockquote>
+ Festejar o menino nado<br>
+ Que todo o nosso desejo<span class="pn">{81}</span></blockquote>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<blockquote>
+ Que do passaporte?</blockquote>
+
+<h4>Rei christo</h4>
+
+<blockquote>
+ Passaporte no trazemos,<br>
+ Se nos no deixas passar<br>
+ Para traz ns tornaremos.</blockquote>
+
+<h4>Rei turco</h4>
+
+<blockquote>
+ Para traz no heisde tornar;<br>
+ Que eu vou buscar algemas,<br>
+ Que vos quero algemar.</blockquote>
+
+<h4>Pastores e pastoras <em>(cantando)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Milagroso Deus menino,<br>
+ Esta obra vossa ;<br>
+ Ajudai-o a vencer<br>
+ O turco inimigo da f.<span class="pn">{82}</span></blockquote>
+
+<h4>Rei christo</h4>
+
+<blockquote>
+ Saca l da tua espada!</blockquote>
+
+<h4>Rei turco <em>(arrancando para elle)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ co, que sova tu levas!</blockquote>
+
+<h2>Scena VII do Auto</h2>
+
+<h3>OS MESMOS <small>E UM</small> ANJO, <small>QUE SE METTE EM MEIO DOS DOIS
+REIS</small></h3>
+
+<h4><em>Canta:</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Detem-te, barbaro turco!<br>
+ Cessa a tua infeliz sorte;<br>
+ Faz-te christo, que no tarda<br>
+ Que te apanhe a feia morte.</blockquote>
+
+<h4><small>CRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Faz-te christo que no tarda<br>
+ Que te apanhe a feia morte.<span class="pn">{83}</span></blockquote>
+
+<h4>Rei turco <em>(declama)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Eu sou o rei Almeirante<br>
+ La do reino da Turquia;<br>
+ Nunca fui prezoneiro,<br>
+ So do rei da Lixandria!</blockquote>
+
+<h4>O Anjo <em>(canta)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Detem-te barbaro turco, etc.</blockquote>
+
+<h4><small>CRO</small> <em>(dos pastores)</em></h4>
+
+<blockquote>
+ Faz-te christo que no tarda<br>
+ Que te apanhe a feia morte.</blockquote>
+
+<h4>Rei turco <em>(afflicto)</em></h4>
+
+<p>Que isto? que sinto? que tenho eu aqui? <em>(Com a mo sobre o
+estomago)</em> Que tenho eu aqui?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Hade ser vinho. <em>(A Morgadinha ri-se s escancaras.)</em><span
+class="pn">{84}</span> </p>
+
+<h4>Macario <em>(sobremodo indignado)</em></h4>
+
+<p>No ha noticia de tamanho escandalo!.. 0 snr. escrivo est mostrando que
+um homem de sentimentos muito herejes!..</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>E eu assaz me espanto que a snr. morgadinha applauda com a sua hilaridade
+estas interrupes indecentes!</p>
+
+<h4>Rei turco <em>(zangado)</em></h4>
+
+<p>Eu c que no estou p'ra chalaas!.. Passem por c muito bem. Por aqui me
+esgueiro. rapasiada, vamos embora. Manda tocar a marcha Antonho da Pga.
+<em>(Se com os personagens do auto, atraz da Musica, que vae tocando a
+marcha.)</em><span class="pn">{85}</span> </p>
+
+<h2>SCENA III</h2>
+
+<h3>OS MESMOS, <small>EXCEPTO OS PERSONAGENS DO AUTO</small></h3>
+
+<h5><em>(Grande movimento e rapido. Macario gesticula com Jordo, e Pantaleo
+com a filha. Alguns camponios de varapo fazem crco a Frederico. A morgadinha
+passa por meio d'elles, bamboando a cabea e vibrando o chicotinho. Frederico
+passeia com os cabos. Os camponios retiram-se, relanando olhos ameaadores ao
+escrivo.)</em></h5>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Isto j me aborrece, pap...</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Vamos embora, menina?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Por em quanto no: quero vr o fgo prezo; mas vou descanar um pouquinho a
+casa dos cazeiros.<span class="pn">{86}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Vae, que eu vou buscar-te assim que principiar o fogo.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p> Joo Lopes, vem comigo. <em>(Sem. Frederico retira-se pelo outro lado com
+os cabos.)</em></p>
+
+<h2>SCENA IV</h2>
+
+<h3>MACARIO, COSME <small>E</small> PANTALEO</h3>
+
+<h5><em>(Formam um grupo parte, do povo que gira no fundo)</em></h5>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p> snr. morgado, pois V. Ex. deixa fugir esta occasio de fazer quebrar o
+espinhao ao morto?<span class="pn">{87}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>A occasio boa ; mas que eu no quero que minha filha assista, por que
+ella capaz de se metter no meio da desordem.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Pelo que observo, esta sua filha uma heroina grega ou romana, snr.
+morgado! Ella faz lembrar a Pantasilea do Virgilio, e outras faanhudas
+mulheres da historia antiga! Nos tempos presentes, sou a dizer a V. Ex. que a
+mulher quer-se fragil, meiga e timorata; e por tanto permitta que eu censure a
+educao que deu a sua filha!</p>
+
+<h4>Pantaleo <em>(docil)</em></h4>
+
+<p>Que quer V. Ex.? filha unica, ficou sem me muito cedo, e foi creada
+laia de rapaz, a trepar s arvores, a atirar aos passaros, e a jogar o po; em
+fim, confesso que andei mal avisado. Eu ento achava-lhe muita graa; hoje no
+lhe acho nenhuma; mas j no posso emendar<span class="pn">{88}</span> a mo.
+tarde; minha filha tem vinte e seis annos; hade ser difficil corrigir-se, s se
+o casamento fizer a mudana, e espero que faa.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Se o casamento fizer a mudana! Ora essa! Pobre marido que no tem os
+focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu c por mim, snr. morgado, confesso
+que tive certos intentos matrimoniaes com ella; vista, porm, das suas
+informaes, declaro que desisto e renuncio, por que me no sinto com foras e
+habilidade para domesticar uma cobra-cascavel...</p>
+
+<h4>Pantaleo <em>(formalisado)</em></h4>
+
+<p>No consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha!</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Isto uma comparao rethorica, litterariamente fallando.<span
+class="pn">{89}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p> rethorica... no se offenda V. Ex.;... talvez ignore que a rethorica
+uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis...</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>No quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleo Cogominho de
+Encerrabodes seja respeitada! <em>(Volta as costas, e se bufando.)</em></p>
+
+<h2>SCENA V</h2>
+
+<h3>COSME <small>E</small> MACARIO</h3>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Isto uma familia de hotentotes! Cheiram ao serto estes selvagens! Do que
+eu me escapei! Se caio nas mos d'estes dois barbaros da edade media! Parece-me
+uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemec, snr. Macario, a<span
+class="pn">{90}</span> dizer-me que esta fidalga tinha uma educao fina!</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p><em>Fina</em>, no disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe
+que ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differena, phisicamente
+fallando.</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Perdo. Vocemec disse-me que ella tivera fina educao.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Isso ento foi rethorica...</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Eu no admitto rethoricas em objecto to srio como o casamento! Olhem que
+educao fina a d'este anjo! Trepa s arvores, atira aos passaros, e joga o
+po! Que predicados estes to mimosos para augmentarem as graas virginaes
+d'uma menina! No lhe falta seno vestir-se<span class="pn">{91}</span> de
+homem, que agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas.
+Uma menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canho, e rompe com elles
+por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de amores que nem
+aaftida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma muito candida e muito
+pura dentro do peito que se albarda com um palet de homem para arrotar
+francamente umas phrases de bomba real que nos fazem comiches nos miolos e
+arrepios na espinha! Arreda! olha o que me estava reservado para os quarenta e
+seis annos! Uma mulher assim paralisava-me as funces do intellecto, e l se
+me iam as minhas ovaes parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz,
+devo-me regenerao da minha patria, sou homem publico; e um homem publico
+quando se casa deve fazel-o com dama que o no impea nem apoquente. A femea
+natural do homem politico a politica; a esposa, para os homens devotados aos
+interesses materiaes do seu circulo, significa to smente um supplemento vivo
+e util s commodidades domesticas. Percebe vocemec, snr. Macario?<span
+class="pn">{92}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Ora se percebo! A minha mulher c para mim tambem um supplemento ha muitos
+annos; e mais eu fao-a trabalhar na politica enchendo os bilhetes de votos na
+eleio. Diz V. Ex. muito bem, que ns os homens publicos no temos tempo para
+cuidar de mulheres... <em>(Reparando em Frederico)</em> Ahi vem o atheu...</p>
+
+<h4>Cosme</h4>
+
+<p>Vou-me safando que no quero palestras com este safio. <em>(Se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VI</h2>
+
+<h3>MACARIO <small>E</small> FREDERICO</h3>
+
+<h4>Frederico <em>(encarando o outro com a costumada careta)</em> </h4>
+
+<p>O douto pharmacopla est irado contra mim por que fui causa a
+interromper-se o escandalo do auto...<span class="pn">{93}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Eu no me metto com o senhor... Tenha a bondade de no embarrar c por mim.
+</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>A sciencia sempre orgulhosa. Faamos pazes e alliana, snr. Macario
+Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a sua
+sciencia do bazalico e do oleo de mamona, podemos dominar este concelho,
+reunidas as duas foras n'uma aspirao unica. Por que me faz guerra inexoravel
+e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu consorcio com a Morgadinha?
+Por que anda o snr. servindo de alcaiote d'este alarve de Guimares, que o
+trompo grandioso das maiores asneiras civicas assopradas na charanga
+parlamentar? O officio do snr. Macario, n'este negocio, desacredita um
+pharmaceutico, que reune ao conhecimento do gamo, sciencia no vulgar da
+historia dos doze Pares de Frana, e tem orvalhado com lagrimas os fastos
+sanguinosos de <em>Roncesvalhes</em>.<span class="pn">{94}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>V mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem
+Macario Mendes... <em>(Se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VII</h2>
+
+<h3>FREDERICO, JOO LOPES, <small>E CABOS</small></h3>
+
+<h5><em>(As cantadeiras que no fim do 1. acto acompanharam a morgada entram a
+cantar a moda com que se fechou o dito acto:)</em></h5>
+
+<blockquote>
+ <em>D'onde vens, velha,</em><br>
+ <em>Eu venho da feira</em>, etc.</blockquote>
+
+<h5><em>(N'um intervalo da 1. 2. trova Joo Lopes acerca-se de Frederico
+com disfarce)</em></h5>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Esto-se a
+preparar os valentes.<span class="pn">{95}</span> <em>(Frederico apita rijo.
+Apparecem de differentes sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em
+quanto se repete a cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fra o rumor da
+desordem, e o estalido dos varapos. As cantadeiras fogem alvoroadas a dar
+gritos.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VIII</h2>
+
+<h3>FREDERICO, <small>CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS</small></h3>
+
+<h4>Frederico <em>(com intimativa bellica)</em></h4>
+
+<p>Formem em linha. Carregar armas!</p>
+
+<h4>Um cabo</h4>
+
+<p>Esto carregadas.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Vamos ser atacados pelos desordeiros. voz de fogo, atirem. <em>(V-se
+atravessar a scena por<span class="pn">{96}</span> entre o povo um Desconhecido
+de chapo derrubado, o rosto coberto por um leno, de caraa, polainas de
+briche nas pernas e ps, com um grosso po de choupa. Proximos de Frederico os
+valentes param, com os pos cruzados nas pernas, gingando em attitude
+ameaadora. Frederico, no se desvia dos cabos. De repente, rompem de fra uns
+poucos varrendo o campo a pauladas.)</em></p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Cabos de policia, sentido! Preparar armas! <em>(Se perto da bocca da scena
+o Desconhecido. Encosta-se ao po observando os movimentos dos valentes, os
+quaes vem j avanando, j recuando, crescendo sobre Frederico.)</em></p>
+
+<h4>Frederico <em>(aos cabos)</em></h4>
+
+<p>Aperrar armas! <em>(Uma paulada faz saltar a clavina das mos d'um cabo. Os
+outros fogem. Frederico reca, apitando rijamente. No maior aperto, o
+Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do po, e arremette
+com os aggressores. Estes, forados pela destreza, fogem,<span
+class="pn">{97}</span> logo que o primeiro ce d'uma paulada. A vozeria cresce
+no momento em que o palco est despejado. O Desconhecido trava do brao de
+Frederico, e o traz bocca da scena.)</em></p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Quem o valente homem a quem devo a vida?! quem ?</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(arrancando o leno do rosto)</em></h4>
+
+<p>Sou eu! salvei-te, Frederico!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p> morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como s ideal e angelica!
+<em>(Ajoelhando.)</em><span class="pn">{98}</span> <span class="pn">{99}</span>
+</p>
+
+<h4>FIM DO SEGUNDO ACTO. </h4>
+
+<h1>ACTO TERCEIRO</h1>
+
+<h5>Salo da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia.
+Reposteiros j envelhecidos com brazes. Alguns retractos. Um piano
+moderno.</h5>
+
+<h2>SCENA I</h2>
+
+<h3>PANTALEO <small>E</small> MACARIO</h3>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha, desde
+que comeou a vestir-se moda, e a tocar piano, est muito distrahida do
+troca-tintas do escrivo. No anda por janellas, no se de casa, e gasta
+alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a vestir-se. Isto custa-me um
+dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.<span class="pn">{100}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>E quem que ensina a snr. morgadinha a tocar?</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p> a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com loja
+de fazendas brancas...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Bem sei, bem sei.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Foram l as primas de Ruives que fizeram a descoberta; mas o que tem muita
+graa que o homem da mestra to ciumento que s a deixa ir a casas onde no
+ha homens...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Que tal pezta ella!..<span class="pn">{101}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>E para vir aqui, pz por condio que a mulher s viria noitinha
+acompanhada pelo marido que a deixa porta, e vem por ella duas horas depois.
+Eu estive quasi a no aceitar tal professora por saber que o escrivo de
+fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que ella fosse
+medianeira d'alguma carta...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>E tem raso, snr. morgado... Veja l!.. olhe que o mundo um covil de
+marotos!</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>No ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pz fra
+da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia d'lho a
+consorte.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>No que sem licena d'elle no ha maior<span class="pn">{102}</span>
+desmoralisao n'este mundo! Aquillo tem mesmo idas de Sardanapalo! Ainda bem
+que lhe est por um fio a ladroeira da repartio...</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Conte l isso ento. Em que termos est a bernarda? Rebenta hoje ou manh?
+</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Hoje. Est tudo alevantado quando fr nove horas. Os sinos ho-de tocar a
+rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo ce todo sobre Santo
+Thyrso, e faz crco para que o escrivo no possa escapulir-se; que elle leve
+como uma penna, e quando a gente mal se precatar, v-o fazer vispre, zpe-zpe
+<em>(expresso sibilante para imitar a rapidez da corrida.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que no vo os
+meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que<span
+class="pn">{103}</span> eu desejo que elle no apparea mais em Santo Thirso.
+L a respeito da papellada isso queimal-a toda; que depois o governo como no
+tem cadernos para a cobrana dos impostos, no o manda para c a elle nem a
+outro.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Grande ida essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa. Se a
+gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer economias,
+porque depois no havia quem quizesse servir os empregos. O sytema um bocado
+violento para os empregados, mas eu no vejo outro meio de os ir acabando...
+</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>No acho isso humanitario!</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos, leio
+jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheo<span
+class="pn">{104}</span> por dentro e por fra o paiz e as suas necessidades.
+Fique certo d'isto; em quanto se no der fim a uma casa a que os jornaes chamam
+<em>burrocracia</em>, no se indireita a patria.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Como se chama isso?</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p><em>Burrocracia</em>, que pelos modos palavra de idioma francez, que vem a
+dizer empregado publico.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Snr. Macario, v indo c com as minhas idas moderadas. O melhor systema de
+se acabar com os escrives de fazenda queimar os cartorios. Eu lhe ponho uma
+comparao. Se eu queimar a palha que tenho, e no comprar outra, que me
+acontece minha parelha de machos? Morrem de fome, no verdade?<span
+class="pn">{105}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Isso .</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Pois ahi tem: os escrives, em se lhe queimando os papeis, no tem que roer.
+</p>
+
+<h4>Macario <em>(duvidoso)</em></h4>
+
+<p>Nada; a comparao dos machos no me convence, queira V. Ex. perdoar.
+<em>(Com energia)</em> Matal-os, matal-os, o grande <em>desideratum</em>.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>E os papeis? deixam-se ficar?</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrives! Nada de
+cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa causticos e ventosas.<span
+class="pn">{106}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Ora vocemec, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha est o
+processo da execuo que a fazenda nacional me move...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Por seis contos d'uma fiana dos bens dos frades, sei muito bem... Esteja
+descanado, que no ha de l ficar papel em que se amortalhe um cigarro.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Quem o chefe da revoluo?</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p> falta d'homens por hora sou eu; mas no sei a que os commandantes das
+freguezias decidiro. J ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex. general
+em chefe.<span class="pn">{107}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Homem, tire isso da cabea s freguezias. Vocemec bem sabe que eu ando
+muito adoentado dos intestinos, e no posso deixar de tomar o meu banho de
+cana noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revoluo; mas
+entrar nella em pessoa no posso por causa d'esta molestia dos reins que me no
+deixa cavalgar; e vocemec bem entende que um general em chefe a p no tem
+geito, nem pode vr de longe o inimigo, se nos fr necessario entrar em batalha
+com o exercito. Dispensem-me por tanto de tamanha honra.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Farei as diligencias; mas receio que...<span class="pn">{108}</span> </p>
+
+<h2>SCENA II</h2>
+
+<h3>OS MESMOS <small>E A</small> MORGADINHA</h3>
+
+<h5><em>(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido muito
+curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido s pernas; grande lao na
+cintura posteriormente; sapatos de salto dourado; cabelleira com estupendos
+tufos encaracolados.)</em></h5>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Vens para o piano, Joanninha?</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(pondo luneta d'oiro)</em></h4>
+
+<p>Sim, pap, vou estudar a minha lio de escala. <em>(Senta-se ao
+piano.)</em></p>
+
+<h4>Macario <em>( parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)</em></h4>
+
+<p>Que desmoralisao! Isto o peccado em carne e sso!<span
+class="pn">{109}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Est vocemec admirado d'estas modas, amigo Macario!</p>
+
+<h4>Macario <em>(ironico)</em></h4>
+
+<p>So bonitas... <em>(Grave)</em> Mas no acho isto decente para a observancia
+dos bons costumes.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Que quer? moda; andam assim todas as senhoras do tom.</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim no ho de vestir, se Deus
+quizer.</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(voltando o rosto com aborrecimento)</em></h4>
+
+<p>Ento as suas filhas so senhoras?<span class="pn">{110}</span> </p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>D'aquella massa se fazem, snr. morgada...</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(dedilha nervosamente nas teclas)</em></h4>
+
+<p>Adeus, adeus. Temos historia!</p>
+
+<h4>Pantaleo <em>(a meia voz)</em></h4>
+
+<p>No a zangue... Deixe-a l... Tomra eu que ella se entretivesse com os
+vestidos...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>A cabea... est feito, mas as pernas a vr-se-lhe, snr. morgada! Assim no
+se podem observar os bons costumes... <em>(A Morgadinha canta acompanhando a
+escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas altas. Macario Mendes,
+offendido pela desharmonia, faz caretas.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Ainda no sabes cantar modinha nenhuma, menina?<span class="pn">{111}</span>
+</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>A mestra no quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que o essencial.
+<em>(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario despede-se,
+apertando a mo a Pantaleo.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Veja l os meus papeis, snr. Macario.</p>
+
+<h2>SCENA III</h2>
+
+<h3>OS MESMOS <small>E</small> JOO LOPES</h3>
+
+<h4>Joo Lopes <em>(trazendo castiaes com luzes)</em></h4>
+
+<p>Est na sala de espera a snr. mestra pianista e mais o marido.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Est! Pap, preciso sahir, tenha paciencia.<span class="pn">{112}</span>
+Bem sabe que ella, se vir homem aqui, no entra.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Est bom pedao d'asno o marido! Ento elle no sabe que eu sou um homem
+srio!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Que quer o pap! J lhe tenho dito que pde entrar segura de que no ouve
+palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que a mestra
+fallou com um homem, seja elle quem fr, no a deixa voltar.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Com certos individuos tem elle raso; mas nem todos so como o devasso
+escrivo de fazenda, que lhe andava a fazer a crte mulher, e por isso foi
+posto de l para fra. Acho justo que elle se acautele dos tratantes; mas de
+mim... parece-me bestialidade! Emfim c vou. <em>(Se.)</em><span
+class="pn">{113}</span> </p>
+
+<h2>SCENA IV</h2>
+
+<h3>MORGADINHA, JOO LOPES <small>E DEPOIS</small> FREDERICO</h3>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Pde entrar a snr. D. Thomazia.</p>
+
+<h4>Joo Lopes <em>(para dentro, levantando o reposteiro)</em></h4>
+
+<p>Pde entrar a snr. D. Thomazia. <em>(Joo Lopes se, assim que entra a
+supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de vo espesso, e
+cachos. Chapu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir a cara. Vae
+direito ao piano. V-se a cabea de Pantaleo que espreita por uma fimbria do
+reposteiro. Joo Lopes tosse.)</em></p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(alto)</em></h4>
+
+<p>Passou bem, snr. D. Thomazia!.. <em>(Baixo)</em> No me falles que meu pae
+est espreitando, em quanto Joo Lopes tossir... <em>(Tocam e cantam<span
+class="pn">{114}</span> a escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia
+nas vozes.)</em></p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>O snr. morgado j est no pateo a conversar com o marido do snr. Frederico;
+estejam vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando eu tossir, vejam
+l...</p>
+
+<h4>Frederico <em>(levanta o vo, abraando o velho)</em></h4>
+
+<p>Este Joo Lopes um prodigio de dedicao! o typo genuino do antigo
+creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, Joo Lopes, voc ha de
+progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a voc
+um habito de Christo!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Deixa-o ir, deixa-o ir... <em>(Joo Lopes se.)</em><span
+class="pn">{115}</span> </p>
+
+<h4>Frederico <em>(tomando-lhe as mos calorosamente)</em></h4>
+
+<p>E os nossos sonhos vo realisar-se, minha fada! Oh! <em>(contemplando-a
+absorto)</em> que deslumbrante! que eclipse ests fazendo nos anjos do co! No
+s s uma bellesa! s um milagre! uma gloria! uma divinisao! No ouso
+beijar-te as mos... Os ps, os ps! Estes ps requerem tapetes de labios e
+almofadas de coraes! Consente que t'os beije, houri!</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(desviando-se)</em></h4>
+
+<p>No sejas tlo! Gostas de me vr assim?</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as fibras
+intimas do peito! Luz, luz que me cgas, faz-te lavareda, e... devora-me!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Vamos ao caso... Como esto os negocios?<span class="pn">{116}</span> </p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que ser consagrado
+nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida, requerendo tu a tua
+emancipao, visto que j contas vinte e seis annos; mas, como receias que eu
+seja assassinado logo que requeiras ao juiz, cumpra-se a tua vontade. <em>(Joo
+Lopes tosse. Vo sentar-se rapidamente ao piano, tocando e cantando a escala.
+Depois, a Morgadinha vae espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa
+voluptuosa que obriga a Morgadinha a fazer alguns passos de dana. Frederico,
+arrebatado do donaire gracioso d'ella, ergue-se de mos postas fazendo
+tregeitos de enlevado.)</em></p>
+
+<h4>Joo Lopes <em>(mettendo a cabea)</em></h4>
+
+<p>Podem conversar, que elle passou para a tulha.</p>
+
+<h4>Frederico <em>(com transporte)</em></h4>
+
+<p>s divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanas o p
+quebradio<span class="pn">{117}</span> e chinez em attitude danante, sacodes
+e impelles brazas minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus ps
+lindissimos. Tudo que fazes mata e aviventa. Como no sers esbelta, nos sales
+de Lisboa, princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos
+cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de
+felicidade por todos os pros! Joaninha, deixa-me sonhar! <em>(Fixa os olhos
+espantados no tecto da plata. Musica surda)</em> A minha vida vae ser uma
+etherisao de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taas nectreas
+do co, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... Esse rosto em que
+se espelham as formosuras no vistas de Angelos nem de Raphaeis, ser o meu
+Al-koro, porque o summo artifice escreveu ahi a suprema estrophe do seu poema.
+Quando os teus olhos se abrirem ao diluculo da manh, vr-me-has de joelhos a
+beijar os teus cabellos; quando os fechares, cansados de serem beijados, e as
+sedosas palpebras se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me
+quedarei a teus ps velando que os sylphos amorosos da noite no ousem
+perturbar o teu dormir. Oh! Joanna, Joanna!<span class="pn">{118}</span>
+<em>(Ajoelha-se-lhe aos ps. Joo Lopes tosse com maior fora. A morgadinha
+adverte em vo Frederico que contina no seu arrebatamento:)</em> Abre-me aqui
+j o sepulchro, se em alguma hora hei de sentir-me orpho dos teus carinhos...
+<em>(Pantaleo ao fundo, erguendo o reposteiro.)</em></p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ah!</p>
+
+<h4>Frederico <em>(sobresaltado)</em></h4>
+
+<p>O diabo! <em>(Desce o vo. Canta qualquer aria conhecida no acto de
+ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente Morgadinha:)</em></p>
+
+<blockquote>
+ Diz a teu pai que a mestra<br>
+ Para melhor te ensinar,<br>
+ Te est cantando uma ria<br>
+ Das que se usa cantar<br>
+ No Theatro de Lisba:<br>
+ Prega-lhe a pta, que ba;<br>
+ E se esta nos no salva,<br>
+ Nada nos pde salvar.<span class="pn">{119}</span></blockquote>
+
+<h2>SCENA V</h2>
+
+<h3>OS MESMOS <small>E</small> PANTALEO</h3>
+
+<h4>Pantaleo <em>(ao fundo)</em></h4>
+
+<p>Ento que isso?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p> a minha mestra que me est ensinando uma ria das que se cantam no theatro
+de Lisba.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Ella tem a voz to grossa! No parece voz feminina!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Ella canta na voz que quer.... Ento o pap j se esqueceu que o marido
+d'ella...<span class="pn">{120}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Est bom, est bom; eu vou-me embora. L estive conversando com o marido da
+senhora, e lhe disse que no tivesse ciumes que eu sou um velho!... Aquelle seu
+marido parece-me um doudo!.. <em>(Rindo)</em> Ora andem l, andem l.
+<em>(Se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VI</h2>
+
+<h3>FREDERICO, MORGADINHA <small>E</small> JOO LOPES <small>A
+INTERVALOS</small></h3>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Salvei-te ou no? Tu salvaste-me com a fora, na romaria; e eu aqui,
+salvei-te com o genio! Vs como o amor me deu espirito n'um trance difficil?
+Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos teus olhos,
+formosa! <em>(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sa de diversas longitudes.
+Rumr longiquo de vozes.)</em><span class="pn">{121}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Que ser isto!? Joo Lopes!</p>
+
+<h4>Joo Lopes <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p>Que quer, snr. morgadinha?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Sabes a que tocam os sinos? fogo?</p>
+
+<h4>Joo Lopes <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p>Fogo no me parece. Acho que bernarda. Estou c janella a vr se entendo
+a gritaria.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Diz que bernarda...</p>
+
+<h4>Frederico <em>(alvoroado)</em></h4>
+
+<p>Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sriamente<span class="pn">{122}</span>
+comigo, comtigo, comnosco, com o nosso futuro, Joanna!</p>
+
+<h4>Joo Lopes <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p> revoluo.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Revoluo!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>No ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Qual perder-me! Importa-me c a mim a bernarda! Hei de ser tua! No temas,
+Frederico, que eu sou forte!..</p>
+
+<h4>Joo Lopes <em>(na scena)</em></h4>
+
+<p>J intendi o que elles dizem... Do morras<span class="pn">{123}</span> aos
+papeis, e que se queime o escrivo da fazenda... E trazem musica... Ouvem?...
+<em>(Ouve-se distinctamente, mas ainda longe, o hymno da Maria da Fonte,
+mistura com os mrra!)</em></p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>O snr. morgado est na torre a ouvir. Agora bom ser que o snr. Frederico se
+escape, seno desconfio que o matem, sendo aqui pilhado... <em>(Frederico
+apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha agarra-o.)</em></p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>No te deixo sahir agora, que perigoso.</p>
+
+<h4>Frederico <em>(muito inquieto)</em></h4>
+
+<p>Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! D-me armas que eu quero
+defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver de doze
+tiros! Quero armar-me at aos dentes, e combater, e morrer gloriosamente ao teu
+lado!<span class="pn">{124}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Frederico, tu ests maluco!.. Olha que elles no vem c... No percas o
+juizo!</p>
+
+<h4>Frederico <em>(muito tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)</em></h4>
+
+<p>No vem? Vem! Escuta! escuta! No ouves o bramido do tigre popular? Olha...
+ o leo que ruge, partidos os grilhes de respeito lei! a Libia e a
+Hircania a vomitarem fras! Olha o lago sujo como se levanta em vagalhes e
+como elles roncam!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Vem ento esconder-te, vem esconder-te!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>No! Um homem no se esconde quando olhos como os teus so testemunhas de
+tamanha covardia! mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido ignobilmente!
+<em>(Arranca os vestidos mulheris:<span class="pn">{125}</span> fica de
+quinzena; mas conserva o chapo e os boucles)</em> Agora, armas! armas! <em>(A
+morgada ri-se apontando-lhe para a cabea.)</em> Por que ris tu, mulher forte!
+porque ris tu, se fazes favor?!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Tira a cartola e os cachos, meu amor.</p>
+
+<h4>Vozes <em>(que sobrelevam o estrondo dos figles)</em></h4>
+
+<p>Morra o escrivo de fazenda! morra! <em>(Grande catharro de Joo
+Lopes.)</em></p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p> chegada a hora! D-me um abrao, querida! Um abrao! e at ao reino
+eterno! As nossas nupcias so no co!.. <em>(Aponta para o tecto e fica como
+extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e se com dous
+bacamartes de bocca de sino.)</em><span class="pn">{126}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! <em>(Ella
+aperra o bacamarte.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VII</h2>
+
+<h3>OS MESMOS, PANTALEO <small>E</small> JOO LOPES</h3>
+
+<h4>Pantaleo <em>(estupefacto)</em></h4>
+
+<p>Que vejo? que isto? como entrou este homem aqui?</p>
+
+<h4>Frederico <em>(atirando ao cho o bacamarte)</em></h4>
+
+<p>Venho offerecer-me vingana de V. Ex.</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Meu pap, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mo de esposa!<span
+class="pn">{127}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Das duas uma: ou o senhor foge, ou espatifado pelo povo!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>No sei fugir: sei morrer.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Mas v morrer a casa do diabo; no quero que o matem aqui.</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>V. Ex. tem raso; matal-o aqui mo: o melhor eu ir escondl-o no meu
+quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos da menina
+no ficavam com muita saude.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Pois vae escondl-o... some-o no inferno!<span class="pn">{128}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha, sua
+filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu pap
+<em>(ajoelha-lhe)</em> eu j no posso deixar de ser esposa de Frederico, e
+juro que sou d'elle na vida e na morte! <em>(Ergue-se: conduz Frederico pela
+mo, e ajoelha com elle)</em> D-nos a sua beno, querido pap!</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Nunca! nunca! <em>(Ouvem-se fora as acclamaes.)</em></p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(erguendo-se soberba)</em></h4>
+
+<p>Ento, no tenho pae! tenho s marido! Se o povo o matar, ha de vr
+morrer-me ao p d'elle... mas vingada!.. <em>(Lana mo do bacamarte)</em> Que
+entre o povo!<span class="pn">{129}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Em que apertos me vejo! Rebenta-me o corao!..</p>
+
+<h4>Joo Lopes <em>(muito commovido)</em></h4>
+
+<p>Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!..</p>
+
+<h4>Pantaleo <em>(a Frederico)</em></h4>
+
+<p>Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Obedeo, por que m'o ordena o pae d'este anjo. <em>(Se com Joo
+Lopes.)</em><span class="pn">{130}</span> </p>
+
+<h2>SCENA VIII</h2>
+
+<h3>PANTALEO <small>E A</small> MORGADINHA</h3>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Perdi a cabea!.. Estou doudo... no sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!..
+onde est a pianista, que est alli fra o marido espera...</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>A pianista?..</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Sim, a pianista onde est?.. <em>(Olha para o cho, tropeando no vestido de
+mulher)</em> Que isto? <em>(levantando o chapo e os caracoes)</em> Que
+isto?! que isto, Joanna?..</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(afflicta)</em></h4>
+
+<p>Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!..<span
+class="pn">{131}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Ento a pianista era... era o escrivo?!..</p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(soluando)</em></h4>
+
+<p>Era, sim, snr.!</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Que sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o
+patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!..</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p> meu espso... perde-nos...</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Tu s o demonio, mulher!</p>
+
+<h4>Morgadinha</h4>
+
+<p>Sou uma infeliz apaixonada... O meu pap,<span class="pn">{132}</span> tenha
+piedade! Olhe que o Frederico muito bom mo. Se no fidalgo hoje, pde
+sl-o manh. O pap bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr'
+outro.</p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Ergue-te, ingrata, que dste cabo de teu pae! <em>(Rompe a musica pelo
+interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)</em></p>
+
+<h2>SCENA IX</h2>
+
+<h4>JOO LOPES, PANTALEO, MORGADINHA, MACARIO</h4>
+
+<h5><em>(A musica, na vanguarda, ladeia para dar passagem a Macario vestido de
+official de ordenanas, mas com chapo embicado. Traz uma espada empunhada, e
+outra debaixo do brao, seguem-no 12 commandantes subalternos, vestidos a
+capricho, uns com chapo redondo e banda e dragonas, outros de barretina e
+niza. Um d'estes arvora uma bandeira de varias cres.)</em></h5>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Viva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das foras populares
+do Minho!<span class="pn">{133}</span> </p>
+
+<h4>Vozes</h4>
+
+<p>Viva! <em>(Cala-se a musica.)</em></p>
+
+<h4>Macario <em>( frente dos revolucionarios com enfaze oratoria)</em></h4>
+
+<p>Snr. morgado! As foras populares de seis freguezias que ahi esto reunidas
+fra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim, frente dos
+seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a V. Ex. que por voto
+geral foi acclamado general em chefe d'esta provincia. Eu lhes fiz um eloquente
+discurso para os tirar d'essa ideia, allegando com o meu gro de pharmaceutico
+que V. Ex. soffria dos intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles
+no me attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex. a espada de general
+em chefe. Aqui est por consequencia esta valente espada que matou em 1810
+muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mos de V. Ex. limpar este
+paiz de escrives de fazenda e outros mariolas que nos desgraam. Receba V.
+Ex. das minhas mos esta espada e salve com ella a patria do snr. D. Affonso
+Henriques!<span class="pn">{134}</span> </p>
+
+<h4>Os commandantes</h4>
+
+<p>Viva o snr. boticario! Viva!</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Obrigado, valentes guerreiros! <em>(A musica executa uma marcha muito
+compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada
+offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz signal de
+que quer fallar. Silencio.)</em></p>
+
+<h4>Pantaleo <em>(commovido)</em></h4>
+
+<p>Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impresso me fizeram as vossas
+palavras e no pude deixar de me commover... Estou realmente commovido, e
+sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe que as minhas
+doenas e outras desgraas me no permittem tomar o commando das valentes
+foras populares que representaes. No posso, senhores, no posso. Se a fortuna
+me tivesse dado um filho, essa espada estaria j nas mos d'elle.<span
+class="pn">{135}</span> </p>
+
+<h4>Morgadinha <em>(tirando a espada da mo de Macario)</em></h4>
+
+<p>Est nas mos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou mulher, ha
+de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle ser digno d'ella!
+<em>(Chamando) </em>Frederico! Frederico!</p>
+
+<h2>SCENA ULTIMA</h2>
+
+<h4>OS MESMOS <small>E</small> FREDERICO</h4>
+
+<h4>Frederico <em>(ajoelhando diante da morgadinha)</em></h4>
+
+<p>Sim! sim! recebo de vossas mos, Senhora, a espada que ha de decepar as
+infinitas cabeas da hydra financeira! <em>(Espanto geral.)</em></p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!?<span
+class="pn">{136}</span> </p>
+
+<h4>Pantaleo</h4>
+
+<p>Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio!</p>
+
+<h4>Joo Lopes</h4>
+
+<p>Vae ser o marido da menina... <em>(a Pantaleo)</em> Faa favor de no
+desmaiar, por quem !</p>
+
+<h4>Frederico <em>(com vehemencia e fogo)</em></h4>
+
+<p>E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos victoria,
+briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por vs,
+intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pdres em que o
+prostraram os comiles. Eu fallo assim, porque cada nao, nas horas criticas,
+tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da rethorica. Vamos a elles,
+filhos da victoria! As nossas bandeiras desenroladas aos ventos das batalhas,
+diro: Riqueza e Moralidade! Em menos de quatro annos de regimen moral, e dieta
+aos lambes, o paiz no dever nada, e vs no pagareis um pataco de
+decima.<span class="pn">{137}</span> </p>
+
+<h4>Vozes</h4>
+
+<p>Apoiado!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Cidados! Eu tenho estudado profundamente as doenas de Portugal e pude
+descobrir onde est o cancro que nos re. Ahi vae o meu programma: O meu
+systema dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem seu
+presidente de eleio popular, quero dizer, cada conselho governa-se a si, e
+no quer saber do conselho visinho. No sei se me percebem...</p>
+
+<h4>Macario</h4>
+
+<p>Muito bem, entendemos muito bem.</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que no tem nada com a
+republica de Famalico, nem com a republica de Fafe. Ns c vivemos com o que
+nosso, fazemos as<span class="pn">{138}</span> nossas despezas, e no damos nem
+vintem aos de fra. </p>
+
+<h4>Vozes</h4>
+
+<p>Apoiado! apoiado!</p>
+
+<h4>Frederico</h4>
+
+<p>Aqui est o meu systema que ainda no lembrou a ninguem, e que o resultado
+de quinze annos de estudo. Conseguido isto, no temos a sustentar tropas,
+<em>(Apoiados)</em> nem as estradas por onde andam os outros,
+<em>(Apoiados)</em> nem theatros onde os outros se divertem,
+<em>(Apoiados)</em> nem escrives de fazenda. <em>(Apoiados)</em> E declaro que
+me dou j por demittido do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando:
+Guerra e morte a todos os escrives de fazenda! <em>(Os populares desembainham
+as espadas, e bradam: guerra de morte!)</em> E, portanto, senhores, beijo
+esta espada, e leio na sua lamina, os novos destinos que vo alvorecer para
+Portugal! Recebi-a da mo do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E
+concedei, cidados, que essa bandeira<span class="pn">{139}</span> seja
+arvorada nas mos da Judith lusitana! No mais cahir aos ps de vencedor algum
+o estandarte que foi consagrado pela filha d'este honrado fidalgo!
+<em>(Frederico, tem passado a bandeira Morgadinha, a qual se colloca de
+maneira que o pae fica entre ella e Frederico.)</em> Bravos sycambros de Santo
+Thyrso! agora, victoria, victoria que a patria nos chama! Est inaugurada a
+republica confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! <em>(Os musicos executam.
+Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a
+bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentes. Joo Lopes
+sentado com os queixos entre as mos contempla tudo aquillo. Corre o
+panno.)</em></p>
+
+<h4>FIM.</h4>
+
+<p><span class="pn">{141}</span> </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>ENTRE A FLAUTA E A VIOLA</h1>
+
+<h4>ENTREMEZ EM UM ACTO</h4>
+
+<p><span class="pn">{143}</span> </p>
+
+<h2>PERSONAGENS</h2>
+<ul>
+ <li>A<small>NICETO DA</small> S<small>ILVA</small>, pae de </li>
+ <li>V<small>ICTORINA.</small> </li>
+ <li>G<small>UTERRES</small> A<small>RTHUR DE</small> M<small>IRAMAR.</small>
+ </li>
+ <li>J<small>OS</small> P<small>IMENTA.</small> </li>
+ <li>U<small>M</small> C<small>READO.</small> </li>
+</ul>
+
+<p><span class="pn">{144}</span> <span class="pn">{145}</span> </p>
+
+<h1>ACTO UNICO</h1>
+
+<h5>Salo de estalagem em Barcellos. Quartos numerados desde 1 a 12, occupando
+os lados, e parte do fundo. Um d'elles o n. 10 tem sobranceira porta uma
+vidraa ou bandeira. Sobre um canap de palha est uma viola francesa.</h5>
+
+<h2>SCENA I</h2>
+
+<h5><em>(Ao erguer o panno vem entrando Aniceto e Victorina precedidos de um
+creado com dois saccos de noute e castial.)</em></h5>
+
+<h3>ANICETO, VICTORINA, CREADO</h3>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Vamos a saber: temos dois quartos limpos e camas asseadas onde se passe a
+noute?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Hde haver.<span class="pn">{146}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Ha de haver?! Pergunto se ha.</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Faa favor de entrar aqui para o n. 6; e acol defronte est o n. 10
+tambem de vago. <em>(Pe a bagagem dentro dos quartos.)</em></p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Ento os outros esto occupados? Pelo que vejo reuniram-se muitos viajantes
+em Barcellos. Teem bom gosto! Quem est hospedado c?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Nos n.<sup>os</sup> 1, 3, 5, 7 e 9 esto as snr.<sup>as</sup> fidalgas de
+Lanhoso, que so seis velhas.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Que faz por aqui esse mulhero?<span class="pn">{147}</span> </p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Vo para os banhos da Povoa. V. S. faa favor de fazer pouca bulha que
+ellas recommendaram-me todo o socego, que queriam dormir.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Pois que durmam. Ora que me importa c a mim as fidalgas de Lanhoso!</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>V. S. toma alguma cousa?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Queres ch, Victorina?</p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>No quero nada. Quero deitar-me, que estou moda. O meu quarto aquelle?
+<em>(Apontando para o 10.)</em><span class="pn">{148}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto <em>(indo examinar o quarto)</em></h4>
+
+<p>Para onde deita aquella janella?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Para o quintal.</p>
+
+<h4>Aniceto <em>(indeciso)</em></h4>
+
+<p>Para o quintal? est bom... V... Vae-te deitar, menina. <em>(Ao
+creado)</em> V voc buscar outra luz. <em>(O creado se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA II</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>E</small> VICTORINA</h3>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Boas noutes, meu pae.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Boas noutes. Se fr preciso alguma coisa, bate na porta trez palmadas.<span
+class="pn">{149}</span> </p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Ai! <em>(Gemido longo.)</em></p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Deixemo-nos de ais, Victorina. Juizo, juizo e juizo! <em>(Victorina
+recolhe-se. O pae fecha a porta, e tira a chave.)</em></p>
+
+<h2>SCENA III</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>E O</small> CRIADO <small>QUE VEM COM O CASTIAL</small></h3>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Diga-me c voss...</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Meu amo, que manda?<span class="pn">{150}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Por aqui tudo femeas, ou tambem ha machos?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Machos?!</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Sim, homens! Se esto homens n'estes quartos.</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>J disse que no, meu amo. No ha homens.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Da banda do Porto no veio passageiro nenhum?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>No snr.<span class="pn">{151}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Est bom; d c voc a luz e v-se embora. s 7 da manh, chame-me se eu no
+estiver a p, ouviu?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Sim snr. <em>(Aniceto recolhe-se, e fecha-se por dentro.)</em></p>
+
+<h2>SCENA IV</h2>
+
+<h3>GUTERRES <small>E O</small> CREADO</h3>
+
+<h4>Guterres <em>(com um sacco de viagem)</em></h4>
+
+<p>Ol, Gregorio!</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Por c, snr. Guterres! Como est V. S.?<span class="pn">{152}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Bom. Ha quarto?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Hade haver. D'onde vem?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Est c?
+</p>
+
+<h4>Creado <em>(rindo)</em></h4>
+
+<p>Ora V. S. que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta a setima vez
+que o vejo n'aste fadario! E o magano sabe-as escolher!</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Ento viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde est ella?</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Alli no n. 10.<span class="pn">{153}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dir que o meu
+ideal sonhado ha trinta e seis annos est na estalagem de Barcellos! Alli!
+n'aquelle antro!</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>Sempre V. S. est um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do regedor
+de Guilhabreu que c esteve na festa das Cruzes ha cinco annos?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos...</p>
+
+<h4>Creado</h4>
+
+<p>E os versos que V. S. lhe botou? a gente sempre se ria...</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Ah! vocs riam-se dos versos? Tens tu a felicidade<span
+class="pn">{154}</span> bestial de te rires da poesia? O talento pde contar
+com o couce at em Barcellos... Ora vamos... onde tenho eu quarto?</p>
+
+<h4>Creado <em>(indicando-lhe um do fundo)</em></h4>
+
+<p>Est alli o n. 11.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Bem. Podes ir. <em>(Entra na alcova. O creado se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA V</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>SAINDO COM O CASTIAL EM PUNHO</small></h3>
+
+<p>No posso adormecer com a ida de que ha uma janella no quarto de Victorina.
+Aquelle maldito no me deixa socegar em parte nenhuma. Receio que elle me siga
+por que o lobriguei quando passvamos em Vallongo; e ella tambem o viu. Quem me
+diz a mim que o tratante<span class="pn">{155}</span> nos no persegue, e anda
+ volta da casa? Cuidar aquelle valdevinos que se pde com uma flauta arranjar
+uma rapariga com fortuna! Ha dous annos que minha filha est enfeitiada por um
+trocatintas d'um estudante que conseguiu seduzir o corao d'uma menina que
+regeitou os melhores casamentos de Penafiel e Amarante! Afinal, no hasde
+vencer, sarrafaal! Eu tolherei todos os teus calculos. No me pilhars
+descuidado um instante! Mas aquella janella assusta-me. Vou fazer mudar
+Victorina para o meu quarto. <em>(Olhando para o alto da porta)</em> E de mais
+a mais esta porta tem vidraa em cima. Se elle aqui entrar, ella pde vl-o
+d'alli... Que imprudencia eu ia commettendo! <em>(Bate a porta)</em> Victorina,
+Victorina!</p>
+
+<h4>Victorina <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p>Quem ?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p> teu pae. J ests na cama?<span class="pn">{156}</span> </p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>No, snr.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Que ests a fazer?</p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Nada. <em>(Dando volta chave.)</em></p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Nada? Posso entrar? <em>(parte)</em> L est ella a descer a vidraa.
+<em>(Alto)</em> Posso entrar?</p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Pde.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Estavas janella?<span class="pn">{157}</span> </p>
+
+<h2>SCENA VI</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>E</small> VICTORINA <small>SAHINDO DA ALCOVA</small></h3>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Ai!</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Que estavas a fazer na janella?</p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Ora o pae tem manias! Credo! que havia de eu fazer na janella! Estava a
+tomar a fresca. No tinha somno, no podia dormir, estava muito afflicta, muito
+opprimida, muito abafada, abri a janella, ai!</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Pois sim, sim, minha menina. Assim ser; mas troquemos os quartos. Vae para
+aquelle,<span class="pn">{158}</span> que eu vou para este. D c o teu sacco
+de noute. Vamos. Leva o castial. D-me o meu sacco. Muito bem. Agora
+entra...</p>
+
+<h4>Victorina <em>(entrando)</em></h4>
+
+<p>Oh cos!</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Sim, sim. <em>(Fechando a porta, e tirando a chave)</em> Agora vou
+descanado. <em>(Recolhe-se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA VII</h2>
+
+<h3>GUTERRES</h3>
+
+<h5><em>(Caminhando contemplativo com o castial em punho e os olhos postos no
+quarto d'onde sahiu Victorina. Pousa o castial.)</em></h5>
+
+<p>Ella alli est, a formosa como a rolinha adormecida com o bico debaixo da
+aza; e eu venho aqui dar pasto ao corao;... mas que<span
+class="pn">{159}</span> pasto to pouco nutriente! Pobre poeta! todo o teu
+alimento so esperanas! Em quanto a gente prosaica se embrutece com timbaes de
+pombos e pasteis de camaro, tu, poeta <em>(batendo no peito)</em> engoles
+timbaes de esperanas com pasteis de sonetos. Eu j sou do tempo em que um
+homem de genio amava com o auxilio dos sonetos, e fazia consistir toda a sua
+gloria de fino amante em gargarejar ternuras para um terceiro andar e
+recolher-se a casa com o corao a trasbordar de catarro. Hoje no. Os anjos
+actuaes se apparecem de noite janella para namorar a lua, ou vr a cauda
+d'algum cometa. Desde que entrou a moda do amor ideal, os olhos d'uma senhora,
+que conversa com as estrellas, no descem a procurar na rua um d'estes amadores
+fanhosos, que s se sentem inspirados e eloquentes na occasio em que a
+patrulha os no deixa fallar. Eram d'uma paciencia adoravel as donzellas de ha
+vinte annos, quando em meu corao rebentavam as primeiras flres!.. Que
+sensaborias a gente lhe disparava l para cima, e a sancta resignao com que a
+gente as ouvia a ellas! A virtude d'aquelle tempo s se explica bem pela
+temperatura de<span class="pn">{160}</span> sorvete em que os coraes se
+conservavam de parte a parte. Isto agora outra coisa. Um homem sente no peito
+o progresso material. Aqui dentro ha gaz, ha vias-ferreas, ha fio electrico, ha
+bales, ha petroleo, ha tudo quanto fogo, energia, rapidez, etc. Eu c pelo
+menos sinto isso tudo; conheo que remoo, que amo e que ardo. Tenho phosphoros
+e cido prussico aqui dentro. <em>(batendo no peito)</em> E esta mulher! Como
+eu amo esta mulher desde que a vi hontem na Povoa de Varzim! Eu, na minha
+qualidade de escrivo do juiz eleito, estava a escrever n'um processo, quando
+ella passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo
+como largaria um sceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar meza redonda do
+hotel portuense. Comeu apenas uma aza de borracho e meia banana. Que estomago
+to fino! que alli est um corao immenso cheio de ternura e com mais poesia
+que um livro de versos. Sahiram, e eu segui-os. Vi entrar o pai n'um
+escriptorio de viao e comprar dous bilhetes. Perguntei para onde iam os
+passageiros; disseram-me que para Barcellos. Pedi bilhete; mas no havia.
+desventura! que farei? ficar? no! Ha<span class="pn">{161}</span> fatalidades
+invenciveis, funestissimas! Esta mulher tem o meu destino nas suas mos; disse
+eu comigo. Cumpre-me seguil-a. Mas que farei? No ha bilhete. Embora. Alma de
+poeta, exclamei eu, no succumbas! Heroicidade na desgraa, homem de corao de
+bronze! Segue-a! segue-a! Fui alugar um garrano, e segui-os a galope, terra a
+terra, a rdea solta, receando a cada passo que o corao e o garrano me
+rebentassem. Aqui estou. mulher, mulher quem s tu? Ave do paraizo, que ests
+sonhando delicias do teu den, lembra-te, Eva, que s costella do homem, e
+que est aqui Ado digno de ti. <em>(Repara na viola.)</em> Uma viola franceza!
+<em>(Pega d'ella e corre-lhe as cordas.)</em> Est desafinada. Oh! que saudades
+me tu fazes, instrumento interprete das minhas paixes infantis! Que trovas eu
+descantava em noites de lua cheia ao arpejar dos teus bordes que gemiam
+comigo! <em>(Pensativo)</em> Quem sabe? <em>(vai afinando)</em> Quem sabe? Se
+tu fizesses o milagre, lyra das canes apaixonadas! Vamos! o fado que me
+impelle; mas no vou tocar o fado. Inspira-me, corao, umas trovas dignas do
+anjo que alli est dormindo. <em>(Avisinha-se da porta, onde presume que<span
+class="pn">{162}</span> est Victorina, e preluda com tregeitos de vate que
+invoca a inspirao do co, e canta)</em>:</p>
+
+<blockquote>
+ <small>(MUSICA DA ALTEA, MIMOSA ALTEA</small>)</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se tu soubesses, lindinha,<br>
+ Quanto grande o meu amor<br>
+ No dormiras descanada<br>
+ Quando eu morro aqui de dr.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ <em>(Allegro)</em></blockquote>
+
+<blockquote>
+ Acorda menina,<br>
+ No durmas agora,<br>
+ Em quanto se fina<br>
+ De dr quem te adora.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Eu na Povoa descuidado<br>
+ J no sentia disvelos,<br>
+ Eis que surges luz brilhante,<br>
+ E eu te sigo at Barcellos.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Acorda, menina,<br>
+ No durmas agora,<br>
+ Em quanto se fina<br>
+ De dr quem te adora.<span class="pn">{163}</span></blockquote>
+
+<h2>SCENA VIII</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>E</small> GUTERRES</h3>
+
+<h5><em>(Aniceto abre a porta, e se de barrete de dormir e rob-de-chambre, com
+a luz na mo. Guterres reca espavorido.)</em></h5>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Passasse muito bem.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Viva.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Eu j vi o senhor se no me falha a memoria.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Sim, senhor, j tive a honra de jantar na meza em que V. S. estava na
+Povoa.<span class="pn">{164}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p> verdade. Pois snr., V. S. canta e toca muito bem; n'outra occasio muito
+lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o obsequio de se
+calar, porque tenho de seguir amanh viagem e preciso dormir...</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Pois no, senhor! Eu deponho j o instrumento importuno.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Agradeo muito a sua delicadeza. Se no fosse indiscreto, perguntaria com
+quem tenho a honra de fallar?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir.<span class="pn">{165}</span>
+</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Ento estrangeiro? Esse nome no me parece de c.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exero funces publicas.
+</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Ah! exerce funces publicas? Esse emprego deve ser bem bom.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de
+bastantes lettras.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Ah! de bastantes lettras? ento capitalista... Eu tambem trago um pouco de
+dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula?<span
+class="pn">{166}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>O juro? est favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento ao
+mez. V. S. do Porto?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>No senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva.
+</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Oh! pois no, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua
+ex.<sup>ma</sup> filha?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>A divertir-me no... Isso so contos largos... se V. S. por aqui estiver
+manh, conversaremos. Agora boas noutes, que so horas de dormir.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Tem razo, tem razo... Boas noutes. <em>(Aniceto fecha-se.)</em><span
+class="pn">{167}</span> </p>
+
+<h2>SCENA IX</h2>
+
+<h3>GUTERRES</h3>
+
+<p>Ora ahi est a deidade, que eu eternizei nos meus versos! As esperanas de
+muitos poetas, quando se realisam, so pouco mais ou menos como esta. Este
+Aniceto, offerecendo-se aos meus devaneios d'alma, uma imagem que eu tambem
+offereo como lio a todos os poetas. <em>(V-se um encapotado ao fundo, com
+chapo de aba derrubada)</em>.</p>
+
+<p>Mas, a final, onde que est a filha? Foi o velhaco do creado que me
+enganou! o couce da proza que bateu no peito da poesia. Filha de Aniceto,
+onde quer que estejas, eu te offereo este calix d'amargura, e boas noutes.
+<em>(Vai a recolher-se ao quarto.)</em><span class="pn">{168}</span> </p>
+
+<h2>SCENA X</h2>
+
+<h3>JOS PIMENTA <small>E</small> GUTERRES</h3>
+
+<h4>Pimenta <em>(rebuado)</em></h4>
+
+<p>Boas noutes.</p>
+
+<h4>Guterres <em>(suspendendo-se)</em></h4>
+
+<p>Boas noutes.</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Quem o senhor?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>No respondo a encapotados de melodrama. Destape-se.</p>
+
+<h4>Pimenta <em>(deixa cair as bandas do capote)</em></h4>
+
+<p>Eis-me.<span class="pn">{169}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Eis-me o que? Cada vez o conheo menos.</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o
+senhor e a filha de Aniceto?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>De commum de dois? temos questo grammatical ou phisiologica?</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Que tem o senhor que ver com ella?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo, Barcellos,
+o rei dos tambores, V. S. etc. Falta elle que ver...<span
+class="pn">{170}</span> </p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>O senhor sabe que da zombaria ao rewolver no ha mais que um passo?</p>
+
+<h4>Guterres <em>(sorrindo)</em></h4>
+
+<p>O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em Barcellos
+no pde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama, posso saber?</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Sou Jos Pimenta.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Pimenta? por isso o senhor to clido!... Eu sou de apellido Mira-mar.
+Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a filha
+d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um corao de poeta e um
+respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena?<span
+class="pn">{171}</span> </p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Amo.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Tambem eu.</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Tambem o senhor?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Tambem eu; mas ha uma differena entre ns, e vem a ser que ella a mim no
+me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o.</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Tenho provas d'isso.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Tem? <em>(Solemne)</em> O senhor sabe que esmagou<span
+class="pn">{172}</span> n'este momento um dos mais romanticos coraes que
+batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as florinhas d'um amor nascente
+que burbulhavam na charneca d'esta alma? <em>(concentra-se)</em> Coragem!
+Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E ento o senhor vem aqui
+fallar-lhe? Sabe que ella est...</p>
+
+<h4>Pimenta <em>(apontando para o quarto de Aniceto)</em></h4>
+
+<p>Sei que est alli no N. 10, que m'o disse o creado da hospedaria.</p>
+
+<h4>Guterres <em>(apontando)</em></h4>
+
+<p>Alli?</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... <em>(reparando na vidraa
+sobranceira porta.)</em> Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles vidros..
+O senhor no v?<span class="pn">{173}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Sim, eu vejo l o que quer que seja.</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p> ella que me conheceu a voz. Quer outra prova?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>No senhor, estou satisfeito. Aquella mulher sua. Sou magnanimo at aqui!
+</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Se me fosse possivel subir altura da vidraa! Alli est uma mza. O senhor
+guarda segredo? No revella este arrojo d'um amante apaixonado?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os
+caixilhos das vidraas<span class="pn">{174}</span> e passar-se l p'ra dentro.
+Pde fazl-o que eu no digo nada.</p>
+
+<h4>Pimenta <em>(attento nos vidros)</em></h4>
+
+<p> ella. o anjo! L est o rosto amado!</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>V, no perca tempo. D-lhe um beijo envidraado. <em>(Pimenta aproxima uma
+banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a vidraa
+com um murro, e pe fra a cabea.)</em></p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Ah co!</p>
+
+<h4>Pimenta <em>(saltando)</em></h4>
+
+<p>Traio! traio! <em>(Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.)</em><span
+class="pn">{175}</span> </p>
+
+<h2>SCENA XII</h2>
+
+<h3>ANICETO <small>E</small> GUTERRES</h3>
+
+<h5><em>(O palco escuro)</em></h5>
+
+<h4>Aniceto <em>(correndo para Guterres)</em></h4>
+
+<p>Ainda aqui ests, ladro!</p>
+
+<h4>Guterres <em>(accendendo um phosphoro)</em></h4>
+
+<p>Olhe que est enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o
+funccionario da Povoa, Guterres Arthur. <em>(Contina a accender
+phosphoros.)</em></p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraa. Onde est o
+scelerado, o canalha do flautista?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Elle toca flauta? So fataes os flautistas...<span class="pn">{176}</span>
+</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Transtornou a cabea de minha filha o infame... Onde est elle?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto.
+<em>(Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que exclama de
+dentro.)</em></p>
+
+<h4>Voz de velha</h4>
+
+<p>Quem est ahi?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Enganei-me.</p>
+
+<h4>Voz</h4>
+
+<p>Um homem! que desafro! um homem!<span class="pn">{177}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Perdo, minha senhora; no grite tanto. V. Ex. parece-me bastante velha
+pelo metal de voz, e no deve recear-se de homens.</p>
+
+<h4>Voz</h4>
+
+<p>Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora...</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>No se assuste. V. Ex. em guerra de paixes paiz neutro. Esteja socegada.
+Durma. <em>(Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)</em></p>
+
+<h4>Voz</h4>
+
+<p>Quem bate? quem anda aqui, mana?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>C est outra inviolavel. No nada, minha senhora. A mana no teve
+perigo.<span class="pn">{178}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto <em>(sahindo com uma luz do seu quarto)</em></h4>
+
+<p>Aqui est luz. Venha c, snr. Miramolim.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Miramar, se faz favor.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Que me diz perseguio d'este facinora? O senhor no lhe disse que eu
+estava n'este quarto?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Nada, eu no lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a
+espreitar pelos vidros; mas como elle disse l est o rosto amado cuidei
+realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. No se afflija. O caso tem
+remedio. Trate a doena de sua filha pelo systema homoeopathico. <em>Similia
+similibus.</em> Sabe latim? <em>(Signal negativo)</em> Quer dizer: cura-se a
+molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer dizer: a doena de sua
+filha causada pelo tal<span class="pn">{179}</span> sujeito, no ?
+<em>(Signal affirmativo)</em> Pois <em>similia similibus</em> arranje-lhe outro
+similhante.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Dois? tomra eu desfazer-me d'este.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Outro marido, percebeu?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Percebi, sim, senhor; mas eu no acho que a minha filha tenha necessidade de
+casar com este nem com o outro.</p>
+
+<h4>Guterres <em>(com enfaze e rapidez)</em></h4>
+
+<p>Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes no
+fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a no soffrem sem que a especie
+seja deteriorada por transtornos contrapostos s evolues palyngenesicas da
+reproduco genesiaca, resultando d'ahi que<span class="pn">{180}</span> as
+evolues abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberraes de
+graves consequencias: o senhor percebe, eim?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>As aberraes curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Miramar, se faz favor. Vejo que V. S. no entendeu. Sua filha ha de dar-lhe
+grandes penas e trabalhos, se no tiver em quem empregar a actividade do seu
+corao: percebeu agora?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Muito bem. Aconselha-me ento o senhor que lhe procure marido.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>E quanto antes.<span class="pn">{181}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>O senhor solteiro?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Sou, sim senhor, porque?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Quer casar com minha filha?</p>
+
+<h4>Guterres <em>(com gravidade)</em></h4>
+
+<p>A sua filha, snr. Aniceto, uma imagem que me sorria nos meus sonhos antes
+de a conhecer. Eu amo-a com este corao de anjo que tenho; e, se eu j no
+fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Cames d'occasio. Mas a sua
+pergunta queima-roupa um choque tal de felicidade que me burrifica.
+Deixe-me tomar ar. Ha commoes de alegria que achatam os bofes e sacodem todas
+as visceras d'um homem.<span class="pn">{182}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>No ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguio d'este bandido da
+flauta. Se V. S. annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde
+podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha
+Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e oua fallar.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>No, senhor. Isto de casamento um acto srio e solemne. Coraes apanhados
+de surpreza no me servem. A mulher, que houver de ser minha, hei de
+conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo poetico. Logo que eu
+conhecer que consegui apaixonar sua filha, ento a contemplarei como objecto
+matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou poeta.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Ento que preciso?<span class="pn">{183}</span> </p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p> preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus
+primeiros ensaios no corao de sua filha empregando os expedientes
+sentimentaes.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Que vae o senhor fazer n'esse caso?</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>V. S. no me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em
+consequencia de elle tocar flauta?</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Foi isso.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Pois eu vou empregar tambem a musica. Pde ser que esta menina tenha a alma
+lyrica e<span class="pn">{184}</span> philarmonica e que o seu corao s possa
+ser abalado instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao
+seu quarto, e esperar l os phenomenos que se forem operando na sensibilidade
+de sua filha? </p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Sim senhor, eu c vou esperar os phenomenos. <em>(Recolhe-se.)</em></p>
+
+<h2>SCENA XIII</h2>
+
+<h3>GUTERRES <em>(s)</em></h3>
+
+<h5><em>(Guterres pega da viola, preluda, aproxima-se do quarto de Victorina e
+canta em postura de inspirado)</em></h5>
+
+<blockquote>
+ Eu na Povoa descuidado<br>
+ J no sentia disvelos;<br>
+ Eis que surges, luz brilhante,<br>
+ E eu te sigo at Barcellos.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ <span class="pn">{185}</span> Acorda, menina,<br>
+ No durmas agora,<br>
+ Em quanto se fina<br>
+ De dr quem te adora.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Victorina, escuta os hymnos,<br>
+ Que te canta o meu amor;<br>
+ Escuta os versos divinos,<br>
+ De Guterres, trovador!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Acorda menina,<br>
+ No durmas agora,<br>
+ Em quanto se fina<br>
+ De dr quem te adora.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ <em>(Escutando declama:)</em></blockquote>
+Ella no se bole. Parece-me que a ouo resonar. a belleza que ronca nos seus
+sonhos innocentes. <em>(Reparando em Jos Pimenta que vem entrando)</em> Temos
+chinfrim.<span class="pn">{186}</span>
+
+<h2>SCENA XIV</h2>
+
+<h3>JOS PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, <small>NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA,
+</small>ANICETO <small>MAIS TARDE, E O</small> CREADO</h3>
+
+<h5><em>(Jos Pimenta entra embuado, medindo os passos tragica. Chega ao
+meio da scena, arroja o chapo, deixa cahir a capa, cruza os braos, relanando
+um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior d'uma jaqueta de pelle os
+canudos d'uma flauta, liga-os, d dois passos frente, e com a maior
+solemnidade toca a aria da Sombra de Nino, da Semiramis. Guterres tem passado
+com a viola para o outro lado, e faz meno de se defender com uma cadeira, em
+quanto o outro no toca. Victorina, assim que Jos Pimenta tem tocado a
+primeira parte da aria, comea aos empurres porta.)</em></h5>
+
+<h4>Victorina <em>(dentro)</em></h4>
+
+<p>Jossinho, Jossinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta porta!
+<em>(Aniceto rompe do quarto com os braos no ar, a tempo que Victorina faz
+saltar a fechadura e corre aos braos de Jos Pimenta, exclamando:)</em> Jos,
+Jos, quero morrer nos teus braos. Ai! <em>(Desmaia nos braos
+d'elle.)</em><span class="pn">{187}</span> </p>
+
+<h4>Aniceto <em>(ao creado que tem entrado com a luz)</em></h4>
+
+<p>Voc faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades todas. Ah
+grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos no ha justia que vingue um pae?
+</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Snr. Aniceto, no mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos inuteis.
+Agora conheo que a chaga da sua filha s pde ser curada com o pllo do
+mesmo... do mesmo Jos Pimenta. No ha duvida que o corao d'esta menina est
+magnetisado pela musica; mas o que certo que a propenso d'ella no a
+viola. A alma d'esta senhora inclina-se para instrumento de sopro. No assim,
+snr. D. Victorina? Faa favor de voltar a si para responder, e desmaie depois
+se quizer. <em>(Ella abre os olhos)</em> verdade ou no?</p>
+
+<h4>Victorina</h4>
+
+<p>Ai! <em>(Aniceto ce prostrado n'uma cadeira boca da scena.)</em><span
+class="pn">{188}</span> </p>
+
+<h4>Guterres <em>(a Pimenta)</em></h4>
+
+<p>O senhor no tem habilidade seno para a flauta. Aproveite a occasio e v
+com a pequena ajoelhar-se aos ps do velho. Andem para diante.
+<em>(Empurrando-os)</em> Parece que nunca estiveram no theatro!</p>
+
+<h4>Pimenta e Victorina <em>(ajoelhando)</em></h4>
+
+<p>Meu pae! piedade!</p>
+
+<h4>Aniceto <em>(erguendo-se de impeto)</em></h4>
+
+<p>Oh! <em>(Grito rouco e prolongado; com os braos affasta tragicamente da
+vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)</em></p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abene a unio d'essas creaturas.
+Deixe-os casar; alegre-se com a esperana de que ha de ainda vr meia duzia de
+netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o genio de sua me, amando
+uma orchestra de sujeitos distinctos desde a<span class="pn">{189}</span>
+trompa at corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante misericordioso
+para os propagadores da sua individualidade tipica.</p>
+
+<h4>Aniceto</h4>
+
+<p>Levantem-se d'ahi! <em>(Erguem-se submissos.)</em></p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Bem; esto os senhores absolvidos. Parabens. snr. Pimenta, eu creio que
+algum servio lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador da sua
+flauta. Em recompensa, faa-me o senhor o favor de dizer se foi realmente com a
+aria da Sombra de Nino que enfeitiou esta sympathica joven?</p>
+
+<h4>Pimenta</h4>
+
+<p>Esta aria era a senha com que os nossos coraes se entendiam.</p>
+
+<h4>Guterres</h4>
+
+<p>Ah! sim? Eu quero tocar isso no violo; vou<span class="pn">{190}</span>
+experimentar o effeito d'essa aria no corao de certas pessoas que costumam
+arrebatar-se fascinadas pela minha voz de tenor. <em>(Tange na viola o
+acompanhamento da Sombra de Nino, e canta:)</em></p>
+
+<blockquote>
+ Pobre poeta, ninguem te preza,<br>
+ Pobre poeta, ninguem te quer;<br>
+ Nem co'a viola tu conseguiste<br>
+ Mover o peito d'uma mulher.</blockquote>
+<em>(No intervalo de uma quadra outra. A Jos Pimenta)</em>
+
+<p>Isto vae bem? <em>(Faz na viola escalas sobre os bordes.)</em></p>
+
+<blockquote>
+ Mas no importa; vena a flauta<br>
+ A sympathia das fracas almas;<br>
+ Que eu antes quero, meus bons amigos,<br>
+ O vosso affecto e as vossas palmas.</blockquote>
+
+<h4>FIM.</h4>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Os direitos de representao das duas comedias que formam este volume
+pertencem ao auctor.</p>
+
+<p>Porto, 3 de Fevereiro de 1871.</p>
+
+<p style="text-align:right;">C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small>
+B<small>RANCO</small>.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a
+Flauta e a Viola, by Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES ***
+
+***** This file should be named 30461-h.htm or 30461-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/0/4/6/30461/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>