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-The Project Gutenberg EBook of O Bem e o Mal, by Camilo Castelo Branco
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
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-
-Title: O Bem e o Mal
- Romance
-
-Author: Camilo Castelo Branco
-
-Release Date: July 12, 2020 [EBook #62624]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BEM E O MAL ***
-
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-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net
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- OBRAS
- DE
- CAMILLO CASTELLO BRANCO
-
- EDIÇÃO POPULAR
-
- VI
-
- O BEM E O MAL
-
-
-
-
-VOLUMES PUBLICADOS
-
-Eis os titulos dos ultimos volumes:
-
-
-N.º 29—As virtudes antigas—Um poeta portuguez... rico!
-
-N.º 30—A filha do Doutor Negro.
-
-N.º 31—Estrellas propicias.
-
-N.º 32—A filha do regicida.
-
-N.ºˢ 33 e 34—O demonio do ouro.
-
-N.º 35—O regicida.
-
-N.º 36—A filha do arcediago.
-
-N.º 37—A neta do arcediago.
-
-N.º 38—Delictos da Mocidade.
-
-N.º 39—Onde está a felicidade?
-
-N.º 40—Um homem de brios.
-
-N.º 41—Memorias de Guilherme do Amaral.
-
-N.ºˢ 42, 43 e 44—Mysterios de Lisboa.
-
-N.ºˢ 45 e 46—Livro negro de padre Diniz.
-
-N.ºˢ 47 e 48—O judeu.
-
-N.º 49—Duas épocas da vida.
-
-N.º 50—Estrellas funestas.
-
-N.º 51—Lagrimas abençoadas.
-
-N.º 52—Lucta de gigantes.
-
-N.ºˢ 53 e 54—Memorias do carcere.
-
-N.º 55—Mysterios de Fafe.
-
-N.º 56—Coração, cabeça e estomago.
-
-N.º 57—O que fazem mulheres.
-
-N.º 58—O retrato de Ricardina.
-
-N.º 59—O sangue.
-
-N.º 60—O santo da montanha.
-
-N.º 61—Vingança.
-
-N.º 62—Vinte horas de liteira.
-
-N.º 63—A queda d’um anjo.
-
-N.º 64—Scenas da Foz.
-
-N.º 65—Scenas contemporaneas.
-
-N.º 66—O romance d’um rapaz pobre.
-
-N.º 67—Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado.
-
-N.º 68—Noites de Lamego.
-
-N.º 69—Scenas innocentes da comedia humana.
-
-N.ºˢ 70 e 71—Os Martyres.
-
-N.º 72—Um livro.
-
-N.º 73—A Sereia.
-
-N.º 74—Esboços de apreciações litterarias.
-
-N.º 75—Cousas leves e pesadas.
-
-N.º 76—Theatro:—I. Agostinho de Ceuta.—O marquez de Torres-Novas.
-
-N.º 77—Theatro:—II. Poesia ou dinheiro?—Justiça.—Espinhos e
-flores.—Purgatorio e Paraizo.
-
-N.º 78—Theatro:—III.—O Morgado de Fafe em Lisboa.—O Morgado de Fafe
-amoroso.—O ultimo acto.—Abençoadas lagrimas!
-
-N.º 79—Theatro:—IV.—O condemnado.—Como os anjos se vingam.—Entre a flauta
-e a viola.
-
-N.º 80—Theatro:—V.—O Lubis-Homem—A Morgadinha de Val-d’Amores.
-
-
-
-
- _CAMILLO CASTELLO BRANCO_
-
- O BEM E O MAL
-
- ROMANCE
-
- SEXTA EDIÇÃO
-
- LISBOA
- PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
- LIVRARIA EDITORA
- _Rua Augusta, 44 a 54_
- 1910
-
- 1910
-
- OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO
- MOVIDAS A ELECTRICIDADE
- Da PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
-
- _Rua Augusta, 44, 46 e 48—1.º e 2.º andar_
- LISBOA
-
-
-
-
-PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
-
-
-Foi vagarosa a sahida da primeira edição d’este livro.
-
-É obvia e, ao mesmo passo, desconsoladora a explicação. A novella não
-perdeu por mal escripta; mas por mal pensada. Quanto a linguagem tanto
-montava o quilate d’esta como o das suas irmans. A incorrecção é o
-castigo de quem escreve muito á pressa para ir acabando mais de vagar. Em
-Portugal é preciso isto.
-
-O defeito d’este livro é a superabundancia de virtudes de infastiar
-leitores que as exercitam eguaes e maiores, todos os dias.
-
-Ainda bem.
-
-Quem quizer voga e fama pinte e salpique de sangue e lama os seus
-paineis. Ganhar a curiosa attenção dos leitores sómente é permittido a
-quem lhes dá noticia de cousas não sabidas nem experimentadas. A virtude
-é o ranço d’estas gordas almas da nossa terra. Relatem-se crimes de
-cafrárias em linguagem de cafra.
-
- S. Miguel de Seide, agosto de 1868.
-
- _Camillo Castello Branco._
-
-
-
-
-AO
-
-PADRE ANTONIO DE AZEVEDO
-
-Nome que os pobres, seus irmãos, reverenceiam, e os enfermos da alma
-abençoam; ancião virtuoso; operario infatigavel em serviço de DEUS e da
-humanidade
-
-OFFERECE ESTE ESCRIPTO
-
-_O Auctor._
-
-
- _Meu Amigo:_
-
-_Ha vinte e tres annos que eu vivi em sua companhia._
-
-_Lembra-se d’aquelle incorrigivel rapaz de quatorze annos, que ia á venda
-da Serra do Mesio jogar a bisca com os carvoeiros, e a bordoada, muitas
-vezes?_
-
-_Esse rapaz sou eu; é este velho, que lhe escreve aqui do cubiculo de um
-hospital, muito visinho do cemiterio dos Prazeres._
-
-_Eu sou aquelle a quem padre Antonio de Azevedo ensinou principios de
-solpha, e as declinações da arte franceza._
-
-_Sou aquelle que leu em sua casa as «Viagens de Cyro», o «Theatro dos
-Deuzes», os «Luziadas», «As perigrinações de Fernão Mendes Pinto», e
-outros livros, que foram os primeiros._
-
-_Sou aquelle que, sem saber latim, resava matinas, laudes, terça, sexta,
-etc., com padre Antonio._
-
-_Sou, finalmente, aquelle, a quem padre Antonio disse:—«O tempo ha de
-fazer de você alguma cousa.»_
-
-_Passados vinte e tres annos, como eu acabasse de escrever o meu
-quadragesimo segundo volume, lembrou-me dedicar-lh’o, meu venerando
-amigo, e rogar-lhe que peça a Deus por mim._
-
- _Lisboa, 22 de junho de 1868_
-
-
-
-
-I
-
-A visão do presbyterio
-
-
-Apresento o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova.
-
-Nasceu no termo de Pinhel em 1818. Seu pae, viuvo sem consolação, vestiu
-o habito de frade mendicante no convento de Vinhaes. Assim cuidou elle
-que dignamente honrava a memoria de sua santa mulher. Escolhera convento
-pobre como penitencia, e deixara sua casa e filho unico sob a vigilancia
-de um irmão clerigo, sujeito de clara fama e varão doutissimo.
-
-N’aquella casa de Villa Cova, que dera o appellido a dez gerações de
-honrados lavradores, floreceram, na passagem de cinco seculos, padres de
-muito saber, uns famigerados na oratoria, outros grandes cazuistas, e
-alguns bastantemente notaveis por sua virtude sem lettras, e nenhum por
-lettras sem virtudes.
-
-O educador de Ladislau sobre ser virtuoso, era grande letrado; a sua
-sciencia, porém atrazára-se dous seculos na historia do espirito humano.
-
-Padre Praxedes de Villa Cova sabia de cór Aristoteles e Platão.
-Philosophia, physica, historia natural, grammatica, logica, metaphysica,
-poetica, meteorologia, politica, e mais um centenar de sciencias todas
-lh’as ensinaram os dous sabios de Stagira e Athenas. Na opinião d’elle, a
-intelligencia do homem, depois de Platão e Aristoteles, envelhecera, ou
-fingira remoçar-se com atavios de ouropel e pechisbeques, sem quilate na
-experimentada mão de um sabio.
-
-Era padre Praxedes copiosamente lido em livros portuguezes anteriores
-ao seculo XVII, e possuia os melhores nas suas ponderosas estantes
-de castanho. Da epocha dos Senhores Reis D. João V e D. José I já
-pouquissimos volumes, e esses mesmos entremados do ouro puro dos
-classicos, se honravam de prender-lhe a attenção.
-
-Foi, desde menino, Ladislau encaminhado por esta, em parte, errada vereda
-da sabedoria util e verdadeira.
-
-Começou a escrever como caligraphicamente se escrevia ha dous seculos:
-lettra garrafal, com as hastes a prumo, longas e enfeitadas com mui
-engenhosos quadrados, mórmente as maiusculas. Era a escripta de
-padre Praxedes, tal qual a que seu tio avô, sabio fallecido em 1707,
-transmittira a um padre Heliodoro, seu filho, e este ao avô de Ladislau,
-e o avô ao filho, que vinha a ser o tio paterno d’este padre Praxedes.
-De modo que, n’aquella familia, o «traslado» da escripta em 1830 era
-fielmente copiado do de 1680. Em tudo mais como na escripta.
-
-Está situada a casa dos Militões de Villa Cova nas faldas de uma serra
-chamada a _Castra_. Affirma documentalmente o padre que o chamar-se
-Castra o sitio, vem de ter estado alli presidio romano, ha vinte seculos;
-e quer elle que sobre as ruinas d’aquella atalaia dos senhores do mundo
-esteja cimentada a modesta habitação dos Militões desde o seculo IX.
-
-É a casa grossa de cantaria com dez janellas de peitoril sem vidraças,
-quasi a roçarem nas proeminentes cornijas, assentadas em fortes cachorros
-sem lavor. É largo e alto o portão de castanho, que abre sobre um
-espaçoso quinteiro, intranzitavel na maior parte do anno, por causa das
-gabellas de tojo e urze, que os pés do gado vão calcando e curtindo.
-
-Do fundo do quinteiro, sobe larga escadaria a um pateo lageado com
-guardas de pedra tão em bruto e sem visos de esquadria que parecem ter
-alli ficado casualmente postas umas contra outras pelo revolutear aquoso
-de algum diluvio.
-
-Este exterior assim é triste, mais triste que a soledade das ruinas
-de outras casas, que em redor existiam até ao começo d’este seculo,
-e ás quaes os francezes acossados pegaram fogo, na sua ultima evasão
-de Portugal. Do desastre da Povoa de Villa Cova salvou-se a casa dos
-Militões, porque os incendiarios não acharam brecha por onde lançassem
-o lume: o morro de pedra era incombustivel; as portadas de castanho tão
-sómente a bala raza poderiam saltar dos seus enormes gonzos.
-
-Os donos das ruinas não quizeram reedificar no sitio onde seus
-antepassados tinham construido os pobres casalejos. Ajuizadamente
-edificaram em terreno mais ao centro das suas leiras, visto que, em casa
-de mais fertil torrão, já os avós dos actuaes tinham levado longe o
-arroteamento e a cultura.
-
-A casa dos Militões ficou, porém, solitaria, e tomou a si em bem dos
-pobres o desmontar da terra deixada a monte.
-
-As corpulentas arvores, que se abraçaram no declive da serra, mal
-deixavam entrever a casa de Villa Cova. O vestigio unico de vida
-n’aquelle fundão era o rolo de fumo que o vento rarefazia em apparencia
-de nevoeirinhos sobre a copa do arvoredo, o qual, visto da cumiada da
-Castra, semelhava uma mouta de arbustos.
-
-Volviam mezes e mezes sem que pessoa estranha descesse a serra, em
-demanda da casa dos Militões, excepto o viandante, que, surprehendido
-pela noute, se guiava pela neblina de fumo, vista ao entardecer, ou pelo
-convidativo cantar do gallo.
-
-Em dias santificados, a familia fiava dos cães de gado a guarda da casa,
-e ia ouvir missa á igreja parochial, um quarto de legua distante. Desde
-tempos immemoriaes era a freguezia pastoreada por clerigo da casa de
-Villa Cova. Este clerigo que, no discurso de tres seculos, parecia sempre
-o mesmo, tinha sempre comsigo uma irmã, que, no traje, no dizer, e no
-sentir, era a mesma irmã do padre do seculo XV.
-
-Depois da missa, o pastor acompanhava os seus a Villa Cova, onde pasava
-o dia; e á noute, entoadas as preces das Ave-Maria, lá transmontava o
-serro, que o separava da sua igreja, abordoando-se d’um cerquinho, que
-diziam ter trezentos ou mais annos de uso—tradição fundada na certeza de
-outras muitas.
-
-Este era ainda em 1830 o viver d’aquella patriarchal familia.
-
-Ladislau Tiberio Militão estudava n’este tempo a grammatica de
-Aristoteles. Frei Braz, seu pai, morreu n’aquelle anno; e no seguinte, o
-tio, que parochiava. Ficou reduzida sua familia ao padre, que o ensinava,
-e á tia Sebastiana, que, por morte do tio, voltára da igreja á casa, onde
-uma serie de onze antecessoras tinha voltado com o lucto no coração e a
-vida por um fio.
-
-Apenas fallecido o pastor, foi padre Praxedes nomeado interinamente para
-a vigararia de S. Julião da Serra. Não havia outro clerigo na familia,
-nem outro administrador para a lavoura. Quiz o padre declinar a pesada
-herança; mas, mal o souberam, os parochianos acudiram em rogos e lagrimas
-a Villa Cova, pedindo ao virtuoso irmão do defuncto vigario que os não
-desamparasse. Praxedes arrendou os bens, e transferiu-se á residencia
-parochial com irmã e sobrinho, esperando ainda que algum clerigo pobre
-das cercanias lhe tirasse dos hombros o cargo, e lhe libertasse o tempo
-necessario ao ensino de Ladislau.
-
-Malograda a esperança, e nomeado pelo governo, o parocho trasladou a
-sua livraria, como quem já tinha ao certo que seus derradeiros annos,
-muitos ou poucos, alli seriam vividos ao pé da sepultura dos seus onze
-antepassados.
-
-Na casa do presbyterio, continuou a educação litteraria de Ladislau.
-
-Vivia o mocinho entre seus tios; não conhecia rapaz da sua idade com
-que entretivesse as horas feriadas, ou conversasse em materia de
-estudo. Mui naturalmente lhe pendeu o animo a umas tristezas que nem
-viço e contentamentos de primeiros annos podiam desassombrar. Isto não
-faria especie ao vigario nem á senhora Sebastiana. Era aquella soturna
-melancolia a norma commum do viver d’esta familia. Muita quietação,
-silencio tumular, um moverem-se de phantasmas, perpassando uns por outros
-com glacial taciturnidade.
-
-Estava ainda gravado no animo de todos o lance funereo da viuvez de
-Braz. A mãe de Ladislau morrera como quem passa de um tumulo para outro.
-Nem mesmo, depois que sahira o esquife, os gemidos se ouviram longo
-tempo. E o viuvo, quasi sem declarar seus intentos, sahiu, ao terceiro
-dia, de casa, foi orar sobre a lagea de sua mulher, e d’alli se partiu,
-a pé, caminho de Vinhaes. Aqui, bateu á porta do mosteiro, que se lhe
-abriu como casa de infelizes, e lá ficou. Tudo assim na vida ordinaria,
-modelado por este extraordinario succedimento!
-
-Ladislau contou os dezoito annos da sua idade, sem sentir abrir-se-lhe o
-coração a alguma poesia: nem sequer á poesia da natureza!
-
-As graças campestres das Georgicas de Virgilio sabia traduzil-as em
-termos frios, rigorosamente grammaticaes, irreprehensiveis em sã e
-fradesca latinidade; porém, no interno da sua alma, nenhum enlevo o
-transportava da euphonia do verso para a formosura dos prados, das fontes
-e do luar das suas noutes solitarias. Dormia-lhe o coração; ninguem á
-volta de si proferira aquella palavra, que é bastante a despertal-o
-para as alegres alvoradas do primeiro dia de amor, amor sem mulher, sem
-esperança, sem emblema, amor em competencia com o ideal do amor dos
-serafins.
-
-Como se padre Praxedes premeditasse amortalhar este mancebo, já morto
-antes de haver experimentado o palpitar estranho da vida, que estremece
-em confusos desejos, uma vez, acabando de traduzir com Ladislau alguns
-capitulos da «Cidade de Deus», de Santo Agostinho, fallou assim ao moço
-de dezoito annos, sem uma só primavera:
-
-—Ladislau, pensava eu esta noute, e muitas noutes hei vellado a pensar
-que, d’aqui a pouco, voltarás á casa onde nasceste, deixando teu mestre
-debaixo da pedra onde esperam o grande dia todos os nossos. Pensei com
-tristeza que não virá tão cedo de nossa casa o padre guardador d’este
-rebanho que os nossos antepassados acceitaram como de Deus, e vieram,
-no atravessar de tantos annos, passando o cajado uns a outros. Agora é
-que se acabou este legado de serviços, desvelos, e caridades aos nossos
-irmãos... Quão grata seria a Deus que o não regeitassemos! Não estás tu
-aqui tão bem inclinado á virtude, e aproveitado na sciencia das cousas
-santas?!... Queres tu ser padre, Ladislau?
-
-—Quero, meu tio—disse o moço com inalterado semblante, como se fosse
-convidado a traduzir a «Carta aos Pisões» ou as «Lamentações de Jeremias».
-
-—Sentes em ti vocação ao sacerdocio?—reperguntou o padre com alegre
-sombra.
-
-—Sinto, sim senhor; porque não hei de sentir?—disse Ladislau.
-
-—Não tens pensado em outro futuro, meu sobrinho?
-
-—Outro futuro!?—perguntou o moço como alheado na estranheza da
-insistencia.
-
-—Sim: outro futuro... Pensaste alguma vez em te casares?
-
-—Não senhor.
-
-—Nem te pende para a vida de esposo e pai a inclinação de teu animo?
-
-—Nem tenho cogitado n’isso.
-
-—Pois pensa, sobrinho, pensa, que esta vida de padre tem grandes alegrias
-e grandes amarguras, como todas as vidas, todas as vocações. Se queres
-a paz, que me tens visto no rosto, entra na trilha de meus passos; os
-dissabores de dentro, esses, que são muitos, Deus te afaste o calix
-d’elles; mas se t’o der, acceita-o, que a remuneração é infallivel:
-acceita-o, meu sobrinho, que o descanço, vindo apoz a batalha, é
-ineffavel como o jubilo dos Santos. Ora pois: pensarás um anno;
-consultarás o teu espirito; e, em cada amanhecer, pedirás ao divino
-Espirito Santo que te allumie.
-
-Antes de findado o anno, padre Praxedes deu a alma ao Senhor; e
-Sebastiana, que vivia para sepultar o ultimo vigario de S. João da Serra,
-lá ficou na campa mais proxima, adormecendo-se a beneplacito de Deus,
-como quem cumpriu sua missão.
-
-Ladislau voltou á casa de Villa Cova com a sua livraria, e as supremas
-palavras do tio moribundo, que tinham sido estas:
-
-—Espera um anno mais, o conselho do Espirito Santo. Se o teu coração
-estiver desatado de paixões, que prendem á terra, dá-o a Deus; se não,
-meu sobrinho, sê um bom marido e bom pai, que esta virtude é por si
-tambem um sublime sacerdocio. A vida solitaria, que tens vivido, se
-poderes continual-a, filho, não a troques pelo mundo. Sacerdote, marido,
-ou simples homem, sem mais obrigações que as communs com os outros
-homens, além das que o decalogo te manda, foge, quanto poderes, da vida
-que traz comsigo o esquecimento da morte. Ladislau, a sciencia é um
-grandissimo mundo povoado de espirituaes amigos; os teus livros encerram,
-cada um, sua alma, que te falla como amiga. N’este, acharás um desgraçado
-contricto, que te conta os seus infortunios com o bispo de Hippona, ou
-o fundador da nossa Arrabida[1]. Outro, como o thesouro de Kempis, se
-te desentranha em balsamos para quantas feridas a dôr do ermo ou os
-desenganos do mundo te abrirem no seio. Nos livros apprendi a fugir ao
-mal sem o experimentar. Confessor quarenta annos, vi as angustias, que
-vão por esse mundo, tantas, que não cabiam lá, e transbordavam até ao
-nosso escondrijo. Recolhe-te a ti; não deixes os teus campos; affaz-te a
-amar estas serras, onde o pé do impio não chegou ainda. Olha tu com que
-serenidade eu fio meu remedio e salvação da divina misericordia: aqui
-tens, na morte, um exemplo das vantagens da vida, que eu tive. É isto,
-filho; é este acabar sem remorso nem temor, consolando-me de ter sido tão
-moderado em meus desejos, que nem se quer peço a Deus que me dispense
-mais um dia de existencia.
-
-Estas e poucas mais foram as ultimas palavras do presbytero.
-
-Ladislau Tiberio viveu um anno esperando o conselho do Espirito Santo.
-
-Os chorosos parochianos de S. Julião da Serra, quando viram suas
-consciencias em guarda de um sacerdote moço, que viera de longe
-pastoreal-os, foram ter com Ladislau, representados pelos lavradores mais
-abastados da freguezia.
-
-—Que querem de mim?—perguntava o moço—que hei de eu fazer-lhes?
-
-—Seu tio, que Deus haja—respondeu o mais respeitado—nos disse que talvez
-o sr. Ladislau tomasse ordens para ser o nosso vigario.
-
-—Pois sim; mas é cedo ainda, meus amigos. Deixai-me esperar o dia
-destinado á minha decisão.
-
-O dia chegou: era o anniversario da morte do padre Praxedes.
-
-Ladislau, na manhã d’aquelle dia, foi orar ao templo, e ajoelhou sobre a
-campa dos sacerdotes seus antepassados.
-
-Raiava a aurora, quando entrou á egreja.
-
-E enxergou um vulto, orando no arco da capella-mór.
-
-Mais tarde, como o sol coasse pela estreita fresta lateral um raio de luz
-sobre o vulto ajoelhado, Ladislau reconheceu uma mulher.
-
-
-
-
-II
-
-Amor de predestinação
-
-
-A mulher ajoelhada á sombra do escuro arco, era Peregrina, irmã do
-vigario.
-
-Viera de longe para alli com seu irmão, sacerdote pobre, que devia a sua
-ordenação ao bemfazer do padrinho, velho fidalgo de Pinhel. Em quanto
-João se ordenava em Bragança, Peregrina vivera e educara-se sob o amparo
-do padrinho de seu irmão, e querida das filhas do fidalgo, que a vestiam
-de seus vestidos, e a sentavam entre si á meza.
-
-Disse padre João a sua missa nova na capella do bemfeitor, e alli ficou
-estimado como da familia, até que, por diligencias do fidalgo, recebeu a
-apresentação na igreja de S. Julião da Serra.
-
-Peregrina beijou a mão do velho caridoso, beijou o rosto de suas amigas
-de infancia, e sahiu com o presbytero em demanda da vetusta igreja. Os
-parochianos, posto que descontentes ao verem semblantes desconhecidos no
-adro dos seus mortos, disseram:
-
-«Assim é que vinha o pastor de Villa Cova com a irmã».
-
-Era melancolico o presbyterio; as arvores ressequidas; o chão arido;
-as penedias calvas; os tectos assentes em vigas; as paredes interiores
-afumadas; os taboados movediços. Alli, as primaveras passariam
-despresentidas, se não fosse o azulejar-se o céu, e os festões das
-giestas na serra, e o calar-se o estridor das torrentes despenhadas dos
-cerros das montanhas.
-
-Peregrina, quando alli se viu, por um anoutecer de novembro, disse:
-
-—Como isto é triste e feio!
-
-Padre João olhou em redor de si, e respondeu:
-
-—Irmã, este chão triste é que nos ha de dar o pão santo da independencia.
-Bemdigamos o coração generoso dos nossos amigos, que me deram terra onde
-lavrar com minhas proprias mãos o nosso sustento de cada dia. A casa
-parece-nos agora triste, porque é noute. Ámanhã um raio de sol nos virá
-alegrar estas paredes.
-
-E, como assim fallasse, o vigario desceu ao adro, subiu sobre uma peanha
-tosca, travou da corda que movia o sino unico do simulacro de torre, e
-tangeu as nove badaladas de Ave-Marias. Os lavradores, que iam passando,
-descobriram-se, pararam, oraram, benzeram-se, e seguiram seu caminho
-murmurando:
-
-—Os padres de Villa Cova faziam o mesmo. Quer Deus que todos os nossos
-vigarios sejam bons e devotos.
-
-Entretanto, Peregrina, rezada a oração final da sua prece da tarde,
-alongou os olhos ás sombrias serras que avultavam para o lado de Pinhel,
-e chorou. Eram saudades das filhas do bemfeitor, e do casal onde nascera,
-e onde seus pais, caseiros do fidalgo, haviam morrido.
-
-A irmã do vigario tinha 18 annos. Era dotada de abundantes graças,
-compleição menos robusta que o ordinario das moças aldeãs, senhoril
-talvez extraordinariamente, rica de negros cabellos, formosa de olhos,
-doce e meiga no dizer, modestissima, parca em sorrisos, meditativa,
-laboriosa, e muito dada á oração.
-
-Costumava ella erguer-se ante-manhã, quando ouvia os passos do irmão no
-sobrado visinho do seu quarto. O vigario madrugava assim para dizer missa
-á hora em que os parochianos sahiam ás suas lavouras. Peregrina accendia
-o lume, aconchegava o pucaro das brazas, cegava as couves, ia assistir
-á missa do irmão, e vinha depois cosinhar o caldo que era a refeição
-matinal do sacerdote e d’ella.
-
-Uma grande parte do clero, que pastorêa almas, póde bem ser que me não
-acceite a verosimilhança d’este caldo de couves. Espero que se desçam de
-sua incredulidade, se eu lhes disser que a congrua e pé-de-altar de S.
-Julião da Serra não davam para chá, n’aquelle tempo em que os direitos
-da charopada chineza eram enormes, e os paladares eram genuinamente
-portuguezes, lá d’aquellas serranias, se saboreavam de preferencia no
-salutar cozimento de couves adubadas de saboroso unto. Ora eu, que
-n’esta fidalga e franceza Lisboa tenho sido espectaculo de riso, pedindo
-nos hoteis, e recommendando aos meus amigos o caldo verde, insisto
-contumazmente em me expôr á mofa da gente culta, dando á estampa, n’este
-logar e para meu duradouro opprobiro, o panegyrico do caldo verde, caldo
-de meus avós, e de padre João e de sua irmã.
-
-N’aquella madrugada, em que Ladislau fôra celebrar o anniversario da
-morte de seu tio, orando na igreja, Peregrina demorára-se a rezar, finda
-a missa, porque seu irmão entrára no confessionario. Déra ella conta de
-ajoelhar-se alli perto de si o moço, já quando o templo estava vazio.
-Soffreou, em quanto pôde, sua curiosidade, que teimava em querer conhecer
-o recolhido devoto. Não era costume seu voltar a cabeça a um lado ou
-outro, quando fallava a Deus; porém, tanta força lhe fazia o animo para o
-sitio onde estava o moço que, apesar de profanação, aventuro-me a suppor
-que o coração lhe estava tirando para alli os olhos por uns filamentos
-mysteriosos que, alguma vez, a anatomia ha de encontrar entre olhos e
-coração.
-
-Foi o raio de sol nascente, vertido pela fresta esguia da capella-mór,
-que de todo em todo aliciou Peregrina a olhar. Um raio do sol do Senhor
-a alumiar-lhes o escuro do templo para se verem! Donoso e sublime
-confidente de duas almas carecidas uma da outra! Nunca tão auspiciosos
-preludios de um amor começaram n’esta vida. São dous moços: ella
-virgem, e formosa, e immaculada; elle gentil, puro, e alli ajoelhado em
-consultação de seu destino. A que bemdita e predita hora se entreluzem as
-duas almas, embebidas em Deus e subitamente encontradas no mesmo arco da
-igreja, em que os esposos costumam receber as bençãos!
-
-Ladislau tinha as mãos erguidas, quando encarou no rosto de Peregrina.
-As mãos ficaram na postura fervorosa; mas a oração, cortada em meio,
-olvidou-se-lhe. E ella, que entrepassava nos dedos as contas do seu
-rozario, continuou a dizer as palavras santas, mas sem ouvil-as na
-audição interior do espirito.
-
-Ambos a um tempo acordaram da fixidez da sua contemplação, e córaram.
-Ladislau baixou os olhos, e ella ergueu-os. Um parece que pedia contas á
-terra d’uma delicia, que nunca lhe havia dado nem presagiado; outro ia
-no ceu como a decifrar o enigma da sensação nunca experimentada.
-
-Instantes depois, padre João appareceu á porta da sacristia, e mandou á
-irmã que accendesse os castiçaes do altar-mór, emquanto elle se revestia
-para ministrar a sagrada communhão á confessada. Ladislau, como ouvisse
-as ordens do vigario a Peregrina, ergueu-se e disse:
-
-—Eu vou, se o sr. vigario quer. Já sei este serviço, que era minha
-obrigação, em tempo de meus tios, que Deus haja.
-
-Padre João já conhecia o sobrinho do defuncto Praxedes, como primeiro
-lavrador da freguezia, e moço de estudo e virtudes, segundo lhe disse o
-regedor da parochia, e o gravissimo mordomo do orago confirmára.
-
-Acceitou o vigario o serviço a que Ladislau se teria offerecido, ainda
-mesmo que a presença de Peregrina o não movesse á delicadeza. Esta
-delicadeza era instinctiva certamente, e ensinada pelo coração, a
-fundamental de todos os ceremoniaes, que nas activissimas cidades os
-meninos aprendem em livros, como se a cortezia com damas não fosse pagina
-escripta no mais diamantino do peito desde que abrimos olhos para vel-as.
-
-Accendeu Ladislau as velas, e proveu de agua o jarro da communhão,
-emquanto o vigario se paramentava. Subiu o ostiario ao altar, abriu o
-sacrario e tomou a particula da pyxide. Uma nuvem escura de trovoada
-imminente entoldára o sol, e a capella-mór voltava á frouxa luz
-crepuscular. O ministro, severissimo em todo o ritual de seu sagrado
-encargo, como não fiasse da claridade de uma só vela a perfeita passagem
-da hostia á lingua da commungante, acenou á irmã para que tomasse uma
-vela do outro lado.
-
-Ladislau tremeu quando a viu tão perto de si; mas assim mesmo, não
-desatremou em desconcerto com a urbanidade: entregou-lhe o cirio, que
-tinha e foi tomar outro da tocheira.
-
-Em verdade lhes digo, meus sensiveis leitores, que eu desejava ter assim
-um painel, para serem dous os papeis da minha estimação. O que já possuo
-é uma menina lagrimosa, que está dando de comer ao seu cão moribundo,
-que não vê o alimento mas ainda a vê a ella, e parece despedir-se a
-chorar. O outro quadro queria eu que fosse o vigario de S. Julião da
-Serra pendido á fronte humilde da christã; d’um lado, Peregrina com o
-rosto banhado do escarlate da flamma, que ella quer affastar de si,
-adivinhando que os olhos do moço a estão contemplando; do outro lado,
-Ladislau, involuntario, captivo, alheado de si, sem poder desfital-a. Eis
-aqui as minhas quatro figuras todas absorvidas em amor de Deus. O padre
-está enlevado na suprema magestade do seu ministerio: a penitente está-se
-identificando a divindade do corpo e sangue de Jesus; Ladislau, em seu
-silencioso spasmo, está psalmeando o hymo de graça que o primeiro homem
-deu ao Senhor, no instante de ver inclinado a si um seio amparador de
-mulher. E ella, Peregrina? De ti, purpureada virgem, só podem sentir teus
-extasis, e contar-no’l-os as tuas iguaes n’este mundo, as que tiveram
-simultaneamente a intuição do amor e a visão do primeiro homem amado.
-Todos, pois, enlevados em aspirar divino: o sacerdote e a commungante
-pela consciencia, os outros pelo coração, aberto em perfumes que queimam
-a Deus o mais selecto e fino bago do seu incenso.
-
-Findo o acto sacramental, o padre subiu os dous degraus do altar, cerrou
-o sacrario, ajoelhou, e voltou á sacristia. Ladislau ficou em pé, rente
-com o tocheiro de castanho tosco, d’onde tirara o cirio. Peregrina foi
-depor a sua vela sobre a credencia, desceu ao fundo da igreja saudando os
-quatro altares lateraes, e sahiu do adro, e logo entrou na vigairaria.
-Ladislau, viu-a desapparecer, e disse de sua consciencia para Deus: «Não
-tornarei a vel-a?»
-
-Assomou o pastor no limiar da sacristia, e disse a Ladislau, que ia
-sahindo:
-
-—Desejo tel-o em minha companhia algum pouquinho tempo, sr. Ladislau. Se
-não vai com pressa, tenha a bondade de esperar, que eu faço oração, e vou
-já.
-
-—Espero no adro o tempo que o sr. reverendo vigario quizer.
-
-—Por que ha de ser no adro e não em casa?—tornou padre João.—Entre na
-residencia, que a porta do sobrado está aberta.
-
-Ladislau esperou no adro, e, emquanto esperava, tinha os olhos na
-janellinha da saleta, em que seu tio costumava estar nas noites quentes,
-esperando os freguezes, que voltavam das ceifas, e a todos fallava,
-mandando-os sentar nos troços brutos de pedra, que alli tinham ficado
-d’uma casa incendiada pelos francezes.
-
-Assim contemplativo, viu elle chegar á janella a irmã do vigario, e
-esconder-se, apenas o encarou, surprehendida.
-
-Que instantes aquelles para ambos! Que ceus e ceus, vistos á lus d’um
-relampago! Que extensos poemas de lagrimas costuma a saudade fazer depois
-com as reminiscencias de uns momentos tão fugitivos!
-
-Sahiu o vigario do templo, fechou a porta, e disse:
-
-—Estava o sr. Ladislau a recordar-se de seus tios?... Não admira, que
-eu mesmo, sem os ter conhecido, lhes respeito a memoria, pelos grandes
-louvores que ouço dar ás suas virtudes. Basta ver o que este bom povo é,
-para se avaliar as excellencias de quem assim o educou. O espirito dos
-dous ultimos e defuntos vigarios de S. Julião da Serra está ainda com o
-seu rebanho. Facil me ha de ser a mim, homem sem virtude nem experiencia,
-pastoreal-o. Mais tenho que aprender que ensinar.
-
-E, no sentido d’estas humildes palavras, foi dizendo outras, que se
-insinuavam ao coração do moço já captivo do conciliador semblante do
-sacerdote; e assim entraram na casinha parochial.
-
-—Peregrina—disse o padre á irmã que os vira subir, e, sem saber por que,
-se alvoroçara—olha que temos hospede; vê lá como te saes; não queiras que
-o nosso convidado nos julgue forretas. Almoço de abbade rico, ouviste?
-
-A moça não respondeu. Affastou da fogueira o caldo que fervia, lançou
-alguns ovos á certã, e, tão depressa os cosinhou, foi á modesta arca do
-seu fragal tirar a melhor toalha, e os garfos de ferro ainda lusidios em
-primeiro uso.
-
-Peregrina, posto o almoço na mesa, sentou-se no seu logar de costume, que
-era um banquinho tosco achegado do escano. A mesa, construida de uma só
-taboa afumada, engonçava n’aquelle adorno da lareira, talvez tão antigo
-como a vigairaria de S. Julião da Serra.
-
-Quando a moça se assentou, disse Ladislau:
-
-—Aquelle banco era o logar de minha tia, que Deus tem!
-
-E ficou contemplativo.
-
-—E eu—disse padre João—estou no logar de seu tio, e o sr. Ladislau vem
-sentar-se no logar que era seu.
-
-Estava já na meza a travessa de barro vidrado com a fritada de ovos e
-farinha triga. O vigario sorriu-se, e disse:
-
-—Na meza de seu tio havia um prato e um talher para cada pessoa?
-
-Ladislau, que não sabia o significado da palavra «talher», respondeu:
-
-—Comiamos todos do mesmo prato; e na minha casa de Villa Cova, tanto meu
-pae como meus tios comiamos á mesma meza dos creados e jornaleiros.
-
-—Como ha trezentos annos—ajuntou o padre—como os patriarchas idumeos
-com os seus servos e escravos. O sr. Ladislau ainda não viu, á luz da
-civilisação, a grande distancia a que está dos seus criados. Vive, por em
-quanto, na fé de que senhor e servo são homens filhos do mesmo pai, um
-favorecido, outro desfavorecido pelo acaso do nascimento... O sr. não lê
-as gazetas?—perguntou o vigario abruptamente.
-
-—Não leio, nem as vi nunca—respondeu o moço—Ouvi dizer a meu tio que um
-padre, d’aqui tres leguas, quando acertava de encontrar-se com elle na
-feira de Pinhel, lhe mostrava gazetas.
-
-—Pois—tornou o padre—as gazetas são uns papeis escriptos em letra
-redonda, creados e sustentados para demonstrarem que todos os homens
-tem direitos eguaes. Muito me admira que seus avós e o senhor tenham
-praticado a egualdade sem terem lido as gazetas! Provavelmente em casa
-dos Militões de Villa Cova lia-se o Evangelho de Jesus Nazareno.
-
-—Lia, sim, senhor.
-
-—Só assim pode explicar-se a virtude sem a doutrinação das gazetas. Dizem
-que ellas são o baluarte da liberdade, da egualdade, e da fraternidade;
-e eu estou em defender que o sermão da montanha, prégado pelo filho de
-Deus ha mil e oitocentos annos, e o sermão da natureza, que sem cessar se
-está ouvindo, bastam para fazer um homem irmão e amigo do outro homem,
-por amor de Deus, que é pai de todos.
-
-Posto que não excedesse os vinte e oito annos, o vigario, no pausado e
-reflectido do seu dizer, competia com os cincoenta annos de algum egresso
-d’aquelle tempo.
-
-As faculdades d’este bem-fadado ministro da verdade tinham amadurado
-antes da sasão propria. Costuma ser a desgraça quem antecipa, com a
-precoce experiencia, a reflexão; porém observa-se que o juizo—o que
-commummente se chama _siso_—proveniente das lições do infortunio, é um
-recolhimento melancolico, mysantropo, deshumano ás vezes, e quasi sempre
-intolerante. Em exemplos d’esses, que os ha em grande copia, acerto seria
-arguirmos ao enojo das chimeras d’esta vida o que attribuimos á reflexão.
-
-A madureza do vigario não era apressada pela desventura, nem triste, nem
-intolerante. A indole, o habito da soledade, o estudo, a clara vista
-da alma com que entrava no secreto e desconhecido do coração alheio,
-explicam o ar grave, monacal, e discordante de seus annos. Não obstante,
-o geito com que dizia as suas satyras ás gazetas dava mostras de espirito
-faceto ou _humoristico_, segundo agora francezmente se diz.
-
-Dos estudos do seminario passára o presbytero á capellania do padrinho de
-Pinhel, fidalgo, como se disse, intractavel desde 1834, retrahido ao seu
-quarto, em lucta permanente com os achaques da alma egualmente dolorosos
-que os do corpo. A gota, o rheumatismo, a sciatica impacientavam-no tanto
-ou menos que o desmancho das cousas politicas. Ruy de Nellas Gamboa de
-Barbedo, que assim se chamava o gothico solarengo de Pinhel, se alguma
-vez chamava padre João Ferreira ao seu quarto, era para lhe perguntar
-pela quinquagesima vez:
-
-—Que me dizes a isto, padre João?
-
-—A isto?
-
-—Sim, á queda do rei legitimo?
-
-—É um facto consummado—dizia o padre.
-
-—É uma usurpação consummada!—replicava o fidalgo, e sibillava um agudo
-ai, levando a mão ao artelho esquerdo, cuja dor só podia comparar-se á do
-artelho direito.
-
-E como o afilhado não pudésse restaurar ao throno usurpado o senhor
-legitimo á vontade do padrinho, Ruy voltava-lhe as costas, e o padre
-sahia melancolico a encerrar-se no seu quarto com os seus poucos livros,
-ou ia leccionar em primeiras letras as filhas do fidalgo, a segunda das
-quaes principiara o alphabeto aos dezeseis annos, Deus sabe com que
-repugnancia.
-
-Demorei-me accintemente n’estas dispensaveis explicações para dar tempo
-a que os tres convivas almoçassem e conversassem. _Conversassem_, é
-menos exacto. Quem fallou sempre foi o vigario, e é de presumir que o
-auditorio o attendesse escassamente. Ladislau, se alguma cousa escutava,
-era o poema interior, os hymnos descompassados, mas sublimes, que soavam
-dentro em seu coração. Estranhas musicas deviam de ser aquellas para o
-moço surprehendido, na alva do seu primeiro dia de amor, por enchentes de
-luz desconhecida! O amor, que vem procurado, como sensação necessaria á
-felicidade da vida, perde dous terços da sua embriagante doçura; porém,
-o amor inesperado, impetuoso e fulminante, esse é um abrir-se o céu a
-verter no peito do homem todas as delicias puras que não correm perigo
-de impestarem-se em contacto com as da terra. Era d’esta especie o
-sentimento de Ladislau, nascido na hora em que elle ia confirmar sobre a
-sepultura de seu tio o pacto de ser sacerdote, abjurar as desconhecidas
-allianças do coração com o mundo, e acceitar as que atam o coração ao
-mundo com o laço da caridade evangelica.
-
-Ora, aquelle poema interior, se alguem podia decifral-o, era Peregrina.
-A mulher innocente e admiravelmente dotada do sexto sentido, que recebe
-as impressões não classificadas na ordem physica nem moral. Adivinha
-quem a ama, antes que lh’o digam. Parece que o ar se lhe povoa de
-espiritos amigos, que giram entre ella e os olhos de quem, a fito ou de
-revez, a requesta. Aquelle diaphano veu de escarlate que lhe purpurea
-o rosto, não é sangue como dizem os materiaes definidores de tudo: a
-mimosa susceptibilidade de cutis, chamada pudor, não pode ser sangue; em
-quanto a mim, é o sombreado das azas iriadas dos espiritos que voejam no
-ambiente da mulher immaculada, ou então reflexo das coroas de rosas, com
-que o deus festivo dos amores a infeita, cioso de ter nos seus altares o
-pouco d’este mundo que merece e desculpa a idolatria.
-
-Posto que este dizer tenha um sabor mythologico, pagão, e, sobretudo,
-antiquissimo, ha-de o leitor conceder que o seu servo romancista, tal
-qual vês, se desgarre do caminho trilhado á moderna, para não dizer
-sempre que os seus personagens estavam arrobados, extaticos, ou, o que é
-peior, perdidos de amor.
-
-Os meus personagens, Ladislau e Peregrina, não estavam arrobados nem
-extaticos, porque ambos confessam que comeram da travessa vidrada a sua
-porção de ovos, e tomaram cada qual o seu caldo-verde (palavra indigna
-de tão levantado assumpto!)
-
-Perdidos tambem não estavam; porque o perder-se ou transverter-se o
-coração é quasi sempre a prova real de não ter sido o primeiro nem o
-melhor um certo amor com que os alienados se desculpam.
-
-O amor, que não perde nem desvaira, esse é que é o amor.
-
-Eil-o ahi, pois, profundo, sereno e bello como o oceano em calmaria.
-
-
-
-
-III
-
-Casamento patriarchal
-
-
-Eu, que já escrevi doze casamentos felizes de uma assentada, querendo
-agora enfeitar o de Ladislau e Peregrina, é tamanha a penuria do engenho
-em que me vejo, que—a não me acudir a fada do estylo—hei de contar
-o ditoso enlace, como elle está escripto no livro dos casamentos da
-freguezia de S. Julião da Serra.
-
-Convém saber que é cousa para pouco discurso a passagem do amor
-ao sacramento, que o completa, lá n’essas terras abençoadas do
-obscurantismo, como era o termo de Pinhel, e continuará a ser por estes
-quatro seculos por vir, em virtude de lhe andar por muito longe das
-raias o caminho de ferro. De S. Julião da Serra, então, isso aposto eu
-que nunca ha de ser desalojada a santa ignorancia, que faz amarem-se e
-casarem-se logo as pessoas que se querem.
-
-Vamos a bosquejar o casamento de Ladislau e Peregrina. Se a descripção me
-sair muito florida, não servirá. Guardarei os enfeites para exornação de
-outros casamentos, onde as flores sejam empregadas em disfarçar a mingua
-de coração e virtudes.
-
-Findo o almoço Ladislau disse ao vigario:
-
-—Como o dia está soalheiro e alegre, pedia eu ao sr. padre João e a sua
-irmã, que viessem passar o dia a Villa Cova. Se houver precisão da sua
-vinda á egreja para administrar a extrema-uncção, depressa o irá chamar
-alguem a minha casa; porém, graças a Deus, não está ninguem, que eu
-saiba, doente na freguezia.
-
-—Pois vamos—disse o vigario sorrindo.—Caro lhe ha de ficar o almoço... O
-bom presunto vai pagar os maus ovos. Vem d’ahi, Peregrina, vamos lá ver a
-casa d’onde sahiram tantos homens grandes e obscuros, como são os homens
-que se escondem da sociedade para serem bons. Quem dirá, sr. Ladislau,
-que no curto horisonte d’estas serras que nos cercam, estão fechadas as
-lembranças dos santos ministros do altar, que vieram de sua casa para
-dentro d’estas quatro paredes velhas!... E seu pai, o viuvo amortalhado
-no habito de frade pedinte!... Vamos!... A minha indole melancolica chega
-a ser rustica! Vejo que o sr. Ladislau está alegre, e eu a chamal-o a
-lembranças pesarosas!...
-
-No decurso da caminhada de um quarto de legua, foi Ladislau contando
-em miudos a sahida de seu pai para o convento de Vinhaes, e a saudade
-escura dos que ficaram, encarando a porta, que se abrira á passagem de
-um caixão, e logo ao desterrado perpetuo das alegrias d’esta vida. E o
-moço, a fallar de sua mãi, chorava; que é sabida cousa a facilidade que
-temos de chorar, quando o amor nos amollece, e, para assim dizer, anima
-o coração. Sem a presença de Peregrina, Ladislau seria mais insensitivo,
-mais duro, mais homem. O amor afemina as condições mais viris, e tem
-feito que as faces queimadas e negras da polvorada das pelejas se
-orvalhem e brilhem de lagrimas. No animo tenro e como infantil do moço
-de Villa Cova, a bem dita influição da meiga menina, que o ia ouvindo
-e amando, devia de abrir-lhe no peito os conductos todos das lagrimas
-maviosas. Não sei que mysterio santo e dulcissimo está no fallarmos de
-nossa mãi fallecida á mulher que nos bem quer. Póde ser que venha esta
-sensibilidade de recebermos de uma o coração, que damos a outra. Ou,
-talvez, seja de nos faltarem carinhos de mãi, e cuidar a gente que a
-esposa nol-os-ha de reviver.
-
-Subiram os tres caminheiros o serro de uma quebrada, d’onde se entrevia
-a casa de Villa Cova, mal distincta do arvoredo de soutos e carvalhaes.
-N’este alto, está um rochedo, a pender sobre uma gruta de lage, ageitada
-pela natureza, e conhecida dos pastores, com guarida segura das trovoadas.
-
-—Esta lapa convida—disse o vigario. Sentemo-nos aqui um pouco.
-
-—Minha mãi,—disse Ladislau—chamava a esta penedia a sua gruta... eu ainda
-lhes não disse que minha mãi era pastora.
-
-—Pastora?!—acudiu Peregrina, com ar de lisongeira admiração, significando
-sentir a patriarchal poesia da vida pastoril.
-
-—Olhem se avistam—tornou o moço—pela garganta d’estas duas quebradas, lá
-em baixo, uma casa, nas costas de um souto fechado? Alli nasceu minha
-mãi de uns lavradores remediados; e, logo que teve a idade, tomou conta
-da rez, e vinha todos os dias com ella para a serra. Aqui no cavo d’este
-penhasco é que ella comia a sua merenda; e, assim que o sol começava a
-descer, tambem ella descia ao valle.
-
-—Sosinha?—atalhou Peregrina, com visagem de sústo.
-
-—Sosinha com dous cães de gado, os quaes, assim que anoutecia, um tomava
-a dianteira do rebanho, outro ia á beira d’ella. Muito chorou minha mãi,
-ao morrerem-lhe de velhos os seus cães! Quando vinhamos á igreja, minha
-mãi sentava-se sempre ahi n’essa pedra, onde está a sr.ª Peregrina, e
-dizia a meu pai: «Olha, se te lembras, meu santo!» E ficavam-se a olhar
-um no outro com semblante alegre.
-
-Ladislau cessou de dizer o quer que fosse que attentamente o padre e a
-irmã esperavam. Por mais curiosa e lhana, Peregrina perguntou:
-
-—E que seria? Porque lhe dizia ella que se lembrasse?
-
-O moço sorriu-se candidamente, e continuou:
-
-—Meu pai estudava para padre, e já tinha ordens menores, quando encontrou
-aqui minha mãi, andando elle ás perdizes. D’ahi a pouco tempo estavam
-casados. Isto me contaram meus tios. É bem de ver que ella se lembrasse,
-quando aqui chegava, da primeira vez que se viram, depois que eram
-grandes. Em pequeninos tinham sido muito amigos; mas, como meu pai desde
-os doze annos começou a estudar com um tio vigario, e veio habitar na
-residencia de S. Julião, quando se tornaram a ver foi tamanho o amor
-que...
-
-Ladislau susteve-se com feminil pudor.
-
-—E foram muito amigos?—disse Peregrina.
-
-—Tão amigos—respondeu o padre—que se amortalharam ao mesmo tempo.—E,
-erguendo-se, acrescentou:—Ora vamos lá por ahi abaixo.
-
-D’alli até casa, Ladislau foi contando ao vigario os estudos que tinha
-feito com seu tio, os livros que lêra, e os que mais eram do seu gosto.
-No tocante ao intento de ordenar-se, nada tinha dito, quando padre João
-lhe perguntou:
-
-—Segundo me disseram, o sr. Ladislau está na ideia de ordenar-se?
-
-—Faz hoje um anno que morreu meu tio—disse o sobrinho do padre
-Praxedes.—Pouco antes de ir a Deus, me disse elle que esperasse um anno
-a inspiração do Espirito Santo. Agora venho de orar sobre a sepultura de
-meu tio, pedindo-lhe...
-
-—Que o allumiasse no difficil transito—atalhou o vigario, e ajuntou
-logo:—E vem decidido a ordenar-se?
-
-Peregrina, que os seguia com alguma distancia, como ouvisse aquella
-pergunta, insensivelmente estugou o passo para ouvir a resposta.
-
-Ladislau respondeu:
-
-—Ainda não.
-
-E, como voltasse o rosto ao padre no acto de responder, e visse os olhos
-de Peregrina, fitos em si, e expressivos de anciedade intima, Ladislau
-recebeu dentro da alma uns tamanhos abalos de alegria que não pôde nunca
-mais topar delicias comparaveis ás d’aquelle momento.
-
-Entraram no quinteiro da casa de Villa Cova.
-
-Á porta da córte dos cevados estava uma mulher octogenaria, com uma
-varinha na mão, acommodando os recos, que brigavam em redor da pia.[2]
-Esta mulher que tinha setenta annos de serviço em casa dos Militões,
-quando o amo, Peregrina e o vigario entraram no quinteiro, deixou cahir
-da mão trémula a varinha, e benzeu-se murmurando: «em nome da Santissima
-Trindade, Padre, Filho e Espirito!»
-
-—_Amen_, disse padre João.
-
-—Que tem vm.ᶜᵉ, tia Brazia?!—perguntou Ladislau.
-
-—Ainda não estou em mim!—respondeu a velha Brazia, caminhando para o
-grupo, e formando com as mãos um sobreceu aos olhos para poder enxergar
-os recem-chegados; e proseguiu:—Cousa assim! Pois não me havia de parecer
-agora que via entrar por essas portas dentro... credo!...
-
-—Quem lhe parecemos nós?—tornou Ladislau.
-
-—Esta moça—tornou Brazia, aproximando-se de Peregrina—pareceu-me sua
-mãe, que Deus tem; o meu menino parecia-me seu pae, o santinho; e este
-sr. padre dava-me ares do sr. reverendo vigario Praxedes. Estou a vel-os
-como eram ha trinta annos, quando vinham da igreja, depois da missa do
-domingo, cá jantar a casa!
-
-—Pois repare bem—disse o moço—que somos pessoas vivas, tia Brazia, e
-havemos de jantar para a convencermos de que não somos phantasmas.
-
-—Pois sim, meu menino; graças a Deus ha muito quê; mas olhe que os servos
-estão todos por fóra, e eu não tenho pernas para andar atraz da gallinha.
-Cozinhal-a cozinho-a eu; mas pilhal-a isso ha-de ser vm.ᶜᵉ. E quem é essa
-mocinha tão bem posta e ageitada, benza-a Nosso Senhor?
-
-—É irmã do sr. padre vigario, que está aqui.
-
-—Ah! este é que é o sr. reverendo vigario? Bem me tinham dito que era
-ainda bem moço; mas isso não tira. Se a santidade fosse aquella dos
-velhos, então já eu estava no altar! Deite-me a sua benção, sr. reverendo
-vigario, e com Deus venha a esta casa d’onde sahiram tres santos só dos
-que conheci. Eu tenho dou carros de annos, aqui onde me vê, sanzinha e
-escorreita, bemdita seja Nossa Senhora.[3] Conheci, só á minha parte, o
-sr. padre Timotheo, o sr. padre Heitor, e o sr. padre Praxedes, afóra o
-santo pai do meu Ladislau, que morreu com o habito dos missionarios de
-Vinhaes.
-
-Ladislau interrompeu Brazia, que ia sentar-se n’um feixe de vides para
-mais commodamente contar os successos alegres e tristes dos ultimos
-setenta annos da casa de Villa Cova. Pediu-lhe elle com brandura e graça
-que reservasse para depois de jantar as suas historias.
-
-—Então vamos para dentro—disse ella—eu cá vou com a nossa menina
-mostrar-lhe a casa. Como é a sua graça?
-
-—Peregrina.
-
-—Por muitos annos e bons. Era melhor chamar-se Rosa, que é mesmo uma
-flôr; que Pelingrina tambem é bonito nome. Ora, pois, vá o menino apanhar
-a ave, que a panella vae já p’ro lume.
-
-Ladislau e o vigario sahiram do quinteiro entraram na eira onde
-esgaravatavam as gallinhas. No entanto, Peregrina, como a velha se
-agachasse na lareira para espertar o lume amarroado, pediu-lhe que se
-assentasse no escabello, e a deixasse a ella cosinhar. Brazia cedeu ás
-instancias, repartindo o trabalho com a hospeda.
-
-Ladislau entrou na cosinha com a ave, e viu Peregrina com um alguidar
-no regaço, cegando as couves. Estranhou a Brazia o estar a irmã do sr.
-vigario n’aquelle serviço, e a velha respondeu serenamente:
-
-Ella assim o quer; e bem haja a moça! Estou-me a regalar de a ver!
-Parece-me mesmo sua mãisinha, quando aqui entrou pela primeira vez. O
-noivo estava lá no sobrado com os padrinhos e parentes, e ella desceu cá
-p’ra cosinha a ajudar as criadas.
-
-—Pois sim—replicou Ladislau—mas minha mãi era dona da casa e esta senhora
-é hospeda.
-
-—E por que não ha de ser dona? Se o não é, ella o será, querendo Nossa
-Senhora.
-
-Estas palavras avermelharam as faces de ambos, que não poderam suster o
-relance de olhos que se trocaram.
-
-—Pois então!—continuou a serva, cortando do presunto uma boa talhada.—A
-vida de padre boa é; mas não queira o Senhor que o menino seja padre. O
-que é preciso é casar, sr. Ladislau. Deus que lhe deparou esta creatura,
-lá sabe por que o fez. Vamos; é casar depressa, que eu não quero morrer
-sem ver gente miuda n’esta casa. O menino fez-me cabellos brancos, quando
-era pequeno (que a fallar a verdade eu já não tinha cabello preto nem
-para uma mézinha). Andava sempre a fugir p’ros campos, e eu a procural-o,
-e ia dar com elle a caçar grillos á torreira do sol: e de inverno andava
-sempre por essas fragas acima em risco de malhar aos fundões. Deu-me que
-fazer; mas é o mesmo: quero aturar tambem os seus filhos. Quando eu vim
-para cá, seu pae tinha cinco annos, e eu dez; se eu morrer, deixando cá
-um netinho delle, vou contente... Então não dizem nada?
-
-Ladislau, sem a velha dar fé, tinha sahido envergonhado, e mais ainda por
-ver que a Peregrina, ao passo que Brazia fallava, descia o rosto sobre
-a hortaliça, voltando-o de modo a não ser visto de frente pelo moço, que
-por sua parte se estava tambem escondendo no mais sombrio da cosinha, até
-encontrar a porta por onde sahiu.
-
-O vigario, estava esperando Ladislau, na vasta casa da livraria.
-
-Havia muito que ver e admirar nas estantes dos numerosos sabios d’aquella
-familia. A bibliotheca fôra principiada no ultimo quartel do seculo XIV
-por um padre Vicente Militão, que fôra peregrino a Roma, e estivera no
-concilio tridentino, e lá fôra muito acceito, por seu saber, e reportadas
-virtudes, ao santo arcebispo de Braga, D. Bartholomeu dos Martyres.
-Encadernadas em pergaminho, com o Breviario do padre Vicente, lá estavam
-algumas cartas do primaz das Hespanhas, cartas magoadas revelando o
-peso das obrigações prelaticias, e outras mais de folga, datadas no
-convento de Vianna do Minho, onde o humilde principe da igreja se fôra a
-descançar, e morrer nas delicias «d’uma estreita cella, paredes nuas, em
-mezas sem panno, um candieiro de ferro pendurado de um prego, uma cama
-de frade ordinario sem cortina, nem genero de paramento sobre uma táboa
-de pinho.» Estas palavras de fr. Luiz de Souza recordava o padre João
-Ferreira, quando religiosamente deletreava os caracteres amarellados e
-meio delidos das cartas do arcebispo.
-
-Voltando á livraria, os successores de Padre Vicente enriqueceram-n’a,
-empregando n’ella quanto dinheiro podiam amealhar, sem prejuizo
-dos pobres. Como quer, porém, que o rendimento de sua grande lavra
-sobre-excedesse o gasto, o remanescente era trocado por livros, enviados
-á escolha de entendedores monasticos, com quem os padres de Villa Cova,
-por amor da sciencia e piedosamente, entabolavam correspondencia.
-
-Os tres ultimos sacerdotes d’esta familia não tinham comprado livro
-algum, desde os ultimos annos do reinado de D. João V, em que a
-religião degenerou de sua simplicidade em luxuosa, e, até certo ponto,
-hypocrita ostentação; e, de mais a mais, os que a tractavam moral ou
-dogmaticamente, escreviam-n’a em linguagem, que não era a de Domingos
-Feo, Thomé de Jesus, Heitor Pinto, Arraes e Lucena. Para bem aquilatarmos
-em qual grau de purismo classico andava a vernaculidade n’aquella serie
-de padres letrados, basta dizer-se que no frontespicio do primeiro volume
-dos sermonarios do padre A. Vieira, um padre Timotheo Militão escrevera:
-«Tambem este grande engenho está gafado!» A gafa de que se lastimava o
-escrupuloso idolatra dos aureos escriptores sem liga era aquelle geito
-de conceitista italico-hispano em que o preclaro jesuita, a espaços, se
-descuidava na oratoria.
-
-Em quanto Ladislau e o vigario se entretem n’estas e semelhantes
-praticas, ingratas ao leitor de paladar mais delicado, Brazia está
-assim conversando com Peregrina, hombro a hombro, no escano da lareira,
-emquanto a galinha ferve:
-
-—Brazia não seja eu, se Deus me não ha-de ajudar! Lá que os moços se
-querem, como eu á menina dos meus olhos, isso vou eu jural-o sobre umas
-Horas, sendo preciso! A menina é uma perfeição; o meu Ladislau é aquillo
-que alli está. Duas creaturas assim já vem lá de cima talhadas para serem
-uma da outra; e, quando acertam de se toparem no mesmo caminho, vão ambas
-p’ra direita, ou p’ra esquerda. Não tem remedio senão casarem-se.
-
-—Pois sim—repetia Peregrina o que havia dito duas vezes:—Ainda hoje nos
-vimos, e já a sr.ª Brazia nos quer ver casados?
-
-—Então a menina cuida que uma pessoa só se conhece por ser vista muitas
-vezes? Eu ouvia ler a Historia Sagrada á sr.ª Sebastiana, que sabia ler
-como um padre, e já lá está na corte dos bemaventurados... Rezemos-lhe
-por alma.
-
-A sr.ª Brazia rezou alto, e Peregrina mentalmente.
-
-—_Requiescat in pace_,—disse a velha.
-
-—_Amen_,—respondeu Peregrina, e benzeram-se.
-
-Brazia continuou:
-
-—Pois como eu vinha dizendo, a Historia Sagrada conta que antigamente
-um moço sahia da sua terra em cata de outra terra, onde estava a noiva,
-que elle nunca vira. Batia á porta do sogro, pedia-lhe a filha e casava.
-Isto é que eram tempos, moça! «O coração não tinha peccado que fosse
-preciso descobrir com o tempo» dizia o sr. padre Praxedes, quando a irmã
-se admirava de casamentos assim de fugida. Olhe-me bem n’isto, que estas
-palavras teem muito que deslindar. N’aquelle tempo, a moça casadoura
-era por dentro como por fóra; via-se como á luz do meio dia o que ella
-lá tinha no seu interior: agora, pelos modos, é preciso espreitar muito
-tempo as inclinações das pessoas! O pai do sr. Ladislau era dos rapazes
-antigos: viu a menina lá em cima na lapa da Crasta, gostou d’ella, tornou
-lá a saber se ella o queria, foi ás Chãs aonde ao sogro; e, d’ahi a dias,
-já ella aqui estava a encher esta casa de satisfação. É como foi, e é
-como ha de ser! Senhor Jesus do bom despacho, não me deixeis ficar mal!
-
-Ladislau e o vigario, chamados pela velha, desceram á cosinha, onde
-estava posta a meza. Jantaram alegremente e de vontade. Os dizeres de
-Brazia, tendentes todos ao casamento, assazoavam as singelas iguarias do
-vigario, que pondo os olhos, quer na irmã quer em Ladislau, reparava na
-gravidade com que em silencio escutavam as facecias da inquebrantavel
-velhinha.
-
-—Será possivel que...
-
-Disse entre si padre João, e cuidou ler no rosto do hospede e no rosto da
-irmã esta resposta:
-
-—É possivel, e é certo.
-
-Findo o jantar, sahiram a tomar o sol na eira.
-
-Brazia, porém, puchou da batina ao vigario, chamou-o de parte, e
-disse-lhe:
-
-—Deixe-os lá...
-
-Padre João não achou que responder á velha, e fez menção de seguir sua
-irmã, que o estava esperando.
-
-—Não vá sem me ouvir duas palavras, sr. reverendo vigario. Sente-se
-n’este tamborete, que eu vou dizer aos moços, que vão á sua vida, e nós
-lá iremos ter.
-
-O dialogo deteve-se boa meia hora. Depois sahiram á eira; e o padre
-levava amparada no braço a velha, que jogava difficilmente os joelhos.
-
-—Ora diga-me o que elles estão fazendo, que eu já não enxergo
-nada—murmurou a velha.
-
-—Ladislau está apanhando flores na ribanceira.
-
-—Vê?—acudiu Brazia—que lhe disse eu? Flores são amores... E ella que faz?
-Não anda tambem ás flores?!
-
-—Não, tia Brazia. Está sentada.
-
-—A enfiar algum annel de missanga?
-
-—Tambem não.
-
-—Não? Então é uma ingrata. Vou ralhar com ella. E, acercando-se com
-extraordinaria presteza de Peregrina, disse-lhe em tom de graciosa
-severidade:
-
-—Vá fazer tambem um raminho, ande, menina, e dê-o ao sr. Ladislau.
-
-Peregrina poz a vista timida no irmão. O vigario fez um gesto de
-consentimento. Ergueu-se ella a colher umas enfezadas flores silvestres
-e inverniças que se definhavam entre os silvedos, e Brazia, ao mesmo
-tempo, dava umas palmadas e tregeitava uns saltinhos de cegonha, muito
-para riso, senão justificassem a alegria que lhe acreançava os oitenta
-annos. Santa creatura para namorados era aquella Brazia! Estar ella
-dizendo tudo que elles queriam dizer-se; fazer-se lingua de corações á
-hora em que nem os proprios donos saberiam articular a linguagem d’elles;
-obrigar Peregrina a colher flores, quando a moça estava perguntando a si
-propria se parecia mal colhel-as e offerecel-as! E hão de rir-se pessoas,
-que amaram ou amam, da velhinha que tudo aquillo fez com tanto sizo e
-proposito e angelicas intenções!
-
-Peregrina deu as suas flores a Ladislau, e recebeu o ramilhete d’elle.
-Qual dos dous tinha coração mais feminil? Pelo rubor da face não havia
-estremal-os.
-
-—Onde iria a tia Brazia?—perguntou o vigario, vendo-a sahir açodada e
-regamboleando as rebeldes pernas pela eira fóra.
-
-A velha pouco se deteve. Chegou esbofada. Chamou de parte Ladislau, e
-disse-lhe de modo que o vigario e a irmã ouviram:
-
-—Esta argolinha de ouro deu-a seu pae á mãisinha na vespera de se
-casarem, e já foi de sua visavó. Aqui a tem. Vá dal-a á sua noiva, senão
-levo-lha eu.
-
-Ladislau ficou atonito e immovel. O vigario sorriu, e disse á velha:
-
-—Sr.ª Brazia, vm.ᶜᵉ está sonhando um alegre sonho. Deixe ver se o tempo,
-com a vontade de Deus, confirma os seus bons desejos, que serão tambem os
-meus.
-
-Ladislau, como levado de insuperavel força, avisinhou-se de Peregrina
-e offereceu-lhe o annel. O vigario, abalado e commovido pela acção
-inesperada do mancebo, tomou a mão convulsa de sua irmã, e vestiu-lhe o
-annel. Depois, apertando nos braços o noivo de Peregrina, exclamou:
-
-—Pois não é um sonho?
-
-Accudiu Brazia:
-
-—Qual sonho? O que eu quero é os primeiros banhos apregoados no domingo;
-e de hoje a um mez esta menina é minha ama.
-
-—Sua amiga, sua filha!—disse Peregrina abraçando-a.
-
-Assim foi. Na quarta dominga seguinte receberam as bençãos estas duas
-creaturas preordenadas para a felicidade da terra e ceu.
-
-Os casamentos, que Deus escolhe, são assim determinados com uma
-singelesa, copiada dos tempos visinhos da creação de varão e femea, como
-entes necessarios a si, e de repente identificados por unidade insoluvel
-de almas. E então era o viverem tão sós e um, como quem de uma só vida
-tinham de prestar contas ao juiz supremo.
-
-A mim parece-me que o cazar-se a gente devia ser como Ladislau e
-Peregrina. Andar annos com o coração em ancias é desvigorisal-o para
-quando elle é mais necessario. Pelo ordinario, os noivos que se amam
-longo tempo, cazam-se quando o mais fino da sensibilidade está desgastado
-na abstracção e na chimera.
-
-
-
-
-IV
-
-Outros amores
-
-
-No dia immediato ao das bodas, o saudoso vigario fôra passar a tarde com
-sua irmã, que o viera esperar com o marido ao rochedo da Crasta.
-
-Ao entardecer, quando o padre se despedia, chegou um portador da
-residencia com uma carta para Peregrina.
-
-—Para mim?!—exclamou ella duvidosa.
-
-—E letra da sr.ª D. Christina—disse padre João.
-
-—Ella está lá—acrescentou o portador.
-
-—Ella quem?—acudiu Peregrina.
-
-—A fidalga, que escreveu a carta.
-
-—Que novidade é esta?!—disse o vigario, abrindo e lendo.
-
-—Lê alto, meu irmão!—disse Peregrina impaciente.
-
-E o padre continuou a ler mentalmente, dobrou a carta, embolçou-a na
-sotaina, e disse ao portador:
-
-—Vai indo, que eu lá vou ter.
-
-E, depois que o criado sahiu, murmurou com mui entranhada mágoa:
-
-—Eu presagiei esta desgraça!
-
-—Desgraça!—exclamou Peregrina.—Que é, meu João?
-
-O padre, voltado a Ladislau, disse:
-
-—A senhora, que escreve a minha irmã, é a filha mais nova de meu padrinho
-e bemfeitor. Lê tu, Ladislau, e minha irmã que ouça.
-
-Ladislau leu:
-
-«_Peregrina._ Pela carta de teu irmão ao papá sabiamos que ias casar;
-mas não cuidei que fosse tão depressa. Cheguei aqui a buscar o amparo
-de teu irmão e o teu. Felizmente estaes perto, e sei que vireis em meu
-soccorro. Eu venho fugida, e commigo vém o homem que amo, e a quem meu
-pai me negou, sem compaixão das minhas lagrimas. Vimos rogar a teu bom
-irmão que nos receba, e legitime a nossa união. A pobreza não nos aterra.
-Logo que estejamos casados, teremos força do céu para supportarmos todos
-os trabalhos. Vem, se podes, com teu irmão para me ajudares a vencel o,
-se elle resistir ao sagrado dever de nos abençoar este amor, que não deve
-ser a nossa perdição. Tua amiga _Christina_.»
-
-—E vaes casal-os não é verdade?—exclamou a commovida senhora.
-
-—Não é verdade—respondeu friamente o sacerdote.
-
-—Como?!—tornou Peregrina—não os casas?
-
-—Não. A filha desobediente não acha onde quer um ministro do Evangelho
-que lhe galardoe a rebellião contra seu pai. A lei de Deus diz: _honrarás
-teu pai e tua mãi_: a lei ecclesiastica diz ao cura d’almas: _não
-casarás a menor sem consentimento de quem a governa, ou ordem superior
-do teu prelado_. Eu vou sahir.
-
-—Eu tambem vou... disse Peregrina.
-
-—Não vaes—replicou o vigario.—Estás ao lado de teu marido, e Christina
-apparece-te ao lado d’um homem que... não lhe é nada.
-
-Peregrina baixou os olhos, e Ladislau disse:
-
-—Tu ficas; eu é que vou. Manda apparelhar a egua, que a filha do teu
-bemfeitor virá commigo.
-
-A esposa lançou-se-lhe nos braços, e exclamou:
-
-—Tu vaes buscar a infeliz menina?
-
-—Pois se ella é infeliz!... murmurou Ladislau.
-
-E sahiram.
-
-Christina estava á janella do sobrado da residencia quando o vigario e o
-cunhado chegaram.
-
-Era noite muito escura.
-
-—Estás ahi, Peregrina?—perguntou ella.
-
-—Não está, minha senhora—respondeu o padre.—Está o marido de minha irmã.
-
-A secura d’esta resposta intimidou Christina. E, receosa, voltando-se a
-um moço de boa presença, disse: «Enganei-me, Casimiro; o padre não nos
-recebe.»
-
-O vigario entrou na saleta, seguido de Ladislau. Cortejou com mui
-respeitosa reverencia a filha do seu bemfeitor, e levemente o cavalheiro,
-a quem chamou Casimiro Bettencourt. Depois disse:
-
-—Vi a carta que v. ex.ª escreveu a minha irmã. Peregrina não veio, por
-ser inteiramente inutil a sua vinda. Eu não posso sem authorisação
-canonica e civil ligar matrimonialmente v. ex.ª com este senhor.
-
-—Eu vinha tão confiada na sua bondade...—disse Christina, retrahindo os
-soluços sem reter as lagrimas.
-
-—Em minha consciencia—tornou o vigario—digo que o mais prudente e
-urgente acto n’este desgraçado successo é casarem-se; mas eu não posso
-fazel-o...
-
-—E então—atalhou Casimiro Bettancourt—um sacerdote do Christo assim nos
-abandona, como quem diz: «sêde criminosos e infames á vossa vontade...»
-
-—Não, senhor. O sacerdote de Christo faz, n’estes casos, o que faria
-qualquer homem de boas entranhas. Irei pedir ao sr. Ruy de Nellas
-consentimento para salvar sua filha da continuação do crime e da infamia.
-
-—Meu pai é inexoravel!—acudiu Christina.
-
-—Não pode ser—disse Ladislau.—Um homem, que amparou e educou dous filhos
-desvalidos d’um seu cazeiro, não póde ser impiedoso com sua filha. Minha
-senhora, peço licença para interpor o meu parecer n’uma questão em que
-minha mulher não é estranha, e eu tambem não posso sêl-o. Ella não veio;
-mas encarregou-me de vir aqui offerecer-lhe nossa casa; e, tão certa
-está de que v. ex.ª nos honra em aceital-a, que já vim preparado para a
-conducção de v. ex.ª.
-
-—Pois heide eu ir!...—exclamou Christina, encarando anciada em Casimiro.
-
-—O sr. Casimiro fica sendo meu hospede—respondeu o vigario.
-
-—Separados!—bradou ella rompendo contra todos os estorvos do pudor, e
-abraçando-se em Casimiro.
-
-—Não!—clamou elle.—Christina, sacode os teus sapatos fóra d’esta porta, e
-vamos ao nosso destino.
-
-—O aggravo não me fere, que o não mereço, senhor!—disse placidamente
-o vigario.—Eu convido o sr. Casimiro a ser meu hospede, em quanto se
-solicita a licença do pai d’esta senhora. Se lhes é dolorosa esta
-separação temporaria, Deus permittirá que os retornos de contentamento
-a façam esquecer. Soffram alguns dias para merecerem o premio. Eu não
-posso implorar o perdão para a desobediencia, allegando que os fugitivos
-permanecem em criminosa união. Ha o recurso da mentira; mas eu não sei
-mentir. Despeçam-se para um dia, que breve virá, se Deus nos ouvir. O sr.
-Casimiro, que me applicou as palavras de Jesus aos apostolos, mostra que
-lê e sabe os livros da religião. Seja, pois, religioso: peça comnosco ao
-Senhor que lhe despache em bem o seu requerimento.
-
-Casimiro apertou a mão de Christina, e disse:
-
-—Vai, e esperemos.
-
-—E esperemos—acrescentou o padre—por que, a baldarem-se os nossos bons
-intentos, quem lhes ha de empecer ajuntarem-se? O mundo, quando vê dous
-desgraçados, deixa-os passar, e vinga-se. Se o mundo é justo, não o direi
-eu: vingança justa creio que não ha nenhuma ahi. O inverso da caridade é
-a vingança. Tenham valor, que, se o não tem são mais fracos, desconfiam
-do poder de Deus, e da sua propria fidelidade um a outro.
-
-—Adeus! balbuciou Christina, suffocada de suspiros. Casimiro beijou-lhe a
-mão, dobrou o joelho, e disse:
-
-—Se te fiz desgraçada, perdôa-me.
-
-Ladislau, debulhado em lagrimas, abraçou Casimiro, e exclamou:
-
-—Sou seu amigo! O senhor ama deveras esta menina!
-
-—Eu sei que se amam!—disse o vigario—por isso serei parte, quanto em mim
-couber, na sua boa fortuna.
-
-—E eu não?!—disse com vehemencia o de Villa Cova.
-
-—Tu tambem, meu irmão. Ajudar-me-has com os teus conselhos, por que no
-teu coração tenro está a sabedoria dos virtuosos, que te educaram.
-
-—Não fomos infelizes, Christina!—clamou Casimiro.—Aqui estão comnosco
-duas generosas almas. Vai, minha amiga!
-
-—Venha—disse Ladislau—que minha mulher está pedindo a Deus que vamos.
-
-Já não choravam ao separarem-se.
-
- * * * * *
-
-Cumpre narrar, o mais breve que ser possa os antecedentes d’esta fuga.
-
-De uma familia pobre de Pinhel sahira em 1814 um mancebo a assentar praça
-no regimento de cavallaria de Bragança, onde serviu até furriel. De
-Bragança passou para Lisboa em 1815. Aqui seguiu os postos até que fez a
-campanha do cerco do Porto, já major do exercito sitiante, e ahi morreu
-na ultima batalha. Este militar era pai de Casimiro Bettancourt.
-
-Casimiro sabia que nascera em Lisboa em 1816, e não conhecia sua mãi.
-Com referencia ao seu nascimento, apenas possuia a pagina de uma velha
-carteira, que dizia: «Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de
-1816: foi baptisado em S. Domingos de Santarem, aos 22 do mesmo mez. Foi
-creado no Cartacho, d’onde sahiu em 1820. Entrou no collegio dos Nobres
-em 1825. Tenho pago todas as prestações até hoje 31 de dezembro de 1830.»
-Em nenhum outro caderno de apontamentos encontrou indicios de sua mãi;
-nem das muitas cartas que seu pai deixou esquecidas n’um bahu de folha,
-pôde colligir quaes pertencessem a sua mãi. As que tinham data eram quasi
-todas muito posteriores ao seu nascimento. Apenas duas assignadas com a
-inicial E, posto que sem data, queria e conjecturava elle que fossem de
-sua mãi: este querer fundava-se um pouco em vaidade, e muito em presagio,
-como depois se verá.
-
-Morto o pai, e transvertida a ordem politica, claro é que o joven alumno
-do collegio dos Nobres havia de sahir entre dezeseis e dezesete annos
-de idade, desvalido, desconhecido, e indifferente a toda a gente. Dos
-sabidos amigos de seu pai uns tinham morrido, outros emigrado, e outros
-esmolavam.
-
-Sabia Casimiro que seu pae nascera em Pinhel, e se correspondia com sua
-irmã, a largos espaços. Achou cartas assignadas por uma Marianna de
-Bettencourt. Escreveu, ao acaso, á senhora d’aquelle nome, ou ao nome
-d’aquella senhora. Responderam-lhe que sua tia tinha fallecido em 1832.
-A pessoa, porém, que respondia, era o viuvo, carpinteiro de seu officio,
-bom homem que lhe offerecia sua casa, e metade de suas sopas.
-
-Obrigado a optar entre a fome e as sopas do artista, Casimiro foi para
-Pinhel, auxiliado pela esmola de um condiscipulo, filho de um brigadeiro
-liberal, camarada do finado major antes de 1828.
-
-O artista redobrou de trabalho para não obrigar o sobrinho de sua mulher
-a pegar da serra e da enxó. Comprava-lhe vestido á feição de que usavam
-os moços remediados, e esperava que seu compadre Ruy de Nellas—padrinho
-d’um filho que mandára para o Brazil, quinze annos antes—cedo ou tarde
-conseguisse algum decente emprego para Casimiro.
-
-O fidalgo admittia á sua casa e presença o moço, em attenção ao pai, que
-morrera fiel á justa causa, como honrado e bravo. As filhas do fidalgo
-achavam-n’o distincto, delicado, bem fallante, e divertido, quando a
-tristeza, a dolorosa introversão o deixavam dissimular contentamento,
-que o pobre, a bem dizer, nunca sentiu deveras. Ruy de Nellas mostrava
-desejos de lhe abrir a carreira da independencia. Aos dezenove annos,
-Casimiro pensava em ser soldado; o fidalgo, porém, queria que elle fosse
-padre com um patrimonio fantastico, e o carpinteiro inclinava-se ao
-generoso parecer de seu compadre.
-
-Sacerdote é que não! Casimiro amava Christina, Chistina ia chorar com
-elle; e sabia em que sombras de arvores, ou margens de ribeiras o moço ia
-chorar.
-
-E ella ia, tremendo de medo e paixão, e a pedir resguardo ás azas dos
-anjos, buscal-o onde elle estivesse. Tremia, mas não corava de pejo. As
-flôres que viam, invejavam-lhe a pureza. Arquejava-lhe o seio cançado de
-retrahir-se: cuidava a doce creatura que o espirar alto a denunciava. Era
-o offegar d’aquelle seio como o da avesinha anciada, que busca, de fronde
-em fronde, o ninho que lhe desfizeram. De longe o antevia pelos olhos da
-alma. As lagrimas tem seu odor: só lh’o não presentem os que as deixam
-gotejar sem misericordia, sem dó.
-
-E quem havia de ter pena do sobrinho do carpinteiro a não ser ella; que
-o intendera ao primeiro instante de ser amada, e ao mesmo raio ardente
-se queimára, e, se o timorato moço esmorecia de medo e pejo, era quem o
-acoroçoava e levantava do seu abatimento?
-
-Exceptuada a cumplice d’este enorme crime—o enormissimo crime de erguer
-homem pobre olhos affectuosos á filha d’um Ruy de Nellas Gamboa de
-Barbedo—o restante do mundo seria contra elle, se podesse adivinhal-o.
-
-Adivinhava-o o padre João Ferreira, quando voltou de tomar as ultimas
-ordens. A Casimiro disse:
-
-—Subjugue o coração emquanto é tempo. Tenha sempre deante de seus olhos
-os beneficios que deve ao sr. Ruy. Recompensar-lh’os com desgostos será
-crueza e indignidade.
-
-Casimiro não respondeu. O amor, aos dezoito annos, quando assim é
-surprehendido, não sabe mentir.
-
-A Christina disse o padre:
-
-—A maior prova de estima, que v. ex.ª póde dar a Casimiro, é desvial-o
-de si. Dos dous hade ser elle o mais desgraçado. Na sua idade, menina,
-o amor é sempre uma creancice, e como criancice se esquece quando é
-contrariado; porém, a primeira affeição do moço póde ser a ultima e
-volver em desgraça irremediavel.
-
-—Quem sabe?—disse Christina com pueril audacia e destemor.
-
-—Eu não sei senão que v. ex.ª está amando um homem que seu pae repulsará
-de casa, logo que desconfiar de tão estranhas intelligencias. A menina
-será perdoada como inocente, e elle perseguido e castigado como villão.
-Como penso que assim vem a acontecer, entendo que o seu amor será funesto
-ao pobre orfão. Seria querer-lhe muito desenganal-o.
-
-Observou padre João que as duas cegas creaturas, depois do aviso,
-praticavam como se, em vez da censura, recebessem louvores. Buscavam-se
-mais, escondiam-se mais, e, de dia para dia, pareciam ir declarando a
-toda a gente o seu amor, como se contassem com o apoio do fidalgo.
-
-Ruy de Nellas chamou o padre e disse-lhe:
-
-—Ó afilhado, tu não desconfias de nada?
-
-—A qual respeito, meu padrinho?
-
-—Que minha filha Christina olha o Casimiro de um certo modo?
-
-—Póde ser que v. ex.ª se não tenha enganado. Eu supponho que se estimam;
-e meu padrinho não podia embaraçal-os de se estimarem.
-
-—Essa não me parece tua!—exclamou o fidalgo.—Não posso embaraçal-os?!
-Então quem é que póde?
-
-—Ninguem, meu padrinho: o tempo é que corrige estes defeitos do coração
-humano. Deixe v. ex. em silencio a suspeita que eu tomo a meu cuidado o
-descanço de v. ex.ª.
-
-—Nada de pannos quentes!—bradou Ruy de Nellas. Casimiro vai ser posto
-fóra d’esta casa, e talvez de Pinhel. É assim que elle me paga? É-me bem
-feito! muito bem feito! Não seja eu tolo de estar aqui de braços abertos
-para receber desgraçados, que afinal...
-
-Padre João esperou que seu padrinho desabafasse a sua ira, e disse com
-humilde e pacato animo:
-
-—Sou eu um dos desgraçados que v. ex.ª recebeu nos braços abertos para
-todos: o que posso dar em troca de tantos beneficios é a lealdade do meu
-coração, o meu leal aviso em coisa tão melindrosa. Se v. ex.ª perseguir
-Casimiro, a sr.ª D. Christina, se já o ama como creio que sim, amal-o-ha
-mais depois. Conheço de fundamento a indole d’esta menina, e algum tanto
-a de Casimiro. Este moço tem espiritos de condição muito altiva, que se
-revoltam contra a baixeza em que o lançou a desfortuna. Por vezes me tem
-fallado do seu futuro com uns raptos de visionario, que me fariam rir,
-se me não compadecessem. Presagiam-se brilhantes destinos, e esquece-se
-de que o honrado carpinteiro está a suar para que elle se não avilte
-no trabalho incompativel com as suas imaginações. Em quanto á sr.ª D.
-Christina, é minha opinião que esta menina desobedece ao raciocinio, e
-á força, se lh’a imposerem. Sabe v. ex.ª que, de todas as suas filhas,
-esta foi a mais remissa em aprender o pouco que sabe, sobejando-lhe
-talento para muito. Observei que uma palavra aspera m’a afugentava por
-oito dias, e transtornava todo o anterior aproveitamento. Argumentando
-d’estas coisas simples, por analogia, todas me levam a crer que o emprego
-de providencias energicas dará mau resultado.
-
-—Qual?!—atalhou o fidalgo.
-
-—Uma fuga, uma vergonha.
-
-—Tu pensas isso, João?!
-
-—Ousaria eu dizer a meu padrinho o contrario do que penso?!
-
-—E os ferrolhos dos conventos para que se fizeram?
-
-—Para as freiras estarem seguras da inviolabilidade de suas pessoas.
-
-—E para as filhas rebeldes.
-
-—A rebellião continua nos conventos, a rebellião do espirito, contra a
-qual não prevalecem os ferrolhos.
-
-—Veremos.
-
-—Seria acêrto não experimentar, meu padrinho.
-
-—Então que queres tu que eu faça?: Deverei cazar minha filha com o
-sobrinho do carpinteiro?
-
-—Não, senhor. Penso que v. ex.ª, simulando inteiro desconhecimento do que
-se passa, deve favorecer Casimiro para que siga a vida militar que deseja.
-
-—Agora! agora que elle ousou pôr olhos em minha filha! o ingrato! pois
-não! Vou mesmo agora estabelecer-lhe mesada em Coimbra ou Lisboa para
-elle se formar em mathematica, e namorar-me de lá a filha! Estavam bem
-avisados os pais, se tivessem de mandar a Coimbra os maltrapilhos que
-lhes requestam as filhas! Não haveria ahi aprendiz de sapateiro, que se
-não fizesse galan das herdeiras ricas! Ora, sr. padre João Ferreira,
-outro officio! Não sei em que livros e em que terras tu foste estudar e
-experimentar semelhantes desconchavos. Eu consultarei o meu travesseiro...
-
-—Deus responda ás suas consultas, meu padrinho—disse o padre, quando o
-fidalgo lhe voltou as costas.
-
-No dia seguinte, ás cinco horas da manhã, já o fidalgo estava a pé, e
-abria subtilmente a janella do seu quarto sobre o jardim cujo muramento
-partia com a rua. Viu elle Christina sahir ao terreiro pela porta da
-cozinha, atravessar as aleas de amoreiras, destrancar um postigo de
-communicação com a estrada, e debruçar-se no peitoril. Desceu Ruy de
-Nellas, de manso, ao jardim, e ia já em meio, quando a filha deu tento
-da espionagem. Soltou um ai; mas de turvada que ficou, nem aviso deu a
-Casimiro. O pai apertou o passo, correu impetuosamente ao postigo, e viu
-o moço quieto, e sereno como se a surpreza fosse um gracejo de futuro
-sogro, que se entretem a fazer foscas ao futuro genro, muito do seu
-agrado.
-
-Não assim Christina, que, passado o momento do spasmo, dobrou o joelho e
-balbuciou:
-
-—Meu pai, eu é que sou a culpada!
-
-Não attendeu, nem acaso ouviu estas vozes o fidalgo. Inclinou-se á
-estrada, e exclamou:
-
-—Vá lá contar a seu tio carpinteiro a maneira como vossa mercê pagou a
-hospitalidade, que lhe dei! E não me torne a rondar a casa, que não vá
-algum dos meus criados apalpar-lhe as orelhas!
-
-Fechou-se o postigo com estrondo. Aquellas palavras continuaram a
-martellar nos ouvidos do moço, que levava as mãos á cabeça, como para as
-não ouvir. Pensou em se matar, como toda a gente, alguma vez, excepto
-os bons christãos, os felizes, e os tolos, que não são christãos nem
-felizes, nem precisam ser senão tolos para viverem e até sobreviverem a
-si proprios.
-
-Caminhou ás cégas por uns trilhos de cabras, que se aplanavam n’uma chã,
-arborisada de sôbros, onde padre João regularmente amanhecia com os seus
-livros de theologia moral ou historia ecclesiastica.
-
-—Casimiro viu-o, correu a elle, e exclamou:
-
-—Valha-nos!
-
-O padre reçebeu-o nos braços e ouviu acontecido.
-
-—O remedio virá do ceu—disse elle.—Não sei que lhe faça, a não querer
-receber-me um conselho. Espere, soffra, conforte-se, ore, e humilhe-se:
-não sei que mais lhe diga.
-
-Casimiro Bettancourt, ao anoutecer d’esse dia, adormecera com a face
-encostada a uma pedra: era a lethargia da fome, da fadiga, e da
-desesperação.
-
-Não orára.
-
-
-
-
-V
-
-Veredas penhascosas
-
-
-Ruy de Nellas, contente do feito, mas não seguro ainda, scismava na
-escolha do convento em que devia encerrar Christina, quando o padre João
-Ferreira chegou de dizer missa. Chamado a dar seu voto, o sacerdote
-respondeu que obedecia, mas não aconselhava; que iria onde s. ex.ª o
-mandasse negociar a reclusão de D. Christina, mas declinava de si o
-minimo de responsabilidade em uma violencia, sobre inutil, perigosa.
-
-Excitado pela colera, o fidalgo foi de encontro á prudencia do padre com
-termos rudes; mas a humildade do servo paciente despontou-lhe as iras, e
-introverteu-lh’as no seio em arrependimento. Ruy quasi lhe supplicou o
-seu voto. Padre João repetiu o que dissera, e contou a situação em que
-deixara Casimiro Bettancourt. Outra vez se irou o fidalgo, ouvindo o tom
-lastimoso com que o padre fallava do filho do major; porém, não sabemos
-dizer porquê, marejaram-se-lhes de lagrimas os olhos, quando o clerigo
-disse:
-
-—Agora vou ver se encontro o desgraçado ahi pela serra, que não vá elle
-tentar contra a vida, e, matando-se, legar a v. ex.ª uma tristeza pezada
-de mais para seus annos e sua nobre alma.
-
-Sahiu o padre, e, ao anoitecer, encontrou Casimiro deitado na terra
-humida, com a cabeça na pedra, e o rosto chammejante de febre. Agitou-o,
-ergueu-o, amparou-lhe os passos, até o trazer á estrada, e d’ahi quasi em
-braços a casa do carpinteiro.
-
-Conversaram até altas horas da noite. Casimiro ouviu as ultimas palavras
-do padre, e disse:
-
-—Farei a sua vontade.
-
-A vontade de padre João era que elle sahisse de Pinhel, e fosse a
-Bragança assentar praça. A resistencia de Casimiro fôra pertinaz,
-até ao derradeiro golpe, que o padre lhe descarregou, dizendo que a
-demora d’elle em Pinhel seria a causa á clausura de Christina. Casimiro
-sentou-se no catre, embebeu o suor frio da face na dobra do lençol, e
-exclamou:
-
-—Irei.
-
-E foi cinco dias depois, caminho de Bragança; mas, ao fim do primeiro
-dia de jornada, adoeceu perigosamente. O sangue refervido no peito
-principiava a vulcanizar-lhe a cabeça. Deram-lhe uma enxerga, n’uma
-taverna de Escalhão, e um padre que, em virtude de o ter confessado e
-ungido, pôde saber que o viandante era de Pinhel e se chamava Casimiro
-Bettancourt.
-
-O carpinteiro ergueu mão do trabalho, embolçou as economias do seu
-mealheiro, e foi caminho de Escalhão. O anjo do amor estava á cabeceira
-do enfermo repellindo a morte. O coração repuchára a si a onda escaldante
-de sangue, que banhara o cerebro, e espedaçava-se para deixar resurgir a
-rasão. O artista esteve nove dias e nove noites ao lado de seu sobrinho.
-Quando se lhe acabaram os escassos recursos, que levára, empenhou a cruz
-de prata, que trazia ao peito; e pediu primeiro ao Crucificado que lhe
-désse a vida do sobrinho de sua mulher.
-
-Ao decimo dia, o carpinteiro construiu uma camilha n’um carro de lavoura,
-e Casimiro, convalescente, foi transportado a Pinhel.
-
-Ruy de Nellas e suas filhas, tirante Christina, passeavam n’uma alameda
-fóra da povoação, quando o carro chegou. O carpinteiro, que caminhava
-lentamente apoz o carro, descobriu-se, á vista do fidalgo, e disse:
-
-—Guarde Deus a v. ex.ª, sr. compadre.
-
-—Que levas ahi, Antonio?—disse o fidalgo.
-
-—É meu sobrinho.
-
-—Teu sobrinho?—Disseram-me que tinha ido assentar praça. Querem ver que
-elle foi ferido em alguma batalha?
-
-—O sr. compadre está a mangar com os pobres!... respondeu o carpinteiro
-com um sorriso mais de pungir que propriamente a injuria.
-
-N’este lanço, Casimiro Bettancourt affastou a ourella da manta, que
-formava o pavilhão do carro, pôz fóra o rosto macerado, e disse:
-
-—Sr. Ruy de Nellas, quem me feriu na batalha foi a espada da honra. Agora
-vou eu travar uma batalha com o orgulho de v. ex.ª: veremos quem é o
-vencido.
-
-—Ora, sôr Casimiro!—replicou o fidalgo galhofando sarcasticamente—as suas
-ameaças tem muita graça... passe muito bem.
-
-E proseguiu no passeio, chibatando, com ares de Tarquinio ou Pombal, as
-florinhas que se abriam por entre o ervaçal que arrelvava a alameda.
-
-—Chama lá os bois, moço!—disse o artista ao carreiro.
-
-Christina encerrada voluntariamente em seu quarto, nem de suas irmãs era
-já bem vista. As outras senhoras, como izemptas e intactas de coração,
-conservavam os espiritos excelsamente afidalgados, e levavam muito a mal
-que sua irmã as quizesse aquinhoar no desdouro de um casamento desegual.
-O fidalgo obrigára Christina, nos primeiros dias, a tomar o seu lugar na
-meza commum; como visse, porém, que ella escandalisava a familia com suas
-lagrimas ordenou que lhe levassem as criadas os alimentos ao quarto. E
-assim se finava a pobre menina, desconsolada da voz humana, e descrida da
-misericordia divina.
-
-Peregrina, a sua confidente, a sua alegria, tinha ido com o irmão para S.
-Julião da Serra. Queria escrever-lhe: mas que portador ousaria levar-lhe
-a carta? Pensava em fugir para ella; mas com quem, com que recursos? A
-não ser ella, quem faria chegar ás mãos de Casimiro as suas cartas, o
-adeus sùpremo de sua alma, ao arrancar da vida? Respondia-lhe o calado
-pavor da soledade ao afflictivo interrogatorio, em que se debatia, e já
-por fim, desesperava.
-
-Havia na caza um criado moço, que Casimiro Bettancourt ensinára a lêr
-nas horas feriadas dos domingos. Nunca os dous namorados fiaram d’elle
-segredos seus; mas o muchacho, que era atravessado, adivinhava o que não
-via, e espreitava para examinar se tinha adivinhado.
-
-Soube elle que o seu mestre de leitura chegára doente n’um carro, viu que
-o fidalgo e as meninas andavam a passeio, foi de corrida a caza, bateu
-de mansinho á porta do quarto de Christina, e disse-lhe pelo espelho da
-fechadura:
-
-—Fidalga, o sr. Casimiro chegou agora doente n’um carro.
-
-Christina espediu um grito, e abriu a porta.
-
-—Vem cá!—disse ella ao rapasito, que se ia escapulindo.—Que disseste?
-Viste o sr. Casimiro?
-
-—Vi-o descer do carro nos braços do tio Antonio carpinteiro. Vem amarello
-como uma cidra.
-
-—Tu és nosso amigo, José?—perguntou ella offegante.
-
-—Sou, sim, senhora.
-
-—Levas-lhe um bilhete?
-
-—Dê-o cá, fidalga.
-
-—Espera, que eu vou escrevêl-o... O melhor é tu ires esperar no pateo,
-que eu lanço-t’o da janella, que não vá ver-te alguem aqui no corredor.
-
-O mocinho esperou um quarto de hora, e levou a carta a Casimiro, que
-respondeu logo.
-
-Este rapaz de nove annos faz lembrar o mosquito que matou o leão, e o
-braço fundibulario que derribou o gigante. Ahi estão a vigilancia e
-omnipotencia de Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, senhor solarengo mais
-velho da Beira Alta, anniquilladas pela intervenção do pegureiro, que o
-senhor feudal nunca distinguia dos carneiros que apascentava!
-
-O effeito das primeiras cartas foi uma transfiguração maravilhosa no
-semblante de Christina e Casimiro. Já ella punha as mãos e ajoelhava a
-orar: é certo que, pelo ordinario, attribuimos ao demonio o mal acintoso,
-que o mundo nos faz, e agradecemos a Deus o bem casual ou intencional que
-nos faz o mundo. Tudo isto redunda em elogio de Deus e nosso.
-
-Ruy entrou pensativo em casa, dizendo entre si: «Mal fiz em a não metter
-no convento; mas ainda não é tarde.»
-
-Mandou vir á sua presença os creados e creadas, excepto o José-pastor,
-como lhe chamavam. O rapasito ainda não gosava honras de creado
-appellavel para assumpto grave. Declarou o fidalgo que faria entrar
-n’uma cadeia o servo ou serva, que levasse ou trouxesse cartas entre sua
-filha e Casimiro. Os creados innocentes e impeccaveis n’esta materia—por
-isso que zelavam a fidalguia do seu amo contra o plebeismo do sobrinho
-de mestre Antonio—juraram de espreitar os passos de Casimiro, e, em
-testemunho de sua probidade, offereceram-se a quebrar-lhe as costellas,
-sendo necessario.
-
-Ruy de Nellas despediu-os satisfeito, e disse entre si: «Tanto faz tel-a
-fechada em casa, como no convento. Parece-me até que está mais segura
-aqui.»
-
-José-pastor ouviu a creadagem na cosinha discorrer ácerca da
-recommendação do fidalgo, e fez que não intendia. D’ahi a pouco, andava
-elle no pateo a escrever com um pau carbonisado o seu nome nas lages
-pollidas, e de vez em quando olhava, por debaixo do avental de saragoça,
-contra a janella de Christina.
-
-Viram-se. E elle escreveu a palavra _carta_, olhando de revez e
-indicativamente para a menina. Fez ella um gesto de intelligencia, e elle
-aspou a primeira palavra com os pés, e escreveu n’outra lage: _telhado_.
-Outro signal de comprehensão, e logo outra palavra: _torre_, e depois
-_trapeira_.
-
-Queria isto dizer que elle ia ao postigo de uma especie de pombal, que
-lá chamavam _torre_; que lançava de lá a carta ao telhado; e que fosse
-Christina á trapeira, superior ao seu quarto, e colhesse a carta.
-
-Sahiu-se excellentemente com a traça, e até sobreexcedeu o programma;
-porque a menina, recebendo uma, atirou outra carta á base da torre, e o
-rapasinho, que era optimo volatim em esgalhos de arvores, pendurou-se
-pelos pés no banzo do postigo, e com um troço de uma aguilhada de seu uso
-pastoril arpoou o papel. Estas habilidades é que Casimiro Bettancourt lhe
-não havia ensinado com as primeiras lettras. Se a instrucção primaria
-lh’as desenvolveu, isso é materia para mais dilatadas e opportunas
-pesquizas.
-
-Aligeirando o alcance d’estes successos, até ao ponto em que os
-deixamos na vigairaria de S. Julião da Serra, direi que a fuga estava
-pactuada desde as primeiras cartas, que se trocaram. As apostillas
-subsequentes versavam sobre qual caminho e destino convinha seguir.
-Casimiro lembrava-se do condiscipulo de collegio a quem devia o favor de
-dinheiro com que jornadeára de Lisboa a Pinhel. Presumia elle que, se
-fugissem para Lisboa, e procurassem aquelle amigo, achariam protector
-para alcançar-se um emprego. Mas um fio de espada lhe cortava por alma
-e coração, quando a nevoa negra da pobreza se lhe punha diante da
-esplendida aurora do seu dia feliz. Quem lhes daria meios para caminharem
-até Lisboa?
-
-Como adivinhando esta pergunta, Christina propunha que fossem a S. Julião
-da Serra, casassem lá, e pedissem ao padre João recursos para fugirem á
-perseguição, até que Deus lhes acudisse.
-
-N’estes dias revesados de alegrias e amarguras, para elles, que já tinham
-aprasado o da fugida, o carpinteiro recebeu carta do filho, estabelecido
-no Brazil, e o primeiro donativo de dinheiro. Quando Casimiro viu ouro
-em mãos de seu tio, apertou o artista ao seio, e disse-lhe com os olhos
-cheios de esperança e lagrimas:
-
-—Empreste-me parte d’esse dinheiro, que é o preço da minha felicidade.
-
-—Se é o preço da tua felicidade, ahi o tens todo—respondeu o carpinteiro,
-lançando as peças sobre a meza.
-
-—Menos de metade me basta—replicou Bettancourt.
-
-—Pois toma d’aqui o que quizeres; mas conta-me o que vaes fazer.
-
-Casimiro, temeroso da probidade de seu tio, nunca lhe havia revelado
-o plano do rapto. Prudente receio era o seu. Mestre Antonio, bem que
-estomagado das soberbas de seu compadre, não consentiria que seu sobrinho
-o vingasse por semelhante meio. A ida de seu filho para o Brazil devia-se
-em parte á generosidade do padrinho, que lhe déra enxoval e algum do
-dinheiro da passagem. O mesmo fidalgo o ajudára a comprar o fato de
-Casimiro, sem querer que o moço soubesse a obrigação em que ficava.
-Mestre Antonio, além d’isto, reprovava o ousio de seu sobrinho em
-inquietar uma menina talhada para marido de outra linhagem e haveres. Não
-dominava ainda n’aquella epocha a aristocracia das artes, inchada hoje
-com uns descomedimentos de orgulho, que prevalecem propriamente sobre os
-da aristocracia de nascimento; de modo que a gente sisuda lastima que o
-artista não seja bem creado para sustentar o seu real valor, sem andar
-a todas as horas, de arremettida contra as distincções herdadas. Agora,
-importuna a philaucia do artista; logo anoja a humilhação a que se desce.
-
-Cingindo-me ao ponto: Casimiro reteve ainda o seu segredo, sophismando-o
-d’est’arte:
-
-—Eu vou continuar em Coimbra ou Lisboa o meu curso de mathematicas para
-seguir a vida militar mais vantajosamente. Bem sei que este dinheiro
-a pouco chega; mas espero achar, sem baixeza, recursos em mim proprio
-para me alimentar. Ensinarei particularmente o que sei, e com o pequeno
-salario me irei remindo.
-
-—Se é isso, Casimiro—redarguiu mestre Antonio—leva o dinheiro todo, que
-eu tanto faço com elle como sem elle. Assim como assim, duzentos mil
-réis não me quitam de trabalho. Gosto bem de te ver botado ao caminho da
-vida. Vai, moço; que o mundo é p’rós homens. Teu pai sahiu d’aqui com
-duas camisas n’uma trouxa, sentou praça, e morreu major na flôr da idade:
-teria quarenta annos. Se não morre, e o seu partido vinga, podia acabar
-general. Tira-te d’aqui d’esta aldeia, homem! Tu tens lá umas ideias que
-precisam de terras grandes. Vai-te á vida que eu cá estou com o meu pouco
-para te acudir nas necessidades. Logo que teu primo mande mais dinheiro,
-lá irá ter onde estiveres. Se um dia tiveres de teu, e eu já não poder
-com o machado, então me irás pagando como poderes.
-
-Casimiro debulhava-se em lagrimas, abraçado ao carpinteiro, que embebia
-as suas no canhão da jaqueta de saragoça remendada nos cotovellos.
-Aquella jaqueta deshonrar-se-ia grandemente se a puzessem á beira de
-muitas fardas batidas a ouro e coalhadas de veneras!
-
-Era como picar de remorso o doer-se de Casimiro. Mentir assim aquelle
-velho tão bom, tão franco, tão desprendido, tão pobre!
-
-Não importa! A sua paixão absolve-o já; o homem honrado e illudido
-absolvel-o-ha depois.
-
-Tinha, pois, Casimiro dinheiro para a fuga; d’isto avisou Christina; a
-menina, porém, instava pelo casamento em S. Julião da Serra, e o moço, de
-vontade e coração, condescendia, e desejava assim tão abrasadamente como
-ella.
-
-Ruy de Nellas encontrou o carpinteiro, e não lhe fallou, nem respondeu á
-saudação com um gesto sequer.
-
-—Porque está de mal commigo, sr. compadre?!—perguntou o operario com
-magoada submissão.
-
-—Porque és um ingrato!—bradou o fidalgo.
-
-—Ingrato, senhor! Nemja isso! Deus me não ajude, se eu sou ingrato a v.
-exª!
-
-—Tens ahi teu sobrinho, que deu um pontapé no seu bemfeitor, e causou a
-desgraça de minha filha, e a tristeza de minha casa!
-
-—Meu sobrinho, sr. compadre, fez mal, é verdade; mas o mal está
-remediado. Meu sobrinho vai-se embora por estes dias. Vai para Lisboa
-continuar os seus estudos. Leva duzentos mil réis que eu recebi do meu
-filho e afilhado de v. ex.ª, e por lá ficará até se fazer homem como meu
-cunhado.
-
-Ruy de Nellas deu um grande suspiro de desabafo, e disse:
-
-—Fallas-me verdade?
-
-—Como quem se confessa, fidalgo.
-
-—Então compadre, o dito por não dito. Se eu soubesse que elle estava
-ainda em tua casa, por falta de meios, o dinheiro dava-t’o eu, sem elle o
-saber. Quando é que vai?
-
-—Estão-se fazendo umas camisas, e, o mais tardar no fim da semana, vai
-com Deus.
-
-N’este dia á noute, Ruy disse a uma das filhas:
-
-—Vai ao quarto de tua irmã, e diz-lhe com bons modos que venha tomar
-chá comnosco. A tempestade está a passar: é preciso que a trateis, como
-d’antes, d’aqui por diante.
-
-Christina, maravilhada da brandura de sua irmã, desceu á sala, e beijou a
-mão paternal, que se lhe offerecia com affavel sorriso.
-
-Tomou chá trocou leves palavras com suas irmãs, e volveu ao seu quarto,
-onde desvelou a noute, scismando na transfiguração de seu pai.
-
-A horas de almoço, passou Ruy de Nellas no corredor contiguo ao quarto de
-Christina, e disse-lhe tocando na porta:
-
-—Vai o almoço para a meza, menina.
-
-Christina estremeceu, e sumiu entre os cobertores a carta, que estava
-escrevendo, cujo periodo mais importante era assim:
-
-«....... Como penso que terei liberdade de descer ao jardim ao fim da
-tarde, sahirei pela porta da quinta, que abre para a estrada. Se me
-enganar, então ámanhã te avisarei......................................
-.......................................................................
-.................................
-
-Não se enganára.
-
-O caricioso pai sahiu com ella e suas irmãs a passear depois do almoço.
-Amimou-a, depois de jantar, brindando-a com um vestido de tafetá azul
-para festa dos annos da morgada. Ao fim da tarde viram-n’a sahir ao
-jardim, e a mais abelhuda das irmãs disse:
-
-—Papá, olhe que a Christina vai só...
-
-—Deixal-a ir. Coitada! o inverno já lhe desfolhou as rosas que ella ha um
-mez ainda regava!... Vai ver as suas plantas... Pobre filha, que pena me
-faz vêl-a tão abatida!...
-
-Christina demorava-se e o vento assobiava, impellindo contra a janella
-borrifos de chuva.
-
-—Vossa irmã, já está no seu quarto?! Vão ver.
-
-As meninas alvoroçadas vieram dizer que no quarto não estava ella nem a
-capa.
-
-—Pois não viram que ella saiu de capa ao jardim?—reflectiu o pai.—Vamos
-ao jardim, que ella deve lá estar abrigada da chuva... ou (ajuntou elle
-no silencio de seu coração) escondida a chorar... pobre menina!
-
-Espreitaram todos os escuros do arvoredo, chamando-a a brados. O fidalgo,
-esporeado por diabolica suspeita, correu á porta do carro, e achou-a
-aberta.
-
-—Fugiu!—exclamou elle. Os criados que saiam todos por essas estradas,
-e... que o matem!
-
-E os criados sahiram todos na ideia... de o matarem!
-
-Até o José-pastor lá ia na chusma, clamando que queria tambem matar o
-ladrão da fidalga, e teimava que via as pegadas da menina lá por uns
-caminhos onde ninguem via cousa nenhuma!
-
-A estas horas, Christina e Casimiro transmontavam o cabeço da primeira
-serra, que descia para umas gargantas intransitaveis.
-
-Na ante-vespera, palmilhara Casimiro o terreno menos trilhado, e
-orientara-se cabalmente da direcção que devia seguir até assomar á serra
-visinha de S. Julião.
-
-
-
-
-VI
-
-A humildade vencedora
-
-
-Os servos iam e vinham por estradas reaes, atalhos e mais desfrequentados
-caminhos. Ninguem déra noticia dos fugitivos, excepto um guardador de
-cabras, o qual disséra ter visto n’uma chã, passarem um senhor, vestido
-á cidade, e uma senhora assim a modo de fidalga, e depois os vira entrar
-á estrada de Trancoso. Estas novas quem as colheu foi o José-pastor, o
-velhaco! Elle não viu guardador nenhum de cabras: inventou-o, sem que
-ninguem lhe encommendasse a fabula. O que elle queria era attrahir as
-pesquizas para o lado opposto de S. Julião da Serra. Serviçal até alli!
-
-Quando, ao quarto dia de baldadas buscas, os criados mais pimpões
-se abalaram para Trancoso armados até aos dentes, Ruy de Nellas foi
-procurado por sujeito desconhecido. Entrando á presença do fidalgo, e
-interrogado sobre quem era, disse:
-
-—Sou um lavrador da freguezia de S. Julião da Serra.
-
-—Onde está vigario meu afilhado padre João Ferreira?
-
-—Sim, senhor.
-
-—Como está elle!
-
-—Doente de cama.
-
-—Coitado! E Peregrina? Conhece a irmã do vigario?
-
-—É minha mulher.
-
-—Ah! sim? quanto folgo! Já cá sabiamos que ella casára bem.
-
-—Estimo-a muito, que é digna d’isso.
-
-—E vm.ᶜᵉ creio que é lavrador abastado...
-
-—Graças a Deus, tenho mais que o necessario...
-
-—Queira sentar-se. Esqueceu-me de o mandar sentar, com a satisfação de
-ver o marido da nossa Peregrina... _Satisfação_, digo eu!... Vão por cá
-muitissimas afflicções, senhor... como é a sua graça?
-
-Ladislau, criado de v. ex.ª
-
-—Muitas afflicções, sr. Ladislau! Cahiu em minha casa um raio!... Deus...
-não sei que mal lhe fiz! Eu, que faço o bem que posso, que dou tudo
-quanto me sobeja aos pobres, que eduquei minhas filhas na religião de
-meus avós, estou aqui esmagado por uma vergonha, que me está cavando
-a cova!... Quando ha sete annos me morreu minha mulher, pedi a Deus a
-morte: oxalá que elle me tivesse ouvido!... Logo, em seguida, morreu o
-meu unico filho varão. Resisti ainda. Depois vi cahir o Senhor D. Miguel
-do throno á miseria da proscripção, e fiquei ainda em pé. Agora...
-agora... esta punhalada corta-me o ultimo fio! Nos tres infortunios
-passados, o Senhor Deus dos afflictos collocou a meu lado um dos seus
-apostolos, que me amparou, e me fechou as chagas com o balsamo da
-religião. Era um frade da sua freguezia, creio eu: Fr. Braz Militão do
-convento de Vinhaes. Morreu o santo, que passou tres noutes á cabeceira
-do meu leito, quando enviuvei. Elle tinha experimentado a minha dôr,
-porque vestira o habito de frade mendicante, quando Deus lhe chamou sua
-mulher...
-
-—Esse frade era meu pai—disse Ladislau.
-
-—Seu pai!—exclamou o fidalgo, erguendo-se a abraçal-o.—Pois o marido de
-Peregrina é filho d’aquelle predestinado, a quem eu recorro ainda nas
-minhas angustias?
-
-—E eu recorrerei tambem para que meu bom pai alcance do Senhor o socego
-de v. ex.ª
-
-—Desculpe-me, que eu estou todo absorvido pela minha magua! Ainda não
-fiz senão carpir-me; porém o sr. Ladislau calculará, quando fôr pai, a
-natureza da minha dor... Que motivo o traz a esta casa?
-
-—O seu infortunio, sr. Ruy.
-
-—Pois sabia que minha filha fugiu? Já lá chegou a noticia? Foi sua mulher
-que o mandou saber a atroz verdade? É certo, é horrivelmente certo que
-essa desgraçada fugiu ha cinco dias, e todas as diligencias em procural-a
-com o infame raptor se tem baldado!
-
-—A sr.ª D. Christina está em minha casa—atalhou Ladislau.
-
-Ruy de Nellas aproximou-se, quasi rosto a rosto, de Ladislau, e exclamou:
-
-—Que diz?! em sua casa? com elle?
-
-—Não, sr. Ruy. Em casa do filho de fr. Braz Militão não se agasalham
-amantes fugitivos, salvo se elles forem tão desgraçados que não tenham
-pão nem tecto. Em minha casa está unicamente a filha de v. ex.ª; em casa
-do vigario está Casimiro Bettancourt.
-
-—E meu afilhado—interrompeu iroso o fidalgo—consente que se recolha em
-sua casa o roubador de minha filha, da filha de Ruy de Nellas, a quem
-elle deve tudo o que é?!
-
-—Lamento,—disse Ladislau—que meu cunhado aqui não esteja para dignamente
-responder a v. ex.ª. Eu não tenho a virtude nem as expressões santas,
-persuasivas, e affectuosas do afilhado de v. ex.ª. Estou aqui, porque
-a doença ha tres dias o tem a elle na cama: apressei-me a vir para
-que o padre, despresando a enfermidade, não viesse por este mau tempo
-arriscar a vida. As intenções, todavia, de meu cunhado, acolhendo em sua
-casa Casimiro Bettancourt, são obvias e justas. Os dous, desgraçados
-pela cegueira do amor, foram pedir ao sacerdote a benção matrimonial; o
-sacerdote não podia abençoal-os sem consentimento de v. ex.ª, e não podia
-tambem abandonal-os sem faltar á caridade que professa, á sua propria
-consciencia, e ao que deve ao sr. Ruy de Nellas. Abrir mão d’elles, na
-situação em que os viu, o mesmo seria declarar-lhes que não ha divina
-nem humana misericordia. Elles iriam porta fóra desconfiados da virtude
-do ministro de Deus, em que tinham posto sua esperança, e julgar-se-iam
-desquites de serem ou procurarem ser virtuosos...
-
-—Bem!—atalhou Ruy, a que vem o senhor?
-
-—Implorar a v. ex.ª consentimento...
-
-—Para se casarem?
-
-—Sim, senhor.
-
-—Sabe o que pede? o sr. Ladislau sabe o que pede?!—bradou o fidalgo com
-os olhos afuzilando ira e gestos descompostos.
-
-—Sei que peço, segundo meu cunhado diz, o unico remedio de tal desgraça.
-
-—Seu cunhado é um parvo!—rebradou o velho, batendo rijamente com o punho
-fechado sobre a meza.—Repito: seu cunhado é um parvo, e não tem desculpa
-nenhuma, porque sabe quem é o pai de Christina, e quem são os parentes
-d’esse ninguem que roubou minha filha. Não lhe disse elle que Casimiro é
-sobrinho d’um carpinteiro?
-
-—Sim, senhor, disse.
-
-—E então? Parece-lhe que é bem arranjado o casamento do sobrinho do
-carpinteiro com a filha de Ruy de Nellas? Responda!... Que pena eu
-tenho que, em lugar do senhor, não estivesse ahi o padre, a ver que me
-respondia!...
-
-—Parece-me que o padre responderia a v. ex.ª que a sr.ª D. Christina...
-
-—Diga, diga!
-
-—Casada com o sobrinho do carpinteiro está mais honrada que na situação
-em que se acha agora.
-
-—Quer isso dizer que da parte do mariola é muito grande favor casar-me
-com a filha!?
-
-—Não, sr. Ruy; eu não quiz dizer semelhante cousa; não vim aqui offender
-v. ex.ª.
-
-—Pois então?... A vontade do meu amigo padre (replicou o fidalgo,
-sorrindo á palavra _amigo_) é que eu admitta em minha casa os noivos?
-
-—Não lhe ouvi isso. O que elle unicamente pede é a certeza de que v. ex.ª
-lhe levará a bem que elle os case, embora o seu consentimento não seja
-escripto.
-
-—Prohibo-o expressamente de os casar, sob pena de eu o fazer sahir da
-igreja, e metter em processo!
-
-—Que quer, por tanto, v. ex.ª que faça sua filha?—redarguiu Ladislau com
-os olhos humidos de lagrimas de desanimação—Que ha de ella fazer?
-
-—Entrar n’um convento, chorar o seu crime, e morrer lá, é o que eu quero.
-A elle hei de perseguil-o até ao inferno! hei de mettêl-o n’uma masmorra,
-e impontal-o para as Pedras-negras.
-
-Ladislau recolheu-se breves instantes, e sahiu de si, dizendo com grande
-impeto de pranto:
-
-—Se aqui estivesse frei Braz de Villa Cova, que diria, n’este ponto, o
-bom christão a v. ex.ª? Eu creio, senhor, que meu pai diria: «Perdão, e
-misericordia. A neta dos reis de Judá, Maria, mãi de Jesus, foi eleita
-pelo Eterno esposa d’um operario: era carpinteiro o pai putativo do
-Redemptor dos homens.»
-
-—Não me pregue sermões!—interrompeu Ruy de Nellas, cujas convicções, no
-tocante ao casamento da Virgem Maria, eram muito pela rama. O fidalgo
-acreditava que uma sua tia freira bernarda em Lisboa tinha oração infusa,
-e, em seus extasis, se erguia sobre a terra quatro covados; acreditava
-que S. Thiago e S. Jorge vieram em pessoa combater e vencer pelos
-portuguezes; acreditava outro sim que a morte e vinda de D. Sebastião era
-por ora cousa duvidosa, porém o casamento da filha dos reis de Israel com
-um carpinteiro custava-lhe a tragar!
-
-—Não me pregue sermões!—dissera, pois, Ruy de Nellas, e proseguiu:—Seu
-pai, se aqui estivesse, iria sem que eu lh’o pedisse, procurar essa
-mulher perdida, e convertêl-a a Deus, levando-a a um convento, e
-obrigando-a a ver bem a sua vergonha para que nunca mais se amostrasse a
-olhos do mundo. Seu pai, sr. Ladislau, de certo me não viria dizer que
-premiasse a desobediencia de minha filha, e a petulancia do farropilha,
-que m’a roubou, casando-os. Boa maneira de os castigar, não tem duvida
-nenhuma! O resultado de tão funesto exemplo seria as outras minhas
-filhas fugirem-me com os miseraveis que as seduzissem! Se a religião
-mandasse ou aconselhasse tal, ai da ordem social, que então direitos de
-pai e obediencia de filhas tudo andaria transtornado! Não, senhor! frei
-Braz Militão não podia, de modo nenhum, ser o patrono de tamanho crime!
-
-—Que quer, pois, v. ex.ª que se faça?—disse Ladislau com os olhos já
-enchutos, e um tom de voz, que denotava outra condição de espirito.
-
-—Já disse: ella, convento; elle, se poder fugir, que me fuja; mas já e
-depressa, quando não a justiça fila-o.
-
-—Creio que a sr.ª D. Christina não entrará em convento, nem Casimiro
-fugirá sem ella.
-
-—Veremos! Eu vou mandar homens a S. Julião da Serra!
-
-—Fará v. ex.ª mal. Na minha terra nunca entraram homens de braço armado,
-excepto os francezes, que incendiaram as casas por não encontrarem
-alguem. As nossas defezas e resguardo são as serras. Eu conduzirei a
-filha de v. ex.ª onde não possa a violencia alcançal-a. Ella fiou-se em
-mim, acceitou a minha casa, hei de defendel-a. A não poder vêl-a esposa
-do homem que ama, não serei eu que vá perfidamente arrancal-a ao seu
-destino, bom ou mau, Deus sabe qual será. Calar-me seria uma perfidia.
-Volto, pois, com o coração de lucto, e direi a meu cunhado que v. ex.ª
-lhe prohibe remediar a desventura da sr.ª D. Christina.
-
-—Mas diga-me cá!—acudiu de golpe o velho.—Se eu consentisse no casamento,
-que se seguia? Minha filha voltava a Pinhel com o marido?
-
-—Não, senhor.
-
-—Pois então?
-
-—Lá sabem o seu intento. A Pinhel não voltarão.
-
-—Mas quem os sustenta, depois?
-
-—Serei eu, se elles quizerem.
-
-—Bello começo de vida! Vai viver minha filha ás sopas da...
-
-Conteve-se Ruy; mas Ladislau, adivinhando-o concluiu a phrase:
-
-—Ás sopas da serva de v. ex.ª... Minha mulher tanto se considera ainda
-uma creada de v. ex.ª que recebe como a maior das honras ter á sua meza a
-sr.ª D. Christina, e servil-a como creada.
-
-—Perdôe-me, atalhou Ruy commovido, perdôe-me, que a minha dôr faz-me mau;
-que eu não o sou, meu amigo! Sua mulher nunca foi minha creada. Sentei-a
-á minha meza, e vesti-a como minhas filhas. Nunca me arrependi, e queria
-não me arrepender nunca. Faça o sr. com que ella resolva Christina a
-esquecer esse homem, e a fazer me a vontade. Póde ser que o tempo venha a
-gastar o odio, que tenho a essa perdida, e a tire do convento. É o maior
-serviço, que podem fazer-lhe, dissuadil-a. Façam com que Casimiro saia
-de Portugal: que vá para o Brazil ou para o inferno, que eu não lhe faço
-mal. Tenho dito, sr. Ladislau, a este respeito.
-
-—Minha mulher não ousa dar taes conselhos á sr.ª D. Christina, nem eu a
-minha mulher. Em fim, sr. Ruy, ouça v. ex.ª o que vou fazer. Acompanharei
-sua filha ao lugar onde a encontrei; lá, onde a espera Casimiro
-Bettancourt, direi a ambos: «Fiz o que pude, pedi com lagrimas, pedi com
-razões: tudo se mallogrou. Agora se meu cunhado os não quer ou não póde
-casar, sigam sua vida, vão mostrar-se por esse mundo deshonrados, e digam
-que, se a deshonra os affasta das pessoas de bem, é por que esta infeliz
-menina tem um pai, que antes a quer assim.» É o que farei e direi, sr.
-Ruy de Nellas; mas antes d’isto, ainda me resta um esforço. Pedirei á
-alma de meu pai que lhe toque o animo; e, de joelhos e mãos erguidas,
-ainda uma vez, supplico a v. ex.ª que dê consentimento para que sua filha
-seja honesta!
-
-Disse Ladislau as ultimas palavras ajoelhado.
-
-O fidalgo contou, passados annos, que, em lugar de Ladislau, vira, como
-em sombra, fr. Braz Militão. Ha segredos de Deus; porém, bem póde ser que
-o caso, a dar-se, fosse mera visualidade do velho. Fosse ou não, Ruy de
-Nellas inclinou-se a levantar Ladislau de sua postura humilde, e disse:
-
-—Valha-me Deus!
-
-Passeou, de uma parede a outra, repetidas vezes, o salão, emquanto o moço
-arquejante lhe estava como bebendo a resposta dos beiços convulsivos.
-A final, parou o velho, em meio da sala, levou as mãos ás fontes, e,
-sacudindo vertiginosamente os braços, exclamou:
-
-—Casem! mas que eu os não veja mais!
-
-E sentou-se, prostrado.
-
-—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Ladislau, retirando-se com alvoroço tal
-de alegria que a sua vontade era distancear-se depressa, receoso do
-arrependimento.
-
-Arrependimento que por um cabello, pouco depois, ia dando de si um feito
-vil!
-
-Ruy de Nellas ergueu-se de golpe, já quando o moço tinha sahido, e
-esporeava a galope desapoderado a mula, estrada fóra.
-
-Chegou ainda a gritar pelos creados, cujo maior numero tinha ido para
-Trancoso. Era seu intento envial-os a S. Julião da Serra, infractores da
-palavra de seu amo.
-
-N’este lanço, estropearam no pateo dous cavallos: o cavalleiro era D.
-Sueiro de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça, fidalgo de Miranda, com o
-seu lacaio.
-
-Este sujeito, além d’aquelle nome, que só por si é uma fortuna, nascera
-primeiro que seus irmãos, na maior casa d’aquelles contornos de Miranda.
-Barbedos e Alarcões tinham começado, pouco mais ou menos, com o genero
-humano. Estas duas familias, em franqueza intima e modesta, diziam que
-o primeiro sangue de Lisboa—da Lisboa de sangue azul, intende-se—era um
-regato da fonte caudal, represada n’elles, ahi pela fundação dos reinados
-de Leão e Castella.
-
-Desde muito que Ruy de Nellas meditava em casar a filha morgada com D.
-Sueiro de Aguilar, e n’isso trabalhára, com intervenção da parentella.
-
-Eil-o ahi está agora o almejado genro a pedir-lhe a filha, e eil-o vem a
-ponto de estorvar que o sogro se deshonre, violando a palavra dada, com
-desdouros dos reis de Leão e Castella, seus avós.
-
-Trocados os termos ceremoniosos, D. Sueiro perguntou pelas primas.
-
-Entraram cinco meninas meia hora depois.
-
-—E a prima Christina?—perguntou elle.
-
-—Está na Guarda, em companhia da tia Mafalda Portugal—tartamudeou Ruy.
-
-—Sinto—disse D. Sueiro—porque, vindo eu pedir a mão da prima Guiomar para
-mim, sou encarregado de pedir a prima Christina para meu irmão Alexandre.
-
-—Céus!—exclamou para dentro de si o fidalgo, e as meninas encararam-se
-mutuamente.
-
-—Fallaremos ácerca de Christina—disse Ruy, expedindo um gemido rouco.
-
-E declinou a prática sobre trivialidades, até horas de jantar.
-
-D. Alexandre, academico do primeiro anno na Universidade, tinha visto sua
-prima na feira de Vizeu, um anno antes. Escrevera-lhe, mediante os bons
-officios de sua tia D. Beatriz de Albuquerque. Não respondera Christina
-senão termos agradecidos á escolha, posto que incondescendentes. Assim
-mesmo, D. Alexandre de Aguilar recalcitrou, sem melhor exito. D. Sueiro,
-porém, tomou a peito levar a noiva ao irmão.
-
-Contou-se o incidente que prende com o porvir d’esta historia.
-
-
-
-
-VII
-
-Felicidades
-
-
-O apparecimento de Ladislau Tiberio no alto da serra, que se arqueia
-sobre a casa de Villa Cova, foi saudado com o agitar de dous lenços
-brancos. O moço, segundo convenção feita, apeou, cortou uma haste de
-castanheiro, arvorou n’ella o seu lenço, e floreando-o de cima da
-cavalgadura, deu-se pressa na descida.
-
-Quando tal viram, Christina, a rir e a chorar, lançou-se aos braços de
-Peregrina, e foram ambas ajoelhar diante do oratorio. Como a alegria as
-não deixava exprimir palavra, era-lhes preciso fallar em silencio com
-Deus.
-
-Meia hora depois, entrava no quinteiro Ladislau, e as duas senhoras,
-arrebatadas como se a boa nova igualmente as deliciasse ambas, correram a
-ouvir a confirmação do que disséra a bandeira branca.
-
-—É certo?—exclamou Christina.
-
-—É certo, minha senhora.
-
-—Deixa-me ir um criado a S. Julião dar parte a Casimiro?—tornou ella.
-
-—Vamos logo todos; mas, se v. ex.ª quer, mande o criado já.
-
-—Então não: vamos todos... quero eu dar-lhe a nova. E meu pai está bom? e
-minhas irmãs?
-
-—Não vi suas irmãs; seu pai está inquieto; mas, como tem bom coração,
-Deus o socegará.
-
-Abraçaram-se outra vez as duas amigas, e Ladislau, entre risonho e
-lagrimoso, gosava o não menor quinhão de sua alegria.
-
-Fez-se logo noute, e esperaram que nascesse a lua para sahirem ao ingreme
-e despedrado caminho da igreja.
-
-Por volta das dez horas, chegaram á lapa da Crasta, no viso da serra
-interposta, e lobrigaram um vulto.
-
-—É elle!—exclamou Christina, lançando-se da egua.—É meu marido!
-
-Casimiro Bettancourt correu ao encontro d’ella, e murmurou:
-
-—Que dizes, Christina?
-
-—O pai consentiu!—disse ella abafada pela commoção.
-
-E Casimiro, desprendendo-se dos braços de Christina, foi cingir com o
-peito o sereno Ladislau, que ficara segurando as redeas da egua.
-
-—Meu salvador!—exclamou o moço.
-
-—Seu amigo, como amigo de todos os infelizes que amam!—disse Ladislau e
-ajuntou logo:
-
-—O senhor que está aqui é que meu cunhado melhorou.
-
-—O sr. vigario veio confessar um moribundo na aldeia, que está ao fundo
-da serra, e eu, com licença d’elle, vim até aqui para ver o fumo da casa
-de Villa Cova.
-
-—Bem!—tornou Ladislau.—Vamos.
-
-—Eu vou a pé—disse Christina—dá-me o teu braço, Casimiro.
-
-—Ámanhã—atalhou Ladislau—ámanhã se encostará ao braço de seu marido,
-minha senhora.
-
-Christina córou; e Casimiro tomou as redeas da egua para ella saltar ao
-albardão.
-
-Ouviu-se um prolongado assobio como o dos caçadores em montados: era o
-vigario que chamava o hospede. Casimiro respondeu, e Peregrina, puchando
-do peito, quanto pôde, a voz, gritou:
-
-—Cá vamos todos.
-
-E, como todos rissem do agudissimo falsete da jubilosa Peregrina, o
-vigario percebeu logo a impaciente felicidade que não pôde esperar pelo
-dia seguinte.
-
-E subiu a ladeira até encontrar o grupo.
-
-—Abençoou Deus a tua resolução, já vejo!—disse padre João Ferreira ao
-cunhado.
-
-—Abençoou: pódes tu abençoal-os, meu irmão.
-
-E os dous ficaram alguns passos atrazados, para irem conversando sobre os
-successos de Pinhel, e os futuros em que os noivos não pensavam, nem era
-generoso dizerem-lh’os.
-
-Ninguem dormiu, n’aquella noite, na residencia de S. Julião. O vigario
-sahiu, ante-manhã, a solicitar licença do arcipreste para casar os
-contrahentes sob sua responsabilidade sem o previo pregão de banhos.
-Obtida, voltou á egreja, e ouviu de confissão os desposados; e, em
-seguida á ceremonia da communhão, ligou-os, abençoou-os e disse-lhes:
-
-—Ficam sendo os dous uma só alma para as alegrias e para as provações.
-Deus voltará a sua face divina d’aquelle dos dous que attribuir ao
-outro o seu infortunio; e nós, os amigos de ambos, verteremos lagrimas
-de sangue se os virmos infelizes, infelizes á mingua de conformidade e
-fortaleza. Deus os tenha de sua mão.
-
-Celebrado o matrimonio, almoçaram na residencia, e sahiram para Villa
-Cova, onde Brazia, azafamada com o jantar, e duplamente ditosa com o
-segundo casamento, dava ares de não ter o miolo fixo, no dizer dos outros
-creados.
-
-A felicidade d’este dia não tem historia: ou se a tem, conte-a o leitor
-que a experimentou. Mas o meu leitor, casado por paixão, precisamente
-foi obrigado a attender aos comprimentos de amigos e parentes, uns a
-louvarem-lhe a noiva, outros a louvarem-n’o a si, estes a brindarem-n’o
-com vinho, aquelles a perguntarem-lhe pelo dote da mulher: barafunda esta
-que o não deixou sentir a sua felicidade.
-
-Ora, na casa de Villa Cova, á mesa nupcial, além dos noivos, estavam o
-vigario, os donos da casa, o carpinteiro de Pinhel, e a velha Brazia.
-Os noivos repetiram em miudos a historia dos seus amores, os medos, as
-tristezas, os jubilos, o intenderem-se com a linguagem pactuada das
-flores. N’este ponto, Brazia ria muito e dizia que os namorados eram o
-peccado. As espertezas de José-pastor foram contadas por Christina com
-amostras do bem que queria ao rapasinho. Pediu ella ao marido que se
-não esquecesse nunca do muito que lhe deviam, e lembrou-se de o mandar
-estudar para padre se algum dia fosse remediada de bens de fortuna.
-
-—Hade sahir bom padre!—atalhou a ridentissima velha.—Se assim souber
-espreitar as ciladas do cão tinhoso, muitas almas hade ganhar p’ra Deus!
-
-Com estas e outras festejadas palestras passaram o dia. Ao escurecer,
-tornou o vigario á sua igreja, com promessa de voltar no dia seguinte, a
-fim de se conversarem cousas muito importantes.
-
-E nós vamos já ao ponto d’estas conversações decorridas á sombra d’uns
-altos castanheiros, que pareciam ter alli ficado da idade de ouro para
-darem testemunho de um feito d’outras eras.
-
-—Diz tu o que tens a dizer, Ladislau—estas palavras proferiu o vigario,
-logo que as duas senhoras se assentaram na grossa e retorcida raiz d’um
-castanheiro, e Casimiro á beira d’ellas.
-
-Ladislau voltou-se para seu cunhado e disse:
-
-—Porque não has de ser tu?
-
-—Quem melhor exprime a idéa é quem dignamente a concebeu.
-
-—Pois fallarei—tornou o moço: deteve-se breve espaço, e disse—o sr.
-Casimiro Bettancourt recebeu educação e tem espiritos que não são para
-vida aldean, e d’esta aldeia a mais desacompanhada e triste que ser
-póde. Isto é bom para mim, que nasci cá, e por todas essas pedras e
-arvores tenho cobrado um affecto de solitario, que todo outro viver se me
-affigura intoleravel. Que fará o sr. Casimiro, passados estes primeiros
-dias, em tal solidão? Perguntará a si mesmo: «Que faço eu aqui? Em que
-empregarei as minhas forças? Porque molde talharei o meu futuro?» Quando
-assim se interrogar, a resposta será uma melancolica indecisão, com vêr
-cerrados os caminhos para onde o animo o impelle. Vamos vêr se podemos
-abril-os para pouparmos o nosso Casimiro á desconsolação de cruzar os
-braços e dizer: «não sei!» O nosso amigo contou-me que, no collegio,
-estudava mathematicas, para o fim de seguir a carreira das armas.
-
-—É verdade—disse Casimiro.
-
-—Pergunto eu se lhe agrada recomeçar ou continuar os seus estudos, e ser
-militar.
-
-—Desejava-o, tenho-o desejado sempre; mas a vida militar desprotegida é
-má; e, nas minhas circumstancias, o estudar foi e é impossivel agora.
-
-—Não é. O meu amigo assenta praça, e requer licença para estudar em
-Lisboa, Porto, ou Coimbra. Tenho estas informações de meu cunhado. Eu
-offereço-lhe os meios precisos para se alimentar com sua senhora em
-qualquer das cidades que escolher, e assim se habilita para alguma vez me
-pagar o adiantamento que fôr preciso.
-
-—Mas o meu dote...—interrompeu Christina, com fidalgo animo.
-
-—Não se falla no seu dote—retorquiu Ladislau.—O sr. Ruy de Nellas deu o
-consentimento; mas não dá dote.
-
-—O dote de minha mãi...—tornou ella.
-
-—V. ex.ª não pede dote nenhum: eu disse a seu pai que a sustentação de
-sua filha e marido não corriam á obrigação d’elle. Está desobrigado o
-sr. Ruy de Nellas. Em resumo, o sr. Casimiro quer ser homem, quer a sua
-independencia, quer empregar dignamente as faculdades, que Deus não dá
-para ocios ou desperdicios. Resolve-se a abraçar a minha lembrança?
-
-—De toda a vontade, e com o mais reconhecido coração. Diz-me uma voz
-intima que eu poderei desempenhar-me.
-
-—Tambem a mim m’o diz—ajuntou Ladislau.
-
-—Desempenham-se todos os que trabalham—ajuntou o vigario.—O principal
-estimulo que o sr. Casimiro leva para o seu engrandecimento é querer
-mostrar a seu sôgro que se fez homem.
-
-—Quem me faz homem é este anjo! exclamou Casimiro, abraçando o marido de
-Peregrina, a qual já estava chorando, quer fosse a proxima ausencia de
-Christina, quer o enthusiasmo da boa acção de seu marido a enternecesse a
-lagrimas.
-
-Volvidos quinze dias, iam sahir de Villa Cova os noivos com destino a
-Coimbra. Ao despedirem-se, como Ladislau levasse á mala de Casimiro o
-dinheiro contado para as despezas do primeiro trimestre, o hospede acudiu
-dizendo que tinha intactos os duzentos mil réis que seu tio lhe dera.
-Mestre Antonio, que fôra assistir á despedida do sobrinho, resistiu ás
-instancias de Ladislau, não querendo reembolsar o dinheiro, e levou a sua
-liberalidade ao ponto de offerecer á esposa de seu sobrinho uns brincos
-de ouro, que elle chamava _cabaças_, os quaes tinham sido de sua mulher.
-Liberalidade dissemos; e, com tudo, o valor real do presente orçava
-por dezeseis tostões! Assim era que elle amava muito aquella memoria,
-e o desprender-se d’ella foi o mais que podia fazer a sublime rudeza
-do coração do operario! Dera a sorrir os duzentos mil réis, e foi, ás
-escondidas, enchugar as lagrimas, quando se viu privado das arrecadas de
-sua mulher! Ó santos corações do povo! mas do povo das montanhas, direi;
-do povo, que ainda não sahiu á praça vociferando que é rei porque é povo.
-
-Christina tirou das orelhas uns brincos de preço, que usava em casa de
-seu pai, e adornou-se com os modestos, que lhe dera o artista; depois,
-voltando-se a Peregrina, disse-lhe:
-
-—Acceitas uma lembrança da tua amiga pobre, da amiga que vai subsistir
-dos teus beneficios? E, tomando-lhe a cabeça contra o seio, obrigou-a
-suavemente a receber os seus brincos, e beijou-a em ambas as faces.
-
-—Acceita, Peregrina—disse Ladislau—que a tua senhora e amiga vai mais
-enfeitada com a dadiva do pobre.
-
-Partiram, acompanhadas até grande distancia pelo vigario, irmã, Ladislau
-e Brazia. Mestre Antonio não houve rasões que o demovessem de ir a pé ao
-lado de Christina, até ao Porto.
-
-Como pernoitassem n’uma estalagem da aldeia de Pena verde, encontraram
-um feitor da casa de Ruy de Nellas, acompanhando duas cargas de bahus.
-O feitor, pasmado do encontro, não atinava a decidir-se se devia
-cumprimentar ou desprezar a filha de seu amo. A menina porém, que se
-não julgava despresivel, perguntou ao seu antigo creado d’onde vinham
-aquelles bahus.
-
-—Do Porto—disse breve e seccamente o conductor.
-
-—Que levam?
-
-—O enxoval da sr.ª morgada.
-
-—Pois a mana Guiomar casa?
-
-—Casa á vontade de seu pai—tornou o feitor, carregando de censura as
-palavras, e collocando-se de esguelha.
-
-Casimiro Bettancourt, que presenceara o dialogo, desceu ao pateo da
-estalagem, onde estava o feitor; travou-lhe das lapelas da jaqueta, e
-disse:
-
-—Olha de frente para a filha de teu amo, e responde-lhe.
-
-—Já respondi—disse o homem um pouquinho inquieto da segurança da sua
-pessoa.
-
-Casimiro perguntou á sobresaltada senhora o que queria ella saber do seu
-creado.
-
-—Nada...—balbuciou Christina, temerosa do resultado.
-
-—Descobre-te—disse elle ao creado.
-
-O feitor tirou o chapéu com as mãos ambas.
-
-—Diz áquella senhora com quem casa tua ama, e responde ao mais que ella
-te perguntar.
-
-—Casa com o sr. D. Sueiro, de Miranda, que a foi pedir, e tambem ia pedir
-a sr.ª D. Christina para o sr. D. Alexandre.
-
-—Deixa-o, deixa-o!—disse Christina.
-
-—Levas as duas orelhas—ajuntou Casimiro, largando-o—porque és creado do
-sr. Ruy de Nellas. Tu consideras menos a filha de teu amo do que eu os
-seus lacaios.
-
-E, tornando ao quarto de Christina, disse-lhe risonho:
-
-—Que excellente casamento te fiz perder!...
-
-D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça!
-
-—Pois sim, disse ella muito de riso e mimo, mas se tornas a assustar-me,
-arrependo-me de não ter respondido ás cartas do idiota Alexandrinho...
-que vamos encontrar em Coimbra... Não sabes que elle está em Coimbra?
-
-—Sabia, e então? Dar-se-ha caso que a vergontea ostro-goda me queira
-cahir sobre as costas? É preciso temer os Vito Alarcões!... Deus nos
-defenda!
-
-Festejou ella muito os tregeitos de medo comico com que Casimiro
-abrenunciou o rival temeroso, e não pensaram mais n’isso.
-
-Tomou o estudante uma casa menos de modesta, fóra de portas em Santo
-Antonio dos Olivaes. Em redor da casa fechava-se o arvoredo de alamos,
-platanos e choupos. A mobilia era rigorosamente academica: as conhecidas
-cadeiras como inventadas para descadeirar os occupantes; a meza de pinho
-pintado de verde; a tarima de espaldar de taboado com silvas de flores
-amarellas, imaginarias, e superiores ás mais inventivas das florestas
-americanas. Tudo isto, porém, e o restante, que pouco mais era, limpo,
-repintado, e lustroso alegrava a casinha. Depois era no mez de abril,
-o abril de Coimbra, regorgeado de aves, arrelvado de boninas, copado
-de sombras, e harmonioso de murmurios. E, depois, o amor, a paz, o
-descanço de tamanhas batalhas, aformosentavam a vivenda de Santo Antonio
-dos Olivaes, o amor, por sobre tudo, alindava, encantava, e vestia da
-innocencia e das alfaias do eden aquelle silencioso abrigo de duas almas
-fugidas ao mundo, e recolhidas em si e em Deus.
-
-Principiou Casimiro a recordar os seus passados estudos, emquanto corria
-aquelle anno lectivo, para no immediato se matricular. Raras vezes ia
-á cidade dar conta ao leccionista dos seus estudos preparatorios. Como
-o tempo lhe sobejava, lia ou ouvia ler Christina, que dava aos livros
-unicamente as horas feriadas das suas occupações domesticas. Raro dia,
-deixavam de escrever algumas linhas a Ladislau e Peregrina, dizendo
-aquelles nadas que são um nunca findar entre pessoas que se presam.
-
-Desceram, uma tarde de junho, ao Mondego, e subiram á beira da margem
-esquerda. Paravam a intervallos para ouvirem o rumoroso suspirar da
-folhagem, e o soido da limpha sobre que os salgueiros se dobravam a
-remirar-se no espelho limpido.
-
-Christina inclinou a face ao seio de seu esposo, e murmurou tão de leve,
-que parecia afinar a voz pelo som d’aquellas harpas eolias da ramagem:
-
-—Como somos felizes, ó Casimiro!...
-
-—E eu cuidava que não havia felicidade n’este mundo! disse elle,
-comprimindo-lhe a face com a mão tremente de meiguice.
-
-—Como não ha de havel-a para os que amam o Senhor, e não fazem mal ao seu
-semelhante!
-
-—Eu devia esperar este bem, Christina; porque fui muito desgraçado... Não
-fui?
-
-—Eras... mas, desde que eu te amei...
-
-—Fui muito mais desgraçado, filha... Então é que eu me vi pobre,
-desvalido, sem pai, sem mãi... Que palavra, Christina!... MÃI!... Nunca
-os meus labios proferiram esta palavra no seio de uma mulher! Nunca, nem
-na minha desamparada orphandade, correu para mim uma mulher chamando-me
-filho!... Como pude eu ser privado das caricias de minha mãi!? Como pôde
-ella abandonar-me, e esquecer-me!? Porque não disse meu pai se ella era
-morta?!...
-
-—Ahi estás tu a entristecer-te!—atalhou a esposa—Não quero!... Vem cá!
-Olha, Casimiro, eu chamo-te filho, filho de minha alma, do meu coração!
-Amo-te mais que todas as mãis! Se alguma vez chorares, eu te consolarei,
-com um carinho, que as mãis não sabem. Defender-te-hei com mais coragem
-que ella. Morrerei por amor de ti, porque és tudo que eu tenho. Se Deus
-me der filhos, heide amal-os menos que a ti, meu amado esposo!... Vês-me
-tu a mim triste por ter deixado pai e irmãs?... É verdade que meu pai
-aborrecia-me e minhas irmãs desprezavam-me mas por amor de ti, Casimiro,
-por amor de eu te querer dar esta felicidade...
-
-—Perdôa-me!—disse elle, beijando-a com estremecimento—Não me lembres
-o que soffreste, que eu cuidarei que me argues de ingrato. Olha que a
-minha tristeza é suavissima, ó minha filha. Lembrou-me meu pai, e os
-seus ultimos affagos; tive saudades de minha mãi, que nunca vi; são uns
-desejos, que parecem vaticinio de que hei de ainda encontral-a. Vê tu
-que loucura, que poesia! É este sitio, estas arvores, e a serenidade
-do céu que me fazem scismar assim... As pessoas, que têm a sua alegria
-circumscripta ao curto espaço da sua casa, não devem vir meditar nos
-lugares em que o espirito carece de voar ás raias do infinito. A tristeza
-está n’ellas, filha. O espirito retrahe-se sobre si mesmo, e doe-se
-da sua fraqueza. O que é ver ir aquella ave pelo azul do céu fóra, e
-dizer: «onde irás tu?» É desejo de romper esta rêde de ferro que nos
-cerca, rasgar os fechados horisontes da alma, e sondar em que mundo irei
-com o teu espirito perpetuar a minha existencia. E a devanear n’isto,
-accordam-se na alma todos os enlevos e saudades... Então vejo a sombra de
-minha mãi e de meu pai, a passarem, a fugirem, como sonhos. Ditoso é o
-meu accordar, porque te encontro, ó anjo da minha vida!...
-
-E, dizendo, abraçou-a soffregamente, e bebeu-lhe as lagrimas, exclamando:
-
-—É assim que minha mãi devia chorar, quando me lançou de si!...
-
-—Mas eu—exclamou Christina—aperto-te ao meu coração, filho!
-
-
-
-
-VIII
-
-O Vigario de S. Julião da Serra
-
-
-Temos de voltar a Pinhel.
-
-D. Sueiro de Aguilar pediu instantemente que se mandasse buscar á Guarda
-sua prima Christina. Tergiversou, em quanto pôde, Ruy de Nellas; porém,
-quando o fidalgo de Miranda annunciou que iria pessoalmente buscal-a, o
-velho, entre lagrimas e gemidos, declarou tudo.
-
-—E não está ainda morto o villão?—perguntou D. Sueiro, concluida a
-narrativa.
-
-—Morto, não: nem sei onde está.
-
-—E póde meu tio Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo consentir que viva o cão
-immundo! Um Gamboa deixar viver o raptor de sua filha!—replicou D.Sueiro.
-
-—Que hei de eu fazer-lhe agora? é marido d’ella!...
-
-—Antes viuva, antes perdida, antes morta!... Que ouvi eu! Christina,
-amada por Alexandre de Aguilar, requestada e pedida, acha-se casada
-com um sobrinho de carpinteiro! Ó tio! esta vergonha é insanavel!...
-Quem dirá que minha bisavó foi casada com o primo carnal d’um avô de v.
-ex.ª!?... Sinto, sinto amargamente dizer-lhe que não posso ser cunhado do
-sobrinho do carpinteiro!
-
-—Paciencia... murmurou Ruy—Deus me leve depressa. Estou farto das
-affrontas dos nobres e dos plebeus. Elle roubou-me a filha, e tu Sueiro,
-injurias a minha dôr! Que hei de eu fazer?
-
-—Esmagar o verme!
-
-—Valha-te Deus! não se esmagam assim homens! Os tempos são outros, meu
-sobrinho. A plebe agora tem a força, e nós temos o direito.
-
-—E a força! Vá lá um plebeu requestar irmã minha!... Não verá mais sol
-nem lua! Juro-lh’o sobre...
-
-D. Sueiro, como não visse á mão sobre que jurar, calou-se, e expediu um
-grunhido, como usam os bravos, que parecem tirar a valentia da garganta.
-E proseguiu:
-
-—Já estarão casados?
-
-—De certo estão ha tres dias.
-
-—V. ex.ª deu o consentimento?
-
-—Nem dei, nem deixei de dar... Callei-me, farto de ouvir as lastimas d’um
-bom moço, que aqui veio...
-
-—E houve sacerdote indigno que os recebesse sem licença legal e
-canonicamente escripta?
-
-—O sacerdote é meu afilhado, ordenado á minha custa, nomeado por minha
-intervenção na igreja onde se receberam.
-
-—Pasmo!... pois... ó sacrilegio da amisade! o crime inaudito! Padre João,
-aquelle sarrafaçal de padre ousou sanctificar e legalisar o opprobio da
-familia que lhe deu o pão, a sotaine, e a egreja! Qual vingança ha ahi de
-tamanho crime!
-
-Andava D. Sueiro de um lado a outro da sala, sacudindo os braços, em
-mental soliloquio. Ruy amparava a cabeça entre as mãos, pozera os
-cotovellos no peitoril da janella, e olhava, sem o ver, para um macisso
-de murtas do jardim. As apostrophes irrisorias do sobrinho callaram-lhe
-no animo, a ponto de o irarem contra o vigario de S. Julião. Monologando
-comsigo, dizia:
-
-—D. Sueiro tem razão. O padre, devendo ser o primeiro a embaraçar o
-casamento, não só m’o mandou aconselhar como necessario, mas ainda por
-cima me pediu e instou licença para casal-os. A ingratidão é flagrante! O
-villão bandeou-se com o outro da sua estôfa. São uns pelos outros estes
-filhos do nada! Se elle me fosse grato, restituia-me a minha filha, e
-affugentava o raptor. Longe d’isso, agasalhou-o, sustentou-o, e recebeu-o
-como se eu lh’o recommendasse!... Tem razão D. Sueiro! O padre merece
-castigo! Não basta expulsal-o eu para sempre de minha casa: hei de
-reduzil-o a viver da esmola da missa, se não poder caçar-lhe o exercicio
-das ordens.
-
-E continuou em voz alta:
-
-—Dizes bem, meu sobrinho: o padre é um refalsado ingrato! Ha de ser
-punido.
-
-—E o troca tintas?
-
-—Casimiro?
-
-—Sim, o pêrro, o sobrinho do carpinteiro?
-
-—Já disse que é tarde para o mandar castigar.
-
-—Deixe-m’o por minha conta, tio Ruy. V. ex.ª não tem filho que lhe vingue
-as cans; mas aqui está o braço indomavel do seu sobrinho.
-
-—Não approvo—disse o velho—Estão casados. Já me não poupo á vergonha de
-receber em minha casa a viuva do homem abjecto. É tarde para remedio. O
-sangue já não lava a nodoa.
-
-—Nodoa eterna!—acrescentou D. Sueiro de Aguilar.
-
-—Seja o que Deus quizer!—Está visto que regeitas a esposa que pediste,
-meu sobrinho. Ficaremos em paz; eu com ella, e tu com a tua dignidade
-limpa. Mas olha que és injusto! Minha filha Guiomar está innocente no
-delicto de Christina. Faz o que quizeres. Escolhe-a mais rica; mais
-fidalga dificilmente a acharás em Portugal.
-
-—Sei que é minha prima!—disse modestissimamente o fidalgo de Miranda,
-e ficou alli, por não ter mais que dizer a tal respeito. Uma prima dos
-Alarcões Parmas d’Eça não podia ser mais nada em materia genealogica. A
-D. Guiomar, porém, entre as qualidades dignas de seu primo, sobrava-lhe a
-de ser tôla, com uns longes de idiota.
-
-O ajuntarem-se estes dous era preordenação, não direi do alto para
-declinar a influencia divina de sobre as parvoiçadas que se fazem n’este
-globo; mas, predestinação, isso era, se alguma ha n’esta cousa de
-encontros e desencontros, que os poetas mirificamente explicam.
-
-E tanto assim era que, n’aquelle mesmo dia, D. Sueiro, vindo de passeio
-com D. Guiomar affectuosamente disse ao tio que, apezar de tudo, seria
-seu genro, com a resalva de em sua casa nunca mais se proferir o nome de
-Christina.
-
-Concordes n’isto, afanaram-se logo em aviar os preparativos. D. Sueiro
-d’Aguilar foi dispôr suas cousas a Miranda, e Ruy de Nellas enviou ao
-Porto o feitor á compra do precioso enxoval.
-
-Natural seria que o velho, contente e distrahido, perdoasse ao vigario
-de S. Julião, ou esfriasse no ardor vingativo até esquecer o ingrato, e
-desprezal-o fidalgamente.
-
-Assim não foi. A natureza vai tão falsificada que já me quer parecer que
-andamos a chamar natureza a tudo que é arte: arte, digo eu, synonimo de
-manha, ardil, malicia e obra de satanaz.
-
-Escreveu Ruy de Nellas ao seu procurador na Guarda, accusando o vigario
-de S. Julião da Serra. Foi padre João chamado á camara ecclesiastica
-para responder sobre o casamento irregular de Casimiro Bettencourt e D.
-Christina de Nellas. Ingenuamente relatou o vigario que os casara com a
-licença vocal do pai da contrahente. Redarguiram-lhe que era apocrifa a
-licença, e d’alli sem averiguações o suspenderam do exercicio parochial.
-
-Padre João, antes de recolher á vigararia para fazer entrega dos livros
-á posse do novo pastor, foi a Pinhel, e serenamente bateu ao portão do
-fidalgo.
-
-Os creados receberam-o com má sombra, e um foi avisar o amo, e voltou
-dizendo:
-
-—O fidalgo não lhe falla. Vá-se o sr. padre em paz, que o amo, se o vê,
-vai-lhe ao espinhaço.
-
-—Diga ao sr. Ruy de Nellas que seu afilhado vem pedir-lhe perdão, e
-explicar o seu procedimento.
-
-O servo, vencido pela humildade, voltou ao amo, e trouxe esta resposta:
-
-—Que lhe não perdôa, nem quer ouvir explicações.
-
-—Um de vm.ᶜᵉˢ—replicou o manso vencedor do Evangelho—faz-me o favor de
-lhe entregar uma carta?
-
-—Entrego eu, disseram quasi todos.
-
-—Volto já.
-
-Sahiu o padre a escrever na primeira tenda que se lhe prestou. Dizia
-assim a carta:
-
- «Meu bom padrinho consentiu verbalmente que eu casasse a sr.ª
- D. Christina com Casimiro?
-
- «Consentiu.
-
- «Meu padrinho requereu a suspensão das minhas funcções
- parochiaes, allegando a irregularidade d’aquelle casamento?
-
- «Requereu.
-
- «Devia fazel-o?
-
- «Cito perante Deus a consciencia de meu padrinho.
-
- «Se procedi mal, peço perdão. Se procedi bem, Deus me ampare.
- De v. ex.ª afilhado, capellão e servo.
-
- _João._»
-
-Ruy leu a carta com arremesso, e releu-a com brandura. A sua consciencia
-estava deante de Deus. O juiz era inexoravel, e o velho supersticioso,
-talvez. Tremia, e queria fugir de si proprio. Carregava-lhe no peito a
-mão ferrea da justiça divina, e abafava-o. Ruy chamou o creado, e mandou
-entrar o padre. O padre, porém, entregára a carta, e sahira caminho de
-Villa Cova.
-
-Deixemos o delinquente a resolver-se no inferno que se abriu com a mão
-iniqua, e sigamos o homem de animo inteiro, o humilde triumphante.
-
-Chegou a Villa Cova de rosto alegre, e disse:
-
-—Certamente, Ladislau, não te enganaste com as palavras de meu padrinho,
-respeito ao casamento da filha?
-
-—Não me enganei; foram estas: _casem_; _mas que eu os não veja mais_.
-Porque m’o perguntas?
-
-—Fui suspenso de vigario, a requerimento do sr. Ruy de Nellas.
-
-—Mas estás em paz comtigo e com os teus deveres.
-
-—Estou.
-
-—Então descança na tua casa, meu irmão. Fica ao pé de tua irmã. Villa
-Cova, sem padre, está como viuva saudosa e inconsolavel. Os teus
-parochianos já te amavam: paga-lhes o amor ficando entre elles. Virá
-outro vigario enviado pelo governo; e tu serás o enviado de Deus.
-Ambos são necessarios. E tu para mim, e em minha casa, és o cumulo de
-felicidade.
-
-—Ficarei e trabalharei—respondeu padre João.
-
-No dia seguinte, chegou á residencia de S. Julião da Serra outro pastor.
-D’ahi a curto espaço, estava o adro a transbordar de povo. A noticia
-chegou aos campos, e os agricultores ergueram mão da sáfra, e accorreram
-ao presbyterio.
-
-Feita a entrega de livros e utensilios da igreja, padre João sahiu ao
-adro, e disse:
-
-—«Meus amigos, como no pouco tempo, que vos parochiei, não houve espaço
-de mostrar meus vicios, saio de entre vós sem deixar má nota, escandalo,
-ou desamor. Como fostes rebanho de um pastor santo, que me antecedeu,
-achei-vos doceis, bons e virtuosos. Edifiquei-me entre vós, e aprendi a
-crer na influencia de um bom parocho. Creio que a vontade do Altissimo é
-que os vossos pastores no futuro não destruam as boas obras dos passados.
-Elles semearam; vós sois o fructo, e de vós hão de fructear mais
-gerações. E, por isso, é fé minha que o vigario novo terá o espirito dos
-antigos. Sêde com elle o que fostes comigo. Ficai com Deus.»
-
-Os ouvintes abraçaram-o em tropel, debulhados em lagrimas; e elle,
-ensopando com as suas a manga da batina, encostou-se ao hombro de
-Ladislau, e caminhou para Villa Cova.
-
-Á mesma hora, Ruy de Nellas, humilhado pela consciencia na batalha com o
-orgulho, escrevia ao procurador, mandando-o que fosse ao paço episcopal e
-encarecidamente solicitasse o pôr pedra sobre o processo contra o padre
-vigario de S. Julião da Serra, e levantar-se a suspensão. E desculpava a
-mudança de seu animo, com ter-se lembrado que déra verbalmente a licença,
-e o padre, em virtude d’isso, procedera regularmente. Encarecia em termos
-afflictos os seus escrupulos e remorsos, pedindo a maxima brevidade no
-levantamento da suspensão, e retirada do novo vigario.
-
-Ora vejam que alavanca de ferro a prostrar um soberbo, foi a humillima
-carta de padre João! Estas victorias dá-as o Evangelho; e as bandeiras
-triumphaes são estas. Que é vencer Cezar a Pompeu, ou Scipião a
-Annibal? Que é Roma armada avassalar o mundo? Que é Napoleão devastando
-reinos e homens á frente de milhões de escravos? Dobrar o orgulho de
-um homem, quando se lhe pede perdão d’um inventado aggravo, isso sim
-é que é vencer. Qual philosopho, antes do divino Christo, ensinou a
-citar ao tribunal do juiz supremo a consciencia d’um mau, e fazêl-o ahi
-accusar-se, dobrar-se, condemnar-se, e reparar o ruim feito, a affronta,
-a injustiça?
-
-Alguns dias passados, padre João Ferreira era restituido á posse da
-igreja, visto que ulteriores informações abonaram a regularidade do
-matrimonio accusado indevidamente.
-
-O povo da freguezia exorbitou da sua costumada prudencia, saltando
-por cima das admonendas do seu vigario. Os mais enthusiastas fizeram
-fogueiras como em noute de S. João, e correram a freguezia com esturdias
-instrumentaes, e foguetes de lagrimas. Cotizaram-se seis lavradores
-abastados para celebrarem o successo, n’um aprazado domingo, mandando
-fabricar um balão na Guarda, e comprar na botica os ingredientes
-para a ascensão, com grande copia de girandolas e quantas invenções
-pyrotechnicas se achassem na Guarda e Vizeu afóra a musica de Pinhel. O
-vigario empenhou rogos e authoridade em demovêl-os; porém, como os visse
-inquebraveis no intento, chamou elle artificiosamente a si o dinheiro
-destinado ás festivas despezas, obrigando-se a fiscalisal-o do melhor
-modo.
-
-Chegou o domingo aprasado. Logo de madrugada os lavradores foram á
-residencia do vigario a tomar conta dos objectos que deviam ter chegado
-no sabbado. Padre João mostrou-lhes uma arca de pinho, e disse:
-
-—O balão, que ha de chegar ao céu, já ali está n’aquella arca.
-
-Os lavradores quizeram vêl-o mas o padre differiu para as onze horas
-desencaixotar o balão que havia de chegar ao céu.
-
-—E os foguetes?—perguntaram elles.
-
-—Tambem chegam logo, e hão de ser todos de lagrimas.
-
-—E a musica?
-
-—Vem tambem; e ha de ser musica de anjos.
-
-Os parochianos encararam-se mutuamente e murmuraram:
-
-—Anda aqui marosca!...
-
-No fim da missa do dia, por volta de onze horas, o vigario assomou no
-arco da igreja, tirou de entre os colchetes da batina um papel, onde
-eram inscriptos os nomes de doze velhos pobres e doentes da freguezia. Á
-proporção que os ia chamando, os velhinhos sahiam de entre a multidão e
-collocavam-se em frente do vigario.
-
-Chamado o duodecimo, que subiu amparado por dous netos, o padre mandou
-conduzir da sachristia para o arco da egreja a arca de pinho, que os
-lavradores tinham visto na casa parochial. Abriu elle a caixa, e foi
-tirando e repartindo por cada um dos doze pobres uma roupa inteira de
-pantalona, colete, e véstia de saragoça. Os velhos recebiam com mãos
-tremulas a esmola, e murmuravam palavras de benção, e alimpavam os olhos
-turvos de lagrimas para verem o seu remedio do proximo inverno. Finda a
-repartição, o vigario, procurando com os olhos os lavradores cotisados
-para a funcção, disse-lhes:
-
-—Aqui está, meus amigos, o balão que chega ao céu; ali tendes no rosto
-d’aquelles anciãos invalidos e doentes, as lagrimas, que são lagrimas de
-graças ao Senhor e de gratidão a vós. Haveis de confessar que as lagrimas
-dos foguetes são menos brilhantes e consoladoras. Quanto á musica,
-dir-vos-hei, meus bons amigos, que os anjos do céu assistem com suas
-musicas a esta vossa festa. Se fiscalizei mal os vossos trinta e seis mil
-réis, accuzai-me para eu vol-os repôr.
-
-Disse, e logo um, e todos os lavradores lhe foram beijar a mão; e os
-pobres, a não serem retirados brandamente, iriam beijar-lhe os pés.
-
-Ao meio dia em ponto, no sobrado da residencia, estava posta uma mesa
-com treze pratos. Na cabeceira sentou-se o vigario, e os doze pobres já
-lavados e vestidos, lateralmente. O jantar viera cosinhado de Villa Cova:
-o bodo aos pobresinhos fôra devoção de Peregrina.
-
-Ladislau e sua mulher serviram os convivas, um de cada lado, já partindo
-em pequeninos bocados a ração de cada pobre, já ministrando-os á bôcca
-do mais intrevado que se não servia de suas mãos.
-
-Em redor da meza, de pé, silenciosos, e com que arrobados n’aquelle
-espectaculo santo, estavam os principaes lavradores da freguezia. Por
-vezes, uma ou outra voz, mal desabafada das lagrimas, murmurava:
-
-—Louvado seja o Senhor!
-
-E, cada lavrador enxugava os olhos.
-
-Concluido o jantar, ergueu-se o sacerdote, e deu graças a Deus, em voz
-alta; e, ao sahir da meza, proferiu estas palavras:
-
-—Louvemos o Altissimo porque nos deu coração para sentirmos as alegrias
-da caridade. Esta virtude, que commove até aos prantos consoladores é a
-sombra dos contentamentos da bemaventurança. Meus amigos, a vossa festa
-acabou; mas eu espero em Deus que haveis de vêl-a continuada no céu.
-
-
-
-
-IX
-
-D. Alexandre é espalmado
-
-
-Decorreram dez mezes sem successo digno de menção, a não ser o nascimento
-do primogenito dos bemaventurados de Villa Cova. Recebeu na pia baptismal
-o nome de seu avô, sob cuja egide os paes o offereceram. Foi padrinho
-o vigario, e madrinha D. Christina, representada pela velha Brazia, a
-creada octogenaria, que já não morre sem o contentamento de pôr as mãos
-no neto do santo, que ella conhecêra creança. E, com este espiritual
-parentesco, pagou Ladislau os setenta annos de companhia da sua serva.
-
-Casimiro Bettancourt cursava o primeiro anno mathematico, e era furriel
-de infanteria. Continuava a viver retirado da mocidade, excepto
-d’aquelles que o procuravam como auxiliador na interpretação de suas
-lições.
-
-Um d’estes disse-lhe, uma vez, que, no curso de leis, andava um rapaz
-provinciano, que detrahia publicamente Casimiro Bettancourt.
-
-—Que diz elle de mim?—perguntou Casimiro.
-
-—Miserias...
-
-—Que são miserias?
-
-—Diz que tu és sobrinho de um carpinteiro.
-
-—Isso é verdade: sobrinho de um honrado carpinteiro. Que mais diz? Vamos
-ás _miserias_...
-
-—Que roubaste a senhora com quem és casado.
-
-—Tambem é verdade. Fugimos para nos casarmos. Que mais?
-
-—Diz que pagaste assim indignamente os beneficios que devias ao pai
-d’ella.
-
-—Não procedi bem; mas todo o homem de coração me ha de absolver. Como não
-a amei nem a raptei por ella ser rica, e não vivo nem pretendo viver do
-patrimonio d’ella, a minha dignidade é invulneravel.
-
-Isso não diz elle... mas eu ainda te não disse quem elle é...
-
-—Já sei: é D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça.
-
-—É isso.
-
-—Que diz elle em contrario do que eu affirmo?
-
-—Que tu vives do producto das joias, que tua senhora subtrahiu ao pai.
-
-—Mente!—disse serenamente Casimiro, e accrescentou:—Não quero ouvir mais.
-Ouviram-lh’o muitas testemunhas?
-
-—No botequim da Rua-larga. Eramos mais de vinte rapazes, e passavas tu
-n’essa occasião.
-
-—Se desejas servir-me...
-
-—Se desejo!... Quebro-lhe a cara, se isso te apraz.
-
-—Não, meu amigo. Eu sou um homem como elle. O que eu te peço é que tomes
-nota das pessoas que ouviram a calumnia, para mais tarde pedires a
-presença d’ellas.
-
-—Facilmente: eu te digo os nomes... Eram...
-
-—Escuso. Basta que tu saibas. São horas de estudarmos a lição.
-
-E abancaram tranquillamente.
-
-Volvidos oito dias, Casimiro Bettancourt disse ao condiscipulo:
-
-—Amanhã é sabbado. Peço-te que reunas ás seis horas da tarde, no botequim
-da Rua-larga, os teus amigos, caso aconteça lá ir D. Alexandre de Aguilar.
-
-—Vai sempre: das oito horas em diante está embriagado.
-
-—Com tanto que não o esteja ás seis...
-
-—Isso é raro. Quando o está ás seis, é porque já se tinha embriagado ás
-tres.
-
-—Optimo! Espera-me lá.
-
-Este dialogo correu na alamêda fronteira á casa. O academico escondia-se
-de sua mulher.
-
-No seguinte dia, disse Casimiro a Christina:
-
-—Depois de jantar, vou ver um condiscipulo doente. É a primeira tarde que
-passas sem mim, filha.
-
-—É verdade!...
-
-—Mas não has de soffrer, não? A saudade é uma companhia.
-
-—Dizes-me isso com ar tão triste, Casimiro?
-
-—É a saudade, minha querida!
-
-—Pois não vás.
-
-—Prometti ir; mandei-lhe dizer que ia...
-
-—Deixa-me ver os teus olhos...—exclamou ella aproximando-se de golpe.
-
-—Que tem os meus olhos?!
-
-—Lagrimas! tu choras, Casimiro!
-
-—Não...
-
-—Um segredo! um segredo para a tua Christina!
-
-—Serei eu um fraco!—disse elle como a si proprio, imaginando-se sósinho.
-
-—Fraco por chorar? Se não tens razão, és... mas tu, Casimiro, nunca assim
-te vi!... Não sahirás hoje mais... juro-t’o.
-
-—Não jures, filha, que hei de sahir...
-
-—E dizes-m’o assim com esse imperio!?
-
-—É a honra...
-
-—A honra!... Tu não vaes ver um condiscipulo doente.
-
-—Não. Menti-te, Christina. Perdôa-me.
-
-—Pois que é?!—atalhou ella sobresaltada.
-
-Casimiro relatou exactamente o facto descripto, mostrou umas cartas
-recem-chegadas de Villa-Cova, e perguntou:
-
-—Devo ir, Christina?
-
-—Vai!—exclamou ella—Vai, já que eu sou mulher!
-
-E momentos depois, porque era mulher, abraçou-se n’elle, e soluçou:
-
-—Ó Casimiro!...
-
-—Quê, filha?
-
-—Sê prudente, sim?
-
-—Recommendas-m’o a mim?! Não viste que eu soffri oito dias, em silencio,
-a affronta!?
-
-E desprendeu-se dos braços d’ella.
-
-Entrou no botiquim da Rua-larga com tão pacato semblante, como se ali não
-fosse para mais que aligeirar as horas felizes da mocidade.
-
-Os que o conheciam encararam em D. Alexandre de Aguilar.
-
-O fidalgo de Miranda não conhecia Casimiro. Viu aquelle sugeito fardado
-de infanteria 6, e disse:
-
-—Isto é já botiquim de soldados?
-
-—É um academico: o primeiro premiado de mathematica.
-
-—É aquelle—ajuntou outro—de quem tu contaste as proezas casamenteiras.
-
-—Ah! o sobrinho do mestre Antonio! lá me quiz parecer que devia ser
-furriel.
-
-Isto fôra dito, muito á puridade, aos circumstantes, que não se riram.
-
-O amigo de Casimiro aproximou-se da meza e disse-lhe:
-
-—Estão todos.
-
-—D. Alexandre como visse esta aproximação, ponderou:
-
-—Elles conhecem-se?!... Quem é este academico, que lhe falla? este que
-chamam Vilhena?
-
-—É filho segundo de uma casa distincta de Braga.
-
-—Cuidei que fosse filho primeiro de algum chapeleiro de Braga...
-
-Casimiro pagou a chavena de café, ergueu-se e foi a passo mezurado á
-banca de D. Alexandre.
-
-O fidalgo encarou n’elle, e logo nos circumstantes, como quem diz: «que
-quer o tolo?!»
-
-E os academicos que, formavam cerco á meza, abriam fileiras ao lado,
-arrastando os bancos.
-
-Bettancourt fez um gesto cortez aos rapazes, e disse:
-
-—O senhor D. Alexandre de Aguilar conhece-me?
-
-—Se o conheço...
-
-Casimiro fez um gesto de cabeça affirmativo.
-
-Conheço-o de o ver agora ahi, e dizerem-me quem o sr. é.
-
-—Que sabe o sr. da minha vida?—tornou Casimiro.
-
-—Que sei da sua vida?!
-
-—Dispensemos o ecco, sr. D. Alexandre. Quem pergunta sou eu. Que sabe da
-minha vida?
-
-—E se eu lhe disser que não lhe dou satisfações? Agora sou eu quem
-pergunta.
-
-—Respondo-lhe que o sr. é um infame, e depois arranco-lhe a lingua.
-
-O fidalgo Alarcão Parma d’Eça ia a dizer o quer que era, e engasgou-se.
-
-Casimiro Bettancourt continuou no mesmo tom de serena conversação:
-
-—Disse v. ex.ª que eu era sobrinho de um carpinteiro. Disse verdade.
-Que eu raptara uma senhora, cujo marido sou. É certo. Ajuntou que eu
-estava vivendo das joias, que minha mulher roubára a seu pai. Mentiu.
-Vejo que esta palavra não inquieta grandemente o sangue azul de v. ex.ª
-Ainda assim, quero imaginar que o sr. D. Alexandre me pede provas da sua
-aleivosia.
-
-Tirou Casimiro do bolço interno da fardêta duas cartas. Abriu a primeira,
-lançou-a sobre a meza, e disse:
-
-—Conhece essa lettra?
-
-—Conheço—respondeu D. Alexandre—é de meu tio Ruy de Nellas Gamboa de
-Barbedo.
-
-—Pai de minha mulher—ajuntou Casimiro, voltando-se aos academicos
-circumpostos; e fallando para elles, continuou:
-
-—Como eu soubesse que o sr. D. Alexandre me alcunhava de receptador dos
-furtos de minha mulher, escrevi a um homem de bem, pedindo-lhe que se
-apresentasse ao sr. Ruy de Nellas, meu sogro, perguntando-lhe se sua
-filha, no acto da fuga, subtrahira de casa algum objecto de valor, e
-o declarasse por escripto. Esta segunda carta é a resposta da pessoa
-encarregada; e diz:
-
-«O correio só dá tempo a dizer-lhe que o sr. Ruy de Nellas, apenas me
-ouviu, e escreveu a declaração que contheuda remetto, e mostrou-se
-espantado de que a calumnia propale o que elle nunca disse; e de o não
-ter dito m’o jurou pela alma de sua mulher, e honra de suas filhas. Sem
-mais. Seu amigo, _P. João Ferreira_.»
-
-—Leia-a agora o sr. D. Alexandre a declaração de seu tio.
-
-—Leia-a o senhor!—bradou com grande esforço de falsa coragem o
-calumniador esmagado.
-
-—Leia-a!—tornou Casimiro com um lançar de olhos fulminante.
-
-O fidalgo tomou o papel nas mãos convulsas, e deixou-o logo cahir.
-
-—A covardia cega-o!—disse Casimiro sorrindo—Algum dos cavalheiros tem a
-bondade de ler?
-
-O mais chegado de D. Alexandre leu o seguinte:
-
- «Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro que minha
- filha Christina Elisiaria, não subtrahiu de minha casa valor
- algum, nem os seus proprios vestidos e adresses, quando fugiu
- para casar-se com Casimiro Bettancourt. E por isto ser verdade,
- mui espontaneamente, e com juramento aos santos Evangelhos o
- declaro agora e sempre. Pinhel, 22 de abril de 1839.—_Ruy de
- Nellas_, etc.»
-
-—Está reconhecida a assignatura?—disse Casimiro.
-
-—Está—respondeu o estudante, que lera—E quando não estivesse já o
-sobrinho a tinha reconhecido.
-
-—Isso não valia nada—tornou o furriel.—Nenhum dos cavalheiros prestaria
-fé ao reconhecimento do sr. D. Alexandre de Aguilar. Declare, pois, o sr.
-D. Alexandre que mentiu infamissimamente e offereça a cara para que todos
-lhe cuspam n’ella.
-
-O fidalgo ergueu-se, e bramiu:
-
-—O senhor!...
-
-—Que mais?—perguntou Casimiro.
-
-—Insulta-me?
-
-—Não. Obrigo-o a sentar-se, que me incommoda vel-o de pé.
-
-E, dizendo, baixou-lhe no alto da cabeça uma palmada, que effectivamente
-o fez apoiar-se sobre as ilhargas.
-
-E, voltando-se com rosto faceto aos academicos disse:
-
-—O espectaculo foi feio, que o miseravel não dá sequer um soffrivel truão
-com medo. Agradeço a attenção dos cavalheiros, mórmente com o sobrinho de
-um carpinteiro, que, por não ser nobre tem vontade de ser honrado.
-
-Sahiu do botiquim acompanhado de quasi todos os estudantes. Os poucos,
-que ficaram como petrificados, por não saberem que dizer a D. Alexandre
-de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça, retiraram-se cabisbaixos.
-
-Casimiro estugou o passo, caminho de Santo Antonio dos Olivaes, e
-encontrou a esposa anciada, fóra de casa.
-
-Contou-lhe, sem fatuidade, o essencial do acontecido, e reservou o facto
-da monumental palmada na cabeça. O delicado moço julgou melindrar sua
-mulher, dizendo-lhe que castigára com a mão um seu parente.
-
-Foi o successo estrondosamente contado e applaudido em Coimbra, tanto
-porque era de razão applaudil-o como por ser no tempo em que a mocidade
-academica, popular e burgueza na maxima parte, desadorava os fidalgos
-castellãos, e não perdia lanço de os metter a riso.
-
-D. Alexandre, no dia seguinte, foi para Miranda, em busca de romanso e
-solidão para pensar na vingança de covarde, que não podia já ser de outra
-natureza.
-
-Vamos no rasto d’este reptil.
-
-O extraordinario da chegada do estudante, quando as aulas estavam abertas
-e os actos não começados, devia ser de algum modo explicado a D. Sueiro
-e á parentella alvorotada. Contou elle que tinha tosse; e o caso foi que
-tossiu. O medico da casa apalpou-o, auscultou-o, e decidiu-se pela tosse,
-em concordancia com a faculdade medica de Coimbra, que mandára a ares
-patrios o mancebo, ameaçado de coisa séria. Em verdade, a pertinacia da
-embriaguez reduzira D. Alexandre a um viver morbido, asthenico, e analogo
-ao do ethico; e já não admira que a palmada capital do sadio Casimiro o
-fizesse sentar.
-
-Suppunha D. Sueiro que o casamento de Christina era muita parte na
-doença do irmão, e curava de remediar o mal de amor com os amores novos
-da cunhada que tinha em casa, galante menina, Mafalda de nome. Era a
-vigessima nona Mafalda n’aquella familia de Pinhel. Entrando n’este
-numero a santa infanta Mafalda, fundadora do mosteiro de Arouca, irmã
-de D. Affonso II, que tambem era da familia, pelos modos, e sem duvida
-nenhuma.
-
-Se a menina o amava não sei, nem averiguei, por ser demais na pauta
-d’este escripto; o que me consta é que D. Alexandre, tão adentrado
-estava com os seus calculos de vingança, que não dava pela prima, nem se
-lisongeava do seu amor.
-
-A unica pessoa de Miranda, com quem se abria o fidalgo, era um desertor
-de cavallaria, muito dos Alarcões, especie de molosso da casa, sob cujas
-telhas estava a seguro.
-
-As intelligencias de D. Alexandre com o desertor são obvias; curava de
-comprar-lhe o braço vingador; mas, tão em segredo, que nunca viesse á luz
-a sua segunda ignominia.
-
-Conchavaram-se de barato. D. Alexandre daria ao desertor basta quantia
-a transportal-o ao Brasil, e o desertor, em mesquinha paga de tamanho
-beneficio, mataria Casimiro Bettencourt.
-
-N’este accordo, pediu D. Alexandre ao morgado que lhe deixasse levar
-como creado o desertor, visto que a plebe academica se bandeara contra
-os estudantes fidalgos e devotos da causa vencida. Annuiu promptamente
-o irmão, contente de vêr que D. Alexandre recobrava côres, e olvidara
-Christina.
-
-Abertas as aulas voltou o moço á Universidade, com o seu vingador, por
-tal arte disfarçado, que dava de si um rustico cavallariço, incapaz de
-fazer mal a folego vivo.
-
-Os amigos dos annos anteriores fugiam-lhe, e novos nenhum lhe apertava a
-mão. O opprobio do fidalgo era ainda materia de ociosos, revivido com a
-sua presença.
-
-Preoccupava-o a traça de fazer conhecido Casimiro ao seu matador: cousa
-não facil na multidão de mil e tantos moços, entre os quaes raro se via o
-solitario de Santo Antonio dos Olivaes.
-
-O solicito confidente de D. Alexandre tomou sobre si o encargo de
-conhecer Casimiro, e esperava tiral-o pelas feições que lhe vira em
-Pinhel, quando elle era mocinho de quinze annos.
-
-N’este intento, foi como de passeio a Santo Antonio dos Olivaes; e, logo
-por fortuna, ao dobrar o combro de uma azinhaga, viu um sujeito de farda
-militar com uma senhora pelo braço.
-
-—Cá está o homem!—disse entre si, e deteve-se a examinal-o, sem attentar
-em Christina, que o examinava a elle. Casimiro, por sua parte, nem deu
-tento do reparo do caminheiro.
-
-Ora, Christina tinha visto aquelle homem em Pinhel, recebêra da mão
-d’elle uma carta de D. Alexandre, e lembrava-se de ter ouvido dizer ao
-primo D. Sueiro que aquelle soldado de dragões era o seu guarda fiel, e
-com elle iria ao inferno atacar Satanaz.
-
-O desertor, porém, olvidou-se-lhe Christina, e nem por sombra imaginou
-ser reconhecido.
-
-A senhora estremeceu... e duvidou. Já elle se havia sumido, quando ella
-disse:
-
-—Acautella-te, meu filho!
-
-—De quê?
-
-—Vi agora um creado dos de Miranda... Não póde deixar de ser elle... Veio
-com o Alexandre, e anda a espreitar-te.
-
-—Que tem isso, Christina?
-
-—Tem, que elle é um malvado... Ai meu Deus! d’aqui em diante não tenho
-momento de socego! Queres que nos vamos embora d’este ermo? Aluga casa na
-cidade. Pódes ser assaltado no caminho. Tu és valente, meu Casimiro; mas
-d’uma traição ninguem se livra!
-
-—Os prevenidos livram-se—atalhou Casimiro.—Não vejo causa para mêdo; mas,
-se has de viver inquieta, mudemos, filha.
-
-—Sim: faz-me isso, que é annos de vida que me poupas!
-
-Andava Casimiro em procura de casa, quando recebeu a seguinte carta de
-Ladislau:
-
- «Meu compadre. Vai ser surprehendido com a minha petição, á
- qual subscrevem minha mulher e meu cunhado. Logo que esta
- receber, metta-se a caminho com a sua senhora, e venham
- direitos á sua casa de Villa Cova. Iremos os tres esperal-os
- a meio caminho. Perder um anno da Universidade não faz
- implicancia á sua futura sorte, se ella tem de ser boa.
- Esperamol-os; porque não posso acreditar que meus compadres
- faltem ao seu _Ladislau_.»
-
-Casimiro leu, e disse:
-
-—Vamos, e vamos hoje.
-
-
-
-
-X
-
-A victoria d’uma creancinha
-
-
-D. Mafalda de Nellas, voltando de Miranda a Pinhel, trazia a
-escalavrar-lhe o coração o espinho do despeito. Isto não induz a
-liquidarmos que a menina amasse o primo D. Alexandre. O despeito das
-senhoras basta a explical-o a indifferença mesma dos homens que ellas
-desamam.
-
-Como quer que fosse, Mafalda saira de Miranda, odiando o cunhado de sua
-irmã, no dia seguinte ao da ida d’elle para Coimbra.
-
-Eis aqui o que ella contou ao pai, logo que chegou:
-
-—Estava eu n’uma das grutas da quinta, quando o primo Alexandre,
-sentando-se, sem me vêr, nas costas da gruta, deu um grande assobio.
-Fez-me curiosidade aquillo, e estive quieta para vêr o que sortia d’ali.
-Pouco depois, chegou um homem de grandes barbas, que eu já tenho visto em
-nossa casa, em companhia do mano Sueiro.
-
-—Bem sei, o desertor—atalhou o pai.
-
-—É isso: eu já tinha ouvido lá dizer á mana, que elle era desertor.
-
-—E depois?
-
-—Depois o primo, assim que elle chegou, disse-lhe:—Olha que vaes commigo
-para Coimbra. Está decidido—e o desertor respondeu: «Pois isso é que é
-preciso!»—Mas vê se aparas essas barbas, que tens cara de facinora—disse
-o primo—eu tenho medo que, em apparecendo morto o Casimiro, todos digam
-que foi obra do meu creado.—Eu quando tal ouvi comecei a tremer, e tive
-medo d’aquelle homem! Quiz dizel-o á mana Guiomar; mas ella falla tão
-mal do Casimiro e da mana Christina, que julguei imprudente dizer o que
-ouvira.
-
-—E depois?—atalhou o velho com inquietação.
-
-—Depois, estiveram a fallar em facadas e tiros. E o desertor dizia: «são
-dous palmos de ferro, fidalgo.» E tirou da algibeira uma navalha, que
-relusia, e tamanha, meu pai, como eu nunca vi! Ainda disseram mais coisas
-que não me lembram, e foi cada um para seu lado. Ó papá, elles irão matar
-o marido da mana Christina? Coitado!... por que é que o matam?
-
-—Dá me papel e tinteiro, e um creado que apparelhe o macho para ir
-immediatamente a um recado.
-
-Ruy de Nellas escreveu esta carta.
-
- «Sr. Ladislau. Sei que alguem intenta matar em Coimbra o marido
- de Christina. Ha tres dias que para ali partiu o assassino ou
- assassinos. Avise-o como seu amigo, para que se acautelle, ou
- se retire. Eu aborreço os infames, e as vinganças covardes:
- por isso me apresso a participar-lhe este plano, que oxalá não
- esteja executado, quando chegar a sua carta. Espero em Deus que
- não. Do seu amigo, _Ruy de Nellas_.»
-
-O creado partiu a toda a brida.
-
-Ladislau leu a carta em suores frios. Escreveu duas linhas de
-agradecimento a Ruy, e preparou-se para ir a Coimbra. Acaso entrára o
-vigario, e, lendo a carta, impediu de ir, allegando que o correio chegava
-primeiro.
-
-Padre João e seu cunhado, sabiam os successos de Coimbra, e, sem se
-consultarem, nomearam D. Alexandre.
-
-—Casimiro está vivo—disse com firmeza o padre.
-
-—Quem n’ol-o assevera?!—perguntaram Peregrina e Ladislau.
-
-—É o raciocinio. Alexandre é incapaz de matar de rosto ou á traição.
-Precisamente leva um sicario assalariado que eu conheço ha dez annos. Os
-faccinoras por estipendio são muito covardes, porque amam tanto a vida
-que, para sustental-a se expõem a perdel-a. Se D. Alexandre offendido
-vergonhosamente carece de animo para se desaffrontar, devemos crêr que
-ao carnifice alugado falte a coragem para accommetter o homem que o
-não offendeu. Além de que eu vou jurar que Casimiro se prepara contra
-as insidias do seu inimigo, e terá só de pelejar com um homem. Sobre
-todas essas conjecturas, roguemos a Deus pela vida do nosso amigo, e
-escreve-lhe a chamal-o em termos, que não assustem Christina.
-
-Escreveu Ladislau a carta copiada no anterior capitulo; e, no dia
-seguinte, sahiram de Villa Cova, e, á segunda jornada, pernoitaram em
-Gouvea. Dous dias depois chegaram Casimiro e Christina.
-
-A esposa de Ladislau, para abraçar sua comadre, pousou sobre o leito a
-creancinha que lhe adormecêra ao seio.
-
-Christina, porém, como se não visse o fervor da amiga, ajoelhou á beira
-do leito, e beijou soffregamente o menino, que sorria aos affagos de
-algum anjo. Era bello de verem-se todos cinco, em redor da creança, como
-se para outro fim se não reunissem! Parece que ella lhes estava dizendo:
-«Distrahi vosso espirito de dores, que eu estou pedindo a Deus que vos
-defenda.»
-
-Peregrina pôde furtar as caricias de Christina, tomando-a para si com
-força.
-
-—Estava a invejar-te, minha comadre!—disse a esposa de Casimiro—mas olha,
-não devo invejar-te, não!...
-
-E disse-lhe ao ouvido breves palavras, explicadas pela exclamação de
-Peregrina:
-
-—Sim? e não m’o tinha dito!... que ditosas seremos com os nossos
-filhinhos!
-
-O vigario sorriu-se, e murmurou:
-
-—Não ha creanças mais creanças que as mães! Estas alegrias raras vezes
-lh’as recomeçam depois os filhos!...
-
-Casimiro concentrou-se tristemente, e Christina disse:
-
-—Não fallem em mãe diante de meu marido, por quem são!
-
-—Fallem, fallem—disse Casimiro—que eu tenho de encontral-a no ceu pelo
-muito que a desejei n’este mundo.
-
-E, tomando o braço de Ladislau, chegou a uma janella, e perguntou:
-
-—Que é isto? Que significa esta chamada?
-
-—Não m’o pergunte diante de sua senhora.
-
-—Porque não? ella é forte. Se um dia me fraquearem os esteios da honra,
-minha mulher ha de fortalecer-m’os. Diga, meu compadre.
-
-Ladislau mostrou a carta de Ruy de Nellas; e Christina, ouvindo-a ler,
-exclamou:
-
-—Não te disse eu?... Era o desertor ou não?
-
-—Era o desertor—respondeu o vigario.
-
-—Pois sabia?—acudiu Christina.
-
-—Disse-m’o a razão e a pratica dos _valorosos barões_ de Miranda. V. ex.ª
-viu-o?
-
-—Vi: mostrou-m’o o nosso anjo da guarda!... E meu pai é que te avisa,
-Casimiro! Quem me déra poder beijar-lhe a mão!
-
-—Seu pai é um homem de bem ás direitas, minha senhora—disse o
-vigario—Seria um modêlo de virtuosos, se os preconceitos de raça o não
-molestassem. Porque não ha de v. ex.ª ainda beijar-lhe a mão? Esperemos.
-
-—E agora?—disse Casimiro—que querem de mim? Será airoso que eu me vá
-esconder a Villa Cova das iras de D. Alexandre?
-
-—É dever de marido e pai fugir o perigo—disse Ladislau—Sabemos que lhe
-sobra animo; porém agora, quer-se e requer-se que o coração seja maior
-que o animo. Sua senhora manda; o vigario aconselha; e minha mulher e eu
-rogamos. Falta-lhe paciencia para viver alguns mezes na tristonha casa da
-serra? É assim ingrato áquella terra agreste onde desabrocharam todas as
-flores da sua felicidade, meu compadre?!
-
-—Ó meu amigo, meu generoso irmão!—exclamou Casimiro, nos braços de
-Ladislau—Vamos, vamos para Villa-Cova. Lá sei eu que tenho segura a vida,
-a alegria, e sempre viçosas as flores de felicidade, que se abriram no
-seu nobre coração, e para mim! Não é covardia fugir. Covardes são os que
-não tem uma esposa, e fogem; covardes são os que não tem amigos como
-vós, e fogem!
-
-—E no filhinho não fallas?—disse Christina sorrindo-lhe com incantadora
-meiguice.
-
-—Não o disse eu!—acudiu o vigario—Agora, quer s. ex.ª que todo o coração
-de seu marido esteja embebido do futuro filhinho! Valha-vos Deus, mães
-loucas do amor de vossos filhos, que sois capazes de ceder do coração dos
-maridos em beneficio dos pequerruchos, anjos purissimos a quem basta o
-bafejo do Senhor!
-
-N’estas doces praticas, que eu, a mêdo, submetti á benevolencia do
-leitor, se passaram as horas do descanço, até ao repontar da alva, em que
-proseguiram sua jornada. Lá vão os felizes, escoltados por suas mesmas
-virtudes.
-
-Entretanto, recebeu D. Alexandre de Aguilar a nova de ter sahido de
-Coimbra Casimiro Bettancourt, e o mesmo foi assoalhar, mediante alguns
-necessitados de sua recheada bolça, que o furriel se evadira, sabendo
-que ia ser desafiado a duello de morte. Correu o boato, justificado por
-circumstancias: a precipitação da sahida, o estarem abertas as aulas,
-o ignorar-se o intento da retirada, o ter dito Casimiro, na vespera,
-que procurava casa em Coimbra, tudo induzia a crer a atoarda molesta á
-reputada intrepidez do militar.
-
-A _Vedeta da Liberdade_, jornal portuense, publicou uma correspondencia
-de Coimbra, em que se dizia em grypho: _que um estudante militar,
-appellidado Bettancourt, fugira com a mulher para se não bater com
-D. Alexandre de Aguilar, academico brioso, a quem, no anno anterior,
-insultára_. E accrescentava: _O tal militar é avezado a fugas: uma vez
-fugiu com a filha d’um nobilissimo cavalheiro, onde seu tio carpinteirava
-agora; fugiu com as costellas incolumes, porque o tio carpinteiro não
-sabe endireitar costellas quebradas._
-
-O jornal appareceu em Villa Cova subscriptado, a Casimiro de Bettancourt.
-
-Casimiro leu a correspondencia em voz alta.
-
-E Ladislau perguntou:
-
-—Que é isso?
-
-—É uma gazeta—disse o vigario.
-
-—Uma gazeta?—reperguntou Ladislau.
-
-—Sim.
-
-—Mas... (desculpem a minha ignorancia...) como se faz isso?
-
-—Isso que, meu irmão?
-
-—Como se estampam esses insultos?
-
-—Estampam-se.
-
-—Então...—estou confuso, e vejo que me não percebem...—as gazetas servem
-de insultar? quem quer infamar alguem vai a casa do homem, que tem esse
-modo de vida, e diz-lhe: «imprima lá esse insulto», é isto?
-
-—É isso—illucidou o padre—com o accrescento de que o dono do jornal
-recebe tanto por linha do insulto publicado.
-
-Ladislau ergueu-se com nunca visto impeto de furia, e exclamou:
-
-—Então isso é infame! e a civilisação que isso consente é a barbaria, é o
-escarneo de Deus e das leis de nosso paiz!
-
-Casimiro sorriu, e disse:
-
-—A indignação de meu compadre tem graça!... A que distancia este bom
-rapaz vive do mundo culto! Quer elle, talvez, que a civilisação esteja
-em Villa Cova, e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta, meu
-querido amigo, tem outra face, que o sr. vigario lhe não mostrou, e é
-que, se eu quizer insultar d’aqui D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono
-da gazeta me vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto; e,
-no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor de D. Alexandre e
-meu. O dono d’este papel é como a estatua em que Aretino fixava as suas
-vaias aos reis e aos papas, n’um tempo em que papas e reis eram cousas
-sacratissimas e inviolaveis. Agora, que não ha nada defêso, com que
-direito me hei de eu queixar? Não me alistei eu no exercito que defende
-as instituições livres?! Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca
-do progresso, chamada nem mais nem menos que «Vedeta da liberdade»! Os
-homens livres passam deante da estatua de Pasquino, e descobrem-se. Assim
-como a discussão racional e illustrada aclara as escuridades e aplana os
-empeços da ideia util, por igual razão as injurias á pessoa, os ataques á
-moral de cada individuo servem de o abrir, á luz da analyse, e ver tudo o
-que elle lá tem dentro do coração e consciencia. A licença da imprensa é
-uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros de lama. Das chammas
-do auto-de-fé sahiram almas purificadas, no crer de alguns theologos; e
-da alma da imprensa desbragada devem sahir as consciencias lavadas, no
-entender de alguns legisladores. Sejamos do nosso tempo, meu compadre.
-
-—Pois, sim—disse Ladislau—mas deixe-me render louvores a Deus por me ter
-dado o nascimento n’estas serras! Eu não cuidei que era assim o mundo.
-N’este ultimo anno quantas paixões más que eu não conhecia! Meu mestre
-decerto as ignorava; senão, ter-m’as-ia dito. Os meus livros tambem m’as
-não disseram...
-
-—É por que os seus livros são bons—atalhou Casimiro Bettancourt—A
-corrompida sociedade da Roma imperial não tinha gazetas; mas tinha
-historiadores e poetas. Se meu compadre os ler, imagina que maus
-inventores o querem deleitar com fabulas hediondas. O homem foi sempre
-mau; será mau até ao fim. A sociedade parece melhor do que foi, olhada
-collectivamente: é parte n’isto a lei, e grande parte o calculo.
-Cada individuo se constrange e infrea no pacto social para auferir
-as vantagens de o não romper: porém, o instincto de cada homem, em
-communidade de homem, está de continuo repuchando para a desorganisação.
-Eu acceito, como puros os corações formados na solidão, a não se dar a
-segunda hypothese do proverbio, que disse: homem sósinho, das duas uma:
-ou Deus ou bruto[4]. Melhor seria dizer, com Santo Agostinho, ou anjo
-ou demonio. Ladislau formou-se aqui, rescende virtudes extraordinarias;
-mas, se fôr ás cidades, á feira dos vicios, sentirá coar-lhe um veneno
-corrosivo nas entranhas; e, a meia volta, perderá de vista a benigna
-estrella d’estas suas montanhas. Ó meu amigo, não se alongue do seu
-paraizo! não queira saber que nome tem, a dez leguas da sua aldeia, o que
-meu compadre chama dever, civilisação, amor, caridade e Deus.
-
-Os gosos da vida domestica aligeiravam os mezes da inactividade de
-Casimiro. Ao quinto de residencia em Villa Cova, realisou-se a ventura
-saudada por Peregrina na estalagem de Gouvea: Christina foi mãi de uma
-menina, que trouxe do céu o seu quinhão de felicidade, do qual todos
-participaram.
-
-Queria o pai que Ladislau e Peregrina fossem padrinhos; mas o vigario,
-consoante as velhas praxes de filhos casados contra vontade paternal,
-pediu que fosse convidado o avô, por carta de D. Christina.
-
-Escreveu ella com humildade sem baixeza uma carta, onde se lia este
-periodo:
-
- «É uma ternura filial que me anima a escrever a meu pai: não
- é a necessidade que me obriga. Se sou pobre, ainda não tive
- occasião de sentir desejos de ser rica. O perdão de meu pai é
- que eu desejo e peço, se foi delicto o acto que está sendo a
- minha felicidade. Quizera um dia beijar as mãos de meu pai e
- dizer-lhe que tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como
- esposa de Casimiro.»
-
-Foi lida a carta e discutida. O vigario achou duras algumas palavras
-d’aquelle relanço, e pediu a illisão das palavras: «_se foi delicto o
-acto que está sendo a minha felicidade_»; bem como: «_tenho tanta vaidade
-em ser filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro_.» As primeiras palavras
-foram substituidas: as ultimas não. Christina nem ao marido obedeceu.
-
-Ruy de Nellas recebeu a carta, e leu-a sem rancor até ás expressões
-rebeldes á censura do vigario; mas, n’este ponto, rasgou o papel e disse
-ao portador:
-
-—A resposta é esta: diz lá que eu é que não tenho vaidade nenhuma em ser
-padrinho de um filho do sr. Casimiro.
-
-Tal resposta magoou medianamente a familia de Villa-Cova.
-
-—É soberbo!—disse Ladislau.
-
-—Preconceitos de raça—acrescentou o vigario.
-
-—Não tem outra falha a excellente alma do sr. Ruy.
-
-—Pois ha de ser padrinho da neta!—tornou Ladislau.
-
-—Que capricho é esse, meu compadre?—perguntou Casimiro.
-
-—Não é capricho: é batalha dada contra a soberba: havemos de amolgal-a
-com a brandura.
-
-Na segunda dominga, posterior ao nascimento da menina, sahiu, ante-manhã,
-de Villa Cova Ladislau, uma ama de leite, e a creancinha. Chegaram
-a Pinhel ás nove horas, e elle entrou á igreja parochial, onde, por
-informações de mestre Antonio carpinteiro, Ladislau soubera que o fidalgo
-ia ouvir missa. A ama sentou-se no adro, e esperou, rodeada de meninos,
-que se acotovellavam para ver o rosado rosto da baptisanda.
-
-Ladislau apresentou-se ao abbade, com uma carta do padre João Ferreira, e
-conversaram.
-
-Ás dez horas tangeu a sineta á missa, e chegou o fidalgo com suas filhas,
-e foram ajoelhar na alcatifa da sua capella privativa. Antes do terceiro
-toque, o abbade aproximou-se de Ruy de Nellas, e disse-lhe:
-
-—Faz v. ex.ª a esmola de fazer christã uma creancinha?
-
-—Sim, abbade, pois não!
-
-—E de escolher a madrinha?
-
-—Será minha filha Mafalda.
-
-Chamou elle a menina, e acercaram-se do baptisterio.
-
-A ama entrou com a creança, chamada pelo sachristão.
-
-A um lado, estava Ladislau com uma tocha, escondendo-se ao lance d’olhos
-de Ruy de Nellas.
-
-Ao descobrimento da menina, Mafalda exclamou:
-
-—Ai! tão linda que é!... Veja, papá! Ó manas, venham ver que perfeição!...
-
-—Quem são os pais?—disse o fidalgo.
-
-O abbade, como tivesse começado as ceremonias do sacramento, não
-respondeu; e, pouco depois, perguntou:
-
-—Qual é o nome?
-
-—É o meu—disse Mafalda.
-
-Findo o acto, foram á sachristia lavrar no livro o assento baptismal.
-
-O abbade escreveu á vista dos apontamentos, e leu depois para
-conhecimento dos padrinhos:
-
-«Mafalda, natural de Villa-Cova, termo de Pinhel, filha legitima de
-Casimiro Bettancourt, natural de Santarem, e da ill.ᵐᵃ e ex.ᵐᵃ sr.ª D.
-Christina Elisiaria de Nellas Gamboa de Barbedo»...
-
-—Como?!—exclamou o fidalgo—Como se intende isto? Que abuso foi este, sr.
-abbade?!
-
-Ladislau sahiu do escuro da sachristia, e disse:
-
-—O abuso é meu, sr. Ruy de Nellas. E v. ex.ª não me castiga, porque eu
-vou pôr em seus braços a creancinha a implorar o meu perdão e o de sua
-mãi.
-
-E tomou a menina dos braços da ama, e depositou-a nos da madrinha,
-dizendo-lhe:
-
-—Seja v. ex.ª a intercessora de sua irmã!
-
-—Dê-lhe um beijo, papá! rogou maviosamente D. Mafalda.
-
-O velho poz a mão na face da creança, e disse:
-
-—Não tens culpa tu, pobre innocente!...
-
-E o abbade continuou a leitura do assento baptismal, sorrindo, e olhando
-por cima dos oculos, para ver Ruy de Nellas, que deixava chupar-lhe a
-creança no dedo mendinho.
-
-Ao sahirem da sachristia, o fidalgo disse á ama da creança.
-
-—Vá lá a casa, depois da missa, mulher, e o sr. tambem se quizer.
-
-Ladislau fez um signal de agradecimento.
-
-Finda a missa, a menina foi levada a casa do avô. As quatro tias deram
-inquietações á ama, temerosa de que lhe abafassem a creança com beijos.
-
-Entretanto, Ladislau contava a Ruy de Nellas os successos de Coimbra e os
-aleives da correspondencia da «Vedeta da Liberdade».
-
-O velho ouviu-o em silencio; mas com ar de satisfação, em quanto aos
-brios de seu genro no justo castigo de Alexandre; porém, quando soube
-que as gazetas traziam o seu nome aparelhado com o do carpinteiro,
-irritou-se, e clamou:
-
-—Quando pensei eu de andar pelas gazetas!... É o que minha filha me
-arranjou!...
-
-Este accesso durou alguns segundos.
-
-Continuaram a conversar serenamente. Eram horas de partir para
-Villa-Cova. O fidalgo mandou entrar a afilhada, e deu-lhe um beijo, e
-duas peças á ama.
-
-E—caso unico!—apertou a mão do lavrador de Villa-Cova, e disse-lhe por
-ultimo:
-
-—O tempo fará o resto. É cedo por ora! A ferida sangra ainda!
-
-—O balsamo do Evangelho, sr. Ruy de Nellas...—respondeu Ladislau,
-sahindo.
-
-
-
-
-XI
-
-Guilherme Lira
-
-
-Seria ocioso, bem que alegre trabalho, contar os jubilos de Christina,
-retomando ao seio a filha, que seu pai e irmãs tinham beijado. Casimiro,
-homem não estranho a vanglorias, que parecem ser condição das indoles
-arremessadas ás glorias uteis, folgava de ver sua filha acariciada
-pelo fidalgo, cuja prosapia, o moço, nas verduras dos dezoito annos,
-sinceramente invejava. Ó barro humano!
-
-Disse Ladislau que Ruy approvára a sahida de Coimbra, e esperava que o
-anno decorrido esfriasse a vingança de D. Alexandre, estando elle de mais
-a mais como vingado, fazendo crer que lhe fugia Casimiro. Era tambem
-este o parecer do vigario e de Ladislau. Casimiro, ainda assim, dizia
-contrariando:
-
-—Não, meus amigos: o odio dos fracos é inextinguivel; é a unica força, a
-energia tenebrosa, que lhes deu a natureza.
-
-No seguinte anno lectivo, voltou a Coimbra, com maior familia, o pobre
-grangeador do futuro. Doia-lhe ter de augmentar suas despezas, sahidas
-todas dos celleiros de Villa-Cova. Era grande magoa para o aberto coração
-de Ladislau entender em pacificar o espirito do seu amigo, fazendo-lhe
-sentir que escassamente lhe emprestava uma parte das sobras de suas
-colheitas. E santamente mentia Ladislau! A sua lavoura, comquanto grande,
-era toda de cereaes, vendidos por baixo preço, e urgentes ao consummo e
-vestir de sua familia. O que elle estava dispendendo era dinheiro antigo,
-que encontrára, ouro do seculo XVI, peculio amuado ao canto do armario de
-pau santo, em que seus tios padres iam annumerando algumas moedas, muitas
-menos que as derramadas pela pobreza.
-
-Lembrava-se Christina de escrever ao pai, a pedir-lhe sua legitima
-materna. Casimiro, antes que ella expendesse o seu pensamento, atalhou-a
-n’estes termos:
-
-—Sendo preciso, iria primeiro pedir a meu tio carpinteiro metade do seu
-estipendio de cada dia.
-
-Peregrina, sabedora do intento, revelara-o ao marido.
-
-Ladislau, a sós com a filha de Ruy de Nellas, queixou-se, observando-lhe
-que era crueldade obrigal-o a faltar á sua palavra, tendo elle dito a Ruy
-de Nellas que sua filha e marido nunca lhe pediriam meios de vida.
-
-Os raros amigos de Bettancourt, assim que o viram em Coimbra,
-repetiram-lhe as calumnias divulgadas, fingindo não acredital-as. O mais
-sincero e rude ousou dizer-lhe:
-
-—Déste um mau passo em fugir.
-
-—Não fugi. O amigo, a quem devo a minha subsistencia em Coimbra,
-chamou-me, e eu fui.
-
-—Não devias ir, tendo sido desafiado por D. Alexandre.
-
-—Nunca fui desafiado.
-
-—Como não foste!?
-
-—Nunca fui desafiado; e, no caso de o ter sido, regeitaria a proposta.
-Não jogo friamente a vida, que é de minha mulher e de minha filha, contra
-a vida de D. Alexandre, que é um homem abjecto, nem contra a vida do
-mais extremado em probidade. Nunca para mim alguem provará a sua honra,
-batendo-se com victoria, nem o vencido terei em conta de deshonrado. O
-duello póde significar algumas vezes coragem, mas sentença absolutoria de
-um infame, nunca.
-
-—Mas decididamente não fugiste ao duello?
-
-—Offende-me a renitencia—respondeu Bettancourt molestado.
-
-—Desculpa, que é a renitencia de um amigo zeloso de tua dignidade.
-A academia acreditou em D. Alexandre e nos propagadores do boato.
-Appareceram homens a dizerem que tinham sido agentes do desafio.
-
-—Mentiram.
-
-—Mas a mentira vingou.
-
-—Estou resignado: já a vi impressa n’um jornal, e achei-me forte na minha
-consciencia.
-
-—Mas a opinião publica...—voltou o academico, espicaçando, em nome da
-opinião publica, o animo impenetravel do marido e pai.
-
-—Que queres que eu diga á opinião publica?
-
-—Que a desmintas: escreve uma correspondencia.
-
-—Não desço.
-
-—Descer! pois é descer acudires por tua honra!?
-
-—Se a consciencia me não accusa, que logro eu em constituir a academia
-meu juiz? Além de que, meu amigo, eu venho estudar. Falta-me o tempo
-para o util: como hei de eu ir dispendêl-o a entreter a curiosidade
-publica? Diz aos teus amigos que eu sou calumniado, e elles julguem-me a
-seu sabor.
-
-—Faz o que quizeres: dou por cumprida a minha missão de amigo.
-
- * * * * *
-
-Christina vivia tranquilla. Ladislau, que lançara espias em Miranda,
-soubera que D. Alexandre sahira para Coimbra, e o desertor ficára. A nova
-agradou a Casimiro, receioso dos sustos da senhora.
-
-Recomeçou o academico os estudos do segundo anno com fervor. Sabia que
-seus mesmos condiscipulos o detrahiam, lamentando, como usam lamentar
-inimigos, a nodoa da farda de um militar. O facto estrondoso do botequim
-da rua Larga tinha esquecido, ou era interpretado de varios modos, todos
-estupidos; que a malquerença faz timbre em ser estupida, quando não póde
-ser feroz. Todavia, a frechada não lhe vasava ao coração. O pai extremoso
-abroquellava-se com a filhinha, e dizia á esposa:
-
-—Sêde o meu mundo. Aos teus olhos sou quem sou, minha amiga. Infamam-me
-lá fóra; mas diz-me tu, filha, que eu sou digno de ti.
-
-N’um sabbado ao cahir da tarde, passaram á Ponte, vindos da Quinta das
-Lagrimas, Casimiro, e sua mulher.
-
-D. Alexandre de Aguilar estava sentado com numerosos estudantes nas
-guardas da ponte. Ao perpassar Casimiro, o fidalgo de Miranda tossiu
-aquelle grunhido peculiar do insulto. Os academicos de sua parcialidade,
-em respeito á dama, abstiveram-se de acompanhar o amigo na _trossa_.
-
-D. Alexandre, desenfreado como costumam os covardes no momento em que
-persuadem-se não o serem, disse:
-
-—Não se envergonha aquella dama! Que ostentação e baixeza d’alma.
-
-Christina ouviu. O que o amor nobre faz d’uma alma timida! Voltou-se
-contra o parente, e respondeu:
-
-—É muito infame!
-
-—Silencio!—disse Casimiro, apertando-lhe convulsivamente o braço.
-
-D. Alexandre expediu uma cascalhada; e os academicos, indifferentes ao
-conflicto, disseram-se:
-
-—Com effeito! é muito covarde o Bettancourt, que deixa assim insultar a
-mulher! Comprehendam lá a decantada historia do botequim!
-
-Na extremidade da ponte, estava o academico, já conhecido por seus
-dialogos com Casimiro. O marido de Christina aproximou-se d’elle e
-disse-lhe:
-
-—Conserva-te aqui um instante ao pé de minha mulher, que eu volto já.
-
-—Não!—exclamou Christina.
-
-—Christina—disse elle com um aspecto, que a esposa nunca lhe vira.
-
-E caminhou ao longo da ponte, sem denotar arrebatamento na serenidade do
-passo.
-
-Os academicos do bando de D. Alexandre disseram:
-
-—É elle que vem!
-
-O fidalgo desceu-se da guarda como quem se prepara a receber o aggressor.
-Não era isso. O mêdo pesa como chumbo na região abdominal. Foi o gravame
-do mêdo que mecanicamente o desceu.
-
-Casimiro lançou-lhe a mão esquerda á garganta, e com a direita levou-lhe
-a cabeça a aresta da guarda.
-
-Depois como o atordoado fidalgo escouceasse os couces instinctivos da
-defeza, o aggressor abarcou-o pela cintura, no proposito de o despejar
-ao Mondego. Acudiram-lhe muitos, sem, comtudo, arremetterem contra o
-furriel. Casimiro sentiu nas barbas mão estranha. Olhou com impetuosa
-furia, e viu Christina, que punha as mãos supplicantes. Descurvou os
-dedos da garganta do estudante, e deu o braço a sua mulher. Pelo ar
-quieto, com que elle sahiu ao fim da ponte haviam de imaginar que o
-sujeito acabava de abraçar um amigo!
-
-Grande parte da academia parecia andar envergonhada depois d’este
-successo. Os detraidores, chamados por algum amigo de Bettancourt, a
-dizerem ácerca do facto, corriam-se, e gargarejavam o desmentido, que os
-suppliciava.
-
-O academico, mais dolorido do descredito de Casimiro, seguiu-lhe os
-passos a casa, abraçou-o com transporte, e exclamou:
-
-—Tu és um grande homem!
-
-—Vem vêr minha filhinha como dorme docemente!—respondeu Casimiro.
-
-—Que dirão agora os calumniadores?—tornou o academico.
-
-—Que eu sou um assassino.
-
-—Um bravo! um modêlo de dignidade.
-
-—Como quizerem. Vem ver minha filha, se gostas de creancinhas.
-
-Foram. A mãi, que, uma hora antes, sentira denodo viril para aggredir o
-insultador, estava agora chorando sobre as faixas da filhinha. Casimiro
-aconchegou-a de si e murmurou:
-
-—Então? que é isso, filha?
-
-—Tremo pela tua vida, Casimiro!
-
-—Convence-te, Christina: eu não posso ser morto por D. Alexandre, nem por
-assassinos de sua paga.
-
-O fidalgo dos Vitos Alarcões tractou da cabeça na cama uns quinze dias:
-parece que o granito lhe entrou dentro obra de meia pollegada, sendo que
-em tal cabeça nunca tinha penetrado cousa alguma outra. Fechada a brecha,
-metteram-se as ferias de Natal, e o convalescente foi para casa.
-
-Ladislau, sempre attento aos passos do desertor, soube que chegara a
-Miranda D. Alexandre de Aguilar, de cujo infortunio na ponte já estava
-informado por carta de Christina, que incessantemente lhe pedia toda a
-vigilancia sobre o scelerado.
-
-D. Sueiro deu logo tento da cicatriz da cabeça fraterna, e disse:
-
-—Levaste ou cahiste, mano?
-
-—Cahi do cavallo.
-
-—Bom tombo! ias ficando sem um olho! Estás um limpo cavalleiro, não tem
-duvida!
-
-E ficaram n’isto; mas as familias d’outros academicos de Miranda, de
-bocca em bocca, fizeram chegar ás orelhas de D. Sueiro de Aguilar a rija
-sova, que levara o irmão.
-
-O senhor dos Coutos de Fervença e Caçarelhos Estevães e Villariça disse
-ao irmão:
-
-—Como assim?
-
-—Assim quê?—perguntou D. Alexandre.
-
-—Corre que essa cicatriz foi bordoada que levaste! Foi ou não?
-
-—Foi desordem: dei e levei.
-
-—E ficaste mal?
-
-—Fiquei ferido; mas sem deshonra. O adversario era valente como as armas.
-
-—Quem?
-
-—O marido de tua cunhada.
-
-—O villão? E vive!...
-
-—Por em quanto... vive.
-
-—De que serve aqui o Ayrão?
-
-Ayrão era a graça do desertor.
-
-D. Sueiro acrescentou:
-
-—Leva-o, e mostra-lh’o. Acabemos com isto de uma vez... Estou a ver
-quando o tio Ruy de Nellas recebe o genro em casa. Já lhe baptisou o
-filho, e, escrevendo a Guiomar, fallou-lhe de Christina com piedade. O
-tio Ruy degenerou. Se viver muito, ha de envergonhar-nos.
-
- * * * * *
-
-Foi para Coimbra D. Alexandre.
-
-Ladislau recebeu a ponto a informação: o desertor ficára. Avisou-o de
-Villa-Cova. Christina exultou; mas, seis dias depois, recebeu novo
-aviso: o sicario partira aforrado, e em disfarce. A pontualidade d’estas
-informações deviam-se a um jornaleiro de Villa-Cova, o qual, industriado
-por Ladislau, fôra a Miranda pedir trabalho á casa dos Alarcões, e lá
-ficára servo de lavoura.
-
-D. Alexandre concertára o plano do homicidio, com estupido ardil: já se
-lhe não dava que se lhe imputasse a morte de Casimiro; e, para desviar
-suspeitas de braço estranho, escondia o matador em casa.
-
-Ayrão entrou de noite, e sumia-se de dia nos quartos escusos da casa. Os
-frequentadores dos jantares de D. Alexandre guardavam delicada reserva
-ácerca da desgraça do mez anterior. O amphitrião é quem, uma vez por
-outra, dizia:
-
-—Tenho sêde de sangue!
-
-Ou, bebendo até cahir, exclamava:
-
-—Á saude do assassino, que ha de vingar a honra de vinte gerações de
-fidalgos de solar conhecido!
-
-Defronte de D. Alexandre morava o estudante de direito Guilherme Lira.
-
-Lira foi o mais esforçado e turbulento academico dos seis annos
-subsequentes á restauração da liberdade. Presidiu á famigerada «Sociedade
-da Manta»[5]. Era o pau mais valente do riba-Tejo, e o mais figadal
-inimigo de poltrões.
-
-Do fidalgo de Miranda tinha elle nojo, nojo favoravel ao covarde; se
-fosse odio, tel-o-ia desorelhado.
-
-Observou Guilherme Lira que em casa do visinho D. Alexandre estava um
-homem de cara sinistra, o qual se escondia no escuro da casa assim
-que nas janellas fronteiras assomava gente. Lira espreitou, e viu-o,
-accendendo o cachimbo no charuto do amo, e gesticulando com aquelle
-especial geito das féras humanas, vesadas ao tracto da taverna, da feira,
-e da encruzilhada.
-
-Guilherme sympathisava d’alma com Casimiro Bettancourt. Depois do
-facto da ponte, estando elle com o seu bando de bravos na Calçada, viu
-Casimiro, que vinha com sua esposa. Lira sahiu da roda, foi á frente do
-furriel, e disse, com os olhos em Christina:
-
-—Dê-me v. ex.ª licença que eu abrace seu marido.
-
-E pegou d’elle ao alto soffregamente, exclamando:
-
-—Que pena que tu sejas casado, homem de figados, que te queria entregar o
-macête da minha loja!
-
-Casimiro sorriu, agradeceu, e apertou-lhe affectuosa e modestamente a
-mão.
-
-Isto explica a espionagem de Lira, e o aventar de prompto que o ignobil
-visinho traçava a morte de Casimiro.
-
-Foi logo d’alli em procura do estudioso mathematico, e disse-lhe:
-
-—Olha que o covarde tem uma besta-féra em casa. Estuda socegado, que eu
-te guardarei, porque não estudo, nem tenho que fazer.
-
-—Agradeço—disse Casimiro—mas, em verdade te juro que não temo a
-besta-féra.
-
-—Bem sei, rapaz, bem sei; mas o que eu te venho dizer é que não penses
-mesmo no modo de a mandar ao diabo. Isso cá se arranja. Adeus: não te
-quero roubar tempo.
-
-Descubriu Guilherme que D. Alexandre sahia de noute, e com elle outro
-academico sobre quem a capa mal ageitada ia delatando a contrafacção.
-
-Fez-se Lira encontrado com elles, metteu-lhes a cara, e reconheceu o
-assassino, sob o disfarce de estudante.
-
-A traça do homicidio era desesperada. Como Casimiro passava as noutes
-estudando, Ayrão lembrara il-o matar em casa. O rancor applaudiu o
-alvitre, e accelerou a execução. D. Sueiro esporeava de lá os brios do
-mano e pasmava da demora.
-
-Descubriu Lira que os visinhos por volta de dez horas paravam á sombra do
-Arco, que faz a extrema da _Couraça dos Apostolos_, onde morava Casimiro,
-e depois subiam distanceados a calçada, e o mais corpulento, que era o
-disfarçado, contra-punha de leve o hombro a uma porta de quintal, ou
-remirava a janella alumiada pelo clarão do candieiro, ao qual Casimiro
-estudava até duas horas da manhã.
-
-As portas apalpadas não davam de si; arrombal-as com estrondo seria
-derrancar o plano.
-
-Accudiu nova idéa ao homicida: chamar Casimiro á janella, e desfechar-lhe
-um tiro.
-
-Reflexionou D. Alexandre, e previu que a opinião publica havia de
-reprovar o covardissimo feito.
-
-Regeitou, por tanto a idéa, e reforçou-se na do assalto.
-
-Casimiro Bettancourt ignorava o que ia cá fora em sete noutes
-successivas. Guilherme achou inutil avisal-o. Queria elle egoistamente
-para si a cabal satisfação de castigar os miseraveis, sem incommodo do
-estudante. A muito custo se refreára, durante as sete noutes, á espera
-de lhes comprehender o intento, e cahir sobre elles no momento de o
-praticarem.
-
-Guilherme Lira desvellava-se e preoccupava-se d’esta catastrophe, como se
-vida de pai, irmão, ou amada corressem perigo!
-
-Sublime doido! Sympathica loucura!
-
-
-
-
-XII
-
-Serenidade da innocencia
-
-
-Ás dez horas de uma noute de janeiro de 1840, Christina, convidada
-pela limpidez da lua, tão brilhante n’aquellas noutes, se o céu está
-desannuviado, chegou á janella, sem correr as vidraças. Do exterior
-não podia ser vista, que era completa a escuridade dentro; viu, porém,
-Christina, dous homens parados na rua, com as cabeças muito conchegadas,
-em agitada e inaudivel conversação. Teve mêdo, e correu ao gabinete
-do marido a chamal-o. Casimiro, pé ante pé, segundo a esposa lhe
-recommendava, espreitou, e, sem hesitação, disse:
-
-—Um é D. Alexandre; o outro não conheço. Vejamos o que fazem.
-
-—Vê!—disse Christina—olharam para a janella do teu quarto.
-
-—É uma contemplação estupida!—redarguiu Casimiro.
-
-—Agora esconderam-se debaixo das janellas.
-
-—Quererão escalar a casa?!—tornou elle em ar de mofa.
-
-—Quem sabe?! Olha... lá deram um encontrão á porta do quintal!
-
-—É que são ratoneiros de couves. Que podem elles querer do quintal senão
-as tuas couves gallegas?
-
-—Tu brincas, meu Casimiro!... Olha que isto é sério!... E não passa
-patrulha nenhuma!...
-
-—Calla-te, creança! Se te ouvem, perderemos este espectaculo gratuito.
-Deixa vêr no que isto dispara. Lá vem outro estudante, rente pela parede
-d’alem! como elle se embuça!...
-
-—Parou!—disse Christina agitada.
-
-—Será da malta?! As couves não chegam para todos.
-
-—Lá vai para baixo.
-
-—E os outros seguem-no.
-
-—Já não seguem.
-
-—Elles ahi voltam, outra vez para a sombra.
-
-—Outro empurrão á porta da escada!—murmurou Christina alvoroçada e
-tremula.
-
-—Então o negocio não é de horta! Teremos hospedes assim mal-criados!
-Ver-me-hei forçado a recebêl-os com igual delicadeza!
-
-A arma unica de Casimiro Bettancourt era uma enferrujada espada de seu
-pai. Tirou-a de baixo do leito, e disse á esposa:
-
-—Deixa-me a escada livre, e não temas.
-
-—Á escada não vais: póde vir um tiro!
-
-—Não vem tiro nenhum: apaga todas as luzes.
-
-Dous estrondosos encontrões metteram dentro a fragil porta. Christina
-soltou um ai, e involuntariamente correu ao leito onde a menina chorava
-acordada pela rija pancada.
-
-Casimiro estava no topo da escada, e viu do lado da rua um homem de
-batina academica apanhar de hombro a hombro com um pau as costas, do que
-elle affirmára ser D. Alexandre. Os dous aggressores saltaram ao meio da
-rua, e Casimiro, ia na colla d’elles, quando Christina, com a menina nos
-braços, lhe estorvou o passo, exclamando:
-
-—Casimiro, Casimiro! pela tua filhinha te rogo!
-
-A catastrophe, tão almejada de Guilherme Lira, rematava assim na rua.
-
-Ayrão, logo que o amo levou a primeira pancada, correu de faca sobre
-Guilherme, e recebeu em cheio peito uma choupada, e segunda no ventre. Já
-cambaleava moribundo, quando recebeu a terceira, e bateu nas lages com a
-face morta.
-
-D. Alexandre ia fugindo, com a maxima velocidade de sua prudencia, quando
-uma segunda bordoada o apanhou pela nuca. Rugiu e afocinhou, forçado por
-um doloroso raspar de ferro na orelha direita.
-
-Guilherme volveu a sondar a respiração do desertor, e responsou-o ao
-diabo.
-
-D’alli correu á escada de Casimiro, e chamou-o.
-
-—Quem é?—respondeu Casimiro com a espada apontada.
-
-—O Lira. Creio que estão ambos mortos; um de certo. Agora,
-acautella-te... Já está gente nas janellas. Posso sahir pela porta de
-traz? Aqui reconhecem-me.
-
-—Sahe—disse Casimiro—Vem por aqui... Quem mataste?
-
-—Boa pergunta! A besta-féra não se levanta mais; o outro desconfio que
-está vivo. Deixal-o viver... Por aqui?... bem... Adeus! Segredo de
-sepultura, ouviste?
-
-—A recommendação é indigna de mim.
-
-Guilherme Lira entrou no Becco das Flores, e sumiu-se de travessa em
-travessa, reapparecendo, vestido á futrica, na Couraça dos Apostolos.
-
-Quando chegou occupavam a rua centenares de pessoas. Em redor do cadaver
-de Ayrão estavam muitos estudantes de envolta com a policia. Nenhum
-academico reconhecia o morto, que trajava batina, bem que tivesse illeso
-o rosto. Emquanto a este, esperou-se o dia para lavrar-se auto.
-
-D. Alexandre já tinha sido transportado em braços, e moribundo, segundo
-diziam os que lhe viram o rosto ensanguentado, e ouviram o archejar
-estertoroso do peito comprimido pelo derramamento das costas.
-
-A visinhança dizia que vira entrar um homem de batina e capa nas escadas
-de Casimiro Bettancourt. A opinião geral decidiu que fôra Casimiro o
-assassino, visto que o sugeito entrado não sahira.
-
-Christina chorava, e dizia, ouvindo as vozes da rua:
-
-—Que será de nós? Prendem-te, Casimiro. Fujamos... vamos para Villa Cova.
-
-—Socega, filha. Se me prenderem, hão de soltar-me! Attende-me, Christina:
-Nunca dirás uma só palavra com referencia a este acontecimento. Nunca
-proferirás o nome de Guilherme Lira. Nunca dirás que eu estou innocente.
-Juras-m’o?
-
-—E tu... perdido, meu infeliz amigo... perdido!—atalhou ella, archejante
-de gemidos—desgraçado por minha causa!
-
-Casimiro apertou-a ao seio, e disse-lhe:
-
-—Crês em Deus?
-
-—Se creio em Deus...
-
-—Crês que a justiça divina me faça padecer innocentemente?...
-
-—Mas a justiça humana...—interrompeu ella.
-
-—Mulher de pouca fé!... Se visses a serenidade do meu espirito, vias em
-mim a influição de Deus!
-
- * * * * *
-
-As authoridades superiores, avisadas do acontecimento e do author
-indigitado do crime, mandaram guardar por soldados as avenidas da casa de
-Casimiro, para o prenderem de dia.
-
-O academico deitou-se á sua hora regular, e obrigou a alvoroçada esposa a
-deitar-se com a filhinha inquieta.
-
-Ás tres horas e meia da manhã rebentou de subito um ruido estridoroso na
-rua, depois de alguns repetidos brados das sentinellas.
-
-Chegava a «Sociedade da Manta» acaudilhada por Guilherme Lira, em numero
-de vinte e tantos bravos, armados de refes e clavinas.
-
-Os soldados outros tantos seriam. Á primeira carga inesperada, a tropa
-titubeou entre fugir ou defender-se, e, n’esta perplexidade, soffreu o
-desaire de ser desarmada e contundida com as proprias armas.
-
-Libertas as portas, Guilherme chamou Casimiro, subiu e disse
-imperiosamente:
-
-—Foge!
-
-—Não fujo.
-
-—Como não foges?
-
-—Não: salva-te tu, que eu me livrarei da justiça.
-
-—Não livras: diz toda a gente que tu mataste o homem. Alexandre está
-vivo, e diz que foste tu quem mataste o seu creado, e lhe tiraste a elle
-a orelha.
-
-—Deixaste sem orelha o homem?
-
-—Nada de riso: foges ou não?
-
-—Já te disse, Guilherme: vai na certeza de que o teu nome nunca será
-envolvido na minha justificação.
-
-Uma vez de fóra disse:
-
-—Olha que tocam as cornetas na Sophia, ó Lira! Vem, que não temos partido
-contra o regimento.
-
-—Adeus!—concluiu Guilherme—Oxalá que te não arrependas!
-
-—Fujamos!—exclamou Christina.
-
-—Porque me não attendes, filha? disse maviosamente Casimiro, e desceu a
-fechar a porta.
-
-Poucos segundos depois, estava a rua cogulada de soldados, e muitas vozes
-diziam que o assassino tinha fugido com os academicos.
-
-—O melhor é arrombarem as portas, camaradas!—dizia um cidadão—Que fazem
-vossês ahi, se elle fugiu? É arrombar que não ha outro modo de saber se
-elle está.
-
-—Arrombar!—contrariou um alferes—a Carta Constitucional prohibe arrombar;
-mas bate-se a ver se falla alguem.
-
-—Ou isso—disse o cidadão prudente.
-
-O alferes bateu urbanamente. Casimiro abriu de prompto a janella do seu
-quarto, e perguntou:
-
-—Quem é?
-
-—Ah!—disse o alferes—está em casa?
-
-—Estou em casa. Não quer mais nada?
-
-—Não sr. Foi para sabermos... dizia-se que não estava lá ninguem...
-Perdoará o incommodo.
-
-—Boas noutes—respondeu Casimiro. Depois, baixou a vidraça, e disse a
-Christina—A rua está vistosa! As armas refrangem a lua, e dão a lembrar
-uma illuminura da idade média! Apaga a luz da saleta, que eu gosto de
-ver este arraial de batalha, que me parece um sonho!
-
-—Ó Casimiro!—balbuciou ella—como tu pódes rir, e eu sinto-me aqui morrer!
-
-—És fraca. Nunca te tinha conhecido esse aleijão! Parecias-me uma
-natureza perfeita em amor, em brios, e em força. A força é que te falta,
-minha debil filha!
-
-—Enganas-te, Casimiro!—replicou ella—É que eu era tão feliz!...
-
-—E ámanhã que impede que o sejas?
-
-—Ámanhã... estarás preso!....
-
-—E então? A luz do teu amor teme de romper as grades da cadeia?! A nossa
-filhinha hesita entrar lá comtigo? Não vai commigo a imperturbavel
-consolação da consciencia?
-
-—Mas eu tambem vou...
-
-—Pois irás, filha. Quem te veda de estar com teu marido preso?!
-
-Conversaram n’este sentido longo tempo; e já a final, Christina estava
-conformada com a ideia da prisão, e logo cuidou em enfardelar os fatinhos
-da filhinha, emquanto o marido escrevia a seguinte carta:
-
- «Meu caro compadre.
-
- «D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o seu creado
- está morto. Este acontecimento deu-se á porta da minha caza, ha
- cinco horas. O povo, a academia, e as authoridades indigitam-me
- como author do successo. Esperam que nasça o sol para me
- prenderem.
-
- «Escrevo-lhe agora, 4 horas da manhã, receando que os
- interrogatorios me tirem o tempo no correr do dia.
-
- «Minha mulher tem estado attribulada, mas, como appelei do seu
- coração para a sua coragem, vejo-a reanimado e esperançosa
- da minha absolvição em despeito do povo, da academia e das
- authoridades.
-
- «Peço aos meus amigos que não se afflijam, e me creiam forte
- bastante para luctar com o mal do mundo. Refugio-me na vossa
- estima, e sou o vosso irmão agradecido, _C. Bettancourt_.»
-
-Ao apontar o sol, a authoridade administrativa, auxiliada pela militar,
-bateu á porta de Casimiro, e esperou instantes. O proprio academico
-desceu a abrir, e offereceu ceremoniosamente a sua casa.
-
-—Está o sr. preso—disse o administrador.
-
-—Já o sabia—respondeu Casimiro.
-
-—Bem. V. s.ª acompanha-me. Irá comnosco o sr. alferes da companhia.
-
-—Como queiram: vou só, vou com v. sr.ᵃˢ, vou com a escolta: para mim é de
-todo o ponto indifferente.
-
-—Dispenso a força, sr. alferes, disse o administrador: póde v. s.ª
-mandal-a recolher com o sargento; o sr. alferes tem de ficar para
-solemnisar a prisão d’este academico que é furriel.
-
-—Se querem subir...—disse o preso.
-
-—Não, senhor: vá, e volte, que nós esperamos.
-
-O administrador, em quanto Casimiro subiu a dar as ultimas palavras de
-conforto a sua mulher, disse ao commandante da força:
-
-—Este homem ou está innocente, ou excede tudo que eu tenho visto em
-coragem!
-
-—Será cynismo? replicou o militar.
-
-—É cynismo, não pode deixar de ser cynismo—optou o cidadão que propozera
-o arrombamento das portas.
-
-No entanto, Casimiro dizia a Christina, depois de beijar Mafalda:
-
-—Eu escrevo-te de casa do administrador, dizendo-te o meu destino;
-naturalmente irei de lá para a cadeia; e tu, como boa gerente da
-casa—continuou elle jovialmente—irás lá ter, depois de ter dado as
-ordens para o jantar. Olha que a instauração de um processo por crime
-de morte não obriga a jejum, minha filha. Lembra-te que as consciencias
-puras concorrem muito para o bom appetite, e são optimas auxiliares do
-estomago. E adeus, até logo.
-
-Christina ajoelhou com a filha nos braços, e orou. E, orando, ouvia dizer
-fóra:
-
-—Mas como elle vai direito e senhor seu!
-
-—Elle se entortará quando lhe pezarem nas costas os caibros da Portagem!
-
-—Terá pena ultima?—perguntava uma rapariga de má vida, e acrescentava:
-coitadinho! é tão novo, e de mais a mais casado, e tem uma filhinha!...
-
-—Deixal-o ter!—atalhava uma velha, que vinha da missa d’alva, e ia ouvir
-a segunda, para depois ir ouvir a terceira—Deixal-o ter! Quem mata,
-morra! As forcas não se inventaram para os que morrem, é para os que
-matam.
-
-O axioma foi applaudido pelo cidadão prudente, e outros sujeitos
-honestos, cuja garganta zombára muitas vezes da corda de esparto do Livro
-V das Ordenações.
-
-E Christina callava a oração para escutar, e orava para não ouvir.
-
-Perguntou a authoridade a Casimiro Bettancourt o nome, a naturalidade, os
-annos, o estado, a profissão, etc. E proseguiu:
-
-—A voz publica e as apparencias dão-no ao senhor como homicida de um
-homem ainda desconhecido, e tambem o incriminam de espancador de D.
-Alexandre de Aguilar, cuja vida está ainda duvidosa. O sr. Bettancourt é
-réu d’estes crimes?
-
-Casimiro não respondeu.
-
-—Ouviu a pergunta que lhe fiz?—tornou a authoridade suspeitando a surdez
-do preso.
-
-—Ouvi, sim, senhor.
-
-—Que responde?
-
-—Nada.
-
-—Nada?! é boa essa!... Matou ou não matou?
-
-—Se ha provas de que fui eu, porque m’as pedem? Se as não ha, porque me
-prendem?
-
-—A lei manda interrogar os réus.
-
-—Póde ser; mas não obriga os réus a responder.
-
-—O silencio é uma confissão—redarguiu o administrador.
-
-—É o anexim «quem calla consente» arvorado em axioma juridico. Boa
-hermeneutica!
-
-—Modere as suas ironias, que a occasião é inopportuna, sr. Bettancourt.
-D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça diz que fôra atacado
-pelo sr. Casimiro, quando passava á sua porta.
-
-—Se o diz, elle o provará.
-
-—A visinhança depõe que v. s.ª entrára em sua casa depois de ter deixado
-morto um homem e o outro cahido.
-
-—Já sei: ouvi o parecer de meus visinhos antes de v. s.ª os interrogar.
-
-—E que diz a isto senhor?
-
-—Nada.
-
-—Diz que está innocente?
-
-—Já tive a honra de dizer a v. s.ª que não digo nada. As provas
-responderão por mim, e a lei me julgará.
-
-—Está claro. Vai v. s.ª recolher-se á cadeia, e esperar lá a nota da
-culpa.
-
-—Posso ser visitado por minha mulher e minha filha?
-
-—Sim, senhor, em quanto a policia julgar isso indifferente ao processo.
-
-—E quando póde impecer ao processo que eu veja minha familia?
-
-—Ha casos...
-
-—Bom. Recebo as suas ordens.
-
-—Vai acompanhal-o um official do juizo. O sr. Bettancourt inspira-me
-confiança, e por isso o allivio do vexame de ir com soldados.
-
-—Agradeço a confiança; mas os soldados não me vexam: cumpra v. s.ª o seu
-dever de authoridade.
-
-—Vá, e pense sériamente na sua situação, que é grave, sr. Bettancourt.
-Póde ser que o senhor esteja innocente; mas as suas desavenças anteriores
-com D. Alexandre condemnam-no. Póde ser que v. s.ª matasse em justa
-defeza: se assim foi, convém attenuar a culpa com essa circumstancia.
-Esse seu systema de responder com o silencio, sobre ser excentrico, é
-confirmativo da imputação. Dou-lhe este conselho, movido pela sympathia
-que me causa a sua abnegação e como despreso da vida. Sei que tem
-familia, e avalio as angustias de sua consorte; por isso lhe peço que se
-abstenha d’esse stoicismo inutil, e—peior ainda—prejudicial. Se póde,
-decline de si a responsabilidade de um homicidio, que é sempre e em
-todos os casos deshonra. Se matou, negue, negue sempre!—acrescentou o
-administrador, collando-lhe no ouvido os labios.
-
-Casimiro agradeceu o conselho com um sorriso, e sahiu á direita do
-official de justiça.
-
-Á porta da authoridade, quando Casimiro sahiu, agglomerava-se um cento de
-pessoas, gentio baixo, regateiras da praça de Sansão, serventes, gaiatos,
-e alguns cidadãos honestos, nomeadamente o oraculo da Couraça dos
-Apostolos. A custo rompeu o aguazil a multidão, que se premia em redor de
-Casimiro, e lhe roçava as faces com o halito acre da aguardente.
-
-—Chamo soldados!—bradou o official de justiça.
-
-—Não é preciso—disse um academico, que estanceava mais distante n’um
-grupo de estudantes.
-
-E, tirando a carreteira das mãos de um lavrador, cresceu sobre a
-multidão, e apanhou quatro cabeças da primeira paulada. A rua, momentos
-depois, estava deserta, como se passasse n’ella a ira do Senhor.
-
-—Foge que é o Lira!—diziam muitas vozes, convulsas de terror, menos o
-cidadão da Couraça dos Apostolos, que levou a sua cabeça ao visinho
-boticario.
-
-Era, com effeito, Guilherme Lira, cujo sangue refervia em phrenesi,
-e sêde de beber o sangue da humanidade. Infurecia-o o remorso de
-ter deixado vivo D. Alexandre! Saber elle que o vil declarava ter
-sido assaltado por Casimiro, espicaçou-lhe o odio e a ancia de ir
-estrangulal-o em casa. Depois, via Casimiro preso, sabia já as suas
-respostas á authoridade, pungia-o o arrependimento de o perder, quando
-cuidava salval-o de inimigos infames, e não poder salval-o, sem se
-declarar elle mesmo o aggressor!
-
-O governador civil, o reitor, as authoridades subalternas, receiosas de
-sublevação academica, instigada por Guilherme Lira, preveniram a tropa,
-e assignaram ordens de prisão dos mais celebres desordeiros, no caso de
-motim.
-
-A este tempo estava na cadeia Casimiro Bettancourt, contrastando, com
-sua quietação, o reboliço que fremia cá fóra. Christina seguira-lhe os
-passos, e entrara apoz elle. Mafalda ia muito risonha e fagueira. Não
-fallava, mas gesticulava as suas caricias, e pendurava-se do collo do
-pai, beijando-lhe os olhos.
-
-E Christina observava em redor de si a nudez, a sombra, a immundicie da
-salêta. Queria chorar; mas pejava-se do esposo, e retinha-se para o não
-affligir.
-
-—Voltas a casa, minha filha?—disse Casimiro—Olha que são dez horas, e
-nós costumamos almoçar ás nove. Basta de sacrificio á justiça humana,
-Christina! Uma hora é de mais!
-
-—Tu não estás muito triste, pois não, meu Casimiro?—exclamou ella,
-cingindo-lhe o pescoço, com quanto carinho podem exprimir as angustias
-supremas.
-
-—Se estou triste!... Quando me viste mais risonho, Christina!... Alegre,
-minha esposa, alegre como esta creança que te sorri! A minha consciencia
-está serena como a d’esta menina; por isso nos vês tão contentes ambos!
-
-
-
-
-XIII
-
-O Réu
-
-
-A carta, recebida em Villa Cova, foi a primeira grande angustia que
-alanceou o coração de Ladislau.
-
-Correu á igreja, e d’ali a uma aldeia da serra, onde estava o vigario
-sacramentando um enfermo. Leram a carta, e ambos inferiram que o matador
-era Casimiro; justa inferencia dos termos d’ella.
-
-—Matar!—disse o vigario consternado.—Matar!... Eu não cuidava isto de
-Casimiro! Nem ao menos diz que matou defendendo sua vida, a vida de sua
-mulher, e de sua filha!... Repara tu na serenidade com que elle diz: _D.
-Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o seu creado está morto.
-Este acontecimento deu-se á porta de minha casa ha cinco horas. O povo,
-as authoridades, e a academia, indigitam-me como author do successo..._
-Se não fosse elle o author, diria: _indigitam-me falsamente!_... E mais
-abaixo: _Minha mulher tem estado attribulada, mas como appelei do seu
-coração para a sua coragem, vejo-a reanimada e esperançosa de minha
-absolvição em despeito do povo, da academia e das authoridades!_... De
-que elle fia a sua absolvição, se as provas o condemnam a tal ponto que
-tudo lhe é contra!... Ó meu Deus, meu Deus! que conta havemos de dar á
-nossa consciencia de termos trabalhado para o casamento de Christina com
-este malfadado!
-
-Ladislau ouviu a mais larga exclamação do attribulado sacerdote, e disse
-com pausa:
-
-—Eu estou em crêr que Casimiro não matou.
-
-—Ó homem, tu não intendes esta carta?
-
-—Penso que intendi. Onde diz elle que matou?
-
-—E onde diz elle que não matou?—retorquiu o padre.
-
-—É verdade: não confessa nem nega. Diz que o apontam como matador. Isto é
-differente. Eu leio no Evangelho que Jesus Christo, quando o arguiam...
-
-—Calla-te meu irmão! esses confrontos são sacrilegos!—atalhou o
-sacerdote, inflammado em zelo santo.
-
-—A minha intenção era boa, Deus o sabe. Seja o que fôr, eu creio que
-o meu compadre está innocente. Um homem, que mata, não escreve assim
-com este socego. Aqui ha mysterio, e continuará a havel-o. As cartas
-demoram-se; e, quer demorem quer não, amanhã vou para Coimbra e Peregrina
-vai comigo. Desgraçada Christina!... E que terá elle penado? que fará
-sósinha a pobre menina com sua filha?...
-
-—Vai a Coimbra, Ladislau, vai!—disse o vigario—Se é criminoso,
-amparemol-o; se não é, ajudemol-o a vencer as iniquidades do mundo,
-querendo Deus que nós sejamos instrumentos de sua divina justiça. Eu
-tambem iria, se podesse: escrever-lhe-hei as consolações da religião.
-
-No dia proximo sahiram de Villa Cova Ladislau, Peregrina, e o menino, a
-grandes jornadas para Coimbra. O lavrador levava todo o seu peculio, o
-ouro de sua mulher, e alfaias de antiga prata, que havia em casa. Apearam
-na estalagem, e foram d’alli á cadeia. Encontraram Casimiro sentado á
-meza de jantar com a filha no collo, e Christina a um canto da salleta
-aquecendo café n’um fogareiro.
-
-—Não t’o disse eu?!—exclamou Christina, quando o chaveiro abriu a porta,
-e deu entrada aos visitantes—Não veio carta, vieram elles!
-
-As duas senhoras abraçadas fallavam em soluços. Ladislau rompeu tambem em
-pranto desfeito. Casimiro, porém, sereno e com os braços abertos, dizia:
-
-—O compadre tambem é dama?! Não rivalisemos com as nossas mulheres no seu
-privilegio de chorar!... Conversemos como homens.
-
-—Está innocente, meu amigo?—perguntou de sobresalto Ladislau.
-
-—Que pressa!...—respondeu em ar de graça o prezo—Parece que o meu
-compadre sahiu de casa com essa pergunta á flor dos beiços. Ora, diga-me:
-se eu lhe responder que matei o desertor, e feri de morte o fidalgo, o
-meu amigo retira-me a sua mão pura e generosa?
-
-—Não. Casimiro só mataria um homem defendendo-se. Foi em defesa que o
-matou?
-
-—Vou responder-lhe; porém, requeiro á sua nobre alma um juramento antes
-de me ouvir. Não lhe digo que me jure por seu pai, pela vida de sua
-esposa ou filho: jure por sua honra.
-
-—Jurei.
-
-—Agora saiba que eu não matei, nem mandei matar.
-
-—Oh meu amigo!—clamou com agitada vehemencia Ladislau.
-
-—Não falle mais alto que eu, meu compadre, que póde ser ouvido. Não matei
-nem mandei matar, nem folguei com a morte do assassino trazido para mim,
-nem com os ferimentos de D. Alexandre. Houve um homem que me quiz salvar
-dos dous inimigos, que me esperavam, e matou-os, no momento em que me
-arrombavam as portas. O nome d’este homem irá commigo e com minha mulher
-á sepultura: nunca m’o pergunte. A sociedade proclama-me assassino:
-embora. Deus me defenderá e salvará. Aos interrogatorios nada respondo
-que me absolva ou condemne. Veremos se o jury me vê provado assassino.
-Agora, meu amigo, tem o sr. a sua honra de sentinella á sua lingua.
-Tomemos café. São só duas as chavenas; mas tambem ha dous pires: as
-chavenas para os hospedes; os pires para nós, Christina. Arranja lá isso.
-
-Ladislau fitava nos olhos Casimiro, e murmurava:
-
-—Que homem! que desgraçado tão digno d’outra sorte!
-
-—Veja lá o que são as cousas! eu cuidei que meu compadre me estava
-invejando esta paz de coração!—disse Casimiro.
-
-Horas depois, sahiram duas senhoras a transferir a bagagem da estalagem
-para a casa da Couraça dos Apostolos. Concordaram em viver juntas, nas
-horas em que era vedado o ingresso no carcere.
-
-O processo proseguiu seus termos, com desvantagem de Casimiro, sem
-embargo de ser vigiado pelo primeiro advogado de Coimbra, que alcançára
-procuração do réu, depois de muitas instancias suas e de Guilherme Lira.
-
-D. Sueiro de Aguilar tinha descido a Coimbra, com comitiva de dois
-lacaios, e dinheiro grosso para, consoante a sua phrase, _erguer, sendo
-preciso, uma forca de ouro, onde perneasse o assassino de seu irmão_.
-
-D. Alexandre erguera-se ao cabo de vinte dias, e composera as melênas
-de modo, que o logar da extincta orelha ficasse coberto de lustrosas
-espiraes. A orelha cancerára e cahira, deixando um orificio hediondo e
-pustuloso. Guilherme Lira, quando acertava de o encontrar, dizia-lhe
-sempre:
-
-—Cuidado com a outra.
-
-—A outra quê?—animou-se a perguntar D. Alexandre.
-
-—A outra orelha, patife!
-
-O epitheto gelou de neve as cavernas d’aquelle vil peito que esvasiava o
-pus pelo esqualor do ouvido.
-
-D. Sueiro accelerava o processo, e descia de sua prosapia regirando do
-advogado para o escrivão, do procurador para o delegado, do juiz para os
-influentes do jury.
-
-N’uma d’essas suadas correrias, passando ao escurecer no bêco de D.
-Sisenando, encontrou um academico, que lhe cingiu ao pescoço umas mãos,
-que pareciam golilhas de ferro, e lhe jogou a catapulta da cabeça, tres
-vezes, contra a hombreira do floreado granito da porta do palacio, onde
-morreu apunhalada a irmã da rainha D. Leonor Telles. Depois, largando-o
-atordoado, disse:
-
-—Primeira admoestação!
-
-E andou.
-
-D. Sueiro, ao outro dia, escreveu a todos os governadores possiveis de
-Coimbra. A policia fingiu que se mechia, e D. Sueiro não sahiu da cama.
-
-O leitor já sabe que só Guilherme Lira podia tentar a destruição da
-melhor pedra monumental de Coimbra com a cabeça de D. Sueiro de Aguilar
-Vito etc.
-
-Um homem sisudo da policia disse ao rico-homem de Miranda:
-
-—O meu parecer é que v. ex.ª vá para sua casa. A meu vêr, o fidalgo traz
-á perna a _sociedade da Manta_. Dê louvores a Deus em o não terem matado
-como fizeram a um lente, ha dous mezes: e perdoará o atrevimento do
-seu servo em o aconselhar. Em quanto a mim quem quebrou a cabeça de v.
-ex.ª foi o Guilherme Lira! Mas vão lá prendêl-o, e, de mais a mais, sem
-provas! Bem aviado estava eu! Elle bate-se com um regimento, e é capaz e
-mais os seus trinta companheiros, de arrasar Coimbra.
-
-—Então isto aqui é um sertão de selvagens!—bradou D. Soeiro—As leis...
-
-—As leis estudam-se aqui—disse o cadimo aguazil—e o Guilherme Lira
-sabe-as bem, que é quintanista de direito; mas o malvado despreza as
-leis de papel, e tem lá umas de pau para seu uso, não digo bem: para uso
-d’aquelles que as levam impressas nas costas. Em fim...
-
-O homem da justiça encolheu os hombros, e despediu-se.
-
-No dia seguinte, D. Sueiro foi para Miranda, e levava ainda uns parches
-de alvaiade na testa, e uns pontos nos tegumentos sobrejacentes aos ossos
-parietaes.
-
-D. Alexandre ficou; porém, assim que o sol inclinava ao poente,
-recolhia-se. Guilherme Lira entrava em casa todas as noutes, e
-espreitava-o da janella. Cada noute, ao vêr-lhe a luz no quarto,
-arrepellava-se. Dizia com picaresco chiste o feroz academico a Casimiro:
-«a vida d’aquelle homem peza-me como um burro sobre o peito!»
-
-E Bettancourt pedia-lhe encarecidamente que o deixasse, por ser um
-estorvo nullo á sua liberdade.
-
-Ruy de Nellas, conscio do successo, mandou chamar o vigario de S. Julião
-da Serra, e informou-se. Padre João Ferreira relatou de cór o contheudo
-da primeira carta de Casimiro, e mostrou duas linhas de outra de
-Ladislau, que dizia: _Casimiro está innocente. Casimiro é victima da sua
-honra. Nada mais te digo, porque só isto me é permittido dizer, e a ti
-só, meu irmão._
-
-—E tu crês na innocencia de Casimiro?
-
-—Creio, meu padrinho, como creio que vivo.
-
-—E elle deixa-se ir á revelia?
-
-—Não posso, nem sei responder a v. ex.ª
-
-—É preciso que eu o proteja. É preciso, que elle é marido de minha filha!
-Os de Miranda não hão de levar a melhor.
-
-—Que quer v. ex.ª que se faça?
-
-—Que vás a Coimbra, e leves dinheiro para elle, e para a justiça.
-
-—É desnecessario dinheiro. Meu cunhado foi prevenido.
-
-—Deixal-o ir. O dinheiro que eu mando, é meu; quero que minha filha o
-receba! Eu vou mandar o meu capellão substituir-te na igreja, e tu partes
-já para Coimbra.
-
-—Recebo as ordens de v. ex.ª
-
-—Vamos ver quem vence!—continuou o fidalgo, apertando os alveolos, onde
-os dentes ausentes não podiam rangir.—Os de Miranda, tem muita prôa?...
-Deixa que eu vou abater-lh’a!... Vai, João, que lá irão umas cartas.
-Se Casimiro ficar condemnado, tu ou teu cunhado vão para Lisboa, e
-entreguem as cartas onde eu mandar. Lá está minha irmã, a condessa de
-Asinhoso. Ha vinte e tres annos que não lhe escrevo: mas sei que ella
-está morta por fazer as pazes commigo.
-
-—Bom seria que estivessem feitas—disse respeitosamente o padre.
-
-—É verdade; mas que queres? orgulho de parte a parte... E sabes tu porque
-eu despresei minha irmã?
-
-—Nunca v. ex.ª me deu a honra de m’o revelar.
-
-—Pois eu t’o direi quando voltares. Foi um caso de honra, que os de
-Miranda não costumam castigar. Lá tem em casa uma irmã do pai, que fugiu
-do mosteiro de Lorvão, e deu escandalo. Lá a tem... e não põem crepe nas
-pedras d’armas... E vinha cá D. Sueiro vituperar-me porque eu não mandava
-matar Casimiro!... Olha quem!... Se eu tivesse tantos santos a pedir por
-mim, como de vezes me tenho arrependido de lhe dar a minha morgada!...
-Forte brutalidade!... Cegaram-me as vaidades de reatar as duas casas dos
-mais antigos ricos-homens da Beira e Traz-os-Montes!... Emfim... o que eu
-não consinto é que da casa de Miranda vão matadores professos assassinar
-o marido de minha filha... São horas... Aqui tens um conto de réis em
-ouro. Parte, João; e escreve a dizer o que se passar. Dá muitos beijos a
-minha afilhada, e diz a minha filha... que lhe perdôo!
-
-O vigario ajoelhou diante de Ruy de Nellas, e clamou:
-
-—Deixe correr as minhas lagrimas de alegria sobre as suas mãos, meu
-nobre, meu virtuoso padrinho!
-
-—Não fiques agora ahi a chorar, homem!—Disse o velho, erguendo-o.—Aqui
-estou eu tambem...—proseguiu, enxugando os olhos.—Vai, que são horas.
-
-A apparição do vigario na saleta da cadeia foi saudada com um brado de
-alegria. Cercaram-n’o todos, e beijaram-n’o todos.
-
-—Eu só dou beijos em creanças,—disse elle em tremores de exultação.—Sr.ª
-D. Christina deixe-me dar á sua filha os beijos do avô.
-
-—Fallou com o meu papá!—exclamou ella.—Está muito zangado contra o meu
-pobre Casimiro?
-
-—Isso está, minha senhora! zangadissimo, feroz!
-
-—Cuida que foi elle quem...—E reteve-se, relanceando os olhos ao marido,
-que a observava.
-
-—Não sei o que elle cuida...—volveu o padre. A ira do fidalgo subiu ao
-ponto culminante d’elle mandar ao sr. Casimiro um conto de réis para o
-custeio das suas despezas judiciarias. É onde póde chegar a ferocidade
-humana!
-
-—O sr. Ruy perdoou-me?—perguntou Casimiro mais recolhido que expansivo.
-
-—Se isto não é perdoar... A mim não me encarregou de lhe notificar o
-perdão; mas á sr.ª D. Christina manda dizer que está perdoada. Aqui teem
-o dinheiro, que é ouro, e rasga-me a algibeira da sotaina.
-
-Christina fez um gesto, significando ao padre que entregasse o dinheiro
-ao marido; Casimiro fez outro gesto, indicando Ladislau.
-
-—Então que resolvem?—disse o padre.
-
-—Resolve minha mulher,—disse Casimiro—que esse dinheiro passe ao poder
-do nosso mordomo, o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova, em cujo
-cargo hemos por bem nomeal-o para lhe fazermos honra. Assim deve formular
-as suas nomeações quem tem, como eu, guarda de official á porta.
-
-Ladislau, sorrindo, respondeu:
-
-—A não servir de mais, deixem-me ser mordomo. Eu guardo o dinheiro, e
-darei contas.
-
-Relatou o padre a sua chamada a Pinhel, e o sentir do fidalgo, com a
-promessa das cartas para Lisboa, caso o exito do processo fosse funesto
-em primeira instancia. Acrescentou que Ruy de Nellas tinha muita
-confiança no valimento de sua irmã, na capital, a sr.ª condessa de
-Asinhoso.
-
-—É a primeira vez que ouço fallar n’essa irmã do sr. Ruy!—disse
-Casimiro.—Nunca me fallaste em tua tia, Christina.
-
-—Porque a tinha esquecido—respondeu a senhora.—Eu e minhas irmãs mais
-novas ainda ha poucos annos soubemos que tinhamos em Lisboa uma tia.
-Ignoro as desintelligencias que se deram entre ella e o papá, muito antes
-de eu nascer. O certo é que em nossa casa nunca se fallou em tal tia, e
-diante do papá seria perigoso fallar. Muito me espanta agora que elle
-queira escrever-lhe! Vejo que meu pai está mudado!
-
-—Sabe que desavença de familia foi essa, padre João?—perguntou
-Bettancourt.
-
-—Não, senhor. Ninguem o sabe em Pinhel. Apenas sei que em Lisboa viveu
-desde menina a irmã do sr. Ruy de Nellas, em companhia de um grande
-fidalgo seu tio, e mais os dous irmãos filhos segundos. Tambem sei que
-estes irmãos lá morreram, e que a sr.ª casou com o conde de Asinhoso. É o
-que eu sei d’um clerigo velho de Pinhel, que a viu em menina, e me disse
-ser ella vinte annos mais nova que o morgado. Deve hoje ter, portanto, a
-sr.ª condessa quarenta e seis.
-
-Sobre este incidente exhauriu-se aqui a pratica, em que Bettancourt,
-de condição scismadora em cousas mysteriosas, mostrava estar muito
-entretido.
-
-O patrono de Casimiro, sabendo que o sogro do seu cliente o protegia em
-Lisboa, e quasi seguro da condemnação do réu no tribunal conimbricense,
-inredou o processo de modo que, no caso de se provar o crime em jury,
-houvesse direito a pedir um recurso por nullidades, sem ser ouvido o
-tribunal da segunda instancia. A lei organisadora dos processos em
-Portugal, paiz de mais leis que tem o universo é uma corda bamba que se
-presta a saltos maravilhosos sob o pé d’um habil volatim. «Vai o processo
-para Lisboa, dizia o jurisconsulto, e lá, se o braço fôr forte, os autos
-vem arremessados á cara do juiz, e o juiz dá alvará de soltura ao preso.»
-
-Este salvador intento do causidico foi revelado a Casimiro, com grande
-alegria, pelo vigario. E o preso respondeu:
-
-—Não quero! diga-lhe que não quero! Ha-de ser a lei, sem coacção, sem
-torcedura, sem vexame de poderosos, que me destrancará aquellas portas.
-Mas que digam ser dolorosa a experiencia: não importa. Quero experimentar
-até que ponto um réu innocente póde ser torturado. Hei de ir de
-condemnação em condemnação, até poder dizer: «Acuda-me a justiça divina,
-que a dos homens é infame!»
-
-—Mas—atalhou o padre—se as provas são taes que a lei tem de forçosamente
-o reconhecer criminoso?
-
-—Não são tal! As provas permittem que as destrua o ardil d’um habil
-jurisconsulto. É isto certo?
-
-—É.
-
-—Pois bem: eu quero que a lei as anniquile, e não a trapaça: que este
-acto se cumpra á luz do sol, á luz de todas as consciencias, que me
-condemnam. Que faz que as influencias poderosas me libertem, se o mundo
-ha de dizer: «salvaram-no as influencias! o ferrete de homicida lá o tem
-na testa!» Não quero, sr. padre João! Agradeça ao compadecido patrono:
-mas avise-o de que eu serei no tribunal o interprete mais severo da lei
-contra mim.
-
-O advogado, quando tal ouviu, pasmou e disse:
-
-—É um doudo maior da marca, este homem! Creia que irá da cadeia para a
-enfermaria dos alienados!
-
-E proseguiu:
-
-—É vergonha fazer-lhe eu uma pergunta, sr. padre João: Casimiro
-Bettancourt, matou um homem e espancou o outro?
-
-O padre não respondeu. E o advogado repetiu:
-
-—Matou ou não?... Pois o senhor cala-se a esta pergunta?
-
-—Calo, sim, sr. doutor. Não posso responder.
-
-—Está claro! Outro doudo!... Que esquisita familia é esta! Já fiz a mesma
-pergunta á mulher do preso: silencio! Interroguei Ladislau Tiberio:
-silencio... O sr. padre João Ferreira...
-
-—Silencio!—atalhou o vigario.
-
-—Nem a mim, que sou seu advogado—tornou com azedume o doutor—ha uma
-pessoa que me diga matou ou não!...
-
-—Ha—disse um academico que entrava.
-
-—És tu?—perguntou o advogado a Guilherme Lira.
-
-—Sou eu. Casimiro Bettancourt não matou. Tu vaes advogar a causa do homem
-mais honrado e innocente do mundo!
-
-—Posso dar-te como testemunha, Lira?
-
-—Da sua honra e innocencia? podes; mas não me cites, que eu... ouve-me...
-eu hei de tirar Casimiro da forca.
-
-—Santo Deus!—exclamou o vigario, lavado de subito suor.—Da forca! Pois é
-caso de sentença ultima?
-
-—Se a sentença ultima é inapplicavel n’este caso,—disse o advogado—não
-sei onde está no codigo penal o crime condigno! Mas não se falla aqui em
-forca... pensemos...
-
-—Não pensemos...—interrompeu Lira—Deixa correr o tempo que pensa por nós.
-
-Padre João foi contar a Casimiro o que ouvira em casa do lettrado,
-citando o nome de Lira.
-
-O academico recolheu-se, voltou a face, e o sentido apparentemente, sobre
-outro assumpto, e disse em sua mente:
-
-—Que intenta fazer aquelle desgraçado?
-
-Pergunta que o leitor se digna fazer-me e espera a resposta.
-
-
-
-
-XIV
-
-Episodio
-
-
-O padre João Ferreira escrevia miudamente ao fidalgo de Pinhel, e o
-mesmo Christina, bem que Ruy de Nellas tão sómente respondesse ao
-padre, accusando a recepção das cartas da filha, com a incumbencia de
-dizer a Christina que lhe eram agradaveis as suas lettras. De Casimiro
-Bettancourt só dizia o necessario, attinente ao processo.
-
-Entre o velho e D. Sueiro corria declarada inimisade. Já o de Miranda
-sabia que o seu sogro protegia Casimiro. Escrevera-lhe altivo reprovando
-amargamente a incongruencia do seu proceder. O de Pinhel respondeu
-que o marido de Christina padecia innocente, e D. Alexandre mentia
-imputando-lhe a morte do faccinoroso, de que elle villãmente se
-acompanhava. Replicou raivoso D. Sueiro, doestando o sogro, e ejaculando
-phrases de lacaio a proposito do lustre de sua raça, sujada por um
-parente, _posto que remoto garfo de seu tronco_. As palavras sublinhadas
-affrontaram gravemente Ruy de Nellas! Este repto, quinhentos annos
-antes, daria de si guerra a ferro e fogo, entre os dous ricos-homens. Mas
-agora, n’este tempo de calmaria podre, em que as injurias se castigam
-na policia correccional com multa de dez tostões e custas do processo,
-Ruy de Nellas rebateu a provocação com outras não menos pungentes que
-certeiras injurias. E foi grão-caso perguntar-lhe o velho se a Madre
-Nazareth, fugida do mosteiro de Lorvão, em 1810, e agarrada por ordem
-regia nas encruzilhadas do inferno, e mettida no tronco para se depurar
-dos vicios, seria um garfo meritorio do tronco dos Parmas d’Eça ao qual
-elle Ruy de Nellas se glorificava de ser estranho? Chegadas a tal extremo
-as insolencias, a reconciliação era impossivel, apesar mesmo das frias
-tentativas de D. Guiomar, que nunca fôra amorosa filha nem irmã.
-
-As cartas do padre ao fidalgo aventavam como certo o mau resultado do
-pleito em Coimbra, e invocavam o patrocinio de Ruy para que em Lisboa o
-supremo tribunal ou o poder moderador dirimissem a sentença condemnatoria.
-
-Teve Ruy de Nellas como acêrto escrever desde logo a sua irmã,
-convidando-a a esquecerem o passado, para ir assim predispondo-a a mais
-de vontade o servir. A condessa de Asinhoso respondeu com muito amor
-ao irmão, lastimando que elle recusasse a sua amisade tantas vezes, em
-diversos tempos, offerecida; e accrescentava: «Eu não podia odiar o mano
-Ruy, que nenhuma parte tomou nos supplicios que me fizeram. Os algozes já
-estão na presença de Deus!»
-
-—Ainda não está arrependida!...—disse entre si o fidalgo, relendo aquelle
-periodo.—Mulheres, mulheres!...—accrescentou sacudindo a cabeça.
-
-Estranhará o leitor, que entre aqui mal cabido o episodio de umas
-aventuras de D. Eugenia de Nellas, condessa de Asinhoso. Conto, porém,
-com a sua attenção; e peço licença para me desvanecer de apontado em não
-me desviar da historia principal, sem ao depois me justificar do defeito.
-
-D. Frederico de Paim e Lucena, tio materno de Ruy, vivia na capital,
-e muito no Paço, gozando as suas numerosas commendas, solteiro,
-septagenario, e abastado.
-
-Corria por sua conta a educação palaciana de dous sobrinhos, Vasco e
-Gonçalo, irmãos de Ruy.
-
-Eugenia, muito mais nova que seus irmãos, sahiu tambem de Pinhel, aos
-doze annos, em 1806, para ser educada em convento, visto que sua mãe
-tinha morrido, e sua cunhada a tractava asperamente.
-
-Em 1811 sahiu a menina do collegio para casa de seu tio. Eram uns
-dezoito annos superabundantes de quantas graças feminis, raras vezes, a
-inspiração divina segréda aos creadores que dizem á tella ou ao marmore
-o seu _fiat lux_, e o marmore e a tella desentranham em Fornarinas de
-Raphael, em Collonas como as de Angelo, em Venus como as de Praxiteles.
-D’estas, o artista, o que não é artista, o homem de coração e sêde do
-bello, diz: «fel-as o cinzel ou o pincel dos anjos!» de Eugenia diria
-o artista, o amador, o poeta, o moço ardente, o ancião esquecido de
-seus ardores, diriam todos: «é um bafejo de Deus, uma alma vestida das
-perfeições materiaes, privativas do céu, se no céu podem conceber-se
-fórmas corporeas!»
-
-Foi Eugenia requestada por consideraveis senhores da côrte. D. Frederico
-respondia aos que solicitavam sua mão: «Minha sobrinha é orphã de pai e
-mãi. Casará á sua escolha. Intenda-se com ella quem houver de ser seu
-marido, que eu lavo as mãos d’ahi.»
-
-Boa resposta; mas Eugenia repellia delicadamente os pretendentes, as
-maviosidades, e as soberbas feridas na resistencia.
-
-Pois tão dotada e fadada para amar, Eugenia era assim de refractaria
-condição ao bem supremo da vida? Dar-se-ha que o seu peito seja dentro de
-alabastro como se afigura no exterior?
-
-Não; o mesmo amor de que a julgam inimiga é quem a incrueceu assim contra
-os aulicos, os ricos, os soberanos da galanteria d’aquelle tempo.
-
-Amava Eugenia, e amava desatinadamente. O eleito de sua alma era um
-alferes de cavalleria, amavel de figura, composto de encantos; mas sem
-fôro grande nem pequeno, sem amigos das primeiras casas do reino, sem
-nome, que, ao menos, recordasse um general illustre, um lidador distincto
-das ultimas pelejas grandes da patria com os estranhos. Um mero e simples
-alferes, pallido, só, melancolico, e timido debaixo dos olhos d’ella.
-
-O palacio de D. Frederico de Paim era na rua de Santa Barbara. O alferes
-passava alli duas vezes em cada dia, e alguns dias duas vezes em cada
-hora.
-
-E ella via-o sempre, esperava-o sempre, esperava-o até mais vezes do que
-o via. Gonçalo e Vasco viam-no tambem, e diziam:
-
-—A assiduidade d’este homem!... Que cuidará elle, ou que cuidará nossa
-irmã!
-
-Indagaram pela rama; e, em occasião opportuna, disseram a Eugenia:
-
-—Olha que o militar que vês ahi passar, e procuras vêr, é um biltre, que
-principiou soldado. Sirva-te isto de governo, e lembra-te que és Eugenia
-de Nellas Gamboa de Barbedo.
-
-A menina, se a revelação a envergonhasse, córaria; se o coração lhe
-doesse, impallideceria; ora, como nem córou nem impallideceu, é razão
-presumir que o seu pudor e coração ficaram illesos; e, depois, concluir
-que ella, assim mesmo, amava-o sem pejo da baixeza d’elle nem vangloria
-de seus appellidos. Concluam assim que tem a maxima probabilidade do
-acêrto.
-
-E o alferes continuou a passar na Rua de Santa Barbara, e a surgir no
-alto da collina da Penha de França, d’onde Eugenia do seu miradouro o
-avistava.
-
-D. Frederico, avisado pelos sobrinhos, disse que estava seguro do bom
-siso de Eugenia; mas, por cautella, na primavera de 1815, quando a menina
-já entrava nos seus vinte annos, foi passar seis mezes á sua quinta de
-Camarate.
-
-—O remedio prudente é este—disse o velho aos sobrinhos.—Não façamos
-alarido, que ha casos de frageis avesinhas, espavoridas por algazarras,
-romperem os arames da gaiola.
-
-Quando isto foi, já o alferes se carteava com Eugenia, mediante a aia,
-que viera de Pinhel.
-
-A passagem para Camarate aggravou a infermidade. Convem saber que
-ha casos em que o amor, o mais sadio e rosado dos deuses, se chama
-«infermidade». Exemplo: amarem-se duas pessoas, divorciadas pelo acaso do
-nascimento ou da riqueza, é infermidade; amarem-se, porém, um casal de
-ricos, de nobres, de ralé social, ou de mendicantes, isso sim é amor, que
-é saude, e só póde adoecer, n’uns, em hidropesia de tedio, n’outros, em
-resiccação de fome.
-
-A quinta de Camarate era um arvoredo, que competia com o reinado de D.
-João III. Fôra plantado e alinhado por D. Mem Vasques de Lucena, sumilher
-de El-Rei, e aio do infante D. João, pai de D. Sebastião Era memoria que
-aquellas arvores, ainda tenras, tinham visto os amores de D. João III com
-D. Izabel Moniz, moça da camara da rainha D. Leonor, amores que deram
-de si o principe, arcebispo de Braga, D. Duarte, que morreu na flor dos
-annos. Para alli diziam os Lucenas que o monarcha transferira a dama,
-odiosa á rainha.
-
-Parecia, pois, que a folhagem do arvoredo estava rumorejando uma chronica
-de reaes amores.
-
-As fontes respondiam ás arvores, as aves ás fontes, as borboletas
-dialogavam com as flores, as flores trahiam com a viração as borboletas:
-era tudo alli um suspirar, um ouvir-se muito interno harpas e córos,
-symphonias aerias, milhares de pronunciações confusas da terra, dizendo
-todas «amor»!
-
-E para onde elles levaram Eugenia, que já comsigo levava a saudade!—a
-saudade, verdugo que mata acariciando, corda de estrangulação tecida com
-fios de ouro, segredo que Lucifer, ao despenhar-se, roubou do céu, e
-nunca mais restituiu!
-
-Alli é que o amor pegou d’ella com violenta mão, sendo que até áquelle
-dia lhe fôra sempre mão cheia de meiguices e serenas esperanças.
-
-Gonçalo e Vasco julgaram sua irmã segura, e ficaram por Lisboa, onde
-tinham seus affectos, e suas devassidões. O velho, contente com as suas
-arvores, e com a menina, que lhe ouvia a menos edificativa lenda dos
-amores de D. Izabel Moniz, não sahia de Camarate.
-
-Á noite, assim que a brisa esfriasse, D. Frederico digressava do jardim,
-dava um osculo em sua sobrinha, e fechava-se em seus aposentos.
-
-Ora, depois ainda, a menina ficava sentada no banco rustico, resguardada
-de sycomoros, aspirando as baunilhas, sacudindo as granulações das
-pimenteiras, ou devaneando pela via lactea fóra, de constellação em
-constellação, com os olhos lá, e o coração na terra proxima, no muro
-da quinta por onde o alferes subia. E não se atemorisava dos plátanos
-gigantes nem das danças macabras das sombras, agitadas pelo vento da alta
-noute!
-
-Á uma hora rugia a folhagem debaixo dos seus pés nas ruas ladeadas de
-murtas; os molossos lambiam-lhe as mãos, sorvendo os latidos ferozes; as
-avesinhas acordavam e saudavam-na ao passar; o rouxinol das cinceiras
-soltava as notas mais dilectas; e ella ia á gruta conhecida, e esperava
-com a mão no seio como quem diz ao coração: «Espera, ditoso impaciente!»
-
-Ao abrir da manhã de 16 de agosto d’este anno de 1815, Eugenia ouviu
-quatro tiros nas cercanias da quinta, e tremeu, tremeu até cahir de
-joelhos.
-
-D’ahi a pouco estrondearam os argolões do portão da quinta. A aia entrou
-ao quarto da menina, e disse:
-
-—Chegaram seus irmãos. O senhor Gonçalo vem ferido n’um braço: já foi
-chamar-se o cirurgião ao Lumiar.
-
-Gonçalo e Vasco estrenoutaram o tio, e fecharam-se com elle. O que ahi
-disseram collige-se dos successos seguintes.
-
-Durante o dia, Eugenia não viu seus irmãos nem tio. Sabia que se faziam
-preparativos de viagem. Mandou indagar dos caseiros o que seriam os tiros
-da madrugada. Os cazeiros tinham ouvido as detonações, e a estropeada de
-cavallos. Estaria morto o alferes?
-
-—Matal-o-hiam?—perguntava Eugenia á sua aia—e, depois, ousava perguntal-o
-a Deus.
-
-Se ella podesse ouvir este dialogo dos irmãos...
-
-—Chego a duvidar que as pistolas tivessem ballas—dizia Gonçalo.
-
-—Carreguei-as eu—afirmava Vasco.
-
-—E foi-se a salvo!
-
-—Quem sabe?!
-
-—Não o viste correr sobre nós, e desfechar de perto, e retirar-se muito a
-passo? E depois não o avistaste a subir a charneca sobre o cavallo?
-
-—Vi.
-
-—Como queres tu que elle fosse ferido!?—retorquiu Gonçalo—Com meia
-pollegada á esquerda, o canalha mettia-me a bala na cintura—dizia elle
-levando a mão ao ante-braço direito—Eu é que estou ferido devéras... Não
-contávamos com isto, Vasco! O homem tem fibras!
-
-Ao fim da tarde, sahiu da cocheira uma caleça de jornada apposta á
-parelha de machos.
-
-N’esta occasião foi chamada á presença de seu tio, que mansamente lhe
-disse:
-
-—Se tivesses pai ou mãi, mandar-te-ia para elles, sem te dizer a razão:
-tu a saberias de mais, e eu me pouparia á dôr e pejo de repetil-a.
-Entrego-te a teus irmãos. D’elles te defendi alguma vez; agora estou
-desarmado pelo teu proceder. Disse de mais. Ahi fóra está posta a caleça
-para conduzir-te a outra parte, segundo vontade de Vasco. Não vai
-Gonçalo, que está ferido da bala do homem que saltava os muros da minha
-quinta, com teu consentimento. Adeus, Eugenia.
-
-D. Frederico entrou rapidamente no seu quarto, contiguo á sala, e
-fechou-se a chorar.
-
-Vestiu-se Eugenia soluçante, e cobrou animo, quando viu que a sua aia se
-preparava. Entraram ambas na caleça, onde as seguiu Vasco. Chegaram de
-noute a Lisboa, e pararam á porta do palacio de D. Frederico.
-
-Vasco mandou descer a aia de sua irmã, e disse-lhe:
-
-—Sobe; diz ao mordomo que te pague; e vai á tua vida.
-
-—Onde vai ella?!—gritou Eugenia.
-
-—Não queremos gritos—atalhou o irmão.—Pica, bolieiro!
-
-As mulas galoparam até entrarem á estrada do Beato Antonio, onde Vasco de
-Nellas cavalgou, adiantando-se.
-
-A jornada de Eugenia durou dous dias e meio. Parou a carroça diante de
-um palacete velho, em Recaldim, no termo de Torres Novas. Era ali uma
-grossa commenda de D. Frederico, casa chamada da «renda», habitada pelos
-Pains de Lucena, quando, desgostosos da destronisação de Affonso VI, se
-affastaram da côrte.
-
-Entrou Eugenia a um grande salão decorado como o deixaram seus avós,
-quando voltaram a Lisboa.
-
-A tranzida menina sentiu frio e medo.
-
-Surdiu-lhe logo, de sob a orla de um reposteiro de côr inqualificavel,
-uma creatura, ao que parecia, femeal. Dirieis que uma cuvilheira dos
-Lucenas, adormecida em 1680, ao sahirem seus amos, acordára como
-Epimenides, cento e trinta annos depois, e estremunhada sahira ao salão
-para vêr qual das fidalguinhas Pains estava a soluçar.
-
-Eugenia encarou-a, e estremeceu.
-
-—Entrou a velha, fez tres mesuras, e disse:
-
-—Guarde Deus a v. ex.ª
-
-—Adeus—murmurou Eugenia.
-
-—Em quanto não chegam as outras creadas—tornou a creatura com ares
-benignos—a fidalga queira mandar-me em seu serviço. Eu fui ama de leite
-de sua mãezinha, que foi casar a Pinhel.
-
-Estas palavras reanimaram Eugenia, que se aproximou voluntariamente da
-velha, em quanto ella continuava:
-
-—V. ex.ª é o retrato d’ella: já o sabia por m’o dizer o sr. Frederico;
-mas eu estou aqui ha quarenta annos desde que ella casou. Seu avô, o sr.
-D. Carlos de Lucena, mandou-me para Recaldim com ordenado e casa para
-a velhice. Já quiz botar-me por essa estrada fóra, até Lisboa, só para
-ver a filha da minha menina; mas a carga dos annos, oitenta bons, não se
-leva onde a gente quer. Fiquei agora atonita, quando vi entrar o menino
-Vasco, e me disse: «minha irmã vem aqui estar algum tempo. Ámanhã chegam
-outras creadas, que ficam debaixo da sua vigilancia, e um creado que lhe
-transmittirá as minhas ordens.
-
-—O mano já sahiu?—atalhou Eugenia.
-
-—Chegou ás quatro, e sahiu ás cinco horas da manhã. Admiro que v. ex.ª o
-não encontrasse... Então é que foi pelo caminho de baixo.
-
-Eugenia, n’um impeto de confiança, abraçou-se na velha, e exclamou:
-
-—Por alma de minha mãi, vale-me?
-
-—Se lhe valho, meu serafim? que quer v. ex.ª da sua serva humilde?
-
-—Queria escrever uma carta.
-
-—Ó menina, isso barato é de fazer; mas o rendeiro da commenda anda á
-cobrança, e levou a chave da sala, onde está o tinteiro e o papel.
-
-—Pois nem um bocadinho de papel?!... Não tem um livro?...
-
-—Livro tenho as minhas _Horas_ e o _Retiro Espiritual_.
-
-—Deixa-me vêr se ha uma lauda em branco?
-
-O _Retiro_ tinha a folha do ante-rosto surrada, mas susceptivel de
-receber caracteres. Eugenia despregou um alfinete, picou o dedo
-indicador, apertou-o até bolhar sangue. Depois com a cabeça do alfinete
-embebida, escreveu:
-
-_Estou em Recaldim, perto de Torres Novas, na commenda do tio. Aqui
-morrerei._ Voltou-se com recrescente vehemencia para a velha, e disse:
-
-—Dá-me um bocadinho de pão para eu fechar este bilhete?
-
-—Sim, minha menina.
-
-Mastigou o pão, fechou o bilhete e subscriptou-o.
-
-—E agora?—tornou ella—o peor é agora...
-
-—Que queria v. ex.ª?!
-
-—Que me levasse esse bilhete a Lisboa.
-
-—A Lisboa? A menina não sabe o que é ir a Lisboa! São dous dias e meio de
-jornada, andando de noute duas horas.
-
-—Não importa... Eu pago...
-
-—Mas pagar a quem, meu anjinho do Senhor? Ora venha cá... isto é paixão?
-
-—Paixão de morrer, minha amiga...
-
-—Chame-me sua creada Brites. Paixão para bem ou para mal?
-
-—Eu queria casar-me com elle; mas meus irmãos perseguem-nos.
-
-—Eu logo vi que a vinda de v. ex.ª era cousa de amor... O seu adonis não
-é fidalgo pois não?
-
-—Não é...
-
-—Logo vi... E é pessoa de bom porte?
-
-—É um alferes de cavalleria, muito bom de coração, muito gentil, a minha
-paixão unica, o meu disvello de ha tres annos, a minha vida... e será a
-causa da minha morte.
-
-—Coitadinha! Deus o fará melhor. Então quer a menina que elle saiba que a
-trouxeram para aqui?
-
-—Sim, queria.
-
-—Então, deixe estar, que eu de hoje até ámanhã, hei de cogitar no caso.
-Pediu-me isso por alma de sua mãi, eu só se não poder de todo em todo.
-Quem me ha de levar a cartinha, se as contas me não falham, ha de ser o
-cocheiro da caleça; mas o peor é não termos outro papel... Ora espere,
-que eu tenho alli uma sentença que me cá deixou meu sobrinho, que andava
-a aprender a ler. Tinta arranja-se sem a menina furar os seus mimosos
-dedinhos. Com uma pouca de felugem da chaminé e vinagre, faz-se tinta.
-Penna, vai se tirar uma de gallinha, e com uma faca fazem-se-lhe os bicos.
-
-A sr.ª Brites em tanto tempo quanta era a anciedade de Eugenia, veio com
-tudo a ponto: meia folha de papel sellado do tempo de D. João V, uma
-tigella com a dissolução de felugem em vinagre, uma penna de galinha, e a
-faca mais afiada.
-
-Eugenia, se se não uzasse o aparo das pennas, tel-o-ia inventado n’essa
-occasião.
-
-Estava tudo em ordem. Sorveu a sr.ª Brites uma pitada de esturrinho, e
-disse:
-
-—Escreva lá v. ex.ª
-
-
-
-
-XV
-
-Continuação
-
-
-D. Eugenia escreveu o que dictava Brites:
-
-«Minha sobrinha. Logo que esta receberes, sem demora de tempo, vai tu
-mesma em pessoa pessoalmente...»
-
- * * * * *
-
-—Onde é que ella ha de ir levar a carta?—perguntou Brites.
-
-—Ao quartel de cavalleria a Alcantara.
-
-—Escreva, meu serafim:
-
- «Vai ao quartel de cavalleria a Alcantara, e entrega o bilhete,
- que vai dentro d’esta, á pessoa que lá diz por fóra...»
-
-—Eu—interrompeu-se Brites atacada de modestia—não tenho muito geito para
-notar cartas; mas o que a gente quer é que nos entendam.
-
-—Vai muito bem—disse Eugenia.
-
-—Pois ponha lá:
-
-«Toma conta que a não vás entregar a outra pessoa; e da resposta que
-houver escreve-me para Torres Novas. Sem mais enfado, tracta d’isto como
-coisa de muita... de muita...»
-
- * * * * *
-
-—Ponha lá a menina uma palavra, que diga... sim... que diga que é cousa
-de muita aquella.
-
-—De muita consideração.
-
-—Isso mesmo.
-
-Eugenia sobrescritou á sr.ª Apollinaria dos Martyres, na calçada dos
-Barbadinhos, n.º 21—quinto andar á esquerda.
-
-A irmã de Ruy de Nellas abraçou-se na ama de sua mãi, e clamou:
-
-—Cuidei que estava mais desamparada. Ha almas boas em toda a parte,
-louvado seja o Altissimo!
-
-—_Amen_—respondeu christãmente a sr.ª Brites, e foi á cosinha, onde o
-bolieiro estava jantando para voltar com a caleça ao fim da tarde.
-
-—Vm.ᶜᵉ faz-me o favor de entregar em Lisboa uma carta á minha sobrinha?
-Aqui vae o nome e a rua. Se lhe não custa...—disse a velha.
-
-—Não me custa nada, tia Brites; mas dobre-me a porção de vinho.
-
-—Ahi vai, homem. Beba; mas não desatreme, nem me perca a minha cartinha.
-
-—Fique certa, que de hoje a tres dias por estas horas, já está nas mãos
-da dita supplicanta. Diz ella tudo pelo claro nas costas?
-
-—Vai tudo pelo claro.
-
-—Então, metta-m’a ahi no bolso da jaqueta, e carregue-me o copo.
-
-Foi a carta entregue á sr. Apollinaria, e o bilhete ao alferes de
-cavalleria, o qual, segundo veridicas informações da engommadeira da rua
-dos Barbadinhos, chorou, e vasou as algibeiras nas mãos tolerantes da
-sr.ª Apollinaria.
-
-Escreveu o alferes uma longa carta a D. Eugenia. Principiava contando
-a descarga de dous tiros inuteis que lhe déram. Disse não conhecer as
-pessoas, que lhe atiraram, por virem rebuçadas, e estar ainda a limpar
-a manhã. Contou que o não feriram; mas suppunha elle ter sido mais
-certeiro na pontaria. Acrescentava que ia ser removido para Bragança, por
-intrigas e influencia dos irmãos de Eugenia; e declarava-se, a final tão
-desgraçado e desprovido de recursos, que não podia ir arrebatal-a das
-mãos da sua cruel familia, sem desertar, e collocar-se na precisão de ir
-perecer de miseria com ella em reino estrangeiro. Pedia-lhe, em summa de
-tudo, animo, e esperança.
-
-Leu Eugenia a carta com profundo desgosto.
-
-«Não me terá elle amor?!»—disse ella entre si.
-
-Viu-a chorar a devotada Brites, e pediu-lhe o favor de lhe ler a carta.
-Quiz ouvil-a segunda e terceira vez. Consolidou as suas convicções com
-uma pitada e disse:
-
-—Esse rapaz, quem quer que elle seja, tem tino na cabeça, e pensa bem. A
-menina por que chora?
-
-—Nem sequer falla em vir vêr-me!...
-
-—Pois se o pobre homem vai de marcha lá para cascos de rolhas, como quer
-a fidalga que elle deserte ás bandeiras, e venha aqui? E depois? que
-seria d’elle? e a sorte da minha flor do céu, era muito melhor!?...
-
-Pudéram muito com D. Eugenia as razões de Brites, e mais ainda a promessa
-de tomar a velha á sua conta a correspondencia segura entre Bragança e
-Torres Novas.
-
-Era chegado o momento de uma confidencia, que tem sido o balsamo de
-piedade em coração de pais lacerados, pela ira e pela deshonra: não será
-muito que o leitor, invocado a julgal-o O BEM E O MAL d’esta serie de
-biographias, dê sua piedade á desventura culpada, assim como tem dado
-suas bençãos á virtude sem nodoa. Ha crimes repulsivos; o engenho mais
-abalisado, a philosophia mais bem fingida, sob capa de verdade, tenta
-em balde mover-nos á compaixão do delinquente, em quanto o retalhar do
-remorso o não fez delir com lagrimas o stygma que a moral lhe assignalou:
-outros crimes, porém, são de si, e por vontade divina, sympathicos não
-direi; mas, se a ré se pranteia, e se olha em seu seio, e exclama: «Ó
-meu Deus! hei de eu espedaçar em respeito ao mundo este filho, que é
-o meu amor e o meu opprobrio?... hei de eu abafar o grito da minha
-consciencia e coração, para que o mundo me veja um rosto limpo, um rosto
-lavado no sangue do meu filho?...» Quando a mulher assim falla a Deus,
-a misericordia divina dá-lhe um anteparo contra as injurias do mundo; e
-o mundo, se lhe adivinha as dôres, e o mimo d’aquella paixão, á qual só
-falta um sacramento para ser santa, o mundo perdoa-lhe, embora a repulse
-do contacto das almas candidas, das suas filhas, das suas esposas, das
-suas irmãs, que Deus permitta não humilhem com maiores desprezos a
-desgraçada que é mãi.
-
-É, pois, chegado o momento da confidencia. Quem a recebe é a consternada
-velha, que vira nascer a mãi d’aquella menina. Até áquelle momento,
-Brites estivera longe de imaginar um erro n’aquelles amores: julgava-os
-na sua maxima pureza. Descem lagrimas nas rugas dos oitenta annos,
-lagrimas de bom agouro, que deixam mais livre o accesso á piedade.
-Eugenia cuida que o revelar-se aos irmãos lhe dará um esposo, lhe será
-redempção de ignominia.
-
-—Não, minha infeliz senhora, não!—exclama a velha.
-
-E conta-lhe tres identicas e desventurosas historias, que ella presenciou
-em sessenta annos de serviço n’aquella familia: tres mulheres sepultadas
-em conventos, onde nunca entrou raio de contricção nem conforto.
-
- * * * * *
-
-O alferes sabe em Bragança as agonias de Eugenia, e sente n’alma o
-estylete excruciante da expiação. Nenhuma morte sustenta o parallello com
-as flagellações de seis mezes, soffridas a tantas leguas de distancia.
-
-Eugenia recebe o ar e a luz pela janella do seu quarto unicamente.
-Teme-se da observação das creadas, que lhe espiam os passos, em
-suspeitarem de Brites. A velhinha tudo provê e prevê; mas, a intervallos
-quer morrer, antevendo as agonias da hora improrogavel, da hora em que
-o grito de afflicção rompe atravez das mãos da vergonha, que tentam
-suffocal-o.
-
-Era no mez de dezembro de 1816.
-
-O alferes lançou-se aos pés do general da provincia de Traz-os-Montes,
-que demorava em Bragança n’essa occasião. Abre-lhe sua alma, em torrentes
-de pranto. O velho general chora, e diz:
-
-—Tenho rigorosas recommendações a seu respeito; mas vá, peça-me licença
-para ir ver sua familia. Dou-lh’a por quinze dias. Vá, embora eu tenha de
-soffrer.
-
-O alferes vestiu habitos paisanos e desceu a Torres Novas. Alli vestiu-se
-de mendigo, simulou uma paralisia de braços, e pediu gasalhado em
-Recaldim. Trocou ligeiras palavras com Brites, e não viu Eugenia. Voltou
-á albergaria do commendador algumas noutes. Os creados contemplavam-n’o,
-e diziam:
-
-—Tão novo e tolhido de braços!
-
-As creadas accrescentavam:
-
-—E não havia de ser feio!
-
-Na noute de quinze de janeiro, por volta de onze horas, abriu-se a porta
-da albergaria, entrou Brites com a face alagada de suor e lagrimas. O
-alferes formou entre os braços com as dobras da capa de mendigo uma
-caminha de farrapos, recebeu um menino, e sahiu. A duzentos passos estava
-o leal camarada do official, com um cavallo á redea. O alferes cavalgou,
-o auxiliar saltou á anca do cavallo, e partiram.
-
-Em Torres Novas alimentaram o recemnascido. Proseguiram até Santarem,
-onde foi baptisado sete dias depois. Alli veio uma ama do Cartaxo, e o
-levou comsigo.
-
-Estava a expirar a licença. O alferes entrou no quartel, á ultima hora, e
-beijou as mãos do general, dizendo:
-
-—Dei-lhe o nome de v. ex.ª. Ahi me fica a memoria da sua commiseração,
-general!
-
- * * * * *
-
-D. Eugenia de Nellas, dous mezes depois d’estes successos, recebia uma
-carta de seu irmão Vasco, participando-lhe que ia casar com uma titular
-brazileira, agraciada pelo sr. D. João VI, e convidava sua irmã a
-acompanhal-o á côrte do Rio de Janeiro.
-
-D. Eugenia respondeu que queria viver e morrer no seu desterro de
-Recaldim.
-
- «Bem sei—replicou Vasco.—Bem sei...—Brevemente, se quizeres
- salvar o amante, mudarás de resolução.»
-
-Decorreram alguns mezes. Instaura-se processo a Gomes Freire de Andrade.
-São presos os cumplices da conspiração, e os suspeitos cumplices. O
-alferes é chamado a Lisboa, e recolhido ao castello de S. Jorge, como
-indiciado nos planos subversivos do general Freire de Andrade. São os
-Lucenas que tramam a bem agourada perdição do alferes.
-
-Eugenia é avisada do encarceramento do alferes.
-
-A faca apontada ao peito da timida senhora é um dillema: se ella persiste
-em ficar, o alferes morrerá; se vai para o Brazil, o réu absolvido.
-
-Eugenia vai para o Brasil, o alferes, sem saber porque o accusam, nem
-porque o absolvem, sahe do castello e entra nas fileiras.
-
-Ruy de Nellas, acantoado sempre no seu solar de Pinhel recebera a
-infausta nova da queda de sua irmã. Respondendo a Vasco, disse: «Não
-tenho irmã, nunca me fallem n’essa mulher. Fizeram bem não me dizer o
-nome do insultador de nossa familia, se é que elle tem nome.»
-
- * * * * *
-
-Saltemos a 1820. D. Eugenia é o assombro dos salões do Rio de Janeiro.
-Reviçam-lhe todas as graças; a da melancolia realça-lh’as, melancolia que
-dava a entender que o anjo, lembrado do céu, tinha saudades.
-
-Vasco é-lhe odioso. A casa do irmão atormenta-a como um ergastulo. Perdeu
-esperanças de voltar á patria, e aspira a ver no céu o esposo de sua alma.
-
-De repente, como que as esperanças lhe morrem, e a querida dos fidalgos
-brazilienses desce os olhos sobre a terra.
-
-Vê um conde que fôra de Portugal com o principe regente, e a requesta de
-joelhos. E vai ella, levanta com a sua mão o homem que ha de resgatal-a
-do dominio do irmão, e sahe condessa de Asinhoso da casa abominada.
-
-No redemoinho das festas, a condessa parece estar sempre em contemplação
-d’um tumulo. E o marido mais a adora assim; e ella, de lhe ver o amor
-atravez das lagrimas, enchuga-lh’as e pede a Deus um novo coração para
-seu marido.
-
-Nunca mais seus labios responderam a Vasco; e, ao terceiro dia de casada,
-disse ao conde:
-
-—Meu amigo, a presença de meu irmão n’esta casa é como a do algoz da
-minha felicidade, e da tua, se posso dar-t’a.
-
-O conde de Asinhoso ouvia sua mulher, e obedecia com jubilosa escravidão.
-
-Gonçalo de Nellas havia morrido em 1819. D. Frederico Pain de Lucena
-morreu em 1820, legando os seus bens ao sobrinho vivo; Vasco, em viagem
-para a patria, morreu de febres.
-
-A condessa enviuvou em 1833. Cuidou em liquidar os seus copiosos haveres,
-e voltar a Portugal.
-
-Uma delirante esperança vinha com ella. Rica, livre, com a alma inteira
-no seu passado amor!
-
-Desembarcou em Lisboa por junho de 1834. Reinava D. Pedro IV.
-
-Mandou indagar do alferes de 1817 aos seus camaradas anteriores á scisão
-politica. Responderam-lhe que tinha morrido na guerra.
-
-Ergueu ella então as mãos e disse:
-
-—Ó meu Deus: merecia eu tamanho castigo?!
-
-Mandou ainda perguntar por um filho do militar que morrera. Ninguem deu
-novas de tal filho. O espirito publico batia as azas ainda no ambiente de
-fogo e ninguem curava saber onde podia existir o filho d’um official que
-morrera rebelde.
-
-Foi então que a condessa d’Asinhoso, aterrada da sua soledade, escreveu
-a Ruy de Nellas, pedindo-lhe a sua estima, e uma filha que lhe fosse
-companhia.
-
-O irmão não lhe respondeu.
-
- * * * * *
-
-Esta é a historia triste da senhora cujo valimento Ruy de Nellas vai
-pedir a favor de seu genro.
-
-Qual é o valimento da condessa em Lisboa? É o prestigio da riqueza, e da
-belleza ainda.
-
-Quarenta e seis annos, com trinta de amarguras e ainda formosa! É que ha
-mulheres de tamanha alma, que primeiro o fel da desgraça ha de enchel-a
-antes que o corpo se alquebre.
-
-Das masmorras de 1793 sahiam formosissimas mulheres para a Guilhotina.
-
-A mulher de Luiz XVI tinha pequena alma, sonhára vinganças mesquinhas, e
-por isso lhe encaneceram os cabellos n’uma hora.
-
-Madame Roland, a scismadora de revoluções uteis, ia formosa no seu carro
-de morte.
-
-Carlota Corday illuminou-se de formosura mystica ao vêr-se espelhada no
-aço do alfange.
-
-
-
-
-XVI
-
-O julgamento
-
-
-Ao cabo de cincoenta dias estava o processo prompto para entrar em
-julgamento. Dominava em Coimbra a opinião de ser inevitavelmente
-condemnado Casimiro de Bettancourt. A innocencia que algumas pessoas
-apregoavam, era em geral recebida, a riso, como um paradoxo.
-
-A alma de Christina confrangia-se, e os labios sorriam ainda. Era ella
-só quem ainda simulava esperanças; mas que supplicios surdos lhe custava
-dissimulação!
-
-Ladislau e o vigario em vão queriam imital-a. A sua tristeza era como
-as trevas do cego que não se allumiam ao tremor convulso da palpebra.
-Queriam esperançar-se e de toda a parte lhes soava como irremediavel
-a sentença. Rosnava-se em compra de jurados: não era preciso arguir
-ao suborno a condemnação. Casimiro estava sem defeza: o seu silencio
-impressionava favoravelmente as almas distinctas; o vulgacho, porém,
-que havia de julgar das provas, daria importancia nulla á mudez do
-réu. Os protectores de D. Alexandre eram os mais graudos fidalgos de
-Coimbra e cercanias. Por Casimiro Bettancourt ninguem pedia. O padre e o
-cunhado, reduziam-se a promover o andamento rapido do processo, pagando
-liberalmente as despezas e actividade do procurador. Isto era bastante;
-mas faltava muito.
-
-Ruy de Nellas affligia-se a cada nova carta desanimadora que recebia;
-entretanto, a solução favoravel em Lisboa era um respiradouro para elle e
-para os poucos amigos do preso.
-
-Designado o dia do julgamento, o pai de Christina escreveu a sua irmã,
-contando-lhe os pormenores do casamento da filha, as desventuras do
-genro, a sua innocencia no crime assacado, a indefeza pertinaz em que se
-pozera, o mysterio do homicidio, a certeza de que o silencio de Casimiro
-Bettancourt era um heroismo de honra, talvez novo. Rematava pedindo á
-condessa de Asinhoso, que patrocinasse em Lisboa sua sobrinha, que era
-mãe e esposa extremosa.
-
-Na ante-vespera da audiencia, travaram desordem uma malta de academicos
-richosos com as patrulhas nocturnas. Alguns estudantes retiraram feridos,
-e invocaram Guilherme Lira, em nome da honra academica. O chefe da
-Sociedade da Manta respondeu que n’uma das proximas noutes, seria vingada
-a academia.
-
-No dia immediato entrou Guilherme no escriptorio de um tabellião, e pediu
-meia folha de papel sellado. Assignou-se no fundo da lauda, e fez que o
-notario lhe reconhecesse a assignatura.
-
-Recolheu a casa, e deteve-se algum espaço, escrevendo no branco da
-folha assignada e reconhecida. Fechou em fórma de officio, lacrou, e
-escreveu algumas palavras no involucro. Depois fez algumas cartas: uma
-subscriptada a D. Joaquina Soares de Lira, sua mãi, residente em Evora;
-outra a sua irmã, casada em Extremoz; e ainda uma terceira brevissima,
-dirigida a uma senhora, que tinha o segredo da ferocidade d’aquelle
-homem. Terminava assim: «Não te cito para o céu nem para o inferno.
-Chamo-te diante do teu proprio remorso. Viste-me um anjo aos dezoito
-annos; e fizeste de mim isto que sou. Não te accuso: lá tens dentro
-d’alma o teu algoz. É tempo de acabar.»
-
-Deitou a carta na caixa postal, e foi á cadeia, segundo o seu costume
-quotidiano, vêr Casimiro. Eram quatro horas da tarde. Estava o jantar na
-meza. Guilherme sentou-se ao lado de Christina, e comeu com appetencia.
-De uma vez inclinou-se ao ouvido da senhora e disse-lhe:
-
-—Ámanhã já v. ex.ª janta em sua casa com seu marido...
-
-Christina soltou um brado de alegria.
-
-—Que é?!—inquiriram todos.
-
-Guilherme fitou-a e descahiu as palpebras.
-
-Era impôr-lhe silencio, e ella abafou a revelação, que lhe crispava
-nervosamente os labios, e arquejava o seio.
-
-Esperaram, brevemente a resposta com anciedade. Christina fitou os olhos
-supplicantes no academico, e elle, erguendo-se, disse:
-
-—Póde fallar, minha senhora, d’aqui a instantes.
-
-E abraçou Casimiro, beijando-o nas faces ambas; abraçou Christina
-osculando-lhe a fronte; apertou affectuosamente as mãos de Peregrina,
-Ladislau e padre João; affagou as duas creancinhas, e sahiu de golpe.
-
-Casimiro chamou-o com vehemencia, e elle não voltou.
-
-Referiu Christina o que lhe ouvira. Casimiro concentrou-se, pensou alguns
-minutos, e disse:
-
-—Não mentiu. Ámanhã jantaremos em liberdade.
-
-Pediram-lhe o sentido das palavras do academico.
-
-Bettancourt respondeu:
-
-—Ámanhã.
-
-Notaram todos que a tarde e noute d’aquelle dia foram as mais tristes
-horas de Casimiro na sua prisão de dous mezes. E, comtudo, Christina
-escondia o seu contentamento.
-
-Eram dez horas da noute, quando Casimiro ouviu grande grita e o estrondo
-de alguns tiros. Estava já sósinho, passeando febrilmente na saleta, e
-disse entre si:
-
-—É agora.
-
-O alarido e o tiroteio continuaram.
-
-Collou o ouvido ás portadas da janella, e ouviu dizer na rua:
-
-—Mataram o Lira.
-
-Meia hora depois recahiu tudo em silencio quebrado pelas passadas
-das patrulhas em tresdobro. E o carcereiro bateu de manso á porta de
-Casimiro, e disse:
-
-—Dorme?
-
-—Não. Póde entrar.
-
-—Vou contar-lhe o que vai. O seu amigo Lira espancou as patrulhas, que
-encontrou desde o bairro alto até á rua do Coruche. A Sociedade da Manta
-appareceu em armas, atacou reforço, que sahiu do quartel. Quando ia
-retirando para o Monte Arroio a estudantada debaixo de fogo, o Lira ficou
-atraz, sem arma nenhuma, a não ser o varapau de choupa que mettia a peito
-dos soldados. Tinha elle recuado até ás grades de Santa Cruz, quando
-cahiu morto com uma bala atravessada de fonte a fonte. Meu filho vem
-de observar. Faz dó ver um homem tão valente assim morto como se mata
-qualquer poltrão!...
-
-—Obrigado á sua noticia.
-
-—O sr. ficou triste devéras!—tornou o carcereiro—Tem razão, que elle era
-seu amigo d’uma vez!... Boas noites, sr. Bettancourt. Ámanhã é o dia da
-grande batalha, espero em Deus que...
-
-O carcereiro tão certo estava da condemnação, que não ousou concluir a
-phrase da esperança em Deus.
-
-Mal se abriram as portas da cadeia, entraram Christina e os amigos a
-contarem o successo. A justiça ia tomar conta do espolio do morto.
-Coimbra estava agitada de terror. Esperava-se grande lucta da academia
-com a tropa no acto do enterro de Guilherme. Suppunha o padre que se não
-abrisse o tribunal, para obviar o azo da desordem. Contou Ladislau que
-o estudante, na vespera, tinha ido reconhecer a sua assignatura a um
-tabellião. Christina, que tudo sabia, esperava que seu marido fosse salvo
-por uma declaração de Guilherme. Eram, porém, nove horas, e não apparecia
-alvará de soltura, nem contra ordem de julgamento.
-
-Ás dez horas chegou o official de juizo para acompanhar o réu ao tribunal.
-
-Logo á sahida do carcere, ouviu Casimiro dizer:
-
-—É preciso ir acabando com os assassinos. Um já lá vai: este não tarda;
-os outros hão de ir quando lhes chegar a vez.
-
-Quem tão sisudamente discreteava era o cidadão honesto da Couraça dos
-Apostolos, em cuja cabeça Guilherme deixára um signal inutil para a
-morigeração da pessoa.
-
-Sentou-se Casimiro no banco dos réus. Christina, Peregrina, o padre e
-Ladislau ficaram fóra da teia. D. Alexandre de Aguilar, como parte,
-sentára-se entre o seu advogado e o representante do ministerio publico.
-Na acareação de author e réu, perguntado o primeiro se reconhecia em
-Casimiro Bettancourt o sujeito que espancára, o fidalgo respondeu:
-
-—Não podia ser outro.
-
-—Pergunto a v. ex.ª se é aquelle e não se podia ser outro—replicou o juiz.
-
-—É aquelle.
-
-Sahiram a depor as testemunhas de accusação. Eram concordes em dizer que
-viram entrar na casa do réo o sujeito que matára um homem, e deixára
-outro estendido. Recordaram todas as precedentes aggressões que o réu
-fizera contra o author, já no botequim da rua Larga, já na ponte. O
-cidadão honesto sobreexcedeu a má vontade das demais testemunhas, dizendo
-que o réu era sujeito de tão máus costumes que roubára uma filha a um
-fidalgo seu bemfeitor, e com a filha roubára as joias da familia.
-
-—Esse infame está a mentir!—exclamou Christina.
-
-Casimiro voltou-se para o lado onde estava sua mulher, e encarou-a fito,
-com severo olhar.
-
-O juiz disse:
-
-—A senhora não pode aqui fallar.
-
-—O que ella diz não se escreve—accrescentou a faceta testemunha, sorrindo
-do alto da sua probidade.
-
-—Querello da testemunha—disse o advogado do réu.
-
-—Eu não querello da testemunha—emendou Casimiro.
-
-—Em tempo competente resolverão—admoestou o juiz.
-
-Convergiram todos os olhares sobre Casimiro.
-
-Um dos jurados disse:
-
-—Eu já não condemno aquelle homem!
-
-—Porquê?!—perguntou o visinho.
-
-—Aquelle homem está innocente ou é doudo.
-
-—Qual doudo? aquillo é um grande farcista! Elle não querella da
-testemunha, porque sabe que roubou as joias.
-
-Terminou o depoimento de accusação por parte do author e do ministerio
-publico.
-
-Esperava-se por testemunhas de defeza: o escrivão disse que não estavam
-inscriptas nenhumas.
-
-—É doudo ou não?—disse o jurado bem intencionado.
-
-—Qual doudo? replicou o outro.—É tão patife que não tem quem o defenda.
-
-Ia levantar-se o patrono de D. Alexandre, quando o administrador do
-concelho entrou na sala do tribunal, e entregou ao advogado do réo uma
-carta em fórma de officio.
-
-O orador, que já tinha dito: «Srs. jurados!» suspendeu-se.
-
-O patrono do réo leu uma meia folha de papel, e disse, em pé, com os
-cabellos hirtos:
-
-—Sr. doutor juiz de direito, v. ex.ª me dirá se o debate deve continuar,
-depois de ler a declaração que remetto á consideração de v. ex.ª.
-
-Machinalmente ergueram-se todos, auditorio, e jurados.
-
-O juiz leu mentalmente, e passou o papel ao delegado. Trocaram breves
-palavras, e deram ao official de justiça o papel.
-
-—Leia o sr. advogado do réo—disse o juiz.—Eu por mim intendo que terminou
-o debate.
-
-—Sou de egual parecer!—ajuntou o ministerio publico.
-
-O advogado de Casimiro, limpando as camarinhas do suor, leu com voz
-tremente de alegria e commoção d’alma:
-
- «Declaro eu Guilherme de Noronha e Lira, estudante do 5.º anno
- de direito, que fui eu quem matou, na noute de 16 de janeiro do
- corrente anno de 1840, um creado de D. Alexandre de Aguilar,
- e empreguei os meios de matar tambem o amo. Não tinha contra
- algum d’elles motivo de odio pessoal; mas, como inimigo jurado
- de poltrões covardes, e sabendo eu que elles espreitavam
- ensejo de matar Casimiro de Bettancourt, mancebo tão honrado
- como valente, protestei livral-o de tão miseraveis inimigos,
- atacando-os sósinho e sem mais arma que um páu de choupa, no
- momento em que elles tinham arrombado a porta de Casimiro
- para o irem matar entre sua mulher e sua filhinha d’um anno.
- Declaro mais que fui eu quem afugentou a companhia, postada
- ás portas de Casimiro na intenção de o arrancar ás garras
- da justiça; mas o meu amigo não quiz fugir, assegurando-me
- que se havia de salvar sem pôr em risco a minha segurança. E
- por tanto, resolvido a acabar com a vida, poucas horas antes
- de me deixar matar, faço esta declaração, e peço a Casimiro
- Bettancourt perdão de o ter infelicitado, quando cuidava que
- o beneficiava com o meu zêlo guardador da sua preciosa vida.
- Peço tambem perdão da inexplicavel fraqueza que me tolheu de
- eu ter feito esta declaração desde o momento que o meu amigo
- entrou no carcere. Eu sei que elle me perdoou; mas volto as
- minhas supplicas para a esposa attribulada, que tantas vezes,
- com um sorriso de amiga, devia execrar o causador das suas
- calamidades! Faço esta declaração debaixo dos olhos de Deus,
- e juro pela virtude de minha mãi que é verdade o que digo, e
- será infame quem me não acreditar. Coimbra 19 de março de 1840.
- _Guilherme de Noronha e Lira_».
-
-D. Christina perdêra o alento nos braços de Peregrina. Muitos academicos
-romperam de salto a teia, e vieram parar no meio da sala. O advogado
-do réu, esquecido das praxes, foi abraçar o cliente, que parecia dar
-levemente conta da agitação do auditorio, e applicava o ouvido aos
-soluços da esposa. Os jurados limpavam as lagrimas, excepto um que
-tinha recebido uns vinte mil réis de D. Alexandre. O fidalgo-autor
-acachapara-se de modo, que parecia querer sumir-se debaixo da meza. O
-seu advogado lia a declaração, e carecia de coragem para impugnar-lhe a
-validade. O juiz dizia ao delegado:
-
-—Deviamos esperar isto, ou cousa semelhante. Este homem, sem provar nada,
-tinha provado a sua innocencia.
-
-E o delegado confirmava:
-
-—Eu espero a minha vez de abraçal-o!
-
-O cidadão honesto da Couraça dos Apostolos ia a sahir, quando Casimiro,
-que parecia absorto, disse:
-
-—Sr. juiz, peço a v. ex.ª a graça de ordenar áquella testemunha, que se
-demore um instante.
-
-—Quer querellar!—bradou o patrono.
-
-—Não quero querellar—acudiu Casimiro, desabotoando uma carteira, d’onde
-tirou um papel, e accrescentou:
-
-—Disse a testemunha que eu roubára as joias da familia de minha mulher. A
-testemunha faltou á verdade. Peço licença para ler, e offerecer ao exame
-das pessoas, que me escutam, a seguinte declaração de meu sogro «Ruy de
-Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro que minha filha Christina
-Elisiaria não subtrahiu de minha casa valor algum, nem os seus proprios
-vestidos e adresses, quando fugiu para casar com Casimiro Bettancourt.
-E por isto ser verdade, mui espontaneamente, e com juramento aos Santos
-Evangelhos o declaro agora e sempre. Pinhel 22 de abril de 1839. _Ruy de
-Nellas_, etc.»
-
-—Meu sogro está vivo para confirmar esta declaração.
-
-—Confirmo!—bradou uma voz d’entre as turbas comprimidas na teia. E logo
-um gentil ancião de veneraveis cans, e nobre aspeito, com as faces
-arregoadas de lagrimas, entrou na clareira que a multidão lhe abria, e
-chegou á beira de Casimiro, e repetiu com a voz quebrada de soluços:
-
-—Confirmo! confirmo! honrado moço, meu filho amado!
-
-E abraçou-se n’elle, e logo na filha, que se lhe lançou aos pés, e em
-Ladislau e no padre, e na irmã, e em todos quantos vinham com olhos
-humidos, porque alli quantos choravam, e choravam todos, elle adoptava
-como amigos, como quinhoeiros da sua alegria!
-
-Que momentos aquelles! Aquelle jubilo febril não matou, porque era santo,
-porque a Providencia divina se comprazia em contemplal-o!
-
-
-
-
-XVII
-
-Contrastes
-
-
-Ia a turbulenta comitiva, que seguiu até casa de Bettancourt. A faisca
-electrica de enthusiasmo, recebida nos lances do tribunal, conflagrou
-animos juvenis, em bellicoso arrebatamento contra a policia e a tropa;
-por maneira que, as duas familias levavam um prestito de centenares de
-mancebos, urrando vivas á academia, e morras aos futricas e aos soldados.
-Casimiro parou algumas vezes no intuito de arengar aos moços; porém, a
-cada palavra conciliadora respondia o fremir de muitas vozes, a pedirem
-sangue e vingança?
-
-—Parecem-me canibaes!—dizia Ruy de Nellas ao vigario.—Esta rapaziada não
-tem quem a governe!? Pobres pais e mãis!
-
-Conseguiram entrar em casa, e accommodar os pequenitos, que vinham
-chorando de medrosos da vozeria, Mafalda nos braços do avô, e o filho de
-Ladislau nos do padre João.
-
-Casimiro sahiu á janella a dizer expressões de reconhecimento que a
-turba desattendia, clamando sempre vingança, e pedindo ao academico que
-tomasse o commando dos estudantes para vingar a morte do valente que o
-defendera a elle.
-
-Por entre os amotinados circulavam pessoas de respeito, pacificando
-os animos, ou enganando-os para mais azado lanço. A custo, porém se
-dispersaram, comprommettidos a reunirem-se no sahimento de Guilherme Lira.
-
-Aquietou-se a rua.
-
-O velho sentou-se entre a filha e o genro, lançando-lhes os braços em
-volta do pescoço. Alegremente conversou, ora queixando-se de não o terem
-muitas vezes importunado com rogos de perdão, ora promettendo-lhes em
-dobro a amisade, que lhes não déra mais cedo.
-
-—Nada de Coimbra—dizia elle a Bettancourt—Vamos para Pinhel, que tu
-não tens necessidade de ser official com tanto trabalho. A legitima de
-tua mulher vai augmentando, sou eu que a tomo a juros; e, emquanto eu
-viver, estareis em casa, sem dispender do vosso. É preciso pagarem se
-as dividas de dinheiro, que as de amor nunca se pagam. Este Ladislau é
-um grande moço, é o pai no rosto e no coração. Este padre João sei eu
-bem o que elle é; creou-se debaixo das minhas telhas, e ha de vir a ser
-bispo, se a virtude é qualidade para ser bispo. Em quanto á cachorra da
-Peregrina, esta, se não fosse do Ladislau, havia de casar commigo, que
-está guapa, esbelta, e uma perfeita dama. Vocês riem-se? Talvez pensem
-que se eu quizesse dar madrasta á minha Christina, andaria muito tempo
-a farejar nas boas familias da provincia!... Ora agora, tu, Casimiro,
-deixa-te de mathematicas, faz te lavrador, toma á tua conta os cazeiros
-da nossa casa, melhora-me os bens livres quanto pudéres, bemfeitorias e
-mais bemfeitorias nos prasos de nomeação, que eu quero deixar o menos que
-possa ser ao D. Sueiro, áquelle vil enroupado em habitos fidalgos. São
-uns lacaios todos, desde o morgado até D. Alexandre, e a minha Guiomar lá
-se fez com elles, que nem já se dignou escrever-me no dia dos meus annos!
-Deixai-a commigo... Vamos a saber: vocês não jantam? O contentamento
-é boa iguaria; mas vejam sempre se me guizam o contentamento com umas
-batatas e umas fatias de presunto. Vocês comem o contentamento, e eu o
-resto.
-
-Sahiu Ladislau a tomar o jantar no Paço do Conde, visto que em casa
-ninguem atinava a saber onde estavam as panelas.
-
-Entretanto, continuou o infatigavel fidalgo:
-
-—Vou logo escrever a minha irmã, a contar-lhe o succedido. Tenho vontade
-de a vêr; não queria morrer sem a vêr! Foi para Lisboa aos treze annos:
-era um lyrio de brancura, e galanteria. Nunca mais a vi... Velha não
-póde estar, que eu levo-lhe vinte annos de vantagem... Bella vantagem,
-não tem duvida!... Talvez a convide a vir passar comnosco em Pinhel
-alguma temporada; mas ella sahe lá de Lisboa! Disse-me um deputado que
-a condessa vive lá no ultimo fausto, e é visitada por tudo que tem um
-nome grande na aristocracia e na politica. Será ella constitucional?
-Isso lá me custa; mas, em fim, o marido era-o; e justo é que ella herde
-as convicções de quem herdou seiscentos mil cruzados em dinheiro, que os
-vinculos foram a quem tocaram. Fez uma asneira minha irmã em enviuvar sem
-filhos.
-
-Ninguem lhe cortava a jovial parlenda ao velho, até que chegou Ladislau
-com dous moços carregados de vitualhas. Á excepção de Ruy de Nellas, os
-convivas debicaram levemente as iguarias. Casimiro comêra regularmente
-no dia em que fôra preso; e, solto, entretinha-se a repartir o prato
-entre os pequenos. Não parecia ser a satisfação da alma que lhe tornava
-fastidioso o alimento; pelo contrario, revia-lhe o semblante uma
-extraordinaria melancholia.
-
-É que o moço via diante de si continuamente a imagem de Guilherme,
-que, vinte e quatro horas antes, tinha dito a Christina: «Ámanhã já
-v. ex.ª janta em casa com seu marido.» E abstinha-se de revelar a sua
-mágoa para não compungir a esposa e amigos, que tão alegres estavam, e
-perdoavelmente esquecidos do commensal do dia anterior, áquella hora
-amortalhado!
-
-Era já proposito de Casimiro sahir da Universidade, e ir buscar sua
-vida em qualquer parte ou mistér. Aquelle anno era o segundo já
-perdido. Entrou-se da certeza que a desgraça lhe atravancava o caminho
-das sciencias. Elle amava o estudo, deleitava-se nas asperidões da
-mathematica, e ia desatar-se para sempre e saudosissimo dos seus livros,
-das suas oito horas de estudo, da sua banqueta de pinho pintada, e de
-toda aquella pobreza limpa, que as mãos de sua mulher transformavam em
-jaspes, mognos, razes e ouro.
-
-O convite de ir para Pinhel, com o sogro, seu amigo, entrar no goso das
-honras da illustre familia, ostentar a benemerencia da sua probidade,
-regendo a avultada casa, vingar-se assim pacificamente dos de Miranda,
-nenhum d’estes incitamentos lhe descontava nas dôres. Será paradoxal o
-dizer que Bettancourt mais se queria refugiar no casal de Villa Cova com
-sua mulher e filha, e antes de melhor rosto acceitaria o seu prato á
-meza de Ladislau? Pois é uma sublime verdade esta! Casimiro olhava em
-Ladislau, no vigario, e sua irmã, e dizia-se: «Ó meus amigos, a minha
-dôr inconsolavel será deixar-vos. Eu hei de fugir sempre para as vossas
-serras, em quanto tiver vida para me lembrar o que fostes para mim e
-minha mulher nos dias de desamparo!»
-
-—Cuidei que te vinha trazer mais alegria, Casimiro—dizia o fidalgo.
-
-—V. ex.ª desculpe a minha tristeza—responde Casimiro—Enterra-se hoje um
-meu amigo.
-
-—Pois sim, bem sei que deves ter pena do rapaz; comtudo, cada coisa tem
-seu logar. Conversa com a gente, abre um riso n’esse rosto, e faz que eu
-me não persuada que sou aqui de mais para a tua satisfação.
-
-Casimiro levou aos labios a mão do velho, e disse:
-
-—V. ex.ª está gracejando; mas ainda assim, magoa-me. Eu poderia esperar
-muitas melhorias á minha sorte, que ainda hontem era desgraçadissima
-no dizer do mundo; porém, a vinda de v. ex.ª com tão amoravel perdão,
-tamanho bem é que nem eu sonhava. V. ex.ª dirá se eu...
-
-—Não me dês sempre _excellencia_, Casimiro; chama-me alguma vez pai, se
-queres que eu te chame filho.
-
-Beijou-lhe de novo a mão, em quanto Christina, tomando o maior quinhão do
-contentamento d’aquella adopção paternal, abraçou-se ao pescoço do velho,
-e acariciou-o infantilmente.
-
-Ao anoitecer, Casimiro pediu licença para sahir.
-
-—Onde vaes?—acudiu Ruy de Nellas.
-
-—Vou acompanhar o cadaver de Guilherme Lira.
-
-Encararam-se mutuamente, e voz nenhuma contrariou a piedade do amigo.
-
-Ladislau, tomando licença de sua mulher, seguiu o compadre. O vigario
-ficou em companhia de Ruy e das senhoras.
-
-Christina, ao despedir-se do esposo, no patamar da escada, disse-lhe em
-modelação supplicante:
-
-—E se houver desordem?...
-
-—Eu farei que haja paz, minha filha.
-
-—Então vaes na idéa de te envolveres na desordem?
-
-—Não, filha, vou na ideia de evital-a. Limpa as lagrimas, Christina, não
-appareças assim diante de teu pai, que me accusará de duro para ti. Bem
-sabes que sagrado dever eu vou cumprir, minha filha.
-
-Sahiram.
-
-Raro academico faltou ao sahimento do cadaver. As alas negras moviam-se
-vagarosas, tristes e com os olhos em terra. Ao lampejar das tochas
-rebrilhavam muitas lagrimas.
-
-Guilherme Lira morrera propugnando pelos brios academicos, diziam: era
-um engano. Guilherme morrera, suicidando-se. É verdade que, no correr de
-quatro annos, mão terrorista pesára sobre a gente coimbran, avêssa aos
-academicos, de cujo pão vivem. Soldados e verdeaes respeitavam a batina,
-porque Guilherme Lira vestia uma. Sobravam razões de gratidão áquelle
-desgraçado; mas o seu morrer, o derradeiro arrojo, não era já valentia;
-fôra um ir metter o peito ás espingardas que o abocavam.
-
-Foi o cadaver lançado á cova. N’este acto, Casimiro sahiu de entre a
-multidão que rodeava a sepultura, e lançou sobre o cadaver a primeira pá
-de terra. Depois cruzando as mãos sobre o peito, e sem desfitar os olhos
-da cabeça empannada e ensanguentada do morto, disse:
-
-—«Alli está a mocidade e a força; alli está um mancebo que deixou mãi
-n’este mundo; n’isto parou o grande alento d’onde os infortunios da vida
-desviaram as torrentes dos influxos do céu. Este homem seria um anjo do
-bem, se melhores condições da mocidade o não houvessem saturado de odio
-contra o mundo. Eu sei a historia d’esta existencia perdida, senhores.
-Este moço era bom; derramou inutilmente os balsamos do coração; achou-se
-vasio de amor; e repletou-se de peçonha e odio. Cansou-lhe a coragem
-para a resignação; sobreveio-lhe o delirio da vingança, vingança cega,
-sêde voraz de sangue; mas observai, senhores, que a tentação nem sempre
-venceu o instincto do céu com que fôra dotado este moço. Aquelle homem
-teve tantos amigos, tantos que, entre vós, um só não ha que se peje de
-mostrar as lagrimas. As minhas seria vergonhoso que se não vissem: eu hei
-de choral-as longo tempo... Vós sabeis que as portas do carcere se me
-abriram hoje, porque esta sepultura vai ser fechada. E eu, na presença de
-centenaros de testemunhas, e por aquella redemptora cruz, vos juro que
-acceitaria a minha prisão perpetua em troca da vida d’este homem, que era
-vosso, assim como tinha sido meu defensor...»
-
-—Vingança! vingança!—bradaram algumas vozes de estudantes, que agitavam
-os gorros, e as tochas.
-
-Espectaculo para terror era aquelle em volta de um cadaver!
-
-E o brado, conglobado de mil brados, respondeu:
-
-—Vingança!
-
-Casimiro ergueu a mão, pedindo silencio, e exclamou:
-
-—Paz! paz! é que eu vos peço, em nome de vossas mãis, em nome das cans
-do velho pai, que espera amparar-se em vosso braço! em nome de vossas
-irmãs que fiam do vosso auxilio o seu futuro! em nome das almas candidas
-que vos sorriem ao coração dias de maior felicidade! Paz vos peço eu,
-meus amigos, apontando-vos este moço que está por aquelles labios frios
-contando o que é a desordem, o que é a guerra, o que é desencaminhar-se
-um homem da estrada, onde ha espinhos, para tomar pela estrada onde ha
-abysmos. Que util lição, que excellente preceptor não está sendo este
-cadaver! Lembrai-vos, senhores, que este moço tem mãi.
-
-Entrai com o espirito no coração das vossas. Avaliai o amargor das
-lagrimas que verterá cada uma das santas do amor, se um de vós cahir
-n’aquell’outra sepultura. Consenti que eu falle n’este instante pelo
-brado de todas, e vos peça o que ellas supplicantes a cada um de vós
-pedem: «Paz, meu filho!»
-
-Callou-se Casimiro. Respondeu o ciciar da respiração alta do immoto
-auditorio. Retirou-se elle da margem da cova, e caminhou triste por entre
-a multidão, que deixára pender o braço sobre a arma escondida sob a capa.
-D’ahi a pouco, os academicos debandavam em grupos, e o silencio d’aquella
-sepultura estendeu-se pela face da cidade.
-
-Ao sahir do cemiterio viu Casimiro diante de si a esposa, o sogro, o
-vigario e Peregrina.
-
-—Viemos ouvir-te, filho—disse commovido o velho.
-
-—É superior á nossa admiração, sr. Casimiro!—disse o vigario.
-
-—Eu sou apenas superior aos maus pela virtude de os lastimar—respondeu
-Casimiro, dando o braço ao sogro, cuja sensibilidade lhe quebrantava as
-forças.
-
-Desde logo, a pedido de Ruy de Nellas, começaram as senhoras os aprestos
-para a jornada no dia immediato á tarde. O velho futurava o rompimento de
-alguma revolução academica, a intervenção pacificadora de Casimiro, e a
-fortuita desgraça de ser empenhado pela honra a coadjuvar o partido dos
-estudantes.
-
- * * * * *
-
-A esta hora, meia noute seria, D. Alexandre de Aguilar, infamado,
-despresado, e solitario na sua angustia, esvasiava garrafas de cognac,
-no intento de aturdir-se e responder com a gargalhada do ebrio ao grito
-da vergonha. Os deploraveis perdidos, que se valem d’esta triaga, parece
-que a si proprios se estão castigando com mais crueza do que poderia
-castigal-os a justiça humana. Noute alta, o ébrio batia com a cabeça
-nas vidraças de sua janella, farpava a face nas arestas dos vidros, e
-rugia imprecações contra Deus. As patrulhas acummulavam-se á sua porta,
-e gargalhavam das estupidas objurgatorias do moço. Acudiam os academicos
-visinhos, e bradavam-lhe:
-
-—Calla-te ahi, miseravel; afoga-te em cognac; não appareças mais á luz do
-sol; mas calla-te, besta, que, para seres fera, só te falta a bravura.
-
-O tumulento fitava o ouvido, e respondia com roucos insultos requintados
-em obscenidades de alcouce.
-
-De madrugada, o neto dos Parmas d’Eça acordou de frio que tinha o peito
-ensopado no proprio vomito.
-
-Sentou-se, circumvagando os olhos espavoridos por sobre a desordem que o
-rodeava. Ergueu-se cambaleando, recahiu n’uma poltrona, escondeu o rosto
-entre as mãos, e chorou.
-
-Oh! aquellas lagrimas é que não eram infames.
-
-O desgraçado lembrou-se que, cinco annos antes, tinha mãi, e que a
-prophetica senhora muitas vezes lhe dissera: «Presagia-me o coração que
-has de ser desgraçado, meu filho.»
-
-—Porque?—perguntava elle.
-
-—Porque tens dezesete annos; sahiste hontem do collegio e já hoje
-escarneces a religião de teus pais. Assim tão cedo deixaste estragar o
-coração!... D’aqui a annos, nem por amor do teu nome, nem por calculo,
-serás honrado!
-
-E, cinco annos depois, e só então, lhe lembraram as palavras de sua
-mãi!... Era o seu anjo da guarda que as recebera então, e agora lh’as
-offerecia á memoria, como lenimento unico d’aquella funda ulcera do
-descredito, desgraça, e infamia.
-
-Na noute d’esse dia, D. Alexandre desappareceu de Coimbra, foi caminho de
-Lisboa, d’ahi pediu sua legitima a D.Sueiro e sahiu de Portugal. Ha vinte
-e tres annos que foi, e não voltou.
-
-
-
-
-XVIII
-
-Mãi!
-
-
-Ás duas horas da madrugada do dia seguinte ao das scenas descriptas no
-anterior capitulo, chegou á porta da hospedaria, chamada do _Paço do
-Conde_, uma carruagem, tirada por duas parelhas. Abertas as portas, apeou
-uma senhora, dando a mão a um padre velho que descera primeiro, e logo
-a creada. O padre, respondendo á pergunta do creado do hotel, disse que
-a senhora condessa de Asinhoso tomaria um caldo de gallinha, e voltou a
-receber as ordens de s. ex.ª
-
-—Pergunte padre Francisco—disse ella—se hoje foi o julgamento de um
-academico chamado Casimiro de Bettancourt.
-
-O padre foi cumprir, dizendo entre si: «que importa á senhora condessa o
-julgamento do academico, chamado Casimiro de Bettancourt? Pois será para
-assistir á audiencia que ella vem a Coimbra com viagens forçadas?!»
-
-Volveu o padre, dizendo:
-
-—É uma historia interessante, que parece novella, a tal do academico,
-senhora condessa. Em resumo, conta o estalajadeiro que, estando para ser
-julgado o reu, e forçosamente condemnado, appareceu a declaração d’outro
-academico, que mataram antes de hontem, confessando-se o matador. Em
-consequencia do quê, o tal Bettancourt foi posto em liberdade.
-
-—Graças, graças, meu Deus!—exclamou a condessa ajoelhando.
-
-O padre empedreniu-se, e encarou na creada tambem estupefacta: nenhum
-ousava tugir um monossyllabo.
-
-Ergueu-se a condessa, e enviou de novo o capellão a pedir ao dono do
-hotel a bondade de fallar com ella por alguns minutos.
-
-O estalajadeiro vestiu a casaca, esperou na sala a senhora condessa.
-
-Interrogou-o ella ácerca de todas as miudezas concernentes á soltura
-de Bettancourt. O informador relatou-as todas, desde as severas lições
-que o academico dera a D. Alexandre, até ao lindo discurso, dizia elle,
-que o amigo de Guilherme Lira improvisára á beira da sepultura: e n’uma
-especie de apostilla á narrativa contou a esquecida circumstancia de
-ter irrompido inesperadamente pelo tribunal dentro o fidalgo, sogro do
-estudante.
-
-—Pois elle está em Coimbra?!—interrompeu vivamente a condessa.
-
-—Vi-o eu, minha senhora! É um velho bonito! basta vêl-o para se dizer:
-«aquelle é um fidalgo dos antigos tempos!»
-
-—Sabe onde mora Casimiro Bettancourt?
-
-—Sei, minha senhora.
-
-—De manhã tem a bondade de me guiar a casa d’elle?
-
-—Pois não, senhora condessa?
-
-O capellão, cujo quarto era sob o pavimento dos aposentos da condessa,
-apesar de contuso e moido dos solavancos da carruagem pelas barrocas da
-estrada real de 1840, não poude adormecer, ouvindo até á madrugada os
-passos da illustre dama, e o abrir e fechar de portas d’uma janella.
-Certo fôra que a condessa nem sequer encostára a face ás almofadas do
-leito, e, de quarto em quarto de hora, ia impaciente abrir a janella e
-ver se rompia a alva.
-
-Assim que aclarou o céu, já a senhora despertou a creada para lhe dar do
-bahú outros vestidos e ornatos.
-
-Ao nascer do sol, estava s. ex.ª vestida a rigor de viuva opulenta:
-modestia elegante, pompa meio velada pela côr escura do estofo.
-
-O egresso, que perdera a esperança de adormecer, levantou-se, e foi á
-antecamara receber as ordens da condessa. Sahiu ella a dizer-lhe que
-tomaria uma chavena de café, e ás nove horas sahiria acompanhada de sua
-reverendissima.
-
-Sua reverendissima, vendo-a assim adereçada, consentiu que o demonio da
-maledicencia lhe encavalgasse o espirito: «Dar-se-ha caso, dizia elle
-comsigo, que a condessa esteja namorada d’esse Bettancourt? Querem ver
-que esta senhora, aos quarenta e seis annos, tresvaliou, e vai destruir
-o bom nome que está gosando?? Mas não!—monologou elle, tornando sobre
-si—Vai-te espirito aleivoso que me tentas! Aqui anda segredo que eu vou
-saber logo! Esta senhora é o typo da honestidade, e o modelo das viuvas
-honradas.
-
-Ás nove horas sahiu a condessa, com o seu capellão e o estalajadeiro.
-
-Chegaram defronte da pequena casa da Couraça dos Apostolos.
-
-—É aqui—disse o guia.
-
-—Obrigada. Póde ir, que eu demoro-me.
-
-Subiu a dama a declivosa escadinha, e bateu á porta do topo. O capellão
-seguiu-a, gemendo.
-
-Abriu uma creada a porta.
-
-—Posso fallar ao sr. Ruy de Nellas?—disse a condessa.
-
-Foi a creada á saleta em que as duas familias estavam almoçando, e
-noticiou que era uma senhora ricamente vestida a perguntar pelo sr. Ruy
-de Nellas.
-
-—Quem póde ser?!—reflectiu o fidalgo.
-
-—Abre o meu quarto de estudo, e diz á senhora que entre—disse Casimiro.
-
-Quando a creada sahia da saleta, já a condessa estava á entrada, dizendo:
-
-—Não sou de ceremonias, vou entrando, porque já conheci a voz do mano Ruy.
-
-Levantaram-se todos. O velho abriu os braços, e ficou de braços abertos,
-e bocca tambem aberta.
-
-A condessa chegou-se ao alcance do abraço, e disse:
-
-—Parece que o mano duvida...
-
-Duvido...—balbuciou elle—pela mesma razão que não devia duvidar... Tu
-tens vinte e cinco annos, Eugenia! Estás como te vi sahir de Pinhel!
-
-—Cuidei que lisonjas eram desusadas entre irmãos, Ruy!... Pois eu
-dir-te-hei que estás bastante alcançado. A vida de provincia é menos
-salutar do que dizem as pessoas que envelhecem na corte. Senta-te, Ruy, e
-dá-me uma chavena do teu café.
-
-—Tu aqui, mana!... tu aqui!...—voltava o fidalgo—Deixa-me convencer bem
-de que estou acordado! Quem é aquelle senhor?...
-
-—É o meu capellão.
-
-—Sente-se, sr. padre capellão, sente-se.
-
-—Qual d’estas meninas é a tua filha?—perguntou a condessa.
-
-—É esta, aqui tens a minha Christina.
-
-A condessa beijou-a, abraçou-a, e mandou-a sentar.
-
-—Este é meu genro—continuou o velho apresentando-lh’o.
-
-Casimiro deu um passo, e curvou reverentemente a cabeça.
-
-—Este é que é o sr. Casimiro Bettancourt?—disse a condessa apertando-lhe
-a mão.
-
-E a mão ardia, tremia, e apertava extraordinariamente.
-
-—As outras pessoas,—concluiu Ruy—são filhos do meu coração: aquella é a
-minha Peregrina, e aquelle o meu padre João. Lembras-te, Eugenia, do José
-Ferreira da Rochousa, nosso caseiro?
-
-—Lembro.
-
-—Pois são filhos d’elle que eu herdei. Aquell’outro, que alli vês, é
-Ladislau, marido de Peregrina.
-
-—E estas duas creancinhas?
-
-—Uma é minha neta e tua sobrinha, primogenita e unica de Christina, a
-outra é filha de Ladislau.
-
-A condessa, ouvindo o irmão, a cada instante relanceava os olhos a
-Bettancourt, unico da comitiva, que ficára de pé, no intento de servir a
-hospeda, e dar a sua cadeira ao capellão.
-
-—Senta-te, Casimiro—disse o velho—Aqui tens, Eugenia, o meu orgulho,
-a minha gloria, o meu Casimiro sem mancha de culpa, com a sua honra
-illibada! Não foi preciso appellarmos para Lisboa. A justiça de Deus veio
-mais cedo do que a esperavamos. Eu te conto como isso foi...
-
-—Sei tudo—atalhou a irmã—Já me informaram na hospedaria.
-
-—Mas como estás tu aqui, mana?—tornou Ruy—Vinhas munida, talvez, de
-cartas para alcançares a absolvição de teu sobrinho em Coimbra?
-
-—Não, Ruy—tartamudeou a condessa.
-
-—Então que palpite foi esse de te botares ao caminho, sem saberes a
-decisão do julgamento?!
-
-—Dizes bem, Ruy... foi um palpite...
-
-—Bem hajas tu que vieste dar o remate á nossa satisfação! Agora vais
-comnosco para Pinhel, não é assim?
-
-—Irei. E hoje janto comvosco.
-
-—Isso estava sabido!... pois então?!
-
-A condessa disse a padre Francisco:
-
-—Póde ir, e descansar á sua vontade, padre capellão, que eu passo aqui o
-dia. Queira dar esta parte á creada.
-
-Sahiu o padre, e todos passaram ao quarto de estudo de Casimiro, que era
-a parte mais alegre e arejada da casa.
-
-—Estou entre amigos!—disse com um profundo suspiro a condessa—É a
-primeira vez na minha vida que digo isto!
-
-Ruy comprehendeu a irmã, relembrou a mocidade dolorosa de Eugenia, e fez
-um gesto compassivo, e outro que significára: «Não lembremos o que lá
-vai.»
-
-Porém, Casimiro, impressionado d’aquellas palavras disse respeitosamente:
-
-—As felicidades de v. ex.ª não devem ter sido invejaveis!... Em volta da
-riqueza, da formosura, e de um nome distincto costumam reunir-se muitos
-amigos... ou, pelo menos, muitos que o parecem...
-
-A condessa encarou n’elle com penetrantes olhos, e disse:
-
-—Lastima-me, não é verdade?
-
-—Minha senhora—balbuciou Casimiro—peço perdão... não quiz dizer que
-lastimava v. ex.ª... Quaesquer que tenham sido suas magoas, a sua elevada
-posição não consente que eu me condôa...
-
-—Está bom, está bom—atalhou Ruy—não se falla aqui em magoas, nem dó, nem
-lastimas! Este meu Casimiro tem uma propensão para discursos tristes, que
-nunca vi!... Olha que hontem á noute, mana, o que elle disse á beira da
-sepultura do Guilherme, ia arrancar ao fundo do coração as lagrimas de
-quem nunca tivesse chorado!
-
-—É porque eu dava o exemplo, chorando, sr.ª condessa—ajuntou Casimiro.
-
-—E deve ter chorado muito!—disse ella.
-
-—Pouco, minha senhora. Sou um homem muito resignado, ou muito forte. A
-mim as grandes angustias levemente me abalam. Algumas vezes tenho chorado
-por cousas insignificantes. Posso ver a olhos enxutos morrer minha filha,
-e não poderei ouvir sem lagrimas o piar de uma ave, a quem mataram os
-filhos no ninho. Isto será deformidade de organisação; mas dureza de alma
-não é, minha senhora... Meditando na minha indole, vim a considerar que
-para mim o incentivo das lagrimas é uma certa poesia funebre e maviosa,
-sensação que eu não sei d’outro modo definir; ao passo que as desditas
-positivas, cerradas e suffocantes regelam-me a alma.
-
-—Elle ahi está a fugir para a tristeza!—interrompeu o fidalgo.
-
-—Deixa-o fallar, mano...—pediu a condessa.
-
-—S. ex.ª tem rasão...—disse Bettancourt eu sou incorrigivel e tenho
-contagio. Aqui está a minha Christina absorvida tambem na sua meditação...
-
-—Não—acudiu Christina—eu estava a pensar com alegria nas tuas tristezas
-passadas, meu Casimiro.
-
-—E todos com o passado ás voltas!—clamou Ruy—Fallem no presente,
-descubram o futuro, e não me afflijam, que vai aqui tudo raso! Querem ver
-que a minha Eugenia tambem é melancolica? Em pequena eras muito, menina!
-O teu gosto eram sombras de arvores, fontes, ver o céu de noute... Aqui
-estou eu tambem a fugir para traz trinta e tantos annos! Bem diz o
-Casimiro que a sua scisma é pegadiça!...
-
-—Mas olha, mano, deixa-me conversar com o teu genro, que o passado te
-aborreça...
-
-—O que eu observo, Eugenia, é que tu sympathisas grandemente com elle!...
-
-—Porque não!?
-
-—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Casimiro.
-
-—Isso quando se diz, faz-se.
-
-—O quê, senhora condessa?
-
-—Disse que me beijava as mãos... então... beije.
-
-Casimiro inclinou-se, e beijou de leve a mão da dama, que lhe apertou
-vertiginosamente a d’elle.
-
-Este visivel estremecimento impressionou Christina e Peregrina, que se
-encararam de um modo que podia ser duvidar do bom senso da condessa.
-
-—Vamos conversar, sr. Casimiro—disse Eugenia—Queira sentar-se ao meu
-lado. Meu mano já me disse que o sr. era filho de um militar, que morreu
-no cêrco do Porto.
-
-—Sim, minha senhora, sou filho de Duarte Bettancourt.
-
-—Conheceu seu pai? Onde estava quando elle morreu?
-
-—Conheci meu pai. Vi-o em 1830 pela ultima vez. Estava eu no collegio dos
-Nobres, quando elle morreu.
-
-—Sabe em que anno nasceu?
-
-—Sei-o dos proprios apontamentos de meu pai.
-
-—Escriptos por elle mesmo?
-
-—Sim, minha senhora.
-
-—Dá-me licença que os veja?
-
-—Por que não, sr.ª condessa? Aqui está a velha carteira de meu pai...
-
-A condessa tomou da mão de Casimiro, com sofrega ancia, a carteira, que
-folheou.
-
-—Onde é?—disse ella convulsiva.
-
-—Aqui, minha senhora—respondeu Casimiro indicando-lhe a pagina, que a
-condessa leu:
-
-_Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816. Foi baptisado em S.
-Domingos de Santarem aos 22 do mesmo mez. Foi creado no Cartaxo d’onde
-sahiu em 1820..._
-
-A condessa murmurava ainda; mas não lia o restante da nota. Fechou a
-carteira, e voltou-a nas mãos, remirando-a. Depois, pregou os olhos no
-rosto de Casimiro, e permaneceu n’este spasmo alguns minutos, até que
-muito do fundo do seio lhe sahiu um grito estridente, e uma explosão de
-lagrimas em que a luz da vista parecia innevoar-se.
-
-—V. ex.ª soffre!...—disse Casimiro.
-
-E acercaram-se todos da condessa, que, tomando a mão de Bettancourt,
-ergueu-se de impeto e disse-lhe:
-
-—Leve-me a uma janella... dê-me ar, e uma gotta d’agua.
-
-—São nervos!—observou Ruy—É da casa, que é abafada... Abram todas as
-janellas... Queres tu descer ao quintal? Vai com ella, Casimiro... Vamos
-todos.
-
-—Estou melhor—atalhou D. Eugenia—Já respirei...
-
-—Costumam dar-te estes accessos, mana?
-
-—Costumam...
-
-Sentou-se de novo, reparando na carteira, e outra vez se lhe tingiu de
-escarlate febril o rosto.
-
-—Mysterio!—disse o vigario ao ouvido do cunhado.
-
-—Que cuidas?!—perguntou Ladislau...
-
-—Esperemos.
-
-A condessa affastou das fontes os cabellos empastados de suor, e disse
-cortando as palavras de suspensões, que pareciam o abafar de mão estranha
-na garganta:
-
-—Casimiro esteve no collegio dos Nobres até...
-
-—Até 1834, minha senhora—respondeu o filho do major.
-
-—E depois...
-
-—Como perdi meu pai, fui a Pinhel procurar amparo de parentes pobres.
-
-—E nunca viu no «Diario do Governo» um annuncio perguntando se existia um
-filho do major Duarte Bettancourt?
-
-—A Pinhel nunca chegou esse jornal—disse Casimiro—E quem se interessava
-em saber se eu existia?
-
-—Quem?...
-
-—Sim, minha senhora.
-
-—Era eu.
-
-—V. ex.ª!—acudiu Casimiro com assombro.
-
-—Com que fim eras tu, Eugenia?—perguntou o fidalgo.
-
-A condessa fitou a vista incendiada no irmão; e disse:
-
-—Com o fim de saber se existia... meu filho!
-
-Assim devia ficar uma familia de Pompeia, de subito, empedrada na invasão
-da lava fulminante. Uns a outros, com olhos pavidos, pareciam pedir o
-claro sentido d’aquellas palavras.
-
-Casimiro sentiu lavaredas no seio e descerrou os labios á expedição
-do lume. Estrondeavam-lhe no encephalo umas allucinações de ebrio.
-Dos olhos de sua mãi afuzilavam umas como frechas que lhe cortavam
-de lampejos o curto espaço de ar intermedio. Para os outros, ha só o
-termo «estupefacção» que os descreva. A condessa oscillava outra vez
-assoberbada pela commoção nervosa; já se não sustinha, com as mãos
-apoiadas nas costas da cadeira. Levantou-as, estendeu os braços como a
-pedir amparo. Encontrou o seio de Casimiro, e n’elle inclinou a face,
-exclamando:
-
-—Meu filho!...
-
-Mas isto tudo é um sonho!—disse Ruy de Nellas, levando as mãos ás fontes.
-
-Casimiro ajoelhou com a mãi nos braços. As duas senhoras, sem segura
-consciencia do que faziam, foram amparar a condessa. O vigario pôz
-as mãos em attitude de quem ora. Ladislau cruzou os braços no peito
-contemplando o grupo.
-
-De subito, Casimiro afastou um pouco a face, contemplou o rosto pallido
-da condessa, beijou-a na fronte e disse:
-
-—Tenho mãi, meu Deus!... Eu sabia que a tinha, e havia de encontral-a!...
-
-Então, chorou, a torrentes!
-
-Se não chorasse enlouquecia.
-
-
-
-
-XIX
-
-Paz e contentamento
-
-
-Decorridas algumas semanas, o casamento de Casimiro Bettancourt com sua
-prima carnal D. Christina de Nellas era validado pelo nuncio apostolico,
-dispensando no parentesco, e saneando a ingnorada irregularidade. A
-condessa perfilhava Casimiro para lhe segurar a successão de seus grandes
-cabedaes. Casimiro, porém, com quanta delicadeza e respeito a ternura
-filial lhe inspirou, disse que só acceitava a perfilhação para ser seu
-filho, e não seu herdeiro. Ficou interdicta, e alheia da intenção da
-resposta, a condessa. O filho esclareceu assim a propria demencia:
-
-—Minha mãi herdou de seu marido: eu, filho de outro homem, que morreu
-pobre, peço licença para ser estranho aos haveres do sr. conde de
-Asinhoso. Eu sou filho de D. Eugenia de Nellas. Minha mãi ainda tem a sua
-legitima n’esta casa de Pinhel. Essa acceito-a como dote para egualar o
-patrimonio de minha mulher.
-
-—Pois sim, filho, faça-se a tua vontade—disse a condessa.—Por minha
-morte ficarás agricultando algumas geiras de terra em Pinhel, que valerão
-doze mil cruzados. Ficarás sendo um lavrador dos menos abastados da
-comarca. Minha sobrinha Guiomar virá senhorear-se do vinculo e da casa
-que é vinculada. Tu com tua mulher e filhos irás viver no casal da
-Rechousa, ou n’outro semelhante, que ameaçam ruina.
-
-—As paredes abaladas especam-se, minha querida mãi; a dignidade aluida é
-que nunca mais se repara. Eu amo a mediania, que é o refugio da paz. As
-lições da vida deu-m’as o lavrador de Villa Cova. Minha mãi prometteu-me
-ir ver de perto a casa de entre serras, aquelle abrigo de honrados e de
-santos. Venha commigo alli estar uns dias, e v. ex.ª olhando d’alli para
-o céu, dirá: «se ha paraizo na terra, se ha bem no mundo, é aqui».
-
-—Iremos, filho: eu tambem o desejo. Já estou convidada para ser madrinha
-do segundo filho de Ladislau. Bem vês que ando a cuidar-lhe do enxoval.
-
-E, logo na semana seguinte, partiram todos para Villa Cova, e as meninas
-solteiras de Pinhel tambem.
-
-Quem é este homem de jaqueta de panno azul e colete encarnado, e chapeu
-braguez que vai a pé, ao lado da egua em que monta a condessa?
-
-É mestre Antonio—o carpinteiro.—Alli vai conversando em obras, que é
-preciso fazer aqui e acolá, nas casas arruinadas do fidalgo. A condessa
-trabalha por tirar este homem do officio: offerece-lhe dinheiro para
-erguer casa, e comprar bens. Mestre Antonio responde:
-
-—Fidalga, grande nau grande tormenta! Deixe-me cá com a minha vida que
-vou bem assim. Meu filho brazileiro manda-me duzentos mil réis cada anno,
-e eu, a fallar verdade a v. ex.ª, tenho-os alli para uma gaveta, sem
-saber de que me servem. A minha alegria é o trabalho. Em pegando dous
-dias-santos, ando como tolo sem saber em que hei de gastar o tempo.
-
-—Mas gaste-o em trabalhar nos seus bens.
-
-—Nos meus bens trabalho eu, sr.ª condessa. Logo que me pagam o serviço,
-alguma cousa tenho dos bens em que trabalho.
-
- * * * * *
-
-Ficarás, por tanto, carpinteiro, honrado homem, mas homem honrado, toda a
-tua vida!
-
- * * * * *
-
-Custa a caber tanta gente na casa de Villa Cova! Armam-se leitos de
-bancos nos cazarões das tulhas. O quarto solemne dos padres é consignado
-ao fidalgo. A condessa occupa o de Peregrina. Que feliz barafunda alli
-vai! Os creados vem carregados de caça dos montes. O fidalgo quer ir á
-cosinha fazer umas troixas de ovos, cuja receita lhe deram os anjos. A
-condessa anda lá pelos campos a correr atraz da nétinha. As irmãs de
-Christina sobem á lapa da Crasta e entram de lá a berrar que lhes acudam,
-que as comem os lobos. O capellão da condessa, acertando de encontrar na
-livraria dos padres Militões as cartas manuscriptas de fr. Bartholomeu
-dos Martyres, persegue toda a gente para que lhe ouçam ler as cartas e os
-commentarios soporiferos d’elle.
-
-Quem mais o atura é Casimiro que foge do bulicio para a livraria defeza
-ás corrimaças das cunhadas.
-
-Chega o dia do baptisado, e n’esse dia apparece inesperado em Villa Cova
-um tabellião de Pinhel, a rôgo da sr.ª condessa de Asinhoso. Lavra-se uma
-escriptura. É uma doação que faz a mãe de Casimiro ao seu afilhado Ruy,
-filho de Ladislau. Dôa-lhe quinze mil cruzados em inscripções nos Bancos
-de Portugal, em virtude dos muitos e impagaveis favores que devia a seus
-pais.
-
-Casimiro abraça sua mãi, e exclama:
-
-—A virtude é engenhosa, minha querida amiga!
-
-Os pais do menino beijam-lhe a mão, e Ladislau diz:
-
-—Com a condição de que meu filho conservará o deposito como patrimonio
-dos desgraçados: mande v. ex.ª escrever esta clausula na escriptura.
-
-—Ladislau—disse a condessa—já lh’a deve ter escripta no coração.
-
- * * * * *
-
-Alli se detiveram trinta dias. De Pinhel, em cada semana, vinham cargas
-de viveres. Ladislau sentia-se, e o fidalgo respondia:
-
-—Isto é para o capellão da mana condessa, que lê muito as cartas do
-fr. Bartholomeu; chora de enthusiasmo; mas não o imita na temperança.
-Seria capaz de engulir o santo, o bom do egresso, se o pilhasse! Sem
-este contrapeso de vitualhas, amigo Ladislau, eramos todos victimas
-da gulodice do padre. Vamos lançando estes bocados ao Acheronte, que
-promette, ao contrario do outro, levar-nos para o céu, se não adormecer
-no meio do caminho.
-
-A alegria dava graça ao velho, que, em geral, era semsaborão.
-
-Na volta para Pinhel trouxeram comsigo a familia de Villa Cova, salvo o
-vigario que voltou ao amor do seu rebanho.
-
-Sahiu para Lisboa o capellão da condessa com ordens ao procurador para
-vender o palacio, os trens, os primores da Asia, que opulentavam a triste
-vivenda da viuva. Triste, sem um amigo, como ella dizia. Ao mesmo tempo,
-o egresso cumpriu outras ordens com referencia ao ministro da justiça.
-Ultimado tudo, voltou o padre a Pinhel: ia reloucado de prazer, porque,
-á ultima hora, soubera que fôra nomeado conego da patriarchal. Beijou as
-mãos á condessa.
-
-—Vá—disse-lhe ella sorrindo—vá imitar na pobreza ecclesiastica o seu
-predilecto Bartholomeu dos Martyres.
-
-Na mesma data era nomeado conego da sé da Guarda o padre João Ferreira.
-
-O vigario, avisado na sua pobre parochia, foi a Pinhel, depositou a mercê
-nas mãos da condessa, e disse:
-
-—Perdoe-me v. ex.ª a recusa: eu não posso separar-me de minha mãe e
-cunhado. V. ex.ª não quer que eu me deixe alli viver á sombra das
-virtudes dos padres de Villa Cova.
-
-—Eis aqui um padre novo, que destôa das doutrinas do meu velho
-capellão!—disse a condessa—Pois sim, padre João, vá para o seu
-presbyterio, e venha ver-me muita vez, e tome á sua conta a minha velhice.
-
-Christina contou a sua tia e sogra os menores incidentes do seu namôro, e
-mostrou-lhe o José-pastor que tão util e leal lhe fôra.
-
-Chamou a fidalga José-pastor e mandou-lhe que dissesse a razão por que
-fizéra aquelles serviços ao sr. Casimiro e á menina.
-
-O rapaz respondeu:
-
-—Era toda a gente contra elles, e eu disse cá c’os meus botões: ora deixa
-estar que eu vos dou nas ventas para traz.
-
-—E nunca te deram nada?
-
-—Elles que me haviam de dar, fidalga??
-
-—Então fazias tudo sem interesse?
-
-—O que eu queria era vel-os casados. A menina estava lá em cima fechada
-a chorar, e o sr. Casimiro andava lá por longe escondido... fizeram-me
-muita pena! Foi o que foi.
-
-—Queres tu ser padre?—perguntou a condessa.
-
-—Padre?!
-
-—Sim.
-
-—Não, senhora. Antes queria ser sargento.
-
-—Sargento!... mas tu és muito rapaz ainda para assentar praça.
-
-—Posso assentar praça de tambor, que os tambores são do meu tamanho.
-
-—És tolo, rapaz! Queres tu estudar para depois ser official?
-
-—Eu já sei ler, que me ensinou o sr. Casimiro.
-
-—Pois sim; mas agora vais aprender outras coisas para Lisboa.
-
-—E leva-se lá bordoada de cego?
-
-—Não, patarata, ninguem lá te bate.
-
-—Então, se a fidalga quer, e o fidalgo deixar, vou.
-
-E foi para a Polytechnica de Lisboa, com recommendação da condessa.
-
-D. Sueiro de Aguilar teve noticia d’estes successos estupendos. Sentiu
-guinadas de fazer as pases com a familia de Villa-Cova, e por um cabello
-se não descobre n’esta extrema de despejo. Guiomar ainda escreveu a sua
-tia, cumprimentando-a pela sua chegada. A condessa respondeu: «agradeço o
-cumprimento de minha sobrinha, e faço votos pela sua felicidade.»
-
-Esta sequidão irritou D. Sueiro, que se desentranhou em apostrophes
-contra a canalha de Pinhel. A tia de sua mulher foi exposta á irrisão dos
-seus hospedes, na presença da sobrinha. Repetiram-se os vilipendiosos
-amores que deram o filho natural, sobrinho do carpinteiro. Desde este
-facto, D. Guiomar odiou o marido, cuja hediondez de caracter só podia ser
-avantajada por D. Alexandre.
-
-Tratou a condessa de casar suas sobrinhas, com auxilio dos seus haveres.
-Accorreram pretendentes das duas provincias contiguas, e casaram
-todas com morgados, homens de bem, vaidosos de seus appellidos, mas
-inoffensivos, e virtuosos mesmo por vaidade de imitarem seus avoengos.
-As senhoras dispersas por aquelles palacetes solarengos reuniam-se em
-casa de seu pai, nas festas do anno, nos natalicios, e no anniversario do
-casamento de Casimiro. Esta clausula fôra instituida pela condessa.
-
-A tiro de peça de Pinhel, existiam uns casebres derrocados, onde nascera,
-segundo informações de mestre Antonio, seu cunhado Duarte Bettancourt,
-filho de um soldado da ilha de S. Miguel, que ficára na metropole, e
-alli estabelecera uma tenda. Comprou a condessa estes pardieiros aos
-possuidores, e mandou-os arrazar, e sobre elles edificar um obelisco
-cintado por grossa cantaria, com portas de ferro. Ia todos os dias ver a
-obra, que durou um anno, com os melhores alveneis da provincia. Concluido
-o obelisco, foi entalhada na base uma lamina de ferro com esta legenda:
-
- Á MEMORIA
- DE
- DUARTE BETTANCOURT
- MORTO NO SEU POSTO DE HONRA
- EM 1834
- MANDOU ERIGIR SEU FILHO
- CASIMIRO BETTANCOURT
- EM 1843
-
-Ruy de Nellas, lá muito no seu interior, não gostou da lembrança. Era a
-natureza a puchar por elle.
-
-N’este tempo, teve a condessa uma hora de muitas lagrimas.
-
-Casimiro, de proposito e por veneração, nunca lhe mostrára duas cartas,
-que conservava entre os papeis de seu pai, assignadas pela inicial _E._
-
-N’uma tarde, como estivessem sentados na base da columna, Casimiro tirou
-da carteira dous papeis dobrados e amarellecidos.
-
-—Que é isso, filho?
-
-—Veja, minha mãi:
-
-Abriu ella, e exclamou:
-
-—É minha a letra! Como possues isto?!
-
-—Minha mãi já deve saber como as possuo.
-
-A condessa leu soluçante, e beijou aquelle papel, que estivera nas mãos
-de Duarte. Leu a segunda, e, em meio da pagina, susteve-se afogada de
-ancias e lagrimas.
-
-Casimiro arrependeu-se da indiscripção, e acariciou-a, pedindo-lhe, pela
-memoria de seu pai, que vencesse a sua dor.
-
-Era este o contheudo da primeira carta:
-
-«Não soffras, D.—Conta com o meu valor. Parece-me que vou ser arrebatada
-para uma quinta do tio. Não sei qual. Eu te avisarei a preço de tudo. O
-mais que podem é matar-me meus irmãos. A minha alma irá identificar-se
-á tua: viverei sempre comtigo na terra, e amando-te de um mundo melhor.
-Socega, meu amigo. Se Deus vê a nossa innocente paixão, elle nos
-protegerá. Se não ha Deus para nós, seremos um para o outro. Tua, _E._»
-
-Esta carta devia ter sido escripta antes da ida para Camarate.
-
-A segunda dizia:
-
-«É horrivel esta oppressão! Tenho medo de morrer abafada pela angustia.
-Vem, approxima-te, dá-me alentos, se não prefiro antecipar a morte. Ai!
-que soledade! que abandono n’esta hora! Vem, vem, D., que eu queria
-ver-te antes de morrer! _E._»
-
-Presume-se que esta ultima carta foi escripta de Recaldim para Torres
-Novas, quando Duarte desceu de Bragança, a receber das mãos de Brites
-aquella creança, que alli está agora, homem, com o rosto de sua mãi
-apertado ao seio.
-
-Em seguida áquelle trance, a condessa acamou, e teve febre por longos
-dias. A presença do filho, magro, livido, triste como quem pede a
-primasia na morte ao lado de um enfermo em perigo, abrazou-a em supplicas
-ferverosas a Deus, pedindo a vida. Declinaram as febres, volveram
-esperanças e saude, e continuou o hymno de graças ao Senhor, entoado por
-aquellas duas familias que rodeavam o leito de Eugenia.
-
-Segura a convalescença, a condessa, prevendo que, por morte de seu irmão,
-a casa de Pinhel passaria á successora do vinculo, cuidou em construir um
-palacete em nome de Christina.
-
-Casimiro objectou que d’aquelle modo passava a seus filhos a casa do
-conde de Asinhoso.
-
-A mãi respondeu:
-
-—Quererás tu privar-me que eu beneficie minha sobrinha? Isto não tem
-nada que ver comtigo, Casimiro! As demazias da dignidade são uma
-impertinencia.
-
-
-
-
-Conclusão
-
-
-Passaram-se vinte e um annos.
-
-Ainda que o contrario se afigure a pessoas, que teem a boa sorte de não
-escrever romances, a conclusão d’um livro d’esta especie é dolorosa
-de fazer-se, quer os personagens tenham existido, quer vivessem, como
-chimeras queridas, na phantasia do escriptor.
-
-É doloroso, digo, porque ha ahi um facto formidavel e horrendo, que
-tanto vinga nos personagens verdadeiros como nos imaginados: é a morte.
-O romancista historico tem de matal-os em nome da historia: o romancista
-inventor tem de matal-os em nome da verosimilhança.
-
-Eu creio que o leitor denega sua fé aos successos que lhe contei. É
-injusto com a maxima parte d’elles. Ahi foram esboçadas umas pessoas que
-viveram, e outras que vivem com outros nomes e em outras terras. E por
-isso redobra a minha mágoa por não poder dizer que vivem todos.
-
-As duas sympathicas velhinhas, Brazia de Villa Cova e Brites de Recaldim,
-essas ha muito que já lá vão. Com isto privo o jornalismo do innocente
-gaudio de annunciar duas macrobias. Brazia morreu, como lá dizem, á
-imitação d’um passarinho, com oitenta e nove annos de idade, em seu
-perfeito juizo, e conformada com a vontade de Deus. Legou os seus
-ordenados de setenta e nove annos ao filho mais velho de Ladislau, e o
-seu ouro, composto de cordão e anneis, a Peregrina. É verdade que estes
-valores não chegaram para as missas de que ella onerou os herdeiros por
-sua alma e por almas idas ha tanto tempo que ou Deus as tinha comsigo, ou
-o descondemnal-as seria tardio intento. Brites lá se finou em Recaldim,
-poucos mezes depois da sahida de D. Eugenia para o Brazil. As desventuras
-da filha da sua menina minaram-n’a tanto que a saudosa velha, de dia para
-dia, se resvalou á sepultura, pedindo a Deus que a não castigasse por
-ter protegido a desgraçada senhora. Aquella Apollinaria da calçada dos
-Barbadinhos, que o leitor esqueceu, não esqueceu á condessa de Asinhoso.
-De volta do Rio de Janeiro procurou-a, achou-a pobre e cega, deu-lhe
-abundancia, empregou-lhe os filhos, e fez-lhe o enterro annos depois.
-
-Ruy de Nellas morreu em 1850, nos braços de Casimiro e Christina, unicos
-filhos que viu á hora da morte. O vigario de S. Julião d’Arga tão santos
-dizeres lhe fallou n’aquella tremenda hora, que o moribundo inclinou
-suavemente a cabeça, e expediu a alma ao seu creador, abençoando as
-filhas ausentes.
-
-Ao nono dia depois do fallecimento, a casa estava vasia, e D. Soeiro
-estava a empossar-se n’ella, instaurando logo demandas ás cunhadas, e
-articulando contra Casimiro Bettancourt um libello de subtracção de
-baixella vinculada: calumnia que nos tribunaes redundou em maior infamia
-do litigante.
-
-Christina, Casimiro e sua mãi passaram á casa construida. Ahi receberam,
-volvidos tres annos, D. Guiomar de Nellas, fugitiva do marido, que a
-martyrisava, tornando-a serva de suas creadas, com quem elle devassamente
-commerciava a morte lenta da esposa. Casimiro recebeu-a com respeito,
-Christina com amor, a condessa com a virtuosa indulgencia que aprendera
-na desgraça. A perseguição de D. Sueiro alli mesmo lhe cravou a seta
-hervada, fazendo-a intimar para se ir voluntariamente estender no potro
-de torturas. Casimiro tomou sua cunhada á sua guarda, depositou-a n’um
-mosteiro de Villa Real, e d’ahi requereu separação judiciaria, que
-conseguiu com illibados creditos. D. Sueiro, passados annos, morreu
-d’um tiro que por descuido se deu, andando á caça. Em Miranda vogava a
-suspeita de que o tiro lhe fôra desfechado por um lavrador vingativo,
-inconciliavel com a fidalga deshonra de sua irmã. Guiomar tomou cargo da
-educação de suas filhas, que não tinham educação nenhuma, e vive em paz e
-devotamente no seu palacio de Pinhel.
-
-Ladislau lá está em Villa Cova, saudoso do seu primogenito, que, ha
-dous annos, casou com Mafalda, filha de Casimiro, e foi viver em casa
-do sogro. Ruy, seu filho segundo, está-se ordenando para, no futuro,
-continuar a missão dos sacerdotes d’aquella casa. O matrimoniarem-se
-aquelles dous primogenitos era plano feito desde o berço, e sanccionado
-pelo céu. Amaram-se desde infantes, e hoje adoram-se como seus paes.
-
-Mestre Antonio tambem já lá está no mundo das almas generosas e puras.
-Acabou a vida quasi sem erguer mão do trabalho. Como intrevasse aos
-sessenta annos, mesmo sentado no leito fazia bocetas para doce, ás quaes
-dava consummo a condessa, arrumando-as em rimas, e pagando-as por um
-preço que o artista aceitava, sorrindo á piedade da fidalga. Nunca foi
-possivel demovel-o de sua casa e da sua officina! Ponha o compositor os
-pontos de admiração que lhe parecer.
-
-Do vigario de S. Julião sabe tambem o leitor que não ha tiral-o d’alli.
-As virtudes do ultimo padre de Villa Cova é preciso lembral-as elle, que
-o povo, abençoando as que vê, esqueceu as outras. O egresso capellão
-da condessa, propendendo a bispo, fez-se politico, e fallava mais nos
-comicios eleitoraes que cantava no coro. Na vespera de ser nomeado, ceou
-com tres deputados de sua fabrica, e rebentou de madrugada, com grande
-terror das creadas, que affirmaram não cheirar bem o conego: o que é
-possivel e sem que a sua alma perdesse por isso.
-
-José Pastor, transformado em José de Castro Vieira e Silva (como elle
-arranjou isto!), é tenente de engenheiros, empregado nas estradas, com
-grandes vencimentos e creditos de habilidade. Estudou muito, fez a
-pontaria a engrandecer-se, não quiz saber de namoros, nem de theatros,
-nem de bailes, e medita em fazer-se deputado por alguma parte, no
-louvavel intuito de ser ministro das obras publicas: ministro, que hei
-de defender, posto que o considero mais de molde para os estrangeiros em
-vista da diplomacia de telhado, que o vimos tirar a limpo ha vinte e seis
-annos.
-
-A condessa de Asinhoso é ainda uma senhora robusta com os seus 67 annos.
-A felicidade é a saude. Em certos dias do anno vai visitar a memoria de
-Duarte Bettancourt, e depois sobe, a pé, a S. Julião ouvir missa por
-alma d’elle. Respeitavel piedade, cujo quilate só Deus póde avaliar, a
-despeito da censura hypocrita com que nós fingimos representar os juizos
-do Senhor.
-
-Aqui está o que podemos dizer d’estas familias. As outras filhas de Ruy
-de Nellas lá estão em suas casas, honrando seus maridos, e abençoando a
-mão liberal de sua tia que, em vida, vai disseminando a sua riqueza, já
-muito diminuta em comparação do que foi. Parece que o anjo da felicidade
-anda, de casa em casa, saudando, ora o lavrador de Villa Cova, ora o
-lavrador de Pinhel, ora o virtuoso de S. Julião; e dos actos de todos vai
-dar contas ao Senhor, que o reenvia com bençãos novas.
-
-
-
-
-Moralidade
-
-
-Occorre d’esta historia, natural e concludentemente que o coração do
-homem, formado na sciencia e nos costumes antigos, encerra a urna dos
-balsamos para as chagas dos corações formados á moderna. Exemplos tres
-vezes bemditos: o vigario de S. Julião da Serra, Ladislau Tiberio,
-Peregrina e Casimiro Bettancourt.
-
-Excellente seria que tivessemos muitas d’aquellas reliquias dos tempos
-obscuros, as quaes nos servissem como de quebra-luz, a fim de que a
-brilhante claridade dos mil lampadarios da civilisação nos não ceguem de
-todo.
-
-Aqui está, muito á flor da terra, a moralidade da historia, em que
-tentamos esboçar uma face do _bem_ e outra do _mal_ d’esta vida, tão
-infamada por uns como glorificada por outros.
-
-Senhor dos mundos! vós, quando creastes a brasa da sêde que requeima
-os labios do caminheiro do nosso deserto, mandastes ás areias que se
-desentranhassem em fontes! As fontes correm. E o impio sequioso bebe,
-consola-se e... injuria-vos.
-
-
-FIM
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] Antonio de Oliveira Soares, que de capitão de cavallos e costumes
-perdidos, passou a frade arrabido e vida muito penitente.
-
-[2] O leitor provavelmente não encontra no seu «Diccionario» o termo
-_reco_. O povo de Traz-os-montes, e de porção da Beira-Alta dá aquelle
-nome, cuja etimologia ignoro, aos cevados. Eu leio muito pelo diccionario
-inedito do povo d’aquellas provincias, que sabe a lingua portugueza como
-fr. Luiz de Sousa.
-
-[3] Nas aldeias do norte d’esta nossa terra tão pittoresca de linguagem,
-algumas vezes perguntava eu quantos annos tinha tal velhinho, e não
-entendia esta resposta: «já passa de dous carros» Vim depois a saber que
-lá se contam os annos a quarenta por cada carro, por analogia com o carro
-de pão de quarenta alqueires.
-
-[4] Aut Deus, aut bestia.
-
-[5] A «Sociedade da manta» era uma congregação de mancebos destemidos
-que tiveram Coimbra atterrada, e reagiam ao exercito, quando não achavam
-_futricas_ que escadeirar.
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of O Bem e o Mal, by Camilo Castelo Branco
-
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-
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- The Project Gutenberg eBook of O bem e o mal, by Camillo Castello Branco.
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-<body>
-
-
-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of O Bem e o Mal, by Camilo Castelo Branco
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: O Bem e o Mal
- Romance
-
-Author: Camilo Castelo Branco
-
-Release Date: July 12, 2020 [EBook #62624]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BEM E O MAL ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage"><span class="larger">OBRAS</span><br />
-DE<br />
-CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
-
-<p class="titlepage">EDIÇÃO POPULAR</p>
-
-<p class="titlepage"><b>VI</b></p>
-
-<p class="center larger"><b>O BEM E O MAL</b></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span></p>
-
-<p class="center larger">VOLUMES PUBLICADOS</p>
-
-<p class="center">Eis os titulos dos ultimos volumes:</p>
-
-<div class="hanging">
-
-<p>N.º 29—As virtudes antigas—Um
-poeta portuguez... rico!</p>
-
-<p>N.º 30—A filha do Doutor
-Negro.</p>
-
-<p>N.º 31—Estrellas propicias.</p>
-
-<p>N.º 32—A filha do regicida.</p>
-
-<p>N.ºˢ 33 e 34—O demonio do
-ouro.</p>
-
-<p>N.º 35—O regicida.</p>
-
-<p>N.º 36—A filha do arcediago.</p>
-
-<p>N.º 37—A neta do arcediago.</p>
-
-<p>N.º 38—Delictos da Mocidade.</p>
-
-<p>N.º 39—Onde está a felicidade?</p>
-
-<p>N.º 40—Um homem de brios.</p>
-
-<p>N.º 41—Memorias de Guilherme
-do Amaral.</p>
-
-<p>N.ºˢ 42, 43 e 44—Mysterios
-de Lisboa.</p>
-
-<p>N.ºˢ 45 e 46—Livro negro
-de padre Diniz.</p>
-
-<p>N.ºˢ 47 e 48—O judeu.</p>
-
-<p>N.º 49—Duas épocas da
-vida.</p>
-
-<p>N.º 50—Estrellas funestas.</p>
-
-<p>N.º 51—Lagrimas abençoadas.</p>
-
-<p>N.º 52—Lucta de gigantes.</p>
-
-<p>N.ºˢ 53 e 54—Memorias do
-carcere.</p>
-
-<p>N.º 55—Mysterios de Fafe.</p>
-
-<p>N.º 56—Coração, cabeça e
-estomago.</p>
-
-<p>N.º 57—O que fazem mulheres.</p>
-
-<p>N.º 58—O retrato de Ricardina.</p>
-
-<p>N.º 59—O sangue.</p>
-
-<p>N.º 60—O santo da montanha.</p>
-
-<p>N.º 61—Vingança.</p>
-
-<p>N.º 62—Vinte horas de liteira.</p>
-
-<p>N.º 63—A queda d’um anjo.</p>
-
-<p>N.º 64—Scenas da Foz.</p>
-
-<p>N.º 65—Scenas contemporaneas.</p>
-
-<p>N.º 66—O romance d’um rapaz
-pobre.</p>
-
-<p>N.º 67—Aventuras de Bazilio
-Fernandes Enxertado.</p>
-
-<p>N.º 68—Noites de Lamego.</p>
-
-<p>N.º 69—Scenas innocentes
-da comedia humana.</p>
-
-<p>N.ºˢ 70 e 71—Os Martyres.</p>
-
-<p>N.º 72—Um livro.</p>
-
-<p>N.º 73—A Sereia.</p>
-
-<p>N.º 74—Esboços de apreciações
-litterarias.</p>
-
-<p>N.º 75—Cousas leves e pesadas.</p>
-
-<p>N.º 76—Theatro:—I. Agostinho
-de Ceuta.—O marquez
-de Torres-Novas.</p>
-
-<p>N.º 77—Theatro:—II. Poesia
-ou dinheiro?—Justiça.—Espinhos
-e flores.—Purgatorio
-e Paraizo.</p>
-
-<p>N.º 78—Theatro:—III.—O
-Morgado de Fafe em
-Lisboa.—O Morgado de
-Fafe amoroso.—O ultimo
-acto.—Abençoadas lagrimas!</p>
-
-<p>N.º 79—Theatro:—IV.—O
-condemnado.—Como
-os anjos se vingam.—Entre
-a flauta e a viola.</p>
-
-<p>N.º 80—Theatro:—V.—O
-Lubis-Homem—A Morgadinha
-de Val-d’Amores.</p>
-
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage"><i>CAMILLO CASTELLO BRANCO</i></p>
-
-<h1>O BEM E O MAL</h1>
-
-<p class="titlepage">ROMANCE</p>
-
-<p class="titlepage"><b>SEXTA EDIÇÃO</b></p>
-
-<p class="titlepage">LISBOA<br />
-<span class="smcap">Parceria Antonio Maria Pereira</span><br />
-<span class="smaller">LIVRARIA EDITORA</span><br />
-<i>Rua Augusta, 44 a 54</i><br />
-1910</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage smaller">1910</p>
-
-<p class="center smaller">OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO<br />
-MOVIDAS A ELECTRICIDADE<br />
-Da PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA</p>
-
-<p class="center smaller"><i>Rua Augusta, 44, 46 e 48—1.º e 2.º andar</i><br />
-LISBOA</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span></p>
-
-<h2>PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO</h2>
-
-<p>Foi vagarosa a sahida da primeira edição d’este livro.</p>
-
-<p>É obvia e, ao mesmo passo, desconsoladora a explicação.
-A novella não perdeu por mal escripta; mas por mal pensada.
-Quanto a linguagem tanto montava o quilate d’esta como
-o das suas irmans. A incorrecção é o castigo de quem escreve
-muito á pressa para ir acabando mais de vagar. Em Portugal
-é preciso isto.</p>
-
-<p>O defeito d’este livro é a superabundancia de virtudes de
-infastiar leitores que as exercitam eguaes e maiores, todos
-os dias.</p>
-
-<p>Ainda bem.</p>
-
-<p>Quem quizer voga e fama pinte e salpique de sangue e
-lama os seus paineis. Ganhar a curiosa attenção dos leitores
-sómente é permittido a quem lhes dá noticia de cousas não
-sabidas nem experimentadas. A virtude é o ranço d’estas gordas
-almas da nossa terra. Relatem-se crimes de cafrárias em
-linguagem de cafra.</p>
-
-<p class="smaller">S. Miguel de Seide, agosto de 1868.</p>
-
-<p class="right"><i>Camillo Castello Branco.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span></p>
-
-<div class="hanging">
-
-<p class="center">AO<br />
-<br />
-PADRE ANTONIO DE AZEVEDO</p>
-
-<p class="center smaller">Nome que os pobres, seus irmãos, reverenceiam,
-e os enfermos da alma abençoam; ancião virtuoso; operario infatigavel
-em serviço de DEUS e da humanidade</p>
-
-<p class="center">OFFERECE ESTE ESCRIPTO</p>
-
-<p class="right"><i>O Auctor.</i></p>
-
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span></p>
-
-<p class="right"><i>Meu Amigo:</i></p>
-
-<p><i>Ha vinte e tres annos que eu vivi em sua companhia.</i></p>
-
-<p><i>Lembra-se d’aquelle incorrigivel rapaz de quatorze
-annos, que ia á venda da Serra do Mesio jogar a bisca
-com os carvoeiros, e a bordoada, muitas vezes?</i></p>
-
-<p><i>Esse rapaz sou eu; é este velho, que lhe escreve aqui
-do cubiculo de um hospital, muito visinho do cemiterio
-dos Prazeres.</i></p>
-
-<p><i>Eu sou aquelle a quem padre Antonio de Azevedo
-ensinou principios de solpha, e as declinações da arte
-franceza.</i></p>
-
-<p><i>Sou aquelle que leu em sua casa as «Viagens de
-Cyro», o «Theatro dos Deuzes», os «Luziadas», «As
-perigrinações de Fernão Mendes Pinto», e outros livros,
-que foram os primeiros.</i></p>
-
-<p><i>Sou aquelle que, sem saber latim, resava matinas,
-laudes, terça, sexta, etc., com padre Antonio.</i></p>
-
-<p><i>Sou, finalmente, aquelle, a quem padre Antonio disse:—«O
-tempo ha de fazer de você alguma cousa.»</i></p>
-
-<p><i>Passados vinte e tres annos, como eu acabasse de escrever
-o meu quadragesimo segundo volume, lembrou-me
-dedicar-lh’o, meu venerando amigo, e rogar-lhe que
-peça a Deus por mim.</i></p>
-
-<p class="smaller"><i>Lisboa, 22 de junho de 1868</i></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span></p>
-
-<h2>I<br />
-<span class="smaller">A visão do presbyterio</span></h2>
-
-<p>Apresento o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova.</p>
-
-<p>Nasceu no termo de Pinhel em 1818. Seu pae, viuvo
-sem consolação, vestiu o habito de frade mendicante no
-convento de Vinhaes. Assim cuidou elle que dignamente
-honrava a memoria de sua santa mulher. Escolhera convento
-pobre como penitencia, e deixara sua casa e filho
-unico sob a vigilancia de um irmão clerigo, sujeito de
-clara fama e varão doutissimo.</p>
-
-<p>N’aquella casa de Villa Cova, que dera o appellido a
-dez gerações de honrados lavradores, floreceram, na passagem
-de cinco seculos, padres de muito saber, uns famigerados
-na oratoria, outros grandes cazuistas, e alguns
-bastantemente notaveis por sua virtude sem lettras, e
-nenhum por lettras sem virtudes.</p>
-
-<p>O educador de Ladislau sobre ser virtuoso, era grande
-letrado; a sua sciencia, porém atrazára-se dous seculos
-na historia do espirito humano.</p>
-
-<p>Padre Praxedes de Villa Cova sabia de cór Aristoteles<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span>
-e Platão. Philosophia, physica, historia natural, grammatica,
-logica, metaphysica, poetica, meteorologia, politica,
-e mais um centenar de sciencias todas lh’as ensinaram
-os dous sabios de Stagira e Athenas. Na opinião
-d’elle, a intelligencia do homem, depois de Platão e Aristoteles,
-envelhecera, ou fingira remoçar-se com atavios
-de ouropel e pechisbeques, sem quilate na experimentada
-mão de um sabio.</p>
-
-<p>Era padre Praxedes copiosamente lido em livros portuguezes
-anteriores ao seculo <span class="smcapuc">XVII</span>, e possuia os melhores
-nas suas ponderosas estantes de castanho. Da epocha
-dos Senhores Reis D. João V e D. José I já pouquissimos
-volumes, e esses mesmos entremados do ouro
-puro dos classicos, se honravam de prender-lhe a attenção.</p>
-
-<p>Foi, desde menino, Ladislau encaminhado por esta,
-em parte, errada vereda da sabedoria util e verdadeira.</p>
-
-<p>Começou a escrever como caligraphicamente se escrevia
-ha dous seculos: lettra garrafal, com as hastes a
-prumo, longas e enfeitadas com mui engenhosos quadrados,
-mórmente as maiusculas. Era a escripta de padre
-Praxedes, tal qual a que seu tio avô, sabio fallecido em
-1707, transmittira a um padre Heliodoro, seu filho, e
-este ao avô de Ladislau, e o avô ao filho, que vinha a
-ser o tio paterno d’este padre Praxedes. De modo que,
-n’aquella familia, o «traslado» da escripta em 1830 era
-fielmente copiado do de 1680. Em tudo mais como na
-escripta.</p>
-
-<p>Está situada a casa dos Militões de Villa Cova nas
-faldas de uma serra chamada a <i>Castra</i>. Affirma documentalmente
-o padre que o chamar-se Castra o sitio,
-vem de ter estado alli presidio romano, ha vinte seculos;
-e quer elle que sobre as ruinas d’aquella atalaia dos senhores<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span>
-do mundo esteja cimentada a modesta habitação
-dos Militões desde o seculo <span class="smcapuc">IX</span>.</p>
-
-<p>É a casa grossa de cantaria com dez janellas de peitoril
-sem vidraças, quasi a roçarem nas proeminentes
-cornijas, assentadas em fortes cachorros sem lavor. É
-largo e alto o portão de castanho, que abre sobre um
-espaçoso quinteiro, intranzitavel na maior parte do anno,
-por causa das gabellas de tojo e urze, que os pés do gado
-vão calcando e curtindo.</p>
-
-<p>Do fundo do quinteiro, sobe larga escadaria a um pateo
-lageado com guardas de pedra tão em bruto e sem
-visos de esquadria que parecem ter alli ficado casualmente
-postas umas contra outras pelo revolutear aquoso
-de algum diluvio.</p>
-
-<p>Este exterior assim é triste, mais triste que a soledade
-das ruinas de outras casas, que em redor existiam até
-ao começo d’este seculo, e ás quaes os francezes acossados
-pegaram fogo, na sua ultima evasão de Portugal.
-Do desastre da Povoa de Villa Cova salvou-se a casa
-dos Militões, porque os incendiarios não acharam brecha
-por onde lançassem o lume: o morro de pedra era incombustivel;
-as portadas de castanho tão sómente a bala
-raza poderiam saltar dos seus enormes gonzos.</p>
-
-<p>Os donos das ruinas não quizeram reedificar no sitio
-onde seus antepassados tinham construido os pobres casalejos.
-Ajuizadamente edificaram em terreno mais ao
-centro das suas leiras, visto que, em casa de mais fertil
-torrão, já os avós dos actuaes tinham levado longe o
-arroteamento e a cultura.</p>
-
-<p>A casa dos Militões ficou, porém, solitaria, e tomou a
-si em bem dos pobres o desmontar da terra deixada a
-monte.</p>
-
-<p>As corpulentas arvores, que se abraçaram no declive<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span>
-da serra, mal deixavam entrever a casa de Villa Cova.
-O vestigio unico de vida n’aquelle fundão era o rolo de
-fumo que o vento rarefazia em apparencia de nevoeirinhos
-sobre a copa do arvoredo, o qual, visto da cumiada
-da Castra, semelhava uma mouta de arbustos.</p>
-
-<p>Volviam mezes e mezes sem que pessoa estranha descesse
-a serra, em demanda da casa dos Militões, excepto
-o viandante, que, surprehendido pela noute, se guiava
-pela neblina de fumo, vista ao entardecer, ou pelo convidativo
-cantar do gallo.</p>
-
-<p>Em dias santificados, a familia fiava dos cães de gado
-a guarda da casa, e ia ouvir missa á igreja parochial,
-um quarto de legua distante. Desde tempos immemoriaes
-era a freguezia pastoreada por clerigo da casa de Villa
-Cova. Este clerigo que, no discurso de tres seculos, parecia
-sempre o mesmo, tinha sempre comsigo uma irmã,
-que, no traje, no dizer, e no sentir, era a mesma irmã
-do padre do seculo <span class="smcapuc">XV</span>.</p>
-
-<p>Depois da missa, o pastor acompanhava os seus a
-Villa Cova, onde pasava o dia; e á noute, entoadas as
-preces das Ave-Maria, lá transmontava o serro, que o
-separava da sua igreja, abordoando-se d’um cerquinho,
-que diziam ter trezentos ou mais annos de uso—tradição
-fundada na certeza de outras muitas.</p>
-
-<p>Este era ainda em 1830 o viver d’aquella patriarchal
-familia.</p>
-
-<p>Ladislau Tiberio Militão estudava n’este tempo a
-grammatica de Aristoteles. Frei Braz, seu pai, morreu
-n’aquelle anno; e no seguinte, o tio, que parochiava.
-Ficou reduzida sua familia ao padre, que o ensinava, e
-á tia Sebastiana, que, por morte do tio, voltára da igreja
-á casa, onde uma serie de onze antecessoras tinha voltado
-com o lucto no coração e a vida por um fio.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span></p>
-
-<p>Apenas fallecido o pastor, foi padre Praxedes nomeado
-interinamente para a vigararia de S. Julião da
-Serra. Não havia outro clerigo na familia, nem outro
-administrador para a lavoura. Quiz o padre declinar a
-pesada herança; mas, mal o souberam, os parochianos
-acudiram em rogos e lagrimas a Villa Cova, pedindo ao
-virtuoso irmão do defuncto vigario que os não desamparasse.
-Praxedes arrendou os bens, e transferiu-se á
-residencia parochial com irmã e sobrinho, esperando
-ainda que algum clerigo pobre das cercanias lhe tirasse
-dos hombros o cargo, e lhe libertasse o tempo necessario
-ao ensino de Ladislau.</p>
-
-<p>Malograda a esperança, e nomeado pelo governo, o
-parocho trasladou a sua livraria, como quem já tinha
-ao certo que seus derradeiros annos, muitos ou poucos,
-alli seriam vividos ao pé da sepultura dos seus onze antepassados.</p>
-
-<p>Na casa do presbyterio, continuou a educação litteraria
-de Ladislau.</p>
-
-<p>Vivia o mocinho entre seus tios; não conhecia rapaz
-da sua idade com que entretivesse as horas feriadas, ou
-conversasse em materia de estudo. Mui naturalmente
-lhe pendeu o animo a umas tristezas que nem viço e
-contentamentos de primeiros annos podiam desassombrar.
-Isto não faria especie ao vigario nem á senhora
-Sebastiana. Era aquella soturna melancolia a norma
-commum do viver d’esta familia. Muita quietação, silencio
-tumular, um moverem-se de phantasmas, perpassando
-uns por outros com glacial taciturnidade.</p>
-
-<p>Estava ainda gravado no animo de todos o lance funereo
-da viuvez de Braz. A mãe de Ladislau morrera
-como quem passa de um tumulo para outro. Nem mesmo,
-depois que sahira o esquife, os gemidos se ouviram<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span>
-longo tempo. E o viuvo, quasi sem declarar seus intentos,
-sahiu, ao terceiro dia, de casa, foi orar sobre a lagea
-de sua mulher, e d’alli se partiu, a pé, caminho de
-Vinhaes. Aqui, bateu á porta do mosteiro, que se lhe
-abriu como casa de infelizes, e lá ficou. Tudo assim na
-vida ordinaria, modelado por este extraordinario succedimento!</p>
-
-<p>Ladislau contou os dezoito annos da sua idade, sem
-sentir abrir-se-lhe o coração a alguma poesia: nem sequer
-á poesia da natureza!</p>
-
-<p>As graças campestres das Georgicas de Virgilio sabia
-traduzil-as em termos frios, rigorosamente grammaticaes,
-irreprehensiveis em sã e fradesca latinidade; porém, no
-interno da sua alma, nenhum enlevo o transportava da
-euphonia do verso para a formosura dos prados, das
-fontes e do luar das suas noutes solitarias. Dormia-lhe
-o coração; ninguem á volta de si proferira aquella palavra,
-que é bastante a despertal-o para as alegres alvoradas
-do primeiro dia de amor, amor sem mulher,
-sem esperança, sem emblema, amor em competencia
-com o ideal do amor dos serafins.</p>
-
-<p>Como se padre Praxedes premeditasse amortalhar este
-mancebo, já morto antes de haver experimentado o palpitar
-estranho da vida, que estremece em confusos desejos,
-uma vez, acabando de traduzir com Ladislau alguns
-capitulos da «Cidade de Deus», de Santo Agostinho,
-fallou assim ao moço de dezoito annos, sem uma só primavera:</p>
-
-<p>—Ladislau, pensava eu esta noute, e muitas noutes
-hei vellado a pensar que, d’aqui a pouco, voltarás á casa
-onde nasceste, deixando teu mestre debaixo da pedra
-onde esperam o grande dia todos os nossos. Pensei com
-tristeza que não virá tão cedo de nossa casa o padre<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span>
-guardador d’este rebanho que os nossos antepassados
-acceitaram como de Deus, e vieram, no atravessar de
-tantos annos, passando o cajado uns a outros. Agora é
-que se acabou este legado de serviços, desvelos, e caridades
-aos nossos irmãos... Quão grata seria a Deus que
-o não regeitassemos! Não estás tu aqui tão bem inclinado
-á virtude, e aproveitado na sciencia das cousas
-santas?!... Queres tu ser padre, Ladislau?</p>
-
-<p>—Quero, meu tio—disse o moço com inalterado semblante,
-como se fosse convidado a traduzir a «Carta aos
-Pisões» ou as «Lamentações de Jeremias».</p>
-
-<p>—Sentes em ti vocação ao sacerdocio?—reperguntou
-o padre com alegre sombra.</p>
-
-<p>—Sinto, sim senhor; porque não hei de sentir?—disse
-Ladislau.</p>
-
-<p>—Não tens pensado em outro futuro, meu sobrinho?</p>
-
-<p>—Outro futuro!?—perguntou o moço como alheado
-na estranheza da insistencia.</p>
-
-<p>—Sim: outro futuro... Pensaste alguma vez em te
-casares?</p>
-
-<p>—Não senhor.</p>
-
-<p>—Nem te pende para a vida de esposo e pai a inclinação
-de teu animo?</p>
-
-<p>—Nem tenho cogitado n’isso.</p>
-
-<p>—Pois pensa, sobrinho, pensa, que esta vida de padre
-tem grandes alegrias e grandes amarguras, como todas
-as vidas, todas as vocações. Se queres a paz, que
-me tens visto no rosto, entra na trilha de meus passos;
-os dissabores de dentro, esses, que são muitos, Deus te
-afaste o calix d’elles; mas se t’o der, acceita-o, que a
-remuneração é infallivel: acceita-o, meu sobrinho, que
-o descanço, vindo apoz a batalha, é ineffavel como o jubilo
-dos Santos. Ora pois: pensarás um anno; consultarás<span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span>
-o teu espirito; e, em cada amanhecer, pedirás ao
-divino Espirito Santo que te allumie.</p>
-
-<p>Antes de findado o anno, padre Praxedes deu a alma
-ao Senhor; e Sebastiana, que vivia para sepultar o ultimo
-vigario de S. João da Serra, lá ficou na campa mais
-proxima, adormecendo-se a beneplacito de Deus, como
-quem cumpriu sua missão.</p>
-
-<p>Ladislau voltou á casa de Villa Cova com a sua livraria,
-e as supremas palavras do tio moribundo, que tinham
-sido estas:</p>
-
-<p>—Espera um anno mais, o conselho do Espirito Santo.
-Se o teu coração estiver desatado de paixões, que prendem
-á terra, dá-o a Deus; se não, meu sobrinho, sê um
-bom marido e bom pai, que esta virtude é por si tambem
-um sublime sacerdocio. A vida solitaria, que tens
-vivido, se poderes continual-a, filho, não a troques pelo
-mundo. Sacerdote, marido, ou simples homem, sem mais
-obrigações que as communs com os outros homens,
-além das que o decalogo te manda, foge, quanto poderes,
-da vida que traz comsigo o esquecimento da morte.
-Ladislau, a sciencia é um grandissimo mundo povoado
-de espirituaes amigos; os teus livros encerram, cada
-um, sua alma, que te falla como amiga. N’este, acharás
-um desgraçado contricto, que te conta os seus infortunios
-com o bispo de Hippona, ou o fundador da nossa
-Arrabida<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a>. Outro, como o thesouro de Kempis, se te
-desentranha em balsamos para quantas feridas a dôr do
-ermo ou os desenganos do mundo te abrirem no seio.<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span>
-Nos livros apprendi a fugir ao mal sem o experimentar.
-Confessor quarenta annos, vi as angustias, que vão por
-esse mundo, tantas, que não cabiam lá, e transbordavam
-até ao nosso escondrijo. Recolhe-te a ti; não deixes
-os teus campos; affaz-te a amar estas serras, onde
-o pé do impio não chegou ainda. Olha tu com que serenidade
-eu fio meu remedio e salvação da divina misericordia:
-aqui tens, na morte, um exemplo das vantagens
-da vida, que eu tive. É isto, filho; é este acabar
-sem remorso nem temor, consolando-me de ter sido tão
-moderado em meus desejos, que nem se quer peço a
-Deus que me dispense mais um dia de existencia.</p>
-
-<p>Estas e poucas mais foram as ultimas palavras do
-presbytero.</p>
-
-<p>Ladislau Tiberio viveu um anno esperando o conselho
-do Espirito Santo.</p>
-
-<p>Os chorosos parochianos de S. Julião da Serra, quando
-viram suas consciencias em guarda de um sacerdote
-moço, que viera de longe pastoreal-os, foram ter com
-Ladislau, representados pelos lavradores mais abastados
-da freguezia.</p>
-
-<p>—Que querem de mim?—perguntava o moço—que
-hei de eu fazer-lhes?</p>
-
-<p>—Seu tio, que Deus haja—respondeu o mais respeitado—nos
-disse que talvez o sr. Ladislau tomasse ordens
-para ser o nosso vigario.</p>
-
-<p>—Pois sim; mas é cedo ainda, meus amigos. Deixai-me
-esperar o dia destinado á minha decisão.</p>
-
-<p>O dia chegou: era o anniversario da morte do padre
-Praxedes.</p>
-
-<p>Ladislau, na manhã d’aquelle dia, foi orar ao templo,
-e ajoelhou sobre a campa dos sacerdotes seus antepassados.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span></p>
-
-<p>Raiava a aurora, quando entrou á egreja.</p>
-
-<p>E enxergou um vulto, orando no arco da capella-mór.</p>
-
-<p>Mais tarde, como o sol coasse pela estreita fresta lateral
-um raio de luz sobre o vulto ajoelhado, Ladislau
-reconheceu uma mulher.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span></p>
-
-<h2>II<br />
-<span class="smaller">Amor de predestinação</span></h2>
-
-<p>A mulher ajoelhada á sombra do escuro arco, era Peregrina,
-irmã do vigario.</p>
-
-<p>Viera de longe para alli com seu irmão, sacerdote pobre,
-que devia a sua ordenação ao bemfazer do padrinho,
-velho fidalgo de Pinhel. Em quanto João se ordenava
-em Bragança, Peregrina vivera e educara-se sob o
-amparo do padrinho de seu irmão, e querida das filhas
-do fidalgo, que a vestiam de seus vestidos, e a sentavam
-entre si á meza.</p>
-
-<p>Disse padre João a sua missa nova na capella do
-bemfeitor, e alli ficou estimado como da familia, até que,
-por diligencias do fidalgo, recebeu a apresentação na
-igreja de S. Julião da Serra.</p>
-
-<p>Peregrina beijou a mão do velho caridoso, beijou o
-rosto de suas amigas de infancia, e sahiu com o presbytero
-em demanda da vetusta igreja. Os parochianos,
-posto que descontentes ao verem semblantes desconhecidos
-no adro dos seus mortos, disseram:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p>
-
-<p>«Assim é que vinha o pastor de Villa Cova com a
-irmã».</p>
-
-<p>Era melancolico o presbyterio; as arvores ressequidas;
-o chão arido; as penedias calvas; os tectos assentes em
-vigas; as paredes interiores afumadas; os taboados movediços.
-Alli, as primaveras passariam despresentidas,
-se não fosse o azulejar-se o céu, e os festões das giestas
-na serra, e o calar-se o estridor das torrentes despenhadas
-dos cerros das montanhas.</p>
-
-<p>Peregrina, quando alli se viu, por um anoutecer de
-novembro, disse:</p>
-
-<p>—Como isto é triste e feio!</p>
-
-<p>Padre João olhou em redor de si, e respondeu:</p>
-
-<p>—Irmã, este chão triste é que nos ha de dar o pão
-santo da independencia. Bemdigamos o coração generoso
-dos nossos amigos, que me deram terra onde lavrar
-com minhas proprias mãos o nosso sustento de cada dia.
-A casa parece-nos agora triste, porque é noute. Ámanhã
-um raio de sol nos virá alegrar estas paredes.</p>
-
-<p>E, como assim fallasse, o vigario desceu ao adro, subiu
-sobre uma peanha tosca, travou da corda que movia
-o sino unico do simulacro de torre, e tangeu as nove
-badaladas de Ave-Marias. Os lavradores, que iam passando,
-descobriram-se, pararam, oraram, benzeram-se, e
-seguiram seu caminho murmurando:</p>
-
-<p>—Os padres de Villa Cova faziam o mesmo. Quer
-Deus que todos os nossos vigarios sejam bons e devotos.</p>
-
-<p>Entretanto, Peregrina, rezada a oração final da sua
-prece da tarde, alongou os olhos ás sombrias serras que
-avultavam para o lado de Pinhel, e chorou. Eram saudades
-das filhas do bemfeitor, e do casal onde nascera,
-e onde seus pais, caseiros do fidalgo, haviam morrido.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p>
-
-<p>A irmã do vigario tinha 18 annos. Era dotada de
-abundantes graças, compleição menos robusta que o ordinario
-das moças aldeãs, senhoril talvez extraordinariamente,
-rica de negros cabellos, formosa de olhos, doce e
-meiga no dizer, modestissima, parca em sorrisos, meditativa,
-laboriosa, e muito dada á oração.</p>
-
-<p>Costumava ella erguer-se ante-manhã, quando ouvia
-os passos do irmão no sobrado visinho do seu quarto. O
-vigario madrugava assim para dizer missa á hora em que
-os parochianos sahiam ás suas lavouras. Peregrina accendia
-o lume, aconchegava o pucaro das brazas, cegava
-as couves, ia assistir á missa do irmão, e vinha depois
-cosinhar o caldo que era a refeição matinal do sacerdote
-e d’ella.</p>
-
-<p>Uma grande parte do clero, que pastorêa almas, póde
-bem ser que me não acceite a verosimilhança d’este
-caldo de couves. Espero que se desçam de sua incredulidade,
-se eu lhes disser que a congrua e pé-de-altar de
-S. Julião da Serra não davam para chá, n’aquelle tempo
-em que os direitos da charopada chineza eram enormes,
-e os paladares eram genuinamente portuguezes, lá d’aquellas
-serranias, se saboreavam de preferencia no salutar
-cozimento de couves adubadas de saboroso unto. Ora
-eu, que n’esta fidalga e franceza Lisboa tenho sido espectaculo
-de riso, pedindo nos hoteis, e recommendando
-aos meus amigos o caldo verde, insisto contumazmente
-em me expôr á mofa da gente culta, dando á estampa,
-n’este logar e para meu duradouro opprobiro, o panegyrico
-do caldo verde, caldo de meus avós, e de padre
-João e de sua irmã.</p>
-
-<p>N’aquella madrugada, em que Ladislau fôra celebrar
-o anniversario da morte de seu tio, orando na igreja, Peregrina
-demorára-se a rezar, finda a missa, porque seu<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span>
-irmão entrára no confessionario. Déra ella conta de ajoelhar-se
-alli perto de si o moço, já quando o templo estava
-vazio. Soffreou, em quanto pôde, sua curiosidade,
-que teimava em querer conhecer o recolhido devoto. Não
-era costume seu voltar a cabeça a um lado ou outro,
-quando fallava a Deus; porém, tanta força lhe fazia o
-animo para o sitio onde estava o moço que, apesar de
-profanação, aventuro-me a suppor que o coração lhe estava
-tirando para alli os olhos por uns filamentos mysteriosos
-que, alguma vez, a anatomia ha de encontrar
-entre olhos e coração.</p>
-
-<p>Foi o raio de sol nascente, vertido pela fresta esguia
-da capella-mór, que de todo em todo aliciou Peregrina a
-olhar. Um raio do sol do Senhor a alumiar-lhes o escuro
-do templo para se verem! Donoso e sublime confidente
-de duas almas carecidas uma da outra! Nunca tão auspiciosos
-preludios de um amor começaram n’esta vida.
-São dous moços: ella virgem, e formosa, e immaculada;
-elle gentil, puro, e alli ajoelhado em consultação de seu
-destino. A que bemdita e predita hora se entreluzem as
-duas almas, embebidas em Deus e subitamente encontradas
-no mesmo arco da igreja, em que os esposos costumam
-receber as bençãos!</p>
-
-<p>Ladislau tinha as mãos erguidas, quando encarou no
-rosto de Peregrina. As mãos ficaram na postura fervorosa;
-mas a oração, cortada em meio, olvidou-se-lhe. E
-ella, que entrepassava nos dedos as contas do seu rozario,
-continuou a dizer as palavras santas, mas sem ouvil-as
-na audição interior do espirito.</p>
-
-<p>Ambos a um tempo acordaram da fixidez da sua contemplação,
-e córaram. Ladislau baixou os olhos, e ella
-ergueu-os. Um parece que pedia contas á terra d’uma
-delicia, que nunca lhe havia dado nem presagiado; outro<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span>
-ia no ceu como a decifrar o enigma da sensação nunca
-experimentada.</p>
-
-<p>Instantes depois, padre João appareceu á porta da sacristia,
-e mandou á irmã que accendesse os castiçaes do
-altar-mór, emquanto elle se revestia para ministrar a sagrada
-communhão á confessada. Ladislau, como ouvisse
-as ordens do vigario a Peregrina, ergueu-se e disse:</p>
-
-<p>—Eu vou, se o sr. vigario quer. Já sei este serviço,
-que era minha obrigação, em tempo de meus tios, que
-Deus haja.</p>
-
-<p>Padre João já conhecia o sobrinho do defuncto Praxedes,
-como primeiro lavrador da freguezia, e moço de
-estudo e virtudes, segundo lhe disse o regedor da parochia,
-e o gravissimo mordomo do orago confirmára.</p>
-
-<p>Acceitou o vigario o serviço a que Ladislau se teria
-offerecido, ainda mesmo que a presença de Peregrina o
-não movesse á delicadeza. Esta delicadeza era instinctiva
-certamente, e ensinada pelo coração, a fundamental de
-todos os ceremoniaes, que nas activissimas cidades os
-meninos aprendem em livros, como se a cortezia com
-damas não fosse pagina escripta no mais diamantino do
-peito desde que abrimos olhos para vel-as.</p>
-
-<p>Accendeu Ladislau as velas, e proveu de agua o jarro
-da communhão, emquanto o vigario se paramentava. Subiu
-o ostiario ao altar, abriu o sacrario e tomou a particula
-da pyxide. Uma nuvem escura de trovoada imminente
-entoldára o sol, e a capella-mór voltava á frouxa
-luz crepuscular. O ministro, severissimo em todo o ritual
-de seu sagrado encargo, como não fiasse da claridade de
-uma só vela a perfeita passagem da hostia á lingua da
-commungante, acenou á irmã para que tomasse uma
-vela do outro lado.</p>
-
-<p>Ladislau tremeu quando a viu tão perto de si; mas<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span>
-assim mesmo, não desatremou em desconcerto com a
-urbanidade: entregou-lhe o cirio, que tinha e foi tomar
-outro da tocheira.</p>
-
-<p>Em verdade lhes digo, meus sensiveis leitores, que eu
-desejava ter assim um painel, para serem dous os papeis
-da minha estimação. O que já possuo é uma menina
-lagrimosa, que está dando de comer ao seu cão moribundo,
-que não vê o alimento mas ainda a vê a ella, e
-parece despedir-se a chorar. O outro quadro queria eu
-que fosse o vigario de S. Julião da Serra pendido á fronte
-humilde da christã; d’um lado, Peregrina com o rosto
-banhado do escarlate da flamma, que ella quer affastar
-de si, adivinhando que os olhos do moço a estão contemplando;
-do outro lado, Ladislau, involuntario, captivo,
-alheado de si, sem poder desfital-a. Eis aqui as minhas
-quatro figuras todas absorvidas em amor de Deus.
-O padre está enlevado na suprema magestade do seu
-ministerio: a penitente está-se identificando a divindade
-do corpo e sangue de Jesus; Ladislau, em seu silencioso
-spasmo, está psalmeando o hymo de graça que o primeiro
-homem deu ao Senhor, no instante de ver inclinado
-a si um seio amparador de mulher. E ella, Peregrina?
-De ti, purpureada virgem, só podem sentir teus
-extasis, e contar-no’l-os as tuas iguaes n’este mundo, as
-que tiveram simultaneamente a intuição do amor e a visão
-do primeiro homem amado. Todos, pois, enlevados
-em aspirar divino: o sacerdote e a commungante pela
-consciencia, os outros pelo coração, aberto em perfumes
-que queimam a Deus o mais selecto e fino bago do seu
-incenso.</p>
-
-<p>Findo o acto sacramental, o padre subiu os dous degraus
-do altar, cerrou o sacrario, ajoelhou, e voltou á sacristia.
-Ladislau ficou em pé, rente com o tocheiro de<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span>
-castanho tosco, d’onde tirara o cirio. Peregrina foi depor
-a sua vela sobre a credencia, desceu ao fundo da igreja
-saudando os quatro altares lateraes, e sahiu do adro, e
-logo entrou na vigairaria. Ladislau, viu-a desapparecer, e
-disse de sua consciencia para Deus: «Não tornarei a
-vel-a?»</p>
-
-<p>Assomou o pastor no limiar da sacristia, e disse a Ladislau,
-que ia sahindo:</p>
-
-<p>—Desejo tel-o em minha companhia algum pouquinho
-tempo, sr. Ladislau. Se não vai com pressa, tenha
-a bondade de esperar, que eu faço oração, e vou já.</p>
-
-<p>—Espero no adro o tempo que o sr. reverendo vigario
-quizer.</p>
-
-<p>—Por que ha de ser no adro e não em casa?—tornou
-padre João.—Entre na residencia, que a porta do sobrado
-está aberta.</p>
-
-<p>Ladislau esperou no adro, e, emquanto esperava, tinha
-os olhos na janellinha da saleta, em que seu tio
-costumava estar nas noites quentes, esperando os freguezes,
-que voltavam das ceifas, e a todos fallava, mandando-os
-sentar nos troços brutos de pedra, que alli tinham
-ficado d’uma casa incendiada pelos francezes.</p>
-
-<p>Assim contemplativo, viu elle chegar á janella a irmã
-do vigario, e esconder-se, apenas o encarou, surprehendida.</p>
-
-<p>Que instantes aquelles para ambos! Que ceus e ceus,
-vistos á lus d’um relampago! Que extensos poemas de
-lagrimas costuma a saudade fazer depois com as reminiscencias
-de uns momentos tão fugitivos!</p>
-
-<p>Sahiu o vigario do templo, fechou a porta, e disse:</p>
-
-<p>—Estava o sr. Ladislau a recordar-se de seus tios?...
-Não admira, que eu mesmo, sem os ter conhecido, lhes
-respeito a memoria, pelos grandes louvores que ouço dar<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span>
-ás suas virtudes. Basta ver o que este bom povo é, para
-se avaliar as excellencias de quem assim o educou. O
-espirito dos dous ultimos e defuntos vigarios de S. Julião
-da Serra está ainda com o seu rebanho. Facil me
-ha de ser a mim, homem sem virtude nem experiencia,
-pastoreal-o. Mais tenho que aprender que ensinar.</p>
-
-<p>E, no sentido d’estas humildes palavras, foi dizendo
-outras, que se insinuavam ao coração do moço já captivo
-do conciliador semblante do sacerdote; e assim entraram
-na casinha parochial.</p>
-
-<p>—Peregrina—disse o padre á irmã que os vira subir,
-e, sem saber por que, se alvoroçara—olha que temos
-hospede; vê lá como te saes; não queiras que o nosso
-convidado nos julgue forretas. Almoço de abbade rico,
-ouviste?</p>
-
-<p>A moça não respondeu. Affastou da fogueira o caldo
-que fervia, lançou alguns ovos á certã, e, tão depressa
-os cosinhou, foi á modesta arca do seu fragal tirar a melhor
-toalha, e os garfos de ferro ainda lusidios em primeiro
-uso.</p>
-
-<p>Peregrina, posto o almoço na mesa, sentou-se no seu
-logar de costume, que era um banquinho tosco achegado
-do escano. A mesa, construida de uma só taboa
-afumada, engonçava n’aquelle adorno da lareira, talvez
-tão antigo como a vigairaria de S. Julião da Serra.</p>
-
-<p>Quando a moça se assentou, disse Ladislau:</p>
-
-<p>—Aquelle banco era o logar de minha tia, que Deus
-tem!</p>
-
-<p>E ficou contemplativo.</p>
-
-<p>—E eu—disse padre João—estou no logar de seu tio,
-e o sr. Ladislau vem sentar-se no logar que era seu.</p>
-
-<p>Estava já na meza a travessa de barro vidrado com a<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span>
-fritada de ovos e farinha triga. O vigario sorriu-se, e
-disse:</p>
-
-<p>—Na meza de seu tio havia um prato e um talher
-para cada pessoa?</p>
-
-<p>Ladislau, que não sabia o significado da palavra «talher»,
-respondeu:</p>
-
-<p>—Comiamos todos do mesmo prato; e na minha casa
-de Villa Cova, tanto meu pae como meus tios comiamos
-á mesma meza dos creados e jornaleiros.</p>
-
-<p>—Como ha trezentos annos—ajuntou o padre—como
-os patriarchas idumeos com os seus servos e escravos.
-O sr. Ladislau ainda não viu, á luz da civilisação, a
-grande distancia a que está dos seus criados. Vive, por
-em quanto, na fé de que senhor e servo são homens filhos
-do mesmo pai, um favorecido, outro desfavorecido
-pelo acaso do nascimento... O sr. não lê as gazetas?—perguntou
-o vigario abruptamente.</p>
-
-<p>—Não leio, nem as vi nunca—respondeu o moço—Ouvi
-dizer a meu tio que um padre, d’aqui tres leguas,
-quando acertava de encontrar-se com elle na feira de
-Pinhel, lhe mostrava gazetas.</p>
-
-<p>—Pois—tornou o padre—as gazetas são uns papeis
-escriptos em letra redonda, creados e sustentados para
-demonstrarem que todos os homens tem direitos eguaes.
-Muito me admira que seus avós e o senhor tenham praticado
-a egualdade sem terem lido as gazetas! Provavelmente
-em casa dos Militões de Villa Cova lia-se o Evangelho
-de Jesus Nazareno.</p>
-
-<p>—Lia, sim, senhor.</p>
-
-<p>—Só assim pode explicar-se a virtude sem a doutrinação
-das gazetas. Dizem que ellas são o baluarte da
-liberdade, da egualdade, e da fraternidade; e eu estou
-em defender que o sermão da montanha, prégado pelo<span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span>
-filho de Deus ha mil e oitocentos annos, e o sermão da
-natureza, que sem cessar se está ouvindo, bastam para
-fazer um homem irmão e amigo do outro homem, por
-amor de Deus, que é pai de todos.</p>
-
-<p>Posto que não excedesse os vinte e oito annos, o vigario,
-no pausado e reflectido do seu dizer, competia
-com os cincoenta annos de algum egresso d’aquelle
-tempo.</p>
-
-<p>As faculdades d’este bem-fadado ministro da verdade
-tinham amadurado antes da sasão propria. Costuma ser
-a desgraça quem antecipa, com a precoce experiencia,
-a reflexão; porém observa-se que o juizo—o que commummente
-se chama <i>siso</i>—proveniente das lições do
-infortunio, é um recolhimento melancolico, mysantropo,
-deshumano ás vezes, e quasi sempre intolerante. Em
-exemplos d’esses, que os ha em grande copia, acerto
-seria arguirmos ao enojo das chimeras d’esta vida o que
-attribuimos á reflexão.</p>
-
-<p>A madureza do vigario não era apressada pela desventura,
-nem triste, nem intolerante. A indole, o habito
-da soledade, o estudo, a clara vista da alma com que
-entrava no secreto e desconhecido do coração alheio,
-explicam o ar grave, monacal, e discordante de seus annos.
-Não obstante, o geito com que dizia as suas satyras
-ás gazetas dava mostras de espirito faceto ou <i>humoristico</i>,
-segundo agora francezmente se diz.</p>
-
-<p>Dos estudos do seminario passára o presbytero á capellania
-do padrinho de Pinhel, fidalgo, como se disse,
-intractavel desde 1834, retrahido ao seu quarto, em lucta
-permanente com os achaques da alma egualmente
-dolorosos que os do corpo. A gota, o rheumatismo, a
-sciatica impacientavam-no tanto ou menos que o desmancho
-das cousas politicas. Ruy de Nellas Gamboa de<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span>
-Barbedo, que assim se chamava o gothico solarengo de
-Pinhel, se alguma vez chamava padre João Ferreira ao
-seu quarto, era para lhe perguntar pela quinquagesima
-vez:</p>
-
-<p>—Que me dizes a isto, padre João?</p>
-
-<p>—A isto?</p>
-
-<p>—Sim, á queda do rei legitimo?</p>
-
-<p>—É um facto consummado—dizia o padre.</p>
-
-<p>—É uma usurpação consummada!—replicava o fidalgo,
-e sibillava um agudo ai, levando a mão ao artelho
-esquerdo, cuja dor só podia comparar-se á do artelho
-direito.</p>
-
-<p>E como o afilhado não pudésse restaurar ao throno
-usurpado o senhor legitimo á vontade do padrinho, Ruy
-voltava-lhe as costas, e o padre sahia melancolico a encerrar-se
-no seu quarto com os seus poucos livros, ou
-ia leccionar em primeiras letras as filhas do fidalgo, a
-segunda das quaes principiara o alphabeto aos dezeseis
-annos, Deus sabe com que repugnancia.</p>
-
-<p>Demorei-me accintemente n’estas dispensaveis explicações
-para dar tempo a que os tres convivas almoçassem
-e conversassem. <i>Conversassem</i>, é menos exacto.
-Quem fallou sempre foi o vigario, e é de presumir que
-o auditorio o attendesse escassamente. Ladislau, se alguma
-cousa escutava, era o poema interior, os hymnos
-descompassados, mas sublimes, que soavam dentro em
-seu coração. Estranhas musicas deviam de ser aquellas
-para o moço surprehendido, na alva do seu primeiro dia
-de amor, por enchentes de luz desconhecida! O amor,
-que vem procurado, como sensação necessaria á felicidade
-da vida, perde dous terços da sua embriagante doçura;
-porém, o amor inesperado, impetuoso e fulminante,
-esse é um abrir-se o céu a verter no peito do homem<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span>
-todas as delicias puras que não correm perigo de impestarem-se
-em contacto com as da terra. Era d’esta especie
-o sentimento de Ladislau, nascido na hora em que
-elle ia confirmar sobre a sepultura de seu tio o pacto de
-ser sacerdote, abjurar as desconhecidas allianças do coração
-com o mundo, e acceitar as que atam o coração
-ao mundo com o laço da caridade evangelica.</p>
-
-<p>Ora, aquelle poema interior, se alguem podia decifral-o,
-era Peregrina. A mulher innocente e admiravelmente
-dotada do sexto sentido, que recebe as impressões
-não classificadas na ordem physica nem moral. Adivinha
-quem a ama, antes que lh’o digam. Parece que o ar se
-lhe povoa de espiritos amigos, que giram entre ella e os
-olhos de quem, a fito ou de revez, a requesta. Aquelle
-diaphano veu de escarlate que lhe purpurea o rosto,
-não é sangue como dizem os materiaes definidores de
-tudo: a mimosa susceptibilidade de cutis, chamada pudor,
-não pode ser sangue; em quanto a mim, é o sombreado
-das azas iriadas dos espiritos que voejam no ambiente
-da mulher immaculada, ou então reflexo das coroas
-de rosas, com que o deus festivo dos amores a
-infeita, cioso de ter nos seus altares o pouco d’este
-mundo que merece e desculpa a idolatria.</p>
-
-<p>Posto que este dizer tenha um sabor mythologico, pagão,
-e, sobretudo, antiquissimo, ha-de o leitor conceder
-que o seu servo romancista, tal qual vês, se desgarre do
-caminho trilhado á moderna, para não dizer sempre que
-os seus personagens estavam arrobados, extaticos, ou, o
-que é peior, perdidos de amor.</p>
-
-<p>Os meus personagens, Ladislau e Peregrina, não estavam
-arrobados nem extaticos, porque ambos confessam
-que comeram da travessa vidrada a sua porção de ovos,<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span>
-e tomaram cada qual o seu caldo-verde (palavra indigna
-de tão levantado assumpto!)</p>
-
-<p>Perdidos tambem não estavam; porque o perder-se ou
-transverter-se o coração é quasi sempre a prova real de
-não ter sido o primeiro nem o melhor um certo amor
-com que os alienados se desculpam.</p>
-
-<p>O amor, que não perde nem desvaira, esse é que é o
-amor.</p>
-
-<p>Eil-o ahi, pois, profundo, sereno e bello como o oceano
-em calmaria.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span></p>
-
-<h2>III<br />
-<span class="smaller">Casamento patriarchal</span></h2>
-
-<p>Eu, que já escrevi doze casamentos felizes de uma assentada,
-querendo agora enfeitar o de Ladislau e Peregrina,
-é tamanha a penuria do engenho em que me vejo,
-que—a não me acudir a fada do estylo—hei de contar
-o ditoso enlace, como elle está escripto no livro dos casamentos
-da freguezia de S. Julião da Serra.</p>
-
-<p>Convém saber que é cousa para pouco discurso a passagem
-do amor ao sacramento, que o completa, lá n’essas
-terras abençoadas do obscurantismo, como era o termo
-de Pinhel, e continuará a ser por estes quatro seculos
-por vir, em virtude de lhe andar por muito longe das
-raias o caminho de ferro. De S. Julião da Serra, então,
-isso aposto eu que nunca ha de ser desalojada a santa
-ignorancia, que faz amarem-se e casarem-se logo as pessoas
-que se querem.</p>
-
-<p>Vamos a bosquejar o casamento de Ladislau e Peregrina.
-Se a descripção me sair muito florida, não servirá.
-Guardarei os enfeites para exornação de outros casamentos,<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span>
-onde as flores sejam empregadas em disfarçar a
-mingua de coração e virtudes.</p>
-
-<p>Findo o almoço Ladislau disse ao vigario:</p>
-
-<p>—Como o dia está soalheiro e alegre, pedia eu ao sr.
-padre João e a sua irmã, que viessem passar o dia a
-Villa Cova. Se houver precisão da sua vinda á egreja
-para administrar a extrema-uncção, depressa o irá chamar
-alguem a minha casa; porém, graças a Deus, não
-está ninguem, que eu saiba, doente na freguezia.</p>
-
-<p>—Pois vamos—disse o vigario sorrindo.—Caro lhe ha
-de ficar o almoço... O bom presunto vai pagar os maus
-ovos. Vem d’ahi, Peregrina, vamos lá ver a casa d’onde
-sahiram tantos homens grandes e obscuros, como são os
-homens que se escondem da sociedade para serem bons.
-Quem dirá, sr. Ladislau, que no curto horisonte d’estas
-serras que nos cercam, estão fechadas as lembranças dos
-santos ministros do altar, que vieram de sua casa para
-dentro d’estas quatro paredes velhas!... E seu pai, o
-viuvo amortalhado no habito de frade pedinte!... Vamos!...
-A minha indole melancolica chega a ser rustica!
-Vejo que o sr. Ladislau está alegre, e eu a chamal-o
-a lembranças pesarosas!...</p>
-
-<p>No decurso da caminhada de um quarto de legua, foi
-Ladislau contando em miudos a sahida de seu pai para
-o convento de Vinhaes, e a saudade escura dos que ficaram,
-encarando a porta, que se abrira á passagem de
-um caixão, e logo ao desterrado perpetuo das alegrias
-d’esta vida. E o moço, a fallar de sua mãi, chorava; que
-é sabida cousa a facilidade que temos de chorar, quando
-o amor nos amollece, e, para assim dizer, anima o coração.
-Sem a presença de Peregrina, Ladislau seria mais
-insensitivo, mais duro, mais homem. O amor afemina as
-condições mais viris, e tem feito que as faces queimadas<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span>
-e negras da polvorada das pelejas se orvalhem e brilhem
-de lagrimas. No animo tenro e como infantil do
-moço de Villa Cova, a bem dita influição da meiga menina,
-que o ia ouvindo e amando, devia de abrir-lhe no
-peito os conductos todos das lagrimas maviosas. Não sei
-que mysterio santo e dulcissimo está no fallarmos de
-nossa mãi fallecida á mulher que nos bem quer. Póde ser
-que venha esta sensibilidade de recebermos de uma o
-coração, que damos a outra. Ou, talvez, seja de nos faltarem
-carinhos de mãi, e cuidar a gente que a esposa
-nol-os-ha de reviver.</p>
-
-<p>Subiram os tres caminheiros o serro de uma quebrada,
-d’onde se entrevia a casa de Villa Cova, mal distincta
-do arvoredo de soutos e carvalhaes. N’este alto, está um
-rochedo, a pender sobre uma gruta de lage, ageitada pela
-natureza, e conhecida dos pastores, com guarida segura
-das trovoadas.</p>
-
-<p>—Esta lapa convida—disse o vigario. Sentemo-nos
-aqui um pouco.</p>
-
-<p>—Minha mãi,—disse Ladislau—chamava a esta penedia
-a sua gruta... eu ainda lhes não disse que minha
-mãi era pastora.</p>
-
-<p>—Pastora?!—acudiu Peregrina, com ar de lisongeira
-admiração, significando sentir a patriarchal poesia da
-vida pastoril.</p>
-
-<p>—Olhem se avistam—tornou o moço—pela garganta
-d’estas duas quebradas, lá em baixo, uma casa, nas costas
-de um souto fechado? Alli nasceu minha mãi de uns
-lavradores remediados; e, logo que teve a idade, tomou
-conta da rez, e vinha todos os dias com ella para a serra.
-Aqui no cavo d’este penhasco é que ella comia a sua
-merenda; e, assim que o sol começava a descer, tambem
-ella descia ao valle.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p>
-
-<p>—Sosinha?—atalhou Peregrina, com visagem de sústo.</p>
-
-<p>—Sosinha com dous cães de gado, os quaes, assim
-que anoutecia, um tomava a dianteira do rebanho, outro
-ia á beira d’ella. Muito chorou minha mãi, ao morrerem-lhe
-de velhos os seus cães! Quando vinhamos á igreja,
-minha mãi sentava-se sempre ahi n’essa pedra, onde está
-a sr.ª Peregrina, e dizia a meu pai: «Olha, se te lembras,
-meu santo!» E ficavam-se a olhar um no outro
-com semblante alegre.</p>
-
-<p>Ladislau cessou de dizer o quer que fosse que attentamente
-o padre e a irmã esperavam. Por mais curiosa
-e lhana, Peregrina perguntou:</p>
-
-<p>—E que seria? Porque lhe dizia ella que se lembrasse?</p>
-
-<p>O moço sorriu-se candidamente, e continuou:</p>
-
-<p>—Meu pai estudava para padre, e já tinha ordens
-menores, quando encontrou aqui minha mãi, andando
-elle ás perdizes. D’ahi a pouco tempo estavam casados.
-Isto me contaram meus tios. É bem de ver que ella se
-lembrasse, quando aqui chegava, da primeira vez que se
-viram, depois que eram grandes. Em pequeninos tinham
-sido muito amigos; mas, como meu pai desde os doze
-annos começou a estudar com um tio vigario, e veio
-habitar na residencia de S. Julião, quando se tornaram
-a ver foi tamanho o amor que...</p>
-
-<p>Ladislau susteve-se com feminil pudor.</p>
-
-<p>—E foram muito amigos?—disse Peregrina.</p>
-
-<p>—Tão amigos—respondeu o padre—que se amortalharam
-ao mesmo tempo.—E, erguendo-se, acrescentou:—Ora
-vamos lá por ahi abaixo.</p>
-
-<p>D’alli até casa, Ladislau foi contando ao vigario os
-estudos que tinha feito com seu tio, os livros que lêra,
-e os que mais eram do seu gosto. No tocante ao intento<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span>
-de ordenar-se, nada tinha dito, quando padre João lhe
-perguntou:</p>
-
-<p>—Segundo me disseram, o sr. Ladislau está na ideia
-de ordenar-se?</p>
-
-<p>—Faz hoje um anno que morreu meu tio—disse o sobrinho
-do padre Praxedes.—Pouco antes de ir a Deus,
-me disse elle que esperasse um anno a inspiração do Espirito
-Santo. Agora venho de orar sobre a sepultura de
-meu tio, pedindo-lhe...</p>
-
-<p>—Que o allumiasse no difficil transito—atalhou o vigario,
-e ajuntou logo:—E vem decidido a ordenar-se?</p>
-
-<p>Peregrina, que os seguia com alguma distancia, como
-ouvisse aquella pergunta, insensivelmente estugou o passo
-para ouvir a resposta.</p>
-
-<p>Ladislau respondeu:</p>
-
-<p>—Ainda não.</p>
-
-<p>E, como voltasse o rosto ao padre no acto de responder,
-e visse os olhos de Peregrina, fitos em si, e expressivos
-de anciedade intima, Ladislau recebeu dentro da
-alma uns tamanhos abalos de alegria que não pôde nunca
-mais topar delicias comparaveis ás d’aquelle momento.</p>
-
-<p>Entraram no quinteiro da casa de Villa Cova.</p>
-
-<p>Á porta da córte dos cevados estava uma mulher octogenaria,
-com uma varinha na mão, acommodando os recos,
-que brigavam em redor da pia.<a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2"></a><a href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a> Esta mulher que
-tinha setenta annos de serviço em casa dos Militões,<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span>
-quando o amo, Peregrina e o vigario entraram no quinteiro,
-deixou cahir da mão trémula a varinha, e benzeu-se
-murmurando: «em nome da Santissima Trindade,
-Padre, Filho e Espirito!»</p>
-
-<p>—<i>Amen</i>, disse padre João.</p>
-
-<p>—Que tem vm.ᶜᵉ, tia Brazia?!—perguntou Ladislau.</p>
-
-<p>—Ainda não estou em mim!—respondeu a velha Brazia,
-caminhando para o grupo, e formando com as mãos
-um sobreceu aos olhos para poder enxergar os recem-chegados;
-e proseguiu:—Cousa assim! Pois não me havia
-de parecer agora que via entrar por essas portas dentro...
-credo!...</p>
-
-<p>—Quem lhe parecemos nós?—tornou Ladislau.</p>
-
-<p>—Esta moça—tornou Brazia, aproximando-se de Peregrina—pareceu-me
-sua mãe, que Deus tem; o meu
-menino parecia-me seu pae, o santinho; e este sr. padre
-dava-me ares do sr. reverendo vigario Praxedes. Estou
-a vel-os como eram ha trinta annos, quando vinham da
-igreja, depois da missa do domingo, cá jantar a casa!</p>
-
-<p>—Pois repare bem—disse o moço—que somos pessoas
-vivas, tia Brazia, e havemos de jantar para a convencermos
-de que não somos phantasmas.</p>
-
-<p>—Pois sim, meu menino; graças a Deus ha muito
-quê; mas olhe que os servos estão todos por fóra, e eu
-não tenho pernas para andar atraz da gallinha. Cozinhal-a
-cozinho-a eu; mas pilhal-a isso ha-de ser vm.ᶜᵉ.
-E quem é essa mocinha tão bem posta e ageitada, benza-a
-Nosso Senhor?</p>
-
-<p>—É irmã do sr. padre vigario, que está aqui.</p>
-
-<p>—Ah! este é que é o sr. reverendo vigario? Bem me
-tinham dito que era ainda bem moço; mas isso não tira.
-Se a santidade fosse aquella dos velhos, então já eu estava
-no altar! Deite-me a sua benção, sr. reverendo vigario,<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span>
-e com Deus venha a esta casa d’onde sahiram
-tres santos só dos que conheci. Eu tenho dou carros de
-annos, aqui onde me vê, sanzinha e escorreita, bemdita
-seja Nossa Senhora.<a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3"></a><a href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> Conheci, só á minha parte, o
-sr. padre Timotheo, o sr. padre Heitor, e o sr. padre Praxedes,
-afóra o santo pai do meu Ladislau, que morreu
-com o habito dos missionarios de Vinhaes.</p>
-
-<p>Ladislau interrompeu Brazia, que ia sentar-se n’um
-feixe de vides para mais commodamente contar os successos
-alegres e tristes dos ultimos setenta annos da casa
-de Villa Cova. Pediu-lhe elle com brandura e graça que
-reservasse para depois de jantar as suas historias.</p>
-
-<p>—Então vamos para dentro—disse ella—eu cá vou
-com a nossa menina mostrar-lhe a casa. Como é a sua
-graça?</p>
-
-<p>—Peregrina.</p>
-
-<p>—Por muitos annos e bons. Era melhor chamar-se
-Rosa, que é mesmo uma flôr; que Pelingrina tambem é
-bonito nome. Ora, pois, vá o menino apanhar a ave, que
-a panella vae já p’ro lume.</p>
-
-<p>Ladislau e o vigario sahiram do quinteiro entraram na
-eira onde esgaravatavam as gallinhas. No entanto, Peregrina,
-como a velha se agachasse na lareira para espertar
-o lume amarroado, pediu-lhe que se assentasse no
-escabello, e a deixasse a ella cosinhar. Brazia cedeu ás
-instancias, repartindo o trabalho com a hospeda.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p>
-
-<p>Ladislau entrou na cosinha com a ave, e viu Peregrina
-com um alguidar no regaço, cegando as couves.
-Estranhou a Brazia o estar a irmã do sr. vigario n’aquelle
-serviço, e a velha respondeu serenamente:</p>
-
-<p>Ella assim o quer; e bem haja a moça! Estou-me a
-regalar de a ver! Parece-me mesmo sua mãisinha, quando
-aqui entrou pela primeira vez. O noivo estava lá no
-sobrado com os padrinhos e parentes, e ella desceu cá
-p’ra cosinha a ajudar as criadas.</p>
-
-<p>—Pois sim—replicou Ladislau—mas minha mãi era
-dona da casa e esta senhora é hospeda.</p>
-
-<p>—E por que não ha de ser dona? Se o não é, ella o
-será, querendo Nossa Senhora.</p>
-
-<p>Estas palavras avermelharam as faces de ambos, que
-não poderam suster o relance de olhos que se trocaram.</p>
-
-<p>—Pois então!—continuou a serva, cortando do presunto
-uma boa talhada.—A vida de padre boa é; mas
-não queira o Senhor que o menino seja padre. O que é
-preciso é casar, sr. Ladislau. Deus que lhe deparou esta
-creatura, lá sabe por que o fez. Vamos; é casar depressa,
-que eu não quero morrer sem ver gente miuda n’esta
-casa. O menino fez-me cabellos brancos, quando era pequeno
-(que a fallar a verdade eu já não tinha cabello
-preto nem para uma mézinha). Andava sempre a fugir
-p’ros campos, e eu a procural-o, e ia dar com elle a caçar
-grillos á torreira do sol: e de inverno andava sempre
-por essas fragas acima em risco de malhar aos fundões.
-Deu-me que fazer; mas é o mesmo: quero aturar tambem
-os seus filhos. Quando eu vim para cá, seu pae
-tinha cinco annos, e eu dez; se eu morrer, deixando cá
-um netinho delle, vou contente... Então não dizem nada?</p>
-
-<p>Ladislau, sem a velha dar fé, tinha sahido envergonhado,
-e mais ainda por ver que a Peregrina, ao passo<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span>
-que Brazia fallava, descia o rosto sobre a hortaliça, voltando-o
-de modo a não ser visto de frente pelo moço,
-que por sua parte se estava tambem escondendo no mais
-sombrio da cosinha, até encontrar a porta por onde sahiu.</p>
-
-<p>O vigario, estava esperando Ladislau, na vasta casa
-da livraria.</p>
-
-<p>Havia muito que ver e admirar nas estantes dos numerosos
-sabios d’aquella familia. A bibliotheca fôra principiada
-no ultimo quartel do seculo XIV por um padre
-Vicente Militão, que fôra peregrino a Roma, e estivera
-no concilio tridentino, e lá fôra muito acceito, por seu
-saber, e reportadas virtudes, ao santo arcebispo de Braga,
-D. Bartholomeu dos Martyres. Encadernadas em
-pergaminho, com o Breviario do padre Vicente, lá estavam
-algumas cartas do primaz das Hespanhas, cartas
-magoadas revelando o peso das obrigações prelaticias, e
-outras mais de folga, datadas no convento de Vianna do
-Minho, onde o humilde principe da igreja se fôra a descançar,
-e morrer nas delicias «d’uma estreita cella, paredes
-nuas, em mezas sem panno, um candieiro de ferro
-pendurado de um prego, uma cama de frade ordinario
-sem cortina, nem genero de paramento sobre uma táboa
-de pinho.» Estas palavras de fr. Luiz de Souza
-recordava o padre João Ferreira, quando religiosamente
-deletreava os caracteres amarellados e meio delidos das
-cartas do arcebispo.</p>
-
-<p>Voltando á livraria, os successores de Padre Vicente
-enriqueceram-n’a, empregando n’ella quanto dinheiro podiam
-amealhar, sem prejuizo dos pobres. Como quer, porém,
-que o rendimento de sua grande lavra sobre-excedesse
-o gasto, o remanescente era trocado por livros,
-enviados á escolha de entendedores monasticos, com<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span>
-quem os padres de Villa Cova, por amor da sciencia e
-piedosamente, entabolavam correspondencia.</p>
-
-<p>Os tres ultimos sacerdotes d’esta familia não tinham
-comprado livro algum, desde os ultimos annos do reinado
-de D. João V, em que a religião degenerou de sua
-simplicidade em luxuosa, e, até certo ponto, hypocrita
-ostentação; e, de mais a mais, os que a tractavam moral
-ou dogmaticamente, escreviam-n’a em linguagem, que
-não era a de Domingos Feo, Thomé de Jesus, Heitor
-Pinto, Arraes e Lucena. Para bem aquilatarmos em qual
-grau de purismo classico andava a vernaculidade n’aquella
-serie de padres letrados, basta dizer-se que no frontespicio
-do primeiro volume dos sermonarios do padre
-A. Vieira, um padre Timotheo Militão escrevera: «Tambem
-este grande engenho está gafado!» A gafa de que
-se lastimava o escrupuloso idolatra dos aureos escriptores
-sem liga era aquelle geito de conceitista italico-hispano
-em que o preclaro jesuita, a espaços, se descuidava
-na oratoria.</p>
-
-<p>Em quanto Ladislau e o vigario se entretem n’estas
-e semelhantes praticas, ingratas ao leitor de paladar
-mais delicado, Brazia está assim conversando com Peregrina,
-hombro a hombro, no escano da lareira, emquanto
-a galinha ferve:</p>
-
-<p>—Brazia não seja eu, se Deus me não ha-de ajudar!
-Lá que os moços se querem, como eu á menina dos
-meus olhos, isso vou eu jural-o sobre umas Horas, sendo
-preciso! A menina é uma perfeição; o meu Ladislau é
-aquillo que alli está. Duas creaturas assim já vem lá de
-cima talhadas para serem uma da outra; e, quando
-acertam de se toparem no mesmo caminho, vão ambas
-p’ra direita, ou p’ra esquerda. Não tem remedio senão
-casarem-se.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span></p>
-
-<p>—Pois sim—repetia Peregrina o que havia dito duas
-vezes:—Ainda hoje nos vimos, e já a sr.ª Brazia nos
-quer ver casados?</p>
-
-<p>—Então a menina cuida que uma pessoa só se conhece
-por ser vista muitas vezes? Eu ouvia ler a Historia
-Sagrada á sr.ª Sebastiana, que sabia ler como um
-padre, e já lá está na corte dos bemaventurados... Rezemos-lhe
-por alma.</p>
-
-<p>A sr.ª Brazia rezou alto, e Peregrina mentalmente.</p>
-
-<p>—<i>Requiescat in pace</i>,—disse a velha.</p>
-
-<p>—<i>Amen</i>,—respondeu Peregrina, e benzeram-se.</p>
-
-<p>Brazia continuou:</p>
-
-<p>—Pois como eu vinha dizendo, a Historia Sagrada
-conta que antigamente um moço sahia da sua terra em
-cata de outra terra, onde estava a noiva, que elle nunca
-vira. Batia á porta do sogro, pedia-lhe a filha e casava.
-Isto é que eram tempos, moça! «O coração não tinha
-peccado que fosse preciso descobrir com o tempo» dizia
-o sr. padre Praxedes, quando a irmã se admirava de casamentos
-assim de fugida. Olhe-me bem n’isto, que estas
-palavras teem muito que deslindar. N’aquelle tempo,
-a moça casadoura era por dentro como por fóra; via-se
-como á luz do meio dia o que ella lá tinha no seu interior:
-agora, pelos modos, é preciso espreitar muito tempo
-as inclinações das pessoas! O pai do sr. Ladislau era
-dos rapazes antigos: viu a menina lá em cima na lapa
-da Crasta, gostou d’ella, tornou lá a saber se ella o queria,
-foi ás Chãs aonde ao sogro; e, d’ahi a dias, já ella
-aqui estava a encher esta casa de satisfação. É como
-foi, e é como ha de ser! Senhor Jesus do bom despacho,
-não me deixeis ficar mal!</p>
-
-<p>Ladislau e o vigario, chamados pela velha, desceram
-á cosinha, onde estava posta a meza. Jantaram alegremente<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span>
-e de vontade. Os dizeres de Brazia, tendentes
-todos ao casamento, assazoavam as singelas iguarias do
-vigario, que pondo os olhos, quer na irmã quer em Ladislau,
-reparava na gravidade com que em silencio escutavam
-as facecias da inquebrantavel velhinha.</p>
-
-<p>—Será possivel que...</p>
-
-<p>Disse entre si padre João, e cuidou ler no rosto do
-hospede e no rosto da irmã esta resposta:</p>
-
-<p>—É possivel, e é certo.</p>
-
-<p>Findo o jantar, sahiram a tomar o sol na eira.</p>
-
-<p>Brazia, porém, puchou da batina ao vigario, chamou-o
-de parte, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Deixe-os lá...</p>
-
-<p>Padre João não achou que responder á velha, e fez
-menção de seguir sua irmã, que o estava esperando.</p>
-
-<p>—Não vá sem me ouvir duas palavras, sr. reverendo
-vigario. Sente-se n’este tamborete, que eu vou dizer aos
-moços, que vão á sua vida, e nós lá iremos ter.</p>
-
-<p>O dialogo deteve-se boa meia hora. Depois sahiram á
-eira; e o padre levava amparada no braço a velha, que
-jogava difficilmente os joelhos.</p>
-
-<p>—Ora diga-me o que elles estão fazendo, que eu já
-não enxergo nada—murmurou a velha.</p>
-
-<p>—Ladislau está apanhando flores na ribanceira.</p>
-
-<p>—Vê?—acudiu Brazia—que lhe disse eu? Flores são
-amores... E ella que faz? Não anda tambem ás flores?!</p>
-
-<p>—Não, tia Brazia. Está sentada.</p>
-
-<p>—A enfiar algum annel de missanga?</p>
-
-<p>—Tambem não.</p>
-
-<p>—Não? Então é uma ingrata. Vou ralhar com ella.
-E, acercando-se com extraordinaria presteza de Peregrina,
-disse-lhe em tom de graciosa severidade:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span></p>
-
-<p>—Vá fazer tambem um raminho, ande, menina, e
-dê-o ao sr. Ladislau.</p>
-
-<p>Peregrina poz a vista timida no irmão. O vigario fez
-um gesto de consentimento. Ergueu-se ella a colher
-umas enfezadas flores silvestres e inverniças que se definhavam
-entre os silvedos, e Brazia, ao mesmo tempo,
-dava umas palmadas e tregeitava uns saltinhos de cegonha,
-muito para riso, senão justificassem a alegria que
-lhe acreançava os oitenta annos. Santa creatura para
-namorados era aquella Brazia! Estar ella dizendo tudo
-que elles queriam dizer-se; fazer-se lingua de corações
-á hora em que nem os proprios donos saberiam articular
-a linguagem d’elles; obrigar Peregrina a colher flores,
-quando a moça estava perguntando a si propria se parecia
-mal colhel-as e offerecel-as! E hão de rir-se pessoas,
-que amaram ou amam, da velhinha que tudo
-aquillo fez com tanto sizo e proposito e angelicas intenções!</p>
-
-<p>Peregrina deu as suas flores a Ladislau, e recebeu o
-ramilhete d’elle. Qual dos dous tinha coração mais feminil?
-Pelo rubor da face não havia estremal-os.</p>
-
-<p>—Onde iria a tia Brazia?—perguntou o vigario, vendo-a
-sahir açodada e regamboleando as rebeldes pernas
-pela eira fóra.</p>
-
-<p>A velha pouco se deteve. Chegou esbofada. Chamou
-de parte Ladislau, e disse-lhe de modo que o vigario e
-a irmã ouviram:</p>
-
-<p>—Esta argolinha de ouro deu-a seu pae á mãisinha
-na vespera de se casarem, e já foi de sua visavó. Aqui
-a tem. Vá dal-a á sua noiva, senão levo-lha eu.</p>
-
-<p>Ladislau ficou atonito e immovel. O vigario sorriu, e
-disse á velha:</p>
-
-<p>—Sr.ª Brazia, vm.ᶜᵉ está sonhando um alegre sonho.<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span>
-Deixe ver se o tempo, com a vontade de Deus, confirma
-os seus bons desejos, que serão tambem os meus.</p>
-
-<p>Ladislau, como levado de insuperavel força, avisinhou-se
-de Peregrina e offereceu-lhe o annel. O vigario,
-abalado e commovido pela acção inesperada do mancebo,
-tomou a mão convulsa de sua irmã, e vestiu-lhe o
-annel. Depois, apertando nos braços o noivo de Peregrina,
-exclamou:</p>
-
-<p>—Pois não é um sonho?</p>
-
-<p>Accudiu Brazia:</p>
-
-<p>—Qual sonho? O que eu quero é os primeiros banhos
-apregoados no domingo; e de hoje a um mez esta
-menina é minha ama.</p>
-
-<p>—Sua amiga, sua filha!—disse Peregrina abraçando-a.</p>
-
-<p>Assim foi. Na quarta dominga seguinte receberam as
-bençãos estas duas creaturas preordenadas para a felicidade
-da terra e ceu.</p>
-
-<p>Os casamentos, que Deus escolhe, são assim determinados
-com uma singelesa, copiada dos tempos visinhos
-da creação de varão e femea, como entes necessarios a
-si, e de repente identificados por unidade insoluvel de
-almas. E então era o viverem tão sós e um, como quem
-de uma só vida tinham de prestar contas ao juiz supremo.</p>
-
-<p>A mim parece-me que o cazar-se a gente devia ser
-como Ladislau e Peregrina. Andar annos com o coração
-em ancias é desvigorisal-o para quando elle é mais necessario.
-Pelo ordinario, os noivos que se amam longo
-tempo, cazam-se quando o mais fino da sensibilidade
-está desgastado na abstracção e na chimera.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p>
-
-<h2>IV<br />
-<span class="smaller">Outros amores</span></h2>
-
-<p>No dia immediato ao das bodas, o saudoso vigario
-fôra passar a tarde com sua irmã, que o viera esperar
-com o marido ao rochedo da Crasta.</p>
-
-<p>Ao entardecer, quando o padre se despedia, chegou
-um portador da residencia com uma carta para Peregrina.</p>
-
-<p>—Para mim?!—exclamou ella duvidosa.</p>
-
-<p>—E letra da sr.ª D. Christina—disse padre João.</p>
-
-<p>—Ella está lá—acrescentou o portador.</p>
-
-<p>—Ella quem?—acudiu Peregrina.</p>
-
-<p>—A fidalga, que escreveu a carta.</p>
-
-<p>—Que novidade é esta?!—disse o vigario, abrindo e
-lendo.</p>
-
-<p>—Lê alto, meu irmão!—disse Peregrina impaciente.</p>
-
-<p>E o padre continuou a ler mentalmente, dobrou a carta,
-embolçou-a na sotaina, e disse ao portador:</p>
-
-<p>—Vai indo, que eu lá vou ter.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p>
-
-<p>E, depois que o criado sahiu, murmurou com mui entranhada
-mágoa:</p>
-
-<p>—Eu presagiei esta desgraça!</p>
-
-<p>—Desgraça!—exclamou Peregrina.—Que é, meu
-João?</p>
-
-<p>O padre, voltado a Ladislau, disse:</p>
-
-<p>—A senhora, que escreve a minha irmã, é a filha
-mais nova de meu padrinho e bemfeitor. Lê tu, Ladislau,
-e minha irmã que ouça.</p>
-
-<p>Ladislau leu:</p>
-
-<p>«<i>Peregrina.</i> Pela carta de teu irmão ao papá sabiamos
-que ias casar; mas não cuidei que fosse tão depressa.
-Cheguei aqui a buscar o amparo de teu irmão
-e o teu. Felizmente estaes perto, e sei que vireis em
-meu soccorro. Eu venho fugida, e commigo vém o homem
-que amo, e a quem meu pai me negou, sem compaixão
-das minhas lagrimas. Vimos rogar a teu bom
-irmão que nos receba, e legitime a nossa união. A pobreza
-não nos aterra. Logo que estejamos casados, teremos
-força do céu para supportarmos todos os trabalhos.
-Vem, se podes, com teu irmão para me ajudares
-a vencel o, se elle resistir ao sagrado dever de nos abençoar
-este amor, que não deve ser a nossa perdição. Tua
-amiga <i>Christina</i>.»</p>
-
-<p>—E vaes casal-os não é verdade?—exclamou a commovida
-senhora.</p>
-
-<p>—Não é verdade—respondeu friamente o sacerdote.</p>
-
-<p>—Como?!—tornou Peregrina—não os casas?</p>
-
-<p>—Não. A filha desobediente não acha onde quer um
-ministro do Evangelho que lhe galardoe a rebellião contra
-seu pai. A lei de Deus diz: <i>honrarás teu pai e tua
-mãi</i>: a lei ecclesiastica diz ao cura d’almas: <i>não casarás<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span>
-a menor sem consentimento de quem a governa, ou ordem
-superior do teu prelado</i>. Eu vou sahir.</p>
-
-<p>—Eu tambem vou... disse Peregrina.</p>
-
-<p>—Não vaes—replicou o vigario.—Estás ao lado de
-teu marido, e Christina apparece-te ao lado d’um homem
-que... não lhe é nada.</p>
-
-<p>Peregrina baixou os olhos, e Ladislau disse:</p>
-
-<p>—Tu ficas; eu é que vou. Manda apparelhar a egua,
-que a filha do teu bemfeitor virá commigo.</p>
-
-<p>A esposa lançou-se-lhe nos braços, e exclamou:</p>
-
-<p>—Tu vaes buscar a infeliz menina?</p>
-
-<p>—Pois se ella é infeliz!... murmurou Ladislau.</p>
-
-<p>E sahiram.</p>
-
-<p>Christina estava á janella do sobrado da residencia
-quando o vigario e o cunhado chegaram.</p>
-
-<p>Era noite muito escura.</p>
-
-<p>—Estás ahi, Peregrina?—perguntou ella.</p>
-
-<p>—Não está, minha senhora—respondeu o padre.—Está
-o marido de minha irmã.</p>
-
-<p>A secura d’esta resposta intimidou Christina. E, receosa,
-voltando-se a um moço de boa presença, disse:
-«Enganei-me, Casimiro; o padre não nos recebe.»</p>
-
-<p>O vigario entrou na saleta, seguido de Ladislau. Cortejou
-com mui respeitosa reverencia a filha do seu bemfeitor,
-e levemente o cavalheiro, a quem chamou Casimiro
-Bettencourt. Depois disse:</p>
-
-<p>—Vi a carta que v. ex.ª escreveu a minha irmã. Peregrina
-não veio, por ser inteiramente inutil a sua vinda.
-Eu não posso sem authorisação canonica e civil ligar matrimonialmente
-v. ex.ª com este senhor.</p>
-
-<p>—Eu vinha tão confiada na sua bondade...—disse
-Christina, retrahindo os soluços sem reter as lagrimas.</p>
-
-<p>—Em minha consciencia—tornou o vigario—digo que<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span>
-o mais prudente e urgente acto n’este desgraçado successo
-é casarem-se; mas eu não posso fazel-o...</p>
-
-<p>—E então—atalhou Casimiro Bettancourt—um sacerdote
-do Christo assim nos abandona, como quem diz:
-«sêde criminosos e infames á vossa vontade...»</p>
-
-<p>—Não, senhor. O sacerdote de Christo faz, n’estes
-casos, o que faria qualquer homem de boas entranhas.
-Irei pedir ao sr. Ruy de Nellas consentimento para salvar
-sua filha da continuação do crime e da infamia.</p>
-
-<p>—Meu pai é inexoravel!—acudiu Christina.</p>
-
-<p>—Não pode ser—disse Ladislau.—Um homem, que
-amparou e educou dous filhos desvalidos d’um seu cazeiro,
-não póde ser impiedoso com sua filha. Minha senhora,
-peço licença para interpor o meu parecer n’uma
-questão em que minha mulher não é estranha, e eu
-tambem não posso sêl-o. Ella não veio; mas encarregou-me
-de vir aqui offerecer-lhe nossa casa; e, tão certa está
-de que v. ex.ª nos honra em aceital-a, que já vim preparado
-para a conducção de v. ex.ª.</p>
-
-<p>—Pois heide eu ir!...—exclamou Christina, encarando
-anciada em Casimiro.</p>
-
-<p>—O sr. Casimiro fica sendo meu hospede—respondeu
-o vigario.</p>
-
-<p>—Separados!—bradou ella rompendo contra todos os
-estorvos do pudor, e abraçando-se em Casimiro.</p>
-
-<p>—Não!—clamou elle.—Christina, sacode os teus sapatos
-fóra d’esta porta, e vamos ao nosso destino.</p>
-
-<p>—O aggravo não me fere, que o não mereço, senhor!—disse
-placidamente o vigario.—Eu convido o sr. Casimiro
-a ser meu hospede, em quanto se solicita a licença
-do pai d’esta senhora. Se lhes é dolorosa esta separação
-temporaria, Deus permittirá que os retornos de
-contentamento a façam esquecer. Soffram alguns dias<span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span>
-para merecerem o premio. Eu não posso implorar o perdão
-para a desobediencia, allegando que os fugitivos permanecem
-em criminosa união. Ha o recurso da mentira;
-mas eu não sei mentir. Despeçam-se para um dia, que
-breve virá, se Deus nos ouvir. O sr. Casimiro, que me
-applicou as palavras de Jesus aos apostolos, mostra que
-lê e sabe os livros da religião. Seja, pois, religioso: peça
-comnosco ao Senhor que lhe despache em bem o seu
-requerimento.</p>
-
-<p>Casimiro apertou a mão de Christina, e disse:</p>
-
-<p>—Vai, e esperemos.</p>
-
-<p>—E esperemos—acrescentou o padre—por que, a baldarem-se
-os nossos bons intentos, quem lhes ha de empecer
-ajuntarem-se? O mundo, quando vê dous desgraçados,
-deixa-os passar, e vinga-se. Se o mundo é justo,
-não o direi eu: vingança justa creio que não ha nenhuma
-ahi. O inverso da caridade é a vingança. Tenham
-valor, que, se o não tem são mais fracos, desconfiam do
-poder de Deus, e da sua propria fidelidade um a outro.</p>
-
-<p>—Adeus! balbuciou Christina, suffocada de suspiros.
-Casimiro beijou-lhe a mão, dobrou o joelho, e disse:</p>
-
-<p>—Se te fiz desgraçada, perdôa-me.</p>
-
-<p>Ladislau, debulhado em lagrimas, abraçou Casimiro,
-e exclamou:</p>
-
-<p>—Sou seu amigo! O senhor ama deveras esta menina!</p>
-
-<p>—Eu sei que se amam!—disse o vigario—por isso
-serei parte, quanto em mim couber, na sua boa fortuna.</p>
-
-<p>—E eu não?!—disse com vehemencia o de Villa
-Cova.</p>
-
-<p>—Tu tambem, meu irmão. Ajudar-me-has com os teus<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span>
-conselhos, por que no teu coração tenro está a sabedoria
-dos virtuosos, que te educaram.</p>
-
-<p>—Não fomos infelizes, Christina!—clamou Casimiro.—Aqui
-estão comnosco duas generosas almas. Vai, minha
-amiga!</p>
-
-<p>—Venha—disse Ladislau—que minha mulher está
-pedindo a Deus que vamos.</p>
-
-<p>Já não choravam ao separarem-se.</p>
-
-<p class="tb">Cumpre narrar, o mais breve que ser possa os antecedentes
-d’esta fuga.</p>
-
-<p>De uma familia pobre de Pinhel sahira em 1814 um
-mancebo a assentar praça no regimento de cavallaria de
-Bragança, onde serviu até furriel. De Bragança passou
-para Lisboa em 1815. Aqui seguiu os postos até que fez
-a campanha do cerco do Porto, já major do exercito sitiante,
-e ahi morreu na ultima batalha. Este militar era
-pai de Casimiro Bettancourt.</p>
-
-<p>Casimiro sabia que nascera em Lisboa em 1816, e
-não conhecia sua mãi. Com referencia ao seu nascimento,
-apenas possuia a pagina de uma velha carteira,
-que dizia: «Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro
-de 1816: foi baptisado em S. Domingos de Santarem,
-aos 22 do mesmo mez. Foi creado no Cartacho,
-d’onde sahiu em 1820. Entrou no collegio dos Nobres
-em 1825. Tenho pago todas as prestações até hoje 31
-de dezembro de 1830.» Em nenhum outro caderno de
-apontamentos encontrou indicios de sua mãi; nem das
-muitas cartas que seu pai deixou esquecidas n’um bahu
-de folha, pôde colligir quaes pertencessem a sua mãi.
-As que tinham data eram quasi todas muito posteriores
-ao seu nascimento. Apenas duas assignadas com a inicial
-E, posto que sem data, queria e conjecturava elle<span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span>
-que fossem de sua mãi: este querer fundava-se um pouco
-em vaidade, e muito em presagio, como depois se verá.</p>
-
-<p>Morto o pai, e transvertida a ordem politica, claro é
-que o joven alumno do collegio dos Nobres havia de sahir
-entre dezeseis e dezesete annos de idade, desvalido,
-desconhecido, e indifferente a toda a gente. Dos sabidos
-amigos de seu pai uns tinham morrido, outros emigrado,
-e outros esmolavam.</p>
-
-<p>Sabia Casimiro que seu pae nascera em Pinhel, e se
-correspondia com sua irmã, a largos espaços. Achou cartas
-assignadas por uma Marianna de Bettencourt. Escreveu,
-ao acaso, á senhora d’aquelle nome, ou ao nome
-d’aquella senhora. Responderam-lhe que sua tia tinha
-fallecido em 1832. A pessoa, porém, que respondia, era
-o viuvo, carpinteiro de seu officio, bom homem que lhe
-offerecia sua casa, e metade de suas sopas.</p>
-
-<p>Obrigado a optar entre a fome e as sopas do artista,
-Casimiro foi para Pinhel, auxiliado pela esmola de um
-condiscipulo, filho de um brigadeiro liberal, camarada do
-finado major antes de 1828.</p>
-
-<p>O artista redobrou de trabalho para não obrigar o sobrinho
-de sua mulher a pegar da serra e da enxó. Comprava-lhe
-vestido á feição de que usavam os moços remediados,
-e esperava que seu compadre Ruy de Nellas—padrinho
-d’um filho que mandára para o Brazil, quinze
-annos antes—cedo ou tarde conseguisse algum decente
-emprego para Casimiro.</p>
-
-<p>O fidalgo admittia á sua casa e presença o moço, em
-attenção ao pai, que morrera fiel á justa causa, como
-honrado e bravo. As filhas do fidalgo achavam-n’o distincto,
-delicado, bem fallante, e divertido, quando a tristeza,
-a dolorosa introversão o deixavam dissimular contentamento,
-que o pobre, a bem dizer, nunca sentiu deveras.<span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span>
-Ruy de Nellas mostrava desejos de lhe abrir a
-carreira da independencia. Aos dezenove annos, Casimiro
-pensava em ser soldado; o fidalgo, porém, queria que
-elle fosse padre com um patrimonio fantastico, e o carpinteiro
-inclinava-se ao generoso parecer de seu compadre.</p>
-
-<p>Sacerdote é que não! Casimiro amava Christina, Chistina
-ia chorar com elle; e sabia em que sombras de arvores,
-ou margens de ribeiras o moço ia chorar.</p>
-
-<p>E ella ia, tremendo de medo e paixão, e a pedir resguardo
-ás azas dos anjos, buscal-o onde elle estivesse.
-Tremia, mas não corava de pejo. As flôres que viam,
-invejavam-lhe a pureza. Arquejava-lhe o seio cançado de
-retrahir-se: cuidava a doce creatura que o espirar alto a
-denunciava. Era o offegar d’aquelle seio como o da avesinha
-anciada, que busca, de fronde em fronde, o ninho
-que lhe desfizeram. De longe o antevia pelos olhos da
-alma. As lagrimas tem seu odor: só lh’o não presentem
-os que as deixam gotejar sem misericordia, sem dó.</p>
-
-<p>E quem havia de ter pena do sobrinho do carpinteiro
-a não ser ella; que o intendera ao primeiro instante de
-ser amada, e ao mesmo raio ardente se queimára, e, se
-o timorato moço esmorecia de medo e pejo, era quem
-o acoroçoava e levantava do seu abatimento?</p>
-
-<p>Exceptuada a cumplice d’este enorme crime—o enormissimo
-crime de erguer homem pobre olhos affectuosos
-á filha d’um Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo—o restante
-do mundo seria contra elle, se podesse adivinhal-o.</p>
-
-<p>Adivinhava-o o padre João Ferreira, quando voltou
-de tomar as ultimas ordens. A Casimiro disse:</p>
-
-<p>—Subjugue o coração emquanto é tempo. Tenha sempre
-deante de seus olhos os beneficios que deve ao sr.<span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span>
-Ruy. Recompensar-lh’os com desgostos será crueza e indignidade.</p>
-
-<p>Casimiro não respondeu. O amor, aos dezoito annos,
-quando assim é surprehendido, não sabe mentir.</p>
-
-<p>A Christina disse o padre:</p>
-
-<p>—A maior prova de estima, que v. ex.ª póde dar a
-Casimiro, é desvial-o de si. Dos dous hade ser elle o
-mais desgraçado. Na sua idade, menina, o amor é sempre
-uma creancice, e como criancice se esquece quando é
-contrariado; porém, a primeira affeição do moço póde
-ser a ultima e volver em desgraça irremediavel.</p>
-
-<p>—Quem sabe?—disse Christina com pueril audacia
-e destemor.</p>
-
-<p>—Eu não sei senão que v. ex.ª está amando um homem
-que seu pae repulsará de casa, logo que desconfiar
-de tão estranhas intelligencias. A menina será perdoada
-como inocente, e elle perseguido e castigado como villão.
-Como penso que assim vem a acontecer, entendo
-que o seu amor será funesto ao pobre orfão. Seria querer-lhe
-muito desenganal-o.</p>
-
-<p>Observou padre João que as duas cegas creaturas,
-depois do aviso, praticavam como se, em vez da censura,
-recebessem louvores. Buscavam-se mais, escondiam-se
-mais, e, de dia para dia, pareciam ir declarando a toda
-a gente o seu amor, como se contassem com o apoio do
-fidalgo.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas chamou o padre e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Ó afilhado, tu não desconfias de nada?</p>
-
-<p>—A qual respeito, meu padrinho?</p>
-
-<p>—Que minha filha Christina olha o Casimiro de um
-certo modo?</p>
-
-<p>—Póde ser que v. ex.ª se não tenha enganado. Eu<span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span>
-supponho que se estimam; e meu padrinho não podia
-embaraçal-os de se estimarem.</p>
-
-<p>—Essa não me parece tua!—exclamou o fidalgo.—Não
-posso embaraçal-os?! Então quem é que póde?</p>
-
-<p>—Ninguem, meu padrinho: o tempo é que corrige
-estes defeitos do coração humano. Deixe v. ex. em silencio
-a suspeita que eu tomo a meu cuidado o descanço
-de v. ex.ª.</p>
-
-<p>—Nada de pannos quentes!—bradou Ruy de Nellas.
-Casimiro vai ser posto fóra d’esta casa, e talvez de Pinhel.
-É assim que elle me paga? É-me bem feito! muito
-bem feito! Não seja eu tolo de estar aqui de braços abertos
-para receber desgraçados, que afinal...</p>
-
-<p>Padre João esperou que seu padrinho desabafasse a
-sua ira, e disse com humilde e pacato animo:</p>
-
-<p>—Sou eu um dos desgraçados que v. ex.ª recebeu nos
-braços abertos para todos: o que posso dar em troca de
-tantos beneficios é a lealdade do meu coração, o meu
-leal aviso em coisa tão melindrosa. Se v. ex.ª perseguir
-Casimiro, a sr.ª D. Christina, se já o ama como creio
-que sim, amal-o-ha mais depois. Conheço de fundamento
-a indole d’esta menina, e algum tanto a de Casimiro.
-Este moço tem espiritos de condição muito altiva, que
-se revoltam contra a baixeza em que o lançou a desfortuna.
-Por vezes me tem fallado do seu futuro com uns
-raptos de visionario, que me fariam rir, se me não compadecessem.
-Presagiam-se brilhantes destinos, e esquece-se
-de que o honrado carpinteiro está a suar para que
-elle se não avilte no trabalho incompativel com as suas
-imaginações. Em quanto á sr.ª D. Christina, é minha
-opinião que esta menina desobedece ao raciocinio, e á
-força, se lh’a imposerem. Sabe v. ex.ª que, de todas as
-suas filhas, esta foi a mais remissa em aprender o pouco<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span>
-que sabe, sobejando-lhe talento para muito. Observei
-que uma palavra aspera m’a afugentava por oito dias, e
-transtornava todo o anterior aproveitamento. Argumentando
-d’estas coisas simples, por analogia, todas me levam
-a crer que o emprego de providencias energicas
-dará mau resultado.</p>
-
-<p>—Qual?!—atalhou o fidalgo.</p>
-
-<p>—Uma fuga, uma vergonha.</p>
-
-<p>—Tu pensas isso, João?!</p>
-
-<p>—Ousaria eu dizer a meu padrinho o contrario do
-que penso?!</p>
-
-<p>—E os ferrolhos dos conventos para que se fizeram?</p>
-
-<p>—Para as freiras estarem seguras da inviolabilidade
-de suas pessoas.</p>
-
-<p>—E para as filhas rebeldes.</p>
-
-<p>—A rebellião continua nos conventos, a rebellião do
-espirito, contra a qual não prevalecem os ferrolhos.</p>
-
-<p>—Veremos.</p>
-
-<p>—Seria acêrto não experimentar, meu padrinho.</p>
-
-<p>—Então que queres tu que eu faça?: Deverei cazar
-minha filha com o sobrinho do carpinteiro?</p>
-
-<p>—Não, senhor. Penso que v. ex.ª, simulando inteiro
-desconhecimento do que se passa, deve favorecer Casimiro
-para que siga a vida militar que deseja.</p>
-
-<p>—Agora! agora que elle ousou pôr olhos em minha
-filha! o ingrato! pois não! Vou mesmo agora estabelecer-lhe
-mesada em Coimbra ou Lisboa para elle se formar
-em mathematica, e namorar-me de lá a filha! Estavam
-bem avisados os pais, se tivessem de mandar a Coimbra
-os maltrapilhos que lhes requestam as filhas! Não
-haveria ahi aprendiz de sapateiro, que se não fizesse
-galan das herdeiras ricas! Ora, sr. padre João Ferreira,
-outro officio! Não sei em que livros e em que terras tu<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span>
-foste estudar e experimentar semelhantes desconchavos.
-Eu consultarei o meu travesseiro...</p>
-
-<p>—Deus responda ás suas consultas, meu padrinho—disse
-o padre, quando o fidalgo lhe voltou as costas.</p>
-
-<p>No dia seguinte, ás cinco horas da manhã, já o fidalgo
-estava a pé, e abria subtilmente a janella do seu quarto
-sobre o jardim cujo muramento partia com a rua. Viu
-elle Christina sahir ao terreiro pela porta da cozinha,
-atravessar as aleas de amoreiras, destrancar um postigo
-de communicação com a estrada, e debruçar-se no peitoril.
-Desceu Ruy de Nellas, de manso, ao jardim, e ia
-já em meio, quando a filha deu tento da espionagem.
-Soltou um ai; mas de turvada que ficou, nem aviso deu
-a Casimiro. O pai apertou o passo, correu impetuosamente
-ao postigo, e viu o moço quieto, e sereno como
-se a surpreza fosse um gracejo de futuro sogro, que se
-entretem a fazer foscas ao futuro genro, muito do seu
-agrado.</p>
-
-<p>Não assim Christina, que, passado o momento do
-spasmo, dobrou o joelho e balbuciou:</p>
-
-<p>—Meu pai, eu é que sou a culpada!</p>
-
-<p>Não attendeu, nem acaso ouviu estas vozes o fidalgo.
-Inclinou-se á estrada, e exclamou:</p>
-
-<p>—Vá lá contar a seu tio carpinteiro a maneira como
-vossa mercê pagou a hospitalidade, que lhe dei! E não
-me torne a rondar a casa, que não vá algum dos meus
-criados apalpar-lhe as orelhas!</p>
-
-<p>Fechou-se o postigo com estrondo. Aquellas palavras
-continuaram a martellar nos ouvidos do moço, que levava
-as mãos á cabeça, como para as não ouvir. Pensou
-em se matar, como toda a gente, alguma vez, excepto
-os bons christãos, os felizes, e os tolos, que não são christãos<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span>
-nem felizes, nem precisam ser senão tolos para viverem
-e até sobreviverem a si proprios.</p>
-
-<p>Caminhou ás cégas por uns trilhos de cabras, que se
-aplanavam n’uma chã, arborisada de sôbros, onde padre
-João regularmente amanhecia com os seus livros de theologia
-moral ou historia ecclesiastica.</p>
-
-<p>—Casimiro viu-o, correu a elle, e exclamou:</p>
-
-<p>—Valha-nos!</p>
-
-<p>O padre reçebeu-o nos braços e ouviu acontecido.</p>
-
-<p>—O remedio virá do ceu—disse elle.—Não sei que
-lhe faça, a não querer receber-me um conselho. Espere,
-soffra, conforte-se, ore, e humilhe-se: não sei que mais
-lhe diga.</p>
-
-<p>Casimiro Bettancourt, ao anoutecer d’esse dia, adormecera
-com a face encostada a uma pedra: era a lethargia
-da fome, da fadiga, e da desesperação.</p>
-
-<p>Não orára.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span></p>
-
-<h2>V<br />
-<span class="smaller">Veredas penhascosas</span></h2>
-
-<p>Ruy de Nellas, contente do feito, mas não seguro
-ainda, scismava na escolha do convento em que devia
-encerrar Christina, quando o padre João Ferreira chegou
-de dizer missa. Chamado a dar seu voto, o sacerdote
-respondeu que obedecia, mas não aconselhava; que
-iria onde s. ex.ª o mandasse negociar a reclusão de D.
-Christina, mas declinava de si o minimo de responsabilidade
-em uma violencia, sobre inutil, perigosa.</p>
-
-<p>Excitado pela colera, o fidalgo foi de encontro á prudencia
-do padre com termos rudes; mas a humildade do
-servo paciente despontou-lhe as iras, e introverteu-lh’as
-no seio em arrependimento. Ruy quasi lhe supplicou o
-seu voto. Padre João repetiu o que dissera, e contou a
-situação em que deixara Casimiro Bettancourt. Outra vez
-se irou o fidalgo, ouvindo o tom lastimoso com que o
-padre fallava do filho do major; porém, não sabemos dizer
-porquê, marejaram-se-lhes de lagrimas os olhos, quando
-o clerigo disse:</p>
-
-<p>—Agora vou ver se encontro o desgraçado ahi pela<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span>
-serra, que não vá elle tentar contra a vida, e, matando-se,
-legar a v. ex.ª uma tristeza pezada de mais para seus
-annos e sua nobre alma.</p>
-
-<p>Sahiu o padre, e, ao anoitecer, encontrou Casimiro
-deitado na terra humida, com a cabeça na pedra, e o
-rosto chammejante de febre. Agitou-o, ergueu-o, amparou-lhe
-os passos, até o trazer á estrada, e d’ahi quasi
-em braços a casa do carpinteiro.</p>
-
-<p>Conversaram até altas horas da noite. Casimiro ouviu
-as ultimas palavras do padre, e disse:</p>
-
-<p>—Farei a sua vontade.</p>
-
-<p>A vontade de padre João era que elle sahisse de Pinhel,
-e fosse a Bragança assentar praça. A resistencia
-de Casimiro fôra pertinaz, até ao derradeiro golpe, que o
-padre lhe descarregou, dizendo que a demora d’elle em
-Pinhel seria a causa á clausura de Christina. Casimiro
-sentou-se no catre, embebeu o suor frio da face na dobra
-do lençol, e exclamou:</p>
-
-<p>—Irei.</p>
-
-<p>E foi cinco dias depois, caminho de Bragança; mas,
-ao fim do primeiro dia de jornada, adoeceu perigosamente.
-O sangue refervido no peito principiava a vulcanizar-lhe
-a cabeça. Deram-lhe uma enxerga, n’uma taverna de
-Escalhão, e um padre que, em virtude de o ter confessado
-e ungido, pôde saber que o viandante era de Pinhel
-e se chamava Casimiro Bettancourt.</p>
-
-<p>O carpinteiro ergueu mão do trabalho, embolçou as
-economias do seu mealheiro, e foi caminho de Escalhão.
-O anjo do amor estava á cabeceira do enfermo repellindo
-a morte. O coração repuchára a si a onda escaldante de
-sangue, que banhara o cerebro, e espedaçava-se para
-deixar resurgir a rasão. O artista esteve nove dias e nove
-noites ao lado de seu sobrinho. Quando se lhe acabaram<span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span>
-os escassos recursos, que levára, empenhou a cruz de
-prata, que trazia ao peito; e pediu primeiro ao Crucificado
-que lhe désse a vida do sobrinho de sua mulher.</p>
-
-<p>Ao decimo dia, o carpinteiro construiu uma camilha
-n’um carro de lavoura, e Casimiro, convalescente, foi
-transportado a Pinhel.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas e suas filhas, tirante Christina, passeavam
-n’uma alameda fóra da povoação, quando o carro
-chegou. O carpinteiro, que caminhava lentamente apoz
-o carro, descobriu-se, á vista do fidalgo, e disse:</p>
-
-<p>—Guarde Deus a v. ex.ª, sr. compadre.</p>
-
-<p>—Que levas ahi, Antonio?—disse o fidalgo.</p>
-
-<p>—É meu sobrinho.</p>
-
-<p>—Teu sobrinho?—Disseram-me que tinha ido assentar
-praça. Querem ver que elle foi ferido em alguma batalha?</p>
-
-<p>—O sr. compadre está a mangar com os pobres!...
-respondeu o carpinteiro com um sorriso mais de pungir
-que propriamente a injuria.</p>
-
-<p>N’este lanço, Casimiro Bettancourt affastou a ourella
-da manta, que formava o pavilhão do carro, pôz fóra o
-rosto macerado, e disse:</p>
-
-<p>—Sr. Ruy de Nellas, quem me feriu na batalha foi a
-espada da honra. Agora vou eu travar uma batalha com
-o orgulho de v. ex.ª: veremos quem é o vencido.</p>
-
-<p>—Ora, sôr Casimiro!—replicou o fidalgo galhofando
-sarcasticamente—as suas ameaças tem muita graça...
-passe muito bem.</p>
-
-<p>E proseguiu no passeio, chibatando, com ares de Tarquinio
-ou Pombal, as florinhas que se abriam por entre
-o ervaçal que arrelvava a alameda.</p>
-
-<p>—Chama lá os bois, moço!—disse o artista ao carreiro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span></p>
-
-<p>Christina encerrada voluntariamente em seu quarto,
-nem de suas irmãs era já bem vista. As outras senhoras,
-como izemptas e intactas de coração, conservavam os espiritos
-excelsamente afidalgados, e levavam muito a mal
-que sua irmã as quizesse aquinhoar no desdouro de um
-casamento desegual. O fidalgo obrigára Christina, nos
-primeiros dias, a tomar o seu lugar na meza commum;
-como visse, porém, que ella escandalisava a familia com
-suas lagrimas ordenou que lhe levassem as criadas os
-alimentos ao quarto. E assim se finava a pobre menina,
-desconsolada da voz humana, e descrida da misericordia
-divina.</p>
-
-<p>Peregrina, a sua confidente, a sua alegria, tinha ido
-com o irmão para S. Julião da Serra. Queria escrever-lhe:
-mas que portador ousaria levar-lhe a carta? Pensava
-em fugir para ella; mas com quem, com que recursos?
-A não ser ella, quem faria chegar ás mãos de
-Casimiro as suas cartas, o adeus sùpremo de sua alma,
-ao arrancar da vida? Respondia-lhe o calado pavor da
-soledade ao afflictivo interrogatorio, em que se debatia, e
-já por fim, desesperava.</p>
-
-<p>Havia na caza um criado moço, que Casimiro Bettancourt
-ensinára a lêr nas horas feriadas dos domingos.
-Nunca os dous namorados fiaram d’elle segredos seus;
-mas o muchacho, que era atravessado, adivinhava o que
-não via, e espreitava para examinar se tinha adivinhado.</p>
-
-<p>Soube elle que o seu mestre de leitura chegára
-doente n’um carro, viu que o fidalgo e as meninas andavam
-a passeio, foi de corrida a caza, bateu de mansinho
-á porta do quarto de Christina, e disse-lhe pelo
-espelho da fechadura:</p>
-
-<p>—Fidalga, o sr. Casimiro chegou agora doente n’um
-carro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p>
-
-<p>Christina espediu um grito, e abriu a porta.</p>
-
-<p>—Vem cá!—disse ella ao rapasito, que se ia escapulindo.—Que
-disseste? Viste o sr. Casimiro?</p>
-
-<p>—Vi-o descer do carro nos braços do tio Antonio carpinteiro.
-Vem amarello como uma cidra.</p>
-
-<p>—Tu és nosso amigo, José?—perguntou ella offegante.</p>
-
-<p>—Sou, sim, senhora.</p>
-
-<p>—Levas-lhe um bilhete?</p>
-
-<p>—Dê-o cá, fidalga.</p>
-
-<p>—Espera, que eu vou escrevêl-o... O melhor é tu
-ires esperar no pateo, que eu lanço-t’o da janella, que
-não vá ver-te alguem aqui no corredor.</p>
-
-<p>O mocinho esperou um quarto de hora, e levou a
-carta a Casimiro, que respondeu logo.</p>
-
-<p>Este rapaz de nove annos faz lembrar o mosquito que
-matou o leão, e o braço fundibulario que derribou o gigante.
-Ahi estão a vigilancia e omnipotencia de Ruy de
-Nellas Gamboa de Barbedo, senhor solarengo mais velho
-da Beira Alta, anniquilladas pela intervenção do pegureiro,
-que o senhor feudal nunca distinguia dos carneiros
-que apascentava!</p>
-
-<p>O effeito das primeiras cartas foi uma transfiguração
-maravilhosa no semblante de Christina e Casimiro. Já
-ella punha as mãos e ajoelhava a orar: é certo que,
-pelo ordinario, attribuimos ao demonio o mal acintoso,
-que o mundo nos faz, e agradecemos a Deus o bem casual
-ou intencional que nos faz o mundo. Tudo isto redunda
-em elogio de Deus e nosso.</p>
-
-<p>Ruy entrou pensativo em casa, dizendo entre si: «Mal
-fiz em a não metter no convento; mas ainda não é
-tarde.»</p>
-
-<p>Mandou vir á sua presença os creados e creadas, excepto<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span>
-o José-pastor, como lhe chamavam. O rapasito
-ainda não gosava honras de creado appellavel para assumpto
-grave. Declarou o fidalgo que faria entrar n’uma
-cadeia o servo ou serva, que levasse ou trouxesse cartas
-entre sua filha e Casimiro. Os creados innocentes e
-impeccaveis n’esta materia—por isso que zelavam a fidalguia
-do seu amo contra o plebeismo do sobrinho de
-mestre Antonio—juraram de espreitar os passos de Casimiro,
-e, em testemunho de sua probidade, offereceram-se
-a quebrar-lhe as costellas, sendo necessario.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas despediu-os satisfeito, e disse entre si:
-«Tanto faz tel-a fechada em casa, como no convento.
-Parece-me até que está mais segura aqui.»</p>
-
-<p>José-pastor ouviu a creadagem na cosinha discorrer
-ácerca da recommendação do fidalgo, e fez que não intendia.
-D’ahi a pouco, andava elle no pateo a escrever
-com um pau carbonisado o seu nome nas lages pollidas,
-e de vez em quando olhava, por debaixo do avental de
-saragoça, contra a janella de Christina.</p>
-
-<p>Viram-se. E elle escreveu a palavra <i>carta</i>, olhando de
-revez e indicativamente para a menina. Fez ella um
-gesto de intelligencia, e elle aspou a primeira palavra
-com os pés, e escreveu n’outra lage: <i>telhado</i>. Outro signal
-de comprehensão, e logo outra palavra: <i>torre</i>, e
-depois <i>trapeira</i>.</p>
-
-<p>Queria isto dizer que elle ia ao postigo de uma especie
-de pombal, que lá chamavam <i>torre</i>; que lançava de
-lá a carta ao telhado; e que fosse Christina á trapeira,
-superior ao seu quarto, e colhesse a carta.</p>
-
-<p>Sahiu-se excellentemente com a traça, e até sobreexcedeu
-o programma; porque a menina, recebendo uma,
-atirou outra carta á base da torre, e o rapasinho, que
-era optimo volatim em esgalhos de arvores, pendurou-se<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span>
-pelos pés no banzo do postigo, e com um troço de uma
-aguilhada de seu uso pastoril arpoou o papel. Estas habilidades
-é que Casimiro Bettancourt lhe não havia ensinado
-com as primeiras lettras. Se a instrucção primaria
-lh’as desenvolveu, isso é materia para mais dilatadas
-e opportunas pesquizas.</p>
-
-<p>Aligeirando o alcance d’estes successos, até ao ponto
-em que os deixamos na vigairaria de S. Julião da Serra,
-direi que a fuga estava pactuada desde as primeiras
-cartas, que se trocaram. As apostillas subsequentes versavam
-sobre qual caminho e destino convinha seguir.
-Casimiro lembrava-se do condiscipulo de collegio a quem
-devia o favor de dinheiro com que jornadeára de Lisboa
-a Pinhel. Presumia elle que, se fugissem para Lisboa,
-e procurassem aquelle amigo, achariam protector para
-alcançar-se um emprego. Mas um fio de espada lhe cortava
-por alma e coração, quando a nevoa negra da pobreza
-se lhe punha diante da esplendida aurora do seu
-dia feliz. Quem lhes daria meios para caminharem até
-Lisboa?</p>
-
-<p>Como adivinhando esta pergunta, Christina propunha
-que fossem a S. Julião da Serra, casassem lá, e pedissem
-ao padre João recursos para fugirem á perseguição,
-até que Deus lhes acudisse.</p>
-
-<p>N’estes dias revesados de alegrias e amarguras, para
-elles, que já tinham aprasado o da fugida, o carpinteiro
-recebeu carta do filho, estabelecido no Brazil, e o primeiro
-donativo de dinheiro. Quando Casimiro viu ouro
-em mãos de seu tio, apertou o artista ao seio, e disse-lhe
-com os olhos cheios de esperança e lagrimas:</p>
-
-<p>—Empreste-me parte d’esse dinheiro, que é o preço
-da minha felicidade.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span></p>
-
-<p>—Se é o preço da tua felicidade, ahi o tens todo—respondeu
-o carpinteiro, lançando as peças sobre a meza.</p>
-
-<p>—Menos de metade me basta—replicou Bettancourt.</p>
-
-<p>—Pois toma d’aqui o que quizeres; mas conta-me o
-que vaes fazer.</p>
-
-<p>Casimiro, temeroso da probidade de seu tio, nunca
-lhe havia revelado o plano do rapto. Prudente receio era
-o seu. Mestre Antonio, bem que estomagado das soberbas
-de seu compadre, não consentiria que seu sobrinho
-o vingasse por semelhante meio. A ida de seu filho para
-o Brazil devia-se em parte á generosidade do padrinho,
-que lhe déra enxoval e algum do dinheiro da passagem.
-O mesmo fidalgo o ajudára a comprar o fato de Casimiro,
-sem querer que o moço soubesse a obrigação em
-que ficava. Mestre Antonio, além d’isto, reprovava o ousio
-de seu sobrinho em inquietar uma menina talhada
-para marido de outra linhagem e haveres. Não dominava
-ainda n’aquella epocha a aristocracia das artes, inchada
-hoje com uns descomedimentos de orgulho, que prevalecem
-propriamente sobre os da aristocracia de nascimento;
-de modo que a gente sisuda lastima que o artista
-não seja bem creado para sustentar o seu real valor,
-sem andar a todas as horas, de arremettida contra
-as distincções herdadas. Agora, importuna a philaucia
-do artista; logo anoja a humilhação a que se desce.</p>
-
-<p>Cingindo-me ao ponto: Casimiro reteve ainda o seu
-segredo, sophismando-o d’est’arte:</p>
-
-<p>—Eu vou continuar em Coimbra ou Lisboa o meu
-curso de mathematicas para seguir a vida militar mais
-vantajosamente. Bem sei que este dinheiro a pouco chega;
-mas espero achar, sem baixeza, recursos em mim
-proprio para me alimentar. Ensinarei particularmente o
-que sei, e com o pequeno salario me irei remindo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p>
-
-<p>—Se é isso, Casimiro—redarguiu mestre Antonio—leva
-o dinheiro todo, que eu tanto faço com elle como
-sem elle. Assim como assim, duzentos mil réis não me
-quitam de trabalho. Gosto bem de te ver botado ao caminho
-da vida. Vai, moço; que o mundo é p’rós homens.
-Teu pai sahiu d’aqui com duas camisas n’uma
-trouxa, sentou praça, e morreu major na flôr da idade:
-teria quarenta annos. Se não morre, e o seu partido vinga,
-podia acabar general. Tira-te d’aqui d’esta aldeia,
-homem! Tu tens lá umas ideias que precisam de terras
-grandes. Vai-te á vida que eu cá estou com o meu pouco
-para te acudir nas necessidades. Logo que teu primo
-mande mais dinheiro, lá irá ter onde estiveres. Se um
-dia tiveres de teu, e eu já não poder com o machado,
-então me irás pagando como poderes.</p>
-
-<p>Casimiro debulhava-se em lagrimas, abraçado ao carpinteiro,
-que embebia as suas no canhão da jaqueta de
-saragoça remendada nos cotovellos. Aquella jaqueta deshonrar-se-ia
-grandemente se a puzessem á beira de muitas
-fardas batidas a ouro e coalhadas de veneras!</p>
-
-<p>Era como picar de remorso o doer-se de Casimiro.
-Mentir assim aquelle velho tão bom, tão franco, tão desprendido,
-tão pobre!</p>
-
-<p>Não importa! A sua paixão absolve-o já; o homem
-honrado e illudido absolvel-o-ha depois.</p>
-
-<p>Tinha, pois, Casimiro dinheiro para a fuga; d’isto avisou
-Christina; a menina, porém, instava pelo casamento
-em S. Julião da Serra, e o moço, de vontade e coração,
-condescendia, e desejava assim tão abrasadamente como
-ella.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas encontrou o carpinteiro, e não lhe fallou,
-nem respondeu á saudação com um gesto sequer.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span></p>
-
-<p>—Porque está de mal commigo, sr. compadre?!—perguntou
-o operario com magoada submissão.</p>
-
-<p>—Porque és um ingrato!—bradou o fidalgo.</p>
-
-<p>—Ingrato, senhor! Nemja isso! Deus me não ajude,
-se eu sou ingrato a v. exª!</p>
-
-<p>—Tens ahi teu sobrinho, que deu um pontapé no seu
-bemfeitor, e causou a desgraça de minha filha, e a tristeza
-de minha casa!</p>
-
-<p>—Meu sobrinho, sr. compadre, fez mal, é verdade;
-mas o mal está remediado. Meu sobrinho vai-se embora
-por estes dias. Vai para Lisboa continuar os seus estudos.
-Leva duzentos mil réis que eu recebi do meu filho
-e afilhado de v. ex.ª, e por lá ficará até se fazer homem
-como meu cunhado.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas deu um grande suspiro de desabafo, e
-disse:</p>
-
-<p>—Fallas-me verdade?</p>
-
-<p>—Como quem se confessa, fidalgo.</p>
-
-<p>—Então compadre, o dito por não dito. Se eu soubesse
-que elle estava ainda em tua casa, por falta de
-meios, o dinheiro dava-t’o eu, sem elle o saber. Quando
-é que vai?</p>
-
-<p>—Estão-se fazendo umas camisas, e, o mais tardar no
-fim da semana, vai com Deus.</p>
-
-<p>N’este dia á noute, Ruy disse a uma das filhas:</p>
-
-<p>—Vai ao quarto de tua irmã, e diz-lhe com bons modos
-que venha tomar chá comnosco. A tempestade está
-a passar: é preciso que a trateis, como d’antes, d’aqui
-por diante.</p>
-
-<p>Christina, maravilhada da brandura de sua irmã, desceu
-á sala, e beijou a mão paternal, que se lhe offerecia
-com affavel sorriso.</p>
-
-<p>Tomou chá trocou leves palavras com suas irmãs, e<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span>
-volveu ao seu quarto, onde desvelou a noute, scismando
-na transfiguração de seu pai.</p>
-
-<p>A horas de almoço, passou Ruy de Nellas no corredor
-contiguo ao quarto de Christina, e disse-lhe tocando na
-porta:</p>
-
-<p>—Vai o almoço para a meza, menina.</p>
-
-<p>Christina estremeceu, e sumiu entre os cobertores a
-carta, que estava escrevendo, cujo periodo mais importante
-era assim:</p>
-
-<p>«....... Como penso que terei liberdade de descer
-ao jardim ao fim da tarde, sahirei pela porta da quinta,
-que abre para a estrada. Se me enganar, então ámanhã
-te avisarei........................................
-...................................................
-...................................................</p>
-
-<p>Não se enganára.</p>
-
-<p>O caricioso pai sahiu com ella e suas irmãs a passear
-depois do almoço. Amimou-a, depois de jantar, brindando-a
-com um vestido de tafetá azul para festa dos annos
-da morgada. Ao fim da tarde viram-n’a sahir ao jardim,
-e a mais abelhuda das irmãs disse:</p>
-
-<p>—Papá, olhe que a Christina vai só...</p>
-
-<p>—Deixal-a ir. Coitada! o inverno já lhe desfolhou as
-rosas que ella ha um mez ainda regava!... Vai ver as
-suas plantas... Pobre filha, que pena me faz vêl-a tão
-abatida!...</p>
-
-<p>Christina demorava-se e o vento assobiava, impellindo
-contra a janella borrifos de chuva.</p>
-
-<p>—Vossa irmã, já está no seu quarto?! Vão ver.</p>
-
-<p>As meninas alvoroçadas vieram dizer que no quarto
-não estava ella nem a capa.</p>
-
-<p>—Pois não viram que ella saiu de capa ao jardim?—reflectiu
-o pai.—Vamos ao jardim, que ella deve lá<span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span>
-estar abrigada da chuva... ou (ajuntou elle no silencio
-de seu coração) escondida a chorar... pobre menina!</p>
-
-<p>Espreitaram todos os escuros do arvoredo, chamando-a
-a brados. O fidalgo, esporeado por diabolica suspeita,
-correu á porta do carro, e achou-a aberta.</p>
-
-<p>—Fugiu!—exclamou elle. Os criados que saiam todos
-por essas estradas, e... que o matem!</p>
-
-<p>E os criados sahiram todos na ideia... de o matarem!</p>
-
-<p>Até o José-pastor lá ia na chusma, clamando que
-queria tambem matar o ladrão da fidalga, e teimava
-que via as pegadas da menina lá por uns caminhos
-onde ninguem via cousa nenhuma!</p>
-
-<p>A estas horas, Christina e Casimiro transmontavam
-o cabeço da primeira serra, que descia para umas gargantas
-intransitaveis.</p>
-
-<p>Na ante-vespera, palmilhara Casimiro o terreno menos
-trilhado, e orientara-se cabalmente da direcção que
-devia seguir até assomar á serra visinha de S. Julião.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span></p>
-
-<h2>VI<br />
-<span class="smaller">A humildade vencedora</span></h2>
-
-<p>Os servos iam e vinham por estradas reaes, atalhos
-e mais desfrequentados caminhos. Ninguem déra noticia
-dos fugitivos, excepto um guardador de cabras, o
-qual disséra ter visto n’uma chã, passarem um senhor,
-vestido á cidade, e uma senhora assim a modo de fidalga,
-e depois os vira entrar á estrada de Trancoso. Estas
-novas quem as colheu foi o José-pastor, o velhaco!
-Elle não viu guardador nenhum de cabras: inventou-o,
-sem que ninguem lhe encommendasse a fabula. O que
-elle queria era attrahir as pesquizas para o lado opposto
-de S. Julião da Serra. Serviçal até alli!</p>
-
-<p>Quando, ao quarto dia de baldadas buscas, os criados
-mais pimpões se abalaram para Trancoso armados
-até aos dentes, Ruy de Nellas foi procurado por sujeito
-desconhecido. Entrando á presença do fidalgo, e interrogado
-sobre quem era, disse:</p>
-
-<p>—Sou um lavrador da freguezia de S. Julião da
-Serra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span></p>
-
-<p>—Onde está vigario meu afilhado padre João Ferreira?</p>
-
-<p>—Sim, senhor.</p>
-
-<p>—Como está elle!</p>
-
-<p>—Doente de cama.</p>
-
-<p>—Coitado! E Peregrina? Conhece a irmã do vigario?</p>
-
-<p>—É minha mulher.</p>
-
-<p>—Ah! sim? quanto folgo! Já cá sabiamos que ella
-casára bem.</p>
-
-<p>—Estimo-a muito, que é digna d’isso.</p>
-
-<p>—E vm.ᶜᵉ creio que é lavrador abastado...</p>
-
-<p>—Graças a Deus, tenho mais que o necessario...</p>
-
-<p>—Queira sentar-se. Esqueceu-me de o mandar sentar,
-com a satisfação de ver o marido da nossa Peregrina...
-<i>Satisfação</i>, digo eu!... Vão por cá muitissimas
-afflicções, senhor... como é a sua graça?</p>
-
-<p>Ladislau, criado de v. ex.ª</p>
-
-<p>—Muitas afflicções, sr. Ladislau! Cahiu em minha
-casa um raio!... Deus... não sei que mal lhe fiz!
-Eu, que faço o bem que posso, que dou tudo quanto
-me sobeja aos pobres, que eduquei minhas filhas na religião
-de meus avós, estou aqui esmagado por uma vergonha,
-que me está cavando a cova!... Quando ha
-sete annos me morreu minha mulher, pedi a Deus a
-morte: oxalá que elle me tivesse ouvido!... Logo, em
-seguida, morreu o meu unico filho varão. Resisti ainda.
-Depois vi cahir o Senhor D. Miguel do throno á miseria
-da proscripção, e fiquei ainda em pé. Agora... agora...
-esta punhalada corta-me o ultimo fio! Nos tres
-infortunios passados, o Senhor Deus dos afflictos collocou
-a meu lado um dos seus apostolos, que me amparou,
-e me fechou as chagas com o balsamo da religião.<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span>
-Era um frade da sua freguezia, creio eu: Fr. Braz Militão
-do convento de Vinhaes. Morreu o santo, que passou
-tres noutes á cabeceira do meu leito, quando enviuvei.
-Elle tinha experimentado a minha dôr, porque
-vestira o habito de frade mendicante, quando Deus lhe
-chamou sua mulher...</p>
-
-<p>—Esse frade era meu pai—disse Ladislau.</p>
-
-<p>—Seu pai!—exclamou o fidalgo, erguendo-se a abraçal-o.—Pois
-o marido de Peregrina é filho d’aquelle predestinado,
-a quem eu recorro ainda nas minhas angustias?</p>
-
-<p>—E eu recorrerei tambem para que meu bom pai alcance
-do Senhor o socego de v. ex.ª</p>
-
-<p>—Desculpe-me, que eu estou todo absorvido pela minha
-magua! Ainda não fiz senão carpir-me; porém o
-sr. Ladislau calculará, quando fôr pai, a natureza da minha
-dor... Que motivo o traz a esta casa?</p>
-
-<p>—O seu infortunio, sr. Ruy.</p>
-
-<p>—Pois sabia que minha filha fugiu? Já lá chegou a
-noticia? Foi sua mulher que o mandou saber a atroz
-verdade? É certo, é horrivelmente certo que essa desgraçada
-fugiu ha cinco dias, e todas as diligencias em
-procural-a com o infame raptor se tem baldado!</p>
-
-<p>—A sr.ª D. Christina está em minha casa—atalhou
-Ladislau.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas aproximou-se, quasi rosto a rosto, de
-Ladislau, e exclamou:</p>
-
-<p>—Que diz?! em sua casa? com elle?</p>
-
-<p>—Não, sr. Ruy. Em casa do filho de fr. Braz Militão
-não se agasalham amantes fugitivos, salvo se elles forem
-tão desgraçados que não tenham pão nem tecto.
-Em minha casa está unicamente a filha de v. ex.ª; em
-casa do vigario está Casimiro Bettancourt.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span></p>
-
-<p>—E meu afilhado—interrompeu iroso o fidalgo—consente
-que se recolha em sua casa o roubador de minha
-filha, da filha de Ruy de Nellas, a quem elle deve tudo
-o que é?!</p>
-
-<p>—Lamento,—disse Ladislau—que meu cunhado aqui
-não esteja para dignamente responder a v. ex.ª. Eu não
-tenho a virtude nem as expressões santas, persuasivas,
-e affectuosas do afilhado de v. ex.ª. Estou aqui, porque
-a doença ha tres dias o tem a elle na cama: apressei-me
-a vir para que o padre, despresando a enfermidade, não
-viesse por este mau tempo arriscar a vida. As intenções,
-todavia, de meu cunhado, acolhendo em sua casa
-Casimiro Bettancourt, são obvias e justas. Os dous,
-desgraçados pela cegueira do amor, foram pedir ao sacerdote
-a benção matrimonial; o sacerdote não podia
-abençoal-os sem consentimento de v. ex.ª, e não podia
-tambem abandonal-os sem faltar á caridade que professa,
-á sua propria consciencia, e ao que deve ao
-sr. Ruy de Nellas. Abrir mão d’elles, na situação em que
-os viu, o mesmo seria declarar-lhes que não ha divina
-nem humana misericordia. Elles iriam porta fóra desconfiados
-da virtude do ministro de Deus, em que tinham
-posto sua esperança, e julgar-se-iam desquites de serem
-ou procurarem ser virtuosos...</p>
-
-<p>—Bem!—atalhou Ruy, a que vem o senhor?</p>
-
-<p>—Implorar a v. ex.ª consentimento...</p>
-
-<p>—Para se casarem?</p>
-
-<p>—Sim, senhor.</p>
-
-<p>—Sabe o que pede? o sr. Ladislau sabe o que pede?!—bradou
-o fidalgo com os olhos afuzilando ira e gestos
-descompostos.</p>
-
-<p>—Sei que peço, segundo meu cunhado diz, o unico
-remedio de tal desgraça.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span></p>
-
-<p>—Seu cunhado é um parvo!—rebradou o velho, batendo
-rijamente com o punho fechado sobre a meza.—Repito:
-seu cunhado é um parvo, e não tem desculpa
-nenhuma, porque sabe quem é o pai de Christina, e
-quem são os parentes d’esse ninguem que roubou minha
-filha. Não lhe disse elle que Casimiro é sobrinho
-d’um carpinteiro?</p>
-
-<p>—Sim, senhor, disse.</p>
-
-<p>—E então? Parece-lhe que é bem arranjado o casamento
-do sobrinho do carpinteiro com a filha de Ruy de
-Nellas? Responda!... Que pena eu tenho que, em lugar
-do senhor, não estivesse ahi o padre, a ver que me respondia!...</p>
-
-<p>—Parece-me que o padre responderia a v. ex.ª que a
-sr.ª D. Christina...</p>
-
-<p>—Diga, diga!</p>
-
-<p>—Casada com o sobrinho do carpinteiro está mais
-honrada que na situação em que se acha agora.</p>
-
-<p>—Quer isso dizer que da parte do mariola é muito
-grande favor casar-me com a filha!?</p>
-
-<p>—Não, sr. Ruy; eu não quiz dizer semelhante cousa;
-não vim aqui offender v. ex.ª.</p>
-
-<p>—Pois então?... A vontade do meu amigo padre (replicou
-o fidalgo, sorrindo á palavra <i>amigo</i>) é que eu admitta
-em minha casa os noivos?</p>
-
-<p>—Não lhe ouvi isso. O que elle unicamente pede é
-a certeza de que v. ex.ª lhe levará a bem que elle os
-case, embora o seu consentimento não seja escripto.</p>
-
-<p>—Prohibo-o expressamente de os casar, sob pena de
-eu o fazer sahir da igreja, e metter em processo!</p>
-
-<p>—Que quer, por tanto, v. ex.ª que faça sua filha?—redarguiu
-Ladislau com os olhos humidos de lagrimas
-de desanimação—Que ha de ella fazer?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p>
-
-<p>—Entrar n’um convento, chorar o seu crime, e morrer
-lá, é o que eu quero. A elle hei de perseguil-o até
-ao inferno! hei de mettêl-o n’uma masmorra, e impontal-o
-para as Pedras-negras.</p>
-
-<p>Ladislau recolheu-se breves instantes, e sahiu de si,
-dizendo com grande impeto de pranto:</p>
-
-<p>—Se aqui estivesse frei Braz de Villa Cova, que diria,
-n’este ponto, o bom christão a v. ex.ª? Eu creio,
-senhor, que meu pai diria: «Perdão, e misericordia. A
-neta dos reis de Judá, Maria, mãi de Jesus, foi eleita
-pelo Eterno esposa d’um operario: era carpinteiro o pai
-putativo do Redemptor dos homens.»</p>
-
-<p>—Não me pregue sermões!—interrompeu Ruy de
-Nellas, cujas convicções, no tocante ao casamento da
-Virgem Maria, eram muito pela rama. O fidalgo acreditava
-que uma sua tia freira bernarda em Lisboa tinha
-oração infusa, e, em seus extasis, se erguia sobre a terra
-quatro covados; acreditava que S. Thiago e S. Jorge
-vieram em pessoa combater e vencer pelos portuguezes;
-acreditava outro sim que a morte e vinda de D. Sebastião
-era por ora cousa duvidosa, porém o casamento da
-filha dos reis de Israel com um carpinteiro custava-lhe
-a tragar!</p>
-
-<p>—Não me pregue sermões!—dissera, pois, Ruy de
-Nellas, e proseguiu:—Seu pai, se aqui estivesse, iria
-sem que eu lh’o pedisse, procurar essa mulher perdida,
-e convertêl-a a Deus, levando-a a um convento, e obrigando-a
-a ver bem a sua vergonha para que nunca mais
-se amostrasse a olhos do mundo. Seu pai, sr. Ladislau,
-de certo me não viria dizer que premiasse a desobediencia
-de minha filha, e a petulancia do farropilha, que m’a
-roubou, casando-os. Boa maneira de os castigar, não tem
-duvida nenhuma! O resultado de tão funesto exemplo<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span>
-seria as outras minhas filhas fugirem-me com os miseraveis
-que as seduzissem! Se a religião mandasse ou
-aconselhasse tal, ai da ordem social, que então direitos
-de pai e obediencia de filhas tudo andaria transtornado!
-Não, senhor! frei Braz Militão não podia, de modo nenhum,
-ser o patrono de tamanho crime!</p>
-
-<p>—Que quer, pois, v. ex.ª que se faça?—disse Ladislau
-com os olhos já enchutos, e um tom de voz, que
-denotava outra condição de espirito.</p>
-
-<p>—Já disse: ella, convento; elle, se poder fugir, que
-me fuja; mas já e depressa, quando não a justiça fila-o.</p>
-
-<p>—Creio que a sr.ª D. Christina não entrará em convento,
-nem Casimiro fugirá sem ella.</p>
-
-<p>—Veremos! Eu vou mandar homens a S. Julião da
-Serra!</p>
-
-<p>—Fará v. ex.ª mal. Na minha terra nunca entraram
-homens de braço armado, excepto os francezes, que incendiaram
-as casas por não encontrarem alguem. As
-nossas defezas e resguardo são as serras. Eu conduzirei
-a filha de v. ex.ª onde não possa a violencia alcançal-a.
-Ella fiou-se em mim, acceitou a minha casa, hei de defendel-a.
-A não poder vêl-a esposa do homem que ama,
-não serei eu que vá perfidamente arrancal-a ao seu destino,
-bom ou mau, Deus sabe qual será. Calar-me seria
-uma perfidia. Volto, pois, com o coração de lucto, e direi
-a meu cunhado que v. ex.ª lhe prohibe remediar a
-desventura da sr.ª D. Christina.</p>
-
-<p>—Mas diga-me cá!—acudiu de golpe o velho.—Se
-eu consentisse no casamento, que se seguia? Minha filha
-voltava a Pinhel com o marido?</p>
-
-<p>—Não, senhor.</p>
-
-<p>—Pois então?</p>
-
-<p>—Lá sabem o seu intento. A Pinhel não voltarão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span></p>
-
-<p>—Mas quem os sustenta, depois?</p>
-
-<p>—Serei eu, se elles quizerem.</p>
-
-<p>—Bello começo de vida! Vai viver minha filha ás
-sopas da...</p>
-
-<p>Conteve-se Ruy; mas Ladislau, adivinhando-o concluiu
-a phrase:</p>
-
-<p>—Ás sopas da serva de v. ex.ª... Minha mulher
-tanto se considera ainda uma creada de v. ex.ª que recebe
-como a maior das honras ter á sua meza a sr.ª D.
-Christina, e servil-a como creada.</p>
-
-<p>—Perdôe-me, atalhou Ruy commovido, perdôe-me,
-que a minha dôr faz-me mau; que eu não o sou, meu
-amigo! Sua mulher nunca foi minha creada. Sentei-a á
-minha meza, e vesti-a como minhas filhas. Nunca me
-arrependi, e queria não me arrepender nunca. Faça o
-sr. com que ella resolva Christina a esquecer esse homem,
-e a fazer me a vontade. Póde ser que o tempo
-venha a gastar o odio, que tenho a essa perdida, e a
-tire do convento. É o maior serviço, que podem fazer-lhe,
-dissuadil-a. Façam com que Casimiro saia de Portugal:
-que vá para o Brazil ou para o inferno, que eu
-não lhe faço mal. Tenho dito, sr. Ladislau, a este respeito.</p>
-
-<p>—Minha mulher não ousa dar taes conselhos á sr.ª
-D. Christina, nem eu a minha mulher. Em fim, sr. Ruy,
-ouça v. ex.ª o que vou fazer. Acompanharei sua filha
-ao lugar onde a encontrei; lá, onde a espera Casimiro
-Bettancourt, direi a ambos: «Fiz o que pude, pedi com
-lagrimas, pedi com razões: tudo se mallogrou. Agora se
-meu cunhado os não quer ou não póde casar, sigam sua
-vida, vão mostrar-se por esse mundo deshonrados, e digam
-que, se a deshonra os affasta das pessoas de bem,
-é por que esta infeliz menina tem um pai, que antes a<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span>
-quer assim.» É o que farei e direi, sr. Ruy de Nellas;
-mas antes d’isto, ainda me resta um esforço. Pedirei á
-alma de meu pai que lhe toque o animo; e, de joelhos
-e mãos erguidas, ainda uma vez, supplico a v. ex.ª que
-dê consentimento para que sua filha seja honesta!</p>
-
-<p>Disse Ladislau as ultimas palavras ajoelhado.</p>
-
-<p>O fidalgo contou, passados annos, que, em lugar de
-Ladislau, vira, como em sombra, fr. Braz Militão. Ha
-segredos de Deus; porém, bem póde ser que o caso, a
-dar-se, fosse mera visualidade do velho. Fosse ou não,
-Ruy de Nellas inclinou-se a levantar Ladislau de sua
-postura humilde, e disse:</p>
-
-<p>—Valha-me Deus!</p>
-
-<p>Passeou, de uma parede a outra, repetidas vezes, o
-salão, emquanto o moço arquejante lhe estava como bebendo
-a resposta dos beiços convulsivos. A final, parou
-o velho, em meio da sala, levou as mãos ás fontes, e,
-sacudindo vertiginosamente os braços, exclamou:</p>
-
-<p>—Casem! mas que eu os não veja mais!</p>
-
-<p>E sentou-se, prostrado.</p>
-
-<p>—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Ladislau, retirando-se
-com alvoroço tal de alegria que a sua vontade era
-distancear-se depressa, receoso do arrependimento.</p>
-
-<p>Arrependimento que por um cabello, pouco depois, ia
-dando de si um feito vil!</p>
-
-<p>Ruy de Nellas ergueu-se de golpe, já quando o moço
-tinha sahido, e esporeava a galope desapoderado a mula,
-estrada fóra.</p>
-
-<p>Chegou ainda a gritar pelos creados, cujo maior numero
-tinha ido para Trancoso. Era seu intento envial-os
-a S. Julião da Serra, infractores da palavra de seu amo.</p>
-
-<p>N’este lanço, estropearam no pateo dous cavallos: o<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span>
-cavalleiro era D. Sueiro de Aguilar Vito de Alarcão
-Parma d’Eça, fidalgo de Miranda, com o seu lacaio.</p>
-
-<p>Este sujeito, além d’aquelle nome, que só por si é
-uma fortuna, nascera primeiro que seus irmãos, na
-maior casa d’aquelles contornos de Miranda. Barbedos
-e Alarcões tinham começado, pouco mais ou menos,
-com o genero humano. Estas duas familias, em franqueza
-intima e modesta, diziam que o primeiro sangue
-de Lisboa—da Lisboa de sangue azul, intende-se—era
-um regato da fonte caudal, represada n’elles, ahi pela
-fundação dos reinados de Leão e Castella.</p>
-
-<p>Desde muito que Ruy de Nellas meditava em casar
-a filha morgada com D. Sueiro de Aguilar, e n’isso trabalhára,
-com intervenção da parentella.</p>
-
-<p>Eil-o ahi está agora o almejado genro a pedir-lhe a filha,
-e eil-o vem a ponto de estorvar que o sogro se deshonre,
-violando a palavra dada, com desdouros dos reis
-de Leão e Castella, seus avós.</p>
-
-<p>Trocados os termos ceremoniosos, D. Sueiro perguntou
-pelas primas.</p>
-
-<p>Entraram cinco meninas meia hora depois.</p>
-
-<p>—E a prima Christina?—perguntou elle.</p>
-
-<p>—Está na Guarda, em companhia da tia Mafalda
-Portugal—tartamudeou Ruy.</p>
-
-<p>—Sinto—disse D. Sueiro—porque, vindo eu pedir a
-mão da prima Guiomar para mim, sou encarregado de
-pedir a prima Christina para meu irmão Alexandre.</p>
-
-<p>—Céus!—exclamou para dentro de si o fidalgo, e as
-meninas encararam-se mutuamente.</p>
-
-<p>—Fallaremos ácerca de Christina—disse Ruy, expedindo
-um gemido rouco.</p>
-
-<p>E declinou a prática sobre trivialidades, até horas de
-jantar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span></p>
-
-<p>D. Alexandre, academico do primeiro anno na Universidade,
-tinha visto sua prima na feira de Vizeu, um
-anno antes. Escrevera-lhe, mediante os bons officios de
-sua tia D. Beatriz de Albuquerque. Não respondera
-Christina senão termos agradecidos á escolha, posto que
-incondescendentes. Assim mesmo, D. Alexandre de
-Aguilar recalcitrou, sem melhor exito. D. Sueiro, porém,
-tomou a peito levar a noiva ao irmão.</p>
-
-<p>Contou-se o incidente que prende com o porvir d’esta
-historia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span></p>
-
-<h2>VII<br />
-<span class="smaller">Felicidades</span></h2>
-
-<p>O apparecimento de Ladislau Tiberio no alto da serra,
-que se arqueia sobre a casa de Villa Cova, foi saudado
-com o agitar de dous lenços brancos. O moço, segundo
-convenção feita, apeou, cortou uma haste de castanheiro,
-arvorou n’ella o seu lenço, e floreando-o de
-cima da cavalgadura, deu-se pressa na descida.</p>
-
-<p>Quando tal viram, Christina, a rir e a chorar, lançou-se
-aos braços de Peregrina, e foram ambas ajoelhar
-diante do oratorio. Como a alegria as não deixava exprimir
-palavra, era-lhes preciso fallar em silencio com
-Deus.</p>
-
-<p>Meia hora depois, entrava no quinteiro Ladislau, e as
-duas senhoras, arrebatadas como se a boa nova igualmente
-as deliciasse ambas, correram a ouvir a confirmação
-do que disséra a bandeira branca.</p>
-
-<p>—É certo?—exclamou Christina.</p>
-
-<p>—É certo, minha senhora.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p>
-
-<p>—Deixa-me ir um criado a S. Julião dar parte a Casimiro?—tornou
-ella.</p>
-
-<p>—Vamos logo todos; mas, se v. ex.ª quer, mande o
-criado já.</p>
-
-<p>—Então não: vamos todos... quero eu dar-lhe a
-nova. E meu pai está bom? e minhas irmãs?</p>
-
-<p>—Não vi suas irmãs; seu pai está inquieto; mas,
-como tem bom coração, Deus o socegará.</p>
-
-<p>Abraçaram-se outra vez as duas amigas, e Ladislau,
-entre risonho e lagrimoso, gosava o não menor quinhão
-de sua alegria.</p>
-
-<p>Fez-se logo noute, e esperaram que nascesse a lua
-para sahirem ao ingreme e despedrado caminho da
-igreja.</p>
-
-<p>Por volta das dez horas, chegaram á lapa da Crasta,
-no viso da serra interposta, e lobrigaram um vulto.</p>
-
-<p>—É elle!—exclamou Christina, lançando-se da egua.—É
-meu marido!</p>
-
-<p>Casimiro Bettancourt correu ao encontro d’ella, e
-murmurou:</p>
-
-<p>—Que dizes, Christina?</p>
-
-<p>—O pai consentiu!—disse ella abafada pela commoção.</p>
-
-<p>E Casimiro, desprendendo-se dos braços de Christina,
-foi cingir com o peito o sereno Ladislau, que ficara segurando
-as redeas da egua.</p>
-
-<p>—Meu salvador!—exclamou o moço.</p>
-
-<p>—Seu amigo, como amigo de todos os infelizes que
-amam!—disse Ladislau e ajuntou logo:</p>
-
-<p>—O senhor que está aqui é que meu cunhado melhorou.</p>
-
-<p>—O sr. vigario veio confessar um moribundo na aldeia,
-que está ao fundo da serra, e eu, com licença<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span>
-d’elle, vim até aqui para ver o fumo da casa de Villa
-Cova.</p>
-
-<p>—Bem!—tornou Ladislau.—Vamos.</p>
-
-<p>—Eu vou a pé—disse Christina—dá-me o teu braço,
-Casimiro.</p>
-
-<p>—Ámanhã—atalhou Ladislau—ámanhã se encostará
-ao braço de seu marido, minha senhora.</p>
-
-<p>Christina córou; e Casimiro tomou as redeas da egua
-para ella saltar ao albardão.</p>
-
-<p>Ouviu-se um prolongado assobio como o dos caçadores
-em montados: era o vigario que chamava o hospede.
-Casimiro respondeu, e Peregrina, puchando do peito,
-quanto pôde, a voz, gritou:</p>
-
-<p>—Cá vamos todos.</p>
-
-<p>E, como todos rissem do agudissimo falsete da jubilosa
-Peregrina, o vigario percebeu logo a impaciente felicidade
-que não pôde esperar pelo dia seguinte.</p>
-
-<p>E subiu a ladeira até encontrar o grupo.</p>
-
-<p>—Abençoou Deus a tua resolução, já vejo!—disse
-padre João Ferreira ao cunhado.</p>
-
-<p>—Abençoou: pódes tu abençoal-os, meu irmão.</p>
-
-<p>E os dous ficaram alguns passos atrazados, para irem
-conversando sobre os successos de Pinhel, e os futuros
-em que os noivos não pensavam, nem era generoso dizerem-lh’os.</p>
-
-<p>Ninguem dormiu, n’aquella noite, na residencia de S.
-Julião. O vigario sahiu, ante-manhã, a solicitar licença
-do arcipreste para casar os contrahentes sob sua responsabilidade
-sem o previo pregão de banhos. Obtida, voltou
-á egreja, e ouviu de confissão os desposados; e, em
-seguida á ceremonia da communhão, ligou-os, abençoou-os
-e disse-lhes:</p>
-
-<p>—Ficam sendo os dous uma só alma para as alegrias<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span>
-e para as provações. Deus voltará a sua face divina
-d’aquelle dos dous que attribuir ao outro o seu infortunio;
-e nós, os amigos de ambos, verteremos lagrimas de
-sangue se os virmos infelizes, infelizes á mingua de conformidade
-e fortaleza. Deus os tenha de sua mão.</p>
-
-<p>Celebrado o matrimonio, almoçaram na residencia, e
-sahiram para Villa Cova, onde Brazia, azafamada com
-o jantar, e duplamente ditosa com o segundo casamento,
-dava ares de não ter o miolo fixo, no dizer dos outros
-creados.</p>
-
-<p>A felicidade d’este dia não tem historia: ou se a tem,
-conte-a o leitor que a experimentou. Mas o meu leitor,
-casado por paixão, precisamente foi obrigado a attender
-aos comprimentos de amigos e parentes, uns a louvarem-lhe
-a noiva, outros a louvarem-n’o a si, estes a brindarem-n’o
-com vinho, aquelles a perguntarem-lhe pelo
-dote da mulher: barafunda esta que o não deixou sentir
-a sua felicidade.</p>
-
-<p>Ora, na casa de Villa Cova, á mesa nupcial, além
-dos noivos, estavam o vigario, os donos da casa, o carpinteiro
-de Pinhel, e a velha Brazia. Os noivos repetiram
-em miudos a historia dos seus amores, os medos,
-as tristezas, os jubilos, o intenderem-se com a linguagem
-pactuada das flores. N’este ponto, Brazia ria muito e dizia
-que os namorados eram o peccado. As espertezas de
-José-pastor foram contadas por Christina com amostras
-do bem que queria ao rapasinho. Pediu ella ao marido
-que se não esquecesse nunca do muito que lhe deviam,
-e lembrou-se de o mandar estudar para padre se algum
-dia fosse remediada de bens de fortuna.</p>
-
-<p>—Hade sahir bom padre!—atalhou a ridentissima
-velha.—Se assim souber espreitar as ciladas do cão tinhoso,
-muitas almas hade ganhar p’ra Deus!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p>
-
-<p>Com estas e outras festejadas palestras passaram o
-dia. Ao escurecer, tornou o vigario á sua igreja, com
-promessa de voltar no dia seguinte, a fim de se conversarem
-cousas muito importantes.</p>
-
-<p>E nós vamos já ao ponto d’estas conversações decorridas
-á sombra d’uns altos castanheiros, que pareciam
-ter alli ficado da idade de ouro para darem testemunho
-de um feito d’outras eras.</p>
-
-<p>—Diz tu o que tens a dizer, Ladislau—estas palavras
-proferiu o vigario, logo que as duas senhoras se assentaram
-na grossa e retorcida raiz d’um castanheiro, e Casimiro
-á beira d’ellas.</p>
-
-<p>Ladislau voltou-se para seu cunhado e disse:</p>
-
-<p>—Porque não has de ser tu?</p>
-
-<p>—Quem melhor exprime a idéa é quem dignamente
-a concebeu.</p>
-
-<p>—Pois fallarei—tornou o moço: deteve-se breve espaço,
-e disse—o sr. Casimiro Bettancourt recebeu educação
-e tem espiritos que não são para vida aldean, e
-d’esta aldeia a mais desacompanhada e triste que ser
-póde. Isto é bom para mim, que nasci cá, e por todas
-essas pedras e arvores tenho cobrado um affecto de solitario,
-que todo outro viver se me affigura intoleravel.
-Que fará o sr. Casimiro, passados estes primeiros dias,
-em tal solidão? Perguntará a si mesmo: «Que faço eu
-aqui? Em que empregarei as minhas forças? Porque
-molde talharei o meu futuro?» Quando assim se interrogar,
-a resposta será uma melancolica indecisão, com
-vêr cerrados os caminhos para onde o animo o impelle.
-Vamos vêr se podemos abril-os para pouparmos o nosso
-Casimiro á desconsolação de cruzar os braços e dizer:
-«não sei!» O nosso amigo contou-me que, no collegio,<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span>
-estudava mathematicas, para o fim de seguir a carreira
-das armas.</p>
-
-<p>—É verdade—disse Casimiro.</p>
-
-<p>—Pergunto eu se lhe agrada recomeçar ou continuar
-os seus estudos, e ser militar.</p>
-
-<p>—Desejava-o, tenho-o desejado sempre; mas a vida
-militar desprotegida é má; e, nas minhas circumstancias,
-o estudar foi e é impossivel agora.</p>
-
-<p>—Não é. O meu amigo assenta praça, e requer licença
-para estudar em Lisboa, Porto, ou Coimbra. Tenho
-estas informações de meu cunhado. Eu offereço-lhe
-os meios precisos para se alimentar com sua senhora em
-qualquer das cidades que escolher, e assim se habilita
-para alguma vez me pagar o adiantamento que fôr preciso.</p>
-
-<p>—Mas o meu dote...—interrompeu Christina, com
-fidalgo animo.</p>
-
-<p>—Não se falla no seu dote—retorquiu Ladislau.—O
-sr. Ruy de Nellas deu o consentimento; mas não dá
-dote.</p>
-
-<p>—O dote de minha mãi...—tornou ella.</p>
-
-<p>—V. ex.ª não pede dote nenhum: eu disse a seu pai
-que a sustentação de sua filha e marido não corriam á
-obrigação d’elle. Está desobrigado o sr. Ruy de Nellas.
-Em resumo, o sr. Casimiro quer ser homem, quer a sua
-independencia, quer empregar dignamente as faculdades,
-que Deus não dá para ocios ou desperdicios. Resolve-se
-a abraçar a minha lembrança?</p>
-
-<p>—De toda a vontade, e com o mais reconhecido coração.
-Diz-me uma voz intima que eu poderei desempenhar-me.</p>
-
-<p>—Tambem a mim m’o diz—ajuntou Ladislau.</p>
-
-<p>—Desempenham-se todos os que trabalham—ajuntou<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span>
-o vigario.—O principal estimulo que o sr. Casimiro leva
-para o seu engrandecimento é querer mostrar a seu sôgro
-que se fez homem.</p>
-
-<p>—Quem me faz homem é este anjo! exclamou Casimiro,
-abraçando o marido de Peregrina, a qual já estava
-chorando, quer fosse a proxima ausencia de Christina,
-quer o enthusiasmo da boa acção de seu marido a
-enternecesse a lagrimas.</p>
-
-<p>Volvidos quinze dias, iam sahir de Villa Cova os noivos
-com destino a Coimbra. Ao despedirem-se, como
-Ladislau levasse á mala de Casimiro o dinheiro contado
-para as despezas do primeiro trimestre, o hospede acudiu
-dizendo que tinha intactos os duzentos mil réis que
-seu tio lhe dera. Mestre Antonio, que fôra assistir á
-despedida do sobrinho, resistiu ás instancias de Ladislau,
-não querendo reembolsar o dinheiro, e levou a sua liberalidade
-ao ponto de offerecer á esposa de seu sobrinho
-uns brincos de ouro, que elle chamava <i>cabaças</i>, os quaes
-tinham sido de sua mulher. Liberalidade dissemos; e,
-com tudo, o valor real do presente orçava por dezeseis
-tostões! Assim era que elle amava muito aquella memoria,
-e o desprender-se d’ella foi o mais que podia fazer
-a sublime rudeza do coração do operario! Dera a
-sorrir os duzentos mil réis, e foi, ás escondidas, enchugar
-as lagrimas, quando se viu privado das arrecadas de
-sua mulher! Ó santos corações do povo! mas do povo
-das montanhas, direi; do povo, que ainda não sahiu á
-praça vociferando que é rei porque é povo.</p>
-
-<p>Christina tirou das orelhas uns brincos de preço, que
-usava em casa de seu pai, e adornou-se com os modestos,
-que lhe dera o artista; depois, voltando-se a Peregrina,
-disse-lhe:</p>
-
-<p>—Acceitas uma lembrança da tua amiga pobre, da<span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span>
-amiga que vai subsistir dos teus beneficios? E, tomando-lhe
-a cabeça contra o seio, obrigou-a suavemente a
-receber os seus brincos, e beijou-a em ambas as faces.</p>
-
-<p>—Acceita, Peregrina—disse Ladislau—que a tua senhora
-e amiga vai mais enfeitada com a dadiva do pobre.</p>
-
-<p>Partiram, acompanhadas até grande distancia pelo
-vigario, irmã, Ladislau e Brazia. Mestre Antonio não
-houve rasões que o demovessem de ir a pé ao lado de
-Christina, até ao Porto.</p>
-
-<p>Como pernoitassem n’uma estalagem da aldeia de
-Pena verde, encontraram um feitor da casa de Ruy de
-Nellas, acompanhando duas cargas de bahus. O feitor,
-pasmado do encontro, não atinava a decidir-se se devia
-cumprimentar ou desprezar a filha de seu amo. A menina
-porém, que se não julgava despresivel, perguntou
-ao seu antigo creado d’onde vinham aquelles bahus.</p>
-
-<p>—Do Porto—disse breve e seccamente o conductor.</p>
-
-<p>—Que levam?</p>
-
-<p>—O enxoval da sr.ª morgada.</p>
-
-<p>—Pois a mana Guiomar casa?</p>
-
-<p>—Casa á vontade de seu pai—tornou o feitor, carregando
-de censura as palavras, e collocando-se de esguelha.</p>
-
-<p>Casimiro Bettancourt, que presenceara o dialogo, desceu
-ao pateo da estalagem, onde estava o feitor; travou-lhe
-das lapelas da jaqueta, e disse:</p>
-
-<p>—Olha de frente para a filha de teu amo, e responde-lhe.</p>
-
-<p>—Já respondi—disse o homem um pouquinho inquieto
-da segurança da sua pessoa.</p>
-
-<p>Casimiro perguntou á sobresaltada senhora o que queria
-ella saber do seu creado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p>
-
-<p>—Nada...—balbuciou Christina, temerosa do resultado.</p>
-
-<p>—Descobre-te—disse elle ao creado.</p>
-
-<p>O feitor tirou o chapéu com as mãos ambas.</p>
-
-<p>—Diz áquella senhora com quem casa tua ama, e
-responde ao mais que ella te perguntar.</p>
-
-<p>—Casa com o sr. D. Sueiro, de Miranda, que a foi
-pedir, e tambem ia pedir a sr.ª D. Christina para o sr.
-D. Alexandre.</p>
-
-<p>—Deixa-o, deixa-o!—disse Christina.</p>
-
-<p>—Levas as duas orelhas—ajuntou Casimiro, largando-o—porque
-és creado do sr. Ruy de Nellas. Tu
-consideras menos a filha de teu amo do que eu os seus
-lacaios.</p>
-
-<p>E, tornando ao quarto de Christina, disse-lhe risonho:</p>
-
-<p>—Que excellente casamento te fiz perder!...</p>
-
-<p>D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma
-d’Eça!</p>
-
-<p>—Pois sim, disse ella muito de riso e mimo, mas se
-tornas a assustar-me, arrependo-me de não ter respondido
-ás cartas do idiota Alexandrinho... que vamos
-encontrar em Coimbra... Não sabes que elle está em
-Coimbra?</p>
-
-<p>—Sabia, e então? Dar-se-ha caso que a vergontea
-ostro-goda me queira cahir sobre as costas? É
-preciso temer os Vito Alarcões!... Deus nos defenda!</p>
-
-<p>Festejou ella muito os tregeitos de medo comico com
-que Casimiro abrenunciou o rival temeroso, e não pensaram
-mais n’isso.</p>
-
-<p>Tomou o estudante uma casa menos de modesta,
-fóra de portas em Santo Antonio dos Olivaes. Em redor<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span>
-da casa fechava-se o arvoredo de alamos, platanos
-e choupos. A mobilia era rigorosamente academica: as
-conhecidas cadeiras como inventadas para descadeirar
-os occupantes; a meza de pinho pintado de verde; a
-tarima de espaldar de taboado com silvas de flores
-amarellas, imaginarias, e superiores ás mais inventivas
-das florestas americanas. Tudo isto, porém, e o restante,
-que pouco mais era, limpo, repintado, e lustroso
-alegrava a casinha. Depois era no mez de abril, o abril
-de Coimbra, regorgeado de aves, arrelvado de boninas,
-copado de sombras, e harmonioso de murmurios. E, depois,
-o amor, a paz, o descanço de tamanhas batalhas,
-aformosentavam a vivenda de Santo Antonio dos Olivaes,
-o amor, por sobre tudo, alindava, encantava, e
-vestia da innocencia e das alfaias do eden aquelle silencioso
-abrigo de duas almas fugidas ao mundo, e recolhidas
-em si e em Deus.</p>
-
-<p>Principiou Casimiro a recordar os seus passados estudos,
-emquanto corria aquelle anno lectivo, para no
-immediato se matricular. Raras vezes ia á cidade dar
-conta ao leccionista dos seus estudos preparatorios.
-Como o tempo lhe sobejava, lia ou ouvia ler Christina,
-que dava aos livros unicamente as horas feriadas das
-suas occupações domesticas. Raro dia, deixavam de escrever
-algumas linhas a Ladislau e Peregrina, dizendo
-aquelles nadas que são um nunca findar entre pessoas
-que se presam.</p>
-
-<p>Desceram, uma tarde de junho, ao Mondego, e subiram
-á beira da margem esquerda. Paravam a intervallos
-para ouvirem o rumoroso suspirar da folhagem, e o soido
-da limpha sobre que os salgueiros se dobravam a remirar-se
-no espelho limpido.</p>
-
-<p>Christina inclinou a face ao seio de seu esposo, e<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span>
-murmurou tão de leve, que parecia afinar a voz pelo
-som d’aquellas harpas eolias da ramagem:</p>
-
-<p>—Como somos felizes, ó Casimiro!...</p>
-
-<p>—E eu cuidava que não havia felicidade n’este mundo!
-disse elle, comprimindo-lhe a face com a mão tremente
-de meiguice.</p>
-
-<p>—Como não ha de havel-a para os que amam o Senhor,
-e não fazem mal ao seu semelhante!</p>
-
-<p>—Eu devia esperar este bem, Christina; porque fui
-muito desgraçado... Não fui?</p>
-
-<p>—Eras... mas, desde que eu te amei...</p>
-
-<p>—Fui muito mais desgraçado, filha... Então é que
-eu me vi pobre, desvalido, sem pai, sem mãi... Que
-palavra, Christina!... MÃI!... Nunca os meus labios
-proferiram esta palavra no seio de uma mulher!
-Nunca, nem na minha desamparada orphandade, correu
-para mim uma mulher chamando-me filho!...
-Como pude eu ser privado das caricias de minha
-mãi!? Como pôde ella abandonar-me, e esquecer-me!?
-Porque não disse meu pai se ella era morta?!...</p>
-
-<p>—Ahi estás tu a entristecer-te!—atalhou a esposa—Não
-quero!... Vem cá! Olha, Casimiro, eu chamo-te
-filho, filho de minha alma, do meu coração!
-Amo-te mais que todas as mãis! Se alguma vez chorares,
-eu te consolarei, com um carinho, que as mãis não
-sabem. Defender-te-hei com mais coragem que ella.
-Morrerei por amor de ti, porque és tudo que eu tenho.
-Se Deus me der filhos, heide amal-os menos que a ti,
-meu amado esposo!... Vês-me tu a mim triste por ter
-deixado pai e irmãs?... É verdade que meu pai aborrecia-me
-e minhas irmãs desprezavam-me mas por amor
-de ti, Casimiro, por amor de eu te querer dar esta felicidade...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p>
-
-<p>—Perdôa-me!—disse elle, beijando-a com estremecimento—Não
-me lembres o que soffreste, que eu cuidarei
-que me argues de ingrato. Olha que a minha tristeza
-é suavissima, ó minha filha. Lembrou-me meu pai,
-e os seus ultimos affagos; tive saudades de minha mãi,
-que nunca vi; são uns desejos, que parecem vaticinio
-de que hei de ainda encontral-a. Vê tu que loucura,
-que poesia! É este sitio, estas arvores, e a serenidade
-do céu que me fazem scismar assim... As pessoas,
-que têm a sua alegria circumscripta ao curto espaço da
-sua casa, não devem vir meditar nos lugares em que o
-espirito carece de voar ás raias do infinito. A tristeza
-está n’ellas, filha. O espirito retrahe-se sobre si mesmo,
-e doe-se da sua fraqueza. O que é ver ir aquella ave
-pelo azul do céu fóra, e dizer: «onde irás tu?» É desejo
-de romper esta rêde de ferro que nos cerca, rasgar
-os fechados horisontes da alma, e sondar em que mundo
-irei com o teu espirito perpetuar a minha existencia. E
-a devanear n’isto, accordam-se na alma todos os enlevos
-e saudades... Então vejo a sombra de minha mãi
-e de meu pai, a passarem, a fugirem, como sonhos. Ditoso
-é o meu accordar, porque te encontro, ó anjo da
-minha vida!...</p>
-
-<p>E, dizendo, abraçou-a soffregamente, e bebeu-lhe as
-lagrimas, exclamando:</p>
-
-<p>—É assim que minha mãi devia chorar, quando me
-lançou de si!...</p>
-
-<p>—Mas eu—exclamou Christina—aperto-te ao meu
-coração, filho!</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span></p>
-
-<h2>VIII<br />
-<span class="smaller">O Vigario de S. Julião da Serra</span></h2>
-
-<p>Temos de voltar a Pinhel.</p>
-
-<p>D. Sueiro de Aguilar pediu instantemente que se
-mandasse buscar á Guarda sua prima Christina. Tergiversou,
-em quanto pôde, Ruy de Nellas; porém,
-quando o fidalgo de Miranda annunciou que iria pessoalmente
-buscal-a, o velho, entre lagrimas e gemidos,
-declarou tudo.</p>
-
-<p>—E não está ainda morto o villão?—perguntou D.
-Sueiro, concluida a narrativa.</p>
-
-<p>—Morto, não: nem sei onde está.</p>
-
-<p>—E póde meu tio Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo
-consentir que viva o cão immundo! Um Gamboa
-deixar viver o raptor de sua filha!—replicou D.Sueiro.</p>
-
-<p>—Que hei de eu fazer-lhe agora? é marido d’ella!...</p>
-
-<p>—Antes viuva, antes perdida, antes morta!... Que
-ouvi eu! Christina, amada por Alexandre de Aguilar,<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span>
-requestada e pedida, acha-se casada com um sobrinho
-de carpinteiro! Ó tio! esta vergonha é insanavel!...
-Quem dirá que minha bisavó foi casada com o primo
-carnal d’um avô de v. ex.ª!?... Sinto, sinto amargamente
-dizer-lhe que não posso ser cunhado do sobrinho
-do carpinteiro!</p>
-
-<p>—Paciencia... murmurou Ruy—Deus me leve depressa.
-Estou farto das affrontas dos nobres e dos plebeus.
-Elle roubou-me a filha, e tu Sueiro, injurias a minha
-dôr! Que hei de eu fazer?</p>
-
-<p>—Esmagar o verme!</p>
-
-<p>—Valha-te Deus! não se esmagam assim homens!
-Os tempos são outros, meu sobrinho. A plebe agora tem
-a força, e nós temos o direito.</p>
-
-<p>—E a força! Vá lá um plebeu requestar irmã minha!...
-Não verá mais sol nem lua! Juro-lh’o sobre...</p>
-
-<p>D. Sueiro, como não visse á mão sobre que jurar,
-calou-se, e expediu um grunhido, como usam os bravos,
-que parecem tirar a valentia da garganta. E proseguiu:</p>
-
-<p>—Já estarão casados?</p>
-
-<p>—De certo estão ha tres dias.</p>
-
-<p>—V. ex.ª deu o consentimento?</p>
-
-<p>—Nem dei, nem deixei de dar... Callei-me, farto
-de ouvir as lastimas d’um bom moço, que aqui veio...</p>
-
-<p>—E houve sacerdote indigno que os recebesse sem
-licença legal e canonicamente escripta?</p>
-
-<p>—O sacerdote é meu afilhado, ordenado á minha
-custa, nomeado por minha intervenção na igreja onde
-se receberam.</p>
-
-<p>—Pasmo!... pois... ó sacrilegio da amisade! o crime
-inaudito! Padre João, aquelle sarrafaçal de padre<span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span>
-ousou sanctificar e legalisar o opprobio da familia que
-lhe deu o pão, a sotaine, e a egreja! Qual vingança ha
-ahi de tamanho crime!</p>
-
-<p>Andava D. Sueiro de um lado a outro da sala, sacudindo
-os braços, em mental soliloquio. Ruy amparava a
-cabeça entre as mãos, pozera os cotovellos no peitoril da
-janella, e olhava, sem o ver, para um macisso de murtas
-do jardim. As apostrophes irrisorias do sobrinho callaram-lhe
-no animo, a ponto de o irarem contra o vigario
-de S. Julião. Monologando comsigo, dizia:</p>
-
-<p>—D. Sueiro tem razão. O padre, devendo ser o primeiro
-a embaraçar o casamento, não só m’o mandou
-aconselhar como necessario, mas ainda por cima me
-pediu e instou licença para casal-os. A ingratidão é flagrante!
-O villão bandeou-se com o outro da sua estôfa.
-São uns pelos outros estes filhos do nada! Se elle me
-fosse grato, restituia-me a minha filha, e affugentava o
-raptor. Longe d’isso, agasalhou-o, sustentou-o, e recebeu-o
-como se eu lh’o recommendasse!... Tem razão
-D. Sueiro! O padre merece castigo! Não basta expulsal-o
-eu para sempre de minha casa: hei de reduzil-o a
-viver da esmola da missa, se não poder caçar-lhe o exercicio
-das ordens.</p>
-
-<p>E continuou em voz alta:</p>
-
-<p>—Dizes bem, meu sobrinho: o padre é um refalsado
-ingrato! Ha de ser punido.</p>
-
-<p>—E o troca tintas?</p>
-
-<p>—Casimiro?</p>
-
-<p>—Sim, o pêrro, o sobrinho do carpinteiro?</p>
-
-<p>—Já disse que é tarde para o mandar castigar.</p>
-
-<p>—Deixe-m’o por minha conta, tio Ruy. V. ex.ª não
-tem filho que lhe vingue as cans; mas aqui está o braço
-indomavel do seu sobrinho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span></p>
-
-<p>—Não approvo—disse o velho—Estão casados. Já
-me não poupo á vergonha de receber em minha casa a
-viuva do homem abjecto. É tarde para remedio. O sangue
-já não lava a nodoa.</p>
-
-<p>—Nodoa eterna!—acrescentou D. Sueiro de Aguilar.</p>
-
-<p>—Seja o que Deus quizer!—Está visto que regeitas
-a esposa que pediste, meu sobrinho. Ficaremos em paz;
-eu com ella, e tu com a tua dignidade limpa. Mas olha
-que és injusto! Minha filha Guiomar está innocente no
-delicto de Christina. Faz o que quizeres. Escolhe-a mais
-rica; mais fidalga dificilmente a acharás em Portugal.</p>
-
-<p>—Sei que é minha prima!—disse modestissimamente
-o fidalgo de Miranda, e ficou alli, por não ter mais que
-dizer a tal respeito. Uma prima dos Alarcões Parmas
-d’Eça não podia ser mais nada em materia genealogica.
-A D. Guiomar, porém, entre as qualidades dignas de
-seu primo, sobrava-lhe a de ser tôla, com uns longes de
-idiota.</p>
-
-<p>O ajuntarem-se estes dous era preordenação, não direi
-do alto para declinar a influencia divina de sobre as
-parvoiçadas que se fazem n’este globo; mas, predestinação,
-isso era, se alguma ha n’esta cousa de encontros
-e desencontros, que os poetas mirificamente explicam.</p>
-
-<p>E tanto assim era que, n’aquelle mesmo dia, D. Sueiro,
-vindo de passeio com D. Guiomar affectuosamente
-disse ao tio que, apezar de tudo, seria seu genro, com
-a resalva de em sua casa nunca mais se proferir o nome
-de Christina.</p>
-
-<p>Concordes n’isto, afanaram-se logo em aviar os preparativos.
-D. Sueiro d’Aguilar foi dispôr suas cousas a
-Miranda, e Ruy de Nellas enviou ao Porto o feitor á
-compra do precioso enxoval.</p>
-
-<p>Natural seria que o velho, contente e distrahido, perdoasse<span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span>
-ao vigario de S. Julião, ou esfriasse no ardor vingativo
-até esquecer o ingrato, e desprezal-o fidalgamente.</p>
-
-<p>Assim não foi. A natureza vai tão falsificada que já
-me quer parecer que andamos a chamar natureza a tudo
-que é arte: arte, digo eu, synonimo de manha, ardil,
-malicia e obra de satanaz.</p>
-
-<p>Escreveu Ruy de Nellas ao seu procurador na Guarda,
-accusando o vigario de S. Julião da Serra. Foi padre
-João chamado á camara ecclesiastica para responder sobre
-o casamento irregular de Casimiro Bettencourt e
-D. Christina de Nellas. Ingenuamente relatou o vigario
-que os casara com a licença vocal do pai da contrahente.
-Redarguiram-lhe que era apocrifa a licença, e d’alli sem
-averiguações o suspenderam do exercicio parochial.</p>
-
-<p>Padre João, antes de recolher á vigararia para fazer
-entrega dos livros á posse do novo pastor, foi a Pinhel,
-e serenamente bateu ao portão do fidalgo.</p>
-
-<p>Os creados receberam-o com má sombra, e um foi
-avisar o amo, e voltou dizendo:</p>
-
-<p>—O fidalgo não lhe falla. Vá-se o sr. padre em paz,
-que o amo, se o vê, vai-lhe ao espinhaço.</p>
-
-<p>—Diga ao sr. Ruy de Nellas que seu afilhado vem
-pedir-lhe perdão, e explicar o seu procedimento.</p>
-
-<p>O servo, vencido pela humildade, voltou ao amo, e
-trouxe esta resposta:</p>
-
-<p>—Que lhe não perdôa, nem quer ouvir explicações.</p>
-
-<p>—Um de vm.ᶜᵉˢ—replicou o manso vencedor do
-Evangelho—faz-me o favor de lhe entregar uma carta?</p>
-
-<p>—Entrego eu, disseram quasi todos.</p>
-
-<p>—Volto já.</p>
-
-<p>Sahiu o padre a escrever na primeira tenda que se
-lhe prestou. Dizia assim a carta:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span></p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>«Meu bom padrinho consentiu verbalmente que eu
-casasse a sr.ª D. Christina com Casimiro?</p>
-
-<p>«Consentiu.</p>
-
-<p>«Meu padrinho requereu a suspensão das minhas
-funcções parochiaes, allegando a irregularidade d’aquelle
-casamento?</p>
-
-<p>«Requereu.</p>
-
-<p>«Devia fazel-o?</p>
-
-<p>«Cito perante Deus a consciencia de meu padrinho.</p>
-
-<p>«Se procedi mal, peço perdão. Se procedi bem, Deus
-me ampare. De v. ex.ª afilhado, capellão e servo.</p>
-
-<p class="right"><i>João.</i>»</p>
-
-</div>
-
-<p>Ruy leu a carta com arremesso, e releu-a com brandura.
-A sua consciencia estava deante de Deus. O juiz
-era inexoravel, e o velho supersticioso, talvez. Tremia, e
-queria fugir de si proprio. Carregava-lhe no peito a mão
-ferrea da justiça divina, e abafava-o. Ruy chamou o
-creado, e mandou entrar o padre. O padre, porém, entregára
-a carta, e sahira caminho de Villa Cova.</p>
-
-<p>Deixemos o delinquente a resolver-se no inferno que
-se abriu com a mão iniqua, e sigamos o homem de animo
-inteiro, o humilde triumphante.</p>
-
-<p>Chegou a Villa Cova de rosto alegre, e disse:</p>
-
-<p>—Certamente, Ladislau, não te enganaste com as
-palavras de meu padrinho, respeito ao casamento da
-filha?</p>
-
-<p>—Não me enganei; foram estas: <i>casem</i>; <i>mas que eu
-os não veja mais</i>. Porque m’o perguntas?</p>
-
-<p>—Fui suspenso de vigario, a requerimento do sr. Ruy
-de Nellas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p>
-
-<p>—Mas estás em paz comtigo e com os teus deveres.</p>
-
-<p>—Estou.</p>
-
-<p>—Então descança na tua casa, meu irmão. Fica ao
-pé de tua irmã. Villa Cova, sem padre, está como viuva
-saudosa e inconsolavel. Os teus parochianos já te amavam:
-paga-lhes o amor ficando entre elles. Virá outro
-vigario enviado pelo governo; e tu serás o enviado de
-Deus. Ambos são necessarios. E tu para mim, e em minha
-casa, és o cumulo de felicidade.</p>
-
-<p>—Ficarei e trabalharei—respondeu padre João.</p>
-
-<p>No dia seguinte, chegou á residencia de S. Julião da
-Serra outro pastor. D’ahi a curto espaço, estava o adro
-a transbordar de povo. A noticia chegou aos campos, e
-os agricultores ergueram mão da sáfra, e accorreram ao
-presbyterio.</p>
-
-<p>Feita a entrega de livros e utensilios da igreja, padre
-João sahiu ao adro, e disse:</p>
-
-<p>—«Meus amigos, como no pouco tempo, que vos parochiei,
-não houve espaço de mostrar meus vicios, saio
-de entre vós sem deixar má nota, escandalo, ou desamor.
-Como fostes rebanho de um pastor santo, que me
-antecedeu, achei-vos doceis, bons e virtuosos. Edifiquei-me
-entre vós, e aprendi a crer na influencia de um bom
-parocho. Creio que a vontade do Altissimo é que os
-vossos pastores no futuro não destruam as boas obras dos
-passados. Elles semearam; vós sois o fructo, e de vós
-hão de fructear mais gerações. E, por isso, é fé minha
-que o vigario novo terá o espirito dos antigos. Sêde com
-elle o que fostes comigo. Ficai com Deus.»</p>
-
-<p>Os ouvintes abraçaram-o em tropel, debulhados em
-lagrimas; e elle, ensopando com as suas a manga da
-batina, encostou-se ao hombro de Ladislau, e caminhou
-para Villa Cova.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span></p>
-
-<p>Á mesma hora, Ruy de Nellas, humilhado pela consciencia
-na batalha com o orgulho, escrevia ao procurador,
-mandando-o que fosse ao paço episcopal e encarecidamente
-solicitasse o pôr pedra sobre o processo contra
-o padre vigario de S. Julião da Serra, e levantar-se
-a suspensão. E desculpava a mudança de seu animo,
-com ter-se lembrado que déra verbalmente a licença, e
-o padre, em virtude d’isso, procedera regularmente. Encarecia
-em termos afflictos os seus escrupulos e remorsos,
-pedindo a maxima brevidade no levantamento da
-suspensão, e retirada do novo vigario.</p>
-
-<p>Ora vejam que alavanca de ferro a prostrar um soberbo,
-foi a humillima carta de padre João! Estas victorias
-dá-as o Evangelho; e as bandeiras triumphaes
-são estas. Que é vencer Cezar a Pompeu, ou Scipião a
-Annibal? Que é Roma armada avassalar o mundo? Que
-é Napoleão devastando reinos e homens á frente de milhões
-de escravos? Dobrar o orgulho de um homem,
-quando se lhe pede perdão d’um inventado aggravo,
-isso sim é que é vencer. Qual philosopho, antes do divino
-Christo, ensinou a citar ao tribunal do juiz supremo
-a consciencia d’um mau, e fazêl-o ahi accusar-se,
-dobrar-se, condemnar-se, e reparar o ruim feito, a affronta,
-a injustiça?</p>
-
-<p>Alguns dias passados, padre João Ferreira era restituido
-á posse da igreja, visto que ulteriores informações
-abonaram a regularidade do matrimonio accusado indevidamente.</p>
-
-<p>O povo da freguezia exorbitou da sua costumada prudencia,
-saltando por cima das admonendas do seu vigario.
-Os mais enthusiastas fizeram fogueiras como em
-noute de S. João, e correram a freguezia com esturdias
-instrumentaes, e foguetes de lagrimas. Cotizaram-se seis<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span>
-lavradores abastados para celebrarem o successo, n’um
-aprazado domingo, mandando fabricar um balão na
-Guarda, e comprar na botica os ingredientes para a ascensão,
-com grande copia de girandolas e quantas invenções
-pyrotechnicas se achassem na Guarda e Vizeu
-afóra a musica de Pinhel. O vigario empenhou rogos e
-authoridade em demovêl-os; porém, como os visse inquebraveis
-no intento, chamou elle artificiosamente a
-si o dinheiro destinado ás festivas despezas, obrigando-se
-a fiscalisal-o do melhor modo.</p>
-
-<p>Chegou o domingo aprasado. Logo de madrugada os
-lavradores foram á residencia do vigario a tomar conta
-dos objectos que deviam ter chegado no sabbado. Padre
-João mostrou-lhes uma arca de pinho, e disse:</p>
-
-<p>—O balão, que ha de chegar ao céu, já ali está
-n’aquella arca.</p>
-
-<p>Os lavradores quizeram vêl-o mas o padre differiu
-para as onze horas desencaixotar o balão que havia de
-chegar ao céu.</p>
-
-<p>—E os foguetes?—perguntaram elles.</p>
-
-<p>—Tambem chegam logo, e hão de ser todos de lagrimas.</p>
-
-<p>—E a musica?</p>
-
-<p>—Vem tambem; e ha de ser musica de anjos.</p>
-
-<p>Os parochianos encararam-se mutuamente e murmuraram:</p>
-
-<p>—Anda aqui marosca!...</p>
-
-<p>No fim da missa do dia, por volta de onze horas, o
-vigario assomou no arco da igreja, tirou de entre os colchetes
-da batina um papel, onde eram inscriptos os nomes
-de doze velhos pobres e doentes da freguezia. Á
-proporção que os ia chamando, os velhinhos sahiam de
-entre a multidão e collocavam-se em frente do vigario.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span></p>
-
-<p>Chamado o duodecimo, que subiu amparado por dous
-netos, o padre mandou conduzir da sachristia para o
-arco da egreja a arca de pinho, que os lavradores tinham
-visto na casa parochial. Abriu elle a caixa, e foi tirando
-e repartindo por cada um dos doze pobres uma roupa
-inteira de pantalona, colete, e véstia de saragoça. Os
-velhos recebiam com mãos tremulas a esmola, e murmuravam
-palavras de benção, e alimpavam os olhos
-turvos de lagrimas para verem o seu remedio do proximo
-inverno. Finda a repartição, o vigario, procurando
-com os olhos os lavradores cotisados para a funcção,
-disse-lhes:</p>
-
-<p>—Aqui está, meus amigos, o balão que chega ao
-céu; ali tendes no rosto d’aquelles anciãos invalidos e
-doentes, as lagrimas, que são lagrimas de graças ao
-Senhor e de gratidão a vós. Haveis de confessar que as
-lagrimas dos foguetes são menos brilhantes e consoladoras.
-Quanto á musica, dir-vos-hei, meus bons amigos,
-que os anjos do céu assistem com suas musicas a esta
-vossa festa. Se fiscalizei mal os vossos trinta e seis mil
-réis, accuzai-me para eu vol-os repôr.</p>
-
-<p>Disse, e logo um, e todos os lavradores lhe foram
-beijar a mão; e os pobres, a não serem retirados brandamente,
-iriam beijar-lhe os pés.</p>
-
-<p>Ao meio dia em ponto, no sobrado da residencia, estava
-posta uma mesa com treze pratos. Na cabeceira
-sentou-se o vigario, e os doze pobres já lavados e vestidos,
-lateralmente. O jantar viera cosinhado de Villa
-Cova: o bodo aos pobresinhos fôra devoção de Peregrina.</p>
-
-<p>Ladislau e sua mulher serviram os convivas, um de
-cada lado, já partindo em pequeninos bocados a ração<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span>
-de cada pobre, já ministrando-os á bôcca do mais intrevado
-que se não servia de suas mãos.</p>
-
-<p>Em redor da meza, de pé, silenciosos, e com que arrobados
-n’aquelle espectaculo santo, estavam os principaes
-lavradores da freguezia. Por vezes, uma ou outra
-voz, mal desabafada das lagrimas, murmurava:</p>
-
-<p>—Louvado seja o Senhor!</p>
-
-<p>E, cada lavrador enxugava os olhos.</p>
-
-<p>Concluido o jantar, ergueu-se o sacerdote, e deu graças
-a Deus, em voz alta; e, ao sahir da meza, proferiu
-estas palavras:</p>
-
-<p>—Louvemos o Altissimo porque nos deu coração para
-sentirmos as alegrias da caridade. Esta virtude, que
-commove até aos prantos consoladores é a sombra dos
-contentamentos da bemaventurança. Meus amigos, a
-vossa festa acabou; mas eu espero em Deus que haveis
-de vêl-a continuada no céu.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span></p>
-
-<h2>IX<br />
-<span class="smaller">D. Alexandre é espalmado</span></h2>
-
-<p>Decorreram dez mezes sem successo digno de menção,
-a não ser o nascimento do primogenito dos bemaventurados
-de Villa Cova. Recebeu na pia baptismal o
-nome de seu avô, sob cuja egide os paes o offereceram.
-Foi padrinho o vigario, e madrinha D. Christina, representada
-pela velha Brazia, a creada octogenaria, que já
-não morre sem o contentamento de pôr as mãos no neto
-do santo, que ella conhecêra creança. E, com este espiritual
-parentesco, pagou Ladislau os setenta annos de
-companhia da sua serva.</p>
-
-<p>Casimiro Bettancourt cursava o primeiro anno mathematico,
-e era furriel de infanteria. Continuava a
-viver retirado da mocidade, excepto d’aquelles que o
-procuravam como auxiliador na interpretação de suas
-lições.</p>
-
-<p>Um d’estes disse-lhe, uma vez, que, no curso de leis,
-andava um rapaz provinciano, que detrahia publicamente
-Casimiro Bettancourt.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span></p>
-
-<p>—Que diz elle de mim?—perguntou Casimiro.</p>
-
-<p>—Miserias...</p>
-
-<p>—Que são miserias?</p>
-
-<p>—Diz que tu és sobrinho de um carpinteiro.</p>
-
-<p>—Isso é verdade: sobrinho de um honrado carpinteiro.
-Que mais diz? Vamos ás <i>miserias</i>...</p>
-
-<p>—Que roubaste a senhora com quem és casado.</p>
-
-<p>—Tambem é verdade. Fugimos para nos casarmos.
-Que mais?</p>
-
-<p>—Diz que pagaste assim indignamente os beneficios
-que devias ao pai d’ella.</p>
-
-<p>—Não procedi bem; mas todo o homem de coração
-me ha de absolver. Como não a amei nem a raptei
-por ella ser rica, e não vivo nem pretendo viver do patrimonio
-d’ella, a minha dignidade é invulneravel.</p>
-
-<p>Isso não diz elle... mas eu ainda te não disse quem
-elle é...</p>
-
-<p>—Já sei: é D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão
-Parma d’Eça.</p>
-
-<p>—É isso.</p>
-
-<p>—Que diz elle em contrario do que eu affirmo?</p>
-
-<p>—Que tu vives do producto das joias, que tua senhora
-subtrahiu ao pai.</p>
-
-<p>—Mente!—disse serenamente Casimiro, e accrescentou:—Não
-quero ouvir mais. Ouviram-lh’o muitas testemunhas?</p>
-
-<p>—No botequim da Rua-larga. Eramos mais de vinte
-rapazes, e passavas tu n’essa occasião.</p>
-
-<p>—Se desejas servir-me...</p>
-
-<p>—Se desejo!... Quebro-lhe a cara, se isso te apraz.</p>
-
-<p>—Não, meu amigo. Eu sou um homem como elle. O
-que eu te peço é que tomes nota das pessoas que ouviram<span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span>
-a calumnia, para mais tarde pedires a presença
-d’ellas.</p>
-
-<p>—Facilmente: eu te digo os nomes... Eram...</p>
-
-<p>—Escuso. Basta que tu saibas. São horas de estudarmos
-a lição.</p>
-
-<p>E abancaram tranquillamente.</p>
-
-<p>Volvidos oito dias, Casimiro Bettancourt disse ao
-condiscipulo:</p>
-
-<p>—Amanhã é sabbado. Peço-te que reunas ás seis
-horas da tarde, no botequim da Rua-larga, os teus
-amigos, caso aconteça lá ir D. Alexandre de Aguilar.</p>
-
-<p>—Vai sempre: das oito horas em diante está embriagado.</p>
-
-<p>—Com tanto que não o esteja ás seis...</p>
-
-<p>—Isso é raro. Quando o está ás seis, é porque já se
-tinha embriagado ás tres.</p>
-
-<p>—Optimo! Espera-me lá.</p>
-
-<p>Este dialogo correu na alamêda fronteira á casa. O
-academico escondia-se de sua mulher.</p>
-
-<p>No seguinte dia, disse Casimiro a Christina:</p>
-
-<p>—Depois de jantar, vou ver um condiscipulo doente.
-É a primeira tarde que passas sem mim, filha.</p>
-
-<p>—É verdade!...</p>
-
-<p>—Mas não has de soffrer, não? A saudade é uma
-companhia.</p>
-
-<p>—Dizes-me isso com ar tão triste, Casimiro?</p>
-
-<p>—É a saudade, minha querida!</p>
-
-<p>—Pois não vás.</p>
-
-<p>—Prometti ir; mandei-lhe dizer que ia...</p>
-
-<p>—Deixa-me ver os teus olhos...—exclamou ella
-aproximando-se de golpe.</p>
-
-<p>—Que tem os meus olhos?!</p>
-
-<p>—Lagrimas! tu choras, Casimiro!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span></p>
-
-<p>—Não...</p>
-
-<p>—Um segredo! um segredo para a tua Christina!</p>
-
-<p>—Serei eu um fraco!—disse elle como a si proprio,
-imaginando-se sósinho.</p>
-
-<p>—Fraco por chorar? Se não tens razão, és... mas
-tu, Casimiro, nunca assim te vi!... Não sahirás hoje
-mais... juro-t’o.</p>
-
-<p>—Não jures, filha, que hei de sahir...</p>
-
-<p>—E dizes-m’o assim com esse imperio!?</p>
-
-<p>—É a honra...</p>
-
-<p>—A honra!... Tu não vaes ver um condiscipulo
-doente.</p>
-
-<p>—Não. Menti-te, Christina. Perdôa-me.</p>
-
-<p>—Pois que é?!—atalhou ella sobresaltada.</p>
-
-<p>Casimiro relatou exactamente o facto descripto, mostrou
-umas cartas recem-chegadas de Villa-Cova, e perguntou:</p>
-
-<p>—Devo ir, Christina?</p>
-
-<p>—Vai!—exclamou ella—Vai, já que eu sou mulher!</p>
-
-<p>E momentos depois, porque era mulher, abraçou-se
-n’elle, e soluçou:</p>
-
-<p>—Ó Casimiro!...</p>
-
-<p>—Quê, filha?</p>
-
-<p>—Sê prudente, sim?</p>
-
-<p>—Recommendas-m’o a mim?! Não viste que eu soffri
-oito dias, em silencio, a affronta!?</p>
-
-<p>E desprendeu-se dos braços d’ella.</p>
-
-<p>Entrou no botiquim da Rua-larga com tão pacato semblante,
-como se ali não fosse para mais que aligeirar as
-horas felizes da mocidade.</p>
-
-<p>Os que o conheciam encararam em D. Alexandre de
-Aguilar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span></p>
-
-<p>O fidalgo de Miranda não conhecia Casimiro. Viu
-aquelle sugeito fardado de infanteria 6, e disse:</p>
-
-<p>—Isto é já botiquim de soldados?</p>
-
-<p>—É um academico: o primeiro premiado de mathematica.</p>
-
-<p>—É aquelle—ajuntou outro—de quem tu contaste
-as proezas casamenteiras.</p>
-
-<p>—Ah! o sobrinho do mestre Antonio! lá me quiz parecer
-que devia ser furriel.</p>
-
-<p>Isto fôra dito, muito á puridade, aos circumstantes,
-que não se riram.</p>
-
-<p>O amigo de Casimiro aproximou-se da meza e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Estão todos.</p>
-
-<p>—D. Alexandre como visse esta aproximação, ponderou:</p>
-
-<p>—Elles conhecem-se?!... Quem é este academico,
-que lhe falla? este que chamam Vilhena?</p>
-
-<p>—É filho segundo de uma casa distincta de Braga.</p>
-
-<p>—Cuidei que fosse filho primeiro de algum chapeleiro
-de Braga...</p>
-
-<p>Casimiro pagou a chavena de café, ergueu-se e foi a
-passo mezurado á banca de D. Alexandre.</p>
-
-<p>O fidalgo encarou n’elle, e logo nos circumstantes,
-como quem diz: «que quer o tolo?!»</p>
-
-<p>E os academicos que, formavam cerco á meza, abriam
-fileiras ao lado, arrastando os bancos.</p>
-
-<p>Bettancourt fez um gesto cortez aos rapazes, e disse:</p>
-
-<p>—O senhor D. Alexandre de Aguilar conhece-me?</p>
-
-<p>—Se o conheço...</p>
-
-<p>Casimiro fez um gesto de cabeça affirmativo.</p>
-
-<p>Conheço-o de o ver agora ahi, e dizerem-me quem o
-sr. é.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span></p>
-
-<p>—Que sabe o sr. da minha vida?—tornou Casimiro.</p>
-
-<p>—Que sei da sua vida?!</p>
-
-<p>—Dispensemos o ecco, sr. D. Alexandre. Quem pergunta
-sou eu. Que sabe da minha vida?</p>
-
-<p>—E se eu lhe disser que não lhe dou satisfações?
-Agora sou eu quem pergunta.</p>
-
-<p>—Respondo-lhe que o sr. é um infame, e depois arranco-lhe
-a lingua.</p>
-
-<p>O fidalgo Alarcão Parma d’Eça ia a dizer o quer que
-era, e engasgou-se.</p>
-
-<p>Casimiro Bettancourt continuou no mesmo tom de
-serena conversação:</p>
-
-<p>—Disse v. ex.ª que eu era sobrinho de um carpinteiro.
-Disse verdade. Que eu raptara uma senhora, cujo
-marido sou. É certo. Ajuntou que eu estava vivendo
-das joias, que minha mulher roubára a seu pai. Mentiu.
-Vejo que esta palavra não inquieta grandemente o sangue
-azul de v. ex.ª Ainda assim, quero imaginar que o
-sr. D. Alexandre me pede provas da sua aleivosia.</p>
-
-<p>Tirou Casimiro do bolço interno da fardêta duas cartas.
-Abriu a primeira, lançou-a sobre a meza, e disse:</p>
-
-<p>—Conhece essa lettra?</p>
-
-<p>—Conheço—respondeu D. Alexandre—é de meu tio
-Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo.</p>
-
-<p>—Pai de minha mulher—ajuntou Casimiro, voltando-se
-aos academicos circumpostos; e fallando para elles,
-continuou:</p>
-
-<p>—Como eu soubesse que o sr. D. Alexandre me alcunhava
-de receptador dos furtos de minha mulher, escrevi
-a um homem de bem, pedindo-lhe que se apresentasse
-ao sr. Ruy de Nellas, meu sogro, perguntando-lhe
-se sua filha, no acto da fuga, subtrahira de casa
-algum objecto de valor, e o declarasse por escripto. Esta<span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span>
-segunda carta é a resposta da pessoa encarregada; e diz:</p>
-
-<p>«O correio só dá tempo a dizer-lhe que o sr. Ruy de
-Nellas, apenas me ouviu, e escreveu a declaração que
-contheuda remetto, e mostrou-se espantado de que a
-calumnia propale o que elle nunca disse; e de o não
-ter dito m’o jurou pela alma de sua mulher, e honra
-de suas filhas. Sem mais. Seu amigo, <i>P. João Ferreira</i>.»</p>
-
-<p>—Leia-a agora o sr. D. Alexandre a declaração de
-seu tio.</p>
-
-<p>—Leia-a o senhor!—bradou com grande esforço de
-falsa coragem o calumniador esmagado.</p>
-
-<p>—Leia-a!—tornou Casimiro com um lançar de olhos
-fulminante.</p>
-
-<p>O fidalgo tomou o papel nas mãos convulsas, e deixou-o
-logo cahir.</p>
-
-<p>—A covardia cega-o!—disse Casimiro sorrindo—Algum
-dos cavalheiros tem a bondade de ler?</p>
-
-<p>O mais chegado de D. Alexandre leu o seguinte:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>«Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro
-que minha filha Christina Elisiaria, não subtrahiu
-de minha casa valor algum, nem os seus proprios vestidos
-e adresses, quando fugiu para casar-se com Casimiro
-Bettancourt. E por isto ser verdade, mui espontaneamente,
-e com juramento aos santos Evangelhos o
-declaro agora e sempre. Pinhel, 22 de abril de 1839.—<i>Ruy
-de Nellas</i>, etc.»</p>
-
-</div>
-
-<p>—Está reconhecida a assignatura?—disse Casimiro.</p>
-
-<p>—Está—respondeu o estudante, que lera—E quando
-não estivesse já o sobrinho a tinha reconhecido.</p>
-
-<p>—Isso não valia nada—tornou o furriel.—Nenhum<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span>
-dos cavalheiros prestaria fé ao reconhecimento do sr.
-D. Alexandre de Aguilar. Declare, pois, o sr. D. Alexandre
-que mentiu infamissimamente e offereça a cara
-para que todos lhe cuspam n’ella.</p>
-
-<p>O fidalgo ergueu-se, e bramiu:</p>
-
-<p>—O senhor!...</p>
-
-<p>—Que mais?—perguntou Casimiro.</p>
-
-<p>—Insulta-me?</p>
-
-<p>—Não. Obrigo-o a sentar-se, que me incommoda vel-o
-de pé.</p>
-
-<p>E, dizendo, baixou-lhe no alto da cabeça uma palmada,
-que effectivamente o fez apoiar-se sobre as ilhargas.</p>
-
-<p>E, voltando-se com rosto faceto aos academicos disse:</p>
-
-<p>—O espectaculo foi feio, que o miseravel não dá sequer
-um soffrivel truão com medo. Agradeço a attenção
-dos cavalheiros, mórmente com o sobrinho de um carpinteiro,
-que, por não ser nobre tem vontade de ser honrado.</p>
-
-<p>Sahiu do botiquim acompanhado de quasi todos os
-estudantes. Os poucos, que ficaram como petrificados,
-por não saberem que dizer a D. Alexandre de Aguilar
-Vito de Alarcão Parma d’Eça, retiraram-se cabisbaixos.</p>
-
-<p>Casimiro estugou o passo, caminho de Santo Antonio
-dos Olivaes, e encontrou a esposa anciada, fóra de
-casa.</p>
-
-<p>Contou-lhe, sem fatuidade, o essencial do acontecido,
-e reservou o facto da monumental palmada na cabeça.
-O delicado moço julgou melindrar sua mulher, dizendo-lhe
-que castigára com a mão um seu parente.</p>
-
-<p>Foi o successo estrondosamente contado e applaudido
-em Coimbra, tanto porque era de razão applaudil-o como
-por ser no tempo em que a mocidade academica, popular<span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span>
-e burgueza na maxima parte, desadorava os fidalgos
-castellãos, e não perdia lanço de os metter a riso.</p>
-
-<p>D. Alexandre, no dia seguinte, foi para Miranda, em
-busca de romanso e solidão para pensar na vingança
-de covarde, que não podia já ser de outra natureza.</p>
-
-<p>Vamos no rasto d’este reptil.</p>
-
-<p>O extraordinario da chegada do estudante, quando as
-aulas estavam abertas e os actos não começados, devia
-ser de algum modo explicado a D. Sueiro e á parentella
-alvorotada. Contou elle que tinha tosse; e o caso foi
-que tossiu. O medico da casa apalpou-o, auscultou-o, e
-decidiu-se pela tosse, em concordancia com a faculdade
-medica de Coimbra, que mandára a ares patrios o mancebo,
-ameaçado de coisa séria. Em verdade, a pertinacia
-da embriaguez reduzira D. Alexandre a um viver
-morbido, asthenico, e analogo ao do ethico; e já não
-admira que a palmada capital do sadio Casimiro o fizesse
-sentar.</p>
-
-<p>Suppunha D. Sueiro que o casamento de Christina
-era muita parte na doença do irmão, e curava de remediar
-o mal de amor com os amores novos da cunhada
-que tinha em casa, galante menina, Mafalda de
-nome. Era a vigessima nona Mafalda n’aquella familia
-de Pinhel. Entrando n’este numero a santa infanta Mafalda,
-fundadora do mosteiro de Arouca, irmã de D. Affonso
-II, que tambem era da familia, pelos modos, e
-sem duvida nenhuma.</p>
-
-<p>Se a menina o amava não sei, nem averiguei, por
-ser demais na pauta d’este escripto; o que me consta é
-que D. Alexandre, tão adentrado estava com os seus
-calculos de vingança, que não dava pela prima, nem se
-lisongeava do seu amor.</p>
-
-<p>A unica pessoa de Miranda, com quem se abria o<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span>
-fidalgo, era um desertor de cavallaria, muito dos Alarcões,
-especie de molosso da casa, sob cujas telhas estava
-a seguro.</p>
-
-<p>As intelligencias de D. Alexandre com o desertor são
-obvias; curava de comprar-lhe o braço vingador; mas,
-tão em segredo, que nunca viesse á luz a sua segunda
-ignominia.</p>
-
-<p>Conchavaram-se de barato. D. Alexandre daria ao
-desertor basta quantia a transportal-o ao Brasil, e o desertor,
-em mesquinha paga de tamanho beneficio, mataria
-Casimiro Bettencourt.</p>
-
-<p>N’este accordo, pediu D. Alexandre ao morgado que
-lhe deixasse levar como creado o desertor, visto que a
-plebe academica se bandeara contra os estudantes fidalgos
-e devotos da causa vencida. Annuiu promptamente
-o irmão, contente de vêr que D. Alexandre recobrava
-côres, e olvidara Christina.</p>
-
-<p>Abertas as aulas voltou o moço á Universidade, com
-o seu vingador, por tal arte disfarçado, que dava de si
-um rustico cavallariço, incapaz de fazer mal a folego
-vivo.</p>
-
-<p>Os amigos dos annos anteriores fugiam-lhe, e novos
-nenhum lhe apertava a mão. O opprobio do fidalgo era
-ainda materia de ociosos, revivido com a sua presença.</p>
-
-<p>Preoccupava-o a traça de fazer conhecido Casimiro
-ao seu matador: cousa não facil na multidão de mil e
-tantos moços, entre os quaes raro se via o solitario de
-Santo Antonio dos Olivaes.</p>
-
-<p>O solicito confidente de D. Alexandre tomou sobre
-si o encargo de conhecer Casimiro, e esperava tiral-o
-pelas feições que lhe vira em Pinhel, quando elle era
-mocinho de quinze annos.</p>
-
-<p>N’este intento, foi como de passeio a Santo Antonio<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span>
-dos Olivaes; e, logo por fortuna, ao dobrar o combro
-de uma azinhaga, viu um sujeito de farda militar com
-uma senhora pelo braço.</p>
-
-<p>—Cá está o homem!—disse entre si, e deteve-se a
-examinal-o, sem attentar em Christina, que o examinava
-a elle. Casimiro, por sua parte, nem deu tento do
-reparo do caminheiro.</p>
-
-<p>Ora, Christina tinha visto aquelle homem em Pinhel,
-recebêra da mão d’elle uma carta de D. Alexandre,
-e lembrava-se de ter ouvido dizer ao primo D. Sueiro
-que aquelle soldado de dragões era o seu guarda fiel,
-e com elle iria ao inferno atacar Satanaz.</p>
-
-<p>O desertor, porém, olvidou-se-lhe Christina, e nem
-por sombra imaginou ser reconhecido.</p>
-
-<p>A senhora estremeceu... e duvidou. Já elle se havia
-sumido, quando ella disse:</p>
-
-<p>—Acautella-te, meu filho!</p>
-
-<p>—De quê?</p>
-
-<p>—Vi agora um creado dos de Miranda... Não póde
-deixar de ser elle... Veio com o Alexandre, e anda a
-espreitar-te.</p>
-
-<p>—Que tem isso, Christina?</p>
-
-<p>—Tem, que elle é um malvado... Ai meu Deus!
-d’aqui em diante não tenho momento de socego! Queres
-que nos vamos embora d’este ermo? Aluga casa na
-cidade. Pódes ser assaltado no caminho. Tu és valente,
-meu Casimiro; mas d’uma traição ninguem se livra!</p>
-
-<p>—Os prevenidos livram-se—atalhou Casimiro.—Não
-vejo causa para mêdo; mas, se has de viver inquieta,
-mudemos, filha.</p>
-
-<p>—Sim: faz-me isso, que é annos de vida que me
-poupas!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p>
-
-<p>Andava Casimiro em procura de casa, quando recebeu
-a seguinte carta de Ladislau:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>«Meu compadre. Vai ser surprehendido com a minha
-petição, á qual subscrevem minha mulher e meu cunhado.
-Logo que esta receber, metta-se a caminho
-com a sua senhora, e venham direitos á sua casa de
-Villa Cova. Iremos os tres esperal-os a meio caminho.
-Perder um anno da Universidade não faz implicancia
-á sua futura sorte, se ella tem de ser boa. Esperamol-os;
-porque não posso acreditar que meus compadres faltem
-ao seu <i>Ladislau</i>.»</p>
-
-</div>
-
-<p>Casimiro leu, e disse:</p>
-
-<p>—Vamos, e vamos hoje.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span></p>
-
-<h2>X<br />
-<span class="smaller">A victoria d’uma creancinha</span></h2>
-
-<p>D. Mafalda de Nellas, voltando de Miranda a Pinhel,
-trazia a escalavrar-lhe o coração o espinho do despeito.
-Isto não induz a liquidarmos que a menina amasse o
-primo D. Alexandre. O despeito das senhoras basta a
-explical-o a indifferença mesma dos homens que ellas
-desamam.</p>
-
-<p>Como quer que fosse, Mafalda saira de Miranda,
-odiando o cunhado de sua irmã, no dia seguinte ao da
-ida d’elle para Coimbra.</p>
-
-<p>Eis aqui o que ella contou ao pai, logo que chegou:</p>
-
-<p>—Estava eu n’uma das grutas da quinta, quando
-o primo Alexandre, sentando-se, sem me vêr, nas costas
-da gruta, deu um grande assobio. Fez-me curiosidade
-aquillo, e estive quieta para vêr o que sortia d’ali.
-Pouco depois, chegou um homem de grandes barbas,
-que eu já tenho visto em nossa casa, em companhia do
-mano Sueiro.</p>
-
-<p>—Bem sei, o desertor—atalhou o pai.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span></p>
-
-<p>—É isso: eu já tinha ouvido lá dizer á mana, que
-elle era desertor.</p>
-
-<p>—E depois?</p>
-
-<p>—Depois o primo, assim que elle chegou, disse-lhe:—Olha
-que vaes commigo para Coimbra. Está decidido—e
-o desertor respondeu: «Pois isso é que é preciso!»—Mas
-vê se aparas essas barbas, que tens cara de
-facinora—disse o primo—eu tenho medo que, em apparecendo
-morto o Casimiro, todos digam que foi obra do
-meu creado.—Eu quando tal ouvi comecei a tremer, e
-tive medo d’aquelle homem! Quiz dizel-o á mana Guiomar;
-mas ella falla tão mal do Casimiro e da mana
-Christina, que julguei imprudente dizer o que ouvira.</p>
-
-<p>—E depois?—atalhou o velho com inquietação.</p>
-
-<p>—Depois, estiveram a fallar em facadas e tiros. E o
-desertor dizia: «são dous palmos de ferro, fidalgo.» E
-tirou da algibeira uma navalha, que relusia, e tamanha,
-meu pai, como eu nunca vi! Ainda disseram mais coisas
-que não me lembram, e foi cada um para seu lado.
-Ó papá, elles irão matar o marido da mana Christina?
-Coitado!... por que é que o matam?</p>
-
-<p>—Dá me papel e tinteiro, e um creado que apparelhe
-o macho para ir immediatamente a um recado.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas escreveu esta carta.</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>«Sr. Ladislau. Sei que alguem intenta matar em
-Coimbra o marido de Christina. Ha tres dias que para
-ali partiu o assassino ou assassinos. Avise-o como seu
-amigo, para que se acautelle, ou se retire. Eu aborreço
-os infames, e as vinganças covardes: por isso me apresso
-a participar-lhe este plano, que oxalá não esteja executado,
-quando chegar a sua carta. Espero em Deus
-que não. Do seu amigo, <i>Ruy de Nellas</i>.»</p>
-
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span></p>
-
-<p>O creado partiu a toda a brida.</p>
-
-<p>Ladislau leu a carta em suores frios. Escreveu duas
-linhas de agradecimento a Ruy, e preparou-se para ir a
-Coimbra. Acaso entrára o vigario, e, lendo a carta, impediu
-de ir, allegando que o correio chegava primeiro.</p>
-
-<p>Padre João e seu cunhado, sabiam os successos de
-Coimbra, e, sem se consultarem, nomearam D. Alexandre.</p>
-
-<p>—Casimiro está vivo—disse com firmeza o padre.</p>
-
-<p>—Quem n’ol-o assevera?!—perguntaram Peregrina e
-Ladislau.</p>
-
-<p>—É o raciocinio. Alexandre é incapaz de matar de
-rosto ou á traição. Precisamente leva um sicario assalariado
-que eu conheço ha dez annos. Os faccinoras
-por estipendio são muito covardes, porque amam tanto
-a vida que, para sustental-a se expõem a perdel-a. Se
-D. Alexandre offendido vergonhosamente carece de
-animo para se desaffrontar, devemos crêr que ao carnifice
-alugado falte a coragem para accommetter o homem
-que o não offendeu. Além de que eu vou jurar que
-Casimiro se prepara contra as insidias do seu inimigo,
-e terá só de pelejar com um homem. Sobre todas essas
-conjecturas, roguemos a Deus pela vida do nosso amigo,
-e escreve-lhe a chamal-o em termos, que não assustem
-Christina.</p>
-
-<p>Escreveu Ladislau a carta copiada no anterior capitulo;
-e, no dia seguinte, sahiram de Villa Cova, e, á
-segunda jornada, pernoitaram em Gouvea. Dous dias
-depois chegaram Casimiro e Christina.</p>
-
-<p>A esposa de Ladislau, para abraçar sua comadre,
-pousou sobre o leito a creancinha que lhe adormecêra
-ao seio.</p>
-
-<p>Christina, porém, como se não visse o fervor da amiga,<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span>
-ajoelhou á beira do leito, e beijou soffregamente o menino,
-que sorria aos affagos de algum anjo. Era bello
-de verem-se todos cinco, em redor da creança, como se
-para outro fim se não reunissem! Parece que ella lhes
-estava dizendo: «Distrahi vosso espirito de dores, que
-eu estou pedindo a Deus que vos defenda.»</p>
-
-<p>Peregrina pôde furtar as caricias de Christina, tomando-a
-para si com força.</p>
-
-<p>—Estava a invejar-te, minha comadre!—disse a esposa
-de Casimiro—mas olha, não devo invejar-te,
-não!...</p>
-
-<p>E disse-lhe ao ouvido breves palavras, explicadas
-pela exclamação de Peregrina:</p>
-
-<p>—Sim? e não m’o tinha dito!... que ditosas seremos
-com os nossos filhinhos!</p>
-
-<p>O vigario sorriu-se, e murmurou:</p>
-
-<p>—Não ha creanças mais creanças que as mães! Estas
-alegrias raras vezes lh’as recomeçam depois os
-filhos!...</p>
-
-<p>Casimiro concentrou-se tristemente, e Christina disse:</p>
-
-<p>—Não fallem em mãe diante de meu marido, por
-quem são!</p>
-
-<p>—Fallem, fallem—disse Casimiro—que eu tenho de
-encontral-a no ceu pelo muito que a desejei n’este
-mundo.</p>
-
-<p>E, tomando o braço de Ladislau, chegou a uma janella,
-e perguntou:</p>
-
-<p>—Que é isto? Que significa esta chamada?</p>
-
-<p>—Não m’o pergunte diante de sua senhora.</p>
-
-<p>—Porque não? ella é forte. Se um dia me fraquearem
-os esteios da honra, minha mulher ha de fortalecer-m’os.
-Diga, meu compadre.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span></p>
-
-<p>Ladislau mostrou a carta de Ruy de Nellas; e Christina,
-ouvindo-a ler, exclamou:</p>
-
-<p>—Não te disse eu?... Era o desertor ou não?</p>
-
-<p>—Era o desertor—respondeu o vigario.</p>
-
-<p>—Pois sabia?—acudiu Christina.</p>
-
-<p>—Disse-m’o a razão e a pratica dos <i>valorosos barões</i>
-de Miranda. V. ex.ª viu-o?</p>
-
-<p>—Vi: mostrou-m’o o nosso anjo da guarda!... E
-meu pai é que te avisa, Casimiro! Quem me déra poder
-beijar-lhe a mão!</p>
-
-<p>—Seu pai é um homem de bem ás direitas, minha
-senhora—disse o vigario—Seria um modêlo de virtuosos,
-se os preconceitos de raça o não molestassem. Porque
-não ha de v. ex.ª ainda beijar-lhe a mão? Esperemos.</p>
-
-<p>—E agora?—disse Casimiro—que querem de mim?
-Será airoso que eu me vá esconder a Villa Cova das
-iras de D. Alexandre?</p>
-
-<p>—É dever de marido e pai fugir o perigo—disse Ladislau—Sabemos
-que lhe sobra animo; porém agora,
-quer-se e requer-se que o coração seja maior que o
-animo. Sua senhora manda; o vigario aconselha; e
-minha mulher e eu rogamos. Falta-lhe paciencia para
-viver alguns mezes na tristonha casa da serra? É assim
-ingrato áquella terra agreste onde desabrocharam todas
-as flores da sua felicidade, meu compadre?!</p>
-
-<p>—Ó meu amigo, meu generoso irmão!—exclamou
-Casimiro, nos braços de Ladislau—Vamos, vamos para
-Villa-Cova. Lá sei eu que tenho segura a vida, a alegria,
-e sempre viçosas as flores de felicidade, que se
-abriram no seu nobre coração, e para mim! Não é covardia
-fugir. Covardes são os que não tem uma esposa,<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span>
-e fogem; covardes são os que não tem amigos como
-vós, e fogem!</p>
-
-<p>—E no filhinho não fallas?—disse Christina sorrindo-lhe
-com incantadora meiguice.</p>
-
-<p>—Não o disse eu!—acudiu o vigario—Agora, quer
-s. ex.ª que todo o coração de seu marido esteja embebido
-do futuro filhinho! Valha-vos Deus, mães loucas
-do amor de vossos filhos, que sois capazes de ceder do
-coração dos maridos em beneficio dos pequerruchos,
-anjos purissimos a quem basta o bafejo do Senhor!</p>
-
-<p>N’estas doces praticas, que eu, a mêdo, submetti á
-benevolencia do leitor, se passaram as horas do descanço,
-até ao repontar da alva, em que proseguiram sua
-jornada. Lá vão os felizes, escoltados por suas mesmas
-virtudes.</p>
-
-<p>Entretanto, recebeu D. Alexandre de Aguilar a nova
-de ter sahido de Coimbra Casimiro Bettancourt, e o
-mesmo foi assoalhar, mediante alguns necessitados de
-sua recheada bolça, que o furriel se evadira, sabendo
-que ia ser desafiado a duello de morte. Correu o boato,
-justificado por circumstancias: a precipitação da sahida,
-o estarem abertas as aulas, o ignorar-se o intento da
-retirada, o ter dito Casimiro, na vespera, que procurava
-casa em Coimbra, tudo induzia a crer a atoarda molesta
-á reputada intrepidez do militar.</p>
-
-<p>A <i>Vedeta da Liberdade</i>, jornal portuense, publicou
-uma correspondencia de Coimbra, em que se dizia em
-grypho: <i>que um estudante militar, appellidado Bettancourt,
-fugira com a mulher para se não bater com D.
-Alexandre de Aguilar, academico brioso, a quem, no
-anno anterior, insultára</i>. E accrescentava: <i>O tal militar
-é avezado a fugas: uma vez fugiu com a filha d’um
-nobilissimo cavalheiro, onde seu tio carpinteirava agora;<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span>
-fugiu com as costellas incolumes, porque o tio carpinteiro
-não sabe endireitar costellas quebradas.</i></p>
-
-<p>O jornal appareceu em Villa Cova subscriptado, a
-Casimiro de Bettancourt.</p>
-
-<p>Casimiro leu a correspondencia em voz alta.</p>
-
-<p>E Ladislau perguntou:</p>
-
-<p>—Que é isso?</p>
-
-<p>—É uma gazeta—disse o vigario.</p>
-
-<p>—Uma gazeta?—reperguntou Ladislau.</p>
-
-<p>—Sim.</p>
-
-<p>—Mas... (desculpem a minha ignorancia...) como
-se faz isso?</p>
-
-<p>—Isso que, meu irmão?</p>
-
-<p>—Como se estampam esses insultos?</p>
-
-<p>—Estampam-se.</p>
-
-<p>—Então...—estou confuso, e vejo que me não percebem...—as
-gazetas servem de insultar? quem quer
-infamar alguem vai a casa do homem, que tem esse
-modo de vida, e diz-lhe: «imprima lá esse insulto», é
-isto?</p>
-
-<p>—É isso—illucidou o padre—com o accrescento de
-que o dono do jornal recebe tanto por linha do insulto
-publicado.</p>
-
-<p>Ladislau ergueu-se com nunca visto impeto de furia,
-e exclamou:</p>
-
-<p>—Então isso é infame! e a civilisação que isso consente
-é a barbaria, é o escarneo de Deus e das leis de
-nosso paiz!</p>
-
-<p>Casimiro sorriu, e disse:</p>
-
-<p>—A indignação de meu compadre tem graça!... A
-que distancia este bom rapaz vive do mundo culto!
-Quer elle, talvez, que a civilisação esteja em Villa Cova,
-e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta,<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span>
-meu querido amigo, tem outra face, que o sr. vigario
-lhe não mostrou, e é que, se eu quizer insultar d’aqui
-D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono da gazeta me
-vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto;
-e, no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor
-de D. Alexandre e meu. O dono d’este papel é como a
-estatua em que Aretino fixava as suas vaias aos reis e
-aos papas, n’um tempo em que papas e reis eram cousas
-sacratissimas e inviolaveis. Agora, que não ha nada
-defêso, com que direito me hei de eu queixar? Não me
-alistei eu no exercito que defende as instituições livres?!
-Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca do progresso,
-chamada nem mais nem menos que «Vedeta da
-liberdade»! Os homens livres passam deante da estatua
-de Pasquino, e descobrem-se. Assim como a discussão
-racional e illustrada aclara as escuridades e aplana os
-empeços da ideia util, por igual razão as injurias á pessoa,
-os ataques á moral de cada individuo servem de o
-abrir, á luz da analyse, e ver tudo o que elle lá tem
-dentro do coração e consciencia. A licença da imprensa
-é uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros
-de lama. Das chammas do auto-de-fé sahiram almas purificadas,
-no crer de alguns theologos; e da alma da
-imprensa desbragada devem sahir as consciencias lavadas,
-no entender de alguns legisladores. Sejamos do
-nosso tempo, meu compadre.</p>
-
-<p>—Pois, sim—disse Ladislau—mas deixe-me render
-louvores a Deus por me ter dado o nascimento n’estas
-serras! Eu não cuidei que era assim o mundo. N’este
-ultimo anno quantas paixões más que eu não conhecia!
-Meu mestre decerto as ignorava; senão, ter-m’as-ia dito.
-Os meus livros tambem m’as não disseram...</p>
-
-<p>—É por que os seus livros são bons—atalhou Casimiro<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span>
-Bettancourt—A corrompida sociedade da Roma
-imperial não tinha gazetas; mas tinha historiadores e
-poetas. Se meu compadre os ler, imagina que maus inventores
-o querem deleitar com fabulas hediondas. O
-homem foi sempre mau; será mau até ao fim. A sociedade
-parece melhor do que foi, olhada collectivamente:
-é parte n’isto a lei, e grande parte o calculo. Cada individuo
-se constrange e infrea no pacto social para auferir
-as vantagens de o não romper: porém, o instincto
-de cada homem, em communidade de homem, está de
-continuo repuchando para a desorganisação. Eu acceito,
-como puros os corações formados na solidão, a não se
-dar a segunda hypothese do proverbio, que disse: homem
-sósinho, das duas uma: ou Deus ou bruto<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4"></a><a href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a>. Melhor
-seria dizer, com Santo Agostinho, ou anjo ou demonio.
-Ladislau formou-se aqui, rescende virtudes extraordinarias;
-mas, se fôr ás cidades, á feira dos vicios,
-sentirá coar-lhe um veneno corrosivo nas entranhas; e,
-a meia volta, perderá de vista a benigna estrella d’estas
-suas montanhas. Ó meu amigo, não se alongue do seu
-paraizo! não queira saber que nome tem, a dez leguas
-da sua aldeia, o que meu compadre chama dever, civilisação,
-amor, caridade e Deus.</p>
-
-<p>Os gosos da vida domestica aligeiravam os mezes da
-inactividade de Casimiro. Ao quinto de residencia em
-Villa Cova, realisou-se a ventura saudada por Peregrina
-na estalagem de Gouvea: Christina foi mãi de uma
-menina, que trouxe do céu o seu quinhão de felicidade,
-do qual todos participaram.</p>
-
-<p>Queria o pai que Ladislau e Peregrina fossem padrinhos;<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span>
-mas o vigario, consoante as velhas praxes de filhos
-casados contra vontade paternal, pediu que fosse
-convidado o avô, por carta de D. Christina.</p>
-
-<p>Escreveu ella com humildade sem baixeza uma carta,
-onde se lia este periodo:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>«É uma ternura filial que me anima a escrever a
-meu pai: não é a necessidade que me obriga. Se sou
-pobre, ainda não tive occasião de sentir desejos de ser
-rica. O perdão de meu pai é que eu desejo e peço, se
-foi delicto o acto que está sendo a minha felicidade.
-Quizera um dia beijar as mãos de meu pai e dizer-lhe
-que tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como
-esposa de Casimiro.»</p>
-
-</div>
-
-<p>Foi lida a carta e discutida. O vigario achou duras
-algumas palavras d’aquelle relanço, e pediu a illisão das
-palavras: «<i>se foi delicto o acto que está sendo a minha
-felicidade</i>»; bem como: «<i>tenho tanta vaidade em ser
-filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro</i>.» As primeiras
-palavras foram substituidas: as ultimas não. Christina
-nem ao marido obedeceu.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas recebeu a carta, e leu-a sem rancor até
-ás expressões rebeldes á censura do vigario; mas, n’este
-ponto, rasgou o papel e disse ao portador:</p>
-
-<p>—A resposta é esta: diz lá que eu é que não tenho
-vaidade nenhuma em ser padrinho de um filho do sr.
-Casimiro.</p>
-
-<p>Tal resposta magoou medianamente a familia de Villa-Cova.</p>
-
-<p>—É soberbo!—disse Ladislau.</p>
-
-<p>—Preconceitos de raça—acrescentou o vigario.</p>
-
-<p>—Não tem outra falha a excellente alma do sr. Ruy.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span></p>
-
-<p>—Pois ha de ser padrinho da neta!—tornou Ladislau.</p>
-
-<p>—Que capricho é esse, meu compadre?—perguntou
-Casimiro.</p>
-
-<p>—Não é capricho: é batalha dada contra a soberba:
-havemos de amolgal-a com a brandura.</p>
-
-<p>Na segunda dominga, posterior ao nascimento da menina,
-sahiu, ante-manhã, de Villa Cova Ladislau, uma
-ama de leite, e a creancinha. Chegaram a Pinhel ás
-nove horas, e elle entrou á igreja parochial, onde, por
-informações de mestre Antonio carpinteiro, Ladislau
-soubera que o fidalgo ia ouvir missa. A ama sentou-se
-no adro, e esperou, rodeada de meninos, que se acotovellavam
-para ver o rosado rosto da baptisanda.</p>
-
-<p>Ladislau apresentou-se ao abbade, com uma carta do
-padre João Ferreira, e conversaram.</p>
-
-<p>Ás dez horas tangeu a sineta á missa, e chegou o
-fidalgo com suas filhas, e foram ajoelhar na alcatifa da
-sua capella privativa. Antes do terceiro toque, o abbade
-aproximou-se de Ruy de Nellas, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Faz v. ex.ª a esmola de fazer christã uma creancinha?</p>
-
-<p>—Sim, abbade, pois não!</p>
-
-<p>—E de escolher a madrinha?</p>
-
-<p>—Será minha filha Mafalda.</p>
-
-<p>Chamou elle a menina, e acercaram-se do baptisterio.</p>
-
-<p>A ama entrou com a creança, chamada pelo sachristão.</p>
-
-<p>A um lado, estava Ladislau com uma tocha, escondendo-se
-ao lance d’olhos de Ruy de Nellas.</p>
-
-<p>Ao descobrimento da menina, Mafalda exclamou:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span></p>
-
-<p>—Ai! tão linda que é!... Veja, papá! Ó manas,
-venham ver que perfeição!...</p>
-
-<p>—Quem são os pais?—disse o fidalgo.</p>
-
-<p>O abbade, como tivesse começado as ceremonias do
-sacramento, não respondeu; e, pouco depois, perguntou:</p>
-
-<p>—Qual é o nome?</p>
-
-<p>—É o meu—disse Mafalda.</p>
-
-<p>Findo o acto, foram á sachristia lavrar no livro o assento
-baptismal.</p>
-
-<p>O abbade escreveu á vista dos apontamentos, e leu
-depois para conhecimento dos padrinhos:</p>
-
-<p>«Mafalda, natural de Villa-Cova, termo de Pinhel,
-filha legitima de Casimiro Bettancourt, natural de Santarem,
-e da ill.ᵐᵃ e ex.ᵐᵃ sr.ª D. Christina Elisiaria de
-Nellas Gamboa de Barbedo»...</p>
-
-<p>—Como?!—exclamou o fidalgo—Como se intende
-isto? Que abuso foi este, sr. abbade?!</p>
-
-<p>Ladislau sahiu do escuro da sachristia, e disse:</p>
-
-<p>—O abuso é meu, sr. Ruy de Nellas. E v. ex.ª não
-me castiga, porque eu vou pôr em seus braços a creancinha
-a implorar o meu perdão e o de sua mãi.</p>
-
-<p>E tomou a menina dos braços da ama, e depositou-a
-nos da madrinha, dizendo-lhe:</p>
-
-<p>—Seja v. ex.ª a intercessora de sua irmã!</p>
-
-<p>—Dê-lhe um beijo, papá! rogou maviosamente
-D. Mafalda.</p>
-
-<p>O velho poz a mão na face da creança, e disse:</p>
-
-<p>—Não tens culpa tu, pobre innocente!...</p>
-
-<p>E o abbade continuou a leitura do assento baptismal,
-sorrindo, e olhando por cima dos oculos, para ver Ruy
-de Nellas, que deixava chupar-lhe a creança no dedo
-mendinho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span></p>
-
-<p>Ao sahirem da sachristia, o fidalgo disse á ama da
-creança.</p>
-
-<p>—Vá lá a casa, depois da missa, mulher, e o sr. tambem
-se quizer.</p>
-
-<p>Ladislau fez um signal de agradecimento.</p>
-
-<p>Finda a missa, a menina foi levada a casa do avô.
-As quatro tias deram inquietações á ama, temerosa de
-que lhe abafassem a creança com beijos.</p>
-
-<p>Entretanto, Ladislau contava a Ruy de Nellas os
-successos de Coimbra e os aleives da correspondencia
-da «Vedeta da Liberdade».</p>
-
-<p>O velho ouviu-o em silencio; mas com ar de satisfação,
-em quanto aos brios de seu genro no justo castigo
-de Alexandre; porém, quando soube que as gazetas
-traziam o seu nome aparelhado com o do carpinteiro,
-irritou-se, e clamou:</p>
-
-<p>—Quando pensei eu de andar pelas gazetas!... É
-o que minha filha me arranjou!...</p>
-
-<p>Este accesso durou alguns segundos.</p>
-
-<p>Continuaram a conversar serenamente. Eram horas
-de partir para Villa-Cova. O fidalgo mandou entrar a
-afilhada, e deu-lhe um beijo, e duas peças á ama.</p>
-
-<p>E—caso unico!—apertou a mão do lavrador de Villa-Cova,
-e disse-lhe por ultimo:</p>
-
-<p>—O tempo fará o resto. É cedo por ora! A ferida
-sangra ainda!</p>
-
-<p>—O balsamo do Evangelho, sr. Ruy de Nellas...—respondeu
-Ladislau, sahindo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p>
-
-<h2>XI<br />
-<span class="smaller">Guilherme Lira</span></h2>
-
-<p>Seria ocioso, bem que alegre trabalho, contar os jubilos
-de Christina, retomando ao seio a filha, que seu
-pai e irmãs tinham beijado. Casimiro, homem não estranho
-a vanglorias, que parecem ser condição das indoles
-arremessadas ás glorias uteis, folgava de ver sua
-filha acariciada pelo fidalgo, cuja prosapia, o moço, nas
-verduras dos dezoito annos, sinceramente invejava. Ó
-barro humano!</p>
-
-<p>Disse Ladislau que Ruy approvára a sahida de Coimbra,
-e esperava que o anno decorrido esfriasse a vingança
-de D. Alexandre, estando elle de mais a mais
-como vingado, fazendo crer que lhe fugia Casimiro. Era
-tambem este o parecer do vigario e de Ladislau. Casimiro,
-ainda assim, dizia contrariando:</p>
-
-<p>—Não, meus amigos: o odio dos fracos é inextinguivel;
-é a unica força, a energia tenebrosa, que lhes deu
-a natureza.</p>
-
-<p>No seguinte anno lectivo, voltou a Coimbra, com<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span>
-maior familia, o pobre grangeador do futuro. Doia-lhe
-ter de augmentar suas despezas, sahidas todas dos celleiros
-de Villa-Cova. Era grande magoa para o aberto
-coração de Ladislau entender em pacificar o espirito do
-seu amigo, fazendo-lhe sentir que escassamente lhe emprestava
-uma parte das sobras de suas colheitas. E santamente
-mentia Ladislau! A sua lavoura, comquanto
-grande, era toda de cereaes, vendidos por baixo preço,
-e urgentes ao consummo e vestir de sua familia. O que
-elle estava dispendendo era dinheiro antigo, que encontrára,
-ouro do seculo XVI, peculio amuado ao canto do
-armario de pau santo, em que seus tios padres iam
-annumerando algumas moedas, muitas menos que as
-derramadas pela pobreza.</p>
-
-<p>Lembrava-se Christina de escrever ao pai, a pedir-lhe
-sua legitima materna. Casimiro, antes que ella expendesse
-o seu pensamento, atalhou-a n’estes termos:</p>
-
-<p>—Sendo preciso, iria primeiro pedir a meu tio carpinteiro
-metade do seu estipendio de cada dia.</p>
-
-<p>Peregrina, sabedora do intento, revelara-o ao marido.</p>
-
-<p>Ladislau, a sós com a filha de Ruy de Nellas, queixou-se,
-observando-lhe que era crueldade obrigal-o a
-faltar á sua palavra, tendo elle dito a Ruy de Nellas
-que sua filha e marido nunca lhe pediriam meios de
-vida.</p>
-
-<p>Os raros amigos de Bettancourt, assim que o viram
-em Coimbra, repetiram-lhe as calumnias divulgadas,
-fingindo não acredital-as. O mais sincero e rude ousou
-dizer-lhe:</p>
-
-<p>—Déste um mau passo em fugir.</p>
-
-<p>—Não fugi. O amigo, a quem devo a minha subsistencia
-em Coimbra, chamou-me, e eu fui.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span></p>
-
-<p>—Não devias ir, tendo sido desafiado por D. Alexandre.</p>
-
-<p>—Nunca fui desafiado.</p>
-
-<p>—Como não foste!?</p>
-
-<p>—Nunca fui desafiado; e, no caso de o ter sido, regeitaria
-a proposta. Não jogo friamente a vida, que é de
-minha mulher e de minha filha, contra a vida de D.
-Alexandre, que é um homem abjecto, nem contra a vida
-do mais extremado em probidade. Nunca para mim alguem
-provará a sua honra, batendo-se com victoria, nem
-o vencido terei em conta de deshonrado. O duello póde
-significar algumas vezes coragem, mas sentença absolutoria
-de um infame, nunca.</p>
-
-<p>—Mas decididamente não fugiste ao duello?</p>
-
-<p>—Offende-me a renitencia—respondeu Bettancourt
-molestado.</p>
-
-<p>—Desculpa, que é a renitencia de um amigo zeloso
-de tua dignidade. A academia acreditou em D. Alexandre
-e nos propagadores do boato. Appareceram homens
-a dizerem que tinham sido agentes do desafio.</p>
-
-<p>—Mentiram.</p>
-
-<p>—Mas a mentira vingou.</p>
-
-<p>—Estou resignado: já a vi impressa n’um jornal, e
-achei-me forte na minha consciencia.</p>
-
-<p>—Mas a opinião publica...—voltou o academico,
-espicaçando, em nome da opinião publica, o animo impenetravel
-do marido e pai.</p>
-
-<p>—Que queres que eu diga á opinião publica?</p>
-
-<p>—Que a desmintas: escreve uma correspondencia.</p>
-
-<p>—Não desço.</p>
-
-<p>—Descer! pois é descer acudires por tua honra!?</p>
-
-<p>—Se a consciencia me não accusa, que logro eu em
-constituir a academia meu juiz? Além de que, meu amigo,<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span>
-eu venho estudar. Falta-me o tempo para o util:
-como hei de eu ir dispendêl-o a entreter a curiosidade publica?
-Diz aos teus amigos que eu sou calumniado, e
-elles julguem-me a seu sabor.</p>
-
-<p>—Faz o que quizeres: dou por cumprida a minha
-missão de amigo.</p>
-
-<p class="tb">Christina vivia tranquilla. Ladislau, que lançara espias
-em Miranda, soubera que D. Alexandre sahira para
-Coimbra, e o desertor ficára. A nova agradou a Casimiro,
-receioso dos sustos da senhora.</p>
-
-<p>Recomeçou o academico os estudos do segundo anno
-com fervor. Sabia que seus mesmos condiscipulos o
-detrahiam, lamentando, como usam lamentar inimigos,
-a nodoa da farda de um militar. O facto estrondoso do
-botequim da rua Larga tinha esquecido, ou era interpretado
-de varios modos, todos estupidos; que a malquerença
-faz timbre em ser estupida, quando não póde
-ser feroz. Todavia, a frechada não lhe vasava ao coração.
-O pai extremoso abroquellava-se com a filhinha, e
-dizia á esposa:</p>
-
-<p>—Sêde o meu mundo. Aos teus olhos sou quem sou,
-minha amiga. Infamam-me lá fóra; mas diz-me tu, filha,
-que eu sou digno de ti.</p>
-
-<p>N’um sabbado ao cahir da tarde, passaram á Ponte,
-vindos da Quinta das Lagrimas, Casimiro, e sua mulher.</p>
-
-<p>D. Alexandre de Aguilar estava sentado com numerosos
-estudantes nas guardas da ponte. Ao perpassar
-Casimiro, o fidalgo de Miranda tossiu aquelle grunhido
-peculiar do insulto. Os academicos de sua parcialidade,
-em respeito á dama, abstiveram-se de acompanhar o
-amigo na <i>trossa</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span></p>
-
-<p>D. Alexandre, desenfreado como costumam os covardes
-no momento em que persuadem-se não o serem,
-disse:</p>
-
-<p>—Não se envergonha aquella dama! Que ostentação
-e baixeza d’alma.</p>
-
-<p>Christina ouviu. O que o amor nobre faz d’uma alma
-timida! Voltou-se contra o parente, e respondeu:</p>
-
-<p>—É muito infame!</p>
-
-<p>—Silencio!—disse Casimiro, apertando-lhe convulsivamente
-o braço.</p>
-
-<p>D. Alexandre expediu uma cascalhada; e os academicos,
-indifferentes ao conflicto, disseram-se:</p>
-
-<p>—Com effeito! é muito covarde o Bettancourt, que
-deixa assim insultar a mulher! Comprehendam lá a decantada
-historia do botequim!</p>
-
-<p>Na extremidade da ponte, estava o academico, já conhecido
-por seus dialogos com Casimiro. O marido de
-Christina aproximou-se d’elle e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Conserva-te aqui um instante ao pé de minha
-mulher, que eu volto já.</p>
-
-<p>—Não!—exclamou Christina.</p>
-
-<p>—Christina—disse elle com um aspecto, que a esposa
-nunca lhe vira.</p>
-
-<p>E caminhou ao longo da ponte, sem denotar arrebatamento
-na serenidade do passo.</p>
-
-<p>Os academicos do bando de D. Alexandre disseram:</p>
-
-<p>—É elle que vem!</p>
-
-<p>O fidalgo desceu-se da guarda como quem se prepara
-a receber o aggressor. Não era isso. O mêdo pesa
-como chumbo na região abdominal. Foi o gravame do
-mêdo que mecanicamente o desceu.</p>
-
-<p>Casimiro lançou-lhe a mão esquerda á garganta, e
-com a direita levou-lhe a cabeça a aresta da guarda.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span></p>
-
-<p>Depois como o atordoado fidalgo escouceasse os couces
-instinctivos da defeza, o aggressor abarcou-o pela
-cintura, no proposito de o despejar ao Mondego. Acudiram-lhe
-muitos, sem, comtudo, arremetterem contra o
-furriel. Casimiro sentiu nas barbas mão estranha. Olhou
-com impetuosa furia, e viu Christina, que punha as
-mãos supplicantes. Descurvou os dedos da garganta do
-estudante, e deu o braço a sua mulher. Pelo ar quieto,
-com que elle sahiu ao fim da ponte haviam de imaginar
-que o sujeito acabava de abraçar um amigo!</p>
-
-<p>Grande parte da academia parecia andar envergonhada
-depois d’este successo. Os detraidores, chamados por
-algum amigo de Bettancourt, a dizerem ácerca do facto,
-corriam-se, e gargarejavam o desmentido, que os suppliciava.</p>
-
-<p>O academico, mais dolorido do descredito de Casimiro,
-seguiu-lhe os passos a casa, abraçou-o com transporte,
-e exclamou:</p>
-
-<p>—Tu és um grande homem!</p>
-
-<p>—Vem vêr minha filhinha como dorme docemente!—respondeu
-Casimiro.</p>
-
-<p>—Que dirão agora os calumniadores?—tornou o academico.</p>
-
-<p>—Que eu sou um assassino.</p>
-
-<p>—Um bravo! um modêlo de dignidade.</p>
-
-<p>—Como quizerem. Vem ver minha filha, se gostas
-de creancinhas.</p>
-
-<p>Foram. A mãi, que, uma hora antes, sentira denodo
-viril para aggredir o insultador, estava agora chorando
-sobre as faixas da filhinha. Casimiro aconchegou-a de si
-e murmurou:</p>
-
-<p>—Então? que é isso, filha?</p>
-
-<p>—Tremo pela tua vida, Casimiro!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span></p>
-
-<p>—Convence-te, Christina: eu não posso ser morto
-por D. Alexandre, nem por assassinos de sua paga.</p>
-
-<p>O fidalgo dos Vitos Alarcões tractou da cabeça na
-cama uns quinze dias: parece que o granito lhe entrou
-dentro obra de meia pollegada, sendo que em tal cabeça
-nunca tinha penetrado cousa alguma outra. Fechada
-a brecha, metteram-se as ferias de Natal, e o convalescente
-foi para casa.</p>
-
-<p>Ladislau, sempre attento aos passos do desertor, soube
-que chegara a Miranda D. Alexandre de Aguilar, de
-cujo infortunio na ponte já estava informado por carta
-de Christina, que incessantemente lhe pedia toda a vigilancia
-sobre o scelerado.</p>
-
-<p>D. Sueiro deu logo tento da cicatriz da cabeça fraterna,
-e disse:</p>
-
-<p>—Levaste ou cahiste, mano?</p>
-
-<p>—Cahi do cavallo.</p>
-
-<p>—Bom tombo! ias ficando sem um olho! Estás um
-limpo cavalleiro, não tem duvida!</p>
-
-<p>E ficaram n’isto; mas as familias d’outros academicos
-de Miranda, de bocca em bocca, fizeram chegar ás
-orelhas de D. Sueiro de Aguilar a rija sova, que levara
-o irmão.</p>
-
-<p>O senhor dos Coutos de Fervença e Caçarelhos Estevães
-e Villariça disse ao irmão:</p>
-
-<p>—Como assim?</p>
-
-<p>—Assim quê?—perguntou D. Alexandre.</p>
-
-<p>—Corre que essa cicatriz foi bordoada que levaste!
-Foi ou não?</p>
-
-<p>—Foi desordem: dei e levei.</p>
-
-<p>—E ficaste mal?</p>
-
-<p>—Fiquei ferido; mas sem deshonra. O adversario era
-valente como as armas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span></p>
-
-<p>—Quem?</p>
-
-<p>—O marido de tua cunhada.</p>
-
-<p>—O villão? E vive!...</p>
-
-<p>—Por em quanto... vive.</p>
-
-<p>—De que serve aqui o Ayrão?</p>
-
-<p>Ayrão era a graça do desertor.</p>
-
-<p>D. Sueiro acrescentou:</p>
-
-<p>—Leva-o, e mostra-lh’o. Acabemos com isto de uma
-vez... Estou a ver quando o tio Ruy de Nellas recebe
-o genro em casa. Já lhe baptisou o filho, e, escrevendo
-a Guiomar, fallou-lhe de Christina com piedade. O tio
-Ruy degenerou. Se viver muito, ha de envergonhar-nos.</p>
-
-<p class="tb">Foi para Coimbra D. Alexandre.</p>
-
-<p>Ladislau recebeu a ponto a informação: o desertor ficára.
-Avisou-o de Villa-Cova. Christina exultou; mas,
-seis dias depois, recebeu novo aviso: o sicario partira
-aforrado, e em disfarce. A pontualidade d’estas informações
-deviam-se a um jornaleiro de Villa-Cova, o qual,
-industriado por Ladislau, fôra a Miranda pedir trabalho
-á casa dos Alarcões, e lá ficára servo de lavoura.</p>
-
-<p>D. Alexandre concertára o plano do homicidio, com
-estupido ardil: já se lhe não dava que se lhe imputasse
-a morte de Casimiro; e, para desviar suspeitas de braço
-estranho, escondia o matador em casa.</p>
-
-<p>Ayrão entrou de noite, e sumia-se de dia nos quartos
-escusos da casa. Os frequentadores dos jantares de D.
-Alexandre guardavam delicada reserva ácerca da desgraça
-do mez anterior. O amphitrião é quem, uma vez
-por outra, dizia:</p>
-
-<p>—Tenho sêde de sangue!</p>
-
-<p>Ou, bebendo até cahir, exclamava:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span></p>
-
-<p>—Á saude do assassino, que ha de vingar a honra
-de vinte gerações de fidalgos de solar conhecido!</p>
-
-<p>Defronte de D. Alexandre morava o estudante de direito
-Guilherme Lira.</p>
-
-<p>Lira foi o mais esforçado e turbulento academico dos
-seis annos subsequentes á restauração da liberdade. Presidiu
-á famigerada «Sociedade da Manta»<a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5"></a><a href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a>. Era o pau
-mais valente do riba-Tejo, e o mais figadal inimigo de
-poltrões.</p>
-
-<p>Do fidalgo de Miranda tinha elle nojo, nojo favoravel
-ao covarde; se fosse odio, tel-o-ia desorelhado.</p>
-
-<p>Observou Guilherme Lira que em casa do visinho
-D. Alexandre estava um homem de cara sinistra, o qual
-se escondia no escuro da casa assim que nas janellas
-fronteiras assomava gente. Lira espreitou, e viu-o, accendendo
-o cachimbo no charuto do amo, e gesticulando
-com aquelle especial geito das féras humanas, vesadas
-ao tracto da taverna, da feira, e da encruzilhada.</p>
-
-<p>Guilherme sympathisava d’alma com Casimiro Bettancourt.
-Depois do facto da ponte, estando elle com o
-seu bando de bravos na Calçada, viu Casimiro, que vinha
-com sua esposa. Lira sahiu da roda, foi á frente do
-furriel, e disse, com os olhos em Christina:</p>
-
-<p>—Dê-me v. ex.ª licença que eu abrace seu marido.</p>
-
-<p>E pegou d’elle ao alto soffregamente, exclamando:</p>
-
-<p>—Que pena que tu sejas casado, homem de figados,
-que te queria entregar o macête da minha loja!</p>
-
-<p>Casimiro sorriu, agradeceu, e apertou-lhe affectuosa e
-modestamente a mão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span></p>
-
-<p>Isto explica a espionagem de Lira, e o aventar de
-prompto que o ignobil visinho traçava a morte de Casimiro.</p>
-
-<p>Foi logo d’alli em procura do estudioso mathematico,
-e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Olha que o covarde tem uma besta-féra em casa.
-Estuda socegado, que eu te guardarei, porque não estudo,
-nem tenho que fazer.</p>
-
-<p>—Agradeço—disse Casimiro—mas, em verdade te
-juro que não temo a besta-féra.</p>
-
-<p>—Bem sei, rapaz, bem sei; mas o que eu te venho
-dizer é que não penses mesmo no modo de a mandar
-ao diabo. Isso cá se arranja. Adeus: não te quero roubar
-tempo.</p>
-
-<p>Descubriu Guilherme que D. Alexandre sahia de
-noute, e com elle outro academico sobre quem a capa
-mal ageitada ia delatando a contrafacção.</p>
-
-<p>Fez-se Lira encontrado com elles, metteu-lhes a cara,
-e reconheceu o assassino, sob o disfarce de estudante.</p>
-
-<p>A traça do homicidio era desesperada. Como Casimiro
-passava as noutes estudando, Ayrão lembrara il-o matar
-em casa. O rancor applaudiu o alvitre, e accelerou a
-execução. D. Sueiro esporeava de lá os brios do mano
-e pasmava da demora.</p>
-
-<p>Descubriu Lira que os visinhos por volta de dez horas
-paravam á sombra do Arco, que faz a extrema da
-<i>Couraça dos Apostolos</i>, onde morava Casimiro, e depois
-subiam distanceados a calçada, e o mais corpulento, que
-era o disfarçado, contra-punha de leve o hombro a uma
-porta de quintal, ou remirava a janella alumiada pelo
-clarão do candieiro, ao qual Casimiro estudava até duas
-horas da manhã.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span></p>
-
-<p>As portas apalpadas não davam de si; arrombal-as
-com estrondo seria derrancar o plano.</p>
-
-<p>Accudiu nova idéa ao homicida: chamar Casimiro á
-janella, e desfechar-lhe um tiro.</p>
-
-<p>Reflexionou D. Alexandre, e previu que a opinião publica
-havia de reprovar o covardissimo feito.</p>
-
-<p>Regeitou, por tanto a idéa, e reforçou-se na do assalto.</p>
-
-<p>Casimiro Bettancourt ignorava o que ia cá fora em
-sete noutes successivas. Guilherme achou inutil avisal-o.
-Queria elle egoistamente para si a cabal satisfação de
-castigar os miseraveis, sem incommodo do estudante.
-A muito custo se refreára, durante as sete noutes, á
-espera de lhes comprehender o intento, e cahir sobre
-elles no momento de o praticarem.</p>
-
-<p>Guilherme Lira desvellava-se e preoccupava-se d’esta
-catastrophe, como se vida de pai, irmão, ou amada corressem
-perigo!</p>
-
-<p>Sublime doido! Sympathica loucura!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span></p>
-
-<h2>XII<br />
-<span class="smaller">Serenidade da innocencia</span></h2>
-
-<p>Ás dez horas de uma noute de janeiro de 1840, Christina,
-convidada pela limpidez da lua, tão brilhante
-n’aquellas noutes, se o céu está desannuviado, chegou
-á janella, sem correr as vidraças. Do exterior não podia
-ser vista, que era completa a escuridade dentro; viu,
-porém, Christina, dous homens parados na rua, com as
-cabeças muito conchegadas, em agitada e inaudivel conversação.
-Teve mêdo, e correu ao gabinete do marido a
-chamal-o. Casimiro, pé ante pé, segundo a esposa lhe
-recommendava, espreitou, e, sem hesitação, disse:</p>
-
-<p>—Um é D. Alexandre; o outro não conheço. Vejamos
-o que fazem.</p>
-
-<p>—Vê!—disse Christina—olharam para a janella do
-teu quarto.</p>
-
-<p>—É uma contemplação estupida!—redarguiu Casimiro.</p>
-
-<p>—Agora esconderam-se debaixo das janellas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span></p>
-
-<p>—Quererão escalar a casa?!—tornou elle em ar de
-mofa.</p>
-
-<p>—Quem sabe?! Olha... lá deram um encontrão á
-porta do quintal!</p>
-
-<p>—É que são ratoneiros de couves. Que podem elles
-querer do quintal senão as tuas couves gallegas?</p>
-
-<p>—Tu brincas, meu Casimiro!... Olha que isto é
-sério!... E não passa patrulha nenhuma!...</p>
-
-<p>—Calla-te, creança! Se te ouvem, perderemos este
-espectaculo gratuito. Deixa vêr no que isto dispara. Lá
-vem outro estudante, rente pela parede d’alem! como
-elle se embuça!...</p>
-
-<p>—Parou!—disse Christina agitada.</p>
-
-<p>—Será da malta?! As couves não chegam para todos.</p>
-
-<p>—Lá vai para baixo.</p>
-
-<p>—E os outros seguem-no.</p>
-
-<p>—Já não seguem.</p>
-
-<p>—Elles ahi voltam, outra vez para a sombra.</p>
-
-<p>—Outro empurrão á porta da escada!—murmurou
-Christina alvoroçada e tremula.</p>
-
-<p>—Então o negocio não é de horta! Teremos hospedes
-assim mal-criados! Ver-me-hei forçado a recebêl-os
-com igual delicadeza!</p>
-
-<p>A arma unica de Casimiro Bettancourt era uma enferrujada
-espada de seu pai. Tirou-a de baixo do leito,
-e disse á esposa:</p>
-
-<p>—Deixa-me a escada livre, e não temas.</p>
-
-<p>—Á escada não vais: póde vir um tiro!</p>
-
-<p>—Não vem tiro nenhum: apaga todas as luzes.</p>
-
-<p>Dous estrondosos encontrões metteram dentro a fragil
-porta. Christina soltou um ai, e involuntariamente<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span>
-correu ao leito onde a menina chorava acordada pela
-rija pancada.</p>
-
-<p>Casimiro estava no topo da escada, e viu do lado da
-rua um homem de batina academica apanhar de hombro
-a hombro com um pau as costas, do que elle affirmára
-ser D. Alexandre. Os dous aggressores saltaram
-ao meio da rua, e Casimiro, ia na colla d’elles, quando
-Christina, com a menina nos braços, lhe estorvou o
-passo, exclamando:</p>
-
-<p>—Casimiro, Casimiro! pela tua filhinha te rogo!</p>
-
-<p>A catastrophe, tão almejada de Guilherme Lira, rematava
-assim na rua.</p>
-
-<p>Ayrão, logo que o amo levou a primeira pancada,
-correu de faca sobre Guilherme, e recebeu em cheio
-peito uma choupada, e segunda no ventre. Já cambaleava
-moribundo, quando recebeu a terceira, e bateu
-nas lages com a face morta.</p>
-
-<p>D. Alexandre ia fugindo, com a maxima velocidade
-de sua prudencia, quando uma segunda bordoada o apanhou
-pela nuca. Rugiu e afocinhou, forçado por um doloroso
-raspar de ferro na orelha direita.</p>
-
-<p>Guilherme volveu a sondar a respiração do desertor,
-e responsou-o ao diabo.</p>
-
-<p>D’alli correu á escada de Casimiro, e chamou-o.</p>
-
-<p>—Quem é?—respondeu Casimiro com a espada
-apontada.</p>
-
-<p>—O Lira. Creio que estão ambos mortos; um de
-certo. Agora, acautella-te... Já está gente nas janellas.
-Posso sahir pela porta de traz? Aqui reconhecem-me.</p>
-
-<p>—Sahe—disse Casimiro—Vem por aqui... Quem
-mataste?</p>
-
-<p>—Boa pergunta! A besta-féra não se levanta mais;
-o outro desconfio que está vivo. Deixal-o viver... Por<span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span>
-aqui?... bem... Adeus! Segredo de sepultura, ouviste?</p>
-
-<p>—A recommendação é indigna de mim.</p>
-
-<p>Guilherme Lira entrou no Becco das Flores, e sumiu-se
-de travessa em travessa, reapparecendo, vestido
-á futrica, na Couraça dos Apostolos.</p>
-
-<p>Quando chegou occupavam a rua centenares de pessoas.
-Em redor do cadaver de Ayrão estavam muitos
-estudantes de envolta com a policia. Nenhum academico
-reconhecia o morto, que trajava batina, bem que
-tivesse illeso o rosto. Emquanto a este, esperou-se o dia
-para lavrar-se auto.</p>
-
-<p>D. Alexandre já tinha sido transportado em braços, e
-moribundo, segundo diziam os que lhe viram o rosto
-ensanguentado, e ouviram o archejar estertoroso do peito
-comprimido pelo derramamento das costas.</p>
-
-<p>A visinhança dizia que vira entrar um homem de batina
-e capa nas escadas de Casimiro Bettancourt. A
-opinião geral decidiu que fôra Casimiro o assassino, visto
-que o sugeito entrado não sahira.</p>
-
-<p>Christina chorava, e dizia, ouvindo as vozes da rua:</p>
-
-<p>—Que será de nós? Prendem-te, Casimiro. Fujamos...
-vamos para Villa Cova.</p>
-
-<p>—Socega, filha. Se me prenderem, hão de soltar-me!
-Attende-me, Christina: Nunca dirás uma só palavra
-com referencia a este acontecimento. Nunca proferirás
-o nome de Guilherme Lira. Nunca dirás que eu estou
-innocente. Juras-m’o?</p>
-
-<p>—E tu... perdido, meu infeliz amigo... perdido!—atalhou
-ella, archejante de gemidos—desgraçado por
-minha causa!</p>
-
-<p>Casimiro apertou-a ao seio, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Crês em Deus?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span></p>
-
-<p>—Se creio em Deus...</p>
-
-<p>—Crês que a justiça divina me faça padecer innocentemente?...</p>
-
-<p>—Mas a justiça humana...—interrompeu ella.</p>
-
-<p>—Mulher de pouca fé!... Se visses a serenidade do
-meu espirito, vias em mim a influição de Deus!</p>
-
-<p class="tb">As authoridades superiores, avisadas do acontecimento
-e do author indigitado do crime, mandaram guardar por
-soldados as avenidas da casa de Casimiro, para o prenderem
-de dia.</p>
-
-<p>O academico deitou-se á sua hora regular, e obrigou
-a alvoroçada esposa a deitar-se com a filhinha inquieta.</p>
-
-<p>Ás tres horas e meia da manhã rebentou de subito
-um ruido estridoroso na rua, depois de alguns repetidos
-brados das sentinellas.</p>
-
-<p>Chegava a «Sociedade da Manta» acaudilhada por
-Guilherme Lira, em numero de vinte e tantos bravos,
-armados de refes e clavinas.</p>
-
-<p>Os soldados outros tantos seriam. Á primeira carga
-inesperada, a tropa titubeou entre fugir ou defender-se,
-e, n’esta perplexidade, soffreu o desaire de ser desarmada
-e contundida com as proprias armas.</p>
-
-<p>Libertas as portas, Guilherme chamou Casimiro, subiu
-e disse imperiosamente:</p>
-
-<p>—Foge!</p>
-
-<p>—Não fujo.</p>
-
-<p>—Como não foges?</p>
-
-<p>—Não: salva-te tu, que eu me livrarei da justiça.</p>
-
-<p>—Não livras: diz toda a gente que tu mataste o homem.
-Alexandre está vivo, e diz que foste tu quem
-mataste o seu creado, e lhe tiraste a elle a orelha.</p>
-
-<p>—Deixaste sem orelha o homem?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span></p>
-
-<p>—Nada de riso: foges ou não?</p>
-
-<p>—Já te disse, Guilherme: vai na certeza de que o
-teu nome nunca será envolvido na minha justificação.</p>
-
-<p>Uma vez de fóra disse:</p>
-
-<p>—Olha que tocam as cornetas na Sophia, ó Lira!
-Vem, que não temos partido contra o regimento.</p>
-
-<p>—Adeus!—concluiu Guilherme—Oxalá que te não
-arrependas!</p>
-
-<p>—Fujamos!—exclamou Christina.</p>
-
-<p>—Porque me não attendes, filha? disse maviosamente
-Casimiro, e desceu a fechar a porta.</p>
-
-<p>Poucos segundos depois, estava a rua cogulada de
-soldados, e muitas vozes diziam que o assassino tinha
-fugido com os academicos.</p>
-
-<p>—O melhor é arrombarem as portas, camaradas!—dizia
-um cidadão—Que fazem vossês ahi, se elle fugiu?
-É arrombar que não ha outro modo de saber se elle
-está.</p>
-
-<p>—Arrombar!—contrariou um alferes—a Carta Constitucional
-prohibe arrombar; mas bate-se a ver se falla
-alguem.</p>
-
-<p>—Ou isso—disse o cidadão prudente.</p>
-
-<p>O alferes bateu urbanamente. Casimiro abriu de
-prompto a janella do seu quarto, e perguntou:</p>
-
-<p>—Quem é?</p>
-
-<p>—Ah!—disse o alferes—está em casa?</p>
-
-<p>—Estou em casa. Não quer mais nada?</p>
-
-<p>—Não sr. Foi para sabermos... dizia-se que não estava
-lá ninguem... Perdoará o incommodo.</p>
-
-<p>—Boas noutes—respondeu Casimiro. Depois, baixou
-a vidraça, e disse a Christina—A rua está vistosa! As
-armas refrangem a lua, e dão a lembrar uma illuminura
-da idade média! Apaga a luz da saleta, que eu gosto<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span>
-de ver este arraial de batalha, que me parece um sonho!</p>
-
-<p>—Ó Casimiro!—balbuciou ella—como tu pódes rir,
-e eu sinto-me aqui morrer!</p>
-
-<p>—És fraca. Nunca te tinha conhecido esse aleijão!
-Parecias-me uma natureza perfeita em amor, em brios,
-e em força. A força é que te falta, minha debil filha!</p>
-
-<p>—Enganas-te, Casimiro!—replicou ella—É que eu
-era tão feliz!...</p>
-
-<p>—E ámanhã que impede que o sejas?</p>
-
-<p>—Ámanhã... estarás preso!....</p>
-
-<p>—E então? A luz do teu amor teme de romper as
-grades da cadeia?! A nossa filhinha hesita entrar lá
-comtigo? Não vai commigo a imperturbavel consolação
-da consciencia?</p>
-
-<p>—Mas eu tambem vou...</p>
-
-<p>—Pois irás, filha. Quem te veda de estar com teu
-marido preso?!</p>
-
-<p>Conversaram n’este sentido longo tempo; e já a final,
-Christina estava conformada com a ideia da prisão, e
-logo cuidou em enfardelar os fatinhos da filhinha, emquanto
-o marido escrevia a seguinte carta:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>«Meu caro compadre.</p>
-
-<p>«D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o
-seu creado está morto. Este acontecimento deu-se á
-porta da minha caza, ha cinco horas. O povo, a academia,
-e as authoridades indigitam-me como author
-do successo. Esperam que nasça o sol para me prenderem.</p>
-
-<p>«Escrevo-lhe agora, 4 horas da manhã, receando que
-os interrogatorios me tirem o tempo no correr do dia.</p>
-
-<p>«Minha mulher tem estado attribulada, mas, como
-appelei do seu coração para a sua coragem, vejo-a reanimado<span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span>
-e esperançosa da minha absolvição em despeito
-do povo, da academia e das authoridades.</p>
-
-<p>«Peço aos meus amigos que não se afflijam, e me
-creiam forte bastante para luctar com o mal do mundo.
-Refugio-me na vossa estima, e sou o vosso irmão agradecido,
-<i>C. Bettancourt</i>.»</p>
-
-</div>
-
-<p>Ao apontar o sol, a authoridade administrativa, auxiliada
-pela militar, bateu á porta de Casimiro, e esperou
-instantes. O proprio academico desceu a abrir, e offereceu
-ceremoniosamente a sua casa.</p>
-
-<p>—Está o sr. preso—disse o administrador.</p>
-
-<p>—Já o sabia—respondeu Casimiro.</p>
-
-<p>—Bem. V. s.ª acompanha-me. Irá comnosco o sr. alferes
-da companhia.</p>
-
-<p>—Como queiram: vou só, vou com v. sr.ᵃˢ, vou com
-a escolta: para mim é de todo o ponto indifferente.</p>
-
-<p>—Dispenso a força, sr. alferes, disse o administrador:
-póde v. s.ª mandal-a recolher com o sargento; o sr. alferes
-tem de ficar para solemnisar a prisão d’este academico
-que é furriel.</p>
-
-<p>—Se querem subir...—disse o preso.</p>
-
-<p>—Não, senhor: vá, e volte, que nós esperamos.</p>
-
-<p>O administrador, em quanto Casimiro subiu a dar as
-ultimas palavras de conforto a sua mulher, disse ao
-commandante da força:</p>
-
-<p>—Este homem ou está innocente, ou excede tudo
-que eu tenho visto em coragem!</p>
-
-<p>—Será cynismo? replicou o militar.</p>
-
-<p>—É cynismo, não pode deixar de ser cynismo—optou
-o cidadão que propozera o arrombamento das portas.</p>
-
-<p>No entanto, Casimiro dizia a Christina, depois de
-beijar Mafalda:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span></p>
-
-<p>—Eu escrevo-te de casa do administrador, dizendo-te
-o meu destino; naturalmente irei de lá para a cadeia;
-e tu, como boa gerente da casa—continuou elle jovialmente—irás
-lá ter, depois de ter dado as ordens para
-o jantar. Olha que a instauração de um processo por
-crime de morte não obriga a jejum, minha filha. Lembra-te
-que as consciencias puras concorrem muito para
-o bom appetite, e são optimas auxiliares do estomago.
-E adeus, até logo.</p>
-
-<p>Christina ajoelhou com a filha nos braços, e orou. E,
-orando, ouvia dizer fóra:</p>
-
-<p>—Mas como elle vai direito e senhor seu!</p>
-
-<p>—Elle se entortará quando lhe pezarem nas costas
-os caibros da Portagem!</p>
-
-<p>—Terá pena ultima?—perguntava uma rapariga de
-má vida, e acrescentava: coitadinho! é tão novo, e de
-mais a mais casado, e tem uma filhinha!...</p>
-
-<p>—Deixal-o ter!—atalhava uma velha, que vinha da
-missa d’alva, e ia ouvir a segunda, para depois ir ouvir
-a terceira—Deixal-o ter! Quem mata, morra! As forcas
-não se inventaram para os que morrem, é para os que
-matam.</p>
-
-<p>O axioma foi applaudido pelo cidadão prudente, e
-outros sujeitos honestos, cuja garganta zombára muitas
-vezes da corda de esparto do Livro V das Ordenações.</p>
-
-<p>E Christina callava a oração para escutar, e orava
-para não ouvir.</p>
-
-<p>Perguntou a authoridade a Casimiro Bettancourt o
-nome, a naturalidade, os annos, o estado, a profissão,
-etc. E proseguiu:</p>
-
-<p>—A voz publica e as apparencias dão-no ao senhor
-como homicida de um homem ainda desconhecido, e
-tambem o incriminam de espancador de D. Alexandre<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span>
-de Aguilar, cuja vida está ainda duvidosa. O sr. Bettancourt
-é réu d’estes crimes?</p>
-
-<p>Casimiro não respondeu.</p>
-
-<p>—Ouviu a pergunta que lhe fiz?—tornou a authoridade
-suspeitando a surdez do preso.</p>
-
-<p>—Ouvi, sim, senhor.</p>
-
-<p>—Que responde?</p>
-
-<p>—Nada.</p>
-
-<p>—Nada?! é boa essa!... Matou ou não matou?</p>
-
-<p>—Se ha provas de que fui eu, porque m’as pedem?
-Se as não ha, porque me prendem?</p>
-
-<p>—A lei manda interrogar os réus.</p>
-
-<p>—Póde ser; mas não obriga os réus a responder.</p>
-
-<p>—O silencio é uma confissão—redarguiu o administrador.</p>
-
-<p>—É o anexim «quem calla consente» arvorado em
-axioma juridico. Boa hermeneutica!</p>
-
-<p>—Modere as suas ironias, que a occasião é inopportuna,
-sr. Bettancourt. D. Alexandre de Aguilar Vito de
-Alarcão Parma d’Eça diz que fôra atacado pelo sr. Casimiro,
-quando passava á sua porta.</p>
-
-<p>—Se o diz, elle o provará.</p>
-
-<p>—A visinhança depõe que v. s.ª entrára em sua casa
-depois de ter deixado morto um homem e o outro cahido.</p>
-
-<p>—Já sei: ouvi o parecer de meus visinhos antes de
-v. s.ª os interrogar.</p>
-
-<p>—E que diz a isto senhor?</p>
-
-<p>—Nada.</p>
-
-<p>—Diz que está innocente?</p>
-
-<p>—Já tive a honra de dizer a v. s.ª que não digo
-nada. As provas responderão por mim, e a lei me julgará.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span></p>
-
-<p>—Está claro. Vai v. s.ª recolher-se á cadeia, e esperar
-lá a nota da culpa.</p>
-
-<p>—Posso ser visitado por minha mulher e minha
-filha?</p>
-
-<p>—Sim, senhor, em quanto a policia julgar isso indifferente
-ao processo.</p>
-
-<p>—E quando póde impecer ao processo que eu veja
-minha familia?</p>
-
-<p>—Ha casos...</p>
-
-<p>—Bom. Recebo as suas ordens.</p>
-
-<p>—Vai acompanhal-o um official do juizo. O sr. Bettancourt
-inspira-me confiança, e por isso o allivio do vexame
-de ir com soldados.</p>
-
-<p>—Agradeço a confiança; mas os soldados não me
-vexam: cumpra v. s.ª o seu dever de authoridade.</p>
-
-<p>—Vá, e pense sériamente na sua situação, que é
-grave, sr. Bettancourt. Póde ser que o senhor esteja
-innocente; mas as suas desavenças anteriores com
-D. Alexandre condemnam-no. Póde ser que v. s.ª matasse
-em justa defeza: se assim foi, convém attenuar a
-culpa com essa circumstancia. Esse seu systema de
-responder com o silencio, sobre ser excentrico, é confirmativo
-da imputação. Dou-lhe este conselho, movido
-pela sympathia que me causa a sua abnegação e como
-despreso da vida. Sei que tem familia, e avalio as angustias
-de sua consorte; por isso lhe peço que se abstenha
-d’esse stoicismo inutil, e—peior ainda—prejudicial.
-Se póde, decline de si a responsabilidade de um homicidio,
-que é sempre e em todos os casos deshonra. Se
-matou, negue, negue sempre!—acrescentou o administrador,
-collando-lhe no ouvido os labios.</p>
-
-<p>Casimiro agradeceu o conselho com um sorriso, e sahiu
-á direita do official de justiça.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span></p>
-
-<p>Á porta da authoridade, quando Casimiro sahiu,
-agglomerava-se um cento de pessoas, gentio baixo, regateiras
-da praça de Sansão, serventes, gaiatos, e alguns
-cidadãos honestos, nomeadamente o oraculo da Couraça
-dos Apostolos. A custo rompeu o aguazil a multidão,
-que se premia em redor de Casimiro, e lhe roçava as
-faces com o halito acre da aguardente.</p>
-
-<p>—Chamo soldados!—bradou o official de justiça.</p>
-
-<p>—Não é preciso—disse um academico, que estanceava
-mais distante n’um grupo de estudantes.</p>
-
-<p>E, tirando a carreteira das mãos de um lavrador,
-cresceu sobre a multidão, e apanhou quatro cabeças da
-primeira paulada. A rua, momentos depois, estava deserta,
-como se passasse n’ella a ira do Senhor.</p>
-
-<p>—Foge que é o Lira!—diziam muitas vozes, convulsas
-de terror, menos o cidadão da Couraça dos Apostolos,
-que levou a sua cabeça ao visinho boticario.</p>
-
-<p>Era, com effeito, Guilherme Lira, cujo sangue refervia
-em phrenesi, e sêde de beber o sangue da humanidade.
-Infurecia-o o remorso de ter deixado vivo D. Alexandre!
-Saber elle que o vil declarava ter sido assaltado
-por Casimiro, espicaçou-lhe o odio e a ancia de ir estrangulal-o
-em casa. Depois, via Casimiro preso, sabia
-já as suas respostas á authoridade, pungia-o o arrependimento
-de o perder, quando cuidava salval-o de inimigos
-infames, e não poder salval-o, sem se declarar elle
-mesmo o aggressor!</p>
-
-<p>O governador civil, o reitor, as authoridades subalternas,
-receiosas de sublevação academica, instigada por
-Guilherme Lira, preveniram a tropa, e assignaram ordens
-de prisão dos mais celebres desordeiros, no caso de
-motim.</p>
-
-<p>A este tempo estava na cadeia Casimiro Bettancourt,<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span>
-contrastando, com sua quietação, o reboliço que fremia
-cá fóra. Christina seguira-lhe os passos, e entrara apoz
-elle. Mafalda ia muito risonha e fagueira. Não fallava,
-mas gesticulava as suas caricias, e pendurava-se do collo
-do pai, beijando-lhe os olhos.</p>
-
-<p>E Christina observava em redor de si a nudez, a sombra,
-a immundicie da salêta. Queria chorar; mas pejava-se
-do esposo, e retinha-se para o não affligir.</p>
-
-<p>—Voltas a casa, minha filha?—disse Casimiro—Olha
-que são dez horas, e nós costumamos almoçar ás nove.
-Basta de sacrificio á justiça humana, Christina! Uma
-hora é de mais!</p>
-
-<p>—Tu não estás muito triste, pois não, meu Casimiro?—exclamou
-ella, cingindo-lhe o pescoço, com quanto
-carinho podem exprimir as angustias supremas.</p>
-
-<p>—Se estou triste!... Quando me viste mais risonho,
-Christina!... Alegre, minha esposa, alegre como esta
-creança que te sorri! A minha consciencia está serena
-como a d’esta menina; por isso nos vês tão contentes
-ambos!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p>
-
-<h2>XIII<br />
-<span class="smaller">O Réu</span></h2>
-
-<p>A carta, recebida em Villa Cova, foi a primeira grande
-angustia que alanceou o coração de Ladislau.</p>
-
-<p>Correu á igreja, e d’ali a uma aldeia da serra, onde
-estava o vigario sacramentando um enfermo. Leram a
-carta, e ambos inferiram que o matador era Casimiro;
-justa inferencia dos termos d’ella.</p>
-
-<p>—Matar!—disse o vigario consternado.—Matar!...
-Eu não cuidava isto de Casimiro! Nem ao menos diz
-que matou defendendo sua vida, a vida de sua mulher,
-e de sua filha!... Repara tu na serenidade com que
-elle diz: <i>D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido,
-e o seu creado está morto. Este acontecimento deu-se
-á porta de minha casa ha cinco horas. O povo, as
-authoridades, e a academia, indigitam-me como author
-do successo...</i> Se não fosse elle o author, diria: <i>indigitam-me
-falsamente!</i>... E mais abaixo: <i>Minha mulher
-tem estado attribulada, mas como appelei do seu
-coração para a sua coragem, vejo-a reanimada e esperançosa<span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span>
-de minha absolvição em despeito do povo, da
-academia e das authoridades!</i>... De que elle fia a sua
-absolvição, se as provas o condemnam a tal ponto que
-tudo lhe é contra!... Ó meu Deus, meu Deus! que
-conta havemos de dar á nossa consciencia de termos
-trabalhado para o casamento de Christina com este malfadado!</p>
-
-<p>Ladislau ouviu a mais larga exclamação do attribulado
-sacerdote, e disse com pausa:</p>
-
-<p>—Eu estou em crêr que Casimiro não matou.</p>
-
-<p>—Ó homem, tu não intendes esta carta?</p>
-
-<p>—Penso que intendi. Onde diz elle que matou?</p>
-
-<p>—E onde diz elle que não matou?—retorquiu o padre.</p>
-
-<p>—É verdade: não confessa nem nega. Diz que o
-apontam como matador. Isto é differente. Eu leio no
-Evangelho que Jesus Christo, quando o arguiam...</p>
-
-<p>—Calla-te meu irmão! esses confrontos são sacrilegos!—atalhou
-o sacerdote, inflammado em zelo santo.</p>
-
-<p>—A minha intenção era boa, Deus o sabe. Seja o
-que fôr, eu creio que o meu compadre está innocente.
-Um homem, que mata, não escreve assim com este socego.
-Aqui ha mysterio, e continuará a havel-o. As cartas
-demoram-se; e, quer demorem quer não, amanhã
-vou para Coimbra e Peregrina vai comigo. Desgraçada
-Christina!... E que terá elle penado? que fará sósinha
-a pobre menina com sua filha?...</p>
-
-<p>—Vai a Coimbra, Ladislau, vai!—disse o vigario—Se
-é criminoso, amparemol-o; se não é, ajudemol-o a
-vencer as iniquidades do mundo, querendo Deus que
-nós sejamos instrumentos de sua divina justiça. Eu tambem
-iria, se podesse: escrever-lhe-hei as consolações da
-religião.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span></p>
-
-<p>No dia proximo sahiram de Villa Cova Ladislau, Peregrina,
-e o menino, a grandes jornadas para Coimbra.
-O lavrador levava todo o seu peculio, o ouro de sua
-mulher, e alfaias de antiga prata, que havia em casa.
-Apearam na estalagem, e foram d’alli á cadeia. Encontraram
-Casimiro sentado á meza de jantar com a filha
-no collo, e Christina a um canto da salleta aquecendo
-café n’um fogareiro.</p>
-
-<p>—Não t’o disse eu?!—exclamou Christina, quando
-o chaveiro abriu a porta, e deu entrada aos visitantes—Não
-veio carta, vieram elles!</p>
-
-<p>As duas senhoras abraçadas fallavam em soluços.
-Ladislau rompeu tambem em pranto desfeito. Casimiro,
-porém, sereno e com os braços abertos, dizia:</p>
-
-<p>—O compadre tambem é dama?! Não rivalisemos
-com as nossas mulheres no seu privilegio de chorar!...
-Conversemos como homens.</p>
-
-<p>—Está innocente, meu amigo?—perguntou de sobresalto
-Ladislau.</p>
-
-<p>—Que pressa!...—respondeu em ar de graça o prezo—Parece
-que o meu compadre sahiu de casa com
-essa pergunta á flor dos beiços. Ora, diga-me: se eu lhe
-responder que matei o desertor, e feri de morte o fidalgo,
-o meu amigo retira-me a sua mão pura e generosa?</p>
-
-<p>—Não. Casimiro só mataria um homem defendendo-se.
-Foi em defesa que o matou?</p>
-
-<p>—Vou responder-lhe; porém, requeiro á sua nobre
-alma um juramento antes de me ouvir. Não lhe digo
-que me jure por seu pai, pela vida de sua esposa ou
-filho: jure por sua honra.</p>
-
-<p>—Jurei.</p>
-
-<p>—Agora saiba que eu não matei, nem mandei matar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span></p>
-
-<p>—Oh meu amigo!—clamou com agitada vehemencia
-Ladislau.</p>
-
-<p>—Não falle mais alto que eu, meu compadre, que
-póde ser ouvido. Não matei nem mandei matar, nem
-folguei com a morte do assassino trazido para mim, nem
-com os ferimentos de D. Alexandre. Houve um homem
-que me quiz salvar dos dous inimigos, que me esperavam,
-e matou-os, no momento em que me arrombavam
-as portas. O nome d’este homem irá commigo e com
-minha mulher á sepultura: nunca m’o pergunte. A sociedade
-proclama-me assassino: embora. Deus me defenderá
-e salvará. Aos interrogatorios nada respondo que
-me absolva ou condemne. Veremos se o jury me vê
-provado assassino. Agora, meu amigo, tem o sr. a sua
-honra de sentinella á sua lingua. Tomemos café. São só
-duas as chavenas; mas tambem ha dous pires: as chavenas
-para os hospedes; os pires para nós, Christina.
-Arranja lá isso.</p>
-
-<p>Ladislau fitava nos olhos Casimiro, e murmurava:</p>
-
-<p>—Que homem! que desgraçado tão digno d’outra
-sorte!</p>
-
-<p>—Veja lá o que são as cousas! eu cuidei que meu
-compadre me estava invejando esta paz de coração!—disse
-Casimiro.</p>
-
-<p>Horas depois, sahiram duas senhoras a transferir a
-bagagem da estalagem para a casa da Couraça dos
-Apostolos. Concordaram em viver juntas, nas horas em
-que era vedado o ingresso no carcere.</p>
-
-<p>O processo proseguiu seus termos, com desvantagem
-de Casimiro, sem embargo de ser vigiado pelo primeiro
-advogado de Coimbra, que alcançára procuração do
-réu, depois de muitas instancias suas e de Guilherme
-Lira.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span></p>
-
-<p>D. Sueiro de Aguilar tinha descido a Coimbra, com
-comitiva de dois lacaios, e dinheiro grosso para, consoante
-a sua phrase, <i>erguer, sendo preciso, uma forca
-de ouro, onde perneasse o assassino de seu irmão</i>.</p>
-
-<p>D. Alexandre erguera-se ao cabo de vinte dias, e composera
-as melênas de modo, que o logar da extincta
-orelha ficasse coberto de lustrosas espiraes. A orelha
-cancerára e cahira, deixando um orificio hediondo e pustuloso.
-Guilherme Lira, quando acertava de o encontrar,
-dizia-lhe sempre:</p>
-
-<p>—Cuidado com a outra.</p>
-
-<p>—A outra quê?—animou-se a perguntar D. Alexandre.</p>
-
-<p>—A outra orelha, patife!</p>
-
-<p>O epitheto gelou de neve as cavernas d’aquelle vil
-peito que esvasiava o pus pelo esqualor do ouvido.</p>
-
-<p>D. Sueiro accelerava o processo, e descia de sua prosapia
-regirando do advogado para o escrivão, do procurador
-para o delegado, do juiz para os influentes do
-jury.</p>
-
-<p>N’uma d’essas suadas correrias, passando ao escurecer
-no bêco de D. Sisenando, encontrou um academico,
-que lhe cingiu ao pescoço umas mãos, que pareciam
-golilhas de ferro, e lhe jogou a catapulta da cabeça,
-tres vezes, contra a hombreira do floreado granito da
-porta do palacio, onde morreu apunhalada a irmã da
-rainha D. Leonor Telles. Depois, largando-o atordoado,
-disse:</p>
-
-<p>—Primeira admoestação!</p>
-
-<p>E andou.</p>
-
-<p>D. Sueiro, ao outro dia, escreveu a todos os governadores
-possiveis de Coimbra. A policia fingiu que se
-mechia, e D. Sueiro não sahiu da cama.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span></p>
-
-<p>O leitor já sabe que só Guilherme Lira podia tentar
-a destruição da melhor pedra monumental de Coimbra
-com a cabeça de D. Sueiro de Aguilar Vito etc.</p>
-
-<p>Um homem sisudo da policia disse ao rico-homem de
-Miranda:</p>
-
-<p>—O meu parecer é que v. ex.ª vá para sua casa. A
-meu vêr, o fidalgo traz á perna a <i>sociedade da Manta</i>.
-Dê louvores a Deus em o não terem matado como fizeram
-a um lente, ha dous mezes: e perdoará o atrevimento
-do seu servo em o aconselhar. Em quanto a mim
-quem quebrou a cabeça de v. ex.ª foi o Guilherme Lira!
-Mas vão lá prendêl-o, e, de mais a mais, sem provas!
-Bem aviado estava eu! Elle bate-se com um regimento,
-e é capaz e mais os seus trinta companheiros,
-de arrasar Coimbra.</p>
-
-<p>—Então isto aqui é um sertão de selvagens!—bradou
-D. Soeiro—As leis...</p>
-
-<p>—As leis estudam-se aqui—disse o cadimo aguazil—e
-o Guilherme Lira sabe-as bem, que é quintanista de
-direito; mas o malvado despreza as leis de papel, e tem
-lá umas de pau para seu uso, não digo bem: para uso d’aquelles
-que as levam impressas nas costas. Em fim...</p>
-
-<p>O homem da justiça encolheu os hombros, e despediu-se.</p>
-
-<p>No dia seguinte, D. Sueiro foi para Miranda, e levava
-ainda uns parches de alvaiade na testa, e uns pontos
-nos tegumentos sobrejacentes aos ossos parietaes.</p>
-
-<p>D. Alexandre ficou; porém, assim que o sol inclinava
-ao poente, recolhia-se. Guilherme Lira entrava em casa
-todas as noutes, e espreitava-o da janella. Cada noute,
-ao vêr-lhe a luz no quarto, arrepellava-se. Dizia com picaresco
-chiste o feroz academico a Casimiro: «a vida<span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span>
-d’aquelle homem peza-me como um burro sobre o
-peito!»</p>
-
-<p>E Bettancourt pedia-lhe encarecidamente que o deixasse,
-por ser um estorvo nullo á sua liberdade.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas, conscio do successo, mandou chamar
-o vigario de S. Julião da Serra, e informou-se. Padre
-João Ferreira relatou de cór o contheudo da primeira
-carta de Casimiro, e mostrou duas linhas de outra de
-Ladislau, que dizia: <i>Casimiro está innocente. Casimiro
-é victima da sua honra. Nada mais te digo, porque só
-isto me é permittido dizer, e a ti só, meu irmão.</i></p>
-
-<p>—E tu crês na innocencia de Casimiro?</p>
-
-<p>—Creio, meu padrinho, como creio que vivo.</p>
-
-<p>—E elle deixa-se ir á revelia?</p>
-
-<p>—Não posso, nem sei responder a v. ex.ª</p>
-
-<p>—É preciso que eu o proteja. É preciso, que elle é
-marido de minha filha! Os de Miranda não hão de levar
-a melhor.</p>
-
-<p>—Que quer v. ex.ª que se faça?</p>
-
-<p>—Que vás a Coimbra, e leves dinheiro para elle, e
-para a justiça.</p>
-
-<p>—É desnecessario dinheiro. Meu cunhado foi prevenido.</p>
-
-<p>—Deixal-o ir. O dinheiro que eu mando, é meu;
-quero que minha filha o receba! Eu vou mandar o meu
-capellão substituir-te na igreja, e tu partes já para Coimbra.</p>
-
-<p>—Recebo as ordens de v. ex.ª</p>
-
-<p>—Vamos ver quem vence!—continuou o fidalgo, apertando
-os alveolos, onde os dentes ausentes não podiam
-rangir.—Os de Miranda, tem muita prôa?... Deixa
-que eu vou abater-lh’a!... Vai, João, que lá irão umas
-cartas. Se Casimiro ficar condemnado, tu ou teu cunhado<span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span>
-vão para Lisboa, e entreguem as cartas onde eu
-mandar. Lá está minha irmã, a condessa de Asinhoso.
-Ha vinte e tres annos que não lhe escrevo: mas sei que
-ella está morta por fazer as pazes commigo.</p>
-
-<p>—Bom seria que estivessem feitas—disse respeitosamente
-o padre.</p>
-
-<p>—É verdade; mas que queres? orgulho de parte a
-parte... E sabes tu porque eu despresei minha irmã?</p>
-
-<p>—Nunca v. ex.ª me deu a honra de m’o revelar.</p>
-
-<p>—Pois eu t’o direi quando voltares. Foi um caso de
-honra, que os de Miranda não costumam castigar. Lá
-tem em casa uma irmã do pai, que fugiu do mosteiro
-de Lorvão, e deu escandalo. Lá a tem... e não põem
-crepe nas pedras d’armas... E vinha cá D. Sueiro vituperar-me
-porque eu não mandava matar Casimiro!...
-Olha quem!... Se eu tivesse tantos santos a pedir por
-mim, como de vezes me tenho arrependido de lhe dar a
-minha morgada!... Forte brutalidade!... Cegaram-me
-as vaidades de reatar as duas casas dos mais antigos
-ricos-homens da Beira e Traz-os-Montes!... Emfim...
-o que eu não consinto é que da casa de Miranda vão
-matadores professos assassinar o marido de minha filha...
-São horas... Aqui tens um conto de réis em ouro.
-Parte, João; e escreve a dizer o que se passar. Dá muitos
-beijos a minha afilhada, e diz a minha filha... que
-lhe perdôo!</p>
-
-<p>O vigario ajoelhou diante de Ruy de Nellas, e clamou:</p>
-
-<p>—Deixe correr as minhas lagrimas de alegria sobre
-as suas mãos, meu nobre, meu virtuoso padrinho!</p>
-
-<p>—Não fiques agora ahi a chorar, homem!—Disse o
-velho, erguendo-o.—Aqui estou eu tambem...—proseguiu,
-enxugando os olhos.—Vai, que são horas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span></p>
-
-<p>A apparição do vigario na saleta da cadeia foi saudada
-com um brado de alegria. Cercaram-n’o todos, e
-beijaram-n’o todos.</p>
-
-<p>—Eu só dou beijos em creanças,—disse elle em tremores
-de exultação.—Sr.ª D. Christina deixe-me dar á
-sua filha os beijos do avô.</p>
-
-<p>—Fallou com o meu papá!—exclamou ella.—Está
-muito zangado contra o meu pobre Casimiro?</p>
-
-<p>—Isso está, minha senhora! zangadissimo, feroz!</p>
-
-<p>—Cuida que foi elle quem...—E reteve-se, relanceando
-os olhos ao marido, que a observava.</p>
-
-<p>—Não sei o que elle cuida...—volveu o padre. A
-ira do fidalgo subiu ao ponto culminante d’elle mandar
-ao sr. Casimiro um conto de réis para o custeio das
-suas despezas judiciarias. É onde póde chegar a ferocidade
-humana!</p>
-
-<p>—O sr. Ruy perdoou-me?—perguntou Casimiro mais
-recolhido que expansivo.</p>
-
-<p>—Se isto não é perdoar... A mim não me encarregou
-de lhe notificar o perdão; mas á sr.ª D. Christina
-manda dizer que está perdoada. Aqui teem o dinheiro,
-que é ouro, e rasga-me a algibeira da sotaina.</p>
-
-<p>Christina fez um gesto, significando ao padre que entregasse
-o dinheiro ao marido; Casimiro fez outro gesto,
-indicando Ladislau.</p>
-
-<p>—Então que resolvem?—disse o padre.</p>
-
-<p>—Resolve minha mulher,—disse Casimiro—que esse
-dinheiro passe ao poder do nosso mordomo, o sr. Ladislau
-Tiberio Militão de Villa Cova, em cujo cargo hemos
-por bem nomeal-o para lhe fazermos honra. Assim deve
-formular as suas nomeações quem tem, como eu, guarda
-de official á porta.</p>
-
-<p>Ladislau, sorrindo, respondeu:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span></p>
-
-<p>—A não servir de mais, deixem-me ser mordomo. Eu
-guardo o dinheiro, e darei contas.</p>
-
-<p>Relatou o padre a sua chamada a Pinhel, e o sentir
-do fidalgo, com a promessa das cartas para Lisboa, caso
-o exito do processo fosse funesto em primeira instancia.
-Acrescentou que Ruy de Nellas tinha muita confiança
-no valimento de sua irmã, na capital, a sr.ª condessa de
-Asinhoso.</p>
-
-<p>—É a primeira vez que ouço fallar n’essa irmã do sr.
-Ruy!—disse Casimiro.—Nunca me fallaste em tua tia,
-Christina.</p>
-
-<p>—Porque a tinha esquecido—respondeu a senhora.—Eu
-e minhas irmãs mais novas ainda ha poucos annos
-soubemos que tinhamos em Lisboa uma tia. Ignoro
-as desintelligencias que se deram entre ella e o papá,
-muito antes de eu nascer. O certo é que em nossa casa
-nunca se fallou em tal tia, e diante do papá seria perigoso
-fallar. Muito me espanta agora que elle queira escrever-lhe!
-Vejo que meu pai está mudado!</p>
-
-<p>—Sabe que desavença de familia foi essa, padre
-João?—perguntou Bettancourt.</p>
-
-<p>—Não, senhor. Ninguem o sabe em Pinhel. Apenas
-sei que em Lisboa viveu desde menina a irmã do sr.
-Ruy de Nellas, em companhia de um grande fidalgo seu
-tio, e mais os dous irmãos filhos segundos. Tambem sei
-que estes irmãos lá morreram, e que a sr.ª casou com o
-conde de Asinhoso. É o que eu sei d’um clerigo velho
-de Pinhel, que a viu em menina, e me disse ser ella
-vinte annos mais nova que o morgado. Deve hoje ter,
-portanto, a sr.ª condessa quarenta e seis.</p>
-
-<p>Sobre este incidente exhauriu-se aqui a pratica, em
-que Bettancourt, de condição scismadora em cousas
-mysteriosas, mostrava estar muito entretido.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span></p>
-
-<p>O patrono de Casimiro, sabendo que o sogro do seu
-cliente o protegia em Lisboa, e quasi seguro da condemnação
-do réu no tribunal conimbricense, inredou o
-processo de modo que, no caso de se provar o crime em
-jury, houvesse direito a pedir um recurso por nullidades,
-sem ser ouvido o tribunal da segunda instancia. A
-lei organisadora dos processos em Portugal, paiz de mais
-leis que tem o universo é uma corda bamba que se
-presta a saltos maravilhosos sob o pé d’um habil volatim.
-«Vai o processo para Lisboa, dizia o jurisconsulto,
-e lá, se o braço fôr forte, os autos vem arremessados á
-cara do juiz, e o juiz dá alvará de soltura ao preso.»</p>
-
-<p>Este salvador intento do causidico foi revelado a Casimiro,
-com grande alegria, pelo vigario. E o preso respondeu:</p>
-
-<p>—Não quero! diga-lhe que não quero! Ha-de ser a
-lei, sem coacção, sem torcedura, sem vexame de poderosos,
-que me destrancará aquellas portas. Mas que digam
-ser dolorosa a experiencia: não importa. Quero experimentar
-até que ponto um réu innocente póde ser
-torturado. Hei de ir de condemnação em condemnação,
-até poder dizer: «Acuda-me a justiça divina, que a dos
-homens é infame!»</p>
-
-<p>—Mas—atalhou o padre—se as provas são taes que
-a lei tem de forçosamente o reconhecer criminoso?</p>
-
-<p>—Não são tal! As provas permittem que as destrua
-o ardil d’um habil jurisconsulto. É isto certo?</p>
-
-<p>—É.</p>
-
-<p>—Pois bem: eu quero que a lei as anniquile, e não
-a trapaça: que este acto se cumpra á luz do sol, á luz
-de todas as consciencias, que me condemnam. Que faz
-que as influencias poderosas me libertem, se o mundo
-ha de dizer: «salvaram-no as influencias! o ferrete de<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span>
-homicida lá o tem na testa!» Não quero, sr. padre
-João! Agradeça ao compadecido patrono: mas avise-o
-de que eu serei no tribunal o interprete mais severo da
-lei contra mim.</p>
-
-<p>O advogado, quando tal ouviu, pasmou e disse:</p>
-
-<p>—É um doudo maior da marca, este homem! Creia
-que irá da cadeia para a enfermaria dos alienados!</p>
-
-<p>E proseguiu:</p>
-
-<p>—É vergonha fazer-lhe eu uma pergunta, sr. padre
-João: Casimiro Bettancourt, matou um homem e espancou
-o outro?</p>
-
-<p>O padre não respondeu. E o advogado repetiu:</p>
-
-<p>—Matou ou não?... Pois o senhor cala-se a esta
-pergunta?</p>
-
-<p>—Calo, sim, sr. doutor. Não posso responder.</p>
-
-<p>—Está claro! Outro doudo!... Que esquisita familia
-é esta! Já fiz a mesma pergunta á mulher do preso:
-silencio! Interroguei Ladislau Tiberio: silencio... O
-sr. padre João Ferreira...</p>
-
-<p>—Silencio!—atalhou o vigario.</p>
-
-<p>—Nem a mim, que sou seu advogado—tornou com
-azedume o doutor—ha uma pessoa que me diga matou
-ou não!...</p>
-
-<p>—Ha—disse um academico que entrava.</p>
-
-<p>—És tu?—perguntou o advogado a Guilherme Lira.</p>
-
-<p>—Sou eu. Casimiro Bettancourt não matou. Tu vaes
-advogar a causa do homem mais honrado e innocente
-do mundo!</p>
-
-<p>—Posso dar-te como testemunha, Lira?</p>
-
-<p>—Da sua honra e innocencia? podes; mas não me
-cites, que eu... ouve-me... eu hei de tirar Casimiro
-da forca.</p>
-
-<p>—Santo Deus!—exclamou o vigario, lavado de subito<span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span>
-suor.—Da forca! Pois é caso de sentença ultima?</p>
-
-<p>—Se a sentença ultima é inapplicavel n’este caso,—disse
-o advogado—não sei onde está no codigo penal o
-crime condigno! Mas não se falla aqui em forca...
-pensemos...</p>
-
-<p>—Não pensemos...—interrompeu Lira—Deixa correr
-o tempo que pensa por nós.</p>
-
-<p>Padre João foi contar a Casimiro o que ouvira em
-casa do lettrado, citando o nome de Lira.</p>
-
-<p>O academico recolheu-se, voltou a face, e o sentido
-apparentemente, sobre outro assumpto, e disse em sua
-mente:</p>
-
-<p>—Que intenta fazer aquelle desgraçado?</p>
-
-<p>Pergunta que o leitor se digna fazer-me e espera a
-resposta.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span></p>
-
-<h2>XIV<br />
-<span class="smaller">Episodio</span></h2>
-
-<p>O padre João Ferreira escrevia miudamente ao fidalgo
-de Pinhel, e o mesmo Christina, bem que Ruy de Nellas
-tão sómente respondesse ao padre, accusando a recepção
-das cartas da filha, com a incumbencia de dizer
-a Christina que lhe eram agradaveis as suas lettras. De
-Casimiro Bettancourt só dizia o necessario, attinente ao
-processo.</p>
-
-<p>Entre o velho e D. Sueiro corria declarada inimisade.
-Já o de Miranda sabia que o seu sogro protegia Casimiro.
-Escrevera-lhe altivo reprovando amargamente a
-incongruencia do seu proceder. O de Pinhel respondeu
-que o marido de Christina padecia innocente, e D. Alexandre
-mentia imputando-lhe a morte do faccinoroso,
-de que elle villãmente se acompanhava. Replicou raivoso
-D. Sueiro, doestando o sogro, e ejaculando phrases
-de lacaio a proposito do lustre de sua raça, sujada por
-um parente, <i>posto que remoto garfo de seu tronco</i>. As
-palavras sublinhadas affrontaram gravemente Ruy de<span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span>
-Nellas! Este repto, quinhentos annos antes, daria de si
-guerra a ferro e fogo, entre os dous ricos-homens. Mas
-agora, n’este tempo de calmaria podre, em que as injurias
-se castigam na policia correccional com multa de
-dez tostões e custas do processo, Ruy de Nellas rebateu
-a provocação com outras não menos pungentes que certeiras
-injurias. E foi grão-caso perguntar-lhe o velho se
-a Madre Nazareth, fugida do mosteiro de Lorvão, em
-1810, e agarrada por ordem regia nas encruzilhadas do
-inferno, e mettida no tronco para se depurar dos vicios,
-seria um garfo meritorio do tronco dos Parmas d’Eça ao
-qual elle Ruy de Nellas se glorificava de ser estranho?
-Chegadas a tal extremo as insolencias, a reconciliação
-era impossivel, apesar mesmo das frias tentativas de
-D. Guiomar, que nunca fôra amorosa filha nem irmã.</p>
-
-<p>As cartas do padre ao fidalgo aventavam como certo
-o mau resultado do pleito em Coimbra, e invocavam o
-patrocinio de Ruy para que em Lisboa o supremo tribunal
-ou o poder moderador dirimissem a sentença condemnatoria.</p>
-
-<p>Teve Ruy de Nellas como acêrto escrever desde logo
-a sua irmã, convidando-a a esquecerem o passado, para
-ir assim predispondo-a a mais de vontade o servir. A
-condessa de Asinhoso respondeu com muito amor ao irmão,
-lastimando que elle recusasse a sua amisade tantas
-vezes, em diversos tempos, offerecida; e accrescentava:
-«Eu não podia odiar o mano Ruy, que nenhuma
-parte tomou nos supplicios que me fizeram. Os algozes
-já estão na presença de Deus!»</p>
-
-<p>—Ainda não está arrependida!...—disse entre si o
-fidalgo, relendo aquelle periodo.—Mulheres, mulheres!...—accrescentou
-sacudindo a cabeça.</p>
-
-<p>Estranhará o leitor, que entre aqui mal cabido o episodio<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span>
-de umas aventuras de D. Eugenia de Nellas, condessa
-de Asinhoso. Conto, porém, com a sua attenção;
-e peço licença para me desvanecer de apontado em não
-me desviar da historia principal, sem ao depois me justificar
-do defeito.</p>
-
-<p>D. Frederico de Paim e Lucena, tio materno de Ruy,
-vivia na capital, e muito no Paço, gozando as suas numerosas
-commendas, solteiro, septagenario, e abastado.</p>
-
-<p>Corria por sua conta a educação palaciana de dous
-sobrinhos, Vasco e Gonçalo, irmãos de Ruy.</p>
-
-<p>Eugenia, muito mais nova que seus irmãos, sahiu
-tambem de Pinhel, aos doze annos, em 1806, para ser
-educada em convento, visto que sua mãe tinha morrido,
-e sua cunhada a tractava asperamente.</p>
-
-<p>Em 1811 sahiu a menina do collegio para casa de
-seu tio. Eram uns dezoito annos superabundantes de
-quantas graças feminis, raras vezes, a inspiração divina
-segréda aos creadores que dizem á tella ou ao marmore
-o seu <i>fiat lux</i>, e o marmore e a tella desentranham em
-Fornarinas de Raphael, em Collonas como as de Angelo,
-em Venus como as de Praxiteles. D’estas, o artista,
-o que não é artista, o homem de coração e sêde do
-bello, diz: «fel-as o cinzel ou o pincel dos anjos!» de
-Eugenia diria o artista, o amador, o poeta, o moço ardente,
-o ancião esquecido de seus ardores, diriam todos:
-«é um bafejo de Deus, uma alma vestida das perfeições
-materiaes, privativas do céu, se no céu podem conceber-se
-fórmas corporeas!»</p>
-
-<p>Foi Eugenia requestada por consideraveis senhores da
-côrte. D. Frederico respondia aos que solicitavam sua
-mão: «Minha sobrinha é orphã de pai e mãi. Casará á
-sua escolha. Intenda-se com ella quem houver de ser
-seu marido, que eu lavo as mãos d’ahi.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span></p>
-
-<p>Boa resposta; mas Eugenia repellia delicadamente os
-pretendentes, as maviosidades, e as soberbas feridas na
-resistencia.</p>
-
-<p>Pois tão dotada e fadada para amar, Eugenia era assim
-de refractaria condição ao bem supremo da vida?
-Dar-se-ha que o seu peito seja dentro de alabastro como
-se afigura no exterior?</p>
-
-<p>Não; o mesmo amor de que a julgam inimiga é quem
-a incrueceu assim contra os aulicos, os ricos, os soberanos
-da galanteria d’aquelle tempo.</p>
-
-<p>Amava Eugenia, e amava desatinadamente. O eleito
-de sua alma era um alferes de cavalleria, amavel de figura,
-composto de encantos; mas sem fôro grande nem
-pequeno, sem amigos das primeiras casas do reino, sem
-nome, que, ao menos, recordasse um general illustre,
-um lidador distincto das ultimas pelejas grandes da patria
-com os estranhos. Um mero e simples alferes, pallido,
-só, melancolico, e timido debaixo dos olhos d’ella.</p>
-
-<p>O palacio de D. Frederico de Paim era na rua de
-Santa Barbara. O alferes passava alli duas vezes em
-cada dia, e alguns dias duas vezes em cada hora.</p>
-
-<p>E ella via-o sempre, esperava-o sempre, esperava-o
-até mais vezes do que o via. Gonçalo e Vasco viam-no
-tambem, e diziam:</p>
-
-<p>—A assiduidade d’este homem!... Que cuidará elle,
-ou que cuidará nossa irmã!</p>
-
-<p>Indagaram pela rama; e, em occasião opportuna, disseram
-a Eugenia:</p>
-
-<p>—Olha que o militar que vês ahi passar, e procuras
-vêr, é um biltre, que principiou soldado. Sirva-te isto de
-governo, e lembra-te que és Eugenia de Nellas Gamboa
-de Barbedo.</p>
-
-<p>A menina, se a revelação a envergonhasse, córaria;<span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span>
-se o coração lhe doesse, impallideceria; ora, como nem
-córou nem impallideceu, é razão presumir que o seu
-pudor e coração ficaram illesos; e, depois, concluir que
-ella, assim mesmo, amava-o sem pejo da baixeza d’elle
-nem vangloria de seus appellidos. Concluam assim que
-tem a maxima probabilidade do acêrto.</p>
-
-<p>E o alferes continuou a passar na Rua de Santa Barbara,
-e a surgir no alto da collina da Penha de França,
-d’onde Eugenia do seu miradouro o avistava.</p>
-
-<p>D. Frederico, avisado pelos sobrinhos, disse que estava
-seguro do bom siso de Eugenia; mas, por cautella,
-na primavera de 1815, quando a menina já entrava nos
-seus vinte annos, foi passar seis mezes á sua quinta de
-Camarate.</p>
-
-<p>—O remedio prudente é este—disse o velho aos sobrinhos.—Não
-façamos alarido, que ha casos de frageis
-avesinhas, espavoridas por algazarras, romperem os arames
-da gaiola.</p>
-
-<p>Quando isto foi, já o alferes se carteava com Eugenia,
-mediante a aia, que viera de Pinhel.</p>
-
-<p>A passagem para Camarate aggravou a infermidade.
-Convem saber que ha casos em que o amor, o mais sadio
-e rosado dos deuses, se chama «infermidade». Exemplo:
-amarem-se duas pessoas, divorciadas pelo acaso do
-nascimento ou da riqueza, é infermidade; amarem-se,
-porém, um casal de ricos, de nobres, de ralé social, ou
-de mendicantes, isso sim é amor, que é saude, e só póde
-adoecer, n’uns, em hidropesia de tedio, n’outros, em resiccação
-de fome.</p>
-
-<p>A quinta de Camarate era um arvoredo, que competia
-com o reinado de D. João III. Fôra plantado e alinhado
-por D. Mem Vasques de Lucena, sumilher de
-El-Rei, e aio do infante D. João, pai de D. Sebastião<span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span>
-Era memoria que aquellas arvores, ainda tenras, tinham
-visto os amores de D. João III com D. Izabel Moniz,
-moça da camara da rainha D. Leonor, amores que deram
-de si o principe, arcebispo de Braga, D. Duarte,
-que morreu na flor dos annos. Para alli diziam os Lucenas
-que o monarcha transferira a dama, odiosa á rainha.</p>
-
-<p>Parecia, pois, que a folhagem do arvoredo estava rumorejando
-uma chronica de reaes amores.</p>
-
-<p>As fontes respondiam ás arvores, as aves ás fontes,
-as borboletas dialogavam com as flores, as flores trahiam
-com a viração as borboletas: era tudo alli um suspirar,
-um ouvir-se muito interno harpas e córos, symphonias
-aerias, milhares de pronunciações confusas da terra, dizendo
-todas «amor»!</p>
-
-<p>E para onde elles levaram Eugenia, que já comsigo
-levava a saudade!—a saudade, verdugo que mata acariciando,
-corda de estrangulação tecida com fios de ouro,
-segredo que Lucifer, ao despenhar-se, roubou do céu,
-e nunca mais restituiu!</p>
-
-<p>Alli é que o amor pegou d’ella com violenta mão,
-sendo que até áquelle dia lhe fôra sempre mão cheia
-de meiguices e serenas esperanças.</p>
-
-<p>Gonçalo e Vasco julgaram sua irmã segura, e ficaram
-por Lisboa, onde tinham seus affectos, e suas devassidões.
-O velho, contente com as suas arvores, e
-com a menina, que lhe ouvia a menos edificativa lenda
-dos amores de D. Izabel Moniz, não sahia de Camarate.</p>
-
-<p>Á noite, assim que a brisa esfriasse, D. Frederico digressava
-do jardim, dava um osculo em sua sobrinha,
-e fechava-se em seus aposentos.</p>
-
-<p>Ora, depois ainda, a menina ficava sentada no banco
-rustico, resguardada de sycomoros, aspirando as baunilhas,<span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span>
-sacudindo as granulações das pimenteiras, ou
-devaneando pela via lactea fóra, de constellação em
-constellação, com os olhos lá, e o coração na terra proxima,
-no muro da quinta por onde o alferes subia. E
-não se atemorisava dos plátanos gigantes nem das danças
-macabras das sombras, agitadas pelo vento da alta
-noute!</p>
-
-<p>Á uma hora rugia a folhagem debaixo dos seus pés
-nas ruas ladeadas de murtas; os molossos lambiam-lhe
-as mãos, sorvendo os latidos ferozes; as avesinhas acordavam
-e saudavam-na ao passar; o rouxinol das cinceiras
-soltava as notas mais dilectas; e ella ia á gruta conhecida,
-e esperava com a mão no seio como quem diz
-ao coração: «Espera, ditoso impaciente!»</p>
-
-<p>Ao abrir da manhã de 16 de agosto d’este anno de
-1815, Eugenia ouviu quatro tiros nas cercanias da quinta,
-e tremeu, tremeu até cahir de joelhos.</p>
-
-<p>D’ahi a pouco estrondearam os argolões do portão da
-quinta. A aia entrou ao quarto da menina, e disse:</p>
-
-<p>—Chegaram seus irmãos. O senhor Gonçalo vem ferido
-n’um braço: já foi chamar-se o cirurgião ao Lumiar.</p>
-
-<p>Gonçalo e Vasco estrenoutaram o tio, e fecharam-se
-com elle. O que ahi disseram collige-se dos successos
-seguintes.</p>
-
-<p>Durante o dia, Eugenia não viu seus irmãos nem tio.
-Sabia que se faziam preparativos de viagem. Mandou
-indagar dos caseiros o que seriam os tiros da madrugada.
-Os cazeiros tinham ouvido as detonações, e a estropeada
-de cavallos. Estaria morto o alferes?</p>
-
-<p>—Matal-o-hiam?—perguntava Eugenia á sua aia—e,
-depois, ousava perguntal-o a Deus.</p>
-
-<p>Se ella podesse ouvir este dialogo dos irmãos...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_184" id="Page_184">[184]</a></span></p>
-
-<p>—Chego a duvidar que as pistolas tivessem ballas—dizia
-Gonçalo.</p>
-
-<p>—Carreguei-as eu—afirmava Vasco.</p>
-
-<p>—E foi-se a salvo!</p>
-
-<p>—Quem sabe?!</p>
-
-<p>—Não o viste correr sobre nós, e desfechar de perto,
-e retirar-se muito a passo? E depois não o avistaste a
-subir a charneca sobre o cavallo?</p>
-
-<p>—Vi.</p>
-
-<p>—Como queres tu que elle fosse ferido!?—retorquiu
-Gonçalo—Com meia pollegada á esquerda, o canalha
-mettia-me a bala na cintura—dizia elle levando a mão
-ao ante-braço direito—Eu é que estou ferido devéras...
-Não contávamos com isto, Vasco! O homem tem fibras!</p>
-
-<p>Ao fim da tarde, sahiu da cocheira uma caleça de
-jornada apposta á parelha de machos.</p>
-
-<p>N’esta occasião foi chamada á presença de seu tio,
-que mansamente lhe disse:</p>
-
-<p>—Se tivesses pai ou mãi, mandar-te-ia para elles, sem
-te dizer a razão: tu a saberias de mais, e eu me pouparia
-á dôr e pejo de repetil-a. Entrego-te a teus irmãos.
-D’elles te defendi alguma vez; agora estou desarmado
-pelo teu proceder. Disse de mais. Ahi fóra está posta a
-caleça para conduzir-te a outra parte, segundo vontade
-de Vasco. Não vai Gonçalo, que está ferido da bala do
-homem que saltava os muros da minha quinta, com teu
-consentimento. Adeus, Eugenia.</p>
-
-<p>D. Frederico entrou rapidamente no seu quarto, contiguo
-á sala, e fechou-se a chorar.</p>
-
-<p>Vestiu-se Eugenia soluçante, e cobrou animo, quando
-viu que a sua aia se preparava. Entraram ambas na
-caleça, onde as seguiu Vasco. Chegaram de noute a<span class="pagenum"><a name="Page_185" id="Page_185">[185]</a></span>
-Lisboa, e pararam á porta do palacio de D. Frederico.</p>
-
-<p>Vasco mandou descer a aia de sua irmã, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Sobe; diz ao mordomo que te pague; e vai á tua
-vida.</p>
-
-<p>—Onde vai ella?!—gritou Eugenia.</p>
-
-<p>—Não queremos gritos—atalhou o irmão.—Pica, bolieiro!</p>
-
-<p>As mulas galoparam até entrarem á estrada do Beato
-Antonio, onde Vasco de Nellas cavalgou, adiantando-se.</p>
-
-<p>A jornada de Eugenia durou dous dias e meio. Parou
-a carroça diante de um palacete velho, em Recaldim,
-no termo de Torres Novas. Era ali uma grossa commenda
-de D. Frederico, casa chamada da «renda», habitada
-pelos Pains de Lucena, quando, desgostosos da destronisação
-de Affonso VI, se affastaram da côrte.</p>
-
-<p>Entrou Eugenia a um grande salão decorado como o
-deixaram seus avós, quando voltaram a Lisboa.</p>
-
-<p>A tranzida menina sentiu frio e medo.</p>
-
-<p>Surdiu-lhe logo, de sob a orla de um reposteiro de
-côr inqualificavel, uma creatura, ao que parecia, femeal.
-Dirieis que uma cuvilheira dos Lucenas, adormecida em
-1680, ao sahirem seus amos, acordára como Epimenides,
-cento e trinta annos depois, e estremunhada sahira
-ao salão para vêr qual das fidalguinhas Pains estava
-a soluçar.</p>
-
-<p>Eugenia encarou-a, e estremeceu.</p>
-
-<p>—Entrou a velha, fez tres mesuras, e disse:</p>
-
-<p>—Guarde Deus a v. ex.ª</p>
-
-<p>—Adeus—murmurou Eugenia.</p>
-
-<p>—Em quanto não chegam as outras creadas—tornou
-a creatura com ares benignos—a fidalga queira mandar-me<span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span>
-em seu serviço. Eu fui ama de leite de sua mãezinha,
-que foi casar a Pinhel.</p>
-
-<p>Estas palavras reanimaram Eugenia, que se aproximou
-voluntariamente da velha, em quanto ella continuava:</p>
-
-<p>—V. ex.ª é o retrato d’ella: já o sabia por m’o dizer
-o sr. Frederico; mas eu estou aqui ha quarenta annos
-desde que ella casou. Seu avô, o sr. D. Carlos
-de Lucena, mandou-me para Recaldim com ordenado
-e casa para a velhice. Já quiz botar-me por essa
-estrada fóra, até Lisboa, só para ver a filha da minha
-menina; mas a carga dos annos, oitenta bons, não
-se leva onde a gente quer. Fiquei agora atonita, quando
-vi entrar o menino Vasco, e me disse: «minha irmã
-vem aqui estar algum tempo. Ámanhã chegam outras
-creadas, que ficam debaixo da sua vigilancia, e um creado
-que lhe transmittirá as minhas ordens.</p>
-
-<p>—O mano já sahiu?—atalhou Eugenia.</p>
-
-<p>—Chegou ás quatro, e sahiu ás cinco horas da manhã.
-Admiro que v. ex.ª o não encontrasse... Então é
-que foi pelo caminho de baixo.</p>
-
-<p>Eugenia, n’um impeto de confiança, abraçou-se na
-velha, e exclamou:</p>
-
-<p>—Por alma de minha mãi, vale-me?</p>
-
-<p>—Se lhe valho, meu serafim? que quer v. ex.ª da
-sua serva humilde?</p>
-
-<p>—Queria escrever uma carta.</p>
-
-<p>—Ó menina, isso barato é de fazer; mas o rendeiro
-da commenda anda á cobrança, e levou a chave da sala,
-onde está o tinteiro e o papel.</p>
-
-<p>—Pois nem um bocadinho de papel?!... Não tem
-um livro?...</p>
-
-<p>—Livro tenho as minhas <i>Horas</i> e o <i>Retiro Espiritual</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span></p>
-
-<p>—Deixa-me vêr se ha uma lauda em branco?</p>
-
-<p>O <i>Retiro</i> tinha a folha do ante-rosto surrada, mas
-susceptivel de receber caracteres. Eugenia despregou um
-alfinete, picou o dedo indicador, apertou-o até bolhar
-sangue. Depois com a cabeça do alfinete embebida, escreveu:</p>
-
-<p><i>Estou em Recaldim, perto de Torres Novas, na commenda
-do tio. Aqui morrerei.</i> Voltou-se com recrescente
-vehemencia para a velha, e disse:</p>
-
-<p>—Dá-me um bocadinho de pão para eu fechar este
-bilhete?</p>
-
-<p>—Sim, minha menina.</p>
-
-<p>Mastigou o pão, fechou o bilhete e subscriptou-o.</p>
-
-<p>—E agora?—tornou ella—o peor é agora...</p>
-
-<p>—Que queria v. ex.ª?!</p>
-
-<p>—Que me levasse esse bilhete a Lisboa.</p>
-
-<p>—A Lisboa? A menina não sabe o que é ir a Lisboa!
-São dous dias e meio de jornada, andando de noute
-duas horas.</p>
-
-<p>—Não importa... Eu pago...</p>
-
-<p>—Mas pagar a quem, meu anjinho do Senhor? Ora
-venha cá... isto é paixão?</p>
-
-<p>—Paixão de morrer, minha amiga...</p>
-
-<p>—Chame-me sua creada Brites. Paixão para bem ou
-para mal?</p>
-
-<p>—Eu queria casar-me com elle; mas meus irmãos
-perseguem-nos.</p>
-
-<p>—Eu logo vi que a vinda de v. ex.ª era cousa de
-amor... O seu adonis não é fidalgo pois não?</p>
-
-<p>—Não é...</p>
-
-<p>—Logo vi... E é pessoa de bom porte?</p>
-
-<p>—É um alferes de cavalleria, muito bom de coração,
-muito gentil, a minha paixão unica, o meu disvello de<span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span>
-ha tres annos, a minha vida... e será a causa da minha
-morte.</p>
-
-<p>—Coitadinha! Deus o fará melhor. Então quer a
-menina que elle saiba que a trouxeram para aqui?</p>
-
-<p>—Sim, queria.</p>
-
-<p>—Então, deixe estar, que eu de hoje até ámanhã,
-hei de cogitar no caso. Pediu-me isso por alma de sua
-mãi, eu só se não poder de todo em todo. Quem me
-ha de levar a cartinha, se as contas me não falham, ha
-de ser o cocheiro da caleça; mas o peor é não termos
-outro papel... Ora espere, que eu tenho alli uma sentença
-que me cá deixou meu sobrinho, que andava a
-aprender a ler. Tinta arranja-se sem a menina furar os
-seus mimosos dedinhos. Com uma pouca de felugem da
-chaminé e vinagre, faz-se tinta. Penna, vai se tirar uma
-de gallinha, e com uma faca fazem-se-lhe os bicos.</p>
-
-<p>A sr.ª Brites em tanto tempo quanta era a anciedade
-de Eugenia, veio com tudo a ponto: meia folha de
-papel sellado do tempo de D. João V, uma tigella com
-a dissolução de felugem em vinagre, uma penna de galinha,
-e a faca mais afiada.</p>
-
-<p>Eugenia, se se não uzasse o aparo das pennas, tel-o-ia
-inventado n’essa occasião.</p>
-
-<p>Estava tudo em ordem. Sorveu a sr.ª Brites uma pitada
-de esturrinho, e disse:</p>
-
-<p>—Escreva lá v. ex.ª</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span></p>
-
-<h2>XV<br />
-<span class="smaller">Continuação</span></h2>
-
-<p>D. Eugenia escreveu o que dictava Brites:</p>
-
-<p>«Minha sobrinha. Logo que esta receberes, sem
-demora de tempo, vai tu mesma em pessoa pessoalmente...»</p>
-
-<p class="tb">—Onde é que ella ha de ir levar a carta?—perguntou
-Brites.</p>
-
-<p>—Ao quartel de cavalleria a Alcantara.</p>
-
-<p>—Escreva, meu serafim:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>«Vai ao quartel de cavalleria a Alcantara, e entrega
-o bilhete, que vai dentro d’esta, á pessoa que lá diz por
-fóra...»</p>
-
-</div>
-
-<p>—Eu—interrompeu-se Brites atacada de modestia—não
-tenho muito geito para notar cartas; mas o que a
-gente quer é que nos entendam.</p>
-
-<p>—Vai muito bem—disse Eugenia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span></p>
-
-<p>—Pois ponha lá:</p>
-
-<p>«Toma conta que a não vás entregar a outra pessoa;
-e da resposta que houver escreve-me para Torres Novas.
-Sem mais enfado, tracta d’isto como coisa de muita...
-de muita...»</p>
-
-<p class="tb">—Ponha lá a menina uma palavra, que diga...
-sim... que diga que é cousa de muita aquella.</p>
-
-<p>—De muita consideração.</p>
-
-<p>—Isso mesmo.</p>
-
-<p>Eugenia sobrescritou á sr.ª Apollinaria dos Martyres,
-na calçada dos Barbadinhos, n.º 21—quinto andar á
-esquerda.</p>
-
-<p>A irmã de Ruy de Nellas abraçou-se na ama de sua
-mãi, e clamou:</p>
-
-<p>—Cuidei que estava mais desamparada. Ha almas
-boas em toda a parte, louvado seja o Altissimo!</p>
-
-<p>—<i>Amen</i>—respondeu christãmente a sr.ª Brites, e foi
-á cosinha, onde o bolieiro estava jantando para voltar
-com a caleça ao fim da tarde.</p>
-
-<p>—Vm.ᶜᵉ faz-me o favor de entregar em Lisboa uma
-carta á minha sobrinha? Aqui vae o nome e a rua. Se
-lhe não custa...—disse a velha.</p>
-
-<p>—Não me custa nada, tia Brites; mas dobre-me a
-porção de vinho.</p>
-
-<p>—Ahi vai, homem. Beba; mas não desatreme, nem
-me perca a minha cartinha.</p>
-
-<p>—Fique certa, que de hoje a tres dias por estas horas,
-já está nas mãos da dita supplicanta. Diz ella tudo
-pelo claro nas costas?</p>
-
-<p>—Vai tudo pelo claro.</p>
-
-<p>—Então, metta-m’a ahi no bolso da jaqueta, e carregue-me
-o copo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span></p>
-
-<p>Foi a carta entregue á sr. Apollinaria, e o bilhete ao
-alferes de cavalleria, o qual, segundo veridicas informações
-da engommadeira da rua dos Barbadinhos, chorou,
-e vasou as algibeiras nas mãos tolerantes da sr.ª Apollinaria.</p>
-
-<p>Escreveu o alferes uma longa carta a D. Eugenia.
-Principiava contando a descarga de dous tiros inuteis
-que lhe déram. Disse não conhecer as pessoas, que lhe
-atiraram, por virem rebuçadas, e estar ainda a limpar
-a manhã. Contou que o não feriram; mas suppunha
-elle ter sido mais certeiro na pontaria. Acrescentava
-que ia ser removido para Bragança, por intrigas e influencia
-dos irmãos de Eugenia; e declarava-se, a final
-tão desgraçado e desprovido de recursos, que não podia
-ir arrebatal-a das mãos da sua cruel familia, sem desertar,
-e collocar-se na precisão de ir perecer de miseria
-com ella em reino estrangeiro. Pedia-lhe, em summa de
-tudo, animo, e esperança.</p>
-
-<p>Leu Eugenia a carta com profundo desgosto.</p>
-
-<p>«Não me terá elle amor?!»—disse ella entre si.</p>
-
-<p>Viu-a chorar a devotada Brites, e pediu-lhe o favor
-de lhe ler a carta. Quiz ouvil-a segunda e terceira vez.
-Consolidou as suas convicções com uma pitada e disse:</p>
-
-<p>—Esse rapaz, quem quer que elle seja, tem tino na
-cabeça, e pensa bem. A menina por que chora?</p>
-
-<p>—Nem sequer falla em vir vêr-me!...</p>
-
-<p>—Pois se o pobre homem vai de marcha lá para cascos
-de rolhas, como quer a fidalga que elle deserte ás
-bandeiras, e venha aqui? E depois? que seria d’elle? e
-a sorte da minha flor do céu, era muito melhor!?...</p>
-
-<p>Pudéram muito com D. Eugenia as razões de Brites, e
-mais ainda a promessa de tomar a velha á sua conta a
-correspondencia segura entre Bragança e Torres Novas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span></p>
-
-<p>Era chegado o momento de uma confidencia, que tem
-sido o balsamo de piedade em coração de pais lacerados,
-pela ira e pela deshonra: não será muito que o leitor,
-invocado a julgal-o O BEM E O MAL d’esta serie de
-biographias, dê sua piedade á desventura culpada, assim
-como tem dado suas bençãos á virtude sem nodoa. Ha
-crimes repulsivos; o engenho mais abalisado, a philosophia
-mais bem fingida, sob capa de verdade, tenta em
-balde mover-nos á compaixão do delinquente, em quanto
-o retalhar do remorso o não fez delir com lagrimas o
-stygma que a moral lhe assignalou: outros crimes, porém,
-são de si, e por vontade divina, sympathicos não
-direi; mas, se a ré se pranteia, e se olha em seu seio,
-e exclama: «Ó meu Deus! hei de eu espedaçar em
-respeito ao mundo este filho, que é o meu amor e o
-meu opprobrio?... hei de eu abafar o grito da minha
-consciencia e coração, para que o mundo me veja um
-rosto limpo, um rosto lavado no sangue do meu filho?...»
-Quando a mulher assim falla a Deus, a misericordia
-divina dá-lhe um anteparo contra as injurias do mundo;
-e o mundo, se lhe adivinha as dôres, e o mimo d’aquella
-paixão, á qual só falta um sacramento para ser santa,
-o mundo perdoa-lhe, embora a repulse do contacto das
-almas candidas, das suas filhas, das suas esposas, das
-suas irmãs, que Deus permitta não humilhem com maiores
-desprezos a desgraçada que é mãi.</p>
-
-<p>É, pois, chegado o momento da confidencia. Quem
-a recebe é a consternada velha, que vira nascer a mãi
-d’aquella menina. Até áquelle momento, Brites estivera
-longe de imaginar um erro n’aquelles amores: julgava-os
-na sua maxima pureza. Descem lagrimas nas rugas dos
-oitenta annos, lagrimas de bom agouro, que deixam mais
-livre o accesso á piedade. Eugenia cuida que o revelar-se<span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span>
-aos irmãos lhe dará um esposo, lhe será redempção
-de ignominia.</p>
-
-<p>—Não, minha infeliz senhora, não!—exclama a velha.</p>
-
-<p>E conta-lhe tres identicas e desventurosas historias,
-que ella presenciou em sessenta annos de serviço
-n’aquella familia: tres mulheres sepultadas em conventos,
-onde nunca entrou raio de contricção nem conforto.</p>
-
-<p class="tb">O alferes sabe em Bragança as agonias de Eugenia,
-e sente n’alma o estylete excruciante da expiação. Nenhuma
-morte sustenta o parallello com as flagellações
-de seis mezes, soffridas a tantas leguas de distancia.</p>
-
-<p>Eugenia recebe o ar e a luz pela janella do seu quarto
-unicamente. Teme-se da observação das creadas, que
-lhe espiam os passos, em suspeitarem de Brites. A velhinha
-tudo provê e prevê; mas, a intervallos quer morrer,
-antevendo as agonias da hora improrogavel, da hora
-em que o grito de afflicção rompe atravez das mãos da
-vergonha, que tentam suffocal-o.</p>
-
-<p>Era no mez de dezembro de 1816.</p>
-
-<p>O alferes lançou-se aos pés do general da provincia
-de Traz-os-Montes, que demorava em Bragança n’essa
-occasião. Abre-lhe sua alma, em torrentes de pranto. O
-velho general chora, e diz:</p>
-
-<p>—Tenho rigorosas recommendações a seu respeito;
-mas vá, peça-me licença para ir ver sua familia. Dou-lh’a
-por quinze dias. Vá, embora eu tenha de soffrer.</p>
-
-<p>O alferes vestiu habitos paisanos e desceu a Torres
-Novas. Alli vestiu-se de mendigo, simulou uma paralisia
-de braços, e pediu gasalhado em Recaldim. Trocou ligeiras
-palavras com Brites, e não viu Eugenia. Voltou
-á albergaria do commendador algumas noutes. Os creados
-contemplavam-n’o, e diziam:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span></p>
-
-<p>—Tão novo e tolhido de braços!</p>
-
-<p>As creadas accrescentavam:</p>
-
-<p>—E não havia de ser feio!</p>
-
-<p>Na noute de quinze de janeiro, por volta de onze horas,
-abriu-se a porta da albergaria, entrou Brites com a
-face alagada de suor e lagrimas. O alferes formou entre
-os braços com as dobras da capa de mendigo uma caminha
-de farrapos, recebeu um menino, e sahiu. A duzentos
-passos estava o leal camarada do official, com um
-cavallo á redea. O alferes cavalgou, o auxiliar saltou á
-anca do cavallo, e partiram.</p>
-
-<p>Em Torres Novas alimentaram o recemnascido. Proseguiram
-até Santarem, onde foi baptisado sete dias depois.
-Alli veio uma ama do Cartaxo, e o levou comsigo.</p>
-
-<p>Estava a expirar a licença. O alferes entrou no quartel,
-á ultima hora, e beijou as mãos do general, dizendo:</p>
-
-<p>—Dei-lhe o nome de v. ex.ª. Ahi me fica a memoria
-da sua commiseração, general!</p>
-
-<p class="tb">D. Eugenia de Nellas, dous mezes depois d’estes successos,
-recebia uma carta de seu irmão Vasco, participando-lhe
-que ia casar com uma titular brazileira, agraciada
-pelo sr. D. João VI, e convidava sua irmã a
-acompanhal-o á côrte do Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>D. Eugenia respondeu que queria viver e morrer no
-seu desterro de Recaldim.</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>«Bem sei—replicou Vasco.—Bem sei...—Brevemente,
-se quizeres salvar o amante, mudarás de resolução.»</p>
-
-</div>
-
-<p>Decorreram alguns mezes. Instaura-se processo a Gomes
-Freire de Andrade. São presos os cumplices da conspiração,<span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span>
-e os suspeitos cumplices. O alferes é chamado
-a Lisboa, e recolhido ao castello de S. Jorge, como indiciado
-nos planos subversivos do general Freire de Andrade.
-São os Lucenas que tramam a bem agourada perdição
-do alferes.</p>
-
-<p>Eugenia é avisada do encarceramento do alferes.</p>
-
-<p>A faca apontada ao peito da timida senhora é um dillema:
-se ella persiste em ficar, o alferes morrerá; se vai
-para o Brazil, o réu absolvido.</p>
-
-<p>Eugenia vai para o Brasil, o alferes, sem saber porque
-o accusam, nem porque o absolvem, sahe do castello
-e entra nas fileiras.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas, acantoado sempre no seu solar de Pinhel
-recebera a infausta nova da queda de sua irmã.
-Respondendo a Vasco, disse: «Não tenho irmã, nunca
-me fallem n’essa mulher. Fizeram bem não me dizer o
-nome do insultador de nossa familia, se é que elle tem
-nome.»</p>
-
-<p class="tb">Saltemos a 1820. D. Eugenia é o assombro dos salões
-do Rio de Janeiro. Reviçam-lhe todas as graças; a
-da melancolia realça-lh’as, melancolia que dava a entender
-que o anjo, lembrado do céu, tinha saudades.</p>
-
-<p>Vasco é-lhe odioso. A casa do irmão atormenta-a como
-um ergastulo. Perdeu esperanças de voltar á patria, e
-aspira a ver no céu o esposo de sua alma.</p>
-
-<p>De repente, como que as esperanças lhe morrem, e a
-querida dos fidalgos brazilienses desce os olhos sobre a
-terra.</p>
-
-<p>Vê um conde que fôra de Portugal com o principe
-regente, e a requesta de joelhos. E vai ella, levanta com
-a sua mão o homem que ha de resgatal-a do dominio<span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span>
-do irmão, e sahe condessa de Asinhoso da casa abominada.</p>
-
-<p>No redemoinho das festas, a condessa parece estar
-sempre em contemplação d’um tumulo. E o marido
-mais a adora assim; e ella, de lhe ver o amor atravez
-das lagrimas, enchuga-lh’as e pede a Deus um novo coração
-para seu marido.</p>
-
-<p>Nunca mais seus labios responderam a Vasco; e, ao
-terceiro dia de casada, disse ao conde:</p>
-
-<p>—Meu amigo, a presença de meu irmão n’esta casa
-é como a do algoz da minha felicidade, e da tua, se
-posso dar-t’a.</p>
-
-<p>O conde de Asinhoso ouvia sua mulher, e obedecia
-com jubilosa escravidão.</p>
-
-<p>Gonçalo de Nellas havia morrido em 1819. D. Frederico
-Pain de Lucena morreu em 1820, legando os
-seus bens ao sobrinho vivo; Vasco, em viagem para a
-patria, morreu de febres.</p>
-
-<p>A condessa enviuvou em 1833. Cuidou em liquidar
-os seus copiosos haveres, e voltar a Portugal.</p>
-
-<p>Uma delirante esperança vinha com ella. Rica, livre,
-com a alma inteira no seu passado amor!</p>
-
-<p>Desembarcou em Lisboa por junho de 1834. Reinava
-D. Pedro IV.</p>
-
-<p>Mandou indagar do alferes de 1817 aos seus camaradas
-anteriores á scisão politica. Responderam-lhe que
-tinha morrido na guerra.</p>
-
-<p>Ergueu ella então as mãos e disse:</p>
-
-<p>—Ó meu Deus: merecia eu tamanho castigo?!</p>
-
-<p>Mandou ainda perguntar por um filho do militar que
-morrera. Ninguem deu novas de tal filho. O espirito
-publico batia as azas ainda no ambiente de fogo e ninguem<span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span>
-curava saber onde podia existir o filho d’um official
-que morrera rebelde.</p>
-
-<p>Foi então que a condessa d’Asinhoso, aterrada da
-sua soledade, escreveu a Ruy de Nellas, pedindo-lhe a
-sua estima, e uma filha que lhe fosse companhia.</p>
-
-<p>O irmão não lhe respondeu.</p>
-
-<p class="tb">Esta é a historia triste da senhora cujo valimento
-Ruy de Nellas vai pedir a favor de seu genro.</p>
-
-<p>Qual é o valimento da condessa em Lisboa? É o
-prestigio da riqueza, e da belleza ainda.</p>
-
-<p>Quarenta e seis annos, com trinta de amarguras e
-ainda formosa! É que ha mulheres de tamanha alma,
-que primeiro o fel da desgraça ha de enchel-a antes que
-o corpo se alquebre.</p>
-
-<p>Das masmorras de 1793 sahiam formosissimas mulheres
-para a Guilhotina.</p>
-
-<p>A mulher de Luiz XVI tinha pequena alma, sonhára
-vinganças mesquinhas, e por isso lhe encaneceram os
-cabellos n’uma hora.</p>
-
-<p>Madame Roland, a scismadora de revoluções uteis,
-ia formosa no seu carro de morte.</p>
-
-<p>Carlota Corday illuminou-se de formosura mystica ao
-vêr-se espelhada no aço do alfange.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span></p>
-
-<h2>XVI<br />
-<span class="smaller">O julgamento</span></h2>
-
-<p>Ao cabo de cincoenta dias estava o processo prompto
-para entrar em julgamento. Dominava em Coimbra
-a opinião de ser inevitavelmente condemnado Casimiro
-de Bettancourt. A innocencia que algumas pessoas
-apregoavam, era em geral recebida, a riso, como um paradoxo.</p>
-
-<p>A alma de Christina confrangia-se, e os labios sorriam
-ainda. Era ella só quem ainda simulava esperanças;
-mas que supplicios surdos lhe custava dissimulação!</p>
-
-<p>Ladislau e o vigario em vão queriam imital-a. A sua tristeza
-era como as trevas do cego que não se allumiam
-ao tremor convulso da palpebra. Queriam esperançar-se
-e de toda a parte lhes soava como irremediavel a sentença.
-Rosnava-se em compra de jurados: não era preciso
-arguir ao suborno a condemnação. Casimiro estava
-sem defeza: o seu silencio impressionava favoravelmente
-as almas distinctas; o vulgacho, porém, que havia<span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span>
-de julgar das provas, daria importancia nulla á mudez
-do réu. Os protectores de D. Alexandre eram os mais
-graudos fidalgos de Coimbra e cercanias. Por Casimiro
-Bettancourt ninguem pedia. O padre e o cunhado, reduziam-se
-a promover o andamento rapido do processo,
-pagando liberalmente as despezas e actividade do procurador.
-Isto era bastante; mas faltava muito.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas affligia-se a cada nova carta desanimadora
-que recebia; entretanto, a solução favoravel em
-Lisboa era um respiradouro para elle e para os poucos
-amigos do preso.</p>
-
-<p>Designado o dia do julgamento, o pai de Christina
-escreveu a sua irmã, contando-lhe os pormenores do casamento
-da filha, as desventuras do genro, a sua innocencia
-no crime assacado, a indefeza pertinaz em que
-se pozera, o mysterio do homicidio, a certeza de que o
-silencio de Casimiro Bettancourt era um heroismo de
-honra, talvez novo. Rematava pedindo á condessa de
-Asinhoso, que patrocinasse em Lisboa sua sobrinha,
-que era mãe e esposa extremosa.</p>
-
-<p>Na ante-vespera da audiencia, travaram desordem uma
-malta de academicos richosos com as patrulhas nocturnas.
-Alguns estudantes retiraram feridos, e invocaram
-Guilherme Lira, em nome da honra academica. O chefe
-da Sociedade da Manta respondeu que n’uma das
-proximas noutes, seria vingada a academia.</p>
-
-<p>No dia immediato entrou Guilherme no escriptorio de
-um tabellião, e pediu meia folha de papel sellado. Assignou-se
-no fundo da lauda, e fez que o notario lhe reconhecesse
-a assignatura.</p>
-
-<p>Recolheu a casa, e deteve-se algum espaço, escrevendo
-no branco da folha assignada e reconhecida. Fechou
-em fórma de officio, lacrou, e escreveu algumas palavras<span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span>
-no involucro. Depois fez algumas cartas: uma subscriptada
-a D. Joaquina Soares de Lira, sua mãi, residente
-em Evora; outra a sua irmã, casada em Extremoz;
-e ainda uma terceira brevissima, dirigida a uma senhora,
-que tinha o segredo da ferocidade d’aquelle homem.
-Terminava assim: «Não te cito para o céu nem para o
-inferno. Chamo-te diante do teu proprio remorso. Viste-me
-um anjo aos dezoito annos; e fizeste de mim isto
-que sou. Não te accuso: lá tens dentro d’alma o teu
-algoz. É tempo de acabar.»</p>
-
-<p>Deitou a carta na caixa postal, e foi á cadeia, segundo
-o seu costume quotidiano, vêr Casimiro. Eram quatro
-horas da tarde. Estava o jantar na meza. Guilherme
-sentou-se ao lado de Christina, e comeu com appetencia.
-De uma vez inclinou-se ao ouvido da senhora e
-disse-lhe:</p>
-
-<p>—Ámanhã já v. ex.ª janta em sua casa com seu marido...</p>
-
-<p>Christina soltou um brado de alegria.</p>
-
-<p>—Que é?!—inquiriram todos.</p>
-
-<p>Guilherme fitou-a e descahiu as palpebras.</p>
-
-<p>Era impôr-lhe silencio, e ella abafou a revelação, que
-lhe crispava nervosamente os labios, e arquejava o seio.</p>
-
-<p>Esperaram, brevemente a resposta com anciedade.
-Christina fitou os olhos supplicantes no academico, e
-elle, erguendo-se, disse:</p>
-
-<p>—Póde fallar, minha senhora, d’aqui a instantes.</p>
-
-<p>E abraçou Casimiro, beijando-o nas faces ambas; abraçou
-Christina osculando-lhe a fronte; apertou affectuosamente
-as mãos de Peregrina, Ladislau e padre João;
-affagou as duas creancinhas, e sahiu de golpe.</p>
-
-<p>Casimiro chamou-o com vehemencia, e elle não voltou.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span></p>
-
-<p>Referiu Christina o que lhe ouvira. Casimiro concentrou-se,
-pensou alguns minutos, e disse:</p>
-
-<p>—Não mentiu. Ámanhã jantaremos em liberdade.</p>
-
-<p>Pediram-lhe o sentido das palavras do academico.</p>
-
-<p>Bettancourt respondeu:</p>
-
-<p>—Ámanhã.</p>
-
-<p>Notaram todos que a tarde e noute d’aquelle dia foram
-as mais tristes horas de Casimiro na sua prisão de
-dous mezes. E, comtudo, Christina escondia o seu contentamento.</p>
-
-<p>Eram dez horas da noute, quando Casimiro ouviu
-grande grita e o estrondo de alguns tiros. Estava já sósinho,
-passeando febrilmente na saleta, e disse entre si:</p>
-
-<p>—É agora.</p>
-
-<p>O alarido e o tiroteio continuaram.</p>
-
-<p>Collou o ouvido ás portadas da janella, e ouviu dizer
-na rua:</p>
-
-<p>—Mataram o Lira.</p>
-
-<p>Meia hora depois recahiu tudo em silencio quebrado
-pelas passadas das patrulhas em tresdobro. E o carcereiro
-bateu de manso á porta de Casimiro, e disse:</p>
-
-<p>—Dorme?</p>
-
-<p>—Não. Póde entrar.</p>
-
-<p>—Vou contar-lhe o que vai. O seu amigo Lira espancou
-as patrulhas, que encontrou desde o bairro alto
-até á rua do Coruche. A Sociedade da Manta appareceu
-em armas, atacou reforço, que sahiu do quartel.
-Quando ia retirando para o Monte Arroio a estudantada
-debaixo de fogo, o Lira ficou atraz, sem arma nenhuma,
-a não ser o varapau de choupa que mettia a peito dos
-soldados. Tinha elle recuado até ás grades de Santa
-Cruz, quando cahiu morto com uma bala atravessada de
-fonte a fonte. Meu filho vem de observar. Faz dó ver um<span class="pagenum"><a name="Page_203" id="Page_203">[203]</a></span>
-homem tão valente assim morto como se mata qualquer
-poltrão!...</p>
-
-<p>—Obrigado á sua noticia.</p>
-
-<p>—O sr. ficou triste devéras!—tornou o carcereiro—Tem
-razão, que elle era seu amigo d’uma vez!... Boas
-noites, sr. Bettancourt. Ámanhã é o dia da grande batalha,
-espero em Deus que...</p>
-
-<p>O carcereiro tão certo estava da condemnação, que
-não ousou concluir a phrase da esperança em Deus.</p>
-
-<p>Mal se abriram as portas da cadeia, entraram Christina
-e os amigos a contarem o successo. A justiça ia tomar
-conta do espolio do morto. Coimbra estava agitada
-de terror. Esperava-se grande lucta da academia com a
-tropa no acto do enterro de Guilherme. Suppunha o
-padre que se não abrisse o tribunal, para obviar o azo
-da desordem. Contou Ladislau que o estudante, na vespera,
-tinha ido reconhecer a sua assignatura a um tabellião.
-Christina, que tudo sabia, esperava que seu marido
-fosse salvo por uma declaração de Guilherme. Eram,
-porém, nove horas, e não apparecia alvará de soltura,
-nem contra ordem de julgamento.</p>
-
-<p>Ás dez horas chegou o official de juizo para acompanhar
-o réu ao tribunal.</p>
-
-<p>Logo á sahida do carcere, ouviu Casimiro dizer:</p>
-
-<p>—É preciso ir acabando com os assassinos. Um já lá
-vai: este não tarda; os outros hão de ir quando lhes
-chegar a vez.</p>
-
-<p>Quem tão sisudamente discreteava era o cidadão honesto
-da Couraça dos Apostolos, em cuja cabeça Guilherme
-deixára um signal inutil para a morigeração da
-pessoa.</p>
-
-<p>Sentou-se Casimiro no banco dos réus. Christina, Peregrina,
-o padre e Ladislau ficaram fóra da teia. D. Alexandre<span class="pagenum"><a name="Page_204" id="Page_204">[204]</a></span>
-de Aguilar, como parte, sentára-se entre o seu
-advogado e o representante do ministerio publico. Na
-acareação de author e réu, perguntado o primeiro se reconhecia
-em Casimiro Bettancourt o sujeito que espancára,
-o fidalgo respondeu:</p>
-
-<p>—Não podia ser outro.</p>
-
-<p>—Pergunto a v. ex.ª se é aquelle e não se podia ser
-outro—replicou o juiz.</p>
-
-<p>—É aquelle.</p>
-
-<p>Sahiram a depor as testemunhas de accusação. Eram
-concordes em dizer que viram entrar na casa do réo o
-sujeito que matára um homem, e deixára outro estendido.
-Recordaram todas as precedentes aggressões que o
-réu fizera contra o author, já no botequim da rua Larga,
-já na ponte. O cidadão honesto sobreexcedeu a má
-vontade das demais testemunhas, dizendo que o réu era
-sujeito de tão máus costumes que roubára uma filha a
-um fidalgo seu bemfeitor, e com a filha roubára as joias
-da familia.</p>
-
-<p>—Esse infame está a mentir!—exclamou Christina.</p>
-
-<p>Casimiro voltou-se para o lado onde estava sua mulher,
-e encarou-a fito, com severo olhar.</p>
-
-<p>O juiz disse:</p>
-
-<p>—A senhora não pode aqui fallar.</p>
-
-<p>—O que ella diz não se escreve—accrescentou a faceta
-testemunha, sorrindo do alto da sua probidade.</p>
-
-<p>—Querello da testemunha—disse o advogado do réu.</p>
-
-<p>—Eu não querello da testemunha—emendou Casimiro.</p>
-
-<p>—Em tempo competente resolverão—admoestou o
-juiz.</p>
-
-<p>Convergiram todos os olhares sobre Casimiro.</p>
-
-<p>Um dos jurados disse:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_205" id="Page_205">[205]</a></span></p>
-
-<p>—Eu já não condemno aquelle homem!</p>
-
-<p>—Porquê?!—perguntou o visinho.</p>
-
-<p>—Aquelle homem está innocente ou é doudo.</p>
-
-<p>—Qual doudo? aquillo é um grande farcista! Elle
-não querella da testemunha, porque sabe que roubou as
-joias.</p>
-
-<p>Terminou o depoimento de accusação por parte do
-author e do ministerio publico.</p>
-
-<p>Esperava-se por testemunhas de defeza: o escrivão
-disse que não estavam inscriptas nenhumas.</p>
-
-<p>—É doudo ou não?—disse o jurado bem intencionado.</p>
-
-<p>—Qual doudo? replicou o outro.—É tão patife que
-não tem quem o defenda.</p>
-
-<p>Ia levantar-se o patrono de D. Alexandre, quando o
-administrador do concelho entrou na sala do tribunal, e
-entregou ao advogado do réo uma carta em fórma de
-officio.</p>
-
-<p>O orador, que já tinha dito: «Srs. jurados!» suspendeu-se.</p>
-
-<p>O patrono do réo leu uma meia folha de papel, e
-disse, em pé, com os cabellos hirtos:</p>
-
-<p>—Sr. doutor juiz de direito, v. ex.ª me dirá se o debate
-deve continuar, depois de ler a declaração que remetto
-á consideração de v. ex.ª.</p>
-
-<p>Machinalmente ergueram-se todos, auditorio, e jurados.</p>
-
-<p>O juiz leu mentalmente, e passou o papel ao delegado.
-Trocaram breves palavras, e deram ao official de
-justiça o papel.</p>
-
-<p>—Leia o sr. advogado do réo—disse o juiz.—Eu por
-mim intendo que terminou o debate.</p>
-
-<p>—Sou de egual parecer!—ajuntou o ministerio publico.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_206" id="Page_206">[206]</a></span></p>
-
-<p>O advogado de Casimiro, limpando as camarinhas
-do suor, leu com voz tremente de alegria e commoção
-d’alma:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>«Declaro eu Guilherme de Noronha e Lira, estudante
-do 5.º anno de direito, que fui eu quem matou, na
-noute de 16 de janeiro do corrente anno de 1840, um
-creado de D. Alexandre de Aguilar, e empreguei os
-meios de matar tambem o amo. Não tinha contra algum
-d’elles motivo de odio pessoal; mas, como inimigo
-jurado de poltrões covardes, e sabendo eu que
-elles espreitavam ensejo de matar Casimiro de Bettancourt,
-mancebo tão honrado como valente, protestei livral-o
-de tão miseraveis inimigos, atacando-os sósinho
-e sem mais arma que um páu de choupa, no momento
-em que elles tinham arrombado a porta de Casimiro
-para o irem matar entre sua mulher e sua filhinha
-d’um anno. Declaro mais que fui eu quem afugentou
-a companhia, postada ás portas de Casimiro na intenção
-de o arrancar ás garras da justiça; mas o meu
-amigo não quiz fugir, assegurando-me que se havia de
-salvar sem pôr em risco a minha segurança. E por tanto,
-resolvido a acabar com a vida, poucas horas antes
-de me deixar matar, faço esta declaração, e peço a
-Casimiro Bettancourt perdão de o ter infelicitado,
-quando cuidava que o beneficiava com o meu zêlo
-guardador da sua preciosa vida. Peço tambem perdão
-da inexplicavel fraqueza que me tolheu de eu ter feito
-esta declaração desde o momento que o meu amigo
-entrou no carcere. Eu sei que elle me perdoou; mas
-volto as minhas supplicas para a esposa attribulada,
-que tantas vezes, com um sorriso de amiga, devia execrar
-o causador das suas calamidades! Faço esta declaração<span class="pagenum"><a name="Page_207" id="Page_207">[207]</a></span>
-debaixo dos olhos de Deus, e juro pela virtude
-de minha mãi que é verdade o que digo, e será infame
-quem me não acreditar. Coimbra 19 de março de
-1840. <i>Guilherme de Noronha e Lira</i>».</p>
-
-</div>
-
-<p>D. Christina perdêra o alento nos braços de Peregrina.
-Muitos academicos romperam de salto a teia, e vieram
-parar no meio da sala. O advogado do réu, esquecido
-das praxes, foi abraçar o cliente, que parecia dar
-levemente conta da agitação do auditorio, e applicava o
-ouvido aos soluços da esposa. Os jurados limpavam as
-lagrimas, excepto um que tinha recebido uns vinte mil
-réis de D. Alexandre. O fidalgo-autor acachapara-se de
-modo, que parecia querer sumir-se debaixo da meza. O
-seu advogado lia a declaração, e carecia de coragem para
-impugnar-lhe a validade. O juiz dizia ao delegado:</p>
-
-<p>—Deviamos esperar isto, ou cousa semelhante. Este
-homem, sem provar nada, tinha provado a sua innocencia.</p>
-
-<p>E o delegado confirmava:</p>
-
-<p>—Eu espero a minha vez de abraçal-o!</p>
-
-<p>O cidadão honesto da Couraça dos Apostolos ia a
-sahir, quando Casimiro, que parecia absorto, disse:</p>
-
-<p>—Sr. juiz, peço a v. ex.ª a graça de ordenar áquella
-testemunha, que se demore um instante.</p>
-
-<p>—Quer querellar!—bradou o patrono.</p>
-
-<p>—Não quero querellar—acudiu Casimiro, desabotoando
-uma carteira, d’onde tirou um papel, e accrescentou:</p>
-
-<p>—Disse a testemunha que eu roubára as joias da familia
-de minha mulher. A testemunha faltou á verdade.
-Peço licença para ler, e offerecer ao exame das pessoas,
-que me escutam, a seguinte declaração de meu sogro<span class="pagenum"><a name="Page_208" id="Page_208">[208]</a></span>
-«Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro
-que minha filha Christina Elisiaria não subtrahiu de minha
-casa valor algum, nem os seus proprios vestidos e
-adresses, quando fugiu para casar com Casimiro Bettancourt.
-E por isto ser verdade, mui espontaneamente, e
-com juramento aos Santos Evangelhos o declaro agora
-e sempre. Pinhel 22 de abril de 1839. <i>Ruy de Nellas</i>,
-etc.»</p>
-
-<p>—Meu sogro está vivo para confirmar esta declaração.</p>
-
-<p>—Confirmo!—bradou uma voz d’entre as turbas
-comprimidas na teia. E logo um gentil ancião de veneraveis
-cans, e nobre aspeito, com as faces arregoadas de
-lagrimas, entrou na clareira que a multidão lhe abria, e
-chegou á beira de Casimiro, e repetiu com a voz quebrada
-de soluços:</p>
-
-<p>—Confirmo! confirmo! honrado moço, meu filho
-amado!</p>
-
-<p>E abraçou-se n’elle, e logo na filha, que se lhe lançou
-aos pés, e em Ladislau e no padre, e na irmã, e em todos
-quantos vinham com olhos humidos, porque alli
-quantos choravam, e choravam todos, elle adoptava
-como amigos, como quinhoeiros da sua alegria!</p>
-
-<p>Que momentos aquelles! Aquelle jubilo febril não
-matou, porque era santo, porque a Providencia divina
-se comprazia em contemplal-o!</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_209" id="Page_209">[209]</a></span></p>
-
-<h2>XVII<br />
-<span class="smaller">Contrastes</span></h2>
-
-<p>Ia a turbulenta comitiva, que seguiu até casa de
-Bettancourt. A faisca electrica de enthusiasmo, recebida
-nos lances do tribunal, conflagrou animos juvenis,
-em bellicoso arrebatamento contra a policia e a tropa;
-por maneira que, as duas familias levavam um prestito
-de centenares de mancebos, urrando vivas á academia,
-e morras aos futricas e aos soldados. Casimiro parou algumas
-vezes no intuito de arengar aos moços; porém, a
-cada palavra conciliadora respondia o fremir de muitas
-vozes, a pedirem sangue e vingança?</p>
-
-<p>—Parecem-me canibaes!—dizia Ruy de Nellas ao vigario.—Esta
-rapaziada não tem quem a governe!? Pobres
-pais e mãis!</p>
-
-<p>Conseguiram entrar em casa, e accommodar os pequenitos,
-que vinham chorando de medrosos da vozeria,
-Mafalda nos braços do avô, e o filho de Ladislau nos do
-padre João.</p>
-
-<p>Casimiro sahiu á janella a dizer expressões de reconhecimento<span class="pagenum"><a name="Page_210" id="Page_210">[210]</a></span>
-que a turba desattendia, clamando sempre
-vingança, e pedindo ao academico que tomasse o commando
-dos estudantes para vingar a morte do valente
-que o defendera a elle.</p>
-
-<p>Por entre os amotinados circulavam pessoas de respeito,
-pacificando os animos, ou enganando-os para mais
-azado lanço. A custo, porém se dispersaram, comprommettidos
-a reunirem-se no sahimento de Guilherme
-Lira.</p>
-
-<p>Aquietou-se a rua.</p>
-
-<p>O velho sentou-se entre a filha e o genro, lançando-lhes
-os braços em volta do pescoço. Alegremente conversou,
-ora queixando-se de não o terem muitas vezes
-importunado com rogos de perdão, ora promettendo-lhes
-em dobro a amisade, que lhes não déra mais cedo.</p>
-
-<p>—Nada de Coimbra—dizia elle a Bettancourt—Vamos
-para Pinhel, que tu não tens necessidade de ser
-official com tanto trabalho. A legitima de tua mulher
-vai augmentando, sou eu que a tomo a juros; e, emquanto
-eu viver, estareis em casa, sem dispender do
-vosso. É preciso pagarem se as dividas de dinheiro, que
-as de amor nunca se pagam. Este Ladislau é um grande
-moço, é o pai no rosto e no coração. Este padre João
-sei eu bem o que elle é; creou-se debaixo das minhas
-telhas, e ha de vir a ser bispo, se a virtude é qualidade
-para ser bispo. Em quanto á cachorra da Peregrina, esta,
-se não fosse do Ladislau, havia de casar commigo, que
-está guapa, esbelta, e uma perfeita dama. Vocês riem-se?
-Talvez pensem que se eu quizesse dar madrasta á
-minha Christina, andaria muito tempo a farejar nas boas
-familias da provincia!... Ora agora, tu, Casimiro, deixa-te
-de mathematicas, faz te lavrador, toma á tua conta
-os cazeiros da nossa casa, melhora-me os bens livres<span class="pagenum"><a name="Page_211" id="Page_211">[211]</a></span>
-quanto pudéres, bemfeitorias e mais bemfeitorias nos
-prasos de nomeação, que eu quero deixar o menos que
-possa ser ao D. Sueiro, áquelle vil enroupado em habitos
-fidalgos. São uns lacaios todos, desde o morgado até
-D. Alexandre, e a minha Guiomar lá se fez com elles,
-que nem já se dignou escrever-me no dia dos meus annos!
-Deixai-a commigo... Vamos a saber: vocês não
-jantam? O contentamento é boa iguaria; mas vejam
-sempre se me guizam o contentamento com umas batatas
-e umas fatias de presunto. Vocês comem o contentamento,
-e eu o resto.</p>
-
-<p>Sahiu Ladislau a tomar o jantar no Paço do Conde,
-visto que em casa ninguem atinava a saber onde estavam
-as panelas.</p>
-
-<p>Entretanto, continuou o infatigavel fidalgo:</p>
-
-<p>—Vou logo escrever a minha irmã, a contar-lhe o
-succedido. Tenho vontade de a vêr; não queria morrer
-sem a vêr! Foi para Lisboa aos treze annos: era um lyrio
-de brancura, e galanteria. Nunca mais a vi... Velha
-não póde estar, que eu levo-lhe vinte annos de vantagem...
-Bella vantagem, não tem duvida!... Talvez
-a convide a vir passar comnosco em Pinhel alguma temporada;
-mas ella sahe lá de Lisboa! Disse-me um deputado
-que a condessa vive lá no ultimo fausto, e é visitada
-por tudo que tem um nome grande na aristocracia
-e na politica. Será ella constitucional? Isso lá me
-custa; mas, em fim, o marido era-o; e justo é que ella
-herde as convicções de quem herdou seiscentos mil cruzados
-em dinheiro, que os vinculos foram a quem tocaram.
-Fez uma asneira minha irmã em enviuvar sem filhos.</p>
-
-<p>Ninguem lhe cortava a jovial parlenda ao velho, até
-que chegou Ladislau com dous moços carregados de vitualhas.<span class="pagenum"><a name="Page_212" id="Page_212">[212]</a></span>
-Á excepção de Ruy de Nellas, os convivas debicaram
-levemente as iguarias. Casimiro comêra regularmente
-no dia em que fôra preso; e, solto, entretinha-se
-a repartir o prato entre os pequenos. Não parecia ser
-a satisfação da alma que lhe tornava fastidioso o alimento;
-pelo contrario, revia-lhe o semblante uma extraordinaria
-melancholia.</p>
-
-<p>É que o moço via diante de si continuamente a imagem
-de Guilherme, que, vinte e quatro horas antes, tinha
-dito a Christina: «Ámanhã já v. ex.ª janta em casa
-com seu marido.» E abstinha-se de revelar a sua mágoa
-para não compungir a esposa e amigos, que tão alegres
-estavam, e perdoavelmente esquecidos do commensal do
-dia anterior, áquella hora amortalhado!</p>
-
-<p>Era já proposito de Casimiro sahir da Universidade,
-e ir buscar sua vida em qualquer parte ou mistér. Aquelle
-anno era o segundo já perdido. Entrou-se da certeza
-que a desgraça lhe atravancava o caminho das sciencias.
-Elle amava o estudo, deleitava-se nas asperidões da mathematica,
-e ia desatar-se para sempre e saudosissimo
-dos seus livros, das suas oito horas de estudo, da sua
-banqueta de pinho pintada, e de toda aquella pobreza
-limpa, que as mãos de sua mulher transformavam em
-jaspes, mognos, razes e ouro.</p>
-
-<p>O convite de ir para Pinhel, com o sogro, seu amigo,
-entrar no goso das honras da illustre familia, ostentar a
-benemerencia da sua probidade, regendo a avultada casa,
-vingar-se assim pacificamente dos de Miranda, nenhum
-d’estes incitamentos lhe descontava nas dôres. Será paradoxal
-o dizer que Bettancourt mais se queria refugiar
-no casal de Villa Cova com sua mulher e filha, e antes
-de melhor rosto acceitaria o seu prato á meza de Ladislau?
-Pois é uma sublime verdade esta! Casimiro olhava<span class="pagenum"><a name="Page_213" id="Page_213">[213]</a></span>
-em Ladislau, no vigario, e sua irmã, e dizia-se: «Ó
-meus amigos, a minha dôr inconsolavel será deixar-vos.
-Eu hei de fugir sempre para as vossas serras, em quanto
-tiver vida para me lembrar o que fostes para mim e
-minha mulher nos dias de desamparo!»</p>
-
-<p>—Cuidei que te vinha trazer mais alegria, Casimiro—dizia
-o fidalgo.</p>
-
-<p>—V. ex.ª desculpe a minha tristeza—responde Casimiro—Enterra-se
-hoje um meu amigo.</p>
-
-<p>—Pois sim, bem sei que deves ter pena do rapaz;
-comtudo, cada coisa tem seu logar. Conversa com a
-gente, abre um riso n’esse rosto, e faz que eu me não
-persuada que sou aqui de mais para a tua satisfação.</p>
-
-<p>Casimiro levou aos labios a mão do velho, e disse:</p>
-
-<p>—V. ex.ª está gracejando; mas ainda assim, magoa-me.
-Eu poderia esperar muitas melhorias á minha sorte,
-que ainda hontem era desgraçadissima no dizer do mundo;
-porém, a vinda de v. ex.ª com tão amoravel perdão,
-tamanho bem é que nem eu sonhava. V. ex.ª dirá se
-eu...</p>
-
-<p>—Não me dês sempre <i>excellencia</i>, Casimiro; chama-me
-alguma vez pai, se queres que eu te chame filho.</p>
-
-<p>Beijou-lhe de novo a mão, em quanto Christina, tomando
-o maior quinhão do contentamento d’aquella adopção
-paternal, abraçou-se ao pescoço do velho, e acariciou-o
-infantilmente.</p>
-
-<p>Ao anoitecer, Casimiro pediu licença para sahir.</p>
-
-<p>—Onde vaes?—acudiu Ruy de Nellas.</p>
-
-<p>—Vou acompanhar o cadaver de Guilherme Lira.</p>
-
-<p>Encararam-se mutuamente, e voz nenhuma contrariou
-a piedade do amigo.</p>
-
-<p>Ladislau, tomando licença de sua mulher, seguiu o<span class="pagenum"><a name="Page_214" id="Page_214">[214]</a></span>
-compadre. O vigario ficou em companhia de Ruy e das senhoras.</p>
-
-<p>Christina, ao despedir-se do esposo, no patamar da
-escada, disse-lhe em modelação supplicante:</p>
-
-<p>—E se houver desordem?...</p>
-
-<p>—Eu farei que haja paz, minha filha.</p>
-
-<p>—Então vaes na idéa de te envolveres na desordem?</p>
-
-<p>—Não, filha, vou na ideia de evital-a. Limpa as lagrimas,
-Christina, não appareças assim diante de teu
-pai, que me accusará de duro para ti. Bem sabes que
-sagrado dever eu vou cumprir, minha filha.</p>
-
-<p>Sahiram.</p>
-
-<p>Raro academico faltou ao sahimento do cadaver. As
-alas negras moviam-se vagarosas, tristes e com os olhos
-em terra. Ao lampejar das tochas rebrilhavam muitas
-lagrimas.</p>
-
-<p>Guilherme Lira morrera propugnando pelos brios academicos,
-diziam: era um engano. Guilherme morrera,
-suicidando-se. É verdade que, no correr de quatro annos,
-mão terrorista pesára sobre a gente coimbran, avêssa
-aos academicos, de cujo pão vivem. Soldados e verdeaes
-respeitavam a batina, porque Guilherme Lira vestia
-uma. Sobravam razões de gratidão áquelle desgraçado;
-mas o seu morrer, o derradeiro arrojo, não era já
-valentia; fôra um ir metter o peito ás espingardas que
-o abocavam.</p>
-
-<p>Foi o cadaver lançado á cova. N’este acto, Casimiro
-sahiu de entre a multidão que rodeava a sepultura, e
-lançou sobre o cadaver a primeira pá de terra. Depois
-cruzando as mãos sobre o peito, e sem desfitar os olhos
-da cabeça empannada e ensanguentada do morto, disse:</p>
-
-<p>—«Alli está a mocidade e a força; alli está um mancebo
-que deixou mãi n’este mundo; n’isto parou o grande<span class="pagenum"><a name="Page_215" id="Page_215">[215]</a></span>
-alento d’onde os infortunios da vida desviaram as
-torrentes dos influxos do céu. Este homem seria um anjo
-do bem, se melhores condições da mocidade o não
-houvessem saturado de odio contra o mundo. Eu sei a
-historia d’esta existencia perdida, senhores. Este moço
-era bom; derramou inutilmente os balsamos do coração;
-achou-se vasio de amor; e repletou-se de peçonha
-e odio. Cansou-lhe a coragem para a resignação;
-sobreveio-lhe o delirio da vingança, vingança cega, sêde
-voraz de sangue; mas observai, senhores, que a tentação
-nem sempre venceu o instincto do céu com que fôra
-dotado este moço. Aquelle homem teve tantos amigos,
-tantos que, entre vós, um só não ha que se peje de
-mostrar as lagrimas. As minhas seria vergonhoso que se
-não vissem: eu hei de choral-as longo tempo... Vós
-sabeis que as portas do carcere se me abriram hoje, porque
-esta sepultura vai ser fechada. E eu, na presença
-de centenaros de testemunhas, e por aquella redemptora
-cruz, vos juro que acceitaria a minha prisão perpetua
-em troca da vida d’este homem, que era vosso, assim
-como tinha sido meu defensor...»</p>
-
-<p>—Vingança! vingança!—bradaram algumas vozes de
-estudantes, que agitavam os gorros, e as tochas.</p>
-
-<p>Espectaculo para terror era aquelle em volta de um
-cadaver!</p>
-
-<p>E o brado, conglobado de mil brados, respondeu:</p>
-
-<p>—Vingança!</p>
-
-<p>Casimiro ergueu a mão, pedindo silencio, e exclamou:</p>
-
-<p>—Paz! paz! é que eu vos peço, em nome de vossas
-mãis, em nome das cans do velho pai, que espera
-amparar-se em vosso braço! em nome de vossas irmãs
-que fiam do vosso auxilio o seu futuro! em nome das<span class="pagenum"><a name="Page_216" id="Page_216">[216]</a></span>
-almas candidas que vos sorriem ao coração dias de maior
-felicidade! Paz vos peço eu, meus amigos, apontando-vos
-este moço que está por aquelles labios frios contando
-o que é a desordem, o que é a guerra, o que é desencaminhar-se
-um homem da estrada, onde ha espinhos,
-para tomar pela estrada onde ha abysmos. Que
-util lição, que excellente preceptor não está sendo este
-cadaver! Lembrai-vos, senhores, que este moço tem mãi.</p>
-
-<p>Entrai com o espirito no coração das vossas. Avaliai
-o amargor das lagrimas que verterá cada uma das santas
-do amor, se um de vós cahir n’aquell’outra sepultura.
-Consenti que eu falle n’este instante pelo brado de
-todas, e vos peça o que ellas supplicantes a cada um de
-vós pedem: «Paz, meu filho!»</p>
-
-<p>Callou-se Casimiro. Respondeu o ciciar da respiração
-alta do immoto auditorio. Retirou-se elle da margem da
-cova, e caminhou triste por entre a multidão, que deixára
-pender o braço sobre a arma escondida sob a capa.
-D’ahi a pouco, os academicos debandavam em grupos,
-e o silencio d’aquella sepultura estendeu-se pela face da
-cidade.</p>
-
-<p>Ao sahir do cemiterio viu Casimiro diante de si a esposa,
-o sogro, o vigario e Peregrina.</p>
-
-<p>—Viemos ouvir-te, filho—disse commovido o velho.</p>
-
-<p>—É superior á nossa admiração, sr. Casimiro!—disse
-o vigario.</p>
-
-<p>—Eu sou apenas superior aos maus pela virtude de
-os lastimar—respondeu Casimiro, dando o braço ao sogro,
-cuja sensibilidade lhe quebrantava as forças.</p>
-
-<p>Desde logo, a pedido de Ruy de Nellas, começaram
-as senhoras os aprestos para a jornada no dia immediato
-á tarde. O velho futurava o rompimento de alguma
-revolução academica, a intervenção pacificadora de Casimiro,<span class="pagenum"><a name="Page_217" id="Page_217">[217]</a></span>
-e a fortuita desgraça de ser empenhado pela
-honra a coadjuvar o partido dos estudantes.</p>
-
-<p class="tb">A esta hora, meia noute seria, D. Alexandre de Aguilar,
-infamado, despresado, e solitario na sua angustia,
-esvasiava garrafas de cognac, no intento de aturdir-se e
-responder com a gargalhada do ebrio ao grito da vergonha.
-Os deploraveis perdidos, que se valem d’esta triaga,
-parece que a si proprios se estão castigando com mais
-crueza do que poderia castigal-os a justiça humana. Noute
-alta, o ébrio batia com a cabeça nas vidraças de sua
-janella, farpava a face nas arestas dos vidros, e rugia
-imprecações contra Deus. As patrulhas acummulavam-se
-á sua porta, e gargalhavam das estupidas objurgatorias
-do moço. Acudiam os academicos visinhos, e bradavam-lhe:</p>
-
-<p>—Calla-te ahi, miseravel; afoga-te em cognac; não
-appareças mais á luz do sol; mas calla-te, besta, que,
-para seres fera, só te falta a bravura.</p>
-
-<p>O tumulento fitava o ouvido, e respondia com roucos
-insultos requintados em obscenidades de alcouce.</p>
-
-<p>De madrugada, o neto dos Parmas d’Eça acordou de
-frio que tinha o peito ensopado no proprio vomito.</p>
-
-<p>Sentou-se, circumvagando os olhos espavoridos por
-sobre a desordem que o rodeava. Ergueu-se cambaleando,
-recahiu n’uma poltrona, escondeu o rosto entre as
-mãos, e chorou.</p>
-
-<p>Oh! aquellas lagrimas é que não eram infames.</p>
-
-<p>O desgraçado lembrou-se que, cinco annos antes,
-tinha mãi, e que a prophetica senhora muitas vezes lhe
-dissera: «Presagia-me o coração que has de ser desgraçado,
-meu filho.»</p>
-
-<p>—Porque?—perguntava elle.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_218" id="Page_218">[218]</a></span></p>
-
-<p>—Porque tens dezesete annos; sahiste hontem do
-collegio e já hoje escarneces a religião de teus pais. Assim
-tão cedo deixaste estragar o coração!... D’aqui a
-annos, nem por amor do teu nome, nem por calculo, serás
-honrado!</p>
-
-<p>E, cinco annos depois, e só então, lhe lembraram as
-palavras de sua mãi!... Era o seu anjo da guarda que
-as recebera então, e agora lh’as offerecia á memoria,
-como lenimento unico d’aquella funda ulcera do descredito,
-desgraça, e infamia.</p>
-
-<p>Na noute d’esse dia, D. Alexandre desappareceu de
-Coimbra, foi caminho de Lisboa, d’ahi pediu sua legitima
-a D.Sueiro e sahiu de Portugal. Ha vinte e tres
-annos que foi, e não voltou.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_219" id="Page_219">[219]</a></span></p>
-
-<h2>XVIII<br />
-<span class="smaller">Mãi!</span></h2>
-
-<p>Ás duas horas da madrugada do dia seguinte ao das
-scenas descriptas no anterior capitulo, chegou á porta
-da hospedaria, chamada do <i>Paço do Conde</i>, uma carruagem,
-tirada por duas parelhas. Abertas as portas,
-apeou uma senhora, dando a mão a um padre velho que
-descera primeiro, e logo a creada. O padre, respondendo
-á pergunta do creado do hotel, disse que a senhora
-condessa de Asinhoso tomaria um caldo de gallinha, e
-voltou a receber as ordens de s. ex.ª</p>
-
-<p>—Pergunte padre Francisco—disse ella—se hoje foi
-o julgamento de um academico chamado Casimiro de
-Bettancourt.</p>
-
-<p>O padre foi cumprir, dizendo entre si: «que importa
-á senhora condessa o julgamento do academico, chamado
-Casimiro de Bettancourt? Pois será para assistir
-á audiencia que ella vem a Coimbra com viagens forçadas?!»</p>
-
-<p>Volveu o padre, dizendo:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_220" id="Page_220">[220]</a></span></p>
-
-<p>—É uma historia interessante, que parece novella, a
-tal do academico, senhora condessa. Em resumo, conta
-o estalajadeiro que, estando para ser julgado o reu, e forçosamente
-condemnado, appareceu a declaração d’outro
-academico, que mataram antes de hontem, confessando-se
-o matador. Em consequencia do quê, o tal Bettancourt
-foi posto em liberdade.</p>
-
-<p>—Graças, graças, meu Deus!—exclamou a condessa
-ajoelhando.</p>
-
-<p>O padre empedreniu-se, e encarou na creada tambem
-estupefacta: nenhum ousava tugir um monossyllabo.</p>
-
-<p>Ergueu-se a condessa, e enviou de novo o capellão a
-pedir ao dono do hotel a bondade de fallar com ella por
-alguns minutos.</p>
-
-<p>O estalajadeiro vestiu a casaca, esperou na sala a senhora
-condessa.</p>
-
-<p>Interrogou-o ella ácerca de todas as miudezas concernentes
-á soltura de Bettancourt. O informador relatou-as
-todas, desde as severas lições que o academico dera
-a D. Alexandre, até ao lindo discurso, dizia elle, que o
-amigo de Guilherme Lira improvisára á beira da sepultura:
-e n’uma especie de apostilla á narrativa contou a
-esquecida circumstancia de ter irrompido inesperadamente
-pelo tribunal dentro o fidalgo, sogro do estudante.</p>
-
-<p>—Pois elle está em Coimbra?!—interrompeu vivamente
-a condessa.</p>
-
-<p>—Vi-o eu, minha senhora! É um velho bonito! basta
-vêl-o para se dizer: «aquelle é um fidalgo dos antigos
-tempos!»</p>
-
-<p>—Sabe onde mora Casimiro Bettancourt?</p>
-
-<p>—Sei, minha senhora.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_221" id="Page_221">[221]</a></span></p>
-
-<p>—De manhã tem a bondade de me guiar a casa
-d’elle?</p>
-
-<p>—Pois não, senhora condessa?</p>
-
-<p>O capellão, cujo quarto era sob o pavimento dos aposentos
-da condessa, apesar de contuso e moido dos solavancos
-da carruagem pelas barrocas da estrada real de
-1840, não poude adormecer, ouvindo até á madrugada
-os passos da illustre dama, e o abrir e fechar de portas
-d’uma janella. Certo fôra que a condessa nem sequer
-encostára a face ás almofadas do leito, e, de quarto em
-quarto de hora, ia impaciente abrir a janella e ver se
-rompia a alva.</p>
-
-<p>Assim que aclarou o céu, já a senhora despertou a
-creada para lhe dar do bahú outros vestidos e ornatos.</p>
-
-<p>Ao nascer do sol, estava s. ex.ª vestida a rigor de
-viuva opulenta: modestia elegante, pompa meio velada
-pela côr escura do estofo.</p>
-
-<p>O egresso, que perdera a esperança de adormecer,
-levantou-se, e foi á antecamara receber as ordens da
-condessa. Sahiu ella a dizer-lhe que tomaria uma chavena
-de café, e ás nove horas sahiria acompanhada de
-sua reverendissima.</p>
-
-<p>Sua reverendissima, vendo-a assim adereçada, consentiu
-que o demonio da maledicencia lhe encavalgasse
-o espirito: «Dar-se-ha caso, dizia elle comsigo, que a
-condessa esteja namorada d’esse Bettancourt? Querem
-ver que esta senhora, aos quarenta e seis annos, tresvaliou,
-e vai destruir o bom nome que está gosando??
-Mas não!—monologou elle, tornando sobre si—Vai-te
-espirito aleivoso que me tentas! Aqui anda segredo que
-eu vou saber logo! Esta senhora é o typo da honestidade,
-e o modelo das viuvas honradas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_222" id="Page_222">[222]</a></span></p>
-
-<p>Ás nove horas sahiu a condessa, com o seu capellão
-e o estalajadeiro.</p>
-
-<p>Chegaram defronte da pequena casa da Couraça dos
-Apostolos.</p>
-
-<p>—É aqui—disse o guia.</p>
-
-<p>—Obrigada. Póde ir, que eu demoro-me.</p>
-
-<p>Subiu a dama a declivosa escadinha, e bateu á porta
-do topo. O capellão seguiu-a, gemendo.</p>
-
-<p>Abriu uma creada a porta.</p>
-
-<p>—Posso fallar ao sr. Ruy de Nellas?—disse a condessa.</p>
-
-<p>Foi a creada á saleta em que as duas familias estavam
-almoçando, e noticiou que era uma senhora ricamente
-vestida a perguntar pelo sr. Ruy de Nellas.</p>
-
-<p>—Quem póde ser?!—reflectiu o fidalgo.</p>
-
-<p>—Abre o meu quarto de estudo, e diz á senhora que
-entre—disse Casimiro.</p>
-
-<p>Quando a creada sahia da saleta, já a condessa estava
-á entrada, dizendo:</p>
-
-<p>—Não sou de ceremonias, vou entrando, porque já
-conheci a voz do mano Ruy.</p>
-
-<p>Levantaram-se todos. O velho abriu os braços, e ficou
-de braços abertos, e bocca tambem aberta.</p>
-
-<p>A condessa chegou-se ao alcance do abraço, e disse:</p>
-
-<p>—Parece que o mano duvida...</p>
-
-<p>Duvido...—balbuciou elle—pela mesma razão que
-não devia duvidar... Tu tens vinte e cinco annos, Eugenia!
-Estás como te vi sahir de Pinhel!</p>
-
-<p>—Cuidei que lisonjas eram desusadas entre irmãos,
-Ruy!... Pois eu dir-te-hei que estás bastante alcançado.
-A vida de provincia é menos salutar do que dizem
-as pessoas que envelhecem na corte. Senta-te, Ruy, e
-dá-me uma chavena do teu café.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_223" id="Page_223">[223]</a></span></p>
-
-<p>—Tu aqui, mana!... tu aqui!...—voltava o fidalgo—Deixa-me
-convencer bem de que estou acordado!
-Quem é aquelle senhor?...</p>
-
-<p>—É o meu capellão.</p>
-
-<p>—Sente-se, sr. padre capellão, sente-se.</p>
-
-<p>—Qual d’estas meninas é a tua filha?—perguntou a
-condessa.</p>
-
-<p>—É esta, aqui tens a minha Christina.</p>
-
-<p>A condessa beijou-a, abraçou-a, e mandou-a sentar.</p>
-
-<p>—Este é meu genro—continuou o velho apresentando-lh’o.</p>
-
-<p>Casimiro deu um passo, e curvou reverentemente a
-cabeça.</p>
-
-<p>—Este é que é o sr. Casimiro Bettancourt?—disse a
-condessa apertando-lhe a mão.</p>
-
-<p>E a mão ardia, tremia, e apertava extraordinariamente.</p>
-
-<p>—As outras pessoas,—concluiu Ruy—são filhos do
-meu coração: aquella é a minha Peregrina, e aquelle o
-meu padre João. Lembras-te, Eugenia, do José Ferreira
-da Rochousa, nosso caseiro?</p>
-
-<p>—Lembro.</p>
-
-<p>—Pois são filhos d’elle que eu herdei. Aquell’outro,
-que alli vês, é Ladislau, marido de Peregrina.</p>
-
-<p>—E estas duas creancinhas?</p>
-
-<p>—Uma é minha neta e tua sobrinha, primogenita e
-unica de Christina, a outra é filha de Ladislau.</p>
-
-<p>A condessa, ouvindo o irmão, a cada instante relanceava
-os olhos a Bettancourt, unico da comitiva, que ficára
-de pé, no intento de servir a hospeda, e dar a sua
-cadeira ao capellão.</p>
-
-<p>—Senta-te, Casimiro—disse o velho—Aqui tens, Eugenia,
-o meu orgulho, a minha gloria, o meu Casimiro<span class="pagenum"><a name="Page_224" id="Page_224">[224]</a></span>
-sem mancha de culpa, com a sua honra illibada! Não
-foi preciso appellarmos para Lisboa. A justiça de Deus
-veio mais cedo do que a esperavamos. Eu te conto como
-isso foi...</p>
-
-<p>—Sei tudo—atalhou a irmã—Já me informaram na
-hospedaria.</p>
-
-<p>—Mas como estás tu aqui, mana?—tornou Ruy—Vinhas
-munida, talvez, de cartas para alcançares a
-absolvição de teu sobrinho em Coimbra?</p>
-
-<p>—Não, Ruy—tartamudeou a condessa.</p>
-
-<p>—Então que palpite foi esse de te botares ao caminho,
-sem saberes a decisão do julgamento?!</p>
-
-<p>—Dizes bem, Ruy... foi um palpite...</p>
-
-<p>—Bem hajas tu que vieste dar o remate á nossa satisfação!
-Agora vais comnosco para Pinhel, não é assim?</p>
-
-<p>—Irei. E hoje janto comvosco.</p>
-
-<p>—Isso estava sabido!... pois então?!</p>
-
-<p>A condessa disse a padre Francisco:</p>
-
-<p>—Póde ir, e descansar á sua vontade, padre capellão,
-que eu passo aqui o dia. Queira dar esta parte á
-creada.</p>
-
-<p>Sahiu o padre, e todos passaram ao quarto de estudo
-de Casimiro, que era a parte mais alegre e arejada da
-casa.</p>
-
-<p>—Estou entre amigos!—disse com um profundo suspiro
-a condessa—É a primeira vez na minha vida que
-digo isto!</p>
-
-<p>Ruy comprehendeu a irmã, relembrou a mocidade dolorosa
-de Eugenia, e fez um gesto compassivo, e outro
-que significára: «Não lembremos o que lá vai.»</p>
-
-<p>Porém, Casimiro, impressionado d’aquellas palavras
-disse respeitosamente:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_225" id="Page_225">[225]</a></span></p>
-
-<p>—As felicidades de v. ex.ª não devem ter sido invejaveis!...
-Em volta da riqueza, da formosura, e de um
-nome distincto costumam reunir-se muitos amigos...
-ou, pelo menos, muitos que o parecem...</p>
-
-<p>A condessa encarou n’elle com penetrantes olhos, e
-disse:</p>
-
-<p>—Lastima-me, não é verdade?</p>
-
-<p>—Minha senhora—balbuciou Casimiro—peço perdão...
-não quiz dizer que lastimava v. ex.ª... Quaesquer
-que tenham sido suas magoas, a sua elevada posição
-não consente que eu me condôa...</p>
-
-<p>—Está bom, está bom—atalhou Ruy—não se falla
-aqui em magoas, nem dó, nem lastimas! Este meu Casimiro
-tem uma propensão para discursos tristes, que
-nunca vi!... Olha que hontem á noute, mana, o que
-elle disse á beira da sepultura do Guilherme, ia arrancar
-ao fundo do coração as lagrimas de quem nunca tivesse
-chorado!</p>
-
-<p>—É porque eu dava o exemplo, chorando, sr.ª condessa—ajuntou
-Casimiro.</p>
-
-<p>—E deve ter chorado muito!—disse ella.</p>
-
-<p>—Pouco, minha senhora. Sou um homem muito resignado,
-ou muito forte. A mim as grandes angustias
-levemente me abalam. Algumas vezes tenho chorado por
-cousas insignificantes. Posso ver a olhos enxutos morrer
-minha filha, e não poderei ouvir sem lagrimas o piar de
-uma ave, a quem mataram os filhos no ninho. Isto será
-deformidade de organisação; mas dureza de alma não é,
-minha senhora... Meditando na minha indole, vim a
-considerar que para mim o incentivo das lagrimas é uma
-certa poesia funebre e maviosa, sensação que eu não sei
-d’outro modo definir; ao passo que as desditas positivas,
-cerradas e suffocantes regelam-me a alma.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_226" id="Page_226">[226]</a></span></p>
-
-<p>—Elle ahi está a fugir para a tristeza!—interrompeu
-o fidalgo.</p>
-
-<p>—Deixa-o fallar, mano...—pediu a condessa.</p>
-
-<p>—S. ex.ª tem rasão...—disse Bettancourt eu sou
-incorrigivel e tenho contagio. Aqui está a minha Christina
-absorvida tambem na sua meditação...</p>
-
-<p>—Não—acudiu Christina—eu estava a pensar com
-alegria nas tuas tristezas passadas, meu Casimiro.</p>
-
-<p>—E todos com o passado ás voltas!—clamou Ruy—Fallem
-no presente, descubram o futuro, e não me
-afflijam, que vai aqui tudo raso! Querem ver que a minha
-Eugenia tambem é melancolica? Em pequena eras
-muito, menina! O teu gosto eram sombras de arvores,
-fontes, ver o céu de noute... Aqui estou eu tambem a
-fugir para traz trinta e tantos annos! Bem diz o Casimiro
-que a sua scisma é pegadiça!...</p>
-
-<p>—Mas olha, mano, deixa-me conversar com o teu
-genro, que o passado te aborreça...</p>
-
-<p>—O que eu observo, Eugenia, é que tu sympathisas
-grandemente com elle!...</p>
-
-<p>—Porque não!?</p>
-
-<p>—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Casimiro.</p>
-
-<p>—Isso quando se diz, faz-se.</p>
-
-<p>—O quê, senhora condessa?</p>
-
-<p>—Disse que me beijava as mãos... então... beije.</p>
-
-<p>Casimiro inclinou-se, e beijou de leve a mão da dama,
-que lhe apertou vertiginosamente a d’elle.</p>
-
-<p>Este visivel estremecimento impressionou Christina e
-Peregrina, que se encararam de um modo que podia ser
-duvidar do bom senso da condessa.</p>
-
-<p>—Vamos conversar, sr. Casimiro—disse Eugenia—Queira
-sentar-se ao meu lado. Meu mano já me disse<span class="pagenum"><a name="Page_227" id="Page_227">[227]</a></span>
-que o sr. era filho de um militar, que morreu no cêrco
-do Porto.</p>
-
-<p>—Sim, minha senhora, sou filho de Duarte Bettancourt.</p>
-
-<p>—Conheceu seu pai? Onde estava quando elle morreu?</p>
-
-<p>—Conheci meu pai. Vi-o em 1830 pela ultima vez.
-Estava eu no collegio dos Nobres, quando elle morreu.</p>
-
-<p>—Sabe em que anno nasceu?</p>
-
-<p>—Sei-o dos proprios apontamentos de meu pai.</p>
-
-<p>—Escriptos por elle mesmo?</p>
-
-<p>—Sim, minha senhora.</p>
-
-<p>—Dá-me licença que os veja?</p>
-
-<p>—Por que não, sr.ª condessa? Aqui está a velha carteira
-de meu pai...</p>
-
-<p>A condessa tomou da mão de Casimiro, com sofrega
-ancia, a carteira, que folheou.</p>
-
-<p>—Onde é?—disse ella convulsiva.</p>
-
-<p>—Aqui, minha senhora—respondeu Casimiro indicando-lhe
-a pagina, que a condessa leu:</p>
-
-<p><i>Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816.
-Foi baptisado em S. Domingos de Santarem aos 22 do
-mesmo mez. Foi creado no Cartaxo d’onde sahiu em
-1820...</i></p>
-
-<p>A condessa murmurava ainda; mas não lia o restante
-da nota. Fechou a carteira, e voltou-a nas mãos, remirando-a.
-Depois, pregou os olhos no rosto de Casimiro,
-e permaneceu n’este spasmo alguns minutos, até que
-muito do fundo do seio lhe sahiu um grito estridente, e
-uma explosão de lagrimas em que a luz da vista parecia
-innevoar-se.</p>
-
-<p>—V. ex.ª soffre!...—disse Casimiro.</p>
-
-<p>E acercaram-se todos da condessa, que, tomando a
-mão de Bettancourt, ergueu-se de impeto e disse-lhe:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_228" id="Page_228">[228]</a></span></p>
-
-<p>—Leve-me a uma janella... dê-me ar, e uma gotta
-d’agua.</p>
-
-<p>—São nervos!—observou Ruy—É da casa, que é
-abafada... Abram todas as janellas... Queres tu descer
-ao quintal? Vai com ella, Casimiro... Vamos todos.</p>
-
-<p>—Estou melhor—atalhou D. Eugenia—Já respirei...</p>
-
-<p>—Costumam dar-te estes accessos, mana?</p>
-
-<p>—Costumam...</p>
-
-<p>Sentou-se de novo, reparando na carteira, e outra vez
-se lhe tingiu de escarlate febril o rosto.</p>
-
-<p>—Mysterio!—disse o vigario ao ouvido do cunhado.</p>
-
-<p>—Que cuidas?!—perguntou Ladislau...</p>
-
-<p>—Esperemos.</p>
-
-<p>A condessa affastou das fontes os cabellos empastados
-de suor, e disse cortando as palavras de suspensões, que
-pareciam o abafar de mão estranha na garganta:</p>
-
-<p>—Casimiro esteve no collegio dos Nobres até...</p>
-
-<p>—Até 1834, minha senhora—respondeu o filho do
-major.</p>
-
-<p>—E depois...</p>
-
-<p>—Como perdi meu pai, fui a Pinhel procurar amparo
-de parentes pobres.</p>
-
-<p>—E nunca viu no «Diario do Governo» um annuncio
-perguntando se existia um filho do major Duarte
-Bettancourt?</p>
-
-<p>—A Pinhel nunca chegou esse jornal—disse Casimiro—E
-quem se interessava em saber se eu existia?</p>
-
-<p>—Quem?...</p>
-
-<p>—Sim, minha senhora.</p>
-
-<p>—Era eu.</p>
-
-<p>—V. ex.ª!—acudiu Casimiro com assombro.</p>
-
-<p>—Com que fim eras tu, Eugenia?—perguntou o fidalgo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_229" id="Page_229">[229]</a></span></p>
-
-<p>A condessa fitou a vista incendiada no irmão; e
-disse:</p>
-
-<p>—Com o fim de saber se existia... meu filho!</p>
-
-<p>Assim devia ficar uma familia de Pompeia, de subito,
-empedrada na invasão da lava fulminante. Uns a outros,
-com olhos pavidos, pareciam pedir o claro sentido
-d’aquellas palavras.</p>
-
-<p>Casimiro sentiu lavaredas no seio e descerrou os labios
-á expedição do lume. Estrondeavam-lhe no encephalo
-umas allucinações de ebrio. Dos olhos de sua mãi
-afuzilavam umas como frechas que lhe cortavam de
-lampejos o curto espaço de ar intermedio. Para os outros,
-ha só o termo «estupefacção» que os descreva. A
-condessa oscillava outra vez assoberbada pela commoção
-nervosa; já se não sustinha, com as mãos apoiadas
-nas costas da cadeira. Levantou-as, estendeu os braços
-como a pedir amparo. Encontrou o seio de Casimiro, e
-n’elle inclinou a face, exclamando:</p>
-
-<p>—Meu filho!...</p>
-
-<p>Mas isto tudo é um sonho!—disse Ruy de Nellas,
-levando as mãos ás fontes.</p>
-
-<p>Casimiro ajoelhou com a mãi nos braços. As duas senhoras,
-sem segura consciencia do que faziam, foram
-amparar a condessa. O vigario pôz as mãos em attitude
-de quem ora. Ladislau cruzou os braços no peito contemplando
-o grupo.</p>
-
-<p>De subito, Casimiro afastou um pouco a face, contemplou
-o rosto pallido da condessa, beijou-a na fronte
-e disse:</p>
-
-<p>—Tenho mãi, meu Deus!... Eu sabia que a tinha,
-e havia de encontral-a!...</p>
-
-<p>Então, chorou, a torrentes!</p>
-
-<p>Se não chorasse enlouquecia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_230" id="Page_230">[230]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_231" id="Page_231">[231]</a></span></p>
-
-<h2>XIX<br />
-<span class="smaller">Paz e contentamento</span></h2>
-
-<p>Decorridas algumas semanas, o casamento de Casimiro
-Bettancourt com sua prima carnal D. Christina de
-Nellas era validado pelo nuncio apostolico, dispensando
-no parentesco, e saneando a ingnorada irregularidade. A
-condessa perfilhava Casimiro para lhe segurar a successão
-de seus grandes cabedaes. Casimiro, porém, com
-quanta delicadeza e respeito a ternura filial lhe inspirou,
-disse que só acceitava a perfilhação para ser seu
-filho, e não seu herdeiro. Ficou interdicta, e alheia da
-intenção da resposta, a condessa. O filho esclareceu assim
-a propria demencia:</p>
-
-<p>—Minha mãi herdou de seu marido: eu, filho de
-outro homem, que morreu pobre, peço licença para ser
-estranho aos haveres do sr. conde de Asinhoso. Eu sou
-filho de D. Eugenia de Nellas. Minha mãi ainda tem a
-sua legitima n’esta casa de Pinhel. Essa acceito-a como
-dote para egualar o patrimonio de minha mulher.</p>
-
-<p>—Pois sim, filho, faça-se a tua vontade—disse a condessa.—Por<span class="pagenum"><a name="Page_232" id="Page_232">[232]</a></span>
-minha morte ficarás agricultando algumas
-geiras de terra em Pinhel, que valerão doze mil cruzados.
-Ficarás sendo um lavrador dos menos abastados da
-comarca. Minha sobrinha Guiomar virá senhorear-se do
-vinculo e da casa que é vinculada. Tu com tua mulher
-e filhos irás viver no casal da Rechousa, ou n’outro semelhante,
-que ameaçam ruina.</p>
-
-<p>—As paredes abaladas especam-se, minha querida
-mãi; a dignidade aluida é que nunca mais se repara.
-Eu amo a mediania, que é o refugio da paz. As lições
-da vida deu-m’as o lavrador de Villa Cova. Minha mãi
-prometteu-me ir ver de perto a casa de entre serras,
-aquelle abrigo de honrados e de santos. Venha commigo
-alli estar uns dias, e v. ex.ª olhando d’alli para o céu,
-dirá: «se ha paraizo na terra, se ha bem no mundo, é
-aqui».</p>
-
-<p>—Iremos, filho: eu tambem o desejo. Já estou convidada
-para ser madrinha do segundo filho de Ladislau.
-Bem vês que ando a cuidar-lhe do enxoval.</p>
-
-<p>E, logo na semana seguinte, partiram todos para Villa
-Cova, e as meninas solteiras de Pinhel tambem.</p>
-
-<p>Quem é este homem de jaqueta de panno azul e colete
-encarnado, e chapeu braguez que vai a pé, ao lado
-da egua em que monta a condessa?</p>
-
-<p>É mestre Antonio—o carpinteiro.—Alli vai conversando
-em obras, que é preciso fazer aqui e acolá, nas
-casas arruinadas do fidalgo. A condessa trabalha por
-tirar este homem do officio: offerece-lhe dinheiro para
-erguer casa, e comprar bens. Mestre Antonio responde:</p>
-
-<p>—Fidalga, grande nau grande tormenta! Deixe-me cá
-com a minha vida que vou bem assim. Meu filho brazileiro
-manda-me duzentos mil réis cada anno, e eu, a
-fallar verdade a v. ex.ª, tenho-os alli para uma gaveta,<span class="pagenum"><a name="Page_233" id="Page_233">[233]</a></span>
-sem saber de que me servem. A minha alegria é o trabalho.
-Em pegando dous dias-santos, ando como tolo
-sem saber em que hei de gastar o tempo.</p>
-
-<p>—Mas gaste-o em trabalhar nos seus bens.</p>
-
-<p>—Nos meus bens trabalho eu, sr.ª condessa. Logo
-que me pagam o serviço, alguma cousa tenho dos bens
-em que trabalho.</p>
-
-<p class="tb">Ficarás, por tanto, carpinteiro, honrado homem, mas
-homem honrado, toda a tua vida!</p>
-
-<p class="tb">Custa a caber tanta gente na casa de Villa Cova!
-Armam-se leitos de bancos nos cazarões das tulhas. O
-quarto solemne dos padres é consignado ao fidalgo. A
-condessa occupa o de Peregrina. Que feliz barafunda
-alli vai! Os creados vem carregados de caça dos montes.
-O fidalgo quer ir á cosinha fazer umas troixas de
-ovos, cuja receita lhe deram os anjos. A condessa anda
-lá pelos campos a correr atraz da nétinha. As irmãs de
-Christina sobem á lapa da Crasta e entram de lá a berrar
-que lhes acudam, que as comem os lobos. O capellão
-da condessa, acertando de encontrar na livraria
-dos padres Militões as cartas manuscriptas de fr. Bartholomeu
-dos Martyres, persegue toda a gente para que
-lhe ouçam ler as cartas e os commentarios soporiferos
-d’elle.</p>
-
-<p>Quem mais o atura é Casimiro que foge do bulicio
-para a livraria defeza ás corrimaças das cunhadas.</p>
-
-<p>Chega o dia do baptisado, e n’esse dia apparece inesperado
-em Villa Cova um tabellião de Pinhel, a rôgo da
-sr.ª condessa de Asinhoso. Lavra-se uma escriptura. É
-uma doação que faz a mãe de Casimiro ao seu afilhado
-Ruy, filho de Ladislau. Dôa-lhe quinze mil cruzados em<span class="pagenum"><a name="Page_234" id="Page_234">[234]</a></span>
-inscripções nos Bancos de Portugal, em virtude dos muitos
-e impagaveis favores que devia a seus pais.</p>
-
-<p>Casimiro abraça sua mãi, e exclama:</p>
-
-<p>—A virtude é engenhosa, minha querida amiga!</p>
-
-<p>Os pais do menino beijam-lhe a mão, e Ladislau
-diz:</p>
-
-<p>—Com a condição de que meu filho conservará o
-deposito como patrimonio dos desgraçados: mande v.
-ex.ª escrever esta clausula na escriptura.</p>
-
-<p>—Ladislau—disse a condessa—já lh’a deve ter escripta
-no coração.</p>
-
-<p class="tb">Alli se detiveram trinta dias. De Pinhel, em cada semana,
-vinham cargas de viveres. Ladislau sentia-se, e o
-fidalgo respondia:</p>
-
-<p>—Isto é para o capellão da mana condessa, que lê
-muito as cartas do fr. Bartholomeu; chora de enthusiasmo;
-mas não o imita na temperança. Seria capaz de
-engulir o santo, o bom do egresso, se o pilhasse! Sem
-este contrapeso de vitualhas, amigo Ladislau, eramos
-todos victimas da gulodice do padre. Vamos lançando
-estes bocados ao Acheronte, que promette, ao contrario
-do outro, levar-nos para o céu, se não adormecer no
-meio do caminho.</p>
-
-<p>A alegria dava graça ao velho, que, em geral, era
-semsaborão.</p>
-
-<p>Na volta para Pinhel trouxeram comsigo a familia de
-Villa Cova, salvo o vigario que voltou ao amor do seu
-rebanho.</p>
-
-<p>Sahiu para Lisboa o capellão da condessa com ordens
-ao procurador para vender o palacio, os trens, os primores
-da Asia, que opulentavam a triste vivenda da
-viuva. Triste, sem um amigo, como ella dizia. Ao mesmo<span class="pagenum"><a name="Page_235" id="Page_235">[235]</a></span>
-tempo, o egresso cumpriu outras ordens com referencia
-ao ministro da justiça. Ultimado tudo, voltou o padre a
-Pinhel: ia reloucado de prazer, porque, á ultima hora,
-soubera que fôra nomeado conego da patriarchal. Beijou
-as mãos á condessa.</p>
-
-<p>—Vá—disse-lhe ella sorrindo—vá imitar na pobreza
-ecclesiastica o seu predilecto Bartholomeu dos Martyres.</p>
-
-<p>Na mesma data era nomeado conego da sé da Guarda
-o padre João Ferreira.</p>
-
-<p>O vigario, avisado na sua pobre parochia, foi a Pinhel,
-depositou a mercê nas mãos da condessa, e disse:</p>
-
-<p>—Perdoe-me v. ex.ª a recusa: eu não posso separar-me
-de minha mãe e cunhado. V. ex.ª não quer que
-eu me deixe alli viver á sombra das virtudes dos padres
-de Villa Cova.</p>
-
-<p>—Eis aqui um padre novo, que destôa das doutrinas
-do meu velho capellão!—disse a condessa—Pois sim,
-padre João, vá para o seu presbyterio, e venha ver-me
-muita vez, e tome á sua conta a minha velhice.</p>
-
-<p>Christina contou a sua tia e sogra os menores incidentes
-do seu namôro, e mostrou-lhe o José-pastor que
-tão util e leal lhe fôra.</p>
-
-<p>Chamou a fidalga José-pastor e mandou-lhe que dissesse
-a razão por que fizéra aquelles serviços ao sr. Casimiro
-e á menina.</p>
-
-<p>O rapaz respondeu:</p>
-
-<p>—Era toda a gente contra elles, e eu disse cá c’os
-meus botões: ora deixa estar que eu vos dou nas ventas
-para traz.</p>
-
-<p>—E nunca te deram nada?</p>
-
-<p>—Elles que me haviam de dar, fidalga??</p>
-
-<p>—Então fazias tudo sem interesse?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_236" id="Page_236">[236]</a></span></p>
-
-<p>—O que eu queria era vel-os casados. A menina estava
-lá em cima fechada a chorar, e o sr. Casimiro andava
-lá por longe escondido... fizeram-me muita pena!
-Foi o que foi.</p>
-
-<p>—Queres tu ser padre?—perguntou a condessa.</p>
-
-<p>—Padre?!</p>
-
-<p>—Sim.</p>
-
-<p>—Não, senhora. Antes queria ser sargento.</p>
-
-<p>—Sargento!... mas tu és muito rapaz ainda para
-assentar praça.</p>
-
-<p>—Posso assentar praça de tambor, que os tambores
-são do meu tamanho.</p>
-
-<p>—És tolo, rapaz! Queres tu estudar para depois ser
-official?</p>
-
-<p>—Eu já sei ler, que me ensinou o sr. Casimiro.</p>
-
-<p>—Pois sim; mas agora vais aprender outras coisas
-para Lisboa.</p>
-
-<p>—E leva-se lá bordoada de cego?</p>
-
-<p>—Não, patarata, ninguem lá te bate.</p>
-
-<p>—Então, se a fidalga quer, e o fidalgo deixar, vou.</p>
-
-<p>E foi para a Polytechnica de Lisboa, com recommendação
-da condessa.</p>
-
-<p>D. Sueiro de Aguilar teve noticia d’estes successos
-estupendos. Sentiu guinadas de fazer as pases com a
-familia de Villa-Cova, e por um cabello se não descobre
-n’esta extrema de despejo. Guiomar ainda escreveu a
-sua tia, cumprimentando-a pela sua chegada. A condessa
-respondeu: «agradeço o cumprimento de minha sobrinha,
-e faço votos pela sua felicidade.»</p>
-
-<p>Esta sequidão irritou D. Sueiro, que se desentranhou
-em apostrophes contra a canalha de Pinhel. A tia de
-sua mulher foi exposta á irrisão dos seus hospedes, na
-presença da sobrinha. Repetiram-se os vilipendiosos amores<span class="pagenum"><a name="Page_237" id="Page_237">[237]</a></span>
-que deram o filho natural, sobrinho do carpinteiro.
-Desde este facto, D. Guiomar odiou o marido, cuja hediondez
-de caracter só podia ser avantajada por D. Alexandre.</p>
-
-<p>Tratou a condessa de casar suas sobrinhas, com auxilio
-dos seus haveres. Accorreram pretendentes das
-duas provincias contiguas, e casaram todas com morgados,
-homens de bem, vaidosos de seus appellidos, mas
-inoffensivos, e virtuosos mesmo por vaidade de imitarem
-seus avoengos. As senhoras dispersas por aquelles palacetes
-solarengos reuniam-se em casa de seu pai, nas
-festas do anno, nos natalicios, e no anniversario do casamento
-de Casimiro. Esta clausula fôra instituida pela
-condessa.</p>
-
-<p>A tiro de peça de Pinhel, existiam uns casebres derrocados,
-onde nascera, segundo informações de mestre
-Antonio, seu cunhado Duarte Bettancourt, filho de um
-soldado da ilha de S. Miguel, que ficára na metropole,
-e alli estabelecera uma tenda. Comprou a condessa estes
-pardieiros aos possuidores, e mandou-os arrazar, e
-sobre elles edificar um obelisco cintado por grossa cantaria,
-com portas de ferro. Ia todos os dias ver a obra,
-que durou um anno, com os melhores alveneis da provincia.
-Concluido o obelisco, foi entalhada na base uma
-lamina de ferro com esta legenda:</p>
-
-<p class="center">Á MEMORIA<br />
-DE<br />
-DUARTE BETTANCOURT<br />
-MORTO NO SEU POSTO DE HONRA<br />
-EM 1834<br />
-MANDOU ERIGIR SEU FILHO<br />
-CASIMIRO BETTANCOURT<br />
-EM 1843</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_238" id="Page_238">[238]</a></span></p>
-
-<p>Ruy de Nellas, lá muito no seu interior, não gostou
-da lembrança. Era a natureza a puchar por elle.</p>
-
-<p>N’este tempo, teve a condessa uma hora de muitas
-lagrimas.</p>
-
-<p>Casimiro, de proposito e por veneração, nunca lhe
-mostrára duas cartas, que conservava entre os papeis de
-seu pai, assignadas pela inicial <i>E.</i></p>
-
-<p>N’uma tarde, como estivessem sentados na base da
-columna, Casimiro tirou da carteira dous papeis dobrados
-e amarellecidos.</p>
-
-<p>—Que é isso, filho?</p>
-
-<p>—Veja, minha mãi:</p>
-
-<p>Abriu ella, e exclamou:</p>
-
-<p>—É minha a letra! Como possues isto?!</p>
-
-<p>—Minha mãi já deve saber como as possuo.</p>
-
-<p>A condessa leu soluçante, e beijou aquelle papel, que
-estivera nas mãos de Duarte. Leu a segunda, e, em
-meio da pagina, susteve-se afogada de ancias e lagrimas.</p>
-
-<p>Casimiro arrependeu-se da indiscripção, e acariciou-a,
-pedindo-lhe, pela memoria de seu pai, que vencesse a
-sua dor.</p>
-
-<p>Era este o contheudo da primeira carta:</p>
-
-<p>«Não soffras, D.—Conta com o meu valor. Parece-me
-que vou ser arrebatada para uma quinta do tio. Não
-sei qual. Eu te avisarei a preço de tudo. O mais que
-podem é matar-me meus irmãos. A minha alma irá
-identificar-se á tua: viverei sempre comtigo na terra, e
-amando-te de um mundo melhor. Socega, meu amigo.
-Se Deus vê a nossa innocente paixão, elle nos protegerá.
-Se não ha Deus para nós, seremos um para o
-outro. Tua, <i>E.</i>»</p>
-
-<p>Esta carta devia ter sido escripta antes da ida para
-Camarate.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_239" id="Page_239">[239]</a></span></p>
-
-<p>A segunda dizia:</p>
-
-<p>«É horrivel esta oppressão! Tenho medo de morrer
-abafada pela angustia. Vem, approxima-te, dá-me alentos,
-se não prefiro antecipar a morte. Ai! que soledade!
-que abandono n’esta hora! Vem, vem, D., que
-eu queria ver-te antes de morrer! <i>E.</i>»</p>
-
-<p>Presume-se que esta ultima carta foi escripta de Recaldim
-para Torres Novas, quando Duarte desceu de
-Bragança, a receber das mãos de Brites aquella creança,
-que alli está agora, homem, com o rosto de sua mãi
-apertado ao seio.</p>
-
-<p>Em seguida áquelle trance, a condessa acamou, e teve
-febre por longos dias. A presença do filho, magro, livido,
-triste como quem pede a primasia na morte ao lado de
-um enfermo em perigo, abrazou-a em supplicas ferverosas
-a Deus, pedindo a vida. Declinaram as febres, volveram
-esperanças e saude, e continuou o hymno de
-graças ao Senhor, entoado por aquellas duas familias
-que rodeavam o leito de Eugenia.</p>
-
-<p>Segura a convalescença, a condessa, prevendo que,
-por morte de seu irmão, a casa de Pinhel passaria á
-successora do vinculo, cuidou em construir um palacete
-em nome de Christina.</p>
-
-<p>Casimiro objectou que d’aquelle modo passava a seus
-filhos a casa do conde de Asinhoso.</p>
-
-<p>A mãi respondeu:</p>
-
-<p>—Quererás tu privar-me que eu beneficie minha sobrinha?
-Isto não tem nada que ver comtigo, Casimiro!
-As demazias da dignidade são uma impertinencia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_240" id="Page_240">[240]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_241" id="Page_241">[241]</a></span></p>
-
-<h2>Conclusão</h2>
-
-<p>Passaram-se vinte e um annos.</p>
-
-<p>Ainda que o contrario se afigure a pessoas, que teem
-a boa sorte de não escrever romances, a conclusão d’um
-livro d’esta especie é dolorosa de fazer-se, quer os personagens
-tenham existido, quer vivessem, como chimeras
-queridas, na phantasia do escriptor.</p>
-
-<p>É doloroso, digo, porque ha ahi um facto formidavel
-e horrendo, que tanto vinga nos personagens verdadeiros
-como nos imaginados: é a morte. O romancista historico
-tem de matal-os em nome da historia: o romancista
-inventor tem de matal-os em nome da verosimilhança.</p>
-
-<p>Eu creio que o leitor denega sua fé aos successos que
-lhe contei. É injusto com a maxima parte d’elles. Ahi
-foram esboçadas umas pessoas que viveram, e outras
-que vivem com outros nomes e em outras terras. E por
-isso redobra a minha mágoa por não poder dizer que
-vivem todos.</p>
-
-<p>As duas sympathicas velhinhas, Brazia de Villa Cova
-e Brites de Recaldim, essas ha muito que já lá vão. Com
-isto privo o jornalismo do innocente gaudio de annunciar<span class="pagenum"><a name="Page_242" id="Page_242">[242]</a></span>
-duas macrobias. Brazia morreu, como lá dizem, á
-imitação d’um passarinho, com oitenta e nove annos
-de idade, em seu perfeito juizo, e conformada com a
-vontade de Deus. Legou os seus ordenados de setenta
-e nove annos ao filho mais velho de Ladislau, e o seu
-ouro, composto de cordão e anneis, a Peregrina. É verdade
-que estes valores não chegaram para as missas de
-que ella onerou os herdeiros por sua alma e por almas
-idas ha tanto tempo que ou Deus as tinha comsigo, ou
-o descondemnal-as seria tardio intento. Brites lá se finou
-em Recaldim, poucos mezes depois da sahida de D. Eugenia
-para o Brazil. As desventuras da filha da sua menina
-minaram-n’a tanto que a saudosa velha, de dia
-para dia, se resvalou á sepultura, pedindo a Deus que
-a não castigasse por ter protegido a desgraçada senhora.
-Aquella Apollinaria da calçada dos Barbadinhos, que o
-leitor esqueceu, não esqueceu á condessa de Asinhoso.
-De volta do Rio de Janeiro procurou-a, achou-a pobre e
-cega, deu-lhe abundancia, empregou-lhe os filhos, e fez-lhe
-o enterro annos depois.</p>
-
-<p>Ruy de Nellas morreu em 1850, nos braços de Casimiro
-e Christina, unicos filhos que viu á hora da morte.
-O vigario de S. Julião d’Arga tão santos dizeres lhe fallou
-n’aquella tremenda hora, que o moribundo inclinou
-suavemente a cabeça, e expediu a alma ao seu creador,
-abençoando as filhas ausentes.</p>
-
-<p>Ao nono dia depois do fallecimento, a casa estava vasia,
-e D. Soeiro estava a empossar-se n’ella, instaurando
-logo demandas ás cunhadas, e articulando contra Casimiro
-Bettancourt um libello de subtracção de baixella
-vinculada: calumnia que nos tribunaes redundou em
-maior infamia do litigante.</p>
-
-<p>Christina, Casimiro e sua mãi passaram á casa construida.<span class="pagenum"><a name="Page_243" id="Page_243">[243]</a></span>
-Ahi receberam, volvidos tres annos, D. Guiomar
-de Nellas, fugitiva do marido, que a martyrisava, tornando-a
-serva de suas creadas, com quem elle devassamente
-commerciava a morte lenta da esposa. Casimiro
-recebeu-a com respeito, Christina com amor, a condessa
-com a virtuosa indulgencia que aprendera na desgraça.
-A perseguição de D. Sueiro alli mesmo lhe cravou a
-seta hervada, fazendo-a intimar para se ir voluntariamente
-estender no potro de torturas. Casimiro tomou
-sua cunhada á sua guarda, depositou-a n’um mosteiro
-de Villa Real, e d’ahi requereu separação judiciaria, que
-conseguiu com illibados creditos. D. Sueiro, passados
-annos, morreu d’um tiro que por descuido se deu, andando
-á caça. Em Miranda vogava a suspeita de que o
-tiro lhe fôra desfechado por um lavrador vingativo, inconciliavel
-com a fidalga deshonra de sua irmã. Guiomar
-tomou cargo da educação de suas filhas, que não
-tinham educação nenhuma, e vive em paz e devotamente
-no seu palacio de Pinhel.</p>
-
-<p>Ladislau lá está em Villa Cova, saudoso do seu primogenito,
-que, ha dous annos, casou com Mafalda, filha
-de Casimiro, e foi viver em casa do sogro. Ruy, seu
-filho segundo, está-se ordenando para, no futuro, continuar
-a missão dos sacerdotes d’aquella casa. O matrimoniarem-se
-aquelles dous primogenitos era plano feito
-desde o berço, e sanccionado pelo céu. Amaram-se desde
-infantes, e hoje adoram-se como seus paes.</p>
-
-<p>Mestre Antonio tambem já lá está no mundo das almas
-generosas e puras. Acabou a vida quasi sem erguer
-mão do trabalho. Como intrevasse aos sessenta annos,
-mesmo sentado no leito fazia bocetas para doce, ás quaes
-dava consummo a condessa, arrumando-as em rimas, e
-pagando-as por um preço que o artista aceitava, sorrindo<span class="pagenum"><a name="Page_244" id="Page_244">[244]</a></span>
-á piedade da fidalga. Nunca foi possivel demovel-o de
-sua casa e da sua officina! Ponha o compositor os pontos
-de admiração que lhe parecer.</p>
-
-<p>Do vigario de S. Julião sabe tambem o leitor que não
-ha tiral-o d’alli. As virtudes do ultimo padre de Villa
-Cova é preciso lembral-as elle, que o povo, abençoando
-as que vê, esqueceu as outras. O egresso capellão da
-condessa, propendendo a bispo, fez-se politico, e fallava
-mais nos comicios eleitoraes que cantava no coro. Na
-vespera de ser nomeado, ceou com tres deputados de
-sua fabrica, e rebentou de madrugada, com grande terror
-das creadas, que affirmaram não cheirar bem o conego:
-o que é possivel e sem que a sua alma perdesse por
-isso.</p>
-
-<p>José Pastor, transformado em José de Castro Vieira e
-Silva (como elle arranjou isto!), é tenente de engenheiros,
-empregado nas estradas, com grandes vencimentos
-e creditos de habilidade. Estudou muito, fez a pontaria
-a engrandecer-se, não quiz saber de namoros, nem de
-theatros, nem de bailes, e medita em fazer-se deputado
-por alguma parte, no louvavel intuito de ser ministro
-das obras publicas: ministro, que hei de defender, posto
-que o considero mais de molde para os estrangeiros em
-vista da diplomacia de telhado, que o vimos tirar a
-limpo ha vinte e seis annos.</p>
-
-<p>A condessa de Asinhoso é ainda uma senhora robusta
-com os seus 67 annos. A felicidade é a saude. Em certos
-dias do anno vai visitar a memoria de Duarte Bettancourt,
-e depois sobe, a pé, a S. Julião ouvir missa
-por alma d’elle. Respeitavel piedade, cujo quilate só
-Deus póde avaliar, a despeito da censura hypocrita com
-que nós fingimos representar os juizos do Senhor.</p>
-
-<p>Aqui está o que podemos dizer d’estas familias. As<span class="pagenum"><a name="Page_245" id="Page_245">[245]</a></span>
-outras filhas de Ruy de Nellas lá estão em suas casas,
-honrando seus maridos, e abençoando a mão liberal de
-sua tia que, em vida, vai disseminando a sua riqueza,
-já muito diminuta em comparação do que foi. Parece
-que o anjo da felicidade anda, de casa em casa, saudando,
-ora o lavrador de Villa Cova, ora o lavrador de
-Pinhel, ora o virtuoso de S. Julião; e dos actos de todos
-vai dar contas ao Senhor, que o reenvia com bençãos
-novas.</p>
-
-<hr />
-
-<h2>Moralidade</h2>
-
-<p>Occorre d’esta historia, natural e concludentemente
-que o coração do homem, formado na sciencia e nos
-costumes antigos, encerra a urna dos balsamos para as
-chagas dos corações formados á moderna. Exemplos tres
-vezes bemditos: o vigario de S. Julião da Serra, Ladislau
-Tiberio, Peregrina e Casimiro Bettancourt.</p>
-
-<p>Excellente seria que tivessemos muitas d’aquellas reliquias
-dos tempos obscuros, as quaes nos servissem
-como de quebra-luz, a fim de que a brilhante claridade
-dos mil lampadarios da civilisação nos não ceguem de
-todo.</p>
-
-<p>Aqui está, muito á flor da terra, a moralidade da historia,
-em que tentamos esboçar uma face do <i>bem</i> e outra
-do <i>mal</i> d’esta vida, tão infamada por uns como glorificada
-por outros.</p>
-
-<p>Senhor dos mundos! vós, quando creastes a brasa da
-sêde que requeima os labios do caminheiro do nosso
-deserto, mandastes ás areias que se desentranhassem
-em fontes! As fontes correm. E o impio sequioso bebe,
-consola-se e... injuria-vos.</p>
-
-<p class="titlepage">FIM</p>
-
-<hr />
-
-<div class="footnotes">
-
-<h2>NOTAS</h2>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> Antonio de Oliveira Soares, que de capitão de cavallos
-e costumes perdidos, passou a frade arrabido e vida muito
-penitente.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2"></a><a href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a> O leitor provavelmente não encontra no seu «Diccionario»
-o termo <i>reco</i>. O povo de Traz-os-montes, e de porção
-da Beira-Alta dá aquelle nome, cuja etimologia ignoro, aos
-cevados. Eu leio muito pelo diccionario inedito do povo d’aquellas
-provincias, que sabe a lingua portugueza como fr.
-Luiz de Sousa.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3"></a><a href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a> Nas aldeias do norte d’esta nossa terra tão pittoresca
-de linguagem, algumas vezes perguntava eu quantos annos
-tinha tal velhinho, e não entendia esta resposta: «já passa de
-dous carros» Vim depois a saber que lá se contam os annos
-a quarenta por cada carro, por analogia com o carro de pão
-de quarenta alqueires.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4"></a><a href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a> Aut Deus, aut bestia.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5"></a><a href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a> A «Sociedade da manta» era uma congregação de mancebos
-destemidos que tiveram Coimbra atterrada, e reagiam
-ao exercito, quando não achavam <i>futricas</i> que escadeirar.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of O Bem e o Mal, by Camilo Castelo Branco
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BEM E O MAL ***
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