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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:54:01 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of Fanny: estudo, by Ernest Feydeau
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Fanny: estudo
+
+Author: Ernest Feydeau
+
+Translator: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+Release Date: December 1, 2009 [EBook #30571]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FANNY: ESTUDO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+ Notas de transcrição:
+
+ No texto impresso o tradutor, ou o impressor, não colocaram as
+ marcas dos capítulos XXXIII e XLIII. Esta tradução foi comparada
+ com o texto original, em francês (Paris, 1859), e as marcas de
+ capítulo colocadas em conformidade com a intenção do autor.
+
+ Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipográficos evidentes.
+
+
+
+ OBRAS
+
+ DE
+
+ CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+ EDIÇÃO PARA BIBLIOPHILOS
+
+ XVI
+
+ FANNY
+
+
+
+VOLUMES PUBLICADOS
+
+ I--Coisas espantosas.
+ II--As tres irmans.
+ III--A engeitada.
+ IV--Doze casamentos felizes.
+ V--O esqueleto.
+ VI--O bem e o mal.
+ VII--O senhor do Paço de Ninães.
+ VIII--Anathema.
+ IX--A mulher fatal.
+ X--Cavar em ruinas.
+ XI, XII--Correspondencia epistolar.
+ XIII--Divindade de Jesus.
+ XIV--A doida do Candal.
+ XV--Duas horas de leitura.
+ XVI--Fanny.
+
+
+
+
+ FANNY
+
+ ESTUDO
+
+ POR
+
+ ERNESTO FEYDEAU
+
+ ROMANCE
+
+ TRASLADADO PARA PORTUGUEZ, DA DECIMA OITAVA EDIÇÃO
+
+ POR
+
+ CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+ Aquelle, que cavar um fosso, cahirá n'elle;
+ aquelle, que derruir uma muralha,
+ será assalteado por uma serpente.
+
+ ECCLESIASTES.
+
+
+
+ _TERCEIRA EDIÇÃO_
+
+
+
+ LISBOA
+ PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
+ LIVRARIA EDITORA
+ _Rua Augusta, 50, 52 e 54_
+ 1903
+
+
+
+
+ Officinas typographica e de encadernação, movidas a vapor
+ Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º
+ LISBOA
+
+
+
+
+I
+
+A caza está situada de esguêlha, sobre um comoro de areia, á orla da
+praia, olhando de soslaio o oceano, como desconfiada d'elle. É uma casa
+baixa, de pavimento plano, com um recinto ao rez do chão, um portal,
+seis janellas, e uma chaminé de gêsso, meio esburacada, no cume do
+telhado.
+
+Á primeira vez que de longe a vi, caminhando eu atravez de desertos
+cabedellos, tinha ella um tão triste aspecto, que eu senti serrar-se-me
+o coração. Estava inscripto o desamparo nas largas fendas que
+desconjunctavam as paredes, e nas rachas profundas das telhas
+desmantelladas. Gemia a porta a cada bulcão do vento que a embatia
+contra o gonzo unico. Das montanhas aquosas do oceano erguia-se, como um
+sudario, a nebrina que a envolvia.
+
+Fazia frio. Uma briza cortante sacudia, silvando o dorso das vagas,
+marulhando-as, revolvendo-as, e espedaçando-as. Rolos de areia, de
+mistura com entulho, limos e cardos, refluiam até á testada da porta. Do
+outro lado, á maneira d'uma nodoa verde-escura, crescia a herva, que
+invadia o antigo jardim.
+
+Uma pobre arvore, vergada sobre a parede, do lado de terra, escassamente
+sustentava a ramagem que a ventania furiosa atormentava. Junto á raiz,
+conservava apenas alguns restos de folhas dessecadas. Com lamentavel
+aspecto, se erguia ella, dentre os sacões do vento, mas a goteira de
+chumbo, pendida da cornija, e açoitada pelas refegas oppostas,
+rossando-lhe nas grimpas, desfazia-lh'as a pedaços.
+
+Eu, ao querer desterrar-me da sociedade, lembrei-me d'esta abegoaria,
+que meu pae me herdára, e era o restante d'um casal, já desbaratado. Vim
+alli procurar o silencio e a solidão. Mas não reparei o solar da porta,
+nem fiz cultivar o jardim. Deixei as fendas do tecto, pelas quaes se
+coava a chuva; deixei as fendas nas paredes, por onde irrompia o
+asperrimo furacão das noites do outono. Não chumbei o gonzo do portal.
+Não levantei a goteira de chumbo. Não me amiserei da velha arvore que se
+estorcia como um crucificado contra o muro, por que a sorte não se
+amiserára de mim.
+
+Installei-me na salla unica sem alterar nada da sordida mobilia. Um
+banco de pau foi a minha cadeira; um monte de cisco, revessado pelo mar,
+foi o meu leito. Nunca na chaminé se accendeu lume. Nutri-me do pão
+negro e duro dos marujos. Bebi agua empoçada que me dava a cisterna.
+
+E desde o dia que entrei ahi até ao dia em que isto escrevo, nunca mais
+sahi da casa triste. Prostrado sobre a folhagem dura, sentado no banco
+estreito, com os joelhos justa-postos, os braços pendidos, as mãos
+inclavinhadas, a face descaida, deixei correr os dias indifferentemente.
+Como os bois corpulentos, que eu via, na minha infancia, ajoelhados
+entre as hervagens dezertas, eu ruminava o pasto amargoso das minhas
+remeniscencias.
+
+Com tudo, algumas vezes, com o passo vacillante dos ébrios, transpunha
+eu o limiar da porta, e errava lentamente, e cambaleando, em roda da
+minha habitação maldita. Á luz gélida e palida das estrellas de
+novembro, contemplava-a eu, comparando-a a tumulo abandonado, que
+apodrece debaixo das hervas, e espantava-me sempre de a vêr em pé,
+gemebunda, sob os açoites do vento que a verberavam.
+
+Nunca, porém, me alonguei d'ella. Fóra d'ahi quem poderia attrahir-me? O
+oceano, d'um lado, desdobrava suas ondas enfurecidas com clamor monotono
+e afflictivo; do outro, o areal, mosqueado de manchas verdes,
+alongava-se a perder de vista; por cima, rolavam as nuvens pesadas e
+silenciosas. A minha casa era a unica, que recortava o horisonte
+carrancudo com seu triste perfil; e o promontorio de rochas pardacentas,
+ante mim, alongava sempre no flanco do mar o seu grande braço
+minacissimo.
+
+
+II
+
+Se voluntariamente me exilei n'esta horrida solidão, é por que, por
+desgraça minha, amei, e amo ainda. Não cuideis, porém, que algum
+terrivel successo me distanciou, a meu pezar, da mulher que amo.
+Prouvera a Deus!... Poderia ainda abençoal-a!
+
+Desde muito que eu a amava sem ousar dizer-lh'o. Separavam-nos tantos
+estorvos, que o combatel-os me atemorisava. Tinha eu então vinte e
+quatro annos, de mais a mais! Eu corava quando nossos olhos se
+encontravam. Diante d'ella, tremia, commovido pelo extasis. Comprehendeu
+por fim que eu a amava, e serenamente, como quem se arremeça a transpôr
+uma barreira, ella mesma, com sua mão gentil, removeu todos os
+obstaculos.
+
+Oh! era por isso mesmo, sobre tudo, que a eu adorava. E, depois, tão
+meiga e linda! Aos trinta e cinco annos, conservava toda a frescura e
+jovialidade da meninice, e a estes encantos alliava um não sei que de
+serêno que as mulheres adquirem na experiencia e costumes da
+sociabilidade.
+
+Era alta, elegante, e de leve delgada nas espaduas, breve a cintura, os
+encontros modestos; e o pizar mesurado denotava na sua firmeza uma alma
+activa em agil corpo. Por costume, deixava cair os braços de rainha, e
+nus os ajuntava cruzando as mãos, quando estava em pé: então, as grandes
+dobras do seu vestido de veludo-granada, caíam-lhe verticaes sobre os
+pés arqueados, e a cauda firmava-se no chão; e, quando caminhava a
+passos solemnes, erguia um pouco a formosa cabeça, radiosa sobre colo de
+cysne, suavemente inclinado.
+
+Sentada, gostava de encostar a face á mão direita, repousando o braço
+esquerdo sobre o setim brilhante da cadeira que seus dedos afilados como
+franjas de marfim, rossavam de leve. Tinha cabellos loiros e lustrosos,
+que desciam em espiraes ao longo das fontes, das faces pallidas, e em
+redor do colo. Fronte pequena, nariz d'uma exquisita e suave belleza, a
+barba liza, tudo em harmonia com as sobrancelhas arqueadas, e os labios
+finos e justa-postos. Os olhos azues, em fim, d'um azul sombrio e meigo,
+e amplas pupilas negras, languidamente envoltas em palpebras salientes
+franzidas de cilios espessos, tinham uma expressão de ternura, de
+candidez, de spasmo, de pureza que me irritava e endoudecia!
+
+Amei-a perdidamente, e assim a amo ainda. E ella... amava-me como sabia
+amar, com interior reserva, calculadamente. A naturalidade do seu ar
+acanhava-me. Ainda quando me apertava em seus braços com transporte,
+parece que me distanciava de si. As rainhas e imperatrizes devem amar
+assim os seus amantes. Foi por isso que eu, desde o principio, soffri, e
+vim até este extremo em que me vêdes.
+
+Como eu quizera passar com ella os instantes todos da minha vida,
+procurava todas as occasiões de encontral-a. Não podia contentar-me com
+as duas horas que ella me dava de cada semana. Eram tantos os seus
+encargos domesticos! E eu imprudentemente a perseguia por toda a parte,
+ficando muitas vezes horas inteiras, com o rosto ao vento e os pés no
+gêlo, só para vêl-a, passar, graciosamente encapuzada no capuz de sêda
+côr de rosa, atravez do vidro de sua rapida carruagem. Todas as noites,
+com o coração angustiado, errava eu, por entre os nevoeiros, debaixo de
+suas janellas luminosas, ou, rebuçado e confundido com a gentalha, lhe
+expiava a saida do peristylo do theatro dos italianos; ou, encostado á
+couceira de uma porta, a esperava longo tempo para vêl-a entrar no
+baile, com os cabellos enlaçados de flôres, as espadoas nuas até aos
+seios, e então observa se o «corpinho» de setim branco tremia sobre a
+pressão anceiada de seu peito, quando me via. Custava-me a não me
+ajoelhar aos pés d'ella, quando a cortejava respeitosamente.
+
+Ahi, no baile, n'esse ambiente pesado e saturado de acres perfumes, sob
+os raios deslumbrantes que irradiavam como flechas do coração dos
+lustres, eu a contemplava movendo-se graciosamente. Seguia-a com os
+olhos, encostada ao braço d'um ancião cravejado de medalhas, que a
+denominava affectuosamente pelo seu pronome. Distinguia-se entre todas,
+quando, de fronte soberana, e pisar magestoso, circulava por entre os
+grupos. Contemplava-a ainda, quando meio recostada ao espaldar d'uma
+cadeira ampla, cortez sem frieza, acolhia os preitos dos mancebos
+graves; ao passo que, unida ao hombro d'um walsador infatigavel, immovel
+a cabeça e o tronco, redemoinhava em ondas de gaze e rendas, aos
+accordes melodiosos das flautas e violinos. Coruscavam-lhe então os
+olhos como estrellas, sob as flôres que se desinastravam das espiraes
+dos cabellos. Desjunctavam-se os labios para se verem as perolas dos
+dentes. Purpureavam-se-lhe, como ao contacto dos meus labios, as faces
+pallidas, e as alvas espadoas.
+
+E a cada rodopio, a ponta do pequenissimo pé, mostrava-se á orla do
+vestido que a rapidez do movimento fazia recuar. Mas nem as seducções
+das homenagens, nem as excitações da walsa, nem a minha mesma presença,
+conseguiram excital-a! Com semblante alegre tudo acolhia com
+tranquilidade egual de aspecto. Isto, mais que as sollicitações do
+olhar, turvava e empallidecia aquelles, cujos olhos encontravam os
+d'ella. Com tudo, nunca lhe surprehendi essas maneiras meio-zombeteiras
+e seductoras que são a falsa linguagem da lucta de um coração abalado
+com um espirito indeciso; maneiras que desfarçam e colorem as
+concessões, e irritam a esperança sem desanimal-a.
+
+Mas como é que a presença do seu amante a não perturbava nunca? Bem
+podia eu fital-a até cegar na fixidez do olhar, que ella parecia não me
+vêr nunca.
+
+Era mulher até ás pontas dos cabellos!
+
+
+III
+
+Chegava emfim o dia suspirado! Erguia-me de madrugada, e todo me dava ao
+infantil prazer de arrumar eu mesmo o meu quarto. Decorava-o de novas
+flôres; baixava os transparentes de brocatol côr de rosa, enramalhados
+de flôres, a fim de quebrar com suavidade o brilho da luz, que os
+coloria magicamente. Refegava artisticamente os cortinados de cassa e
+alizava com as mãos o tapete de cadarço do meu leito. Regulava o
+relogio, cujo pendulo tão moroso então me parecia. Sobre um bofete de
+páo das ilhas, dispunha em bandeijas chinezas, dôce de fructa,
+pastelaria, e em roda calices de Bohemia, e alguns frascos empoeirados
+de Marsalla. Mandava o creado passear até á noite, e ficava eu senhor
+absoluto do meu elegante recinto. Ahi todo me agitava livre como a ave
+entre ramagem dos bosques desertos, arredondando e brunindo com o peito
+inquieto o dôce ninho dos seus amores.
+
+Que cuidados me não dava o prevenir os menores desejos da mulher que eu
+estremecia! com minhas mãos pregava os alfinetes no pregador de veludo.
+Tirava do estojo de marroquim escarlate o pente de dentes escamosos que
+ella usava para alisar os cabellos descompostos pela pressão de meus
+dedos tremulos. Atiçava o dôce fogo que se avermelhava entre as cinzas.
+Aproximava do fogão a cadeira d'ella; trazia do divan a almofada em que
+ella punha os pés, e eu os joelhos, na attitude dos devotos contemplando
+seu idolo. E quando estava assim disposto tudo, quando o ponteiro
+d'ouro, avisinhando-se do numero escolhido, parecia dizer-me: «Vais
+ouvir soar a hora de teu prazer,» mais inquieto e agitado que nunca, ia
+eu pé ante pé, da porta á janella, como vae e vem o cão fiel,
+atormentado pela impaciencia, adivinhando o andar de seu dono.
+
+E eu dizia comigo: «A esta hora, tambem ella lança a furto os olhos ao
+seu relogio. Sabe que a espero. Agora, deante do espelho, aperta na
+barba o broche da capa de veludo. Incaracola os cabellos rebeldes sobre
+a fronte pura. Involve as espadoas no chalé escuro, e aperta-o sobre o
+peito com o alfinete de camapheu. Veste as luvas, e irrita-se. Sobre os
+olhos negros accumula as dobras do véo tambem negro. Atravessa as salas
+desertas. Passa. Roda a chave. Sae. Desce. Corre cozida com as casas.
+Vou vêl-a!
+
+E depois, mais nada... Oh! que longo é o tempo quando se espera e
+desespera! Se algum estorvo sobreviesse! uma visita, o capricho d'um
+filho! Que desgraçado sou! não virá ella? Já se demora!
+
+E, com tudo, era-me tão dôce recebel-a aqui, uma vez mais, neste quarto
+tão bem disposto para ella! Tão dôce o recebel-a nos braços, no limiar
+da porta, e arrebatal-a para escondel-a como um thesouro! Tão bom
+tocar-lhe as mãos, os cabellos, e vêl-a emfim fitar-me com seus olhos
+lindos, e ouvil-a dizer: «tu» com aquella voz muzical!
+
+
+IV
+
+Chegava ella emfim! Encostado ao alizar da porta entre-aberta, escutava
+eu o fremito do seu vestido, e o ranger das botinas sobre o tapete da
+escada. Entrava ella, roixa de frio, offegante, com as pestanas
+lagrimosas, e, sem erguer o véo, sem dizer palavra, atirava-se-me toda
+ao peito, cingia-me o pescoço, e, timorata e assustada como um
+passarinho, applicando o ouvido, escutava, convulsiva, o menor rumor que
+se fazia na casa ou na rua.
+
+E, quando emfim os mêdos se aquietavam, e que ella se decidia a transpor
+o limiar, era uma como visão deslumbrante que alagava em ondas de luz a
+camara fechada. Os menores objectos, com a presença d'ella, eram-me
+thesouros inestimaveis. Tudo parecia animar-se então, como, nos
+primeiros dias da primavera, despertam as florestas que dormiam sombrias
+e taciturnas.
+
+Algumas vezes, comtudo, festivos raios do sol, coando-se pelas juntas
+dos cortinados, atravessavam o espaço, e quebravam-se ao fundo da
+alcova, sobre a superficie polida d'um espelho. As flôres das jarras,
+postas deante das janellas, desfolhavam uma a uma, juncando o tapete das
+suas frescas petalas. Segredando, de mãos dadas, palavras incoherentes,
+contemplava-m'o-nos como arrobados, absorvidos n'uma commoção deliciosa
+e entranhada que nos adestringia docemente o coração, e nos marejava de
+lagrimas os olhos. Como nosso amor, como nossa alegria, eram infinitas
+estas expansões; nossos pensamentos, porém, não ultrapassavam as paredes
+discretas do quarto silencioso. Para nós o mundo todo estava alli.
+
+E como era aquelle devorar-m'o-nos de caricias! Que suave energia a dos
+braços! que avidez nos beijos! que febril tremor nos gestos em quanto eu
+lhe disputava em silencio os vestidos descompostos que ella retinha ás
+mãos ambas, pallida d'um vago susto! Frenetico, de joelhos, cingia-a
+pela cintura quebradiça, e ella, oscillante entre os meus braços
+compressores, tomava-me a face entre as suas mãos, affastava-a com
+meiguice, encarava-me, e voltava o rosto como se meus olhos a
+aterrassem.
+
+E eu, como esquecido de minha dignidade, arrastava-me aos pés d'ella,
+beijando-lh'os nus. Oh! se eu morrêra alli, collados os labios áquelles
+pés infantinos, brancos e rosados, que ella poisava n'um tapete de
+plumas de cysne, a tiritar entre seus véos como o anjo da inquietação
+meio involto na plumagem de suas azas!
+
+
+V
+
+Passado o primeiro momento da vertigem, parecia-lhe a ella coisa natural
+o estar alli, ao tempo que eu a comprimia com ardor feroz. E então, no
+explendor de sua desordem, desatadas as tranças, nuas as espaduas, nus
+os braços, frios e viscosos os labios, mais muda, mais seria, mais
+enleada que eu mesmo, estava tão senhora sua como se estivesse recostada
+na cadeira de veludo ao pé do fogão de sua casa. Eu não sei o que ella
+não fizesse com as mais naturaes e dignas maneiras! Nada a surprehendia
+nem a molestava.
+
+
+VI
+
+De cada vez, tinhamos sempre que trocar um mundo de pensamentos novos.
+Recontava-m'o-nos fadigas da espera, tristezas da auzencia, aspirações
+da esperança, e o quanto era consolativo para amantes separados, o
+pensar incessante um no outro. Fanny sobre tudo se deixava levar desta
+união espiritual com toda a expansão d'uma alma juvenil. Recebia as
+confidencias da minha ternura, como efluvios de incenso, que a immergiam
+n'uma especie de torpor dulcissimo. Com mudos raptos de gratidão,
+rosadas as faces, palpitantes as azas nazaes, sorrindo no olhar
+embaciado, maravilhava-se ella da abundancia de minhas palavras, como
+imagens graciosas que volitassem dos meus labios. Não a fatigava o
+ouvir-me.--Mais, mais, ó meu Roger!--dizia ella. E, encostando o
+cotovelo á almofada, inclinada a fronte na mão, requebrado o corpo, os
+pés a resvalarem, anediando-me a testa e os cabellos, olhava-me com
+tanta fixidez, como se quizesse esmirilhar os mais subtis lineamentos da
+minha alma. Entretanto, eu, de joelhos, com as mãos juntas, sorria de
+prazer como creança amimada, e cuidava que assim era o identificarem-se
+nossas almas n'um apertar vago e dôce, com estremecimentos voluptuosos.
+
+
+VII
+
+No instante em que ella ia sahir, era então o irromper minha alma em
+explosões de amor e angustia. E ella, pensativa, fitava nos meus, com
+ternura, seus olhos azues e lympidos. Tomava-me affectuosamente as mãos,
+que eu lhe disputava, voltando-me arrufado. Fazia-me graciosamente
+sermões maternaes. Acariciava-me com bondade, abraçava-me, ia e vinha
+para abraçar-me ainda.--Tornarei a vêr-te?--exclamava eu com
+tristeza.--«Cala-te, Roger,»--respondia-me, abafando a voz n'um beijo.
+Por fim, comprimia-a longo tempo ao coração; e, quantas vezes, ao
+apartar-m'o-nos assim, sentiamos calidas lagrimas a cahirem nos labios
+de ambos!
+
+
+VIII
+
+A minha vida ia com ella. Melancolicamente encostado ao peitoril de
+minha janella, via-a por entre as fisgas das persianas, passar na rua.
+
+Lá ia vagarosa, simples, tranquilla, bella. As duas fimbrias de seu véo
+fluctuavam-lhe docemente sobre os hombros, acarinhando-lhe de cada lado
+a face.
+
+A barra do vestido, relevada de folhos de seda, sussurrava com o
+movimento. Com ambas as mãos ajustadas sobre a cintura, comprimia as
+dobras da cachemira que a involvia desde a nuca até ao artelho. Nunca se
+voltava. Encostava-se ao longo das paredes para evitar o embate dos
+caminheiros. Emfim, chegando ao angulo da rua, desapparecia; e eu
+atirava-me sobre o leito, escondia nas mãos o rosto, avocando,
+hallucinado, todas as minhas remeniscencias esparsas para ainda assim me
+illudir com possuil-a.
+
+
+IX
+
+A primeira vez que ella ahi veio, não se espantou, mas examinava tudo o
+que a rodeava, e em tudo bulia, com certo acanhamento. Havia lá espadas
+de combate dispostas em tropheu. Lembra-me que ella reparou n'isso.
+
+Tambem se deteve diante de um retrato de minha mãe, que tinha sido
+formosissima, e deante da minha escrivaninha, coberta de livros e de
+cartas. Mas, com discrição cheia de graça, passou, sorrindo, sem tocar
+nas cartas.
+
+
+X
+
+Eu era feliz! Desprezava quantos não eram eu, porque ella os não amava!
+De longe e de cima olhava o mundo. De tudo segregado, tudo via d'alto,
+mas com indifferença, tumido de orgulho. Parecia-me que sobre mim
+convergiam os perfumes todos da terra e sorrisos do céo. Nos olhares que
+se encontravam com os meus, chammejavam os fulgores da inveja; e o
+murmurar confuso das turbas agitadas, rumorejava aos meus ouvidos como
+acclamações longinquas.
+
+A imagem de Fanny absorvia-me a memoria, e desprendia-se de meus
+pensamentos todos. Era, a um tempo, mais irritante que um sonho, e mais
+consoladora que a esperança. Nunca eu antevera seduções tamanhas em
+humana creatura, tantas delicadezas n'um coração, tanta graça na
+reserva, tanto pudôr na renuncia de si!
+
+Mescla de enthusiasmo e arrobamento, de illusões e desalentos, de
+melancolia e criancice, fôra o bastante a conquistar-lhe o amor.
+Parecia-me, todavia, pouco esmerada em attenções e cuidados. Tão amada,
+por certo, tinha sido ella! Bella ainda, mais bella do que talvez se
+cria, augmentava cada uma das suas graças com o esforço timido que punha
+em evitar a apathia, que presentia de longe, com a vinda dos novos
+annos.
+
+Dias tinha ella em que era possivel traduzil-a nos olhos, quando cerrava
+os labios n'uma expressão de meditar mais affectuoso, quando seus
+cabellos, fluctuando-lhe sobre as fontes emaciadas, em flacidas spiras,
+as envolviam com uma especie de suave piedade. Contemplava-lhe eu então
+as mãos candidissimas, e figuravam-se-me duplicadas, para que suas
+ultimas caricias fossem mais copiosas e maternas. Escutava ancioso os
+suspiros que lhe sahiam do peito opprimido: tinha-os como protesto surdo
+do coração que reagia ainda á indifferença, desejando-a acaso como
+repouso, e expedia a sua mais bella flamma, antes de retrahir-se em si
+para morrer.
+
+
+XI
+
+Eu era feliz! Mas a desgraça já vinha perto. Até então com a delicadeza
+mais de incarecer, Fanny poupara-se sempre a fazer, diante de mim, a
+menor allusão a seu marido. Com uma pouca de bemquerença, conseguira eu
+phantasial-a livre e minha, sem partilha. Tão pudicamente se me déra
+ella! Foi como rainha, sem nada mercanciar do que não podia ser vendido.
+
+Um dia, porém--como isto foi, não sei!--ressoou suavemente nos labios
+d'ella o nome de um filho seu, e, em seguida, não pôde deixar de
+fallar-me d'elles.
+
+Adorava-os com tão furioso amor, que me abandonaria se me eu não
+comprazesse em ouvil-a repetir-me mil cousas pueris, tocantes a seus
+filhos. Por mim fingia-me vivamente interessado n'esses contos, que ella
+contava como abundancia extraordinaria de coração; eu, porém,
+escutava-lhe mais a musica das palavras que as idéas. Eu adorava-lhe a
+voz magica e melodiosa. E, de mais, eu era um tanto cioso de tudo que
+ella amava.
+
+Fallava-me, pois, de seus filhos. O mais novo soffrêra d'uma epidemia
+passageira, e eu quasi que odiei essas criancinhas pelo unico delicto de
+se aconchegarem comigo no ninho de amor do mesmo coração. O que ella
+então fez forçou-me a reflectir mui amargamente sobre a affeição que uma
+mãe póde dar a um homem. Esteve sem me vêr seis semanas. Não desamparou
+esse berço sobre o qual se estorcia o dôce thesouro vivo, formado do
+proprio sangue do seu coração. Escreveu-me quatro linhas apenas,
+admoestando-me a soffrer com ella. Homem orgulhoso que pertendes
+dominar, unico, sobre o coração d'uma mulher! aos menores vagidos de uma
+creança, vê que lição te dá a natureza!
+
+Á força de pensar n'esta creança, entrei a pensar no marido de Fanny; e,
+a meu pesar, d'ahi a pouco, já não pensava senão n'elle. Nunca o tinha
+visto. A mim que se me dava, n'outro tempo, de vêr o homem que lhe dava
+o braço, para entrar no baile, e discretamente se sumia na multidão logo
+que um circulo de admiradores a compelliam a isolar-se d'elle?
+
+A ella amava, a ella sómente eu via, por ella vivia... que me importava
+o marido d'ella?
+
+Restabelecido o menino, Fanny, mais affectuosa e linda, ao primeiro dia
+que me vio não percebeu que em mim havia um novo homem; adivinhou,
+porém, que uma preoccupação secreta me alvoroçava, emquanto eu,
+silencioso, lhe corria a mão sobre o braço nu. De repente, varada por
+cruelissima suspeita, repulsa-me, ergue-se, e, voz em grita, jura que eu
+a atraiçoara.
+
+Sorri com doçura a esta louca arguição; e, tomaado-lhe a mão como
+convite a sentar-se, simplesmente lhe disse que hesitava em pedir-lhe
+novo favor, com receio de ser indiscreto.
+
+--Que é?--disse ella, affastada ainda, e cravando-me um olhar de
+surpreza.
+
+Respondi que as seis semanas de solidão me haviam feito reflectir
+tristemente sobre a nossa imprevidencia; que sem suspeitarmos que
+incidente algum podésse apartar-nos, nunca nos cohibiramos de nos
+aproximarmos. Finalmente, com um embaraço que eu não podia dominar,
+balbuciei:
+
+--Por que não sou eu admittido em tua casa? Bem sabia ella que eu
+dissimulava a minha idéa, fallando assim: por que, de subito,
+resplandeceu de sorrisos, e lançando-me ao pescoço ambos os braços com
+vehemencia, confessou, córando, que, desde o primeiro dia, anciára
+sempre o vêr-me em sua casa.
+
+--Por que m'o não dizias? repliquei eu, acariciando-a. Respondeu-me,
+fazendo gesto pueril de amuada, expediente malicioso das pessoas que
+querem ser adivinhadas. E eu, doido com os projectos da convivencia,
+communicava-lh'os aos labios por entre beijos... Vêr... amar os filhos
+d'ella...
+
+Já Fanny redobrava de elegancia o salão mais intimo em que seus amigos
+eram unicamente recebidos. Que ventura poder, quasi todos os dias,
+reunir em volta de si, os objectos todos de sua mais viva affeição!
+D'ora em diante não seria obrigada a tirar o pensamento de seus filhos,
+para ir em busca da minha imagem atravez do espaço, trazel-a para o meio
+d'elles, e fazel-a docemente resplandecer n'esse recinto delicioso,
+decorado por ella só, a seu bel-prazer. Eu de mim terei d'ora avante um
+maior logar--não em seu coração que não é possivel--mas em sua vida, e
+tomarei quinhão immediato em todos os seus jubilos, como em todas as
+suas maguas. Era um bonito sonho!
+
+
+XII
+
+Concordamos em acceitar eu o convite de uma amiga d'ella, que, todas as
+semanas convidava a jantar.
+
+--Ahi nunca vae muita gente--disse ella--poderás facilmente ligar-te
+comnosco.
+
+_Comnosco_!... Era a primeira vez, que, n'uma só palavra, ella associava
+comsigo innocentemente o marido, sem dar fé da angustia que esta
+alliança me causava. Querida Fanny! eu sentia-me empallidecer sob uma
+oppressão indefinivel, e ella purpureava-se de contentamento. Depois
+d'aquella palavra, terrivel para mim, e sem valor para ella, ergueu-se.
+Tinham decorrido as duas horas. Separamo-nos. Com ella foi a confiança;
+comigo ficou a esperança horrivel.
+
+
+XIII
+
+Sim, esperança horrivel! porque eu não sei exprimir o que reluctava em
+mim de duvida, anceio, e azedume meditando que ia vêl-a emfim sob os
+olhos de quem lhe governava a vida.
+
+Tudo isto se misturava em meu coração como venenos e contra-venenos, e
+d'esta abominavel mistura, fumavam vapores d'um travor tal, que eu me
+sentia na cabeça latejar o cerebro, e os joelhos vergavam sob mim.
+
+Isto nada era, comparado ao que eu devia experimentar n'essa
+estreitissima meza, onde á claridade dos globos, nenhum conviva poderia
+esconder os pensamentos que lhe franzissem a fronte. Ao principio, nada
+vi, e respondi ao acaso ás perguntas que me fizeram. Comia
+machinalmente. Esforçava-me por ser attencioso e polido; mas denotava
+mais inquietação que o assassino que se vê em risco de ser descoberto.
+
+Atordoado pelo tinido dos copos, pelo estrepito da baixella, pelo atrito
+das porcelanas, pelo reverbero das luzes nas tampas brunidas das
+terrinas, pelo vai-vem dos creados pressurosos que serviam, sem dizer
+palavra, e se moviam sem rumor d'um passo, como sombras negras de luva
+branca; e suffocado pela athmosphera calida da sala impregnada de
+evaporações penetrantes, misturadas com o odor do vinho e o das flôres,
+eu não olhava Fanny, nem mesmo a escutava. Tornou-se-me insopportavel a
+par de mim a presença d'ella: era como um peso que me abafava.
+
+E tambem o não encarava a elle, elle, que eu viera procurar, de tão
+longe, com o desejo e terror de conhecel-o. Inceguecido por visões
+funebres, eu não podia vêl-o, com quanto elle estivesse defronte de mim.
+
+De repente recobrei a minha lucidez sentindo um pé de mulher rossar o
+meu, e comprimil-o brandamente. Era ella a prevenir-me da minha
+preoccupação visivel de mais. Dirigi-lhe um lanço d'olhos agradecido; e,
+encostando-me ao espaldar da minha cadeira, contemplei detidamente
+aquelle que mal sabia que possante interesse ingendrára em mim o estudo
+da sua pessoa.
+
+
+XIV
+
+Era uma especie de touro com face humana. De estatura mediana.
+
+Quando comia, atirava para diante, as espaduas robustas, e a cadeira
+gemia sob a gravosa flexão dos seus encontros quadrangulares. Eu via-lhe
+do meu logar, na testa, os arcos carregados das sobrancelhas hirtas de
+cabellos grossos, e abaixo fulgurava-lhe um olho pardo e luzidio
+d'aquelle brilho metalico que reluz na pupila impassivel dos carnivoros.
+
+Comia, ás mãos juntas, mãos carnudas e curtas, e levantava os cotovêlos
+para melhor pezar sobre a faca brilhante, e sobre o cabo do garfo. Entre
+cada prato respirava largamente, limpava a boca, e bebia a longos sorvos
+grandes copos de vinho estreme.
+
+Não tinha má cara, nem vulgar. O aspecto era de força. Todo elle
+denotava pujança extraordinaria de musculos. A superficie das faces e
+queixo perfeitamente escanhotado, apparentava regidez marmorea, e a
+fronte rasgada, limpida, cercada de cabellos negros já betados de
+russas, revelava um espirito de vontade cheio de rectidão e
+persistencia.
+
+Era affectuoso o sorrir d'elle, e o olhar desmalicioso, porém claro como
+cristal. Incarava-vos de face, nos olhos, de um modo tal, que vos
+julgarieis felizes, evitando esse espelho de aço incommodativo á força
+de franco. O que elle tinha era dar cascalhadas estridorosas, repuchando
+em sacões os peitoraes acima da cintura apertada, e descompondo para
+traz a cara vermelhaça. Era grave e sonora a sua voz; o gesto
+tranquillo, e um pouco sombrio. Tinha bonitos dentes, unhas rosadas,
+brilhantes e bem feitas; em fim, dominava n'aquelle todo um ar de
+inteireza e aceio.
+
+Pareceu-me ter quarenta annos.
+
+Primeiro, ao vêl-o, fiquei como humilhado: corri-me de entrar em
+rivalidade com natureza tão possante. Involuntariamente me confrontei
+com elle, eu, a par d'elle tão franzino, como o seriam quasi todos os
+rapazes da minha idade. O que havia em mim de debilidade nervosa, e
+fineza de raça, e de elegancia, amesquinhava-se em comparação d'aquella
+riqueza de sangue, pujança de fórmas, e virilidade fria e pacata. Eu era
+como um sylpho contemplando, assombrado, a estatua d'um gigante. Ao pé
+d'elle que homem era eu? Forte e gentil expressão de homem era sómente
+elle, eu não.
+
+E, mais cruel ainda para commigo mesmo, passava depois a comparação de
+mim para ella. E, vendo-a sentada ao meu lado, dôce e loura como Eva,
+candida como uma virgem, com aquella cintura de fada, e aquelle colo
+requebrado em languor, e todo aquelle ar de timidez que lhe impanava a
+face adoravel como a sombra d'um vapor... vendo-a assim, e tão delicada
+no pensar, perguntava-me, eu, phrenetico, como é que ella poderá amar
+tal homem? Violenta associação de duas naturezas que entre si não tinham
+um ponto só de contacto! Irmanavam-se com a seda e com o ferro!
+
+Oh! Desdemona!--me dizia eu--que Othello escolheste! Mas mal sabia Fanny
+que furor raivava ao seu lado! Dirigia-me placidamente a palavra,
+olhando-me com ar de simples, e affastando com sua mão alvissima os
+louros anneis que lhe volteavam como plumas sobre a fronte. E
+fallava-lhe a elle, sem turvação nem embaraço... e dizia-lhe: _meu
+amigo_, deante de mim.
+
+E elle, com menos embaraço ainda, lhe respondia, todo attenções e
+deferencia, com ar, porém, de grande superioridade.
+
+O Hercules via n'ella um ser perigrino, mas absurdo: e por isso o que
+lhe dizia eram bagatellas, com ar amavel e paternal, como os pais as
+dizem aos filhinhos curiosos.
+
+
+XV
+
+Terminado o jantar, e passados os convivas á sala grande, e sentados em
+redor das bancas do whist, avisinhei-me lentamente de Fanny que aquecia
+os pés ao fogão.
+
+Encostei-me ao rebordo da chaminé; e, com palavras de ternura que lhe
+dizia a meia voz, intrometti coisas frivolas ditas em voz alta. Deste
+logar via eu as costas dos jogadores inclinados sobre as bancas em que
+flammejavam as velas, involtas dos seus quebra-luz, e incravadas em
+magnificos castiçaes de prata; ouvia o ruido dos tentos de madre-perola,
+e o murmurio dos equivocos que os parceiros se trocavam. Cuidava eu que
+estariamos assim a seguro de reparos, com alguma astucia, até porque a
+dona da casa fôra para o fundo da sala dedilhar no teclado do piano.
+Novo encanto unido a outros tantos era aquelle dos accordes ondeando o
+ar, a um tempo que as secretas melodias do amor, mais melodiosas ainda,
+cantavam em nós. Porém, separando-se do grupo dos jogadores junto ao
+qual até então estivera de pé, o meu rival dirigiu-se a nós com
+semblante gracioso, e o mais natural possivel, e perguntou-nos em que
+fallavamos. Com melindrosa urbanidade, que excluia todas as maneiras
+familiares e nos distanceava um do outro, mas com serena voz e ares
+cortezes, entrou elle a dirigir a conversação e eu não pude deixar de
+acompanhal-o.
+
+Por entre as melodias da muzica, e a ternura das vibrações, de que elle
+não dava fé, fallou-me de caça, theatros, cavallos, que sei eu! não
+deixando mesmo de entrar no amago dos assumptos banaes que eu
+imprudentemente escolhêra, mas que o interlocutor me condemnava a
+repetir, como se elle os julgasse unicos dignos de mim.
+
+Dei-lhe duas ou tres respostas bastante arguciosas, e elle applaudiu-as
+com os olhos, honrando-me com um gesto de assentimento.
+
+Assim pois que era eu para elle um instrumento assaz futil com cujas
+cordas brincava rossando-as com as pontas dos dedos. Se elle soubesse
+que em meu coração havia uma d'aquellas cordas, cujo som horrivel podia
+restrugir-lhe nos ouvidos, e insurdecêl-o!
+
+Mais tarde, vi-o assentado ao lado d'ella, na sombra que fluctuava em
+redor do clarão dos castiçaes. Sem me vêr a mim, nem a outrem, nem a
+ella, apertava-lhe machinalmente a mão, scismando talvez em não sei que.
+E eu, contemplava aquillo, como o mais estranho e monstruoso dos
+espectaculos. Em quanto a ella, fixando os olhos nos meus, estava livida
+como uma estatua de marfim; mas não ousava balbuciar, nem fallar, e
+consentia.
+
+
+XVI
+
+Desde essa noite, uma só preoccupação me dominou--dissipar do meu
+cerebro a imagem do que vira. Quiz, á custa de tudo, esquecer aquillo
+que me humilhava e esmagava o coração. Como eu me castigava do que
+fizera! Absurda cubiça de conhecer o que ella tão de siso me escondera,
+e que eu devia ignorar sempre!
+
+--Oh! não--me dizia eu--nunca mais ouvirei fallar deste homem temivel;
+nunca mais lhe encontrarei os olhos dominantes; nunca os nossos halitos
+hão-de encontrar-se na atmosphera da mesma sala; nunca mais, deante de
+mim, ha-de a mão d'elle apertar a tua, ó mulher serena e docil!
+
+Tres dias depois, quando veio a minha casa, não viu ella em mim mudança
+alguma. A colera, a pouco e pouco, enchera-me de suas fezes a alma; mas
+dôr era esta que simulava a quietação da paz.
+
+Com apparencias de socegado, sentia-me ferido de morte. Golpeado no
+coração, conservava o meu aspecto antigo, como aquelles fructos
+escarlates cuja pele fina e tenra cobre carne que devora um verme
+invisivel. E assim, de nada suspeitou Fanny. Todavia, como eu lhe
+fallava d'ella, de mim, de tudo em summa, excepto do que mais a
+preoccupava, Fanny parecia esperar anciosa. Por ultimo, no extremo da
+minha contrafeita eloquencia, propellido pelo anceio de vingar-me d'uma
+dôr nunca experimentada e cuja causa innocente ella era, lhe disse com
+amargura:
+
+--Tu queres saber o que eu penso de teu marido, e talvez que te dês por
+venturosa se o juizo que esperas não lhe fôr desfavoravel. Mas, Fanny,
+tu nunca has-de saber o sentimento que elle me inspira.
+
+Pareceu-me que, ao ouvir-me estas palavras, todo o sangue do coração lhe
+refluiu á face. Pobre mulher conciliadora! tanta alegria em chamar-me a
+sua casa, para me vêr mais a miudo, para me unir a todos os entes doces
+e queridos que lhe decoravam o coração!...
+
+--D'onde vem essa mudança, Roger?--murmurou ella com penoso esforço.
+
+«D'onde vem?!» exclamei eu infurecido... mas vi-lhe então o rosto
+innundado de lagrimas; e logo, cahindo a seus pés, abraçando-a pelos
+joelhos, disse-lhe brandamente:
+
+«É que eu sou horrivelmente desgraçado, Fanny!... É porque me devoram
+ciumes...
+
+Ergueu-se de subito, como estupefacta, sem me repellir. Reteve-me
+ajoelhado, pesando-me sobre os hombros com as mãos: eu permanecia de
+joelhos, sem a comprehender. Fitou-me por largo espaço, profundamente,
+explorando os intimos arcanos de minha alma inquieta. Depois ergueu
+ligeiramente os hombros; e, baixando-se para me apertar a face ao seio,
+exclamou:
+
+«Filho, meu pobre e querido filho!»
+
+E desde ahi, não tornou mais a fallar, por si mesma, neste assumpto.
+
+Eu, porém, pensava n'elle incessante e dolorosamente, sem poder
+abster-me de o recordar. Affagava-me então ella, e reprehendia-me.
+«Perdes o tempo»--dizia-me, sorrindo-me, e abraçando-me, se me eu
+detinha muito na exposição das minhas tristezas. E seus braços se me
+inroscavam no pescoço com ameigadora volupia, com a fascinação dos olhos
+me violentava a olhal-a, com graciosa e morbida ternura collava aos meus
+seus labios. Mas tudo em vão. Já se não franziam meus labios para
+saborear beijos d'amor; agora era o confrangerem-se soluçando gemidos.
+
+
+XVII
+
+Desde este funesto dia comecei a soffrer grandes torturas. A imagem
+daquelle homem incrustara-se-me na memoria, e, por mais que eu fizesse,
+não havia dilil-a de lá. Póde ser que aos olhos de toda a gente fosse
+elle ridiculo, mas aos meus não cuidei que o fosse. Para mim, era
+sinistro, terrivel, e, cada noite, espavorido, via-o, em sonhos,
+trucidar carniceiramente o espectro da minha felicidade.
+
+O feliz era elle, que tudo ignorava. No drama começado por transportes
+de amor, e agora prolongado a travez de anciedades, terrores,
+desespêros, não representava elle: tão prudentes tinhamos nós sido!
+
+Atroz mudança de papeis! Era eu que tinha ciumes d'elle! O espoliador
+soffria da posse pela posse. Não lhe restava mesmo o recurso de excitar
+as suspeitas do espoliado para o fazer aquinhoar das torturas!
+
+E era-me força desconfiar e occupar-me d'elle!
+
+A meu pesar, para evital-o, cumpria-me ser ardiloso como a lebre. Este
+papel de fugidiço, de temorato, degradava-me ao livel dos covardes. Meu
+Deus! se eu a não amasse!...
+
+Em comparação dos males que deviam vir, aquelles nada eram. Principiava
+a caminhar n'uma senda espinhosa, cavada de abysmos, e não sabia que
+flagellações me urgia supportar antes de chegar ao termo. Desde então,
+se deante do fogão, no meu quarto silencioso, eu tentava divertir a alma
+da dôr presente, levando-a ás memorias de amores passados; ou esporeando
+á redea solta o meu cavallo, arriscava cem vezes a vida para quebrantar
+o corpo de fadiga, a fim de reverter sobre elle a fadiga de meu cerebro,
+ou se pedia á orgia o esquecimento, bebendo a grandes tragos o vinho que
+nunca me valeu uma gota d'agua do Léthes; ou se, n'um só lanço de azar,
+expunha os meus haveres para soffrer sequer uma sensação diversa
+daquella que eu execrava; ou, se emfim, envolvido nos cortinados da
+minha alcova, eu passava as minhas noites inteiras a lastimar-me,
+invocando os phantasmas dos seres adorados que perdi: nunca, nem no
+sonho, nem no perigo, nem na embriaguez, nem no jogo, nem ainda na
+remeniscencia da minha mãe morta, eu pude conseguir estrangular a
+serpente que me atassalhava o coração. Comigo, a visão fatal sorria aos
+meus amores juvenis; comigo, cavalgava ella o meu cavallo espantado;
+zombeteando, molhava ella os labios palidos no meu copo; no copo do jogo
+fazia ella o tilintar dos dados; comigo, emfim, meditava ella em minha
+mãe. Á flôr de minhas recordações todas, scenas incantadoras,
+affectuosas, terriveis, que eu restaurava com a memoria, do fundo de
+minha alma, surdiam incessantemente outras lembranças, outras imagens
+que espancavam aquellas.
+
+E não havia remedio senão acolher aquellas abominaveis lembranças;
+affrontar de rosto com aquellas funestas imagens, porque era a isso
+violentado; venciam-me, e eu então, encarava-as!
+
+Havia ahi alguma coisa horrida, humilhadora, e angustiadissima.
+
+Só quem ama póde formar idéa vaga de minhas agonias. Era tudo claro e
+patente: nenhum refugio para a duvida! E eu me reprezentava a mulher
+amada, linda, elegantemente vestida, meiga, candida, assentada ao angulo
+do fogão em sua sala, ou á meza, no logar de honra, em face de seu
+marido, rodeada de amigos, e filhos. Affavel sempre, com attenções
+delicadas para todos, attenções que são a magica linguagem da graça do
+coração. E para o dominador mais carinhoso que para os mais! Era-lhe
+forçoso prevenir suspeitas de homem tão prespicaz: como não seria ella
+carinhosa? E, a de mais, entre elles existia a communidade de tantas
+coisas--interesses, filhos, viverem juntos, a toda a hora, alegres ou
+tristes, sem nunca se apartarem!... E quantas expansões naturaes!... Era
+elle o leão dominador daquella adoravel existencia; e eu, o lobo temido,
+e salteador, de olhar ferino, esbaforido, que, de tempo a tempo, a risco
+de perigos mil, exposto a humilhações degradantes, a uma bala, o roubava
+nas trevas, em quanto elle dormia, alguns restos do seu quinhão.
+
+Oh! era isto o que me humilhava muito; mas aqui vereis o que me fazia
+pedaços o coração. Eu não podia suspender o trabalho indefesso de minhas
+evocações. Completava-as, ruminando minhas dôres, com satanico prazer.
+Então se mudava a scena, e figurava-se-me Fanny, por noite, só por só
+com elle, depois da saida dos filhos, na alcova fechada, onde o chá
+fumegava nas chavenas, ao suave clarão da lampada, ao pé do lume que
+docemente crepitava nas cinzas quentes. E ella a olhal-o com aquelles
+mesmos olhos que eu amava tanto! E a conversar com elle, amavel, facil,
+fallando pouco para lhe deixar o prazer de fallar, submissa como convém
+á mulher quando é formosa, e o dominador é forte. E não cuideis que eu
+ficasse n'estas imagens de seductora intimidade.
+
+Não podia. Continuava-as, exaggerava-as... que sei eu!... ajuntava-lhe
+outras. Era forçoso que assim fosse, assim devia ser. Era tarde,
+agonisava a chamma no fogão obscuro, a lampada mortiça abafava os seus
+lampejos no quebra-luz, callavam-se todos os rumores na casa e na rua; o
+passo sonoro do caminheiro retardado, marcava a hora do repouso e do
+prazer. De mais, meninos e creados, tudo estava na cama. Estavam elles
+sosinhos. E eram esposos!...
+
+
+XVIII
+
+Chegado até este ponto, tornava-me pallido. No mais recondito de minha
+alma, alguma coisa se estorcia e agonisava em convulções desesperadas.
+Estas imagens, evocadas cada noite, tornavam-me mais desgraçado, que se
+eu tivesse visto a mulher adorada cuspida em minha presença. Erguia-me,
+e via as horas; depois, despregava a rir, como doido, ou, involvendo a
+cabeça nos braços, lançava-me a chorar sobre o leito.
+
+
+XIX
+
+De madrugada emergia do meu pesadelo, mais quebrantado que o ferido d'um
+tétano.
+
+E se me arrastava á janella, para aspirar um pouco de ar puro, a mesma
+pergunta me desabrochava nos labios calcinantes como flôr venenosa:
+
+Por que o amou ella n'outro tempo? Que ella o amou, já m'o disse; foi
+por elle tirada á familia que a não queria ligar a um homem sem posição
+e sem riqueza. Enriqueceu depois, por que é energico e paciente. Sabe
+querer. Mas por que o amou ella? E, depois, por que me ama ella hoje a
+mim? Somos tão differentes um do outro!
+
+Um dia, finalmente, á força de moer n'esta ideia, e joeirar-lhe no
+espirito os venenos todos, julguei que ia penetrar o proceder de Fanny.
+Lembrando-me quanto ella era sensivel ás caricias; figurando-me as
+scenas mais deleitosas do nosso amor, e comparando-me ao marido,
+invergonhei-me e alguma coisa mais acre que o desgosto, mais amarga que
+o despreso, mais peçonhenta que o odio, me subiu do coração aos labios.
+
+--Ora ahi está por que ella me ama hoje--me disse eu sacudindo a cabeça.
+Veio depois auxiliar-me a analyse mais uma vez, mas para ferir-me
+covardemente com uma nova punhalada.--Ama-me para variar--disse eu
+amargurado--para satisfazer, um contrario exagerado, um desejo mais
+sentimental, mais delicado. A não ser para completar o seu ideal...
+accrescentei eu sem reflectir na crueldade da supposição.
+
+Mas em tal caso--grito eu com terror indisivel--eu não sou para ella
+mais que metade d'um homem! Encho apenas metade d'um coração! Fui
+medido. Acharam-me incompleto. Sou escassamente uma addição! Não passo
+d'um complemento.
+
+
+XX
+
+Algumas vezes fugia de casa como d'um carcere, e ia espairecer minhas
+interminaveis meditações na multidão que peja os passeios. Achando-me
+entre pessoas felizes, indifferentes, occupadas; saboreando, a meu
+pezar, os primeiros effluvios balsamicos da primavera, cessava de
+julgar-me tão absolutamente miseravel, e classificava de creancice as
+mais monstruosas hallucinações--É o ciume--dizia--que me torna absurdo.
+Encontrando a cada passo tantas mulheres bonitas, elegantes, pelo braço
+de cavalheiros, os quaes com ar de aborrecidos, volteam os olhos em
+deredor, e escassamente lhes respondem, accrescentava eu:--Quantas
+mulheres habitam sob as mesmas telhas com seus maridos, sem repararem
+n'isso! Ao cabo de quatro annos de intimidade, o marido converte-se em
+amigo, e nem sempre! É de toda a gente, menos de sua mulher...
+
+Mas logo vinham as duvidas a mortificar-me, cada vez mais pungitivas, e
+eu debalde a repelil-as de meu espirito. Que farte me conhecia eu para
+saber que não poderia jámais adquirir o espirito de conformidade com o
+meu seculo que permitte ao amante d'uma mulher cerrar a mão de seu
+marido, amigo só que seja! Além d'isso, eu não queria cortejar esse
+dominador, nem ajustar-me aos seus caprichos, nem tornar-me para elle o
+homem indispensavel. Eu vaticinava--se as suspeitas alguma vez o
+molestassem--quantas semsaborias me seria preciso fazer, quantas
+mentiras engenhar, quantos desgostos e aviltamentos supportar para
+destruil-as. E para aviltamento já bastava! D'aqui avante não
+passo--protestava eu--já é de mais o lamaçal do meu caminho.
+
+Mais cançado e inquieto que na sahida, voltava para casa. Os sorrisos da
+primavera faziam-me vontade de chorar. A mornidão da atmosphera
+ingravecia-me no cerebro os pensamentos. O espectaculo, e sussurro das
+multidões ao longe, tornavam ainda mais incomportavel o silencio da
+minha soledade.
+
+
+XXI
+
+Em troca d'estas dôres, que por serem silenciosas, não eram menos
+crueis, nenhuma consolação eu recebia. Os meus prazeres eram extinctos.
+A duvida resequira as novas flôres d'elles com seu impuro sopro.
+
+Apenas meus sentidos se atrophiavam, vinha logo a mão adunca da
+mysantropia cravar-se-me no hombro. A lembrança d'aquelle que, na logica
+da minha paixão, eu nomeava meu vival, como spectro de suplicio infindo,
+vinha interpor-se entre mim e ella, com uma atroz ironia, para
+empeçonhar nossas caricias.
+
+Eu via os traços d'elle nas palavras, nos gestos e modos e costumes da
+mulher que eu adorava. N'aquelles braços que me apertavam ao coração,
+estavam os seus moldes. No sangue que ondeava desordenado nas arterias
+de Fanny, se infiltrára elle. Via-o na fronte pallida, no rosto
+contemplativo, nos olhos amortecidos, todo n'ella, abraçando-me, com
+ella, e suspirando nos seus suspiros... Como eu invejava amigos meus
+abandonados, que se aturdiam juntos, nas bachanaes, ao tilintar do oiro
+sobre os panos verdes das mesas do jogo, ás francas gargalhadas das
+mulheres perdidas! E todos os amantes desdenhados, que, de braços
+abertos e olhar internecedor, perseguem, sonhando, uma sombra altiva! E
+ainda todos os amantes separados! Nenhum d'elles--dizia eu
+lastimosamente--soffreu jámais por seu amor infertil, tanto quanto eu
+soffro por meu amor partilhado. Zombaria atroz da possessão! quando nos
+não fatigas, deshonras-nos.
+
+
+XXII
+
+Em fim contristava-me o desapreço que, a meu pesar, soffrêra o idolo em
+minha alma. Até ahi, era um verdadeiro culto o que eu sentia: a
+realisação de quanto eu sonhara puro e angelico, era ella: affizera-me a
+vêr em Fanny alguma coisa sacratissima, impossivel de deperecimento ou
+macula. Agora, via-a voluntariamente cahida do altar em que a minha
+piedade a erguêra para manchar seus pés no contacto da terra, e
+confundir-se no vulgo. Era isso o primeiro e mais cruente effeito do
+ciume, que principia sempre por nos incutir uma horrivel mescla de
+adoração, odio, furor, e desprezo.
+
+
+XXIII
+
+Comprehendi logo que estava travado para sempre, entre mim e Fanny, um
+duelo de morte. Todos os meus pensamentos me vinham do fundo do coração
+inficionados d'uma certa grosseria. Morrêra o respeito em mim.
+Dominavam-me ideas brutaes de lucta. Esporeava-me o desejo acerbo de
+castigar rudemente aquelle ente inoffensivo e graciozo que eu amava pela
+vida! Eu queria invilecêl-o diante de mim ainda mais do que a sua imagem
+se invilecêra na minha memoria.
+
+Como pôde ella resolver-se a isto!--exclamava eu inraivecido!--Oh! que
+execravel zombaria é isso de pureza de mulheres! Parece que os beijos
+são coizas fugitivas, dos quaes nada lhe fica nos labios logo que os
+enchugam.
+
+Não podia mais. Fanny entrou na partilha das torturas que até então eu
+guardava comigo só. Os homens não sabem soffrer longo tempo, sem
+descarregar covardemente o pezo de suas penas, sobre quem elles mais
+amam.
+
+
+XXIV
+
+Tu sabias que eu era cazada!
+
+Foi a suprema razão que ella unicamente oppoz, com ar timido, aos meus
+primeiros queixumes, ainda moderados.
+
+Eu respondi:
+
+«Não sabias tambem tu que eu podia ter uma alma dedicada, e não podias
+prever, sendo minha, que tormentos me deviam cauzar o teu amor?
+
+E depois, perguntei-lhe, sem preambulo, e violentado:
+
+«Como viveis juntos?
+
+Ella corou: estava offendida.
+
+Não devemos fallar d'isso, Roger--respondeu com frieza.
+
+Mas tão desgraçado me viu, que, por commiseração, fallou, violentando os
+seus mais castos sentimentos. Era redobrar-me o supplicio.
+
+Ella, porém, não me disse tudo. Aguilhoado pela cruel necessidade de
+conhecer a extensão da minha desgraça, querendo saber, á custa de tudo,
+onde ella acabava, instei, ferindo-lhe o pudor. Eu estava enfiado e sem
+ar. Poz-me a mão na bocca. Ficamos silenciosos. Fanny contemplou-me
+longo tempo. Chorava, e ella tambem. E, por fim, tragando o calix até á
+derradeira gota, disse-me que ia responder-me.
+
+Eu, chegado a este extremo, com embaraço imprevisto, com uma hesitação
+que obscurecia as minhas palavras e abafava na copia d'ellas a froixa
+luz da intenção que eu tinha; com uma turvação doloroza, que augmentava
+a angustia do coração animozo; illaqueando o pensamento na rede das
+divagações e periphrases, como se eu quizesse demorar o momento de
+conhecer o que eu temia saber--interroguei-a ácerca de mil coisas
+tendentes a velar de mim a existencia intima d'ella. Respondeu-me com
+simplicidade, tão embaraçada como eu, vencendo, porém, intrepidamente a
+vergonha deste estranho interrogatorio, com o fim de mitigar-me as
+dôres, e dar-me um exemplo de desgostos que póde vencer a mulher que
+ama, quando é desgraçado quem ella ama.
+
+E deu-se então em mim uma successão monstruoza de caricias e golpes;
+mistura sem nome de balsamos e venenos; associação horrivel de martyrios
+e glorificações. O facto execravel, cujo desmentido era impraticavel,
+permanecia em toda a sua plenitude; porém, quantas consolações podiam
+modificar-lhe o corrosivo e humilhante, todas ellas carinhosamente me
+prodigalisou, espiando com sobresalto em meu rosto o effeito das
+palavras confusas mas comprehensiveis, que pronunciava. A uma derradeira
+pergunta, mais brutal que as outras, que eu de golpe lhe fiz, deu-se
+n'ella uma soberba explosão de revolta, que me fez cahir a seus pés,
+pedindo perdão. Eu devia crêl-a. Muito ávante tinha eu ido nas
+conjecturas do meu ciume. Fanny repartia-se; mas não pensava sem horror
+n'essa repartição.
+
+Se eu a amasse menos, decerto me sentiria exaltado pela dolorosa
+confusão que ella acompanhava de tantas consolações, pelas lagrimas que
+lhe derivavam na face, quando me descobria a chaga sangrenta da sua
+vida; eu poderia ficar altivo e grato, ou compungido ao menos d'aquella
+tamanha dôr e humildade; mas, em meu espirito, havia uma só preocupação,
+que me alheava de mim mesmo. Fóra d'ella nada comprehendia, não pensava
+em nada.
+
+Não tive pois palavra boa que lhe dissesse; satisfiz-me mostrando-lhe
+receios pela sua tranquilidade.
+
+«Teu marido deve suspeitar, vendo-te mudadada; por que tu amaste-o
+n'outro tempo.
+
+A esta monstruosidade, encolheu os hombros, e não enchugou as lagrimas.
+Roger! Roger--disse ella--é pena que tu sejas sempre creança. Ouves, e
+não comprehendes. Pois por ventura os nossos maridos pensam em nós? Que
+mulher tomaria um amante, se o marido lhe desse o que um amante lhe dá?
+Já não digo os cuidados, as attenções, os bons modos, a amizade; mas um
+pouco desse balsamo que é a essencia da nossa vida toda--um pouco
+d'amor!
+
+
+XXV
+
+Esta penosa discussão avantajou Fanny na minha estima, mas não me
+consolou. Que me importa a mim para o essencial o modo imperceptivel da
+intenção! O facto brutal era o mesmo. Não obstante, reprehendi-me da
+curiosidade do meu ciume, que até me roubava a sombra da duvida que eu,
+por momentos, affagava ainda.
+
+Não podia, pois, atenuar a minha dôr o effeito das ultimas palavras de
+Fanny. O que eu queria era vencer o invencivel, por que era oppressiva a
+mesma angustia.
+
+Eu espiava o olhar de Fanny como querendo calcular-lhe as forças, antes
+de aggredil-a de novo. Mas os nossos olhos tinham-se encontrado, e não
+podemos mais tempo resistir a nós mesmos. Fugiu de minha alma a menor
+idea de lucta; do coração d'ella fugiu o menor desejo de resistencia; e
+o abraço que nos apertou era tão forte, que, mais uma vez, gostamos um
+minuto de verdadeira felicidade.
+
+
+XXVI
+
+A confissão, que eu arrancara a Fanny, devia fazel-a soffrer tanto como
+a mim. Ella, porém, tão pouco se individualisava na offensa, que, desde
+esse dia, em que eu lhe patenteei as minhas dôres, todas as suas
+escondeu de mim, e risos me trouxe sempre, como a convidar-me
+graciosamente a dominar os impetos do meu carater. Pobre mulher, que
+vinha visitar-me por tempo horrivel, e a sua mais instante preoccupação
+devia ser o urdir mentiras que legitimassem a sua ausencia de duas horas
+em cada semana. Apesar d'isso, resistia aos aguaceiros da primavera,
+como ás nevadas do inverno. Nem mesmo fallava dos incommodos que
+precisamente devia soffrer para arrancar algumas horas de liberdade ás
+estreitesas da escravidão da familia. Ria gentilmente dos seus vestidos
+molhados, despindo a muito custo as luvas, ageitando os cabellos
+desanelados, e chegando ao fogo a biqueira das botinhas fumegantes.
+Tinha como brio de se vêr em minha casa depois de haver-se exposto a
+perigos tamanhos, feliz por a não terem encontrado, contente porque me
+via menos triste. O vencer obstaculos, a conservação do segredo, manter
+a estima da sociedade, o cuidar do meu repouso, tudo isso não a deixava
+sentir o cansaço. Não ha felicidade perfeita--dizia-me ella
+enternecidamente com um suspiro--ambos pagamos á tristeza o tributo do
+nosso amor; mas este amor é tão bom que o tributo que a tristeza recebe
+não me parece uzurario.
+
+Nunca suggeria discussões; nunca foi a primeira a fallar-me dos seus
+deveres, que muito apreciava, e dos quaes me sacrificara a melhor parte.
+Com seu maravilhoso instincto de mulher, adivinhava que não podia
+fallar-me de seus deveres sem me irritar o orgulho, e ella respeitava o
+meu orgulho, como cauza de soffrimento, quando mesmo o feria. Nunca pude
+surprehender-lhe sombra de remorsos. Mas têl-os-ia ella?...
+
+Quando eu estava sósinho, pensava assim:--Que cautellas terá ella tomado
+para dissimular este amor? que invenções! que calculos! que ardis! para
+se furtar a discussões sobre as suas sahidas! Quantas concessões para
+não ser descoberta! E tanto que arrisca! Pobre mulher! Tanto tem que
+perder! E eu tão pouco! Ah! que mau homem sou em atormental-a!
+
+Tratava-me ella por creança, e, com franqueza, eu o merecia bem. Quantas
+coisas eu sabia do seu viver que ella me occultava, com medo de
+penalisar-me!
+
+Eu não queria comprehender nunca que havia dias em que lhe era
+completamente impossivel sahir, e a mais banal visita era bastante a
+retêl-a em casa. Desconfiava então de abominaveis calculos. Affirmava
+que ella me mentira. Cuidava que procedia a falta de excitações e
+fadigas na partilha que ella devia detestar. Odiava-a.
+
+«Fases-me piedade! dizia ella quando eu lhe deixava vêr os horrores do
+meu infermo espirito.
+
+Todavia, algumas vezes, meio esquecido de minhas magoas pessoaes, para
+entrar ás profundezas da consciencia, dizia em mim: «Quando a tenho
+torturado bastante, quando ella d'aqui sae chorando, attribulada,
+golpeada no coração, perguntando-se se me tornará a vêr em sua vida, que
+fará ella na rua para disfarçar o tormento que a aperta, e mascarar o
+rosto com o gesto de habitual tranquilidade, para volver á mulher
+risonha que eu conheço? Será á custa de carinhos que ella affasta as
+suspeitas de um marido difficil de enganar? Ah! que lagrimas ella deve
+chorar com seus filhos! São tantos os esforços dolorosos que elles lhe
+custam!
+
+E como sei bem que elles adivinham o segredo das lagrimas d'ella! E quão
+certo é que, semelhantes á mãe, tão bons, tão discretos, com suas
+mãosinhas lhe enchugam os prantos, sem lh'os trahirem.
+
+Fanny soffria horrivelmente. Via-se-lhe o amarellecer da tristeza.
+
+Eu, sem lh'o dizer, observava o circulo negro que marmoreava a
+circumferencia de seus olhos elanguecidos, e lhe dava ao olhar estranha
+expressão de piedade.
+
+Via-lhe contrahidos os labios; e as rugas que subiam da fronte
+perderem-se sob os cabellos sedosos como symbolos visiveis de dolorosos
+pensamentos. Consternava-me este ar de desleixo que a definhava.
+
+Diante de mim sómente ella affrouxava a rigidez do seu porte, e eu da
+melhor vontade lh'o perdoava: devia estar cansadissima de representar de
+senhora feliz!
+
+Quem lhe dera a ella poder tudo confessar, e viver francamente commigo,
+sem ignominia!
+
+«Não me deixes--dizia-me ella por vezes--Tu es-me necessario como a
+luz!»
+
+E outras vezes accrescentava:
+
+«O que me prova que eu te amo, é que eu amo tudo que é teu, o teu dôce
+egoismo até, até a tua colera, mesmo as tuas sublimes injustiças!
+
+Depois, ficava subitamente callada, como se algum funebre pensamento,
+que não ousava confessar, a angustiasse sem desabafo.
+
+Eu observava-a, e ella sacudia a cabeça. Depois, retorcendo os dedos,
+exclamava:
+
+«Trahir! trahir sempre! Eis aqui o horror que tudo me invenena, mesmo a
+idea da minha felicidade. Eu sou a mais miseravel das creaturas. Deus
+negou-me força, e, por toda a vida, cumprirei a sentença da minha
+fraqueza. Tenho vivido sempre diversamente da vida que quizera ter;
+tenho visto sempre ao pé de mim o que eu quizera fazer. Trahir! meu
+Deus! como eu me detesto!
+
+Tomava-a então nos meus braços para applacal-a; mas não achava que
+responder-lhe--De que quer ella fallar?--Perguntava-me eu estupidamente.
+
+Devia de ser do facto da perfidia; mas eu conhecia-a ainda mal, e
+attribuindo-me as palavras fugidas á consciencia d'ella, sentia-me feliz
+e orgulhoso.
+
+Isto ás vezes fazia-me chorar, e tomar corajosas resoluções--Guardarei
+para mim os males todos, e as consolações para ella--propunha eu comigo.
+
+Por compaixão, pois, esquecia eu momentaneamente os meus desgostos;
+sacudia o cansaço do meu pesado scismar, por me deixar levar dos
+transportes ardentissimos da paixão. Refazia-me em meiguice e ternura e
+sujeição, mais affectuoso que o molosso fiel que, apoz longa auzencia,
+encontra o olhar do dono querido.
+
+Vertia a fluxo nectar dulcissimo da lisonja á mulher estremecida;
+tornei-me frivolo, fallador, volitando por sobre vinte assumptos a um
+tempo, rindo desentoadamente, evitando sobre tudo proferir palavra que
+dissesse respeito directo ao assumpto uzual dos meus tormentos.
+
+Mas esta missão heroica, de que dei má sahida, não a enganava. Olhava-me
+ella com spasmo. Escutava-me meneando a cabeça. Cuidaria ella, em
+consciencia, que, extincto o ciume, seria o mesmo extinguir-se o amor?
+
+Estes accessos de heroicidade não podiam durar em mim longo tempo.
+Suspirando, como pessoa aliviada d'um peso grande, viu ella que eu
+recobrava o meu aspecto triste.
+
+
+XXVII
+
+Acabei, para grande vergonha minha, por acceitar tacitamente aquella
+situação. Mas, d'ahi em diante, havia entre nós alguma coisa, que não
+podia já mais obliterar-se: um pensamento constante e unico, que,
+mutuamente, nos atormentava os corações. Embora cerrassemos os labios
+para o não deixar sahir em palavras, no intimo o sentiamos sempre como
+dôr aguda que, a revezes, nos desentranhava imprecações. Um só grito
+bastava então para incendiar uma explosão subita, e eu, principalmente,
+esquecia os protestos de meu orgulho por dar livre curso á tristeza que
+me devorava. Não queria fallar do meu rival, e fallava d'elle sempre.
+Era um nome que me alanceava a memoria, e se me estorcia entre os
+labios, como um aspide. Proferido apenas, mil perguntas incendiarias se
+embaralhavam tumultuosamente em minha boca. Eu queria conhecel-o melhor
+ainda. Queria saber tudo o que elle era, tudo que fazia, tudo que dizia.
+Fanny formalisava-se então; meditava largo tempo antes de responder-me,
+para não se desmentir, depois dava indicios de impaciencia e carregava o
+sobr'olho.
+
+Os homens são insaciaveis--dizia ella, com grande espanto meu--Não podes
+contentar-te com ser amado? Por que te occupas incansavel no que se
+passa em minha caza?
+
+Apoz estas contendas, separavamo-nos tristes, e, passados oito dias,
+esperava-a furioso, exasperado pela raiva, com a boca cheia de
+sarcasmos, decidido a romper brutalmente com ella. Mas só de vêl-a, toda
+a minha cholera se exhalava como fumo, ajoelhava-me aos pés d'ella, e
+comprimia-a convulsivamente ao meu coração.
+
+O que muito me espantava e irritava acremente era a docilidade com que
+ella, sem murmurar, a tudo se submettia. A ausencia, os obstaculos, as
+difficuldades, não podiam nada com ella. Vêr-me, não me vêr, era tudo o
+mesmo. Sempre serena aquella phisionomia. Dava-se ares de victima, e não
+dizia palavra.
+
+«E se eu me matasse?» exclamei eu, um dia.
+
+Fanny encolheu os hombros.
+
+«E se algum incidente imprevisto nos separasse?»
+
+--Que queres que eu te faça!...--disse ella, e em seguida entrou a
+chorar.
+
+Não podendo viver com ella, eu queria ao menos governar-lhe a vida, de
+modo que as suas menores inspirações lh'as désse eu. De sobra
+comprehendia ella a minha intenção, e mostrava-se; mas não me cedia
+nunca em pontos de delicadeza que ella converteu em pontos de honra. E
+dizia-me:
+
+«Eu sou obrigada a soffrer a posição que me deu a sorte. Devassar-lhe os
+segredos, de que monta? Affliges-te se fallo, affliges-te se me callo...
+Tracta de esquecer as causas dessa tristeza, meu Roger.
+
+Eu de mim esqueço-as sempre que venho aqui.
+
+Outras vezes dizia meio risonha e meio motejadora:
+
+«És muito egoista! Pelos modos eu não devo amar senão a ti!»
+
+Impellido, porém, pela minha idea fixa, e sem admittir que ella
+anteposesse a sua vontade á minha, astuciava com ella, impetrando-lhe
+exclusivamente a piedade, e descia, por derradeiro, a tal degrau de
+baixeza, que, irritado por ser eu só a penar, empregava toda a minha
+influencia para exigir d'esta desgraçada mulher que seguisse uma norma
+de proceder deametralmente opposta á que seu marido lhe traçára. Bem
+sabia, eu, com isto, que a sua casa, até ahi pacifica, ia tornar-se um
+inferno, e isso queria eu: Durante alguns dias, por cansaço, seguiu ella
+docilmente os meus conselhos, e assim se viu intallada entre seus dois
+senhores, como o ferro amollentado pelo fogo entre a incude e o malho.
+Ambos nós, sem treguas, lhe flagellavamos o coração.
+
+Espicaçada, emfim, pela tortura, e tambem por uma especie de espirito de
+inteiresa, disse-me:
+
+«Roger, tu aconselhas-me muito mal, por que me obrigas a perturbar-lhe o
+repouso.»
+
+Fiquei consternado, e cessei de empregar aquelle novo genero de
+martyrio, por que era para mim cruelissima mortificação vêl-a erigir-se
+em defensora de seu marido. Fanny, além disso, parecia fatigada d'essas
+disputas aviltantes e penosas.--Tenho medo de infastial-a--disse-me eu
+um dia.
+
+
+XXVIII
+
+Porém, nos mais violentos accessos de meu ciume, inraivecia-me vêr-lhe
+no semblante aquelle seu ar pudico, que ella conservava sempre, mesmo na
+mais avida vertigem do goso. Ora isto, com o correr do tempo, deu para
+me irritar. Tomei a peito depraval-a, buscando abafar este amor nas
+cinzas do fastio: Fanny ficava sempre a mesma! Estavam alli duas almas
+diversas a exhalarem-se-lhe dos labios e dos olhares. Uma era a de
+Phrynea absorvida, e séria, nutrida dos mais finos primores como das
+especiarias mais corrosivas da paixão, o que, alternadamente, se
+assignalava por um sorrir estranho e vago. A segunda era a de um anjo
+immaculado. Ai! aquelle olhar d'ella! Aquella expressão de spasmo que
+reluzia perpetuamente em seus olhos azues, tão rasgados, sob as placidas
+e destacadas palpebras! Ainda agora me seguem e arrebatam! Sinto-os
+sempre, fitos nos meus! Interrogam-me, e fascinam-me! Não poderei jámais
+esquecer os olhos d'ella?...
+
+Fanny, no garbo de suas attitudes, no meneio da cabeça, no andar, tinha
+algumas vezes um não sei que que denunciava appetites de um sensualismo
+profundo e vehemente, e mesmo alguma coisa dessa monstruosa concessão
+duplicada, que tanto a meus olhos a invilecia. De subito, com uma
+palavra só, transfigurava-se, e julgal-a-ieis uma outra mulher.
+
+«Que mulher és tu, pois?» lhe disse eu, em seguida a uma discussão em
+que me havia manifestado sentimentos os mais contraditorios. Levantou
+ella a face, e encarou-me com os seus olhos tranquillos e lympidos;
+porém, commoção interna lhe dilatava as azas nazaes e avermelhava de
+leve as faces.
+
+--Não posso viver sem amar--respondeu ella pausadamente--Não posso viver
+sem ser amada. Minhas qualidades boas, e meus defeitos, são cousas
+secundarias: todas as mulheres tem d'umas, e d'outros. Mas o que é
+exclusivo meu, é a minha paixão.--E com leal exaltação, ajuntou:
+«comprehendes-me?»
+
+
+XXIX
+
+Chegou o estio, ao cabo d'estas muitas e penosas discussões. Todos os
+annos, Fanny ia passar aquella estação ao campo, nos arrabaldes de
+Pariz. Um dia, veio ella afflicta annunciar-me a triste nova da partida;
+eu, porém, recusei explicitamente conformar-me com a ausencia
+«Escrever-nos-hemos» disse ella. Semelhante resignação exasperou-me. Não
+sei que lhe respondi, esqueci-o; lembra-me só que combati aquella
+resolução com energia de desesperado. Eu chorava tanto, estava tão
+alvoroçado, tão infeliz, que ella houve piedade de mim. Apertando-me nos
+braços, mil vezes me repetiu que consentia em adoptar os expedientes que
+eu lhe indicasse.--Sê prudente! sobre tudo, não te arrisques--disse-me
+ella, entre dois beijos, retirando.
+
+Passados oito dias, encaminhei-me na direcção de Chaville. Á beira da
+estrada real de Versaille é que estava a casa d'ella.
+
+Quando ouvi dar a meia noite nos relogios longinquos, escalei o muro, e
+fui ter a um pavilhão, cujo local me havia indicado Fanny. A vinte
+passos, d'um ponto em que me occultavam as copas do arvoredo, vi um
+vulto pardacento, immovel. Era Fanny. Corri para ella. Levou-me comsigo.
+Fechei a porta. Estávamos ás escuras--Não falles--segredou-me ella, com
+extraordinaria agitação--elle está desconfiado ha tres dias; anda
+triste; deve ter suspeitas.
+
+Aqui está uma variante nova na amargura da minha vida, com a qual eu não
+contava.--Ouve--murmurou ella, com a voz tremula de mêdo--é preciso que
+elle não desconfie; não quero que elle o saiba; não quero. Tu és homem,
+a ti pertence dirigir o meu comportamento. Falla; e, se é de sacrificios
+que vaes fallar-me não temas, que eu sou forte.--E sentindo-se
+desfallecer, vendo-me perdido de dôr, disse-me com amargura:--Eu tinha
+esquecido que tu não passas d'uma creança. Perdoa-me por haver-te
+fallado como a um homem.
+
+«Fanny,--disse-lhe eu solemnemente aconchegando-a de mim para fazel-a
+sentar ao meu lado--serei talvez creança, mas tenho coragem de homem.
+Surprehendido imprevistamente por esta cruel noticia, não sei que
+inventar; mas, já que és forte, decide tu o que devemos fazer:
+submetto-me. É preciso abandonar-te? Dize-o. Pela memoria de tua mãe, se
+assim o queres, não me verás jámais, ainda que me procures por toda a
+terra.
+
+Não quero que morras--disse ella com voz soturna, erguendo-se, e batendo
+no chão com o pé. Depois tomou-me a cabeça entre ambas as mãos e
+abraçou-me convulsivamente sobre os labios. Mas o ruido de passos que
+rangiam na areia impoz-nos silencio. Abraçados pela cintura, curvamo-nos
+sobre a vidraça para vêr quem assim passeava no jardim a hora tal.
+
+Era elle! Reconheci-o na largura dos hombros, nos cabellos arrussados
+que volteavam ao vento sobre a cabeça nua. Caminhou parallelamente ao
+pavilhão, pela rua larga e descoberta, alagada dos fulgores da lua que
+cahiam sobre ella a prumo. Marchava lentamente, com as mãos enlaçadas no
+dorso, cabisbaixo, as feições alteradas, como homem que leva de poz si
+pensamento oppressivo. Passou ante nós, e imbrenhou-se no cerrado
+arvoredo.
+
+Tive de sustentar em meus braços a desgraçada mulher, por que os joelhos
+não podiam sustel-a. «Socega, minha querida, disse-lhe eu--teu marido
+nada suspeita. Está preoccupado; mas não se vê alli a inquietação febril
+dos ciumosos. Eu sei bem o que é, de sobra me tenho observado a mim.
+
+--Crês? exclamou ella n'um impeto de esperança que a vibrava.
+
+«Tenho a certeza. Entretanto, separemo-nos. Passados oito dias,
+tornarei. D'aqui até lá observa-o bem. Não sei o que é que o inquieta;
+mas eu a quem tu hoje chamas creança, digo-te isto: teu marido não tem
+ciumes.
+
+
+XXX
+
+Logo que ella partiu, fui impetuosamente no encalço do solitario
+passeador. Via-o outra vez na volta d'uma rua. Passou, como primeiro,
+deante de mim, sem me perceber, sempre sombrio, sempre meditativo. Curei
+de surprehender alguma involuntaria palavra que me revelasse a causa da
+sua concentração. Mas tinha cerrada a bôcca, e impassivel a fronte.
+Subindo para casa, accelerou o passo. No patamar, parou, olhou o céo
+estrellado com sombria seriedade, e alongou para elle os braços, como se
+do coração lhe fugisse alguma prece ameaçadora. E eu exclamei
+mentalmente: «É elle, pois, desgraçado tambem!»
+
+
+XXXI
+
+Passei os oito seguintes dias em angustia inexprimivel. Não parava em
+parte alguma. Os temores, as suspeitas subiam-me ao cerebro em
+borbotões, como os vapores da vinolencia. Pensava n'ella só! Dizia-me
+não sei que de convicto e infallivel que eu estava ameaçado de perder
+Fanny. Era como um espectro deante de mim a imagem d'uma separação
+violenta. Não atinava com o modo de aliar esta especie de previdencia
+com a certeza de que o marido ignorava tudo; mas esta previdencia
+justificava-se tanto que eu entrei a tomal-a como aviso do céo.
+
+Ao oitavo dia, á hora costumada, puz-me a caminho; mas, d'esta vez não
+esperei a hora indicada, nem me acautelei para entrar em casa de Fanny.
+Não. Caminhava deante de mim mesmo, com a violencia e direitura d'uma
+balla, resolvido a procural-a mesmo no seu quarto, se a não encontrasse
+no pavilhão. Timido de tudo, sem poder definir o objecto dos meus
+temores, esporeava o cavallo, que se espadellava com a terra,
+alternadamente contrahido e distendido como um grande arco atormentado
+por mãos febris. A lua alumiava de travez a estrada silencioza que eu
+levava, zebrando-a de listas de prata, e parecia voltar-se para mim
+melancolicamente seguindo-me com os seus fulgidos olhares. Desfillavam a
+meu lado as arvores, rapidas e negras como phantasmas vertiginosamente
+marulhados n'um rodopio. Os cães, que dormiam nos pateos, atiravam-se
+aos portões latindo ao estrepido das ferraduras do meu cavallo, que
+estalavam na calçada. E o vento que me açoitava a cara, murmurava-me aos
+ouvidos palavras irritantes. Tudo me impellia e me vaticinava algum
+drama em que eu ia representar um papel. Armei-me para isso, decidido a
+não succumbir sem luctar com todas as forças que a desesperação desde
+muito me tinha dado. Quão exaggerado eu era na espectativa como nos
+preparatorios! Este meu espirito enthusiasta não sonhava senão combates
+sobrehumanos, desinteresse fero, esforços heroicos!... Ai! e que
+desenlace tão vulgar me esperava!
+
+
+XXXII
+
+Transpondo o muro, fiquei surpreso de vêr Fanny assentada na margem d'um
+passeio. Mais d'uma hora me tinha eu antecipado, e receava que seu
+marido estivesse ainda fóra. Logo, porém, que me avistou, Fanny, veio
+para mim, sem se esconder, como se fosse natural entrar eu em sua casa
+pelo caminho dos malfeitores. Tomei-lhe a mão. Pareceu-me vêl-a inleada
+e cuidadosa.
+
+«Que aconteceu?--perguntei, levando-a para debaixo das arvores.
+
+--Tinhas mais que rasão, Roger; meu marido não tem ciumes--disse
+ella--Nunca se fiou tanto de mim. Não me cancei a interrogal-o. Hontem
+contou-me a causa da sua preoccupação. Os seus haveres todos,
+depositados em Inglaterra, estão em risco com a fallencia d'um
+banqueiro. Esta manhã partiu para salvar alguns restos, se ainda for
+tempo. É forçoso que a inquietação fôsse grande--ajuntou Fanny
+suspirando--por que nunca foi commigo tão expansivo.
+
+Não achei palavra com que responder a esta afflictiva noticia, com
+quanto nos consolasse a ambos de tamanho pezo. Fiquei atordoado como
+homem que soffreu violenta pancada na cabeça. Regorgitavam-me nos labios
+os sarcasmos; mas eu represava-os.
+
+«Nada respondes, meu amigo?--disse Fanny.
+
+--Que heide responder?--exclamei, perdida a consciencia da minha
+brutalidade.--Lamento-te se tinhas grande apego ao luxo de que vaes ser
+privada; lamento-te, principalmente, por teus filhos; mas... «Mas?»
+atalhou ella.
+
+--Mas não posso lamentar-te por teres sido ameaçada de perder-me, e te
+achares hoje mais livre que nunca para amar-me.
+
+Fanny ergueu as mãos ao céo, como invocando o seu testemunho, com
+expressão de piedade, e disse brandamente:
+
+«Não fallemos mais de mim. Eu heide ser sempre um livro fechado para ti.
+
+Passeamos, depois d'isto, debaixo das arvores vagarosamente, sem nos
+darmos o braço, sem dizer palavra, durante meia hora: por fim, parou
+ella deante de mim e tomou-me ambas as mãos, e disse em tom de voz
+submissa:
+
+«Roger, por que não fallas?
+
+--Não tenho consolações que dar-te.
+
+«Por que?
+
+--Por que eu mesmo tenho talvez necessidade de ser consolado.
+
+«Pois que te succedeu?
+
+--Nada.
+
+Continuamos a passear, ao acaso, entre o arvoredo, silenciosos, ella
+curvando-se debaixo das franças, eu, erguendo-as, para ella passar.
+
+--Agora vamos nós tomar quinhão nas amarguras d'elle--disse eu de
+repente. «Assim deve ser» respondeu ella com tranquillidade.
+
+O remate do nosso encontro foi magoado por um começo que eu não podera
+prevenir. O pensamento de Fanny vagueava por outra parte. O meu, a meu
+pesar, tambem. E, todavia, eu não poderia justificar-me d'um certo
+prazer inquieto que me dava a idea d'um successo que podia apartal-a do
+marido para sempre.
+
+--Quem sabe--pensava eu commigo--se a sua ruina fará o que a minha dôr
+não pôde fazer?
+
+
+XXXIII
+
+Depois d'este dia só em Paris nos tornamos a vêr. Era facil a Fanny
+ausentar-se, agora que a ninguem devia contas de suas sahidas. Por isso
+tornamos ao antigo viver. O que eu, porém, previra realisava-se com um
+rigor de desesperar. Não era só o pensamento senão a vida de Fanny que
+estavam n'outro logar. Cada vez o sentia mais. Nossa tranquillidade,
+prazeres, expansões, jubilos dependiam absolutamente das cartas que o
+marido lhe escrevia. Se faltava o correio, ficava distrahida, não me
+ouvia. Se recebia de manhã carta inquietadora, ficava preoccupada e
+taciturna. Quando a carta era de esperanças, irrompia ella em explusões
+d'amor e d'alegria. Esta alegria, porém, molestava-me muito mais que a
+tristeza, e aquelle amor, cuja explosão atava a alguma coisa que não
+derivava d'elle mesmo, indignava-me. Gélido deante de sua inquietação,
+mudo se ella estava triste, irritado pela sua alegria, recuzava
+energicamente a receber a repercussão das novidades que tanto a
+preoccupavam; e quiz-me parecer que Fanny não se incommodava ou nem dava
+fé dos meus enfados. Isto desesperava-me.
+
+Em summa, aborrecido de me vêr assim atado ao meu rival pela mulher,
+que, repartindo-se equitativa por nós, dava todos os seus pensamentos
+aquelle que ella julgava ter mais urgente precisão de suas sympathias;
+indignado por compartir dessas penas, e esperar-lhe anciosamente as
+alegrias que só podiam fertilisar as minhas; aguilhoado da tristeza, do
+ciume, e da desgraça, resolvi tentar um supremo esforço para recobrar o
+socêgo, arrancando-lh'a a elle. Desde muito que se me gerava no animo o
+desejo de exigir de Fanny o maior sacrificio que ella podia fazer-me;
+mas, retido pelo vago receio d'uma recusa dolorosa, deferi de dia para
+dia o momento de sollicitar-lh'o. Azou-se a occasião. Foi ella que a
+deu.
+
+
+XXXIV
+
+«Uma mulher que se aliena--disse-me ella, uma vez, sem nexo que
+explicasse o improviso, e olhando-me com ar piedoso--Uma mulher, que se
+aliena, não pode amar sem tornar o seu amante o mais desgraçado dos
+homens. Quanto mais me examino, Roger, mais conheço que, fartes vezes,
+com desgosto meu, te devo fazer soffrer muito.
+
+Commovido por este exordio, respondi balbuciante:
+
+--E, todavia, a nossa alliança podia ser ditosa.
+
+«Sim--disse ella amargurada--O que ha de mais entre nós é o amor.
+
+O castigo secreto d'esta ligação é isso. Estas relações só duram com a
+condição de serem banaes; e, se o são, devem repugnar a corações nobres
+e delicados; se são profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem
+as sente.
+
+E suspirou. Respondi assim:
+
+--Vou mais longe que tu, Fanny.
+
+Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer
+com uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor
+proprio, por igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas
+torturas. Uma amante, qualquer que seja o seu theor d'amar, conhece
+sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz,
+não conhece a existencia do amante.
+
+«Isso é ir longe de mais--disse ella a meia voz; depois, alçando os
+hombros, poz os olhos no céo, e exclamou:--Que é o amor proprio, Deus
+meu?
+
+Folgando em fim de encontrar Fanny em tal disposição de espirito,
+aventurei-me. Peguei-lhe da mão, e erguendo-me, em quanto ella me olhava
+affectuosa, disse, n'um tom supplicante:
+
+«Com tudo... se tu quizeres...»
+
+Fanny corou logo, comprehendendo que se demaziava.
+
+--Que queres tu dizer-me?
+
+Não ousei responder; mas ella, por certo me adivinhou, por que me
+apertou meigamente a mão, e disse suspirando:--creança!
+
+Eu fiz com a cabeça um gesto negativo! «Deixa-me!--disse ella de
+sobresalto, em tom de precipitada--Curar-te has assim? Não posso
+fazer-te feliz. Caza-te!»--A dôr anniquilou-a. Repelli-lhe rudemente a
+mão, e fitei-a colerico, por essas phrazes que me pareceram uma ameaça.
+Mas tão quebrantada a vi, que não tive coragem de a levar ao extremo, e
+murmurei por de mais:
+
+--Bem sabes que não é possivel isso.
+
+Replicou:
+
+«Dei-te quanto podia haurir d'affectos em meu coração, e és tu quem me
+castigas!
+
+Estava offendida: foi preciso aquietal-a, e jurar-lhe submissão; ella,
+porém, não perdoava assim, e exclamou:
+
+«Que queres que eu faça mais?
+
+--Se me amas, como creio, o teu dever está traçado.
+
+Corou outra vez: é que comprehendera.
+
+«Meu dever! meu dever! Muito indiscreto és em proferir semelhante
+palavra, Roger! Ignoras tu que o meu mais restricto dever me ordena de
+não deixar a caza que governo?
+
+--Ah! Fanny!--exclamei eu--que insignificancia tu trazes para me
+ferir... que confronto!...
+
+«A caza--replicou ella baixando os olhos--é o posto d'honra confiado á
+mulher! Mulher que se respeita, não a abandona nunca!
+
+Quiz interrompêl-a, mas ella continuou, de repente applacada, e
+olhando-me com ternura:
+
+«Raciocina um pouco, meu querido filho: póde uma mulher abandonar sua
+familia honorifica, sem perder a estima de si propria? Póde ella
+desquitar-se publicamente de todos os seus deveres sem despenhar-se aos
+olhos do mundo entre as mulheres perdidas?
+
+--São bem tristes considerações as da sociedade quando as cotejas com a
+minha vida...--respondi eu.
+
+Ficamos em silencio, alguns minutos. Fanny proseguiu:
+
+«Se eu seguisse os conselhos que me deixas adivinhar por que és muito
+honesto para m'os dar claramente, ser-te-hia forçoso, algum dia,
+fazer-me arrepender.
+
+Eu quiz jurar; mas ella cortou-me a palavra.
+
+«Podemos nós supprimir o passado? Não és tu zeloso mesmo do passado? Oh!
+quero poupar-te!--accrescentou Fanny, levantando-se, e lançando-me um
+braço em roda do pescoço, em quanto com a mão sobre o meu peito, cravava
+ternamente nos meus os seus olhos azues--«Em teu logar, crê-me, eu seria
+tambem ciosa... Muito resististe!... disse ella, cahindo sobre uma
+cadeira, e escondendo entre as mãos a face: «Por que me não fugiste,
+quando era ainda tempo!
+
+«Já era tarde, Fanny, bem o sabes, no dia mesmo em que te vi, pela
+primeira vez, passar deante de mim.
+
+Ergueu-se outra vez, e abraçou-me com mudo transporte. Pensativo,
+alheado, recebia, como insensivel, as caricias. A final, pude dizer-lhe:
+
+--O amor, Fanny, póde consolar muitas dôres, remir muitas humilhações,
+substituir muitos affectos. Diz tu: o que é a estima do mundo, os
+tranquillos sentimentos da familia, comparados á absorpção d'uma
+existencia por outra existencia? É acaso tão longa a vida que possamos
+consentir em immolal-a a coisas tão frivolas? E, de mais, que se lucra?
+Quem nol-o agradece?
+
+«Roger! Roger!--interrompeu Fanny--que estranha moral!
+
+E eu prosegui:
+
+--Não estás cançada de córar, de tremer, de te esconderes? Não tens,
+emfim, vergonha da vergonha? E não te repugna ao coração esperar,
+esperar mais, esperar sempre, para trazer-me os beijos avidos á minha
+bôca faminta? No espaço d'um anno, com grande custo, apenas teremos cem
+horas de viver juntos... a felicidade, de que devemos contentar-nos, é
+isto? Se ao menos essa felicidade fosse pura, estrema, absoluta! Mas tu
+não pódes ouvir-me, sem que a lembrança de tuas inquietações, perigos a
+que te expões, os meus proprios tormentos, te não impallideçam; e eu,
+tão desgraçado! não posso uma só vez abraçar-te, sem que logo um
+espectro...
+
+«Supplico-te--bradou ella impetuosamente--se me amas, não me digas que
+és desgraçado, por que me matas.
+
+--E se tu quizesses--continuei, fitando-a internecido--se quizesses!...
+Não haveria no mundo existencia para competir com a nossa. O que eu te
+peço é ser eu só o encarregado de te fazer serena a vida, desvelar-me
+por ti eu só, preparar, suavisar sob os teus pés a vereda do futuro; ser
+só a amar-te; o que eu quero é ser para ti o meio e o fim da felicidade;
+é tomar sobre mim todas as penas, e dar-te em troca todos os meus
+sonhos, prazeres, e felicidades; o que eu quero é ser a um tempo teu
+filho, teu amante, teu pai, reunindo sobre a tua cabeça querida as mais
+dôces e solidas affeições, é concentrar em ti as lembranças do passado,
+as felicidades do presente, os anhelos do porvir, de modo que venhas a
+ser toda para mim, e que não haja na minha vida inspiração que não seja
+tua, que não proceda de ti, que não sejas tu! Se tu quizesses... Não ha
+ahi paizes onde livremente os que a sorte separou e o amor ajunta pódem
+emfim saborear aquelle particular repouso que resulta da plenitude da
+felicidade que é a vida? Em meus sonhos, muitas vezes me figuro que
+somos voluntariamente proscriptos na immensidade d'alguma solidão, onde,
+sob um céo azul sempre, á sombra d'arvores sempre veridentes, á beira
+d'um mar sempre sereno e sobre tapetes de musgo sempre em flôr, ahi, nos
+saboreamos por nós mesmos, como se a nossa dupla existencia mais não
+fosse que uma palpavel recordação. Que desgraça poderia ferir-nos ahi?
+que inquietações assaltear-nos? que suspeita incutir-se-nos? que ciume
+contristar-nos na felicidade de dias sempre eguaes? se tu quizesses...
+Seria pouco para mim amimar-te sempre como a uma creancinha melindrada?
+procurar incessantemente debaixo de tuas palpebras o olhar meigo de teus
+olhos azues? escutar-te muito tempo o halito a brincar-te por entre os
+labios? dormir com a boca presa á tua espadua, a mão inlaçada na tua
+mão? vêr-te todos os dias, andar, ir, voltar, mais bella, mais
+tranquilla, mais graça que o sonho das virgens? Ouve mais: não seria
+nada para ti o teres-me sacrificado todos os prejuizos que formam o
+coração das mulheres? teres-me tirado do abysmo de tristeza, no fundo do
+qual me estorço ha tanto tempo? teres-me dado tu só mais felicidade do
+que homem na terra póde cobiçar? Oh Fanny! Nunca mais, a chorar, eu te
+diria: «amo-te!... se tu quizesses!...»
+
+Estava suspensa dos meus labios Fanny. Bebia-me as palavras, ebria de
+prazer. Inclinada para o hombro a cabeça, cahidos os braços, as
+palpebras descidas, ouvia-me como ao longe a musica, de que não queremos
+perder nada, arrobada n'um extasis que reunia todas as sensações e
+quebrantos. Arfavam-lhe as rozadas azas do nariz; suaves respostas
+inintellegiveis lhe ciciavam os labios; convulções electricas lhe
+crispavam a cutis; tremiam-lhe as mãos em vibrações dulcissimas. Já não
+poderá conter-se. Correu-me ao seio, e debulhou-se em lagrimas no meu
+pescoço que ella cingia soffrega. Oh! que delicioso apertar aquelle!
+
+«Não se falle mais n'isso--disse ella, com expressão de angustia,
+recuando a face, e apertando-me a fronte com a mão--Isso faz-me um
+grande mal. Querido Roger, o sacrificio, que queres fazer, é egual ao
+que me pedes. A felicidade debuxada por tua boca persuasiva é o mais
+bello sonho dos meus encantos; mas, ai! não passa d'um sonho! Meu Roger,
+amemo-nos, adoremo-n'os; mas, por piedade de mim, não falles assim mais!
+
+
+XXXV
+
+Não me dei por vencido d'aquelle grito de desesperação que me revelava,
+ao mesmo tempo, aspirações ardentes, e dôres mysteriosas. Nenhum de nós
+nesta affectuosa discussão, havia empregado os verdadeiros argumentos.
+Um tanto satisfeito por expôr a suprema questão da minha vida áquella
+que devia resolvêl-a, deliberei deixal-a reflectir, para pouco e pouco a
+ir affazendo. Esperava azo propicio para reluctar e vencer a minha
+adorada inimiga.
+
+Depressa veio o ensejo. Terrivel e imprevisto era elle: havia ahi uma só
+alternativa: vencer os extremos escrupulos de Fanny, ou perdêl-a para
+sempre.
+
+
+XXXVI
+
+Fanny pareceu-me preoccupada um dia. Fallava precipitadamente em muitas
+bagatellas, como se quizesse abafar alguma coiza gravissima. Abstive-me
+de interrogal-a, e fiz que não dava fé da sua turvacão. Acariciou-me
+vivamente, e eu a ella, mas nossos espiritos e vontades pareciam alheios
+aos affagos. Houve um instante em que um e outro esgotamos as palavras
+ociosas. Tinha Fanny a cabeça inclinada sobre o meu braço, e eu, todo
+attento no rosto d'ella, em muda anciedade a estava contemplando.
+Subiu-lhe aos labios em suspiros do intimo a respiração suffocada; aos
+meus olhares interrogadores respondia o descahir das palpebras, e o
+voltar os olhos, córando.
+
+Tomei-lhe a mão sem dizer palavra. Apertou-m'a com força febril.
+
+«Falla em nome do céo!» disse-lhe eu empallidecendo. Abraçou-me
+convulsamente, aconchegando-me o peito da face d'ella.
+
+Fugiu-lhe dos labios a narrativa cruel, cortada por mil reticencias
+confusas. Mas, desde a primeira palavra que proferiu, comprehendi tudo.
+N'essa manhã mesma, o marido lhe dissera em carta muito expansiva, que
+seria provavelmente obrigado a estabelecer-se em Inglaterra, por espaço
+de alguns annos. Em tal caso--accrescentava elle--deveria Fanny metter
+no collegio os filhos mais velhos, e ir ter com elle, levando o filho
+mais novo. Fiquei aterrado. Irritou-me a coragem que ella tivera para em
+fim proferir as abominaveis palavras de separação. Dessimulei, porém, as
+angustias que me alanceavam o peito, e deixei só transparecer no
+semblante os traços de dôr profunda. Abracei-a, comprehendi, e exclamei:
+
+«Não será assim, Fanny!--juro que não, por que é arrancarem-me o coração
+o separarem-me de ti.
+
+--Que hei-de eu fazer, meu Deus?--disse ella retorcendo as mãos.
+
+«Amarmo-nos--respondi exaltado, com quanta força temos, e tirar um
+recurso da horrivel necessidade.
+
+--Recurso!...--e eu interrompi-a logo: «Fanny! este momento é solemne;
+não ha que vêr com subtis considerações do mundo e dos ciumes, do
+passado: trata-se de viver ou morrer. Deante de Deus, te dou em penhor a
+minha vida. Queres dar-me a tua? Atirou-se aos meu braços, repetindo:
+
+--Que hei de eu fazer?
+
+«Fugirmos para tão longe que ninguem nos veja mais.
+
+
+XXXVII
+
+Dito isto, cahimos em profundo silencio, Fanny retirou-se lentamente de
+meus braços, poz-me ambas as suas mãos nos hombros, e fixou-me.
+
+Baixei os olhos, receando-lhe a ira. Mas que mal a conhecia eu! O que
+ella me revelou foi piedade sómente. Repartida entre o seu amor, e o
+dever que lhe apontava o logar digno ao pé do chefe de familia, a luctar
+sósinho no exilio para defender seus bens, Fanny deu-me testemunho d'uma
+agonia que não cabe n'alma sem rasga-la. Bem sabia ella que eu devia
+horrivelmente soffrer, pensando no proximo fim de união tão cara; mas
+tambem comprehendia que lhe não era possivel desobedecer á voz que a
+chamava. E isto flagelava-a com uma dôr sem nome. Perder-me e ser ella,
+uma vez ainda, a causa unica de meus infortunios.
+
+--Meus filhos!--exclamou ella em fim, impallidecendo, com uma
+despedaçadora angustia. E pendurava-se-me do pescoço, fitando-me os
+olhos penetrantemente--Meus pobres filhos, tão creanças! Pensas tu
+n'isto? Tu que és bom, e me amas, podes-me exigir que os deixe?
+
+Immediatamente comprehendi pela commoção que me estorcia o animo, que
+quanto d'ahi em diante tentasse seria baldado. A pesar da resistencia,
+senti um surdo protesto subir-me das entranhas em gritos de indignação.
+Eu mesmo, no secreto de minha alma, não queria esse monstruoso abandono
+de mãe, nem mesmo o covarde desamparo d'um marido por sua mulher que
+adorava.
+
+Mas, confessal-o-hei?--não me instigava tanto á lucta o desejo de passar
+a minha vida com aquella mulher, como a idea de fazer cessar a partilha
+execravel. Absolva-me dos males que causei um momento de franqueza! Eu
+senti, abraçando de novo Fanny, que soffria menos com a certeza de a
+perder que com a idéa de que ella ia unir-se ao marido. E, horrorisado
+de mim, dôr nova para ajuntar a tantas, disse comigo mesmo:
+
+«Aqui ha mais ciume que amor.» Entretanto, mais tranquilla, mas sempre
+affavel, Fanny encostara-se ao cotovello e, voltada para mim, discutia
+sósinha. Escutei-a.
+
+«Se eu ousasse... se eu não temesse mortificar-te...
+
+--Falla, que estou de animo assente para ouvir tudo. Já agora, não ha
+nada ahi que possa fazer-me mais desgraçado.
+
+Acariciou-me febrilmente, e disse, quasi desfallecida:
+
+«Pois bem! eu não tenho coragem de arruinal-o. Hoje, o unico recurso
+d'elle está no meu dote.
+
+--É isso só? deixa-lhe tudo o que tens. Não sou eu bastante rico para
+nós ambos?
+
+«Não é isso! não é isso!--disse ella, meneando a cabeça.
+
+Encarei-a. Estava enleada e escolhi vagas palavras com que disfarçar a
+idéa. Continuou, a meia voz, como reprehendendo-se do que ia dizer:
+
+«Como condemnal-o á solidão n'este supremo momento em que elle lucta
+tanto por mim como por elle! Nunca voluntariamente me desgostou. Ama em
+mim a companhia de quinze annos da sua vida, a mãe de seus tres
+filhos...
+
+--Por que o enganaste?--atirei-lhe eu em rosto, no impeto doloroso da
+minha colera; mas, com uma só phrase me esmagou ella:
+
+«Por que te amava!» e com expressão de orgulho que a engrandecia a cima
+de si mesma, accrescentou:--Mas a perfidia não competia a ti
+reprovar-m'a, Roger!
+
+D'esta arte, quantos golpes eu lhe apontava, eram logo rigosamente
+rebatidos; mas, nem assim, eu desistia do ataque. E se nos descobrissem!
+repliquei eu, na certeza de que este golpe era difficil de aparar,
+fitou-me fixamente como receando que a eu denunciasse para a possuir,
+talvez, por esse infame meio.
+
+Depois de olhar-me longo tempo, disse:
+
+«Que desgraçado elle seria!...
+
+Voltei-lhe o rosto, e Fanny concluiu:
+
+«Elle diria com horror de mim: Nem por amor d'estas creancinhas...
+
+Puz-lhe a mão nos labios, e, convulsivo, olhei para ella. Estava coberta
+de lagrimas. Posto que perturbado, não pude deixar de admirar-lhe a
+franqueza nobre que nem, neste lance, me poupava. Estava toda embevecida
+na victima!
+
+«Que faria elle?» murmurei. Fanny, levou as mãos á face, e respondeu com
+voz abafada:
+
+--Talvez me perdoasse...--
+
+E, passados os soluços que lhe embargavam a voz, disse:
+
+--Estamos demasiadamente castigados! Se obedeço ao dever,
+abandonando-te; se não lhe obedeço, deshonro-me. De ambos os lados só
+vejo a desgraça, e faço desgraçados. Infeliz por ti, por elle, por meus
+filhos, por mim propria, nem me resta o recurso da morte para restituir
+a paz a todos! Deus meu, que me has dado o coração, que me não serve
+para consolar os entes que amo, e nem as suas dôres posso incerrar
+n'elle, como thesouros caros!
+
+E, a luz crepuscular na alcôva, sobre as rendas dos flacidos
+travesseiros, enlaçados os braços e unidas as faces assim choravamos...
+Quem acreditaria que, desde muitos dias, se passavam assim todas as
+nossas entrevistas!
+
+
+XXXVIII
+
+Desde este dia funesto entendi que não devia esperar mais nada d'este
+amor, e vivemos na penosa espectativa da decisão de um outro. Mas, como
+se o destino houvesse resolvido não dos poupar em dôr alguma, a solução
+todos os dias esperada, não chegava nunca.
+
+Já as cartas não eram sómente assustadoras para Fanny. Era eu que as
+desejava, e inquiria o contheudo dellas, e fazia ferventes votos pelo
+bom exito d'aquelle que, máo grado meu, não luctava energicamente. Com
+tudo por dar alguma coragem á desgraçada mulher, exaggerava a minha
+confiança, e encomiava a esperteza conhecida, a firmeza de caracter e a
+força de vontade de seu marido. Affirmava-lhe que elle ressarciria os
+seus haveres, obteria justiça, e recobraria o tão merecido socego.
+N'elle se estribavam todas as minha esperanças: pensava n'elle só, e
+tomava apaixonadamente a peito a sua pendencia. A menos esperada ventura
+que eu entrevia em meus vagos sonhos e almejava com o ardor da
+desesperação, era a volta do meu rival, em cujos braços devia cahir a
+mulher que eu adorava!
+
+Se eu podesse coadjuval-o!... dizia eu commigo; mas de que sirvo eu? E
+agora me pezava o inepto pudor que me não deixava entrar n'aquella
+caza--Se eu tivesse menos orgulho, se eu não tivesse querido exaltar-me,
+singularisando-me por uma delicadeza affectada, que, dos meus proprios
+olhos, me não lava da minha acção; se, como fazem tantos nas minhas
+circumstancias, eu me fizesse amigo do homem, cuja mulher roubava,
+resgatando hoje a pequena parte remissivel de meus actos, poderia achar
+algum lenitivo para esta afflicção. Mas eu tivera sempre mais orgulho
+que bom senso. Pungia-me, então, a idéa de que, por falta minha,
+n'aquelle desastre em que cada qual heroicamente desempenhava o seu
+dever, estava eu sendo um ente inutil. Contrapondo á minha consciencia
+taes subtilezas, tão futeis ellas eram, que não me illudiam. Mas, á
+maneira do naufrago que se agarra aos limos fluctuantes, sem esperar
+salvar-se, eu me escorava á minha propria dôr, accuzando-me de faltas
+não commettidas, falsificando meu proceder e sentimentos n'isso mesmo
+que elles tinham de honra, por que eu não sabia que fazer para
+readquirir uns longes de esperança.
+
+
+XXXIX
+
+Fanny visitava-me como visitamos um doente incuravel, e retiramos sempre
+admirados de encontral-o vivo. Palavras de alento não as tinha para m'as
+dizer, que não carecia menos ella de ser consolada. Se eram boas as
+noticias, suspirava; se eram más, chorava. Como ella, um dia
+desenvolvesse em toda a sua horrivel extensão, a pesada cadeia das mais
+secretas miserias que entrevia--atterrada por se não sentir com forças
+para arrastal-a--eu rompi o silencio subitamente, e, com simplicidade,
+lhe offereci todos os meus teres para desempenhar a honra de seu marido,
+que, por derradeiro ludibrio, fôra entregue aos azares do jogo.
+
+Mas, a pesar mesmo deste novo desastre sobreposto ao antigo, e tão
+afflictivo que já fazia esquecer o outro, Fanny foi o que devia ser:
+
+«É desgraçada a nossa situação--me disse ella com severidade
+extraordinaria--Roger! amo-te agora mais do que nunca; mas não sou
+livre; por isso mesmo que te adoro, é que tu és o unico homem de quem
+não posso acceitar nada.
+
+
+XL
+
+A adversidade cansou. As cartas vinham cada vez mais animadoras, e já
+não havia questões de honra, nem de miseria, nem se quer da separação
+que tanto temeramos. Quando muito era só a perda de ametade dos bens que
+podia preoccupar Fanny. Vieram o socego e os risos para ella; mas eu,
+como um miseravel que tem duas chagas a pençar, senti immediatamente
+despertar o ciume, mais ardente que nunca. O marido estava a chegar, e
+esta vinda, d'antes tão desejada, incutia-me agora invencivel horror.
+Dezejei-lhe a morte. Tornei-me sombrio, desconfiado, interrogador.
+Recomeçaram as nossas luctas.
+
+
+XLI
+
+Nunca me viera a idea de romper com Fanny; mas travados outra vez em
+guerra, de repente me appareceu, fulgurante como um relampago. E eu
+senti entrar com ella em meu coração a suave caricia da esperança. Mas
+esta esperança, ai! não durou mais que um segundo. Máo grado meu,
+tremulo de horror, dei-me pressa em repulsar a idea do meu resgate.
+
+
+XLII
+
+Depois de uma discussão em que, mais uma vez, eu expozera aos olhos
+d'ella as minhas angustias, Fanny veio de moto proprio a devassar d'um
+pensamento que eu não ousara nunca deixar-lhe vêr.
+
+--Não fui esperta--disse ella. Eu devia fingir-te a minha vida. Por
+muito improvavel que fosse o que eu te contasse, tu acreditarias tudo,
+por que iria no acredital-o o teu interesse. Não fui esperta, mas é que
+eu nunca soube mentir.
+
+Esta confissão foi para mim uma subita revelação, suppuz logo que ella á
+semelhança d'outras mulheres, orgulhosa de ser feliz, escondia
+vaidosamente a um tempo, vicios e dôres, e, desgraçada, queria que a
+suppozessem feliz. Esta suspeita inquietou-me oito dias; mas a esperança
+que me ella gerava no coração não podia durar. Instei Fanny,
+facilitando-lhe recursos para desmentir-se e patentear-me tudo de sua
+vida. Admirando-se de eu duvidar d'ella, Fanny confirmou glacialmente o
+que me havia dito e tornou-me á desesperação.
+
+
+XLIII
+
+Approximava-se, n'esta conjunctura, o praso que o marido designara para
+voltar. Parecia-me que devia ser esse o dia da nossa separação, e da
+morte para mim. A idea da partilha enojava-me. Resolvi cem vezes
+explicar-me com Fanny á cerca d'este assumpto horrivel, mas não me
+attrevia. Havia n'ella uma especie de renascimento: nunca a vira tão
+terna e submissa. Ao mesmo tempo deu em ser muito expansiva. Nos ultimos
+tempos, coisas insignificantes tocantes á sua vida intima, andavam
+sempre em nossas praticas; d'ahi vinha o continuar ella agora a
+fallar-me dos minimos incidentes da sua vida. É o que devia, mais tarde
+collocar-nos face a face, na attitude ameaçadora de dois inimigos.
+
+Não sei como se deu, nem qual de nós foi causa da scena atroz que
+sobreveio; lembra-me só que Fanny estava já para sair, e ambos nós em
+pé. Acabava ella de apertar as fitas do chapéo, deante do espelho do
+fogão, ao qual eu me encostava; já tinha o chale nos hombros, e buscando
+com os olhos o lenço, que pozera sobre uma meza, acabava de abotoar as
+luvas. Assim, continuavamos em termos meio affectuosos e familiares uma
+contenda que intendia com ella e com o marido. Estavamos ambos serenos
+quando lhe aconteceu proferir uma palavra que me gelou o sangue nas
+veias:
+
+--Eu mentiria, se dissesse que não tinha affeição a meu marido.
+
+Logo que reflectiu na crueza d'essas palavras, tão imprudentes como
+inuteis, arrependeu-se de as ter dito. Sem accrescental-as, nem
+desmentil-as, acercou-se de mim, affastou o chale para me cingir o
+pescoço com o braço, amimou-me o rosto com a mão livre, e alteou-se nas
+pontas dos pés para abraçar-me.
+
+Era carinhoso o olhar, que exorava perdão á crueldade da bôca. Forcei-a
+lentamente a desprender-se-me do peito, e disse-lhe severamente:
+
+«Vós outras, as mulheres, não tendes delicadeza alguma no coração.»
+
+«Córou, fez-se mais meiga, mais insinuante, e quiz outra vez abraçar-me.
+
+Puz-lhe a mão no hombro e affastei-a: dizendo-lhe, tremulo de furor:
+
+--Ha dias que me falla em seu marido, incarecendo-o muito. Esquece-se de
+que não é elle agora o mais digno de lastima?
+
+Apertou-me inergicamente a mão, em quanto com os labios cerrados, á
+mingua de palavras, me fitava com ternura supplicante.
+
+Mas a colera recrudescia a proporção que Fanny denunciava
+arrependimento. Continuei:
+
+«É justo que o ame, por isso mesmo que a sua estima se lhe deve com
+preferencia a tudo.
+
+Conheceu Fanny que não poderia apaziguar-me. Não sabendo que mais fazer,
+deixou passar aquella phraze de interpretação doble, desdeu os laços das
+fitas do chapeo, pousou o chapéo e o chale sobre a cama, e assentou-se
+n'uma poltrona defronte de mim. Com o cotovelo esquerdo apoiado no braço
+da cadeira, a face na palma da mão, os olhares ondulantes, assim ficou
+na sua habitual posição. Mais que nunca linda, com aquelles braços
+maravilhosos, cuja alvura assombrada de pennugem destacava da seda negra
+do vestido; com as grandes luvas de pelle da Suecia que lhe cobriam os
+pulsos; com o collo flexivel e inclinado; e côr pallida; e os cabellos
+louros voluptuosamente annelados sobre a fronte pura: era a semelhança
+de algum bello retrato de Rubens. Por de sob a fimbria do vestido,
+sahiam os pequenos pés reunidos e assentes no chão. Nas escuras dobras
+da seda envolvia-se o braço direito, cuja mão, meio fechada, permanecia
+immovel como se fôra de marmore.
+
+
+XLIV
+
+Quando o publico soube o desastre do marido de Fanny, soubera eu que em
+Pariz circulavam boatos deshonrosos para elle. De ser rico e altivo
+grangeou muitos inimigos. Deviam de ser calumniosos os ditos que sahiam
+de bôcas invejosas. Não os desmenti por prudencia, mas fiz nota d'elles.
+Bem sabia eu que um dia me serviria d'elles para vingar-me.
+
+Esperava eu, exasperado pelo furor, que uma palavra, provocando-me de
+novo, me desculpasse a crueldade. Ella, porém, de astucia não fallava,
+adivinhando que eu interpretaria á feição de minha raiva tudo que me
+dissesse. Assim ficamos ambos immoveis, callados, ella, esperando o
+golpe final, eu reunindo as minhas forças todas para descarregal-o.
+
+Decidi-me em fim: e, com uma só phraze cortante como gume de espada,
+attacando o mais sagrado da honra do meu rival, repeti as infamias em
+que eu não cria.
+
+A resposta foi prompta e terrivel. Isso é indigno!--exclamou ella
+erguendo-se hallucinada, escarlate, com uma expressão de colera e
+indignação que me assombrou.
+
+Não quero que se rosse na honra do chefe de familia! Não quero que se
+deshonre aquelle cujo nome eu trago! Por isso que o trahi; por isso que
+conspurquei a parte de sua honra que elle me confia, é que eu prohibo
+que se ultraje a outra... e principalmente ao snr!... Envergonhe-se!...
+Se acreditou essas calumnias, competia-lhe defendel-as commigo, pois foi
+commigo que...
+
+Interrompeu-se. Eu immudeci, e ella proseguiu: Fallou-me ahi na
+indelicadeza de coração das mulheres; e eu fallarei do orgulho dos
+homens. Não é só do amor das mulheres que carecem para estrado... Querem
+tudo o que ellas prezam, tudo o que respeitam: estima do mundo, familia,
+filhos, repouso, e até a honra de seus maridos. Tudo lhes é mister para
+desvirtuar e rediculisar essa honra. Estou de mais castigada por ter
+crido que podia impunemente amal-o! Fui prudente; e por isso não é meu
+marido ultrajado que castiga a minha culpa; mas--castigo mil vezes mais
+cruel--é o meu amor. Mereço esta pena... e é o snr. que me pune!
+
+Continuei callado: e ella, com a boca a trasbordar sarcasmos, proseguiu:
+
+É como todos! O que ahi ha é orgulho. Não sabe amar!
+
+Desta vez, respondi turvado:
+
+«Não sou desculpavel por aggredil-o?
+
+--Aggrida-o como homem. Não tem tantas causas para o fazer?
+
+«Por Deus que o farei!
+
+Furioso, com os olhos injectados de sangue, os dentes cerrados, avancei
+para Fanny, mas ella suspendeu-me a tres passos com um olhar glacial que
+eu nunca lhe vira. Depois vagarosamente embrulhando-se no chale, da
+cabeça aos pés, como a sacerdotiza antiga, sombria, feroz, desesperada,
+deixou cair sobre mim outro relancear de olhos despresador, e sahiu.
+
+
+XLV
+
+Que farei para apasigual-a?--Tal foi a ignobil pergunta que eu me fiz,
+ao amanhecer do dia seguinte.
+
+Escrevi-lhe uma longa carta tão submissa que não pude revêl-a sem pejo.
+Rasguei esta carta, comecei outra, mas tão acerba de estylo que devia
+exasperar quem eu queria commover. Não a conclui, e andei uma hora a
+passear phreneticamente em todas as direcções no meu quarto. Primeiro
+tive ideias de rompimento immediato; depois desvaneceram-se. Rebentou em
+chamas o furor e o ciume; depois apagaram-se. Por fim, comprehendi que o
+procedimento a que eu quizera impellir Fanny, era um crime, o qual,
+consumando irremediavelmente a desgraça d'uma familia inteira, devia
+tornar-nos desgraçados para sempre. Era-me pavoroso pensar que, a ter-me
+ella attendido, durante a nossa existencia toda, viriam interpor-se
+entre ella e mim as imagens de seus filhos abandonados.
+
+Mas ao mesmo tempo escasseava-me força para o resgate. Affizera-me ás
+minhas dôres, e não ousava trocal-as por dôres desconhecidas. É preciso
+ter sido, como eu fui, o tudo nas ternuras e affeições d'uma mulher, o
+coração que incessantemente regia os movimentos d'outro coração, para
+poder comprehender os horrores da solidão que segue um rompimento. Eu
+delirava de raiva e dôr. Por fim, commovi-me, erguendo os olhos para o
+retrato de Fanny.
+
+--Que mal me fez ella?--dizia eu. Chorei; e, indeciso, vesti-me, e sahi.
+
+
+XLVI
+
+Seriam oito horas. O calor dos ultimos dias d'agosto purpureava o céo
+carregado. As trevas, semelhantes a mortalhas espargidas, desciam com a
+nevoa opaca atravez das arvores da grande avenida dos campos-Elyseos. Os
+passageiros davam-se pressa para fugir á tempestade que trovejava
+surdamente ao longe. As estrellas brilhantes das lanternas, aqui e além,
+corriam, cruzavam-se e desappareciam. Nuvens de pó sacudido pelo vento
+subiam diante de mim e toldavam o espaço. A meio-caminho, quasi entre
+_Rond-Point_ e o «Arco do triumpho» parei.
+
+Era alli. Encostei-me a um tronco de arvore, levantei o rosto, e olhei.
+A meus pés era a passagem das carruagens que vão do portal á avenida.
+Sobre a porta estavam abertas as quatro janellas da sala. Uma só
+lampada, por certo, illuminava o recinto, por que a claridade que
+translusia dos vidros escassamente brilhava como um clarão duvidoso.
+Nenhuma sombra passava entre a lampada e os vidros. A casa está
+vasia--pensei eu--e todavia Fanny não está em _Chaville_ por que a sala
+tem luzes.
+
+Estalou, neste momento, mais forte a trovoada.
+
+Relampaguearam os coriscos. Um bulcão rugiu na ramagem dos alamos da
+avenida, remoinhando turbilhões de folhas e terra. Então vi uma sombra
+de homem chegar á ultima janella, e fechal-a. As outras tres fecharam-as
+mais tarde. Depois, a froixa claridade que alumiava a sala bateu nas
+vidraças mais tensa e viva: havia-se accendido uma segunda lampada.
+
+E depois, mais nada. A avenida deserta, a tempestade no céo de todo
+negro, eu em pé debaixo da minha arvore, e a sala vasia com as quatro
+janellas lusentes. Soaram onze horas no relogio d'uma egreja visinha.
+
+De repente, o estrepito de rodas acceleradas, mordendo a areia, passou
+ao pé de mim. Eu dera, sem saber porque, alguns passos authomaticos.
+
+--Arreda! Arreda! gritou uma voz irritada. Saltei para a margem da
+estrada. Um _coupé_ vasio passou bamboando sobre o eixo, effeito dos
+sacões; depois uma grande carroça de viagem tirada por quatro cavallos,
+voltou de repente sobre si mesmo, ao tempo que se abriam os dois
+batentes da porta-cocheira. Remirei a carroça com assombro. Ao fundo
+estava um homem, que eu bem conheci--era elle. Ao seu lado uma mulher
+que lhe fallava: era Fanny. Entre elles, sobre os joelhos, e nos braços,
+tres meninos de cabellos louros. Foi uma visão rapida. Não sei se me
+viram. A carroça desappareceu por debaixo do arco do portal, e logo os
+dois pezados batentes rodaram nos gonzos, e bateram entre si com
+estrondo lugubre e cavernoso.
+
+Acabava eu pois de me arredar para dar passagem ao meu rival que entrava
+como senhor em sua casa.
+
+
+XLVII
+
+Por que me não esmagou elle com as suas rodas?--exclamei, com a morte na
+alma, retirando-me, e caminhando ao acaso como um ebrio.
+
+Passava uma sege de praça; entrei--onde quer ir?--diz o boleeiro,
+embrulhando-se no seu capote--onde quizeres, ao Bosque, onde quizeres. E
+senti-me arrebatado d'aquelle sitio funesto.
+
+A chuva escorria sobre as vidraças corridas. Encolhido n'um angulo da
+sege, com os braços cruzados, e a face encostada á almofada, vi de lado,
+ao clarão dos relampagos, estorcerem-se as arvores atormentadas pelos
+furacões. A intervallos, resalteavam no ar as astilhas dos coriscos. E
+eu dizia: Esta tormenta não os aterrará? Não sei que tempo passei
+blasphemando, rasgando o peito com as unhas, chorando, dentro dessa sege
+que corria atravez das arvores do bosque, ao clarão avermelhado dos
+relampagos. Sentia-me abafar. Desci os vidros e a chuva batia-me na cara
+e nas mãos. Encostei-me ao rebordo da portinhola, com a face deitada nos
+braços. Tomou-me uma sensação horrivel de frio. Tinha febre. «Quer que
+recolhamos?» dizia de espaço a espaço o boleeiro cançado.
+
+--Quero--disse eu, fatigado já tambem.
+
+
+XLVIII
+
+Nascia a aurora lagrimosa no mal enchoto céo, quando, erguendo a face,
+reconheci uma casa á margem da estrada. Era a della. Todas as portadas
+da janella estavam fechadas, e as luzes extinctas. Apenas um clarão
+avermelhado excessivamente mortiço, semelhante ao que sahe d'uma
+lamparina, brilhava como um ponto entre duas taboinhas de persiana, na
+ultima janella da direita, em uma alcova lateral ao salão. Debrucei-me
+longo tempo sobre o apoio da portinhola para enxergar o ponto vermelho e
+expirante. Mas não chorava já. Ia tranquillo, de gelo, prostrado de
+fadiga.--Dormirá ella agora?--me dizia eu.
+
+
+XLIX
+
+Os primeiros dias, que seguiram esta noite horrivel, passei-os n'um
+estado de stupor de que não havia arrancar-me. Esperava não sei que, que
+devia terminar-me a vida e os males.--Isto não póde acabar assim!--dizia
+eu. Vinte vezes ao dia, pedia a minha correspondencia mas nem se quer
+abria as cartas que o meu creado me trazia. Bastava-me vêr a lettra dos
+sobre-escriptos. De Fanny não vinha alguma. Affigurava-se-me que ella
+tinha morrido. Isto amedrontava-me. Cheguei a duvidar da minha rasão.
+
+Ao oitavo dia, depois da nossa ultima entrevista, tive um presentimento
+de que ia vêl-a. Preparei tudo o que queria dizer-lhe. Senti-me vencido.
+Queria pedir-lhe perdão; declarar-lhe que estava prompto a submetter-me;
+queria supplicar-lhe alguma piedade para os meus padecimentos. Esperei-a
+em vão até noite fechada, contando as horas nas pulsações alternadamente
+precipitadas e desfallecidas do meu pulso. Não veio. Não escreveu.
+Ninguem me deu um instante de esperança fazendo vibrar a campainha da
+minha porta.
+
+Ao anoitecer, sahi na direcção da casa d'ella. Chegando á alameda fiquei
+surprehendido, vendo tudo fechado. A ideia de Fanny ter ido para longe,
+tão longe que eu não podesse vêl-a mais, atravessou-me o cerebro como um
+dardo. Com horrivel angustia, mas affoitamente, como um covarde, a cuja
+cabeça subiram as fumaças da bravura, bati á porta e perguntei ao creado
+se a senhora estava em casa. Eu estava pallido e tremulo; mas elle não
+deu fé.--A senhora está no campo--respondeu, «Onde? em Chaville?»--sim,
+senhor.
+
+Fui encostar-me a uma arvore por que me sentia desmaiar.
+
+Ao cabo de alguns minutos decedi-me a ir para casa. Era meia consolação
+saber que Fanny estava ausente. Comprehendi, emfim, o motivo que lhe
+estorvara a vinda; mas não comprehendi por que me não escrevera durante
+oito dias. Eu deveria suppor tambem que ella esperaria carta minha; mas
+havia ainda muito egoismo no meu despeito.
+
+--Quem sabe se ella me espera lá--dizia eu para consolar-me.
+
+Apenas esta ideia se me abriu no espirito que um desejo imperioso de vêr
+Fanny, á custa de tudo, e logo, me assaltou. Estava então perto de casa.
+Entrei rapido e pedi o meu cavallo. Ajudei mesmo o creado a
+apparelhal-o. E lancei-me ao caminho, cheio de esperança, com as esporas
+cravadas nas ilhas sacudindo as redeas, á desfilada, enlameando
+passageiros, sem mandar arredar ninguem.
+
+Tanto corri que receei ter-me desencaminhado, e não conheci a casa de
+Fanny, que estava em frente de mim, vagamente alumiada, debaixo das
+agigantadas arvores. Mas, alçando-me sobre os estribos, para olhar por
+cima do muro conheci o pavilhão. Apeei, e entrei no bosque para prender
+o cavallo a uma arvore. Depois, retrocedi, e vi com surpreza que a
+graderia do jardim estava aberta. Um creado de farda estava á porta. Ao
+cabo da aléa, no cunhal da casa, vi brilhar as duas lanternas d'uma sege
+immovel.
+
+A meio caminho entre a casa e a grade, um pouco á esquerda, no centro de
+um amplo taboleiro de relva, os vidros coloridos do pavilhão fulguravam
+aos raios d'um candieiro posto no interior.
+
+--Que segnifica tudo isto?--perguntei eu, caminhando ao longe do muro
+para encontrar a brecha por onde eu passára duas vezes. Mas apenas puz o
+pé no jardim, fiquei como pregado no chão. Estava ouvindo imprecações e
+soluços; do pavilhão, a vinte passos de mim, é que elles sahiam.
+
+Cobriu-me o corpo todo um suor frio. Eu tremia como a folhagem dos
+arbustos, sob as quaes me escondera.
+
+Neste momento, a sege correu a grande trote dos cavallos para a grade;
+de certo o cocheiro obedeceu a um chamamento que eu não tinha ouvido. Ao
+chegar defronte de mim, parou, e o creado da almofada abriu a
+portinhola. Tinham cessado os gritos e os soluços. Sahiu um homem do
+pavilhão, e fechou-se a porta. Reconheci-o. Que outro poderia ser?
+Assentou-se nos coxins, o creado subiu para a almofada, o cocheiro picou
+os cavallos, a sege passou a grade, rodou sobre a calçada sonora, e a
+grade foi fechada pelo creado de farda que estava ao pé.
+
+Logo que este homem, caminhando para casa, se sumiu entre o arvoredo,
+avancei precipitadamente, sem precauções. Antes, porém, de levantar o
+trinco da porta, examinei atravez dos vidros. No centro do pavilhão
+estava uma meza redonda, com um candieiro em cima. Em toda a roda corria
+um amplo divan; e deitada sobre este divan, vi uma mulher chorando, com
+a face entre as mãos, dando soluços de rasgar o coração, era ella!
+Fanny! ella! Entrei precipitadamente abri-lhe os braços, e lancei-me de
+joelhos a seus pés.
+
+Mal me havia reconhecido, quando expediu um grito lacerante, apertou-me
+a cabeça entre os braços, e abafou-me contra o seio. Eu não podia fallar
+nem respirar. Fanny beijava-me os cabellos, desgrenhava-os com a face,
+mordia-os para suffocar os gritos; depois ergueu-me a cabeça e eu senti
+cahirem-me lagrimas nas faces, em quanto os seus labios frementes se
+agitavam sobre os meus vertiginosamente, e suas mãos palpitavam por
+sobre meus hombros, face, pescoço, em phrenetica inquietação.
+Finalmente, cahindo desfallecida e quebrada de dôr tirou por mim, e
+arrastou-me na quéda sobre o divan. Ergui-me. A partida do marido, e as
+lagrimas d'ella, eram-me coisas incomprehensiveis. Entretanto, fiz
+quanto pude por chamal-a á vida. O candeeiro, cahindo, apagara-se.
+Caminhei para Fanny ás apalpadellas, arranquei-lhe os colchetes do
+vestido, e tirei-lhe a pedaços o colete. Depois, á força de caricias,
+rogos e orações, aquecendo-lhe as mãos com as minhas, e bafejando-a com
+o meu halito ardente, consegui reanimal-a. Soltou um longo suspiro, e
+ergueu-se amparada nos meus braços, e parecia reflectir. Torrentes de
+lagrimas lhe rebentaram dos olhos, e lançou-se a mim com tanto amor, e
+com ar de tanta piedade, que eu, a soluçar tambem, a comprimi ao peito.
+
+--Oh! Roger! meu Roger--exclamou Fanny com a voz entrecortada--se
+soubesses que desgraçada eu sou! Consola-me. Ama-me. Soccorre-me. Oh!
+que bem me faz o chorar sobre o teu coração... Meu querido Roger!
+
+Os soluços embargaram-lhe as palavras. Instei com ella que se
+explicasse. Eu não sabia ainda que dôr podia ser esta, que rompia em
+gritos de indignação.
+
+--Teu marido sabe tudo, sim? disse-lhe eu. Fanny fez um meneio de cabeça
+negativo, e respondeu:
+
+«Não, não é isso; mas ha um anno que te minto. Eu sou a mais desgraçada,
+a mais humilhada, a mais insultada das mulheres. A escoria, o opprobrio,
+as infimas mulheres não são mais desgraçadas que eu!
+
+A este grito, que lhe fugia do peito não tinha eu que oppor. Fiquei
+estupido e estupefacto. Não achava palavra que lhe dissesse. O que eu
+fazia era abraçar convulsamente a lagrimosa mulher. Subito, um raio de
+luminosa previdencia me esclareceu o espirito.--Se não aproveito esta
+occasião para confessal-a, nunca saberei nada--dizia eu commigo.
+Tranquilla deste lance, nunca mais fallará.
+
+Era judiciosa esta idéa. Fiz bem escutar-lhe a inspiração. Empenhei,
+pois, toda a minha eloquencia para tirar desta pobre mulher o segredo,
+que por tão largo tempo, me havia occultado. Instei, animei-a,
+interroguei-a, mostrando-me consternado por sua dôr. Entrei, pois, no
+segredo d'uma deploravel historia, não d'uma vez, mas arrancando-lh'a a
+promenores, a pedaços, por que a sua exaltação, deixando-se ir até dizer
+tudo, era intervallada de reticencias nos mais delicados pontos da
+narrativa.
+
+Fez-se luz então para mim tudo o que houvera escuro e incomprehensivel
+na sua vida e proceder.
+
+
+L
+
+O marido de Fanny não era o homem fastidiosamente bom que eu cuidava.
+Era um terrivel déspota. Mulher, amigos, creados, todos se acurvavam aos
+seus caprichos e obedeciam passivamente ás exigencias do caracter
+d'elle. Por zêlos, não é que elle opprimia a mulher, senão que por
+indomavel espirito de vontade. Em sua casa havia uma unica pessoa que
+dava regra e á qual deviam amoldar-se habilmente as de mais. Não se
+tinha em conta de mero homem; dava-se ares d'uma especie de sol que
+allumiava; aquecia, e communicava vida a tudo que o rodeava.
+
+Pelo que, logo que viu sua mulher, aconselhada por mim, desviar-se
+insensivelmente da norma de vida que elle traçara, ficou primeiro, como
+pasmado; mas, com um carregar de sobr'olho, fez que Fanny entrasse
+immediatamente na ordem. Todavia, não lhe deu canceira averiguar o por
+quê d'aquella timorata tentativa de emancipação. A seu vêr, toda a
+mulher era ente chimerico, dirigido por machinismo incomprehensivel, que
+não merece analyse séria. Nem elle tinha arrebatado Fanny, nem a tinha
+esposado por amor. Não. Seduzira-a por que era formosa, e elle queria
+que uma mulher formosa fizesse as honras de sua casa. Raptou-a porque
+lh'a negaram. Esposara-a porque era rica, e elle pobre, e, de mais,
+queria, a um tempo, enriquecer-se e propagar-se.
+
+E, como a visse submissa, todo elle era disvelos. Era-lhe ponto de honra
+gastar cada anno, com sua mulher dobrado do rendimento do dote, e a
+miudo a presenteava com ricas dadivas para ostentar sua liberalidade.
+Sentia por ella, em summa, alguma coisa d'aquella rudeza attenciosa que
+tem os cavalleiros arabes pelos seus cavallos de fina raça. Usam elles
+mesmos arraçoal-os com uma das mãos, tendo na outra o chicote prompto a
+castigar o menor desmancho.
+
+Por largo tempo, Fanny, subjugada por aquella vontade superior,
+docilmente se sugeitou. Pensou, executou, viveu por elle. Á força de
+paciencia, obteve, por fim, de seu senhor uma apparencia de liberdade.
+Alguns mancebos--segundo me pareceu--approveitaram isso para cortejarem
+franca e assiduamente a bella mulher cujo ar de tranquillidade inculcava
+um longo habito de rebellião interior, e de dôres inexpansivas. D'isso,
+porém, o marido nem se quer suspeitou. Sómente o accaso lhe trouxera ás
+mãos uma carta de comprometter. A scena immediata a este descobrimento
+foi terrivel. Não se deram, com tudo, gritos, insultos, nem brutalidades
+degradantes; nem duelo, nem explicações, nem separação forçada dos dois
+imprudentes, que teriam castigado irremissivelmente o orgulho do esposo,
+mesmo quando o vingavam. O intelligente marido o que fez foi declarar a
+sua espoza que guardava a carta. E, desde então, cada vez que a via
+inclinada a emancipar-se, servia-se da tal carta para a fazer tremer e
+submetter-se. Um quarto de papel tornou-se nas mãos deste homem um
+punhal com que elle espicaçava a mulher para fazel-a andar deante
+d'elle.
+
+Era, pois, um vilissimo homem? Não: era simplesmente orgulhosissimo.
+Ainda que aquella carta preciosa fosse mil vezes mais explicita, o
+marido não lhe daria credito. Em quanto a elle, aquillo, quando muito,
+era a prova d'uma creancice perigosa que, astutamente explorada, poderia
+degenerar em apparencias de crime. Mas no crime é que elle nunca
+acreditou. E acreditar, como? Era impossivel, pela simples razão de que
+sua mulher não podia mostrar-se criminosa para com elle. E não podia por
+que era sua mulher. E não podia, por que elle... era ELLE. Por tanto,
+censurando um pouco essa creancice humilhante, não se mostrava inquieto
+nem menos feliz. E continuou a amar a mulher, a seu modo, com aquelle
+seu coração de ferro. Depois de quinze annos de casado, vinham ainda ás
+vezes uns dias em que elle era todo amores com ella.
+
+A arma, porém, continuava a ser arma em suas mãos, e sempre com
+serventia. Primeiro, graças á carta, obteve de Fanny que não fallasse
+mais com sua mãe, que elle detestava, por que o não quizera de bôa
+vontade acceitar por genro. Depois, exigiu que fizesse crear os filhos
+em peitos alheios, sob pretexto que os cuidados maternaes lhe
+desbotariam o gosto dos prazeres da sociedade. Depois, sem consultal-a,
+e sem visivel utilidade, vendeu o castello onde ella nascera, onde
+passara a infancia, e o parque onde estavam sepultados seu pai e seus
+dois irmãos. Finalmente, graças á prestimosa carta, não havia repressões
+que não lhe ordenasse, vexações que não lhe impozesse mas sem maldade,
+mas prodigalisando-lhe sempre obsequios e cortezias, principalmente em
+publico. E a vida de Fanny tornou-se um inferno no qual um implacavel
+demonio a torturava com uma mão, e acariciava com outra.
+
+Quando, porém, Fanny resistia a exigencias graves, ou a ultrages brutaes
+á delicadeza d'ella, é que o marido rompia em transportes inauditos.
+Nesse caso, perdia a consciencia de si proprio, mas por uma hora
+sómente. Deixava de ser o homem urbanamente desdenhoso que trazia na
+cara os mais exquisitos matizes da superioridade de caracter, e cujo ar
+affavel e franco, parecia dizer a todo o mundo: «Vede que não ha que
+temer de mim.» Transfigurava-se em leão que a natureza amassara com as
+suas mãos callosas, e que a educação desbastara apenas. Hirtavam-se-lhe
+como crina os cabellos. Flammejavam-lhe os olhos como reflexos d'oiro
+fundido. As ventas dilatadas assopravam um halito ardente. A boca
+contrahida abria-se, e mostrava dentes admiraveis, como se ameaçassem
+dentadas. Crispavam-se-lhe os punhos cerrados. Era medonho. Havia um
+insulto que não deixava nunca de esbofetear a victima. A carta dava
+sempre o pretexto. E era sempre o mesmo insulto, a mesma palavra infame
+que a marcava na fronte como ferro em braza, e que a rebaixava--como
+ella dizia--á ultima escaleira de todas as mulheres.
+
+Mas a sorte, que não tem compromissos com as paixões e os caracteres,
+obstinava-se por vezes a brigar com este athleta. Feriam-no successos
+imprevistos: obstaculos estranhos sahiam a empecer-lhe os passos. Então
+era sublime! Não blasphemava, não injuriava a sorte, por que sabia que
+era inutil; mas arcava com os successos e obstaculos, e luctava
+silenciosamente, friamente, pacientemente. Por custume, dominava a
+sorte. Quando lhe correram risco os bens da fortuna, á força de audacia,
+conseguio resarcir a melhor parte, abandonando a outra, como um favor
+irrisorio aos credores, seus emulos. Outro qualquer, no logar d'elle,
+esmoreceria, que vontade como a sua não havia quem a tivesse. Mas um
+exito mediocre não bastava a este homem, insaciavel de exitos
+estrondosos. Decidira safar o seu navio de entre os escolhos onde fôra a
+pique. Queria salvar tudo, carregação, apparelhos, e até o lastro.
+Jurára de não ceder ao oceano, um prego só. Eil-o ahi, que, descançando,
+na meditação de oito dias, dos seus primeiros trabalhos, reapparece no
+sitio do naufragio mais azafamado, mais resolvido, que na primeira vez.
+Esta partida subita cauzara a ignobil disputa de que eu fôra
+involuntaria testemunha.
+
+
+LI
+
+Parece que, ao jantar, em poucas palavras annunciara elle os seus
+projectos a Fanny. Mostrara-se tranquillo, meditativo, quasi affectuoso.
+Gracejou com Fanny sobre o seu ar melancolico, motivado pela vida
+absurda do campo. Brincou com os filhos. Foi polido, como sempre, com os
+creados que o serviam. Ao pospasto, levantou-se, pedio um charuto,
+accendeu-o, e dirigiu-se ao pavilhão, com Fanny sobraçada, dizendo-lhe
+frioleiras com geito amavel. Como os filhos os seguissem, brincando na
+relva, foi ter com elles, abraçou-os, despediu-os, e pediu-lhes
+affectuosamente que fossem brincar mais longe. Depois, assentou-se no
+divan do pavilhão, cuja porta estava aberta, fumando o charuto, e
+bebendo, o seu café aos golinhos. Ao cerrar da noite, veio o escudeiro
+com a luz. Pediu-lhe que mandasse pôr os cavallos á carruagem. Até ahi
+dissera sómente frivolidades com ar festivo; mas, retirado o escudeiro,
+ergueu-se a fechar a porta, tirou tranquillamente do bolso um papel
+sellado, e disse a sua mulher:
+
+«Minha querida, escreve a tua assignatura ao lado da minha no fundo
+d'esta folha de papel.
+
+Fanny pegou da penna que elle lhe offerecia, mas, antes de escrever,
+disse-lhe:
+
+--Que são estes engrimanços que eu assigno?
+
+«Não é mais que um instrumento de doação reciproca de todos os nossos
+bens.
+
+Fanny depoz a penna sobre a meza, e perguntou-lhe mansamente algumas
+explicações sobre o uso que elle ia fazer d'aquillo. O homem avincou a
+testa, e annunciou-lhe que, por algum tempo, ia «reassumir o negocio, e
+carecia de muito dinheiro.»
+
+--Não somos nós já bastante ricos?--disse Fanny.
+
+«Não.
+
+--Então vai ser exposto o meu dote?
+
+A esta pergunta, encarou-a carrancudo, e respondeu provocante e
+glacialmente:
+
+«Sim.
+
+--Então não assigno--disse ella como atterrada da sua coragem--porque
+não quero expor os bens de nossos filhos.
+
+Foi então que estalou a borrasca. Foi curta, mas pavorosa. Vendo-se
+contrariado por uma impossibilidade, o déspota rugiu de furor. Pela
+primeira vez em a sua vida, travou do braço da esposa, apertando-lho
+para obrigal-a a assignar, e pizou-lh'o. Fanny supportou, não respondeu,
+nem chorou. Cumularam-se sobre ella desprezos, incriminações, injurias,
+todos os insultos e vilanias compendiadas pela recordação das passadas.
+Veio tambem a affronta suprema, a palavra fatal, estalar na lingua do
+insultador. Ahi é que Fanny chorou, soluçou e decidiu-se a assignar.
+Serenou logo o marido: agradeceu, e quiz beijar-lhe a mão; ella, porém,
+mostrando-lhe o braço contuzo, disse:
+
+--Não é por isto, Deus me é testemunha, que eu o desprezo; é pela
+covardia do insulto. Dito isto, elle pediu perdão por de mais,
+chamou-lhe creança e má cabeça, abraçou-a por força, chamou o cocheiro e
+partiu.
+
+
+LII
+
+Logo que Fanny, cedendo ás minhas instancias, me contou aquelles
+extraordinarios successos,--não ordenados como os eu repito, mas em
+fragmentos incoherentes, misturados de raptos de rancor;--logo que eu
+nada tive que indagar, e que ella immudeceu por não ter nada que
+contasse, ficamos algum tempo a contemplar-nos silenciosos, á luz tibia
+das estrellas, com spasmo temeroso. Alguma coisa formidavel se estava
+erguendo entre nós modificando estranhamente a nossa situação.
+
+Eu não pude, ainda assim, entrar logo na averiguação dos factos que,
+forçosamente, deviam derivar d'aquella surprehendente confissão. Eu,
+vendo Fanny ainda pallida, descompostos os cabellos, e tremula, só
+pensava na sua humilhação.--É pois desgraçada!--disse eu no intimo da
+minha alma. Tirei-a a mim suavemente pelo colo, busquei-lhe os labios, e
+abriguei-a nos meus braços com o ardor da esperança e da piedade.
+
+Oh! como foi longo, estreito e desesperado aquelle abraço! Com elle se
+esposaram nossas almas, e ali sentimos o que ha de piedade na mudez
+d'aquelle apertar, de consolações nos suspiros, e que sympathia
+reflorece da mixtão das lagrimas! Éramos sósinhos, silenciosos, n'uma
+vaga escuridão, adornada pelo tibio alumiar de noite de estio. O
+desalinho dos vestidos de Fanny, o cansaço de chorar que a retinha
+deitada nos meus braços, o pejo d'uma confissão, que, posto que lhe
+desse alivio á alma, lhe opprimia o orgulho pela primeira vez; a
+felicidade de nos revermos mais amantes, mais alliançados que nunca,
+após uma scena terrivel que devia desligar-nos: isso tudo insinuava-nos
+não sei que desaffôgo de expansão reciproca, mesclada de amargura e
+dulcificação. Emquanto meus labios lhe rossavam de leve os longos
+cabellos desannelados, surprehendia-lhe no coração a velocidade de
+movimentos que se me figuravam surdas expressões de cólera. O
+arrepender-se de ter defendido por tanto tempo e nobremente, contra os
+meus ataques, aquelle que lhe era um jugo na vida, arrancava-lhe gritos
+de uma ironia implacavel. A irritação do insulto, e a indignação do
+aviltamento immerecido, apertava-lhe os braços em volta do meu pescoço
+mais energicamente do que nunca o fizera o amor. Ao mesmo tempo, o pesar
+de ter flagellado o amante, cuja só presença lhe estava sendo a mais
+terna das consolações, como a mais rapida e segura das vinganças,
+inspirava-lhe a submissão e a supplica. A lembrança do meu rival,
+presente a nós, ajuntava uma acrimonia angustiosa aos beijos d'ella, e
+uma dôr infinita ás minhas caricias; e n'aquelle instante ao menos, em
+que, sem fallar, trocamos tantas sensações e idéas bem comprehensiveis,
+Fanny, estava emfim, na minha idealidade, absolutamente, e para sempre,
+tão ligada a mim quanto apartada d'elle.
+
+
+LIII
+
+Quando recobramos a palavra, o furor, reconcentrado em mim, fez subita
+explosão.
+
+Fanny ficou estupefacta. Pronunciei, como um demente, palavras ardentes,
+sem nexo. Uma especie de loucura acerava, como laminas de um punhal,
+cada uma das minhas phrazes, e a raiva hervava-as de peçonha a mais
+corrosiva.
+
+O sentimento da impotencia da vingança, a certeza de que os males
+d'aquella mulher deviam renovar-se infinitamente, e os meus ciumes
+passados, e mais que tudo, a memoria das nossas deploraveis questões,
+causadas por aquelle indigno homem, faziam-me offegar de colera como
+homem que acaba de levar uma bofetada, e não pode despedaçar entre as
+mãos aquelle que lhe gravou o ferrete deshonroso... Na minha demencia,
+parecia-me que o amor de Fanny, perdia tanto do seu valor, quanto mais
+desgraçada ella era; e, envergonhado d'esta atroz idéa, meditava em
+matar, e dar por ella a minha vida. Fanny, porém, ainda abatida, mais
+queria ser consolada que vingada.
+
+Abraçou-me, e, coisa estranha! foi ella que me affagou para me
+pacificar.
+
+
+LIV
+
+Passei o dia seguinte a recordar tudo o que tinha sabido. Havia muito
+que eu não sentira, como então, o espirito desoprimido de duvida.
+
+Um feliz provir se descortinava ante os meus olhos, depois de tão
+tormentoso passado, como serenos valles e descampados aos olhos do
+viajante que desce a ladeira escarpada de perigosas serranias. A
+esperança d'uma existencia quieta refrigera a alma como a briza da tarde
+que succede aos ardores do dia, e agora tudo me convidava a repousar-me
+á borda da senda facil, que docemente se aplanava debaixo de meus pés
+contusos. A serenidade dos dias, a auzencia das inquietações, eram a
+minha prespectiva. Pensava n'isto sempre, e minha alma enlevada
+derramava-se em effluvios de reconhecimento ao acaso que se cansara,
+emfim, de me transviar.
+
+Entrava n'este sonho necessariamente a imagem de Fanny. Era a
+companheira que me seguira através dos abysmos da paixão. Soffrera
+irmamente commigo a longura das caminhadas, a incerteza do fim, os
+espinhos occultos sobre os quaes, juntos, laceravamos os pés. A mesma
+dôr nos arraiara de sangue os olhos, e abrazára os nossos halitos. A
+ancia do repouso sentiramol-a ambos ao mesmo tempo. E, como se fosse
+preciso que o mais debil dos dois soffresse mais, Fanny dava-me alentos
+para a resignação, e com as mãos trementes enxugava-me da fronte o suor
+do desespero, e ao mesmo tempo escondia-me dôres e trances particulares
+que ella suportava heroicamente para me não angustiar.
+
+Mas agora esses desgostos que eu surprehendera, estavam sanados.
+Renascer não poderiam mais. Ambos livres do phantasma que tão cruelmente
+nos perseguira, podiamos, em fim, senhores de nossas acções,
+compensarmo-nos amplamente do supplicio e dos terrores. Á maneira de
+dois fugitivos, que não deixaram pégadas, e vão ás bordas das fontes, e
+á sombra dos bosques silenciosos, sacudir o pó das sandalias, nós nos
+íamos, emfim, vingar da sorte estupida, esquecendo os tormentos que nos
+infligiramos.
+
+D'est'arte sonhava eu, a sós commigo, contemplando a imagem querida de
+Fanny que me sorria entre as mãos, cingida em moldura de ouro, como
+d'uma aureola. Assim me comprazia dispondo ante nós as paragens do nosso
+futuro.
+
+Nunca eu afagara mais cruel illusão!
+
+
+LV
+
+O dia em que tornei a vêr Fanny, era um dia explendido!
+
+Veio a minha casa, de manhã, deliciosamente vestida, como para celebrar
+dignamente as nupcias da nossa felicidade. O seu vestido côr de malva,
+que tão gentilmente condizia com a frescura da sua pelle, resplendia
+sobre as fórmas esbeltas e finas, e caia-lhe em reverberos, sobre os
+pés. Os braços meio nús, sobresahiam das rendas das mangas, com reflexos
+baços como os de marfim não lustrado ainda. Do corpete chanfrado sobre o
+seio elevava-se, um pouco inclinado, o colo alvissimo. Por de sobre as
+faces ondulavam-lhe os cabellos.
+
+Nenhum ruido nos perturbava, a não ser a campainha do relogio que não
+ouviamos, e, de longe em longe, o rodar precipitado e passageiro das
+carruagens, estremecendo a calçada. Conversamos, mais uma vez, sós por
+sós. Fanny comeu pouco, sorrindo, como a pedir perdão. Eu ergui-me para
+servil-a, e abraçava-a na passagem. Ella ministrava-me o vinho, com
+graça, vertendo-o d'alto, e eu todo me enlevava na formosura d'aquelle
+braço que se inquadrava no vacuo sombrio da sua larga manga. Nunca o
+nosso quarto nos parecera tão bonito! Queriamos d'alli não sahir mais!
+
+Ergueu-se Fanny, e foi sentar-se no diwan. Colloquei-me a seus pés sobre
+uma almofada, com o cotovello sobre o joelho d'ella, e longo tempo
+estivemos assim mudos a contemplar-nos. Com uma de suas mãos,
+intromettidas nos seus cabellos, levantava-os aos tufos, e devidia-os. E
+eu beijava-lhe a outra mão, travada na minha.
+
+--Oh Fanny! se tu não fosses casada!...--dizia-lhe eu com paixão. E ella
+respondia:
+
+--Oh Roger! se tu não fosses cioso!...
+
+Não sei como se passou o dia; mas mui rapido passou! Em mutuos olhares
+de extasis, em abraços doidos de ternura, em ir e vir d'uma para outra
+camara, que horas tão instantaneas correram! Quiz saber a historia da
+minha vida. Contei-lh'a: era simplissima. Chorou ouvindo a narrativa da
+morte de minha mãe.
+
+Muito havia que não estiveramos tão intimos, serenos, e felizes. O
+rancor atroz do ciume não nos separava. Expandimo-nos sem reverva: por
+isso mesmo foi completo o socêgo de nossas almas. Havia ali felicidade
+que bastaria á boa fortuna de dez amantes.
+
+Cotejando em meu espirito aquelle dia singular com todos os precedentes,
+lembrou-me de repente a causa que, por mais d'um anno, nos fizera tão
+desgraçados. Rompeu de minha boca uma exclamação furiosa, e, por piedade
+das angustias de Fanny, tanto tempo escondidas, não pude conter-me que
+não exprobrasse o oppressor.
+
+Fiquei como empedrado quando vi Fanny franzir então a testa, e morder os
+labios. Relanceou-lhe rapida na face uma sensação, como o relampago
+silencioso que fende uma nuvem. Depois sorriu, e acalmou como o céo
+d'uma tarde estiva. Eu, porém, curei de indagar a causa d'aquella
+sensação dolorosa, e tornei-me pensativo e triste, por não sei que
+confusa remeniscencia.
+
+
+LVI
+
+Fanny retirou-se sem parecer notar em mim turvação alguma. Depois que
+sahiu, mil recordações uma apoz outras, como vagas d'um mar silencioso
+cumulavam-me o espirito. O porte de Fanny pareceu-me agora mais que
+nunca incomprehensivel.
+
+--Esta mulher é a mais extraordinaria ou a mais vil das
+mulheres!--Disse, e repassei na memoria quanto sabia d'ella. Mas, outra
+vez ainda, tudo me pareceu contradictorio em sua indole.--Por que
+defendia o meu rival quando eu ignorava as suas violencias? Por que o
+accusou depois? Por que impallidece agora se me ouve reprovar as acções
+do homem que a ultraja? Oh! é possivel supporte tamanhos despresos,
+vexações tão aviltantes, e conserve a minima affeição a um homem que a
+tortura e humilha!! Indecifravel enigma. Ama-me ella? Ama o marido? Que
+ha ahi de commum entre essa mistura de seres, de sentimentos, de
+calculos, de transações, e o amor, esta paixão absoluta, intolerante, e
+exclusiva? Deste modo ajuntava, separava, e confundia todos os factos da
+nossa existencia commum sem poder desinredar o inextricavel fio da
+meada. Cada facto, por seu turno, vibrava-me no ouvido, como um som
+agudo; e, á maneira d'um clamor synistro, estrondeando por sobre tudo,
+rugia incessante aquella palavra da consciencia de Fanny, proferida, um
+dia, para meu supplicio:
+
+--Eu mentiria se dissesse que o não estimo.
+
+
+LVII
+
+Desde então, illaqueado mais estreitamente que nunca na rede das
+incertezas, um só desejo me dominava--tirar de Fanny a explicação do seu
+caracter, não interrogando-a, mas compelindo-a a extremos indicativos.
+
+Aggredi acintemente o marido deante de Fanny: difficil fôra o
+defendel-o, por que o ataque era dirigido ás violencias que lhe eram a
+ella feitas. Limitou-se, primeiro, ao silencio, erguendo ao céo os
+olhos, por que eu a estava pranteando; depois, mostrou-se descontente da
+asperesa das minhas palavras. Repentinamente lhe assomou á face o
+sangue, os labios cerraram-se, as palpebras descahiram, isto a tempo que
+eu lhe estava exaltando a resignação para melhor accusar os caprichos do
+marido. Obedeceu, por fim, á sua eterna preoccupação, e disse-me:
+
+--Não fallemos mais de tal: tudo isso é triste; mas eu sou obrigada a
+submetter-me. Ao cabo de tudo, sempre é meu marido!
+
+
+LVIII
+
+Estas palavras nem me espantaram nem indignaram. Esperava-as. Sorri com
+amargura, ouvindo-as dos labios da mulher estremecida. Eu passeava d'um
+para o outro lado no meu quarto, e ella seguia-me com a vista.
+
+--É a derradeira illusão que morre!--exclamei eu.
+
+Fanny pediu-me a significação d'estas palavras, e eu recusei dar-lh'a, e
+disse:
+
+--Já são que farte as questões que temos ha um anno; por minha vez, te
+rogo que não te importe saber o que se passa em mim. Amemo-n'os taes
+quaes somos. Por mais que desesperemos e resistamos nunca se mudará a
+nossa indole.
+
+
+LIX
+
+Durante a ausencia do marido, que foi de mais de seis mezes, houveram
+grandes alterações na nossa vida. Eu via Fanny quasi todos os dias.
+Ambos abusavamos da liberdade d'ella! Vinha passar commigo todo o tempo
+disponivel. Frequentes vezes jantavamos juntos. Encontravamo-nos nos
+passeios e no theatro, e nas lojas. Aqui, sem nos mostrarmos conhecidos,
+trocavamos olhares furtivos, e, perpassando ao longo dos balcões,
+sentiamos as delicias instantaneas do contacto. Escreviamos, além d'isso
+tudo, cartas infinitas, e trocavamos flôres.
+
+Fanny esmerava-se em attenções, para compensar-me do mal que me fazia.
+Liberalisava-me aquelles delicados disvellos que as mulheres aguardam
+dos homens, e dos quaes disvellos são tão economicas, quando se dignam
+conceder-lh'os. Beijava-me a mão, chamava-me seu querido filho,
+mostrava-se submissa, e esmerava-se por que não houvesse coisa que
+turvasse a serenidade da minha vida. Nunca, porém, tratando-me como
+dominador, se rebaixava. Ajoelhada deante de mim, tinha a inteira
+dignidade d'uma rainha.
+
+Ás vezes, quando as bellas noites do outono eram mais balsamicas e
+suaves que as do estio, fugiamos da cidade, como aves cansadas do calôr
+do dia. Hombro com hombro, recostados ao respaldo d'uma carruagem
+fechada, com as mãos inlaçadas silenciosos, iamos ao bosque buscar um
+pouco de ar, de silencio, e de solidão. Rentes comnosco passavam fogosas
+parelhas tirando por grandes calexes descobertos, cheios de mulheres
+risonhas cujos véos fluctuavam ao vento. Ouviamos o fremito das rodas na
+areia, o resfolgar dos cavallos, e o estalido dos chicotes. Viamos
+agitarem-se entre as arvores as luzes das lanternas, e mirarem-se na
+agua morta dos lagos as sombras espessas dos bosquesinhos de pinheiros.
+A lua, ás vezes tão melancolicamente ingastada no céo como nodoa de
+prata, alumiava grandes moutas de espinheiros, donde subiam, razando as
+hervas, nuvens alvas de vapor. Ebrios do aroma das carvalheiras, e da
+mollidão dos nevoeiros luminosos, apeavamos no angulo d'algum caminho
+estreito, e nos intranhavamos por debaixo da arcaria de immoveis
+arvores, passeando vagarosamente, mais perdidos em nosso scismar do que
+o estava a verde folhagem á sombra da noite linda. Era delicioso aquelle
+momento em que Fanny, infadada, se me pendia do braço, e justapunha a
+sua espadua á minha! Não fallavamos, sentia-se ali o viver, ouviamos as
+nossas respirações; e, assim unidos, achavamos doçura estranha n'aquelle
+nosso silencio e na incerteza de nossos passos.
+
+Algumas vezes, com tudo, suscitavam-se ligeiras discussões,
+remeniscencias attenuadas de antigas discordias. Fanny, porém,
+tomando-me, a rir, pelo que eu era, uma creança, ou fazia que me não
+intendia, ou, sacudindo-me o braço em ar de gracejo, dizia:
+
+--Ora vamos, não se falla aqui do que já lá vae.
+
+Todos os lados accessiveis da minha vida ia-os ella penetrando cada vez
+mais. Como queria tudo saber, imperiosamente se senhoreava de tudo,
+passado, presente, e dispunha de tudo, a bel-prazer do futuro. Eu
+pensava em tudo como ella. Se me dava conselhos eu seguia-os como
+ordens. Em minha casa era ella que dirigia tudo. Os moveis como que se
+moviam espontaneamente para se collocarem nos logares designados por
+ella; os quadros entravam n'outras molduras; os espelhos inclinavam-se á
+vontade d'ella para lhe espelharem por toda a parte a imagem. Era-me
+prazer grande o vêl-a assim dispôr do que era meu. A minha casa, tornada
+sua, parecia afeminada. Já lá se não viam por sobre as mezas esporas,
+chicotes, caixas de charutos; nem junto das paredes tropheus de armas
+quarteadas; mas, em logar d'isto, estavam bocetas de flôres, alvissimas
+caças rojando sobre os tapetes, mobilia colorida a lacca e incrustações
+de Boule, e caixas de perfumarias. Levantavam-se do tapete agulhas e
+fios de seda e lã: no rebordo da chaminé brilhavam o dedal e as
+thesouras.
+
+Foram, no drama da nossa vida, esses seis mezes uma especie de
+entre-acto. Nada nos faltava para a felicidade, excepto a confiança.
+Fanny estava sempre sobre-rolda receando ataque improviso, e eu
+conservava no coração um certo azedume. Não havia consolar-me de não ter
+podido vencer os escrupulos da mulher que eu tanto amava.
+
+Cheguei á fraqueza piegas de pedir-lhe conselhos para a direcção dos
+meus bens. Fanny não entendia nada de negocios, mas dava aproveitaveis
+pareceres, porque eram sempre dictados por um espirito de desconfiança
+feminil. Pois não a consultava eu até em compras de cavallos? No tocante
+ao vestir era ella quem decidia soberanamente dos feitios e das côres.
+Arranjava a minha roupa branca, a rir, erguida em pontas dos pés para
+chegar aos lotes dos armarios, e intromettia-lhe bolsinhas odoriferas
+que trazia comsigo, e nunca pude encontrar n'outra parte. Todos os
+instantes dos meus dias estavam, em fim, contados. Não dava um passo sem
+sua approvação; não comprava luvas ou gravatas que ella não elegesse. O
+numero dos meus amigos fixou-o ella. Desprezei tres, porque tinham nomes
+que não agradavam a Fanny. Tudo isto me parecia delicioso. Viver sem
+ella é que eu não podia por mais que fizesse. Estava enfeitiçado.
+
+
+LX
+
+Mas o meu ciume, esse não estava morto, nem se quer entorpecido: apenas
+tinha variado um pouco de objecto. Desde que o marido estava auzente, já
+não podia soffrer por causa de uma partilha que não existia; mas os
+menores sentimentos que Fanny me deixava adivinhar, inquietavam-me.
+Afóra os filhos, e a mãe que ella via ás escondidas, eu não lhe
+consentia amar ninguem. Fanny sorria, encolhendo os hombros. D'este modo
+nos tyrannisavamos mutuamente.
+
+Um dia, quando eu lhe tirava o «corpete», uma carta grande e
+quadrada--lhe fôra entregue quando saía de sua casa--escorregou-lhe do
+peito e caiu aos meus pés. Levantei-a. Tinha o sêllo de Londres. Encarei
+Fanny, que, pallida, estendia a mão tremula a tomal-a.
+
+«Teu marido escreve-te?» disse-lhe eu, entregando-lh'a.
+
+--Que pergunta!--disse ella.
+
+--Escreve-te regularmente?--ajuntei eu, depois d'um momento de silencio,
+durante o qual eu sentia as garras do meu antigo furor atassalhar-me o
+espirito.
+
+--Pois então!... disse ella--todas as semanas.
+
+«Porque te escreve elle?... Separados por tão violenta discussão,
+parecia que os corações deviam separar-se para sempre.
+
+Fanny olhou-me com espanto e ficou pensativa. Mas, como eu esperasse
+resposta, replicou:
+
+--Espantam-te sempre as mais singelas coisas. Não é natural que meu
+marido me diga dos seus negocios, e me falle dos seus filhos?
+
+«É justo... Eu não tinha pensado n'isso--murmurei.
+
+Fallou-se de muitas coisas; mas, a sós commigo, reflexionei immenso.
+
+«Respondes ás cartas de teu marido?
+
+Fanny fez-se livida, hesitou, e deu signaes de impaciencia. Depois
+simulou um ar de indifferença, respondendo:
+
+--Escrevo-lhe raras vezes;
+
+--Sim? e, diz-me cá, que lhe escreves?
+
+--Não sei. Escrevo-lhe friamente. Falla-se de negocios. Isto não te
+interessa nada.
+
+Fiquei um tanto inleado; mas não pude reprimir-me.
+
+--Como é que nunca tiveste a idéa de mostrar-me as cartas de teu marido?
+
+Roger! Roger!--exclamou sorrindo contrafeita--eu creio que estás louco!
+Uma mulher póde por ventura confiar a alguem, principalmente áquelle que
+ama, o segredo dos negocios de seu marido?
+
+--Tambem é verdade--murmurei eu.
+
+Fanny quiz logo aproveitar a vantagem que obtivera.
+
+--Feliz seria eu, disse ella, podendo mostrar-te essas cartas que te dão
+tanto que pensar. Provar-te-iam que é uma sem-razão recear alguma coisa.
+Sabe, pois, espirito desconfiado, que não se póde viver em menos união
+do que eu vivo com meu marido.
+
+--De certo!
+
+--Como podes suspeitar o contrario depois que te confiei as minhas
+amarguras?
+
+--D'antes, tambem me confiavas o segredo dos negocios domesticos: não
+esqueças isto, Fanny.
+
+--Oh! hoje é muito differente.
+
+--Porque?
+
+--Porque... cá me entendo.
+
+Isto fez-me reflectir novamente. Fanny levou as mãos ao céo com piedosa
+expressão; eu estava como involto nas sombras da morte. E assim nos
+contemplavamos. Era-me impossivel a quietação. Agitava-me d'um para
+outro lado.
+
+--Se dizes a verdade, Fanny, por que me não mostras as cartas que lhe
+mandas?
+
+--Não é possivel. Quem lêsse uma, comprehenderia as outras.
+
+--Não obstante, eu bem quizera conhecer o tom das tuas cartas. Porque
+lhe não escreves agora, mesmo aqui? Falla-lhe de tudo menos do que não
+quizeres que eu comprehenda. Eu mesmo levo a carta ao correio.
+Supplico-te, Fanny... Se nada temes de ti, dá-me esta prova de
+confiança, para me tranquillisar que eu soffro muito.
+
+--Não é possivel--redarguiu ella, com signaes de offendida.
+
+A raiva que me devorava o coração estalou desassombrada:
+
+--Que lhe escreves tu que não queres que eu saiba? Juraste matar-me?
+Falla, se tens na alma sombra de piedade! Torturas-me barbaramente como
+um algoz!
+
+Fanny ergueu-se, pegou-me da mão e disse brandamente:
+
+--Roger, eu não queria magoar-te.
+
+--Pois que! que mais querias tu fazer-me? Vae! Tu és mulher de duas
+caras; eu nunca fui amado por ti!
+
+A esta phrase injusta, lançou-se-me ao pescoço, abafando-me com beijos
+as palavras. Eu continuei:
+
+«Como podiam magoar-me as tuas cartas, se, depois d'essa horrivel
+contestação, ficaste despeitada com teu marido?
+
+--Sê rasoavel: uma mulher póde ficar despeitada com seu marido?
+
+«Pois que?--exclamei furtando-me aos braços d'ella--tu perdoaste-lhe?
+
+--Rigorosamente não--disse ella, sentando-se quebrantada--mas foi-me
+preciso acceitar as suas desculpas. D'esta vez, ainda assim, está tu
+certo que não esquecerei mais os ultrages passados.
+
+«Perdoaste-lhe! perdoaste-lhe, Fanny!--Bradei, de pé em frente della,
+que olhava para mim assombrada--Não tens, pois, dignidade alguma? Não te
+sentes das injurias? És assim vil? Amal-o? Mentiste-me, pois, a mim? Ah!
+isto é que eu não acreditaria nunca!
+
+Fanny continuava a ouvir-me silenciosa.
+
+«Diz-me cá: por que me occultaste tanto tempo que elle te insultava?
+
+--Não queria deshonral-o. Se tivesses mais alguma experiencia, não te
+espantarias do que succede. Em summa, eu não quero fallar mais n'isto.
+Seja-te bastante saber que se me elle restringe a liberdade, ou diz
+arrebatado coisas indignas, tem pesar do que faz e diz, passada a
+colera. Affirmo-te que o julgas mal. É possivel que eu exaggerasse os
+factos no primeiro momento da indignação.. mas.
+
+«Calla-te!--bradei eu--se tens pudôr, calla-te! Ha uma coisa que parece
+passar-te desapercebida, e é que, á proporção que vaes fallando, não sei
+que idéa peçonhenta lucta, em mim, com o meu amor. Não accrescentes uma
+só palavra. Acceito ainda isso, por que sou vil, por que sou um fraco,
+por que te amo muito, por que não posso dissuadir-me de te amar; mas
+sabe tu que maior mal não m'o podias fazer. Supplico-t'o--não digas mais
+nada.
+
+E lançando-me a seus pés, exclamei:
+
+«O despresares-te a ti propria, seria, sobre tudo, cruelissimo!
+
+
+LXI
+
+Sempre que tivessemos algumas dessas deploraveis luctas o apartamento
+era frio, e eu ficava dias inteiros a reluctar com a memoria d'ella.
+Mentalmente eu reproduzia os ataques e os argumentos, e inutilmente
+sondava a causa misteriosa do seu proceder. Eu era muito moço e
+inexperiente: avaliava-a mal. Aquella natureza complexa, que resumia no
+seu caracter muitos caractéres diversos, queria eu que visse as coisas
+absolutamente como eu as via. Eu, o que então sabia, era que as
+palavras: sentimento, amor, delicadeza, ciume, e outras assim,
+representavam para Fanny umas idéas, e para mim outras. Ignorava que o
+custoso para mim não o era para ella, e que lhe bastava sempre a boa
+intenção para indulgencial-a d'um facto, qualquer que fosse. Em mim, não
+descontava nada á sua fraqueza. Depois é que apprendi a conhecêl-a.
+
+Quantos maiores esforços eu fazia para desligar Fanny de seu marido,
+mais eu estreitava os vinculos relaxados por quinze annos de existencia
+commum. Fanny lastimava-me interiormente, mas eu devia ser-lhe pesado.
+Bem sentia eu que a importunava, mas não estava em mim deixar de a
+repellir de cada trincheira em que ella esperava o combate. Não me
+passava pela mente que o unico recurso para conseguir o meu fim, era
+mudar de tactica. Ninguem me havia dito que eu devia esconder o meu
+ciume, como principal causa da nossa separação. Que candura! Eu via nas
+manifestações do meu ciume provas de um amor que devia abalal-a. E, com
+tudo, tão facil me seria serenar-lhe a vida a ponto de a forçar a
+comparações, com vantagens minhas, entre os dois homens de quem ella
+dependia. Mas mais simples que tudo seria não amal-a!...
+
+Ama ella o marido? Não acredito, nunca o acreditei. Um sentimento banal,
+resultante do costume e agradavel ás almas pacificas, porque
+naturalmente continúa as coisas, e não cansa o espirito em mudanças,
+esse devia tel-o. E o vêr o despota humanisado diante d'ella,
+commovia-a; e o receber caricias da mesma mão que a castigava rudemente,
+dava-lhe uma especie de satisfação. Não era isto fraqueza nem ingenita
+baixeza de animo; era uma certa indifferença de genio, explicavel na
+idade d'ella Fanny, em fim, certo, não tinha uma alma varonil, nem mesmo
+uma alma muito nobre, por que antes queria astuciar que combater, e
+antepunha o aviltar-se, repartindo-se, que transtornar o seu viver; era,
+porém dotada de alma recta. Cuidava, certamente, que se resgatava, em
+sua consciencia, da perfidia conjugal com uma submissão completa. Até
+certo ponto, era indemnisar o marido, o tolerar-lhe os caprichos do
+genio. Em que restingas, em que abysmos, em que cahos de coisas sem
+nome, a probidade, esta rara perola, se esconde?
+
+
+LXII
+
+Era urgente que eu accedesse á nova concessão do aproximarem-se os
+esposos. Mas de concessão em concessão lá se ia, desfeita em lagrimas, a
+minha estima. Eu humilhava-me como o escravo que não póde resistir, com
+gritos de raiva surda, e desejos immensos de vingança. Ah! se Fanny
+soubesse que ella devia accusar-se só a si da minha abominavel vingança!
+
+
+LXIII
+
+Inraivecido por não poder vencer a pertinacia do caracter de Fanny,
+trahi-a. Amor e ciume, quiz tentar matal-os na devassidão.
+Conspurquei-me voluntariamente, e acintamente, ao contacto de labios
+impuros da luxuria estupida. Cada noite, de proposito, como ladrão que
+se embusca no angulo d'uma rua, entrava rindo sarcasticamente de mim
+mesmo, no infame prostibulo onde eu contava apagar a sêde de vingança.
+Sorria amargamente ainda, como traidor que pensa na confiança dos
+ludibriados, eu arrastava commigo, aos braços da mulher querida, a torpe
+recordação das creaturas degradadas, cujas caricias não tinha podido
+sevar-me o rancor; e deste modo eu achava um meio de identificar Fanny
+commigo, sem o ella saber, e ingolphal-a commigo nas mesmas execraveis
+immundices.
+
+Mas era-me maior a vergonha na sahida que a cegueira do furor na
+entrada. Estorcia-me os pulsos na rua, e arrancava os cabellos
+desesperado. Mais ciumento, mais aferrado, mal vingado, castigado por
+minhas proprias mãos, martyrisava-me com o profundo pensamento da
+inutilidade dos meus esforços. Não sei que desgosto corporal me subia
+aos labios. Era um horror de mim mesmo. Vagava, de ventura, toda a
+noite, como miseravel sem abrigo, esperando vencer com a fadiga do corpo
+os tormentos do cerebro. Debruçado sobre o parapeito das pontes via
+redemoinhar a onda negra do Sena, menos sombria e mais lodacenta que os
+pensamentos, irriquietos do meu espirito attribulado. Eu chafurdava nos
+lamaçaes, como para destruir sobre immundices impalpaveis, a impalpavel,
+mas real immundice que imporcalhava o meu amor. E sempre diante de mim,
+perpassando como phantasma nas sombras que se tiravam ao longo das ruas,
+via a imagem de Fanny, com o seu ar tranquillo, fronte serena, olhar
+sombrio, como que a visitar-me, mas forçando-me a pensar n'ella quando
+eu ia cuidando em matar-me para esquecêl-a. Oh! que terrivel estado
+aquelle, sem repouso nem treguas ás minhas angustias! que me exacerbava
+e prostrava! que incharcando no nôjo a minha desesperação, infamava o
+meu ciume sem applacal-o!
+
+
+LXIV
+
+Sustentava-me, comtudo ainda, um resto de coragem, essencial na minha
+indole. Estas pelejas intimas davam-me alento. Resolvera buscar o
+remedio até encontral-o, e, não o tendo, emprehender algum arrojo de
+desesperado, para arrebatar Fanny, a pezar d'ella. Ninguem sabe os
+estragos que uma idéa fixa póde fazer d'uma alma. Incrivelmente vos vos
+roja até vêr o bem nas coisas repugnantes ás menos temerosas
+consciencias.
+
+Após maduro reflectir, decidi-me ao penoso sacrificio da ultima
+concessão. Estava eu como um doente, que desenganado da cura, pactua com
+o mal, e dispõe-se de modo que seja menos o soffrimento no restante de
+seus dias.
+
+«Tudo te perdôo!--disse eu a Fanny.»--nunca mais te fallarei dos nossos
+eternos motivos de discordia. Não examinarei o teu proceder; não te
+sondarei os sentimentos; tudo te concêdo, tudo acceito, excepto a
+abominavel partilha que tanto me fez soffrer, e tão demorada tem sido.
+Não posso mais... antes quero vêr-te desgraçada; antes morta; quero
+morrer eu. Sê-me leal, supplico-t'o--accrescentei com tristeza--porque
+me faz um mal horrivel duvidar de ti.
+
+--Pois bem, não haverá mais partilha--respondeu Fanny, com um aperto de
+mão--não te inquietes, não soffras mais. Quando meu marido voltar,
+approveito-me do pretexto dos ultimos insultos para impor-lhe condições.
+Viverei completamente separada d'elle em sua caza. E isto, por toda a
+vida Roger, socega, sê emfim feliz. Não dependia de mim o seres feliz ha
+mais tempo.
+
+«Restitues-me a vida!--exclamei, lançando-me aos pés d'ella, e
+abraçando-os.
+
+--Querido filho!
+
+--Liguemo-nos por um juramento.
+
+A isto sorriu-se ella, mas jurou solemnemente, dadas as mãos, e fixados
+mutuamente os olhos.
+
+«E agora--disse eu--se por qualquer motivo, uma vez só, resolveres
+faltar á palavra, juras que me avisarás, para que não haja entre nós
+traição.
+
+--Por que queres tu que eu jure.
+
+«Pela minha vida.
+
+Fanny sorriu outra vez, mas jurou solemnemente.
+
+Depois d'isto fiquei totalmente tranquillo. Picou-me n'alma o ciume como
+a recordação de um sonho que de tempo a tempo, nos sobresalta.
+Reapreceu-me a vida bella e ampla. Confiava.
+
+
+LXV
+
+E por isso a chegada do marido apenas me incommodou pela impossibilidade
+de me avistar tantas vezes com Fanny. Chegara o estio. Fanny habitava
+outra vez a sua casa campestre, e eu ia vêl-a algumas vezes, por noite,
+no caramanchão da tapada, e mais vezes vinha ella a Pariz, quando
+engenhava pretexto para passar fóra um dia. Mostrava-se mais livre que
+d'antes, pelo menos as visitas eram mais delongadas; mas, mais que
+d'antes, me pareceu pensativa e preoccupada. Attribui este enleio aos
+infadamentos procedidos da palavra que me dera. Entendo que novos
+debates, novos tormentos a faziam desgraçada; e, lastimando-a de todo o
+meu coração, animei-a á resistencia, e consolei-a quanto em mim cabia.
+Fanny, porém, denotava constrangimento, suspirava, e acolhia os meus
+beijos á flôr dos labios, como se tivesse esfriado em seu amor.
+
+Estava escripto que tudo, na nossa historia, fosse extraordinario, e que
+eu não intendesse nunca o procedimento d'esta mulher. Logo que me eu
+persuadia de ter-lhe penetrado a nova tristeza--imputando-a a discordia
+que o respeito do seu juramento devia acarear--soube um facto que me
+atirou, mais que nunca, a um mar de incertezas.
+
+Recobrando o repouso do animo, dei-me a um viver menos solitario. Meus
+amigos procuravam-me, por que os eu procurara. Interessou-me, de novo, a
+sociedade. Um dia, com grande espanto, soube que, a respeito do marido
+de Fanny, vogavam boatos escandalosos. Dizia-se que, durante a sua
+ultima viagem a Inglaterra, se tinha elle namorado de uma irlandeza que
+se estreara no theatro da Rainha; que a tirara da scena; que a chamara
+para França, havia um mez. Diziam-se maravilhas da magnificencia em que
+elle a tinha. Era lindissima, alta e esbelta como Fanny, mas morena como
+as filhas do Norte, com bellas côres rosadas, e finos cabellos sedados
+que se desenrolavam languidamente em longos anneis até ao peito.
+
+Jubiloso de nova tal, fiz tenção de lhanamente contal-a a Fanny, a fim
+de fortalecêl-a na resistencia, e ministrar-lhe um terrivel argumento
+contra o nosso inimigo, se elle se obstinasse em tormental-a. Nova
+surpreza me esperava, que devia sobrelevar todas as mais a prodigiosa
+altura.
+
+Fanny, como tantas outras mulheres, atraiçoando seu marido, não queria
+que elle a atraiçoasse. Irritada pelo meu ar de triumpho, nem deu
+credito á realidade da historia, nem á sinceridade da justificação.
+
+--Ou mangaram comsigo, ou o snr. forjou uma historia desinfadadamente,
+para me atormentar. O que me diz aborrece-me. A grosseria desses
+sentimentos enoja-me tanto que não posso perdoar-lhe, faça o que fizer.
+Saiba que meu marido ama-me sempre. A tristeza que soffre, de mais o
+demonstra. O juramento que o snr. me arrancou, lealmente o tenho
+sustentado. Incumbe-lhe respeitar a minha sensibilidade, cessando de
+calumniar um homem que, por causa do snr., é desgraçado.
+
+Foi tamanha a minha estupefacção, que nem me occorreu a idéa de censurar
+aquellas estranhas palavras. Fanny mortificava-me cruelmente fallando-me
+da «sua susceptibilidade, do seu juramento arrancado, da minha supposta
+calumnia» a proposito da infidelidade exactissima, do homem que eu
+detestava. Cuidava eu que Fanny se daria por feliz sabendo que, emfim,
+espontaneamente, o marido se afastava d'ella, como ella, desde muito, se
+afastara d'elle. Esperava eu acções da graça, e sahiu-me cólera, orgulho
+offendido, retaliações, que, a meu vêr, tinham as apparencias todas do
+ciume. Isto era para indoudecer!
+
+
+LXVI
+
+Incutiram-se-me suspeitas novas, e estas, mais crueis mil vezes que
+quantas me haviam suppliciado. Desta vez, porém, o acceital-as
+docilmente, não me foi facil. Intranhara-se-me a desconfiança como
+vibora no coração, e o germen da peçonha, que ella ahi revessara,
+circulava-me nas veias.
+
+O ciume resurgiu mais abrasado. A só escusa, que podia mitigal-o, era
+imposssivel. Não era já da partilha que eu accusava Fanny; mas sim da
+mais rasteira traição. Resolvi esclarecer a incerteza, por todo o preço.
+Nada disse a Fanny, fingi-me longe de suspeitas. Menti no rosto como nas
+palavras. Affectei consummado comico, a maior liberdade de espirito,
+quando me estava a morte no coração.
+
+Pela primeira vez na minha vida, fui homem. Por mim, e só commigo, fiz
+quanto cumpria para descobrir a verdade. Comprei, com um pseudonimo, a
+casa contigua á de Fanny. Instalei-me secretamente lá. Todo o dia,
+cosido com as portadas das janellas, escutava os menores rumores da casa
+visinha, e via tudo que lá entrava, como se estivesse á espera de vêr
+algum estranho entrar ahi a roubar-me a mulher que me era a vida. De
+noite, escoava-me através da sebe de arbustos que separavam os nossos
+quintaes, e andava debaixo das janellas de Fanny, como ladrão que estuda
+o edificio que quer assaltar. Assim apprendi os costumes da familia que
+eu espionava. O erguer, o comer, o deitar, sabia tudo. Via de manhã os
+creados abrirem portas e janellas, e ouvia o roedôr dos moveis,
+deslocados na limpeza dos quartos e da sala. Ás oito horas, o dono da
+casa descia ao jardim, onde encontrava os filhos. Ás nove apparecia
+Fanny em desalinho campestre. Dava com elle alguns passeios. Ás onze
+horas chamava a campainha ao almoço. Ao meio dia, esperava o _coupé_ á
+porta. O marido sahia, e só voltava ás sete horas para jantar. Muitas
+vezes, depois do meio dia, vi Fanny assentada na raiz d'uma arvore
+enorme, que assombrava largo ambito, conversar com os filhos, lêr, ou
+occupada em algum trabalho de agulha. As visitas eram numerosas. Das
+tres ás seis horas, quando estava bonito o tempo, circuitava o grande
+taboleiro de relva, longa fileira de trens, cujos cavallos escarvavam na
+areia, á sombra das arvores, sacudindo os freios, a tempo que os bandos
+de senhoras e cavalheiros, assentados em cadeiras de bambu, riam, e
+bebiam gelados. Ao intardecer sahiam todos, e os homens faziam caracolar
+os cavallos á portinhola das carruagens, ou reunidos atraz dos trens,
+caminhavam lentamente fumando os seus charutos. Fanny recebia-as com uma
+graça incantadora: variava muito de vestidos, e da minha janella via eu
+que as mulheres examinavam detidamente os seus deliciosos enfeites, ao
+passo que ella, parecia descuriosa de si, como se sempre estivesse
+adornada, sem o saber. Raro sahia de noite, se o calôr não era ardente.
+O marido passeava então com ella; mas ordinariamente tornava para Pariz
+ás oito horas, e quando tornava, era por alta noite.
+
+Nos dias em que nos uniamos em Pariz, Fanny entrava no _coupé_ com o
+marido.--Qual de nós é o enganado?--dizia eu commigo. Eu montava, e por
+travessas, e a galope, chegava a minha casa primeiro, e ahi era tão
+pouco preguntador quanto ella era meditativa. Era-o em toda a parte, em
+sua casa como na minha. Ao mesmo tempo, os passos do marido, mandava-os
+eu espiar. Nunca ia senão ao club, e a casa da amante. Aqui pernoitava
+algumas vezes. Fallava n'isso francamente aos seus amigos, e continuava
+a mostrar-se prodigo com ella em demasia. Era um homem prefeitamente
+feliz. Não o attribulavam suspeitas nem inquietações: rico, pae de
+galantes filhos, uma mulher adoravel. Que lhe faltava? Eu invejava-o.
+
+Mas não me bastava assistir á vida exterior da familia, cujos segredos
+eu queria conhecer. Ao cabo de quinze dias, vendo esteril a minha
+espionagem, cancei-me da futilidade d'ella. Obtivera apenas o direito de
+suppor que Fanny cumpria a palavra, por que o marido, passeando com
+ella, parecia exclusivamente entretido com os filhos. Além disso, a
+frequencia das visitas que ella recebia, estorvava-me de vêl-a
+concentrada em si, tanto quanto eu queria. Resolvi introduzir-me em sua
+casa, sem o ella saber. A frieza, com que me estava tractando, era
+assustadora. Distrahida sempre. Muitas vezes, com terrivel commoção, de
+longe a via, quando se julgava sósinha, cahir sobre um banco, e esconder
+n'um lenço, o rosto lavado de lagrimas. Em oito dias, centuplicaram as
+minhas suspeitas.
+
+
+LXVII
+
+Por uma bella noite de agosto é que eu executei o horrivel designio,
+cujo exito devia decidir do meu destino. Não sei que hora era; mas,
+havia muito que as estrellas radiavam na face do céo a sua suave
+claridade. Abri a ultima janella do primeiro andar da minha casa
+contigua á de Fanny, fixei a persiana contra a parede, e resvallei pela
+rampa; pendurei-me do varão sutoposto á baranda da casa visinha; fixei
+um pé na goteira da sacada, depois o outro pé, e saltei. Estava em casa
+d'elles.
+
+Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas
+precipitadas pulsações do coração. Perto de mim, uma janella alumiada
+como um grande quadrado de luz, branqueava de clarão baço, a parede
+innegrecida da casa. Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta
+janella não estava de toda fechada. As beiras das portadas tocavam-se,
+mas deixavam coar uma resteasinha de luz. Duas cortinas de cassa branca,
+pendentes diante das vidraças, deixavam-me vêr todo o quarto através
+d'um alvadio de leite que esfumava um pouco os objectos.
+
+Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre
+este, uma corôa de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro
+que contrastavam com a brancura dos lençoes. Á esquerda da cama, um
+tapete estreito, á direita, uma commoda; ao pé da chaminé uma poltrona
+de espaldar muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam lá,
+mas eu não reparei. Ao principio, não vi ninguem no quarto, alumiado
+desigualmente, por um grande candieiro de cobre, coberto de quebra-luz,
+que dardejava sobre o pavimento os raios, deixando o tecto escuro. O
+leito ficava assim cortado longitudinalmente pela zona luminosa. Como
+quer que eu me chegasse á vidraça para examinar se elle estava occupado,
+uma sombra passou lenta entre o candieiro e a janella, desenhando-se nas
+cortinas brancas. Pulsou-me o coração mais rijo. Agachei-me rente com a
+sala, recuando um pouco.
+
+Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A viração tepida da noite de
+agosto, suspirava á volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre
+os arbustos; a terra vaporava odores balsamicos; mas eu não via, não
+sentia, não investigava senão elle. Alongando o pescoço para ajustar os
+olhos á entre-aberta da janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse
+para mim coisa extraordinaria vêl-o de pé n'um quarto de sua casa. Tinha
+os pés nus em amplas moiras de marroquim amarello; afivellava nos
+encontros uma larga calça branca de flanella. Despeitorado, arregaçado o
+colleirinho, arremangada a camiza, ia e vinha pelo quarto, fumando um
+charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao espelho, e esticando os
+braços. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada, cruzou uma perna
+sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela. D'onde eu
+estava, via-lhe perfeitamente a sola do pé nú levantada ao nivel dos
+meus olhos, e o braço carnudo descançado sobre o encosto da cadeira. O
+outro braço subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos
+beiços o charuto, cujo fumo odorifero se exhalava até mim.
+
+De repente, voltou a cara para uma porta que eu não tinha devisado,
+collocada ao pé do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento
+obscuro que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso da minha
+razão, uma fórma vaga alumiada em rosto por um castiçal que ella trazia.
+
+Potestades do céo! Era ella! Oh Deus! por que me não fulminaste
+n'aquelle momento!
+
+Entrou vagarosamente, depoz o castiçal sobre a commoda, e, atravessando
+longitudinalmente o recinto, foi direita a elle, que a observava
+tranquillo, e sem levantar-se.
+
+Fanny estava meio vestida com aquelle desleixado traje que eu lhe vira
+algumas vezes pelas manhãs, quando, ao sahir da cama, passeava no jardim
+com os filhos. Era um chambrão muito farto de cachemira azul aberta no
+peito, entre flocos de cambraia, deixando vêr o começo dos seios.
+Sahiam-lhe das largas mangas os braços nús. Trazia desmanchados
+negligentemente os cabellos, apanhados sobre as faces lizas, e apertados
+por grossos tufos sobre a nuca. Aquelle eterno porte de placido pudor,
+lá o apparentava no semblante.
+
+Mas que vinha ella fazer alli a tal hora? quem lhe pedira isso? Não póde
+a recordação do amante retêl-a no limiar d'aquella porta? Dir-se-hia que
+ella nem se quer se lembrava de ter jurado, nem lhe passava pela mente a
+existencia d'algum homem para ella, senão aquelle que alli estava
+sentado, encarando-a, sereno como ella.
+
+Fuzilou-me na alma um relampago de esperança, mas foi relampago.
+Abaixado sobre os joelhos e as mãos, embaciado o vidro pelo meu bafo,
+senti oscillar-me os braços como se o balcão estremecesse debaixo de
+mim. Suor de agonia, acre e frio, me banhava a face e os membros;
+rangiam-me os dentes, cahi, desfallecido, como arvore tombada ao ultimo
+golpe do machado. Mas ouvi palavras; e, repuchando quantas forças tinha,
+ergui-me sobre os joelhos e punhos.
+
+Via-a andar mansamente d'um para o outro lado do quarto. Tocava,
+vagamente, e como em distracção nos objectos de sobre os moveis, tal
+qual costumava fazer em minha casa. E o marido tendo-a sempre d'olho.
+Fallavam; mas a minha commoção só me deixava ouvir um murmurinho.
+Rodeava-o ella, socegada e perfida, com os seus azues e suaves olhos, e
+apparencias de simpleza vaga. A instantes, sorria um sorriso
+melancolico. Quiz vêr n'esse rir, que lhe dilatava os labios sem
+illuminar-lhe o olhar, alguma coisa forçada. Não se mostrava pensativa,
+nem contemplativa, nem commovida. Estava perfeitamente á sua vontade,
+natural e tranquilla. Bem sabia ella que a sua grande magia era a
+irritadora tranquillidade.
+
+O marido riu tambem, por sua vez. Vi-lhe o brilho dos seus alvos dentes.
+Dava mostras de defender-se ingenuamente d'uma accusação que ella fazia,
+sem cólera, mas como uma malignidade gracejadora, que não era isempta de
+desdem e altivez. Discutiam tão pacificamente que pareciam nenhum
+acreditar na realidade da sua disputa familiar. A final, debaixo da
+testa quadrada do marido, brilharam mortiços os olhos; e, quando ella
+perpassava diante d'elle, rossando-lhe com o vestido o pé, a decisão foi
+prompta; calçou a moira; e tirando brandamente pela cintura da mulher,
+sem resistencia, fêl-a assentar no seu joelho.
+
+Saltaram-me as lagrimas então, lagrimas ardentes, que as palpebras não
+podiam reprezar, e desceram silenciosas pelas faces até aos labios.
+Emfim, comprehendia tudo; via a profanação, posto que a não quizesse
+vêr; affirmava que não era sonho aquillo, e queria duvidar. Não posso
+exprimir o que então se apartava de mim, o melhor de minha essencia, e o
+mal que me fazia vêr aquella mulher, que eu adorava, nos braços d'outro.
+
+Fanny continuava sentada com as mãos cruzadas sobre os joelhos, e com os
+olhos no marido, conversava serenamente. Nada ha ahi mais casto que a
+simplicidade da sua attitude, a pureza do seu perfil, e aquella
+expressão dos olhos azues. No entanto elle, comprimindo-a cingida pela
+cinta, amimava-lhe a face com a mão livre. A final, Fanny lançou-lhe por
+sobre o hombro o braço esquerdo, e pendeu para elle langorosamente.
+Vi-lhe então as costas, cobertas de tranças dos cabellos, e o vestido
+fazia roda por largo espaço com impudor esplendido. Oh! como a
+abominavel creatura cheia de graça e lascivia se aconchegava d'aquella
+espadua robusta!
+
+--É impossivel aquillo!--gritei eu em minha consciencia.--Não ha-de ser
+assim!--Mas elle abraçou-a, collando a boca espessa ás puras faces
+d'ella, e não sei o que lhe disse a meia voz. Fanny fez um gesto
+negativo com a cabeça, muitas vezes, sem córar. Elle, por cortezia,
+insistiu sorrindo, e ella, resistindo, pouco e pouco se rendia! Mulher
+scelerada! como ella prolongava o meu supplicio! O debate mudo, durou
+algum tempo. Não sei como foi que o sinto se lhe despregou, e rolou nas
+dobras do vestido. E eu chorava sempre. Levantou-se ella em fim, aquella
+mulher de resplendores e flôres, e, por um só movimento de braços e
+hombros, fez escorregar o chambre até aos pés. Eu cahi de joelhos, e
+ergui as mãos, como a exorar piedade. Ella tirou com afan, os pés do
+monte de estofos, e, um tanto pallida, mas em silencio, caminhou para o
+leito, achegando ao peito as ultimas coberturas. Quantas vezes a vira eu
+assim impallidecer! Cravei as unhas no rosto. O marido ia depós ella,
+vagarosamente.
+
+E eu sem uma arma! Eu queria immediatamente estrangulal-a, espedaçal-a,
+ingolphar meus braços nas entranhas d'aquella mulher estupida. Com todo
+o sangue d'ella, não se apagaria o ardôr da minha tortura. Arquejante
+como o tigre, que vê a garra do leão cravada na sua preza, ergui-me a
+prumo, ferrei as unhas contra os dentes, escorria-me o suor da face,
+soluçava, como em arrancos de morte, estrebuchava, e via os horrores
+d'aquelle quarto.--Piedade! piedade!--foi o meu grito! E furioso, e
+perdido, avançara um passo! mas os cabellos heriçaram-se-me, e os olhos
+saltavam-me das orbitas, e a minha vista acerada entrou como um punhal
+nos cortinados sombrios, e vi... vi tudo! Quiz ir ávante, e não pude. A
+punição pregava-me os pés á balaustrada, e de minha bôca sahiam
+gargalhadas de demonio. Que horror! Eu testemunha d'aquelle espectaculo,
+a rir, como um doudo, a comprazer-me d'um jubilo que não tem nome nas
+linguas humanas! Tentei de novo avançar, por que ouvira suspiros, e
+queria saber qual das duas bôcas os exhalavam. Por um esforço prodigioso
+dos meus musculos todos, cheguei a despregar o hombro da parede, e dei
+ainda um passo; mas por que ao coração intumecido me refluira todo o
+sangue, perdi o equilibrio, e cahi como um pezo inerte sobre o balcão.
+
+
+LXVIII
+
+Quando cobrei o alento, estava a janella fechada e apagada a luz. Corri
+as mãos sobre os vidros impenetraveis. Corri a baranda em toda a sua
+extenção; tudo apagado, tudo fechado, dormia tudo. Dominava-me uma raiva
+glacial. Á custa de tudo, eu queria remirar esta mulher que eu detestava
+com o coração, com a alma, com os sentidos, com todo o meu ser. Mas ir
+até ella, como? Pendurei-me na rampa, e deixei-me cahir ao jardim.
+Rodiei vinte vezes a casa, empurrando todas as portas; mas a minha
+fraqueza não podia com ellas. Finalmente, atirei-me ao chão, e ahi, com
+o rosto entre as mãos, desafoguei-me em soluços.
+
+--Trahido! trahido!--bramia eu, com monotonia desesperadora.--E o céo
+impassivel!--De subito ergui-me, e, sem idéa fixa, atravessei as trévas,
+rapido como se me viessem perseguindo assassinos. Precorri a tapada;
+saltei o muro, atravessei a estrada, entrei nos campos, e a correr
+sempre, com a cabeça nua, chorando e fallando sósinho, atirei-me como um
+attribulado gamo, que foge com os dentes de matilha feroz incravados nos
+flancos.
+
+Onde ia eu? não sabia. Fugia áquelle espectaculo. Salvava-me a todo o
+correr, para o mais longe possivel, para não vêr a imagem horrenda que
+me ficara nos olhos. Trahido! Trahido! era o grito que me esporeava, e
+excitava a fuga. Despenhei-me em barrancos. Levantava-me ferido, coberto
+de suor e lama, e corria de novo, sem destino, por escuridade pavorosa.
+Lancei-me desamparadamente em cancellos insilveirados; deixava-lhes os
+meus vestidos a pedaços, e caminhava. Esgalhos de arvores batiam-me no
+peito, raspavam-me a face e os hombros os tojos lacerantes; parava a
+chorar e depois caminhava. Atravessei as ruas dezertas das aldeias, que
+resoavam sob os meus passos; campos cultivados, cujas searas me
+ondulavam nas pernas como vagas; collinas, bosques, regatos, atalhos,
+estradas que desfilavam á roda de mim, como se o solo fosse arrastado
+commigo no arremeço d'um sorvedouro immenso. Faltava-me a respiração, e
+eu corria ainda, chorando, chorando sempre.
+
+--Ó minha mãe!--bradei eu.--Se soubesses quanto eu soffro!
+
+De repente, achei-me com os pés em agua. Ante mim, distendia-se um vasto
+espaço negro, uniforme, entranhado nas trevas, d'um lado e d'outro, com
+grandes e mysteriosos zunidos. A lua dardejando de viez o seu reflexo
+argentino, sobre esta superficie luzente, parecia serpente enorme
+assanhada contra mim, para engulir-me. Involvia-me o nevoeiro. Avancei
+tropeçando nas pedras, mas os jactos d'agua da torrente rapida,
+embargavam-me o passo. Horrida tentação me assaltou. Contemplei o céo
+sereno, onde brilhava, entre nuvens immoveis, o dôce astro dos amantes;
+puz a mão sobre o coração, e caminhei. Dava-me a agua pelos joelhos, mas
+sentia sempre o chão lodento em redor dos meus pés que escorregavam. Não
+podia mais. Vergado á fadiga e á commoção, soluçando como as mulheres,
+cahi, e fui arrastado na torrente que marulhava em sua marcha obscura.
+
+
+LXIX
+
+O que decorreu depois d'isto, não sei.
+
+Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante.
+Sentia abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo
+peso das aguas. Por fim, esqueci tudo; entendi que morria.
+
+Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabeça em fogo. Abri
+os olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo,
+desde a cabeça aos pés, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois
+amigos observando-me. Fallei, e elles abanaram a cabeça. Veio um homem,
+e tomou-me o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a tremer.
+Isto durou muitos dias.
+
+Depois soube que uns pescadores me tinham, de madrugada, encontrado sem
+sentidos, nas margens do Sena, com a cabeça envazada no lôdo.
+Buscaram-me as algibeiras, e acharam na minha carteira uma carta, e,
+guiados por ella, me trouxeram a minha casa. Delirei no caminho, e
+tiveram-me em conta de doido. Estava-o, realmente.
+
+Fanny, porém, ignorante de tudo, admirada de me não vêr, veio uma manhã;
+mas o meu creado, a chorar, impediu-lhe a entrada no quarto, e
+contou-lhe o que sabia. «Quiz afogar-se--disse elle--e agora está
+doido»--Ella, porém, não quiz crêr no suicidio, e supplicou a entrada.
+N'esse dia, um abatimento sem nome, semelhante ao dos cadaveres
+prostrados em seus sepulchros, me tinha como pregado pelas costas ao
+leito, com os braços alquebrados e os olhos abertos. De repente, devisei
+na porta, que se abriu ao pé do meu leito, uma fórma humana, de pé e
+quieta.
+
+Não atinei logo com quem fosse aquella mulher que me vinha vêr
+moribundo, adornada de trajos de estio tão elegantes e frescos, com
+braceletes nos braços e flôres no chapéo: tambem não entendi por que
+chegava com ambas as mãos o seu véo branco ao rosto. Os meus amigos
+tinham-se retirado para o fundo do quarto, afim de respeitar, quanto
+fosse possivel, um segredo que não queria ser penetrado. A mulher
+adiantou-se até á minha cama, e eu ouvi-lhe o fremito do vestido.
+Curvou-se-me sobre o leito, e levantou o véo. Como que senti
+refrigerar-se-me a alma, de vêr sobre o meu rosto aquella face viçosa
+cheia de graça, e como perfumada de saude.
+
+Fanny! exclamei subitamente, erguendo os braços. Fanny abaixou-se a
+soluçar sobre o meu peito. Mas a memoria restaurara-se com o conhecêl-a;
+levei-lhe á face os punhos fechados, e repelli-a de mim, gritando
+furioso «sai d'aqui!» Ella acreditou que eu estava doido, e arredou-se
+chorando; mas com um resto de força que a raiva me déra, bati-lhe no
+hombro, e, ao lançar-me fora da cama, cahi por terra aos pés d'ella.
+
+
+LXX
+
+Quando sahi do lethargo, suppliquei, de mãos postas, aos meus
+enfermeiros, que não deixassem entrar em minha casa aquella mulher.
+
+Ella, porém, que não podia suspeitar o succedido, e continuava a crêr na
+minha demencia, vinha todos os dias--disseram-m'o depois, e todos os
+dias com gestos afflictivos, sollicitava vêr-me.--O medico não
+consente--respondia inflexivel o meu creado. Fanny offerecia dinheiro e
+prendas; mas comprehendendo a final que a sua presença podia matar-me,
+retirou-se, pedindo a Deus a minha cura, e offerecendo-lhe, em troca da
+minha, a sua vida. D'isto não sabia eu nada então. Decorriam os dias, e,
+por desgraça minha, graças aos disvellos que me rodeavam, a vida pouco a
+pouco affluiu apagando a febre.
+
+
+LXXI
+
+Ao cabo de seis semanas entrei em plena convalescença. Já os amigos me
+tinham deixado. Perguntou-me, muitas vezes, o creado, se eu queria
+receber aquella pessoa que tanto parecia amar-me, e cuja presença tão
+mal me fizera uma vez. Sempre com repellão lhe disse que o expulsava se
+a deixasse entrar. O desejo, porém, de a vêr, entrou commigo, e
+tornou-se emfim n'uma irresistivel necessidade. Fiz fallar o creado
+sobresaltado, que não intendia a minha frieza. Contou-me tudo que eu não
+sabia; que ella vinha diariamente, e elle já não sabia que dizer-lhe,
+para estorvar-lhe a entrada. Se ella vier hoje,--murmurei eu
+impetuosamente, corrido de vergonha,--recebo-a.
+
+Sentia-me eu abalado como se alguma funesta esperança tentasse renascer
+em mim. Com o abatimento da molestia, quasi que a cólera se desvanecera;
+mas ganhara-me uma dôr intensa, e eu assentava--tamanho desgosto era o
+meu por tudo--que não podia viver. Aquella noite terrivel da traição,
+lembrava-me como um sonho máo. A um tempo, amava e desprezava a mulher
+graciosa e perfida, cuja imagem era commigo sempre. O que eu esperava
+para acabar com tudo, era alguma cousa indelineavel.
+
+Estava eu sentado n'uma poltrona, ao pé da minha janella, com os olhos
+fechados, repassando no animo o que eu diria á prejura, quando senti
+apertarem-me a mão, e misturarem-se n'ella os beijos com as lagrimas.
+Abri os olhos. A meus pés, de joelhos, livida, mas formosa ainda,
+formosissima, estava Fanny, olhando-me com eloquente ternura. Senti o
+perfume d'ella. Nada diziamos. Eu sei que chorava.
+
+Fanny ergueu-se, abraçou-me maternalmente a fronte e os cabellos, com os
+seus dois braços nús. Não resisti, porque me era aprazivel receber
+aquellas caricias, a que eu tinha direito, em quanto não fallasse. E por
+isso mesmo é que não fallava. Finalmente, como eu chorava sempre e a não
+abraçava, Fanny disse:
+
+--Foi-se o teu amor, Roger?
+
+--Ainda não--respondi, tapando o rosto com as mãos. Ella não intendeu, e
+deteve-se em pé e agitada defronte de mim.
+
+--Fanny, diz-me que é um sonho, ou que estou doido. Diz-me que não devo
+odiar-te, porque este odio dilacera-me.
+
+Não córou. Não impallideceu. Pura como a chamma, e crendo-se talvez ella
+mesmo pura, amimou-me internecida, com apparencias de admirada.
+
+Foi então que eu, reunindo as minhas forças todas, a tomei pela cintura
+gentil em meus braços, e a fiz sentar defronte de mim. E disse-lhe:
+
+--Sei tudo.
+
+«O que? tu que sabes?
+
+--Vi tudo.
+
+«Mas que?
+
+--Porque me trahiste? Tu não cedeste, porque foste tu quem o procurou,
+não foi elle a ti. Foste tu, que trocando despejadamente o papel, o
+seduziste a elle.
+
+Fanny não perdeu ainda a côr, e quiz fallar. Eu, porém, com os olhos
+cravados n'ella, sem cólera, e frio como o aço, continuei:
+
+--É necessario dizer-te tudo? Não merecias confiança. Comprei a caza
+vizinha da tua, em Chaville...
+
+Aqui, impallideceu, e disse:
+
+«E depois?
+
+--Uma noite, horrivel noite!... depois de te espiar em vão quinze dias,
+arriscando a minha vida, consegui introduzir-me sobre o balcão da tua
+casa. Não sei que hora era. Ajoelhado por traz da vidraça do quarto de
+teu marido, pude vêl-o. Como te vejo agora, tudo vi. Estava elle só.
+Entraste...
+
+«Isso é falso!» exclamou Fanny, mais horrivelmente pallida. Semelhava um
+cadaver sentado n'uma cadeira defronte de mim.
+
+--Será preciso dizer mais?--accrescentei.--Vestias um chambre de
+cachemira azul. Trazias os cabellos em desalinho, e o peito nú. Calçavas
+chinellas de setim. Nús, trazias os braços. Serena como sempre, no
+momento mesmo em que prejuravas, não amaldiçoaste aquelle que vinhas
+saciar, por que ha em ti dois corações, para amar dois homens, Fanny, a
+elle, e a mim.
+
+Fanny sacudiu rapidamente a cabeça, e disse com voz abafada:
+
+«É falso! é falso! tu não me conheces!
+
+--Será preciso dizer mais?... Exprobraste-lhe a traição, que é
+certissima. Defendeu-se elle, a sorrir. Tu, cem vezes, passaste diante
+de teu marido, por que querias fascinal-o, sem lh'o dar a intender, com
+os teus exteriores pudibundos. Sahiu-te tudo ao pintar, por que elle
+puchou-te para sobre o coração, e tu deixaste-te sentar sobre os
+joelhos, e nem de mim te lembravas, de mim, a agonisar, com aquelle
+espectaculo diante...
+
+«Basta!»--exclamou Fanny, e ficou a olhar para mim. Parecia soffrer
+horrorosamente; mas não chorava. Dilatavam-se-lhe as pupilas, e
+crispavam os labios resequidos. Com pena d'ella, baixei os olhos, mas
+accrescentei:
+
+--Sabe que eu estive ali, eu, que te adorava, e é de crêr que a vergonha
+e a dôr não matem, por que eu vi tudo, e não morri.
+
+Como duas estatuas fronteiras, nas bordas d'um jazigo, assim ficamos em
+contemplação, e immoveis. Por fim, disse ella:
+
+«Eu devo fazer-te horror!
+
+--Fazes.
+
+Ergueu-se, levantou as mãos ao céo, lançou-se a mim, como sobre uma
+preza, apertou-me entre os braços, sentou-se-me nos joelhos, peito a
+peito, e a buscar-me os labios, com estas exclamações:
+
+--Não importa! eu adoro-te sempre.
+
+Mas eu, levantando-me, sacudi-a, e atirei-a ao chão, e ella ahi ficou.
+Abismada a meus pés, como a Magdalena, soltas as tranças, nodados os
+braços aos meus joelhos, desfeita em pranto, exclamava:
+
+«Perdão! piedade! Eu tinha perdido o juizo! estava doida! mas amo-te
+sempre! Tem compaixão de mim.
+
+E prometteu submetter-se a tudo que eu exigisse d'ella. Propôz-me a
+fuga, bradando:
+
+«Mata-me, e não me repulses! Esmaga-me aos teus pés. Sou culpada, mas
+não me abandones. Amo-te. Rasga-me o coração...
+
+Fiz que se erguesse e sentasse. Estava corada, e escondia o rosto; mas
+eu sentia-me impiedoso. Recrudescera o meu furor com a narração do meu
+supplicio. Voltei as costas áquella mulher, cuja soberba, por tanto
+tempo me mentira. Ainda assim queria ella violentar-me, estendendo para
+mim os braços; mas fiz-lh'os recuar á face, com um gesto.
+
+--Sabe que te detesto e adoro--disse-lhe eu--É isto o meu castigo, por
+que eu fiz minha, a mulher d'outro, e devo ser castigado. Tu, para mim,
+és uma deshonra, e mais nada. És um idolo attascado em lama. Vi-te, em
+attitude pudica, com o rosto angelical, e olhar infantil; vi-te grotesca
+e disforme, raivar e uivar, como a loba mordida pelos cães. Cala-te! tu
+fizeste peor que as creaturas com quem esse homem hediondo te compara:
+essas, ao menos, não mentem.
+
+«Mas elle é meu marido!--disse Fanny.
+
+--Não tens consciencia? Diz-me com franqueza se é certo seres tu um ser
+intelligente, e se uma idéa dirigiu a tua acção funesta. Quem te
+obrigava a ir procural-o?
+
+Fanny, com grande esforço, respondeu:
+
+«Eu via que elle se desprendia de mim. Não o amo, por que te amo, mas
+dependendo d'elle. Não é natural? Repartida entre o desejo de conservar
+sua affeição, e o receio de ser forçada a mostrar-lhe uma affeição
+semelhante, quiz segural-o quando me fugia, e, quando se approxima, é
+escusado tentar eu fugir-lhe. Cedi ao dever. Reciei que me deixasse. O
+temor de me vêr abandonada com os meus filhos, inlouqueceu-me.
+Perdoa-me. A mulher, que elle conheceu em Londres, é a causa de tudo. Eu
+preciso de paz, socega-me tu. Fiz mal, por que te amo; mas sou mulher, e
+tu não conheces as mulheres. Não calculas quanta honestidade pode haver
+nas traições d'ellas.
+
+--E o teu juramento?--exclamei. Fanny contorcia as mãos afflictivamente.
+Eu prosegui:
+
+--Mentes, quando dizes que cedeste ao dever. Não cedeste senão ao
+orgulho. Intristecia-te o ser abandonada por esse homem que não amas, e
+te não ama, e te opprime, e te despreza e insulta. Não cedeste tambem á
+sêde d'um prazer abominavel? Repito-te que ouvi tudo.
+
+Neste conflicto, encontraram-se os nossos olhos. Fanny fez-se escarlate,
+quiz fugir, tornou para mim, e cahiu de joelhos, exclamando:
+
+«Se soubesses quanto eu me abomino! Eu queria arrancar o coração deste
+corpo. O meu coração está puro. Vêr-te, ouvir-te, sentir-te ao meu lado,
+bastára-me sempre. Por isso mesmo que te amo, é que tu és o unico ente,
+mais que homem para mim. Tu és neste mundo o meu amor unico. És a minha
+vida.
+
+--Amas-me!--bradei eu com raiva.--Mas de que modo me amas? Acima de mim,
+em teu coração tão puro, estão vãs considerações do mundo, razões de
+sociedade, costumeiras mesquinhas, está teu marido. Não me falles de
+teus filhos. Que amor é aquelle que não conhece a virtude dos
+sacrificios? que recua diante de qualquer respeito? que é limitado? que
+soffre prescripções? que não é uma abnegação absoluta do individuo, de
+todos os seus pensamentos, e affectos, e deveres e virtudes? Quem se
+perde pelo ente que ama, e destroe a honra e segurança do seu futuro, e
+chega, por amor delle, até ao crime, e se tortura a inventar maiores
+provas ainda, não dá o mais radioso testemunho da paixão exclusiva,
+intolerante, e soberba. Tu nunca soubeste que o amor não vive senão de
+si, e nada reserva fóra de si. Renegado sublime, piza os mais santos
+objectos, forte da felicidade que inventa, e que lhe justifica a
+impassibilidade. Porém, tu! mulher das dedicações mesquinhas, das
+virtudes pequenas, dos deveres timidos, chamas loucura a tudo isto. É
+alto de mais para ti! a tua vista não alcança tanto. O que tens,
+superior a ti, é a tua casa, é o teu bem-estar, é o luxo que te cerca, é
+a falsa estima do mundo que tanto se dá de ti como das outras, são as
+relações banaes, é um complexo de coisas miseraveis. E dizes que me
+amas! Supportarias tu o abandono da sociedade? Offereci-te tudo que
+tinha; dar-t'o era a minha felicidade; para ti roubaria eu os
+indigentes. Ainda assim, aceitarias tu o menor incommodo como preço da
+minha felicidade? Não ultrajes, pois, o amor, a paixão soberanna, que
+não quer ouvir em redor do seu throno, uma voz que não seja a sua. Crês
+que amas por te haveres entregado? Vai, já te disse que vi tudo. Estavas
+com elle como commigo. Custou-te tanto a passar dos meus braços para os
+delle como d'um vestido para outro.
+
+Fanny, ergueu-se desesperada, e quiz partir; mas eu retive-a, atirei-a
+para o fundo da alcova, e collocando-me diante da porta, com os braços
+cruzados, exclamei:
+
+--Hasde ouvir tudo!
+
+Faltou-me a expressão. Arquejava de anciedade. As minhas palavras eram
+gritos. Cerrei os punhos em postura ameaçadora; Fanny olhava-me de revéz
+com inexpremivel terror. As palavras vieram, depois, impetuosas:
+
+--Eu nunca tive crença em ti. Tanta certeza eu tinha de que me
+atraiçoavas, que, por minha desgraça, quiz conspurcar o nosso amor.
+Sabe-o, se nunca o supposeste; sabe que eu, teu adorador, atraiçoei-te
+com as mais rasteiras mulheres.
+
+Fanny não me acreditava. Attribuia á impotencia do furor o que eu
+dissera, e fez um gesto de denegação soberba. Máo grado meu, repassado
+de angustia, fallei n'um tom de voz supplicante, e branda. Toda a minha
+cólera cahiu sob o pezo da piedade.
+
+--Sabe, pois, murmurei eu com as mãos erguidas, que eu te amava ao mesmo
+tempo com amor de mãe, de mulher, de creança. Quanta piedade, respeito,
+e ternura que podem resumir-se em amor no coração, quantas delicias,
+tocam a divinisação pela maviosidade, todas senti por ti, desde o
+primeiro dia em que te vi passar com tuas graças, com a tua serena
+suavidade, com a tua formosura. Sabe que te adorei piedosamente; que só
+em ti pensava; que eras a minha segunda alma; que me doiam mais teus
+males que os meus; que, por desvanecer-te do animo uma incerteza, teria
+dado, risonho, a vida, que eu só amava por que te era aprazivel. Vê que
+choro. Tudo que era teu, amei: teus filhos, tua mãe, tua casa, teus
+creados; as irregularidades irritaveis do teu caracter, os teus
+vestidos, e as tuas rendas. Creio até que o amava a elle, por que, em
+meu espirito, a tua imagem andava associada á d'elle. Nem minha mãe amei
+como a ti. Por ti, têl-a-hia abandonado, com tudo que venero. Eras o meu
+eterno espirito, o meu bem mais caro, a imagem perfeita das coisas
+puras.
+
+«Perdão!» exclamou ella, recahindo de joelhos.
+
+--E tu, Fanny, calcaste aos pés este respeito, este amor incomparavel,
+este coração...
+
+«Piedade!
+
+--Recalcaste-me como a féra impassivel que esmagou com as garras as
+primeiras flôres do campo. E agora... aqui me tens sem futuro, como um
+desgraçado que não pode amar alguem, como o ancião, que viu em roda de
+si, morrerem todos os seus. Tudo feneceu, tudo apodreceu em meu coração.
+Estou velho! tenho cem annos! vou morrer! sou um sepulchro! Tu sabes de
+mais que estou sósinho no mundo...
+
+«Piedade! perdão!--exclamou Fanny, indo hallucinada, esbarrar nos moveis
+e nas paredes.--Não me digas que és desgraçado!
+
+--Oh! desgraçado! e não digo bem o que sou. A lingua não tem voz que o
+diga.
+
+Ingrata! Não te bastava ser senhora da minha alma, do meu coração, da
+minha vida; vens ainda tirar-me o que eu mais amava no mundo... a estima
+de ti... que me era mais que tu mesma!
+
+«Piedade! piedade!»--continuava ella exclamando.
+
+--Assassinaste-me a mocidade. Pois bem! ouxalá que nunca soffras o que
+eu estou soffrendo... Adoro-te, e horrorisas-me!
+
+Dito isto, quiz feril-a e abraçal-a ao mesmo tempo; mas cahi
+desfallecido: e, por noite, quando abri os olhos, e a procurei no quarto
+ás apalpadellas, não a encontrei.
+
+
+LXXII
+
+No dia seguinte, senti-me saciado de vingança. Experimentava aquella
+especie de serenidade cruel, que segue as execuções supremas. Sentia-me
+satisfeito, em fim, como o juiz que tem em seu poder a irrecusavel prova
+do crime que puniu.
+
+Já me não afligia o pensar n'ella. Não obstante, eu previa lucidamente
+os graves desgostos da sua vida.
+
+--Soffrerá longo tempo, e depois odiar-me-ha. Incadeada sob o jugo,
+debalde tentará soffrêl-o corajosamente. A resignação desdiz do caracter
+d'ella. Outro virá, mais tarde, substituir-me. Se a não amar, será
+despresado. Amando-a, repetir-se-hão immediatamente, e com as mesmas
+phrazes--identicas luctas, as mesmas perfidias, iguaes torturas.
+Emquanto viva, Fanny perseguirá fatalmente a sua chimera. O amor ideal
+que a arrasta não se dessipará mesmo nos gelos da idade; quando as rugas
+sobrevierem a provar-lhe que tudo é mudavel na terra, ella continuará a
+evocar o phantasma d'uma paixão que foi e será sempre o seu supplicio.
+Ha-de apartar-se da sociedade, como os soldados feridos no fogo de vinte
+pelejas. Como elles, afastada de tudo, saciada de tudo, tirará commoções
+para uma vida nova no mysterioso poema das suas remeniscencias. Os
+filhos, que adora, não a consolarão. Quem sabe se virão a
+desprezal-a?... Condemnada a amar por egoismo, não se fará feliz a si,
+nem a outrem. Impotente para o bem, ser-lhe-ha martyrio eterno o
+procural-o. Para a felicidade propria, faltar-lhe-ha sempre um vicio;
+para a felicidade alheia, faltar-lhe-ha sempre uma virtude. Tem coração
+de mais, e coragem de menos.
+
+Dest'arte, julgava eu, de longe, aquella mulher que eu, por ultimo
+conhecera, á custa da minha ventura. Não posso dizer que a lastimava.
+Com quanto me sentisse prostrado de fadiga, a irritação surda, contra
+ella, era immensa. Como se annos e annos medeassem entre nós as suas
+barreiras, eu me sentia separado d'ella, mas ainda a sentia viver em
+mim. Era-me a memoria d'ella, como o ferrete aberto com ferro em braza.
+O estygma intalhado a fogo no coração, não podia eu, forçado do amor
+desvanecêl-o.
+
+
+LXXIII
+
+Se, porém, julgando-a, me não compadecia d'ella, era-me impossivel
+pensar em mim, sem padecer em todas as fibras do meu ser. Quanto amor eu
+tinha, quanta affeição filial, ternura piedosa, e veneração, exhalava-se
+de mim como vapores, e dissolvia-se em lagrimas amargas, que eu tragava,
+sobre a cruz onde a sorte immisericordiosa me cravára. Estorturava-se,
+este amor, como joven robusto que saboreou a vida e não quer morrer. A
+affeição de filho, que eu naturalmente lhe dera, por causa da differença
+de nossas idades; a piedosa ternura que ella me inspirava, como um bem
+suavissimo; a veneração, em summa, que lhe era a ella um incenso grato,
+isso tudo, o melhor de minha existencia, desfazia-se em meu coração, e
+evaporava-se lentamente em caricias de effluvios e perfumes. Qual
+viajor, surprehendido, ao despertar, nas steppes infinitas da Asia, por
+um turbilhão fluctuando raso com o chão, tal eu me sentia perplexo nas
+minhas revoluções, prudencia, e coragem. Em redor de mim tudo se movia
+vagarosamente, derramando-se em fórmas confusas: fugia tudo; memorias
+queridas, votos superfluos, ternos desejos, pezares, aspirações, tudo se
+esvahia nas distancias do meu sonhar, e me deixava, sósinho, n'um grande
+espaço. E desse turbilhão nevoento de sensações, vontades, e habitos;
+densas oscillações impalpapeis de penas, prazeres, e esperanças,
+prolongadas até ao extremo limite que meus olhos viam, surdia emfim um
+phantasma enorme que subia, subia até ao céo, tristemente involvido em
+pallida mortalha. Este phantasma reconheci-o na amargura que tinha
+impresso na face assombrada, no atrophiamento da sua attitude, na sua
+mudez, no rir amargo que lhe circuitava os labios descorados. Ah! uma
+vez o tinha eu já visto crescer para mim, e me sentira estalejar com
+elle nas dobras de seu sudario. Vinte annos tinha eu. Foi quando perdi
+minha mãe, e da sepultura d'ella, revolvida de fresco, sahia e me
+aferrara nos braços a glacial SOLIDÃO.
+
+Eu chorava. Tudo estava em redor de mim fallando-me d'ella. Todo o mal
+que me fizera, esqueci-o. Mil vestigios deixára Fanny n'aquelle quarto
+que eu preparava amorosamente para recebel-a. N'aquelle tecto que lhe
+cobrira a cabeça, nos tapetes pisados por ella, nos moveis que tocaram
+suas roupas, em tudo me apparecia serena e consoladora. Aqui me abria os
+braços de veludo, a poltrona onde ella se assentava tantas vezes; ali a
+molle pegada do seu sapato, no coxim em que ella descançava os pés;
+acolá, resequidas, nos vazos chinezes, desfolhando-se tristemente, as
+flôres que ella amava; além, as cortinas que ella tantas vezes levantava
+com sua mão timida; ali, se move ainda o pendulo do relogio, para o qual
+ella estava olhando sempre; aqui, o véo d'ella, aqui as cartas, seus
+dôces reflexos; além, o pente embalsamado com o perfume dos seus
+cabellos; e acolá, finalmente, frio e cerrado como um tumulo, o leito
+onde tantas vezes chorávamos.
+
+Agora, me assoberbava a memoria, tudo o que dissemos, pensamos, e
+esperamos. Como longinqua musica, trazida na viração do mar, soava-me
+nos ouvidos o cantar de suas palavras; como emanação de flôres que se
+evapora com o orvalhar das noites, deliciava-me o olfacto, o perfume de
+sua cutis olorosa; como bafejo de primavera, perpassavam-me nos labios
+os effluvios de seus beijos. Ardia-me a mão que ella tocara; ardia-me a
+fronte que ella afagara em seu seio; ardiam-me os olhos que ella
+adorara, a boca em que a sua apremara nas vertigens da paixão, o peito
+que ella duplicara com o seu peito. Oh! que prazer me era sorrir-lhe ao
+retrato, e remecher nas cartas d'ella! Affigurava-se-me ouvil-a ainda;
+esperal-a ainda, como nos dias passados; vêl-a chegar assustada, como a
+cerva dos bosques, a esconder-se em meus braços. Mas, ao mesmo tempo,
+não sei que vaga essencia se desprendia de mim em soluços e gemidos.
+Quebrantava-me uma tristeza profunda; uma lethargia sem nome paralisava
+todas as minhas idéas. Meditativo, como póde sêl-o o homem no leito da
+morte, eu dizia commigo:--Acabou tudo! não nos tornaremos a vêr, nós,
+que tanto nos amamos!...
+
+
+LXXIV
+
+Era tamanha a minha tribulação, que eu receei succumbir á paixão. A
+imagem d'ella, entrava em todas as minhas meditações. Como não podia
+arrancal-a da memoria, fugi com ella, precipitadamente, sem voltar o
+rosto, como o incendiado que não quer ouvir os gritos de maldição
+sahidos d'entre as chammas accendidas por sua mão cruel. Parti, sem
+dizer onde ia, para partir, para me afastar. A minha mesma coragem me
+apavorava. Mas a memoria ia commigo, chorava commigo. Cançado um dia, da
+vista dos homens, deixei os caminhos trilhados, e intranhei-me, ao
+norte, nas areias que bordam a foz do Loire. Caminhei trinta horas sem
+parar. Ao anoitecer, apeei n'um deserto, e resolvi acabar ahi...
+
+Não queria porém, eu, que ahi dissessem que irreflectidamente me
+suicidara como um louco, ou como creança infraquecido na lucta.
+Apozentei-me, pois, aqui, para luctar contra mim mesmo, e vêr se a cura
+me póde ser ministrada por um hospede menos frivolo que a morte.
+Impuz-me o prazo d'um anno, para viver uma vida differente, só,
+meditativa, austera. Estou resolvido a esperar até final. Algumas vezes,
+detesto-me, e todavia espero. Fio-me não sei de que. Amo, como nunca
+amei, a mulher que me reduzio a isto. Não a desprezo já. Absolvo-a. Eu
+teria feito o mesmo, se fosse ella, e affirmo que valem menos que ella,
+as que de outro modo se comportassem. Mas ha momentos em que a detesto,
+e me arrependo de a não ter esmagado. Assim, e incessantemente, vou d'um
+extremo de amor e piedade, ao outro extremo de furor e odio. Oh! amar!
+que supplicio!
+
+As forças da minha alma estão extinctas. Já me não pulsa o coração. Hoje
+principalmente, que dou fim aos traços do drama da minha vida, sinto a
+tentação terrivel de completal-o com um sanguinario epilogo.
+
+Mas, porque ha-de ser aqui, e não ha-de ser além ao pé d'ella? É porque
+me resta ainda o pudôr d'um ciume feroz, que não quer ser carpido. Qual
+besta-féra, que, ferida de morte, procura uma caverna onde morrer em
+paz, e esconder seus ossos; assim eu, se devo morrer, quero que seja
+n'um deserto, longe d'aquella que eu amei de mais.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+ PARCERIA
+
+ ANTONIO MARIA PEREIRA
+
+ LIVRARIA-EDITORA
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+ OFFICINAS
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+ <title>Fanny: estudo, por Ernest Feydeau</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Fanny: estudo, by Ernest Feydeau
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Fanny: estudo
+
+Author: Ernest Feydeau
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+Translator: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
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+Release Date: December 1, 2009 [EBook #30571]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FANNY: ESTUDO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="fbox"><p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>No texto impresso o tradutor, ou o impressor, não colocaram as marcas
+dos capítulos XXXIII e XLIII. Esta tradução foi comparada com o texto
+original, em francês (Paris, 1859), e as marcas de capítulo colocadas em
+conformidade com a intenção do autor.</p>
+
+<p>Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipográficos evidentes.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p>OBRAS<br>
+<span style="font-size: 0.8em;">DE</span><br>
+CAMILLO CASTELLO BRANCO<br>
+&mdash;&mdash;<br>
+<span style="font-size: 0.8em;">EDIÇÃO PARA BIBLIOPHILOS</span><br>
+&mdash;&mdash;<br>
+XVI</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">FANNY</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="font-size: 0.8em;; margin: 10%;">
+<p><span style="font-size: 0.8em;">VOLUMES PUBLICADOS</span></p>
+
+<p>I&mdash;Coisas espantosas.</p>
+
+<p>II&mdash;As tres irmans.</p>
+
+<p>III&mdash;A engeitada.</p>
+
+<p>IV&mdash;Doze casamentos felizes.</p>
+
+<p>V&mdash;O esqueleto.</p>
+
+<p>VI&mdash;O bem e o mal.</p>
+
+<p>VII&mdash;O senhor do Paço de Ninães.</p>
+
+<p>VIII&mdash;Anathema.</p>
+
+<p>IX&mdash;A mulher fatal.</p>
+
+<p>X&mdash;Cavar em ruinas.</p>
+
+<p>XI, XII&mdash;Correspondencia epistolar.</p>
+
+<p>XIII&mdash;Divindade de Jesus.</p>
+
+<p>XIV&mdash;A doida do Candal.</p>
+
+<p>XV&mdash;Duas horas de leitura.</p>
+
+<p>XVI&mdash;Fanny.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">FANNY</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ESTUDO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ERNESTO FEYDEAU</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ROMANCE</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">TRASLADADO PARA PORTUGUEZ, DA DECIMA OITAVA
+EDIÇÃO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small>
+B<small>RANCO</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="font-size: 0.8em; margin-left: 20%;">
+ <p>Aquelle, que cavar um fosso, cahirá n'elle; aquelle, que derruir uma
+ muralha, será assalteado por uma serpente.</p>
+
+ <p style="text-align: right;">E<small>CCLESIASTES.</small></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>TERCEIRA EDIÇÃO</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">LISBOA<br>
+P<small>ARCERIA</small> ANTONIO MARIA PEREIRA<br>
+<small>LIVRARIA EDITORA</small><br>
+<em>Rua Augusta, 50, 52 e 54</em><br>
+1903</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr>
+
+<p style="text-align:center;"><small>Officinas typographica e de encadernação,
+movidas a vapor<br>
+Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º<br>
+LISBOA</small><span class="pn">{5}</span></p>
+
+<div id="corpo">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>A caza está situada de esguêlha, sobre um comoro de areia, á orla da praia,
+olhando de soslaio o oceano, como desconfiada d'elle. É uma casa baixa, de
+pavimento plano, com um recinto ao rez do chão, um portal, seis janellas, e uma
+chaminé de gêsso, meio esburacada, no cume do telhado.</p>
+
+<p>Á primeira vez que de longe a vi, caminhando eu atravez de desertos
+cabedellos, tinha ella um tão triste aspecto, que eu senti serrar-se-me o
+coração. Estava inscripto o desamparo nas largas fendas que desconjunctavam as
+paredes, e nas rachas profundas das telhas desmantelladas. Gemia a porta a cada
+bulcão do vento que a embatia contra o gonzo unico. Das montanhas aquosas do
+oceano erguia-se, como um sudario, a nebrina que a envolvia.</p>
+
+<p>Fazia frio. Uma briza cortante sacudia, silvando o dorso das vagas,
+marulhando-as, revolvendo-as, e espedaçando-as. Rolos de areia, de mistura com
+entulho, limos e cardos, refluiam até á testada da<span class="pn">{6}</span>
+porta. Do outro lado, á maneira d'uma nodoa verde-escura, crescia a herva, que
+invadia o antigo jardim.</p>
+
+<p>Uma pobre arvore, vergada sobre a parede, do lado de terra, escassamente
+sustentava a ramagem que a ventania furiosa atormentava. Junto á raiz,
+conservava apenas alguns restos de folhas dessecadas. Com lamentavel aspecto,
+se erguia ella, dentre os sacões do vento, mas a goteira de chumbo, pendida da
+cornija, e açoitada pelas refegas oppostas, rossando-lhe nas grimpas,
+desfazia-lh'as a pedaços.</p>
+
+<p>Eu, ao querer desterrar-me da sociedade, lembrei-me d'esta abegoaria, que
+meu pae me herdára, e era o restante d'um casal, já desbaratado. Vim alli
+procurar o silencio e a solidão. Mas não reparei o solar da porta, nem fiz
+cultivar o jardim. Deixei as fendas do tecto, pelas quaes se coava a chuva;
+deixei as fendas nas paredes, por onde irrompia o asperrimo furacão das noites
+do outono. Não chumbei o gonzo do portal. Não levantei a goteira de chumbo. Não
+me amiserei da velha arvore que se estorcia como um crucificado contra o muro,
+por que a sorte não se amiserára de mim.</p>
+
+<p>Installei-me na salla unica sem alterar nada da sordida mobilia. Um banco de
+pau foi a minha cadeira; um monte de cisco, revessado pelo mar, foi o meu
+leito. Nunca na chaminé se accendeu lume. Nutri-me do pão negro e duro dos
+marujos. Bebi agua empoçada que me dava a cisterna.</p>
+
+<p>E desde o dia que entrei ahi até ao dia em que isto escrevo, nunca mais sahi
+da casa triste. Prostrado<span class="pn">{7}</span> sobre a folhagem dura,
+sentado no banco estreito, com os joelhos justa-postos, os braços pendidos, as
+mãos inclavinhadas, a face descaida, deixei correr os dias indifferentemente.
+Como os bois corpulentos, que eu via, na minha infancia, ajoelhados entre as
+hervagens dezertas, eu ruminava o pasto amargoso das minhas remeniscencias.</p>
+
+<p>Com tudo, algumas vezes, com o passo vacillante dos ébrios, transpunha eu o
+limiar da porta, e errava lentamente, e cambaleando, em roda da minha habitação
+maldita. Á luz gélida e palida das estrellas de novembro, contemplava-a eu,
+comparando-a a tumulo abandonado, que apodrece debaixo das hervas, e
+espantava-me sempre de a vêr em pé, gemebunda, sob os açoites do vento que a
+verberavam.</p>
+
+<p>Nunca, porém, me alonguei d'ella. Fóra d'ahi quem poderia attrahir-me? O
+oceano, d'um lado, desdobrava suas ondas enfurecidas com clamor monotono e
+afflictivo; do outro, o areal, mosqueado de manchas verdes, alongava-se a
+perder de vista; por cima, rolavam as nuvens pesadas e silenciosas. A minha
+casa era a unica, que recortava o horisonte carrancudo com seu triste perfil; e
+o promontorio de rochas pardacentas, ante mim, alongava sempre no flanco do mar
+o seu grande braço minacissimo.<span class="pn">{8}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Se voluntariamente me exilei n'esta horrida solidão, é por que, por desgraça
+minha, amei, e amo ainda. Não cuideis, porém, que algum terrivel successo me
+distanciou, a meu pezar, da mulher que amo. Prouvera a Deus!... Poderia ainda
+abençoal-a!</p>
+
+<p>Desde muito que eu a amava sem ousar dizer-lh'o. Separavam-nos tantos
+estorvos, que o combatel-os me atemorisava. Tinha eu então vinte e quatro
+annos, de mais a mais! Eu corava quando nossos olhos se encontravam. Diante
+d'ella, tremia, commovido pelo extasis. Comprehendeu por fim que eu a amava, e
+serenamente, como quem se arremeça a transpôr uma barreira, ella mesma, com sua
+mão gentil, removeu todos os obstaculos.</p>
+
+<p>Oh! era por isso mesmo, sobre tudo, que a eu adorava. E, depois, tão meiga e
+linda! Aos trinta e cinco annos, conservava toda a frescura e jovialidade da
+meninice, e a estes encantos alliava um não sei que de serêno que as mulheres
+adquirem na experiencia e costumes da sociabilidade.</p>
+
+<p>Era alta, elegante, e de leve delgada nas espaduas, breve a cintura, os
+encontros modestos; e o pizar mesurado denotava na sua firmeza uma alma activa
+em agil corpo. Por costume, deixava cair os<span class="pn">{9}</span> braços
+de rainha, e nus os ajuntava cruzando as mãos, quando estava em pé: então, as
+grandes dobras do seu vestido de veludo-granada, caíam-lhe verticaes sobre os
+pés arqueados, e a cauda firmava-se no chão; e, quando caminhava a passos
+solemnes, erguia um pouco a formosa cabeça, radiosa sobre colo de cysne,
+suavemente inclinado.</p>
+
+<p>Sentada, gostava de encostar a face á mão direita, repousando o braço
+esquerdo sobre o setim brilhante da cadeira que seus dedos afilados como
+franjas de marfim, rossavam de leve. Tinha cabellos loiros e lustrosos, que
+desciam em espiraes ao longo das fontes, das faces pallidas, e em redor do
+colo. Fronte pequena, nariz d'uma exquisita e suave belleza, a barba liza, tudo
+em harmonia com as sobrancelhas arqueadas, e os labios finos e justa-postos. Os
+olhos azues, em fim, d'um azul sombrio e meigo, e amplas pupilas negras,
+languidamente envoltas em palpebras salientes franzidas de cilios espessos,
+tinham uma expressão de ternura, de candidez, de spasmo, de pureza que me
+irritava e endoudecia!</p>
+
+<p>Amei-a perdidamente, e assim a amo ainda. E ella... amava-me como sabia
+amar, com interior reserva, calculadamente. A naturalidade do seu ar
+acanhava-me. Ainda quando me apertava em seus braços com transporte, parece que
+me distanciava de si. As rainhas e imperatrizes devem amar assim os seus
+amantes. Foi por isso que eu, desde o principio, soffri, e vim até este extremo
+em que me vêdes.</p>
+
+<p>Como eu quizera passar com ella os instantes todos<span
+class="pn">{10}</span> da minha vida, procurava todas as occasiões de
+encontral-a. Não podia contentar-me com as duas horas que ella me dava de cada
+semana. Eram tantos os seus encargos domesticos! E eu imprudentemente a
+perseguia por toda a parte, ficando muitas vezes horas inteiras, com o rosto ao
+vento e os pés no gêlo, só para vêl-a, passar, graciosamente encapuzada no
+capuz de sêda côr de rosa, atravez do vidro de sua rapida carruagem. Todas as
+noites, com o coração angustiado, errava eu, por entre os nevoeiros, debaixo de
+suas janellas luminosas, ou, rebuçado e confundido com a gentalha, lhe expiava
+a saida do peristylo do theatro dos italianos; ou, encostado á couceira de
+uma
+porta, a esperava longo tempo para vêl-a entrar no baile, com os cabellos
+enlaçados de flôres, as espadoas nuas até aos seios, e então observa se o
+«corpinho» de setim branco tremia sobre a pressão anceiada de seu peito, quando
+me via. Custava-me a não me ajoelhar aos pés d'ella, quando a cortejava
+respeitosamente.</p>
+
+<p>Ahi, no baile, n'esse ambiente pesado e saturado de acres perfumes, sob os
+raios deslumbrantes que irradiavam como flechas do coração dos lustres, eu a
+contemplava movendo-se graciosamente. Seguia-a com os olhos, encostada ao braço
+d'um ancião cravejado de medalhas, que a denominava affectuosamente pelo seu
+pronome. Distinguia-se entre todas, quando, de fronte soberana, e pisar
+magestoso, circulava por entre os grupos. Contemplava-a ainda, quando meio
+recostada ao espaldar d'uma cadeira ampla, cortez sem frieza, acolhia os
+preitos dos mancebos graves; ao passo que, unida ao hombro<span
+class="pn">{11}</span> d'um walsador infatigavel, immovel a cabeça e o tronco,
+redemoinhava em ondas de gaze e rendas, aos accordes melodiosos das flautas e
+violinos. Coruscavam-lhe então os olhos como estrellas, sob as flôres que se
+desinastravam das espiraes dos cabellos. Desjunctavam-se os labios para se
+verem as perolas dos dentes. Purpureavam-se-lhe, como ao contacto dos meus
+labios, as faces pallidas, e as alvas espadoas.</p>
+
+<p>E a cada rodopio, a ponta do pequenissimo pé, mostrava-se á orla do vestido
+que a rapidez do movimento fazia recuar. Mas nem as seducções das homenagens,
+nem as excitações da walsa, nem a minha mesma presença, conseguiram excital-a!
+Com semblante alegre tudo acolhia com tranquilidade egual de aspecto. Isto,
+mais que as sollicitações do olhar, turvava e empallidecia aquelles, cujos
+olhos encontravam os d'ella. Com tudo, nunca lhe surprehendi essas maneiras
+meio-zombeteiras e seductoras que são a falsa linguagem da lucta de um coração
+abalado com um espirito indeciso; maneiras que desfarçam e colorem as
+concessões, e irritam a esperança sem desanimal-a.</p>
+
+<p>Mas como é que a presença do seu amante a não perturbava nunca? Bem podia eu
+fital-a até cegar na fixidez do olhar, que ella parecia não me vêr nunca.</p>
+
+<p>Era mulher até ás pontas dos cabellos!<span class="pn">{12}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Chegava emfim o dia suspirado! Erguia-me de madrugada, e todo me dava ao
+infantil prazer de arrumar eu mesmo o meu quarto. Decorava-o de novas
+flôres;
+baixava os transparentes de brocatol côr de rosa, enramalhados de flôres, a fim
+de quebrar com suavidade o brilho da luz, que os coloria magicamente. Refegava
+artisticamente os cortinados de cassa e alizava com as mãos o tapete de cadarço
+do meu leito. Regulava o relogio, cujo pendulo tão moroso então me parecia.
+Sobre um bofete de páo das ilhas, dispunha em bandeijas chinezas, dôce de
+fructa, pastelaria, e em roda calices de Bohemia, e alguns frascos empoeirados
+de Marsalla. Mandava o creado passear até á noite, e ficava eu senhor absoluto
+do meu elegante recinto. Ahi todo me agitava livre como a ave entre ramagem dos
+bosques desertos, arredondando e brunindo com o peito inquieto o dôce ninho dos
+seus amores.</p>
+
+<p>Que cuidados me não dava o prevenir os menores desejos da mulher que eu
+estremecia! com minhas mãos pregava os alfinetes no pregador de veludo. Tirava
+do estojo de marroquim escarlate o pente de dentes escamosos que ella usava
+para alisar os cabellos descompostos pela pressão de meus<span
+class="pn">{13}</span> dedos tremulos. Atiçava o dôce fogo que se avermelhava
+entre as cinzas. Aproximava do fogão a cadeira d'ella; trazia do divan a
+almofada em que ella punha os pés, e eu os joelhos, na attitude dos devotos
+contemplando seu idolo. E quando estava assim disposto tudo, quando o ponteiro
+d'ouro, avisinhando-se do numero escolhido, parecia dizer-me: «Vais ouvir soar
+a hora de teu prazer,» mais inquieto e agitado que nunca, ia eu pé ante pé, da
+porta á janella, como vae e vem o cão fiel, atormentado pela impaciencia,
+adivinhando o andar de seu dono.</p>
+
+<p>E eu dizia comigo: «A esta hora, tambem ella lança a furto os olhos ao seu
+relogio. Sabe que a espero. Agora, deante do espelho, aperta na barba o broche
+da capa de veludo. Incaracola os cabellos rebeldes sobre a fronte pura.
+Involve
+as espadoas no chalé escuro, e aperta-o sobre o peito com o alfinete de
+camapheu. Veste as luvas, e irrita-se. Sobre os olhos negros accumula as dobras
+do véo tambem negro. Atravessa as salas desertas. Passa. Roda a chave. Sae.
+Desce. Corre cozida com as casas. Vou vêl-a!</p>
+
+<p>E depois, mais nada... Oh! que longo é o tempo quando se espera e desespera!
+Se algum estorvo sobreviesse! uma visita, o capricho d'um filho! Que desgraçado
+sou! não virá ella? Já se demora!</p>
+
+<p>E, com tudo, era-me tão dôce recebel-a aqui, uma vez mais, neste quarto tão
+bem disposto para ella! Tão dôce o recebel-a nos braços, no limiar da porta, e
+arrebatal-a para escondel-a como um thesouro! Tão bom tocar-lhe as mãos, os
+cabellos,<span class="pn">{14}</span> e vêl-a emfim fitar-me com seus olhos
+lindos, e ouvil-a dizer: «tu» com aquella voz muzical!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Chegava ella emfim! Encostado ao alizar da porta entre-aberta, escutava eu o
+fremito do seu vestido, e o ranger das botinas sobre o tapete da escada.
+Entrava ella, roixa de frio, offegante, com as pestanas lagrimosas, e, sem
+erguer o véo, sem dizer palavra, atirava-se-me toda ao peito, cingia-me o
+pescoço, e, timorata e assustada como um passarinho, applicando o ouvido,
+escutava, convulsiva, o menor rumor que se fazia na casa ou na rua.</p>
+
+<p>E, quando emfim os mêdos se aquietavam, e que ella se decidia a transpor o
+limiar, era uma como visão deslumbrante que alagava em ondas de luz a camara
+fechada. Os menores objectos, com a presença d'ella, eram-me thesouros
+inestimaveis. Tudo parecia animar-se então, como, nos primeiros dias da
+primavera, despertam as florestas que dormiam sombrias e taciturnas.</p>
+
+<p>Algumas vezes, comtudo, festivos raios do sol, coando-se pelas juntas dos
+cortinados, atravessavam o espaço, e quebravam-se ao fundo da alcova, sobre a
+superficie polida d'um espelho. As flôres das jarras, postas deante das
+janellas, desfolhavam<span class="pn">{15}</span> uma a uma, juncando o tapete
+das suas frescas petalas. Segredando, de mãos dadas, palavras incoherentes,
+contemplava-m'o-nos como arrobados, absorvidos n'uma commoção deliciosa e
+entranhada que nos adestringia docemente o coração, e nos marejava de lagrimas
+os olhos. Como nosso amor, como nossa alegria, eram infinitas estas expansões;
+nossos pensamentos, porém, não ultrapassavam as paredes discretas do quarto
+silencioso. Para nós o mundo todo estava alli.</p>
+
+<p>E como era aquelle devorar-m'o-nos de caricias! Que suave energia a dos
+braços! que avidez nos beijos! que febril tremor nos gestos em quanto eu lhe
+disputava em silencio os vestidos descompostos que ella retinha ás mãos ambas,
+pallida d'um vago susto! Frenetico, de joelhos, cingia-a pela cintura
+quebradiça, e ella, oscillante entre os meus braços compressores, tomava-me a
+face entre as suas mãos, affastava-a com meiguice, encarava-me, e voltava o
+rosto como se meus olhos a aterrassem.</p>
+
+<p>E eu, como esquecido de minha dignidade, arrastava-me aos pés d'ella,
+beijando-lh'os nus. Oh! se eu morrêra alli, collados os labios áquelles pés
+infantinos, brancos e rosados, que ella poisava n'um tapete de plumas de cysne,
+a tiritar entre seus véos como o anjo da inquietação meio involto na plumagem
+de suas azas!<span class="pn">{16}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Passado o primeiro momento da vertigem, parecia-lhe a ella coisa natural o
+estar alli, ao tempo que eu a comprimia com ardor feroz. E então, no explendor
+de sua desordem, desatadas as tranças, nuas as espaduas, nus os braços, frios e
+viscosos os labios, mais muda, mais seria, mais enleada que eu mesmo, estava
+tão senhora sua como se estivesse recostada na cadeira de veludo ao pé do fogão
+de sua casa. Eu não sei o que ella não fizesse com as mais naturaes e dignas
+maneiras! Nada a surprehendia nem a molestava.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>De cada vez, tinhamos sempre que trocar um mundo de pensamentos novos.
+Recontava-m'o-nos fadigas da espera, tristezas da auzencia, aspirações da
+esperança, e o quanto era consolativo para amantes separados, o pensar
+incessante um no outro.<span class="pn">{17}</span> Fanny sobre tudo se deixava
+levar desta união espiritual com toda a expansão d'uma alma juvenil. Recebia as
+confidencias da minha ternura, como efluvios de incenso, que a immergiam n'uma
+especie de torpor dulcissimo. Com mudos raptos de gratidão, rosadas as faces,
+palpitantes as azas nazaes, sorrindo no olhar embaciado, maravilhava-se ella da
+abundancia de minhas palavras, como imagens graciosas que volitassem dos meus
+labios. Não a fatigava o ouvir-me.&mdash;Mais, mais, ó meu Roger!&mdash;dizia ella. E,
+encostando o cotovelo á almofada, inclinada a fronte na mão, requebrado o
+corpo, os pés a resvalarem, anediando-me a testa e os cabellos, olhava-me com
+tanta fixidez, como se quizesse esmirilhar os mais subtis lineamentos da minha
+alma. Entretanto, eu, de joelhos, com as mãos juntas, sorria de prazer como
+creança amimada, e cuidava que assim era o identificarem-se nossas almas n'um
+apertar vago e dôce, com estremecimentos voluptuosos.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>No instante em que ella ia sahir, era então o irromper minha alma em
+explosões de amor e angustia. E ella, pensativa, fitava nos meus, com ternura,
+seus olhos azues e lympidos. Tomava-me affectuosamente<span
+class="pn">{18}</span> as mãos, que eu lhe disputava, voltando-me arrufado.
+Fazia-me graciosamente sermões maternaes. Acariciava-me com bondade,
+abraçava-me, ia e vinha para abraçar-me ainda.&mdash;Tornarei a vêr-te?&mdash;exclamava
+eu com tristeza.&mdash;«Cala-te, Roger,»&mdash;respondia-me, abafando a voz n'um beijo.
+Por fim, comprimia-a longo tempo ao coração; e, quantas vezes, ao
+apartar-m'o-nos assim, sentiamos calidas lagrimas a cahirem nos labios de
+ambos!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<p>A minha vida ia com ella. Melancolicamente encostado ao peitoril de minha
+janella, via-a por entre as fisgas das persianas, passar na rua.</p>
+
+<p>Lá ia vagarosa, simples, tranquilla, bella. As duas fimbrias de seu véo
+fluctuavam-lhe docemente sobre os hombros, acarinhando-lhe de cada lado a face.
+</p>
+
+<p>A barra do vestido, relevada de folhos de seda, sussurrava com o movimento.
+Com ambas as mãos ajustadas sobre a cintura, comprimia as dobras da cachemira
+que a involvia desde a nuca até ao artelho. Nunca se voltava. Encostava-se ao
+longo das paredes para evitar o embate dos caminheiros. Emfim, chegando ao
+angulo da rua, desapparecia; e<span class="pn">{19}</span> eu atirava-me sobre
+o leito, escondia nas mãos o rosto, avocando, hallucinado, todas as minhas
+remeniscencias esparsas para ainda assim me illudir com possuil-a.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>IX</h2>
+
+<p>A primeira vez que ella ahi veio, não se espantou, mas examinava tudo o que
+a rodeava, e em tudo bulia, com certo acanhamento. Havia lá espadas de combate
+dispostas em tropheu. Lembra-me que ella reparou n'isso.</p>
+
+<p>Tambem se deteve diante de um retrato de minha mãe, que tinha sido
+formosissima, e deante da minha escrivaninha, coberta de livros e de cartas.
+Mas, com discrição cheia de graça, passou, sorrindo, sem tocar nas cartas.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>X</h2>
+
+<p>Eu era feliz! Desprezava quantos não eram eu, porque ella os não amava! De
+longe e de cima olhava<span class="pn">{20}</span> o mundo. De tudo segregado,
+tudo via d'alto, mas com indifferença, tumido de orgulho. Parecia-me que sobre
+mim convergiam os perfumes todos da terra e sorrisos do céo. Nos olhares que se
+encontravam com os meus, chammejavam os fulgores da inveja; e o murmurar
+confuso das turbas agitadas, rumorejava aos meus ouvidos como acclamações
+longinquas.</p>
+
+<p>A imagem de Fanny absorvia-me a memoria, e desprendia-se de meus pensamentos
+todos. Era, a um tempo, mais irritante que um sonho, e mais consoladora que a
+esperança. Nunca eu antevera seduções tamanhas em humana creatura, tantas
+delicadezas n'um coração, tanta graça na reserva, tanto pudôr na renuncia de
+si!</p>
+
+<p>Mescla de enthusiasmo e arrobamento, de illusões e desalentos, de melancolia
+e criancice, fôra o bastante a conquistar-lhe o amor. Parecia-me, todavia,
+pouco esmerada em attenções e cuidados. Tão amada, por certo, tinha sido ella!
+Bella ainda, mais bella do que talvez se cria, augmentava cada uma das suas
+graças com o esforço timido que punha em evitar a apathia, que presentia de
+longe, com a vinda dos novos annos.</p>
+
+<p>Dias tinha ella em que era possivel traduzil-a nos olhos, quando cerrava os
+labios n'uma expressão de meditar mais affectuoso, quando seus cabellos,
+fluctuando-lhe sobre as fontes emaciadas, em flacidas spiras, as envolviam com
+uma especie de suave piedade. Contemplava-lhe eu então as mãos candidissimas, e
+figuravam-se-me duplicadas, para que suas ultimas caricias fossem mais copiosas
+e maternas.<span class="pn">{21}</span> Escutava ancioso os suspiros que lhe
+sahiam do peito opprimido: tinha-os como protesto surdo do coração que reagia
+ainda á indifferença, desejando-a acaso como repouso, e expedia a sua mais
+bella flamma, antes de retrahir-se em si para morrer.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XI</h2>
+
+<p>Eu era feliz! Mas a desgraça já vinha perto. Até então com a delicadeza mais
+de incarecer, Fanny poupara-se sempre a fazer, diante de mim, a menor allusão a
+seu marido. Com uma pouca de bemquerença, conseguira eu phantasial-a livre e
+minha, sem partilha. Tão pudicamente se me déra ella! Foi como rainha, sem nada
+mercanciar do que não podia ser vendido.</p>
+
+<p>Um dia, porém&mdash;como isto foi, não sei!&mdash;ressoou suavemente nos labios d'ella
+o nome de um filho seu, e, em seguida, não pôde deixar de fallar-me d'elles.
+</p>
+
+<p>Adorava-os com tão furioso amor, que me abandonaria se me eu não comprazesse
+em ouvil-a repetir-me mil cousas pueris, tocantes a seus filhos. Por mim
+fingia-me vivamente interessado n'esses contos, que ella contava como
+abundancia extraordinaria de coração; eu, porém, escutava-lhe mais a musica das
+palavras que as idéas. Eu adorava-lhe a<span class="pn">{22}</span> voz magica
+e melodiosa. E, de mais, eu era um tanto cioso de tudo que ella amava.</p>
+
+<p>Fallava-me, pois, de seus filhos. O mais novo soffrêra d'uma epidemia
+passageira, e eu quasi que odiei essas criancinhas pelo unico delicto de se
+aconchegarem comigo no ninho de amor do mesmo coração. O que ella então fez
+forçou-me a reflectir mui amargamente sobre a affeição que uma mãe póde dar a
+um homem. Esteve sem me vêr seis semanas. Não desamparou esse berço sobre o
+qual se estorcia o dôce thesouro vivo, formado do proprio sangue do seu
+coração. Escreveu-me quatro linhas apenas, admoestando-me a soffrer com ella.
+Homem orgulhoso que pertendes dominar, unico, sobre o coração d'uma mulher! aos
+menores vagidos de uma creança, vê que lição te dá a natureza!</p>
+
+<p>Á força de pensar n'esta creança, entrei a pensar no marido de Fanny; e, a
+meu pesar, d'ahi a pouco, já não pensava senão n'elle. Nunca o tinha visto. A
+mim que se me dava, n'outro tempo, de vêr o homem que lhe dava o braço, para
+entrar no baile, e discretamente se sumia na multidão logo que um circulo de
+admiradores a compelliam a isolar-se d'elle?</p>
+
+<p>A ella amava, a ella sómente eu via, por ella vivia... que me importava o
+marido d'ella?</p>
+
+<p>Restabelecido o menino, Fanny, mais affectuosa e linda, ao primeiro dia que
+me vio não percebeu que em mim havia um novo homem; adivinhou, porém, que uma
+preoccupação secreta me alvoroçava, emquanto eu, silencioso, lhe corria a mão
+sobre o braço nu. De repente, varada por cruelissima suspeita,<span
+class="pn">{23}</span> repulsa-me, ergue-se, e, voz em grita, jura que eu a
+atraiçoara.</p>
+
+<p>Sorri com doçura a esta louca arguição; e, tomaado-lhe a mão como convite a
+sentar-se, simplesmente lhe disse que hesitava em pedir-lhe novo favor, com
+receio de ser indiscreto.</p>
+
+<p>&mdash;Que é?&mdash;disse ella, affastada ainda, e cravando-me um olhar de surpreza.
+</p>
+
+<p>Respondi que as seis semanas de solidão me haviam feito reflectir
+tristemente sobre a nossa imprevidencia; que sem suspeitarmos que incidente
+algum podésse apartar-nos, nunca nos cohibiramos de nos aproximarmos.
+Finalmente, com um embaraço que eu não podia dominar, balbuciei:</p>
+
+<p>&mdash;Por que não sou eu admittido em tua casa? Bem sabia ella que eu
+dissimulava a minha idéa, fallando assim: por que, de subito, resplandeceu de
+sorrisos, e lançando-me ao pescoço ambos os braços com vehemencia, confessou,
+córando, que, desde o primeiro dia, anciára sempre o vêr-me em sua casa.</p>
+
+<p>&mdash;Por que m'o não dizias? repliquei eu, acariciando-a. Respondeu-me, fazendo
+gesto pueril de amuada, expediente malicioso das pessoas que querem ser
+adivinhadas. E eu, doido com os projectos da convivencia, communicava-lh'os aos
+labios por entre beijos... Vêr... amar os filhos d'ella...</p>
+
+<p>Já Fanny redobrava de elegancia o salão mais intimo em que seus amigos eram
+unicamente recebidos. Que ventura poder, quasi todos os dias, reunir em volta
+de si, os objectos todos de sua mais viva affeição! D'ora em diante não seria
+obrigada<span class="pn">{24}</span> a tirar o pensamento de seus filhos, para
+ir em busca da minha imagem atravez do espaço, trazel-a para o meio d'elles, e
+fazel-a docemente resplandecer n'esse recinto delicioso, decorado por ella só,
+a seu bel-prazer. Eu de mim terei d'ora avante um maior logar&mdash;não em seu
+coração que não é possivel&mdash;mas em sua vida, e tomarei quinhão immediato em
+todos os seus jubilos, como em todas as suas maguas. Era um bonito sonho!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XII</h2>
+
+<p>Concordamos em acceitar eu o convite de uma amiga d'ella, que, todas as
+semanas convidava a jantar.</p>
+
+<p>&mdash;Ahi nunca vae muita gente&mdash;disse ella&mdash;poderás facilmente ligar-te
+comnosco.</p>
+
+<p><em>Comnosco</em>!... Era a primeira vez, que, n'uma só palavra, ella
+associava comsigo innocentemente o marido, sem dar fé da angustia que esta
+alliança me causava. Querida Fanny! eu sentia-me empallidecer sob uma oppressão
+indefinivel, e ella purpureava-se de contentamento. Depois d'aquella palavra,
+terrivel para mim, e sem valor para ella, ergueu-se. Tinham decorrido as duas
+horas. Separamo-nos. Com ella foi a confiança; comigo ficou a esperança
+horrivel.<span class="pn">{25}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<p>Sim, esperança horrivel! porque eu não sei exprimir o que reluctava em mim
+de duvida, anceio, e azedume meditando que ia vêl-a emfim sob os olhos de quem
+lhe governava a vida.</p>
+
+<p>Tudo isto se misturava em meu coração como venenos e contra-venenos, e
+d'esta abominavel mistura, fumavam vapores d'um travor tal, que eu me sentia na
+cabeça latejar o cerebro, e os joelhos vergavam sob mim.</p>
+
+<p>Isto nada era, comparado ao que eu devia experimentar n'essa estreitissima
+meza, onde á claridade dos globos, nenhum conviva poderia esconder os
+pensamentos que lhe franzissem a fronte. Ao principio, nada vi, e respondi ao
+acaso ás perguntas que me fizeram. Comia machinalmente. Esforçava-me por ser
+attencioso e polido; mas denotava mais inquietação que o assassino que se vê em
+risco de ser descoberto.</p>
+
+<p>Atordoado pelo tinido dos copos, pelo estrepito da baixella, pelo atrito das
+porcelanas, pelo reverbero das luzes nas tampas brunidas das terrinas, pelo
+vai-vem dos creados pressurosos que serviam, sem dizer palavra, e se moviam sem
+rumor d'um passo, como sombras negras de luva branca; e suffocado pela
+athmosphera calida da sala impregnada de evaporações penetrantes, misturadas
+com o odor do vinho e o das flôres, eu não olhava Fanny, nem mesmo a escutava.
+Tornou-se-me insopportavel a par de mim a presença d'ella: era como um peso que
+me abafava.</p>
+
+<p>E tambem o não encarava a elle, elle, que eu viera procurar, de tão longe,
+com o desejo e terror<span class="pn">{26}</span> de conhecel-o. Inceguecido
+por visões funebres, eu não podia vêl-o, com quanto elle estivesse defronte de
+mim.</p>
+
+<p>De repente recobrei a minha lucidez sentindo um pé de mulher rossar o meu, e
+comprimil-o brandamente. Era ella a prevenir-me da minha preoccupação visivel
+de mais. Dirigi-lhe um lanço d'olhos agradecido; e, encostando-me ao espaldar
+da minha cadeira, contemplei detidamente aquelle que mal sabia que possante
+interesse ingendrára em mim o estudo da sua pessoa.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XIV</h2>
+
+<p>Era uma especie de touro com face humana. De estatura mediana.</p>
+
+<p>Quando comia, atirava para diante, as espaduas robustas, e a cadeira gemia
+sob a gravosa flexão dos seus encontros quadrangulares. Eu via-lhe do meu
+logar, na testa, os arcos carregados das sobrancelhas hirtas de cabellos
+grossos, e abaixo fulgurava-lhe um olho pardo e luzidio d'aquelle brilho
+metalico que reluz na pupila impassivel dos carnivoros.</p>
+
+<p>Comia, ás mãos juntas, mãos carnudas e curtas, e levantava os cotovêlos para
+melhor pezar sobre a faca brilhante, e sobre o cabo do garfo. Entre<span
+class="pn">{27}</span> cada prato respirava largamente, limpava a boca, e bebia
+a longos sorvos grandes copos de vinho estreme.</p>
+
+<p>Não tinha má cara, nem vulgar. O aspecto era de força. Todo elle denotava
+pujança extraordinaria de musculos. A superficie das faces e queixo
+perfeitamente escanhotado, apparentava regidez marmorea, e a fronte rasgada,
+limpida, cercada de cabellos negros já betados de russas, revelava um espirito
+de vontade cheio de rectidão e persistencia.</p>
+
+<p>Era affectuoso o sorrir d'elle, e o olhar desmalicioso, porém claro como
+cristal. Incarava-vos de face, nos olhos, de um modo tal, que vos julgarieis
+felizes, evitando esse espelho de aço incommodativo á força de franco. O que
+elle tinha era dar cascalhadas estridorosas, repuchando em sacões os peitoraes
+acima da cintura apertada, e descompondo para traz a cara vermelhaça. Era grave
+e sonora a sua voz; o gesto tranquillo, e um pouco sombrio. Tinha bonitos
+dentes, unhas rosadas, brilhantes e bem feitas; em fim, dominava n'aquelle todo
+um ar de inteireza e aceio.</p>
+
+<p>Pareceu-me ter quarenta annos.</p>
+
+<p>Primeiro, ao vêl-o, fiquei como humilhado: corri-me de entrar em rivalidade
+com natureza tão possante. Involuntariamente me confrontei com elle, eu, a par
+d'elle tão franzino, como o seriam quasi todos os rapazes da minha idade. O que
+havia em mim de debilidade nervosa, e fineza de raça, e de elegancia,
+amesquinhava-se em comparação d'aquella riqueza de sangue, pujança de fórmas, e
+virilidade<span class="pn">{28}</span> fria e pacata. Eu era como um sylpho
+contemplando, assombrado, a estatua d'um gigante. Ao pé d'elle que homem era
+eu? Forte e gentil expressão de homem era sómente elle, eu não.</p>
+
+<p>E, mais cruel ainda para commigo mesmo, passava depois a comparação de mim
+para ella. E, vendo-a sentada ao meu lado, dôce e loura como Eva, candida como
+uma virgem, com aquella cintura de fada, e aquelle colo requebrado em languor,
+e todo aquelle ar de timidez que lhe impanava a face adoravel como a sombra
+d'um vapor... vendo-a assim, e tão delicada no pensar, perguntava-me, eu,
+phrenetico, como é que ella poderá amar tal homem? Violenta associação de duas
+naturezas que entre si não tinham um ponto só de contacto! Irmanavam-se com a
+seda e com o ferro!</p>
+
+<p>Oh! Desdemona!&mdash;me dizia eu&mdash;que Othello escolheste! Mas mal sabia Fanny que
+furor raivava ao seu lado! Dirigia-me placidamente a palavra, olhando-me com ar
+de simples, e affastando com sua mão alvissima os louros anneis que lhe
+volteavam como plumas sobre a fronte. E fallava-lhe a elle, sem turvação nem
+embaraço... e dizia-lhe: <em>meu amigo</em>, deante de mim.</p>
+
+<p>E elle, com menos embaraço ainda, lhe respondia, todo attenções e
+deferencia, com ar, porém, de grande superioridade.</p>
+
+<p>O Hercules via n'ella um ser perigrino, mas absurdo: e por isso o que lhe
+dizia eram bagatellas, com ar amavel e paternal, como os pais as dizem aos
+filhinhos curiosos.<span class="pn">{29}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XV</h2>
+
+<p>Terminado o jantar, e passados os convivas á sala grande, e sentados em
+redor das bancas do whist, avisinhei-me lentamente de Fanny que aquecia os pés
+ao fogão.</p>
+
+<p>Encostei-me ao rebordo da chaminé; e, com palavras de ternura que lhe dizia
+a meia voz, intrometti coisas frivolas ditas em voz alta. Deste logar via eu as
+costas dos jogadores inclinados sobre as bancas em que flammejavam as velas,
+involtas dos seus quebra-luz, e incravadas em magnificos castiçaes de prata;
+ouvia o ruido dos tentos de madre-perola, e o murmurio dos equivocos que os
+parceiros se trocavam. Cuidava eu que estariamos assim a seguro de reparos, com
+alguma astucia, até porque a dona da casa fôra para o fundo da sala dedilhar no
+teclado do piano. Novo encanto unido a outros tantos era aquelle dos accordes
+ondeando o ar, a um tempo que as secretas melodias do amor, mais melodiosas
+ainda, cantavam em nós. Porém, separando-se do grupo dos jogadores junto ao
+qual até então estivera de pé, o meu rival dirigiu-se a nós com semblante
+gracioso, e o mais natural possivel, e perguntou-nos em que fallavamos. Com
+melindrosa urbanidade, que excluia todas as<span class="pn">{30}</span>
+maneiras familiares e nos distanceava um do outro, mas com serena voz e ares
+cortezes, entrou elle a dirigir a conversação e eu não pude deixar de
+acompanhal-o.</p>
+
+<p>Por entre as melodias da muzica, e a ternura das vibrações, de que elle não
+dava fé, fallou-me de caça, theatros, cavallos, que sei eu! não deixando mesmo
+de entrar no amago dos assumptos banaes que eu imprudentemente escolhêra, mas
+que o interlocutor me condemnava a repetir, como se elle os julgasse unicos
+dignos de mim.</p>
+
+<p>Dei-lhe duas ou tres respostas bastante arguciosas, e elle applaudiu-as com
+os olhos, honrando-me com um gesto de assentimento.</p>
+
+<p>Assim pois que era eu para elle um instrumento assaz futil com cujas cordas
+brincava rossando-as com as pontas dos dedos. Se elle soubesse que em meu
+coração havia uma d'aquellas cordas, cujo som horrivel podia restrugir-lhe nos
+ouvidos, e insurdecêl-o!</p>
+
+<p>Mais tarde, vi-o assentado ao lado d'ella, na sombra que fluctuava em redor
+do clarão dos castiçaes. Sem me vêr a mim, nem a outrem, nem a ella,
+apertava-lhe machinalmente a mão, scismando talvez em não sei que. E eu,
+contemplava aquillo, como o mais estranho e monstruoso dos espectaculos. Em
+quanto a ella, fixando os olhos nos meus, estava livida como uma estatua de
+marfim; mas não ousava balbuciar, nem fallar, e consentia.<span
+class="pn">{31}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XVI</h2>
+
+<p>Desde essa noite, uma só preoccupação me dominou&mdash;dissipar do meu cerebro a
+imagem do que vira. Quiz, á custa de tudo, esquecer aquillo que me humilhava e
+esmagava o coração. Como eu me castigava do que fizera! Absurda cubiça de
+conhecer o que ella tão de siso me escondera, e que eu devia ignorar sempre!
+</p>
+
+<p>&mdash;Oh! não&mdash;me dizia eu&mdash;nunca mais ouvirei fallar deste homem temivel; nunca
+mais lhe encontrarei os olhos dominantes; nunca os nossos halitos hão-de
+encontrar-se na atmosphera da mesma sala; nunca mais, deante de mim, ha-de a
+mão d'elle apertar a tua, ó mulher serena e docil!</p>
+
+<p>Tres dias depois, quando veio a minha casa, não viu ella em mim mudança
+alguma. A colera, a pouco e pouco, enchera-me de suas fezes a alma; mas dôr era
+esta que simulava a quietação da paz.</p>
+
+<p>Com apparencias de socegado, sentia-me ferido de morte. Golpeado no coração,
+conservava o meu aspecto antigo, como aquelles fructos escarlates cuja pele
+fina e tenra cobre carne que devora um verme invisivel. E assim, de nada
+suspeitou Fanny. Todavia, como eu lhe fallava d'ella, de mim, de tudo em summa,
+excepto do que mais a preoccupava,<span class="pn">{32}</span> Fanny parecia
+esperar anciosa. Por ultimo, no extremo da minha contrafeita eloquencia,
+propellido pelo anceio de vingar-me d'uma dôr nunca experimentada e cuja causa
+innocente ella era, lhe disse com amargura:</p>
+
+<p>&mdash;Tu queres saber o que eu penso de teu marido, e talvez que te dês por
+venturosa se o juizo que esperas não lhe fôr desfavoravel. Mas, Fanny, tu nunca
+has-de saber o sentimento que elle me inspira.</p>
+
+<p>Pareceu-me que, ao ouvir-me estas palavras, todo o sangue do coração lhe
+refluiu á face. Pobre mulher conciliadora! tanta alegria em chamar-me a sua
+casa, para me vêr mais a miudo, para me unir a todos os entes doces e queridos
+que lhe decoravam o coração!...</p>
+
+<p>&mdash;D'onde vem essa mudança, Roger?&mdash;murmurou ella com penoso esforço.</p>
+
+<p>«D'onde vem?!» exclamei eu infurecido... mas vi-lhe então o rosto innundado
+de lagrimas; e logo, cahindo a seus pés, abraçando-a pelos joelhos, disse-lhe
+brandamente:</p>
+
+<p>«É que eu sou horrivelmente desgraçado, Fanny!... É porque me devoram
+ciumes...</p>
+
+<p>Ergueu-se de subito, como estupefacta, sem me repellir. Reteve-me ajoelhado,
+pesando-me sobre os hombros com as mãos: eu permanecia de joelhos, sem a
+comprehender. Fitou-me por largo espaço, profundamente, explorando os intimos
+arcanos de minha alma inquieta. Depois ergueu ligeiramente os hombros; e,
+baixando-se para me apertar a face ao seio, exclamou:<span
+class="pn">{33}</span></p>
+
+<p>«Filho, meu pobre e querido filho!»</p>
+
+<p>E desde ahi, não tornou mais a fallar, por si mesma, neste assumpto.</p>
+
+<p>Eu, porém, pensava n'elle incessante e dolorosamente, sem poder abster-me de
+o recordar. Affagava-me então ella, e reprehendia-me. «Perdes o
+tempo»&mdash;dizia-me, sorrindo-me, e abraçando-me, se me eu detinha muito na
+exposição das minhas tristezas. E seus braços se me inroscavam no pescoço com
+ameigadora volupia, com a fascinação dos olhos me violentava a olhal-a, com
+graciosa e morbida ternura collava aos meus seus labios. Mas tudo em vão. Já se
+não franziam meus labios para saborear beijos d'amor; agora era o
+confrangerem-se soluçando gemidos.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XVII</h2>
+
+<p>Desde este funesto dia comecei a soffrer grandes torturas. A imagem daquelle
+homem incrustara-se-me na memoria, e, por mais que eu fizesse, não havia
+dilil-a de lá. Póde ser que aos olhos de toda a gente fosse elle ridiculo, mas
+aos meus não cuidei que o fosse. Para mim, era sinistro, terrivel, e, cada
+noite, espavorido, via-o, em sonhos, trucidar carniceiramente o espectro da
+minha felicidade.</p>
+
+<p>O feliz era elle, que tudo ignorava. No drama<span class="pn">{34}</span>
+começado por transportes de amor, e agora prolongado a travez de anciedades,
+terrores, desespêros, não representava elle: tão prudentes tinhamos nós sido!
+</p>
+
+<p>Atroz mudança de papeis! Era eu que tinha ciumes d'elle! O espoliador
+soffria da posse pela posse. Não lhe restava mesmo o recurso de excitar as
+suspeitas do espoliado para o fazer aquinhoar das torturas!</p>
+
+<p>E era-me força desconfiar e occupar-me d'elle!</p>
+
+<p>A meu pesar, para evital-o, cumpria-me ser ardiloso como a lebre. Este papel
+de fugidiço, de temorato, degradava-me ao livel dos covardes. Meu Deus! se eu a
+não amasse!...</p>
+
+<p>Em comparação dos males que deviam vir, aquelles nada eram. Principiava a
+caminhar n'uma senda espinhosa, cavada de abysmos, e não sabia que flagellações
+me urgia supportar antes de chegar ao termo. Desde então, se deante do fogão,
+no meu quarto silencioso, eu tentava divertir a alma da dôr presente, levando-a
+ás memorias de amores passados; ou esporeando á redea solta o meu cavallo,
+arriscava cem vezes a vida para quebrantar o corpo de fadiga, a fim de reverter
+sobre elle a fadiga de meu cerebro, ou se pedia á orgia o esquecimento, bebendo
+a grandes tragos o vinho que nunca me valeu uma gota d'agua do Léthes; ou se,
+n'um só lanço de azar, expunha os meus haveres para soffrer sequer uma sensação
+diversa daquella que eu execrava; ou, se emfim, envolvido nos cortinados da
+minha alcova, eu passava as minhas noites inteiras a lastimar-me, invocando os
+phantasmas dos<span class="pn">{35}</span> seres adorados que perdi: nunca, nem
+no sonho, nem no perigo, nem na embriaguez, nem no jogo, nem ainda na
+remeniscencia da minha mãe morta, eu pude conseguir estrangular a serpente que
+me atassalhava o coração. Comigo, a visão fatal sorria aos meus amores juvenis;
+comigo, cavalgava ella o meu cavallo espantado; zombeteando, molhava ella os
+labios palidos no meu copo; no copo do jogo fazia ella o tilintar dos dados;
+comigo, emfim, meditava ella em minha mãe. Á flôr de minhas recordações todas,
+scenas incantadoras, affectuosas, terriveis, que eu restaurava com a memoria,
+do fundo de minha alma, surdiam incessantemente outras lembranças, outras
+imagens que espancavam aquellas.</p>
+
+<p>E não havia remedio senão acolher aquellas abominaveis lembranças; affrontar
+de rosto com aquellas funestas imagens, porque era a isso violentado;
+venciam-me, e eu então, encarava-as!</p>
+
+<p>Havia ahi alguma coisa horrida, humilhadora, e angustiadissima.</p>
+
+<p>Só quem ama póde formar idéa vaga de minhas agonias. Era tudo claro e
+patente: nenhum refugio para a duvida! E eu me reprezentava a mulher amada,
+linda, elegantemente vestida, meiga, candida, assentada ao angulo do fogão em
+sua sala, ou á meza, no logar de honra, em face de seu marido, rodeada de
+amigos, e filhos. Affavel sempre, com attenções delicadas para todos, attenções
+que são a magica linguagem da graça do coração. E para o dominador mais
+carinhoso que para os mais! Era-lhe forçoso prevenir suspeitas de homem tão
+prespicaz:<span class="pn">{36}</span> como não seria ella carinhosa? E, a de
+mais, entre elles existia a communidade de tantas coisas&mdash;interesses, filhos,
+viverem juntos, a toda a hora, alegres ou tristes, sem nunca se apartarem!... E
+quantas expansões naturaes!... Era elle o leão dominador daquella adoravel
+existencia; e eu, o lobo temido, e salteador, de olhar ferino, esbaforido, que,
+de tempo a tempo, a risco de perigos mil, exposto a humilhações degradantes, a
+uma bala, o roubava nas trevas, em quanto elle dormia, alguns restos do seu
+quinhão.</p>
+
+<p>Oh! era isto o que me humilhava muito; mas aqui vereis o que me fazia
+pedaços o coração. Eu não podia suspender o trabalho indefesso de minhas
+evocações. Completava-as, ruminando minhas dôres, com satanico prazer. Então se
+mudava a scena, e figurava-se-me Fanny, por noite, só por só com elle, depois
+da saida dos filhos, na alcova fechada, onde o chá fumegava nas chavenas, ao
+suave clarão da lampada, ao pé do lume que docemente crepitava nas cinzas
+quentes. E ella a olhal-o com aquelles mesmos olhos que eu amava tanto! E a
+conversar com elle, amavel, facil, fallando pouco para lhe deixar o prazer de
+fallar, submissa como convém á mulher quando é formosa, e o dominador é forte.
+E não cuideis que eu ficasse n'estas imagens de seductora intimidade.</p>
+
+<p>Não podia. Continuava-as, exaggerava-as... que sei eu!... ajuntava-lhe
+outras. Era forçoso que assim fosse, assim devia ser. Era tarde, agonisava a
+chamma no fogão obscuro, a lampada mortiça abafava os seus lampejos no
+quebra-luz, callavam-se<span class="pn">{37}</span> todos os rumores na casa e
+na rua; o passo sonoro do caminheiro retardado, marcava a hora do repouso e do
+prazer. De mais, meninos e creados, tudo estava na cama. Estavam elles
+sosinhos. E eram esposos!...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XVIII</h2>
+
+<p>Chegado até este ponto, tornava-me pallido. No mais recondito de minha alma,
+alguma coisa se estorcia e agonisava em convulções desesperadas. Estas imagens,
+evocadas cada noite, tornavam-me mais desgraçado, que se eu tivesse visto a
+mulher adorada cuspida em minha presença. Erguia-me, e via as horas; depois,
+despregava a rir, como doido, ou, involvendo a cabeça nos braços, lançava-me a
+chorar sobre o leito.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XIX</h2>
+
+<p>De madrugada emergia do meu pesadelo, mais quebrantado que o ferido d'um
+tétano.</p>
+
+<p>E se me arrastava á janella, para aspirar um pouco<span
+class="pn">{38}</span> de ar puro, a mesma pergunta me desabrochava nos labios
+calcinantes como flôr venenosa:</p>
+
+<p>Por que o amou ella n'outro tempo? Que ella o amou, já m'o disse; foi por
+elle tirada á familia que a não queria ligar a um homem sem posição e sem
+riqueza. Enriqueceu depois, por que é energico e paciente. Sabe querer. Mas por
+que o amou ella? E, depois, por que me ama ella hoje a mim? Somos tão
+differentes um do outro!</p>
+
+<p>Um dia, finalmente, á força de moer n'esta ideia, e joeirar-lhe no espirito
+os venenos todos, julguei que ia penetrar o proceder de Fanny. Lembrando-me
+quanto ella era sensivel ás caricias; figurando-me as scenas mais deleitosas do
+nosso amor, e comparando-me ao marido, invergonhei-me e alguma coisa mais acre
+que o desgosto, mais amarga que o despreso, mais peçonhenta que o odio, me
+subiu do coração aos labios.</p>
+
+<p>&mdash;Ora ahi está por que ella me ama hoje&mdash;me disse eu sacudindo a cabeça.
+Veio depois auxiliar-me a analyse mais uma vez, mas para ferir-me covardemente
+com uma nova punhalada.&mdash;Ama-me para variar&mdash;disse eu amargurado&mdash;para
+satisfazer, um contrario exagerado, um desejo mais sentimental, mais delicado.
+A não ser para completar o seu ideal... accrescentei eu sem reflectir na
+crueldade da supposição.</p>
+
+<p>Mas em tal caso&mdash;grito eu com terror indisivel&mdash;eu não sou para ella mais
+que metade d'um homem! Encho apenas metade d'um coração! Fui medido. Acharam-me
+incompleto. Sou escassamente uma addição! Não passo d'um complemento.<span
+class="pn">{39}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XX</h2>
+
+<p>Algumas vezes fugia de casa como d'um carcere, e ia espairecer minhas
+interminaveis meditações na multidão que peja os passeios. Achando-me entre
+pessoas felizes, indifferentes, occupadas; saboreando, a meu pezar, os
+primeiros effluvios balsamicos da primavera, cessava de julgar-me tão
+absolutamente miseravel, e classificava de creancice as mais monstruosas
+hallucinações&mdash;É o ciume&mdash;dizia&mdash;que me torna absurdo. Encontrando a cada passo
+tantas mulheres bonitas, elegantes, pelo braço de cavalheiros, os quaes com ar
+de aborrecidos, volteam os olhos em deredor, e escassamente lhes respondem,
+accrescentava eu:&mdash;Quantas mulheres habitam sob as mesmas telhas com seus
+maridos, sem repararem n'isso! Ao cabo de quatro annos de intimidade, o marido
+converte-se em amigo, e nem sempre! É de toda a gente, menos de sua mulher...
+</p>
+
+<p>Mas logo vinham as duvidas a mortificar-me, cada vez mais pungitivas, e eu
+debalde a repelil-as de meu espirito. Que farte me conhecia eu para saber que
+não poderia jámais adquirir o espirito de conformidade com o meu seculo que
+permitte ao amante d'uma mulher cerrar a mão de seu marido,<span
+class="pn">{40}</span> amigo só que seja! Além d'isso, eu não queria cortejar
+esse dominador, nem ajustar-me aos seus caprichos, nem tornar-me para elle o
+homem indispensavel. Eu vaticinava&mdash;se as suspeitas alguma vez o
+molestassem&mdash;quantas semsaborias me seria preciso fazer, quantas mentiras
+engenhar, quantos desgostos e aviltamentos supportar para destruil-as. E para
+aviltamento já bastava! D'aqui avante não passo&mdash;protestava eu&mdash;já é de mais o
+lamaçal do meu caminho.</p>
+
+<p>Mais cançado e inquieto que na sahida, voltava para casa. Os sorrisos da
+primavera faziam-me vontade de chorar. A mornidão da atmosphera ingravecia-me
+no cerebro os pensamentos. O espectaculo, e sussurro das multidões ao longe,
+tornavam ainda mais incomportavel o silencio da minha soledade.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXI</h2>
+
+<p>Em troca d'estas dôres, que por serem silenciosas, não eram menos crueis,
+nenhuma consolação eu recebia. Os meus prazeres eram extinctos. A duvida
+resequira as novas flôres d'elles com seu impuro sopro.</p>
+
+<p>Apenas meus sentidos se atrophiavam, vinha logo a mão adunca da mysantropia
+cravar-se-me no hombro. A lembrança d'aquelle que, na logica da<span
+class="pn">{41}</span> minha paixão, eu nomeava meu vival, como spectro de
+suplicio infindo, vinha interpor-se entre mim e ella, com uma atroz ironia,
+para empeçonhar nossas caricias.</p>
+
+<p>Eu via os traços d'elle nas palavras, nos gestos e modos e costumes da
+mulher que eu adorava. N'aquelles braços que me apertavam ao coração, estavam
+os seus moldes. No sangue que ondeava desordenado nas arterias de Fanny, se
+infiltrára elle. Via-o na fronte pallida, no rosto contemplativo, nos olhos
+amortecidos, todo n'ella, abraçando-me, com ella, e suspirando nos seus
+suspiros... Como eu invejava amigos meus abandonados, que se aturdiam juntos,
+nas bachanaes, ao tilintar do oiro sobre os panos verdes das mesas do jogo, ás
+francas gargalhadas das mulheres perdidas! E todos os amantes desdenhados, que,
+de braços abertos e olhar internecedor, perseguem, sonhando, uma sombra altiva!
+E ainda todos os amantes separados! Nenhum d'elles&mdash;dizia eu
+lastimosamente&mdash;soffreu jámais por seu amor infertil, tanto quanto eu soffro
+por meu amor partilhado. Zombaria atroz da possessão! quando nos não fatigas,
+deshonras-nos.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXII</h2>
+
+<p>Em fim contristava-me o desapreço que, a meu pesar, soffrêra o idolo em
+minha alma. Até ahi, era<span class="pn">{42}</span> um verdadeiro culto o que
+eu sentia: a realisação de quanto eu sonhara puro e angelico, era ella:
+affizera-me a vêr em Fanny alguma coisa sacratissima, impossivel de
+deperecimento ou macula. Agora, via-a voluntariamente cahida do altar em que a
+minha piedade a erguêra para manchar seus pés no contacto da terra, e
+confundir-se no vulgo. Era isso o primeiro e mais cruente effeito do ciume, que
+principia sempre por nos incutir uma horrivel mescla de adoração, odio, furor,
+e desprezo.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXIII</h2>
+
+<p>Comprehendi logo que estava travado para sempre, entre mim e Fanny, um duelo
+de morte. Todos os meus pensamentos me vinham do fundo do coração inficionados
+d'uma certa grosseria. Morrêra o respeito em mim. Dominavam-me ideas brutaes de
+lucta. Esporeava-me o desejo acerbo de castigar rudemente aquelle ente
+inoffensivo e graciozo que eu amava pela vida! Eu queria invilecêl-o diante de
+mim ainda mais do que a sua imagem se invilecêra na minha memoria.</p>
+
+<p>Como pôde ella resolver-se a isto!&mdash;exclamava eu inraivecido!&mdash;Oh! que
+execravel zombaria é isso de pureza de mulheres! Parece que os beijos são
+coizas fugitivas, dos quaes nada lhe fica nos labios logo que os enchugam.<span
+class="pn">{43}</span></p>
+
+<p>Não podia mais. Fanny entrou na partilha das torturas que até então eu
+guardava comigo só. Os homens não sabem soffrer longo tempo, sem descarregar
+covardemente o pezo de suas penas, sobre quem elles mais amam.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXIV</h2>
+
+<p>Tu sabias que eu era cazada!</p>
+
+<p>Foi a suprema razão que ella unicamente oppoz, com ar timido, aos meus
+primeiros queixumes, ainda moderados.</p>
+
+<p>Eu respondi:</p>
+
+<p>«Não sabias tambem tu que eu podia ter uma alma dedicada, e não podias
+prever, sendo minha, que tormentos me deviam cauzar o teu amor?</p>
+
+<p>E depois, perguntei-lhe, sem preambulo, e violentado:</p>
+
+<p>«Como viveis juntos?</p>
+
+<p>Ella corou: estava offendida.</p>
+
+<p>Não devemos fallar d'isso, Roger&mdash;respondeu com frieza.</p>
+
+<p>Mas tão desgraçado me viu, que, por commiseração, fallou, violentando os
+seus mais castos sentimentos. Era redobrar-me o supplicio.</p>
+
+<p>Ella, porém, não me disse tudo. Aguilhoado pela cruel necessidade de
+conhecer a extensão da minha<span class="pn">{44}</span> desgraça, querendo
+saber, á custa de tudo, onde ella acabava, instei, ferindo-lhe o pudor. Eu
+estava enfiado e sem ar. Poz-me a mão na bocca. Ficamos silenciosos. Fanny
+contemplou-me longo tempo. Chorava, e ella tambem. E, por fim, tragando o calix
+até á derradeira gota, disse-me que ia responder-me.</p>
+
+<p>Eu, chegado a este extremo, com embaraço imprevisto, com uma hesitação que
+obscurecia as minhas palavras e abafava na copia d'ellas a froixa luz da
+intenção que eu tinha; com uma turvação doloroza, que augmentava a angustia do
+coração animozo; illaqueando o pensamento na rede das divagações e periphrases,
+como se eu quizesse demorar o momento de conhecer o que eu temia
+saber&mdash;interroguei-a ácerca de mil coisas tendentes a velar de mim a existencia
+intima d'ella. Respondeu-me com simplicidade, tão embaraçada como eu, vencendo,
+porém, intrepidamente a vergonha deste estranho interrogatorio, com o fim de
+mitigar-me as dôres, e dar-me um exemplo de desgostos que póde vencer a mulher
+que ama, quando é desgraçado quem ella ama.</p>
+
+<p>E deu-se então em mim uma successão monstruoza de caricias e golpes; mistura
+sem nome de balsamos e venenos; associação horrivel de martyrios e
+glorificações. O facto execravel, cujo desmentido era impraticavel, permanecia
+em toda a sua plenitude; porém, quantas consolações podiam modificar-lhe o
+corrosivo e humilhante, todas ellas carinhosamente me prodigalisou, espiando
+com sobresalto em meu rosto o effeito das palavras confusas<span
+class="pn">{45}</span> mas comprehensiveis, que pronunciava. A uma derradeira
+pergunta, mais brutal que as outras, que eu de golpe lhe fiz, deu-se n'ella uma
+soberba explosão de revolta, que me fez cahir a seus pés, pedindo perdão. Eu
+devia crêl-a. Muito ávante tinha eu ido nas conjecturas do meu ciume. Fanny
+repartia-se; mas não pensava sem horror n'essa repartição.</p>
+
+<p>Se eu a amasse menos, decerto me sentiria exaltado pela dolorosa confusão
+que ella acompanhava de tantas consolações, pelas lagrimas que lhe derivavam na
+face, quando me descobria a chaga sangrenta da sua vida; eu poderia ficar
+altivo e grato, ou compungido ao menos d'aquella tamanha dôr e humildade; mas,
+em meu espirito, havia uma só preocupação, que me alheava de mim mesmo. Fóra
+d'ella nada comprehendia, não pensava em nada.</p>
+
+<p>Não tive pois palavra boa que lhe dissesse; satisfiz-me mostrando-lhe
+receios pela sua tranquilidade.</p>
+
+<p>«Teu marido deve suspeitar, vendo-te mudadada; por que tu amaste-o n'outro
+tempo.</p>
+
+<p>A esta monstruosidade, encolheu os hombros, e não enchugou as lagrimas.
+Roger! Roger&mdash;disse ella&mdash;é pena que tu sejas sempre creança. Ouves, e não
+comprehendes. Pois por ventura os nossos maridos pensam em nós? Que mulher
+tomaria um amante, se o marido lhe desse o que um amante lhe dá? Já não digo os
+cuidados, as attenções, os bons modos, a amizade; mas um pouco desse balsamo
+que é a essencia da nossa vida toda&mdash;um pouco d'amor!<span
+class="pn">{46}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXV</h2>
+
+<p>Esta penosa discussão avantajou Fanny na minha estima, mas não me consolou.
+Que me importa a mim para o essencial o modo imperceptivel da intenção! O facto
+brutal era o mesmo. Não obstante, reprehendi-me da curiosidade do meu ciume,
+que até me roubava a sombra da duvida que eu, por momentos, affagava ainda.</p>
+
+<p>Não podia, pois, atenuar a minha dôr o effeito das ultimas palavras de
+Fanny. O que eu queria era vencer o invencivel, por que era oppressiva a mesma
+angustia.</p>
+
+<p>Eu espiava o olhar de Fanny como querendo calcular-lhe as forças, antes de
+aggredil-a de novo. Mas os nossos olhos tinham-se encontrado, e não podemos
+mais tempo resistir a nós mesmos. Fugiu de minha alma a menor idea de lucta; do
+coração d'ella fugiu o menor desejo de resistencia; e o abraço que nos apertou
+era tão forte, que, mais uma vez, gostamos um minuto de verdadeira
+felicidade.<span class="pn">{47}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXVI</h2>
+
+<p>A confissão, que eu arrancara a Fanny, devia fazel-a soffrer tanto como a
+mim. Ella, porém, tão pouco se individualisava na offensa, que, desde esse dia,
+em que eu lhe patenteei as minhas dôres, todas as suas escondeu de mim, e risos
+me trouxe sempre, como a convidar-me graciosamente a dominar os impetos do meu
+carater. Pobre mulher, que vinha visitar-me por tempo horrivel, e a sua mais
+instante preoccupação devia ser o urdir mentiras que legitimassem a sua
+ausencia de duas horas em cada semana. Apesar d'isso, resistia aos aguaceiros
+da primavera, como ás nevadas do inverno. Nem mesmo fallava dos incommodos que
+precisamente devia soffrer para arrancar algumas horas de liberdade ás
+estreitesas da escravidão da familia. Ria gentilmente dos seus vestidos
+molhados, despindo a muito custo as luvas, ageitando os cabellos desanelados, e
+chegando ao fogo a biqueira das botinhas fumegantes. Tinha como brio de se vêr
+em minha casa depois de haver-se exposto a perigos tamanhos, feliz por a não
+terem encontrado, contente porque me via menos triste. O vencer obstaculos, a
+conservação do segredo, manter a estima da sociedade, o cuidar do meu repouso,
+tudo isso não a deixava sentir o cansaço. Não ha felicidade
+perfeita&mdash;dizia-me<span class="pn">{48}</span> ella enternecidamente com um
+suspiro&mdash;ambos pagamos á tristeza o tributo do nosso amor; mas este amor é tão
+bom que o tributo que a tristeza recebe não me parece uzurario.</p>
+
+<p>Nunca suggeria discussões; nunca foi a primeira a fallar-me dos seus
+deveres, que muito apreciava, e dos quaes me sacrificara a melhor parte. Com
+seu maravilhoso instincto de mulher, adivinhava que não podia fallar-me de seus
+deveres sem me irritar o orgulho, e ella respeitava o meu orgulho, como cauza
+de soffrimento, quando mesmo o feria. Nunca pude surprehender-lhe sombra de
+remorsos. Mas têl-os-ia ella?...</p>
+
+<p>Quando eu estava sósinho, pensava assim:&mdash;Que cautellas terá ella tomado
+para dissimular este amor? que invenções! que calculos! que ardis! para se
+furtar a discussões sobre as suas sahidas! Quantas concessões para não ser
+descoberta! E tanto que arrisca! Pobre mulher! Tanto tem que perder! E eu tão
+pouco! Ah! que mau homem sou em atormental-a!</p>
+
+<p>Tratava-me ella por creança, e, com franqueza, eu o merecia bem. Quantas
+coisas eu sabia do seu viver que ella me occultava, com medo de penalisar-me!
+</p>
+
+<p>Eu não queria comprehender nunca que havia dias em que lhe era completamente
+impossivel sahir, e a mais banal visita era bastante a retêl-a em casa.
+Desconfiava então de abominaveis calculos. Affirmava que ella me mentira.
+Cuidava que procedia a falta de excitações e fadigas na partilha que ella devia
+detestar. Odiava-a.<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<p>«Fases-me piedade! dizia ella quando eu lhe deixava vêr os horrores do meu
+infermo espirito.</p>
+
+<p>Todavia, algumas vezes, meio esquecido de minhas magoas pessoaes, para
+entrar ás profundezas da consciencia, dizia em mim: «Quando a tenho torturado
+bastante, quando ella d'aqui sae chorando, attribulada, golpeada no coração,
+perguntando-se se me tornará a vêr em sua vida, que fará ella na rua para
+disfarçar o tormento que a aperta, e mascarar o rosto com o gesto de habitual
+tranquilidade, para volver á mulher risonha que eu conheço? Será á custa de
+carinhos que ella affasta as suspeitas de um marido difficil de enganar? Ah!
+que lagrimas ella deve chorar com seus filhos! São tantos os esforços dolorosos
+que elles lhe custam!</p>
+
+<p>E como sei bem que elles adivinham o segredo das lagrimas d'ella! E quão
+certo é que, semelhantes á mãe, tão bons, tão discretos, com suas mãosinhas lhe
+enchugam os prantos, sem lh'os trahirem.</p>
+
+<p>Fanny soffria horrivelmente. Via-se-lhe o amarellecer da tristeza.</p>
+
+<p>Eu, sem lh'o dizer, observava o circulo negro que marmoreava a
+circumferencia de seus olhos elanguecidos, e lhe dava ao olhar estranha
+expressão de piedade.</p>
+
+<p>Via-lhe contrahidos os labios; e as rugas que subiam da fronte perderem-se
+sob os cabellos sedosos como symbolos visiveis de dolorosos pensamentos.
+Consternava-me este ar de desleixo que a definhava.</p>
+
+<p>Diante de mim sómente ella affrouxava a rigidez<span class="pn">{50}</span>
+do seu porte, e eu da melhor vontade lh'o perdoava: devia estar cansadissima de
+representar de senhora feliz!</p>
+
+<p>Quem lhe dera a ella poder tudo confessar, e viver francamente commigo, sem
+ignominia!</p>
+
+<p>«Não me deixes&mdash;dizia-me ella por vezes&mdash;Tu es-me necessario como a luz!»
+</p>
+
+<p>E outras vezes accrescentava:</p>
+
+<p>«O que me prova que eu te amo, é que eu amo tudo que é teu, o teu dôce
+egoismo até, até a tua colera, mesmo as tuas sublimes injustiças!</p>
+
+<p>Depois, ficava subitamente callada, como se algum funebre pensamento, que
+não ousava confessar, a angustiasse sem desabafo.</p>
+
+<p>Eu observava-a, e ella sacudia a cabeça. Depois, retorcendo os dedos,
+exclamava:</p>
+
+<p>«Trahir! trahir sempre! Eis aqui o horror que tudo me invenena, mesmo a idea
+da minha felicidade. Eu sou a mais miseravel das creaturas. Deus negou-me
+força, e, por toda a vida, cumprirei a sentença da minha fraqueza. Tenho vivido
+sempre diversamente da vida que quizera ter; tenho visto sempre ao pé de mim o
+que eu quizera fazer. Trahir! meu Deus! como eu me detesto!</p>
+
+<p>Tomava-a então nos meus braços para applacal-a; mas não achava que
+responder-lhe&mdash;De que quer ella fallar?&mdash;Perguntava-me eu estupidamente.</p>
+
+<p>Devia de ser do facto da perfidia; mas eu conhecia-a ainda mal, e
+attribuindo-me as palavras fugidas á consciencia d'ella, sentia-me feliz e
+orgulhoso.</p>
+
+<p>Isto ás vezes fazia-me chorar, e tomar corajosas resoluções&mdash;Guardarei para
+mim os males todos,<span class="pn">{51}</span> e as consolações para
+ella&mdash;propunha eu comigo.</p>
+
+<p>Por compaixão, pois, esquecia eu momentaneamente os meus desgostos; sacudia
+o cansaço do meu pesado scismar, por me deixar levar dos transportes
+ardentissimos da paixão. Refazia-me em meiguice e ternura e sujeição, mais
+affectuoso que o molosso fiel que, apoz longa auzencia, encontra o olhar do
+dono querido.</p>
+
+<p>Vertia a fluxo nectar dulcissimo da lisonja á mulher estremecida; tornei-me
+frivolo, fallador, volitando por sobre vinte assumptos a um tempo, rindo
+desentoadamente, evitando sobre tudo proferir palavra que dissesse respeito
+directo ao assumpto uzual dos meus tormentos.</p>
+
+<p>Mas esta missão heroica, de que dei má sahida, não a enganava. Olhava-me
+ella com spasmo. Escutava-me meneando a cabeça. Cuidaria ella, em consciencia,
+que, extincto o ciume, seria o mesmo extinguir-se o amor?</p>
+
+<p>Estes accessos de heroicidade não podiam durar em mim longo tempo.
+Suspirando, como pessoa aliviada d'um peso grande, viu ella que eu recobrava o
+meu aspecto triste.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXVII</h2>
+
+<p>Acabei, para grande vergonha minha, por acceitar tacitamente aquella
+situação. Mas, d'ahi em diante,<span class="pn">{52}</span> havia entre nós
+alguma coisa, que não podia já mais obliterar-se: um pensamento constante e
+unico, que, mutuamente, nos atormentava os corações. Embora cerrassemos os
+labios para o não deixar sahir em palavras, no intimo o sentiamos sempre como
+dôr aguda que, a revezes, nos desentranhava imprecações. Um só grito bastava
+então para incendiar uma explosão subita, e eu, principalmente, esquecia os
+protestos de meu orgulho por dar livre curso á tristeza que me devorava. Não
+queria fallar do meu rival, e fallava d'elle sempre. Era um nome que me
+alanceava a memoria, e se me estorcia entre os labios, como um aspide.
+Proferido apenas, mil perguntas incendiarias se embaralhavam tumultuosamente em
+minha boca. Eu queria conhecel-o melhor ainda. Queria saber tudo o que elle
+era, tudo que fazia, tudo que dizia. Fanny formalisava-se então; meditava largo
+tempo antes de responder-me, para não se desmentir, depois dava indicios de
+impaciencia e carregava o sobr'olho.</p>
+
+<p>Os homens são insaciaveis&mdash;dizia ella, com grande espanto meu&mdash;Não podes
+contentar-te com ser amado? Por que te occupas incansavel no que se passa em
+minha caza?</p>
+
+<p>Apoz estas contendas, separavamo-nos tristes, e, passados oito dias,
+esperava-a furioso, exasperado pela raiva, com a boca cheia de sarcasmos,
+decidido a romper brutalmente com ella. Mas só de vêl-a, toda a minha cholera
+se exhalava como fumo, ajoelhava-me aos pés d'ella, e comprimia-a
+convulsivamente ao meu coração.</p>
+
+<p>O que muito me espantava e irritava acremente<span class="pn">{53}</span>
+era a docilidade com que ella, sem murmurar, a tudo se submettia. A ausencia,
+os obstaculos, as difficuldades, não podiam nada com ella. Vêr-me, não me vêr,
+era tudo o mesmo. Sempre serena aquella phisionomia. Dava-se ares de victima, e
+não dizia palavra.</p>
+
+<p>«E se eu me matasse?» exclamei eu, um dia.</p>
+
+<p>Fanny encolheu os hombros.</p>
+
+<p>«E se algum incidente imprevisto nos separasse?»</p>
+
+<p>&mdash;Que queres que eu te faça!...&mdash;disse ella, e em seguida entrou a chorar.
+</p>
+
+<p>Não podendo viver com ella, eu queria ao menos governar-lhe a vida, de modo
+que as suas menores inspirações lh'as désse eu. De sobra comprehendia ella a
+minha intenção, e mostrava-se; mas não me cedia nunca em pontos de delicadeza
+que ella converteu em pontos de honra. E dizia-me:</p>
+
+<p>«Eu sou obrigada a soffrer a posição que me deu a sorte. Devassar-lhe os
+segredos, de que monta? Affliges-te se fallo, affliges-te se me callo... Tracta
+de esquecer as causas dessa tristeza, meu Roger.</p>
+
+<p>Eu de mim esqueço-as sempre que venho aqui.</p>
+
+<p>Outras vezes dizia meio risonha e meio motejadora:</p>
+
+<p>«És muito egoista! Pelos modos eu não devo amar senão a ti!»</p>
+
+<p>Impellido, porém, pela minha idea fixa, e sem admittir que ella anteposesse
+a sua vontade á minha, astuciava com ella, impetrando-lhe exclusivamente a
+piedade, e descia, por derradeiro, a tal degrau de baixeza, que, irritado por
+ser eu só a penar, empregava toda a minha influencia para exigir d'esta<span
+class="pn">{54}</span> desgraçada mulher que seguisse uma norma de proceder
+deametralmente opposta á que seu marido lhe traçára. Bem sabia, eu, com isto,
+que a sua casa, até ahi pacifica, ia tornar-se um inferno, e isso queria
+eu:
+Durante alguns dias, por cansaço, seguiu ella docilmente os meus conselhos, e
+assim se viu intallada entre seus dois senhores, como o ferro amollentado pelo
+fogo entre a incude e o malho. Ambos nós, sem treguas, lhe flagellavamos o
+coração.</p>
+
+<p>Espicaçada, emfim, pela tortura, e tambem por uma especie de espirito de
+inteiresa, disse-me:</p>
+
+<p>«Roger, tu aconselhas-me muito mal, por que me obrigas a perturbar-lhe o
+repouso.»</p>
+
+<p>Fiquei consternado, e cessei de empregar aquelle novo genero de martyrio,
+por que era para mim cruelissima mortificação vêl-a erigir-se em defensora
+de
+seu marido. Fanny, além disso, parecia fatigada d'essas disputas aviltantes e
+penosas.&mdash;Tenho medo de infastial-a&mdash;disse-me eu um dia.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXVIII</h2>
+
+<p>Porém, nos mais violentos accessos de meu ciume, inraivecia-me vêr-lhe no
+semblante aquelle seu ar pudico, que ella conservava sempre, mesmo na mais
+avida vertigem do goso. Ora isto, com o correr do tempo, deu para me irritar.
+Tomei a peito<span class="pn">{55}</span> depraval-a, buscando abafar este amor
+nas cinzas do fastio: Fanny ficava sempre a mesma! Estavam alli duas almas
+diversas a exhalarem-se-lhe dos labios e dos olhares. Uma era a de Phrynea
+absorvida, e séria, nutrida dos mais finos primores como das especiarias mais
+corrosivas da paixão, o que, alternadamente, se assignalava por um sorrir
+estranho e vago. A segunda era a de um anjo immaculado. Ai! aquelle olhar
+d'ella! Aquella expressão de spasmo que reluzia perpetuamente em seus olhos
+azues, tão rasgados, sob as placidas e destacadas palpebras! Ainda agora me
+seguem e arrebatam! Sinto-os sempre, fitos nos meus! Interrogam-me, e
+fascinam-me! Não poderei jámais esquecer os olhos d'ella?...</p>
+
+<p>Fanny, no garbo de suas attitudes, no meneio da cabeça, no andar, tinha
+algumas vezes um não sei que que denunciava appetites de um sensualismo
+profundo e vehemente, e mesmo alguma coisa dessa monstruosa concessão
+duplicada, que tanto a meus olhos a invilecia. De subito, com uma palavra só,
+transfigurava-se, e julgal-a-ieis uma outra mulher.</p>
+
+<p>«Que mulher és tu, pois?» lhe disse eu, em seguida a uma discussão em que me
+havia manifestado sentimentos os mais contraditorios. Levantou ella a face, e
+encarou-me com os seus olhos tranquillos e lympidos; porém, commoção interna
+lhe dilatava as azas nazaes e avermelhava de leve as faces.</p>
+
+<p>&mdash;Não posso viver sem amar&mdash;respondeu ella pausadamente&mdash;Não posso viver sem
+ser amada. Minhas qualidades boas, e meus defeitos, são cousas<span
+class="pn">{56}</span> secundarias: todas as mulheres tem d'umas, e d'outros.
+Mas o que é exclusivo meu, é a minha paixão.&mdash;E com leal exaltação, ajuntou:
+«comprehendes-me?»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXIX</h2>
+
+<p>Chegou o estio, ao cabo d'estas muitas e penosas discussões. Todos os annos,
+Fanny ia passar aquella estação ao campo, nos arrabaldes de Pariz. Um dia, veio
+ella afflicta annunciar-me a triste nova da partida; eu, porém, recusei
+explicitamente conformar-me com a ausencia «Escrever-nos-hemos» disse ella.
+Semelhante resignação exasperou-me. Não sei que lhe respondi, esqueci-o;
+lembra-me só que combati aquella resolução com energia de desesperado. Eu
+chorava tanto, estava tão alvoroçado, tão infeliz, que ella houve piedade de
+mim. Apertando-me nos braços, mil vezes me repetiu que consentia em adoptar os
+expedientes que eu lhe indicasse.&mdash;Sê prudente! sobre tudo, não te
+arrisques&mdash;disse-me ella, entre dois beijos, retirando.</p>
+
+<p>Passados oito dias, encaminhei-me na direcção de Chaville. Á beira da
+estrada real de Versaille é que estava a casa d'ella.</p>
+
+<p>Quando ouvi dar a meia noite nos relogios longinquos, escalei o muro, e fui
+ter a um pavilhão,<span class="pn">{57}</span> cujo local me havia indicado
+Fanny. A vinte passos, d'um ponto em que me occultavam as copas do arvoredo, vi
+um vulto pardacento, immovel. Era Fanny. Corri para ella. Levou-me comsigo.
+Fechei a porta. Estávamos ás escuras&mdash;Não falles&mdash;segredou-me ella, com
+extraordinaria agitação&mdash;elle está desconfiado ha tres dias; anda triste; deve
+ter suspeitas.</p>
+
+<p>Aqui está uma variante nova na amargura da minha vida, com a qual eu não
+contava.&mdash;Ouve&mdash;murmurou ella, com a voz tremula de mêdo&mdash;é preciso que elle
+não desconfie; não quero que elle o saiba; não quero. Tu és homem, a ti
+pertence dirigir o meu comportamento. Falla; e, se é de sacrificios que vaes
+fallar-me não temas, que eu sou forte.&mdash;E sentindo-se desfallecer, vendo-me
+perdido de dôr, disse-me com amargura:&mdash;Eu tinha esquecido que tu não passas
+d'uma creança. Perdoa-me por haver-te fallado como a um homem.</p>
+
+<p>«Fanny,&mdash;disse-lhe eu solemnemente aconchegando-a de mim para fazel-a sentar
+ao meu lado&mdash;serei talvez creança, mas tenho coragem de homem. Surprehendido
+imprevistamente por esta cruel noticia, não sei que inventar; mas, já que és
+forte, decide tu o que devemos fazer: submetto-me. É preciso abandonar-te?
+Dize-o. Pela memoria de tua mãe, se assim o queres, não me verás jámais, ainda
+que me procures por toda a terra.</p>
+
+<p>Não quero que morras&mdash;disse ella com voz soturna, erguendo-se, e batendo no
+chão com o pé. Depois tomou-me a cabeça entre ambas as mãos e abraçou-me
+convulsivamente sobre os labios. Mas<span class="pn">{58}</span> o ruido de
+passos que rangiam na areia impoz-nos silencio. Abraçados pela cintura,
+curvamo-nos sobre a vidraça para vêr quem assim passeava no jardim a hora tal.
+</p>
+
+<p>Era elle! Reconheci-o na largura dos hombros, nos cabellos arrussados que
+volteavam ao vento sobre a cabeça nua. Caminhou parallelamente ao pavilhão,
+pela rua larga e descoberta, alagada dos fulgores da lua que cahiam sobre ella
+a prumo. Marchava lentamente, com as mãos enlaçadas no dorso, cabisbaixo, as
+feições alteradas, como homem que leva de poz si pensamento oppressivo. Passou
+ante nós, e imbrenhou-se no cerrado arvoredo.</p>
+
+<p>Tive de sustentar em meus braços a desgraçada mulher, por que os joelhos não
+podiam sustel-a. «Socega, minha querida, disse-lhe eu&mdash;teu marido nada
+suspeita. Está preoccupado; mas não se vê alli a inquietação febril dos
+ciumosos. Eu sei bem o que é, de sobra me tenho observado a mim.</p>
+
+<p>&mdash;Crês? exclamou ella n'um impeto de esperança que a vibrava.</p>
+
+<p>«Tenho a certeza. Entretanto, separemo-nos. Passados oito dias, tornarei.
+D'aqui até lá observa-o bem. Não sei o que é que o inquieta; mas eu a quem tu
+hoje chamas creança, digo-te isto: teu marido não tem ciumes.<span
+class="pn">{59}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXX</h2>
+
+<p>Logo que ella partiu, fui impetuosamente no encalço do solitario passeador.
+Via-o outra vez na volta d'uma rua. Passou, como primeiro, deante de mim, sem
+me perceber, sempre sombrio, sempre meditativo. Curei de surprehender alguma
+involuntaria palavra que me revelasse a causa da sua concentração. Mas tinha
+cerrada a bôcca, e impassivel a fronte. Subindo para casa, accelerou o passo.
+No patamar, parou, olhou o céo estrellado com sombria seriedade, e alongou para
+elle os braços, como se do coração lhe fugisse alguma prece ameaçadora. E eu
+exclamei mentalmente: «É elle, pois, desgraçado tambem!»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXXI</h2>
+
+<p>Passei os oito seguintes dias em angustia inexprimivel. Não parava em parte
+alguma. Os temores, as suspeitas subiam-me ao cerebro em borbotões,<span
+class="pn">{60}</span> como os vapores da vinolencia. Pensava n'ella só!
+Dizia-me não sei que de convicto e infallivel que eu estava ameaçado de perder
+Fanny. Era como um espectro deante de mim a imagem d'uma separação violenta.
+Não atinava com o modo de aliar esta especie de previdencia com a certeza de
+que o marido ignorava tudo; mas esta previdencia justificava-se tanto que eu
+entrei a tomal-a como aviso do céo.</p>
+
+<p>Ao oitavo dia, á hora costumada, puz-me a caminho; mas, d'esta vez não
+esperei a hora indicada, nem me acautelei para entrar em casa de Fanny. Não.
+Caminhava deante de mim mesmo, com a violencia e direitura d'uma balla,
+resolvido a procural-a mesmo no seu quarto, se a não encontrasse no
+pavilhão.
+Timido de tudo, sem poder definir o objecto dos meus temores, esporeava o
+cavallo, que se espadellava com a terra, alternadamente contrahido e distendido
+como um grande arco atormentado por mãos febris. A lua alumiava de travez a
+estrada silencioza que eu levava, zebrando-a de listas de prata, e parecia
+voltar-se para mim melancolicamente seguindo-me com os seus fulgidos olhares.
+Desfillavam a meu lado as arvores, rapidas e negras como phantasmas
+vertiginosamente marulhados n'um rodopio. Os cães, que dormiam nos pateos,
+atiravam-se aos portões latindo ao estrepido das ferraduras do meu cavallo, que
+estalavam na calçada. E o vento que me açoitava a cara, murmurava-me aos
+ouvidos palavras irritantes. Tudo me impellia e me vaticinava algum drama em
+que eu ia representar um papel. Armei-me para<span class="pn">{61}</span> isso,
+decidido a não succumbir sem luctar com todas as forças que a desesperação
+desde muito me tinha dado. Quão exaggerado eu era na espectativa como nos
+preparatorios! Este meu espirito enthusiasta não sonhava senão combates
+sobrehumanos, desinteresse fero, esforços heroicos!... Ai! e que desenlace tão
+vulgar me esperava!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXXII</h2>
+
+<p>Transpondo o muro, fiquei surpreso de vêr Fanny assentada na margem d'um
+passeio. Mais d'uma hora me tinha eu antecipado, e receava que seu marido
+estivesse ainda fóra. Logo, porém, que me avistou, Fanny, veio para mim, sem se
+esconder, como se fosse natural entrar eu em sua casa pelo caminho dos
+malfeitores. Tomei-lhe a mão. Pareceu-me vêl-a inleada e cuidadosa.</p>
+
+<p>«Que aconteceu?&mdash;perguntei, levando-a para debaixo das arvores.</p>
+
+<p>&mdash;Tinhas mais que rasão, Roger; meu marido não tem ciumes&mdash;disse ella&mdash;Nunca
+se fiou tanto de mim. Não me cancei a interrogal-o. Hontem contou-me a causa da
+sua preoccupação. Os seus haveres todos, depositados em Inglaterra, estão em
+risco com a fallencia d'um banqueiro. Esta manhã<span class="pn">{62}</span>
+partiu para salvar alguns restos, se ainda for tempo. É forçoso que a
+inquietação fôsse grande&mdash;ajuntou Fanny suspirando&mdash;por que nunca foi commigo
+tão expansivo.</p>
+
+<p>Não achei palavra com que responder a esta afflictiva noticia, com quanto
+nos consolasse a ambos de tamanho pezo. Fiquei atordoado como homem que soffreu
+violenta pancada na cabeça. Regorgitavam-me nos labios os sarcasmos; mas eu
+represava-os.</p>
+
+<p>«Nada respondes, meu amigo?&mdash;disse Fanny.</p>
+
+<p>&mdash;Que heide responder?&mdash;exclamei, perdida a consciencia da minha
+brutalidade.&mdash;Lamento-te se tinhas grande apego ao luxo de que vaes ser
+privada; lamento-te, principalmente, por teus filhos; mas... «Mas?» atalhou
+ella.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não posso lamentar-te por teres sido ameaçada de perder-me, e te
+achares hoje mais livre que nunca para amar-me.</p>
+
+<p>Fanny ergueu as mãos ao céo, como invocando o seu testemunho, com expressão
+de piedade, e disse brandamente:</p>
+
+<p>«Não fallemos mais de mim. Eu heide ser sempre um livro fechado para ti.</p>
+
+<p>Passeamos, depois d'isto, debaixo das arvores vagarosamente, sem nos darmos
+o braço, sem dizer palavra, durante meia hora: por fim, parou ella deante de
+mim e tomou-me ambas as mãos, e disse em tom de voz submissa:</p>
+
+<p>«Roger, por que não fallas?</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho consolações que dar-te.</p>
+
+<p>«Por que?<span class="pn">{63}</span></p>
+
+<p>&mdash;Por que eu mesmo tenho talvez necessidade de ser consolado.</p>
+
+<p>«Pois que te succedeu?</p>
+
+<p>&mdash;Nada.</p>
+
+<p>Continuamos a passear, ao acaso, entre o arvoredo, silenciosos, ella
+curvando-se debaixo das franças, eu, erguendo-as, para ella passar.</p>
+
+<p>&mdash;Agora vamos nós tomar quinhão nas amarguras d'elle&mdash;disse eu de repente.
+«Assim deve ser» respondeu ella com tranquillidade.</p>
+
+<p>O remate do nosso encontro foi magoado por um começo que eu não podera
+prevenir. O pensamento de Fanny vagueava por outra parte. O meu, a meu pesar,
+tambem. E, todavia, eu não poderia justificar-me d'um certo prazer inquieto que
+me dava a idea d'um successo que podia apartal-a do marido para sempre.</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe&mdash;pensava eu commigo&mdash;se a sua ruina fará o que a minha dôr não
+pôde fazer?</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXXIII</h2>
+
+<p>Depois d'este dia só em Paris nos tornamos a vêr. Era facil a Fanny
+ausentar-se, agora que a ninguem devia contas de suas sahidas. Por isso
+tornamos ao antigo viver. O que eu, porém, previra realisava-se com um rigor de
+desesperar. Não era só o pensamento senão a vida de Fanny que estavam n'outro
+logar. Cada vez o sentia mais. Nossa tranquillidade, prazeres, expansões,
+jubilos dependiam absolutamente das cartas que o marido lhe escrevia. Se
+faltava o correio, ficava distrahida, não me ouvia. Se recebia de manhã carta
+inquietadora, ficava preoccupada e taciturna. Quando a carta era de esperanças,
+irrompia ella em explusões<span class="pn">{64}</span> d'amor e d'alegria. Esta
+alegria, porém, molestava-me muito mais que a tristeza, e aquelle amor, cuja
+explosão atava a alguma coisa que não derivava d'elle mesmo, indignava-me.
+Gélido deante de sua inquietação, mudo se ella estava triste, irritado pela sua
+alegria, recuzava energicamente a receber a repercussão das novidades que tanto
+a preoccupavam; e quiz-me parecer que Fanny não se incommodava ou nem dava fé
+dos meus enfados. Isto desesperava-me.</p>
+
+<p>Em summa, aborrecido de me vêr assim atado ao meu rival pela mulher, que,
+repartindo-se equitativa por nós, dava todos os seus pensamentos aquelle que
+ella julgava ter mais urgente precisão de suas sympathias; indignado por
+compartir dessas penas, e esperar-lhe anciosamente as alegrias que só podiam
+fertilisar as minhas; aguilhoado da tristeza, do ciume, e da desgraça, resolvi
+tentar um supremo esforço para recobrar o socêgo, arrancando-lh'a a elle. Desde
+muito que se me gerava no animo o desejo de exigir de Fanny o maior sacrificio
+que ella podia fazer-me; mas, retido pelo vago receio d'uma recusa dolorosa,
+deferi de dia para dia o momento de sollicitar-lh'o. Azou-se a occasião. Foi
+ella que a deu.<span class="pn">{65}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXXIV</h2>
+
+<p>«Uma mulher que se aliena&mdash;disse-me ella, uma vez, sem nexo que explicasse o
+improviso, e olhando-me com ar piedoso&mdash;Uma mulher, que se aliena, não pode
+amar sem tornar o seu amante o mais desgraçado dos homens. Quanto mais me
+examino, Roger, mais conheço que, fartes vezes, com desgosto meu, te devo fazer
+soffrer muito.</p>
+
+<p>Commovido por este exordio, respondi balbuciante:</p>
+
+<p>&mdash;E, todavia, a nossa alliança podia ser ditosa.</p>
+
+<p>«Sim&mdash;disse ella amargurada&mdash;O que ha de mais entre nós é o amor.</p>
+
+<p>O castigo secreto d'esta ligação é isso. Estas relações só duram com a
+condição de serem banaes; e, se o são, devem repugnar a corações nobres e
+delicados; se são profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem as sente.
+</p>
+
+<p>E suspirou. Respondi assim:</p>
+
+<p>&mdash;Vou mais longe que tu, Fanny.</p>
+
+<p>Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer com
+uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor proprio, por
+igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas torturas. Uma amante,
+qualquer<span class="pn">{66}</span> que seja o seu theor d'amar, conhece
+sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz, não
+conhece a existencia do amante.</p>
+
+<p>«Isso é ir longe de mais&mdash;disse ella a meia voz; depois, alçando os hombros,
+poz os olhos no céo, e exclamou:&mdash;Que é o amor proprio, Deus meu?</p>
+
+<p>Folgando em fim de encontrar Fanny em tal disposição de espirito,
+aventurei-me. Peguei-lhe da mão, e erguendo-me, em quanto ella me olhava
+affectuosa, disse, n'um tom supplicante:</p>
+
+<p>«Com tudo... se tu quizeres...»</p>
+
+<p>Fanny corou logo, comprehendendo que se demaziava.</p>
+
+<p>&mdash;Que queres tu dizer-me?</p>
+
+<p>Não ousei responder; mas ella, por certo me adivinhou, por que me apertou
+meigamente a mão, e disse suspirando:&mdash;creança!</p>
+
+<p>Eu fiz com a cabeça um gesto negativo! «Deixa-me!&mdash;disse ella de
+sobresalto,
+em tom de precipitada&mdash;Curar-te has assim? Não posso fazer-te feliz.
+Caza-te!»&mdash;A dôr anniquilou-a. Repelli-lhe rudemente a mão, e fitei-a colerico,
+por essas phrazes que me pareceram uma ameaça. Mas tão quebrantada a vi, que
+não tive coragem de a levar ao extremo, e murmurei por de mais:</p>
+
+<p>&mdash;Bem sabes que não é possivel isso.</p>
+
+<p>Replicou:</p>
+
+<p>«Dei-te quanto podia haurir d'affectos em meu coração, e és tu quem me
+castigas!</p>
+
+<p>Estava offendida: foi preciso aquietal-a, e jurar-lhe submissão; ella,
+porém, não perdoava assim, e exclamou:<span class="pn">{67}</span></p>
+
+<p>«Que queres que eu faça mais?</p>
+
+<p>&mdash;Se me amas, como creio, o teu dever está traçado.</p>
+
+<p>Corou outra vez: é que comprehendera.</p>
+
+<p>«Meu dever! meu dever! Muito indiscreto és em proferir semelhante palavra,
+Roger! Ignoras tu que o meu mais restricto dever me ordena de não deixar a caza
+que governo?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Fanny!&mdash;exclamei eu&mdash;que insignificancia tu trazes para me ferir...
+que confronto!...</p>
+
+<p>«A caza&mdash;replicou ella baixando os olhos&mdash;é o posto d'honra confiado á
+mulher! Mulher que se respeita, não a abandona nunca!</p>
+
+<p>Quiz interrompêl-a, mas ella continuou, de repente applacada, e olhando-me
+com ternura:</p>
+
+<p>«Raciocina um pouco, meu querido filho: póde uma mulher abandonar sua
+familia honorifica, sem perder a estima de si propria? Póde ella desquitar-se
+publicamente de todos os seus deveres sem despenhar-se aos olhos do mundo entre
+as mulheres perdidas?</p>
+
+<p>&mdash;São bem tristes considerações as da sociedade quando as cotejas com a
+minha vida...&mdash;respondi eu.</p>
+
+<p>Ficamos em silencio, alguns minutos. Fanny proseguiu:</p>
+
+<p>«Se eu seguisse os conselhos que me deixas adivinhar por que és muito
+honesto para m'os dar claramente, ser-te-hia forçoso, algum dia, fazer-me
+arrepender.</p>
+
+<p>Eu quiz jurar; mas ella cortou-me a palavra.</p>
+
+<p>«Podemos nós supprimir o passado? Não és tu<span class="pn">{68}</span>
+zeloso mesmo do passado? Oh! quero poupar-te!&mdash;accrescentou Fanny,
+levantando-se, e lançando-me um braço em roda do pescoço, em quanto com a mão
+sobre o meu peito, cravava ternamente nos meus os seus olhos azues&mdash;«Em teu
+logar, crê-me, eu seria tambem ciosa... Muito resististe!... disse ella,
+cahindo sobre uma cadeira, e escondendo entre as mãos a face: «Por que me não
+fugiste, quando era ainda tempo!</p>
+
+<p>«Já era tarde, Fanny, bem o sabes, no dia mesmo em que te vi, pela primeira
+vez, passar deante de mim.</p>
+
+<p>Ergueu-se outra vez, e abraçou-me com mudo transporte. Pensativo, alheado,
+recebia, como insensivel, as caricias. A final, pude dizer-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;O amor, Fanny, póde consolar muitas dôres, remir muitas humilhações,
+substituir muitos affectos. Diz tu: o que é a estima do mundo, os tranquillos
+sentimentos da familia, comparados á absorpção d'uma existencia por outra
+existencia? É acaso tão longa a vida que possamos consentir em immolal-a a
+coisas tão frivolas? E, de mais, que se lucra? Quem nol-o agradece?</p>
+
+<p>«Roger! Roger!&mdash;interrompeu Fanny&mdash;que estranha moral!</p>
+
+<p>E eu prosegui:</p>
+
+<p>&mdash;Não estás cançada de córar, de tremer, de te esconderes? Não tens, emfim,
+vergonha da vergonha? E não te repugna ao coração esperar, esperar mais,
+esperar sempre, para trazer-me os beijos avidos á minha bôca faminta? No espaço
+d'um anno, com grande custo, apenas teremos cem horas de<span
+class="pn">{69}</span> viver juntos... a felicidade, de que devemos
+contentar-nos, é isto? Se ao menos essa felicidade fosse pura, estrema,
+absoluta! Mas tu não pódes ouvir-me, sem que a lembrança de tuas inquietações,
+perigos a que te expões, os meus proprios tormentos, te não impallideçam; e eu,
+tão desgraçado! não posso uma só vez abraçar-te, sem que logo um espectro...
+</p>
+
+<p>«Supplico-te&mdash;bradou ella impetuosamente&mdash;se me amas, não me digas que és
+desgraçado, por que me matas.</p>
+
+<p>&mdash;E se tu quizesses&mdash;continuei, fitando-a internecido&mdash;se quizesses!... Não
+haveria no mundo existencia para competir com a nossa. O que eu te peço é ser
+eu só o encarregado de te fazer serena a vida, desvelar-me por ti eu só,
+preparar, suavisar sob os teus pés a vereda do futuro; ser só a amar-te; o que
+eu quero é ser para ti o meio e o fim da felicidade; é tomar sobre mim todas as
+penas, e dar-te em troca todos os meus sonhos, prazeres, e felicidades; o que
+eu quero é ser a um tempo teu filho, teu amante, teu pai, reunindo sobre a tua
+cabeça querida as mais dôces e solidas affeições, é concentrar em ti as
+lembranças do passado, as felicidades do presente, os anhelos do porvir, de
+modo que venhas a ser toda para mim, e que não haja na minha vida inspiração
+que não seja tua, que não proceda de ti, que não sejas tu! Se tu quizesses...
+Não ha ahi paizes onde livremente os que a sorte separou e o amor ajunta pódem
+emfim saborear aquelle particular repouso que resulta da plenitude da
+felicidade que é a vida? Em meus sonhos,<span class="pn">{70}</span> muitas
+vezes me figuro que somos voluntariamente proscriptos na immensidade d'alguma
+solidão, onde, sob um céo azul sempre, á sombra d'arvores sempre veridentes, á
+beira d'um mar sempre sereno e sobre tapetes de musgo sempre em flôr, ahi, nos
+saboreamos por nós mesmos, como se a nossa dupla existencia mais não fosse que
+uma palpavel recordação. Que desgraça poderia ferir-nos ahi? que inquietações
+assaltear-nos? que suspeita incutir-se-nos? que ciume contristar-nos na
+felicidade de dias sempre eguaes? se tu quizesses... Seria pouco para mim
+amimar-te sempre como a uma creancinha melindrada? procurar incessantemente
+debaixo de tuas palpebras o olhar meigo de teus olhos azues? escutar-te muito
+tempo o halito a brincar-te por entre os labios? dormir com a boca presa á tua
+espadua, a mão inlaçada na tua mão? vêr-te todos os dias, andar, ir, voltar,
+mais bella, mais tranquilla, mais graça que o sonho das virgens? Ouve mais: não
+seria nada para ti o teres-me sacrificado todos os prejuizos que formam o
+coração das mulheres? teres-me tirado do abysmo de tristeza, no fundo do qual
+me estorço ha tanto tempo? teres-me dado tu só mais felicidade do que homem na
+terra póde cobiçar? Oh Fanny! Nunca mais, a chorar, eu te diria: «amo-te!... se
+tu quizesses!...»</p>
+
+<p>Estava suspensa dos meus labios Fanny. Bebia-me as palavras, ebria de
+prazer. Inclinada para o hombro a cabeça, cahidos os braços, as palpebras
+descidas, ouvia-me como ao longe a musica, de que não queremos perder nada,
+arrobada n'um extasis que reunia todas as sensações e quebrantos.
+Arfavam-lhe<span class="pn">{71}</span> as rozadas azas do nariz; suaves
+respostas inintellegiveis lhe ciciavam os labios; convulções electricas lhe
+crispavam a cutis; tremiam-lhe as mãos em vibrações dulcissimas. Já não poderá
+conter-se. Correu-me ao seio, e debulhou-se em lagrimas no meu pescoço que ella
+cingia soffrega. Oh! que delicioso apertar aquelle!</p>
+
+<p>«Não se falle mais n'isso&mdash;disse ella, com expressão de angustia, recuando a
+face, e apertando-me a fronte com a mão&mdash;Isso faz-me um grande mal. Querido
+Roger, o sacrificio, que queres fazer, é egual ao que me pedes. A felicidade
+debuxada por tua boca persuasiva é o mais bello sonho dos meus encantos; mas,
+ai! não passa d'um sonho! Meu Roger, amemo-nos, adoremo-n'os; mas, por piedade
+de mim, não falles assim mais!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXXV</h2>
+
+<p>Não me dei por vencido d'aquelle grito de desesperação que me revelava, ao
+mesmo tempo, aspirações ardentes, e dôres mysteriosas. Nenhum de nós nesta
+affectuosa discussão, havia empregado os verdadeiros argumentos. Um tanto
+satisfeito por expôr a suprema questão da minha vida áquella que devia
+resolvêl-a, deliberei deixal-a reflectir, para pouco<span
+class="pn">{72}</span> e pouco a ir affazendo. Esperava azo propicio para
+reluctar e vencer a minha adorada inimiga.</p>
+
+<p>Depressa veio o ensejo. Terrivel e imprevisto era elle: havia ahi uma só
+alternativa: vencer os extremos escrupulos de Fanny, ou perdêl-a para sempre.
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXXVI</h2>
+
+<p>Fanny pareceu-me preoccupada um dia. Fallava precipitadamente em muitas
+bagatellas, como se quizesse abafar alguma coiza gravissima. Abstive-me de
+interrogal-a, e fiz que não dava fé da sua turvacão. Acariciou-me vivamente, e
+eu a ella, mas nossos espiritos e vontades pareciam alheios aos affagos. Houve
+um instante em que um e outro esgotamos as palavras ociosas. Tinha Fanny a
+cabeça inclinada sobre o meu braço, e eu, todo attento no rosto d'ella, em muda
+anciedade a estava contemplando. Subiu-lhe aos labios em suspiros do intimo a
+respiração suffocada; aos meus olhares interrogadores respondia o descahir das
+palpebras, e o voltar os olhos, córando.</p>
+
+<p>Tomei-lhe a mão sem dizer palavra. Apertou-m'a com força febril.</p>
+
+<p>«Falla em nome do céo!» disse-lhe eu empallidecendo.<span
+class="pn">{73}</span> Abraçou-me convulsamente, aconchegando-me o peito da
+face d'ella.</p>
+
+<p>Fugiu-lhe dos labios a narrativa cruel, cortada por mil reticencias
+confusas. Mas, desde a primeira palavra que proferiu, comprehendi tudo. N'essa
+manhã mesma, o marido lhe dissera em carta muito expansiva, que seria
+provavelmente obrigado a estabelecer-se em Inglaterra, por espaço de alguns
+annos. Em tal caso&mdash;accrescentava elle&mdash;deveria Fanny metter no collegio os
+filhos mais velhos, e ir ter com elle, levando o filho mais novo. Fiquei
+aterrado. Irritou-me a coragem que ella tivera para em fim proferir as
+abominaveis palavras de separação. Dessimulei, porém, as angustias que me
+alanceavam o peito, e deixei só transparecer no semblante os traços de dôr
+profunda. Abracei-a, comprehendi, e exclamei:</p>
+
+<p>«Não será assim, Fanny!&mdash;juro que não, por que é arrancarem-me o coração o
+separarem-me de ti.</p>
+
+<p>&mdash;Que hei-de eu fazer, meu Deus?&mdash;disse ella retorcendo as mãos.</p>
+
+<p>«Amarmo-nos&mdash;respondi exaltado, com quanta força temos, e tirar um recurso
+da horrivel necessidade.</p>
+
+<p>&mdash;Recurso!...&mdash;e eu interrompi-a logo: «Fanny! este momento é solemne; não
+ha que vêr com subtis considerações do mundo e dos ciumes, do passado: trata-se
+de viver ou morrer. Deante de Deus, te dou em penhor a minha vida. Queres
+dar-me a tua? Atirou-se aos meu braços, repetindo:</p>
+
+<p>&mdash;Que hei de eu fazer?<span class="pn">{74}</span></p>
+
+<p>«Fugirmos para tão longe que ninguem nos veja mais.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXXVII</h2>
+
+<p>Dito isto, cahimos em profundo silencio, Fanny retirou-se lentamente de meus
+braços, poz-me ambas as suas mãos nos hombros, e fixou-me.</p>
+
+<p>Baixei os olhos, receando-lhe a ira. Mas que mal a conhecia eu! O que ella
+me revelou foi piedade sómente. Repartida entre o seu amor, e o dever que lhe
+apontava o logar digno ao pé do chefe de familia, a luctar sósinho no exilio
+para defender seus bens, Fanny deu-me testemunho d'uma agonia que não cabe
+n'alma sem rasga-la. Bem sabia ella que eu devia horrivelmente soffrer,
+pensando no proximo fim de união tão cara; mas tambem comprehendia que lhe não
+era possivel desobedecer á voz que a chamava. E isto flagelava-a com uma dôr
+sem nome. Perder-me e ser ella, uma vez ainda, a causa unica de meus
+infortunios.</p>
+
+<p>&mdash;Meus filhos!&mdash;exclamou ella em fim, impallidecendo, com uma despedaçadora
+angustia. E pendurava-se-me do pescoço, fitando-me os olhos
+penetrantemente&mdash;Meus pobres filhos, tão creanças! Pensas tu n'isto? Tu que és
+bom, e me amas, podes-me exigir que os deixe?<span class="pn">{75}</span></p>
+
+<p>Immediatamente comprehendi pela commoção que me estorcia o animo, que quanto
+d'ahi em diante tentasse seria baldado. A pesar da resistencia, senti um surdo
+protesto subir-me das entranhas em gritos de indignação. Eu mesmo, no secreto
+de minha alma, não queria esse monstruoso abandono de mãe, nem mesmo o covarde
+desamparo d'um marido por sua mulher que adorava.</p>
+
+<p>Mas, confessal-o-hei?&mdash;não me instigava tanto á lucta o desejo de passar a
+minha vida com aquella mulher, como a idea de fazer cessar a partilha
+execravel. Absolva-me dos males que causei um momento de franqueza! Eu senti,
+abraçando de novo Fanny, que soffria menos com a certeza de a perder que com a
+idéa de que ella ia unir-se ao marido. E, horrorisado de mim, dôr nova para
+ajuntar a tantas, disse comigo mesmo:</p>
+
+<p>«Aqui ha mais ciume que amor.» Entretanto, mais tranquilla, mas sempre
+affavel, Fanny encostara-se ao cotovello e, voltada para mim, discutia sósinha.
+Escutei-a.</p>
+
+<p>«Se eu ousasse... se eu não temesse mortificar-te...</p>
+
+<p>&mdash;Falla, que estou de animo assente para ouvir tudo. Já agora, não ha nada
+ahi que possa fazer-me mais desgraçado.</p>
+
+<p>Acariciou-me febrilmente, e disse, quasi desfallecida:</p>
+
+<p>«Pois bem! eu não tenho coragem de arruinal-o. Hoje, o unico recurso d'elle
+está no meu dote.</p>
+
+<p>&mdash;É isso só? deixa-lhe tudo o que tens. Não sou eu bastante rico para nós
+ambos?<span class="pn">{76}</span></p>
+
+<p>«Não é isso! não é isso!&mdash;disse ella, meneando a cabeça.</p>
+
+<p>Encarei-a. Estava enleada e escolhi vagas palavras com que disfarçar a idéa.
+Continuou, a meia voz, como reprehendendo-se do que ia dizer:</p>
+
+<p>«Como condemnal-o á solidão n'este supremo momento em que elle lucta tanto
+por mim como por elle! Nunca voluntariamente me desgostou. Ama em mim a
+companhia de quinze annos da sua vida, a mãe de seus tres filhos...</p>
+
+<p>&mdash;Por que o enganaste?&mdash;atirei-lhe eu em rosto, no impeto doloroso da minha
+colera; mas, com uma só phrase me esmagou ella:</p>
+
+<p>«Por que te amava!» e com expressão de orgulho que a engrandecia a cima de
+si mesma, accrescentou:&mdash;Mas a perfidia não competia a ti reprovar-m'a, Roger!
+</p>
+
+<p>D'esta arte, quantos golpes eu lhe apontava, eram logo rigosamente
+rebatidos; mas, nem assim, eu desistia do ataque. E se nos descobrissem!
+repliquei eu, na certeza de que este golpe era difficil de aparar, fitou-me
+fixamente como receando que a eu denunciasse para a possuir, talvez, por esse
+infame meio.</p>
+
+<p>Depois de olhar-me longo tempo, disse:</p>
+
+<p>«Que desgraçado elle seria!...</p>
+
+<p>Voltei-lhe o rosto, e Fanny concluiu:</p>
+
+<p>«Elle diria com horror de mim: Nem por amor d'estas creancinhas...</p>
+
+<p>Puz-lhe a mão nos labios, e, convulsivo, olhei para ella. Estava coberta de
+lagrimas. Posto que perturbado, não pude deixar de admirar-lhe a franqueza<span
+class="pn">{77}</span> nobre que nem, neste lance, me poupava. Estava toda
+embevecida na victima!</p>
+
+<p>«Que faria elle?» murmurei. Fanny, levou as mãos á face, e respondeu com voz
+abafada:</p>
+
+<p>&mdash;Talvez me perdoasse...&mdash;</p>
+
+<p>E, passados os soluços que lhe embargavam a voz, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Estamos demasiadamente castigados! Se obedeço ao dever, abandonando-te; se
+não lhe obedeço, deshonro-me. De ambos os lados só vejo a desgraça, e faço
+desgraçados. Infeliz por ti, por elle, por meus filhos, por mim propria, nem me
+resta o recurso da morte para restituir a paz a todos! Deus meu, que me has
+dado o coração, que me não serve para consolar os entes que amo, e nem as suas
+dôres posso incerrar n'elle, como thesouros caros!</p>
+
+<p>E, a luz crepuscular na alcôva, sobre as rendas dos flacidos travesseiros,
+enlaçados os braços e unidas as faces assim choravamos... Quem acreditaria que,
+desde muitos dias, se passavam assim todas as nossas entrevistas!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXXVIII</h2>
+
+<p>Desde este dia funesto entendi que não devia esperar mais nada d'este amor,
+e vivemos na penosa<span class="pn">{78}</span> espectativa da decisão de um
+outro. Mas, como se o destino houvesse resolvido não dos poupar em dôr alguma,
+a solução todos os dias esperada, não chegava nunca.</p>
+
+<p>Já as cartas não eram sómente assustadoras para Fanny. Era eu que as
+desejava, e inquiria o contheudo dellas, e fazia ferventes votos pelo bom
+exito d'aquelle que, máo grado meu, não luctava energicamente. Com tudo por dar
+alguma coragem á desgraçada mulher, exaggerava a minha confiança, e encomiava a
+esperteza conhecida, a firmeza de caracter e a força de vontade de seu marido.
+Affirmava-lhe que elle ressarciria os seus haveres, obteria justiça, e
+recobraria o tão merecido socego. N'elle se estribavam todas as minha
+esperanças: pensava n'elle só, e tomava apaixonadamente a peito a sua
+pendencia. A menos esperada ventura que eu entrevia em meus vagos sonhos e
+almejava com o ardor da desesperação, era a volta do meu rival, em cujos braços
+devia cahir a mulher que eu adorava!</p>
+
+<p>Se eu podesse coadjuval-o!... dizia eu commigo; mas de que sirvo eu? E agora
+me pezava o inepto pudor que me não deixava entrar n'aquella caza&mdash;Se eu
+tivesse menos orgulho, se eu não tivesse querido exaltar-me, singularisando-me
+por uma delicadeza affectada, que, dos meus proprios olhos, me não lava da
+minha acção; se, como fazem tantos nas minhas circumstancias, eu me fizesse
+amigo do homem, cuja mulher roubava, resgatando hoje a pequena parte remissivel
+de meus actos, poderia achar algum lenitivo para esta afflicção. Mas eu
+tivera<span class="pn">{79}</span> sempre mais orgulho que bom senso.
+Pungia-me, então, a idéa de que, por falta minha, n'aquelle desastre em que
+cada qual heroicamente desempenhava o seu dever, estava eu sendo um ente
+inutil. Contrapondo á minha consciencia taes subtilezas, tão futeis ellas eram,
+que não me illudiam. Mas, á maneira do naufrago que se agarra aos limos
+fluctuantes, sem esperar salvar-se, eu me escorava á minha propria dôr,
+accuzando-me de faltas não commettidas, falsificando meu proceder e sentimentos
+n'isso mesmo que elles tinham de honra, por que eu não sabia que fazer para
+readquirir uns longes de esperança.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XXXIX</h2>
+
+<p>Fanny visitava-me como visitamos um doente incuravel, e retiramos sempre
+admirados de encontral-o vivo. Palavras de alento não as tinha para m'as dizer,
+que não carecia menos ella de ser consolada. Se eram boas as noticias,
+suspirava; se eram más, chorava. Como ella, um dia desenvolvesse em toda a sua
+horrivel extensão, a pesada cadeia das mais secretas miserias que
+entrevia&mdash;atterrada por se não sentir com forças para arrastal-a&mdash;eu rompi o
+silencio subitamente, e, com simplicidade, lhe offereci todos os meus teres
+para desempenhar a<span class="pn">{80}</span> honra de seu marido, que, por
+derradeiro ludibrio, fôra entregue aos azares do jogo.</p>
+
+<p>Mas, a pesar mesmo deste novo desastre sobreposto ao antigo, e tão
+afflictivo que já fazia esquecer o outro, Fanny foi o que devia ser:</p>
+
+<p>«É desgraçada a nossa situação&mdash;me disse ella com severidade
+extraordinaria&mdash;Roger! amo-te agora mais do que nunca; mas não sou livre; por
+isso mesmo que te adoro, é que tu és o unico homem de quem não posso acceitar
+nada.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XL</h2>
+
+<p>A adversidade cansou. As cartas vinham cada vez mais animadoras, e já não
+havia questões de honra, nem de miseria, nem se quer da separação que tanto
+temeramos. Quando muito era só a perda de ametade dos bens que podia preoccupar
+Fanny. Vieram o socego e os risos para ella; mas eu, como um miseravel que tem
+duas chagas a pençar, senti immediatamente despertar o ciume, mais ardente
+que
+nunca. O marido estava a chegar, e esta vinda, d'antes tão desejada, incutia-me
+agora invencivel horror. Dezejei-lhe a morte. Tornei-me sombrio, desconfiado,
+interrogador. Recomeçaram as nossas luctas.<span class="pn">{81}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XLI</h2>
+
+<p>Nunca me viera a idea de romper com Fanny; mas travados outra vez em guerra,
+de repente me appareceu, fulgurante como um relampago. E eu senti entrar com
+ella em meu coração a suave caricia da esperança. Mas esta esperança, ai! não
+durou mais que um segundo. Máo grado meu, tremulo de horror, dei-me pressa em
+repulsar a idea do meu resgate.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XLII</h2>
+
+<p>Depois de uma discussão em que, mais uma vez, eu expozera aos olhos d'ella
+as minhas angustias, Fanny veio de moto proprio a devassar d'um pensamento que
+eu não ousara nunca deixar-lhe vêr.</p>
+
+<p>&mdash;Não fui esperta&mdash;disse ella. Eu devia fingir-te a minha vida. Por muito
+improvavel que fosse o que eu te contasse, tu acreditarias tudo, por que iria
+no acredital-o o teu interesse. Não fui esperta, mas é que eu nunca soube
+mentir.<span class="pn">{82}</span></p>
+
+<p>Esta confissão foi para mim uma subita revelação, suppuz logo que ella á
+semelhança d'outras mulheres, orgulhosa de ser feliz, escondia vaidosamente a
+um tempo, vicios e dôres, e, desgraçada, queria que a suppozessem feliz. Esta
+suspeita inquietou-me oito dias; mas a esperança que me ella gerava no coração
+não podia durar. Instei Fanny, facilitando-lhe recursos para desmentir-se e
+patentear-me tudo de sua vida. Admirando-se de eu duvidar d'ella, Fanny
+confirmou glacialmente o que me havia dito e tornou-me á desesperação.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XLIII</h2>
+
+<p>Approximava-se, n'esta conjunctura, o praso que o marido designara para
+voltar. Parecia-me que devia ser esse o dia da nossa separação, e da morte para
+mim. A idea da partilha enojava-me. Resolvi cem vezes explicar-me com Fanny á
+cerca d'este assumpto horrivel, mas não me attrevia. Havia n'ella uma especie
+de renascimento: nunca a vira tão terna e submissa. Ao mesmo tempo deu em ser
+muito expansiva. Nos ultimos tempos, coisas insignificantes tocantes á sua vida
+intima, andavam sempre em nossas praticas; d'ahi vinha o continuar ella agora a
+fallar-me dos minimos incidentes da sua vida. É o que devia, mais tarde
+collocar-nos face a face, na attitude ameaçadora de dois inimigos.</p>
+
+<p>Não sei como se deu, nem qual de nós foi causa da scena atroz que sobreveio;
+lembra-me só que Fanny estava já para sair, e ambos nós em pé. Acabava ella de
+apertar as fitas do chapéo, deante do espelho do fogão, ao qual eu me
+encostava; já tinha o chale nos hombros, e buscando com os olhos o lenço, que
+pozera sobre uma meza, acabava de<span class="pn">{83}</span> abotoar as
+luvas.
+Assim, continuavamos em termos meio affectuosos e familiares uma contenda que
+intendia com ella e com o marido. Estavamos ambos serenos quando lhe aconteceu
+proferir uma palavra que me gelou o sangue nas veias:</p>
+
+<p>&mdash;Eu mentiria, se dissesse que não tinha affeição a meu marido.</p>
+
+<p>Logo que reflectiu na crueza d'essas palavras, tão imprudentes como inuteis,
+arrependeu-se de as ter dito. Sem accrescental-as, nem desmentil-as, acercou-se
+de mim, affastou o chale para me cingir o pescoço com o braço, amimou-me o
+rosto com a mão livre, e alteou-se nas pontas dos pés para abraçar-me.</p>
+
+<p>Era carinhoso o olhar, que exorava perdão á crueldade da bôca. Forcei-a
+lentamente a desprender-se-me do peito, e disse-lhe severamente:</p>
+
+<p>«Vós outras, as mulheres, não tendes delicadeza alguma no coração.»</p>
+
+<p>«Córou, fez-se mais meiga, mais insinuante, e quiz outra vez abraçar-me.</p>
+
+<p>Puz-lhe a mão no hombro e affastei-a: dizendo-lhe, tremulo de furor:</p>
+
+<p>&mdash;Ha dias que me falla em seu marido, incarecendo-o muito. Esquece-se de que
+não é elle agora o mais digno de lastima?</p>
+
+<p>Apertou-me inergicamente a mão, em quanto com os labios cerrados, á mingua
+de palavras, me fitava com ternura supplicante.</p>
+
+<p>Mas a colera recrudescia a proporção que Fanny denunciava arrependimento.
+Continuei:</p>
+
+<p>«É justo que o ame, por isso mesmo que a sua estima se lhe deve com
+preferencia a tudo.<span class="pn">{84}</span></p>
+
+<p>Conheceu Fanny que não poderia apaziguar-me. Não sabendo que mais fazer,
+deixou passar aquella phraze de interpretação doble, desdeu os laços das fitas
+do chapeo, pousou o chapéo e o chale sobre a cama, e assentou-se n'uma poltrona
+defronte de mim. Com o cotovelo esquerdo apoiado no braço da cadeira, a face na
+palma da mão, os olhares ondulantes, assim ficou na sua habitual posição.
+Mais
+que nunca linda, com aquelles braços maravilhosos, cuja alvura assombrada de
+pennugem destacava da seda negra do vestido; com as grandes luvas de pelle da
+Suecia que lhe cobriam os pulsos; com o collo flexivel e inclinado; e côr
+pallida; e os cabellos louros voluptuosamente annelados sobre a fronte pura:
+era a semelhança de algum bello retrato de Rubens. Por de sob a fimbria do
+vestido, sahiam os pequenos pés reunidos e assentes no chão. Nas escuras dobras
+da seda envolvia-se o braço direito, cuja mão, meio fechada, permanecia immovel
+como se fôra de marmore.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XLIV</h2>
+
+<p>Quando o publico soube o desastre do marido de Fanny, soubera eu que em
+Pariz circulavam boatos deshonrosos para elle. De ser rico e altivo grangeou
+muitos inimigos. Deviam de ser calumniosos os ditos<span class="pn">{85}</span>
+que sahiam de bôcas invejosas. Não os desmenti por prudencia, mas fiz nota
+d'elles. Bem sabia eu que um dia me serviria d'elles para vingar-me.</p>
+
+<p>Esperava eu, exasperado pelo furor, que uma palavra, provocando-me de novo,
+me desculpasse a crueldade. Ella, porém, de astucia não fallava, adivinhando
+que eu interpretaria á feição de minha raiva tudo que me dissesse. Assim
+ficamos ambos immoveis, callados, ella, esperando o golpe final, eu reunindo as
+minhas forças todas para descarregal-o.</p>
+
+<p>Decidi-me em fim: e, com uma só phraze cortante como gume de espada,
+attacando o mais sagrado da honra do meu rival, repeti as infamias em que eu
+não cria.</p>
+
+<p>A resposta foi prompta e terrivel. Isso é indigno!&mdash;exclamou ella
+erguendo-se hallucinada, escarlate, com uma expressão de colera e indignação
+que me assombrou.</p>
+
+<p>Não quero que se rosse na honra do chefe de familia! Não quero que se
+deshonre aquelle cujo nome eu trago! Por isso que o trahi; por isso que
+conspurquei a parte de sua honra que elle me confia, é que eu prohibo que se
+ultraje a outra... e principalmente ao snr!... Envergonhe-se!... Se acreditou
+essas calumnias, competia-lhe defendel-as commigo, pois foi commigo que...</p>
+
+<p>Interrompeu-se. Eu immudeci, e ella proseguiu: Fallou-me ahi na indelicadeza
+de coração das mulheres; e eu fallarei do orgulho dos homens. Não é só do amor
+das mulheres que carecem para estrado... Querem tudo o que ellas prezam, tudo o
+que respeitam: estima do mundo, familia, filhos, repouso,<span
+class="pn">{86}</span> e até a honra de seus maridos. Tudo lhes é mister para
+desvirtuar e rediculisar essa honra. Estou de mais castigada por ter crido que
+podia impunemente amal-o! Fui prudente; e por isso não é meu marido ultrajado
+que castiga a minha culpa; mas&mdash;castigo mil vezes mais cruel&mdash;é o meu amor.
+Mereço esta pena... e é o snr. que me pune!</p>
+
+<p>Continuei callado: e ella, com a boca a trasbordar sarcasmos, proseguiu:</p>
+
+<p>É como todos! O que ahi ha é orgulho. Não sabe amar!</p>
+
+<p>Desta vez, respondi turvado:</p>
+
+<p>«Não sou desculpavel por aggredil-o?</p>
+
+<p>&mdash;Aggrida-o como homem. Não tem tantas causas para o fazer?</p>
+
+<p>«Por Deus que o farei!</p>
+
+<p>Furioso, com os olhos injectados de sangue, os dentes cerrados, avancei para
+Fanny, mas ella suspendeu-me a tres passos com um olhar glacial que eu nunca
+lhe vira. Depois vagarosamente embrulhando-se no chale, da cabeça aos pés, como
+a sacerdotiza antiga, sombria, feroz, desesperada, deixou cair sobre mim outro
+relancear de olhos despresador, e sahiu.<span class="pn">{87}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XLV</h2>
+
+<p>Que farei para apasigual-a?&mdash;Tal foi a ignobil pergunta que eu me fiz, ao
+amanhecer do dia seguinte.</p>
+
+<p>Escrevi-lhe uma longa carta tão submissa que não pude revêl-a sem pejo.
+Rasguei esta carta, comecei outra, mas tão acerba de estylo que devia exasperar
+quem eu queria commover. Não a conclui, e andei uma hora a passear
+phreneticamente em todas as direcções no meu quarto. Primeiro tive ideias de
+rompimento immediato; depois desvaneceram-se. Rebentou em chamas o furor e o
+ciume; depois apagaram-se. Por fim, comprehendi que o procedimento a que eu
+quizera impellir Fanny, era um crime, o qual, consumando irremediavelmente a
+desgraça d'uma familia inteira, devia tornar-nos desgraçados para sempre.
+Era-me pavoroso pensar que, a ter-me ella attendido, durante a nossa existencia
+toda, viriam interpor-se entre ella e mim as imagens de seus filhos
+abandonados.</p>
+
+<p>Mas ao mesmo tempo escasseava-me força para o resgate. Affizera-me ás minhas
+dôres, e não ousava trocal-as por dôres desconhecidas. É preciso ter sido, como
+eu fui, o tudo nas ternuras e affeições d'uma mulher, o coração que
+incessantemente regia os movimentos d'outro coração, para poder<span
+class="pn">{88}</span> comprehender os horrores da solidão que segue um
+rompimento. Eu delirava de raiva e dôr. Por fim, commovi-me, erguendo os olhos
+para o retrato de Fanny.</p>
+
+<p>&mdash;Que mal me fez ella?&mdash;dizia eu. Chorei; e, indeciso, vesti-me, e sahi.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XLVI</h2>
+
+<p>Seriam oito horas. O calor dos ultimos dias d'agosto purpureava o céo
+carregado. As trevas, semelhantes a mortalhas espargidas, desciam com a nevoa
+opaca atravez das arvores da grande avenida dos campos-Elyseos. Os passageiros
+davam-se pressa para fugir á tempestade que trovejava surdamente ao longe. As
+estrellas brilhantes das lanternas, aqui e além, corriam, cruzavam-se e
+desappareciam. Nuvens de pó sacudido pelo vento subiam diante de mim e toldavam
+o espaço. A meio-caminho, quasi entre <em>Rond-Point</em> e o «Arco do
+triumpho» parei.</p>
+
+<p>Era alli. Encostei-me a um tronco de arvore, levantei o rosto, e olhei. A
+meus pés era a passagem das carruagens que vão do portal á avenida. Sobre a
+porta estavam abertas as quatro janellas da sala. Uma só lampada, por certo,
+illuminava o recinto, por que a claridade que translusia dos vidros<span
+class="pn">{89}</span> escassamente brilhava como um clarão duvidoso. Nenhuma
+sombra passava entre a lampada e os vidros. A casa está vasia&mdash;pensei eu&mdash;e
+todavia Fanny não está em <em>Chaville</em> por que a sala tem luzes.</p>
+
+<p>Estalou, neste momento, mais forte a trovoada.</p>
+
+<p>Relampaguearam os coriscos. Um bulcão rugiu na ramagem dos alamos da
+avenida, remoinhando turbilhões de folhas e terra. Então vi uma sombra de homem
+chegar á ultima janella, e fechal-a. As outras tres fecharam-as mais tarde.
+Depois, a froixa claridade que alumiava a sala bateu nas vidraças mais tensa e
+viva: havia-se accendido uma segunda lampada.</p>
+
+<p>E depois, mais nada. A avenida deserta, a tempestade no céo de todo negro,
+eu em pé debaixo da minha arvore, e a sala vasia com as quatro janellas
+lusentes. Soaram onze horas no relogio d'uma egreja visinha.</p>
+
+<p>De repente, o estrepito de rodas acceleradas, mordendo a areia, passou ao pé
+de mim. Eu dera, sem saber porque, alguns passos authomaticos.</p>
+
+<p>&mdash;Arreda! Arreda! gritou uma voz irritada. Saltei para a margem da estrada.
+Um <em>coupé</em> vasio passou bamboando sobre o eixo, effeito dos sacões;
+depois uma grande carroça de viagem tirada por quatro cavallos, voltou de
+repente sobre si mesmo, ao tempo que se abriam os dois batentes da
+porta-cocheira. Remirei a carroça com assombro. Ao fundo estava um homem, que
+eu bem conheci&mdash;era elle. Ao seu lado uma mulher que lhe fallava: era Fanny.
+Entre elles, sobre os joelhos, e nos braços,<span class="pn">{90}</span> tres
+meninos de cabellos louros. Foi uma visão rapida. Não sei se me viram. A
+carroça desappareceu por debaixo do arco do portal, e logo os dois pezados
+batentes rodaram nos gonzos, e bateram entre si com estrondo lugubre e
+cavernoso.</p>
+
+<p>Acabava eu pois de me arredar para dar passagem ao meu rival que entrava
+como senhor em sua casa.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XLVII</h2>
+
+<p>Por que me não esmagou elle com as suas rodas?&mdash;exclamei, com a morte na
+alma, retirando-me, e caminhando ao acaso como um ebrio.</p>
+
+<p>Passava uma sege de praça; entrei&mdash;onde quer ir?&mdash;diz o boleeiro,
+embrulhando-se no seu capote&mdash;onde quizeres, ao Bosque, onde quizeres. E
+senti-me arrebatado d'aquelle sitio funesto.</p>
+
+<p>A chuva escorria sobre as vidraças corridas. Encolhido n'um angulo da sege,
+com os braços cruzados, e a face encostada á almofada, vi de lado, ao clarão
+dos relampagos, estorcerem-se as arvores atormentadas pelos furacões. A
+intervallos, resalteavam no ar as astilhas dos coriscos. E eu dizia: Esta
+tormenta não os aterrará? Não sei que tempo passei blasphemando, rasgando o
+peito com as unhas, chorando, dentro dessa sege que corria atravez<span
+class="pn">{91}</span> das arvores do bosque, ao clarão avermelhado dos
+relampagos. Sentia-me abafar. Desci os vidros e a chuva batia-me na cara e nas
+mãos. Encostei-me ao rebordo da portinhola, com a face deitada nos braços.
+Tomou-me uma sensação horrivel de frio. Tinha febre. «Quer que recolhamos?»
+dizia de espaço a espaço o boleeiro cançado.</p>
+
+<p>&mdash;Quero&mdash;disse eu, fatigado já tambem.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XLVIII</h2>
+
+<p>Nascia a aurora lagrimosa no mal enchoto céo, quando, erguendo a face,
+reconheci uma casa á margem da estrada. Era a della. Todas as portadas da
+janella estavam fechadas, e as luzes extinctas. Apenas um clarão avermelhado
+excessivamente mortiço, semelhante ao que sahe d'uma lamparina, brilhava como
+um ponto entre duas taboinhas de persiana, na ultima janella da direita, em uma
+alcova lateral ao salão. Debrucei-me longo tempo sobre o apoio da portinhola
+para enxergar o ponto vermelho e expirante. Mas não chorava já. Ia tranquillo,
+de gelo, prostrado de fadiga.&mdash;Dormirá ella agora?&mdash;me dizia eu.<span
+class="pn">{92}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>XLIX</h2>
+
+<p>Os primeiros dias, que seguiram esta noite horrivel, passei-os n'um estado
+de stupor de que não havia arrancar-me. Esperava não sei que, que devia
+terminar-me a vida e os males.&mdash;Isto não póde acabar assim!&mdash;dizia eu. Vinte
+vezes ao dia, pedia a minha correspondencia mas nem se quer abria as cartas que
+o meu creado me trazia. Bastava-me vêr a lettra dos sobre-escriptos. De Fanny
+não vinha alguma. Affigurava-se-me que ella tinha morrido. Isto amedrontava-me.
+Cheguei a duvidar da minha rasão.</p>
+
+<p>Ao oitavo dia, depois da nossa ultima entrevista, tive um presentimento de
+que ia vêl-a. Preparei tudo o que queria dizer-lhe. Senti-me vencido. Queria
+pedir-lhe perdão; declarar-lhe que estava prompto a submetter-me; queria
+supplicar-lhe alguma piedade para os meus padecimentos. Esperei-a em vão até
+noite fechada, contando as horas nas pulsações alternadamente precipitadas e
+desfallecidas do meu pulso. Não veio. Não escreveu. Ninguem me deu um instante
+de esperança fazendo vibrar a campainha da minha porta.</p>
+
+<p>Ao anoitecer, sahi na direcção da casa d'ella. Chegando á alameda fiquei
+surprehendido, vendo<span class="pn">{93}</span> tudo fechado. A ideia de Fanny
+ter ido para longe, tão longe que eu não podesse vêl-a mais, atravessou-me o
+cerebro como um dardo. Com horrivel angustia, mas affoitamente, como um
+covarde, a cuja cabeça subiram as fumaças da bravura, bati á porta e perguntei
+ao creado se a senhora estava em casa. Eu estava pallido e tremulo; mas elle
+não deu fé.&mdash;A senhora está no campo&mdash;respondeu, «Onde? em Chaville?»&mdash;sim,
+senhor.</p>
+
+<p>Fui encostar-me a uma arvore por que me sentia desmaiar.</p>
+
+<p>Ao cabo de alguns minutos decedi-me a ir para casa. Era meia consolação
+saber que Fanny estava ausente. Comprehendi, emfim, o motivo que lhe estorvara
+a vinda; mas não comprehendi por que me não escrevera durante oito dias. Eu
+deveria suppor tambem que ella esperaria carta minha; mas havia ainda muito
+egoismo no meu despeito.</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe se ella me espera lá&mdash;dizia eu para consolar-me.</p>
+
+<p>Apenas esta ideia se me abriu no espirito que um desejo imperioso de vêr
+Fanny, á custa de tudo, e logo, me assaltou. Estava então perto de casa. Entrei
+rapido e pedi o meu cavallo. Ajudei mesmo o creado a apparelhal-o. E lancei-me
+ao caminho, cheio de esperança, com as esporas cravadas nas ilhas sacudindo as
+redeas, á desfilada, enlameando passageiros, sem mandar arredar ninguem.</p>
+
+<p>Tanto corri que receei ter-me desencaminhado, e não conheci a casa de Fanny,
+que estava em frente de mim, vagamente alumiada, debaixo das agigantadas
+arvores. Mas, alçando-me sobre os estribos,<span class="pn">{94}</span> para
+olhar por cima do muro conheci o pavilhão. Apeei, e entrei no bosque para
+prender o cavallo a uma arvore. Depois, retrocedi, e vi com surpreza que a
+graderia do jardim estava aberta. Um creado de farda estava á porta. Ao cabo da
+aléa, no cunhal da casa, vi brilhar as duas lanternas d'uma sege immovel.</p>
+
+<p>A meio caminho entre a casa e a grade, um pouco á esquerda, no centro de um
+amplo taboleiro de relva, os vidros coloridos do pavilhão fulguravam aos raios
+d'um candieiro posto no interior.</p>
+
+<p>&mdash;Que segnifica tudo isto?&mdash;perguntei eu, caminhando ao longe do muro para
+encontrar a brecha por onde eu passára duas vezes. Mas apenas puz o pé no
+jardim, fiquei como pregado no chão. Estava ouvindo imprecações e soluços; do
+pavilhão, a vinte passos de mim, é que elles sahiam.</p>
+
+<p>Cobriu-me o corpo todo um suor frio. Eu tremia como a folhagem dos arbustos,
+sob as quaes me escondera.</p>
+
+<p>Neste momento, a sege correu a grande trote dos cavallos para a grade; de
+certo o cocheiro obedeceu a um chamamento que eu não tinha ouvido. Ao chegar
+defronte de mim, parou, e o creado da almofada abriu a portinhola. Tinham
+cessado os gritos e os soluços. Sahiu um homem do pavilhão, e fechou-se a
+porta. Reconheci-o. Que outro poderia ser? Assentou-se nos coxins, o creado
+subiu para a almofada, o cocheiro picou os cavallos, a sege passou a grade,
+rodou sobre a calçada sonora, e a grade foi fechada pelo creado de farda que
+estava ao pé.<span class="pn">{95}</span></p>
+
+<p>Logo que este homem, caminhando para casa, se sumiu entre o arvoredo,
+avancei precipitadamente, sem precauções. Antes, porém, de levantar o trinco da
+porta, examinei atravez dos vidros. No centro do pavilhão estava uma meza
+redonda, com um candieiro em cima. Em toda a roda corria um amplo divan; e
+deitada sobre este divan, vi uma mulher chorando, com a face entre as mãos,
+dando soluços de rasgar o coração, era ella! Fanny! ella! Entrei
+precipitadamente abri-lhe os braços, e lancei-me de joelhos a seus pés.</p>
+
+<p>Mal me havia reconhecido, quando expediu um grito lacerante, apertou-me a
+cabeça entre os braços, e abafou-me contra o seio. Eu não podia fallar nem
+respirar. Fanny beijava-me os cabellos, desgrenhava-os com a face, mordia-os
+para suffocar os gritos; depois ergueu-me a cabeça e eu senti cahirem-me
+lagrimas nas faces, em quanto os seus labios frementes se agitavam sobre os
+meus vertiginosamente, e suas mãos palpitavam por sobre meus hombros, face,
+pescoço, em phrenetica inquietação. Finalmente, cahindo desfallecida e quebrada
+de dôr tirou por mim, e arrastou-me na quéda sobre o divan. Ergui-me. A partida
+do marido, e as lagrimas d'ella, eram-me coisas incomprehensiveis. Entretanto,
+fiz quanto pude por chamal-a á vida. O candeeiro, cahindo, apagara-se. Caminhei
+para Fanny ás apalpadellas, arranquei-lhe os colchetes do vestido, e tirei-lhe
+a pedaços o colete. Depois, á força de caricias, rogos e orações, aquecendo-lhe
+as mãos com as minhas, e bafejando-a com o meu halito ardente, consegui
+reanimal-a. Soltou um longo<span class="pn">{96}</span> suspiro, e ergueu-se
+amparada nos meus braços, e parecia reflectir. Torrentes de lagrimas lhe
+rebentaram dos olhos, e lançou-se a mim com tanto amor, e com ar de tanta
+piedade, que eu, a soluçar tambem, a comprimi ao peito.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Roger! meu Roger&mdash;exclamou Fanny com a voz entrecortada&mdash;se soubesses
+que desgraçada eu sou! Consola-me. Ama-me. Soccorre-me. Oh! que bem me faz o
+chorar sobre o teu coração... Meu querido Roger!</p>
+
+<p>Os soluços embargaram-lhe as palavras. Instei com ella que se explicasse. Eu
+não sabia ainda que dôr podia ser esta, que rompia em gritos de indignação.</p>
+
+<p>&mdash;Teu marido sabe tudo, sim? disse-lhe eu. Fanny fez um meneio de cabeça
+negativo, e respondeu:</p>
+
+<p>«Não, não é isso; mas ha um anno que te minto. Eu sou a mais desgraçada, a
+mais humilhada, a mais insultada das mulheres. A escoria, o opprobrio, as
+infimas mulheres não são mais desgraçadas que eu!</p>
+
+<p>A este grito, que lhe fugia do peito não tinha eu que oppor. Fiquei estupido
+e estupefacto. Não achava palavra que lhe dissesse. O que eu fazia era abraçar
+convulsamente a lagrimosa mulher. Subito, um raio de luminosa previdencia me
+esclareceu o espirito.&mdash;Se não aproveito esta occasião para confessal-a, nunca
+saberei nada&mdash;dizia eu commigo. Tranquilla deste lance, nunca mais fallará.</p>
+
+<p>Era judiciosa esta idéa. Fiz bem escutar-lhe a<span class="pn">{97}</span>
+inspiração. Empenhei, pois, toda a minha eloquencia para tirar desta pobre
+mulher o segredo, que por tão largo tempo, me havia occultado. Instei,
+animei-a, interroguei-a, mostrando-me consternado por sua dôr. Entrei, pois, no
+segredo d'uma deploravel historia, não d'uma vez, mas arrancando-lh'a a
+promenores, a pedaços, por que a sua exaltação, deixando-se ir até dizer tudo,
+era intervallada de reticencias nos mais delicados pontos da narrativa.</p>
+
+<p>Fez-se luz então para mim tudo o que houvera escuro e incomprehensivel na
+sua vida e proceder.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>L</h2>
+
+<p>O marido de Fanny não era o homem fastidiosamente bom que eu cuidava. Era um
+terrivel déspota. Mulher, amigos, creados, todos se acurvavam aos seus
+caprichos e obedeciam passivamente ás exigencias do caracter d'elle. Por zêlos,
+não é que elle opprimia a mulher, senão que por indomavel espirito de vontade.
+Em sua casa havia uma unica pessoa que dava regra e á qual deviam amoldar-se
+habilmente as de mais. Não se tinha em conta de mero homem; dava-se ares d'uma
+especie de sol que allumiava; aquecia, e communicava vida a tudo que o rodeava.
+</p>
+
+<p>Pelo que, logo que viu sua mulher, aconselhada<span class="pn">{98}</span>
+por mim, desviar-se insensivelmente da norma de vida que elle traçara, ficou
+primeiro, como pasmado; mas, com um carregar de sobr'olho, fez que Fanny
+entrasse immediatamente na ordem. Todavia, não lhe deu canceira averiguar o por
+quê d'aquella timorata tentativa de emancipação. A seu vêr, toda a mulher era
+ente chimerico, dirigido por machinismo incomprehensivel, que não merece
+analyse séria. Nem elle tinha arrebatado Fanny, nem a tinha esposado por amor.
+Não. Seduzira-a por que era formosa, e elle queria que uma mulher formosa
+fizesse as honras de sua casa. Raptou-a porque lh'a negaram. Esposara-a porque
+era rica, e elle pobre, e, de mais, queria, a um tempo, enriquecer-se e
+propagar-se.</p>
+
+<p>E, como a visse submissa, todo elle era disvelos. Era-lhe ponto de honra
+gastar cada anno, com sua mulher dobrado do rendimento do dote, e a miudo a
+presenteava com ricas dadivas para ostentar sua liberalidade. Sentia por ella,
+em summa, alguma coisa d'aquella rudeza attenciosa que tem os cavalleiros
+arabes pelos seus cavallos de fina raça. Usam elles mesmos arraçoal-os com uma
+das mãos, tendo na outra o chicote prompto a castigar o menor desmancho.</p>
+
+<p>Por largo tempo, Fanny, subjugada por aquella vontade superior, docilmente
+se sugeitou. Pensou, executou, viveu por elle. Á força de paciencia, obteve,
+por fim, de seu senhor uma apparencia de liberdade. Alguns mancebos&mdash;segundo me
+pareceu&mdash;approveitaram isso para cortejarem franca e assiduamente a bella
+mulher cujo ar de tranquillidade<span class="pn">{99}</span> inculcava um longo
+habito de rebellião interior, e de dôres inexpansivas. D'isso, porém, o marido
+nem se quer suspeitou. Sómente o accaso lhe trouxera ás mãos uma carta de
+comprometter. A scena immediata a este descobrimento foi terrivel. Não se
+deram, com tudo, gritos, insultos, nem brutalidades degradantes; nem duelo, nem
+explicações, nem separação forçada dos dois imprudentes, que teriam castigado
+irremissivelmente o orgulho do esposo, mesmo quando o vingavam. O intelligente
+marido o que fez foi declarar a sua espoza que guardava a carta. E, desde
+então, cada vez que a via inclinada a emancipar-se, servia-se da tal carta para
+a fazer tremer e submetter-se. Um quarto de papel tornou-se nas mãos deste
+homem um punhal com que elle espicaçava a mulher para fazel-a andar deante
+d'elle.</p>
+
+<p>Era, pois, um vilissimo homem? Não: era simplesmente orgulhosissimo. Ainda
+que aquella carta preciosa fosse mil vezes mais explicita, o marido não lhe
+daria credito. Em quanto a elle, aquillo, quando muito, era a prova d'uma
+creancice perigosa que, astutamente explorada, poderia degenerar em apparencias
+de crime. Mas no crime é que elle nunca acreditou. E acreditar, como? Era
+impossivel, pela simples razão de que sua mulher não podia mostrar-se criminosa
+para com elle. E não podia por que era sua mulher. E não podia, por que elle...
+era <small>ELLE</small>. Por tanto, censurando um pouco essa creancice
+humilhante, não se mostrava inquieto nem menos feliz. E continuou a amar a
+mulher, a seu modo, com aquelle seu coração de ferro. Depois<span
+class="pn">{100}</span> de quinze annos de casado, vinham ainda ás vezes uns
+dias em que elle era todo amores com ella.</p>
+
+<p>A arma, porém, continuava a ser arma em suas mãos, e sempre com serventia.
+Primeiro, graças á carta, obteve de Fanny que não fallasse mais com sua mãe,
+que elle detestava, por que o não quizera de bôa vontade acceitar por genro.
+Depois, exigiu que fizesse crear os filhos em peitos alheios, sob pretexto que
+os cuidados maternaes lhe desbotariam o gosto dos prazeres da sociedade.
+Depois, sem consultal-a, e sem visivel utilidade, vendeu o castello onde ella
+nascera, onde passara a infancia, e o parque onde estavam sepultados seu pai e
+seus dois irmãos. Finalmente, graças á prestimosa carta, não havia repressões
+que não lhe ordenasse, vexações que não lhe impozesse mas sem maldade, mas
+prodigalisando-lhe sempre obsequios e cortezias, principalmente em publico. E a
+vida de Fanny tornou-se um inferno no qual um implacavel demonio a torturava
+com uma mão, e acariciava com outra.</p>
+
+<p>Quando, porém, Fanny resistia a exigencias graves, ou a ultrages brutaes á
+delicadeza d'ella, é que o marido rompia em transportes inauditos. Nesse caso,
+perdia a consciencia de si proprio, mas por uma hora sómente. Deixava de ser o
+homem urbanamente desdenhoso que trazia na cara os mais exquisitos matizes da
+superioridade de caracter, e cujo ar affavel e franco, parecia dizer a todo o
+mundo: «Vede que não ha que temer de mim.» Transfigurava-se em leão que a
+natureza amassara com as suas mãos callosas, e que a educação desbastara
+apenas. Hirtavam-se-lhe como crina os cabellos.<span class="pn">{101}</span>
+Flammejavam-lhe os olhos como reflexos d'oiro fundido. As ventas dilatadas
+assopravam um halito ardente. A boca contrahida abria-se, e mostrava dentes
+admiraveis, como se ameaçassem dentadas. Crispavam-se-lhe os punhos cerrados.
+Era medonho. Havia um insulto que não deixava nunca de esbofetear a victima. A
+carta dava sempre o pretexto. E era sempre o mesmo insulto, a mesma palavra
+infame que a marcava na fronte como ferro em braza, e que a rebaixava&mdash;como
+ella dizia&mdash;á ultima escaleira de todas as mulheres.</p>
+
+<p>Mas a sorte, que não tem compromissos com as paixões e os caracteres,
+obstinava-se por vezes a brigar com este athleta. Feriam-no successos
+imprevistos: obstaculos estranhos sahiam a empecer-lhe os passos. Então era
+sublime! Não blasphemava, não injuriava a sorte, por que sabia que era inutil;
+mas arcava com os successos e obstaculos, e luctava silenciosamente, friamente,
+pacientemente. Por custume, dominava a sorte. Quando lhe correram risco os bens
+da fortuna, á força de audacia, conseguio resarcir a melhor parte, abandonando
+a outra, como um favor irrisorio aos credores, seus emulos. Outro qualquer, no
+logar d'elle, esmoreceria, que vontade como a sua não havia quem a tivesse. Mas
+um exito mediocre não bastava a este homem, insaciavel de exitos estrondosos.
+Decidira safar o seu navio de entre os escolhos onde fôra a pique. Queria
+salvar tudo, carregação, apparelhos, e até o lastro. Jurára de não ceder ao
+oceano, um prego só. Eil-o ahi, que, descançando, na meditação de oito dias,
+dos seus primeiros trabalhos, reapparece no<span class="pn">{102}</span> sitio
+do naufragio mais azafamado, mais resolvido, que na primeira vez. Esta partida
+subita cauzara a ignobil disputa de que eu fôra involuntaria testemunha.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LI</h2>
+
+<p>Parece que, ao jantar, em poucas palavras annunciara elle os seus projectos
+a Fanny. Mostrara-se tranquillo, meditativo, quasi affectuoso. Gracejou com
+Fanny sobre o seu ar melancolico, motivado pela vida absurda do campo. Brincou
+com os filhos. Foi polido, como sempre, com os creados que o serviam. Ao
+pospasto, levantou-se, pedio um charuto, accendeu-o, e dirigiu-se ao pavilhão,
+com Fanny sobraçada, dizendo-lhe frioleiras com geito amavel. Como os filhos os
+seguissem, brincando na relva, foi ter com elles, abraçou-os, despediu-os, e
+pediu-lhes affectuosamente que fossem brincar mais longe. Depois, assentou-se
+no divan do pavilhão, cuja porta estava aberta, fumando o charuto, e bebendo, o
+seu café aos golinhos. Ao cerrar da noite, veio o escudeiro com a luz.
+Pediu-lhe que mandasse pôr os cavallos á carruagem. Até ahi dissera sómente
+frivolidades com ar festivo; mas, retirado o escudeiro, ergueu-se a fechar a
+porta, tirou tranquillamente do bolso um papel sellado, e disse a sua
+mulher:<span class="pn">{103}</span></p>
+
+<p>«Minha querida, escreve a tua assignatura ao lado da minha no fundo d'esta
+folha de papel.</p>
+
+<p>Fanny pegou da penna que elle lhe offerecia, mas, antes de escrever,
+disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Que são estes engrimanços que eu assigno?</p>
+
+<p>«Não é mais que um instrumento de doação reciproca de todos os nossos bens.
+</p>
+
+<p>Fanny depoz a penna sobre a meza, e perguntou-lhe mansamente algumas
+explicações sobre o uso que elle ia fazer d'aquillo. O homem avincou a testa, e
+annunciou-lhe que, por algum tempo, ia «reassumir o negocio, e carecia de muito
+dinheiro.»</p>
+
+<p>&mdash;Não somos nós já bastante ricos?&mdash;disse Fanny.</p>
+
+<p>«Não.</p>
+
+<p>&mdash;Então vai ser exposto o meu dote?</p>
+
+<p>A esta pergunta, encarou-a carrancudo, e respondeu provocante e
+glacialmente:</p>
+
+<p>«Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Então não assigno&mdash;disse ella como atterrada da sua coragem&mdash;porque não
+quero expor os bens de nossos filhos.</p>
+
+<p>Foi então que estalou a borrasca. Foi curta, mas pavorosa. Vendo-se
+contrariado por uma impossibilidade, o déspota rugiu de furor. Pela primeira
+vez em a sua vida, travou do braço da esposa, apertando-lho para obrigal-a a
+assignar, e pizou-lh'o. Fanny supportou, não respondeu, nem chorou.
+Cumularam-se sobre ella desprezos, incriminações, injurias, todos os insultos e
+vilanias compendiadas pela recordação das passadas. Veio tambem a affronta
+suprema, a palavra fatal, estalar na lingua do insultador.<span
+class="pn">{104}</span> Ahi é que Fanny chorou, soluçou e decidiu-se a
+assignar. Serenou logo o marido: agradeceu, e quiz beijar-lhe a mão; ella,
+porém, mostrando-lhe o braço contuzo, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Não é por isto, Deus me é testemunha, que eu o desprezo; é pela covardia
+do insulto. Dito isto, elle pediu perdão por de mais, chamou-lhe creança e má
+cabeça, abraçou-a por força, chamou o cocheiro e partiu.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LII</h2>
+
+<p>Logo que Fanny, cedendo ás minhas instancias, me contou aquelles
+extraordinarios successos,&mdash;não ordenados como os eu repito, mas em fragmentos
+incoherentes, misturados de raptos de rancor;&mdash;logo que eu nada tive que
+indagar, e que ella immudeceu por não ter nada que contasse, ficamos algum
+tempo a contemplar-nos silenciosos, á luz tibia das estrellas, com spasmo
+temeroso. Alguma coisa formidavel se estava erguendo entre nós modificando
+estranhamente a nossa situação.</p>
+
+<p>Eu não pude, ainda assim, entrar logo na averiguação dos factos que,
+forçosamente, deviam derivar d'aquella surprehendente confissão. Eu, vendo
+Fanny ainda pallida, descompostos os cabellos, e tremula, só pensava na sua
+humilhação.&mdash;É pois<span class="pn">{105}</span> desgraçada!&mdash;disse eu no
+intimo da minha alma. Tirei-a a mim suavemente pelo colo, busquei-lhe os
+labios, e abriguei-a nos meus braços com o ardor da esperança e da piedade.</p>
+
+<p>Oh! como foi longo, estreito e desesperado aquelle abraço! Com elle se
+esposaram nossas almas, e ali sentimos o que ha de piedade na mudez d'aquelle
+apertar, de consolações nos suspiros, e que sympathia reflorece da mixtão das
+lagrimas! Éramos sósinhos, silenciosos, n'uma vaga escuridão, adornada pelo
+tibio alumiar de noite de estio. O desalinho dos vestidos de Fanny, o cansaço
+de chorar que a retinha deitada nos meus braços, o pejo d'uma confissão, que,
+posto que lhe desse alivio á alma, lhe opprimia o orgulho pela primeira vez; a
+felicidade de nos revermos mais amantes, mais alliançados que nunca, após uma
+scena terrivel que devia desligar-nos: isso tudo insinuava-nos não sei que
+desaffôgo de expansão reciproca, mesclada de amargura e dulcificação. Emquanto
+meus labios lhe rossavam de leve os longos cabellos desannelados,
+surprehendia-lhe no coração a velocidade de movimentos que se me figuravam
+surdas expressões de cólera. O arrepender-se de ter defendido por tanto tempo e
+nobremente, contra os meus ataques, aquelle que lhe era um jugo na vida,
+arrancava-lhe gritos de uma ironia implacavel. A irritação do insulto, e a
+indignação do aviltamento immerecido, apertava-lhe os braços em volta do meu
+pescoço mais energicamente do que nunca o fizera o amor. Ao mesmo tempo, o
+pesar de ter flagellado o amante, cuja só presença lhe estava sendo a mais
+terna das<span class="pn">{106}</span> consolações, como a mais rapida e segura
+das vinganças, inspirava-lhe a submissão e a supplica. A lembrança do meu
+rival, presente a nós, ajuntava uma acrimonia angustiosa aos beijos d'ella, e
+uma dôr infinita ás minhas caricias; e n'aquelle instante ao menos, em que, sem
+fallar, trocamos tantas sensações e idéas bem comprehensiveis, Fanny, estava
+emfim, na minha idealidade, absolutamente, e para sempre, tão ligada a mim
+quanto apartada d'elle.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LIII</h2>
+
+<p>Quando recobramos a palavra, o furor, reconcentrado em mim, fez subita
+explosão.</p>
+
+<p>Fanny ficou estupefacta. Pronunciei, como um demente, palavras ardentes, sem
+nexo. Uma especie de loucura acerava, como laminas de um punhal, cada uma das
+minhas phrazes, e a raiva hervava-as de peçonha a mais corrosiva.</p>
+
+<p>O sentimento da impotencia da vingança, a certeza de que os males d'aquella
+mulher deviam renovar-se infinitamente, e os meus ciumes passados, e mais que
+tudo, a memoria das nossas deploraveis questões, causadas por aquelle indigno
+homem, faziam-me offegar de colera como homem que acaba de levar uma bofetada,
+e não pode despedaçar entre as mãos aquelle que lhe gravou o ferrete<span
+class="pn">{107}</span> deshonroso... Na minha demencia, parecia-me que o amor
+de Fanny, perdia tanto do seu valor, quanto mais desgraçada ella era; e,
+envergonhado d'esta atroz idéa, meditava em matar, e dar por ella a minha vida.
+Fanny, porém, ainda abatida, mais queria ser consolada que vingada.</p>
+
+<p>Abraçou-me, e, coisa estranha! foi ella que me affagou para me pacificar.
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LIV</h2>
+
+<p>Passei o dia seguinte a recordar tudo o que tinha sabido. Havia muito que eu
+não sentira, como então, o espirito desoprimido de duvida.</p>
+
+<p>Um feliz provir se descortinava ante os meus olhos, depois de tão tormentoso
+passado, como serenos valles e descampados aos olhos do viajante que desce a
+ladeira escarpada de perigosas serranias. A esperança d'uma existencia quieta
+refrigera a alma como a briza da tarde que succede aos ardores do dia, e agora
+tudo me convidava a repousar-me á borda da senda facil, que docemente se
+aplanava debaixo de meus pés contusos. A serenidade dos dias, a auzencia das
+inquietações, eram a minha prespectiva. Pensava n'isto sempre, e minha alma
+enlevada derramava-se em effluvios de reconhecimento ao acaso que se cansara,
+emfim, de me transviar.<span class="pn">{108}</span></p>
+
+<p>Entrava n'este sonho necessariamente a imagem de Fanny. Era a companheira
+que me seguira através dos abysmos da paixão. Soffrera irmamente commigo a
+longura das caminhadas, a incerteza do fim, os espinhos occultos sobre os
+quaes, juntos, laceravamos os pés. A mesma dôr nos arraiara de sangue os olhos,
+e abrazára os nossos halitos. A ancia do repouso sentiramol-a ambos ao mesmo
+tempo. E, como se fosse preciso que o mais debil dos dois soffresse mais, Fanny
+dava-me alentos para a resignação, e com as mãos trementes enxugava-me da
+fronte o suor do desespero, e ao mesmo tempo escondia-me dôres e trances
+particulares que ella suportava heroicamente para me não angustiar.</p>
+
+<p>Mas agora esses desgostos que eu surprehendera, estavam sanados. Renascer
+não poderiam mais. Ambos livres do phantasma que tão cruelmente nos perseguira,
+podiamos, em fim, senhores de nossas acções, compensarmo-nos amplamente do
+supplicio e dos terrores. Á maneira de dois fugitivos, que não deixaram
+pégadas, e vão ás bordas das fontes, e á sombra dos bosques silenciosos,
+sacudir o pó das sandalias, nós nos íamos, emfim, vingar da sorte estupida,
+esquecendo os tormentos que nos infligiramos.</p>
+
+<p>D'est'arte sonhava eu, a sós commigo, contemplando a imagem querida de Fanny
+que me sorria entre as mãos, cingida em moldura de ouro, como d'uma aureola.
+Assim me comprazia dispondo ante nós as paragens do nosso futuro.</p>
+
+<p>Nunca eu afagara mais cruel illusão!<span class="pn">{109}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LV</h2>
+
+<p>O dia em que tornei a vêr Fanny, era um dia explendido!</p>
+
+<p>Veio a minha casa, de manhã, deliciosamente vestida, como para celebrar
+dignamente as nupcias da nossa felicidade. O seu vestido côr de malva, que tão
+gentilmente condizia com a frescura da sua pelle, resplendia sobre as fórmas
+esbeltas e finas, e caia-lhe em reverberos, sobre os pés. Os braços meio nús,
+sobresahiam das rendas das mangas, com reflexos baços como os de marfim não
+lustrado ainda. Do corpete chanfrado sobre o seio elevava-se, um pouco
+inclinado, o colo alvissimo. Por de sobre as faces ondulavam-lhe os cabellos.
+</p>
+
+<p>Nenhum ruido nos perturbava, a não ser a campainha do relogio que não
+ouviamos, e, de longe em longe, o rodar precipitado e passageiro das
+carruagens, estremecendo a calçada. Conversamos, mais uma vez, sós por sós.
+Fanny comeu pouco, sorrindo, como a pedir perdão. Eu ergui-me para servil-a, e
+abraçava-a na passagem. Ella ministrava-me o vinho, com graça, vertendo-o
+d'alto, e eu todo me enlevava na formosura d'aquelle braço que se inquadrava no
+vacuo sombrio da sua larga manga. Nunca o nosso quarto nos parecera tão bonito!
+Queriamos d'alli não sahir mais!<span class="pn">{110}</span></p>
+
+<p>Ergueu-se Fanny, e foi sentar-se no diwan. Colloquei-me a seus pés sobre uma
+almofada, com o cotovello sobre o joelho d'ella, e longo tempo estivemos assim
+mudos a contemplar-nos. Com uma de suas mãos, intromettidas nos seus cabellos,
+levantava-os aos tufos, e devidia-os. E eu beijava-lhe a outra mão, travada na
+minha.</p>
+
+<p>&mdash;Oh Fanny! se tu não fosses casada!...&mdash;dizia-lhe eu com paixão. E ella
+respondia:</p>
+
+<p>&mdash;Oh Roger! se tu não fosses cioso!...</p>
+
+<p>Não sei como se passou o dia; mas mui rapido passou! Em mutuos olhares de
+extasis, em abraços doidos de ternura, em ir e vir d'uma para outra camara, que
+horas tão instantaneas correram! Quiz saber a historia da minha vida.
+Contei-lh'a: era simplissima. Chorou ouvindo a narrativa da morte de minha mãe.
+</p>
+
+<p>Muito havia que não estiveramos tão intimos, serenos, e felizes. O rancor
+atroz do ciume não nos separava. Expandimo-nos sem reverva: por isso mesmo foi
+completo o socêgo de nossas almas. Havia ali felicidade que bastaria á boa
+fortuna de dez amantes.</p>
+
+<p>Cotejando em meu espirito aquelle dia singular com todos os precedentes,
+lembrou-me de repente a causa que, por mais d'um anno, nos fizera tão
+desgraçados. Rompeu de minha boca uma exclamação furiosa, e, por piedade das
+angustias de Fanny, tanto tempo escondidas, não pude conter-me que não
+exprobrasse o oppressor.</p>
+
+<p>Fiquei como empedrado quando vi Fanny franzir então a testa, e morder os
+labios. Relanceou-lhe<span class="pn">{111}</span> rapida na face uma sensação,
+como o relampago silencioso que fende uma nuvem. Depois sorriu, e acalmou como
+o céo d'uma tarde estiva. Eu, porém, curei de indagar a causa d'aquella
+sensação dolorosa, e tornei-me pensativo e triste, por não sei que confusa
+remeniscencia.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LVI</h2>
+
+<p>Fanny retirou-se sem parecer notar em mim turvação alguma. Depois que sahiu,
+mil recordações uma apoz outras, como vagas d'um mar silencioso cumulavam-me o
+espirito. O porte de Fanny pareceu-me agora mais que nunca incomprehensivel.
+</p>
+
+<p>&mdash;Esta mulher é a mais extraordinaria ou a mais vil das mulheres!&mdash;Disse, e
+repassei na memoria quanto sabia d'ella. Mas, outra vez ainda, tudo me pareceu
+contradictorio em sua indole.&mdash;Por que defendia o meu rival quando eu ignorava
+as suas violencias? Por que o accusou depois? Por que impallidece agora se me
+ouve reprovar as acções do homem que a ultraja? Oh! é possivel supporte
+tamanhos despresos, vexações tão aviltantes, e conserve a minima affeição a um
+homem que a tortura e humilha!! Indecifravel enigma. Ama-me ella? Ama o marido?
+Que ha ahi de commum entre essa mistura de seres, de sentimentos, de calculos,
+de<span class="pn">{112}</span> transações, e o amor, esta paixão absoluta,
+intolerante, e exclusiva? Deste modo ajuntava, separava, e confundia todos os
+factos da nossa existencia commum sem poder desinredar o inextricavel fio da
+meada. Cada facto, por seu turno, vibrava-me no ouvido, como um som agudo; e, á
+maneira d'um clamor synistro, estrondeando por sobre tudo, rugia incessante
+aquella palavra da consciencia de Fanny, proferida, um dia, para meu supplicio:
+</p>
+
+<p>&mdash;Eu mentiria se dissesse que o não estimo.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LVII</h2>
+
+<p>Desde então, illaqueado mais estreitamente que nunca na rede das incertezas,
+um só desejo me dominava&mdash;tirar de Fanny a explicação do seu caracter, não
+interrogando-a, mas compelindo-a a extremos indicativos.</p>
+
+<p>Aggredi acintemente o marido deante de Fanny: difficil fôra o defendel-o,
+por que o ataque era dirigido ás violencias que lhe eram a ella feitas.
+Limitou-se, primeiro, ao silencio, erguendo ao céo os olhos, por que eu a
+estava pranteando; depois, mostrou-se descontente da asperesa das minhas
+palavras. Repentinamente lhe assomou á face o sangue, os labios cerraram-se, as
+palpebras descahiram, isto a tempo que eu lhe estava exaltando a<span
+class="pn">{113}</span> resignação para melhor accusar os caprichos do marido.
+Obedeceu, por fim, á sua eterna preoccupação, e disse-me:</p>
+
+<p>&mdash;Não fallemos mais de tal: tudo isso é triste; mas eu sou obrigada a
+submetter-me. Ao cabo de tudo, sempre é meu marido!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LVIII</h2>
+
+<p>Estas palavras nem me espantaram nem indignaram. Esperava-as. Sorri com
+amargura, ouvindo-as dos labios da mulher estremecida. Eu passeava d'um para o
+outro lado no meu quarto, e ella seguia-me com a vista.</p>
+
+<p>&mdash;É a derradeira illusão que morre!&mdash;exclamei eu.</p>
+
+<p>Fanny pediu-me a significação d'estas palavras, e eu recusei dar-lh'a, e
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Já são que farte as questões que temos ha um anno; por minha vez, te rogo
+que não te importe saber o que se passa em mim. Amemo-n'os taes quaes somos.
+Por mais que desesperemos e resistamos nunca se mudará a nossa indole.<span
+class="pn">{114}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LIX</h2>
+
+<p>Durante a ausencia do marido, que foi de mais de seis mezes, houveram
+grandes alterações na nossa vida. Eu via Fanny quasi todos os dias. Ambos
+abusavamos da liberdade d'ella! Vinha passar commigo todo o tempo disponivel.
+Frequentes vezes jantavamos juntos. Encontravamo-nos nos passeios e no theatro,
+e nas lojas. Aqui, sem nos mostrarmos conhecidos, trocavamos olhares furtivos,
+e, perpassando ao longo dos balcões, sentiamos as delicias instantaneas do
+contacto. Escreviamos, além d'isso tudo, cartas infinitas, e trocavamos flôres.
+</p>
+
+<p>Fanny esmerava-se em attenções, para compensar-me do mal que me fazia.
+Liberalisava-me aquelles delicados disvellos que as mulheres aguardam dos
+homens, e dos quaes disvellos são tão economicas, quando se dignam
+conceder-lh'os. Beijava-me a mão, chamava-me seu querido filho, mostrava-se
+submissa, e esmerava-se por que não houvesse coisa que turvasse a serenidade da
+minha vida. Nunca, porém, tratando-me como dominador, se rebaixava. Ajoelhada
+deante de mim, tinha a inteira dignidade d'uma rainha.</p>
+
+<p>Ás vezes, quando as bellas noites do outono eram mais balsamicas e suaves
+que as do estio, fugiamos<span class="pn">{115}</span> da cidade, como aves
+cansadas do calôr do dia. Hombro com hombro, recostados ao respaldo d'uma
+carruagem fechada, com as mãos inlaçadas silenciosos, iamos ao bosque buscar um
+pouco de ar, de silencio, e de solidão. Rentes comnosco passavam fogosas
+parelhas tirando por grandes calexes descobertos, cheios de mulheres risonhas
+cujos véos fluctuavam ao vento. Ouviamos o fremito das rodas na areia, o
+resfolgar dos cavallos, e o estalido dos chicotes. Viamos agitarem-se entre as
+arvores as luzes das lanternas, e mirarem-se na agua morta dos lagos as sombras
+espessas dos bosquesinhos de pinheiros. A lua, ás vezes tão melancolicamente
+ingastada no céo como nodoa de prata, alumiava grandes moutas de espinheiros,
+donde subiam, razando as hervas, nuvens alvas de vapor. Ebrios do aroma das
+carvalheiras, e da mollidão dos nevoeiros luminosos, apeavamos no angulo
+d'algum caminho estreito, e nos intranhavamos por debaixo da arcaria de
+immoveis arvores, passeando vagarosamente, mais perdidos em nosso scismar do
+que o estava a verde folhagem á sombra da noite linda. Era delicioso aquelle
+momento em que Fanny, infadada, se me pendia do braço, e justapunha a sua
+espadua á minha! Não fallavamos, sentia-se ali o viver, ouviamos as nossas
+respirações; e, assim unidos, achavamos doçura estranha n'aquelle nosso
+silencio e na incerteza de nossos passos.</p>
+
+<p>Algumas vezes, com tudo, suscitavam-se ligeiras discussões, remeniscencias
+attenuadas de antigas discordias. Fanny, porém, tomando-me, a rir, pelo que eu
+era, uma creança, ou fazia que me não intendia,<span class="pn">{116}</span>
+ou, sacudindo-me o braço em ar de gracejo, dizia:</p>
+
+<p>&mdash;Ora vamos, não se falla aqui do que já lá vae.</p>
+
+<p>Todos os lados accessiveis da minha vida ia-os ella penetrando cada vez
+mais. Como queria tudo saber, imperiosamente se senhoreava de tudo, passado,
+presente, e dispunha de tudo, a bel-prazer do futuro. Eu pensava em tudo como
+ella. Se me dava conselhos eu seguia-os como ordens. Em minha casa era ella que
+dirigia tudo. Os moveis como que se moviam espontaneamente para se collocarem
+nos logares designados por ella; os quadros entravam n'outras molduras; os
+espelhos inclinavam-se á vontade d'ella para lhe espelharem por toda a parte a
+imagem. Era-me prazer grande o vêl-a assim dispôr do que era meu. A minha casa,
+tornada sua, parecia afeminada. Já lá se não viam por sobre as mezas esporas,
+chicotes, caixas de charutos; nem junto das paredes tropheus de armas
+quarteadas; mas, em logar d'isto, estavam bocetas de flôres, alvissimas caças
+rojando sobre os tapetes, mobilia colorida a lacca e incrustações de Boule, e
+caixas de perfumarias. Levantavam-se do tapete agulhas e fios de seda e lã: no
+rebordo da chaminé brilhavam o dedal e as thesouras.</p>
+
+<p>Foram, no drama da nossa vida, esses seis mezes uma especie de entre-acto.
+Nada nos faltava para a felicidade, excepto a confiança. Fanny estava sempre
+sobre-rolda receando ataque improviso, e eu conservava no coração um certo
+azedume. Não havia consolar-me de não ter podido vencer os escrupulos da mulher
+que eu tanto amava.<span class="pn">{117}</span></p>
+
+<p>Cheguei á fraqueza piegas de pedir-lhe conselhos para a direcção dos meus
+bens. Fanny não entendia nada de negocios, mas dava aproveitaveis pareceres,
+porque eram sempre dictados por um espirito de desconfiança feminil. Pois não a
+consultava eu até em compras de cavallos? No tocante ao vestir era ella quem
+decidia soberanamente dos feitios e das côres. Arranjava a minha roupa branca,
+a rir, erguida em pontas dos pés para chegar aos lotes dos armarios, e
+intromettia-lhe bolsinhas odoriferas que trazia comsigo, e nunca pude encontrar
+n'outra parte. Todos os instantes dos meus dias estavam, em fim, contados. Não
+dava um passo sem sua approvação; não comprava luvas ou gravatas que ella não
+elegesse. O numero dos meus amigos fixou-o ella. Desprezei tres, porque tinham
+nomes que não agradavam a Fanny. Tudo isto me parecia delicioso. Viver sem ella
+é que eu não podia por mais que fizesse. Estava enfeitiçado.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LX</h2>
+
+<p>Mas o meu ciume, esse não estava morto, nem se quer entorpecido: apenas
+tinha variado um pouco de objecto. Desde que o marido estava auzente, já não
+podia soffrer por causa de uma partilha que não existia; mas os menores
+sentimentos que Fanny<span class="pn">{118}</span> me deixava adivinhar,
+inquietavam-me. Afóra os filhos, e a mãe que ella via ás escondidas, eu não lhe
+consentia amar ninguem. Fanny sorria, encolhendo os hombros. D'este modo nos
+tyrannisavamos mutuamente.</p>
+
+<p>Um dia, quando eu lhe tirava o «corpete», uma carta grande e quadrada&mdash;lhe
+fôra entregue quando saía de sua casa&mdash;escorregou-lhe do peito e caiu aos meus
+pés. Levantei-a. Tinha o sêllo de Londres. Encarei Fanny, que, pallida,
+estendia a mão tremula a tomal-a.</p>
+
+<p>«Teu marido escreve-te?» disse-lhe eu, entregando-lh'a.</p>
+
+<p>&mdash;Que pergunta!&mdash;disse ella.</p>
+
+<p>&mdash;Escreve-te regularmente?&mdash;ajuntei eu, depois d'um momento de silencio,
+durante o qual eu sentia as garras do meu antigo furor atassalhar-me o
+espirito.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então!... disse ella&mdash;todas as semanas.</p>
+
+<p>«Porque te escreve elle?... Separados por tão violenta discussão, parecia
+que os corações deviam separar-se para sempre.</p>
+
+<p>Fanny olhou-me com espanto e ficou pensativa. Mas, como eu esperasse
+resposta, replicou:</p>
+
+<p>&mdash;Espantam-te sempre as mais singelas coisas. Não é natural que meu marido
+me diga dos seus negocios, e me falle dos seus filhos?</p>
+
+<p>«É justo... Eu não tinha pensado n'isso&mdash;murmurei.</p>
+
+<p>Fallou-se de muitas coisas; mas, a sós commigo, reflexionei immenso.</p>
+
+<p>«Respondes ás cartas de teu marido?<span class="pn">{119}</span></p>
+
+<p>Fanny fez-se livida, hesitou, e deu signaes de impaciencia. Depois simulou
+um ar de indifferença, respondendo:</p>
+
+<p>&mdash;Escrevo-lhe raras vezes;</p>
+
+<p>&mdash;Sim? e, diz-me cá, que lhe escreves?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei. Escrevo-lhe friamente. Falla-se de negocios. Isto não te
+interessa nada.</p>
+
+<p>Fiquei um tanto inleado; mas não pude reprimir-me.</p>
+
+<p>&mdash;Como é que nunca tiveste a idéa de mostrar-me as cartas de teu marido?</p>
+
+<p>Roger! Roger!&mdash;exclamou sorrindo contrafeita&mdash;eu creio que estás louco! Uma
+mulher póde por ventura confiar a alguem, principalmente áquelle que ama, o
+segredo dos negocios de seu marido?</p>
+
+<p>&mdash;Tambem é verdade&mdash;murmurei eu.</p>
+
+<p>Fanny quiz logo aproveitar a vantagem que obtivera.</p>
+
+<p>&mdash;Feliz seria eu, disse ella, podendo mostrar-te essas cartas que te dão
+tanto que pensar. Provar-te-iam que é uma sem-razão recear alguma coisa. Sabe,
+pois, espirito desconfiado, que não se póde viver em menos união do que eu vivo
+com meu marido.</p>
+
+<p>&mdash;De certo!</p>
+
+<p>&mdash;Como podes suspeitar o contrario depois que te confiei as minhas
+amarguras?</p>
+
+<p>&mdash;D'antes, tambem me confiavas o segredo dos negocios domesticos: não
+esqueças isto, Fanny.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! hoje é muito differente.</p>
+
+<p>&mdash;Porque?</p>
+
+<p>&mdash;Porque... cá me entendo.<span class="pn">{120}</span></p>
+
+<p>Isto fez-me reflectir novamente. Fanny levou as mãos ao céo com piedosa
+expressão; eu estava como involto nas sombras da morte. E assim nos
+contemplavamos. Era-me impossivel a quietação. Agitava-me d'um para outro lado.
+</p>
+
+<p>&mdash;Se dizes a verdade, Fanny, por que me não mostras as cartas que lhe
+mandas?</p>
+
+<p>&mdash;Não é possivel. Quem lêsse uma, comprehenderia as outras.</p>
+
+<p>&mdash;Não obstante, eu bem quizera conhecer o tom das tuas cartas. Porque lhe
+não escreves agora, mesmo aqui? Falla-lhe de tudo menos do que não quizeres que
+eu comprehenda. Eu mesmo levo a carta ao correio. Supplico-te, Fanny... Se nada
+temes de ti, dá-me esta prova de confiança, para me tranquillisar que eu soffro
+muito.</p>
+
+<p>&mdash;Não é possivel&mdash;redarguiu ella, com signaes de offendida.</p>
+
+<p>A raiva que me devorava o coração estalou desassombrada:</p>
+
+<p>&mdash;Que lhe escreves tu que não queres que eu saiba? Juraste matar-me? Falla,
+se tens na alma sombra de piedade! Torturas-me barbaramente como um algoz!</p>
+
+<p>Fanny ergueu-se, pegou-me da mão e disse brandamente:</p>
+
+<p>&mdash;Roger, eu não queria magoar-te.</p>
+
+<p>&mdash;Pois que! que mais querias tu fazer-me? Vae! Tu és mulher de duas caras;
+eu nunca fui amado por ti!</p>
+
+<p>A esta phrase injusta, lançou-se-me ao pescoço, abafando-me com beijos as
+palavras. Eu continuei:<span class="pn">{121}</span></p>
+
+<p>«Como podiam magoar-me as tuas cartas, se, depois d'essa horrivel
+contestação, ficaste despeitada com teu marido?</p>
+
+<p>&mdash;Sê rasoavel: uma mulher póde ficar despeitada com seu marido?</p>
+
+<p>«Pois que?&mdash;exclamei furtando-me aos braços d'ella&mdash;tu perdoaste-lhe?</p>
+
+<p>&mdash;Rigorosamente não&mdash;disse ella, sentando-se quebrantada&mdash;mas foi-me preciso
+acceitar as suas desculpas. D'esta vez, ainda assim, está tu certo que não
+esquecerei mais os ultrages passados.</p>
+
+<p>«Perdoaste-lhe! perdoaste-lhe, Fanny!&mdash;Bradei, de pé em frente della, que
+olhava para mim assombrada&mdash;Não tens, pois, dignidade alguma? Não te sentes das
+injurias? És assim vil? Amal-o? Mentiste-me, pois, a mim? Ah! isto é que eu não
+acreditaria nunca!</p>
+
+<p>Fanny continuava a ouvir-me silenciosa.</p>
+
+<p>«Diz-me cá: por que me occultaste tanto tempo que elle te insultava?</p>
+
+<p>&mdash;Não queria deshonral-o. Se tivesses mais alguma experiencia, não te
+espantarias do que succede. Em summa, eu não quero fallar mais n'isto. Seja-te
+bastante saber que se me elle restringe a liberdade, ou diz arrebatado coisas
+indignas, tem pesar do que faz e diz, passada a colera. Affirmo-te que o julgas
+mal. É possivel que eu exaggerasse os factos no primeiro momento da
+indignação.. mas.</p>
+
+<p>«Calla-te!&mdash;bradei eu&mdash;se tens pudôr, calla-te! Ha uma coisa que parece
+passar-te desapercebida, e é que, á proporção que vaes fallando, não sei que
+idéa peçonhenta lucta, em mim, com o meu amor.<span class="pn">{122}</span> Não
+accrescentes uma só palavra. Acceito ainda isso, por que sou vil, por que sou
+um fraco, por que te amo muito, por que não posso dissuadir-me de te amar; mas
+sabe tu que maior mal não m'o podias fazer. Supplico-t'o&mdash;não digas mais nada.
+</p>
+
+<p>E lançando-me a seus pés, exclamei:</p>
+
+<p>«O despresares-te a ti propria, seria, sobre tudo, cruelissimo!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXI</h2>
+
+<p>Sempre que tivessemos algumas dessas deploraveis luctas o apartamento era
+frio, e eu ficava dias inteiros a reluctar com a memoria d'ella. Mentalmente eu
+reproduzia os ataques e os argumentos, e inutilmente sondava a causa misteriosa
+do seu proceder. Eu era muito moço e inexperiente: avaliava-a mal. Aquella
+natureza complexa, que resumia no seu caracter muitos caractéres diversos,
+queria eu que visse as coisas absolutamente como eu as via. Eu, o que então
+sabia, era que as palavras: sentimento, amor, delicadeza, ciume, e outras
+assim, representavam para Fanny umas idéas, e para mim outras. Ignorava que o
+custoso para mim não o era para ella, e que lhe bastava sempre a boa intenção
+para indulgencial-a d'um facto, qualquer que fosse. Em mim, não descontava nada
+á sua fraqueza. Depois é que apprendi a conhecêl-a.<span
+class="pn">{123}</span></p>
+
+<p>Quantos maiores esforços eu fazia para desligar Fanny de seu marido, mais eu
+estreitava os vinculos relaxados por quinze annos de existencia commum. Fanny
+lastimava-me interiormente, mas eu devia ser-lhe pesado. Bem sentia eu que a
+importunava, mas não estava em mim deixar de a repellir de cada trincheira em
+que ella esperava o combate. Não me passava pela mente que o unico recurso para
+conseguir o meu fim, era mudar de tactica. Ninguem me havia dito que eu devia
+esconder o meu ciume, como principal causa da nossa separação. Que candura! Eu
+via nas manifestações do meu ciume provas de um amor que devia abalal-a. E, com
+tudo, tão facil me seria serenar-lhe a vida a ponto de a forçar a comparações,
+com vantagens minhas, entre os dois homens de quem ella dependia. Mas mais
+simples que tudo seria não amal-a!...</p>
+
+<p>Ama ella o marido? Não acredito, nunca o acreditei. Um sentimento banal,
+resultante do costume e agradavel ás almas pacificas, porque naturalmente
+continúa as coisas, e não cansa o espirito em mudanças, esse devia tel-o. E o
+vêr o despota humanisado diante d'ella, commovia-a; e o receber caricias da
+mesma mão que a castigava rudemente, dava-lhe uma especie de satisfação. Não
+era isto fraqueza nem ingenita baixeza de animo; era uma certa indifferença de
+genio, explicavel na idade d'ella Fanny, em fim, certo, não tinha uma alma
+varonil, nem mesmo uma alma muito nobre, por que antes queria astuciar que
+combater, e antepunha o aviltar-se, repartindo-se, que transtornar o seu
+viver;<span class="pn">{124}</span> era, porém dotada de alma recta. Cuidava,
+certamente, que se resgatava, em sua consciencia, da perfidia conjugal com uma
+submissão completa. Até certo ponto, era indemnisar o marido, o tolerar-lhe os
+caprichos do genio. Em que restingas, em que abysmos, em que cahos de coisas
+sem nome, a probidade, esta rara perola, se esconde?</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXII</h2>
+
+<p>Era urgente que eu accedesse á nova concessão do aproximarem-se os esposos.
+Mas de concessão em concessão lá se ia, desfeita em lagrimas, a minha estima.
+Eu humilhava-me como o escravo que não póde resistir, com gritos de raiva
+surda, e desejos immensos de vingança. Ah! se Fanny soubesse que ella devia
+accusar-se só a si da minha abominavel vingança!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXIII</h2>
+
+<p>Inraivecido por não poder vencer a pertinacia do caracter de Fanny, trahi-a.
+Amor e ciume, quiz<span class="pn">{125}</span> tentar matal-os na devassidão.
+Conspurquei-me voluntariamente, e acintamente, ao contacto de labios impuros da
+luxuria estupida. Cada noite, de proposito, como ladrão que se embusca no
+angulo d'uma rua, entrava rindo sarcasticamente de mim mesmo, no infame
+prostibulo onde eu contava apagar a sêde de vingança. Sorria amargamente ainda,
+como traidor que pensa na confiança dos ludibriados, eu arrastava commigo, aos
+braços da mulher querida, a torpe recordação das creaturas degradadas, cujas
+caricias não tinha podido sevar-me o rancor; e deste modo eu achava um meio de
+identificar Fanny commigo, sem o ella saber, e ingolphal-a commigo nas mesmas
+execraveis immundices.</p>
+
+<p>Mas era-me maior a vergonha na sahida que a cegueira do furor na entrada.
+Estorcia-me os pulsos na rua, e arrancava os cabellos desesperado. Mais
+ciumento, mais aferrado, mal vingado, castigado por minhas proprias mãos,
+martyrisava-me com o profundo pensamento da inutilidade dos meus esforços. Não
+sei que desgosto corporal me subia aos labios. Era um horror de mim mesmo.
+Vagava, de ventura, toda a noite, como miseravel sem abrigo, esperando vencer
+com a fadiga do corpo os tormentos do cerebro. Debruçado sobre o parapeito das
+pontes via redemoinhar a onda negra do Sena, menos sombria e mais lodacenta que
+os pensamentos, irriquietos do meu espirito attribulado. Eu chafurdava nos
+lamaçaes, como para destruir sobre immundices impalpaveis, a impalpavel, mas
+real immundice que imporcalhava o meu amor. E sempre diante de mim, perpassando
+como phantasma nas<span class="pn">{126}</span> sombras que se tiravam ao longo
+das ruas, via a imagem de Fanny, com o seu ar tranquillo, fronte serena, olhar
+sombrio, como que a visitar-me, mas forçando-me a pensar n'ella quando eu ia
+cuidando em matar-me para esquecêl-a. Oh! que terrivel estado aquelle, sem
+repouso nem treguas ás minhas angustias! que me exacerbava e prostrava! que
+incharcando no nôjo a minha desesperação, infamava o meu ciume sem applacal-o!
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXIV</h2>
+
+<p>Sustentava-me, comtudo ainda, um resto de coragem, essencial na minha
+indole. Estas pelejas intimas davam-me alento. Resolvera buscar o remedio até
+encontral-o, e, não o tendo, emprehender algum arrojo de desesperado, para
+arrebatar Fanny, a pezar d'ella. Ninguem sabe os estragos que uma idéa fixa
+póde fazer d'uma alma. Incrivelmente vos vos roja até vêr o bem nas coisas
+repugnantes ás menos temerosas consciencias.</p>
+
+<p>Após maduro reflectir, decidi-me ao penoso sacrificio da ultima concessão.
+Estava eu como um doente, que desenganado da cura, pactua com o mal, e
+dispõe-se de modo que seja menos o soffrimento no restante de seus dias.</p>
+
+<p>«Tudo te perdôo!&mdash;disse eu a Fanny.»&mdash;nunca mais te fallarei dos nossos
+eternos motivos de discordia.<span class="pn">{127}</span> Não examinarei o teu
+proceder; não te sondarei os sentimentos; tudo te concêdo, tudo acceito,
+excepto a abominavel partilha que tanto me fez soffrer, e tão demorada tem
+sido. Não posso mais... antes quero vêr-te desgraçada; antes morta; quero
+morrer eu. Sê-me leal, supplico-t'o&mdash;accrescentei com tristeza&mdash;porque me faz
+um mal horrivel duvidar de ti.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, não haverá mais partilha&mdash;respondeu Fanny, com um aperto de
+mão&mdash;não te inquietes, não soffras mais. Quando meu marido voltar,
+approveito-me do pretexto dos ultimos insultos para impor-lhe condições.
+Viverei completamente separada d'elle em sua caza. E isto, por toda a vida
+Roger, socega, sê emfim feliz. Não dependia de mim o seres feliz ha mais tempo.
+</p>
+
+<p>«Restitues-me a vida!&mdash;exclamei, lançando-me aos pés d'ella, e abraçando-os.
+</p>
+
+<p>&mdash;Querido filho!</p>
+
+<p>&mdash;Liguemo-nos por um juramento.</p>
+
+<p>A isto sorriu-se ella, mas jurou solemnemente, dadas as mãos, e fixados
+mutuamente os olhos.</p>
+
+<p>«E agora&mdash;disse eu&mdash;se por qualquer motivo, uma vez só, resolveres faltar á
+palavra, juras que me avisarás, para que não haja entre nós traição.</p>
+
+<p>&mdash;Por que queres tu que eu jure.</p>
+
+<p>«Pela minha vida.</p>
+
+<p>Fanny sorriu outra vez, mas jurou solemnemente.</p>
+
+<p>Depois d'isto fiquei totalmente tranquillo. Picou-me n'alma o ciume como a
+recordação de um sonho que de tempo a tempo, nos sobresalta. Reapreceu-me a
+vida bella e ampla. Confiava.<span class="pn">{128}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXV</h2>
+
+<p>E por isso a chegada do marido apenas me incommodou pela impossibilidade de
+me avistar tantas vezes com Fanny. Chegara o estio. Fanny habitava outra vez a
+sua casa campestre, e eu ia vêl-a algumas vezes, por noite, no caramanchão da
+tapada, e mais vezes vinha ella a Pariz, quando engenhava pretexto para passar
+fóra um dia. Mostrava-se mais livre que d'antes, pelo menos as visitas eram
+mais delongadas; mas, mais que d'antes, me pareceu pensativa e preoccupada.
+Attribui este enleio aos infadamentos procedidos da palavra que me dera.
+Entendo que novos debates, novos tormentos a faziam desgraçada; e, lastimando-a
+de todo o meu coração, animei-a á resistencia, e consolei-a quanto em mim
+cabia. Fanny, porém, denotava constrangimento, suspirava, e acolhia os meus
+beijos á flôr dos labios, como se tivesse esfriado em seu amor.</p>
+
+<p>Estava escripto que tudo, na nossa historia, fosse extraordinario, e que eu
+não intendesse nunca o procedimento d'esta mulher. Logo que me eu persuadia de
+ter-lhe penetrado a nova tristeza&mdash;imputando-a a discordia que o respeito do
+seu juramento devia acarear&mdash;soube um facto que me atirou, mais que nunca, a um
+mar de incertezas.<span class="pn">{129}</span></p>
+
+<p>Recobrando o repouso do animo, dei-me a um viver menos solitario. Meus
+amigos procuravam-me, por que os eu procurara. Interessou-me, de novo, a
+sociedade. Um dia, com grande espanto, soube que, a respeito do marido de
+Fanny, vogavam boatos escandalosos. Dizia-se que, durante a sua ultima viagem a
+Inglaterra, se tinha elle namorado de uma irlandeza que se estreara no theatro
+da Rainha; que a tirara da scena; que a chamara para França, havia um mez.
+Diziam-se maravilhas da magnificencia em que elle a tinha. Era lindissima, alta
+e esbelta como Fanny, mas morena como as filhas do Norte, com bellas côres
+rosadas, e finos cabellos sedados que se desenrolavam languidamente em longos
+anneis até ao peito.</p>
+
+<p>Jubiloso de nova tal, fiz tenção de lhanamente contal-a a Fanny, a fim de
+fortalecêl-a na resistencia, e ministrar-lhe um terrivel argumento contra o
+nosso inimigo, se elle se obstinasse em tormental-a. Nova surpreza me esperava,
+que devia sobrelevar todas as mais a prodigiosa altura.</p>
+
+<p>Fanny, como tantas outras mulheres, atraiçoando seu marido, não queria que
+elle a atraiçoasse. Irritada pelo meu ar de triumpho, nem deu credito á
+realidade da historia, nem á sinceridade da justificação.</p>
+
+<p>&mdash;Ou mangaram comsigo, ou o snr. forjou uma historia desinfadadamente, para
+me atormentar. O que me diz aborrece-me. A grosseria desses sentimentos
+enoja-me tanto que não posso perdoar-lhe, faça o que fizer. Saiba que meu
+marido ama-me sempre. A tristeza que soffre, de mais o demonstra.<span
+class="pn">{130}</span> O juramento que o snr. me arrancou, lealmente o tenho
+sustentado. Incumbe-lhe respeitar a minha sensibilidade, cessando de calumniar
+um homem que, por causa do snr., é desgraçado.</p>
+
+<p>Foi tamanha a minha estupefacção, que nem me occorreu a idéa de censurar
+aquellas estranhas palavras. Fanny mortificava-me cruelmente fallando-me da
+«sua susceptibilidade, do seu juramento arrancado, da minha supposta calumnia»
+a proposito da infidelidade exactissima, do homem que eu detestava. Cuidava eu
+que Fanny se daria por feliz sabendo que, emfim, espontaneamente, o marido se
+afastava d'ella, como ella, desde muito, se afastara d'elle. Esperava eu acções
+da graça, e sahiu-me cólera, orgulho offendido, retaliações, que, a meu vêr,
+tinham as apparencias todas do ciume. Isto era para indoudecer!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXVI</h2>
+
+<p>Incutiram-se-me suspeitas novas, e estas, mais crueis mil vezes que quantas
+me haviam suppliciado. Desta vez, porém, o acceital-as docilmente, não me foi
+facil. Intranhara-se-me a desconfiança como vibora no coração, e o germen da
+peçonha, que ella ahi revessara, circulava-me nas veias.</p>
+
+<p>O ciume resurgiu mais abrasado. A só escusa,<span class="pn">{131}</span>
+que podia mitigal-o, era imposssivel. Não era já da partilha que eu accusava
+Fanny; mas sim da mais rasteira traição. Resolvi esclarecer a incerteza, por
+todo o preço. Nada disse a Fanny, fingi-me longe de suspeitas. Menti no rosto
+como nas palavras. Affectei consummado comico, a maior liberdade de espirito,
+quando me estava a morte no coração.</p>
+
+<p>Pela primeira vez na minha vida, fui homem. Por mim, e só commigo, fiz
+quanto cumpria para descobrir a verdade. Comprei, com um pseudonimo, a casa
+contigua á de Fanny. Instalei-me secretamente lá. Todo o dia, cosido com as
+portadas das janellas, escutava os menores rumores da casa visinha, e via tudo
+que lá entrava, como se estivesse á espera de vêr algum estranho entrar ahi a
+roubar-me a mulher que me era a vida. De noite, escoava-me através da sebe de
+arbustos que separavam os nossos quintaes, e andava debaixo das janellas de
+Fanny, como ladrão que estuda o edificio que quer assaltar. Assim apprendi os
+costumes da familia que eu espionava. O erguer, o comer, o deitar, sabia tudo.
+Via de manhã os creados abrirem portas e janellas, e ouvia o roedôr dos moveis,
+deslocados na limpeza dos quartos e da sala. Ás oito horas, o dono da casa
+descia ao jardim, onde encontrava os filhos. Ás nove apparecia Fanny em
+desalinho campestre. Dava com elle alguns passeios. Ás onze horas chamava a
+campainha ao almoço. Ao meio dia, esperava o <em>coupé</em> á porta. O marido
+sahia, e só voltava ás sete horas para jantar. Muitas vezes, depois do meio
+dia, vi Fanny assentada na raiz d'uma arvore enorme, que assombrava largo<span
+class="pn">{132}</span> ambito, conversar com os filhos, lêr, ou occupada em
+algum trabalho de agulha. As visitas eram numerosas. Das tres ás seis horas,
+quando estava bonito o tempo, circuitava o grande taboleiro de relva, longa
+fileira de trens, cujos cavallos escarvavam na areia, á sombra das arvores,
+sacudindo os freios, a tempo que os bandos de senhoras e cavalheiros,
+assentados em cadeiras de bambu, riam, e bebiam gelados. Ao intardecer sahiam
+todos, e os homens faziam caracolar os cavallos á portinhola das carruagens, ou
+reunidos atraz dos trens, caminhavam lentamente fumando os seus charutos. Fanny
+recebia-as com uma graça incantadora: variava muito de vestidos, e da minha
+janella via eu que as mulheres examinavam detidamente os seus deliciosos
+enfeites, ao passo que ella, parecia descuriosa de si, como se sempre estivesse
+adornada, sem o saber. Raro sahia de noite, se o calôr não era ardente. O
+marido passeava então com ella; mas ordinariamente tornava para Pariz ás oito
+horas, e quando tornava, era por alta noite.</p>
+
+<p>Nos dias em que nos uniamos em Pariz, Fanny entrava no <em>coupé</em> com o
+marido.&mdash;Qual de nós é o enganado?&mdash;dizia eu commigo. Eu montava, e por
+travessas, e a galope, chegava a minha casa primeiro, e ahi era tão pouco
+preguntador quanto ella era meditativa. Era-o em toda a parte, em sua casa como
+na minha. Ao mesmo tempo, os passos do marido, mandava-os eu espiar. Nunca ia
+senão ao club, e a casa da amante. Aqui pernoitava algumas vezes. Fallava
+n'isso francamente aos seus amigos, e continuava a mostrar-se prodigo com ella
+em demasia.<span class="pn">{133}</span> Era um homem prefeitamente feliz. Não
+o attribulavam suspeitas nem inquietações: rico, pae de galantes filhos, uma
+mulher adoravel. Que lhe faltava? Eu invejava-o.</p>
+
+<p>Mas não me bastava assistir á vida exterior da familia, cujos segredos eu
+queria conhecer. Ao cabo de quinze dias, vendo esteril a minha espionagem,
+cancei-me da futilidade d'ella. Obtivera apenas o direito de suppor que Fanny
+cumpria a palavra, por que o marido, passeando com ella, parecia exclusivamente
+entretido com os filhos. Além disso, a frequencia das visitas que ella recebia,
+estorvava-me de vêl-a concentrada em si, tanto quanto eu queria. Resolvi
+introduzir-me em sua casa, sem o ella saber. A frieza, com que me estava
+tractando, era assustadora. Distrahida sempre. Muitas vezes, com terrivel
+commoção, de longe a via, quando se julgava sósinha, cahir sobre um banco, e
+esconder n'um lenço, o rosto lavado de lagrimas. Em oito dias, centuplicaram as
+minhas suspeitas.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXVII</h2>
+
+<p>Por uma bella noite de agosto é que eu executei o horrivel designio, cujo
+exito devia decidir do meu destino. Não sei que hora era; mas, havia muito que
+as estrellas radiavam na face do céo a<span class="pn">{134}</span> sua suave
+claridade. Abri a ultima janella do primeiro andar da minha casa contigua á de
+Fanny, fixei a persiana contra a parede, e resvallei pela rampa; pendurei-me do
+varão sutoposto á baranda da casa visinha; fixei um pé na goteira da sacada,
+depois o outro pé, e saltei. Estava em casa d'elles.</p>
+
+<p>Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas precipitadas
+pulsações do coração. Perto de mim, uma janella alumiada como um grande
+quadrado de luz, branqueava de clarão baço, a parede innegrecida da casa.
+Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta janella não estava de toda
+fechada. As beiras das portadas tocavam-se, mas deixavam coar uma resteasinha
+de luz. Duas cortinas de cassa branca, pendentes diante das vidraças,
+deixavam-me vêr todo o quarto através d'um alvadio de leite que esfumava um
+pouco os objectos.</p>
+
+<p>Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre este,
+uma corôa de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro que
+contrastavam com a brancura dos lençoes. Á esquerda da cama, um tapete
+estreito, á direita, uma commoda; ao pé da chaminé uma poltrona de espaldar
+muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam lá, mas eu não reparei.
+Ao principio, não vi ninguem no quarto, alumiado desigualmente, por um grande
+candieiro de cobre, coberto de quebra-luz, que dardejava sobre o pavimento os
+raios, deixando o tecto escuro. O leito ficava assim cortado longitudinalmente
+pela zona luminosa. Como<span class="pn">{135}</span> quer que eu me chegasse á
+vidraça para examinar se elle estava occupado, uma sombra passou lenta entre o
+candieiro e a janella, desenhando-se nas cortinas brancas. Pulsou-me o coração
+mais rijo. Agachei-me rente com a sala, recuando um pouco.</p>
+
+<p>Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A viração tepida da noite de agosto,
+suspirava á volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre os arbustos; a
+terra vaporava odores balsamicos; mas eu não via, não sentia, não investigava
+senão elle. Alongando o pescoço para ajustar os olhos á entre-aberta da
+janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse para mim coisa extraordinaria
+vêl-o de pé n'um quarto de sua casa. Tinha os pés nus em amplas moiras de
+marroquim amarello; afivellava nos encontros uma larga calça branca de
+flanella. Despeitorado, arregaçado o colleirinho, arremangada a camiza, ia e
+vinha pelo quarto, fumando um charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao
+espelho, e esticando os braços. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada,
+cruzou uma perna sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela.
+D'onde eu estava, via-lhe perfeitamente a sola do pé nú levantada ao nivel dos
+meus olhos, e o braço carnudo descançado sobre o encosto da cadeira. O outro
+braço subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos beiços o
+charuto, cujo fumo odorifero se exhalava até mim.</p>
+
+<p>De repente, voltou a cara para uma porta que eu não tinha devisado,
+collocada ao pé do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento obscuro
+que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso<span class="pn">{136}</span>
+da minha razão, uma fórma vaga alumiada em rosto por um castiçal que ella
+trazia.</p>
+
+<p>Potestades do céo! Era ella! Oh Deus! por que me não fulminaste n'aquelle
+momento!</p>
+
+<p>Entrou vagarosamente, depoz o castiçal sobre a commoda, e, atravessando
+longitudinalmente o recinto, foi direita a elle, que a observava tranquillo, e
+sem levantar-se.</p>
+
+<p>Fanny estava meio vestida com aquelle desleixado traje que eu lhe vira
+algumas vezes pelas manhãs, quando, ao sahir da cama, passeava no jardim com os
+filhos. Era um chambrão muito farto de cachemira azul aberta no peito, entre
+flocos de cambraia, deixando vêr o começo dos seios. Sahiam-lhe das largas
+mangas os braços nús. Trazia desmanchados negligentemente os cabellos,
+apanhados sobre as faces lizas, e apertados por grossos tufos sobre a nuca.
+Aquelle eterno porte de placido pudor, lá o apparentava no semblante.</p>
+
+<p>Mas que vinha ella fazer alli a tal hora? quem lhe pedira isso? Não póde a
+recordação do amante retêl-a no limiar d'aquella porta? Dir-se-hia que ella nem
+se quer se lembrava de ter jurado, nem lhe passava pela mente a existencia
+d'algum homem para ella, senão aquelle que alli estava sentado, encarando-a,
+sereno como ella.</p>
+
+<p>Fuzilou-me na alma um relampago de esperança, mas foi relampago. Abaixado
+sobre os joelhos e as mãos, embaciado o vidro pelo meu bafo, senti oscillar-me
+os braços como se o balcão estremecesse debaixo de mim. Suor de agonia, acre e
+frio, me banhava a face e os membros; rangiam-me os<span
+class="pn">{137}</span> dentes, cahi, desfallecido, como arvore tombada ao
+ultimo golpe do machado. Mas ouvi palavras; e, repuchando quantas forças tinha,
+ergui-me sobre os joelhos e punhos.</p>
+
+<p>Via-a andar mansamente d'um para o outro lado do quarto. Tocava, vagamente,
+e como em distracção nos objectos de sobre os moveis, tal qual costumava fazer
+em minha casa. E o marido tendo-a sempre d'olho. Fallavam; mas a minha commoção
+só me deixava ouvir um murmurinho. Rodeava-o ella, socegada e perfida, com os
+seus azues e suaves olhos, e apparencias de simpleza vaga. A instantes, sorria
+um sorriso melancolico. Quiz vêr n'esse rir, que lhe dilatava os labios sem
+illuminar-lhe o olhar, alguma coisa forçada. Não se mostrava pensativa, nem
+contemplativa, nem commovida. Estava perfeitamente á sua vontade, natural e
+tranquilla. Bem sabia ella que a sua grande magia era a irritadora
+tranquillidade.</p>
+
+<p>O marido riu tambem, por sua vez. Vi-lhe o brilho dos seus alvos dentes.
+Dava mostras de defender-se ingenuamente d'uma accusação que ella fazia, sem
+cólera, mas como uma malignidade gracejadora, que não era isempta de desdem e
+altivez. Discutiam tão pacificamente que pareciam nenhum acreditar na realidade
+da sua disputa familiar. A final, debaixo da testa quadrada do marido,
+brilharam mortiços os olhos; e, quando ella perpassava diante d'elle,
+rossando-lhe com o vestido o pé, a decisão foi prompta; calçou a moira; e
+tirando brandamente pela cintura da mulher, sem resistencia, fêl-a assentar no
+seu joelho.<span class="pn">{138}</span></p>
+
+<p>Saltaram-me as lagrimas então, lagrimas ardentes, que as palpebras não
+podiam reprezar, e desceram silenciosas pelas faces até aos labios. Emfim,
+comprehendia tudo; via a profanação, posto que a não quizesse vêr; affirmava
+que não era sonho aquillo, e queria duvidar. Não posso exprimir o que então se
+apartava de mim, o melhor de minha essencia, e o mal que me fazia vêr aquella
+mulher, que eu adorava, nos braços d'outro.</p>
+
+<p>Fanny continuava sentada com as mãos cruzadas sobre os joelhos, e com os
+olhos no marido, conversava serenamente. Nada ha ahi mais casto que a
+simplicidade da sua attitude, a pureza do seu perfil, e aquella expressão dos
+olhos azues. No entanto elle, comprimindo-a cingida pela cinta, amimava-lhe a
+face com a mão livre. A final, Fanny lançou-lhe por sobre o hombro o braço
+esquerdo, e pendeu para elle langorosamente. Vi-lhe então as costas, cobertas
+de tranças dos cabellos, e o vestido fazia roda por largo espaço com impudor
+esplendido. Oh! como a abominavel creatura cheia de graça e lascivia se
+aconchegava d'aquella espadua robusta!</p>
+
+<p>&mdash;É impossivel aquillo!&mdash;gritei eu em minha consciencia.&mdash;Não ha-de ser
+assim!&mdash;Mas elle abraçou-a, collando a boca espessa ás puras faces d'ella, e
+não sei o que lhe disse a meia voz. Fanny fez um gesto negativo com a cabeça,
+muitas vezes, sem córar. Elle, por cortezia, insistiu sorrindo, e ella,
+resistindo, pouco e pouco se rendia! Mulher scelerada! como ella prolongava o
+meu supplicio! O debate mudo, durou algum tempo. Não sei como foi<span
+class="pn">{139}</span> que o sinto se lhe despregou, e rolou nas dobras do
+vestido. E eu chorava sempre. Levantou-se ella em fim, aquella mulher de
+resplendores e flôres, e, por um só movimento de braços e hombros, fez
+escorregar o chambre até aos pés. Eu cahi de joelhos, e ergui as mãos, como a
+exorar piedade. Ella tirou com afan, os pés do monte de estofos, e, um tanto
+pallida, mas em silencio, caminhou para o leito, achegando ao peito as ultimas
+coberturas. Quantas vezes a vira eu assim impallidecer! Cravei as unhas no
+rosto. O marido ia depós ella, vagarosamente.</p>
+
+<p>E eu sem uma arma! Eu queria immediatamente estrangulal-a, espedaçal-a,
+ingolphar meus braços nas entranhas d'aquella mulher estupida. Com todo o
+sangue d'ella, não se apagaria o ardôr da minha tortura. Arquejante como o
+tigre, que vê a garra do leão cravada na sua preza, ergui-me a prumo, ferrei as
+unhas contra os dentes, escorria-me o suor da face, soluçava, como em arrancos
+de morte, estrebuchava, e via os horrores d'aquelle quarto.&mdash;Piedade!
+piedade!&mdash;foi o meu grito! E furioso, e perdido, avançara um passo! mas os
+cabellos heriçaram-se-me, e os olhos saltavam-me das orbitas, e a minha vista
+acerada entrou como um punhal nos cortinados sombrios, e vi... vi tudo! Quiz ir
+ávante, e não pude. A punição pregava-me os pés á balaustrada, e de minha bôca
+sahiam gargalhadas de demonio. Que horror! Eu testemunha d'aquelle espectaculo,
+a rir, como um doudo, a comprazer-me d'um jubilo que não tem nome nas linguas
+humanas! Tentei de novo avançar, por que ouvira<span class="pn">{140}</span>
+suspiros, e queria saber qual das duas bôcas os exhalavam. Por um esforço
+prodigioso dos meus musculos todos, cheguei a despregar o hombro da parede, e
+dei ainda um passo; mas por que ao coração intumecido me refluira todo o
+sangue, perdi o equilibrio, e cahi como um pezo inerte sobre o balcão.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXVIII</h2>
+
+<p>Quando cobrei o alento, estava a janella fechada e apagada a luz. Corri as
+mãos sobre os vidros impenetraveis. Corri a baranda em toda a sua extenção;
+tudo apagado, tudo fechado, dormia tudo. Dominava-me uma raiva glacial. Á custa
+de tudo, eu queria remirar esta mulher que eu detestava com o coração, com a
+alma, com os sentidos, com todo o meu ser. Mas ir até ella, como? Pendurei-me
+na rampa, e deixei-me cahir ao jardim. Rodiei vinte vezes a casa, empurrando
+todas as portas; mas a minha fraqueza não podia com ellas. Finalmente,
+atirei-me ao chão, e ahi, com o rosto entre as mãos, desafoguei-me em soluços.
+</p>
+
+<p>&mdash;Trahido! trahido!&mdash;bramia eu, com monotonia desesperadora.&mdash;E o céo
+impassivel!&mdash;De subito ergui-me, e, sem idéa fixa, atravessei as trévas, rapido
+como se me viessem perseguindo assassinos.<span class="pn">{141}</span>
+Precorri a tapada; saltei o muro, atravessei a estrada, entrei nos campos, e a
+correr sempre, com a cabeça nua, chorando e fallando sósinho, atirei-me como um
+attribulado gamo, que foge com os dentes de matilha feroz incravados nos
+flancos.</p>
+
+<p>Onde ia eu? não sabia. Fugia áquelle espectaculo. Salvava-me a todo o
+correr, para o mais longe possivel, para não vêr a imagem horrenda que me
+ficara nos olhos. Trahido! Trahido! era o grito que me esporeava, e excitava a
+fuga. Despenhei-me em barrancos. Levantava-me ferido, coberto de suor e lama, e
+corria de novo, sem destino, por escuridade pavorosa. Lancei-me
+desamparadamente em cancellos insilveirados; deixava-lhes os meus vestidos a
+pedaços, e caminhava. Esgalhos de arvores batiam-me no peito, raspavam-me a
+face e os hombros os tojos lacerantes; parava a chorar e depois caminhava.
+Atravessei as ruas dezertas das aldeias, que resoavam sob os meus passos;
+campos cultivados, cujas searas me ondulavam nas pernas como vagas; collinas,
+bosques, regatos, atalhos, estradas que desfilavam á roda de mim, como se o
+solo fosse arrastado commigo no arremeço d'um sorvedouro immenso. Faltava-me a
+respiração, e eu corria ainda, chorando, chorando sempre.</p>
+
+<p>&mdash;Ó minha mãe!&mdash;bradei eu.&mdash;Se soubesses quanto eu soffro!</p>
+
+<p>De repente, achei-me com os pés em agua. Ante mim, distendia-se um vasto
+espaço negro, uniforme, entranhado nas trevas, d'um lado e d'outro, com grandes
+e mysteriosos zunidos. A lua dardejando de viez o seu reflexo argentino, sobre
+esta superficie<span class="pn">{142}</span> luzente, parecia serpente enorme
+assanhada contra mim, para engulir-me. Involvia-me o nevoeiro. Avancei
+tropeçando nas pedras, mas os jactos d'agua da torrente rapida, embargavam-me o
+passo. Horrida tentação me assaltou. Contemplei o céo sereno, onde brilhava,
+entre nuvens immoveis, o dôce astro dos amantes; puz a mão sobre o coração, e
+caminhei. Dava-me a agua pelos joelhos, mas sentia sempre o chão lodento em
+redor dos meus pés que escorregavam. Não podia mais. Vergado á fadiga e á
+commoção, soluçando como as mulheres, cahi, e fui arrastado na torrente que
+marulhava em sua marcha obscura.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXIX</h2>
+
+<p>O que decorreu depois d'isto, não sei.</p>
+
+<p>Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante. Sentia
+abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo peso das aguas.
+Por fim, esqueci tudo; entendi que morria.</p>
+
+<p>Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabeça em fogo. Abri os
+olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo, desde a cabeça
+aos pés, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois amigos observando-me.
+Fallei, e elles abanaram a cabeça. Veio um homem, e tomou-me<span
+class="pn">{143}</span> o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a
+tremer. Isto durou muitos dias.</p>
+
+<p>Depois soube que uns pescadores me tinham, de madrugada, encontrado sem
+sentidos, nas margens do Sena, com a cabeça envazada no lôdo. Buscaram-me as
+algibeiras, e acharam na minha carteira uma carta, e, guiados por ella, me
+trouxeram a minha casa. Delirei no caminho, e tiveram-me em conta de doido.
+Estava-o, realmente.</p>
+
+<p>Fanny, porém, ignorante de tudo, admirada de me não vêr, veio uma manhã; mas
+o meu creado, a chorar, impediu-lhe a entrada no quarto, e contou-lhe o que
+sabia. «Quiz afogar-se&mdash;disse elle&mdash;e agora está doido»&mdash;Ella, porém, não quiz
+crêr no suicidio, e supplicou a entrada. N'esse dia, um abatimento sem nome,
+semelhante ao dos cadaveres prostrados em seus sepulchros, me tinha como
+pregado pelas costas ao leito, com os braços alquebrados e os olhos abertos. De
+repente, devisei na porta, que se abriu ao pé do meu leito, uma fórma humana,
+de pé e quieta.</p>
+
+<p>Não atinei logo com quem fosse aquella mulher que me vinha vêr moribundo,
+adornada de trajos de estio tão elegantes e frescos, com braceletes nos braços
+e flôres no chapéo: tambem não entendi por que chegava com ambas as mãos o seu
+véo branco ao rosto. Os meus amigos tinham-se retirado para o fundo do quarto,
+afim de respeitar, quanto fosse possivel, um segredo que não queria ser
+penetrado. A mulher adiantou-se até á minha cama, e eu ouvi-lhe o fremito do
+vestido. Curvou-se-me sobre o leito, e levantou o véo. Como que senti
+refrigerar-se-me<span class="pn">{144}</span> a alma, de vêr sobre o meu rosto
+aquella face viçosa cheia de graça, e como perfumada de saude.</p>
+
+<p>Fanny! exclamei subitamente, erguendo os braços. Fanny abaixou-se a soluçar
+sobre o meu peito. Mas a memoria restaurara-se com o conhecêl-a; levei-lhe á
+face os punhos fechados, e repelli-a de mim, gritando furioso «sai d'aqui!»
+Ella acreditou que eu estava doido, e arredou-se chorando; mas com um resto de
+força que a raiva me déra, bati-lhe no hombro, e, ao lançar-me fora da cama,
+cahi por terra aos pés d'ella.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXX</h2>
+
+<p>Quando sahi do lethargo, suppliquei, de mãos postas, aos meus enfermeiros,
+que não deixassem entrar em minha casa aquella mulher.</p>
+
+<p>Ella, porém, que não podia suspeitar o succedido, e continuava a crêr na
+minha demencia, vinha todos os dias&mdash;disseram-m'o depois, e todos os dias com
+gestos afflictivos, sollicitava vêr-me.&mdash;O medico não consente&mdash;respondia
+inflexivel o meu creado. Fanny offerecia dinheiro e prendas; mas comprehendendo
+a final que a sua presença podia matar-me, retirou-se, pedindo a Deus a minha
+cura, e offerecendo-lhe, em troca da minha, a sua vida.<span
+class="pn">{145}</span> D'isto não sabia eu nada então. Decorriam os dias, e,
+por desgraça minha, graças aos disvellos que me rodeavam, a vida pouco a pouco
+affluiu apagando a febre.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXXI</h2>
+
+<p>Ao cabo de seis semanas entrei em plena convalescença. Já os amigos me
+tinham deixado. Perguntou-me, muitas vezes, o creado, se eu queria receber
+aquella pessoa que tanto parecia amar-me, e cuja presença tão mal me fizera uma
+vez. Sempre com repellão lhe disse que o expulsava se a deixasse entrar. O
+desejo, porém, de a vêr, entrou commigo, e tornou-se emfim n'uma irresistivel
+necessidade. Fiz fallar o creado sobresaltado, que não intendia a minha frieza.
+Contou-me tudo que eu não sabia; que ella vinha diariamente, e elle já não
+sabia que dizer-lhe, para estorvar-lhe a entrada. Se ella vier hoje,&mdash;murmurei
+eu impetuosamente, corrido de vergonha,&mdash;recebo-a.</p>
+
+<p>Sentia-me eu abalado como se alguma funesta esperança tentasse renascer em
+mim. Com o abatimento da molestia, quasi que a cólera se desvanecera; mas
+ganhara-me uma dôr intensa, e eu assentava&mdash;tamanho desgosto era o meu por
+tudo&mdash;que não podia viver. Aquella noite terrivel da traição,<span
+class="pn">{146}</span> lembrava-me como um sonho máo. A um tempo, amava e
+desprezava a mulher graciosa e perfida, cuja imagem era commigo sempre. O que
+eu esperava para acabar com tudo, era alguma cousa indelineavel.</p>
+
+<p>Estava eu sentado n'uma poltrona, ao pé da minha janella, com os olhos
+fechados, repassando no animo o que eu diria á prejura, quando senti
+apertarem-me a mão, e misturarem-se n'ella os beijos com as lagrimas. Abri os
+olhos. A meus pés, de joelhos, livida, mas formosa ainda, formosissima, estava
+Fanny, olhando-me com eloquente ternura. Senti o perfume d'ella. Nada diziamos.
+Eu sei que chorava.</p>
+
+<p>Fanny ergueu-se, abraçou-me maternalmente a fronte e os cabellos, com os
+seus dois braços nús. Não resisti, porque me era aprazivel receber aquellas
+caricias, a que eu tinha direito, em quanto não fallasse. E por isso mesmo é
+que não fallava. Finalmente, como eu chorava sempre e a não abraçava, Fanny
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Foi-se o teu amor, Roger?</p>
+
+<p>&mdash;Ainda não&mdash;respondi, tapando o rosto com as mãos. Ella não intendeu, e
+deteve-se em pé e agitada defronte de mim.</p>
+
+<p>&mdash;Fanny, diz-me que é um sonho, ou que estou doido. Diz-me que não devo
+odiar-te, porque este odio dilacera-me.</p>
+
+<p>Não córou. Não impallideceu. Pura como a chamma, e crendo-se talvez ella
+mesmo pura, amimou-me internecida, com apparencias de admirada.</p>
+
+<p>Foi então que eu, reunindo as minhas forças todas,<span
+class="pn">{147}</span> a tomei pela cintura gentil em meus braços, e a fiz
+sentar defronte de mim. E disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Sei tudo.</p>
+
+<p>«O que? tu que sabes?</p>
+
+<p>&mdash;Vi tudo.</p>
+
+<p>«Mas que?</p>
+
+<p>&mdash;Porque me trahiste? Tu não cedeste, porque foste tu quem o procurou, não
+foi elle a ti. Foste tu, que trocando despejadamente o papel, o seduziste a
+elle.</p>
+
+<p>Fanny não perdeu ainda a côr, e quiz fallar. Eu, porém, com os olhos
+cravados n'ella, sem cólera, e frio como o aço, continuei:</p>
+
+<p>&mdash;É necessario dizer-te tudo? Não merecias confiança. Comprei a caza vizinha
+da tua, em Chaville...</p>
+
+<p>Aqui, impallideceu, e disse:</p>
+
+<p>«E depois?</p>
+
+<p>&mdash;Uma noite, horrivel noite!... depois de te espiar em vão quinze dias,
+arriscando a minha vida, consegui introduzir-me sobre o balcão da tua casa. Não
+sei que hora era. Ajoelhado por traz da vidraça do quarto de teu marido, pude
+vêl-o. Como te vejo agora, tudo vi. Estava elle só. Entraste...</p>
+
+<p>«Isso é falso!» exclamou Fanny, mais horrivelmente pallida. Semelhava um
+cadaver sentado n'uma cadeira defronte de mim.</p>
+
+<p>&mdash;Será preciso dizer mais?&mdash;accrescentei.&mdash;Vestias um chambre de cachemira
+azul. Trazias os cabellos em desalinho, e o peito nú. Calçavas chinellas de
+setim. Nús, trazias os braços. Serena como sempre, no momento mesmo em que
+prejuravas,<span class="pn">{148}</span> não amaldiçoaste aquelle que vinhas
+saciar, por que ha em ti dois corações, para amar dois homens, Fanny, a elle, e
+a mim.</p>
+
+<p>Fanny sacudiu rapidamente a cabeça, e disse com voz abafada:</p>
+
+<p>«É falso! é falso! tu não me conheces!</p>
+
+<p>&mdash;Será preciso dizer mais?... Exprobraste-lhe a traição, que é certissima.
+Defendeu-se elle, a sorrir. Tu, cem vezes, passaste diante de teu marido, por
+que querias fascinal-o, sem lh'o dar a intender, com os teus exteriores
+pudibundos. Sahiu-te tudo ao pintar, por que elle puchou-te para sobre o
+coração, e tu deixaste-te sentar sobre os joelhos, e nem de mim te lembravas,
+de mim, a agonisar, com aquelle espectaculo diante...</p>
+
+<p>«Basta!»&mdash;exclamou Fanny, e ficou a olhar para mim. Parecia soffrer
+horrorosamente; mas não chorava. Dilatavam-se-lhe as pupilas, e crispavam os
+labios resequidos. Com pena d'ella, baixei os olhos, mas accrescentei:</p>
+
+<p>&mdash;Sabe que eu estive ali, eu, que te adorava, e é de crêr que a vergonha e a
+dôr não matem, por que eu vi tudo, e não morri.</p>
+
+<p>Como duas estatuas fronteiras, nas bordas d'um jazigo, assim ficamos em
+contemplação, e immoveis. Por fim, disse ella:</p>
+
+<p>«Eu devo fazer-te horror!</p>
+
+<p>&mdash;Fazes.</p>
+
+<p>Ergueu-se, levantou as mãos ao céo, lançou-se a mim, como sobre uma preza,
+apertou-me entre os braços, sentou-se-me nos joelhos, peito a peito, e a
+buscar-me os labios, com estas exclamações:<span class="pn">{149}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não importa! eu adoro-te sempre.</p>
+
+<p>Mas eu, levantando-me, sacudi-a, e atirei-a ao chão, e ella ahi ficou.
+Abismada a meus pés, como a Magdalena, soltas as tranças, nodados os braços aos
+meus joelhos, desfeita em pranto, exclamava:</p>
+
+<p>«Perdão! piedade! Eu tinha perdido o juizo! estava doida! mas amo-te sempre!
+Tem compaixão de mim.</p>
+
+<p>E prometteu submetter-se a tudo que eu exigisse d'ella. Propôz-me a fuga,
+bradando:</p>
+
+<p>«Mata-me, e não me repulses! Esmaga-me aos teus pés. Sou culpada, mas não me
+abandones. Amo-te. Rasga-me o coração...</p>
+
+<p>Fiz que se erguesse e sentasse. Estava corada, e escondia o rosto; mas eu
+sentia-me impiedoso. Recrudescera o meu furor com a narração do meu supplicio.
+Voltei as costas áquella mulher, cuja soberba, por tanto tempo me mentira.
+Ainda assim queria ella violentar-me, estendendo para mim os braços; mas
+fiz-lh'os recuar á face, com um gesto.</p>
+
+<p>&mdash;Sabe que te detesto e adoro&mdash;disse-lhe eu&mdash;É isto o meu castigo, por que
+eu fiz minha, a mulher d'outro, e devo ser castigado. Tu, para mim, és uma
+deshonra, e mais nada. És um idolo attascado em lama. Vi-te, em attitude
+pudica, com o rosto angelical, e olhar infantil; vi-te grotesca e disforme,
+raivar e uivar, como a loba mordida pelos cães. Cala-te! tu fizeste peor que as
+creaturas com quem esse homem hediondo te compara: essas, ao menos, não mentem.
+</p>
+
+<p>«Mas elle é meu marido!&mdash;disse Fanny.</p>
+
+<p>&mdash;Não tens consciencia? Diz-me com franqueza<span class="pn">{150}</span> se
+é certo seres tu um ser intelligente, e se uma idéa dirigiu a tua acção
+funesta. Quem te obrigava a ir procural-o?</p>
+
+<p>Fanny, com grande esforço, respondeu:</p>
+
+<p>«Eu via que elle se desprendia de mim. Não o amo, por que te amo, mas
+dependendo d'elle. Não é natural? Repartida entre o desejo de conservar sua
+affeição, e o receio de ser forçada a mostrar-lhe uma affeição semelhante, quiz
+segural-o quando me fugia, e, quando se approxima, é escusado tentar eu
+fugir-lhe. Cedi ao dever. Reciei que me deixasse. O temor de me vêr abandonada
+com os meus filhos, inlouqueceu-me. Perdoa-me. A mulher, que elle conheceu em
+Londres, é a causa de tudo. Eu preciso de paz, socega-me tu. Fiz mal, por que
+te amo; mas sou mulher, e tu não conheces as mulheres. Não calculas quanta
+honestidade pode haver nas traições d'ellas.</p>
+
+<p>&mdash;E o teu juramento?&mdash;exclamei. Fanny contorcia as mãos afflictivamente. Eu
+prosegui:</p>
+
+<p>&mdash;Mentes, quando dizes que cedeste ao dever. Não cedeste senão ao orgulho.
+Intristecia-te o ser abandonada por esse homem que não amas, e te não ama, e te
+opprime, e te despreza e insulta. Não cedeste tambem á sêde d'um prazer
+abominavel? Repito-te que ouvi tudo.</p>
+
+<p>Neste conflicto, encontraram-se os nossos olhos. Fanny fez-se escarlate,
+quiz fugir, tornou para mim, e cahiu de joelhos, exclamando:</p>
+
+<p>«Se soubesses quanto eu me abomino! Eu queria arrancar o coração deste
+corpo. O meu coração está puro. Vêr-te, ouvir-te, sentir-te ao meu<span
+class="pn">{151}</span> lado, bastára-me sempre. Por isso mesmo que te amo, é
+que tu és o unico ente, mais que homem para mim. Tu és neste mundo o meu amor
+unico. És a minha vida.</p>
+
+<p>&mdash;Amas-me!&mdash;bradei eu com raiva.&mdash;Mas de que modo me
+amas? Acima de mim, em
+teu coração tão puro, estão vãs considerações do mundo, razões de sociedade,
+costumeiras mesquinhas, está teu marido. Não me falles de teus filhos. Que amor
+é aquelle que não conhece a virtude dos sacrificios? que recua diante de
+qualquer respeito? que é limitado? que soffre prescripções? que não é uma
+abnegação absoluta do individuo, de todos os seus pensamentos, e affectos, e
+deveres e virtudes? Quem se perde pelo ente que ama, e destroe a honra e
+segurança do seu futuro, e chega, por amor delle, até ao crime, e se tortura a
+inventar maiores provas ainda, não dá o mais radioso testemunho da paixão
+exclusiva, intolerante, e soberba. Tu nunca soubeste que o amor não vive senão
+de si, e nada reserva fóra de si. Renegado sublime, piza os mais santos
+objectos, forte da felicidade que inventa, e que lhe justifica a
+impassibilidade. Porém, tu! mulher das dedicações mesquinhas, das virtudes
+pequenas, dos deveres timidos, chamas loucura a tudo isto. É alto de mais para
+ti! a tua vista não alcança tanto. O que tens, superior a ti, é a tua casa, é o
+teu bem-estar, é o luxo que te cerca, é a falsa estima do mundo que tanto se dá
+de ti como das outras, são as relações banaes, é um complexo de coisas
+miseraveis. E dizes que me amas! Supportarias tu o abandono da sociedade?<span
+class="pn">{152}</span> Offereci-te tudo que tinha; dar-t'o era a minha
+felicidade; para ti roubaria eu os indigentes. Ainda assim, aceitarias tu o
+menor incommodo como preço da minha felicidade? Não ultrajes, pois, o amor, a
+paixão soberanna, que não quer ouvir em redor do seu throno, uma voz que não
+seja a sua. Crês que amas por te haveres entregado? Vai, já te disse que vi
+tudo. Estavas com elle como commigo. Custou-te tanto a passar dos meus braços
+para os delle como d'um vestido para outro.</p>
+
+<p>Fanny, ergueu-se desesperada, e quiz partir; mas eu retive-a, atirei-a para
+o fundo da alcova, e collocando-me diante da porta, com os braços cruzados,
+exclamei:</p>
+
+<p>&mdash;Hasde ouvir tudo!</p>
+
+<p>Faltou-me a expressão. Arquejava de anciedade. As minhas palavras eram
+gritos. Cerrei os punhos em postura ameaçadora; Fanny olhava-me de revéz com
+inexpremivel terror. As palavras vieram, depois, impetuosas:</p>
+
+<p>&mdash;Eu nunca tive crença em ti. Tanta certeza eu tinha de que me atraiçoavas,
+que, por minha desgraça, quiz conspurcar o nosso amor. Sabe-o, se nunca o
+supposeste; sabe que eu, teu adorador, atraiçoei-te com as mais rasteiras
+mulheres.</p>
+
+<p>Fanny não me acreditava. Attribuia á impotencia do furor o que eu dissera, e
+fez um gesto de denegação soberba. Máo grado meu, repassado de angustia, fallei
+n'um tom de voz supplicante, e branda. Toda a minha cólera cahiu sob o pezo da
+piedade.</p>
+
+<p>&mdash;Sabe, pois, murmurei eu com as mãos erguidas,<span class="pn">{153}</span>
+que eu te amava ao mesmo tempo com amor de mãe, de mulher, de creança. Quanta
+piedade, respeito, e ternura que podem resumir-se em amor no coração, quantas
+delicias, tocam a divinisação pela maviosidade, todas senti por ti, desde o
+primeiro dia em que te vi passar com tuas graças, com a tua serena suavidade,
+com a tua formosura. Sabe que te adorei piedosamente; que só em ti pensava; que
+eras a minha segunda alma; que me doiam mais teus males que os meus; que, por
+desvanecer-te do animo uma incerteza, teria dado, risonho, a vida, que eu
+só
+amava por que te era aprazivel. Vê que choro. Tudo que era teu, amei: teus
+filhos, tua mãe, tua casa, teus creados; as irregularidades irritaveis do teu
+caracter, os teus vestidos, e as tuas rendas. Creio até que o amava a elle, por
+que, em meu espirito, a tua imagem andava associada á d'elle. Nem minha mãe
+amei como a ti. Por ti, têl-a-hia abandonado, com tudo que venero. Eras o meu
+eterno espirito, o meu bem mais caro, a imagem perfeita das coisas puras.</p>
+
+<p>«Perdão!» exclamou ella, recahindo de joelhos.</p>
+
+<p>&mdash;E tu, Fanny, calcaste aos pés este respeito, este amor incomparavel, este
+coração...</p>
+
+<p>«Piedade!</p>
+
+<p>&mdash;Recalcaste-me como a féra impassivel que esmagou com as garras as
+primeiras flôres do campo. E agora... aqui me tens sem futuro, como um
+desgraçado que não pode amar alguem, como o ancião, que viu em roda de si,
+morrerem todos os seus. Tudo feneceu, tudo apodreceu em meu coração. Estou
+velho! tenho cem annos! vou morrer!<span class="pn">{154}</span> sou um
+sepulchro! Tu sabes de mais que estou sósinho no mundo...</p>
+
+<p>«Piedade! perdão!&mdash;exclamou Fanny, indo hallucinada, esbarrar nos moveis e
+nas paredes.&mdash;Não me digas que és desgraçado!</p>
+
+<p>&mdash;Oh! desgraçado! e não digo bem o que sou. A lingua não tem voz que o diga.
+</p>
+
+<p>Ingrata! Não te bastava ser senhora da minha alma, do meu coração, da minha
+vida; vens ainda tirar-me o que eu mais amava no mundo... a estima de ti... que
+me era mais que tu mesma!</p>
+
+<p>«Piedade! piedade!»&mdash;continuava ella exclamando.</p>
+
+<p>&mdash;Assassinaste-me a mocidade. Pois bem! ouxalá que nunca soffras o que eu
+estou soffrendo... Adoro-te, e horrorisas-me!</p>
+
+<p>Dito isto, quiz feril-a e abraçal-a ao mesmo tempo; mas cahi desfallecido:
+e, por noite, quando abri os olhos, e a procurei no quarto ás apalpadellas, não
+a encontrei.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXXII</h2>
+
+<p>No dia seguinte, senti-me saciado de vingança. Experimentava aquella especie
+de serenidade cruel, que segue as execuções supremas. Sentia-me satisfeito, em
+fim, como o juiz que tem em seu poder a irrecusavel prova do crime que
+puniu.<span class="pn">{155}</span></p>
+
+<p>Já me não afligia o pensar n'ella. Não obstante, eu previa lucidamente os
+graves desgostos da sua vida.</p>
+
+<p>&mdash;Soffrerá longo tempo, e depois odiar-me-ha. Incadeada sob o jugo, debalde
+tentará soffrêl-o corajosamente. A resignação desdiz do caracter d'ella. Outro
+virá, mais tarde, substituir-me. Se a não amar, será despresado. Amando-a,
+repetir-se-hão immediatamente, e com as mesmas phrazes&mdash;identicas luctas, as
+mesmas perfidias, iguaes torturas. Emquanto viva, Fanny perseguirá fatalmente a
+sua chimera. O amor ideal que a arrasta não se dessipará mesmo nos gelos da
+idade; quando as rugas sobrevierem a provar-lhe que tudo é mudavel na terra,
+ella continuará a evocar o phantasma d'uma paixão que foi e será sempre o seu
+supplicio. Ha-de apartar-se da sociedade, como os soldados feridos no fogo de
+vinte pelejas. Como elles, afastada de tudo, saciada de tudo, tirará commoções
+para uma vida nova no mysterioso poema das suas remeniscencias. Os filhos, que
+adora, não a consolarão. Quem sabe se virão a desprezal-a?... Condemnada a amar
+por egoismo, não se fará feliz a si, nem a outrem. Impotente para o bem,
+ser-lhe-ha martyrio eterno o procural-o. Para a felicidade propria,
+faltar-lhe-ha sempre um vicio; para a felicidade alheia, faltar-lhe-ha sempre
+uma virtude. Tem coração de mais, e coragem de menos.</p>
+
+<p>Dest'arte, julgava eu, de longe, aquella mulher que eu, por ultimo
+conhecera, á custa da minha ventura. Não posso dizer que a lastimava. Com
+quanto me sentisse prostrado de fadiga, a irritação<span
+class="pn">{156}</span> surda, contra ella, era immensa. Como se annos e annos
+medeassem entre nós as suas barreiras, eu me sentia separado d'ella, mas ainda
+a sentia viver em mim. Era-me a memoria d'ella, como o ferrete aberto com ferro
+em braza. O estygma intalhado a fogo no coração, não podia eu, forçado do amor
+desvanecêl-o.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXXIII</h2>
+
+<p>Se, porém, julgando-a, me não compadecia d'ella, era-me impossivel pensar em
+mim, sem padecer em todas as fibras do meu ser. Quanto amor eu tinha, quanta
+affeição filial, ternura piedosa, e veneração, exhalava-se de mim como vapores,
+e dissolvia-se em lagrimas amargas, que eu tragava, sobre a cruz onde a sorte
+immisericordiosa me cravára. Estorturava-se, este amor, como joven robusto que
+saboreou a vida e não quer morrer. A affeição de filho, que eu naturalmente lhe
+dera, por causa da differença de nossas idades; a piedosa ternura que ella me
+inspirava, como um bem suavissimo; a veneração, em summa, que lhe era a ella um
+incenso grato, isso tudo, o melhor de minha existencia, desfazia-se em meu
+coração, e evaporava-se lentamente em caricias de effluvios e perfumes. Qual
+viajor, surprehendido, ao despertar, nas steppes infinitas<span
+class="pn">{157}</span> da Asia, por um turbilhão fluctuando raso com o chão,
+tal eu me sentia perplexo nas minhas revoluções, prudencia, e coragem. Em redor
+de mim tudo se movia vagarosamente, derramando-se em fórmas confusas: fugia
+tudo; memorias queridas, votos superfluos, ternos desejos, pezares, aspirações,
+tudo se esvahia nas distancias do meu sonhar, e me deixava, sósinho, n'um
+grande espaço. E desse turbilhão nevoento de sensações, vontades, e habitos;
+densas oscillações impalpapeis de penas, prazeres, e esperanças, prolongadas
+até ao extremo limite que meus olhos viam, surdia emfim um phantasma enorme que
+subia, subia até ao céo, tristemente involvido em pallida mortalha. Este
+phantasma reconheci-o na amargura que tinha impresso na face assombrada, no
+atrophiamento da sua attitude, na sua mudez, no rir amargo que lhe circuitava
+os labios descorados. Ah! uma vez o tinha eu já visto crescer para mim, e me
+sentira estalejar com elle nas dobras de seu sudario. Vinte annos tinha eu. Foi
+quando perdi minha mãe, e da sepultura d'ella, revolvida de fresco, sahia e me
+aferrara nos braços a glacial <small>SOLIDÃO</small>.</p>
+
+<p>Eu chorava. Tudo estava em redor de mim fallando-me d'ella. Todo o mal que
+me fizera, esqueci-o. Mil vestigios deixára Fanny n'aquelle quarto que eu
+preparava amorosamente para recebel-a. N'aquelle tecto que lhe cobrira a
+cabeça, nos tapetes pisados por ella, nos moveis que tocaram suas roupas, em
+tudo me apparecia serena e consoladora. Aqui me abria os braços de veludo, a
+poltrona onde ella se assentava tantas vezes; ali a molle<span
+class="pn">{158}</span> pegada do seu sapato, no coxim em que ella descançava
+os pés; acolá, resequidas, nos vazos chinezes, desfolhando-se tristemente, as
+flôres que ella amava; além, as cortinas que ella tantas vezes levantava com
+sua mão timida; ali, se move ainda o pendulo do relogio, para o qual ella
+estava olhando sempre; aqui, o véo d'ella, aqui as cartas, seus dôces reflexos;
+além, o pente embalsamado com o perfume dos seus cabellos; e acolá, finalmente,
+frio e cerrado como um tumulo, o leito onde tantas vezes chorávamos.</p>
+
+<p>Agora, me assoberbava a memoria, tudo o que dissemos, pensamos, e esperamos.
+Como longinqua musica, trazida na viração do mar, soava-me nos ouvidos o cantar
+de suas palavras; como emanação de flôres que se evapora com o orvalhar das
+noites, deliciava-me o olfacto, o perfume de sua cutis olorosa; como bafejo de
+primavera, perpassavam-me nos labios os effluvios de seus beijos. Ardia-me a
+mão que ella tocara; ardia-me a fronte que ella afagara em seu seio; ardiam-me
+os olhos que ella adorara, a boca em que a sua apremara nas vertigens da
+paixão, o peito que ella duplicara com o seu peito. Oh! que prazer me era
+sorrir-lhe ao retrato, e remecher nas cartas d'ella! Affigurava-se-me ouvil-a
+ainda; esperal-a ainda, como nos dias passados; vêl-a chegar assustada, como a
+cerva dos bosques, a esconder-se em meus braços. Mas, ao mesmo tempo, não sei
+que vaga essencia se desprendia de mim em soluços e gemidos. Quebrantava-me uma
+tristeza profunda; uma lethargia sem nome paralisava todas as minhas idéas.
+Meditativo,<span class="pn">{159}</span> como póde sêl-o o homem no leito da
+morte, eu dizia commigo:&mdash;Acabou tudo! não nos tornaremos a vêr, nós, que tanto
+nos amamos!...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>LXXIV</h2>
+
+<p>Era tamanha a minha tribulação, que eu receei succumbir á paixão. A imagem
+d'ella, entrava em todas as minhas meditações. Como não podia arrancal-a da
+memoria, fugi com ella, precipitadamente, sem voltar o rosto, como o incendiado
+que não quer ouvir os gritos de maldição sahidos d'entre as chammas accendidas
+por sua mão cruel. Parti, sem dizer onde ia, para partir, para me afastar. A
+minha mesma coragem me apavorava. Mas a memoria ia commigo, chorava commigo.
+Cançado um dia, da vista dos homens, deixei os caminhos trilhados, e
+intranhei-me, ao norte, nas areias que bordam a foz do Loire. Caminhei trinta
+horas sem parar. Ao anoitecer, apeei n'um deserto, e resolvi acabar ahi...</p>
+
+<p>Não queria porém, eu, que ahi dissessem que irreflectidamente me suicidara
+como um louco, ou como creança infraquecido na lucta. Apozentei-me, pois, aqui,
+para luctar contra mim mesmo, e vêr se a cura me póde ser ministrada por um
+hospede menos frivolo que a morte. Impuz-me o prazo d'um anno, para viver uma
+vida differente, só, meditativa,<span class="pn">{160}</span> austera. Estou
+resolvido a esperar até final. Algumas vezes, detesto-me, e todavia espero.
+Fio-me não sei de que. Amo, como nunca amei, a mulher que me reduzio a isto.
+Não a desprezo já. Absolvo-a. Eu teria feito o mesmo, se fosse ella, e affirmo
+que valem menos que ella, as que de outro modo se comportassem. Mas ha momentos
+em que a detesto, e me arrependo de a não ter esmagado. Assim, e
+incessantemente, vou d'um extremo de amor e piedade, ao outro extremo de furor
+e odio. Oh! amar! que supplicio!</p>
+
+<p>As forças da minha alma estão extinctas. Já me não pulsa o coração. Hoje
+principalmente, que dou fim aos traços do drama da minha vida, sinto a tentação
+terrivel de completal-o com um sanguinario epilogo.</p>
+
+<p>Mas, porque ha-de ser aqui, e não ha-de ser além ao pé d'ella? É porque me
+resta ainda o pudôr d'um ciume feroz, que não quer ser carpido. Qual
+besta-féra, que, ferida de morte, procura uma caverna onde morrer em paz, e
+esconder seus ossos; assim eu, se devo morrer, quero que seja n'um deserto,
+longe d'aquella que eu amei de mais.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p>PARCERIA</p>
+
+<p>A<small>NTONIO</small> M<small>ARIA</small> P<small>EREIRA</small></p>
+
+<p>LIVRARIA-EDITORA</p>
+
+<p>OFFICINAS</p>
+
+<p>TYPOGRAPHICA <small>E DE</small> ENCADERNAÇÃO</p>
+
+<p><small><em>MOVIDAS A ELECTRICIDADE</em></small></p>
+
+<p>44 a 54&mdash;Rua Augusta&mdash;44 a 54</p>
+
+<p>LISBOA</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Fanny: estudo, by Ernest Feydeau
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FANNY: ESTUDO ***
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+Foundation
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+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
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+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+ https://www.gutenberg.org
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+</html>
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #30571 (https://www.gutenberg.org/ebooks/30571)