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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/30571-8.txt b/30571-8.txt new file mode 100644 index 0000000..68e455f --- /dev/null +++ b/30571-8.txt @@ -0,0 +1,4488 @@ +The Project Gutenberg EBook of Fanny: estudo, by Ernest Feydeau + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Fanny: estudo + +Author: Ernest Feydeau + +Translator: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +Release Date: December 1, 2009 [EBook #30571] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FANNY: ESTUDO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + Notas de transcrição: + + No texto impresso o tradutor, ou o impressor, não colocaram as + marcas dos capítulos XXXIII e XLIII. Esta tradução foi comparada + com o texto original, em francês (Paris, 1859), e as marcas de + capítulo colocadas em conformidade com a intenção do autor. + + Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipográficos evidentes. + + + + OBRAS + + DE + + CAMILLO CASTELLO BRANCO + + EDIÇÃO PARA BIBLIOPHILOS + + XVI + + FANNY + + + +VOLUMES PUBLICADOS + + I--Coisas espantosas. + II--As tres irmans. + III--A engeitada. + IV--Doze casamentos felizes. + V--O esqueleto. + VI--O bem e o mal. + VII--O senhor do Paço de Ninães. + VIII--Anathema. + IX--A mulher fatal. + X--Cavar em ruinas. + XI, XII--Correspondencia epistolar. + XIII--Divindade de Jesus. + XIV--A doida do Candal. + XV--Duas horas de leitura. + XVI--Fanny. + + + + + FANNY + + ESTUDO + + POR + + ERNESTO FEYDEAU + + ROMANCE + + TRASLADADO PARA PORTUGUEZ, DA DECIMA OITAVA EDIÇÃO + + POR + + CAMILLO CASTELLO BRANCO + + + Aquelle, que cavar um fosso, cahirá n'elle; + aquelle, que derruir uma muralha, + será assalteado por uma serpente. + + ECCLESIASTES. + + + + _TERCEIRA EDIÇÃO_ + + + + LISBOA + PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA + LIVRARIA EDITORA + _Rua Augusta, 50, 52 e 54_ + 1903 + + + + + Officinas typographica e de encadernação, movidas a vapor + Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º + LISBOA + + + + +I + +A caza está situada de esguêlha, sobre um comoro de areia, á orla da +praia, olhando de soslaio o oceano, como desconfiada d'elle. É uma casa +baixa, de pavimento plano, com um recinto ao rez do chão, um portal, +seis janellas, e uma chaminé de gêsso, meio esburacada, no cume do +telhado. + +Á primeira vez que de longe a vi, caminhando eu atravez de desertos +cabedellos, tinha ella um tão triste aspecto, que eu senti serrar-se-me +o coração. Estava inscripto o desamparo nas largas fendas que +desconjunctavam as paredes, e nas rachas profundas das telhas +desmantelladas. Gemia a porta a cada bulcão do vento que a embatia +contra o gonzo unico. Das montanhas aquosas do oceano erguia-se, como um +sudario, a nebrina que a envolvia. + +Fazia frio. Uma briza cortante sacudia, silvando o dorso das vagas, +marulhando-as, revolvendo-as, e espedaçando-as. Rolos de areia, de +mistura com entulho, limos e cardos, refluiam até á testada da porta. Do +outro lado, á maneira d'uma nodoa verde-escura, crescia a herva, que +invadia o antigo jardim. + +Uma pobre arvore, vergada sobre a parede, do lado de terra, escassamente +sustentava a ramagem que a ventania furiosa atormentava. Junto á raiz, +conservava apenas alguns restos de folhas dessecadas. Com lamentavel +aspecto, se erguia ella, dentre os sacões do vento, mas a goteira de +chumbo, pendida da cornija, e açoitada pelas refegas oppostas, +rossando-lhe nas grimpas, desfazia-lh'as a pedaços. + +Eu, ao querer desterrar-me da sociedade, lembrei-me d'esta abegoaria, +que meu pae me herdára, e era o restante d'um casal, já desbaratado. Vim +alli procurar o silencio e a solidão. Mas não reparei o solar da porta, +nem fiz cultivar o jardim. Deixei as fendas do tecto, pelas quaes se +coava a chuva; deixei as fendas nas paredes, por onde irrompia o +asperrimo furacão das noites do outono. Não chumbei o gonzo do portal. +Não levantei a goteira de chumbo. Não me amiserei da velha arvore que se +estorcia como um crucificado contra o muro, por que a sorte não se +amiserára de mim. + +Installei-me na salla unica sem alterar nada da sordida mobilia. Um +banco de pau foi a minha cadeira; um monte de cisco, revessado pelo mar, +foi o meu leito. Nunca na chaminé se accendeu lume. Nutri-me do pão +negro e duro dos marujos. Bebi agua empoçada que me dava a cisterna. + +E desde o dia que entrei ahi até ao dia em que isto escrevo, nunca mais +sahi da casa triste. Prostrado sobre a folhagem dura, sentado no banco +estreito, com os joelhos justa-postos, os braços pendidos, as mãos +inclavinhadas, a face descaida, deixei correr os dias indifferentemente. +Como os bois corpulentos, que eu via, na minha infancia, ajoelhados +entre as hervagens dezertas, eu ruminava o pasto amargoso das minhas +remeniscencias. + +Com tudo, algumas vezes, com o passo vacillante dos ébrios, transpunha +eu o limiar da porta, e errava lentamente, e cambaleando, em roda da +minha habitação maldita. Á luz gélida e palida das estrellas de +novembro, contemplava-a eu, comparando-a a tumulo abandonado, que +apodrece debaixo das hervas, e espantava-me sempre de a vêr em pé, +gemebunda, sob os açoites do vento que a verberavam. + +Nunca, porém, me alonguei d'ella. Fóra d'ahi quem poderia attrahir-me? O +oceano, d'um lado, desdobrava suas ondas enfurecidas com clamor monotono +e afflictivo; do outro, o areal, mosqueado de manchas verdes, +alongava-se a perder de vista; por cima, rolavam as nuvens pesadas e +silenciosas. A minha casa era a unica, que recortava o horisonte +carrancudo com seu triste perfil; e o promontorio de rochas pardacentas, +ante mim, alongava sempre no flanco do mar o seu grande braço +minacissimo. + + +II + +Se voluntariamente me exilei n'esta horrida solidão, é por que, por +desgraça minha, amei, e amo ainda. Não cuideis, porém, que algum +terrivel successo me distanciou, a meu pezar, da mulher que amo. +Prouvera a Deus!... Poderia ainda abençoal-a! + +Desde muito que eu a amava sem ousar dizer-lh'o. Separavam-nos tantos +estorvos, que o combatel-os me atemorisava. Tinha eu então vinte e +quatro annos, de mais a mais! Eu corava quando nossos olhos se +encontravam. Diante d'ella, tremia, commovido pelo extasis. Comprehendeu +por fim que eu a amava, e serenamente, como quem se arremeça a transpôr +uma barreira, ella mesma, com sua mão gentil, removeu todos os +obstaculos. + +Oh! era por isso mesmo, sobre tudo, que a eu adorava. E, depois, tão +meiga e linda! Aos trinta e cinco annos, conservava toda a frescura e +jovialidade da meninice, e a estes encantos alliava um não sei que de +serêno que as mulheres adquirem na experiencia e costumes da +sociabilidade. + +Era alta, elegante, e de leve delgada nas espaduas, breve a cintura, os +encontros modestos; e o pizar mesurado denotava na sua firmeza uma alma +activa em agil corpo. Por costume, deixava cair os braços de rainha, e +nus os ajuntava cruzando as mãos, quando estava em pé: então, as grandes +dobras do seu vestido de veludo-granada, caíam-lhe verticaes sobre os +pés arqueados, e a cauda firmava-se no chão; e, quando caminhava a +passos solemnes, erguia um pouco a formosa cabeça, radiosa sobre colo de +cysne, suavemente inclinado. + +Sentada, gostava de encostar a face á mão direita, repousando o braço +esquerdo sobre o setim brilhante da cadeira que seus dedos afilados como +franjas de marfim, rossavam de leve. Tinha cabellos loiros e lustrosos, +que desciam em espiraes ao longo das fontes, das faces pallidas, e em +redor do colo. Fronte pequena, nariz d'uma exquisita e suave belleza, a +barba liza, tudo em harmonia com as sobrancelhas arqueadas, e os labios +finos e justa-postos. Os olhos azues, em fim, d'um azul sombrio e meigo, +e amplas pupilas negras, languidamente envoltas em palpebras salientes +franzidas de cilios espessos, tinham uma expressão de ternura, de +candidez, de spasmo, de pureza que me irritava e endoudecia! + +Amei-a perdidamente, e assim a amo ainda. E ella... amava-me como sabia +amar, com interior reserva, calculadamente. A naturalidade do seu ar +acanhava-me. Ainda quando me apertava em seus braços com transporte, +parece que me distanciava de si. As rainhas e imperatrizes devem amar +assim os seus amantes. Foi por isso que eu, desde o principio, soffri, e +vim até este extremo em que me vêdes. + +Como eu quizera passar com ella os instantes todos da minha vida, +procurava todas as occasiões de encontral-a. Não podia contentar-me com +as duas horas que ella me dava de cada semana. Eram tantos os seus +encargos domesticos! E eu imprudentemente a perseguia por toda a parte, +ficando muitas vezes horas inteiras, com o rosto ao vento e os pés no +gêlo, só para vêl-a, passar, graciosamente encapuzada no capuz de sêda +côr de rosa, atravez do vidro de sua rapida carruagem. Todas as noites, +com o coração angustiado, errava eu, por entre os nevoeiros, debaixo de +suas janellas luminosas, ou, rebuçado e confundido com a gentalha, lhe +expiava a saida do peristylo do theatro dos italianos; ou, encostado á +couceira de uma porta, a esperava longo tempo para vêl-a entrar no +baile, com os cabellos enlaçados de flôres, as espadoas nuas até aos +seios, e então observa se o «corpinho» de setim branco tremia sobre a +pressão anceiada de seu peito, quando me via. Custava-me a não me +ajoelhar aos pés d'ella, quando a cortejava respeitosamente. + +Ahi, no baile, n'esse ambiente pesado e saturado de acres perfumes, sob +os raios deslumbrantes que irradiavam como flechas do coração dos +lustres, eu a contemplava movendo-se graciosamente. Seguia-a com os +olhos, encostada ao braço d'um ancião cravejado de medalhas, que a +denominava affectuosamente pelo seu pronome. Distinguia-se entre todas, +quando, de fronte soberana, e pisar magestoso, circulava por entre os +grupos. Contemplava-a ainda, quando meio recostada ao espaldar d'uma +cadeira ampla, cortez sem frieza, acolhia os preitos dos mancebos +graves; ao passo que, unida ao hombro d'um walsador infatigavel, immovel +a cabeça e o tronco, redemoinhava em ondas de gaze e rendas, aos +accordes melodiosos das flautas e violinos. Coruscavam-lhe então os +olhos como estrellas, sob as flôres que se desinastravam das espiraes +dos cabellos. Desjunctavam-se os labios para se verem as perolas dos +dentes. Purpureavam-se-lhe, como ao contacto dos meus labios, as faces +pallidas, e as alvas espadoas. + +E a cada rodopio, a ponta do pequenissimo pé, mostrava-se á orla do +vestido que a rapidez do movimento fazia recuar. Mas nem as seducções +das homenagens, nem as excitações da walsa, nem a minha mesma presença, +conseguiram excital-a! Com semblante alegre tudo acolhia com +tranquilidade egual de aspecto. Isto, mais que as sollicitações do +olhar, turvava e empallidecia aquelles, cujos olhos encontravam os +d'ella. Com tudo, nunca lhe surprehendi essas maneiras meio-zombeteiras +e seductoras que são a falsa linguagem da lucta de um coração abalado +com um espirito indeciso; maneiras que desfarçam e colorem as +concessões, e irritam a esperança sem desanimal-a. + +Mas como é que a presença do seu amante a não perturbava nunca? Bem +podia eu fital-a até cegar na fixidez do olhar, que ella parecia não me +vêr nunca. + +Era mulher até ás pontas dos cabellos! + + +III + +Chegava emfim o dia suspirado! Erguia-me de madrugada, e todo me dava ao +infantil prazer de arrumar eu mesmo o meu quarto. Decorava-o de novas +flôres; baixava os transparentes de brocatol côr de rosa, enramalhados +de flôres, a fim de quebrar com suavidade o brilho da luz, que os +coloria magicamente. Refegava artisticamente os cortinados de cassa e +alizava com as mãos o tapete de cadarço do meu leito. Regulava o +relogio, cujo pendulo tão moroso então me parecia. Sobre um bofete de +páo das ilhas, dispunha em bandeijas chinezas, dôce de fructa, +pastelaria, e em roda calices de Bohemia, e alguns frascos empoeirados +de Marsalla. Mandava o creado passear até á noite, e ficava eu senhor +absoluto do meu elegante recinto. Ahi todo me agitava livre como a ave +entre ramagem dos bosques desertos, arredondando e brunindo com o peito +inquieto o dôce ninho dos seus amores. + +Que cuidados me não dava o prevenir os menores desejos da mulher que eu +estremecia! com minhas mãos pregava os alfinetes no pregador de veludo. +Tirava do estojo de marroquim escarlate o pente de dentes escamosos que +ella usava para alisar os cabellos descompostos pela pressão de meus +dedos tremulos. Atiçava o dôce fogo que se avermelhava entre as cinzas. +Aproximava do fogão a cadeira d'ella; trazia do divan a almofada em que +ella punha os pés, e eu os joelhos, na attitude dos devotos contemplando +seu idolo. E quando estava assim disposto tudo, quando o ponteiro +d'ouro, avisinhando-se do numero escolhido, parecia dizer-me: «Vais +ouvir soar a hora de teu prazer,» mais inquieto e agitado que nunca, ia +eu pé ante pé, da porta á janella, como vae e vem o cão fiel, +atormentado pela impaciencia, adivinhando o andar de seu dono. + +E eu dizia comigo: «A esta hora, tambem ella lança a furto os olhos ao +seu relogio. Sabe que a espero. Agora, deante do espelho, aperta na +barba o broche da capa de veludo. Incaracola os cabellos rebeldes sobre +a fronte pura. Involve as espadoas no chalé escuro, e aperta-o sobre o +peito com o alfinete de camapheu. Veste as luvas, e irrita-se. Sobre os +olhos negros accumula as dobras do véo tambem negro. Atravessa as salas +desertas. Passa. Roda a chave. Sae. Desce. Corre cozida com as casas. +Vou vêl-a! + +E depois, mais nada... Oh! que longo é o tempo quando se espera e +desespera! Se algum estorvo sobreviesse! uma visita, o capricho d'um +filho! Que desgraçado sou! não virá ella? Já se demora! + +E, com tudo, era-me tão dôce recebel-a aqui, uma vez mais, neste quarto +tão bem disposto para ella! Tão dôce o recebel-a nos braços, no limiar +da porta, e arrebatal-a para escondel-a como um thesouro! Tão bom +tocar-lhe as mãos, os cabellos, e vêl-a emfim fitar-me com seus olhos +lindos, e ouvil-a dizer: «tu» com aquella voz muzical! + + +IV + +Chegava ella emfim! Encostado ao alizar da porta entre-aberta, escutava +eu o fremito do seu vestido, e o ranger das botinas sobre o tapete da +escada. Entrava ella, roixa de frio, offegante, com as pestanas +lagrimosas, e, sem erguer o véo, sem dizer palavra, atirava-se-me toda +ao peito, cingia-me o pescoço, e, timorata e assustada como um +passarinho, applicando o ouvido, escutava, convulsiva, o menor rumor que +se fazia na casa ou na rua. + +E, quando emfim os mêdos se aquietavam, e que ella se decidia a transpor +o limiar, era uma como visão deslumbrante que alagava em ondas de luz a +camara fechada. Os menores objectos, com a presença d'ella, eram-me +thesouros inestimaveis. Tudo parecia animar-se então, como, nos +primeiros dias da primavera, despertam as florestas que dormiam sombrias +e taciturnas. + +Algumas vezes, comtudo, festivos raios do sol, coando-se pelas juntas +dos cortinados, atravessavam o espaço, e quebravam-se ao fundo da +alcova, sobre a superficie polida d'um espelho. As flôres das jarras, +postas deante das janellas, desfolhavam uma a uma, juncando o tapete das +suas frescas petalas. Segredando, de mãos dadas, palavras incoherentes, +contemplava-m'o-nos como arrobados, absorvidos n'uma commoção deliciosa +e entranhada que nos adestringia docemente o coração, e nos marejava de +lagrimas os olhos. Como nosso amor, como nossa alegria, eram infinitas +estas expansões; nossos pensamentos, porém, não ultrapassavam as paredes +discretas do quarto silencioso. Para nós o mundo todo estava alli. + +E como era aquelle devorar-m'o-nos de caricias! Que suave energia a dos +braços! que avidez nos beijos! que febril tremor nos gestos em quanto eu +lhe disputava em silencio os vestidos descompostos que ella retinha ás +mãos ambas, pallida d'um vago susto! Frenetico, de joelhos, cingia-a +pela cintura quebradiça, e ella, oscillante entre os meus braços +compressores, tomava-me a face entre as suas mãos, affastava-a com +meiguice, encarava-me, e voltava o rosto como se meus olhos a +aterrassem. + +E eu, como esquecido de minha dignidade, arrastava-me aos pés d'ella, +beijando-lh'os nus. Oh! se eu morrêra alli, collados os labios áquelles +pés infantinos, brancos e rosados, que ella poisava n'um tapete de +plumas de cysne, a tiritar entre seus véos como o anjo da inquietação +meio involto na plumagem de suas azas! + + +V + +Passado o primeiro momento da vertigem, parecia-lhe a ella coisa natural +o estar alli, ao tempo que eu a comprimia com ardor feroz. E então, no +explendor de sua desordem, desatadas as tranças, nuas as espaduas, nus +os braços, frios e viscosos os labios, mais muda, mais seria, mais +enleada que eu mesmo, estava tão senhora sua como se estivesse recostada +na cadeira de veludo ao pé do fogão de sua casa. Eu não sei o que ella +não fizesse com as mais naturaes e dignas maneiras! Nada a surprehendia +nem a molestava. + + +VI + +De cada vez, tinhamos sempre que trocar um mundo de pensamentos novos. +Recontava-m'o-nos fadigas da espera, tristezas da auzencia, aspirações +da esperança, e o quanto era consolativo para amantes separados, o +pensar incessante um no outro. Fanny sobre tudo se deixava levar desta +união espiritual com toda a expansão d'uma alma juvenil. Recebia as +confidencias da minha ternura, como efluvios de incenso, que a immergiam +n'uma especie de torpor dulcissimo. Com mudos raptos de gratidão, +rosadas as faces, palpitantes as azas nazaes, sorrindo no olhar +embaciado, maravilhava-se ella da abundancia de minhas palavras, como +imagens graciosas que volitassem dos meus labios. Não a fatigava o +ouvir-me.--Mais, mais, ó meu Roger!--dizia ella. E, encostando o +cotovelo á almofada, inclinada a fronte na mão, requebrado o corpo, os +pés a resvalarem, anediando-me a testa e os cabellos, olhava-me com +tanta fixidez, como se quizesse esmirilhar os mais subtis lineamentos da +minha alma. Entretanto, eu, de joelhos, com as mãos juntas, sorria de +prazer como creança amimada, e cuidava que assim era o identificarem-se +nossas almas n'um apertar vago e dôce, com estremecimentos voluptuosos. + + +VII + +No instante em que ella ia sahir, era então o irromper minha alma em +explosões de amor e angustia. E ella, pensativa, fitava nos meus, com +ternura, seus olhos azues e lympidos. Tomava-me affectuosamente as mãos, +que eu lhe disputava, voltando-me arrufado. Fazia-me graciosamente +sermões maternaes. Acariciava-me com bondade, abraçava-me, ia e vinha +para abraçar-me ainda.--Tornarei a vêr-te?--exclamava eu com +tristeza.--«Cala-te, Roger,»--respondia-me, abafando a voz n'um beijo. +Por fim, comprimia-a longo tempo ao coração; e, quantas vezes, ao +apartar-m'o-nos assim, sentiamos calidas lagrimas a cahirem nos labios +de ambos! + + +VIII + +A minha vida ia com ella. Melancolicamente encostado ao peitoril de +minha janella, via-a por entre as fisgas das persianas, passar na rua. + +Lá ia vagarosa, simples, tranquilla, bella. As duas fimbrias de seu véo +fluctuavam-lhe docemente sobre os hombros, acarinhando-lhe de cada lado +a face. + +A barra do vestido, relevada de folhos de seda, sussurrava com o +movimento. Com ambas as mãos ajustadas sobre a cintura, comprimia as +dobras da cachemira que a involvia desde a nuca até ao artelho. Nunca se +voltava. Encostava-se ao longo das paredes para evitar o embate dos +caminheiros. Emfim, chegando ao angulo da rua, desapparecia; e eu +atirava-me sobre o leito, escondia nas mãos o rosto, avocando, +hallucinado, todas as minhas remeniscencias esparsas para ainda assim me +illudir com possuil-a. + + +IX + +A primeira vez que ella ahi veio, não se espantou, mas examinava tudo o +que a rodeava, e em tudo bulia, com certo acanhamento. Havia lá espadas +de combate dispostas em tropheu. Lembra-me que ella reparou n'isso. + +Tambem se deteve diante de um retrato de minha mãe, que tinha sido +formosissima, e deante da minha escrivaninha, coberta de livros e de +cartas. Mas, com discrição cheia de graça, passou, sorrindo, sem tocar +nas cartas. + + +X + +Eu era feliz! Desprezava quantos não eram eu, porque ella os não amava! +De longe e de cima olhava o mundo. De tudo segregado, tudo via d'alto, +mas com indifferença, tumido de orgulho. Parecia-me que sobre mim +convergiam os perfumes todos da terra e sorrisos do céo. Nos olhares que +se encontravam com os meus, chammejavam os fulgores da inveja; e o +murmurar confuso das turbas agitadas, rumorejava aos meus ouvidos como +acclamações longinquas. + +A imagem de Fanny absorvia-me a memoria, e desprendia-se de meus +pensamentos todos. Era, a um tempo, mais irritante que um sonho, e mais +consoladora que a esperança. Nunca eu antevera seduções tamanhas em +humana creatura, tantas delicadezas n'um coração, tanta graça na +reserva, tanto pudôr na renuncia de si! + +Mescla de enthusiasmo e arrobamento, de illusões e desalentos, de +melancolia e criancice, fôra o bastante a conquistar-lhe o amor. +Parecia-me, todavia, pouco esmerada em attenções e cuidados. Tão amada, +por certo, tinha sido ella! Bella ainda, mais bella do que talvez se +cria, augmentava cada uma das suas graças com o esforço timido que punha +em evitar a apathia, que presentia de longe, com a vinda dos novos +annos. + +Dias tinha ella em que era possivel traduzil-a nos olhos, quando cerrava +os labios n'uma expressão de meditar mais affectuoso, quando seus +cabellos, fluctuando-lhe sobre as fontes emaciadas, em flacidas spiras, +as envolviam com uma especie de suave piedade. Contemplava-lhe eu então +as mãos candidissimas, e figuravam-se-me duplicadas, para que suas +ultimas caricias fossem mais copiosas e maternas. Escutava ancioso os +suspiros que lhe sahiam do peito opprimido: tinha-os como protesto surdo +do coração que reagia ainda á indifferença, desejando-a acaso como +repouso, e expedia a sua mais bella flamma, antes de retrahir-se em si +para morrer. + + +XI + +Eu era feliz! Mas a desgraça já vinha perto. Até então com a delicadeza +mais de incarecer, Fanny poupara-se sempre a fazer, diante de mim, a +menor allusão a seu marido. Com uma pouca de bemquerença, conseguira eu +phantasial-a livre e minha, sem partilha. Tão pudicamente se me déra +ella! Foi como rainha, sem nada mercanciar do que não podia ser vendido. + +Um dia, porém--como isto foi, não sei!--ressoou suavemente nos labios +d'ella o nome de um filho seu, e, em seguida, não pôde deixar de +fallar-me d'elles. + +Adorava-os com tão furioso amor, que me abandonaria se me eu não +comprazesse em ouvil-a repetir-me mil cousas pueris, tocantes a seus +filhos. Por mim fingia-me vivamente interessado n'esses contos, que ella +contava como abundancia extraordinaria de coração; eu, porém, +escutava-lhe mais a musica das palavras que as idéas. Eu adorava-lhe a +voz magica e melodiosa. E, de mais, eu era um tanto cioso de tudo que +ella amava. + +Fallava-me, pois, de seus filhos. O mais novo soffrêra d'uma epidemia +passageira, e eu quasi que odiei essas criancinhas pelo unico delicto de +se aconchegarem comigo no ninho de amor do mesmo coração. O que ella +então fez forçou-me a reflectir mui amargamente sobre a affeição que uma +mãe póde dar a um homem. Esteve sem me vêr seis semanas. Não desamparou +esse berço sobre o qual se estorcia o dôce thesouro vivo, formado do +proprio sangue do seu coração. Escreveu-me quatro linhas apenas, +admoestando-me a soffrer com ella. Homem orgulhoso que pertendes +dominar, unico, sobre o coração d'uma mulher! aos menores vagidos de uma +creança, vê que lição te dá a natureza! + +Á força de pensar n'esta creança, entrei a pensar no marido de Fanny; e, +a meu pesar, d'ahi a pouco, já não pensava senão n'elle. Nunca o tinha +visto. A mim que se me dava, n'outro tempo, de vêr o homem que lhe dava +o braço, para entrar no baile, e discretamente se sumia na multidão logo +que um circulo de admiradores a compelliam a isolar-se d'elle? + +A ella amava, a ella sómente eu via, por ella vivia... que me importava +o marido d'ella? + +Restabelecido o menino, Fanny, mais affectuosa e linda, ao primeiro dia +que me vio não percebeu que em mim havia um novo homem; adivinhou, +porém, que uma preoccupação secreta me alvoroçava, emquanto eu, +silencioso, lhe corria a mão sobre o braço nu. De repente, varada por +cruelissima suspeita, repulsa-me, ergue-se, e, voz em grita, jura que eu +a atraiçoara. + +Sorri com doçura a esta louca arguição; e, tomaado-lhe a mão como +convite a sentar-se, simplesmente lhe disse que hesitava em pedir-lhe +novo favor, com receio de ser indiscreto. + +--Que é?--disse ella, affastada ainda, e cravando-me um olhar de +surpreza. + +Respondi que as seis semanas de solidão me haviam feito reflectir +tristemente sobre a nossa imprevidencia; que sem suspeitarmos que +incidente algum podésse apartar-nos, nunca nos cohibiramos de nos +aproximarmos. Finalmente, com um embaraço que eu não podia dominar, +balbuciei: + +--Por que não sou eu admittido em tua casa? Bem sabia ella que eu +dissimulava a minha idéa, fallando assim: por que, de subito, +resplandeceu de sorrisos, e lançando-me ao pescoço ambos os braços com +vehemencia, confessou, córando, que, desde o primeiro dia, anciára +sempre o vêr-me em sua casa. + +--Por que m'o não dizias? repliquei eu, acariciando-a. Respondeu-me, +fazendo gesto pueril de amuada, expediente malicioso das pessoas que +querem ser adivinhadas. E eu, doido com os projectos da convivencia, +communicava-lh'os aos labios por entre beijos... Vêr... amar os filhos +d'ella... + +Já Fanny redobrava de elegancia o salão mais intimo em que seus amigos +eram unicamente recebidos. Que ventura poder, quasi todos os dias, +reunir em volta de si, os objectos todos de sua mais viva affeição! +D'ora em diante não seria obrigada a tirar o pensamento de seus filhos, +para ir em busca da minha imagem atravez do espaço, trazel-a para o meio +d'elles, e fazel-a docemente resplandecer n'esse recinto delicioso, +decorado por ella só, a seu bel-prazer. Eu de mim terei d'ora avante um +maior logar--não em seu coração que não é possivel--mas em sua vida, e +tomarei quinhão immediato em todos os seus jubilos, como em todas as +suas maguas. Era um bonito sonho! + + +XII + +Concordamos em acceitar eu o convite de uma amiga d'ella, que, todas as +semanas convidava a jantar. + +--Ahi nunca vae muita gente--disse ella--poderás facilmente ligar-te +comnosco. + +_Comnosco_!... Era a primeira vez, que, n'uma só palavra, ella associava +comsigo innocentemente o marido, sem dar fé da angustia que esta +alliança me causava. Querida Fanny! eu sentia-me empallidecer sob uma +oppressão indefinivel, e ella purpureava-se de contentamento. Depois +d'aquella palavra, terrivel para mim, e sem valor para ella, ergueu-se. +Tinham decorrido as duas horas. Separamo-nos. Com ella foi a confiança; +comigo ficou a esperança horrivel. + + +XIII + +Sim, esperança horrivel! porque eu não sei exprimir o que reluctava em +mim de duvida, anceio, e azedume meditando que ia vêl-a emfim sob os +olhos de quem lhe governava a vida. + +Tudo isto se misturava em meu coração como venenos e contra-venenos, e +d'esta abominavel mistura, fumavam vapores d'um travor tal, que eu me +sentia na cabeça latejar o cerebro, e os joelhos vergavam sob mim. + +Isto nada era, comparado ao que eu devia experimentar n'essa +estreitissima meza, onde á claridade dos globos, nenhum conviva poderia +esconder os pensamentos que lhe franzissem a fronte. Ao principio, nada +vi, e respondi ao acaso ás perguntas que me fizeram. Comia +machinalmente. Esforçava-me por ser attencioso e polido; mas denotava +mais inquietação que o assassino que se vê em risco de ser descoberto. + +Atordoado pelo tinido dos copos, pelo estrepito da baixella, pelo atrito +das porcelanas, pelo reverbero das luzes nas tampas brunidas das +terrinas, pelo vai-vem dos creados pressurosos que serviam, sem dizer +palavra, e se moviam sem rumor d'um passo, como sombras negras de luva +branca; e suffocado pela athmosphera calida da sala impregnada de +evaporações penetrantes, misturadas com o odor do vinho e o das flôres, +eu não olhava Fanny, nem mesmo a escutava. Tornou-se-me insopportavel a +par de mim a presença d'ella: era como um peso que me abafava. + +E tambem o não encarava a elle, elle, que eu viera procurar, de tão +longe, com o desejo e terror de conhecel-o. Inceguecido por visões +funebres, eu não podia vêl-o, com quanto elle estivesse defronte de mim. + +De repente recobrei a minha lucidez sentindo um pé de mulher rossar o +meu, e comprimil-o brandamente. Era ella a prevenir-me da minha +preoccupação visivel de mais. Dirigi-lhe um lanço d'olhos agradecido; e, +encostando-me ao espaldar da minha cadeira, contemplei detidamente +aquelle que mal sabia que possante interesse ingendrára em mim o estudo +da sua pessoa. + + +XIV + +Era uma especie de touro com face humana. De estatura mediana. + +Quando comia, atirava para diante, as espaduas robustas, e a cadeira +gemia sob a gravosa flexão dos seus encontros quadrangulares. Eu via-lhe +do meu logar, na testa, os arcos carregados das sobrancelhas hirtas de +cabellos grossos, e abaixo fulgurava-lhe um olho pardo e luzidio +d'aquelle brilho metalico que reluz na pupila impassivel dos carnivoros. + +Comia, ás mãos juntas, mãos carnudas e curtas, e levantava os cotovêlos +para melhor pezar sobre a faca brilhante, e sobre o cabo do garfo. Entre +cada prato respirava largamente, limpava a boca, e bebia a longos sorvos +grandes copos de vinho estreme. + +Não tinha má cara, nem vulgar. O aspecto era de força. Todo elle +denotava pujança extraordinaria de musculos. A superficie das faces e +queixo perfeitamente escanhotado, apparentava regidez marmorea, e a +fronte rasgada, limpida, cercada de cabellos negros já betados de +russas, revelava um espirito de vontade cheio de rectidão e +persistencia. + +Era affectuoso o sorrir d'elle, e o olhar desmalicioso, porém claro como +cristal. Incarava-vos de face, nos olhos, de um modo tal, que vos +julgarieis felizes, evitando esse espelho de aço incommodativo á força +de franco. O que elle tinha era dar cascalhadas estridorosas, repuchando +em sacões os peitoraes acima da cintura apertada, e descompondo para +traz a cara vermelhaça. Era grave e sonora a sua voz; o gesto +tranquillo, e um pouco sombrio. Tinha bonitos dentes, unhas rosadas, +brilhantes e bem feitas; em fim, dominava n'aquelle todo um ar de +inteireza e aceio. + +Pareceu-me ter quarenta annos. + +Primeiro, ao vêl-o, fiquei como humilhado: corri-me de entrar em +rivalidade com natureza tão possante. Involuntariamente me confrontei +com elle, eu, a par d'elle tão franzino, como o seriam quasi todos os +rapazes da minha idade. O que havia em mim de debilidade nervosa, e +fineza de raça, e de elegancia, amesquinhava-se em comparação d'aquella +riqueza de sangue, pujança de fórmas, e virilidade fria e pacata. Eu era +como um sylpho contemplando, assombrado, a estatua d'um gigante. Ao pé +d'elle que homem era eu? Forte e gentil expressão de homem era sómente +elle, eu não. + +E, mais cruel ainda para commigo mesmo, passava depois a comparação de +mim para ella. E, vendo-a sentada ao meu lado, dôce e loura como Eva, +candida como uma virgem, com aquella cintura de fada, e aquelle colo +requebrado em languor, e todo aquelle ar de timidez que lhe impanava a +face adoravel como a sombra d'um vapor... vendo-a assim, e tão delicada +no pensar, perguntava-me, eu, phrenetico, como é que ella poderá amar +tal homem? Violenta associação de duas naturezas que entre si não tinham +um ponto só de contacto! Irmanavam-se com a seda e com o ferro! + +Oh! Desdemona!--me dizia eu--que Othello escolheste! Mas mal sabia Fanny +que furor raivava ao seu lado! Dirigia-me placidamente a palavra, +olhando-me com ar de simples, e affastando com sua mão alvissima os +louros anneis que lhe volteavam como plumas sobre a fronte. E +fallava-lhe a elle, sem turvação nem embaraço... e dizia-lhe: _meu +amigo_, deante de mim. + +E elle, com menos embaraço ainda, lhe respondia, todo attenções e +deferencia, com ar, porém, de grande superioridade. + +O Hercules via n'ella um ser perigrino, mas absurdo: e por isso o que +lhe dizia eram bagatellas, com ar amavel e paternal, como os pais as +dizem aos filhinhos curiosos. + + +XV + +Terminado o jantar, e passados os convivas á sala grande, e sentados em +redor das bancas do whist, avisinhei-me lentamente de Fanny que aquecia +os pés ao fogão. + +Encostei-me ao rebordo da chaminé; e, com palavras de ternura que lhe +dizia a meia voz, intrometti coisas frivolas ditas em voz alta. Deste +logar via eu as costas dos jogadores inclinados sobre as bancas em que +flammejavam as velas, involtas dos seus quebra-luz, e incravadas em +magnificos castiçaes de prata; ouvia o ruido dos tentos de madre-perola, +e o murmurio dos equivocos que os parceiros se trocavam. Cuidava eu que +estariamos assim a seguro de reparos, com alguma astucia, até porque a +dona da casa fôra para o fundo da sala dedilhar no teclado do piano. +Novo encanto unido a outros tantos era aquelle dos accordes ondeando o +ar, a um tempo que as secretas melodias do amor, mais melodiosas ainda, +cantavam em nós. Porém, separando-se do grupo dos jogadores junto ao +qual até então estivera de pé, o meu rival dirigiu-se a nós com +semblante gracioso, e o mais natural possivel, e perguntou-nos em que +fallavamos. Com melindrosa urbanidade, que excluia todas as maneiras +familiares e nos distanceava um do outro, mas com serena voz e ares +cortezes, entrou elle a dirigir a conversação e eu não pude deixar de +acompanhal-o. + +Por entre as melodias da muzica, e a ternura das vibrações, de que elle +não dava fé, fallou-me de caça, theatros, cavallos, que sei eu! não +deixando mesmo de entrar no amago dos assumptos banaes que eu +imprudentemente escolhêra, mas que o interlocutor me condemnava a +repetir, como se elle os julgasse unicos dignos de mim. + +Dei-lhe duas ou tres respostas bastante arguciosas, e elle applaudiu-as +com os olhos, honrando-me com um gesto de assentimento. + +Assim pois que era eu para elle um instrumento assaz futil com cujas +cordas brincava rossando-as com as pontas dos dedos. Se elle soubesse +que em meu coração havia uma d'aquellas cordas, cujo som horrivel podia +restrugir-lhe nos ouvidos, e insurdecêl-o! + +Mais tarde, vi-o assentado ao lado d'ella, na sombra que fluctuava em +redor do clarão dos castiçaes. Sem me vêr a mim, nem a outrem, nem a +ella, apertava-lhe machinalmente a mão, scismando talvez em não sei que. +E eu, contemplava aquillo, como o mais estranho e monstruoso dos +espectaculos. Em quanto a ella, fixando os olhos nos meus, estava livida +como uma estatua de marfim; mas não ousava balbuciar, nem fallar, e +consentia. + + +XVI + +Desde essa noite, uma só preoccupação me dominou--dissipar do meu +cerebro a imagem do que vira. Quiz, á custa de tudo, esquecer aquillo +que me humilhava e esmagava o coração. Como eu me castigava do que +fizera! Absurda cubiça de conhecer o que ella tão de siso me escondera, +e que eu devia ignorar sempre! + +--Oh! não--me dizia eu--nunca mais ouvirei fallar deste homem temivel; +nunca mais lhe encontrarei os olhos dominantes; nunca os nossos halitos +hão-de encontrar-se na atmosphera da mesma sala; nunca mais, deante de +mim, ha-de a mão d'elle apertar a tua, ó mulher serena e docil! + +Tres dias depois, quando veio a minha casa, não viu ella em mim mudança +alguma. A colera, a pouco e pouco, enchera-me de suas fezes a alma; mas +dôr era esta que simulava a quietação da paz. + +Com apparencias de socegado, sentia-me ferido de morte. Golpeado no +coração, conservava o meu aspecto antigo, como aquelles fructos +escarlates cuja pele fina e tenra cobre carne que devora um verme +invisivel. E assim, de nada suspeitou Fanny. Todavia, como eu lhe +fallava d'ella, de mim, de tudo em summa, excepto do que mais a +preoccupava, Fanny parecia esperar anciosa. Por ultimo, no extremo da +minha contrafeita eloquencia, propellido pelo anceio de vingar-me d'uma +dôr nunca experimentada e cuja causa innocente ella era, lhe disse com +amargura: + +--Tu queres saber o que eu penso de teu marido, e talvez que te dês por +venturosa se o juizo que esperas não lhe fôr desfavoravel. Mas, Fanny, +tu nunca has-de saber o sentimento que elle me inspira. + +Pareceu-me que, ao ouvir-me estas palavras, todo o sangue do coração lhe +refluiu á face. Pobre mulher conciliadora! tanta alegria em chamar-me a +sua casa, para me vêr mais a miudo, para me unir a todos os entes doces +e queridos que lhe decoravam o coração!... + +--D'onde vem essa mudança, Roger?--murmurou ella com penoso esforço. + +«D'onde vem?!» exclamei eu infurecido... mas vi-lhe então o rosto +innundado de lagrimas; e logo, cahindo a seus pés, abraçando-a pelos +joelhos, disse-lhe brandamente: + +«É que eu sou horrivelmente desgraçado, Fanny!... É porque me devoram +ciumes... + +Ergueu-se de subito, como estupefacta, sem me repellir. Reteve-me +ajoelhado, pesando-me sobre os hombros com as mãos: eu permanecia de +joelhos, sem a comprehender. Fitou-me por largo espaço, profundamente, +explorando os intimos arcanos de minha alma inquieta. Depois ergueu +ligeiramente os hombros; e, baixando-se para me apertar a face ao seio, +exclamou: + +«Filho, meu pobre e querido filho!» + +E desde ahi, não tornou mais a fallar, por si mesma, neste assumpto. + +Eu, porém, pensava n'elle incessante e dolorosamente, sem poder +abster-me de o recordar. Affagava-me então ella, e reprehendia-me. +«Perdes o tempo»--dizia-me, sorrindo-me, e abraçando-me, se me eu +detinha muito na exposição das minhas tristezas. E seus braços se me +inroscavam no pescoço com ameigadora volupia, com a fascinação dos olhos +me violentava a olhal-a, com graciosa e morbida ternura collava aos meus +seus labios. Mas tudo em vão. Já se não franziam meus labios para +saborear beijos d'amor; agora era o confrangerem-se soluçando gemidos. + + +XVII + +Desde este funesto dia comecei a soffrer grandes torturas. A imagem +daquelle homem incrustara-se-me na memoria, e, por mais que eu fizesse, +não havia dilil-a de lá. Póde ser que aos olhos de toda a gente fosse +elle ridiculo, mas aos meus não cuidei que o fosse. Para mim, era +sinistro, terrivel, e, cada noite, espavorido, via-o, em sonhos, +trucidar carniceiramente o espectro da minha felicidade. + +O feliz era elle, que tudo ignorava. No drama começado por transportes +de amor, e agora prolongado a travez de anciedades, terrores, +desespêros, não representava elle: tão prudentes tinhamos nós sido! + +Atroz mudança de papeis! Era eu que tinha ciumes d'elle! O espoliador +soffria da posse pela posse. Não lhe restava mesmo o recurso de excitar +as suspeitas do espoliado para o fazer aquinhoar das torturas! + +E era-me força desconfiar e occupar-me d'elle! + +A meu pesar, para evital-o, cumpria-me ser ardiloso como a lebre. Este +papel de fugidiço, de temorato, degradava-me ao livel dos covardes. Meu +Deus! se eu a não amasse!... + +Em comparação dos males que deviam vir, aquelles nada eram. Principiava +a caminhar n'uma senda espinhosa, cavada de abysmos, e não sabia que +flagellações me urgia supportar antes de chegar ao termo. Desde então, +se deante do fogão, no meu quarto silencioso, eu tentava divertir a alma +da dôr presente, levando-a ás memorias de amores passados; ou esporeando +á redea solta o meu cavallo, arriscava cem vezes a vida para quebrantar +o corpo de fadiga, a fim de reverter sobre elle a fadiga de meu cerebro, +ou se pedia á orgia o esquecimento, bebendo a grandes tragos o vinho que +nunca me valeu uma gota d'agua do Léthes; ou se, n'um só lanço de azar, +expunha os meus haveres para soffrer sequer uma sensação diversa +daquella que eu execrava; ou, se emfim, envolvido nos cortinados da +minha alcova, eu passava as minhas noites inteiras a lastimar-me, +invocando os phantasmas dos seres adorados que perdi: nunca, nem no +sonho, nem no perigo, nem na embriaguez, nem no jogo, nem ainda na +remeniscencia da minha mãe morta, eu pude conseguir estrangular a +serpente que me atassalhava o coração. Comigo, a visão fatal sorria aos +meus amores juvenis; comigo, cavalgava ella o meu cavallo espantado; +zombeteando, molhava ella os labios palidos no meu copo; no copo do jogo +fazia ella o tilintar dos dados; comigo, emfim, meditava ella em minha +mãe. Á flôr de minhas recordações todas, scenas incantadoras, +affectuosas, terriveis, que eu restaurava com a memoria, do fundo de +minha alma, surdiam incessantemente outras lembranças, outras imagens +que espancavam aquellas. + +E não havia remedio senão acolher aquellas abominaveis lembranças; +affrontar de rosto com aquellas funestas imagens, porque era a isso +violentado; venciam-me, e eu então, encarava-as! + +Havia ahi alguma coisa horrida, humilhadora, e angustiadissima. + +Só quem ama póde formar idéa vaga de minhas agonias. Era tudo claro e +patente: nenhum refugio para a duvida! E eu me reprezentava a mulher +amada, linda, elegantemente vestida, meiga, candida, assentada ao angulo +do fogão em sua sala, ou á meza, no logar de honra, em face de seu +marido, rodeada de amigos, e filhos. Affavel sempre, com attenções +delicadas para todos, attenções que são a magica linguagem da graça do +coração. E para o dominador mais carinhoso que para os mais! Era-lhe +forçoso prevenir suspeitas de homem tão prespicaz: como não seria ella +carinhosa? E, a de mais, entre elles existia a communidade de tantas +coisas--interesses, filhos, viverem juntos, a toda a hora, alegres ou +tristes, sem nunca se apartarem!... E quantas expansões naturaes!... Era +elle o leão dominador daquella adoravel existencia; e eu, o lobo temido, +e salteador, de olhar ferino, esbaforido, que, de tempo a tempo, a risco +de perigos mil, exposto a humilhações degradantes, a uma bala, o roubava +nas trevas, em quanto elle dormia, alguns restos do seu quinhão. + +Oh! era isto o que me humilhava muito; mas aqui vereis o que me fazia +pedaços o coração. Eu não podia suspender o trabalho indefesso de minhas +evocações. Completava-as, ruminando minhas dôres, com satanico prazer. +Então se mudava a scena, e figurava-se-me Fanny, por noite, só por só +com elle, depois da saida dos filhos, na alcova fechada, onde o chá +fumegava nas chavenas, ao suave clarão da lampada, ao pé do lume que +docemente crepitava nas cinzas quentes. E ella a olhal-o com aquelles +mesmos olhos que eu amava tanto! E a conversar com elle, amavel, facil, +fallando pouco para lhe deixar o prazer de fallar, submissa como convém +á mulher quando é formosa, e o dominador é forte. E não cuideis que eu +ficasse n'estas imagens de seductora intimidade. + +Não podia. Continuava-as, exaggerava-as... que sei eu!... ajuntava-lhe +outras. Era forçoso que assim fosse, assim devia ser. Era tarde, +agonisava a chamma no fogão obscuro, a lampada mortiça abafava os seus +lampejos no quebra-luz, callavam-se todos os rumores na casa e na rua; o +passo sonoro do caminheiro retardado, marcava a hora do repouso e do +prazer. De mais, meninos e creados, tudo estava na cama. Estavam elles +sosinhos. E eram esposos!... + + +XVIII + +Chegado até este ponto, tornava-me pallido. No mais recondito de minha +alma, alguma coisa se estorcia e agonisava em convulções desesperadas. +Estas imagens, evocadas cada noite, tornavam-me mais desgraçado, que se +eu tivesse visto a mulher adorada cuspida em minha presença. Erguia-me, +e via as horas; depois, despregava a rir, como doido, ou, involvendo a +cabeça nos braços, lançava-me a chorar sobre o leito. + + +XIX + +De madrugada emergia do meu pesadelo, mais quebrantado que o ferido d'um +tétano. + +E se me arrastava á janella, para aspirar um pouco de ar puro, a mesma +pergunta me desabrochava nos labios calcinantes como flôr venenosa: + +Por que o amou ella n'outro tempo? Que ella o amou, já m'o disse; foi +por elle tirada á familia que a não queria ligar a um homem sem posição +e sem riqueza. Enriqueceu depois, por que é energico e paciente. Sabe +querer. Mas por que o amou ella? E, depois, por que me ama ella hoje a +mim? Somos tão differentes um do outro! + +Um dia, finalmente, á força de moer n'esta ideia, e joeirar-lhe no +espirito os venenos todos, julguei que ia penetrar o proceder de Fanny. +Lembrando-me quanto ella era sensivel ás caricias; figurando-me as +scenas mais deleitosas do nosso amor, e comparando-me ao marido, +invergonhei-me e alguma coisa mais acre que o desgosto, mais amarga que +o despreso, mais peçonhenta que o odio, me subiu do coração aos labios. + +--Ora ahi está por que ella me ama hoje--me disse eu sacudindo a cabeça. +Veio depois auxiliar-me a analyse mais uma vez, mas para ferir-me +covardemente com uma nova punhalada.--Ama-me para variar--disse eu +amargurado--para satisfazer, um contrario exagerado, um desejo mais +sentimental, mais delicado. A não ser para completar o seu ideal... +accrescentei eu sem reflectir na crueldade da supposição. + +Mas em tal caso--grito eu com terror indisivel--eu não sou para ella +mais que metade d'um homem! Encho apenas metade d'um coração! Fui +medido. Acharam-me incompleto. Sou escassamente uma addição! Não passo +d'um complemento. + + +XX + +Algumas vezes fugia de casa como d'um carcere, e ia espairecer minhas +interminaveis meditações na multidão que peja os passeios. Achando-me +entre pessoas felizes, indifferentes, occupadas; saboreando, a meu +pezar, os primeiros effluvios balsamicos da primavera, cessava de +julgar-me tão absolutamente miseravel, e classificava de creancice as +mais monstruosas hallucinações--É o ciume--dizia--que me torna absurdo. +Encontrando a cada passo tantas mulheres bonitas, elegantes, pelo braço +de cavalheiros, os quaes com ar de aborrecidos, volteam os olhos em +deredor, e escassamente lhes respondem, accrescentava eu:--Quantas +mulheres habitam sob as mesmas telhas com seus maridos, sem repararem +n'isso! Ao cabo de quatro annos de intimidade, o marido converte-se em +amigo, e nem sempre! É de toda a gente, menos de sua mulher... + +Mas logo vinham as duvidas a mortificar-me, cada vez mais pungitivas, e +eu debalde a repelil-as de meu espirito. Que farte me conhecia eu para +saber que não poderia jámais adquirir o espirito de conformidade com o +meu seculo que permitte ao amante d'uma mulher cerrar a mão de seu +marido, amigo só que seja! Além d'isso, eu não queria cortejar esse +dominador, nem ajustar-me aos seus caprichos, nem tornar-me para elle o +homem indispensavel. Eu vaticinava--se as suspeitas alguma vez o +molestassem--quantas semsaborias me seria preciso fazer, quantas +mentiras engenhar, quantos desgostos e aviltamentos supportar para +destruil-as. E para aviltamento já bastava! D'aqui avante não +passo--protestava eu--já é de mais o lamaçal do meu caminho. + +Mais cançado e inquieto que na sahida, voltava para casa. Os sorrisos da +primavera faziam-me vontade de chorar. A mornidão da atmosphera +ingravecia-me no cerebro os pensamentos. O espectaculo, e sussurro das +multidões ao longe, tornavam ainda mais incomportavel o silencio da +minha soledade. + + +XXI + +Em troca d'estas dôres, que por serem silenciosas, não eram menos +crueis, nenhuma consolação eu recebia. Os meus prazeres eram extinctos. +A duvida resequira as novas flôres d'elles com seu impuro sopro. + +Apenas meus sentidos se atrophiavam, vinha logo a mão adunca da +mysantropia cravar-se-me no hombro. A lembrança d'aquelle que, na logica +da minha paixão, eu nomeava meu vival, como spectro de suplicio infindo, +vinha interpor-se entre mim e ella, com uma atroz ironia, para +empeçonhar nossas caricias. + +Eu via os traços d'elle nas palavras, nos gestos e modos e costumes da +mulher que eu adorava. N'aquelles braços que me apertavam ao coração, +estavam os seus moldes. No sangue que ondeava desordenado nas arterias +de Fanny, se infiltrára elle. Via-o na fronte pallida, no rosto +contemplativo, nos olhos amortecidos, todo n'ella, abraçando-me, com +ella, e suspirando nos seus suspiros... Como eu invejava amigos meus +abandonados, que se aturdiam juntos, nas bachanaes, ao tilintar do oiro +sobre os panos verdes das mesas do jogo, ás francas gargalhadas das +mulheres perdidas! E todos os amantes desdenhados, que, de braços +abertos e olhar internecedor, perseguem, sonhando, uma sombra altiva! E +ainda todos os amantes separados! Nenhum d'elles--dizia eu +lastimosamente--soffreu jámais por seu amor infertil, tanto quanto eu +soffro por meu amor partilhado. Zombaria atroz da possessão! quando nos +não fatigas, deshonras-nos. + + +XXII + +Em fim contristava-me o desapreço que, a meu pesar, soffrêra o idolo em +minha alma. Até ahi, era um verdadeiro culto o que eu sentia: a +realisação de quanto eu sonhara puro e angelico, era ella: affizera-me a +vêr em Fanny alguma coisa sacratissima, impossivel de deperecimento ou +macula. Agora, via-a voluntariamente cahida do altar em que a minha +piedade a erguêra para manchar seus pés no contacto da terra, e +confundir-se no vulgo. Era isso o primeiro e mais cruente effeito do +ciume, que principia sempre por nos incutir uma horrivel mescla de +adoração, odio, furor, e desprezo. + + +XXIII + +Comprehendi logo que estava travado para sempre, entre mim e Fanny, um +duelo de morte. Todos os meus pensamentos me vinham do fundo do coração +inficionados d'uma certa grosseria. Morrêra o respeito em mim. +Dominavam-me ideas brutaes de lucta. Esporeava-me o desejo acerbo de +castigar rudemente aquelle ente inoffensivo e graciozo que eu amava pela +vida! Eu queria invilecêl-o diante de mim ainda mais do que a sua imagem +se invilecêra na minha memoria. + +Como pôde ella resolver-se a isto!--exclamava eu inraivecido!--Oh! que +execravel zombaria é isso de pureza de mulheres! Parece que os beijos +são coizas fugitivas, dos quaes nada lhe fica nos labios logo que os +enchugam. + +Não podia mais. Fanny entrou na partilha das torturas que até então eu +guardava comigo só. Os homens não sabem soffrer longo tempo, sem +descarregar covardemente o pezo de suas penas, sobre quem elles mais +amam. + + +XXIV + +Tu sabias que eu era cazada! + +Foi a suprema razão que ella unicamente oppoz, com ar timido, aos meus +primeiros queixumes, ainda moderados. + +Eu respondi: + +«Não sabias tambem tu que eu podia ter uma alma dedicada, e não podias +prever, sendo minha, que tormentos me deviam cauzar o teu amor? + +E depois, perguntei-lhe, sem preambulo, e violentado: + +«Como viveis juntos? + +Ella corou: estava offendida. + +Não devemos fallar d'isso, Roger--respondeu com frieza. + +Mas tão desgraçado me viu, que, por commiseração, fallou, violentando os +seus mais castos sentimentos. Era redobrar-me o supplicio. + +Ella, porém, não me disse tudo. Aguilhoado pela cruel necessidade de +conhecer a extensão da minha desgraça, querendo saber, á custa de tudo, +onde ella acabava, instei, ferindo-lhe o pudor. Eu estava enfiado e sem +ar. Poz-me a mão na bocca. Ficamos silenciosos. Fanny contemplou-me +longo tempo. Chorava, e ella tambem. E, por fim, tragando o calix até á +derradeira gota, disse-me que ia responder-me. + +Eu, chegado a este extremo, com embaraço imprevisto, com uma hesitação +que obscurecia as minhas palavras e abafava na copia d'ellas a froixa +luz da intenção que eu tinha; com uma turvação doloroza, que augmentava +a angustia do coração animozo; illaqueando o pensamento na rede das +divagações e periphrases, como se eu quizesse demorar o momento de +conhecer o que eu temia saber--interroguei-a ácerca de mil coisas +tendentes a velar de mim a existencia intima d'ella. Respondeu-me com +simplicidade, tão embaraçada como eu, vencendo, porém, intrepidamente a +vergonha deste estranho interrogatorio, com o fim de mitigar-me as +dôres, e dar-me um exemplo de desgostos que póde vencer a mulher que +ama, quando é desgraçado quem ella ama. + +E deu-se então em mim uma successão monstruoza de caricias e golpes; +mistura sem nome de balsamos e venenos; associação horrivel de martyrios +e glorificações. O facto execravel, cujo desmentido era impraticavel, +permanecia em toda a sua plenitude; porém, quantas consolações podiam +modificar-lhe o corrosivo e humilhante, todas ellas carinhosamente me +prodigalisou, espiando com sobresalto em meu rosto o effeito das +palavras confusas mas comprehensiveis, que pronunciava. A uma derradeira +pergunta, mais brutal que as outras, que eu de golpe lhe fiz, deu-se +n'ella uma soberba explosão de revolta, que me fez cahir a seus pés, +pedindo perdão. Eu devia crêl-a. Muito ávante tinha eu ido nas +conjecturas do meu ciume. Fanny repartia-se; mas não pensava sem horror +n'essa repartição. + +Se eu a amasse menos, decerto me sentiria exaltado pela dolorosa +confusão que ella acompanhava de tantas consolações, pelas lagrimas que +lhe derivavam na face, quando me descobria a chaga sangrenta da sua +vida; eu poderia ficar altivo e grato, ou compungido ao menos d'aquella +tamanha dôr e humildade; mas, em meu espirito, havia uma só preocupação, +que me alheava de mim mesmo. Fóra d'ella nada comprehendia, não pensava +em nada. + +Não tive pois palavra boa que lhe dissesse; satisfiz-me mostrando-lhe +receios pela sua tranquilidade. + +«Teu marido deve suspeitar, vendo-te mudadada; por que tu amaste-o +n'outro tempo. + +A esta monstruosidade, encolheu os hombros, e não enchugou as lagrimas. +Roger! Roger--disse ella--é pena que tu sejas sempre creança. Ouves, e +não comprehendes. Pois por ventura os nossos maridos pensam em nós? Que +mulher tomaria um amante, se o marido lhe desse o que um amante lhe dá? +Já não digo os cuidados, as attenções, os bons modos, a amizade; mas um +pouco desse balsamo que é a essencia da nossa vida toda--um pouco +d'amor! + + +XXV + +Esta penosa discussão avantajou Fanny na minha estima, mas não me +consolou. Que me importa a mim para o essencial o modo imperceptivel da +intenção! O facto brutal era o mesmo. Não obstante, reprehendi-me da +curiosidade do meu ciume, que até me roubava a sombra da duvida que eu, +por momentos, affagava ainda. + +Não podia, pois, atenuar a minha dôr o effeito das ultimas palavras de +Fanny. O que eu queria era vencer o invencivel, por que era oppressiva a +mesma angustia. + +Eu espiava o olhar de Fanny como querendo calcular-lhe as forças, antes +de aggredil-a de novo. Mas os nossos olhos tinham-se encontrado, e não +podemos mais tempo resistir a nós mesmos. Fugiu de minha alma a menor +idea de lucta; do coração d'ella fugiu o menor desejo de resistencia; e +o abraço que nos apertou era tão forte, que, mais uma vez, gostamos um +minuto de verdadeira felicidade. + + +XXVI + +A confissão, que eu arrancara a Fanny, devia fazel-a soffrer tanto como +a mim. Ella, porém, tão pouco se individualisava na offensa, que, desde +esse dia, em que eu lhe patenteei as minhas dôres, todas as suas +escondeu de mim, e risos me trouxe sempre, como a convidar-me +graciosamente a dominar os impetos do meu carater. Pobre mulher, que +vinha visitar-me por tempo horrivel, e a sua mais instante preoccupação +devia ser o urdir mentiras que legitimassem a sua ausencia de duas horas +em cada semana. Apesar d'isso, resistia aos aguaceiros da primavera, +como ás nevadas do inverno. Nem mesmo fallava dos incommodos que +precisamente devia soffrer para arrancar algumas horas de liberdade ás +estreitesas da escravidão da familia. Ria gentilmente dos seus vestidos +molhados, despindo a muito custo as luvas, ageitando os cabellos +desanelados, e chegando ao fogo a biqueira das botinhas fumegantes. +Tinha como brio de se vêr em minha casa depois de haver-se exposto a +perigos tamanhos, feliz por a não terem encontrado, contente porque me +via menos triste. O vencer obstaculos, a conservação do segredo, manter +a estima da sociedade, o cuidar do meu repouso, tudo isso não a deixava +sentir o cansaço. Não ha felicidade perfeita--dizia-me ella +enternecidamente com um suspiro--ambos pagamos á tristeza o tributo do +nosso amor; mas este amor é tão bom que o tributo que a tristeza recebe +não me parece uzurario. + +Nunca suggeria discussões; nunca foi a primeira a fallar-me dos seus +deveres, que muito apreciava, e dos quaes me sacrificara a melhor parte. +Com seu maravilhoso instincto de mulher, adivinhava que não podia +fallar-me de seus deveres sem me irritar o orgulho, e ella respeitava o +meu orgulho, como cauza de soffrimento, quando mesmo o feria. Nunca pude +surprehender-lhe sombra de remorsos. Mas têl-os-ia ella?... + +Quando eu estava sósinho, pensava assim:--Que cautellas terá ella tomado +para dissimular este amor? que invenções! que calculos! que ardis! para +se furtar a discussões sobre as suas sahidas! Quantas concessões para +não ser descoberta! E tanto que arrisca! Pobre mulher! Tanto tem que +perder! E eu tão pouco! Ah! que mau homem sou em atormental-a! + +Tratava-me ella por creança, e, com franqueza, eu o merecia bem. Quantas +coisas eu sabia do seu viver que ella me occultava, com medo de +penalisar-me! + +Eu não queria comprehender nunca que havia dias em que lhe era +completamente impossivel sahir, e a mais banal visita era bastante a +retêl-a em casa. Desconfiava então de abominaveis calculos. Affirmava +que ella me mentira. Cuidava que procedia a falta de excitações e +fadigas na partilha que ella devia detestar. Odiava-a. + +«Fases-me piedade! dizia ella quando eu lhe deixava vêr os horrores do +meu infermo espirito. + +Todavia, algumas vezes, meio esquecido de minhas magoas pessoaes, para +entrar ás profundezas da consciencia, dizia em mim: «Quando a tenho +torturado bastante, quando ella d'aqui sae chorando, attribulada, +golpeada no coração, perguntando-se se me tornará a vêr em sua vida, que +fará ella na rua para disfarçar o tormento que a aperta, e mascarar o +rosto com o gesto de habitual tranquilidade, para volver á mulher +risonha que eu conheço? Será á custa de carinhos que ella affasta as +suspeitas de um marido difficil de enganar? Ah! que lagrimas ella deve +chorar com seus filhos! São tantos os esforços dolorosos que elles lhe +custam! + +E como sei bem que elles adivinham o segredo das lagrimas d'ella! E quão +certo é que, semelhantes á mãe, tão bons, tão discretos, com suas +mãosinhas lhe enchugam os prantos, sem lh'os trahirem. + +Fanny soffria horrivelmente. Via-se-lhe o amarellecer da tristeza. + +Eu, sem lh'o dizer, observava o circulo negro que marmoreava a +circumferencia de seus olhos elanguecidos, e lhe dava ao olhar estranha +expressão de piedade. + +Via-lhe contrahidos os labios; e as rugas que subiam da fronte +perderem-se sob os cabellos sedosos como symbolos visiveis de dolorosos +pensamentos. Consternava-me este ar de desleixo que a definhava. + +Diante de mim sómente ella affrouxava a rigidez do seu porte, e eu da +melhor vontade lh'o perdoava: devia estar cansadissima de representar de +senhora feliz! + +Quem lhe dera a ella poder tudo confessar, e viver francamente commigo, +sem ignominia! + +«Não me deixes--dizia-me ella por vezes--Tu es-me necessario como a +luz!» + +E outras vezes accrescentava: + +«O que me prova que eu te amo, é que eu amo tudo que é teu, o teu dôce +egoismo até, até a tua colera, mesmo as tuas sublimes injustiças! + +Depois, ficava subitamente callada, como se algum funebre pensamento, +que não ousava confessar, a angustiasse sem desabafo. + +Eu observava-a, e ella sacudia a cabeça. Depois, retorcendo os dedos, +exclamava: + +«Trahir! trahir sempre! Eis aqui o horror que tudo me invenena, mesmo a +idea da minha felicidade. Eu sou a mais miseravel das creaturas. Deus +negou-me força, e, por toda a vida, cumprirei a sentença da minha +fraqueza. Tenho vivido sempre diversamente da vida que quizera ter; +tenho visto sempre ao pé de mim o que eu quizera fazer. Trahir! meu +Deus! como eu me detesto! + +Tomava-a então nos meus braços para applacal-a; mas não achava que +responder-lhe--De que quer ella fallar?--Perguntava-me eu estupidamente. + +Devia de ser do facto da perfidia; mas eu conhecia-a ainda mal, e +attribuindo-me as palavras fugidas á consciencia d'ella, sentia-me feliz +e orgulhoso. + +Isto ás vezes fazia-me chorar, e tomar corajosas resoluções--Guardarei +para mim os males todos, e as consolações para ella--propunha eu comigo. + +Por compaixão, pois, esquecia eu momentaneamente os meus desgostos; +sacudia o cansaço do meu pesado scismar, por me deixar levar dos +transportes ardentissimos da paixão. Refazia-me em meiguice e ternura e +sujeição, mais affectuoso que o molosso fiel que, apoz longa auzencia, +encontra o olhar do dono querido. + +Vertia a fluxo nectar dulcissimo da lisonja á mulher estremecida; +tornei-me frivolo, fallador, volitando por sobre vinte assumptos a um +tempo, rindo desentoadamente, evitando sobre tudo proferir palavra que +dissesse respeito directo ao assumpto uzual dos meus tormentos. + +Mas esta missão heroica, de que dei má sahida, não a enganava. Olhava-me +ella com spasmo. Escutava-me meneando a cabeça. Cuidaria ella, em +consciencia, que, extincto o ciume, seria o mesmo extinguir-se o amor? + +Estes accessos de heroicidade não podiam durar em mim longo tempo. +Suspirando, como pessoa aliviada d'um peso grande, viu ella que eu +recobrava o meu aspecto triste. + + +XXVII + +Acabei, para grande vergonha minha, por acceitar tacitamente aquella +situação. Mas, d'ahi em diante, havia entre nós alguma coisa, que não +podia já mais obliterar-se: um pensamento constante e unico, que, +mutuamente, nos atormentava os corações. Embora cerrassemos os labios +para o não deixar sahir em palavras, no intimo o sentiamos sempre como +dôr aguda que, a revezes, nos desentranhava imprecações. Um só grito +bastava então para incendiar uma explosão subita, e eu, principalmente, +esquecia os protestos de meu orgulho por dar livre curso á tristeza que +me devorava. Não queria fallar do meu rival, e fallava d'elle sempre. +Era um nome que me alanceava a memoria, e se me estorcia entre os +labios, como um aspide. Proferido apenas, mil perguntas incendiarias se +embaralhavam tumultuosamente em minha boca. Eu queria conhecel-o melhor +ainda. Queria saber tudo o que elle era, tudo que fazia, tudo que dizia. +Fanny formalisava-se então; meditava largo tempo antes de responder-me, +para não se desmentir, depois dava indicios de impaciencia e carregava o +sobr'olho. + +Os homens são insaciaveis--dizia ella, com grande espanto meu--Não podes +contentar-te com ser amado? Por que te occupas incansavel no que se +passa em minha caza? + +Apoz estas contendas, separavamo-nos tristes, e, passados oito dias, +esperava-a furioso, exasperado pela raiva, com a boca cheia de +sarcasmos, decidido a romper brutalmente com ella. Mas só de vêl-a, toda +a minha cholera se exhalava como fumo, ajoelhava-me aos pés d'ella, e +comprimia-a convulsivamente ao meu coração. + +O que muito me espantava e irritava acremente era a docilidade com que +ella, sem murmurar, a tudo se submettia. A ausencia, os obstaculos, as +difficuldades, não podiam nada com ella. Vêr-me, não me vêr, era tudo o +mesmo. Sempre serena aquella phisionomia. Dava-se ares de victima, e não +dizia palavra. + +«E se eu me matasse?» exclamei eu, um dia. + +Fanny encolheu os hombros. + +«E se algum incidente imprevisto nos separasse?» + +--Que queres que eu te faça!...--disse ella, e em seguida entrou a +chorar. + +Não podendo viver com ella, eu queria ao menos governar-lhe a vida, de +modo que as suas menores inspirações lh'as désse eu. De sobra +comprehendia ella a minha intenção, e mostrava-se; mas não me cedia +nunca em pontos de delicadeza que ella converteu em pontos de honra. E +dizia-me: + +«Eu sou obrigada a soffrer a posição que me deu a sorte. Devassar-lhe os +segredos, de que monta? Affliges-te se fallo, affliges-te se me callo... +Tracta de esquecer as causas dessa tristeza, meu Roger. + +Eu de mim esqueço-as sempre que venho aqui. + +Outras vezes dizia meio risonha e meio motejadora: + +«És muito egoista! Pelos modos eu não devo amar senão a ti!» + +Impellido, porém, pela minha idea fixa, e sem admittir que ella +anteposesse a sua vontade á minha, astuciava com ella, impetrando-lhe +exclusivamente a piedade, e descia, por derradeiro, a tal degrau de +baixeza, que, irritado por ser eu só a penar, empregava toda a minha +influencia para exigir d'esta desgraçada mulher que seguisse uma norma +de proceder deametralmente opposta á que seu marido lhe traçára. Bem +sabia, eu, com isto, que a sua casa, até ahi pacifica, ia tornar-se um +inferno, e isso queria eu: Durante alguns dias, por cansaço, seguiu ella +docilmente os meus conselhos, e assim se viu intallada entre seus dois +senhores, como o ferro amollentado pelo fogo entre a incude e o malho. +Ambos nós, sem treguas, lhe flagellavamos o coração. + +Espicaçada, emfim, pela tortura, e tambem por uma especie de espirito de +inteiresa, disse-me: + +«Roger, tu aconselhas-me muito mal, por que me obrigas a perturbar-lhe o +repouso.» + +Fiquei consternado, e cessei de empregar aquelle novo genero de +martyrio, por que era para mim cruelissima mortificação vêl-a erigir-se +em defensora de seu marido. Fanny, além disso, parecia fatigada d'essas +disputas aviltantes e penosas.--Tenho medo de infastial-a--disse-me eu +um dia. + + +XXVIII + +Porém, nos mais violentos accessos de meu ciume, inraivecia-me vêr-lhe +no semblante aquelle seu ar pudico, que ella conservava sempre, mesmo na +mais avida vertigem do goso. Ora isto, com o correr do tempo, deu para +me irritar. Tomei a peito depraval-a, buscando abafar este amor nas +cinzas do fastio: Fanny ficava sempre a mesma! Estavam alli duas almas +diversas a exhalarem-se-lhe dos labios e dos olhares. Uma era a de +Phrynea absorvida, e séria, nutrida dos mais finos primores como das +especiarias mais corrosivas da paixão, o que, alternadamente, se +assignalava por um sorrir estranho e vago. A segunda era a de um anjo +immaculado. Ai! aquelle olhar d'ella! Aquella expressão de spasmo que +reluzia perpetuamente em seus olhos azues, tão rasgados, sob as placidas +e destacadas palpebras! Ainda agora me seguem e arrebatam! Sinto-os +sempre, fitos nos meus! Interrogam-me, e fascinam-me! Não poderei jámais +esquecer os olhos d'ella?... + +Fanny, no garbo de suas attitudes, no meneio da cabeça, no andar, tinha +algumas vezes um não sei que que denunciava appetites de um sensualismo +profundo e vehemente, e mesmo alguma coisa dessa monstruosa concessão +duplicada, que tanto a meus olhos a invilecia. De subito, com uma +palavra só, transfigurava-se, e julgal-a-ieis uma outra mulher. + +«Que mulher és tu, pois?» lhe disse eu, em seguida a uma discussão em +que me havia manifestado sentimentos os mais contraditorios. Levantou +ella a face, e encarou-me com os seus olhos tranquillos e lympidos; +porém, commoção interna lhe dilatava as azas nazaes e avermelhava de +leve as faces. + +--Não posso viver sem amar--respondeu ella pausadamente--Não posso viver +sem ser amada. Minhas qualidades boas, e meus defeitos, são cousas +secundarias: todas as mulheres tem d'umas, e d'outros. Mas o que é +exclusivo meu, é a minha paixão.--E com leal exaltação, ajuntou: +«comprehendes-me?» + + +XXIX + +Chegou o estio, ao cabo d'estas muitas e penosas discussões. Todos os +annos, Fanny ia passar aquella estação ao campo, nos arrabaldes de +Pariz. Um dia, veio ella afflicta annunciar-me a triste nova da partida; +eu, porém, recusei explicitamente conformar-me com a ausencia +«Escrever-nos-hemos» disse ella. Semelhante resignação exasperou-me. Não +sei que lhe respondi, esqueci-o; lembra-me só que combati aquella +resolução com energia de desesperado. Eu chorava tanto, estava tão +alvoroçado, tão infeliz, que ella houve piedade de mim. Apertando-me nos +braços, mil vezes me repetiu que consentia em adoptar os expedientes que +eu lhe indicasse.--Sê prudente! sobre tudo, não te arrisques--disse-me +ella, entre dois beijos, retirando. + +Passados oito dias, encaminhei-me na direcção de Chaville. Á beira da +estrada real de Versaille é que estava a casa d'ella. + +Quando ouvi dar a meia noite nos relogios longinquos, escalei o muro, e +fui ter a um pavilhão, cujo local me havia indicado Fanny. A vinte +passos, d'um ponto em que me occultavam as copas do arvoredo, vi um +vulto pardacento, immovel. Era Fanny. Corri para ella. Levou-me comsigo. +Fechei a porta. Estávamos ás escuras--Não falles--segredou-me ella, com +extraordinaria agitação--elle está desconfiado ha tres dias; anda +triste; deve ter suspeitas. + +Aqui está uma variante nova na amargura da minha vida, com a qual eu não +contava.--Ouve--murmurou ella, com a voz tremula de mêdo--é preciso que +elle não desconfie; não quero que elle o saiba; não quero. Tu és homem, +a ti pertence dirigir o meu comportamento. Falla; e, se é de sacrificios +que vaes fallar-me não temas, que eu sou forte.--E sentindo-se +desfallecer, vendo-me perdido de dôr, disse-me com amargura:--Eu tinha +esquecido que tu não passas d'uma creança. Perdoa-me por haver-te +fallado como a um homem. + +«Fanny,--disse-lhe eu solemnemente aconchegando-a de mim para fazel-a +sentar ao meu lado--serei talvez creança, mas tenho coragem de homem. +Surprehendido imprevistamente por esta cruel noticia, não sei que +inventar; mas, já que és forte, decide tu o que devemos fazer: +submetto-me. É preciso abandonar-te? Dize-o. Pela memoria de tua mãe, se +assim o queres, não me verás jámais, ainda que me procures por toda a +terra. + +Não quero que morras--disse ella com voz soturna, erguendo-se, e batendo +no chão com o pé. Depois tomou-me a cabeça entre ambas as mãos e +abraçou-me convulsivamente sobre os labios. Mas o ruido de passos que +rangiam na areia impoz-nos silencio. Abraçados pela cintura, curvamo-nos +sobre a vidraça para vêr quem assim passeava no jardim a hora tal. + +Era elle! Reconheci-o na largura dos hombros, nos cabellos arrussados +que volteavam ao vento sobre a cabeça nua. Caminhou parallelamente ao +pavilhão, pela rua larga e descoberta, alagada dos fulgores da lua que +cahiam sobre ella a prumo. Marchava lentamente, com as mãos enlaçadas no +dorso, cabisbaixo, as feições alteradas, como homem que leva de poz si +pensamento oppressivo. Passou ante nós, e imbrenhou-se no cerrado +arvoredo. + +Tive de sustentar em meus braços a desgraçada mulher, por que os joelhos +não podiam sustel-a. «Socega, minha querida, disse-lhe eu--teu marido +nada suspeita. Está preoccupado; mas não se vê alli a inquietação febril +dos ciumosos. Eu sei bem o que é, de sobra me tenho observado a mim. + +--Crês? exclamou ella n'um impeto de esperança que a vibrava. + +«Tenho a certeza. Entretanto, separemo-nos. Passados oito dias, +tornarei. D'aqui até lá observa-o bem. Não sei o que é que o inquieta; +mas eu a quem tu hoje chamas creança, digo-te isto: teu marido não tem +ciumes. + + +XXX + +Logo que ella partiu, fui impetuosamente no encalço do solitario +passeador. Via-o outra vez na volta d'uma rua. Passou, como primeiro, +deante de mim, sem me perceber, sempre sombrio, sempre meditativo. Curei +de surprehender alguma involuntaria palavra que me revelasse a causa da +sua concentração. Mas tinha cerrada a bôcca, e impassivel a fronte. +Subindo para casa, accelerou o passo. No patamar, parou, olhou o céo +estrellado com sombria seriedade, e alongou para elle os braços, como se +do coração lhe fugisse alguma prece ameaçadora. E eu exclamei +mentalmente: «É elle, pois, desgraçado tambem!» + + +XXXI + +Passei os oito seguintes dias em angustia inexprimivel. Não parava em +parte alguma. Os temores, as suspeitas subiam-me ao cerebro em +borbotões, como os vapores da vinolencia. Pensava n'ella só! Dizia-me +não sei que de convicto e infallivel que eu estava ameaçado de perder +Fanny. Era como um espectro deante de mim a imagem d'uma separação +violenta. Não atinava com o modo de aliar esta especie de previdencia +com a certeza de que o marido ignorava tudo; mas esta previdencia +justificava-se tanto que eu entrei a tomal-a como aviso do céo. + +Ao oitavo dia, á hora costumada, puz-me a caminho; mas, d'esta vez não +esperei a hora indicada, nem me acautelei para entrar em casa de Fanny. +Não. Caminhava deante de mim mesmo, com a violencia e direitura d'uma +balla, resolvido a procural-a mesmo no seu quarto, se a não encontrasse +no pavilhão. Timido de tudo, sem poder definir o objecto dos meus +temores, esporeava o cavallo, que se espadellava com a terra, +alternadamente contrahido e distendido como um grande arco atormentado +por mãos febris. A lua alumiava de travez a estrada silencioza que eu +levava, zebrando-a de listas de prata, e parecia voltar-se para mim +melancolicamente seguindo-me com os seus fulgidos olhares. Desfillavam a +meu lado as arvores, rapidas e negras como phantasmas vertiginosamente +marulhados n'um rodopio. Os cães, que dormiam nos pateos, atiravam-se +aos portões latindo ao estrepido das ferraduras do meu cavallo, que +estalavam na calçada. E o vento que me açoitava a cara, murmurava-me aos +ouvidos palavras irritantes. Tudo me impellia e me vaticinava algum +drama em que eu ia representar um papel. Armei-me para isso, decidido a +não succumbir sem luctar com todas as forças que a desesperação desde +muito me tinha dado. Quão exaggerado eu era na espectativa como nos +preparatorios! Este meu espirito enthusiasta não sonhava senão combates +sobrehumanos, desinteresse fero, esforços heroicos!... Ai! e que +desenlace tão vulgar me esperava! + + +XXXII + +Transpondo o muro, fiquei surpreso de vêr Fanny assentada na margem d'um +passeio. Mais d'uma hora me tinha eu antecipado, e receava que seu +marido estivesse ainda fóra. Logo, porém, que me avistou, Fanny, veio +para mim, sem se esconder, como se fosse natural entrar eu em sua casa +pelo caminho dos malfeitores. Tomei-lhe a mão. Pareceu-me vêl-a inleada +e cuidadosa. + +«Que aconteceu?--perguntei, levando-a para debaixo das arvores. + +--Tinhas mais que rasão, Roger; meu marido não tem ciumes--disse +ella--Nunca se fiou tanto de mim. Não me cancei a interrogal-o. Hontem +contou-me a causa da sua preoccupação. Os seus haveres todos, +depositados em Inglaterra, estão em risco com a fallencia d'um +banqueiro. Esta manhã partiu para salvar alguns restos, se ainda for +tempo. É forçoso que a inquietação fôsse grande--ajuntou Fanny +suspirando--por que nunca foi commigo tão expansivo. + +Não achei palavra com que responder a esta afflictiva noticia, com +quanto nos consolasse a ambos de tamanho pezo. Fiquei atordoado como +homem que soffreu violenta pancada na cabeça. Regorgitavam-me nos labios +os sarcasmos; mas eu represava-os. + +«Nada respondes, meu amigo?--disse Fanny. + +--Que heide responder?--exclamei, perdida a consciencia da minha +brutalidade.--Lamento-te se tinhas grande apego ao luxo de que vaes ser +privada; lamento-te, principalmente, por teus filhos; mas... «Mas?» +atalhou ella. + +--Mas não posso lamentar-te por teres sido ameaçada de perder-me, e te +achares hoje mais livre que nunca para amar-me. + +Fanny ergueu as mãos ao céo, como invocando o seu testemunho, com +expressão de piedade, e disse brandamente: + +«Não fallemos mais de mim. Eu heide ser sempre um livro fechado para ti. + +Passeamos, depois d'isto, debaixo das arvores vagarosamente, sem nos +darmos o braço, sem dizer palavra, durante meia hora: por fim, parou +ella deante de mim e tomou-me ambas as mãos, e disse em tom de voz +submissa: + +«Roger, por que não fallas? + +--Não tenho consolações que dar-te. + +«Por que? + +--Por que eu mesmo tenho talvez necessidade de ser consolado. + +«Pois que te succedeu? + +--Nada. + +Continuamos a passear, ao acaso, entre o arvoredo, silenciosos, ella +curvando-se debaixo das franças, eu, erguendo-as, para ella passar. + +--Agora vamos nós tomar quinhão nas amarguras d'elle--disse eu de +repente. «Assim deve ser» respondeu ella com tranquillidade. + +O remate do nosso encontro foi magoado por um começo que eu não podera +prevenir. O pensamento de Fanny vagueava por outra parte. O meu, a meu +pesar, tambem. E, todavia, eu não poderia justificar-me d'um certo +prazer inquieto que me dava a idea d'um successo que podia apartal-a do +marido para sempre. + +--Quem sabe--pensava eu commigo--se a sua ruina fará o que a minha dôr +não pôde fazer? + + +XXXIII + +Depois d'este dia só em Paris nos tornamos a vêr. Era facil a Fanny +ausentar-se, agora que a ninguem devia contas de suas sahidas. Por isso +tornamos ao antigo viver. O que eu, porém, previra realisava-se com um +rigor de desesperar. Não era só o pensamento senão a vida de Fanny que +estavam n'outro logar. Cada vez o sentia mais. Nossa tranquillidade, +prazeres, expansões, jubilos dependiam absolutamente das cartas que o +marido lhe escrevia. Se faltava o correio, ficava distrahida, não me +ouvia. Se recebia de manhã carta inquietadora, ficava preoccupada e +taciturna. Quando a carta era de esperanças, irrompia ella em explusões +d'amor e d'alegria. Esta alegria, porém, molestava-me muito mais que a +tristeza, e aquelle amor, cuja explosão atava a alguma coisa que não +derivava d'elle mesmo, indignava-me. Gélido deante de sua inquietação, +mudo se ella estava triste, irritado pela sua alegria, recuzava +energicamente a receber a repercussão das novidades que tanto a +preoccupavam; e quiz-me parecer que Fanny não se incommodava ou nem dava +fé dos meus enfados. Isto desesperava-me. + +Em summa, aborrecido de me vêr assim atado ao meu rival pela mulher, +que, repartindo-se equitativa por nós, dava todos os seus pensamentos +aquelle que ella julgava ter mais urgente precisão de suas sympathias; +indignado por compartir dessas penas, e esperar-lhe anciosamente as +alegrias que só podiam fertilisar as minhas; aguilhoado da tristeza, do +ciume, e da desgraça, resolvi tentar um supremo esforço para recobrar o +socêgo, arrancando-lh'a a elle. Desde muito que se me gerava no animo o +desejo de exigir de Fanny o maior sacrificio que ella podia fazer-me; +mas, retido pelo vago receio d'uma recusa dolorosa, deferi de dia para +dia o momento de sollicitar-lh'o. Azou-se a occasião. Foi ella que a +deu. + + +XXXIV + +«Uma mulher que se aliena--disse-me ella, uma vez, sem nexo que +explicasse o improviso, e olhando-me com ar piedoso--Uma mulher, que se +aliena, não pode amar sem tornar o seu amante o mais desgraçado dos +homens. Quanto mais me examino, Roger, mais conheço que, fartes vezes, +com desgosto meu, te devo fazer soffrer muito. + +Commovido por este exordio, respondi balbuciante: + +--E, todavia, a nossa alliança podia ser ditosa. + +«Sim--disse ella amargurada--O que ha de mais entre nós é o amor. + +O castigo secreto d'esta ligação é isso. Estas relações só duram com a +condição de serem banaes; e, se o são, devem repugnar a corações nobres +e delicados; se são profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem +as sente. + +E suspirou. Respondi assim: + +--Vou mais longe que tu, Fanny. + +Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer +com uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor +proprio, por igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas +torturas. Uma amante, qualquer que seja o seu theor d'amar, conhece +sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz, +não conhece a existencia do amante. + +«Isso é ir longe de mais--disse ella a meia voz; depois, alçando os +hombros, poz os olhos no céo, e exclamou:--Que é o amor proprio, Deus +meu? + +Folgando em fim de encontrar Fanny em tal disposição de espirito, +aventurei-me. Peguei-lhe da mão, e erguendo-me, em quanto ella me olhava +affectuosa, disse, n'um tom supplicante: + +«Com tudo... se tu quizeres...» + +Fanny corou logo, comprehendendo que se demaziava. + +--Que queres tu dizer-me? + +Não ousei responder; mas ella, por certo me adivinhou, por que me +apertou meigamente a mão, e disse suspirando:--creança! + +Eu fiz com a cabeça um gesto negativo! «Deixa-me!--disse ella de +sobresalto, em tom de precipitada--Curar-te has assim? Não posso +fazer-te feliz. Caza-te!»--A dôr anniquilou-a. Repelli-lhe rudemente a +mão, e fitei-a colerico, por essas phrazes que me pareceram uma ameaça. +Mas tão quebrantada a vi, que não tive coragem de a levar ao extremo, e +murmurei por de mais: + +--Bem sabes que não é possivel isso. + +Replicou: + +«Dei-te quanto podia haurir d'affectos em meu coração, e és tu quem me +castigas! + +Estava offendida: foi preciso aquietal-a, e jurar-lhe submissão; ella, +porém, não perdoava assim, e exclamou: + +«Que queres que eu faça mais? + +--Se me amas, como creio, o teu dever está traçado. + +Corou outra vez: é que comprehendera. + +«Meu dever! meu dever! Muito indiscreto és em proferir semelhante +palavra, Roger! Ignoras tu que o meu mais restricto dever me ordena de +não deixar a caza que governo? + +--Ah! Fanny!--exclamei eu--que insignificancia tu trazes para me +ferir... que confronto!... + +«A caza--replicou ella baixando os olhos--é o posto d'honra confiado á +mulher! Mulher que se respeita, não a abandona nunca! + +Quiz interrompêl-a, mas ella continuou, de repente applacada, e +olhando-me com ternura: + +«Raciocina um pouco, meu querido filho: póde uma mulher abandonar sua +familia honorifica, sem perder a estima de si propria? Póde ella +desquitar-se publicamente de todos os seus deveres sem despenhar-se aos +olhos do mundo entre as mulheres perdidas? + +--São bem tristes considerações as da sociedade quando as cotejas com a +minha vida...--respondi eu. + +Ficamos em silencio, alguns minutos. Fanny proseguiu: + +«Se eu seguisse os conselhos que me deixas adivinhar por que és muito +honesto para m'os dar claramente, ser-te-hia forçoso, algum dia, +fazer-me arrepender. + +Eu quiz jurar; mas ella cortou-me a palavra. + +«Podemos nós supprimir o passado? Não és tu zeloso mesmo do passado? Oh! +quero poupar-te!--accrescentou Fanny, levantando-se, e lançando-me um +braço em roda do pescoço, em quanto com a mão sobre o meu peito, cravava +ternamente nos meus os seus olhos azues--«Em teu logar, crê-me, eu seria +tambem ciosa... Muito resististe!... disse ella, cahindo sobre uma +cadeira, e escondendo entre as mãos a face: «Por que me não fugiste, +quando era ainda tempo! + +«Já era tarde, Fanny, bem o sabes, no dia mesmo em que te vi, pela +primeira vez, passar deante de mim. + +Ergueu-se outra vez, e abraçou-me com mudo transporte. Pensativo, +alheado, recebia, como insensivel, as caricias. A final, pude dizer-lhe: + +--O amor, Fanny, póde consolar muitas dôres, remir muitas humilhações, +substituir muitos affectos. Diz tu: o que é a estima do mundo, os +tranquillos sentimentos da familia, comparados á absorpção d'uma +existencia por outra existencia? É acaso tão longa a vida que possamos +consentir em immolal-a a coisas tão frivolas? E, de mais, que se lucra? +Quem nol-o agradece? + +«Roger! Roger!--interrompeu Fanny--que estranha moral! + +E eu prosegui: + +--Não estás cançada de córar, de tremer, de te esconderes? Não tens, +emfim, vergonha da vergonha? E não te repugna ao coração esperar, +esperar mais, esperar sempre, para trazer-me os beijos avidos á minha +bôca faminta? No espaço d'um anno, com grande custo, apenas teremos cem +horas de viver juntos... a felicidade, de que devemos contentar-nos, é +isto? Se ao menos essa felicidade fosse pura, estrema, absoluta! Mas tu +não pódes ouvir-me, sem que a lembrança de tuas inquietações, perigos a +que te expões, os meus proprios tormentos, te não impallideçam; e eu, +tão desgraçado! não posso uma só vez abraçar-te, sem que logo um +espectro... + +«Supplico-te--bradou ella impetuosamente--se me amas, não me digas que +és desgraçado, por que me matas. + +--E se tu quizesses--continuei, fitando-a internecido--se quizesses!... +Não haveria no mundo existencia para competir com a nossa. O que eu te +peço é ser eu só o encarregado de te fazer serena a vida, desvelar-me +por ti eu só, preparar, suavisar sob os teus pés a vereda do futuro; ser +só a amar-te; o que eu quero é ser para ti o meio e o fim da felicidade; +é tomar sobre mim todas as penas, e dar-te em troca todos os meus +sonhos, prazeres, e felicidades; o que eu quero é ser a um tempo teu +filho, teu amante, teu pai, reunindo sobre a tua cabeça querida as mais +dôces e solidas affeições, é concentrar em ti as lembranças do passado, +as felicidades do presente, os anhelos do porvir, de modo que venhas a +ser toda para mim, e que não haja na minha vida inspiração que não seja +tua, que não proceda de ti, que não sejas tu! Se tu quizesses... Não ha +ahi paizes onde livremente os que a sorte separou e o amor ajunta pódem +emfim saborear aquelle particular repouso que resulta da plenitude da +felicidade que é a vida? Em meus sonhos, muitas vezes me figuro que +somos voluntariamente proscriptos na immensidade d'alguma solidão, onde, +sob um céo azul sempre, á sombra d'arvores sempre veridentes, á beira +d'um mar sempre sereno e sobre tapetes de musgo sempre em flôr, ahi, nos +saboreamos por nós mesmos, como se a nossa dupla existencia mais não +fosse que uma palpavel recordação. Que desgraça poderia ferir-nos ahi? +que inquietações assaltear-nos? que suspeita incutir-se-nos? que ciume +contristar-nos na felicidade de dias sempre eguaes? se tu quizesses... +Seria pouco para mim amimar-te sempre como a uma creancinha melindrada? +procurar incessantemente debaixo de tuas palpebras o olhar meigo de teus +olhos azues? escutar-te muito tempo o halito a brincar-te por entre os +labios? dormir com a boca presa á tua espadua, a mão inlaçada na tua +mão? vêr-te todos os dias, andar, ir, voltar, mais bella, mais +tranquilla, mais graça que o sonho das virgens? Ouve mais: não seria +nada para ti o teres-me sacrificado todos os prejuizos que formam o +coração das mulheres? teres-me tirado do abysmo de tristeza, no fundo do +qual me estorço ha tanto tempo? teres-me dado tu só mais felicidade do +que homem na terra póde cobiçar? Oh Fanny! Nunca mais, a chorar, eu te +diria: «amo-te!... se tu quizesses!...» + +Estava suspensa dos meus labios Fanny. Bebia-me as palavras, ebria de +prazer. Inclinada para o hombro a cabeça, cahidos os braços, as +palpebras descidas, ouvia-me como ao longe a musica, de que não queremos +perder nada, arrobada n'um extasis que reunia todas as sensações e +quebrantos. Arfavam-lhe as rozadas azas do nariz; suaves respostas +inintellegiveis lhe ciciavam os labios; convulções electricas lhe +crispavam a cutis; tremiam-lhe as mãos em vibrações dulcissimas. Já não +poderá conter-se. Correu-me ao seio, e debulhou-se em lagrimas no meu +pescoço que ella cingia soffrega. Oh! que delicioso apertar aquelle! + +«Não se falle mais n'isso--disse ella, com expressão de angustia, +recuando a face, e apertando-me a fronte com a mão--Isso faz-me um +grande mal. Querido Roger, o sacrificio, que queres fazer, é egual ao +que me pedes. A felicidade debuxada por tua boca persuasiva é o mais +bello sonho dos meus encantos; mas, ai! não passa d'um sonho! Meu Roger, +amemo-nos, adoremo-n'os; mas, por piedade de mim, não falles assim mais! + + +XXXV + +Não me dei por vencido d'aquelle grito de desesperação que me revelava, +ao mesmo tempo, aspirações ardentes, e dôres mysteriosas. Nenhum de nós +nesta affectuosa discussão, havia empregado os verdadeiros argumentos. +Um tanto satisfeito por expôr a suprema questão da minha vida áquella +que devia resolvêl-a, deliberei deixal-a reflectir, para pouco e pouco a +ir affazendo. Esperava azo propicio para reluctar e vencer a minha +adorada inimiga. + +Depressa veio o ensejo. Terrivel e imprevisto era elle: havia ahi uma só +alternativa: vencer os extremos escrupulos de Fanny, ou perdêl-a para +sempre. + + +XXXVI + +Fanny pareceu-me preoccupada um dia. Fallava precipitadamente em muitas +bagatellas, como se quizesse abafar alguma coiza gravissima. Abstive-me +de interrogal-a, e fiz que não dava fé da sua turvacão. Acariciou-me +vivamente, e eu a ella, mas nossos espiritos e vontades pareciam alheios +aos affagos. Houve um instante em que um e outro esgotamos as palavras +ociosas. Tinha Fanny a cabeça inclinada sobre o meu braço, e eu, todo +attento no rosto d'ella, em muda anciedade a estava contemplando. +Subiu-lhe aos labios em suspiros do intimo a respiração suffocada; aos +meus olhares interrogadores respondia o descahir das palpebras, e o +voltar os olhos, córando. + +Tomei-lhe a mão sem dizer palavra. Apertou-m'a com força febril. + +«Falla em nome do céo!» disse-lhe eu empallidecendo. Abraçou-me +convulsamente, aconchegando-me o peito da face d'ella. + +Fugiu-lhe dos labios a narrativa cruel, cortada por mil reticencias +confusas. Mas, desde a primeira palavra que proferiu, comprehendi tudo. +N'essa manhã mesma, o marido lhe dissera em carta muito expansiva, que +seria provavelmente obrigado a estabelecer-se em Inglaterra, por espaço +de alguns annos. Em tal caso--accrescentava elle--deveria Fanny metter +no collegio os filhos mais velhos, e ir ter com elle, levando o filho +mais novo. Fiquei aterrado. Irritou-me a coragem que ella tivera para em +fim proferir as abominaveis palavras de separação. Dessimulei, porém, as +angustias que me alanceavam o peito, e deixei só transparecer no +semblante os traços de dôr profunda. Abracei-a, comprehendi, e exclamei: + +«Não será assim, Fanny!--juro que não, por que é arrancarem-me o coração +o separarem-me de ti. + +--Que hei-de eu fazer, meu Deus?--disse ella retorcendo as mãos. + +«Amarmo-nos--respondi exaltado, com quanta força temos, e tirar um +recurso da horrivel necessidade. + +--Recurso!...--e eu interrompi-a logo: «Fanny! este momento é solemne; +não ha que vêr com subtis considerações do mundo e dos ciumes, do +passado: trata-se de viver ou morrer. Deante de Deus, te dou em penhor a +minha vida. Queres dar-me a tua? Atirou-se aos meu braços, repetindo: + +--Que hei de eu fazer? + +«Fugirmos para tão longe que ninguem nos veja mais. + + +XXXVII + +Dito isto, cahimos em profundo silencio, Fanny retirou-se lentamente de +meus braços, poz-me ambas as suas mãos nos hombros, e fixou-me. + +Baixei os olhos, receando-lhe a ira. Mas que mal a conhecia eu! O que +ella me revelou foi piedade sómente. Repartida entre o seu amor, e o +dever que lhe apontava o logar digno ao pé do chefe de familia, a luctar +sósinho no exilio para defender seus bens, Fanny deu-me testemunho d'uma +agonia que não cabe n'alma sem rasga-la. Bem sabia ella que eu devia +horrivelmente soffrer, pensando no proximo fim de união tão cara; mas +tambem comprehendia que lhe não era possivel desobedecer á voz que a +chamava. E isto flagelava-a com uma dôr sem nome. Perder-me e ser ella, +uma vez ainda, a causa unica de meus infortunios. + +--Meus filhos!--exclamou ella em fim, impallidecendo, com uma +despedaçadora angustia. E pendurava-se-me do pescoço, fitando-me os +olhos penetrantemente--Meus pobres filhos, tão creanças! Pensas tu +n'isto? Tu que és bom, e me amas, podes-me exigir que os deixe? + +Immediatamente comprehendi pela commoção que me estorcia o animo, que +quanto d'ahi em diante tentasse seria baldado. A pesar da resistencia, +senti um surdo protesto subir-me das entranhas em gritos de indignação. +Eu mesmo, no secreto de minha alma, não queria esse monstruoso abandono +de mãe, nem mesmo o covarde desamparo d'um marido por sua mulher que +adorava. + +Mas, confessal-o-hei?--não me instigava tanto á lucta o desejo de passar +a minha vida com aquella mulher, como a idea de fazer cessar a partilha +execravel. Absolva-me dos males que causei um momento de franqueza! Eu +senti, abraçando de novo Fanny, que soffria menos com a certeza de a +perder que com a idéa de que ella ia unir-se ao marido. E, horrorisado +de mim, dôr nova para ajuntar a tantas, disse comigo mesmo: + +«Aqui ha mais ciume que amor.» Entretanto, mais tranquilla, mas sempre +affavel, Fanny encostara-se ao cotovello e, voltada para mim, discutia +sósinha. Escutei-a. + +«Se eu ousasse... se eu não temesse mortificar-te... + +--Falla, que estou de animo assente para ouvir tudo. Já agora, não ha +nada ahi que possa fazer-me mais desgraçado. + +Acariciou-me febrilmente, e disse, quasi desfallecida: + +«Pois bem! eu não tenho coragem de arruinal-o. Hoje, o unico recurso +d'elle está no meu dote. + +--É isso só? deixa-lhe tudo o que tens. Não sou eu bastante rico para +nós ambos? + +«Não é isso! não é isso!--disse ella, meneando a cabeça. + +Encarei-a. Estava enleada e escolhi vagas palavras com que disfarçar a +idéa. Continuou, a meia voz, como reprehendendo-se do que ia dizer: + +«Como condemnal-o á solidão n'este supremo momento em que elle lucta +tanto por mim como por elle! Nunca voluntariamente me desgostou. Ama em +mim a companhia de quinze annos da sua vida, a mãe de seus tres +filhos... + +--Por que o enganaste?--atirei-lhe eu em rosto, no impeto doloroso da +minha colera; mas, com uma só phrase me esmagou ella: + +«Por que te amava!» e com expressão de orgulho que a engrandecia a cima +de si mesma, accrescentou:--Mas a perfidia não competia a ti +reprovar-m'a, Roger! + +D'esta arte, quantos golpes eu lhe apontava, eram logo rigosamente +rebatidos; mas, nem assim, eu desistia do ataque. E se nos descobrissem! +repliquei eu, na certeza de que este golpe era difficil de aparar, +fitou-me fixamente como receando que a eu denunciasse para a possuir, +talvez, por esse infame meio. + +Depois de olhar-me longo tempo, disse: + +«Que desgraçado elle seria!... + +Voltei-lhe o rosto, e Fanny concluiu: + +«Elle diria com horror de mim: Nem por amor d'estas creancinhas... + +Puz-lhe a mão nos labios, e, convulsivo, olhei para ella. Estava coberta +de lagrimas. Posto que perturbado, não pude deixar de admirar-lhe a +franqueza nobre que nem, neste lance, me poupava. Estava toda embevecida +na victima! + +«Que faria elle?» murmurei. Fanny, levou as mãos á face, e respondeu com +voz abafada: + +--Talvez me perdoasse...-- + +E, passados os soluços que lhe embargavam a voz, disse: + +--Estamos demasiadamente castigados! Se obedeço ao dever, +abandonando-te; se não lhe obedeço, deshonro-me. De ambos os lados só +vejo a desgraça, e faço desgraçados. Infeliz por ti, por elle, por meus +filhos, por mim propria, nem me resta o recurso da morte para restituir +a paz a todos! Deus meu, que me has dado o coração, que me não serve +para consolar os entes que amo, e nem as suas dôres posso incerrar +n'elle, como thesouros caros! + +E, a luz crepuscular na alcôva, sobre as rendas dos flacidos +travesseiros, enlaçados os braços e unidas as faces assim choravamos... +Quem acreditaria que, desde muitos dias, se passavam assim todas as +nossas entrevistas! + + +XXXVIII + +Desde este dia funesto entendi que não devia esperar mais nada d'este +amor, e vivemos na penosa espectativa da decisão de um outro. Mas, como +se o destino houvesse resolvido não dos poupar em dôr alguma, a solução +todos os dias esperada, não chegava nunca. + +Já as cartas não eram sómente assustadoras para Fanny. Era eu que as +desejava, e inquiria o contheudo dellas, e fazia ferventes votos pelo +bom exito d'aquelle que, máo grado meu, não luctava energicamente. Com +tudo por dar alguma coragem á desgraçada mulher, exaggerava a minha +confiança, e encomiava a esperteza conhecida, a firmeza de caracter e a +força de vontade de seu marido. Affirmava-lhe que elle ressarciria os +seus haveres, obteria justiça, e recobraria o tão merecido socego. +N'elle se estribavam todas as minha esperanças: pensava n'elle só, e +tomava apaixonadamente a peito a sua pendencia. A menos esperada ventura +que eu entrevia em meus vagos sonhos e almejava com o ardor da +desesperação, era a volta do meu rival, em cujos braços devia cahir a +mulher que eu adorava! + +Se eu podesse coadjuval-o!... dizia eu commigo; mas de que sirvo eu? E +agora me pezava o inepto pudor que me não deixava entrar n'aquella +caza--Se eu tivesse menos orgulho, se eu não tivesse querido exaltar-me, +singularisando-me por uma delicadeza affectada, que, dos meus proprios +olhos, me não lava da minha acção; se, como fazem tantos nas minhas +circumstancias, eu me fizesse amigo do homem, cuja mulher roubava, +resgatando hoje a pequena parte remissivel de meus actos, poderia achar +algum lenitivo para esta afflicção. Mas eu tivera sempre mais orgulho +que bom senso. Pungia-me, então, a idéa de que, por falta minha, +n'aquelle desastre em que cada qual heroicamente desempenhava o seu +dever, estava eu sendo um ente inutil. Contrapondo á minha consciencia +taes subtilezas, tão futeis ellas eram, que não me illudiam. Mas, á +maneira do naufrago que se agarra aos limos fluctuantes, sem esperar +salvar-se, eu me escorava á minha propria dôr, accuzando-me de faltas +não commettidas, falsificando meu proceder e sentimentos n'isso mesmo +que elles tinham de honra, por que eu não sabia que fazer para +readquirir uns longes de esperança. + + +XXXIX + +Fanny visitava-me como visitamos um doente incuravel, e retiramos sempre +admirados de encontral-o vivo. Palavras de alento não as tinha para m'as +dizer, que não carecia menos ella de ser consolada. Se eram boas as +noticias, suspirava; se eram más, chorava. Como ella, um dia +desenvolvesse em toda a sua horrivel extensão, a pesada cadeia das mais +secretas miserias que entrevia--atterrada por se não sentir com forças +para arrastal-a--eu rompi o silencio subitamente, e, com simplicidade, +lhe offereci todos os meus teres para desempenhar a honra de seu marido, +que, por derradeiro ludibrio, fôra entregue aos azares do jogo. + +Mas, a pesar mesmo deste novo desastre sobreposto ao antigo, e tão +afflictivo que já fazia esquecer o outro, Fanny foi o que devia ser: + +«É desgraçada a nossa situação--me disse ella com severidade +extraordinaria--Roger! amo-te agora mais do que nunca; mas não sou +livre; por isso mesmo que te adoro, é que tu és o unico homem de quem +não posso acceitar nada. + + +XL + +A adversidade cansou. As cartas vinham cada vez mais animadoras, e já +não havia questões de honra, nem de miseria, nem se quer da separação +que tanto temeramos. Quando muito era só a perda de ametade dos bens que +podia preoccupar Fanny. Vieram o socego e os risos para ella; mas eu, +como um miseravel que tem duas chagas a pençar, senti immediatamente +despertar o ciume, mais ardente que nunca. O marido estava a chegar, e +esta vinda, d'antes tão desejada, incutia-me agora invencivel horror. +Dezejei-lhe a morte. Tornei-me sombrio, desconfiado, interrogador. +Recomeçaram as nossas luctas. + + +XLI + +Nunca me viera a idea de romper com Fanny; mas travados outra vez em +guerra, de repente me appareceu, fulgurante como um relampago. E eu +senti entrar com ella em meu coração a suave caricia da esperança. Mas +esta esperança, ai! não durou mais que um segundo. Máo grado meu, +tremulo de horror, dei-me pressa em repulsar a idea do meu resgate. + + +XLII + +Depois de uma discussão em que, mais uma vez, eu expozera aos olhos +d'ella as minhas angustias, Fanny veio de moto proprio a devassar d'um +pensamento que eu não ousara nunca deixar-lhe vêr. + +--Não fui esperta--disse ella. Eu devia fingir-te a minha vida. Por +muito improvavel que fosse o que eu te contasse, tu acreditarias tudo, +por que iria no acredital-o o teu interesse. Não fui esperta, mas é que +eu nunca soube mentir. + +Esta confissão foi para mim uma subita revelação, suppuz logo que ella á +semelhança d'outras mulheres, orgulhosa de ser feliz, escondia +vaidosamente a um tempo, vicios e dôres, e, desgraçada, queria que a +suppozessem feliz. Esta suspeita inquietou-me oito dias; mas a esperança +que me ella gerava no coração não podia durar. Instei Fanny, +facilitando-lhe recursos para desmentir-se e patentear-me tudo de sua +vida. Admirando-se de eu duvidar d'ella, Fanny confirmou glacialmente o +que me havia dito e tornou-me á desesperação. + + +XLIII + +Approximava-se, n'esta conjunctura, o praso que o marido designara para +voltar. Parecia-me que devia ser esse o dia da nossa separação, e da +morte para mim. A idea da partilha enojava-me. Resolvi cem vezes +explicar-me com Fanny á cerca d'este assumpto horrivel, mas não me +attrevia. Havia n'ella uma especie de renascimento: nunca a vira tão +terna e submissa. Ao mesmo tempo deu em ser muito expansiva. Nos ultimos +tempos, coisas insignificantes tocantes á sua vida intima, andavam +sempre em nossas praticas; d'ahi vinha o continuar ella agora a +fallar-me dos minimos incidentes da sua vida. É o que devia, mais tarde +collocar-nos face a face, na attitude ameaçadora de dois inimigos. + +Não sei como se deu, nem qual de nós foi causa da scena atroz que +sobreveio; lembra-me só que Fanny estava já para sair, e ambos nós em +pé. Acabava ella de apertar as fitas do chapéo, deante do espelho do +fogão, ao qual eu me encostava; já tinha o chale nos hombros, e buscando +com os olhos o lenço, que pozera sobre uma meza, acabava de abotoar as +luvas. Assim, continuavamos em termos meio affectuosos e familiares uma +contenda que intendia com ella e com o marido. Estavamos ambos serenos +quando lhe aconteceu proferir uma palavra que me gelou o sangue nas +veias: + +--Eu mentiria, se dissesse que não tinha affeição a meu marido. + +Logo que reflectiu na crueza d'essas palavras, tão imprudentes como +inuteis, arrependeu-se de as ter dito. Sem accrescental-as, nem +desmentil-as, acercou-se de mim, affastou o chale para me cingir o +pescoço com o braço, amimou-me o rosto com a mão livre, e alteou-se nas +pontas dos pés para abraçar-me. + +Era carinhoso o olhar, que exorava perdão á crueldade da bôca. Forcei-a +lentamente a desprender-se-me do peito, e disse-lhe severamente: + +«Vós outras, as mulheres, não tendes delicadeza alguma no coração.» + +«Córou, fez-se mais meiga, mais insinuante, e quiz outra vez abraçar-me. + +Puz-lhe a mão no hombro e affastei-a: dizendo-lhe, tremulo de furor: + +--Ha dias que me falla em seu marido, incarecendo-o muito. Esquece-se de +que não é elle agora o mais digno de lastima? + +Apertou-me inergicamente a mão, em quanto com os labios cerrados, á +mingua de palavras, me fitava com ternura supplicante. + +Mas a colera recrudescia a proporção que Fanny denunciava +arrependimento. Continuei: + +«É justo que o ame, por isso mesmo que a sua estima se lhe deve com +preferencia a tudo. + +Conheceu Fanny que não poderia apaziguar-me. Não sabendo que mais fazer, +deixou passar aquella phraze de interpretação doble, desdeu os laços das +fitas do chapeo, pousou o chapéo e o chale sobre a cama, e assentou-se +n'uma poltrona defronte de mim. Com o cotovelo esquerdo apoiado no braço +da cadeira, a face na palma da mão, os olhares ondulantes, assim ficou +na sua habitual posição. Mais que nunca linda, com aquelles braços +maravilhosos, cuja alvura assombrada de pennugem destacava da seda negra +do vestido; com as grandes luvas de pelle da Suecia que lhe cobriam os +pulsos; com o collo flexivel e inclinado; e côr pallida; e os cabellos +louros voluptuosamente annelados sobre a fronte pura: era a semelhança +de algum bello retrato de Rubens. Por de sob a fimbria do vestido, +sahiam os pequenos pés reunidos e assentes no chão. Nas escuras dobras +da seda envolvia-se o braço direito, cuja mão, meio fechada, permanecia +immovel como se fôra de marmore. + + +XLIV + +Quando o publico soube o desastre do marido de Fanny, soubera eu que em +Pariz circulavam boatos deshonrosos para elle. De ser rico e altivo +grangeou muitos inimigos. Deviam de ser calumniosos os ditos que sahiam +de bôcas invejosas. Não os desmenti por prudencia, mas fiz nota d'elles. +Bem sabia eu que um dia me serviria d'elles para vingar-me. + +Esperava eu, exasperado pelo furor, que uma palavra, provocando-me de +novo, me desculpasse a crueldade. Ella, porém, de astucia não fallava, +adivinhando que eu interpretaria á feição de minha raiva tudo que me +dissesse. Assim ficamos ambos immoveis, callados, ella, esperando o +golpe final, eu reunindo as minhas forças todas para descarregal-o. + +Decidi-me em fim: e, com uma só phraze cortante como gume de espada, +attacando o mais sagrado da honra do meu rival, repeti as infamias em +que eu não cria. + +A resposta foi prompta e terrivel. Isso é indigno!--exclamou ella +erguendo-se hallucinada, escarlate, com uma expressão de colera e +indignação que me assombrou. + +Não quero que se rosse na honra do chefe de familia! Não quero que se +deshonre aquelle cujo nome eu trago! Por isso que o trahi; por isso que +conspurquei a parte de sua honra que elle me confia, é que eu prohibo +que se ultraje a outra... e principalmente ao snr!... Envergonhe-se!... +Se acreditou essas calumnias, competia-lhe defendel-as commigo, pois foi +commigo que... + +Interrompeu-se. Eu immudeci, e ella proseguiu: Fallou-me ahi na +indelicadeza de coração das mulheres; e eu fallarei do orgulho dos +homens. Não é só do amor das mulheres que carecem para estrado... Querem +tudo o que ellas prezam, tudo o que respeitam: estima do mundo, familia, +filhos, repouso, e até a honra de seus maridos. Tudo lhes é mister para +desvirtuar e rediculisar essa honra. Estou de mais castigada por ter +crido que podia impunemente amal-o! Fui prudente; e por isso não é meu +marido ultrajado que castiga a minha culpa; mas--castigo mil vezes mais +cruel--é o meu amor. Mereço esta pena... e é o snr. que me pune! + +Continuei callado: e ella, com a boca a trasbordar sarcasmos, proseguiu: + +É como todos! O que ahi ha é orgulho. Não sabe amar! + +Desta vez, respondi turvado: + +«Não sou desculpavel por aggredil-o? + +--Aggrida-o como homem. Não tem tantas causas para o fazer? + +«Por Deus que o farei! + +Furioso, com os olhos injectados de sangue, os dentes cerrados, avancei +para Fanny, mas ella suspendeu-me a tres passos com um olhar glacial que +eu nunca lhe vira. Depois vagarosamente embrulhando-se no chale, da +cabeça aos pés, como a sacerdotiza antiga, sombria, feroz, desesperada, +deixou cair sobre mim outro relancear de olhos despresador, e sahiu. + + +XLV + +Que farei para apasigual-a?--Tal foi a ignobil pergunta que eu me fiz, +ao amanhecer do dia seguinte. + +Escrevi-lhe uma longa carta tão submissa que não pude revêl-a sem pejo. +Rasguei esta carta, comecei outra, mas tão acerba de estylo que devia +exasperar quem eu queria commover. Não a conclui, e andei uma hora a +passear phreneticamente em todas as direcções no meu quarto. Primeiro +tive ideias de rompimento immediato; depois desvaneceram-se. Rebentou em +chamas o furor e o ciume; depois apagaram-se. Por fim, comprehendi que o +procedimento a que eu quizera impellir Fanny, era um crime, o qual, +consumando irremediavelmente a desgraça d'uma familia inteira, devia +tornar-nos desgraçados para sempre. Era-me pavoroso pensar que, a ter-me +ella attendido, durante a nossa existencia toda, viriam interpor-se +entre ella e mim as imagens de seus filhos abandonados. + +Mas ao mesmo tempo escasseava-me força para o resgate. Affizera-me ás +minhas dôres, e não ousava trocal-as por dôres desconhecidas. É preciso +ter sido, como eu fui, o tudo nas ternuras e affeições d'uma mulher, o +coração que incessantemente regia os movimentos d'outro coração, para +poder comprehender os horrores da solidão que segue um rompimento. Eu +delirava de raiva e dôr. Por fim, commovi-me, erguendo os olhos para o +retrato de Fanny. + +--Que mal me fez ella?--dizia eu. Chorei; e, indeciso, vesti-me, e sahi. + + +XLVI + +Seriam oito horas. O calor dos ultimos dias d'agosto purpureava o céo +carregado. As trevas, semelhantes a mortalhas espargidas, desciam com a +nevoa opaca atravez das arvores da grande avenida dos campos-Elyseos. Os +passageiros davam-se pressa para fugir á tempestade que trovejava +surdamente ao longe. As estrellas brilhantes das lanternas, aqui e além, +corriam, cruzavam-se e desappareciam. Nuvens de pó sacudido pelo vento +subiam diante de mim e toldavam o espaço. A meio-caminho, quasi entre +_Rond-Point_ e o «Arco do triumpho» parei. + +Era alli. Encostei-me a um tronco de arvore, levantei o rosto, e olhei. +A meus pés era a passagem das carruagens que vão do portal á avenida. +Sobre a porta estavam abertas as quatro janellas da sala. Uma só +lampada, por certo, illuminava o recinto, por que a claridade que +translusia dos vidros escassamente brilhava como um clarão duvidoso. +Nenhuma sombra passava entre a lampada e os vidros. A casa está +vasia--pensei eu--e todavia Fanny não está em _Chaville_ por que a sala +tem luzes. + +Estalou, neste momento, mais forte a trovoada. + +Relampaguearam os coriscos. Um bulcão rugiu na ramagem dos alamos da +avenida, remoinhando turbilhões de folhas e terra. Então vi uma sombra +de homem chegar á ultima janella, e fechal-a. As outras tres fecharam-as +mais tarde. Depois, a froixa claridade que alumiava a sala bateu nas +vidraças mais tensa e viva: havia-se accendido uma segunda lampada. + +E depois, mais nada. A avenida deserta, a tempestade no céo de todo +negro, eu em pé debaixo da minha arvore, e a sala vasia com as quatro +janellas lusentes. Soaram onze horas no relogio d'uma egreja visinha. + +De repente, o estrepito de rodas acceleradas, mordendo a areia, passou +ao pé de mim. Eu dera, sem saber porque, alguns passos authomaticos. + +--Arreda! Arreda! gritou uma voz irritada. Saltei para a margem da +estrada. Um _coupé_ vasio passou bamboando sobre o eixo, effeito dos +sacões; depois uma grande carroça de viagem tirada por quatro cavallos, +voltou de repente sobre si mesmo, ao tempo que se abriam os dois +batentes da porta-cocheira. Remirei a carroça com assombro. Ao fundo +estava um homem, que eu bem conheci--era elle. Ao seu lado uma mulher +que lhe fallava: era Fanny. Entre elles, sobre os joelhos, e nos braços, +tres meninos de cabellos louros. Foi uma visão rapida. Não sei se me +viram. A carroça desappareceu por debaixo do arco do portal, e logo os +dois pezados batentes rodaram nos gonzos, e bateram entre si com +estrondo lugubre e cavernoso. + +Acabava eu pois de me arredar para dar passagem ao meu rival que entrava +como senhor em sua casa. + + +XLVII + +Por que me não esmagou elle com as suas rodas?--exclamei, com a morte na +alma, retirando-me, e caminhando ao acaso como um ebrio. + +Passava uma sege de praça; entrei--onde quer ir?--diz o boleeiro, +embrulhando-se no seu capote--onde quizeres, ao Bosque, onde quizeres. E +senti-me arrebatado d'aquelle sitio funesto. + +A chuva escorria sobre as vidraças corridas. Encolhido n'um angulo da +sege, com os braços cruzados, e a face encostada á almofada, vi de lado, +ao clarão dos relampagos, estorcerem-se as arvores atormentadas pelos +furacões. A intervallos, resalteavam no ar as astilhas dos coriscos. E +eu dizia: Esta tormenta não os aterrará? Não sei que tempo passei +blasphemando, rasgando o peito com as unhas, chorando, dentro dessa sege +que corria atravez das arvores do bosque, ao clarão avermelhado dos +relampagos. Sentia-me abafar. Desci os vidros e a chuva batia-me na cara +e nas mãos. Encostei-me ao rebordo da portinhola, com a face deitada nos +braços. Tomou-me uma sensação horrivel de frio. Tinha febre. «Quer que +recolhamos?» dizia de espaço a espaço o boleeiro cançado. + +--Quero--disse eu, fatigado já tambem. + + +XLVIII + +Nascia a aurora lagrimosa no mal enchoto céo, quando, erguendo a face, +reconheci uma casa á margem da estrada. Era a della. Todas as portadas +da janella estavam fechadas, e as luzes extinctas. Apenas um clarão +avermelhado excessivamente mortiço, semelhante ao que sahe d'uma +lamparina, brilhava como um ponto entre duas taboinhas de persiana, na +ultima janella da direita, em uma alcova lateral ao salão. Debrucei-me +longo tempo sobre o apoio da portinhola para enxergar o ponto vermelho e +expirante. Mas não chorava já. Ia tranquillo, de gelo, prostrado de +fadiga.--Dormirá ella agora?--me dizia eu. + + +XLIX + +Os primeiros dias, que seguiram esta noite horrivel, passei-os n'um +estado de stupor de que não havia arrancar-me. Esperava não sei que, que +devia terminar-me a vida e os males.--Isto não póde acabar assim!--dizia +eu. Vinte vezes ao dia, pedia a minha correspondencia mas nem se quer +abria as cartas que o meu creado me trazia. Bastava-me vêr a lettra dos +sobre-escriptos. De Fanny não vinha alguma. Affigurava-se-me que ella +tinha morrido. Isto amedrontava-me. Cheguei a duvidar da minha rasão. + +Ao oitavo dia, depois da nossa ultima entrevista, tive um presentimento +de que ia vêl-a. Preparei tudo o que queria dizer-lhe. Senti-me vencido. +Queria pedir-lhe perdão; declarar-lhe que estava prompto a submetter-me; +queria supplicar-lhe alguma piedade para os meus padecimentos. Esperei-a +em vão até noite fechada, contando as horas nas pulsações alternadamente +precipitadas e desfallecidas do meu pulso. Não veio. Não escreveu. +Ninguem me deu um instante de esperança fazendo vibrar a campainha da +minha porta. + +Ao anoitecer, sahi na direcção da casa d'ella. Chegando á alameda fiquei +surprehendido, vendo tudo fechado. A ideia de Fanny ter ido para longe, +tão longe que eu não podesse vêl-a mais, atravessou-me o cerebro como um +dardo. Com horrivel angustia, mas affoitamente, como um covarde, a cuja +cabeça subiram as fumaças da bravura, bati á porta e perguntei ao creado +se a senhora estava em casa. Eu estava pallido e tremulo; mas elle não +deu fé.--A senhora está no campo--respondeu, «Onde? em Chaville?»--sim, +senhor. + +Fui encostar-me a uma arvore por que me sentia desmaiar. + +Ao cabo de alguns minutos decedi-me a ir para casa. Era meia consolação +saber que Fanny estava ausente. Comprehendi, emfim, o motivo que lhe +estorvara a vinda; mas não comprehendi por que me não escrevera durante +oito dias. Eu deveria suppor tambem que ella esperaria carta minha; mas +havia ainda muito egoismo no meu despeito. + +--Quem sabe se ella me espera lá--dizia eu para consolar-me. + +Apenas esta ideia se me abriu no espirito que um desejo imperioso de vêr +Fanny, á custa de tudo, e logo, me assaltou. Estava então perto de casa. +Entrei rapido e pedi o meu cavallo. Ajudei mesmo o creado a +apparelhal-o. E lancei-me ao caminho, cheio de esperança, com as esporas +cravadas nas ilhas sacudindo as redeas, á desfilada, enlameando +passageiros, sem mandar arredar ninguem. + +Tanto corri que receei ter-me desencaminhado, e não conheci a casa de +Fanny, que estava em frente de mim, vagamente alumiada, debaixo das +agigantadas arvores. Mas, alçando-me sobre os estribos, para olhar por +cima do muro conheci o pavilhão. Apeei, e entrei no bosque para prender +o cavallo a uma arvore. Depois, retrocedi, e vi com surpreza que a +graderia do jardim estava aberta. Um creado de farda estava á porta. Ao +cabo da aléa, no cunhal da casa, vi brilhar as duas lanternas d'uma sege +immovel. + +A meio caminho entre a casa e a grade, um pouco á esquerda, no centro de +um amplo taboleiro de relva, os vidros coloridos do pavilhão fulguravam +aos raios d'um candieiro posto no interior. + +--Que segnifica tudo isto?--perguntei eu, caminhando ao longe do muro +para encontrar a brecha por onde eu passára duas vezes. Mas apenas puz o +pé no jardim, fiquei como pregado no chão. Estava ouvindo imprecações e +soluços; do pavilhão, a vinte passos de mim, é que elles sahiam. + +Cobriu-me o corpo todo um suor frio. Eu tremia como a folhagem dos +arbustos, sob as quaes me escondera. + +Neste momento, a sege correu a grande trote dos cavallos para a grade; +de certo o cocheiro obedeceu a um chamamento que eu não tinha ouvido. Ao +chegar defronte de mim, parou, e o creado da almofada abriu a +portinhola. Tinham cessado os gritos e os soluços. Sahiu um homem do +pavilhão, e fechou-se a porta. Reconheci-o. Que outro poderia ser? +Assentou-se nos coxins, o creado subiu para a almofada, o cocheiro picou +os cavallos, a sege passou a grade, rodou sobre a calçada sonora, e a +grade foi fechada pelo creado de farda que estava ao pé. + +Logo que este homem, caminhando para casa, se sumiu entre o arvoredo, +avancei precipitadamente, sem precauções. Antes, porém, de levantar o +trinco da porta, examinei atravez dos vidros. No centro do pavilhão +estava uma meza redonda, com um candieiro em cima. Em toda a roda corria +um amplo divan; e deitada sobre este divan, vi uma mulher chorando, com +a face entre as mãos, dando soluços de rasgar o coração, era ella! +Fanny! ella! Entrei precipitadamente abri-lhe os braços, e lancei-me de +joelhos a seus pés. + +Mal me havia reconhecido, quando expediu um grito lacerante, apertou-me +a cabeça entre os braços, e abafou-me contra o seio. Eu não podia fallar +nem respirar. Fanny beijava-me os cabellos, desgrenhava-os com a face, +mordia-os para suffocar os gritos; depois ergueu-me a cabeça e eu senti +cahirem-me lagrimas nas faces, em quanto os seus labios frementes se +agitavam sobre os meus vertiginosamente, e suas mãos palpitavam por +sobre meus hombros, face, pescoço, em phrenetica inquietação. +Finalmente, cahindo desfallecida e quebrada de dôr tirou por mim, e +arrastou-me na quéda sobre o divan. Ergui-me. A partida do marido, e as +lagrimas d'ella, eram-me coisas incomprehensiveis. Entretanto, fiz +quanto pude por chamal-a á vida. O candeeiro, cahindo, apagara-se. +Caminhei para Fanny ás apalpadellas, arranquei-lhe os colchetes do +vestido, e tirei-lhe a pedaços o colete. Depois, á força de caricias, +rogos e orações, aquecendo-lhe as mãos com as minhas, e bafejando-a com +o meu halito ardente, consegui reanimal-a. Soltou um longo suspiro, e +ergueu-se amparada nos meus braços, e parecia reflectir. Torrentes de +lagrimas lhe rebentaram dos olhos, e lançou-se a mim com tanto amor, e +com ar de tanta piedade, que eu, a soluçar tambem, a comprimi ao peito. + +--Oh! Roger! meu Roger--exclamou Fanny com a voz entrecortada--se +soubesses que desgraçada eu sou! Consola-me. Ama-me. Soccorre-me. Oh! +que bem me faz o chorar sobre o teu coração... Meu querido Roger! + +Os soluços embargaram-lhe as palavras. Instei com ella que se +explicasse. Eu não sabia ainda que dôr podia ser esta, que rompia em +gritos de indignação. + +--Teu marido sabe tudo, sim? disse-lhe eu. Fanny fez um meneio de cabeça +negativo, e respondeu: + +«Não, não é isso; mas ha um anno que te minto. Eu sou a mais desgraçada, +a mais humilhada, a mais insultada das mulheres. A escoria, o opprobrio, +as infimas mulheres não são mais desgraçadas que eu! + +A este grito, que lhe fugia do peito não tinha eu que oppor. Fiquei +estupido e estupefacto. Não achava palavra que lhe dissesse. O que eu +fazia era abraçar convulsamente a lagrimosa mulher. Subito, um raio de +luminosa previdencia me esclareceu o espirito.--Se não aproveito esta +occasião para confessal-a, nunca saberei nada--dizia eu commigo. +Tranquilla deste lance, nunca mais fallará. + +Era judiciosa esta idéa. Fiz bem escutar-lhe a inspiração. Empenhei, +pois, toda a minha eloquencia para tirar desta pobre mulher o segredo, +que por tão largo tempo, me havia occultado. Instei, animei-a, +interroguei-a, mostrando-me consternado por sua dôr. Entrei, pois, no +segredo d'uma deploravel historia, não d'uma vez, mas arrancando-lh'a a +promenores, a pedaços, por que a sua exaltação, deixando-se ir até dizer +tudo, era intervallada de reticencias nos mais delicados pontos da +narrativa. + +Fez-se luz então para mim tudo o que houvera escuro e incomprehensivel +na sua vida e proceder. + + +L + +O marido de Fanny não era o homem fastidiosamente bom que eu cuidava. +Era um terrivel déspota. Mulher, amigos, creados, todos se acurvavam aos +seus caprichos e obedeciam passivamente ás exigencias do caracter +d'elle. Por zêlos, não é que elle opprimia a mulher, senão que por +indomavel espirito de vontade. Em sua casa havia uma unica pessoa que +dava regra e á qual deviam amoldar-se habilmente as de mais. Não se +tinha em conta de mero homem; dava-se ares d'uma especie de sol que +allumiava; aquecia, e communicava vida a tudo que o rodeava. + +Pelo que, logo que viu sua mulher, aconselhada por mim, desviar-se +insensivelmente da norma de vida que elle traçara, ficou primeiro, como +pasmado; mas, com um carregar de sobr'olho, fez que Fanny entrasse +immediatamente na ordem. Todavia, não lhe deu canceira averiguar o por +quê d'aquella timorata tentativa de emancipação. A seu vêr, toda a +mulher era ente chimerico, dirigido por machinismo incomprehensivel, que +não merece analyse séria. Nem elle tinha arrebatado Fanny, nem a tinha +esposado por amor. Não. Seduzira-a por que era formosa, e elle queria +que uma mulher formosa fizesse as honras de sua casa. Raptou-a porque +lh'a negaram. Esposara-a porque era rica, e elle pobre, e, de mais, +queria, a um tempo, enriquecer-se e propagar-se. + +E, como a visse submissa, todo elle era disvelos. Era-lhe ponto de honra +gastar cada anno, com sua mulher dobrado do rendimento do dote, e a +miudo a presenteava com ricas dadivas para ostentar sua liberalidade. +Sentia por ella, em summa, alguma coisa d'aquella rudeza attenciosa que +tem os cavalleiros arabes pelos seus cavallos de fina raça. Usam elles +mesmos arraçoal-os com uma das mãos, tendo na outra o chicote prompto a +castigar o menor desmancho. + +Por largo tempo, Fanny, subjugada por aquella vontade superior, +docilmente se sugeitou. Pensou, executou, viveu por elle. Á força de +paciencia, obteve, por fim, de seu senhor uma apparencia de liberdade. +Alguns mancebos--segundo me pareceu--approveitaram isso para cortejarem +franca e assiduamente a bella mulher cujo ar de tranquillidade inculcava +um longo habito de rebellião interior, e de dôres inexpansivas. D'isso, +porém, o marido nem se quer suspeitou. Sómente o accaso lhe trouxera ás +mãos uma carta de comprometter. A scena immediata a este descobrimento +foi terrivel. Não se deram, com tudo, gritos, insultos, nem brutalidades +degradantes; nem duelo, nem explicações, nem separação forçada dos dois +imprudentes, que teriam castigado irremissivelmente o orgulho do esposo, +mesmo quando o vingavam. O intelligente marido o que fez foi declarar a +sua espoza que guardava a carta. E, desde então, cada vez que a via +inclinada a emancipar-se, servia-se da tal carta para a fazer tremer e +submetter-se. Um quarto de papel tornou-se nas mãos deste homem um +punhal com que elle espicaçava a mulher para fazel-a andar deante +d'elle. + +Era, pois, um vilissimo homem? Não: era simplesmente orgulhosissimo. +Ainda que aquella carta preciosa fosse mil vezes mais explicita, o +marido não lhe daria credito. Em quanto a elle, aquillo, quando muito, +era a prova d'uma creancice perigosa que, astutamente explorada, poderia +degenerar em apparencias de crime. Mas no crime é que elle nunca +acreditou. E acreditar, como? Era impossivel, pela simples razão de que +sua mulher não podia mostrar-se criminosa para com elle. E não podia por +que era sua mulher. E não podia, por que elle... era ELLE. Por tanto, +censurando um pouco essa creancice humilhante, não se mostrava inquieto +nem menos feliz. E continuou a amar a mulher, a seu modo, com aquelle +seu coração de ferro. Depois de quinze annos de casado, vinham ainda ás +vezes uns dias em que elle era todo amores com ella. + +A arma, porém, continuava a ser arma em suas mãos, e sempre com +serventia. Primeiro, graças á carta, obteve de Fanny que não fallasse +mais com sua mãe, que elle detestava, por que o não quizera de bôa +vontade acceitar por genro. Depois, exigiu que fizesse crear os filhos +em peitos alheios, sob pretexto que os cuidados maternaes lhe +desbotariam o gosto dos prazeres da sociedade. Depois, sem consultal-a, +e sem visivel utilidade, vendeu o castello onde ella nascera, onde +passara a infancia, e o parque onde estavam sepultados seu pai e seus +dois irmãos. Finalmente, graças á prestimosa carta, não havia repressões +que não lhe ordenasse, vexações que não lhe impozesse mas sem maldade, +mas prodigalisando-lhe sempre obsequios e cortezias, principalmente em +publico. E a vida de Fanny tornou-se um inferno no qual um implacavel +demonio a torturava com uma mão, e acariciava com outra. + +Quando, porém, Fanny resistia a exigencias graves, ou a ultrages brutaes +á delicadeza d'ella, é que o marido rompia em transportes inauditos. +Nesse caso, perdia a consciencia de si proprio, mas por uma hora +sómente. Deixava de ser o homem urbanamente desdenhoso que trazia na +cara os mais exquisitos matizes da superioridade de caracter, e cujo ar +affavel e franco, parecia dizer a todo o mundo: «Vede que não ha que +temer de mim.» Transfigurava-se em leão que a natureza amassara com as +suas mãos callosas, e que a educação desbastara apenas. Hirtavam-se-lhe +como crina os cabellos. Flammejavam-lhe os olhos como reflexos d'oiro +fundido. As ventas dilatadas assopravam um halito ardente. A boca +contrahida abria-se, e mostrava dentes admiraveis, como se ameaçassem +dentadas. Crispavam-se-lhe os punhos cerrados. Era medonho. Havia um +insulto que não deixava nunca de esbofetear a victima. A carta dava +sempre o pretexto. E era sempre o mesmo insulto, a mesma palavra infame +que a marcava na fronte como ferro em braza, e que a rebaixava--como +ella dizia--á ultima escaleira de todas as mulheres. + +Mas a sorte, que não tem compromissos com as paixões e os caracteres, +obstinava-se por vezes a brigar com este athleta. Feriam-no successos +imprevistos: obstaculos estranhos sahiam a empecer-lhe os passos. Então +era sublime! Não blasphemava, não injuriava a sorte, por que sabia que +era inutil; mas arcava com os successos e obstaculos, e luctava +silenciosamente, friamente, pacientemente. Por custume, dominava a +sorte. Quando lhe correram risco os bens da fortuna, á força de audacia, +conseguio resarcir a melhor parte, abandonando a outra, como um favor +irrisorio aos credores, seus emulos. Outro qualquer, no logar d'elle, +esmoreceria, que vontade como a sua não havia quem a tivesse. Mas um +exito mediocre não bastava a este homem, insaciavel de exitos +estrondosos. Decidira safar o seu navio de entre os escolhos onde fôra a +pique. Queria salvar tudo, carregação, apparelhos, e até o lastro. +Jurára de não ceder ao oceano, um prego só. Eil-o ahi, que, descançando, +na meditação de oito dias, dos seus primeiros trabalhos, reapparece no +sitio do naufragio mais azafamado, mais resolvido, que na primeira vez. +Esta partida subita cauzara a ignobil disputa de que eu fôra +involuntaria testemunha. + + +LI + +Parece que, ao jantar, em poucas palavras annunciara elle os seus +projectos a Fanny. Mostrara-se tranquillo, meditativo, quasi affectuoso. +Gracejou com Fanny sobre o seu ar melancolico, motivado pela vida +absurda do campo. Brincou com os filhos. Foi polido, como sempre, com os +creados que o serviam. Ao pospasto, levantou-se, pedio um charuto, +accendeu-o, e dirigiu-se ao pavilhão, com Fanny sobraçada, dizendo-lhe +frioleiras com geito amavel. Como os filhos os seguissem, brincando na +relva, foi ter com elles, abraçou-os, despediu-os, e pediu-lhes +affectuosamente que fossem brincar mais longe. Depois, assentou-se no +divan do pavilhão, cuja porta estava aberta, fumando o charuto, e +bebendo, o seu café aos golinhos. Ao cerrar da noite, veio o escudeiro +com a luz. Pediu-lhe que mandasse pôr os cavallos á carruagem. Até ahi +dissera sómente frivolidades com ar festivo; mas, retirado o escudeiro, +ergueu-se a fechar a porta, tirou tranquillamente do bolso um papel +sellado, e disse a sua mulher: + +«Minha querida, escreve a tua assignatura ao lado da minha no fundo +d'esta folha de papel. + +Fanny pegou da penna que elle lhe offerecia, mas, antes de escrever, +disse-lhe: + +--Que são estes engrimanços que eu assigno? + +«Não é mais que um instrumento de doação reciproca de todos os nossos +bens. + +Fanny depoz a penna sobre a meza, e perguntou-lhe mansamente algumas +explicações sobre o uso que elle ia fazer d'aquillo. O homem avincou a +testa, e annunciou-lhe que, por algum tempo, ia «reassumir o negocio, e +carecia de muito dinheiro.» + +--Não somos nós já bastante ricos?--disse Fanny. + +«Não. + +--Então vai ser exposto o meu dote? + +A esta pergunta, encarou-a carrancudo, e respondeu provocante e +glacialmente: + +«Sim. + +--Então não assigno--disse ella como atterrada da sua coragem--porque +não quero expor os bens de nossos filhos. + +Foi então que estalou a borrasca. Foi curta, mas pavorosa. Vendo-se +contrariado por uma impossibilidade, o déspota rugiu de furor. Pela +primeira vez em a sua vida, travou do braço da esposa, apertando-lho +para obrigal-a a assignar, e pizou-lh'o. Fanny supportou, não respondeu, +nem chorou. Cumularam-se sobre ella desprezos, incriminações, injurias, +todos os insultos e vilanias compendiadas pela recordação das passadas. +Veio tambem a affronta suprema, a palavra fatal, estalar na lingua do +insultador. Ahi é que Fanny chorou, soluçou e decidiu-se a assignar. +Serenou logo o marido: agradeceu, e quiz beijar-lhe a mão; ella, porém, +mostrando-lhe o braço contuzo, disse: + +--Não é por isto, Deus me é testemunha, que eu o desprezo; é pela +covardia do insulto. Dito isto, elle pediu perdão por de mais, +chamou-lhe creança e má cabeça, abraçou-a por força, chamou o cocheiro e +partiu. + + +LII + +Logo que Fanny, cedendo ás minhas instancias, me contou aquelles +extraordinarios successos,--não ordenados como os eu repito, mas em +fragmentos incoherentes, misturados de raptos de rancor;--logo que eu +nada tive que indagar, e que ella immudeceu por não ter nada que +contasse, ficamos algum tempo a contemplar-nos silenciosos, á luz tibia +das estrellas, com spasmo temeroso. Alguma coisa formidavel se estava +erguendo entre nós modificando estranhamente a nossa situação. + +Eu não pude, ainda assim, entrar logo na averiguação dos factos que, +forçosamente, deviam derivar d'aquella surprehendente confissão. Eu, +vendo Fanny ainda pallida, descompostos os cabellos, e tremula, só +pensava na sua humilhação.--É pois desgraçada!--disse eu no intimo da +minha alma. Tirei-a a mim suavemente pelo colo, busquei-lhe os labios, e +abriguei-a nos meus braços com o ardor da esperança e da piedade. + +Oh! como foi longo, estreito e desesperado aquelle abraço! Com elle se +esposaram nossas almas, e ali sentimos o que ha de piedade na mudez +d'aquelle apertar, de consolações nos suspiros, e que sympathia +reflorece da mixtão das lagrimas! Éramos sósinhos, silenciosos, n'uma +vaga escuridão, adornada pelo tibio alumiar de noite de estio. O +desalinho dos vestidos de Fanny, o cansaço de chorar que a retinha +deitada nos meus braços, o pejo d'uma confissão, que, posto que lhe +desse alivio á alma, lhe opprimia o orgulho pela primeira vez; a +felicidade de nos revermos mais amantes, mais alliançados que nunca, +após uma scena terrivel que devia desligar-nos: isso tudo insinuava-nos +não sei que desaffôgo de expansão reciproca, mesclada de amargura e +dulcificação. Emquanto meus labios lhe rossavam de leve os longos +cabellos desannelados, surprehendia-lhe no coração a velocidade de +movimentos que se me figuravam surdas expressões de cólera. O +arrepender-se de ter defendido por tanto tempo e nobremente, contra os +meus ataques, aquelle que lhe era um jugo na vida, arrancava-lhe gritos +de uma ironia implacavel. A irritação do insulto, e a indignação do +aviltamento immerecido, apertava-lhe os braços em volta do meu pescoço +mais energicamente do que nunca o fizera o amor. Ao mesmo tempo, o pesar +de ter flagellado o amante, cuja só presença lhe estava sendo a mais +terna das consolações, como a mais rapida e segura das vinganças, +inspirava-lhe a submissão e a supplica. A lembrança do meu rival, +presente a nós, ajuntava uma acrimonia angustiosa aos beijos d'ella, e +uma dôr infinita ás minhas caricias; e n'aquelle instante ao menos, em +que, sem fallar, trocamos tantas sensações e idéas bem comprehensiveis, +Fanny, estava emfim, na minha idealidade, absolutamente, e para sempre, +tão ligada a mim quanto apartada d'elle. + + +LIII + +Quando recobramos a palavra, o furor, reconcentrado em mim, fez subita +explosão. + +Fanny ficou estupefacta. Pronunciei, como um demente, palavras ardentes, +sem nexo. Uma especie de loucura acerava, como laminas de um punhal, +cada uma das minhas phrazes, e a raiva hervava-as de peçonha a mais +corrosiva. + +O sentimento da impotencia da vingança, a certeza de que os males +d'aquella mulher deviam renovar-se infinitamente, e os meus ciumes +passados, e mais que tudo, a memoria das nossas deploraveis questões, +causadas por aquelle indigno homem, faziam-me offegar de colera como +homem que acaba de levar uma bofetada, e não pode despedaçar entre as +mãos aquelle que lhe gravou o ferrete deshonroso... Na minha demencia, +parecia-me que o amor de Fanny, perdia tanto do seu valor, quanto mais +desgraçada ella era; e, envergonhado d'esta atroz idéa, meditava em +matar, e dar por ella a minha vida. Fanny, porém, ainda abatida, mais +queria ser consolada que vingada. + +Abraçou-me, e, coisa estranha! foi ella que me affagou para me +pacificar. + + +LIV + +Passei o dia seguinte a recordar tudo o que tinha sabido. Havia muito +que eu não sentira, como então, o espirito desoprimido de duvida. + +Um feliz provir se descortinava ante os meus olhos, depois de tão +tormentoso passado, como serenos valles e descampados aos olhos do +viajante que desce a ladeira escarpada de perigosas serranias. A +esperança d'uma existencia quieta refrigera a alma como a briza da tarde +que succede aos ardores do dia, e agora tudo me convidava a repousar-me +á borda da senda facil, que docemente se aplanava debaixo de meus pés +contusos. A serenidade dos dias, a auzencia das inquietações, eram a +minha prespectiva. Pensava n'isto sempre, e minha alma enlevada +derramava-se em effluvios de reconhecimento ao acaso que se cansara, +emfim, de me transviar. + +Entrava n'este sonho necessariamente a imagem de Fanny. Era a +companheira que me seguira através dos abysmos da paixão. Soffrera +irmamente commigo a longura das caminhadas, a incerteza do fim, os +espinhos occultos sobre os quaes, juntos, laceravamos os pés. A mesma +dôr nos arraiara de sangue os olhos, e abrazára os nossos halitos. A +ancia do repouso sentiramol-a ambos ao mesmo tempo. E, como se fosse +preciso que o mais debil dos dois soffresse mais, Fanny dava-me alentos +para a resignação, e com as mãos trementes enxugava-me da fronte o suor +do desespero, e ao mesmo tempo escondia-me dôres e trances particulares +que ella suportava heroicamente para me não angustiar. + +Mas agora esses desgostos que eu surprehendera, estavam sanados. +Renascer não poderiam mais. Ambos livres do phantasma que tão cruelmente +nos perseguira, podiamos, em fim, senhores de nossas acções, +compensarmo-nos amplamente do supplicio e dos terrores. Á maneira de +dois fugitivos, que não deixaram pégadas, e vão ás bordas das fontes, e +á sombra dos bosques silenciosos, sacudir o pó das sandalias, nós nos +íamos, emfim, vingar da sorte estupida, esquecendo os tormentos que nos +infligiramos. + +D'est'arte sonhava eu, a sós commigo, contemplando a imagem querida de +Fanny que me sorria entre as mãos, cingida em moldura de ouro, como +d'uma aureola. Assim me comprazia dispondo ante nós as paragens do nosso +futuro. + +Nunca eu afagara mais cruel illusão! + + +LV + +O dia em que tornei a vêr Fanny, era um dia explendido! + +Veio a minha casa, de manhã, deliciosamente vestida, como para celebrar +dignamente as nupcias da nossa felicidade. O seu vestido côr de malva, +que tão gentilmente condizia com a frescura da sua pelle, resplendia +sobre as fórmas esbeltas e finas, e caia-lhe em reverberos, sobre os +pés. Os braços meio nús, sobresahiam das rendas das mangas, com reflexos +baços como os de marfim não lustrado ainda. Do corpete chanfrado sobre o +seio elevava-se, um pouco inclinado, o colo alvissimo. Por de sobre as +faces ondulavam-lhe os cabellos. + +Nenhum ruido nos perturbava, a não ser a campainha do relogio que não +ouviamos, e, de longe em longe, o rodar precipitado e passageiro das +carruagens, estremecendo a calçada. Conversamos, mais uma vez, sós por +sós. Fanny comeu pouco, sorrindo, como a pedir perdão. Eu ergui-me para +servil-a, e abraçava-a na passagem. Ella ministrava-me o vinho, com +graça, vertendo-o d'alto, e eu todo me enlevava na formosura d'aquelle +braço que se inquadrava no vacuo sombrio da sua larga manga. Nunca o +nosso quarto nos parecera tão bonito! Queriamos d'alli não sahir mais! + +Ergueu-se Fanny, e foi sentar-se no diwan. Colloquei-me a seus pés sobre +uma almofada, com o cotovello sobre o joelho d'ella, e longo tempo +estivemos assim mudos a contemplar-nos. Com uma de suas mãos, +intromettidas nos seus cabellos, levantava-os aos tufos, e devidia-os. E +eu beijava-lhe a outra mão, travada na minha. + +--Oh Fanny! se tu não fosses casada!...--dizia-lhe eu com paixão. E ella +respondia: + +--Oh Roger! se tu não fosses cioso!... + +Não sei como se passou o dia; mas mui rapido passou! Em mutuos olhares +de extasis, em abraços doidos de ternura, em ir e vir d'uma para outra +camara, que horas tão instantaneas correram! Quiz saber a historia da +minha vida. Contei-lh'a: era simplissima. Chorou ouvindo a narrativa da +morte de minha mãe. + +Muito havia que não estiveramos tão intimos, serenos, e felizes. O +rancor atroz do ciume não nos separava. Expandimo-nos sem reverva: por +isso mesmo foi completo o socêgo de nossas almas. Havia ali felicidade +que bastaria á boa fortuna de dez amantes. + +Cotejando em meu espirito aquelle dia singular com todos os precedentes, +lembrou-me de repente a causa que, por mais d'um anno, nos fizera tão +desgraçados. Rompeu de minha boca uma exclamação furiosa, e, por piedade +das angustias de Fanny, tanto tempo escondidas, não pude conter-me que +não exprobrasse o oppressor. + +Fiquei como empedrado quando vi Fanny franzir então a testa, e morder os +labios. Relanceou-lhe rapida na face uma sensação, como o relampago +silencioso que fende uma nuvem. Depois sorriu, e acalmou como o céo +d'uma tarde estiva. Eu, porém, curei de indagar a causa d'aquella +sensação dolorosa, e tornei-me pensativo e triste, por não sei que +confusa remeniscencia. + + +LVI + +Fanny retirou-se sem parecer notar em mim turvação alguma. Depois que +sahiu, mil recordações uma apoz outras, como vagas d'um mar silencioso +cumulavam-me o espirito. O porte de Fanny pareceu-me agora mais que +nunca incomprehensivel. + +--Esta mulher é a mais extraordinaria ou a mais vil das +mulheres!--Disse, e repassei na memoria quanto sabia d'ella. Mas, outra +vez ainda, tudo me pareceu contradictorio em sua indole.--Por que +defendia o meu rival quando eu ignorava as suas violencias? Por que o +accusou depois? Por que impallidece agora se me ouve reprovar as acções +do homem que a ultraja? Oh! é possivel supporte tamanhos despresos, +vexações tão aviltantes, e conserve a minima affeição a um homem que a +tortura e humilha!! Indecifravel enigma. Ama-me ella? Ama o marido? Que +ha ahi de commum entre essa mistura de seres, de sentimentos, de +calculos, de transações, e o amor, esta paixão absoluta, intolerante, e +exclusiva? Deste modo ajuntava, separava, e confundia todos os factos da +nossa existencia commum sem poder desinredar o inextricavel fio da +meada. Cada facto, por seu turno, vibrava-me no ouvido, como um som +agudo; e, á maneira d'um clamor synistro, estrondeando por sobre tudo, +rugia incessante aquella palavra da consciencia de Fanny, proferida, um +dia, para meu supplicio: + +--Eu mentiria se dissesse que o não estimo. + + +LVII + +Desde então, illaqueado mais estreitamente que nunca na rede das +incertezas, um só desejo me dominava--tirar de Fanny a explicação do seu +caracter, não interrogando-a, mas compelindo-a a extremos indicativos. + +Aggredi acintemente o marido deante de Fanny: difficil fôra o +defendel-o, por que o ataque era dirigido ás violencias que lhe eram a +ella feitas. Limitou-se, primeiro, ao silencio, erguendo ao céo os +olhos, por que eu a estava pranteando; depois, mostrou-se descontente da +asperesa das minhas palavras. Repentinamente lhe assomou á face o +sangue, os labios cerraram-se, as palpebras descahiram, isto a tempo que +eu lhe estava exaltando a resignação para melhor accusar os caprichos do +marido. Obedeceu, por fim, á sua eterna preoccupação, e disse-me: + +--Não fallemos mais de tal: tudo isso é triste; mas eu sou obrigada a +submetter-me. Ao cabo de tudo, sempre é meu marido! + + +LVIII + +Estas palavras nem me espantaram nem indignaram. Esperava-as. Sorri com +amargura, ouvindo-as dos labios da mulher estremecida. Eu passeava d'um +para o outro lado no meu quarto, e ella seguia-me com a vista. + +--É a derradeira illusão que morre!--exclamei eu. + +Fanny pediu-me a significação d'estas palavras, e eu recusei dar-lh'a, e +disse: + +--Já são que farte as questões que temos ha um anno; por minha vez, te +rogo que não te importe saber o que se passa em mim. Amemo-n'os taes +quaes somos. Por mais que desesperemos e resistamos nunca se mudará a +nossa indole. + + +LIX + +Durante a ausencia do marido, que foi de mais de seis mezes, houveram +grandes alterações na nossa vida. Eu via Fanny quasi todos os dias. +Ambos abusavamos da liberdade d'ella! Vinha passar commigo todo o tempo +disponivel. Frequentes vezes jantavamos juntos. Encontravamo-nos nos +passeios e no theatro, e nas lojas. Aqui, sem nos mostrarmos conhecidos, +trocavamos olhares furtivos, e, perpassando ao longo dos balcões, +sentiamos as delicias instantaneas do contacto. Escreviamos, além d'isso +tudo, cartas infinitas, e trocavamos flôres. + +Fanny esmerava-se em attenções, para compensar-me do mal que me fazia. +Liberalisava-me aquelles delicados disvellos que as mulheres aguardam +dos homens, e dos quaes disvellos são tão economicas, quando se dignam +conceder-lh'os. Beijava-me a mão, chamava-me seu querido filho, +mostrava-se submissa, e esmerava-se por que não houvesse coisa que +turvasse a serenidade da minha vida. Nunca, porém, tratando-me como +dominador, se rebaixava. Ajoelhada deante de mim, tinha a inteira +dignidade d'uma rainha. + +Ás vezes, quando as bellas noites do outono eram mais balsamicas e +suaves que as do estio, fugiamos da cidade, como aves cansadas do calôr +do dia. Hombro com hombro, recostados ao respaldo d'uma carruagem +fechada, com as mãos inlaçadas silenciosos, iamos ao bosque buscar um +pouco de ar, de silencio, e de solidão. Rentes comnosco passavam fogosas +parelhas tirando por grandes calexes descobertos, cheios de mulheres +risonhas cujos véos fluctuavam ao vento. Ouviamos o fremito das rodas na +areia, o resfolgar dos cavallos, e o estalido dos chicotes. Viamos +agitarem-se entre as arvores as luzes das lanternas, e mirarem-se na +agua morta dos lagos as sombras espessas dos bosquesinhos de pinheiros. +A lua, ás vezes tão melancolicamente ingastada no céo como nodoa de +prata, alumiava grandes moutas de espinheiros, donde subiam, razando as +hervas, nuvens alvas de vapor. Ebrios do aroma das carvalheiras, e da +mollidão dos nevoeiros luminosos, apeavamos no angulo d'algum caminho +estreito, e nos intranhavamos por debaixo da arcaria de immoveis +arvores, passeando vagarosamente, mais perdidos em nosso scismar do que +o estava a verde folhagem á sombra da noite linda. Era delicioso aquelle +momento em que Fanny, infadada, se me pendia do braço, e justapunha a +sua espadua á minha! Não fallavamos, sentia-se ali o viver, ouviamos as +nossas respirações; e, assim unidos, achavamos doçura estranha n'aquelle +nosso silencio e na incerteza de nossos passos. + +Algumas vezes, com tudo, suscitavam-se ligeiras discussões, +remeniscencias attenuadas de antigas discordias. Fanny, porém, +tomando-me, a rir, pelo que eu era, uma creança, ou fazia que me não +intendia, ou, sacudindo-me o braço em ar de gracejo, dizia: + +--Ora vamos, não se falla aqui do que já lá vae. + +Todos os lados accessiveis da minha vida ia-os ella penetrando cada vez +mais. Como queria tudo saber, imperiosamente se senhoreava de tudo, +passado, presente, e dispunha de tudo, a bel-prazer do futuro. Eu +pensava em tudo como ella. Se me dava conselhos eu seguia-os como +ordens. Em minha casa era ella que dirigia tudo. Os moveis como que se +moviam espontaneamente para se collocarem nos logares designados por +ella; os quadros entravam n'outras molduras; os espelhos inclinavam-se á +vontade d'ella para lhe espelharem por toda a parte a imagem. Era-me +prazer grande o vêl-a assim dispôr do que era meu. A minha casa, tornada +sua, parecia afeminada. Já lá se não viam por sobre as mezas esporas, +chicotes, caixas de charutos; nem junto das paredes tropheus de armas +quarteadas; mas, em logar d'isto, estavam bocetas de flôres, alvissimas +caças rojando sobre os tapetes, mobilia colorida a lacca e incrustações +de Boule, e caixas de perfumarias. Levantavam-se do tapete agulhas e +fios de seda e lã: no rebordo da chaminé brilhavam o dedal e as +thesouras. + +Foram, no drama da nossa vida, esses seis mezes uma especie de +entre-acto. Nada nos faltava para a felicidade, excepto a confiança. +Fanny estava sempre sobre-rolda receando ataque improviso, e eu +conservava no coração um certo azedume. Não havia consolar-me de não ter +podido vencer os escrupulos da mulher que eu tanto amava. + +Cheguei á fraqueza piegas de pedir-lhe conselhos para a direcção dos +meus bens. Fanny não entendia nada de negocios, mas dava aproveitaveis +pareceres, porque eram sempre dictados por um espirito de desconfiança +feminil. Pois não a consultava eu até em compras de cavallos? No tocante +ao vestir era ella quem decidia soberanamente dos feitios e das côres. +Arranjava a minha roupa branca, a rir, erguida em pontas dos pés para +chegar aos lotes dos armarios, e intromettia-lhe bolsinhas odoriferas +que trazia comsigo, e nunca pude encontrar n'outra parte. Todos os +instantes dos meus dias estavam, em fim, contados. Não dava um passo sem +sua approvação; não comprava luvas ou gravatas que ella não elegesse. O +numero dos meus amigos fixou-o ella. Desprezei tres, porque tinham nomes +que não agradavam a Fanny. Tudo isto me parecia delicioso. Viver sem +ella é que eu não podia por mais que fizesse. Estava enfeitiçado. + + +LX + +Mas o meu ciume, esse não estava morto, nem se quer entorpecido: apenas +tinha variado um pouco de objecto. Desde que o marido estava auzente, já +não podia soffrer por causa de uma partilha que não existia; mas os +menores sentimentos que Fanny me deixava adivinhar, inquietavam-me. +Afóra os filhos, e a mãe que ella via ás escondidas, eu não lhe +consentia amar ninguem. Fanny sorria, encolhendo os hombros. D'este modo +nos tyrannisavamos mutuamente. + +Um dia, quando eu lhe tirava o «corpete», uma carta grande e +quadrada--lhe fôra entregue quando saía de sua casa--escorregou-lhe do +peito e caiu aos meus pés. Levantei-a. Tinha o sêllo de Londres. Encarei +Fanny, que, pallida, estendia a mão tremula a tomal-a. + +«Teu marido escreve-te?» disse-lhe eu, entregando-lh'a. + +--Que pergunta!--disse ella. + +--Escreve-te regularmente?--ajuntei eu, depois d'um momento de silencio, +durante o qual eu sentia as garras do meu antigo furor atassalhar-me o +espirito. + +--Pois então!... disse ella--todas as semanas. + +«Porque te escreve elle?... Separados por tão violenta discussão, +parecia que os corações deviam separar-se para sempre. + +Fanny olhou-me com espanto e ficou pensativa. Mas, como eu esperasse +resposta, replicou: + +--Espantam-te sempre as mais singelas coisas. Não é natural que meu +marido me diga dos seus negocios, e me falle dos seus filhos? + +«É justo... Eu não tinha pensado n'isso--murmurei. + +Fallou-se de muitas coisas; mas, a sós commigo, reflexionei immenso. + +«Respondes ás cartas de teu marido? + +Fanny fez-se livida, hesitou, e deu signaes de impaciencia. Depois +simulou um ar de indifferença, respondendo: + +--Escrevo-lhe raras vezes; + +--Sim? e, diz-me cá, que lhe escreves? + +--Não sei. Escrevo-lhe friamente. Falla-se de negocios. Isto não te +interessa nada. + +Fiquei um tanto inleado; mas não pude reprimir-me. + +--Como é que nunca tiveste a idéa de mostrar-me as cartas de teu marido? + +Roger! Roger!--exclamou sorrindo contrafeita--eu creio que estás louco! +Uma mulher póde por ventura confiar a alguem, principalmente áquelle que +ama, o segredo dos negocios de seu marido? + +--Tambem é verdade--murmurei eu. + +Fanny quiz logo aproveitar a vantagem que obtivera. + +--Feliz seria eu, disse ella, podendo mostrar-te essas cartas que te dão +tanto que pensar. Provar-te-iam que é uma sem-razão recear alguma coisa. +Sabe, pois, espirito desconfiado, que não se póde viver em menos união +do que eu vivo com meu marido. + +--De certo! + +--Como podes suspeitar o contrario depois que te confiei as minhas +amarguras? + +--D'antes, tambem me confiavas o segredo dos negocios domesticos: não +esqueças isto, Fanny. + +--Oh! hoje é muito differente. + +--Porque? + +--Porque... cá me entendo. + +Isto fez-me reflectir novamente. Fanny levou as mãos ao céo com piedosa +expressão; eu estava como involto nas sombras da morte. E assim nos +contemplavamos. Era-me impossivel a quietação. Agitava-me d'um para +outro lado. + +--Se dizes a verdade, Fanny, por que me não mostras as cartas que lhe +mandas? + +--Não é possivel. Quem lêsse uma, comprehenderia as outras. + +--Não obstante, eu bem quizera conhecer o tom das tuas cartas. Porque +lhe não escreves agora, mesmo aqui? Falla-lhe de tudo menos do que não +quizeres que eu comprehenda. Eu mesmo levo a carta ao correio. +Supplico-te, Fanny... Se nada temes de ti, dá-me esta prova de +confiança, para me tranquillisar que eu soffro muito. + +--Não é possivel--redarguiu ella, com signaes de offendida. + +A raiva que me devorava o coração estalou desassombrada: + +--Que lhe escreves tu que não queres que eu saiba? Juraste matar-me? +Falla, se tens na alma sombra de piedade! Torturas-me barbaramente como +um algoz! + +Fanny ergueu-se, pegou-me da mão e disse brandamente: + +--Roger, eu não queria magoar-te. + +--Pois que! que mais querias tu fazer-me? Vae! Tu és mulher de duas +caras; eu nunca fui amado por ti! + +A esta phrase injusta, lançou-se-me ao pescoço, abafando-me com beijos +as palavras. Eu continuei: + +«Como podiam magoar-me as tuas cartas, se, depois d'essa horrivel +contestação, ficaste despeitada com teu marido? + +--Sê rasoavel: uma mulher póde ficar despeitada com seu marido? + +«Pois que?--exclamei furtando-me aos braços d'ella--tu perdoaste-lhe? + +--Rigorosamente não--disse ella, sentando-se quebrantada--mas foi-me +preciso acceitar as suas desculpas. D'esta vez, ainda assim, está tu +certo que não esquecerei mais os ultrages passados. + +«Perdoaste-lhe! perdoaste-lhe, Fanny!--Bradei, de pé em frente della, +que olhava para mim assombrada--Não tens, pois, dignidade alguma? Não te +sentes das injurias? És assim vil? Amal-o? Mentiste-me, pois, a mim? Ah! +isto é que eu não acreditaria nunca! + +Fanny continuava a ouvir-me silenciosa. + +«Diz-me cá: por que me occultaste tanto tempo que elle te insultava? + +--Não queria deshonral-o. Se tivesses mais alguma experiencia, não te +espantarias do que succede. Em summa, eu não quero fallar mais n'isto. +Seja-te bastante saber que se me elle restringe a liberdade, ou diz +arrebatado coisas indignas, tem pesar do que faz e diz, passada a +colera. Affirmo-te que o julgas mal. É possivel que eu exaggerasse os +factos no primeiro momento da indignação.. mas. + +«Calla-te!--bradei eu--se tens pudôr, calla-te! Ha uma coisa que parece +passar-te desapercebida, e é que, á proporção que vaes fallando, não sei +que idéa peçonhenta lucta, em mim, com o meu amor. Não accrescentes uma +só palavra. Acceito ainda isso, por que sou vil, por que sou um fraco, +por que te amo muito, por que não posso dissuadir-me de te amar; mas +sabe tu que maior mal não m'o podias fazer. Supplico-t'o--não digas mais +nada. + +E lançando-me a seus pés, exclamei: + +«O despresares-te a ti propria, seria, sobre tudo, cruelissimo! + + +LXI + +Sempre que tivessemos algumas dessas deploraveis luctas o apartamento +era frio, e eu ficava dias inteiros a reluctar com a memoria d'ella. +Mentalmente eu reproduzia os ataques e os argumentos, e inutilmente +sondava a causa misteriosa do seu proceder. Eu era muito moço e +inexperiente: avaliava-a mal. Aquella natureza complexa, que resumia no +seu caracter muitos caractéres diversos, queria eu que visse as coisas +absolutamente como eu as via. Eu, o que então sabia, era que as +palavras: sentimento, amor, delicadeza, ciume, e outras assim, +representavam para Fanny umas idéas, e para mim outras. Ignorava que o +custoso para mim não o era para ella, e que lhe bastava sempre a boa +intenção para indulgencial-a d'um facto, qualquer que fosse. Em mim, não +descontava nada á sua fraqueza. Depois é que apprendi a conhecêl-a. + +Quantos maiores esforços eu fazia para desligar Fanny de seu marido, +mais eu estreitava os vinculos relaxados por quinze annos de existencia +commum. Fanny lastimava-me interiormente, mas eu devia ser-lhe pesado. +Bem sentia eu que a importunava, mas não estava em mim deixar de a +repellir de cada trincheira em que ella esperava o combate. Não me +passava pela mente que o unico recurso para conseguir o meu fim, era +mudar de tactica. Ninguem me havia dito que eu devia esconder o meu +ciume, como principal causa da nossa separação. Que candura! Eu via nas +manifestações do meu ciume provas de um amor que devia abalal-a. E, com +tudo, tão facil me seria serenar-lhe a vida a ponto de a forçar a +comparações, com vantagens minhas, entre os dois homens de quem ella +dependia. Mas mais simples que tudo seria não amal-a!... + +Ama ella o marido? Não acredito, nunca o acreditei. Um sentimento banal, +resultante do costume e agradavel ás almas pacificas, porque +naturalmente continúa as coisas, e não cansa o espirito em mudanças, +esse devia tel-o. E o vêr o despota humanisado diante d'ella, +commovia-a; e o receber caricias da mesma mão que a castigava rudemente, +dava-lhe uma especie de satisfação. Não era isto fraqueza nem ingenita +baixeza de animo; era uma certa indifferença de genio, explicavel na +idade d'ella Fanny, em fim, certo, não tinha uma alma varonil, nem mesmo +uma alma muito nobre, por que antes queria astuciar que combater, e +antepunha o aviltar-se, repartindo-se, que transtornar o seu viver; era, +porém dotada de alma recta. Cuidava, certamente, que se resgatava, em +sua consciencia, da perfidia conjugal com uma submissão completa. Até +certo ponto, era indemnisar o marido, o tolerar-lhe os caprichos do +genio. Em que restingas, em que abysmos, em que cahos de coisas sem +nome, a probidade, esta rara perola, se esconde? + + +LXII + +Era urgente que eu accedesse á nova concessão do aproximarem-se os +esposos. Mas de concessão em concessão lá se ia, desfeita em lagrimas, a +minha estima. Eu humilhava-me como o escravo que não póde resistir, com +gritos de raiva surda, e desejos immensos de vingança. Ah! se Fanny +soubesse que ella devia accusar-se só a si da minha abominavel vingança! + + +LXIII + +Inraivecido por não poder vencer a pertinacia do caracter de Fanny, +trahi-a. Amor e ciume, quiz tentar matal-os na devassidão. +Conspurquei-me voluntariamente, e acintamente, ao contacto de labios +impuros da luxuria estupida. Cada noite, de proposito, como ladrão que +se embusca no angulo d'uma rua, entrava rindo sarcasticamente de mim +mesmo, no infame prostibulo onde eu contava apagar a sêde de vingança. +Sorria amargamente ainda, como traidor que pensa na confiança dos +ludibriados, eu arrastava commigo, aos braços da mulher querida, a torpe +recordação das creaturas degradadas, cujas caricias não tinha podido +sevar-me o rancor; e deste modo eu achava um meio de identificar Fanny +commigo, sem o ella saber, e ingolphal-a commigo nas mesmas execraveis +immundices. + +Mas era-me maior a vergonha na sahida que a cegueira do furor na +entrada. Estorcia-me os pulsos na rua, e arrancava os cabellos +desesperado. Mais ciumento, mais aferrado, mal vingado, castigado por +minhas proprias mãos, martyrisava-me com o profundo pensamento da +inutilidade dos meus esforços. Não sei que desgosto corporal me subia +aos labios. Era um horror de mim mesmo. Vagava, de ventura, toda a +noite, como miseravel sem abrigo, esperando vencer com a fadiga do corpo +os tormentos do cerebro. Debruçado sobre o parapeito das pontes via +redemoinhar a onda negra do Sena, menos sombria e mais lodacenta que os +pensamentos, irriquietos do meu espirito attribulado. Eu chafurdava nos +lamaçaes, como para destruir sobre immundices impalpaveis, a impalpavel, +mas real immundice que imporcalhava o meu amor. E sempre diante de mim, +perpassando como phantasma nas sombras que se tiravam ao longo das ruas, +via a imagem de Fanny, com o seu ar tranquillo, fronte serena, olhar +sombrio, como que a visitar-me, mas forçando-me a pensar n'ella quando +eu ia cuidando em matar-me para esquecêl-a. Oh! que terrivel estado +aquelle, sem repouso nem treguas ás minhas angustias! que me exacerbava +e prostrava! que incharcando no nôjo a minha desesperação, infamava o +meu ciume sem applacal-o! + + +LXIV + +Sustentava-me, comtudo ainda, um resto de coragem, essencial na minha +indole. Estas pelejas intimas davam-me alento. Resolvera buscar o +remedio até encontral-o, e, não o tendo, emprehender algum arrojo de +desesperado, para arrebatar Fanny, a pezar d'ella. Ninguem sabe os +estragos que uma idéa fixa póde fazer d'uma alma. Incrivelmente vos vos +roja até vêr o bem nas coisas repugnantes ás menos temerosas +consciencias. + +Após maduro reflectir, decidi-me ao penoso sacrificio da ultima +concessão. Estava eu como um doente, que desenganado da cura, pactua com +o mal, e dispõe-se de modo que seja menos o soffrimento no restante de +seus dias. + +«Tudo te perdôo!--disse eu a Fanny.»--nunca mais te fallarei dos nossos +eternos motivos de discordia. Não examinarei o teu proceder; não te +sondarei os sentimentos; tudo te concêdo, tudo acceito, excepto a +abominavel partilha que tanto me fez soffrer, e tão demorada tem sido. +Não posso mais... antes quero vêr-te desgraçada; antes morta; quero +morrer eu. Sê-me leal, supplico-t'o--accrescentei com tristeza--porque +me faz um mal horrivel duvidar de ti. + +--Pois bem, não haverá mais partilha--respondeu Fanny, com um aperto de +mão--não te inquietes, não soffras mais. Quando meu marido voltar, +approveito-me do pretexto dos ultimos insultos para impor-lhe condições. +Viverei completamente separada d'elle em sua caza. E isto, por toda a +vida Roger, socega, sê emfim feliz. Não dependia de mim o seres feliz ha +mais tempo. + +«Restitues-me a vida!--exclamei, lançando-me aos pés d'ella, e +abraçando-os. + +--Querido filho! + +--Liguemo-nos por um juramento. + +A isto sorriu-se ella, mas jurou solemnemente, dadas as mãos, e fixados +mutuamente os olhos. + +«E agora--disse eu--se por qualquer motivo, uma vez só, resolveres +faltar á palavra, juras que me avisarás, para que não haja entre nós +traição. + +--Por que queres tu que eu jure. + +«Pela minha vida. + +Fanny sorriu outra vez, mas jurou solemnemente. + +Depois d'isto fiquei totalmente tranquillo. Picou-me n'alma o ciume como +a recordação de um sonho que de tempo a tempo, nos sobresalta. +Reapreceu-me a vida bella e ampla. Confiava. + + +LXV + +E por isso a chegada do marido apenas me incommodou pela impossibilidade +de me avistar tantas vezes com Fanny. Chegara o estio. Fanny habitava +outra vez a sua casa campestre, e eu ia vêl-a algumas vezes, por noite, +no caramanchão da tapada, e mais vezes vinha ella a Pariz, quando +engenhava pretexto para passar fóra um dia. Mostrava-se mais livre que +d'antes, pelo menos as visitas eram mais delongadas; mas, mais que +d'antes, me pareceu pensativa e preoccupada. Attribui este enleio aos +infadamentos procedidos da palavra que me dera. Entendo que novos +debates, novos tormentos a faziam desgraçada; e, lastimando-a de todo o +meu coração, animei-a á resistencia, e consolei-a quanto em mim cabia. +Fanny, porém, denotava constrangimento, suspirava, e acolhia os meus +beijos á flôr dos labios, como se tivesse esfriado em seu amor. + +Estava escripto que tudo, na nossa historia, fosse extraordinario, e que +eu não intendesse nunca o procedimento d'esta mulher. Logo que me eu +persuadia de ter-lhe penetrado a nova tristeza--imputando-a a discordia +que o respeito do seu juramento devia acarear--soube um facto que me +atirou, mais que nunca, a um mar de incertezas. + +Recobrando o repouso do animo, dei-me a um viver menos solitario. Meus +amigos procuravam-me, por que os eu procurara. Interessou-me, de novo, a +sociedade. Um dia, com grande espanto, soube que, a respeito do marido +de Fanny, vogavam boatos escandalosos. Dizia-se que, durante a sua +ultima viagem a Inglaterra, se tinha elle namorado de uma irlandeza que +se estreara no theatro da Rainha; que a tirara da scena; que a chamara +para França, havia um mez. Diziam-se maravilhas da magnificencia em que +elle a tinha. Era lindissima, alta e esbelta como Fanny, mas morena como +as filhas do Norte, com bellas côres rosadas, e finos cabellos sedados +que se desenrolavam languidamente em longos anneis até ao peito. + +Jubiloso de nova tal, fiz tenção de lhanamente contal-a a Fanny, a fim +de fortalecêl-a na resistencia, e ministrar-lhe um terrivel argumento +contra o nosso inimigo, se elle se obstinasse em tormental-a. Nova +surpreza me esperava, que devia sobrelevar todas as mais a prodigiosa +altura. + +Fanny, como tantas outras mulheres, atraiçoando seu marido, não queria +que elle a atraiçoasse. Irritada pelo meu ar de triumpho, nem deu +credito á realidade da historia, nem á sinceridade da justificação. + +--Ou mangaram comsigo, ou o snr. forjou uma historia desinfadadamente, +para me atormentar. O que me diz aborrece-me. A grosseria desses +sentimentos enoja-me tanto que não posso perdoar-lhe, faça o que fizer. +Saiba que meu marido ama-me sempre. A tristeza que soffre, de mais o +demonstra. O juramento que o snr. me arrancou, lealmente o tenho +sustentado. Incumbe-lhe respeitar a minha sensibilidade, cessando de +calumniar um homem que, por causa do snr., é desgraçado. + +Foi tamanha a minha estupefacção, que nem me occorreu a idéa de censurar +aquellas estranhas palavras. Fanny mortificava-me cruelmente fallando-me +da «sua susceptibilidade, do seu juramento arrancado, da minha supposta +calumnia» a proposito da infidelidade exactissima, do homem que eu +detestava. Cuidava eu que Fanny se daria por feliz sabendo que, emfim, +espontaneamente, o marido se afastava d'ella, como ella, desde muito, se +afastara d'elle. Esperava eu acções da graça, e sahiu-me cólera, orgulho +offendido, retaliações, que, a meu vêr, tinham as apparencias todas do +ciume. Isto era para indoudecer! + + +LXVI + +Incutiram-se-me suspeitas novas, e estas, mais crueis mil vezes que +quantas me haviam suppliciado. Desta vez, porém, o acceital-as +docilmente, não me foi facil. Intranhara-se-me a desconfiança como +vibora no coração, e o germen da peçonha, que ella ahi revessara, +circulava-me nas veias. + +O ciume resurgiu mais abrasado. A só escusa, que podia mitigal-o, era +imposssivel. Não era já da partilha que eu accusava Fanny; mas sim da +mais rasteira traição. Resolvi esclarecer a incerteza, por todo o preço. +Nada disse a Fanny, fingi-me longe de suspeitas. Menti no rosto como nas +palavras. Affectei consummado comico, a maior liberdade de espirito, +quando me estava a morte no coração. + +Pela primeira vez na minha vida, fui homem. Por mim, e só commigo, fiz +quanto cumpria para descobrir a verdade. Comprei, com um pseudonimo, a +casa contigua á de Fanny. Instalei-me secretamente lá. Todo o dia, +cosido com as portadas das janellas, escutava os menores rumores da casa +visinha, e via tudo que lá entrava, como se estivesse á espera de vêr +algum estranho entrar ahi a roubar-me a mulher que me era a vida. De +noite, escoava-me através da sebe de arbustos que separavam os nossos +quintaes, e andava debaixo das janellas de Fanny, como ladrão que estuda +o edificio que quer assaltar. Assim apprendi os costumes da familia que +eu espionava. O erguer, o comer, o deitar, sabia tudo. Via de manhã os +creados abrirem portas e janellas, e ouvia o roedôr dos moveis, +deslocados na limpeza dos quartos e da sala. Ás oito horas, o dono da +casa descia ao jardim, onde encontrava os filhos. Ás nove apparecia +Fanny em desalinho campestre. Dava com elle alguns passeios. Ás onze +horas chamava a campainha ao almoço. Ao meio dia, esperava o _coupé_ á +porta. O marido sahia, e só voltava ás sete horas para jantar. Muitas +vezes, depois do meio dia, vi Fanny assentada na raiz d'uma arvore +enorme, que assombrava largo ambito, conversar com os filhos, lêr, ou +occupada em algum trabalho de agulha. As visitas eram numerosas. Das +tres ás seis horas, quando estava bonito o tempo, circuitava o grande +taboleiro de relva, longa fileira de trens, cujos cavallos escarvavam na +areia, á sombra das arvores, sacudindo os freios, a tempo que os bandos +de senhoras e cavalheiros, assentados em cadeiras de bambu, riam, e +bebiam gelados. Ao intardecer sahiam todos, e os homens faziam caracolar +os cavallos á portinhola das carruagens, ou reunidos atraz dos trens, +caminhavam lentamente fumando os seus charutos. Fanny recebia-as com uma +graça incantadora: variava muito de vestidos, e da minha janella via eu +que as mulheres examinavam detidamente os seus deliciosos enfeites, ao +passo que ella, parecia descuriosa de si, como se sempre estivesse +adornada, sem o saber. Raro sahia de noite, se o calôr não era ardente. +O marido passeava então com ella; mas ordinariamente tornava para Pariz +ás oito horas, e quando tornava, era por alta noite. + +Nos dias em que nos uniamos em Pariz, Fanny entrava no _coupé_ com o +marido.--Qual de nós é o enganado?--dizia eu commigo. Eu montava, e por +travessas, e a galope, chegava a minha casa primeiro, e ahi era tão +pouco preguntador quanto ella era meditativa. Era-o em toda a parte, em +sua casa como na minha. Ao mesmo tempo, os passos do marido, mandava-os +eu espiar. Nunca ia senão ao club, e a casa da amante. Aqui pernoitava +algumas vezes. Fallava n'isso francamente aos seus amigos, e continuava +a mostrar-se prodigo com ella em demasia. Era um homem prefeitamente +feliz. Não o attribulavam suspeitas nem inquietações: rico, pae de +galantes filhos, uma mulher adoravel. Que lhe faltava? Eu invejava-o. + +Mas não me bastava assistir á vida exterior da familia, cujos segredos +eu queria conhecer. Ao cabo de quinze dias, vendo esteril a minha +espionagem, cancei-me da futilidade d'ella. Obtivera apenas o direito de +suppor que Fanny cumpria a palavra, por que o marido, passeando com +ella, parecia exclusivamente entretido com os filhos. Além disso, a +frequencia das visitas que ella recebia, estorvava-me de vêl-a +concentrada em si, tanto quanto eu queria. Resolvi introduzir-me em sua +casa, sem o ella saber. A frieza, com que me estava tractando, era +assustadora. Distrahida sempre. Muitas vezes, com terrivel commoção, de +longe a via, quando se julgava sósinha, cahir sobre um banco, e esconder +n'um lenço, o rosto lavado de lagrimas. Em oito dias, centuplicaram as +minhas suspeitas. + + +LXVII + +Por uma bella noite de agosto é que eu executei o horrivel designio, +cujo exito devia decidir do meu destino. Não sei que hora era; mas, +havia muito que as estrellas radiavam na face do céo a sua suave +claridade. Abri a ultima janella do primeiro andar da minha casa +contigua á de Fanny, fixei a persiana contra a parede, e resvallei pela +rampa; pendurei-me do varão sutoposto á baranda da casa visinha; fixei +um pé na goteira da sacada, depois o outro pé, e saltei. Estava em casa +d'elles. + +Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas +precipitadas pulsações do coração. Perto de mim, uma janella alumiada +como um grande quadrado de luz, branqueava de clarão baço, a parede +innegrecida da casa. Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta +janella não estava de toda fechada. As beiras das portadas tocavam-se, +mas deixavam coar uma resteasinha de luz. Duas cortinas de cassa branca, +pendentes diante das vidraças, deixavam-me vêr todo o quarto através +d'um alvadio de leite que esfumava um pouco os objectos. + +Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre +este, uma corôa de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro +que contrastavam com a brancura dos lençoes. Á esquerda da cama, um +tapete estreito, á direita, uma commoda; ao pé da chaminé uma poltrona +de espaldar muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam lá, +mas eu não reparei. Ao principio, não vi ninguem no quarto, alumiado +desigualmente, por um grande candieiro de cobre, coberto de quebra-luz, +que dardejava sobre o pavimento os raios, deixando o tecto escuro. O +leito ficava assim cortado longitudinalmente pela zona luminosa. Como +quer que eu me chegasse á vidraça para examinar se elle estava occupado, +uma sombra passou lenta entre o candieiro e a janella, desenhando-se nas +cortinas brancas. Pulsou-me o coração mais rijo. Agachei-me rente com a +sala, recuando um pouco. + +Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A viração tepida da noite de +agosto, suspirava á volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre +os arbustos; a terra vaporava odores balsamicos; mas eu não via, não +sentia, não investigava senão elle. Alongando o pescoço para ajustar os +olhos á entre-aberta da janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse +para mim coisa extraordinaria vêl-o de pé n'um quarto de sua casa. Tinha +os pés nus em amplas moiras de marroquim amarello; afivellava nos +encontros uma larga calça branca de flanella. Despeitorado, arregaçado o +colleirinho, arremangada a camiza, ia e vinha pelo quarto, fumando um +charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao espelho, e esticando os +braços. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada, cruzou uma perna +sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela. D'onde eu +estava, via-lhe perfeitamente a sola do pé nú levantada ao nivel dos +meus olhos, e o braço carnudo descançado sobre o encosto da cadeira. O +outro braço subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos +beiços o charuto, cujo fumo odorifero se exhalava até mim. + +De repente, voltou a cara para uma porta que eu não tinha devisado, +collocada ao pé do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento +obscuro que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso da minha +razão, uma fórma vaga alumiada em rosto por um castiçal que ella trazia. + +Potestades do céo! Era ella! Oh Deus! por que me não fulminaste +n'aquelle momento! + +Entrou vagarosamente, depoz o castiçal sobre a commoda, e, atravessando +longitudinalmente o recinto, foi direita a elle, que a observava +tranquillo, e sem levantar-se. + +Fanny estava meio vestida com aquelle desleixado traje que eu lhe vira +algumas vezes pelas manhãs, quando, ao sahir da cama, passeava no jardim +com os filhos. Era um chambrão muito farto de cachemira azul aberta no +peito, entre flocos de cambraia, deixando vêr o começo dos seios. +Sahiam-lhe das largas mangas os braços nús. Trazia desmanchados +negligentemente os cabellos, apanhados sobre as faces lizas, e apertados +por grossos tufos sobre a nuca. Aquelle eterno porte de placido pudor, +lá o apparentava no semblante. + +Mas que vinha ella fazer alli a tal hora? quem lhe pedira isso? Não póde +a recordação do amante retêl-a no limiar d'aquella porta? Dir-se-hia que +ella nem se quer se lembrava de ter jurado, nem lhe passava pela mente a +existencia d'algum homem para ella, senão aquelle que alli estava +sentado, encarando-a, sereno como ella. + +Fuzilou-me na alma um relampago de esperança, mas foi relampago. +Abaixado sobre os joelhos e as mãos, embaciado o vidro pelo meu bafo, +senti oscillar-me os braços como se o balcão estremecesse debaixo de +mim. Suor de agonia, acre e frio, me banhava a face e os membros; +rangiam-me os dentes, cahi, desfallecido, como arvore tombada ao ultimo +golpe do machado. Mas ouvi palavras; e, repuchando quantas forças tinha, +ergui-me sobre os joelhos e punhos. + +Via-a andar mansamente d'um para o outro lado do quarto. Tocava, +vagamente, e como em distracção nos objectos de sobre os moveis, tal +qual costumava fazer em minha casa. E o marido tendo-a sempre d'olho. +Fallavam; mas a minha commoção só me deixava ouvir um murmurinho. +Rodeava-o ella, socegada e perfida, com os seus azues e suaves olhos, e +apparencias de simpleza vaga. A instantes, sorria um sorriso +melancolico. Quiz vêr n'esse rir, que lhe dilatava os labios sem +illuminar-lhe o olhar, alguma coisa forçada. Não se mostrava pensativa, +nem contemplativa, nem commovida. Estava perfeitamente á sua vontade, +natural e tranquilla. Bem sabia ella que a sua grande magia era a +irritadora tranquillidade. + +O marido riu tambem, por sua vez. Vi-lhe o brilho dos seus alvos dentes. +Dava mostras de defender-se ingenuamente d'uma accusação que ella fazia, +sem cólera, mas como uma malignidade gracejadora, que não era isempta de +desdem e altivez. Discutiam tão pacificamente que pareciam nenhum +acreditar na realidade da sua disputa familiar. A final, debaixo da +testa quadrada do marido, brilharam mortiços os olhos; e, quando ella +perpassava diante d'elle, rossando-lhe com o vestido o pé, a decisão foi +prompta; calçou a moira; e tirando brandamente pela cintura da mulher, +sem resistencia, fêl-a assentar no seu joelho. + +Saltaram-me as lagrimas então, lagrimas ardentes, que as palpebras não +podiam reprezar, e desceram silenciosas pelas faces até aos labios. +Emfim, comprehendia tudo; via a profanação, posto que a não quizesse +vêr; affirmava que não era sonho aquillo, e queria duvidar. Não posso +exprimir o que então se apartava de mim, o melhor de minha essencia, e o +mal que me fazia vêr aquella mulher, que eu adorava, nos braços d'outro. + +Fanny continuava sentada com as mãos cruzadas sobre os joelhos, e com os +olhos no marido, conversava serenamente. Nada ha ahi mais casto que a +simplicidade da sua attitude, a pureza do seu perfil, e aquella +expressão dos olhos azues. No entanto elle, comprimindo-a cingida pela +cinta, amimava-lhe a face com a mão livre. A final, Fanny lançou-lhe por +sobre o hombro o braço esquerdo, e pendeu para elle langorosamente. +Vi-lhe então as costas, cobertas de tranças dos cabellos, e o vestido +fazia roda por largo espaço com impudor esplendido. Oh! como a +abominavel creatura cheia de graça e lascivia se aconchegava d'aquella +espadua robusta! + +--É impossivel aquillo!--gritei eu em minha consciencia.--Não ha-de ser +assim!--Mas elle abraçou-a, collando a boca espessa ás puras faces +d'ella, e não sei o que lhe disse a meia voz. Fanny fez um gesto +negativo com a cabeça, muitas vezes, sem córar. Elle, por cortezia, +insistiu sorrindo, e ella, resistindo, pouco e pouco se rendia! Mulher +scelerada! como ella prolongava o meu supplicio! O debate mudo, durou +algum tempo. Não sei como foi que o sinto se lhe despregou, e rolou nas +dobras do vestido. E eu chorava sempre. Levantou-se ella em fim, aquella +mulher de resplendores e flôres, e, por um só movimento de braços e +hombros, fez escorregar o chambre até aos pés. Eu cahi de joelhos, e +ergui as mãos, como a exorar piedade. Ella tirou com afan, os pés do +monte de estofos, e, um tanto pallida, mas em silencio, caminhou para o +leito, achegando ao peito as ultimas coberturas. Quantas vezes a vira eu +assim impallidecer! Cravei as unhas no rosto. O marido ia depós ella, +vagarosamente. + +E eu sem uma arma! Eu queria immediatamente estrangulal-a, espedaçal-a, +ingolphar meus braços nas entranhas d'aquella mulher estupida. Com todo +o sangue d'ella, não se apagaria o ardôr da minha tortura. Arquejante +como o tigre, que vê a garra do leão cravada na sua preza, ergui-me a +prumo, ferrei as unhas contra os dentes, escorria-me o suor da face, +soluçava, como em arrancos de morte, estrebuchava, e via os horrores +d'aquelle quarto.--Piedade! piedade!--foi o meu grito! E furioso, e +perdido, avançara um passo! mas os cabellos heriçaram-se-me, e os olhos +saltavam-me das orbitas, e a minha vista acerada entrou como um punhal +nos cortinados sombrios, e vi... vi tudo! Quiz ir ávante, e não pude. A +punição pregava-me os pés á balaustrada, e de minha bôca sahiam +gargalhadas de demonio. Que horror! Eu testemunha d'aquelle espectaculo, +a rir, como um doudo, a comprazer-me d'um jubilo que não tem nome nas +linguas humanas! Tentei de novo avançar, por que ouvira suspiros, e +queria saber qual das duas bôcas os exhalavam. Por um esforço prodigioso +dos meus musculos todos, cheguei a despregar o hombro da parede, e dei +ainda um passo; mas por que ao coração intumecido me refluira todo o +sangue, perdi o equilibrio, e cahi como um pezo inerte sobre o balcão. + + +LXVIII + +Quando cobrei o alento, estava a janella fechada e apagada a luz. Corri +as mãos sobre os vidros impenetraveis. Corri a baranda em toda a sua +extenção; tudo apagado, tudo fechado, dormia tudo. Dominava-me uma raiva +glacial. Á custa de tudo, eu queria remirar esta mulher que eu detestava +com o coração, com a alma, com os sentidos, com todo o meu ser. Mas ir +até ella, como? Pendurei-me na rampa, e deixei-me cahir ao jardim. +Rodiei vinte vezes a casa, empurrando todas as portas; mas a minha +fraqueza não podia com ellas. Finalmente, atirei-me ao chão, e ahi, com +o rosto entre as mãos, desafoguei-me em soluços. + +--Trahido! trahido!--bramia eu, com monotonia desesperadora.--E o céo +impassivel!--De subito ergui-me, e, sem idéa fixa, atravessei as trévas, +rapido como se me viessem perseguindo assassinos. Precorri a tapada; +saltei o muro, atravessei a estrada, entrei nos campos, e a correr +sempre, com a cabeça nua, chorando e fallando sósinho, atirei-me como um +attribulado gamo, que foge com os dentes de matilha feroz incravados nos +flancos. + +Onde ia eu? não sabia. Fugia áquelle espectaculo. Salvava-me a todo o +correr, para o mais longe possivel, para não vêr a imagem horrenda que +me ficara nos olhos. Trahido! Trahido! era o grito que me esporeava, e +excitava a fuga. Despenhei-me em barrancos. Levantava-me ferido, coberto +de suor e lama, e corria de novo, sem destino, por escuridade pavorosa. +Lancei-me desamparadamente em cancellos insilveirados; deixava-lhes os +meus vestidos a pedaços, e caminhava. Esgalhos de arvores batiam-me no +peito, raspavam-me a face e os hombros os tojos lacerantes; parava a +chorar e depois caminhava. Atravessei as ruas dezertas das aldeias, que +resoavam sob os meus passos; campos cultivados, cujas searas me +ondulavam nas pernas como vagas; collinas, bosques, regatos, atalhos, +estradas que desfilavam á roda de mim, como se o solo fosse arrastado +commigo no arremeço d'um sorvedouro immenso. Faltava-me a respiração, e +eu corria ainda, chorando, chorando sempre. + +--Ó minha mãe!--bradei eu.--Se soubesses quanto eu soffro! + +De repente, achei-me com os pés em agua. Ante mim, distendia-se um vasto +espaço negro, uniforme, entranhado nas trevas, d'um lado e d'outro, com +grandes e mysteriosos zunidos. A lua dardejando de viez o seu reflexo +argentino, sobre esta superficie luzente, parecia serpente enorme +assanhada contra mim, para engulir-me. Involvia-me o nevoeiro. Avancei +tropeçando nas pedras, mas os jactos d'agua da torrente rapida, +embargavam-me o passo. Horrida tentação me assaltou. Contemplei o céo +sereno, onde brilhava, entre nuvens immoveis, o dôce astro dos amantes; +puz a mão sobre o coração, e caminhei. Dava-me a agua pelos joelhos, mas +sentia sempre o chão lodento em redor dos meus pés que escorregavam. Não +podia mais. Vergado á fadiga e á commoção, soluçando como as mulheres, +cahi, e fui arrastado na torrente que marulhava em sua marcha obscura. + + +LXIX + +O que decorreu depois d'isto, não sei. + +Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante. +Sentia abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo +peso das aguas. Por fim, esqueci tudo; entendi que morria. + +Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabeça em fogo. Abri +os olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo, +desde a cabeça aos pés, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois +amigos observando-me. Fallei, e elles abanaram a cabeça. Veio um homem, +e tomou-me o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a tremer. +Isto durou muitos dias. + +Depois soube que uns pescadores me tinham, de madrugada, encontrado sem +sentidos, nas margens do Sena, com a cabeça envazada no lôdo. +Buscaram-me as algibeiras, e acharam na minha carteira uma carta, e, +guiados por ella, me trouxeram a minha casa. Delirei no caminho, e +tiveram-me em conta de doido. Estava-o, realmente. + +Fanny, porém, ignorante de tudo, admirada de me não vêr, veio uma manhã; +mas o meu creado, a chorar, impediu-lhe a entrada no quarto, e +contou-lhe o que sabia. «Quiz afogar-se--disse elle--e agora está +doido»--Ella, porém, não quiz crêr no suicidio, e supplicou a entrada. +N'esse dia, um abatimento sem nome, semelhante ao dos cadaveres +prostrados em seus sepulchros, me tinha como pregado pelas costas ao +leito, com os braços alquebrados e os olhos abertos. De repente, devisei +na porta, que se abriu ao pé do meu leito, uma fórma humana, de pé e +quieta. + +Não atinei logo com quem fosse aquella mulher que me vinha vêr +moribundo, adornada de trajos de estio tão elegantes e frescos, com +braceletes nos braços e flôres no chapéo: tambem não entendi por que +chegava com ambas as mãos o seu véo branco ao rosto. Os meus amigos +tinham-se retirado para o fundo do quarto, afim de respeitar, quanto +fosse possivel, um segredo que não queria ser penetrado. A mulher +adiantou-se até á minha cama, e eu ouvi-lhe o fremito do vestido. +Curvou-se-me sobre o leito, e levantou o véo. Como que senti +refrigerar-se-me a alma, de vêr sobre o meu rosto aquella face viçosa +cheia de graça, e como perfumada de saude. + +Fanny! exclamei subitamente, erguendo os braços. Fanny abaixou-se a +soluçar sobre o meu peito. Mas a memoria restaurara-se com o conhecêl-a; +levei-lhe á face os punhos fechados, e repelli-a de mim, gritando +furioso «sai d'aqui!» Ella acreditou que eu estava doido, e arredou-se +chorando; mas com um resto de força que a raiva me déra, bati-lhe no +hombro, e, ao lançar-me fora da cama, cahi por terra aos pés d'ella. + + +LXX + +Quando sahi do lethargo, suppliquei, de mãos postas, aos meus +enfermeiros, que não deixassem entrar em minha casa aquella mulher. + +Ella, porém, que não podia suspeitar o succedido, e continuava a crêr na +minha demencia, vinha todos os dias--disseram-m'o depois, e todos os +dias com gestos afflictivos, sollicitava vêr-me.--O medico não +consente--respondia inflexivel o meu creado. Fanny offerecia dinheiro e +prendas; mas comprehendendo a final que a sua presença podia matar-me, +retirou-se, pedindo a Deus a minha cura, e offerecendo-lhe, em troca da +minha, a sua vida. D'isto não sabia eu nada então. Decorriam os dias, e, +por desgraça minha, graças aos disvellos que me rodeavam, a vida pouco a +pouco affluiu apagando a febre. + + +LXXI + +Ao cabo de seis semanas entrei em plena convalescença. Já os amigos me +tinham deixado. Perguntou-me, muitas vezes, o creado, se eu queria +receber aquella pessoa que tanto parecia amar-me, e cuja presença tão +mal me fizera uma vez. Sempre com repellão lhe disse que o expulsava se +a deixasse entrar. O desejo, porém, de a vêr, entrou commigo, e +tornou-se emfim n'uma irresistivel necessidade. Fiz fallar o creado +sobresaltado, que não intendia a minha frieza. Contou-me tudo que eu não +sabia; que ella vinha diariamente, e elle já não sabia que dizer-lhe, +para estorvar-lhe a entrada. Se ella vier hoje,--murmurei eu +impetuosamente, corrido de vergonha,--recebo-a. + +Sentia-me eu abalado como se alguma funesta esperança tentasse renascer +em mim. Com o abatimento da molestia, quasi que a cólera se desvanecera; +mas ganhara-me uma dôr intensa, e eu assentava--tamanho desgosto era o +meu por tudo--que não podia viver. Aquella noite terrivel da traição, +lembrava-me como um sonho máo. A um tempo, amava e desprezava a mulher +graciosa e perfida, cuja imagem era commigo sempre. O que eu esperava +para acabar com tudo, era alguma cousa indelineavel. + +Estava eu sentado n'uma poltrona, ao pé da minha janella, com os olhos +fechados, repassando no animo o que eu diria á prejura, quando senti +apertarem-me a mão, e misturarem-se n'ella os beijos com as lagrimas. +Abri os olhos. A meus pés, de joelhos, livida, mas formosa ainda, +formosissima, estava Fanny, olhando-me com eloquente ternura. Senti o +perfume d'ella. Nada diziamos. Eu sei que chorava. + +Fanny ergueu-se, abraçou-me maternalmente a fronte e os cabellos, com os +seus dois braços nús. Não resisti, porque me era aprazivel receber +aquellas caricias, a que eu tinha direito, em quanto não fallasse. E por +isso mesmo é que não fallava. Finalmente, como eu chorava sempre e a não +abraçava, Fanny disse: + +--Foi-se o teu amor, Roger? + +--Ainda não--respondi, tapando o rosto com as mãos. Ella não intendeu, e +deteve-se em pé e agitada defronte de mim. + +--Fanny, diz-me que é um sonho, ou que estou doido. Diz-me que não devo +odiar-te, porque este odio dilacera-me. + +Não córou. Não impallideceu. Pura como a chamma, e crendo-se talvez ella +mesmo pura, amimou-me internecida, com apparencias de admirada. + +Foi então que eu, reunindo as minhas forças todas, a tomei pela cintura +gentil em meus braços, e a fiz sentar defronte de mim. E disse-lhe: + +--Sei tudo. + +«O que? tu que sabes? + +--Vi tudo. + +«Mas que? + +--Porque me trahiste? Tu não cedeste, porque foste tu quem o procurou, +não foi elle a ti. Foste tu, que trocando despejadamente o papel, o +seduziste a elle. + +Fanny não perdeu ainda a côr, e quiz fallar. Eu, porém, com os olhos +cravados n'ella, sem cólera, e frio como o aço, continuei: + +--É necessario dizer-te tudo? Não merecias confiança. Comprei a caza +vizinha da tua, em Chaville... + +Aqui, impallideceu, e disse: + +«E depois? + +--Uma noite, horrivel noite!... depois de te espiar em vão quinze dias, +arriscando a minha vida, consegui introduzir-me sobre o balcão da tua +casa. Não sei que hora era. Ajoelhado por traz da vidraça do quarto de +teu marido, pude vêl-o. Como te vejo agora, tudo vi. Estava elle só. +Entraste... + +«Isso é falso!» exclamou Fanny, mais horrivelmente pallida. Semelhava um +cadaver sentado n'uma cadeira defronte de mim. + +--Será preciso dizer mais?--accrescentei.--Vestias um chambre de +cachemira azul. Trazias os cabellos em desalinho, e o peito nú. Calçavas +chinellas de setim. Nús, trazias os braços. Serena como sempre, no +momento mesmo em que prejuravas, não amaldiçoaste aquelle que vinhas +saciar, por que ha em ti dois corações, para amar dois homens, Fanny, a +elle, e a mim. + +Fanny sacudiu rapidamente a cabeça, e disse com voz abafada: + +«É falso! é falso! tu não me conheces! + +--Será preciso dizer mais?... Exprobraste-lhe a traição, que é +certissima. Defendeu-se elle, a sorrir. Tu, cem vezes, passaste diante +de teu marido, por que querias fascinal-o, sem lh'o dar a intender, com +os teus exteriores pudibundos. Sahiu-te tudo ao pintar, por que elle +puchou-te para sobre o coração, e tu deixaste-te sentar sobre os +joelhos, e nem de mim te lembravas, de mim, a agonisar, com aquelle +espectaculo diante... + +«Basta!»--exclamou Fanny, e ficou a olhar para mim. Parecia soffrer +horrorosamente; mas não chorava. Dilatavam-se-lhe as pupilas, e +crispavam os labios resequidos. Com pena d'ella, baixei os olhos, mas +accrescentei: + +--Sabe que eu estive ali, eu, que te adorava, e é de crêr que a vergonha +e a dôr não matem, por que eu vi tudo, e não morri. + +Como duas estatuas fronteiras, nas bordas d'um jazigo, assim ficamos em +contemplação, e immoveis. Por fim, disse ella: + +«Eu devo fazer-te horror! + +--Fazes. + +Ergueu-se, levantou as mãos ao céo, lançou-se a mim, como sobre uma +preza, apertou-me entre os braços, sentou-se-me nos joelhos, peito a +peito, e a buscar-me os labios, com estas exclamações: + +--Não importa! eu adoro-te sempre. + +Mas eu, levantando-me, sacudi-a, e atirei-a ao chão, e ella ahi ficou. +Abismada a meus pés, como a Magdalena, soltas as tranças, nodados os +braços aos meus joelhos, desfeita em pranto, exclamava: + +«Perdão! piedade! Eu tinha perdido o juizo! estava doida! mas amo-te +sempre! Tem compaixão de mim. + +E prometteu submetter-se a tudo que eu exigisse d'ella. Propôz-me a +fuga, bradando: + +«Mata-me, e não me repulses! Esmaga-me aos teus pés. Sou culpada, mas +não me abandones. Amo-te. Rasga-me o coração... + +Fiz que se erguesse e sentasse. Estava corada, e escondia o rosto; mas +eu sentia-me impiedoso. Recrudescera o meu furor com a narração do meu +supplicio. Voltei as costas áquella mulher, cuja soberba, por tanto +tempo me mentira. Ainda assim queria ella violentar-me, estendendo para +mim os braços; mas fiz-lh'os recuar á face, com um gesto. + +--Sabe que te detesto e adoro--disse-lhe eu--É isto o meu castigo, por +que eu fiz minha, a mulher d'outro, e devo ser castigado. Tu, para mim, +és uma deshonra, e mais nada. És um idolo attascado em lama. Vi-te, em +attitude pudica, com o rosto angelical, e olhar infantil; vi-te grotesca +e disforme, raivar e uivar, como a loba mordida pelos cães. Cala-te! tu +fizeste peor que as creaturas com quem esse homem hediondo te compara: +essas, ao menos, não mentem. + +«Mas elle é meu marido!--disse Fanny. + +--Não tens consciencia? Diz-me com franqueza se é certo seres tu um ser +intelligente, e se uma idéa dirigiu a tua acção funesta. Quem te +obrigava a ir procural-o? + +Fanny, com grande esforço, respondeu: + +«Eu via que elle se desprendia de mim. Não o amo, por que te amo, mas +dependendo d'elle. Não é natural? Repartida entre o desejo de conservar +sua affeição, e o receio de ser forçada a mostrar-lhe uma affeição +semelhante, quiz segural-o quando me fugia, e, quando se approxima, é +escusado tentar eu fugir-lhe. Cedi ao dever. Reciei que me deixasse. O +temor de me vêr abandonada com os meus filhos, inlouqueceu-me. +Perdoa-me. A mulher, que elle conheceu em Londres, é a causa de tudo. Eu +preciso de paz, socega-me tu. Fiz mal, por que te amo; mas sou mulher, e +tu não conheces as mulheres. Não calculas quanta honestidade pode haver +nas traições d'ellas. + +--E o teu juramento?--exclamei. Fanny contorcia as mãos afflictivamente. +Eu prosegui: + +--Mentes, quando dizes que cedeste ao dever. Não cedeste senão ao +orgulho. Intristecia-te o ser abandonada por esse homem que não amas, e +te não ama, e te opprime, e te despreza e insulta. Não cedeste tambem á +sêde d'um prazer abominavel? Repito-te que ouvi tudo. + +Neste conflicto, encontraram-se os nossos olhos. Fanny fez-se escarlate, +quiz fugir, tornou para mim, e cahiu de joelhos, exclamando: + +«Se soubesses quanto eu me abomino! Eu queria arrancar o coração deste +corpo. O meu coração está puro. Vêr-te, ouvir-te, sentir-te ao meu lado, +bastára-me sempre. Por isso mesmo que te amo, é que tu és o unico ente, +mais que homem para mim. Tu és neste mundo o meu amor unico. És a minha +vida. + +--Amas-me!--bradei eu com raiva.--Mas de que modo me amas? Acima de mim, +em teu coração tão puro, estão vãs considerações do mundo, razões de +sociedade, costumeiras mesquinhas, está teu marido. Não me falles de +teus filhos. Que amor é aquelle que não conhece a virtude dos +sacrificios? que recua diante de qualquer respeito? que é limitado? que +soffre prescripções? que não é uma abnegação absoluta do individuo, de +todos os seus pensamentos, e affectos, e deveres e virtudes? Quem se +perde pelo ente que ama, e destroe a honra e segurança do seu futuro, e +chega, por amor delle, até ao crime, e se tortura a inventar maiores +provas ainda, não dá o mais radioso testemunho da paixão exclusiva, +intolerante, e soberba. Tu nunca soubeste que o amor não vive senão de +si, e nada reserva fóra de si. Renegado sublime, piza os mais santos +objectos, forte da felicidade que inventa, e que lhe justifica a +impassibilidade. Porém, tu! mulher das dedicações mesquinhas, das +virtudes pequenas, dos deveres timidos, chamas loucura a tudo isto. É +alto de mais para ti! a tua vista não alcança tanto. O que tens, +superior a ti, é a tua casa, é o teu bem-estar, é o luxo que te cerca, é +a falsa estima do mundo que tanto se dá de ti como das outras, são as +relações banaes, é um complexo de coisas miseraveis. E dizes que me +amas! Supportarias tu o abandono da sociedade? Offereci-te tudo que +tinha; dar-t'o era a minha felicidade; para ti roubaria eu os +indigentes. Ainda assim, aceitarias tu o menor incommodo como preço da +minha felicidade? Não ultrajes, pois, o amor, a paixão soberanna, que +não quer ouvir em redor do seu throno, uma voz que não seja a sua. Crês +que amas por te haveres entregado? Vai, já te disse que vi tudo. Estavas +com elle como commigo. Custou-te tanto a passar dos meus braços para os +delle como d'um vestido para outro. + +Fanny, ergueu-se desesperada, e quiz partir; mas eu retive-a, atirei-a +para o fundo da alcova, e collocando-me diante da porta, com os braços +cruzados, exclamei: + +--Hasde ouvir tudo! + +Faltou-me a expressão. Arquejava de anciedade. As minhas palavras eram +gritos. Cerrei os punhos em postura ameaçadora; Fanny olhava-me de revéz +com inexpremivel terror. As palavras vieram, depois, impetuosas: + +--Eu nunca tive crença em ti. Tanta certeza eu tinha de que me +atraiçoavas, que, por minha desgraça, quiz conspurcar o nosso amor. +Sabe-o, se nunca o supposeste; sabe que eu, teu adorador, atraiçoei-te +com as mais rasteiras mulheres. + +Fanny não me acreditava. Attribuia á impotencia do furor o que eu +dissera, e fez um gesto de denegação soberba. Máo grado meu, repassado +de angustia, fallei n'um tom de voz supplicante, e branda. Toda a minha +cólera cahiu sob o pezo da piedade. + +--Sabe, pois, murmurei eu com as mãos erguidas, que eu te amava ao mesmo +tempo com amor de mãe, de mulher, de creança. Quanta piedade, respeito, +e ternura que podem resumir-se em amor no coração, quantas delicias, +tocam a divinisação pela maviosidade, todas senti por ti, desde o +primeiro dia em que te vi passar com tuas graças, com a tua serena +suavidade, com a tua formosura. Sabe que te adorei piedosamente; que só +em ti pensava; que eras a minha segunda alma; que me doiam mais teus +males que os meus; que, por desvanecer-te do animo uma incerteza, teria +dado, risonho, a vida, que eu só amava por que te era aprazivel. Vê que +choro. Tudo que era teu, amei: teus filhos, tua mãe, tua casa, teus +creados; as irregularidades irritaveis do teu caracter, os teus +vestidos, e as tuas rendas. Creio até que o amava a elle, por que, em +meu espirito, a tua imagem andava associada á d'elle. Nem minha mãe amei +como a ti. Por ti, têl-a-hia abandonado, com tudo que venero. Eras o meu +eterno espirito, o meu bem mais caro, a imagem perfeita das coisas +puras. + +«Perdão!» exclamou ella, recahindo de joelhos. + +--E tu, Fanny, calcaste aos pés este respeito, este amor incomparavel, +este coração... + +«Piedade! + +--Recalcaste-me como a féra impassivel que esmagou com as garras as +primeiras flôres do campo. E agora... aqui me tens sem futuro, como um +desgraçado que não pode amar alguem, como o ancião, que viu em roda de +si, morrerem todos os seus. Tudo feneceu, tudo apodreceu em meu coração. +Estou velho! tenho cem annos! vou morrer! sou um sepulchro! Tu sabes de +mais que estou sósinho no mundo... + +«Piedade! perdão!--exclamou Fanny, indo hallucinada, esbarrar nos moveis +e nas paredes.--Não me digas que és desgraçado! + +--Oh! desgraçado! e não digo bem o que sou. A lingua não tem voz que o +diga. + +Ingrata! Não te bastava ser senhora da minha alma, do meu coração, da +minha vida; vens ainda tirar-me o que eu mais amava no mundo... a estima +de ti... que me era mais que tu mesma! + +«Piedade! piedade!»--continuava ella exclamando. + +--Assassinaste-me a mocidade. Pois bem! ouxalá que nunca soffras o que +eu estou soffrendo... Adoro-te, e horrorisas-me! + +Dito isto, quiz feril-a e abraçal-a ao mesmo tempo; mas cahi +desfallecido: e, por noite, quando abri os olhos, e a procurei no quarto +ás apalpadellas, não a encontrei. + + +LXXII + +No dia seguinte, senti-me saciado de vingança. Experimentava aquella +especie de serenidade cruel, que segue as execuções supremas. Sentia-me +satisfeito, em fim, como o juiz que tem em seu poder a irrecusavel prova +do crime que puniu. + +Já me não afligia o pensar n'ella. Não obstante, eu previa lucidamente +os graves desgostos da sua vida. + +--Soffrerá longo tempo, e depois odiar-me-ha. Incadeada sob o jugo, +debalde tentará soffrêl-o corajosamente. A resignação desdiz do caracter +d'ella. Outro virá, mais tarde, substituir-me. Se a não amar, será +despresado. Amando-a, repetir-se-hão immediatamente, e com as mesmas +phrazes--identicas luctas, as mesmas perfidias, iguaes torturas. +Emquanto viva, Fanny perseguirá fatalmente a sua chimera. O amor ideal +que a arrasta não se dessipará mesmo nos gelos da idade; quando as rugas +sobrevierem a provar-lhe que tudo é mudavel na terra, ella continuará a +evocar o phantasma d'uma paixão que foi e será sempre o seu supplicio. +Ha-de apartar-se da sociedade, como os soldados feridos no fogo de vinte +pelejas. Como elles, afastada de tudo, saciada de tudo, tirará commoções +para uma vida nova no mysterioso poema das suas remeniscencias. Os +filhos, que adora, não a consolarão. Quem sabe se virão a +desprezal-a?... Condemnada a amar por egoismo, não se fará feliz a si, +nem a outrem. Impotente para o bem, ser-lhe-ha martyrio eterno o +procural-o. Para a felicidade propria, faltar-lhe-ha sempre um vicio; +para a felicidade alheia, faltar-lhe-ha sempre uma virtude. Tem coração +de mais, e coragem de menos. + +Dest'arte, julgava eu, de longe, aquella mulher que eu, por ultimo +conhecera, á custa da minha ventura. Não posso dizer que a lastimava. +Com quanto me sentisse prostrado de fadiga, a irritação surda, contra +ella, era immensa. Como se annos e annos medeassem entre nós as suas +barreiras, eu me sentia separado d'ella, mas ainda a sentia viver em +mim. Era-me a memoria d'ella, como o ferrete aberto com ferro em braza. +O estygma intalhado a fogo no coração, não podia eu, forçado do amor +desvanecêl-o. + + +LXXIII + +Se, porém, julgando-a, me não compadecia d'ella, era-me impossivel +pensar em mim, sem padecer em todas as fibras do meu ser. Quanto amor eu +tinha, quanta affeição filial, ternura piedosa, e veneração, exhalava-se +de mim como vapores, e dissolvia-se em lagrimas amargas, que eu tragava, +sobre a cruz onde a sorte immisericordiosa me cravára. Estorturava-se, +este amor, como joven robusto que saboreou a vida e não quer morrer. A +affeição de filho, que eu naturalmente lhe dera, por causa da differença +de nossas idades; a piedosa ternura que ella me inspirava, como um bem +suavissimo; a veneração, em summa, que lhe era a ella um incenso grato, +isso tudo, o melhor de minha existencia, desfazia-se em meu coração, e +evaporava-se lentamente em caricias de effluvios e perfumes. Qual +viajor, surprehendido, ao despertar, nas steppes infinitas da Asia, por +um turbilhão fluctuando raso com o chão, tal eu me sentia perplexo nas +minhas revoluções, prudencia, e coragem. Em redor de mim tudo se movia +vagarosamente, derramando-se em fórmas confusas: fugia tudo; memorias +queridas, votos superfluos, ternos desejos, pezares, aspirações, tudo se +esvahia nas distancias do meu sonhar, e me deixava, sósinho, n'um grande +espaço. E desse turbilhão nevoento de sensações, vontades, e habitos; +densas oscillações impalpapeis de penas, prazeres, e esperanças, +prolongadas até ao extremo limite que meus olhos viam, surdia emfim um +phantasma enorme que subia, subia até ao céo, tristemente involvido em +pallida mortalha. Este phantasma reconheci-o na amargura que tinha +impresso na face assombrada, no atrophiamento da sua attitude, na sua +mudez, no rir amargo que lhe circuitava os labios descorados. Ah! uma +vez o tinha eu já visto crescer para mim, e me sentira estalejar com +elle nas dobras de seu sudario. Vinte annos tinha eu. Foi quando perdi +minha mãe, e da sepultura d'ella, revolvida de fresco, sahia e me +aferrara nos braços a glacial SOLIDÃO. + +Eu chorava. Tudo estava em redor de mim fallando-me d'ella. Todo o mal +que me fizera, esqueci-o. Mil vestigios deixára Fanny n'aquelle quarto +que eu preparava amorosamente para recebel-a. N'aquelle tecto que lhe +cobrira a cabeça, nos tapetes pisados por ella, nos moveis que tocaram +suas roupas, em tudo me apparecia serena e consoladora. Aqui me abria os +braços de veludo, a poltrona onde ella se assentava tantas vezes; ali a +molle pegada do seu sapato, no coxim em que ella descançava os pés; +acolá, resequidas, nos vazos chinezes, desfolhando-se tristemente, as +flôres que ella amava; além, as cortinas que ella tantas vezes levantava +com sua mão timida; ali, se move ainda o pendulo do relogio, para o qual +ella estava olhando sempre; aqui, o véo d'ella, aqui as cartas, seus +dôces reflexos; além, o pente embalsamado com o perfume dos seus +cabellos; e acolá, finalmente, frio e cerrado como um tumulo, o leito +onde tantas vezes chorávamos. + +Agora, me assoberbava a memoria, tudo o que dissemos, pensamos, e +esperamos. Como longinqua musica, trazida na viração do mar, soava-me +nos ouvidos o cantar de suas palavras; como emanação de flôres que se +evapora com o orvalhar das noites, deliciava-me o olfacto, o perfume de +sua cutis olorosa; como bafejo de primavera, perpassavam-me nos labios +os effluvios de seus beijos. Ardia-me a mão que ella tocara; ardia-me a +fronte que ella afagara em seu seio; ardiam-me os olhos que ella +adorara, a boca em que a sua apremara nas vertigens da paixão, o peito +que ella duplicara com o seu peito. Oh! que prazer me era sorrir-lhe ao +retrato, e remecher nas cartas d'ella! Affigurava-se-me ouvil-a ainda; +esperal-a ainda, como nos dias passados; vêl-a chegar assustada, como a +cerva dos bosques, a esconder-se em meus braços. Mas, ao mesmo tempo, +não sei que vaga essencia se desprendia de mim em soluços e gemidos. +Quebrantava-me uma tristeza profunda; uma lethargia sem nome paralisava +todas as minhas idéas. Meditativo, como póde sêl-o o homem no leito da +morte, eu dizia commigo:--Acabou tudo! não nos tornaremos a vêr, nós, +que tanto nos amamos!... + + +LXXIV + +Era tamanha a minha tribulação, que eu receei succumbir á paixão. A +imagem d'ella, entrava em todas as minhas meditações. Como não podia +arrancal-a da memoria, fugi com ella, precipitadamente, sem voltar o +rosto, como o incendiado que não quer ouvir os gritos de maldição +sahidos d'entre as chammas accendidas por sua mão cruel. Parti, sem +dizer onde ia, para partir, para me afastar. A minha mesma coragem me +apavorava. Mas a memoria ia commigo, chorava commigo. Cançado um dia, da +vista dos homens, deixei os caminhos trilhados, e intranhei-me, ao +norte, nas areias que bordam a foz do Loire. Caminhei trinta horas sem +parar. Ao anoitecer, apeei n'um deserto, e resolvi acabar ahi... + +Não queria porém, eu, que ahi dissessem que irreflectidamente me +suicidara como um louco, ou como creança infraquecido na lucta. +Apozentei-me, pois, aqui, para luctar contra mim mesmo, e vêr se a cura +me póde ser ministrada por um hospede menos frivolo que a morte. +Impuz-me o prazo d'um anno, para viver uma vida differente, só, +meditativa, austera. Estou resolvido a esperar até final. Algumas vezes, +detesto-me, e todavia espero. Fio-me não sei de que. Amo, como nunca +amei, a mulher que me reduzio a isto. Não a desprezo já. Absolvo-a. Eu +teria feito o mesmo, se fosse ella, e affirmo que valem menos que ella, +as que de outro modo se comportassem. Mas ha momentos em que a detesto, +e me arrependo de a não ter esmagado. Assim, e incessantemente, vou d'um +extremo de amor e piedade, ao outro extremo de furor e odio. Oh! amar! +que supplicio! + +As forças da minha alma estão extinctas. Já me não pulsa o coração. Hoje +principalmente, que dou fim aos traços do drama da minha vida, sinto a +tentação terrivel de completal-o com um sanguinario epilogo. + +Mas, porque ha-de ser aqui, e não ha-de ser além ao pé d'ella? É porque +me resta ainda o pudôr d'um ciume feroz, que não quer ser carpido. Qual +besta-féra, que, ferida de morte, procura uma caverna onde morrer em +paz, e esconder seus ossos; assim eu, se devo morrer, quero que seja +n'um deserto, longe d'aquella que eu amei de mais. + + +FIM + + + + + PARCERIA + + ANTONIO MARIA PEREIRA + + LIVRARIA-EDITORA + + OFFICINAS + + TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO + + _MOVIDAS A ELECTRICIDADE_ + + 44 a 54--Rua Augusta--44 a 54 + + LISBOA + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Fanny: estudo, by Ernest Feydeau + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FANNY: ESTUDO *** + +***** This file should be named 30571-8.txt or 30571-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/5/7/30571/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/30571-8.zip b/30571-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..aa118b7 --- /dev/null +++ b/30571-8.zip diff --git a/30571-h.zip b/30571-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..f055cf6 --- /dev/null +++ b/30571-h.zip diff --git a/30571-h/30571-h.htm b/30571-h/30571-h.htm new file mode 100644 index 0000000..0349093 --- /dev/null +++ b/30571-h/30571-h.htm @@ -0,0 +1,4533 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Fanny: estudo, por Ernest Feydeau</title> + <meta name="Author" content="Ernest Feydeau"> + <meta name="Translator" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta name="Publisher" content="Parceria Antonio Maria Pereira"> + <meta name="Date" content="1903"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Fanny: estudo, by Ernest Feydeau + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Fanny: estudo + +Author: Ernest Feydeau + +Translator: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +Release Date: December 1, 2009 [EBook #30571] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FANNY: ESTUDO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + +<p> </p> +<div class="fbox"><p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>No texto impresso o tradutor, ou o impressor, não colocaram as marcas +dos capítulos XXXIII e XLIII. Esta tradução foi comparada com o texto +original, em francês (Paris, 1859), e as marcas de capítulo colocadas em +conformidade com a intenção do autor.</p> + +<p>Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipográficos evidentes.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p>OBRAS<br> +<span style="font-size: 0.8em;">DE</span><br> +CAMILLO CASTELLO BRANCO<br> +——<br> +<span style="font-size: 0.8em;">EDIÇÃO PARA BIBLIOPHILOS</span><br> +——<br> +XVI</p> + +<p style="font-size: 1.6em;">FANNY</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="font-size: 0.8em;; margin: 10%;"> +<p><span style="font-size: 0.8em;">VOLUMES PUBLICADOS</span></p> + +<p>I—Coisas espantosas.</p> + +<p>II—As tres irmans.</p> + +<p>III—A engeitada.</p> + +<p>IV—Doze casamentos felizes.</p> + +<p>V—O esqueleto.</p> + +<p>VI—O bem e o mal.</p> + +<p>VII—O senhor do Paço de Ninães.</p> + +<p>VIII—Anathema.</p> + +<p>IX—A mulher fatal.</p> + +<p>X—Cavar em ruinas.</p> + +<p>XI, XII—Correspondencia epistolar.</p> + +<p>XIII—Divindade de Jesus.</p> + +<p>XIV—A doida do Candal.</p> + +<p>XV—Duas horas de leitura.</p> + +<p>XVI—Fanny.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;"> +<p> </p> + +<p style="font-size: 2.5em;">FANNY</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ESTUDO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ERNESTO FEYDEAU</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ROMANCE</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">TRASLADADO PARA PORTUGUEZ, DA DECIMA OITAVA +EDIÇÃO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small> +B<small>RANCO</small></p> + +<p> </p> + +<blockquote style="font-size: 0.8em; margin-left: 20%;"> + <p>Aquelle, que cavar um fosso, cahirá n'elle; aquelle, que derruir uma + muralha, será assalteado por uma serpente.</p> + + <p style="text-align: right;">E<small>CCLESIASTES.</small></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><em>TERCEIRA EDIÇÃO</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">LISBOA<br> +P<small>ARCERIA</small> ANTONIO MARIA PEREIRA<br> +<small>LIVRARIA EDITORA</small><br> +<em>Rua Augusta, 50, 52 e 54</em><br> +1903</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr> + +<p style="text-align:center;"><small>Officinas typographica e de encadernação, +movidas a vapor<br> +Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º<br> +LISBOA</small><span class="pn">{5}</span></p> + +<div id="corpo"> +<p> </p> + +<h2>I</h2> + +<p>A caza está situada de esguêlha, sobre um comoro de areia, á orla da praia, +olhando de soslaio o oceano, como desconfiada d'elle. É uma casa baixa, de +pavimento plano, com um recinto ao rez do chão, um portal, seis janellas, e uma +chaminé de gêsso, meio esburacada, no cume do telhado.</p> + +<p>Á primeira vez que de longe a vi, caminhando eu atravez de desertos +cabedellos, tinha ella um tão triste aspecto, que eu senti serrar-se-me o +coração. Estava inscripto o desamparo nas largas fendas que desconjunctavam as +paredes, e nas rachas profundas das telhas desmantelladas. Gemia a porta a cada +bulcão do vento que a embatia contra o gonzo unico. Das montanhas aquosas do +oceano erguia-se, como um sudario, a nebrina que a envolvia.</p> + +<p>Fazia frio. Uma briza cortante sacudia, silvando o dorso das vagas, +marulhando-as, revolvendo-as, e espedaçando-as. Rolos de areia, de mistura com +entulho, limos e cardos, refluiam até á testada da<span class="pn">{6}</span> +porta. Do outro lado, á maneira d'uma nodoa verde-escura, crescia a herva, que +invadia o antigo jardim.</p> + +<p>Uma pobre arvore, vergada sobre a parede, do lado de terra, escassamente +sustentava a ramagem que a ventania furiosa atormentava. Junto á raiz, +conservava apenas alguns restos de folhas dessecadas. Com lamentavel aspecto, +se erguia ella, dentre os sacões do vento, mas a goteira de chumbo, pendida da +cornija, e açoitada pelas refegas oppostas, rossando-lhe nas grimpas, +desfazia-lh'as a pedaços.</p> + +<p>Eu, ao querer desterrar-me da sociedade, lembrei-me d'esta abegoaria, que +meu pae me herdára, e era o restante d'um casal, já desbaratado. Vim alli +procurar o silencio e a solidão. Mas não reparei o solar da porta, nem fiz +cultivar o jardim. Deixei as fendas do tecto, pelas quaes se coava a chuva; +deixei as fendas nas paredes, por onde irrompia o asperrimo furacão das noites +do outono. Não chumbei o gonzo do portal. Não levantei a goteira de chumbo. Não +me amiserei da velha arvore que se estorcia como um crucificado contra o muro, +por que a sorte não se amiserára de mim.</p> + +<p>Installei-me na salla unica sem alterar nada da sordida mobilia. Um banco de +pau foi a minha cadeira; um monte de cisco, revessado pelo mar, foi o meu +leito. Nunca na chaminé se accendeu lume. Nutri-me do pão negro e duro dos +marujos. Bebi agua empoçada que me dava a cisterna.</p> + +<p>E desde o dia que entrei ahi até ao dia em que isto escrevo, nunca mais sahi +da casa triste. Prostrado<span class="pn">{7}</span> sobre a folhagem dura, +sentado no banco estreito, com os joelhos justa-postos, os braços pendidos, as +mãos inclavinhadas, a face descaida, deixei correr os dias indifferentemente. +Como os bois corpulentos, que eu via, na minha infancia, ajoelhados entre as +hervagens dezertas, eu ruminava o pasto amargoso das minhas remeniscencias.</p> + +<p>Com tudo, algumas vezes, com o passo vacillante dos ébrios, transpunha eu o +limiar da porta, e errava lentamente, e cambaleando, em roda da minha habitação +maldita. Á luz gélida e palida das estrellas de novembro, contemplava-a eu, +comparando-a a tumulo abandonado, que apodrece debaixo das hervas, e +espantava-me sempre de a vêr em pé, gemebunda, sob os açoites do vento que a +verberavam.</p> + +<p>Nunca, porém, me alonguei d'ella. Fóra d'ahi quem poderia attrahir-me? O +oceano, d'um lado, desdobrava suas ondas enfurecidas com clamor monotono e +afflictivo; do outro, o areal, mosqueado de manchas verdes, alongava-se a +perder de vista; por cima, rolavam as nuvens pesadas e silenciosas. A minha +casa era a unica, que recortava o horisonte carrancudo com seu triste perfil; e +o promontorio de rochas pardacentas, ante mim, alongava sempre no flanco do mar +o seu grande braço minacissimo.<span class="pn">{8}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>II</h2> + +<p>Se voluntariamente me exilei n'esta horrida solidão, é por que, por desgraça +minha, amei, e amo ainda. Não cuideis, porém, que algum terrivel successo me +distanciou, a meu pezar, da mulher que amo. Prouvera a Deus!... Poderia ainda +abençoal-a!</p> + +<p>Desde muito que eu a amava sem ousar dizer-lh'o. Separavam-nos tantos +estorvos, que o combatel-os me atemorisava. Tinha eu então vinte e quatro +annos, de mais a mais! Eu corava quando nossos olhos se encontravam. Diante +d'ella, tremia, commovido pelo extasis. Comprehendeu por fim que eu a amava, e +serenamente, como quem se arremeça a transpôr uma barreira, ella mesma, com sua +mão gentil, removeu todos os obstaculos.</p> + +<p>Oh! era por isso mesmo, sobre tudo, que a eu adorava. E, depois, tão meiga e +linda! Aos trinta e cinco annos, conservava toda a frescura e jovialidade da +meninice, e a estes encantos alliava um não sei que de serêno que as mulheres +adquirem na experiencia e costumes da sociabilidade.</p> + +<p>Era alta, elegante, e de leve delgada nas espaduas, breve a cintura, os +encontros modestos; e o pizar mesurado denotava na sua firmeza uma alma activa +em agil corpo. Por costume, deixava cair os<span class="pn">{9}</span> braços +de rainha, e nus os ajuntava cruzando as mãos, quando estava em pé: então, as +grandes dobras do seu vestido de veludo-granada, caíam-lhe verticaes sobre os +pés arqueados, e a cauda firmava-se no chão; e, quando caminhava a passos +solemnes, erguia um pouco a formosa cabeça, radiosa sobre colo de cysne, +suavemente inclinado.</p> + +<p>Sentada, gostava de encostar a face á mão direita, repousando o braço +esquerdo sobre o setim brilhante da cadeira que seus dedos afilados como +franjas de marfim, rossavam de leve. Tinha cabellos loiros e lustrosos, que +desciam em espiraes ao longo das fontes, das faces pallidas, e em redor do +colo. Fronte pequena, nariz d'uma exquisita e suave belleza, a barba liza, tudo +em harmonia com as sobrancelhas arqueadas, e os labios finos e justa-postos. Os +olhos azues, em fim, d'um azul sombrio e meigo, e amplas pupilas negras, +languidamente envoltas em palpebras salientes franzidas de cilios espessos, +tinham uma expressão de ternura, de candidez, de spasmo, de pureza que me +irritava e endoudecia!</p> + +<p>Amei-a perdidamente, e assim a amo ainda. E ella... amava-me como sabia +amar, com interior reserva, calculadamente. A naturalidade do seu ar +acanhava-me. Ainda quando me apertava em seus braços com transporte, parece que +me distanciava de si. As rainhas e imperatrizes devem amar assim os seus +amantes. Foi por isso que eu, desde o principio, soffri, e vim até este extremo +em que me vêdes.</p> + +<p>Como eu quizera passar com ella os instantes todos<span +class="pn">{10}</span> da minha vida, procurava todas as occasiões de +encontral-a. Não podia contentar-me com as duas horas que ella me dava de cada +semana. Eram tantos os seus encargos domesticos! E eu imprudentemente a +perseguia por toda a parte, ficando muitas vezes horas inteiras, com o rosto ao +vento e os pés no gêlo, só para vêl-a, passar, graciosamente encapuzada no +capuz de sêda côr de rosa, atravez do vidro de sua rapida carruagem. Todas as +noites, com o coração angustiado, errava eu, por entre os nevoeiros, debaixo de +suas janellas luminosas, ou, rebuçado e confundido com a gentalha, lhe expiava +a saida do peristylo do theatro dos italianos; ou, encostado á couceira de +uma +porta, a esperava longo tempo para vêl-a entrar no baile, com os cabellos +enlaçados de flôres, as espadoas nuas até aos seios, e então observa se o +«corpinho» de setim branco tremia sobre a pressão anceiada de seu peito, quando +me via. Custava-me a não me ajoelhar aos pés d'ella, quando a cortejava +respeitosamente.</p> + +<p>Ahi, no baile, n'esse ambiente pesado e saturado de acres perfumes, sob os +raios deslumbrantes que irradiavam como flechas do coração dos lustres, eu a +contemplava movendo-se graciosamente. Seguia-a com os olhos, encostada ao braço +d'um ancião cravejado de medalhas, que a denominava affectuosamente pelo seu +pronome. Distinguia-se entre todas, quando, de fronte soberana, e pisar +magestoso, circulava por entre os grupos. Contemplava-a ainda, quando meio +recostada ao espaldar d'uma cadeira ampla, cortez sem frieza, acolhia os +preitos dos mancebos graves; ao passo que, unida ao hombro<span +class="pn">{11}</span> d'um walsador infatigavel, immovel a cabeça e o tronco, +redemoinhava em ondas de gaze e rendas, aos accordes melodiosos das flautas e +violinos. Coruscavam-lhe então os olhos como estrellas, sob as flôres que se +desinastravam das espiraes dos cabellos. Desjunctavam-se os labios para se +verem as perolas dos dentes. Purpureavam-se-lhe, como ao contacto dos meus +labios, as faces pallidas, e as alvas espadoas.</p> + +<p>E a cada rodopio, a ponta do pequenissimo pé, mostrava-se á orla do vestido +que a rapidez do movimento fazia recuar. Mas nem as seducções das homenagens, +nem as excitações da walsa, nem a minha mesma presença, conseguiram excital-a! +Com semblante alegre tudo acolhia com tranquilidade egual de aspecto. Isto, +mais que as sollicitações do olhar, turvava e empallidecia aquelles, cujos +olhos encontravam os d'ella. Com tudo, nunca lhe surprehendi essas maneiras +meio-zombeteiras e seductoras que são a falsa linguagem da lucta de um coração +abalado com um espirito indeciso; maneiras que desfarçam e colorem as +concessões, e irritam a esperança sem desanimal-a.</p> + +<p>Mas como é que a presença do seu amante a não perturbava nunca? Bem podia eu +fital-a até cegar na fixidez do olhar, que ella parecia não me vêr nunca.</p> + +<p>Era mulher até ás pontas dos cabellos!<span class="pn">{12}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>III</h2> + +<p>Chegava emfim o dia suspirado! Erguia-me de madrugada, e todo me dava ao +infantil prazer de arrumar eu mesmo o meu quarto. Decorava-o de novas +flôres; +baixava os transparentes de brocatol côr de rosa, enramalhados de flôres, a fim +de quebrar com suavidade o brilho da luz, que os coloria magicamente. Refegava +artisticamente os cortinados de cassa e alizava com as mãos o tapete de cadarço +do meu leito. Regulava o relogio, cujo pendulo tão moroso então me parecia. +Sobre um bofete de páo das ilhas, dispunha em bandeijas chinezas, dôce de +fructa, pastelaria, e em roda calices de Bohemia, e alguns frascos empoeirados +de Marsalla. Mandava o creado passear até á noite, e ficava eu senhor absoluto +do meu elegante recinto. Ahi todo me agitava livre como a ave entre ramagem dos +bosques desertos, arredondando e brunindo com o peito inquieto o dôce ninho dos +seus amores.</p> + +<p>Que cuidados me não dava o prevenir os menores desejos da mulher que eu +estremecia! com minhas mãos pregava os alfinetes no pregador de veludo. Tirava +do estojo de marroquim escarlate o pente de dentes escamosos que ella usava +para alisar os cabellos descompostos pela pressão de meus<span +class="pn">{13}</span> dedos tremulos. Atiçava o dôce fogo que se avermelhava +entre as cinzas. Aproximava do fogão a cadeira d'ella; trazia do divan a +almofada em que ella punha os pés, e eu os joelhos, na attitude dos devotos +contemplando seu idolo. E quando estava assim disposto tudo, quando o ponteiro +d'ouro, avisinhando-se do numero escolhido, parecia dizer-me: «Vais ouvir soar +a hora de teu prazer,» mais inquieto e agitado que nunca, ia eu pé ante pé, da +porta á janella, como vae e vem o cão fiel, atormentado pela impaciencia, +adivinhando o andar de seu dono.</p> + +<p>E eu dizia comigo: «A esta hora, tambem ella lança a furto os olhos ao seu +relogio. Sabe que a espero. Agora, deante do espelho, aperta na barba o broche +da capa de veludo. Incaracola os cabellos rebeldes sobre a fronte pura. +Involve +as espadoas no chalé escuro, e aperta-o sobre o peito com o alfinete de +camapheu. Veste as luvas, e irrita-se. Sobre os olhos negros accumula as dobras +do véo tambem negro. Atravessa as salas desertas. Passa. Roda a chave. Sae. +Desce. Corre cozida com as casas. Vou vêl-a!</p> + +<p>E depois, mais nada... Oh! que longo é o tempo quando se espera e desespera! +Se algum estorvo sobreviesse! uma visita, o capricho d'um filho! Que desgraçado +sou! não virá ella? Já se demora!</p> + +<p>E, com tudo, era-me tão dôce recebel-a aqui, uma vez mais, neste quarto tão +bem disposto para ella! Tão dôce o recebel-a nos braços, no limiar da porta, e +arrebatal-a para escondel-a como um thesouro! Tão bom tocar-lhe as mãos, os +cabellos,<span class="pn">{14}</span> e vêl-a emfim fitar-me com seus olhos +lindos, e ouvil-a dizer: «tu» com aquella voz muzical!</p> + +<p> </p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Chegava ella emfim! Encostado ao alizar da porta entre-aberta, escutava eu o +fremito do seu vestido, e o ranger das botinas sobre o tapete da escada. +Entrava ella, roixa de frio, offegante, com as pestanas lagrimosas, e, sem +erguer o véo, sem dizer palavra, atirava-se-me toda ao peito, cingia-me o +pescoço, e, timorata e assustada como um passarinho, applicando o ouvido, +escutava, convulsiva, o menor rumor que se fazia na casa ou na rua.</p> + +<p>E, quando emfim os mêdos se aquietavam, e que ella se decidia a transpor o +limiar, era uma como visão deslumbrante que alagava em ondas de luz a camara +fechada. Os menores objectos, com a presença d'ella, eram-me thesouros +inestimaveis. Tudo parecia animar-se então, como, nos primeiros dias da +primavera, despertam as florestas que dormiam sombrias e taciturnas.</p> + +<p>Algumas vezes, comtudo, festivos raios do sol, coando-se pelas juntas dos +cortinados, atravessavam o espaço, e quebravam-se ao fundo da alcova, sobre a +superficie polida d'um espelho. As flôres das jarras, postas deante das +janellas, desfolhavam<span class="pn">{15}</span> uma a uma, juncando o tapete +das suas frescas petalas. Segredando, de mãos dadas, palavras incoherentes, +contemplava-m'o-nos como arrobados, absorvidos n'uma commoção deliciosa e +entranhada que nos adestringia docemente o coração, e nos marejava de lagrimas +os olhos. Como nosso amor, como nossa alegria, eram infinitas estas expansões; +nossos pensamentos, porém, não ultrapassavam as paredes discretas do quarto +silencioso. Para nós o mundo todo estava alli.</p> + +<p>E como era aquelle devorar-m'o-nos de caricias! Que suave energia a dos +braços! que avidez nos beijos! que febril tremor nos gestos em quanto eu lhe +disputava em silencio os vestidos descompostos que ella retinha ás mãos ambas, +pallida d'um vago susto! Frenetico, de joelhos, cingia-a pela cintura +quebradiça, e ella, oscillante entre os meus braços compressores, tomava-me a +face entre as suas mãos, affastava-a com meiguice, encarava-me, e voltava o +rosto como se meus olhos a aterrassem.</p> + +<p>E eu, como esquecido de minha dignidade, arrastava-me aos pés d'ella, +beijando-lh'os nus. Oh! se eu morrêra alli, collados os labios áquelles pés +infantinos, brancos e rosados, que ella poisava n'um tapete de plumas de cysne, +a tiritar entre seus véos como o anjo da inquietação meio involto na plumagem +de suas azas!<span class="pn">{16}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>V</h2> + +<p>Passado o primeiro momento da vertigem, parecia-lhe a ella coisa natural o +estar alli, ao tempo que eu a comprimia com ardor feroz. E então, no explendor +de sua desordem, desatadas as tranças, nuas as espaduas, nus os braços, frios e +viscosos os labios, mais muda, mais seria, mais enleada que eu mesmo, estava +tão senhora sua como se estivesse recostada na cadeira de veludo ao pé do fogão +de sua casa. Eu não sei o que ella não fizesse com as mais naturaes e dignas +maneiras! Nada a surprehendia nem a molestava.</p> + +<p> </p> + +<h2>VI</h2> + +<p>De cada vez, tinhamos sempre que trocar um mundo de pensamentos novos. +Recontava-m'o-nos fadigas da espera, tristezas da auzencia, aspirações da +esperança, e o quanto era consolativo para amantes separados, o pensar +incessante um no outro.<span class="pn">{17}</span> Fanny sobre tudo se deixava +levar desta união espiritual com toda a expansão d'uma alma juvenil. Recebia as +confidencias da minha ternura, como efluvios de incenso, que a immergiam n'uma +especie de torpor dulcissimo. Com mudos raptos de gratidão, rosadas as faces, +palpitantes as azas nazaes, sorrindo no olhar embaciado, maravilhava-se ella da +abundancia de minhas palavras, como imagens graciosas que volitassem dos meus +labios. Não a fatigava o ouvir-me.—Mais, mais, ó meu Roger!—dizia ella. E, +encostando o cotovelo á almofada, inclinada a fronte na mão, requebrado o +corpo, os pés a resvalarem, anediando-me a testa e os cabellos, olhava-me com +tanta fixidez, como se quizesse esmirilhar os mais subtis lineamentos da minha +alma. Entretanto, eu, de joelhos, com as mãos juntas, sorria de prazer como +creança amimada, e cuidava que assim era o identificarem-se nossas almas n'um +apertar vago e dôce, com estremecimentos voluptuosos.</p> + +<p> </p> + +<h2>VII</h2> + +<p>No instante em que ella ia sahir, era então o irromper minha alma em +explosões de amor e angustia. E ella, pensativa, fitava nos meus, com ternura, +seus olhos azues e lympidos. Tomava-me affectuosamente<span +class="pn">{18}</span> as mãos, que eu lhe disputava, voltando-me arrufado. +Fazia-me graciosamente sermões maternaes. Acariciava-me com bondade, +abraçava-me, ia e vinha para abraçar-me ainda.—Tornarei a vêr-te?—exclamava +eu com tristeza.—«Cala-te, Roger,»—respondia-me, abafando a voz n'um beijo. +Por fim, comprimia-a longo tempo ao coração; e, quantas vezes, ao +apartar-m'o-nos assim, sentiamos calidas lagrimas a cahirem nos labios de +ambos!</p> + +<p> </p> + +<h2>VIII</h2> + +<p>A minha vida ia com ella. Melancolicamente encostado ao peitoril de minha +janella, via-a por entre as fisgas das persianas, passar na rua.</p> + +<p>Lá ia vagarosa, simples, tranquilla, bella. As duas fimbrias de seu véo +fluctuavam-lhe docemente sobre os hombros, acarinhando-lhe de cada lado a face. +</p> + +<p>A barra do vestido, relevada de folhos de seda, sussurrava com o movimento. +Com ambas as mãos ajustadas sobre a cintura, comprimia as dobras da cachemira +que a involvia desde a nuca até ao artelho. Nunca se voltava. Encostava-se ao +longo das paredes para evitar o embate dos caminheiros. Emfim, chegando ao +angulo da rua, desapparecia; e<span class="pn">{19}</span> eu atirava-me sobre +o leito, escondia nas mãos o rosto, avocando, hallucinado, todas as minhas +remeniscencias esparsas para ainda assim me illudir com possuil-a.</p> + +<p> </p> + +<h2>IX</h2> + +<p>A primeira vez que ella ahi veio, não se espantou, mas examinava tudo o que +a rodeava, e em tudo bulia, com certo acanhamento. Havia lá espadas de combate +dispostas em tropheu. Lembra-me que ella reparou n'isso.</p> + +<p>Tambem se deteve diante de um retrato de minha mãe, que tinha sido +formosissima, e deante da minha escrivaninha, coberta de livros e de cartas. +Mas, com discrição cheia de graça, passou, sorrindo, sem tocar nas cartas.</p> + +<p> </p> + +<h2>X</h2> + +<p>Eu era feliz! Desprezava quantos não eram eu, porque ella os não amava! De +longe e de cima olhava<span class="pn">{20}</span> o mundo. De tudo segregado, +tudo via d'alto, mas com indifferença, tumido de orgulho. Parecia-me que sobre +mim convergiam os perfumes todos da terra e sorrisos do céo. Nos olhares que se +encontravam com os meus, chammejavam os fulgores da inveja; e o murmurar +confuso das turbas agitadas, rumorejava aos meus ouvidos como acclamações +longinquas.</p> + +<p>A imagem de Fanny absorvia-me a memoria, e desprendia-se de meus pensamentos +todos. Era, a um tempo, mais irritante que um sonho, e mais consoladora que a +esperança. Nunca eu antevera seduções tamanhas em humana creatura, tantas +delicadezas n'um coração, tanta graça na reserva, tanto pudôr na renuncia de +si!</p> + +<p>Mescla de enthusiasmo e arrobamento, de illusões e desalentos, de melancolia +e criancice, fôra o bastante a conquistar-lhe o amor. Parecia-me, todavia, +pouco esmerada em attenções e cuidados. Tão amada, por certo, tinha sido ella! +Bella ainda, mais bella do que talvez se cria, augmentava cada uma das suas +graças com o esforço timido que punha em evitar a apathia, que presentia de +longe, com a vinda dos novos annos.</p> + +<p>Dias tinha ella em que era possivel traduzil-a nos olhos, quando cerrava os +labios n'uma expressão de meditar mais affectuoso, quando seus cabellos, +fluctuando-lhe sobre as fontes emaciadas, em flacidas spiras, as envolviam com +uma especie de suave piedade. Contemplava-lhe eu então as mãos candidissimas, e +figuravam-se-me duplicadas, para que suas ultimas caricias fossem mais copiosas +e maternas.<span class="pn">{21}</span> Escutava ancioso os suspiros que lhe +sahiam do peito opprimido: tinha-os como protesto surdo do coração que reagia +ainda á indifferença, desejando-a acaso como repouso, e expedia a sua mais +bella flamma, antes de retrahir-se em si para morrer.</p> + +<p> </p> + +<h2>XI</h2> + +<p>Eu era feliz! Mas a desgraça já vinha perto. Até então com a delicadeza mais +de incarecer, Fanny poupara-se sempre a fazer, diante de mim, a menor allusão a +seu marido. Com uma pouca de bemquerença, conseguira eu phantasial-a livre e +minha, sem partilha. Tão pudicamente se me déra ella! Foi como rainha, sem nada +mercanciar do que não podia ser vendido.</p> + +<p>Um dia, porém—como isto foi, não sei!—ressoou suavemente nos labios d'ella +o nome de um filho seu, e, em seguida, não pôde deixar de fallar-me d'elles. +</p> + +<p>Adorava-os com tão furioso amor, que me abandonaria se me eu não comprazesse +em ouvil-a repetir-me mil cousas pueris, tocantes a seus filhos. Por mim +fingia-me vivamente interessado n'esses contos, que ella contava como +abundancia extraordinaria de coração; eu, porém, escutava-lhe mais a musica das +palavras que as idéas. Eu adorava-lhe a<span class="pn">{22}</span> voz magica +e melodiosa. E, de mais, eu era um tanto cioso de tudo que ella amava.</p> + +<p>Fallava-me, pois, de seus filhos. O mais novo soffrêra d'uma epidemia +passageira, e eu quasi que odiei essas criancinhas pelo unico delicto de se +aconchegarem comigo no ninho de amor do mesmo coração. O que ella então fez +forçou-me a reflectir mui amargamente sobre a affeição que uma mãe póde dar a +um homem. Esteve sem me vêr seis semanas. Não desamparou esse berço sobre o +qual se estorcia o dôce thesouro vivo, formado do proprio sangue do seu +coração. Escreveu-me quatro linhas apenas, admoestando-me a soffrer com ella. +Homem orgulhoso que pertendes dominar, unico, sobre o coração d'uma mulher! aos +menores vagidos de uma creança, vê que lição te dá a natureza!</p> + +<p>Á força de pensar n'esta creança, entrei a pensar no marido de Fanny; e, a +meu pesar, d'ahi a pouco, já não pensava senão n'elle. Nunca o tinha visto. A +mim que se me dava, n'outro tempo, de vêr o homem que lhe dava o braço, para +entrar no baile, e discretamente se sumia na multidão logo que um circulo de +admiradores a compelliam a isolar-se d'elle?</p> + +<p>A ella amava, a ella sómente eu via, por ella vivia... que me importava o +marido d'ella?</p> + +<p>Restabelecido o menino, Fanny, mais affectuosa e linda, ao primeiro dia que +me vio não percebeu que em mim havia um novo homem; adivinhou, porém, que uma +preoccupação secreta me alvoroçava, emquanto eu, silencioso, lhe corria a mão +sobre o braço nu. De repente, varada por cruelissima suspeita,<span +class="pn">{23}</span> repulsa-me, ergue-se, e, voz em grita, jura que eu a +atraiçoara.</p> + +<p>Sorri com doçura a esta louca arguição; e, tomaado-lhe a mão como convite a +sentar-se, simplesmente lhe disse que hesitava em pedir-lhe novo favor, com +receio de ser indiscreto.</p> + +<p>—Que é?—disse ella, affastada ainda, e cravando-me um olhar de surpreza. +</p> + +<p>Respondi que as seis semanas de solidão me haviam feito reflectir +tristemente sobre a nossa imprevidencia; que sem suspeitarmos que incidente +algum podésse apartar-nos, nunca nos cohibiramos de nos aproximarmos. +Finalmente, com um embaraço que eu não podia dominar, balbuciei:</p> + +<p>—Por que não sou eu admittido em tua casa? Bem sabia ella que eu +dissimulava a minha idéa, fallando assim: por que, de subito, resplandeceu de +sorrisos, e lançando-me ao pescoço ambos os braços com vehemencia, confessou, +córando, que, desde o primeiro dia, anciára sempre o vêr-me em sua casa.</p> + +<p>—Por que m'o não dizias? repliquei eu, acariciando-a. Respondeu-me, fazendo +gesto pueril de amuada, expediente malicioso das pessoas que querem ser +adivinhadas. E eu, doido com os projectos da convivencia, communicava-lh'os aos +labios por entre beijos... Vêr... amar os filhos d'ella...</p> + +<p>Já Fanny redobrava de elegancia o salão mais intimo em que seus amigos eram +unicamente recebidos. Que ventura poder, quasi todos os dias, reunir em volta +de si, os objectos todos de sua mais viva affeição! D'ora em diante não seria +obrigada<span class="pn">{24}</span> a tirar o pensamento de seus filhos, para +ir em busca da minha imagem atravez do espaço, trazel-a para o meio d'elles, e +fazel-a docemente resplandecer n'esse recinto delicioso, decorado por ella só, +a seu bel-prazer. Eu de mim terei d'ora avante um maior logar—não em seu +coração que não é possivel—mas em sua vida, e tomarei quinhão immediato em +todos os seus jubilos, como em todas as suas maguas. Era um bonito sonho!</p> + +<p> </p> + +<h2>XII</h2> + +<p>Concordamos em acceitar eu o convite de uma amiga d'ella, que, todas as +semanas convidava a jantar.</p> + +<p>—Ahi nunca vae muita gente—disse ella—poderás facilmente ligar-te +comnosco.</p> + +<p><em>Comnosco</em>!... Era a primeira vez, que, n'uma só palavra, ella +associava comsigo innocentemente o marido, sem dar fé da angustia que esta +alliança me causava. Querida Fanny! eu sentia-me empallidecer sob uma oppressão +indefinivel, e ella purpureava-se de contentamento. Depois d'aquella palavra, +terrivel para mim, e sem valor para ella, ergueu-se. Tinham decorrido as duas +horas. Separamo-nos. Com ella foi a confiança; comigo ficou a esperança +horrivel.<span class="pn">{25}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>XIII</h2> + +<p>Sim, esperança horrivel! porque eu não sei exprimir o que reluctava em mim +de duvida, anceio, e azedume meditando que ia vêl-a emfim sob os olhos de quem +lhe governava a vida.</p> + +<p>Tudo isto se misturava em meu coração como venenos e contra-venenos, e +d'esta abominavel mistura, fumavam vapores d'um travor tal, que eu me sentia na +cabeça latejar o cerebro, e os joelhos vergavam sob mim.</p> + +<p>Isto nada era, comparado ao que eu devia experimentar n'essa estreitissima +meza, onde á claridade dos globos, nenhum conviva poderia esconder os +pensamentos que lhe franzissem a fronte. Ao principio, nada vi, e respondi ao +acaso ás perguntas que me fizeram. Comia machinalmente. Esforçava-me por ser +attencioso e polido; mas denotava mais inquietação que o assassino que se vê em +risco de ser descoberto.</p> + +<p>Atordoado pelo tinido dos copos, pelo estrepito da baixella, pelo atrito das +porcelanas, pelo reverbero das luzes nas tampas brunidas das terrinas, pelo +vai-vem dos creados pressurosos que serviam, sem dizer palavra, e se moviam sem +rumor d'um passo, como sombras negras de luva branca; e suffocado pela +athmosphera calida da sala impregnada de evaporações penetrantes, misturadas +com o odor do vinho e o das flôres, eu não olhava Fanny, nem mesmo a escutava. +Tornou-se-me insopportavel a par de mim a presença d'ella: era como um peso que +me abafava.</p> + +<p>E tambem o não encarava a elle, elle, que eu viera procurar, de tão longe, +com o desejo e terror<span class="pn">{26}</span> de conhecel-o. Inceguecido +por visões funebres, eu não podia vêl-o, com quanto elle estivesse defronte de +mim.</p> + +<p>De repente recobrei a minha lucidez sentindo um pé de mulher rossar o meu, e +comprimil-o brandamente. Era ella a prevenir-me da minha preoccupação visivel +de mais. Dirigi-lhe um lanço d'olhos agradecido; e, encostando-me ao espaldar +da minha cadeira, contemplei detidamente aquelle que mal sabia que possante +interesse ingendrára em mim o estudo da sua pessoa.</p> + +<p> </p> + +<h2>XIV</h2> + +<p>Era uma especie de touro com face humana. De estatura mediana.</p> + +<p>Quando comia, atirava para diante, as espaduas robustas, e a cadeira gemia +sob a gravosa flexão dos seus encontros quadrangulares. Eu via-lhe do meu +logar, na testa, os arcos carregados das sobrancelhas hirtas de cabellos +grossos, e abaixo fulgurava-lhe um olho pardo e luzidio d'aquelle brilho +metalico que reluz na pupila impassivel dos carnivoros.</p> + +<p>Comia, ás mãos juntas, mãos carnudas e curtas, e levantava os cotovêlos para +melhor pezar sobre a faca brilhante, e sobre o cabo do garfo. Entre<span +class="pn">{27}</span> cada prato respirava largamente, limpava a boca, e bebia +a longos sorvos grandes copos de vinho estreme.</p> + +<p>Não tinha má cara, nem vulgar. O aspecto era de força. Todo elle denotava +pujança extraordinaria de musculos. A superficie das faces e queixo +perfeitamente escanhotado, apparentava regidez marmorea, e a fronte rasgada, +limpida, cercada de cabellos negros já betados de russas, revelava um espirito +de vontade cheio de rectidão e persistencia.</p> + +<p>Era affectuoso o sorrir d'elle, e o olhar desmalicioso, porém claro como +cristal. Incarava-vos de face, nos olhos, de um modo tal, que vos julgarieis +felizes, evitando esse espelho de aço incommodativo á força de franco. O que +elle tinha era dar cascalhadas estridorosas, repuchando em sacões os peitoraes +acima da cintura apertada, e descompondo para traz a cara vermelhaça. Era grave +e sonora a sua voz; o gesto tranquillo, e um pouco sombrio. Tinha bonitos +dentes, unhas rosadas, brilhantes e bem feitas; em fim, dominava n'aquelle todo +um ar de inteireza e aceio.</p> + +<p>Pareceu-me ter quarenta annos.</p> + +<p>Primeiro, ao vêl-o, fiquei como humilhado: corri-me de entrar em rivalidade +com natureza tão possante. Involuntariamente me confrontei com elle, eu, a par +d'elle tão franzino, como o seriam quasi todos os rapazes da minha idade. O que +havia em mim de debilidade nervosa, e fineza de raça, e de elegancia, +amesquinhava-se em comparação d'aquella riqueza de sangue, pujança de fórmas, e +virilidade<span class="pn">{28}</span> fria e pacata. Eu era como um sylpho +contemplando, assombrado, a estatua d'um gigante. Ao pé d'elle que homem era +eu? Forte e gentil expressão de homem era sómente elle, eu não.</p> + +<p>E, mais cruel ainda para commigo mesmo, passava depois a comparação de mim +para ella. E, vendo-a sentada ao meu lado, dôce e loura como Eva, candida como +uma virgem, com aquella cintura de fada, e aquelle colo requebrado em languor, +e todo aquelle ar de timidez que lhe impanava a face adoravel como a sombra +d'um vapor... vendo-a assim, e tão delicada no pensar, perguntava-me, eu, +phrenetico, como é que ella poderá amar tal homem? Violenta associação de duas +naturezas que entre si não tinham um ponto só de contacto! Irmanavam-se com a +seda e com o ferro!</p> + +<p>Oh! Desdemona!—me dizia eu—que Othello escolheste! Mas mal sabia Fanny que +furor raivava ao seu lado! Dirigia-me placidamente a palavra, olhando-me com ar +de simples, e affastando com sua mão alvissima os louros anneis que lhe +volteavam como plumas sobre a fronte. E fallava-lhe a elle, sem turvação nem +embaraço... e dizia-lhe: <em>meu amigo</em>, deante de mim.</p> + +<p>E elle, com menos embaraço ainda, lhe respondia, todo attenções e +deferencia, com ar, porém, de grande superioridade.</p> + +<p>O Hercules via n'ella um ser perigrino, mas absurdo: e por isso o que lhe +dizia eram bagatellas, com ar amavel e paternal, como os pais as dizem aos +filhinhos curiosos.<span class="pn">{29}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>XV</h2> + +<p>Terminado o jantar, e passados os convivas á sala grande, e sentados em +redor das bancas do whist, avisinhei-me lentamente de Fanny que aquecia os pés +ao fogão.</p> + +<p>Encostei-me ao rebordo da chaminé; e, com palavras de ternura que lhe dizia +a meia voz, intrometti coisas frivolas ditas em voz alta. Deste logar via eu as +costas dos jogadores inclinados sobre as bancas em que flammejavam as velas, +involtas dos seus quebra-luz, e incravadas em magnificos castiçaes de prata; +ouvia o ruido dos tentos de madre-perola, e o murmurio dos equivocos que os +parceiros se trocavam. Cuidava eu que estariamos assim a seguro de reparos, com +alguma astucia, até porque a dona da casa fôra para o fundo da sala dedilhar no +teclado do piano. Novo encanto unido a outros tantos era aquelle dos accordes +ondeando o ar, a um tempo que as secretas melodias do amor, mais melodiosas +ainda, cantavam em nós. Porém, separando-se do grupo dos jogadores junto ao +qual até então estivera de pé, o meu rival dirigiu-se a nós com semblante +gracioso, e o mais natural possivel, e perguntou-nos em que fallavamos. Com +melindrosa urbanidade, que excluia todas as<span class="pn">{30}</span> +maneiras familiares e nos distanceava um do outro, mas com serena voz e ares +cortezes, entrou elle a dirigir a conversação e eu não pude deixar de +acompanhal-o.</p> + +<p>Por entre as melodias da muzica, e a ternura das vibrações, de que elle não +dava fé, fallou-me de caça, theatros, cavallos, que sei eu! não deixando mesmo +de entrar no amago dos assumptos banaes que eu imprudentemente escolhêra, mas +que o interlocutor me condemnava a repetir, como se elle os julgasse unicos +dignos de mim.</p> + +<p>Dei-lhe duas ou tres respostas bastante arguciosas, e elle applaudiu-as com +os olhos, honrando-me com um gesto de assentimento.</p> + +<p>Assim pois que era eu para elle um instrumento assaz futil com cujas cordas +brincava rossando-as com as pontas dos dedos. Se elle soubesse que em meu +coração havia uma d'aquellas cordas, cujo som horrivel podia restrugir-lhe nos +ouvidos, e insurdecêl-o!</p> + +<p>Mais tarde, vi-o assentado ao lado d'ella, na sombra que fluctuava em redor +do clarão dos castiçaes. Sem me vêr a mim, nem a outrem, nem a ella, +apertava-lhe machinalmente a mão, scismando talvez em não sei que. E eu, +contemplava aquillo, como o mais estranho e monstruoso dos espectaculos. Em +quanto a ella, fixando os olhos nos meus, estava livida como uma estatua de +marfim; mas não ousava balbuciar, nem fallar, e consentia.<span +class="pn">{31}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>XVI</h2> + +<p>Desde essa noite, uma só preoccupação me dominou—dissipar do meu cerebro a +imagem do que vira. Quiz, á custa de tudo, esquecer aquillo que me humilhava e +esmagava o coração. Como eu me castigava do que fizera! Absurda cubiça de +conhecer o que ella tão de siso me escondera, e que eu devia ignorar sempre! +</p> + +<p>—Oh! não—me dizia eu—nunca mais ouvirei fallar deste homem temivel; nunca +mais lhe encontrarei os olhos dominantes; nunca os nossos halitos hão-de +encontrar-se na atmosphera da mesma sala; nunca mais, deante de mim, ha-de a +mão d'elle apertar a tua, ó mulher serena e docil!</p> + +<p>Tres dias depois, quando veio a minha casa, não viu ella em mim mudança +alguma. A colera, a pouco e pouco, enchera-me de suas fezes a alma; mas dôr era +esta que simulava a quietação da paz.</p> + +<p>Com apparencias de socegado, sentia-me ferido de morte. Golpeado no coração, +conservava o meu aspecto antigo, como aquelles fructos escarlates cuja pele +fina e tenra cobre carne que devora um verme invisivel. E assim, de nada +suspeitou Fanny. Todavia, como eu lhe fallava d'ella, de mim, de tudo em summa, +excepto do que mais a preoccupava,<span class="pn">{32}</span> Fanny parecia +esperar anciosa. Por ultimo, no extremo da minha contrafeita eloquencia, +propellido pelo anceio de vingar-me d'uma dôr nunca experimentada e cuja causa +innocente ella era, lhe disse com amargura:</p> + +<p>—Tu queres saber o que eu penso de teu marido, e talvez que te dês por +venturosa se o juizo que esperas não lhe fôr desfavoravel. Mas, Fanny, tu nunca +has-de saber o sentimento que elle me inspira.</p> + +<p>Pareceu-me que, ao ouvir-me estas palavras, todo o sangue do coração lhe +refluiu á face. Pobre mulher conciliadora! tanta alegria em chamar-me a sua +casa, para me vêr mais a miudo, para me unir a todos os entes doces e queridos +que lhe decoravam o coração!...</p> + +<p>—D'onde vem essa mudança, Roger?—murmurou ella com penoso esforço.</p> + +<p>«D'onde vem?!» exclamei eu infurecido... mas vi-lhe então o rosto innundado +de lagrimas; e logo, cahindo a seus pés, abraçando-a pelos joelhos, disse-lhe +brandamente:</p> + +<p>«É que eu sou horrivelmente desgraçado, Fanny!... É porque me devoram +ciumes...</p> + +<p>Ergueu-se de subito, como estupefacta, sem me repellir. Reteve-me ajoelhado, +pesando-me sobre os hombros com as mãos: eu permanecia de joelhos, sem a +comprehender. Fitou-me por largo espaço, profundamente, explorando os intimos +arcanos de minha alma inquieta. Depois ergueu ligeiramente os hombros; e, +baixando-se para me apertar a face ao seio, exclamou:<span +class="pn">{33}</span></p> + +<p>«Filho, meu pobre e querido filho!»</p> + +<p>E desde ahi, não tornou mais a fallar, por si mesma, neste assumpto.</p> + +<p>Eu, porém, pensava n'elle incessante e dolorosamente, sem poder abster-me de +o recordar. Affagava-me então ella, e reprehendia-me. «Perdes o +tempo»—dizia-me, sorrindo-me, e abraçando-me, se me eu detinha muito na +exposição das minhas tristezas. E seus braços se me inroscavam no pescoço com +ameigadora volupia, com a fascinação dos olhos me violentava a olhal-a, com +graciosa e morbida ternura collava aos meus seus labios. Mas tudo em vão. Já se +não franziam meus labios para saborear beijos d'amor; agora era o +confrangerem-se soluçando gemidos.</p> + +<p> </p> + +<h2>XVII</h2> + +<p>Desde este funesto dia comecei a soffrer grandes torturas. A imagem daquelle +homem incrustara-se-me na memoria, e, por mais que eu fizesse, não havia +dilil-a de lá. Póde ser que aos olhos de toda a gente fosse elle ridiculo, mas +aos meus não cuidei que o fosse. Para mim, era sinistro, terrivel, e, cada +noite, espavorido, via-o, em sonhos, trucidar carniceiramente o espectro da +minha felicidade.</p> + +<p>O feliz era elle, que tudo ignorava. No drama<span class="pn">{34}</span> +começado por transportes de amor, e agora prolongado a travez de anciedades, +terrores, desespêros, não representava elle: tão prudentes tinhamos nós sido! +</p> + +<p>Atroz mudança de papeis! Era eu que tinha ciumes d'elle! O espoliador +soffria da posse pela posse. Não lhe restava mesmo o recurso de excitar as +suspeitas do espoliado para o fazer aquinhoar das torturas!</p> + +<p>E era-me força desconfiar e occupar-me d'elle!</p> + +<p>A meu pesar, para evital-o, cumpria-me ser ardiloso como a lebre. Este papel +de fugidiço, de temorato, degradava-me ao livel dos covardes. Meu Deus! se eu a +não amasse!...</p> + +<p>Em comparação dos males que deviam vir, aquelles nada eram. Principiava a +caminhar n'uma senda espinhosa, cavada de abysmos, e não sabia que flagellações +me urgia supportar antes de chegar ao termo. Desde então, se deante do fogão, +no meu quarto silencioso, eu tentava divertir a alma da dôr presente, levando-a +ás memorias de amores passados; ou esporeando á redea solta o meu cavallo, +arriscava cem vezes a vida para quebrantar o corpo de fadiga, a fim de reverter +sobre elle a fadiga de meu cerebro, ou se pedia á orgia o esquecimento, bebendo +a grandes tragos o vinho que nunca me valeu uma gota d'agua do Léthes; ou se, +n'um só lanço de azar, expunha os meus haveres para soffrer sequer uma sensação +diversa daquella que eu execrava; ou, se emfim, envolvido nos cortinados da +minha alcova, eu passava as minhas noites inteiras a lastimar-me, invocando os +phantasmas dos<span class="pn">{35}</span> seres adorados que perdi: nunca, nem +no sonho, nem no perigo, nem na embriaguez, nem no jogo, nem ainda na +remeniscencia da minha mãe morta, eu pude conseguir estrangular a serpente que +me atassalhava o coração. Comigo, a visão fatal sorria aos meus amores juvenis; +comigo, cavalgava ella o meu cavallo espantado; zombeteando, molhava ella os +labios palidos no meu copo; no copo do jogo fazia ella o tilintar dos dados; +comigo, emfim, meditava ella em minha mãe. Á flôr de minhas recordações todas, +scenas incantadoras, affectuosas, terriveis, que eu restaurava com a memoria, +do fundo de minha alma, surdiam incessantemente outras lembranças, outras +imagens que espancavam aquellas.</p> + +<p>E não havia remedio senão acolher aquellas abominaveis lembranças; affrontar +de rosto com aquellas funestas imagens, porque era a isso violentado; +venciam-me, e eu então, encarava-as!</p> + +<p>Havia ahi alguma coisa horrida, humilhadora, e angustiadissima.</p> + +<p>Só quem ama póde formar idéa vaga de minhas agonias. Era tudo claro e +patente: nenhum refugio para a duvida! E eu me reprezentava a mulher amada, +linda, elegantemente vestida, meiga, candida, assentada ao angulo do fogão em +sua sala, ou á meza, no logar de honra, em face de seu marido, rodeada de +amigos, e filhos. Affavel sempre, com attenções delicadas para todos, attenções +que são a magica linguagem da graça do coração. E para o dominador mais +carinhoso que para os mais! Era-lhe forçoso prevenir suspeitas de homem tão +prespicaz:<span class="pn">{36}</span> como não seria ella carinhosa? E, a de +mais, entre elles existia a communidade de tantas coisas—interesses, filhos, +viverem juntos, a toda a hora, alegres ou tristes, sem nunca se apartarem!... E +quantas expansões naturaes!... Era elle o leão dominador daquella adoravel +existencia; e eu, o lobo temido, e salteador, de olhar ferino, esbaforido, que, +de tempo a tempo, a risco de perigos mil, exposto a humilhações degradantes, a +uma bala, o roubava nas trevas, em quanto elle dormia, alguns restos do seu +quinhão.</p> + +<p>Oh! era isto o que me humilhava muito; mas aqui vereis o que me fazia +pedaços o coração. Eu não podia suspender o trabalho indefesso de minhas +evocações. Completava-as, ruminando minhas dôres, com satanico prazer. Então se +mudava a scena, e figurava-se-me Fanny, por noite, só por só com elle, depois +da saida dos filhos, na alcova fechada, onde o chá fumegava nas chavenas, ao +suave clarão da lampada, ao pé do lume que docemente crepitava nas cinzas +quentes. E ella a olhal-o com aquelles mesmos olhos que eu amava tanto! E a +conversar com elle, amavel, facil, fallando pouco para lhe deixar o prazer de +fallar, submissa como convém á mulher quando é formosa, e o dominador é forte. +E não cuideis que eu ficasse n'estas imagens de seductora intimidade.</p> + +<p>Não podia. Continuava-as, exaggerava-as... que sei eu!... ajuntava-lhe +outras. Era forçoso que assim fosse, assim devia ser. Era tarde, agonisava a +chamma no fogão obscuro, a lampada mortiça abafava os seus lampejos no +quebra-luz, callavam-se<span class="pn">{37}</span> todos os rumores na casa e +na rua; o passo sonoro do caminheiro retardado, marcava a hora do repouso e do +prazer. De mais, meninos e creados, tudo estava na cama. Estavam elles +sosinhos. E eram esposos!...</p> + +<p> </p> + +<h2>XVIII</h2> + +<p>Chegado até este ponto, tornava-me pallido. No mais recondito de minha alma, +alguma coisa se estorcia e agonisava em convulções desesperadas. Estas imagens, +evocadas cada noite, tornavam-me mais desgraçado, que se eu tivesse visto a +mulher adorada cuspida em minha presença. Erguia-me, e via as horas; depois, +despregava a rir, como doido, ou, involvendo a cabeça nos braços, lançava-me a +chorar sobre o leito.</p> + +<p> </p> + +<h2>XIX</h2> + +<p>De madrugada emergia do meu pesadelo, mais quebrantado que o ferido d'um +tétano.</p> + +<p>E se me arrastava á janella, para aspirar um pouco<span +class="pn">{38}</span> de ar puro, a mesma pergunta me desabrochava nos labios +calcinantes como flôr venenosa:</p> + +<p>Por que o amou ella n'outro tempo? Que ella o amou, já m'o disse; foi por +elle tirada á familia que a não queria ligar a um homem sem posição e sem +riqueza. Enriqueceu depois, por que é energico e paciente. Sabe querer. Mas por +que o amou ella? E, depois, por que me ama ella hoje a mim? Somos tão +differentes um do outro!</p> + +<p>Um dia, finalmente, á força de moer n'esta ideia, e joeirar-lhe no espirito +os venenos todos, julguei que ia penetrar o proceder de Fanny. Lembrando-me +quanto ella era sensivel ás caricias; figurando-me as scenas mais deleitosas do +nosso amor, e comparando-me ao marido, invergonhei-me e alguma coisa mais acre +que o desgosto, mais amarga que o despreso, mais peçonhenta que o odio, me +subiu do coração aos labios.</p> + +<p>—Ora ahi está por que ella me ama hoje—me disse eu sacudindo a cabeça. +Veio depois auxiliar-me a analyse mais uma vez, mas para ferir-me covardemente +com uma nova punhalada.—Ama-me para variar—disse eu amargurado—para +satisfazer, um contrario exagerado, um desejo mais sentimental, mais delicado. +A não ser para completar o seu ideal... accrescentei eu sem reflectir na +crueldade da supposição.</p> + +<p>Mas em tal caso—grito eu com terror indisivel—eu não sou para ella mais +que metade d'um homem! Encho apenas metade d'um coração! Fui medido. Acharam-me +incompleto. Sou escassamente uma addição! Não passo d'um complemento.<span +class="pn">{39}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>XX</h2> + +<p>Algumas vezes fugia de casa como d'um carcere, e ia espairecer minhas +interminaveis meditações na multidão que peja os passeios. Achando-me entre +pessoas felizes, indifferentes, occupadas; saboreando, a meu pezar, os +primeiros effluvios balsamicos da primavera, cessava de julgar-me tão +absolutamente miseravel, e classificava de creancice as mais monstruosas +hallucinações—É o ciume—dizia—que me torna absurdo. Encontrando a cada passo +tantas mulheres bonitas, elegantes, pelo braço de cavalheiros, os quaes com ar +de aborrecidos, volteam os olhos em deredor, e escassamente lhes respondem, +accrescentava eu:—Quantas mulheres habitam sob as mesmas telhas com seus +maridos, sem repararem n'isso! Ao cabo de quatro annos de intimidade, o marido +converte-se em amigo, e nem sempre! É de toda a gente, menos de sua mulher... +</p> + +<p>Mas logo vinham as duvidas a mortificar-me, cada vez mais pungitivas, e eu +debalde a repelil-as de meu espirito. Que farte me conhecia eu para saber que +não poderia jámais adquirir o espirito de conformidade com o meu seculo que +permitte ao amante d'uma mulher cerrar a mão de seu marido,<span +class="pn">{40}</span> amigo só que seja! Além d'isso, eu não queria cortejar +esse dominador, nem ajustar-me aos seus caprichos, nem tornar-me para elle o +homem indispensavel. Eu vaticinava—se as suspeitas alguma vez o +molestassem—quantas semsaborias me seria preciso fazer, quantas mentiras +engenhar, quantos desgostos e aviltamentos supportar para destruil-as. E para +aviltamento já bastava! D'aqui avante não passo—protestava eu—já é de mais o +lamaçal do meu caminho.</p> + +<p>Mais cançado e inquieto que na sahida, voltava para casa. Os sorrisos da +primavera faziam-me vontade de chorar. A mornidão da atmosphera ingravecia-me +no cerebro os pensamentos. O espectaculo, e sussurro das multidões ao longe, +tornavam ainda mais incomportavel o silencio da minha soledade.</p> + +<p> </p> + +<h2>XXI</h2> + +<p>Em troca d'estas dôres, que por serem silenciosas, não eram menos crueis, +nenhuma consolação eu recebia. Os meus prazeres eram extinctos. A duvida +resequira as novas flôres d'elles com seu impuro sopro.</p> + +<p>Apenas meus sentidos se atrophiavam, vinha logo a mão adunca da mysantropia +cravar-se-me no hombro. A lembrança d'aquelle que, na logica da<span +class="pn">{41}</span> minha paixão, eu nomeava meu vival, como spectro de +suplicio infindo, vinha interpor-se entre mim e ella, com uma atroz ironia, +para empeçonhar nossas caricias.</p> + +<p>Eu via os traços d'elle nas palavras, nos gestos e modos e costumes da +mulher que eu adorava. N'aquelles braços que me apertavam ao coração, estavam +os seus moldes. No sangue que ondeava desordenado nas arterias de Fanny, se +infiltrára elle. Via-o na fronte pallida, no rosto contemplativo, nos olhos +amortecidos, todo n'ella, abraçando-me, com ella, e suspirando nos seus +suspiros... Como eu invejava amigos meus abandonados, que se aturdiam juntos, +nas bachanaes, ao tilintar do oiro sobre os panos verdes das mesas do jogo, ás +francas gargalhadas das mulheres perdidas! E todos os amantes desdenhados, que, +de braços abertos e olhar internecedor, perseguem, sonhando, uma sombra altiva! +E ainda todos os amantes separados! Nenhum d'elles—dizia eu +lastimosamente—soffreu jámais por seu amor infertil, tanto quanto eu soffro +por meu amor partilhado. Zombaria atroz da possessão! quando nos não fatigas, +deshonras-nos.</p> + +<p> </p> + +<h2>XXII</h2> + +<p>Em fim contristava-me o desapreço que, a meu pesar, soffrêra o idolo em +minha alma. Até ahi, era<span class="pn">{42}</span> um verdadeiro culto o que +eu sentia: a realisação de quanto eu sonhara puro e angelico, era ella: +affizera-me a vêr em Fanny alguma coisa sacratissima, impossivel de +deperecimento ou macula. Agora, via-a voluntariamente cahida do altar em que a +minha piedade a erguêra para manchar seus pés no contacto da terra, e +confundir-se no vulgo. Era isso o primeiro e mais cruente effeito do ciume, que +principia sempre por nos incutir uma horrivel mescla de adoração, odio, furor, +e desprezo.</p> + +<p> </p> + +<h2>XXIII</h2> + +<p>Comprehendi logo que estava travado para sempre, entre mim e Fanny, um duelo +de morte. Todos os meus pensamentos me vinham do fundo do coração inficionados +d'uma certa grosseria. Morrêra o respeito em mim. Dominavam-me ideas brutaes de +lucta. Esporeava-me o desejo acerbo de castigar rudemente aquelle ente +inoffensivo e graciozo que eu amava pela vida! Eu queria invilecêl-o diante de +mim ainda mais do que a sua imagem se invilecêra na minha memoria.</p> + +<p>Como pôde ella resolver-se a isto!—exclamava eu inraivecido!—Oh! que +execravel zombaria é isso de pureza de mulheres! Parece que os beijos são +coizas fugitivas, dos quaes nada lhe fica nos labios logo que os enchugam.<span +class="pn">{43}</span></p> + +<p>Não podia mais. Fanny entrou na partilha das torturas que até então eu +guardava comigo só. Os homens não sabem soffrer longo tempo, sem descarregar +covardemente o pezo de suas penas, sobre quem elles mais amam.</p> + +<p> </p> + +<h2>XXIV</h2> + +<p>Tu sabias que eu era cazada!</p> + +<p>Foi a suprema razão que ella unicamente oppoz, com ar timido, aos meus +primeiros queixumes, ainda moderados.</p> + +<p>Eu respondi:</p> + +<p>«Não sabias tambem tu que eu podia ter uma alma dedicada, e não podias +prever, sendo minha, que tormentos me deviam cauzar o teu amor?</p> + +<p>E depois, perguntei-lhe, sem preambulo, e violentado:</p> + +<p>«Como viveis juntos?</p> + +<p>Ella corou: estava offendida.</p> + +<p>Não devemos fallar d'isso, Roger—respondeu com frieza.</p> + +<p>Mas tão desgraçado me viu, que, por commiseração, fallou, violentando os +seus mais castos sentimentos. Era redobrar-me o supplicio.</p> + +<p>Ella, porém, não me disse tudo. Aguilhoado pela cruel necessidade de +conhecer a extensão da minha<span class="pn">{44}</span> desgraça, querendo +saber, á custa de tudo, onde ella acabava, instei, ferindo-lhe o pudor. Eu +estava enfiado e sem ar. Poz-me a mão na bocca. Ficamos silenciosos. Fanny +contemplou-me longo tempo. Chorava, e ella tambem. E, por fim, tragando o calix +até á derradeira gota, disse-me que ia responder-me.</p> + +<p>Eu, chegado a este extremo, com embaraço imprevisto, com uma hesitação que +obscurecia as minhas palavras e abafava na copia d'ellas a froixa luz da +intenção que eu tinha; com uma turvação doloroza, que augmentava a angustia do +coração animozo; illaqueando o pensamento na rede das divagações e periphrases, +como se eu quizesse demorar o momento de conhecer o que eu temia +saber—interroguei-a ácerca de mil coisas tendentes a velar de mim a existencia +intima d'ella. Respondeu-me com simplicidade, tão embaraçada como eu, vencendo, +porém, intrepidamente a vergonha deste estranho interrogatorio, com o fim de +mitigar-me as dôres, e dar-me um exemplo de desgostos que póde vencer a mulher +que ama, quando é desgraçado quem ella ama.</p> + +<p>E deu-se então em mim uma successão monstruoza de caricias e golpes; mistura +sem nome de balsamos e venenos; associação horrivel de martyrios e +glorificações. O facto execravel, cujo desmentido era impraticavel, permanecia +em toda a sua plenitude; porém, quantas consolações podiam modificar-lhe o +corrosivo e humilhante, todas ellas carinhosamente me prodigalisou, espiando +com sobresalto em meu rosto o effeito das palavras confusas<span +class="pn">{45}</span> mas comprehensiveis, que pronunciava. A uma derradeira +pergunta, mais brutal que as outras, que eu de golpe lhe fiz, deu-se n'ella uma +soberba explosão de revolta, que me fez cahir a seus pés, pedindo perdão. Eu +devia crêl-a. Muito ávante tinha eu ido nas conjecturas do meu ciume. Fanny +repartia-se; mas não pensava sem horror n'essa repartição.</p> + +<p>Se eu a amasse menos, decerto me sentiria exaltado pela dolorosa confusão +que ella acompanhava de tantas consolações, pelas lagrimas que lhe derivavam na +face, quando me descobria a chaga sangrenta da sua vida; eu poderia ficar +altivo e grato, ou compungido ao menos d'aquella tamanha dôr e humildade; mas, +em meu espirito, havia uma só preocupação, que me alheava de mim mesmo. Fóra +d'ella nada comprehendia, não pensava em nada.</p> + +<p>Não tive pois palavra boa que lhe dissesse; satisfiz-me mostrando-lhe +receios pela sua tranquilidade.</p> + +<p>«Teu marido deve suspeitar, vendo-te mudadada; por que tu amaste-o n'outro +tempo.</p> + +<p>A esta monstruosidade, encolheu os hombros, e não enchugou as lagrimas. +Roger! Roger—disse ella—é pena que tu sejas sempre creança. Ouves, e não +comprehendes. Pois por ventura os nossos maridos pensam em nós? Que mulher +tomaria um amante, se o marido lhe desse o que um amante lhe dá? Já não digo os +cuidados, as attenções, os bons modos, a amizade; mas um pouco desse balsamo +que é a essencia da nossa vida toda—um pouco d'amor!<span +class="pn">{46}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>XXV</h2> + +<p>Esta penosa discussão avantajou Fanny na minha estima, mas não me consolou. +Que me importa a mim para o essencial o modo imperceptivel da intenção! O facto +brutal era o mesmo. Não obstante, reprehendi-me da curiosidade do meu ciume, +que até me roubava a sombra da duvida que eu, por momentos, affagava ainda.</p> + +<p>Não podia, pois, atenuar a minha dôr o effeito das ultimas palavras de +Fanny. O que eu queria era vencer o invencivel, por que era oppressiva a mesma +angustia.</p> + +<p>Eu espiava o olhar de Fanny como querendo calcular-lhe as forças, antes de +aggredil-a de novo. Mas os nossos olhos tinham-se encontrado, e não podemos +mais tempo resistir a nós mesmos. Fugiu de minha alma a menor idea de lucta; do +coração d'ella fugiu o menor desejo de resistencia; e o abraço que nos apertou +era tão forte, que, mais uma vez, gostamos um minuto de verdadeira +felicidade.<span class="pn">{47}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>XXVI</h2> + +<p>A confissão, que eu arrancara a Fanny, devia fazel-a soffrer tanto como a +mim. Ella, porém, tão pouco se individualisava na offensa, que, desde esse dia, +em que eu lhe patenteei as minhas dôres, todas as suas escondeu de mim, e risos +me trouxe sempre, como a convidar-me graciosamente a dominar os impetos do meu +carater. Pobre mulher, que vinha visitar-me por tempo horrivel, e a sua mais +instante preoccupação devia ser o urdir mentiras que legitimassem a sua +ausencia de duas horas em cada semana. Apesar d'isso, resistia aos aguaceiros +da primavera, como ás nevadas do inverno. Nem mesmo fallava dos incommodos que +precisamente devia soffrer para arrancar algumas horas de liberdade ás +estreitesas da escravidão da familia. Ria gentilmente dos seus vestidos +molhados, despindo a muito custo as luvas, ageitando os cabellos desanelados, e +chegando ao fogo a biqueira das botinhas fumegantes. Tinha como brio de se vêr +em minha casa depois de haver-se exposto a perigos tamanhos, feliz por a não +terem encontrado, contente porque me via menos triste. O vencer obstaculos, a +conservação do segredo, manter a estima da sociedade, o cuidar do meu repouso, +tudo isso não a deixava sentir o cansaço. Não ha felicidade +perfeita—dizia-me<span class="pn">{48}</span> ella enternecidamente com um +suspiro—ambos pagamos á tristeza o tributo do nosso amor; mas este amor é tão +bom que o tributo que a tristeza recebe não me parece uzurario.</p> + +<p>Nunca suggeria discussões; nunca foi a primeira a fallar-me dos seus +deveres, que muito apreciava, e dos quaes me sacrificara a melhor parte. Com +seu maravilhoso instincto de mulher, adivinhava que não podia fallar-me de seus +deveres sem me irritar o orgulho, e ella respeitava o meu orgulho, como cauza +de soffrimento, quando mesmo o feria. Nunca pude surprehender-lhe sombra de +remorsos. Mas têl-os-ia ella?...</p> + +<p>Quando eu estava sósinho, pensava assim:—Que cautellas terá ella tomado +para dissimular este amor? que invenções! que calculos! que ardis! para se +furtar a discussões sobre as suas sahidas! Quantas concessões para não ser +descoberta! E tanto que arrisca! Pobre mulher! Tanto tem que perder! E eu tão +pouco! Ah! que mau homem sou em atormental-a!</p> + +<p>Tratava-me ella por creança, e, com franqueza, eu o merecia bem. Quantas +coisas eu sabia do seu viver que ella me occultava, com medo de penalisar-me! +</p> + +<p>Eu não queria comprehender nunca que havia dias em que lhe era completamente +impossivel sahir, e a mais banal visita era bastante a retêl-a em casa. +Desconfiava então de abominaveis calculos. Affirmava que ella me mentira. +Cuidava que procedia a falta de excitações e fadigas na partilha que ella devia +detestar. Odiava-a.<span class="pn">{49}</span></p> + +<p>«Fases-me piedade! dizia ella quando eu lhe deixava vêr os horrores do meu +infermo espirito.</p> + +<p>Todavia, algumas vezes, meio esquecido de minhas magoas pessoaes, para +entrar ás profundezas da consciencia, dizia em mim: «Quando a tenho torturado +bastante, quando ella d'aqui sae chorando, attribulada, golpeada no coração, +perguntando-se se me tornará a vêr em sua vida, que fará ella na rua para +disfarçar o tormento que a aperta, e mascarar o rosto com o gesto de habitual +tranquilidade, para volver á mulher risonha que eu conheço? Será á custa de +carinhos que ella affasta as suspeitas de um marido difficil de enganar? Ah! +que lagrimas ella deve chorar com seus filhos! São tantos os esforços dolorosos +que elles lhe custam!</p> + +<p>E como sei bem que elles adivinham o segredo das lagrimas d'ella! E quão +certo é que, semelhantes á mãe, tão bons, tão discretos, com suas mãosinhas lhe +enchugam os prantos, sem lh'os trahirem.</p> + +<p>Fanny soffria horrivelmente. Via-se-lhe o amarellecer da tristeza.</p> + +<p>Eu, sem lh'o dizer, observava o circulo negro que marmoreava a +circumferencia de seus olhos elanguecidos, e lhe dava ao olhar estranha +expressão de piedade.</p> + +<p>Via-lhe contrahidos os labios; e as rugas que subiam da fronte perderem-se +sob os cabellos sedosos como symbolos visiveis de dolorosos pensamentos. +Consternava-me este ar de desleixo que a definhava.</p> + +<p>Diante de mim sómente ella affrouxava a rigidez<span class="pn">{50}</span> +do seu porte, e eu da melhor vontade lh'o perdoava: devia estar cansadissima de +representar de senhora feliz!</p> + +<p>Quem lhe dera a ella poder tudo confessar, e viver francamente commigo, sem +ignominia!</p> + +<p>«Não me deixes—dizia-me ella por vezes—Tu es-me necessario como a luz!» +</p> + +<p>E outras vezes accrescentava:</p> + +<p>«O que me prova que eu te amo, é que eu amo tudo que é teu, o teu dôce +egoismo até, até a tua colera, mesmo as tuas sublimes injustiças!</p> + +<p>Depois, ficava subitamente callada, como se algum funebre pensamento, que +não ousava confessar, a angustiasse sem desabafo.</p> + +<p>Eu observava-a, e ella sacudia a cabeça. Depois, retorcendo os dedos, +exclamava:</p> + +<p>«Trahir! trahir sempre! Eis aqui o horror que tudo me invenena, mesmo a idea +da minha felicidade. Eu sou a mais miseravel das creaturas. Deus negou-me +força, e, por toda a vida, cumprirei a sentença da minha fraqueza. Tenho vivido +sempre diversamente da vida que quizera ter; tenho visto sempre ao pé de mim o +que eu quizera fazer. Trahir! meu Deus! como eu me detesto!</p> + +<p>Tomava-a então nos meus braços para applacal-a; mas não achava que +responder-lhe—De que quer ella fallar?—Perguntava-me eu estupidamente.</p> + +<p>Devia de ser do facto da perfidia; mas eu conhecia-a ainda mal, e +attribuindo-me as palavras fugidas á consciencia d'ella, sentia-me feliz e +orgulhoso.</p> + +<p>Isto ás vezes fazia-me chorar, e tomar corajosas resoluções—Guardarei para +mim os males todos,<span class="pn">{51}</span> e as consolações para +ella—propunha eu comigo.</p> + +<p>Por compaixão, pois, esquecia eu momentaneamente os meus desgostos; sacudia +o cansaço do meu pesado scismar, por me deixar levar dos transportes +ardentissimos da paixão. Refazia-me em meiguice e ternura e sujeição, mais +affectuoso que o molosso fiel que, apoz longa auzencia, encontra o olhar do +dono querido.</p> + +<p>Vertia a fluxo nectar dulcissimo da lisonja á mulher estremecida; tornei-me +frivolo, fallador, volitando por sobre vinte assumptos a um tempo, rindo +desentoadamente, evitando sobre tudo proferir palavra que dissesse respeito +directo ao assumpto uzual dos meus tormentos.</p> + +<p>Mas esta missão heroica, de que dei má sahida, não a enganava. Olhava-me +ella com spasmo. Escutava-me meneando a cabeça. Cuidaria ella, em consciencia, +que, extincto o ciume, seria o mesmo extinguir-se o amor?</p> + +<p>Estes accessos de heroicidade não podiam durar em mim longo tempo. +Suspirando, como pessoa aliviada d'um peso grande, viu ella que eu recobrava o +meu aspecto triste.</p> + +<p> </p> + +<h2>XXVII</h2> + +<p>Acabei, para grande vergonha minha, por acceitar tacitamente aquella +situação. Mas, d'ahi em diante,<span class="pn">{52}</span> havia entre nós +alguma coisa, que não podia já mais obliterar-se: um pensamento constante e +unico, que, mutuamente, nos atormentava os corações. Embora cerrassemos os +labios para o não deixar sahir em palavras, no intimo o sentiamos sempre como +dôr aguda que, a revezes, nos desentranhava imprecações. Um só grito bastava +então para incendiar uma explosão subita, e eu, principalmente, esquecia os +protestos de meu orgulho por dar livre curso á tristeza que me devorava. Não +queria fallar do meu rival, e fallava d'elle sempre. Era um nome que me +alanceava a memoria, e se me estorcia entre os labios, como um aspide. +Proferido apenas, mil perguntas incendiarias se embaralhavam tumultuosamente em +minha boca. Eu queria conhecel-o melhor ainda. Queria saber tudo o que elle +era, tudo que fazia, tudo que dizia. Fanny formalisava-se então; meditava largo +tempo antes de responder-me, para não se desmentir, depois dava indicios de +impaciencia e carregava o sobr'olho.</p> + +<p>Os homens são insaciaveis—dizia ella, com grande espanto meu—Não podes +contentar-te com ser amado? Por que te occupas incansavel no que se passa em +minha caza?</p> + +<p>Apoz estas contendas, separavamo-nos tristes, e, passados oito dias, +esperava-a furioso, exasperado pela raiva, com a boca cheia de sarcasmos, +decidido a romper brutalmente com ella. Mas só de vêl-a, toda a minha cholera +se exhalava como fumo, ajoelhava-me aos pés d'ella, e comprimia-a +convulsivamente ao meu coração.</p> + +<p>O que muito me espantava e irritava acremente<span class="pn">{53}</span> +era a docilidade com que ella, sem murmurar, a tudo se submettia. A ausencia, +os obstaculos, as difficuldades, não podiam nada com ella. Vêr-me, não me vêr, +era tudo o mesmo. Sempre serena aquella phisionomia. Dava-se ares de victima, e +não dizia palavra.</p> + +<p>«E se eu me matasse?» exclamei eu, um dia.</p> + +<p>Fanny encolheu os hombros.</p> + +<p>«E se algum incidente imprevisto nos separasse?»</p> + +<p>—Que queres que eu te faça!...—disse ella, e em seguida entrou a chorar. +</p> + +<p>Não podendo viver com ella, eu queria ao menos governar-lhe a vida, de modo +que as suas menores inspirações lh'as désse eu. De sobra comprehendia ella a +minha intenção, e mostrava-se; mas não me cedia nunca em pontos de delicadeza +que ella converteu em pontos de honra. E dizia-me:</p> + +<p>«Eu sou obrigada a soffrer a posição que me deu a sorte. Devassar-lhe os +segredos, de que monta? Affliges-te se fallo, affliges-te se me callo... Tracta +de esquecer as causas dessa tristeza, meu Roger.</p> + +<p>Eu de mim esqueço-as sempre que venho aqui.</p> + +<p>Outras vezes dizia meio risonha e meio motejadora:</p> + +<p>«És muito egoista! Pelos modos eu não devo amar senão a ti!»</p> + +<p>Impellido, porém, pela minha idea fixa, e sem admittir que ella anteposesse +a sua vontade á minha, astuciava com ella, impetrando-lhe exclusivamente a +piedade, e descia, por derradeiro, a tal degrau de baixeza, que, irritado por +ser eu só a penar, empregava toda a minha influencia para exigir d'esta<span +class="pn">{54}</span> desgraçada mulher que seguisse uma norma de proceder +deametralmente opposta á que seu marido lhe traçára. Bem sabia, eu, com isto, +que a sua casa, até ahi pacifica, ia tornar-se um inferno, e isso queria +eu: +Durante alguns dias, por cansaço, seguiu ella docilmente os meus conselhos, e +assim se viu intallada entre seus dois senhores, como o ferro amollentado pelo +fogo entre a incude e o malho. Ambos nós, sem treguas, lhe flagellavamos o +coração.</p> + +<p>Espicaçada, emfim, pela tortura, e tambem por uma especie de espirito de +inteiresa, disse-me:</p> + +<p>«Roger, tu aconselhas-me muito mal, por que me obrigas a perturbar-lhe o +repouso.»</p> + +<p>Fiquei consternado, e cessei de empregar aquelle novo genero de martyrio, +por que era para mim cruelissima mortificação vêl-a erigir-se em defensora +de +seu marido. Fanny, além disso, parecia fatigada d'essas disputas aviltantes e +penosas.—Tenho medo de infastial-a—disse-me eu um dia.</p> + +<p> </p> + +<h2>XXVIII</h2> + +<p>Porém, nos mais violentos accessos de meu ciume, inraivecia-me vêr-lhe no +semblante aquelle seu ar pudico, que ella conservava sempre, mesmo na mais +avida vertigem do goso. Ora isto, com o correr do tempo, deu para me irritar. +Tomei a peito<span class="pn">{55}</span> depraval-a, buscando abafar este amor +nas cinzas do fastio: Fanny ficava sempre a mesma! Estavam alli duas almas +diversas a exhalarem-se-lhe dos labios e dos olhares. Uma era a de Phrynea +absorvida, e séria, nutrida dos mais finos primores como das especiarias mais +corrosivas da paixão, o que, alternadamente, se assignalava por um sorrir +estranho e vago. A segunda era a de um anjo immaculado. Ai! aquelle olhar +d'ella! Aquella expressão de spasmo que reluzia perpetuamente em seus olhos +azues, tão rasgados, sob as placidas e destacadas palpebras! Ainda agora me +seguem e arrebatam! Sinto-os sempre, fitos nos meus! Interrogam-me, e +fascinam-me! Não poderei jámais esquecer os olhos d'ella?...</p> + +<p>Fanny, no garbo de suas attitudes, no meneio da cabeça, no andar, tinha +algumas vezes um não sei que que denunciava appetites de um sensualismo +profundo e vehemente, e mesmo alguma coisa dessa monstruosa concessão +duplicada, que tanto a meus olhos a invilecia. De subito, com uma palavra só, +transfigurava-se, e julgal-a-ieis uma outra mulher.</p> + +<p>«Que mulher és tu, pois?» lhe disse eu, em seguida a uma discussão em que me +havia manifestado sentimentos os mais contraditorios. Levantou ella a face, e +encarou-me com os seus olhos tranquillos e lympidos; porém, commoção interna +lhe dilatava as azas nazaes e avermelhava de leve as faces.</p> + +<p>—Não posso viver sem amar—respondeu ella pausadamente—Não posso viver sem +ser amada. Minhas qualidades boas, e meus defeitos, são cousas<span +class="pn">{56}</span> secundarias: todas as mulheres tem d'umas, e d'outros. +Mas o que é exclusivo meu, é a minha paixão.—E com leal exaltação, ajuntou: +«comprehendes-me?»</p> + +<p> </p> + +<h2>XXIX</h2> + +<p>Chegou o estio, ao cabo d'estas muitas e penosas discussões. Todos os annos, +Fanny ia passar aquella estação ao campo, nos arrabaldes de Pariz. Um dia, veio +ella afflicta annunciar-me a triste nova da partida; eu, porém, recusei +explicitamente conformar-me com a ausencia «Escrever-nos-hemos» disse ella. +Semelhante resignação exasperou-me. Não sei que lhe respondi, esqueci-o; +lembra-me só que combati aquella resolução com energia de desesperado. Eu +chorava tanto, estava tão alvoroçado, tão infeliz, que ella houve piedade de +mim. Apertando-me nos braços, mil vezes me repetiu que consentia em adoptar os +expedientes que eu lhe indicasse.—Sê prudente! sobre tudo, não te +arrisques—disse-me ella, entre dois beijos, retirando.</p> + +<p>Passados oito dias, encaminhei-me na direcção de Chaville. Á beira da +estrada real de Versaille é que estava a casa d'ella.</p> + +<p>Quando ouvi dar a meia noite nos relogios longinquos, escalei o muro, e fui +ter a um pavilhão,<span class="pn">{57}</span> cujo local me havia indicado +Fanny. A vinte passos, d'um ponto em que me occultavam as copas do arvoredo, vi +um vulto pardacento, immovel. Era Fanny. Corri para ella. Levou-me comsigo. +Fechei a porta. Estávamos ás escuras—Não falles—segredou-me ella, com +extraordinaria agitação—elle está desconfiado ha tres dias; anda triste; deve +ter suspeitas.</p> + +<p>Aqui está uma variante nova na amargura da minha vida, com a qual eu não +contava.—Ouve—murmurou ella, com a voz tremula de mêdo—é preciso que elle +não desconfie; não quero que elle o saiba; não quero. Tu és homem, a ti +pertence dirigir o meu comportamento. Falla; e, se é de sacrificios que vaes +fallar-me não temas, que eu sou forte.—E sentindo-se desfallecer, vendo-me +perdido de dôr, disse-me com amargura:—Eu tinha esquecido que tu não passas +d'uma creança. Perdoa-me por haver-te fallado como a um homem.</p> + +<p>«Fanny,—disse-lhe eu solemnemente aconchegando-a de mim para fazel-a sentar +ao meu lado—serei talvez creança, mas tenho coragem de homem. Surprehendido +imprevistamente por esta cruel noticia, não sei que inventar; mas, já que és +forte, decide tu o que devemos fazer: submetto-me. É preciso abandonar-te? +Dize-o. Pela memoria de tua mãe, se assim o queres, não me verás jámais, ainda +que me procures por toda a terra.</p> + +<p>Não quero que morras—disse ella com voz soturna, erguendo-se, e batendo no +chão com o pé. Depois tomou-me a cabeça entre ambas as mãos e abraçou-me +convulsivamente sobre os labios. Mas<span class="pn">{58}</span> o ruido de +passos que rangiam na areia impoz-nos silencio. Abraçados pela cintura, +curvamo-nos sobre a vidraça para vêr quem assim passeava no jardim a hora tal. +</p> + +<p>Era elle! Reconheci-o na largura dos hombros, nos cabellos arrussados que +volteavam ao vento sobre a cabeça nua. Caminhou parallelamente ao pavilhão, +pela rua larga e descoberta, alagada dos fulgores da lua que cahiam sobre ella +a prumo. Marchava lentamente, com as mãos enlaçadas no dorso, cabisbaixo, as +feições alteradas, como homem que leva de poz si pensamento oppressivo. Passou +ante nós, e imbrenhou-se no cerrado arvoredo.</p> + +<p>Tive de sustentar em meus braços a desgraçada mulher, por que os joelhos não +podiam sustel-a. «Socega, minha querida, disse-lhe eu—teu marido nada +suspeita. Está preoccupado; mas não se vê alli a inquietação febril dos +ciumosos. Eu sei bem o que é, de sobra me tenho observado a mim.</p> + +<p>—Crês? exclamou ella n'um impeto de esperança que a vibrava.</p> + +<p>«Tenho a certeza. Entretanto, separemo-nos. Passados oito dias, tornarei. +D'aqui até lá observa-o bem. Não sei o que é que o inquieta; mas eu a quem tu +hoje chamas creança, digo-te isto: teu marido não tem ciumes.<span +class="pn">{59}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>XXX</h2> + +<p>Logo que ella partiu, fui impetuosamente no encalço do solitario passeador. +Via-o outra vez na volta d'uma rua. Passou, como primeiro, deante de mim, sem +me perceber, sempre sombrio, sempre meditativo. Curei de surprehender alguma +involuntaria palavra que me revelasse a causa da sua concentração. Mas tinha +cerrada a bôcca, e impassivel a fronte. Subindo para casa, accelerou o passo. +No patamar, parou, olhou o céo estrellado com sombria seriedade, e alongou para +elle os braços, como se do coração lhe fugisse alguma prece ameaçadora. E eu +exclamei mentalmente: «É elle, pois, desgraçado tambem!»</p> + +<p> </p> + +<h2>XXXI</h2> + +<p>Passei os oito seguintes dias em angustia inexprimivel. Não parava em parte +alguma. Os temores, as suspeitas subiam-me ao cerebro em borbotões,<span +class="pn">{60}</span> como os vapores da vinolencia. Pensava n'ella só! +Dizia-me não sei que de convicto e infallivel que eu estava ameaçado de perder +Fanny. Era como um espectro deante de mim a imagem d'uma separação violenta. +Não atinava com o modo de aliar esta especie de previdencia com a certeza de +que o marido ignorava tudo; mas esta previdencia justificava-se tanto que eu +entrei a tomal-a como aviso do céo.</p> + +<p>Ao oitavo dia, á hora costumada, puz-me a caminho; mas, d'esta vez não +esperei a hora indicada, nem me acautelei para entrar em casa de Fanny. Não. +Caminhava deante de mim mesmo, com a violencia e direitura d'uma balla, +resolvido a procural-a mesmo no seu quarto, se a não encontrasse no +pavilhão. +Timido de tudo, sem poder definir o objecto dos meus temores, esporeava o +cavallo, que se espadellava com a terra, alternadamente contrahido e distendido +como um grande arco atormentado por mãos febris. A lua alumiava de travez a +estrada silencioza que eu levava, zebrando-a de listas de prata, e parecia +voltar-se para mim melancolicamente seguindo-me com os seus fulgidos olhares. +Desfillavam a meu lado as arvores, rapidas e negras como phantasmas +vertiginosamente marulhados n'um rodopio. Os cães, que dormiam nos pateos, +atiravam-se aos portões latindo ao estrepido das ferraduras do meu cavallo, que +estalavam na calçada. E o vento que me açoitava a cara, murmurava-me aos +ouvidos palavras irritantes. Tudo me impellia e me vaticinava algum drama em +que eu ia representar um papel. Armei-me para<span class="pn">{61}</span> isso, +decidido a não succumbir sem luctar com todas as forças que a desesperação +desde muito me tinha dado. Quão exaggerado eu era na espectativa como nos +preparatorios! Este meu espirito enthusiasta não sonhava senão combates +sobrehumanos, desinteresse fero, esforços heroicos!... Ai! e que desenlace tão +vulgar me esperava!</p> + +<p> </p> + +<h2>XXXII</h2> + +<p>Transpondo o muro, fiquei surpreso de vêr Fanny assentada na margem d'um +passeio. Mais d'uma hora me tinha eu antecipado, e receava que seu marido +estivesse ainda fóra. Logo, porém, que me avistou, Fanny, veio para mim, sem se +esconder, como se fosse natural entrar eu em sua casa pelo caminho dos +malfeitores. Tomei-lhe a mão. Pareceu-me vêl-a inleada e cuidadosa.</p> + +<p>«Que aconteceu?—perguntei, levando-a para debaixo das arvores.</p> + +<p>—Tinhas mais que rasão, Roger; meu marido não tem ciumes—disse ella—Nunca +se fiou tanto de mim. Não me cancei a interrogal-o. Hontem contou-me a causa da +sua preoccupação. Os seus haveres todos, depositados em Inglaterra, estão em +risco com a fallencia d'um banqueiro. Esta manhã<span class="pn">{62}</span> +partiu para salvar alguns restos, se ainda for tempo. É forçoso que a +inquietação fôsse grande—ajuntou Fanny suspirando—por que nunca foi commigo +tão expansivo.</p> + +<p>Não achei palavra com que responder a esta afflictiva noticia, com quanto +nos consolasse a ambos de tamanho pezo. Fiquei atordoado como homem que soffreu +violenta pancada na cabeça. Regorgitavam-me nos labios os sarcasmos; mas eu +represava-os.</p> + +<p>«Nada respondes, meu amigo?—disse Fanny.</p> + +<p>—Que heide responder?—exclamei, perdida a consciencia da minha +brutalidade.—Lamento-te se tinhas grande apego ao luxo de que vaes ser +privada; lamento-te, principalmente, por teus filhos; mas... «Mas?» atalhou +ella.</p> + +<p>—Mas não posso lamentar-te por teres sido ameaçada de perder-me, e te +achares hoje mais livre que nunca para amar-me.</p> + +<p>Fanny ergueu as mãos ao céo, como invocando o seu testemunho, com expressão +de piedade, e disse brandamente:</p> + +<p>«Não fallemos mais de mim. Eu heide ser sempre um livro fechado para ti.</p> + +<p>Passeamos, depois d'isto, debaixo das arvores vagarosamente, sem nos darmos +o braço, sem dizer palavra, durante meia hora: por fim, parou ella deante de +mim e tomou-me ambas as mãos, e disse em tom de voz submissa:</p> + +<p>«Roger, por que não fallas?</p> + +<p>—Não tenho consolações que dar-te.</p> + +<p>«Por que?<span class="pn">{63}</span></p> + +<p>—Por que eu mesmo tenho talvez necessidade de ser consolado.</p> + +<p>«Pois que te succedeu?</p> + +<p>—Nada.</p> + +<p>Continuamos a passear, ao acaso, entre o arvoredo, silenciosos, ella +curvando-se debaixo das franças, eu, erguendo-as, para ella passar.</p> + +<p>—Agora vamos nós tomar quinhão nas amarguras d'elle—disse eu de repente. +«Assim deve ser» respondeu ella com tranquillidade.</p> + +<p>O remate do nosso encontro foi magoado por um começo que eu não podera +prevenir. O pensamento de Fanny vagueava por outra parte. O meu, a meu pesar, +tambem. E, todavia, eu não poderia justificar-me d'um certo prazer inquieto que +me dava a idea d'um successo que podia apartal-a do marido para sempre.</p> + +<p>—Quem sabe—pensava eu commigo—se a sua ruina fará o que a minha dôr não +pôde fazer?</p> + +<p> </p> + +<h2>XXXIII</h2> + +<p>Depois d'este dia só em Paris nos tornamos a vêr. Era facil a Fanny +ausentar-se, agora que a ninguem devia contas de suas sahidas. Por isso +tornamos ao antigo viver. O que eu, porém, previra realisava-se com um rigor de +desesperar. Não era só o pensamento senão a vida de Fanny que estavam n'outro +logar. Cada vez o sentia mais. Nossa tranquillidade, prazeres, expansões, +jubilos dependiam absolutamente das cartas que o marido lhe escrevia. Se +faltava o correio, ficava distrahida, não me ouvia. Se recebia de manhã carta +inquietadora, ficava preoccupada e taciturna. Quando a carta era de esperanças, +irrompia ella em explusões<span class="pn">{64}</span> d'amor e d'alegria. Esta +alegria, porém, molestava-me muito mais que a tristeza, e aquelle amor, cuja +explosão atava a alguma coisa que não derivava d'elle mesmo, indignava-me. +Gélido deante de sua inquietação, mudo se ella estava triste, irritado pela sua +alegria, recuzava energicamente a receber a repercussão das novidades que tanto +a preoccupavam; e quiz-me parecer que Fanny não se incommodava ou nem dava fé +dos meus enfados. Isto desesperava-me.</p> + +<p>Em summa, aborrecido de me vêr assim atado ao meu rival pela mulher, que, +repartindo-se equitativa por nós, dava todos os seus pensamentos aquelle que +ella julgava ter mais urgente precisão de suas sympathias; indignado por +compartir dessas penas, e esperar-lhe anciosamente as alegrias que só podiam +fertilisar as minhas; aguilhoado da tristeza, do ciume, e da desgraça, resolvi +tentar um supremo esforço para recobrar o socêgo, arrancando-lh'a a elle. Desde +muito que se me gerava no animo o desejo de exigir de Fanny o maior sacrificio +que ella podia fazer-me; mas, retido pelo vago receio d'uma recusa dolorosa, +deferi de dia para dia o momento de sollicitar-lh'o. Azou-se a occasião. Foi +ella que a deu.<span class="pn">{65}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>XXXIV</h2> + +<p>«Uma mulher que se aliena—disse-me ella, uma vez, sem nexo que explicasse o +improviso, e olhando-me com ar piedoso—Uma mulher, que se aliena, não pode +amar sem tornar o seu amante o mais desgraçado dos homens. Quanto mais me +examino, Roger, mais conheço que, fartes vezes, com desgosto meu, te devo fazer +soffrer muito.</p> + +<p>Commovido por este exordio, respondi balbuciante:</p> + +<p>—E, todavia, a nossa alliança podia ser ditosa.</p> + +<p>«Sim—disse ella amargurada—O que ha de mais entre nós é o amor.</p> + +<p>O castigo secreto d'esta ligação é isso. Estas relações só duram com a +condição de serem banaes; e, se o são, devem repugnar a corações nobres e +delicados; se são profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem as sente. +</p> + +<p>E suspirou. Respondi assim:</p> + +<p>—Vou mais longe que tu, Fanny.</p> + +<p>Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer com +uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor proprio, por +igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas torturas. Uma amante, +qualquer<span class="pn">{66}</span> que seja o seu theor d'amar, conhece +sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz, não +conhece a existencia do amante.</p> + +<p>«Isso é ir longe de mais—disse ella a meia voz; depois, alçando os hombros, +poz os olhos no céo, e exclamou:—Que é o amor proprio, Deus meu?</p> + +<p>Folgando em fim de encontrar Fanny em tal disposição de espirito, +aventurei-me. Peguei-lhe da mão, e erguendo-me, em quanto ella me olhava +affectuosa, disse, n'um tom supplicante:</p> + +<p>«Com tudo... se tu quizeres...»</p> + +<p>Fanny corou logo, comprehendendo que se demaziava.</p> + +<p>—Que queres tu dizer-me?</p> + +<p>Não ousei responder; mas ella, por certo me adivinhou, por que me apertou +meigamente a mão, e disse suspirando:—creança!</p> + +<p>Eu fiz com a cabeça um gesto negativo! «Deixa-me!—disse ella de +sobresalto, +em tom de precipitada—Curar-te has assim? Não posso fazer-te feliz. +Caza-te!»—A dôr anniquilou-a. Repelli-lhe rudemente a mão, e fitei-a colerico, +por essas phrazes que me pareceram uma ameaça. Mas tão quebrantada a vi, que +não tive coragem de a levar ao extremo, e murmurei por de mais:</p> + +<p>—Bem sabes que não é possivel isso.</p> + +<p>Replicou:</p> + +<p>«Dei-te quanto podia haurir d'affectos em meu coração, e és tu quem me +castigas!</p> + +<p>Estava offendida: foi preciso aquietal-a, e jurar-lhe submissão; ella, +porém, não perdoava assim, e exclamou:<span class="pn">{67}</span></p> + +<p>«Que queres que eu faça mais?</p> + +<p>—Se me amas, como creio, o teu dever está traçado.</p> + +<p>Corou outra vez: é que comprehendera.</p> + +<p>«Meu dever! meu dever! Muito indiscreto és em proferir semelhante palavra, +Roger! Ignoras tu que o meu mais restricto dever me ordena de não deixar a caza +que governo?</p> + +<p>—Ah! Fanny!—exclamei eu—que insignificancia tu trazes para me ferir... +que confronto!...</p> + +<p>«A caza—replicou ella baixando os olhos—é o posto d'honra confiado á +mulher! Mulher que se respeita, não a abandona nunca!</p> + +<p>Quiz interrompêl-a, mas ella continuou, de repente applacada, e olhando-me +com ternura:</p> + +<p>«Raciocina um pouco, meu querido filho: póde uma mulher abandonar sua +familia honorifica, sem perder a estima de si propria? Póde ella desquitar-se +publicamente de todos os seus deveres sem despenhar-se aos olhos do mundo entre +as mulheres perdidas?</p> + +<p>—São bem tristes considerações as da sociedade quando as cotejas com a +minha vida...—respondi eu.</p> + +<p>Ficamos em silencio, alguns minutos. Fanny proseguiu:</p> + +<p>«Se eu seguisse os conselhos que me deixas adivinhar por que és muito +honesto para m'os dar claramente, ser-te-hia forçoso, algum dia, fazer-me +arrepender.</p> + +<p>Eu quiz jurar; mas ella cortou-me a palavra.</p> + +<p>«Podemos nós supprimir o passado? Não és tu<span class="pn">{68}</span> +zeloso mesmo do passado? Oh! quero poupar-te!—accrescentou Fanny, +levantando-se, e lançando-me um braço em roda do pescoço, em quanto com a mão +sobre o meu peito, cravava ternamente nos meus os seus olhos azues—«Em teu +logar, crê-me, eu seria tambem ciosa... Muito resististe!... disse ella, +cahindo sobre uma cadeira, e escondendo entre as mãos a face: «Por que me não +fugiste, quando era ainda tempo!</p> + +<p>«Já era tarde, Fanny, bem o sabes, no dia mesmo em que te vi, pela primeira +vez, passar deante de mim.</p> + +<p>Ergueu-se outra vez, e abraçou-me com mudo transporte. Pensativo, alheado, +recebia, como insensivel, as caricias. A final, pude dizer-lhe:</p> + +<p>—O amor, Fanny, póde consolar muitas dôres, remir muitas humilhações, +substituir muitos affectos. Diz tu: o que é a estima do mundo, os tranquillos +sentimentos da familia, comparados á absorpção d'uma existencia por outra +existencia? É acaso tão longa a vida que possamos consentir em immolal-a a +coisas tão frivolas? E, de mais, que se lucra? Quem nol-o agradece?</p> + +<p>«Roger! Roger!—interrompeu Fanny—que estranha moral!</p> + +<p>E eu prosegui:</p> + +<p>—Não estás cançada de córar, de tremer, de te esconderes? Não tens, emfim, +vergonha da vergonha? E não te repugna ao coração esperar, esperar mais, +esperar sempre, para trazer-me os beijos avidos á minha bôca faminta? No espaço +d'um anno, com grande custo, apenas teremos cem horas de<span +class="pn">{69}</span> viver juntos... a felicidade, de que devemos +contentar-nos, é isto? Se ao menos essa felicidade fosse pura, estrema, +absoluta! Mas tu não pódes ouvir-me, sem que a lembrança de tuas inquietações, +perigos a que te expões, os meus proprios tormentos, te não impallideçam; e eu, +tão desgraçado! não posso uma só vez abraçar-te, sem que logo um espectro... +</p> + +<p>«Supplico-te—bradou ella impetuosamente—se me amas, não me digas que és +desgraçado, por que me matas.</p> + +<p>—E se tu quizesses—continuei, fitando-a internecido—se quizesses!... Não +haveria no mundo existencia para competir com a nossa. O que eu te peço é ser +eu só o encarregado de te fazer serena a vida, desvelar-me por ti eu só, +preparar, suavisar sob os teus pés a vereda do futuro; ser só a amar-te; o que +eu quero é ser para ti o meio e o fim da felicidade; é tomar sobre mim todas as +penas, e dar-te em troca todos os meus sonhos, prazeres, e felicidades; o que +eu quero é ser a um tempo teu filho, teu amante, teu pai, reunindo sobre a tua +cabeça querida as mais dôces e solidas affeições, é concentrar em ti as +lembranças do passado, as felicidades do presente, os anhelos do porvir, de +modo que venhas a ser toda para mim, e que não haja na minha vida inspiração +que não seja tua, que não proceda de ti, que não sejas tu! Se tu quizesses... +Não ha ahi paizes onde livremente os que a sorte separou e o amor ajunta pódem +emfim saborear aquelle particular repouso que resulta da plenitude da +felicidade que é a vida? Em meus sonhos,<span class="pn">{70}</span> muitas +vezes me figuro que somos voluntariamente proscriptos na immensidade d'alguma +solidão, onde, sob um céo azul sempre, á sombra d'arvores sempre veridentes, á +beira d'um mar sempre sereno e sobre tapetes de musgo sempre em flôr, ahi, nos +saboreamos por nós mesmos, como se a nossa dupla existencia mais não fosse que +uma palpavel recordação. Que desgraça poderia ferir-nos ahi? que inquietações +assaltear-nos? que suspeita incutir-se-nos? que ciume contristar-nos na +felicidade de dias sempre eguaes? se tu quizesses... Seria pouco para mim +amimar-te sempre como a uma creancinha melindrada? procurar incessantemente +debaixo de tuas palpebras o olhar meigo de teus olhos azues? escutar-te muito +tempo o halito a brincar-te por entre os labios? dormir com a boca presa á tua +espadua, a mão inlaçada na tua mão? vêr-te todos os dias, andar, ir, voltar, +mais bella, mais tranquilla, mais graça que o sonho das virgens? Ouve mais: não +seria nada para ti o teres-me sacrificado todos os prejuizos que formam o +coração das mulheres? teres-me tirado do abysmo de tristeza, no fundo do qual +me estorço ha tanto tempo? teres-me dado tu só mais felicidade do que homem na +terra póde cobiçar? Oh Fanny! Nunca mais, a chorar, eu te diria: «amo-te!... se +tu quizesses!...»</p> + +<p>Estava suspensa dos meus labios Fanny. Bebia-me as palavras, ebria de +prazer. Inclinada para o hombro a cabeça, cahidos os braços, as palpebras +descidas, ouvia-me como ao longe a musica, de que não queremos perder nada, +arrobada n'um extasis que reunia todas as sensações e quebrantos. +Arfavam-lhe<span class="pn">{71}</span> as rozadas azas do nariz; suaves +respostas inintellegiveis lhe ciciavam os labios; convulções electricas lhe +crispavam a cutis; tremiam-lhe as mãos em vibrações dulcissimas. Já não poderá +conter-se. Correu-me ao seio, e debulhou-se em lagrimas no meu pescoço que ella +cingia soffrega. Oh! que delicioso apertar aquelle!</p> + +<p>«Não se falle mais n'isso—disse ella, com expressão de angustia, recuando a +face, e apertando-me a fronte com a mão—Isso faz-me um grande mal. Querido +Roger, o sacrificio, que queres fazer, é egual ao que me pedes. A felicidade +debuxada por tua boca persuasiva é o mais bello sonho dos meus encantos; mas, +ai! não passa d'um sonho! Meu Roger, amemo-nos, adoremo-n'os; mas, por piedade +de mim, não falles assim mais!</p> + +<p> </p> + +<h2>XXXV</h2> + +<p>Não me dei por vencido d'aquelle grito de desesperação que me revelava, ao +mesmo tempo, aspirações ardentes, e dôres mysteriosas. Nenhum de nós nesta +affectuosa discussão, havia empregado os verdadeiros argumentos. Um tanto +satisfeito por expôr a suprema questão da minha vida áquella que devia +resolvêl-a, deliberei deixal-a reflectir, para pouco<span +class="pn">{72}</span> e pouco a ir affazendo. Esperava azo propicio para +reluctar e vencer a minha adorada inimiga.</p> + +<p>Depressa veio o ensejo. Terrivel e imprevisto era elle: havia ahi uma só +alternativa: vencer os extremos escrupulos de Fanny, ou perdêl-a para sempre. +</p> + +<p> </p> + +<h2>XXXVI</h2> + +<p>Fanny pareceu-me preoccupada um dia. Fallava precipitadamente em muitas +bagatellas, como se quizesse abafar alguma coiza gravissima. Abstive-me de +interrogal-a, e fiz que não dava fé da sua turvacão. Acariciou-me vivamente, e +eu a ella, mas nossos espiritos e vontades pareciam alheios aos affagos. Houve +um instante em que um e outro esgotamos as palavras ociosas. Tinha Fanny a +cabeça inclinada sobre o meu braço, e eu, todo attento no rosto d'ella, em muda +anciedade a estava contemplando. Subiu-lhe aos labios em suspiros do intimo a +respiração suffocada; aos meus olhares interrogadores respondia o descahir das +palpebras, e o voltar os olhos, córando.</p> + +<p>Tomei-lhe a mão sem dizer palavra. Apertou-m'a com força febril.</p> + +<p>«Falla em nome do céo!» disse-lhe eu empallidecendo.<span +class="pn">{73}</span> Abraçou-me convulsamente, aconchegando-me o peito da +face d'ella.</p> + +<p>Fugiu-lhe dos labios a narrativa cruel, cortada por mil reticencias +confusas. Mas, desde a primeira palavra que proferiu, comprehendi tudo. N'essa +manhã mesma, o marido lhe dissera em carta muito expansiva, que seria +provavelmente obrigado a estabelecer-se em Inglaterra, por espaço de alguns +annos. Em tal caso—accrescentava elle—deveria Fanny metter no collegio os +filhos mais velhos, e ir ter com elle, levando o filho mais novo. Fiquei +aterrado. Irritou-me a coragem que ella tivera para em fim proferir as +abominaveis palavras de separação. Dessimulei, porém, as angustias que me +alanceavam o peito, e deixei só transparecer no semblante os traços de dôr +profunda. Abracei-a, comprehendi, e exclamei:</p> + +<p>«Não será assim, Fanny!—juro que não, por que é arrancarem-me o coração o +separarem-me de ti.</p> + +<p>—Que hei-de eu fazer, meu Deus?—disse ella retorcendo as mãos.</p> + +<p>«Amarmo-nos—respondi exaltado, com quanta força temos, e tirar um recurso +da horrivel necessidade.</p> + +<p>—Recurso!...—e eu interrompi-a logo: «Fanny! este momento é solemne; não +ha que vêr com subtis considerações do mundo e dos ciumes, do passado: trata-se +de viver ou morrer. Deante de Deus, te dou em penhor a minha vida. Queres +dar-me a tua? Atirou-se aos meu braços, repetindo:</p> + +<p>—Que hei de eu fazer?<span class="pn">{74}</span></p> + +<p>«Fugirmos para tão longe que ninguem nos veja mais.</p> + +<p> </p> + +<h2>XXXVII</h2> + +<p>Dito isto, cahimos em profundo silencio, Fanny retirou-se lentamente de meus +braços, poz-me ambas as suas mãos nos hombros, e fixou-me.</p> + +<p>Baixei os olhos, receando-lhe a ira. Mas que mal a conhecia eu! O que ella +me revelou foi piedade sómente. Repartida entre o seu amor, e o dever que lhe +apontava o logar digno ao pé do chefe de familia, a luctar sósinho no exilio +para defender seus bens, Fanny deu-me testemunho d'uma agonia que não cabe +n'alma sem rasga-la. Bem sabia ella que eu devia horrivelmente soffrer, +pensando no proximo fim de união tão cara; mas tambem comprehendia que lhe não +era possivel desobedecer á voz que a chamava. E isto flagelava-a com uma dôr +sem nome. Perder-me e ser ella, uma vez ainda, a causa unica de meus +infortunios.</p> + +<p>—Meus filhos!—exclamou ella em fim, impallidecendo, com uma despedaçadora +angustia. E pendurava-se-me do pescoço, fitando-me os olhos +penetrantemente—Meus pobres filhos, tão creanças! Pensas tu n'isto? Tu que és +bom, e me amas, podes-me exigir que os deixe?<span class="pn">{75}</span></p> + +<p>Immediatamente comprehendi pela commoção que me estorcia o animo, que quanto +d'ahi em diante tentasse seria baldado. A pesar da resistencia, senti um surdo +protesto subir-me das entranhas em gritos de indignação. Eu mesmo, no secreto +de minha alma, não queria esse monstruoso abandono de mãe, nem mesmo o covarde +desamparo d'um marido por sua mulher que adorava.</p> + +<p>Mas, confessal-o-hei?—não me instigava tanto á lucta o desejo de passar a +minha vida com aquella mulher, como a idea de fazer cessar a partilha +execravel. Absolva-me dos males que causei um momento de franqueza! Eu senti, +abraçando de novo Fanny, que soffria menos com a certeza de a perder que com a +idéa de que ella ia unir-se ao marido. E, horrorisado de mim, dôr nova para +ajuntar a tantas, disse comigo mesmo:</p> + +<p>«Aqui ha mais ciume que amor.» Entretanto, mais tranquilla, mas sempre +affavel, Fanny encostara-se ao cotovello e, voltada para mim, discutia sósinha. +Escutei-a.</p> + +<p>«Se eu ousasse... se eu não temesse mortificar-te...</p> + +<p>—Falla, que estou de animo assente para ouvir tudo. Já agora, não ha nada +ahi que possa fazer-me mais desgraçado.</p> + +<p>Acariciou-me febrilmente, e disse, quasi desfallecida:</p> + +<p>«Pois bem! eu não tenho coragem de arruinal-o. Hoje, o unico recurso d'elle +está no meu dote.</p> + +<p>—É isso só? deixa-lhe tudo o que tens. Não sou eu bastante rico para nós +ambos?<span class="pn">{76}</span></p> + +<p>«Não é isso! não é isso!—disse ella, meneando a cabeça.</p> + +<p>Encarei-a. Estava enleada e escolhi vagas palavras com que disfarçar a idéa. +Continuou, a meia voz, como reprehendendo-se do que ia dizer:</p> + +<p>«Como condemnal-o á solidão n'este supremo momento em que elle lucta tanto +por mim como por elle! Nunca voluntariamente me desgostou. Ama em mim a +companhia de quinze annos da sua vida, a mãe de seus tres filhos...</p> + +<p>—Por que o enganaste?—atirei-lhe eu em rosto, no impeto doloroso da minha +colera; mas, com uma só phrase me esmagou ella:</p> + +<p>«Por que te amava!» e com expressão de orgulho que a engrandecia a cima de +si mesma, accrescentou:—Mas a perfidia não competia a ti reprovar-m'a, Roger! +</p> + +<p>D'esta arte, quantos golpes eu lhe apontava, eram logo rigosamente +rebatidos; mas, nem assim, eu desistia do ataque. E se nos descobrissem! +repliquei eu, na certeza de que este golpe era difficil de aparar, fitou-me +fixamente como receando que a eu denunciasse para a possuir, talvez, por esse +infame meio.</p> + +<p>Depois de olhar-me longo tempo, disse:</p> + +<p>«Que desgraçado elle seria!...</p> + +<p>Voltei-lhe o rosto, e Fanny concluiu:</p> + +<p>«Elle diria com horror de mim: Nem por amor d'estas creancinhas...</p> + +<p>Puz-lhe a mão nos labios, e, convulsivo, olhei para ella. Estava coberta de +lagrimas. Posto que perturbado, não pude deixar de admirar-lhe a franqueza<span +class="pn">{77}</span> nobre que nem, neste lance, me poupava. Estava toda +embevecida na victima!</p> + +<p>«Que faria elle?» murmurei. Fanny, levou as mãos á face, e respondeu com voz +abafada:</p> + +<p>—Talvez me perdoasse...—</p> + +<p>E, passados os soluços que lhe embargavam a voz, disse:</p> + +<p>—Estamos demasiadamente castigados! Se obedeço ao dever, abandonando-te; se +não lhe obedeço, deshonro-me. De ambos os lados só vejo a desgraça, e faço +desgraçados. Infeliz por ti, por elle, por meus filhos, por mim propria, nem me +resta o recurso da morte para restituir a paz a todos! Deus meu, que me has +dado o coração, que me não serve para consolar os entes que amo, e nem as suas +dôres posso incerrar n'elle, como thesouros caros!</p> + +<p>E, a luz crepuscular na alcôva, sobre as rendas dos flacidos travesseiros, +enlaçados os braços e unidas as faces assim choravamos... Quem acreditaria que, +desde muitos dias, se passavam assim todas as nossas entrevistas!</p> + +<p> </p> + +<h2>XXXVIII</h2> + +<p>Desde este dia funesto entendi que não devia esperar mais nada d'este amor, +e vivemos na penosa<span class="pn">{78}</span> espectativa da decisão de um +outro. Mas, como se o destino houvesse resolvido não dos poupar em dôr alguma, +a solução todos os dias esperada, não chegava nunca.</p> + +<p>Já as cartas não eram sómente assustadoras para Fanny. Era eu que as +desejava, e inquiria o contheudo dellas, e fazia ferventes votos pelo bom +exito d'aquelle que, máo grado meu, não luctava energicamente. Com tudo por dar +alguma coragem á desgraçada mulher, exaggerava a minha confiança, e encomiava a +esperteza conhecida, a firmeza de caracter e a força de vontade de seu marido. +Affirmava-lhe que elle ressarciria os seus haveres, obteria justiça, e +recobraria o tão merecido socego. N'elle se estribavam todas as minha +esperanças: pensava n'elle só, e tomava apaixonadamente a peito a sua +pendencia. A menos esperada ventura que eu entrevia em meus vagos sonhos e +almejava com o ardor da desesperação, era a volta do meu rival, em cujos braços +devia cahir a mulher que eu adorava!</p> + +<p>Se eu podesse coadjuval-o!... dizia eu commigo; mas de que sirvo eu? E agora +me pezava o inepto pudor que me não deixava entrar n'aquella caza—Se eu +tivesse menos orgulho, se eu não tivesse querido exaltar-me, singularisando-me +por uma delicadeza affectada, que, dos meus proprios olhos, me não lava da +minha acção; se, como fazem tantos nas minhas circumstancias, eu me fizesse +amigo do homem, cuja mulher roubava, resgatando hoje a pequena parte remissivel +de meus actos, poderia achar algum lenitivo para esta afflicção. Mas eu +tivera<span class="pn">{79}</span> sempre mais orgulho que bom senso. +Pungia-me, então, a idéa de que, por falta minha, n'aquelle desastre em que +cada qual heroicamente desempenhava o seu dever, estava eu sendo um ente +inutil. Contrapondo á minha consciencia taes subtilezas, tão futeis ellas eram, +que não me illudiam. Mas, á maneira do naufrago que se agarra aos limos +fluctuantes, sem esperar salvar-se, eu me escorava á minha propria dôr, +accuzando-me de faltas não commettidas, falsificando meu proceder e sentimentos +n'isso mesmo que elles tinham de honra, por que eu não sabia que fazer para +readquirir uns longes de esperança.</p> + +<p> </p> + +<h2>XXXIX</h2> + +<p>Fanny visitava-me como visitamos um doente incuravel, e retiramos sempre +admirados de encontral-o vivo. Palavras de alento não as tinha para m'as dizer, +que não carecia menos ella de ser consolada. Se eram boas as noticias, +suspirava; se eram más, chorava. Como ella, um dia desenvolvesse em toda a sua +horrivel extensão, a pesada cadeia das mais secretas miserias que +entrevia—atterrada por se não sentir com forças para arrastal-a—eu rompi o +silencio subitamente, e, com simplicidade, lhe offereci todos os meus teres +para desempenhar a<span class="pn">{80}</span> honra de seu marido, que, por +derradeiro ludibrio, fôra entregue aos azares do jogo.</p> + +<p>Mas, a pesar mesmo deste novo desastre sobreposto ao antigo, e tão +afflictivo que já fazia esquecer o outro, Fanny foi o que devia ser:</p> + +<p>«É desgraçada a nossa situação—me disse ella com severidade +extraordinaria—Roger! amo-te agora mais do que nunca; mas não sou livre; por +isso mesmo que te adoro, é que tu és o unico homem de quem não posso acceitar +nada.</p> + +<p> </p> + +<h2>XL</h2> + +<p>A adversidade cansou. As cartas vinham cada vez mais animadoras, e já não +havia questões de honra, nem de miseria, nem se quer da separação que tanto +temeramos. Quando muito era só a perda de ametade dos bens que podia preoccupar +Fanny. Vieram o socego e os risos para ella; mas eu, como um miseravel que tem +duas chagas a pençar, senti immediatamente despertar o ciume, mais ardente +que +nunca. O marido estava a chegar, e esta vinda, d'antes tão desejada, incutia-me +agora invencivel horror. Dezejei-lhe a morte. Tornei-me sombrio, desconfiado, +interrogador. Recomeçaram as nossas luctas.<span class="pn">{81}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>XLI</h2> + +<p>Nunca me viera a idea de romper com Fanny; mas travados outra vez em guerra, +de repente me appareceu, fulgurante como um relampago. E eu senti entrar com +ella em meu coração a suave caricia da esperança. Mas esta esperança, ai! não +durou mais que um segundo. Máo grado meu, tremulo de horror, dei-me pressa em +repulsar a idea do meu resgate.</p> + +<p> </p> + +<h2>XLII</h2> + +<p>Depois de uma discussão em que, mais uma vez, eu expozera aos olhos d'ella +as minhas angustias, Fanny veio de moto proprio a devassar d'um pensamento que +eu não ousara nunca deixar-lhe vêr.</p> + +<p>—Não fui esperta—disse ella. Eu devia fingir-te a minha vida. Por muito +improvavel que fosse o que eu te contasse, tu acreditarias tudo, por que iria +no acredital-o o teu interesse. Não fui esperta, mas é que eu nunca soube +mentir.<span class="pn">{82}</span></p> + +<p>Esta confissão foi para mim uma subita revelação, suppuz logo que ella á +semelhança d'outras mulheres, orgulhosa de ser feliz, escondia vaidosamente a +um tempo, vicios e dôres, e, desgraçada, queria que a suppozessem feliz. Esta +suspeita inquietou-me oito dias; mas a esperança que me ella gerava no coração +não podia durar. Instei Fanny, facilitando-lhe recursos para desmentir-se e +patentear-me tudo de sua vida. Admirando-se de eu duvidar d'ella, Fanny +confirmou glacialmente o que me havia dito e tornou-me á desesperação.</p> + +<p> </p> + +<h2>XLIII</h2> + +<p>Approximava-se, n'esta conjunctura, o praso que o marido designara para +voltar. Parecia-me que devia ser esse o dia da nossa separação, e da morte para +mim. A idea da partilha enojava-me. Resolvi cem vezes explicar-me com Fanny á +cerca d'este assumpto horrivel, mas não me attrevia. Havia n'ella uma especie +de renascimento: nunca a vira tão terna e submissa. Ao mesmo tempo deu em ser +muito expansiva. Nos ultimos tempos, coisas insignificantes tocantes á sua vida +intima, andavam sempre em nossas praticas; d'ahi vinha o continuar ella agora a +fallar-me dos minimos incidentes da sua vida. É o que devia, mais tarde +collocar-nos face a face, na attitude ameaçadora de dois inimigos.</p> + +<p>Não sei como se deu, nem qual de nós foi causa da scena atroz que sobreveio; +lembra-me só que Fanny estava já para sair, e ambos nós em pé. Acabava ella de +apertar as fitas do chapéo, deante do espelho do fogão, ao qual eu me +encostava; já tinha o chale nos hombros, e buscando com os olhos o lenço, que +pozera sobre uma meza, acabava de<span class="pn">{83}</span> abotoar as +luvas. +Assim, continuavamos em termos meio affectuosos e familiares uma contenda que +intendia com ella e com o marido. Estavamos ambos serenos quando lhe aconteceu +proferir uma palavra que me gelou o sangue nas veias:</p> + +<p>—Eu mentiria, se dissesse que não tinha affeição a meu marido.</p> + +<p>Logo que reflectiu na crueza d'essas palavras, tão imprudentes como inuteis, +arrependeu-se de as ter dito. Sem accrescental-as, nem desmentil-as, acercou-se +de mim, affastou o chale para me cingir o pescoço com o braço, amimou-me o +rosto com a mão livre, e alteou-se nas pontas dos pés para abraçar-me.</p> + +<p>Era carinhoso o olhar, que exorava perdão á crueldade da bôca. Forcei-a +lentamente a desprender-se-me do peito, e disse-lhe severamente:</p> + +<p>«Vós outras, as mulheres, não tendes delicadeza alguma no coração.»</p> + +<p>«Córou, fez-se mais meiga, mais insinuante, e quiz outra vez abraçar-me.</p> + +<p>Puz-lhe a mão no hombro e affastei-a: dizendo-lhe, tremulo de furor:</p> + +<p>—Ha dias que me falla em seu marido, incarecendo-o muito. Esquece-se de que +não é elle agora o mais digno de lastima?</p> + +<p>Apertou-me inergicamente a mão, em quanto com os labios cerrados, á mingua +de palavras, me fitava com ternura supplicante.</p> + +<p>Mas a colera recrudescia a proporção que Fanny denunciava arrependimento. +Continuei:</p> + +<p>«É justo que o ame, por isso mesmo que a sua estima se lhe deve com +preferencia a tudo.<span class="pn">{84}</span></p> + +<p>Conheceu Fanny que não poderia apaziguar-me. Não sabendo que mais fazer, +deixou passar aquella phraze de interpretação doble, desdeu os laços das fitas +do chapeo, pousou o chapéo e o chale sobre a cama, e assentou-se n'uma poltrona +defronte de mim. Com o cotovelo esquerdo apoiado no braço da cadeira, a face na +palma da mão, os olhares ondulantes, assim ficou na sua habitual posição. +Mais +que nunca linda, com aquelles braços maravilhosos, cuja alvura assombrada de +pennugem destacava da seda negra do vestido; com as grandes luvas de pelle da +Suecia que lhe cobriam os pulsos; com o collo flexivel e inclinado; e côr +pallida; e os cabellos louros voluptuosamente annelados sobre a fronte pura: +era a semelhança de algum bello retrato de Rubens. Por de sob a fimbria do +vestido, sahiam os pequenos pés reunidos e assentes no chão. Nas escuras dobras +da seda envolvia-se o braço direito, cuja mão, meio fechada, permanecia immovel +como se fôra de marmore.</p> + +<p> </p> + +<h2>XLIV</h2> + +<p>Quando o publico soube o desastre do marido de Fanny, soubera eu que em +Pariz circulavam boatos deshonrosos para elle. De ser rico e altivo grangeou +muitos inimigos. Deviam de ser calumniosos os ditos<span class="pn">{85}</span> +que sahiam de bôcas invejosas. Não os desmenti por prudencia, mas fiz nota +d'elles. Bem sabia eu que um dia me serviria d'elles para vingar-me.</p> + +<p>Esperava eu, exasperado pelo furor, que uma palavra, provocando-me de novo, +me desculpasse a crueldade. Ella, porém, de astucia não fallava, adivinhando +que eu interpretaria á feição de minha raiva tudo que me dissesse. Assim +ficamos ambos immoveis, callados, ella, esperando o golpe final, eu reunindo as +minhas forças todas para descarregal-o.</p> + +<p>Decidi-me em fim: e, com uma só phraze cortante como gume de espada, +attacando o mais sagrado da honra do meu rival, repeti as infamias em que eu +não cria.</p> + +<p>A resposta foi prompta e terrivel. Isso é indigno!—exclamou ella +erguendo-se hallucinada, escarlate, com uma expressão de colera e indignação +que me assombrou.</p> + +<p>Não quero que se rosse na honra do chefe de familia! Não quero que se +deshonre aquelle cujo nome eu trago! Por isso que o trahi; por isso que +conspurquei a parte de sua honra que elle me confia, é que eu prohibo que se +ultraje a outra... e principalmente ao snr!... Envergonhe-se!... Se acreditou +essas calumnias, competia-lhe defendel-as commigo, pois foi commigo que...</p> + +<p>Interrompeu-se. Eu immudeci, e ella proseguiu: Fallou-me ahi na indelicadeza +de coração das mulheres; e eu fallarei do orgulho dos homens. Não é só do amor +das mulheres que carecem para estrado... Querem tudo o que ellas prezam, tudo o +que respeitam: estima do mundo, familia, filhos, repouso,<span +class="pn">{86}</span> e até a honra de seus maridos. Tudo lhes é mister para +desvirtuar e rediculisar essa honra. Estou de mais castigada por ter crido que +podia impunemente amal-o! Fui prudente; e por isso não é meu marido ultrajado +que castiga a minha culpa; mas—castigo mil vezes mais cruel—é o meu amor. +Mereço esta pena... e é o snr. que me pune!</p> + +<p>Continuei callado: e ella, com a boca a trasbordar sarcasmos, proseguiu:</p> + +<p>É como todos! O que ahi ha é orgulho. Não sabe amar!</p> + +<p>Desta vez, respondi turvado:</p> + +<p>«Não sou desculpavel por aggredil-o?</p> + +<p>—Aggrida-o como homem. Não tem tantas causas para o fazer?</p> + +<p>«Por Deus que o farei!</p> + +<p>Furioso, com os olhos injectados de sangue, os dentes cerrados, avancei para +Fanny, mas ella suspendeu-me a tres passos com um olhar glacial que eu nunca +lhe vira. Depois vagarosamente embrulhando-se no chale, da cabeça aos pés, como +a sacerdotiza antiga, sombria, feroz, desesperada, deixou cair sobre mim outro +relancear de olhos despresador, e sahiu.<span class="pn">{87}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>XLV</h2> + +<p>Que farei para apasigual-a?—Tal foi a ignobil pergunta que eu me fiz, ao +amanhecer do dia seguinte.</p> + +<p>Escrevi-lhe uma longa carta tão submissa que não pude revêl-a sem pejo. +Rasguei esta carta, comecei outra, mas tão acerba de estylo que devia exasperar +quem eu queria commover. Não a conclui, e andei uma hora a passear +phreneticamente em todas as direcções no meu quarto. Primeiro tive ideias de +rompimento immediato; depois desvaneceram-se. Rebentou em chamas o furor e o +ciume; depois apagaram-se. Por fim, comprehendi que o procedimento a que eu +quizera impellir Fanny, era um crime, o qual, consumando irremediavelmente a +desgraça d'uma familia inteira, devia tornar-nos desgraçados para sempre. +Era-me pavoroso pensar que, a ter-me ella attendido, durante a nossa existencia +toda, viriam interpor-se entre ella e mim as imagens de seus filhos +abandonados.</p> + +<p>Mas ao mesmo tempo escasseava-me força para o resgate. Affizera-me ás minhas +dôres, e não ousava trocal-as por dôres desconhecidas. É preciso ter sido, como +eu fui, o tudo nas ternuras e affeições d'uma mulher, o coração que +incessantemente regia os movimentos d'outro coração, para poder<span +class="pn">{88}</span> comprehender os horrores da solidão que segue um +rompimento. Eu delirava de raiva e dôr. Por fim, commovi-me, erguendo os olhos +para o retrato de Fanny.</p> + +<p>—Que mal me fez ella?—dizia eu. Chorei; e, indeciso, vesti-me, e sahi.</p> + +<p> </p> + +<h2>XLVI</h2> + +<p>Seriam oito horas. O calor dos ultimos dias d'agosto purpureava o céo +carregado. As trevas, semelhantes a mortalhas espargidas, desciam com a nevoa +opaca atravez das arvores da grande avenida dos campos-Elyseos. Os passageiros +davam-se pressa para fugir á tempestade que trovejava surdamente ao longe. As +estrellas brilhantes das lanternas, aqui e além, corriam, cruzavam-se e +desappareciam. Nuvens de pó sacudido pelo vento subiam diante de mim e toldavam +o espaço. A meio-caminho, quasi entre <em>Rond-Point</em> e o «Arco do +triumpho» parei.</p> + +<p>Era alli. Encostei-me a um tronco de arvore, levantei o rosto, e olhei. A +meus pés era a passagem das carruagens que vão do portal á avenida. Sobre a +porta estavam abertas as quatro janellas da sala. Uma só lampada, por certo, +illuminava o recinto, por que a claridade que translusia dos vidros<span +class="pn">{89}</span> escassamente brilhava como um clarão duvidoso. Nenhuma +sombra passava entre a lampada e os vidros. A casa está vasia—pensei eu—e +todavia Fanny não está em <em>Chaville</em> por que a sala tem luzes.</p> + +<p>Estalou, neste momento, mais forte a trovoada.</p> + +<p>Relampaguearam os coriscos. Um bulcão rugiu na ramagem dos alamos da +avenida, remoinhando turbilhões de folhas e terra. Então vi uma sombra de homem +chegar á ultima janella, e fechal-a. As outras tres fecharam-as mais tarde. +Depois, a froixa claridade que alumiava a sala bateu nas vidraças mais tensa e +viva: havia-se accendido uma segunda lampada.</p> + +<p>E depois, mais nada. A avenida deserta, a tempestade no céo de todo negro, +eu em pé debaixo da minha arvore, e a sala vasia com as quatro janellas +lusentes. Soaram onze horas no relogio d'uma egreja visinha.</p> + +<p>De repente, o estrepito de rodas acceleradas, mordendo a areia, passou ao pé +de mim. Eu dera, sem saber porque, alguns passos authomaticos.</p> + +<p>—Arreda! Arreda! gritou uma voz irritada. Saltei para a margem da estrada. +Um <em>coupé</em> vasio passou bamboando sobre o eixo, effeito dos sacões; +depois uma grande carroça de viagem tirada por quatro cavallos, voltou de +repente sobre si mesmo, ao tempo que se abriam os dois batentes da +porta-cocheira. Remirei a carroça com assombro. Ao fundo estava um homem, que +eu bem conheci—era elle. Ao seu lado uma mulher que lhe fallava: era Fanny. +Entre elles, sobre os joelhos, e nos braços,<span class="pn">{90}</span> tres +meninos de cabellos louros. Foi uma visão rapida. Não sei se me viram. A +carroça desappareceu por debaixo do arco do portal, e logo os dois pezados +batentes rodaram nos gonzos, e bateram entre si com estrondo lugubre e +cavernoso.</p> + +<p>Acabava eu pois de me arredar para dar passagem ao meu rival que entrava +como senhor em sua casa.</p> + +<p> </p> + +<h2>XLVII</h2> + +<p>Por que me não esmagou elle com as suas rodas?—exclamei, com a morte na +alma, retirando-me, e caminhando ao acaso como um ebrio.</p> + +<p>Passava uma sege de praça; entrei—onde quer ir?—diz o boleeiro, +embrulhando-se no seu capote—onde quizeres, ao Bosque, onde quizeres. E +senti-me arrebatado d'aquelle sitio funesto.</p> + +<p>A chuva escorria sobre as vidraças corridas. Encolhido n'um angulo da sege, +com os braços cruzados, e a face encostada á almofada, vi de lado, ao clarão +dos relampagos, estorcerem-se as arvores atormentadas pelos furacões. A +intervallos, resalteavam no ar as astilhas dos coriscos. E eu dizia: Esta +tormenta não os aterrará? Não sei que tempo passei blasphemando, rasgando o +peito com as unhas, chorando, dentro dessa sege que corria atravez<span +class="pn">{91}</span> das arvores do bosque, ao clarão avermelhado dos +relampagos. Sentia-me abafar. Desci os vidros e a chuva batia-me na cara e nas +mãos. Encostei-me ao rebordo da portinhola, com a face deitada nos braços. +Tomou-me uma sensação horrivel de frio. Tinha febre. «Quer que recolhamos?» +dizia de espaço a espaço o boleeiro cançado.</p> + +<p>—Quero—disse eu, fatigado já tambem.</p> + +<p> </p> + +<h2>XLVIII</h2> + +<p>Nascia a aurora lagrimosa no mal enchoto céo, quando, erguendo a face, +reconheci uma casa á margem da estrada. Era a della. Todas as portadas da +janella estavam fechadas, e as luzes extinctas. Apenas um clarão avermelhado +excessivamente mortiço, semelhante ao que sahe d'uma lamparina, brilhava como +um ponto entre duas taboinhas de persiana, na ultima janella da direita, em uma +alcova lateral ao salão. Debrucei-me longo tempo sobre o apoio da portinhola +para enxergar o ponto vermelho e expirante. Mas não chorava já. Ia tranquillo, +de gelo, prostrado de fadiga.—Dormirá ella agora?—me dizia eu.<span +class="pn">{92}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>XLIX</h2> + +<p>Os primeiros dias, que seguiram esta noite horrivel, passei-os n'um estado +de stupor de que não havia arrancar-me. Esperava não sei que, que devia +terminar-me a vida e os males.—Isto não póde acabar assim!—dizia eu. Vinte +vezes ao dia, pedia a minha correspondencia mas nem se quer abria as cartas que +o meu creado me trazia. Bastava-me vêr a lettra dos sobre-escriptos. De Fanny +não vinha alguma. Affigurava-se-me que ella tinha morrido. Isto amedrontava-me. +Cheguei a duvidar da minha rasão.</p> + +<p>Ao oitavo dia, depois da nossa ultima entrevista, tive um presentimento de +que ia vêl-a. Preparei tudo o que queria dizer-lhe. Senti-me vencido. Queria +pedir-lhe perdão; declarar-lhe que estava prompto a submetter-me; queria +supplicar-lhe alguma piedade para os meus padecimentos. Esperei-a em vão até +noite fechada, contando as horas nas pulsações alternadamente precipitadas e +desfallecidas do meu pulso. Não veio. Não escreveu. Ninguem me deu um instante +de esperança fazendo vibrar a campainha da minha porta.</p> + +<p>Ao anoitecer, sahi na direcção da casa d'ella. Chegando á alameda fiquei +surprehendido, vendo<span class="pn">{93}</span> tudo fechado. A ideia de Fanny +ter ido para longe, tão longe que eu não podesse vêl-a mais, atravessou-me o +cerebro como um dardo. Com horrivel angustia, mas affoitamente, como um +covarde, a cuja cabeça subiram as fumaças da bravura, bati á porta e perguntei +ao creado se a senhora estava em casa. Eu estava pallido e tremulo; mas elle +não deu fé.—A senhora está no campo—respondeu, «Onde? em Chaville?»—sim, +senhor.</p> + +<p>Fui encostar-me a uma arvore por que me sentia desmaiar.</p> + +<p>Ao cabo de alguns minutos decedi-me a ir para casa. Era meia consolação +saber que Fanny estava ausente. Comprehendi, emfim, o motivo que lhe estorvara +a vinda; mas não comprehendi por que me não escrevera durante oito dias. Eu +deveria suppor tambem que ella esperaria carta minha; mas havia ainda muito +egoismo no meu despeito.</p> + +<p>—Quem sabe se ella me espera lá—dizia eu para consolar-me.</p> + +<p>Apenas esta ideia se me abriu no espirito que um desejo imperioso de vêr +Fanny, á custa de tudo, e logo, me assaltou. Estava então perto de casa. Entrei +rapido e pedi o meu cavallo. Ajudei mesmo o creado a apparelhal-o. E lancei-me +ao caminho, cheio de esperança, com as esporas cravadas nas ilhas sacudindo as +redeas, á desfilada, enlameando passageiros, sem mandar arredar ninguem.</p> + +<p>Tanto corri que receei ter-me desencaminhado, e não conheci a casa de Fanny, +que estava em frente de mim, vagamente alumiada, debaixo das agigantadas +arvores. Mas, alçando-me sobre os estribos,<span class="pn">{94}</span> para +olhar por cima do muro conheci o pavilhão. Apeei, e entrei no bosque para +prender o cavallo a uma arvore. Depois, retrocedi, e vi com surpreza que a +graderia do jardim estava aberta. Um creado de farda estava á porta. Ao cabo da +aléa, no cunhal da casa, vi brilhar as duas lanternas d'uma sege immovel.</p> + +<p>A meio caminho entre a casa e a grade, um pouco á esquerda, no centro de um +amplo taboleiro de relva, os vidros coloridos do pavilhão fulguravam aos raios +d'um candieiro posto no interior.</p> + +<p>—Que segnifica tudo isto?—perguntei eu, caminhando ao longe do muro para +encontrar a brecha por onde eu passára duas vezes. Mas apenas puz o pé no +jardim, fiquei como pregado no chão. Estava ouvindo imprecações e soluços; do +pavilhão, a vinte passos de mim, é que elles sahiam.</p> + +<p>Cobriu-me o corpo todo um suor frio. Eu tremia como a folhagem dos arbustos, +sob as quaes me escondera.</p> + +<p>Neste momento, a sege correu a grande trote dos cavallos para a grade; de +certo o cocheiro obedeceu a um chamamento que eu não tinha ouvido. Ao chegar +defronte de mim, parou, e o creado da almofada abriu a portinhola. Tinham +cessado os gritos e os soluços. Sahiu um homem do pavilhão, e fechou-se a +porta. Reconheci-o. Que outro poderia ser? Assentou-se nos coxins, o creado +subiu para a almofada, o cocheiro picou os cavallos, a sege passou a grade, +rodou sobre a calçada sonora, e a grade foi fechada pelo creado de farda que +estava ao pé.<span class="pn">{95}</span></p> + +<p>Logo que este homem, caminhando para casa, se sumiu entre o arvoredo, +avancei precipitadamente, sem precauções. Antes, porém, de levantar o trinco da +porta, examinei atravez dos vidros. No centro do pavilhão estava uma meza +redonda, com um candieiro em cima. Em toda a roda corria um amplo divan; e +deitada sobre este divan, vi uma mulher chorando, com a face entre as mãos, +dando soluços de rasgar o coração, era ella! Fanny! ella! Entrei +precipitadamente abri-lhe os braços, e lancei-me de joelhos a seus pés.</p> + +<p>Mal me havia reconhecido, quando expediu um grito lacerante, apertou-me a +cabeça entre os braços, e abafou-me contra o seio. Eu não podia fallar nem +respirar. Fanny beijava-me os cabellos, desgrenhava-os com a face, mordia-os +para suffocar os gritos; depois ergueu-me a cabeça e eu senti cahirem-me +lagrimas nas faces, em quanto os seus labios frementes se agitavam sobre os +meus vertiginosamente, e suas mãos palpitavam por sobre meus hombros, face, +pescoço, em phrenetica inquietação. Finalmente, cahindo desfallecida e quebrada +de dôr tirou por mim, e arrastou-me na quéda sobre o divan. Ergui-me. A partida +do marido, e as lagrimas d'ella, eram-me coisas incomprehensiveis. Entretanto, +fiz quanto pude por chamal-a á vida. O candeeiro, cahindo, apagara-se. Caminhei +para Fanny ás apalpadellas, arranquei-lhe os colchetes do vestido, e tirei-lhe +a pedaços o colete. Depois, á força de caricias, rogos e orações, aquecendo-lhe +as mãos com as minhas, e bafejando-a com o meu halito ardente, consegui +reanimal-a. Soltou um longo<span class="pn">{96}</span> suspiro, e ergueu-se +amparada nos meus braços, e parecia reflectir. Torrentes de lagrimas lhe +rebentaram dos olhos, e lançou-se a mim com tanto amor, e com ar de tanta +piedade, que eu, a soluçar tambem, a comprimi ao peito.</p> + +<p>—Oh! Roger! meu Roger—exclamou Fanny com a voz entrecortada—se soubesses +que desgraçada eu sou! Consola-me. Ama-me. Soccorre-me. Oh! que bem me faz o +chorar sobre o teu coração... Meu querido Roger!</p> + +<p>Os soluços embargaram-lhe as palavras. Instei com ella que se explicasse. Eu +não sabia ainda que dôr podia ser esta, que rompia em gritos de indignação.</p> + +<p>—Teu marido sabe tudo, sim? disse-lhe eu. Fanny fez um meneio de cabeça +negativo, e respondeu:</p> + +<p>«Não, não é isso; mas ha um anno que te minto. Eu sou a mais desgraçada, a +mais humilhada, a mais insultada das mulheres. A escoria, o opprobrio, as +infimas mulheres não são mais desgraçadas que eu!</p> + +<p>A este grito, que lhe fugia do peito não tinha eu que oppor. Fiquei estupido +e estupefacto. Não achava palavra que lhe dissesse. O que eu fazia era abraçar +convulsamente a lagrimosa mulher. Subito, um raio de luminosa previdencia me +esclareceu o espirito.—Se não aproveito esta occasião para confessal-a, nunca +saberei nada—dizia eu commigo. Tranquilla deste lance, nunca mais fallará.</p> + +<p>Era judiciosa esta idéa. Fiz bem escutar-lhe a<span class="pn">{97}</span> +inspiração. Empenhei, pois, toda a minha eloquencia para tirar desta pobre +mulher o segredo, que por tão largo tempo, me havia occultado. Instei, +animei-a, interroguei-a, mostrando-me consternado por sua dôr. Entrei, pois, no +segredo d'uma deploravel historia, não d'uma vez, mas arrancando-lh'a a +promenores, a pedaços, por que a sua exaltação, deixando-se ir até dizer tudo, +era intervallada de reticencias nos mais delicados pontos da narrativa.</p> + +<p>Fez-se luz então para mim tudo o que houvera escuro e incomprehensivel na +sua vida e proceder.</p> + +<p> </p> + +<h2>L</h2> + +<p>O marido de Fanny não era o homem fastidiosamente bom que eu cuidava. Era um +terrivel déspota. Mulher, amigos, creados, todos se acurvavam aos seus +caprichos e obedeciam passivamente ás exigencias do caracter d'elle. Por zêlos, +não é que elle opprimia a mulher, senão que por indomavel espirito de vontade. +Em sua casa havia uma unica pessoa que dava regra e á qual deviam amoldar-se +habilmente as de mais. Não se tinha em conta de mero homem; dava-se ares d'uma +especie de sol que allumiava; aquecia, e communicava vida a tudo que o rodeava. +</p> + +<p>Pelo que, logo que viu sua mulher, aconselhada<span class="pn">{98}</span> +por mim, desviar-se insensivelmente da norma de vida que elle traçara, ficou +primeiro, como pasmado; mas, com um carregar de sobr'olho, fez que Fanny +entrasse immediatamente na ordem. Todavia, não lhe deu canceira averiguar o por +quê d'aquella timorata tentativa de emancipação. A seu vêr, toda a mulher era +ente chimerico, dirigido por machinismo incomprehensivel, que não merece +analyse séria. Nem elle tinha arrebatado Fanny, nem a tinha esposado por amor. +Não. Seduzira-a por que era formosa, e elle queria que uma mulher formosa +fizesse as honras de sua casa. Raptou-a porque lh'a negaram. Esposara-a porque +era rica, e elle pobre, e, de mais, queria, a um tempo, enriquecer-se e +propagar-se.</p> + +<p>E, como a visse submissa, todo elle era disvelos. Era-lhe ponto de honra +gastar cada anno, com sua mulher dobrado do rendimento do dote, e a miudo a +presenteava com ricas dadivas para ostentar sua liberalidade. Sentia por ella, +em summa, alguma coisa d'aquella rudeza attenciosa que tem os cavalleiros +arabes pelos seus cavallos de fina raça. Usam elles mesmos arraçoal-os com uma +das mãos, tendo na outra o chicote prompto a castigar o menor desmancho.</p> + +<p>Por largo tempo, Fanny, subjugada por aquella vontade superior, docilmente +se sugeitou. Pensou, executou, viveu por elle. Á força de paciencia, obteve, +por fim, de seu senhor uma apparencia de liberdade. Alguns mancebos—segundo me +pareceu—approveitaram isso para cortejarem franca e assiduamente a bella +mulher cujo ar de tranquillidade<span class="pn">{99}</span> inculcava um longo +habito de rebellião interior, e de dôres inexpansivas. D'isso, porém, o marido +nem se quer suspeitou. Sómente o accaso lhe trouxera ás mãos uma carta de +comprometter. A scena immediata a este descobrimento foi terrivel. Não se +deram, com tudo, gritos, insultos, nem brutalidades degradantes; nem duelo, nem +explicações, nem separação forçada dos dois imprudentes, que teriam castigado +irremissivelmente o orgulho do esposo, mesmo quando o vingavam. O intelligente +marido o que fez foi declarar a sua espoza que guardava a carta. E, desde +então, cada vez que a via inclinada a emancipar-se, servia-se da tal carta para +a fazer tremer e submetter-se. Um quarto de papel tornou-se nas mãos deste +homem um punhal com que elle espicaçava a mulher para fazel-a andar deante +d'elle.</p> + +<p>Era, pois, um vilissimo homem? Não: era simplesmente orgulhosissimo. Ainda +que aquella carta preciosa fosse mil vezes mais explicita, o marido não lhe +daria credito. Em quanto a elle, aquillo, quando muito, era a prova d'uma +creancice perigosa que, astutamente explorada, poderia degenerar em apparencias +de crime. Mas no crime é que elle nunca acreditou. E acreditar, como? Era +impossivel, pela simples razão de que sua mulher não podia mostrar-se criminosa +para com elle. E não podia por que era sua mulher. E não podia, por que elle... +era <small>ELLE</small>. Por tanto, censurando um pouco essa creancice +humilhante, não se mostrava inquieto nem menos feliz. E continuou a amar a +mulher, a seu modo, com aquelle seu coração de ferro. Depois<span +class="pn">{100}</span> de quinze annos de casado, vinham ainda ás vezes uns +dias em que elle era todo amores com ella.</p> + +<p>A arma, porém, continuava a ser arma em suas mãos, e sempre com serventia. +Primeiro, graças á carta, obteve de Fanny que não fallasse mais com sua mãe, +que elle detestava, por que o não quizera de bôa vontade acceitar por genro. +Depois, exigiu que fizesse crear os filhos em peitos alheios, sob pretexto que +os cuidados maternaes lhe desbotariam o gosto dos prazeres da sociedade. +Depois, sem consultal-a, e sem visivel utilidade, vendeu o castello onde ella +nascera, onde passara a infancia, e o parque onde estavam sepultados seu pai e +seus dois irmãos. Finalmente, graças á prestimosa carta, não havia repressões +que não lhe ordenasse, vexações que não lhe impozesse mas sem maldade, mas +prodigalisando-lhe sempre obsequios e cortezias, principalmente em publico. E a +vida de Fanny tornou-se um inferno no qual um implacavel demonio a torturava +com uma mão, e acariciava com outra.</p> + +<p>Quando, porém, Fanny resistia a exigencias graves, ou a ultrages brutaes á +delicadeza d'ella, é que o marido rompia em transportes inauditos. Nesse caso, +perdia a consciencia de si proprio, mas por uma hora sómente. Deixava de ser o +homem urbanamente desdenhoso que trazia na cara os mais exquisitos matizes da +superioridade de caracter, e cujo ar affavel e franco, parecia dizer a todo o +mundo: «Vede que não ha que temer de mim.» Transfigurava-se em leão que a +natureza amassara com as suas mãos callosas, e que a educação desbastara +apenas. Hirtavam-se-lhe como crina os cabellos.<span class="pn">{101}</span> +Flammejavam-lhe os olhos como reflexos d'oiro fundido. As ventas dilatadas +assopravam um halito ardente. A boca contrahida abria-se, e mostrava dentes +admiraveis, como se ameaçassem dentadas. Crispavam-se-lhe os punhos cerrados. +Era medonho. Havia um insulto que não deixava nunca de esbofetear a victima. A +carta dava sempre o pretexto. E era sempre o mesmo insulto, a mesma palavra +infame que a marcava na fronte como ferro em braza, e que a rebaixava—como +ella dizia—á ultima escaleira de todas as mulheres.</p> + +<p>Mas a sorte, que não tem compromissos com as paixões e os caracteres, +obstinava-se por vezes a brigar com este athleta. Feriam-no successos +imprevistos: obstaculos estranhos sahiam a empecer-lhe os passos. Então era +sublime! Não blasphemava, não injuriava a sorte, por que sabia que era inutil; +mas arcava com os successos e obstaculos, e luctava silenciosamente, friamente, +pacientemente. Por custume, dominava a sorte. Quando lhe correram risco os bens +da fortuna, á força de audacia, conseguio resarcir a melhor parte, abandonando +a outra, como um favor irrisorio aos credores, seus emulos. Outro qualquer, no +logar d'elle, esmoreceria, que vontade como a sua não havia quem a tivesse. Mas +um exito mediocre não bastava a este homem, insaciavel de exitos estrondosos. +Decidira safar o seu navio de entre os escolhos onde fôra a pique. Queria +salvar tudo, carregação, apparelhos, e até o lastro. Jurára de não ceder ao +oceano, um prego só. Eil-o ahi, que, descançando, na meditação de oito dias, +dos seus primeiros trabalhos, reapparece no<span class="pn">{102}</span> sitio +do naufragio mais azafamado, mais resolvido, que na primeira vez. Esta partida +subita cauzara a ignobil disputa de que eu fôra involuntaria testemunha.</p> + +<p> </p> + +<h2>LI</h2> + +<p>Parece que, ao jantar, em poucas palavras annunciara elle os seus projectos +a Fanny. Mostrara-se tranquillo, meditativo, quasi affectuoso. Gracejou com +Fanny sobre o seu ar melancolico, motivado pela vida absurda do campo. Brincou +com os filhos. Foi polido, como sempre, com os creados que o serviam. Ao +pospasto, levantou-se, pedio um charuto, accendeu-o, e dirigiu-se ao pavilhão, +com Fanny sobraçada, dizendo-lhe frioleiras com geito amavel. Como os filhos os +seguissem, brincando na relva, foi ter com elles, abraçou-os, despediu-os, e +pediu-lhes affectuosamente que fossem brincar mais longe. Depois, assentou-se +no divan do pavilhão, cuja porta estava aberta, fumando o charuto, e bebendo, o +seu café aos golinhos. Ao cerrar da noite, veio o escudeiro com a luz. +Pediu-lhe que mandasse pôr os cavallos á carruagem. Até ahi dissera sómente +frivolidades com ar festivo; mas, retirado o escudeiro, ergueu-se a fechar a +porta, tirou tranquillamente do bolso um papel sellado, e disse a sua +mulher:<span class="pn">{103}</span></p> + +<p>«Minha querida, escreve a tua assignatura ao lado da minha no fundo d'esta +folha de papel.</p> + +<p>Fanny pegou da penna que elle lhe offerecia, mas, antes de escrever, +disse-lhe:</p> + +<p>—Que são estes engrimanços que eu assigno?</p> + +<p>«Não é mais que um instrumento de doação reciproca de todos os nossos bens. +</p> + +<p>Fanny depoz a penna sobre a meza, e perguntou-lhe mansamente algumas +explicações sobre o uso que elle ia fazer d'aquillo. O homem avincou a testa, e +annunciou-lhe que, por algum tempo, ia «reassumir o negocio, e carecia de muito +dinheiro.»</p> + +<p>—Não somos nós já bastante ricos?—disse Fanny.</p> + +<p>«Não.</p> + +<p>—Então vai ser exposto o meu dote?</p> + +<p>A esta pergunta, encarou-a carrancudo, e respondeu provocante e +glacialmente:</p> + +<p>«Sim.</p> + +<p>—Então não assigno—disse ella como atterrada da sua coragem—porque não +quero expor os bens de nossos filhos.</p> + +<p>Foi então que estalou a borrasca. Foi curta, mas pavorosa. Vendo-se +contrariado por uma impossibilidade, o déspota rugiu de furor. Pela primeira +vez em a sua vida, travou do braço da esposa, apertando-lho para obrigal-a a +assignar, e pizou-lh'o. Fanny supportou, não respondeu, nem chorou. +Cumularam-se sobre ella desprezos, incriminações, injurias, todos os insultos e +vilanias compendiadas pela recordação das passadas. Veio tambem a affronta +suprema, a palavra fatal, estalar na lingua do insultador.<span +class="pn">{104}</span> Ahi é que Fanny chorou, soluçou e decidiu-se a +assignar. Serenou logo o marido: agradeceu, e quiz beijar-lhe a mão; ella, +porém, mostrando-lhe o braço contuzo, disse:</p> + +<p>—Não é por isto, Deus me é testemunha, que eu o desprezo; é pela covardia +do insulto. Dito isto, elle pediu perdão por de mais, chamou-lhe creança e má +cabeça, abraçou-a por força, chamou o cocheiro e partiu.</p> + +<p> </p> + +<h2>LII</h2> + +<p>Logo que Fanny, cedendo ás minhas instancias, me contou aquelles +extraordinarios successos,—não ordenados como os eu repito, mas em fragmentos +incoherentes, misturados de raptos de rancor;—logo que eu nada tive que +indagar, e que ella immudeceu por não ter nada que contasse, ficamos algum +tempo a contemplar-nos silenciosos, á luz tibia das estrellas, com spasmo +temeroso. Alguma coisa formidavel se estava erguendo entre nós modificando +estranhamente a nossa situação.</p> + +<p>Eu não pude, ainda assim, entrar logo na averiguação dos factos que, +forçosamente, deviam derivar d'aquella surprehendente confissão. Eu, vendo +Fanny ainda pallida, descompostos os cabellos, e tremula, só pensava na sua +humilhação.—É pois<span class="pn">{105}</span> desgraçada!—disse eu no +intimo da minha alma. Tirei-a a mim suavemente pelo colo, busquei-lhe os +labios, e abriguei-a nos meus braços com o ardor da esperança e da piedade.</p> + +<p>Oh! como foi longo, estreito e desesperado aquelle abraço! Com elle se +esposaram nossas almas, e ali sentimos o que ha de piedade na mudez d'aquelle +apertar, de consolações nos suspiros, e que sympathia reflorece da mixtão das +lagrimas! Éramos sósinhos, silenciosos, n'uma vaga escuridão, adornada pelo +tibio alumiar de noite de estio. O desalinho dos vestidos de Fanny, o cansaço +de chorar que a retinha deitada nos meus braços, o pejo d'uma confissão, que, +posto que lhe desse alivio á alma, lhe opprimia o orgulho pela primeira vez; a +felicidade de nos revermos mais amantes, mais alliançados que nunca, após uma +scena terrivel que devia desligar-nos: isso tudo insinuava-nos não sei que +desaffôgo de expansão reciproca, mesclada de amargura e dulcificação. Emquanto +meus labios lhe rossavam de leve os longos cabellos desannelados, +surprehendia-lhe no coração a velocidade de movimentos que se me figuravam +surdas expressões de cólera. O arrepender-se de ter defendido por tanto tempo e +nobremente, contra os meus ataques, aquelle que lhe era um jugo na vida, +arrancava-lhe gritos de uma ironia implacavel. A irritação do insulto, e a +indignação do aviltamento immerecido, apertava-lhe os braços em volta do meu +pescoço mais energicamente do que nunca o fizera o amor. Ao mesmo tempo, o +pesar de ter flagellado o amante, cuja só presença lhe estava sendo a mais +terna das<span class="pn">{106}</span> consolações, como a mais rapida e segura +das vinganças, inspirava-lhe a submissão e a supplica. A lembrança do meu +rival, presente a nós, ajuntava uma acrimonia angustiosa aos beijos d'ella, e +uma dôr infinita ás minhas caricias; e n'aquelle instante ao menos, em que, sem +fallar, trocamos tantas sensações e idéas bem comprehensiveis, Fanny, estava +emfim, na minha idealidade, absolutamente, e para sempre, tão ligada a mim +quanto apartada d'elle.</p> + +<p> </p> + +<h2>LIII</h2> + +<p>Quando recobramos a palavra, o furor, reconcentrado em mim, fez subita +explosão.</p> + +<p>Fanny ficou estupefacta. Pronunciei, como um demente, palavras ardentes, sem +nexo. Uma especie de loucura acerava, como laminas de um punhal, cada uma das +minhas phrazes, e a raiva hervava-as de peçonha a mais corrosiva.</p> + +<p>O sentimento da impotencia da vingança, a certeza de que os males d'aquella +mulher deviam renovar-se infinitamente, e os meus ciumes passados, e mais que +tudo, a memoria das nossas deploraveis questões, causadas por aquelle indigno +homem, faziam-me offegar de colera como homem que acaba de levar uma bofetada, +e não pode despedaçar entre as mãos aquelle que lhe gravou o ferrete<span +class="pn">{107}</span> deshonroso... Na minha demencia, parecia-me que o amor +de Fanny, perdia tanto do seu valor, quanto mais desgraçada ella era; e, +envergonhado d'esta atroz idéa, meditava em matar, e dar por ella a minha vida. +Fanny, porém, ainda abatida, mais queria ser consolada que vingada.</p> + +<p>Abraçou-me, e, coisa estranha! foi ella que me affagou para me pacificar. +</p> + +<p> </p> + +<h2>LIV</h2> + +<p>Passei o dia seguinte a recordar tudo o que tinha sabido. Havia muito que eu +não sentira, como então, o espirito desoprimido de duvida.</p> + +<p>Um feliz provir se descortinava ante os meus olhos, depois de tão tormentoso +passado, como serenos valles e descampados aos olhos do viajante que desce a +ladeira escarpada de perigosas serranias. A esperança d'uma existencia quieta +refrigera a alma como a briza da tarde que succede aos ardores do dia, e agora +tudo me convidava a repousar-me á borda da senda facil, que docemente se +aplanava debaixo de meus pés contusos. A serenidade dos dias, a auzencia das +inquietações, eram a minha prespectiva. Pensava n'isto sempre, e minha alma +enlevada derramava-se em effluvios de reconhecimento ao acaso que se cansara, +emfim, de me transviar.<span class="pn">{108}</span></p> + +<p>Entrava n'este sonho necessariamente a imagem de Fanny. Era a companheira +que me seguira através dos abysmos da paixão. Soffrera irmamente commigo a +longura das caminhadas, a incerteza do fim, os espinhos occultos sobre os +quaes, juntos, laceravamos os pés. A mesma dôr nos arraiara de sangue os olhos, +e abrazára os nossos halitos. A ancia do repouso sentiramol-a ambos ao mesmo +tempo. E, como se fosse preciso que o mais debil dos dois soffresse mais, Fanny +dava-me alentos para a resignação, e com as mãos trementes enxugava-me da +fronte o suor do desespero, e ao mesmo tempo escondia-me dôres e trances +particulares que ella suportava heroicamente para me não angustiar.</p> + +<p>Mas agora esses desgostos que eu surprehendera, estavam sanados. Renascer +não poderiam mais. Ambos livres do phantasma que tão cruelmente nos perseguira, +podiamos, em fim, senhores de nossas acções, compensarmo-nos amplamente do +supplicio e dos terrores. Á maneira de dois fugitivos, que não deixaram +pégadas, e vão ás bordas das fontes, e á sombra dos bosques silenciosos, +sacudir o pó das sandalias, nós nos íamos, emfim, vingar da sorte estupida, +esquecendo os tormentos que nos infligiramos.</p> + +<p>D'est'arte sonhava eu, a sós commigo, contemplando a imagem querida de Fanny +que me sorria entre as mãos, cingida em moldura de ouro, como d'uma aureola. +Assim me comprazia dispondo ante nós as paragens do nosso futuro.</p> + +<p>Nunca eu afagara mais cruel illusão!<span class="pn">{109}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>LV</h2> + +<p>O dia em que tornei a vêr Fanny, era um dia explendido!</p> + +<p>Veio a minha casa, de manhã, deliciosamente vestida, como para celebrar +dignamente as nupcias da nossa felicidade. O seu vestido côr de malva, que tão +gentilmente condizia com a frescura da sua pelle, resplendia sobre as fórmas +esbeltas e finas, e caia-lhe em reverberos, sobre os pés. Os braços meio nús, +sobresahiam das rendas das mangas, com reflexos baços como os de marfim não +lustrado ainda. Do corpete chanfrado sobre o seio elevava-se, um pouco +inclinado, o colo alvissimo. Por de sobre as faces ondulavam-lhe os cabellos. +</p> + +<p>Nenhum ruido nos perturbava, a não ser a campainha do relogio que não +ouviamos, e, de longe em longe, o rodar precipitado e passageiro das +carruagens, estremecendo a calçada. Conversamos, mais uma vez, sós por sós. +Fanny comeu pouco, sorrindo, como a pedir perdão. Eu ergui-me para servil-a, e +abraçava-a na passagem. Ella ministrava-me o vinho, com graça, vertendo-o +d'alto, e eu todo me enlevava na formosura d'aquelle braço que se inquadrava no +vacuo sombrio da sua larga manga. Nunca o nosso quarto nos parecera tão bonito! +Queriamos d'alli não sahir mais!<span class="pn">{110}</span></p> + +<p>Ergueu-se Fanny, e foi sentar-se no diwan. Colloquei-me a seus pés sobre uma +almofada, com o cotovello sobre o joelho d'ella, e longo tempo estivemos assim +mudos a contemplar-nos. Com uma de suas mãos, intromettidas nos seus cabellos, +levantava-os aos tufos, e devidia-os. E eu beijava-lhe a outra mão, travada na +minha.</p> + +<p>—Oh Fanny! se tu não fosses casada!...—dizia-lhe eu com paixão. E ella +respondia:</p> + +<p>—Oh Roger! se tu não fosses cioso!...</p> + +<p>Não sei como se passou o dia; mas mui rapido passou! Em mutuos olhares de +extasis, em abraços doidos de ternura, em ir e vir d'uma para outra camara, que +horas tão instantaneas correram! Quiz saber a historia da minha vida. +Contei-lh'a: era simplissima. Chorou ouvindo a narrativa da morte de minha mãe. +</p> + +<p>Muito havia que não estiveramos tão intimos, serenos, e felizes. O rancor +atroz do ciume não nos separava. Expandimo-nos sem reverva: por isso mesmo foi +completo o socêgo de nossas almas. Havia ali felicidade que bastaria á boa +fortuna de dez amantes.</p> + +<p>Cotejando em meu espirito aquelle dia singular com todos os precedentes, +lembrou-me de repente a causa que, por mais d'um anno, nos fizera tão +desgraçados. Rompeu de minha boca uma exclamação furiosa, e, por piedade das +angustias de Fanny, tanto tempo escondidas, não pude conter-me que não +exprobrasse o oppressor.</p> + +<p>Fiquei como empedrado quando vi Fanny franzir então a testa, e morder os +labios. Relanceou-lhe<span class="pn">{111}</span> rapida na face uma sensação, +como o relampago silencioso que fende uma nuvem. Depois sorriu, e acalmou como +o céo d'uma tarde estiva. Eu, porém, curei de indagar a causa d'aquella +sensação dolorosa, e tornei-me pensativo e triste, por não sei que confusa +remeniscencia.</p> + +<p> </p> + +<h2>LVI</h2> + +<p>Fanny retirou-se sem parecer notar em mim turvação alguma. Depois que sahiu, +mil recordações uma apoz outras, como vagas d'um mar silencioso cumulavam-me o +espirito. O porte de Fanny pareceu-me agora mais que nunca incomprehensivel. +</p> + +<p>—Esta mulher é a mais extraordinaria ou a mais vil das mulheres!—Disse, e +repassei na memoria quanto sabia d'ella. Mas, outra vez ainda, tudo me pareceu +contradictorio em sua indole.—Por que defendia o meu rival quando eu ignorava +as suas violencias? Por que o accusou depois? Por que impallidece agora se me +ouve reprovar as acções do homem que a ultraja? Oh! é possivel supporte +tamanhos despresos, vexações tão aviltantes, e conserve a minima affeição a um +homem que a tortura e humilha!! Indecifravel enigma. Ama-me ella? Ama o marido? +Que ha ahi de commum entre essa mistura de seres, de sentimentos, de calculos, +de<span class="pn">{112}</span> transações, e o amor, esta paixão absoluta, +intolerante, e exclusiva? Deste modo ajuntava, separava, e confundia todos os +factos da nossa existencia commum sem poder desinredar o inextricavel fio da +meada. Cada facto, por seu turno, vibrava-me no ouvido, como um som agudo; e, á +maneira d'um clamor synistro, estrondeando por sobre tudo, rugia incessante +aquella palavra da consciencia de Fanny, proferida, um dia, para meu supplicio: +</p> + +<p>—Eu mentiria se dissesse que o não estimo.</p> + +<p> </p> + +<h2>LVII</h2> + +<p>Desde então, illaqueado mais estreitamente que nunca na rede das incertezas, +um só desejo me dominava—tirar de Fanny a explicação do seu caracter, não +interrogando-a, mas compelindo-a a extremos indicativos.</p> + +<p>Aggredi acintemente o marido deante de Fanny: difficil fôra o defendel-o, +por que o ataque era dirigido ás violencias que lhe eram a ella feitas. +Limitou-se, primeiro, ao silencio, erguendo ao céo os olhos, por que eu a +estava pranteando; depois, mostrou-se descontente da asperesa das minhas +palavras. Repentinamente lhe assomou á face o sangue, os labios cerraram-se, as +palpebras descahiram, isto a tempo que eu lhe estava exaltando a<span +class="pn">{113}</span> resignação para melhor accusar os caprichos do marido. +Obedeceu, por fim, á sua eterna preoccupação, e disse-me:</p> + +<p>—Não fallemos mais de tal: tudo isso é triste; mas eu sou obrigada a +submetter-me. Ao cabo de tudo, sempre é meu marido!</p> + +<p> </p> + +<h2>LVIII</h2> + +<p>Estas palavras nem me espantaram nem indignaram. Esperava-as. Sorri com +amargura, ouvindo-as dos labios da mulher estremecida. Eu passeava d'um para o +outro lado no meu quarto, e ella seguia-me com a vista.</p> + +<p>—É a derradeira illusão que morre!—exclamei eu.</p> + +<p>Fanny pediu-me a significação d'estas palavras, e eu recusei dar-lh'a, e +disse:</p> + +<p>—Já são que farte as questões que temos ha um anno; por minha vez, te rogo +que não te importe saber o que se passa em mim. Amemo-n'os taes quaes somos. +Por mais que desesperemos e resistamos nunca se mudará a nossa indole.<span +class="pn">{114}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>LIX</h2> + +<p>Durante a ausencia do marido, que foi de mais de seis mezes, houveram +grandes alterações na nossa vida. Eu via Fanny quasi todos os dias. Ambos +abusavamos da liberdade d'ella! Vinha passar commigo todo o tempo disponivel. +Frequentes vezes jantavamos juntos. Encontravamo-nos nos passeios e no theatro, +e nas lojas. Aqui, sem nos mostrarmos conhecidos, trocavamos olhares furtivos, +e, perpassando ao longo dos balcões, sentiamos as delicias instantaneas do +contacto. Escreviamos, além d'isso tudo, cartas infinitas, e trocavamos flôres. +</p> + +<p>Fanny esmerava-se em attenções, para compensar-me do mal que me fazia. +Liberalisava-me aquelles delicados disvellos que as mulheres aguardam dos +homens, e dos quaes disvellos são tão economicas, quando se dignam +conceder-lh'os. Beijava-me a mão, chamava-me seu querido filho, mostrava-se +submissa, e esmerava-se por que não houvesse coisa que turvasse a serenidade da +minha vida. Nunca, porém, tratando-me como dominador, se rebaixava. Ajoelhada +deante de mim, tinha a inteira dignidade d'uma rainha.</p> + +<p>Ás vezes, quando as bellas noites do outono eram mais balsamicas e suaves +que as do estio, fugiamos<span class="pn">{115}</span> da cidade, como aves +cansadas do calôr do dia. Hombro com hombro, recostados ao respaldo d'uma +carruagem fechada, com as mãos inlaçadas silenciosos, iamos ao bosque buscar um +pouco de ar, de silencio, e de solidão. Rentes comnosco passavam fogosas +parelhas tirando por grandes calexes descobertos, cheios de mulheres risonhas +cujos véos fluctuavam ao vento. Ouviamos o fremito das rodas na areia, o +resfolgar dos cavallos, e o estalido dos chicotes. Viamos agitarem-se entre as +arvores as luzes das lanternas, e mirarem-se na agua morta dos lagos as sombras +espessas dos bosquesinhos de pinheiros. A lua, ás vezes tão melancolicamente +ingastada no céo como nodoa de prata, alumiava grandes moutas de espinheiros, +donde subiam, razando as hervas, nuvens alvas de vapor. Ebrios do aroma das +carvalheiras, e da mollidão dos nevoeiros luminosos, apeavamos no angulo +d'algum caminho estreito, e nos intranhavamos por debaixo da arcaria de +immoveis arvores, passeando vagarosamente, mais perdidos em nosso scismar do +que o estava a verde folhagem á sombra da noite linda. Era delicioso aquelle +momento em que Fanny, infadada, se me pendia do braço, e justapunha a sua +espadua á minha! Não fallavamos, sentia-se ali o viver, ouviamos as nossas +respirações; e, assim unidos, achavamos doçura estranha n'aquelle nosso +silencio e na incerteza de nossos passos.</p> + +<p>Algumas vezes, com tudo, suscitavam-se ligeiras discussões, remeniscencias +attenuadas de antigas discordias. Fanny, porém, tomando-me, a rir, pelo que eu +era, uma creança, ou fazia que me não intendia,<span class="pn">{116}</span> +ou, sacudindo-me o braço em ar de gracejo, dizia:</p> + +<p>—Ora vamos, não se falla aqui do que já lá vae.</p> + +<p>Todos os lados accessiveis da minha vida ia-os ella penetrando cada vez +mais. Como queria tudo saber, imperiosamente se senhoreava de tudo, passado, +presente, e dispunha de tudo, a bel-prazer do futuro. Eu pensava em tudo como +ella. Se me dava conselhos eu seguia-os como ordens. Em minha casa era ella que +dirigia tudo. Os moveis como que se moviam espontaneamente para se collocarem +nos logares designados por ella; os quadros entravam n'outras molduras; os +espelhos inclinavam-se á vontade d'ella para lhe espelharem por toda a parte a +imagem. Era-me prazer grande o vêl-a assim dispôr do que era meu. A minha casa, +tornada sua, parecia afeminada. Já lá se não viam por sobre as mezas esporas, +chicotes, caixas de charutos; nem junto das paredes tropheus de armas +quarteadas; mas, em logar d'isto, estavam bocetas de flôres, alvissimas caças +rojando sobre os tapetes, mobilia colorida a lacca e incrustações de Boule, e +caixas de perfumarias. Levantavam-se do tapete agulhas e fios de seda e lã: no +rebordo da chaminé brilhavam o dedal e as thesouras.</p> + +<p>Foram, no drama da nossa vida, esses seis mezes uma especie de entre-acto. +Nada nos faltava para a felicidade, excepto a confiança. Fanny estava sempre +sobre-rolda receando ataque improviso, e eu conservava no coração um certo +azedume. Não havia consolar-me de não ter podido vencer os escrupulos da mulher +que eu tanto amava.<span class="pn">{117}</span></p> + +<p>Cheguei á fraqueza piegas de pedir-lhe conselhos para a direcção dos meus +bens. Fanny não entendia nada de negocios, mas dava aproveitaveis pareceres, +porque eram sempre dictados por um espirito de desconfiança feminil. Pois não a +consultava eu até em compras de cavallos? No tocante ao vestir era ella quem +decidia soberanamente dos feitios e das côres. Arranjava a minha roupa branca, +a rir, erguida em pontas dos pés para chegar aos lotes dos armarios, e +intromettia-lhe bolsinhas odoriferas que trazia comsigo, e nunca pude encontrar +n'outra parte. Todos os instantes dos meus dias estavam, em fim, contados. Não +dava um passo sem sua approvação; não comprava luvas ou gravatas que ella não +elegesse. O numero dos meus amigos fixou-o ella. Desprezei tres, porque tinham +nomes que não agradavam a Fanny. Tudo isto me parecia delicioso. Viver sem ella +é que eu não podia por mais que fizesse. Estava enfeitiçado.</p> + +<p> </p> + +<h2>LX</h2> + +<p>Mas o meu ciume, esse não estava morto, nem se quer entorpecido: apenas +tinha variado um pouco de objecto. Desde que o marido estava auzente, já não +podia soffrer por causa de uma partilha que não existia; mas os menores +sentimentos que Fanny<span class="pn">{118}</span> me deixava adivinhar, +inquietavam-me. Afóra os filhos, e a mãe que ella via ás escondidas, eu não lhe +consentia amar ninguem. Fanny sorria, encolhendo os hombros. D'este modo nos +tyrannisavamos mutuamente.</p> + +<p>Um dia, quando eu lhe tirava o «corpete», uma carta grande e quadrada—lhe +fôra entregue quando saía de sua casa—escorregou-lhe do peito e caiu aos meus +pés. Levantei-a. Tinha o sêllo de Londres. Encarei Fanny, que, pallida, +estendia a mão tremula a tomal-a.</p> + +<p>«Teu marido escreve-te?» disse-lhe eu, entregando-lh'a.</p> + +<p>—Que pergunta!—disse ella.</p> + +<p>—Escreve-te regularmente?—ajuntei eu, depois d'um momento de silencio, +durante o qual eu sentia as garras do meu antigo furor atassalhar-me o +espirito.</p> + +<p>—Pois então!... disse ella—todas as semanas.</p> + +<p>«Porque te escreve elle?... Separados por tão violenta discussão, parecia +que os corações deviam separar-se para sempre.</p> + +<p>Fanny olhou-me com espanto e ficou pensativa. Mas, como eu esperasse +resposta, replicou:</p> + +<p>—Espantam-te sempre as mais singelas coisas. Não é natural que meu marido +me diga dos seus negocios, e me falle dos seus filhos?</p> + +<p>«É justo... Eu não tinha pensado n'isso—murmurei.</p> + +<p>Fallou-se de muitas coisas; mas, a sós commigo, reflexionei immenso.</p> + +<p>«Respondes ás cartas de teu marido?<span class="pn">{119}</span></p> + +<p>Fanny fez-se livida, hesitou, e deu signaes de impaciencia. Depois simulou +um ar de indifferença, respondendo:</p> + +<p>—Escrevo-lhe raras vezes;</p> + +<p>—Sim? e, diz-me cá, que lhe escreves?</p> + +<p>—Não sei. Escrevo-lhe friamente. Falla-se de negocios. Isto não te +interessa nada.</p> + +<p>Fiquei um tanto inleado; mas não pude reprimir-me.</p> + +<p>—Como é que nunca tiveste a idéa de mostrar-me as cartas de teu marido?</p> + +<p>Roger! Roger!—exclamou sorrindo contrafeita—eu creio que estás louco! Uma +mulher póde por ventura confiar a alguem, principalmente áquelle que ama, o +segredo dos negocios de seu marido?</p> + +<p>—Tambem é verdade—murmurei eu.</p> + +<p>Fanny quiz logo aproveitar a vantagem que obtivera.</p> + +<p>—Feliz seria eu, disse ella, podendo mostrar-te essas cartas que te dão +tanto que pensar. Provar-te-iam que é uma sem-razão recear alguma coisa. Sabe, +pois, espirito desconfiado, que não se póde viver em menos união do que eu vivo +com meu marido.</p> + +<p>—De certo!</p> + +<p>—Como podes suspeitar o contrario depois que te confiei as minhas +amarguras?</p> + +<p>—D'antes, tambem me confiavas o segredo dos negocios domesticos: não +esqueças isto, Fanny.</p> + +<p>—Oh! hoje é muito differente.</p> + +<p>—Porque?</p> + +<p>—Porque... cá me entendo.<span class="pn">{120}</span></p> + +<p>Isto fez-me reflectir novamente. Fanny levou as mãos ao céo com piedosa +expressão; eu estava como involto nas sombras da morte. E assim nos +contemplavamos. Era-me impossivel a quietação. Agitava-me d'um para outro lado. +</p> + +<p>—Se dizes a verdade, Fanny, por que me não mostras as cartas que lhe +mandas?</p> + +<p>—Não é possivel. Quem lêsse uma, comprehenderia as outras.</p> + +<p>—Não obstante, eu bem quizera conhecer o tom das tuas cartas. Porque lhe +não escreves agora, mesmo aqui? Falla-lhe de tudo menos do que não quizeres que +eu comprehenda. Eu mesmo levo a carta ao correio. Supplico-te, Fanny... Se nada +temes de ti, dá-me esta prova de confiança, para me tranquillisar que eu soffro +muito.</p> + +<p>—Não é possivel—redarguiu ella, com signaes de offendida.</p> + +<p>A raiva que me devorava o coração estalou desassombrada:</p> + +<p>—Que lhe escreves tu que não queres que eu saiba? Juraste matar-me? Falla, +se tens na alma sombra de piedade! Torturas-me barbaramente como um algoz!</p> + +<p>Fanny ergueu-se, pegou-me da mão e disse brandamente:</p> + +<p>—Roger, eu não queria magoar-te.</p> + +<p>—Pois que! que mais querias tu fazer-me? Vae! Tu és mulher de duas caras; +eu nunca fui amado por ti!</p> + +<p>A esta phrase injusta, lançou-se-me ao pescoço, abafando-me com beijos as +palavras. Eu continuei:<span class="pn">{121}</span></p> + +<p>«Como podiam magoar-me as tuas cartas, se, depois d'essa horrivel +contestação, ficaste despeitada com teu marido?</p> + +<p>—Sê rasoavel: uma mulher póde ficar despeitada com seu marido?</p> + +<p>«Pois que?—exclamei furtando-me aos braços d'ella—tu perdoaste-lhe?</p> + +<p>—Rigorosamente não—disse ella, sentando-se quebrantada—mas foi-me preciso +acceitar as suas desculpas. D'esta vez, ainda assim, está tu certo que não +esquecerei mais os ultrages passados.</p> + +<p>«Perdoaste-lhe! perdoaste-lhe, Fanny!—Bradei, de pé em frente della, que +olhava para mim assombrada—Não tens, pois, dignidade alguma? Não te sentes das +injurias? És assim vil? Amal-o? Mentiste-me, pois, a mim? Ah! isto é que eu não +acreditaria nunca!</p> + +<p>Fanny continuava a ouvir-me silenciosa.</p> + +<p>«Diz-me cá: por que me occultaste tanto tempo que elle te insultava?</p> + +<p>—Não queria deshonral-o. Se tivesses mais alguma experiencia, não te +espantarias do que succede. Em summa, eu não quero fallar mais n'isto. Seja-te +bastante saber que se me elle restringe a liberdade, ou diz arrebatado coisas +indignas, tem pesar do que faz e diz, passada a colera. Affirmo-te que o julgas +mal. É possivel que eu exaggerasse os factos no primeiro momento da +indignação.. mas.</p> + +<p>«Calla-te!—bradei eu—se tens pudôr, calla-te! Ha uma coisa que parece +passar-te desapercebida, e é que, á proporção que vaes fallando, não sei que +idéa peçonhenta lucta, em mim, com o meu amor.<span class="pn">{122}</span> Não +accrescentes uma só palavra. Acceito ainda isso, por que sou vil, por que sou +um fraco, por que te amo muito, por que não posso dissuadir-me de te amar; mas +sabe tu que maior mal não m'o podias fazer. Supplico-t'o—não digas mais nada. +</p> + +<p>E lançando-me a seus pés, exclamei:</p> + +<p>«O despresares-te a ti propria, seria, sobre tudo, cruelissimo!</p> + +<p> </p> + +<h2>LXI</h2> + +<p>Sempre que tivessemos algumas dessas deploraveis luctas o apartamento era +frio, e eu ficava dias inteiros a reluctar com a memoria d'ella. Mentalmente eu +reproduzia os ataques e os argumentos, e inutilmente sondava a causa misteriosa +do seu proceder. Eu era muito moço e inexperiente: avaliava-a mal. Aquella +natureza complexa, que resumia no seu caracter muitos caractéres diversos, +queria eu que visse as coisas absolutamente como eu as via. Eu, o que então +sabia, era que as palavras: sentimento, amor, delicadeza, ciume, e outras +assim, representavam para Fanny umas idéas, e para mim outras. Ignorava que o +custoso para mim não o era para ella, e que lhe bastava sempre a boa intenção +para indulgencial-a d'um facto, qualquer que fosse. Em mim, não descontava nada +á sua fraqueza. Depois é que apprendi a conhecêl-a.<span +class="pn">{123}</span></p> + +<p>Quantos maiores esforços eu fazia para desligar Fanny de seu marido, mais eu +estreitava os vinculos relaxados por quinze annos de existencia commum. Fanny +lastimava-me interiormente, mas eu devia ser-lhe pesado. Bem sentia eu que a +importunava, mas não estava em mim deixar de a repellir de cada trincheira em +que ella esperava o combate. Não me passava pela mente que o unico recurso para +conseguir o meu fim, era mudar de tactica. Ninguem me havia dito que eu devia +esconder o meu ciume, como principal causa da nossa separação. Que candura! Eu +via nas manifestações do meu ciume provas de um amor que devia abalal-a. E, com +tudo, tão facil me seria serenar-lhe a vida a ponto de a forçar a comparações, +com vantagens minhas, entre os dois homens de quem ella dependia. Mas mais +simples que tudo seria não amal-a!...</p> + +<p>Ama ella o marido? Não acredito, nunca o acreditei. Um sentimento banal, +resultante do costume e agradavel ás almas pacificas, porque naturalmente +continúa as coisas, e não cansa o espirito em mudanças, esse devia tel-o. E o +vêr o despota humanisado diante d'ella, commovia-a; e o receber caricias da +mesma mão que a castigava rudemente, dava-lhe uma especie de satisfação. Não +era isto fraqueza nem ingenita baixeza de animo; era uma certa indifferença de +genio, explicavel na idade d'ella Fanny, em fim, certo, não tinha uma alma +varonil, nem mesmo uma alma muito nobre, por que antes queria astuciar que +combater, e antepunha o aviltar-se, repartindo-se, que transtornar o seu +viver;<span class="pn">{124}</span> era, porém dotada de alma recta. Cuidava, +certamente, que se resgatava, em sua consciencia, da perfidia conjugal com uma +submissão completa. Até certo ponto, era indemnisar o marido, o tolerar-lhe os +caprichos do genio. Em que restingas, em que abysmos, em que cahos de coisas +sem nome, a probidade, esta rara perola, se esconde?</p> + +<p> </p> + +<h2>LXII</h2> + +<p>Era urgente que eu accedesse á nova concessão do aproximarem-se os esposos. +Mas de concessão em concessão lá se ia, desfeita em lagrimas, a minha estima. +Eu humilhava-me como o escravo que não póde resistir, com gritos de raiva +surda, e desejos immensos de vingança. Ah! se Fanny soubesse que ella devia +accusar-se só a si da minha abominavel vingança!</p> + +<p> </p> + +<h2>LXIII</h2> + +<p>Inraivecido por não poder vencer a pertinacia do caracter de Fanny, trahi-a. +Amor e ciume, quiz<span class="pn">{125}</span> tentar matal-os na devassidão. +Conspurquei-me voluntariamente, e acintamente, ao contacto de labios impuros da +luxuria estupida. Cada noite, de proposito, como ladrão que se embusca no +angulo d'uma rua, entrava rindo sarcasticamente de mim mesmo, no infame +prostibulo onde eu contava apagar a sêde de vingança. Sorria amargamente ainda, +como traidor que pensa na confiança dos ludibriados, eu arrastava commigo, aos +braços da mulher querida, a torpe recordação das creaturas degradadas, cujas +caricias não tinha podido sevar-me o rancor; e deste modo eu achava um meio de +identificar Fanny commigo, sem o ella saber, e ingolphal-a commigo nas mesmas +execraveis immundices.</p> + +<p>Mas era-me maior a vergonha na sahida que a cegueira do furor na entrada. +Estorcia-me os pulsos na rua, e arrancava os cabellos desesperado. Mais +ciumento, mais aferrado, mal vingado, castigado por minhas proprias mãos, +martyrisava-me com o profundo pensamento da inutilidade dos meus esforços. Não +sei que desgosto corporal me subia aos labios. Era um horror de mim mesmo. +Vagava, de ventura, toda a noite, como miseravel sem abrigo, esperando vencer +com a fadiga do corpo os tormentos do cerebro. Debruçado sobre o parapeito das +pontes via redemoinhar a onda negra do Sena, menos sombria e mais lodacenta que +os pensamentos, irriquietos do meu espirito attribulado. Eu chafurdava nos +lamaçaes, como para destruir sobre immundices impalpaveis, a impalpavel, mas +real immundice que imporcalhava o meu amor. E sempre diante de mim, perpassando +como phantasma nas<span class="pn">{126}</span> sombras que se tiravam ao longo +das ruas, via a imagem de Fanny, com o seu ar tranquillo, fronte serena, olhar +sombrio, como que a visitar-me, mas forçando-me a pensar n'ella quando eu ia +cuidando em matar-me para esquecêl-a. Oh! que terrivel estado aquelle, sem +repouso nem treguas ás minhas angustias! que me exacerbava e prostrava! que +incharcando no nôjo a minha desesperação, infamava o meu ciume sem applacal-o! +</p> + +<p> </p> + +<h2>LXIV</h2> + +<p>Sustentava-me, comtudo ainda, um resto de coragem, essencial na minha +indole. Estas pelejas intimas davam-me alento. Resolvera buscar o remedio até +encontral-o, e, não o tendo, emprehender algum arrojo de desesperado, para +arrebatar Fanny, a pezar d'ella. Ninguem sabe os estragos que uma idéa fixa +póde fazer d'uma alma. Incrivelmente vos vos roja até vêr o bem nas coisas +repugnantes ás menos temerosas consciencias.</p> + +<p>Após maduro reflectir, decidi-me ao penoso sacrificio da ultima concessão. +Estava eu como um doente, que desenganado da cura, pactua com o mal, e +dispõe-se de modo que seja menos o soffrimento no restante de seus dias.</p> + +<p>«Tudo te perdôo!—disse eu a Fanny.»—nunca mais te fallarei dos nossos +eternos motivos de discordia.<span class="pn">{127}</span> Não examinarei o teu +proceder; não te sondarei os sentimentos; tudo te concêdo, tudo acceito, +excepto a abominavel partilha que tanto me fez soffrer, e tão demorada tem +sido. Não posso mais... antes quero vêr-te desgraçada; antes morta; quero +morrer eu. Sê-me leal, supplico-t'o—accrescentei com tristeza—porque me faz +um mal horrivel duvidar de ti.</p> + +<p>—Pois bem, não haverá mais partilha—respondeu Fanny, com um aperto de +mão—não te inquietes, não soffras mais. Quando meu marido voltar, +approveito-me do pretexto dos ultimos insultos para impor-lhe condições. +Viverei completamente separada d'elle em sua caza. E isto, por toda a vida +Roger, socega, sê emfim feliz. Não dependia de mim o seres feliz ha mais tempo. +</p> + +<p>«Restitues-me a vida!—exclamei, lançando-me aos pés d'ella, e abraçando-os. +</p> + +<p>—Querido filho!</p> + +<p>—Liguemo-nos por um juramento.</p> + +<p>A isto sorriu-se ella, mas jurou solemnemente, dadas as mãos, e fixados +mutuamente os olhos.</p> + +<p>«E agora—disse eu—se por qualquer motivo, uma vez só, resolveres faltar á +palavra, juras que me avisarás, para que não haja entre nós traição.</p> + +<p>—Por que queres tu que eu jure.</p> + +<p>«Pela minha vida.</p> + +<p>Fanny sorriu outra vez, mas jurou solemnemente.</p> + +<p>Depois d'isto fiquei totalmente tranquillo. Picou-me n'alma o ciume como a +recordação de um sonho que de tempo a tempo, nos sobresalta. Reapreceu-me a +vida bella e ampla. Confiava.<span class="pn">{128}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>LXV</h2> + +<p>E por isso a chegada do marido apenas me incommodou pela impossibilidade de +me avistar tantas vezes com Fanny. Chegara o estio. Fanny habitava outra vez a +sua casa campestre, e eu ia vêl-a algumas vezes, por noite, no caramanchão da +tapada, e mais vezes vinha ella a Pariz, quando engenhava pretexto para passar +fóra um dia. Mostrava-se mais livre que d'antes, pelo menos as visitas eram +mais delongadas; mas, mais que d'antes, me pareceu pensativa e preoccupada. +Attribui este enleio aos infadamentos procedidos da palavra que me dera. +Entendo que novos debates, novos tormentos a faziam desgraçada; e, lastimando-a +de todo o meu coração, animei-a á resistencia, e consolei-a quanto em mim +cabia. Fanny, porém, denotava constrangimento, suspirava, e acolhia os meus +beijos á flôr dos labios, como se tivesse esfriado em seu amor.</p> + +<p>Estava escripto que tudo, na nossa historia, fosse extraordinario, e que eu +não intendesse nunca o procedimento d'esta mulher. Logo que me eu persuadia de +ter-lhe penetrado a nova tristeza—imputando-a a discordia que o respeito do +seu juramento devia acarear—soube um facto que me atirou, mais que nunca, a um +mar de incertezas.<span class="pn">{129}</span></p> + +<p>Recobrando o repouso do animo, dei-me a um viver menos solitario. Meus +amigos procuravam-me, por que os eu procurara. Interessou-me, de novo, a +sociedade. Um dia, com grande espanto, soube que, a respeito do marido de +Fanny, vogavam boatos escandalosos. Dizia-se que, durante a sua ultima viagem a +Inglaterra, se tinha elle namorado de uma irlandeza que se estreara no theatro +da Rainha; que a tirara da scena; que a chamara para França, havia um mez. +Diziam-se maravilhas da magnificencia em que elle a tinha. Era lindissima, alta +e esbelta como Fanny, mas morena como as filhas do Norte, com bellas côres +rosadas, e finos cabellos sedados que se desenrolavam languidamente em longos +anneis até ao peito.</p> + +<p>Jubiloso de nova tal, fiz tenção de lhanamente contal-a a Fanny, a fim de +fortalecêl-a na resistencia, e ministrar-lhe um terrivel argumento contra o +nosso inimigo, se elle se obstinasse em tormental-a. Nova surpreza me esperava, +que devia sobrelevar todas as mais a prodigiosa altura.</p> + +<p>Fanny, como tantas outras mulheres, atraiçoando seu marido, não queria que +elle a atraiçoasse. Irritada pelo meu ar de triumpho, nem deu credito á +realidade da historia, nem á sinceridade da justificação.</p> + +<p>—Ou mangaram comsigo, ou o snr. forjou uma historia desinfadadamente, para +me atormentar. O que me diz aborrece-me. A grosseria desses sentimentos +enoja-me tanto que não posso perdoar-lhe, faça o que fizer. Saiba que meu +marido ama-me sempre. A tristeza que soffre, de mais o demonstra.<span +class="pn">{130}</span> O juramento que o snr. me arrancou, lealmente o tenho +sustentado. Incumbe-lhe respeitar a minha sensibilidade, cessando de calumniar +um homem que, por causa do snr., é desgraçado.</p> + +<p>Foi tamanha a minha estupefacção, que nem me occorreu a idéa de censurar +aquellas estranhas palavras. Fanny mortificava-me cruelmente fallando-me da +«sua susceptibilidade, do seu juramento arrancado, da minha supposta calumnia» +a proposito da infidelidade exactissima, do homem que eu detestava. Cuidava eu +que Fanny se daria por feliz sabendo que, emfim, espontaneamente, o marido se +afastava d'ella, como ella, desde muito, se afastara d'elle. Esperava eu acções +da graça, e sahiu-me cólera, orgulho offendido, retaliações, que, a meu vêr, +tinham as apparencias todas do ciume. Isto era para indoudecer!</p> + +<p> </p> + +<h2>LXVI</h2> + +<p>Incutiram-se-me suspeitas novas, e estas, mais crueis mil vezes que quantas +me haviam suppliciado. Desta vez, porém, o acceital-as docilmente, não me foi +facil. Intranhara-se-me a desconfiança como vibora no coração, e o germen da +peçonha, que ella ahi revessara, circulava-me nas veias.</p> + +<p>O ciume resurgiu mais abrasado. A só escusa,<span class="pn">{131}</span> +que podia mitigal-o, era imposssivel. Não era já da partilha que eu accusava +Fanny; mas sim da mais rasteira traição. Resolvi esclarecer a incerteza, por +todo o preço. Nada disse a Fanny, fingi-me longe de suspeitas. Menti no rosto +como nas palavras. Affectei consummado comico, a maior liberdade de espirito, +quando me estava a morte no coração.</p> + +<p>Pela primeira vez na minha vida, fui homem. Por mim, e só commigo, fiz +quanto cumpria para descobrir a verdade. Comprei, com um pseudonimo, a casa +contigua á de Fanny. Instalei-me secretamente lá. Todo o dia, cosido com as +portadas das janellas, escutava os menores rumores da casa visinha, e via tudo +que lá entrava, como se estivesse á espera de vêr algum estranho entrar ahi a +roubar-me a mulher que me era a vida. De noite, escoava-me através da sebe de +arbustos que separavam os nossos quintaes, e andava debaixo das janellas de +Fanny, como ladrão que estuda o edificio que quer assaltar. Assim apprendi os +costumes da familia que eu espionava. O erguer, o comer, o deitar, sabia tudo. +Via de manhã os creados abrirem portas e janellas, e ouvia o roedôr dos moveis, +deslocados na limpeza dos quartos e da sala. Ás oito horas, o dono da casa +descia ao jardim, onde encontrava os filhos. Ás nove apparecia Fanny em +desalinho campestre. Dava com elle alguns passeios. Ás onze horas chamava a +campainha ao almoço. Ao meio dia, esperava o <em>coupé</em> á porta. O marido +sahia, e só voltava ás sete horas para jantar. Muitas vezes, depois do meio +dia, vi Fanny assentada na raiz d'uma arvore enorme, que assombrava largo<span +class="pn">{132}</span> ambito, conversar com os filhos, lêr, ou occupada em +algum trabalho de agulha. As visitas eram numerosas. Das tres ás seis horas, +quando estava bonito o tempo, circuitava o grande taboleiro de relva, longa +fileira de trens, cujos cavallos escarvavam na areia, á sombra das arvores, +sacudindo os freios, a tempo que os bandos de senhoras e cavalheiros, +assentados em cadeiras de bambu, riam, e bebiam gelados. Ao intardecer sahiam +todos, e os homens faziam caracolar os cavallos á portinhola das carruagens, ou +reunidos atraz dos trens, caminhavam lentamente fumando os seus charutos. Fanny +recebia-as com uma graça incantadora: variava muito de vestidos, e da minha +janella via eu que as mulheres examinavam detidamente os seus deliciosos +enfeites, ao passo que ella, parecia descuriosa de si, como se sempre estivesse +adornada, sem o saber. Raro sahia de noite, se o calôr não era ardente. O +marido passeava então com ella; mas ordinariamente tornava para Pariz ás oito +horas, e quando tornava, era por alta noite.</p> + +<p>Nos dias em que nos uniamos em Pariz, Fanny entrava no <em>coupé</em> com o +marido.—Qual de nós é o enganado?—dizia eu commigo. Eu montava, e por +travessas, e a galope, chegava a minha casa primeiro, e ahi era tão pouco +preguntador quanto ella era meditativa. Era-o em toda a parte, em sua casa como +na minha. Ao mesmo tempo, os passos do marido, mandava-os eu espiar. Nunca ia +senão ao club, e a casa da amante. Aqui pernoitava algumas vezes. Fallava +n'isso francamente aos seus amigos, e continuava a mostrar-se prodigo com ella +em demasia.<span class="pn">{133}</span> Era um homem prefeitamente feliz. Não +o attribulavam suspeitas nem inquietações: rico, pae de galantes filhos, uma +mulher adoravel. Que lhe faltava? Eu invejava-o.</p> + +<p>Mas não me bastava assistir á vida exterior da familia, cujos segredos eu +queria conhecer. Ao cabo de quinze dias, vendo esteril a minha espionagem, +cancei-me da futilidade d'ella. Obtivera apenas o direito de suppor que Fanny +cumpria a palavra, por que o marido, passeando com ella, parecia exclusivamente +entretido com os filhos. Além disso, a frequencia das visitas que ella recebia, +estorvava-me de vêl-a concentrada em si, tanto quanto eu queria. Resolvi +introduzir-me em sua casa, sem o ella saber. A frieza, com que me estava +tractando, era assustadora. Distrahida sempre. Muitas vezes, com terrivel +commoção, de longe a via, quando se julgava sósinha, cahir sobre um banco, e +esconder n'um lenço, o rosto lavado de lagrimas. Em oito dias, centuplicaram as +minhas suspeitas.</p> + +<p> </p> + +<h2>LXVII</h2> + +<p>Por uma bella noite de agosto é que eu executei o horrivel designio, cujo +exito devia decidir do meu destino. Não sei que hora era; mas, havia muito que +as estrellas radiavam na face do céo a<span class="pn">{134}</span> sua suave +claridade. Abri a ultima janella do primeiro andar da minha casa contigua á de +Fanny, fixei a persiana contra a parede, e resvallei pela rampa; pendurei-me do +varão sutoposto á baranda da casa visinha; fixei um pé na goteira da sacada, +depois o outro pé, e saltei. Estava em casa d'elles.</p> + +<p>Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas precipitadas +pulsações do coração. Perto de mim, uma janella alumiada como um grande +quadrado de luz, branqueava de clarão baço, a parede innegrecida da casa. +Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta janella não estava de toda +fechada. As beiras das portadas tocavam-se, mas deixavam coar uma resteasinha +de luz. Duas cortinas de cassa branca, pendentes diante das vidraças, +deixavam-me vêr todo o quarto através d'um alvadio de leite que esfumava um +pouco os objectos.</p> + +<p>Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre este, +uma corôa de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro que +contrastavam com a brancura dos lençoes. Á esquerda da cama, um tapete +estreito, á direita, uma commoda; ao pé da chaminé uma poltrona de espaldar +muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam lá, mas eu não reparei. +Ao principio, não vi ninguem no quarto, alumiado desigualmente, por um grande +candieiro de cobre, coberto de quebra-luz, que dardejava sobre o pavimento os +raios, deixando o tecto escuro. O leito ficava assim cortado longitudinalmente +pela zona luminosa. Como<span class="pn">{135}</span> quer que eu me chegasse á +vidraça para examinar se elle estava occupado, uma sombra passou lenta entre o +candieiro e a janella, desenhando-se nas cortinas brancas. Pulsou-me o coração +mais rijo. Agachei-me rente com a sala, recuando um pouco.</p> + +<p>Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A viração tepida da noite de agosto, +suspirava á volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre os arbustos; a +terra vaporava odores balsamicos; mas eu não via, não sentia, não investigava +senão elle. Alongando o pescoço para ajustar os olhos á entre-aberta da +janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse para mim coisa extraordinaria +vêl-o de pé n'um quarto de sua casa. Tinha os pés nus em amplas moiras de +marroquim amarello; afivellava nos encontros uma larga calça branca de +flanella. Despeitorado, arregaçado o colleirinho, arremangada a camiza, ia e +vinha pelo quarto, fumando um charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao +espelho, e esticando os braços. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada, +cruzou uma perna sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela. +D'onde eu estava, via-lhe perfeitamente a sola do pé nú levantada ao nivel dos +meus olhos, e o braço carnudo descançado sobre o encosto da cadeira. O outro +braço subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos beiços o +charuto, cujo fumo odorifero se exhalava até mim.</p> + +<p>De repente, voltou a cara para uma porta que eu não tinha devisado, +collocada ao pé do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento obscuro +que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso<span class="pn">{136}</span> +da minha razão, uma fórma vaga alumiada em rosto por um castiçal que ella +trazia.</p> + +<p>Potestades do céo! Era ella! Oh Deus! por que me não fulminaste n'aquelle +momento!</p> + +<p>Entrou vagarosamente, depoz o castiçal sobre a commoda, e, atravessando +longitudinalmente o recinto, foi direita a elle, que a observava tranquillo, e +sem levantar-se.</p> + +<p>Fanny estava meio vestida com aquelle desleixado traje que eu lhe vira +algumas vezes pelas manhãs, quando, ao sahir da cama, passeava no jardim com os +filhos. Era um chambrão muito farto de cachemira azul aberta no peito, entre +flocos de cambraia, deixando vêr o começo dos seios. Sahiam-lhe das largas +mangas os braços nús. Trazia desmanchados negligentemente os cabellos, +apanhados sobre as faces lizas, e apertados por grossos tufos sobre a nuca. +Aquelle eterno porte de placido pudor, lá o apparentava no semblante.</p> + +<p>Mas que vinha ella fazer alli a tal hora? quem lhe pedira isso? Não póde a +recordação do amante retêl-a no limiar d'aquella porta? Dir-se-hia que ella nem +se quer se lembrava de ter jurado, nem lhe passava pela mente a existencia +d'algum homem para ella, senão aquelle que alli estava sentado, encarando-a, +sereno como ella.</p> + +<p>Fuzilou-me na alma um relampago de esperança, mas foi relampago. Abaixado +sobre os joelhos e as mãos, embaciado o vidro pelo meu bafo, senti oscillar-me +os braços como se o balcão estremecesse debaixo de mim. Suor de agonia, acre e +frio, me banhava a face e os membros; rangiam-me os<span +class="pn">{137}</span> dentes, cahi, desfallecido, como arvore tombada ao +ultimo golpe do machado. Mas ouvi palavras; e, repuchando quantas forças tinha, +ergui-me sobre os joelhos e punhos.</p> + +<p>Via-a andar mansamente d'um para o outro lado do quarto. Tocava, vagamente, +e como em distracção nos objectos de sobre os moveis, tal qual costumava fazer +em minha casa. E o marido tendo-a sempre d'olho. Fallavam; mas a minha commoção +só me deixava ouvir um murmurinho. Rodeava-o ella, socegada e perfida, com os +seus azues e suaves olhos, e apparencias de simpleza vaga. A instantes, sorria +um sorriso melancolico. Quiz vêr n'esse rir, que lhe dilatava os labios sem +illuminar-lhe o olhar, alguma coisa forçada. Não se mostrava pensativa, nem +contemplativa, nem commovida. Estava perfeitamente á sua vontade, natural e +tranquilla. Bem sabia ella que a sua grande magia era a irritadora +tranquillidade.</p> + +<p>O marido riu tambem, por sua vez. Vi-lhe o brilho dos seus alvos dentes. +Dava mostras de defender-se ingenuamente d'uma accusação que ella fazia, sem +cólera, mas como uma malignidade gracejadora, que não era isempta de desdem e +altivez. Discutiam tão pacificamente que pareciam nenhum acreditar na realidade +da sua disputa familiar. A final, debaixo da testa quadrada do marido, +brilharam mortiços os olhos; e, quando ella perpassava diante d'elle, +rossando-lhe com o vestido o pé, a decisão foi prompta; calçou a moira; e +tirando brandamente pela cintura da mulher, sem resistencia, fêl-a assentar no +seu joelho.<span class="pn">{138}</span></p> + +<p>Saltaram-me as lagrimas então, lagrimas ardentes, que as palpebras não +podiam reprezar, e desceram silenciosas pelas faces até aos labios. Emfim, +comprehendia tudo; via a profanação, posto que a não quizesse vêr; affirmava +que não era sonho aquillo, e queria duvidar. Não posso exprimir o que então se +apartava de mim, o melhor de minha essencia, e o mal que me fazia vêr aquella +mulher, que eu adorava, nos braços d'outro.</p> + +<p>Fanny continuava sentada com as mãos cruzadas sobre os joelhos, e com os +olhos no marido, conversava serenamente. Nada ha ahi mais casto que a +simplicidade da sua attitude, a pureza do seu perfil, e aquella expressão dos +olhos azues. No entanto elle, comprimindo-a cingida pela cinta, amimava-lhe a +face com a mão livre. A final, Fanny lançou-lhe por sobre o hombro o braço +esquerdo, e pendeu para elle langorosamente. Vi-lhe então as costas, cobertas +de tranças dos cabellos, e o vestido fazia roda por largo espaço com impudor +esplendido. Oh! como a abominavel creatura cheia de graça e lascivia se +aconchegava d'aquella espadua robusta!</p> + +<p>—É impossivel aquillo!—gritei eu em minha consciencia.—Não ha-de ser +assim!—Mas elle abraçou-a, collando a boca espessa ás puras faces d'ella, e +não sei o que lhe disse a meia voz. Fanny fez um gesto negativo com a cabeça, +muitas vezes, sem córar. Elle, por cortezia, insistiu sorrindo, e ella, +resistindo, pouco e pouco se rendia! Mulher scelerada! como ella prolongava o +meu supplicio! O debate mudo, durou algum tempo. Não sei como foi<span +class="pn">{139}</span> que o sinto se lhe despregou, e rolou nas dobras do +vestido. E eu chorava sempre. Levantou-se ella em fim, aquella mulher de +resplendores e flôres, e, por um só movimento de braços e hombros, fez +escorregar o chambre até aos pés. Eu cahi de joelhos, e ergui as mãos, como a +exorar piedade. Ella tirou com afan, os pés do monte de estofos, e, um tanto +pallida, mas em silencio, caminhou para o leito, achegando ao peito as ultimas +coberturas. Quantas vezes a vira eu assim impallidecer! Cravei as unhas no +rosto. O marido ia depós ella, vagarosamente.</p> + +<p>E eu sem uma arma! Eu queria immediatamente estrangulal-a, espedaçal-a, +ingolphar meus braços nas entranhas d'aquella mulher estupida. Com todo o +sangue d'ella, não se apagaria o ardôr da minha tortura. Arquejante como o +tigre, que vê a garra do leão cravada na sua preza, ergui-me a prumo, ferrei as +unhas contra os dentes, escorria-me o suor da face, soluçava, como em arrancos +de morte, estrebuchava, e via os horrores d'aquelle quarto.—Piedade! +piedade!—foi o meu grito! E furioso, e perdido, avançara um passo! mas os +cabellos heriçaram-se-me, e os olhos saltavam-me das orbitas, e a minha vista +acerada entrou como um punhal nos cortinados sombrios, e vi... vi tudo! Quiz ir +ávante, e não pude. A punição pregava-me os pés á balaustrada, e de minha bôca +sahiam gargalhadas de demonio. Que horror! Eu testemunha d'aquelle espectaculo, +a rir, como um doudo, a comprazer-me d'um jubilo que não tem nome nas linguas +humanas! Tentei de novo avançar, por que ouvira<span class="pn">{140}</span> +suspiros, e queria saber qual das duas bôcas os exhalavam. Por um esforço +prodigioso dos meus musculos todos, cheguei a despregar o hombro da parede, e +dei ainda um passo; mas por que ao coração intumecido me refluira todo o +sangue, perdi o equilibrio, e cahi como um pezo inerte sobre o balcão.</p> + +<p> </p> + +<h2>LXVIII</h2> + +<p>Quando cobrei o alento, estava a janella fechada e apagada a luz. Corri as +mãos sobre os vidros impenetraveis. Corri a baranda em toda a sua extenção; +tudo apagado, tudo fechado, dormia tudo. Dominava-me uma raiva glacial. Á custa +de tudo, eu queria remirar esta mulher que eu detestava com o coração, com a +alma, com os sentidos, com todo o meu ser. Mas ir até ella, como? Pendurei-me +na rampa, e deixei-me cahir ao jardim. Rodiei vinte vezes a casa, empurrando +todas as portas; mas a minha fraqueza não podia com ellas. Finalmente, +atirei-me ao chão, e ahi, com o rosto entre as mãos, desafoguei-me em soluços. +</p> + +<p>—Trahido! trahido!—bramia eu, com monotonia desesperadora.—E o céo +impassivel!—De subito ergui-me, e, sem idéa fixa, atravessei as trévas, rapido +como se me viessem perseguindo assassinos.<span class="pn">{141}</span> +Precorri a tapada; saltei o muro, atravessei a estrada, entrei nos campos, e a +correr sempre, com a cabeça nua, chorando e fallando sósinho, atirei-me como um +attribulado gamo, que foge com os dentes de matilha feroz incravados nos +flancos.</p> + +<p>Onde ia eu? não sabia. Fugia áquelle espectaculo. Salvava-me a todo o +correr, para o mais longe possivel, para não vêr a imagem horrenda que me +ficara nos olhos. Trahido! Trahido! era o grito que me esporeava, e excitava a +fuga. Despenhei-me em barrancos. Levantava-me ferido, coberto de suor e lama, e +corria de novo, sem destino, por escuridade pavorosa. Lancei-me +desamparadamente em cancellos insilveirados; deixava-lhes os meus vestidos a +pedaços, e caminhava. Esgalhos de arvores batiam-me no peito, raspavam-me a +face e os hombros os tojos lacerantes; parava a chorar e depois caminhava. +Atravessei as ruas dezertas das aldeias, que resoavam sob os meus passos; +campos cultivados, cujas searas me ondulavam nas pernas como vagas; collinas, +bosques, regatos, atalhos, estradas que desfilavam á roda de mim, como se o +solo fosse arrastado commigo no arremeço d'um sorvedouro immenso. Faltava-me a +respiração, e eu corria ainda, chorando, chorando sempre.</p> + +<p>—Ó minha mãe!—bradei eu.—Se soubesses quanto eu soffro!</p> + +<p>De repente, achei-me com os pés em agua. Ante mim, distendia-se um vasto +espaço negro, uniforme, entranhado nas trevas, d'um lado e d'outro, com grandes +e mysteriosos zunidos. A lua dardejando de viez o seu reflexo argentino, sobre +esta superficie<span class="pn">{142}</span> luzente, parecia serpente enorme +assanhada contra mim, para engulir-me. Involvia-me o nevoeiro. Avancei +tropeçando nas pedras, mas os jactos d'agua da torrente rapida, embargavam-me o +passo. Horrida tentação me assaltou. Contemplei o céo sereno, onde brilhava, +entre nuvens immoveis, o dôce astro dos amantes; puz a mão sobre o coração, e +caminhei. Dava-me a agua pelos joelhos, mas sentia sempre o chão lodento em +redor dos meus pés que escorregavam. Não podia mais. Vergado á fadiga e á +commoção, soluçando como as mulheres, cahi, e fui arrastado na torrente que +marulhava em sua marcha obscura.</p> + +<p> </p> + +<h2>LXIX</h2> + +<p>O que decorreu depois d'isto, não sei.</p> + +<p>Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante. Sentia +abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo peso das aguas. +Por fim, esqueci tudo; entendi que morria.</p> + +<p>Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabeça em fogo. Abri os +olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo, desde a cabeça +aos pés, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois amigos observando-me. +Fallei, e elles abanaram a cabeça. Veio um homem, e tomou-me<span +class="pn">{143}</span> o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a +tremer. Isto durou muitos dias.</p> + +<p>Depois soube que uns pescadores me tinham, de madrugada, encontrado sem +sentidos, nas margens do Sena, com a cabeça envazada no lôdo. Buscaram-me as +algibeiras, e acharam na minha carteira uma carta, e, guiados por ella, me +trouxeram a minha casa. Delirei no caminho, e tiveram-me em conta de doido. +Estava-o, realmente.</p> + +<p>Fanny, porém, ignorante de tudo, admirada de me não vêr, veio uma manhã; mas +o meu creado, a chorar, impediu-lhe a entrada no quarto, e contou-lhe o que +sabia. «Quiz afogar-se—disse elle—e agora está doido»—Ella, porém, não quiz +crêr no suicidio, e supplicou a entrada. N'esse dia, um abatimento sem nome, +semelhante ao dos cadaveres prostrados em seus sepulchros, me tinha como +pregado pelas costas ao leito, com os braços alquebrados e os olhos abertos. De +repente, devisei na porta, que se abriu ao pé do meu leito, uma fórma humana, +de pé e quieta.</p> + +<p>Não atinei logo com quem fosse aquella mulher que me vinha vêr moribundo, +adornada de trajos de estio tão elegantes e frescos, com braceletes nos braços +e flôres no chapéo: tambem não entendi por que chegava com ambas as mãos o seu +véo branco ao rosto. Os meus amigos tinham-se retirado para o fundo do quarto, +afim de respeitar, quanto fosse possivel, um segredo que não queria ser +penetrado. A mulher adiantou-se até á minha cama, e eu ouvi-lhe o fremito do +vestido. Curvou-se-me sobre o leito, e levantou o véo. Como que senti +refrigerar-se-me<span class="pn">{144}</span> a alma, de vêr sobre o meu rosto +aquella face viçosa cheia de graça, e como perfumada de saude.</p> + +<p>Fanny! exclamei subitamente, erguendo os braços. Fanny abaixou-se a soluçar +sobre o meu peito. Mas a memoria restaurara-se com o conhecêl-a; levei-lhe á +face os punhos fechados, e repelli-a de mim, gritando furioso «sai d'aqui!» +Ella acreditou que eu estava doido, e arredou-se chorando; mas com um resto de +força que a raiva me déra, bati-lhe no hombro, e, ao lançar-me fora da cama, +cahi por terra aos pés d'ella.</p> + +<p> </p> + +<h2>LXX</h2> + +<p>Quando sahi do lethargo, suppliquei, de mãos postas, aos meus enfermeiros, +que não deixassem entrar em minha casa aquella mulher.</p> + +<p>Ella, porém, que não podia suspeitar o succedido, e continuava a crêr na +minha demencia, vinha todos os dias—disseram-m'o depois, e todos os dias com +gestos afflictivos, sollicitava vêr-me.—O medico não consente—respondia +inflexivel o meu creado. Fanny offerecia dinheiro e prendas; mas comprehendendo +a final que a sua presença podia matar-me, retirou-se, pedindo a Deus a minha +cura, e offerecendo-lhe, em troca da minha, a sua vida.<span +class="pn">{145}</span> D'isto não sabia eu nada então. Decorriam os dias, e, +por desgraça minha, graças aos disvellos que me rodeavam, a vida pouco a pouco +affluiu apagando a febre.</p> + +<p> </p> + +<h2>LXXI</h2> + +<p>Ao cabo de seis semanas entrei em plena convalescença. Já os amigos me +tinham deixado. Perguntou-me, muitas vezes, o creado, se eu queria receber +aquella pessoa que tanto parecia amar-me, e cuja presença tão mal me fizera uma +vez. Sempre com repellão lhe disse que o expulsava se a deixasse entrar. O +desejo, porém, de a vêr, entrou commigo, e tornou-se emfim n'uma irresistivel +necessidade. Fiz fallar o creado sobresaltado, que não intendia a minha frieza. +Contou-me tudo que eu não sabia; que ella vinha diariamente, e elle já não +sabia que dizer-lhe, para estorvar-lhe a entrada. Se ella vier hoje,—murmurei +eu impetuosamente, corrido de vergonha,—recebo-a.</p> + +<p>Sentia-me eu abalado como se alguma funesta esperança tentasse renascer em +mim. Com o abatimento da molestia, quasi que a cólera se desvanecera; mas +ganhara-me uma dôr intensa, e eu assentava—tamanho desgosto era o meu por +tudo—que não podia viver. Aquella noite terrivel da traição,<span +class="pn">{146}</span> lembrava-me como um sonho máo. A um tempo, amava e +desprezava a mulher graciosa e perfida, cuja imagem era commigo sempre. O que +eu esperava para acabar com tudo, era alguma cousa indelineavel.</p> + +<p>Estava eu sentado n'uma poltrona, ao pé da minha janella, com os olhos +fechados, repassando no animo o que eu diria á prejura, quando senti +apertarem-me a mão, e misturarem-se n'ella os beijos com as lagrimas. Abri os +olhos. A meus pés, de joelhos, livida, mas formosa ainda, formosissima, estava +Fanny, olhando-me com eloquente ternura. Senti o perfume d'ella. Nada diziamos. +Eu sei que chorava.</p> + +<p>Fanny ergueu-se, abraçou-me maternalmente a fronte e os cabellos, com os +seus dois braços nús. Não resisti, porque me era aprazivel receber aquellas +caricias, a que eu tinha direito, em quanto não fallasse. E por isso mesmo é +que não fallava. Finalmente, como eu chorava sempre e a não abraçava, Fanny +disse:</p> + +<p>—Foi-se o teu amor, Roger?</p> + +<p>—Ainda não—respondi, tapando o rosto com as mãos. Ella não intendeu, e +deteve-se em pé e agitada defronte de mim.</p> + +<p>—Fanny, diz-me que é um sonho, ou que estou doido. Diz-me que não devo +odiar-te, porque este odio dilacera-me.</p> + +<p>Não córou. Não impallideceu. Pura como a chamma, e crendo-se talvez ella +mesmo pura, amimou-me internecida, com apparencias de admirada.</p> + +<p>Foi então que eu, reunindo as minhas forças todas,<span +class="pn">{147}</span> a tomei pela cintura gentil em meus braços, e a fiz +sentar defronte de mim. E disse-lhe:</p> + +<p>—Sei tudo.</p> + +<p>«O que? tu que sabes?</p> + +<p>—Vi tudo.</p> + +<p>«Mas que?</p> + +<p>—Porque me trahiste? Tu não cedeste, porque foste tu quem o procurou, não +foi elle a ti. Foste tu, que trocando despejadamente o papel, o seduziste a +elle.</p> + +<p>Fanny não perdeu ainda a côr, e quiz fallar. Eu, porém, com os olhos +cravados n'ella, sem cólera, e frio como o aço, continuei:</p> + +<p>—É necessario dizer-te tudo? Não merecias confiança. Comprei a caza vizinha +da tua, em Chaville...</p> + +<p>Aqui, impallideceu, e disse:</p> + +<p>«E depois?</p> + +<p>—Uma noite, horrivel noite!... depois de te espiar em vão quinze dias, +arriscando a minha vida, consegui introduzir-me sobre o balcão da tua casa. Não +sei que hora era. Ajoelhado por traz da vidraça do quarto de teu marido, pude +vêl-o. Como te vejo agora, tudo vi. Estava elle só. Entraste...</p> + +<p>«Isso é falso!» exclamou Fanny, mais horrivelmente pallida. Semelhava um +cadaver sentado n'uma cadeira defronte de mim.</p> + +<p>—Será preciso dizer mais?—accrescentei.—Vestias um chambre de cachemira +azul. Trazias os cabellos em desalinho, e o peito nú. Calçavas chinellas de +setim. Nús, trazias os braços. Serena como sempre, no momento mesmo em que +prejuravas,<span class="pn">{148}</span> não amaldiçoaste aquelle que vinhas +saciar, por que ha em ti dois corações, para amar dois homens, Fanny, a elle, e +a mim.</p> + +<p>Fanny sacudiu rapidamente a cabeça, e disse com voz abafada:</p> + +<p>«É falso! é falso! tu não me conheces!</p> + +<p>—Será preciso dizer mais?... Exprobraste-lhe a traição, que é certissima. +Defendeu-se elle, a sorrir. Tu, cem vezes, passaste diante de teu marido, por +que querias fascinal-o, sem lh'o dar a intender, com os teus exteriores +pudibundos. Sahiu-te tudo ao pintar, por que elle puchou-te para sobre o +coração, e tu deixaste-te sentar sobre os joelhos, e nem de mim te lembravas, +de mim, a agonisar, com aquelle espectaculo diante...</p> + +<p>«Basta!»—exclamou Fanny, e ficou a olhar para mim. Parecia soffrer +horrorosamente; mas não chorava. Dilatavam-se-lhe as pupilas, e crispavam os +labios resequidos. Com pena d'ella, baixei os olhos, mas accrescentei:</p> + +<p>—Sabe que eu estive ali, eu, que te adorava, e é de crêr que a vergonha e a +dôr não matem, por que eu vi tudo, e não morri.</p> + +<p>Como duas estatuas fronteiras, nas bordas d'um jazigo, assim ficamos em +contemplação, e immoveis. Por fim, disse ella:</p> + +<p>«Eu devo fazer-te horror!</p> + +<p>—Fazes.</p> + +<p>Ergueu-se, levantou as mãos ao céo, lançou-se a mim, como sobre uma preza, +apertou-me entre os braços, sentou-se-me nos joelhos, peito a peito, e a +buscar-me os labios, com estas exclamações:<span class="pn">{149}</span></p> + +<p>—Não importa! eu adoro-te sempre.</p> + +<p>Mas eu, levantando-me, sacudi-a, e atirei-a ao chão, e ella ahi ficou. +Abismada a meus pés, como a Magdalena, soltas as tranças, nodados os braços aos +meus joelhos, desfeita em pranto, exclamava:</p> + +<p>«Perdão! piedade! Eu tinha perdido o juizo! estava doida! mas amo-te sempre! +Tem compaixão de mim.</p> + +<p>E prometteu submetter-se a tudo que eu exigisse d'ella. Propôz-me a fuga, +bradando:</p> + +<p>«Mata-me, e não me repulses! Esmaga-me aos teus pés. Sou culpada, mas não me +abandones. Amo-te. Rasga-me o coração...</p> + +<p>Fiz que se erguesse e sentasse. Estava corada, e escondia o rosto; mas eu +sentia-me impiedoso. Recrudescera o meu furor com a narração do meu supplicio. +Voltei as costas áquella mulher, cuja soberba, por tanto tempo me mentira. +Ainda assim queria ella violentar-me, estendendo para mim os braços; mas +fiz-lh'os recuar á face, com um gesto.</p> + +<p>—Sabe que te detesto e adoro—disse-lhe eu—É isto o meu castigo, por que +eu fiz minha, a mulher d'outro, e devo ser castigado. Tu, para mim, és uma +deshonra, e mais nada. És um idolo attascado em lama. Vi-te, em attitude +pudica, com o rosto angelical, e olhar infantil; vi-te grotesca e disforme, +raivar e uivar, como a loba mordida pelos cães. Cala-te! tu fizeste peor que as +creaturas com quem esse homem hediondo te compara: essas, ao menos, não mentem. +</p> + +<p>«Mas elle é meu marido!—disse Fanny.</p> + +<p>—Não tens consciencia? Diz-me com franqueza<span class="pn">{150}</span> se +é certo seres tu um ser intelligente, e se uma idéa dirigiu a tua acção +funesta. Quem te obrigava a ir procural-o?</p> + +<p>Fanny, com grande esforço, respondeu:</p> + +<p>«Eu via que elle se desprendia de mim. Não o amo, por que te amo, mas +dependendo d'elle. Não é natural? Repartida entre o desejo de conservar sua +affeição, e o receio de ser forçada a mostrar-lhe uma affeição semelhante, quiz +segural-o quando me fugia, e, quando se approxima, é escusado tentar eu +fugir-lhe. Cedi ao dever. Reciei que me deixasse. O temor de me vêr abandonada +com os meus filhos, inlouqueceu-me. Perdoa-me. A mulher, que elle conheceu em +Londres, é a causa de tudo. Eu preciso de paz, socega-me tu. Fiz mal, por que +te amo; mas sou mulher, e tu não conheces as mulheres. Não calculas quanta +honestidade pode haver nas traições d'ellas.</p> + +<p>—E o teu juramento?—exclamei. Fanny contorcia as mãos afflictivamente. Eu +prosegui:</p> + +<p>—Mentes, quando dizes que cedeste ao dever. Não cedeste senão ao orgulho. +Intristecia-te o ser abandonada por esse homem que não amas, e te não ama, e te +opprime, e te despreza e insulta. Não cedeste tambem á sêde d'um prazer +abominavel? Repito-te que ouvi tudo.</p> + +<p>Neste conflicto, encontraram-se os nossos olhos. Fanny fez-se escarlate, +quiz fugir, tornou para mim, e cahiu de joelhos, exclamando:</p> + +<p>«Se soubesses quanto eu me abomino! Eu queria arrancar o coração deste +corpo. O meu coração está puro. Vêr-te, ouvir-te, sentir-te ao meu<span +class="pn">{151}</span> lado, bastára-me sempre. Por isso mesmo que te amo, é +que tu és o unico ente, mais que homem para mim. Tu és neste mundo o meu amor +unico. És a minha vida.</p> + +<p>—Amas-me!—bradei eu com raiva.—Mas de que modo me +amas? Acima de mim, em +teu coração tão puro, estão vãs considerações do mundo, razões de sociedade, +costumeiras mesquinhas, está teu marido. Não me falles de teus filhos. Que amor +é aquelle que não conhece a virtude dos sacrificios? que recua diante de +qualquer respeito? que é limitado? que soffre prescripções? que não é uma +abnegação absoluta do individuo, de todos os seus pensamentos, e affectos, e +deveres e virtudes? Quem se perde pelo ente que ama, e destroe a honra e +segurança do seu futuro, e chega, por amor delle, até ao crime, e se tortura a +inventar maiores provas ainda, não dá o mais radioso testemunho da paixão +exclusiva, intolerante, e soberba. Tu nunca soubeste que o amor não vive senão +de si, e nada reserva fóra de si. Renegado sublime, piza os mais santos +objectos, forte da felicidade que inventa, e que lhe justifica a +impassibilidade. Porém, tu! mulher das dedicações mesquinhas, das virtudes +pequenas, dos deveres timidos, chamas loucura a tudo isto. É alto de mais para +ti! a tua vista não alcança tanto. O que tens, superior a ti, é a tua casa, é o +teu bem-estar, é o luxo que te cerca, é a falsa estima do mundo que tanto se dá +de ti como das outras, são as relações banaes, é um complexo de coisas +miseraveis. E dizes que me amas! Supportarias tu o abandono da sociedade?<span +class="pn">{152}</span> Offereci-te tudo que tinha; dar-t'o era a minha +felicidade; para ti roubaria eu os indigentes. Ainda assim, aceitarias tu o +menor incommodo como preço da minha felicidade? Não ultrajes, pois, o amor, a +paixão soberanna, que não quer ouvir em redor do seu throno, uma voz que não +seja a sua. Crês que amas por te haveres entregado? Vai, já te disse que vi +tudo. Estavas com elle como commigo. Custou-te tanto a passar dos meus braços +para os delle como d'um vestido para outro.</p> + +<p>Fanny, ergueu-se desesperada, e quiz partir; mas eu retive-a, atirei-a para +o fundo da alcova, e collocando-me diante da porta, com os braços cruzados, +exclamei:</p> + +<p>—Hasde ouvir tudo!</p> + +<p>Faltou-me a expressão. Arquejava de anciedade. As minhas palavras eram +gritos. Cerrei os punhos em postura ameaçadora; Fanny olhava-me de revéz com +inexpremivel terror. As palavras vieram, depois, impetuosas:</p> + +<p>—Eu nunca tive crença em ti. Tanta certeza eu tinha de que me atraiçoavas, +que, por minha desgraça, quiz conspurcar o nosso amor. Sabe-o, se nunca o +supposeste; sabe que eu, teu adorador, atraiçoei-te com as mais rasteiras +mulheres.</p> + +<p>Fanny não me acreditava. Attribuia á impotencia do furor o que eu dissera, e +fez um gesto de denegação soberba. Máo grado meu, repassado de angustia, fallei +n'um tom de voz supplicante, e branda. Toda a minha cólera cahiu sob o pezo da +piedade.</p> + +<p>—Sabe, pois, murmurei eu com as mãos erguidas,<span class="pn">{153}</span> +que eu te amava ao mesmo tempo com amor de mãe, de mulher, de creança. Quanta +piedade, respeito, e ternura que podem resumir-se em amor no coração, quantas +delicias, tocam a divinisação pela maviosidade, todas senti por ti, desde o +primeiro dia em que te vi passar com tuas graças, com a tua serena suavidade, +com a tua formosura. Sabe que te adorei piedosamente; que só em ti pensava; que +eras a minha segunda alma; que me doiam mais teus males que os meus; que, por +desvanecer-te do animo uma incerteza, teria dado, risonho, a vida, que eu +só +amava por que te era aprazivel. Vê que choro. Tudo que era teu, amei: teus +filhos, tua mãe, tua casa, teus creados; as irregularidades irritaveis do teu +caracter, os teus vestidos, e as tuas rendas. Creio até que o amava a elle, por +que, em meu espirito, a tua imagem andava associada á d'elle. Nem minha mãe +amei como a ti. Por ti, têl-a-hia abandonado, com tudo que venero. Eras o meu +eterno espirito, o meu bem mais caro, a imagem perfeita das coisas puras.</p> + +<p>«Perdão!» exclamou ella, recahindo de joelhos.</p> + +<p>—E tu, Fanny, calcaste aos pés este respeito, este amor incomparavel, este +coração...</p> + +<p>«Piedade!</p> + +<p>—Recalcaste-me como a féra impassivel que esmagou com as garras as +primeiras flôres do campo. E agora... aqui me tens sem futuro, como um +desgraçado que não pode amar alguem, como o ancião, que viu em roda de si, +morrerem todos os seus. Tudo feneceu, tudo apodreceu em meu coração. Estou +velho! tenho cem annos! vou morrer!<span class="pn">{154}</span> sou um +sepulchro! Tu sabes de mais que estou sósinho no mundo...</p> + +<p>«Piedade! perdão!—exclamou Fanny, indo hallucinada, esbarrar nos moveis e +nas paredes.—Não me digas que és desgraçado!</p> + +<p>—Oh! desgraçado! e não digo bem o que sou. A lingua não tem voz que o diga. +</p> + +<p>Ingrata! Não te bastava ser senhora da minha alma, do meu coração, da minha +vida; vens ainda tirar-me o que eu mais amava no mundo... a estima de ti... que +me era mais que tu mesma!</p> + +<p>«Piedade! piedade!»—continuava ella exclamando.</p> + +<p>—Assassinaste-me a mocidade. Pois bem! ouxalá que nunca soffras o que eu +estou soffrendo... Adoro-te, e horrorisas-me!</p> + +<p>Dito isto, quiz feril-a e abraçal-a ao mesmo tempo; mas cahi desfallecido: +e, por noite, quando abri os olhos, e a procurei no quarto ás apalpadellas, não +a encontrei.</p> + +<p> </p> + +<h2>LXXII</h2> + +<p>No dia seguinte, senti-me saciado de vingança. Experimentava aquella especie +de serenidade cruel, que segue as execuções supremas. Sentia-me satisfeito, em +fim, como o juiz que tem em seu poder a irrecusavel prova do crime que +puniu.<span class="pn">{155}</span></p> + +<p>Já me não afligia o pensar n'ella. Não obstante, eu previa lucidamente os +graves desgostos da sua vida.</p> + +<p>—Soffrerá longo tempo, e depois odiar-me-ha. Incadeada sob o jugo, debalde +tentará soffrêl-o corajosamente. A resignação desdiz do caracter d'ella. Outro +virá, mais tarde, substituir-me. Se a não amar, será despresado. Amando-a, +repetir-se-hão immediatamente, e com as mesmas phrazes—identicas luctas, as +mesmas perfidias, iguaes torturas. Emquanto viva, Fanny perseguirá fatalmente a +sua chimera. O amor ideal que a arrasta não se dessipará mesmo nos gelos da +idade; quando as rugas sobrevierem a provar-lhe que tudo é mudavel na terra, +ella continuará a evocar o phantasma d'uma paixão que foi e será sempre o seu +supplicio. Ha-de apartar-se da sociedade, como os soldados feridos no fogo de +vinte pelejas. Como elles, afastada de tudo, saciada de tudo, tirará commoções +para uma vida nova no mysterioso poema das suas remeniscencias. Os filhos, que +adora, não a consolarão. Quem sabe se virão a desprezal-a?... Condemnada a amar +por egoismo, não se fará feliz a si, nem a outrem. Impotente para o bem, +ser-lhe-ha martyrio eterno o procural-o. Para a felicidade propria, +faltar-lhe-ha sempre um vicio; para a felicidade alheia, faltar-lhe-ha sempre +uma virtude. Tem coração de mais, e coragem de menos.</p> + +<p>Dest'arte, julgava eu, de longe, aquella mulher que eu, por ultimo +conhecera, á custa da minha ventura. Não posso dizer que a lastimava. Com +quanto me sentisse prostrado de fadiga, a irritação<span +class="pn">{156}</span> surda, contra ella, era immensa. Como se annos e annos +medeassem entre nós as suas barreiras, eu me sentia separado d'ella, mas ainda +a sentia viver em mim. Era-me a memoria d'ella, como o ferrete aberto com ferro +em braza. O estygma intalhado a fogo no coração, não podia eu, forçado do amor +desvanecêl-o.</p> + +<p> </p> + +<h2>LXXIII</h2> + +<p>Se, porém, julgando-a, me não compadecia d'ella, era-me impossivel pensar em +mim, sem padecer em todas as fibras do meu ser. Quanto amor eu tinha, quanta +affeição filial, ternura piedosa, e veneração, exhalava-se de mim como vapores, +e dissolvia-se em lagrimas amargas, que eu tragava, sobre a cruz onde a sorte +immisericordiosa me cravára. Estorturava-se, este amor, como joven robusto que +saboreou a vida e não quer morrer. A affeição de filho, que eu naturalmente lhe +dera, por causa da differença de nossas idades; a piedosa ternura que ella me +inspirava, como um bem suavissimo; a veneração, em summa, que lhe era a ella um +incenso grato, isso tudo, o melhor de minha existencia, desfazia-se em meu +coração, e evaporava-se lentamente em caricias de effluvios e perfumes. Qual +viajor, surprehendido, ao despertar, nas steppes infinitas<span +class="pn">{157}</span> da Asia, por um turbilhão fluctuando raso com o chão, +tal eu me sentia perplexo nas minhas revoluções, prudencia, e coragem. Em redor +de mim tudo se movia vagarosamente, derramando-se em fórmas confusas: fugia +tudo; memorias queridas, votos superfluos, ternos desejos, pezares, aspirações, +tudo se esvahia nas distancias do meu sonhar, e me deixava, sósinho, n'um +grande espaço. E desse turbilhão nevoento de sensações, vontades, e habitos; +densas oscillações impalpapeis de penas, prazeres, e esperanças, prolongadas +até ao extremo limite que meus olhos viam, surdia emfim um phantasma enorme que +subia, subia até ao céo, tristemente involvido em pallida mortalha. Este +phantasma reconheci-o na amargura que tinha impresso na face assombrada, no +atrophiamento da sua attitude, na sua mudez, no rir amargo que lhe circuitava +os labios descorados. Ah! uma vez o tinha eu já visto crescer para mim, e me +sentira estalejar com elle nas dobras de seu sudario. Vinte annos tinha eu. Foi +quando perdi minha mãe, e da sepultura d'ella, revolvida de fresco, sahia e me +aferrara nos braços a glacial <small>SOLIDÃO</small>.</p> + +<p>Eu chorava. Tudo estava em redor de mim fallando-me d'ella. Todo o mal que +me fizera, esqueci-o. Mil vestigios deixára Fanny n'aquelle quarto que eu +preparava amorosamente para recebel-a. N'aquelle tecto que lhe cobrira a +cabeça, nos tapetes pisados por ella, nos moveis que tocaram suas roupas, em +tudo me apparecia serena e consoladora. Aqui me abria os braços de veludo, a +poltrona onde ella se assentava tantas vezes; ali a molle<span +class="pn">{158}</span> pegada do seu sapato, no coxim em que ella descançava +os pés; acolá, resequidas, nos vazos chinezes, desfolhando-se tristemente, as +flôres que ella amava; além, as cortinas que ella tantas vezes levantava com +sua mão timida; ali, se move ainda o pendulo do relogio, para o qual ella +estava olhando sempre; aqui, o véo d'ella, aqui as cartas, seus dôces reflexos; +além, o pente embalsamado com o perfume dos seus cabellos; e acolá, finalmente, +frio e cerrado como um tumulo, o leito onde tantas vezes chorávamos.</p> + +<p>Agora, me assoberbava a memoria, tudo o que dissemos, pensamos, e esperamos. +Como longinqua musica, trazida na viração do mar, soava-me nos ouvidos o cantar +de suas palavras; como emanação de flôres que se evapora com o orvalhar das +noites, deliciava-me o olfacto, o perfume de sua cutis olorosa; como bafejo de +primavera, perpassavam-me nos labios os effluvios de seus beijos. Ardia-me a +mão que ella tocara; ardia-me a fronte que ella afagara em seu seio; ardiam-me +os olhos que ella adorara, a boca em que a sua apremara nas vertigens da +paixão, o peito que ella duplicara com o seu peito. Oh! que prazer me era +sorrir-lhe ao retrato, e remecher nas cartas d'ella! Affigurava-se-me ouvil-a +ainda; esperal-a ainda, como nos dias passados; vêl-a chegar assustada, como a +cerva dos bosques, a esconder-se em meus braços. Mas, ao mesmo tempo, não sei +que vaga essencia se desprendia de mim em soluços e gemidos. Quebrantava-me uma +tristeza profunda; uma lethargia sem nome paralisava todas as minhas idéas. +Meditativo,<span class="pn">{159}</span> como póde sêl-o o homem no leito da +morte, eu dizia commigo:—Acabou tudo! não nos tornaremos a vêr, nós, que tanto +nos amamos!...</p> + +<p> </p> + +<h2>LXXIV</h2> + +<p>Era tamanha a minha tribulação, que eu receei succumbir á paixão. A imagem +d'ella, entrava em todas as minhas meditações. Como não podia arrancal-a da +memoria, fugi com ella, precipitadamente, sem voltar o rosto, como o incendiado +que não quer ouvir os gritos de maldição sahidos d'entre as chammas accendidas +por sua mão cruel. Parti, sem dizer onde ia, para partir, para me afastar. A +minha mesma coragem me apavorava. Mas a memoria ia commigo, chorava commigo. +Cançado um dia, da vista dos homens, deixei os caminhos trilhados, e +intranhei-me, ao norte, nas areias que bordam a foz do Loire. Caminhei trinta +horas sem parar. Ao anoitecer, apeei n'um deserto, e resolvi acabar ahi...</p> + +<p>Não queria porém, eu, que ahi dissessem que irreflectidamente me suicidara +como um louco, ou como creança infraquecido na lucta. Apozentei-me, pois, aqui, +para luctar contra mim mesmo, e vêr se a cura me póde ser ministrada por um +hospede menos frivolo que a morte. Impuz-me o prazo d'um anno, para viver uma +vida differente, só, meditativa,<span class="pn">{160}</span> austera. Estou +resolvido a esperar até final. Algumas vezes, detesto-me, e todavia espero. +Fio-me não sei de que. Amo, como nunca amei, a mulher que me reduzio a isto. +Não a desprezo já. Absolvo-a. Eu teria feito o mesmo, se fosse ella, e affirmo +que valem menos que ella, as que de outro modo se comportassem. Mas ha momentos +em que a detesto, e me arrependo de a não ter esmagado. Assim, e +incessantemente, vou d'um extremo de amor e piedade, ao outro extremo de furor +e odio. Oh! amar! que supplicio!</p> + +<p>As forças da minha alma estão extinctas. Já me não pulsa o coração. Hoje +principalmente, que dou fim aos traços do drama da minha vida, sinto a tentação +terrivel de completal-o com um sanguinario epilogo.</p> + +<p>Mas, porque ha-de ser aqui, e não ha-de ser além ao pé d'ella? É porque me +resta ainda o pudôr d'um ciume feroz, que não quer ser carpido. Qual +besta-féra, que, ferida de morte, procura uma caverna onde morrer em paz, e +esconder seus ossos; assim eu, se devo morrer, quero que seja n'um deserto, +longe d'aquella que eu amei de mais.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">FIM</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +</div> + +<div style="text-align:center;"> +<p>PARCERIA</p> + +<p>A<small>NTONIO</small> M<small>ARIA</small> P<small>EREIRA</small></p> + +<p>LIVRARIA-EDITORA</p> + +<p>OFFICINAS</p> + +<p>TYPOGRAPHICA <small>E DE</small> ENCADERNAÇÃO</p> + +<p><small><em>MOVIDAS A ELECTRICIDADE</em></small></p> + +<p>44 a 54—Rua Augusta—44 a 54</p> + +<p>LISBOA</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Fanny: estudo, by Ernest Feydeau + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FANNY: ESTUDO *** + +***** This file should be named 30571-h.htm or 30571-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/5/7/30571/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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