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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: O Bem e o Mal - Romance - -Author: Camilo Castelo Branco - -Release Date: July 12, 2020 [EBook #62624] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BEM E O MAL *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - - - - - - - - - - OBRAS - DE - CAMILLO CASTELLO BRANCO - - EDIÇÃO POPULAR - - VI - - O BEM E O MAL - - - - -VOLUMES PUBLICADOS - -Eis os titulos dos ultimos volumes: - - -N.º 29—As virtudes antigas—Um poeta portuguez... rico! - -N.º 30—A filha do Doutor Negro. - -N.º 31—Estrellas propicias. - -N.º 32—A filha do regicida. - -N.ºˢ 33 e 34—O demonio do ouro. - -N.º 35—O regicida. - -N.º 36—A filha do arcediago. - -N.º 37—A neta do arcediago. - -N.º 38—Delictos da Mocidade. - -N.º 39—Onde está a felicidade? - -N.º 40—Um homem de brios. - -N.º 41—Memorias de Guilherme do Amaral. - -N.ºˢ 42, 43 e 44—Mysterios de Lisboa. - -N.ºˢ 45 e 46—Livro negro de padre Diniz. - -N.ºˢ 47 e 48—O judeu. - -N.º 49—Duas épocas da vida. - -N.º 50—Estrellas funestas. - -N.º 51—Lagrimas abençoadas. - -N.º 52—Lucta de gigantes. - -N.ºˢ 53 e 54—Memorias do carcere. - -N.º 55—Mysterios de Fafe. - -N.º 56—Coração, cabeça e estomago. - -N.º 57—O que fazem mulheres. - -N.º 58—O retrato de Ricardina. - -N.º 59—O sangue. - -N.º 60—O santo da montanha. - -N.º 61—Vingança. - -N.º 62—Vinte horas de liteira. - -N.º 63—A queda d’um anjo. - -N.º 64—Scenas da Foz. - -N.º 65—Scenas contemporaneas. - -N.º 66—O romance d’um rapaz pobre. - -N.º 67—Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado. - -N.º 68—Noites de Lamego. - -N.º 69—Scenas innocentes da comedia humana. - -N.ºˢ 70 e 71—Os Martyres. - -N.º 72—Um livro. - -N.º 73—A Sereia. - -N.º 74—Esboços de apreciações litterarias. - -N.º 75—Cousas leves e pesadas. - -N.º 76—Theatro:—I. Agostinho de Ceuta.—O marquez de Torres-Novas. - -N.º 77—Theatro:—II. Poesia ou dinheiro?—Justiça.—Espinhos e -flores.—Purgatorio e Paraizo. - -N.º 78—Theatro:—III.—O Morgado de Fafe em Lisboa.—O Morgado de Fafe -amoroso.—O ultimo acto.—Abençoadas lagrimas! - -N.º 79—Theatro:—IV.—O condemnado.—Como os anjos se vingam.—Entre a flauta -e a viola. - -N.º 80—Theatro:—V.—O Lubis-Homem—A Morgadinha de Val-d’Amores. - - - - - _CAMILLO CASTELLO BRANCO_ - - O BEM E O MAL - - ROMANCE - - SEXTA EDIÇÃO - - LISBOA - PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA - LIVRARIA EDITORA - _Rua Augusta, 44 a 54_ - 1910 - - 1910 - - OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO - MOVIDAS A ELECTRICIDADE - Da PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA - - _Rua Augusta, 44, 46 e 48—1.º e 2.º andar_ - LISBOA - - - - -PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO - - -Foi vagarosa a sahida da primeira edição d’este livro. - -É obvia e, ao mesmo passo, desconsoladora a explicação. A novella não -perdeu por mal escripta; mas por mal pensada. Quanto a linguagem tanto -montava o quilate d’esta como o das suas irmans. A incorrecção é o -castigo de quem escreve muito á pressa para ir acabando mais de vagar. Em -Portugal é preciso isto. - -O defeito d’este livro é a superabundancia de virtudes de infastiar -leitores que as exercitam eguaes e maiores, todos os dias. - -Ainda bem. - -Quem quizer voga e fama pinte e salpique de sangue e lama os seus -paineis. Ganhar a curiosa attenção dos leitores sómente é permittido a -quem lhes dá noticia de cousas não sabidas nem experimentadas. A virtude -é o ranço d’estas gordas almas da nossa terra. Relatem-se crimes de -cafrárias em linguagem de cafra. - - S. Miguel de Seide, agosto de 1868. - - _Camillo Castello Branco._ - - - - -AO - -PADRE ANTONIO DE AZEVEDO - -Nome que os pobres, seus irmãos, reverenceiam, e os enfermos da alma -abençoam; ancião virtuoso; operario infatigavel em serviço de DEUS e da -humanidade - -OFFERECE ESTE ESCRIPTO - -_O Auctor._ - - - _Meu Amigo:_ - -_Ha vinte e tres annos que eu vivi em sua companhia._ - -_Lembra-se d’aquelle incorrigivel rapaz de quatorze annos, que ia á venda -da Serra do Mesio jogar a bisca com os carvoeiros, e a bordoada, muitas -vezes?_ - -_Esse rapaz sou eu; é este velho, que lhe escreve aqui do cubiculo de um -hospital, muito visinho do cemiterio dos Prazeres._ - -_Eu sou aquelle a quem padre Antonio de Azevedo ensinou principios de -solpha, e as declinações da arte franceza._ - -_Sou aquelle que leu em sua casa as «Viagens de Cyro», o «Theatro dos -Deuzes», os «Luziadas», «As perigrinações de Fernão Mendes Pinto», e -outros livros, que foram os primeiros._ - -_Sou aquelle que, sem saber latim, resava matinas, laudes, terça, sexta, -etc., com padre Antonio._ - -_Sou, finalmente, aquelle, a quem padre Antonio disse:—«O tempo ha de -fazer de você alguma cousa.»_ - -_Passados vinte e tres annos, como eu acabasse de escrever o meu -quadragesimo segundo volume, lembrou-me dedicar-lh’o, meu venerando -amigo, e rogar-lhe que peça a Deus por mim._ - - _Lisboa, 22 de junho de 1868_ - - - - -I - -A visão do presbyterio - - -Apresento o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova. - -Nasceu no termo de Pinhel em 1818. Seu pae, viuvo sem consolação, vestiu -o habito de frade mendicante no convento de Vinhaes. Assim cuidou elle -que dignamente honrava a memoria de sua santa mulher. Escolhera convento -pobre como penitencia, e deixara sua casa e filho unico sob a vigilancia -de um irmão clerigo, sujeito de clara fama e varão doutissimo. - -N’aquella casa de Villa Cova, que dera o appellido a dez gerações de -honrados lavradores, floreceram, na passagem de cinco seculos, padres de -muito saber, uns famigerados na oratoria, outros grandes cazuistas, e -alguns bastantemente notaveis por sua virtude sem lettras, e nenhum por -lettras sem virtudes. - -O educador de Ladislau sobre ser virtuoso, era grande letrado; a sua -sciencia, porém atrazára-se dous seculos na historia do espirito humano. - -Padre Praxedes de Villa Cova sabia de cór Aristoteles e Platão. -Philosophia, physica, historia natural, grammatica, logica, metaphysica, -poetica, meteorologia, politica, e mais um centenar de sciencias todas -lh’as ensinaram os dous sabios de Stagira e Athenas. Na opinião d’elle, a -intelligencia do homem, depois de Platão e Aristoteles, envelhecera, ou -fingira remoçar-se com atavios de ouropel e pechisbeques, sem quilate na -experimentada mão de um sabio. - -Era padre Praxedes copiosamente lido em livros portuguezes anteriores -ao seculo XVII, e possuia os melhores nas suas ponderosas estantes -de castanho. Da epocha dos Senhores Reis D. João V e D. José I já -pouquissimos volumes, e esses mesmos entremados do ouro puro dos -classicos, se honravam de prender-lhe a attenção. - -Foi, desde menino, Ladislau encaminhado por esta, em parte, errada vereda -da sabedoria util e verdadeira. - -Começou a escrever como caligraphicamente se escrevia ha dous seculos: -lettra garrafal, com as hastes a prumo, longas e enfeitadas com mui -engenhosos quadrados, mórmente as maiusculas. Era a escripta de -padre Praxedes, tal qual a que seu tio avô, sabio fallecido em 1707, -transmittira a um padre Heliodoro, seu filho, e este ao avô de Ladislau, -e o avô ao filho, que vinha a ser o tio paterno d’este padre Praxedes. -De modo que, n’aquella familia, o «traslado» da escripta em 1830 era -fielmente copiado do de 1680. Em tudo mais como na escripta. - -Está situada a casa dos Militões de Villa Cova nas faldas de uma serra -chamada a _Castra_. Affirma documentalmente o padre que o chamar-se -Castra o sitio, vem de ter estado alli presidio romano, ha vinte seculos; -e quer elle que sobre as ruinas d’aquella atalaia dos senhores do mundo -esteja cimentada a modesta habitação dos Militões desde o seculo IX. - -É a casa grossa de cantaria com dez janellas de peitoril sem vidraças, -quasi a roçarem nas proeminentes cornijas, assentadas em fortes cachorros -sem lavor. É largo e alto o portão de castanho, que abre sobre um -espaçoso quinteiro, intranzitavel na maior parte do anno, por causa das -gabellas de tojo e urze, que os pés do gado vão calcando e curtindo. - -Do fundo do quinteiro, sobe larga escadaria a um pateo lageado com -guardas de pedra tão em bruto e sem visos de esquadria que parecem ter -alli ficado casualmente postas umas contra outras pelo revolutear aquoso -de algum diluvio. - -Este exterior assim é triste, mais triste que a soledade das ruinas -de outras casas, que em redor existiam até ao começo d’este seculo, -e ás quaes os francezes acossados pegaram fogo, na sua ultima evasão -de Portugal. Do desastre da Povoa de Villa Cova salvou-se a casa dos -Militões, porque os incendiarios não acharam brecha por onde lançassem -o lume: o morro de pedra era incombustivel; as portadas de castanho tão -sómente a bala raza poderiam saltar dos seus enormes gonzos. - -Os donos das ruinas não quizeram reedificar no sitio onde seus -antepassados tinham construido os pobres casalejos. Ajuizadamente -edificaram em terreno mais ao centro das suas leiras, visto que, em casa -de mais fertil torrão, já os avós dos actuaes tinham levado longe o -arroteamento e a cultura. - -A casa dos Militões ficou, porém, solitaria, e tomou a si em bem dos -pobres o desmontar da terra deixada a monte. - -As corpulentas arvores, que se abraçaram no declive da serra, mal -deixavam entrever a casa de Villa Cova. O vestigio unico de vida -n’aquelle fundão era o rolo de fumo que o vento rarefazia em apparencia -de nevoeirinhos sobre a copa do arvoredo, o qual, visto da cumiada da -Castra, semelhava uma mouta de arbustos. - -Volviam mezes e mezes sem que pessoa estranha descesse a serra, em -demanda da casa dos Militões, excepto o viandante, que, surprehendido -pela noute, se guiava pela neblina de fumo, vista ao entardecer, ou pelo -convidativo cantar do gallo. - -Em dias santificados, a familia fiava dos cães de gado a guarda da casa, -e ia ouvir missa á igreja parochial, um quarto de legua distante. Desde -tempos immemoriaes era a freguezia pastoreada por clerigo da casa de -Villa Cova. Este clerigo que, no discurso de tres seculos, parecia sempre -o mesmo, tinha sempre comsigo uma irmã, que, no traje, no dizer, e no -sentir, era a mesma irmã do padre do seculo XV. - -Depois da missa, o pastor acompanhava os seus a Villa Cova, onde pasava -o dia; e á noute, entoadas as preces das Ave-Maria, lá transmontava o -serro, que o separava da sua igreja, abordoando-se d’um cerquinho, que -diziam ter trezentos ou mais annos de uso—tradição fundada na certeza de -outras muitas. - -Este era ainda em 1830 o viver d’aquella patriarchal familia. - -Ladislau Tiberio Militão estudava n’este tempo a grammatica de -Aristoteles. Frei Braz, seu pai, morreu n’aquelle anno; e no seguinte, o -tio, que parochiava. Ficou reduzida sua familia ao padre, que o ensinava, -e á tia Sebastiana, que, por morte do tio, voltára da igreja á casa, onde -uma serie de onze antecessoras tinha voltado com o lucto no coração e a -vida por um fio. - -Apenas fallecido o pastor, foi padre Praxedes nomeado interinamente para -a vigararia de S. Julião da Serra. Não havia outro clerigo na familia, -nem outro administrador para a lavoura. Quiz o padre declinar a pesada -herança; mas, mal o souberam, os parochianos acudiram em rogos e lagrimas -a Villa Cova, pedindo ao virtuoso irmão do defuncto vigario que os não -desamparasse. Praxedes arrendou os bens, e transferiu-se á residencia -parochial com irmã e sobrinho, esperando ainda que algum clerigo pobre -das cercanias lhe tirasse dos hombros o cargo, e lhe libertasse o tempo -necessario ao ensino de Ladislau. - -Malograda a esperança, e nomeado pelo governo, o parocho trasladou a -sua livraria, como quem já tinha ao certo que seus derradeiros annos, -muitos ou poucos, alli seriam vividos ao pé da sepultura dos seus onze -antepassados. - -Na casa do presbyterio, continuou a educação litteraria de Ladislau. - -Vivia o mocinho entre seus tios; não conhecia rapaz da sua idade com -que entretivesse as horas feriadas, ou conversasse em materia de -estudo. Mui naturalmente lhe pendeu o animo a umas tristezas que nem -viço e contentamentos de primeiros annos podiam desassombrar. Isto não -faria especie ao vigario nem á senhora Sebastiana. Era aquella soturna -melancolia a norma commum do viver d’esta familia. Muita quietação, -silencio tumular, um moverem-se de phantasmas, perpassando uns por outros -com glacial taciturnidade. - -Estava ainda gravado no animo de todos o lance funereo da viuvez de -Braz. A mãe de Ladislau morrera como quem passa de um tumulo para outro. -Nem mesmo, depois que sahira o esquife, os gemidos se ouviram longo -tempo. E o viuvo, quasi sem declarar seus intentos, sahiu, ao terceiro -dia, de casa, foi orar sobre a lagea de sua mulher, e d’alli se partiu, -a pé, caminho de Vinhaes. Aqui, bateu á porta do mosteiro, que se lhe -abriu como casa de infelizes, e lá ficou. Tudo assim na vida ordinaria, -modelado por este extraordinario succedimento! - -Ladislau contou os dezoito annos da sua idade, sem sentir abrir-se-lhe o -coração a alguma poesia: nem sequer á poesia da natureza! - -As graças campestres das Georgicas de Virgilio sabia traduzil-as em -termos frios, rigorosamente grammaticaes, irreprehensiveis em sã e -fradesca latinidade; porém, no interno da sua alma, nenhum enlevo o -transportava da euphonia do verso para a formosura dos prados, das fontes -e do luar das suas noutes solitarias. Dormia-lhe o coração; ninguem á -volta de si proferira aquella palavra, que é bastante a despertal-o -para as alegres alvoradas do primeiro dia de amor, amor sem mulher, sem -esperança, sem emblema, amor em competencia com o ideal do amor dos -serafins. - -Como se padre Praxedes premeditasse amortalhar este mancebo, já morto -antes de haver experimentado o palpitar estranho da vida, que estremece -em confusos desejos, uma vez, acabando de traduzir com Ladislau alguns -capitulos da «Cidade de Deus», de Santo Agostinho, fallou assim ao moço -de dezoito annos, sem uma só primavera: - -—Ladislau, pensava eu esta noute, e muitas noutes hei vellado a pensar -que, d’aqui a pouco, voltarás á casa onde nasceste, deixando teu mestre -debaixo da pedra onde esperam o grande dia todos os nossos. Pensei com -tristeza que não virá tão cedo de nossa casa o padre guardador d’este -rebanho que os nossos antepassados acceitaram como de Deus, e vieram, -no atravessar de tantos annos, passando o cajado uns a outros. Agora é -que se acabou este legado de serviços, desvelos, e caridades aos nossos -irmãos... Quão grata seria a Deus que o não regeitassemos! Não estás tu -aqui tão bem inclinado á virtude, e aproveitado na sciencia das cousas -santas?!... Queres tu ser padre, Ladislau? - -—Quero, meu tio—disse o moço com inalterado semblante, como se fosse -convidado a traduzir a «Carta aos Pisões» ou as «Lamentações de Jeremias». - -—Sentes em ti vocação ao sacerdocio?—reperguntou o padre com alegre -sombra. - -—Sinto, sim senhor; porque não hei de sentir?—disse Ladislau. - -—Não tens pensado em outro futuro, meu sobrinho? - -—Outro futuro!?—perguntou o moço como alheado na estranheza da -insistencia. - -—Sim: outro futuro... Pensaste alguma vez em te casares? - -—Não senhor. - -—Nem te pende para a vida de esposo e pai a inclinação de teu animo? - -—Nem tenho cogitado n’isso. - -—Pois pensa, sobrinho, pensa, que esta vida de padre tem grandes alegrias -e grandes amarguras, como todas as vidas, todas as vocações. Se queres -a paz, que me tens visto no rosto, entra na trilha de meus passos; os -dissabores de dentro, esses, que são muitos, Deus te afaste o calix -d’elles; mas se t’o der, acceita-o, que a remuneração é infallivel: -acceita-o, meu sobrinho, que o descanço, vindo apoz a batalha, é -ineffavel como o jubilo dos Santos. Ora pois: pensarás um anno; -consultarás o teu espirito; e, em cada amanhecer, pedirás ao divino -Espirito Santo que te allumie. - -Antes de findado o anno, padre Praxedes deu a alma ao Senhor; e -Sebastiana, que vivia para sepultar o ultimo vigario de S. João da Serra, -lá ficou na campa mais proxima, adormecendo-se a beneplacito de Deus, -como quem cumpriu sua missão. - -Ladislau voltou á casa de Villa Cova com a sua livraria, e as supremas -palavras do tio moribundo, que tinham sido estas: - -—Espera um anno mais, o conselho do Espirito Santo. Se o teu coração -estiver desatado de paixões, que prendem á terra, dá-o a Deus; se não, -meu sobrinho, sê um bom marido e bom pai, que esta virtude é por si -tambem um sublime sacerdocio. A vida solitaria, que tens vivido, se -poderes continual-a, filho, não a troques pelo mundo. Sacerdote, marido, -ou simples homem, sem mais obrigações que as communs com os outros -homens, além das que o decalogo te manda, foge, quanto poderes, da vida -que traz comsigo o esquecimento da morte. Ladislau, a sciencia é um -grandissimo mundo povoado de espirituaes amigos; os teus livros encerram, -cada um, sua alma, que te falla como amiga. N’este, acharás um desgraçado -contricto, que te conta os seus infortunios com o bispo de Hippona, ou -o fundador da nossa Arrabida[1]. Outro, como o thesouro de Kempis, se -te desentranha em balsamos para quantas feridas a dôr do ermo ou os -desenganos do mundo te abrirem no seio. Nos livros apprendi a fugir ao -mal sem o experimentar. Confessor quarenta annos, vi as angustias, que -vão por esse mundo, tantas, que não cabiam lá, e transbordavam até ao -nosso escondrijo. Recolhe-te a ti; não deixes os teus campos; affaz-te a -amar estas serras, onde o pé do impio não chegou ainda. Olha tu com que -serenidade eu fio meu remedio e salvação da divina misericordia: aqui -tens, na morte, um exemplo das vantagens da vida, que eu tive. É isto, -filho; é este acabar sem remorso nem temor, consolando-me de ter sido tão -moderado em meus desejos, que nem se quer peço a Deus que me dispense -mais um dia de existencia. - -Estas e poucas mais foram as ultimas palavras do presbytero. - -Ladislau Tiberio viveu um anno esperando o conselho do Espirito Santo. - -Os chorosos parochianos de S. Julião da Serra, quando viram suas -consciencias em guarda de um sacerdote moço, que viera de longe -pastoreal-os, foram ter com Ladislau, representados pelos lavradores mais -abastados da freguezia. - -—Que querem de mim?—perguntava o moço—que hei de eu fazer-lhes? - -—Seu tio, que Deus haja—respondeu o mais respeitado—nos disse que talvez -o sr. Ladislau tomasse ordens para ser o nosso vigario. - -—Pois sim; mas é cedo ainda, meus amigos. Deixai-me esperar o dia -destinado á minha decisão. - -O dia chegou: era o anniversario da morte do padre Praxedes. - -Ladislau, na manhã d’aquelle dia, foi orar ao templo, e ajoelhou sobre a -campa dos sacerdotes seus antepassados. - -Raiava a aurora, quando entrou á egreja. - -E enxergou um vulto, orando no arco da capella-mór. - -Mais tarde, como o sol coasse pela estreita fresta lateral um raio de luz -sobre o vulto ajoelhado, Ladislau reconheceu uma mulher. - - - - -II - -Amor de predestinação - - -A mulher ajoelhada á sombra do escuro arco, era Peregrina, irmã do -vigario. - -Viera de longe para alli com seu irmão, sacerdote pobre, que devia a sua -ordenação ao bemfazer do padrinho, velho fidalgo de Pinhel. Em quanto -João se ordenava em Bragança, Peregrina vivera e educara-se sob o amparo -do padrinho de seu irmão, e querida das filhas do fidalgo, que a vestiam -de seus vestidos, e a sentavam entre si á meza. - -Disse padre João a sua missa nova na capella do bemfeitor, e alli ficou -estimado como da familia, até que, por diligencias do fidalgo, recebeu a -apresentação na igreja de S. Julião da Serra. - -Peregrina beijou a mão do velho caridoso, beijou o rosto de suas amigas -de infancia, e sahiu com o presbytero em demanda da vetusta igreja. Os -parochianos, posto que descontentes ao verem semblantes desconhecidos no -adro dos seus mortos, disseram: - -«Assim é que vinha o pastor de Villa Cova com a irmã». - -Era melancolico o presbyterio; as arvores ressequidas; o chão arido; -as penedias calvas; os tectos assentes em vigas; as paredes interiores -afumadas; os taboados movediços. Alli, as primaveras passariam -despresentidas, se não fosse o azulejar-se o céu, e os festões das -giestas na serra, e o calar-se o estridor das torrentes despenhadas dos -cerros das montanhas. - -Peregrina, quando alli se viu, por um anoutecer de novembro, disse: - -—Como isto é triste e feio! - -Padre João olhou em redor de si, e respondeu: - -—Irmã, este chão triste é que nos ha de dar o pão santo da independencia. -Bemdigamos o coração generoso dos nossos amigos, que me deram terra onde -lavrar com minhas proprias mãos o nosso sustento de cada dia. A casa -parece-nos agora triste, porque é noute. Ámanhã um raio de sol nos virá -alegrar estas paredes. - -E, como assim fallasse, o vigario desceu ao adro, subiu sobre uma peanha -tosca, travou da corda que movia o sino unico do simulacro de torre, e -tangeu as nove badaladas de Ave-Marias. Os lavradores, que iam passando, -descobriram-se, pararam, oraram, benzeram-se, e seguiram seu caminho -murmurando: - -—Os padres de Villa Cova faziam o mesmo. Quer Deus que todos os nossos -vigarios sejam bons e devotos. - -Entretanto, Peregrina, rezada a oração final da sua prece da tarde, -alongou os olhos ás sombrias serras que avultavam para o lado de Pinhel, -e chorou. Eram saudades das filhas do bemfeitor, e do casal onde nascera, -e onde seus pais, caseiros do fidalgo, haviam morrido. - -A irmã do vigario tinha 18 annos. Era dotada de abundantes graças, -compleição menos robusta que o ordinario das moças aldeãs, senhoril -talvez extraordinariamente, rica de negros cabellos, formosa de olhos, -doce e meiga no dizer, modestissima, parca em sorrisos, meditativa, -laboriosa, e muito dada á oração. - -Costumava ella erguer-se ante-manhã, quando ouvia os passos do irmão no -sobrado visinho do seu quarto. O vigario madrugava assim para dizer missa -á hora em que os parochianos sahiam ás suas lavouras. Peregrina accendia -o lume, aconchegava o pucaro das brazas, cegava as couves, ia assistir -á missa do irmão, e vinha depois cosinhar o caldo que era a refeição -matinal do sacerdote e d’ella. - -Uma grande parte do clero, que pastorêa almas, póde bem ser que me não -acceite a verosimilhança d’este caldo de couves. Espero que se desçam de -sua incredulidade, se eu lhes disser que a congrua e pé-de-altar de S. -Julião da Serra não davam para chá, n’aquelle tempo em que os direitos -da charopada chineza eram enormes, e os paladares eram genuinamente -portuguezes, lá d’aquellas serranias, se saboreavam de preferencia no -salutar cozimento de couves adubadas de saboroso unto. Ora eu, que -n’esta fidalga e franceza Lisboa tenho sido espectaculo de riso, pedindo -nos hoteis, e recommendando aos meus amigos o caldo verde, insisto -contumazmente em me expôr á mofa da gente culta, dando á estampa, n’este -logar e para meu duradouro opprobiro, o panegyrico do caldo verde, caldo -de meus avós, e de padre João e de sua irmã. - -N’aquella madrugada, em que Ladislau fôra celebrar o anniversario da -morte de seu tio, orando na igreja, Peregrina demorára-se a rezar, finda -a missa, porque seu irmão entrára no confessionario. Déra ella conta de -ajoelhar-se alli perto de si o moço, já quando o templo estava vazio. -Soffreou, em quanto pôde, sua curiosidade, que teimava em querer conhecer -o recolhido devoto. Não era costume seu voltar a cabeça a um lado ou -outro, quando fallava a Deus; porém, tanta força lhe fazia o animo para o -sitio onde estava o moço que, apesar de profanação, aventuro-me a suppor -que o coração lhe estava tirando para alli os olhos por uns filamentos -mysteriosos que, alguma vez, a anatomia ha de encontrar entre olhos e -coração. - -Foi o raio de sol nascente, vertido pela fresta esguia da capella-mór, -que de todo em todo aliciou Peregrina a olhar. Um raio do sol do Senhor -a alumiar-lhes o escuro do templo para se verem! Donoso e sublime -confidente de duas almas carecidas uma da outra! Nunca tão auspiciosos -preludios de um amor começaram n’esta vida. São dous moços: ella -virgem, e formosa, e immaculada; elle gentil, puro, e alli ajoelhado em -consultação de seu destino. A que bemdita e predita hora se entreluzem as -duas almas, embebidas em Deus e subitamente encontradas no mesmo arco da -igreja, em que os esposos costumam receber as bençãos! - -Ladislau tinha as mãos erguidas, quando encarou no rosto de Peregrina. -As mãos ficaram na postura fervorosa; mas a oração, cortada em meio, -olvidou-se-lhe. E ella, que entrepassava nos dedos as contas do seu -rozario, continuou a dizer as palavras santas, mas sem ouvil-as na -audição interior do espirito. - -Ambos a um tempo acordaram da fixidez da sua contemplação, e córaram. -Ladislau baixou os olhos, e ella ergueu-os. Um parece que pedia contas á -terra d’uma delicia, que nunca lhe havia dado nem presagiado; outro ia -no ceu como a decifrar o enigma da sensação nunca experimentada. - -Instantes depois, padre João appareceu á porta da sacristia, e mandou á -irmã que accendesse os castiçaes do altar-mór, emquanto elle se revestia -para ministrar a sagrada communhão á confessada. Ladislau, como ouvisse -as ordens do vigario a Peregrina, ergueu-se e disse: - -—Eu vou, se o sr. vigario quer. Já sei este serviço, que era minha -obrigação, em tempo de meus tios, que Deus haja. - -Padre João já conhecia o sobrinho do defuncto Praxedes, como primeiro -lavrador da freguezia, e moço de estudo e virtudes, segundo lhe disse o -regedor da parochia, e o gravissimo mordomo do orago confirmára. - -Acceitou o vigario o serviço a que Ladislau se teria offerecido, ainda -mesmo que a presença de Peregrina o não movesse á delicadeza. Esta -delicadeza era instinctiva certamente, e ensinada pelo coração, a -fundamental de todos os ceremoniaes, que nas activissimas cidades os -meninos aprendem em livros, como se a cortezia com damas não fosse pagina -escripta no mais diamantino do peito desde que abrimos olhos para vel-as. - -Accendeu Ladislau as velas, e proveu de agua o jarro da communhão, -emquanto o vigario se paramentava. Subiu o ostiario ao altar, abriu o -sacrario e tomou a particula da pyxide. Uma nuvem escura de trovoada -imminente entoldára o sol, e a capella-mór voltava á frouxa luz -crepuscular. O ministro, severissimo em todo o ritual de seu sagrado -encargo, como não fiasse da claridade de uma só vela a perfeita passagem -da hostia á lingua da commungante, acenou á irmã para que tomasse uma -vela do outro lado. - -Ladislau tremeu quando a viu tão perto de si; mas assim mesmo, não -desatremou em desconcerto com a urbanidade: entregou-lhe o cirio, que -tinha e foi tomar outro da tocheira. - -Em verdade lhes digo, meus sensiveis leitores, que eu desejava ter assim -um painel, para serem dous os papeis da minha estimação. O que já possuo -é uma menina lagrimosa, que está dando de comer ao seu cão moribundo, -que não vê o alimento mas ainda a vê a ella, e parece despedir-se a -chorar. O outro quadro queria eu que fosse o vigario de S. Julião da -Serra pendido á fronte humilde da christã; d’um lado, Peregrina com o -rosto banhado do escarlate da flamma, que ella quer affastar de si, -adivinhando que os olhos do moço a estão contemplando; do outro lado, -Ladislau, involuntario, captivo, alheado de si, sem poder desfital-a. Eis -aqui as minhas quatro figuras todas absorvidas em amor de Deus. O padre -está enlevado na suprema magestade do seu ministerio: a penitente está-se -identificando a divindade do corpo e sangue de Jesus; Ladislau, em seu -silencioso spasmo, está psalmeando o hymo de graça que o primeiro homem -deu ao Senhor, no instante de ver inclinado a si um seio amparador de -mulher. E ella, Peregrina? De ti, purpureada virgem, só podem sentir teus -extasis, e contar-no’l-os as tuas iguaes n’este mundo, as que tiveram -simultaneamente a intuição do amor e a visão do primeiro homem amado. -Todos, pois, enlevados em aspirar divino: o sacerdote e a commungante -pela consciencia, os outros pelo coração, aberto em perfumes que queimam -a Deus o mais selecto e fino bago do seu incenso. - -Findo o acto sacramental, o padre subiu os dous degraus do altar, cerrou -o sacrario, ajoelhou, e voltou á sacristia. Ladislau ficou em pé, rente -com o tocheiro de castanho tosco, d’onde tirara o cirio. Peregrina foi -depor a sua vela sobre a credencia, desceu ao fundo da igreja saudando os -quatro altares lateraes, e sahiu do adro, e logo entrou na vigairaria. -Ladislau, viu-a desapparecer, e disse de sua consciencia para Deus: «Não -tornarei a vel-a?» - -Assomou o pastor no limiar da sacristia, e disse a Ladislau, que ia -sahindo: - -—Desejo tel-o em minha companhia algum pouquinho tempo, sr. Ladislau. Se -não vai com pressa, tenha a bondade de esperar, que eu faço oração, e vou -já. - -—Espero no adro o tempo que o sr. reverendo vigario quizer. - -—Por que ha de ser no adro e não em casa?—tornou padre João.—Entre na -residencia, que a porta do sobrado está aberta. - -Ladislau esperou no adro, e, emquanto esperava, tinha os olhos na -janellinha da saleta, em que seu tio costumava estar nas noites quentes, -esperando os freguezes, que voltavam das ceifas, e a todos fallava, -mandando-os sentar nos troços brutos de pedra, que alli tinham ficado -d’uma casa incendiada pelos francezes. - -Assim contemplativo, viu elle chegar á janella a irmã do vigario, e -esconder-se, apenas o encarou, surprehendida. - -Que instantes aquelles para ambos! Que ceus e ceus, vistos á lus d’um -relampago! Que extensos poemas de lagrimas costuma a saudade fazer depois -com as reminiscencias de uns momentos tão fugitivos! - -Sahiu o vigario do templo, fechou a porta, e disse: - -—Estava o sr. Ladislau a recordar-se de seus tios?... Não admira, que -eu mesmo, sem os ter conhecido, lhes respeito a memoria, pelos grandes -louvores que ouço dar ás suas virtudes. Basta ver o que este bom povo é, -para se avaliar as excellencias de quem assim o educou. O espirito dos -dous ultimos e defuntos vigarios de S. Julião da Serra está ainda com o -seu rebanho. Facil me ha de ser a mim, homem sem virtude nem experiencia, -pastoreal-o. Mais tenho que aprender que ensinar. - -E, no sentido d’estas humildes palavras, foi dizendo outras, que se -insinuavam ao coração do moço já captivo do conciliador semblante do -sacerdote; e assim entraram na casinha parochial. - -—Peregrina—disse o padre á irmã que os vira subir, e, sem saber por que, -se alvoroçara—olha que temos hospede; vê lá como te saes; não queiras que -o nosso convidado nos julgue forretas. Almoço de abbade rico, ouviste? - -A moça não respondeu. Affastou da fogueira o caldo que fervia, lançou -alguns ovos á certã, e, tão depressa os cosinhou, foi á modesta arca do -seu fragal tirar a melhor toalha, e os garfos de ferro ainda lusidios em -primeiro uso. - -Peregrina, posto o almoço na mesa, sentou-se no seu logar de costume, que -era um banquinho tosco achegado do escano. A mesa, construida de uma só -taboa afumada, engonçava n’aquelle adorno da lareira, talvez tão antigo -como a vigairaria de S. Julião da Serra. - -Quando a moça se assentou, disse Ladislau: - -—Aquelle banco era o logar de minha tia, que Deus tem! - -E ficou contemplativo. - -—E eu—disse padre João—estou no logar de seu tio, e o sr. Ladislau vem -sentar-se no logar que era seu. - -Estava já na meza a travessa de barro vidrado com a fritada de ovos e -farinha triga. O vigario sorriu-se, e disse: - -—Na meza de seu tio havia um prato e um talher para cada pessoa? - -Ladislau, que não sabia o significado da palavra «talher», respondeu: - -—Comiamos todos do mesmo prato; e na minha casa de Villa Cova, tanto meu -pae como meus tios comiamos á mesma meza dos creados e jornaleiros. - -—Como ha trezentos annos—ajuntou o padre—como os patriarchas idumeos -com os seus servos e escravos. O sr. Ladislau ainda não viu, á luz da -civilisação, a grande distancia a que está dos seus criados. Vive, por em -quanto, na fé de que senhor e servo são homens filhos do mesmo pai, um -favorecido, outro desfavorecido pelo acaso do nascimento... O sr. não lê -as gazetas?—perguntou o vigario abruptamente. - -—Não leio, nem as vi nunca—respondeu o moço—Ouvi dizer a meu tio que um -padre, d’aqui tres leguas, quando acertava de encontrar-se com elle na -feira de Pinhel, lhe mostrava gazetas. - -—Pois—tornou o padre—as gazetas são uns papeis escriptos em letra -redonda, creados e sustentados para demonstrarem que todos os homens -tem direitos eguaes. Muito me admira que seus avós e o senhor tenham -praticado a egualdade sem terem lido as gazetas! Provavelmente em casa -dos Militões de Villa Cova lia-se o Evangelho de Jesus Nazareno. - -—Lia, sim, senhor. - -—Só assim pode explicar-se a virtude sem a doutrinação das gazetas. Dizem -que ellas são o baluarte da liberdade, da egualdade, e da fraternidade; -e eu estou em defender que o sermão da montanha, prégado pelo filho de -Deus ha mil e oitocentos annos, e o sermão da natureza, que sem cessar se -está ouvindo, bastam para fazer um homem irmão e amigo do outro homem, -por amor de Deus, que é pai de todos. - -Posto que não excedesse os vinte e oito annos, o vigario, no pausado e -reflectido do seu dizer, competia com os cincoenta annos de algum egresso -d’aquelle tempo. - -As faculdades d’este bem-fadado ministro da verdade tinham amadurado -antes da sasão propria. Costuma ser a desgraça quem antecipa, com a -precoce experiencia, a reflexão; porém observa-se que o juizo—o que -commummente se chama _siso_—proveniente das lições do infortunio, é um -recolhimento melancolico, mysantropo, deshumano ás vezes, e quasi sempre -intolerante. Em exemplos d’esses, que os ha em grande copia, acerto seria -arguirmos ao enojo das chimeras d’esta vida o que attribuimos á reflexão. - -A madureza do vigario não era apressada pela desventura, nem triste, nem -intolerante. A indole, o habito da soledade, o estudo, a clara vista -da alma com que entrava no secreto e desconhecido do coração alheio, -explicam o ar grave, monacal, e discordante de seus annos. Não obstante, -o geito com que dizia as suas satyras ás gazetas dava mostras de espirito -faceto ou _humoristico_, segundo agora francezmente se diz. - -Dos estudos do seminario passára o presbytero á capellania do padrinho de -Pinhel, fidalgo, como se disse, intractavel desde 1834, retrahido ao seu -quarto, em lucta permanente com os achaques da alma egualmente dolorosos -que os do corpo. A gota, o rheumatismo, a sciatica impacientavam-no tanto -ou menos que o desmancho das cousas politicas. Ruy de Nellas Gamboa de -Barbedo, que assim se chamava o gothico solarengo de Pinhel, se alguma -vez chamava padre João Ferreira ao seu quarto, era para lhe perguntar -pela quinquagesima vez: - -—Que me dizes a isto, padre João? - -—A isto? - -—Sim, á queda do rei legitimo? - -—É um facto consummado—dizia o padre. - -—É uma usurpação consummada!—replicava o fidalgo, e sibillava um agudo -ai, levando a mão ao artelho esquerdo, cuja dor só podia comparar-se á do -artelho direito. - -E como o afilhado não pudésse restaurar ao throno usurpado o senhor -legitimo á vontade do padrinho, Ruy voltava-lhe as costas, e o padre -sahia melancolico a encerrar-se no seu quarto com os seus poucos livros, -ou ia leccionar em primeiras letras as filhas do fidalgo, a segunda das -quaes principiara o alphabeto aos dezeseis annos, Deus sabe com que -repugnancia. - -Demorei-me accintemente n’estas dispensaveis explicações para dar tempo -a que os tres convivas almoçassem e conversassem. _Conversassem_, é -menos exacto. Quem fallou sempre foi o vigario, e é de presumir que o -auditorio o attendesse escassamente. Ladislau, se alguma cousa escutava, -era o poema interior, os hymnos descompassados, mas sublimes, que soavam -dentro em seu coração. Estranhas musicas deviam de ser aquellas para o -moço surprehendido, na alva do seu primeiro dia de amor, por enchentes de -luz desconhecida! O amor, que vem procurado, como sensação necessaria á -felicidade da vida, perde dous terços da sua embriagante doçura; porém, -o amor inesperado, impetuoso e fulminante, esse é um abrir-se o céu a -verter no peito do homem todas as delicias puras que não correm perigo -de impestarem-se em contacto com as da terra. Era d’esta especie o -sentimento de Ladislau, nascido na hora em que elle ia confirmar sobre a -sepultura de seu tio o pacto de ser sacerdote, abjurar as desconhecidas -allianças do coração com o mundo, e acceitar as que atam o coração ao -mundo com o laço da caridade evangelica. - -Ora, aquelle poema interior, se alguem podia decifral-o, era Peregrina. -A mulher innocente e admiravelmente dotada do sexto sentido, que recebe -as impressões não classificadas na ordem physica nem moral. Adivinha -quem a ama, antes que lh’o digam. Parece que o ar se lhe povoa de -espiritos amigos, que giram entre ella e os olhos de quem, a fito ou de -revez, a requesta. Aquelle diaphano veu de escarlate que lhe purpurea -o rosto, não é sangue como dizem os materiaes definidores de tudo: a -mimosa susceptibilidade de cutis, chamada pudor, não pode ser sangue; em -quanto a mim, é o sombreado das azas iriadas dos espiritos que voejam no -ambiente da mulher immaculada, ou então reflexo das coroas de rosas, com -que o deus festivo dos amores a infeita, cioso de ter nos seus altares o -pouco d’este mundo que merece e desculpa a idolatria. - -Posto que este dizer tenha um sabor mythologico, pagão, e, sobretudo, -antiquissimo, ha-de o leitor conceder que o seu servo romancista, tal -qual vês, se desgarre do caminho trilhado á moderna, para não dizer -sempre que os seus personagens estavam arrobados, extaticos, ou, o que é -peior, perdidos de amor. - -Os meus personagens, Ladislau e Peregrina, não estavam arrobados nem -extaticos, porque ambos confessam que comeram da travessa vidrada a sua -porção de ovos, e tomaram cada qual o seu caldo-verde (palavra indigna -de tão levantado assumpto!) - -Perdidos tambem não estavam; porque o perder-se ou transverter-se o -coração é quasi sempre a prova real de não ter sido o primeiro nem o -melhor um certo amor com que os alienados se desculpam. - -O amor, que não perde nem desvaira, esse é que é o amor. - -Eil-o ahi, pois, profundo, sereno e bello como o oceano em calmaria. - - - - -III - -Casamento patriarchal - - -Eu, que já escrevi doze casamentos felizes de uma assentada, querendo -agora enfeitar o de Ladislau e Peregrina, é tamanha a penuria do engenho -em que me vejo, que—a não me acudir a fada do estylo—hei de contar -o ditoso enlace, como elle está escripto no livro dos casamentos da -freguezia de S. Julião da Serra. - -Convém saber que é cousa para pouco discurso a passagem do amor -ao sacramento, que o completa, lá n’essas terras abençoadas do -obscurantismo, como era o termo de Pinhel, e continuará a ser por estes -quatro seculos por vir, em virtude de lhe andar por muito longe das -raias o caminho de ferro. De S. Julião da Serra, então, isso aposto eu -que nunca ha de ser desalojada a santa ignorancia, que faz amarem-se e -casarem-se logo as pessoas que se querem. - -Vamos a bosquejar o casamento de Ladislau e Peregrina. Se a descripção me -sair muito florida, não servirá. Guardarei os enfeites para exornação de -outros casamentos, onde as flores sejam empregadas em disfarçar a mingua -de coração e virtudes. - -Findo o almoço Ladislau disse ao vigario: - -—Como o dia está soalheiro e alegre, pedia eu ao sr. padre João e a sua -irmã, que viessem passar o dia a Villa Cova. Se houver precisão da sua -vinda á egreja para administrar a extrema-uncção, depressa o irá chamar -alguem a minha casa; porém, graças a Deus, não está ninguem, que eu -saiba, doente na freguezia. - -—Pois vamos—disse o vigario sorrindo.—Caro lhe ha de ficar o almoço... O -bom presunto vai pagar os maus ovos. Vem d’ahi, Peregrina, vamos lá ver a -casa d’onde sahiram tantos homens grandes e obscuros, como são os homens -que se escondem da sociedade para serem bons. Quem dirá, sr. Ladislau, -que no curto horisonte d’estas serras que nos cercam, estão fechadas as -lembranças dos santos ministros do altar, que vieram de sua casa para -dentro d’estas quatro paredes velhas!... E seu pai, o viuvo amortalhado -no habito de frade pedinte!... Vamos!... A minha indole melancolica chega -a ser rustica! Vejo que o sr. Ladislau está alegre, e eu a chamal-o a -lembranças pesarosas!... - -No decurso da caminhada de um quarto de legua, foi Ladislau contando -em miudos a sahida de seu pai para o convento de Vinhaes, e a saudade -escura dos que ficaram, encarando a porta, que se abrira á passagem de -um caixão, e logo ao desterrado perpetuo das alegrias d’esta vida. E o -moço, a fallar de sua mãi, chorava; que é sabida cousa a facilidade que -temos de chorar, quando o amor nos amollece, e, para assim dizer, anima -o coração. Sem a presença de Peregrina, Ladislau seria mais insensitivo, -mais duro, mais homem. O amor afemina as condições mais viris, e tem -feito que as faces queimadas e negras da polvorada das pelejas se -orvalhem e brilhem de lagrimas. No animo tenro e como infantil do moço -de Villa Cova, a bem dita influição da meiga menina, que o ia ouvindo -e amando, devia de abrir-lhe no peito os conductos todos das lagrimas -maviosas. Não sei que mysterio santo e dulcissimo está no fallarmos de -nossa mãi fallecida á mulher que nos bem quer. Póde ser que venha esta -sensibilidade de recebermos de uma o coração, que damos a outra. Ou, -talvez, seja de nos faltarem carinhos de mãi, e cuidar a gente que a -esposa nol-os-ha de reviver. - -Subiram os tres caminheiros o serro de uma quebrada, d’onde se entrevia -a casa de Villa Cova, mal distincta do arvoredo de soutos e carvalhaes. -N’este alto, está um rochedo, a pender sobre uma gruta de lage, ageitada -pela natureza, e conhecida dos pastores, com guarida segura das trovoadas. - -—Esta lapa convida—disse o vigario. Sentemo-nos aqui um pouco. - -—Minha mãi,—disse Ladislau—chamava a esta penedia a sua gruta... eu ainda -lhes não disse que minha mãi era pastora. - -—Pastora?!—acudiu Peregrina, com ar de lisongeira admiração, significando -sentir a patriarchal poesia da vida pastoril. - -—Olhem se avistam—tornou o moço—pela garganta d’estas duas quebradas, lá -em baixo, uma casa, nas costas de um souto fechado? Alli nasceu minha -mãi de uns lavradores remediados; e, logo que teve a idade, tomou conta -da rez, e vinha todos os dias com ella para a serra. Aqui no cavo d’este -penhasco é que ella comia a sua merenda; e, assim que o sol começava a -descer, tambem ella descia ao valle. - -—Sosinha?—atalhou Peregrina, com visagem de sústo. - -—Sosinha com dous cães de gado, os quaes, assim que anoutecia, um tomava -a dianteira do rebanho, outro ia á beira d’ella. Muito chorou minha mãi, -ao morrerem-lhe de velhos os seus cães! Quando vinhamos á igreja, minha -mãi sentava-se sempre ahi n’essa pedra, onde está a sr.ª Peregrina, e -dizia a meu pai: «Olha, se te lembras, meu santo!» E ficavam-se a olhar -um no outro com semblante alegre. - -Ladislau cessou de dizer o quer que fosse que attentamente o padre e a -irmã esperavam. Por mais curiosa e lhana, Peregrina perguntou: - -—E que seria? Porque lhe dizia ella que se lembrasse? - -O moço sorriu-se candidamente, e continuou: - -—Meu pai estudava para padre, e já tinha ordens menores, quando encontrou -aqui minha mãi, andando elle ás perdizes. D’ahi a pouco tempo estavam -casados. Isto me contaram meus tios. É bem de ver que ella se lembrasse, -quando aqui chegava, da primeira vez que se viram, depois que eram -grandes. Em pequeninos tinham sido muito amigos; mas, como meu pai desde -os doze annos começou a estudar com um tio vigario, e veio habitar na -residencia de S. Julião, quando se tornaram a ver foi tamanho o amor -que... - -Ladislau susteve-se com feminil pudor. - -—E foram muito amigos?—disse Peregrina. - -—Tão amigos—respondeu o padre—que se amortalharam ao mesmo tempo.—E, -erguendo-se, acrescentou:—Ora vamos lá por ahi abaixo. - -D’alli até casa, Ladislau foi contando ao vigario os estudos que tinha -feito com seu tio, os livros que lêra, e os que mais eram do seu gosto. -No tocante ao intento de ordenar-se, nada tinha dito, quando padre João -lhe perguntou: - -—Segundo me disseram, o sr. Ladislau está na ideia de ordenar-se? - -—Faz hoje um anno que morreu meu tio—disse o sobrinho do padre -Praxedes.—Pouco antes de ir a Deus, me disse elle que esperasse um anno -a inspiração do Espirito Santo. Agora venho de orar sobre a sepultura de -meu tio, pedindo-lhe... - -—Que o allumiasse no difficil transito—atalhou o vigario, e ajuntou -logo:—E vem decidido a ordenar-se? - -Peregrina, que os seguia com alguma distancia, como ouvisse aquella -pergunta, insensivelmente estugou o passo para ouvir a resposta. - -Ladislau respondeu: - -—Ainda não. - -E, como voltasse o rosto ao padre no acto de responder, e visse os olhos -de Peregrina, fitos em si, e expressivos de anciedade intima, Ladislau -recebeu dentro da alma uns tamanhos abalos de alegria que não pôde nunca -mais topar delicias comparaveis ás d’aquelle momento. - -Entraram no quinteiro da casa de Villa Cova. - -Á porta da córte dos cevados estava uma mulher octogenaria, com uma -varinha na mão, acommodando os recos, que brigavam em redor da pia.[2] -Esta mulher que tinha setenta annos de serviço em casa dos Militões, -quando o amo, Peregrina e o vigario entraram no quinteiro, deixou cahir -da mão trémula a varinha, e benzeu-se murmurando: «em nome da Santissima -Trindade, Padre, Filho e Espirito!» - -—_Amen_, disse padre João. - -—Que tem vm.ᶜᵉ, tia Brazia?!—perguntou Ladislau. - -—Ainda não estou em mim!—respondeu a velha Brazia, caminhando para o -grupo, e formando com as mãos um sobreceu aos olhos para poder enxergar -os recem-chegados; e proseguiu:—Cousa assim! Pois não me havia de parecer -agora que via entrar por essas portas dentro... credo!... - -—Quem lhe parecemos nós?—tornou Ladislau. - -—Esta moça—tornou Brazia, aproximando-se de Peregrina—pareceu-me sua -mãe, que Deus tem; o meu menino parecia-me seu pae, o santinho; e este -sr. padre dava-me ares do sr. reverendo vigario Praxedes. Estou a vel-os -como eram ha trinta annos, quando vinham da igreja, depois da missa do -domingo, cá jantar a casa! - -—Pois repare bem—disse o moço—que somos pessoas vivas, tia Brazia, e -havemos de jantar para a convencermos de que não somos phantasmas. - -—Pois sim, meu menino; graças a Deus ha muito quê; mas olhe que os servos -estão todos por fóra, e eu não tenho pernas para andar atraz da gallinha. -Cozinhal-a cozinho-a eu; mas pilhal-a isso ha-de ser vm.ᶜᵉ. E quem é essa -mocinha tão bem posta e ageitada, benza-a Nosso Senhor? - -—É irmã do sr. padre vigario, que está aqui. - -—Ah! este é que é o sr. reverendo vigario? Bem me tinham dito que era -ainda bem moço; mas isso não tira. Se a santidade fosse aquella dos -velhos, então já eu estava no altar! Deite-me a sua benção, sr. reverendo -vigario, e com Deus venha a esta casa d’onde sahiram tres santos só dos -que conheci. Eu tenho dou carros de annos, aqui onde me vê, sanzinha e -escorreita, bemdita seja Nossa Senhora.[3] Conheci, só á minha parte, o -sr. padre Timotheo, o sr. padre Heitor, e o sr. padre Praxedes, afóra o -santo pai do meu Ladislau, que morreu com o habito dos missionarios de -Vinhaes. - -Ladislau interrompeu Brazia, que ia sentar-se n’um feixe de vides para -mais commodamente contar os successos alegres e tristes dos ultimos -setenta annos da casa de Villa Cova. Pediu-lhe elle com brandura e graça -que reservasse para depois de jantar as suas historias. - -—Então vamos para dentro—disse ella—eu cá vou com a nossa menina -mostrar-lhe a casa. Como é a sua graça? - -—Peregrina. - -—Por muitos annos e bons. Era melhor chamar-se Rosa, que é mesmo uma -flôr; que Pelingrina tambem é bonito nome. Ora, pois, vá o menino apanhar -a ave, que a panella vae já p’ro lume. - -Ladislau e o vigario sahiram do quinteiro entraram na eira onde -esgaravatavam as gallinhas. No entanto, Peregrina, como a velha se -agachasse na lareira para espertar o lume amarroado, pediu-lhe que se -assentasse no escabello, e a deixasse a ella cosinhar. Brazia cedeu ás -instancias, repartindo o trabalho com a hospeda. - -Ladislau entrou na cosinha com a ave, e viu Peregrina com um alguidar -no regaço, cegando as couves. Estranhou a Brazia o estar a irmã do sr. -vigario n’aquelle serviço, e a velha respondeu serenamente: - -Ella assim o quer; e bem haja a moça! Estou-me a regalar de a ver! -Parece-me mesmo sua mãisinha, quando aqui entrou pela primeira vez. O -noivo estava lá no sobrado com os padrinhos e parentes, e ella desceu cá -p’ra cosinha a ajudar as criadas. - -—Pois sim—replicou Ladislau—mas minha mãi era dona da casa e esta senhora -é hospeda. - -—E por que não ha de ser dona? Se o não é, ella o será, querendo Nossa -Senhora. - -Estas palavras avermelharam as faces de ambos, que não poderam suster o -relance de olhos que se trocaram. - -—Pois então!—continuou a serva, cortando do presunto uma boa talhada.—A -vida de padre boa é; mas não queira o Senhor que o menino seja padre. O -que é preciso é casar, sr. Ladislau. Deus que lhe deparou esta creatura, -lá sabe por que o fez. Vamos; é casar depressa, que eu não quero morrer -sem ver gente miuda n’esta casa. O menino fez-me cabellos brancos, quando -era pequeno (que a fallar a verdade eu já não tinha cabello preto nem -para uma mézinha). Andava sempre a fugir p’ros campos, e eu a procural-o, -e ia dar com elle a caçar grillos á torreira do sol: e de inverno andava -sempre por essas fragas acima em risco de malhar aos fundões. Deu-me que -fazer; mas é o mesmo: quero aturar tambem os seus filhos. Quando eu vim -para cá, seu pae tinha cinco annos, e eu dez; se eu morrer, deixando cá -um netinho delle, vou contente... Então não dizem nada? - -Ladislau, sem a velha dar fé, tinha sahido envergonhado, e mais ainda por -ver que a Peregrina, ao passo que Brazia fallava, descia o rosto sobre -a hortaliça, voltando-o de modo a não ser visto de frente pelo moço, que -por sua parte se estava tambem escondendo no mais sombrio da cosinha, até -encontrar a porta por onde sahiu. - -O vigario, estava esperando Ladislau, na vasta casa da livraria. - -Havia muito que ver e admirar nas estantes dos numerosos sabios d’aquella -familia. A bibliotheca fôra principiada no ultimo quartel do seculo XIV -por um padre Vicente Militão, que fôra peregrino a Roma, e estivera no -concilio tridentino, e lá fôra muito acceito, por seu saber, e reportadas -virtudes, ao santo arcebispo de Braga, D. Bartholomeu dos Martyres. -Encadernadas em pergaminho, com o Breviario do padre Vicente, lá estavam -algumas cartas do primaz das Hespanhas, cartas magoadas revelando o -peso das obrigações prelaticias, e outras mais de folga, datadas no -convento de Vianna do Minho, onde o humilde principe da igreja se fôra a -descançar, e morrer nas delicias «d’uma estreita cella, paredes nuas, em -mezas sem panno, um candieiro de ferro pendurado de um prego, uma cama -de frade ordinario sem cortina, nem genero de paramento sobre uma táboa -de pinho.» Estas palavras de fr. Luiz de Souza recordava o padre João -Ferreira, quando religiosamente deletreava os caracteres amarellados e -meio delidos das cartas do arcebispo. - -Voltando á livraria, os successores de Padre Vicente enriqueceram-n’a, -empregando n’ella quanto dinheiro podiam amealhar, sem prejuizo -dos pobres. Como quer, porém, que o rendimento de sua grande lavra -sobre-excedesse o gasto, o remanescente era trocado por livros, enviados -á escolha de entendedores monasticos, com quem os padres de Villa Cova, -por amor da sciencia e piedosamente, entabolavam correspondencia. - -Os tres ultimos sacerdotes d’esta familia não tinham comprado livro -algum, desde os ultimos annos do reinado de D. João V, em que a -religião degenerou de sua simplicidade em luxuosa, e, até certo ponto, -hypocrita ostentação; e, de mais a mais, os que a tractavam moral ou -dogmaticamente, escreviam-n’a em linguagem, que não era a de Domingos -Feo, Thomé de Jesus, Heitor Pinto, Arraes e Lucena. Para bem aquilatarmos -em qual grau de purismo classico andava a vernaculidade n’aquella serie -de padres letrados, basta dizer-se que no frontespicio do primeiro volume -dos sermonarios do padre A. Vieira, um padre Timotheo Militão escrevera: -«Tambem este grande engenho está gafado!» A gafa de que se lastimava o -escrupuloso idolatra dos aureos escriptores sem liga era aquelle geito -de conceitista italico-hispano em que o preclaro jesuita, a espaços, se -descuidava na oratoria. - -Em quanto Ladislau e o vigario se entretem n’estas e semelhantes -praticas, ingratas ao leitor de paladar mais delicado, Brazia está -assim conversando com Peregrina, hombro a hombro, no escano da lareira, -emquanto a galinha ferve: - -—Brazia não seja eu, se Deus me não ha-de ajudar! Lá que os moços se -querem, como eu á menina dos meus olhos, isso vou eu jural-o sobre umas -Horas, sendo preciso! A menina é uma perfeição; o meu Ladislau é aquillo -que alli está. Duas creaturas assim já vem lá de cima talhadas para serem -uma da outra; e, quando acertam de se toparem no mesmo caminho, vão ambas -p’ra direita, ou p’ra esquerda. Não tem remedio senão casarem-se. - -—Pois sim—repetia Peregrina o que havia dito duas vezes:—Ainda hoje nos -vimos, e já a sr.ª Brazia nos quer ver casados? - -—Então a menina cuida que uma pessoa só se conhece por ser vista muitas -vezes? Eu ouvia ler a Historia Sagrada á sr.ª Sebastiana, que sabia ler -como um padre, e já lá está na corte dos bemaventurados... Rezemos-lhe -por alma. - -A sr.ª Brazia rezou alto, e Peregrina mentalmente. - -—_Requiescat in pace_,—disse a velha. - -—_Amen_,—respondeu Peregrina, e benzeram-se. - -Brazia continuou: - -—Pois como eu vinha dizendo, a Historia Sagrada conta que antigamente -um moço sahia da sua terra em cata de outra terra, onde estava a noiva, -que elle nunca vira. Batia á porta do sogro, pedia-lhe a filha e casava. -Isto é que eram tempos, moça! «O coração não tinha peccado que fosse -preciso descobrir com o tempo» dizia o sr. padre Praxedes, quando a irmã -se admirava de casamentos assim de fugida. Olhe-me bem n’isto, que estas -palavras teem muito que deslindar. N’aquelle tempo, a moça casadoura -era por dentro como por fóra; via-se como á luz do meio dia o que ella -lá tinha no seu interior: agora, pelos modos, é preciso espreitar muito -tempo as inclinações das pessoas! O pai do sr. Ladislau era dos rapazes -antigos: viu a menina lá em cima na lapa da Crasta, gostou d’ella, tornou -lá a saber se ella o queria, foi ás Chãs aonde ao sogro; e, d’ahi a dias, -já ella aqui estava a encher esta casa de satisfação. É como foi, e é -como ha de ser! Senhor Jesus do bom despacho, não me deixeis ficar mal! - -Ladislau e o vigario, chamados pela velha, desceram á cosinha, onde -estava posta a meza. Jantaram alegremente e de vontade. Os dizeres de -Brazia, tendentes todos ao casamento, assazoavam as singelas iguarias do -vigario, que pondo os olhos, quer na irmã quer em Ladislau, reparava na -gravidade com que em silencio escutavam as facecias da inquebrantavel -velhinha. - -—Será possivel que... - -Disse entre si padre João, e cuidou ler no rosto do hospede e no rosto da -irmã esta resposta: - -—É possivel, e é certo. - -Findo o jantar, sahiram a tomar o sol na eira. - -Brazia, porém, puchou da batina ao vigario, chamou-o de parte, e -disse-lhe: - -—Deixe-os lá... - -Padre João não achou que responder á velha, e fez menção de seguir sua -irmã, que o estava esperando. - -—Não vá sem me ouvir duas palavras, sr. reverendo vigario. Sente-se -n’este tamborete, que eu vou dizer aos moços, que vão á sua vida, e nós -lá iremos ter. - -O dialogo deteve-se boa meia hora. Depois sahiram á eira; e o padre -levava amparada no braço a velha, que jogava difficilmente os joelhos. - -—Ora diga-me o que elles estão fazendo, que eu já não enxergo -nada—murmurou a velha. - -—Ladislau está apanhando flores na ribanceira. - -—Vê?—acudiu Brazia—que lhe disse eu? Flores são amores... E ella que faz? -Não anda tambem ás flores?! - -—Não, tia Brazia. Está sentada. - -—A enfiar algum annel de missanga? - -—Tambem não. - -—Não? Então é uma ingrata. Vou ralhar com ella. E, acercando-se com -extraordinaria presteza de Peregrina, disse-lhe em tom de graciosa -severidade: - -—Vá fazer tambem um raminho, ande, menina, e dê-o ao sr. Ladislau. - -Peregrina poz a vista timida no irmão. O vigario fez um gesto de -consentimento. Ergueu-se ella a colher umas enfezadas flores silvestres -e inverniças que se definhavam entre os silvedos, e Brazia, ao mesmo -tempo, dava umas palmadas e tregeitava uns saltinhos de cegonha, muito -para riso, senão justificassem a alegria que lhe acreançava os oitenta -annos. Santa creatura para namorados era aquella Brazia! Estar ella -dizendo tudo que elles queriam dizer-se; fazer-se lingua de corações á -hora em que nem os proprios donos saberiam articular a linguagem d’elles; -obrigar Peregrina a colher flores, quando a moça estava perguntando a si -propria se parecia mal colhel-as e offerecel-as! E hão de rir-se pessoas, -que amaram ou amam, da velhinha que tudo aquillo fez com tanto sizo e -proposito e angelicas intenções! - -Peregrina deu as suas flores a Ladislau, e recebeu o ramilhete d’elle. -Qual dos dous tinha coração mais feminil? Pelo rubor da face não havia -estremal-os. - -—Onde iria a tia Brazia?—perguntou o vigario, vendo-a sahir açodada e -regamboleando as rebeldes pernas pela eira fóra. - -A velha pouco se deteve. Chegou esbofada. Chamou de parte Ladislau, e -disse-lhe de modo que o vigario e a irmã ouviram: - -—Esta argolinha de ouro deu-a seu pae á mãisinha na vespera de se -casarem, e já foi de sua visavó. Aqui a tem. Vá dal-a á sua noiva, senão -levo-lha eu. - -Ladislau ficou atonito e immovel. O vigario sorriu, e disse á velha: - -—Sr.ª Brazia, vm.ᶜᵉ está sonhando um alegre sonho. Deixe ver se o tempo, -com a vontade de Deus, confirma os seus bons desejos, que serão tambem os -meus. - -Ladislau, como levado de insuperavel força, avisinhou-se de Peregrina -e offereceu-lhe o annel. O vigario, abalado e commovido pela acção -inesperada do mancebo, tomou a mão convulsa de sua irmã, e vestiu-lhe o -annel. Depois, apertando nos braços o noivo de Peregrina, exclamou: - -—Pois não é um sonho? - -Accudiu Brazia: - -—Qual sonho? O que eu quero é os primeiros banhos apregoados no domingo; -e de hoje a um mez esta menina é minha ama. - -—Sua amiga, sua filha!—disse Peregrina abraçando-a. - -Assim foi. Na quarta dominga seguinte receberam as bençãos estas duas -creaturas preordenadas para a felicidade da terra e ceu. - -Os casamentos, que Deus escolhe, são assim determinados com uma -singelesa, copiada dos tempos visinhos da creação de varão e femea, como -entes necessarios a si, e de repente identificados por unidade insoluvel -de almas. E então era o viverem tão sós e um, como quem de uma só vida -tinham de prestar contas ao juiz supremo. - -A mim parece-me que o cazar-se a gente devia ser como Ladislau e -Peregrina. Andar annos com o coração em ancias é desvigorisal-o para -quando elle é mais necessario. Pelo ordinario, os noivos que se amam -longo tempo, cazam-se quando o mais fino da sensibilidade está desgastado -na abstracção e na chimera. - - - - -IV - -Outros amores - - -No dia immediato ao das bodas, o saudoso vigario fôra passar a tarde com -sua irmã, que o viera esperar com o marido ao rochedo da Crasta. - -Ao entardecer, quando o padre se despedia, chegou um portador da -residencia com uma carta para Peregrina. - -—Para mim?!—exclamou ella duvidosa. - -—E letra da sr.ª D. Christina—disse padre João. - -—Ella está lá—acrescentou o portador. - -—Ella quem?—acudiu Peregrina. - -—A fidalga, que escreveu a carta. - -—Que novidade é esta?!—disse o vigario, abrindo e lendo. - -—Lê alto, meu irmão!—disse Peregrina impaciente. - -E o padre continuou a ler mentalmente, dobrou a carta, embolçou-a na -sotaina, e disse ao portador: - -—Vai indo, que eu lá vou ter. - -E, depois que o criado sahiu, murmurou com mui entranhada mágoa: - -—Eu presagiei esta desgraça! - -—Desgraça!—exclamou Peregrina.—Que é, meu João? - -O padre, voltado a Ladislau, disse: - -—A senhora, que escreve a minha irmã, é a filha mais nova de meu padrinho -e bemfeitor. Lê tu, Ladislau, e minha irmã que ouça. - -Ladislau leu: - -«_Peregrina._ Pela carta de teu irmão ao papá sabiamos que ias casar; -mas não cuidei que fosse tão depressa. Cheguei aqui a buscar o amparo -de teu irmão e o teu. Felizmente estaes perto, e sei que vireis em meu -soccorro. Eu venho fugida, e commigo vém o homem que amo, e a quem meu -pai me negou, sem compaixão das minhas lagrimas. Vimos rogar a teu bom -irmão que nos receba, e legitime a nossa união. A pobreza não nos aterra. -Logo que estejamos casados, teremos força do céu para supportarmos todos -os trabalhos. Vem, se podes, com teu irmão para me ajudares a vencel o, -se elle resistir ao sagrado dever de nos abençoar este amor, que não deve -ser a nossa perdição. Tua amiga _Christina_.» - -—E vaes casal-os não é verdade?—exclamou a commovida senhora. - -—Não é verdade—respondeu friamente o sacerdote. - -—Como?!—tornou Peregrina—não os casas? - -—Não. A filha desobediente não acha onde quer um ministro do Evangelho -que lhe galardoe a rebellião contra seu pai. A lei de Deus diz: _honrarás -teu pai e tua mãi_: a lei ecclesiastica diz ao cura d’almas: _não -casarás a menor sem consentimento de quem a governa, ou ordem superior -do teu prelado_. Eu vou sahir. - -—Eu tambem vou... disse Peregrina. - -—Não vaes—replicou o vigario.—Estás ao lado de teu marido, e Christina -apparece-te ao lado d’um homem que... não lhe é nada. - -Peregrina baixou os olhos, e Ladislau disse: - -—Tu ficas; eu é que vou. Manda apparelhar a egua, que a filha do teu -bemfeitor virá commigo. - -A esposa lançou-se-lhe nos braços, e exclamou: - -—Tu vaes buscar a infeliz menina? - -—Pois se ella é infeliz!... murmurou Ladislau. - -E sahiram. - -Christina estava á janella do sobrado da residencia quando o vigario e o -cunhado chegaram. - -Era noite muito escura. - -—Estás ahi, Peregrina?—perguntou ella. - -—Não está, minha senhora—respondeu o padre.—Está o marido de minha irmã. - -A secura d’esta resposta intimidou Christina. E, receosa, voltando-se a -um moço de boa presença, disse: «Enganei-me, Casimiro; o padre não nos -recebe.» - -O vigario entrou na saleta, seguido de Ladislau. Cortejou com mui -respeitosa reverencia a filha do seu bemfeitor, e levemente o cavalheiro, -a quem chamou Casimiro Bettencourt. Depois disse: - -—Vi a carta que v. ex.ª escreveu a minha irmã. Peregrina não veio, por -ser inteiramente inutil a sua vinda. Eu não posso sem authorisação -canonica e civil ligar matrimonialmente v. ex.ª com este senhor. - -—Eu vinha tão confiada na sua bondade...—disse Christina, retrahindo os -soluços sem reter as lagrimas. - -—Em minha consciencia—tornou o vigario—digo que o mais prudente e -urgente acto n’este desgraçado successo é casarem-se; mas eu não posso -fazel-o... - -—E então—atalhou Casimiro Bettancourt—um sacerdote do Christo assim nos -abandona, como quem diz: «sêde criminosos e infames á vossa vontade...» - -—Não, senhor. O sacerdote de Christo faz, n’estes casos, o que faria -qualquer homem de boas entranhas. Irei pedir ao sr. Ruy de Nellas -consentimento para salvar sua filha da continuação do crime e da infamia. - -—Meu pai é inexoravel!—acudiu Christina. - -—Não pode ser—disse Ladislau.—Um homem, que amparou e educou dous filhos -desvalidos d’um seu cazeiro, não póde ser impiedoso com sua filha. Minha -senhora, peço licença para interpor o meu parecer n’uma questão em que -minha mulher não é estranha, e eu tambem não posso sêl-o. Ella não veio; -mas encarregou-me de vir aqui offerecer-lhe nossa casa; e, tão certa -está de que v. ex.ª nos honra em aceital-a, que já vim preparado para a -conducção de v. ex.ª. - -—Pois heide eu ir!...—exclamou Christina, encarando anciada em Casimiro. - -—O sr. Casimiro fica sendo meu hospede—respondeu o vigario. - -—Separados!—bradou ella rompendo contra todos os estorvos do pudor, e -abraçando-se em Casimiro. - -—Não!—clamou elle.—Christina, sacode os teus sapatos fóra d’esta porta, e -vamos ao nosso destino. - -—O aggravo não me fere, que o não mereço, senhor!—disse placidamente -o vigario.—Eu convido o sr. Casimiro a ser meu hospede, em quanto se -solicita a licença do pai d’esta senhora. Se lhes é dolorosa esta -separação temporaria, Deus permittirá que os retornos de contentamento -a façam esquecer. Soffram alguns dias para merecerem o premio. Eu não -posso implorar o perdão para a desobediencia, allegando que os fugitivos -permanecem em criminosa união. Ha o recurso da mentira; mas eu não sei -mentir. Despeçam-se para um dia, que breve virá, se Deus nos ouvir. O sr. -Casimiro, que me applicou as palavras de Jesus aos apostolos, mostra que -lê e sabe os livros da religião. Seja, pois, religioso: peça comnosco ao -Senhor que lhe despache em bem o seu requerimento. - -Casimiro apertou a mão de Christina, e disse: - -—Vai, e esperemos. - -—E esperemos—acrescentou o padre—por que, a baldarem-se os nossos bons -intentos, quem lhes ha de empecer ajuntarem-se? O mundo, quando vê dous -desgraçados, deixa-os passar, e vinga-se. Se o mundo é justo, não o direi -eu: vingança justa creio que não ha nenhuma ahi. O inverso da caridade é -a vingança. Tenham valor, que, se o não tem são mais fracos, desconfiam -do poder de Deus, e da sua propria fidelidade um a outro. - -—Adeus! balbuciou Christina, suffocada de suspiros. Casimiro beijou-lhe a -mão, dobrou o joelho, e disse: - -—Se te fiz desgraçada, perdôa-me. - -Ladislau, debulhado em lagrimas, abraçou Casimiro, e exclamou: - -—Sou seu amigo! O senhor ama deveras esta menina! - -—Eu sei que se amam!—disse o vigario—por isso serei parte, quanto em mim -couber, na sua boa fortuna. - -—E eu não?!—disse com vehemencia o de Villa Cova. - -—Tu tambem, meu irmão. Ajudar-me-has com os teus conselhos, por que no -teu coração tenro está a sabedoria dos virtuosos, que te educaram. - -—Não fomos infelizes, Christina!—clamou Casimiro.—Aqui estão comnosco -duas generosas almas. Vai, minha amiga! - -—Venha—disse Ladislau—que minha mulher está pedindo a Deus que vamos. - -Já não choravam ao separarem-se. - - * * * * * - -Cumpre narrar, o mais breve que ser possa os antecedentes d’esta fuga. - -De uma familia pobre de Pinhel sahira em 1814 um mancebo a assentar praça -no regimento de cavallaria de Bragança, onde serviu até furriel. De -Bragança passou para Lisboa em 1815. Aqui seguiu os postos até que fez a -campanha do cerco do Porto, já major do exercito sitiante, e ahi morreu -na ultima batalha. Este militar era pai de Casimiro Bettancourt. - -Casimiro sabia que nascera em Lisboa em 1816, e não conhecia sua mãi. -Com referencia ao seu nascimento, apenas possuia a pagina de uma velha -carteira, que dizia: «Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de -1816: foi baptisado em S. Domingos de Santarem, aos 22 do mesmo mez. Foi -creado no Cartacho, d’onde sahiu em 1820. Entrou no collegio dos Nobres -em 1825. Tenho pago todas as prestações até hoje 31 de dezembro de 1830.» -Em nenhum outro caderno de apontamentos encontrou indicios de sua mãi; -nem das muitas cartas que seu pai deixou esquecidas n’um bahu de folha, -pôde colligir quaes pertencessem a sua mãi. As que tinham data eram quasi -todas muito posteriores ao seu nascimento. Apenas duas assignadas com a -inicial E, posto que sem data, queria e conjecturava elle que fossem de -sua mãi: este querer fundava-se um pouco em vaidade, e muito em presagio, -como depois se verá. - -Morto o pai, e transvertida a ordem politica, claro é que o joven alumno -do collegio dos Nobres havia de sahir entre dezeseis e dezesete annos -de idade, desvalido, desconhecido, e indifferente a toda a gente. Dos -sabidos amigos de seu pai uns tinham morrido, outros emigrado, e outros -esmolavam. - -Sabia Casimiro que seu pae nascera em Pinhel, e se correspondia com sua -irmã, a largos espaços. Achou cartas assignadas por uma Marianna de -Bettencourt. Escreveu, ao acaso, á senhora d’aquelle nome, ou ao nome -d’aquella senhora. Responderam-lhe que sua tia tinha fallecido em 1832. -A pessoa, porém, que respondia, era o viuvo, carpinteiro de seu officio, -bom homem que lhe offerecia sua casa, e metade de suas sopas. - -Obrigado a optar entre a fome e as sopas do artista, Casimiro foi para -Pinhel, auxiliado pela esmola de um condiscipulo, filho de um brigadeiro -liberal, camarada do finado major antes de 1828. - -O artista redobrou de trabalho para não obrigar o sobrinho de sua mulher -a pegar da serra e da enxó. Comprava-lhe vestido á feição de que usavam -os moços remediados, e esperava que seu compadre Ruy de Nellas—padrinho -d’um filho que mandára para o Brazil, quinze annos antes—cedo ou tarde -conseguisse algum decente emprego para Casimiro. - -O fidalgo admittia á sua casa e presença o moço, em attenção ao pai, que -morrera fiel á justa causa, como honrado e bravo. As filhas do fidalgo -achavam-n’o distincto, delicado, bem fallante, e divertido, quando a -tristeza, a dolorosa introversão o deixavam dissimular contentamento, -que o pobre, a bem dizer, nunca sentiu deveras. Ruy de Nellas mostrava -desejos de lhe abrir a carreira da independencia. Aos dezenove annos, -Casimiro pensava em ser soldado; o fidalgo, porém, queria que elle fosse -padre com um patrimonio fantastico, e o carpinteiro inclinava-se ao -generoso parecer de seu compadre. - -Sacerdote é que não! Casimiro amava Christina, Chistina ia chorar com -elle; e sabia em que sombras de arvores, ou margens de ribeiras o moço ia -chorar. - -E ella ia, tremendo de medo e paixão, e a pedir resguardo ás azas dos -anjos, buscal-o onde elle estivesse. Tremia, mas não corava de pejo. As -flôres que viam, invejavam-lhe a pureza. Arquejava-lhe o seio cançado de -retrahir-se: cuidava a doce creatura que o espirar alto a denunciava. Era -o offegar d’aquelle seio como o da avesinha anciada, que busca, de fronde -em fronde, o ninho que lhe desfizeram. De longe o antevia pelos olhos da -alma. As lagrimas tem seu odor: só lh’o não presentem os que as deixam -gotejar sem misericordia, sem dó. - -E quem havia de ter pena do sobrinho do carpinteiro a não ser ella; que -o intendera ao primeiro instante de ser amada, e ao mesmo raio ardente -se queimára, e, se o timorato moço esmorecia de medo e pejo, era quem o -acoroçoava e levantava do seu abatimento? - -Exceptuada a cumplice d’este enorme crime—o enormissimo crime de erguer -homem pobre olhos affectuosos á filha d’um Ruy de Nellas Gamboa de -Barbedo—o restante do mundo seria contra elle, se podesse adivinhal-o. - -Adivinhava-o o padre João Ferreira, quando voltou de tomar as ultimas -ordens. A Casimiro disse: - -—Subjugue o coração emquanto é tempo. Tenha sempre deante de seus olhos -os beneficios que deve ao sr. Ruy. Recompensar-lh’os com desgostos será -crueza e indignidade. - -Casimiro não respondeu. O amor, aos dezoito annos, quando assim é -surprehendido, não sabe mentir. - -A Christina disse o padre: - -—A maior prova de estima, que v. ex.ª póde dar a Casimiro, é desvial-o -de si. Dos dous hade ser elle o mais desgraçado. Na sua idade, menina, -o amor é sempre uma creancice, e como criancice se esquece quando é -contrariado; porém, a primeira affeição do moço póde ser a ultima e -volver em desgraça irremediavel. - -—Quem sabe?—disse Christina com pueril audacia e destemor. - -—Eu não sei senão que v. ex.ª está amando um homem que seu pae repulsará -de casa, logo que desconfiar de tão estranhas intelligencias. A menina -será perdoada como inocente, e elle perseguido e castigado como villão. -Como penso que assim vem a acontecer, entendo que o seu amor será funesto -ao pobre orfão. Seria querer-lhe muito desenganal-o. - -Observou padre João que as duas cegas creaturas, depois do aviso, -praticavam como se, em vez da censura, recebessem louvores. Buscavam-se -mais, escondiam-se mais, e, de dia para dia, pareciam ir declarando a -toda a gente o seu amor, como se contassem com o apoio do fidalgo. - -Ruy de Nellas chamou o padre e disse-lhe: - -—Ó afilhado, tu não desconfias de nada? - -—A qual respeito, meu padrinho? - -—Que minha filha Christina olha o Casimiro de um certo modo? - -—Póde ser que v. ex.ª se não tenha enganado. Eu supponho que se estimam; -e meu padrinho não podia embaraçal-os de se estimarem. - -—Essa não me parece tua!—exclamou o fidalgo.—Não posso embaraçal-os?! -Então quem é que póde? - -—Ninguem, meu padrinho: o tempo é que corrige estes defeitos do coração -humano. Deixe v. ex. em silencio a suspeita que eu tomo a meu cuidado o -descanço de v. ex.ª. - -—Nada de pannos quentes!—bradou Ruy de Nellas. Casimiro vai ser posto -fóra d’esta casa, e talvez de Pinhel. É assim que elle me paga? É-me bem -feito! muito bem feito! Não seja eu tolo de estar aqui de braços abertos -para receber desgraçados, que afinal... - -Padre João esperou que seu padrinho desabafasse a sua ira, e disse com -humilde e pacato animo: - -—Sou eu um dos desgraçados que v. ex.ª recebeu nos braços abertos para -todos: o que posso dar em troca de tantos beneficios é a lealdade do meu -coração, o meu leal aviso em coisa tão melindrosa. Se v. ex.ª perseguir -Casimiro, a sr.ª D. Christina, se já o ama como creio que sim, amal-o-ha -mais depois. Conheço de fundamento a indole d’esta menina, e algum tanto -a de Casimiro. Este moço tem espiritos de condição muito altiva, que se -revoltam contra a baixeza em que o lançou a desfortuna. Por vezes me tem -fallado do seu futuro com uns raptos de visionario, que me fariam rir, -se me não compadecessem. Presagiam-se brilhantes destinos, e esquece-se -de que o honrado carpinteiro está a suar para que elle se não avilte -no trabalho incompativel com as suas imaginações. Em quanto á sr.ª D. -Christina, é minha opinião que esta menina desobedece ao raciocinio, e -á força, se lh’a imposerem. Sabe v. ex.ª que, de todas as suas filhas, -esta foi a mais remissa em aprender o pouco que sabe, sobejando-lhe -talento para muito. Observei que uma palavra aspera m’a afugentava por -oito dias, e transtornava todo o anterior aproveitamento. Argumentando -d’estas coisas simples, por analogia, todas me levam a crer que o emprego -de providencias energicas dará mau resultado. - -—Qual?!—atalhou o fidalgo. - -—Uma fuga, uma vergonha. - -—Tu pensas isso, João?! - -—Ousaria eu dizer a meu padrinho o contrario do que penso?! - -—E os ferrolhos dos conventos para que se fizeram? - -—Para as freiras estarem seguras da inviolabilidade de suas pessoas. - -—E para as filhas rebeldes. - -—A rebellião continua nos conventos, a rebellião do espirito, contra a -qual não prevalecem os ferrolhos. - -—Veremos. - -—Seria acêrto não experimentar, meu padrinho. - -—Então que queres tu que eu faça?: Deverei cazar minha filha com o -sobrinho do carpinteiro? - -—Não, senhor. Penso que v. ex.ª, simulando inteiro desconhecimento do que -se passa, deve favorecer Casimiro para que siga a vida militar que deseja. - -—Agora! agora que elle ousou pôr olhos em minha filha! o ingrato! pois -não! Vou mesmo agora estabelecer-lhe mesada em Coimbra ou Lisboa para -elle se formar em mathematica, e namorar-me de lá a filha! Estavam bem -avisados os pais, se tivessem de mandar a Coimbra os maltrapilhos que -lhes requestam as filhas! Não haveria ahi aprendiz de sapateiro, que se -não fizesse galan das herdeiras ricas! Ora, sr. padre João Ferreira, -outro officio! Não sei em que livros e em que terras tu foste estudar e -experimentar semelhantes desconchavos. Eu consultarei o meu travesseiro... - -—Deus responda ás suas consultas, meu padrinho—disse o padre, quando o -fidalgo lhe voltou as costas. - -No dia seguinte, ás cinco horas da manhã, já o fidalgo estava a pé, e -abria subtilmente a janella do seu quarto sobre o jardim cujo muramento -partia com a rua. Viu elle Christina sahir ao terreiro pela porta da -cozinha, atravessar as aleas de amoreiras, destrancar um postigo de -communicação com a estrada, e debruçar-se no peitoril. Desceu Ruy de -Nellas, de manso, ao jardim, e ia já em meio, quando a filha deu tento -da espionagem. Soltou um ai; mas de turvada que ficou, nem aviso deu a -Casimiro. O pai apertou o passo, correu impetuosamente ao postigo, e viu -o moço quieto, e sereno como se a surpreza fosse um gracejo de futuro -sogro, que se entretem a fazer foscas ao futuro genro, muito do seu -agrado. - -Não assim Christina, que, passado o momento do spasmo, dobrou o joelho e -balbuciou: - -—Meu pai, eu é que sou a culpada! - -Não attendeu, nem acaso ouviu estas vozes o fidalgo. Inclinou-se á -estrada, e exclamou: - -—Vá lá contar a seu tio carpinteiro a maneira como vossa mercê pagou a -hospitalidade, que lhe dei! E não me torne a rondar a casa, que não vá -algum dos meus criados apalpar-lhe as orelhas! - -Fechou-se o postigo com estrondo. Aquellas palavras continuaram a -martellar nos ouvidos do moço, que levava as mãos á cabeça, como para as -não ouvir. Pensou em se matar, como toda a gente, alguma vez, excepto -os bons christãos, os felizes, e os tolos, que não são christãos nem -felizes, nem precisam ser senão tolos para viverem e até sobreviverem a -si proprios. - -Caminhou ás cégas por uns trilhos de cabras, que se aplanavam n’uma chã, -arborisada de sôbros, onde padre João regularmente amanhecia com os seus -livros de theologia moral ou historia ecclesiastica. - -—Casimiro viu-o, correu a elle, e exclamou: - -—Valha-nos! - -O padre reçebeu-o nos braços e ouviu acontecido. - -—O remedio virá do ceu—disse elle.—Não sei que lhe faça, a não querer -receber-me um conselho. Espere, soffra, conforte-se, ore, e humilhe-se: -não sei que mais lhe diga. - -Casimiro Bettancourt, ao anoutecer d’esse dia, adormecera com a face -encostada a uma pedra: era a lethargia da fome, da fadiga, e da -desesperação. - -Não orára. - - - - -V - -Veredas penhascosas - - -Ruy de Nellas, contente do feito, mas não seguro ainda, scismava na -escolha do convento em que devia encerrar Christina, quando o padre João -Ferreira chegou de dizer missa. Chamado a dar seu voto, o sacerdote -respondeu que obedecia, mas não aconselhava; que iria onde s. ex.ª o -mandasse negociar a reclusão de D. Christina, mas declinava de si o -minimo de responsabilidade em uma violencia, sobre inutil, perigosa. - -Excitado pela colera, o fidalgo foi de encontro á prudencia do padre com -termos rudes; mas a humildade do servo paciente despontou-lhe as iras, e -introverteu-lh’as no seio em arrependimento. Ruy quasi lhe supplicou o -seu voto. Padre João repetiu o que dissera, e contou a situação em que -deixara Casimiro Bettancourt. Outra vez se irou o fidalgo, ouvindo o tom -lastimoso com que o padre fallava do filho do major; porém, não sabemos -dizer porquê, marejaram-se-lhes de lagrimas os olhos, quando o clerigo -disse: - -—Agora vou ver se encontro o desgraçado ahi pela serra, que não vá elle -tentar contra a vida, e, matando-se, legar a v. ex.ª uma tristeza pezada -de mais para seus annos e sua nobre alma. - -Sahiu o padre, e, ao anoitecer, encontrou Casimiro deitado na terra -humida, com a cabeça na pedra, e o rosto chammejante de febre. Agitou-o, -ergueu-o, amparou-lhe os passos, até o trazer á estrada, e d’ahi quasi em -braços a casa do carpinteiro. - -Conversaram até altas horas da noite. Casimiro ouviu as ultimas palavras -do padre, e disse: - -—Farei a sua vontade. - -A vontade de padre João era que elle sahisse de Pinhel, e fosse a -Bragança assentar praça. A resistencia de Casimiro fôra pertinaz, -até ao derradeiro golpe, que o padre lhe descarregou, dizendo que a -demora d’elle em Pinhel seria a causa á clausura de Christina. Casimiro -sentou-se no catre, embebeu o suor frio da face na dobra do lençol, e -exclamou: - -—Irei. - -E foi cinco dias depois, caminho de Bragança; mas, ao fim do primeiro -dia de jornada, adoeceu perigosamente. O sangue refervido no peito -principiava a vulcanizar-lhe a cabeça. Deram-lhe uma enxerga, n’uma -taverna de Escalhão, e um padre que, em virtude de o ter confessado e -ungido, pôde saber que o viandante era de Pinhel e se chamava Casimiro -Bettancourt. - -O carpinteiro ergueu mão do trabalho, embolçou as economias do seu -mealheiro, e foi caminho de Escalhão. O anjo do amor estava á cabeceira -do enfermo repellindo a morte. O coração repuchára a si a onda escaldante -de sangue, que banhara o cerebro, e espedaçava-se para deixar resurgir a -rasão. O artista esteve nove dias e nove noites ao lado de seu sobrinho. -Quando se lhe acabaram os escassos recursos, que levára, empenhou a cruz -de prata, que trazia ao peito; e pediu primeiro ao Crucificado que lhe -désse a vida do sobrinho de sua mulher. - -Ao decimo dia, o carpinteiro construiu uma camilha n’um carro de lavoura, -e Casimiro, convalescente, foi transportado a Pinhel. - -Ruy de Nellas e suas filhas, tirante Christina, passeavam n’uma alameda -fóra da povoação, quando o carro chegou. O carpinteiro, que caminhava -lentamente apoz o carro, descobriu-se, á vista do fidalgo, e disse: - -—Guarde Deus a v. ex.ª, sr. compadre. - -—Que levas ahi, Antonio?—disse o fidalgo. - -—É meu sobrinho. - -—Teu sobrinho?—Disseram-me que tinha ido assentar praça. Querem ver que -elle foi ferido em alguma batalha? - -—O sr. compadre está a mangar com os pobres!... respondeu o carpinteiro -com um sorriso mais de pungir que propriamente a injuria. - -N’este lanço, Casimiro Bettancourt affastou a ourella da manta, que -formava o pavilhão do carro, pôz fóra o rosto macerado, e disse: - -—Sr. Ruy de Nellas, quem me feriu na batalha foi a espada da honra. Agora -vou eu travar uma batalha com o orgulho de v. ex.ª: veremos quem é o -vencido. - -—Ora, sôr Casimiro!—replicou o fidalgo galhofando sarcasticamente—as suas -ameaças tem muita graça... passe muito bem. - -E proseguiu no passeio, chibatando, com ares de Tarquinio ou Pombal, as -florinhas que se abriam por entre o ervaçal que arrelvava a alameda. - -—Chama lá os bois, moço!—disse o artista ao carreiro. - -Christina encerrada voluntariamente em seu quarto, nem de suas irmãs era -já bem vista. As outras senhoras, como izemptas e intactas de coração, -conservavam os espiritos excelsamente afidalgados, e levavam muito a mal -que sua irmã as quizesse aquinhoar no desdouro de um casamento desegual. -O fidalgo obrigára Christina, nos primeiros dias, a tomar o seu lugar na -meza commum; como visse, porém, que ella escandalisava a familia com suas -lagrimas ordenou que lhe levassem as criadas os alimentos ao quarto. E -assim se finava a pobre menina, desconsolada da voz humana, e descrida da -misericordia divina. - -Peregrina, a sua confidente, a sua alegria, tinha ido com o irmão para S. -Julião da Serra. Queria escrever-lhe: mas que portador ousaria levar-lhe -a carta? Pensava em fugir para ella; mas com quem, com que recursos? A -não ser ella, quem faria chegar ás mãos de Casimiro as suas cartas, o -adeus sùpremo de sua alma, ao arrancar da vida? Respondia-lhe o calado -pavor da soledade ao afflictivo interrogatorio, em que se debatia, e já -por fim, desesperava. - -Havia na caza um criado moço, que Casimiro Bettancourt ensinára a lêr -nas horas feriadas dos domingos. Nunca os dous namorados fiaram d’elle -segredos seus; mas o muchacho, que era atravessado, adivinhava o que não -via, e espreitava para examinar se tinha adivinhado. - -Soube elle que o seu mestre de leitura chegára doente n’um carro, viu que -o fidalgo e as meninas andavam a passeio, foi de corrida a caza, bateu -de mansinho á porta do quarto de Christina, e disse-lhe pelo espelho da -fechadura: - -—Fidalga, o sr. Casimiro chegou agora doente n’um carro. - -Christina espediu um grito, e abriu a porta. - -—Vem cá!—disse ella ao rapasito, que se ia escapulindo.—Que disseste? -Viste o sr. Casimiro? - -—Vi-o descer do carro nos braços do tio Antonio carpinteiro. Vem amarello -como uma cidra. - -—Tu és nosso amigo, José?—perguntou ella offegante. - -—Sou, sim, senhora. - -—Levas-lhe um bilhete? - -—Dê-o cá, fidalga. - -—Espera, que eu vou escrevêl-o... O melhor é tu ires esperar no pateo, -que eu lanço-t’o da janella, que não vá ver-te alguem aqui no corredor. - -O mocinho esperou um quarto de hora, e levou a carta a Casimiro, que -respondeu logo. - -Este rapaz de nove annos faz lembrar o mosquito que matou o leão, e o -braço fundibulario que derribou o gigante. Ahi estão a vigilancia e -omnipotencia de Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, senhor solarengo mais -velho da Beira Alta, anniquilladas pela intervenção do pegureiro, que o -senhor feudal nunca distinguia dos carneiros que apascentava! - -O effeito das primeiras cartas foi uma transfiguração maravilhosa no -semblante de Christina e Casimiro. Já ella punha as mãos e ajoelhava a -orar: é certo que, pelo ordinario, attribuimos ao demonio o mal acintoso, -que o mundo nos faz, e agradecemos a Deus o bem casual ou intencional que -nos faz o mundo. Tudo isto redunda em elogio de Deus e nosso. - -Ruy entrou pensativo em casa, dizendo entre si: «Mal fiz em a não metter -no convento; mas ainda não é tarde.» - -Mandou vir á sua presença os creados e creadas, excepto o José-pastor, -como lhe chamavam. O rapasito ainda não gosava honras de creado -appellavel para assumpto grave. Declarou o fidalgo que faria entrar -n’uma cadeia o servo ou serva, que levasse ou trouxesse cartas entre sua -filha e Casimiro. Os creados innocentes e impeccaveis n’esta materia—por -isso que zelavam a fidalguia do seu amo contra o plebeismo do sobrinho -de mestre Antonio—juraram de espreitar os passos de Casimiro, e, em -testemunho de sua probidade, offereceram-se a quebrar-lhe as costellas, -sendo necessario. - -Ruy de Nellas despediu-os satisfeito, e disse entre si: «Tanto faz tel-a -fechada em casa, como no convento. Parece-me até que está mais segura -aqui.» - -José-pastor ouviu a creadagem na cosinha discorrer ácerca da -recommendação do fidalgo, e fez que não intendia. D’ahi a pouco, andava -elle no pateo a escrever com um pau carbonisado o seu nome nas lages -pollidas, e de vez em quando olhava, por debaixo do avental de saragoça, -contra a janella de Christina. - -Viram-se. E elle escreveu a palavra _carta_, olhando de revez e -indicativamente para a menina. Fez ella um gesto de intelligencia, e elle -aspou a primeira palavra com os pés, e escreveu n’outra lage: _telhado_. -Outro signal de comprehensão, e logo outra palavra: _torre_, e depois -_trapeira_. - -Queria isto dizer que elle ia ao postigo de uma especie de pombal, que -lá chamavam _torre_; que lançava de lá a carta ao telhado; e que fosse -Christina á trapeira, superior ao seu quarto, e colhesse a carta. - -Sahiu-se excellentemente com a traça, e até sobreexcedeu o programma; -porque a menina, recebendo uma, atirou outra carta á base da torre, e o -rapasinho, que era optimo volatim em esgalhos de arvores, pendurou-se -pelos pés no banzo do postigo, e com um troço de uma aguilhada de seu uso -pastoril arpoou o papel. Estas habilidades é que Casimiro Bettancourt lhe -não havia ensinado com as primeiras lettras. Se a instrucção primaria -lh’as desenvolveu, isso é materia para mais dilatadas e opportunas -pesquizas. - -Aligeirando o alcance d’estes successos, até ao ponto em que os -deixamos na vigairaria de S. Julião da Serra, direi que a fuga estava -pactuada desde as primeiras cartas, que se trocaram. As apostillas -subsequentes versavam sobre qual caminho e destino convinha seguir. -Casimiro lembrava-se do condiscipulo de collegio a quem devia o favor de -dinheiro com que jornadeára de Lisboa a Pinhel. Presumia elle que, se -fugissem para Lisboa, e procurassem aquelle amigo, achariam protector -para alcançar-se um emprego. Mas um fio de espada lhe cortava por alma -e coração, quando a nevoa negra da pobreza se lhe punha diante da -esplendida aurora do seu dia feliz. Quem lhes daria meios para caminharem -até Lisboa? - -Como adivinhando esta pergunta, Christina propunha que fossem a S. Julião -da Serra, casassem lá, e pedissem ao padre João recursos para fugirem á -perseguição, até que Deus lhes acudisse. - -N’estes dias revesados de alegrias e amarguras, para elles, que já tinham -aprasado o da fugida, o carpinteiro recebeu carta do filho, estabelecido -no Brazil, e o primeiro donativo de dinheiro. Quando Casimiro viu ouro -em mãos de seu tio, apertou o artista ao seio, e disse-lhe com os olhos -cheios de esperança e lagrimas: - -—Empreste-me parte d’esse dinheiro, que é o preço da minha felicidade. - -—Se é o preço da tua felicidade, ahi o tens todo—respondeu o carpinteiro, -lançando as peças sobre a meza. - -—Menos de metade me basta—replicou Bettancourt. - -—Pois toma d’aqui o que quizeres; mas conta-me o que vaes fazer. - -Casimiro, temeroso da probidade de seu tio, nunca lhe havia revelado -o plano do rapto. Prudente receio era o seu. Mestre Antonio, bem que -estomagado das soberbas de seu compadre, não consentiria que seu sobrinho -o vingasse por semelhante meio. A ida de seu filho para o Brazil devia-se -em parte á generosidade do padrinho, que lhe déra enxoval e algum do -dinheiro da passagem. O mesmo fidalgo o ajudára a comprar o fato de -Casimiro, sem querer que o moço soubesse a obrigação em que ficava. -Mestre Antonio, além d’isto, reprovava o ousio de seu sobrinho em -inquietar uma menina talhada para marido de outra linhagem e haveres. Não -dominava ainda n’aquella epocha a aristocracia das artes, inchada hoje -com uns descomedimentos de orgulho, que prevalecem propriamente sobre os -da aristocracia de nascimento; de modo que a gente sisuda lastima que o -artista não seja bem creado para sustentar o seu real valor, sem andar -a todas as horas, de arremettida contra as distincções herdadas. Agora, -importuna a philaucia do artista; logo anoja a humilhação a que se desce. - -Cingindo-me ao ponto: Casimiro reteve ainda o seu segredo, sophismando-o -d’est’arte: - -—Eu vou continuar em Coimbra ou Lisboa o meu curso de mathematicas para -seguir a vida militar mais vantajosamente. Bem sei que este dinheiro -a pouco chega; mas espero achar, sem baixeza, recursos em mim proprio -para me alimentar. Ensinarei particularmente o que sei, e com o pequeno -salario me irei remindo. - -—Se é isso, Casimiro—redarguiu mestre Antonio—leva o dinheiro todo, que -eu tanto faço com elle como sem elle. Assim como assim, duzentos mil -réis não me quitam de trabalho. Gosto bem de te ver botado ao caminho da -vida. Vai, moço; que o mundo é p’rós homens. Teu pai sahiu d’aqui com -duas camisas n’uma trouxa, sentou praça, e morreu major na flôr da idade: -teria quarenta annos. Se não morre, e o seu partido vinga, podia acabar -general. Tira-te d’aqui d’esta aldeia, homem! Tu tens lá umas ideias que -precisam de terras grandes. Vai-te á vida que eu cá estou com o meu pouco -para te acudir nas necessidades. Logo que teu primo mande mais dinheiro, -lá irá ter onde estiveres. Se um dia tiveres de teu, e eu já não poder -com o machado, então me irás pagando como poderes. - -Casimiro debulhava-se em lagrimas, abraçado ao carpinteiro, que embebia -as suas no canhão da jaqueta de saragoça remendada nos cotovellos. -Aquella jaqueta deshonrar-se-ia grandemente se a puzessem á beira de -muitas fardas batidas a ouro e coalhadas de veneras! - -Era como picar de remorso o doer-se de Casimiro. Mentir assim aquelle -velho tão bom, tão franco, tão desprendido, tão pobre! - -Não importa! A sua paixão absolve-o já; o homem honrado e illudido -absolvel-o-ha depois. - -Tinha, pois, Casimiro dinheiro para a fuga; d’isto avisou Christina; a -menina, porém, instava pelo casamento em S. Julião da Serra, e o moço, de -vontade e coração, condescendia, e desejava assim tão abrasadamente como -ella. - -Ruy de Nellas encontrou o carpinteiro, e não lhe fallou, nem respondeu á -saudação com um gesto sequer. - -—Porque está de mal commigo, sr. compadre?!—perguntou o operario com -magoada submissão. - -—Porque és um ingrato!—bradou o fidalgo. - -—Ingrato, senhor! Nemja isso! Deus me não ajude, se eu sou ingrato a v. -exª! - -—Tens ahi teu sobrinho, que deu um pontapé no seu bemfeitor, e causou a -desgraça de minha filha, e a tristeza de minha casa! - -—Meu sobrinho, sr. compadre, fez mal, é verdade; mas o mal está -remediado. Meu sobrinho vai-se embora por estes dias. Vai para Lisboa -continuar os seus estudos. Leva duzentos mil réis que eu recebi do meu -filho e afilhado de v. ex.ª, e por lá ficará até se fazer homem como meu -cunhado. - -Ruy de Nellas deu um grande suspiro de desabafo, e disse: - -—Fallas-me verdade? - -—Como quem se confessa, fidalgo. - -—Então compadre, o dito por não dito. Se eu soubesse que elle estava -ainda em tua casa, por falta de meios, o dinheiro dava-t’o eu, sem elle o -saber. Quando é que vai? - -—Estão-se fazendo umas camisas, e, o mais tardar no fim da semana, vai -com Deus. - -N’este dia á noute, Ruy disse a uma das filhas: - -—Vai ao quarto de tua irmã, e diz-lhe com bons modos que venha tomar -chá comnosco. A tempestade está a passar: é preciso que a trateis, como -d’antes, d’aqui por diante. - -Christina, maravilhada da brandura de sua irmã, desceu á sala, e beijou a -mão paternal, que se lhe offerecia com affavel sorriso. - -Tomou chá trocou leves palavras com suas irmãs, e volveu ao seu quarto, -onde desvelou a noute, scismando na transfiguração de seu pai. - -A horas de almoço, passou Ruy de Nellas no corredor contiguo ao quarto de -Christina, e disse-lhe tocando na porta: - -—Vai o almoço para a meza, menina. - -Christina estremeceu, e sumiu entre os cobertores a carta, que estava -escrevendo, cujo periodo mais importante era assim: - -«....... Como penso que terei liberdade de descer ao jardim ao fim da -tarde, sahirei pela porta da quinta, que abre para a estrada. Se me -enganar, então ámanhã te avisarei...................................... -....................................................................... -................................. - -Não se enganára. - -O caricioso pai sahiu com ella e suas irmãs a passear depois do almoço. -Amimou-a, depois de jantar, brindando-a com um vestido de tafetá azul -para festa dos annos da morgada. Ao fim da tarde viram-n’a sahir ao -jardim, e a mais abelhuda das irmãs disse: - -—Papá, olhe que a Christina vai só... - -—Deixal-a ir. Coitada! o inverno já lhe desfolhou as rosas que ella ha um -mez ainda regava!... Vai ver as suas plantas... Pobre filha, que pena me -faz vêl-a tão abatida!... - -Christina demorava-se e o vento assobiava, impellindo contra a janella -borrifos de chuva. - -—Vossa irmã, já está no seu quarto?! Vão ver. - -As meninas alvoroçadas vieram dizer que no quarto não estava ella nem a -capa. - -—Pois não viram que ella saiu de capa ao jardim?—reflectiu o pai.—Vamos -ao jardim, que ella deve lá estar abrigada da chuva... ou (ajuntou elle -no silencio de seu coração) escondida a chorar... pobre menina! - -Espreitaram todos os escuros do arvoredo, chamando-a a brados. O fidalgo, -esporeado por diabolica suspeita, correu á porta do carro, e achou-a -aberta. - -—Fugiu!—exclamou elle. Os criados que saiam todos por essas estradas, -e... que o matem! - -E os criados sahiram todos na ideia... de o matarem! - -Até o José-pastor lá ia na chusma, clamando que queria tambem matar o -ladrão da fidalga, e teimava que via as pegadas da menina lá por uns -caminhos onde ninguem via cousa nenhuma! - -A estas horas, Christina e Casimiro transmontavam o cabeço da primeira -serra, que descia para umas gargantas intransitaveis. - -Na ante-vespera, palmilhara Casimiro o terreno menos trilhado, e -orientara-se cabalmente da direcção que devia seguir até assomar á serra -visinha de S. Julião. - - - - -VI - -A humildade vencedora - - -Os servos iam e vinham por estradas reaes, atalhos e mais desfrequentados -caminhos. Ninguem déra noticia dos fugitivos, excepto um guardador de -cabras, o qual disséra ter visto n’uma chã, passarem um senhor, vestido -á cidade, e uma senhora assim a modo de fidalga, e depois os vira entrar -á estrada de Trancoso. Estas novas quem as colheu foi o José-pastor, o -velhaco! Elle não viu guardador nenhum de cabras: inventou-o, sem que -ninguem lhe encommendasse a fabula. O que elle queria era attrahir as -pesquizas para o lado opposto de S. Julião da Serra. Serviçal até alli! - -Quando, ao quarto dia de baldadas buscas, os criados mais pimpões -se abalaram para Trancoso armados até aos dentes, Ruy de Nellas foi -procurado por sujeito desconhecido. Entrando á presença do fidalgo, e -interrogado sobre quem era, disse: - -—Sou um lavrador da freguezia de S. Julião da Serra. - -—Onde está vigario meu afilhado padre João Ferreira? - -—Sim, senhor. - -—Como está elle! - -—Doente de cama. - -—Coitado! E Peregrina? Conhece a irmã do vigario? - -—É minha mulher. - -—Ah! sim? quanto folgo! Já cá sabiamos que ella casára bem. - -—Estimo-a muito, que é digna d’isso. - -—E vm.ᶜᵉ creio que é lavrador abastado... - -—Graças a Deus, tenho mais que o necessario... - -—Queira sentar-se. Esqueceu-me de o mandar sentar, com a satisfação de -ver o marido da nossa Peregrina... _Satisfação_, digo eu!... Vão por cá -muitissimas afflicções, senhor... como é a sua graça? - -Ladislau, criado de v. ex.ª - -—Muitas afflicções, sr. Ladislau! Cahiu em minha casa um raio!... Deus... -não sei que mal lhe fiz! Eu, que faço o bem que posso, que dou tudo -quanto me sobeja aos pobres, que eduquei minhas filhas na religião de -meus avós, estou aqui esmagado por uma vergonha, que me está cavando -a cova!... Quando ha sete annos me morreu minha mulher, pedi a Deus a -morte: oxalá que elle me tivesse ouvido!... Logo, em seguida, morreu o -meu unico filho varão. Resisti ainda. Depois vi cahir o Senhor D. Miguel -do throno á miseria da proscripção, e fiquei ainda em pé. Agora... -agora... esta punhalada corta-me o ultimo fio! Nos tres infortunios -passados, o Senhor Deus dos afflictos collocou a meu lado um dos seus -apostolos, que me amparou, e me fechou as chagas com o balsamo da -religião. Era um frade da sua freguezia, creio eu: Fr. Braz Militão do -convento de Vinhaes. Morreu o santo, que passou tres noutes á cabeceira -do meu leito, quando enviuvei. Elle tinha experimentado a minha dôr, -porque vestira o habito de frade mendicante, quando Deus lhe chamou sua -mulher... - -—Esse frade era meu pai—disse Ladislau. - -—Seu pai!—exclamou o fidalgo, erguendo-se a abraçal-o.—Pois o marido de -Peregrina é filho d’aquelle predestinado, a quem eu recorro ainda nas -minhas angustias? - -—E eu recorrerei tambem para que meu bom pai alcance do Senhor o socego -de v. ex.ª - -—Desculpe-me, que eu estou todo absorvido pela minha magua! Ainda não -fiz senão carpir-me; porém o sr. Ladislau calculará, quando fôr pai, a -natureza da minha dor... Que motivo o traz a esta casa? - -—O seu infortunio, sr. Ruy. - -—Pois sabia que minha filha fugiu? Já lá chegou a noticia? Foi sua mulher -que o mandou saber a atroz verdade? É certo, é horrivelmente certo que -essa desgraçada fugiu ha cinco dias, e todas as diligencias em procural-a -com o infame raptor se tem baldado! - -—A sr.ª D. Christina está em minha casa—atalhou Ladislau. - -Ruy de Nellas aproximou-se, quasi rosto a rosto, de Ladislau, e exclamou: - -—Que diz?! em sua casa? com elle? - -—Não, sr. Ruy. Em casa do filho de fr. Braz Militão não se agasalham -amantes fugitivos, salvo se elles forem tão desgraçados que não tenham -pão nem tecto. Em minha casa está unicamente a filha de v. ex.ª; em casa -do vigario está Casimiro Bettancourt. - -—E meu afilhado—interrompeu iroso o fidalgo—consente que se recolha em -sua casa o roubador de minha filha, da filha de Ruy de Nellas, a quem -elle deve tudo o que é?! - -—Lamento,—disse Ladislau—que meu cunhado aqui não esteja para dignamente -responder a v. ex.ª. Eu não tenho a virtude nem as expressões santas, -persuasivas, e affectuosas do afilhado de v. ex.ª. Estou aqui, porque -a doença ha tres dias o tem a elle na cama: apressei-me a vir para -que o padre, despresando a enfermidade, não viesse por este mau tempo -arriscar a vida. As intenções, todavia, de meu cunhado, acolhendo em sua -casa Casimiro Bettancourt, são obvias e justas. Os dous, desgraçados -pela cegueira do amor, foram pedir ao sacerdote a benção matrimonial; o -sacerdote não podia abençoal-os sem consentimento de v. ex.ª, e não podia -tambem abandonal-os sem faltar á caridade que professa, á sua propria -consciencia, e ao que deve ao sr. Ruy de Nellas. Abrir mão d’elles, na -situação em que os viu, o mesmo seria declarar-lhes que não ha divina -nem humana misericordia. Elles iriam porta fóra desconfiados da virtude -do ministro de Deus, em que tinham posto sua esperança, e julgar-se-iam -desquites de serem ou procurarem ser virtuosos... - -—Bem!—atalhou Ruy, a que vem o senhor? - -—Implorar a v. ex.ª consentimento... - -—Para se casarem? - -—Sim, senhor. - -—Sabe o que pede? o sr. Ladislau sabe o que pede?!—bradou o fidalgo com -os olhos afuzilando ira e gestos descompostos. - -—Sei que peço, segundo meu cunhado diz, o unico remedio de tal desgraça. - -—Seu cunhado é um parvo!—rebradou o velho, batendo rijamente com o punho -fechado sobre a meza.—Repito: seu cunhado é um parvo, e não tem desculpa -nenhuma, porque sabe quem é o pai de Christina, e quem são os parentes -d’esse ninguem que roubou minha filha. Não lhe disse elle que Casimiro é -sobrinho d’um carpinteiro? - -—Sim, senhor, disse. - -—E então? Parece-lhe que é bem arranjado o casamento do sobrinho do -carpinteiro com a filha de Ruy de Nellas? Responda!... Que pena eu -tenho que, em lugar do senhor, não estivesse ahi o padre, a ver que me -respondia!... - -—Parece-me que o padre responderia a v. ex.ª que a sr.ª D. Christina... - -—Diga, diga! - -—Casada com o sobrinho do carpinteiro está mais honrada que na situação -em que se acha agora. - -—Quer isso dizer que da parte do mariola é muito grande favor casar-me -com a filha!? - -—Não, sr. Ruy; eu não quiz dizer semelhante cousa; não vim aqui offender -v. ex.ª. - -—Pois então?... A vontade do meu amigo padre (replicou o fidalgo, -sorrindo á palavra _amigo_) é que eu admitta em minha casa os noivos? - -—Não lhe ouvi isso. O que elle unicamente pede é a certeza de que v. ex.ª -lhe levará a bem que elle os case, embora o seu consentimento não seja -escripto. - -—Prohibo-o expressamente de os casar, sob pena de eu o fazer sahir da -igreja, e metter em processo! - -—Que quer, por tanto, v. ex.ª que faça sua filha?—redarguiu Ladislau com -os olhos humidos de lagrimas de desanimação—Que ha de ella fazer? - -—Entrar n’um convento, chorar o seu crime, e morrer lá, é o que eu quero. -A elle hei de perseguil-o até ao inferno! hei de mettêl-o n’uma masmorra, -e impontal-o para as Pedras-negras. - -Ladislau recolheu-se breves instantes, e sahiu de si, dizendo com grande -impeto de pranto: - -—Se aqui estivesse frei Braz de Villa Cova, que diria, n’este ponto, o -bom christão a v. ex.ª? Eu creio, senhor, que meu pai diria: «Perdão, e -misericordia. A neta dos reis de Judá, Maria, mãi de Jesus, foi eleita -pelo Eterno esposa d’um operario: era carpinteiro o pai putativo do -Redemptor dos homens.» - -—Não me pregue sermões!—interrompeu Ruy de Nellas, cujas convicções, no -tocante ao casamento da Virgem Maria, eram muito pela rama. O fidalgo -acreditava que uma sua tia freira bernarda em Lisboa tinha oração infusa, -e, em seus extasis, se erguia sobre a terra quatro covados; acreditava -que S. Thiago e S. Jorge vieram em pessoa combater e vencer pelos -portuguezes; acreditava outro sim que a morte e vinda de D. Sebastião era -por ora cousa duvidosa, porém o casamento da filha dos reis de Israel com -um carpinteiro custava-lhe a tragar! - -—Não me pregue sermões!—dissera, pois, Ruy de Nellas, e proseguiu:—Seu -pai, se aqui estivesse, iria sem que eu lh’o pedisse, procurar essa -mulher perdida, e convertêl-a a Deus, levando-a a um convento, e -obrigando-a a ver bem a sua vergonha para que nunca mais se amostrasse a -olhos do mundo. Seu pai, sr. Ladislau, de certo me não viria dizer que -premiasse a desobediencia de minha filha, e a petulancia do farropilha, -que m’a roubou, casando-os. Boa maneira de os castigar, não tem duvida -nenhuma! O resultado de tão funesto exemplo seria as outras minhas -filhas fugirem-me com os miseraveis que as seduzissem! Se a religião -mandasse ou aconselhasse tal, ai da ordem social, que então direitos de -pai e obediencia de filhas tudo andaria transtornado! Não, senhor! frei -Braz Militão não podia, de modo nenhum, ser o patrono de tamanho crime! - -—Que quer, pois, v. ex.ª que se faça?—disse Ladislau com os olhos já -enchutos, e um tom de voz, que denotava outra condição de espirito. - -—Já disse: ella, convento; elle, se poder fugir, que me fuja; mas já e -depressa, quando não a justiça fila-o. - -—Creio que a sr.ª D. Christina não entrará em convento, nem Casimiro -fugirá sem ella. - -—Veremos! Eu vou mandar homens a S. Julião da Serra! - -—Fará v. ex.ª mal. Na minha terra nunca entraram homens de braço armado, -excepto os francezes, que incendiaram as casas por não encontrarem -alguem. As nossas defezas e resguardo são as serras. Eu conduzirei a -filha de v. ex.ª onde não possa a violencia alcançal-a. Ella fiou-se em -mim, acceitou a minha casa, hei de defendel-a. A não poder vêl-a esposa -do homem que ama, não serei eu que vá perfidamente arrancal-a ao seu -destino, bom ou mau, Deus sabe qual será. Calar-me seria uma perfidia. -Volto, pois, com o coração de lucto, e direi a meu cunhado que v. ex.ª -lhe prohibe remediar a desventura da sr.ª D. Christina. - -—Mas diga-me cá!—acudiu de golpe o velho.—Se eu consentisse no casamento, -que se seguia? Minha filha voltava a Pinhel com o marido? - -—Não, senhor. - -—Pois então? - -—Lá sabem o seu intento. A Pinhel não voltarão. - -—Mas quem os sustenta, depois? - -—Serei eu, se elles quizerem. - -—Bello começo de vida! Vai viver minha filha ás sopas da... - -Conteve-se Ruy; mas Ladislau, adivinhando-o concluiu a phrase: - -—Ás sopas da serva de v. ex.ª... Minha mulher tanto se considera ainda -uma creada de v. ex.ª que recebe como a maior das honras ter á sua meza a -sr.ª D. Christina, e servil-a como creada. - -—Perdôe-me, atalhou Ruy commovido, perdôe-me, que a minha dôr faz-me mau; -que eu não o sou, meu amigo! Sua mulher nunca foi minha creada. Sentei-a -á minha meza, e vesti-a como minhas filhas. Nunca me arrependi, e queria -não me arrepender nunca. Faça o sr. com que ella resolva Christina a -esquecer esse homem, e a fazer me a vontade. Póde ser que o tempo venha a -gastar o odio, que tenho a essa perdida, e a tire do convento. É o maior -serviço, que podem fazer-lhe, dissuadil-a. Façam com que Casimiro saia -de Portugal: que vá para o Brazil ou para o inferno, que eu não lhe faço -mal. Tenho dito, sr. Ladislau, a este respeito. - -—Minha mulher não ousa dar taes conselhos á sr.ª D. Christina, nem eu a -minha mulher. Em fim, sr. Ruy, ouça v. ex.ª o que vou fazer. Acompanharei -sua filha ao lugar onde a encontrei; lá, onde a espera Casimiro -Bettancourt, direi a ambos: «Fiz o que pude, pedi com lagrimas, pedi com -razões: tudo se mallogrou. Agora se meu cunhado os não quer ou não póde -casar, sigam sua vida, vão mostrar-se por esse mundo deshonrados, e digam -que, se a deshonra os affasta das pessoas de bem, é por que esta infeliz -menina tem um pai, que antes a quer assim.» É o que farei e direi, sr. -Ruy de Nellas; mas antes d’isto, ainda me resta um esforço. Pedirei á -alma de meu pai que lhe toque o animo; e, de joelhos e mãos erguidas, -ainda uma vez, supplico a v. ex.ª que dê consentimento para que sua filha -seja honesta! - -Disse Ladislau as ultimas palavras ajoelhado. - -O fidalgo contou, passados annos, que, em lugar de Ladislau, vira, como -em sombra, fr. Braz Militão. Ha segredos de Deus; porém, bem póde ser que -o caso, a dar-se, fosse mera visualidade do velho. Fosse ou não, Ruy de -Nellas inclinou-se a levantar Ladislau de sua postura humilde, e disse: - -—Valha-me Deus! - -Passeou, de uma parede a outra, repetidas vezes, o salão, emquanto o moço -arquejante lhe estava como bebendo a resposta dos beiços convulsivos. -A final, parou o velho, em meio da sala, levou as mãos ás fontes, e, -sacudindo vertiginosamente os braços, exclamou: - -—Casem! mas que eu os não veja mais! - -E sentou-se, prostrado. - -—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Ladislau, retirando-se com alvoroço tal -de alegria que a sua vontade era distancear-se depressa, receoso do -arrependimento. - -Arrependimento que por um cabello, pouco depois, ia dando de si um feito -vil! - -Ruy de Nellas ergueu-se de golpe, já quando o moço tinha sahido, e -esporeava a galope desapoderado a mula, estrada fóra. - -Chegou ainda a gritar pelos creados, cujo maior numero tinha ido para -Trancoso. Era seu intento envial-os a S. Julião da Serra, infractores da -palavra de seu amo. - -N’este lanço, estropearam no pateo dous cavallos: o cavalleiro era D. -Sueiro de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça, fidalgo de Miranda, com o -seu lacaio. - -Este sujeito, além d’aquelle nome, que só por si é uma fortuna, nascera -primeiro que seus irmãos, na maior casa d’aquelles contornos de Miranda. -Barbedos e Alarcões tinham começado, pouco mais ou menos, com o genero -humano. Estas duas familias, em franqueza intima e modesta, diziam que -o primeiro sangue de Lisboa—da Lisboa de sangue azul, intende-se—era um -regato da fonte caudal, represada n’elles, ahi pela fundação dos reinados -de Leão e Castella. - -Desde muito que Ruy de Nellas meditava em casar a filha morgada com D. -Sueiro de Aguilar, e n’isso trabalhára, com intervenção da parentella. - -Eil-o ahi está agora o almejado genro a pedir-lhe a filha, e eil-o vem a -ponto de estorvar que o sogro se deshonre, violando a palavra dada, com -desdouros dos reis de Leão e Castella, seus avós. - -Trocados os termos ceremoniosos, D. Sueiro perguntou pelas primas. - -Entraram cinco meninas meia hora depois. - -—E a prima Christina?—perguntou elle. - -—Está na Guarda, em companhia da tia Mafalda Portugal—tartamudeou Ruy. - -—Sinto—disse D. Sueiro—porque, vindo eu pedir a mão da prima Guiomar para -mim, sou encarregado de pedir a prima Christina para meu irmão Alexandre. - -—Céus!—exclamou para dentro de si o fidalgo, e as meninas encararam-se -mutuamente. - -—Fallaremos ácerca de Christina—disse Ruy, expedindo um gemido rouco. - -E declinou a prática sobre trivialidades, até horas de jantar. - -D. Alexandre, academico do primeiro anno na Universidade, tinha visto sua -prima na feira de Vizeu, um anno antes. Escrevera-lhe, mediante os bons -officios de sua tia D. Beatriz de Albuquerque. Não respondera Christina -senão termos agradecidos á escolha, posto que incondescendentes. Assim -mesmo, D. Alexandre de Aguilar recalcitrou, sem melhor exito. D. Sueiro, -porém, tomou a peito levar a noiva ao irmão. - -Contou-se o incidente que prende com o porvir d’esta historia. - - - - -VII - -Felicidades - - -O apparecimento de Ladislau Tiberio no alto da serra, que se arqueia -sobre a casa de Villa Cova, foi saudado com o agitar de dous lenços -brancos. O moço, segundo convenção feita, apeou, cortou uma haste de -castanheiro, arvorou n’ella o seu lenço, e floreando-o de cima da -cavalgadura, deu-se pressa na descida. - -Quando tal viram, Christina, a rir e a chorar, lançou-se aos braços de -Peregrina, e foram ambas ajoelhar diante do oratorio. Como a alegria as -não deixava exprimir palavra, era-lhes preciso fallar em silencio com -Deus. - -Meia hora depois, entrava no quinteiro Ladislau, e as duas senhoras, -arrebatadas como se a boa nova igualmente as deliciasse ambas, correram a -ouvir a confirmação do que disséra a bandeira branca. - -—É certo?—exclamou Christina. - -—É certo, minha senhora. - -—Deixa-me ir um criado a S. Julião dar parte a Casimiro?—tornou ella. - -—Vamos logo todos; mas, se v. ex.ª quer, mande o criado já. - -—Então não: vamos todos... quero eu dar-lhe a nova. E meu pai está bom? e -minhas irmãs? - -—Não vi suas irmãs; seu pai está inquieto; mas, como tem bom coração, -Deus o socegará. - -Abraçaram-se outra vez as duas amigas, e Ladislau, entre risonho e -lagrimoso, gosava o não menor quinhão de sua alegria. - -Fez-se logo noute, e esperaram que nascesse a lua para sahirem ao ingreme -e despedrado caminho da igreja. - -Por volta das dez horas, chegaram á lapa da Crasta, no viso da serra -interposta, e lobrigaram um vulto. - -—É elle!—exclamou Christina, lançando-se da egua.—É meu marido! - -Casimiro Bettancourt correu ao encontro d’ella, e murmurou: - -—Que dizes, Christina? - -—O pai consentiu!—disse ella abafada pela commoção. - -E Casimiro, desprendendo-se dos braços de Christina, foi cingir com o -peito o sereno Ladislau, que ficara segurando as redeas da egua. - -—Meu salvador!—exclamou o moço. - -—Seu amigo, como amigo de todos os infelizes que amam!—disse Ladislau e -ajuntou logo: - -—O senhor que está aqui é que meu cunhado melhorou. - -—O sr. vigario veio confessar um moribundo na aldeia, que está ao fundo -da serra, e eu, com licença d’elle, vim até aqui para ver o fumo da casa -de Villa Cova. - -—Bem!—tornou Ladislau.—Vamos. - -—Eu vou a pé—disse Christina—dá-me o teu braço, Casimiro. - -—Ámanhã—atalhou Ladislau—ámanhã se encostará ao braço de seu marido, -minha senhora. - -Christina córou; e Casimiro tomou as redeas da egua para ella saltar ao -albardão. - -Ouviu-se um prolongado assobio como o dos caçadores em montados: era o -vigario que chamava o hospede. Casimiro respondeu, e Peregrina, puchando -do peito, quanto pôde, a voz, gritou: - -—Cá vamos todos. - -E, como todos rissem do agudissimo falsete da jubilosa Peregrina, o -vigario percebeu logo a impaciente felicidade que não pôde esperar pelo -dia seguinte. - -E subiu a ladeira até encontrar o grupo. - -—Abençoou Deus a tua resolução, já vejo!—disse padre João Ferreira ao -cunhado. - -—Abençoou: pódes tu abençoal-os, meu irmão. - -E os dous ficaram alguns passos atrazados, para irem conversando sobre os -successos de Pinhel, e os futuros em que os noivos não pensavam, nem era -generoso dizerem-lh’os. - -Ninguem dormiu, n’aquella noite, na residencia de S. Julião. O vigario -sahiu, ante-manhã, a solicitar licença do arcipreste para casar os -contrahentes sob sua responsabilidade sem o previo pregão de banhos. -Obtida, voltou á egreja, e ouviu de confissão os desposados; e, em -seguida á ceremonia da communhão, ligou-os, abençoou-os e disse-lhes: - -—Ficam sendo os dous uma só alma para as alegrias e para as provações. -Deus voltará a sua face divina d’aquelle dos dous que attribuir ao -outro o seu infortunio; e nós, os amigos de ambos, verteremos lagrimas -de sangue se os virmos infelizes, infelizes á mingua de conformidade e -fortaleza. Deus os tenha de sua mão. - -Celebrado o matrimonio, almoçaram na residencia, e sahiram para Villa -Cova, onde Brazia, azafamada com o jantar, e duplamente ditosa com o -segundo casamento, dava ares de não ter o miolo fixo, no dizer dos outros -creados. - -A felicidade d’este dia não tem historia: ou se a tem, conte-a o leitor -que a experimentou. Mas o meu leitor, casado por paixão, precisamente -foi obrigado a attender aos comprimentos de amigos e parentes, uns a -louvarem-lhe a noiva, outros a louvarem-n’o a si, estes a brindarem-n’o -com vinho, aquelles a perguntarem-lhe pelo dote da mulher: barafunda esta -que o não deixou sentir a sua felicidade. - -Ora, na casa de Villa Cova, á mesa nupcial, além dos noivos, estavam o -vigario, os donos da casa, o carpinteiro de Pinhel, e a velha Brazia. -Os noivos repetiram em miudos a historia dos seus amores, os medos, as -tristezas, os jubilos, o intenderem-se com a linguagem pactuada das -flores. N’este ponto, Brazia ria muito e dizia que os namorados eram o -peccado. As espertezas de José-pastor foram contadas por Christina com -amostras do bem que queria ao rapasinho. Pediu ella ao marido que se -não esquecesse nunca do muito que lhe deviam, e lembrou-se de o mandar -estudar para padre se algum dia fosse remediada de bens de fortuna. - -—Hade sahir bom padre!—atalhou a ridentissima velha.—Se assim souber -espreitar as ciladas do cão tinhoso, muitas almas hade ganhar p’ra Deus! - -Com estas e outras festejadas palestras passaram o dia. Ao escurecer, -tornou o vigario á sua igreja, com promessa de voltar no dia seguinte, a -fim de se conversarem cousas muito importantes. - -E nós vamos já ao ponto d’estas conversações decorridas á sombra d’uns -altos castanheiros, que pareciam ter alli ficado da idade de ouro para -darem testemunho de um feito d’outras eras. - -—Diz tu o que tens a dizer, Ladislau—estas palavras proferiu o vigario, -logo que as duas senhoras se assentaram na grossa e retorcida raiz d’um -castanheiro, e Casimiro á beira d’ellas. - -Ladislau voltou-se para seu cunhado e disse: - -—Porque não has de ser tu? - -—Quem melhor exprime a idéa é quem dignamente a concebeu. - -—Pois fallarei—tornou o moço: deteve-se breve espaço, e disse—o sr. -Casimiro Bettancourt recebeu educação e tem espiritos que não são para -vida aldean, e d’esta aldeia a mais desacompanhada e triste que ser -póde. Isto é bom para mim, que nasci cá, e por todas essas pedras e -arvores tenho cobrado um affecto de solitario, que todo outro viver se me -affigura intoleravel. Que fará o sr. Casimiro, passados estes primeiros -dias, em tal solidão? Perguntará a si mesmo: «Que faço eu aqui? Em que -empregarei as minhas forças? Porque molde talharei o meu futuro?» Quando -assim se interrogar, a resposta será uma melancolica indecisão, com vêr -cerrados os caminhos para onde o animo o impelle. Vamos vêr se podemos -abril-os para pouparmos o nosso Casimiro á desconsolação de cruzar os -braços e dizer: «não sei!» O nosso amigo contou-me que, no collegio, -estudava mathematicas, para o fim de seguir a carreira das armas. - -—É verdade—disse Casimiro. - -—Pergunto eu se lhe agrada recomeçar ou continuar os seus estudos, e ser -militar. - -—Desejava-o, tenho-o desejado sempre; mas a vida militar desprotegida é -má; e, nas minhas circumstancias, o estudar foi e é impossivel agora. - -—Não é. O meu amigo assenta praça, e requer licença para estudar em -Lisboa, Porto, ou Coimbra. Tenho estas informações de meu cunhado. Eu -offereço-lhe os meios precisos para se alimentar com sua senhora em -qualquer das cidades que escolher, e assim se habilita para alguma vez me -pagar o adiantamento que fôr preciso. - -—Mas o meu dote...—interrompeu Christina, com fidalgo animo. - -—Não se falla no seu dote—retorquiu Ladislau.—O sr. Ruy de Nellas deu o -consentimento; mas não dá dote. - -—O dote de minha mãi...—tornou ella. - -—V. ex.ª não pede dote nenhum: eu disse a seu pai que a sustentação de -sua filha e marido não corriam á obrigação d’elle. Está desobrigado o -sr. Ruy de Nellas. Em resumo, o sr. Casimiro quer ser homem, quer a sua -independencia, quer empregar dignamente as faculdades, que Deus não dá -para ocios ou desperdicios. Resolve-se a abraçar a minha lembrança? - -—De toda a vontade, e com o mais reconhecido coração. Diz-me uma voz -intima que eu poderei desempenhar-me. - -—Tambem a mim m’o diz—ajuntou Ladislau. - -—Desempenham-se todos os que trabalham—ajuntou o vigario.—O principal -estimulo que o sr. Casimiro leva para o seu engrandecimento é querer -mostrar a seu sôgro que se fez homem. - -—Quem me faz homem é este anjo! exclamou Casimiro, abraçando o marido de -Peregrina, a qual já estava chorando, quer fosse a proxima ausencia de -Christina, quer o enthusiasmo da boa acção de seu marido a enternecesse a -lagrimas. - -Volvidos quinze dias, iam sahir de Villa Cova os noivos com destino a -Coimbra. Ao despedirem-se, como Ladislau levasse á mala de Casimiro o -dinheiro contado para as despezas do primeiro trimestre, o hospede acudiu -dizendo que tinha intactos os duzentos mil réis que seu tio lhe dera. -Mestre Antonio, que fôra assistir á despedida do sobrinho, resistiu ás -instancias de Ladislau, não querendo reembolsar o dinheiro, e levou a sua -liberalidade ao ponto de offerecer á esposa de seu sobrinho uns brincos -de ouro, que elle chamava _cabaças_, os quaes tinham sido de sua mulher. -Liberalidade dissemos; e, com tudo, o valor real do presente orçava -por dezeseis tostões! Assim era que elle amava muito aquella memoria, -e o desprender-se d’ella foi o mais que podia fazer a sublime rudeza -do coração do operario! Dera a sorrir os duzentos mil réis, e foi, ás -escondidas, enchugar as lagrimas, quando se viu privado das arrecadas de -sua mulher! Ó santos corações do povo! mas do povo das montanhas, direi; -do povo, que ainda não sahiu á praça vociferando que é rei porque é povo. - -Christina tirou das orelhas uns brincos de preço, que usava em casa de -seu pai, e adornou-se com os modestos, que lhe dera o artista; depois, -voltando-se a Peregrina, disse-lhe: - -—Acceitas uma lembrança da tua amiga pobre, da amiga que vai subsistir -dos teus beneficios? E, tomando-lhe a cabeça contra o seio, obrigou-a -suavemente a receber os seus brincos, e beijou-a em ambas as faces. - -—Acceita, Peregrina—disse Ladislau—que a tua senhora e amiga vai mais -enfeitada com a dadiva do pobre. - -Partiram, acompanhadas até grande distancia pelo vigario, irmã, Ladislau -e Brazia. Mestre Antonio não houve rasões que o demovessem de ir a pé ao -lado de Christina, até ao Porto. - -Como pernoitassem n’uma estalagem da aldeia de Pena verde, encontraram -um feitor da casa de Ruy de Nellas, acompanhando duas cargas de bahus. -O feitor, pasmado do encontro, não atinava a decidir-se se devia -cumprimentar ou desprezar a filha de seu amo. A menina porém, que se -não julgava despresivel, perguntou ao seu antigo creado d’onde vinham -aquelles bahus. - -—Do Porto—disse breve e seccamente o conductor. - -—Que levam? - -—O enxoval da sr.ª morgada. - -—Pois a mana Guiomar casa? - -—Casa á vontade de seu pai—tornou o feitor, carregando de censura as -palavras, e collocando-se de esguelha. - -Casimiro Bettancourt, que presenceara o dialogo, desceu ao pateo da -estalagem, onde estava o feitor; travou-lhe das lapelas da jaqueta, e -disse: - -—Olha de frente para a filha de teu amo, e responde-lhe. - -—Já respondi—disse o homem um pouquinho inquieto da segurança da sua -pessoa. - -Casimiro perguntou á sobresaltada senhora o que queria ella saber do seu -creado. - -—Nada...—balbuciou Christina, temerosa do resultado. - -—Descobre-te—disse elle ao creado. - -O feitor tirou o chapéu com as mãos ambas. - -—Diz áquella senhora com quem casa tua ama, e responde ao mais que ella -te perguntar. - -—Casa com o sr. D. Sueiro, de Miranda, que a foi pedir, e tambem ia pedir -a sr.ª D. Christina para o sr. D. Alexandre. - -—Deixa-o, deixa-o!—disse Christina. - -—Levas as duas orelhas—ajuntou Casimiro, largando-o—porque és creado do -sr. Ruy de Nellas. Tu consideras menos a filha de teu amo do que eu os -seus lacaios. - -E, tornando ao quarto de Christina, disse-lhe risonho: - -—Que excellente casamento te fiz perder!... - -D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça! - -—Pois sim, disse ella muito de riso e mimo, mas se tornas a assustar-me, -arrependo-me de não ter respondido ás cartas do idiota Alexandrinho... -que vamos encontrar em Coimbra... Não sabes que elle está em Coimbra? - -—Sabia, e então? Dar-se-ha caso que a vergontea ostro-goda me queira -cahir sobre as costas? É preciso temer os Vito Alarcões!... Deus nos -defenda! - -Festejou ella muito os tregeitos de medo comico com que Casimiro -abrenunciou o rival temeroso, e não pensaram mais n’isso. - -Tomou o estudante uma casa menos de modesta, fóra de portas em Santo -Antonio dos Olivaes. Em redor da casa fechava-se o arvoredo de alamos, -platanos e choupos. A mobilia era rigorosamente academica: as conhecidas -cadeiras como inventadas para descadeirar os occupantes; a meza de pinho -pintado de verde; a tarima de espaldar de taboado com silvas de flores -amarellas, imaginarias, e superiores ás mais inventivas das florestas -americanas. Tudo isto, porém, e o restante, que pouco mais era, limpo, -repintado, e lustroso alegrava a casinha. Depois era no mez de abril, -o abril de Coimbra, regorgeado de aves, arrelvado de boninas, copado -de sombras, e harmonioso de murmurios. E, depois, o amor, a paz, o -descanço de tamanhas batalhas, aformosentavam a vivenda de Santo Antonio -dos Olivaes, o amor, por sobre tudo, alindava, encantava, e vestia da -innocencia e das alfaias do eden aquelle silencioso abrigo de duas almas -fugidas ao mundo, e recolhidas em si e em Deus. - -Principiou Casimiro a recordar os seus passados estudos, emquanto corria -aquelle anno lectivo, para no immediato se matricular. Raras vezes ia -á cidade dar conta ao leccionista dos seus estudos preparatorios. Como -o tempo lhe sobejava, lia ou ouvia ler Christina, que dava aos livros -unicamente as horas feriadas das suas occupações domesticas. Raro dia, -deixavam de escrever algumas linhas a Ladislau e Peregrina, dizendo -aquelles nadas que são um nunca findar entre pessoas que se presam. - -Desceram, uma tarde de junho, ao Mondego, e subiram á beira da margem -esquerda. Paravam a intervallos para ouvirem o rumoroso suspirar da -folhagem, e o soido da limpha sobre que os salgueiros se dobravam a -remirar-se no espelho limpido. - -Christina inclinou a face ao seio de seu esposo, e murmurou tão de leve, -que parecia afinar a voz pelo som d’aquellas harpas eolias da ramagem: - -—Como somos felizes, ó Casimiro!... - -—E eu cuidava que não havia felicidade n’este mundo! disse elle, -comprimindo-lhe a face com a mão tremente de meiguice. - -—Como não ha de havel-a para os que amam o Senhor, e não fazem mal ao seu -semelhante! - -—Eu devia esperar este bem, Christina; porque fui muito desgraçado... Não -fui? - -—Eras... mas, desde que eu te amei... - -—Fui muito mais desgraçado, filha... Então é que eu me vi pobre, -desvalido, sem pai, sem mãi... Que palavra, Christina!... MÃI!... Nunca -os meus labios proferiram esta palavra no seio de uma mulher! Nunca, nem -na minha desamparada orphandade, correu para mim uma mulher chamando-me -filho!... Como pude eu ser privado das caricias de minha mãi!? Como pôde -ella abandonar-me, e esquecer-me!? Porque não disse meu pai se ella era -morta?!... - -—Ahi estás tu a entristecer-te!—atalhou a esposa—Não quero!... Vem cá! -Olha, Casimiro, eu chamo-te filho, filho de minha alma, do meu coração! -Amo-te mais que todas as mãis! Se alguma vez chorares, eu te consolarei, -com um carinho, que as mãis não sabem. Defender-te-hei com mais coragem -que ella. Morrerei por amor de ti, porque és tudo que eu tenho. Se Deus -me der filhos, heide amal-os menos que a ti, meu amado esposo!... Vês-me -tu a mim triste por ter deixado pai e irmãs?... É verdade que meu pai -aborrecia-me e minhas irmãs desprezavam-me mas por amor de ti, Casimiro, -por amor de eu te querer dar esta felicidade... - -—Perdôa-me!—disse elle, beijando-a com estremecimento—Não me lembres -o que soffreste, que eu cuidarei que me argues de ingrato. Olha que a -minha tristeza é suavissima, ó minha filha. Lembrou-me meu pai, e os -seus ultimos affagos; tive saudades de minha mãi, que nunca vi; são uns -desejos, que parecem vaticinio de que hei de ainda encontral-a. Vê tu -que loucura, que poesia! É este sitio, estas arvores, e a serenidade -do céu que me fazem scismar assim... As pessoas, que têm a sua alegria -circumscripta ao curto espaço da sua casa, não devem vir meditar nos -lugares em que o espirito carece de voar ás raias do infinito. A tristeza -está n’ellas, filha. O espirito retrahe-se sobre si mesmo, e doe-se -da sua fraqueza. O que é ver ir aquella ave pelo azul do céu fóra, e -dizer: «onde irás tu?» É desejo de romper esta rêde de ferro que nos -cerca, rasgar os fechados horisontes da alma, e sondar em que mundo irei -com o teu espirito perpetuar a minha existencia. E a devanear n’isto, -accordam-se na alma todos os enlevos e saudades... Então vejo a sombra de -minha mãi e de meu pai, a passarem, a fugirem, como sonhos. Ditoso é o -meu accordar, porque te encontro, ó anjo da minha vida!... - -E, dizendo, abraçou-a soffregamente, e bebeu-lhe as lagrimas, exclamando: - -—É assim que minha mãi devia chorar, quando me lançou de si!... - -—Mas eu—exclamou Christina—aperto-te ao meu coração, filho! - - - - -VIII - -O Vigario de S. Julião da Serra - - -Temos de voltar a Pinhel. - -D. Sueiro de Aguilar pediu instantemente que se mandasse buscar á Guarda -sua prima Christina. Tergiversou, em quanto pôde, Ruy de Nellas; porém, -quando o fidalgo de Miranda annunciou que iria pessoalmente buscal-a, o -velho, entre lagrimas e gemidos, declarou tudo. - -—E não está ainda morto o villão?—perguntou D. Sueiro, concluida a -narrativa. - -—Morto, não: nem sei onde está. - -—E póde meu tio Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo consentir que viva o cão -immundo! Um Gamboa deixar viver o raptor de sua filha!—replicou D.Sueiro. - -—Que hei de eu fazer-lhe agora? é marido d’ella!... - -—Antes viuva, antes perdida, antes morta!... Que ouvi eu! Christina, -amada por Alexandre de Aguilar, requestada e pedida, acha-se casada -com um sobrinho de carpinteiro! Ó tio! esta vergonha é insanavel!... -Quem dirá que minha bisavó foi casada com o primo carnal d’um avô de v. -ex.ª!?... Sinto, sinto amargamente dizer-lhe que não posso ser cunhado do -sobrinho do carpinteiro! - -—Paciencia... murmurou Ruy—Deus me leve depressa. Estou farto das -affrontas dos nobres e dos plebeus. Elle roubou-me a filha, e tu Sueiro, -injurias a minha dôr! Que hei de eu fazer? - -—Esmagar o verme! - -—Valha-te Deus! não se esmagam assim homens! Os tempos são outros, meu -sobrinho. A plebe agora tem a força, e nós temos o direito. - -—E a força! Vá lá um plebeu requestar irmã minha!... Não verá mais sol -nem lua! Juro-lh’o sobre... - -D. Sueiro, como não visse á mão sobre que jurar, calou-se, e expediu um -grunhido, como usam os bravos, que parecem tirar a valentia da garganta. -E proseguiu: - -—Já estarão casados? - -—De certo estão ha tres dias. - -—V. ex.ª deu o consentimento? - -—Nem dei, nem deixei de dar... Callei-me, farto de ouvir as lastimas d’um -bom moço, que aqui veio... - -—E houve sacerdote indigno que os recebesse sem licença legal e -canonicamente escripta? - -—O sacerdote é meu afilhado, ordenado á minha custa, nomeado por minha -intervenção na igreja onde se receberam. - -—Pasmo!... pois... ó sacrilegio da amisade! o crime inaudito! Padre João, -aquelle sarrafaçal de padre ousou sanctificar e legalisar o opprobio da -familia que lhe deu o pão, a sotaine, e a egreja! Qual vingança ha ahi de -tamanho crime! - -Andava D. Sueiro de um lado a outro da sala, sacudindo os braços, em -mental soliloquio. Ruy amparava a cabeça entre as mãos, pozera os -cotovellos no peitoril da janella, e olhava, sem o ver, para um macisso -de murtas do jardim. As apostrophes irrisorias do sobrinho callaram-lhe -no animo, a ponto de o irarem contra o vigario de S. Julião. Monologando -comsigo, dizia: - -—D. Sueiro tem razão. O padre, devendo ser o primeiro a embaraçar o -casamento, não só m’o mandou aconselhar como necessario, mas ainda por -cima me pediu e instou licença para casal-os. A ingratidão é flagrante! O -villão bandeou-se com o outro da sua estôfa. São uns pelos outros estes -filhos do nada! Se elle me fosse grato, restituia-me a minha filha, e -affugentava o raptor. Longe d’isso, agasalhou-o, sustentou-o, e recebeu-o -como se eu lh’o recommendasse!... Tem razão D. Sueiro! O padre merece -castigo! Não basta expulsal-o eu para sempre de minha casa: hei de -reduzil-o a viver da esmola da missa, se não poder caçar-lhe o exercicio -das ordens. - -E continuou em voz alta: - -—Dizes bem, meu sobrinho: o padre é um refalsado ingrato! Ha de ser -punido. - -—E o troca tintas? - -—Casimiro? - -—Sim, o pêrro, o sobrinho do carpinteiro? - -—Já disse que é tarde para o mandar castigar. - -—Deixe-m’o por minha conta, tio Ruy. V. ex.ª não tem filho que lhe vingue -as cans; mas aqui está o braço indomavel do seu sobrinho. - -—Não approvo—disse o velho—Estão casados. Já me não poupo á vergonha de -receber em minha casa a viuva do homem abjecto. É tarde para remedio. O -sangue já não lava a nodoa. - -—Nodoa eterna!—acrescentou D. Sueiro de Aguilar. - -—Seja o que Deus quizer!—Está visto que regeitas a esposa que pediste, -meu sobrinho. Ficaremos em paz; eu com ella, e tu com a tua dignidade -limpa. Mas olha que és injusto! Minha filha Guiomar está innocente no -delicto de Christina. Faz o que quizeres. Escolhe-a mais rica; mais -fidalga dificilmente a acharás em Portugal. - -—Sei que é minha prima!—disse modestissimamente o fidalgo de Miranda, -e ficou alli, por não ter mais que dizer a tal respeito. Uma prima dos -Alarcões Parmas d’Eça não podia ser mais nada em materia genealogica. A -D. Guiomar, porém, entre as qualidades dignas de seu primo, sobrava-lhe a -de ser tôla, com uns longes de idiota. - -O ajuntarem-se estes dous era preordenação, não direi do alto para -declinar a influencia divina de sobre as parvoiçadas que se fazem n’este -globo; mas, predestinação, isso era, se alguma ha n’esta cousa de -encontros e desencontros, que os poetas mirificamente explicam. - -E tanto assim era que, n’aquelle mesmo dia, D. Sueiro, vindo de passeio -com D. Guiomar affectuosamente disse ao tio que, apezar de tudo, seria -seu genro, com a resalva de em sua casa nunca mais se proferir o nome de -Christina. - -Concordes n’isto, afanaram-se logo em aviar os preparativos. D. Sueiro -d’Aguilar foi dispôr suas cousas a Miranda, e Ruy de Nellas enviou ao -Porto o feitor á compra do precioso enxoval. - -Natural seria que o velho, contente e distrahido, perdoasse ao vigario -de S. Julião, ou esfriasse no ardor vingativo até esquecer o ingrato, e -desprezal-o fidalgamente. - -Assim não foi. A natureza vai tão falsificada que já me quer parecer que -andamos a chamar natureza a tudo que é arte: arte, digo eu, synonimo de -manha, ardil, malicia e obra de satanaz. - -Escreveu Ruy de Nellas ao seu procurador na Guarda, accusando o vigario -de S. Julião da Serra. Foi padre João chamado á camara ecclesiastica -para responder sobre o casamento irregular de Casimiro Bettencourt e D. -Christina de Nellas. Ingenuamente relatou o vigario que os casara com a -licença vocal do pai da contrahente. Redarguiram-lhe que era apocrifa a -licença, e d’alli sem averiguações o suspenderam do exercicio parochial. - -Padre João, antes de recolher á vigararia para fazer entrega dos livros -á posse do novo pastor, foi a Pinhel, e serenamente bateu ao portão do -fidalgo. - -Os creados receberam-o com má sombra, e um foi avisar o amo, e voltou -dizendo: - -—O fidalgo não lhe falla. Vá-se o sr. padre em paz, que o amo, se o vê, -vai-lhe ao espinhaço. - -—Diga ao sr. Ruy de Nellas que seu afilhado vem pedir-lhe perdão, e -explicar o seu procedimento. - -O servo, vencido pela humildade, voltou ao amo, e trouxe esta resposta: - -—Que lhe não perdôa, nem quer ouvir explicações. - -—Um de vm.ᶜᵉˢ—replicou o manso vencedor do Evangelho—faz-me o favor de -lhe entregar uma carta? - -—Entrego eu, disseram quasi todos. - -—Volto já. - -Sahiu o padre a escrever na primeira tenda que se lhe prestou. Dizia -assim a carta: - - «Meu bom padrinho consentiu verbalmente que eu casasse a sr.ª - D. Christina com Casimiro? - - «Consentiu. - - «Meu padrinho requereu a suspensão das minhas funcções - parochiaes, allegando a irregularidade d’aquelle casamento? - - «Requereu. - - «Devia fazel-o? - - «Cito perante Deus a consciencia de meu padrinho. - - «Se procedi mal, peço perdão. Se procedi bem, Deus me ampare. - De v. ex.ª afilhado, capellão e servo. - - _João._» - -Ruy leu a carta com arremesso, e releu-a com brandura. A sua consciencia -estava deante de Deus. O juiz era inexoravel, e o velho supersticioso, -talvez. Tremia, e queria fugir de si proprio. Carregava-lhe no peito a -mão ferrea da justiça divina, e abafava-o. Ruy chamou o creado, e mandou -entrar o padre. O padre, porém, entregára a carta, e sahira caminho de -Villa Cova. - -Deixemos o delinquente a resolver-se no inferno que se abriu com a mão -iniqua, e sigamos o homem de animo inteiro, o humilde triumphante. - -Chegou a Villa Cova de rosto alegre, e disse: - -—Certamente, Ladislau, não te enganaste com as palavras de meu padrinho, -respeito ao casamento da filha? - -—Não me enganei; foram estas: _casem_; _mas que eu os não veja mais_. -Porque m’o perguntas? - -—Fui suspenso de vigario, a requerimento do sr. Ruy de Nellas. - -—Mas estás em paz comtigo e com os teus deveres. - -—Estou. - -—Então descança na tua casa, meu irmão. Fica ao pé de tua irmã. Villa -Cova, sem padre, está como viuva saudosa e inconsolavel. Os teus -parochianos já te amavam: paga-lhes o amor ficando entre elles. Virá -outro vigario enviado pelo governo; e tu serás o enviado de Deus. -Ambos são necessarios. E tu para mim, e em minha casa, és o cumulo de -felicidade. - -—Ficarei e trabalharei—respondeu padre João. - -No dia seguinte, chegou á residencia de S. Julião da Serra outro pastor. -D’ahi a curto espaço, estava o adro a transbordar de povo. A noticia -chegou aos campos, e os agricultores ergueram mão da sáfra, e accorreram -ao presbyterio. - -Feita a entrega de livros e utensilios da igreja, padre João sahiu ao -adro, e disse: - -—«Meus amigos, como no pouco tempo, que vos parochiei, não houve espaço -de mostrar meus vicios, saio de entre vós sem deixar má nota, escandalo, -ou desamor. Como fostes rebanho de um pastor santo, que me antecedeu, -achei-vos doceis, bons e virtuosos. Edifiquei-me entre vós, e aprendi a -crer na influencia de um bom parocho. Creio que a vontade do Altissimo é -que os vossos pastores no futuro não destruam as boas obras dos passados. -Elles semearam; vós sois o fructo, e de vós hão de fructear mais -gerações. E, por isso, é fé minha que o vigario novo terá o espirito dos -antigos. Sêde com elle o que fostes comigo. Ficai com Deus.» - -Os ouvintes abraçaram-o em tropel, debulhados em lagrimas; e elle, -ensopando com as suas a manga da batina, encostou-se ao hombro de -Ladislau, e caminhou para Villa Cova. - -Á mesma hora, Ruy de Nellas, humilhado pela consciencia na batalha com o -orgulho, escrevia ao procurador, mandando-o que fosse ao paço episcopal e -encarecidamente solicitasse o pôr pedra sobre o processo contra o padre -vigario de S. Julião da Serra, e levantar-se a suspensão. E desculpava a -mudança de seu animo, com ter-se lembrado que déra verbalmente a licença, -e o padre, em virtude d’isso, procedera regularmente. Encarecia em termos -afflictos os seus escrupulos e remorsos, pedindo a maxima brevidade no -levantamento da suspensão, e retirada do novo vigario. - -Ora vejam que alavanca de ferro a prostrar um soberbo, foi a humillima -carta de padre João! Estas victorias dá-as o Evangelho; e as bandeiras -triumphaes são estas. Que é vencer Cezar a Pompeu, ou Scipião a -Annibal? Que é Roma armada avassalar o mundo? Que é Napoleão devastando -reinos e homens á frente de milhões de escravos? Dobrar o orgulho de -um homem, quando se lhe pede perdão d’um inventado aggravo, isso sim -é que é vencer. Qual philosopho, antes do divino Christo, ensinou a -citar ao tribunal do juiz supremo a consciencia d’um mau, e fazêl-o ahi -accusar-se, dobrar-se, condemnar-se, e reparar o ruim feito, a affronta, -a injustiça? - -Alguns dias passados, padre João Ferreira era restituido á posse da -igreja, visto que ulteriores informações abonaram a regularidade do -matrimonio accusado indevidamente. - -O povo da freguezia exorbitou da sua costumada prudencia, saltando -por cima das admonendas do seu vigario. Os mais enthusiastas fizeram -fogueiras como em noute de S. João, e correram a freguezia com esturdias -instrumentaes, e foguetes de lagrimas. Cotizaram-se seis lavradores -abastados para celebrarem o successo, n’um aprazado domingo, mandando -fabricar um balão na Guarda, e comprar na botica os ingredientes -para a ascensão, com grande copia de girandolas e quantas invenções -pyrotechnicas se achassem na Guarda e Vizeu afóra a musica de Pinhel. O -vigario empenhou rogos e authoridade em demovêl-os; porém, como os visse -inquebraveis no intento, chamou elle artificiosamente a si o dinheiro -destinado ás festivas despezas, obrigando-se a fiscalisal-o do melhor -modo. - -Chegou o domingo aprasado. Logo de madrugada os lavradores foram á -residencia do vigario a tomar conta dos objectos que deviam ter chegado -no sabbado. Padre João mostrou-lhes uma arca de pinho, e disse: - -—O balão, que ha de chegar ao céu, já ali está n’aquella arca. - -Os lavradores quizeram vêl-o mas o padre differiu para as onze horas -desencaixotar o balão que havia de chegar ao céu. - -—E os foguetes?—perguntaram elles. - -—Tambem chegam logo, e hão de ser todos de lagrimas. - -—E a musica? - -—Vem tambem; e ha de ser musica de anjos. - -Os parochianos encararam-se mutuamente e murmuraram: - -—Anda aqui marosca!... - -No fim da missa do dia, por volta de onze horas, o vigario assomou no -arco da igreja, tirou de entre os colchetes da batina um papel, onde -eram inscriptos os nomes de doze velhos pobres e doentes da freguezia. Á -proporção que os ia chamando, os velhinhos sahiam de entre a multidão e -collocavam-se em frente do vigario. - -Chamado o duodecimo, que subiu amparado por dous netos, o padre mandou -conduzir da sachristia para o arco da egreja a arca de pinho, que os -lavradores tinham visto na casa parochial. Abriu elle a caixa, e foi -tirando e repartindo por cada um dos doze pobres uma roupa inteira de -pantalona, colete, e véstia de saragoça. Os velhos recebiam com mãos -tremulas a esmola, e murmuravam palavras de benção, e alimpavam os olhos -turvos de lagrimas para verem o seu remedio do proximo inverno. Finda a -repartição, o vigario, procurando com os olhos os lavradores cotisados -para a funcção, disse-lhes: - -—Aqui está, meus amigos, o balão que chega ao céu; ali tendes no rosto -d’aquelles anciãos invalidos e doentes, as lagrimas, que são lagrimas de -graças ao Senhor e de gratidão a vós. Haveis de confessar que as lagrimas -dos foguetes são menos brilhantes e consoladoras. Quanto á musica, -dir-vos-hei, meus bons amigos, que os anjos do céu assistem com suas -musicas a esta vossa festa. Se fiscalizei mal os vossos trinta e seis mil -réis, accuzai-me para eu vol-os repôr. - -Disse, e logo um, e todos os lavradores lhe foram beijar a mão; e os -pobres, a não serem retirados brandamente, iriam beijar-lhe os pés. - -Ao meio dia em ponto, no sobrado da residencia, estava posta uma mesa -com treze pratos. Na cabeceira sentou-se o vigario, e os doze pobres já -lavados e vestidos, lateralmente. O jantar viera cosinhado de Villa Cova: -o bodo aos pobresinhos fôra devoção de Peregrina. - -Ladislau e sua mulher serviram os convivas, um de cada lado, já partindo -em pequeninos bocados a ração de cada pobre, já ministrando-os á bôcca -do mais intrevado que se não servia de suas mãos. - -Em redor da meza, de pé, silenciosos, e com que arrobados n’aquelle -espectaculo santo, estavam os principaes lavradores da freguezia. Por -vezes, uma ou outra voz, mal desabafada das lagrimas, murmurava: - -—Louvado seja o Senhor! - -E, cada lavrador enxugava os olhos. - -Concluido o jantar, ergueu-se o sacerdote, e deu graças a Deus, em voz -alta; e, ao sahir da meza, proferiu estas palavras: - -—Louvemos o Altissimo porque nos deu coração para sentirmos as alegrias -da caridade. Esta virtude, que commove até aos prantos consoladores é a -sombra dos contentamentos da bemaventurança. Meus amigos, a vossa festa -acabou; mas eu espero em Deus que haveis de vêl-a continuada no céu. - - - - -IX - -D. Alexandre é espalmado - - -Decorreram dez mezes sem successo digno de menção, a não ser o nascimento -do primogenito dos bemaventurados de Villa Cova. Recebeu na pia baptismal -o nome de seu avô, sob cuja egide os paes o offereceram. Foi padrinho -o vigario, e madrinha D. Christina, representada pela velha Brazia, a -creada octogenaria, que já não morre sem o contentamento de pôr as mãos -no neto do santo, que ella conhecêra creança. E, com este espiritual -parentesco, pagou Ladislau os setenta annos de companhia da sua serva. - -Casimiro Bettancourt cursava o primeiro anno mathematico, e era furriel -de infanteria. Continuava a viver retirado da mocidade, excepto -d’aquelles que o procuravam como auxiliador na interpretação de suas -lições. - -Um d’estes disse-lhe, uma vez, que, no curso de leis, andava um rapaz -provinciano, que detrahia publicamente Casimiro Bettancourt. - -—Que diz elle de mim?—perguntou Casimiro. - -—Miserias... - -—Que são miserias? - -—Diz que tu és sobrinho de um carpinteiro. - -—Isso é verdade: sobrinho de um honrado carpinteiro. Que mais diz? Vamos -ás _miserias_... - -—Que roubaste a senhora com quem és casado. - -—Tambem é verdade. Fugimos para nos casarmos. Que mais? - -—Diz que pagaste assim indignamente os beneficios que devias ao pai -d’ella. - -—Não procedi bem; mas todo o homem de coração me ha de absolver. Como não -a amei nem a raptei por ella ser rica, e não vivo nem pretendo viver do -patrimonio d’ella, a minha dignidade é invulneravel. - -Isso não diz elle... mas eu ainda te não disse quem elle é... - -—Já sei: é D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça. - -—É isso. - -—Que diz elle em contrario do que eu affirmo? - -—Que tu vives do producto das joias, que tua senhora subtrahiu ao pai. - -—Mente!—disse serenamente Casimiro, e accrescentou:—Não quero ouvir mais. -Ouviram-lh’o muitas testemunhas? - -—No botequim da Rua-larga. Eramos mais de vinte rapazes, e passavas tu -n’essa occasião. - -—Se desejas servir-me... - -—Se desejo!... Quebro-lhe a cara, se isso te apraz. - -—Não, meu amigo. Eu sou um homem como elle. O que eu te peço é que tomes -nota das pessoas que ouviram a calumnia, para mais tarde pedires a -presença d’ellas. - -—Facilmente: eu te digo os nomes... Eram... - -—Escuso. Basta que tu saibas. São horas de estudarmos a lição. - -E abancaram tranquillamente. - -Volvidos oito dias, Casimiro Bettancourt disse ao condiscipulo: - -—Amanhã é sabbado. Peço-te que reunas ás seis horas da tarde, no botequim -da Rua-larga, os teus amigos, caso aconteça lá ir D. Alexandre de Aguilar. - -—Vai sempre: das oito horas em diante está embriagado. - -—Com tanto que não o esteja ás seis... - -—Isso é raro. Quando o está ás seis, é porque já se tinha embriagado ás -tres. - -—Optimo! Espera-me lá. - -Este dialogo correu na alamêda fronteira á casa. O academico escondia-se -de sua mulher. - -No seguinte dia, disse Casimiro a Christina: - -—Depois de jantar, vou ver um condiscipulo doente. É a primeira tarde que -passas sem mim, filha. - -—É verdade!... - -—Mas não has de soffrer, não? A saudade é uma companhia. - -—Dizes-me isso com ar tão triste, Casimiro? - -—É a saudade, minha querida! - -—Pois não vás. - -—Prometti ir; mandei-lhe dizer que ia... - -—Deixa-me ver os teus olhos...—exclamou ella aproximando-se de golpe. - -—Que tem os meus olhos?! - -—Lagrimas! tu choras, Casimiro! - -—Não... - -—Um segredo! um segredo para a tua Christina! - -—Serei eu um fraco!—disse elle como a si proprio, imaginando-se sósinho. - -—Fraco por chorar? Se não tens razão, és... mas tu, Casimiro, nunca assim -te vi!... Não sahirás hoje mais... juro-t’o. - -—Não jures, filha, que hei de sahir... - -—E dizes-m’o assim com esse imperio!? - -—É a honra... - -—A honra!... Tu não vaes ver um condiscipulo doente. - -—Não. Menti-te, Christina. Perdôa-me. - -—Pois que é?!—atalhou ella sobresaltada. - -Casimiro relatou exactamente o facto descripto, mostrou umas cartas -recem-chegadas de Villa-Cova, e perguntou: - -—Devo ir, Christina? - -—Vai!—exclamou ella—Vai, já que eu sou mulher! - -E momentos depois, porque era mulher, abraçou-se n’elle, e soluçou: - -—Ó Casimiro!... - -—Quê, filha? - -—Sê prudente, sim? - -—Recommendas-m’o a mim?! Não viste que eu soffri oito dias, em silencio, -a affronta!? - -E desprendeu-se dos braços d’ella. - -Entrou no botiquim da Rua-larga com tão pacato semblante, como se ali não -fosse para mais que aligeirar as horas felizes da mocidade. - -Os que o conheciam encararam em D. Alexandre de Aguilar. - -O fidalgo de Miranda não conhecia Casimiro. Viu aquelle sugeito fardado -de infanteria 6, e disse: - -—Isto é já botiquim de soldados? - -—É um academico: o primeiro premiado de mathematica. - -—É aquelle—ajuntou outro—de quem tu contaste as proezas casamenteiras. - -—Ah! o sobrinho do mestre Antonio! lá me quiz parecer que devia ser -furriel. - -Isto fôra dito, muito á puridade, aos circumstantes, que não se riram. - -O amigo de Casimiro aproximou-se da meza e disse-lhe: - -—Estão todos. - -—D. Alexandre como visse esta aproximação, ponderou: - -—Elles conhecem-se?!... Quem é este academico, que lhe falla? este que -chamam Vilhena? - -—É filho segundo de uma casa distincta de Braga. - -—Cuidei que fosse filho primeiro de algum chapeleiro de Braga... - -Casimiro pagou a chavena de café, ergueu-se e foi a passo mezurado á -banca de D. Alexandre. - -O fidalgo encarou n’elle, e logo nos circumstantes, como quem diz: «que -quer o tolo?!» - -E os academicos que, formavam cerco á meza, abriam fileiras ao lado, -arrastando os bancos. - -Bettancourt fez um gesto cortez aos rapazes, e disse: - -—O senhor D. Alexandre de Aguilar conhece-me? - -—Se o conheço... - -Casimiro fez um gesto de cabeça affirmativo. - -Conheço-o de o ver agora ahi, e dizerem-me quem o sr. é. - -—Que sabe o sr. da minha vida?—tornou Casimiro. - -—Que sei da sua vida?! - -—Dispensemos o ecco, sr. D. Alexandre. Quem pergunta sou eu. Que sabe da -minha vida? - -—E se eu lhe disser que não lhe dou satisfações? Agora sou eu quem -pergunta. - -—Respondo-lhe que o sr. é um infame, e depois arranco-lhe a lingua. - -O fidalgo Alarcão Parma d’Eça ia a dizer o quer que era, e engasgou-se. - -Casimiro Bettancourt continuou no mesmo tom de serena conversação: - -—Disse v. ex.ª que eu era sobrinho de um carpinteiro. Disse verdade. -Que eu raptara uma senhora, cujo marido sou. É certo. Ajuntou que eu -estava vivendo das joias, que minha mulher roubára a seu pai. Mentiu. -Vejo que esta palavra não inquieta grandemente o sangue azul de v. ex.ª -Ainda assim, quero imaginar que o sr. D. Alexandre me pede provas da sua -aleivosia. - -Tirou Casimiro do bolço interno da fardêta duas cartas. Abriu a primeira, -lançou-a sobre a meza, e disse: - -—Conhece essa lettra? - -—Conheço—respondeu D. Alexandre—é de meu tio Ruy de Nellas Gamboa de -Barbedo. - -—Pai de minha mulher—ajuntou Casimiro, voltando-se aos academicos -circumpostos; e fallando para elles, continuou: - -—Como eu soubesse que o sr. D. Alexandre me alcunhava de receptador dos -furtos de minha mulher, escrevi a um homem de bem, pedindo-lhe que se -apresentasse ao sr. Ruy de Nellas, meu sogro, perguntando-lhe se sua -filha, no acto da fuga, subtrahira de casa algum objecto de valor, e -o declarasse por escripto. Esta segunda carta é a resposta da pessoa -encarregada; e diz: - -«O correio só dá tempo a dizer-lhe que o sr. Ruy de Nellas, apenas me -ouviu, e escreveu a declaração que contheuda remetto, e mostrou-se -espantado de que a calumnia propale o que elle nunca disse; e de o não -ter dito m’o jurou pela alma de sua mulher, e honra de suas filhas. Sem -mais. Seu amigo, _P. João Ferreira_.» - -—Leia-a agora o sr. D. Alexandre a declaração de seu tio. - -—Leia-a o senhor!—bradou com grande esforço de falsa coragem o -calumniador esmagado. - -—Leia-a!—tornou Casimiro com um lançar de olhos fulminante. - -O fidalgo tomou o papel nas mãos convulsas, e deixou-o logo cahir. - -—A covardia cega-o!—disse Casimiro sorrindo—Algum dos cavalheiros tem a -bondade de ler? - -O mais chegado de D. Alexandre leu o seguinte: - - «Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro que minha - filha Christina Elisiaria, não subtrahiu de minha casa valor - algum, nem os seus proprios vestidos e adresses, quando fugiu - para casar-se com Casimiro Bettancourt. E por isto ser verdade, - mui espontaneamente, e com juramento aos santos Evangelhos o - declaro agora e sempre. Pinhel, 22 de abril de 1839.—_Ruy de - Nellas_, etc.» - -—Está reconhecida a assignatura?—disse Casimiro. - -—Está—respondeu o estudante, que lera—E quando não estivesse já o -sobrinho a tinha reconhecido. - -—Isso não valia nada—tornou o furriel.—Nenhum dos cavalheiros prestaria -fé ao reconhecimento do sr. D. Alexandre de Aguilar. Declare, pois, o sr. -D. Alexandre que mentiu infamissimamente e offereça a cara para que todos -lhe cuspam n’ella. - -O fidalgo ergueu-se, e bramiu: - -—O senhor!... - -—Que mais?—perguntou Casimiro. - -—Insulta-me? - -—Não. Obrigo-o a sentar-se, que me incommoda vel-o de pé. - -E, dizendo, baixou-lhe no alto da cabeça uma palmada, que effectivamente -o fez apoiar-se sobre as ilhargas. - -E, voltando-se com rosto faceto aos academicos disse: - -—O espectaculo foi feio, que o miseravel não dá sequer um soffrivel truão -com medo. Agradeço a attenção dos cavalheiros, mórmente com o sobrinho de -um carpinteiro, que, por não ser nobre tem vontade de ser honrado. - -Sahiu do botiquim acompanhado de quasi todos os estudantes. Os poucos, -que ficaram como petrificados, por não saberem que dizer a D. Alexandre -de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça, retiraram-se cabisbaixos. - -Casimiro estugou o passo, caminho de Santo Antonio dos Olivaes, e -encontrou a esposa anciada, fóra de casa. - -Contou-lhe, sem fatuidade, o essencial do acontecido, e reservou o facto -da monumental palmada na cabeça. O delicado moço julgou melindrar sua -mulher, dizendo-lhe que castigára com a mão um seu parente. - -Foi o successo estrondosamente contado e applaudido em Coimbra, tanto -porque era de razão applaudil-o como por ser no tempo em que a mocidade -academica, popular e burgueza na maxima parte, desadorava os fidalgos -castellãos, e não perdia lanço de os metter a riso. - -D. Alexandre, no dia seguinte, foi para Miranda, em busca de romanso e -solidão para pensar na vingança de covarde, que não podia já ser de outra -natureza. - -Vamos no rasto d’este reptil. - -O extraordinario da chegada do estudante, quando as aulas estavam abertas -e os actos não começados, devia ser de algum modo explicado a D. Sueiro -e á parentella alvorotada. Contou elle que tinha tosse; e o caso foi que -tossiu. O medico da casa apalpou-o, auscultou-o, e decidiu-se pela tosse, -em concordancia com a faculdade medica de Coimbra, que mandára a ares -patrios o mancebo, ameaçado de coisa séria. Em verdade, a pertinacia da -embriaguez reduzira D. Alexandre a um viver morbido, asthenico, e analogo -ao do ethico; e já não admira que a palmada capital do sadio Casimiro o -fizesse sentar. - -Suppunha D. Sueiro que o casamento de Christina era muita parte na -doença do irmão, e curava de remediar o mal de amor com os amores novos -da cunhada que tinha em casa, galante menina, Mafalda de nome. Era a -vigessima nona Mafalda n’aquella familia de Pinhel. Entrando n’este -numero a santa infanta Mafalda, fundadora do mosteiro de Arouca, irmã -de D. Affonso II, que tambem era da familia, pelos modos, e sem duvida -nenhuma. - -Se a menina o amava não sei, nem averiguei, por ser demais na pauta -d’este escripto; o que me consta é que D. Alexandre, tão adentrado -estava com os seus calculos de vingança, que não dava pela prima, nem se -lisongeava do seu amor. - -A unica pessoa de Miranda, com quem se abria o fidalgo, era um desertor -de cavallaria, muito dos Alarcões, especie de molosso da casa, sob cujas -telhas estava a seguro. - -As intelligencias de D. Alexandre com o desertor são obvias; curava de -comprar-lhe o braço vingador; mas, tão em segredo, que nunca viesse á luz -a sua segunda ignominia. - -Conchavaram-se de barato. D. Alexandre daria ao desertor basta quantia -a transportal-o ao Brasil, e o desertor, em mesquinha paga de tamanho -beneficio, mataria Casimiro Bettencourt. - -N’este accordo, pediu D. Alexandre ao morgado que lhe deixasse levar -como creado o desertor, visto que a plebe academica se bandeara contra -os estudantes fidalgos e devotos da causa vencida. Annuiu promptamente -o irmão, contente de vêr que D. Alexandre recobrava côres, e olvidara -Christina. - -Abertas as aulas voltou o moço á Universidade, com o seu vingador, por -tal arte disfarçado, que dava de si um rustico cavallariço, incapaz de -fazer mal a folego vivo. - -Os amigos dos annos anteriores fugiam-lhe, e novos nenhum lhe apertava a -mão. O opprobio do fidalgo era ainda materia de ociosos, revivido com a -sua presença. - -Preoccupava-o a traça de fazer conhecido Casimiro ao seu matador: cousa -não facil na multidão de mil e tantos moços, entre os quaes raro se via o -solitario de Santo Antonio dos Olivaes. - -O solicito confidente de D. Alexandre tomou sobre si o encargo de -conhecer Casimiro, e esperava tiral-o pelas feições que lhe vira em -Pinhel, quando elle era mocinho de quinze annos. - -N’este intento, foi como de passeio a Santo Antonio dos Olivaes; e, logo -por fortuna, ao dobrar o combro de uma azinhaga, viu um sujeito de farda -militar com uma senhora pelo braço. - -—Cá está o homem!—disse entre si, e deteve-se a examinal-o, sem attentar -em Christina, que o examinava a elle. Casimiro, por sua parte, nem deu -tento do reparo do caminheiro. - -Ora, Christina tinha visto aquelle homem em Pinhel, recebêra da mão -d’elle uma carta de D. Alexandre, e lembrava-se de ter ouvido dizer ao -primo D. Sueiro que aquelle soldado de dragões era o seu guarda fiel, e -com elle iria ao inferno atacar Satanaz. - -O desertor, porém, olvidou-se-lhe Christina, e nem por sombra imaginou -ser reconhecido. - -A senhora estremeceu... e duvidou. Já elle se havia sumido, quando ella -disse: - -—Acautella-te, meu filho! - -—De quê? - -—Vi agora um creado dos de Miranda... Não póde deixar de ser elle... Veio -com o Alexandre, e anda a espreitar-te. - -—Que tem isso, Christina? - -—Tem, que elle é um malvado... Ai meu Deus! d’aqui em diante não tenho -momento de socego! Queres que nos vamos embora d’este ermo? Aluga casa na -cidade. Pódes ser assaltado no caminho. Tu és valente, meu Casimiro; mas -d’uma traição ninguem se livra! - -—Os prevenidos livram-se—atalhou Casimiro.—Não vejo causa para mêdo; mas, -se has de viver inquieta, mudemos, filha. - -—Sim: faz-me isso, que é annos de vida que me poupas! - -Andava Casimiro em procura de casa, quando recebeu a seguinte carta de -Ladislau: - - «Meu compadre. Vai ser surprehendido com a minha petição, á - qual subscrevem minha mulher e meu cunhado. Logo que esta - receber, metta-se a caminho com a sua senhora, e venham - direitos á sua casa de Villa Cova. Iremos os tres esperal-os - a meio caminho. Perder um anno da Universidade não faz - implicancia á sua futura sorte, se ella tem de ser boa. - Esperamol-os; porque não posso acreditar que meus compadres - faltem ao seu _Ladislau_.» - -Casimiro leu, e disse: - -—Vamos, e vamos hoje. - - - - -X - -A victoria d’uma creancinha - - -D. Mafalda de Nellas, voltando de Miranda a Pinhel, trazia a -escalavrar-lhe o coração o espinho do despeito. Isto não induz a -liquidarmos que a menina amasse o primo D. Alexandre. O despeito das -senhoras basta a explical-o a indifferença mesma dos homens que ellas -desamam. - -Como quer que fosse, Mafalda saira de Miranda, odiando o cunhado de sua -irmã, no dia seguinte ao da ida d’elle para Coimbra. - -Eis aqui o que ella contou ao pai, logo que chegou: - -—Estava eu n’uma das grutas da quinta, quando o primo Alexandre, -sentando-se, sem me vêr, nas costas da gruta, deu um grande assobio. -Fez-me curiosidade aquillo, e estive quieta para vêr o que sortia d’ali. -Pouco depois, chegou um homem de grandes barbas, que eu já tenho visto em -nossa casa, em companhia do mano Sueiro. - -—Bem sei, o desertor—atalhou o pai. - -—É isso: eu já tinha ouvido lá dizer á mana, que elle era desertor. - -—E depois? - -—Depois o primo, assim que elle chegou, disse-lhe:—Olha que vaes commigo -para Coimbra. Está decidido—e o desertor respondeu: «Pois isso é que é -preciso!»—Mas vê se aparas essas barbas, que tens cara de facinora—disse -o primo—eu tenho medo que, em apparecendo morto o Casimiro, todos digam -que foi obra do meu creado.—Eu quando tal ouvi comecei a tremer, e tive -medo d’aquelle homem! Quiz dizel-o á mana Guiomar; mas ella falla tão -mal do Casimiro e da mana Christina, que julguei imprudente dizer o que -ouvira. - -—E depois?—atalhou o velho com inquietação. - -—Depois, estiveram a fallar em facadas e tiros. E o desertor dizia: «são -dous palmos de ferro, fidalgo.» E tirou da algibeira uma navalha, que -relusia, e tamanha, meu pai, como eu nunca vi! Ainda disseram mais coisas -que não me lembram, e foi cada um para seu lado. Ó papá, elles irão matar -o marido da mana Christina? Coitado!... por que é que o matam? - -—Dá me papel e tinteiro, e um creado que apparelhe o macho para ir -immediatamente a um recado. - -Ruy de Nellas escreveu esta carta. - - «Sr. Ladislau. Sei que alguem intenta matar em Coimbra o marido - de Christina. Ha tres dias que para ali partiu o assassino ou - assassinos. Avise-o como seu amigo, para que se acautelle, ou - se retire. Eu aborreço os infames, e as vinganças covardes: - por isso me apresso a participar-lhe este plano, que oxalá não - esteja executado, quando chegar a sua carta. Espero em Deus que - não. Do seu amigo, _Ruy de Nellas_.» - -O creado partiu a toda a brida. - -Ladislau leu a carta em suores frios. Escreveu duas linhas de -agradecimento a Ruy, e preparou-se para ir a Coimbra. Acaso entrára o -vigario, e, lendo a carta, impediu de ir, allegando que o correio chegava -primeiro. - -Padre João e seu cunhado, sabiam os successos de Coimbra, e, sem se -consultarem, nomearam D. Alexandre. - -—Casimiro está vivo—disse com firmeza o padre. - -—Quem n’ol-o assevera?!—perguntaram Peregrina e Ladislau. - -—É o raciocinio. Alexandre é incapaz de matar de rosto ou á traição. -Precisamente leva um sicario assalariado que eu conheço ha dez annos. Os -faccinoras por estipendio são muito covardes, porque amam tanto a vida -que, para sustental-a se expõem a perdel-a. Se D. Alexandre offendido -vergonhosamente carece de animo para se desaffrontar, devemos crêr que -ao carnifice alugado falte a coragem para accommetter o homem que o -não offendeu. Além de que eu vou jurar que Casimiro se prepara contra -as insidias do seu inimigo, e terá só de pelejar com um homem. Sobre -todas essas conjecturas, roguemos a Deus pela vida do nosso amigo, e -escreve-lhe a chamal-o em termos, que não assustem Christina. - -Escreveu Ladislau a carta copiada no anterior capitulo; e, no dia -seguinte, sahiram de Villa Cova, e, á segunda jornada, pernoitaram em -Gouvea. Dous dias depois chegaram Casimiro e Christina. - -A esposa de Ladislau, para abraçar sua comadre, pousou sobre o leito a -creancinha que lhe adormecêra ao seio. - -Christina, porém, como se não visse o fervor da amiga, ajoelhou á beira -do leito, e beijou soffregamente o menino, que sorria aos affagos de -algum anjo. Era bello de verem-se todos cinco, em redor da creança, como -se para outro fim se não reunissem! Parece que ella lhes estava dizendo: -«Distrahi vosso espirito de dores, que eu estou pedindo a Deus que vos -defenda.» - -Peregrina pôde furtar as caricias de Christina, tomando-a para si com -força. - -—Estava a invejar-te, minha comadre!—disse a esposa de Casimiro—mas olha, -não devo invejar-te, não!... - -E disse-lhe ao ouvido breves palavras, explicadas pela exclamação de -Peregrina: - -—Sim? e não m’o tinha dito!... que ditosas seremos com os nossos -filhinhos! - -O vigario sorriu-se, e murmurou: - -—Não ha creanças mais creanças que as mães! Estas alegrias raras vezes -lh’as recomeçam depois os filhos!... - -Casimiro concentrou-se tristemente, e Christina disse: - -—Não fallem em mãe diante de meu marido, por quem são! - -—Fallem, fallem—disse Casimiro—que eu tenho de encontral-a no ceu pelo -muito que a desejei n’este mundo. - -E, tomando o braço de Ladislau, chegou a uma janella, e perguntou: - -—Que é isto? Que significa esta chamada? - -—Não m’o pergunte diante de sua senhora. - -—Porque não? ella é forte. Se um dia me fraquearem os esteios da honra, -minha mulher ha de fortalecer-m’os. Diga, meu compadre. - -Ladislau mostrou a carta de Ruy de Nellas; e Christina, ouvindo-a ler, -exclamou: - -—Não te disse eu?... Era o desertor ou não? - -—Era o desertor—respondeu o vigario. - -—Pois sabia?—acudiu Christina. - -—Disse-m’o a razão e a pratica dos _valorosos barões_ de Miranda. V. ex.ª -viu-o? - -—Vi: mostrou-m’o o nosso anjo da guarda!... E meu pai é que te avisa, -Casimiro! Quem me déra poder beijar-lhe a mão! - -—Seu pai é um homem de bem ás direitas, minha senhora—disse o -vigario—Seria um modêlo de virtuosos, se os preconceitos de raça o não -molestassem. Porque não ha de v. ex.ª ainda beijar-lhe a mão? Esperemos. - -—E agora?—disse Casimiro—que querem de mim? Será airoso que eu me vá -esconder a Villa Cova das iras de D. Alexandre? - -—É dever de marido e pai fugir o perigo—disse Ladislau—Sabemos que lhe -sobra animo; porém agora, quer-se e requer-se que o coração seja maior -que o animo. Sua senhora manda; o vigario aconselha; e minha mulher e eu -rogamos. Falta-lhe paciencia para viver alguns mezes na tristonha casa da -serra? É assim ingrato áquella terra agreste onde desabrocharam todas as -flores da sua felicidade, meu compadre?! - -—Ó meu amigo, meu generoso irmão!—exclamou Casimiro, nos braços de -Ladislau—Vamos, vamos para Villa-Cova. Lá sei eu que tenho segura a vida, -a alegria, e sempre viçosas as flores de felicidade, que se abriram no -seu nobre coração, e para mim! Não é covardia fugir. Covardes são os que -não tem uma esposa, e fogem; covardes são os que não tem amigos como -vós, e fogem! - -—E no filhinho não fallas?—disse Christina sorrindo-lhe com incantadora -meiguice. - -—Não o disse eu!—acudiu o vigario—Agora, quer s. ex.ª que todo o coração -de seu marido esteja embebido do futuro filhinho! Valha-vos Deus, mães -loucas do amor de vossos filhos, que sois capazes de ceder do coração dos -maridos em beneficio dos pequerruchos, anjos purissimos a quem basta o -bafejo do Senhor! - -N’estas doces praticas, que eu, a mêdo, submetti á benevolencia do -leitor, se passaram as horas do descanço, até ao repontar da alva, em que -proseguiram sua jornada. Lá vão os felizes, escoltados por suas mesmas -virtudes. - -Entretanto, recebeu D. Alexandre de Aguilar a nova de ter sahido de -Coimbra Casimiro Bettancourt, e o mesmo foi assoalhar, mediante alguns -necessitados de sua recheada bolça, que o furriel se evadira, sabendo -que ia ser desafiado a duello de morte. Correu o boato, justificado por -circumstancias: a precipitação da sahida, o estarem abertas as aulas, -o ignorar-se o intento da retirada, o ter dito Casimiro, na vespera, -que procurava casa em Coimbra, tudo induzia a crer a atoarda molesta á -reputada intrepidez do militar. - -A _Vedeta da Liberdade_, jornal portuense, publicou uma correspondencia -de Coimbra, em que se dizia em grypho: _que um estudante militar, -appellidado Bettancourt, fugira com a mulher para se não bater com -D. Alexandre de Aguilar, academico brioso, a quem, no anno anterior, -insultára_. E accrescentava: _O tal militar é avezado a fugas: uma vez -fugiu com a filha d’um nobilissimo cavalheiro, onde seu tio carpinteirava -agora; fugiu com as costellas incolumes, porque o tio carpinteiro não -sabe endireitar costellas quebradas._ - -O jornal appareceu em Villa Cova subscriptado, a Casimiro de Bettancourt. - -Casimiro leu a correspondencia em voz alta. - -E Ladislau perguntou: - -—Que é isso? - -—É uma gazeta—disse o vigario. - -—Uma gazeta?—reperguntou Ladislau. - -—Sim. - -—Mas... (desculpem a minha ignorancia...) como se faz isso? - -—Isso que, meu irmão? - -—Como se estampam esses insultos? - -—Estampam-se. - -—Então...—estou confuso, e vejo que me não percebem...—as gazetas servem -de insultar? quem quer infamar alguem vai a casa do homem, que tem esse -modo de vida, e diz-lhe: «imprima lá esse insulto», é isto? - -—É isso—illucidou o padre—com o accrescento de que o dono do jornal -recebe tanto por linha do insulto publicado. - -Ladislau ergueu-se com nunca visto impeto de furia, e exclamou: - -—Então isso é infame! e a civilisação que isso consente é a barbaria, é o -escarneo de Deus e das leis de nosso paiz! - -Casimiro sorriu, e disse: - -—A indignação de meu compadre tem graça!... A que distancia este bom -rapaz vive do mundo culto! Quer elle, talvez, que a civilisação esteja -em Villa Cova, e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta, meu -querido amigo, tem outra face, que o sr. vigario lhe não mostrou, e é -que, se eu quizer insultar d’aqui D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono -da gazeta me vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto; e, -no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor de D. Alexandre e -meu. O dono d’este papel é como a estatua em que Aretino fixava as suas -vaias aos reis e aos papas, n’um tempo em que papas e reis eram cousas -sacratissimas e inviolaveis. Agora, que não ha nada defêso, com que -direito me hei de eu queixar? Não me alistei eu no exercito que defende -as instituições livres?! Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca -do progresso, chamada nem mais nem menos que «Vedeta da liberdade»! Os -homens livres passam deante da estatua de Pasquino, e descobrem-se. Assim -como a discussão racional e illustrada aclara as escuridades e aplana os -empeços da ideia util, por igual razão as injurias á pessoa, os ataques á -moral de cada individuo servem de o abrir, á luz da analyse, e ver tudo o -que elle lá tem dentro do coração e consciencia. A licença da imprensa é -uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros de lama. Das chammas -do auto-de-fé sahiram almas purificadas, no crer de alguns theologos; e -da alma da imprensa desbragada devem sahir as consciencias lavadas, no -entender de alguns legisladores. Sejamos do nosso tempo, meu compadre. - -—Pois, sim—disse Ladislau—mas deixe-me render louvores a Deus por me ter -dado o nascimento n’estas serras! Eu não cuidei que era assim o mundo. -N’este ultimo anno quantas paixões más que eu não conhecia! Meu mestre -decerto as ignorava; senão, ter-m’as-ia dito. Os meus livros tambem m’as -não disseram... - -—É por que os seus livros são bons—atalhou Casimiro Bettancourt—A -corrompida sociedade da Roma imperial não tinha gazetas; mas tinha -historiadores e poetas. Se meu compadre os ler, imagina que maus -inventores o querem deleitar com fabulas hediondas. O homem foi sempre -mau; será mau até ao fim. A sociedade parece melhor do que foi, olhada -collectivamente: é parte n’isto a lei, e grande parte o calculo. -Cada individuo se constrange e infrea no pacto social para auferir -as vantagens de o não romper: porém, o instincto de cada homem, em -communidade de homem, está de continuo repuchando para a desorganisação. -Eu acceito, como puros os corações formados na solidão, a não se dar a -segunda hypothese do proverbio, que disse: homem sósinho, das duas uma: -ou Deus ou bruto[4]. Melhor seria dizer, com Santo Agostinho, ou anjo -ou demonio. Ladislau formou-se aqui, rescende virtudes extraordinarias; -mas, se fôr ás cidades, á feira dos vicios, sentirá coar-lhe um veneno -corrosivo nas entranhas; e, a meia volta, perderá de vista a benigna -estrella d’estas suas montanhas. Ó meu amigo, não se alongue do seu -paraizo! não queira saber que nome tem, a dez leguas da sua aldeia, o que -meu compadre chama dever, civilisação, amor, caridade e Deus. - -Os gosos da vida domestica aligeiravam os mezes da inactividade de -Casimiro. Ao quinto de residencia em Villa Cova, realisou-se a ventura -saudada por Peregrina na estalagem de Gouvea: Christina foi mãi de uma -menina, que trouxe do céu o seu quinhão de felicidade, do qual todos -participaram. - -Queria o pai que Ladislau e Peregrina fossem padrinhos; mas o vigario, -consoante as velhas praxes de filhos casados contra vontade paternal, -pediu que fosse convidado o avô, por carta de D. Christina. - -Escreveu ella com humildade sem baixeza uma carta, onde se lia este -periodo: - - «É uma ternura filial que me anima a escrever a meu pai: não - é a necessidade que me obriga. Se sou pobre, ainda não tive - occasião de sentir desejos de ser rica. O perdão de meu pai é - que eu desejo e peço, se foi delicto o acto que está sendo a - minha felicidade. Quizera um dia beijar as mãos de meu pai e - dizer-lhe que tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como - esposa de Casimiro.» - -Foi lida a carta e discutida. O vigario achou duras algumas palavras -d’aquelle relanço, e pediu a illisão das palavras: «_se foi delicto o -acto que está sendo a minha felicidade_»; bem como: «_tenho tanta vaidade -em ser filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro_.» As primeiras palavras -foram substituidas: as ultimas não. Christina nem ao marido obedeceu. - -Ruy de Nellas recebeu a carta, e leu-a sem rancor até ás expressões -rebeldes á censura do vigario; mas, n’este ponto, rasgou o papel e disse -ao portador: - -—A resposta é esta: diz lá que eu é que não tenho vaidade nenhuma em ser -padrinho de um filho do sr. Casimiro. - -Tal resposta magoou medianamente a familia de Villa-Cova. - -—É soberbo!—disse Ladislau. - -—Preconceitos de raça—acrescentou o vigario. - -—Não tem outra falha a excellente alma do sr. Ruy. - -—Pois ha de ser padrinho da neta!—tornou Ladislau. - -—Que capricho é esse, meu compadre?—perguntou Casimiro. - -—Não é capricho: é batalha dada contra a soberba: havemos de amolgal-a -com a brandura. - -Na segunda dominga, posterior ao nascimento da menina, sahiu, ante-manhã, -de Villa Cova Ladislau, uma ama de leite, e a creancinha. Chegaram -a Pinhel ás nove horas, e elle entrou á igreja parochial, onde, por -informações de mestre Antonio carpinteiro, Ladislau soubera que o fidalgo -ia ouvir missa. A ama sentou-se no adro, e esperou, rodeada de meninos, -que se acotovellavam para ver o rosado rosto da baptisanda. - -Ladislau apresentou-se ao abbade, com uma carta do padre João Ferreira, e -conversaram. - -Ás dez horas tangeu a sineta á missa, e chegou o fidalgo com suas filhas, -e foram ajoelhar na alcatifa da sua capella privativa. Antes do terceiro -toque, o abbade aproximou-se de Ruy de Nellas, e disse-lhe: - -—Faz v. ex.ª a esmola de fazer christã uma creancinha? - -—Sim, abbade, pois não! - -—E de escolher a madrinha? - -—Será minha filha Mafalda. - -Chamou elle a menina, e acercaram-se do baptisterio. - -A ama entrou com a creança, chamada pelo sachristão. - -A um lado, estava Ladislau com uma tocha, escondendo-se ao lance d’olhos -de Ruy de Nellas. - -Ao descobrimento da menina, Mafalda exclamou: - -—Ai! tão linda que é!... Veja, papá! Ó manas, venham ver que perfeição!... - -—Quem são os pais?—disse o fidalgo. - -O abbade, como tivesse começado as ceremonias do sacramento, não -respondeu; e, pouco depois, perguntou: - -—Qual é o nome? - -—É o meu—disse Mafalda. - -Findo o acto, foram á sachristia lavrar no livro o assento baptismal. - -O abbade escreveu á vista dos apontamentos, e leu depois para -conhecimento dos padrinhos: - -«Mafalda, natural de Villa-Cova, termo de Pinhel, filha legitima de -Casimiro Bettancourt, natural de Santarem, e da ill.ᵐᵃ e ex.ᵐᵃ sr.ª D. -Christina Elisiaria de Nellas Gamboa de Barbedo»... - -—Como?!—exclamou o fidalgo—Como se intende isto? Que abuso foi este, sr. -abbade?! - -Ladislau sahiu do escuro da sachristia, e disse: - -—O abuso é meu, sr. Ruy de Nellas. E v. ex.ª não me castiga, porque eu -vou pôr em seus braços a creancinha a implorar o meu perdão e o de sua -mãi. - -E tomou a menina dos braços da ama, e depositou-a nos da madrinha, -dizendo-lhe: - -—Seja v. ex.ª a intercessora de sua irmã! - -—Dê-lhe um beijo, papá! rogou maviosamente D. Mafalda. - -O velho poz a mão na face da creança, e disse: - -—Não tens culpa tu, pobre innocente!... - -E o abbade continuou a leitura do assento baptismal, sorrindo, e olhando -por cima dos oculos, para ver Ruy de Nellas, que deixava chupar-lhe a -creança no dedo mendinho. - -Ao sahirem da sachristia, o fidalgo disse á ama da creança. - -—Vá lá a casa, depois da missa, mulher, e o sr. tambem se quizer. - -Ladislau fez um signal de agradecimento. - -Finda a missa, a menina foi levada a casa do avô. As quatro tias deram -inquietações á ama, temerosa de que lhe abafassem a creança com beijos. - -Entretanto, Ladislau contava a Ruy de Nellas os successos de Coimbra e os -aleives da correspondencia da «Vedeta da Liberdade». - -O velho ouviu-o em silencio; mas com ar de satisfação, em quanto aos -brios de seu genro no justo castigo de Alexandre; porém, quando soube -que as gazetas traziam o seu nome aparelhado com o do carpinteiro, -irritou-se, e clamou: - -—Quando pensei eu de andar pelas gazetas!... É o que minha filha me -arranjou!... - -Este accesso durou alguns segundos. - -Continuaram a conversar serenamente. Eram horas de partir para -Villa-Cova. O fidalgo mandou entrar a afilhada, e deu-lhe um beijo, e -duas peças á ama. - -E—caso unico!—apertou a mão do lavrador de Villa-Cova, e disse-lhe por -ultimo: - -—O tempo fará o resto. É cedo por ora! A ferida sangra ainda! - -—O balsamo do Evangelho, sr. Ruy de Nellas...—respondeu Ladislau, -sahindo. - - - - -XI - -Guilherme Lira - - -Seria ocioso, bem que alegre trabalho, contar os jubilos de Christina, -retomando ao seio a filha, que seu pai e irmãs tinham beijado. Casimiro, -homem não estranho a vanglorias, que parecem ser condição das indoles -arremessadas ás glorias uteis, folgava de ver sua filha acariciada -pelo fidalgo, cuja prosapia, o moço, nas verduras dos dezoito annos, -sinceramente invejava. Ó barro humano! - -Disse Ladislau que Ruy approvára a sahida de Coimbra, e esperava que o -anno decorrido esfriasse a vingança de D. Alexandre, estando elle de mais -a mais como vingado, fazendo crer que lhe fugia Casimiro. Era tambem -este o parecer do vigario e de Ladislau. Casimiro, ainda assim, dizia -contrariando: - -—Não, meus amigos: o odio dos fracos é inextinguivel; é a unica força, a -energia tenebrosa, que lhes deu a natureza. - -No seguinte anno lectivo, voltou a Coimbra, com maior familia, o pobre -grangeador do futuro. Doia-lhe ter de augmentar suas despezas, sahidas -todas dos celleiros de Villa-Cova. Era grande magoa para o aberto coração -de Ladislau entender em pacificar o espirito do seu amigo, fazendo-lhe -sentir que escassamente lhe emprestava uma parte das sobras de suas -colheitas. E santamente mentia Ladislau! A sua lavoura, comquanto grande, -era toda de cereaes, vendidos por baixo preço, e urgentes ao consummo e -vestir de sua familia. O que elle estava dispendendo era dinheiro antigo, -que encontrára, ouro do seculo XVI, peculio amuado ao canto do armario de -pau santo, em que seus tios padres iam annumerando algumas moedas, muitas -menos que as derramadas pela pobreza. - -Lembrava-se Christina de escrever ao pai, a pedir-lhe sua legitima -materna. Casimiro, antes que ella expendesse o seu pensamento, atalhou-a -n’estes termos: - -—Sendo preciso, iria primeiro pedir a meu tio carpinteiro metade do seu -estipendio de cada dia. - -Peregrina, sabedora do intento, revelara-o ao marido. - -Ladislau, a sós com a filha de Ruy de Nellas, queixou-se, observando-lhe -que era crueldade obrigal-o a faltar á sua palavra, tendo elle dito a Ruy -de Nellas que sua filha e marido nunca lhe pediriam meios de vida. - -Os raros amigos de Bettancourt, assim que o viram em Coimbra, -repetiram-lhe as calumnias divulgadas, fingindo não acredital-as. O mais -sincero e rude ousou dizer-lhe: - -—Déste um mau passo em fugir. - -—Não fugi. O amigo, a quem devo a minha subsistencia em Coimbra, -chamou-me, e eu fui. - -—Não devias ir, tendo sido desafiado por D. Alexandre. - -—Nunca fui desafiado. - -—Como não foste!? - -—Nunca fui desafiado; e, no caso de o ter sido, regeitaria a proposta. -Não jogo friamente a vida, que é de minha mulher e de minha filha, contra -a vida de D. Alexandre, que é um homem abjecto, nem contra a vida do -mais extremado em probidade. Nunca para mim alguem provará a sua honra, -batendo-se com victoria, nem o vencido terei em conta de deshonrado. O -duello póde significar algumas vezes coragem, mas sentença absolutoria de -um infame, nunca. - -—Mas decididamente não fugiste ao duello? - -—Offende-me a renitencia—respondeu Bettancourt molestado. - -—Desculpa, que é a renitencia de um amigo zeloso de tua dignidade. -A academia acreditou em D. Alexandre e nos propagadores do boato. -Appareceram homens a dizerem que tinham sido agentes do desafio. - -—Mentiram. - -—Mas a mentira vingou. - -—Estou resignado: já a vi impressa n’um jornal, e achei-me forte na minha -consciencia. - -—Mas a opinião publica...—voltou o academico, espicaçando, em nome da -opinião publica, o animo impenetravel do marido e pai. - -—Que queres que eu diga á opinião publica? - -—Que a desmintas: escreve uma correspondencia. - -—Não desço. - -—Descer! pois é descer acudires por tua honra!? - -—Se a consciencia me não accusa, que logro eu em constituir a academia -meu juiz? Além de que, meu amigo, eu venho estudar. Falta-me o tempo -para o util: como hei de eu ir dispendêl-o a entreter a curiosidade -publica? Diz aos teus amigos que eu sou calumniado, e elles julguem-me a -seu sabor. - -—Faz o que quizeres: dou por cumprida a minha missão de amigo. - - * * * * * - -Christina vivia tranquilla. Ladislau, que lançara espias em Miranda, -soubera que D. Alexandre sahira para Coimbra, e o desertor ficára. A nova -agradou a Casimiro, receioso dos sustos da senhora. - -Recomeçou o academico os estudos do segundo anno com fervor. Sabia que -seus mesmos condiscipulos o detrahiam, lamentando, como usam lamentar -inimigos, a nodoa da farda de um militar. O facto estrondoso do botequim -da rua Larga tinha esquecido, ou era interpretado de varios modos, todos -estupidos; que a malquerença faz timbre em ser estupida, quando não póde -ser feroz. Todavia, a frechada não lhe vasava ao coração. O pai extremoso -abroquellava-se com a filhinha, e dizia á esposa: - -—Sêde o meu mundo. Aos teus olhos sou quem sou, minha amiga. Infamam-me -lá fóra; mas diz-me tu, filha, que eu sou digno de ti. - -N’um sabbado ao cahir da tarde, passaram á Ponte, vindos da Quinta das -Lagrimas, Casimiro, e sua mulher. - -D. Alexandre de Aguilar estava sentado com numerosos estudantes nas -guardas da ponte. Ao perpassar Casimiro, o fidalgo de Miranda tossiu -aquelle grunhido peculiar do insulto. Os academicos de sua parcialidade, -em respeito á dama, abstiveram-se de acompanhar o amigo na _trossa_. - -D. Alexandre, desenfreado como costumam os covardes no momento em que -persuadem-se não o serem, disse: - -—Não se envergonha aquella dama! Que ostentação e baixeza d’alma. - -Christina ouviu. O que o amor nobre faz d’uma alma timida! Voltou-se -contra o parente, e respondeu: - -—É muito infame! - -—Silencio!—disse Casimiro, apertando-lhe convulsivamente o braço. - -D. Alexandre expediu uma cascalhada; e os academicos, indifferentes ao -conflicto, disseram-se: - -—Com effeito! é muito covarde o Bettancourt, que deixa assim insultar a -mulher! Comprehendam lá a decantada historia do botequim! - -Na extremidade da ponte, estava o academico, já conhecido por seus -dialogos com Casimiro. O marido de Christina aproximou-se d’elle e -disse-lhe: - -—Conserva-te aqui um instante ao pé de minha mulher, que eu volto já. - -—Não!—exclamou Christina. - -—Christina—disse elle com um aspecto, que a esposa nunca lhe vira. - -E caminhou ao longo da ponte, sem denotar arrebatamento na serenidade do -passo. - -Os academicos do bando de D. Alexandre disseram: - -—É elle que vem! - -O fidalgo desceu-se da guarda como quem se prepara a receber o aggressor. -Não era isso. O mêdo pesa como chumbo na região abdominal. Foi o gravame -do mêdo que mecanicamente o desceu. - -Casimiro lançou-lhe a mão esquerda á garganta, e com a direita levou-lhe -a cabeça a aresta da guarda. - -Depois como o atordoado fidalgo escouceasse os couces instinctivos da -defeza, o aggressor abarcou-o pela cintura, no proposito de o despejar -ao Mondego. Acudiram-lhe muitos, sem, comtudo, arremetterem contra o -furriel. Casimiro sentiu nas barbas mão estranha. Olhou com impetuosa -furia, e viu Christina, que punha as mãos supplicantes. Descurvou os -dedos da garganta do estudante, e deu o braço a sua mulher. Pelo ar -quieto, com que elle sahiu ao fim da ponte haviam de imaginar que o -sujeito acabava de abraçar um amigo! - -Grande parte da academia parecia andar envergonhada depois d’este -successo. Os detraidores, chamados por algum amigo de Bettancourt, a -dizerem ácerca do facto, corriam-se, e gargarejavam o desmentido, que os -suppliciava. - -O academico, mais dolorido do descredito de Casimiro, seguiu-lhe os -passos a casa, abraçou-o com transporte, e exclamou: - -—Tu és um grande homem! - -—Vem vêr minha filhinha como dorme docemente!—respondeu Casimiro. - -—Que dirão agora os calumniadores?—tornou o academico. - -—Que eu sou um assassino. - -—Um bravo! um modêlo de dignidade. - -—Como quizerem. Vem ver minha filha, se gostas de creancinhas. - -Foram. A mãi, que, uma hora antes, sentira denodo viril para aggredir o -insultador, estava agora chorando sobre as faixas da filhinha. Casimiro -aconchegou-a de si e murmurou: - -—Então? que é isso, filha? - -—Tremo pela tua vida, Casimiro! - -—Convence-te, Christina: eu não posso ser morto por D. Alexandre, nem por -assassinos de sua paga. - -O fidalgo dos Vitos Alarcões tractou da cabeça na cama uns quinze dias: -parece que o granito lhe entrou dentro obra de meia pollegada, sendo que -em tal cabeça nunca tinha penetrado cousa alguma outra. Fechada a brecha, -metteram-se as ferias de Natal, e o convalescente foi para casa. - -Ladislau, sempre attento aos passos do desertor, soube que chegara a -Miranda D. Alexandre de Aguilar, de cujo infortunio na ponte já estava -informado por carta de Christina, que incessantemente lhe pedia toda a -vigilancia sobre o scelerado. - -D. Sueiro deu logo tento da cicatriz da cabeça fraterna, e disse: - -—Levaste ou cahiste, mano? - -—Cahi do cavallo. - -—Bom tombo! ias ficando sem um olho! Estás um limpo cavalleiro, não tem -duvida! - -E ficaram n’isto; mas as familias d’outros academicos de Miranda, de -bocca em bocca, fizeram chegar ás orelhas de D. Sueiro de Aguilar a rija -sova, que levara o irmão. - -O senhor dos Coutos de Fervença e Caçarelhos Estevães e Villariça disse -ao irmão: - -—Como assim? - -—Assim quê?—perguntou D. Alexandre. - -—Corre que essa cicatriz foi bordoada que levaste! Foi ou não? - -—Foi desordem: dei e levei. - -—E ficaste mal? - -—Fiquei ferido; mas sem deshonra. O adversario era valente como as armas. - -—Quem? - -—O marido de tua cunhada. - -—O villão? E vive!... - -—Por em quanto... vive. - -—De que serve aqui o Ayrão? - -Ayrão era a graça do desertor. - -D. Sueiro acrescentou: - -—Leva-o, e mostra-lh’o. Acabemos com isto de uma vez... Estou a ver -quando o tio Ruy de Nellas recebe o genro em casa. Já lhe baptisou o -filho, e, escrevendo a Guiomar, fallou-lhe de Christina com piedade. O -tio Ruy degenerou. Se viver muito, ha de envergonhar-nos. - - * * * * * - -Foi para Coimbra D. Alexandre. - -Ladislau recebeu a ponto a informação: o desertor ficára. Avisou-o de -Villa-Cova. Christina exultou; mas, seis dias depois, recebeu novo -aviso: o sicario partira aforrado, e em disfarce. A pontualidade d’estas -informações deviam-se a um jornaleiro de Villa-Cova, o qual, industriado -por Ladislau, fôra a Miranda pedir trabalho á casa dos Alarcões, e lá -ficára servo de lavoura. - -D. Alexandre concertára o plano do homicidio, com estupido ardil: já se -lhe não dava que se lhe imputasse a morte de Casimiro; e, para desviar -suspeitas de braço estranho, escondia o matador em casa. - -Ayrão entrou de noite, e sumia-se de dia nos quartos escusos da casa. Os -frequentadores dos jantares de D. Alexandre guardavam delicada reserva -ácerca da desgraça do mez anterior. O amphitrião é quem, uma vez por -outra, dizia: - -—Tenho sêde de sangue! - -Ou, bebendo até cahir, exclamava: - -—Á saude do assassino, que ha de vingar a honra de vinte gerações de -fidalgos de solar conhecido! - -Defronte de D. Alexandre morava o estudante de direito Guilherme Lira. - -Lira foi o mais esforçado e turbulento academico dos seis annos -subsequentes á restauração da liberdade. Presidiu á famigerada «Sociedade -da Manta»[5]. Era o pau mais valente do riba-Tejo, e o mais figadal -inimigo de poltrões. - -Do fidalgo de Miranda tinha elle nojo, nojo favoravel ao covarde; se -fosse odio, tel-o-ia desorelhado. - -Observou Guilherme Lira que em casa do visinho D. Alexandre estava um -homem de cara sinistra, o qual se escondia no escuro da casa assim -que nas janellas fronteiras assomava gente. Lira espreitou, e viu-o, -accendendo o cachimbo no charuto do amo, e gesticulando com aquelle -especial geito das féras humanas, vesadas ao tracto da taverna, da feira, -e da encruzilhada. - -Guilherme sympathisava d’alma com Casimiro Bettancourt. Depois do -facto da ponte, estando elle com o seu bando de bravos na Calçada, viu -Casimiro, que vinha com sua esposa. Lira sahiu da roda, foi á frente do -furriel, e disse, com os olhos em Christina: - -—Dê-me v. ex.ª licença que eu abrace seu marido. - -E pegou d’elle ao alto soffregamente, exclamando: - -—Que pena que tu sejas casado, homem de figados, que te queria entregar o -macête da minha loja! - -Casimiro sorriu, agradeceu, e apertou-lhe affectuosa e modestamente a -mão. - -Isto explica a espionagem de Lira, e o aventar de prompto que o ignobil -visinho traçava a morte de Casimiro. - -Foi logo d’alli em procura do estudioso mathematico, e disse-lhe: - -—Olha que o covarde tem uma besta-féra em casa. Estuda socegado, que eu -te guardarei, porque não estudo, nem tenho que fazer. - -—Agradeço—disse Casimiro—mas, em verdade te juro que não temo a -besta-féra. - -—Bem sei, rapaz, bem sei; mas o que eu te venho dizer é que não penses -mesmo no modo de a mandar ao diabo. Isso cá se arranja. Adeus: não te -quero roubar tempo. - -Descubriu Guilherme que D. Alexandre sahia de noute, e com elle outro -academico sobre quem a capa mal ageitada ia delatando a contrafacção. - -Fez-se Lira encontrado com elles, metteu-lhes a cara, e reconheceu o -assassino, sob o disfarce de estudante. - -A traça do homicidio era desesperada. Como Casimiro passava as noutes -estudando, Ayrão lembrara il-o matar em casa. O rancor applaudiu o -alvitre, e accelerou a execução. D. Sueiro esporeava de lá os brios do -mano e pasmava da demora. - -Descubriu Lira que os visinhos por volta de dez horas paravam á sombra do -Arco, que faz a extrema da _Couraça dos Apostolos_, onde morava Casimiro, -e depois subiam distanceados a calçada, e o mais corpulento, que era o -disfarçado, contra-punha de leve o hombro a uma porta de quintal, ou -remirava a janella alumiada pelo clarão do candieiro, ao qual Casimiro -estudava até duas horas da manhã. - -As portas apalpadas não davam de si; arrombal-as com estrondo seria -derrancar o plano. - -Accudiu nova idéa ao homicida: chamar Casimiro á janella, e desfechar-lhe -um tiro. - -Reflexionou D. Alexandre, e previu que a opinião publica havia de -reprovar o covardissimo feito. - -Regeitou, por tanto a idéa, e reforçou-se na do assalto. - -Casimiro Bettancourt ignorava o que ia cá fora em sete noutes -successivas. Guilherme achou inutil avisal-o. Queria elle egoistamente -para si a cabal satisfação de castigar os miseraveis, sem incommodo do -estudante. A muito custo se refreára, durante as sete noutes, á espera -de lhes comprehender o intento, e cahir sobre elles no momento de o -praticarem. - -Guilherme Lira desvellava-se e preoccupava-se d’esta catastrophe, como se -vida de pai, irmão, ou amada corressem perigo! - -Sublime doido! Sympathica loucura! - - - - -XII - -Serenidade da innocencia - - -Ás dez horas de uma noute de janeiro de 1840, Christina, convidada -pela limpidez da lua, tão brilhante n’aquellas noutes, se o céu está -desannuviado, chegou á janella, sem correr as vidraças. Do exterior -não podia ser vista, que era completa a escuridade dentro; viu, porém, -Christina, dous homens parados na rua, com as cabeças muito conchegadas, -em agitada e inaudivel conversação. Teve mêdo, e correu ao gabinete -do marido a chamal-o. Casimiro, pé ante pé, segundo a esposa lhe -recommendava, espreitou, e, sem hesitação, disse: - -—Um é D. Alexandre; o outro não conheço. Vejamos o que fazem. - -—Vê!—disse Christina—olharam para a janella do teu quarto. - -—É uma contemplação estupida!—redarguiu Casimiro. - -—Agora esconderam-se debaixo das janellas. - -—Quererão escalar a casa?!—tornou elle em ar de mofa. - -—Quem sabe?! Olha... lá deram um encontrão á porta do quintal! - -—É que são ratoneiros de couves. Que podem elles querer do quintal senão -as tuas couves gallegas? - -—Tu brincas, meu Casimiro!... Olha que isto é sério!... E não passa -patrulha nenhuma!... - -—Calla-te, creança! Se te ouvem, perderemos este espectaculo gratuito. -Deixa vêr no que isto dispara. Lá vem outro estudante, rente pela parede -d’alem! como elle se embuça!... - -—Parou!—disse Christina agitada. - -—Será da malta?! As couves não chegam para todos. - -—Lá vai para baixo. - -—E os outros seguem-no. - -—Já não seguem. - -—Elles ahi voltam, outra vez para a sombra. - -—Outro empurrão á porta da escada!—murmurou Christina alvoroçada e -tremula. - -—Então o negocio não é de horta! Teremos hospedes assim mal-criados! -Ver-me-hei forçado a recebêl-os com igual delicadeza! - -A arma unica de Casimiro Bettancourt era uma enferrujada espada de seu -pai. Tirou-a de baixo do leito, e disse á esposa: - -—Deixa-me a escada livre, e não temas. - -—Á escada não vais: póde vir um tiro! - -—Não vem tiro nenhum: apaga todas as luzes. - -Dous estrondosos encontrões metteram dentro a fragil porta. Christina -soltou um ai, e involuntariamente correu ao leito onde a menina chorava -acordada pela rija pancada. - -Casimiro estava no topo da escada, e viu do lado da rua um homem de -batina academica apanhar de hombro a hombro com um pau as costas, do que -elle affirmára ser D. Alexandre. Os dous aggressores saltaram ao meio da -rua, e Casimiro, ia na colla d’elles, quando Christina, com a menina nos -braços, lhe estorvou o passo, exclamando: - -—Casimiro, Casimiro! pela tua filhinha te rogo! - -A catastrophe, tão almejada de Guilherme Lira, rematava assim na rua. - -Ayrão, logo que o amo levou a primeira pancada, correu de faca sobre -Guilherme, e recebeu em cheio peito uma choupada, e segunda no ventre. Já -cambaleava moribundo, quando recebeu a terceira, e bateu nas lages com a -face morta. - -D. Alexandre ia fugindo, com a maxima velocidade de sua prudencia, quando -uma segunda bordoada o apanhou pela nuca. Rugiu e afocinhou, forçado por -um doloroso raspar de ferro na orelha direita. - -Guilherme volveu a sondar a respiração do desertor, e responsou-o ao -diabo. - -D’alli correu á escada de Casimiro, e chamou-o. - -—Quem é?—respondeu Casimiro com a espada apontada. - -—O Lira. Creio que estão ambos mortos; um de certo. Agora, -acautella-te... Já está gente nas janellas. Posso sahir pela porta de -traz? Aqui reconhecem-me. - -—Sahe—disse Casimiro—Vem por aqui... Quem mataste? - -—Boa pergunta! A besta-féra não se levanta mais; o outro desconfio que -está vivo. Deixal-o viver... Por aqui?... bem... Adeus! Segredo de -sepultura, ouviste? - -—A recommendação é indigna de mim. - -Guilherme Lira entrou no Becco das Flores, e sumiu-se de travessa em -travessa, reapparecendo, vestido á futrica, na Couraça dos Apostolos. - -Quando chegou occupavam a rua centenares de pessoas. Em redor do cadaver -de Ayrão estavam muitos estudantes de envolta com a policia. Nenhum -academico reconhecia o morto, que trajava batina, bem que tivesse illeso -o rosto. Emquanto a este, esperou-se o dia para lavrar-se auto. - -D. Alexandre já tinha sido transportado em braços, e moribundo, segundo -diziam os que lhe viram o rosto ensanguentado, e ouviram o archejar -estertoroso do peito comprimido pelo derramamento das costas. - -A visinhança dizia que vira entrar um homem de batina e capa nas escadas -de Casimiro Bettancourt. A opinião geral decidiu que fôra Casimiro o -assassino, visto que o sugeito entrado não sahira. - -Christina chorava, e dizia, ouvindo as vozes da rua: - -—Que será de nós? Prendem-te, Casimiro. Fujamos... vamos para Villa Cova. - -—Socega, filha. Se me prenderem, hão de soltar-me! Attende-me, Christina: -Nunca dirás uma só palavra com referencia a este acontecimento. Nunca -proferirás o nome de Guilherme Lira. Nunca dirás que eu estou innocente. -Juras-m’o? - -—E tu... perdido, meu infeliz amigo... perdido!—atalhou ella, archejante -de gemidos—desgraçado por minha causa! - -Casimiro apertou-a ao seio, e disse-lhe: - -—Crês em Deus? - -—Se creio em Deus... - -—Crês que a justiça divina me faça padecer innocentemente?... - -—Mas a justiça humana...—interrompeu ella. - -—Mulher de pouca fé!... Se visses a serenidade do meu espirito, vias em -mim a influição de Deus! - - * * * * * - -As authoridades superiores, avisadas do acontecimento e do author -indigitado do crime, mandaram guardar por soldados as avenidas da casa de -Casimiro, para o prenderem de dia. - -O academico deitou-se á sua hora regular, e obrigou a alvoroçada esposa a -deitar-se com a filhinha inquieta. - -Ás tres horas e meia da manhã rebentou de subito um ruido estridoroso na -rua, depois de alguns repetidos brados das sentinellas. - -Chegava a «Sociedade da Manta» acaudilhada por Guilherme Lira, em numero -de vinte e tantos bravos, armados de refes e clavinas. - -Os soldados outros tantos seriam. Á primeira carga inesperada, a tropa -titubeou entre fugir ou defender-se, e, n’esta perplexidade, soffreu o -desaire de ser desarmada e contundida com as proprias armas. - -Libertas as portas, Guilherme chamou Casimiro, subiu e disse -imperiosamente: - -—Foge! - -—Não fujo. - -—Como não foges? - -—Não: salva-te tu, que eu me livrarei da justiça. - -—Não livras: diz toda a gente que tu mataste o homem. Alexandre está -vivo, e diz que foste tu quem mataste o seu creado, e lhe tiraste a elle -a orelha. - -—Deixaste sem orelha o homem? - -—Nada de riso: foges ou não? - -—Já te disse, Guilherme: vai na certeza de que o teu nome nunca será -envolvido na minha justificação. - -Uma vez de fóra disse: - -—Olha que tocam as cornetas na Sophia, ó Lira! Vem, que não temos partido -contra o regimento. - -—Adeus!—concluiu Guilherme—Oxalá que te não arrependas! - -—Fujamos!—exclamou Christina. - -—Porque me não attendes, filha? disse maviosamente Casimiro, e desceu a -fechar a porta. - -Poucos segundos depois, estava a rua cogulada de soldados, e muitas vozes -diziam que o assassino tinha fugido com os academicos. - -—O melhor é arrombarem as portas, camaradas!—dizia um cidadão—Que fazem -vossês ahi, se elle fugiu? É arrombar que não ha outro modo de saber se -elle está. - -—Arrombar!—contrariou um alferes—a Carta Constitucional prohibe arrombar; -mas bate-se a ver se falla alguem. - -—Ou isso—disse o cidadão prudente. - -O alferes bateu urbanamente. Casimiro abriu de prompto a janella do seu -quarto, e perguntou: - -—Quem é? - -—Ah!—disse o alferes—está em casa? - -—Estou em casa. Não quer mais nada? - -—Não sr. Foi para sabermos... dizia-se que não estava lá ninguem... -Perdoará o incommodo. - -—Boas noutes—respondeu Casimiro. Depois, baixou a vidraça, e disse a -Christina—A rua está vistosa! As armas refrangem a lua, e dão a lembrar -uma illuminura da idade média! Apaga a luz da saleta, que eu gosto de -ver este arraial de batalha, que me parece um sonho! - -—Ó Casimiro!—balbuciou ella—como tu pódes rir, e eu sinto-me aqui morrer! - -—És fraca. Nunca te tinha conhecido esse aleijão! Parecias-me uma -natureza perfeita em amor, em brios, e em força. A força é que te falta, -minha debil filha! - -—Enganas-te, Casimiro!—replicou ella—É que eu era tão feliz!... - -—E ámanhã que impede que o sejas? - -—Ámanhã... estarás preso!.... - -—E então? A luz do teu amor teme de romper as grades da cadeia?! A nossa -filhinha hesita entrar lá comtigo? Não vai commigo a imperturbavel -consolação da consciencia? - -—Mas eu tambem vou... - -—Pois irás, filha. Quem te veda de estar com teu marido preso?! - -Conversaram n’este sentido longo tempo; e já a final, Christina estava -conformada com a ideia da prisão, e logo cuidou em enfardelar os fatinhos -da filhinha, emquanto o marido escrevia a seguinte carta: - - «Meu caro compadre. - - «D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o seu creado - está morto. Este acontecimento deu-se á porta da minha caza, ha - cinco horas. O povo, a academia, e as authoridades indigitam-me - como author do successo. Esperam que nasça o sol para me - prenderem. - - «Escrevo-lhe agora, 4 horas da manhã, receando que os - interrogatorios me tirem o tempo no correr do dia. - - «Minha mulher tem estado attribulada, mas, como appelei do seu - coração para a sua coragem, vejo-a reanimado e esperançosa - da minha absolvição em despeito do povo, da academia e das - authoridades. - - «Peço aos meus amigos que não se afflijam, e me creiam forte - bastante para luctar com o mal do mundo. Refugio-me na vossa - estima, e sou o vosso irmão agradecido, _C. Bettancourt_.» - -Ao apontar o sol, a authoridade administrativa, auxiliada pela militar, -bateu á porta de Casimiro, e esperou instantes. O proprio academico -desceu a abrir, e offereceu ceremoniosamente a sua casa. - -—Está o sr. preso—disse o administrador. - -—Já o sabia—respondeu Casimiro. - -—Bem. V. s.ª acompanha-me. Irá comnosco o sr. alferes da companhia. - -—Como queiram: vou só, vou com v. sr.ᵃˢ, vou com a escolta: para mim é de -todo o ponto indifferente. - -—Dispenso a força, sr. alferes, disse o administrador: póde v. s.ª -mandal-a recolher com o sargento; o sr. alferes tem de ficar para -solemnisar a prisão d’este academico que é furriel. - -—Se querem subir...—disse o preso. - -—Não, senhor: vá, e volte, que nós esperamos. - -O administrador, em quanto Casimiro subiu a dar as ultimas palavras de -conforto a sua mulher, disse ao commandante da força: - -—Este homem ou está innocente, ou excede tudo que eu tenho visto em -coragem! - -—Será cynismo? replicou o militar. - -—É cynismo, não pode deixar de ser cynismo—optou o cidadão que propozera -o arrombamento das portas. - -No entanto, Casimiro dizia a Christina, depois de beijar Mafalda: - -—Eu escrevo-te de casa do administrador, dizendo-te o meu destino; -naturalmente irei de lá para a cadeia; e tu, como boa gerente da -casa—continuou elle jovialmente—irás lá ter, depois de ter dado as -ordens para o jantar. Olha que a instauração de um processo por crime -de morte não obriga a jejum, minha filha. Lembra-te que as consciencias -puras concorrem muito para o bom appetite, e são optimas auxiliares do -estomago. E adeus, até logo. - -Christina ajoelhou com a filha nos braços, e orou. E, orando, ouvia dizer -fóra: - -—Mas como elle vai direito e senhor seu! - -—Elle se entortará quando lhe pezarem nas costas os caibros da Portagem! - -—Terá pena ultima?—perguntava uma rapariga de má vida, e acrescentava: -coitadinho! é tão novo, e de mais a mais casado, e tem uma filhinha!... - -—Deixal-o ter!—atalhava uma velha, que vinha da missa d’alva, e ia ouvir -a segunda, para depois ir ouvir a terceira—Deixal-o ter! Quem mata, -morra! As forcas não se inventaram para os que morrem, é para os que -matam. - -O axioma foi applaudido pelo cidadão prudente, e outros sujeitos -honestos, cuja garganta zombára muitas vezes da corda de esparto do Livro -V das Ordenações. - -E Christina callava a oração para escutar, e orava para não ouvir. - -Perguntou a authoridade a Casimiro Bettancourt o nome, a naturalidade, os -annos, o estado, a profissão, etc. E proseguiu: - -—A voz publica e as apparencias dão-no ao senhor como homicida de um -homem ainda desconhecido, e tambem o incriminam de espancador de D. -Alexandre de Aguilar, cuja vida está ainda duvidosa. O sr. Bettancourt é -réu d’estes crimes? - -Casimiro não respondeu. - -—Ouviu a pergunta que lhe fiz?—tornou a authoridade suspeitando a surdez -do preso. - -—Ouvi, sim, senhor. - -—Que responde? - -—Nada. - -—Nada?! é boa essa!... Matou ou não matou? - -—Se ha provas de que fui eu, porque m’as pedem? Se as não ha, porque me -prendem? - -—A lei manda interrogar os réus. - -—Póde ser; mas não obriga os réus a responder. - -—O silencio é uma confissão—redarguiu o administrador. - -—É o anexim «quem calla consente» arvorado em axioma juridico. Boa -hermeneutica! - -—Modere as suas ironias, que a occasião é inopportuna, sr. Bettancourt. -D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça diz que fôra atacado -pelo sr. Casimiro, quando passava á sua porta. - -—Se o diz, elle o provará. - -—A visinhança depõe que v. s.ª entrára em sua casa depois de ter deixado -morto um homem e o outro cahido. - -—Já sei: ouvi o parecer de meus visinhos antes de v. s.ª os interrogar. - -—E que diz a isto senhor? - -—Nada. - -—Diz que está innocente? - -—Já tive a honra de dizer a v. s.ª que não digo nada. As provas -responderão por mim, e a lei me julgará. - -—Está claro. Vai v. s.ª recolher-se á cadeia, e esperar lá a nota da -culpa. - -—Posso ser visitado por minha mulher e minha filha? - -—Sim, senhor, em quanto a policia julgar isso indifferente ao processo. - -—E quando póde impecer ao processo que eu veja minha familia? - -—Ha casos... - -—Bom. Recebo as suas ordens. - -—Vai acompanhal-o um official do juizo. O sr. Bettancourt inspira-me -confiança, e por isso o allivio do vexame de ir com soldados. - -—Agradeço a confiança; mas os soldados não me vexam: cumpra v. s.ª o seu -dever de authoridade. - -—Vá, e pense sériamente na sua situação, que é grave, sr. Bettancourt. -Póde ser que o senhor esteja innocente; mas as suas desavenças anteriores -com D. Alexandre condemnam-no. Póde ser que v. s.ª matasse em justa -defeza: se assim foi, convém attenuar a culpa com essa circumstancia. -Esse seu systema de responder com o silencio, sobre ser excentrico, é -confirmativo da imputação. Dou-lhe este conselho, movido pela sympathia -que me causa a sua abnegação e como despreso da vida. Sei que tem -familia, e avalio as angustias de sua consorte; por isso lhe peço que se -abstenha d’esse stoicismo inutil, e—peior ainda—prejudicial. Se póde, -decline de si a responsabilidade de um homicidio, que é sempre e em -todos os casos deshonra. Se matou, negue, negue sempre!—acrescentou o -administrador, collando-lhe no ouvido os labios. - -Casimiro agradeceu o conselho com um sorriso, e sahiu á direita do -official de justiça. - -Á porta da authoridade, quando Casimiro sahiu, agglomerava-se um cento de -pessoas, gentio baixo, regateiras da praça de Sansão, serventes, gaiatos, -e alguns cidadãos honestos, nomeadamente o oraculo da Couraça dos -Apostolos. A custo rompeu o aguazil a multidão, que se premia em redor de -Casimiro, e lhe roçava as faces com o halito acre da aguardente. - -—Chamo soldados!—bradou o official de justiça. - -—Não é preciso—disse um academico, que estanceava mais distante n’um -grupo de estudantes. - -E, tirando a carreteira das mãos de um lavrador, cresceu sobre a -multidão, e apanhou quatro cabeças da primeira paulada. A rua, momentos -depois, estava deserta, como se passasse n’ella a ira do Senhor. - -—Foge que é o Lira!—diziam muitas vozes, convulsas de terror, menos o -cidadão da Couraça dos Apostolos, que levou a sua cabeça ao visinho -boticario. - -Era, com effeito, Guilherme Lira, cujo sangue refervia em phrenesi, -e sêde de beber o sangue da humanidade. Infurecia-o o remorso de -ter deixado vivo D. Alexandre! Saber elle que o vil declarava ter -sido assaltado por Casimiro, espicaçou-lhe o odio e a ancia de ir -estrangulal-o em casa. Depois, via Casimiro preso, sabia já as suas -respostas á authoridade, pungia-o o arrependimento de o perder, quando -cuidava salval-o de inimigos infames, e não poder salval-o, sem se -declarar elle mesmo o aggressor! - -O governador civil, o reitor, as authoridades subalternas, receiosas de -sublevação academica, instigada por Guilherme Lira, preveniram a tropa, -e assignaram ordens de prisão dos mais celebres desordeiros, no caso de -motim. - -A este tempo estava na cadeia Casimiro Bettancourt, contrastando, com -sua quietação, o reboliço que fremia cá fóra. Christina seguira-lhe os -passos, e entrara apoz elle. Mafalda ia muito risonha e fagueira. Não -fallava, mas gesticulava as suas caricias, e pendurava-se do collo do -pai, beijando-lhe os olhos. - -E Christina observava em redor de si a nudez, a sombra, a immundicie da -salêta. Queria chorar; mas pejava-se do esposo, e retinha-se para o não -affligir. - -—Voltas a casa, minha filha?—disse Casimiro—Olha que são dez horas, e -nós costumamos almoçar ás nove. Basta de sacrificio á justiça humana, -Christina! Uma hora é de mais! - -—Tu não estás muito triste, pois não, meu Casimiro?—exclamou ella, -cingindo-lhe o pescoço, com quanto carinho podem exprimir as angustias -supremas. - -—Se estou triste!... Quando me viste mais risonho, Christina!... Alegre, -minha esposa, alegre como esta creança que te sorri! A minha consciencia -está serena como a d’esta menina; por isso nos vês tão contentes ambos! - - - - -XIII - -O Réu - - -A carta, recebida em Villa Cova, foi a primeira grande angustia que -alanceou o coração de Ladislau. - -Correu á igreja, e d’ali a uma aldeia da serra, onde estava o vigario -sacramentando um enfermo. Leram a carta, e ambos inferiram que o matador -era Casimiro; justa inferencia dos termos d’ella. - -—Matar!—disse o vigario consternado.—Matar!... Eu não cuidava isto de -Casimiro! Nem ao menos diz que matou defendendo sua vida, a vida de sua -mulher, e de sua filha!... Repara tu na serenidade com que elle diz: _D. -Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o seu creado está morto. -Este acontecimento deu-se á porta de minha casa ha cinco horas. O povo, -as authoridades, e a academia, indigitam-me como author do successo..._ -Se não fosse elle o author, diria: _indigitam-me falsamente!_... E mais -abaixo: _Minha mulher tem estado attribulada, mas como appelei do seu -coração para a sua coragem, vejo-a reanimada e esperançosa de minha -absolvição em despeito do povo, da academia e das authoridades!_... De -que elle fia a sua absolvição, se as provas o condemnam a tal ponto que -tudo lhe é contra!... Ó meu Deus, meu Deus! que conta havemos de dar á -nossa consciencia de termos trabalhado para o casamento de Christina com -este malfadado! - -Ladislau ouviu a mais larga exclamação do attribulado sacerdote, e disse -com pausa: - -—Eu estou em crêr que Casimiro não matou. - -—Ó homem, tu não intendes esta carta? - -—Penso que intendi. Onde diz elle que matou? - -—E onde diz elle que não matou?—retorquiu o padre. - -—É verdade: não confessa nem nega. Diz que o apontam como matador. Isto é -differente. Eu leio no Evangelho que Jesus Christo, quando o arguiam... - -—Calla-te meu irmão! esses confrontos são sacrilegos!—atalhou o -sacerdote, inflammado em zelo santo. - -—A minha intenção era boa, Deus o sabe. Seja o que fôr, eu creio que -o meu compadre está innocente. Um homem, que mata, não escreve assim -com este socego. Aqui ha mysterio, e continuará a havel-o. As cartas -demoram-se; e, quer demorem quer não, amanhã vou para Coimbra e Peregrina -vai comigo. Desgraçada Christina!... E que terá elle penado? que fará -sósinha a pobre menina com sua filha?... - -—Vai a Coimbra, Ladislau, vai!—disse o vigario—Se é criminoso, -amparemol-o; se não é, ajudemol-o a vencer as iniquidades do mundo, -querendo Deus que nós sejamos instrumentos de sua divina justiça. Eu -tambem iria, se podesse: escrever-lhe-hei as consolações da religião. - -No dia proximo sahiram de Villa Cova Ladislau, Peregrina, e o menino, a -grandes jornadas para Coimbra. O lavrador levava todo o seu peculio, o -ouro de sua mulher, e alfaias de antiga prata, que havia em casa. Apearam -na estalagem, e foram d’alli á cadeia. Encontraram Casimiro sentado á -meza de jantar com a filha no collo, e Christina a um canto da salleta -aquecendo café n’um fogareiro. - -—Não t’o disse eu?!—exclamou Christina, quando o chaveiro abriu a porta, -e deu entrada aos visitantes—Não veio carta, vieram elles! - -As duas senhoras abraçadas fallavam em soluços. Ladislau rompeu tambem em -pranto desfeito. Casimiro, porém, sereno e com os braços abertos, dizia: - -—O compadre tambem é dama?! Não rivalisemos com as nossas mulheres no seu -privilegio de chorar!... Conversemos como homens. - -—Está innocente, meu amigo?—perguntou de sobresalto Ladislau. - -—Que pressa!...—respondeu em ar de graça o prezo—Parece que o meu -compadre sahiu de casa com essa pergunta á flor dos beiços. Ora, diga-me: -se eu lhe responder que matei o desertor, e feri de morte o fidalgo, o -meu amigo retira-me a sua mão pura e generosa? - -—Não. Casimiro só mataria um homem defendendo-se. Foi em defesa que o -matou? - -—Vou responder-lhe; porém, requeiro á sua nobre alma um juramento antes -de me ouvir. Não lhe digo que me jure por seu pai, pela vida de sua -esposa ou filho: jure por sua honra. - -—Jurei. - -—Agora saiba que eu não matei, nem mandei matar. - -—Oh meu amigo!—clamou com agitada vehemencia Ladislau. - -—Não falle mais alto que eu, meu compadre, que póde ser ouvido. Não matei -nem mandei matar, nem folguei com a morte do assassino trazido para mim, -nem com os ferimentos de D. Alexandre. Houve um homem que me quiz salvar -dos dous inimigos, que me esperavam, e matou-os, no momento em que me -arrombavam as portas. O nome d’este homem irá commigo e com minha mulher -á sepultura: nunca m’o pergunte. A sociedade proclama-me assassino: -embora. Deus me defenderá e salvará. Aos interrogatorios nada respondo -que me absolva ou condemne. Veremos se o jury me vê provado assassino. -Agora, meu amigo, tem o sr. a sua honra de sentinella á sua lingua. -Tomemos café. São só duas as chavenas; mas tambem ha dous pires: as -chavenas para os hospedes; os pires para nós, Christina. Arranja lá isso. - -Ladislau fitava nos olhos Casimiro, e murmurava: - -—Que homem! que desgraçado tão digno d’outra sorte! - -—Veja lá o que são as cousas! eu cuidei que meu compadre me estava -invejando esta paz de coração!—disse Casimiro. - -Horas depois, sahiram duas senhoras a transferir a bagagem da estalagem -para a casa da Couraça dos Apostolos. Concordaram em viver juntas, nas -horas em que era vedado o ingresso no carcere. - -O processo proseguiu seus termos, com desvantagem de Casimiro, sem -embargo de ser vigiado pelo primeiro advogado de Coimbra, que alcançára -procuração do réu, depois de muitas instancias suas e de Guilherme Lira. - -D. Sueiro de Aguilar tinha descido a Coimbra, com comitiva de dois -lacaios, e dinheiro grosso para, consoante a sua phrase, _erguer, sendo -preciso, uma forca de ouro, onde perneasse o assassino de seu irmão_. - -D. Alexandre erguera-se ao cabo de vinte dias, e composera as melênas -de modo, que o logar da extincta orelha ficasse coberto de lustrosas -espiraes. A orelha cancerára e cahira, deixando um orificio hediondo e -pustuloso. Guilherme Lira, quando acertava de o encontrar, dizia-lhe -sempre: - -—Cuidado com a outra. - -—A outra quê?—animou-se a perguntar D. Alexandre. - -—A outra orelha, patife! - -O epitheto gelou de neve as cavernas d’aquelle vil peito que esvasiava o -pus pelo esqualor do ouvido. - -D. Sueiro accelerava o processo, e descia de sua prosapia regirando do -advogado para o escrivão, do procurador para o delegado, do juiz para os -influentes do jury. - -N’uma d’essas suadas correrias, passando ao escurecer no bêco de D. -Sisenando, encontrou um academico, que lhe cingiu ao pescoço umas mãos, -que pareciam golilhas de ferro, e lhe jogou a catapulta da cabeça, tres -vezes, contra a hombreira do floreado granito da porta do palacio, onde -morreu apunhalada a irmã da rainha D. Leonor Telles. Depois, largando-o -atordoado, disse: - -—Primeira admoestação! - -E andou. - -D. Sueiro, ao outro dia, escreveu a todos os governadores possiveis de -Coimbra. A policia fingiu que se mechia, e D. Sueiro não sahiu da cama. - -O leitor já sabe que só Guilherme Lira podia tentar a destruição da -melhor pedra monumental de Coimbra com a cabeça de D. Sueiro de Aguilar -Vito etc. - -Um homem sisudo da policia disse ao rico-homem de Miranda: - -—O meu parecer é que v. ex.ª vá para sua casa. A meu vêr, o fidalgo traz -á perna a _sociedade da Manta_. Dê louvores a Deus em o não terem matado -como fizeram a um lente, ha dous mezes: e perdoará o atrevimento do -seu servo em o aconselhar. Em quanto a mim quem quebrou a cabeça de v. -ex.ª foi o Guilherme Lira! Mas vão lá prendêl-o, e, de mais a mais, sem -provas! Bem aviado estava eu! Elle bate-se com um regimento, e é capaz e -mais os seus trinta companheiros, de arrasar Coimbra. - -—Então isto aqui é um sertão de selvagens!—bradou D. Soeiro—As leis... - -—As leis estudam-se aqui—disse o cadimo aguazil—e o Guilherme Lira -sabe-as bem, que é quintanista de direito; mas o malvado despreza as -leis de papel, e tem lá umas de pau para seu uso, não digo bem: para uso -d’aquelles que as levam impressas nas costas. Em fim... - -O homem da justiça encolheu os hombros, e despediu-se. - -No dia seguinte, D. Sueiro foi para Miranda, e levava ainda uns parches -de alvaiade na testa, e uns pontos nos tegumentos sobrejacentes aos ossos -parietaes. - -D. Alexandre ficou; porém, assim que o sol inclinava ao poente, -recolhia-se. Guilherme Lira entrava em casa todas as noutes, e -espreitava-o da janella. Cada noute, ao vêr-lhe a luz no quarto, -arrepellava-se. Dizia com picaresco chiste o feroz academico a Casimiro: -«a vida d’aquelle homem peza-me como um burro sobre o peito!» - -E Bettancourt pedia-lhe encarecidamente que o deixasse, por ser um -estorvo nullo á sua liberdade. - -Ruy de Nellas, conscio do successo, mandou chamar o vigario de S. Julião -da Serra, e informou-se. Padre João Ferreira relatou de cór o contheudo -da primeira carta de Casimiro, e mostrou duas linhas de outra de -Ladislau, que dizia: _Casimiro está innocente. Casimiro é victima da sua -honra. Nada mais te digo, porque só isto me é permittido dizer, e a ti -só, meu irmão._ - -—E tu crês na innocencia de Casimiro? - -—Creio, meu padrinho, como creio que vivo. - -—E elle deixa-se ir á revelia? - -—Não posso, nem sei responder a v. ex.ª - -—É preciso que eu o proteja. É preciso, que elle é marido de minha filha! -Os de Miranda não hão de levar a melhor. - -—Que quer v. ex.ª que se faça? - -—Que vás a Coimbra, e leves dinheiro para elle, e para a justiça. - -—É desnecessario dinheiro. Meu cunhado foi prevenido. - -—Deixal-o ir. O dinheiro que eu mando, é meu; quero que minha filha o -receba! Eu vou mandar o meu capellão substituir-te na igreja, e tu partes -já para Coimbra. - -—Recebo as ordens de v. ex.ª - -—Vamos ver quem vence!—continuou o fidalgo, apertando os alveolos, onde -os dentes ausentes não podiam rangir.—Os de Miranda, tem muita prôa?... -Deixa que eu vou abater-lh’a!... Vai, João, que lá irão umas cartas. -Se Casimiro ficar condemnado, tu ou teu cunhado vão para Lisboa, e -entreguem as cartas onde eu mandar. Lá está minha irmã, a condessa de -Asinhoso. Ha vinte e tres annos que não lhe escrevo: mas sei que ella -está morta por fazer as pazes commigo. - -—Bom seria que estivessem feitas—disse respeitosamente o padre. - -—É verdade; mas que queres? orgulho de parte a parte... E sabes tu porque -eu despresei minha irmã? - -—Nunca v. ex.ª me deu a honra de m’o revelar. - -—Pois eu t’o direi quando voltares. Foi um caso de honra, que os de -Miranda não costumam castigar. Lá tem em casa uma irmã do pai, que fugiu -do mosteiro de Lorvão, e deu escandalo. Lá a tem... e não põem crepe nas -pedras d’armas... E vinha cá D. Sueiro vituperar-me porque eu não mandava -matar Casimiro!... Olha quem!... Se eu tivesse tantos santos a pedir por -mim, como de vezes me tenho arrependido de lhe dar a minha morgada!... -Forte brutalidade!... Cegaram-me as vaidades de reatar as duas casas dos -mais antigos ricos-homens da Beira e Traz-os-Montes!... Emfim... o que eu -não consinto é que da casa de Miranda vão matadores professos assassinar -o marido de minha filha... São horas... Aqui tens um conto de réis em -ouro. Parte, João; e escreve a dizer o que se passar. Dá muitos beijos a -minha afilhada, e diz a minha filha... que lhe perdôo! - -O vigario ajoelhou diante de Ruy de Nellas, e clamou: - -—Deixe correr as minhas lagrimas de alegria sobre as suas mãos, meu -nobre, meu virtuoso padrinho! - -—Não fiques agora ahi a chorar, homem!—Disse o velho, erguendo-o.—Aqui -estou eu tambem...—proseguiu, enxugando os olhos.—Vai, que são horas. - -A apparição do vigario na saleta da cadeia foi saudada com um brado de -alegria. Cercaram-n’o todos, e beijaram-n’o todos. - -—Eu só dou beijos em creanças,—disse elle em tremores de exultação.—Sr.ª -D. Christina deixe-me dar á sua filha os beijos do avô. - -—Fallou com o meu papá!—exclamou ella.—Está muito zangado contra o meu -pobre Casimiro? - -—Isso está, minha senhora! zangadissimo, feroz! - -—Cuida que foi elle quem...—E reteve-se, relanceando os olhos ao marido, -que a observava. - -—Não sei o que elle cuida...—volveu o padre. A ira do fidalgo subiu ao -ponto culminante d’elle mandar ao sr. Casimiro um conto de réis para o -custeio das suas despezas judiciarias. É onde póde chegar a ferocidade -humana! - -—O sr. Ruy perdoou-me?—perguntou Casimiro mais recolhido que expansivo. - -—Se isto não é perdoar... A mim não me encarregou de lhe notificar o -perdão; mas á sr.ª D. Christina manda dizer que está perdoada. Aqui teem -o dinheiro, que é ouro, e rasga-me a algibeira da sotaina. - -Christina fez um gesto, significando ao padre que entregasse o dinheiro -ao marido; Casimiro fez outro gesto, indicando Ladislau. - -—Então que resolvem?—disse o padre. - -—Resolve minha mulher,—disse Casimiro—que esse dinheiro passe ao poder -do nosso mordomo, o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova, em cujo -cargo hemos por bem nomeal-o para lhe fazermos honra. Assim deve formular -as suas nomeações quem tem, como eu, guarda de official á porta. - -Ladislau, sorrindo, respondeu: - -—A não servir de mais, deixem-me ser mordomo. Eu guardo o dinheiro, e -darei contas. - -Relatou o padre a sua chamada a Pinhel, e o sentir do fidalgo, com a -promessa das cartas para Lisboa, caso o exito do processo fosse funesto -em primeira instancia. Acrescentou que Ruy de Nellas tinha muita -confiança no valimento de sua irmã, na capital, a sr.ª condessa de -Asinhoso. - -—É a primeira vez que ouço fallar n’essa irmã do sr. Ruy!—disse -Casimiro.—Nunca me fallaste em tua tia, Christina. - -—Porque a tinha esquecido—respondeu a senhora.—Eu e minhas irmãs mais -novas ainda ha poucos annos soubemos que tinhamos em Lisboa uma tia. -Ignoro as desintelligencias que se deram entre ella e o papá, muito antes -de eu nascer. O certo é que em nossa casa nunca se fallou em tal tia, e -diante do papá seria perigoso fallar. Muito me espanta agora que elle -queira escrever-lhe! Vejo que meu pai está mudado! - -—Sabe que desavença de familia foi essa, padre João?—perguntou -Bettancourt. - -—Não, senhor. Ninguem o sabe em Pinhel. Apenas sei que em Lisboa viveu -desde menina a irmã do sr. Ruy de Nellas, em companhia de um grande -fidalgo seu tio, e mais os dous irmãos filhos segundos. Tambem sei que -estes irmãos lá morreram, e que a sr.ª casou com o conde de Asinhoso. É o -que eu sei d’um clerigo velho de Pinhel, que a viu em menina, e me disse -ser ella vinte annos mais nova que o morgado. Deve hoje ter, portanto, a -sr.ª condessa quarenta e seis. - -Sobre este incidente exhauriu-se aqui a pratica, em que Bettancourt, -de condição scismadora em cousas mysteriosas, mostrava estar muito -entretido. - -O patrono de Casimiro, sabendo que o sogro do seu cliente o protegia em -Lisboa, e quasi seguro da condemnação do réu no tribunal conimbricense, -inredou o processo de modo que, no caso de se provar o crime em jury, -houvesse direito a pedir um recurso por nullidades, sem ser ouvido o -tribunal da segunda instancia. A lei organisadora dos processos em -Portugal, paiz de mais leis que tem o universo é uma corda bamba que se -presta a saltos maravilhosos sob o pé d’um habil volatim. «Vai o processo -para Lisboa, dizia o jurisconsulto, e lá, se o braço fôr forte, os autos -vem arremessados á cara do juiz, e o juiz dá alvará de soltura ao preso.» - -Este salvador intento do causidico foi revelado a Casimiro, com grande -alegria, pelo vigario. E o preso respondeu: - -—Não quero! diga-lhe que não quero! Ha-de ser a lei, sem coacção, sem -torcedura, sem vexame de poderosos, que me destrancará aquellas portas. -Mas que digam ser dolorosa a experiencia: não importa. Quero experimentar -até que ponto um réu innocente póde ser torturado. Hei de ir de -condemnação em condemnação, até poder dizer: «Acuda-me a justiça divina, -que a dos homens é infame!» - -—Mas—atalhou o padre—se as provas são taes que a lei tem de forçosamente -o reconhecer criminoso? - -—Não são tal! As provas permittem que as destrua o ardil d’um habil -jurisconsulto. É isto certo? - -—É. - -—Pois bem: eu quero que a lei as anniquile, e não a trapaça: que este -acto se cumpra á luz do sol, á luz de todas as consciencias, que me -condemnam. Que faz que as influencias poderosas me libertem, se o mundo -ha de dizer: «salvaram-no as influencias! o ferrete de homicida lá o tem -na testa!» Não quero, sr. padre João! Agradeça ao compadecido patrono: -mas avise-o de que eu serei no tribunal o interprete mais severo da lei -contra mim. - -O advogado, quando tal ouviu, pasmou e disse: - -—É um doudo maior da marca, este homem! Creia que irá da cadeia para a -enfermaria dos alienados! - -E proseguiu: - -—É vergonha fazer-lhe eu uma pergunta, sr. padre João: Casimiro -Bettancourt, matou um homem e espancou o outro? - -O padre não respondeu. E o advogado repetiu: - -—Matou ou não?... Pois o senhor cala-se a esta pergunta? - -—Calo, sim, sr. doutor. Não posso responder. - -—Está claro! Outro doudo!... Que esquisita familia é esta! Já fiz a mesma -pergunta á mulher do preso: silencio! Interroguei Ladislau Tiberio: -silencio... O sr. padre João Ferreira... - -—Silencio!—atalhou o vigario. - -—Nem a mim, que sou seu advogado—tornou com azedume o doutor—ha uma -pessoa que me diga matou ou não!... - -—Ha—disse um academico que entrava. - -—És tu?—perguntou o advogado a Guilherme Lira. - -—Sou eu. Casimiro Bettancourt não matou. Tu vaes advogar a causa do homem -mais honrado e innocente do mundo! - -—Posso dar-te como testemunha, Lira? - -—Da sua honra e innocencia? podes; mas não me cites, que eu... ouve-me... -eu hei de tirar Casimiro da forca. - -—Santo Deus!—exclamou o vigario, lavado de subito suor.—Da forca! Pois é -caso de sentença ultima? - -—Se a sentença ultima é inapplicavel n’este caso,—disse o advogado—não -sei onde está no codigo penal o crime condigno! Mas não se falla aqui em -forca... pensemos... - -—Não pensemos...—interrompeu Lira—Deixa correr o tempo que pensa por nós. - -Padre João foi contar a Casimiro o que ouvira em casa do lettrado, -citando o nome de Lira. - -O academico recolheu-se, voltou a face, e o sentido apparentemente, sobre -outro assumpto, e disse em sua mente: - -—Que intenta fazer aquelle desgraçado? - -Pergunta que o leitor se digna fazer-me e espera a resposta. - - - - -XIV - -Episodio - - -O padre João Ferreira escrevia miudamente ao fidalgo de Pinhel, e o -mesmo Christina, bem que Ruy de Nellas tão sómente respondesse ao -padre, accusando a recepção das cartas da filha, com a incumbencia de -dizer a Christina que lhe eram agradaveis as suas lettras. De Casimiro -Bettancourt só dizia o necessario, attinente ao processo. - -Entre o velho e D. Sueiro corria declarada inimisade. Já o de Miranda -sabia que o seu sogro protegia Casimiro. Escrevera-lhe altivo reprovando -amargamente a incongruencia do seu proceder. O de Pinhel respondeu -que o marido de Christina padecia innocente, e D. Alexandre mentia -imputando-lhe a morte do faccinoroso, de que elle villãmente se -acompanhava. Replicou raivoso D. Sueiro, doestando o sogro, e ejaculando -phrases de lacaio a proposito do lustre de sua raça, sujada por um -parente, _posto que remoto garfo de seu tronco_. As palavras sublinhadas -affrontaram gravemente Ruy de Nellas! Este repto, quinhentos annos -antes, daria de si guerra a ferro e fogo, entre os dous ricos-homens. Mas -agora, n’este tempo de calmaria podre, em que as injurias se castigam -na policia correccional com multa de dez tostões e custas do processo, -Ruy de Nellas rebateu a provocação com outras não menos pungentes que -certeiras injurias. E foi grão-caso perguntar-lhe o velho se a Madre -Nazareth, fugida do mosteiro de Lorvão, em 1810, e agarrada por ordem -regia nas encruzilhadas do inferno, e mettida no tronco para se depurar -dos vicios, seria um garfo meritorio do tronco dos Parmas d’Eça ao qual -elle Ruy de Nellas se glorificava de ser estranho? Chegadas a tal extremo -as insolencias, a reconciliação era impossivel, apesar mesmo das frias -tentativas de D. Guiomar, que nunca fôra amorosa filha nem irmã. - -As cartas do padre ao fidalgo aventavam como certo o mau resultado do -pleito em Coimbra, e invocavam o patrocinio de Ruy para que em Lisboa o -supremo tribunal ou o poder moderador dirimissem a sentença condemnatoria. - -Teve Ruy de Nellas como acêrto escrever desde logo a sua irmã, -convidando-a a esquecerem o passado, para ir assim predispondo-a a mais -de vontade o servir. A condessa de Asinhoso respondeu com muito amor -ao irmão, lastimando que elle recusasse a sua amisade tantas vezes, em -diversos tempos, offerecida; e accrescentava: «Eu não podia odiar o mano -Ruy, que nenhuma parte tomou nos supplicios que me fizeram. Os algozes já -estão na presença de Deus!» - -—Ainda não está arrependida!...—disse entre si o fidalgo, relendo aquelle -periodo.—Mulheres, mulheres!...—accrescentou sacudindo a cabeça. - -Estranhará o leitor, que entre aqui mal cabido o episodio de umas -aventuras de D. Eugenia de Nellas, condessa de Asinhoso. Conto, porém, -com a sua attenção; e peço licença para me desvanecer de apontado em não -me desviar da historia principal, sem ao depois me justificar do defeito. - -D. Frederico de Paim e Lucena, tio materno de Ruy, vivia na capital, -e muito no Paço, gozando as suas numerosas commendas, solteiro, -septagenario, e abastado. - -Corria por sua conta a educação palaciana de dous sobrinhos, Vasco e -Gonçalo, irmãos de Ruy. - -Eugenia, muito mais nova que seus irmãos, sahiu tambem de Pinhel, aos -doze annos, em 1806, para ser educada em convento, visto que sua mãe -tinha morrido, e sua cunhada a tractava asperamente. - -Em 1811 sahiu a menina do collegio para casa de seu tio. Eram uns -dezoito annos superabundantes de quantas graças feminis, raras vezes, a -inspiração divina segréda aos creadores que dizem á tella ou ao marmore -o seu _fiat lux_, e o marmore e a tella desentranham em Fornarinas de -Raphael, em Collonas como as de Angelo, em Venus como as de Praxiteles. -D’estas, o artista, o que não é artista, o homem de coração e sêde do -bello, diz: «fel-as o cinzel ou o pincel dos anjos!» de Eugenia diria -o artista, o amador, o poeta, o moço ardente, o ancião esquecido de -seus ardores, diriam todos: «é um bafejo de Deus, uma alma vestida das -perfeições materiaes, privativas do céu, se no céu podem conceber-se -fórmas corporeas!» - -Foi Eugenia requestada por consideraveis senhores da côrte. D. Frederico -respondia aos que solicitavam sua mão: «Minha sobrinha é orphã de pai e -mãi. Casará á sua escolha. Intenda-se com ella quem houver de ser seu -marido, que eu lavo as mãos d’ahi.» - -Boa resposta; mas Eugenia repellia delicadamente os pretendentes, as -maviosidades, e as soberbas feridas na resistencia. - -Pois tão dotada e fadada para amar, Eugenia era assim de refractaria -condição ao bem supremo da vida? Dar-se-ha que o seu peito seja dentro de -alabastro como se afigura no exterior? - -Não; o mesmo amor de que a julgam inimiga é quem a incrueceu assim contra -os aulicos, os ricos, os soberanos da galanteria d’aquelle tempo. - -Amava Eugenia, e amava desatinadamente. O eleito de sua alma era um -alferes de cavalleria, amavel de figura, composto de encantos; mas sem -fôro grande nem pequeno, sem amigos das primeiras casas do reino, sem -nome, que, ao menos, recordasse um general illustre, um lidador distincto -das ultimas pelejas grandes da patria com os estranhos. Um mero e simples -alferes, pallido, só, melancolico, e timido debaixo dos olhos d’ella. - -O palacio de D. Frederico de Paim era na rua de Santa Barbara. O alferes -passava alli duas vezes em cada dia, e alguns dias duas vezes em cada -hora. - -E ella via-o sempre, esperava-o sempre, esperava-o até mais vezes do que -o via. Gonçalo e Vasco viam-no tambem, e diziam: - -—A assiduidade d’este homem!... Que cuidará elle, ou que cuidará nossa -irmã! - -Indagaram pela rama; e, em occasião opportuna, disseram a Eugenia: - -—Olha que o militar que vês ahi passar, e procuras vêr, é um biltre, que -principiou soldado. Sirva-te isto de governo, e lembra-te que és Eugenia -de Nellas Gamboa de Barbedo. - -A menina, se a revelação a envergonhasse, córaria; se o coração lhe -doesse, impallideceria; ora, como nem córou nem impallideceu, é razão -presumir que o seu pudor e coração ficaram illesos; e, depois, concluir -que ella, assim mesmo, amava-o sem pejo da baixeza d’elle nem vangloria -de seus appellidos. Concluam assim que tem a maxima probabilidade do -acêrto. - -E o alferes continuou a passar na Rua de Santa Barbara, e a surgir no -alto da collina da Penha de França, d’onde Eugenia do seu miradouro o -avistava. - -D. Frederico, avisado pelos sobrinhos, disse que estava seguro do bom -siso de Eugenia; mas, por cautella, na primavera de 1815, quando a menina -já entrava nos seus vinte annos, foi passar seis mezes á sua quinta de -Camarate. - -—O remedio prudente é este—disse o velho aos sobrinhos.—Não façamos -alarido, que ha casos de frageis avesinhas, espavoridas por algazarras, -romperem os arames da gaiola. - -Quando isto foi, já o alferes se carteava com Eugenia, mediante a aia, -que viera de Pinhel. - -A passagem para Camarate aggravou a infermidade. Convem saber que -ha casos em que o amor, o mais sadio e rosado dos deuses, se chama -«infermidade». Exemplo: amarem-se duas pessoas, divorciadas pelo acaso do -nascimento ou da riqueza, é infermidade; amarem-se, porém, um casal de -ricos, de nobres, de ralé social, ou de mendicantes, isso sim é amor, que -é saude, e só póde adoecer, n’uns, em hidropesia de tedio, n’outros, em -resiccação de fome. - -A quinta de Camarate era um arvoredo, que competia com o reinado de D. -João III. Fôra plantado e alinhado por D. Mem Vasques de Lucena, sumilher -de El-Rei, e aio do infante D. João, pai de D. Sebastião Era memoria que -aquellas arvores, ainda tenras, tinham visto os amores de D. João III com -D. Izabel Moniz, moça da camara da rainha D. Leonor, amores que deram -de si o principe, arcebispo de Braga, D. Duarte, que morreu na flor dos -annos. Para alli diziam os Lucenas que o monarcha transferira a dama, -odiosa á rainha. - -Parecia, pois, que a folhagem do arvoredo estava rumorejando uma chronica -de reaes amores. - -As fontes respondiam ás arvores, as aves ás fontes, as borboletas -dialogavam com as flores, as flores trahiam com a viração as borboletas: -era tudo alli um suspirar, um ouvir-se muito interno harpas e córos, -symphonias aerias, milhares de pronunciações confusas da terra, dizendo -todas «amor»! - -E para onde elles levaram Eugenia, que já comsigo levava a saudade!—a -saudade, verdugo que mata acariciando, corda de estrangulação tecida com -fios de ouro, segredo que Lucifer, ao despenhar-se, roubou do céu, e -nunca mais restituiu! - -Alli é que o amor pegou d’ella com violenta mão, sendo que até áquelle -dia lhe fôra sempre mão cheia de meiguices e serenas esperanças. - -Gonçalo e Vasco julgaram sua irmã segura, e ficaram por Lisboa, onde -tinham seus affectos, e suas devassidões. O velho, contente com as suas -arvores, e com a menina, que lhe ouvia a menos edificativa lenda dos -amores de D. Izabel Moniz, não sahia de Camarate. - -Á noite, assim que a brisa esfriasse, D. Frederico digressava do jardim, -dava um osculo em sua sobrinha, e fechava-se em seus aposentos. - -Ora, depois ainda, a menina ficava sentada no banco rustico, resguardada -de sycomoros, aspirando as baunilhas, sacudindo as granulações das -pimenteiras, ou devaneando pela via lactea fóra, de constellação em -constellação, com os olhos lá, e o coração na terra proxima, no muro -da quinta por onde o alferes subia. E não se atemorisava dos plátanos -gigantes nem das danças macabras das sombras, agitadas pelo vento da alta -noute! - -Á uma hora rugia a folhagem debaixo dos seus pés nas ruas ladeadas de -murtas; os molossos lambiam-lhe as mãos, sorvendo os latidos ferozes; as -avesinhas acordavam e saudavam-na ao passar; o rouxinol das cinceiras -soltava as notas mais dilectas; e ella ia á gruta conhecida, e esperava -com a mão no seio como quem diz ao coração: «Espera, ditoso impaciente!» - -Ao abrir da manhã de 16 de agosto d’este anno de 1815, Eugenia ouviu -quatro tiros nas cercanias da quinta, e tremeu, tremeu até cahir de -joelhos. - -D’ahi a pouco estrondearam os argolões do portão da quinta. A aia entrou -ao quarto da menina, e disse: - -—Chegaram seus irmãos. O senhor Gonçalo vem ferido n’um braço: já foi -chamar-se o cirurgião ao Lumiar. - -Gonçalo e Vasco estrenoutaram o tio, e fecharam-se com elle. O que ahi -disseram collige-se dos successos seguintes. - -Durante o dia, Eugenia não viu seus irmãos nem tio. Sabia que se faziam -preparativos de viagem. Mandou indagar dos caseiros o que seriam os tiros -da madrugada. Os cazeiros tinham ouvido as detonações, e a estropeada de -cavallos. Estaria morto o alferes? - -—Matal-o-hiam?—perguntava Eugenia á sua aia—e, depois, ousava perguntal-o -a Deus. - -Se ella podesse ouvir este dialogo dos irmãos... - -—Chego a duvidar que as pistolas tivessem ballas—dizia Gonçalo. - -—Carreguei-as eu—afirmava Vasco. - -—E foi-se a salvo! - -—Quem sabe?! - -—Não o viste correr sobre nós, e desfechar de perto, e retirar-se muito a -passo? E depois não o avistaste a subir a charneca sobre o cavallo? - -—Vi. - -—Como queres tu que elle fosse ferido!?—retorquiu Gonçalo—Com meia -pollegada á esquerda, o canalha mettia-me a bala na cintura—dizia elle -levando a mão ao ante-braço direito—Eu é que estou ferido devéras... Não -contávamos com isto, Vasco! O homem tem fibras! - -Ao fim da tarde, sahiu da cocheira uma caleça de jornada apposta á -parelha de machos. - -N’esta occasião foi chamada á presença de seu tio, que mansamente lhe -disse: - -—Se tivesses pai ou mãi, mandar-te-ia para elles, sem te dizer a razão: -tu a saberias de mais, e eu me pouparia á dôr e pejo de repetil-a. -Entrego-te a teus irmãos. D’elles te defendi alguma vez; agora estou -desarmado pelo teu proceder. Disse de mais. Ahi fóra está posta a caleça -para conduzir-te a outra parte, segundo vontade de Vasco. Não vai -Gonçalo, que está ferido da bala do homem que saltava os muros da minha -quinta, com teu consentimento. Adeus, Eugenia. - -D. Frederico entrou rapidamente no seu quarto, contiguo á sala, e -fechou-se a chorar. - -Vestiu-se Eugenia soluçante, e cobrou animo, quando viu que a sua aia se -preparava. Entraram ambas na caleça, onde as seguiu Vasco. Chegaram de -noute a Lisboa, e pararam á porta do palacio de D. Frederico. - -Vasco mandou descer a aia de sua irmã, e disse-lhe: - -—Sobe; diz ao mordomo que te pague; e vai á tua vida. - -—Onde vai ella?!—gritou Eugenia. - -—Não queremos gritos—atalhou o irmão.—Pica, bolieiro! - -As mulas galoparam até entrarem á estrada do Beato Antonio, onde Vasco de -Nellas cavalgou, adiantando-se. - -A jornada de Eugenia durou dous dias e meio. Parou a carroça diante de -um palacete velho, em Recaldim, no termo de Torres Novas. Era ali uma -grossa commenda de D. Frederico, casa chamada da «renda», habitada pelos -Pains de Lucena, quando, desgostosos da destronisação de Affonso VI, se -affastaram da côrte. - -Entrou Eugenia a um grande salão decorado como o deixaram seus avós, -quando voltaram a Lisboa. - -A tranzida menina sentiu frio e medo. - -Surdiu-lhe logo, de sob a orla de um reposteiro de côr inqualificavel, -uma creatura, ao que parecia, femeal. Dirieis que uma cuvilheira dos -Lucenas, adormecida em 1680, ao sahirem seus amos, acordára como -Epimenides, cento e trinta annos depois, e estremunhada sahira ao salão -para vêr qual das fidalguinhas Pains estava a soluçar. - -Eugenia encarou-a, e estremeceu. - -—Entrou a velha, fez tres mesuras, e disse: - -—Guarde Deus a v. ex.ª - -—Adeus—murmurou Eugenia. - -—Em quanto não chegam as outras creadas—tornou a creatura com ares -benignos—a fidalga queira mandar-me em seu serviço. Eu fui ama de leite -de sua mãezinha, que foi casar a Pinhel. - -Estas palavras reanimaram Eugenia, que se aproximou voluntariamente da -velha, em quanto ella continuava: - -—V. ex.ª é o retrato d’ella: já o sabia por m’o dizer o sr. Frederico; -mas eu estou aqui ha quarenta annos desde que ella casou. Seu avô, o sr. -D. Carlos de Lucena, mandou-me para Recaldim com ordenado e casa para -a velhice. Já quiz botar-me por essa estrada fóra, até Lisboa, só para -ver a filha da minha menina; mas a carga dos annos, oitenta bons, não se -leva onde a gente quer. Fiquei agora atonita, quando vi entrar o menino -Vasco, e me disse: «minha irmã vem aqui estar algum tempo. Ámanhã chegam -outras creadas, que ficam debaixo da sua vigilancia, e um creado que lhe -transmittirá as minhas ordens. - -—O mano já sahiu?—atalhou Eugenia. - -—Chegou ás quatro, e sahiu ás cinco horas da manhã. Admiro que v. ex.ª o -não encontrasse... Então é que foi pelo caminho de baixo. - -Eugenia, n’um impeto de confiança, abraçou-se na velha, e exclamou: - -—Por alma de minha mãi, vale-me? - -—Se lhe valho, meu serafim? que quer v. ex.ª da sua serva humilde? - -—Queria escrever uma carta. - -—Ó menina, isso barato é de fazer; mas o rendeiro da commenda anda á -cobrança, e levou a chave da sala, onde está o tinteiro e o papel. - -—Pois nem um bocadinho de papel?!... Não tem um livro?... - -—Livro tenho as minhas _Horas_ e o _Retiro Espiritual_. - -—Deixa-me vêr se ha uma lauda em branco? - -O _Retiro_ tinha a folha do ante-rosto surrada, mas susceptivel de -receber caracteres. Eugenia despregou um alfinete, picou o dedo -indicador, apertou-o até bolhar sangue. Depois com a cabeça do alfinete -embebida, escreveu: - -_Estou em Recaldim, perto de Torres Novas, na commenda do tio. Aqui -morrerei._ Voltou-se com recrescente vehemencia para a velha, e disse: - -—Dá-me um bocadinho de pão para eu fechar este bilhete? - -—Sim, minha menina. - -Mastigou o pão, fechou o bilhete e subscriptou-o. - -—E agora?—tornou ella—o peor é agora... - -—Que queria v. ex.ª?! - -—Que me levasse esse bilhete a Lisboa. - -—A Lisboa? A menina não sabe o que é ir a Lisboa! São dous dias e meio de -jornada, andando de noute duas horas. - -—Não importa... Eu pago... - -—Mas pagar a quem, meu anjinho do Senhor? Ora venha cá... isto é paixão? - -—Paixão de morrer, minha amiga... - -—Chame-me sua creada Brites. Paixão para bem ou para mal? - -—Eu queria casar-me com elle; mas meus irmãos perseguem-nos. - -—Eu logo vi que a vinda de v. ex.ª era cousa de amor... O seu adonis não -é fidalgo pois não? - -—Não é... - -—Logo vi... E é pessoa de bom porte? - -—É um alferes de cavalleria, muito bom de coração, muito gentil, a minha -paixão unica, o meu disvello de ha tres annos, a minha vida... e será a -causa da minha morte. - -—Coitadinha! Deus o fará melhor. Então quer a menina que elle saiba que a -trouxeram para aqui? - -—Sim, queria. - -—Então, deixe estar, que eu de hoje até ámanhã, hei de cogitar no caso. -Pediu-me isso por alma de sua mãi, eu só se não poder de todo em todo. -Quem me ha de levar a cartinha, se as contas me não falham, ha de ser o -cocheiro da caleça; mas o peor é não termos outro papel... Ora espere, -que eu tenho alli uma sentença que me cá deixou meu sobrinho, que andava -a aprender a ler. Tinta arranja-se sem a menina furar os seus mimosos -dedinhos. Com uma pouca de felugem da chaminé e vinagre, faz-se tinta. -Penna, vai se tirar uma de gallinha, e com uma faca fazem-se-lhe os bicos. - -A sr.ª Brites em tanto tempo quanta era a anciedade de Eugenia, veio com -tudo a ponto: meia folha de papel sellado do tempo de D. João V, uma -tigella com a dissolução de felugem em vinagre, uma penna de galinha, e a -faca mais afiada. - -Eugenia, se se não uzasse o aparo das pennas, tel-o-ia inventado n’essa -occasião. - -Estava tudo em ordem. Sorveu a sr.ª Brites uma pitada de esturrinho, e -disse: - -—Escreva lá v. ex.ª - - - - -XV - -Continuação - - -D. Eugenia escreveu o que dictava Brites: - -«Minha sobrinha. Logo que esta receberes, sem demora de tempo, vai tu -mesma em pessoa pessoalmente...» - - * * * * * - -—Onde é que ella ha de ir levar a carta?—perguntou Brites. - -—Ao quartel de cavalleria a Alcantara. - -—Escreva, meu serafim: - - «Vai ao quartel de cavalleria a Alcantara, e entrega o bilhete, - que vai dentro d’esta, á pessoa que lá diz por fóra...» - -—Eu—interrompeu-se Brites atacada de modestia—não tenho muito geito para -notar cartas; mas o que a gente quer é que nos entendam. - -—Vai muito bem—disse Eugenia. - -—Pois ponha lá: - -«Toma conta que a não vás entregar a outra pessoa; e da resposta que -houver escreve-me para Torres Novas. Sem mais enfado, tracta d’isto como -coisa de muita... de muita...» - - * * * * * - -—Ponha lá a menina uma palavra, que diga... sim... que diga que é cousa -de muita aquella. - -—De muita consideração. - -—Isso mesmo. - -Eugenia sobrescritou á sr.ª Apollinaria dos Martyres, na calçada dos -Barbadinhos, n.º 21—quinto andar á esquerda. - -A irmã de Ruy de Nellas abraçou-se na ama de sua mãi, e clamou: - -—Cuidei que estava mais desamparada. Ha almas boas em toda a parte, -louvado seja o Altissimo! - -—_Amen_—respondeu christãmente a sr.ª Brites, e foi á cosinha, onde o -bolieiro estava jantando para voltar com a caleça ao fim da tarde. - -—Vm.ᶜᵉ faz-me o favor de entregar em Lisboa uma carta á minha sobrinha? -Aqui vae o nome e a rua. Se lhe não custa...—disse a velha. - -—Não me custa nada, tia Brites; mas dobre-me a porção de vinho. - -—Ahi vai, homem. Beba; mas não desatreme, nem me perca a minha cartinha. - -—Fique certa, que de hoje a tres dias por estas horas, já está nas mãos -da dita supplicanta. Diz ella tudo pelo claro nas costas? - -—Vai tudo pelo claro. - -—Então, metta-m’a ahi no bolso da jaqueta, e carregue-me o copo. - -Foi a carta entregue á sr. Apollinaria, e o bilhete ao alferes de -cavalleria, o qual, segundo veridicas informações da engommadeira da rua -dos Barbadinhos, chorou, e vasou as algibeiras nas mãos tolerantes da -sr.ª Apollinaria. - -Escreveu o alferes uma longa carta a D. Eugenia. Principiava contando -a descarga de dous tiros inuteis que lhe déram. Disse não conhecer as -pessoas, que lhe atiraram, por virem rebuçadas, e estar ainda a limpar -a manhã. Contou que o não feriram; mas suppunha elle ter sido mais -certeiro na pontaria. Acrescentava que ia ser removido para Bragança, por -intrigas e influencia dos irmãos de Eugenia; e declarava-se, a final tão -desgraçado e desprovido de recursos, que não podia ir arrebatal-a das -mãos da sua cruel familia, sem desertar, e collocar-se na precisão de ir -perecer de miseria com ella em reino estrangeiro. Pedia-lhe, em summa de -tudo, animo, e esperança. - -Leu Eugenia a carta com profundo desgosto. - -«Não me terá elle amor?!»—disse ella entre si. - -Viu-a chorar a devotada Brites, e pediu-lhe o favor de lhe ler a carta. -Quiz ouvil-a segunda e terceira vez. Consolidou as suas convicções com -uma pitada e disse: - -—Esse rapaz, quem quer que elle seja, tem tino na cabeça, e pensa bem. A -menina por que chora? - -—Nem sequer falla em vir vêr-me!... - -—Pois se o pobre homem vai de marcha lá para cascos de rolhas, como quer -a fidalga que elle deserte ás bandeiras, e venha aqui? E depois? que -seria d’elle? e a sorte da minha flor do céu, era muito melhor!?... - -Pudéram muito com D. Eugenia as razões de Brites, e mais ainda a promessa -de tomar a velha á sua conta a correspondencia segura entre Bragança e -Torres Novas. - -Era chegado o momento de uma confidencia, que tem sido o balsamo de -piedade em coração de pais lacerados, pela ira e pela deshonra: não será -muito que o leitor, invocado a julgal-o O BEM E O MAL d’esta serie de -biographias, dê sua piedade á desventura culpada, assim como tem dado -suas bençãos á virtude sem nodoa. Ha crimes repulsivos; o engenho mais -abalisado, a philosophia mais bem fingida, sob capa de verdade, tenta -em balde mover-nos á compaixão do delinquente, em quanto o retalhar do -remorso o não fez delir com lagrimas o stygma que a moral lhe assignalou: -outros crimes, porém, são de si, e por vontade divina, sympathicos não -direi; mas, se a ré se pranteia, e se olha em seu seio, e exclama: «Ó -meu Deus! hei de eu espedaçar em respeito ao mundo este filho, que é -o meu amor e o meu opprobrio?... hei de eu abafar o grito da minha -consciencia e coração, para que o mundo me veja um rosto limpo, um rosto -lavado no sangue do meu filho?...» Quando a mulher assim falla a Deus, -a misericordia divina dá-lhe um anteparo contra as injurias do mundo; e -o mundo, se lhe adivinha as dôres, e o mimo d’aquella paixão, á qual só -falta um sacramento para ser santa, o mundo perdoa-lhe, embora a repulse -do contacto das almas candidas, das suas filhas, das suas esposas, das -suas irmãs, que Deus permitta não humilhem com maiores desprezos a -desgraçada que é mãi. - -É, pois, chegado o momento da confidencia. Quem a recebe é a consternada -velha, que vira nascer a mãi d’aquella menina. Até áquelle momento, -Brites estivera longe de imaginar um erro n’aquelles amores: julgava-os -na sua maxima pureza. Descem lagrimas nas rugas dos oitenta annos, -lagrimas de bom agouro, que deixam mais livre o accesso á piedade. -Eugenia cuida que o revelar-se aos irmãos lhe dará um esposo, lhe será -redempção de ignominia. - -—Não, minha infeliz senhora, não!—exclama a velha. - -E conta-lhe tres identicas e desventurosas historias, que ella presenciou -em sessenta annos de serviço n’aquella familia: tres mulheres sepultadas -em conventos, onde nunca entrou raio de contricção nem conforto. - - * * * * * - -O alferes sabe em Bragança as agonias de Eugenia, e sente n’alma o -estylete excruciante da expiação. Nenhuma morte sustenta o parallello com -as flagellações de seis mezes, soffridas a tantas leguas de distancia. - -Eugenia recebe o ar e a luz pela janella do seu quarto unicamente. -Teme-se da observação das creadas, que lhe espiam os passos, em -suspeitarem de Brites. A velhinha tudo provê e prevê; mas, a intervallos -quer morrer, antevendo as agonias da hora improrogavel, da hora em que -o grito de afflicção rompe atravez das mãos da vergonha, que tentam -suffocal-o. - -Era no mez de dezembro de 1816. - -O alferes lançou-se aos pés do general da provincia de Traz-os-Montes, -que demorava em Bragança n’essa occasião. Abre-lhe sua alma, em torrentes -de pranto. O velho general chora, e diz: - -—Tenho rigorosas recommendações a seu respeito; mas vá, peça-me licença -para ir ver sua familia. Dou-lh’a por quinze dias. Vá, embora eu tenha de -soffrer. - -O alferes vestiu habitos paisanos e desceu a Torres Novas. Alli vestiu-se -de mendigo, simulou uma paralisia de braços, e pediu gasalhado em -Recaldim. Trocou ligeiras palavras com Brites, e não viu Eugenia. Voltou -á albergaria do commendador algumas noutes. Os creados contemplavam-n’o, -e diziam: - -—Tão novo e tolhido de braços! - -As creadas accrescentavam: - -—E não havia de ser feio! - -Na noute de quinze de janeiro, por volta de onze horas, abriu-se a porta -da albergaria, entrou Brites com a face alagada de suor e lagrimas. O -alferes formou entre os braços com as dobras da capa de mendigo uma -caminha de farrapos, recebeu um menino, e sahiu. A duzentos passos estava -o leal camarada do official, com um cavallo á redea. O alferes cavalgou, -o auxiliar saltou á anca do cavallo, e partiram. - -Em Torres Novas alimentaram o recemnascido. Proseguiram até Santarem, -onde foi baptisado sete dias depois. Alli veio uma ama do Cartaxo, e o -levou comsigo. - -Estava a expirar a licença. O alferes entrou no quartel, á ultima hora, e -beijou as mãos do general, dizendo: - -—Dei-lhe o nome de v. ex.ª. Ahi me fica a memoria da sua commiseração, -general! - - * * * * * - -D. Eugenia de Nellas, dous mezes depois d’estes successos, recebia uma -carta de seu irmão Vasco, participando-lhe que ia casar com uma titular -brazileira, agraciada pelo sr. D. João VI, e convidava sua irmã a -acompanhal-o á côrte do Rio de Janeiro. - -D. Eugenia respondeu que queria viver e morrer no seu desterro de -Recaldim. - - «Bem sei—replicou Vasco.—Bem sei...—Brevemente, se quizeres - salvar o amante, mudarás de resolução.» - -Decorreram alguns mezes. Instaura-se processo a Gomes Freire de Andrade. -São presos os cumplices da conspiração, e os suspeitos cumplices. O -alferes é chamado a Lisboa, e recolhido ao castello de S. Jorge, como -indiciado nos planos subversivos do general Freire de Andrade. São os -Lucenas que tramam a bem agourada perdição do alferes. - -Eugenia é avisada do encarceramento do alferes. - -A faca apontada ao peito da timida senhora é um dillema: se ella persiste -em ficar, o alferes morrerá; se vai para o Brazil, o réu absolvido. - -Eugenia vai para o Brasil, o alferes, sem saber porque o accusam, nem -porque o absolvem, sahe do castello e entra nas fileiras. - -Ruy de Nellas, acantoado sempre no seu solar de Pinhel recebera a -infausta nova da queda de sua irmã. Respondendo a Vasco, disse: «Não -tenho irmã, nunca me fallem n’essa mulher. Fizeram bem não me dizer o -nome do insultador de nossa familia, se é que elle tem nome.» - - * * * * * - -Saltemos a 1820. D. Eugenia é o assombro dos salões do Rio de Janeiro. -Reviçam-lhe todas as graças; a da melancolia realça-lh’as, melancolia que -dava a entender que o anjo, lembrado do céu, tinha saudades. - -Vasco é-lhe odioso. A casa do irmão atormenta-a como um ergastulo. Perdeu -esperanças de voltar á patria, e aspira a ver no céu o esposo de sua alma. - -De repente, como que as esperanças lhe morrem, e a querida dos fidalgos -brazilienses desce os olhos sobre a terra. - -Vê um conde que fôra de Portugal com o principe regente, e a requesta de -joelhos. E vai ella, levanta com a sua mão o homem que ha de resgatal-a -do dominio do irmão, e sahe condessa de Asinhoso da casa abominada. - -No redemoinho das festas, a condessa parece estar sempre em contemplação -d’um tumulo. E o marido mais a adora assim; e ella, de lhe ver o amor -atravez das lagrimas, enchuga-lh’as e pede a Deus um novo coração para -seu marido. - -Nunca mais seus labios responderam a Vasco; e, ao terceiro dia de casada, -disse ao conde: - -—Meu amigo, a presença de meu irmão n’esta casa é como a do algoz da -minha felicidade, e da tua, se posso dar-t’a. - -O conde de Asinhoso ouvia sua mulher, e obedecia com jubilosa escravidão. - -Gonçalo de Nellas havia morrido em 1819. D. Frederico Pain de Lucena -morreu em 1820, legando os seus bens ao sobrinho vivo; Vasco, em viagem -para a patria, morreu de febres. - -A condessa enviuvou em 1833. Cuidou em liquidar os seus copiosos haveres, -e voltar a Portugal. - -Uma delirante esperança vinha com ella. Rica, livre, com a alma inteira -no seu passado amor! - -Desembarcou em Lisboa por junho de 1834. Reinava D. Pedro IV. - -Mandou indagar do alferes de 1817 aos seus camaradas anteriores á scisão -politica. Responderam-lhe que tinha morrido na guerra. - -Ergueu ella então as mãos e disse: - -—Ó meu Deus: merecia eu tamanho castigo?! - -Mandou ainda perguntar por um filho do militar que morrera. Ninguem deu -novas de tal filho. O espirito publico batia as azas ainda no ambiente de -fogo e ninguem curava saber onde podia existir o filho d’um official que -morrera rebelde. - -Foi então que a condessa d’Asinhoso, aterrada da sua soledade, escreveu -a Ruy de Nellas, pedindo-lhe a sua estima, e uma filha que lhe fosse -companhia. - -O irmão não lhe respondeu. - - * * * * * - -Esta é a historia triste da senhora cujo valimento Ruy de Nellas vai -pedir a favor de seu genro. - -Qual é o valimento da condessa em Lisboa? É o prestigio da riqueza, e da -belleza ainda. - -Quarenta e seis annos, com trinta de amarguras e ainda formosa! É que ha -mulheres de tamanha alma, que primeiro o fel da desgraça ha de enchel-a -antes que o corpo se alquebre. - -Das masmorras de 1793 sahiam formosissimas mulheres para a Guilhotina. - -A mulher de Luiz XVI tinha pequena alma, sonhára vinganças mesquinhas, e -por isso lhe encaneceram os cabellos n’uma hora. - -Madame Roland, a scismadora de revoluções uteis, ia formosa no seu carro -de morte. - -Carlota Corday illuminou-se de formosura mystica ao vêr-se espelhada no -aço do alfange. - - - - -XVI - -O julgamento - - -Ao cabo de cincoenta dias estava o processo prompto para entrar em -julgamento. Dominava em Coimbra a opinião de ser inevitavelmente -condemnado Casimiro de Bettancourt. A innocencia que algumas pessoas -apregoavam, era em geral recebida, a riso, como um paradoxo. - -A alma de Christina confrangia-se, e os labios sorriam ainda. Era ella -só quem ainda simulava esperanças; mas que supplicios surdos lhe custava -dissimulação! - -Ladislau e o vigario em vão queriam imital-a. A sua tristeza era como -as trevas do cego que não se allumiam ao tremor convulso da palpebra. -Queriam esperançar-se e de toda a parte lhes soava como irremediavel -a sentença. Rosnava-se em compra de jurados: não era preciso arguir -ao suborno a condemnação. Casimiro estava sem defeza: o seu silencio -impressionava favoravelmente as almas distinctas; o vulgacho, porém, -que havia de julgar das provas, daria importancia nulla á mudez do -réu. Os protectores de D. Alexandre eram os mais graudos fidalgos de -Coimbra e cercanias. Por Casimiro Bettancourt ninguem pedia. O padre e o -cunhado, reduziam-se a promover o andamento rapido do processo, pagando -liberalmente as despezas e actividade do procurador. Isto era bastante; -mas faltava muito. - -Ruy de Nellas affligia-se a cada nova carta desanimadora que recebia; -entretanto, a solução favoravel em Lisboa era um respiradouro para elle e -para os poucos amigos do preso. - -Designado o dia do julgamento, o pai de Christina escreveu a sua irmã, -contando-lhe os pormenores do casamento da filha, as desventuras do -genro, a sua innocencia no crime assacado, a indefeza pertinaz em que se -pozera, o mysterio do homicidio, a certeza de que o silencio de Casimiro -Bettancourt era um heroismo de honra, talvez novo. Rematava pedindo á -condessa de Asinhoso, que patrocinasse em Lisboa sua sobrinha, que era -mãe e esposa extremosa. - -Na ante-vespera da audiencia, travaram desordem uma malta de academicos -richosos com as patrulhas nocturnas. Alguns estudantes retiraram feridos, -e invocaram Guilherme Lira, em nome da honra academica. O chefe da -Sociedade da Manta respondeu que n’uma das proximas noutes, seria vingada -a academia. - -No dia immediato entrou Guilherme no escriptorio de um tabellião, e pediu -meia folha de papel sellado. Assignou-se no fundo da lauda, e fez que o -notario lhe reconhecesse a assignatura. - -Recolheu a casa, e deteve-se algum espaço, escrevendo no branco da -folha assignada e reconhecida. Fechou em fórma de officio, lacrou, e -escreveu algumas palavras no involucro. Depois fez algumas cartas: uma -subscriptada a D. Joaquina Soares de Lira, sua mãi, residente em Evora; -outra a sua irmã, casada em Extremoz; e ainda uma terceira brevissima, -dirigida a uma senhora, que tinha o segredo da ferocidade d’aquelle -homem. Terminava assim: «Não te cito para o céu nem para o inferno. -Chamo-te diante do teu proprio remorso. Viste-me um anjo aos dezoito -annos; e fizeste de mim isto que sou. Não te accuso: lá tens dentro -d’alma o teu algoz. É tempo de acabar.» - -Deitou a carta na caixa postal, e foi á cadeia, segundo o seu costume -quotidiano, vêr Casimiro. Eram quatro horas da tarde. Estava o jantar na -meza. Guilherme sentou-se ao lado de Christina, e comeu com appetencia. -De uma vez inclinou-se ao ouvido da senhora e disse-lhe: - -—Ámanhã já v. ex.ª janta em sua casa com seu marido... - -Christina soltou um brado de alegria. - -—Que é?!—inquiriram todos. - -Guilherme fitou-a e descahiu as palpebras. - -Era impôr-lhe silencio, e ella abafou a revelação, que lhe crispava -nervosamente os labios, e arquejava o seio. - -Esperaram, brevemente a resposta com anciedade. Christina fitou os olhos -supplicantes no academico, e elle, erguendo-se, disse: - -—Póde fallar, minha senhora, d’aqui a instantes. - -E abraçou Casimiro, beijando-o nas faces ambas; abraçou Christina -osculando-lhe a fronte; apertou affectuosamente as mãos de Peregrina, -Ladislau e padre João; affagou as duas creancinhas, e sahiu de golpe. - -Casimiro chamou-o com vehemencia, e elle não voltou. - -Referiu Christina o que lhe ouvira. Casimiro concentrou-se, pensou alguns -minutos, e disse: - -—Não mentiu. Ámanhã jantaremos em liberdade. - -Pediram-lhe o sentido das palavras do academico. - -Bettancourt respondeu: - -—Ámanhã. - -Notaram todos que a tarde e noute d’aquelle dia foram as mais tristes -horas de Casimiro na sua prisão de dous mezes. E, comtudo, Christina -escondia o seu contentamento. - -Eram dez horas da noute, quando Casimiro ouviu grande grita e o estrondo -de alguns tiros. Estava já sósinho, passeando febrilmente na saleta, e -disse entre si: - -—É agora. - -O alarido e o tiroteio continuaram. - -Collou o ouvido ás portadas da janella, e ouviu dizer na rua: - -—Mataram o Lira. - -Meia hora depois recahiu tudo em silencio quebrado pelas passadas -das patrulhas em tresdobro. E o carcereiro bateu de manso á porta de -Casimiro, e disse: - -—Dorme? - -—Não. Póde entrar. - -—Vou contar-lhe o que vai. O seu amigo Lira espancou as patrulhas, que -encontrou desde o bairro alto até á rua do Coruche. A Sociedade da Manta -appareceu em armas, atacou reforço, que sahiu do quartel. Quando ia -retirando para o Monte Arroio a estudantada debaixo de fogo, o Lira ficou -atraz, sem arma nenhuma, a não ser o varapau de choupa que mettia a peito -dos soldados. Tinha elle recuado até ás grades de Santa Cruz, quando -cahiu morto com uma bala atravessada de fonte a fonte. Meu filho vem -de observar. Faz dó ver um homem tão valente assim morto como se mata -qualquer poltrão!... - -—Obrigado á sua noticia. - -—O sr. ficou triste devéras!—tornou o carcereiro—Tem razão, que elle era -seu amigo d’uma vez!... Boas noites, sr. Bettancourt. Ámanhã é o dia da -grande batalha, espero em Deus que... - -O carcereiro tão certo estava da condemnação, que não ousou concluir a -phrase da esperança em Deus. - -Mal se abriram as portas da cadeia, entraram Christina e os amigos a -contarem o successo. A justiça ia tomar conta do espolio do morto. -Coimbra estava agitada de terror. Esperava-se grande lucta da academia -com a tropa no acto do enterro de Guilherme. Suppunha o padre que se não -abrisse o tribunal, para obviar o azo da desordem. Contou Ladislau que -o estudante, na vespera, tinha ido reconhecer a sua assignatura a um -tabellião. Christina, que tudo sabia, esperava que seu marido fosse salvo -por uma declaração de Guilherme. Eram, porém, nove horas, e não apparecia -alvará de soltura, nem contra ordem de julgamento. - -Ás dez horas chegou o official de juizo para acompanhar o réu ao tribunal. - -Logo á sahida do carcere, ouviu Casimiro dizer: - -—É preciso ir acabando com os assassinos. Um já lá vai: este não tarda; -os outros hão de ir quando lhes chegar a vez. - -Quem tão sisudamente discreteava era o cidadão honesto da Couraça dos -Apostolos, em cuja cabeça Guilherme deixára um signal inutil para a -morigeração da pessoa. - -Sentou-se Casimiro no banco dos réus. Christina, Peregrina, o padre e -Ladislau ficaram fóra da teia. D. Alexandre de Aguilar, como parte, -sentára-se entre o seu advogado e o representante do ministerio publico. -Na acareação de author e réu, perguntado o primeiro se reconhecia em -Casimiro Bettancourt o sujeito que espancára, o fidalgo respondeu: - -—Não podia ser outro. - -—Pergunto a v. ex.ª se é aquelle e não se podia ser outro—replicou o juiz. - -—É aquelle. - -Sahiram a depor as testemunhas de accusação. Eram concordes em dizer que -viram entrar na casa do réo o sujeito que matára um homem, e deixára -outro estendido. Recordaram todas as precedentes aggressões que o réu -fizera contra o author, já no botequim da rua Larga, já na ponte. O -cidadão honesto sobreexcedeu a má vontade das demais testemunhas, dizendo -que o réu era sujeito de tão máus costumes que roubára uma filha a um -fidalgo seu bemfeitor, e com a filha roubára as joias da familia. - -—Esse infame está a mentir!—exclamou Christina. - -Casimiro voltou-se para o lado onde estava sua mulher, e encarou-a fito, -com severo olhar. - -O juiz disse: - -—A senhora não pode aqui fallar. - -—O que ella diz não se escreve—accrescentou a faceta testemunha, sorrindo -do alto da sua probidade. - -—Querello da testemunha—disse o advogado do réu. - -—Eu não querello da testemunha—emendou Casimiro. - -—Em tempo competente resolverão—admoestou o juiz. - -Convergiram todos os olhares sobre Casimiro. - -Um dos jurados disse: - -—Eu já não condemno aquelle homem! - -—Porquê?!—perguntou o visinho. - -—Aquelle homem está innocente ou é doudo. - -—Qual doudo? aquillo é um grande farcista! Elle não querella da -testemunha, porque sabe que roubou as joias. - -Terminou o depoimento de accusação por parte do author e do ministerio -publico. - -Esperava-se por testemunhas de defeza: o escrivão disse que não estavam -inscriptas nenhumas. - -—É doudo ou não?—disse o jurado bem intencionado. - -—Qual doudo? replicou o outro.—É tão patife que não tem quem o defenda. - -Ia levantar-se o patrono de D. Alexandre, quando o administrador do -concelho entrou na sala do tribunal, e entregou ao advogado do réo uma -carta em fórma de officio. - -O orador, que já tinha dito: «Srs. jurados!» suspendeu-se. - -O patrono do réo leu uma meia folha de papel, e disse, em pé, com os -cabellos hirtos: - -—Sr. doutor juiz de direito, v. ex.ª me dirá se o debate deve continuar, -depois de ler a declaração que remetto á consideração de v. ex.ª. - -Machinalmente ergueram-se todos, auditorio, e jurados. - -O juiz leu mentalmente, e passou o papel ao delegado. Trocaram breves -palavras, e deram ao official de justiça o papel. - -—Leia o sr. advogado do réo—disse o juiz.—Eu por mim intendo que terminou -o debate. - -—Sou de egual parecer!—ajuntou o ministerio publico. - -O advogado de Casimiro, limpando as camarinhas do suor, leu com voz -tremente de alegria e commoção d’alma: - - «Declaro eu Guilherme de Noronha e Lira, estudante do 5.º anno - de direito, que fui eu quem matou, na noute de 16 de janeiro do - corrente anno de 1840, um creado de D. Alexandre de Aguilar, - e empreguei os meios de matar tambem o amo. Não tinha contra - algum d’elles motivo de odio pessoal; mas, como inimigo jurado - de poltrões covardes, e sabendo eu que elles espreitavam - ensejo de matar Casimiro de Bettancourt, mancebo tão honrado - como valente, protestei livral-o de tão miseraveis inimigos, - atacando-os sósinho e sem mais arma que um páu de choupa, no - momento em que elles tinham arrombado a porta de Casimiro - para o irem matar entre sua mulher e sua filhinha d’um anno. - Declaro mais que fui eu quem afugentou a companhia, postada - ás portas de Casimiro na intenção de o arrancar ás garras - da justiça; mas o meu amigo não quiz fugir, assegurando-me - que se havia de salvar sem pôr em risco a minha segurança. E - por tanto, resolvido a acabar com a vida, poucas horas antes - de me deixar matar, faço esta declaração, e peço a Casimiro - Bettancourt perdão de o ter infelicitado, quando cuidava que - o beneficiava com o meu zêlo guardador da sua preciosa vida. - Peço tambem perdão da inexplicavel fraqueza que me tolheu de - eu ter feito esta declaração desde o momento que o meu amigo - entrou no carcere. Eu sei que elle me perdoou; mas volto as - minhas supplicas para a esposa attribulada, que tantas vezes, - com um sorriso de amiga, devia execrar o causador das suas - calamidades! Faço esta declaração debaixo dos olhos de Deus, - e juro pela virtude de minha mãi que é verdade o que digo, e - será infame quem me não acreditar. Coimbra 19 de março de 1840. - _Guilherme de Noronha e Lira_». - -D. Christina perdêra o alento nos braços de Peregrina. Muitos academicos -romperam de salto a teia, e vieram parar no meio da sala. O advogado -do réu, esquecido das praxes, foi abraçar o cliente, que parecia dar -levemente conta da agitação do auditorio, e applicava o ouvido aos -soluços da esposa. Os jurados limpavam as lagrimas, excepto um que -tinha recebido uns vinte mil réis de D. Alexandre. O fidalgo-autor -acachapara-se de modo, que parecia querer sumir-se debaixo da meza. O -seu advogado lia a declaração, e carecia de coragem para impugnar-lhe a -validade. O juiz dizia ao delegado: - -—Deviamos esperar isto, ou cousa semelhante. Este homem, sem provar nada, -tinha provado a sua innocencia. - -E o delegado confirmava: - -—Eu espero a minha vez de abraçal-o! - -O cidadão honesto da Couraça dos Apostolos ia a sahir, quando Casimiro, -que parecia absorto, disse: - -—Sr. juiz, peço a v. ex.ª a graça de ordenar áquella testemunha, que se -demore um instante. - -—Quer querellar!—bradou o patrono. - -—Não quero querellar—acudiu Casimiro, desabotoando uma carteira, d’onde -tirou um papel, e accrescentou: - -—Disse a testemunha que eu roubára as joias da familia de minha mulher. A -testemunha faltou á verdade. Peço licença para ler, e offerecer ao exame -das pessoas, que me escutam, a seguinte declaração de meu sogro «Ruy de -Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro que minha filha Christina -Elisiaria não subtrahiu de minha casa valor algum, nem os seus proprios -vestidos e adresses, quando fugiu para casar com Casimiro Bettancourt. -E por isto ser verdade, mui espontaneamente, e com juramento aos Santos -Evangelhos o declaro agora e sempre. Pinhel 22 de abril de 1839. _Ruy de -Nellas_, etc.» - -—Meu sogro está vivo para confirmar esta declaração. - -—Confirmo!—bradou uma voz d’entre as turbas comprimidas na teia. E logo -um gentil ancião de veneraveis cans, e nobre aspeito, com as faces -arregoadas de lagrimas, entrou na clareira que a multidão lhe abria, e -chegou á beira de Casimiro, e repetiu com a voz quebrada de soluços: - -—Confirmo! confirmo! honrado moço, meu filho amado! - -E abraçou-se n’elle, e logo na filha, que se lhe lançou aos pés, e em -Ladislau e no padre, e na irmã, e em todos quantos vinham com olhos -humidos, porque alli quantos choravam, e choravam todos, elle adoptava -como amigos, como quinhoeiros da sua alegria! - -Que momentos aquelles! Aquelle jubilo febril não matou, porque era santo, -porque a Providencia divina se comprazia em contemplal-o! - - - - -XVII - -Contrastes - - -Ia a turbulenta comitiva, que seguiu até casa de Bettancourt. A faisca -electrica de enthusiasmo, recebida nos lances do tribunal, conflagrou -animos juvenis, em bellicoso arrebatamento contra a policia e a tropa; -por maneira que, as duas familias levavam um prestito de centenares de -mancebos, urrando vivas á academia, e morras aos futricas e aos soldados. -Casimiro parou algumas vezes no intuito de arengar aos moços; porém, a -cada palavra conciliadora respondia o fremir de muitas vozes, a pedirem -sangue e vingança? - -—Parecem-me canibaes!—dizia Ruy de Nellas ao vigario.—Esta rapaziada não -tem quem a governe!? Pobres pais e mãis! - -Conseguiram entrar em casa, e accommodar os pequenitos, que vinham -chorando de medrosos da vozeria, Mafalda nos braços do avô, e o filho de -Ladislau nos do padre João. - -Casimiro sahiu á janella a dizer expressões de reconhecimento que a -turba desattendia, clamando sempre vingança, e pedindo ao academico que -tomasse o commando dos estudantes para vingar a morte do valente que o -defendera a elle. - -Por entre os amotinados circulavam pessoas de respeito, pacificando -os animos, ou enganando-os para mais azado lanço. A custo, porém se -dispersaram, comprommettidos a reunirem-se no sahimento de Guilherme Lira. - -Aquietou-se a rua. - -O velho sentou-se entre a filha e o genro, lançando-lhes os braços em -volta do pescoço. Alegremente conversou, ora queixando-se de não o terem -muitas vezes importunado com rogos de perdão, ora promettendo-lhes em -dobro a amisade, que lhes não déra mais cedo. - -—Nada de Coimbra—dizia elle a Bettancourt—Vamos para Pinhel, que tu -não tens necessidade de ser official com tanto trabalho. A legitima de -tua mulher vai augmentando, sou eu que a tomo a juros; e, emquanto eu -viver, estareis em casa, sem dispender do vosso. É preciso pagarem se -as dividas de dinheiro, que as de amor nunca se pagam. Este Ladislau é -um grande moço, é o pai no rosto e no coração. Este padre João sei eu -bem o que elle é; creou-se debaixo das minhas telhas, e ha de vir a ser -bispo, se a virtude é qualidade para ser bispo. Em quanto á cachorra da -Peregrina, esta, se não fosse do Ladislau, havia de casar commigo, que -está guapa, esbelta, e uma perfeita dama. Vocês riem-se? Talvez pensem -que se eu quizesse dar madrasta á minha Christina, andaria muito tempo -a farejar nas boas familias da provincia!... Ora agora, tu, Casimiro, -deixa-te de mathematicas, faz te lavrador, toma á tua conta os cazeiros -da nossa casa, melhora-me os bens livres quanto pudéres, bemfeitorias e -mais bemfeitorias nos prasos de nomeação, que eu quero deixar o menos que -possa ser ao D. Sueiro, áquelle vil enroupado em habitos fidalgos. São -uns lacaios todos, desde o morgado até D. Alexandre, e a minha Guiomar lá -se fez com elles, que nem já se dignou escrever-me no dia dos meus annos! -Deixai-a commigo... Vamos a saber: vocês não jantam? O contentamento -é boa iguaria; mas vejam sempre se me guizam o contentamento com umas -batatas e umas fatias de presunto. Vocês comem o contentamento, e eu o -resto. - -Sahiu Ladislau a tomar o jantar no Paço do Conde, visto que em casa -ninguem atinava a saber onde estavam as panelas. - -Entretanto, continuou o infatigavel fidalgo: - -—Vou logo escrever a minha irmã, a contar-lhe o succedido. Tenho vontade -de a vêr; não queria morrer sem a vêr! Foi para Lisboa aos treze annos: -era um lyrio de brancura, e galanteria. Nunca mais a vi... Velha não -póde estar, que eu levo-lhe vinte annos de vantagem... Bella vantagem, -não tem duvida!... Talvez a convide a vir passar comnosco em Pinhel -alguma temporada; mas ella sahe lá de Lisboa! Disse-me um deputado que -a condessa vive lá no ultimo fausto, e é visitada por tudo que tem um -nome grande na aristocracia e na politica. Será ella constitucional? -Isso lá me custa; mas, em fim, o marido era-o; e justo é que ella herde -as convicções de quem herdou seiscentos mil cruzados em dinheiro, que os -vinculos foram a quem tocaram. Fez uma asneira minha irmã em enviuvar sem -filhos. - -Ninguem lhe cortava a jovial parlenda ao velho, até que chegou Ladislau -com dous moços carregados de vitualhas. Á excepção de Ruy de Nellas, os -convivas debicaram levemente as iguarias. Casimiro comêra regularmente -no dia em que fôra preso; e, solto, entretinha-se a repartir o prato -entre os pequenos. Não parecia ser a satisfação da alma que lhe tornava -fastidioso o alimento; pelo contrario, revia-lhe o semblante uma -extraordinaria melancholia. - -É que o moço via diante de si continuamente a imagem de Guilherme, -que, vinte e quatro horas antes, tinha dito a Christina: «Ámanhã já -v. ex.ª janta em casa com seu marido.» E abstinha-se de revelar a sua -mágoa para não compungir a esposa e amigos, que tão alegres estavam, e -perdoavelmente esquecidos do commensal do dia anterior, áquella hora -amortalhado! - -Era já proposito de Casimiro sahir da Universidade, e ir buscar sua -vida em qualquer parte ou mistér. Aquelle anno era o segundo já -perdido. Entrou-se da certeza que a desgraça lhe atravancava o caminho -das sciencias. Elle amava o estudo, deleitava-se nas asperidões da -mathematica, e ia desatar-se para sempre e saudosissimo dos seus livros, -das suas oito horas de estudo, da sua banqueta de pinho pintada, e de -toda aquella pobreza limpa, que as mãos de sua mulher transformavam em -jaspes, mognos, razes e ouro. - -O convite de ir para Pinhel, com o sogro, seu amigo, entrar no goso das -honras da illustre familia, ostentar a benemerencia da sua probidade, -regendo a avultada casa, vingar-se assim pacificamente dos de Miranda, -nenhum d’estes incitamentos lhe descontava nas dôres. Será paradoxal o -dizer que Bettancourt mais se queria refugiar no casal de Villa Cova com -sua mulher e filha, e antes de melhor rosto acceitaria o seu prato á -meza de Ladislau? Pois é uma sublime verdade esta! Casimiro olhava em -Ladislau, no vigario, e sua irmã, e dizia-se: «Ó meus amigos, a minha -dôr inconsolavel será deixar-vos. Eu hei de fugir sempre para as vossas -serras, em quanto tiver vida para me lembrar o que fostes para mim e -minha mulher nos dias de desamparo!» - -—Cuidei que te vinha trazer mais alegria, Casimiro—dizia o fidalgo. - -—V. ex.ª desculpe a minha tristeza—responde Casimiro—Enterra-se hoje um -meu amigo. - -—Pois sim, bem sei que deves ter pena do rapaz; comtudo, cada coisa tem -seu logar. Conversa com a gente, abre um riso n’esse rosto, e faz que eu -me não persuada que sou aqui de mais para a tua satisfação. - -Casimiro levou aos labios a mão do velho, e disse: - -—V. ex.ª está gracejando; mas ainda assim, magoa-me. Eu poderia esperar -muitas melhorias á minha sorte, que ainda hontem era desgraçadissima -no dizer do mundo; porém, a vinda de v. ex.ª com tão amoravel perdão, -tamanho bem é que nem eu sonhava. V. ex.ª dirá se eu... - -—Não me dês sempre _excellencia_, Casimiro; chama-me alguma vez pai, se -queres que eu te chame filho. - -Beijou-lhe de novo a mão, em quanto Christina, tomando o maior quinhão do -contentamento d’aquella adopção paternal, abraçou-se ao pescoço do velho, -e acariciou-o infantilmente. - -Ao anoitecer, Casimiro pediu licença para sahir. - -—Onde vaes?—acudiu Ruy de Nellas. - -—Vou acompanhar o cadaver de Guilherme Lira. - -Encararam-se mutuamente, e voz nenhuma contrariou a piedade do amigo. - -Ladislau, tomando licença de sua mulher, seguiu o compadre. O vigario -ficou em companhia de Ruy e das senhoras. - -Christina, ao despedir-se do esposo, no patamar da escada, disse-lhe em -modelação supplicante: - -—E se houver desordem?... - -—Eu farei que haja paz, minha filha. - -—Então vaes na idéa de te envolveres na desordem? - -—Não, filha, vou na ideia de evital-a. Limpa as lagrimas, Christina, não -appareças assim diante de teu pai, que me accusará de duro para ti. Bem -sabes que sagrado dever eu vou cumprir, minha filha. - -Sahiram. - -Raro academico faltou ao sahimento do cadaver. As alas negras moviam-se -vagarosas, tristes e com os olhos em terra. Ao lampejar das tochas -rebrilhavam muitas lagrimas. - -Guilherme Lira morrera propugnando pelos brios academicos, diziam: era -um engano. Guilherme morrera, suicidando-se. É verdade que, no correr de -quatro annos, mão terrorista pesára sobre a gente coimbran, avêssa aos -academicos, de cujo pão vivem. Soldados e verdeaes respeitavam a batina, -porque Guilherme Lira vestia uma. Sobravam razões de gratidão áquelle -desgraçado; mas o seu morrer, o derradeiro arrojo, não era já valentia; -fôra um ir metter o peito ás espingardas que o abocavam. - -Foi o cadaver lançado á cova. N’este acto, Casimiro sahiu de entre a -multidão que rodeava a sepultura, e lançou sobre o cadaver a primeira pá -de terra. Depois cruzando as mãos sobre o peito, e sem desfitar os olhos -da cabeça empannada e ensanguentada do morto, disse: - -—«Alli está a mocidade e a força; alli está um mancebo que deixou mãi -n’este mundo; n’isto parou o grande alento d’onde os infortunios da vida -desviaram as torrentes dos influxos do céu. Este homem seria um anjo do -bem, se melhores condições da mocidade o não houvessem saturado de odio -contra o mundo. Eu sei a historia d’esta existencia perdida, senhores. -Este moço era bom; derramou inutilmente os balsamos do coração; achou-se -vasio de amor; e repletou-se de peçonha e odio. Cansou-lhe a coragem -para a resignação; sobreveio-lhe o delirio da vingança, vingança cega, -sêde voraz de sangue; mas observai, senhores, que a tentação nem sempre -venceu o instincto do céu com que fôra dotado este moço. Aquelle homem -teve tantos amigos, tantos que, entre vós, um só não ha que se peje de -mostrar as lagrimas. As minhas seria vergonhoso que se não vissem: eu hei -de choral-as longo tempo... Vós sabeis que as portas do carcere se me -abriram hoje, porque esta sepultura vai ser fechada. E eu, na presença de -centenaros de testemunhas, e por aquella redemptora cruz, vos juro que -acceitaria a minha prisão perpetua em troca da vida d’este homem, que era -vosso, assim como tinha sido meu defensor...» - -—Vingança! vingança!—bradaram algumas vozes de estudantes, que agitavam -os gorros, e as tochas. - -Espectaculo para terror era aquelle em volta de um cadaver! - -E o brado, conglobado de mil brados, respondeu: - -—Vingança! - -Casimiro ergueu a mão, pedindo silencio, e exclamou: - -—Paz! paz! é que eu vos peço, em nome de vossas mãis, em nome das cans -do velho pai, que espera amparar-se em vosso braço! em nome de vossas -irmãs que fiam do vosso auxilio o seu futuro! em nome das almas candidas -que vos sorriem ao coração dias de maior felicidade! Paz vos peço eu, -meus amigos, apontando-vos este moço que está por aquelles labios frios -contando o que é a desordem, o que é a guerra, o que é desencaminhar-se -um homem da estrada, onde ha espinhos, para tomar pela estrada onde ha -abysmos. Que util lição, que excellente preceptor não está sendo este -cadaver! Lembrai-vos, senhores, que este moço tem mãi. - -Entrai com o espirito no coração das vossas. Avaliai o amargor das -lagrimas que verterá cada uma das santas do amor, se um de vós cahir -n’aquell’outra sepultura. Consenti que eu falle n’este instante pelo -brado de todas, e vos peça o que ellas supplicantes a cada um de vós -pedem: «Paz, meu filho!» - -Callou-se Casimiro. Respondeu o ciciar da respiração alta do immoto -auditorio. Retirou-se elle da margem da cova, e caminhou triste por entre -a multidão, que deixára pender o braço sobre a arma escondida sob a capa. -D’ahi a pouco, os academicos debandavam em grupos, e o silencio d’aquella -sepultura estendeu-se pela face da cidade. - -Ao sahir do cemiterio viu Casimiro diante de si a esposa, o sogro, o -vigario e Peregrina. - -—Viemos ouvir-te, filho—disse commovido o velho. - -—É superior á nossa admiração, sr. Casimiro!—disse o vigario. - -—Eu sou apenas superior aos maus pela virtude de os lastimar—respondeu -Casimiro, dando o braço ao sogro, cuja sensibilidade lhe quebrantava as -forças. - -Desde logo, a pedido de Ruy de Nellas, começaram as senhoras os aprestos -para a jornada no dia immediato á tarde. O velho futurava o rompimento de -alguma revolução academica, a intervenção pacificadora de Casimiro, e a -fortuita desgraça de ser empenhado pela honra a coadjuvar o partido dos -estudantes. - - * * * * * - -A esta hora, meia noute seria, D. Alexandre de Aguilar, infamado, -despresado, e solitario na sua angustia, esvasiava garrafas de cognac, -no intento de aturdir-se e responder com a gargalhada do ebrio ao grito -da vergonha. Os deploraveis perdidos, que se valem d’esta triaga, parece -que a si proprios se estão castigando com mais crueza do que poderia -castigal-os a justiça humana. Noute alta, o ébrio batia com a cabeça -nas vidraças de sua janella, farpava a face nas arestas dos vidros, e -rugia imprecações contra Deus. As patrulhas acummulavam-se á sua porta, -e gargalhavam das estupidas objurgatorias do moço. Acudiam os academicos -visinhos, e bradavam-lhe: - -—Calla-te ahi, miseravel; afoga-te em cognac; não appareças mais á luz do -sol; mas calla-te, besta, que, para seres fera, só te falta a bravura. - -O tumulento fitava o ouvido, e respondia com roucos insultos requintados -em obscenidades de alcouce. - -De madrugada, o neto dos Parmas d’Eça acordou de frio que tinha o peito -ensopado no proprio vomito. - -Sentou-se, circumvagando os olhos espavoridos por sobre a desordem que o -rodeava. Ergueu-se cambaleando, recahiu n’uma poltrona, escondeu o rosto -entre as mãos, e chorou. - -Oh! aquellas lagrimas é que não eram infames. - -O desgraçado lembrou-se que, cinco annos antes, tinha mãi, e que a -prophetica senhora muitas vezes lhe dissera: «Presagia-me o coração que -has de ser desgraçado, meu filho.» - -—Porque?—perguntava elle. - -—Porque tens dezesete annos; sahiste hontem do collegio e já hoje -escarneces a religião de teus pais. Assim tão cedo deixaste estragar o -coração!... D’aqui a annos, nem por amor do teu nome, nem por calculo, -serás honrado! - -E, cinco annos depois, e só então, lhe lembraram as palavras de sua -mãi!... Era o seu anjo da guarda que as recebera então, e agora lh’as -offerecia á memoria, como lenimento unico d’aquella funda ulcera do -descredito, desgraça, e infamia. - -Na noute d’esse dia, D. Alexandre desappareceu de Coimbra, foi caminho de -Lisboa, d’ahi pediu sua legitima a D.Sueiro e sahiu de Portugal. Ha vinte -e tres annos que foi, e não voltou. - - - - -XVIII - -Mãi! - - -Ás duas horas da madrugada do dia seguinte ao das scenas descriptas no -anterior capitulo, chegou á porta da hospedaria, chamada do _Paço do -Conde_, uma carruagem, tirada por duas parelhas. Abertas as portas, apeou -uma senhora, dando a mão a um padre velho que descera primeiro, e logo -a creada. O padre, respondendo á pergunta do creado do hotel, disse que -a senhora condessa de Asinhoso tomaria um caldo de gallinha, e voltou a -receber as ordens de s. ex.ª - -—Pergunte padre Francisco—disse ella—se hoje foi o julgamento de um -academico chamado Casimiro de Bettancourt. - -O padre foi cumprir, dizendo entre si: «que importa á senhora condessa o -julgamento do academico, chamado Casimiro de Bettancourt? Pois será para -assistir á audiencia que ella vem a Coimbra com viagens forçadas?!» - -Volveu o padre, dizendo: - -—É uma historia interessante, que parece novella, a tal do academico, -senhora condessa. Em resumo, conta o estalajadeiro que, estando para ser -julgado o reu, e forçosamente condemnado, appareceu a declaração d’outro -academico, que mataram antes de hontem, confessando-se o matador. Em -consequencia do quê, o tal Bettancourt foi posto em liberdade. - -—Graças, graças, meu Deus!—exclamou a condessa ajoelhando. - -O padre empedreniu-se, e encarou na creada tambem estupefacta: nenhum -ousava tugir um monossyllabo. - -Ergueu-se a condessa, e enviou de novo o capellão a pedir ao dono do -hotel a bondade de fallar com ella por alguns minutos. - -O estalajadeiro vestiu a casaca, esperou na sala a senhora condessa. - -Interrogou-o ella ácerca de todas as miudezas concernentes á soltura -de Bettancourt. O informador relatou-as todas, desde as severas lições -que o academico dera a D. Alexandre, até ao lindo discurso, dizia elle, -que o amigo de Guilherme Lira improvisára á beira da sepultura: e n’uma -especie de apostilla á narrativa contou a esquecida circumstancia de -ter irrompido inesperadamente pelo tribunal dentro o fidalgo, sogro do -estudante. - -—Pois elle está em Coimbra?!—interrompeu vivamente a condessa. - -—Vi-o eu, minha senhora! É um velho bonito! basta vêl-o para se dizer: -«aquelle é um fidalgo dos antigos tempos!» - -—Sabe onde mora Casimiro Bettancourt? - -—Sei, minha senhora. - -—De manhã tem a bondade de me guiar a casa d’elle? - -—Pois não, senhora condessa? - -O capellão, cujo quarto era sob o pavimento dos aposentos da condessa, -apesar de contuso e moido dos solavancos da carruagem pelas barrocas da -estrada real de 1840, não poude adormecer, ouvindo até á madrugada os -passos da illustre dama, e o abrir e fechar de portas d’uma janella. -Certo fôra que a condessa nem sequer encostára a face ás almofadas do -leito, e, de quarto em quarto de hora, ia impaciente abrir a janella e -ver se rompia a alva. - -Assim que aclarou o céu, já a senhora despertou a creada para lhe dar do -bahú outros vestidos e ornatos. - -Ao nascer do sol, estava s. ex.ª vestida a rigor de viuva opulenta: -modestia elegante, pompa meio velada pela côr escura do estofo. - -O egresso, que perdera a esperança de adormecer, levantou-se, e foi á -antecamara receber as ordens da condessa. Sahiu ella a dizer-lhe que -tomaria uma chavena de café, e ás nove horas sahiria acompanhada de sua -reverendissima. - -Sua reverendissima, vendo-a assim adereçada, consentiu que o demonio da -maledicencia lhe encavalgasse o espirito: «Dar-se-ha caso, dizia elle -comsigo, que a condessa esteja namorada d’esse Bettancourt? Querem ver -que esta senhora, aos quarenta e seis annos, tresvaliou, e vai destruir -o bom nome que está gosando?? Mas não!—monologou elle, tornando sobre -si—Vai-te espirito aleivoso que me tentas! Aqui anda segredo que eu vou -saber logo! Esta senhora é o typo da honestidade, e o modelo das viuvas -honradas. - -Ás nove horas sahiu a condessa, com o seu capellão e o estalajadeiro. - -Chegaram defronte da pequena casa da Couraça dos Apostolos. - -—É aqui—disse o guia. - -—Obrigada. Póde ir, que eu demoro-me. - -Subiu a dama a declivosa escadinha, e bateu á porta do topo. O capellão -seguiu-a, gemendo. - -Abriu uma creada a porta. - -—Posso fallar ao sr. Ruy de Nellas?—disse a condessa. - -Foi a creada á saleta em que as duas familias estavam almoçando, e -noticiou que era uma senhora ricamente vestida a perguntar pelo sr. Ruy -de Nellas. - -—Quem póde ser?!—reflectiu o fidalgo. - -—Abre o meu quarto de estudo, e diz á senhora que entre—disse Casimiro. - -Quando a creada sahia da saleta, já a condessa estava á entrada, dizendo: - -—Não sou de ceremonias, vou entrando, porque já conheci a voz do mano Ruy. - -Levantaram-se todos. O velho abriu os braços, e ficou de braços abertos, -e bocca tambem aberta. - -A condessa chegou-se ao alcance do abraço, e disse: - -—Parece que o mano duvida... - -Duvido...—balbuciou elle—pela mesma razão que não devia duvidar... Tu -tens vinte e cinco annos, Eugenia! Estás como te vi sahir de Pinhel! - -—Cuidei que lisonjas eram desusadas entre irmãos, Ruy!... Pois eu -dir-te-hei que estás bastante alcançado. A vida de provincia é menos -salutar do que dizem as pessoas que envelhecem na corte. Senta-te, Ruy, e -dá-me uma chavena do teu café. - -—Tu aqui, mana!... tu aqui!...—voltava o fidalgo—Deixa-me convencer bem -de que estou acordado! Quem é aquelle senhor?... - -—É o meu capellão. - -—Sente-se, sr. padre capellão, sente-se. - -—Qual d’estas meninas é a tua filha?—perguntou a condessa. - -—É esta, aqui tens a minha Christina. - -A condessa beijou-a, abraçou-a, e mandou-a sentar. - -—Este é meu genro—continuou o velho apresentando-lh’o. - -Casimiro deu um passo, e curvou reverentemente a cabeça. - -—Este é que é o sr. Casimiro Bettancourt?—disse a condessa apertando-lhe -a mão. - -E a mão ardia, tremia, e apertava extraordinariamente. - -—As outras pessoas,—concluiu Ruy—são filhos do meu coração: aquella é a -minha Peregrina, e aquelle o meu padre João. Lembras-te, Eugenia, do José -Ferreira da Rochousa, nosso caseiro? - -—Lembro. - -—Pois são filhos d’elle que eu herdei. Aquell’outro, que alli vês, é -Ladislau, marido de Peregrina. - -—E estas duas creancinhas? - -—Uma é minha neta e tua sobrinha, primogenita e unica de Christina, a -outra é filha de Ladislau. - -A condessa, ouvindo o irmão, a cada instante relanceava os olhos a -Bettancourt, unico da comitiva, que ficára de pé, no intento de servir a -hospeda, e dar a sua cadeira ao capellão. - -—Senta-te, Casimiro—disse o velho—Aqui tens, Eugenia, o meu orgulho, -a minha gloria, o meu Casimiro sem mancha de culpa, com a sua honra -illibada! Não foi preciso appellarmos para Lisboa. A justiça de Deus veio -mais cedo do que a esperavamos. Eu te conto como isso foi... - -—Sei tudo—atalhou a irmã—Já me informaram na hospedaria. - -—Mas como estás tu aqui, mana?—tornou Ruy—Vinhas munida, talvez, de -cartas para alcançares a absolvição de teu sobrinho em Coimbra? - -—Não, Ruy—tartamudeou a condessa. - -—Então que palpite foi esse de te botares ao caminho, sem saberes a -decisão do julgamento?! - -—Dizes bem, Ruy... foi um palpite... - -—Bem hajas tu que vieste dar o remate á nossa satisfação! Agora vais -comnosco para Pinhel, não é assim? - -—Irei. E hoje janto comvosco. - -—Isso estava sabido!... pois então?! - -A condessa disse a padre Francisco: - -—Póde ir, e descansar á sua vontade, padre capellão, que eu passo aqui o -dia. Queira dar esta parte á creada. - -Sahiu o padre, e todos passaram ao quarto de estudo de Casimiro, que era -a parte mais alegre e arejada da casa. - -—Estou entre amigos!—disse com um profundo suspiro a condessa—É a -primeira vez na minha vida que digo isto! - -Ruy comprehendeu a irmã, relembrou a mocidade dolorosa de Eugenia, e fez -um gesto compassivo, e outro que significára: «Não lembremos o que lá -vai.» - -Porém, Casimiro, impressionado d’aquellas palavras disse respeitosamente: - -—As felicidades de v. ex.ª não devem ter sido invejaveis!... Em volta da -riqueza, da formosura, e de um nome distincto costumam reunir-se muitos -amigos... ou, pelo menos, muitos que o parecem... - -A condessa encarou n’elle com penetrantes olhos, e disse: - -—Lastima-me, não é verdade? - -—Minha senhora—balbuciou Casimiro—peço perdão... não quiz dizer que -lastimava v. ex.ª... Quaesquer que tenham sido suas magoas, a sua elevada -posição não consente que eu me condôa... - -—Está bom, está bom—atalhou Ruy—não se falla aqui em magoas, nem dó, nem -lastimas! Este meu Casimiro tem uma propensão para discursos tristes, que -nunca vi!... Olha que hontem á noute, mana, o que elle disse á beira da -sepultura do Guilherme, ia arrancar ao fundo do coração as lagrimas de -quem nunca tivesse chorado! - -—É porque eu dava o exemplo, chorando, sr.ª condessa—ajuntou Casimiro. - -—E deve ter chorado muito!—disse ella. - -—Pouco, minha senhora. Sou um homem muito resignado, ou muito forte. A -mim as grandes angustias levemente me abalam. Algumas vezes tenho chorado -por cousas insignificantes. Posso ver a olhos enxutos morrer minha filha, -e não poderei ouvir sem lagrimas o piar de uma ave, a quem mataram os -filhos no ninho. Isto será deformidade de organisação; mas dureza de alma -não é, minha senhora... Meditando na minha indole, vim a considerar que -para mim o incentivo das lagrimas é uma certa poesia funebre e maviosa, -sensação que eu não sei d’outro modo definir; ao passo que as desditas -positivas, cerradas e suffocantes regelam-me a alma. - -—Elle ahi está a fugir para a tristeza!—interrompeu o fidalgo. - -—Deixa-o fallar, mano...—pediu a condessa. - -—S. ex.ª tem rasão...—disse Bettancourt eu sou incorrigivel e tenho -contagio. Aqui está a minha Christina absorvida tambem na sua meditação... - -—Não—acudiu Christina—eu estava a pensar com alegria nas tuas tristezas -passadas, meu Casimiro. - -—E todos com o passado ás voltas!—clamou Ruy—Fallem no presente, -descubram o futuro, e não me afflijam, que vai aqui tudo raso! Querem ver -que a minha Eugenia tambem é melancolica? Em pequena eras muito, menina! -O teu gosto eram sombras de arvores, fontes, ver o céu de noute... Aqui -estou eu tambem a fugir para traz trinta e tantos annos! Bem diz o -Casimiro que a sua scisma é pegadiça!... - -—Mas olha, mano, deixa-me conversar com o teu genro, que o passado te -aborreça... - -—O que eu observo, Eugenia, é que tu sympathisas grandemente com elle!... - -—Porque não!? - -—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Casimiro. - -—Isso quando se diz, faz-se. - -—O quê, senhora condessa? - -—Disse que me beijava as mãos... então... beije. - -Casimiro inclinou-se, e beijou de leve a mão da dama, que lhe apertou -vertiginosamente a d’elle. - -Este visivel estremecimento impressionou Christina e Peregrina, que se -encararam de um modo que podia ser duvidar do bom senso da condessa. - -—Vamos conversar, sr. Casimiro—disse Eugenia—Queira sentar-se ao meu -lado. Meu mano já me disse que o sr. era filho de um militar, que morreu -no cêrco do Porto. - -—Sim, minha senhora, sou filho de Duarte Bettancourt. - -—Conheceu seu pai? Onde estava quando elle morreu? - -—Conheci meu pai. Vi-o em 1830 pela ultima vez. Estava eu no collegio dos -Nobres, quando elle morreu. - -—Sabe em que anno nasceu? - -—Sei-o dos proprios apontamentos de meu pai. - -—Escriptos por elle mesmo? - -—Sim, minha senhora. - -—Dá-me licença que os veja? - -—Por que não, sr.ª condessa? Aqui está a velha carteira de meu pai... - -A condessa tomou da mão de Casimiro, com sofrega ancia, a carteira, que -folheou. - -—Onde é?—disse ella convulsiva. - -—Aqui, minha senhora—respondeu Casimiro indicando-lhe a pagina, que a -condessa leu: - -_Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816. Foi baptisado em S. -Domingos de Santarem aos 22 do mesmo mez. Foi creado no Cartaxo d’onde -sahiu em 1820..._ - -A condessa murmurava ainda; mas não lia o restante da nota. Fechou a -carteira, e voltou-a nas mãos, remirando-a. Depois, pregou os olhos no -rosto de Casimiro, e permaneceu n’este spasmo alguns minutos, até que -muito do fundo do seio lhe sahiu um grito estridente, e uma explosão de -lagrimas em que a luz da vista parecia innevoar-se. - -—V. ex.ª soffre!...—disse Casimiro. - -E acercaram-se todos da condessa, que, tomando a mão de Bettancourt, -ergueu-se de impeto e disse-lhe: - -—Leve-me a uma janella... dê-me ar, e uma gotta d’agua. - -—São nervos!—observou Ruy—É da casa, que é abafada... Abram todas as -janellas... Queres tu descer ao quintal? Vai com ella, Casimiro... Vamos -todos. - -—Estou melhor—atalhou D. Eugenia—Já respirei... - -—Costumam dar-te estes accessos, mana? - -—Costumam... - -Sentou-se de novo, reparando na carteira, e outra vez se lhe tingiu de -escarlate febril o rosto. - -—Mysterio!—disse o vigario ao ouvido do cunhado. - -—Que cuidas?!—perguntou Ladislau... - -—Esperemos. - -A condessa affastou das fontes os cabellos empastados de suor, e disse -cortando as palavras de suspensões, que pareciam o abafar de mão estranha -na garganta: - -—Casimiro esteve no collegio dos Nobres até... - -—Até 1834, minha senhora—respondeu o filho do major. - -—E depois... - -—Como perdi meu pai, fui a Pinhel procurar amparo de parentes pobres. - -—E nunca viu no «Diario do Governo» um annuncio perguntando se existia um -filho do major Duarte Bettancourt? - -—A Pinhel nunca chegou esse jornal—disse Casimiro—E quem se interessava -em saber se eu existia? - -—Quem?... - -—Sim, minha senhora. - -—Era eu. - -—V. ex.ª!—acudiu Casimiro com assombro. - -—Com que fim eras tu, Eugenia?—perguntou o fidalgo. - -A condessa fitou a vista incendiada no irmão; e disse: - -—Com o fim de saber se existia... meu filho! - -Assim devia ficar uma familia de Pompeia, de subito, empedrada na invasão -da lava fulminante. Uns a outros, com olhos pavidos, pareciam pedir o -claro sentido d’aquellas palavras. - -Casimiro sentiu lavaredas no seio e descerrou os labios á expedição -do lume. Estrondeavam-lhe no encephalo umas allucinações de ebrio. -Dos olhos de sua mãi afuzilavam umas como frechas que lhe cortavam -de lampejos o curto espaço de ar intermedio. Para os outros, ha só o -termo «estupefacção» que os descreva. A condessa oscillava outra vez -assoberbada pela commoção nervosa; já se não sustinha, com as mãos -apoiadas nas costas da cadeira. Levantou-as, estendeu os braços como a -pedir amparo. Encontrou o seio de Casimiro, e n’elle inclinou a face, -exclamando: - -—Meu filho!... - -Mas isto tudo é um sonho!—disse Ruy de Nellas, levando as mãos ás fontes. - -Casimiro ajoelhou com a mãi nos braços. As duas senhoras, sem segura -consciencia do que faziam, foram amparar a condessa. O vigario pôz -as mãos em attitude de quem ora. Ladislau cruzou os braços no peito -contemplando o grupo. - -De subito, Casimiro afastou um pouco a face, contemplou o rosto pallido -da condessa, beijou-a na fronte e disse: - -—Tenho mãi, meu Deus!... Eu sabia que a tinha, e havia de encontral-a!... - -Então, chorou, a torrentes! - -Se não chorasse enlouquecia. - - - - -XIX - -Paz e contentamento - - -Decorridas algumas semanas, o casamento de Casimiro Bettancourt com sua -prima carnal D. Christina de Nellas era validado pelo nuncio apostolico, -dispensando no parentesco, e saneando a ingnorada irregularidade. A -condessa perfilhava Casimiro para lhe segurar a successão de seus grandes -cabedaes. Casimiro, porém, com quanta delicadeza e respeito a ternura -filial lhe inspirou, disse que só acceitava a perfilhação para ser seu -filho, e não seu herdeiro. Ficou interdicta, e alheia da intenção da -resposta, a condessa. O filho esclareceu assim a propria demencia: - -—Minha mãi herdou de seu marido: eu, filho de outro homem, que morreu -pobre, peço licença para ser estranho aos haveres do sr. conde de -Asinhoso. Eu sou filho de D. Eugenia de Nellas. Minha mãi ainda tem a sua -legitima n’esta casa de Pinhel. Essa acceito-a como dote para egualar o -patrimonio de minha mulher. - -—Pois sim, filho, faça-se a tua vontade—disse a condessa.—Por minha -morte ficarás agricultando algumas geiras de terra em Pinhel, que valerão -doze mil cruzados. Ficarás sendo um lavrador dos menos abastados da -comarca. Minha sobrinha Guiomar virá senhorear-se do vinculo e da casa -que é vinculada. Tu com tua mulher e filhos irás viver no casal da -Rechousa, ou n’outro semelhante, que ameaçam ruina. - -—As paredes abaladas especam-se, minha querida mãi; a dignidade aluida é -que nunca mais se repara. Eu amo a mediania, que é o refugio da paz. As -lições da vida deu-m’as o lavrador de Villa Cova. Minha mãi prometteu-me -ir ver de perto a casa de entre serras, aquelle abrigo de honrados e de -santos. Venha commigo alli estar uns dias, e v. ex.ª olhando d’alli para -o céu, dirá: «se ha paraizo na terra, se ha bem no mundo, é aqui». - -—Iremos, filho: eu tambem o desejo. Já estou convidada para ser madrinha -do segundo filho de Ladislau. Bem vês que ando a cuidar-lhe do enxoval. - -E, logo na semana seguinte, partiram todos para Villa Cova, e as meninas -solteiras de Pinhel tambem. - -Quem é este homem de jaqueta de panno azul e colete encarnado, e chapeu -braguez que vai a pé, ao lado da egua em que monta a condessa? - -É mestre Antonio—o carpinteiro.—Alli vai conversando em obras, que é -preciso fazer aqui e acolá, nas casas arruinadas do fidalgo. A condessa -trabalha por tirar este homem do officio: offerece-lhe dinheiro para -erguer casa, e comprar bens. Mestre Antonio responde: - -—Fidalga, grande nau grande tormenta! Deixe-me cá com a minha vida que -vou bem assim. Meu filho brazileiro manda-me duzentos mil réis cada anno, -e eu, a fallar verdade a v. ex.ª, tenho-os alli para uma gaveta, sem -saber de que me servem. A minha alegria é o trabalho. Em pegando dous -dias-santos, ando como tolo sem saber em que hei de gastar o tempo. - -—Mas gaste-o em trabalhar nos seus bens. - -—Nos meus bens trabalho eu, sr.ª condessa. Logo que me pagam o serviço, -alguma cousa tenho dos bens em que trabalho. - - * * * * * - -Ficarás, por tanto, carpinteiro, honrado homem, mas homem honrado, toda a -tua vida! - - * * * * * - -Custa a caber tanta gente na casa de Villa Cova! Armam-se leitos de -bancos nos cazarões das tulhas. O quarto solemne dos padres é consignado -ao fidalgo. A condessa occupa o de Peregrina. Que feliz barafunda alli -vai! Os creados vem carregados de caça dos montes. O fidalgo quer ir á -cosinha fazer umas troixas de ovos, cuja receita lhe deram os anjos. A -condessa anda lá pelos campos a correr atraz da nétinha. As irmãs de -Christina sobem á lapa da Crasta e entram de lá a berrar que lhes acudam, -que as comem os lobos. O capellão da condessa, acertando de encontrar na -livraria dos padres Militões as cartas manuscriptas de fr. Bartholomeu -dos Martyres, persegue toda a gente para que lhe ouçam ler as cartas e os -commentarios soporiferos d’elle. - -Quem mais o atura é Casimiro que foge do bulicio para a livraria defeza -ás corrimaças das cunhadas. - -Chega o dia do baptisado, e n’esse dia apparece inesperado em Villa Cova -um tabellião de Pinhel, a rôgo da sr.ª condessa de Asinhoso. Lavra-se uma -escriptura. É uma doação que faz a mãe de Casimiro ao seu afilhado Ruy, -filho de Ladislau. Dôa-lhe quinze mil cruzados em inscripções nos Bancos -de Portugal, em virtude dos muitos e impagaveis favores que devia a seus -pais. - -Casimiro abraça sua mãi, e exclama: - -—A virtude é engenhosa, minha querida amiga! - -Os pais do menino beijam-lhe a mão, e Ladislau diz: - -—Com a condição de que meu filho conservará o deposito como patrimonio -dos desgraçados: mande v. ex.ª escrever esta clausula na escriptura. - -—Ladislau—disse a condessa—já lh’a deve ter escripta no coração. - - * * * * * - -Alli se detiveram trinta dias. De Pinhel, em cada semana, vinham cargas -de viveres. Ladislau sentia-se, e o fidalgo respondia: - -—Isto é para o capellão da mana condessa, que lê muito as cartas do -fr. Bartholomeu; chora de enthusiasmo; mas não o imita na temperança. -Seria capaz de engulir o santo, o bom do egresso, se o pilhasse! Sem -este contrapeso de vitualhas, amigo Ladislau, eramos todos victimas -da gulodice do padre. Vamos lançando estes bocados ao Acheronte, que -promette, ao contrario do outro, levar-nos para o céu, se não adormecer -no meio do caminho. - -A alegria dava graça ao velho, que, em geral, era semsaborão. - -Na volta para Pinhel trouxeram comsigo a familia de Villa Cova, salvo o -vigario que voltou ao amor do seu rebanho. - -Sahiu para Lisboa o capellão da condessa com ordens ao procurador para -vender o palacio, os trens, os primores da Asia, que opulentavam a triste -vivenda da viuva. Triste, sem um amigo, como ella dizia. Ao mesmo tempo, -o egresso cumpriu outras ordens com referencia ao ministro da justiça. -Ultimado tudo, voltou o padre a Pinhel: ia reloucado de prazer, porque, -á ultima hora, soubera que fôra nomeado conego da patriarchal. Beijou as -mãos á condessa. - -—Vá—disse-lhe ella sorrindo—vá imitar na pobreza ecclesiastica o seu -predilecto Bartholomeu dos Martyres. - -Na mesma data era nomeado conego da sé da Guarda o padre João Ferreira. - -O vigario, avisado na sua pobre parochia, foi a Pinhel, depositou a mercê -nas mãos da condessa, e disse: - -—Perdoe-me v. ex.ª a recusa: eu não posso separar-me de minha mãe e -cunhado. V. ex.ª não quer que eu me deixe alli viver á sombra das -virtudes dos padres de Villa Cova. - -—Eis aqui um padre novo, que destôa das doutrinas do meu velho -capellão!—disse a condessa—Pois sim, padre João, vá para o seu -presbyterio, e venha ver-me muita vez, e tome á sua conta a minha velhice. - -Christina contou a sua tia e sogra os menores incidentes do seu namôro, e -mostrou-lhe o José-pastor que tão util e leal lhe fôra. - -Chamou a fidalga José-pastor e mandou-lhe que dissesse a razão por que -fizéra aquelles serviços ao sr. Casimiro e á menina. - -O rapaz respondeu: - -—Era toda a gente contra elles, e eu disse cá c’os meus botões: ora deixa -estar que eu vos dou nas ventas para traz. - -—E nunca te deram nada? - -—Elles que me haviam de dar, fidalga?? - -—Então fazias tudo sem interesse? - -—O que eu queria era vel-os casados. A menina estava lá em cima fechada -a chorar, e o sr. Casimiro andava lá por longe escondido... fizeram-me -muita pena! Foi o que foi. - -—Queres tu ser padre?—perguntou a condessa. - -—Padre?! - -—Sim. - -—Não, senhora. Antes queria ser sargento. - -—Sargento!... mas tu és muito rapaz ainda para assentar praça. - -—Posso assentar praça de tambor, que os tambores são do meu tamanho. - -—És tolo, rapaz! Queres tu estudar para depois ser official? - -—Eu já sei ler, que me ensinou o sr. Casimiro. - -—Pois sim; mas agora vais aprender outras coisas para Lisboa. - -—E leva-se lá bordoada de cego? - -—Não, patarata, ninguem lá te bate. - -—Então, se a fidalga quer, e o fidalgo deixar, vou. - -E foi para a Polytechnica de Lisboa, com recommendação da condessa. - -D. Sueiro de Aguilar teve noticia d’estes successos estupendos. Sentiu -guinadas de fazer as pases com a familia de Villa-Cova, e por um cabello -se não descobre n’esta extrema de despejo. Guiomar ainda escreveu a sua -tia, cumprimentando-a pela sua chegada. A condessa respondeu: «agradeço o -cumprimento de minha sobrinha, e faço votos pela sua felicidade.» - -Esta sequidão irritou D. Sueiro, que se desentranhou em apostrophes -contra a canalha de Pinhel. A tia de sua mulher foi exposta á irrisão dos -seus hospedes, na presença da sobrinha. Repetiram-se os vilipendiosos -amores que deram o filho natural, sobrinho do carpinteiro. Desde este -facto, D. Guiomar odiou o marido, cuja hediondez de caracter só podia ser -avantajada por D. Alexandre. - -Tratou a condessa de casar suas sobrinhas, com auxilio dos seus haveres. -Accorreram pretendentes das duas provincias contiguas, e casaram -todas com morgados, homens de bem, vaidosos de seus appellidos, mas -inoffensivos, e virtuosos mesmo por vaidade de imitarem seus avoengos. -As senhoras dispersas por aquelles palacetes solarengos reuniam-se em -casa de seu pai, nas festas do anno, nos natalicios, e no anniversario do -casamento de Casimiro. Esta clausula fôra instituida pela condessa. - -A tiro de peça de Pinhel, existiam uns casebres derrocados, onde nascera, -segundo informações de mestre Antonio, seu cunhado Duarte Bettancourt, -filho de um soldado da ilha de S. Miguel, que ficára na metropole, e -alli estabelecera uma tenda. Comprou a condessa estes pardieiros aos -possuidores, e mandou-os arrazar, e sobre elles edificar um obelisco -cintado por grossa cantaria, com portas de ferro. Ia todos os dias ver a -obra, que durou um anno, com os melhores alveneis da provincia. Concluido -o obelisco, foi entalhada na base uma lamina de ferro com esta legenda: - - Á MEMORIA - DE - DUARTE BETTANCOURT - MORTO NO SEU POSTO DE HONRA - EM 1834 - MANDOU ERIGIR SEU FILHO - CASIMIRO BETTANCOURT - EM 1843 - -Ruy de Nellas, lá muito no seu interior, não gostou da lembrança. Era a -natureza a puchar por elle. - -N’este tempo, teve a condessa uma hora de muitas lagrimas. - -Casimiro, de proposito e por veneração, nunca lhe mostrára duas cartas, -que conservava entre os papeis de seu pai, assignadas pela inicial _E._ - -N’uma tarde, como estivessem sentados na base da columna, Casimiro tirou -da carteira dous papeis dobrados e amarellecidos. - -—Que é isso, filho? - -—Veja, minha mãi: - -Abriu ella, e exclamou: - -—É minha a letra! Como possues isto?! - -—Minha mãi já deve saber como as possuo. - -A condessa leu soluçante, e beijou aquelle papel, que estivera nas mãos -de Duarte. Leu a segunda, e, em meio da pagina, susteve-se afogada de -ancias e lagrimas. - -Casimiro arrependeu-se da indiscripção, e acariciou-a, pedindo-lhe, pela -memoria de seu pai, que vencesse a sua dor. - -Era este o contheudo da primeira carta: - -«Não soffras, D.—Conta com o meu valor. Parece-me que vou ser arrebatada -para uma quinta do tio. Não sei qual. Eu te avisarei a preço de tudo. O -mais que podem é matar-me meus irmãos. A minha alma irá identificar-se -á tua: viverei sempre comtigo na terra, e amando-te de um mundo melhor. -Socega, meu amigo. Se Deus vê a nossa innocente paixão, elle nos -protegerá. Se não ha Deus para nós, seremos um para o outro. Tua, _E._» - -Esta carta devia ter sido escripta antes da ida para Camarate. - -A segunda dizia: - -«É horrivel esta oppressão! Tenho medo de morrer abafada pela angustia. -Vem, approxima-te, dá-me alentos, se não prefiro antecipar a morte. Ai! -que soledade! que abandono n’esta hora! Vem, vem, D., que eu queria -ver-te antes de morrer! _E._» - -Presume-se que esta ultima carta foi escripta de Recaldim para Torres -Novas, quando Duarte desceu de Bragança, a receber das mãos de Brites -aquella creança, que alli está agora, homem, com o rosto de sua mãi -apertado ao seio. - -Em seguida áquelle trance, a condessa acamou, e teve febre por longos -dias. A presença do filho, magro, livido, triste como quem pede a -primasia na morte ao lado de um enfermo em perigo, abrazou-a em supplicas -ferverosas a Deus, pedindo a vida. Declinaram as febres, volveram -esperanças e saude, e continuou o hymno de graças ao Senhor, entoado por -aquellas duas familias que rodeavam o leito de Eugenia. - -Segura a convalescença, a condessa, prevendo que, por morte de seu irmão, -a casa de Pinhel passaria á successora do vinculo, cuidou em construir um -palacete em nome de Christina. - -Casimiro objectou que d’aquelle modo passava a seus filhos a casa do -conde de Asinhoso. - -A mãi respondeu: - -—Quererás tu privar-me que eu beneficie minha sobrinha? Isto não tem -nada que ver comtigo, Casimiro! As demazias da dignidade são uma -impertinencia. - - - - -Conclusão - - -Passaram-se vinte e um annos. - -Ainda que o contrario se afigure a pessoas, que teem a boa sorte de não -escrever romances, a conclusão d’um livro d’esta especie é dolorosa -de fazer-se, quer os personagens tenham existido, quer vivessem, como -chimeras queridas, na phantasia do escriptor. - -É doloroso, digo, porque ha ahi um facto formidavel e horrendo, que -tanto vinga nos personagens verdadeiros como nos imaginados: é a morte. -O romancista historico tem de matal-os em nome da historia: o romancista -inventor tem de matal-os em nome da verosimilhança. - -Eu creio que o leitor denega sua fé aos successos que lhe contei. É -injusto com a maxima parte d’elles. Ahi foram esboçadas umas pessoas que -viveram, e outras que vivem com outros nomes e em outras terras. E por -isso redobra a minha mágoa por não poder dizer que vivem todos. - -As duas sympathicas velhinhas, Brazia de Villa Cova e Brites de Recaldim, -essas ha muito que já lá vão. Com isto privo o jornalismo do innocente -gaudio de annunciar duas macrobias. Brazia morreu, como lá dizem, á -imitação d’um passarinho, com oitenta e nove annos de idade, em seu -perfeito juizo, e conformada com a vontade de Deus. Legou os seus -ordenados de setenta e nove annos ao filho mais velho de Ladislau, e o -seu ouro, composto de cordão e anneis, a Peregrina. É verdade que estes -valores não chegaram para as missas de que ella onerou os herdeiros por -sua alma e por almas idas ha tanto tempo que ou Deus as tinha comsigo, ou -o descondemnal-as seria tardio intento. Brites lá se finou em Recaldim, -poucos mezes depois da sahida de D. Eugenia para o Brazil. As desventuras -da filha da sua menina minaram-n’a tanto que a saudosa velha, de dia para -dia, se resvalou á sepultura, pedindo a Deus que a não castigasse por -ter protegido a desgraçada senhora. Aquella Apollinaria da calçada dos -Barbadinhos, que o leitor esqueceu, não esqueceu á condessa de Asinhoso. -De volta do Rio de Janeiro procurou-a, achou-a pobre e cega, deu-lhe -abundancia, empregou-lhe os filhos, e fez-lhe o enterro annos depois. - -Ruy de Nellas morreu em 1850, nos braços de Casimiro e Christina, unicos -filhos que viu á hora da morte. O vigario de S. Julião d’Arga tão santos -dizeres lhe fallou n’aquella tremenda hora, que o moribundo inclinou -suavemente a cabeça, e expediu a alma ao seu creador, abençoando as -filhas ausentes. - -Ao nono dia depois do fallecimento, a casa estava vasia, e D. Soeiro -estava a empossar-se n’ella, instaurando logo demandas ás cunhadas, e -articulando contra Casimiro Bettancourt um libello de subtracção de -baixella vinculada: calumnia que nos tribunaes redundou em maior infamia -do litigante. - -Christina, Casimiro e sua mãi passaram á casa construida. Ahi receberam, -volvidos tres annos, D. Guiomar de Nellas, fugitiva do marido, que a -martyrisava, tornando-a serva de suas creadas, com quem elle devassamente -commerciava a morte lenta da esposa. Casimiro recebeu-a com respeito, -Christina com amor, a condessa com a virtuosa indulgencia que aprendera -na desgraça. A perseguição de D. Sueiro alli mesmo lhe cravou a seta -hervada, fazendo-a intimar para se ir voluntariamente estender no potro -de torturas. Casimiro tomou sua cunhada á sua guarda, depositou-a n’um -mosteiro de Villa Real, e d’ahi requereu separação judiciaria, que -conseguiu com illibados creditos. D. Sueiro, passados annos, morreu -d’um tiro que por descuido se deu, andando á caça. Em Miranda vogava a -suspeita de que o tiro lhe fôra desfechado por um lavrador vingativo, -inconciliavel com a fidalga deshonra de sua irmã. Guiomar tomou cargo da -educação de suas filhas, que não tinham educação nenhuma, e vive em paz e -devotamente no seu palacio de Pinhel. - -Ladislau lá está em Villa Cova, saudoso do seu primogenito, que, ha -dous annos, casou com Mafalda, filha de Casimiro, e foi viver em casa -do sogro. Ruy, seu filho segundo, está-se ordenando para, no futuro, -continuar a missão dos sacerdotes d’aquella casa. O matrimoniarem-se -aquelles dous primogenitos era plano feito desde o berço, e sanccionado -pelo céu. Amaram-se desde infantes, e hoje adoram-se como seus paes. - -Mestre Antonio tambem já lá está no mundo das almas generosas e puras. -Acabou a vida quasi sem erguer mão do trabalho. Como intrevasse aos -sessenta annos, mesmo sentado no leito fazia bocetas para doce, ás quaes -dava consummo a condessa, arrumando-as em rimas, e pagando-as por um -preço que o artista aceitava, sorrindo á piedade da fidalga. Nunca foi -possivel demovel-o de sua casa e da sua officina! Ponha o compositor os -pontos de admiração que lhe parecer. - -Do vigario de S. Julião sabe tambem o leitor que não ha tiral-o d’alli. -As virtudes do ultimo padre de Villa Cova é preciso lembral-as elle, que -o povo, abençoando as que vê, esqueceu as outras. O egresso capellão -da condessa, propendendo a bispo, fez-se politico, e fallava mais nos -comicios eleitoraes que cantava no coro. Na vespera de ser nomeado, ceou -com tres deputados de sua fabrica, e rebentou de madrugada, com grande -terror das creadas, que affirmaram não cheirar bem o conego: o que é -possivel e sem que a sua alma perdesse por isso. - -José Pastor, transformado em José de Castro Vieira e Silva (como elle -arranjou isto!), é tenente de engenheiros, empregado nas estradas, com -grandes vencimentos e creditos de habilidade. Estudou muito, fez a -pontaria a engrandecer-se, não quiz saber de namoros, nem de theatros, -nem de bailes, e medita em fazer-se deputado por alguma parte, no -louvavel intuito de ser ministro das obras publicas: ministro, que hei -de defender, posto que o considero mais de molde para os estrangeiros em -vista da diplomacia de telhado, que o vimos tirar a limpo ha vinte e seis -annos. - -A condessa de Asinhoso é ainda uma senhora robusta com os seus 67 annos. -A felicidade é a saude. Em certos dias do anno vai visitar a memoria de -Duarte Bettancourt, e depois sobe, a pé, a S. Julião ouvir missa por -alma d’elle. Respeitavel piedade, cujo quilate só Deus póde avaliar, a -despeito da censura hypocrita com que nós fingimos representar os juizos -do Senhor. - -Aqui está o que podemos dizer d’estas familias. As outras filhas de Ruy -de Nellas lá estão em suas casas, honrando seus maridos, e abençoando a -mão liberal de sua tia que, em vida, vai disseminando a sua riqueza, já -muito diminuta em comparação do que foi. Parece que o anjo da felicidade -anda, de casa em casa, saudando, ora o lavrador de Villa Cova, ora o -lavrador de Pinhel, ora o virtuoso de S. Julião; e dos actos de todos vai -dar contas ao Senhor, que o reenvia com bençãos novas. - - - - -Moralidade - - -Occorre d’esta historia, natural e concludentemente que o coração do -homem, formado na sciencia e nos costumes antigos, encerra a urna dos -balsamos para as chagas dos corações formados á moderna. Exemplos tres -vezes bemditos: o vigario de S. Julião da Serra, Ladislau Tiberio, -Peregrina e Casimiro Bettancourt. - -Excellente seria que tivessemos muitas d’aquellas reliquias dos tempos -obscuros, as quaes nos servissem como de quebra-luz, a fim de que a -brilhante claridade dos mil lampadarios da civilisação nos não ceguem de -todo. - -Aqui está, muito á flor da terra, a moralidade da historia, em que -tentamos esboçar uma face do _bem_ e outra do _mal_ d’esta vida, tão -infamada por uns como glorificada por outros. - -Senhor dos mundos! vós, quando creastes a brasa da sêde que requeima -os labios do caminheiro do nosso deserto, mandastes ás areias que se -desentranhassem em fontes! As fontes correm. E o impio sequioso bebe, -consola-se e... injuria-vos. - - -FIM - - - - -NOTAS - - -[1] Antonio de Oliveira Soares, que de capitão de cavallos e costumes -perdidos, passou a frade arrabido e vida muito penitente. - -[2] O leitor provavelmente não encontra no seu «Diccionario» o termo -_reco_. O povo de Traz-os-montes, e de porção da Beira-Alta dá aquelle -nome, cuja etimologia ignoro, aos cevados. Eu leio muito pelo diccionario -inedito do povo d’aquellas provincias, que sabe a lingua portugueza como -fr. Luiz de Sousa. - -[3] Nas aldeias do norte d’esta nossa terra tão pittoresca de linguagem, -algumas vezes perguntava eu quantos annos tinha tal velhinho, e não -entendia esta resposta: «já passa de dous carros» Vim depois a saber que -lá se contam os annos a quarenta por cada carro, por analogia com o carro -de pão de quarenta alqueires. - -[4] Aut Deus, aut bestia. - -[5] A «Sociedade da manta» era uma congregação de mancebos destemidos -que tiveram Coimbra atterrada, e reagiam ao exercito, quando não achavam -_futricas_ que escadeirar. - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of O Bem e o Mal, by Camilo Castelo Branco - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BEM E O MAL *** - -***** This file should be named 62624-0.txt or 62624-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/6/2/62624/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation -methods and addresses. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: O Bem e o Mal - Romance - -Author: Camilo Castelo Branco - -Release Date: July 12, 2020 [EBook #62624] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BEM E O MAL *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - - - - - -</pre> - - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p> - -<p class="titlepage"><span class="larger">OBRAS</span><br /> -DE<br /> -CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> - -<p class="titlepage">EDIÇÃO POPULAR</p> - -<p class="titlepage"><b>VI</b></p> - -<p class="center larger"><b>O BEM E O MAL</b></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span></p> - -<p class="center larger">VOLUMES PUBLICADOS</p> - -<p class="center">Eis os titulos dos ultimos volumes:</p> - -<div class="hanging"> - -<p>N.º 29—As virtudes antigas—Um -poeta portuguez... rico!</p> - -<p>N.º 30—A filha do Doutor -Negro.</p> - -<p>N.º 31—Estrellas propicias.</p> - -<p>N.º 32—A filha do regicida.</p> - -<p>N.ºˢ 33 e 34—O demonio do -ouro.</p> - -<p>N.º 35—O regicida.</p> - -<p>N.º 36—A filha do arcediago.</p> - -<p>N.º 37—A neta do arcediago.</p> - -<p>N.º 38—Delictos da Mocidade.</p> - -<p>N.º 39—Onde está a felicidade?</p> - -<p>N.º 40—Um homem de brios.</p> - -<p>N.º 41—Memorias de Guilherme -do Amaral.</p> - -<p>N.ºˢ 42, 43 e 44—Mysterios -de Lisboa.</p> - -<p>N.ºˢ 45 e 46—Livro negro -de padre Diniz.</p> - -<p>N.ºˢ 47 e 48—O judeu.</p> - -<p>N.º 49—Duas épocas da -vida.</p> - -<p>N.º 50—Estrellas funestas.</p> - -<p>N.º 51—Lagrimas abençoadas.</p> - -<p>N.º 52—Lucta de gigantes.</p> - -<p>N.ºˢ 53 e 54—Memorias do -carcere.</p> - -<p>N.º 55—Mysterios de Fafe.</p> - -<p>N.º 56—Coração, cabeça e -estomago.</p> - -<p>N.º 57—O que fazem mulheres.</p> - -<p>N.º 58—O retrato de Ricardina.</p> - -<p>N.º 59—O sangue.</p> - -<p>N.º 60—O santo da montanha.</p> - -<p>N.º 61—Vingança.</p> - -<p>N.º 62—Vinte horas de liteira.</p> - -<p>N.º 63—A queda d’um anjo.</p> - -<p>N.º 64—Scenas da Foz.</p> - -<p>N.º 65—Scenas contemporaneas.</p> - -<p>N.º 66—O romance d’um rapaz -pobre.</p> - -<p>N.º 67—Aventuras de Bazilio -Fernandes Enxertado.</p> - -<p>N.º 68—Noites de Lamego.</p> - -<p>N.º 69—Scenas innocentes -da comedia humana.</p> - -<p>N.ºˢ 70 e 71—Os Martyres.</p> - -<p>N.º 72—Um livro.</p> - -<p>N.º 73—A Sereia.</p> - -<p>N.º 74—Esboços de apreciações -litterarias.</p> - -<p>N.º 75—Cousas leves e pesadas.</p> - -<p>N.º 76—Theatro:—I. Agostinho -de Ceuta.—O marquez -de Torres-Novas.</p> - -<p>N.º 77—Theatro:—II. Poesia -ou dinheiro?—Justiça.—Espinhos -e flores.—Purgatorio -e Paraizo.</p> - -<p>N.º 78—Theatro:—III.—O -Morgado de Fafe em -Lisboa.—O Morgado de -Fafe amoroso.—O ultimo -acto.—Abençoadas lagrimas!</p> - -<p>N.º 79—Theatro:—IV.—O -condemnado.—Como -os anjos se vingam.—Entre -a flauta e a viola.</p> - -<p>N.º 80—Theatro:—V.—O -Lubis-Homem—A Morgadinha -de Val-d’Amores.</p> - -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span></p> - -<p class="titlepage"><i>CAMILLO CASTELLO BRANCO</i></p> - -<h1>O BEM E O MAL</h1> - -<p class="titlepage">ROMANCE</p> - -<p class="titlepage"><b>SEXTA EDIÇÃO</b></p> - -<p class="titlepage">LISBOA<br /> -<span class="smcap">Parceria Antonio Maria Pereira</span><br /> -<span class="smaller">LIVRARIA EDITORA</span><br /> -<i>Rua Augusta, 44 a 54</i><br /> -1910</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span></p> - -<p class="titlepage smaller">1910</p> - -<p class="center smaller">OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO<br /> -MOVIDAS A ELECTRICIDADE<br /> -Da PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA</p> - -<p class="center smaller"><i>Rua Augusta, 44, 46 e 48—1.º e 2.º andar</i><br /> -LISBOA</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span></p> - -<h2>PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO</h2> - -<p>Foi vagarosa a sahida da primeira edição d’este livro.</p> - -<p>É obvia e, ao mesmo passo, desconsoladora a explicação. -A novella não perdeu por mal escripta; mas por mal pensada. -Quanto a linguagem tanto montava o quilate d’esta como -o das suas irmans. A incorrecção é o castigo de quem escreve -muito á pressa para ir acabando mais de vagar. Em Portugal -é preciso isto.</p> - -<p>O defeito d’este livro é a superabundancia de virtudes de -infastiar leitores que as exercitam eguaes e maiores, todos -os dias.</p> - -<p>Ainda bem.</p> - -<p>Quem quizer voga e fama pinte e salpique de sangue e -lama os seus paineis. Ganhar a curiosa attenção dos leitores -sómente é permittido a quem lhes dá noticia de cousas não -sabidas nem experimentadas. A virtude é o ranço d’estas gordas -almas da nossa terra. Relatem-se crimes de cafrárias em -linguagem de cafra.</p> - -<p class="smaller">S. Miguel de Seide, agosto de 1868.</p> - -<p class="right"><i>Camillo Castello Branco.</i></p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span></p> - -<div class="hanging"> - -<p class="center">AO<br /> -<br /> -PADRE ANTONIO DE AZEVEDO</p> - -<p class="center smaller">Nome que os pobres, seus irmãos, reverenceiam, -e os enfermos da alma abençoam; ancião virtuoso; operario infatigavel -em serviço de DEUS e da humanidade</p> - -<p class="center">OFFERECE ESTE ESCRIPTO</p> - -<p class="right"><i>O Auctor.</i></p> - -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span></p> - -<p class="right"><i>Meu Amigo:</i></p> - -<p><i>Ha vinte e tres annos que eu vivi em sua companhia.</i></p> - -<p><i>Lembra-se d’aquelle incorrigivel rapaz de quatorze -annos, que ia á venda da Serra do Mesio jogar a bisca -com os carvoeiros, e a bordoada, muitas vezes?</i></p> - -<p><i>Esse rapaz sou eu; é este velho, que lhe escreve aqui -do cubiculo de um hospital, muito visinho do cemiterio -dos Prazeres.</i></p> - -<p><i>Eu sou aquelle a quem padre Antonio de Azevedo -ensinou principios de solpha, e as declinações da arte -franceza.</i></p> - -<p><i>Sou aquelle que leu em sua casa as «Viagens de -Cyro», o «Theatro dos Deuzes», os «Luziadas», «As -perigrinações de Fernão Mendes Pinto», e outros livros, -que foram os primeiros.</i></p> - -<p><i>Sou aquelle que, sem saber latim, resava matinas, -laudes, terça, sexta, etc., com padre Antonio.</i></p> - -<p><i>Sou, finalmente, aquelle, a quem padre Antonio disse:—«O -tempo ha de fazer de você alguma cousa.»</i></p> - -<p><i>Passados vinte e tres annos, como eu acabasse de escrever -o meu quadragesimo segundo volume, lembrou-me -dedicar-lh’o, meu venerando amigo, e rogar-lhe que -peça a Deus por mim.</i></p> - -<p class="smaller"><i>Lisboa, 22 de junho de 1868</i></p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span></p> - -<h2>I<br /> -<span class="smaller">A visão do presbyterio</span></h2> - -<p>Apresento o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova.</p> - -<p>Nasceu no termo de Pinhel em 1818. Seu pae, viuvo -sem consolação, vestiu o habito de frade mendicante no -convento de Vinhaes. Assim cuidou elle que dignamente -honrava a memoria de sua santa mulher. Escolhera convento -pobre como penitencia, e deixara sua casa e filho -unico sob a vigilancia de um irmão clerigo, sujeito de -clara fama e varão doutissimo.</p> - -<p>N’aquella casa de Villa Cova, que dera o appellido a -dez gerações de honrados lavradores, floreceram, na passagem -de cinco seculos, padres de muito saber, uns famigerados -na oratoria, outros grandes cazuistas, e alguns -bastantemente notaveis por sua virtude sem lettras, e -nenhum por lettras sem virtudes.</p> - -<p>O educador de Ladislau sobre ser virtuoso, era grande -letrado; a sua sciencia, porém atrazára-se dous seculos -na historia do espirito humano.</p> - -<p>Padre Praxedes de Villa Cova sabia de cór Aristoteles<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span> -e Platão. Philosophia, physica, historia natural, grammatica, -logica, metaphysica, poetica, meteorologia, politica, -e mais um centenar de sciencias todas lh’as ensinaram -os dous sabios de Stagira e Athenas. Na opinião -d’elle, a intelligencia do homem, depois de Platão e Aristoteles, -envelhecera, ou fingira remoçar-se com atavios -de ouropel e pechisbeques, sem quilate na experimentada -mão de um sabio.</p> - -<p>Era padre Praxedes copiosamente lido em livros portuguezes -anteriores ao seculo <span class="smcapuc">XVII</span>, e possuia os melhores -nas suas ponderosas estantes de castanho. Da epocha -dos Senhores Reis D. João V e D. José I já pouquissimos -volumes, e esses mesmos entremados do ouro -puro dos classicos, se honravam de prender-lhe a attenção.</p> - -<p>Foi, desde menino, Ladislau encaminhado por esta, -em parte, errada vereda da sabedoria util e verdadeira.</p> - -<p>Começou a escrever como caligraphicamente se escrevia -ha dous seculos: lettra garrafal, com as hastes a -prumo, longas e enfeitadas com mui engenhosos quadrados, -mórmente as maiusculas. Era a escripta de padre -Praxedes, tal qual a que seu tio avô, sabio fallecido em -1707, transmittira a um padre Heliodoro, seu filho, e -este ao avô de Ladislau, e o avô ao filho, que vinha a -ser o tio paterno d’este padre Praxedes. De modo que, -n’aquella familia, o «traslado» da escripta em 1830 era -fielmente copiado do de 1680. Em tudo mais como na -escripta.</p> - -<p>Está situada a casa dos Militões de Villa Cova nas -faldas de uma serra chamada a <i>Castra</i>. Affirma documentalmente -o padre que o chamar-se Castra o sitio, -vem de ter estado alli presidio romano, ha vinte seculos; -e quer elle que sobre as ruinas d’aquella atalaia dos senhores<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span> -do mundo esteja cimentada a modesta habitação -dos Militões desde o seculo <span class="smcapuc">IX</span>.</p> - -<p>É a casa grossa de cantaria com dez janellas de peitoril -sem vidraças, quasi a roçarem nas proeminentes -cornijas, assentadas em fortes cachorros sem lavor. É -largo e alto o portão de castanho, que abre sobre um -espaçoso quinteiro, intranzitavel na maior parte do anno, -por causa das gabellas de tojo e urze, que os pés do gado -vão calcando e curtindo.</p> - -<p>Do fundo do quinteiro, sobe larga escadaria a um pateo -lageado com guardas de pedra tão em bruto e sem -visos de esquadria que parecem ter alli ficado casualmente -postas umas contra outras pelo revolutear aquoso -de algum diluvio.</p> - -<p>Este exterior assim é triste, mais triste que a soledade -das ruinas de outras casas, que em redor existiam até -ao começo d’este seculo, e ás quaes os francezes acossados -pegaram fogo, na sua ultima evasão de Portugal. -Do desastre da Povoa de Villa Cova salvou-se a casa -dos Militões, porque os incendiarios não acharam brecha -por onde lançassem o lume: o morro de pedra era incombustivel; -as portadas de castanho tão sómente a bala -raza poderiam saltar dos seus enormes gonzos.</p> - -<p>Os donos das ruinas não quizeram reedificar no sitio -onde seus antepassados tinham construido os pobres casalejos. -Ajuizadamente edificaram em terreno mais ao -centro das suas leiras, visto que, em casa de mais fertil -torrão, já os avós dos actuaes tinham levado longe o -arroteamento e a cultura.</p> - -<p>A casa dos Militões ficou, porém, solitaria, e tomou a -si em bem dos pobres o desmontar da terra deixada a -monte.</p> - -<p>As corpulentas arvores, que se abraçaram no declive<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span> -da serra, mal deixavam entrever a casa de Villa Cova. -O vestigio unico de vida n’aquelle fundão era o rolo de -fumo que o vento rarefazia em apparencia de nevoeirinhos -sobre a copa do arvoredo, o qual, visto da cumiada -da Castra, semelhava uma mouta de arbustos.</p> - -<p>Volviam mezes e mezes sem que pessoa estranha descesse -a serra, em demanda da casa dos Militões, excepto -o viandante, que, surprehendido pela noute, se guiava -pela neblina de fumo, vista ao entardecer, ou pelo convidativo -cantar do gallo.</p> - -<p>Em dias santificados, a familia fiava dos cães de gado -a guarda da casa, e ia ouvir missa á igreja parochial, -um quarto de legua distante. Desde tempos immemoriaes -era a freguezia pastoreada por clerigo da casa de Villa -Cova. Este clerigo que, no discurso de tres seculos, parecia -sempre o mesmo, tinha sempre comsigo uma irmã, -que, no traje, no dizer, e no sentir, era a mesma irmã -do padre do seculo <span class="smcapuc">XV</span>.</p> - -<p>Depois da missa, o pastor acompanhava os seus a -Villa Cova, onde pasava o dia; e á noute, entoadas as -preces das Ave-Maria, lá transmontava o serro, que o -separava da sua igreja, abordoando-se d’um cerquinho, -que diziam ter trezentos ou mais annos de uso—tradição -fundada na certeza de outras muitas.</p> - -<p>Este era ainda em 1830 o viver d’aquella patriarchal -familia.</p> - -<p>Ladislau Tiberio Militão estudava n’este tempo a -grammatica de Aristoteles. Frei Braz, seu pai, morreu -n’aquelle anno; e no seguinte, o tio, que parochiava. -Ficou reduzida sua familia ao padre, que o ensinava, e -á tia Sebastiana, que, por morte do tio, voltára da igreja -á casa, onde uma serie de onze antecessoras tinha voltado -com o lucto no coração e a vida por um fio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span></p> - -<p>Apenas fallecido o pastor, foi padre Praxedes nomeado -interinamente para a vigararia de S. Julião da -Serra. Não havia outro clerigo na familia, nem outro -administrador para a lavoura. Quiz o padre declinar a -pesada herança; mas, mal o souberam, os parochianos -acudiram em rogos e lagrimas a Villa Cova, pedindo ao -virtuoso irmão do defuncto vigario que os não desamparasse. -Praxedes arrendou os bens, e transferiu-se á -residencia parochial com irmã e sobrinho, esperando -ainda que algum clerigo pobre das cercanias lhe tirasse -dos hombros o cargo, e lhe libertasse o tempo necessario -ao ensino de Ladislau.</p> - -<p>Malograda a esperança, e nomeado pelo governo, o -parocho trasladou a sua livraria, como quem já tinha -ao certo que seus derradeiros annos, muitos ou poucos, -alli seriam vividos ao pé da sepultura dos seus onze antepassados.</p> - -<p>Na casa do presbyterio, continuou a educação litteraria -de Ladislau.</p> - -<p>Vivia o mocinho entre seus tios; não conhecia rapaz -da sua idade com que entretivesse as horas feriadas, ou -conversasse em materia de estudo. Mui naturalmente -lhe pendeu o animo a umas tristezas que nem viço e -contentamentos de primeiros annos podiam desassombrar. -Isto não faria especie ao vigario nem á senhora -Sebastiana. Era aquella soturna melancolia a norma -commum do viver d’esta familia. Muita quietação, silencio -tumular, um moverem-se de phantasmas, perpassando -uns por outros com glacial taciturnidade.</p> - -<p>Estava ainda gravado no animo de todos o lance funereo -da viuvez de Braz. A mãe de Ladislau morrera -como quem passa de um tumulo para outro. Nem mesmo, -depois que sahira o esquife, os gemidos se ouviram<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span> -longo tempo. E o viuvo, quasi sem declarar seus intentos, -sahiu, ao terceiro dia, de casa, foi orar sobre a lagea -de sua mulher, e d’alli se partiu, a pé, caminho de -Vinhaes. Aqui, bateu á porta do mosteiro, que se lhe -abriu como casa de infelizes, e lá ficou. Tudo assim na -vida ordinaria, modelado por este extraordinario succedimento!</p> - -<p>Ladislau contou os dezoito annos da sua idade, sem -sentir abrir-se-lhe o coração a alguma poesia: nem sequer -á poesia da natureza!</p> - -<p>As graças campestres das Georgicas de Virgilio sabia -traduzil-as em termos frios, rigorosamente grammaticaes, -irreprehensiveis em sã e fradesca latinidade; porém, no -interno da sua alma, nenhum enlevo o transportava da -euphonia do verso para a formosura dos prados, das -fontes e do luar das suas noutes solitarias. Dormia-lhe -o coração; ninguem á volta de si proferira aquella palavra, -que é bastante a despertal-o para as alegres alvoradas -do primeiro dia de amor, amor sem mulher, -sem esperança, sem emblema, amor em competencia -com o ideal do amor dos serafins.</p> - -<p>Como se padre Praxedes premeditasse amortalhar este -mancebo, já morto antes de haver experimentado o palpitar -estranho da vida, que estremece em confusos desejos, -uma vez, acabando de traduzir com Ladislau alguns -capitulos da «Cidade de Deus», de Santo Agostinho, -fallou assim ao moço de dezoito annos, sem uma só primavera:</p> - -<p>—Ladislau, pensava eu esta noute, e muitas noutes -hei vellado a pensar que, d’aqui a pouco, voltarás á casa -onde nasceste, deixando teu mestre debaixo da pedra -onde esperam o grande dia todos os nossos. Pensei com -tristeza que não virá tão cedo de nossa casa o padre<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span> -guardador d’este rebanho que os nossos antepassados -acceitaram como de Deus, e vieram, no atravessar de -tantos annos, passando o cajado uns a outros. Agora é -que se acabou este legado de serviços, desvelos, e caridades -aos nossos irmãos... Quão grata seria a Deus que -o não regeitassemos! Não estás tu aqui tão bem inclinado -á virtude, e aproveitado na sciencia das cousas -santas?!... Queres tu ser padre, Ladislau?</p> - -<p>—Quero, meu tio—disse o moço com inalterado semblante, -como se fosse convidado a traduzir a «Carta aos -Pisões» ou as «Lamentações de Jeremias».</p> - -<p>—Sentes em ti vocação ao sacerdocio?—reperguntou -o padre com alegre sombra.</p> - -<p>—Sinto, sim senhor; porque não hei de sentir?—disse -Ladislau.</p> - -<p>—Não tens pensado em outro futuro, meu sobrinho?</p> - -<p>—Outro futuro!?—perguntou o moço como alheado -na estranheza da insistencia.</p> - -<p>—Sim: outro futuro... Pensaste alguma vez em te -casares?</p> - -<p>—Não senhor.</p> - -<p>—Nem te pende para a vida de esposo e pai a inclinação -de teu animo?</p> - -<p>—Nem tenho cogitado n’isso.</p> - -<p>—Pois pensa, sobrinho, pensa, que esta vida de padre -tem grandes alegrias e grandes amarguras, como todas -as vidas, todas as vocações. Se queres a paz, que -me tens visto no rosto, entra na trilha de meus passos; -os dissabores de dentro, esses, que são muitos, Deus te -afaste o calix d’elles; mas se t’o der, acceita-o, que a -remuneração é infallivel: acceita-o, meu sobrinho, que -o descanço, vindo apoz a batalha, é ineffavel como o jubilo -dos Santos. Ora pois: pensarás um anno; consultarás<span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span> -o teu espirito; e, em cada amanhecer, pedirás ao -divino Espirito Santo que te allumie.</p> - -<p>Antes de findado o anno, padre Praxedes deu a alma -ao Senhor; e Sebastiana, que vivia para sepultar o ultimo -vigario de S. João da Serra, lá ficou na campa mais -proxima, adormecendo-se a beneplacito de Deus, como -quem cumpriu sua missão.</p> - -<p>Ladislau voltou á casa de Villa Cova com a sua livraria, -e as supremas palavras do tio moribundo, que tinham -sido estas:</p> - -<p>—Espera um anno mais, o conselho do Espirito Santo. -Se o teu coração estiver desatado de paixões, que prendem -á terra, dá-o a Deus; se não, meu sobrinho, sê um -bom marido e bom pai, que esta virtude é por si tambem -um sublime sacerdocio. A vida solitaria, que tens -vivido, se poderes continual-a, filho, não a troques pelo -mundo. Sacerdote, marido, ou simples homem, sem mais -obrigações que as communs com os outros homens, -além das que o decalogo te manda, foge, quanto poderes, -da vida que traz comsigo o esquecimento da morte. -Ladislau, a sciencia é um grandissimo mundo povoado -de espirituaes amigos; os teus livros encerram, cada -um, sua alma, que te falla como amiga. N’este, acharás -um desgraçado contricto, que te conta os seus infortunios -com o bispo de Hippona, ou o fundador da nossa -Arrabida<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a>. Outro, como o thesouro de Kempis, se te -desentranha em balsamos para quantas feridas a dôr do -ermo ou os desenganos do mundo te abrirem no seio.<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span> -Nos livros apprendi a fugir ao mal sem o experimentar. -Confessor quarenta annos, vi as angustias, que vão por -esse mundo, tantas, que não cabiam lá, e transbordavam -até ao nosso escondrijo. Recolhe-te a ti; não deixes -os teus campos; affaz-te a amar estas serras, onde -o pé do impio não chegou ainda. Olha tu com que serenidade -eu fio meu remedio e salvação da divina misericordia: -aqui tens, na morte, um exemplo das vantagens -da vida, que eu tive. É isto, filho; é este acabar -sem remorso nem temor, consolando-me de ter sido tão -moderado em meus desejos, que nem se quer peço a -Deus que me dispense mais um dia de existencia.</p> - -<p>Estas e poucas mais foram as ultimas palavras do -presbytero.</p> - -<p>Ladislau Tiberio viveu um anno esperando o conselho -do Espirito Santo.</p> - -<p>Os chorosos parochianos de S. Julião da Serra, quando -viram suas consciencias em guarda de um sacerdote -moço, que viera de longe pastoreal-os, foram ter com -Ladislau, representados pelos lavradores mais abastados -da freguezia.</p> - -<p>—Que querem de mim?—perguntava o moço—que -hei de eu fazer-lhes?</p> - -<p>—Seu tio, que Deus haja—respondeu o mais respeitado—nos -disse que talvez o sr. Ladislau tomasse ordens -para ser o nosso vigario.</p> - -<p>—Pois sim; mas é cedo ainda, meus amigos. Deixai-me -esperar o dia destinado á minha decisão.</p> - -<p>O dia chegou: era o anniversario da morte do padre -Praxedes.</p> - -<p>Ladislau, na manhã d’aquelle dia, foi orar ao templo, -e ajoelhou sobre a campa dos sacerdotes seus antepassados.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span></p> - -<p>Raiava a aurora, quando entrou á egreja.</p> - -<p>E enxergou um vulto, orando no arco da capella-mór.</p> - -<p>Mais tarde, como o sol coasse pela estreita fresta lateral -um raio de luz sobre o vulto ajoelhado, Ladislau -reconheceu uma mulher.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span></p> - -<h2>II<br /> -<span class="smaller">Amor de predestinação</span></h2> - -<p>A mulher ajoelhada á sombra do escuro arco, era Peregrina, -irmã do vigario.</p> - -<p>Viera de longe para alli com seu irmão, sacerdote pobre, -que devia a sua ordenação ao bemfazer do padrinho, -velho fidalgo de Pinhel. Em quanto João se ordenava -em Bragança, Peregrina vivera e educara-se sob o -amparo do padrinho de seu irmão, e querida das filhas -do fidalgo, que a vestiam de seus vestidos, e a sentavam -entre si á meza.</p> - -<p>Disse padre João a sua missa nova na capella do -bemfeitor, e alli ficou estimado como da familia, até que, -por diligencias do fidalgo, recebeu a apresentação na -igreja de S. Julião da Serra.</p> - -<p>Peregrina beijou a mão do velho caridoso, beijou o -rosto de suas amigas de infancia, e sahiu com o presbytero -em demanda da vetusta igreja. Os parochianos, -posto que descontentes ao verem semblantes desconhecidos -no adro dos seus mortos, disseram:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p> - -<p>«Assim é que vinha o pastor de Villa Cova com a -irmã».</p> - -<p>Era melancolico o presbyterio; as arvores ressequidas; -o chão arido; as penedias calvas; os tectos assentes em -vigas; as paredes interiores afumadas; os taboados movediços. -Alli, as primaveras passariam despresentidas, -se não fosse o azulejar-se o céu, e os festões das giestas -na serra, e o calar-se o estridor das torrentes despenhadas -dos cerros das montanhas.</p> - -<p>Peregrina, quando alli se viu, por um anoutecer de -novembro, disse:</p> - -<p>—Como isto é triste e feio!</p> - -<p>Padre João olhou em redor de si, e respondeu:</p> - -<p>—Irmã, este chão triste é que nos ha de dar o pão -santo da independencia. Bemdigamos o coração generoso -dos nossos amigos, que me deram terra onde lavrar -com minhas proprias mãos o nosso sustento de cada dia. -A casa parece-nos agora triste, porque é noute. Ámanhã -um raio de sol nos virá alegrar estas paredes.</p> - -<p>E, como assim fallasse, o vigario desceu ao adro, subiu -sobre uma peanha tosca, travou da corda que movia -o sino unico do simulacro de torre, e tangeu as nove -badaladas de Ave-Marias. Os lavradores, que iam passando, -descobriram-se, pararam, oraram, benzeram-se, e -seguiram seu caminho murmurando:</p> - -<p>—Os padres de Villa Cova faziam o mesmo. Quer -Deus que todos os nossos vigarios sejam bons e devotos.</p> - -<p>Entretanto, Peregrina, rezada a oração final da sua -prece da tarde, alongou os olhos ás sombrias serras que -avultavam para o lado de Pinhel, e chorou. Eram saudades -das filhas do bemfeitor, e do casal onde nascera, -e onde seus pais, caseiros do fidalgo, haviam morrido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p> - -<p>A irmã do vigario tinha 18 annos. Era dotada de -abundantes graças, compleição menos robusta que o ordinario -das moças aldeãs, senhoril talvez extraordinariamente, -rica de negros cabellos, formosa de olhos, doce e -meiga no dizer, modestissima, parca em sorrisos, meditativa, -laboriosa, e muito dada á oração.</p> - -<p>Costumava ella erguer-se ante-manhã, quando ouvia -os passos do irmão no sobrado visinho do seu quarto. O -vigario madrugava assim para dizer missa á hora em que -os parochianos sahiam ás suas lavouras. Peregrina accendia -o lume, aconchegava o pucaro das brazas, cegava -as couves, ia assistir á missa do irmão, e vinha depois -cosinhar o caldo que era a refeição matinal do sacerdote -e d’ella.</p> - -<p>Uma grande parte do clero, que pastorêa almas, póde -bem ser que me não acceite a verosimilhança d’este -caldo de couves. Espero que se desçam de sua incredulidade, -se eu lhes disser que a congrua e pé-de-altar de -S. Julião da Serra não davam para chá, n’aquelle tempo -em que os direitos da charopada chineza eram enormes, -e os paladares eram genuinamente portuguezes, lá d’aquellas -serranias, se saboreavam de preferencia no salutar -cozimento de couves adubadas de saboroso unto. Ora -eu, que n’esta fidalga e franceza Lisboa tenho sido espectaculo -de riso, pedindo nos hoteis, e recommendando -aos meus amigos o caldo verde, insisto contumazmente -em me expôr á mofa da gente culta, dando á estampa, -n’este logar e para meu duradouro opprobiro, o panegyrico -do caldo verde, caldo de meus avós, e de padre -João e de sua irmã.</p> - -<p>N’aquella madrugada, em que Ladislau fôra celebrar -o anniversario da morte de seu tio, orando na igreja, Peregrina -demorára-se a rezar, finda a missa, porque seu<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span> -irmão entrára no confessionario. Déra ella conta de ajoelhar-se -alli perto de si o moço, já quando o templo estava -vazio. Soffreou, em quanto pôde, sua curiosidade, -que teimava em querer conhecer o recolhido devoto. Não -era costume seu voltar a cabeça a um lado ou outro, -quando fallava a Deus; porém, tanta força lhe fazia o -animo para o sitio onde estava o moço que, apesar de -profanação, aventuro-me a suppor que o coração lhe estava -tirando para alli os olhos por uns filamentos mysteriosos -que, alguma vez, a anatomia ha de encontrar -entre olhos e coração.</p> - -<p>Foi o raio de sol nascente, vertido pela fresta esguia -da capella-mór, que de todo em todo aliciou Peregrina a -olhar. Um raio do sol do Senhor a alumiar-lhes o escuro -do templo para se verem! Donoso e sublime confidente -de duas almas carecidas uma da outra! Nunca tão auspiciosos -preludios de um amor começaram n’esta vida. -São dous moços: ella virgem, e formosa, e immaculada; -elle gentil, puro, e alli ajoelhado em consultação de seu -destino. A que bemdita e predita hora se entreluzem as -duas almas, embebidas em Deus e subitamente encontradas -no mesmo arco da igreja, em que os esposos costumam -receber as bençãos!</p> - -<p>Ladislau tinha as mãos erguidas, quando encarou no -rosto de Peregrina. As mãos ficaram na postura fervorosa; -mas a oração, cortada em meio, olvidou-se-lhe. E -ella, que entrepassava nos dedos as contas do seu rozario, -continuou a dizer as palavras santas, mas sem ouvil-as -na audição interior do espirito.</p> - -<p>Ambos a um tempo acordaram da fixidez da sua contemplação, -e córaram. Ladislau baixou os olhos, e ella -ergueu-os. Um parece que pedia contas á terra d’uma -delicia, que nunca lhe havia dado nem presagiado; outro<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span> -ia no ceu como a decifrar o enigma da sensação nunca -experimentada.</p> - -<p>Instantes depois, padre João appareceu á porta da sacristia, -e mandou á irmã que accendesse os castiçaes do -altar-mór, emquanto elle se revestia para ministrar a sagrada -communhão á confessada. Ladislau, como ouvisse -as ordens do vigario a Peregrina, ergueu-se e disse:</p> - -<p>—Eu vou, se o sr. vigario quer. Já sei este serviço, -que era minha obrigação, em tempo de meus tios, que -Deus haja.</p> - -<p>Padre João já conhecia o sobrinho do defuncto Praxedes, -como primeiro lavrador da freguezia, e moço de -estudo e virtudes, segundo lhe disse o regedor da parochia, -e o gravissimo mordomo do orago confirmára.</p> - -<p>Acceitou o vigario o serviço a que Ladislau se teria -offerecido, ainda mesmo que a presença de Peregrina o -não movesse á delicadeza. Esta delicadeza era instinctiva -certamente, e ensinada pelo coração, a fundamental de -todos os ceremoniaes, que nas activissimas cidades os -meninos aprendem em livros, como se a cortezia com -damas não fosse pagina escripta no mais diamantino do -peito desde que abrimos olhos para vel-as.</p> - -<p>Accendeu Ladislau as velas, e proveu de agua o jarro -da communhão, emquanto o vigario se paramentava. Subiu -o ostiario ao altar, abriu o sacrario e tomou a particula -da pyxide. Uma nuvem escura de trovoada imminente -entoldára o sol, e a capella-mór voltava á frouxa -luz crepuscular. O ministro, severissimo em todo o ritual -de seu sagrado encargo, como não fiasse da claridade de -uma só vela a perfeita passagem da hostia á lingua da -commungante, acenou á irmã para que tomasse uma -vela do outro lado.</p> - -<p>Ladislau tremeu quando a viu tão perto de si; mas<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span> -assim mesmo, não desatremou em desconcerto com a -urbanidade: entregou-lhe o cirio, que tinha e foi tomar -outro da tocheira.</p> - -<p>Em verdade lhes digo, meus sensiveis leitores, que eu -desejava ter assim um painel, para serem dous os papeis -da minha estimação. O que já possuo é uma menina -lagrimosa, que está dando de comer ao seu cão moribundo, -que não vê o alimento mas ainda a vê a ella, e -parece despedir-se a chorar. O outro quadro queria eu -que fosse o vigario de S. Julião da Serra pendido á fronte -humilde da christã; d’um lado, Peregrina com o rosto -banhado do escarlate da flamma, que ella quer affastar -de si, adivinhando que os olhos do moço a estão contemplando; -do outro lado, Ladislau, involuntario, captivo, -alheado de si, sem poder desfital-a. Eis aqui as minhas -quatro figuras todas absorvidas em amor de Deus. -O padre está enlevado na suprema magestade do seu -ministerio: a penitente está-se identificando a divindade -do corpo e sangue de Jesus; Ladislau, em seu silencioso -spasmo, está psalmeando o hymo de graça que o primeiro -homem deu ao Senhor, no instante de ver inclinado -a si um seio amparador de mulher. E ella, Peregrina? -De ti, purpureada virgem, só podem sentir teus -extasis, e contar-no’l-os as tuas iguaes n’este mundo, as -que tiveram simultaneamente a intuição do amor e a visão -do primeiro homem amado. Todos, pois, enlevados -em aspirar divino: o sacerdote e a commungante pela -consciencia, os outros pelo coração, aberto em perfumes -que queimam a Deus o mais selecto e fino bago do seu -incenso.</p> - -<p>Findo o acto sacramental, o padre subiu os dous degraus -do altar, cerrou o sacrario, ajoelhou, e voltou á sacristia. -Ladislau ficou em pé, rente com o tocheiro de<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span> -castanho tosco, d’onde tirara o cirio. Peregrina foi depor -a sua vela sobre a credencia, desceu ao fundo da igreja -saudando os quatro altares lateraes, e sahiu do adro, e -logo entrou na vigairaria. Ladislau, viu-a desapparecer, e -disse de sua consciencia para Deus: «Não tornarei a -vel-a?»</p> - -<p>Assomou o pastor no limiar da sacristia, e disse a Ladislau, -que ia sahindo:</p> - -<p>—Desejo tel-o em minha companhia algum pouquinho -tempo, sr. Ladislau. Se não vai com pressa, tenha -a bondade de esperar, que eu faço oração, e vou já.</p> - -<p>—Espero no adro o tempo que o sr. reverendo vigario -quizer.</p> - -<p>—Por que ha de ser no adro e não em casa?—tornou -padre João.—Entre na residencia, que a porta do sobrado -está aberta.</p> - -<p>Ladislau esperou no adro, e, emquanto esperava, tinha -os olhos na janellinha da saleta, em que seu tio -costumava estar nas noites quentes, esperando os freguezes, -que voltavam das ceifas, e a todos fallava, mandando-os -sentar nos troços brutos de pedra, que alli tinham -ficado d’uma casa incendiada pelos francezes.</p> - -<p>Assim contemplativo, viu elle chegar á janella a irmã -do vigario, e esconder-se, apenas o encarou, surprehendida.</p> - -<p>Que instantes aquelles para ambos! Que ceus e ceus, -vistos á lus d’um relampago! Que extensos poemas de -lagrimas costuma a saudade fazer depois com as reminiscencias -de uns momentos tão fugitivos!</p> - -<p>Sahiu o vigario do templo, fechou a porta, e disse:</p> - -<p>—Estava o sr. Ladislau a recordar-se de seus tios?... -Não admira, que eu mesmo, sem os ter conhecido, lhes -respeito a memoria, pelos grandes louvores que ouço dar<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span> -ás suas virtudes. Basta ver o que este bom povo é, para -se avaliar as excellencias de quem assim o educou. O -espirito dos dous ultimos e defuntos vigarios de S. Julião -da Serra está ainda com o seu rebanho. Facil me -ha de ser a mim, homem sem virtude nem experiencia, -pastoreal-o. Mais tenho que aprender que ensinar.</p> - -<p>E, no sentido d’estas humildes palavras, foi dizendo -outras, que se insinuavam ao coração do moço já captivo -do conciliador semblante do sacerdote; e assim entraram -na casinha parochial.</p> - -<p>—Peregrina—disse o padre á irmã que os vira subir, -e, sem saber por que, se alvoroçara—olha que temos -hospede; vê lá como te saes; não queiras que o nosso -convidado nos julgue forretas. Almoço de abbade rico, -ouviste?</p> - -<p>A moça não respondeu. Affastou da fogueira o caldo -que fervia, lançou alguns ovos á certã, e, tão depressa -os cosinhou, foi á modesta arca do seu fragal tirar a melhor -toalha, e os garfos de ferro ainda lusidios em primeiro -uso.</p> - -<p>Peregrina, posto o almoço na mesa, sentou-se no seu -logar de costume, que era um banquinho tosco achegado -do escano. A mesa, construida de uma só taboa -afumada, engonçava n’aquelle adorno da lareira, talvez -tão antigo como a vigairaria de S. Julião da Serra.</p> - -<p>Quando a moça se assentou, disse Ladislau:</p> - -<p>—Aquelle banco era o logar de minha tia, que Deus -tem!</p> - -<p>E ficou contemplativo.</p> - -<p>—E eu—disse padre João—estou no logar de seu tio, -e o sr. Ladislau vem sentar-se no logar que era seu.</p> - -<p>Estava já na meza a travessa de barro vidrado com a<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span> -fritada de ovos e farinha triga. O vigario sorriu-se, e -disse:</p> - -<p>—Na meza de seu tio havia um prato e um talher -para cada pessoa?</p> - -<p>Ladislau, que não sabia o significado da palavra «talher», -respondeu:</p> - -<p>—Comiamos todos do mesmo prato; e na minha casa -de Villa Cova, tanto meu pae como meus tios comiamos -á mesma meza dos creados e jornaleiros.</p> - -<p>—Como ha trezentos annos—ajuntou o padre—como -os patriarchas idumeos com os seus servos e escravos. -O sr. Ladislau ainda não viu, á luz da civilisação, a -grande distancia a que está dos seus criados. Vive, por -em quanto, na fé de que senhor e servo são homens filhos -do mesmo pai, um favorecido, outro desfavorecido -pelo acaso do nascimento... O sr. não lê as gazetas?—perguntou -o vigario abruptamente.</p> - -<p>—Não leio, nem as vi nunca—respondeu o moço—Ouvi -dizer a meu tio que um padre, d’aqui tres leguas, -quando acertava de encontrar-se com elle na feira de -Pinhel, lhe mostrava gazetas.</p> - -<p>—Pois—tornou o padre—as gazetas são uns papeis -escriptos em letra redonda, creados e sustentados para -demonstrarem que todos os homens tem direitos eguaes. -Muito me admira que seus avós e o senhor tenham praticado -a egualdade sem terem lido as gazetas! Provavelmente -em casa dos Militões de Villa Cova lia-se o Evangelho -de Jesus Nazareno.</p> - -<p>—Lia, sim, senhor.</p> - -<p>—Só assim pode explicar-se a virtude sem a doutrinação -das gazetas. Dizem que ellas são o baluarte da -liberdade, da egualdade, e da fraternidade; e eu estou -em defender que o sermão da montanha, prégado pelo<span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span> -filho de Deus ha mil e oitocentos annos, e o sermão da -natureza, que sem cessar se está ouvindo, bastam para -fazer um homem irmão e amigo do outro homem, por -amor de Deus, que é pai de todos.</p> - -<p>Posto que não excedesse os vinte e oito annos, o vigario, -no pausado e reflectido do seu dizer, competia -com os cincoenta annos de algum egresso d’aquelle -tempo.</p> - -<p>As faculdades d’este bem-fadado ministro da verdade -tinham amadurado antes da sasão propria. Costuma ser -a desgraça quem antecipa, com a precoce experiencia, -a reflexão; porém observa-se que o juizo—o que commummente -se chama <i>siso</i>—proveniente das lições do -infortunio, é um recolhimento melancolico, mysantropo, -deshumano ás vezes, e quasi sempre intolerante. Em -exemplos d’esses, que os ha em grande copia, acerto -seria arguirmos ao enojo das chimeras d’esta vida o que -attribuimos á reflexão.</p> - -<p>A madureza do vigario não era apressada pela desventura, -nem triste, nem intolerante. A indole, o habito -da soledade, o estudo, a clara vista da alma com que -entrava no secreto e desconhecido do coração alheio, -explicam o ar grave, monacal, e discordante de seus annos. -Não obstante, o geito com que dizia as suas satyras -ás gazetas dava mostras de espirito faceto ou <i>humoristico</i>, -segundo agora francezmente se diz.</p> - -<p>Dos estudos do seminario passára o presbytero á capellania -do padrinho de Pinhel, fidalgo, como se disse, -intractavel desde 1834, retrahido ao seu quarto, em lucta -permanente com os achaques da alma egualmente -dolorosos que os do corpo. A gota, o rheumatismo, a -sciatica impacientavam-no tanto ou menos que o desmancho -das cousas politicas. Ruy de Nellas Gamboa de<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span> -Barbedo, que assim se chamava o gothico solarengo de -Pinhel, se alguma vez chamava padre João Ferreira ao -seu quarto, era para lhe perguntar pela quinquagesima -vez:</p> - -<p>—Que me dizes a isto, padre João?</p> - -<p>—A isto?</p> - -<p>—Sim, á queda do rei legitimo?</p> - -<p>—É um facto consummado—dizia o padre.</p> - -<p>—É uma usurpação consummada!—replicava o fidalgo, -e sibillava um agudo ai, levando a mão ao artelho -esquerdo, cuja dor só podia comparar-se á do artelho -direito.</p> - -<p>E como o afilhado não pudésse restaurar ao throno -usurpado o senhor legitimo á vontade do padrinho, Ruy -voltava-lhe as costas, e o padre sahia melancolico a encerrar-se -no seu quarto com os seus poucos livros, ou -ia leccionar em primeiras letras as filhas do fidalgo, a -segunda das quaes principiara o alphabeto aos dezeseis -annos, Deus sabe com que repugnancia.</p> - -<p>Demorei-me accintemente n’estas dispensaveis explicações -para dar tempo a que os tres convivas almoçassem -e conversassem. <i>Conversassem</i>, é menos exacto. -Quem fallou sempre foi o vigario, e é de presumir que -o auditorio o attendesse escassamente. Ladislau, se alguma -cousa escutava, era o poema interior, os hymnos -descompassados, mas sublimes, que soavam dentro em -seu coração. Estranhas musicas deviam de ser aquellas -para o moço surprehendido, na alva do seu primeiro dia -de amor, por enchentes de luz desconhecida! O amor, -que vem procurado, como sensação necessaria á felicidade -da vida, perde dous terços da sua embriagante doçura; -porém, o amor inesperado, impetuoso e fulminante, -esse é um abrir-se o céu a verter no peito do homem<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span> -todas as delicias puras que não correm perigo de impestarem-se -em contacto com as da terra. Era d’esta especie -o sentimento de Ladislau, nascido na hora em que -elle ia confirmar sobre a sepultura de seu tio o pacto de -ser sacerdote, abjurar as desconhecidas allianças do coração -com o mundo, e acceitar as que atam o coração -ao mundo com o laço da caridade evangelica.</p> - -<p>Ora, aquelle poema interior, se alguem podia decifral-o, -era Peregrina. A mulher innocente e admiravelmente -dotada do sexto sentido, que recebe as impressões -não classificadas na ordem physica nem moral. Adivinha -quem a ama, antes que lh’o digam. Parece que o ar se -lhe povoa de espiritos amigos, que giram entre ella e os -olhos de quem, a fito ou de revez, a requesta. Aquelle -diaphano veu de escarlate que lhe purpurea o rosto, -não é sangue como dizem os materiaes definidores de -tudo: a mimosa susceptibilidade de cutis, chamada pudor, -não pode ser sangue; em quanto a mim, é o sombreado -das azas iriadas dos espiritos que voejam no ambiente -da mulher immaculada, ou então reflexo das coroas -de rosas, com que o deus festivo dos amores a -infeita, cioso de ter nos seus altares o pouco d’este -mundo que merece e desculpa a idolatria.</p> - -<p>Posto que este dizer tenha um sabor mythologico, pagão, -e, sobretudo, antiquissimo, ha-de o leitor conceder -que o seu servo romancista, tal qual vês, se desgarre do -caminho trilhado á moderna, para não dizer sempre que -os seus personagens estavam arrobados, extaticos, ou, o -que é peior, perdidos de amor.</p> - -<p>Os meus personagens, Ladislau e Peregrina, não estavam -arrobados nem extaticos, porque ambos confessam -que comeram da travessa vidrada a sua porção de ovos,<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span> -e tomaram cada qual o seu caldo-verde (palavra indigna -de tão levantado assumpto!)</p> - -<p>Perdidos tambem não estavam; porque o perder-se ou -transverter-se o coração é quasi sempre a prova real de -não ter sido o primeiro nem o melhor um certo amor -com que os alienados se desculpam.</p> - -<p>O amor, que não perde nem desvaira, esse é que é o -amor.</p> - -<p>Eil-o ahi, pois, profundo, sereno e bello como o oceano -em calmaria.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span></p> - -<h2>III<br /> -<span class="smaller">Casamento patriarchal</span></h2> - -<p>Eu, que já escrevi doze casamentos felizes de uma assentada, -querendo agora enfeitar o de Ladislau e Peregrina, -é tamanha a penuria do engenho em que me vejo, -que—a não me acudir a fada do estylo—hei de contar -o ditoso enlace, como elle está escripto no livro dos casamentos -da freguezia de S. Julião da Serra.</p> - -<p>Convém saber que é cousa para pouco discurso a passagem -do amor ao sacramento, que o completa, lá n’essas -terras abençoadas do obscurantismo, como era o termo -de Pinhel, e continuará a ser por estes quatro seculos -por vir, em virtude de lhe andar por muito longe das -raias o caminho de ferro. De S. Julião da Serra, então, -isso aposto eu que nunca ha de ser desalojada a santa -ignorancia, que faz amarem-se e casarem-se logo as pessoas -que se querem.</p> - -<p>Vamos a bosquejar o casamento de Ladislau e Peregrina. -Se a descripção me sair muito florida, não servirá. -Guardarei os enfeites para exornação de outros casamentos,<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span> -onde as flores sejam empregadas em disfarçar a -mingua de coração e virtudes.</p> - -<p>Findo o almoço Ladislau disse ao vigario:</p> - -<p>—Como o dia está soalheiro e alegre, pedia eu ao sr. -padre João e a sua irmã, que viessem passar o dia a -Villa Cova. Se houver precisão da sua vinda á egreja -para administrar a extrema-uncção, depressa o irá chamar -alguem a minha casa; porém, graças a Deus, não -está ninguem, que eu saiba, doente na freguezia.</p> - -<p>—Pois vamos—disse o vigario sorrindo.—Caro lhe ha -de ficar o almoço... O bom presunto vai pagar os maus -ovos. Vem d’ahi, Peregrina, vamos lá ver a casa d’onde -sahiram tantos homens grandes e obscuros, como são os -homens que se escondem da sociedade para serem bons. -Quem dirá, sr. Ladislau, que no curto horisonte d’estas -serras que nos cercam, estão fechadas as lembranças dos -santos ministros do altar, que vieram de sua casa para -dentro d’estas quatro paredes velhas!... E seu pai, o -viuvo amortalhado no habito de frade pedinte!... Vamos!... -A minha indole melancolica chega a ser rustica! -Vejo que o sr. Ladislau está alegre, e eu a chamal-o -a lembranças pesarosas!...</p> - -<p>No decurso da caminhada de um quarto de legua, foi -Ladislau contando em miudos a sahida de seu pai para -o convento de Vinhaes, e a saudade escura dos que ficaram, -encarando a porta, que se abrira á passagem de -um caixão, e logo ao desterrado perpetuo das alegrias -d’esta vida. E o moço, a fallar de sua mãi, chorava; que -é sabida cousa a facilidade que temos de chorar, quando -o amor nos amollece, e, para assim dizer, anima o coração. -Sem a presença de Peregrina, Ladislau seria mais -insensitivo, mais duro, mais homem. O amor afemina as -condições mais viris, e tem feito que as faces queimadas<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span> -e negras da polvorada das pelejas se orvalhem e brilhem -de lagrimas. No animo tenro e como infantil do -moço de Villa Cova, a bem dita influição da meiga menina, -que o ia ouvindo e amando, devia de abrir-lhe no -peito os conductos todos das lagrimas maviosas. Não sei -que mysterio santo e dulcissimo está no fallarmos de -nossa mãi fallecida á mulher que nos bem quer. Póde ser -que venha esta sensibilidade de recebermos de uma o -coração, que damos a outra. Ou, talvez, seja de nos faltarem -carinhos de mãi, e cuidar a gente que a esposa -nol-os-ha de reviver.</p> - -<p>Subiram os tres caminheiros o serro de uma quebrada, -d’onde se entrevia a casa de Villa Cova, mal distincta -do arvoredo de soutos e carvalhaes. N’este alto, está um -rochedo, a pender sobre uma gruta de lage, ageitada pela -natureza, e conhecida dos pastores, com guarida segura -das trovoadas.</p> - -<p>—Esta lapa convida—disse o vigario. Sentemo-nos -aqui um pouco.</p> - -<p>—Minha mãi,—disse Ladislau—chamava a esta penedia -a sua gruta... eu ainda lhes não disse que minha -mãi era pastora.</p> - -<p>—Pastora?!—acudiu Peregrina, com ar de lisongeira -admiração, significando sentir a patriarchal poesia da -vida pastoril.</p> - -<p>—Olhem se avistam—tornou o moço—pela garganta -d’estas duas quebradas, lá em baixo, uma casa, nas costas -de um souto fechado? Alli nasceu minha mãi de uns -lavradores remediados; e, logo que teve a idade, tomou -conta da rez, e vinha todos os dias com ella para a serra. -Aqui no cavo d’este penhasco é que ella comia a sua -merenda; e, assim que o sol começava a descer, tambem -ella descia ao valle.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p> - -<p>—Sosinha?—atalhou Peregrina, com visagem de sústo.</p> - -<p>—Sosinha com dous cães de gado, os quaes, assim -que anoutecia, um tomava a dianteira do rebanho, outro -ia á beira d’ella. Muito chorou minha mãi, ao morrerem-lhe -de velhos os seus cães! Quando vinhamos á igreja, -minha mãi sentava-se sempre ahi n’essa pedra, onde está -a sr.ª Peregrina, e dizia a meu pai: «Olha, se te lembras, -meu santo!» E ficavam-se a olhar um no outro -com semblante alegre.</p> - -<p>Ladislau cessou de dizer o quer que fosse que attentamente -o padre e a irmã esperavam. Por mais curiosa -e lhana, Peregrina perguntou:</p> - -<p>—E que seria? Porque lhe dizia ella que se lembrasse?</p> - -<p>O moço sorriu-se candidamente, e continuou:</p> - -<p>—Meu pai estudava para padre, e já tinha ordens -menores, quando encontrou aqui minha mãi, andando -elle ás perdizes. D’ahi a pouco tempo estavam casados. -Isto me contaram meus tios. É bem de ver que ella se -lembrasse, quando aqui chegava, da primeira vez que se -viram, depois que eram grandes. Em pequeninos tinham -sido muito amigos; mas, como meu pai desde os doze -annos começou a estudar com um tio vigario, e veio -habitar na residencia de S. Julião, quando se tornaram -a ver foi tamanho o amor que...</p> - -<p>Ladislau susteve-se com feminil pudor.</p> - -<p>—E foram muito amigos?—disse Peregrina.</p> - -<p>—Tão amigos—respondeu o padre—que se amortalharam -ao mesmo tempo.—E, erguendo-se, acrescentou:—Ora -vamos lá por ahi abaixo.</p> - -<p>D’alli até casa, Ladislau foi contando ao vigario os -estudos que tinha feito com seu tio, os livros que lêra, -e os que mais eram do seu gosto. No tocante ao intento<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span> -de ordenar-se, nada tinha dito, quando padre João lhe -perguntou:</p> - -<p>—Segundo me disseram, o sr. Ladislau está na ideia -de ordenar-se?</p> - -<p>—Faz hoje um anno que morreu meu tio—disse o sobrinho -do padre Praxedes.—Pouco antes de ir a Deus, -me disse elle que esperasse um anno a inspiração do Espirito -Santo. Agora venho de orar sobre a sepultura de -meu tio, pedindo-lhe...</p> - -<p>—Que o allumiasse no difficil transito—atalhou o vigario, -e ajuntou logo:—E vem decidido a ordenar-se?</p> - -<p>Peregrina, que os seguia com alguma distancia, como -ouvisse aquella pergunta, insensivelmente estugou o passo -para ouvir a resposta.</p> - -<p>Ladislau respondeu:</p> - -<p>—Ainda não.</p> - -<p>E, como voltasse o rosto ao padre no acto de responder, -e visse os olhos de Peregrina, fitos em si, e expressivos -de anciedade intima, Ladislau recebeu dentro da -alma uns tamanhos abalos de alegria que não pôde nunca -mais topar delicias comparaveis ás d’aquelle momento.</p> - -<p>Entraram no quinteiro da casa de Villa Cova.</p> - -<p>Á porta da córte dos cevados estava uma mulher octogenaria, -com uma varinha na mão, acommodando os recos, -que brigavam em redor da pia.<a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2"></a><a href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a> Esta mulher que -tinha setenta annos de serviço em casa dos Militões,<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span> -quando o amo, Peregrina e o vigario entraram no quinteiro, -deixou cahir da mão trémula a varinha, e benzeu-se -murmurando: «em nome da Santissima Trindade, -Padre, Filho e Espirito!»</p> - -<p>—<i>Amen</i>, disse padre João.</p> - -<p>—Que tem vm.ᶜᵉ, tia Brazia?!—perguntou Ladislau.</p> - -<p>—Ainda não estou em mim!—respondeu a velha Brazia, -caminhando para o grupo, e formando com as mãos -um sobreceu aos olhos para poder enxergar os recem-chegados; -e proseguiu:—Cousa assim! Pois não me havia -de parecer agora que via entrar por essas portas dentro... -credo!...</p> - -<p>—Quem lhe parecemos nós?—tornou Ladislau.</p> - -<p>—Esta moça—tornou Brazia, aproximando-se de Peregrina—pareceu-me -sua mãe, que Deus tem; o meu -menino parecia-me seu pae, o santinho; e este sr. padre -dava-me ares do sr. reverendo vigario Praxedes. Estou -a vel-os como eram ha trinta annos, quando vinham da -igreja, depois da missa do domingo, cá jantar a casa!</p> - -<p>—Pois repare bem—disse o moço—que somos pessoas -vivas, tia Brazia, e havemos de jantar para a convencermos -de que não somos phantasmas.</p> - -<p>—Pois sim, meu menino; graças a Deus ha muito -quê; mas olhe que os servos estão todos por fóra, e eu -não tenho pernas para andar atraz da gallinha. Cozinhal-a -cozinho-a eu; mas pilhal-a isso ha-de ser vm.ᶜᵉ. -E quem é essa mocinha tão bem posta e ageitada, benza-a -Nosso Senhor?</p> - -<p>—É irmã do sr. padre vigario, que está aqui.</p> - -<p>—Ah! este é que é o sr. reverendo vigario? Bem me -tinham dito que era ainda bem moço; mas isso não tira. -Se a santidade fosse aquella dos velhos, então já eu estava -no altar! Deite-me a sua benção, sr. reverendo vigario,<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span> -e com Deus venha a esta casa d’onde sahiram -tres santos só dos que conheci. Eu tenho dou carros de -annos, aqui onde me vê, sanzinha e escorreita, bemdita -seja Nossa Senhora.<a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3"></a><a href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> Conheci, só á minha parte, o -sr. padre Timotheo, o sr. padre Heitor, e o sr. padre Praxedes, -afóra o santo pai do meu Ladislau, que morreu -com o habito dos missionarios de Vinhaes.</p> - -<p>Ladislau interrompeu Brazia, que ia sentar-se n’um -feixe de vides para mais commodamente contar os successos -alegres e tristes dos ultimos setenta annos da casa -de Villa Cova. Pediu-lhe elle com brandura e graça que -reservasse para depois de jantar as suas historias.</p> - -<p>—Então vamos para dentro—disse ella—eu cá vou -com a nossa menina mostrar-lhe a casa. Como é a sua -graça?</p> - -<p>—Peregrina.</p> - -<p>—Por muitos annos e bons. Era melhor chamar-se -Rosa, que é mesmo uma flôr; que Pelingrina tambem é -bonito nome. Ora, pois, vá o menino apanhar a ave, que -a panella vae já p’ro lume.</p> - -<p>Ladislau e o vigario sahiram do quinteiro entraram na -eira onde esgaravatavam as gallinhas. No entanto, Peregrina, -como a velha se agachasse na lareira para espertar -o lume amarroado, pediu-lhe que se assentasse no -escabello, e a deixasse a ella cosinhar. Brazia cedeu ás -instancias, repartindo o trabalho com a hospeda.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p> - -<p>Ladislau entrou na cosinha com a ave, e viu Peregrina -com um alguidar no regaço, cegando as couves. -Estranhou a Brazia o estar a irmã do sr. vigario n’aquelle -serviço, e a velha respondeu serenamente:</p> - -<p>Ella assim o quer; e bem haja a moça! Estou-me a -regalar de a ver! Parece-me mesmo sua mãisinha, quando -aqui entrou pela primeira vez. O noivo estava lá no -sobrado com os padrinhos e parentes, e ella desceu cá -p’ra cosinha a ajudar as criadas.</p> - -<p>—Pois sim—replicou Ladislau—mas minha mãi era -dona da casa e esta senhora é hospeda.</p> - -<p>—E por que não ha de ser dona? Se o não é, ella o -será, querendo Nossa Senhora.</p> - -<p>Estas palavras avermelharam as faces de ambos, que -não poderam suster o relance de olhos que se trocaram.</p> - -<p>—Pois então!—continuou a serva, cortando do presunto -uma boa talhada.—A vida de padre boa é; mas -não queira o Senhor que o menino seja padre. O que é -preciso é casar, sr. Ladislau. Deus que lhe deparou esta -creatura, lá sabe por que o fez. Vamos; é casar depressa, -que eu não quero morrer sem ver gente miuda n’esta -casa. O menino fez-me cabellos brancos, quando era pequeno -(que a fallar a verdade eu já não tinha cabello -preto nem para uma mézinha). Andava sempre a fugir -p’ros campos, e eu a procural-o, e ia dar com elle a caçar -grillos á torreira do sol: e de inverno andava sempre -por essas fragas acima em risco de malhar aos fundões. -Deu-me que fazer; mas é o mesmo: quero aturar tambem -os seus filhos. Quando eu vim para cá, seu pae -tinha cinco annos, e eu dez; se eu morrer, deixando cá -um netinho delle, vou contente... Então não dizem nada?</p> - -<p>Ladislau, sem a velha dar fé, tinha sahido envergonhado, -e mais ainda por ver que a Peregrina, ao passo<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span> -que Brazia fallava, descia o rosto sobre a hortaliça, voltando-o -de modo a não ser visto de frente pelo moço, -que por sua parte se estava tambem escondendo no mais -sombrio da cosinha, até encontrar a porta por onde sahiu.</p> - -<p>O vigario, estava esperando Ladislau, na vasta casa -da livraria.</p> - -<p>Havia muito que ver e admirar nas estantes dos numerosos -sabios d’aquella familia. A bibliotheca fôra principiada -no ultimo quartel do seculo XIV por um padre -Vicente Militão, que fôra peregrino a Roma, e estivera -no concilio tridentino, e lá fôra muito acceito, por seu -saber, e reportadas virtudes, ao santo arcebispo de Braga, -D. Bartholomeu dos Martyres. Encadernadas em -pergaminho, com o Breviario do padre Vicente, lá estavam -algumas cartas do primaz das Hespanhas, cartas -magoadas revelando o peso das obrigações prelaticias, e -outras mais de folga, datadas no convento de Vianna do -Minho, onde o humilde principe da igreja se fôra a descançar, -e morrer nas delicias «d’uma estreita cella, paredes -nuas, em mezas sem panno, um candieiro de ferro -pendurado de um prego, uma cama de frade ordinario -sem cortina, nem genero de paramento sobre uma táboa -de pinho.» Estas palavras de fr. Luiz de Souza -recordava o padre João Ferreira, quando religiosamente -deletreava os caracteres amarellados e meio delidos das -cartas do arcebispo.</p> - -<p>Voltando á livraria, os successores de Padre Vicente -enriqueceram-n’a, empregando n’ella quanto dinheiro podiam -amealhar, sem prejuizo dos pobres. Como quer, porém, -que o rendimento de sua grande lavra sobre-excedesse -o gasto, o remanescente era trocado por livros, -enviados á escolha de entendedores monasticos, com<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span> -quem os padres de Villa Cova, por amor da sciencia e -piedosamente, entabolavam correspondencia.</p> - -<p>Os tres ultimos sacerdotes d’esta familia não tinham -comprado livro algum, desde os ultimos annos do reinado -de D. João V, em que a religião degenerou de sua -simplicidade em luxuosa, e, até certo ponto, hypocrita -ostentação; e, de mais a mais, os que a tractavam moral -ou dogmaticamente, escreviam-n’a em linguagem, que -não era a de Domingos Feo, Thomé de Jesus, Heitor -Pinto, Arraes e Lucena. Para bem aquilatarmos em qual -grau de purismo classico andava a vernaculidade n’aquella -serie de padres letrados, basta dizer-se que no frontespicio -do primeiro volume dos sermonarios do padre -A. Vieira, um padre Timotheo Militão escrevera: «Tambem -este grande engenho está gafado!» A gafa de que -se lastimava o escrupuloso idolatra dos aureos escriptores -sem liga era aquelle geito de conceitista italico-hispano -em que o preclaro jesuita, a espaços, se descuidava -na oratoria.</p> - -<p>Em quanto Ladislau e o vigario se entretem n’estas -e semelhantes praticas, ingratas ao leitor de paladar -mais delicado, Brazia está assim conversando com Peregrina, -hombro a hombro, no escano da lareira, emquanto -a galinha ferve:</p> - -<p>—Brazia não seja eu, se Deus me não ha-de ajudar! -Lá que os moços se querem, como eu á menina dos -meus olhos, isso vou eu jural-o sobre umas Horas, sendo -preciso! A menina é uma perfeição; o meu Ladislau é -aquillo que alli está. Duas creaturas assim já vem lá de -cima talhadas para serem uma da outra; e, quando -acertam de se toparem no mesmo caminho, vão ambas -p’ra direita, ou p’ra esquerda. Não tem remedio senão -casarem-se.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span></p> - -<p>—Pois sim—repetia Peregrina o que havia dito duas -vezes:—Ainda hoje nos vimos, e já a sr.ª Brazia nos -quer ver casados?</p> - -<p>—Então a menina cuida que uma pessoa só se conhece -por ser vista muitas vezes? Eu ouvia ler a Historia -Sagrada á sr.ª Sebastiana, que sabia ler como um -padre, e já lá está na corte dos bemaventurados... Rezemos-lhe -por alma.</p> - -<p>A sr.ª Brazia rezou alto, e Peregrina mentalmente.</p> - -<p>—<i>Requiescat in pace</i>,—disse a velha.</p> - -<p>—<i>Amen</i>,—respondeu Peregrina, e benzeram-se.</p> - -<p>Brazia continuou:</p> - -<p>—Pois como eu vinha dizendo, a Historia Sagrada -conta que antigamente um moço sahia da sua terra em -cata de outra terra, onde estava a noiva, que elle nunca -vira. Batia á porta do sogro, pedia-lhe a filha e casava. -Isto é que eram tempos, moça! «O coração não tinha -peccado que fosse preciso descobrir com o tempo» dizia -o sr. padre Praxedes, quando a irmã se admirava de casamentos -assim de fugida. Olhe-me bem n’isto, que estas -palavras teem muito que deslindar. N’aquelle tempo, -a moça casadoura era por dentro como por fóra; via-se -como á luz do meio dia o que ella lá tinha no seu interior: -agora, pelos modos, é preciso espreitar muito tempo -as inclinações das pessoas! O pai do sr. Ladislau era -dos rapazes antigos: viu a menina lá em cima na lapa -da Crasta, gostou d’ella, tornou lá a saber se ella o queria, -foi ás Chãs aonde ao sogro; e, d’ahi a dias, já ella -aqui estava a encher esta casa de satisfação. É como -foi, e é como ha de ser! Senhor Jesus do bom despacho, -não me deixeis ficar mal!</p> - -<p>Ladislau e o vigario, chamados pela velha, desceram -á cosinha, onde estava posta a meza. Jantaram alegremente<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span> -e de vontade. Os dizeres de Brazia, tendentes -todos ao casamento, assazoavam as singelas iguarias do -vigario, que pondo os olhos, quer na irmã quer em Ladislau, -reparava na gravidade com que em silencio escutavam -as facecias da inquebrantavel velhinha.</p> - -<p>—Será possivel que...</p> - -<p>Disse entre si padre João, e cuidou ler no rosto do -hospede e no rosto da irmã esta resposta:</p> - -<p>—É possivel, e é certo.</p> - -<p>Findo o jantar, sahiram a tomar o sol na eira.</p> - -<p>Brazia, porém, puchou da batina ao vigario, chamou-o -de parte, e disse-lhe:</p> - -<p>—Deixe-os lá...</p> - -<p>Padre João não achou que responder á velha, e fez -menção de seguir sua irmã, que o estava esperando.</p> - -<p>—Não vá sem me ouvir duas palavras, sr. reverendo -vigario. Sente-se n’este tamborete, que eu vou dizer aos -moços, que vão á sua vida, e nós lá iremos ter.</p> - -<p>O dialogo deteve-se boa meia hora. Depois sahiram á -eira; e o padre levava amparada no braço a velha, que -jogava difficilmente os joelhos.</p> - -<p>—Ora diga-me o que elles estão fazendo, que eu já -não enxergo nada—murmurou a velha.</p> - -<p>—Ladislau está apanhando flores na ribanceira.</p> - -<p>—Vê?—acudiu Brazia—que lhe disse eu? Flores são -amores... E ella que faz? Não anda tambem ás flores?!</p> - -<p>—Não, tia Brazia. Está sentada.</p> - -<p>—A enfiar algum annel de missanga?</p> - -<p>—Tambem não.</p> - -<p>—Não? Então é uma ingrata. Vou ralhar com ella. -E, acercando-se com extraordinaria presteza de Peregrina, -disse-lhe em tom de graciosa severidade:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span></p> - -<p>—Vá fazer tambem um raminho, ande, menina, e -dê-o ao sr. Ladislau.</p> - -<p>Peregrina poz a vista timida no irmão. O vigario fez -um gesto de consentimento. Ergueu-se ella a colher -umas enfezadas flores silvestres e inverniças que se definhavam -entre os silvedos, e Brazia, ao mesmo tempo, -dava umas palmadas e tregeitava uns saltinhos de cegonha, -muito para riso, senão justificassem a alegria que -lhe acreançava os oitenta annos. Santa creatura para -namorados era aquella Brazia! Estar ella dizendo tudo -que elles queriam dizer-se; fazer-se lingua de corações -á hora em que nem os proprios donos saberiam articular -a linguagem d’elles; obrigar Peregrina a colher flores, -quando a moça estava perguntando a si propria se parecia -mal colhel-as e offerecel-as! E hão de rir-se pessoas, -que amaram ou amam, da velhinha que tudo -aquillo fez com tanto sizo e proposito e angelicas intenções!</p> - -<p>Peregrina deu as suas flores a Ladislau, e recebeu o -ramilhete d’elle. Qual dos dous tinha coração mais feminil? -Pelo rubor da face não havia estremal-os.</p> - -<p>—Onde iria a tia Brazia?—perguntou o vigario, vendo-a -sahir açodada e regamboleando as rebeldes pernas -pela eira fóra.</p> - -<p>A velha pouco se deteve. Chegou esbofada. Chamou -de parte Ladislau, e disse-lhe de modo que o vigario e -a irmã ouviram:</p> - -<p>—Esta argolinha de ouro deu-a seu pae á mãisinha -na vespera de se casarem, e já foi de sua visavó. Aqui -a tem. Vá dal-a á sua noiva, senão levo-lha eu.</p> - -<p>Ladislau ficou atonito e immovel. O vigario sorriu, e -disse á velha:</p> - -<p>—Sr.ª Brazia, vm.ᶜᵉ está sonhando um alegre sonho.<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span> -Deixe ver se o tempo, com a vontade de Deus, confirma -os seus bons desejos, que serão tambem os meus.</p> - -<p>Ladislau, como levado de insuperavel força, avisinhou-se -de Peregrina e offereceu-lhe o annel. O vigario, -abalado e commovido pela acção inesperada do mancebo, -tomou a mão convulsa de sua irmã, e vestiu-lhe o -annel. Depois, apertando nos braços o noivo de Peregrina, -exclamou:</p> - -<p>—Pois não é um sonho?</p> - -<p>Accudiu Brazia:</p> - -<p>—Qual sonho? O que eu quero é os primeiros banhos -apregoados no domingo; e de hoje a um mez esta -menina é minha ama.</p> - -<p>—Sua amiga, sua filha!—disse Peregrina abraçando-a.</p> - -<p>Assim foi. Na quarta dominga seguinte receberam as -bençãos estas duas creaturas preordenadas para a felicidade -da terra e ceu.</p> - -<p>Os casamentos, que Deus escolhe, são assim determinados -com uma singelesa, copiada dos tempos visinhos -da creação de varão e femea, como entes necessarios a -si, e de repente identificados por unidade insoluvel de -almas. E então era o viverem tão sós e um, como quem -de uma só vida tinham de prestar contas ao juiz supremo.</p> - -<p>A mim parece-me que o cazar-se a gente devia ser -como Ladislau e Peregrina. Andar annos com o coração -em ancias é desvigorisal-o para quando elle é mais necessario. -Pelo ordinario, os noivos que se amam longo -tempo, cazam-se quando o mais fino da sensibilidade -está desgastado na abstracção e na chimera.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p> - -<h2>IV<br /> -<span class="smaller">Outros amores</span></h2> - -<p>No dia immediato ao das bodas, o saudoso vigario -fôra passar a tarde com sua irmã, que o viera esperar -com o marido ao rochedo da Crasta.</p> - -<p>Ao entardecer, quando o padre se despedia, chegou -um portador da residencia com uma carta para Peregrina.</p> - -<p>—Para mim?!—exclamou ella duvidosa.</p> - -<p>—E letra da sr.ª D. Christina—disse padre João.</p> - -<p>—Ella está lá—acrescentou o portador.</p> - -<p>—Ella quem?—acudiu Peregrina.</p> - -<p>—A fidalga, que escreveu a carta.</p> - -<p>—Que novidade é esta?!—disse o vigario, abrindo e -lendo.</p> - -<p>—Lê alto, meu irmão!—disse Peregrina impaciente.</p> - -<p>E o padre continuou a ler mentalmente, dobrou a carta, -embolçou-a na sotaina, e disse ao portador:</p> - -<p>—Vai indo, que eu lá vou ter.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p> - -<p>E, depois que o criado sahiu, murmurou com mui entranhada -mágoa:</p> - -<p>—Eu presagiei esta desgraça!</p> - -<p>—Desgraça!—exclamou Peregrina.—Que é, meu -João?</p> - -<p>O padre, voltado a Ladislau, disse:</p> - -<p>—A senhora, que escreve a minha irmã, é a filha -mais nova de meu padrinho e bemfeitor. Lê tu, Ladislau, -e minha irmã que ouça.</p> - -<p>Ladislau leu:</p> - -<p>«<i>Peregrina.</i> Pela carta de teu irmão ao papá sabiamos -que ias casar; mas não cuidei que fosse tão depressa. -Cheguei aqui a buscar o amparo de teu irmão -e o teu. Felizmente estaes perto, e sei que vireis em -meu soccorro. Eu venho fugida, e commigo vém o homem -que amo, e a quem meu pai me negou, sem compaixão -das minhas lagrimas. Vimos rogar a teu bom -irmão que nos receba, e legitime a nossa união. A pobreza -não nos aterra. Logo que estejamos casados, teremos -força do céu para supportarmos todos os trabalhos. -Vem, se podes, com teu irmão para me ajudares -a vencel o, se elle resistir ao sagrado dever de nos abençoar -este amor, que não deve ser a nossa perdição. Tua -amiga <i>Christina</i>.»</p> - -<p>—E vaes casal-os não é verdade?—exclamou a commovida -senhora.</p> - -<p>—Não é verdade—respondeu friamente o sacerdote.</p> - -<p>—Como?!—tornou Peregrina—não os casas?</p> - -<p>—Não. A filha desobediente não acha onde quer um -ministro do Evangelho que lhe galardoe a rebellião contra -seu pai. A lei de Deus diz: <i>honrarás teu pai e tua -mãi</i>: a lei ecclesiastica diz ao cura d’almas: <i>não casarás<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span> -a menor sem consentimento de quem a governa, ou ordem -superior do teu prelado</i>. Eu vou sahir.</p> - -<p>—Eu tambem vou... disse Peregrina.</p> - -<p>—Não vaes—replicou o vigario.—Estás ao lado de -teu marido, e Christina apparece-te ao lado d’um homem -que... não lhe é nada.</p> - -<p>Peregrina baixou os olhos, e Ladislau disse:</p> - -<p>—Tu ficas; eu é que vou. Manda apparelhar a egua, -que a filha do teu bemfeitor virá commigo.</p> - -<p>A esposa lançou-se-lhe nos braços, e exclamou:</p> - -<p>—Tu vaes buscar a infeliz menina?</p> - -<p>—Pois se ella é infeliz!... murmurou Ladislau.</p> - -<p>E sahiram.</p> - -<p>Christina estava á janella do sobrado da residencia -quando o vigario e o cunhado chegaram.</p> - -<p>Era noite muito escura.</p> - -<p>—Estás ahi, Peregrina?—perguntou ella.</p> - -<p>—Não está, minha senhora—respondeu o padre.—Está -o marido de minha irmã.</p> - -<p>A secura d’esta resposta intimidou Christina. E, receosa, -voltando-se a um moço de boa presença, disse: -«Enganei-me, Casimiro; o padre não nos recebe.»</p> - -<p>O vigario entrou na saleta, seguido de Ladislau. Cortejou -com mui respeitosa reverencia a filha do seu bemfeitor, -e levemente o cavalheiro, a quem chamou Casimiro -Bettencourt. Depois disse:</p> - -<p>—Vi a carta que v. ex.ª escreveu a minha irmã. Peregrina -não veio, por ser inteiramente inutil a sua vinda. -Eu não posso sem authorisação canonica e civil ligar matrimonialmente -v. ex.ª com este senhor.</p> - -<p>—Eu vinha tão confiada na sua bondade...—disse -Christina, retrahindo os soluços sem reter as lagrimas.</p> - -<p>—Em minha consciencia—tornou o vigario—digo que<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span> -o mais prudente e urgente acto n’este desgraçado successo -é casarem-se; mas eu não posso fazel-o...</p> - -<p>—E então—atalhou Casimiro Bettancourt—um sacerdote -do Christo assim nos abandona, como quem diz: -«sêde criminosos e infames á vossa vontade...»</p> - -<p>—Não, senhor. O sacerdote de Christo faz, n’estes -casos, o que faria qualquer homem de boas entranhas. -Irei pedir ao sr. Ruy de Nellas consentimento para salvar -sua filha da continuação do crime e da infamia.</p> - -<p>—Meu pai é inexoravel!—acudiu Christina.</p> - -<p>—Não pode ser—disse Ladislau.—Um homem, que -amparou e educou dous filhos desvalidos d’um seu cazeiro, -não póde ser impiedoso com sua filha. Minha senhora, -peço licença para interpor o meu parecer n’uma -questão em que minha mulher não é estranha, e eu -tambem não posso sêl-o. Ella não veio; mas encarregou-me -de vir aqui offerecer-lhe nossa casa; e, tão certa está -de que v. ex.ª nos honra em aceital-a, que já vim preparado -para a conducção de v. ex.ª.</p> - -<p>—Pois heide eu ir!...—exclamou Christina, encarando -anciada em Casimiro.</p> - -<p>—O sr. Casimiro fica sendo meu hospede—respondeu -o vigario.</p> - -<p>—Separados!—bradou ella rompendo contra todos os -estorvos do pudor, e abraçando-se em Casimiro.</p> - -<p>—Não!—clamou elle.—Christina, sacode os teus sapatos -fóra d’esta porta, e vamos ao nosso destino.</p> - -<p>—O aggravo não me fere, que o não mereço, senhor!—disse -placidamente o vigario.—Eu convido o sr. Casimiro -a ser meu hospede, em quanto se solicita a licença -do pai d’esta senhora. Se lhes é dolorosa esta separação -temporaria, Deus permittirá que os retornos de -contentamento a façam esquecer. Soffram alguns dias<span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span> -para merecerem o premio. Eu não posso implorar o perdão -para a desobediencia, allegando que os fugitivos permanecem -em criminosa união. Ha o recurso da mentira; -mas eu não sei mentir. Despeçam-se para um dia, que -breve virá, se Deus nos ouvir. O sr. Casimiro, que me -applicou as palavras de Jesus aos apostolos, mostra que -lê e sabe os livros da religião. Seja, pois, religioso: peça -comnosco ao Senhor que lhe despache em bem o seu -requerimento.</p> - -<p>Casimiro apertou a mão de Christina, e disse:</p> - -<p>—Vai, e esperemos.</p> - -<p>—E esperemos—acrescentou o padre—por que, a baldarem-se -os nossos bons intentos, quem lhes ha de empecer -ajuntarem-se? O mundo, quando vê dous desgraçados, -deixa-os passar, e vinga-se. Se o mundo é justo, -não o direi eu: vingança justa creio que não ha nenhuma -ahi. O inverso da caridade é a vingança. Tenham -valor, que, se o não tem são mais fracos, desconfiam do -poder de Deus, e da sua propria fidelidade um a outro.</p> - -<p>—Adeus! balbuciou Christina, suffocada de suspiros. -Casimiro beijou-lhe a mão, dobrou o joelho, e disse:</p> - -<p>—Se te fiz desgraçada, perdôa-me.</p> - -<p>Ladislau, debulhado em lagrimas, abraçou Casimiro, -e exclamou:</p> - -<p>—Sou seu amigo! O senhor ama deveras esta menina!</p> - -<p>—Eu sei que se amam!—disse o vigario—por isso -serei parte, quanto em mim couber, na sua boa fortuna.</p> - -<p>—E eu não?!—disse com vehemencia o de Villa -Cova.</p> - -<p>—Tu tambem, meu irmão. Ajudar-me-has com os teus<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span> -conselhos, por que no teu coração tenro está a sabedoria -dos virtuosos, que te educaram.</p> - -<p>—Não fomos infelizes, Christina!—clamou Casimiro.—Aqui -estão comnosco duas generosas almas. Vai, minha -amiga!</p> - -<p>—Venha—disse Ladislau—que minha mulher está -pedindo a Deus que vamos.</p> - -<p>Já não choravam ao separarem-se.</p> - -<p class="tb">Cumpre narrar, o mais breve que ser possa os antecedentes -d’esta fuga.</p> - -<p>De uma familia pobre de Pinhel sahira em 1814 um -mancebo a assentar praça no regimento de cavallaria de -Bragança, onde serviu até furriel. De Bragança passou -para Lisboa em 1815. Aqui seguiu os postos até que fez -a campanha do cerco do Porto, já major do exercito sitiante, -e ahi morreu na ultima batalha. Este militar era -pai de Casimiro Bettancourt.</p> - -<p>Casimiro sabia que nascera em Lisboa em 1816, e -não conhecia sua mãi. Com referencia ao seu nascimento, -apenas possuia a pagina de uma velha carteira, -que dizia: «Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro -de 1816: foi baptisado em S. Domingos de Santarem, -aos 22 do mesmo mez. Foi creado no Cartacho, -d’onde sahiu em 1820. Entrou no collegio dos Nobres -em 1825. Tenho pago todas as prestações até hoje 31 -de dezembro de 1830.» Em nenhum outro caderno de -apontamentos encontrou indicios de sua mãi; nem das -muitas cartas que seu pai deixou esquecidas n’um bahu -de folha, pôde colligir quaes pertencessem a sua mãi. -As que tinham data eram quasi todas muito posteriores -ao seu nascimento. Apenas duas assignadas com a inicial -E, posto que sem data, queria e conjecturava elle<span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span> -que fossem de sua mãi: este querer fundava-se um pouco -em vaidade, e muito em presagio, como depois se verá.</p> - -<p>Morto o pai, e transvertida a ordem politica, claro é -que o joven alumno do collegio dos Nobres havia de sahir -entre dezeseis e dezesete annos de idade, desvalido, -desconhecido, e indifferente a toda a gente. Dos sabidos -amigos de seu pai uns tinham morrido, outros emigrado, -e outros esmolavam.</p> - -<p>Sabia Casimiro que seu pae nascera em Pinhel, e se -correspondia com sua irmã, a largos espaços. Achou cartas -assignadas por uma Marianna de Bettencourt. Escreveu, -ao acaso, á senhora d’aquelle nome, ou ao nome -d’aquella senhora. Responderam-lhe que sua tia tinha -fallecido em 1832. A pessoa, porém, que respondia, era -o viuvo, carpinteiro de seu officio, bom homem que lhe -offerecia sua casa, e metade de suas sopas.</p> - -<p>Obrigado a optar entre a fome e as sopas do artista, -Casimiro foi para Pinhel, auxiliado pela esmola de um -condiscipulo, filho de um brigadeiro liberal, camarada do -finado major antes de 1828.</p> - -<p>O artista redobrou de trabalho para não obrigar o sobrinho -de sua mulher a pegar da serra e da enxó. Comprava-lhe -vestido á feição de que usavam os moços remediados, -e esperava que seu compadre Ruy de Nellas—padrinho -d’um filho que mandára para o Brazil, quinze -annos antes—cedo ou tarde conseguisse algum decente -emprego para Casimiro.</p> - -<p>O fidalgo admittia á sua casa e presença o moço, em -attenção ao pai, que morrera fiel á justa causa, como -honrado e bravo. As filhas do fidalgo achavam-n’o distincto, -delicado, bem fallante, e divertido, quando a tristeza, -a dolorosa introversão o deixavam dissimular contentamento, -que o pobre, a bem dizer, nunca sentiu deveras.<span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span> -Ruy de Nellas mostrava desejos de lhe abrir a -carreira da independencia. Aos dezenove annos, Casimiro -pensava em ser soldado; o fidalgo, porém, queria que -elle fosse padre com um patrimonio fantastico, e o carpinteiro -inclinava-se ao generoso parecer de seu compadre.</p> - -<p>Sacerdote é que não! Casimiro amava Christina, Chistina -ia chorar com elle; e sabia em que sombras de arvores, -ou margens de ribeiras o moço ia chorar.</p> - -<p>E ella ia, tremendo de medo e paixão, e a pedir resguardo -ás azas dos anjos, buscal-o onde elle estivesse. -Tremia, mas não corava de pejo. As flôres que viam, -invejavam-lhe a pureza. Arquejava-lhe o seio cançado de -retrahir-se: cuidava a doce creatura que o espirar alto a -denunciava. Era o offegar d’aquelle seio como o da avesinha -anciada, que busca, de fronde em fronde, o ninho -que lhe desfizeram. De longe o antevia pelos olhos da -alma. As lagrimas tem seu odor: só lh’o não presentem -os que as deixam gotejar sem misericordia, sem dó.</p> - -<p>E quem havia de ter pena do sobrinho do carpinteiro -a não ser ella; que o intendera ao primeiro instante de -ser amada, e ao mesmo raio ardente se queimára, e, se -o timorato moço esmorecia de medo e pejo, era quem -o acoroçoava e levantava do seu abatimento?</p> - -<p>Exceptuada a cumplice d’este enorme crime—o enormissimo -crime de erguer homem pobre olhos affectuosos -á filha d’um Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo—o restante -do mundo seria contra elle, se podesse adivinhal-o.</p> - -<p>Adivinhava-o o padre João Ferreira, quando voltou -de tomar as ultimas ordens. A Casimiro disse:</p> - -<p>—Subjugue o coração emquanto é tempo. Tenha sempre -deante de seus olhos os beneficios que deve ao sr.<span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span> -Ruy. Recompensar-lh’os com desgostos será crueza e indignidade.</p> - -<p>Casimiro não respondeu. O amor, aos dezoito annos, -quando assim é surprehendido, não sabe mentir.</p> - -<p>A Christina disse o padre:</p> - -<p>—A maior prova de estima, que v. ex.ª póde dar a -Casimiro, é desvial-o de si. Dos dous hade ser elle o -mais desgraçado. Na sua idade, menina, o amor é sempre -uma creancice, e como criancice se esquece quando é -contrariado; porém, a primeira affeição do moço póde -ser a ultima e volver em desgraça irremediavel.</p> - -<p>—Quem sabe?—disse Christina com pueril audacia -e destemor.</p> - -<p>—Eu não sei senão que v. ex.ª está amando um homem -que seu pae repulsará de casa, logo que desconfiar -de tão estranhas intelligencias. A menina será perdoada -como inocente, e elle perseguido e castigado como villão. -Como penso que assim vem a acontecer, entendo -que o seu amor será funesto ao pobre orfão. Seria querer-lhe -muito desenganal-o.</p> - -<p>Observou padre João que as duas cegas creaturas, -depois do aviso, praticavam como se, em vez da censura, -recebessem louvores. Buscavam-se mais, escondiam-se -mais, e, de dia para dia, pareciam ir declarando a toda -a gente o seu amor, como se contassem com o apoio do -fidalgo.</p> - -<p>Ruy de Nellas chamou o padre e disse-lhe:</p> - -<p>—Ó afilhado, tu não desconfias de nada?</p> - -<p>—A qual respeito, meu padrinho?</p> - -<p>—Que minha filha Christina olha o Casimiro de um -certo modo?</p> - -<p>—Póde ser que v. ex.ª se não tenha enganado. Eu<span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span> -supponho que se estimam; e meu padrinho não podia -embaraçal-os de se estimarem.</p> - -<p>—Essa não me parece tua!—exclamou o fidalgo.—Não -posso embaraçal-os?! Então quem é que póde?</p> - -<p>—Ninguem, meu padrinho: o tempo é que corrige -estes defeitos do coração humano. Deixe v. ex. em silencio -a suspeita que eu tomo a meu cuidado o descanço -de v. ex.ª.</p> - -<p>—Nada de pannos quentes!—bradou Ruy de Nellas. -Casimiro vai ser posto fóra d’esta casa, e talvez de Pinhel. -É assim que elle me paga? É-me bem feito! muito -bem feito! Não seja eu tolo de estar aqui de braços abertos -para receber desgraçados, que afinal...</p> - -<p>Padre João esperou que seu padrinho desabafasse a -sua ira, e disse com humilde e pacato animo:</p> - -<p>—Sou eu um dos desgraçados que v. ex.ª recebeu nos -braços abertos para todos: o que posso dar em troca de -tantos beneficios é a lealdade do meu coração, o meu -leal aviso em coisa tão melindrosa. Se v. ex.ª perseguir -Casimiro, a sr.ª D. Christina, se já o ama como creio -que sim, amal-o-ha mais depois. Conheço de fundamento -a indole d’esta menina, e algum tanto a de Casimiro. -Este moço tem espiritos de condição muito altiva, que -se revoltam contra a baixeza em que o lançou a desfortuna. -Por vezes me tem fallado do seu futuro com uns -raptos de visionario, que me fariam rir, se me não compadecessem. -Presagiam-se brilhantes destinos, e esquece-se -de que o honrado carpinteiro está a suar para que -elle se não avilte no trabalho incompativel com as suas -imaginações. Em quanto á sr.ª D. Christina, é minha -opinião que esta menina desobedece ao raciocinio, e á -força, se lh’a imposerem. Sabe v. ex.ª que, de todas as -suas filhas, esta foi a mais remissa em aprender o pouco<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span> -que sabe, sobejando-lhe talento para muito. Observei -que uma palavra aspera m’a afugentava por oito dias, e -transtornava todo o anterior aproveitamento. Argumentando -d’estas coisas simples, por analogia, todas me levam -a crer que o emprego de providencias energicas -dará mau resultado.</p> - -<p>—Qual?!—atalhou o fidalgo.</p> - -<p>—Uma fuga, uma vergonha.</p> - -<p>—Tu pensas isso, João?!</p> - -<p>—Ousaria eu dizer a meu padrinho o contrario do -que penso?!</p> - -<p>—E os ferrolhos dos conventos para que se fizeram?</p> - -<p>—Para as freiras estarem seguras da inviolabilidade -de suas pessoas.</p> - -<p>—E para as filhas rebeldes.</p> - -<p>—A rebellião continua nos conventos, a rebellião do -espirito, contra a qual não prevalecem os ferrolhos.</p> - -<p>—Veremos.</p> - -<p>—Seria acêrto não experimentar, meu padrinho.</p> - -<p>—Então que queres tu que eu faça?: Deverei cazar -minha filha com o sobrinho do carpinteiro?</p> - -<p>—Não, senhor. Penso que v. ex.ª, simulando inteiro -desconhecimento do que se passa, deve favorecer Casimiro -para que siga a vida militar que deseja.</p> - -<p>—Agora! agora que elle ousou pôr olhos em minha -filha! o ingrato! pois não! Vou mesmo agora estabelecer-lhe -mesada em Coimbra ou Lisboa para elle se formar -em mathematica, e namorar-me de lá a filha! Estavam -bem avisados os pais, se tivessem de mandar a Coimbra -os maltrapilhos que lhes requestam as filhas! Não -haveria ahi aprendiz de sapateiro, que se não fizesse -galan das herdeiras ricas! Ora, sr. padre João Ferreira, -outro officio! Não sei em que livros e em que terras tu<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span> -foste estudar e experimentar semelhantes desconchavos. -Eu consultarei o meu travesseiro...</p> - -<p>—Deus responda ás suas consultas, meu padrinho—disse -o padre, quando o fidalgo lhe voltou as costas.</p> - -<p>No dia seguinte, ás cinco horas da manhã, já o fidalgo -estava a pé, e abria subtilmente a janella do seu quarto -sobre o jardim cujo muramento partia com a rua. Viu -elle Christina sahir ao terreiro pela porta da cozinha, -atravessar as aleas de amoreiras, destrancar um postigo -de communicação com a estrada, e debruçar-se no peitoril. -Desceu Ruy de Nellas, de manso, ao jardim, e ia -já em meio, quando a filha deu tento da espionagem. -Soltou um ai; mas de turvada que ficou, nem aviso deu -a Casimiro. O pai apertou o passo, correu impetuosamente -ao postigo, e viu o moço quieto, e sereno como -se a surpreza fosse um gracejo de futuro sogro, que se -entretem a fazer foscas ao futuro genro, muito do seu -agrado.</p> - -<p>Não assim Christina, que, passado o momento do -spasmo, dobrou o joelho e balbuciou:</p> - -<p>—Meu pai, eu é que sou a culpada!</p> - -<p>Não attendeu, nem acaso ouviu estas vozes o fidalgo. -Inclinou-se á estrada, e exclamou:</p> - -<p>—Vá lá contar a seu tio carpinteiro a maneira como -vossa mercê pagou a hospitalidade, que lhe dei! E não -me torne a rondar a casa, que não vá algum dos meus -criados apalpar-lhe as orelhas!</p> - -<p>Fechou-se o postigo com estrondo. Aquellas palavras -continuaram a martellar nos ouvidos do moço, que levava -as mãos á cabeça, como para as não ouvir. Pensou -em se matar, como toda a gente, alguma vez, excepto -os bons christãos, os felizes, e os tolos, que não são christãos<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span> -nem felizes, nem precisam ser senão tolos para viverem -e até sobreviverem a si proprios.</p> - -<p>Caminhou ás cégas por uns trilhos de cabras, que se -aplanavam n’uma chã, arborisada de sôbros, onde padre -João regularmente amanhecia com os seus livros de theologia -moral ou historia ecclesiastica.</p> - -<p>—Casimiro viu-o, correu a elle, e exclamou:</p> - -<p>—Valha-nos!</p> - -<p>O padre reçebeu-o nos braços e ouviu acontecido.</p> - -<p>—O remedio virá do ceu—disse elle.—Não sei que -lhe faça, a não querer receber-me um conselho. Espere, -soffra, conforte-se, ore, e humilhe-se: não sei que mais -lhe diga.</p> - -<p>Casimiro Bettancourt, ao anoutecer d’esse dia, adormecera -com a face encostada a uma pedra: era a lethargia -da fome, da fadiga, e da desesperação.</p> - -<p>Não orára.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span></p> - -<h2>V<br /> -<span class="smaller">Veredas penhascosas</span></h2> - -<p>Ruy de Nellas, contente do feito, mas não seguro -ainda, scismava na escolha do convento em que devia -encerrar Christina, quando o padre João Ferreira chegou -de dizer missa. Chamado a dar seu voto, o sacerdote -respondeu que obedecia, mas não aconselhava; que -iria onde s. ex.ª o mandasse negociar a reclusão de D. -Christina, mas declinava de si o minimo de responsabilidade -em uma violencia, sobre inutil, perigosa.</p> - -<p>Excitado pela colera, o fidalgo foi de encontro á prudencia -do padre com termos rudes; mas a humildade do -servo paciente despontou-lhe as iras, e introverteu-lh’as -no seio em arrependimento. Ruy quasi lhe supplicou o -seu voto. Padre João repetiu o que dissera, e contou a -situação em que deixara Casimiro Bettancourt. Outra vez -se irou o fidalgo, ouvindo o tom lastimoso com que o -padre fallava do filho do major; porém, não sabemos dizer -porquê, marejaram-se-lhes de lagrimas os olhos, quando -o clerigo disse:</p> - -<p>—Agora vou ver se encontro o desgraçado ahi pela<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span> -serra, que não vá elle tentar contra a vida, e, matando-se, -legar a v. ex.ª uma tristeza pezada de mais para seus -annos e sua nobre alma.</p> - -<p>Sahiu o padre, e, ao anoitecer, encontrou Casimiro -deitado na terra humida, com a cabeça na pedra, e o -rosto chammejante de febre. Agitou-o, ergueu-o, amparou-lhe -os passos, até o trazer á estrada, e d’ahi quasi -em braços a casa do carpinteiro.</p> - -<p>Conversaram até altas horas da noite. Casimiro ouviu -as ultimas palavras do padre, e disse:</p> - -<p>—Farei a sua vontade.</p> - -<p>A vontade de padre João era que elle sahisse de Pinhel, -e fosse a Bragança assentar praça. A resistencia -de Casimiro fôra pertinaz, até ao derradeiro golpe, que o -padre lhe descarregou, dizendo que a demora d’elle em -Pinhel seria a causa á clausura de Christina. Casimiro -sentou-se no catre, embebeu o suor frio da face na dobra -do lençol, e exclamou:</p> - -<p>—Irei.</p> - -<p>E foi cinco dias depois, caminho de Bragança; mas, -ao fim do primeiro dia de jornada, adoeceu perigosamente. -O sangue refervido no peito principiava a vulcanizar-lhe -a cabeça. Deram-lhe uma enxerga, n’uma taverna de -Escalhão, e um padre que, em virtude de o ter confessado -e ungido, pôde saber que o viandante era de Pinhel -e se chamava Casimiro Bettancourt.</p> - -<p>O carpinteiro ergueu mão do trabalho, embolçou as -economias do seu mealheiro, e foi caminho de Escalhão. -O anjo do amor estava á cabeceira do enfermo repellindo -a morte. O coração repuchára a si a onda escaldante de -sangue, que banhara o cerebro, e espedaçava-se para -deixar resurgir a rasão. O artista esteve nove dias e nove -noites ao lado de seu sobrinho. Quando se lhe acabaram<span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span> -os escassos recursos, que levára, empenhou a cruz de -prata, que trazia ao peito; e pediu primeiro ao Crucificado -que lhe désse a vida do sobrinho de sua mulher.</p> - -<p>Ao decimo dia, o carpinteiro construiu uma camilha -n’um carro de lavoura, e Casimiro, convalescente, foi -transportado a Pinhel.</p> - -<p>Ruy de Nellas e suas filhas, tirante Christina, passeavam -n’uma alameda fóra da povoação, quando o carro -chegou. O carpinteiro, que caminhava lentamente apoz -o carro, descobriu-se, á vista do fidalgo, e disse:</p> - -<p>—Guarde Deus a v. ex.ª, sr. compadre.</p> - -<p>—Que levas ahi, Antonio?—disse o fidalgo.</p> - -<p>—É meu sobrinho.</p> - -<p>—Teu sobrinho?—Disseram-me que tinha ido assentar -praça. Querem ver que elle foi ferido em alguma batalha?</p> - -<p>—O sr. compadre está a mangar com os pobres!... -respondeu o carpinteiro com um sorriso mais de pungir -que propriamente a injuria.</p> - -<p>N’este lanço, Casimiro Bettancourt affastou a ourella -da manta, que formava o pavilhão do carro, pôz fóra o -rosto macerado, e disse:</p> - -<p>—Sr. Ruy de Nellas, quem me feriu na batalha foi a -espada da honra. Agora vou eu travar uma batalha com -o orgulho de v. ex.ª: veremos quem é o vencido.</p> - -<p>—Ora, sôr Casimiro!—replicou o fidalgo galhofando -sarcasticamente—as suas ameaças tem muita graça... -passe muito bem.</p> - -<p>E proseguiu no passeio, chibatando, com ares de Tarquinio -ou Pombal, as florinhas que se abriam por entre -o ervaçal que arrelvava a alameda.</p> - -<p>—Chama lá os bois, moço!—disse o artista ao carreiro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span></p> - -<p>Christina encerrada voluntariamente em seu quarto, -nem de suas irmãs era já bem vista. As outras senhoras, -como izemptas e intactas de coração, conservavam os espiritos -excelsamente afidalgados, e levavam muito a mal -que sua irmã as quizesse aquinhoar no desdouro de um -casamento desegual. O fidalgo obrigára Christina, nos -primeiros dias, a tomar o seu lugar na meza commum; -como visse, porém, que ella escandalisava a familia com -suas lagrimas ordenou que lhe levassem as criadas os -alimentos ao quarto. E assim se finava a pobre menina, -desconsolada da voz humana, e descrida da misericordia -divina.</p> - -<p>Peregrina, a sua confidente, a sua alegria, tinha ido -com o irmão para S. Julião da Serra. Queria escrever-lhe: -mas que portador ousaria levar-lhe a carta? Pensava -em fugir para ella; mas com quem, com que recursos? -A não ser ella, quem faria chegar ás mãos de -Casimiro as suas cartas, o adeus sùpremo de sua alma, -ao arrancar da vida? Respondia-lhe o calado pavor da -soledade ao afflictivo interrogatorio, em que se debatia, e -já por fim, desesperava.</p> - -<p>Havia na caza um criado moço, que Casimiro Bettancourt -ensinára a lêr nas horas feriadas dos domingos. -Nunca os dous namorados fiaram d’elle segredos seus; -mas o muchacho, que era atravessado, adivinhava o que -não via, e espreitava para examinar se tinha adivinhado.</p> - -<p>Soube elle que o seu mestre de leitura chegára -doente n’um carro, viu que o fidalgo e as meninas andavam -a passeio, foi de corrida a caza, bateu de mansinho -á porta do quarto de Christina, e disse-lhe pelo -espelho da fechadura:</p> - -<p>—Fidalga, o sr. Casimiro chegou agora doente n’um -carro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p> - -<p>Christina espediu um grito, e abriu a porta.</p> - -<p>—Vem cá!—disse ella ao rapasito, que se ia escapulindo.—Que -disseste? Viste o sr. Casimiro?</p> - -<p>—Vi-o descer do carro nos braços do tio Antonio carpinteiro. -Vem amarello como uma cidra.</p> - -<p>—Tu és nosso amigo, José?—perguntou ella offegante.</p> - -<p>—Sou, sim, senhora.</p> - -<p>—Levas-lhe um bilhete?</p> - -<p>—Dê-o cá, fidalga.</p> - -<p>—Espera, que eu vou escrevêl-o... O melhor é tu -ires esperar no pateo, que eu lanço-t’o da janella, que -não vá ver-te alguem aqui no corredor.</p> - -<p>O mocinho esperou um quarto de hora, e levou a -carta a Casimiro, que respondeu logo.</p> - -<p>Este rapaz de nove annos faz lembrar o mosquito que -matou o leão, e o braço fundibulario que derribou o gigante. -Ahi estão a vigilancia e omnipotencia de Ruy de -Nellas Gamboa de Barbedo, senhor solarengo mais velho -da Beira Alta, anniquilladas pela intervenção do pegureiro, -que o senhor feudal nunca distinguia dos carneiros -que apascentava!</p> - -<p>O effeito das primeiras cartas foi uma transfiguração -maravilhosa no semblante de Christina e Casimiro. Já -ella punha as mãos e ajoelhava a orar: é certo que, -pelo ordinario, attribuimos ao demonio o mal acintoso, -que o mundo nos faz, e agradecemos a Deus o bem casual -ou intencional que nos faz o mundo. Tudo isto redunda -em elogio de Deus e nosso.</p> - -<p>Ruy entrou pensativo em casa, dizendo entre si: «Mal -fiz em a não metter no convento; mas ainda não é -tarde.»</p> - -<p>Mandou vir á sua presença os creados e creadas, excepto<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span> -o José-pastor, como lhe chamavam. O rapasito -ainda não gosava honras de creado appellavel para assumpto -grave. Declarou o fidalgo que faria entrar n’uma -cadeia o servo ou serva, que levasse ou trouxesse cartas -entre sua filha e Casimiro. Os creados innocentes e -impeccaveis n’esta materia—por isso que zelavam a fidalguia -do seu amo contra o plebeismo do sobrinho de -mestre Antonio—juraram de espreitar os passos de Casimiro, -e, em testemunho de sua probidade, offereceram-se -a quebrar-lhe as costellas, sendo necessario.</p> - -<p>Ruy de Nellas despediu-os satisfeito, e disse entre si: -«Tanto faz tel-a fechada em casa, como no convento. -Parece-me até que está mais segura aqui.»</p> - -<p>José-pastor ouviu a creadagem na cosinha discorrer -ácerca da recommendação do fidalgo, e fez que não intendia. -D’ahi a pouco, andava elle no pateo a escrever -com um pau carbonisado o seu nome nas lages pollidas, -e de vez em quando olhava, por debaixo do avental de -saragoça, contra a janella de Christina.</p> - -<p>Viram-se. E elle escreveu a palavra <i>carta</i>, olhando de -revez e indicativamente para a menina. Fez ella um -gesto de intelligencia, e elle aspou a primeira palavra -com os pés, e escreveu n’outra lage: <i>telhado</i>. Outro signal -de comprehensão, e logo outra palavra: <i>torre</i>, e -depois <i>trapeira</i>.</p> - -<p>Queria isto dizer que elle ia ao postigo de uma especie -de pombal, que lá chamavam <i>torre</i>; que lançava de -lá a carta ao telhado; e que fosse Christina á trapeira, -superior ao seu quarto, e colhesse a carta.</p> - -<p>Sahiu-se excellentemente com a traça, e até sobreexcedeu -o programma; porque a menina, recebendo uma, -atirou outra carta á base da torre, e o rapasinho, que -era optimo volatim em esgalhos de arvores, pendurou-se<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span> -pelos pés no banzo do postigo, e com um troço de uma -aguilhada de seu uso pastoril arpoou o papel. Estas habilidades -é que Casimiro Bettancourt lhe não havia ensinado -com as primeiras lettras. Se a instrucção primaria -lh’as desenvolveu, isso é materia para mais dilatadas -e opportunas pesquizas.</p> - -<p>Aligeirando o alcance d’estes successos, até ao ponto -em que os deixamos na vigairaria de S. Julião da Serra, -direi que a fuga estava pactuada desde as primeiras -cartas, que se trocaram. As apostillas subsequentes versavam -sobre qual caminho e destino convinha seguir. -Casimiro lembrava-se do condiscipulo de collegio a quem -devia o favor de dinheiro com que jornadeára de Lisboa -a Pinhel. Presumia elle que, se fugissem para Lisboa, -e procurassem aquelle amigo, achariam protector para -alcançar-se um emprego. Mas um fio de espada lhe cortava -por alma e coração, quando a nevoa negra da pobreza -se lhe punha diante da esplendida aurora do seu -dia feliz. Quem lhes daria meios para caminharem até -Lisboa?</p> - -<p>Como adivinhando esta pergunta, Christina propunha -que fossem a S. Julião da Serra, casassem lá, e pedissem -ao padre João recursos para fugirem á perseguição, -até que Deus lhes acudisse.</p> - -<p>N’estes dias revesados de alegrias e amarguras, para -elles, que já tinham aprasado o da fugida, o carpinteiro -recebeu carta do filho, estabelecido no Brazil, e o primeiro -donativo de dinheiro. Quando Casimiro viu ouro -em mãos de seu tio, apertou o artista ao seio, e disse-lhe -com os olhos cheios de esperança e lagrimas:</p> - -<p>—Empreste-me parte d’esse dinheiro, que é o preço -da minha felicidade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span></p> - -<p>—Se é o preço da tua felicidade, ahi o tens todo—respondeu -o carpinteiro, lançando as peças sobre a meza.</p> - -<p>—Menos de metade me basta—replicou Bettancourt.</p> - -<p>—Pois toma d’aqui o que quizeres; mas conta-me o -que vaes fazer.</p> - -<p>Casimiro, temeroso da probidade de seu tio, nunca -lhe havia revelado o plano do rapto. Prudente receio era -o seu. Mestre Antonio, bem que estomagado das soberbas -de seu compadre, não consentiria que seu sobrinho -o vingasse por semelhante meio. A ida de seu filho para -o Brazil devia-se em parte á generosidade do padrinho, -que lhe déra enxoval e algum do dinheiro da passagem. -O mesmo fidalgo o ajudára a comprar o fato de Casimiro, -sem querer que o moço soubesse a obrigação em -que ficava. Mestre Antonio, além d’isto, reprovava o ousio -de seu sobrinho em inquietar uma menina talhada -para marido de outra linhagem e haveres. Não dominava -ainda n’aquella epocha a aristocracia das artes, inchada -hoje com uns descomedimentos de orgulho, que prevalecem -propriamente sobre os da aristocracia de nascimento; -de modo que a gente sisuda lastima que o artista -não seja bem creado para sustentar o seu real valor, -sem andar a todas as horas, de arremettida contra -as distincções herdadas. Agora, importuna a philaucia -do artista; logo anoja a humilhação a que se desce.</p> - -<p>Cingindo-me ao ponto: Casimiro reteve ainda o seu -segredo, sophismando-o d’est’arte:</p> - -<p>—Eu vou continuar em Coimbra ou Lisboa o meu -curso de mathematicas para seguir a vida militar mais -vantajosamente. Bem sei que este dinheiro a pouco chega; -mas espero achar, sem baixeza, recursos em mim -proprio para me alimentar. Ensinarei particularmente o -que sei, e com o pequeno salario me irei remindo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p> - -<p>—Se é isso, Casimiro—redarguiu mestre Antonio—leva -o dinheiro todo, que eu tanto faço com elle como -sem elle. Assim como assim, duzentos mil réis não me -quitam de trabalho. Gosto bem de te ver botado ao caminho -da vida. Vai, moço; que o mundo é p’rós homens. -Teu pai sahiu d’aqui com duas camisas n’uma -trouxa, sentou praça, e morreu major na flôr da idade: -teria quarenta annos. Se não morre, e o seu partido vinga, -podia acabar general. Tira-te d’aqui d’esta aldeia, -homem! Tu tens lá umas ideias que precisam de terras -grandes. Vai-te á vida que eu cá estou com o meu pouco -para te acudir nas necessidades. Logo que teu primo -mande mais dinheiro, lá irá ter onde estiveres. Se um -dia tiveres de teu, e eu já não poder com o machado, -então me irás pagando como poderes.</p> - -<p>Casimiro debulhava-se em lagrimas, abraçado ao carpinteiro, -que embebia as suas no canhão da jaqueta de -saragoça remendada nos cotovellos. Aquella jaqueta deshonrar-se-ia -grandemente se a puzessem á beira de muitas -fardas batidas a ouro e coalhadas de veneras!</p> - -<p>Era como picar de remorso o doer-se de Casimiro. -Mentir assim aquelle velho tão bom, tão franco, tão desprendido, -tão pobre!</p> - -<p>Não importa! A sua paixão absolve-o já; o homem -honrado e illudido absolvel-o-ha depois.</p> - -<p>Tinha, pois, Casimiro dinheiro para a fuga; d’isto avisou -Christina; a menina, porém, instava pelo casamento -em S. Julião da Serra, e o moço, de vontade e coração, -condescendia, e desejava assim tão abrasadamente como -ella.</p> - -<p>Ruy de Nellas encontrou o carpinteiro, e não lhe fallou, -nem respondeu á saudação com um gesto sequer.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span></p> - -<p>—Porque está de mal commigo, sr. compadre?!—perguntou -o operario com magoada submissão.</p> - -<p>—Porque és um ingrato!—bradou o fidalgo.</p> - -<p>—Ingrato, senhor! Nemja isso! Deus me não ajude, -se eu sou ingrato a v. exª!</p> - -<p>—Tens ahi teu sobrinho, que deu um pontapé no seu -bemfeitor, e causou a desgraça de minha filha, e a tristeza -de minha casa!</p> - -<p>—Meu sobrinho, sr. compadre, fez mal, é verdade; -mas o mal está remediado. Meu sobrinho vai-se embora -por estes dias. Vai para Lisboa continuar os seus estudos. -Leva duzentos mil réis que eu recebi do meu filho -e afilhado de v. ex.ª, e por lá ficará até se fazer homem -como meu cunhado.</p> - -<p>Ruy de Nellas deu um grande suspiro de desabafo, e -disse:</p> - -<p>—Fallas-me verdade?</p> - -<p>—Como quem se confessa, fidalgo.</p> - -<p>—Então compadre, o dito por não dito. Se eu soubesse -que elle estava ainda em tua casa, por falta de -meios, o dinheiro dava-t’o eu, sem elle o saber. Quando -é que vai?</p> - -<p>—Estão-se fazendo umas camisas, e, o mais tardar no -fim da semana, vai com Deus.</p> - -<p>N’este dia á noute, Ruy disse a uma das filhas:</p> - -<p>—Vai ao quarto de tua irmã, e diz-lhe com bons modos -que venha tomar chá comnosco. A tempestade está -a passar: é preciso que a trateis, como d’antes, d’aqui -por diante.</p> - -<p>Christina, maravilhada da brandura de sua irmã, desceu -á sala, e beijou a mão paternal, que se lhe offerecia -com affavel sorriso.</p> - -<p>Tomou chá trocou leves palavras com suas irmãs, e<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span> -volveu ao seu quarto, onde desvelou a noute, scismando -na transfiguração de seu pai.</p> - -<p>A horas de almoço, passou Ruy de Nellas no corredor -contiguo ao quarto de Christina, e disse-lhe tocando na -porta:</p> - -<p>—Vai o almoço para a meza, menina.</p> - -<p>Christina estremeceu, e sumiu entre os cobertores a -carta, que estava escrevendo, cujo periodo mais importante -era assim:</p> - -<p>«....... Como penso que terei liberdade de descer -ao jardim ao fim da tarde, sahirei pela porta da quinta, -que abre para a estrada. Se me enganar, então ámanhã -te avisarei........................................ -................................................... -...................................................</p> - -<p>Não se enganára.</p> - -<p>O caricioso pai sahiu com ella e suas irmãs a passear -depois do almoço. Amimou-a, depois de jantar, brindando-a -com um vestido de tafetá azul para festa dos annos -da morgada. Ao fim da tarde viram-n’a sahir ao jardim, -e a mais abelhuda das irmãs disse:</p> - -<p>—Papá, olhe que a Christina vai só...</p> - -<p>—Deixal-a ir. Coitada! o inverno já lhe desfolhou as -rosas que ella ha um mez ainda regava!... Vai ver as -suas plantas... Pobre filha, que pena me faz vêl-a tão -abatida!...</p> - -<p>Christina demorava-se e o vento assobiava, impellindo -contra a janella borrifos de chuva.</p> - -<p>—Vossa irmã, já está no seu quarto?! Vão ver.</p> - -<p>As meninas alvoroçadas vieram dizer que no quarto -não estava ella nem a capa.</p> - -<p>—Pois não viram que ella saiu de capa ao jardim?—reflectiu -o pai.—Vamos ao jardim, que ella deve lá<span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span> -estar abrigada da chuva... ou (ajuntou elle no silencio -de seu coração) escondida a chorar... pobre menina!</p> - -<p>Espreitaram todos os escuros do arvoredo, chamando-a -a brados. O fidalgo, esporeado por diabolica suspeita, -correu á porta do carro, e achou-a aberta.</p> - -<p>—Fugiu!—exclamou elle. Os criados que saiam todos -por essas estradas, e... que o matem!</p> - -<p>E os criados sahiram todos na ideia... de o matarem!</p> - -<p>Até o José-pastor lá ia na chusma, clamando que -queria tambem matar o ladrão da fidalga, e teimava -que via as pegadas da menina lá por uns caminhos -onde ninguem via cousa nenhuma!</p> - -<p>A estas horas, Christina e Casimiro transmontavam -o cabeço da primeira serra, que descia para umas gargantas -intransitaveis.</p> - -<p>Na ante-vespera, palmilhara Casimiro o terreno menos -trilhado, e orientara-se cabalmente da direcção que -devia seguir até assomar á serra visinha de S. Julião.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span></p> - -<h2>VI<br /> -<span class="smaller">A humildade vencedora</span></h2> - -<p>Os servos iam e vinham por estradas reaes, atalhos -e mais desfrequentados caminhos. Ninguem déra noticia -dos fugitivos, excepto um guardador de cabras, o -qual disséra ter visto n’uma chã, passarem um senhor, -vestido á cidade, e uma senhora assim a modo de fidalga, -e depois os vira entrar á estrada de Trancoso. Estas -novas quem as colheu foi o José-pastor, o velhaco! -Elle não viu guardador nenhum de cabras: inventou-o, -sem que ninguem lhe encommendasse a fabula. O que -elle queria era attrahir as pesquizas para o lado opposto -de S. Julião da Serra. Serviçal até alli!</p> - -<p>Quando, ao quarto dia de baldadas buscas, os criados -mais pimpões se abalaram para Trancoso armados -até aos dentes, Ruy de Nellas foi procurado por sujeito -desconhecido. Entrando á presença do fidalgo, e interrogado -sobre quem era, disse:</p> - -<p>—Sou um lavrador da freguezia de S. Julião da -Serra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span></p> - -<p>—Onde está vigario meu afilhado padre João Ferreira?</p> - -<p>—Sim, senhor.</p> - -<p>—Como está elle!</p> - -<p>—Doente de cama.</p> - -<p>—Coitado! E Peregrina? Conhece a irmã do vigario?</p> - -<p>—É minha mulher.</p> - -<p>—Ah! sim? quanto folgo! Já cá sabiamos que ella -casára bem.</p> - -<p>—Estimo-a muito, que é digna d’isso.</p> - -<p>—E vm.ᶜᵉ creio que é lavrador abastado...</p> - -<p>—Graças a Deus, tenho mais que o necessario...</p> - -<p>—Queira sentar-se. Esqueceu-me de o mandar sentar, -com a satisfação de ver o marido da nossa Peregrina... -<i>Satisfação</i>, digo eu!... Vão por cá muitissimas -afflicções, senhor... como é a sua graça?</p> - -<p>Ladislau, criado de v. ex.ª</p> - -<p>—Muitas afflicções, sr. Ladislau! Cahiu em minha -casa um raio!... Deus... não sei que mal lhe fiz! -Eu, que faço o bem que posso, que dou tudo quanto -me sobeja aos pobres, que eduquei minhas filhas na religião -de meus avós, estou aqui esmagado por uma vergonha, -que me está cavando a cova!... Quando ha -sete annos me morreu minha mulher, pedi a Deus a -morte: oxalá que elle me tivesse ouvido!... Logo, em -seguida, morreu o meu unico filho varão. Resisti ainda. -Depois vi cahir o Senhor D. Miguel do throno á miseria -da proscripção, e fiquei ainda em pé. Agora... agora... -esta punhalada corta-me o ultimo fio! Nos tres -infortunios passados, o Senhor Deus dos afflictos collocou -a meu lado um dos seus apostolos, que me amparou, -e me fechou as chagas com o balsamo da religião.<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span> -Era um frade da sua freguezia, creio eu: Fr. Braz Militão -do convento de Vinhaes. Morreu o santo, que passou -tres noutes á cabeceira do meu leito, quando enviuvei. -Elle tinha experimentado a minha dôr, porque -vestira o habito de frade mendicante, quando Deus lhe -chamou sua mulher...</p> - -<p>—Esse frade era meu pai—disse Ladislau.</p> - -<p>—Seu pai!—exclamou o fidalgo, erguendo-se a abraçal-o.—Pois -o marido de Peregrina é filho d’aquelle predestinado, -a quem eu recorro ainda nas minhas angustias?</p> - -<p>—E eu recorrerei tambem para que meu bom pai alcance -do Senhor o socego de v. ex.ª</p> - -<p>—Desculpe-me, que eu estou todo absorvido pela minha -magua! Ainda não fiz senão carpir-me; porém o -sr. Ladislau calculará, quando fôr pai, a natureza da minha -dor... Que motivo o traz a esta casa?</p> - -<p>—O seu infortunio, sr. Ruy.</p> - -<p>—Pois sabia que minha filha fugiu? Já lá chegou a -noticia? Foi sua mulher que o mandou saber a atroz -verdade? É certo, é horrivelmente certo que essa desgraçada -fugiu ha cinco dias, e todas as diligencias em -procural-a com o infame raptor se tem baldado!</p> - -<p>—A sr.ª D. Christina está em minha casa—atalhou -Ladislau.</p> - -<p>Ruy de Nellas aproximou-se, quasi rosto a rosto, de -Ladislau, e exclamou:</p> - -<p>—Que diz?! em sua casa? com elle?</p> - -<p>—Não, sr. Ruy. Em casa do filho de fr. Braz Militão -não se agasalham amantes fugitivos, salvo se elles forem -tão desgraçados que não tenham pão nem tecto. -Em minha casa está unicamente a filha de v. ex.ª; em -casa do vigario está Casimiro Bettancourt.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span></p> - -<p>—E meu afilhado—interrompeu iroso o fidalgo—consente -que se recolha em sua casa o roubador de minha -filha, da filha de Ruy de Nellas, a quem elle deve tudo -o que é?!</p> - -<p>—Lamento,—disse Ladislau—que meu cunhado aqui -não esteja para dignamente responder a v. ex.ª. Eu não -tenho a virtude nem as expressões santas, persuasivas, -e affectuosas do afilhado de v. ex.ª. Estou aqui, porque -a doença ha tres dias o tem a elle na cama: apressei-me -a vir para que o padre, despresando a enfermidade, não -viesse por este mau tempo arriscar a vida. As intenções, -todavia, de meu cunhado, acolhendo em sua casa -Casimiro Bettancourt, são obvias e justas. Os dous, -desgraçados pela cegueira do amor, foram pedir ao sacerdote -a benção matrimonial; o sacerdote não podia -abençoal-os sem consentimento de v. ex.ª, e não podia -tambem abandonal-os sem faltar á caridade que professa, -á sua propria consciencia, e ao que deve ao -sr. Ruy de Nellas. Abrir mão d’elles, na situação em que -os viu, o mesmo seria declarar-lhes que não ha divina -nem humana misericordia. Elles iriam porta fóra desconfiados -da virtude do ministro de Deus, em que tinham -posto sua esperança, e julgar-se-iam desquites de serem -ou procurarem ser virtuosos...</p> - -<p>—Bem!—atalhou Ruy, a que vem o senhor?</p> - -<p>—Implorar a v. ex.ª consentimento...</p> - -<p>—Para se casarem?</p> - -<p>—Sim, senhor.</p> - -<p>—Sabe o que pede? o sr. Ladislau sabe o que pede?!—bradou -o fidalgo com os olhos afuzilando ira e gestos -descompostos.</p> - -<p>—Sei que peço, segundo meu cunhado diz, o unico -remedio de tal desgraça.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span></p> - -<p>—Seu cunhado é um parvo!—rebradou o velho, batendo -rijamente com o punho fechado sobre a meza.—Repito: -seu cunhado é um parvo, e não tem desculpa -nenhuma, porque sabe quem é o pai de Christina, e -quem são os parentes d’esse ninguem que roubou minha -filha. Não lhe disse elle que Casimiro é sobrinho -d’um carpinteiro?</p> - -<p>—Sim, senhor, disse.</p> - -<p>—E então? Parece-lhe que é bem arranjado o casamento -do sobrinho do carpinteiro com a filha de Ruy de -Nellas? Responda!... Que pena eu tenho que, em lugar -do senhor, não estivesse ahi o padre, a ver que me respondia!...</p> - -<p>—Parece-me que o padre responderia a v. ex.ª que a -sr.ª D. Christina...</p> - -<p>—Diga, diga!</p> - -<p>—Casada com o sobrinho do carpinteiro está mais -honrada que na situação em que se acha agora.</p> - -<p>—Quer isso dizer que da parte do mariola é muito -grande favor casar-me com a filha!?</p> - -<p>—Não, sr. Ruy; eu não quiz dizer semelhante cousa; -não vim aqui offender v. ex.ª.</p> - -<p>—Pois então?... A vontade do meu amigo padre (replicou -o fidalgo, sorrindo á palavra <i>amigo</i>) é que eu admitta -em minha casa os noivos?</p> - -<p>—Não lhe ouvi isso. O que elle unicamente pede é -a certeza de que v. ex.ª lhe levará a bem que elle os -case, embora o seu consentimento não seja escripto.</p> - -<p>—Prohibo-o expressamente de os casar, sob pena de -eu o fazer sahir da igreja, e metter em processo!</p> - -<p>—Que quer, por tanto, v. ex.ª que faça sua filha?—redarguiu -Ladislau com os olhos humidos de lagrimas -de desanimação—Que ha de ella fazer?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p> - -<p>—Entrar n’um convento, chorar o seu crime, e morrer -lá, é o que eu quero. A elle hei de perseguil-o até -ao inferno! hei de mettêl-o n’uma masmorra, e impontal-o -para as Pedras-negras.</p> - -<p>Ladislau recolheu-se breves instantes, e sahiu de si, -dizendo com grande impeto de pranto:</p> - -<p>—Se aqui estivesse frei Braz de Villa Cova, que diria, -n’este ponto, o bom christão a v. ex.ª? Eu creio, -senhor, que meu pai diria: «Perdão, e misericordia. A -neta dos reis de Judá, Maria, mãi de Jesus, foi eleita -pelo Eterno esposa d’um operario: era carpinteiro o pai -putativo do Redemptor dos homens.»</p> - -<p>—Não me pregue sermões!—interrompeu Ruy de -Nellas, cujas convicções, no tocante ao casamento da -Virgem Maria, eram muito pela rama. O fidalgo acreditava -que uma sua tia freira bernarda em Lisboa tinha -oração infusa, e, em seus extasis, se erguia sobre a terra -quatro covados; acreditava que S. Thiago e S. Jorge -vieram em pessoa combater e vencer pelos portuguezes; -acreditava outro sim que a morte e vinda de D. Sebastião -era por ora cousa duvidosa, porém o casamento da -filha dos reis de Israel com um carpinteiro custava-lhe -a tragar!</p> - -<p>—Não me pregue sermões!—dissera, pois, Ruy de -Nellas, e proseguiu:—Seu pai, se aqui estivesse, iria -sem que eu lh’o pedisse, procurar essa mulher perdida, -e convertêl-a a Deus, levando-a a um convento, e obrigando-a -a ver bem a sua vergonha para que nunca mais -se amostrasse a olhos do mundo. Seu pai, sr. Ladislau, -de certo me não viria dizer que premiasse a desobediencia -de minha filha, e a petulancia do farropilha, que m’a -roubou, casando-os. Boa maneira de os castigar, não tem -duvida nenhuma! O resultado de tão funesto exemplo<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span> -seria as outras minhas filhas fugirem-me com os miseraveis -que as seduzissem! Se a religião mandasse ou -aconselhasse tal, ai da ordem social, que então direitos -de pai e obediencia de filhas tudo andaria transtornado! -Não, senhor! frei Braz Militão não podia, de modo nenhum, -ser o patrono de tamanho crime!</p> - -<p>—Que quer, pois, v. ex.ª que se faça?—disse Ladislau -com os olhos já enchutos, e um tom de voz, que -denotava outra condição de espirito.</p> - -<p>—Já disse: ella, convento; elle, se poder fugir, que -me fuja; mas já e depressa, quando não a justiça fila-o.</p> - -<p>—Creio que a sr.ª D. Christina não entrará em convento, -nem Casimiro fugirá sem ella.</p> - -<p>—Veremos! Eu vou mandar homens a S. Julião da -Serra!</p> - -<p>—Fará v. ex.ª mal. Na minha terra nunca entraram -homens de braço armado, excepto os francezes, que incendiaram -as casas por não encontrarem alguem. As -nossas defezas e resguardo são as serras. Eu conduzirei -a filha de v. ex.ª onde não possa a violencia alcançal-a. -Ella fiou-se em mim, acceitou a minha casa, hei de defendel-a. -A não poder vêl-a esposa do homem que ama, -não serei eu que vá perfidamente arrancal-a ao seu destino, -bom ou mau, Deus sabe qual será. Calar-me seria -uma perfidia. Volto, pois, com o coração de lucto, e direi -a meu cunhado que v. ex.ª lhe prohibe remediar a -desventura da sr.ª D. Christina.</p> - -<p>—Mas diga-me cá!—acudiu de golpe o velho.—Se -eu consentisse no casamento, que se seguia? Minha filha -voltava a Pinhel com o marido?</p> - -<p>—Não, senhor.</p> - -<p>—Pois então?</p> - -<p>—Lá sabem o seu intento. A Pinhel não voltarão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span></p> - -<p>—Mas quem os sustenta, depois?</p> - -<p>—Serei eu, se elles quizerem.</p> - -<p>—Bello começo de vida! Vai viver minha filha ás -sopas da...</p> - -<p>Conteve-se Ruy; mas Ladislau, adivinhando-o concluiu -a phrase:</p> - -<p>—Ás sopas da serva de v. ex.ª... Minha mulher -tanto se considera ainda uma creada de v. ex.ª que recebe -como a maior das honras ter á sua meza a sr.ª D. -Christina, e servil-a como creada.</p> - -<p>—Perdôe-me, atalhou Ruy commovido, perdôe-me, -que a minha dôr faz-me mau; que eu não o sou, meu -amigo! Sua mulher nunca foi minha creada. Sentei-a á -minha meza, e vesti-a como minhas filhas. Nunca me -arrependi, e queria não me arrepender nunca. Faça o -sr. com que ella resolva Christina a esquecer esse homem, -e a fazer me a vontade. Póde ser que o tempo -venha a gastar o odio, que tenho a essa perdida, e a -tire do convento. É o maior serviço, que podem fazer-lhe, -dissuadil-a. Façam com que Casimiro saia de Portugal: -que vá para o Brazil ou para o inferno, que eu -não lhe faço mal. Tenho dito, sr. Ladislau, a este respeito.</p> - -<p>—Minha mulher não ousa dar taes conselhos á sr.ª -D. Christina, nem eu a minha mulher. Em fim, sr. Ruy, -ouça v. ex.ª o que vou fazer. Acompanharei sua filha -ao lugar onde a encontrei; lá, onde a espera Casimiro -Bettancourt, direi a ambos: «Fiz o que pude, pedi com -lagrimas, pedi com razões: tudo se mallogrou. Agora se -meu cunhado os não quer ou não póde casar, sigam sua -vida, vão mostrar-se por esse mundo deshonrados, e digam -que, se a deshonra os affasta das pessoas de bem, -é por que esta infeliz menina tem um pai, que antes a<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span> -quer assim.» É o que farei e direi, sr. Ruy de Nellas; -mas antes d’isto, ainda me resta um esforço. Pedirei á -alma de meu pai que lhe toque o animo; e, de joelhos -e mãos erguidas, ainda uma vez, supplico a v. ex.ª que -dê consentimento para que sua filha seja honesta!</p> - -<p>Disse Ladislau as ultimas palavras ajoelhado.</p> - -<p>O fidalgo contou, passados annos, que, em lugar de -Ladislau, vira, como em sombra, fr. Braz Militão. Ha -segredos de Deus; porém, bem póde ser que o caso, a -dar-se, fosse mera visualidade do velho. Fosse ou não, -Ruy de Nellas inclinou-se a levantar Ladislau de sua -postura humilde, e disse:</p> - -<p>—Valha-me Deus!</p> - -<p>Passeou, de uma parede a outra, repetidas vezes, o -salão, emquanto o moço arquejante lhe estava como bebendo -a resposta dos beiços convulsivos. A final, parou -o velho, em meio da sala, levou as mãos ás fontes, e, -sacudindo vertiginosamente os braços, exclamou:</p> - -<p>—Casem! mas que eu os não veja mais!</p> - -<p>E sentou-se, prostrado.</p> - -<p>—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Ladislau, retirando-se -com alvoroço tal de alegria que a sua vontade era -distancear-se depressa, receoso do arrependimento.</p> - -<p>Arrependimento que por um cabello, pouco depois, ia -dando de si um feito vil!</p> - -<p>Ruy de Nellas ergueu-se de golpe, já quando o moço -tinha sahido, e esporeava a galope desapoderado a mula, -estrada fóra.</p> - -<p>Chegou ainda a gritar pelos creados, cujo maior numero -tinha ido para Trancoso. Era seu intento envial-os -a S. Julião da Serra, infractores da palavra de seu amo.</p> - -<p>N’este lanço, estropearam no pateo dous cavallos: o<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span> -cavalleiro era D. Sueiro de Aguilar Vito de Alarcão -Parma d’Eça, fidalgo de Miranda, com o seu lacaio.</p> - -<p>Este sujeito, além d’aquelle nome, que só por si é -uma fortuna, nascera primeiro que seus irmãos, na -maior casa d’aquelles contornos de Miranda. Barbedos -e Alarcões tinham começado, pouco mais ou menos, -com o genero humano. Estas duas familias, em franqueza -intima e modesta, diziam que o primeiro sangue -de Lisboa—da Lisboa de sangue azul, intende-se—era -um regato da fonte caudal, represada n’elles, ahi pela -fundação dos reinados de Leão e Castella.</p> - -<p>Desde muito que Ruy de Nellas meditava em casar -a filha morgada com D. Sueiro de Aguilar, e n’isso trabalhára, -com intervenção da parentella.</p> - -<p>Eil-o ahi está agora o almejado genro a pedir-lhe a filha, -e eil-o vem a ponto de estorvar que o sogro se deshonre, -violando a palavra dada, com desdouros dos reis -de Leão e Castella, seus avós.</p> - -<p>Trocados os termos ceremoniosos, D. Sueiro perguntou -pelas primas.</p> - -<p>Entraram cinco meninas meia hora depois.</p> - -<p>—E a prima Christina?—perguntou elle.</p> - -<p>—Está na Guarda, em companhia da tia Mafalda -Portugal—tartamudeou Ruy.</p> - -<p>—Sinto—disse D. Sueiro—porque, vindo eu pedir a -mão da prima Guiomar para mim, sou encarregado de -pedir a prima Christina para meu irmão Alexandre.</p> - -<p>—Céus!—exclamou para dentro de si o fidalgo, e as -meninas encararam-se mutuamente.</p> - -<p>—Fallaremos ácerca de Christina—disse Ruy, expedindo -um gemido rouco.</p> - -<p>E declinou a prática sobre trivialidades, até horas de -jantar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span></p> - -<p>D. Alexandre, academico do primeiro anno na Universidade, -tinha visto sua prima na feira de Vizeu, um -anno antes. Escrevera-lhe, mediante os bons officios de -sua tia D. Beatriz de Albuquerque. Não respondera -Christina senão termos agradecidos á escolha, posto que -incondescendentes. Assim mesmo, D. Alexandre de -Aguilar recalcitrou, sem melhor exito. D. Sueiro, porém, -tomou a peito levar a noiva ao irmão.</p> - -<p>Contou-se o incidente que prende com o porvir d’esta -historia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span></p> - -<h2>VII<br /> -<span class="smaller">Felicidades</span></h2> - -<p>O apparecimento de Ladislau Tiberio no alto da serra, -que se arqueia sobre a casa de Villa Cova, foi saudado -com o agitar de dous lenços brancos. O moço, segundo -convenção feita, apeou, cortou uma haste de castanheiro, -arvorou n’ella o seu lenço, e floreando-o de -cima da cavalgadura, deu-se pressa na descida.</p> - -<p>Quando tal viram, Christina, a rir e a chorar, lançou-se -aos braços de Peregrina, e foram ambas ajoelhar -diante do oratorio. Como a alegria as não deixava exprimir -palavra, era-lhes preciso fallar em silencio com -Deus.</p> - -<p>Meia hora depois, entrava no quinteiro Ladislau, e as -duas senhoras, arrebatadas como se a boa nova igualmente -as deliciasse ambas, correram a ouvir a confirmação -do que disséra a bandeira branca.</p> - -<p>—É certo?—exclamou Christina.</p> - -<p>—É certo, minha senhora.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p> - -<p>—Deixa-me ir um criado a S. Julião dar parte a Casimiro?—tornou -ella.</p> - -<p>—Vamos logo todos; mas, se v. ex.ª quer, mande o -criado já.</p> - -<p>—Então não: vamos todos... quero eu dar-lhe a -nova. E meu pai está bom? e minhas irmãs?</p> - -<p>—Não vi suas irmãs; seu pai está inquieto; mas, -como tem bom coração, Deus o socegará.</p> - -<p>Abraçaram-se outra vez as duas amigas, e Ladislau, -entre risonho e lagrimoso, gosava o não menor quinhão -de sua alegria.</p> - -<p>Fez-se logo noute, e esperaram que nascesse a lua -para sahirem ao ingreme e despedrado caminho da -igreja.</p> - -<p>Por volta das dez horas, chegaram á lapa da Crasta, -no viso da serra interposta, e lobrigaram um vulto.</p> - -<p>—É elle!—exclamou Christina, lançando-se da egua.—É -meu marido!</p> - -<p>Casimiro Bettancourt correu ao encontro d’ella, e -murmurou:</p> - -<p>—Que dizes, Christina?</p> - -<p>—O pai consentiu!—disse ella abafada pela commoção.</p> - -<p>E Casimiro, desprendendo-se dos braços de Christina, -foi cingir com o peito o sereno Ladislau, que ficara segurando -as redeas da egua.</p> - -<p>—Meu salvador!—exclamou o moço.</p> - -<p>—Seu amigo, como amigo de todos os infelizes que -amam!—disse Ladislau e ajuntou logo:</p> - -<p>—O senhor que está aqui é que meu cunhado melhorou.</p> - -<p>—O sr. vigario veio confessar um moribundo na aldeia, -que está ao fundo da serra, e eu, com licença<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span> -d’elle, vim até aqui para ver o fumo da casa de Villa -Cova.</p> - -<p>—Bem!—tornou Ladislau.—Vamos.</p> - -<p>—Eu vou a pé—disse Christina—dá-me o teu braço, -Casimiro.</p> - -<p>—Ámanhã—atalhou Ladislau—ámanhã se encostará -ao braço de seu marido, minha senhora.</p> - -<p>Christina córou; e Casimiro tomou as redeas da egua -para ella saltar ao albardão.</p> - -<p>Ouviu-se um prolongado assobio como o dos caçadores -em montados: era o vigario que chamava o hospede. -Casimiro respondeu, e Peregrina, puchando do peito, -quanto pôde, a voz, gritou:</p> - -<p>—Cá vamos todos.</p> - -<p>E, como todos rissem do agudissimo falsete da jubilosa -Peregrina, o vigario percebeu logo a impaciente felicidade -que não pôde esperar pelo dia seguinte.</p> - -<p>E subiu a ladeira até encontrar o grupo.</p> - -<p>—Abençoou Deus a tua resolução, já vejo!—disse -padre João Ferreira ao cunhado.</p> - -<p>—Abençoou: pódes tu abençoal-os, meu irmão.</p> - -<p>E os dous ficaram alguns passos atrazados, para irem -conversando sobre os successos de Pinhel, e os futuros -em que os noivos não pensavam, nem era generoso dizerem-lh’os.</p> - -<p>Ninguem dormiu, n’aquella noite, na residencia de S. -Julião. O vigario sahiu, ante-manhã, a solicitar licença -do arcipreste para casar os contrahentes sob sua responsabilidade -sem o previo pregão de banhos. Obtida, voltou -á egreja, e ouviu de confissão os desposados; e, em -seguida á ceremonia da communhão, ligou-os, abençoou-os -e disse-lhes:</p> - -<p>—Ficam sendo os dous uma só alma para as alegrias<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span> -e para as provações. Deus voltará a sua face divina -d’aquelle dos dous que attribuir ao outro o seu infortunio; -e nós, os amigos de ambos, verteremos lagrimas de -sangue se os virmos infelizes, infelizes á mingua de conformidade -e fortaleza. Deus os tenha de sua mão.</p> - -<p>Celebrado o matrimonio, almoçaram na residencia, e -sahiram para Villa Cova, onde Brazia, azafamada com -o jantar, e duplamente ditosa com o segundo casamento, -dava ares de não ter o miolo fixo, no dizer dos outros -creados.</p> - -<p>A felicidade d’este dia não tem historia: ou se a tem, -conte-a o leitor que a experimentou. Mas o meu leitor, -casado por paixão, precisamente foi obrigado a attender -aos comprimentos de amigos e parentes, uns a louvarem-lhe -a noiva, outros a louvarem-n’o a si, estes a brindarem-n’o -com vinho, aquelles a perguntarem-lhe pelo -dote da mulher: barafunda esta que o não deixou sentir -a sua felicidade.</p> - -<p>Ora, na casa de Villa Cova, á mesa nupcial, além -dos noivos, estavam o vigario, os donos da casa, o carpinteiro -de Pinhel, e a velha Brazia. Os noivos repetiram -em miudos a historia dos seus amores, os medos, -as tristezas, os jubilos, o intenderem-se com a linguagem -pactuada das flores. N’este ponto, Brazia ria muito e dizia -que os namorados eram o peccado. As espertezas de -José-pastor foram contadas por Christina com amostras -do bem que queria ao rapasinho. Pediu ella ao marido -que se não esquecesse nunca do muito que lhe deviam, -e lembrou-se de o mandar estudar para padre se algum -dia fosse remediada de bens de fortuna.</p> - -<p>—Hade sahir bom padre!—atalhou a ridentissima -velha.—Se assim souber espreitar as ciladas do cão tinhoso, -muitas almas hade ganhar p’ra Deus!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p> - -<p>Com estas e outras festejadas palestras passaram o -dia. Ao escurecer, tornou o vigario á sua igreja, com -promessa de voltar no dia seguinte, a fim de se conversarem -cousas muito importantes.</p> - -<p>E nós vamos já ao ponto d’estas conversações decorridas -á sombra d’uns altos castanheiros, que pareciam -ter alli ficado da idade de ouro para darem testemunho -de um feito d’outras eras.</p> - -<p>—Diz tu o que tens a dizer, Ladislau—estas palavras -proferiu o vigario, logo que as duas senhoras se assentaram -na grossa e retorcida raiz d’um castanheiro, e Casimiro -á beira d’ellas.</p> - -<p>Ladislau voltou-se para seu cunhado e disse:</p> - -<p>—Porque não has de ser tu?</p> - -<p>—Quem melhor exprime a idéa é quem dignamente -a concebeu.</p> - -<p>—Pois fallarei—tornou o moço: deteve-se breve espaço, -e disse—o sr. Casimiro Bettancourt recebeu educação -e tem espiritos que não são para vida aldean, e -d’esta aldeia a mais desacompanhada e triste que ser -póde. Isto é bom para mim, que nasci cá, e por todas -essas pedras e arvores tenho cobrado um affecto de solitario, -que todo outro viver se me affigura intoleravel. -Que fará o sr. Casimiro, passados estes primeiros dias, -em tal solidão? Perguntará a si mesmo: «Que faço eu -aqui? Em que empregarei as minhas forças? Porque -molde talharei o meu futuro?» Quando assim se interrogar, -a resposta será uma melancolica indecisão, com -vêr cerrados os caminhos para onde o animo o impelle. -Vamos vêr se podemos abril-os para pouparmos o nosso -Casimiro á desconsolação de cruzar os braços e dizer: -«não sei!» O nosso amigo contou-me que, no collegio,<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span> -estudava mathematicas, para o fim de seguir a carreira -das armas.</p> - -<p>—É verdade—disse Casimiro.</p> - -<p>—Pergunto eu se lhe agrada recomeçar ou continuar -os seus estudos, e ser militar.</p> - -<p>—Desejava-o, tenho-o desejado sempre; mas a vida -militar desprotegida é má; e, nas minhas circumstancias, -o estudar foi e é impossivel agora.</p> - -<p>—Não é. O meu amigo assenta praça, e requer licença -para estudar em Lisboa, Porto, ou Coimbra. Tenho -estas informações de meu cunhado. Eu offereço-lhe -os meios precisos para se alimentar com sua senhora em -qualquer das cidades que escolher, e assim se habilita -para alguma vez me pagar o adiantamento que fôr preciso.</p> - -<p>—Mas o meu dote...—interrompeu Christina, com -fidalgo animo.</p> - -<p>—Não se falla no seu dote—retorquiu Ladislau.—O -sr. Ruy de Nellas deu o consentimento; mas não dá -dote.</p> - -<p>—O dote de minha mãi...—tornou ella.</p> - -<p>—V. ex.ª não pede dote nenhum: eu disse a seu pai -que a sustentação de sua filha e marido não corriam á -obrigação d’elle. Está desobrigado o sr. Ruy de Nellas. -Em resumo, o sr. Casimiro quer ser homem, quer a sua -independencia, quer empregar dignamente as faculdades, -que Deus não dá para ocios ou desperdicios. Resolve-se -a abraçar a minha lembrança?</p> - -<p>—De toda a vontade, e com o mais reconhecido coração. -Diz-me uma voz intima que eu poderei desempenhar-me.</p> - -<p>—Tambem a mim m’o diz—ajuntou Ladislau.</p> - -<p>—Desempenham-se todos os que trabalham—ajuntou<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span> -o vigario.—O principal estimulo que o sr. Casimiro leva -para o seu engrandecimento é querer mostrar a seu sôgro -que se fez homem.</p> - -<p>—Quem me faz homem é este anjo! exclamou Casimiro, -abraçando o marido de Peregrina, a qual já estava -chorando, quer fosse a proxima ausencia de Christina, -quer o enthusiasmo da boa acção de seu marido a -enternecesse a lagrimas.</p> - -<p>Volvidos quinze dias, iam sahir de Villa Cova os noivos -com destino a Coimbra. Ao despedirem-se, como -Ladislau levasse á mala de Casimiro o dinheiro contado -para as despezas do primeiro trimestre, o hospede acudiu -dizendo que tinha intactos os duzentos mil réis que -seu tio lhe dera. Mestre Antonio, que fôra assistir á -despedida do sobrinho, resistiu ás instancias de Ladislau, -não querendo reembolsar o dinheiro, e levou a sua liberalidade -ao ponto de offerecer á esposa de seu sobrinho -uns brincos de ouro, que elle chamava <i>cabaças</i>, os quaes -tinham sido de sua mulher. Liberalidade dissemos; e, -com tudo, o valor real do presente orçava por dezeseis -tostões! Assim era que elle amava muito aquella memoria, -e o desprender-se d’ella foi o mais que podia fazer -a sublime rudeza do coração do operario! Dera a -sorrir os duzentos mil réis, e foi, ás escondidas, enchugar -as lagrimas, quando se viu privado das arrecadas de -sua mulher! Ó santos corações do povo! mas do povo -das montanhas, direi; do povo, que ainda não sahiu á -praça vociferando que é rei porque é povo.</p> - -<p>Christina tirou das orelhas uns brincos de preço, que -usava em casa de seu pai, e adornou-se com os modestos, -que lhe dera o artista; depois, voltando-se a Peregrina, -disse-lhe:</p> - -<p>—Acceitas uma lembrança da tua amiga pobre, da<span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span> -amiga que vai subsistir dos teus beneficios? E, tomando-lhe -a cabeça contra o seio, obrigou-a suavemente a -receber os seus brincos, e beijou-a em ambas as faces.</p> - -<p>—Acceita, Peregrina—disse Ladislau—que a tua senhora -e amiga vai mais enfeitada com a dadiva do pobre.</p> - -<p>Partiram, acompanhadas até grande distancia pelo -vigario, irmã, Ladislau e Brazia. Mestre Antonio não -houve rasões que o demovessem de ir a pé ao lado de -Christina, até ao Porto.</p> - -<p>Como pernoitassem n’uma estalagem da aldeia de -Pena verde, encontraram um feitor da casa de Ruy de -Nellas, acompanhando duas cargas de bahus. O feitor, -pasmado do encontro, não atinava a decidir-se se devia -cumprimentar ou desprezar a filha de seu amo. A menina -porém, que se não julgava despresivel, perguntou -ao seu antigo creado d’onde vinham aquelles bahus.</p> - -<p>—Do Porto—disse breve e seccamente o conductor.</p> - -<p>—Que levam?</p> - -<p>—O enxoval da sr.ª morgada.</p> - -<p>—Pois a mana Guiomar casa?</p> - -<p>—Casa á vontade de seu pai—tornou o feitor, carregando -de censura as palavras, e collocando-se de esguelha.</p> - -<p>Casimiro Bettancourt, que presenceara o dialogo, desceu -ao pateo da estalagem, onde estava o feitor; travou-lhe -das lapelas da jaqueta, e disse:</p> - -<p>—Olha de frente para a filha de teu amo, e responde-lhe.</p> - -<p>—Já respondi—disse o homem um pouquinho inquieto -da segurança da sua pessoa.</p> - -<p>Casimiro perguntou á sobresaltada senhora o que queria -ella saber do seu creado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p> - -<p>—Nada...—balbuciou Christina, temerosa do resultado.</p> - -<p>—Descobre-te—disse elle ao creado.</p> - -<p>O feitor tirou o chapéu com as mãos ambas.</p> - -<p>—Diz áquella senhora com quem casa tua ama, e -responde ao mais que ella te perguntar.</p> - -<p>—Casa com o sr. D. Sueiro, de Miranda, que a foi -pedir, e tambem ia pedir a sr.ª D. Christina para o sr. -D. Alexandre.</p> - -<p>—Deixa-o, deixa-o!—disse Christina.</p> - -<p>—Levas as duas orelhas—ajuntou Casimiro, largando-o—porque -és creado do sr. Ruy de Nellas. Tu -consideras menos a filha de teu amo do que eu os seus -lacaios.</p> - -<p>E, tornando ao quarto de Christina, disse-lhe risonho:</p> - -<p>—Que excellente casamento te fiz perder!...</p> - -<p>D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma -d’Eça!</p> - -<p>—Pois sim, disse ella muito de riso e mimo, mas se -tornas a assustar-me, arrependo-me de não ter respondido -ás cartas do idiota Alexandrinho... que vamos -encontrar em Coimbra... Não sabes que elle está em -Coimbra?</p> - -<p>—Sabia, e então? Dar-se-ha caso que a vergontea -ostro-goda me queira cahir sobre as costas? É -preciso temer os Vito Alarcões!... Deus nos defenda!</p> - -<p>Festejou ella muito os tregeitos de medo comico com -que Casimiro abrenunciou o rival temeroso, e não pensaram -mais n’isso.</p> - -<p>Tomou o estudante uma casa menos de modesta, -fóra de portas em Santo Antonio dos Olivaes. Em redor<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span> -da casa fechava-se o arvoredo de alamos, platanos -e choupos. A mobilia era rigorosamente academica: as -conhecidas cadeiras como inventadas para descadeirar -os occupantes; a meza de pinho pintado de verde; a -tarima de espaldar de taboado com silvas de flores -amarellas, imaginarias, e superiores ás mais inventivas -das florestas americanas. Tudo isto, porém, e o restante, -que pouco mais era, limpo, repintado, e lustroso -alegrava a casinha. Depois era no mez de abril, o abril -de Coimbra, regorgeado de aves, arrelvado de boninas, -copado de sombras, e harmonioso de murmurios. E, depois, -o amor, a paz, o descanço de tamanhas batalhas, -aformosentavam a vivenda de Santo Antonio dos Olivaes, -o amor, por sobre tudo, alindava, encantava, e -vestia da innocencia e das alfaias do eden aquelle silencioso -abrigo de duas almas fugidas ao mundo, e recolhidas -em si e em Deus.</p> - -<p>Principiou Casimiro a recordar os seus passados estudos, -emquanto corria aquelle anno lectivo, para no -immediato se matricular. Raras vezes ia á cidade dar -conta ao leccionista dos seus estudos preparatorios. -Como o tempo lhe sobejava, lia ou ouvia ler Christina, -que dava aos livros unicamente as horas feriadas das -suas occupações domesticas. Raro dia, deixavam de escrever -algumas linhas a Ladislau e Peregrina, dizendo -aquelles nadas que são um nunca findar entre pessoas -que se presam.</p> - -<p>Desceram, uma tarde de junho, ao Mondego, e subiram -á beira da margem esquerda. Paravam a intervallos -para ouvirem o rumoroso suspirar da folhagem, e o soido -da limpha sobre que os salgueiros se dobravam a remirar-se -no espelho limpido.</p> - -<p>Christina inclinou a face ao seio de seu esposo, e<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span> -murmurou tão de leve, que parecia afinar a voz pelo -som d’aquellas harpas eolias da ramagem:</p> - -<p>—Como somos felizes, ó Casimiro!...</p> - -<p>—E eu cuidava que não havia felicidade n’este mundo! -disse elle, comprimindo-lhe a face com a mão tremente -de meiguice.</p> - -<p>—Como não ha de havel-a para os que amam o Senhor, -e não fazem mal ao seu semelhante!</p> - -<p>—Eu devia esperar este bem, Christina; porque fui -muito desgraçado... Não fui?</p> - -<p>—Eras... mas, desde que eu te amei...</p> - -<p>—Fui muito mais desgraçado, filha... Então é que -eu me vi pobre, desvalido, sem pai, sem mãi... Que -palavra, Christina!... MÃI!... Nunca os meus labios -proferiram esta palavra no seio de uma mulher! -Nunca, nem na minha desamparada orphandade, correu -para mim uma mulher chamando-me filho!... -Como pude eu ser privado das caricias de minha -mãi!? Como pôde ella abandonar-me, e esquecer-me!? -Porque não disse meu pai se ella era morta?!...</p> - -<p>—Ahi estás tu a entristecer-te!—atalhou a esposa—Não -quero!... Vem cá! Olha, Casimiro, eu chamo-te -filho, filho de minha alma, do meu coração! -Amo-te mais que todas as mãis! Se alguma vez chorares, -eu te consolarei, com um carinho, que as mãis não -sabem. Defender-te-hei com mais coragem que ella. -Morrerei por amor de ti, porque és tudo que eu tenho. -Se Deus me der filhos, heide amal-os menos que a ti, -meu amado esposo!... Vês-me tu a mim triste por ter -deixado pai e irmãs?... É verdade que meu pai aborrecia-me -e minhas irmãs desprezavam-me mas por amor -de ti, Casimiro, por amor de eu te querer dar esta felicidade...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p> - -<p>—Perdôa-me!—disse elle, beijando-a com estremecimento—Não -me lembres o que soffreste, que eu cuidarei -que me argues de ingrato. Olha que a minha tristeza -é suavissima, ó minha filha. Lembrou-me meu pai, -e os seus ultimos affagos; tive saudades de minha mãi, -que nunca vi; são uns desejos, que parecem vaticinio -de que hei de ainda encontral-a. Vê tu que loucura, -que poesia! É este sitio, estas arvores, e a serenidade -do céu que me fazem scismar assim... As pessoas, -que têm a sua alegria circumscripta ao curto espaço da -sua casa, não devem vir meditar nos lugares em que o -espirito carece de voar ás raias do infinito. A tristeza -está n’ellas, filha. O espirito retrahe-se sobre si mesmo, -e doe-se da sua fraqueza. O que é ver ir aquella ave -pelo azul do céu fóra, e dizer: «onde irás tu?» É desejo -de romper esta rêde de ferro que nos cerca, rasgar -os fechados horisontes da alma, e sondar em que mundo -irei com o teu espirito perpetuar a minha existencia. E -a devanear n’isto, accordam-se na alma todos os enlevos -e saudades... Então vejo a sombra de minha mãi -e de meu pai, a passarem, a fugirem, como sonhos. Ditoso -é o meu accordar, porque te encontro, ó anjo da -minha vida!...</p> - -<p>E, dizendo, abraçou-a soffregamente, e bebeu-lhe as -lagrimas, exclamando:</p> - -<p>—É assim que minha mãi devia chorar, quando me -lançou de si!...</p> - -<p>—Mas eu—exclamou Christina—aperto-te ao meu -coração, filho!</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span></p> - -<h2>VIII<br /> -<span class="smaller">O Vigario de S. Julião da Serra</span></h2> - -<p>Temos de voltar a Pinhel.</p> - -<p>D. Sueiro de Aguilar pediu instantemente que se -mandasse buscar á Guarda sua prima Christina. Tergiversou, -em quanto pôde, Ruy de Nellas; porém, -quando o fidalgo de Miranda annunciou que iria pessoalmente -buscal-a, o velho, entre lagrimas e gemidos, -declarou tudo.</p> - -<p>—E não está ainda morto o villão?—perguntou D. -Sueiro, concluida a narrativa.</p> - -<p>—Morto, não: nem sei onde está.</p> - -<p>—E póde meu tio Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo -consentir que viva o cão immundo! Um Gamboa -deixar viver o raptor de sua filha!—replicou D.Sueiro.</p> - -<p>—Que hei de eu fazer-lhe agora? é marido d’ella!...</p> - -<p>—Antes viuva, antes perdida, antes morta!... Que -ouvi eu! Christina, amada por Alexandre de Aguilar,<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span> -requestada e pedida, acha-se casada com um sobrinho -de carpinteiro! Ó tio! esta vergonha é insanavel!... -Quem dirá que minha bisavó foi casada com o primo -carnal d’um avô de v. ex.ª!?... Sinto, sinto amargamente -dizer-lhe que não posso ser cunhado do sobrinho -do carpinteiro!</p> - -<p>—Paciencia... murmurou Ruy—Deus me leve depressa. -Estou farto das affrontas dos nobres e dos plebeus. -Elle roubou-me a filha, e tu Sueiro, injurias a minha -dôr! Que hei de eu fazer?</p> - -<p>—Esmagar o verme!</p> - -<p>—Valha-te Deus! não se esmagam assim homens! -Os tempos são outros, meu sobrinho. A plebe agora tem -a força, e nós temos o direito.</p> - -<p>—E a força! Vá lá um plebeu requestar irmã minha!... -Não verá mais sol nem lua! Juro-lh’o sobre...</p> - -<p>D. Sueiro, como não visse á mão sobre que jurar, -calou-se, e expediu um grunhido, como usam os bravos, -que parecem tirar a valentia da garganta. E proseguiu:</p> - -<p>—Já estarão casados?</p> - -<p>—De certo estão ha tres dias.</p> - -<p>—V. ex.ª deu o consentimento?</p> - -<p>—Nem dei, nem deixei de dar... Callei-me, farto -de ouvir as lastimas d’um bom moço, que aqui veio...</p> - -<p>—E houve sacerdote indigno que os recebesse sem -licença legal e canonicamente escripta?</p> - -<p>—O sacerdote é meu afilhado, ordenado á minha -custa, nomeado por minha intervenção na igreja onde -se receberam.</p> - -<p>—Pasmo!... pois... ó sacrilegio da amisade! o crime -inaudito! Padre João, aquelle sarrafaçal de padre<span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span> -ousou sanctificar e legalisar o opprobio da familia que -lhe deu o pão, a sotaine, e a egreja! Qual vingança ha -ahi de tamanho crime!</p> - -<p>Andava D. Sueiro de um lado a outro da sala, sacudindo -os braços, em mental soliloquio. Ruy amparava a -cabeça entre as mãos, pozera os cotovellos no peitoril da -janella, e olhava, sem o ver, para um macisso de murtas -do jardim. As apostrophes irrisorias do sobrinho callaram-lhe -no animo, a ponto de o irarem contra o vigario -de S. Julião. Monologando comsigo, dizia:</p> - -<p>—D. Sueiro tem razão. O padre, devendo ser o primeiro -a embaraçar o casamento, não só m’o mandou -aconselhar como necessario, mas ainda por cima me -pediu e instou licença para casal-os. A ingratidão é flagrante! -O villão bandeou-se com o outro da sua estôfa. -São uns pelos outros estes filhos do nada! Se elle me -fosse grato, restituia-me a minha filha, e affugentava o -raptor. Longe d’isso, agasalhou-o, sustentou-o, e recebeu-o -como se eu lh’o recommendasse!... Tem razão -D. Sueiro! O padre merece castigo! Não basta expulsal-o -eu para sempre de minha casa: hei de reduzil-o a -viver da esmola da missa, se não poder caçar-lhe o exercicio -das ordens.</p> - -<p>E continuou em voz alta:</p> - -<p>—Dizes bem, meu sobrinho: o padre é um refalsado -ingrato! Ha de ser punido.</p> - -<p>—E o troca tintas?</p> - -<p>—Casimiro?</p> - -<p>—Sim, o pêrro, o sobrinho do carpinteiro?</p> - -<p>—Já disse que é tarde para o mandar castigar.</p> - -<p>—Deixe-m’o por minha conta, tio Ruy. V. ex.ª não -tem filho que lhe vingue as cans; mas aqui está o braço -indomavel do seu sobrinho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span></p> - -<p>—Não approvo—disse o velho—Estão casados. Já -me não poupo á vergonha de receber em minha casa a -viuva do homem abjecto. É tarde para remedio. O sangue -já não lava a nodoa.</p> - -<p>—Nodoa eterna!—acrescentou D. Sueiro de Aguilar.</p> - -<p>—Seja o que Deus quizer!—Está visto que regeitas -a esposa que pediste, meu sobrinho. Ficaremos em paz; -eu com ella, e tu com a tua dignidade limpa. Mas olha -que és injusto! Minha filha Guiomar está innocente no -delicto de Christina. Faz o que quizeres. Escolhe-a mais -rica; mais fidalga dificilmente a acharás em Portugal.</p> - -<p>—Sei que é minha prima!—disse modestissimamente -o fidalgo de Miranda, e ficou alli, por não ter mais que -dizer a tal respeito. Uma prima dos Alarcões Parmas -d’Eça não podia ser mais nada em materia genealogica. -A D. Guiomar, porém, entre as qualidades dignas de -seu primo, sobrava-lhe a de ser tôla, com uns longes de -idiota.</p> - -<p>O ajuntarem-se estes dous era preordenação, não direi -do alto para declinar a influencia divina de sobre as -parvoiçadas que se fazem n’este globo; mas, predestinação, -isso era, se alguma ha n’esta cousa de encontros -e desencontros, que os poetas mirificamente explicam.</p> - -<p>E tanto assim era que, n’aquelle mesmo dia, D. Sueiro, -vindo de passeio com D. Guiomar affectuosamente -disse ao tio que, apezar de tudo, seria seu genro, com -a resalva de em sua casa nunca mais se proferir o nome -de Christina.</p> - -<p>Concordes n’isto, afanaram-se logo em aviar os preparativos. -D. Sueiro d’Aguilar foi dispôr suas cousas a -Miranda, e Ruy de Nellas enviou ao Porto o feitor á -compra do precioso enxoval.</p> - -<p>Natural seria que o velho, contente e distrahido, perdoasse<span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span> -ao vigario de S. Julião, ou esfriasse no ardor vingativo -até esquecer o ingrato, e desprezal-o fidalgamente.</p> - -<p>Assim não foi. A natureza vai tão falsificada que já -me quer parecer que andamos a chamar natureza a tudo -que é arte: arte, digo eu, synonimo de manha, ardil, -malicia e obra de satanaz.</p> - -<p>Escreveu Ruy de Nellas ao seu procurador na Guarda, -accusando o vigario de S. Julião da Serra. Foi padre -João chamado á camara ecclesiastica para responder sobre -o casamento irregular de Casimiro Bettencourt e -D. Christina de Nellas. Ingenuamente relatou o vigario -que os casara com a licença vocal do pai da contrahente. -Redarguiram-lhe que era apocrifa a licença, e d’alli sem -averiguações o suspenderam do exercicio parochial.</p> - -<p>Padre João, antes de recolher á vigararia para fazer -entrega dos livros á posse do novo pastor, foi a Pinhel, -e serenamente bateu ao portão do fidalgo.</p> - -<p>Os creados receberam-o com má sombra, e um foi -avisar o amo, e voltou dizendo:</p> - -<p>—O fidalgo não lhe falla. Vá-se o sr. padre em paz, -que o amo, se o vê, vai-lhe ao espinhaço.</p> - -<p>—Diga ao sr. Ruy de Nellas que seu afilhado vem -pedir-lhe perdão, e explicar o seu procedimento.</p> - -<p>O servo, vencido pela humildade, voltou ao amo, e -trouxe esta resposta:</p> - -<p>—Que lhe não perdôa, nem quer ouvir explicações.</p> - -<p>—Um de vm.ᶜᵉˢ—replicou o manso vencedor do -Evangelho—faz-me o favor de lhe entregar uma carta?</p> - -<p>—Entrego eu, disseram quasi todos.</p> - -<p>—Volto já.</p> - -<p>Sahiu o padre a escrever na primeira tenda que se -lhe prestou. Dizia assim a carta:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span></p> - -<div class="blockquote"> - -<p>«Meu bom padrinho consentiu verbalmente que eu -casasse a sr.ª D. Christina com Casimiro?</p> - -<p>«Consentiu.</p> - -<p>«Meu padrinho requereu a suspensão das minhas -funcções parochiaes, allegando a irregularidade d’aquelle -casamento?</p> - -<p>«Requereu.</p> - -<p>«Devia fazel-o?</p> - -<p>«Cito perante Deus a consciencia de meu padrinho.</p> - -<p>«Se procedi mal, peço perdão. Se procedi bem, Deus -me ampare. De v. ex.ª afilhado, capellão e servo.</p> - -<p class="right"><i>João.</i>»</p> - -</div> - -<p>Ruy leu a carta com arremesso, e releu-a com brandura. -A sua consciencia estava deante de Deus. O juiz -era inexoravel, e o velho supersticioso, talvez. Tremia, e -queria fugir de si proprio. Carregava-lhe no peito a mão -ferrea da justiça divina, e abafava-o. Ruy chamou o -creado, e mandou entrar o padre. O padre, porém, entregára -a carta, e sahira caminho de Villa Cova.</p> - -<p>Deixemos o delinquente a resolver-se no inferno que -se abriu com a mão iniqua, e sigamos o homem de animo -inteiro, o humilde triumphante.</p> - -<p>Chegou a Villa Cova de rosto alegre, e disse:</p> - -<p>—Certamente, Ladislau, não te enganaste com as -palavras de meu padrinho, respeito ao casamento da -filha?</p> - -<p>—Não me enganei; foram estas: <i>casem</i>; <i>mas que eu -os não veja mais</i>. Porque m’o perguntas?</p> - -<p>—Fui suspenso de vigario, a requerimento do sr. Ruy -de Nellas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p> - -<p>—Mas estás em paz comtigo e com os teus deveres.</p> - -<p>—Estou.</p> - -<p>—Então descança na tua casa, meu irmão. Fica ao -pé de tua irmã. Villa Cova, sem padre, está como viuva -saudosa e inconsolavel. Os teus parochianos já te amavam: -paga-lhes o amor ficando entre elles. Virá outro -vigario enviado pelo governo; e tu serás o enviado de -Deus. Ambos são necessarios. E tu para mim, e em minha -casa, és o cumulo de felicidade.</p> - -<p>—Ficarei e trabalharei—respondeu padre João.</p> - -<p>No dia seguinte, chegou á residencia de S. Julião da -Serra outro pastor. D’ahi a curto espaço, estava o adro -a transbordar de povo. A noticia chegou aos campos, e -os agricultores ergueram mão da sáfra, e accorreram ao -presbyterio.</p> - -<p>Feita a entrega de livros e utensilios da igreja, padre -João sahiu ao adro, e disse:</p> - -<p>—«Meus amigos, como no pouco tempo, que vos parochiei, -não houve espaço de mostrar meus vicios, saio -de entre vós sem deixar má nota, escandalo, ou desamor. -Como fostes rebanho de um pastor santo, que me -antecedeu, achei-vos doceis, bons e virtuosos. Edifiquei-me -entre vós, e aprendi a crer na influencia de um bom -parocho. Creio que a vontade do Altissimo é que os -vossos pastores no futuro não destruam as boas obras dos -passados. Elles semearam; vós sois o fructo, e de vós -hão de fructear mais gerações. E, por isso, é fé minha -que o vigario novo terá o espirito dos antigos. Sêde com -elle o que fostes comigo. Ficai com Deus.»</p> - -<p>Os ouvintes abraçaram-o em tropel, debulhados em -lagrimas; e elle, ensopando com as suas a manga da -batina, encostou-se ao hombro de Ladislau, e caminhou -para Villa Cova.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span></p> - -<p>Á mesma hora, Ruy de Nellas, humilhado pela consciencia -na batalha com o orgulho, escrevia ao procurador, -mandando-o que fosse ao paço episcopal e encarecidamente -solicitasse o pôr pedra sobre o processo contra -o padre vigario de S. Julião da Serra, e levantar-se -a suspensão. E desculpava a mudança de seu animo, -com ter-se lembrado que déra verbalmente a licença, e -o padre, em virtude d’isso, procedera regularmente. Encarecia -em termos afflictos os seus escrupulos e remorsos, -pedindo a maxima brevidade no levantamento da -suspensão, e retirada do novo vigario.</p> - -<p>Ora vejam que alavanca de ferro a prostrar um soberbo, -foi a humillima carta de padre João! Estas victorias -dá-as o Evangelho; e as bandeiras triumphaes -são estas. Que é vencer Cezar a Pompeu, ou Scipião a -Annibal? Que é Roma armada avassalar o mundo? Que -é Napoleão devastando reinos e homens á frente de milhões -de escravos? Dobrar o orgulho de um homem, -quando se lhe pede perdão d’um inventado aggravo, -isso sim é que é vencer. Qual philosopho, antes do divino -Christo, ensinou a citar ao tribunal do juiz supremo -a consciencia d’um mau, e fazêl-o ahi accusar-se, -dobrar-se, condemnar-se, e reparar o ruim feito, a affronta, -a injustiça?</p> - -<p>Alguns dias passados, padre João Ferreira era restituido -á posse da igreja, visto que ulteriores informações -abonaram a regularidade do matrimonio accusado indevidamente.</p> - -<p>O povo da freguezia exorbitou da sua costumada prudencia, -saltando por cima das admonendas do seu vigario. -Os mais enthusiastas fizeram fogueiras como em -noute de S. João, e correram a freguezia com esturdias -instrumentaes, e foguetes de lagrimas. Cotizaram-se seis<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span> -lavradores abastados para celebrarem o successo, n’um -aprazado domingo, mandando fabricar um balão na -Guarda, e comprar na botica os ingredientes para a ascensão, -com grande copia de girandolas e quantas invenções -pyrotechnicas se achassem na Guarda e Vizeu -afóra a musica de Pinhel. O vigario empenhou rogos e -authoridade em demovêl-os; porém, como os visse inquebraveis -no intento, chamou elle artificiosamente a -si o dinheiro destinado ás festivas despezas, obrigando-se -a fiscalisal-o do melhor modo.</p> - -<p>Chegou o domingo aprasado. Logo de madrugada os -lavradores foram á residencia do vigario a tomar conta -dos objectos que deviam ter chegado no sabbado. Padre -João mostrou-lhes uma arca de pinho, e disse:</p> - -<p>—O balão, que ha de chegar ao céu, já ali está -n’aquella arca.</p> - -<p>Os lavradores quizeram vêl-o mas o padre differiu -para as onze horas desencaixotar o balão que havia de -chegar ao céu.</p> - -<p>—E os foguetes?—perguntaram elles.</p> - -<p>—Tambem chegam logo, e hão de ser todos de lagrimas.</p> - -<p>—E a musica?</p> - -<p>—Vem tambem; e ha de ser musica de anjos.</p> - -<p>Os parochianos encararam-se mutuamente e murmuraram:</p> - -<p>—Anda aqui marosca!...</p> - -<p>No fim da missa do dia, por volta de onze horas, o -vigario assomou no arco da igreja, tirou de entre os colchetes -da batina um papel, onde eram inscriptos os nomes -de doze velhos pobres e doentes da freguezia. Á -proporção que os ia chamando, os velhinhos sahiam de -entre a multidão e collocavam-se em frente do vigario.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span></p> - -<p>Chamado o duodecimo, que subiu amparado por dous -netos, o padre mandou conduzir da sachristia para o -arco da egreja a arca de pinho, que os lavradores tinham -visto na casa parochial. Abriu elle a caixa, e foi tirando -e repartindo por cada um dos doze pobres uma roupa -inteira de pantalona, colete, e véstia de saragoça. Os -velhos recebiam com mãos tremulas a esmola, e murmuravam -palavras de benção, e alimpavam os olhos -turvos de lagrimas para verem o seu remedio do proximo -inverno. Finda a repartição, o vigario, procurando -com os olhos os lavradores cotisados para a funcção, -disse-lhes:</p> - -<p>—Aqui está, meus amigos, o balão que chega ao -céu; ali tendes no rosto d’aquelles anciãos invalidos e -doentes, as lagrimas, que são lagrimas de graças ao -Senhor e de gratidão a vós. Haveis de confessar que as -lagrimas dos foguetes são menos brilhantes e consoladoras. -Quanto á musica, dir-vos-hei, meus bons amigos, -que os anjos do céu assistem com suas musicas a esta -vossa festa. Se fiscalizei mal os vossos trinta e seis mil -réis, accuzai-me para eu vol-os repôr.</p> - -<p>Disse, e logo um, e todos os lavradores lhe foram -beijar a mão; e os pobres, a não serem retirados brandamente, -iriam beijar-lhe os pés.</p> - -<p>Ao meio dia em ponto, no sobrado da residencia, estava -posta uma mesa com treze pratos. Na cabeceira -sentou-se o vigario, e os doze pobres já lavados e vestidos, -lateralmente. O jantar viera cosinhado de Villa -Cova: o bodo aos pobresinhos fôra devoção de Peregrina.</p> - -<p>Ladislau e sua mulher serviram os convivas, um de -cada lado, já partindo em pequeninos bocados a ração<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span> -de cada pobre, já ministrando-os á bôcca do mais intrevado -que se não servia de suas mãos.</p> - -<p>Em redor da meza, de pé, silenciosos, e com que arrobados -n’aquelle espectaculo santo, estavam os principaes -lavradores da freguezia. Por vezes, uma ou outra -voz, mal desabafada das lagrimas, murmurava:</p> - -<p>—Louvado seja o Senhor!</p> - -<p>E, cada lavrador enxugava os olhos.</p> - -<p>Concluido o jantar, ergueu-se o sacerdote, e deu graças -a Deus, em voz alta; e, ao sahir da meza, proferiu -estas palavras:</p> - -<p>—Louvemos o Altissimo porque nos deu coração para -sentirmos as alegrias da caridade. Esta virtude, que -commove até aos prantos consoladores é a sombra dos -contentamentos da bemaventurança. Meus amigos, a -vossa festa acabou; mas eu espero em Deus que haveis -de vêl-a continuada no céu.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span></p> - -<h2>IX<br /> -<span class="smaller">D. Alexandre é espalmado</span></h2> - -<p>Decorreram dez mezes sem successo digno de menção, -a não ser o nascimento do primogenito dos bemaventurados -de Villa Cova. Recebeu na pia baptismal o -nome de seu avô, sob cuja egide os paes o offereceram. -Foi padrinho o vigario, e madrinha D. Christina, representada -pela velha Brazia, a creada octogenaria, que já -não morre sem o contentamento de pôr as mãos no neto -do santo, que ella conhecêra creança. E, com este espiritual -parentesco, pagou Ladislau os setenta annos de -companhia da sua serva.</p> - -<p>Casimiro Bettancourt cursava o primeiro anno mathematico, -e era furriel de infanteria. Continuava a -viver retirado da mocidade, excepto d’aquelles que o -procuravam como auxiliador na interpretação de suas -lições.</p> - -<p>Um d’estes disse-lhe, uma vez, que, no curso de leis, -andava um rapaz provinciano, que detrahia publicamente -Casimiro Bettancourt.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span></p> - -<p>—Que diz elle de mim?—perguntou Casimiro.</p> - -<p>—Miserias...</p> - -<p>—Que são miserias?</p> - -<p>—Diz que tu és sobrinho de um carpinteiro.</p> - -<p>—Isso é verdade: sobrinho de um honrado carpinteiro. -Que mais diz? Vamos ás <i>miserias</i>...</p> - -<p>—Que roubaste a senhora com quem és casado.</p> - -<p>—Tambem é verdade. Fugimos para nos casarmos. -Que mais?</p> - -<p>—Diz que pagaste assim indignamente os beneficios -que devias ao pai d’ella.</p> - -<p>—Não procedi bem; mas todo o homem de coração -me ha de absolver. Como não a amei nem a raptei -por ella ser rica, e não vivo nem pretendo viver do patrimonio -d’ella, a minha dignidade é invulneravel.</p> - -<p>Isso não diz elle... mas eu ainda te não disse quem -elle é...</p> - -<p>—Já sei: é D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão -Parma d’Eça.</p> - -<p>—É isso.</p> - -<p>—Que diz elle em contrario do que eu affirmo?</p> - -<p>—Que tu vives do producto das joias, que tua senhora -subtrahiu ao pai.</p> - -<p>—Mente!—disse serenamente Casimiro, e accrescentou:—Não -quero ouvir mais. Ouviram-lh’o muitas testemunhas?</p> - -<p>—No botequim da Rua-larga. Eramos mais de vinte -rapazes, e passavas tu n’essa occasião.</p> - -<p>—Se desejas servir-me...</p> - -<p>—Se desejo!... Quebro-lhe a cara, se isso te apraz.</p> - -<p>—Não, meu amigo. Eu sou um homem como elle. O -que eu te peço é que tomes nota das pessoas que ouviram<span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span> -a calumnia, para mais tarde pedires a presença -d’ellas.</p> - -<p>—Facilmente: eu te digo os nomes... Eram...</p> - -<p>—Escuso. Basta que tu saibas. São horas de estudarmos -a lição.</p> - -<p>E abancaram tranquillamente.</p> - -<p>Volvidos oito dias, Casimiro Bettancourt disse ao -condiscipulo:</p> - -<p>—Amanhã é sabbado. Peço-te que reunas ás seis -horas da tarde, no botequim da Rua-larga, os teus -amigos, caso aconteça lá ir D. Alexandre de Aguilar.</p> - -<p>—Vai sempre: das oito horas em diante está embriagado.</p> - -<p>—Com tanto que não o esteja ás seis...</p> - -<p>—Isso é raro. Quando o está ás seis, é porque já se -tinha embriagado ás tres.</p> - -<p>—Optimo! Espera-me lá.</p> - -<p>Este dialogo correu na alamêda fronteira á casa. O -academico escondia-se de sua mulher.</p> - -<p>No seguinte dia, disse Casimiro a Christina:</p> - -<p>—Depois de jantar, vou ver um condiscipulo doente. -É a primeira tarde que passas sem mim, filha.</p> - -<p>—É verdade!...</p> - -<p>—Mas não has de soffrer, não? A saudade é uma -companhia.</p> - -<p>—Dizes-me isso com ar tão triste, Casimiro?</p> - -<p>—É a saudade, minha querida!</p> - -<p>—Pois não vás.</p> - -<p>—Prometti ir; mandei-lhe dizer que ia...</p> - -<p>—Deixa-me ver os teus olhos...—exclamou ella -aproximando-se de golpe.</p> - -<p>—Que tem os meus olhos?!</p> - -<p>—Lagrimas! tu choras, Casimiro!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span></p> - -<p>—Não...</p> - -<p>—Um segredo! um segredo para a tua Christina!</p> - -<p>—Serei eu um fraco!—disse elle como a si proprio, -imaginando-se sósinho.</p> - -<p>—Fraco por chorar? Se não tens razão, és... mas -tu, Casimiro, nunca assim te vi!... Não sahirás hoje -mais... juro-t’o.</p> - -<p>—Não jures, filha, que hei de sahir...</p> - -<p>—E dizes-m’o assim com esse imperio!?</p> - -<p>—É a honra...</p> - -<p>—A honra!... Tu não vaes ver um condiscipulo -doente.</p> - -<p>—Não. Menti-te, Christina. Perdôa-me.</p> - -<p>—Pois que é?!—atalhou ella sobresaltada.</p> - -<p>Casimiro relatou exactamente o facto descripto, mostrou -umas cartas recem-chegadas de Villa-Cova, e perguntou:</p> - -<p>—Devo ir, Christina?</p> - -<p>—Vai!—exclamou ella—Vai, já que eu sou mulher!</p> - -<p>E momentos depois, porque era mulher, abraçou-se -n’elle, e soluçou:</p> - -<p>—Ó Casimiro!...</p> - -<p>—Quê, filha?</p> - -<p>—Sê prudente, sim?</p> - -<p>—Recommendas-m’o a mim?! Não viste que eu soffri -oito dias, em silencio, a affronta!?</p> - -<p>E desprendeu-se dos braços d’ella.</p> - -<p>Entrou no botiquim da Rua-larga com tão pacato semblante, -como se ali não fosse para mais que aligeirar as -horas felizes da mocidade.</p> - -<p>Os que o conheciam encararam em D. Alexandre de -Aguilar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span></p> - -<p>O fidalgo de Miranda não conhecia Casimiro. Viu -aquelle sugeito fardado de infanteria 6, e disse:</p> - -<p>—Isto é já botiquim de soldados?</p> - -<p>—É um academico: o primeiro premiado de mathematica.</p> - -<p>—É aquelle—ajuntou outro—de quem tu contaste -as proezas casamenteiras.</p> - -<p>—Ah! o sobrinho do mestre Antonio! lá me quiz parecer -que devia ser furriel.</p> - -<p>Isto fôra dito, muito á puridade, aos circumstantes, -que não se riram.</p> - -<p>O amigo de Casimiro aproximou-se da meza e disse-lhe:</p> - -<p>—Estão todos.</p> - -<p>—D. Alexandre como visse esta aproximação, ponderou:</p> - -<p>—Elles conhecem-se?!... Quem é este academico, -que lhe falla? este que chamam Vilhena?</p> - -<p>—É filho segundo de uma casa distincta de Braga.</p> - -<p>—Cuidei que fosse filho primeiro de algum chapeleiro -de Braga...</p> - -<p>Casimiro pagou a chavena de café, ergueu-se e foi a -passo mezurado á banca de D. Alexandre.</p> - -<p>O fidalgo encarou n’elle, e logo nos circumstantes, -como quem diz: «que quer o tolo?!»</p> - -<p>E os academicos que, formavam cerco á meza, abriam -fileiras ao lado, arrastando os bancos.</p> - -<p>Bettancourt fez um gesto cortez aos rapazes, e disse:</p> - -<p>—O senhor D. Alexandre de Aguilar conhece-me?</p> - -<p>—Se o conheço...</p> - -<p>Casimiro fez um gesto de cabeça affirmativo.</p> - -<p>Conheço-o de o ver agora ahi, e dizerem-me quem o -sr. é.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span></p> - -<p>—Que sabe o sr. da minha vida?—tornou Casimiro.</p> - -<p>—Que sei da sua vida?!</p> - -<p>—Dispensemos o ecco, sr. D. Alexandre. Quem pergunta -sou eu. Que sabe da minha vida?</p> - -<p>—E se eu lhe disser que não lhe dou satisfações? -Agora sou eu quem pergunta.</p> - -<p>—Respondo-lhe que o sr. é um infame, e depois arranco-lhe -a lingua.</p> - -<p>O fidalgo Alarcão Parma d’Eça ia a dizer o quer que -era, e engasgou-se.</p> - -<p>Casimiro Bettancourt continuou no mesmo tom de -serena conversação:</p> - -<p>—Disse v. ex.ª que eu era sobrinho de um carpinteiro. -Disse verdade. Que eu raptara uma senhora, cujo -marido sou. É certo. Ajuntou que eu estava vivendo -das joias, que minha mulher roubára a seu pai. Mentiu. -Vejo que esta palavra não inquieta grandemente o sangue -azul de v. ex.ª Ainda assim, quero imaginar que o -sr. D. Alexandre me pede provas da sua aleivosia.</p> - -<p>Tirou Casimiro do bolço interno da fardêta duas cartas. -Abriu a primeira, lançou-a sobre a meza, e disse:</p> - -<p>—Conhece essa lettra?</p> - -<p>—Conheço—respondeu D. Alexandre—é de meu tio -Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo.</p> - -<p>—Pai de minha mulher—ajuntou Casimiro, voltando-se -aos academicos circumpostos; e fallando para elles, -continuou:</p> - -<p>—Como eu soubesse que o sr. D. Alexandre me alcunhava -de receptador dos furtos de minha mulher, escrevi -a um homem de bem, pedindo-lhe que se apresentasse -ao sr. Ruy de Nellas, meu sogro, perguntando-lhe -se sua filha, no acto da fuga, subtrahira de casa -algum objecto de valor, e o declarasse por escripto. Esta<span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span> -segunda carta é a resposta da pessoa encarregada; e diz:</p> - -<p>«O correio só dá tempo a dizer-lhe que o sr. Ruy de -Nellas, apenas me ouviu, e escreveu a declaração que -contheuda remetto, e mostrou-se espantado de que a -calumnia propale o que elle nunca disse; e de o não -ter dito m’o jurou pela alma de sua mulher, e honra -de suas filhas. Sem mais. Seu amigo, <i>P. João Ferreira</i>.»</p> - -<p>—Leia-a agora o sr. D. Alexandre a declaração de -seu tio.</p> - -<p>—Leia-a o senhor!—bradou com grande esforço de -falsa coragem o calumniador esmagado.</p> - -<p>—Leia-a!—tornou Casimiro com um lançar de olhos -fulminante.</p> - -<p>O fidalgo tomou o papel nas mãos convulsas, e deixou-o -logo cahir.</p> - -<p>—A covardia cega-o!—disse Casimiro sorrindo—Algum -dos cavalheiros tem a bondade de ler?</p> - -<p>O mais chegado de D. Alexandre leu o seguinte:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>«Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro -que minha filha Christina Elisiaria, não subtrahiu -de minha casa valor algum, nem os seus proprios vestidos -e adresses, quando fugiu para casar-se com Casimiro -Bettancourt. E por isto ser verdade, mui espontaneamente, -e com juramento aos santos Evangelhos o -declaro agora e sempre. Pinhel, 22 de abril de 1839.—<i>Ruy -de Nellas</i>, etc.»</p> - -</div> - -<p>—Está reconhecida a assignatura?—disse Casimiro.</p> - -<p>—Está—respondeu o estudante, que lera—E quando -não estivesse já o sobrinho a tinha reconhecido.</p> - -<p>—Isso não valia nada—tornou o furriel.—Nenhum<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span> -dos cavalheiros prestaria fé ao reconhecimento do sr. -D. Alexandre de Aguilar. Declare, pois, o sr. D. Alexandre -que mentiu infamissimamente e offereça a cara -para que todos lhe cuspam n’ella.</p> - -<p>O fidalgo ergueu-se, e bramiu:</p> - -<p>—O senhor!...</p> - -<p>—Que mais?—perguntou Casimiro.</p> - -<p>—Insulta-me?</p> - -<p>—Não. Obrigo-o a sentar-se, que me incommoda vel-o -de pé.</p> - -<p>E, dizendo, baixou-lhe no alto da cabeça uma palmada, -que effectivamente o fez apoiar-se sobre as ilhargas.</p> - -<p>E, voltando-se com rosto faceto aos academicos disse:</p> - -<p>—O espectaculo foi feio, que o miseravel não dá sequer -um soffrivel truão com medo. Agradeço a attenção -dos cavalheiros, mórmente com o sobrinho de um carpinteiro, -que, por não ser nobre tem vontade de ser honrado.</p> - -<p>Sahiu do botiquim acompanhado de quasi todos os -estudantes. Os poucos, que ficaram como petrificados, -por não saberem que dizer a D. Alexandre de Aguilar -Vito de Alarcão Parma d’Eça, retiraram-se cabisbaixos.</p> - -<p>Casimiro estugou o passo, caminho de Santo Antonio -dos Olivaes, e encontrou a esposa anciada, fóra de -casa.</p> - -<p>Contou-lhe, sem fatuidade, o essencial do acontecido, -e reservou o facto da monumental palmada na cabeça. -O delicado moço julgou melindrar sua mulher, dizendo-lhe -que castigára com a mão um seu parente.</p> - -<p>Foi o successo estrondosamente contado e applaudido -em Coimbra, tanto porque era de razão applaudil-o como -por ser no tempo em que a mocidade academica, popular<span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span> -e burgueza na maxima parte, desadorava os fidalgos -castellãos, e não perdia lanço de os metter a riso.</p> - -<p>D. Alexandre, no dia seguinte, foi para Miranda, em -busca de romanso e solidão para pensar na vingança -de covarde, que não podia já ser de outra natureza.</p> - -<p>Vamos no rasto d’este reptil.</p> - -<p>O extraordinario da chegada do estudante, quando as -aulas estavam abertas e os actos não começados, devia -ser de algum modo explicado a D. Sueiro e á parentella -alvorotada. Contou elle que tinha tosse; e o caso foi -que tossiu. O medico da casa apalpou-o, auscultou-o, e -decidiu-se pela tosse, em concordancia com a faculdade -medica de Coimbra, que mandára a ares patrios o mancebo, -ameaçado de coisa séria. Em verdade, a pertinacia -da embriaguez reduzira D. Alexandre a um viver -morbido, asthenico, e analogo ao do ethico; e já não -admira que a palmada capital do sadio Casimiro o fizesse -sentar.</p> - -<p>Suppunha D. Sueiro que o casamento de Christina -era muita parte na doença do irmão, e curava de remediar -o mal de amor com os amores novos da cunhada -que tinha em casa, galante menina, Mafalda de -nome. Era a vigessima nona Mafalda n’aquella familia -de Pinhel. Entrando n’este numero a santa infanta Mafalda, -fundadora do mosteiro de Arouca, irmã de D. Affonso -II, que tambem era da familia, pelos modos, e -sem duvida nenhuma.</p> - -<p>Se a menina o amava não sei, nem averiguei, por -ser demais na pauta d’este escripto; o que me consta é -que D. Alexandre, tão adentrado estava com os seus -calculos de vingança, que não dava pela prima, nem se -lisongeava do seu amor.</p> - -<p>A unica pessoa de Miranda, com quem se abria o<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span> -fidalgo, era um desertor de cavallaria, muito dos Alarcões, -especie de molosso da casa, sob cujas telhas estava -a seguro.</p> - -<p>As intelligencias de D. Alexandre com o desertor são -obvias; curava de comprar-lhe o braço vingador; mas, -tão em segredo, que nunca viesse á luz a sua segunda -ignominia.</p> - -<p>Conchavaram-se de barato. D. Alexandre daria ao -desertor basta quantia a transportal-o ao Brasil, e o desertor, -em mesquinha paga de tamanho beneficio, mataria -Casimiro Bettencourt.</p> - -<p>N’este accordo, pediu D. Alexandre ao morgado que -lhe deixasse levar como creado o desertor, visto que a -plebe academica se bandeara contra os estudantes fidalgos -e devotos da causa vencida. Annuiu promptamente -o irmão, contente de vêr que D. Alexandre recobrava -côres, e olvidara Christina.</p> - -<p>Abertas as aulas voltou o moço á Universidade, com -o seu vingador, por tal arte disfarçado, que dava de si -um rustico cavallariço, incapaz de fazer mal a folego -vivo.</p> - -<p>Os amigos dos annos anteriores fugiam-lhe, e novos -nenhum lhe apertava a mão. O opprobio do fidalgo era -ainda materia de ociosos, revivido com a sua presença.</p> - -<p>Preoccupava-o a traça de fazer conhecido Casimiro -ao seu matador: cousa não facil na multidão de mil e -tantos moços, entre os quaes raro se via o solitario de -Santo Antonio dos Olivaes.</p> - -<p>O solicito confidente de D. Alexandre tomou sobre -si o encargo de conhecer Casimiro, e esperava tiral-o -pelas feições que lhe vira em Pinhel, quando elle era -mocinho de quinze annos.</p> - -<p>N’este intento, foi como de passeio a Santo Antonio<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span> -dos Olivaes; e, logo por fortuna, ao dobrar o combro -de uma azinhaga, viu um sujeito de farda militar com -uma senhora pelo braço.</p> - -<p>—Cá está o homem!—disse entre si, e deteve-se a -examinal-o, sem attentar em Christina, que o examinava -a elle. Casimiro, por sua parte, nem deu tento do -reparo do caminheiro.</p> - -<p>Ora, Christina tinha visto aquelle homem em Pinhel, -recebêra da mão d’elle uma carta de D. Alexandre, -e lembrava-se de ter ouvido dizer ao primo D. Sueiro -que aquelle soldado de dragões era o seu guarda fiel, -e com elle iria ao inferno atacar Satanaz.</p> - -<p>O desertor, porém, olvidou-se-lhe Christina, e nem -por sombra imaginou ser reconhecido.</p> - -<p>A senhora estremeceu... e duvidou. Já elle se havia -sumido, quando ella disse:</p> - -<p>—Acautella-te, meu filho!</p> - -<p>—De quê?</p> - -<p>—Vi agora um creado dos de Miranda... Não póde -deixar de ser elle... Veio com o Alexandre, e anda a -espreitar-te.</p> - -<p>—Que tem isso, Christina?</p> - -<p>—Tem, que elle é um malvado... Ai meu Deus! -d’aqui em diante não tenho momento de socego! Queres -que nos vamos embora d’este ermo? Aluga casa na -cidade. Pódes ser assaltado no caminho. Tu és valente, -meu Casimiro; mas d’uma traição ninguem se livra!</p> - -<p>—Os prevenidos livram-se—atalhou Casimiro.—Não -vejo causa para mêdo; mas, se has de viver inquieta, -mudemos, filha.</p> - -<p>—Sim: faz-me isso, que é annos de vida que me -poupas!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p> - -<p>Andava Casimiro em procura de casa, quando recebeu -a seguinte carta de Ladislau:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>«Meu compadre. Vai ser surprehendido com a minha -petição, á qual subscrevem minha mulher e meu cunhado. -Logo que esta receber, metta-se a caminho -com a sua senhora, e venham direitos á sua casa de -Villa Cova. Iremos os tres esperal-os a meio caminho. -Perder um anno da Universidade não faz implicancia -á sua futura sorte, se ella tem de ser boa. Esperamol-os; -porque não posso acreditar que meus compadres faltem -ao seu <i>Ladislau</i>.»</p> - -</div> - -<p>Casimiro leu, e disse:</p> - -<p>—Vamos, e vamos hoje.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span></p> - -<h2>X<br /> -<span class="smaller">A victoria d’uma creancinha</span></h2> - -<p>D. Mafalda de Nellas, voltando de Miranda a Pinhel, -trazia a escalavrar-lhe o coração o espinho do despeito. -Isto não induz a liquidarmos que a menina amasse o -primo D. Alexandre. O despeito das senhoras basta a -explical-o a indifferença mesma dos homens que ellas -desamam.</p> - -<p>Como quer que fosse, Mafalda saira de Miranda, -odiando o cunhado de sua irmã, no dia seguinte ao da -ida d’elle para Coimbra.</p> - -<p>Eis aqui o que ella contou ao pai, logo que chegou:</p> - -<p>—Estava eu n’uma das grutas da quinta, quando -o primo Alexandre, sentando-se, sem me vêr, nas costas -da gruta, deu um grande assobio. Fez-me curiosidade -aquillo, e estive quieta para vêr o que sortia d’ali. -Pouco depois, chegou um homem de grandes barbas, -que eu já tenho visto em nossa casa, em companhia do -mano Sueiro.</p> - -<p>—Bem sei, o desertor—atalhou o pai.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span></p> - -<p>—É isso: eu já tinha ouvido lá dizer á mana, que -elle era desertor.</p> - -<p>—E depois?</p> - -<p>—Depois o primo, assim que elle chegou, disse-lhe:—Olha -que vaes commigo para Coimbra. Está decidido—e -o desertor respondeu: «Pois isso é que é preciso!»—Mas -vê se aparas essas barbas, que tens cara de -facinora—disse o primo—eu tenho medo que, em apparecendo -morto o Casimiro, todos digam que foi obra do -meu creado.—Eu quando tal ouvi comecei a tremer, e -tive medo d’aquelle homem! Quiz dizel-o á mana Guiomar; -mas ella falla tão mal do Casimiro e da mana -Christina, que julguei imprudente dizer o que ouvira.</p> - -<p>—E depois?—atalhou o velho com inquietação.</p> - -<p>—Depois, estiveram a fallar em facadas e tiros. E o -desertor dizia: «são dous palmos de ferro, fidalgo.» E -tirou da algibeira uma navalha, que relusia, e tamanha, -meu pai, como eu nunca vi! Ainda disseram mais coisas -que não me lembram, e foi cada um para seu lado. -Ó papá, elles irão matar o marido da mana Christina? -Coitado!... por que é que o matam?</p> - -<p>—Dá me papel e tinteiro, e um creado que apparelhe -o macho para ir immediatamente a um recado.</p> - -<p>Ruy de Nellas escreveu esta carta.</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>«Sr. Ladislau. Sei que alguem intenta matar em -Coimbra o marido de Christina. Ha tres dias que para -ali partiu o assassino ou assassinos. Avise-o como seu -amigo, para que se acautelle, ou se retire. Eu aborreço -os infames, e as vinganças covardes: por isso me apresso -a participar-lhe este plano, que oxalá não esteja executado, -quando chegar a sua carta. Espero em Deus -que não. Do seu amigo, <i>Ruy de Nellas</i>.»</p> - -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span></p> - -<p>O creado partiu a toda a brida.</p> - -<p>Ladislau leu a carta em suores frios. Escreveu duas -linhas de agradecimento a Ruy, e preparou-se para ir a -Coimbra. Acaso entrára o vigario, e, lendo a carta, impediu -de ir, allegando que o correio chegava primeiro.</p> - -<p>Padre João e seu cunhado, sabiam os successos de -Coimbra, e, sem se consultarem, nomearam D. Alexandre.</p> - -<p>—Casimiro está vivo—disse com firmeza o padre.</p> - -<p>—Quem n’ol-o assevera?!—perguntaram Peregrina e -Ladislau.</p> - -<p>—É o raciocinio. Alexandre é incapaz de matar de -rosto ou á traição. Precisamente leva um sicario assalariado -que eu conheço ha dez annos. Os faccinoras -por estipendio são muito covardes, porque amam tanto -a vida que, para sustental-a se expõem a perdel-a. Se -D. Alexandre offendido vergonhosamente carece de -animo para se desaffrontar, devemos crêr que ao carnifice -alugado falte a coragem para accommetter o homem -que o não offendeu. Além de que eu vou jurar que -Casimiro se prepara contra as insidias do seu inimigo, -e terá só de pelejar com um homem. Sobre todas essas -conjecturas, roguemos a Deus pela vida do nosso amigo, -e escreve-lhe a chamal-o em termos, que não assustem -Christina.</p> - -<p>Escreveu Ladislau a carta copiada no anterior capitulo; -e, no dia seguinte, sahiram de Villa Cova, e, á -segunda jornada, pernoitaram em Gouvea. Dous dias -depois chegaram Casimiro e Christina.</p> - -<p>A esposa de Ladislau, para abraçar sua comadre, -pousou sobre o leito a creancinha que lhe adormecêra -ao seio.</p> - -<p>Christina, porém, como se não visse o fervor da amiga,<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span> -ajoelhou á beira do leito, e beijou soffregamente o menino, -que sorria aos affagos de algum anjo. Era bello -de verem-se todos cinco, em redor da creança, como se -para outro fim se não reunissem! Parece que ella lhes -estava dizendo: «Distrahi vosso espirito de dores, que -eu estou pedindo a Deus que vos defenda.»</p> - -<p>Peregrina pôde furtar as caricias de Christina, tomando-a -para si com força.</p> - -<p>—Estava a invejar-te, minha comadre!—disse a esposa -de Casimiro—mas olha, não devo invejar-te, -não!...</p> - -<p>E disse-lhe ao ouvido breves palavras, explicadas -pela exclamação de Peregrina:</p> - -<p>—Sim? e não m’o tinha dito!... que ditosas seremos -com os nossos filhinhos!</p> - -<p>O vigario sorriu-se, e murmurou:</p> - -<p>—Não ha creanças mais creanças que as mães! Estas -alegrias raras vezes lh’as recomeçam depois os -filhos!...</p> - -<p>Casimiro concentrou-se tristemente, e Christina disse:</p> - -<p>—Não fallem em mãe diante de meu marido, por -quem são!</p> - -<p>—Fallem, fallem—disse Casimiro—que eu tenho de -encontral-a no ceu pelo muito que a desejei n’este -mundo.</p> - -<p>E, tomando o braço de Ladislau, chegou a uma janella, -e perguntou:</p> - -<p>—Que é isto? Que significa esta chamada?</p> - -<p>—Não m’o pergunte diante de sua senhora.</p> - -<p>—Porque não? ella é forte. Se um dia me fraquearem -os esteios da honra, minha mulher ha de fortalecer-m’os. -Diga, meu compadre.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span></p> - -<p>Ladislau mostrou a carta de Ruy de Nellas; e Christina, -ouvindo-a ler, exclamou:</p> - -<p>—Não te disse eu?... Era o desertor ou não?</p> - -<p>—Era o desertor—respondeu o vigario.</p> - -<p>—Pois sabia?—acudiu Christina.</p> - -<p>—Disse-m’o a razão e a pratica dos <i>valorosos barões</i> -de Miranda. V. ex.ª viu-o?</p> - -<p>—Vi: mostrou-m’o o nosso anjo da guarda!... E -meu pai é que te avisa, Casimiro! Quem me déra poder -beijar-lhe a mão!</p> - -<p>—Seu pai é um homem de bem ás direitas, minha -senhora—disse o vigario—Seria um modêlo de virtuosos, -se os preconceitos de raça o não molestassem. Porque -não ha de v. ex.ª ainda beijar-lhe a mão? Esperemos.</p> - -<p>—E agora?—disse Casimiro—que querem de mim? -Será airoso que eu me vá esconder a Villa Cova das -iras de D. Alexandre?</p> - -<p>—É dever de marido e pai fugir o perigo—disse Ladislau—Sabemos -que lhe sobra animo; porém agora, -quer-se e requer-se que o coração seja maior que o -animo. Sua senhora manda; o vigario aconselha; e -minha mulher e eu rogamos. Falta-lhe paciencia para -viver alguns mezes na tristonha casa da serra? É assim -ingrato áquella terra agreste onde desabrocharam todas -as flores da sua felicidade, meu compadre?!</p> - -<p>—Ó meu amigo, meu generoso irmão!—exclamou -Casimiro, nos braços de Ladislau—Vamos, vamos para -Villa-Cova. Lá sei eu que tenho segura a vida, a alegria, -e sempre viçosas as flores de felicidade, que se -abriram no seu nobre coração, e para mim! Não é covardia -fugir. Covardes são os que não tem uma esposa,<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span> -e fogem; covardes são os que não tem amigos como -vós, e fogem!</p> - -<p>—E no filhinho não fallas?—disse Christina sorrindo-lhe -com incantadora meiguice.</p> - -<p>—Não o disse eu!—acudiu o vigario—Agora, quer -s. ex.ª que todo o coração de seu marido esteja embebido -do futuro filhinho! Valha-vos Deus, mães loucas -do amor de vossos filhos, que sois capazes de ceder do -coração dos maridos em beneficio dos pequerruchos, -anjos purissimos a quem basta o bafejo do Senhor!</p> - -<p>N’estas doces praticas, que eu, a mêdo, submetti á -benevolencia do leitor, se passaram as horas do descanço, -até ao repontar da alva, em que proseguiram sua -jornada. Lá vão os felizes, escoltados por suas mesmas -virtudes.</p> - -<p>Entretanto, recebeu D. Alexandre de Aguilar a nova -de ter sahido de Coimbra Casimiro Bettancourt, e o -mesmo foi assoalhar, mediante alguns necessitados de -sua recheada bolça, que o furriel se evadira, sabendo -que ia ser desafiado a duello de morte. Correu o boato, -justificado por circumstancias: a precipitação da sahida, -o estarem abertas as aulas, o ignorar-se o intento da -retirada, o ter dito Casimiro, na vespera, que procurava -casa em Coimbra, tudo induzia a crer a atoarda molesta -á reputada intrepidez do militar.</p> - -<p>A <i>Vedeta da Liberdade</i>, jornal portuense, publicou -uma correspondencia de Coimbra, em que se dizia em -grypho: <i>que um estudante militar, appellidado Bettancourt, -fugira com a mulher para se não bater com D. -Alexandre de Aguilar, academico brioso, a quem, no -anno anterior, insultára</i>. E accrescentava: <i>O tal militar -é avezado a fugas: uma vez fugiu com a filha d’um -nobilissimo cavalheiro, onde seu tio carpinteirava agora;<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span> -fugiu com as costellas incolumes, porque o tio carpinteiro -não sabe endireitar costellas quebradas.</i></p> - -<p>O jornal appareceu em Villa Cova subscriptado, a -Casimiro de Bettancourt.</p> - -<p>Casimiro leu a correspondencia em voz alta.</p> - -<p>E Ladislau perguntou:</p> - -<p>—Que é isso?</p> - -<p>—É uma gazeta—disse o vigario.</p> - -<p>—Uma gazeta?—reperguntou Ladislau.</p> - -<p>—Sim.</p> - -<p>—Mas... (desculpem a minha ignorancia...) como -se faz isso?</p> - -<p>—Isso que, meu irmão?</p> - -<p>—Como se estampam esses insultos?</p> - -<p>—Estampam-se.</p> - -<p>—Então...—estou confuso, e vejo que me não percebem...—as -gazetas servem de insultar? quem quer -infamar alguem vai a casa do homem, que tem esse -modo de vida, e diz-lhe: «imprima lá esse insulto», é -isto?</p> - -<p>—É isso—illucidou o padre—com o accrescento de -que o dono do jornal recebe tanto por linha do insulto -publicado.</p> - -<p>Ladislau ergueu-se com nunca visto impeto de furia, -e exclamou:</p> - -<p>—Então isso é infame! e a civilisação que isso consente -é a barbaria, é o escarneo de Deus e das leis de -nosso paiz!</p> - -<p>Casimiro sorriu, e disse:</p> - -<p>—A indignação de meu compadre tem graça!... A -que distancia este bom rapaz vive do mundo culto! -Quer elle, talvez, que a civilisação esteja em Villa Cova, -e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta,<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span> -meu querido amigo, tem outra face, que o sr. vigario -lhe não mostrou, e é que, se eu quizer insultar d’aqui -D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono da gazeta me -vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto; -e, no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor -de D. Alexandre e meu. O dono d’este papel é como a -estatua em que Aretino fixava as suas vaias aos reis e -aos papas, n’um tempo em que papas e reis eram cousas -sacratissimas e inviolaveis. Agora, que não ha nada -defêso, com que direito me hei de eu queixar? Não me -alistei eu no exercito que defende as instituições livres?! -Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca do progresso, -chamada nem mais nem menos que «Vedeta da -liberdade»! Os homens livres passam deante da estatua -de Pasquino, e descobrem-se. Assim como a discussão -racional e illustrada aclara as escuridades e aplana os -empeços da ideia util, por igual razão as injurias á pessoa, -os ataques á moral de cada individuo servem de o -abrir, á luz da analyse, e ver tudo o que elle lá tem -dentro do coração e consciencia. A licença da imprensa -é uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros -de lama. Das chammas do auto-de-fé sahiram almas purificadas, -no crer de alguns theologos; e da alma da -imprensa desbragada devem sahir as consciencias lavadas, -no entender de alguns legisladores. Sejamos do -nosso tempo, meu compadre.</p> - -<p>—Pois, sim—disse Ladislau—mas deixe-me render -louvores a Deus por me ter dado o nascimento n’estas -serras! Eu não cuidei que era assim o mundo. N’este -ultimo anno quantas paixões más que eu não conhecia! -Meu mestre decerto as ignorava; senão, ter-m’as-ia dito. -Os meus livros tambem m’as não disseram...</p> - -<p>—É por que os seus livros são bons—atalhou Casimiro<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span> -Bettancourt—A corrompida sociedade da Roma -imperial não tinha gazetas; mas tinha historiadores e -poetas. Se meu compadre os ler, imagina que maus inventores -o querem deleitar com fabulas hediondas. O -homem foi sempre mau; será mau até ao fim. A sociedade -parece melhor do que foi, olhada collectivamente: -é parte n’isto a lei, e grande parte o calculo. Cada individuo -se constrange e infrea no pacto social para auferir -as vantagens de o não romper: porém, o instincto -de cada homem, em communidade de homem, está de -continuo repuchando para a desorganisação. Eu acceito, -como puros os corações formados na solidão, a não se -dar a segunda hypothese do proverbio, que disse: homem -sósinho, das duas uma: ou Deus ou bruto<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4"></a><a href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a>. Melhor -seria dizer, com Santo Agostinho, ou anjo ou demonio. -Ladislau formou-se aqui, rescende virtudes extraordinarias; -mas, se fôr ás cidades, á feira dos vicios, -sentirá coar-lhe um veneno corrosivo nas entranhas; e, -a meia volta, perderá de vista a benigna estrella d’estas -suas montanhas. Ó meu amigo, não se alongue do seu -paraizo! não queira saber que nome tem, a dez leguas -da sua aldeia, o que meu compadre chama dever, civilisação, -amor, caridade e Deus.</p> - -<p>Os gosos da vida domestica aligeiravam os mezes da -inactividade de Casimiro. Ao quinto de residencia em -Villa Cova, realisou-se a ventura saudada por Peregrina -na estalagem de Gouvea: Christina foi mãi de uma -menina, que trouxe do céu o seu quinhão de felicidade, -do qual todos participaram.</p> - -<p>Queria o pai que Ladislau e Peregrina fossem padrinhos;<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span> -mas o vigario, consoante as velhas praxes de filhos -casados contra vontade paternal, pediu que fosse -convidado o avô, por carta de D. Christina.</p> - -<p>Escreveu ella com humildade sem baixeza uma carta, -onde se lia este periodo:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>«É uma ternura filial que me anima a escrever a -meu pai: não é a necessidade que me obriga. Se sou -pobre, ainda não tive occasião de sentir desejos de ser -rica. O perdão de meu pai é que eu desejo e peço, se -foi delicto o acto que está sendo a minha felicidade. -Quizera um dia beijar as mãos de meu pai e dizer-lhe -que tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como -esposa de Casimiro.»</p> - -</div> - -<p>Foi lida a carta e discutida. O vigario achou duras -algumas palavras d’aquelle relanço, e pediu a illisão das -palavras: «<i>se foi delicto o acto que está sendo a minha -felicidade</i>»; bem como: «<i>tenho tanta vaidade em ser -filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro</i>.» As primeiras -palavras foram substituidas: as ultimas não. Christina -nem ao marido obedeceu.</p> - -<p>Ruy de Nellas recebeu a carta, e leu-a sem rancor até -ás expressões rebeldes á censura do vigario; mas, n’este -ponto, rasgou o papel e disse ao portador:</p> - -<p>—A resposta é esta: diz lá que eu é que não tenho -vaidade nenhuma em ser padrinho de um filho do sr. -Casimiro.</p> - -<p>Tal resposta magoou medianamente a familia de Villa-Cova.</p> - -<p>—É soberbo!—disse Ladislau.</p> - -<p>—Preconceitos de raça—acrescentou o vigario.</p> - -<p>—Não tem outra falha a excellente alma do sr. Ruy.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span></p> - -<p>—Pois ha de ser padrinho da neta!—tornou Ladislau.</p> - -<p>—Que capricho é esse, meu compadre?—perguntou -Casimiro.</p> - -<p>—Não é capricho: é batalha dada contra a soberba: -havemos de amolgal-a com a brandura.</p> - -<p>Na segunda dominga, posterior ao nascimento da menina, -sahiu, ante-manhã, de Villa Cova Ladislau, uma -ama de leite, e a creancinha. Chegaram a Pinhel ás -nove horas, e elle entrou á igreja parochial, onde, por -informações de mestre Antonio carpinteiro, Ladislau -soubera que o fidalgo ia ouvir missa. A ama sentou-se -no adro, e esperou, rodeada de meninos, que se acotovellavam -para ver o rosado rosto da baptisanda.</p> - -<p>Ladislau apresentou-se ao abbade, com uma carta do -padre João Ferreira, e conversaram.</p> - -<p>Ás dez horas tangeu a sineta á missa, e chegou o -fidalgo com suas filhas, e foram ajoelhar na alcatifa da -sua capella privativa. Antes do terceiro toque, o abbade -aproximou-se de Ruy de Nellas, e disse-lhe:</p> - -<p>—Faz v. ex.ª a esmola de fazer christã uma creancinha?</p> - -<p>—Sim, abbade, pois não!</p> - -<p>—E de escolher a madrinha?</p> - -<p>—Será minha filha Mafalda.</p> - -<p>Chamou elle a menina, e acercaram-se do baptisterio.</p> - -<p>A ama entrou com a creança, chamada pelo sachristão.</p> - -<p>A um lado, estava Ladislau com uma tocha, escondendo-se -ao lance d’olhos de Ruy de Nellas.</p> - -<p>Ao descobrimento da menina, Mafalda exclamou:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span></p> - -<p>—Ai! tão linda que é!... Veja, papá! Ó manas, -venham ver que perfeição!...</p> - -<p>—Quem são os pais?—disse o fidalgo.</p> - -<p>O abbade, como tivesse começado as ceremonias do -sacramento, não respondeu; e, pouco depois, perguntou:</p> - -<p>—Qual é o nome?</p> - -<p>—É o meu—disse Mafalda.</p> - -<p>Findo o acto, foram á sachristia lavrar no livro o assento -baptismal.</p> - -<p>O abbade escreveu á vista dos apontamentos, e leu -depois para conhecimento dos padrinhos:</p> - -<p>«Mafalda, natural de Villa-Cova, termo de Pinhel, -filha legitima de Casimiro Bettancourt, natural de Santarem, -e da ill.ᵐᵃ e ex.ᵐᵃ sr.ª D. Christina Elisiaria de -Nellas Gamboa de Barbedo»...</p> - -<p>—Como?!—exclamou o fidalgo—Como se intende -isto? Que abuso foi este, sr. abbade?!</p> - -<p>Ladislau sahiu do escuro da sachristia, e disse:</p> - -<p>—O abuso é meu, sr. Ruy de Nellas. E v. ex.ª não -me castiga, porque eu vou pôr em seus braços a creancinha -a implorar o meu perdão e o de sua mãi.</p> - -<p>E tomou a menina dos braços da ama, e depositou-a -nos da madrinha, dizendo-lhe:</p> - -<p>—Seja v. ex.ª a intercessora de sua irmã!</p> - -<p>—Dê-lhe um beijo, papá! rogou maviosamente -D. Mafalda.</p> - -<p>O velho poz a mão na face da creança, e disse:</p> - -<p>—Não tens culpa tu, pobre innocente!...</p> - -<p>E o abbade continuou a leitura do assento baptismal, -sorrindo, e olhando por cima dos oculos, para ver Ruy -de Nellas, que deixava chupar-lhe a creança no dedo -mendinho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span></p> - -<p>Ao sahirem da sachristia, o fidalgo disse á ama da -creança.</p> - -<p>—Vá lá a casa, depois da missa, mulher, e o sr. tambem -se quizer.</p> - -<p>Ladislau fez um signal de agradecimento.</p> - -<p>Finda a missa, a menina foi levada a casa do avô. -As quatro tias deram inquietações á ama, temerosa de -que lhe abafassem a creança com beijos.</p> - -<p>Entretanto, Ladislau contava a Ruy de Nellas os -successos de Coimbra e os aleives da correspondencia -da «Vedeta da Liberdade».</p> - -<p>O velho ouviu-o em silencio; mas com ar de satisfação, -em quanto aos brios de seu genro no justo castigo -de Alexandre; porém, quando soube que as gazetas -traziam o seu nome aparelhado com o do carpinteiro, -irritou-se, e clamou:</p> - -<p>—Quando pensei eu de andar pelas gazetas!... É -o que minha filha me arranjou!...</p> - -<p>Este accesso durou alguns segundos.</p> - -<p>Continuaram a conversar serenamente. Eram horas -de partir para Villa-Cova. O fidalgo mandou entrar a -afilhada, e deu-lhe um beijo, e duas peças á ama.</p> - -<p>E—caso unico!—apertou a mão do lavrador de Villa-Cova, -e disse-lhe por ultimo:</p> - -<p>—O tempo fará o resto. É cedo por ora! A ferida -sangra ainda!</p> - -<p>—O balsamo do Evangelho, sr. Ruy de Nellas...—respondeu -Ladislau, sahindo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p> - -<h2>XI<br /> -<span class="smaller">Guilherme Lira</span></h2> - -<p>Seria ocioso, bem que alegre trabalho, contar os jubilos -de Christina, retomando ao seio a filha, que seu -pai e irmãs tinham beijado. Casimiro, homem não estranho -a vanglorias, que parecem ser condição das indoles -arremessadas ás glorias uteis, folgava de ver sua -filha acariciada pelo fidalgo, cuja prosapia, o moço, nas -verduras dos dezoito annos, sinceramente invejava. Ó -barro humano!</p> - -<p>Disse Ladislau que Ruy approvára a sahida de Coimbra, -e esperava que o anno decorrido esfriasse a vingança -de D. Alexandre, estando elle de mais a mais -como vingado, fazendo crer que lhe fugia Casimiro. Era -tambem este o parecer do vigario e de Ladislau. Casimiro, -ainda assim, dizia contrariando:</p> - -<p>—Não, meus amigos: o odio dos fracos é inextinguivel; -é a unica força, a energia tenebrosa, que lhes deu -a natureza.</p> - -<p>No seguinte anno lectivo, voltou a Coimbra, com<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span> -maior familia, o pobre grangeador do futuro. Doia-lhe -ter de augmentar suas despezas, sahidas todas dos celleiros -de Villa-Cova. Era grande magoa para o aberto -coração de Ladislau entender em pacificar o espirito do -seu amigo, fazendo-lhe sentir que escassamente lhe emprestava -uma parte das sobras de suas colheitas. E santamente -mentia Ladislau! A sua lavoura, comquanto -grande, era toda de cereaes, vendidos por baixo preço, -e urgentes ao consummo e vestir de sua familia. O que -elle estava dispendendo era dinheiro antigo, que encontrára, -ouro do seculo XVI, peculio amuado ao canto do -armario de pau santo, em que seus tios padres iam -annumerando algumas moedas, muitas menos que as -derramadas pela pobreza.</p> - -<p>Lembrava-se Christina de escrever ao pai, a pedir-lhe -sua legitima materna. Casimiro, antes que ella expendesse -o seu pensamento, atalhou-a n’estes termos:</p> - -<p>—Sendo preciso, iria primeiro pedir a meu tio carpinteiro -metade do seu estipendio de cada dia.</p> - -<p>Peregrina, sabedora do intento, revelara-o ao marido.</p> - -<p>Ladislau, a sós com a filha de Ruy de Nellas, queixou-se, -observando-lhe que era crueldade obrigal-o a -faltar á sua palavra, tendo elle dito a Ruy de Nellas -que sua filha e marido nunca lhe pediriam meios de -vida.</p> - -<p>Os raros amigos de Bettancourt, assim que o viram -em Coimbra, repetiram-lhe as calumnias divulgadas, -fingindo não acredital-as. O mais sincero e rude ousou -dizer-lhe:</p> - -<p>—Déste um mau passo em fugir.</p> - -<p>—Não fugi. O amigo, a quem devo a minha subsistencia -em Coimbra, chamou-me, e eu fui.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span></p> - -<p>—Não devias ir, tendo sido desafiado por D. Alexandre.</p> - -<p>—Nunca fui desafiado.</p> - -<p>—Como não foste!?</p> - -<p>—Nunca fui desafiado; e, no caso de o ter sido, regeitaria -a proposta. Não jogo friamente a vida, que é de -minha mulher e de minha filha, contra a vida de D. -Alexandre, que é um homem abjecto, nem contra a vida -do mais extremado em probidade. Nunca para mim alguem -provará a sua honra, batendo-se com victoria, nem -o vencido terei em conta de deshonrado. O duello póde -significar algumas vezes coragem, mas sentença absolutoria -de um infame, nunca.</p> - -<p>—Mas decididamente não fugiste ao duello?</p> - -<p>—Offende-me a renitencia—respondeu Bettancourt -molestado.</p> - -<p>—Desculpa, que é a renitencia de um amigo zeloso -de tua dignidade. A academia acreditou em D. Alexandre -e nos propagadores do boato. Appareceram homens -a dizerem que tinham sido agentes do desafio.</p> - -<p>—Mentiram.</p> - -<p>—Mas a mentira vingou.</p> - -<p>—Estou resignado: já a vi impressa n’um jornal, e -achei-me forte na minha consciencia.</p> - -<p>—Mas a opinião publica...—voltou o academico, -espicaçando, em nome da opinião publica, o animo impenetravel -do marido e pai.</p> - -<p>—Que queres que eu diga á opinião publica?</p> - -<p>—Que a desmintas: escreve uma correspondencia.</p> - -<p>—Não desço.</p> - -<p>—Descer! pois é descer acudires por tua honra!?</p> - -<p>—Se a consciencia me não accusa, que logro eu em -constituir a academia meu juiz? Além de que, meu amigo,<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span> -eu venho estudar. Falta-me o tempo para o util: -como hei de eu ir dispendêl-o a entreter a curiosidade publica? -Diz aos teus amigos que eu sou calumniado, e -elles julguem-me a seu sabor.</p> - -<p>—Faz o que quizeres: dou por cumprida a minha -missão de amigo.</p> - -<p class="tb">Christina vivia tranquilla. Ladislau, que lançara espias -em Miranda, soubera que D. Alexandre sahira para -Coimbra, e o desertor ficára. A nova agradou a Casimiro, -receioso dos sustos da senhora.</p> - -<p>Recomeçou o academico os estudos do segundo anno -com fervor. Sabia que seus mesmos condiscipulos o -detrahiam, lamentando, como usam lamentar inimigos, -a nodoa da farda de um militar. O facto estrondoso do -botequim da rua Larga tinha esquecido, ou era interpretado -de varios modos, todos estupidos; que a malquerença -faz timbre em ser estupida, quando não póde -ser feroz. Todavia, a frechada não lhe vasava ao coração. -O pai extremoso abroquellava-se com a filhinha, e -dizia á esposa:</p> - -<p>—Sêde o meu mundo. Aos teus olhos sou quem sou, -minha amiga. Infamam-me lá fóra; mas diz-me tu, filha, -que eu sou digno de ti.</p> - -<p>N’um sabbado ao cahir da tarde, passaram á Ponte, -vindos da Quinta das Lagrimas, Casimiro, e sua mulher.</p> - -<p>D. Alexandre de Aguilar estava sentado com numerosos -estudantes nas guardas da ponte. Ao perpassar -Casimiro, o fidalgo de Miranda tossiu aquelle grunhido -peculiar do insulto. Os academicos de sua parcialidade, -em respeito á dama, abstiveram-se de acompanhar o -amigo na <i>trossa</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span></p> - -<p>D. Alexandre, desenfreado como costumam os covardes -no momento em que persuadem-se não o serem, -disse:</p> - -<p>—Não se envergonha aquella dama! Que ostentação -e baixeza d’alma.</p> - -<p>Christina ouviu. O que o amor nobre faz d’uma alma -timida! Voltou-se contra o parente, e respondeu:</p> - -<p>—É muito infame!</p> - -<p>—Silencio!—disse Casimiro, apertando-lhe convulsivamente -o braço.</p> - -<p>D. Alexandre expediu uma cascalhada; e os academicos, -indifferentes ao conflicto, disseram-se:</p> - -<p>—Com effeito! é muito covarde o Bettancourt, que -deixa assim insultar a mulher! Comprehendam lá a decantada -historia do botequim!</p> - -<p>Na extremidade da ponte, estava o academico, já conhecido -por seus dialogos com Casimiro. O marido de -Christina aproximou-se d’elle e disse-lhe:</p> - -<p>—Conserva-te aqui um instante ao pé de minha -mulher, que eu volto já.</p> - -<p>—Não!—exclamou Christina.</p> - -<p>—Christina—disse elle com um aspecto, que a esposa -nunca lhe vira.</p> - -<p>E caminhou ao longo da ponte, sem denotar arrebatamento -na serenidade do passo.</p> - -<p>Os academicos do bando de D. Alexandre disseram:</p> - -<p>—É elle que vem!</p> - -<p>O fidalgo desceu-se da guarda como quem se prepara -a receber o aggressor. Não era isso. O mêdo pesa -como chumbo na região abdominal. Foi o gravame do -mêdo que mecanicamente o desceu.</p> - -<p>Casimiro lançou-lhe a mão esquerda á garganta, e -com a direita levou-lhe a cabeça a aresta da guarda.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span></p> - -<p>Depois como o atordoado fidalgo escouceasse os couces -instinctivos da defeza, o aggressor abarcou-o pela -cintura, no proposito de o despejar ao Mondego. Acudiram-lhe -muitos, sem, comtudo, arremetterem contra o -furriel. Casimiro sentiu nas barbas mão estranha. Olhou -com impetuosa furia, e viu Christina, que punha as -mãos supplicantes. Descurvou os dedos da garganta do -estudante, e deu o braço a sua mulher. Pelo ar quieto, -com que elle sahiu ao fim da ponte haviam de imaginar -que o sujeito acabava de abraçar um amigo!</p> - -<p>Grande parte da academia parecia andar envergonhada -depois d’este successo. Os detraidores, chamados por -algum amigo de Bettancourt, a dizerem ácerca do facto, -corriam-se, e gargarejavam o desmentido, que os suppliciava.</p> - -<p>O academico, mais dolorido do descredito de Casimiro, -seguiu-lhe os passos a casa, abraçou-o com transporte, -e exclamou:</p> - -<p>—Tu és um grande homem!</p> - -<p>—Vem vêr minha filhinha como dorme docemente!—respondeu -Casimiro.</p> - -<p>—Que dirão agora os calumniadores?—tornou o academico.</p> - -<p>—Que eu sou um assassino.</p> - -<p>—Um bravo! um modêlo de dignidade.</p> - -<p>—Como quizerem. Vem ver minha filha, se gostas -de creancinhas.</p> - -<p>Foram. A mãi, que, uma hora antes, sentira denodo -viril para aggredir o insultador, estava agora chorando -sobre as faixas da filhinha. Casimiro aconchegou-a de si -e murmurou:</p> - -<p>—Então? que é isso, filha?</p> - -<p>—Tremo pela tua vida, Casimiro!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span></p> - -<p>—Convence-te, Christina: eu não posso ser morto -por D. Alexandre, nem por assassinos de sua paga.</p> - -<p>O fidalgo dos Vitos Alarcões tractou da cabeça na -cama uns quinze dias: parece que o granito lhe entrou -dentro obra de meia pollegada, sendo que em tal cabeça -nunca tinha penetrado cousa alguma outra. Fechada -a brecha, metteram-se as ferias de Natal, e o convalescente -foi para casa.</p> - -<p>Ladislau, sempre attento aos passos do desertor, soube -que chegara a Miranda D. Alexandre de Aguilar, de -cujo infortunio na ponte já estava informado por carta -de Christina, que incessantemente lhe pedia toda a vigilancia -sobre o scelerado.</p> - -<p>D. Sueiro deu logo tento da cicatriz da cabeça fraterna, -e disse:</p> - -<p>—Levaste ou cahiste, mano?</p> - -<p>—Cahi do cavallo.</p> - -<p>—Bom tombo! ias ficando sem um olho! Estás um -limpo cavalleiro, não tem duvida!</p> - -<p>E ficaram n’isto; mas as familias d’outros academicos -de Miranda, de bocca em bocca, fizeram chegar ás -orelhas de D. Sueiro de Aguilar a rija sova, que levara -o irmão.</p> - -<p>O senhor dos Coutos de Fervença e Caçarelhos Estevães -e Villariça disse ao irmão:</p> - -<p>—Como assim?</p> - -<p>—Assim quê?—perguntou D. Alexandre.</p> - -<p>—Corre que essa cicatriz foi bordoada que levaste! -Foi ou não?</p> - -<p>—Foi desordem: dei e levei.</p> - -<p>—E ficaste mal?</p> - -<p>—Fiquei ferido; mas sem deshonra. O adversario era -valente como as armas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span></p> - -<p>—Quem?</p> - -<p>—O marido de tua cunhada.</p> - -<p>—O villão? E vive!...</p> - -<p>—Por em quanto... vive.</p> - -<p>—De que serve aqui o Ayrão?</p> - -<p>Ayrão era a graça do desertor.</p> - -<p>D. Sueiro acrescentou:</p> - -<p>—Leva-o, e mostra-lh’o. Acabemos com isto de uma -vez... Estou a ver quando o tio Ruy de Nellas recebe -o genro em casa. Já lhe baptisou o filho, e, escrevendo -a Guiomar, fallou-lhe de Christina com piedade. O tio -Ruy degenerou. Se viver muito, ha de envergonhar-nos.</p> - -<p class="tb">Foi para Coimbra D. Alexandre.</p> - -<p>Ladislau recebeu a ponto a informação: o desertor ficára. -Avisou-o de Villa-Cova. Christina exultou; mas, -seis dias depois, recebeu novo aviso: o sicario partira -aforrado, e em disfarce. A pontualidade d’estas informações -deviam-se a um jornaleiro de Villa-Cova, o qual, -industriado por Ladislau, fôra a Miranda pedir trabalho -á casa dos Alarcões, e lá ficára servo de lavoura.</p> - -<p>D. Alexandre concertára o plano do homicidio, com -estupido ardil: já se lhe não dava que se lhe imputasse -a morte de Casimiro; e, para desviar suspeitas de braço -estranho, escondia o matador em casa.</p> - -<p>Ayrão entrou de noite, e sumia-se de dia nos quartos -escusos da casa. Os frequentadores dos jantares de D. -Alexandre guardavam delicada reserva ácerca da desgraça -do mez anterior. O amphitrião é quem, uma vez -por outra, dizia:</p> - -<p>—Tenho sêde de sangue!</p> - -<p>Ou, bebendo até cahir, exclamava:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span></p> - -<p>—Á saude do assassino, que ha de vingar a honra -de vinte gerações de fidalgos de solar conhecido!</p> - -<p>Defronte de D. Alexandre morava o estudante de direito -Guilherme Lira.</p> - -<p>Lira foi o mais esforçado e turbulento academico dos -seis annos subsequentes á restauração da liberdade. Presidiu -á famigerada «Sociedade da Manta»<a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5"></a><a href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a>. Era o pau -mais valente do riba-Tejo, e o mais figadal inimigo de -poltrões.</p> - -<p>Do fidalgo de Miranda tinha elle nojo, nojo favoravel -ao covarde; se fosse odio, tel-o-ia desorelhado.</p> - -<p>Observou Guilherme Lira que em casa do visinho -D. Alexandre estava um homem de cara sinistra, o qual -se escondia no escuro da casa assim que nas janellas -fronteiras assomava gente. Lira espreitou, e viu-o, accendendo -o cachimbo no charuto do amo, e gesticulando -com aquelle especial geito das féras humanas, vesadas -ao tracto da taverna, da feira, e da encruzilhada.</p> - -<p>Guilherme sympathisava d’alma com Casimiro Bettancourt. -Depois do facto da ponte, estando elle com o -seu bando de bravos na Calçada, viu Casimiro, que vinha -com sua esposa. Lira sahiu da roda, foi á frente do -furriel, e disse, com os olhos em Christina:</p> - -<p>—Dê-me v. ex.ª licença que eu abrace seu marido.</p> - -<p>E pegou d’elle ao alto soffregamente, exclamando:</p> - -<p>—Que pena que tu sejas casado, homem de figados, -que te queria entregar o macête da minha loja!</p> - -<p>Casimiro sorriu, agradeceu, e apertou-lhe affectuosa e -modestamente a mão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span></p> - -<p>Isto explica a espionagem de Lira, e o aventar de -prompto que o ignobil visinho traçava a morte de Casimiro.</p> - -<p>Foi logo d’alli em procura do estudioso mathematico, -e disse-lhe:</p> - -<p>—Olha que o covarde tem uma besta-féra em casa. -Estuda socegado, que eu te guardarei, porque não estudo, -nem tenho que fazer.</p> - -<p>—Agradeço—disse Casimiro—mas, em verdade te -juro que não temo a besta-féra.</p> - -<p>—Bem sei, rapaz, bem sei; mas o que eu te venho -dizer é que não penses mesmo no modo de a mandar -ao diabo. Isso cá se arranja. Adeus: não te quero roubar -tempo.</p> - -<p>Descubriu Guilherme que D. Alexandre sahia de -noute, e com elle outro academico sobre quem a capa -mal ageitada ia delatando a contrafacção.</p> - -<p>Fez-se Lira encontrado com elles, metteu-lhes a cara, -e reconheceu o assassino, sob o disfarce de estudante.</p> - -<p>A traça do homicidio era desesperada. Como Casimiro -passava as noutes estudando, Ayrão lembrara il-o matar -em casa. O rancor applaudiu o alvitre, e accelerou a -execução. D. Sueiro esporeava de lá os brios do mano -e pasmava da demora.</p> - -<p>Descubriu Lira que os visinhos por volta de dez horas -paravam á sombra do Arco, que faz a extrema da -<i>Couraça dos Apostolos</i>, onde morava Casimiro, e depois -subiam distanceados a calçada, e o mais corpulento, que -era o disfarçado, contra-punha de leve o hombro a uma -porta de quintal, ou remirava a janella alumiada pelo -clarão do candieiro, ao qual Casimiro estudava até duas -horas da manhã.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span></p> - -<p>As portas apalpadas não davam de si; arrombal-as -com estrondo seria derrancar o plano.</p> - -<p>Accudiu nova idéa ao homicida: chamar Casimiro á -janella, e desfechar-lhe um tiro.</p> - -<p>Reflexionou D. Alexandre, e previu que a opinião publica -havia de reprovar o covardissimo feito.</p> - -<p>Regeitou, por tanto a idéa, e reforçou-se na do assalto.</p> - -<p>Casimiro Bettancourt ignorava o que ia cá fora em -sete noutes successivas. Guilherme achou inutil avisal-o. -Queria elle egoistamente para si a cabal satisfação de -castigar os miseraveis, sem incommodo do estudante. -A muito custo se refreára, durante as sete noutes, á -espera de lhes comprehender o intento, e cahir sobre -elles no momento de o praticarem.</p> - -<p>Guilherme Lira desvellava-se e preoccupava-se d’esta -catastrophe, como se vida de pai, irmão, ou amada corressem -perigo!</p> - -<p>Sublime doido! Sympathica loucura!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span></p> - -<h2>XII<br /> -<span class="smaller">Serenidade da innocencia</span></h2> - -<p>Ás dez horas de uma noute de janeiro de 1840, Christina, -convidada pela limpidez da lua, tão brilhante -n’aquellas noutes, se o céu está desannuviado, chegou -á janella, sem correr as vidraças. Do exterior não podia -ser vista, que era completa a escuridade dentro; viu, -porém, Christina, dous homens parados na rua, com as -cabeças muito conchegadas, em agitada e inaudivel conversação. -Teve mêdo, e correu ao gabinete do marido a -chamal-o. Casimiro, pé ante pé, segundo a esposa lhe -recommendava, espreitou, e, sem hesitação, disse:</p> - -<p>—Um é D. Alexandre; o outro não conheço. Vejamos -o que fazem.</p> - -<p>—Vê!—disse Christina—olharam para a janella do -teu quarto.</p> - -<p>—É uma contemplação estupida!—redarguiu Casimiro.</p> - -<p>—Agora esconderam-se debaixo das janellas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span></p> - -<p>—Quererão escalar a casa?!—tornou elle em ar de -mofa.</p> - -<p>—Quem sabe?! Olha... lá deram um encontrão á -porta do quintal!</p> - -<p>—É que são ratoneiros de couves. Que podem elles -querer do quintal senão as tuas couves gallegas?</p> - -<p>—Tu brincas, meu Casimiro!... Olha que isto é -sério!... E não passa patrulha nenhuma!...</p> - -<p>—Calla-te, creança! Se te ouvem, perderemos este -espectaculo gratuito. Deixa vêr no que isto dispara. Lá -vem outro estudante, rente pela parede d’alem! como -elle se embuça!...</p> - -<p>—Parou!—disse Christina agitada.</p> - -<p>—Será da malta?! As couves não chegam para todos.</p> - -<p>—Lá vai para baixo.</p> - -<p>—E os outros seguem-no.</p> - -<p>—Já não seguem.</p> - -<p>—Elles ahi voltam, outra vez para a sombra.</p> - -<p>—Outro empurrão á porta da escada!—murmurou -Christina alvoroçada e tremula.</p> - -<p>—Então o negocio não é de horta! Teremos hospedes -assim mal-criados! Ver-me-hei forçado a recebêl-os -com igual delicadeza!</p> - -<p>A arma unica de Casimiro Bettancourt era uma enferrujada -espada de seu pai. Tirou-a de baixo do leito, -e disse á esposa:</p> - -<p>—Deixa-me a escada livre, e não temas.</p> - -<p>—Á escada não vais: póde vir um tiro!</p> - -<p>—Não vem tiro nenhum: apaga todas as luzes.</p> - -<p>Dous estrondosos encontrões metteram dentro a fragil -porta. Christina soltou um ai, e involuntariamente<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span> -correu ao leito onde a menina chorava acordada pela -rija pancada.</p> - -<p>Casimiro estava no topo da escada, e viu do lado da -rua um homem de batina academica apanhar de hombro -a hombro com um pau as costas, do que elle affirmára -ser D. Alexandre. Os dous aggressores saltaram -ao meio da rua, e Casimiro, ia na colla d’elles, quando -Christina, com a menina nos braços, lhe estorvou o -passo, exclamando:</p> - -<p>—Casimiro, Casimiro! pela tua filhinha te rogo!</p> - -<p>A catastrophe, tão almejada de Guilherme Lira, rematava -assim na rua.</p> - -<p>Ayrão, logo que o amo levou a primeira pancada, -correu de faca sobre Guilherme, e recebeu em cheio -peito uma choupada, e segunda no ventre. Já cambaleava -moribundo, quando recebeu a terceira, e bateu -nas lages com a face morta.</p> - -<p>D. Alexandre ia fugindo, com a maxima velocidade -de sua prudencia, quando uma segunda bordoada o apanhou -pela nuca. Rugiu e afocinhou, forçado por um doloroso -raspar de ferro na orelha direita.</p> - -<p>Guilherme volveu a sondar a respiração do desertor, -e responsou-o ao diabo.</p> - -<p>D’alli correu á escada de Casimiro, e chamou-o.</p> - -<p>—Quem é?—respondeu Casimiro com a espada -apontada.</p> - -<p>—O Lira. Creio que estão ambos mortos; um de -certo. Agora, acautella-te... Já está gente nas janellas. -Posso sahir pela porta de traz? Aqui reconhecem-me.</p> - -<p>—Sahe—disse Casimiro—Vem por aqui... Quem -mataste?</p> - -<p>—Boa pergunta! A besta-féra não se levanta mais; -o outro desconfio que está vivo. Deixal-o viver... Por<span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span> -aqui?... bem... Adeus! Segredo de sepultura, ouviste?</p> - -<p>—A recommendação é indigna de mim.</p> - -<p>Guilherme Lira entrou no Becco das Flores, e sumiu-se -de travessa em travessa, reapparecendo, vestido -á futrica, na Couraça dos Apostolos.</p> - -<p>Quando chegou occupavam a rua centenares de pessoas. -Em redor do cadaver de Ayrão estavam muitos -estudantes de envolta com a policia. Nenhum academico -reconhecia o morto, que trajava batina, bem que -tivesse illeso o rosto. Emquanto a este, esperou-se o dia -para lavrar-se auto.</p> - -<p>D. Alexandre já tinha sido transportado em braços, e -moribundo, segundo diziam os que lhe viram o rosto -ensanguentado, e ouviram o archejar estertoroso do peito -comprimido pelo derramamento das costas.</p> - -<p>A visinhança dizia que vira entrar um homem de batina -e capa nas escadas de Casimiro Bettancourt. A -opinião geral decidiu que fôra Casimiro o assassino, visto -que o sugeito entrado não sahira.</p> - -<p>Christina chorava, e dizia, ouvindo as vozes da rua:</p> - -<p>—Que será de nós? Prendem-te, Casimiro. Fujamos... -vamos para Villa Cova.</p> - -<p>—Socega, filha. Se me prenderem, hão de soltar-me! -Attende-me, Christina: Nunca dirás uma só palavra -com referencia a este acontecimento. Nunca proferirás -o nome de Guilherme Lira. Nunca dirás que eu estou -innocente. Juras-m’o?</p> - -<p>—E tu... perdido, meu infeliz amigo... perdido!—atalhou -ella, archejante de gemidos—desgraçado por -minha causa!</p> - -<p>Casimiro apertou-a ao seio, e disse-lhe:</p> - -<p>—Crês em Deus?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span></p> - -<p>—Se creio em Deus...</p> - -<p>—Crês que a justiça divina me faça padecer innocentemente?...</p> - -<p>—Mas a justiça humana...—interrompeu ella.</p> - -<p>—Mulher de pouca fé!... Se visses a serenidade do -meu espirito, vias em mim a influição de Deus!</p> - -<p class="tb">As authoridades superiores, avisadas do acontecimento -e do author indigitado do crime, mandaram guardar por -soldados as avenidas da casa de Casimiro, para o prenderem -de dia.</p> - -<p>O academico deitou-se á sua hora regular, e obrigou -a alvoroçada esposa a deitar-se com a filhinha inquieta.</p> - -<p>Ás tres horas e meia da manhã rebentou de subito -um ruido estridoroso na rua, depois de alguns repetidos -brados das sentinellas.</p> - -<p>Chegava a «Sociedade da Manta» acaudilhada por -Guilherme Lira, em numero de vinte e tantos bravos, -armados de refes e clavinas.</p> - -<p>Os soldados outros tantos seriam. Á primeira carga -inesperada, a tropa titubeou entre fugir ou defender-se, -e, n’esta perplexidade, soffreu o desaire de ser desarmada -e contundida com as proprias armas.</p> - -<p>Libertas as portas, Guilherme chamou Casimiro, subiu -e disse imperiosamente:</p> - -<p>—Foge!</p> - -<p>—Não fujo.</p> - -<p>—Como não foges?</p> - -<p>—Não: salva-te tu, que eu me livrarei da justiça.</p> - -<p>—Não livras: diz toda a gente que tu mataste o homem. -Alexandre está vivo, e diz que foste tu quem -mataste o seu creado, e lhe tiraste a elle a orelha.</p> - -<p>—Deixaste sem orelha o homem?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span></p> - -<p>—Nada de riso: foges ou não?</p> - -<p>—Já te disse, Guilherme: vai na certeza de que o -teu nome nunca será envolvido na minha justificação.</p> - -<p>Uma vez de fóra disse:</p> - -<p>—Olha que tocam as cornetas na Sophia, ó Lira! -Vem, que não temos partido contra o regimento.</p> - -<p>—Adeus!—concluiu Guilherme—Oxalá que te não -arrependas!</p> - -<p>—Fujamos!—exclamou Christina.</p> - -<p>—Porque me não attendes, filha? disse maviosamente -Casimiro, e desceu a fechar a porta.</p> - -<p>Poucos segundos depois, estava a rua cogulada de -soldados, e muitas vozes diziam que o assassino tinha -fugido com os academicos.</p> - -<p>—O melhor é arrombarem as portas, camaradas!—dizia -um cidadão—Que fazem vossês ahi, se elle fugiu? -É arrombar que não ha outro modo de saber se elle -está.</p> - -<p>—Arrombar!—contrariou um alferes—a Carta Constitucional -prohibe arrombar; mas bate-se a ver se falla -alguem.</p> - -<p>—Ou isso—disse o cidadão prudente.</p> - -<p>O alferes bateu urbanamente. Casimiro abriu de -prompto a janella do seu quarto, e perguntou:</p> - -<p>—Quem é?</p> - -<p>—Ah!—disse o alferes—está em casa?</p> - -<p>—Estou em casa. Não quer mais nada?</p> - -<p>—Não sr. Foi para sabermos... dizia-se que não estava -lá ninguem... Perdoará o incommodo.</p> - -<p>—Boas noutes—respondeu Casimiro. Depois, baixou -a vidraça, e disse a Christina—A rua está vistosa! As -armas refrangem a lua, e dão a lembrar uma illuminura -da idade média! Apaga a luz da saleta, que eu gosto<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span> -de ver este arraial de batalha, que me parece um sonho!</p> - -<p>—Ó Casimiro!—balbuciou ella—como tu pódes rir, -e eu sinto-me aqui morrer!</p> - -<p>—És fraca. Nunca te tinha conhecido esse aleijão! -Parecias-me uma natureza perfeita em amor, em brios, -e em força. A força é que te falta, minha debil filha!</p> - -<p>—Enganas-te, Casimiro!—replicou ella—É que eu -era tão feliz!...</p> - -<p>—E ámanhã que impede que o sejas?</p> - -<p>—Ámanhã... estarás preso!....</p> - -<p>—E então? A luz do teu amor teme de romper as -grades da cadeia?! A nossa filhinha hesita entrar lá -comtigo? Não vai commigo a imperturbavel consolação -da consciencia?</p> - -<p>—Mas eu tambem vou...</p> - -<p>—Pois irás, filha. Quem te veda de estar com teu -marido preso?!</p> - -<p>Conversaram n’este sentido longo tempo; e já a final, -Christina estava conformada com a ideia da prisão, e -logo cuidou em enfardelar os fatinhos da filhinha, emquanto -o marido escrevia a seguinte carta:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>«Meu caro compadre.</p> - -<p>«D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o -seu creado está morto. Este acontecimento deu-se á -porta da minha caza, ha cinco horas. O povo, a academia, -e as authoridades indigitam-me como author -do successo. Esperam que nasça o sol para me prenderem.</p> - -<p>«Escrevo-lhe agora, 4 horas da manhã, receando que -os interrogatorios me tirem o tempo no correr do dia.</p> - -<p>«Minha mulher tem estado attribulada, mas, como -appelei do seu coração para a sua coragem, vejo-a reanimado<span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span> -e esperançosa da minha absolvição em despeito -do povo, da academia e das authoridades.</p> - -<p>«Peço aos meus amigos que não se afflijam, e me -creiam forte bastante para luctar com o mal do mundo. -Refugio-me na vossa estima, e sou o vosso irmão agradecido, -<i>C. Bettancourt</i>.»</p> - -</div> - -<p>Ao apontar o sol, a authoridade administrativa, auxiliada -pela militar, bateu á porta de Casimiro, e esperou -instantes. O proprio academico desceu a abrir, e offereceu -ceremoniosamente a sua casa.</p> - -<p>—Está o sr. preso—disse o administrador.</p> - -<p>—Já o sabia—respondeu Casimiro.</p> - -<p>—Bem. V. s.ª acompanha-me. Irá comnosco o sr. alferes -da companhia.</p> - -<p>—Como queiram: vou só, vou com v. sr.ᵃˢ, vou com -a escolta: para mim é de todo o ponto indifferente.</p> - -<p>—Dispenso a força, sr. alferes, disse o administrador: -póde v. s.ª mandal-a recolher com o sargento; o sr. alferes -tem de ficar para solemnisar a prisão d’este academico -que é furriel.</p> - -<p>—Se querem subir...—disse o preso.</p> - -<p>—Não, senhor: vá, e volte, que nós esperamos.</p> - -<p>O administrador, em quanto Casimiro subiu a dar as -ultimas palavras de conforto a sua mulher, disse ao -commandante da força:</p> - -<p>—Este homem ou está innocente, ou excede tudo -que eu tenho visto em coragem!</p> - -<p>—Será cynismo? replicou o militar.</p> - -<p>—É cynismo, não pode deixar de ser cynismo—optou -o cidadão que propozera o arrombamento das portas.</p> - -<p>No entanto, Casimiro dizia a Christina, depois de -beijar Mafalda:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span></p> - -<p>—Eu escrevo-te de casa do administrador, dizendo-te -o meu destino; naturalmente irei de lá para a cadeia; -e tu, como boa gerente da casa—continuou elle jovialmente—irás -lá ter, depois de ter dado as ordens para -o jantar. Olha que a instauração de um processo por -crime de morte não obriga a jejum, minha filha. Lembra-te -que as consciencias puras concorrem muito para -o bom appetite, e são optimas auxiliares do estomago. -E adeus, até logo.</p> - -<p>Christina ajoelhou com a filha nos braços, e orou. E, -orando, ouvia dizer fóra:</p> - -<p>—Mas como elle vai direito e senhor seu!</p> - -<p>—Elle se entortará quando lhe pezarem nas costas -os caibros da Portagem!</p> - -<p>—Terá pena ultima?—perguntava uma rapariga de -má vida, e acrescentava: coitadinho! é tão novo, e de -mais a mais casado, e tem uma filhinha!...</p> - -<p>—Deixal-o ter!—atalhava uma velha, que vinha da -missa d’alva, e ia ouvir a segunda, para depois ir ouvir -a terceira—Deixal-o ter! Quem mata, morra! As forcas -não se inventaram para os que morrem, é para os que -matam.</p> - -<p>O axioma foi applaudido pelo cidadão prudente, e -outros sujeitos honestos, cuja garganta zombára muitas -vezes da corda de esparto do Livro V das Ordenações.</p> - -<p>E Christina callava a oração para escutar, e orava -para não ouvir.</p> - -<p>Perguntou a authoridade a Casimiro Bettancourt o -nome, a naturalidade, os annos, o estado, a profissão, -etc. E proseguiu:</p> - -<p>—A voz publica e as apparencias dão-no ao senhor -como homicida de um homem ainda desconhecido, e -tambem o incriminam de espancador de D. Alexandre<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span> -de Aguilar, cuja vida está ainda duvidosa. O sr. Bettancourt -é réu d’estes crimes?</p> - -<p>Casimiro não respondeu.</p> - -<p>—Ouviu a pergunta que lhe fiz?—tornou a authoridade -suspeitando a surdez do preso.</p> - -<p>—Ouvi, sim, senhor.</p> - -<p>—Que responde?</p> - -<p>—Nada.</p> - -<p>—Nada?! é boa essa!... Matou ou não matou?</p> - -<p>—Se ha provas de que fui eu, porque m’as pedem? -Se as não ha, porque me prendem?</p> - -<p>—A lei manda interrogar os réus.</p> - -<p>—Póde ser; mas não obriga os réus a responder.</p> - -<p>—O silencio é uma confissão—redarguiu o administrador.</p> - -<p>—É o anexim «quem calla consente» arvorado em -axioma juridico. Boa hermeneutica!</p> - -<p>—Modere as suas ironias, que a occasião é inopportuna, -sr. Bettancourt. D. Alexandre de Aguilar Vito de -Alarcão Parma d’Eça diz que fôra atacado pelo sr. Casimiro, -quando passava á sua porta.</p> - -<p>—Se o diz, elle o provará.</p> - -<p>—A visinhança depõe que v. s.ª entrára em sua casa -depois de ter deixado morto um homem e o outro cahido.</p> - -<p>—Já sei: ouvi o parecer de meus visinhos antes de -v. s.ª os interrogar.</p> - -<p>—E que diz a isto senhor?</p> - -<p>—Nada.</p> - -<p>—Diz que está innocente?</p> - -<p>—Já tive a honra de dizer a v. s.ª que não digo -nada. As provas responderão por mim, e a lei me julgará.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span></p> - -<p>—Está claro. Vai v. s.ª recolher-se á cadeia, e esperar -lá a nota da culpa.</p> - -<p>—Posso ser visitado por minha mulher e minha -filha?</p> - -<p>—Sim, senhor, em quanto a policia julgar isso indifferente -ao processo.</p> - -<p>—E quando póde impecer ao processo que eu veja -minha familia?</p> - -<p>—Ha casos...</p> - -<p>—Bom. Recebo as suas ordens.</p> - -<p>—Vai acompanhal-o um official do juizo. O sr. Bettancourt -inspira-me confiança, e por isso o allivio do vexame -de ir com soldados.</p> - -<p>—Agradeço a confiança; mas os soldados não me -vexam: cumpra v. s.ª o seu dever de authoridade.</p> - -<p>—Vá, e pense sériamente na sua situação, que é -grave, sr. Bettancourt. Póde ser que o senhor esteja -innocente; mas as suas desavenças anteriores com -D. Alexandre condemnam-no. Póde ser que v. s.ª matasse -em justa defeza: se assim foi, convém attenuar a -culpa com essa circumstancia. Esse seu systema de -responder com o silencio, sobre ser excentrico, é confirmativo -da imputação. Dou-lhe este conselho, movido -pela sympathia que me causa a sua abnegação e como -despreso da vida. Sei que tem familia, e avalio as angustias -de sua consorte; por isso lhe peço que se abstenha -d’esse stoicismo inutil, e—peior ainda—prejudicial. -Se póde, decline de si a responsabilidade de um homicidio, -que é sempre e em todos os casos deshonra. Se -matou, negue, negue sempre!—acrescentou o administrador, -collando-lhe no ouvido os labios.</p> - -<p>Casimiro agradeceu o conselho com um sorriso, e sahiu -á direita do official de justiça.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span></p> - -<p>Á porta da authoridade, quando Casimiro sahiu, -agglomerava-se um cento de pessoas, gentio baixo, regateiras -da praça de Sansão, serventes, gaiatos, e alguns -cidadãos honestos, nomeadamente o oraculo da Couraça -dos Apostolos. A custo rompeu o aguazil a multidão, -que se premia em redor de Casimiro, e lhe roçava as -faces com o halito acre da aguardente.</p> - -<p>—Chamo soldados!—bradou o official de justiça.</p> - -<p>—Não é preciso—disse um academico, que estanceava -mais distante n’um grupo de estudantes.</p> - -<p>E, tirando a carreteira das mãos de um lavrador, -cresceu sobre a multidão, e apanhou quatro cabeças da -primeira paulada. A rua, momentos depois, estava deserta, -como se passasse n’ella a ira do Senhor.</p> - -<p>—Foge que é o Lira!—diziam muitas vozes, convulsas -de terror, menos o cidadão da Couraça dos Apostolos, -que levou a sua cabeça ao visinho boticario.</p> - -<p>Era, com effeito, Guilherme Lira, cujo sangue refervia -em phrenesi, e sêde de beber o sangue da humanidade. -Infurecia-o o remorso de ter deixado vivo D. Alexandre! -Saber elle que o vil declarava ter sido assaltado -por Casimiro, espicaçou-lhe o odio e a ancia de ir estrangulal-o -em casa. Depois, via Casimiro preso, sabia -já as suas respostas á authoridade, pungia-o o arrependimento -de o perder, quando cuidava salval-o de inimigos -infames, e não poder salval-o, sem se declarar elle -mesmo o aggressor!</p> - -<p>O governador civil, o reitor, as authoridades subalternas, -receiosas de sublevação academica, instigada por -Guilherme Lira, preveniram a tropa, e assignaram ordens -de prisão dos mais celebres desordeiros, no caso de -motim.</p> - -<p>A este tempo estava na cadeia Casimiro Bettancourt,<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span> -contrastando, com sua quietação, o reboliço que fremia -cá fóra. Christina seguira-lhe os passos, e entrara apoz -elle. Mafalda ia muito risonha e fagueira. Não fallava, -mas gesticulava as suas caricias, e pendurava-se do collo -do pai, beijando-lhe os olhos.</p> - -<p>E Christina observava em redor de si a nudez, a sombra, -a immundicie da salêta. Queria chorar; mas pejava-se -do esposo, e retinha-se para o não affligir.</p> - -<p>—Voltas a casa, minha filha?—disse Casimiro—Olha -que são dez horas, e nós costumamos almoçar ás nove. -Basta de sacrificio á justiça humana, Christina! Uma -hora é de mais!</p> - -<p>—Tu não estás muito triste, pois não, meu Casimiro?—exclamou -ella, cingindo-lhe o pescoço, com quanto -carinho podem exprimir as angustias supremas.</p> - -<p>—Se estou triste!... Quando me viste mais risonho, -Christina!... Alegre, minha esposa, alegre como esta -creança que te sorri! A minha consciencia está serena -como a d’esta menina; por isso nos vês tão contentes -ambos!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p> - -<h2>XIII<br /> -<span class="smaller">O Réu</span></h2> - -<p>A carta, recebida em Villa Cova, foi a primeira grande -angustia que alanceou o coração de Ladislau.</p> - -<p>Correu á igreja, e d’ali a uma aldeia da serra, onde -estava o vigario sacramentando um enfermo. Leram a -carta, e ambos inferiram que o matador era Casimiro; -justa inferencia dos termos d’ella.</p> - -<p>—Matar!—disse o vigario consternado.—Matar!... -Eu não cuidava isto de Casimiro! Nem ao menos diz -que matou defendendo sua vida, a vida de sua mulher, -e de sua filha!... Repara tu na serenidade com que -elle diz: <i>D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, -e o seu creado está morto. Este acontecimento deu-se -á porta de minha casa ha cinco horas. O povo, as -authoridades, e a academia, indigitam-me como author -do successo...</i> Se não fosse elle o author, diria: <i>indigitam-me -falsamente!</i>... E mais abaixo: <i>Minha mulher -tem estado attribulada, mas como appelei do seu -coração para a sua coragem, vejo-a reanimada e esperançosa<span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span> -de minha absolvição em despeito do povo, da -academia e das authoridades!</i>... De que elle fia a sua -absolvição, se as provas o condemnam a tal ponto que -tudo lhe é contra!... Ó meu Deus, meu Deus! que -conta havemos de dar á nossa consciencia de termos -trabalhado para o casamento de Christina com este malfadado!</p> - -<p>Ladislau ouviu a mais larga exclamação do attribulado -sacerdote, e disse com pausa:</p> - -<p>—Eu estou em crêr que Casimiro não matou.</p> - -<p>—Ó homem, tu não intendes esta carta?</p> - -<p>—Penso que intendi. Onde diz elle que matou?</p> - -<p>—E onde diz elle que não matou?—retorquiu o padre.</p> - -<p>—É verdade: não confessa nem nega. Diz que o -apontam como matador. Isto é differente. Eu leio no -Evangelho que Jesus Christo, quando o arguiam...</p> - -<p>—Calla-te meu irmão! esses confrontos são sacrilegos!—atalhou -o sacerdote, inflammado em zelo santo.</p> - -<p>—A minha intenção era boa, Deus o sabe. Seja o -que fôr, eu creio que o meu compadre está innocente. -Um homem, que mata, não escreve assim com este socego. -Aqui ha mysterio, e continuará a havel-o. As cartas -demoram-se; e, quer demorem quer não, amanhã -vou para Coimbra e Peregrina vai comigo. Desgraçada -Christina!... E que terá elle penado? que fará sósinha -a pobre menina com sua filha?...</p> - -<p>—Vai a Coimbra, Ladislau, vai!—disse o vigario—Se -é criminoso, amparemol-o; se não é, ajudemol-o a -vencer as iniquidades do mundo, querendo Deus que -nós sejamos instrumentos de sua divina justiça. Eu tambem -iria, se podesse: escrever-lhe-hei as consolações da -religião.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span></p> - -<p>No dia proximo sahiram de Villa Cova Ladislau, Peregrina, -e o menino, a grandes jornadas para Coimbra. -O lavrador levava todo o seu peculio, o ouro de sua -mulher, e alfaias de antiga prata, que havia em casa. -Apearam na estalagem, e foram d’alli á cadeia. Encontraram -Casimiro sentado á meza de jantar com a filha -no collo, e Christina a um canto da salleta aquecendo -café n’um fogareiro.</p> - -<p>—Não t’o disse eu?!—exclamou Christina, quando -o chaveiro abriu a porta, e deu entrada aos visitantes—Não -veio carta, vieram elles!</p> - -<p>As duas senhoras abraçadas fallavam em soluços. -Ladislau rompeu tambem em pranto desfeito. Casimiro, -porém, sereno e com os braços abertos, dizia:</p> - -<p>—O compadre tambem é dama?! Não rivalisemos -com as nossas mulheres no seu privilegio de chorar!... -Conversemos como homens.</p> - -<p>—Está innocente, meu amigo?—perguntou de sobresalto -Ladislau.</p> - -<p>—Que pressa!...—respondeu em ar de graça o prezo—Parece -que o meu compadre sahiu de casa com -essa pergunta á flor dos beiços. Ora, diga-me: se eu lhe -responder que matei o desertor, e feri de morte o fidalgo, -o meu amigo retira-me a sua mão pura e generosa?</p> - -<p>—Não. Casimiro só mataria um homem defendendo-se. -Foi em defesa que o matou?</p> - -<p>—Vou responder-lhe; porém, requeiro á sua nobre -alma um juramento antes de me ouvir. Não lhe digo -que me jure por seu pai, pela vida de sua esposa ou -filho: jure por sua honra.</p> - -<p>—Jurei.</p> - -<p>—Agora saiba que eu não matei, nem mandei matar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span></p> - -<p>—Oh meu amigo!—clamou com agitada vehemencia -Ladislau.</p> - -<p>—Não falle mais alto que eu, meu compadre, que -póde ser ouvido. Não matei nem mandei matar, nem -folguei com a morte do assassino trazido para mim, nem -com os ferimentos de D. Alexandre. Houve um homem -que me quiz salvar dos dous inimigos, que me esperavam, -e matou-os, no momento em que me arrombavam -as portas. O nome d’este homem irá commigo e com -minha mulher á sepultura: nunca m’o pergunte. A sociedade -proclama-me assassino: embora. Deus me defenderá -e salvará. Aos interrogatorios nada respondo que -me absolva ou condemne. Veremos se o jury me vê -provado assassino. Agora, meu amigo, tem o sr. a sua -honra de sentinella á sua lingua. Tomemos café. São só -duas as chavenas; mas tambem ha dous pires: as chavenas -para os hospedes; os pires para nós, Christina. -Arranja lá isso.</p> - -<p>Ladislau fitava nos olhos Casimiro, e murmurava:</p> - -<p>—Que homem! que desgraçado tão digno d’outra -sorte!</p> - -<p>—Veja lá o que são as cousas! eu cuidei que meu -compadre me estava invejando esta paz de coração!—disse -Casimiro.</p> - -<p>Horas depois, sahiram duas senhoras a transferir a -bagagem da estalagem para a casa da Couraça dos -Apostolos. Concordaram em viver juntas, nas horas em -que era vedado o ingresso no carcere.</p> - -<p>O processo proseguiu seus termos, com desvantagem -de Casimiro, sem embargo de ser vigiado pelo primeiro -advogado de Coimbra, que alcançára procuração do -réu, depois de muitas instancias suas e de Guilherme -Lira.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span></p> - -<p>D. Sueiro de Aguilar tinha descido a Coimbra, com -comitiva de dois lacaios, e dinheiro grosso para, consoante -a sua phrase, <i>erguer, sendo preciso, uma forca -de ouro, onde perneasse o assassino de seu irmão</i>.</p> - -<p>D. Alexandre erguera-se ao cabo de vinte dias, e composera -as melênas de modo, que o logar da extincta -orelha ficasse coberto de lustrosas espiraes. A orelha -cancerára e cahira, deixando um orificio hediondo e pustuloso. -Guilherme Lira, quando acertava de o encontrar, -dizia-lhe sempre:</p> - -<p>—Cuidado com a outra.</p> - -<p>—A outra quê?—animou-se a perguntar D. Alexandre.</p> - -<p>—A outra orelha, patife!</p> - -<p>O epitheto gelou de neve as cavernas d’aquelle vil -peito que esvasiava o pus pelo esqualor do ouvido.</p> - -<p>D. Sueiro accelerava o processo, e descia de sua prosapia -regirando do advogado para o escrivão, do procurador -para o delegado, do juiz para os influentes do -jury.</p> - -<p>N’uma d’essas suadas correrias, passando ao escurecer -no bêco de D. Sisenando, encontrou um academico, -que lhe cingiu ao pescoço umas mãos, que pareciam -golilhas de ferro, e lhe jogou a catapulta da cabeça, -tres vezes, contra a hombreira do floreado granito da -porta do palacio, onde morreu apunhalada a irmã da -rainha D. Leonor Telles. Depois, largando-o atordoado, -disse:</p> - -<p>—Primeira admoestação!</p> - -<p>E andou.</p> - -<p>D. Sueiro, ao outro dia, escreveu a todos os governadores -possiveis de Coimbra. A policia fingiu que se -mechia, e D. Sueiro não sahiu da cama.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span></p> - -<p>O leitor já sabe que só Guilherme Lira podia tentar -a destruição da melhor pedra monumental de Coimbra -com a cabeça de D. Sueiro de Aguilar Vito etc.</p> - -<p>Um homem sisudo da policia disse ao rico-homem de -Miranda:</p> - -<p>—O meu parecer é que v. ex.ª vá para sua casa. A -meu vêr, o fidalgo traz á perna a <i>sociedade da Manta</i>. -Dê louvores a Deus em o não terem matado como fizeram -a um lente, ha dous mezes: e perdoará o atrevimento -do seu servo em o aconselhar. Em quanto a mim -quem quebrou a cabeça de v. ex.ª foi o Guilherme Lira! -Mas vão lá prendêl-o, e, de mais a mais, sem provas! -Bem aviado estava eu! Elle bate-se com um regimento, -e é capaz e mais os seus trinta companheiros, -de arrasar Coimbra.</p> - -<p>—Então isto aqui é um sertão de selvagens!—bradou -D. Soeiro—As leis...</p> - -<p>—As leis estudam-se aqui—disse o cadimo aguazil—e -o Guilherme Lira sabe-as bem, que é quintanista de -direito; mas o malvado despreza as leis de papel, e tem -lá umas de pau para seu uso, não digo bem: para uso d’aquelles -que as levam impressas nas costas. Em fim...</p> - -<p>O homem da justiça encolheu os hombros, e despediu-se.</p> - -<p>No dia seguinte, D. Sueiro foi para Miranda, e levava -ainda uns parches de alvaiade na testa, e uns pontos -nos tegumentos sobrejacentes aos ossos parietaes.</p> - -<p>D. Alexandre ficou; porém, assim que o sol inclinava -ao poente, recolhia-se. Guilherme Lira entrava em casa -todas as noutes, e espreitava-o da janella. Cada noute, -ao vêr-lhe a luz no quarto, arrepellava-se. Dizia com picaresco -chiste o feroz academico a Casimiro: «a vida<span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span> -d’aquelle homem peza-me como um burro sobre o -peito!»</p> - -<p>E Bettancourt pedia-lhe encarecidamente que o deixasse, -por ser um estorvo nullo á sua liberdade.</p> - -<p>Ruy de Nellas, conscio do successo, mandou chamar -o vigario de S. Julião da Serra, e informou-se. Padre -João Ferreira relatou de cór o contheudo da primeira -carta de Casimiro, e mostrou duas linhas de outra de -Ladislau, que dizia: <i>Casimiro está innocente. Casimiro -é victima da sua honra. Nada mais te digo, porque só -isto me é permittido dizer, e a ti só, meu irmão.</i></p> - -<p>—E tu crês na innocencia de Casimiro?</p> - -<p>—Creio, meu padrinho, como creio que vivo.</p> - -<p>—E elle deixa-se ir á revelia?</p> - -<p>—Não posso, nem sei responder a v. ex.ª</p> - -<p>—É preciso que eu o proteja. É preciso, que elle é -marido de minha filha! Os de Miranda não hão de levar -a melhor.</p> - -<p>—Que quer v. ex.ª que se faça?</p> - -<p>—Que vás a Coimbra, e leves dinheiro para elle, e -para a justiça.</p> - -<p>—É desnecessario dinheiro. Meu cunhado foi prevenido.</p> - -<p>—Deixal-o ir. O dinheiro que eu mando, é meu; -quero que minha filha o receba! Eu vou mandar o meu -capellão substituir-te na igreja, e tu partes já para Coimbra.</p> - -<p>—Recebo as ordens de v. ex.ª</p> - -<p>—Vamos ver quem vence!—continuou o fidalgo, apertando -os alveolos, onde os dentes ausentes não podiam -rangir.—Os de Miranda, tem muita prôa?... Deixa -que eu vou abater-lh’a!... Vai, João, que lá irão umas -cartas. Se Casimiro ficar condemnado, tu ou teu cunhado<span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span> -vão para Lisboa, e entreguem as cartas onde eu -mandar. Lá está minha irmã, a condessa de Asinhoso. -Ha vinte e tres annos que não lhe escrevo: mas sei que -ella está morta por fazer as pazes commigo.</p> - -<p>—Bom seria que estivessem feitas—disse respeitosamente -o padre.</p> - -<p>—É verdade; mas que queres? orgulho de parte a -parte... E sabes tu porque eu despresei minha irmã?</p> - -<p>—Nunca v. ex.ª me deu a honra de m’o revelar.</p> - -<p>—Pois eu t’o direi quando voltares. Foi um caso de -honra, que os de Miranda não costumam castigar. Lá -tem em casa uma irmã do pai, que fugiu do mosteiro -de Lorvão, e deu escandalo. Lá a tem... e não põem -crepe nas pedras d’armas... E vinha cá D. Sueiro vituperar-me -porque eu não mandava matar Casimiro!... -Olha quem!... Se eu tivesse tantos santos a pedir por -mim, como de vezes me tenho arrependido de lhe dar a -minha morgada!... Forte brutalidade!... Cegaram-me -as vaidades de reatar as duas casas dos mais antigos -ricos-homens da Beira e Traz-os-Montes!... Emfim... -o que eu não consinto é que da casa de Miranda vão -matadores professos assassinar o marido de minha filha... -São horas... Aqui tens um conto de réis em ouro. -Parte, João; e escreve a dizer o que se passar. Dá muitos -beijos a minha afilhada, e diz a minha filha... que -lhe perdôo!</p> - -<p>O vigario ajoelhou diante de Ruy de Nellas, e clamou:</p> - -<p>—Deixe correr as minhas lagrimas de alegria sobre -as suas mãos, meu nobre, meu virtuoso padrinho!</p> - -<p>—Não fiques agora ahi a chorar, homem!—Disse o -velho, erguendo-o.—Aqui estou eu tambem...—proseguiu, -enxugando os olhos.—Vai, que são horas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span></p> - -<p>A apparição do vigario na saleta da cadeia foi saudada -com um brado de alegria. Cercaram-n’o todos, e -beijaram-n’o todos.</p> - -<p>—Eu só dou beijos em creanças,—disse elle em tremores -de exultação.—Sr.ª D. Christina deixe-me dar á -sua filha os beijos do avô.</p> - -<p>—Fallou com o meu papá!—exclamou ella.—Está -muito zangado contra o meu pobre Casimiro?</p> - -<p>—Isso está, minha senhora! zangadissimo, feroz!</p> - -<p>—Cuida que foi elle quem...—E reteve-se, relanceando -os olhos ao marido, que a observava.</p> - -<p>—Não sei o que elle cuida...—volveu o padre. A -ira do fidalgo subiu ao ponto culminante d’elle mandar -ao sr. Casimiro um conto de réis para o custeio das -suas despezas judiciarias. É onde póde chegar a ferocidade -humana!</p> - -<p>—O sr. Ruy perdoou-me?—perguntou Casimiro mais -recolhido que expansivo.</p> - -<p>—Se isto não é perdoar... A mim não me encarregou -de lhe notificar o perdão; mas á sr.ª D. Christina -manda dizer que está perdoada. Aqui teem o dinheiro, -que é ouro, e rasga-me a algibeira da sotaina.</p> - -<p>Christina fez um gesto, significando ao padre que entregasse -o dinheiro ao marido; Casimiro fez outro gesto, -indicando Ladislau.</p> - -<p>—Então que resolvem?—disse o padre.</p> - -<p>—Resolve minha mulher,—disse Casimiro—que esse -dinheiro passe ao poder do nosso mordomo, o sr. Ladislau -Tiberio Militão de Villa Cova, em cujo cargo hemos -por bem nomeal-o para lhe fazermos honra. Assim deve -formular as suas nomeações quem tem, como eu, guarda -de official á porta.</p> - -<p>Ladislau, sorrindo, respondeu:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span></p> - -<p>—A não servir de mais, deixem-me ser mordomo. Eu -guardo o dinheiro, e darei contas.</p> - -<p>Relatou o padre a sua chamada a Pinhel, e o sentir -do fidalgo, com a promessa das cartas para Lisboa, caso -o exito do processo fosse funesto em primeira instancia. -Acrescentou que Ruy de Nellas tinha muita confiança -no valimento de sua irmã, na capital, a sr.ª condessa de -Asinhoso.</p> - -<p>—É a primeira vez que ouço fallar n’essa irmã do sr. -Ruy!—disse Casimiro.—Nunca me fallaste em tua tia, -Christina.</p> - -<p>—Porque a tinha esquecido—respondeu a senhora.—Eu -e minhas irmãs mais novas ainda ha poucos annos -soubemos que tinhamos em Lisboa uma tia. Ignoro -as desintelligencias que se deram entre ella e o papá, -muito antes de eu nascer. O certo é que em nossa casa -nunca se fallou em tal tia, e diante do papá seria perigoso -fallar. Muito me espanta agora que elle queira escrever-lhe! -Vejo que meu pai está mudado!</p> - -<p>—Sabe que desavença de familia foi essa, padre -João?—perguntou Bettancourt.</p> - -<p>—Não, senhor. Ninguem o sabe em Pinhel. Apenas -sei que em Lisboa viveu desde menina a irmã do sr. -Ruy de Nellas, em companhia de um grande fidalgo seu -tio, e mais os dous irmãos filhos segundos. Tambem sei -que estes irmãos lá morreram, e que a sr.ª casou com o -conde de Asinhoso. É o que eu sei d’um clerigo velho -de Pinhel, que a viu em menina, e me disse ser ella -vinte annos mais nova que o morgado. Deve hoje ter, -portanto, a sr.ª condessa quarenta e seis.</p> - -<p>Sobre este incidente exhauriu-se aqui a pratica, em -que Bettancourt, de condição scismadora em cousas -mysteriosas, mostrava estar muito entretido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span></p> - -<p>O patrono de Casimiro, sabendo que o sogro do seu -cliente o protegia em Lisboa, e quasi seguro da condemnação -do réu no tribunal conimbricense, inredou o -processo de modo que, no caso de se provar o crime em -jury, houvesse direito a pedir um recurso por nullidades, -sem ser ouvido o tribunal da segunda instancia. A -lei organisadora dos processos em Portugal, paiz de mais -leis que tem o universo é uma corda bamba que se -presta a saltos maravilhosos sob o pé d’um habil volatim. -«Vai o processo para Lisboa, dizia o jurisconsulto, -e lá, se o braço fôr forte, os autos vem arremessados á -cara do juiz, e o juiz dá alvará de soltura ao preso.»</p> - -<p>Este salvador intento do causidico foi revelado a Casimiro, -com grande alegria, pelo vigario. E o preso respondeu:</p> - -<p>—Não quero! diga-lhe que não quero! Ha-de ser a -lei, sem coacção, sem torcedura, sem vexame de poderosos, -que me destrancará aquellas portas. Mas que digam -ser dolorosa a experiencia: não importa. Quero experimentar -até que ponto um réu innocente póde ser -torturado. Hei de ir de condemnação em condemnação, -até poder dizer: «Acuda-me a justiça divina, que a dos -homens é infame!»</p> - -<p>—Mas—atalhou o padre—se as provas são taes que -a lei tem de forçosamente o reconhecer criminoso?</p> - -<p>—Não são tal! As provas permittem que as destrua -o ardil d’um habil jurisconsulto. É isto certo?</p> - -<p>—É.</p> - -<p>—Pois bem: eu quero que a lei as anniquile, e não -a trapaça: que este acto se cumpra á luz do sol, á luz -de todas as consciencias, que me condemnam. Que faz -que as influencias poderosas me libertem, se o mundo -ha de dizer: «salvaram-no as influencias! o ferrete de<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span> -homicida lá o tem na testa!» Não quero, sr. padre -João! Agradeça ao compadecido patrono: mas avise-o -de que eu serei no tribunal o interprete mais severo da -lei contra mim.</p> - -<p>O advogado, quando tal ouviu, pasmou e disse:</p> - -<p>—É um doudo maior da marca, este homem! Creia -que irá da cadeia para a enfermaria dos alienados!</p> - -<p>E proseguiu:</p> - -<p>—É vergonha fazer-lhe eu uma pergunta, sr. padre -João: Casimiro Bettancourt, matou um homem e espancou -o outro?</p> - -<p>O padre não respondeu. E o advogado repetiu:</p> - -<p>—Matou ou não?... Pois o senhor cala-se a esta -pergunta?</p> - -<p>—Calo, sim, sr. doutor. Não posso responder.</p> - -<p>—Está claro! Outro doudo!... Que esquisita familia -é esta! Já fiz a mesma pergunta á mulher do preso: -silencio! Interroguei Ladislau Tiberio: silencio... O -sr. padre João Ferreira...</p> - -<p>—Silencio!—atalhou o vigario.</p> - -<p>—Nem a mim, que sou seu advogado—tornou com -azedume o doutor—ha uma pessoa que me diga matou -ou não!...</p> - -<p>—Ha—disse um academico que entrava.</p> - -<p>—És tu?—perguntou o advogado a Guilherme Lira.</p> - -<p>—Sou eu. Casimiro Bettancourt não matou. Tu vaes -advogar a causa do homem mais honrado e innocente -do mundo!</p> - -<p>—Posso dar-te como testemunha, Lira?</p> - -<p>—Da sua honra e innocencia? podes; mas não me -cites, que eu... ouve-me... eu hei de tirar Casimiro -da forca.</p> - -<p>—Santo Deus!—exclamou o vigario, lavado de subito<span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span> -suor.—Da forca! Pois é caso de sentença ultima?</p> - -<p>—Se a sentença ultima é inapplicavel n’este caso,—disse -o advogado—não sei onde está no codigo penal o -crime condigno! Mas não se falla aqui em forca... -pensemos...</p> - -<p>—Não pensemos...—interrompeu Lira—Deixa correr -o tempo que pensa por nós.</p> - -<p>Padre João foi contar a Casimiro o que ouvira em -casa do lettrado, citando o nome de Lira.</p> - -<p>O academico recolheu-se, voltou a face, e o sentido -apparentemente, sobre outro assumpto, e disse em sua -mente:</p> - -<p>—Que intenta fazer aquelle desgraçado?</p> - -<p>Pergunta que o leitor se digna fazer-me e espera a -resposta.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span></p> - -<h2>XIV<br /> -<span class="smaller">Episodio</span></h2> - -<p>O padre João Ferreira escrevia miudamente ao fidalgo -de Pinhel, e o mesmo Christina, bem que Ruy de Nellas -tão sómente respondesse ao padre, accusando a recepção -das cartas da filha, com a incumbencia de dizer -a Christina que lhe eram agradaveis as suas lettras. De -Casimiro Bettancourt só dizia o necessario, attinente ao -processo.</p> - -<p>Entre o velho e D. Sueiro corria declarada inimisade. -Já o de Miranda sabia que o seu sogro protegia Casimiro. -Escrevera-lhe altivo reprovando amargamente a -incongruencia do seu proceder. O de Pinhel respondeu -que o marido de Christina padecia innocente, e D. Alexandre -mentia imputando-lhe a morte do faccinoroso, -de que elle villãmente se acompanhava. Replicou raivoso -D. Sueiro, doestando o sogro, e ejaculando phrases -de lacaio a proposito do lustre de sua raça, sujada por -um parente, <i>posto que remoto garfo de seu tronco</i>. As -palavras sublinhadas affrontaram gravemente Ruy de<span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span> -Nellas! Este repto, quinhentos annos antes, daria de si -guerra a ferro e fogo, entre os dous ricos-homens. Mas -agora, n’este tempo de calmaria podre, em que as injurias -se castigam na policia correccional com multa de -dez tostões e custas do processo, Ruy de Nellas rebateu -a provocação com outras não menos pungentes que certeiras -injurias. E foi grão-caso perguntar-lhe o velho se -a Madre Nazareth, fugida do mosteiro de Lorvão, em -1810, e agarrada por ordem regia nas encruzilhadas do -inferno, e mettida no tronco para se depurar dos vicios, -seria um garfo meritorio do tronco dos Parmas d’Eça ao -qual elle Ruy de Nellas se glorificava de ser estranho? -Chegadas a tal extremo as insolencias, a reconciliação -era impossivel, apesar mesmo das frias tentativas de -D. Guiomar, que nunca fôra amorosa filha nem irmã.</p> - -<p>As cartas do padre ao fidalgo aventavam como certo -o mau resultado do pleito em Coimbra, e invocavam o -patrocinio de Ruy para que em Lisboa o supremo tribunal -ou o poder moderador dirimissem a sentença condemnatoria.</p> - -<p>Teve Ruy de Nellas como acêrto escrever desde logo -a sua irmã, convidando-a a esquecerem o passado, para -ir assim predispondo-a a mais de vontade o servir. A -condessa de Asinhoso respondeu com muito amor ao irmão, -lastimando que elle recusasse a sua amisade tantas -vezes, em diversos tempos, offerecida; e accrescentava: -«Eu não podia odiar o mano Ruy, que nenhuma -parte tomou nos supplicios que me fizeram. Os algozes -já estão na presença de Deus!»</p> - -<p>—Ainda não está arrependida!...—disse entre si o -fidalgo, relendo aquelle periodo.—Mulheres, mulheres!...—accrescentou -sacudindo a cabeça.</p> - -<p>Estranhará o leitor, que entre aqui mal cabido o episodio<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span> -de umas aventuras de D. Eugenia de Nellas, condessa -de Asinhoso. Conto, porém, com a sua attenção; -e peço licença para me desvanecer de apontado em não -me desviar da historia principal, sem ao depois me justificar -do defeito.</p> - -<p>D. Frederico de Paim e Lucena, tio materno de Ruy, -vivia na capital, e muito no Paço, gozando as suas numerosas -commendas, solteiro, septagenario, e abastado.</p> - -<p>Corria por sua conta a educação palaciana de dous -sobrinhos, Vasco e Gonçalo, irmãos de Ruy.</p> - -<p>Eugenia, muito mais nova que seus irmãos, sahiu -tambem de Pinhel, aos doze annos, em 1806, para ser -educada em convento, visto que sua mãe tinha morrido, -e sua cunhada a tractava asperamente.</p> - -<p>Em 1811 sahiu a menina do collegio para casa de -seu tio. Eram uns dezoito annos superabundantes de -quantas graças feminis, raras vezes, a inspiração divina -segréda aos creadores que dizem á tella ou ao marmore -o seu <i>fiat lux</i>, e o marmore e a tella desentranham em -Fornarinas de Raphael, em Collonas como as de Angelo, -em Venus como as de Praxiteles. D’estas, o artista, -o que não é artista, o homem de coração e sêde do -bello, diz: «fel-as o cinzel ou o pincel dos anjos!» de -Eugenia diria o artista, o amador, o poeta, o moço ardente, -o ancião esquecido de seus ardores, diriam todos: -«é um bafejo de Deus, uma alma vestida das perfeições -materiaes, privativas do céu, se no céu podem conceber-se -fórmas corporeas!»</p> - -<p>Foi Eugenia requestada por consideraveis senhores da -côrte. D. Frederico respondia aos que solicitavam sua -mão: «Minha sobrinha é orphã de pai e mãi. Casará á -sua escolha. Intenda-se com ella quem houver de ser -seu marido, que eu lavo as mãos d’ahi.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span></p> - -<p>Boa resposta; mas Eugenia repellia delicadamente os -pretendentes, as maviosidades, e as soberbas feridas na -resistencia.</p> - -<p>Pois tão dotada e fadada para amar, Eugenia era assim -de refractaria condição ao bem supremo da vida? -Dar-se-ha que o seu peito seja dentro de alabastro como -se afigura no exterior?</p> - -<p>Não; o mesmo amor de que a julgam inimiga é quem -a incrueceu assim contra os aulicos, os ricos, os soberanos -da galanteria d’aquelle tempo.</p> - -<p>Amava Eugenia, e amava desatinadamente. O eleito -de sua alma era um alferes de cavalleria, amavel de figura, -composto de encantos; mas sem fôro grande nem -pequeno, sem amigos das primeiras casas do reino, sem -nome, que, ao menos, recordasse um general illustre, -um lidador distincto das ultimas pelejas grandes da patria -com os estranhos. Um mero e simples alferes, pallido, -só, melancolico, e timido debaixo dos olhos d’ella.</p> - -<p>O palacio de D. Frederico de Paim era na rua de -Santa Barbara. O alferes passava alli duas vezes em -cada dia, e alguns dias duas vezes em cada hora.</p> - -<p>E ella via-o sempre, esperava-o sempre, esperava-o -até mais vezes do que o via. Gonçalo e Vasco viam-no -tambem, e diziam:</p> - -<p>—A assiduidade d’este homem!... Que cuidará elle, -ou que cuidará nossa irmã!</p> - -<p>Indagaram pela rama; e, em occasião opportuna, disseram -a Eugenia:</p> - -<p>—Olha que o militar que vês ahi passar, e procuras -vêr, é um biltre, que principiou soldado. Sirva-te isto de -governo, e lembra-te que és Eugenia de Nellas Gamboa -de Barbedo.</p> - -<p>A menina, se a revelação a envergonhasse, córaria;<span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span> -se o coração lhe doesse, impallideceria; ora, como nem -córou nem impallideceu, é razão presumir que o seu -pudor e coração ficaram illesos; e, depois, concluir que -ella, assim mesmo, amava-o sem pejo da baixeza d’elle -nem vangloria de seus appellidos. Concluam assim que -tem a maxima probabilidade do acêrto.</p> - -<p>E o alferes continuou a passar na Rua de Santa Barbara, -e a surgir no alto da collina da Penha de França, -d’onde Eugenia do seu miradouro o avistava.</p> - -<p>D. Frederico, avisado pelos sobrinhos, disse que estava -seguro do bom siso de Eugenia; mas, por cautella, -na primavera de 1815, quando a menina já entrava nos -seus vinte annos, foi passar seis mezes á sua quinta de -Camarate.</p> - -<p>—O remedio prudente é este—disse o velho aos sobrinhos.—Não -façamos alarido, que ha casos de frageis -avesinhas, espavoridas por algazarras, romperem os arames -da gaiola.</p> - -<p>Quando isto foi, já o alferes se carteava com Eugenia, -mediante a aia, que viera de Pinhel.</p> - -<p>A passagem para Camarate aggravou a infermidade. -Convem saber que ha casos em que o amor, o mais sadio -e rosado dos deuses, se chama «infermidade». Exemplo: -amarem-se duas pessoas, divorciadas pelo acaso do -nascimento ou da riqueza, é infermidade; amarem-se, -porém, um casal de ricos, de nobres, de ralé social, ou -de mendicantes, isso sim é amor, que é saude, e só póde -adoecer, n’uns, em hidropesia de tedio, n’outros, em resiccação -de fome.</p> - -<p>A quinta de Camarate era um arvoredo, que competia -com o reinado de D. João III. Fôra plantado e alinhado -por D. Mem Vasques de Lucena, sumilher de -El-Rei, e aio do infante D. João, pai de D. Sebastião<span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span> -Era memoria que aquellas arvores, ainda tenras, tinham -visto os amores de D. João III com D. Izabel Moniz, -moça da camara da rainha D. Leonor, amores que deram -de si o principe, arcebispo de Braga, D. Duarte, -que morreu na flor dos annos. Para alli diziam os Lucenas -que o monarcha transferira a dama, odiosa á rainha.</p> - -<p>Parecia, pois, que a folhagem do arvoredo estava rumorejando -uma chronica de reaes amores.</p> - -<p>As fontes respondiam ás arvores, as aves ás fontes, -as borboletas dialogavam com as flores, as flores trahiam -com a viração as borboletas: era tudo alli um suspirar, -um ouvir-se muito interno harpas e córos, symphonias -aerias, milhares de pronunciações confusas da terra, dizendo -todas «amor»!</p> - -<p>E para onde elles levaram Eugenia, que já comsigo -levava a saudade!—a saudade, verdugo que mata acariciando, -corda de estrangulação tecida com fios de ouro, -segredo que Lucifer, ao despenhar-se, roubou do céu, -e nunca mais restituiu!</p> - -<p>Alli é que o amor pegou d’ella com violenta mão, -sendo que até áquelle dia lhe fôra sempre mão cheia -de meiguices e serenas esperanças.</p> - -<p>Gonçalo e Vasco julgaram sua irmã segura, e ficaram -por Lisboa, onde tinham seus affectos, e suas devassidões. -O velho, contente com as suas arvores, e -com a menina, que lhe ouvia a menos edificativa lenda -dos amores de D. Izabel Moniz, não sahia de Camarate.</p> - -<p>Á noite, assim que a brisa esfriasse, D. Frederico digressava -do jardim, dava um osculo em sua sobrinha, -e fechava-se em seus aposentos.</p> - -<p>Ora, depois ainda, a menina ficava sentada no banco -rustico, resguardada de sycomoros, aspirando as baunilhas,<span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span> -sacudindo as granulações das pimenteiras, ou -devaneando pela via lactea fóra, de constellação em -constellação, com os olhos lá, e o coração na terra proxima, -no muro da quinta por onde o alferes subia. E -não se atemorisava dos plátanos gigantes nem das danças -macabras das sombras, agitadas pelo vento da alta -noute!</p> - -<p>Á uma hora rugia a folhagem debaixo dos seus pés -nas ruas ladeadas de murtas; os molossos lambiam-lhe -as mãos, sorvendo os latidos ferozes; as avesinhas acordavam -e saudavam-na ao passar; o rouxinol das cinceiras -soltava as notas mais dilectas; e ella ia á gruta conhecida, -e esperava com a mão no seio como quem diz -ao coração: «Espera, ditoso impaciente!»</p> - -<p>Ao abrir da manhã de 16 de agosto d’este anno de -1815, Eugenia ouviu quatro tiros nas cercanias da quinta, -e tremeu, tremeu até cahir de joelhos.</p> - -<p>D’ahi a pouco estrondearam os argolões do portão da -quinta. A aia entrou ao quarto da menina, e disse:</p> - -<p>—Chegaram seus irmãos. O senhor Gonçalo vem ferido -n’um braço: já foi chamar-se o cirurgião ao Lumiar.</p> - -<p>Gonçalo e Vasco estrenoutaram o tio, e fecharam-se -com elle. O que ahi disseram collige-se dos successos -seguintes.</p> - -<p>Durante o dia, Eugenia não viu seus irmãos nem tio. -Sabia que se faziam preparativos de viagem. Mandou -indagar dos caseiros o que seriam os tiros da madrugada. -Os cazeiros tinham ouvido as detonações, e a estropeada -de cavallos. Estaria morto o alferes?</p> - -<p>—Matal-o-hiam?—perguntava Eugenia á sua aia—e, -depois, ousava perguntal-o a Deus.</p> - -<p>Se ella podesse ouvir este dialogo dos irmãos...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_184" id="Page_184">[184]</a></span></p> - -<p>—Chego a duvidar que as pistolas tivessem ballas—dizia -Gonçalo.</p> - -<p>—Carreguei-as eu—afirmava Vasco.</p> - -<p>—E foi-se a salvo!</p> - -<p>—Quem sabe?!</p> - -<p>—Não o viste correr sobre nós, e desfechar de perto, -e retirar-se muito a passo? E depois não o avistaste a -subir a charneca sobre o cavallo?</p> - -<p>—Vi.</p> - -<p>—Como queres tu que elle fosse ferido!?—retorquiu -Gonçalo—Com meia pollegada á esquerda, o canalha -mettia-me a bala na cintura—dizia elle levando a mão -ao ante-braço direito—Eu é que estou ferido devéras... -Não contávamos com isto, Vasco! O homem tem fibras!</p> - -<p>Ao fim da tarde, sahiu da cocheira uma caleça de -jornada apposta á parelha de machos.</p> - -<p>N’esta occasião foi chamada á presença de seu tio, -que mansamente lhe disse:</p> - -<p>—Se tivesses pai ou mãi, mandar-te-ia para elles, sem -te dizer a razão: tu a saberias de mais, e eu me pouparia -á dôr e pejo de repetil-a. Entrego-te a teus irmãos. -D’elles te defendi alguma vez; agora estou desarmado -pelo teu proceder. Disse de mais. Ahi fóra está posta a -caleça para conduzir-te a outra parte, segundo vontade -de Vasco. Não vai Gonçalo, que está ferido da bala do -homem que saltava os muros da minha quinta, com teu -consentimento. Adeus, Eugenia.</p> - -<p>D. Frederico entrou rapidamente no seu quarto, contiguo -á sala, e fechou-se a chorar.</p> - -<p>Vestiu-se Eugenia soluçante, e cobrou animo, quando -viu que a sua aia se preparava. Entraram ambas na -caleça, onde as seguiu Vasco. Chegaram de noute a<span class="pagenum"><a name="Page_185" id="Page_185">[185]</a></span> -Lisboa, e pararam á porta do palacio de D. Frederico.</p> - -<p>Vasco mandou descer a aia de sua irmã, e disse-lhe:</p> - -<p>—Sobe; diz ao mordomo que te pague; e vai á tua -vida.</p> - -<p>—Onde vai ella?!—gritou Eugenia.</p> - -<p>—Não queremos gritos—atalhou o irmão.—Pica, bolieiro!</p> - -<p>As mulas galoparam até entrarem á estrada do Beato -Antonio, onde Vasco de Nellas cavalgou, adiantando-se.</p> - -<p>A jornada de Eugenia durou dous dias e meio. Parou -a carroça diante de um palacete velho, em Recaldim, -no termo de Torres Novas. Era ali uma grossa commenda -de D. Frederico, casa chamada da «renda», habitada -pelos Pains de Lucena, quando, desgostosos da destronisação -de Affonso VI, se affastaram da côrte.</p> - -<p>Entrou Eugenia a um grande salão decorado como o -deixaram seus avós, quando voltaram a Lisboa.</p> - -<p>A tranzida menina sentiu frio e medo.</p> - -<p>Surdiu-lhe logo, de sob a orla de um reposteiro de -côr inqualificavel, uma creatura, ao que parecia, femeal. -Dirieis que uma cuvilheira dos Lucenas, adormecida em -1680, ao sahirem seus amos, acordára como Epimenides, -cento e trinta annos depois, e estremunhada sahira -ao salão para vêr qual das fidalguinhas Pains estava -a soluçar.</p> - -<p>Eugenia encarou-a, e estremeceu.</p> - -<p>—Entrou a velha, fez tres mesuras, e disse:</p> - -<p>—Guarde Deus a v. ex.ª</p> - -<p>—Adeus—murmurou Eugenia.</p> - -<p>—Em quanto não chegam as outras creadas—tornou -a creatura com ares benignos—a fidalga queira mandar-me<span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span> -em seu serviço. Eu fui ama de leite de sua mãezinha, -que foi casar a Pinhel.</p> - -<p>Estas palavras reanimaram Eugenia, que se aproximou -voluntariamente da velha, em quanto ella continuava:</p> - -<p>—V. ex.ª é o retrato d’ella: já o sabia por m’o dizer -o sr. Frederico; mas eu estou aqui ha quarenta annos -desde que ella casou. Seu avô, o sr. D. Carlos -de Lucena, mandou-me para Recaldim com ordenado -e casa para a velhice. Já quiz botar-me por essa -estrada fóra, até Lisboa, só para ver a filha da minha -menina; mas a carga dos annos, oitenta bons, não -se leva onde a gente quer. Fiquei agora atonita, quando -vi entrar o menino Vasco, e me disse: «minha irmã -vem aqui estar algum tempo. Ámanhã chegam outras -creadas, que ficam debaixo da sua vigilancia, e um creado -que lhe transmittirá as minhas ordens.</p> - -<p>—O mano já sahiu?—atalhou Eugenia.</p> - -<p>—Chegou ás quatro, e sahiu ás cinco horas da manhã. -Admiro que v. ex.ª o não encontrasse... Então é -que foi pelo caminho de baixo.</p> - -<p>Eugenia, n’um impeto de confiança, abraçou-se na -velha, e exclamou:</p> - -<p>—Por alma de minha mãi, vale-me?</p> - -<p>—Se lhe valho, meu serafim? que quer v. ex.ª da -sua serva humilde?</p> - -<p>—Queria escrever uma carta.</p> - -<p>—Ó menina, isso barato é de fazer; mas o rendeiro -da commenda anda á cobrança, e levou a chave da sala, -onde está o tinteiro e o papel.</p> - -<p>—Pois nem um bocadinho de papel?!... Não tem -um livro?...</p> - -<p>—Livro tenho as minhas <i>Horas</i> e o <i>Retiro Espiritual</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span></p> - -<p>—Deixa-me vêr se ha uma lauda em branco?</p> - -<p>O <i>Retiro</i> tinha a folha do ante-rosto surrada, mas -susceptivel de receber caracteres. Eugenia despregou um -alfinete, picou o dedo indicador, apertou-o até bolhar -sangue. Depois com a cabeça do alfinete embebida, escreveu:</p> - -<p><i>Estou em Recaldim, perto de Torres Novas, na commenda -do tio. Aqui morrerei.</i> Voltou-se com recrescente -vehemencia para a velha, e disse:</p> - -<p>—Dá-me um bocadinho de pão para eu fechar este -bilhete?</p> - -<p>—Sim, minha menina.</p> - -<p>Mastigou o pão, fechou o bilhete e subscriptou-o.</p> - -<p>—E agora?—tornou ella—o peor é agora...</p> - -<p>—Que queria v. ex.ª?!</p> - -<p>—Que me levasse esse bilhete a Lisboa.</p> - -<p>—A Lisboa? A menina não sabe o que é ir a Lisboa! -São dous dias e meio de jornada, andando de noute -duas horas.</p> - -<p>—Não importa... Eu pago...</p> - -<p>—Mas pagar a quem, meu anjinho do Senhor? Ora -venha cá... isto é paixão?</p> - -<p>—Paixão de morrer, minha amiga...</p> - -<p>—Chame-me sua creada Brites. Paixão para bem ou -para mal?</p> - -<p>—Eu queria casar-me com elle; mas meus irmãos -perseguem-nos.</p> - -<p>—Eu logo vi que a vinda de v. ex.ª era cousa de -amor... O seu adonis não é fidalgo pois não?</p> - -<p>—Não é...</p> - -<p>—Logo vi... E é pessoa de bom porte?</p> - -<p>—É um alferes de cavalleria, muito bom de coração, -muito gentil, a minha paixão unica, o meu disvello de<span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span> -ha tres annos, a minha vida... e será a causa da minha -morte.</p> - -<p>—Coitadinha! Deus o fará melhor. Então quer a -menina que elle saiba que a trouxeram para aqui?</p> - -<p>—Sim, queria.</p> - -<p>—Então, deixe estar, que eu de hoje até ámanhã, -hei de cogitar no caso. Pediu-me isso por alma de sua -mãi, eu só se não poder de todo em todo. Quem me -ha de levar a cartinha, se as contas me não falham, ha -de ser o cocheiro da caleça; mas o peor é não termos -outro papel... Ora espere, que eu tenho alli uma sentença -que me cá deixou meu sobrinho, que andava a -aprender a ler. Tinta arranja-se sem a menina furar os -seus mimosos dedinhos. Com uma pouca de felugem da -chaminé e vinagre, faz-se tinta. Penna, vai se tirar uma -de gallinha, e com uma faca fazem-se-lhe os bicos.</p> - -<p>A sr.ª Brites em tanto tempo quanta era a anciedade -de Eugenia, veio com tudo a ponto: meia folha de -papel sellado do tempo de D. João V, uma tigella com -a dissolução de felugem em vinagre, uma penna de galinha, -e a faca mais afiada.</p> - -<p>Eugenia, se se não uzasse o aparo das pennas, tel-o-ia -inventado n’essa occasião.</p> - -<p>Estava tudo em ordem. Sorveu a sr.ª Brites uma pitada -de esturrinho, e disse:</p> - -<p>—Escreva lá v. ex.ª</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span></p> - -<h2>XV<br /> -<span class="smaller">Continuação</span></h2> - -<p>D. Eugenia escreveu o que dictava Brites:</p> - -<p>«Minha sobrinha. Logo que esta receberes, sem -demora de tempo, vai tu mesma em pessoa pessoalmente...»</p> - -<p class="tb">—Onde é que ella ha de ir levar a carta?—perguntou -Brites.</p> - -<p>—Ao quartel de cavalleria a Alcantara.</p> - -<p>—Escreva, meu serafim:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>«Vai ao quartel de cavalleria a Alcantara, e entrega -o bilhete, que vai dentro d’esta, á pessoa que lá diz por -fóra...»</p> - -</div> - -<p>—Eu—interrompeu-se Brites atacada de modestia—não -tenho muito geito para notar cartas; mas o que a -gente quer é que nos entendam.</p> - -<p>—Vai muito bem—disse Eugenia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span></p> - -<p>—Pois ponha lá:</p> - -<p>«Toma conta que a não vás entregar a outra pessoa; -e da resposta que houver escreve-me para Torres Novas. -Sem mais enfado, tracta d’isto como coisa de muita... -de muita...»</p> - -<p class="tb">—Ponha lá a menina uma palavra, que diga... -sim... que diga que é cousa de muita aquella.</p> - -<p>—De muita consideração.</p> - -<p>—Isso mesmo.</p> - -<p>Eugenia sobrescritou á sr.ª Apollinaria dos Martyres, -na calçada dos Barbadinhos, n.º 21—quinto andar á -esquerda.</p> - -<p>A irmã de Ruy de Nellas abraçou-se na ama de sua -mãi, e clamou:</p> - -<p>—Cuidei que estava mais desamparada. Ha almas -boas em toda a parte, louvado seja o Altissimo!</p> - -<p>—<i>Amen</i>—respondeu christãmente a sr.ª Brites, e foi -á cosinha, onde o bolieiro estava jantando para voltar -com a caleça ao fim da tarde.</p> - -<p>—Vm.ᶜᵉ faz-me o favor de entregar em Lisboa uma -carta á minha sobrinha? Aqui vae o nome e a rua. Se -lhe não custa...—disse a velha.</p> - -<p>—Não me custa nada, tia Brites; mas dobre-me a -porção de vinho.</p> - -<p>—Ahi vai, homem. Beba; mas não desatreme, nem -me perca a minha cartinha.</p> - -<p>—Fique certa, que de hoje a tres dias por estas horas, -já está nas mãos da dita supplicanta. Diz ella tudo -pelo claro nas costas?</p> - -<p>—Vai tudo pelo claro.</p> - -<p>—Então, metta-m’a ahi no bolso da jaqueta, e carregue-me -o copo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span></p> - -<p>Foi a carta entregue á sr. Apollinaria, e o bilhete ao -alferes de cavalleria, o qual, segundo veridicas informações -da engommadeira da rua dos Barbadinhos, chorou, -e vasou as algibeiras nas mãos tolerantes da sr.ª Apollinaria.</p> - -<p>Escreveu o alferes uma longa carta a D. Eugenia. -Principiava contando a descarga de dous tiros inuteis -que lhe déram. Disse não conhecer as pessoas, que lhe -atiraram, por virem rebuçadas, e estar ainda a limpar -a manhã. Contou que o não feriram; mas suppunha -elle ter sido mais certeiro na pontaria. Acrescentava -que ia ser removido para Bragança, por intrigas e influencia -dos irmãos de Eugenia; e declarava-se, a final -tão desgraçado e desprovido de recursos, que não podia -ir arrebatal-a das mãos da sua cruel familia, sem desertar, -e collocar-se na precisão de ir perecer de miseria -com ella em reino estrangeiro. Pedia-lhe, em summa de -tudo, animo, e esperança.</p> - -<p>Leu Eugenia a carta com profundo desgosto.</p> - -<p>«Não me terá elle amor?!»—disse ella entre si.</p> - -<p>Viu-a chorar a devotada Brites, e pediu-lhe o favor -de lhe ler a carta. Quiz ouvil-a segunda e terceira vez. -Consolidou as suas convicções com uma pitada e disse:</p> - -<p>—Esse rapaz, quem quer que elle seja, tem tino na -cabeça, e pensa bem. A menina por que chora?</p> - -<p>—Nem sequer falla em vir vêr-me!...</p> - -<p>—Pois se o pobre homem vai de marcha lá para cascos -de rolhas, como quer a fidalga que elle deserte ás -bandeiras, e venha aqui? E depois? que seria d’elle? e -a sorte da minha flor do céu, era muito melhor!?...</p> - -<p>Pudéram muito com D. Eugenia as razões de Brites, e -mais ainda a promessa de tomar a velha á sua conta a -correspondencia segura entre Bragança e Torres Novas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span></p> - -<p>Era chegado o momento de uma confidencia, que tem -sido o balsamo de piedade em coração de pais lacerados, -pela ira e pela deshonra: não será muito que o leitor, -invocado a julgal-o O BEM E O MAL d’esta serie de -biographias, dê sua piedade á desventura culpada, assim -como tem dado suas bençãos á virtude sem nodoa. Ha -crimes repulsivos; o engenho mais abalisado, a philosophia -mais bem fingida, sob capa de verdade, tenta em -balde mover-nos á compaixão do delinquente, em quanto -o retalhar do remorso o não fez delir com lagrimas o -stygma que a moral lhe assignalou: outros crimes, porém, -são de si, e por vontade divina, sympathicos não -direi; mas, se a ré se pranteia, e se olha em seu seio, -e exclama: «Ó meu Deus! hei de eu espedaçar em -respeito ao mundo este filho, que é o meu amor e o -meu opprobrio?... hei de eu abafar o grito da minha -consciencia e coração, para que o mundo me veja um -rosto limpo, um rosto lavado no sangue do meu filho?...» -Quando a mulher assim falla a Deus, a misericordia -divina dá-lhe um anteparo contra as injurias do mundo; -e o mundo, se lhe adivinha as dôres, e o mimo d’aquella -paixão, á qual só falta um sacramento para ser santa, -o mundo perdoa-lhe, embora a repulse do contacto das -almas candidas, das suas filhas, das suas esposas, das -suas irmãs, que Deus permitta não humilhem com maiores -desprezos a desgraçada que é mãi.</p> - -<p>É, pois, chegado o momento da confidencia. Quem -a recebe é a consternada velha, que vira nascer a mãi -d’aquella menina. Até áquelle momento, Brites estivera -longe de imaginar um erro n’aquelles amores: julgava-os -na sua maxima pureza. Descem lagrimas nas rugas dos -oitenta annos, lagrimas de bom agouro, que deixam mais -livre o accesso á piedade. Eugenia cuida que o revelar-se<span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span> -aos irmãos lhe dará um esposo, lhe será redempção -de ignominia.</p> - -<p>—Não, minha infeliz senhora, não!—exclama a velha.</p> - -<p>E conta-lhe tres identicas e desventurosas historias, -que ella presenciou em sessenta annos de serviço -n’aquella familia: tres mulheres sepultadas em conventos, -onde nunca entrou raio de contricção nem conforto.</p> - -<p class="tb">O alferes sabe em Bragança as agonias de Eugenia, -e sente n’alma o estylete excruciante da expiação. Nenhuma -morte sustenta o parallello com as flagellações -de seis mezes, soffridas a tantas leguas de distancia.</p> - -<p>Eugenia recebe o ar e a luz pela janella do seu quarto -unicamente. Teme-se da observação das creadas, que -lhe espiam os passos, em suspeitarem de Brites. A velhinha -tudo provê e prevê; mas, a intervallos quer morrer, -antevendo as agonias da hora improrogavel, da hora -em que o grito de afflicção rompe atravez das mãos da -vergonha, que tentam suffocal-o.</p> - -<p>Era no mez de dezembro de 1816.</p> - -<p>O alferes lançou-se aos pés do general da provincia -de Traz-os-Montes, que demorava em Bragança n’essa -occasião. Abre-lhe sua alma, em torrentes de pranto. O -velho general chora, e diz:</p> - -<p>—Tenho rigorosas recommendações a seu respeito; -mas vá, peça-me licença para ir ver sua familia. Dou-lh’a -por quinze dias. Vá, embora eu tenha de soffrer.</p> - -<p>O alferes vestiu habitos paisanos e desceu a Torres -Novas. Alli vestiu-se de mendigo, simulou uma paralisia -de braços, e pediu gasalhado em Recaldim. Trocou ligeiras -palavras com Brites, e não viu Eugenia. Voltou -á albergaria do commendador algumas noutes. Os creados -contemplavam-n’o, e diziam:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span></p> - -<p>—Tão novo e tolhido de braços!</p> - -<p>As creadas accrescentavam:</p> - -<p>—E não havia de ser feio!</p> - -<p>Na noute de quinze de janeiro, por volta de onze horas, -abriu-se a porta da albergaria, entrou Brites com a -face alagada de suor e lagrimas. O alferes formou entre -os braços com as dobras da capa de mendigo uma caminha -de farrapos, recebeu um menino, e sahiu. A duzentos -passos estava o leal camarada do official, com um -cavallo á redea. O alferes cavalgou, o auxiliar saltou á -anca do cavallo, e partiram.</p> - -<p>Em Torres Novas alimentaram o recemnascido. Proseguiram -até Santarem, onde foi baptisado sete dias depois. -Alli veio uma ama do Cartaxo, e o levou comsigo.</p> - -<p>Estava a expirar a licença. O alferes entrou no quartel, -á ultima hora, e beijou as mãos do general, dizendo:</p> - -<p>—Dei-lhe o nome de v. ex.ª. Ahi me fica a memoria -da sua commiseração, general!</p> - -<p class="tb">D. Eugenia de Nellas, dous mezes depois d’estes successos, -recebia uma carta de seu irmão Vasco, participando-lhe -que ia casar com uma titular brazileira, agraciada -pelo sr. D. João VI, e convidava sua irmã a -acompanhal-o á côrte do Rio de Janeiro.</p> - -<p>D. Eugenia respondeu que queria viver e morrer no -seu desterro de Recaldim.</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>«Bem sei—replicou Vasco.—Bem sei...—Brevemente, -se quizeres salvar o amante, mudarás de resolução.»</p> - -</div> - -<p>Decorreram alguns mezes. Instaura-se processo a Gomes -Freire de Andrade. São presos os cumplices da conspiração,<span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span> -e os suspeitos cumplices. O alferes é chamado -a Lisboa, e recolhido ao castello de S. Jorge, como indiciado -nos planos subversivos do general Freire de Andrade. -São os Lucenas que tramam a bem agourada perdição -do alferes.</p> - -<p>Eugenia é avisada do encarceramento do alferes.</p> - -<p>A faca apontada ao peito da timida senhora é um dillema: -se ella persiste em ficar, o alferes morrerá; se vai -para o Brazil, o réu absolvido.</p> - -<p>Eugenia vai para o Brasil, o alferes, sem saber porque -o accusam, nem porque o absolvem, sahe do castello -e entra nas fileiras.</p> - -<p>Ruy de Nellas, acantoado sempre no seu solar de Pinhel -recebera a infausta nova da queda de sua irmã. -Respondendo a Vasco, disse: «Não tenho irmã, nunca -me fallem n’essa mulher. Fizeram bem não me dizer o -nome do insultador de nossa familia, se é que elle tem -nome.»</p> - -<p class="tb">Saltemos a 1820. D. Eugenia é o assombro dos salões -do Rio de Janeiro. Reviçam-lhe todas as graças; a -da melancolia realça-lh’as, melancolia que dava a entender -que o anjo, lembrado do céu, tinha saudades.</p> - -<p>Vasco é-lhe odioso. A casa do irmão atormenta-a como -um ergastulo. Perdeu esperanças de voltar á patria, e -aspira a ver no céu o esposo de sua alma.</p> - -<p>De repente, como que as esperanças lhe morrem, e a -querida dos fidalgos brazilienses desce os olhos sobre a -terra.</p> - -<p>Vê um conde que fôra de Portugal com o principe -regente, e a requesta de joelhos. E vai ella, levanta com -a sua mão o homem que ha de resgatal-a do dominio<span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span> -do irmão, e sahe condessa de Asinhoso da casa abominada.</p> - -<p>No redemoinho das festas, a condessa parece estar -sempre em contemplação d’um tumulo. E o marido -mais a adora assim; e ella, de lhe ver o amor atravez -das lagrimas, enchuga-lh’as e pede a Deus um novo coração -para seu marido.</p> - -<p>Nunca mais seus labios responderam a Vasco; e, ao -terceiro dia de casada, disse ao conde:</p> - -<p>—Meu amigo, a presença de meu irmão n’esta casa -é como a do algoz da minha felicidade, e da tua, se -posso dar-t’a.</p> - -<p>O conde de Asinhoso ouvia sua mulher, e obedecia -com jubilosa escravidão.</p> - -<p>Gonçalo de Nellas havia morrido em 1819. D. Frederico -Pain de Lucena morreu em 1820, legando os -seus bens ao sobrinho vivo; Vasco, em viagem para a -patria, morreu de febres.</p> - -<p>A condessa enviuvou em 1833. Cuidou em liquidar -os seus copiosos haveres, e voltar a Portugal.</p> - -<p>Uma delirante esperança vinha com ella. Rica, livre, -com a alma inteira no seu passado amor!</p> - -<p>Desembarcou em Lisboa por junho de 1834. Reinava -D. Pedro IV.</p> - -<p>Mandou indagar do alferes de 1817 aos seus camaradas -anteriores á scisão politica. Responderam-lhe que -tinha morrido na guerra.</p> - -<p>Ergueu ella então as mãos e disse:</p> - -<p>—Ó meu Deus: merecia eu tamanho castigo?!</p> - -<p>Mandou ainda perguntar por um filho do militar que -morrera. Ninguem deu novas de tal filho. O espirito -publico batia as azas ainda no ambiente de fogo e ninguem<span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span> -curava saber onde podia existir o filho d’um official -que morrera rebelde.</p> - -<p>Foi então que a condessa d’Asinhoso, aterrada da -sua soledade, escreveu a Ruy de Nellas, pedindo-lhe a -sua estima, e uma filha que lhe fosse companhia.</p> - -<p>O irmão não lhe respondeu.</p> - -<p class="tb">Esta é a historia triste da senhora cujo valimento -Ruy de Nellas vai pedir a favor de seu genro.</p> - -<p>Qual é o valimento da condessa em Lisboa? É o -prestigio da riqueza, e da belleza ainda.</p> - -<p>Quarenta e seis annos, com trinta de amarguras e -ainda formosa! É que ha mulheres de tamanha alma, -que primeiro o fel da desgraça ha de enchel-a antes que -o corpo se alquebre.</p> - -<p>Das masmorras de 1793 sahiam formosissimas mulheres -para a Guilhotina.</p> - -<p>A mulher de Luiz XVI tinha pequena alma, sonhára -vinganças mesquinhas, e por isso lhe encaneceram os -cabellos n’uma hora.</p> - -<p>Madame Roland, a scismadora de revoluções uteis, -ia formosa no seu carro de morte.</p> - -<p>Carlota Corday illuminou-se de formosura mystica ao -vêr-se espelhada no aço do alfange.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span></p> - -<h2>XVI<br /> -<span class="smaller">O julgamento</span></h2> - -<p>Ao cabo de cincoenta dias estava o processo prompto -para entrar em julgamento. Dominava em Coimbra -a opinião de ser inevitavelmente condemnado Casimiro -de Bettancourt. A innocencia que algumas pessoas -apregoavam, era em geral recebida, a riso, como um paradoxo.</p> - -<p>A alma de Christina confrangia-se, e os labios sorriam -ainda. Era ella só quem ainda simulava esperanças; -mas que supplicios surdos lhe custava dissimulação!</p> - -<p>Ladislau e o vigario em vão queriam imital-a. A sua tristeza -era como as trevas do cego que não se allumiam -ao tremor convulso da palpebra. Queriam esperançar-se -e de toda a parte lhes soava como irremediavel a sentença. -Rosnava-se em compra de jurados: não era preciso -arguir ao suborno a condemnação. Casimiro estava -sem defeza: o seu silencio impressionava favoravelmente -as almas distinctas; o vulgacho, porém, que havia<span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span> -de julgar das provas, daria importancia nulla á mudez -do réu. Os protectores de D. Alexandre eram os mais -graudos fidalgos de Coimbra e cercanias. Por Casimiro -Bettancourt ninguem pedia. O padre e o cunhado, reduziam-se -a promover o andamento rapido do processo, -pagando liberalmente as despezas e actividade do procurador. -Isto era bastante; mas faltava muito.</p> - -<p>Ruy de Nellas affligia-se a cada nova carta desanimadora -que recebia; entretanto, a solução favoravel em -Lisboa era um respiradouro para elle e para os poucos -amigos do preso.</p> - -<p>Designado o dia do julgamento, o pai de Christina -escreveu a sua irmã, contando-lhe os pormenores do casamento -da filha, as desventuras do genro, a sua innocencia -no crime assacado, a indefeza pertinaz em que -se pozera, o mysterio do homicidio, a certeza de que o -silencio de Casimiro Bettancourt era um heroismo de -honra, talvez novo. Rematava pedindo á condessa de -Asinhoso, que patrocinasse em Lisboa sua sobrinha, -que era mãe e esposa extremosa.</p> - -<p>Na ante-vespera da audiencia, travaram desordem uma -malta de academicos richosos com as patrulhas nocturnas. -Alguns estudantes retiraram feridos, e invocaram -Guilherme Lira, em nome da honra academica. O chefe -da Sociedade da Manta respondeu que n’uma das -proximas noutes, seria vingada a academia.</p> - -<p>No dia immediato entrou Guilherme no escriptorio de -um tabellião, e pediu meia folha de papel sellado. Assignou-se -no fundo da lauda, e fez que o notario lhe reconhecesse -a assignatura.</p> - -<p>Recolheu a casa, e deteve-se algum espaço, escrevendo -no branco da folha assignada e reconhecida. Fechou -em fórma de officio, lacrou, e escreveu algumas palavras<span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span> -no involucro. Depois fez algumas cartas: uma subscriptada -a D. Joaquina Soares de Lira, sua mãi, residente -em Evora; outra a sua irmã, casada em Extremoz; -e ainda uma terceira brevissima, dirigida a uma senhora, -que tinha o segredo da ferocidade d’aquelle homem. -Terminava assim: «Não te cito para o céu nem para o -inferno. Chamo-te diante do teu proprio remorso. Viste-me -um anjo aos dezoito annos; e fizeste de mim isto -que sou. Não te accuso: lá tens dentro d’alma o teu -algoz. É tempo de acabar.»</p> - -<p>Deitou a carta na caixa postal, e foi á cadeia, segundo -o seu costume quotidiano, vêr Casimiro. Eram quatro -horas da tarde. Estava o jantar na meza. Guilherme -sentou-se ao lado de Christina, e comeu com appetencia. -De uma vez inclinou-se ao ouvido da senhora e -disse-lhe:</p> - -<p>—Ámanhã já v. ex.ª janta em sua casa com seu marido...</p> - -<p>Christina soltou um brado de alegria.</p> - -<p>—Que é?!—inquiriram todos.</p> - -<p>Guilherme fitou-a e descahiu as palpebras.</p> - -<p>Era impôr-lhe silencio, e ella abafou a revelação, que -lhe crispava nervosamente os labios, e arquejava o seio.</p> - -<p>Esperaram, brevemente a resposta com anciedade. -Christina fitou os olhos supplicantes no academico, e -elle, erguendo-se, disse:</p> - -<p>—Póde fallar, minha senhora, d’aqui a instantes.</p> - -<p>E abraçou Casimiro, beijando-o nas faces ambas; abraçou -Christina osculando-lhe a fronte; apertou affectuosamente -as mãos de Peregrina, Ladislau e padre João; -affagou as duas creancinhas, e sahiu de golpe.</p> - -<p>Casimiro chamou-o com vehemencia, e elle não voltou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span></p> - -<p>Referiu Christina o que lhe ouvira. Casimiro concentrou-se, -pensou alguns minutos, e disse:</p> - -<p>—Não mentiu. Ámanhã jantaremos em liberdade.</p> - -<p>Pediram-lhe o sentido das palavras do academico.</p> - -<p>Bettancourt respondeu:</p> - -<p>—Ámanhã.</p> - -<p>Notaram todos que a tarde e noute d’aquelle dia foram -as mais tristes horas de Casimiro na sua prisão de -dous mezes. E, comtudo, Christina escondia o seu contentamento.</p> - -<p>Eram dez horas da noute, quando Casimiro ouviu -grande grita e o estrondo de alguns tiros. Estava já sósinho, -passeando febrilmente na saleta, e disse entre si:</p> - -<p>—É agora.</p> - -<p>O alarido e o tiroteio continuaram.</p> - -<p>Collou o ouvido ás portadas da janella, e ouviu dizer -na rua:</p> - -<p>—Mataram o Lira.</p> - -<p>Meia hora depois recahiu tudo em silencio quebrado -pelas passadas das patrulhas em tresdobro. E o carcereiro -bateu de manso á porta de Casimiro, e disse:</p> - -<p>—Dorme?</p> - -<p>—Não. Póde entrar.</p> - -<p>—Vou contar-lhe o que vai. O seu amigo Lira espancou -as patrulhas, que encontrou desde o bairro alto -até á rua do Coruche. A Sociedade da Manta appareceu -em armas, atacou reforço, que sahiu do quartel. -Quando ia retirando para o Monte Arroio a estudantada -debaixo de fogo, o Lira ficou atraz, sem arma nenhuma, -a não ser o varapau de choupa que mettia a peito dos -soldados. Tinha elle recuado até ás grades de Santa -Cruz, quando cahiu morto com uma bala atravessada de -fonte a fonte. Meu filho vem de observar. Faz dó ver um<span class="pagenum"><a name="Page_203" id="Page_203">[203]</a></span> -homem tão valente assim morto como se mata qualquer -poltrão!...</p> - -<p>—Obrigado á sua noticia.</p> - -<p>—O sr. ficou triste devéras!—tornou o carcereiro—Tem -razão, que elle era seu amigo d’uma vez!... Boas -noites, sr. Bettancourt. Ámanhã é o dia da grande batalha, -espero em Deus que...</p> - -<p>O carcereiro tão certo estava da condemnação, que -não ousou concluir a phrase da esperança em Deus.</p> - -<p>Mal se abriram as portas da cadeia, entraram Christina -e os amigos a contarem o successo. A justiça ia tomar -conta do espolio do morto. Coimbra estava agitada -de terror. Esperava-se grande lucta da academia com a -tropa no acto do enterro de Guilherme. Suppunha o -padre que se não abrisse o tribunal, para obviar o azo -da desordem. Contou Ladislau que o estudante, na vespera, -tinha ido reconhecer a sua assignatura a um tabellião. -Christina, que tudo sabia, esperava que seu marido -fosse salvo por uma declaração de Guilherme. Eram, -porém, nove horas, e não apparecia alvará de soltura, -nem contra ordem de julgamento.</p> - -<p>Ás dez horas chegou o official de juizo para acompanhar -o réu ao tribunal.</p> - -<p>Logo á sahida do carcere, ouviu Casimiro dizer:</p> - -<p>—É preciso ir acabando com os assassinos. Um já lá -vai: este não tarda; os outros hão de ir quando lhes -chegar a vez.</p> - -<p>Quem tão sisudamente discreteava era o cidadão honesto -da Couraça dos Apostolos, em cuja cabeça Guilherme -deixára um signal inutil para a morigeração da -pessoa.</p> - -<p>Sentou-se Casimiro no banco dos réus. Christina, Peregrina, -o padre e Ladislau ficaram fóra da teia. D. Alexandre<span class="pagenum"><a name="Page_204" id="Page_204">[204]</a></span> -de Aguilar, como parte, sentára-se entre o seu -advogado e o representante do ministerio publico. Na -acareação de author e réu, perguntado o primeiro se reconhecia -em Casimiro Bettancourt o sujeito que espancára, -o fidalgo respondeu:</p> - -<p>—Não podia ser outro.</p> - -<p>—Pergunto a v. ex.ª se é aquelle e não se podia ser -outro—replicou o juiz.</p> - -<p>—É aquelle.</p> - -<p>Sahiram a depor as testemunhas de accusação. Eram -concordes em dizer que viram entrar na casa do réo o -sujeito que matára um homem, e deixára outro estendido. -Recordaram todas as precedentes aggressões que o -réu fizera contra o author, já no botequim da rua Larga, -já na ponte. O cidadão honesto sobreexcedeu a má -vontade das demais testemunhas, dizendo que o réu era -sujeito de tão máus costumes que roubára uma filha a -um fidalgo seu bemfeitor, e com a filha roubára as joias -da familia.</p> - -<p>—Esse infame está a mentir!—exclamou Christina.</p> - -<p>Casimiro voltou-se para o lado onde estava sua mulher, -e encarou-a fito, com severo olhar.</p> - -<p>O juiz disse:</p> - -<p>—A senhora não pode aqui fallar.</p> - -<p>—O que ella diz não se escreve—accrescentou a faceta -testemunha, sorrindo do alto da sua probidade.</p> - -<p>—Querello da testemunha—disse o advogado do réu.</p> - -<p>—Eu não querello da testemunha—emendou Casimiro.</p> - -<p>—Em tempo competente resolverão—admoestou o -juiz.</p> - -<p>Convergiram todos os olhares sobre Casimiro.</p> - -<p>Um dos jurados disse:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_205" id="Page_205">[205]</a></span></p> - -<p>—Eu já não condemno aquelle homem!</p> - -<p>—Porquê?!—perguntou o visinho.</p> - -<p>—Aquelle homem está innocente ou é doudo.</p> - -<p>—Qual doudo? aquillo é um grande farcista! Elle -não querella da testemunha, porque sabe que roubou as -joias.</p> - -<p>Terminou o depoimento de accusação por parte do -author e do ministerio publico.</p> - -<p>Esperava-se por testemunhas de defeza: o escrivão -disse que não estavam inscriptas nenhumas.</p> - -<p>—É doudo ou não?—disse o jurado bem intencionado.</p> - -<p>—Qual doudo? replicou o outro.—É tão patife que -não tem quem o defenda.</p> - -<p>Ia levantar-se o patrono de D. Alexandre, quando o -administrador do concelho entrou na sala do tribunal, e -entregou ao advogado do réo uma carta em fórma de -officio.</p> - -<p>O orador, que já tinha dito: «Srs. jurados!» suspendeu-se.</p> - -<p>O patrono do réo leu uma meia folha de papel, e -disse, em pé, com os cabellos hirtos:</p> - -<p>—Sr. doutor juiz de direito, v. ex.ª me dirá se o debate -deve continuar, depois de ler a declaração que remetto -á consideração de v. ex.ª.</p> - -<p>Machinalmente ergueram-se todos, auditorio, e jurados.</p> - -<p>O juiz leu mentalmente, e passou o papel ao delegado. -Trocaram breves palavras, e deram ao official de -justiça o papel.</p> - -<p>—Leia o sr. advogado do réo—disse o juiz.—Eu por -mim intendo que terminou o debate.</p> - -<p>—Sou de egual parecer!—ajuntou o ministerio publico.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_206" id="Page_206">[206]</a></span></p> - -<p>O advogado de Casimiro, limpando as camarinhas -do suor, leu com voz tremente de alegria e commoção -d’alma:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>«Declaro eu Guilherme de Noronha e Lira, estudante -do 5.º anno de direito, que fui eu quem matou, na -noute de 16 de janeiro do corrente anno de 1840, um -creado de D. Alexandre de Aguilar, e empreguei os -meios de matar tambem o amo. Não tinha contra algum -d’elles motivo de odio pessoal; mas, como inimigo -jurado de poltrões covardes, e sabendo eu que -elles espreitavam ensejo de matar Casimiro de Bettancourt, -mancebo tão honrado como valente, protestei livral-o -de tão miseraveis inimigos, atacando-os sósinho -e sem mais arma que um páu de choupa, no momento -em que elles tinham arrombado a porta de Casimiro -para o irem matar entre sua mulher e sua filhinha -d’um anno. Declaro mais que fui eu quem afugentou -a companhia, postada ás portas de Casimiro na intenção -de o arrancar ás garras da justiça; mas o meu -amigo não quiz fugir, assegurando-me que se havia de -salvar sem pôr em risco a minha segurança. E por tanto, -resolvido a acabar com a vida, poucas horas antes -de me deixar matar, faço esta declaração, e peço a -Casimiro Bettancourt perdão de o ter infelicitado, -quando cuidava que o beneficiava com o meu zêlo -guardador da sua preciosa vida. Peço tambem perdão -da inexplicavel fraqueza que me tolheu de eu ter feito -esta declaração desde o momento que o meu amigo -entrou no carcere. Eu sei que elle me perdoou; mas -volto as minhas supplicas para a esposa attribulada, -que tantas vezes, com um sorriso de amiga, devia execrar -o causador das suas calamidades! Faço esta declaração<span class="pagenum"><a name="Page_207" id="Page_207">[207]</a></span> -debaixo dos olhos de Deus, e juro pela virtude -de minha mãi que é verdade o que digo, e será infame -quem me não acreditar. Coimbra 19 de março de -1840. <i>Guilherme de Noronha e Lira</i>».</p> - -</div> - -<p>D. Christina perdêra o alento nos braços de Peregrina. -Muitos academicos romperam de salto a teia, e vieram -parar no meio da sala. O advogado do réu, esquecido -das praxes, foi abraçar o cliente, que parecia dar -levemente conta da agitação do auditorio, e applicava o -ouvido aos soluços da esposa. Os jurados limpavam as -lagrimas, excepto um que tinha recebido uns vinte mil -réis de D. Alexandre. O fidalgo-autor acachapara-se de -modo, que parecia querer sumir-se debaixo da meza. O -seu advogado lia a declaração, e carecia de coragem para -impugnar-lhe a validade. O juiz dizia ao delegado:</p> - -<p>—Deviamos esperar isto, ou cousa semelhante. Este -homem, sem provar nada, tinha provado a sua innocencia.</p> - -<p>E o delegado confirmava:</p> - -<p>—Eu espero a minha vez de abraçal-o!</p> - -<p>O cidadão honesto da Couraça dos Apostolos ia a -sahir, quando Casimiro, que parecia absorto, disse:</p> - -<p>—Sr. juiz, peço a v. ex.ª a graça de ordenar áquella -testemunha, que se demore um instante.</p> - -<p>—Quer querellar!—bradou o patrono.</p> - -<p>—Não quero querellar—acudiu Casimiro, desabotoando -uma carteira, d’onde tirou um papel, e accrescentou:</p> - -<p>—Disse a testemunha que eu roubára as joias da familia -de minha mulher. A testemunha faltou á verdade. -Peço licença para ler, e offerecer ao exame das pessoas, -que me escutam, a seguinte declaração de meu sogro<span class="pagenum"><a name="Page_208" id="Page_208">[208]</a></span> -«Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro -que minha filha Christina Elisiaria não subtrahiu de minha -casa valor algum, nem os seus proprios vestidos e -adresses, quando fugiu para casar com Casimiro Bettancourt. -E por isto ser verdade, mui espontaneamente, e -com juramento aos Santos Evangelhos o declaro agora -e sempre. Pinhel 22 de abril de 1839. <i>Ruy de Nellas</i>, -etc.»</p> - -<p>—Meu sogro está vivo para confirmar esta declaração.</p> - -<p>—Confirmo!—bradou uma voz d’entre as turbas -comprimidas na teia. E logo um gentil ancião de veneraveis -cans, e nobre aspeito, com as faces arregoadas de -lagrimas, entrou na clareira que a multidão lhe abria, e -chegou á beira de Casimiro, e repetiu com a voz quebrada -de soluços:</p> - -<p>—Confirmo! confirmo! honrado moço, meu filho -amado!</p> - -<p>E abraçou-se n’elle, e logo na filha, que se lhe lançou -aos pés, e em Ladislau e no padre, e na irmã, e em todos -quantos vinham com olhos humidos, porque alli -quantos choravam, e choravam todos, elle adoptava -como amigos, como quinhoeiros da sua alegria!</p> - -<p>Que momentos aquelles! Aquelle jubilo febril não -matou, porque era santo, porque a Providencia divina -se comprazia em contemplal-o!</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_209" id="Page_209">[209]</a></span></p> - -<h2>XVII<br /> -<span class="smaller">Contrastes</span></h2> - -<p>Ia a turbulenta comitiva, que seguiu até casa de -Bettancourt. A faisca electrica de enthusiasmo, recebida -nos lances do tribunal, conflagrou animos juvenis, -em bellicoso arrebatamento contra a policia e a tropa; -por maneira que, as duas familias levavam um prestito -de centenares de mancebos, urrando vivas á academia, -e morras aos futricas e aos soldados. Casimiro parou algumas -vezes no intuito de arengar aos moços; porém, a -cada palavra conciliadora respondia o fremir de muitas -vozes, a pedirem sangue e vingança?</p> - -<p>—Parecem-me canibaes!—dizia Ruy de Nellas ao vigario.—Esta -rapaziada não tem quem a governe!? Pobres -pais e mãis!</p> - -<p>Conseguiram entrar em casa, e accommodar os pequenitos, -que vinham chorando de medrosos da vozeria, -Mafalda nos braços do avô, e o filho de Ladislau nos do -padre João.</p> - -<p>Casimiro sahiu á janella a dizer expressões de reconhecimento<span class="pagenum"><a name="Page_210" id="Page_210">[210]</a></span> -que a turba desattendia, clamando sempre -vingança, e pedindo ao academico que tomasse o commando -dos estudantes para vingar a morte do valente -que o defendera a elle.</p> - -<p>Por entre os amotinados circulavam pessoas de respeito, -pacificando os animos, ou enganando-os para mais -azado lanço. A custo, porém se dispersaram, comprommettidos -a reunirem-se no sahimento de Guilherme -Lira.</p> - -<p>Aquietou-se a rua.</p> - -<p>O velho sentou-se entre a filha e o genro, lançando-lhes -os braços em volta do pescoço. Alegremente conversou, -ora queixando-se de não o terem muitas vezes -importunado com rogos de perdão, ora promettendo-lhes -em dobro a amisade, que lhes não déra mais cedo.</p> - -<p>—Nada de Coimbra—dizia elle a Bettancourt—Vamos -para Pinhel, que tu não tens necessidade de ser -official com tanto trabalho. A legitima de tua mulher -vai augmentando, sou eu que a tomo a juros; e, emquanto -eu viver, estareis em casa, sem dispender do -vosso. É preciso pagarem se as dividas de dinheiro, que -as de amor nunca se pagam. Este Ladislau é um grande -moço, é o pai no rosto e no coração. Este padre João -sei eu bem o que elle é; creou-se debaixo das minhas -telhas, e ha de vir a ser bispo, se a virtude é qualidade -para ser bispo. Em quanto á cachorra da Peregrina, esta, -se não fosse do Ladislau, havia de casar commigo, que -está guapa, esbelta, e uma perfeita dama. Vocês riem-se? -Talvez pensem que se eu quizesse dar madrasta á -minha Christina, andaria muito tempo a farejar nas boas -familias da provincia!... Ora agora, tu, Casimiro, deixa-te -de mathematicas, faz te lavrador, toma á tua conta -os cazeiros da nossa casa, melhora-me os bens livres<span class="pagenum"><a name="Page_211" id="Page_211">[211]</a></span> -quanto pudéres, bemfeitorias e mais bemfeitorias nos -prasos de nomeação, que eu quero deixar o menos que -possa ser ao D. Sueiro, áquelle vil enroupado em habitos -fidalgos. São uns lacaios todos, desde o morgado até -D. Alexandre, e a minha Guiomar lá se fez com elles, -que nem já se dignou escrever-me no dia dos meus annos! -Deixai-a commigo... Vamos a saber: vocês não -jantam? O contentamento é boa iguaria; mas vejam -sempre se me guizam o contentamento com umas batatas -e umas fatias de presunto. Vocês comem o contentamento, -e eu o resto.</p> - -<p>Sahiu Ladislau a tomar o jantar no Paço do Conde, -visto que em casa ninguem atinava a saber onde estavam -as panelas.</p> - -<p>Entretanto, continuou o infatigavel fidalgo:</p> - -<p>—Vou logo escrever a minha irmã, a contar-lhe o -succedido. Tenho vontade de a vêr; não queria morrer -sem a vêr! Foi para Lisboa aos treze annos: era um lyrio -de brancura, e galanteria. Nunca mais a vi... Velha -não póde estar, que eu levo-lhe vinte annos de vantagem... -Bella vantagem, não tem duvida!... Talvez -a convide a vir passar comnosco em Pinhel alguma temporada; -mas ella sahe lá de Lisboa! Disse-me um deputado -que a condessa vive lá no ultimo fausto, e é visitada -por tudo que tem um nome grande na aristocracia -e na politica. Será ella constitucional? Isso lá me -custa; mas, em fim, o marido era-o; e justo é que ella -herde as convicções de quem herdou seiscentos mil cruzados -em dinheiro, que os vinculos foram a quem tocaram. -Fez uma asneira minha irmã em enviuvar sem filhos.</p> - -<p>Ninguem lhe cortava a jovial parlenda ao velho, até -que chegou Ladislau com dous moços carregados de vitualhas.<span class="pagenum"><a name="Page_212" id="Page_212">[212]</a></span> -Á excepção de Ruy de Nellas, os convivas debicaram -levemente as iguarias. Casimiro comêra regularmente -no dia em que fôra preso; e, solto, entretinha-se -a repartir o prato entre os pequenos. Não parecia ser -a satisfação da alma que lhe tornava fastidioso o alimento; -pelo contrario, revia-lhe o semblante uma extraordinaria -melancholia.</p> - -<p>É que o moço via diante de si continuamente a imagem -de Guilherme, que, vinte e quatro horas antes, tinha -dito a Christina: «Ámanhã já v. ex.ª janta em casa -com seu marido.» E abstinha-se de revelar a sua mágoa -para não compungir a esposa e amigos, que tão alegres -estavam, e perdoavelmente esquecidos do commensal do -dia anterior, áquella hora amortalhado!</p> - -<p>Era já proposito de Casimiro sahir da Universidade, -e ir buscar sua vida em qualquer parte ou mistér. Aquelle -anno era o segundo já perdido. Entrou-se da certeza -que a desgraça lhe atravancava o caminho das sciencias. -Elle amava o estudo, deleitava-se nas asperidões da mathematica, -e ia desatar-se para sempre e saudosissimo -dos seus livros, das suas oito horas de estudo, da sua -banqueta de pinho pintada, e de toda aquella pobreza -limpa, que as mãos de sua mulher transformavam em -jaspes, mognos, razes e ouro.</p> - -<p>O convite de ir para Pinhel, com o sogro, seu amigo, -entrar no goso das honras da illustre familia, ostentar a -benemerencia da sua probidade, regendo a avultada casa, -vingar-se assim pacificamente dos de Miranda, nenhum -d’estes incitamentos lhe descontava nas dôres. Será paradoxal -o dizer que Bettancourt mais se queria refugiar -no casal de Villa Cova com sua mulher e filha, e antes -de melhor rosto acceitaria o seu prato á meza de Ladislau? -Pois é uma sublime verdade esta! Casimiro olhava<span class="pagenum"><a name="Page_213" id="Page_213">[213]</a></span> -em Ladislau, no vigario, e sua irmã, e dizia-se: «Ó -meus amigos, a minha dôr inconsolavel será deixar-vos. -Eu hei de fugir sempre para as vossas serras, em quanto -tiver vida para me lembrar o que fostes para mim e -minha mulher nos dias de desamparo!»</p> - -<p>—Cuidei que te vinha trazer mais alegria, Casimiro—dizia -o fidalgo.</p> - -<p>—V. ex.ª desculpe a minha tristeza—responde Casimiro—Enterra-se -hoje um meu amigo.</p> - -<p>—Pois sim, bem sei que deves ter pena do rapaz; -comtudo, cada coisa tem seu logar. Conversa com a -gente, abre um riso n’esse rosto, e faz que eu me não -persuada que sou aqui de mais para a tua satisfação.</p> - -<p>Casimiro levou aos labios a mão do velho, e disse:</p> - -<p>—V. ex.ª está gracejando; mas ainda assim, magoa-me. -Eu poderia esperar muitas melhorias á minha sorte, -que ainda hontem era desgraçadissima no dizer do mundo; -porém, a vinda de v. ex.ª com tão amoravel perdão, -tamanho bem é que nem eu sonhava. V. ex.ª dirá se -eu...</p> - -<p>—Não me dês sempre <i>excellencia</i>, Casimiro; chama-me -alguma vez pai, se queres que eu te chame filho.</p> - -<p>Beijou-lhe de novo a mão, em quanto Christina, tomando -o maior quinhão do contentamento d’aquella adopção -paternal, abraçou-se ao pescoço do velho, e acariciou-o -infantilmente.</p> - -<p>Ao anoitecer, Casimiro pediu licença para sahir.</p> - -<p>—Onde vaes?—acudiu Ruy de Nellas.</p> - -<p>—Vou acompanhar o cadaver de Guilherme Lira.</p> - -<p>Encararam-se mutuamente, e voz nenhuma contrariou -a piedade do amigo.</p> - -<p>Ladislau, tomando licença de sua mulher, seguiu o<span class="pagenum"><a name="Page_214" id="Page_214">[214]</a></span> -compadre. O vigario ficou em companhia de Ruy e das senhoras.</p> - -<p>Christina, ao despedir-se do esposo, no patamar da -escada, disse-lhe em modelação supplicante:</p> - -<p>—E se houver desordem?...</p> - -<p>—Eu farei que haja paz, minha filha.</p> - -<p>—Então vaes na idéa de te envolveres na desordem?</p> - -<p>—Não, filha, vou na ideia de evital-a. Limpa as lagrimas, -Christina, não appareças assim diante de teu -pai, que me accusará de duro para ti. Bem sabes que -sagrado dever eu vou cumprir, minha filha.</p> - -<p>Sahiram.</p> - -<p>Raro academico faltou ao sahimento do cadaver. As -alas negras moviam-se vagarosas, tristes e com os olhos -em terra. Ao lampejar das tochas rebrilhavam muitas -lagrimas.</p> - -<p>Guilherme Lira morrera propugnando pelos brios academicos, -diziam: era um engano. Guilherme morrera, -suicidando-se. É verdade que, no correr de quatro annos, -mão terrorista pesára sobre a gente coimbran, avêssa -aos academicos, de cujo pão vivem. Soldados e verdeaes -respeitavam a batina, porque Guilherme Lira vestia -uma. Sobravam razões de gratidão áquelle desgraçado; -mas o seu morrer, o derradeiro arrojo, não era já -valentia; fôra um ir metter o peito ás espingardas que -o abocavam.</p> - -<p>Foi o cadaver lançado á cova. N’este acto, Casimiro -sahiu de entre a multidão que rodeava a sepultura, e -lançou sobre o cadaver a primeira pá de terra. Depois -cruzando as mãos sobre o peito, e sem desfitar os olhos -da cabeça empannada e ensanguentada do morto, disse:</p> - -<p>—«Alli está a mocidade e a força; alli está um mancebo -que deixou mãi n’este mundo; n’isto parou o grande<span class="pagenum"><a name="Page_215" id="Page_215">[215]</a></span> -alento d’onde os infortunios da vida desviaram as -torrentes dos influxos do céu. Este homem seria um anjo -do bem, se melhores condições da mocidade o não -houvessem saturado de odio contra o mundo. Eu sei a -historia d’esta existencia perdida, senhores. Este moço -era bom; derramou inutilmente os balsamos do coração; -achou-se vasio de amor; e repletou-se de peçonha -e odio. Cansou-lhe a coragem para a resignação; -sobreveio-lhe o delirio da vingança, vingança cega, sêde -voraz de sangue; mas observai, senhores, que a tentação -nem sempre venceu o instincto do céu com que fôra -dotado este moço. Aquelle homem teve tantos amigos, -tantos que, entre vós, um só não ha que se peje de -mostrar as lagrimas. As minhas seria vergonhoso que se -não vissem: eu hei de choral-as longo tempo... Vós -sabeis que as portas do carcere se me abriram hoje, porque -esta sepultura vai ser fechada. E eu, na presença -de centenaros de testemunhas, e por aquella redemptora -cruz, vos juro que acceitaria a minha prisão perpetua -em troca da vida d’este homem, que era vosso, assim -como tinha sido meu defensor...»</p> - -<p>—Vingança! vingança!—bradaram algumas vozes de -estudantes, que agitavam os gorros, e as tochas.</p> - -<p>Espectaculo para terror era aquelle em volta de um -cadaver!</p> - -<p>E o brado, conglobado de mil brados, respondeu:</p> - -<p>—Vingança!</p> - -<p>Casimiro ergueu a mão, pedindo silencio, e exclamou:</p> - -<p>—Paz! paz! é que eu vos peço, em nome de vossas -mãis, em nome das cans do velho pai, que espera -amparar-se em vosso braço! em nome de vossas irmãs -que fiam do vosso auxilio o seu futuro! em nome das<span class="pagenum"><a name="Page_216" id="Page_216">[216]</a></span> -almas candidas que vos sorriem ao coração dias de maior -felicidade! Paz vos peço eu, meus amigos, apontando-vos -este moço que está por aquelles labios frios contando -o que é a desordem, o que é a guerra, o que é desencaminhar-se -um homem da estrada, onde ha espinhos, -para tomar pela estrada onde ha abysmos. Que -util lição, que excellente preceptor não está sendo este -cadaver! Lembrai-vos, senhores, que este moço tem mãi.</p> - -<p>Entrai com o espirito no coração das vossas. Avaliai -o amargor das lagrimas que verterá cada uma das santas -do amor, se um de vós cahir n’aquell’outra sepultura. -Consenti que eu falle n’este instante pelo brado de -todas, e vos peça o que ellas supplicantes a cada um de -vós pedem: «Paz, meu filho!»</p> - -<p>Callou-se Casimiro. Respondeu o ciciar da respiração -alta do immoto auditorio. Retirou-se elle da margem da -cova, e caminhou triste por entre a multidão, que deixára -pender o braço sobre a arma escondida sob a capa. -D’ahi a pouco, os academicos debandavam em grupos, -e o silencio d’aquella sepultura estendeu-se pela face da -cidade.</p> - -<p>Ao sahir do cemiterio viu Casimiro diante de si a esposa, -o sogro, o vigario e Peregrina.</p> - -<p>—Viemos ouvir-te, filho—disse commovido o velho.</p> - -<p>—É superior á nossa admiração, sr. Casimiro!—disse -o vigario.</p> - -<p>—Eu sou apenas superior aos maus pela virtude de -os lastimar—respondeu Casimiro, dando o braço ao sogro, -cuja sensibilidade lhe quebrantava as forças.</p> - -<p>Desde logo, a pedido de Ruy de Nellas, começaram -as senhoras os aprestos para a jornada no dia immediato -á tarde. O velho futurava o rompimento de alguma -revolução academica, a intervenção pacificadora de Casimiro,<span class="pagenum"><a name="Page_217" id="Page_217">[217]</a></span> -e a fortuita desgraça de ser empenhado pela -honra a coadjuvar o partido dos estudantes.</p> - -<p class="tb">A esta hora, meia noute seria, D. Alexandre de Aguilar, -infamado, despresado, e solitario na sua angustia, -esvasiava garrafas de cognac, no intento de aturdir-se e -responder com a gargalhada do ebrio ao grito da vergonha. -Os deploraveis perdidos, que se valem d’esta triaga, -parece que a si proprios se estão castigando com mais -crueza do que poderia castigal-os a justiça humana. Noute -alta, o ébrio batia com a cabeça nas vidraças de sua -janella, farpava a face nas arestas dos vidros, e rugia -imprecações contra Deus. As patrulhas acummulavam-se -á sua porta, e gargalhavam das estupidas objurgatorias -do moço. Acudiam os academicos visinhos, e bradavam-lhe:</p> - -<p>—Calla-te ahi, miseravel; afoga-te em cognac; não -appareças mais á luz do sol; mas calla-te, besta, que, -para seres fera, só te falta a bravura.</p> - -<p>O tumulento fitava o ouvido, e respondia com roucos -insultos requintados em obscenidades de alcouce.</p> - -<p>De madrugada, o neto dos Parmas d’Eça acordou de -frio que tinha o peito ensopado no proprio vomito.</p> - -<p>Sentou-se, circumvagando os olhos espavoridos por -sobre a desordem que o rodeava. Ergueu-se cambaleando, -recahiu n’uma poltrona, escondeu o rosto entre as -mãos, e chorou.</p> - -<p>Oh! aquellas lagrimas é que não eram infames.</p> - -<p>O desgraçado lembrou-se que, cinco annos antes, -tinha mãi, e que a prophetica senhora muitas vezes lhe -dissera: «Presagia-me o coração que has de ser desgraçado, -meu filho.»</p> - -<p>—Porque?—perguntava elle.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_218" id="Page_218">[218]</a></span></p> - -<p>—Porque tens dezesete annos; sahiste hontem do -collegio e já hoje escarneces a religião de teus pais. Assim -tão cedo deixaste estragar o coração!... D’aqui a -annos, nem por amor do teu nome, nem por calculo, serás -honrado!</p> - -<p>E, cinco annos depois, e só então, lhe lembraram as -palavras de sua mãi!... Era o seu anjo da guarda que -as recebera então, e agora lh’as offerecia á memoria, -como lenimento unico d’aquella funda ulcera do descredito, -desgraça, e infamia.</p> - -<p>Na noute d’esse dia, D. Alexandre desappareceu de -Coimbra, foi caminho de Lisboa, d’ahi pediu sua legitima -a D.Sueiro e sahiu de Portugal. Ha vinte e tres -annos que foi, e não voltou.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_219" id="Page_219">[219]</a></span></p> - -<h2>XVIII<br /> -<span class="smaller">Mãi!</span></h2> - -<p>Ás duas horas da madrugada do dia seguinte ao das -scenas descriptas no anterior capitulo, chegou á porta -da hospedaria, chamada do <i>Paço do Conde</i>, uma carruagem, -tirada por duas parelhas. Abertas as portas, -apeou uma senhora, dando a mão a um padre velho que -descera primeiro, e logo a creada. O padre, respondendo -á pergunta do creado do hotel, disse que a senhora -condessa de Asinhoso tomaria um caldo de gallinha, e -voltou a receber as ordens de s. ex.ª</p> - -<p>—Pergunte padre Francisco—disse ella—se hoje foi -o julgamento de um academico chamado Casimiro de -Bettancourt.</p> - -<p>O padre foi cumprir, dizendo entre si: «que importa -á senhora condessa o julgamento do academico, chamado -Casimiro de Bettancourt? Pois será para assistir -á audiencia que ella vem a Coimbra com viagens forçadas?!»</p> - -<p>Volveu o padre, dizendo:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_220" id="Page_220">[220]</a></span></p> - -<p>—É uma historia interessante, que parece novella, a -tal do academico, senhora condessa. Em resumo, conta -o estalajadeiro que, estando para ser julgado o reu, e forçosamente -condemnado, appareceu a declaração d’outro -academico, que mataram antes de hontem, confessando-se -o matador. Em consequencia do quê, o tal Bettancourt -foi posto em liberdade.</p> - -<p>—Graças, graças, meu Deus!—exclamou a condessa -ajoelhando.</p> - -<p>O padre empedreniu-se, e encarou na creada tambem -estupefacta: nenhum ousava tugir um monossyllabo.</p> - -<p>Ergueu-se a condessa, e enviou de novo o capellão a -pedir ao dono do hotel a bondade de fallar com ella por -alguns minutos.</p> - -<p>O estalajadeiro vestiu a casaca, esperou na sala a senhora -condessa.</p> - -<p>Interrogou-o ella ácerca de todas as miudezas concernentes -á soltura de Bettancourt. O informador relatou-as -todas, desde as severas lições que o academico dera -a D. Alexandre, até ao lindo discurso, dizia elle, que o -amigo de Guilherme Lira improvisára á beira da sepultura: -e n’uma especie de apostilla á narrativa contou a -esquecida circumstancia de ter irrompido inesperadamente -pelo tribunal dentro o fidalgo, sogro do estudante.</p> - -<p>—Pois elle está em Coimbra?!—interrompeu vivamente -a condessa.</p> - -<p>—Vi-o eu, minha senhora! É um velho bonito! basta -vêl-o para se dizer: «aquelle é um fidalgo dos antigos -tempos!»</p> - -<p>—Sabe onde mora Casimiro Bettancourt?</p> - -<p>—Sei, minha senhora.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_221" id="Page_221">[221]</a></span></p> - -<p>—De manhã tem a bondade de me guiar a casa -d’elle?</p> - -<p>—Pois não, senhora condessa?</p> - -<p>O capellão, cujo quarto era sob o pavimento dos aposentos -da condessa, apesar de contuso e moido dos solavancos -da carruagem pelas barrocas da estrada real de -1840, não poude adormecer, ouvindo até á madrugada -os passos da illustre dama, e o abrir e fechar de portas -d’uma janella. Certo fôra que a condessa nem sequer -encostára a face ás almofadas do leito, e, de quarto em -quarto de hora, ia impaciente abrir a janella e ver se -rompia a alva.</p> - -<p>Assim que aclarou o céu, já a senhora despertou a -creada para lhe dar do bahú outros vestidos e ornatos.</p> - -<p>Ao nascer do sol, estava s. ex.ª vestida a rigor de -viuva opulenta: modestia elegante, pompa meio velada -pela côr escura do estofo.</p> - -<p>O egresso, que perdera a esperança de adormecer, -levantou-se, e foi á antecamara receber as ordens da -condessa. Sahiu ella a dizer-lhe que tomaria uma chavena -de café, e ás nove horas sahiria acompanhada de -sua reverendissima.</p> - -<p>Sua reverendissima, vendo-a assim adereçada, consentiu -que o demonio da maledicencia lhe encavalgasse -o espirito: «Dar-se-ha caso, dizia elle comsigo, que a -condessa esteja namorada d’esse Bettancourt? Querem -ver que esta senhora, aos quarenta e seis annos, tresvaliou, -e vai destruir o bom nome que está gosando?? -Mas não!—monologou elle, tornando sobre si—Vai-te -espirito aleivoso que me tentas! Aqui anda segredo que -eu vou saber logo! Esta senhora é o typo da honestidade, -e o modelo das viuvas honradas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_222" id="Page_222">[222]</a></span></p> - -<p>Ás nove horas sahiu a condessa, com o seu capellão -e o estalajadeiro.</p> - -<p>Chegaram defronte da pequena casa da Couraça dos -Apostolos.</p> - -<p>—É aqui—disse o guia.</p> - -<p>—Obrigada. Póde ir, que eu demoro-me.</p> - -<p>Subiu a dama a declivosa escadinha, e bateu á porta -do topo. O capellão seguiu-a, gemendo.</p> - -<p>Abriu uma creada a porta.</p> - -<p>—Posso fallar ao sr. Ruy de Nellas?—disse a condessa.</p> - -<p>Foi a creada á saleta em que as duas familias estavam -almoçando, e noticiou que era uma senhora ricamente -vestida a perguntar pelo sr. Ruy de Nellas.</p> - -<p>—Quem póde ser?!—reflectiu o fidalgo.</p> - -<p>—Abre o meu quarto de estudo, e diz á senhora que -entre—disse Casimiro.</p> - -<p>Quando a creada sahia da saleta, já a condessa estava -á entrada, dizendo:</p> - -<p>—Não sou de ceremonias, vou entrando, porque já -conheci a voz do mano Ruy.</p> - -<p>Levantaram-se todos. O velho abriu os braços, e ficou -de braços abertos, e bocca tambem aberta.</p> - -<p>A condessa chegou-se ao alcance do abraço, e disse:</p> - -<p>—Parece que o mano duvida...</p> - -<p>Duvido...—balbuciou elle—pela mesma razão que -não devia duvidar... Tu tens vinte e cinco annos, Eugenia! -Estás como te vi sahir de Pinhel!</p> - -<p>—Cuidei que lisonjas eram desusadas entre irmãos, -Ruy!... Pois eu dir-te-hei que estás bastante alcançado. -A vida de provincia é menos salutar do que dizem -as pessoas que envelhecem na corte. Senta-te, Ruy, e -dá-me uma chavena do teu café.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_223" id="Page_223">[223]</a></span></p> - -<p>—Tu aqui, mana!... tu aqui!...—voltava o fidalgo—Deixa-me -convencer bem de que estou acordado! -Quem é aquelle senhor?...</p> - -<p>—É o meu capellão.</p> - -<p>—Sente-se, sr. padre capellão, sente-se.</p> - -<p>—Qual d’estas meninas é a tua filha?—perguntou a -condessa.</p> - -<p>—É esta, aqui tens a minha Christina.</p> - -<p>A condessa beijou-a, abraçou-a, e mandou-a sentar.</p> - -<p>—Este é meu genro—continuou o velho apresentando-lh’o.</p> - -<p>Casimiro deu um passo, e curvou reverentemente a -cabeça.</p> - -<p>—Este é que é o sr. Casimiro Bettancourt?—disse a -condessa apertando-lhe a mão.</p> - -<p>E a mão ardia, tremia, e apertava extraordinariamente.</p> - -<p>—As outras pessoas,—concluiu Ruy—são filhos do -meu coração: aquella é a minha Peregrina, e aquelle o -meu padre João. Lembras-te, Eugenia, do José Ferreira -da Rochousa, nosso caseiro?</p> - -<p>—Lembro.</p> - -<p>—Pois são filhos d’elle que eu herdei. Aquell’outro, -que alli vês, é Ladislau, marido de Peregrina.</p> - -<p>—E estas duas creancinhas?</p> - -<p>—Uma é minha neta e tua sobrinha, primogenita e -unica de Christina, a outra é filha de Ladislau.</p> - -<p>A condessa, ouvindo o irmão, a cada instante relanceava -os olhos a Bettancourt, unico da comitiva, que ficára -de pé, no intento de servir a hospeda, e dar a sua -cadeira ao capellão.</p> - -<p>—Senta-te, Casimiro—disse o velho—Aqui tens, Eugenia, -o meu orgulho, a minha gloria, o meu Casimiro<span class="pagenum"><a name="Page_224" id="Page_224">[224]</a></span> -sem mancha de culpa, com a sua honra illibada! Não -foi preciso appellarmos para Lisboa. A justiça de Deus -veio mais cedo do que a esperavamos. Eu te conto como -isso foi...</p> - -<p>—Sei tudo—atalhou a irmã—Já me informaram na -hospedaria.</p> - -<p>—Mas como estás tu aqui, mana?—tornou Ruy—Vinhas -munida, talvez, de cartas para alcançares a -absolvição de teu sobrinho em Coimbra?</p> - -<p>—Não, Ruy—tartamudeou a condessa.</p> - -<p>—Então que palpite foi esse de te botares ao caminho, -sem saberes a decisão do julgamento?!</p> - -<p>—Dizes bem, Ruy... foi um palpite...</p> - -<p>—Bem hajas tu que vieste dar o remate á nossa satisfação! -Agora vais comnosco para Pinhel, não é assim?</p> - -<p>—Irei. E hoje janto comvosco.</p> - -<p>—Isso estava sabido!... pois então?!</p> - -<p>A condessa disse a padre Francisco:</p> - -<p>—Póde ir, e descansar á sua vontade, padre capellão, -que eu passo aqui o dia. Queira dar esta parte á -creada.</p> - -<p>Sahiu o padre, e todos passaram ao quarto de estudo -de Casimiro, que era a parte mais alegre e arejada da -casa.</p> - -<p>—Estou entre amigos!—disse com um profundo suspiro -a condessa—É a primeira vez na minha vida que -digo isto!</p> - -<p>Ruy comprehendeu a irmã, relembrou a mocidade dolorosa -de Eugenia, e fez um gesto compassivo, e outro -que significára: «Não lembremos o que lá vai.»</p> - -<p>Porém, Casimiro, impressionado d’aquellas palavras -disse respeitosamente:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_225" id="Page_225">[225]</a></span></p> - -<p>—As felicidades de v. ex.ª não devem ter sido invejaveis!... -Em volta da riqueza, da formosura, e de um -nome distincto costumam reunir-se muitos amigos... -ou, pelo menos, muitos que o parecem...</p> - -<p>A condessa encarou n’elle com penetrantes olhos, e -disse:</p> - -<p>—Lastima-me, não é verdade?</p> - -<p>—Minha senhora—balbuciou Casimiro—peço perdão... -não quiz dizer que lastimava v. ex.ª... Quaesquer -que tenham sido suas magoas, a sua elevada posição -não consente que eu me condôa...</p> - -<p>—Está bom, está bom—atalhou Ruy—não se falla -aqui em magoas, nem dó, nem lastimas! Este meu Casimiro -tem uma propensão para discursos tristes, que -nunca vi!... Olha que hontem á noute, mana, o que -elle disse á beira da sepultura do Guilherme, ia arrancar -ao fundo do coração as lagrimas de quem nunca tivesse -chorado!</p> - -<p>—É porque eu dava o exemplo, chorando, sr.ª condessa—ajuntou -Casimiro.</p> - -<p>—E deve ter chorado muito!—disse ella.</p> - -<p>—Pouco, minha senhora. Sou um homem muito resignado, -ou muito forte. A mim as grandes angustias -levemente me abalam. Algumas vezes tenho chorado por -cousas insignificantes. Posso ver a olhos enxutos morrer -minha filha, e não poderei ouvir sem lagrimas o piar de -uma ave, a quem mataram os filhos no ninho. Isto será -deformidade de organisação; mas dureza de alma não é, -minha senhora... Meditando na minha indole, vim a -considerar que para mim o incentivo das lagrimas é uma -certa poesia funebre e maviosa, sensação que eu não sei -d’outro modo definir; ao passo que as desditas positivas, -cerradas e suffocantes regelam-me a alma.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_226" id="Page_226">[226]</a></span></p> - -<p>—Elle ahi está a fugir para a tristeza!—interrompeu -o fidalgo.</p> - -<p>—Deixa-o fallar, mano...—pediu a condessa.</p> - -<p>—S. ex.ª tem rasão...—disse Bettancourt eu sou -incorrigivel e tenho contagio. Aqui está a minha Christina -absorvida tambem na sua meditação...</p> - -<p>—Não—acudiu Christina—eu estava a pensar com -alegria nas tuas tristezas passadas, meu Casimiro.</p> - -<p>—E todos com o passado ás voltas!—clamou Ruy—Fallem -no presente, descubram o futuro, e não me -afflijam, que vai aqui tudo raso! Querem ver que a minha -Eugenia tambem é melancolica? Em pequena eras -muito, menina! O teu gosto eram sombras de arvores, -fontes, ver o céu de noute... Aqui estou eu tambem a -fugir para traz trinta e tantos annos! Bem diz o Casimiro -que a sua scisma é pegadiça!...</p> - -<p>—Mas olha, mano, deixa-me conversar com o teu -genro, que o passado te aborreça...</p> - -<p>—O que eu observo, Eugenia, é que tu sympathisas -grandemente com elle!...</p> - -<p>—Porque não!?</p> - -<p>—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Casimiro.</p> - -<p>—Isso quando se diz, faz-se.</p> - -<p>—O quê, senhora condessa?</p> - -<p>—Disse que me beijava as mãos... então... beije.</p> - -<p>Casimiro inclinou-se, e beijou de leve a mão da dama, -que lhe apertou vertiginosamente a d’elle.</p> - -<p>Este visivel estremecimento impressionou Christina e -Peregrina, que se encararam de um modo que podia ser -duvidar do bom senso da condessa.</p> - -<p>—Vamos conversar, sr. Casimiro—disse Eugenia—Queira -sentar-se ao meu lado. Meu mano já me disse<span class="pagenum"><a name="Page_227" id="Page_227">[227]</a></span> -que o sr. era filho de um militar, que morreu no cêrco -do Porto.</p> - -<p>—Sim, minha senhora, sou filho de Duarte Bettancourt.</p> - -<p>—Conheceu seu pai? Onde estava quando elle morreu?</p> - -<p>—Conheci meu pai. Vi-o em 1830 pela ultima vez. -Estava eu no collegio dos Nobres, quando elle morreu.</p> - -<p>—Sabe em que anno nasceu?</p> - -<p>—Sei-o dos proprios apontamentos de meu pai.</p> - -<p>—Escriptos por elle mesmo?</p> - -<p>—Sim, minha senhora.</p> - -<p>—Dá-me licença que os veja?</p> - -<p>—Por que não, sr.ª condessa? Aqui está a velha carteira -de meu pai...</p> - -<p>A condessa tomou da mão de Casimiro, com sofrega -ancia, a carteira, que folheou.</p> - -<p>—Onde é?—disse ella convulsiva.</p> - -<p>—Aqui, minha senhora—respondeu Casimiro indicando-lhe -a pagina, que a condessa leu:</p> - -<p><i>Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816. -Foi baptisado em S. Domingos de Santarem aos 22 do -mesmo mez. Foi creado no Cartaxo d’onde sahiu em -1820...</i></p> - -<p>A condessa murmurava ainda; mas não lia o restante -da nota. Fechou a carteira, e voltou-a nas mãos, remirando-a. -Depois, pregou os olhos no rosto de Casimiro, -e permaneceu n’este spasmo alguns minutos, até que -muito do fundo do seio lhe sahiu um grito estridente, e -uma explosão de lagrimas em que a luz da vista parecia -innevoar-se.</p> - -<p>—V. ex.ª soffre!...—disse Casimiro.</p> - -<p>E acercaram-se todos da condessa, que, tomando a -mão de Bettancourt, ergueu-se de impeto e disse-lhe:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_228" id="Page_228">[228]</a></span></p> - -<p>—Leve-me a uma janella... dê-me ar, e uma gotta -d’agua.</p> - -<p>—São nervos!—observou Ruy—É da casa, que é -abafada... Abram todas as janellas... Queres tu descer -ao quintal? Vai com ella, Casimiro... Vamos todos.</p> - -<p>—Estou melhor—atalhou D. Eugenia—Já respirei...</p> - -<p>—Costumam dar-te estes accessos, mana?</p> - -<p>—Costumam...</p> - -<p>Sentou-se de novo, reparando na carteira, e outra vez -se lhe tingiu de escarlate febril o rosto.</p> - -<p>—Mysterio!—disse o vigario ao ouvido do cunhado.</p> - -<p>—Que cuidas?!—perguntou Ladislau...</p> - -<p>—Esperemos.</p> - -<p>A condessa affastou das fontes os cabellos empastados -de suor, e disse cortando as palavras de suspensões, que -pareciam o abafar de mão estranha na garganta:</p> - -<p>—Casimiro esteve no collegio dos Nobres até...</p> - -<p>—Até 1834, minha senhora—respondeu o filho do -major.</p> - -<p>—E depois...</p> - -<p>—Como perdi meu pai, fui a Pinhel procurar amparo -de parentes pobres.</p> - -<p>—E nunca viu no «Diario do Governo» um annuncio -perguntando se existia um filho do major Duarte -Bettancourt?</p> - -<p>—A Pinhel nunca chegou esse jornal—disse Casimiro—E -quem se interessava em saber se eu existia?</p> - -<p>—Quem?...</p> - -<p>—Sim, minha senhora.</p> - -<p>—Era eu.</p> - -<p>—V. ex.ª!—acudiu Casimiro com assombro.</p> - -<p>—Com que fim eras tu, Eugenia?—perguntou o fidalgo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_229" id="Page_229">[229]</a></span></p> - -<p>A condessa fitou a vista incendiada no irmão; e -disse:</p> - -<p>—Com o fim de saber se existia... meu filho!</p> - -<p>Assim devia ficar uma familia de Pompeia, de subito, -empedrada na invasão da lava fulminante. Uns a outros, -com olhos pavidos, pareciam pedir o claro sentido -d’aquellas palavras.</p> - -<p>Casimiro sentiu lavaredas no seio e descerrou os labios -á expedição do lume. Estrondeavam-lhe no encephalo -umas allucinações de ebrio. Dos olhos de sua mãi -afuzilavam umas como frechas que lhe cortavam de -lampejos o curto espaço de ar intermedio. Para os outros, -ha só o termo «estupefacção» que os descreva. A -condessa oscillava outra vez assoberbada pela commoção -nervosa; já se não sustinha, com as mãos apoiadas -nas costas da cadeira. Levantou-as, estendeu os braços -como a pedir amparo. Encontrou o seio de Casimiro, e -n’elle inclinou a face, exclamando:</p> - -<p>—Meu filho!...</p> - -<p>Mas isto tudo é um sonho!—disse Ruy de Nellas, -levando as mãos ás fontes.</p> - -<p>Casimiro ajoelhou com a mãi nos braços. As duas senhoras, -sem segura consciencia do que faziam, foram -amparar a condessa. O vigario pôz as mãos em attitude -de quem ora. Ladislau cruzou os braços no peito contemplando -o grupo.</p> - -<p>De subito, Casimiro afastou um pouco a face, contemplou -o rosto pallido da condessa, beijou-a na fronte -e disse:</p> - -<p>—Tenho mãi, meu Deus!... Eu sabia que a tinha, -e havia de encontral-a!...</p> - -<p>Então, chorou, a torrentes!</p> - -<p>Se não chorasse enlouquecia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_230" id="Page_230">[230]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_231" id="Page_231">[231]</a></span></p> - -<h2>XIX<br /> -<span class="smaller">Paz e contentamento</span></h2> - -<p>Decorridas algumas semanas, o casamento de Casimiro -Bettancourt com sua prima carnal D. Christina de -Nellas era validado pelo nuncio apostolico, dispensando -no parentesco, e saneando a ingnorada irregularidade. A -condessa perfilhava Casimiro para lhe segurar a successão -de seus grandes cabedaes. Casimiro, porém, com -quanta delicadeza e respeito a ternura filial lhe inspirou, -disse que só acceitava a perfilhação para ser seu -filho, e não seu herdeiro. Ficou interdicta, e alheia da -intenção da resposta, a condessa. O filho esclareceu assim -a propria demencia:</p> - -<p>—Minha mãi herdou de seu marido: eu, filho de -outro homem, que morreu pobre, peço licença para ser -estranho aos haveres do sr. conde de Asinhoso. Eu sou -filho de D. Eugenia de Nellas. Minha mãi ainda tem a -sua legitima n’esta casa de Pinhel. Essa acceito-a como -dote para egualar o patrimonio de minha mulher.</p> - -<p>—Pois sim, filho, faça-se a tua vontade—disse a condessa.—Por<span class="pagenum"><a name="Page_232" id="Page_232">[232]</a></span> -minha morte ficarás agricultando algumas -geiras de terra em Pinhel, que valerão doze mil cruzados. -Ficarás sendo um lavrador dos menos abastados da -comarca. Minha sobrinha Guiomar virá senhorear-se do -vinculo e da casa que é vinculada. Tu com tua mulher -e filhos irás viver no casal da Rechousa, ou n’outro semelhante, -que ameaçam ruina.</p> - -<p>—As paredes abaladas especam-se, minha querida -mãi; a dignidade aluida é que nunca mais se repara. -Eu amo a mediania, que é o refugio da paz. As lições -da vida deu-m’as o lavrador de Villa Cova. Minha mãi -prometteu-me ir ver de perto a casa de entre serras, -aquelle abrigo de honrados e de santos. Venha commigo -alli estar uns dias, e v. ex.ª olhando d’alli para o céu, -dirá: «se ha paraizo na terra, se ha bem no mundo, é -aqui».</p> - -<p>—Iremos, filho: eu tambem o desejo. Já estou convidada -para ser madrinha do segundo filho de Ladislau. -Bem vês que ando a cuidar-lhe do enxoval.</p> - -<p>E, logo na semana seguinte, partiram todos para Villa -Cova, e as meninas solteiras de Pinhel tambem.</p> - -<p>Quem é este homem de jaqueta de panno azul e colete -encarnado, e chapeu braguez que vai a pé, ao lado -da egua em que monta a condessa?</p> - -<p>É mestre Antonio—o carpinteiro.—Alli vai conversando -em obras, que é preciso fazer aqui e acolá, nas -casas arruinadas do fidalgo. A condessa trabalha por -tirar este homem do officio: offerece-lhe dinheiro para -erguer casa, e comprar bens. Mestre Antonio responde:</p> - -<p>—Fidalga, grande nau grande tormenta! Deixe-me cá -com a minha vida que vou bem assim. Meu filho brazileiro -manda-me duzentos mil réis cada anno, e eu, a -fallar verdade a v. ex.ª, tenho-os alli para uma gaveta,<span class="pagenum"><a name="Page_233" id="Page_233">[233]</a></span> -sem saber de que me servem. A minha alegria é o trabalho. -Em pegando dous dias-santos, ando como tolo -sem saber em que hei de gastar o tempo.</p> - -<p>—Mas gaste-o em trabalhar nos seus bens.</p> - -<p>—Nos meus bens trabalho eu, sr.ª condessa. Logo -que me pagam o serviço, alguma cousa tenho dos bens -em que trabalho.</p> - -<p class="tb">Ficarás, por tanto, carpinteiro, honrado homem, mas -homem honrado, toda a tua vida!</p> - -<p class="tb">Custa a caber tanta gente na casa de Villa Cova! -Armam-se leitos de bancos nos cazarões das tulhas. O -quarto solemne dos padres é consignado ao fidalgo. A -condessa occupa o de Peregrina. Que feliz barafunda -alli vai! Os creados vem carregados de caça dos montes. -O fidalgo quer ir á cosinha fazer umas troixas de -ovos, cuja receita lhe deram os anjos. A condessa anda -lá pelos campos a correr atraz da nétinha. As irmãs de -Christina sobem á lapa da Crasta e entram de lá a berrar -que lhes acudam, que as comem os lobos. O capellão -da condessa, acertando de encontrar na livraria -dos padres Militões as cartas manuscriptas de fr. Bartholomeu -dos Martyres, persegue toda a gente para que -lhe ouçam ler as cartas e os commentarios soporiferos -d’elle.</p> - -<p>Quem mais o atura é Casimiro que foge do bulicio -para a livraria defeza ás corrimaças das cunhadas.</p> - -<p>Chega o dia do baptisado, e n’esse dia apparece inesperado -em Villa Cova um tabellião de Pinhel, a rôgo da -sr.ª condessa de Asinhoso. Lavra-se uma escriptura. É -uma doação que faz a mãe de Casimiro ao seu afilhado -Ruy, filho de Ladislau. Dôa-lhe quinze mil cruzados em<span class="pagenum"><a name="Page_234" id="Page_234">[234]</a></span> -inscripções nos Bancos de Portugal, em virtude dos muitos -e impagaveis favores que devia a seus pais.</p> - -<p>Casimiro abraça sua mãi, e exclama:</p> - -<p>—A virtude é engenhosa, minha querida amiga!</p> - -<p>Os pais do menino beijam-lhe a mão, e Ladislau -diz:</p> - -<p>—Com a condição de que meu filho conservará o -deposito como patrimonio dos desgraçados: mande v. -ex.ª escrever esta clausula na escriptura.</p> - -<p>—Ladislau—disse a condessa—já lh’a deve ter escripta -no coração.</p> - -<p class="tb">Alli se detiveram trinta dias. De Pinhel, em cada semana, -vinham cargas de viveres. Ladislau sentia-se, e o -fidalgo respondia:</p> - -<p>—Isto é para o capellão da mana condessa, que lê -muito as cartas do fr. Bartholomeu; chora de enthusiasmo; -mas não o imita na temperança. Seria capaz de -engulir o santo, o bom do egresso, se o pilhasse! Sem -este contrapeso de vitualhas, amigo Ladislau, eramos -todos victimas da gulodice do padre. Vamos lançando -estes bocados ao Acheronte, que promette, ao contrario -do outro, levar-nos para o céu, se não adormecer no -meio do caminho.</p> - -<p>A alegria dava graça ao velho, que, em geral, era -semsaborão.</p> - -<p>Na volta para Pinhel trouxeram comsigo a familia de -Villa Cova, salvo o vigario que voltou ao amor do seu -rebanho.</p> - -<p>Sahiu para Lisboa o capellão da condessa com ordens -ao procurador para vender o palacio, os trens, os primores -da Asia, que opulentavam a triste vivenda da -viuva. Triste, sem um amigo, como ella dizia. Ao mesmo<span class="pagenum"><a name="Page_235" id="Page_235">[235]</a></span> -tempo, o egresso cumpriu outras ordens com referencia -ao ministro da justiça. Ultimado tudo, voltou o padre a -Pinhel: ia reloucado de prazer, porque, á ultima hora, -soubera que fôra nomeado conego da patriarchal. Beijou -as mãos á condessa.</p> - -<p>—Vá—disse-lhe ella sorrindo—vá imitar na pobreza -ecclesiastica o seu predilecto Bartholomeu dos Martyres.</p> - -<p>Na mesma data era nomeado conego da sé da Guarda -o padre João Ferreira.</p> - -<p>O vigario, avisado na sua pobre parochia, foi a Pinhel, -depositou a mercê nas mãos da condessa, e disse:</p> - -<p>—Perdoe-me v. ex.ª a recusa: eu não posso separar-me -de minha mãe e cunhado. V. ex.ª não quer que -eu me deixe alli viver á sombra das virtudes dos padres -de Villa Cova.</p> - -<p>—Eis aqui um padre novo, que destôa das doutrinas -do meu velho capellão!—disse a condessa—Pois sim, -padre João, vá para o seu presbyterio, e venha ver-me -muita vez, e tome á sua conta a minha velhice.</p> - -<p>Christina contou a sua tia e sogra os menores incidentes -do seu namôro, e mostrou-lhe o José-pastor que -tão util e leal lhe fôra.</p> - -<p>Chamou a fidalga José-pastor e mandou-lhe que dissesse -a razão por que fizéra aquelles serviços ao sr. Casimiro -e á menina.</p> - -<p>O rapaz respondeu:</p> - -<p>—Era toda a gente contra elles, e eu disse cá c’os -meus botões: ora deixa estar que eu vos dou nas ventas -para traz.</p> - -<p>—E nunca te deram nada?</p> - -<p>—Elles que me haviam de dar, fidalga??</p> - -<p>—Então fazias tudo sem interesse?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_236" id="Page_236">[236]</a></span></p> - -<p>—O que eu queria era vel-os casados. A menina estava -lá em cima fechada a chorar, e o sr. Casimiro andava -lá por longe escondido... fizeram-me muita pena! -Foi o que foi.</p> - -<p>—Queres tu ser padre?—perguntou a condessa.</p> - -<p>—Padre?!</p> - -<p>—Sim.</p> - -<p>—Não, senhora. Antes queria ser sargento.</p> - -<p>—Sargento!... mas tu és muito rapaz ainda para -assentar praça.</p> - -<p>—Posso assentar praça de tambor, que os tambores -são do meu tamanho.</p> - -<p>—És tolo, rapaz! Queres tu estudar para depois ser -official?</p> - -<p>—Eu já sei ler, que me ensinou o sr. Casimiro.</p> - -<p>—Pois sim; mas agora vais aprender outras coisas -para Lisboa.</p> - -<p>—E leva-se lá bordoada de cego?</p> - -<p>—Não, patarata, ninguem lá te bate.</p> - -<p>—Então, se a fidalga quer, e o fidalgo deixar, vou.</p> - -<p>E foi para a Polytechnica de Lisboa, com recommendação -da condessa.</p> - -<p>D. Sueiro de Aguilar teve noticia d’estes successos -estupendos. Sentiu guinadas de fazer as pases com a -familia de Villa-Cova, e por um cabello se não descobre -n’esta extrema de despejo. Guiomar ainda escreveu a -sua tia, cumprimentando-a pela sua chegada. A condessa -respondeu: «agradeço o cumprimento de minha sobrinha, -e faço votos pela sua felicidade.»</p> - -<p>Esta sequidão irritou D. Sueiro, que se desentranhou -em apostrophes contra a canalha de Pinhel. A tia de -sua mulher foi exposta á irrisão dos seus hospedes, na -presença da sobrinha. Repetiram-se os vilipendiosos amores<span class="pagenum"><a name="Page_237" id="Page_237">[237]</a></span> -que deram o filho natural, sobrinho do carpinteiro. -Desde este facto, D. Guiomar odiou o marido, cuja hediondez -de caracter só podia ser avantajada por D. Alexandre.</p> - -<p>Tratou a condessa de casar suas sobrinhas, com auxilio -dos seus haveres. Accorreram pretendentes das -duas provincias contiguas, e casaram todas com morgados, -homens de bem, vaidosos de seus appellidos, mas -inoffensivos, e virtuosos mesmo por vaidade de imitarem -seus avoengos. As senhoras dispersas por aquelles palacetes -solarengos reuniam-se em casa de seu pai, nas -festas do anno, nos natalicios, e no anniversario do casamento -de Casimiro. Esta clausula fôra instituida pela -condessa.</p> - -<p>A tiro de peça de Pinhel, existiam uns casebres derrocados, -onde nascera, segundo informações de mestre -Antonio, seu cunhado Duarte Bettancourt, filho de um -soldado da ilha de S. Miguel, que ficára na metropole, -e alli estabelecera uma tenda. Comprou a condessa estes -pardieiros aos possuidores, e mandou-os arrazar, e -sobre elles edificar um obelisco cintado por grossa cantaria, -com portas de ferro. Ia todos os dias ver a obra, -que durou um anno, com os melhores alveneis da provincia. -Concluido o obelisco, foi entalhada na base uma -lamina de ferro com esta legenda:</p> - -<p class="center">Á MEMORIA<br /> -DE<br /> -DUARTE BETTANCOURT<br /> -MORTO NO SEU POSTO DE HONRA<br /> -EM 1834<br /> -MANDOU ERIGIR SEU FILHO<br /> -CASIMIRO BETTANCOURT<br /> -EM 1843</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_238" id="Page_238">[238]</a></span></p> - -<p>Ruy de Nellas, lá muito no seu interior, não gostou -da lembrança. Era a natureza a puchar por elle.</p> - -<p>N’este tempo, teve a condessa uma hora de muitas -lagrimas.</p> - -<p>Casimiro, de proposito e por veneração, nunca lhe -mostrára duas cartas, que conservava entre os papeis de -seu pai, assignadas pela inicial <i>E.</i></p> - -<p>N’uma tarde, como estivessem sentados na base da -columna, Casimiro tirou da carteira dous papeis dobrados -e amarellecidos.</p> - -<p>—Que é isso, filho?</p> - -<p>—Veja, minha mãi:</p> - -<p>Abriu ella, e exclamou:</p> - -<p>—É minha a letra! Como possues isto?!</p> - -<p>—Minha mãi já deve saber como as possuo.</p> - -<p>A condessa leu soluçante, e beijou aquelle papel, que -estivera nas mãos de Duarte. Leu a segunda, e, em -meio da pagina, susteve-se afogada de ancias e lagrimas.</p> - -<p>Casimiro arrependeu-se da indiscripção, e acariciou-a, -pedindo-lhe, pela memoria de seu pai, que vencesse a -sua dor.</p> - -<p>Era este o contheudo da primeira carta:</p> - -<p>«Não soffras, D.—Conta com o meu valor. Parece-me -que vou ser arrebatada para uma quinta do tio. Não -sei qual. Eu te avisarei a preço de tudo. O mais que -podem é matar-me meus irmãos. A minha alma irá -identificar-se á tua: viverei sempre comtigo na terra, e -amando-te de um mundo melhor. Socega, meu amigo. -Se Deus vê a nossa innocente paixão, elle nos protegerá. -Se não ha Deus para nós, seremos um para o -outro. Tua, <i>E.</i>»</p> - -<p>Esta carta devia ter sido escripta antes da ida para -Camarate.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_239" id="Page_239">[239]</a></span></p> - -<p>A segunda dizia:</p> - -<p>«É horrivel esta oppressão! Tenho medo de morrer -abafada pela angustia. Vem, approxima-te, dá-me alentos, -se não prefiro antecipar a morte. Ai! que soledade! -que abandono n’esta hora! Vem, vem, D., que -eu queria ver-te antes de morrer! <i>E.</i>»</p> - -<p>Presume-se que esta ultima carta foi escripta de Recaldim -para Torres Novas, quando Duarte desceu de -Bragança, a receber das mãos de Brites aquella creança, -que alli está agora, homem, com o rosto de sua mãi -apertado ao seio.</p> - -<p>Em seguida áquelle trance, a condessa acamou, e teve -febre por longos dias. A presença do filho, magro, livido, -triste como quem pede a primasia na morte ao lado de -um enfermo em perigo, abrazou-a em supplicas ferverosas -a Deus, pedindo a vida. Declinaram as febres, volveram -esperanças e saude, e continuou o hymno de -graças ao Senhor, entoado por aquellas duas familias -que rodeavam o leito de Eugenia.</p> - -<p>Segura a convalescença, a condessa, prevendo que, -por morte de seu irmão, a casa de Pinhel passaria á -successora do vinculo, cuidou em construir um palacete -em nome de Christina.</p> - -<p>Casimiro objectou que d’aquelle modo passava a seus -filhos a casa do conde de Asinhoso.</p> - -<p>A mãi respondeu:</p> - -<p>—Quererás tu privar-me que eu beneficie minha sobrinha? -Isto não tem nada que ver comtigo, Casimiro! -As demazias da dignidade são uma impertinencia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_240" id="Page_240">[240]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_241" id="Page_241">[241]</a></span></p> - -<h2>Conclusão</h2> - -<p>Passaram-se vinte e um annos.</p> - -<p>Ainda que o contrario se afigure a pessoas, que teem -a boa sorte de não escrever romances, a conclusão d’um -livro d’esta especie é dolorosa de fazer-se, quer os personagens -tenham existido, quer vivessem, como chimeras -queridas, na phantasia do escriptor.</p> - -<p>É doloroso, digo, porque ha ahi um facto formidavel -e horrendo, que tanto vinga nos personagens verdadeiros -como nos imaginados: é a morte. O romancista historico -tem de matal-os em nome da historia: o romancista -inventor tem de matal-os em nome da verosimilhança.</p> - -<p>Eu creio que o leitor denega sua fé aos successos que -lhe contei. É injusto com a maxima parte d’elles. Ahi -foram esboçadas umas pessoas que viveram, e outras -que vivem com outros nomes e em outras terras. E por -isso redobra a minha mágoa por não poder dizer que -vivem todos.</p> - -<p>As duas sympathicas velhinhas, Brazia de Villa Cova -e Brites de Recaldim, essas ha muito que já lá vão. Com -isto privo o jornalismo do innocente gaudio de annunciar<span class="pagenum"><a name="Page_242" id="Page_242">[242]</a></span> -duas macrobias. Brazia morreu, como lá dizem, á -imitação d’um passarinho, com oitenta e nove annos -de idade, em seu perfeito juizo, e conformada com a -vontade de Deus. Legou os seus ordenados de setenta -e nove annos ao filho mais velho de Ladislau, e o seu -ouro, composto de cordão e anneis, a Peregrina. É verdade -que estes valores não chegaram para as missas de -que ella onerou os herdeiros por sua alma e por almas -idas ha tanto tempo que ou Deus as tinha comsigo, ou -o descondemnal-as seria tardio intento. Brites lá se finou -em Recaldim, poucos mezes depois da sahida de D. Eugenia -para o Brazil. As desventuras da filha da sua menina -minaram-n’a tanto que a saudosa velha, de dia -para dia, se resvalou á sepultura, pedindo a Deus que -a não castigasse por ter protegido a desgraçada senhora. -Aquella Apollinaria da calçada dos Barbadinhos, que o -leitor esqueceu, não esqueceu á condessa de Asinhoso. -De volta do Rio de Janeiro procurou-a, achou-a pobre e -cega, deu-lhe abundancia, empregou-lhe os filhos, e fez-lhe -o enterro annos depois.</p> - -<p>Ruy de Nellas morreu em 1850, nos braços de Casimiro -e Christina, unicos filhos que viu á hora da morte. -O vigario de S. Julião d’Arga tão santos dizeres lhe fallou -n’aquella tremenda hora, que o moribundo inclinou -suavemente a cabeça, e expediu a alma ao seu creador, -abençoando as filhas ausentes.</p> - -<p>Ao nono dia depois do fallecimento, a casa estava vasia, -e D. Soeiro estava a empossar-se n’ella, instaurando -logo demandas ás cunhadas, e articulando contra Casimiro -Bettancourt um libello de subtracção de baixella -vinculada: calumnia que nos tribunaes redundou em -maior infamia do litigante.</p> - -<p>Christina, Casimiro e sua mãi passaram á casa construida.<span class="pagenum"><a name="Page_243" id="Page_243">[243]</a></span> -Ahi receberam, volvidos tres annos, D. Guiomar -de Nellas, fugitiva do marido, que a martyrisava, tornando-a -serva de suas creadas, com quem elle devassamente -commerciava a morte lenta da esposa. Casimiro -recebeu-a com respeito, Christina com amor, a condessa -com a virtuosa indulgencia que aprendera na desgraça. -A perseguição de D. Sueiro alli mesmo lhe cravou a -seta hervada, fazendo-a intimar para se ir voluntariamente -estender no potro de torturas. Casimiro tomou -sua cunhada á sua guarda, depositou-a n’um mosteiro -de Villa Real, e d’ahi requereu separação judiciaria, que -conseguiu com illibados creditos. D. Sueiro, passados -annos, morreu d’um tiro que por descuido se deu, andando -á caça. Em Miranda vogava a suspeita de que o -tiro lhe fôra desfechado por um lavrador vingativo, inconciliavel -com a fidalga deshonra de sua irmã. Guiomar -tomou cargo da educação de suas filhas, que não -tinham educação nenhuma, e vive em paz e devotamente -no seu palacio de Pinhel.</p> - -<p>Ladislau lá está em Villa Cova, saudoso do seu primogenito, -que, ha dous annos, casou com Mafalda, filha -de Casimiro, e foi viver em casa do sogro. Ruy, seu -filho segundo, está-se ordenando para, no futuro, continuar -a missão dos sacerdotes d’aquella casa. O matrimoniarem-se -aquelles dous primogenitos era plano feito -desde o berço, e sanccionado pelo céu. Amaram-se desde -infantes, e hoje adoram-se como seus paes.</p> - -<p>Mestre Antonio tambem já lá está no mundo das almas -generosas e puras. Acabou a vida quasi sem erguer -mão do trabalho. Como intrevasse aos sessenta annos, -mesmo sentado no leito fazia bocetas para doce, ás quaes -dava consummo a condessa, arrumando-as em rimas, e -pagando-as por um preço que o artista aceitava, sorrindo<span class="pagenum"><a name="Page_244" id="Page_244">[244]</a></span> -á piedade da fidalga. Nunca foi possivel demovel-o de -sua casa e da sua officina! Ponha o compositor os pontos -de admiração que lhe parecer.</p> - -<p>Do vigario de S. Julião sabe tambem o leitor que não -ha tiral-o d’alli. As virtudes do ultimo padre de Villa -Cova é preciso lembral-as elle, que o povo, abençoando -as que vê, esqueceu as outras. O egresso capellão da -condessa, propendendo a bispo, fez-se politico, e fallava -mais nos comicios eleitoraes que cantava no coro. Na -vespera de ser nomeado, ceou com tres deputados de -sua fabrica, e rebentou de madrugada, com grande terror -das creadas, que affirmaram não cheirar bem o conego: -o que é possivel e sem que a sua alma perdesse por -isso.</p> - -<p>José Pastor, transformado em José de Castro Vieira e -Silva (como elle arranjou isto!), é tenente de engenheiros, -empregado nas estradas, com grandes vencimentos -e creditos de habilidade. Estudou muito, fez a pontaria -a engrandecer-se, não quiz saber de namoros, nem de -theatros, nem de bailes, e medita em fazer-se deputado -por alguma parte, no louvavel intuito de ser ministro -das obras publicas: ministro, que hei de defender, posto -que o considero mais de molde para os estrangeiros em -vista da diplomacia de telhado, que o vimos tirar a -limpo ha vinte e seis annos.</p> - -<p>A condessa de Asinhoso é ainda uma senhora robusta -com os seus 67 annos. A felicidade é a saude. Em certos -dias do anno vai visitar a memoria de Duarte Bettancourt, -e depois sobe, a pé, a S. Julião ouvir missa -por alma d’elle. Respeitavel piedade, cujo quilate só -Deus póde avaliar, a despeito da censura hypocrita com -que nós fingimos representar os juizos do Senhor.</p> - -<p>Aqui está o que podemos dizer d’estas familias. As<span class="pagenum"><a name="Page_245" id="Page_245">[245]</a></span> -outras filhas de Ruy de Nellas lá estão em suas casas, -honrando seus maridos, e abençoando a mão liberal de -sua tia que, em vida, vai disseminando a sua riqueza, -já muito diminuta em comparação do que foi. Parece -que o anjo da felicidade anda, de casa em casa, saudando, -ora o lavrador de Villa Cova, ora o lavrador de -Pinhel, ora o virtuoso de S. Julião; e dos actos de todos -vai dar contas ao Senhor, que o reenvia com bençãos -novas.</p> - -<hr /> - -<h2>Moralidade</h2> - -<p>Occorre d’esta historia, natural e concludentemente -que o coração do homem, formado na sciencia e nos -costumes antigos, encerra a urna dos balsamos para as -chagas dos corações formados á moderna. Exemplos tres -vezes bemditos: o vigario de S. Julião da Serra, Ladislau -Tiberio, Peregrina e Casimiro Bettancourt.</p> - -<p>Excellente seria que tivessemos muitas d’aquellas reliquias -dos tempos obscuros, as quaes nos servissem -como de quebra-luz, a fim de que a brilhante claridade -dos mil lampadarios da civilisação nos não ceguem de -todo.</p> - -<p>Aqui está, muito á flor da terra, a moralidade da historia, -em que tentamos esboçar uma face do <i>bem</i> e outra -do <i>mal</i> d’esta vida, tão infamada por uns como glorificada -por outros.</p> - -<p>Senhor dos mundos! vós, quando creastes a brasa da -sêde que requeima os labios do caminheiro do nosso -deserto, mandastes ás areias que se desentranhassem -em fontes! As fontes correm. E o impio sequioso bebe, -consola-se e... injuria-vos.</p> - -<p class="titlepage">FIM</p> - -<hr /> - -<div class="footnotes"> - -<h2>NOTAS</h2> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> Antonio de Oliveira Soares, que de capitão de cavallos -e costumes perdidos, passou a frade arrabido e vida muito -penitente.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2"></a><a href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a> O leitor provavelmente não encontra no seu «Diccionario» -o termo <i>reco</i>. O povo de Traz-os-montes, e de porção -da Beira-Alta dá aquelle nome, cuja etimologia ignoro, aos -cevados. Eu leio muito pelo diccionario inedito do povo d’aquellas -provincias, que sabe a lingua portugueza como fr. -Luiz de Sousa.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3"></a><a href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a> Nas aldeias do norte d’esta nossa terra tão pittoresca -de linguagem, algumas vezes perguntava eu quantos annos -tinha tal velhinho, e não entendia esta resposta: «já passa de -dous carros» Vim depois a saber que lá se contam os annos -a quarenta por cada carro, por analogia com o carro de pão -de quarenta alqueires.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4"></a><a href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a> Aut Deus, aut bestia.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5"></a><a href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a> A «Sociedade da manta» era uma congregação de mancebos -destemidos que tiveram Coimbra atterrada, e reagiam -ao exercito, quando não achavam <i>futricas</i> que escadeirar.</p> - -</div> - -</div> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of O Bem e o Mal, by Camilo Castelo Branco - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BEM E O MAL *** - -***** This file should be named 62624-h.htm or 62624-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/6/2/62624/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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