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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Colonização de Lourenço Marques + +Author: Alfredo Freire de Andrade + +Release Date: November 21, 2010 [EBook #34388] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COLONIZAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + Alfredo Freire d'Andrade + + + COLONISAÇÃO + + DE + + LOURENÇO MARQUES + + + + + PORTO + TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA + Rua da Cancella Velha, 70 + 1897 + + * * * * * + + COLONISAÇÃO + + DE + + LOURENÇO MARQUES + + * * * * * + + + ATHENEU COMMERCIAL DO PORTO + + + COLONISAÇÃO + + DE + + LOURENÇO MARQUES + + + CONFERENCIA FEITA EM 13 DE MARÇO DE 1897 + + PELO + + SOCIO HONORARIO + + ALFREDO FREIRE D'ANDRADE + + + + + PORTO + TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA + Rua da Cancella Velha, 70 + 1897 + + * * * * * + + + + + _Illmo. e Excmo. Snr. Presidente do Atheneu Commercial do Porto._ + + +_Quizeram, V. Exc.ª e os meus illustres consocios, mandar imprimir a +conferencia que, na séde do nosso Instituto, tive a honra de pronunciar._ + +_Mal merece ella, tão mesquinha na fórma, como pobre de conceitos, tão +elevada prova de consideração da parte de uma das mais preponderantes e +illustradas aggremiações do nosso paiz; accedendo, porém, gostosamente +ao desejo de V. Excas., ser-me-ia grato que na primeira pagina de tão +insignificante trabalho, e que virá assim a ser a melhor, ficasse +consignado o meu reconhecimento por mais esta prova de estima, que +juntarei a tantas outras que o Atheneu Commercial do Porto se dignou +dispensar-me._ + + _Lisboa, 8 de abril de 1897._ + + _Alfredo Freire d'Andrade._ + + + + + + EXCMO. SNR. PRESIDENTE, MEUS SENHORES. + + +É consultando mais o desejo de corresponder ao honroso convite da +illustrada direcção d'este Atheneu do que as minhas forças e +competencia, que eu venho hoje dizer aqui algumas palavras ácerca de +Lourenço Marques. Outros o fariam com mais auctoridade e sobretudo com +mais eloquencia, pois que, pela minha parte, só a boa vontade e bons +desejos poderão ser titulos á benevolencia de tão distincta assembléa +para com as deficiencias necessarias da minha exposição. + +Pouco direi ácerca da situação, topographia e historia de Lourenço +Marques, hoje bem conhecidas, graças aos excellentes trabalhos do +visconde de Paiva Manso e do meu camarada Eduardo de Noronha. + +De todas as nossas colonias, é Lourenço Marques a unica que apresenta os +caracteres de um centro commercial em principio de um grande +desenvolvimento, só comparavel ao das cidades da Africa do sul. A +affluencia de navios ao porto, a actividade que se vê por toda a parte, +as mercadorias amontoando-se nos caes, o movimento e a vida que se +revelam ali, são um estimulo grandioso e magnifico que nos deve levar a +acompanhar sem demora a corrente de trabalho e de progresso rapido da +Africa do sul, sob pena de sermos esbulhados da mais bella joia do nosso +dominio colonial. + +A cidade de Lourenço Marques acha-se naturalmente dividida em duas +partes: _a velha_ ou baixa situada no local onde se estabeleceram as +primeiras feitorias, e _a nova_ ou alta, que, projectada sobre a +vertente que se desdobra da Ponta Vermelha ao Mahé, se vai a pouco e +pouco erguendo, por entre cerrados arvoredos, mostrando-se sob risonho +aspecto a quem vem procurar o porto. Entre as duas encontra-se uma +depressão larga e extensa, onde se reunem as aguas das chuvas e por +vezes as do mar, produzindo um vasto pantano, causa principal da +insalubridade da povoação. + +Pelo snr. conselheiro Ennes foi mandada ultimamente construir uma +estrada de 3,5 kilometros ligando a cidade com a Ponta Vermelha, local +bastante salubre, com 45 metros de altitude sobre o nivel do mar d'onde +se ergue abruptamente e que está destinado a um largo desenvolvimento, +pois que permittirá ao habitante, cançado do labutar diario na cidade +commercial propriamente dita, o ir pela tarde respirar lá em cima o ar +mais puro do oceano. + +Pouco se tem emprehendido até hoje para o saneamento do pantano, +aterrado apenas n'uma pequena área e isso mesmo pelas exigencias +crescentes do alargamento da parte velha da cidade, que, junto á margem +da bahia, será sempre a de maior valor. + +Muitas tentativas se têm feito já e as camaras e commissões municipaes +têm diligenciado resolver o problema, mas sem resultado, e isto por +variadas razões. De entre os projectos estudados, um, do engenheiro +Almeida Soeiro, aproveitava para edificações a área aterrada e drenada +convenientemente, e outro utilisava o pantano para ahi estabelecer uma +especie de porto interior, construindo um canal navegavel na base da +vertente em que assenta a cidade nova. Qualquer dos dois projectos +deveria ser adoptado sem demora e os trabalhos principiarem desde já, +por isso que a extincção do pantano, além de uma necessidade +impreterivel, daria tambem margem para uma operação commercial muito +rendosa, em que os capitaes empregados obteriam um lucro remunerador. +Basta considerar o preço por que poderiam ser vendidos os terrenos +utilisaveis depois de concluidos os trabalhos, para avaliar das +vantagens da operação; facilmente se obteriam 400:000 metros quadrados +de terrenos para aforar ou vender, que teriam decerto comprador por +um preço superior a uma libra o metro; o custo do aterro, em qualquer +dos casos, não devia exceder metade d'esta quantia para igual superficie. + +Adoptando-se o projecto da construcção de um porto interior, o preço das +obras augmentaria muito, mas o valor dos terrenos ao longo do canal, +iria além do que poderiamos prevêr, tanto mais que, sendo o porto um +pouco desabrigado por occasião dos temporaes de sueste, o porto interior +seria de grande recurso e portanto muito appetecidos os terrenos que o +orlassem. + +O interior do districto de Lourenço Marques divide-se em tres zonas +principaes. A dos Libombos, com algumas raras alturas de 600 metros, e +formada pela vertente oriental dos montes do mesmo nome, que desce +rapidamente até 200 metros de altitude, com arborisação basta e copada +em alguns pontos, sobretudo nas margens dos rios, e constituida por +porphyros feldspathicos e por uma extensa facha de conglomerados, +parallela áquelles e correndo norte sul. A segunda zona é a das areias +que, partindo dos conglomerados, vem descendo até á costa maritima, onde +os depositos terciarios que a formam, se reunem aos do apparelho +littoral; n'esta zona, geralmente secca e pouco povoada, o arvoredo ou é +raro ou se concentra em mattas cerradas, de especies ora rachiticas +e enfezadas, ora extremamente fortes e robustas, mas cujos troncos +torcidos e recurvados parecem significar as difficuldades que oppõem ao +seu crescimento aquelles terrenos tão aridos. Finalmente, a terceira +zona ou zona argillosa é a constituida pelos depositos que os rios +espalham largamente na occasião das cheias e ainda pelas argillas que +arrastadas pelas chuvas, se vão depôr nas baixas da zona arenosa, +constituindo assim os fundos impermeaveis de outras tantas lagoas, por +vezes de muitos kilometros de extensão, que em grande numero se +encontram principalmente para o sul do rio Incomati. A zona argillosa é +a zona fertil, mas é tambem a zona pantanosa e insalubre por +excellencia; o arvoredo é sempre forte e robusto, e as especies +numerosas, dando por vezes madeiras de excellente qualidade, se bem que +pouco aproveitaveis industrialmente. + +Recortando todos estes terrenos, vêem-se rios importantes, taes como o +Maputo, o Incomati e o Limpopo, que, trazendo as suas aguas do +Transvaal, se apresentam caudalosos, dando navegação, senão facil, pelo +menos possivel: o Incomati em quasi todo o seu curso no nosso territorio +e o Limpopo até ao rio dos Elephantes, e talvez ainda mais acima. Se, +porém, estes rios são faceis meios de transporte, são tambem elles, que, +alargando-se sobre milhares de kilometros quadrados, por occasião das +chuvas, deixam quando voltam aos seus leitos normaes, innumeros +charcos e brejos, que contribuem para a insalubridade das regiões que +atravessam. + +Tendo assim resumido de um modo geral o que para o nosso ponto de vista +especial mais importa conhecer das condições naturaes do districto, +vejamos qual o systema de colonisação que se deverá adoptar em Lourenço +Marques. Facilmente se comprehende que da escolha do processo a seguir +depende o exito da colonisação, e que não poucos desastres têm tido como +origem o querer-se implantar uma colonia em desharmonia com as condições +dos territorios que têm de a receber. + +Leroy Beaulieu classifica as colonias em tres typos principaes: + +_a_) _Colonias de população ou agricolas._--São aquellas em que, como na +Australia e no Brazil, o europeu vai encontrar um clima pouco differente +do que tem no seu paiz e póde constituir familia, formando nucleos de +população, que, ajudados pela affluencia constante de novos colonos, +terminam por povoar completamente a colonia. Se a metropole não póde +fornecer o contingente necessario em cada anno, é natural que outros +paizes d'isso se encarreguem, chegando n'esse caso a mudar por completo +a feição da colonia, que se desnacionalisa; é o que succedeu com a Nova +Amsterdam e a Nova Suecia, e poderá talvez dar-se um dia n'uma parte +do Brazil. + +_b_) _Colonias commerciaes._--Chamam-se assim as que pela sua situação +sobre grandes caminhos de commercio, dispondo de um porto de facil +accesso, d'elles se utilisam para servirem como entrepostos ou emporios +n'uma nova região e introduzir n'ella, principalmente, os productos da +metropole. Estas colonias, taes como Hong-Kong, Singapura, etc., são +necessariamente cosmopolitas e se não necessitam uma grande colonisação +de homens, precisam em compensação de muita industria, muito tino e +muita energia, e por consequencia de uma emigração escolhida, +acompanhada de um grande affluxo de capitaes. + +_c_) Finalmente, as _colonias de exploração_ são as que, pela sua +situação e clima especiaes, podem fornecer generos de largo consumo e +preços remuneradores, que ali se produzam com facilidade e a cuja +cultura em especial se destinem. Reclamam estas colonias muitos +capitaes, e um regimen especial de trabalho, por isso que, não podendo +ahi o branco trabalhar a terra, terá necessariamente de recorrer ao +trabalho indigena ou de raças adaptaveis ao clima. Taes são, entre +outras, as Antilhas, as Filippinas e entre nós a colonia tão largamente +desenvolvida de S. Thomé, tão genuinamente portugueza apesar de serem +relativamente poucos os colonos saídos da metropole. + + * * * * * + +Dependendo o futuro de uma colonia do systema adoptado na sua +colonisação, vejamos em qual d'estes typos se deve filiar Lourenço Marques. + +Poderá ser uma colonia de população? Esta idéa, que tem tido larga +corrente entre nós, a ponto de se querer fazer derivar para a provincia +de Moçambique, e em especial para Lourenço Marques, uma parte da +emigração que hoje se dirige ainda para o Brazil, deve, creio eu, ser +completamente posta de parte. Centos de colonos têm desembarcado em +Lourenço Marques, mais de mil nos ultimos annos, e quasi sem excepção, o +seu destino invariavel tem sido o regressarem ao reino, mais doentes e +pobres do que foram, com avultado dispendio do governo, ou a morte n'um +periodo relativamente curto. Diz-se, e é certo, que a colonia não está +preparada para os receber, mas não é menos certo que se lhes houvessem +sido fornecidos terrenos para cultivar, alfaias agricolas, etc., o seu +destino teria sido o mesmo. + +E senão vejamos. O clima de Lourenço Marques, se não é absolutamente +mau, podendo-se facilmente ali viver com uma alimentação regular e +uns certos cuidados que só um relativo cabedal e instrucção podem dar, +não é tambem bom. + +A temperatura média, quer de verão quer de inverno, não é exaggerada, +mas as differenças de temperatura, muito rapidas por vezes e que chegam +a attingir 18°c. no mesmo dia, são extremamente prejudiciaes, sobretudo +nas doenças dos orgãos respiratorios. + +Na cidade, depois da época das chuvas, de fevereiro a maio, as emanações +trazidas pelos ventos reinantes, que durante o anno passam de N. a O. +rondando por L., são extremamente perniciosas, por isso que provêm dos +muitos pantanos que rodeiam a povoação e ainda dos que orlam as margens +da Catembe. A falta de esgotos, a accumulação de individuos de raças +inferiores e o pantano do Infuléne, são ainda causas locaes, ás quaes se +póde dar remedio, é certo, mas que ainda hoje existem, se bem que +attenuadas. + +Para aggravar este estado de coisas, as chuvas são por vezes +torrenciaes, a ponto de em dez dias, como succedeu em 1895, se +precipitar sobre o sólo uma camada de 40 centimetros de agua, o que +concorre para a formação de novos charcos em pontos onde até então não +tinham existido. + +Se da cidade passamos ao interior do districto, as circumstancias, +sobretudo nos terrenos mais ferteis, aggravam-se, e a quadra que se +segue á época das chuvas é em geral perigosa, do que se faz facilmente +idéa pela affluencia aos hospitaes. + +Em 1893, uma estatistica da população de Lourenço Marques, certamente +inferior á verdade, dava uma totalidade de 1:017 habitantes, europeus e +asiaticos; a mortalidade no primeiro semestre d'esse anno foi de oitenta +e oito individuos, entre europeus e asiaticos: da totalidade dos obitos +40 por cento proximamente foram devidos a febres de mau caracter e 8 por +cento a tuberculose[1]. + +Dos soldados que fizeram parte da expedição de 1895, raros foram os que +não soffreram das febres, e se os officiaes não foram tão castigados por +ellas, decerto se deve esse facto a serem em geral mais velhos do que +aquelles, comprovando-se assim mais uma vez a conveniencia de não +seguirem para as colonias individuos de idade inferior a vinte e cinco +annos. + +Estes exemplos bastam para comprovar que, se em Lourenço Marques se póde +viver em melhores condições talvez do que em muitos pontos insalubres da +Europa, nem por isso deixam, quer a cidade, quer o districto, de +constituir uma região pouco salubre, onde a vida deve ser rodeada de +certos cuidados, que não podem conseguir colonos pobres, sem recursos, a +quem as regras da hygiene são desconhecidas, e que algumas vezes já +partem da metropole anemiados pela miseria ou pelo vicio. + +Estes, com poucas excepções, nada têm feito em Lourenço Marques, +emquanto que é frequente vêr individuos permanecer dez, quinze e mais +annos na cidade, sem grave damno, porque souberam e puderam manter as +necessarias cautelas; tanto mais que as condições hygienicas da cidade +vão progressiva, se bem que lentamente, melhorando. + +Para constituir uma colonia de população é necessario poder crear +familia; ora em Lourenço Marques as creanças não medram, e só por +excepção se poderão vêr ali filhos de colonos europeus, nascidos e +creados no districto. Não os conheço e as poucas creanças que se +encontram, essas vivem custosa e difficilmente; é por isso que não posso +sem pezar, vêl-as partir para Lourenço Marques inconscientemente levadas +pelas familias, sem que os paes imaginem qual o fim quasi inevitavel que +as espera. + +É a agricultura o principal recurso das colonias de população e isso +mesmo se tem supposto em varios projectos de colonisação propostos +para Lourenço Marques; é, porém, um facto averiguado que o branco, o +europeu, não póde trabalhar ali a terra ou cultival-a elle proprio, sem +grave risco de vida; bem o demonstrou a grande mortalidade que houve +durante a construcção do caminho de ferro do Transvaal e ainda +ultimamente alguns factos passados em 1895 vieram corroborar a opinião +que já tinha a este respeito. Em Magudi, n'um local secco, a 30 metros +acima do rio e em terrenos de rocha e areia, foi necessario, por falta +de cafres, que a guarnição do posto que ali se estabeleceu, removesse a +areia para construir trincheiras, e este facto deu causa a uma excessiva +mortalidade; em Xinavane, n'um terreno pantanoso, coberto pelas aguas na +occasião das cheias, os soldados foram prohibidos de cavar, e não houve +senão um obito e esse mesmo de uma praça vinda de Magudi. Em Taninga, +onde se fizeram importantes remoções de terras, as febres atacaram com +tal força a guarnição, que foi necessario retiral-a. Não póde, pois, o +branco trabalhar a terra e luctará com tanto maiores difficuldades, +quanto mais se aproximar da zona baixa e argillosa do districto, onde +justamente se encontram os terrenos mais ferteis e mais povoados pelos +cafres. + +Não se póde, pois, em Lourenço Marques, constituir familia, cultivar a +terra, e difficilmente se resiste por muitos annos, sem vir +refrescar á Europa, á influencia deleteria do clima. Como se poderá +pensar, em taes condições, em fazer d'aquelle districto uma colonia de +população? + +E, com effeito, todas as tentativas n'esse sentido têm dado mau resultado. + +Dizem uns que este facto é devido a serem os colonos lançados em +Lourenço Marques, sem que o districto esteja preparado para os receber. +Mas póde o governo dar-lhes os capitaes, a immunidade ao clima e as +qualidades de que o colono careceria de ser dotado em Lourenço Marques? +Decerto não. + +Dizem outros que o mallogro se deve attribuir á carestia dos terrenos do +Estado, que se manteve durante alguns annos. Mas de muitos mil hectares +de terrenos concedidos a particulares, poucos ou nenhuns foram +aproveitados, e quem d'elles tirou melhor proveito foram os que, sem +maiores cuidados, pediram e obtiveram concessões, esperando em seguida +que o progressivo augmento da cidade os valorisasse, para auferirem +grossos lucros, como succedeu com a Pulana, que, concedida por centos de +mil reis a um inglez, foi vendida por centos de contos, e ainda com a +Catembe, onde até á linha de costa, contra expressa determinação da lei, +se fizeram concessões a individuos que com isso lucraram mais tarde +muitos milhares de libras sem o menor trabalho. Tal foi durante +muito tempo o resultado das concessões baratas, sem se cultivar um só +dos milhares de hectares concedidos. + +A meu vêr nenhuma d'estas razões colhe. Lourenço Marques não tem +progredido como colonia de população, porque não está em condições de o +poder ser. + + * * * * * + +Se passamos a considerar Lourenço Marques debaixo do ponto de vista +commercial, as negras côres sob que acabamos de descrevel-o como colonia +agricola, mudam por completo, para nos mostrarem aquella região como +destinada a ser o emporio da Africa do sul, a colonia commercial por +excellencia, cuja importancia e valor se nos torna bem manifesta pelas +multiplas cubiças que, felizmente para o nosso dominio, tem despertado. + +E digo felizmente, porque a ellas se deve o conservarmos ainda nas +nossas mãos aquelle esplendido porto, unico na costa oriental, em toda a +extensão que vai desde o Cabo até Moçambique. A sua posse, porém, +impõe-nos obrigações que o rapido progresso da civilisação do sul +africano exige e ás quaes temos de satisfazer, sob pena de sermos em +breve eliminados por não correspondermos á alta missão que nos incumbe. + +Situada sobre o caminho commercial que conduz ao interior do Transvaal, +na sua região mais rica, servida com facilidade pelas vias fluviaes de +que dispõe o interior do districto e parte do territorio inglez do +centro d'Africa, Lourenço Marques vai-se desenvolvendo de modo tal, que +de um anno para o outro se transforma e amplia. As vantagens do porto +impõem-se de tal fórma, que as mercadorias affluem em quantidade, todos +os dias crescente, não obstante o pouco cuidado com que temos olhado +para os seus melhoramentos materiaes, e tambem a guerra de toda a +especie, que lhe tem sido movida pelos seus concorrentes naturaes. + +Com effeito, as colonias sul africanas não podem vêr com bons olhos o +desenvolvimento de Lourenço Marques e por isso vem de longe as +difficuldades de toda a ordem que lhe têm levantado. Ha annos, jornaes, +livros e publicações de toda a especie, declaravam ao mundo que a +insalubridade da povoação era tal, que passar ali, equivalia a uma +condemnação á morte; mas a população ia crescendo, em condições mais +favoraveis do que em muitas colonias inglezas. Mais tarde quizeram +inutilisar o nosso caminho de ferro, graças a uma completa liberdade de +tarifas, que menos reflectidamente lhe tinhamos concedido; pudémos +evitar esse mal, mas á custa da indemnisação que nos imporá o tribunal +de Berne. Mais tarde ainda, procuraram fazer-nos passar por incapazes de +manter a soberania portugueza no districto, levantando-nos toda a casta +de difficuldades por intermedio dos regulos indigenas. + +E muitos outros factos poderia citar, em que a má fé terminou sempre por +se manifestar, de modo que hoje a supremacia de Lourenço Marques, como o +primeiro porto da Africa oriental do sul está firmemente estabelecida. + +A população de Lourenço Marques, que em 1864 era de 83 individuos, +elevou-se em 1893 a 1:017 e hoje não é inferior a 4:000, homens e +mulheres, europeus ou indianos. + +O rendimento da alfandega, que em 1868 era de 3 contos de reis e em 1880 +de 47 contos, foi em 1896 de 600 contos. + +O numero de navios entrados no porto, que ha vinte annos era +insignificante, foi durante 1892 de 228, em 1893 de 252, em 1894 de 265, +em 1895 de 363 e em 1896 de 433, dos quaes 287 inglezes. No mez de +janeiro ultimo ancoraram no porto 52 navios. + +Pela sua parte o caminho de ferro attingiu o limite de trafego que o seu +material comporta, e desde que o porto se encontre em boas condições, a +affluencia de mercadorias obrigará decerto a dobrar a linha. Actualmente +a média do movimento semanal é de 3 a 5 mil toneladas. + +Mas nada dá idéa mais perfeita da avidez com que os estrangeiros +procuram Lourenço Marques do que o extraordinario augmento de valor dos +terrenos e das edificações, que tem decuplicado e por vezes centuplicado. + +Apparecem ali representantes de syndicatos que compram tudo que lhes +queiram vender quer sejam terrenos quer predios e ainda quarteirões +inteiros, de preferencia na parte velha da cidade, havendo exemplos de +se vender o metro quadrado de terreno por 10 libras, isto é, pelo dobro +do preço maximo dos terrenos na Avenida da Liberdade, em Lisboa. + +Todo este movimento e ainda as transacções que cada dia se fazem na +colonia, representam muitos centos de milhares de libras sterlinas, mas +o augmento da riqueza publica em muito pouco aproveita á metropole, que +não só d'ali não tira proveitos directamente, o que aliás não era de +esperar, mas ainda mesmo poucos aufere do commercio e da industria que +os seus nacionaes ali exercem. Pelo contrario, não creio exaggerado +suppôr que nos ultimos vinte annos, Portugal tem mandado para ali mais +de 10:000 contos de reis. + +Para conseguir tirar de Lourenço Marques todas as vantagens que nos é +licito esperar, muito resta ainda fazer, não só ao governo mas +principalmente á iniciativa particular. + +Ao governo compete, é certo, tratar dos melhoramentos do porto, para os +quaes se succedem uns aos outros os projectos e os estudos, adoptar +providencias para melhorar a hygiene da cidade, escolher funccionarios +idoneos para a administração do districto, mais importante decerto do +que a da provincia inteira, e conserval-os não os substituindo de seis +em seis mezes; e, finalmente, preferir sempre os nacionaes para +quaesquer concessões que haja de fazer. + +Este ultimo ponto, porém, já implica muito com a iniciativa particular, +pois o governo tem, naturalmente, para melhorar as condições da cidade e +seu porto, de entregar a execução dos melhoramentos necessarios a +emprezas que d'elles se encarreguem mediante certas concessões. + +Seria, pois, indispensavel que os capitaes portuguezes se não +retrahissem tanto e confiassem mais nos lucros extraordinarios, por +vezes fabulosos, que podem auferir em Lourenço Marques. + +Infelizmente, porém, a iniciativa e os capitaes portuguezes pouco +affluem á colonia, e se se encontram algumas poucas firmas portuguezas, +como Cardoso, Fornazini, Baptista Carvalho, Nogueira Pinto, etc., que +ali luctam pela vida, mantendo o commercio portuguez e a sua feição +especial, em compensação abundam os estrangeiros, Mac Intosh, Gubler, +Auerbach, Donaldson, Hoffman, Idolgy, e tantas outras, que +principalmente açambarcam o commercio, possuem as melhores propriedades +e dominam na praça. + +Não vemos frequentemente homens energicos, de iniciativa, representando +ou possuindo capitaes, partir para Lourenço Marques, a tentar novas +industrias e fundar novos centros de nacionalisação, com o que muito +ganham os estrangeiros, de modo que dos milhares de libras que +representam o commercio da cidade, só uma pequena parte aproveita á +metropole; o resto ou é absorvido pelo commercio estrangeiro europeu ou +vai para a India. + +O commercio indiano tem um feitio especial; em lojas, quasi sempre de +mesquinha apparencia, vêem-se alguns individuos, embrulhados em algodão +branco, fallando a lingua cafreal, o portuguez e o inglez, vendendo em +geral de tudo, desde a lata de conserva até aos productos cafreaes. +D'estas lojas saem agentes do mesmo jaez que, espalhando-se pelo +interior, vivendo como os indigenas cujas manias lisongeiam, e +protegidos pelos regulos a quem fazem presentes, monopolisam por +completo o commercio do interior. D'esta fórma as lojas dos indios e +mouros são os centros d'onde irradiam centos de braços, que vão +recolher no interior os milhares de libras que os cafres trazem +annualmente do Transvaal e Natal, libras que são immediatamente mandadas +para fóra do districto. + +Estes homens, sustentando-se de arroz e pouco mais, vestindo-se com uma +tira de algodão, tudo oriundo da India, nada consomem da metropole e +fazem uma concorrencia ao europeu, que precisa vestir-se, alimentar-se e +cuidar de si. Recolhido o seu peculio, voltam para a India, onde o vão +gozar depois de purificados, purificação essa que os lava do contacto +com infieis e tambem de todas as traficancias que tenham podido commetter. + +Muitos d'estes indios são inglezes, o que mais aggrava a situação, pois +que se encontram sempre apoiados pelo seu governo, para pretendidas +indemnisações a que se podem julgar com direito por perdas soffridas no +interior. E não se imagine que, ainda quando portuguezes, auxiliem o +nosso dominio; quando durante a guerra de 1895, as tropas chegavam aos +locaes onde os indios estavam estabelecidos, estes fugiam... com os +cafres: um indio na Manhissa aconselhava os pretos a não receberem a +prata portugueza, «_que não era boa_», e com effeito vendia carissimo +quando elles lhe pagavam n'essa moeda. + +É certo que algumas vezes prestaram, por interesse proprio, serviços +ao governo, mas esse facto deu-se principalmente quando em Lourenço +Marques quasi não havia colonos portuguezes. Hoje são um obstaculo, +porque é difficil fazer-lhes concorrencia, e bom era que um imposto +pesado os collocasse em circumstancias analogas aos europeus, pois que +d'outro modo o commercio do interior continuará nas mãos d'elles e o +ouro que vem do Transvaal continuará a seguir para a India. + +Demais, a moeda portugueza usada em Lourenço Marques favorece a +emigração do ouro: consiste ella em moeda de prata e notas da fazenda ou +do Banco Ultramarino, com que se fazem os pagamentos ao governo, +emquanto que a moeda ordinariamente usada nas transacções commerciaes é +a libra sterlina. Ora, quando um paiz tem duas moedas, uma boa, o ouro, +e outra má, a boa emigra e a outra fica. + +Creio seria facil acabar com este inconveniente, determinando-se que +todos os pagamentos fossem feitos em ouro, como o fez a Companhia de +Moçambique, com bom resultado nos seus territorios, admittindo-se a +prata só como moeda subsidiaria. Não haveria embaraços, como os não +houve na Beira, e tambem não se alterava, para com o resto da provincia, +o actual estado de coisas, por isso que a rupia que n'ella corre não é +aceita em Lourenço Marques e até o Banco Ultramarino tem dois typos +de notas, um para Lourenço Marques e outro para os demais districtos. + +Por este meio havia tambem a vantagem de evitar as fraudes; como se +poderá impedir que um individuo, que receba em ouro as receitas da +fazenda, computando a libra em 4$500 reis, as entregue mais tarde em +prata? Será isto uma falta? Moralmente sim, mas legalmente creio que +não, ainda que a falta se podesse provar. + +O typo de moeda _ouro_ favoreceria certamente o commercio nacional e +faria entrar em Portugal muitos milhares de libras; as receitas do +districto são hoje superiores a 1:000 contos de reis e, recebidas que +fossem em ouro, seria n'esta moeda que o governo pagaria aos seus +funccionarios, principaes consumidores dos productos da metropole e +tambem aos seus fornecedores, que devem ser, tanto quanto possivel, +nacionaes. + +A transferencia de capitaes para a metropole seria tambem facilitada: ha +já hoje bancos estrangeiros em Lourenço Marques que a podem fazer em +boas condições, pois que o Banco Ultramarino não tem prestado á +provincia de Moçambique e sobretudo ao districto os serviços que d'elle +era licito esperar; em 1892, chegou este banco a levar pela +transferencia de dinheiro da metropole e pagando lá em notas suas, a +_insignificante_ percentagem de 30%. + +Mas tudo o que se possa fazer em favor de Lourenço Marques de pouco +valerá, se a iniciativa particular, o nosso commercio, a nossa industria +e os nossos capitaes não forcejarem por tirar aos estrangeiros o +predominio que até hoje têm tido na colonia, e por desapossal-os do +monopolio do commercio, que tem como consequencia necessaria a drenagem +do ouro sem que a metropole pouco ou nada aproveite da riqueza da sua +colonia, de dia para dia crescente. + +Não lhe enviemos, pois, colonos pobres que lá vão morrer, mas +consagremos-lhe energias sãs, vontades firmes e capitaes abundantes. +Raras vezes uma colonia póde dar um rendimento liquido á mãe patria; mas +o que lhe dá e deve dar é um mercado para o consumo dos seus generos, e +um lucrativo campo de emprego para os seus capitaes, de modo a compensar +as despezas que por ella são feitas. E isto não se consegue só com +medidas administrativas, mas sim com a boa vontade e a intelligencia +commerciaes, que, luctando com a concorrencia estrangeira, evitem que só +a esta venham a caber os fructos de tantos sacrificios, que não poucos, +de homens e dinheiro, temos feito em Lourenço Marques. + +Precisamos hoje, na colonia, de agentes commerciaes, representantes das +nossas mais acreditadas casas da metropole, que, reunindo-se em +sociedade, facilmente os poderiam para ali mandar; de empregados +subalternos, que, aprendendo a lingua do paiz, vão ao interior recolher +os centos de mil libras, que para ali levam os indigenas. + +No Transvaal, só em Johannisberg, trabalham hoje mais de 45:000 cafres, +um verdadeiro exercito, que as exigencias da exploração do ouro, sempre +crescentes, dentro em poucos annos terão quadruplicado. De entre esses +cafres, uma grande parte provém da nossa colonia, e por isso o impedir a +emigração equivaleria a causar uma revolução economica no Rand; ora os +cafres vão trabalhar para conseguir dinheiro para a compra de mulheres, +armas e emfim dos objectos de que imaginam carecer, e voltam ás suas +terras com sommas por vezes avultadas. + +Não creio exaggerar, calculando em 15:000 cafres os que emigram em cada +anno, e, suppondo que voltem com 20 libras cada um, corresponderia isso +a uma entrada annual de 300:000 libras, que deveria ser aproveitada +exclusivamente pelo commercio da metropole. Os algarismos citados estão +decerto abaixo da verdade e mostram á evidencia a vantagem de não crear +embaraços á emigração, tanto mais que não ha em Lourenço Marques +industrias nossas que careçam de braços. + +Para aproveitar do commercio do interior não nos seria difficil +encontrar portuguezes, habituados ao sertão, que podessem competir com +os indios: alguns temos já hoje, que têm conquistado o respeito dos +cafres e entre elles um conheci, cujo nome bem merece do paiz, um antigo +soldado do corpo policial de Lourenço Marques, o Silva Maneta, cuja +dedicação pela patria e coragem excepcional, que o levava a arrojar-se +loucamente aos mais arriscados lances, tantos serviços prestou durante a +campanha de 1895; e que me seja licito aqui, prestar a esse portuguez de +lei, o tributo da minha admiração pelas brilhantes qualidades, que nunca +se buscam debalde nos mais obscuros filhos da nossa pobre, mas gloriosa +patria. + +Voltando, porém, ao assumpto, de que me fez desviar a recordação de um +verdadeiro heroe, n'esta cidade onde os feitos heroicos brilham em cada +pagina da sua historia, direi ainda que mesmo entre os cafres educados +na nossa escóla, poderiamos encontrar auxiliares, por isso que o cafre +quando se chega a convencer de que é portuguez e branco, é mais cioso +ainda do que este, das suas prerogativas, e até respeitado pelos outros +pretos como se branco realmente fôra. E não ha decerto espectaculo mais +comico do que vêr um grupo de negros tratar de «_senhor_» e de +«_branco_» um outro cafre tão negro como elles, só porque traja e +falla como os europeus. + +Pelo que respeita ao commercio com o Transvaal, facilita-o a proximidade +em que d'elle estamos, a sympathia que lhe merecemos, que maior seria se +mais trabalhassemos, e ainda os tratados que a elle nos ligam. + +Mas como condição essencial, necessario se torna que as nossas marcas +sejam sempre as mesmas e que não succeda que, desde que um producto se +acredita á custa de muito trabalho, os menos escrupulosos façam perder +uma vantagem, que difficilmente se poderá recuperar. Não insisto, apesar +de poder apresentar muitos exemplos, n'este facto, cuja importancia +todos podem avaliar. + +Muitos e variados são os productos com cujo commercio lucrariamos, quer +no districto, quer no Transvaal, e de entre esses apenas me referirei +aos que julgo de maior importancia. + +Na _cidade_, temos o consumo proprio, que é o de uma cidade rica, e que +deve ser exclusivamente fornecido pela metropole, ainda que á sombra de +bem entendidos direitos de entrada, não tão exaggerados, que sejam +apenas um incentivo ao contrabando. + +No _interior do districto_, facil seria abrir mercado para os nossos +vinhos brancos, convenientemente addicionados de aguardente, que vão +sendo preferidos ao alcool, não só porque realmente os cafres os +apreciam mais, mas ainda porque julgam que se aproximam do branco, +bebendo-os; os missionarios suissos, no districto, têm conseguido que +grande numero de cafres deixem de embriagar-se com a aguardente, +aconselhando-os a beber só vinho, que elles consomem conscienciosamente. +Tambem apreciam muito o _vermouth_, ou uma mistura que em garrafas lhes +é vendida como tal. Aproveitando estas tendencias, certamente abririamos +um mercado bastante largo para os nossos vinhos, e praticariamos ao +mesmo tempo uma obra meritoria prohibindo a importação do alcool +industrial em Lourenço Marques e a sua venda aos indigenas. + +Mas muitos outros generos se poderiam consumir no interior, além dos +vinhos. + +A polvora e as armas brancas, facas, machados, zagaias, etc., dariam +lucros bastante remuneradores, sendo fabricados segundo os typos +preferidos. + +Os tecidos, quer de algodão, quer de lã, pannos e cobertores, podem ser +enviados da metropole e vendidos com lucro, não só porque obtêm preços +altos, mas ainda porque muito os poderia proteger a differença de cambio +e um bem entendido direito protector, não difficil de fiscalisar. Os +typos de algodões e cobertores preferidos deviam ser mandados pelos +governos do districto aos centros industriaes do paiz, afim de serem +reproduzidos. Os algodões azues ou de fundo azul com desenhos brancos +são muito apreciados; em 1893 trouxe varios typos de cobertores, que +foram reproduzidos n'uma fabrica de Lisboa empregando-se lã de inferior +qualidade, e sendo o seu preço de custo de 600 a 900 reis: taes +cobertores tinham então em Lourenço Marques um preço de 4 a 6 shillings, +o que dava margem para um commercio lucrativo. + +Vendem os indianos aos cafres milhares de camisolas de malha, de fatos +completos, capotes, chapéos, fardamentos velhos, tudo de fabrico inglez +ou allemão; e tudo poderia ser enviado de Portugal, dando margem a +lucros importantes. + +Para o _Transvaal_, o nosso principal ramo de exportação não poderá +deixar de ser o vinho; a este e como annexo, poder-se-iam juntar as +conservas, sobretudo de peixe, quando bem fabricadas e conservando as +marcas. + +Apesar de ser um assumpto de que pouco conheço, não creio que para nos +abrir o mercado do Transvaal baste a iniciativa do governo, que, quando +muito, poderá apenas fornecer, por meio dos agentes consulares, as +indicações geraes dos mercados aos viticultores nacionaes e os dados +estatisticos sobre que se possam basear. + +A meu vêr, os commissarios e exposições poucos resultados podem dar e a +experiencia bem o tem mostrado. Vão effectivamente os vinhos, faz-se uma +propaganda official, os individuos que os bebem acham-nos geralmente +bons e... mandam comprar os vinhos que estão habituados a beber. Não +julgo facil, n'um paiz como o Transvaal, habitado por uma população +ingleza em parte, introduzir de repente typos de vinhos differentes dos +vinhos do Cabo, que são os que mais frequentemente se encontram por toda +a parte. + +O meio a seguir, parece-me, deveria ser procurar, por meio dos nossos +variadissimos typos, imitar, pelo menos nos primeiros tempos, os vinhos +de maior consumo no Transvaal, preparando-os. Um commissario, enviado de +Bordeus para estudar o alargamento do mercado de vinhos na republica sul +africana, foi d'esta opinião, no relatorio que apresentou no seu +regresso a França, e isto tratando-se dos vinhos de Bordeus que tão +largo nome têm. Este modo de proceder tem já sido empregado para a +fabricação de certas marcas especiaes de Champagne barato, de largo +consumo no sul da Africa; não foram os francezes procurar convencer os +sul africanos de que o Champagne, que é preferido n'aquella região, +não é bom e verdadeiro Champagne, mas fabricam-lh'o segundo o seu gosto. + +Além do Champagne, o Xerez, o Vermouth e muitos outros vinhos são +largamente consumidos no Transvaal, e muitos d'estes não vêm de França, +Hespanha ou Italia, mas dos paizes onde com igual facilidade se fabrica +o Porto ou Madeira que nunca sahiram de Portugal. + +Fazer despezas importantes para que os nossos typos de vinhos sejam +preferidos, é, creio, empreza pouco realisavel e muito dispendiosa, mas +sobretudo inutil, porque se o chegassemos a conseguir, logo os nossos +vinhos seriam imitados por quem tivesse interesse em o fazer. + +Assim, procurar conseguir vinhos semelhantes aos do consumo no paiz, +dar-lhes boa apparencia e envasilhal-o de um modo agradavel á vista, +parece-me ser o meio de alargar o consumo dos nossos productos entre a +população sul africana; agentes commerciaes, trabalhando por interesse +proprio, collocal-os-iam com facilidade. + +Claro está que isto só diria respeito aos vinhos de pasto; os nossos +vinhos generosos têm uma reputação universal e não conviria mudar-lhe os +typos, bastando apenas que os agentes consulares perseguissem os +contrafactores, que os ha e não poucos, até em Africa. + +Além dos vinhos, as conservas poderão ter tambem consumo facil desde que +vão melhor e mais artisticamente acondicionadas. É frequente em Africa, +receber conservas de fructas portuguezas perfeitamente em papas, +contrastando com o bello aspecto das fructas da California. + +Ainda outros generos poderiam ser introduzidos quer na nossa colonia +quer na Africa do sul, de que o nosso commercio poderia tirar largos +lucros. + +Mas, além do commercio, os capitaes portuguezes teriam tambem muitos +meios de se empregar com vantagem, aproveitando os interesses que os +capitaes estrangeiros vão auferir em Lourenço Marques. + +A industria da pesca, que tantos resultados tem dado em Angola, e +melhores daria se fosse bem dirigida, facilmente se poderia crear na +bahia, abundante, bem como a costa do districto, em peixes de variadas +especies. A sua exploração, combinada com a da fabricação do gelo, teria +no Transvaal um largo campo de consumo, e se não se tem installado +regularmente até hoje, é porque todos se têm preoccupado em obter o +monopolio da pesca, que o governo não póde nem deve dar. + +O saneamento do pantano, attribuindo a terrenos agora inutilisaveis uma +grande facilidade de applicação, daria tambem lucros fabulosos, +attendendo ao elevadissimo preço por que se estão hoje vendendo. + +O aterro e aproveitamento de uma área comprehendida entre a costa e um +muro-caes a estabelecer entre a ponte da alfandega e a Ponta Vermelha, +daria perto de 20 hectares de terrenos, pouco insalubres, de um valor +incalculavel, e de uma grande vantagem para o alargamento do porto e +edificios do Estado, taes como a alfandega, capitania, etc. Esta +concessão já foi pedida por estrangeiros e seria decerto um perigo se +cahisse nas suas mãos, pois que, pelas concessões feitas, o governo não +possue hoje na bahia uma extensão apreciavel de costa, a não ser aquella. + +A construcção de uma ponte-caes para mercadorias em transito no rio do +Espirito Santo, obra indicada por um dos homens de mais larga +intelligencia, vastos conhecimentos e seguro golpe de vista, que nos +ultimos tempos tem dirigido os destinos de Moçambique, o snr. +conselheiro Antonio Ennes, daria além de grandes juros ao capital para +ella necessario (300 contos aproximadamente) uma grande facilidade ao +movimento do porto, por isso que ella seria acostavel em qualquer estado +do tempo. + +As construcções urbanas têm dado nos ultimos annos rendimentos +avultados, não inferiores a 30 por cento. Ha pouco, era vulgar uma casa +de custo não superior a 300 libras, ser alugada por 7 libras +mensaes; e comquanto hoje este estado de coisas tenha mudado um tanto, é +certo que os capitaes empregados em edificações rendem pelo menos 15 por +cento. + +E citarei apenas de passagem, para não alongar demasiadamente a +exposição, as industrias ceramicas, a fabricação da cal e cimento, hoje +produzidos já no Natal e que facilmente se installariam na Inhaca, as de +docas de reparação, a de fabricação e reparação de lanchas e escaleres, +etc., etc. + +Creio que hoje não restará duvida que Lourenço Marques é e será uma +colonia commercial e que o seu progresso e permanencia no dominio +portuguez depende principalmente do commercio e industria nacionaes, aos +quaes devemos subordinar tudo o mais. Quando os capitaes empregados em +Lourenço Marques forem só inglezes, inglezas as casas commerciaes, +ingleza toda a área em que assenta a cidade, o que equivale a dizer +estrangeiro tudo, com que direito, com que razão nos poderemos ali +conservar, verdadeiros parasitas, aproveitando sómente o trabalho +alheio? Os direitos historicos, bem o sabemos, não bastam em Africa, e o +nosso proprio decoro não nos permittiria que nos mostrassemos +degenerados descendentes dos antigos _moradores_ portuguezes. + +Precisam, pois, affluir a Lourenço Marques, como já disse, não colonos +pobres e anemicos ou velhos e creanças, como tem já succedido, para +apenas concorrerem para o alargamento do cemiterio; mas sim individuos +sãos de corpo e de espirito, representando o commercio e a industria da +metropole, activos e emprehendedores, acompanhados por capitaes +nacionaes, que vão recolher os largos juros que hoje são premio de +capitaes estrangeiros. + +O desenvolvimento do commercio e da industria trarão como consequencia a +emigração especial de que estes precisam, por isso que carecem de +edificações, obras de toda a especie, lanchas, vapores, carros, etc., +que representam outras tantas necessidades, cuja satisfação póde dar +vasto emprego a um grande numero de homens, engenheiros, operarios, +marinheiros, pescadores, etc., que deverão ser tão bons como os melhores +da metropole, d'onde deverão ir, para resistirem á influencia do meio. +Já hoje um bom operario ganha em Lourenço Marques um salario avultado, +não sendo raros os que no fim de certo periodo alcançam uma pequena +fortuna; em compensação os maus operarios difficilmente alcançam meios +de subsistencia. + +Mas, se tudo isto é a consequencia necessaria do desenvolvimento da +colonia, mais necessario se torna que ella se não desnacionalise, e que +a lingua portugueza seja a que predomine, porque de outro modo os +estrangeiros preferirão sempre os operarios seus compatriotas. E a +desnacionalisação, só o augmento de relações commerciaes com a metropole +e o affluxo de capitaes portuguezes poderão evital-a. + +A uma outra necessidade tambem a industria particular deveria attender, +ajudada pela protecção do governo; mal se comprehende que uma colonia +commercial por excellencia, como é Lourenço Marques, possa estreitar as +suas relações com a metropole, sem que haja navegação sob a bandeira +nacional. Uma tentativa se fez, a da Mala Real, mas essa tristes +resultados deu, não porque a empreza não tivesse em si largos elementos +de exito, mas pela menos conveniente administração que teve, aggravada +por exigencias por vezes injustas das auctoridades em Africa, que faziam +demorar os vapores a seu talante, auctorisando-se para isso da +irregularidade das carreiras. + +Dos vapores da Mala não se sabia nunca, nem o dia da partida, nem o da +chegada, e passageiros houve que levaram quasi tres mezes de Lisboa a +Lourenço Marques, isto não obstante os vapores serem de primeira ordem e +commandados por officiaes competentissimos. + +Assim, resumindo, o futuro de Lourenço Marques está, a meu vêr, +dependente da nossa iniciativa commercial e industrial. O seu +desenvolvimento abre um largo campo de acção ás classes liberaes e +ao operariado escolhido da metropole, que encontrarão n'um paiz de +lingua, costumes e leis analogas ás da metropole, vantagens não +inferiores ás que apontei para o commercio metropolitano. + + * * * * * + +Resta-me ainda dizer algumas palavras de Lourenço Marques como colonia +de exploração, e debaixo d'este ponto de vista creio que, se o districto +tem elementos de riqueza e futuro desenvolvimento, estão elles longe dos +que se notam em Inhambane, Quilimane e outros districtos do norte da +provincia. Entretanto, pela sua situação fóra dos tropicos e pela sua +posição geographica, algumas probabilidades tem de aproveitamento, que +conviria utilisar, imprimindo á colonisação do districto, além do +caracter commercial predominante, uma feição de colonia de exploração, +secundaria, ajudando-se as duas mutuamente. + +A colonia de exploração propriamente dita deve poder produzir generos de +venda remuneradora, taes como o café, o cacau, a canna, a quina, etc., +que compensem as despezas e sacrificios da cultura e ao mesmo tempo +dispôr de mão d'obra abundante e facil, que substitua a do europeu, +que unicamente deve dirigir os trabalhos. + +Lourenço Marques, pelo menos na região visinha da costa, onde os +transportes são relativamente faceis, poderá talvez produzir os generos +a que me referi, e entre outros a canna saccharina e a borracha já ali +se desenvolvem. Produzirá igualmente os outros generos, com economia? +Não sei, visto não haver experiencias que nol-o indiquem. + +E merecerá a pena tental-as, quando a pequena distancia para o norte da +provincia temos regiões onde as condições do clima são excepcionaes, bem +como a fertilidade do sólo, para o estabelecimento de colonias de +exploração, como em toda a região do Zambeze? Não creio. Seria ir +experimentar o duvidoso, desprezando o certo. + +Demais, em Lourenço Marques a mão d'obra é cara. O preto ganha ali, +trabalhando muito menos do que o europeu o faz na Europa, 2 a 3 +shillings diarios ou seja de 600 a 900 reis, e não é facil encontral-os +por preço menor, visto que é este o salario que podem ganhar em qualquer +centro aurifero do Transvaal. Em tempos, o governo do districto, cedendo +ás queixas geraes dos habitantes, quiz regulamentar os salarios dos +cafres, esquecendo o principio geral da _offerta_ e da _procura_, sendo +o resultado perfeitamente nullo, por isso que, quando precisavam +cafres, eram os que mais tinham reclamado, que iam offerecer maior +salario aos do visinho. + +O regulamento do preço dos salarios é praticamente inapplicavel em +Lourenço Marques, pois para o conseguir seria necessario prohibir a +emigração para o Transvaal e para o Natal, e esta medida, além de +anti-economica e antipolitica, seria de difficil execução. + +Pelo contrario, na Zambezia, não succede o mesmo. O preto ali, +submette-se ao senhor do praso em que habita, trabalhando por um preço +baixo, de 3$000 a 4$500 reis por mez, por isso que mal acredita que não +está já sujeito ao regimen da escravatura, unico possivel para fazer +trabalhar o negro, quando convenientemente fiscalisado. Os inglezes +tanto assim o comprehenderam que, feitos grandes esforços, sob vãos +pretextos de philantropia e generosidade, para acabar com a escravatura +barbara dos antigos tempos, a reorganisaram com meios mais suaves, mas +não menos firmes, em seu exclusivo proveito. E têm razão, pois que a +liberdade que nós damos ao preto resume-se em lhe darmos só direitos, +dos quaes o que lhes é mais precioso é o de não trabalharem, sem lhe +impôrmos deveres. + +Assim, temos na provincia de Moçambique pontos onde podemos ir +implantar, sem receio de mau exito, as verdadeiras colonias de +exloração, ricas, de largo futuro, não inferior ao da nossa colonia +de S. Thomé, sem recorrermos para isso a Lourenço Marques. + +É, porém, certo que este districto dispõe de recursos especiaes: é +cortado de rios navegaveis, que tornam os transportes muito faceis: +dispõe nos valles dos rios de fertilissimos terrenos, onde se poderiam +installar culturas remuneradoras; pela sua posição fóra dos tropicos e +proximidade da visinha colonia do Natal e da Republica sul africana, as +experiencias n'aquelles paizes realisadas, poderiam decerto +aproveitar-lhe; e finalmente ainda, é menos insalubre do que os outros +districtos da provincia, á excepção talvez de alguns pontos de Inhambane +e das terras altas do interior. Algumas localidades até, infelizmente +pouco extensas, são relativamente salubres, dando-se o caso curioso de +que não se podem sempre reconhecer á primeira vista as suas condições +hygienicas. É assim que Incanine, no baixo Incomati, rodeado por toda a +parte de pantanos e lodaçaes, se reconheceu ser o local mais salubre de +todos os occupados em 1895 pelas nossas tropas; era por assim dizer um +verdadeiro sanatorio. + +Por isso, industrias agricolas ha que se devem installar em Lourenço +Marques; serão naturalmente aquellas que exijam pouca mão d'obra, ou em +que o trabalho possa ser feito por machinas e ainda as que possam +tirar valor dos seus faceis meios de transporte, os rios. + +Taes são a creação de gados, quer vaccum, quer lanigero, e a cultura de +cereaes, que poderia fornecer largamente a metropole. Que importa, com +effeito, que a Huilla, que a região de Milange e tantas outras possam +fornecer o milho e o trigo, se estes, por falta de transporte barato, +não puderem sahir do paiz de producção? + +A cultura do milho, sem duvida se póde realisar em Lourenço Marques; +cultivam-n'o os pretos em todos os pontos onde ha agua, e não são +poucos, e com magnifico resultado, pois se vêem as plantas attingir 3, 4 +e mais metros de altura, com uma producção proporcional ao porte. Em +todo o valle do baixo Incomati, do Limpopo e do Maputo, se vêem vastas +planicies, onde ás areias se misturam as alluviões do rio, formando um +sólo extremamente fertil. + +O trigo deveria tambem dar-se, por isso que se produz em condições +analogas no Natal; das experiencias feitas no districto, pouco se póde +concluir, pois que ainda não foram regularmente seguidas para fornecer +dados seguros; todas, porém, têm dado resultado e só de uma, feita nas +visinhanças da cidade, soube que os resultados foram pouco animadores, +mas é provavel que, se o trigo se manteve rachitico e sem +desenvolvimento, foi porque as experiencias foram mal dirigidas, não se +escolhendo a época favoravel á sementeira, nem o typo de semente mais +apropriado. Na Beira, onde o dr. Arriaga, um dos benemeritos da +colonisação africana da costa oriental, fez experiencias da cultura do +trigo em larga escala, os resultados foram magnificos, obtendo em média +50 sementes; ora o que succedeu no valle do Busi, n'uma alta latitude, +mais naturalmente succederá no do Incomati. + +Nos postos do Incomati, no Marracuene, Manhissa, Magudi e no Maputo, +foram estabelecidos, em 1895, com o atilado criterio de quem então +dirigia os negocios da provincia, pequenas quintas regionaes, com o fim +de se proceder ás necessarias experiencias de agricultura, e, apesar dos +poucos meios de que a provincia podia dispor, muito ha a esperar do +resultado d'estes trabalhos, que oxalá sejam dados a publico. + +Quer o milho, quer o trigo, muito vantajosamente seriam importados pela +metropole, pois decerto os transportes seriam baratos, em fretes de +retorno. O milho, além do consumo no interior do districto, pois que, +comquanto pareça incrivel, o districto de Lourenço Marques importa por +vezes milhares de saccas de milho e arroz, poderia ser utilisado para +fabricação do alcool exportavel para o Transvaal, producto de que já +ha montadas fabricas importantes, quer na cidade, quer em Ressano Garcia. + +Além d'estas culturas principaes e ainda do arroz, muitas outras se +poderiam crear, não só para consumo local, mas talvez tambem para +exportação. As arvores de fructo europeias desenvolvem-se bem no +districto, conforme se verificou nas plantações de Anguane. As +laranjeiras e limoeiros não têm difficuldade em medrar, pois que os +ultimos são selvagens, encontrando-se ao longo das margens do Incomati +milhares de limoeiros, carregados de esplendidos limões, que se +reproduzem sem cultura, para gaudio dos cafres e dos macacos. + +Nas vertentes dos Libombos, do rio dos Elephantes, até á fronteira sul +do districto, em grande parte dos valles do Incomati, do Umbeluzi e do +Limpopo, a creação de gado vaccum far-se-ia sem difficuldade, pois em +qualquer d'estes pontos se vêem rebanhos de gado de centenares de +cabeças, pertencentes aos cafres. O gado muar e os burros dar-se-iam +tambem perfeitamente, podendo prestar grandes serviços n'aquelle paiz em +que os cavallos morrem tão facilmente: duas muares vi no Incomati, que, +tendo fugido aos donos, se tinham tornado selvagens, vivendo em +liberdade e eram magnificos exemplares; infelizmente foram mortas a +tiro, por quem decerto tinha pouco bom senso. + +O gado lanigero, pelo menos raças semelhantes ás do Transvaal e do Cabo, +encontraria tambem magnificas condições de desenvolvimento n'uma extensa +zona nas vertentes dos Libombos, onde já se encontra, na posse dos +cafres, se bem que em pequeno numero e de raça inferior. A exportação +das lãs constitue hoje um dos principaes elementos de riqueza do Cabo da +Boa-Esperança e do Transvaal, e podel-o-ia ser tambem de Lourenço Marques. + +Na zona que da base da vertente dos Libombos vem até á zona argillosa e +humida, encontram-se, quando a população escasseia, avestruzes +selvagens, indicando-nos o proveito que pela sua creação poderiamos +tirar da região arenosa do districto, de um modo analogo áquelle por que +no Cabo da Boa-Esperança se conseguiu tirar d'aquelles animaes um +rendimento importante, de centos de mil libras annuaes. + +A cultura do arroz e do algodão, o primeiro já hoje cultivado em pequena +escala pelos negros, e o segundo, de que já se fizeram ensaios coroados +de bom resultado, poderiam tambem concorrer para a prosperidade da colonia. + +De tantos elementos de riqueza, e ainda outros que seria longo enumerar, +pouco se aproveita hoje, apesar de muitos esforços por vezes empregados +pelo governo. Já em 1780 foi necessario que o governador Pereira do +Lago, obrigasse os moradores á cultura do algodão, e em 1760 o +governador Pedro de Saldanha de Albuquerque forçou os habitantes de +Lourenço Marques a entregarem-se á agricultura, «_para ao menos evitarem +que até o pão e a mandioca lhes viessem de fóra_». Que diria elle hoje, +em que vem de fóra não só o pão para os brancos, mas ainda o arroz e o +milho para os cafres! + +Das riquezas mineiras de Lourenço Marques pouco posso dizer. Ha talvez +ouro, e minerios preciosos, nos filões dos Libombos e ao norte do +districto, na camada de conglomerados, mas das pesquizas até hoje feitas +nada se tem conseguido; verdade é que têm sido poucas e mal dirigidas; +entretanto alguma vantagem haveria em que se fizessem methodicamente. + +Se Lourenço Marques não está em condições de poder, como colonia de +exploração propriamente dita, vir a attingir o elevado grau de +prosperidade de S. Thomé, Cabo, Java, etc., nem por isso é tão +desprotegido pela natureza, como vêmos, que não possa, amparado pela sua +colonia commercial, desenvolver-se e medrar, concorrendo em curto +periodo para libertar a metropole dos pesados encargos do seu _deficit_ +de producção cerealifera. + + * * * * * + +Mas se Lourenço Marques só póde ser principalmente uma colonia +commercial, devendo-se a esta sua feição subordinar tudo o mais, nem por +isso faltam, nos nossos vastos dominios coloniaes, regiões onde se +installem colonias de outro genero. + +Na região alta do interior de Moçambique podem encontrar-se vastos +terrenos salubres, com clima pouco differente do nosso e onde a +população póde desenvolver-se sem obstaculos insuperaveis. Taes são +Manica, Milange, a região do Nyassa, etc., e para ahi nos installarmos +basta que o nosso povo ahi queira repetir os trabalhos que os nossos +antepassados executaram na America; o governo só póde fazer os trabalhos +de preparação, ou installar colonias penaes. As colonias militares, pelo +seu caracter, não julgo que possam dar bom resultado. + +Para colonias de exploração temos quasi toda a vasta área da provincia +de Moçambique, que se abre á nossa actividade, apresentando-nos uma +variedade de recursos que difficilmente se encontrarão n'outros pontos. +Se estamos, ou por outra, se o nosso descuido levou outros, mais activos +e trabalhadores, a nos deixarem reduzidos a uma tira de terreno ao +longo da costa, essa mesma situação nos dá a posse dos melhores portos, +testas obrigadas dos caminhos para o interior, que se podem encontrar +desde o Cabo da Boa-Esperança até ao Guardafui. + +Inhambane, n'uma zona de mais de 100 kilometros de largura e que corre +parallelamente á costa, tem uma população numerosa e trabalhadora, +terrenos fertilissimos, e a borracha e o café desenvolvem-se ali +espontaneamente, sendo este de magnifica qualidade. Antigas plantações +junto da villa, mostram ainda hoje a pujança dos cajueiros, coqueiros, +mangueiras e outras muitas especies vegetaes. O café, que cresce quasi +na costa, não tem animado ainda até hoje os nossos colonos a iniciarem +plantações, limitando-se a ensaccar o que do interior é trazido pelos +cafres; ha annos, porém, ensaiou-se ali uma larga plantação de chá, que +morreu com o fallecimento do proprietario, tendo entretanto apresentado +bons indicios. No interior do districto a caça, bufalos, zebras, +antilopes e até elephantes, são abundantissimos. + +Se de Inhambane passamos ao Zambeze, encontramos uma bella via fluvial, +em cujas margens, e em tempos remotos, os nossos maiores estabeleceram +grande numero de feitorias, povoações e centros agricolas, de que ainda +restam vestigios. + +Modernamente alguns homens de iniciativa têm, em pouco tempo, realisado +fortunas avultadas e fundado magnificas plantações no baixo Zambeze. O +coqueiro, de que se encontram ali milhões de exemplares, tem sido +plantado largamente; a canna saccharina, o café, o arroz, etc., estão +sendo cultivados com vantagem, e se os exemplos dados fossem seguidos, +poderiamos em pouco tempo ter ali a primeira colonia de exploração +portugueza, superior ainda a S. Thomé. + +Nos prasos das margens do rio ha magnificas mattas onde a madeira podia +ser explorada, e onde os elephantes ainda se encontram com abundancia; +em Tête encontram-se jazigos de carvão, infelizmente de qualidade +inferior na parte já reconhecida, e nos terrenos ainda não explorados ha +indicios de importantes jazigos auriferos. + +Na região alta do norte do Zambeze, o clima é semelhante ao da Europa, e +ahi poderiam os colonos ir restabelecer-se, quando atacados das doenças +inevitaveis no valle insalubre do rio. + +Finalmente mais ao norte, no Ibo, Moçambique e Angoche, pouco se conhece +do interior, mas a todos estes portos concorre o café selvagem do sertão +e por elles se exportam annualmente muitos contos de reis de sementes +oleaginosas. Desde que sejam conhecidos, provavel é encontrar +territorios ainda mais bem dotados do que os da Zambezia, região +esta onde a colonia de Blantyre, ha poucos annos começada, já hoje +exporta mais toneladas de café do que toda a provincia de Moçambique +exporta de saccas da mesma mercadoria. + + * * * * * + +Não seria, pois, razoavel procurar fazer de Lourenço Marques uma colonia +de exploração propriamente dita, tentando introduzir ali, com +sacrificio, culturas que a provincia n'outros pontos espontaneamente nos +dá. O futuro de Lourenço Marques está inteiramente ligado ao seu +desenvolvimento commercial e á emigração para ali de individuos capazes +de o alargarem e de capitaes que o facilitem, e isto está, mais uma vez +o repito, nas mãos da iniciativa particular. + +Ao governo compete não contrariar, pelas suas medidas administrativas, +essas iniciativas e vigiar para que os seus agentes sigam a mesma-ordem +de idéas. Por nós ou pelos estrangeiros, Lourenço Marques ha de +fatalmente tornar-se o primeiro porto commercial da Africa do sul, e +tudo o que contrarie esse destino redundará em nosso damno. + +A permanencia dos governadores no districto (de 1881 até 1896 houve +vinte e sete mudanças de governadores), a creação de tropas +coloniaes, a separação naturalmente indicada de Lourenço Marques e +Inhambane, n'um governo autonomo, do resto da provincia, a applicação +dos rendimentos do districto ao seu melhoramento, sem os distrahir para +fóra, a nomeação de pequeno numero de funccionarios, bons e bem pagos, +em vez de muitos e mal pagos, o ensino obrigatorio da lingua cafreal, a +organisação dos cafres no interior, sem vexames, causa de todas as +revoltas, e tantas outras questões de administração, só podem ser +ordenadas pelo governo, e muito contribuirão para a prosperidade do +districto, com o qual a metropole já hoje não deveria fazer despezas. + +Que os penosos e lentos sacrificios que nos impuzemos durante muitos +seculos, não vão hoje, que a messe está madura, aproveitar a outros, que +avidamente espreitam o momento de lançar mão dos nossos despojos; e que +uma colonisação preponderante e activa nos mantenha aberto o vasto campo +de expansão e actividade necessario a um povo que não está ainda +completamente decadente e perdido, é o que devemos procurar. + +De entre os restos do nosso vasto dominio colonial é Lourenço Marques +aquelle de que a avidez estrangeira mais nos demonstra a importancia +capital para o futuro desenvolvimento de Moçambique. Para que a sua +desnacionalisação não se opere, torna-se necessario que para ali +concorra a actividade commercial, a industria e os capitaes, que são +ainda mais do que os emigrantes, o nervo da colonisação, e de todos +estes meios de acção nenhuma região é mais rica do que o norte do paiz e +em nenhuma cidade elles se encontram mais largamente espalhados do que +no Porto. + +É por isso que, agradecendo ao Atheneu Commercial do Porto o honroso +convite com que me distinguiu, e á assembléa a cortezia e attenção com +que se dignou escutar o que diligenciei expôr, sem galas de estylo, mas +com inteira franqueza e verdade, me sentirei verdadeiramente orgulhoso, +se por pouco que seja, tiver conseguido attrahir sobre Lourenço Marques +as attenções d'uma cidade, a primeira sempre no paiz, nos grandes +emprehendimentos de que póde resultar para a nossa querida patria, +riqueza, gloria e prosperidade. + + [1] Dados extrahidos do _Districto de Lourenço Marques_, por + Eduardo de Noronha. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Colonização de Lourenço Marques, by +Alfredo Freire de Andrade + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COLONIZAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES *** + +***** This file should be named 34388-8.txt or 34388-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/3/8/34388/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/34388-8.zip b/34388-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..3239b55 --- /dev/null +++ b/34388-8.zip diff --git a/34388-h.zip b/34388-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..78dec3a --- /dev/null +++ b/34388-h.zip diff --git a/34388-h/34388-h.htm b/34388-h/34388-h.htm new file mode 100644 index 0000000..777531f --- /dev/null +++ b/34388-h/34388-h.htm @@ -0,0 +1,1667 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Colonisação de Lourenço Marques, por Alfredo Freire D'Andrade</title> + <meta name="Author" content="Alfredo Freire D'Andrade"> + <meta name="Edition" + content="Porto. Typographia de A. J. Da Silva Teixeira, 1897"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: small; + text-align: right; + color: silver; + } + .margem { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 72%; + width: 20%; + font-size: smaller; + text-align: left;} + #corpo p.centrado{text-align: center; text-indent: 0;} + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + #corpo blockquote {text-align: left; text-indent: 0; margin-left: 20%; } + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .imagem {width: 40%; float: right; text-align: center;} + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Colonização de Lourenço Marques, by +Alfredo Freire de Andrade + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Colonização de Lourenço Marques + +Author: Alfredo Freire de Andrade + +Release Date: November 21, 2010 [EBook #34388] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COLONIZAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="border: 1px solid #000; padding: 1em; text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">Alfredo Freire d'Andrade</p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p style="font-size: 1.8em;">COLONISAÇÃO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">DE</p> + +<p style="font-size: 2.2em;">LOURENÇO MARQUES</p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +<small>TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA<br> +Rua da Cancella Velha, 70</small><br> +1897</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> + +<p style="font-size: 1.4em;">COLONISAÇÃO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">DE</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">LOURENÇO MARQUES</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">ATHENEU COMMERCIAL DO PORTO</p> + +<hr style="width: 80%"> + +<p style="font-size: 1.6em;">COLONISAÇÃO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">DE</p> + +<p style="font-size: 2em;">LOURENÇO MARQUES</p> + +<hr style="width: 10%"> + +<p>CONFERENCIA FEITA EM 13 DE MARÇO DE 1897</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">PELO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">SOCIO HONORARIO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">ALFREDO FREIRE D'ANDRADE</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +<small>TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA<br> +Rua da Cancella Velha, 70</small><br> +1897</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> <span class="pn">{5}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p style="text-indent: -1em; margin-left: 15%;"><i>Ill.<sup>mo</sup> e +Exc.<sup>mo</sup> Snr. Presidente do Atheneu Commercial do Porto.</i></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><i>Quizeram, V. Exc.ª e os meus illustres consocios, mandar imprimir a +conferencia que, na séde do nosso Instituto, tive a honra de pronunciar.</i></p> + +<p><i>Mal merece ella, tão mesquinha na fórma, como pobre de conceitos, tão +elevada prova de consideração da parte de uma das mais preponderantes e +illustradas aggremiações do nosso paiz; accedendo, porém, gostosamente ao +desejo de V. Exc.<sup>as</sup>, ser-me-ia grato que na primeira pagina de tão +insignificante trabalho, e que virá assim a ser a melhor, ficasse consignado o +meu reconhecimento por mais esta prova de estima, que juntarei a tantas outras +que o Atheneu Commercial do Porto se dignou dispensar-me.</i></p> + +<p> </p> + +<p><small><i>Lisboa, 8 de abril de 1897.</i></small></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;"><big><i>Alfredo +Freire d'Andrade.</i></big></p> + +<p> </p> + +<p> <span class="pn">{6}<br> +{7}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="margin-left: 2em;">E<small>XC</small>.<sup>mo</sup> <small>SNR. +PRESIDENTE, MEUS SENHORES.</small></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>É consultando mais o desejo de corresponder ao honroso convite da illustrada +direcção d'este Atheneu do que as minhas forças e competencia, que eu venho +hoje dizer aqui algumas palavras ácerca de Lourenço Marques. Outros o fariam +com mais auctoridade e sobretudo com mais eloquencia, pois que, pela minha +parte, só a boa vontade e bons desejos poderão ser titulos á benevolencia de +tão distincta assembléa para com as deficiencias necessarias da minha +exposição.</p> + +<p>Pouco direi ácerca da situação, topographia e historia de Lourenço Marques, +hoje bem conhecidas, graças aos excellentes trabalhos do visconde de Paiva +Manso e do meu camarada Eduardo de Noronha.</p> + +<p>De todas as nossas colonias, é Lourenço Marques a unica que apresenta os +caracteres de um centro commercial em principio de um grande desenvolvimento, +só comparavel ao das<span class="pn">{8}</span> cidades da Africa do sul. A +affluencia de navios ao porto, a actividade que se vê por toda a parte, as +mercadorias amontoando-se nos caes, o movimento e a vida que se revelam ali, +são um estimulo grandioso e magnifico que nos deve levar a acompanhar sem +demora a corrente de trabalho e de progresso rapido da Africa do sul, sob pena +de sermos esbulhados da mais bella joia do nosso dominio colonial.</p> + +<p>A cidade de Lourenço Marques acha-se naturalmente dividida em duas partes: +<em>a velha</em> ou baixa situada no local onde se estabeleceram as primeiras +feitorias, e <em>a nova</em> ou alta, que, projectada sobre a vertente que se +desdobra da Ponta Vermelha ao Mahé, se vai a pouco e pouco erguendo, por entre +cerrados arvoredos, mostrando-se sob risonho aspecto a quem vem procurar o +porto. Entre as duas encontra-se uma depressão larga e extensa, onde se reunem +as aguas das chuvas e por vezes as do mar, produzindo um vasto pantano, causa +principal da insalubridade da povoação.</p> + +<p>Pelo snr. conselheiro Ennes foi mandada ultimamente construir uma estrada de +3,5 kilometros ligando a cidade com a Ponta Vermelha, local bastante salubre, +com 45 metros de altitude sobre o nivel do mar d'onde se ergue abruptamente e +que está destinado a um largo desenvolvimento, pois que permittirá ao +habitante, cançado do labutar diario na cidade<span class="pn">{9}</span> +commercial propriamente dita, o ir pela tarde respirar lá em cima o ar mais +puro do oceano.</p> + +<p>Pouco se tem emprehendido até hoje para o saneamento do pantano, aterrado +apenas n'uma pequena área e isso mesmo pelas exigencias crescentes do +alargamento da parte velha da cidade, que, junto á margem da bahia, será sempre +a de maior valor.</p> + +<p>Muitas tentativas se têm feito já e as camaras e commissões municipaes têm +diligenciado resolver o problema, mas sem resultado, e isto por variadas +razões. De entre os projectos estudados, um, do engenheiro Almeida Soeiro, +aproveitava para edificações a área aterrada e drenada convenientemente, e +outro utilisava o pantano para ahi estabelecer uma especie de porto interior, +construindo um canal navegavel na base da vertente em que assenta a cidade +nova. Qualquer dos dois projectos deveria ser adoptado sem demora e os +trabalhos principiarem desde já, por isso que a extincção do pantano, além de +uma necessidade impreterivel, daria tambem margem para uma operação commercial +muito rendosa, em que os capitaes empregados obteriam um lucro remunerador. +Basta considerar o preço por que poderiam ser vendidos os terrenos utilisaveis +depois de concluidos os trabalhos, para avaliar das vantagens da operação; +facilmente se obteriam 400:000 metros quadrados de terrenos para aforar ou<span +class="pn">{10}</span> vender, que teriam decerto comprador por um preço +superior a uma libra o metro; o custo do aterro, em qualquer dos casos, não +devia exceder metade d'esta quantia para igual superficie.</p> + +<p>Adoptando-se o projecto da construcção de um porto interior, o preço das +obras augmentaria muito, mas o valor dos terrenos ao longo do canal, iria além +do que poderiamos prevêr, tanto mais que, sendo o porto um pouco desabrigado +por occasião dos temporaes de sueste, o porto interior seria de grande recurso +e portanto muito appetecidos os terrenos que o orlassem.</p> + +<p>O interior do districto de Lourenço Marques divide-se em tres zonas +principaes. A dos Libombos, com algumas raras alturas de 600 metros, e formada +pela vertente oriental dos montes do mesmo nome, que desce rapidamente até 200 +metros de altitude, com arborisação basta e copada em alguns pontos, sobretudo +nas margens dos rios, e constituida por porphyros feldspathicos e por uma +extensa facha de conglomerados, parallela áquelles e correndo norte sul. A +segunda zona é a das areias que, partindo dos conglomerados, vem descendo até á +costa maritima, onde os depositos terciarios que a formam, se reunem aos do +apparelho littoral; n'esta zona, geralmente secca e pouco povoada, o arvoredo +ou é raro ou se concentra em mattas cerradas, de especies ora<span +class="pn">{11}</span> rachiticas e enfezadas, ora extremamente fortes e +robustas, mas cujos troncos torcidos e recurvados parecem significar as +difficuldades que oppõem ao seu crescimento aquelles terrenos tão aridos. +Finalmente, a terceira zona ou zona argillosa é a constituida pelos depositos +que os rios espalham largamente na occasião das cheias e ainda pelas argillas +que arrastadas pelas chuvas, se vão depôr nas baixas da zona arenosa, +constituindo assim os fundos impermeaveis de outras tantas lagoas, por vezes de +muitos kilometros de extensão, que em grande numero se encontram principalmente +para o sul do rio Incomati. A zona argillosa é a zona fertil, mas é tambem a +zona pantanosa e insalubre por excellencia; o arvoredo é sempre forte e +robusto, e as especies numerosas, dando por vezes madeiras de excellente +qualidade, se bem que pouco aproveitaveis industrialmente.</p> + +<p>Recortando todos estes terrenos, vêem-se rios importantes, taes como o +Maputo, o Incomati e o Limpopo, que, trazendo as suas aguas do Transvaal, se +apresentam caudalosos, dando navegação, senão facil, pelo menos possivel: o +Incomati em quasi todo o seu curso no nosso territorio e o Limpopo até ao rio +dos Elephantes, e talvez ainda mais acima. Se, porém, estes rios são faceis +meios de transporte, são tambem elles, que, alargando-se sobre milhares de +kilometros quadrados, por occasião das chuvas,<span class="pn">{12}</span> +deixam quando voltam aos seus leitos normaes, innumeros charcos e brejos, que +contribuem para a insalubridade das regiões que atravessam.</p> + +<p>Tendo assim resumido de um modo geral o que para o nosso ponto de vista +especial mais importa conhecer das condições naturaes do districto, vejamos +qual o systema de colonisação que se deverá adoptar em Lourenço Marques. +Facilmente se comprehende que da escolha do processo a seguir depende o exito +da colonisação, e que não poucos desastres têm tido como origem o querer-se +implantar uma colonia em desharmonia com as condições dos territorios que têm +de a receber.</p> + +<p>Leroy Beaulieu classifica as colonias em tres typos principaes:</p> + +<p><em>a</em>) <em>Colonias de população ou agricolas.</em>—São aquellas em +que, como na Australia e no Brazil, o europeu vai encontrar um clima pouco +differente do que tem no seu paiz e póde constituir familia, formando nucleos +de população, que, ajudados pela affluencia constante de novos colonos, +terminam por povoar completamente a colonia. Se a metropole não póde fornecer o +contingente necessario em cada anno, é natural que outros paizes d'isso se +encarreguem, chegando n'esse caso a mudar por completo a feição da colonia, que +se desnacionalisa; é o que succedeu com a Nova Amsterdam<span +class="pn">{13}</span> e a Nova Suecia, e poderá talvez dar-se um dia n'uma +parte do Brazil.</p> + +<p><em>b</em>) <em>Colonias commerciaes.</em>—Chamam-se assim as que pela sua +situação sobre grandes caminhos de commercio, dispondo de um porto de facil +accesso, d'elles se utilisam para servirem como entrepostos ou emporios n'uma +nova região e introduzir n'ella, principalmente, os productos da metropole. +Estas colonias, taes como Hong-Kong, Singapura, etc., são necessariamente +cosmopolitas e se não necessitam uma grande colonisação de homens, precisam em +compensação de muita industria, muito tino e muita energia, e por consequencia +de uma emigração escolhida, acompanhada de um grande affluxo de capitaes.</p> + +<p><em>c</em>) Finalmente, as <em>colonias de exploração</em> são as que, pela +sua situação e clima especiaes, podem fornecer generos de largo consumo e +preços remuneradores, que ali se produzam com facilidade e a cuja cultura em +especial se destinem. Reclamam estas colonias muitos capitaes, e um regimen +especial de trabalho, por isso que, não podendo ahi o branco trabalhar a terra, +terá necessariamente de recorrer ao trabalho indigena ou de raças adaptaveis ao +clima. Taes são, entre outras, as Antilhas, as Filippinas e entre nós a colonia +tão largamente desenvolvida de S. Thomé, tão genuinamente portugueza apesar de +serem relativamente<span class="pn">{14}</span> poucos os colonos saídos da +metropole.</p> + +<p style="text-align:center">*</p> + +<p style="text-align:center">* *</p> + +<p>Dependendo o futuro de uma colonia do systema adoptado na sua colonisação, +vejamos em qual d'estes typos se deve filiar Lourenço Marques.</p> + +<p>Poderá ser uma colonia de população? Esta idéa, que tem tido larga corrente +entre nós, a ponto de se querer fazer derivar para a provincia de Moçambique, e +em especial para Lourenço Marques, uma parte da emigração que hoje se dirige +ainda para o Brazil, deve, creio eu, ser completamente posta de parte. Centos +de colonos têm desembarcado em Lourenço Marques, mais de mil nos ultimos annos, +e quasi sem excepção, o seu destino invariavel tem sido o regressarem ao reino, +mais doentes e pobres do que foram, com avultado dispendio do governo, ou a +morte n'um periodo relativamente curto. Diz-se, e é certo, que a colonia não +está preparada para os receber, mas não é menos certo que se lhes houvessem +sido fornecidos terrenos para cultivar, alfaias agricolas, etc., o seu destino +teria sido o mesmo.</p> + +<p>E senão vejamos. O clima de Lourenço Marques, se não é absolutamente mau, +podendo-se facilmente ali viver com uma alimentação regular<span +class="pn">{15}</span> e uns certos cuidados que só um relativo cabedal e +instrucção podem dar, não é tambem bom.</p> + +<p>A temperatura média, quer de verão quer de inverno, não é exaggerada, mas as +differenças de temperatura, muito rapidas por vezes e que chegam a attingir +18°c. no mesmo dia, são extremamente prejudiciaes, sobretudo nas doenças dos +orgãos respiratorios.</p> + +<p>Na cidade, depois da época das chuvas, de fevereiro a maio, as emanações +trazidas pelos ventos reinantes, que durante o anno passam de N. a O. rondando +por L., são extremamente perniciosas, por isso que provêm dos muitos pantanos +que rodeiam a povoação e ainda dos que orlam as margens da Catembe. A falta de +esgotos, a accumulação de individuos de raças inferiores e o pantano do +Infuléne, são ainda causas locaes, ás quaes se póde dar remedio, é certo, mas +que ainda hoje existem, se bem que attenuadas.</p> + +<p>Para aggravar este estado de coisas, as chuvas são por vezes torrenciaes, a +ponto de em dez dias, como succedeu em 1895, se precipitar sobre o sólo uma +camada de 40 centimetros de agua, o que concorre para a formação de novos +charcos em pontos onde até então não tinham existido.</p> + +<p>Se da cidade passamos ao interior do districto,<span class="pn">{16}</span> +as circumstancias, sobretudo nos terrenos mais ferteis, aggravam-se, e a quadra +que se segue á época das chuvas é em geral perigosa, do que se faz facilmente +idéa pela affluencia aos hospitaes.</p> + +<p>Em 1893, uma estatistica da população de Lourenço Marques, certamente +inferior á verdade, dava uma totalidade de 1:017 habitantes, europeus e +asiaticos; a mortalidade no primeiro semestre d'esse anno foi de oitenta e oito +individuos, entre europeus e asiaticos: da totalidade dos obitos 40 por cento +proximamente foram devidos a febres de mau caracter e 8 por cento a +tuberculose<sup><a name="L717" id="L717" href="#L723">[1]</a></sup>.</p> + +<p>Dos soldados que fizeram parte da expedição de 1895, raros foram os que não +soffreram das febres, e se os officiaes não foram tão castigados por ellas, +decerto se deve esse facto a serem em geral mais velhos do que aquelles, +comprovando-se assim mais uma vez a conveniencia de não seguirem para as +colonias individuos de idade inferior a vinte e cinco annos.</p> + +<p>Estes exemplos bastam para comprovar que, se em Lourenço Marques se póde +viver em melhores condições talvez do que em muitos pontos insalubres da +Europa, nem por isso deixam,<span class="pn">{17}</span> quer a cidade, quer o +districto, de constituir uma região pouco salubre, onde a vida deve ser rodeada +de certos cuidados, que não podem conseguir colonos pobres, sem recursos, a +quem as regras da hygiene são desconhecidas, e que algumas vezes já partem da +metropole anemiados pela miseria ou pelo vicio.</p> + +<p>Estes, com poucas excepções, nada têm feito em Lourenço Marques, emquanto +que é frequente vêr individuos permanecer dez, quinze e mais annos na cidade, +sem grave damno, porque souberam e puderam manter as necessarias cautelas; +tanto mais que as condições hygienicas da cidade vão progressiva, se bem que +lentamente, melhorando.</p> + +<p>Para constituir uma colonia de população é necessario poder crear familia; +ora em Lourenço Marques as creanças não medram, e só por excepção se poderão +vêr ali filhos de colonos europeus, nascidos e creados no districto. Não os +conheço e as poucas creanças que se encontram, essas vivem custosa e +difficilmente; é por isso que não posso sem pezar, vêl-as partir para Lourenço +Marques inconscientemente levadas pelas familias, sem que os paes imaginem qual +o fim quasi inevitavel que as espera.</p> + +<p>É a agricultura o principal recurso das colonias de população e isso mesmo +se tem supposto em varios projectos de colonisação propostos<span +class="pn">{18}</span> para Lourenço Marques; é, porém, um facto averiguado que +o branco, o europeu, não póde trabalhar ali a terra ou cultival-a elle proprio, +sem grave risco de vida; bem o demonstrou a grande mortalidade que houve +durante a construcção do caminho de ferro do Transvaal e ainda ultimamente +alguns factos passados em 1895 vieram corroborar a opinião que já tinha a este +respeito. Em Magudi, n'um local secco, a 30 metros acima do rio e em terrenos +de rocha e areia, foi necessario, por falta de cafres, que a guarnição do posto +que ali se estabeleceu, removesse a areia para construir trincheiras, e este +facto deu causa a uma excessiva mortalidade; em Xinavane, n'um terreno +pantanoso, coberto pelas aguas na occasião das cheias, os soldados foram +prohibidos de cavar, e não houve senão um obito e esse mesmo de uma praça vinda +de Magudi. Em Taninga, onde se fizeram importantes remoções de terras, as +febres atacaram com tal força a guarnição, que foi necessario retiral-a. Não +póde, pois, o branco trabalhar a terra e luctará com tanto maiores +difficuldades, quanto mais se aproximar da zona baixa e argillosa do districto, +onde justamente se encontram os terrenos mais ferteis e mais povoados pelos +cafres.</p> + +<p>Não se póde, pois, em Lourenço Marques, constituir familia, cultivar a +terra, e difficilmente<span class="pn">{19}</span> se resiste por muitos annos, +sem vir refrescar á Europa, á influencia deleteria do clima. Como se poderá +pensar, em taes condições, em fazer d'aquelle districto uma colonia de +população?</p> + +<p>E, com effeito, todas as tentativas n'esse sentido têm dado mau +resultado.</p> + +<p>Dizem uns que este facto é devido a serem os colonos lançados em Lourenço +Marques, sem que o districto esteja preparado para os receber. Mas póde o +governo dar-lhes os capitaes, a immunidade ao clima e as qualidades de que o +colono careceria de ser dotado em Lourenço Marques? Decerto não.</p> + +<p>Dizem outros que o mallogro se deve attribuir á carestia dos terrenos do +Estado, que se manteve durante alguns annos. Mas de muitos mil hectares de +terrenos concedidos a particulares, poucos ou nenhuns foram aproveitados, e +quem d'elles tirou melhor proveito foram os que, sem maiores cuidados, pediram +e obtiveram concessões, esperando em seguida que o progressivo augmento da +cidade os valorisasse, para auferirem grossos lucros, como succedeu com a +Pulana, que, concedida por centos de mil reis a um inglez, foi vendida por +centos de contos, e ainda com a Catembe, onde até á linha de costa, contra +expressa determinação da lei, se fizeram concessões a individuos que com isso +lucraram mais tarde muitos milhares<span class="pn">{20}</span> de libras sem o +menor trabalho. Tal foi durante muito tempo o resultado das concessões baratas, +sem se cultivar um só dos milhares de hectares concedidos.</p> + +<p>A meu vêr nenhuma d'estas razões colhe. Lourenço Marques não tem progredido +como colonia de população, porque não está em condições de o poder ser.</p> + +<p style="text-align:center">*</p> + +<p style="text-align:center">* *</p> + +<p>Se passamos a considerar Lourenço Marques debaixo do ponto de vista +commercial, as negras côres sob que acabamos de descrevel-o como colonia +agricola, mudam por completo, para nos mostrarem aquella região como destinada +a ser o emporio da Africa do sul, a colonia commercial por excellencia, cuja +importancia e valor se nos torna bem manifesta pelas multiplas cubiças que, +felizmente para o nosso dominio, tem despertado.</p> + +<p>E digo felizmente, porque a ellas se deve o conservarmos ainda nas nossas +mãos aquelle esplendido porto, unico na costa oriental, em toda a extensão que +vai desde o Cabo até Moçambique. A sua posse, porém, impõe-nos obrigações que o +rapido progresso da civilisação do sul africano exige e ás quaes temos de +satisfazer, sob pena de sermos em breve eliminados<span class="pn">{21}</span> +por não correspondermos á alta missão que nos incumbe.</p> + +<p>Situada sobre o caminho commercial que conduz ao interior do Transvaal, na +sua região mais rica, servida com facilidade pelas vias fluviaes de que dispõe +o interior do districto e parte do territorio inglez do centro d'Africa, +Lourenço Marques vai-se desenvolvendo de modo tal, que de um anno para o outro +se transforma e amplia. As vantagens do porto impõem-se de tal fórma, que as +mercadorias affluem em quantidade, todos os dias crescente, não obstante o +pouco cuidado com que temos olhado para os seus melhoramentos materiaes, e +tambem a guerra de toda a especie, que lhe tem sido movida pelos seus +concorrentes naturaes.</p> + +<p>Com effeito, as colonias sul africanas não podem vêr com bons olhos o +desenvolvimento de Lourenço Marques e por isso vem de longe as difficuldades de +toda a ordem que lhe têm levantado. Ha annos, jornaes, livros e publicações de +toda a especie, declaravam ao mundo que a insalubridade da povoação era tal, +que passar ali, equivalia a uma condemnação á morte; mas a população ia +crescendo, em condições mais favoraveis do que em muitas colonias inglezas. +Mais tarde quizeram inutilisar o nosso caminho de ferro, graças a uma completa +liberdade de tarifas, que menos reflectidamente<span class="pn">{22}</span> lhe +tinhamos concedido; pudémos evitar esse mal, mas á custa da indemnisação que +nos imporá o tribunal de Berne. Mais tarde ainda, procuraram fazer-nos passar +por incapazes de manter a soberania portugueza no districto, levantando-nos +toda a casta de difficuldades por intermedio dos regulos indigenas.</p> + +<p>E muitos outros factos poderia citar, em que a má fé terminou sempre por se +manifestar, de modo que hoje a supremacia de Lourenço Marques, como o primeiro +porto da Africa oriental do sul está firmemente estabelecida.</p> + +<p>A população de Lourenço Marques, que em 1864 era de 83 individuos, elevou-se +em 1893 a 1:017 e hoje não é inferior a 4:000, homens e mulheres, europeus ou +indianos.</p> + +<p>O rendimento da alfandega, que em 1868 era de 3 contos de reis e em 1880 de +47 contos, foi em 1896 de 600 contos.</p> + +<p>O numero de navios entrados no porto, que ha vinte annos era insignificante, +foi durante 1892 de 228, em 1893 de 252, em 1894 de 265, em 1895 de 363 e em +1896 de 433, dos quaes 287 inglezes. No mez de janeiro ultimo ancoraram no +porto 52 navios.</p> + +<p>Pela sua parte o caminho de ferro attingiu o limite de trafego que o seu +material comporta, e desde que o porto se encontre em boas condições, a +affluencia de mercadorias obrigará decerto a dobrar a linha. Actualmente a +média<span class="pn">{23}</span> do movimento semanal é de 3 a 5 mil +toneladas.</p> + +<p>Mas nada dá idéa mais perfeita da avidez com que os estrangeiros procuram +Lourenço Marques do que o extraordinario augmento de valor dos terrenos e das +edificações, que tem decuplicado e por vezes centuplicado.</p> + +<p>Apparecem ali representantes de syndicatos que compram tudo que lhes queiram +vender quer sejam terrenos quer predios e ainda quarteirões inteiros, de +preferencia na parte velha da cidade, havendo exemplos de se vender o metro +quadrado de terreno por 10 libras, isto é, pelo dobro do preço maximo dos +terrenos na Avenida da Liberdade, em Lisboa.</p> + +<p>Todo este movimento e ainda as transacções que cada dia se fazem na colonia, +representam muitos centos de milhares de libras sterlinas, mas o augmento da +riqueza publica em muito pouco aproveita á metropole, que não só d'ali não tira +proveitos directamente, o que aliás não era de esperar, mas ainda mesmo poucos +aufere do commercio e da industria que os seus nacionaes ali exercem. Pelo +contrario, não creio exaggerado suppôr que nos ultimos vinte annos, Portugal +tem mandado para ali mais de 10:000 contos de reis.</p> + +<p>Para conseguir tirar de Lourenço Marques todas as vantagens que nos é licito +esperar, muito resta ainda fazer, não só ao governo<span class="pn">{24}</span> +mas principalmente á iniciativa particular.</p> + +<p>Ao governo compete, é certo, tratar dos melhoramentos do porto, para os +quaes se succedem uns aos outros os projectos e os estudos, adoptar +providencias para melhorar a hygiene da cidade, escolher funccionarios idoneos +para a administração do districto, mais importante decerto do que a da +provincia inteira, e conserval-os não os substituindo de seis em seis mezes; e, +finalmente, preferir sempre os nacionaes para quaesquer concessões que haja de +fazer.</p> + +<p>Este ultimo ponto, porém, já implica muito com a iniciativa particular, pois +o governo tem, naturalmente, para melhorar as condições da cidade e seu porto, +de entregar a execução dos melhoramentos necessarios a emprezas que d'elles se +encarreguem mediante certas concessões.</p> + +<p>Seria, pois, indispensavel que os capitaes portuguezes se não retrahissem +tanto e confiassem mais nos lucros extraordinarios, por vezes fabulosos, que +podem auferir em Lourenço Marques.</p> + +<p>Infelizmente, porém, a iniciativa e os capitaes portuguezes pouco affluem á +colonia, e se se encontram algumas poucas firmas portuguezas, como Cardoso, +Fornazini, Baptista Carvalho, Nogueira Pinto, etc., que ali luctam pela<span +class="pn">{25}</span> vida, mantendo o commercio portuguez e a sua feição +especial, em compensação abundam os estrangeiros, Mac Intosh, Gubler, Auerbach, +Donaldson, Hoffman, Idolgy, e tantas outras, que principalmente açambarcam o +commercio, possuem as melhores propriedades e dominam na praça.</p> + +<p>Não vemos frequentemente homens energicos, de iniciativa, representando ou +possuindo capitaes, partir para Lourenço Marques, a tentar novas industrias e +fundar novos centros de nacionalisação, com o que muito ganham os estrangeiros, +de modo que dos milhares de libras que representam o commercio da cidade, só +uma pequena parte aproveita á metropole; o resto ou é absorvido pelo commercio +estrangeiro europeu ou vai para a India.</p> + +<p>O commercio indiano tem um feitio especial; em lojas, quasi sempre de +mesquinha apparencia, vêem-se alguns individuos, embrulhados em algodão branco, +fallando a lingua cafreal, o portuguez e o inglez, vendendo em geral de tudo, +desde a lata de conserva até aos productos cafreaes. D'estas lojas saem agentes +do mesmo jaez que, espalhando-se pelo interior, vivendo como os indigenas cujas +manias lisongeiam, e protegidos pelos regulos a quem fazem presentes, +monopolisam por completo o commercio do interior. D'esta fórma as lojas dos +indios e mouros são os centros d'onde irradiam<span class="pn">{26}</span> +centos de braços, que vão recolher no interior os milhares de libras que os +cafres trazem annualmente do Transvaal e Natal, libras que são immediatamente +mandadas para fóra do districto.</p> + +<p>Estes homens, sustentando-se de arroz e pouco mais, vestindo-se com uma tira +de algodão, tudo oriundo da India, nada consomem da metropole e fazem uma +concorrencia ao europeu, que precisa vestir-se, alimentar-se e cuidar de si. +Recolhido o seu peculio, voltam para a India, onde o vão gozar depois de +purificados, purificação essa que os lava do contacto com infieis e tambem de +todas as traficancias que tenham podido commetter.</p> + +<p>Muitos d'estes indios são inglezes, o que mais aggrava a situação, pois que +se encontram sempre apoiados pelo seu governo, para pretendidas indemnisações a +que se podem julgar com direito por perdas soffridas no interior. E não se +imagine que, ainda quando portuguezes, auxiliem o nosso dominio; quando durante +a guerra de 1895, as tropas chegavam aos locaes onde os indios estavam +estabelecidos, estes fugiam... com os cafres: um indio na Manhissa aconselhava +os pretos a não receberem a prata portugueza, «<i>que não era boa</i>», e com +effeito vendia carissimo quando elles lhe pagavam n'essa moeda.</p> + +<p>É certo que algumas vezes prestaram, por<span class="pn">{27}</span> +interesse proprio, serviços ao governo, mas esse facto deu-se principalmente +quando em Lourenço Marques quasi não havia colonos portuguezes. Hoje são um +obstaculo, porque é difficil fazer-lhes concorrencia, e bom era que um imposto +pesado os collocasse em circumstancias analogas aos europeus, pois que d'outro +modo o commercio do interior continuará nas mãos d'elles e o ouro que vem do +Transvaal continuará a seguir para a India.</p> + +<p>Demais, a moeda portugueza usada em Lourenço Marques favorece a emigração do +ouro: consiste ella em moeda de prata e notas da fazenda ou do Banco +Ultramarino, com que se fazem os pagamentos ao governo, emquanto que a moeda +ordinariamente usada nas transacções commerciaes é a libra sterlina. Ora, +quando um paiz tem duas moedas, uma boa, o ouro, e outra má, a boa emigra e a +outra fica.</p> + +<p>Creio seria facil acabar com este inconveniente, determinando-se que todos +os pagamentos fossem feitos em ouro, como o fez a Companhia de Moçambique, com +bom resultado nos seus territorios, admittindo-se a prata só como moeda +subsidiaria. Não haveria embaraços, como os não houve na Beira, e tambem não se +alterava, para com o resto da provincia, o actual estado de coisas, por isso +que a rupia que n'ella corre não é aceita em Lourenço Marques e até o Banco +Ultramarino tem<span class="pn">{28}</span> dois typos de notas, um para +Lourenço Marques e outro para os demais districtos.</p> + +<p>Por este meio havia tambem a vantagem de evitar as fraudes; como se poderá +impedir que um individuo, que receba em ouro as receitas da fazenda, computando +a libra em 4$500 reis, as entregue mais tarde em prata? Será isto uma falta? +Moralmente sim, mas legalmente creio que não, ainda que a falta se podesse +provar.</p> + +<p>O typo de moeda <i>ouro</i> favoreceria certamente o commercio nacional e +faria entrar em Portugal muitos milhares de libras; as receitas do districto +são hoje superiores a 1:000 contos de reis e, recebidas que fossem em ouro, +seria n'esta moeda que o governo pagaria aos seus funccionarios, principaes +consumidores dos productos da metropole e tambem aos seus fornecedores, que +devem ser, tanto quanto possivel, nacionaes.</p> + +<p>A transferencia de capitaes para a metropole seria tambem facilitada: ha já +hoje bancos estrangeiros em Lourenço Marques que a podem fazer em boas +condições, pois que o Banco Ultramarino não tem prestado á provincia de +Moçambique e sobretudo ao districto os serviços que d'elle era licito esperar; +em 1892, chegou este banco a levar pela transferencia de dinheiro da metropole +e pagando lá em notas suas, a <em>insignificante</em> percentagem de 30%.<span +class="pn">{29}</span></p> + +<p>Mas tudo o que se possa fazer em favor de Lourenço Marques de pouco valerá, +se a iniciativa particular, o nosso commercio, a nossa industria e os nossos +capitaes não forcejarem por tirar aos estrangeiros o predominio que até hoje +têm tido na colonia, e por desapossal-os do monopolio do commercio, que tem +como consequencia necessaria a drenagem do ouro sem que a metropole pouco ou +nada aproveite da riqueza da sua colonia, de dia para dia crescente.</p> + +<p>Não lhe enviemos, pois, colonos pobres que lá vão morrer, mas +consagremos-lhe energias sãs, vontades firmes e capitaes abundantes. Raras +vezes uma colonia póde dar um rendimento liquido á mãe patria; mas o que lhe dá +e deve dar é um mercado para o consumo dos seus generos, e um lucrativo campo +de emprego para os seus capitaes, de modo a compensar as despezas que por ella +são feitas. E isto não se consegue só com medidas administrativas, mas sim com +a boa vontade e a intelligencia commerciaes, que, luctando com a concorrencia +estrangeira, evitem que só a esta venham a caber os fructos de tantos +sacrificios, que não poucos, de homens e dinheiro, temos feito em Lourenço +Marques.</p> + +<p>Precisamos hoje, na colonia, de agentes commerciaes, representantes das +nossas mais acreditadas casas da metropole, que, reunindo-se<span +class="pn">{30}</span> em sociedade, facilmente os poderiam para ali mandar; de +empregados subalternos, que, aprendendo a lingua do paiz, vão ao interior +recolher os centos de mil libras, que para ali levam os indigenas.</p> + +<p>No Transvaal, só em Johannisberg, trabalham hoje mais de 45:000 cafres, um +verdadeiro exercito, que as exigencias da exploração do ouro, sempre +crescentes, dentro em poucos annos terão quadruplicado. De entre esses cafres, +uma grande parte provém da nossa colonia, e por isso o impedir a emigração +equivaleria a causar uma revolução economica no Rand; ora os cafres vão +trabalhar para conseguir dinheiro para a compra de mulheres, armas e emfim dos +objectos de que imaginam carecer, e voltam ás suas terras com sommas por vezes +avultadas.</p> + +<p>Não creio exaggerar, calculando em 15:000 cafres os que emigram em cada +anno, e, suppondo que voltem com 20 libras cada um, corresponderia isso a uma +entrada annual de 300:000 libras, que deveria ser aproveitada exclusivamente +pelo commercio da metropole. Os algarismos citados estão decerto abaixo da +verdade e mostram á evidencia a vantagem de não crear embaraços á emigração, +tanto mais que não ha em Lourenço Marques industrias nossas que careçam de +braços.<span class="pn">{31}</span></p> + +<p>Para aproveitar do commercio do interior não nos seria difficil encontrar +portuguezes, habituados ao sertão, que podessem competir com os indios: alguns +temos já hoje, que têm conquistado o respeito dos cafres e entre elles um +conheci, cujo nome bem merece do paiz, um antigo soldado do corpo policial de +Lourenço Marques, o Silva Maneta, cuja dedicação pela patria e coragem +excepcional, que o levava a arrojar-se loucamente aos mais arriscados lances, +tantos serviços prestou durante a campanha de 1895; e que me seja licito aqui, +prestar a esse portuguez de lei, o tributo da minha admiração pelas brilhantes +qualidades, que nunca se buscam debalde nos mais obscuros filhos da nossa +pobre, mas gloriosa patria.</p> + +<p>Voltando, porém, ao assumpto, de que me fez desviar a recordação de um +verdadeiro heroe, n'esta cidade onde os feitos heroicos brilham em cada pagina +da sua historia, direi ainda que mesmo entre os cafres educados na nossa +escóla, poderiamos encontrar auxiliares, por isso que o cafre quando se chega a +convencer de que é portuguez e branco, é mais cioso ainda do que este, das suas +prerogativas, e até respeitado pelos outros pretos como se branco realmente +fôra. E não ha decerto espectaculo mais comico do que vêr um grupo de negros +tratar de «<i>senhor</i>» e de «<i>branco</i>» um<span class="pn">{32}</span> +outro cafre tão negro como elles, só porque traja e falla como os europeus.</p> + +<p>Pelo que respeita ao commercio com o Transvaal, facilita-o a proximidade em +que d'elle estamos, a sympathia que lhe merecemos, que maior seria se mais +trabalhassemos, e ainda os tratados que a elle nos ligam.</p> + +<p>Mas como condição essencial, necessario se torna que as nossas marcas sejam +sempre as mesmas e que não succeda que, desde que um producto se acredita á +custa de muito trabalho, os menos escrupulosos façam perder uma vantagem, que +difficilmente se poderá recuperar. Não insisto, apesar de poder apresentar +muitos exemplos, n'este facto, cuja importancia todos podem avaliar.</p> + +<p>Muitos e variados são os productos com cujo commercio lucrariamos, quer no +districto, quer no Transvaal, e de entre esses apenas me referirei aos que +julgo de maior importancia.</p> + +<p>Na <i>cidade</i>, temos o consumo proprio, que é o de uma cidade rica, e que +deve ser exclusivamente fornecido pela metropole, ainda que á sombra de bem +entendidos direitos de entrada, não tão exaggerados, que sejam apenas um +incentivo ao contrabando.</p> + +<p>No <i>interior do districto</i>, facil seria abrir mercado para os nossos +vinhos brancos, convenientemente addicionados de aguardente, que<span +class="pn">{33}</span> vão sendo preferidos ao alcool, não só porque realmente +os cafres os apreciam mais, mas ainda porque julgam que se aproximam do branco, +bebendo-os; os missionarios suissos, no districto, têm conseguido que grande +numero de cafres deixem de embriagar-se com a aguardente, aconselhando-os a +beber só vinho, que elles consomem conscienciosamente. Tambem apreciam muito o +<i>vermouth</i>, ou uma mistura que em garrafas lhes é vendida como tal. +Aproveitando estas tendencias, certamente abririamos um mercado bastante largo +para os nossos vinhos, e praticariamos ao mesmo tempo uma obra meritoria +prohibindo a importação do alcool industrial em Lourenço Marques e a sua venda +aos indigenas.</p> + +<p>Mas muitos outros generos se poderiam consumir no interior, além dos +vinhos.</p> + +<p>A polvora e as armas brancas, facas, machados, zagaias, etc., dariam lucros +bastante remuneradores, sendo fabricados segundo os typos preferidos.</p> + +<p>Os tecidos, quer de algodão, quer de lã, pannos e cobertores, podem ser +enviados da metropole e vendidos com lucro, não só porque obtêm preços altos, +mas ainda porque muito os poderia proteger a differença de cambio e um bem +entendido direito protector, não difficil de fiscalisar. Os typos de algodões e +cobertores preferidos deviam ser<span class="pn">{34}</span> mandados pelos +governos do districto aos centros industriaes do paiz, afim de serem +reproduzidos. Os algodões azues ou de fundo azul com desenhos brancos são muito +apreciados; em 1893 trouxe varios typos de cobertores, que foram reproduzidos +n'uma fabrica de Lisboa empregando-se lã de inferior qualidade, e sendo o seu +preço de custo de 600 a 900 reis: taes cobertores tinham então em Lourenço +Marques um preço de 4 a 6 shillings, o que dava margem para um commercio +lucrativo.</p> + +<p>Vendem os indianos aos cafres milhares de camisolas de malha, de fatos +completos, capotes, chapéos, fardamentos velhos, tudo de fabrico inglez ou +allemão; e tudo poderia ser enviado de Portugal, dando margem a lucros +importantes.</p> + +<p>Para o <i>Transvaal</i>, o nosso principal ramo de exportação não poderá +deixar de ser o vinho; a este e como annexo, poder-se-iam juntar as conservas, +sobretudo de peixe, quando bem fabricadas e conservando as marcas.</p> + +<p>Apesar de ser um assumpto de que pouco conheço, não creio que para nos abrir +o mercado do Transvaal baste a iniciativa do governo, que, quando muito, poderá +apenas fornecer, por meio dos agentes consulares, as indicações geraes dos +mercados aos viticultores<span class="pn">{35}</span> nacionaes e os dados +estatisticos sobre que se possam basear.</p> + +<p>A meu vêr, os commissarios e exposições poucos resultados podem dar e a +experiencia bem o tem mostrado. Vão effectivamente os vinhos, faz-se uma +propaganda official, os individuos que os bebem acham-nos geralmente bons e... +mandam comprar os vinhos que estão habituados a beber. Não julgo facil, n'um +paiz como o Transvaal, habitado por uma população ingleza em parte, introduzir +de repente typos de vinhos differentes dos vinhos do Cabo, que são os que mais +frequentemente se encontram por toda a parte.</p> + +<p>O meio a seguir, parece-me, deveria ser procurar, por meio dos nossos +variadissimos typos, imitar, pelo menos nos primeiros tempos, os vinhos de +maior consumo no Transvaal, preparando-os. Um commissario, enviado de Bordeus +para estudar o alargamento do mercado de vinhos na republica sul africana, foi +d'esta opinião, no relatorio que apresentou no seu regresso a França, e isto +tratando-se dos vinhos de Bordeus que tão largo nome têm. Este modo de proceder +tem já sido empregado para a fabricação de certas marcas especiaes de Champagne +barato, de largo consumo no sul da Africa; não foram os francezes procurar +convencer os sul africanos de que o Champagne, que é preferido n'aquella<span +class="pn">{36}</span> região, não é bom e verdadeiro Champagne, mas +fabricam-lh'o segundo o seu gosto.</p> + +<p>Além do Champagne, o Xerez, o Vermouth e muitos outros vinhos são largamente +consumidos no Transvaal, e muitos d'estes não vêm de França, Hespanha ou +Italia, mas dos paizes onde com igual facilidade se fabrica o Porto ou Madeira +que nunca sahiram de Portugal.</p> + +<p>Fazer despezas importantes para que os nossos typos de vinhos sejam +preferidos, é, creio, empreza pouco realisavel e muito dispendiosa, mas +sobretudo inutil, porque se o chegassemos a conseguir, logo os nossos vinhos +seriam imitados por quem tivesse interesse em o fazer.</p> + +<p>Assim, procurar conseguir vinhos semelhantes aos do consumo no paiz, +dar-lhes boa apparencia e envasilhal-o de um modo agradavel á vista, parece-me +ser o meio de alargar o consumo dos nossos productos entre a população sul +africana; agentes commerciaes, trabalhando por interesse proprio, +collocal-os-iam com facilidade.</p> + +<p>Claro está que isto só diria respeito aos vinhos de pasto; os nossos vinhos +generosos têm uma reputação universal e não conviria mudar-lhe os typos, +bastando apenas que os agentes consulares perseguissem os contrafactores, que +os ha e não poucos, até em Africa.<span class="pn">{37}</span></p> + +<p>Além dos vinhos, as conservas poderão ter tambem consumo facil desde que vão +melhor e mais artisticamente acondicionadas. É frequente em Africa, receber +conservas de fructas portuguezas perfeitamente em papas, contrastando com o +bello aspecto das fructas da California.</p> + +<p>Ainda outros generos poderiam ser introduzidos quer na nossa colonia quer na +Africa do sul, de que o nosso commercio poderia tirar largos lucros.</p> + +<p>Mas, além do commercio, os capitaes portuguezes teriam tambem muitos meios +de se empregar com vantagem, aproveitando os interesses que os capitaes +estrangeiros vão auferir em Lourenço Marques.</p> + +<p>A industria da pesca, que tantos resultados tem dado em Angola, e melhores +daria se fosse bem dirigida, facilmente se poderia crear na bahia, abundante, +bem como a costa do districto, em peixes de variadas especies. A sua +exploração, combinada com a da fabricação do gelo, teria no Transvaal um largo +campo de consumo, e se não se tem installado regularmente até hoje, é porque +todos se têm preoccupado em obter o monopolio da pesca, que o governo não póde +nem deve dar.</p> + +<p>O saneamento do pantano, attribuindo a terrenos agora inutilisaveis uma +grande facilidade de applicação, daria tambem lucros fabulosos,<span +class="pn">{38}</span> attendendo ao elevadissimo preço por que se estão hoje +vendendo.</p> + +<p>O aterro e aproveitamento de uma área comprehendida entre a costa e um +muro-caes a estabelecer entre a ponte da alfandega e a Ponta Vermelha, daria +perto de 20 hectares de terrenos, pouco insalubres, de um valor incalculavel, e +de uma grande vantagem para o alargamento do porto e edificios do Estado, taes +como a alfandega, capitania, etc. Esta concessão já foi pedida por estrangeiros +e seria decerto um perigo se cahisse nas suas mãos, pois que, pelas concessões +feitas, o governo não possue hoje na bahia uma extensão apreciavel de costa, a +não ser aquella.</p> + +<p>A construcção de uma ponte-caes para mercadorias em transito no rio do +Espirito Santo, obra indicada por um dos homens de mais larga intelligencia, +vastos conhecimentos e seguro golpe de vista, que nos ultimos tempos tem +dirigido os destinos de Moçambique, o snr. conselheiro Antonio Ennes, daria +além de grandes juros ao capital para ella necessario (300 contos +aproximadamente) uma grande facilidade ao movimento do porto, por isso que ella +seria acostavel em qualquer estado do tempo.</p> + +<p>As construcções urbanas têm dado nos ultimos annos rendimentos avultados, +não inferiores a 30 por cento. Ha pouco, era vulgar uma casa de custo não +superior a 300 libras,<span class="pn">{39}</span> ser alugada por 7 libras +mensaes; e comquanto hoje este estado de coisas tenha mudado um tanto, é certo +que os capitaes empregados em edificações rendem pelo menos 15 por cento.</p> + +<p>E citarei apenas de passagem, para não alongar demasiadamente a exposição, +as industrias ceramicas, a fabricação da cal e cimento, hoje produzidos já no +Natal e que facilmente se installariam na Inhaca, as de docas de reparação, a +de fabricação e reparação de lanchas e escaleres, etc., etc.</p> + +<p>Creio que hoje não restará duvida que Lourenço Marques é e será uma colonia +commercial e que o seu progresso e permanencia no dominio portuguez depende +principalmente do commercio e industria nacionaes, aos quaes devemos subordinar +tudo o mais. Quando os capitaes empregados em Lourenço Marques forem só +inglezes, inglezas as casas commerciaes, ingleza toda a área em que assenta a +cidade, o que equivale a dizer estrangeiro tudo, com que direito, com que razão +nos poderemos ali conservar, verdadeiros parasitas, aproveitando sómente o +trabalho alheio? Os direitos historicos, bem o sabemos, não bastam em Africa, e +o nosso proprio decoro não nos permittiria que nos mostrassemos degenerados +descendentes dos antigos <i>moradores</i> portuguezes.<span +class="pn">{40}</span></p> + +<p>Precisam, pois, affluir a Lourenço Marques, como já disse, não colonos +pobres e anemicos ou velhos e creanças, como tem já succedido, para apenas +concorrerem para o alargamento do cemiterio; mas sim individuos sãos de corpo e +de espirito, representando o commercio e a industria da metropole, activos e +emprehendedores, acompanhados por capitaes nacionaes, que vão recolher os +largos juros que hoje são premio de capitaes estrangeiros.</p> + +<p>O desenvolvimento do commercio e da industria trarão como consequencia a +emigração especial de que estes precisam, por isso que carecem de edificações, +obras de toda a especie, lanchas, vapores, carros, etc., que representam outras +tantas necessidades, cuja satisfação póde dar vasto emprego a um grande numero +de homens, engenheiros, operarios, marinheiros, pescadores, etc., que deverão +ser tão bons como os melhores da metropole, d'onde deverão ir, para resistirem +á influencia do meio. Já hoje um bom operario ganha em Lourenço Marques um +salario avultado, não sendo raros os que no fim de certo periodo alcançam uma +pequena fortuna; em compensação os maus operarios difficilmente alcançam meios +de subsistencia.</p> + +<p>Mas, se tudo isto é a consequencia necessaria do desenvolvimento da colonia, +mais necessario se torna que ella se não desnacionalise, e que a lingua +portugueza seja a que predomine,<span class="pn">{41}</span> porque de outro +modo os estrangeiros preferirão sempre os operarios seus compatriotas. E a +desnacionalisação, só o augmento de relações commerciaes com a metropole e o +affluxo de capitaes portuguezes poderão evital-a.</p> + +<p>A uma outra necessidade tambem a industria particular deveria attender, +ajudada pela protecção do governo; mal se comprehende que uma colonia +commercial por excellencia, como é Lourenço Marques, possa estreitar as suas +relações com a metropole, sem que haja navegação sob a bandeira nacional. Uma +tentativa se fez, a da Mala Real, mas essa tristes resultados deu, não porque a +empreza não tivesse em si largos elementos de exito, mas pela menos conveniente +administração que teve, aggravada por exigencias por vezes injustas das +auctoridades em Africa, que faziam demorar os vapores a seu talante, +auctorisando-se para isso da irregularidade das carreiras.</p> + +<p>Dos vapores da Mala não se sabia nunca, nem o dia da partida, nem o da +chegada, e passageiros houve que levaram quasi tres mezes de Lisboa a Lourenço +Marques, isto não obstante os vapores serem de primeira ordem e commandados por +officiaes competentissimos.</p> + +<p>Assim, resumindo, o futuro de Lourenço Marques está, a meu vêr, dependente +da nossa iniciativa commercial e industrial. O seu desenvolvimento<span +class="pn">{42}</span> abre um largo campo de acção ás classes liberaes e ao +operariado escolhido da metropole, que encontrarão n'um paiz de lingua, +costumes e leis analogas ás da metropole, vantagens não inferiores ás que +apontei para o commercio metropolitano.</p> + +<p style="text-align:center">*</p> + +<p style="text-align:center">* *</p> + +<p>Resta-me ainda dizer algumas palavras de Lourenço Marques como colonia de +exploração, e debaixo d'este ponto de vista creio que, se o districto tem +elementos de riqueza e futuro desenvolvimento, estão elles longe dos que se +notam em Inhambane, Quilimane e outros districtos do norte da provincia. +Entretanto, pela sua situação fóra dos tropicos e pela sua posição geographica, +algumas probabilidades tem de aproveitamento, que conviria utilisar, imprimindo +á colonisação do districto, além do caracter commercial predominante, uma +feição de colonia de exploração, secundaria, ajudando-se as duas mutuamente.</p> + +<p>A colonia de exploração propriamente dita deve poder produzir generos de +venda remuneradora, taes como o café, o cacau, a canna, a quina, etc., que +compensem as despezas e sacrificios da cultura e ao mesmo tempo dispôr de mão +d'obra abundante e facil, que substitua<span class="pn">{43}</span> a do +europeu, que unicamente deve dirigir os trabalhos.</p> + +<p>Lourenço Marques, pelo menos na região visinha da costa, onde os transportes +são relativamente faceis, poderá talvez produzir os generos a que me referi, e +entre outros a canna saccharina e a borracha já ali se desenvolvem. Produzirá +igualmente os outros generos, com economia? Não sei, visto não haver +experiencias que nol-o indiquem.</p> + +<p>E merecerá a pena tental-as, quando a pequena distancia para o norte da +provincia temos regiões onde as condições do clima são excepcionaes, bem como a +fertilidade do sólo, para o estabelecimento de colonias de exploração, como em +toda a região do Zambeze? Não creio. Seria ir experimentar o duvidoso, +desprezando o certo.</p> + +<p>Demais, em Lourenço Marques a mão d'obra é cara. O preto ganha ali, +trabalhando muito menos do que o europeu o faz na Europa, 2 a 3 shillings +diarios ou seja de 600 a 900 reis, e não é facil encontral-os por preço menor, +visto que é este o salario que podem ganhar em qualquer centro aurifero do +Transvaal. Em tempos, o governo do districto, cedendo ás queixas geraes dos +habitantes, quiz regulamentar os salarios dos cafres, esquecendo o principio +geral da <i>offerta</i> e da <i>procura</i>, sendo o resultado perfeitamente +nullo, por isso que, quando precisavam<span class="pn">{44}</span> cafres, eram +os que mais tinham reclamado, que iam offerecer maior salario aos do +visinho.</p> +<!— —> + +<p>O regulamento do preço dos salarios é praticamente inapplicavel em Lourenço +Marques, pois para o conseguir seria necessario prohibir a emigração para o +Transvaal e para o Natal, e esta medida, além de anti-economica e antipolitica, +seria de difficil execução.</p> + +<p>Pelo contrario, na Zambezia, não succede o mesmo. O preto ali, submette-se +ao senhor do praso em que habita, trabalhando por um preço baixo, de 3$000 a +4$500 reis por mez, por isso que mal acredita que não está já sujeito ao +regimen da escravatura, unico possivel para fazer trabalhar o negro, quando +convenientemente fiscalisado. Os inglezes tanto assim o comprehenderam que, +feitos grandes esforços, sob vãos pretextos de philantropia e generosidade, +para acabar com a escravatura barbara dos antigos tempos, a reorganisaram com +meios mais suaves, mas não menos firmes, em seu exclusivo proveito. E têm +razão, pois que a liberdade que nós damos ao preto resume-se em lhe darmos só +direitos, dos quaes o que lhes é mais precioso é o de não trabalharem, sem lhe +impôrmos deveres.</p> + +<p>Assim, temos na provincia de Moçambique pontos onde podemos ir implantar, +sem receio de mau exito, as verdadeiras colonias de exloração,<span +class="pn">{45}</span> ricas, de largo futuro, não inferior ao da nossa colonia +de S. Thomé, sem recorrermos para isso a Lourenço Marques.</p> + +<p>É, porém, certo que este districto dispõe de recursos especiaes: é cortado +de rios navegaveis, que tornam os transportes muito faceis: dispõe nos valles +dos rios de fertilissimos terrenos, onde se poderiam installar culturas +remuneradoras; pela sua posição fóra dos tropicos e proximidade da visinha +colonia do Natal e da Republica sul africana, as experiencias n'aquelles paizes +realisadas, poderiam decerto aproveitar-lhe; e finalmente ainda, é menos +insalubre do que os outros districtos da provincia, á excepção talvez de alguns +pontos de Inhambane e das terras altas do interior. Algumas localidades até, +infelizmente pouco extensas, são relativamente salubres, dando-se o caso +curioso de que não se podem sempre reconhecer á primeira vista as suas +condições hygienicas. É assim que Incanine, no baixo Incomati, rodeado por toda +a parte de pantanos e lodaçaes, se reconheceu ser o local mais salubre de todos +os occupados em 1895 pelas nossas tropas; era por assim dizer um verdadeiro +sanatorio.</p> + +<p>Por isso, industrias agricolas ha que se devem installar em Lourenço +Marques; serão naturalmente aquellas que exijam pouca mão d'obra, ou em que o +trabalho possa ser feito<span class="pn">{46}</span> por machinas e ainda as +que possam tirar valor dos seus faceis meios de transporte, os rios.</p> + +<p>Taes são a creação de gados, quer vaccum, quer lanigero, e a cultura de +cereaes, que poderia fornecer largamente a metropole. Que importa, com effeito, +que a Huilla, que a região de Milange e tantas outras possam fornecer o milho e +o trigo, se estes, por falta de transporte barato, não puderem sahir do paiz de +producção?</p> + +<p>A cultura do milho, sem duvida se póde realisar em Lourenço Marques; +cultivam-n'o os pretos em todos os pontos onde ha agua, e não são poucos, e com +magnifico resultado, pois se vêem as plantas attingir 3, 4 e mais metros de +altura, com uma producção proporcional ao porte. Em todo o valle do baixo +Incomati, do Limpopo e do Maputo, se vêem vastas planicies, onde ás areias se +misturam as alluviões do rio, formando um sólo extremamente fertil.</p> + +<p>O trigo deveria tambem dar-se, por isso que se produz em condições analogas +no Natal; das experiencias feitas no districto, pouco se póde concluir, pois +que ainda não foram regularmente seguidas para fornecer dados seguros; todas, +porém, têm dado resultado e só de uma, feita nas visinhanças da cidade, soube +que os resultados foram pouco animadores, mas é provavel que, se o trigo se +manteve rachitico<span class="pn">{47}</span> e sem desenvolvimento, foi porque +as experiencias foram mal dirigidas, não se escolhendo a época favoravel á +sementeira, nem o typo de semente mais apropriado. Na Beira, onde o dr. +Arriaga, um dos benemeritos da colonisação africana da costa oriental, fez +experiencias da cultura do trigo em larga escala, os resultados foram +magnificos, obtendo em média 50 sementes; ora o que succedeu no valle do Busi, +n'uma alta latitude, mais naturalmente succederá no do Incomati.</p> + +<p>Nos postos do Incomati, no Marracuene, Manhissa, Magudi e no Maputo, foram +estabelecidos, em 1895, com o atilado criterio de quem então dirigia os +negocios da provincia, pequenas quintas regionaes, com o fim de se proceder ás +necessarias experiencias de agricultura, e, apesar dos poucos meios de que a +provincia podia dispor, muito ha a esperar do resultado d'estes trabalhos, que +oxalá sejam dados a publico.</p> + +<p>Quer o milho, quer o trigo, muito vantajosamente seriam importados pela +metropole, pois decerto os transportes seriam baratos, em fretes de retorno. O +milho, além do consumo no interior do districto, pois que, comquanto pareça +incrivel, o districto de Lourenço Marques importa por vezes milhares de saccas +de milho e arroz, poderia ser utilisado para fabricação do alcool exportavel +para o Transvaal, producto<span class="pn">{48}</span> de que já ha montadas +fabricas importantes, quer na cidade, quer em Ressano Garcia.</p> + +<p>Além d'estas culturas principaes e ainda do arroz, muitas outras se poderiam +crear, não só para consumo local, mas talvez tambem para exportação. As arvores +de fructo europeias desenvolvem-se bem no districto, conforme se verificou nas +plantações de Anguane. As laranjeiras e limoeiros não têm difficuldade em +medrar, pois que os ultimos são selvagens, encontrando-se ao longo das margens +do Incomati milhares de limoeiros, carregados de esplendidos limões, que se +reproduzem sem cultura, para gaudio dos cafres e dos macacos.</p> + +<p>Nas vertentes dos Libombos, do rio dos Elephantes, até á fronteira sul do +districto, em grande parte dos valles do Incomati, do Umbeluzi e do Limpopo, a +creação de gado vaccum far-se-ia sem difficuldade, pois em qualquer d'estes +pontos se vêem rebanhos de gado de centenares de cabeças, pertencentes aos +cafres. O gado muar e os burros dar-se-iam tambem perfeitamente, podendo +prestar grandes serviços n'aquelle paiz em que os cavallos morrem tão +facilmente: duas muares vi no Incomati, que, tendo fugido aos donos, se tinham +tornado selvagens, vivendo em liberdade e eram magnificos exemplares; +infelizmente foram mortas a tiro, por quem decerto tinha pouco bom senso.<span +class="pn">{49}</span></p> + +<p>O gado lanigero, pelo menos raças semelhantes ás do Transvaal e do Cabo, +encontraria tambem magnificas condições de desenvolvimento n'uma extensa zona +nas vertentes dos Libombos, onde já se encontra, na posse dos cafres, se bem +que em pequeno numero e de raça inferior. A exportação das lãs constitue hoje +um dos principaes elementos de riqueza do Cabo da Boa-Esperança e do Transvaal, +e podel-o-ia ser tambem de Lourenço Marques.</p> + +<p>Na zona que da base da vertente dos Libombos vem até á zona argillosa e +humida, encontram-se, quando a população escasseia, avestruzes selvagens, +indicando-nos o proveito que pela sua creação poderiamos tirar da região +arenosa do districto, de um modo analogo áquelle por que no Cabo da +Boa-Esperança se conseguiu tirar d'aquelles animaes um rendimento importante, +de centos de mil libras annuaes.</p> + +<p>A cultura do arroz e do algodão, o primeiro já hoje cultivado em pequena +escala pelos negros, e o segundo, de que já se fizeram ensaios coroados de bom +resultado, poderiam tambem concorrer para a prosperidade da colonia.</p> + +<p>De tantos elementos de riqueza, e ainda outros que seria longo enumerar, +pouco se aproveita hoje, apesar de muitos esforços por vezes empregados pelo +governo. Já em 1780 foi necessario que o governador Pereira do Lago, +obrigasse<span class="pn">{50}</span> os moradores á cultura do algodão, e em +1760 o governador Pedro de Saldanha de Albuquerque forçou os habitantes de +Lourenço Marques a entregarem-se á agricultura, «<em>para ao menos evitarem que +até o pão e a mandioca lhes viessem de fóra</em>». Que diria elle hoje, em que +vem de fóra não só o pão para os brancos, mas ainda o arroz e o milho para os +cafres!</p> + +<p>Das riquezas mineiras de Lourenço Marques pouco posso dizer. Ha talvez ouro, +e minerios preciosos, nos filões dos Libombos e ao norte do districto, na +camada de conglomerados, mas das pesquizas até hoje feitas nada se tem +conseguido; verdade é que têm sido poucas e mal dirigidas; entretanto alguma +vantagem haveria em que se fizessem methodicamente.</p> + +<p>Se Lourenço Marques não está em condições de poder, como colonia de +exploração propriamente dita, vir a attingir o elevado grau de prosperidade de +S. Thomé, Cabo, Java, etc., nem por isso é tão desprotegido pela natureza, como +vêmos, que não possa, amparado pela sua colonia commercial, desenvolver-se e +medrar, concorrendo em curto periodo para libertar a metropole dos pesados +encargos do seu <em>deficit</em> de producção cerealifera.<span +class="pn">{51}</span></p> + +<p style="text-align:center">*</p> + +<p style="text-align:center">* *</p> + +<p>Mas se Lourenço Marques só póde ser principalmente uma colonia commercial, +devendo-se a esta sua feição subordinar tudo o mais, nem por isso faltam, nos +nossos vastos dominios coloniaes, regiões onde se installem colonias de outro +genero.</p> + +<p>Na região alta do interior de Moçambique podem encontrar-se vastos terrenos +salubres, com clima pouco differente do nosso e onde a população póde +desenvolver-se sem obstaculos insuperaveis. Taes são Manica, Milange, a região +do Nyassa, etc., e para ahi nos installarmos basta que o nosso povo ahi queira +repetir os trabalhos que os nossos antepassados executaram na America; o +governo só póde fazer os trabalhos de preparação, ou installar colonias penaes. +As colonias militares, pelo seu caracter, não julgo que possam dar bom +resultado.</p> + +<p>Para colonias de exploração temos quasi toda a vasta área da provincia de +Moçambique, que se abre á nossa actividade, apresentando-nos uma variedade de +recursos que difficilmente se encontrarão n'outros pontos. Se estamos, ou por +outra, se o nosso descuido levou outros, mais activos e trabalhadores, a nos +deixarem<span class="pn">{52}</span> reduzidos a uma tira de terreno ao longo +da costa, essa mesma situação nos dá a posse dos melhores portos, testas +obrigadas dos caminhos para o interior, que se podem encontrar desde o Cabo da +Boa-Esperança até ao Guardafui.</p> + +<p>Inhambane, n'uma zona de mais de 100 kilometros de largura e que corre +parallelamente á costa, tem uma população numerosa e trabalhadora, terrenos +fertilissimos, e a borracha e o café desenvolvem-se ali espontaneamente, sendo +este de magnifica qualidade. Antigas plantações junto da villa, mostram ainda +hoje a pujança dos cajueiros, coqueiros, mangueiras e outras muitas especies +vegetaes. O café, que cresce quasi na costa, não tem animado ainda até hoje os +nossos colonos a iniciarem plantações, limitando-se a ensaccar o que do +interior é trazido pelos cafres; ha annos, porém, ensaiou-se ali uma larga +plantação de chá, que morreu com o fallecimento do proprietario, tendo +entretanto apresentado bons indicios. No interior do districto a caça, bufalos, +zebras, antilopes e até elephantes, são abundantissimos.</p> + +<p>Se de Inhambane passamos ao Zambeze, encontramos uma bella via fluvial, em +cujas margens, e em tempos remotos, os nossos maiores estabeleceram grande +numero de feitorias, povoações e centros agricolas, de que ainda restam +vestigios.<span class="pn">{53}</span></p> + +<p>Modernamente alguns homens de iniciativa têm, em pouco tempo, realisado +fortunas avultadas e fundado magnificas plantações no baixo Zambeze. O +coqueiro, de que se encontram ali milhões de exemplares, tem sido plantado +largamente; a canna saccharina, o café, o arroz, etc., estão sendo cultivados +com vantagem, e se os exemplos dados fossem seguidos, poderiamos em pouco tempo +ter ali a primeira colonia de exploração portugueza, superior ainda a S. +Thomé.</p> + +<p>Nos prasos das margens do rio ha magnificas mattas onde a madeira podia ser +explorada, e onde os elephantes ainda se encontram com abundancia; em Tête +encontram-se jazigos de carvão, infelizmente de qualidade inferior na parte já +reconhecida, e nos terrenos ainda não explorados ha indicios de importantes +jazigos auriferos.</p> + +<p>Na região alta do norte do Zambeze, o clima é semelhante ao da Europa, e ahi +poderiam os colonos ir restabelecer-se, quando atacados das doenças inevitaveis +no valle insalubre do rio.</p> + +<p>Finalmente mais ao norte, no Ibo, Moçambique e Angoche, pouco se conhece do +interior, mas a todos estes portos concorre o café selvagem do sertão e por +elles se exportam annualmente muitos contos de reis de sementes oleaginosas. +Desde que sejam conhecidos, provavel é encontrar territorios ainda mais +bem<span class="pn">{54}</span> dotados do que os da Zambezia, região esta onde +a colonia de Blantyre, ha poucos annos começada, já hoje exporta mais toneladas +de café do que toda a provincia de Moçambique exporta de saccas da mesma +mercadoria.</p> + +<p style="text-align:center">*</p> + +<p style="text-align:center">* *</p> + +<p>Não seria, pois, razoavel procurar fazer de Lourenço Marques uma colonia de +exploração propriamente dita, tentando introduzir ali, com sacrificio, culturas +que a provincia n'outros pontos espontaneamente nos dá. O futuro de Lourenço +Marques está inteiramente ligado ao seu desenvolvimento commercial e á +emigração para ali de individuos capazes de o alargarem e de capitaes que o +facilitem, e isto está, mais uma vez o repito, nas mãos da iniciativa +particular.</p> + +<p>Ao governo compete não contrariar, pelas suas medidas administrativas, essas +iniciativas e vigiar para que os seus agentes sigam a mesma-ordem de idéas. Por +nós ou pelos estrangeiros, Lourenço Marques ha de fatalmente tornar-se o +primeiro porto commercial da Africa do sul, e tudo o que contrarie esse destino +redundará em nosso damno.</p> + +<p>A permanencia dos governadores no districto (de 1881 até 1896 houve vinte e +sete mudanças<span class="pn">{55}</span> de governadores), a creação de tropas +coloniaes, a separação naturalmente indicada de Lourenço Marques e Inhambane, +n'um governo autonomo, do resto da provincia, a applicação dos rendimentos do +districto ao seu melhoramento, sem os distrahir para fóra, a nomeação de +pequeno numero de funccionarios, bons e bem pagos, em vez de muitos e mal +pagos, o ensino obrigatorio da lingua cafreal, a organisação dos cafres no +interior, sem vexames, causa de todas as revoltas, e tantas outras questões de +administração, só podem ser ordenadas pelo governo, e muito contribuirão para a +prosperidade do districto, com o qual a metropole já hoje não deveria fazer +despezas.</p> + +<p>Que os penosos e lentos sacrificios que nos impuzemos durante muitos +seculos, não vão hoje, que a messe está madura, aproveitar a outros, que +avidamente espreitam o momento de lançar mão dos nossos despojos; e que uma +colonisação preponderante e activa nos mantenha aberto o vasto campo de +expansão e actividade necessario a um povo que não está ainda completamente +decadente e perdido, é o que devemos procurar.</p> + +<p>De entre os restos do nosso vasto dominio colonial é Lourenço Marques +aquelle de que a avidez estrangeira mais nos demonstra a importancia capital +para o futuro desenvolvimento de Moçambique. Para que a sua +desnacionalisação<span class="pn">{56}</span> não se opere, torna-se necessario +que para ali concorra a actividade commercial, a industria e os capitaes, que +são ainda mais do que os emigrantes, o nervo da colonisação, e de todos estes +meios de acção nenhuma região é mais rica do que o norte do paiz e em nenhuma +cidade elles se encontram mais largamente espalhados do que no Porto.</p> + +<p>É por isso que, agradecendo ao Atheneu Commercial do Porto o honroso convite +com que me distinguiu, e á assembléa a cortezia e attenção com que se dignou +escutar o que diligenciei expôr, sem galas de estylo, mas com inteira franqueza +e verdade, me sentirei verdadeiramente orgulhoso, se por pouco que seja, tiver +conseguido attrahir sobre Lourenço Marques as attenções d'uma cidade, a +primeira sempre no paiz, nos grandes emprehendimentos de que póde resultar para +a nossa querida patria, riqueza, gloria e prosperidade.</p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="L723" id="L723" href="#L717">[1]</a></sup> Dados extrahidos do +<i>Districto de Lourenço Marques</i>, por Eduardo de Noronha.</p> +</div> + +<p> </p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Colonização de Lourenço Marques, by +Alfredo Freire de Andrade + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COLONIZAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES *** + +***** This file should be named 34388-h.htm or 34388-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/3/8/34388/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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