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+The Project Gutenberg EBook of Colonização de Lourenço Marques, by
+Alfredo Freire de Andrade
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Colonização de Lourenço Marques
+
+Author: Alfredo Freire de Andrade
+
+Release Date: November 21, 2010 [EBook #34388]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COLONIZAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES ***
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+
+
+Produced by Pedro Saborano
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+ Alfredo Freire d'Andrade
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+ COLONISAÇÃO
+
+ DE
+
+ LOURENÇO MARQUES
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+
+
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+ PORTO
+ TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
+ Rua da Cancella Velha, 70
+ 1897
+
+ * * * * *
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+ COLONISAÇÃO
+
+ DE
+
+ LOURENÇO MARQUES
+
+ * * * * *
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+
+ ATHENEU COMMERCIAL DO PORTO
+
+
+ COLONISAÇÃO
+
+ DE
+
+ LOURENÇO MARQUES
+
+
+ CONFERENCIA FEITA EM 13 DE MARÇO DE 1897
+
+ PELO
+
+ SOCIO HONORARIO
+
+ ALFREDO FREIRE D'ANDRADE
+
+
+
+
+ PORTO
+ TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
+ Rua da Cancella Velha, 70
+ 1897
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ _Illmo. e Excmo. Snr. Presidente do Atheneu Commercial do Porto._
+
+
+_Quizeram, V. Exc.ª e os meus illustres consocios, mandar imprimir a
+conferencia que, na séde do nosso Instituto, tive a honra de pronunciar._
+
+_Mal merece ella, tão mesquinha na fórma, como pobre de conceitos, tão
+elevada prova de consideração da parte de uma das mais preponderantes e
+illustradas aggremiações do nosso paiz; accedendo, porém, gostosamente
+ao desejo de V. Excas., ser-me-ia grato que na primeira pagina de tão
+insignificante trabalho, e que virá assim a ser a melhor, ficasse
+consignado o meu reconhecimento por mais esta prova de estima, que
+juntarei a tantas outras que o Atheneu Commercial do Porto se dignou
+dispensar-me._
+
+ _Lisboa, 8 de abril de 1897._
+
+ _Alfredo Freire d'Andrade._
+
+
+
+
+
+ EXCMO. SNR. PRESIDENTE, MEUS SENHORES.
+
+
+É consultando mais o desejo de corresponder ao honroso convite da
+illustrada direcção d'este Atheneu do que as minhas forças e
+competencia, que eu venho hoje dizer aqui algumas palavras ácerca de
+Lourenço Marques. Outros o fariam com mais auctoridade e sobretudo com
+mais eloquencia, pois que, pela minha parte, só a boa vontade e bons
+desejos poderão ser titulos á benevolencia de tão distincta assembléa
+para com as deficiencias necessarias da minha exposição.
+
+Pouco direi ácerca da situação, topographia e historia de Lourenço
+Marques, hoje bem conhecidas, graças aos excellentes trabalhos do
+visconde de Paiva Manso e do meu camarada Eduardo de Noronha.
+
+De todas as nossas colonias, é Lourenço Marques a unica que apresenta os
+caracteres de um centro commercial em principio de um grande
+desenvolvimento, só comparavel ao das cidades da Africa do sul. A
+affluencia de navios ao porto, a actividade que se vê por toda a parte,
+as mercadorias amontoando-se nos caes, o movimento e a vida que se
+revelam ali, são um estimulo grandioso e magnifico que nos deve levar a
+acompanhar sem demora a corrente de trabalho e de progresso rapido da
+Africa do sul, sob pena de sermos esbulhados da mais bella joia do nosso
+dominio colonial.
+
+A cidade de Lourenço Marques acha-se naturalmente dividida em duas
+partes: _a velha_ ou baixa situada no local onde se estabeleceram as
+primeiras feitorias, e _a nova_ ou alta, que, projectada sobre a
+vertente que se desdobra da Ponta Vermelha ao Mahé, se vai a pouco e
+pouco erguendo, por entre cerrados arvoredos, mostrando-se sob risonho
+aspecto a quem vem procurar o porto. Entre as duas encontra-se uma
+depressão larga e extensa, onde se reunem as aguas das chuvas e por
+vezes as do mar, produzindo um vasto pantano, causa principal da
+insalubridade da povoação.
+
+Pelo snr. conselheiro Ennes foi mandada ultimamente construir uma
+estrada de 3,5 kilometros ligando a cidade com a Ponta Vermelha, local
+bastante salubre, com 45 metros de altitude sobre o nivel do mar d'onde
+se ergue abruptamente e que está destinado a um largo desenvolvimento,
+pois que permittirá ao habitante, cançado do labutar diario na cidade
+commercial propriamente dita, o ir pela tarde respirar lá em cima o ar
+mais puro do oceano.
+
+Pouco se tem emprehendido até hoje para o saneamento do pantano,
+aterrado apenas n'uma pequena área e isso mesmo pelas exigencias
+crescentes do alargamento da parte velha da cidade, que, junto á margem
+da bahia, será sempre a de maior valor.
+
+Muitas tentativas se têm feito já e as camaras e commissões municipaes
+têm diligenciado resolver o problema, mas sem resultado, e isto por
+variadas razões. De entre os projectos estudados, um, do engenheiro
+Almeida Soeiro, aproveitava para edificações a área aterrada e drenada
+convenientemente, e outro utilisava o pantano para ahi estabelecer uma
+especie de porto interior, construindo um canal navegavel na base da
+vertente em que assenta a cidade nova. Qualquer dos dois projectos
+deveria ser adoptado sem demora e os trabalhos principiarem desde já,
+por isso que a extincção do pantano, além de uma necessidade
+impreterivel, daria tambem margem para uma operação commercial muito
+rendosa, em que os capitaes empregados obteriam um lucro remunerador.
+Basta considerar o preço por que poderiam ser vendidos os terrenos
+utilisaveis depois de concluidos os trabalhos, para avaliar das
+vantagens da operação; facilmente se obteriam 400:000 metros quadrados
+de terrenos para aforar ou vender, que teriam decerto comprador por
+um preço superior a uma libra o metro; o custo do aterro, em qualquer
+dos casos, não devia exceder metade d'esta quantia para igual superficie.
+
+Adoptando-se o projecto da construcção de um porto interior, o preço das
+obras augmentaria muito, mas o valor dos terrenos ao longo do canal,
+iria além do que poderiamos prevêr, tanto mais que, sendo o porto um
+pouco desabrigado por occasião dos temporaes de sueste, o porto interior
+seria de grande recurso e portanto muito appetecidos os terrenos que o
+orlassem.
+
+O interior do districto de Lourenço Marques divide-se em tres zonas
+principaes. A dos Libombos, com algumas raras alturas de 600 metros, e
+formada pela vertente oriental dos montes do mesmo nome, que desce
+rapidamente até 200 metros de altitude, com arborisação basta e copada
+em alguns pontos, sobretudo nas margens dos rios, e constituida por
+porphyros feldspathicos e por uma extensa facha de conglomerados,
+parallela áquelles e correndo norte sul. A segunda zona é a das areias
+que, partindo dos conglomerados, vem descendo até á costa maritima, onde
+os depositos terciarios que a formam, se reunem aos do apparelho
+littoral; n'esta zona, geralmente secca e pouco povoada, o arvoredo ou é
+raro ou se concentra em mattas cerradas, de especies ora rachiticas
+e enfezadas, ora extremamente fortes e robustas, mas cujos troncos
+torcidos e recurvados parecem significar as difficuldades que oppõem ao
+seu crescimento aquelles terrenos tão aridos. Finalmente, a terceira
+zona ou zona argillosa é a constituida pelos depositos que os rios
+espalham largamente na occasião das cheias e ainda pelas argillas que
+arrastadas pelas chuvas, se vão depôr nas baixas da zona arenosa,
+constituindo assim os fundos impermeaveis de outras tantas lagoas, por
+vezes de muitos kilometros de extensão, que em grande numero se
+encontram principalmente para o sul do rio Incomati. A zona argillosa é
+a zona fertil, mas é tambem a zona pantanosa e insalubre por
+excellencia; o arvoredo é sempre forte e robusto, e as especies
+numerosas, dando por vezes madeiras de excellente qualidade, se bem que
+pouco aproveitaveis industrialmente.
+
+Recortando todos estes terrenos, vêem-se rios importantes, taes como o
+Maputo, o Incomati e o Limpopo, que, trazendo as suas aguas do
+Transvaal, se apresentam caudalosos, dando navegação, senão facil, pelo
+menos possivel: o Incomati em quasi todo o seu curso no nosso territorio
+e o Limpopo até ao rio dos Elephantes, e talvez ainda mais acima. Se,
+porém, estes rios são faceis meios de transporte, são tambem elles, que,
+alargando-se sobre milhares de kilometros quadrados, por occasião das
+chuvas, deixam quando voltam aos seus leitos normaes, innumeros
+charcos e brejos, que contribuem para a insalubridade das regiões que
+atravessam.
+
+Tendo assim resumido de um modo geral o que para o nosso ponto de vista
+especial mais importa conhecer das condições naturaes do districto,
+vejamos qual o systema de colonisação que se deverá adoptar em Lourenço
+Marques. Facilmente se comprehende que da escolha do processo a seguir
+depende o exito da colonisação, e que não poucos desastres têm tido como
+origem o querer-se implantar uma colonia em desharmonia com as condições
+dos territorios que têm de a receber.
+
+Leroy Beaulieu classifica as colonias em tres typos principaes:
+
+_a_) _Colonias de população ou agricolas._--São aquellas em que, como na
+Australia e no Brazil, o europeu vai encontrar um clima pouco differente
+do que tem no seu paiz e póde constituir familia, formando nucleos de
+população, que, ajudados pela affluencia constante de novos colonos,
+terminam por povoar completamente a colonia. Se a metropole não póde
+fornecer o contingente necessario em cada anno, é natural que outros
+paizes d'isso se encarreguem, chegando n'esse caso a mudar por completo
+a feição da colonia, que se desnacionalisa; é o que succedeu com a Nova
+Amsterdam e a Nova Suecia, e poderá talvez dar-se um dia n'uma parte
+do Brazil.
+
+_b_) _Colonias commerciaes._--Chamam-se assim as que pela sua situação
+sobre grandes caminhos de commercio, dispondo de um porto de facil
+accesso, d'elles se utilisam para servirem como entrepostos ou emporios
+n'uma nova região e introduzir n'ella, principalmente, os productos da
+metropole. Estas colonias, taes como Hong-Kong, Singapura, etc., são
+necessariamente cosmopolitas e se não necessitam uma grande colonisação
+de homens, precisam em compensação de muita industria, muito tino e
+muita energia, e por consequencia de uma emigração escolhida,
+acompanhada de um grande affluxo de capitaes.
+
+_c_) Finalmente, as _colonias de exploração_ são as que, pela sua
+situação e clima especiaes, podem fornecer generos de largo consumo e
+preços remuneradores, que ali se produzam com facilidade e a cuja
+cultura em especial se destinem. Reclamam estas colonias muitos
+capitaes, e um regimen especial de trabalho, por isso que, não podendo
+ahi o branco trabalhar a terra, terá necessariamente de recorrer ao
+trabalho indigena ou de raças adaptaveis ao clima. Taes são, entre
+outras, as Antilhas, as Filippinas e entre nós a colonia tão largamente
+desenvolvida de S. Thomé, tão genuinamente portugueza apesar de serem
+relativamente poucos os colonos saídos da metropole.
+
+ * * * * *
+
+Dependendo o futuro de uma colonia do systema adoptado na sua
+colonisação, vejamos em qual d'estes typos se deve filiar Lourenço Marques.
+
+Poderá ser uma colonia de população? Esta idéa, que tem tido larga
+corrente entre nós, a ponto de se querer fazer derivar para a provincia
+de Moçambique, e em especial para Lourenço Marques, uma parte da
+emigração que hoje se dirige ainda para o Brazil, deve, creio eu, ser
+completamente posta de parte. Centos de colonos têm desembarcado em
+Lourenço Marques, mais de mil nos ultimos annos, e quasi sem excepção, o
+seu destino invariavel tem sido o regressarem ao reino, mais doentes e
+pobres do que foram, com avultado dispendio do governo, ou a morte n'um
+periodo relativamente curto. Diz-se, e é certo, que a colonia não está
+preparada para os receber, mas não é menos certo que se lhes houvessem
+sido fornecidos terrenos para cultivar, alfaias agricolas, etc., o seu
+destino teria sido o mesmo.
+
+E senão vejamos. O clima de Lourenço Marques, se não é absolutamente
+mau, podendo-se facilmente ali viver com uma alimentação regular e
+uns certos cuidados que só um relativo cabedal e instrucção podem dar,
+não é tambem bom.
+
+A temperatura média, quer de verão quer de inverno, não é exaggerada,
+mas as differenças de temperatura, muito rapidas por vezes e que chegam
+a attingir 18°c. no mesmo dia, são extremamente prejudiciaes, sobretudo
+nas doenças dos orgãos respiratorios.
+
+Na cidade, depois da época das chuvas, de fevereiro a maio, as emanações
+trazidas pelos ventos reinantes, que durante o anno passam de N. a O.
+rondando por L., são extremamente perniciosas, por isso que provêm dos
+muitos pantanos que rodeiam a povoação e ainda dos que orlam as margens
+da Catembe. A falta de esgotos, a accumulação de individuos de raças
+inferiores e o pantano do Infuléne, são ainda causas locaes, ás quaes se
+póde dar remedio, é certo, mas que ainda hoje existem, se bem que
+attenuadas.
+
+Para aggravar este estado de coisas, as chuvas são por vezes
+torrenciaes, a ponto de em dez dias, como succedeu em 1895, se
+precipitar sobre o sólo uma camada de 40 centimetros de agua, o que
+concorre para a formação de novos charcos em pontos onde até então não
+tinham existido.
+
+Se da cidade passamos ao interior do districto, as circumstancias,
+sobretudo nos terrenos mais ferteis, aggravam-se, e a quadra que se
+segue á época das chuvas é em geral perigosa, do que se faz facilmente
+idéa pela affluencia aos hospitaes.
+
+Em 1893, uma estatistica da população de Lourenço Marques, certamente
+inferior á verdade, dava uma totalidade de 1:017 habitantes, europeus e
+asiaticos; a mortalidade no primeiro semestre d'esse anno foi de oitenta
+e oito individuos, entre europeus e asiaticos: da totalidade dos obitos
+40 por cento proximamente foram devidos a febres de mau caracter e 8 por
+cento a tuberculose[1].
+
+Dos soldados que fizeram parte da expedição de 1895, raros foram os que
+não soffreram das febres, e se os officiaes não foram tão castigados por
+ellas, decerto se deve esse facto a serem em geral mais velhos do que
+aquelles, comprovando-se assim mais uma vez a conveniencia de não
+seguirem para as colonias individuos de idade inferior a vinte e cinco
+annos.
+
+Estes exemplos bastam para comprovar que, se em Lourenço Marques se póde
+viver em melhores condições talvez do que em muitos pontos insalubres da
+Europa, nem por isso deixam, quer a cidade, quer o districto, de
+constituir uma região pouco salubre, onde a vida deve ser rodeada de
+certos cuidados, que não podem conseguir colonos pobres, sem recursos, a
+quem as regras da hygiene são desconhecidas, e que algumas vezes já
+partem da metropole anemiados pela miseria ou pelo vicio.
+
+Estes, com poucas excepções, nada têm feito em Lourenço Marques,
+emquanto que é frequente vêr individuos permanecer dez, quinze e mais
+annos na cidade, sem grave damno, porque souberam e puderam manter as
+necessarias cautelas; tanto mais que as condições hygienicas da cidade
+vão progressiva, se bem que lentamente, melhorando.
+
+Para constituir uma colonia de população é necessario poder crear
+familia; ora em Lourenço Marques as creanças não medram, e só por
+excepção se poderão vêr ali filhos de colonos europeus, nascidos e
+creados no districto. Não os conheço e as poucas creanças que se
+encontram, essas vivem custosa e difficilmente; é por isso que não posso
+sem pezar, vêl-as partir para Lourenço Marques inconscientemente levadas
+pelas familias, sem que os paes imaginem qual o fim quasi inevitavel que
+as espera.
+
+É a agricultura o principal recurso das colonias de população e isso
+mesmo se tem supposto em varios projectos de colonisação propostos
+para Lourenço Marques; é, porém, um facto averiguado que o branco, o
+europeu, não póde trabalhar ali a terra ou cultival-a elle proprio, sem
+grave risco de vida; bem o demonstrou a grande mortalidade que houve
+durante a construcção do caminho de ferro do Transvaal e ainda
+ultimamente alguns factos passados em 1895 vieram corroborar a opinião
+que já tinha a este respeito. Em Magudi, n'um local secco, a 30 metros
+acima do rio e em terrenos de rocha e areia, foi necessario, por falta
+de cafres, que a guarnição do posto que ali se estabeleceu, removesse a
+areia para construir trincheiras, e este facto deu causa a uma excessiva
+mortalidade; em Xinavane, n'um terreno pantanoso, coberto pelas aguas na
+occasião das cheias, os soldados foram prohibidos de cavar, e não houve
+senão um obito e esse mesmo de uma praça vinda de Magudi. Em Taninga,
+onde se fizeram importantes remoções de terras, as febres atacaram com
+tal força a guarnição, que foi necessario retiral-a. Não póde, pois, o
+branco trabalhar a terra e luctará com tanto maiores difficuldades,
+quanto mais se aproximar da zona baixa e argillosa do districto, onde
+justamente se encontram os terrenos mais ferteis e mais povoados pelos
+cafres.
+
+Não se póde, pois, em Lourenço Marques, constituir familia, cultivar a
+terra, e difficilmente se resiste por muitos annos, sem vir
+refrescar á Europa, á influencia deleteria do clima. Como se poderá
+pensar, em taes condições, em fazer d'aquelle districto uma colonia de
+população?
+
+E, com effeito, todas as tentativas n'esse sentido têm dado mau resultado.
+
+Dizem uns que este facto é devido a serem os colonos lançados em
+Lourenço Marques, sem que o districto esteja preparado para os receber.
+Mas póde o governo dar-lhes os capitaes, a immunidade ao clima e as
+qualidades de que o colono careceria de ser dotado em Lourenço Marques?
+Decerto não.
+
+Dizem outros que o mallogro se deve attribuir á carestia dos terrenos do
+Estado, que se manteve durante alguns annos. Mas de muitos mil hectares
+de terrenos concedidos a particulares, poucos ou nenhuns foram
+aproveitados, e quem d'elles tirou melhor proveito foram os que, sem
+maiores cuidados, pediram e obtiveram concessões, esperando em seguida
+que o progressivo augmento da cidade os valorisasse, para auferirem
+grossos lucros, como succedeu com a Pulana, que, concedida por centos de
+mil reis a um inglez, foi vendida por centos de contos, e ainda com a
+Catembe, onde até á linha de costa, contra expressa determinação da lei,
+se fizeram concessões a individuos que com isso lucraram mais tarde
+muitos milhares de libras sem o menor trabalho. Tal foi durante
+muito tempo o resultado das concessões baratas, sem se cultivar um só
+dos milhares de hectares concedidos.
+
+A meu vêr nenhuma d'estas razões colhe. Lourenço Marques não tem
+progredido como colonia de população, porque não está em condições de o
+poder ser.
+
+ * * * * *
+
+Se passamos a considerar Lourenço Marques debaixo do ponto de vista
+commercial, as negras côres sob que acabamos de descrevel-o como colonia
+agricola, mudam por completo, para nos mostrarem aquella região como
+destinada a ser o emporio da Africa do sul, a colonia commercial por
+excellencia, cuja importancia e valor se nos torna bem manifesta pelas
+multiplas cubiças que, felizmente para o nosso dominio, tem despertado.
+
+E digo felizmente, porque a ellas se deve o conservarmos ainda nas
+nossas mãos aquelle esplendido porto, unico na costa oriental, em toda a
+extensão que vai desde o Cabo até Moçambique. A sua posse, porém,
+impõe-nos obrigações que o rapido progresso da civilisação do sul
+africano exige e ás quaes temos de satisfazer, sob pena de sermos em
+breve eliminados por não correspondermos á alta missão que nos incumbe.
+
+Situada sobre o caminho commercial que conduz ao interior do Transvaal,
+na sua região mais rica, servida com facilidade pelas vias fluviaes de
+que dispõe o interior do districto e parte do territorio inglez do
+centro d'Africa, Lourenço Marques vai-se desenvolvendo de modo tal, que
+de um anno para o outro se transforma e amplia. As vantagens do porto
+impõem-se de tal fórma, que as mercadorias affluem em quantidade, todos
+os dias crescente, não obstante o pouco cuidado com que temos olhado
+para os seus melhoramentos materiaes, e tambem a guerra de toda a
+especie, que lhe tem sido movida pelos seus concorrentes naturaes.
+
+Com effeito, as colonias sul africanas não podem vêr com bons olhos o
+desenvolvimento de Lourenço Marques e por isso vem de longe as
+difficuldades de toda a ordem que lhe têm levantado. Ha annos, jornaes,
+livros e publicações de toda a especie, declaravam ao mundo que a
+insalubridade da povoação era tal, que passar ali, equivalia a uma
+condemnação á morte; mas a população ia crescendo, em condições mais
+favoraveis do que em muitas colonias inglezas. Mais tarde quizeram
+inutilisar o nosso caminho de ferro, graças a uma completa liberdade de
+tarifas, que menos reflectidamente lhe tinhamos concedido; pudémos
+evitar esse mal, mas á custa da indemnisação que nos imporá o tribunal
+de Berne. Mais tarde ainda, procuraram fazer-nos passar por incapazes de
+manter a soberania portugueza no districto, levantando-nos toda a casta
+de difficuldades por intermedio dos regulos indigenas.
+
+E muitos outros factos poderia citar, em que a má fé terminou sempre por
+se manifestar, de modo que hoje a supremacia de Lourenço Marques, como o
+primeiro porto da Africa oriental do sul está firmemente estabelecida.
+
+A população de Lourenço Marques, que em 1864 era de 83 individuos,
+elevou-se em 1893 a 1:017 e hoje não é inferior a 4:000, homens e
+mulheres, europeus ou indianos.
+
+O rendimento da alfandega, que em 1868 era de 3 contos de reis e em 1880
+de 47 contos, foi em 1896 de 600 contos.
+
+O numero de navios entrados no porto, que ha vinte annos era
+insignificante, foi durante 1892 de 228, em 1893 de 252, em 1894 de 265,
+em 1895 de 363 e em 1896 de 433, dos quaes 287 inglezes. No mez de
+janeiro ultimo ancoraram no porto 52 navios.
+
+Pela sua parte o caminho de ferro attingiu o limite de trafego que o seu
+material comporta, e desde que o porto se encontre em boas condições, a
+affluencia de mercadorias obrigará decerto a dobrar a linha. Actualmente
+a média do movimento semanal é de 3 a 5 mil toneladas.
+
+Mas nada dá idéa mais perfeita da avidez com que os estrangeiros
+procuram Lourenço Marques do que o extraordinario augmento de valor dos
+terrenos e das edificações, que tem decuplicado e por vezes centuplicado.
+
+Apparecem ali representantes de syndicatos que compram tudo que lhes
+queiram vender quer sejam terrenos quer predios e ainda quarteirões
+inteiros, de preferencia na parte velha da cidade, havendo exemplos de
+se vender o metro quadrado de terreno por 10 libras, isto é, pelo dobro
+do preço maximo dos terrenos na Avenida da Liberdade, em Lisboa.
+
+Todo este movimento e ainda as transacções que cada dia se fazem na
+colonia, representam muitos centos de milhares de libras sterlinas, mas
+o augmento da riqueza publica em muito pouco aproveita á metropole, que
+não só d'ali não tira proveitos directamente, o que aliás não era de
+esperar, mas ainda mesmo poucos aufere do commercio e da industria que
+os seus nacionaes ali exercem. Pelo contrario, não creio exaggerado
+suppôr que nos ultimos vinte annos, Portugal tem mandado para ali mais
+de 10:000 contos de reis.
+
+Para conseguir tirar de Lourenço Marques todas as vantagens que nos é
+licito esperar, muito resta ainda fazer, não só ao governo mas
+principalmente á iniciativa particular.
+
+Ao governo compete, é certo, tratar dos melhoramentos do porto, para os
+quaes se succedem uns aos outros os projectos e os estudos, adoptar
+providencias para melhorar a hygiene da cidade, escolher funccionarios
+idoneos para a administração do districto, mais importante decerto do
+que a da provincia inteira, e conserval-os não os substituindo de seis
+em seis mezes; e, finalmente, preferir sempre os nacionaes para
+quaesquer concessões que haja de fazer.
+
+Este ultimo ponto, porém, já implica muito com a iniciativa particular,
+pois o governo tem, naturalmente, para melhorar as condições da cidade e
+seu porto, de entregar a execução dos melhoramentos necessarios a
+emprezas que d'elles se encarreguem mediante certas concessões.
+
+Seria, pois, indispensavel que os capitaes portuguezes se não
+retrahissem tanto e confiassem mais nos lucros extraordinarios, por
+vezes fabulosos, que podem auferir em Lourenço Marques.
+
+Infelizmente, porém, a iniciativa e os capitaes portuguezes pouco
+affluem á colonia, e se se encontram algumas poucas firmas portuguezas,
+como Cardoso, Fornazini, Baptista Carvalho, Nogueira Pinto, etc., que
+ali luctam pela vida, mantendo o commercio portuguez e a sua feição
+especial, em compensação abundam os estrangeiros, Mac Intosh, Gubler,
+Auerbach, Donaldson, Hoffman, Idolgy, e tantas outras, que
+principalmente açambarcam o commercio, possuem as melhores propriedades
+e dominam na praça.
+
+Não vemos frequentemente homens energicos, de iniciativa, representando
+ou possuindo capitaes, partir para Lourenço Marques, a tentar novas
+industrias e fundar novos centros de nacionalisação, com o que muito
+ganham os estrangeiros, de modo que dos milhares de libras que
+representam o commercio da cidade, só uma pequena parte aproveita á
+metropole; o resto ou é absorvido pelo commercio estrangeiro europeu ou
+vai para a India.
+
+O commercio indiano tem um feitio especial; em lojas, quasi sempre de
+mesquinha apparencia, vêem-se alguns individuos, embrulhados em algodão
+branco, fallando a lingua cafreal, o portuguez e o inglez, vendendo em
+geral de tudo, desde a lata de conserva até aos productos cafreaes.
+D'estas lojas saem agentes do mesmo jaez que, espalhando-se pelo
+interior, vivendo como os indigenas cujas manias lisongeiam, e
+protegidos pelos regulos a quem fazem presentes, monopolisam por
+completo o commercio do interior. D'esta fórma as lojas dos indios e
+mouros são os centros d'onde irradiam centos de braços, que vão
+recolher no interior os milhares de libras que os cafres trazem
+annualmente do Transvaal e Natal, libras que são immediatamente mandadas
+para fóra do districto.
+
+Estes homens, sustentando-se de arroz e pouco mais, vestindo-se com uma
+tira de algodão, tudo oriundo da India, nada consomem da metropole e
+fazem uma concorrencia ao europeu, que precisa vestir-se, alimentar-se e
+cuidar de si. Recolhido o seu peculio, voltam para a India, onde o vão
+gozar depois de purificados, purificação essa que os lava do contacto
+com infieis e tambem de todas as traficancias que tenham podido commetter.
+
+Muitos d'estes indios são inglezes, o que mais aggrava a situação, pois
+que se encontram sempre apoiados pelo seu governo, para pretendidas
+indemnisações a que se podem julgar com direito por perdas soffridas no
+interior. E não se imagine que, ainda quando portuguezes, auxiliem o
+nosso dominio; quando durante a guerra de 1895, as tropas chegavam aos
+locaes onde os indios estavam estabelecidos, estes fugiam... com os
+cafres: um indio na Manhissa aconselhava os pretos a não receberem a
+prata portugueza, «_que não era boa_», e com effeito vendia carissimo
+quando elles lhe pagavam n'essa moeda.
+
+É certo que algumas vezes prestaram, por interesse proprio, serviços
+ao governo, mas esse facto deu-se principalmente quando em Lourenço
+Marques quasi não havia colonos portuguezes. Hoje são um obstaculo,
+porque é difficil fazer-lhes concorrencia, e bom era que um imposto
+pesado os collocasse em circumstancias analogas aos europeus, pois que
+d'outro modo o commercio do interior continuará nas mãos d'elles e o
+ouro que vem do Transvaal continuará a seguir para a India.
+
+Demais, a moeda portugueza usada em Lourenço Marques favorece a
+emigração do ouro: consiste ella em moeda de prata e notas da fazenda ou
+do Banco Ultramarino, com que se fazem os pagamentos ao governo,
+emquanto que a moeda ordinariamente usada nas transacções commerciaes é
+a libra sterlina. Ora, quando um paiz tem duas moedas, uma boa, o ouro,
+e outra má, a boa emigra e a outra fica.
+
+Creio seria facil acabar com este inconveniente, determinando-se que
+todos os pagamentos fossem feitos em ouro, como o fez a Companhia de
+Moçambique, com bom resultado nos seus territorios, admittindo-se a
+prata só como moeda subsidiaria. Não haveria embaraços, como os não
+houve na Beira, e tambem não se alterava, para com o resto da provincia,
+o actual estado de coisas, por isso que a rupia que n'ella corre não é
+aceita em Lourenço Marques e até o Banco Ultramarino tem dois typos
+de notas, um para Lourenço Marques e outro para os demais districtos.
+
+Por este meio havia tambem a vantagem de evitar as fraudes; como se
+poderá impedir que um individuo, que receba em ouro as receitas da
+fazenda, computando a libra em 4$500 reis, as entregue mais tarde em
+prata? Será isto uma falta? Moralmente sim, mas legalmente creio que
+não, ainda que a falta se podesse provar.
+
+O typo de moeda _ouro_ favoreceria certamente o commercio nacional e
+faria entrar em Portugal muitos milhares de libras; as receitas do
+districto são hoje superiores a 1:000 contos de reis e, recebidas que
+fossem em ouro, seria n'esta moeda que o governo pagaria aos seus
+funccionarios, principaes consumidores dos productos da metropole e
+tambem aos seus fornecedores, que devem ser, tanto quanto possivel,
+nacionaes.
+
+A transferencia de capitaes para a metropole seria tambem facilitada: ha
+já hoje bancos estrangeiros em Lourenço Marques que a podem fazer em
+boas condições, pois que o Banco Ultramarino não tem prestado á
+provincia de Moçambique e sobretudo ao districto os serviços que d'elle
+era licito esperar; em 1892, chegou este banco a levar pela
+transferencia de dinheiro da metropole e pagando lá em notas suas, a
+_insignificante_ percentagem de 30%.
+
+Mas tudo o que se possa fazer em favor de Lourenço Marques de pouco
+valerá, se a iniciativa particular, o nosso commercio, a nossa industria
+e os nossos capitaes não forcejarem por tirar aos estrangeiros o
+predominio que até hoje têm tido na colonia, e por desapossal-os do
+monopolio do commercio, que tem como consequencia necessaria a drenagem
+do ouro sem que a metropole pouco ou nada aproveite da riqueza da sua
+colonia, de dia para dia crescente.
+
+Não lhe enviemos, pois, colonos pobres que lá vão morrer, mas
+consagremos-lhe energias sãs, vontades firmes e capitaes abundantes.
+Raras vezes uma colonia póde dar um rendimento liquido á mãe patria; mas
+o que lhe dá e deve dar é um mercado para o consumo dos seus generos, e
+um lucrativo campo de emprego para os seus capitaes, de modo a compensar
+as despezas que por ella são feitas. E isto não se consegue só com
+medidas administrativas, mas sim com a boa vontade e a intelligencia
+commerciaes, que, luctando com a concorrencia estrangeira, evitem que só
+a esta venham a caber os fructos de tantos sacrificios, que não poucos,
+de homens e dinheiro, temos feito em Lourenço Marques.
+
+Precisamos hoje, na colonia, de agentes commerciaes, representantes das
+nossas mais acreditadas casas da metropole, que, reunindo-se em
+sociedade, facilmente os poderiam para ali mandar; de empregados
+subalternos, que, aprendendo a lingua do paiz, vão ao interior recolher
+os centos de mil libras, que para ali levam os indigenas.
+
+No Transvaal, só em Johannisberg, trabalham hoje mais de 45:000 cafres,
+um verdadeiro exercito, que as exigencias da exploração do ouro, sempre
+crescentes, dentro em poucos annos terão quadruplicado. De entre esses
+cafres, uma grande parte provém da nossa colonia, e por isso o impedir a
+emigração equivaleria a causar uma revolução economica no Rand; ora os
+cafres vão trabalhar para conseguir dinheiro para a compra de mulheres,
+armas e emfim dos objectos de que imaginam carecer, e voltam ás suas
+terras com sommas por vezes avultadas.
+
+Não creio exaggerar, calculando em 15:000 cafres os que emigram em cada
+anno, e, suppondo que voltem com 20 libras cada um, corresponderia isso
+a uma entrada annual de 300:000 libras, que deveria ser aproveitada
+exclusivamente pelo commercio da metropole. Os algarismos citados estão
+decerto abaixo da verdade e mostram á evidencia a vantagem de não crear
+embaraços á emigração, tanto mais que não ha em Lourenço Marques
+industrias nossas que careçam de braços.
+
+Para aproveitar do commercio do interior não nos seria difficil
+encontrar portuguezes, habituados ao sertão, que podessem competir com
+os indios: alguns temos já hoje, que têm conquistado o respeito dos
+cafres e entre elles um conheci, cujo nome bem merece do paiz, um antigo
+soldado do corpo policial de Lourenço Marques, o Silva Maneta, cuja
+dedicação pela patria e coragem excepcional, que o levava a arrojar-se
+loucamente aos mais arriscados lances, tantos serviços prestou durante a
+campanha de 1895; e que me seja licito aqui, prestar a esse portuguez de
+lei, o tributo da minha admiração pelas brilhantes qualidades, que nunca
+se buscam debalde nos mais obscuros filhos da nossa pobre, mas gloriosa
+patria.
+
+Voltando, porém, ao assumpto, de que me fez desviar a recordação de um
+verdadeiro heroe, n'esta cidade onde os feitos heroicos brilham em cada
+pagina da sua historia, direi ainda que mesmo entre os cafres educados
+na nossa escóla, poderiamos encontrar auxiliares, por isso que o cafre
+quando se chega a convencer de que é portuguez e branco, é mais cioso
+ainda do que este, das suas prerogativas, e até respeitado pelos outros
+pretos como se branco realmente fôra. E não ha decerto espectaculo mais
+comico do que vêr um grupo de negros tratar de «_senhor_» e de
+«_branco_» um outro cafre tão negro como elles, só porque traja e
+falla como os europeus.
+
+Pelo que respeita ao commercio com o Transvaal, facilita-o a proximidade
+em que d'elle estamos, a sympathia que lhe merecemos, que maior seria se
+mais trabalhassemos, e ainda os tratados que a elle nos ligam.
+
+Mas como condição essencial, necessario se torna que as nossas marcas
+sejam sempre as mesmas e que não succeda que, desde que um producto se
+acredita á custa de muito trabalho, os menos escrupulosos façam perder
+uma vantagem, que difficilmente se poderá recuperar. Não insisto, apesar
+de poder apresentar muitos exemplos, n'este facto, cuja importancia
+todos podem avaliar.
+
+Muitos e variados são os productos com cujo commercio lucrariamos, quer
+no districto, quer no Transvaal, e de entre esses apenas me referirei
+aos que julgo de maior importancia.
+
+Na _cidade_, temos o consumo proprio, que é o de uma cidade rica, e que
+deve ser exclusivamente fornecido pela metropole, ainda que á sombra de
+bem entendidos direitos de entrada, não tão exaggerados, que sejam
+apenas um incentivo ao contrabando.
+
+No _interior do districto_, facil seria abrir mercado para os nossos
+vinhos brancos, convenientemente addicionados de aguardente, que vão
+sendo preferidos ao alcool, não só porque realmente os cafres os
+apreciam mais, mas ainda porque julgam que se aproximam do branco,
+bebendo-os; os missionarios suissos, no districto, têm conseguido que
+grande numero de cafres deixem de embriagar-se com a aguardente,
+aconselhando-os a beber só vinho, que elles consomem conscienciosamente.
+Tambem apreciam muito o _vermouth_, ou uma mistura que em garrafas lhes
+é vendida como tal. Aproveitando estas tendencias, certamente abririamos
+um mercado bastante largo para os nossos vinhos, e praticariamos ao
+mesmo tempo uma obra meritoria prohibindo a importação do alcool
+industrial em Lourenço Marques e a sua venda aos indigenas.
+
+Mas muitos outros generos se poderiam consumir no interior, além dos
+vinhos.
+
+A polvora e as armas brancas, facas, machados, zagaias, etc., dariam
+lucros bastante remuneradores, sendo fabricados segundo os typos
+preferidos.
+
+Os tecidos, quer de algodão, quer de lã, pannos e cobertores, podem ser
+enviados da metropole e vendidos com lucro, não só porque obtêm preços
+altos, mas ainda porque muito os poderia proteger a differença de cambio
+e um bem entendido direito protector, não difficil de fiscalisar. Os
+typos de algodões e cobertores preferidos deviam ser mandados pelos
+governos do districto aos centros industriaes do paiz, afim de serem
+reproduzidos. Os algodões azues ou de fundo azul com desenhos brancos
+são muito apreciados; em 1893 trouxe varios typos de cobertores, que
+foram reproduzidos n'uma fabrica de Lisboa empregando-se lã de inferior
+qualidade, e sendo o seu preço de custo de 600 a 900 reis: taes
+cobertores tinham então em Lourenço Marques um preço de 4 a 6 shillings,
+o que dava margem para um commercio lucrativo.
+
+Vendem os indianos aos cafres milhares de camisolas de malha, de fatos
+completos, capotes, chapéos, fardamentos velhos, tudo de fabrico inglez
+ou allemão; e tudo poderia ser enviado de Portugal, dando margem a
+lucros importantes.
+
+Para o _Transvaal_, o nosso principal ramo de exportação não poderá
+deixar de ser o vinho; a este e como annexo, poder-se-iam juntar as
+conservas, sobretudo de peixe, quando bem fabricadas e conservando as
+marcas.
+
+Apesar de ser um assumpto de que pouco conheço, não creio que para nos
+abrir o mercado do Transvaal baste a iniciativa do governo, que, quando
+muito, poderá apenas fornecer, por meio dos agentes consulares, as
+indicações geraes dos mercados aos viticultores nacionaes e os dados
+estatisticos sobre que se possam basear.
+
+A meu vêr, os commissarios e exposições poucos resultados podem dar e a
+experiencia bem o tem mostrado. Vão effectivamente os vinhos, faz-se uma
+propaganda official, os individuos que os bebem acham-nos geralmente
+bons e... mandam comprar os vinhos que estão habituados a beber. Não
+julgo facil, n'um paiz como o Transvaal, habitado por uma população
+ingleza em parte, introduzir de repente typos de vinhos differentes dos
+vinhos do Cabo, que são os que mais frequentemente se encontram por toda
+a parte.
+
+O meio a seguir, parece-me, deveria ser procurar, por meio dos nossos
+variadissimos typos, imitar, pelo menos nos primeiros tempos, os vinhos
+de maior consumo no Transvaal, preparando-os. Um commissario, enviado de
+Bordeus para estudar o alargamento do mercado de vinhos na republica sul
+africana, foi d'esta opinião, no relatorio que apresentou no seu
+regresso a França, e isto tratando-se dos vinhos de Bordeus que tão
+largo nome têm. Este modo de proceder tem já sido empregado para a
+fabricação de certas marcas especiaes de Champagne barato, de largo
+consumo no sul da Africa; não foram os francezes procurar convencer os
+sul africanos de que o Champagne, que é preferido n'aquella região,
+não é bom e verdadeiro Champagne, mas fabricam-lh'o segundo o seu gosto.
+
+Além do Champagne, o Xerez, o Vermouth e muitos outros vinhos são
+largamente consumidos no Transvaal, e muitos d'estes não vêm de França,
+Hespanha ou Italia, mas dos paizes onde com igual facilidade se fabrica
+o Porto ou Madeira que nunca sahiram de Portugal.
+
+Fazer despezas importantes para que os nossos typos de vinhos sejam
+preferidos, é, creio, empreza pouco realisavel e muito dispendiosa, mas
+sobretudo inutil, porque se o chegassemos a conseguir, logo os nossos
+vinhos seriam imitados por quem tivesse interesse em o fazer.
+
+Assim, procurar conseguir vinhos semelhantes aos do consumo no paiz,
+dar-lhes boa apparencia e envasilhal-o de um modo agradavel á vista,
+parece-me ser o meio de alargar o consumo dos nossos productos entre a
+população sul africana; agentes commerciaes, trabalhando por interesse
+proprio, collocal-os-iam com facilidade.
+
+Claro está que isto só diria respeito aos vinhos de pasto; os nossos
+vinhos generosos têm uma reputação universal e não conviria mudar-lhe os
+typos, bastando apenas que os agentes consulares perseguissem os
+contrafactores, que os ha e não poucos, até em Africa.
+
+Além dos vinhos, as conservas poderão ter tambem consumo facil desde que
+vão melhor e mais artisticamente acondicionadas. É frequente em Africa,
+receber conservas de fructas portuguezas perfeitamente em papas,
+contrastando com o bello aspecto das fructas da California.
+
+Ainda outros generos poderiam ser introduzidos quer na nossa colonia
+quer na Africa do sul, de que o nosso commercio poderia tirar largos
+lucros.
+
+Mas, além do commercio, os capitaes portuguezes teriam tambem muitos
+meios de se empregar com vantagem, aproveitando os interesses que os
+capitaes estrangeiros vão auferir em Lourenço Marques.
+
+A industria da pesca, que tantos resultados tem dado em Angola, e
+melhores daria se fosse bem dirigida, facilmente se poderia crear na
+bahia, abundante, bem como a costa do districto, em peixes de variadas
+especies. A sua exploração, combinada com a da fabricação do gelo, teria
+no Transvaal um largo campo de consumo, e se não se tem installado
+regularmente até hoje, é porque todos se têm preoccupado em obter o
+monopolio da pesca, que o governo não póde nem deve dar.
+
+O saneamento do pantano, attribuindo a terrenos agora inutilisaveis uma
+grande facilidade de applicação, daria tambem lucros fabulosos,
+attendendo ao elevadissimo preço por que se estão hoje vendendo.
+
+O aterro e aproveitamento de uma área comprehendida entre a costa e um
+muro-caes a estabelecer entre a ponte da alfandega e a Ponta Vermelha,
+daria perto de 20 hectares de terrenos, pouco insalubres, de um valor
+incalculavel, e de uma grande vantagem para o alargamento do porto e
+edificios do Estado, taes como a alfandega, capitania, etc. Esta
+concessão já foi pedida por estrangeiros e seria decerto um perigo se
+cahisse nas suas mãos, pois que, pelas concessões feitas, o governo não
+possue hoje na bahia uma extensão apreciavel de costa, a não ser aquella.
+
+A construcção de uma ponte-caes para mercadorias em transito no rio do
+Espirito Santo, obra indicada por um dos homens de mais larga
+intelligencia, vastos conhecimentos e seguro golpe de vista, que nos
+ultimos tempos tem dirigido os destinos de Moçambique, o snr.
+conselheiro Antonio Ennes, daria além de grandes juros ao capital para
+ella necessario (300 contos aproximadamente) uma grande facilidade ao
+movimento do porto, por isso que ella seria acostavel em qualquer estado
+do tempo.
+
+As construcções urbanas têm dado nos ultimos annos rendimentos
+avultados, não inferiores a 30 por cento. Ha pouco, era vulgar uma casa
+de custo não superior a 300 libras, ser alugada por 7 libras
+mensaes; e comquanto hoje este estado de coisas tenha mudado um tanto, é
+certo que os capitaes empregados em edificações rendem pelo menos 15 por
+cento.
+
+E citarei apenas de passagem, para não alongar demasiadamente a
+exposição, as industrias ceramicas, a fabricação da cal e cimento, hoje
+produzidos já no Natal e que facilmente se installariam na Inhaca, as de
+docas de reparação, a de fabricação e reparação de lanchas e escaleres,
+etc., etc.
+
+Creio que hoje não restará duvida que Lourenço Marques é e será uma
+colonia commercial e que o seu progresso e permanencia no dominio
+portuguez depende principalmente do commercio e industria nacionaes, aos
+quaes devemos subordinar tudo o mais. Quando os capitaes empregados em
+Lourenço Marques forem só inglezes, inglezas as casas commerciaes,
+ingleza toda a área em que assenta a cidade, o que equivale a dizer
+estrangeiro tudo, com que direito, com que razão nos poderemos ali
+conservar, verdadeiros parasitas, aproveitando sómente o trabalho
+alheio? Os direitos historicos, bem o sabemos, não bastam em Africa, e o
+nosso proprio decoro não nos permittiria que nos mostrassemos
+degenerados descendentes dos antigos _moradores_ portuguezes.
+
+Precisam, pois, affluir a Lourenço Marques, como já disse, não colonos
+pobres e anemicos ou velhos e creanças, como tem já succedido, para
+apenas concorrerem para o alargamento do cemiterio; mas sim individuos
+sãos de corpo e de espirito, representando o commercio e a industria da
+metropole, activos e emprehendedores, acompanhados por capitaes
+nacionaes, que vão recolher os largos juros que hoje são premio de
+capitaes estrangeiros.
+
+O desenvolvimento do commercio e da industria trarão como consequencia a
+emigração especial de que estes precisam, por isso que carecem de
+edificações, obras de toda a especie, lanchas, vapores, carros, etc.,
+que representam outras tantas necessidades, cuja satisfação póde dar
+vasto emprego a um grande numero de homens, engenheiros, operarios,
+marinheiros, pescadores, etc., que deverão ser tão bons como os melhores
+da metropole, d'onde deverão ir, para resistirem á influencia do meio.
+Já hoje um bom operario ganha em Lourenço Marques um salario avultado,
+não sendo raros os que no fim de certo periodo alcançam uma pequena
+fortuna; em compensação os maus operarios difficilmente alcançam meios
+de subsistencia.
+
+Mas, se tudo isto é a consequencia necessaria do desenvolvimento da
+colonia, mais necessario se torna que ella se não desnacionalise, e que
+a lingua portugueza seja a que predomine, porque de outro modo os
+estrangeiros preferirão sempre os operarios seus compatriotas. E a
+desnacionalisação, só o augmento de relações commerciaes com a metropole
+e o affluxo de capitaes portuguezes poderão evital-a.
+
+A uma outra necessidade tambem a industria particular deveria attender,
+ajudada pela protecção do governo; mal se comprehende que uma colonia
+commercial por excellencia, como é Lourenço Marques, possa estreitar as
+suas relações com a metropole, sem que haja navegação sob a bandeira
+nacional. Uma tentativa se fez, a da Mala Real, mas essa tristes
+resultados deu, não porque a empreza não tivesse em si largos elementos
+de exito, mas pela menos conveniente administração que teve, aggravada
+por exigencias por vezes injustas das auctoridades em Africa, que faziam
+demorar os vapores a seu talante, auctorisando-se para isso da
+irregularidade das carreiras.
+
+Dos vapores da Mala não se sabia nunca, nem o dia da partida, nem o da
+chegada, e passageiros houve que levaram quasi tres mezes de Lisboa a
+Lourenço Marques, isto não obstante os vapores serem de primeira ordem e
+commandados por officiaes competentissimos.
+
+Assim, resumindo, o futuro de Lourenço Marques está, a meu vêr,
+dependente da nossa iniciativa commercial e industrial. O seu
+desenvolvimento abre um largo campo de acção ás classes liberaes e
+ao operariado escolhido da metropole, que encontrarão n'um paiz de
+lingua, costumes e leis analogas ás da metropole, vantagens não
+inferiores ás que apontei para o commercio metropolitano.
+
+ * * * * *
+
+Resta-me ainda dizer algumas palavras de Lourenço Marques como colonia
+de exploração, e debaixo d'este ponto de vista creio que, se o districto
+tem elementos de riqueza e futuro desenvolvimento, estão elles longe dos
+que se notam em Inhambane, Quilimane e outros districtos do norte da
+provincia. Entretanto, pela sua situação fóra dos tropicos e pela sua
+posição geographica, algumas probabilidades tem de aproveitamento, que
+conviria utilisar, imprimindo á colonisação do districto, além do
+caracter commercial predominante, uma feição de colonia de exploração,
+secundaria, ajudando-se as duas mutuamente.
+
+A colonia de exploração propriamente dita deve poder produzir generos de
+venda remuneradora, taes como o café, o cacau, a canna, a quina, etc.,
+que compensem as despezas e sacrificios da cultura e ao mesmo tempo
+dispôr de mão d'obra abundante e facil, que substitua a do europeu,
+que unicamente deve dirigir os trabalhos.
+
+Lourenço Marques, pelo menos na região visinha da costa, onde os
+transportes são relativamente faceis, poderá talvez produzir os generos
+a que me referi, e entre outros a canna saccharina e a borracha já ali
+se desenvolvem. Produzirá igualmente os outros generos, com economia?
+Não sei, visto não haver experiencias que nol-o indiquem.
+
+E merecerá a pena tental-as, quando a pequena distancia para o norte da
+provincia temos regiões onde as condições do clima são excepcionaes, bem
+como a fertilidade do sólo, para o estabelecimento de colonias de
+exploração, como em toda a região do Zambeze? Não creio. Seria ir
+experimentar o duvidoso, desprezando o certo.
+
+Demais, em Lourenço Marques a mão d'obra é cara. O preto ganha ali,
+trabalhando muito menos do que o europeu o faz na Europa, 2 a 3
+shillings diarios ou seja de 600 a 900 reis, e não é facil encontral-os
+por preço menor, visto que é este o salario que podem ganhar em qualquer
+centro aurifero do Transvaal. Em tempos, o governo do districto, cedendo
+ás queixas geraes dos habitantes, quiz regulamentar os salarios dos
+cafres, esquecendo o principio geral da _offerta_ e da _procura_, sendo
+o resultado perfeitamente nullo, por isso que, quando precisavam
+cafres, eram os que mais tinham reclamado, que iam offerecer maior
+salario aos do visinho.
+
+O regulamento do preço dos salarios é praticamente inapplicavel em
+Lourenço Marques, pois para o conseguir seria necessario prohibir a
+emigração para o Transvaal e para o Natal, e esta medida, além de
+anti-economica e antipolitica, seria de difficil execução.
+
+Pelo contrario, na Zambezia, não succede o mesmo. O preto ali,
+submette-se ao senhor do praso em que habita, trabalhando por um preço
+baixo, de 3$000 a 4$500 reis por mez, por isso que mal acredita que não
+está já sujeito ao regimen da escravatura, unico possivel para fazer
+trabalhar o negro, quando convenientemente fiscalisado. Os inglezes
+tanto assim o comprehenderam que, feitos grandes esforços, sob vãos
+pretextos de philantropia e generosidade, para acabar com a escravatura
+barbara dos antigos tempos, a reorganisaram com meios mais suaves, mas
+não menos firmes, em seu exclusivo proveito. E têm razão, pois que a
+liberdade que nós damos ao preto resume-se em lhe darmos só direitos,
+dos quaes o que lhes é mais precioso é o de não trabalharem, sem lhe
+impôrmos deveres.
+
+Assim, temos na provincia de Moçambique pontos onde podemos ir
+implantar, sem receio de mau exito, as verdadeiras colonias de
+exloração, ricas, de largo futuro, não inferior ao da nossa colonia
+de S. Thomé, sem recorrermos para isso a Lourenço Marques.
+
+É, porém, certo que este districto dispõe de recursos especiaes: é
+cortado de rios navegaveis, que tornam os transportes muito faceis:
+dispõe nos valles dos rios de fertilissimos terrenos, onde se poderiam
+installar culturas remuneradoras; pela sua posição fóra dos tropicos e
+proximidade da visinha colonia do Natal e da Republica sul africana, as
+experiencias n'aquelles paizes realisadas, poderiam decerto
+aproveitar-lhe; e finalmente ainda, é menos insalubre do que os outros
+districtos da provincia, á excepção talvez de alguns pontos de Inhambane
+e das terras altas do interior. Algumas localidades até, infelizmente
+pouco extensas, são relativamente salubres, dando-se o caso curioso de
+que não se podem sempre reconhecer á primeira vista as suas condições
+hygienicas. É assim que Incanine, no baixo Incomati, rodeado por toda a
+parte de pantanos e lodaçaes, se reconheceu ser o local mais salubre de
+todos os occupados em 1895 pelas nossas tropas; era por assim dizer um
+verdadeiro sanatorio.
+
+Por isso, industrias agricolas ha que se devem installar em Lourenço
+Marques; serão naturalmente aquellas que exijam pouca mão d'obra, ou em
+que o trabalho possa ser feito por machinas e ainda as que possam
+tirar valor dos seus faceis meios de transporte, os rios.
+
+Taes são a creação de gados, quer vaccum, quer lanigero, e a cultura de
+cereaes, que poderia fornecer largamente a metropole. Que importa, com
+effeito, que a Huilla, que a região de Milange e tantas outras possam
+fornecer o milho e o trigo, se estes, por falta de transporte barato,
+não puderem sahir do paiz de producção?
+
+A cultura do milho, sem duvida se póde realisar em Lourenço Marques;
+cultivam-n'o os pretos em todos os pontos onde ha agua, e não são
+poucos, e com magnifico resultado, pois se vêem as plantas attingir 3, 4
+e mais metros de altura, com uma producção proporcional ao porte. Em
+todo o valle do baixo Incomati, do Limpopo e do Maputo, se vêem vastas
+planicies, onde ás areias se misturam as alluviões do rio, formando um
+sólo extremamente fertil.
+
+O trigo deveria tambem dar-se, por isso que se produz em condições
+analogas no Natal; das experiencias feitas no districto, pouco se póde
+concluir, pois que ainda não foram regularmente seguidas para fornecer
+dados seguros; todas, porém, têm dado resultado e só de uma, feita nas
+visinhanças da cidade, soube que os resultados foram pouco animadores,
+mas é provavel que, se o trigo se manteve rachitico e sem
+desenvolvimento, foi porque as experiencias foram mal dirigidas, não se
+escolhendo a época favoravel á sementeira, nem o typo de semente mais
+apropriado. Na Beira, onde o dr. Arriaga, um dos benemeritos da
+colonisação africana da costa oriental, fez experiencias da cultura do
+trigo em larga escala, os resultados foram magnificos, obtendo em média
+50 sementes; ora o que succedeu no valle do Busi, n'uma alta latitude,
+mais naturalmente succederá no do Incomati.
+
+Nos postos do Incomati, no Marracuene, Manhissa, Magudi e no Maputo,
+foram estabelecidos, em 1895, com o atilado criterio de quem então
+dirigia os negocios da provincia, pequenas quintas regionaes, com o fim
+de se proceder ás necessarias experiencias de agricultura, e, apesar dos
+poucos meios de que a provincia podia dispor, muito ha a esperar do
+resultado d'estes trabalhos, que oxalá sejam dados a publico.
+
+Quer o milho, quer o trigo, muito vantajosamente seriam importados pela
+metropole, pois decerto os transportes seriam baratos, em fretes de
+retorno. O milho, além do consumo no interior do districto, pois que,
+comquanto pareça incrivel, o districto de Lourenço Marques importa por
+vezes milhares de saccas de milho e arroz, poderia ser utilisado para
+fabricação do alcool exportavel para o Transvaal, producto de que já
+ha montadas fabricas importantes, quer na cidade, quer em Ressano Garcia.
+
+Além d'estas culturas principaes e ainda do arroz, muitas outras se
+poderiam crear, não só para consumo local, mas talvez tambem para
+exportação. As arvores de fructo europeias desenvolvem-se bem no
+districto, conforme se verificou nas plantações de Anguane. As
+laranjeiras e limoeiros não têm difficuldade em medrar, pois que os
+ultimos são selvagens, encontrando-se ao longo das margens do Incomati
+milhares de limoeiros, carregados de esplendidos limões, que se
+reproduzem sem cultura, para gaudio dos cafres e dos macacos.
+
+Nas vertentes dos Libombos, do rio dos Elephantes, até á fronteira sul
+do districto, em grande parte dos valles do Incomati, do Umbeluzi e do
+Limpopo, a creação de gado vaccum far-se-ia sem difficuldade, pois em
+qualquer d'estes pontos se vêem rebanhos de gado de centenares de
+cabeças, pertencentes aos cafres. O gado muar e os burros dar-se-iam
+tambem perfeitamente, podendo prestar grandes serviços n'aquelle paiz em
+que os cavallos morrem tão facilmente: duas muares vi no Incomati, que,
+tendo fugido aos donos, se tinham tornado selvagens, vivendo em
+liberdade e eram magnificos exemplares; infelizmente foram mortas a
+tiro, por quem decerto tinha pouco bom senso.
+
+O gado lanigero, pelo menos raças semelhantes ás do Transvaal e do Cabo,
+encontraria tambem magnificas condições de desenvolvimento n'uma extensa
+zona nas vertentes dos Libombos, onde já se encontra, na posse dos
+cafres, se bem que em pequeno numero e de raça inferior. A exportação
+das lãs constitue hoje um dos principaes elementos de riqueza do Cabo da
+Boa-Esperança e do Transvaal, e podel-o-ia ser tambem de Lourenço Marques.
+
+Na zona que da base da vertente dos Libombos vem até á zona argillosa e
+humida, encontram-se, quando a população escasseia, avestruzes
+selvagens, indicando-nos o proveito que pela sua creação poderiamos
+tirar da região arenosa do districto, de um modo analogo áquelle por que
+no Cabo da Boa-Esperança se conseguiu tirar d'aquelles animaes um
+rendimento importante, de centos de mil libras annuaes.
+
+A cultura do arroz e do algodão, o primeiro já hoje cultivado em pequena
+escala pelos negros, e o segundo, de que já se fizeram ensaios coroados
+de bom resultado, poderiam tambem concorrer para a prosperidade da colonia.
+
+De tantos elementos de riqueza, e ainda outros que seria longo enumerar,
+pouco se aproveita hoje, apesar de muitos esforços por vezes empregados
+pelo governo. Já em 1780 foi necessario que o governador Pereira do
+Lago, obrigasse os moradores á cultura do algodão, e em 1760 o
+governador Pedro de Saldanha de Albuquerque forçou os habitantes de
+Lourenço Marques a entregarem-se á agricultura, «_para ao menos evitarem
+que até o pão e a mandioca lhes viessem de fóra_». Que diria elle hoje,
+em que vem de fóra não só o pão para os brancos, mas ainda o arroz e o
+milho para os cafres!
+
+Das riquezas mineiras de Lourenço Marques pouco posso dizer. Ha talvez
+ouro, e minerios preciosos, nos filões dos Libombos e ao norte do
+districto, na camada de conglomerados, mas das pesquizas até hoje feitas
+nada se tem conseguido; verdade é que têm sido poucas e mal dirigidas;
+entretanto alguma vantagem haveria em que se fizessem methodicamente.
+
+Se Lourenço Marques não está em condições de poder, como colonia de
+exploração propriamente dita, vir a attingir o elevado grau de
+prosperidade de S. Thomé, Cabo, Java, etc., nem por isso é tão
+desprotegido pela natureza, como vêmos, que não possa, amparado pela sua
+colonia commercial, desenvolver-se e medrar, concorrendo em curto
+periodo para libertar a metropole dos pesados encargos do seu _deficit_
+de producção cerealifera.
+
+ * * * * *
+
+Mas se Lourenço Marques só póde ser principalmente uma colonia
+commercial, devendo-se a esta sua feição subordinar tudo o mais, nem por
+isso faltam, nos nossos vastos dominios coloniaes, regiões onde se
+installem colonias de outro genero.
+
+Na região alta do interior de Moçambique podem encontrar-se vastos
+terrenos salubres, com clima pouco differente do nosso e onde a
+população póde desenvolver-se sem obstaculos insuperaveis. Taes são
+Manica, Milange, a região do Nyassa, etc., e para ahi nos installarmos
+basta que o nosso povo ahi queira repetir os trabalhos que os nossos
+antepassados executaram na America; o governo só póde fazer os trabalhos
+de preparação, ou installar colonias penaes. As colonias militares, pelo
+seu caracter, não julgo que possam dar bom resultado.
+
+Para colonias de exploração temos quasi toda a vasta área da provincia
+de Moçambique, que se abre á nossa actividade, apresentando-nos uma
+variedade de recursos que difficilmente se encontrarão n'outros pontos.
+Se estamos, ou por outra, se o nosso descuido levou outros, mais activos
+e trabalhadores, a nos deixarem reduzidos a uma tira de terreno ao
+longo da costa, essa mesma situação nos dá a posse dos melhores portos,
+testas obrigadas dos caminhos para o interior, que se podem encontrar
+desde o Cabo da Boa-Esperança até ao Guardafui.
+
+Inhambane, n'uma zona de mais de 100 kilometros de largura e que corre
+parallelamente á costa, tem uma população numerosa e trabalhadora,
+terrenos fertilissimos, e a borracha e o café desenvolvem-se ali
+espontaneamente, sendo este de magnifica qualidade. Antigas plantações
+junto da villa, mostram ainda hoje a pujança dos cajueiros, coqueiros,
+mangueiras e outras muitas especies vegetaes. O café, que cresce quasi
+na costa, não tem animado ainda até hoje os nossos colonos a iniciarem
+plantações, limitando-se a ensaccar o que do interior é trazido pelos
+cafres; ha annos, porém, ensaiou-se ali uma larga plantação de chá, que
+morreu com o fallecimento do proprietario, tendo entretanto apresentado
+bons indicios. No interior do districto a caça, bufalos, zebras,
+antilopes e até elephantes, são abundantissimos.
+
+Se de Inhambane passamos ao Zambeze, encontramos uma bella via fluvial,
+em cujas margens, e em tempos remotos, os nossos maiores estabeleceram
+grande numero de feitorias, povoações e centros agricolas, de que ainda
+restam vestigios.
+
+Modernamente alguns homens de iniciativa têm, em pouco tempo, realisado
+fortunas avultadas e fundado magnificas plantações no baixo Zambeze. O
+coqueiro, de que se encontram ali milhões de exemplares, tem sido
+plantado largamente; a canna saccharina, o café, o arroz, etc., estão
+sendo cultivados com vantagem, e se os exemplos dados fossem seguidos,
+poderiamos em pouco tempo ter ali a primeira colonia de exploração
+portugueza, superior ainda a S. Thomé.
+
+Nos prasos das margens do rio ha magnificas mattas onde a madeira podia
+ser explorada, e onde os elephantes ainda se encontram com abundancia;
+em Tête encontram-se jazigos de carvão, infelizmente de qualidade
+inferior na parte já reconhecida, e nos terrenos ainda não explorados ha
+indicios de importantes jazigos auriferos.
+
+Na região alta do norte do Zambeze, o clima é semelhante ao da Europa, e
+ahi poderiam os colonos ir restabelecer-se, quando atacados das doenças
+inevitaveis no valle insalubre do rio.
+
+Finalmente mais ao norte, no Ibo, Moçambique e Angoche, pouco se conhece
+do interior, mas a todos estes portos concorre o café selvagem do sertão
+e por elles se exportam annualmente muitos contos de reis de sementes
+oleaginosas. Desde que sejam conhecidos, provavel é encontrar
+territorios ainda mais bem dotados do que os da Zambezia, região
+esta onde a colonia de Blantyre, ha poucos annos começada, já hoje
+exporta mais toneladas de café do que toda a provincia de Moçambique
+exporta de saccas da mesma mercadoria.
+
+ * * * * *
+
+Não seria, pois, razoavel procurar fazer de Lourenço Marques uma colonia
+de exploração propriamente dita, tentando introduzir ali, com
+sacrificio, culturas que a provincia n'outros pontos espontaneamente nos
+dá. O futuro de Lourenço Marques está inteiramente ligado ao seu
+desenvolvimento commercial e á emigração para ali de individuos capazes
+de o alargarem e de capitaes que o facilitem, e isto está, mais uma vez
+o repito, nas mãos da iniciativa particular.
+
+Ao governo compete não contrariar, pelas suas medidas administrativas,
+essas iniciativas e vigiar para que os seus agentes sigam a mesma-ordem
+de idéas. Por nós ou pelos estrangeiros, Lourenço Marques ha de
+fatalmente tornar-se o primeiro porto commercial da Africa do sul, e
+tudo o que contrarie esse destino redundará em nosso damno.
+
+A permanencia dos governadores no districto (de 1881 até 1896 houve
+vinte e sete mudanças de governadores), a creação de tropas
+coloniaes, a separação naturalmente indicada de Lourenço Marques e
+Inhambane, n'um governo autonomo, do resto da provincia, a applicação
+dos rendimentos do districto ao seu melhoramento, sem os distrahir para
+fóra, a nomeação de pequeno numero de funccionarios, bons e bem pagos,
+em vez de muitos e mal pagos, o ensino obrigatorio da lingua cafreal, a
+organisação dos cafres no interior, sem vexames, causa de todas as
+revoltas, e tantas outras questões de administração, só podem ser
+ordenadas pelo governo, e muito contribuirão para a prosperidade do
+districto, com o qual a metropole já hoje não deveria fazer despezas.
+
+Que os penosos e lentos sacrificios que nos impuzemos durante muitos
+seculos, não vão hoje, que a messe está madura, aproveitar a outros, que
+avidamente espreitam o momento de lançar mão dos nossos despojos; e que
+uma colonisação preponderante e activa nos mantenha aberto o vasto campo
+de expansão e actividade necessario a um povo que não está ainda
+completamente decadente e perdido, é o que devemos procurar.
+
+De entre os restos do nosso vasto dominio colonial é Lourenço Marques
+aquelle de que a avidez estrangeira mais nos demonstra a importancia
+capital para o futuro desenvolvimento de Moçambique. Para que a sua
+desnacionalisação não se opere, torna-se necessario que para ali
+concorra a actividade commercial, a industria e os capitaes, que são
+ainda mais do que os emigrantes, o nervo da colonisação, e de todos
+estes meios de acção nenhuma região é mais rica do que o norte do paiz e
+em nenhuma cidade elles se encontram mais largamente espalhados do que
+no Porto.
+
+É por isso que, agradecendo ao Atheneu Commercial do Porto o honroso
+convite com que me distinguiu, e á assembléa a cortezia e attenção com
+que se dignou escutar o que diligenciei expôr, sem galas de estylo, mas
+com inteira franqueza e verdade, me sentirei verdadeiramente orgulhoso,
+se por pouco que seja, tiver conseguido attrahir sobre Lourenço Marques
+as attenções d'uma cidade, a primeira sempre no paiz, nos grandes
+emprehendimentos de que póde resultar para a nossa querida patria,
+riqueza, gloria e prosperidade.
+
+ [1] Dados extrahidos do _Districto de Lourenço Marques_, por
+ Eduardo de Noronha.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Colonização de Lourenço Marques, by
+Alfredo Freire de Andrade
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COLONIZAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES ***
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
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+ <title>Colonisação de Lourenço Marques, por Alfredo Freire D'Andrade</title>
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Colonização de Lourenço Marques, by
+Alfredo Freire de Andrade
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Colonização de Lourenço Marques
+
+Author: Alfredo Freire de Andrade
+
+Release Date: November 21, 2010 [EBook #34388]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COLONIZAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
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+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="border: 1px solid #000; padding: 1em; text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;">Alfredo Freire d'Andrade</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p style="font-size: 1.8em;">COLONISAÇÃO</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">DE</p>
+
+<p style="font-size: 2.2em;">LOURENÇO MARQUES</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO<br>
+<small>TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA<br>
+Rua da Cancella Velha, 70</small><br>
+1897</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+
+<p style="font-size: 1.4em;">COLONISAÇÃO</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">LOURENÇO MARQUES</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;">ATHENEU COMMERCIAL DO PORTO</p>
+
+<hr style="width: 80%">
+
+<p style="font-size: 1.6em;">COLONISAÇÃO</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">DE</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">LOURENÇO MARQUES</p>
+
+<hr style="width: 10%">
+
+<p>CONFERENCIA FEITA EM 13 DE MARÇO DE 1897</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">PELO</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">SOCIO HONORARIO</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">ALFREDO FREIRE D'ANDRADE</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO<br>
+<small>TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA<br>
+Rua da Cancella Velha, 70</small><br>
+1897</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p> <span class="pn">{5}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p style="text-indent: -1em; margin-left: 15%;"><i>Ill.<sup>mo</sup> e
+Exc.<sup>mo</sup> Snr. Presidente do Atheneu Commercial do Porto.</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><i>Quizeram, V. Exc.ª e os meus illustres consocios, mandar imprimir a
+conferencia que, na séde do nosso Instituto, tive a honra de pronunciar.</i></p>
+
+<p><i>Mal merece ella, tão mesquinha na fórma, como pobre de conceitos, tão
+elevada prova de consideração da parte de uma das mais preponderantes e
+illustradas aggremiações do nosso paiz; accedendo, porém, gostosamente ao
+desejo de V. Exc.<sup>as</sup>, ser-me-ia grato que na primeira pagina de tão
+insignificante trabalho, e que virá assim a ser a melhor, ficasse consignado o
+meu reconhecimento por mais esta prova de estima, que juntarei a tantas outras
+que o Atheneu Commercial do Porto se dignou dispensar-me.</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small><i>Lisboa, 8 de abril de 1897.</i></small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;"><big><i>Alfredo
+Freire d'Andrade.</i></big></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p> <span class="pn">{6}<br>
+{7}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;">E<small>XC</small>.<sup>mo</sup> <small>SNR.
+PRESIDENTE, MEUS SENHORES.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>É consultando mais o desejo de corresponder ao honroso convite da illustrada
+direcção d'este Atheneu do que as minhas forças e competencia, que eu venho
+hoje dizer aqui algumas palavras ácerca de Lourenço Marques. Outros o fariam
+com mais auctoridade e sobretudo com mais eloquencia, pois que, pela minha
+parte, só a boa vontade e bons desejos poderão ser titulos á benevolencia de
+tão distincta assembléa para com as deficiencias necessarias da minha
+exposição.</p>
+
+<p>Pouco direi ácerca da situação, topographia e historia de Lourenço Marques,
+hoje bem conhecidas, graças aos excellentes trabalhos do visconde de Paiva
+Manso e do meu camarada Eduardo de Noronha.</p>
+
+<p>De todas as nossas colonias, é Lourenço Marques a unica que apresenta os
+caracteres de um centro commercial em principio de um grande desenvolvimento,
+só comparavel ao das<span class="pn">{8}</span> cidades da Africa do sul. A
+affluencia de navios ao porto, a actividade que se vê por toda a parte, as
+mercadorias amontoando-se nos caes, o movimento e a vida que se revelam ali,
+são um estimulo grandioso e magnifico que nos deve levar a acompanhar sem
+demora a corrente de trabalho e de progresso rapido da Africa do sul, sob pena
+de sermos esbulhados da mais bella joia do nosso dominio colonial.</p>
+
+<p>A cidade de Lourenço Marques acha-se naturalmente dividida em duas partes:
+<em>a velha</em> ou baixa situada no local onde se estabeleceram as primeiras
+feitorias, e <em>a nova</em> ou alta, que, projectada sobre a vertente que se
+desdobra da Ponta Vermelha ao Mahé, se vai a pouco e pouco erguendo, por entre
+cerrados arvoredos, mostrando-se sob risonho aspecto a quem vem procurar o
+porto. Entre as duas encontra-se uma depressão larga e extensa, onde se reunem
+as aguas das chuvas e por vezes as do mar, produzindo um vasto pantano, causa
+principal da insalubridade da povoação.</p>
+
+<p>Pelo snr. conselheiro Ennes foi mandada ultimamente construir uma estrada de
+3,5 kilometros ligando a cidade com a Ponta Vermelha, local bastante salubre,
+com 45 metros de altitude sobre o nivel do mar d'onde se ergue abruptamente e
+que está destinado a um largo desenvolvimento, pois que permittirá ao
+habitante, cançado do labutar diario na cidade<span class="pn">{9}</span>
+commercial propriamente dita, o ir pela tarde respirar lá em cima o ar mais
+puro do oceano.</p>
+
+<p>Pouco se tem emprehendido até hoje para o saneamento do pantano, aterrado
+apenas n'uma pequena área e isso mesmo pelas exigencias crescentes do
+alargamento da parte velha da cidade, que, junto á margem da bahia, será sempre
+a de maior valor.</p>
+
+<p>Muitas tentativas se têm feito já e as camaras e commissões municipaes têm
+diligenciado resolver o problema, mas sem resultado, e isto por variadas
+razões. De entre os projectos estudados, um, do engenheiro Almeida Soeiro,
+aproveitava para edificações a área aterrada e drenada convenientemente, e
+outro utilisava o pantano para ahi estabelecer uma especie de porto interior,
+construindo um canal navegavel na base da vertente em que assenta a cidade
+nova. Qualquer dos dois projectos deveria ser adoptado sem demora e os
+trabalhos principiarem desde já, por isso que a extincção do pantano, além de
+uma necessidade impreterivel, daria tambem margem para uma operação commercial
+muito rendosa, em que os capitaes empregados obteriam um lucro remunerador.
+Basta considerar o preço por que poderiam ser vendidos os terrenos utilisaveis
+depois de concluidos os trabalhos, para avaliar das vantagens da operação;
+facilmente se obteriam 400:000 metros quadrados de terrenos para aforar ou<span
+class="pn">{10}</span> vender, que teriam decerto comprador por um preço
+superior a uma libra o metro; o custo do aterro, em qualquer dos casos, não
+devia exceder metade d'esta quantia para igual superficie.</p>
+
+<p>Adoptando-se o projecto da construcção de um porto interior, o preço das
+obras augmentaria muito, mas o valor dos terrenos ao longo do canal, iria além
+do que poderiamos prevêr, tanto mais que, sendo o porto um pouco desabrigado
+por occasião dos temporaes de sueste, o porto interior seria de grande recurso
+e portanto muito appetecidos os terrenos que o orlassem.</p>
+
+<p>O interior do districto de Lourenço Marques divide-se em tres zonas
+principaes. A dos Libombos, com algumas raras alturas de 600 metros, e formada
+pela vertente oriental dos montes do mesmo nome, que desce rapidamente até 200
+metros de altitude, com arborisação basta e copada em alguns pontos, sobretudo
+nas margens dos rios, e constituida por porphyros feldspathicos e por uma
+extensa facha de conglomerados, parallela áquelles e correndo norte sul. A
+segunda zona é a das areias que, partindo dos conglomerados, vem descendo até á
+costa maritima, onde os depositos terciarios que a formam, se reunem aos do
+apparelho littoral; n'esta zona, geralmente secca e pouco povoada, o arvoredo
+ou é raro ou se concentra em mattas cerradas, de especies ora<span
+class="pn">{11}</span> rachiticas e enfezadas, ora extremamente fortes e
+robustas, mas cujos troncos torcidos e recurvados parecem significar as
+difficuldades que oppõem ao seu crescimento aquelles terrenos tão aridos.
+Finalmente, a terceira zona ou zona argillosa é a constituida pelos depositos
+que os rios espalham largamente na occasião das cheias e ainda pelas argillas
+que arrastadas pelas chuvas, se vão depôr nas baixas da zona arenosa,
+constituindo assim os fundos impermeaveis de outras tantas lagoas, por vezes de
+muitos kilometros de extensão, que em grande numero se encontram principalmente
+para o sul do rio Incomati. A zona argillosa é a zona fertil, mas é tambem a
+zona pantanosa e insalubre por excellencia; o arvoredo é sempre forte e
+robusto, e as especies numerosas, dando por vezes madeiras de excellente
+qualidade, se bem que pouco aproveitaveis industrialmente.</p>
+
+<p>Recortando todos estes terrenos, vêem-se rios importantes, taes como o
+Maputo, o Incomati e o Limpopo, que, trazendo as suas aguas do Transvaal, se
+apresentam caudalosos, dando navegação, senão facil, pelo menos possivel: o
+Incomati em quasi todo o seu curso no nosso territorio e o Limpopo até ao rio
+dos Elephantes, e talvez ainda mais acima. Se, porém, estes rios são faceis
+meios de transporte, são tambem elles, que, alargando-se sobre milhares de
+kilometros quadrados, por occasião das chuvas,<span class="pn">{12}</span>
+deixam quando voltam aos seus leitos normaes, innumeros charcos e brejos, que
+contribuem para a insalubridade das regiões que atravessam.</p>
+
+<p>Tendo assim resumido de um modo geral o que para o nosso ponto de vista
+especial mais importa conhecer das condições naturaes do districto, vejamos
+qual o systema de colonisação que se deverá adoptar em Lourenço Marques.
+Facilmente se comprehende que da escolha do processo a seguir depende o exito
+da colonisação, e que não poucos desastres têm tido como origem o querer-se
+implantar uma colonia em desharmonia com as condições dos territorios que têm
+de a receber.</p>
+
+<p>Leroy Beaulieu classifica as colonias em tres typos principaes:</p>
+
+<p><em>a</em>) <em>Colonias de população ou agricolas.</em>&mdash;São aquellas em
+que, como na Australia e no Brazil, o europeu vai encontrar um clima pouco
+differente do que tem no seu paiz e póde constituir familia, formando nucleos
+de população, que, ajudados pela affluencia constante de novos colonos,
+terminam por povoar completamente a colonia. Se a metropole não póde fornecer o
+contingente necessario em cada anno, é natural que outros paizes d'isso se
+encarreguem, chegando n'esse caso a mudar por completo a feição da colonia, que
+se desnacionalisa; é o que succedeu com a Nova Amsterdam<span
+class="pn">{13}</span> e a Nova Suecia, e poderá talvez dar-se um dia n'uma
+parte do Brazil.</p>
+
+<p><em>b</em>) <em>Colonias commerciaes.</em>&mdash;Chamam-se assim as que pela sua
+situação sobre grandes caminhos de commercio, dispondo de um porto de facil
+accesso, d'elles se utilisam para servirem como entrepostos ou emporios n'uma
+nova região e introduzir n'ella, principalmente, os productos da metropole.
+Estas colonias, taes como Hong-Kong, Singapura, etc., são necessariamente
+cosmopolitas e se não necessitam uma grande colonisação de homens, precisam em
+compensação de muita industria, muito tino e muita energia, e por consequencia
+de uma emigração escolhida, acompanhada de um grande affluxo de capitaes.</p>
+
+<p><em>c</em>) Finalmente, as <em>colonias de exploração</em> são as que, pela
+sua situação e clima especiaes, podem fornecer generos de largo consumo e
+preços remuneradores, que ali se produzam com facilidade e a cuja cultura em
+especial se destinem. Reclamam estas colonias muitos capitaes, e um regimen
+especial de trabalho, por isso que, não podendo ahi o branco trabalhar a terra,
+terá necessariamente de recorrer ao trabalho indigena ou de raças adaptaveis ao
+clima. Taes são, entre outras, as Antilhas, as Filippinas e entre nós a colonia
+tão largamente desenvolvida de S. Thomé, tão genuinamente portugueza apesar de
+serem relativamente<span class="pn">{14}</span> poucos os colonos saídos da
+metropole.</p>
+
+<p style="text-align:center">*</p>
+
+<p style="text-align:center">*      *</p>
+
+<p>Dependendo o futuro de uma colonia do systema adoptado na sua colonisação,
+vejamos em qual d'estes typos se deve filiar Lourenço Marques.</p>
+
+<p>Poderá ser uma colonia de população? Esta idéa, que tem tido larga corrente
+entre nós, a ponto de se querer fazer derivar para a provincia de Moçambique, e
+em especial para Lourenço Marques, uma parte da emigração que hoje se dirige
+ainda para o Brazil, deve, creio eu, ser completamente posta de parte. Centos
+de colonos têm desembarcado em Lourenço Marques, mais de mil nos ultimos annos,
+e quasi sem excepção, o seu destino invariavel tem sido o regressarem ao reino,
+mais doentes e pobres do que foram, com avultado dispendio do governo, ou a
+morte n'um periodo relativamente curto. Diz-se, e é certo, que a colonia não
+está preparada para os receber, mas não é menos certo que se lhes houvessem
+sido fornecidos terrenos para cultivar, alfaias agricolas, etc., o seu destino
+teria sido o mesmo.</p>
+
+<p>E senão vejamos. O clima de Lourenço Marques, se não é absolutamente mau,
+podendo-se facilmente ali viver com uma alimentação regular<span
+class="pn">{15}</span> e uns certos cuidados que só um relativo cabedal e
+instrucção podem dar, não é tambem bom.</p>
+
+<p>A temperatura média, quer de verão quer de inverno, não é exaggerada, mas as
+differenças de temperatura, muito rapidas por vezes e que chegam a attingir
+18°c. no mesmo dia, são extremamente prejudiciaes, sobretudo nas doenças dos
+orgãos respiratorios.</p>
+
+<p>Na cidade, depois da época das chuvas, de fevereiro a maio, as emanações
+trazidas pelos ventos reinantes, que durante o anno passam de N. a O. rondando
+por L., são extremamente perniciosas, por isso que provêm dos muitos pantanos
+que rodeiam a povoação e ainda dos que orlam as margens da Catembe. A falta de
+esgotos, a accumulação de individuos de raças inferiores e o pantano do
+Infuléne, são ainda causas locaes, ás quaes se póde dar remedio, é certo, mas
+que ainda hoje existem, se bem que attenuadas.</p>
+
+<p>Para aggravar este estado de coisas, as chuvas são por vezes torrenciaes, a
+ponto de em dez dias, como succedeu em 1895, se precipitar sobre o sólo uma
+camada de 40 centimetros de agua, o que concorre para a formação de novos
+charcos em pontos onde até então não tinham existido.</p>
+
+<p>Se da cidade passamos ao interior do districto,<span class="pn">{16}</span>
+as circumstancias, sobretudo nos terrenos mais ferteis, aggravam-se, e a quadra
+que se segue á época das chuvas é em geral perigosa, do que se faz facilmente
+idéa pela affluencia aos hospitaes.</p>
+
+<p>Em 1893, uma estatistica da população de Lourenço Marques, certamente
+inferior á verdade, dava uma totalidade de 1:017 habitantes, europeus e
+asiaticos; a mortalidade no primeiro semestre d'esse anno foi de oitenta e oito
+individuos, entre europeus e asiaticos: da totalidade dos obitos 40 por cento
+proximamente foram devidos a febres de mau caracter e 8 por cento a
+tuberculose<sup><a name="L717" id="L717" href="#L723">[1]</a></sup>.</p>
+
+<p>Dos soldados que fizeram parte da expedição de 1895, raros foram os que não
+soffreram das febres, e se os officiaes não foram tão castigados por ellas,
+decerto se deve esse facto a serem em geral mais velhos do que aquelles,
+comprovando-se assim mais uma vez a conveniencia de não seguirem para as
+colonias individuos de idade inferior a vinte e cinco annos.</p>
+
+<p>Estes exemplos bastam para comprovar que, se em Lourenço Marques se póde
+viver em melhores condições talvez do que em muitos pontos insalubres da
+Europa, nem por isso deixam,<span class="pn">{17}</span> quer a cidade, quer o
+districto, de constituir uma região pouco salubre, onde a vida deve ser rodeada
+de certos cuidados, que não podem conseguir colonos pobres, sem recursos, a
+quem as regras da hygiene são desconhecidas, e que algumas vezes já partem da
+metropole anemiados pela miseria ou pelo vicio.</p>
+
+<p>Estes, com poucas excepções, nada têm feito em Lourenço Marques, emquanto
+que é frequente vêr individuos permanecer dez, quinze e mais annos na cidade,
+sem grave damno, porque souberam e puderam manter as necessarias cautelas;
+tanto mais que as condições hygienicas da cidade vão progressiva, se bem que
+lentamente, melhorando.</p>
+
+<p>Para constituir uma colonia de população é necessario poder crear familia;
+ora em Lourenço Marques as creanças não medram, e só por excepção se poderão
+vêr ali filhos de colonos europeus, nascidos e creados no districto. Não os
+conheço e as poucas creanças que se encontram, essas vivem custosa e
+difficilmente; é por isso que não posso sem pezar, vêl-as partir para Lourenço
+Marques inconscientemente levadas pelas familias, sem que os paes imaginem qual
+o fim quasi inevitavel que as espera.</p>
+
+<p>É a agricultura o principal recurso das colonias de população e isso mesmo
+se tem supposto em varios projectos de colonisação propostos<span
+class="pn">{18}</span> para Lourenço Marques; é, porém, um facto averiguado que
+o branco, o europeu, não póde trabalhar ali a terra ou cultival-a elle proprio,
+sem grave risco de vida; bem o demonstrou a grande mortalidade que houve
+durante a construcção do caminho de ferro do Transvaal e ainda ultimamente
+alguns factos passados em 1895 vieram corroborar a opinião que já tinha a este
+respeito. Em Magudi, n'um local secco, a 30 metros acima do rio e em terrenos
+de rocha e areia, foi necessario, por falta de cafres, que a guarnição do posto
+que ali se estabeleceu, removesse a areia para construir trincheiras, e este
+facto deu causa a uma excessiva mortalidade; em Xinavane, n'um terreno
+pantanoso, coberto pelas aguas na occasião das cheias, os soldados foram
+prohibidos de cavar, e não houve senão um obito e esse mesmo de uma praça vinda
+de Magudi. Em Taninga, onde se fizeram importantes remoções de terras, as
+febres atacaram com tal força a guarnição, que foi necessario retiral-a. Não
+póde, pois, o branco trabalhar a terra e luctará com tanto maiores
+difficuldades, quanto mais se aproximar da zona baixa e argillosa do districto,
+onde justamente se encontram os terrenos mais ferteis e mais povoados pelos
+cafres.</p>
+
+<p>Não se póde, pois, em Lourenço Marques, constituir familia, cultivar a
+terra, e difficilmente<span class="pn">{19}</span> se resiste por muitos annos,
+sem vir refrescar á Europa, á influencia deleteria do clima. Como se poderá
+pensar, em taes condições, em fazer d'aquelle districto uma colonia de
+população?</p>
+
+<p>E, com effeito, todas as tentativas n'esse sentido têm dado mau
+resultado.</p>
+
+<p>Dizem uns que este facto é devido a serem os colonos lançados em Lourenço
+Marques, sem que o districto esteja preparado para os receber. Mas póde o
+governo dar-lhes os capitaes, a immunidade ao clima e as qualidades de que o
+colono careceria de ser dotado em Lourenço Marques? Decerto não.</p>
+
+<p>Dizem outros que o mallogro se deve attribuir á carestia dos terrenos do
+Estado, que se manteve durante alguns annos. Mas de muitos mil hectares de
+terrenos concedidos a particulares, poucos ou nenhuns foram aproveitados, e
+quem d'elles tirou melhor proveito foram os que, sem maiores cuidados, pediram
+e obtiveram concessões, esperando em seguida que o progressivo augmento da
+cidade os valorisasse, para auferirem grossos lucros, como succedeu com a
+Pulana, que, concedida por centos de mil reis a um inglez, foi vendida por
+centos de contos, e ainda com a Catembe, onde até á linha de costa, contra
+expressa determinação da lei, se fizeram concessões a individuos que com isso
+lucraram mais tarde muitos milhares<span class="pn">{20}</span> de libras sem o
+menor trabalho. Tal foi durante muito tempo o resultado das concessões baratas,
+sem se cultivar um só dos milhares de hectares concedidos.</p>
+
+<p>A meu vêr nenhuma d'estas razões colhe. Lourenço Marques não tem progredido
+como colonia de população, porque não está em condições de o poder ser.</p>
+
+<p style="text-align:center">*</p>
+
+<p style="text-align:center">*      *</p>
+
+<p>Se passamos a considerar Lourenço Marques debaixo do ponto de vista
+commercial, as negras côres sob que acabamos de descrevel-o como colonia
+agricola, mudam por completo, para nos mostrarem aquella região como destinada
+a ser o emporio da Africa do sul, a colonia commercial por excellencia, cuja
+importancia e valor se nos torna bem manifesta pelas multiplas cubiças que,
+felizmente para o nosso dominio, tem despertado.</p>
+
+<p>E digo felizmente, porque a ellas se deve o conservarmos ainda nas nossas
+mãos aquelle esplendido porto, unico na costa oriental, em toda a extensão que
+vai desde o Cabo até Moçambique. A sua posse, porém, impõe-nos obrigações que o
+rapido progresso da civilisação do sul africano exige e ás quaes temos de
+satisfazer, sob pena de sermos em breve eliminados<span class="pn">{21}</span>
+por não correspondermos á alta missão que nos incumbe.</p>
+
+<p>Situada sobre o caminho commercial que conduz ao interior do Transvaal, na
+sua região mais rica, servida com facilidade pelas vias fluviaes de que dispõe
+o interior do districto e parte do territorio inglez do centro d'Africa,
+Lourenço Marques vai-se desenvolvendo de modo tal, que de um anno para o outro
+se transforma e amplia. As vantagens do porto impõem-se de tal fórma, que as
+mercadorias affluem em quantidade, todos os dias crescente, não obstante o
+pouco cuidado com que temos olhado para os seus melhoramentos materiaes, e
+tambem a guerra de toda a especie, que lhe tem sido movida pelos seus
+concorrentes naturaes.</p>
+
+<p>Com effeito, as colonias sul africanas não podem vêr com bons olhos o
+desenvolvimento de Lourenço Marques e por isso vem de longe as difficuldades de
+toda a ordem que lhe têm levantado. Ha annos, jornaes, livros e publicações de
+toda a especie, declaravam ao mundo que a insalubridade da povoação era tal,
+que passar ali, equivalia a uma condemnação á morte; mas a população ia
+crescendo, em condições mais favoraveis do que em muitas colonias inglezas.
+Mais tarde quizeram inutilisar o nosso caminho de ferro, graças a uma completa
+liberdade de tarifas, que menos reflectidamente<span class="pn">{22}</span> lhe
+tinhamos concedido; pudémos evitar esse mal, mas á custa da indemnisação que
+nos imporá o tribunal de Berne. Mais tarde ainda, procuraram fazer-nos passar
+por incapazes de manter a soberania portugueza no districto, levantando-nos
+toda a casta de difficuldades por intermedio dos regulos indigenas.</p>
+
+<p>E muitos outros factos poderia citar, em que a má fé terminou sempre por se
+manifestar, de modo que hoje a supremacia de Lourenço Marques, como o primeiro
+porto da Africa oriental do sul está firmemente estabelecida.</p>
+
+<p>A população de Lourenço Marques, que em 1864 era de 83 individuos, elevou-se
+em 1893 a 1:017 e hoje não é inferior a 4:000, homens e mulheres, europeus ou
+indianos.</p>
+
+<p>O rendimento da alfandega, que em 1868 era de 3 contos de reis e em 1880 de
+47 contos, foi em 1896 de 600 contos.</p>
+
+<p>O numero de navios entrados no porto, que ha vinte annos era insignificante,
+foi durante 1892 de 228, em 1893 de 252, em 1894 de 265, em 1895 de 363 e em
+1896 de 433, dos quaes 287 inglezes. No mez de janeiro ultimo ancoraram no
+porto 52 navios.</p>
+
+<p>Pela sua parte o caminho de ferro attingiu o limite de trafego que o seu
+material comporta, e desde que o porto se encontre em boas condições, a
+affluencia de mercadorias obrigará decerto a dobrar a linha. Actualmente a
+média<span class="pn">{23}</span> do movimento semanal é de 3 a 5 mil
+toneladas.</p>
+
+<p>Mas nada dá idéa mais perfeita da avidez com que os estrangeiros procuram
+Lourenço Marques do que o extraordinario augmento de valor dos terrenos e das
+edificações, que tem decuplicado e por vezes centuplicado.</p>
+
+<p>Apparecem ali representantes de syndicatos que compram tudo que lhes queiram
+vender quer sejam terrenos quer predios e ainda quarteirões inteiros, de
+preferencia na parte velha da cidade, havendo exemplos de se vender o metro
+quadrado de terreno por 10 libras, isto é, pelo dobro do preço maximo dos
+terrenos na Avenida da Liberdade, em Lisboa.</p>
+
+<p>Todo este movimento e ainda as transacções que cada dia se fazem na colonia,
+representam muitos centos de milhares de libras sterlinas, mas o augmento da
+riqueza publica em muito pouco aproveita á metropole, que não só d'ali não tira
+proveitos directamente, o que aliás não era de esperar, mas ainda mesmo poucos
+aufere do commercio e da industria que os seus nacionaes ali exercem. Pelo
+contrario, não creio exaggerado suppôr que nos ultimos vinte annos, Portugal
+tem mandado para ali mais de 10:000 contos de reis.</p>
+
+<p>Para conseguir tirar de Lourenço Marques todas as vantagens que nos é licito
+esperar, muito resta ainda fazer, não só ao governo<span class="pn">{24}</span>
+mas principalmente á iniciativa particular.</p>
+
+<p>Ao governo compete, é certo, tratar dos melhoramentos do porto, para os
+quaes se succedem uns aos outros os projectos e os estudos, adoptar
+providencias para melhorar a hygiene da cidade, escolher funccionarios idoneos
+para a administração do districto, mais importante decerto do que a da
+provincia inteira, e conserval-os não os substituindo de seis em seis mezes; e,
+finalmente, preferir sempre os nacionaes para quaesquer concessões que haja de
+fazer.</p>
+
+<p>Este ultimo ponto, porém, já implica muito com a iniciativa particular, pois
+o governo tem, naturalmente, para melhorar as condições da cidade e seu porto,
+de entregar a execução dos melhoramentos necessarios a emprezas que d'elles se
+encarreguem mediante certas concessões.</p>
+
+<p>Seria, pois, indispensavel que os capitaes portuguezes se não retrahissem
+tanto e confiassem mais nos lucros extraordinarios, por vezes fabulosos, que
+podem auferir em Lourenço Marques.</p>
+
+<p>Infelizmente, porém, a iniciativa e os capitaes portuguezes pouco affluem á
+colonia, e se se encontram algumas poucas firmas portuguezas, como Cardoso,
+Fornazini, Baptista Carvalho, Nogueira Pinto, etc., que ali luctam pela<span
+class="pn">{25}</span> vida, mantendo o commercio portuguez e a sua feição
+especial, em compensação abundam os estrangeiros, Mac Intosh, Gubler, Auerbach,
+Donaldson, Hoffman, Idolgy, e tantas outras, que principalmente açambarcam o
+commercio, possuem as melhores propriedades e dominam na praça.</p>
+
+<p>Não vemos frequentemente homens energicos, de iniciativa, representando ou
+possuindo capitaes, partir para Lourenço Marques, a tentar novas industrias e
+fundar novos centros de nacionalisação, com o que muito ganham os estrangeiros,
+de modo que dos milhares de libras que representam o commercio da cidade, só
+uma pequena parte aproveita á metropole; o resto ou é absorvido pelo commercio
+estrangeiro europeu ou vai para a India.</p>
+
+<p>O commercio indiano tem um feitio especial; em lojas, quasi sempre de
+mesquinha apparencia, vêem-se alguns individuos, embrulhados em algodão branco,
+fallando a lingua cafreal, o portuguez e o inglez, vendendo em geral de tudo,
+desde a lata de conserva até aos productos cafreaes. D'estas lojas saem agentes
+do mesmo jaez que, espalhando-se pelo interior, vivendo como os indigenas cujas
+manias lisongeiam, e protegidos pelos regulos a quem fazem presentes,
+monopolisam por completo o commercio do interior. D'esta fórma as lojas dos
+indios e mouros são os centros d'onde irradiam<span class="pn">{26}</span>
+centos de braços, que vão recolher no interior os milhares de libras que os
+cafres trazem annualmente do Transvaal e Natal, libras que são immediatamente
+mandadas para fóra do districto.</p>
+
+<p>Estes homens, sustentando-se de arroz e pouco mais, vestindo-se com uma tira
+de algodão, tudo oriundo da India, nada consomem da metropole e fazem uma
+concorrencia ao europeu, que precisa vestir-se, alimentar-se e cuidar de si.
+Recolhido o seu peculio, voltam para a India, onde o vão gozar depois de
+purificados, purificação essa que os lava do contacto com infieis e tambem de
+todas as traficancias que tenham podido commetter.</p>
+
+<p>Muitos d'estes indios são inglezes, o que mais aggrava a situação, pois que
+se encontram sempre apoiados pelo seu governo, para pretendidas indemnisações a
+que se podem julgar com direito por perdas soffridas no interior. E não se
+imagine que, ainda quando portuguezes, auxiliem o nosso dominio; quando durante
+a guerra de 1895, as tropas chegavam aos locaes onde os indios estavam
+estabelecidos, estes fugiam... com os cafres: um indio na Manhissa aconselhava
+os pretos a não receberem a prata portugueza, «<i>que não era boa</i>», e com
+effeito vendia carissimo quando elles lhe pagavam n'essa moeda.</p>
+
+<p>É certo que algumas vezes prestaram, por<span class="pn">{27}</span>
+interesse proprio, serviços ao governo, mas esse facto deu-se principalmente
+quando em Lourenço Marques quasi não havia colonos portuguezes. Hoje são um
+obstaculo, porque é difficil fazer-lhes concorrencia, e bom era que um imposto
+pesado os collocasse em circumstancias analogas aos europeus, pois que d'outro
+modo o commercio do interior continuará nas mãos d'elles e o ouro que vem do
+Transvaal continuará a seguir para a India.</p>
+
+<p>Demais, a moeda portugueza usada em Lourenço Marques favorece a emigração do
+ouro: consiste ella em moeda de prata e notas da fazenda ou do Banco
+Ultramarino, com que se fazem os pagamentos ao governo, emquanto que a moeda
+ordinariamente usada nas transacções commerciaes é a libra sterlina. Ora,
+quando um paiz tem duas moedas, uma boa, o ouro, e outra má, a boa emigra e a
+outra fica.</p>
+
+<p>Creio seria facil acabar com este inconveniente, determinando-se que todos
+os pagamentos fossem feitos em ouro, como o fez a Companhia de Moçambique, com
+bom resultado nos seus territorios, admittindo-se a prata só como moeda
+subsidiaria. Não haveria embaraços, como os não houve na Beira, e tambem não se
+alterava, para com o resto da provincia, o actual estado de coisas, por isso
+que a rupia que n'ella corre não é aceita em Lourenço Marques e até o Banco
+Ultramarino tem<span class="pn">{28}</span> dois typos de notas, um para
+Lourenço Marques e outro para os demais districtos.</p>
+
+<p>Por este meio havia tambem a vantagem de evitar as fraudes; como se poderá
+impedir que um individuo, que receba em ouro as receitas da fazenda, computando
+a libra em 4$500 reis, as entregue mais tarde em prata? Será isto uma falta?
+Moralmente sim, mas legalmente creio que não, ainda que a falta se podesse
+provar.</p>
+
+<p>O typo de moeda <i>ouro</i> favoreceria certamente o commercio nacional e
+faria entrar em Portugal muitos milhares de libras; as receitas do districto
+são hoje superiores a 1:000 contos de reis e, recebidas que fossem em ouro,
+seria n'esta moeda que o governo pagaria aos seus funccionarios, principaes
+consumidores dos productos da metropole e tambem aos seus fornecedores, que
+devem ser, tanto quanto possivel, nacionaes.</p>
+
+<p>A transferencia de capitaes para a metropole seria tambem facilitada: ha já
+hoje bancos estrangeiros em Lourenço Marques que a podem fazer em boas
+condições, pois que o Banco Ultramarino não tem prestado á provincia de
+Moçambique e sobretudo ao districto os serviços que d'elle era licito esperar;
+em 1892, chegou este banco a levar pela transferencia de dinheiro da metropole
+e pagando lá em notas suas, a <em>insignificante</em> percentagem de 30%.<span
+class="pn">{29}</span></p>
+
+<p>Mas tudo o que se possa fazer em favor de Lourenço Marques de pouco valerá,
+se a iniciativa particular, o nosso commercio, a nossa industria e os nossos
+capitaes não forcejarem por tirar aos estrangeiros o predominio que até hoje
+têm tido na colonia, e por desapossal-os do monopolio do commercio, que tem
+como consequencia necessaria a drenagem do ouro sem que a metropole pouco ou
+nada aproveite da riqueza da sua colonia, de dia para dia crescente.</p>
+
+<p>Não lhe enviemos, pois, colonos pobres que lá vão morrer, mas
+consagremos-lhe energias sãs, vontades firmes e capitaes abundantes. Raras
+vezes uma colonia póde dar um rendimento liquido á mãe patria; mas o que lhe dá
+e deve dar é um mercado para o consumo dos seus generos, e um lucrativo campo
+de emprego para os seus capitaes, de modo a compensar as despezas que por ella
+são feitas. E isto não se consegue só com medidas administrativas, mas sim com
+a boa vontade e a intelligencia commerciaes, que, luctando com a concorrencia
+estrangeira, evitem que só a esta venham a caber os fructos de tantos
+sacrificios, que não poucos, de homens e dinheiro, temos feito em Lourenço
+Marques.</p>
+
+<p>Precisamos hoje, na colonia, de agentes commerciaes, representantes das
+nossas mais acreditadas casas da metropole, que, reunindo-se<span
+class="pn">{30}</span> em sociedade, facilmente os poderiam para ali mandar; de
+empregados subalternos, que, aprendendo a lingua do paiz, vão ao interior
+recolher os centos de mil libras, que para ali levam os indigenas.</p>
+
+<p>No Transvaal, só em Johannisberg, trabalham hoje mais de 45:000 cafres, um
+verdadeiro exercito, que as exigencias da exploração do ouro, sempre
+crescentes, dentro em poucos annos terão quadruplicado. De entre esses cafres,
+uma grande parte provém da nossa colonia, e por isso o impedir a emigração
+equivaleria a causar uma revolução economica no Rand; ora os cafres vão
+trabalhar para conseguir dinheiro para a compra de mulheres, armas e emfim dos
+objectos de que imaginam carecer, e voltam ás suas terras com sommas por vezes
+avultadas.</p>
+
+<p>Não creio exaggerar, calculando em 15:000 cafres os que emigram em cada
+anno, e, suppondo que voltem com 20 libras cada um, corresponderia isso a uma
+entrada annual de 300:000 libras, que deveria ser aproveitada exclusivamente
+pelo commercio da metropole. Os algarismos citados estão decerto abaixo da
+verdade e mostram á evidencia a vantagem de não crear embaraços á emigração,
+tanto mais que não ha em Lourenço Marques industrias nossas que careçam de
+braços.<span class="pn">{31}</span></p>
+
+<p>Para aproveitar do commercio do interior não nos seria difficil encontrar
+portuguezes, habituados ao sertão, que podessem competir com os indios: alguns
+temos já hoje, que têm conquistado o respeito dos cafres e entre elles um
+conheci, cujo nome bem merece do paiz, um antigo soldado do corpo policial de
+Lourenço Marques, o Silva Maneta, cuja dedicação pela patria e coragem
+excepcional, que o levava a arrojar-se loucamente aos mais arriscados lances,
+tantos serviços prestou durante a campanha de 1895; e que me seja licito aqui,
+prestar a esse portuguez de lei, o tributo da minha admiração pelas brilhantes
+qualidades, que nunca se buscam debalde nos mais obscuros filhos da nossa
+pobre, mas gloriosa patria.</p>
+
+<p>Voltando, porém, ao assumpto, de que me fez desviar a recordação de um
+verdadeiro heroe, n'esta cidade onde os feitos heroicos brilham em cada pagina
+da sua historia, direi ainda que mesmo entre os cafres educados na nossa
+escóla, poderiamos encontrar auxiliares, por isso que o cafre quando se chega a
+convencer de que é portuguez e branco, é mais cioso ainda do que este, das suas
+prerogativas, e até respeitado pelos outros pretos como se branco realmente
+fôra. E não ha decerto espectaculo mais comico do que vêr um grupo de negros
+tratar de «<i>senhor</i>» e de «<i>branco</i>» um<span class="pn">{32}</span>
+outro cafre tão negro como elles, só porque traja e falla como os europeus.</p>
+
+<p>Pelo que respeita ao commercio com o Transvaal, facilita-o a proximidade em
+que d'elle estamos, a sympathia que lhe merecemos, que maior seria se mais
+trabalhassemos, e ainda os tratados que a elle nos ligam.</p>
+
+<p>Mas como condição essencial, necessario se torna que as nossas marcas sejam
+sempre as mesmas e que não succeda que, desde que um producto se acredita á
+custa de muito trabalho, os menos escrupulosos façam perder uma vantagem, que
+difficilmente se poderá recuperar. Não insisto, apesar de poder apresentar
+muitos exemplos, n'este facto, cuja importancia todos podem avaliar.</p>
+
+<p>Muitos e variados são os productos com cujo commercio lucrariamos, quer no
+districto, quer no Transvaal, e de entre esses apenas me referirei aos que
+julgo de maior importancia.</p>
+
+<p>Na <i>cidade</i>, temos o consumo proprio, que é o de uma cidade rica, e que
+deve ser exclusivamente fornecido pela metropole, ainda que á sombra de bem
+entendidos direitos de entrada, não tão exaggerados, que sejam apenas um
+incentivo ao contrabando.</p>
+
+<p>No <i>interior do districto</i>, facil seria abrir mercado para os nossos
+vinhos brancos, convenientemente addicionados de aguardente, que<span
+class="pn">{33}</span> vão sendo preferidos ao alcool, não só porque realmente
+os cafres os apreciam mais, mas ainda porque julgam que se aproximam do branco,
+bebendo-os; os missionarios suissos, no districto, têm conseguido que grande
+numero de cafres deixem de embriagar-se com a aguardente, aconselhando-os a
+beber só vinho, que elles consomem conscienciosamente. Tambem apreciam muito o
+<i>vermouth</i>, ou uma mistura que em garrafas lhes é vendida como tal.
+Aproveitando estas tendencias, certamente abririamos um mercado bastante largo
+para os nossos vinhos, e praticariamos ao mesmo tempo uma obra meritoria
+prohibindo a importação do alcool industrial em Lourenço Marques e a sua venda
+aos indigenas.</p>
+
+<p>Mas muitos outros generos se poderiam consumir no interior, além dos
+vinhos.</p>
+
+<p>A polvora e as armas brancas, facas, machados, zagaias, etc., dariam lucros
+bastante remuneradores, sendo fabricados segundo os typos preferidos.</p>
+
+<p>Os tecidos, quer de algodão, quer de lã, pannos e cobertores, podem ser
+enviados da metropole e vendidos com lucro, não só porque obtêm preços altos,
+mas ainda porque muito os poderia proteger a differença de cambio e um bem
+entendido direito protector, não difficil de fiscalisar. Os typos de algodões e
+cobertores preferidos deviam ser<span class="pn">{34}</span> mandados pelos
+governos do districto aos centros industriaes do paiz, afim de serem
+reproduzidos. Os algodões azues ou de fundo azul com desenhos brancos são muito
+apreciados; em 1893 trouxe varios typos de cobertores, que foram reproduzidos
+n'uma fabrica de Lisboa empregando-se lã de inferior qualidade, e sendo o seu
+preço de custo de 600 a 900 reis: taes cobertores tinham então em Lourenço
+Marques um preço de 4 a 6 shillings, o que dava margem para um commercio
+lucrativo.</p>
+
+<p>Vendem os indianos aos cafres milhares de camisolas de malha, de fatos
+completos, capotes, chapéos, fardamentos velhos, tudo de fabrico inglez ou
+allemão; e tudo poderia ser enviado de Portugal, dando margem a lucros
+importantes.</p>
+
+<p>Para o <i>Transvaal</i>, o nosso principal ramo de exportação não poderá
+deixar de ser o vinho; a este e como annexo, poder-se-iam juntar as conservas,
+sobretudo de peixe, quando bem fabricadas e conservando as marcas.</p>
+
+<p>Apesar de ser um assumpto de que pouco conheço, não creio que para nos abrir
+o mercado do Transvaal baste a iniciativa do governo, que, quando muito, poderá
+apenas fornecer, por meio dos agentes consulares, as indicações geraes dos
+mercados aos viticultores<span class="pn">{35}</span> nacionaes e os dados
+estatisticos sobre que se possam basear.</p>
+
+<p>A meu vêr, os commissarios e exposições poucos resultados podem dar e a
+experiencia bem o tem mostrado. Vão effectivamente os vinhos, faz-se uma
+propaganda official, os individuos que os bebem acham-nos geralmente bons e...
+mandam comprar os vinhos que estão habituados a beber. Não julgo facil, n'um
+paiz como o Transvaal, habitado por uma população ingleza em parte, introduzir
+de repente typos de vinhos differentes dos vinhos do Cabo, que são os que mais
+frequentemente se encontram por toda a parte.</p>
+
+<p>O meio a seguir, parece-me, deveria ser procurar, por meio dos nossos
+variadissimos typos, imitar, pelo menos nos primeiros tempos, os vinhos de
+maior consumo no Transvaal, preparando-os. Um commissario, enviado de Bordeus
+para estudar o alargamento do mercado de vinhos na republica sul africana, foi
+d'esta opinião, no relatorio que apresentou no seu regresso a França, e isto
+tratando-se dos vinhos de Bordeus que tão largo nome têm. Este modo de proceder
+tem já sido empregado para a fabricação de certas marcas especiaes de Champagne
+barato, de largo consumo no sul da Africa; não foram os francezes procurar
+convencer os sul africanos de que o Champagne, que é preferido n'aquella<span
+class="pn">{36}</span> região, não é bom e verdadeiro Champagne, mas
+fabricam-lh'o segundo o seu gosto.</p>
+
+<p>Além do Champagne, o Xerez, o Vermouth e muitos outros vinhos são largamente
+consumidos no Transvaal, e muitos d'estes não vêm de França, Hespanha ou
+Italia, mas dos paizes onde com igual facilidade se fabrica o Porto ou Madeira
+que nunca sahiram de Portugal.</p>
+
+<p>Fazer despezas importantes para que os nossos typos de vinhos sejam
+preferidos, é, creio, empreza pouco realisavel e muito dispendiosa, mas
+sobretudo inutil, porque se o chegassemos a conseguir, logo os nossos vinhos
+seriam imitados por quem tivesse interesse em o fazer.</p>
+
+<p>Assim, procurar conseguir vinhos semelhantes aos do consumo no paiz,
+dar-lhes boa apparencia e envasilhal-o de um modo agradavel á vista, parece-me
+ser o meio de alargar o consumo dos nossos productos entre a população sul
+africana; agentes commerciaes, trabalhando por interesse proprio,
+collocal-os-iam com facilidade.</p>
+
+<p>Claro está que isto só diria respeito aos vinhos de pasto; os nossos vinhos
+generosos têm uma reputação universal e não conviria mudar-lhe os typos,
+bastando apenas que os agentes consulares perseguissem os contrafactores, que
+os ha e não poucos, até em Africa.<span class="pn">{37}</span></p>
+
+<p>Além dos vinhos, as conservas poderão ter tambem consumo facil desde que vão
+melhor e mais artisticamente acondicionadas. É frequente em Africa, receber
+conservas de fructas portuguezas perfeitamente em papas, contrastando com o
+bello aspecto das fructas da California.</p>
+
+<p>Ainda outros generos poderiam ser introduzidos quer na nossa colonia quer na
+Africa do sul, de que o nosso commercio poderia tirar largos lucros.</p>
+
+<p>Mas, além do commercio, os capitaes portuguezes teriam tambem muitos meios
+de se empregar com vantagem, aproveitando os interesses que os capitaes
+estrangeiros vão auferir em Lourenço Marques.</p>
+
+<p>A industria da pesca, que tantos resultados tem dado em Angola, e melhores
+daria se fosse bem dirigida, facilmente se poderia crear na bahia, abundante,
+bem como a costa do districto, em peixes de variadas especies. A sua
+exploração, combinada com a da fabricação do gelo, teria no Transvaal um largo
+campo de consumo, e se não se tem installado regularmente até hoje, é porque
+todos se têm preoccupado em obter o monopolio da pesca, que o governo não póde
+nem deve dar.</p>
+
+<p>O saneamento do pantano, attribuindo a terrenos agora inutilisaveis uma
+grande facilidade de applicação, daria tambem lucros fabulosos,<span
+class="pn">{38}</span> attendendo ao elevadissimo preço por que se estão hoje
+vendendo.</p>
+
+<p>O aterro e aproveitamento de uma área comprehendida entre a costa e um
+muro-caes a estabelecer entre a ponte da alfandega e a Ponta Vermelha, daria
+perto de 20 hectares de terrenos, pouco insalubres, de um valor incalculavel, e
+de uma grande vantagem para o alargamento do porto e edificios do Estado, taes
+como a alfandega, capitania, etc. Esta concessão já foi pedida por estrangeiros
+e seria decerto um perigo se cahisse nas suas mãos, pois que, pelas concessões
+feitas, o governo não possue hoje na bahia uma extensão apreciavel de costa, a
+não ser aquella.</p>
+
+<p>A construcção de uma ponte-caes para mercadorias em transito no rio do
+Espirito Santo, obra indicada por um dos homens de mais larga intelligencia,
+vastos conhecimentos e seguro golpe de vista, que nos ultimos tempos tem
+dirigido os destinos de Moçambique, o snr. conselheiro Antonio Ennes, daria
+além de grandes juros ao capital para ella necessario (300 contos
+aproximadamente) uma grande facilidade ao movimento do porto, por isso que ella
+seria acostavel em qualquer estado do tempo.</p>
+
+<p>As construcções urbanas têm dado nos ultimos annos rendimentos avultados,
+não inferiores a 30 por cento. Ha pouco, era vulgar uma casa de custo não
+superior a 300 libras,<span class="pn">{39}</span> ser alugada por 7 libras
+mensaes; e comquanto hoje este estado de coisas tenha mudado um tanto, é certo
+que os capitaes empregados em edificações rendem pelo menos 15 por cento.</p>
+
+<p>E citarei apenas de passagem, para não alongar demasiadamente a exposição,
+as industrias ceramicas, a fabricação da cal e cimento, hoje produzidos já no
+Natal e que facilmente se installariam na Inhaca, as de docas de reparação, a
+de fabricação e reparação de lanchas e escaleres, etc., etc.</p>
+
+<p>Creio que hoje não restará duvida que Lourenço Marques é e será uma colonia
+commercial e que o seu progresso e permanencia no dominio portuguez depende
+principalmente do commercio e industria nacionaes, aos quaes devemos subordinar
+tudo o mais. Quando os capitaes empregados em Lourenço Marques forem só
+inglezes, inglezas as casas commerciaes, ingleza toda a área em que assenta a
+cidade, o que equivale a dizer estrangeiro tudo, com que direito, com que razão
+nos poderemos ali conservar, verdadeiros parasitas, aproveitando sómente o
+trabalho alheio? Os direitos historicos, bem o sabemos, não bastam em Africa, e
+o nosso proprio decoro não nos permittiria que nos mostrassemos degenerados
+descendentes dos antigos <i>moradores</i> portuguezes.<span
+class="pn">{40}</span></p>
+
+<p>Precisam, pois, affluir a Lourenço Marques, como já disse, não colonos
+pobres e anemicos ou velhos e creanças, como tem já succedido, para apenas
+concorrerem para o alargamento do cemiterio; mas sim individuos sãos de corpo e
+de espirito, representando o commercio e a industria da metropole, activos e
+emprehendedores, acompanhados por capitaes nacionaes, que vão recolher os
+largos juros que hoje são premio de capitaes estrangeiros.</p>
+
+<p>O desenvolvimento do commercio e da industria trarão como consequencia a
+emigração especial de que estes precisam, por isso que carecem de edificações,
+obras de toda a especie, lanchas, vapores, carros, etc., que representam outras
+tantas necessidades, cuja satisfação póde dar vasto emprego a um grande numero
+de homens, engenheiros, operarios, marinheiros, pescadores, etc., que deverão
+ser tão bons como os melhores da metropole, d'onde deverão ir, para resistirem
+á influencia do meio. Já hoje um bom operario ganha em Lourenço Marques um
+salario avultado, não sendo raros os que no fim de certo periodo alcançam uma
+pequena fortuna; em compensação os maus operarios difficilmente alcançam meios
+de subsistencia.</p>
+
+<p>Mas, se tudo isto é a consequencia necessaria do desenvolvimento da colonia,
+mais necessario se torna que ella se não desnacionalise, e que a lingua
+portugueza seja a que predomine,<span class="pn">{41}</span> porque de outro
+modo os estrangeiros preferirão sempre os operarios seus compatriotas. E a
+desnacionalisação, só o augmento de relações commerciaes com a metropole e o
+affluxo de capitaes portuguezes poderão evital-a.</p>
+
+<p>A uma outra necessidade tambem a industria particular deveria attender,
+ajudada pela protecção do governo; mal se comprehende que uma colonia
+commercial por excellencia, como é Lourenço Marques, possa estreitar as suas
+relações com a metropole, sem que haja navegação sob a bandeira nacional. Uma
+tentativa se fez, a da Mala Real, mas essa tristes resultados deu, não porque a
+empreza não tivesse em si largos elementos de exito, mas pela menos conveniente
+administração que teve, aggravada por exigencias por vezes injustas das
+auctoridades em Africa, que faziam demorar os vapores a seu talante,
+auctorisando-se para isso da irregularidade das carreiras.</p>
+
+<p>Dos vapores da Mala não se sabia nunca, nem o dia da partida, nem o da
+chegada, e passageiros houve que levaram quasi tres mezes de Lisboa a Lourenço
+Marques, isto não obstante os vapores serem de primeira ordem e commandados por
+officiaes competentissimos.</p>
+
+<p>Assim, resumindo, o futuro de Lourenço Marques está, a meu vêr, dependente
+da nossa iniciativa commercial e industrial. O seu desenvolvimento<span
+class="pn">{42}</span> abre um largo campo de acção ás classes liberaes e ao
+operariado escolhido da metropole, que encontrarão n'um paiz de lingua,
+costumes e leis analogas ás da metropole, vantagens não inferiores ás que
+apontei para o commercio metropolitano.</p>
+
+<p style="text-align:center">*</p>
+
+<p style="text-align:center">*      *</p>
+
+<p>Resta-me ainda dizer algumas palavras de Lourenço Marques como colonia de
+exploração, e debaixo d'este ponto de vista creio que, se o districto tem
+elementos de riqueza e futuro desenvolvimento, estão elles longe dos que se
+notam em Inhambane, Quilimane e outros districtos do norte da provincia.
+Entretanto, pela sua situação fóra dos tropicos e pela sua posição geographica,
+algumas probabilidades tem de aproveitamento, que conviria utilisar, imprimindo
+á colonisação do districto, além do caracter commercial predominante, uma
+feição de colonia de exploração, secundaria, ajudando-se as duas mutuamente.</p>
+
+<p>A colonia de exploração propriamente dita deve poder produzir generos de
+venda remuneradora, taes como o café, o cacau, a canna, a quina, etc., que
+compensem as despezas e sacrificios da cultura e ao mesmo tempo dispôr de mão
+d'obra abundante e facil, que substitua<span class="pn">{43}</span> a do
+europeu, que unicamente deve dirigir os trabalhos.</p>
+
+<p>Lourenço Marques, pelo menos na região visinha da costa, onde os transportes
+são relativamente faceis, poderá talvez produzir os generos a que me referi, e
+entre outros a canna saccharina e a borracha já ali se desenvolvem. Produzirá
+igualmente os outros generos, com economia? Não sei, visto não haver
+experiencias que nol-o indiquem.</p>
+
+<p>E merecerá a pena tental-as, quando a pequena distancia para o norte da
+provincia temos regiões onde as condições do clima são excepcionaes, bem como a
+fertilidade do sólo, para o estabelecimento de colonias de exploração, como em
+toda a região do Zambeze? Não creio. Seria ir experimentar o duvidoso,
+desprezando o certo.</p>
+
+<p>Demais, em Lourenço Marques a mão d'obra é cara. O preto ganha ali,
+trabalhando muito menos do que o europeu o faz na Europa, 2 a 3 shillings
+diarios ou seja de 600 a 900 reis, e não é facil encontral-os por preço menor,
+visto que é este o salario que podem ganhar em qualquer centro aurifero do
+Transvaal. Em tempos, o governo do districto, cedendo ás queixas geraes dos
+habitantes, quiz regulamentar os salarios dos cafres, esquecendo o principio
+geral da <i>offerta</i> e da <i>procura</i>, sendo o resultado perfeitamente
+nullo, por isso que, quando precisavam<span class="pn">{44}</span> cafres, eram
+os que mais tinham reclamado, que iam offerecer maior salario aos do
+visinho.</p>
+<!&mdash; &mdash;>
+
+<p>O regulamento do preço dos salarios é praticamente inapplicavel em Lourenço
+Marques, pois para o conseguir seria necessario prohibir a emigração para o
+Transvaal e para o Natal, e esta medida, além de anti-economica e antipolitica,
+seria de difficil execução.</p>
+
+<p>Pelo contrario, na Zambezia, não succede o mesmo. O preto ali, submette-se
+ao senhor do praso em que habita, trabalhando por um preço baixo, de 3$000 a
+4$500 reis por mez, por isso que mal acredita que não está já sujeito ao
+regimen da escravatura, unico possivel para fazer trabalhar o negro, quando
+convenientemente fiscalisado. Os inglezes tanto assim o comprehenderam que,
+feitos grandes esforços, sob vãos pretextos de philantropia e generosidade,
+para acabar com a escravatura barbara dos antigos tempos, a reorganisaram com
+meios mais suaves, mas não menos firmes, em seu exclusivo proveito. E têm
+razão, pois que a liberdade que nós damos ao preto resume-se em lhe darmos só
+direitos, dos quaes o que lhes é mais precioso é o de não trabalharem, sem lhe
+impôrmos deveres.</p>
+
+<p>Assim, temos na provincia de Moçambique pontos onde podemos ir implantar,
+sem receio de mau exito, as verdadeiras colonias de exloração,<span
+class="pn">{45}</span> ricas, de largo futuro, não inferior ao da nossa colonia
+de S. Thomé, sem recorrermos para isso a Lourenço Marques.</p>
+
+<p>É, porém, certo que este districto dispõe de recursos especiaes: é cortado
+de rios navegaveis, que tornam os transportes muito faceis: dispõe nos valles
+dos rios de fertilissimos terrenos, onde se poderiam installar culturas
+remuneradoras; pela sua posição fóra dos tropicos e proximidade da visinha
+colonia do Natal e da Republica sul africana, as experiencias n'aquelles paizes
+realisadas, poderiam decerto aproveitar-lhe; e finalmente ainda, é menos
+insalubre do que os outros districtos da provincia, á excepção talvez de alguns
+pontos de Inhambane e das terras altas do interior. Algumas localidades até,
+infelizmente pouco extensas, são relativamente salubres, dando-se o caso
+curioso de que não se podem sempre reconhecer á primeira vista as suas
+condições hygienicas. É assim que Incanine, no baixo Incomati, rodeado por toda
+a parte de pantanos e lodaçaes, se reconheceu ser o local mais salubre de todos
+os occupados em 1895 pelas nossas tropas; era por assim dizer um verdadeiro
+sanatorio.</p>
+
+<p>Por isso, industrias agricolas ha que se devem installar em Lourenço
+Marques; serão naturalmente aquellas que exijam pouca mão d'obra, ou em que o
+trabalho possa ser feito<span class="pn">{46}</span> por machinas e ainda as
+que possam tirar valor dos seus faceis meios de transporte, os rios.</p>
+
+<p>Taes são a creação de gados, quer vaccum, quer lanigero, e a cultura de
+cereaes, que poderia fornecer largamente a metropole. Que importa, com effeito,
+que a Huilla, que a região de Milange e tantas outras possam fornecer o milho e
+o trigo, se estes, por falta de transporte barato, não puderem sahir do paiz de
+producção?</p>
+
+<p>A cultura do milho, sem duvida se póde realisar em Lourenço Marques;
+cultivam-n'o os pretos em todos os pontos onde ha agua, e não são poucos, e com
+magnifico resultado, pois se vêem as plantas attingir 3, 4 e mais metros de
+altura, com uma producção proporcional ao porte. Em todo o valle do baixo
+Incomati, do Limpopo e do Maputo, se vêem vastas planicies, onde ás areias se
+misturam as alluviões do rio, formando um sólo extremamente fertil.</p>
+
+<p>O trigo deveria tambem dar-se, por isso que se produz em condições analogas
+no Natal; das experiencias feitas no districto, pouco se póde concluir, pois
+que ainda não foram regularmente seguidas para fornecer dados seguros; todas,
+porém, têm dado resultado e só de uma, feita nas visinhanças da cidade, soube
+que os resultados foram pouco animadores, mas é provavel que, se o trigo se
+manteve rachitico<span class="pn">{47}</span> e sem desenvolvimento, foi porque
+as experiencias foram mal dirigidas, não se escolhendo a época favoravel á
+sementeira, nem o typo de semente mais apropriado. Na Beira, onde o dr.
+Arriaga, um dos benemeritos da colonisação africana da costa oriental, fez
+experiencias da cultura do trigo em larga escala, os resultados foram
+magnificos, obtendo em média 50 sementes; ora o que succedeu no valle do Busi,
+n'uma alta latitude, mais naturalmente succederá no do Incomati.</p>
+
+<p>Nos postos do Incomati, no Marracuene, Manhissa, Magudi e no Maputo, foram
+estabelecidos, em 1895, com o atilado criterio de quem então dirigia os
+negocios da provincia, pequenas quintas regionaes, com o fim de se proceder ás
+necessarias experiencias de agricultura, e, apesar dos poucos meios de que a
+provincia podia dispor, muito ha a esperar do resultado d'estes trabalhos, que
+oxalá sejam dados a publico.</p>
+
+<p>Quer o milho, quer o trigo, muito vantajosamente seriam importados pela
+metropole, pois decerto os transportes seriam baratos, em fretes de retorno. O
+milho, além do consumo no interior do districto, pois que, comquanto pareça
+incrivel, o districto de Lourenço Marques importa por vezes milhares de saccas
+de milho e arroz, poderia ser utilisado para fabricação do alcool exportavel
+para o Transvaal, producto<span class="pn">{48}</span> de que já ha montadas
+fabricas importantes, quer na cidade, quer em Ressano Garcia.</p>
+
+<p>Além d'estas culturas principaes e ainda do arroz, muitas outras se poderiam
+crear, não só para consumo local, mas talvez tambem para exportação. As arvores
+de fructo europeias desenvolvem-se bem no districto, conforme se verificou nas
+plantações de Anguane. As laranjeiras e limoeiros não têm difficuldade em
+medrar, pois que os ultimos são selvagens, encontrando-se ao longo das margens
+do Incomati milhares de limoeiros, carregados de esplendidos limões, que se
+reproduzem sem cultura, para gaudio dos cafres e dos macacos.</p>
+
+<p>Nas vertentes dos Libombos, do rio dos Elephantes, até á fronteira sul do
+districto, em grande parte dos valles do Incomati, do Umbeluzi e do Limpopo, a
+creação de gado vaccum far-se-ia sem difficuldade, pois em qualquer d'estes
+pontos se vêem rebanhos de gado de centenares de cabeças, pertencentes aos
+cafres. O gado muar e os burros dar-se-iam tambem perfeitamente, podendo
+prestar grandes serviços n'aquelle paiz em que os cavallos morrem tão
+facilmente: duas muares vi no Incomati, que, tendo fugido aos donos, se tinham
+tornado selvagens, vivendo em liberdade e eram magnificos exemplares;
+infelizmente foram mortas a tiro, por quem decerto tinha pouco bom senso.<span
+class="pn">{49}</span></p>
+
+<p>O gado lanigero, pelo menos raças semelhantes ás do Transvaal e do Cabo,
+encontraria tambem magnificas condições de desenvolvimento n'uma extensa zona
+nas vertentes dos Libombos, onde já se encontra, na posse dos cafres, se bem
+que em pequeno numero e de raça inferior. A exportação das lãs constitue hoje
+um dos principaes elementos de riqueza do Cabo da Boa-Esperança e do Transvaal,
+e podel-o-ia ser tambem de Lourenço Marques.</p>
+
+<p>Na zona que da base da vertente dos Libombos vem até á zona argillosa e
+humida, encontram-se, quando a população escasseia, avestruzes selvagens,
+indicando-nos o proveito que pela sua creação poderiamos tirar da região
+arenosa do districto, de um modo analogo áquelle por que no Cabo da
+Boa-Esperança se conseguiu tirar d'aquelles animaes um rendimento importante,
+de centos de mil libras annuaes.</p>
+
+<p>A cultura do arroz e do algodão, o primeiro já hoje cultivado em pequena
+escala pelos negros, e o segundo, de que já se fizeram ensaios coroados de bom
+resultado, poderiam tambem concorrer para a prosperidade da colonia.</p>
+
+<p>De tantos elementos de riqueza, e ainda outros que seria longo enumerar,
+pouco se aproveita hoje, apesar de muitos esforços por vezes empregados pelo
+governo. Já em 1780 foi necessario que o governador Pereira do Lago,
+obrigasse<span class="pn">{50}</span> os moradores á cultura do algodão, e em
+1760 o governador Pedro de Saldanha de Albuquerque forçou os habitantes de
+Lourenço Marques a entregarem-se á agricultura, «<em>para ao menos evitarem que
+até o pão e a mandioca lhes viessem de fóra</em>». Que diria elle hoje, em que
+vem de fóra não só o pão para os brancos, mas ainda o arroz e o milho para os
+cafres!</p>
+
+<p>Das riquezas mineiras de Lourenço Marques pouco posso dizer. Ha talvez ouro,
+e minerios preciosos, nos filões dos Libombos e ao norte do districto, na
+camada de conglomerados, mas das pesquizas até hoje feitas nada se tem
+conseguido; verdade é que têm sido poucas e mal dirigidas; entretanto alguma
+vantagem haveria em que se fizessem methodicamente.</p>
+
+<p>Se Lourenço Marques não está em condições de poder, como colonia de
+exploração propriamente dita, vir a attingir o elevado grau de prosperidade de
+S. Thomé, Cabo, Java, etc., nem por isso é tão desprotegido pela natureza, como
+vêmos, que não possa, amparado pela sua colonia commercial, desenvolver-se e
+medrar, concorrendo em curto periodo para libertar a metropole dos pesados
+encargos do seu <em>deficit</em> de producção cerealifera.<span
+class="pn">{51}</span></p>
+
+<p style="text-align:center">*</p>
+
+<p style="text-align:center">*      *</p>
+
+<p>Mas se Lourenço Marques só póde ser principalmente uma colonia commercial,
+devendo-se a esta sua feição subordinar tudo o mais, nem por isso faltam, nos
+nossos vastos dominios coloniaes, regiões onde se installem colonias de outro
+genero.</p>
+
+<p>Na região alta do interior de Moçambique podem encontrar-se vastos terrenos
+salubres, com clima pouco differente do nosso e onde a população póde
+desenvolver-se sem obstaculos insuperaveis. Taes são Manica, Milange, a região
+do Nyassa, etc., e para ahi nos installarmos basta que o nosso povo ahi queira
+repetir os trabalhos que os nossos antepassados executaram na America; o
+governo só póde fazer os trabalhos de preparação, ou installar colonias penaes.
+As colonias militares, pelo seu caracter, não julgo que possam dar bom
+resultado.</p>
+
+<p>Para colonias de exploração temos quasi toda a vasta área da provincia de
+Moçambique, que se abre á nossa actividade, apresentando-nos uma variedade de
+recursos que difficilmente se encontrarão n'outros pontos. Se estamos, ou por
+outra, se o nosso descuido levou outros, mais activos e trabalhadores, a nos
+deixarem<span class="pn">{52}</span> reduzidos a uma tira de terreno ao longo
+da costa, essa mesma situação nos dá a posse dos melhores portos, testas
+obrigadas dos caminhos para o interior, que se podem encontrar desde o Cabo da
+Boa-Esperança até ao Guardafui.</p>
+
+<p>Inhambane, n'uma zona de mais de 100 kilometros de largura e que corre
+parallelamente á costa, tem uma população numerosa e trabalhadora, terrenos
+fertilissimos, e a borracha e o café desenvolvem-se ali espontaneamente, sendo
+este de magnifica qualidade. Antigas plantações junto da villa, mostram ainda
+hoje a pujança dos cajueiros, coqueiros, mangueiras e outras muitas especies
+vegetaes. O café, que cresce quasi na costa, não tem animado ainda até hoje os
+nossos colonos a iniciarem plantações, limitando-se a ensaccar o que do
+interior é trazido pelos cafres; ha annos, porém, ensaiou-se ali uma larga
+plantação de chá, que morreu com o fallecimento do proprietario, tendo
+entretanto apresentado bons indicios. No interior do districto a caça, bufalos,
+zebras, antilopes e até elephantes, são abundantissimos.</p>
+
+<p>Se de Inhambane passamos ao Zambeze, encontramos uma bella via fluvial, em
+cujas margens, e em tempos remotos, os nossos maiores estabeleceram grande
+numero de feitorias, povoações e centros agricolas, de que ainda restam
+vestigios.<span class="pn">{53}</span></p>
+
+<p>Modernamente alguns homens de iniciativa têm, em pouco tempo, realisado
+fortunas avultadas e fundado magnificas plantações no baixo Zambeze. O
+coqueiro, de que se encontram ali milhões de exemplares, tem sido plantado
+largamente; a canna saccharina, o café, o arroz, etc., estão sendo cultivados
+com vantagem, e se os exemplos dados fossem seguidos, poderiamos em pouco tempo
+ter ali a primeira colonia de exploração portugueza, superior ainda a S.
+Thomé.</p>
+
+<p>Nos prasos das margens do rio ha magnificas mattas onde a madeira podia ser
+explorada, e onde os elephantes ainda se encontram com abundancia; em Tête
+encontram-se jazigos de carvão, infelizmente de qualidade inferior na parte já
+reconhecida, e nos terrenos ainda não explorados ha indicios de importantes
+jazigos auriferos.</p>
+
+<p>Na região alta do norte do Zambeze, o clima é semelhante ao da Europa, e ahi
+poderiam os colonos ir restabelecer-se, quando atacados das doenças inevitaveis
+no valle insalubre do rio.</p>
+
+<p>Finalmente mais ao norte, no Ibo, Moçambique e Angoche, pouco se conhece do
+interior, mas a todos estes portos concorre o café selvagem do sertão e por
+elles se exportam annualmente muitos contos de reis de sementes oleaginosas.
+Desde que sejam conhecidos, provavel é encontrar territorios ainda mais
+bem<span class="pn">{54}</span> dotados do que os da Zambezia, região esta onde
+a colonia de Blantyre, ha poucos annos começada, já hoje exporta mais toneladas
+de café do que toda a provincia de Moçambique exporta de saccas da mesma
+mercadoria.</p>
+
+<p style="text-align:center">*</p>
+
+<p style="text-align:center">*      *</p>
+
+<p>Não seria, pois, razoavel procurar fazer de Lourenço Marques uma colonia de
+exploração propriamente dita, tentando introduzir ali, com sacrificio, culturas
+que a provincia n'outros pontos espontaneamente nos dá. O futuro de Lourenço
+Marques está inteiramente ligado ao seu desenvolvimento commercial e á
+emigração para ali de individuos capazes de o alargarem e de capitaes que o
+facilitem, e isto está, mais uma vez o repito, nas mãos da iniciativa
+particular.</p>
+
+<p>Ao governo compete não contrariar, pelas suas medidas administrativas, essas
+iniciativas e vigiar para que os seus agentes sigam a mesma-ordem de idéas. Por
+nós ou pelos estrangeiros, Lourenço Marques ha de fatalmente tornar-se o
+primeiro porto commercial da Africa do sul, e tudo o que contrarie esse destino
+redundará em nosso damno.</p>
+
+<p>A permanencia dos governadores no districto (de 1881 até 1896 houve vinte e
+sete mudanças<span class="pn">{55}</span> de governadores), a creação de tropas
+coloniaes, a separação naturalmente indicada de Lourenço Marques e Inhambane,
+n'um governo autonomo, do resto da provincia, a applicação dos rendimentos do
+districto ao seu melhoramento, sem os distrahir para fóra, a nomeação de
+pequeno numero de funccionarios, bons e bem pagos, em vez de muitos e mal
+pagos, o ensino obrigatorio da lingua cafreal, a organisação dos cafres no
+interior, sem vexames, causa de todas as revoltas, e tantas outras questões de
+administração, só podem ser ordenadas pelo governo, e muito contribuirão para a
+prosperidade do districto, com o qual a metropole já hoje não deveria fazer
+despezas.</p>
+
+<p>Que os penosos e lentos sacrificios que nos impuzemos durante muitos
+seculos, não vão hoje, que a messe está madura, aproveitar a outros, que
+avidamente espreitam o momento de lançar mão dos nossos despojos; e que uma
+colonisação preponderante e activa nos mantenha aberto o vasto campo de
+expansão e actividade necessario a um povo que não está ainda completamente
+decadente e perdido, é o que devemos procurar.</p>
+
+<p>De entre os restos do nosso vasto dominio colonial é Lourenço Marques
+aquelle de que a avidez estrangeira mais nos demonstra a importancia capital
+para o futuro desenvolvimento de Moçambique. Para que a sua
+desnacionalisação<span class="pn">{56}</span> não se opere, torna-se necessario
+que para ali concorra a actividade commercial, a industria e os capitaes, que
+são ainda mais do que os emigrantes, o nervo da colonisação, e de todos estes
+meios de acção nenhuma região é mais rica do que o norte do paiz e em nenhuma
+cidade elles se encontram mais largamente espalhados do que no Porto.</p>
+
+<p>É por isso que, agradecendo ao Atheneu Commercial do Porto o honroso convite
+com que me distinguiu, e á assembléa a cortezia e attenção com que se dignou
+escutar o que diligenciei expôr, sem galas de estylo, mas com inteira franqueza
+e verdade, me sentirei verdadeiramente orgulhoso, se por pouco que seja, tiver
+conseguido attrahir sobre Lourenço Marques as attenções d'uma cidade, a
+primeira sempre no paiz, nos grandes emprehendimentos de que póde resultar para
+a nossa querida patria, riqueza, gloria e prosperidade.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="L723" id="L723" href="#L717">[1]</a></sup> Dados extrahidos do
+<i>Districto de Lourenço Marques</i>, por Eduardo de Noronha.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Colonização de Lourenço Marques, by
+Alfredo Freire de Andrade
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COLONIZAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES ***
+
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+Produced by Pedro Saborano
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
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+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
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