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-The Project Gutenberg EBook of As Netas do Padre Eterno, by Alberto Pimentel
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: As Netas do Padre Eterno
- Romance original
-
-Author: Alberto Pimentel
-
-Release Date: July 19, 2020 [EBook #62706]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NETAS DO PADRE ETERNO ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
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-
-N.º 32—COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
-
-AS NETAS DO PADRE ETERNO
-
-
-
-
- COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
-
- AS NETAS
- DO
- PADRE ETERNO
-
- ROMANCE ORIGINAL
-
- POR
- Alberto Pimentel
-
- [Illustration]
-
- LISBOA
- LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA—EDITOR
- 50, 52—Rua Augusta—52, 54
- 1895
-
- LISBOA—Typ. e Stereotypia Moderna—Apostolos, 11, 1.º
-
-
-
-
-I
-
-
-Desde a primavera até ao inverno de 1873, decorre, na historia da moderna
-Hespanha, um periodo de rubra agitação demagogica, em que tanto a
-abandonada coroa da velha Monarchia de S. Fernando como o recente barrete
-phrygio da Republica fluctuam n’um mar de sangue, golphado do proprio
-coração d’esse bello paiz meridional, e sinistramente illuminado pelos
-reflexos coruscantes dos incendios de Alcoy, que eram o facho tristemente
-glorioso da insurreição cantonal.
-
-Nação essencialmente catholica, a Hespanha viu profanados os seus
-templos, principalmente em Barcelona, onde as mulheres, n’uma infrene
-orgia de bacchantes, envergavam as vestes sacerdotaes, entoando cantares
-obscenos, e derramando por sobre os altares o vinho que trasbordava das
-taças.
-
-Nas ruas, as allucinações da musa popular, terrivelmente revolucionaria,
-alternavam-se com as detonações dos fuzilamentos, e aos dithyrambos
-entoados á beira dos altares correspondiam, fóra dos templos, trovas
-sacrilegas, dissolventes, anarchicas:
-
- Yá se le acabó á los curas
- El comer á dos carrillos,
- Y el ir de noche al café
- Con el ama y los chiquillos.
-
- Abajo las estrellas,
- Abajo los galones,
- Que no quiere mandones
- La santa federal.
-
-É certo que na alma popular da Hespanha não estavam de todo pervertidos
-os sentimentos cavalheirescos da raça castelhana, mas a revolução ia
-alastrando dia a dia o seu dominio,—em Sevilha era incendiada a _calle
-de las Sierpes_, em Cadiz punha-se em almoeda a custodia do _Corpus
-Christi_, em Málaga dois bandos rivaes porfiavam em horrores de barbarie,
-em Granada os desenfreamentos do vandalismo desmoronavam as instituições
-e os templos, como acontecia em Barcelona, em cujos campos os bosques
-incendiados chammejavam como enorme fornalha: por isso só timidamente a
-musa das ruas ousava contrapôr um grito de justa indignação aos desvarios
-da demagogia que golpeava o coração da patria, enodoando de sangue as
-mais bellas paginas da historia nacional.
-
-D’esses timidos gritos de reacção popular não se perdeu comtudo a
-nota caracteristica, que ainda hoje póde encontrar ecco na apreciação
-imparcial d’esse periodo demagogico:
-
- La republica en Guarena
- La cantan los taberneros,
- Y en D. Benito la cantan
- Los sastres y zapateros.
-
- El candido de Figueras,
- Y el radical Figuerola,
- Nos ha dejado em cuerines
- Sin calzon ni camisola.
-
-Um illustre escriptor hespanhol, o sr. Vicente Barrantes, emigrando
-n’essa epocha para Portugal, escreveu sob o titulo de _Dias sin sol_, um
-livro interessante, em que estão consignadas as dolorosas impressões que
-as desgraças da Hespanha punham no coração dos seus angustiados filhos.
-Uma pagina d’esse livro diz:
-
-«Com mão debil e porventura timida empunhou o tribuno Emilio Castellar
-as redeas da dictadura, ao tempo que a fronteira portugueza, onde eu
-me achava, offerecia um lancinante espectaculo. Cerrada a do norte
-pelos carlistas, era aquella a unica porta para escapar d’este inferno
-de Hespanha, e cada trem do caminho de ferro iberico parecia barcada
-de Acheronte, como aquellas que rangendo os dentes e blasphemando
-até dos paes de seus paes viu passar o grande poeta da Edade-Média
-pelo lodoso lago que ao inferno conduz... De Madrid, de Alcoy, de
-Cartagena, de Valencia, de Cadiz, de Sevilha, de Jerez chegavam por
-centenas familias dispersas, como quem foge de uma peste; e isto um dia
-e outro dia, e mezes inteiros; e récuas e caravanas de inoffensivos
-lavradores, de pacificos artistas, de laboriosos industriaes desembocavam
-simultaneamente por todas as povoções da fronteira, desde Barrancos a
-Setubal, desde Elvas a Lisboa, desde Zamora e Ciudad-Rodrigo ao Porto:
-misero formigueiro de emigrantes de todas as classes e condições, com os
-olhos voltados para Hespanha, mas receiando, a cada hora que o horror os
-convertesse em estatuas, como á mulher da Biblia.»
-
-Setubal, pela amenidade do seu clima, e pela belleza dos seus campos,
-hospedou uma importante colonia hespanhola, atravez da qual eu passeei
-algumas vezes os meus ocios de _touriste_. Principalmente no verão,
-em julho, que foi a epocha mais calamitosa da revolução, a affluencia
-de emigrados era numerosissima ali. E o que é verdadeiramente notavel
-é que os havia de todas as côres politicas, porque o perigo era egual
-para todos. A revolução não curava de perscrutar as opiniões de cada um.
-Perseguia, roubava, incendiava, fuzilava indistinctamente. Já não era
-pequena felicidade poder fugir á morte, salvar a vida. Dos emigrados,
-conheci alguns ricos, poucos, e esses eram os que tinham logrado liquidar
-a tempo os seus haveres, antes que a _santa federal_ se encarregasse da
-liquidação. D’este numero era a familia Saavedra, de Sevilha, que tem de
-figurar n’esta historia. Tres pessoas apenas: pae, mãe e filha.
-
-O pae, o sr. D. Enrique Saavedra, havia collocado uma somma importante
-n’um Banco inglez. Era um industrial acreditado, e teve o bom senso
-de fechar as suas fabricas mal que soaram os primeiros rugidos da
-insurreição cantonal. Se não tivesse procedido assim, haveria decerto
-succumbido ás mãos dos seus proprios operarios. Em politica, era
-francamente monarchico; principalmente, partidario dos Bourbons. «Qué
-broma! dizia-me elle, D. Izabel está exilada. Mas ou a revolução aniquila
-de vez a Hespanha, ou a Hespanha ainda chamará a rainha». Com effeito, em
-pouco se enganou D. Enrique: um filho de Isabel II occupou o throno de S.
-Fernando. Os Bourbons voltaram.
-
-Quem se não importava grandemente com os acontecimentos politicos de
-Hespanha, era sua filha, Soledad, a mais _salerosa_ individualidade de
-mulher que é dado phantasiar na vaga idealisação de uma noite de serenata.
-
-Bocage, quando do alto do seu monumento a viu, estremeceu.
-
-Setubal ficou encantada, não obstante ter-se iberisado então pelas
-relações commerciaes que mantinha com a colonia dos emigrados. E digo
-commerciaes, porque os hespanhoes eram os primeiros a queixar-se que só
-tratassem com elles os setubalenses nas transacções ordinarias da vida:
-dá cá, toma lá. De resto os emigrados entretinham-se uns com os outros,
-com duas ou tres pessoas da terra, e com as que eram de fóra.
-
-O ideal de Soledad era uma _tertulia_ ou, como hoje dizemos á franceza,
-uma _soirée_. Por muito tempo procurou desesperadamente uma _tertulia_,
-e se alguma vez ouvia tocar piano, parava de subito, attentava o ouvido
-e, com uma graça vivaz, picante, exclamava: _Qué! És una tertulia?_ Era
-apenas um piano que tertuliava uma valsa... platonicamente.
-
-Chegára o verão, começaram a apparecer os banhistas, muita gente do
-Alemtejo. Ao fim da tarde sentavam-se na praia, olhando para o mar,
-e ou fallavam dos seus montados e das suas courellas, ou descahiam
-em somnolencia mazomba. Alguns d’elles, de faces rosaceas, abdomen
-enxundioso, e instinctos retemperados pela bella fibra suina tinham
-exclamações carnaes quando a hespanhola passava, e digo a hespanhola,
-porque era assim que toda a gente fallava d’ella, sem embargo de que
-n’esse momento outras muitas estivessem em Setubal. Era, porém, como se
-se dissesse: a bella hespanhola, a formosa por excellencia.
-
-Das pessoas da terra foram poucas as que romperam com a tradição local
-de retraimento bisonho, arrastadas pela fascinação. E essas poucas, eram
-homens. As senhoras visitavam-se então em Setubal difficilmente, e esta
-difficuldade augmentava para com os estrangeiros, cuja procedencia era
-quasi impossivel esquadrinhar, a não se fazer obra pelas informações dos
-seus patricios, suspeitas para o caso.
-
-Um dia, porém, Soledad comprehendeu que os seus olhos podiam, elles
-mesmos, em toda a parte, improvisar uma _tertulia_; que no seu sorriso
-alegre e resplendente de andaluza havia encantos de sobra para fazer
-conhecidos e namorados, e desde esse momento ella zombou poderosamente
-da semsaboria setubalense, trazendo comsigo, a toda a hora, de manhã ou
-á noite, uma _tertulia_ completa, attrahida pelo iman da sua formosura,
-rebocada pela sua fascinação iberica. Era a sua côrte, a sua _coterie_, o
-seu séquito. Por accordo tacito, conferiu-se-lhe o sceptro das Hespanhas,
-que a princeza de la Cisterna havia deposto. Vassalos enthusiastas
-rodeavam-n’a como nunca os tivera a rainha Maria Victoria. Cada dia
-que passava trazia um novo alliado. Alguem que vinha a Lisboa, dizia:
-«Que bella hespanhola que está em Setubal!»—«O que?!» perguntavam no
-Chiado.—«Unica! incomparavel! sublime!» era a replica. Os curiosos iam,
-e ficavam. Creio que os generos alimenticios chegaram a encarecer em
-Setubal. Mas o que embarateceu foi a poesia. N’aquelle tempo, ainda o
-verso era o vehiculo do amor, e com razão se julgava que para uma mulher
-de um paiz ardente não havia para inflammar-lhe a phantasia como uma
-metralha de alexandrinos.
-
-Em redor da bella andaluza, fallava-se um hespanhol mascavado, que ás
-vezes parecia ser-lhe ainda de mais difficil comprehensão do que o
-vasconço o é para o commum dos hespanhoes. Mas que se importava Soledad
-com as palavras? Ella já sabia o que lhe diziam, o que por força se
-havia de dizer ao pé d’ella: que a amavam. Sorria, e respondia com os
-olhos, augmentando a fascinação, sem se comprometter: este segredo que
-só os olhos das hespanholas possuem. As portuguezas, com habitarem a
-mesma peninsula e serem da mesma raça, affirmam ou negam com os olhos,
-compromettem-se pelo olhar. Os olhos das hespanholas fallam sempre,
-mas raras vezes para affirmar ou negar. A duvida atiça o amor, e ella
-espalhava a duvida com o olhar. Não era bem prometter, não era bem
-recusar, seria tudo isso talvez, ou, ainda melhor, nada d’isso seria.
-Semeava esperanças, atirava flores e olhares ao acaso, emquanto o pae
-fallava dos assassinatos de Montilla, dos incendios de Alcoy e dos
-sacrilegios de Barcelona, e emquanto a mãe, que se morria por peixe, e
-era ainda arrebitada, ia por ali fóra, deixando vêr no sorriso uns dentes
-alvissimos, marchando com um desembaraço verdadeiramente hespanhol, em
-direcção á Ribeira, para comprar um safio ou uma corvina. Assim mesmo é
-que era; sem _ficelles_ realistas, pela minha parte.—Ah! ditoso safio!
-ah! venturosa corvina! diziam muitos, que não podendo occupar o coração
-de Soledad, se contentariam com achar logar no seu estomago. Eu nunca
-fui d’esta opinião; não pelo acto em si mesmo, mas pelas consequencias.
-Todavia ha paladares para tudo...
-
-Alguns entendiam que o melhor modo de conquistar a filha era captivar
-a mãe—pela bocca. Offereciam-lhe carregações de peixe-espada, cardumes
-de salmonetes, cabazes de laranjas—e então aquellas laranjas, as de
-Setubal! Um adorador setubalense mandou-lhe de uma vez um presente de
-sal, que chegava bem para salgar uma geração inteira. Outro _attaché_,
-lisboeta, riu do caso, fazendo notar que quem possuia uma filha assim
-tinha mais sal do que todas as marinhas do Sado.
-
-Para brindar Soledad, os seus admiradores iam colhêr as melhores flores
-das quintas de Brancannes, que dispunham em graciosos _bouquets_ e lindas
-_corbeilles_, recorrendo ao velho estratagema amoroso de esconder entre
-as flores uns versos ou uma carta, se bem que ella parecesse ás vezes
-gostar muito mais de laranjas que de flores.
-
-O proprio D. Enrique era obsequiado com garrafas de excellente moscatel,
-e seja dito em abono da verdade que o moscatel de Setubal parecia ter o
-condão de lhe aligeirar os desgostos causados pelas desgraças da patria.
-
-De dia para dia se tornava cada vez mais numerosa e obsequiadora a
-côrte em que a bella andaluza era rainha absoluta, omnipotente. Soledad
-sabia, como ninguem mais, conservar a illusão, a duvida ao mesmo passo
-cruel e deleitosa, que traz suspensos os namorados entre a esperança e o
-desalento. Não se deixava comprehender: esse era o seu grande segredo. A
-maior desgraça que póde acontecer a uma mulher é o ser comprehendida por
-todos. Umas vezes, parecia enlevada em extasis romanticos, tinha vagas
-abstracções, o seu olhar pairava no azul luminoso da noite. _Que bella es
-la luna!_ dizia. Dos seus labios adejava um suspiro, que era impossivel
-interpretar. Outras vezes, quando lhe faziam notar a belleza da lua,
-ria com desdem petulante, replicando que já estava enfastiada de ouvir
-fallar da lua de Portugal e da revolução de Hespanha.
-
-Emquanto uns fallavam a Soledad, vogando na ondulação das suas
-esperanças, ora afagadas, ora combatidas, D. Estanislada, a mãe,
-discorria a proposito do peixe-espada que tinha comido ao jantar com
-salada de alface e azeitonas, e D. Enrique discursava sobre a queda dos
-Bourbons ou sobre a frasqueira do sr. Fonseca, de Azeitão.
-
-Eu não posso dizer quantos e quaes fossem os satellites de Soledad a
-esse tempo. Eram muitos. Citarei apenas os que me forem lembrando. Um
-jornalista de Lisboa, o Goes, que mandava mais versos do que laranjas,
-e um morgado de Reguengos, que mandava mais laranjas do que versos. Um
-proprietario das Alcaçovas que se atirava ao coração de Soledad com
-sorrisos e presuntos. Um rapaz de Setubal, o Vianninha, que recorria
-ao auxilio das flôres, e que deixára pela bella hespanhola uma menina
-da terra, a Sequeira, que estava padecendo horriveis hysterismos por
-se vêr abandonada. O conselheiro Antunes, de Santarem, pessoa grave e
-dinheirosa, que se dirigia principalmente á mãe, não se sabia se para
-ficar por ahi, se como ponto de partida para se aproximar da filha. Um
-morrinhento hespanholito, tambem emigrado, D. Ramon Mendoza, que recitava
-versos como quem está a solfejar cantochão. O alferes Ruivo e o tenente
-Epaminondas, de caçadores 1. Um sueco, que estava ali a negocio: alto,
-louro, rosado e inintelligivel. Um marialva do Chiado, que fôra a uma
-corrida de touros, e não se demorára menos de quinze dias. Um estudante
-de Alcacer, Julio de Lemos, que tinha ido a férias, e não chegára a
-casa. Mas, francamente, é-me completamente impossivel enumerar todos
-os cortezãos da bella andaluza, tanto mais que todos os dias pareciam
-multiplicar-se como as cabeças da hydra de Lerna e os algarismos da
-divida fluctuante.
-
-Em face de tão numeroso cortejo, terá decerto perguntado já o leitor a si
-proprio como é que elles podiam conviver uns com os outros, sem desatar á
-descompostura e ao murro. A todos os trazia illudidos a esperança, como
-a duzentos candidatos que requerem o mesmo emprego. Fallavam-se, como
-os pretendentes se fallam debaixo da Arcada. Cada um tratava de metter
-memorial, e de arranjar as suas coisas. Havia _hotel_, o _Escoveiro_
-por exemplo, onde dormiam dois a dois, por falta de leitos. Ás vezes
-intrigavam-se. Finalmente, estavam em Setubal a amar a bella hespanhola
-como podiam estar em Lisboa a amar o deputado do circulo.
-
-Todos elles possuiam o retrato de Soledad, reproduzido do _cliché_ que um
-photographo ambulante, temporariamente estabelecido no largo das Almas,
-durante a estação de banhos, punha ao serviço do amor, na razão de 1$500
-réis por photographia. O retratista estava fazendo um grande negocio;
-parecia ter fome, quando ali chegou, mas, passados dias, ia todas as
-manhãs á praça do Sapal comprar uma bella posta de carne de vacca e um
-chouriço, levando tudo para casa n’uma folha de couve.
-
-Estes retratos duravam só mais quatorze manhãs do que a rosa de Malherbe.
-Quando muito, ao cabo de tres semanas a imagem desapparecia, apagava-se.
-Os enamorados iam fornecer-se de novo, n’uma grande anciedade amorosa, da
-qual o photographo ambulante desentranhava chouriços no dia seguinte.
-
-Á hora da ceia, na longa meza dos _hoteis_, um grupo de amorosos,
-n’uma orgia de moscatel, brindava pelo amor e pela esperança, havendo
-cada um encostado á garrafa ou á compoteira o retrato de Soledad.
-Então extasiavam-se, soltando _hurrahs_ perante o seu talhe _mignon_,
-o seu collo de pomba, os seus bellos cabellos negros, caprichosamente
-amontoados sob as rendas brancas da mantilha, os seus olhos penetrantes
-como punhaes de Toledo e vivos como carvões accesos, o seu gracioso ar
-petulante, illuminado por essa luz mysteriosa, que se projecta sobre as
-mulheres hespanholas, e que se chama—o _salero_.
-
-O conselheiro Antunes, que tambem estava n’um _hotel_, não tomava parte
-n’estas bacchanaes amorosas, condemnava-as mesmo, e tiravam-lhe o somno,
-quer fosse pelo ciume ou pela algazarra. No dia seguinte queixava-se de
-persevejos.
-
-O sueco, esse, embebedava-se com kirsch, e tornava-se inintelligivelmente
-gárrulo. Punha os olhos no tecto, parecendo recitar as mais sentimentaes
-estrophes da Scandinavia, ao passo que os portuguezes choravam de riso ao
-vel-o arroubado, e perguntavam entre si: «_Que diabo estará a dizer este
-pedaço de bruto!_»
-
-Uma noite, havia dado uma hora na egreja de S. Julião, e no _Hotel
-Escoveiro_ o grupo dos enamorados abordava a setima garrafa de moscatel,
-tendo cada um o retrato de Soledad em frente do seu prato, quando de
-repente, á porta da sala, uma figura inesperada apparece.
-
-Era D. Enrique Saavedra.
-
-O estudante d’Alcacer, que receiou uma tragedia de colera paterna em
-cinco actos e outras tantas bengaladas, lembrou-se de apagar o candeeiro.
-
-Fez-se um silencio profundo, que o sueco, alheio ao que se passava, e
-grandemente enkirschado, interrompeu começando a declamar palavras de
-quinze syllabas, longas e sibilantes como um comboyo.
-
-De repente, a voz de D. Enrique troveja:
-
-—_Hombres, por Dios, atencion!_
-
-O estudante foi tacteando a meza, ás escuras, para esconder os retratos,
-e aconteceu-lhe metter uma das mãos dentro de uma chicara de café.
-
-O sueco calou-se, porque o proprietario das Alcaçovas lhe deitou as mãos
-ás guelas.
-
-O jornalista lisboeta gritou que deixassem ouvir.
-
-Então D. Enrique declarou o que queria: Procurar o cirurgião ajudante de
-caçadores 1, para acudir a D. Estanislada, que estava afflictissima com
-uma indigestão de peixe-espada e salada d’alface.
-
-
-
-
-II
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-No dia seguinte, Julio de Lemos, o estudante de Alcacer do Sal, passeiava
-a sua paixão escholastica sob as arvores do largo das Almas, quando
-de repente lhe apparece, de physionomia completamente transtornada, o
-photographo ambulante. Que se encontrava n’uma situação afflictissima,
-disse-lhe o retratista. Um agiota de Lisboa, a quem devia cem mil
-réis, sabendo que estava fazendo interesses em Setubal, cahira sobre
-elle de chofre, tendo chegado no comboyo da manhã, para exigir-lhe o
-prompto reembolso de uma parte da divida. Que elle photographo se havia
-esquecido realmente de satisfazer as prestações estipuladas, que a
-mulher e os filhos gostavam muito de bifes, e que elle gostava não só de
-bifes mas tambem de moscatel de Azeitão. Que não tinha dinheiro algum
-de que podesse dispôr, e que o agiota queria retirar-se para Lisboa no
-comboyo da tarde, levando algum dinheiro. Sou um homem muito desgraçado!
-exclamava o photographo. E acrescentava: Portugal é um paiz perdido para
-os artistas! São todos como eu. (Referia-se certamente á pobreza, não ao
-moscatel e aos bifes).
-
-O estudante ouviu-o tendo nos labios um sorriso de extranha
-superioridade, com as mãos nos bolsos das calças, enfunando-as á hussard.
-E perguntou ao retratista:
-
-—O senhor viu alguma vez a _Cora_ em D. Maria II?
-
-—Vi, sim, respondeu promptamente o photographo. E acrescentou:—Uma só
-vez, sabe Deus com que sacrificio! para vêr o panorama do Mississipi, que
-me tinham gabado muito,—por amor da arte!
-
-—Pois bem. Lembra-se como o Cesar de Lima fechava um acto?...
-
-—_O senhor já viu alguma vez a Providencia? Pois a Providencia sou eu!_
-Parece-me que era isto.
-
-—Exactamente. É essa a phrase, observou Julio de Lemos. Em Lisboa a
-Providencia é o Cesar de Lima; em Setubal, sou eu.
-
-—O senhor!
-
-—Eu mesmo, _me adsum_.
-
-E tirou do bolso do frak todos os retratos que na vespera á noite havia
-podido encontrar sobre a mesa do _Hotel Escoveiro_, para que D. Enrique
-Saavedra os não visse. Mostrou-os ao photographo dizendo-lhe:
-
-—Vê isto?
-
-—Vejo. São os retratos da _senhorita Soledad_, como o photographo, no
-seu calão de circo, costumava chamar sempre á bella andaluza. Mas não
-comprehendo!
-
-—Pois não comprehende! extranhou o estudante. Vai comprehender. Hontem á
-noite, estando nós a ceiar no _Hotel Escoveiro_ e tendo os retratos de
-Soledad sobre a mesa, entrou inesperadamente D. Enrique Saavedra.
-
-—Oh diabo! exclamou o photographo. E elle soube que sou eu quem os tiro?!
-
-—Qual historia! Quando elle entrou, eu tive a idéa luminosa de apagar o
-candeeiro...
-
-—Então não foi luminosa, exclamou o photographo já tranquillo, e contente
-de si, por ter feito um dito gracioso.
-
-—É boa! exclamou o estudante, rindo estrepitosamente, e dando dois
-piparotes no estomago do photographo. Apanhou-a bem!...
-
-—É que d’estas coisas de luz, um photographo entende sempre.
-
-E riram de novo.
-
-—Ora bem, continuou Julio de Lemos. Eu tive a escura idéa de apagar o
-candeeiro, e de procurar em cima da mesa os retratos de Soledad. Durante
-a viagem das minhas mãos por sobre a toalha, introduzi uma d’ellas
-dentro de uma chicara de café, e estive para partir uma garrafa. Mas,
-felizmente, pude apanhar todos os retratos. São estes.
-
-O photographo começou a comprehender; sorria velhacamente.
-
-—Hoje, continuou o estudante, todos os hospedes do _Hotel Escoveiro_ irão
-a sua casa procurar retratos de Soledad, e o sr. venderá estes mesmos,
-exceptuando o meu, se quizer acceitar as condições que lhe vou propôr.
-
-O photographo ouvia attentamente, com uma curiosidade cheia de pontos de
-interrogação.
-
-—As condições são dar-me a commissão de vinte por cento em cada um
-d’esses retratos...
-
-Nos labios do photographo passou rapidamente um movimento de despeito.
-Litteralmente traduzida, essa crispação quereria dizer: Ah! maroto, que
-me comeste!
-
-Mas em voz alta:
-
-—Vá feito.
-
-—Espere lá,—continuou o estudante, que havia tres dias estava sem
-dinheiro—o meu amigo ainda não pensou na possibilidade de ir alguem
-a Lisboa mandar copiar qualquer d’estes retratos, de modo a poder-se
-reproduzir um _cliché_ por um preço muito inferior a 1$500 réis o cartão?
-
-—Sim... lá isso... mas a despeza do caminho de ferro?... e o
-incommodo?... e sobretudo... o ter que ausentar-se da senhorita Soledad,
-deixando o campo livre ao inimigo!
-
-Esta ultima advertencia do photographo tinha visivelmente por fim ferir a
-corda sensivel do coração do estudante, que se deu pressa em responder:
-
-—Ora o meu amigo excede na arte de não saber photographar o proprio
-Marcel das _Scenas da vida da bohemia_ (o livro predilecto do estudante)
-que tirava retratos aos granadeiros de Pariz com a similhança garantida
-por um anno. A imagem das suas photographias só pode ser garantida por
-quinze dias, o maximo. Portanto, d’aqui a oito dias, estes retratos
-estarão completamente apagados, o meu amigo terá novas encommendas, e eu
-continuarei a receber a commissão de vinte por cento, com direito a um
-retrato gratuito.
-
-O photographo transigiu, pactuou. O estudante entregou-lhe os retratos de
-Soledad, que n’esse mesmo dia foram vendidos aos seus admiradores—pela
-segunda vez.
-
-No dia seguinte, o photographo ia, com o producto d’esta receita
-inesperada, fazer uma patuscada a Azeitão, levando comsigo a mulher, a
-sogra, e os pequenos. O agiota de Lisboa tinha sido uma fabula inventada
-pelo desejo com que o photographo accordára de dar um rega-bofes a toda a
-familia. E o estudante habilitava-se a comprar ao feitor de uma quinta de
-Brancannes um bello ramo de flores com que corrêra a presentear Soledad,
-por isso que, _inopia pecuniae_, se havia deixado preterir n’este genero
-de galanteria idyllica.
-
-D. Estanislada estava inteiramente restabelecida. O cirurgião ajudante
-de caçadores 1 fôra felicissimo na prompta applicação de um copinho de
-genebra de Hollanda, que pôde quebrantar os impetos do peixe-espada
-no estomago da afflicta senhora. _Es usted un doctor completo!_ dizia
-ao outro dia D. Enrique Saavedra ao cirurgião, passeiando com elle
-na praia, e impingindo-lhe a centessima edição da historia oral dos
-acontecimentos de Hespanha. E como o doutor cahisse ingenuamente em dizer
-que andava fazendo estudos sobre a historia da poesia revolucionaria na
-peninsula, D. Enrique Saavedra começou a repetir-lhe, com uma facundia
-verdadeiramente hespanhola, varias quadras _callejeras_, como elle dizia,
-taes como estas:
-
- Ay qué risa, qué risa, qué risa
- Que Amadeo lo he visto en camisa!
- Ay salero, ay salero, ay salero,
- Que á Amadeo lo he visto yo en cuero!
-
- Si nos cumplen la palabra
- Zorrilla, Rivéro y Martos,
- Le pondrémes á Amadeo
- El passaporte en la mano.
-
-Entretanto, D. Estanislada, Soledad e o grupo dos admiradores da bella
-andaluza haviam-se encaminhado para o Passeio da praia de Troino. Era
-convidativo o local, e a grande serenidade do Sado punha no horisonte da
-paizagem uma vaga doçura inexplicavel.
-
-O sueco sentia-se bem deante do aspecto grandioso das aguas do rio, e
-do mar que se avistava ao longe. Era, em toda a sua pujança, n’esse
-momento, um homem do norte, habituado a vêr os grandes rios e os grandes
-lagos, sem se arripiar de frio, graças ao habito do clima septentrional
-e... ao kirsch. Como Soledad parasse ao pé do lago para lhe atirar uma
-pedrinha, que desappareceu descrevendo á superficie da agua ondulações
-concentricas, o sueco disse-lhe, na sua linguagem arrevesada, que se ella
-visse o lago Moelar, em Stockholmo, semeado de pequenas ilhas, ficaria
-verdadeiramente encantada, e baixo, ao ouvido, acrescentou: _Senhora
-poderr irr comiga, se querr casa mim._
-
-Como fosse o sueco quem n’essa tarde parecia ter adiantado terreno,
-os outros iam despeitados, e alguns, n’um grupo, faziam troça e iam
-chasqueando das suas calças curtas, das suas grandes botas rugosas, do
-seu passo de pachiderme, e da sua _gaucherie_ amorosa. O conselheiro
-Antunes, fallando com D. Estanislada, aconselhava-lhe que para a outra
-vez se abstivesse do peixe-espada, que na sua opinião era muito reimoso.
-
-Chegados á beira do rio, Soledad sentou-se, poz os olhos na corrente
-plácida do Sado, e tirou da sua alma de andaluza um suspiro que mandou ao
-Guadalquivir. Explicou ao sueco que a cidade de Sevilha ficava á margem
-do Guadalquivir, um bello rio, o mais formoso de todo o mundo! exclamou
-ella n’uma arrojada hyperbole hespanhola. O sueco sentiu-se ferido
-na corda do patriotismo, e replicou: _Nó! nó!_ E procurou justificar
-a negativa citando os principaes rios da Scandinavia, enumerando o
-_Tornea_, o _Lulea_, o _Pitea_ e o _Umea_. E o estudante, troçando,
-acrescentou do lado com ruidoso applauso dos circumstantes, e com a
-rapidez de quem está declinando nomes latinos: E o _Gelea_, o _Gouvea_, o
-_Obrea_, e o _Lamprea_.
-
-O sueco fez-se encarnado como uma cereja, sem perceber ao certo senão
-que estavam rindo d’elle, e Soledad vibrou uma gargalhada sonora como um
-tinido de crystaes, que se houvessem encontrado na sua garganta.
-
-Era que o estudante de Alcacer estava verdadeiramente desesperado. N’esse
-mesmo dia em que havia ido comprar um _bouquet_ a uma quinta, a cuja
-porta um grande cão arremettêra contra elle ladrando encolerisado, n’esse
-mesmo dia em que com varia fortuna tivera a vantagem de só elle offerecer
-flores e a contrariedade das iras do cão, via-se preterido pelo sueco.
-
-O estudante procurou desesperadamente no seu espirito uma idéa salvadora,
-que pudesse restituir-lhe a importancia que visivelmente ia perdendo.
-Queria a todo o custo deslocar o sueco da bella posição em que se
-encontrava, e pretendeu despertar na alma de Soledad as tendencias
-devaneadoras que por vezes se caracterisavam n’uma intermittencia de
-romanticismo. Propoz um passeio ao oratorio de Mendoliva, um sitio
-poetico, na encosta da serra de S. Filippe, quasi á beira-mar. Com
-effeito, o espirito da bella andaluza exaltou-se promptamente. Ella não
-sabia o que era Mendoliva, nem qual fosse a belleza d’esse local. Mas o
-seu delicado instincto de mulher e de andaluza adivinhou que se tratava
-de uma tradição romantica, de uma lenda nacional, e abraçou o alvitre.
-
-O estudante delirou de alegria, julgou-se victorioso.
-
-D. Estanislada perguntou a que distancia ficaria o oratorio. Indicou-lhe
-a direcção o Vianninha, o rapaz de Setubal, aquelle por quem a Sequeira
-estava bebendo anti-hysterico todas as noites. O alferes Ruivo e
-o tenente Epaminondas affirmaram que o sitio era delicioso. Mas o
-conselheiro Antunes recordou a D. Estanislada o preceito da eschola de
-Salerno:
-
- _Post prandium sta, post cœnam ambula_,
-
-e aconselhou-lhe que ficasse, que elle lhe faria companhia, _com muito
-gosto e muita honra_—palavras suas—, _minha senhora_. D. Estanislada
-acceitou a advertencia—por causa do estomago e de outros orgãos.
-
-Partiu em direcção ao oratorio de Mendoliva o alegre rancho da bella
-andaluza e dos seus cavalleiros _servientes_. O caminho, á beira-mar, é
-em verdade delicioso. O sol, n’uma grande explosão de luz, lançava sobre
-o mar uma chuva de oiro. Manchas encarnadas, de um colorido á Rubens,
-punham no horisonte uns tons de purpura, que davam ao sol uma magestade
-olympica, como as cortinas de um throno asiatico. Chegaram com effeito
-ao local da antiga ermida de S. Braz, onde em outro tempo um soldado
-portuguez se elevou em extasis de asceta, havendo trocado a espada pelo
-habito.
-
-Soledad gostou muito, comprehendeu a vaga poesia que se respirava ali, e
-pediu ao estudante a lenda do sitio.
-
-Pobre estudante! Viu-se entalado, sem saber como havia de tirar-se
-d’aquelle mau passo. Concluiu por dizer que o sitio não tinha lenda. Foi
-um golpe de espada de Alexandre. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas
-foram da mesma opinião: que o sitio não tinha historia. O proprietario
-das Alcaçovas acrescentou com uma rudeza brutal que não podia ser assim:
-que _Mendoliva_ havia por força de dizer alguma coisa. O morgado de
-Reguengos acudiu em auxilio do patricio, pela honra do Alemtejo: que
-_Mendoliva_ havia de ter uma significação qualquer. Então o jornalista
-Aurelio Goes, que se havia conservado calado, com um sorriso de ironia
-nos labios, poz-se em evidencia: disse que o chronista Ruy de Pina
-contava que Mendo Gomes de Seabra fôra um cavalleiro do tempo de D. João
-I, que, mais tarde, já depois do desastre de Tanger, se apartára do mundo
-ermando ali, e que, passados annos, fundára o mosteiro de Alferrara.
-
-Julio de Lemos, desesperado, apopletico de colera, observou que o
-jornalista estava confundindo Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares
-Pereira, que fôra quem depois de ter militado nos exercitos de D. João
-I resolvêra vestir o habito monastico, e que provavelmente o povo
-setubalense confundiu os dois individuos na mesma lenda.
-
-Aurelio Goes despeitou-se, e perguntou ao estudante se elle já havia
-feito exame de historia portugueza. O Lemos respondeu insolentemente:
-que sim, mas que talvez a tivesse desaprendido lendo os jornaes. O
-jornalista perguntou se se referia ao jornal de que elle era redactor.
-E o Lemos, querendo nivelar-se á altura de um Cid campeador perante a
-bella andaluza, respondeu que não podia referir-se a outro jornal, visto
-que o seu redactor confundia Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares
-Pereira. Aurelio Goes ainda avançou para o estudante, mas o proprietario
-das Alcaçovas deitou-lhe a mão ao braço, como na vespera havia deitado as
-mãos ás guelas do sueco.
-
-Soledad acompanhou com os seus bellos olhos penetrantes todos os
-episodios d’este conflicto. Comprehendeu perfeitamente tudo o que se
-havia passado, e quiz dissipar a nuvem negra que subitamente se formára.
-Lembrou que o sitio era encantador, que convidava á poesia, e pediu ao
-estudante que recitasse uns versos. Julio de Lemos desculpou-se, que
-estava indisposto, que se não lembrava de versos nenhuns. Ella insistiu,
-com imperiosa meiguice. Que não, que não podia, tornou o estudante.
-Soledad redobrou de instancias. O estudante, com as faces rubras como
-papoulas e os olhos congestionados, teve que ceder e começou a recitar,
-com uma precipitação colerica:
-
- As flores d’alma que se alteiam bellas,
- Puras, singelas, orvalhadas, vivas,
- Têm mais aromas, e são mais formosas,
- Que as pobres rosas, n’um jardim captivas.
-
-Completamente fóra de si, fez uma longa pausa, procurando visivelmente
-lembrar-se da segunda quadra. Depois ia continuar com igual precipitação:
-
- Sol bemfazejo lhes aquece a chamma
-
-e, olhando n’este momento para Aurelio Goes, viu que elle sorrira. Sem
-mesmo perceber que se havia enganado, e dito uma tolice, o estudante
-exclamou: «Oh! é de mais!» Subitamente, Soledad levantou-se e disse com
-uma gravidade que ninguem podia decerto esperar: _Caballeros, hagan
-usteds favor de acompañarme_.
-
-Seguiram-n’a todos, n’um cortejo silencioso. Mas, poucos passos
-andados, Soledad desfechou uma gargalhada crystallina, e, voltando-se
-para D. Ramon Mendoza, declamou com ares mysteriosos, com uma graça
-verdadeiramente andaluza:
-
- ...á fé mia,
- Que estoy resuelto á mataros
- Y no alcanzara á libraros
- La misma virgen Maria.
-
-As gargalhadas eram estrondosas, resoantes; o estudante, tendo dado o
-braço ao alferes Ruivo, dizia-lhe a meia voz, cheio de colera: «O que
-elle não sabe é que tem de se bater comigo! Por força!»
-
-Sahiram-lhes ao encontro D. Estanislada e o conselheiro Antunes, aos
-quaes se haviam juntado D. Enrique Saavedra, e o cirurgião ajudante de
-caçadores 1.
-
-—É bonito? perguntou D. Estanislada á filha, em hespanhol, ainda a certa
-distancia.
-
-—Formosissimo! respondeu Soledad.
-
-—Sabes tu! disse D. Estanislada, temos aqui um insigne cosinheiro,
-e indicou o conselheiro Antunes. Iremos ámanhã comer uma grande
-caldeirada... aonde?... como se chama aquillo? e apontou para a outra
-margem do rio.
-
-—Troia, respondeu o conselheiro com a gravidade de um Páris de cincoenta
-annos.
-
-—Excellente! commentou o morgado de Reguengos. As laranjas, essas, ficam
-por minha conta.
-
-—Havemos de bater-nos, por força, tornou o estudante a dizer a meia voz
-ao alferes de caçadores.
-
-
-
-
-III
-
-
-N’essa noite, foi no _Club Setubalense_ que se improvisou a _tertulia_.
-Soledad e mais tres senhoras hespanholas constituiam todo o feminino da
-sala; mas por muitos que fossem os satellites, e por mais brilhante que
-palpitasse o lume de seus olhos castelhanos, Soledad, o bello astro da
-praia, a todos offuscaria com a graça picante dos seus sorrisos, dos seus
-olhares, e do seu desembaraço andaluz. Não havia, portanto, necessidade
-de mais senhoras ali. Em estando Soledad, ella só bastava a encher de
-torrentes de vida a sala e os corações. A irradiação da sua belleza era
-como a da lua, nas formosas noites de verão.
-
-No elemento masculino notava-se, porém, uma certa agitação n’essa noite.
-Os admiradores de Soledad entravam e sahiam frequentemente da sala,
-cheios de uma certa preoccupação mysteriosa. O proprio conselheiro
-Antunes desapparecêra. Algumas pessoas envenenavam este facto, fazendo
-notar que Dona Estanislada não estava presente. Mas bem podia ser que o
-conselheiro Antunes, entrando nas suas funcções de cosinheiro, corresse a
-cidade em todas as direcções, procedendo aos preparativos indispensaveis
-para a caldeirada do dia seguinte. Elle comprehendia perfeitamente
-que todos os conselheiros portuguezes ficariam compromettidos na sua
-respeitabilidade de classe, se o _pic-nic_ disparasse n’um enorme
-_fiasco_ culinario. De mais a mais, a sua reputação individual de Vatel
-amador, affirmada por muitas vezes nas patuscadas aristocraticas de
-Santarem, encontraria nas areias de Troia um verdadeiro Waterloo, uma
-deploravel ruina.
-
-Isto pelo que respeita ao conselheiro. Quanto aos outros, a causa da
-sua preoccupação era diversa. Sentia-se effectivamente que andava no
-ar um acontecimento extranho, extraordinario, alarmante. N’um gabinete
-interior conferenciava-se em tom discreto; entravam uns, sahiam outros,
-e o marcador do bilhar, que espreitava cheio de curiosidade por um
-pequeno buraco do tabique, chegou a suspeitar de que estivessem bebendo
-á socapa,—julgando-se até certo ponto desconsiderado por lhe não haverem
-distribuido o papel de Ganimedes do festim.
-
-O marcador era um tolo, um guloso, para não dizer um borracho. Ali, no
-gabinete, não se tratava de beber vinho; se havia sêde, era de sangue.
-O estudante de Alcacer queria sugar as veias do jornalista de Lisboa,
-escorropichar-lhe as arterias, mastigar-lhe o coração. Uma carnificina!
-O alferes Ruivo dirigia os preliminares do duello, e dizia facetamente
-que, _coisas d’esta natureza_, em que elle entrasse, haviam de acabar por
-força em sarrabulho. Que não era para brincadeiras, que tinha uma farda,
-que devia honral-a, e que estava n’essa firme convicção. Que o duello
-havia de ser de morte, a poucos passos de distancia, á pistola, pelo
-menos; por não estar em costume bater-se ninguem a canhão, porque seria
-esse o meio mais racional de dois sujeitos se metralharem.
-
-No botequim da praia contava-se, commentava-se o _escandalo_ d’aquelle
-dia. Que o Lemos e o Goes não só se haviam insultado de palavras, na
-presença de Soledad e por causa d’ella, mas que tinham mesmo chegado
-a vias de facto, arrancando os cabellos, e não sei se os olhos, um ao
-outro. Alguns curiosos foram ao lugar do conflicto para verificar se
-havia no chão nodoas de sangue, e algum olho perdido. Não encontraram
-nada. Acrescentava-se que o administrador do concelho já tinha tomado
-conhecimento do facto, que o poder judicial receberia participação, e
-todo este _escandalosinho_ era saboreado a pequenos goles, como um vinho
-generoso. Em Setubal, quando algum acontecimento extraordinario occorre,
-põem-n’o de escabeche para durar mais tempo. Sabem tratar muito bem do
-peixe e do escandalo de conserva. Depois, os commentarios saltavam. Uns
-velhos sacudiam o seu caruncho em phrases desdenhosas: «Que tolos! são
-uns asnos! Tudo isto por causa de uma hespanhola que os anda a comer!» E
-outros, mais philosophos: «Todas as mulheres são da mesma massa, tanto
-faz que sejam hespanholas como portuguezas.» E um bregeirote, do lado:
-«Se ella fosse de massa não se massavam elles tanto!...» «Aquillo é para
-lavar e durar!» commentava um capitão de navios, vermelho e grosso, já
-entrado na genebra de Hollanda, que bebia aos copinhos, de um só sorvo.
-
-No gabinete do _Club_ resolveram que era melhor o estudante apparecer na
-sala da dança, para _dissipar suspeitas_. Quando o marcador o apanhou na
-casa do bilhar, depois de haver sabido por um frequentador do botequim,
-que ali entrara a historia exagerada do conflicto na praia, chegou-se-lhe
-ao ouvido, e disse com os ares de superioridade de quem está de posse
-de um segredo: «Então o senhor tira a desforra, hein?» «Chut! respondeu
-Julio de Lemos. Eu cá sou assim, ha de ser duello de morte!» O marcador
-ficou entalado: «De morte?» perguntou. E como o estudante lhe voltasse
-as costas, saboreando a sua reputação de duellista, o marcador foi
-vêr ao livro dos _fiados_ a quanto montava a divida do estudante. E
-sommou: Cinco partidas de bilhar, dois charutos, um copo de vinho do
-Porto: total, 360 réis. O Lemos fez a sua entrada na sala, apparentando
-uma serenidade heroica, a serenidade fria de um Cassagnac; julgava-se
-circumdado de um resplendor glorioso. Mas Soledad parecia não o haver
-comprehendido, mostrava-se uma digna representante de um paiz de antigos
-brigões de capa e espada, e de modernos toureiros audaciosos. Não fez
-caso do heroe. Estava apertando a cravelha amorosa ao sueco, conseguindo
-extrahir d’elle, do _Stradivarius_ que todo o homem tem no coração,
-notas de uma melifluidade assombrosa nas raças do norte. Ella tinha-o
-embriagado com o _Kirsch-Wasser_ dos seus olhos. Estava tonto de amor o
-sueco, bebado de _salero_, e, no _grand’-chaine_ dos _Lanceiros_, as suas
-mãos enormes, duras e grossas, pareciam ter uma delicadesa de sensitiva,
-as contracções nervosas dos tentaculos de um caranguejo, ao colherem os
-dedos avelludados e finos de Soledad.
-
-Depois da dança, rendeu-se culto á poesia. O estudante, que estava sempre
-na vanguarda dos recitadores, menos do que nunca se fez rogar n’essa
-noite. Recitou versos de Alvares de Azevedo, o mais genial, o mais
-nacional dos poetas brazileiros, talvez. E de pé, tendo na voz todas
-as commoções ao mesmo passo epicas e lyricas do homem que vae expôr-se
-heroicamente á morte, estando psychologicamente mais vivo do que nunca,
-declamou:
-
- Se eu morresse ámanhã, viria ao menos
- Fechar meus olhos minha triste irmã:
- Minha mãe de saudades morreria,
- Se eu morresse ámanhã.
-
- Quanta gloria presinto em meu futuro!
- Que aurora de porvir e que manhã!
- Eu perdêra chorando essas corôas,
- Se eu morresse ámanhã.
-
- Que sol! que ceu azul! que doce n’alva
- Acorda a natureza mais louçã!
- Não me batêra tanto amor no peito,
- Se eu morresse ámanhã.
-
- Mas essa dôr da vida, que devora
- A ancia de gloria, o dolorido afan...
- A dôr no peito emmudecêra ao menos,
- Se eu morresse ámanhã...
-
-Na verdade o estudante de Alcacer difficilmente poderia ter escolhido
-outra poesia, que melhor traduzisse as grandes luctas intimas da sua
-alma. É certo que nos pormenores da composição não havia inteira
-identidade de circumstancias entre o recitador e o poeta. O estudante
-nunca tivera irmã nenhuma, e porisso estava bem longe de que a piedade
-fraterna tomasse sobre si o encargo de lhe fechar os olhos. E ainda
-que caisse ferido no campo da honra, de pistola em punho, sua mãe não
-morreria de saudade, pela simples rasão de já ter morrido, alguns annos
-antes, com as febres de Alcacer. Quanto ás _corôas_, que elle perderia
-morrendo, a dessimilhança era profunda. O pae, com quanto fosse um
-bom proprietario de marinhas, estava cançado com as prodigalidades do
-filho,—isto pelo que toca ás corôas de... dez tostões; quanto ás de
-loiro, colhidas nas lides de Minerva, as _raposas_ encarregavam-se de
-lh’as devorar annualmente. Mas, em tudo o mais, essa triste prophecia de
-Alvares de Azevedo parecia quadrar á situação do estudante.
-
-Soledad deu mediana importancia aos versos e ao recitador... N’essa noite
-parecia deliciada em conhecer como um homem forte do norte póde estontear
-de amor sob a influencia de uma mulher do sul. Quando o estudante sahiu
-da sala, jurando aos seus deuses matar o sueco, depois de ter matado o
-jornalista, o marcador chegou-se ao pé d’elle, e lembrou-lhe _aquella
-continha de dezoito vintens, visto que ha viver e morrer, e elle haver
-dito que o duello havia de ser de morte_...
-
-O estudante ficou vivamente contrariado, remexeu nas algibeiras, e poude,
-ao cabo de muitas pesquizas, encontrar 150 réis.
-
-—Aqui tem, disse elle ao marcador; e se eu morrer, mandem-me penhorar
-pelo resto no inferno. O cobrador que pergunte ao Cerbéro por Julio de
-Lemos. Cerbéro é um cão...
-
-—Lá isso é, ficou dizendo o marcador, e de 210! Corja de pulhas!...
-
-No gabinete as negociações haviam caminhado rapidamente durante a breve
-ausencia do estudante. Os _padrinhos_ conferenciaram, o alferes Ruivo
-declarou muitas vezes, piscando o olho para o lado, que o duello havia
-de ser de morte, que o seu committente queria matar ou morrer, que a
-offensa tinha sido grave, mas foi redigindo a seguinte acta, que já
-estava prompta quando o estudante entrou:
-
- «Nós abaixo assignados fomos encarregados pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio
- de Lemos de procurar o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, a fim de lhe
- pedirmos explicações sobre algumas phrases violentas que na
- tarde de hoje, e junto ao oratorio de Mendoliva, suburbio
- de Setubal, dirigira ao nosso digno e brioso committente.
- Immediatamente o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes encarregou os dois
- cavalheiros, que comnosco assignam, de nos procurarem para
- deliberarmos sobre o que á honra de ambos mais conviesse,
- fazendo-se reciprocas declarações de que tanto um como o outro
- estavam dispostos a sacrificar-se para satisfação da propria
- honra, caso se reconhecesse que havia sido offendida. Examinada
- por nós maduramente a causa do conflicto, e a maneira por que
- elle se deu, entendemos em nossa consciencia e dignidade que
- as phrases tidas por violentas, apenas continham allusões
- litterarias, que de nenhum modo podiam susceptibilisar (_sic_)
- os brios pessoaes d’aquelles dois cavalheiros, pelo que foi
- por nós quatro reconhecido que não havia motivo rasoavel para
- que esta pendencia proseguisse, devendo outrosim declararmos
- que os nossos committentes se comportaram de modo a affirmar
- louvavelmente o seu pundonor e a sua coragem, como pessoas que
- nobremente antepõem o respeito pela honra individual a todas e
- quaesquer conveniencias materiaes.
-
- Setubal, etc., etc.
-
- Pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos, _Fuão_ e _Fuão_.
-
- Pelo ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, _Fuão_ e _Fuão_.
-
-O alferes Ruivo achou prudente não levar mais longe a brincadeira do
-duello, receiando que o coronel de caçadores 1 tomasse a coisa a serio,
-se elles chegassem a ir ao campo.
-
-O estudante, ouvindo lêr a acta, conjunctamente com o jornalista,
-declarou que effectivamente lhe parecia que os factos estavam
-correctamente apreciados, mas que muito o contrariava não poder
-experimentar no campo da honra a sua coragem; por sua parte, o jornalista
-disse que os factos haviam sido fielmente interpretados, mas que
-lamentava que ainda d’aquella vez elle não podesse provar que pertencia
-ao numero dos jornalistas, que acceitam a responsabilidade das suas
-acções e das suas palavras em qualquer campo aonde sejam chamados.
-
-Resolveu-se mais que as pazes fossem solemnemente selladas com um abraço,
-e que uma copia authentica da acta apparecesse no proximo domingo nas
-columnas da _Gazeta Setubalense_, e na _Trombeta Ulyssiponense_, de que
-Aurelio Goes era redactor effectivo.
-
-O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas riram a bandeiras
-despregadas quando ouviram lêr a acta, e declararam categoricamente que,
-se os duellistas houvessem tentado bater-se, teriam ido separal-os a
-murro e a ponta-pé.
-
-Havia tal energia alemtejana n’esta declaração dos dois, que toda a gente
-os acreditou, incluindo os padrinhos e os proprios duellistas.
-
-Julio de Lemos sentiu os seus nervos mais tranquillos, porque a verdade
-é que ninguem sabe aonde uma bala póde ir parar; mas por outro lado foi
-obrigado a reconhecer que lhe faltava o prestigio da heroicidade, que lhe
-tinha fugido das mãos um titulo altamente recommendavel,—a reputação de
-duellista.
-
-D. Enrique Saavedra entendeu que eram horas de pôr têrmo á _tertulia_,
-quando na egreja de S. Julião bateram as dez. Que sua mulher estava só em
-casa... e além d’isso o banho... que a maré era cedo: respondia elle ás
-instancias com que lhe pediam meia hora, mais meia horinha ao menos. Mas
-a verdade era que D. Enrique estava aborrecido por lhe faltar o cirurgião
-ajudante, para fallar com elle sobre a politica do Hespanha, e que, por
-causa do duello, não apanhára ninguem a quem podesse massar.
-
-Na praia, quando a familia Saavedra se dirigia para casa, acompanhada por
-todos aquelles que constituiam o seu sequito habitual, um vulto passava
-em direcção opposta, e, sendo reconhecido, chegára-se a D. Enrique e
-dissera-lhe a meia voz, com alguma atrapalhação:
-
-—Sabe _usted_ que ainda não pude até agora arranjar azeite bom para a
-caldeirada de amanha?! Com mau azeite não ha caldeirada que preste...
-
-
-
-
-IV
-
-
-Amanheceu glorioso o dia seguinte.
-
-Ás sete horas da manhã, já o conselheiro Antunes andava no velho mercado
-da praça do Sapal, comprando as melhores fructas que pôde encontrar.
-Tambem comprou algumas flôres para offerecer a D. Estanislada e a
-Soledad. Seguiam-n’o dois rapazitos com cêstas á cabeça. Do Sapal, onde
-não olhou a dinheiro, dirigiu-se para o mercado do peixe, onde comprou o
-melhor e o mais caro. A sorte favoreceu-o: os salmonetes eram a rôdos. A
-caldeirada devia ficar famosa.
-
-Foi no mercado do peixe que o estudante d’Alcacer lhe appareceu todo
-açodado.
-
-—Tão matutino, sr. Julio de Lemos! exclamou, ao vêl-o, o conselheiro.
-
-—Ha caso! respondeu o estudante.
-
-—Caso! repetiu com surpresa o conselheiro. Querem vêr que a D.
-Estanislada tornou a apanhar uma indigestão, e que já não vamos a Troia!
-Pois ha de perder-se tudo isto!
-
-E com um olhar desalentado, em que se liam poemas d’angustia, relanceou
-os olhos ás flores, ás fructas, ao peixe. Se podesse olhar para si mesmo,
-o conselheiro Antunes tel-o-ia feito involuntariamente, significando a
-magua que lhe causava o perder-se tambem elle proprio, o seu raro talento
-culinario, que desejava exhibir, n’esse dia, perante D. Estanislada, e os
-outros.
-
-—Qual! Nada d’isso e melhor que isso!
-
-Aquietou-se o semblante do conselheiro, que entretanto se havia lembrado
-de que se perderia tambem o excellente azeite, que finalmente podéra
-descobrir. Não era isso? Ainda bem! Salvava-se tudo, incluindo o azeite
-magnifico e o talento culinario.
-
-Julio de Lemos, rapidamente, explicou:
-
-—Chegaram hontem á tarde as _netas do Padre Eterno_!
-
-O conselheiro fez uma cara de espanto, de surpreza, e desconfiança: cara
-de quem não percebia nada.
-
-—Como! exclamou. As _netas do Padre Eterno_! Então vossa senhoria, sr.
-Julio de Lemos, propõe-se agora brincar com o Padre Eterno e comigo!
-
-E, de repente, reconquistou toda a plenitude do seu bello ar
-conselheiratico, muito emproado.
-
-—Pois vossa excellencia imagina que estou brincando! respondeu o
-estudante. As _netas do Padre Eterno_ são tres lindas meninas da
-Messejana, que já cá estiveram ha dois annos, e deixaram toda a gente
-encantada.
-
-—Mas o que têm essas tres lindas meninas com o Padre Eterno? perguntou
-auctoritariamente o conselheiro.
-
-—Têm... que são netas do avô. Nós pozémos-lhes a alcunha de netas do
-Padre Eterno, porque o avô, o Rodarte, é um velho de grandes barbas
-brancas, que faz lembrar as imagens do Padre Eterno. Não ha ninguem mais
-estimavel do que o bom velho, que morre por jogar o voltarete, e que
-mette as cartas pelos olhos dentro, porque é muito myope. Mas as netas,
-as netas, sr. conselheiro, são as tres graças, acredite!
-
-—Bem! Bom é que a praia se vá animando cada vez mais! Mas não percebo
-a razão por que o sr. Julio de Lemos classifica de _caso_ esse
-acontecimento, aliás vulgar!
-
-—É que eu encontrei-as agora. Estive-lhes a contar o que ia por cá, o que
-nos temos divertido com a familia de D. Enrique, e a caldeirada que hoje
-vamos fazer, graças ao talento culinario de vossa excellencia.
-
-—Muito obrigado pelo seu obsequio, disse o conselheiro, lisongeado nas
-suas prosapias de Vatel amador.
-
-—E, como ellas mostrassem pena de perder a caldeirada, julguei que não
-era decente deixar de convidal-as. Vinha, portanto, prevenir d’isto vossa
-excellencia, na sua qualidade de nosso amavel amphitryão, e pedir-lhe
-desculpa da minha ousadia, que aliás as circumstancias justificam.
-
-—É um acto de gentileza, que se deve ter sempre com as damas... Nada
-tenho que objectar. Apenas, não sei se a familia de D. Enrique deveria
-ter sido prevenida primeiro...
-
-—Qual! N’uma praia não ha dessas etiquetas. De mais a mais D. Estanislada
-e Soledad são muito sociaveis, gostam immenso de boa companhia, e a prova
-está em que apreciam sempre a presença de vossa excellencia...
-
-—Oh! sr. Julio de Lemos! Mil vezes obrigado... Bem! bem! Eu vou reforçar
-um pouco o contingente dos salmonetes, visto que os ha com abundancia
-no mercado, felizmente! Só peço a vossa senhoria que tenha a bondade de
-explicar a D. Estanislada o gentil passo que deu, de modo a não me poder
-ser imputada a iniciativa d’elle.
-
-—Perfeitamente. Mil vezes obrigado. Então a que horas é a partida?
-Preciso ir prevenir as Rodartes.
-
-—Ás duas em ponto, no caes do Livramento.
-
-—Bem! bem! Ás duas em ponto lá estaremos, e terá vossa excellencia
-occasião de conhecer as tres lindas netas...
-
-—Do Padre Eterno, atalhou, sorrindo, o conselheiro.
-
-E foi d’ali _reforçar_, como elle disse, _o contingente dos salmonetes_.
-
-O estudante andára com certa finura em todo este negocio.
-
-Quando viu as Rodartes, que eram realmente tres lindas mulheres, ficou
-contentissimo por se lhe deparar tão feliz achado. Lembrou-se logo de que
-ellas cahiam do ceu para disputar a Soledad o premio da belleza. D’este
-modo conseguir-se-ia abater, pela concorrencia, o orgulho da andaluza.
-E elle, namorando alguma das tres, a Hilda, principalmente, a quem já
-havia, dois annos antes, arrastado a aza, vingar-se-ia dos desdens com
-que Soledad acolhia por vezes, sempre caprichosa e indefinida, os seus
-galanteios.
-
-Inculcou-se ao Rodarte e ás netas como um dos promotores da caldeirada,
-tendo portanto auctoridade para fazer o convite, que, n’essa fé, foi
-acceito.
-
-Depois correu a procurar o conselheiro, mudando as guardas á fechadura:
-desculpando-se do que fizera, pois que o conselheiro era o amphitryão da
-caldeirada.
-
-E, tendo visto flôres dentro de um dos cestos, flôres que eram certamente
-destinadas a D. Estanislada e Soledad, não quiz ficar atraz em gentileza
-para com as Rodartes. Foi ao Sapal comprar dois ramos de flôres, que uma
-palmelôa lhe vendeu por quatro vintens. O seu desejo era comprar tres
-ramos, mas, para isso, não lhe chegava o dinheiro. Cortou o nó gordio,
-desfazendo em casa os dois ramos, e compondo tres, que sahiram mais
-geitosos do que estavam os dois.
-
-Olhando, contente da sua obra, para elles, teve Julio de Lemos esta
-observação sensatissima:
-
-—Para saber economia, não é preciso ser economista: basta não ter
-dinheiro.
-
-Depois foi avisar a familia Rodarte de que ás duas horas em ponto
-partiriam todos do caes do Livramento.
-
-Ficaram contentissimas as Rodartes com a boa estreia que a sua estação
-balnear ia ter.
-
-Orphãs de pai e mãe muito novas, era com o avô que tinham sido creadas.
-Baboso por ellas, o velho Rodarte fazia o que as netas queriam, não tinha
-vontade propria. Extremamente myope, como o estudante d’Alcacer dissera,
-ia para toda a parte comboyado pelo braço de alguma das netas, quasi
-sempre Salomé, que era a mais velha, e das tres a menos formosa. Tinha
-vinte e tres annos.
-
-Hilda e Maria Ignez eram gémeas e encantadoras. Vinte e um annos
-adoraveis. Mulheres fortes, de olhos negros, faces radiosas, braços
-_potelés_, cobertos de um frouxel que reluzia ao sol como uma pennugem de
-ouro.
-
-Salomé era menos forte e menos bella. Mas havia na sua physionomia uma
-graça peninsular, que não tinha inveja á formosura. E a sua conversação,
-os seus ditos de espirito, partiam da sua bocca graciosa e sã como
-settas que brilhavam mais do que feriam.
-
-Eram ricas, duplamente ricas, pelo pae e pela mãe. No districto de
-Beja não havia casa melhor do que a sua, cujas herdades e montados se
-espalhavam para o oriente até ao Chança e para o sul até Almodovar.
-
-O avô recommendava-lhes sempre que não tivessem pressa de casar, porque
-não poderiam encontrar noivos que as estimassem mais do que elle.
-
-E enterradas na Messejana, lonje das tentações do mundo, ellas pareciam,
-realmente, não ter pressa de casar.
-
-No tempo dos banhos costumavam ir para Sines, que era uma semsaboria
-pouco melhor que a Messejana. Um anno, para variar, conseguiram arrastar
-o avô até Setubal, onde fizeram sensação, e ficaram sendo conhecidas
-pelas _netas do Padre Eterno_. Mas o avô fatigara-se com a jornada, e no
-anno seguinte voltaram para Sines. Agora fôra elle que voluntariamente,
-conhecendo que as suas tres graças preferiam naturalmente Setubal a
-Sines, se offerecera de motu proprio ao sacrificio, com a sua patriarchal
-bonhomia de avô baboso.
-
-Julio de Lemos, que encontrára na Physica da Escola Polytechnica um
-barranco ainda não vencido, resignava-se, durante as ferias, do desgosto
-que no fim de todos os annos lectivos recebia em Lisboa. Namorando e
-perpetrando o seu verso, preparava-se para no anno seguinte investir
-novamente com a Physica.
-
-Fôra um dos mais dedicados satellytes das _Netas do Padre Eterno_, quando
-ellas pela primeira vez appareceram em Setubal. Versejára em honra de
-todas tres, mas não era um namorado que ninguem tomasse a serio. Todos
-os galanteios que as irmãs Rodartes inspiraram, e foram muitos, não
-podiam auctorisar-se com a esperança de casamento. Mas, em compensação,
-ellas haviam atravessado triumphantemente Setubal, durante toda uma
-epocha balnear, sob uma chuva de flores.
-
-Agora, que voltavam inesperadamente, encontravam ainda Julio de
-Lemos escravisado pela Physica da Escóla Polytechnica, mas disposto
-a divinisal-as mais uma vez, não só para honrar o passado, como para
-aligeirar o presente, e, sobretudo, para vingar-se da altivez castelhana
-de Soledad.
-
-Orientado por este complexo programma, não podendo disfarçar a alegria
-com que se propunha realisal-o, appareceu ás duas horas em ponto, no caes
-do Livramento, acompanhando as formosas _Netas do Padre Eterno_, á frente
-Hilda e Maria Ignez, elle a par das duas, mais atraz Salomé dando o braço
-ao avô myope, como Antigone a Œdipo.
-
-
-
-
-V
-
-
-Estava já no caes a bella Soledad com toda a sua côrte.
-
-O conselheiro Antunes dava ordens, fazia recommendações aos barqueiros:
-que não esquecessem isto, que não deixassem ficar em terra os cabazes com
-as loiças, e as celhas com o peixe.
-
-D. Enrique lia um jornal hespanhol, recebido n’essa manhã, e de momento a
-momento commentava a leitura monologando: _Qué broma!_
-
-D. Estalisnada mostrava-se encantada com a solicitude cavalheirosa do
-conselheiro Antunes, e fallava tantas vezes no azeite, que o morgado de
-Reguengos disse para o proprietario das Alcaçovas: «N’isto do azeite anda
-marosca; é linguagem combinada.»
-
-Quando o grupo das Rodartes chegou, houve sensação no grupo de Soledad.
-Foi como se duas côrtes se chocassem.
-
-O morgado de Reguengos, o proprietario das Alcaçovas, os dois
-officiaes de caçadores 1 e o Vianninha já as conheciam. Correram a
-cumprimental-as, a dar-lhes as boas-vindas, a fallar ao avô.
-
-Julio de Lemos, muito expansivo, apresentou a familia Rodarte aos que
-pela primeira vez a viam.
-
-Dirigindo-se a Soledad, teve uma phrase tão amável como ironica:
-
-—Ficará eternamente na memoria do rio Sado este encontro da belleza de
-Portugal com a belleza de Hespanha.
-
-Uma explosão de riso saudou esta apresentação original. As tres Rodartes
-sorriram, mas coráram. Soledad sorriu, mas feriu-se. Percebeu que n’esse
-momento lhe vacillava na cabeça a corôa de rainha da belleza, até ahi
-indisputada.
-
-A apresentação ao conselheiro Antunes foi, por parte do estudante, muito
-respeitosa:
-
-—Apresento a vossas excellencias um dos mais illustres e respeitaveis
-cavalheiros que tenho tido a honra de conhecer: o abastado proprietario
-de Santarem, dr. Antonio José Antunes, do conselho de sua magestade
-fidelissima, e presidente da junta geral d’aquelle districto. A vossa
-excellencia, sr. conselheiro, apresento o abastado proprietario da
-Messejana, o sr. Araujo Rodarte, e suas encantadoras netas.
-
-Julio de Lemos, em attenção a ser o conselheiro o amphitryão da festa,
-carregou a mão nos elogios que lhe teceu, para de algum modo o indemnisar
-da despeza que elle fizera _reforçando um pouco o contingente dos
-salmonetes_.
-
-D. Enrique, na primeira occasião que teve, perguntou a Julio de Lemos se
-o velho Rodarte era bom conversador. Ficou contente de obter uma resposta
-affirmativa, porque encontrava mais uma victima para as suas estopadas
-sobre a politica hespanhola.
-
-E, para estreitar desde logo as relações com a sua victima, dirigiu-se a
-ella dizendo-lhe:
-
-—_És usted un imponente anciano, de mi mayor respeto._
-
-_Imponente anciano!_ Esta só podia lembrar a um hespanhol! Mas as barbas
-brancas do velho Rodarte eram dignas da hespanholada.
-
-Embarcaram todos, não sem a hilaridade que o embarque de senhoras
-produz sempre. D. Estanislada precisou que o conselheiro Antunes, muito
-cavalheiresco, lhe désse a mão. Os barcos, largando do caes, aproáram a
-Troia.
-
-Soledad quiz que o sueco, cujo nome eu não citarei emquanto o não souber
-escrever correctamente, o que aliás não é facil, se sentasse a seu lado.
-Era a resposta ao cartel de desafio, que o estudante lhe trouxera com a
-presença das Rodartes. O seu raciocinio devia ter sido este: «Portugal
-quer esmagar-me? Pois bem! eu esmagarei Portugal.» E sobre o Sado, como
-na vespera, era a Suecia que triumphava.
-
-Chegados a Troia, tratou-se em primeiro logar de montar o arsenal
-culinario.
-
-O conselheiro Antunes quiz desde logo installar-se como Vatel amador.
-Muito methodico, elle mesmo dispunha os utensilios, procurava os
-tempêros, emquanto os barqueiros accendiam o lume. Dir-se-ia que elle
-desejava imprimir o cunho da sua individualidade não só á caldeirada, que
-ia cosinhar, mas ao trem da cosinha, que estava organisando com o maior
-esmero.
-
-Como, durante a travessia do Sado, o Vianninha e os officiaes de
-caçadores 1 fossem explicando que em Troia existira uma cidade romana,
-chamada Cetóbriga, de que se encontravam ainda ruinas e outros vestigios,
-taes como amphoras e medalhas, toda a caravana, com excepção de duas
-pessoas, quiz ir procurar as ruinas, especialmente as medalhas, pois que
-o Vianninha affirmava que se encontravam com facilidade, e que elle mesmo
-possuia uma de bronze do tempo de Trajano.
-
-As duas pessoas, que não acompanharam as outras, eram o conselheiro
-Antunes e D. Estanislada, que se offereceu para auxilial-o no mister de
-cosinheiro.
-
-D. Enrique achou isto muito natural, e o morgado de Reguengos e o
-proprietario das Alcaçovas disseram entre si, commentando: «_Azeite_ não
-falta; a caldeirada ha de ficar magnifica.»
-
-Soledad, fingindo que lhe custava a andar sobre a area, enfiou o braço
-no do sueco, pendurando-se d’elle com abandono. Continuava, portanto, a
-sustentar o seu plano de combate. Em Troia, como no Sado, era a Suecia
-que triumphava.
-
-Os outros perceberam a intenção de Soledad, e rodeavam, em despique,
-as tres Rodartes, acompanhando-as n’uma especie de cortejo triumphal
-e de certamen galante. O proprio hespanholito D. Ramon, julgando-se
-vencido pela Scandinavia, vingava a Iberia masculina arrastando a aza a
-Maria Ignez. O jornalista Aurelio Goes e o marialva do Chiado pareciam
-propender mais para Hilda. O proprietario das Alcaçovas e o morgado de
-Reguengos entabolaram conversação com Salomé sobre assumptos graves do
-Alemtejo: porcos e cortiça. Os officiaes de caçadores 1 e o Vianninha
-iam adiante dos grupos em exploração archeologica. Julio de Lemos, já
-despeitado pela concorrencia dos outros, especialmente de Aurelio Goes,
-que não respeitava os seus direitos de apresentante, e lhe estorvava a
-conquista de Hilda, principiava a lamentar-se de ter perdido a occasião
-do duello para lhe atravessar o coração com uma bala.
-
-«Quem o seu inimigo poupa, pensava elle, nas mãos lhe morre.»
-
-D. Enrique apossara-se do _imponente anciano_, levava-o a reboque pelo
-braço, e descrevia-lhe os horrores da insurreição cantonal, parando a
-cada momento, exclamando:
-
-—_Que barbaridad!... que atentado!_
-
-O alferes Ruivo, o tenente Epaminondas e o Vianninha indicaram alguns
-vestigios da antiguidade romana de Cetóbriga, a que ninguem deu grande
-importancia.
-
-Como o morgado de Reguengos mettesse á bulha o Vianninha por causa da
-grande abundancia de moedas, que segundo elle, se encontravam em Troia,
-o Vianninha, auxiliado pelos dois militares, ainda quiz justificar-se,
-excavando no areal.
-
-Soledad, conversando com o sueco, cuja face irradiava como uma aurora
-polar, olhava desdenhosamente para tudo aquillo.
-
-Aurelio Goes, colhendo uma florinha que brotava da areia humida,
-offereceu-a a Hilda Rodarte.
-
-Julio de Lemos estava fulo; a sua sêde de vingança abrangia agora duas
-pessoas: Soledad e o redactor da _Trombeta Ullyssiponense_.
-
-Mastigava represalias... em sêcco.
-
-Não appareceu nenhuma moeda romana, apesar das affirmações categoricas
-do Vianninha, e do padre Vicente Salgado, um franciscano erudito, que,
-occupando-se do assumpto, havia chamado a Troia—_terreno fertilissimo
-d’estes achados_.
-
-Como o sol apertasse, o numeroso grupo, dividido em pelotões, retrocedeu,
-a fim de procurar o abrigo do toldo que os barqueiros já deviam ter
-armado, para sob elle ser servida a caldeirada.
-
-Com effeito, estava quasi prompto o improvisado pavilhão, feito de vélas
-de barco.
-
-O conselheiro Antunes e D. Estanislada, afogueados do rosto, debruçados
-sobre a caldeira, provavam pela mesma colhér o tempêro da caldeirada, e
-annunciavam que estava divina.
-
-Soledad, fingindo-se fatigada, sentou-se á sombra do toldo, deixando
-ficar a descoberto metade do sapato enfitado. O sueco, embasbacado,
-bebado de amor, contemplava-lhe o pé, respondendo muito abstracto ao que
-ella lhe dizia.
-
-Julio de Lemos começou a fazer troça do sueco, com os outros. Havia
-risinhos. Soledad percebia, e de vez em quando ella mesma, com uma
-audacia castelhana, olhava para a ponta do sapato, como a encaminhar para
-esse alvo, que aliás era preto, o olhar do sueco.
-
-Mas, de repente, notando que Aurelio Goes tivera a ousadia de sentar-se
-na areia perto de Hilda, perdeu a tramontana e começou a escancarar umas
-gargalhadas alvares. Resolveu logo embebedar-se para tirar a desforra.
-
-O conselheiro Antunes, apparecendo debaixo do pavilhão, annunciou que ia
-ser posta a toalha, porque a caldeirada estava prompta, e que por isso
-cada um devia tratar de occupar logar em volta do recinto destinado á
-toalha.
-
-Por uma evolução rapida, mas estrategica, Julio de Lemos sentou-se na
-areia entre Hilda e Soledad, ganhando uma excellente posição. O sueco
-poude ainda aninhar-se á direita de Soledad, e o Goes á esquerda de
-Hilda. Mas o estudante de Alcacer ficou ardendo entre dois fogos,
-tinha á direita a Hespanha e á esquerda a Messejana: ficou no meio da
-Peninsula.
-
-Quando D. Estanislada appareceu, notou-se que ella vinha um pouco
-mascarrada n’uma das faces.
-
-—É talvez do fumo da caldeira, explicou, muito solicito, o conselheiro
-Antunes.
-
-Os homens, com excepção de D. Enrique, trocavam entre si olhares
-intelligentes: o conselheiro Antunes pintava o bigode.
-
-
-
-
-VI
-
-
-A caldeirada estava deliciosa: até os anjos a poderiam comer.
-
-O conselheiro havia carregado a mão no tempêro: a pimenta fazia arder
-a bocca. Mas era bom, muito apetitoso, puxativo, como dizia Julio de
-Lemos, bebendo grandes tragos de uma boa pinga de Azeitão, por uma caneca
-branca, comprada, como toda a outra loiça, na Innocencia da Praia.
-
-A conversação animára-se, phrases cruzavam-se, havia allusões,
-referencias que esvoaçavam por sobre a cabeça dos convivas. Julio de
-Lemos dizia coisas para a direita e para a esquerda, a Soledad e a Hilda,
-quasi sem dar tempo a que ellas podessem responder a mais ninguem.
-
-O sueco embezerrou despeitado, não fallava, e o redactor da _Trombeta_,
-muito habituado a _lunchs_, comia como uma frieira, mettendo a colherada
-em todos os assumptos. Era um perfeito exemplar de jornalista.
-
-Soledad, sempre incomprehensivel, mudou da tactica. Desfazia-se em
-amabilidades com o estudante, ella mesma lhe enchia de vinho a caneca de
-loiça, e lhe suggeria a inspiração dos brindes.
-
-Hilda, menos petulante que a hespanhola, conservava-se modesta n’aquella
-atmosphera capitosa de vinho e pimenta. As irmãs, como ella, respondiam
-concertadamente ás perguntas e ás amabilidades que lhes dirigiam.
-
-O sueco, muito rubro, soprava como uma fóca, e Soledad parecia
-divertir-se com isso, gostar de o vêr subitamente despenhado do pedestal
-a que o tinha subido.
-
-D. Estanislada entrava pela caldeirada com o desembaraço de quem está
-habituado a indigestões. E D. Enrique, para não envergonhar a mulher,
-acompanhava-a no bom apetite com que repetia salmonete sobre salmonete.
-
-O conselheiro, como um artista que se sente galardoado, comia pouco,
-contentava-se de vêr comer os outros. Reconhecia-se lisongeado no apetite
-alheio, especialmente no de D. Estanislada, que era francamente glorioso
-para elle.
-
-O Rodarte, muito discreto, encarecia o talento culinario do conselheiro,
-dizia-lhe que nunca na sua vida tinha comido uma caldeirada que lhe
-soubesse melhor.
-
-Julio de Lemos, já meio tonto, aproveitou de uma vez a deixa do Rodarte,
-e, pondo-se de joelhos, caneca em punho, declamou:
-
- Eu saúdo o illustre conselheiro,
- Ultimo em nada, e em tudo o mais primeiro
-
-Aurelio Goes desfechou uma gargalhada, interrompendo o improviso.
-
-—Que é lá isso?! perguntou o estudante esgalgando-se, para o ver, por
-deante de Hilda.
-
-E o Rodarte, muito prudente, muito discreto, deitou agua na fervura:
-
-—Não é nada. Tudo aqui se passa em boa amisade. Queira continuar, sr.
-Lemos.
-
-—Acha mau talvez, o menino! Elle que os faça melhores, se é capaz,
-insistiu o estudante.
-
-—Então!... então! atalhou o Rodarte. Queira continuar o seu improviso.
-
-—Já lhe perdi o fio! Não sei... Ora esta!... Acho que era isto:
-
- Mas unico talvez na caldeirada:
- Que é comêl-a e morrer...
-
-Julio de Lemos engasgou-se.
-
-—Não diz mais nada?! exclamou o tenente Epaminondas completando o verso
-em que o estudante se pegára.
-
-Uma explosão de gargalhadas saudou este comico episodio, e o estudante,
-que não tinha espinha com o tenente, antes era seu amigo, riu tambem,
-aproveitando a tangente para fugir á difficuldade do verso.
-
-Então Aurelio Goes, pondo-se de pé, bateu as palmas, e recitou:
-
- Eu, n’esta agradavel festa,
- Tão grata e tão jovial,
- Brindo, honrando o bello sexo,
- Por Hespanha e Portugal.
-
-—São de cravo da Praça da Figueira! berrou o estudante.
-
-—Viva! viva! clamaram muitas vozes cobrindo com applausos a inconveniente
-apostrophe do estudante.
-
-E o velho Rodarte, apoiando-se no hombro de Salomé, levantou-se
-pausadamente.
-
-—Tambem eu quero fazer o meu brinde.
-
-Logo se estabeleceu um silencio respeitoso.
-
-—Ora, meus senhores, como eu, nas barbas, me pareço um pouco com S.
-Pedro, permittam-me que feche a porta dos brindes. Bebo em honra do
-illustre conselheiro, dignissimo presidente da junta geral do districto
-de Santarem.
-
-Beberam todos. E levantaram-se a pouco e pouco, alguns com difficuldade.
-
-O conselheiro foi abraçar o Rodarte, agradecer-lhe, e, emquanto se
-abraçavam, cochicharam ao ouvido.
-
-Os barqueiros trataram de recolher as loiças, e os cabazes.
-
-E o Rodarte, muito previdente, disse que, seria melhor que o barco fosse
-primeiro a Setubal levar as senhoras, e que voltasse depois. Que elle,
-pela sua idade avançada, desde já se considerava senhora; que o sr.
-conselheiro, que devia estar fatigado, iria tambem com as senhoras, bem
-como D. Enrique, para acompanhar a esposa e a filha. Era a combinação que
-tinham feito ao ouvido, suggerida pela prudencia do velho Rodarte.
-
-Os outros ficaram com cara de parvos, mas o Rodarte, chamando de parte o
-morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas, explicou-lhes:
-
-—Que aquillo era preciso por causa dos rapazes. Que desculpassem. E que
-lhes pedia o favor de olharem por elles.
-
-Um e outro concordaram:
-
-—Que era bem pensado. Que estivesse tranquillo.
-
-Largou de Troia o barco com as senhoras, D. Enrique, o Rodarte e o
-conselheiro.
-
-Os rapazes ficaram por longo tempo acenando com os lenços, dizendo adeus.
-
-Desembarcaram as damas no caes do Livramento, e o barco voltou a buscar
-os que tinham ficado.
-
-Entretanto cahia a noite, as trevas principiavam a descer sobre o Sado, a
-envolvel-o n’um veo que a pouco foi perdendo a transparencia. Apenas um
-ponto luminoso brilhava ao longe na areial de Troia.
-
-Deram oito horas, e o barco não tinha voltado ainda.
-
-No café _Esperança_, do Zé Lapido, esperava-se o regresso dos rapazes.
-
-Uns commentavam:
-
-—Que tal foi a bebedeira!
-
-Outros, mais timoratos, diziam:
-
-—Queira Deus que não acontecesse por lá alguma semsaboria!
-
-Deram nove horas, e o barco não voltava.
-
-Então alguns officiaes de caçadores resolveram ir a Troia ver o que tinha
-acontecido.
-
-Tomaram um barco, e largaram.
-
-A meio do rio, ouviram o ranger de remos, e perguntaram:
-
-—Quem vem lá?
-
-—Somos nós, respondeu a voz do proprietario das Alcaçovas.
-
-—Ha novidade a bordo? disseram os officiaes.
-
-—Nenhuma, respondeu o morgado de Reguengos.
-
-Mas não se ouvia nenhuma outra voz.
-
-—Ali houve coisa!... disseram entre si os officiaes.
-
-E perguntaram:
-
-—Vem ahi os nossos camaradas?
-
-—Vamos, respondeu o alferes Ruivo.
-
-—Vamos, respondeu o tenente Epaminondas.
-
-—Ali houve coisa, porque elles vem muito silenciosos!... continuavam a
-dizer entre si os officiaes que tinham ido procurar os outros.
-
-Os dois barcos chegaram quasi ao mesmo tempo ao caes do Livramento.
-Então poude verificar-se que effectivamente os da caldeirada vinham
-macambuzios, entrombados, e que o sueco, estatelado no fundo do barco,
-e occupando-o quasi todo, dormia profundamente, a ponto de terem que
-acordal-o berrando.
-
-E como elle grunhisse uns roncos cavernosos, sem comtudo se levantar, foi
-preciso que o proprietario das Alcaçovas, com o seu pulso de ferro, o
-filasse pelo gasnete, e o pozesse de pé.
-
-—Mas o que se passou? o que se passou? perguntavam cheios de curiosidade
-os que tinham ido buscal-os.
-
-—Vamos lá para o Zé Lapido tomar um copo de genebra, disse o das
-Alcaçovas, e conversaremos.
-
-Quando entraram no café, e logo que se sentaram, deram pela falta do
-sueco, que se tinha escapulido.
-
-Todos os conhecidos, que estavam no botequim, lhes fizeram circulo,
-sentando-se em torno da mesma mesa.
-
-O tenente Epaminondas contou miudamente as peripecias do _pic-nic_,
-incluindo a mascarra de D. Estanislada, historia que produziu grande
-hilaridade no auditorio.
-
-Depois poz em relevo a prudente astucia com que o _Padre Eterno_, pois
-que no café todos lhe chamavam assim, se safára com as netas e as
-hespanholas quando vira romper as hostilidades entre o estudante e o
-jornalista.
-
-Disse que, logo que o barco partiu, o sueco investira, muito bebado,
-contra o estudante, accusando-o de acintosamente ter ido sentar-se ao
-lado de Soledad para o prejudicar nas vantagens que, como preferido,
-havia conquistado nos ultimos dias.
-
-Que, por sua vez, o estudante, não menos bebado, começara a implicar com
-o Goes, accusando-o de o ter querido metter a ridiculo, prejudicando-lhe
-o improviso com uma gargalhada insolente.
-
-O sueco agarrava-se ao estudante, e o estudante ao jornalista.
-
-Fôra preciso que os outros interviessem apartando-os a murro, e contou
-o tenente que o proprietario das Alcaçovas conseguira abalar a columna
-vertebral e a colera do sueco com um valente pontapé applicado em cheio
-no sitio em que as costas mudam de nome.
-
-—E a Scandinavia resoou! observou humoristicamente o alferes Ruivo.
-
-Gargalhada geral.
-
-—Que no meio de toda esta balburdia o morgado de Reguengos lembrára
-jovialmente que, para de uma vez pôr termo a tão impertinentes
-conflictos, e definir a situação de todos, o melhor seria confiar á sorte
-a distribuição do papel amoroso de cada um.
-
-Esta lembrança produzira um excellente effeito, foi como que um punhado
-de areia atirado aos olhos de todos. Cegou-os. Todos imaginavam que
-seriam favorecidos pela fortuna e que, d’esse modo, ficariam livres de
-concorrentes perigosos e incommodos.
-
-Deram pois a sua palavra de que respeitariam fielmente os decretos da
-sorte.
-
-Trataram então de espertar a fogueira, que tinha servido para a
-caldeirada. E á luz d’ella fizeram, de cartas velhas e outros pedaços
-de papel, pequenas listas, em que escreveram a lapis os nomes de todos
-elles. Enroladas as listas, deitaram-n’as na copa de um chapeu. Depois
-inscreveram n’outras listas os nomes das quatro damas, mas, n’esta
-occasião, houve um protesto do proprietario das Alcaçovas, que reclamou a
-favor do recenseamento de D. Estanislada, como _premio de consolação_ ao
-que ficasse a ver navios.
-
-O jornalista observou que D. Estanislada já pertencia, pela mascarra, ao
-conselheiro Antunes.
-
-O morgado sustentou o seu protesto, auctoritariamente, dizendo que, desde
-o momento em que a sorte era chamada a decidir, desapparecia a principio
-dos _direitos adquiridos_.
-
-Por essa occasião o estudante observára:
-
-—Sim, senhor! Fica abolido o direito pautal do _azeite_.
-
-Todo o café _Esperança_ ria, a bandeiras despregadas, com a narração do
-tenente Epaminondas.
-
-Lançadas as cinco listas, e mais algumas em branco na copa de outro
-chapeu, procedeu-se ao sorteio, que deu o seguinte resultado:
-
-_Morgado de Reguengos—D. Hilda._
-
-_Proprietario das Alcaçovas—D. Maria Ignez._
-
-_D. Ramon Mendoza—Soledad._
-
-_Vianninha—Salomé._
-
-_O sueco—D. Estanislada._
-
-Os que a sorte desfavorecera, especialmente o sueco, o estudante
-e o jornalista, romperam em protestos contra o acto eleitoral,
-distinguindo-se o sueco que, nem pelo diabo, queria resignar-se a
-acceitar D. Estanislada.
-
-E tanto berrava e barafustava, que o proprietario das Alcaçovas teve
-que atiral-o para o fundo do barco, onde elle escabujou ao principio e
-adormeceu depois.
-
-
-
-
-VII
-
-
-No dia seguinte, pela manhã, appareceu affixado nas esquinas de Setubal o
-seguinte pasquim:
-
- A roda que andou em Troia,
- Andou bem, quem o diria!
- Nem mesmo a da Santa Casa
- É tão boa loteria.
-
- O premio grande de Hespanha
- Ficou na Hespanha. Era justo.
- E o sueco, derreado,
- Inda assim, salvou-se... a custo!
-
- O Alemtejo, que a sopapo
- Tudo escaca e tudo arrasa,
- Não apanhando _a taluda_,
- Ficou bem, ficou em casa.
-
- Setubal, n’esta partilha,
- Tem motivos d’alegria,
- Porque a sorte, previdente,
- Deu-lhe _sal_ na loteria.
-
- Só Minerva e Guttemberg,
- Marte e a junta geral,
- Por não beberem _azeite_,
- Ficam olhando ao signal.
-
-Este pasquim attraiu a curiosidade, produziu risota, foi lido com vivo
-interesse.
-
-Como era natural, todos procuraram interpretar as allusões n’elle
-contidas, e assim aconteceu que não só o facto principal, o sorteio, se
-tornou ao dominio publico, mas tambem tiveram grande notoriedade todos os
-episodios que accidentaram alegremente o _pic-nic_ da vespera.
-
-De pergunta em pergunta todos ficaram sabendo o que se tinha passado, e
-entendendo cabalmente o pasquim, com excepção de uma só quadra.
-
-Não restou duvida a ninguem de que Minerva se referia ao estudante,
-Guttemberg ao jornalista, e Marte ao alferes e ao tenente de caçadores.
-
-Uma só passagem permaneceu obscura por muito tempo, o sentido da quarta
-quadra ficava em suspenso, pois que não podia atinar-se com a allusão ao
-_sal_ no ultimo verso.
-
-Que aquillo era com o Vianninha, percebia-se, visto ser elle o unico
-setubalense que tinha assistido a caldeirada. Mas o _sal_, sublinhado,
-era um problema, um enygma, um hieroglipho.
-
-Alguns curiosos roiam as unhas parados ás esquinas, matutando deante dos
-pasquins. Que diabo de _sal_ era aquelle? O que queria dizer aquillo?
-
-Alguem lembrou que o Castanha, mestre-escola, apezar de vesgo, via bem as
-charadas. Era um alho para as decifrar. Chamou-se o Castanha, que estava
-a dar aula, decifrando enygmas do _Almanach de Lembranças_, emquanto os
-pequenos se entretinham uns com os outros.
-
-Era como elle dava aula sempre.
-
-O Castanha veio quasi em triumpho até á primeira esquina,—essa esquina
-que devia, em breve, converter-se para elle n’um monumento de gloria...
-salvo o mictorio.
-
-Explicaram-lhe o caso, o que se tinha passado, e a duvida em que estavam
-quanto ao vocabulo _sal_.
-
-O Castanha enviezou o olhar strabico ao cartaz, deteve-se um momento a
-engulir em sêcco, até que de repente, com a sagacidade de um charadista
-que combina idéas, perguntou:
-
-—Elle como se chama ella?
-
-O Castanha tinha o costume de anteceder pelo pronome—elle—todas as
-phrases interrogativas.
-
-—Ella, quem? perguntaram-lhe.
-
-—A madama que sahiu ao Vianninha?
-
-—Salomé.
-
-E o Castanha, desfiando as syllabas, _Sa-lo-mé_, monologava:
-
-—Não pode ser isso!
-
-Mas, de subito, exclama:
-
-—É isso, é!
-
-—Então é ou não é? perguntaram.
-
-—Não vêem, disse elle triumphalmente, não vêem que o
-nome—Salomé—principia por _sal_?!
-
-—É verdade! exclamaram vozes.
-
-—É isso! applaudiram bôccas.
-
-E o Castanha, muito enchicharrado, muito vesgo na commoção nervosa do
-triumpho, apartava os grupos para passar, charadista glorioso.
-
-Durante todo esse dia o sueco, o estudante, o jornalista e os dois
-officiaes de caçadores estiveram recebendo bilhetes de visita, a
-_pesames_, com palavras de sentimento, expressões de condolencia, pelo
-desgosto que acabavam de soffrer.
-
-Foi uma _scie_ medonha, que partia do café _Esperança_, dizia-se, e
-dos outros officiaes de caçadores, rapazes alegres, que gostavam de
-divertir-se e não tinham muitas occasiões para isso.
-
-O sueco embatucou, deu sorte com a chalaça. Desappareceu de repente.
-Constou que tinha vindo para Cintra, a fim de evitar que a troça o
-perseguisse.
-
-Não se conheciam ainda outras consequencias d’aquella brincadeira fatal.
-Parecia que D. Enrique, o Rodarte e o conselheiro a ignoravam. Mas não
-aconteceu inteiramente assim.
-
-Dos tres, não tardou muito a mostrar-se desgostoso o conselheiro Antunes.
-
-Fallando com o estudante, extranhou, com palavras severas, que _se
-rifasse uma senhora casada_. Textual. Accrescentou que, se D. Enrique o
-soubesse, poderia haver _uma tragedia de sangue_. Tambem textual. Pela
-sua parte, apenas sentia que fosse elle proprio que tivesse proporcionado
-a occasião para um tão _grave desacerto_, inventando a caldeirada.
-Que o caso ja havia dado de si, porque o _respeitavel snr. sueco_, um
-cavalheiro digno de toda a estima, se havia auzentado, desgostoso.
-
-Julio de Lemos contestou que tudo aquillo não tinha passado de uma
-brincadeira inoffensiva, que em nada podia affectar a honra das cinco
-damas, todas ellas respeitabilissimas. Que o vocabulo—_rifa_—era
-violento, porque a rifa presuppunha immediata adjudicação do objecto
-rifado, e não se dava esse caso.
-
-Mas o conselheiro, procurando sustentar a sua opinião, descobriu um
-pouco as baterias. Deixou perceber que a expressão do pasquim—_junta
-geral_—o tinha maguado pessoalmente. E como o estudante se lembrasse de
-dizer que a _junta geral_ do pasquim não era a do districto de Santarem,
-mas a collectividade dos pretendentes amorosos das trez Rodartes e da
-hespanhola (velhacamente, o estudante ia pondo de parte D. Estanislada
-para lisongear o seu interlocutor) o conselheiro, muito formalisado,
-disse que não era pretendente á mão de nenhuma dama, que apenas se
-considerava um solteirão aposentado. Que se tivesse querido casar, o
-poderia ter feito ha muitos annos com formosas e abastadas senhoras de
-Santarem, de Almeirim e de Alpiarça. Que não só receiava que D. Enrique o
-viesse a saber, e se desgostasse, mas tambem que o _venerando Rodarte_,
-um modelo de cortezia e prudencia, se _chocasse_ com essa _brincadeira de
-mau gosto_, que envolvia o nome das suas tres netas.
-
-No dia seguinte, um sabbado, D. Enrique foi visto no Sapal, passeiando
-e lendo, peripateticamente, uma gazeta de Sevilha. Parecia preoccupado.
-O conselheiro foi fallar-lhe. D. Enrique disse-lhe que ia passar alguns
-dias a Lisboa. Teria vontade o conselheiro de perguntar-lhe se ia só ou
-acompanhado. Mas não se atreveu a tanto. E logo conjecturou que era um
-pretexto de D. Enrique para retirar-se de vez, sem alarde. Aqui está,
-pensou o conselheiro com os seus excellentissimos botões, o que aquelles
-diabos arranjaram com a brincadeira da _rifa_!
-
-Deixando D. Enrique, o conselheiro foi dizendo, principalmente aos
-implicados na patuscada de Troia, que principiavam a fazer-se sentir as
-consequencias d’aquelle _grave desacerto_; que D. Enrique ia á Lisboa
-ou, segundo elle suspeitava, para Lisboa, d’onde talvez não voltasse,
-desgostoso.
-
-A noticia correu rapidamente. Alguns logistas, que tinham rido com
-o pasquim, começaram a queixar-se de que por uma imprudencia alheia
-estivessem arriscados a perder freguezes importantes.
-
-O conselheiro tirou-se dos seus cuidados, e foi á estação vêr partir o
-comboyo para Lisboa. D. Henrique e Soledad embarcaram. D. Estanislada
-ficava, portanto, só, em Setubal, durante alguns dias. Oh felicidade!
-exclamou mentalmente o conselheiro.
-
-De tarde, na Praia, o conselheiro parou a conversar com alguns grupos.
-
-—Então, D. Enrique sempre se retira para Lisboa?
-
-—Creio que sim, respondia elle; supponho que parte ámanhã.
-
-O velhaco! O que elle não queria era que se soubesse que o hespanhol já
-tinha partido, e que D. Estanislada ficára.
-
-Houve logo quem aventasse a ideia de que uma commissão do setubalenses
-viesse a Lisboa, no caso de D. Enrique partir, pedir-lhe que não desse
-importancia a uma mera brincadeira, e que voltasse.
-
-O Rodarte, esse, parecia ignorar tudo o que se passava. Ninguem o
-informou de que tivessem apparecido pasquins; não ousou fazel-o ninguem.
-E elle, muito myope, não podia tel-os lido.
-
-Conversando com o morgado de Reguengos apenas dissera que os _pic-nics_
-eram a mais arriscada de todas as distracções de uma praia. Que se
-felicitava por ter tido a boa ideia de deitar agua na fervura, fechando
-a serie dos brindes, que já estavam denunciando uma certa excitação dos
-convivas, quando julgou opportuno intervir.
-
-O proprietario das Alcaçovas tambem, n’essa tarde, acompanhava o grupo do
-_Padre Eterno_ e das netas, porque, tanto elle como o morgado, estavam
-resolvidos a fazer valer os direitos que a sorte lhes proporcionára.
-
-Poderiam, ambos elles, ter supplantado a murro e a pontapé todos os
-outros concorrentes. Mas fazel-o seria violento... especialmente para
-as victimas. Os dois, homens fortes, de musculo tuchado, possuiam o bom
-humor e a prudencia que os nevroticos desconhecem.
-
-A hespanhola impozera-se-lhes pela belleza, no primeiro momento. Mas
-depois appareceram as Rodartes, bellas mulheres, habituadas á vida do
-Alemtejo, ricas, bem educadas, e ambos elles, sem o terem communicado
-um ao outro, acharam preferivel jogar com tino, na banca do Amor, a
-aventurarem-se á conquista de uma hespanhola, que tinha o grande defeito
-de ser caprichosa e de saber quanto valia.
-
-A primeira confidencia que os dois tiveram entre si foi á volta de Troia,
-quando o de Reguengos explicou ao das Alcaçovas que propozera a loteria,
-porque a sorte nunca deixára de o beneficiar sempre que a tentava.
-
-—Eu estava certo, disse elle, de que me calhava a hespanhola ou a Hilda,
-que eu preferia á hespanhola. Em loterias tenho uma sorte brutal.
-
-—Pois eu, respondeu-lhe o das Alcaçovas, sou infelicissimo em todos os
-jogos d’azar. Agora explico a minha sorte por termos sido parceiros no
-jogo.
-
-E riram ambos, riram muito, tomando a brincadeira... a serio.
-
-O Vianninha tambem n’essa tarde andou no grupo das Rodartes, arrastando a
-aza a Salomé, que o não recebia bem nem mal.
-
-O estudante de Alcacer appareceu, mas sumiu-se logo que viu o morgado de
-Reguengos a passeiar ao lado de Hilda Rodarte.
-
-—Então aquella grande besta, exclamou elle, toma a coisa a serio!
-
-O jornalista, com os officiaes de caçadores, e outros, sentados fóra
-da porta do Lapido, bebiam gazosa e faziam a critica do grupo que ia
-passando.
-
-D. Ramon Mendoza appareceu no botequim, e os da mesa da gazosa
-perguntaram-lhe com desfructe:
-
-—Então o que é feito do premio grande _d’usted_?
-
-—Eu sei lá! Nunca mais tornei a ver Soledad!
-
-E, batendo as palmas, mandou vir gazosa.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Ao anoitecer, o conselheiro Antunes foi, muito disfarçado, bater á porta
-de D. Enrique.
-
-Respondeu-lhe, do patamar, D. Estanislada, que perfeitamente lhe conheceu
-a voz.
-
-—Que D. Enrique tinha sahido com Soledad, disse ella, mas que subisse,
-que lhe dava com isso muito prazer.
-
-Tudo parecia correr ás mil maravilhas para o ditoso conselheiro. Que
-D. Enrique e a filha haviam sahido, bem o sabia elle: mas a facilidade
-amavel com que D. Estanislada o recebia em sua propria casa, não estando
-o marido, era quasi promessa de felicidade... immediata.
-
-O conselheiro, bastante manhoso para dissimular a alegria que esta
-risonha situação lhe causava, disse, parado ainda ao fundo da escada,
-algumas palavras aconselhadas por apparencias de conveniencia e respeito.
-
-—Mas, minha senhora, não sei se deva entrar...
-
-—Que entrasse, que subisse, porque, de mais a mais, havia de gostar da
-companhia.
-
-Esta phrase—_gostar da companhia_—pareceu maliciosa ao conselheiro. E, a
-seu ver, a promessa de immediata felicidade accentuava-se n’essa phrase.
-
-Subiu, pois, sentindo palpitar vertiginosamente o coração, que lhe dava
-saltos dentro do peito.
-
-Mas, entrando na saleta, ficou tão admirado, como contrariado, vendo que
-D. Estanislada não estava só.
-
-Ó desillusão! ó desapontamento!
-
-D. Estanislada apresentou-lhe as suas visitas: a senhoria e a filha.
-
-A senhoria, a sr.ª Magdalena, era uma mulher de cincoenta annos, viuva,
-muito devota e temente a Deus. A filha, a menina Ricardina, tinha vinte e
-dois annos, e um palmo de cara que não era desengraçado.
-
-D. Estanislada alludia á menina Ricardina quando disse ao conselheiro
-que—havia de gostar da companhia.
-
-A mulher que se sente amada tem d’estes falsos assomos de modestia, para
-experimentar o valor da affeição que inspirou, qualquer que seja a sua
-idade. Diz que todas as outras são mais bellas, mais tentadoras do que
-ella, porque se sente lisonjeada de triumphar da concorrencia de todas as
-outras.
-
-D. Estanislada seguiu esta tactica.
-
-Elogiou muito ao conselheiro a belleza da menina Ricardina, que se
-envergonhava dos gabos, côrando.
-
-A mãe, a sr.ª Magdalena, rindo de satisfeita, repetia esta phrase:
-
-—É sãsinha, graças a Deus!
-
-O conselheiro, muito contrariado, procurava no seu espirito uma phrase
-com que, sem correr o risco de ser indiscreto, podesse dar a entender a
-D. Estanislada que, ao pé d’ella, o rosto de qualquer outra mulher lhe
-passava despercebido.
-
-Finalmente, pareceu-lhe que tinha achado a phrase precisa, e disse-a:
-
-—O rosto d’esta menina é realmente muito interessante, e eu felicito por
-isso a senhora sua mãe; porem não permittamos á sr.ª D. Estanislada que
-se esteja escondendo na sombra, qual timida violeta.
-
-D. Estanislada gostou de se vêr tratada por violeta. E, saboreando a
-amabilidade, como se estivesse chupando um rebuçado, contestou:
-
-—_Yo, pobrecita de mi, yo estoy hecha una vieja!_
-
-—Pelo amor de Deus! exclamou o conselheiro levantando os braços quasi até
-á altura da cabeça.
-
-—Que não, acudiu a sr.ª Magdalena, que estava ainda muito fresca, muito
-bem disposta, que até parecia irmã mais velha da filha.
-
-E a menina Ricardina accrescentava que a sr.ª D. Estanislada não devia
-dizer a ninguem que era mãe da _señorita_ Soledad.
-
-Este tiroteio de lisonjas, de que D. Estanislada foi alvo, durou alguns
-minutos.
-
-O conselheiro, quando entre todos pareceu ficar decidido que D.
-Estanislada era qual _timida violeta_, sem que ella já ouzasse protestar,
-fingiu-se novamente admirado da ausencia de D. Enrique e de Soledad.
-
-—_Fueron á Lisboa_, respondeu D. Estanislada.
-
-—Mas demoram-se pouco? insistiu o conselheiro.
-
-—_Vuelven el lunes, no sé si por la mañana ó por la tarde._
-
-—Ainda bem, pensou o conselheiro, e ainda mal! Ainda bem, porque D.
-Enrique ou não tinha lido o pasquim ou lhe não dava importancia:
-continuaria portanto a demorar-se em Setubal. Ainda mal, porque a
-ausencia era breve de mais para que elle conselheiro podesse encher a
-medida dos seus desejos.
-
-Fez menção de levantar-se para sahir.
-
-—Que não, que ficasse, insistiu D. Estanislada, que iam tomar chá, e que
-lhes désse o prazer da sua amavel companhia.
-
-—Que não desejava ser importuno... que ia dar uma volta.
-
-Mas D. Estanislada, com toda a sua intimativa de hespanhola, ordenou-lhe
-que ficasse, e o conselheiro Antunes ficou de muito bom grado.
-
-Foram para a casa de jantar e abancaram para tomar chá.
-
-D. Estanislada fez sentar o conselheiro á sua direita, e a sr.ª Magdalena
-á sua esquerda. A menina Ricardina ficou ao lado da mãe, posição
-estrategica que D. Estanislada lhe distribuiu... por cautela. Ella bem
-sabia quanto o conselheiro Antunes, apesar da sua grave encadernação de
-presidente da junta geral de Santarem, era lambareiro de mulheres.
-
-Emquanto tomaram chá, ao dialogo respeitoso de D. Estanislada e do
-conselheiro, sobre coisas frivolas, correspondia, debaixo da mesa, outro
-dialogo bem menos respeitoso: o dialogo dos pés.
-
-Certamente que este dialogo nos interessa muito mais do que o outro.
-Vamos pois escutal-o.
-
-_A bota do conselheiro, explorando terreno_:—Onde estás tu, adoravel pé
-de D. Estanislada? Pois que o teu senhor se acha ausente, pódes vir ao
-mirante do castello escutar a minha serenata de amor...
-
-_O sapato de cordovão de D. Estanislada_:—Eu fujo-te, menestrel audaz,
-para tornar mais intensa a febre dos teus desejos. Bem deves saber que
-toda eu sou a _timida violeta_ de que fallaste ha pouco.
-
-_A bota_:—A violeta é a flôr da sombra, e debaixo da meza tudo é sombra
-e mysterio. Estás, pois, no teu logar, violeta timida. Não me fujas, ó
-esquiva Galatéa, cujo adorado pé eu ando procurando ás escuras, como um
-cego d’amor.
-
-_O sapato_:—Tenho medo de que a sr.ª Magdalena e a menina Ricardina dêem
-tino do que se está passando no soalho. Para entalação bem bastou já
-aquella mascarra que o teu beijo de Troia me deixou na face... Não me
-persigas, que me tentas, seductor!
-
-_A bota_:—Eu sou discreto como um conselheiro, que me prézo de ser.
-Muitas vezes, na junta geral de Santarem, tenho tido necessidade de pisar
-o pé a um collega para o prevenir de qualquer maniversia politica, e a
-junta nunca deu por isso, tão bem eu sei pisar o proximo! Encantadora
-Estanislada! fica sabendo que a electricidade procura as extremidades:
-os meus pés estão, portanto, carregados da electricidade do meu coração.
-Chega-te, e verás.
-
-_O sapato, aproximando-se_:—Quem póde resistir á fascinação das tuas
-palavras, e á discrição dos teus processos?! Pois que tudo se vae passar
-na sombra, com a cautela de que tu sabes usar, como conselheiro e como
-amante, consentirei que o meu sapato caminhe para a tua bota, com o
-pejo, aliás, que fica bem a toda a mulher, e com a timidez que é propria
-de toda a violeta.
-
-_A bota, encontrando o bico do sapato, e arrastando-o ternamente_:—Vem,
-vem finalmente cahir nas doces talas do amor, adorado pé! Quero
-apertar-te com a ternura com que Romeu abraçava Julieta. Nas dôres
-physicas do amor, ha uma voluptuosidade que endoidece de deleite. Vem, ó
-pé feiticeiro! ó pé encantador!
-
-_O sapato_:—Eis-me aqui, como um escravo que não póde resistir, que não
-ouza luctar.
-
-Então, o pé esquerdo do conselheiro Antunes, tendo empolgado o pé direito
-de D. Estanislada, demora-se um momento como para certificar-se de tudo
-que se está passando em segredo. E, após esse momento de pausa, a bota do
-pé direito acode a comprimir ternamente, de accordo com o pé esquerdo, o
-sapato de D. Estanislada, que fica entalado entre as duas botas.
-
-Toda a electricidade acode pois ás extremidades de um e outro.
-
-D. Estanislada, com a perna direita torcida, offerece mais chá á sr.ª
-Magdalena, e o conselheiro Antunes, com ambas as pernas repuxadas para a
-esquerda, mette a colhér dentro da chicara, faz menção de não querer mais
-chá.
-
-Devia ter sido deliciosa toda essa secreta iberisação de duas botas
-portuguezas junto de um sapato andaluz; deliciosa, principalmente, se
-nenhum dos pés tinha calos.
-
-A conversação foi-se arrastando á custa da sr.ª Magdalena, que entrou no
-seu assumpto predilecto, os milagres do Senhor do Bomfim.
-
-D. Estanislada e o conselheiro apenas contribuiam com monossyllabos,
-interjeições, porque a electricidade, que acudia ás extremidades, os
-tinha n’uma vibração nervosa, que os entaramelava.
-
-A menina Ricardina, a quem um dos seus namorados havia pisado o pé, n’uma
-occasião em que jogára o loto em familia, desconfiou da marosca, e as
-suas suspeitas foram-se accentuando em convicção, porque lhe não passou
-despercebido que o corpo do conselheiro estava visivelmente esguelhado
-para a esquerda e o de D. Estanislada enviezado para a direita.
-
-Com essa subtil astucia que é propria da gente moça, a menina Ricardina
-imaginou tirar a prova real das suas suspeitas. Arrancando do dedo um
-annel de ouro, começou a brincar com elle sobre a mesa: fazia-o rodopiar,
-dançar, graças ao impulso combinado dos dedos indicadores.
-
-A folhas tantas, o impulso foi maior e o annel saltou ao chão.
-
-—Ai! o meu annel! exclamou ella, curvando-se rapidamente para apanhal-o.
-
-Pôde ainda, vêr, perfeitamente, a fuga precipitada, e algo ruidosa, dos
-tres pés cumplices.
-
-D. Estanislada fez-se rubra; o conselheiro fez-se branco. E a menina
-Ricardina, apanhando o annel, disse com o seu melhor ar de riso:
-
-—Não se incommodem; já aqui está. Muito obrigada.
-
-Aquelle inesperado incidente do annel desarranjou a agradavel união
-iberica dos tres pés.
-
-O conselheiro, levantando-se, disse que iam sendo horas da sr.ª D.
-Estanislada se recolher. A sr.ª Magdalena, ouvindo isto, lembrou-se de
-que ás seis horas da manhã tinha de ir cumprir uma promessa ao Senhor do
-Bomfim.
-
-Despediram-se todos, e o conselheiro, voltando-se no patamar da escada,
-exclamou:
-
-—Já me ia esquecendo, D. Estanislada! Encommendei o azeite. Mandaram-me
-dizer em telegramma que era expedido hoje mesmo ás onze horas.
-
-—_Muchas gracias_, respondeu ella encostando-se á porta da saleta.
-
-Quando batiam em S. Julião as onze horas da noite, um embuçado,
-cosendo-se muito com a sombra das paredes, dirigia-se mysteriosamente
-para casa de D. Enrique. Era o _azeite_: o conselheiro. Mas teve de
-fazer torcicollos porque reconheceu o sueco, que estava contemplando
-as janellas de D. Estanislada. Por sua vez, o sueco, mal que viu
-aproximar-se um vulto, deitou a fugir.
-
-O presidente da junta geral do districto de Santarem, lembrando-se da
-_rifa_, e, portanto, de que D. Estanislada havia sahido em premio ao
-sueco, teve uma forte commoção de ciume.
-
-—Pois então elle, pensou o conselheiro, tinha ido para Cintra e apparece
-mysteriosamente em Setubal ás onze horas da noite!
-
-E, como um Othello furioso, empurrou a porta de Desdémona e entrou.
-
-Por dentro dos vidros da sua janella, a menina Ricardina, muito matreira,
-tendo apanhado no ar a phrase do _azeite_, estava á côca, e vira tudo o
-que se passára.
-
-
-
-
-IX
-
-
-O conselheiro Antunes, subindo a escada, deixou-se guiar mansamente, na
-treva, pela mão da hespanhola. Parecia um borrego amoroso comboyado pela
-respectiva cordeira. Mas logo que se apanhou no quarto de D. Estanislada
-e a luz da lamparina lhe aclarou a situação, o borrego transformou-se em
-lobo cerval. Desdémona teve que haver-se com Othello.
-
-Ora o que ali se passou, em rapidos momentos, foi pouco mais ou menos a
-famosa fabula do lobo e do cordeiro.
-
-Othello accusou violentamente Desdémona: era o lobo que fallava.
-
-Não alludiu á _rifa_, mas affirmou saber de boa origem que o sueco
-disfarçava com a filha as suas pretensões á mãe. A hespanhola, entre
-lisonjeada e surprehendida, tomou o logar do cordeiro do apólogo, salvo
-o sexo. Procurou tranquillisar o conselheiro, dizendo-lhe que o sueco
-não a pretendia a ella, mas á filha, _que era mais nova_. O lobo pediu
-provas, visto que só com provas importantes poderia desfazer a impressão
-que lhe deixára a presença do sueco, n’aquella rua, ás onze horas da
-noite, sendo certo constar em toda a cidade que Soledad tinha ido para
-Lisboa com o pae.
-
-D. Estanislada pôde, felizmente, lembrar-se de uma prova. Era uma
-carta que n’aquella mesma tarde tinha chegado pelo correio, dirigida a
-Soledad Saavedra. A lettra do sobrescripto era esquisita, estrangeirada:
-naturalmente seria do sueco.
-
-—Pois bem! propozera D. Estanislada, abrir-se-ia a carta e, se
-effectivamente fosse do sueco, talvez a questão podesse ficar esclarecida.
-
-Foi pé-ante-pé buscar a carta, e abriu-a com denodo. Era effectivamente
-do sueco.
-
-Á luz da lamparina, muito curvados sobre uma cómmoda, lêram-na ambos.
-
-Custou-lhes a entrar com o texto, uma verdadeira torre de Babel, onde as
-linguas se confundiam e baralhavam: o sueco, o portuguez e o hespanhol
-andavam ali em cabriolas de amor de um coração polyglótta.
-
-Soletrando, entendendo aqui, não entendendo acolá, chegaram á conclusão
-de que o scandinavo alludia a um desgosto que tivera no _pic-nic_ de
-Troia, que o obrigára a retirar-se para o Barreiro, tendo aliás feito
-constar que ia para Cintra, afim de desorientar a perseguição dos
-trocistas. Mais uma vez declarava a Soledad o seu ardente amor e, para
-definir uma situação embaraçosa, pedia que lhe apparecesse á janella ás
-onze horas da noite.
-
-Esta carta providencial, que não chegou ao seu destino, esclareceu a
-situação, amansou as furias do lobo amoroso. Ao contrario do que acontece
-no apólogo, e n’isto é que a realidade se apartou da fabula, o lobo ficou
-vencido, e o cordeiro, salvo sempre o sexo, ficou vencedor.
-
-Na rua, emquanto o conselheiro e D. Estanislada decifravam a carta, o
-sueco, o qual por sua vez ficára ciumento vendo um vulto, mas não o
-reconhecendo, voltára ao sitio d’onde havia fugido e, ardendo em zelos,
-esperava que a janella de Soledad se abrisse.
-
-Estava elle ali parado, olhando para todos os lados, palpitante de
-anciedade e receoso da troça, quando sentiu abrir-se mansamente a porta
-de um _rez-de-chaussée_.
-
-Teve medo de alguma insidia, não porque fosse um fraco, mas porque era um
-estrangeiro esmagado pela chacota indigena. Ouviu um _psiu_, tres vezes
-repetido, um _psiu_ que não podia ser senão para elle, porque na rua não
-havia mais ninguem, e esteve quasi para fugir outra vez.
-
-Era uma mulher que o chamava, parecia, pelo menos, que era uma mulher,
-mas quem lhe podia affirmar que não fosse o Julio de Lemos ou o Aurelio
-Goes ou algum ladino official de caçadores disfarçado em mulher?
-Hesitava, e teria talvez fugido, se não se convencesse de que era
-effectivamente uma voz de mulher que, depois de o ter chamado, lhe estava
-dizendo cautelosamente:
-
-—Venha aqui, que lhe posso dar noticias interessantes.
-
-O sueco aproximou-se, e ficou encantado de se lhe deparar na janella
-uma rapariga de cerca de vinte annos, algo morena, mas sympathica. Os
-olhos eram vivos, porque brilhavam na treva. E, ao vêr diante de si uma
-realidade agradavel, o sueco encostou-se á janella e sentiu um brando
-cheiro a mangericão, que o seio da rapariga exhalava, e que a elle lhe
-soube tão bem como um copo de _Kirsch-Vasser_.
-
-—Faça favor de fallar baixo, disse ella, que está ali minha mãe a dormir.
-
-—Ó encantadorra menina! exclamou elle.
-
-—Ainda que eu mal pergunte, continuou ella, o sr. estrangeiro anda aqui
-por causa da mãe ou da filha?
-
-—Que dizerr menina?
-
-—Sim, porque eu tenho visto o sr. estrangeiro no grupo da hespanhola, mas
-não sei ao certo se anda arrastando a aza á _señorita_ Soledad ou a D.
-Estanislada...
-
-—Linda menina desfrructarr-me a mim?
-
-—Não, senhor! Pelo contrario. Desejo ser-lhe agradavel. Posso dar-lhe
-informações tanto a respeito da _señorita_ como da mãe. Se é por causa da
-filha, o sr. estrangeiro andava aqui hoje a perder o seu tempo...
-
-—Porque dizerr linda menina isso?
-
-—Porque Soledad foi esta tarde para Lisboa com o pae, e só volta depois
-d’amanhã.
-
-—Mas quem serr então uma pessoa homem que andava esprreitando inda
-bocadinho?
-
-—E o sr. estrangeiro não dirá nada do que lhe vou contar?
-
-—Oh! nó!
-
-—Era o conselheiro Antunes.
-
-—E onde estarr elle?
-
-—Lá dentro.
-
-—Aqui?
-
-—Credo! Lá dentro da casa de D. Enrique.
-
-—Mas estarr só?
-
-—Não, sr. Está fazendo companhia á D. Estanislada... O sr. desculpe...
-
-—Nó! D. Enrrique é que desculparrá, se quizerr.
-
-—É uma pouca vergonha como nunca se viu! Minha mãe tem alugado aquella
-casa a muitas familias hespanholas, mas ainda não vi gente tão levantada
-da cabeça como esta! Entre mãe e filha venha o diabo e escolha!
-
-—Mãe menina serr senhorria casa?
-
-—Sim, senhor.
-
-—Então menina terr visto tudo?
-
-—Tudo! Não, senhor. Tenho visto muita coisa. Ainda esta noite...
-
-—Que terr visto menina esta noite?
-
-—Eu e a minha mãe fomos visitar D. Estanislada por imaginarmos que,
-estando o marido e a filha em Lisboa, não teria quem lhe fizesse
-companhia. Estavamos lá quando entrou o conselheiro Antunes. Ó sr.
-estrangeiro, aquillo foi mesmo uma pouca vergonha!
-
-—Como serr?
-
-—Debaixo da mesa...
-
-—Como debaixo de mesa?!
-
-—Pisando os pés um ao outro, D. Estanislada e o conselheiro! Estiveram
-toda a santa noite n’aquelle debique. Depois sahimos todos, mas o
-conselheiro, á sahida, disse a D. Estanislada que ás onze horas vinha o
-azeite...
-
-—Oh! sim! o azeite! Serr uma combinação entrre ambos!
-
-—Tal qual. Mas eu, que não gosto que me façam o ninho atraz da orelha,
-fiquei aqui á espreita por dentro dos vidros. Vi chegar o sr. estrangeiro
-e pasmar-se para a casa de D. Enrique. Vi chegar depois o conselheiro
-Antunes. O sr. estrangeiro fugiu, e o conselheiro entrou.
-
-—Menina terr cerrteza que conselheirro estarr lá?
-
-—Sim, sr.! Como dois e dois serem quatro...
-
-—Pouca verrgonha!
-
-—Ó sr. estrangeiro! mãe e filha é tudo a mesma loiça! A filha, quando não
-anda pela rua com todos os namorados, está á janella a catrapiscar a um e
-a outro, a todos os que vão chegando! O sr. estrangeiro tambem tem feito
-bem bonitos papelinhos!
-
-—Serr porr brrincadeirra. E terr muitos namorrados?
-
-—Mais de um cento! Elle é o Lemos de Alcacer, elle é o tal das gazetas de
-Lisboa, elle é o hespanholito esgrouviado, elle é o tolo do Vianninha que
-tem a pobre da Sequeira a morrer por causa d’elle; elle são os officiaes
-de caçadores; elle são os morgados do Alemtejo; elle era o marialva que
-andou ahi um tempo. E elle é tambem o sr. estrangeiro... disse Ricardina
-sorrindo.
-
-—Eu serr brrincadeirra.
-
-—Olhe, da parte d’ella talvez fosse, porque quando o sr. voltava costas,
-a _señorita_ e a mãe desatavam a rir pelas casas dentro.
-
-—Pouca verrgonha!
-
-—Pois olhe que é a pura da verdade!
-
-—Muito obrrigado, linda menina. Eu poderr virr amanha á mesm’horra
-fallarr com menina aqui?
-
-—E para que quer o sr. estrangeiro fallar comigo? É porque está
-apaixonado pela _señorita_ e deseja saber noticias...
-
-—Nó! É por gostarr de menina.
-
-—O sr. estrangeiro está a caçoar com uma pobre rapariga!...
-
-—Caçoarr! Nó! Eu virr amanhã mesm’horra. Linda menina, fazerr favorr
-esperrar mim?
-
-E o sueco, apertando na sua manápula a mão de Ricardina, sentiu-se
-deliciosamente agitado por esse contacto, que era um triumpho amoroso
-cahido do céo.
-
-Por sua vez, Ricardina, que sahira vibrante de casa de D. Estanislada,
-sentia-se bem, feliz, por ter podido até certo ponto descarregar a
-electricidade que de lá trouxera.
-
-O sueco era um homem sadio, de boas côres, e devia ter dinheiro, porque
-estava ali como commissario de uma importante casa da Suecia, importadora
-de sal.
-
-De mais a mais Ricardina, como todas as mulheres, lisonjeava-se de ter
-arrancado um vassallo ao coração da _señorita_, que estava absorvendo
-todas as attenções de Setubal.
-
-O sueco, ruminando a sua boa fortuna, foi passear audaciosamente para a
-praia, como se já não temesse os ridiculos da troça.
-
-Dados alguns passos, encontrou o estudante de Alcacer, que, muito
-noctivago, recolhia do café _Esperança_.
-
-—Ó seu sueco! disse-lhe o Lemos. Então você não tinha ido para Cintra?!
-
-O sueco respondeu-lhe que effectivamente tinha estado em Cintra, por
-passeio, e não porque se houvesse importado com a historia do _pic-nic_;
-que se estava rindo da _señorita_, que era uma tola, e até de D.
-Estanislada, que era a amante do conselheiro Antunes.
-
-E, sem se referir a Ricardina, contou ao Lemos que Soledad e D. Enrique
-tinham ido para Lisboa e que o conselheiro estava áquella hora em casa de
-D. Enrique.
-
-—Está lá com certeza? perguntou o Lemos.
-
-O sueco affirmou positivamente que estava; que tinha entrado ás onze
-horas.
-
-—Olhe lá, disse o Lemos, venha comigo, vamos pregar uma _partida_ a essa
-marafona da D. Estanislada.
-
-E, mettendo o braço ao sueco, foi-o levando comsigo a reboque.
-
-Depois que passára a tempestade do ciume, D. Estanislada e o conselheiro
-reconciliaram-se n’um longo idillio de amor. Tinham adormecido nos braços
-um do outro, e D. Estanislada sonhava afflictivamente que D. Enrique,
-voltando de Lisboa, estava batendo á porta.
-
-Accordou sobresaltada, sentou-se na cama offegante, olhando para o
-conselheiro que dormia tranquillamente e assobiava por um dos cantos da
-bôcca.
-
-Agitada entre a impressão do sonho e da realidade, isto é, entre a imagem
-de D. Enrique e a pessoa do conselheiro, estava limpando o suor da testa,
-quando ouviu resoar tres pancadas na porta e uma voz roufenha dizer:
-
-—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!
-
-Agarrando-se trémula, convulsa ao conselheiro, accordou-o, e elle,
-despertando aturdido, ouviu tambem, distinctamente, a voz roufenha dizer:
-
-—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!
-
-Era o estudante d’Alcacer, que se tinha lembrado de pregar aos dois esta
-_partida_.
-
-
-
-
-X
-
-
-Tarde de domingo, lucida e serena como um crystal da Bohemia. O Sado
-dorme n’um azul tranquillo, n’um leito de saphira, que a menor aragem não
-agita, o que poucas vezes succede. O Campo do Bomfim immobilisa-se n’uma
-grande quietação bucolica, e os arvoredos circumjacentes recortam-se n’um
-fundo de stereoscópo longamente pittoresco...
-
-As Rodartes foram passeiar a Brancannes: Hilda e Maria Ignez, de braço
-dado; Salomé guiando, como sempre, o avô,—Antigone que vae conduzindo
-Œdipo.
-
-Habituadas á vida placida da Messejana, sentiam-se bem na solidão dos
-campos, mais convidativos ali do que na sua arida provincia do Alemtejo.
-
-O velho _Padre Eterno_ não queria outra felicidade que a de vêr-se
-rodeado pelo grupo encantador das suas tres Graças: onde ellas
-estivessem, estava o céo.
-
-Nenhum dos cavalheiros serventes tinha apparecido ainda, e não faziam
-falta a ninguem, nem mesmo ás tres damas, que elles n’aquella tarde
-pareciam ter esquecido.
-
-Salomé e o avô conversavam sobre negocios da administração da casa,
-porque aquella neta era o secretario particular do velho Rodarte: toda a
-correspondencia com os feitores e caseiros corria pela sua mão.
-
-Hilda e Maria Ignez fallavam de coisas frivolas, assumptos de Setubal,
-que lhes serviam para ir matando o tempo.
-
-—A andaluza foi com o pae a Lisboa, dizia Maria Ignez.
-
-—Como sabes tu isso? perguntou Hilda.
-
-—Porque m’o disse hoje o banheiro na praia.
-
-—Ah! por isso, replicou Hilda, ninguem ainda viu nenhum dos seus pagens!
-Ou foram tambem para Lisboa ou estão mettidos em casa a chorar de
-saudade...
-
-E riram ambas, sem despeito, apenas com a alegre ironia, que é uma feição
-caracteristica dos espiritos moços e despreoccupados.
-
-—O sueco é que desappareceu da circulação!
-
-—E o Lemos tambem!
-
-—Não. O Lemos estava outro dia sentado á porta do café quando nós
-passamos.
-
-—Parece que não está bem comnosco!
-
-—Porquê?
-
-—Eu sei lá! Deixal-o estar.
-
-—E o jornalista?
-
-O avô e Salomé haviam-se calado momentos antes.
-
-—O jornalista, disse o velho Rodarte, mandou-me hoje a sua _Trombeta_.
-
-—A da Fama, avôsinho? perguntou Maria Ignez.
-
-—Não, a d’elle, a _Trombeta Ullyssiponense_.
-
-—Por signal, accrescentou Salomé, que vem lá uns versos d’elle, que não
-são feios.
-
-—Como são? perguntou Hilda. Tu que tens boa memoria, dize lá como são.
-
-—Parece-me que sei apenas o principio. Intitulam-se _Noites ao norte_.
-
- Noite fria, noite branca,
- Noite da Russia polar,
- És como a imagem da morte,
- Ó longa noite do norte,
- Feita de neve e luar.
-
-—Dize lá o resto.
-
-—Não sei. Tive de escrever para a Messejana uma carta que o avôsinho
-queria, e puz logo o jornal de parte.
-
-—Esses versos fazem frio! disse rindo o avô.
-
-—Frio e mêdo! accrescentou Hilda.
-
-—Se elle faz d’esses versos á _señorita_, constipa-a, disse Maria Ignez.
-
-O avô e as duas outras meninas riram muito da phrase.
-
-—Coitados! continuou o Rodarte. Chega a ser comico esse cortejo da
-hespanhola! Tirados os nossos dois patricios, que são alegres, mas
-excellentes pessoas e proprietarios abastados, tudo o mais não vale um
-caracol.
-
-—E D. Ramon? perguntou Maria Ignez.
-
-—Quem sabe lá o que elle é! É um emigrado, que me não parece um forte
-sustentaculo da monarchia, nem um inimigo poderoso da republica.
-
-—E o Vianninha? perguntou Hilda.
-
-—O Vianninha é um pobre escripturario de fazenda, respondeu Araujo
-Rodarte, que anda a estudar o modo de não morrer de fome.
-
-—Não, avôsinho! replicou Hilda. Elle anda a estudar o meio de conquistar
-a _señorita_.
-
-—Está ella feliz com esse pretendente!
-
-—Pois assim pobre como é, disse Maria Ignez, está apaixonada por elle a
-Sequeira. Dizem até que tem deitado sangue pela bôcca.
-
-—Pobre rapariga! que tão mal empregou o seu coração! ponderou o Rodarte.
-E elle é um tolo, porque o pae da Sequeira tem alguma coisa de seu,
-possue duas marinhas em Alcacer, e é um homem que trabalha muito. De mais
-a mais, boa gente.
-
-E Maria Ignez interrompeu a conversação, exclamando:
-
-—Sabem quem vem acolá? São os nossos patricios.
-
-—Antes elles do que os outros, disse o avô.
-
-O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas vinham
-effectivamente subindo para Brancannes, onde sabiam que iam encontrar as
-tres lindas patricias.
-
-A sua chegada trouxe maior animação ao dialogo.
-
-—Então que vae lá por esse mundo da praia? perguntou o velho Rodarte.
-
-—Algumas novidades ha.
-
-—Novidades! Quaes?
-
-—A andaluza foi com o pae para Lisboa, disse o morgado de Reguengos.
-
-—Os nossos sentimentos... replicou Hilda.
-
-O morgado fez-se purpurino.
-
-—Ó minha senhora! disse elle. Tanto eu como este meu companheiro estamos
-aqui a banhos e queremos divertir-nos. Olhamos para tudo isto como se
-estivessemos no theatro. A andaluza tem sido a peça que está em scena:
-assistimos ao espectaculo e divertimo-nos a nosso modo.
-
-—Assim é, confirmou o proprietario das Alcaçovas.
-
-—Pois que hão de elles fazer! ponderou Araujo Rodarte. E mais?
-
-—O conselheiro anda fazendo as suas despedidas. Já nos foi deixar bilhete.
-
-—Mas elle contava ainda demorar-se! observou Araujo Rodarte.
-
-—Lá estão commentando no Lapido a resolução do conselheiro.
-
-—Mas ainda ha mais novidades! lembrou o morgado de Reguengos.
-
-—Digam sempre.
-
-—O Lemos planeou agora um espectaculo de curiosos em favor do Asylo.
-Parece que querem representar uma comedia escripta pelo Goes.
-
-—Mas quem representa? perguntou Maria Ignez.
-
-—Elles esperam que v. ex.ᵃˢ entrem.
-
-—Nós! conclamaram as tres meninas.
-
-—Ellas! exclamou simultaneamente o avô.
-
-—Mas a mim consta-me por linhas travessas, disse o proprietario das
-Alcaçovas, que o pae do Lemos está furioso com a demora d’elle em
-Setubal, e que mais dia menos dia o virá buscar para o acompanhar a
-Lisboa, visto que se vae aproximando a época da abertura das aulas.
-
-—Pobre pae! observou o Rodarte. O rapaz está aqui está a tomar capêllo em
-Physica.
-
-—Tempo tem elle já para isso!
-
-—Pois essa idéa do espectaculo é mesmo d’uma cabeça desconcertada!
-
-—Outra novidade! exclamou o morgado de Reguengos.
-
-—Qual?
-
-—Appareceu o sueco!
-
-—Tinha-se perdido? perguntou rindo Araujo Rodarte.
-
-—Não, senhor. Tinha ido a Cintra sem dar cavaco á gente.
-
-Os dois alemtejanos foram a Brancannes com o proposito astucioso de
-evitar que as Rodartes tomassem parte no espectaculo planeado n’aquella
-manhã pelo estudante d’Alcacer. Sondariam sobre o assumpto o animo do
-velho Rodarte. Mas logo ficaram tranquillos vendo que tanto o avô como as
-netas pensavam do mesmo modo: ellas não entrariam na récita.
-
-O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas continuaram a não
-dar importancia á concorrencia amorosa do estudante e dos outros, que
-_não tinham onde cahir mortos_. Mas o galanteio de ambos com as duas
-Rodartes ia-se accentuando com um caracter de seriedade, que abrangia já
-a ideia do casamento, se ellas os não repellissem.
-
-Queriam pois evitar, um e outro, que collaborassem n’um espectaculo de
-rapazes as duas senhoras, Hilda e Maria Ignez, admittida a possibilidade
-de que ellas lhes acceitassem a côrte.
-
-Não sabiam elles ao certo o numero de personagens femininos que a peça
-exigiria; mas preveniam a hypothese de uma annuencia ao convite do
-estudante.
-
-Combinado o espectaculo no café _Esperança_, e compromettido Aurelio Goes
-a escrever a peça, o estudante, o jornalista e o Vianninha foram em grupo
-ao encontro das Rodartes.
-
-Vinham ellas já descendo de Brancannes com o avô e os dois alemtejanos,
-quando os tres as avistaram.
-
-N’essa occasião o morgado de Reguengos colhia uma flôr e offerecia-a a
-Hilda. O estudante viu isto, e desfechou de longe uma gargalhada.
-
-—Sabem vocês, disse elle aos companheiros, o que aquelle pedaço de bruto
-lhe está dizendo decerto agora?
-
-—O que é?
-
-—Aposto que ha de ser isto:
-
- Aqui tem este raminho,
- Que da minha mão se offerece.
- Não é como eu queria,
- Nem como a senhora D. Hilda merece.
-
-E riram todos tres.
-
-—Parece-me que á bêsta nos viu rir? disse o estudante.
-
-—Tambem a mim me parece! respondeu o Vianninha, muito timido.
-
-—Pois com tamanha bêsta não quero eu brincadeiras.
-
-E o estudante foi o primeiro a desandar pelo mesmo caminho, sendo logo
-seguido pelos seus dois companheiros.
-
-
-
-
-XI
-
-
-O conselheiro Antunes e D. Estanislada ficaram inquietos com o que tinham
-ouvido.
-
-O seu segredo estava descoberto: o _azeite_ havia-se entornado, enodoando
-ambos.
-
-Não era D. Enrique que batera á porta, porque D. Enrique estava em
-Lisboa, mas devia ser uma pessoa que soubesse _tudo_.
-
-Quem seria essa pessoa?
-
-D. Estanislada propendia a crêr que fosse a senhoria.
-
-—Porquê? perguntou-lhe o conselheiro.
-
-—_Porque es beata, y las beatas lo saben todo: lo que Dios no les dice,
-lo saben ellas por el Diablo._
-
-Era uma razão, mas o conselheiro não a acceitava sem repugnancia:
-
-—Nada! Foi um homem. Certamente o sueco, que andava por aqui. É verdade
-que elle não me viu entrar, porque fugiu. Mas suspeitou que eu houvesse
-entrado e, n’essa supposição, veio pregar-nos esta peça.
-
-—_Nada!_ teimava D. Estanislada. _La voz no era la del sueco!_
-
-—Precisamos acautelar-nos, porque podem resultar de tudo isto
-consequencias muito desagradaveis. Eu sou um homem sério, e se não desejo
-comprometter uma dama, não desejo comprometter-me tambem a mim proprio.
-O melhor será eu recolher-me por alguns dias a Santarem, antes mesmo de
-D. Enrique voltar, porque d’este modo elle não poderá crêr, se lhe chegar
-aos ouvidos a denuncia, que eu desaproveitasse um só instante da sua
-ausencia.
-
-—_D. Enrique nada sabrá_, dizia a hespanhola, muito menos timida que o
-conselheiro.
-
-—Eu sei lá! Isto leva caminho de lhe chegar aos ouvidos. O seguro
-morreu de velho, e o melhor é acautelarmo-nos. Estanislada, minha rica
-Estanislada do meu coração, eu vou passar uns dias a Santarem, e voltarei
-depois.
-
-—_Que fatalidad!_ exclamava ella.
-
-O conselheiro não descansou senão quando se viu fóra da porta. D.
-Estanislada viera antes á janella para o certificar de que não estava
-ninguem na rua.
-
-—Nada! Não quero comprometter a minha reputação, a minha
-respeitabilidade, tudo! ia monologando o conselheiro. Amanhã faço constar
-que o governador civil de Santarem me chamou para um negocio urgente da
-politica do districto. Faço, pelo sim pelo não, as minhas despedidas,
-para não alimentar suspeitas, para mostrar que _parto_ mas não _fujo_, e
-por aqui me sirvo até mais vêr.
-
-E, apos uma pausa, muito sentencioso:
-
-—Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem.
-
-Effectivamente, no comboio de segunda-feira pela manhã o conselheiro
-partiu para Lisboa e de Lisboa para Santarem.
-
-Ao apear-se na estação da sua terra, o mesmo pensamento sentencioso
-acudiu ao espirito do conselheiro:
-
-—Nada! Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem!
-
-O estudante de Alcacer havia divulgado a _peça_ que pregára ao
-conselheiro e a D. Estanislada. Era já do dominio publico á hora em que o
-conselheiro andava fazendo as suas despedidas.
-
-Os dois alemtejanos sabiam-no perfeitamente quando se encontraram com as
-Rodartes, no domingo, em Brancannes, mas limitaram-se, por conveniencia
-devida ás damas, a dizer que no café _Esperança_ estavam discutindo os
-motivos da retirada do conselheiro.
-
-E era verdade. Em todo esse dia a hespanhola mãe foi ali tão discutida
-quanto a hespanhola filha o havia sido quando era a unica belleza
-dominadora de Setubal, isto é, antes da chegada das tres netas do _Padre
-Eterno_.
-
-D. Enrique regressou na segunda-feira de tarde com Soledad.
-
-—Foi usted a Lisboa? perguntavam-lhe os desfructadores.
-
-—_He ido á los toros!_
-
-—Ah! Foi usted aos touros? E que tal?
-
-—_Una broma!_
-
-E ficavam-se a rir, logo que elle voltava costas, da singular
-coincidencia de ter ido aos touros aquelle homem que, durante a sua
-ausencia, fôra, segundo a expressão picaresca do estudante, lidado pelo
-conselheiro.
-
-Mas D. Enrique vinha mais contente do que fôra, porque tivera occasião
-de fallar em Lisboa com outros emigrados, e a opinião d’elles era que
-o estado anarchico de Hespanha não podia continuar por muito tempo.
-O remedio viria de alguma parte, ou d’uma intervenção das potencias
-estrangeiras ou de uma reacção espontanea do paiz.
-
-Era a esperança providencial de todos os emigrados a prefigurar-lhes um
-desfecho mais rapido do que os factos em verdade promettiam.
-
-O estudante, o jornalista e o Vianninha resolveram, á volta de
-Brancannes, demorar o convite ás Rodartes, para entrarem na récita, até
-que estivesse escripta a comedia e se soubesse ao certo qual o numero dos
-personagens femininos.
-
-O jornalista metteu-se em casa a trabalhar de afogadilho na sua _peça_,
-de que elle proprio já fallava com orgulho, quando ás dez horas da noite
-apparecia no café do Lapido para tomar cognac, como uma celebridade
-noctivaga.
-
-Contava com uma verdadeira glorificação no theatro, esperava que o seu
-triumpho no palco de Setubal teria grande écco em Lisboa. Coroado como
-dramaturgo na patria de Bocage, para entrar no palco de _D. Maria II_ só
-lhe seria preciso... atravessar o Tejo.
-
-A sua reputação estava feita ou perto d’isso.
-
-Ao segundo dia de trabalho, annunciou que na sua comedia apenas entraria
-uma mulher. Esta noticia contrariou muito o estudante, mas Aurelio Goes
-respondeu-lhe que a espontaneidade do talento não se podia torcer como
-um arame, e que o que a sua cabeça lhe déra espontaneamente fôra uma
-comedia com um só personagem feminino.
-
-Então, alguns desfructadores, _habitués_ do Lapido, suggeriram a ideia de
-que, para não melindrar as damas, o melhor seria não convidar nenhuma, e
-encarregar-se o estudante de um _travesti_.
-
-Não repugnou a Julio de Lemos esta ideia, porque lhe daria no palco maior
-evidencia e, por isso mesmo, maior gloria.
-
-Acceitou.
-
-—Que nome tenho eu lá na peça? perguntava elle a Aurelio Goes.
-
-—És a baroneza de Piães.
-
-—Casada ou solteira?
-
-—Casada.
-
-—E distincta?
-
-—Certamente.
-
-Escriptas as primeiras scenas, foram-se logo ensaiando.
-
-O jornalista distribuiu os papeis; os ensaios faziam-se de dia, depois do
-almoço. Uma commissão encarregára-se de passar a casa: a coisa corria ás
-mil maravilhas.
-
-Eis o programma da festa, redigido pelo dramaturgo:
-
- UMA NOITE SINISTRA
-
- _Comedia em tres actos e em verso, original do festejado
- escriptor o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes_
-
- DISTRIBUIÇÃO DOS PERSONAGENS
-
- _Baroneza de Piães_ Sr. Julio de Lemos
- _Barão de Piães_ Sr. J. Vianna
- _D. Mendo Espinote_ Sr. Aurelio Goes
- _D. Diogo Cucufate_ Sr. Tenente Epaminondas
- _D. Fafes Estorninho_ Sr. Tenente Rosalgar
- _D. Gualter Byscaia_ Sr. Alferes Ruivo
- _O escrivão de fazenda_ N. N.
-
- A acção passa-se na actualidade, em Braga.
-
- _Ensaiador_—Sr. Aurelio Goes.
-
-A _Gazeta Setubalense_ e a _Trombeta Ullyssiponense_ annunciaram, além
-e áquem do Tejo, o brilhante espectaculo que ia realisar-se em Setubal,
-punham no sette estrello o novel e talentoso author, Aurelio Goes, que,
-se os calculos não falhavam, viria a nivelar-se com Almeida Garrett, e
-elogiavam a vocação artistica dos distinctos amadores, que em seguida
-nomeavam.
-
-Ambas as noticias haviam sido escriptas pelo proprio Aurelio Goes.
-
-Tambem elle se lembrára de officiar ao ministerio das obras publicas
-reclamando, para a noite da récita, um comboio extraordinario a preços
-reduzidos, mas não obteve resposta.
-
-Escreveu a um amigo de Lisboa encarregando-o de encommendar uma coroa
-de louros, que era para elle, e de ir entender-se com o proprietario da
-_Trombeta_, para que lhe fizesse um adeantamento de dois mezes.
-
-A coroa foi logo encommendada, porque o amigo de Aurelio Goes tinha tanto
-juizo como elle.
-
-Mas o proprietario da _Trombeta_, que só d’ahi a dois dias poude ser
-encontrado, recusou-se formalmente a fazer o adeantamento pedido,
-chegando a dizer ao intermediario que o _sr. Aurelio_ só lhe mandava
-de Setubal noticias de interesse proprio; que estava muito desgostoso
-com elle, e que se dentro de quinze dias não regressasse a Lisboa, o
-despediria da redacção.
-
-Depois d’esta entrevista desoladora, o amigo de Aurelio Goes correu á
-loja onde tinha encommendado a coroa, para suspender a encommenda, mas,
-ó fatalidade! a coroa estava já feita, e exposta na _montre_ com este
-distico, que tinha tambem sido encommendado: _Ao notavel e talentoso
-dramaturgo Aurelio Goes, futuro émulo de Garrett_.
-
-Pobre emissario! Ficou entalado, responsavel pela despeza da coroa.
-Escreveu para Setubal a contar o que era passado, quanto aos louros e á
-brutalidade do proprietario da _Trombeta_.
-
-Aurelio Goes respondeu, na volta do correio, que ia arranjar dinheiro
-para a coroa, que não prescindiria dos louros por caso nenhum, e que
-fosse dizer ao «tyranno da _Trombeta_», expressão sua, que dentro de
-quinze dias estaria de regresso em Lisboa com uma carregação de gloria,
-que faria subir os fundos da _Trombeta_.
-
-E, para que tudo coubesse no praso fatal que lhe era marcado, resolveu-se
-que a récita se realisasse dentro de dez dias.
-
-Activaram-se os trabalhos, Aurelio Goes desenvolvera uma actividade
-assombrosa, retocava as ultimas scenas da comedia, assistia aos ensaios,
-e tratava de arranjar dinheiro para os louros.
-
-Julio de Lemos, muito contente com o seu papel de baroneza de Piães, em
-que obteria uma ovação, estava d’isso convencido, occupava-se, nas horas
-livres de ensaios, em preparar a sua _toilette_.
-
-Lembrou-se de D. Estanislada para lhe fornecer o guarda-roupa, mas
-lembrou-se obrigado pelas circumstancias, porque o morgado de Reguengos
-declarára categoricamente em alguma parte que, por seu conselho, as
-Rodartes não contribuiriam para a récita senão com o preço do seu
-camarote.
-
-E o estudante, quando soube isto, dissera:
-
-—Essa grande bêsta imagina talvez que terei de apparecer em scena como
-Eva no Paraizo Terreal! Pois engana-se redondamente.
-
-E foi pedir a D. Estanislada que lhe valesse n’aquella afflicção.
-
-Soledad tinha ido ao banho com o pae, mas D. Estanislada recebeu-o
-amavelmente, prometteu-lhe pôr á sua disposição o guarda-roupa de que
-precisasse.
-
-Julio de Lemos, muito captivado, agradeceu-lhe a amabilidade e, para
-lisonjeal-a na sua formosura, contou-lhe a scena que se seguira ao
-_pic-nic_ de Troia, disse-lhe que, no sorteio de damas a que se
-procedêra, ella tinha cahido em sorte ao sueco.
-
-D. Estanislada riu muito com essa brincadeira, e explicou então a si
-mesma os ciumes do conselheiro, e a presença do sueco, de noite, na sua
-rua.
-
-Esta revelação não cahiu em cesto rôto.
-
-Vencida a difficuldade da _toilette_ para o estudante, tudo estava
-prompto, e a noite da recita chegou finalmente.
-
-
-
-
-XII
-
-
-Subiu o panno. O palco representava uma sala, que fingia communicar com
-outras. Ouvia-se um _sol-e-dó_, com pretensões a orchestra de salão.
-Devia ser um baile.
-
-
-SCENA I
-
-D. MENDO e D. DIOGO (_entram ambos, conversando, pela porta do fundo. O
-sol-e-dó vae esmorecendo. Salienta-se á vista dos espectadores a casaca
-de D. Mendo, que é antiga e enorme._)
-
- D. MENDO
-
- Mas se conhecem?
-
- D. DIOGO
-
- Sim! sim!
- Agora, que estás no baile,
- Emancipa-te de mim.
- Passeia, namora, primo,
- Faze a côrte, dize graças,
- Pódes até, se quizeres,
- Tu, morgado de Boaças,
- Ser um rei entre as mulheres!
-
- D. MENDO
-
- Um rei com manto emprestado!
- Julgo ouvir, a cada passo,
- Dizer a voz de um palhaço:
- «Largue a casaca, morgado!»
- Que entre a fôrma e entre o fato
- Deve a união ser tamanha
- Como entre a casca e a lagosta,
- Entre o ouriço e a castanha.
- Mas eu com esta casaca
- Cheiro a D. Miguel I.
- Suppõe que eu sou a castanha:
- Ella é o ouriço... cacheiro.
-
- D. DIOGO
-
- Ora adeus! Em Braga serve...
-
- D. MENDO
-
- Essa ironia é cruel!
- Onde ella faria vista
- Seria em Penafiel,
- Que lá as casacas todas
- São ainda mais pesadas
- E têm as abas dobradas,
- Dizem...
-
- D. DIOGO
-
- Pensei que sabias!
-
- D. MENDO
-
- Não. Eu já lá estive uns dias,
- Mas nunca mudei de fato.
- Ora eu com esta casaca
- A que Bocage decerto
- Fez no seu tempo uma quadra,
- Devo par’cer um retrato
- D’estes da Feira da Ladra!
- E depois que desconcerto
- Entre a casaca e o chapeu!
- Percebem todos á legua
- Que trago o que não é meu.
- Um chapeu moderno, _claque_,
- Fôrro preto, lettra de ouro,
- Armado com boas molas,
- Dando ao abrir-se um estouro. (_E abriu a claque com estrondo._)
- A casaca... um monumento
- De remota fundação!
- Faz lembrar a sé de Braga
- Com abas e cabeção;
- A guerra de Troia em panno;
- Affonso Henriques cosido.
- Affonso Henriques decerto
- É que eu trago em mim vestido!
-
- D. DIOGO
-
- Pateta! Mais te valia
- Talvez deitar-te ao sol-posto
- Com as gallinhas! (_ironico._)
-
- D. MENDO
-
- Que ouvi?!
- Pôr as gallinhas, entendo,
- Mas pôr o sol, nunca vi!
-
- D. DIOGO
-
- Ahi vem a dona da casa!
-
- D. MENDO
-
- Agora, que vou ter publico,
- Sinto-me arder n’uma braza!
-
-
-SCENA II
-
-_Entra Julio de Lemos em travesti de mulher. A sua entrada em scena
-produz hilaridade no publico._
-
- BARONEZA
-
- Ó morgado! que surpreza!
- Que prazer! quanto eu estimo!
- Beijo-lhe as mãos, D. Diogo,
- Pois que nos trouxe seu primo.
-
- D. MENDO
-
- Baroneza! Eu folgo muito...
- O meu peito rejubila... (_Inclina-se. Sóbe-lhe para a cabeça
- o cabeção da casaca._)
- (_á parte_) Não posso dár á cabeça,
- Que me não suba a mochilla!
-
- D. DIOGO (_apertando a mão á baroneza_)
-
- E tem que me agradecer,
- Porque o primo não queria
- Vir ao baile!
-
- BARONEZA
-
- Póde ser!
-
- D. DIOGO
-
- Só questão de _toilette_.
- Mas emfim...
-
- D. MENDO
-
- (_á parte_) Vim de casaca,
- E ainda cabiam mais sete!
-
- BARONEZA
-
- O barão, quando soubér,
- Ha de ficar encantado
- Co’a surpreza do morgado.
- Eu mesma lh’o vou dizer.
- E agora, morgado, goze,
- Que entre a fina flôr do Minho
- Não ha quem lhe leve a palma,
- Quem tenha mais gentil alma,
- Melhor sangue em pergaminho,
- Além do que nós sabemos...
- Pois por cá todos lhe dão
- Umas cem pipas de vinho
- E oitenta carros de pão.
-
- D. MENDO
-
- Ai! baroneza! Foi tempo!...
- Já não sou quem d’antes era.
- Sinto-me triste, sou mono.
- Matou-me o phylloxera!
- Deu nas vinhas... e no dono!
-
- BARONEZA
-
- Não se chore... pobresinho!
- Que não é occasião.
- Se quizer... compro-lhe o vinho,
- Seu primo... compra-lhe o pão.
-
- D. DIOGO
-
- Está dito, baroneza.
- Quer o meu braço?
-
- BARONEZA
-
- Pois não!
- Morgado, goze, namore,
- Que eu vou dizer ao barão. (_A baroneza e D. Diogo saem de
- braço dado por uma das portas lateraes._)
-
-
-SCENA III
-
- D. MENDO (_só_)
-
- Goze! Namore! Tem graça!
- Póde alguem ser tão audaz,
- Que vá mostrar-se n’um baile
- Assim, por deante e (_volta-se_) por traz!
- Vim de rastos, constrangido,
- Estou aqui compromettido!
- Não saio d’aqui, não saio.
- Fallar ás damas? Dançar?
- N’essa tolice não caio.
- Não me hão de lá apanhar! (_Sentando-se._)
- Chego a Braga d’esta vez
- Por uns dois dias ou trez.
- Trago um fato de viagem:
- Eis toda a minha bagagem.
- Entro em casa de meu primo.
- —Como vaes tu?—Que surpreza!
- Ó diabo! adivinhaste!
- Mas tu sabes que apanhaste
- Um baile da baroneza?!
- —Um baile?—Um baile!—E depois?
- —Um baile d’estes que valem,
- Dados em Braga, por dois.
- —Não vou.—Has de ir.—Mas não posso!
- —Não pódes! porque?—Por tudo!
- Ou melhor, talvez, por nada!
- Pensas que eu visto casaca
- P’ra fazer uma jornada?!
- Que é da casaca? Não tenho!
- Gosto de andar á ligeira,
- Cheio de sol e poeira,
- Assim mesmo,—como venho.
- —Mas, primo, talvez se arranje
- Algum meio... deixa vêr.
- —Só o capote de um conego
- Me póde agora valer!
- —Não rias! Que ideia! Espera!
- Se me não falha a memoria,
- A casaca do papá,
- Que Deus tenha em santa gloria,
- No guarda-roupa ainda está.
- —Santo Deus! quero lá isso!
- Ó primo! que reinação!
- Uma casaca, talvez,
- Com que o tio outr’ora fez
- De valido papa-fina
- Quando a Carlota Joaquina
- Burlou a Constituição!
- —Vae-se vêr. Tem paciencia...
- Vem a casaca. Medonha!
- Isto que eu trago vestido
- E em que me sinto mettido
- Como dentro d’uma fronha!
- —Primo, não vou.—Qual historia!
- Verás lá muitas assim.
- N’esta Braga, que é fiel,
- O tempo de D. Miguel
- Dura ainda, e não tem fim!
- Vaes á moda.—Á moda... antiga!
- —Talvez que alguma morgada,
- Camapheu como o seu broche,
- Se sinta lisonjeada
- D’esse aspecto _vieille-roche_.
- —E entre no meu coração,
- Por engano, e por seu pé,
- Julgando, por ser em Braga,
- Que vae ouvir missa á Sé!
- —Ora adeus! Calças, collete,
- Gravata, lenço, chapeu,
- O resto da _toilette_,
- Tudo isso, empresto-te eu.
- E zás, põe me na tortura,
- Despe-me, veste-me, entala-me,
- Puxa, repuxa, estrebucha,
- Desaperta, aperta, empala-me!
- Traz-me ajoujado, arrastado,
- Acho-me, sem saber como,
- Preso dentro de uma sacca!
- Vim a pé... n’esta casaca,
- E o primo veio a meu lado!
-
-
-SCENA IV
-
-(_D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão de fazenda entram
-pela porta do fundo. D. Mendo levantas-se vendo-os entrar._)
-
- D. FAFES e D. GUALTER (_simultaneamente_)
-
- Ó que surpreza! Um abraço!
- Que noite nem estreiada! (_abraçam-n’o de um e outro lado._)
-
- D. MENDO (_á parte_)
-
- Fica tão longe a casaca,
- Que não senti mesmo nada! (_Olhando para o escrivão de fazenda,
- que lhe abaixa a cabeça._)
- Ó D. Gualter, ó D. Fafes,
- Ser apresentado estimo
- Ao distincto cavalheiro,
- Que tendes por companheiro.
- Será elle nosso primo?
-
- D. GUALTER
-
- Não é. Mas outra valia
- Este senhor recommenda.
- Isto já de fidalguia!...
-
- D. FAFES
-
- É o escrivão de fazenda. (_apresentando D. Mendo_)
- Meu primo Mendo de Sousa
- Noronha Alvim e Lambaças...
- Aqui falta alguma cousa!
- Emfim: senhor de Boaças.
-
- D. MENDO
-
- Falta o Tinoco materno.
- De meu pae falta o Rolim.
-
- D. FAFES (_emendando_)
-
- Mendo de Sousa Noronha
- Alvim Tinoco Rolim,
- Senhor do Brejo e Boaças.
-
- D. MENDO
-
- Agora falta o Lambaças!
-
- D. FAFES (_rindo_)
-
- Nenhum de nossos avós
- Faz falta onde estamos nós!
-
- D. MENDO (_ao escrivão_)
-
- Muito emfim me lisonjea
- Conhecer este senhor.
- Faça de conta, de ideia
- Que me tem ao seu dispôr.
- Estendo-lhe a minha mão,
- Senhor... senhor escrivão
- De fazenda... propria ou alheia?
-
- D. GUALTER (_precipitado_)
-
- Não faças troça do homem.
- N’estes bons tempos felizes
- De liberdade e igualdade
- Nós andamos nas mãos d’elle
- P’ra que não nos tire a pelle
- Esticando-a nas matrizes.
-
- D. MENDO
-
- Então cá vocês não pagam?
-
- (_D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda_)
-
- D. GUALTER
-
- Pagamos pouco. Bem vês
- Que ninguem faz em colheitas
- O que antigamente fez.
-
- D. MENDO
-
- E então recorrem ás peitas!
-
-N’esta altura da representação começou-se a ouvir barulho no palco. Não
-parecia que fosse rubrica da peça.
-
-D. Mendo, extranhando o barulho, dirigiu-se á porta do fundo, e gritou
-para dentro: Calem-se, seus burros!
-
- D. GUALTER (_levantando a voz para poder ser ouvido_)
-
- Finge a gente que o estima,
- Trata-o de Santo Antoninho,
- Mão por baixo, mão por cima.
- Se não ha nem pão nem vinho!
-
- D. MENDO (_descendo da porta do fundo, muito arreliado
- porque o barulho entre-scenas continua_)
-
- Mão por cima... é bom criterio.
- Mas mão por baixo... é mais serio!
-
- D. GUALTER (_explicando com o gesto correspondente_)
-
- Mão por cima e mão por baixo.
-
-Continua e augmenta o barulho entre-scenas. Sente-se fallar de rijo,
-altercar. Da platêa rompem alguns scius.
-
- D. MENDO
-
- Isso então tinha outro nome
- Quando não havia fome.
- Chamava-se: ser capacho!
-
- D. FAFES (_em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder
- dominar o barulho que vinha do fundo do palco_)
-
- Muito alegre este D. Mendo!
-
- D. GUALTER (_berrando para poder ser ouvido_)
-
- Parece rapaz, e é velho!
-
- D. FAFES (_gritando cada vez mais_)
-
- Tem uma casa soberba!
-
- D. MENDO (_com voz de estentor, para o escrivão de fazenda_)
-
- Tenho. Mas n’outro concelho.
-
-N’isto o barulho augmenta entre-scenas, sente-se cahir uma cadeira, e
-de repente, correndo de um lado para outro, atravessa o palco Julio de
-Lemos, em _travesti_ de baroneza de Piães e atraz d’elle, aos pontapés,
-um dos quaes ainda lhe raspou, um sujeito de cabellos grisalhos, baixo,
-atarracado, ardendo em colera.
-
-Uma grande parte do publico, composto de setubalenses, reconheceu o homem
-dos pontapés: era o pae do estudante de Alcacer. As familias banhistas,
-incluindo as Rodartes e Soledad, assustaram-se. Ouviram-se guinchos
-hystericos. Na platêa explodiram risadas. E ao charivari no palco
-correspondeu o charivari dos guinchos e das gargalhadas na platêa e nos
-camarotes.
-
-Os actores, D. Mendo, D. Fafes, D. Gualter e todos os mais, corriam de
-um lado para outro gritando, berrando, apparecendo e desapparecendo por
-entre os bastidores.
-
-O administrador do concelho sahiu precipitadamente do seu camarote.
-
-Ao cabo de cinco minutos de tumulto, o panno desceu.
-
-Na platêa continuavam as risadas, mas nos camarotes iam diminuindo os
-guinchos.
-
-Vozes explicavam da platêa para os camarotes:
-
-—Não é nada! É o pae do estudante que o veio buscar!
-
-—É o pae! é o pae! Não se afflijam, minhas senhoras.
-
-Alguns homens sahiam da platêa, corriam ao palco.
-
-D. Enrique berrava ao fundo do seu camarote:
-
-—_Que broma! que broma!_
-
-Finalmente, ao cabo de um quarto de hora de verdadeira ingrezia, o panno
-subiu, e Aurelio Goes, ainda enfardelado na sua enorme casaca de D.
-Mendo, veio dizer á bôcca da scena:
-
-—Minhas senhoras e meus senhores: tendo desapparecido do palco o sr.
-Julio de Lemos, o espectaculo não póde continuar hoje.
-
-O proprietario das Alcaçovas, que tinha ido ao camarote das Rodartes,
-para lhes explicar o que tudo aquillo era, e tranquillisal-as, dizia:
-
-—Bem me constava a mim que o pae do Lemos estava muito quesilado com
-elle, e não tardaria a vir buscal-o. Rebentou hoje como uma bomba!
-
-
-
-
-XIII
-
-
-Imagine-se quanto deu que fallar este caso estupendamente comico!
-
-Pela manhã dizia-se na praia que o pae do estudante havia corrido atraz
-d’elle pela rua da Conceição, e que um popular, vendo uma mulher a fugir
-e um homem a gritar que a prendessem, deitara a mão á supposta mulher;
-que Julio de Lemos apanhára n’esse momento nova roda de pontapés, e que
-o pae, agarrando-lhe por um braço, o levára para a hospedaria, tendo
-embarcado ambos no comboio da manhã para Lisboa.
-
-Episodios altamente risiveis, boquejavam-se: soube-se então que o
-jornalista havia mandado vir de Lisboa, para si proprio, uma coroa de
-louros, a qual coroa de louros ficára no theatro pendurada de um prego.
-Fazia-se _calembour_ com a palavra _prego_, porque se soube logo tambem
-a quem o jornalista pedira emprestado o dinheiro para pagar a coroa.
-Accrescentava-se que o estudante se esquecêra, na atrapalhação em que
-ficára, de restituir a _toilette_ a D. Estanislada, mas averiguou-se
-depois que o pae de Julio de Lemos havia mandado entregar tudo.
-
-Aurelio Goes não apparecia, estava envergonhado e furioso: envergonhado
-pelo _fiasco_ e furioso por vêr perdida a occasião de trepar para o
-pedestal de Garrett.
-
-Á noite asseverou-se, e era verdade, que Aurelio Goes havia partido no
-comboio da tarde para Lisboa, á franceza, sem dizer adeus a ninguem, nem
-mesmo á pessoa que lhe havia emprestado o dinheiro para a coroa de louros.
-
-Só duas pessoas, não que ellas o dissessem a ninguem, haviam tirado algum
-proveito d’essa mallograda récita.
-
-A primeira era D. Estanislada que, graças ao estudante, ficára sabendo
-que, no sorteio de Troia, havia cahido em sorte ao sueco.
-
-A segunda era o sueco que, na noite da récita, tinha offerecido um
-camarote de segunda ordem á senhora Magdalena e á menina Ricardina.
-
-Pois que! A menina Ricardina soubera tecer a sua rede, e apanhou nas
-malhas o sueco. Foi com esse fim que ella o chamára para lhe fazer as
-confidencias que sabemos. Elle, encantado com tão boa fortuna, porque
-era essa a primeira portugueza que se lhe tornava accessivel, voltára na
-noite seguinte, e logo n’essa noite ficou estabelecido o galanteio.
-
-A menina Ricardina contou á mãe que o sueco lhe tinha dito que queria
-desposal-a, e a sr.ª Magdalena, depois da filha lhe prometter que _teria
-muito juizo_, prometteu ao Senhor do Bomfim um sueco de cêra, se o
-namoro viesse a disparar em casamento.
-
-Annunciada a récita, o sueco offereceu á namorada um camarote de segunda
-ordem, camarote de industria escolhido para dar pouco nas vistas: era de
-bôcca.
-
-E logo que a sr.ª Magdalena e a filha se sentaram no camarote offerecido,
-o sueco, a proposito de saber se ellas queriam alguma coisa, foi
-visital-as, e ficou.
-
-Sentou-se discretamente ao fundo do camarote, encantado com a mobilidade
-gracil com que Ricardina mexia a cabeça, olhando para um e outro lado
-como um passaro na gaiola.
-
-Ella estava delirante de alegria por se vêr no theatro, coisa que já
-lhe não acontecia havia dois annos, desde que um rapaz, que tinha ido a
-banhos, lhe offerecera duas cadeiras no barracão dos Dallots para ella
-assistir com a mãe á representação da _Mão do finado_.
-
-Mas vêr-se de camarote, n’um espectaculo concorrido pelas melhores
-familias da terra e de fóra, estonteava-a d’alegria e de orgulho.
-
-Quando principou a desencadear-se no palco a tempestade, que fez gorar o
-espectaculo, a menina Ricardina pôz-se de pé, como quasi toda a gente, e
-aproveitou a occasião para ir sentar-se, ao fundo do camarote, perto do
-sueco.
-
-A mãe ficou muito entretida a vêr o escandalo do palco, sem dar a menor
-attenção ao escandalo do camarote. O sueco e a menina Ricardina, de mãos
-entrelaçadas, muito ternos, já se não importavam senão comsigo mesmos,
-indifferentes ao tumulto que de repente se havia levantado.
-
-Entretanto D. Estanislada estranhava não vêr o sueco, porque, depois que
-o estudante lhe contára a historia do sorteio, ella havia architectado
-um romance de amor internacional.
-
-O sueco, na sua opinião, tomára a sério o sorteio, o sueco amava-a, e
-por isso o conselheiro. Antunes o tinha encontrado perto da casa de D.
-Enrique, com o que, como sabemos, ficára furioso.
-
-Havia, é verdade, uma carta do sueco para Soledad, carta que D.
-Estanislada e o conselheiro abriram e leram, mas essa carta bem podia
-ser um habil disfarce do sueco para prevenir a hypothese de qualquer
-escandalo futuro.
-
-Não fingira a principio o conselheiro, tambem habilmente, namorar
-Soledad para afastar suspeitas do seu galanteio com D. Estanislada? Pois
-muito bem! O sueco fazia o contrario, simulava namorar Soledad para se
-aproximar, sem dar nas vistas, do coração de D. Estanislada.
-
-A hespanhola mãe principiava a sentir-se amada pela segunda vez em
-Setubal.
-
-O sueco mal podia imaginal-o! Elle andava n’umas paschoas desde que
-possuia o coração da menina Ricardina. Já se não importava de Soledad,
-que seria mais bella, não o negava, mas não era tão accessivel, tão
-meiga, tão carinhosa para elle.
-
-O theatro, n’aquella noite da récita mallograda, foi-se esvaziando, os
-espectadores sahiam fazendo commentarios em voz alta, rindo, só a sr.ª
-Magdalena, a menina Ricardina e o sueco se deixaram ficar para ser os
-ultimos a sahir.
-
-Já começavam a apagar-se as luzes quando os tres desceram. E como a
-noite estivesse serena, posto não houvesse luar, o sueco convidou a sr.ª
-Magdalena a irem dar um pequeno passeio. Ella objectou que poderia ser
-isso reparado, mas a filha, vendo que a mãe não se entendia muito bem
-com a aravia do sueco, replicou que não havia luar e que até fazia bem
-dar um passeio n’uma noite de verão: que bem encalmada saira ella do
-theatro. Calma d’amor, principalmente, porque o sueco, de mãos enlaçadas
-com a menina Ricardina, fizera subir o thermometro.
-
-Foram caminhando até ao largo das Almas, e ahi metteram para o Campo do
-Bomfim, os dois adiante, a sr.ª Magdalena fiscalisando-os.
-
-Contornaram o campo, e a sr.ª Magdalena, quando passavam em direcção á
-capella do Senhor do Bomfim,, não se dispensou de parar para rezar de
-longe á milagrosa imagem da sua especial devoção.
-
-Foi n’essa occasião que o sueco roubára um beijo á menina Ricardina.
-
-Estou a imaginar o que algum dos mais ingenuos dos meus leitores
-dirá comsigo mesmo: «Ah! o primeiro beijo! que delicioso momento de
-felicidade, esse!»
-
-Perdão, leitor ingenuo! Não era o primeiro beijo que elle dava, mas o
-terceiro. Sim, o terceiro, um terceiro... franciscano, a julgar pela
-modestia com que passou dos labios do sueco para a face da menina
-Ricardina, como se passasse de uma cella para outra. Dir-se-ia que era um
-beijo de sandalias, porque passou sem fazer barulho.
-
-Quando recolheram a casa, a sr.ª Magdalena disse á menina Ricardina:
-
-—Não sei como tu te podes entender com o sueco!
-
-—Por quê, minha mãe?
-
-—Eu entendo muito pouco do que elle diz!
-
-—Pois eu entendo-o perfeitamente...
-
-Ó amor! ó lingua universal dos corações namorados! tu és a unica lingua
-que se póde aprender sem grammatica e sem diccionario! lingua de
-substantivos apenas, em que dois nomes proprios se juntam para formar o
-plural!
-
-Todos os acontecimentos que se tinham dado nos ultimos dias haviam
-contribuido para diminuir e empallidecer a côrte de admiradores que,
-antes da chegada das Rodartes, acompanhava por toda a parte a bella
-andaluza.
-
-Os dois alemtejanos, como dois corações patriotas, desertaram da
-côrte castelhana para a côrte portugueza, logo que o Alemtejo se viu
-soberanamente glorificado na pessoa das tres Graças da Messejana.
-
-O sueco havia-se retirado para Cintra, segundo constava, quando
-Soledad fôra para Lisboa com o pae. Estava certamente contrariado pela
-concorrencia que lhe faziam os outros pretendentes á mão da bella
-andaluza. Ella propria pensava isto.
-
-O conselheiro Antunes retirára-se para Santarem.
-
-Depois da noite fatal da récita, o estudante e o jornalista
-desappareceram, abandonaram o seu posto de cortezãos.
-
-Restavam apenas o hespanhol, o Vianninha e os officiaes de caçadores.
-
-Já não havia _tertulias_ possiveis, Soledad passava as noites sentada com
-a familia n’um banco da Praia, aturando ás vezes D. Ramon, outras vezes o
-Vianninha ou o tenente Epaminondas ou o alferes Ruivo, mas nada d’isso,
-que era pouco, podia contentar a sua alma de andaluza: a _tertulia_, a
-querida _tertulia_, que tanto lhe electrisava os nervos, fazia-lhe muita
-falta.
-
-Abrindo e fechando o _abanico_, aborrecia-se, chegava a bocejar. Tinha
-desesperos intimos, raivas surdas.
-
-E, quando passava pela casa das Rodartes, e via luz nas janellas, uma
-revoltada emulação fazia brilhar, n’um relampago, as pupillas negras dos
-seus olhos.
-
-—Ao menos as tres irmãs, as Rodartes, entretinham-se ás noites, ao passo
-que ella, rainha quasi desthronada, só tinha por futuro um banco da Praia
-e uma côrte cada vez mais reduzida.
-
-Uma vez, com manifesto mau humor, perguntára Soledad ao tenente
-Epaminondas, ironicamente, se aquillo que havia ás noites em casa das
-Rodartes eram _tertulias_.
-
-E o tenente, muito desdenhoso, respondera rindo:
-
-—Quaes _tertulias_! São os dois alemtejanos que estão a jogar o loto na
-côrte do _Padre Eterno_!
-
-Mas Soledad, raivosa, mordera o beiço.
-
-
-
-
-XIV
-
-
-D. Ramon Mendoza, que era o hespanhol mais insipido de que ha memoria,
-não conquistára vantagens amorosas junto de Soledad.
-
-Ella achava-o, como toda a gente, uma individualidade incolor, fugidia,
-d’estas que não deixam a ninguem uma impressão duradoira.
-
-Apesar de vêr muito dizimada a sua côrte galante, Soledad não dava maior
-attenção ao hespanholito. Nem o coração nem a razão a impelliam para
-elle. O coração recebia-o com indifferença; a razão dizia a Soledad que,
-depois de ter tido um tão variado cortejo, seria um desaire recorrer á
-_prata de casa_,—a um patricio insignificante.
-
-Sabendo que o sueco voltára a Setubal, lembrou-se de atiçar de novo a
-chamma do amor n’esse coração da Scandinavia, que tanta vez se lhe havia
-rendido. Mas por onde andava elle, que lhe não apparecia?
-
-Uma noite, tendo a familia Saavedra recolhido a casa, depois de passear
-na alameda da Praia, Soledad ficou por algum tempo á janella.
-
-A noite estava calmosa, a casa era abafada, tinha apenas duas janellas.
-D. Enrique deitára-se, fôra para a cama lêr os jornaes hespanhoes que
-n’esse dia o correio lhe trouxera.
-
-D. Estanislada andava, como sabemos, em reservada observação a respeito
-do sueco: se elle era um namorado timido, como suppunha, ella o alentaria
-com a sua audacia de abelha-mestra andaluza.
-
-Deitado o marido, D. Estanislada abriu a outra janella da sala, a
-pretexto de tomar ar. Cada uma, mãe e filha, occupava sua janella. E
-ambas tinham o mesmo pensamento: vêr se o sueco, protegido pela noite,
-passaria por ali.
-
-A menina Ricardina, por dentro da vidraça do seu _rez-de-chaussée_,
-esperava tambem o sueco, e sentia-se contrariada pela presença das
-hespanholas, que pareciam não ter somno n’aquella noite.
-
-A principio suppôz que mãe e filha estivessem apenas tomando o fresco,
-mas deram onze e meia no relogio de S. Julião, deu meia noite, e ellas
-não sahiam da janella.
-
-A meia noite era a hora marcada para a entrevista do sueco com a menina
-Ricardina. A sr.ª Magdalena dormia profundamente a essa hora. A filha
-levantava-se do leito, abria cautelosamente a janella, vinha esperar, no
-silencio da noite, o sueco. Mas n’aquella noite, vendo as hespanholas,
-ficára por dentro da vidraça, espreitando-as.
-
-Á meia noite em ponto—a pontualidade em tudo é uma caracteristica das
-raças do norte—o sueco assomou á esquina da rua, que julgava deserta a
-essa hora, segundo o costume.
-
-Viu porém gente nas duas janellas da casa de D. Enrique, e fechada a
-vidraça de Ricardina.
-
-Ficou por sua vez contrariado, perplexo, sem saber se havia de retroceder
-ou de avançar. Coseu-se com a sombra do muro, parou, indeciso.
-
-N’esse momento tres corações de mulher monologaram simultaneamente.
-
-O coração de Ricardina:
-
-—É elle!
-
-O coração de Soledad:
-
-—É elle!
-
-O coração de D. Estanislada:
-
-—É elle!
-
-O sueco observava de longe, via dois vultos de mulher nas janellas da
-casa de D. Enrique, sem comtudo poder distinguil-os. Mas um d’esses
-vultos havia de ser, certamente, o de Soledad, e então aviventou-se no
-coração do sueco o rescaldo da agradavel impressão, que a belleza d’essa
-mulher lhe havia causado.
-
-Ella era realmente formosa, tinha uma graça acirrante, uma graça
-meridional, que punha em vibração os nervos de todos os homens,
-especialmente os de um homem do norte.
-
-Mas Ricardina, sem ser tão bella, nem tão graciosa, sabia melhor talvez
-conquistar e deixar-se conquistar. As pequenas felicidades que Ricardina
-já lhe havia concedido, eram o prologo tentador de uma promessa, e não ha
-homem nenhum, seja do norte ou do sul, que se não sinta vibrante a dois
-passos de uma posse sem restricções.
-
-Estava, pois, o sueco ardendo em dois fogos, e muito longe de imaginar
-que um terceiro incendio o ameaçava de perto. Esse terceiro incendio era
-D. Estanislada.
-
-De repente, olhando do escuro para a casa de D. Enrique, viu mexer-se
-n’uma das janellas um lenço branco.
-
-Era o lenço de Soledad.
-
-D’ahi a momentos, na segunda janella, outro lenço branco passou
-cavillosamente pelas narinas de D. Estanislada.
-
-Elle viu tudo isto, e, sem poder reconhecer Soledad nem D. Estanislada,
-ficou cada vez mais desorientado.
-
-Lembrando-se de que Ricardina, comquanto tivesse a janella fechada, o
-devia estar esperando, olhou para o _rez-de-chaussée_, e viu uma ponta de
-lenço assomar por baixo da vidraça e logo desapparecer.
-
-Sem saber o que fizesse, deixou-se estar no escuro, esperando os
-acontecimentos.
-
-D’ahi a pouco, um lenço branco cahiu de uma das janellas de D. Enrique
-para a rua, e ouviu-se descer uma vidraça.
-
-Era Soledad que ia deitar-se e que, disfarçadamente, para que a mãe não
-désse por isso, tinha deixado cahir o lenço como de um balcão da idade
-média.
-
-D. Estanislada, a quem não era facil enganar, viu a manobra do lenço
-da filha e, mal ella voltara costas, fez o mesmo, com mais algum
-descaramento: agitou o lenço e deixou-o cahir á rua. Depois fechou com
-estrondo a janella.
-
-D. Enrique, que, tendo passado pela vista os jornaes, já dormitava,
-accordou ouvindo o barulho da vidraça; teve um estremecimento nervoso e
-regougou:
-
-—_Que broma!_
-
-Voltando-se para o outro lado, tornou a pegar no somno.
-
-O sueco ainda esteve cerca de um quarto de hora alapardado no escuro,
-mas, vendo abrir-se a janella de Ricardina, sahiu da sombra, sem todavia
-perder de vista os dois lenços brancos, que estavam no chão.
-
-Quando elle se approximava do _rez-de-chaussé_, sentiu abrir-se
-cautelosamente a porta da sr.ª Magdalena.
-
-Um fremito de electricidade amorosa percorreu todo o seu corpo; n’aquella
-noite o amor triumpharia sem restricções, pensou elle.
-
-Mas Ricardina atravessou rapidamente a rua, com um passinho de passaro,
-apanhou os dois lenços que estavam no chão debaixo das janellas das
-hespanholas, e correu para casa.
-
-O sueco, sem saber a façanha gloriosa de Martim Moniz no castello de
-Lisboa, ia a imital-o por intuição, quiz atravessar-se na porta, para
-entrar, mas Ricardina empurrou-o com desabrimento, dizendo iracunda:
-
-—Não! nunca!
-
-E fechou a porta da rua. Depois fechou as portas da janella.
-
-E o sueco achou-se em plena rua, cada vez mais atarantado, sem perceber
-nada de tudo aquillo.
-
-Ricardina estava como uma bicha contra o sueco, contra as hespanholas,
-contra o enguiço d’aquella noite.
-
-Jurava vingar-se de tudo e de todos, e, tendo visto cahir os lenços,
-quizera adquiril-os como prova da leviandade de Soledad e de D.
-Estanislada. Percebera, com a sua aguda intuição maliciosa, a comedia
-representada pela mãe e pela filha, procurando enganarem-se uma á outra.
-
-A primeira ideia de Ricardina foi lançar mão de todos os meios que
-podessem libertal-a da visinhança das hespanholas: lembrou-se de
-mandar os lenços a D. Enrique, dentro de uma carta anonyma, em que lhe
-explicasse o que se tinha passado.
-
-Mas receando ir provocar uma tragedia domestica—como ella conhecia mal D.
-Enrique!—resolveu, por fim, enviar á filha o lenço da mãe, enviar á mãe
-o lenço da filha, descobrindo o plano de ambas, e ameaçando-as com uma
-denuncia.
-
-Assim fez. Chamou um rapasito que tinha andado com ella na escóla, e
-encarregou-o de escrever as duas cartas, e de sobrescriptal-as.
-
-A D. Estanislada dizia:
-
-«Ahi vae o lenço que a senhora sua filha atirou hontem ao sueco, pensando
-que usted não dava por isso. Tenha tento na bola, quando não eu aviso o
-seu homem, e espalho em toda a cidade este grande escandalo. O melhor é
-safar-se d’aqui quanto antes.»
-
-Para Soledad o texto era este:
-
-«A senhora sua mãe, logo que usted fechou hontem a janella, atirou ao
-sueco este lenço, que lhe mando. Veja usted que tem dentro das portas a
-sua primeira rival. Aconselho-a, se quizer evitar um grande escandalo, a
-que trate de sahir de Setubal».
-
-Ricardina esperou que D. Enrique sahisse de casa, para mandar entregar,
-pelo mesmo rapasito, as duas cartas, com os lenços dentro.
-
-O expediente surtiu effeito, porque n’essa noite não se abriram as
-janellas da casa de D. Enrique.
-
-O sueco, ao dar da meia noite, foi, muito timidamente, procurar uma
-reconciliação com Ricardina.
-
-Viu a janella fechada, mas, perdendo um pouco a timidez, aproximou-se da
-vidraça: Ricardina estava n’uma posição estudada, com o rosto apoiado na
-mão direita, olhando para o céo onde a lua passava entre nuvens.
-
-O sueco bateu com os dedos na vidraça, e Ricardina, que lhe seguia
-disfarçadamente os movimentos, fingiu despertar, sobresaltada, da sua
-apaixonada _réverie_. Encarando com o sueco, fez um movimento de desdem,
-e recahiu em simulada contemplação.
-
-Elle pôz as mãos como supplicando-lhe que levantas-se a vidraça.
-
-Ricardina, mostrando-se contrariada, abriu a janella e perguntou-lhe de
-repellão:
-
-—O que quer o sr. de mim? Ainda tem cara de me apparecer aqui?!
-
-O sueco desculpou-se: que sim, que tinha cara, porque tinha coração.
-Que a amava muito. Que na vespera não quizera aproximar-se para a não
-comprometter. Que não tinha culpa de que as hespanholas—e n’isto teve
-graça—se lembrassem de fazer d’elle lavadeira, dando-lhe lenços para
-lavar.
-
-Ricardina mostrou-se resentida, ciumenta, e não quiz dizer n’essa noite
-a sua ultima palavra de perdão. Era uma tactica habil, para subjugar o
-sueco, para o obrigar a reconquistar o terreno perdido.
-
-Por dentro dos vidros, ás escuras, Soledad e D. Estanislada tinham vindo,
-cada uma por sua vez, espreitar para a rua, na esperança de que o sueco
-voltasse.
-
-Ambas o viram: Soledad surprehendeu-o n’uma attitude comica, a implorar
-de mãos postas á menina Ricardina que levantasse a vidraça. Ficou
-indignada, não tanto pela attitude humilhante d’elle, como por ter a
-certeza de que lhe roubavam... _mais um_.
-
-D. Estanislada, a quem a filha não fallava desde pela manhã, deixou-a
-deitar para vir pé-ante-pé espreitar por dentro dos vidros.
-
-Reconheceu facilmente a corpolencia do sueco, dobrado sobre a janella de
-Ricardina.
-
-—Ai! pensou D. Estanislada, que elle namora a lambisgoia da filha da
-senhoria! Estou bem arranjada com maus visinhos de ao pé da porta! O
-melhor é tratar de pôr-me ao fresco, porque eu já fiquei desconfiada
-quando n’aquella noite, em que cá esteve o conselheiro, a tal menina
-Ricardina deixou cahir o annel debaixo da meza!
-
-E reflectindo um instante:
-
-—Ai! que foi ella que bateu e gritou á porta!
-
-No dia seguinte, á volta do banho, quiz o acaso que as duas hespanholas
-encontrassem o sueco. Elle ia para cumprimental-as, quando Soledad, que
-levava grande dianteira á mãe, lhe disse bruscamente:
-
-—_Picaro!_
-
-Sem ter percebido bem o que Soledad dissera, mas reconhecendo em todo
-caso que ella quizera insultal-o, atordoado, indeciso, levou a mão ao
-chapeu quando passava junto de D. Estanislada.
-
-E ella, sem parar, disse-lhe altivamente:
-
-—_Infáme!_
-
-
-
-
-XV
-
-
-Ás sete horas da manhã, Araujo Rodarte e as suas tres netas sahiram, como
-de costume, para o banho.
-
-Atravessaram o passeio da Praia de Troino, riscado havia tres annos.
-Os eucalyptos haviam crescido com a precocidade que caracterisa o
-desenvolvimento d’estas arvores, de modo que abrigavam uma legião de
-passaros, cuja chilreada era como que um doce concerto matutino.
-
-Sobre o lago, e nas seis extensas avenidas que do lago irradiam, algumas
-borboletas passavam, batendo, na palpitação da luz, as suas azas brancas.
-
-Um rapasito, que vinha de levar o almoço ao pae, empregado na Doca,
-havia poisado a cafeteira sobre a borda do lago, e, de joelhos, brincava
-mettendo as mãos na agua, agitando-a, para fazer turbilhonar os peixes
-vermelhos.
-
-As Rodartes e o avô sentaram-se alguns momentos em dois dos bancos
-que torneam o lago, porque o sol ia descobrindo, e era agradavel aos
-banhistas, na travessia de casa para o banho, descansar na frescura
-d’aquelle oasis.
-
-Depois cortaram na direcção da praia, a que faltava o pittoresco das
-praias do norte do paiz, onde os arruamentos das barracas alvejam
-garridamente.
-
-Em Setubal o systema seguido é o do wagon e o da prancha. Os banhistas
-despem-se e vestem-se nos compartimentos do wagon, e mergulham na agua
-agarrados á prancha. Os _mirones_ aproveitam a sombra escassa do wagon
-para sentar-se a gosar o espectaculo da praia.
-
-Salomé e o avô, que não tomavam banho, sentaram-se á sombra, emquanto
-Hilda e Maria Ignez foram fazer a sua _toilette_ balnear.
-
-O Sado estava tranquillo e diamantino. Alguns golfinhos davam saltos, ao
-largo, n’uma folia de _clowns_ aquaticos.
-
-Sobre a abertura da barra a luz cahia em jorros doirando o mar, e a torre
-do Outão, com os seus contornos duros, dava relevo á margem direita do
-Sado.
-
-A concorrencia de banhistas era, áquella hora, diminuta. Uma creança,
-nos braços do banheiro, gritava como possessa, e outra creança, de
-sete a oito annos, mettida dentro d’agua, ria de vêr chorar a outra, e
-chapinhava-a saracoteando-se no banho. Uma hespanhola gorda, agarrada á
-prancha, resfolegava como uma phoca. E um padre, de camisola de malha,
-fazia ensaios de natação inhabil, arrastando-se na ondulação da agua até
-ir esbarrar na areia.
-
-Araujo Rodarte e Salomé estiveram um momento calados, até que, de
-repente, disse elle á neta:
-
-—Admira não estarem cá hoje os nossos patricios!
-
-—Foram a Lisboa tratar de negocios, segundo disseram ás manas, respondeu
-Salomé.
-
-E o velho, com ar de alegre ironia, observou:
-
-—Como ellas andam bem informadas!
-
-Salomé sorriu-se.
-
-—Sempre quero vêr—disse o Rodarte após um momento de silencio—se aquellas
-duas senhoras—referia-se a Hilda e Maria Ignez—terão coragem para me
-fazer alguma traição!...
-
-—Alguma traição?!
-
-—Sim, se terão coragem para me deixar só comtigo na Messejana!
-
-—Não pense n’isso, avôsinho.
-
-—Dizes tu que não pense n’isso! Mas em que hei-de eu pensar senão em
-vocês! Que tenho eu que me prenda agora mais no mundo?! A velhice não
-me tornou ainda tão tolo, que não perceba o que é um namoro. Lá de que
-as tuas irmãs são requestadas pelos nossos patricios, já não posso eu
-duvidar. E não me revolta isso, mas entristece-me. Sempre vos tenho dito
-que não tenhaes pressa de casar, sobretudo de casar mal, porque estaes
-habituadas a viver bem; mas não posso levar a minha exigencia até ao
-ponto de vos querer para freiras. Que anda moiro na costa, é certo, e que
-os dois nossos patricios são pessoas estimaveis, e maridos convenientes,
-não é menos certo. Mas o que me entristece é o receio de vêr desfeito de
-um dia para o outro o nosso pequeno grupo de familia, indo a Hilda para
-Reguengos e a Maria Ignez para as Alcaçovas. Ficaremos nós, como dois
-solitarios, no casarão da Messejana. E tu, Salomé, e tu, que noticias me
-dás do teu coração?...
-
-—Nem o sinto! respondeu, sorrindo, Salomé.
-
-—Pareceu-me que o pateta do Vianninha pretendia fazer-te a côrte...
-
-—Sim... talvez. Perdia o tempo.
-
-—Já anda desilludido, porque apparece menos. Era um mau casamento, porque
-é sempre um mau casamento aquelle em que se conquista uma supposta
-felicidade á custa da infelicidade de outrem. O pateta tem feito soffrer
-a Sequeira, que se apaixonou por elle, e que podia empregar-se melhor. E
-o ratão do sueco! o que é feito d’elle?
-
-—Creio que andará arrastando a aza á _señorita_. Não o tenho visto.
-
-—Grande aza deve ser, se fôr proporcional ao hombro! Olha lá: o
-hespanholito?
-
-—D. Ramon?
-
-—Sim.
-
-—Deve andar com os seus patricios. Tambem o não tenho visto.
-
-—De toda essa _ala dos namorados_ que ahi appareceu tão galharda, apenas
-se salvaram talvez dois cavalleiros andantes.
-
-—Quaes, avôsinho?
-
-—Quaes! Os que combatem por tuas irmãs, e que m’as querem levar, cada um
-para sua terra differente...
-
-N’este momento Hilda e Maria Ignez, vestidas para o banho, sahiram do
-wagon.
-
-São raras as mulheres que conseguem triumphar de uma tão desgraçada
-_toilette_: blusa e calção de flanella. Mas principalmente Hilda, graças
-á sua correcta plastica, livrava-se do ridiculo da _toilette_. O relevo
-do seio, accentuado sem exagero, aformoseava-lhe o busto.
-
-Sentindo-as fallar, o avô gritou-lhes logo:
-
-—Não apanhem sol, meninas!
-
-—Já vamos, avôsinho, já vamos, responderam ellas quasi simultaneamente.
-
-E, dando as mãos uma á outra, saltaram da prancha ao mesmo tempo, fazendo
-agitar a agua, que salpicou a prancha e ainda o wagon.
-
-Rindo e mergulhando, o banho foi para ellas, como sempre, uma folia quasi
-infantil.
-
-Araujo Rodarte, ouvindo-as, ficou pensativo, calado. O seu espirito
-fixou-se n’um pensamento, que, momentos antes, havia revelado a Salomé:
-queriam roubar-lhe aquellas duas netas, e entristecia-o o lembrar-se que
-tinha de separar-se d’ellas.
-
-Estavam ainda as duas Rodartes no banho, quando chegaram á praia o
-alferes Ruivo e o tenente Rosalgar, que não deixavam nunca, todas as
-manhãs, de ir dár uma vista de olhos ás banhistas.
-
-Desde o mallogrado espectaculo da _Noite sinistra_, aquelles dois
-officiaes, bem como o tenente Epaminondas, ficaram sendo conhecidos no
-café _Esperança_ pelos nomes dos personagens que na peça lhes haviam sido
-distribuidos.
-
-Assim, por isso que as alcunhas se tinham já divulgado, podemos dizer
-que _D. Fafes Estorninho_ e _D. Gualter Byscaia_ estão sobre o wagon,
-conversando com Araujo Rodarte e Salomé, sem comtudo deixarem de dar
-attenção ao banho de Hilda e Maria Ignez.
-
-—Parece-me, disse aos dois Araujo Rodarte, que ainda não tinha tido o
-gosto de os vêr desde aquella noite....
-
-—Aquella _Noite sinistra_! atalharam ambos os officiaes, fazendo allusão
-ao titulo da peça, e rindo ás gargalhadas.
-
-—Foi pena que tivessem tanto trabalho!
-
-—Tudo aquillo divertiu, respondeu o alferes Ruivo. Divertiu mais ainda,
-talvez, do que se se tivesse preenchido todo o espectaculo. E deixou
-recordações alegres para muito tempo! Sabem v. ex.ᵃˢ uma coisa? Desde a
-_Noite sinistra_ eu passei a ser conhecido por _D. Gualter Byscaia_, e
-aqui o tenente por _D. Fafes Estorninho_.
-
-—Tem graça! observou Araujo Rodarte.
-
-Os dois officiaes continuaram a rir, enviezando o olhar para Hilda e
-Maria Ignez, que sahiam do banho, subindo á prancha.
-
-—Mas, disse Salomé, ainda entrava tambem um collega de v. ex.ᵃˢ....
-
-—Era o Epaminondas, minha senhora, respondeu o tenente Rosalgar. Esse é o
-_D. Diogo Cucufate_.
-
-Salomé e o avô riram.
-
-—E a comedia do Goes parecia ter algum merecimento. Foi pena que não
-chegasse ao fim! disse Araujo Rodarte.
-
-—Pena especialmente para o Lemos—observou o alferes Ruivo—que nunca foi
-egualado em tamanha desgraça por nenhum Talma amador!
-
-—Pobre rapaz... e pobre pae! reflexionou Araujo Rodarte.
-
-—Eu nunca vi apanhar tanto pontapé! atalhou o tenente Rosalgar.
-
-—E como o Julio, accrescentou o alferes, largou a fugir vestido de
-mulher, galgando dois a dois os degraus da escada até se vêr na rua!
-
-—O que lhe valeu foi não tropeçar no vestido! commentou o tenente.
-
-—A D. Estanislada esteve em risco, disse o alferes, de perder uma das
-melhores peças do seu guarda-roupa.
-
-—Não! Quem perdeu a peça foi o Goes. A peça e a gloria!
-
-Riram todos muito com esta observação do tenente Rosalgar.
-
-E d’ahi a momentos o alferes:
-
-—A gloria e... a coroa!
-
-—O que é isso da coroa? perguntou Araujo Rodarte.
-
-—Ah! Pois v. exc.ᵃˢ não sabem? O Goes tinha mandado vir de Lisboa uma
-coroa de louros para se coroar a si proprio!
-
-—Sim?! perguntou Salomé.
-
-—Sim, minha senhora, explicou o alferes. Ora o melhor da passagem é que
-foi o Marcolino, marcador do café _Esperança_, quem emprestou ao Goes o
-dinheiro para pagar a coroa, e parece que está resolvido a rifal-a para
-vêr se salva o emprestimo.
-
-—Isso tem muita graça! apostrophou Araujo Rodarte. Eu recebi lá em casa
-a importancia do meu camarote. Se soubesse que se rifava a coroa, tinha
-reservado essa quantia para me habilitar a ser coroado, perorou o velho
-rindo.
-
-—O administrador do concelho, de combinação com o presidente do conselho
-director do Asylo, resolveu, visto que o espectaculo não chegou a
-ultimar-se, mandar restituir aos espectadores a importancia das
-respectivas entradas. Mas o Marcolino fez justiça por suas proprias mãos:
-vendo a coroa dependurada no camarim do Goes, deitou-lhe a mão, para não
-perder tudo, e vae rifal-a.
-
-—Uma acção bonita, alvitrou o tenente Rosalgar, era comprar um bilhete da
-rifa em nome de Bocage, que tem mais direito á coroa do que o Goes.
-
-—Não! eu cá, se me sahir o premio, disse o alferes, faço presente da
-coroa á tia Felismina do hotel Escoveiro: ao menos, durante um semestre,
-não nos ha-de faltar louro na comida.
-
-—Pois o melhor de tudo, observou Araujo Rodarte, era mandar de presente
-a coroa ao rapaz, porque lhe póde servir para outra vez.
-
-—N’essa não cáe o Marcolino!
-
-D’ahi a pouco mais de dez minutos, Hilda e Maria Ignez sahiam do wagon.
-
-O Rodarte e as netas despediram-se dos dois officiaes.
-
-E o alferes Ruivo ficou dizendo ao tenente:
-
-—Ellas vinham do banho um appetite!
-
-—Ó filho, a Hilda é uma mulher de truz! e a outra não é nenhuma asneira
-tambem!
-
-
-
-
-XVI
-
-
-D. Estanislada principiou a pensar na conveniencia de sahir de Setubal.
-
-Desde o momento em que uma pessoa d’aquella terra possuia dois dos
-seus segredos amorosos, conhecia a historia das suas leviandades
-internacionaes, um pouco serodias, só restava á delinquente fazer
-ablativo de viagem, para evitar a atoada do ridiculo.
-
-D. Enrique incommodava-a menos que o ridiculo. Não era do marido que
-receava, mas das más linguas, que n’uma terra pequena ferem mais, porque
-mordem de perto.
-
-Indignava-a o preconceito social que impõe ao coração humano o dever de
-esfriar antes de morrer. Segundo as praxes estabelecidas, uma mulher de
-vinte annos póde ter vinte namoros. Acha-se isso muito natural, e diz-se
-d’essa mulher com um certo ar de desculpa: «É alegre». Mas se uma mulher
-de quarenta annos tiver dois namoros, toda a gente a censura, e a opinião
-publica não faz senão gritar por toda a parte: «É devassa».
-
-Ora a boa logica ensina que a mulher de quarenta annos tem menos tempo
-para viver do que a mulher de vinte. Rasão é esta para aproveitar o
-tempo, para se despedir da vida, que já não póde ser longa.
-
-A propria natureza intercallou o dia natural, que é um symbolo da
-existencia humana, entre dois crepusculos, o da manhã e o da tarde.
-Porque ha de pois ser negado ao coração o direito de ter dois momentos
-de brilho e de calor, dois crepusculos amorosos, que abram e fechem a
-existencia?
-
-D. Estanislada achava profundamente odiosa e absurda a fiscalisação que
-a sociedade exerce com a mulher casada. Se o marido não vê ou não quer
-vêr, para que ha de a bisbilhotice malevola emprestar-lhe os oculos da
-moralidade?
-
-D. Enrique não era um Othello, nunca o fôra. Se lhe dissessem alguma
-coisa em desabono da esposa, encolheria desdenhosamente os hombros,
-limitar-se-ia certamente a dizer: _Es una broma!_
-
-Com que direito vinha a menina Ricardina substituir-se a D. Enrique para
-o effeito da moralidade?!
-
-Então D. Estanislada havia casado com D. Enrique, e era a menina
-Ricardina quem fiscalisava, sem procuração de D. Enrique, a fidelidade
-conjugal de D. Estanislada!
-
-De mais a mais, a menina Ricardina podia esperar que a mãe se deitasse,
-para vir á janella conversar com um homem, e a D. Estanislada não era
-permittido que, estando o marido a dormir, fizesse exactamente a mesma
-coisa?!
-
-Em conclusão: D. Estanislada achava o mundo mal organisado, e estava
-disposta, não a concertal-o, mas a illudil-o.
-
-Ora desde que a menina Ricardina, má visinha de ao pé da porta, sabia
-tudo, era impossivel illudil-a: convinha, portanto, ir tentar melhor
-fortuna n’outra região onde a illusão podesse florescer mais desafogada
-d’espiões.
-
-Pensando na resolução de todos estes problemas, que de perto a
-interessavam, e reconhecida a impossibilidade de regressar desde logo a
-Hespanha, cujo estado politico continuava a ser o mesmo, D. Estanislada
-lembrou-se, com certa saudade, do conselheiro Antunes.
-
-Elle amara-a, déra-lhe provas d’isso; só tinha o defeito de ser, como
-todos os portuguezes, na opinião de D. Estanislada, muito timido. Mas
-sendo timidos os portuguezes, sendo esse o seu natural, não havia
-encontral-os melhores. E, timidez por timidez, o conselheiro já estava
-experimentado, gostava d’ella.
-
-O mesmo foi lembrar-lhe o conselheiro e, como ideia associada, Santarem,
-onde elle vivia.
-
-Fez pois tenção de aconselhar o marido a sahir de Setubal, cidade
-insipida, que mais insipida ficaria ainda depois de encerrada a estação
-balnear.
-
-Não consultou, sobre este projecto, Soledad, que, como já n’outras
-occasiões tinha acontecido, andava amuada com a mãe. Tambem Soledad
-parecia rezar ás vezes pela cartilha da sociedade, e resentir-se de que
-a mãe não sacrificasse em sua honra os ultimos clarões da belleza que
-declinava.
-
-Não era porque Soledad amasse o sueco. Mas o seu brio de hespanhola
-revoltava-se contra a ideia de que todos pretendessem roubar-lhe
-admiradores, até sua propria mãe.
-
-Soledad olhava para o _abanico_, que com tanto _salero_ requebrava,
-e parecia-lhe que era como que uma espada partida na mão de um
-conquistador.
-
-Cuidava ouvir dizer-lhe o _abanico_:
-
-—Soledad, flôr da Andaluzia, tanto me tens incommodado, abrindo-me e
-fechando-me, fazendo-me bailar na tua mão nervosa, como n’um _bolero_
-sem fim, e o que tens tu, bella Soledad, conseguido com isso? Os
-teus admiradores vão desertando uns após outros; tu, que a principio
-timbraste em mostrar-te altiva e incomprehensivel, porque te imaginavas
-inegualavel, tens visto fazer-se em roda de ti a solidão das realezas
-decahidas, a solidão da ilha de Santa Helena, onde se abateu o maior
-orgulho humano. As Rodartes foram mais felizes do que tu, e comtudo não
-dispõem dos teus recursos de hespanhola, do _salero_ e do _abanico_, dois
-irmãos gemeos, que fazemos estremecer os corações. Os leques de que ellas
-usam foram comprados alli na Praça do Bocage, na loja do Trindade, e são
-semsaborões como todos os leques portuguezes, ao passo que eu, apesar de
-haver uma republica hespanhola, continuo a ser o rei das Hespanhas,—a
-alma do Cid recortada sobre uma folha de papel. Até a Ricardina te roubou
-o sueco: és, pobre de ti! como o leão moribundo, a quem as Ricardinas
-injuriam. Desperta, altiva flôr da Andaluzia, readquire o teu orgulho de
-raça, volta as costas a este mundo prosaico, onde só parece haver sal nas
-marinhas, e vai procurar n’outra parte os triumphos, as homenagens a que
-a tua belleza te dá direito.
-
-Soledad ouviu o _abanico_ e deu-lhe credito, como todas as hespanholas.
-Por isso, quando D. Enrique, já meio convencido por D. Estanislada,
-fallou um dia em transferirem-se para Santarem, Soledad pareceu apoiar
-esse projecto, que lhe promettia uma vida mais alegre do que a de
-Setubal.
-
-O Marcolino, marcador do café _Esperança_, perguntou a D. Enrique se
-queria ficar com um bilhete para a rifa da coroa de louros.
-
-E o hespanhol, muito desdenhoso, respondeu-lhe que não, porque _se iba a
-marchar_.
-
-—Para Hespanha? insistiu o marcador.
-
-D. Enrique zangou-se: que para Hespanha só voltaria com a realeza dos
-Bourbons.
-
-E o Marcolino, que foi o primeiro republicano que pimpolhou em Setubal,
-respondeu-lhe mentalmente:
-
-—Tens que esperar!...
-
-Mas saber o Marcolino uma noticia era o mesmo que sabel-a todo o café
-_Esperança_, e, dentro de algumas horas, toda a cidade de Setubal, e,
-dentro d’alguns dias, as aldeias de Azeitão e a povoação de Palmella.
-
-—Que D. Enrique se _iba a marchar_, dizia-se, espalhava-se.
-
-No café _Esperança_ apertavam D. Ramon Mendoza, troçavam-n’o,
-perguntavam-lhe se elle não fazia valer os direitos que a sorte lhe
-concedera; que casta de hespanhol era elle, que deixava fugir, sem a ter
-ferido no coração, a sua bella patricia?
-
-E D. Ramon, muito indifferente, muito insôsso, pedia gazoza, e respondia
-sorrindo:
-
-—Que santos de casa não fazem milagres.
-
-Não tardou a chegar ao conhecimento da menina Ricardina a noticia de que
-a familia Saavedra ia retirar-se. Ricardina ficou contentissima, e a sr.ª
-Magdalena não o ficou menos, porque havia arrendado a casa por seis mezes
-a D. Enrique, e poderia alugal-a ainda outra vez, para aproveitar o resto
-da estação balnear.
-
-Ricardina, na esperança de que a noticia fosse verdadeira, achou que
-devia tratar o sueco de modo a desvial-o de Soledad, sem comtudo se
-alargar em concessões, que o satisfizessem.
-
-Assim foi que se mostrou menos crua para elle: abriu a janella, e
-permittiu-lhe que a beijasse nas mãos.
-
-—Só nas mãos, porque, dizia ella, não podia confiar n’elle.
-
-O sueco pretendeu mais uma vez justificar-se, e contou a Ricardina a
-scena que tivera com as hespanholas, que não só o não cumprimentaram, mas
-até o mimosearam com epithetos offensivos.
-
-—O sr. é que tem a culpa de tudo isso! disse-lhe Ricardina continuando a
-fingir-se ciumenta.
-
-—Eu! nó! respondeu elle com uma convicção muito guttural.
-
-—Pois quem! O sr. andava a acolytal-as a ambas, á mãe e á filha, e não
-queria levar com as galhetas na cara!
-
-O sueco percebeu pouco d’esta metaphora, que Ricardina aprendera nos
-habitos devotos, egrejeiros da mãe.
-
-E ella, muito tagarella, continuára moendo palavras:
-
-—Sabe o sr. o que deve fazer agora?
-
-—Nó saberr!
-
-—Vá para onde ellas forem. O que lhe importa o negocio do sal? Mais vale
-um gosto na vida que seis vintens na algibeira.
-
-—Nó! Nó! respondia o sueco com uma bonhomia babosa.
-
-Elle já estava habituado a que Ricardina o tratasse por tu, tratamento
-carinhoso, que nunca mais havia recebido desde que sahira da Scandinavia,
-e todo o seu ideal consistia agora em conseguir que ella voltasse a
-empregar esse terno vocativo.
-
-Mas Ricardina, muito arteira, obstinava-se em tratal-o por _senhor_, sem
-o repellir, é certo, mas sem o acarinhar como antes d’aquella fatal noite
-dos dois lenços.
-
-Um namorado meridional haveria, decerto, feito uma scena de ciumes,
-diria a Ricardina que, pois que ella assim o aconselhava, seguiria as
-Saavedras para onde quer que ellas fossem, mas um homem do norte, muito
-calmo, muito pacifico, não encontra no seu temperamento a facilidade de
-representar no amor o drama tempestuoso.
-
-Quando o sueco se despedia de Ricardina, beijando-lhe outra vez as mãos,
-ia resignado a esperar que o diluvio passasse e que o arco da alliança
-brilhasse sobre os ultimos destroços do diluvio.
-
-Depois, chegando ao _hotel Escoveiro_, dois copinhos de _Kirsch-wasser_
-adormeciam-n’o n’uma serena esperança de que Ricardina voltaria a ser a
-mesma.
-
-E, por entre os fumos do _Kirsch_ e do cachimbo, pensava elle:
-
-—Que voltas que o mundo dá! Quem me havia de dizer a mim que estimaria
-ainda a ausencia de Soledad!
-
-E o cachimbo ia-se apagando, e o sueco adormecia tranquillamente...
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Dentro de tres dias a familia Saavedra preparou as suas malas para sahir
-de Setubal.
-
-D. Enrique andou fazendo despedidas e partiu para Santarem primeiro que
-a mulher e a filha: ia alugar casa. Lá estava o conselheiro Antunes para
-n’esta e outras tarefas lhe servir de Cyreneu...
-
-A mãe de Soledad dizia a quem a queria ouvir que apenas levava saudades
-do peixe-espada. Soledad mostrava-se muito contente com a mudança de
-terra.
-
-No café _Esperança_ commentava-se esta subita retirada da familia
-Saavedra, e attribuia-se a duas causas principaes: a attracção que, de
-Santarem, o conselheiro Antunes exercia no coração de D. Estanislada, e a
-emulação de Soledad pela concorrencia das Rodartes no amor.
-
-A _blague_ não poupava D. Enrique, que, segundo se dizia, ia metter-se na
-boca do lobo: o lobo era, n’este caso, o conselheiro Antunes.
-
-Quanto ás Rodartes, a opinião publica elogiava-as pela modestia com que
-se apresentavam: se ellas tinham prejudicado o prestigio de Soledad, não
-era porque houvessem concorrido acintosamente para isso.
-
-Fôra uma serie de fatalidades imprevistas que apeiára Soledad do pedestal
-em que nos primeiros tempos se enthronisou. Todos os grandes imperios
-desabam, segundo a lei fatal da Historia: Soledad teve a mesma sorte dos
-grandes imperios.
-
-Era certo, já toda a gente o sabia, que o morgado de Reguengos e o
-proprietario das Alcaçovas estavam namorados de Hilda e Maria Ignez, mas
-não fôra porque ellas os disputassem encarniçadamente a Soledad, nem
-porque se salientassem em garridices espectaculosas.
-
-O _Padre Eterno_, como geralmente se chamava a Araujo Rodarte, era um
-velho sympathico, que a opinião publica respeitava, e mais ainda o
-respeitou, quando se tornou conhecido um facto em que o seu nome se achou
-envolvido.
-
-O Sequeira, negociante, fôra visitar o Rodarte e descrevera-lhe, com
-lagrimas nos olhos, o estado da filha, cuja vida perigava, porque a
-infeliz menina, apaixonada pelo Vianninha, passava dias encerrada no seu
-quarto, chorando, sem querer vêr ninguem.
-
-Commoveu-se o velho Rodarte da angustia de um pae, cujo coração a dôr
-dilacerava.
-
-—Mas, dissera Araujo Rodarte ao Sequeira, porque não procura ter uma
-conferencia com o Vianninha, a fim de que elle cabalmente se explique
-sobre as suas intenções?
-
-—Não posso, sr. Rodarte, respondera-lhe o Sequeira. Não posso. É superior
-ás minhas forças o ter que pedir a um homem que corresponda ao amor de
-minha filha, sobretudo quando esse homem se deveria julgar muito feliz
-em desposal-a.
-
-Araujo Rodarte ficou pensativo durante alguns momentos, e disse depois:
-
-—Tem rasão, sr. Sequeira. Mas eu acho que o Vianninha não é senão um
-doidivanas, que gosta de se divertir sem criterio. Succede isso a muitos
-moços. São raros até os que pensam de outro modo.
-
-—Depois que veiu para ahi essa maldita hespanhola foi que elle, suciando
-com o Lemos e com o tal jornalista de Lisboa, principiou a despresar a
-minha filha.
-
-—A hespanhola, sr. Sequeira, não tem culpa de ser bonita, nem de haver
-sido educada á maneira do seu paiz. Sabe v. s.ª perfeitamente que os
-costumes hespanhoes dão maior liberdade á mulher do que entre nós. Se
-uma menina portugueza andasse constantemente seguida por um cortejo de
-admiradores, seria isso reparado e censurado. Mas em Hespanha vive-se
-muito ao ar livre, na rua, e são admittidas liberdades que em grande
-parte resultam d’esse teor de vida. Olhe, eu, quando aqui cheguei,
-condescendi em ir a um _pic-nic_, porque julguei que seria essa uma
-festa tão pacata como as do meu Alemtejo. Quando lá me vi, arrependi-me
-muito de ter acceitado o convite, e arrependi-me, sobretudo, porque,
-além das minhas netas, apenas havia duas senhoras, a mulher e a filha
-de D. Enrique, cujos habitos de educação brigavam naturalmente com os
-de tres pobres meninas nadas e creadas, longe da sociedade, n’um canto
-do Alemtejo. Fiz logo tenção de me afastar o mais que podesse, não por
-falta de confiança em minhas netas, mas para evitar que ellas andassem
-nas bôccas do mundo. Este meu procedimento não foi ditado por orgulho
-ou por qualquer outro sentimento de altivez pessoal. Foi prudencia,
-foi experiencia do mundo... Mas vamos ao caso do Vianninha. Acho justas
-as rasões pelas quaes o sr. Sequeira não quer ter explicações com elle.
-Comtudo, se a isso me auctorisa, e se isso deseja, poderei eu tel-as.
-
-—Ó sr. Rodarte! grande favor me faria encarregando-se d’essa missão,
-procurando salvar minha filha de uma vida tormentosa, a que a morte porá
-termo em breve, certamente.
-
-Afogaram-se em lagrimas os olhos do Sequeira, e nos olhos de Araujo
-Rodarte tambem passaram lagrimas.
-
-Despediram-se os dois cordealmente.
-
-Araujo Rodarte, não querendo dar a saber a Salomé o motivo d’aquella
-entrevista que tivera com o Sequeira, mandou recado ao seu banheiro para
-que lhe fosse fallar. Não podendo escrever elle proprio, quiz evitar que
-Salomé tivesse de escrever ao Vianninha solicitando uma audiencia para o
-avô.
-
-Pelo banheiro mandou Araujo Rodarte dizer ao Vianninha que esperava
-dever-lhe o obsequio de lhe dispensar dois momentos de attenção.
-
-Logo que sahiu da repartição de fazenda, o Vianninha foi procurar Araujo
-Rodarte.
-
-Houve quem o visse entrar para lá, e envenenasse o facto, espalhando logo
-que o Vianninha requestava Salomé, a unica das tres irmãs cujo coração
-era considerado devoluto.
-
-Araujo Rodarte expoz com bondosa gravidade os motivos d’aquella
-entrevista, desculpando-se com a sua auctoridade de velho para intervir
-n’um assumpto que não lhe dizia directamente respeito.
-
-—Trata-se, explicou, da menina Sequeira. Conheço a familia d’essa pobre
-menina, cuja vida corre perigo, e cuja felicidade e salvação consistiria
-em poder ser esposa do sr. Vianna. Peço-lhe, pois, que me diga, por
-attenção para com a minha edade, quaes são as suas intenções a este
-respeito.
-
-O Vianninha ficou surprehendido com a interpellação:
-
-—As minhas intenções, sr. Rodarte! Eu digo a v. ex.ª o que posso
-dizer sobre o assumpto: Adelaide e eu fomos creados juntos, paredes
-meias, porque nossos paes eram visinhos. Viamo-nos a toda a hora, e
-habituámo-nos a ser amigos um do outro. Mas pensava eu que Adelaide
-apenas tinha por mim o sentimento que eu tinha por ella,—simples
-estima, nada mais. E tanto isto é verdade, da minha parte, que eu tive
-passageiros namoros com outras meninas. É certo, porém, que eu sabia
-que Adelaide se contrariava com isso. Amuava, deixava de me fallar,
-de me cumprimentar até. Mas eu ria-me, não fazia caso, e dizia-lhe
-adeus por brincadeira, sempre que a via á janella, embora ella me
-não correspondesse. Quando veiu a _señorita_,—refiro-me á filha de
-D. Enrique—eu, por ser amigo do Lemos e por me ter relacionado com o
-Goes, que andavam no grupo da familia Saavedra, associei-me a elles,
-passeiava com Soledad e com a mãe, e devo dizer francamente que me não
-era desagradavel a companhia. Soube então que Adelaide suspeitou de que
-eu namorasse Soledad, e que se tinha incommodado com isso, a ponto de
-se fechar no seu quarto, e não querer tomar alimentos. Uma vez, tendo
-pena d’ella, cheguei a rufar com os dedos na vidraça do seu quarto,
-chamando-a. Bastava-me para isso estender o braço por uma das janellas da
-minha casa. Adelaide devia calcular que era eu, mas não veiu á janella,
-não quiz responder.
-
-—Talvez não ouvisse, atalhou Araujo Rodarte.
-
-—Ouvia por força, porque estava fechada no seu quarto.
-
-—Resentida com o sr. Vianna, quiz mostrar o seu resentimento.
-
-—Pois foi isso talvez, mas eu nunca mais a vi.
-
-—E, se não sou indiscreto, o que lhe teria dito n’essa occasião o sr.
-Vianna, se ella abrisse a janella?
-
-—Eu? Eu ter-lhe-ia dito que se não amofinasse com tolices, que era seu
-amigo, que gostava apenas de me divertir, e que não queria que ella se
-ralasse com isso.
-
-—Ah! n’esse caso, o sr. Vianna, sem aliás tomar um compromisso com essa
-senhora, dava-lhe uma prova de amisade e de estima, que mostra que ella
-não deixou ainda de ser, no seu espirito, a dedicada companheira de
-infancia...
-
-—Pois decerto. Estimaria que ella se não tornasse infeliz por culpa do
-seu proprio genio.
-
-—Não diga genio, sr. Vianna. Chame-lhe antes coração. Ella ama, e soffre
-as torturas de um amor, que não julga correspondido. Triste cegueira a
-dos moços, que não se lembram um momento de que nada torna tão agradavel
-a existencia como um coração que nos seja sinceramente dedicado!
-Desculpe-me que lhe falle assim, em nome dos meus cabellos brancos, sr.
-Vianna. O coração de D. Adelaide Sequeira já está experimentado: tem
-sido firme e leal, apesar de não ser correspondido. Que maior e melhor
-felicidade poderia encontrar o sr. Vianna!
-
-—Eu reconheço tudo isso, sr. Rodarte, mas devo confessar que me vexa a
-ideia de que sou pobre e Adelaide é rica. Esse casamento seria mal visto
-por muitas pessoas, especialmente pelo pae de Adelaide...
-
-—O pae! atalhou Araujo Rodarte. O que um pae deseja sempre é a
-felicidade dos seus filhos. O pae de D. Adelaide Sequeira vê a filha
-doente, ameaçada de morte, e deseja certamente salval-a. Quanto á
-opinião publica, o que poderá ella dizer contra um casamento que o amor
-santifica? E se disser, deixal-a dizer, porque a opinião publica, quando
-não tem rasão, é combatida pelas consciencias honestas, e essas são os
-unicos juizes auctorisados. N’uma palavra, não repugna ao sr. Vianna
-sahir d’esta casa noivo de D. Adelaide Sequeira?
-
-—Mas subsistem ainda as minhas duvidas quanto á familia d’ella...
-
-—Não subsistem. O sr. Vianna tem o incommodo de voltar amanhã á mesma
-hora, e todas as suas duvidas deixarão de existir.
-
-No dia seguinte, quando o Vianninha voltou a casa de Araujo Rodarte,
-encontrou-se com o pae de Adelaide Sequeira: o casamento ficou ajustado
-n’esse dia.
-
-Constou isto, a maledicencia, que desconfiou da ida do Vianninha a casa
-das Rodartes, teve de confessar-se vencida, e a intervenção do _Padre
-Eterno_, n’esta negociação feliz, tornou-se sympathica á opinião publica,
-deu maior prestigio ao avô, e, reflexamente, ás netas.
-
-Quando fallavam ao velho Araujo Rodarte no proximo casamento da Sequeira,
-dizia elle:
-
-—Fiz-me agora S. Gonçalo d’Amarante,—com uma unica differença.
-
-—Qual?
-
-—Caso as novas, em vez das velhas, o que prova que não faço milagres.
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-O namoro dos dois alemtejanos com as irmãs Rodartes não era um d’esses
-galanteios romanticos, que obriga a excessos de lyrismo.
-
-Se o fosse, dar-me-ia ensejo a descrever serenatas de mandolim, arroubos
-de Romeu debaixo da varanda de Julietta,—tudo em duplicado, os Romeus e
-as Juliettas, ficando apenas no singular a varanda, que era a mesma.
-
-Homens novos, posto já orçassem pelos trinta annos ambos elles, fortes,
-alegres, de physionomia agradavel e costumes chãos, o morgado de
-Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam longe de poder ser dois
-pagens namorados, com todas as pieguices concomitantes á poesia do amor
-medieval.
-
-O temperamento, mais talvez do que a edade, e não pouco a educação,
-contribuiam para furtal-os ás cegueiras da exaltação amorosa.
-
-Não eram frios, nem o podiam ser, porque tinham bom sangue, como a
-maior parte dos alemtejanos, se exceptuarmos os que vivem nas regiões
-atormentadas pelas febres palustres. Mas eram serenos; homens em quem os
-musculos, saudavelmente desenvolvidos, subjugavam os nervos. Possuiam
-essa alegria moderada que provém da robustez, da constituição sadia.
-Não tinham por isso as phantasias melancolicas dos nevroticos, nem a
-irritabilidade azeda dos biliosos. Bom coração, bom estomago, bom figado:
-com estes predicados, e com as suas herdades, viviam felizes.
-
-Não pensavam em S. Carlos e muito menos em Pariz; mas nem S. Carlos nem
-Pariz lhes repugnavam... para uma vez.
-
-Entendiam menos de francez que de cortiça, mais de porcos que de tenores,
-mas não eram selvagens ao ponto de não querer jámais vêr a França, nem
-ouvir nunca uma opera.
-
-De manhã cedo montavam a cavallo, percorriam as suas herdades, davam
-instrucções aos feitores, e regressavam a casa com bom apetite e boa
-alegria. Raras vezes se queixavam de um incommodo. Dos dois, apenas o
-morgado de Reguengos tinha azias de quando em quando, mas uma colhér
-de bicarbonato de soda curava-o rapidamente. Uma hora depois estava
-habilitado a comer.
-
-A provincia do Alemtejo tem sido pouco explorada no romance, talvez
-porque os seus costumes são essencialmente pacatos, algo monotonos.
-
-O sangue arabe, que os alemtejanos herdaram, enrijeceu-lhes o organismo,
-deu-lhes a saude, mas, já modificado pela transmissão de gerações
-successivas, não referve em éstos como os que incendiavam as veias dos
-guerreiros d’Agar.
-
-Nos costumes, em que a dominação sarracena influiu poderosamente, uma
-serenidade, ás vezes monotona, como se nota nas danças e nas canções
-populares, accentua-se com evidencia.
-
-A falta de paisagem poderá explicar a falta de bucolismo no amor. Os
-rios pittorescos do Minho, orlados de salgueiros e matisados de insuas
-verdejantes, fazem poetas. No Alemtejo, a vegetação ganha em utilidade
-agricola o que perde em pittoresco de pintura. Mas ha excepções, como
-sempre acontece: Bernardim Ribeiro, o mavioso bucolico, nasceu ao que
-parece na villa do Torrão, que é Alemtejo arido. Todavia as excepções não
-invalidam a regra geral, antes a confirmam.
-
-Mas, em compensação, a vida da provincia transtagana é laboriosa, util e
-pratica.
-
-Os seus habitantes não téem esse aspecto atormentado, contrahido, que um
-francez habil me dizia notar na maior parte dos retratos portuguezes.
-
-Ora eu estou certamente condemnado a naufragar no tepôr do assumpto, o
-amor entre alemtejanos, que sabe a capilé morno.
-
-Mas copío a verdade, e não quero adulteral-a com mixordias de pura
-phantasia, como os taberneiros fazem ao vinho, e certos romancistas á
-verdade.
-
-O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas amavam como quem
-eram. Em pleno galanteio vimol-os ir a Lisboa umas vezes por outras
-tratar negocios, receber as prestações da venda da cortiça, vender
-cevados aos salchicheiros da Baixa.
-
-E quando regressavam a Setubal, com o dinheiro a cantar nas algibeiras,
-sabia-lhes bem a suave familiaridade da casa das Rodartes, onde, antes de
-abancarem a jogar o loto com as netas, contavam ao avô, francamente, o
-resultado das suas transacções em Lisboa.
-
-E as duas meninas, que se foram affeiçoando lentamente a elles, porque
-encontraram dois homens cujo typo conheciam, pois que era o da sua
-provincia, as duas meninas ouviam-n’os fallar de cevados, entendiam-n’os.
-
-Horror! gritará a leitora alfacinha.
-
-Pois minha senhora, nada e creada na patria de Ulysses, perdoe V. Ex.ª
-o horror da verdade. Tanto a formosa Hilda, como Maria Ignez, como,
-principalmente, Salomé, que era o braço direito do avô, sabiam a cotação
-das cabeças suinas, e conheciam todos os processos da engorda dos cevados.
-
-Isto póde não ser poetico, mas é portuguez de boa lei, portuguez do
-Alemtejo, onde a azinheira produz a boléta, que é riqueza.
-
-Nem Hilda, que gostava de cantar, sabia trechos das operas de S. Carlos,
-nem das operetas da Trindade. A sua canção predilecta era a _Ceifeira_
-de Palmeirim, poeta genuinamente nacional, que ha quarenta annos se
-vulgarisou tanto no norte como no sul do paiz.
-
-O rythmo da canção era dolente como o de toda a musica popular do
-Alemtejo, mas lá gostavam de ouvir Hilda soluçar, como um _Fado_, as
-trovas do poeta:
-
- Ha quem diga por inveja
- Que és feia por ser trigueira;
- Dizem as damas da côrte,
- Deixal-as dizer, ceifeira.
-
-As ceifeiras da Messejana, quando á noite voltavam dos campos, queimadas
-pelo sol, morriam por ouvil-a cantar a canção que tanto as lisonjeava,
-porque fallava d’ellas, e pediam-lhe que a repetisse.
-
-Araujo Rodarte intervinha com o seu bom humor patriarchal n’esses serões
-agricolas do Alemtejo, em que a neta, sentada nas escadas de pedra do
-palacete, cantava para ser ouvida pelas ceifeiras e pelos _Ratinhos_, que
-descançavam ao luar.
-
-O bom velho tinha sempre uma graça para dizer ás raparigas.
-
-Uma vez, por exemplo, tendo a neta acabado de cantar, disse elle:
-
-—Sabem vocês, rapazes e raparigas, de quem é esta poesia que a minha
-Hilda vos cantou agora?
-
-—Não sabemos, senhor.
-
-—Pois é de um poeta de Lisboa, que se chama Palmeirim. E não fez só
-poesias que as meninas cantem; tambem fez algumas que servem para os
-velhos cantar.
-
-Gargalhada unisona das ceifeiras e dos _Ratinhos_.
-
-—Não se riam vocês, que eu tambem vou cantar agora.
-
-—O sr. Rodarte!
-
-—Eu mesmo.
-
-E com uma voz, cuja rouquidão exagerou comicamente, começou:
-
- Vet’rano fiz as campanhas
- Da guerra peninsular.
-
-—Mais! mais! pediram muitas vozes.
-
-—Nem mais nem menos, respondeu Araujo Rodarte rindo. Um veterano não póde
-passar d’aqui.
-
-Nova e prolongada hilaridade dos _Ratinhos_ e das ceifeiras.
-
-Algumas vezes, em pleno sol, ouvia-se cantar nos campos, que a foice dos
-trabalhadores ia deixando reduzidos á seccura do restolho:
-
- Ha quem diga por inveja
- Que és feia por ser trigueira;
- Dizem as damas da côrte,
- Deixal-as dizer, ceifeira.
-
-—Olha os teus discipulos, dizia Araujo Rodarte a Hilda, como honram a
-professora! Ainda não houve _prima-donna_ de S. Carlos que fizesse escola
-como tu.
-
-Hilda e as irmãs ouviam fallar de S. Carlos como a gente ouve fallar
-de um paiz longinquo. O proprio Rodarte, que fallava de S. Carlos,
-conhecia-o pouco. Quando alguma vez viera da Messejana a Lisboa,
-aconteceu ir ouvir uma ou outra opera, sobretudo se a opera era do
-velho Bellini, que toda a gente d’esse tempo preconisava por ser,
-especialmente, o auctor da _Norma_.
-
-D’uma dessas raras vezes aconteceu-lhe até uma ratice, que Araujo Rodarte
-sempre contava rindo.
-
-Annunciava-se a _Norma_, e elle não resistiu ao cartaz. Mandou comprar
-a S. Carlos um bilhete da _geral_. Á noite dirigiu-se para o theatro,
-cuidando que ia ouvir o grande Bellini. Pois não ouviu ninguem! O theatro
-estava aberto, mas a platéa vazia. No salão havia grupos commentando um
-caso extraordinario. _Adalgiza_ fôra raptada pela famosa _Sociedade do
-delirio_. Dizia-se que o marquez de Niza, disfarçado em cocheiro, fizera
-voar os cavallos da carruagem em que _Adalgiza_ entrou, ao descer do
-_hotel_. O que é certo é que a cantora não chegou a S. Carlos, pelo menos
-n’aquella noite, e que fôra visto passar ao Campo Grande, n’uma batida
-doida, um _coupé_, ladeado por dois cavalleiros que o guardavam.
-
-Era a _Sociedade do delirio_, que praticára mais uma das suas proezas,—o
-rapto d’uma italiana, que talvez fosse sabina.
-
-Nenhum dos dois alemtejanos, o morgado de Reguengos e o proprietario
-das Alcaçovas, fez o que em amor se chama uma _declaração_. Esse doce
-e embaraçoso momento, em que o maior orador do mundo póde sentir-se
-entaramellado, momento de vibração nervosa e de exaltada sensibilidade,
-não o passaram elles. O namoro foi derivando suavemente n’uma intimidade
-agradavel, no trato familiar de todos os dias, e no _loto_ de todas as
-noites.
-
-As duas Rodartes sabiam-se amadas, não porque elles lh’o confessassem,
-mas porque as mulheres sabem mais, em materia de amor, pelo que adivinham
-que pelo que lhes dizem.
-
-Salomé contára ás irmãs as referencias que o avô, certa manhã na praia,
-fizera ao namoro dos alemtejanos, e o receio que mostrára de que elles o
-obrigassem a separar-se das duas netas.
-
-Estou certo, sem comtudo poder affirmal-o, que, ouvindo isto, Hilda e
-Maria Ignez tiveram ambas o mesmo pensamento:
-
-—Pois esteja o avôsinho socegado que, se nós casarmos, não o
-abandonaremos nunca.
-
-E tambem me quer parecer que Araujo Rodarte, muito intencionalmente,
-fallára n’esse assumpto a Salomé, para que ella fosse contar ás irmãs o
-que o avô lhe estivera dizendo e para que Hilda e Maria Ignez o dissessem
-aos dois alemtejanos, quando fosse occasião.
-
-
-
-
-XIX
-
-
-D. Enrique abandonou a casa de Setubal sem lhe mandar pôr escriptos.
-
-Que de Setubal não queria saber mais, dissera elle á sr.ª Magdalena
-quando lhe entregou a chave.
-
-A menina Ricardina e a sr.ª Magdalena ficaram satisfeitissimas, por
-muitas e variadas razões.
-
-Em primeiro logar, Ricardina havia contado á mãe que, n’aquella casa
-de pouca vergonha, tanto a hespanhola velha como a hespanhola nova,
-expressão sua, lhe disputavam o sueco, o qual parecia disposto, se
-podesse vencer-se aquella dupla contrariedade, a dar o nó do hymeneu.
-
-A sr.ª Magdalena, na esperança de vêr a filha bem casada, prometteu uma
-via-sacra ao Senhor do Bomfim se as duas hespanholas lhe deixassem em paz
-a filha e o sueco.
-
-O Senhor Jesus do Bomfim fizera-lhe a vontade, e a sr.ª Magdalena
-tratára logo de cumprir a promessa.
-
-Em segundo logar, a menina Ricardina gostava muito, quando a casa estava
-com escriptos, de atravessar a rua para ir mostral-a.
-
-Fôra n’uma d’essas sahidas que ella annos antes ouvira, á queima-roupa, a
-declaração de um rapaz banhista, que chegára primeiro que a familia para
-arrendar casa, e o qual, depois de estabelecidas relações de intimidade
-entre as senhorias e os inquilinos, gostava muito de pisar-lhe o pé
-debaixo da mesa do chá.
-
-Logo que D. Enrique entregou a chave, a menina Ricardina foi, por ordem
-da mãe, verificar o estado em que a familia Saavedra havia deixado ficar
-a casa.
-
-—Que porcaria! dizia mentalmente a menina Ricardina abrindo as janellas e
-olhando de relance para o pavimento e para os moveis.
-
-Pelo chão, por cima das mezas, havia bocados de papel, migalhas de pão,
-ganchos do cabello, e a um canto uma ruma de jornaes hespanhoes e um
-leque velho, rasgado, com as varetas quebradas e pendentes.
-
-Feito o primeiro exame _à vol d’oiseau_, Ricardina abriu as gavetas de
-alguns moveis, sem nada encontrar. Mas já lhe não aconteceu o mesmo
-quando passava revista á gaveta do lavatorio. Encontrou ahi um pequeno
-embrulho de papel, que lhe despertou a curiosidade.
-
-Desembrulhou o papel, e encontrou uma caixinha oblonga, de cartão verde.
-
-—O que será isto?! pensava Ricardina.
-
-Abriu, com muito interesse, e viu uma dentadura postiça, nova em folha.
-
-Largou a rir do achado, que estava longe de esperar.
-
-Passada a primeira surpreza, começou a reflectir:
-
-—Para qual dos tres seria isto?
-
-E, parada no meio da casa, com a caixinha de cartão deante dos olhos,
-continuou a pensar:
-
-—Não, de Soledad não é, porque os seus dentes eram muito mais pequenos.
-De D. Enrique tambem não é, porque tinha os dentes estragados pelo
-tabaco. Ah! já sei!...—e largou a rir ás gargalhadas.—Os dentes de D.
-Estanislada eram bonitos, brancos como o marfim, mas postiços. Agora
-é que eu sei que eram postiços! Ora a velha tonta! E não saber eu
-isto antes! Foi dentadura que comprou em Lisboa.—Ricardina ia lendo a
-inscripção da tampa da caixa—para a ter de sobreselente, talvez por ser
-mais barata ou melhor do que a que trazia.
-
-E continuou a rir, a rir.
-
-—Quando faria ella tenção de mudar de dentes! pensava Ricardina. Algum
-d’estes ha-de ser o do siso, que bem preciso lhe é!
-
-E, tendo posto a caixinha no mesmo sitio em que estava, foi contar á mãe
-a alegre historia do seu achado.
-
-—Que eram fraquezas da humanidade, disse a sr.ª Magdalena; que se não
-risse; que não offendesse o Senhor Jesus do Bomfim, que lhes havia feito
-o milagre.
-
-Ricardina respondeu que o Senhor do Bomfim não se podia offender de que
-ella risse dos dentes postiços de D. Estanislada; que uma coisa não tinha
-nada com a outra.
-
-A primeira pessoa a quem Ricardina contou a historia da dentadura foi o
-mesmo rapazito, que tinha levado as duas cartas com os dois lenços a casa
-de D. Enrique.
-
-Recommendou-lhe que fosse contar tudo ao Marcolino, marcador do bilhar no
-café _Esperança_, porque era esse o melhor meio de vulgarisar o caso em
-toda a cidade.
-
-O rapazito, a quem Ricardina dera um tostão, foi logo comprar amendoas
-e cigarros á loja do Passos, na Praça do Bocage, e depois ao café
-_Esperança_ contar a historia ao marcador.
-
-Á tarde, os _habitués_ do botequim commentavam o caso rindo, e ao
-anoitecer constava em toda a cidade que D. Estanislada, a _leôa velha_,
-como começavam a chamar-lhe, usava dentes postiços.
-
-D’ahi a quarenta e oito horas appareceu em Setubal, inesperadamente, D.
-Enrique Saavedra.
-
-Foi direito da estação do caminho de ferro a casa da sr.ª Magdalena.
-
-—Então o sr. D. Enrique outra vez por cá?! perguntou a beata.
-
-—Dizia que não queria mais nada da nossa terra! atalhou Ricardina.
-
-—_Que broma!_ exclamou D. Enrique. _Olvidé una joya que vengo à buscar._
-
-—Uma joia! Credo, Senhor Jesus do Bomfim! que falso testemunho! exclamou
-a mãe de Ricardina.
-
-—Uma joia! Ora essa! Isso havemos nós de vêr! apostrophou arrogantemente
-Ricardina.
-
-—_Si, una joya de pequeño valor. Nó se aflijan ustedes._
-
-—E em que sitio calculam que estava a joia? perguntou Ricardina, muito
-esperta.
-
-—_En el cajon del labatorio_, respondeu D. Enrique.
-
-—Pois se lá estava, lá ha de estar, disse triumphantemente Ricardina.
-Vamos já vêr.
-
-Foram.
-
-D. Enrique dirigiu-se logo á gaveta do lavatorio e, encontrando a caixa,
-exclamou:
-
-—_Aqui está la joya!_
-
-—Não! disse Ricardina, que com difficuldade continha o riso. Veja _usted_
-se a joia está como a deixaram. Faça favor de examinar.
-
-D. Enrique entreabriu a caixa mesmo dentro da gaveta, e, como Ricardina
-se approximasse, elle fechou de repente a caixa, e metteu-a na algibeira.
-
-—Está ou não está? É negocio muito sério! Deve vêr, para que a verdade
-fique bem esclarecida!
-
-—_Está todo como habia quedado_, respondeu D. Enrique.
-
-—Deve ser joia de muito valor, para _usted_ se sujeitar a vir a Setubal
-procural-a? perguntava, muito desfructadora, Ricardina.
-
-—_Una joya de familia, de mas estimacion que valor._
-
-—Bem me queria parecer que era joia de familia!... Ora ainda bem que
-appareceu! E a quem pertence essa joia? É sua, sr. D. Enrique?
-
-—_Nó, és de mi mujer._
-
-—Já estão em Santarem?
-
-—_Todavia nó. Hemos estado en Lisboa y vamos mañana para Santarem._
-
-—Peço-lhe o favor, sr. D. Enrique, de dar muitas lembranças minhas ao sr.
-conselheiro, disse ironicamente Ricardina.
-
-—_Seran entregadas._
-
-Quando D. Enrique foi almoçar ao _Escoveiro_, por isso que só de tarde
-podia regressar a Lisboa, sahiram-lhe ao encontro alguns conhecidos.
-
-—Com que, D. Enrique, outra vez em Setubal?!
-
-—_He venido buscar una joya de familia, que habia dejado quedar olvidada._
-
-—E appareceu?
-
-—_Ah! perfectamente. Estaba en su sitio._
-
-—Então já está em Santarem?
-
-—_Todavia nó. Solo partiremos mañana de Lisboa._
-
-—E tenciona demorar-se muito em Santarem?
-
-—_Hasta vuelvan los Borbones._
-
-—E as sr.ᵃˢ como passam?
-
-—_Magnificas!_
-
-E cada um lhe ia dizendo por sua vez:
-
-—Então, em Santarem, dê visitas minhas ao conselheiro. Não se esqueça, D.
-Enrique.
-
-—_Jamás._
-
-No comboyo da tarde D. Henrique regressou a Lisboa, levando na algibeira
-a joia de familia,—a dentadura de D. Estanislada.
-
-O caso deu que rir, em Setubal, durante muitos dias.
-
-A sr.ª Magdalena, logo de manhã cedo, continuava a fazer a via-sacra, que
-promettera ao Senhor Jesus do Bomfim.
-
-Ricardina aproveitava essa occasião para ir arejar a casa em que D.
-Enrique morára, e que ainda não estava arrendada.
-
-De uma d’essas vezes, seriam seis horas e meia, Ricardina estava á
-janella, parecendo que se deliciava em tomar o ar fresco da manhã.
-Demorava-se, olhando ao longo da rua.
-
-N’isto apparece o sueco, que parou debaixo da janella, e perguntou muito
-respeitosamente:
-
-—É parra alugarr esse casa?
-
-—É, sim, respondeu Ricardina.
-
-—Poderrei verr agórra?
-
-—Tenha a bondade de subir, respondeu Ricardina.
-
-O sueco, a julgar pelo tempo que se demorou, examinou com interesse todos
-os compartimentos da casa, que aliás não eram muitos.
-
-E gostou, porque n’essa mesma manhã procurou a sr.ª Magdalena, para lhe
-dizer que desejava ser seu inquilino.
-
-—Que tinha muita honra n’isso, respondeu affavelmente a mãe de Ricardina.
-
-Attendendo a que já ia adiantada a estação balnear, e a que o inquilino
-poderia vir a ser genro da senhoria, a sr.ª Magdalena levou-lhe mais
-quatro libras do que pediria a qualquer outro.
-
-O sueco alugou mobilia e installou-se immediatamente. Jantava no _Hotel
-Escoveiro_, mas almoçava em casa. Como não tinha criada, porque a menina
-Ricardina lhe prohibira que a tivesse, era ella propria quem ás oito
-horas da manhã lhe ia fazer o bife e o café do almoço.
-
-Quando ella sahia de casa, a sr.ª Magdalena recommendava-lhe sempre:
-
-—Juizinho, Ricardina! Vê lá tú!
-
-—Esteja socegada, minha mãe, eu não sou d’essas...
-
-
-
-
-XX
-
-
-No fim de setembro, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas
-estiveram jogando uma noite o loto em casa das Rodartes, como era costume.
-
-Nada se passou de extraordinario, que podesse manifestar a importante
-resolução que os dois alemtejanos haviam tomado.
-
-Repetiram-se as phrases do estylo: o velho Rodarte lamentou mais uma vez,
-ao sentar-se á mesa, que o proprietario das Alcaçovas não soubesse jogar
-o voltarete, seu jogo predilecto; fallou-se da Sequeira, que, alegre e
-feliz, estava tratando do enxoval para casar com o Vianninha; combinou-se
-a hora do banho, no dia seguinte, em conformidade com a maré. E das dez
-e meia para as onze os dois alemtejanos retiraram-se, foram deitar-se
-tranquillamente.
-
-No dia seguinte estiveram na praia, tomaram banho como de costume,
-esperaram que as Rodartes chegassem para fallar-lhes, e ás nove horas
-estavam sentados á mesa do almoço comendo com excellente apetite.
-
-Depois do meio dia sahiram ambos, foram procurar Araujo Rodarte, o que
-aliás não estava em costume.
-
-Foi o morgado de Reguengos quem primeiro usou da palavra, fallando em
-nome dos dois.
-
-—V. Ex.ª, disse elle ao dono da casa, ha-de certamente estranhar uma
-visita a hora que não está nos nossos habitos. Mas o motivo que aqui nos
-traz é de tal modo solemne, que exigia da nossa parte uma visita especial
-para o expôrmos. E como nós, os alemtejanos, somos homens que não estamos
-costumados a grandes discursos, entraremos já no assumpto, se V. Ex.ª
-assim o permittir.
-
-Araujo Rodarte comprehendeu logo do que se ia tratar, e o seu coração
-bateu apressadamente n’uma commoção que teve tanto ou quanto de dolorosa.
-
-—Estou ás ordens de V. Ex.ᵃˢ, respondeu elle.
-
-—V. Ex.ª, continuou o morgado de Reguengos, sabe muito bem quem nós
-somos, e os meios de fortuna que possuimos. N’estas circumstancias
-julgamos que directamente poderiamos apresentar-nos a pedir, eu a mão da
-sr.ª D. Hilda, o nosso patricio e meu amigo a mão da sr.ª D. Maria Ignez.
-Eis o assumpto especial da nossa visita.
-
-—Eu, accrescentou do lado o proprietario das Alcaçovas, louvo-me nas
-palavras que V. Ex.ª acaba de ouvir.
-
-—Pela minha parte, respondeu o avô das duas meninas, devo dizer a V.
-Ex.ᵃˢ que nada tenho que oppôr ao seu pedido. Custa-me, é certo, ter
-que separar-me d’estas creanças que com tanto amor eduquei depois que
-seus paes morreram, mas tambem é certo que nunca fiz tenção, porque o
-amor exclue o egoismo, de as conservar indefinidamente presas á minha
-ordem. Apenas sempre recommendei ás minhas netas que não tivessem pressa
-de casar, isto é, que o não fizessem irreflectidamente, porque lhes não
-faltavam commodidades, regalos e carinhos. Estou, porém, convencido de
-que V. Ex.ᵃˢ as saberão estimar, senão mais do que eu, porque seria
-impossivel, permittam-me esta vaidade, pelo menos tanto como eu.
-
-N’este momento arrazaram-se de lagrimas os olhos de Araujo Rodarte.
-
-Houve um momento de silencio.
-
-—Mas, continuou o velho enxugando as lagrimas, não basta n’esta grave
-materia o que eu digo. É preciso, primeiro que tudo, saber o que dizem
-as interessadas. V. Ex.ᵃˢ já de certo as tinham prevenido dos intuitos
-d’esta sua visita...
-
-Os dois alemtejanos responderam quasi ao mesmo tampo:
-
-—Não, sr.
-
-—Não? Ainda bem! exclamou Araujo Rodarte. Ainda bem, porque esse facto
-mostra ao meu coração que as minhas netas não teem segredos para mim.
-A reserva seria desculpavel por parte d’ellas, mas não deixaria de
-maguar-me, porque representava até certo ponto falta de confiança no seu
-velho e affectuoso avô.
-
-—Nós dois, disse o proprietario das Alcaçovas sorrindo, vamos agora saber
-pela primeira vez o que as duas netas de V. Ex.ª pensam a nosso respeito.
-
-—Pois eu vou chamal-as para que ellas o digam com a franqueza que o
-momento requer.
-
-Levantando-se da cadeira, Araujo Rodarte foi a meio do corredor, e chamou
-em voz alta:
-
-—Salomé! Salomé!
-
-—Meu avô!
-
-—Dize a tuas irmãs que venham aqui, e vem tu tambem.
-
-Voltando á sala, Araujo Rodarte disse aos dois patricios:
-
-—Não estranhem V. Ex.ᵃˢ que eu chame tambem minha neta Salomé. É o meu
-braço direito. Em minha casa todas as resoluções são tomadas em conselho
-de familia. Não desejo que este espirito de solidariedade se interrompa
-justamente no momento em que vae tomar-se uma resolução importante para
-nós todos.
-
-Não tardaram a apparecer as tres meninas.
-
-Se não fosse trazerem o rosto um pouco mais purpurino, dir-se-hia que
-Hilda e Maria Ignez não adivinhavam o que se ia tratar. Salomé, pelo
-contrario, estava mais pallida que de costume, parecia ser ella a noiva,
-pela commoção que denunciava.
-
-Feitos os cumprimentos, Araujo Rodarte disse voltando-se para Hilda e
-Maria Ignez:
-
-—Estes dois cavalheiros, nossos patricios e amigos, acabam de me expôr um
-assumpto que exige resposta vossa. Pela minha parte, apreciando-os como
-devo, porque ambos são pessoas que me merecem o melhor conceito, nada
-terei que oppôr á vossa vontade. Podeis e deveis fallar com franqueza,
-porque se trata do vosso futuro. O sr. morgado pede a tua mão, Hilda, e
-este cavalheiro a tua, Maria Ignez. Respondei agora ou quando quizerdes,
-e como quizerdes.
-
-As duas meninas ficaram por algum tempo silenciosas, cravando no avô os
-olhos embaciados de lagrimas.
-
-Araujo Rodarte procurava mostrar-se forte, para desopprimir o animo das
-netas.
-
-Os dois alemtejanos rastejavam o olhar no pavimento da casa.
-
-—Podeis e deveis fallar como entenderdes, disse Araujo Rodarte.
-
-—Eu, pela minha parte, respondeu Hilda mais purpurina ainda das faces do
-que havia entrado, porei apenas uma condição.
-
-—Qual? perguntou Araujo Rodarte.
-
-—Que ficaremos vivendo na Messejana em companhia do avô.
-
-Resplandeceu de jubilo a physionomia do velho ao ouvir estas palavras.
-
-—E eu acceito, respondeu com firmeza o morgado. Não quero que o sr.
-Rodarte tenha motivo algum para desgostar-se com o meu casamento.
-
-—Bem! bem! exclamou o velho Rodarte radiante de alegria. V. Ex.ª, disse
-elle risonho ao morgado, já está despachado. Vamos agora ouvir a minha
-Ignez. Falla tu, menina.
-
-—Eu, meu avôsinho, digo que a mana Hilda fallou por ella e por mim. Dou a
-mesma resposta com a mesma condição.
-
-—Pois eu, respondeu o proprietario das Alcaçovas, não tenho a
-accrescentar uma virgula ao que disse o morgado. O que elle disse é o que
-eu digo tambem.
-
-Araujo Rodarte, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, levantou-se da
-cadeira e apostrophou erguendo as mãos e os olhos:
-
-—Estamos todos despenados, felizmente! Obrigado, meu Deus!
-
-As tres netas correram a abraçar-se no avô, que effusivamente as beijava
-no cabello.
-
-Os dois alemtejanos, respeitosos, com os olhos no chão, assistiam de pé a
-esta encantadora scena de ternura patriarchal.
-
-Dois dias depois, Araujo Rodarte, muito satisfeito, nadando em
-felicidade, dizia familiarmente ao morgado de Reguengos:
-
-—Ora vamos lá. Os velhos são muito curiosos. Como foi que isto começou?
-
-—Ora! respondeu o morgado. Começou por uma brincadeira!
-
-—Como?
-
-—Na Troia, depois do _pic-nic_, nós dois, p’ra nos rirmos com a
-rapaziada, que estava levada da bréca por ciume uns dos outros,
-lembramo-nos de tirar á sorte os nomes das damas que cada um havia de
-namorar.
-
-—Tem graça! commentou Araujo Rodarte.
-
-—Nós dois, não, disse o proprietario das Alcaçovas. Foste tu, morgado.
-Porque elle, sr. Rodarte, lá mesmo se gabou de ter muita sorte a todos os
-jogos.
-
-—Bem se vê, observou o velho, bem se vê pelo dinheiro que nos tem
-apanhado ao loto! Que fará ao voltarete! Mas mesmo assim não desisto. Ó
-morgado, logo que estivermos na Messejana, havemos de ensinar o voltarete
-a seu cunhado.
-
-—Dito.
-
-—Mas então, continuou interrogando o velho, a minha Hilda coube em sorte
-ao morgado.
-
-—E a mim a sr.ª D. Ignez, atalhou o proprietario das Alcaçovas.
-
-—E o agouro sahiu certo! Tem graça! tem graça! Parece romance! E,
-diga-me, a andaluza não entrou tambem na loteria?
-
-—Entrou. Sahiu ao D. Ramon.
-
-—Ahi é que me parece que o agouro falhou. Mas quem sabe? O futuro a Deus
-pertence. Mas o hespanholito ainda ahi está, pois não está?
-
-—Sim, sr.
-
-—Não o tenho visto!
-
-—Elle não sae do café _Esperança_, onde bebe gazozas umas sobre outras.
-Não parece disposto a morrer de saudades pela _señorita_.
-
-—Não é homem de grandes fogos! disse Araujo Rodarte.
-
-—Tanto se lhe dá como se lhe deu, observou o proprietario das Alcaçovas.
-Nem parece hespanhol! Á força de tomar gazoza, já a tem nas veias.
-
-Riram todos muito com esta observação, que era exacta.
-
-O que não passou pela cabeça de Araujo Rodarte, nem os dois alemtejanos
-ousaram dizer-lhe, é que D. Estanislada tambem havia entrado no sorteio.
-
-—Mas a minha Salomé? a minha Salomé a quem coube em sorte?
-
-—Ao Vianninha.
-
-—Pobre Salomé! disse Araujo Rodarte, rindo. Essa fica sem noivo. Vejam lá
-os srs.! Lembrei-me primeiro da hespanhola que da minha Salomé! Como é o
-meu braço direito, não me lembro nunca de que ella póde casar um dia! Nem
-quero lembrar!
-
-Não se soube logo no café _Esperança_ que as duas Rodartes iam casar. Os
-dois alemtejanos não eram pessoas que divulgassem a sua felicidade. Mas
-quando se soube, o alferes Ruivo, sempre alegre, propôz que se abrisse
-uma garrafa de vinho do Porto, para saudar mais uma vez a victoria de
-Portugal sobre a Hespanha.
-
-—Meus senhores, disse elle de copo em punho, vamos ter um novo 1640, sem
-revolução e sem Miguel de Vasconcellos. A Hespanha entrou arrogante em
-Setubal, escravisou os corações portuguezes, tratou-os como vencidos,
-opprimiu-os. Mas o sentimento da independencia da patria póde mais
-que o jugo da belleza. A Hespanha foi derrotada, o leão de Castella
-teve de retirar sobre Santarem, protegido pela Junta Geral d’aquelle
-districto, que merece se lance na acta um voto de censura em nome da
-patria offendida. (_Hilaridade geral._) Ficou triumphante a belleza de
-Portugal, sem precisar para isso recorrer á _tertulia_, ao _abanico_, nem
-aos dentes postiços da mamã. (_Alguns dos «habitués» do café Esperança
-choravam de riso_). Peço-lhes pois que, em nome da alma nacional, e em
-homenagem á provincia a que Setubal pertence geographicamente, repitam
-com sincero enthusiasmo as palavras que eu vou dizer.
-
-E fez uma longa pausa.
-
-—Então?
-
-—Venham de lá as taes palavras!
-
-—Vem ou não vem?
-
-O alferes, circumvagando o olhar pelo auditorio, esvazia o copo e recita
-com emphase:
-
- Que mais querem de nós? apoz tamanha
- galhardia d’algoz, ébrios de gloria,
- apagaram acaso a luz da Historia?
- não lêem seus feitos?... Que nos quer a Hespanha?...
-
- Quer insultar a lapide funerea
- que pesa sobre vós, heroes de _Ourique_!...
- Estremecei de horror, filhos de Henrique!...
- Repercuti meu canto, éccos da Iberia!
-
-
-FIM
-
-
-_Post scriptum._—Pude finalmente conseguir escrever o nome do sueco.
-Chamava-se Andreas Setterquist. A menina Ricardina, muito carinhosa,
-chamava-lhe familiarmente o seu _Settequiz_. E o malicioso alferes Ruivo
-dizia que, a contar por alto, devia effectivamente ser o setimo.
-
-
-
-
-ERRATA
-
-
-Pag. 129:
-
-Linha 10.ª, onde se lê—«terão coragem para me fazerem alguma traição»,
-deve lêr-se—«terão coragem para me fazer alguma traição».
-
-Linha 18.ª, onde se lê—«A velhice que me tornou ainda tão tolo», deve
-lêr-se—«A velhice não me tornou ainda tão tolo, etc.»
-
-
-
-
-
-End of Project Gutenberg's As Netas do Padre Eterno, by Alberto Pimentel
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NETAS DO PADRE ETERNO ***
-
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- The Project Gutenberg eBook of As netas do padre eterno, by Alberto Pimentel.
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-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of As Netas do Padre Eterno, by Alberto Pimentel
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
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-
-Title: As Netas do Padre Eterno
- Romance original
-
-Author: Alberto Pimentel
-
-Release Date: July 19, 2020 [EBook #62706]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NETAS DO PADRE ETERNO ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<p class="center larger">N.º 32—<span class="smcapuc">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</span></p>
-
-<h1>AS NETAS DO PADRE ETERNO</h1>
-
-<hr />
-
-<p class="titlepage smaller">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</p>
-
-<p class="titlepage larger">AS NETAS<br />
-<span class="smaller">DO</span><br />
-<span class="larger">PADRE ETERNO</span></p>
-
-<p class="titlepage">ROMANCE ORIGINAL</p>
-
-<p class="center"><span class="smaller">POR</span><br />
-Alberto Pimentel</p>
-
-<div class="figcenter mt3" style="width: 100px;">
-<img src="images/amp.jpg" width="100" height="75" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage smaller">LISBOA<br />
-<span class="smaller">LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA—EDITOR<br />
-50, 52—Rua Augusta—52, 54</span><br />
-1895</p>
-
-<p class="titlepage smaller">LISBOA—Typ. e Stereotypia Moderna—Apostolos, 11, 1.º</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header1.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>I</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="130" height="90" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Desde a primavera até ao inverno de
-1873, decorre, na historia da moderna
-Hespanha, um periodo de rubra
-agitação demagogica, em que tanto
-a abandonada coroa da velha Monarchia
-de S. Fernando como o recente barrete phrygio
-da Republica fluctuam n’um mar de sangue,
-golphado do proprio coração d’esse bello paiz meridional,
-e sinistramente illuminado pelos reflexos
-coruscantes dos incendios de Alcoy, que eram o
-facho tristemente glorioso da insurreição cantonal.</p>
-
-<p>Nação essencialmente catholica, a Hespanha
-viu profanados os seus templos, principalmente
-em Barcelona, onde as mulheres, n’uma infrene
-orgia de bacchantes, envergavam as vestes sacerdotaes,
-entoando cantares obscenos, e derramando
-por sobre os altares o vinho que trasbordava das
-taças.</p>
-
-<p>Nas ruas, as allucinações da musa popular,
-terrivelmente revolucionaria, alternavam-se com<span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span>
-as detonações dos fuzilamentos, e aos dithyrambos
-entoados á beira dos altares correspondiam,
-fóra dos templos, trovas sacrilegas, dissolventes,
-anarchicas:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Yá se le acabó á los curas</div>
-<div class="verse">El comer á dos carrillos,</div>
-<div class="verse">Y el ir de noche al café</div>
-<div class="verse">Con el ama y los chiquillos.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Abajo las estrellas,</div>
-<div class="verse">Abajo los galones,</div>
-<div class="verse">Que no quiere mandones</div>
-<div class="verse">La santa federal.</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>É certo que na alma popular da Hespanha não
-estavam de todo pervertidos os sentimentos cavalheirescos
-da raça castelhana, mas a revolução
-ia alastrando dia a dia o seu dominio,—em Sevilha
-era incendiada a <i>calle de las Sierpes</i>, em
-Cadiz punha-se em almoeda a custodia do <i>Corpus
-Christi</i>, em Málaga dois bandos rivaes porfiavam
-em horrores de barbarie, em Granada os desenfreamentos
-do vandalismo desmoronavam as instituições
-e os templos, como acontecia em Barcelona,
-em cujos campos os bosques incendiados
-chammejavam como enorme fornalha: por isso
-só timidamente a musa das ruas ousava contrapôr
-um grito de justa indignação aos desvarios
-da demagogia que golpeava o coração da patria,
-enodoando de sangue as mais bellas paginas da
-historia nacional.</p>
-
-<p>D’esses timidos gritos de reacção popular não
-se perdeu comtudo a nota caracteristica, que
-ainda hoje póde encontrar ecco na apreciação
-imparcial d’esse periodo demagogico:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<div class="verse">La republica en Guarena</div>
-<div class="verse">La cantan los taberneros,</div>
-<div class="verse">Y en D. Benito la cantan</div>
-<div class="verse">Los sastres y zapateros.</div><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">El candido de Figueras,</div>
-<div class="verse">Y el radical Figuerola,</div>
-<div class="verse">Nos ha dejado em cuerines</div>
-<div class="verse">Sin calzon ni camisola.</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Um illustre escriptor hespanhol, o sr. Vicente
-Barrantes, emigrando n’essa epocha para Portugal,
-escreveu sob o titulo de <i>Dias sin sol</i>, um livro
-interessante, em que estão consignadas as
-dolorosas impressões que as desgraças da Hespanha
-punham no coração dos seus angustiados
-filhos. Uma pagina d’esse livro diz:</p>
-
-<p>«Com mão debil e porventura timida empunhou
-o tribuno Emilio Castellar as redeas da dictadura,
-ao tempo que a fronteira portugueza,
-onde eu me achava, offerecia um lancinante espectaculo.
-Cerrada a do norte pelos carlistas, era
-aquella a unica porta para escapar d’este inferno
-de Hespanha, e cada trem do caminho de ferro
-iberico parecia barcada de Acheronte, como
-aquellas que rangendo os dentes e blasphemando
-até dos paes de seus paes viu passar o grande
-poeta da Edade-Média pelo lodoso lago que
-ao inferno conduz... De Madrid, de Alcoy, de
-Cartagena, de Valencia, de Cadiz, de Sevilha, de
-Jerez chegavam por centenas familias dispersas,
-como quem foge de uma peste; e isto um dia e
-outro dia, e mezes inteiros; e récuas e caravanas
-de inoffensivos lavradores, de pacificos artistas,
-de laboriosos industriaes desembocavam simultaneamente
-por todas as povoções da fronteira,
-desde Barrancos a Setubal, desde Elvas a Lisboa,
-desde Zamora e Ciudad-Rodrigo ao Porto:
-misero formigueiro de emigrantes de todas as
-classes e condições, com os olhos voltados para
-Hespanha, mas receiando, a cada hora que o
-horror os convertesse em estatuas, como á mulher
-da Biblia.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span></p>
-
-<p>Setubal, pela amenidade do seu clima, e pela
-belleza dos seus campos, hospedou uma importante
-colonia hespanhola, atravez da qual eu passeei
-algumas vezes os meus ocios de <i>touriste</i>.
-Principalmente no verão, em julho, que foi a
-epocha mais calamitosa da revolução, a affluencia
-de emigrados era numerosissima ali. E o que
-é verdadeiramente notavel é que os havia de todas
-as côres politicas, porque o perigo era egual
-para todos. A revolução não curava de perscrutar
-as opiniões de cada um. Perseguia, roubava,
-incendiava, fuzilava indistinctamente. Já não era
-pequena felicidade poder fugir á morte, salvar
-a vida. Dos emigrados, conheci alguns ricos,
-poucos, e esses eram os que tinham logrado liquidar
-a tempo os seus haveres, antes que a
-<i>santa federal</i> se encarregasse da liquidação.
-D’este numero era a familia Saavedra, de Sevilha,
-que tem de figurar n’esta historia. Tres pessoas
-apenas: pae, mãe e filha.</p>
-
-<p>O pae, o sr. D. Enrique Saavedra, havia collocado
-uma somma importante n’um Banco inglez.
-Era um industrial acreditado, e teve o bom
-senso de fechar as suas fabricas mal que soaram
-os primeiros rugidos da insurreição cantonal.
-Se não tivesse procedido assim, haveria decerto
-succumbido ás mãos dos seus proprios
-operarios. Em politica, era francamente monarchico;
-principalmente, partidario dos Bourbons.
-«Qué broma! dizia-me elle, D. Izabel está exilada.
-Mas ou a revolução aniquila de vez a Hespanha,
-ou a Hespanha ainda chamará a rainha».
-Com effeito, em pouco se enganou D. Enrique:
-um filho de Isabel II occupou o throno de S.
-Fernando. Os Bourbons voltaram.</p>
-
-<p>Quem se não importava grandemente com os
-acontecimentos politicos de Hespanha, era sua filha,<span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span>
-Soledad, a mais <i>salerosa</i> individualidade de
-mulher que é dado phantasiar na vaga idealisação
-de uma noite de serenata.</p>
-
-<p>Bocage, quando do alto do seu monumento a
-viu, estremeceu.</p>
-
-<p>Setubal ficou encantada, não obstante ter-se
-iberisado então pelas relações commerciaes que
-mantinha com a colonia dos emigrados. E digo
-commerciaes, porque os hespanhoes eram os
-primeiros a queixar-se que só tratassem com
-elles os setubalenses nas transacções ordinarias
-da vida: dá cá, toma lá. De resto os emigrados
-entretinham-se uns com os outros, com duas ou
-tres pessoas da terra, e com as que eram de fóra.</p>
-
-<p>O ideal de Soledad era uma <i>tertulia</i> ou, como
-hoje dizemos á franceza, uma <i>soirée</i>. Por muito
-tempo procurou desesperadamente uma <i>tertulia</i>,
-e se alguma vez ouvia tocar piano, parava de
-subito, attentava o ouvido e, com uma graça vivaz,
-picante, exclamava: <i>Qué! És una tertulia?</i>
-Era apenas um piano que tertuliava uma valsa...
-platonicamente.</p>
-
-<p>Chegára o verão, começaram a apparecer os
-banhistas, muita gente do Alemtejo. Ao fim da
-tarde sentavam-se na praia, olhando para o mar,
-e ou fallavam dos seus montados e das suas courellas,
-ou descahiam em somnolencia mazomba.
-Alguns d’elles, de faces rosaceas, abdomen enxundioso,
-e instinctos retemperados pela bella
-fibra suina tinham exclamações carnaes quando
-a hespanhola passava, e digo a hespanhola, porque
-era assim que toda a gente fallava d’ella,
-sem embargo de que n’esse momento outras muitas
-estivessem em Setubal. Era, porém, como se
-se dissesse: a bella hespanhola, a formosa por
-excellencia.</p>
-
-<p>Das pessoas da terra foram poucas as que romperam<span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span>
-com a tradição local de retraimento bisonho,
-arrastadas pela fascinação. E essas poucas,
-eram homens. As senhoras visitavam-se então
-em Setubal difficilmente, e esta difficuldade augmentava
-para com os estrangeiros, cuja procedencia
-era quasi impossivel esquadrinhar, a não
-se fazer obra pelas informações dos seus patricios,
-suspeitas para o caso.</p>
-
-<p>Um dia, porém, Soledad comprehendeu que os
-seus olhos podiam, elles mesmos, em toda a
-parte, improvisar uma <i>tertulia</i>; que no seu sorriso
-alegre e resplendente de andaluza havia encantos
-de sobra para fazer conhecidos e namorados,
-e desde esse momento ella zombou poderosamente
-da semsaboria setubalense, trazendo
-comsigo, a toda a hora, de manhã ou á noite,
-uma <i>tertulia</i> completa, attrahida pelo iman da
-sua formosura, rebocada pela sua fascinação iberica.
-Era a sua côrte, a sua <i>coterie</i>, o seu séquito.
-Por accordo tacito, conferiu-se-lhe o sceptro
-das Hespanhas, que a princeza de la Cisterna
-havia deposto. Vassalos enthusiastas rodeavam-n’a
-como nunca os tivera a rainha Maria Victoria.
-Cada dia que passava trazia um novo alliado.
-Alguem que vinha a Lisboa, dizia: «Que bella
-hespanhola que está em Setubal!»—«O que?!»
-perguntavam no Chiado.—«Unica! incomparavel!
-sublime!» era a replica. Os curiosos iam, e
-ficavam. Creio que os generos alimenticios chegaram
-a encarecer em Setubal. Mas o que embarateceu
-foi a poesia. N’aquelle tempo, ainda o
-verso era o vehiculo do amor, e com razão se
-julgava que para uma mulher de um paiz ardente
-não havia para inflammar-lhe a phantasia
-como uma metralha de alexandrinos.</p>
-
-<p>Em redor da bella andaluza, fallava-se um hespanhol
-mascavado, que ás vezes parecia ser-lhe<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span>
-ainda de mais difficil comprehensão do que o
-vasconço o é para o commum dos hespanhoes.
-Mas que se importava Soledad com as palavras?
-Ella já sabia o que lhe diziam, o que por força se
-havia de dizer ao pé d’ella: que a amavam. Sorria,
-e respondia com os olhos, augmentando a
-fascinação, sem se comprometter: este segredo
-que só os olhos das hespanholas possuem. As
-portuguezas, com habitarem a mesma peninsula
-e serem da mesma raça, affirmam ou negam com
-os olhos, compromettem-se pelo olhar. Os olhos
-das hespanholas fallam sempre, mas raras vezes
-para affirmar ou negar. A duvida atiça o amor,
-e ella espalhava a duvida com o olhar. Não era
-bem prometter, não era bem recusar, seria tudo
-isso talvez, ou, ainda melhor, nada d’isso seria.
-Semeava esperanças, atirava flores e olhares ao
-acaso, emquanto o pae fallava dos assassinatos
-de Montilla, dos incendios de Alcoy e dos sacrilegios
-de Barcelona, e emquanto a mãe, que se
-morria por peixe, e era ainda arrebitada, ia por
-ali fóra, deixando vêr no sorriso uns dentes alvissimos,
-marchando com um desembaraço verdadeiramente
-hespanhol, em direcção á Ribeira,
-para comprar um safio ou uma corvina. Assim
-mesmo é que era; sem <i>ficelles</i> realistas, pela minha
-parte.—Ah! ditoso safio! ah! venturosa
-corvina! diziam muitos, que não podendo occupar
-o coração de Soledad, se contentariam com
-achar logar no seu estomago. Eu nunca fui d’esta
-opinião; não pelo acto em si mesmo, mas pelas
-consequencias. Todavia ha paladares para tudo...</p>
-
-<p>Alguns entendiam que o melhor modo de conquistar
-a filha era captivar a mãe—pela bocca.
-Offereciam-lhe carregações de peixe-espada, cardumes
-de salmonetes, cabazes de laranjas—e<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span>
-então aquellas laranjas, as de Setubal! Um adorador
-setubalense mandou-lhe de uma vez um
-presente de sal, que chegava bem para salgar
-uma geração inteira. Outro <i>attaché</i>, lisboeta, riu
-do caso, fazendo notar que quem possuia uma
-filha assim tinha mais sal do que todas as marinhas
-do Sado.</p>
-
-<p>Para brindar Soledad, os seus admiradores
-iam colhêr as melhores flores das quintas de
-Brancannes, que dispunham em graciosos <i>bouquets</i>
-e lindas <i>corbeilles</i>, recorrendo ao velho estratagema
-amoroso de esconder entre as flores
-uns versos ou uma carta, se bem que ella parecesse
-ás vezes gostar muito mais de laranjas que
-de flores.</p>
-
-<p>O proprio D. Enrique era obsequiado com garrafas
-de excellente moscatel, e seja dito em abono
-da verdade que o moscatel de Setubal parecia ter
-o condão de lhe aligeirar os desgostos causados
-pelas desgraças da patria.</p>
-
-<p>De dia para dia se tornava cada vez mais numerosa
-e obsequiadora a côrte em que a bella
-andaluza era rainha absoluta, omnipotente. Soledad
-sabia, como ninguem mais, conservar a illusão,
-a duvida ao mesmo passo cruel e deleitosa,
-que traz suspensos os namorados entre a esperança
-e o desalento. Não se deixava comprehender:
-esse era o seu grande segredo. A maior
-desgraça que póde acontecer a uma mulher é o
-ser comprehendida por todos. Umas vezes, parecia
-enlevada em extasis romanticos, tinha vagas
-abstracções, o seu olhar pairava no azul luminoso
-da noite. <i>Que bella es la luna!</i> dizia. Dos seus
-labios adejava um suspiro, que era impossivel
-interpretar. Outras vezes, quando lhe faziam notar
-a belleza da lua, ria com desdem petulante,
-replicando que já estava enfastiada de ouvir fallar<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span>
-da lua de Portugal e da revolução de Hespanha.</p>
-
-<p>Emquanto uns fallavam a Soledad, vogando
-na ondulação das suas esperanças, ora afagadas,
-ora combatidas, D. Estanislada, a mãe, discorria
-a proposito do peixe-espada que tinha comido ao
-jantar com salada de alface e azeitonas, e D.
-Enrique discursava sobre a queda dos Bourbons
-ou sobre a frasqueira do sr. Fonseca, de Azeitão.</p>
-
-<p>Eu não posso dizer quantos e quaes fossem os
-satellites de Soledad a esse tempo. Eram muitos.
-Citarei apenas os que me forem lembrando.
-Um jornalista de Lisboa, o Goes, que mandava
-mais versos do que laranjas, e um morgado de
-Reguengos, que mandava mais laranjas do que
-versos. Um proprietario das Alcaçovas que se
-atirava ao coração de Soledad com sorrisos e
-presuntos. Um rapaz de Setubal, o Vianninha,
-que recorria ao auxilio das flôres, e que deixára
-pela bella hespanhola uma menina da terra, a
-Sequeira, que estava padecendo horriveis hysterismos
-por se vêr abandonada. O conselheiro
-Antunes, de Santarem, pessoa grave e dinheirosa,
-que se dirigia principalmente á mãe, não se
-sabia se para ficar por ahi, se como ponto de
-partida para se aproximar da filha. Um morrinhento
-hespanholito, tambem emigrado, D. Ramon
-Mendoza, que recitava versos como quem
-está a solfejar cantochão. O alferes Ruivo e o
-tenente Epaminondas, de caçadores 1. Um sueco,
-que estava ali a negocio: alto, louro, rosado
-e inintelligivel. Um marialva do Chiado, que fôra
-a uma corrida de touros, e não se demorára
-menos de quinze dias. Um estudante de Alcacer,
-Julio de Lemos, que tinha ido a férias, e não
-chegára a casa. Mas, francamente, é-me completamente
-impossivel enumerar todos os cortezãos<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span>
-da bella andaluza, tanto mais que todos os
-dias pareciam multiplicar-se como as cabeças da
-hydra de Lerna e os algarismos da divida fluctuante.</p>
-
-<p>Em face de tão numeroso cortejo, terá decerto
-perguntado já o leitor a si proprio como é que
-elles podiam conviver uns com os outros, sem
-desatar á descompostura e ao murro. A todos
-os trazia illudidos a esperança, como a duzentos
-candidatos que requerem o mesmo emprego.
-Fallavam-se, como os pretendentes se fallam debaixo
-da Arcada. Cada um tratava de metter
-memorial, e de arranjar as suas coisas. Havia
-<i>hotel</i>, o <i>Escoveiro</i> por exemplo, onde dormiam
-dois a dois, por falta de leitos. Ás vezes intrigavam-se.
-Finalmente, estavam em Setubal a
-amar a bella hespanhola como podiam estar em
-Lisboa a amar o deputado do circulo.</p>
-
-<p>Todos elles possuiam o retrato de Soledad,
-reproduzido do <i>cliché</i> que um photographo ambulante,
-temporariamente estabelecido no largo
-das Almas, durante a estação de banhos, punha
-ao serviço do amor, na razão de 1$500 réis por
-photographia. O retratista estava fazendo um
-grande negocio; parecia ter fome, quando ali
-chegou, mas, passados dias, ia todas as manhãs
-á praça do Sapal comprar uma bella posta de
-carne de vacca e um chouriço, levando tudo para
-casa n’uma folha de couve.</p>
-
-<p>Estes retratos duravam só mais quatorze manhãs
-do que a rosa de Malherbe. Quando muito,
-ao cabo de tres semanas a imagem desapparecia,
-apagava-se. Os enamorados iam fornecer-se
-de novo, n’uma grande anciedade amorosa, da
-qual o photographo ambulante desentranhava
-chouriços no dia seguinte.</p>
-
-<p>Á hora da ceia, na longa meza dos <i>hoteis</i>, um<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span>
-grupo de amorosos, n’uma orgia de moscatel,
-brindava pelo amor e pela esperança, havendo
-cada um encostado á garrafa ou á compoteira
-o retrato de Soledad. Então extasiavam-se, soltando
-<i>hurrahs</i> perante o seu talhe <i>mignon</i>, o
-seu collo de pomba, os seus bellos cabellos negros,
-caprichosamente amontoados sob as rendas
-brancas da mantilha, os seus olhos penetrantes
-como punhaes de Toledo e vivos como carvões
-accesos, o seu gracioso ar petulante, illuminado
-por essa luz mysteriosa, que se projecta
-sobre as mulheres hespanholas, e que se chama—o
-<i>salero</i>.</p>
-
-<p>O conselheiro Antunes, que tambem estava
-n’um <i>hotel</i>, não tomava parte n’estas bacchanaes
-amorosas, condemnava-as mesmo, e tiravam-lhe
-o somno, quer fosse pelo ciume ou pela algazarra.
-No dia seguinte queixava-se de persevejos.</p>
-
-<p>O sueco, esse, embebedava-se com kirsch, e
-tornava-se inintelligivelmente gárrulo. Punha os
-olhos no tecto, parecendo recitar as mais sentimentaes
-estrophes da Scandinavia, ao passo que
-os portuguezes choravam de riso ao vel-o arroubado,
-e perguntavam entre si: «<i>Que diabo estará
-a dizer este pedaço de bruto!</i>»</p>
-
-<p>Uma noite, havia dado uma hora na egreja de
-S. Julião, e no <i>Hotel Escoveiro</i> o grupo dos enamorados
-abordava a setima garrafa de moscatel,
-tendo cada um o retrato de Soledad em frente
-do seu prato, quando de repente, á porta da sala,
-uma figura inesperada apparece.</p>
-
-<p>Era D. Enrique Saavedra.</p>
-
-<p>O estudante d’Alcacer, que receiou uma tragedia
-de colera paterna em cinco actos e outras
-tantas bengaladas, lembrou-se de apagar o candeeiro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span></p>
-
-<p>Fez-se um silencio profundo, que o sueco,
-alheio ao que se passava, e grandemente enkirschado,
-interrompeu começando a declamar palavras
-de quinze syllabas, longas e sibilantes
-como um comboyo.</p>
-
-<p>De repente, a voz de D. Enrique troveja:</p>
-
-<p>—<i>Hombres, por Dios, atencion!</i></p>
-
-<p>O estudante foi tacteando a meza, ás escuras,
-para esconder os retratos, e aconteceu-lhe metter
-uma das mãos dentro de uma chicara de
-café.</p>
-
-<p>O sueco calou-se, porque o proprietario das
-Alcaçovas lhe deitou as mãos ás guelas.</p>
-
-<p>O jornalista lisboeta gritou que deixassem ouvir.</p>
-
-<p>Então D. Enrique declarou o que queria: Procurar
-o cirurgião ajudante de caçadores 1, para
-acudir a D. Estanislada, que estava afflictissima
-com uma indigestão de peixe-espada e salada
-d’alface.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer1.jpg" width="150" height="140" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header2.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>II</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-n.jpg" width="210" height="130" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">No dia seguinte, Julio de Lemos, o estudante
-de Alcacer do Sal, passeiava
-a sua paixão escholastica sob as arvores
-do largo das Almas, quando
-de repente lhe apparece, de physionomia completamente
-transtornada, o photographo ambulante.
-Que se encontrava n’uma situação afflictissima,
-disse-lhe o retratista. Um agiota de Lisboa, a
-quem devia cem mil réis, sabendo que estava
-fazendo interesses em Setubal, cahira sobre elle
-de chofre, tendo chegado no comboyo da manhã,
-para exigir-lhe o prompto reembolso de
-uma parte da divida. Que elle photographo se
-havia esquecido realmente de satisfazer as prestações
-estipuladas, que a mulher e os filhos gostavam
-muito de bifes, e que elle gostava não só
-de bifes mas tambem de moscatel de Azeitão.
-Que não tinha dinheiro algum de que podesse
-dispôr, e que o agiota queria retirar-se para
-Lisboa no comboyo da tarde, levando algum dinheiro.
-Sou um homem muito desgraçado! exclamava<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span>
-o photographo. E acrescentava: Portugal
-é um paiz perdido para os artistas! São todos
-como eu. (Referia-se certamente á pobreza,
-não ao moscatel e aos bifes).</p>
-
-<p>O estudante ouviu-o tendo nos labios um sorriso
-de extranha superioridade, com as mãos
-nos bolsos das calças, enfunando-as á hussard.
-E perguntou ao retratista:</p>
-
-<p>—O senhor viu alguma vez a <i>Cora</i> em D.
-Maria II?</p>
-
-<p>—Vi, sim, respondeu promptamente o photographo.
-E acrescentou:—Uma só vez, sabe
-Deus com que sacrificio! para vêr o panorama
-do Mississipi, que me tinham gabado muito,—por
-amor da arte!</p>
-
-<p>—Pois bem. Lembra-se como o Cesar de Lima
-fechava um acto?...</p>
-
-<p>—<i>O senhor já viu alguma vez a Providencia?
-Pois a Providencia sou eu!</i> Parece-me que era
-isto.</p>
-
-<p>—Exactamente. É essa a phrase, observou
-Julio de Lemos. Em Lisboa a Providencia é o
-Cesar de Lima; em Setubal, sou eu.</p>
-
-<p>—O senhor!</p>
-
-<p>—Eu mesmo, <i>me adsum</i>.</p>
-
-<p>E tirou do bolso do frak todos os retratos que
-na vespera á noite havia podido encontrar sobre
-a mesa do <i>Hotel Escoveiro</i>, para que D.
-Enrique Saavedra os não visse. Mostrou-os ao
-photographo dizendo-lhe:</p>
-
-<p>—Vê isto?</p>
-
-<p>—Vejo. São os retratos da <i>senhorita Soledad</i>,
-como o photographo, no seu calão de circo, costumava
-chamar sempre á bella andaluza. Mas
-não comprehendo!</p>
-
-<p>—Pois não comprehende! extranhou o estudante.
-Vai comprehender. Hontem á noite, estando<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span>
-nós a ceiar no <i>Hotel Escoveiro</i> e tendo os
-retratos de Soledad sobre a mesa, entrou inesperadamente
-D. Enrique Saavedra.</p>
-
-<p>—Oh diabo! exclamou o photographo. E elle
-soube que sou eu quem os tiro?!</p>
-
-<p>—Qual historia! Quando elle entrou, eu tive
-a idéa luminosa de apagar o candeeiro...</p>
-
-<p>—Então não foi luminosa, exclamou o photographo
-já tranquillo, e contente de si, por ter
-feito um dito gracioso.</p>
-
-<p>—É boa! exclamou o estudante, rindo estrepitosamente,
-e dando dois piparotes no estomago
-do photographo. Apanhou-a bem!...</p>
-
-<p>—É que d’estas coisas de luz, um photographo
-entende sempre.</p>
-
-<p>E riram de novo.</p>
-
-<p>—Ora bem, continuou Julio de Lemos. Eu
-tive a escura idéa de apagar o candeeiro, e de
-procurar em cima da mesa os retratos de Soledad.
-Durante a viagem das minhas mãos por
-sobre a toalha, introduzi uma d’ellas dentro de
-uma chicara de café, e estive para partir uma
-garrafa. Mas, felizmente, pude apanhar todos os
-retratos. São estes.</p>
-
-<p>O photographo começou a comprehender; sorria
-velhacamente.</p>
-
-<p>—Hoje, continuou o estudante, todos os hospedes
-do <i>Hotel Escoveiro</i> irão a sua casa procurar
-retratos de Soledad, e o sr. venderá estes
-mesmos, exceptuando o meu, se quizer acceitar
-as condições que lhe vou propôr.</p>
-
-<p>O photographo ouvia attentamente, com uma
-curiosidade cheia de pontos de interrogação.</p>
-
-<p>—As condições são dar-me a commissão de
-vinte por cento em cada um d’esses retratos...</p>
-
-<p>Nos labios do photographo passou rapidamente
-um movimento de despeito. Litteralmente<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span>
-traduzida, essa crispação quereria dizer: Ah!
-maroto, que me comeste!</p>
-
-<p>Mas em voz alta:</p>
-
-<p>—Vá feito.</p>
-
-<p>—Espere lá,—continuou o estudante, que havia
-tres dias estava sem dinheiro—o meu amigo
-ainda não pensou na possibilidade de ir alguem
-a Lisboa mandar copiar qualquer d’estes retratos,
-de modo a poder-se reproduzir um <i>cliché</i>
-por um preço muito inferior a 1$500 réis o
-cartão?</p>
-
-<p>—Sim... lá isso... mas a despeza do caminho
-de ferro?... e o incommodo?... e sobretudo...
-o ter que ausentar-se da senhorita Soledad,
-deixando o campo livre ao inimigo!</p>
-
-<p>Esta ultima advertencia do photographo tinha
-visivelmente por fim ferir a corda sensivel do
-coração do estudante, que se deu pressa em
-responder:</p>
-
-<p>—Ora o meu amigo excede na arte de não saber
-photographar o proprio Marcel das <i>Scenas
-da vida da bohemia</i> (o livro predilecto do estudante)
-que tirava retratos aos granadeiros de Pariz
-com a similhança garantida por um anno.
-A imagem das suas photographias só pode ser
-garantida por quinze dias, o maximo. Portanto,
-d’aqui a oito dias, estes retratos estarão completamente
-apagados, o meu amigo terá novas
-encommendas, e eu continuarei a receber a commissão
-de vinte por cento, com direito a um retrato
-gratuito.</p>
-
-<p>O photographo transigiu, pactuou. O estudante
-entregou-lhe os retratos de Soledad, que n’esse
-mesmo dia foram vendidos aos seus admiradores—pela
-segunda vez.</p>
-
-<p>No dia seguinte, o photographo ia, com o producto
-d’esta receita inesperada, fazer uma patuscada<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span>
-a Azeitão, levando comsigo a mulher, a
-sogra, e os pequenos. O agiota de Lisboa tinha
-sido uma fabula inventada pelo desejo com que o
-photographo accordára de dar um rega-bofes a
-toda a familia. E o estudante habilitava-se a comprar
-ao feitor de uma quinta de Brancannes um
-bello ramo de flores com que corrêra a presentear
-Soledad, por isso que, <i>inopia pecuniae</i>, se
-havia deixado preterir n’este genero de galanteria
-idyllica.</p>
-
-<p>D. Estanislada estava inteiramente restabelecida.
-O cirurgião ajudante de caçadores 1 fôra felicissimo
-na prompta applicação de um copinho
-de genebra de Hollanda, que pôde quebrantar os
-impetos do peixe-espada no estomago da afflicta
-senhora. <i>Es usted un doctor completo!</i> dizia ao
-outro dia D. Enrique Saavedra ao cirurgião, passeiando
-com elle na praia, e impingindo-lhe a
-centessima edição da historia oral dos acontecimentos
-de Hespanha. E como o doutor cahisse ingenuamente
-em dizer que andava fazendo estudos
-sobre a historia da poesia revolucionaria na
-peninsula, D. Enrique Saavedra começou a repetir-lhe,
-com uma facundia verdadeiramente hespanhola,
-varias quadras <i>callejeras</i>, como elle dizia,
-taes como estas:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Ay qué risa, qué risa, qué risa</div>
-<div class="verse">Que Amadeo lo he visto en camisa!</div>
-<div class="verse">Ay salero, ay salero, ay salero,</div>
-<div class="verse">Que á Amadeo lo he visto yo en cuero!</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Si nos cumplen la palabra</div>
-<div class="verse">Zorrilla, Rivéro y Martos,</div>
-<div class="verse">Le pondrémes á Amadeo</div>
-<div class="verse">El passaporte en la mano.</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p>
-
-<p>Entretanto, D. Estanislada, Soledad e o grupo
-dos admiradores da bella andaluza haviam-se
-encaminhado para o Passeio da praia de Troino.
-Era convidativo o local, e a grande serenidade
-do Sado punha no horisonte da paizagem uma
-vaga doçura inexplicavel.</p>
-
-<p>O sueco sentia-se bem deante do aspecto grandioso
-das aguas do rio, e do mar que se avistava
-ao longe. Era, em toda a sua pujança, n’esse
-momento, um homem do norte, habituado a vêr
-os grandes rios e os grandes lagos, sem se arripiar
-de frio, graças ao habito do clima septentrional
-e... ao kirsch. Como Soledad parasse ao
-pé do lago para lhe atirar uma pedrinha, que
-desappareceu descrevendo á superficie da agua
-ondulações concentricas, o sueco disse-lhe, na
-sua linguagem arrevesada, que se ella visse o
-lago Moelar, em Stockholmo, semeado de pequenas
-ilhas, ficaria verdadeiramente encantada,
-e baixo, ao ouvido, acrescentou: <i>Senhora poderr
-irr comiga, se querr casa mim.</i></p>
-
-<p>Como fosse o sueco quem n’essa tarde parecia
-ter adiantado terreno, os outros iam despeitados,
-e alguns, n’um grupo, faziam troça e iam chasqueando
-das suas calças curtas, das suas grandes
-botas rugosas, do seu passo de pachiderme,
-e da sua <i>gaucherie</i> amorosa. O conselheiro Antunes,
-fallando com D. Estanislada, aconselhava-lhe
-que para a outra vez se abstivesse do
-peixe-espada, que na sua opinião era muito reimoso.</p>
-
-<p>Chegados á beira do rio, Soledad sentou-se,
-poz os olhos na corrente plácida do Sado, e tirou
-da sua alma de andaluza um suspiro que mandou
-ao Guadalquivir. Explicou ao sueco que a
-cidade de Sevilha ficava á margem do Guadalquivir,
-um bello rio, o mais formoso de todo o<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span>
-mundo! exclamou ella n’uma arrojada hyperbole
-hespanhola. O sueco sentiu-se ferido na corda
-do patriotismo, e replicou: <i>Nó! nó!</i> E procurou
-justificar a negativa citando os principaes rios da
-Scandinavia, enumerando o <i>Tornea</i>, o <i>Lulea</i>, o
-<i>Pitea</i> e o <i>Umea</i>. E o estudante, troçando, acrescentou
-do lado com ruidoso applauso dos circumstantes,
-e com a rapidez de quem está declinando
-nomes latinos: E o <i>Gelea</i>, o <i>Gouvea</i>, o
-<i>Obrea</i>, e o <i>Lamprea</i>.</p>
-
-<p>O sueco fez-se encarnado como uma cereja,
-sem perceber ao certo senão que estavam rindo
-d’elle, e Soledad vibrou uma gargalhada sonora
-como um tinido de crystaes, que se houvessem
-encontrado na sua garganta.</p>
-
-<p>Era que o estudante de Alcacer estava verdadeiramente
-desesperado. N’esse mesmo dia em
-que havia ido comprar um <i>bouquet</i> a uma quinta,
-a cuja porta um grande cão arremettêra contra
-elle ladrando encolerisado, n’esse mesmo dia
-em que com varia fortuna tivera a vantagem de
-só elle offerecer flores e a contrariedade das iras
-do cão, via-se preterido pelo sueco.</p>
-
-<p>O estudante procurou desesperadamente no
-seu espirito uma idéa salvadora, que pudesse
-restituir-lhe a importancia que visivelmente ia
-perdendo. Queria a todo o custo deslocar o sueco
-da bella posição em que se encontrava, e pretendeu
-despertar na alma de Soledad as tendencias
-devaneadoras que por vezes se caracterisavam
-n’uma intermittencia de romanticismo. Propoz
-um passeio ao oratorio de Mendoliva, um sitio
-poetico, na encosta da serra de S. Filippe, quasi
-á beira-mar. Com effeito, o espirito da bella andaluza
-exaltou-se promptamente. Ella não sabia
-o que era Mendoliva, nem qual fosse a belleza
-d’esse local. Mas o seu delicado instincto de<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span>
-mulher e de andaluza adivinhou que se tratava
-de uma tradição romantica, de uma lenda nacional,
-e abraçou o alvitre.</p>
-
-<p>O estudante delirou de alegria, julgou-se victorioso.</p>
-
-<p>D. Estanislada perguntou a que distancia ficaria
-o oratorio. Indicou-lhe a direcção o Vianninha,
-o rapaz de Setubal, aquelle por quem a
-Sequeira estava bebendo anti-hysterico todas as
-noites. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas
-affirmaram que o sitio era delicioso. Mas o
-conselheiro Antunes recordou a D. Estanislada
-o preceito da eschola de Salerno:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse"><i>Post prandium sta, post cœnam ambula</i>,</div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="noindent">e aconselhou-lhe que ficasse, que elle lhe faria
-companhia, <i>com muito gosto e muita honra</i>—palavras
-suas—, <i>minha senhora</i>. D. Estanislada
-acceitou a advertencia—por causa do estomago
-e de outros orgãos.</p>
-
-<p>Partiu em direcção ao oratorio de Mendoliva o
-alegre rancho da bella andaluza e dos seus cavalleiros
-<i>servientes</i>. O caminho, á beira-mar, é
-em verdade delicioso. O sol, n’uma grande explosão
-de luz, lançava sobre o mar uma chuva
-de oiro. Manchas encarnadas, de um colorido á
-Rubens, punham no horisonte uns tons de purpura,
-que davam ao sol uma magestade olympica,
-como as cortinas de um throno asiatico.
-Chegaram com effeito ao local da antiga ermida
-de S. Braz, onde em outro tempo um soldado
-portuguez se elevou em extasis de asceta, havendo
-trocado a espada pelo habito.</p>
-
-<p>Soledad gostou muito, comprehendeu a vaga
-poesia que se respirava ali, e pediu ao estudante
-a lenda do sitio.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span></p>
-
-<p>Pobre estudante! Viu-se entalado, sem saber
-como havia de tirar-se d’aquelle mau passo. Concluiu
-por dizer que o sitio não tinha lenda.
-Foi um golpe de espada de Alexandre. O alferes
-Ruivo e o tenente Epaminondas foram da mesma
-opinião: que o sitio não tinha historia. O
-proprietario das Alcaçovas acrescentou com uma
-rudeza brutal que não podia ser assim: que
-<i>Mendoliva</i> havia por força de dizer alguma coisa.
-O morgado de Reguengos acudiu em auxilio
-do patricio, pela honra do Alemtejo: que
-<i>Mendoliva</i> havia de ter uma significação qualquer.
-Então o jornalista Aurelio Goes, que se
-havia conservado calado, com um sorriso de
-ironia nos labios, poz-se em evidencia: disse que
-o chronista Ruy de Pina contava que Mendo
-Gomes de Seabra fôra um cavalleiro do tempo
-de D. João I, que, mais tarde, já depois do desastre
-de Tanger, se apartára do mundo ermando
-ali, e que, passados annos, fundára o mosteiro
-de Alferrara.</p>
-
-<p>Julio de Lemos, desesperado, apopletico de colera,
-observou que o jornalista estava confundindo
-Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno
-Alvares Pereira, que fôra quem depois de ter
-militado nos exercitos de D. João <span class="smcapuc">I</span> resolvêra
-vestir o habito monastico, e que provavelmente
-o povo setubalense confundiu os dois individuos
-na mesma lenda.</p>
-
-<p>Aurelio Goes despeitou-se, e perguntou ao estudante
-se elle já havia feito exame de historia
-portugueza. O Lemos respondeu insolentemente:
-que sim, mas que talvez a tivesse desaprendido
-lendo os jornaes. O jornalista perguntou se se
-referia ao jornal de que elle era redactor. E o
-Lemos, querendo nivelar-se á altura de um Cid
-campeador perante a bella andaluza, respondeu<span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span>
-que não podia referir-se a outro jornal, visto que
-o seu redactor confundia Mendo Gomes de Seabra
-com D. Nuno Alvares Pereira. Aurelio Goes
-ainda avançou para o estudante, mas o proprietario
-das Alcaçovas deitou-lhe a mão ao braço,
-como na vespera havia deitado as mãos ás guelas
-do sueco.</p>
-
-<p>Soledad acompanhou com os seus bellos olhos
-penetrantes todos os episodios d’este conflicto.
-Comprehendeu perfeitamente tudo o que se havia
-passado, e quiz dissipar a nuvem negra que
-subitamente se formára. Lembrou que o sitio era
-encantador, que convidava á poesia, e pediu ao
-estudante que recitasse uns versos. Julio de Lemos
-desculpou-se, que estava indisposto, que se
-não lembrava de versos nenhuns. Ella insistiu,
-com imperiosa meiguice. Que não, que não podia,
-tornou o estudante. Soledad redobrou de instancias.
-O estudante, com as faces rubras como papoulas
-e os olhos congestionados, teve que ceder
-e começou a recitar, com uma precipitação colerica:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">As flores d’alma que se alteiam bellas,</div>
-<div class="verse">Puras, singelas, orvalhadas, vivas,</div>
-<div class="verse">Têm mais aromas, e são mais formosas,</div>
-<div class="verse">Que as pobres rosas, n’um jardim captivas.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Completamente fóra de si, fez uma longa pausa,
-procurando visivelmente lembrar-se da segunda
-quadra. Depois ia continuar com igual
-precipitação:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Sol bemfazejo lhes aquece a chamma</div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="noindent">e, olhando n’este momento para Aurelio Goes,
-viu que elle sorrira. Sem mesmo perceber que<span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span>
-se havia enganado, e dito uma tolice, o estudante
-exclamou: «Oh! é de mais!» Subitamente, Soledad
-levantou-se e disse com uma gravidade que
-ninguem podia decerto esperar: <i>Caballeros, hagan
-usteds favor de acompañarme</i>.</p>
-
-<p>Seguiram-n’a todos, n’um cortejo silencioso.
-Mas, poucos passos andados, Soledad desfechou
-uma gargalhada crystallina, e, voltando-se para
-D. Ramon Mendoza, declamou com ares mysteriosos,
-com uma graça verdadeiramente andaluza:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">...á fé mia,</div>
-<div class="verse">Que estoy resuelto á mataros</div>
-<div class="verse">Y no alcanzara á libraros</div>
-<div class="verse">La misma virgen Maria.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>As gargalhadas eram estrondosas, resoantes;
-o estudante, tendo dado o braço ao alferes Ruivo,
-dizia-lhe a meia voz, cheio de colera: «O que
-elle não sabe é que tem de se bater comigo!
-Por força!»</p>
-
-<p>Sahiram-lhes ao encontro D. Estanislada e o
-conselheiro Antunes, aos quaes se haviam juntado
-D. Enrique Saavedra, e o cirurgião ajudante
-de caçadores 1.</p>
-
-<p>—É bonito? perguntou D. Estanislada á filha,
-em hespanhol, ainda a certa distancia.</p>
-
-<p>—Formosissimo! respondeu Soledad.</p>
-
-<p>—Sabes tu! disse D. Estanislada, temos aqui
-um insigne cosinheiro, e indicou o conselheiro
-Antunes. Iremos ámanhã comer uma grande caldeirada...
-aonde?... como se chama aquillo? e
-apontou para a outra margem do rio.</p>
-
-<p>—Troia, respondeu o conselheiro com a gravidade
-de um Páris de cincoenta annos.</p>
-
-<p>—Excellente! commentou o morgado de Reguengos.<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span>
-As laranjas, essas, ficam por minha
-conta.</p>
-
-<p>—Havemos de bater-nos, por força, tornou o
-estudante a dizer a meia voz ao alferes de caçadores.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer2.jpg" width="150" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header3.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>III</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-n.jpg" width="210" height="130" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">N’essa noite, foi no <i>Club Setubalense</i>
-que se improvisou a <i>tertulia</i>. Soledad
-e mais tres senhoras hespanholas
-constituiam todo o feminino da
-sala; mas por muitos que fossem os satellites, e
-por mais brilhante que palpitasse o lume de seus
-olhos castelhanos, Soledad, o bello astro da praia,
-a todos offuscaria com a graça picante dos seus
-sorrisos, dos seus olhares, e do seu desembaraço
-andaluz. Não havia, portanto, necessidade de mais
-senhoras ali. Em estando Soledad, ella só bastava
-a encher de torrentes de vida a sala e os
-corações. A irradiação da sua belleza era como a
-da lua, nas formosas noites de verão.</p>
-
-<p>No elemento masculino notava-se, porém, uma
-certa agitação n’essa noite. Os admiradores de
-Soledad entravam e sahiam frequentemente da sala,
-cheios de uma certa preoccupação mysteriosa. O
-proprio conselheiro Antunes desapparecêra. Algumas
-pessoas envenenavam este facto, fazendo
-notar que Dona Estanislada não estava presente.<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span>
-Mas bem podia ser que o conselheiro Antunes,
-entrando nas suas funcções de cosinheiro, corresse
-a cidade em todas as direcções, procedendo
-aos preparativos indispensaveis para a caldeirada
-do dia seguinte. Elle comprehendia perfeitamente
-que todos os conselheiros portuguezes ficariam
-compromettidos na sua respeitabilidade de classe,
-se o <i>pic-nic</i> disparasse n’um enorme <i>fiasco</i> culinario.
-De mais a mais, a sua reputação individual
-de Vatel amador, affirmada por muitas vezes
-nas patuscadas aristocraticas de Santarem,
-encontraria nas areias de Troia um verdadeiro
-Waterloo, uma deploravel ruina.</p>
-
-<p>Isto pelo que respeita ao conselheiro. Quanto
-aos outros, a causa da sua preoccupação era diversa.
-Sentia-se effectivamente que andava no ar
-um acontecimento extranho, extraordinario, alarmante.
-N’um gabinete interior conferenciava-se
-em tom discreto; entravam uns, sahiam outros, e
-o marcador do bilhar, que espreitava cheio de curiosidade
-por um pequeno buraco do tabique, chegou
-a suspeitar de que estivessem bebendo á socapa,—julgando-se
-até certo ponto desconsiderado
-por lhe não haverem distribuido o papel de
-Ganimedes do festim.</p>
-
-<p>O marcador era um tolo, um guloso, para não
-dizer um borracho. Ali, no gabinete, não se tratava
-de beber vinho; se havia sêde, era de sangue. O
-estudante de Alcacer queria sugar as veias do
-jornalista de Lisboa, escorropichar-lhe as arterias,
-mastigar-lhe o coração. Uma carnificina! O
-alferes Ruivo dirigia os preliminares do duello, e
-dizia facetamente que, <i>coisas d’esta natureza</i>, em
-que elle entrasse, haviam de acabar por força em
-sarrabulho. Que não era para brincadeiras, que
-tinha uma farda, que devia honral-a, e que estava
-n’essa firme convicção. Que o duello havia<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span>
-de ser de morte, a poucos passos de distancia, á
-pistola, pelo menos; por não estar em costume
-bater-se ninguem a canhão, porque seria esse o
-meio mais racional de dois sujeitos se metralharem.</p>
-
-<p>No botequim da praia contava-se, commentava-se
-o <i>escandalo</i> d’aquelle dia. Que o Lemos e o
-Goes não só se haviam insultado de palavras, na
-presença de Soledad e por causa d’ella, mas que
-tinham mesmo chegado a vias de facto, arrancando
-os cabellos, e não sei se os olhos, um ao
-outro. Alguns curiosos foram ao lugar do conflicto
-para verificar se havia no chão nodoas de
-sangue, e algum olho perdido. Não encontraram
-nada. Acrescentava-se que o administrador do
-concelho já tinha tomado conhecimento do facto,
-que o poder judicial receberia participação, e todo
-este <i>escandalosinho</i> era saboreado a pequenos
-goles, como um vinho generoso. Em Setubal,
-quando algum acontecimento extraordinario occorre,
-põem-n’o de escabeche para durar mais
-tempo. Sabem tratar muito bem do peixe e do escandalo
-de conserva. Depois, os commentarios
-saltavam. Uns velhos sacudiam o seu caruncho
-em phrases desdenhosas: «Que tolos! são uns
-asnos! Tudo isto por causa de uma hespanhola
-que os anda a comer!» E outros, mais philosophos:
-«Todas as mulheres são da mesma massa,
-tanto faz que sejam hespanholas como portuguezas.»
-E um bregeirote, do lado: «Se ella fosse de
-massa não se massavam elles tanto!...» «Aquillo
-é para lavar e durar!» commentava um capitão
-de navios, vermelho e grosso, já entrado na genebra
-de Hollanda, que bebia aos copinhos, de um
-só sorvo.</p>
-
-<p>No gabinete do <i>Club</i> resolveram que era melhor
-o estudante apparecer na sala da dança,
-para <i>dissipar suspeitas</i>. Quando o marcador o<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span>
-apanhou na casa do bilhar, depois de haver sabido
-por um frequentador do botequim, que ali entrara
-a historia exagerada do conflicto na praia,
-chegou-se-lhe ao ouvido, e disse com os ares de
-superioridade de quem está de posse de um segredo:
-«Então o senhor tira a desforra, hein?»
-«Chut! respondeu Julio de Lemos. Eu cá sou
-assim, ha de ser duello de morte!» O marcador
-ficou entalado: «De morte?» perguntou. E como
-o estudante lhe voltasse as costas, saboreando a
-sua reputação de duellista, o marcador foi vêr ao
-livro dos <i>fiados</i> a quanto montava a divida do
-estudante. E sommou: Cinco partidas de bilhar,
-dois charutos, um copo de vinho do Porto: total,
-360 réis. O Lemos fez a sua entrada na sala,
-apparentando uma serenidade heroica, a serenidade
-fria de um Cassagnac; julgava-se circumdado
-de um resplendor glorioso. Mas Soledad
-parecia não o haver comprehendido, mostrava-se
-uma digna representante de um paiz de antigos
-brigões de capa e espada, e de modernos toureiros
-audaciosos. Não fez caso do heroe. Estava
-apertando a cravelha amorosa ao sueco, conseguindo
-extrahir d’elle, do <i>Stradivarius</i> que todo
-o homem tem no coração, notas de uma melifluidade
-assombrosa nas raças do norte. Ella
-tinha-o embriagado com o <i>Kirsch-Wasser</i> dos
-seus olhos. Estava tonto de amor o sueco, bebado
-de <i>salero</i>, e, no <i>grand’-chaine</i> dos <i>Lanceiros</i>,
-as suas mãos enormes, duras e grossas,
-pareciam ter uma delicadesa de sensitiva, as
-contracções nervosas dos tentaculos de um caranguejo,
-ao colherem os dedos avelludados e
-finos de Soledad.</p>
-
-<p>Depois da dança, rendeu-se culto á poesia. O
-estudante, que estava sempre na vanguarda dos
-recitadores, menos do que nunca se fez rogar<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span>
-n’essa noite. Recitou versos de Alvares de Azevedo,
-o mais genial, o mais nacional dos poetas
-brazileiros, talvez. E de pé, tendo na voz todas
-as commoções ao mesmo passo epicas e lyricas
-do homem que vae expôr-se heroicamente á
-morte, estando psychologicamente mais vivo do
-que nunca, declamou:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Se eu morresse ámanhã, viria ao menos</div>
-<div class="verse">Fechar meus olhos minha triste irmã:</div>
-<div class="verse">Minha mãe de saudades morreria,</div>
-<div class="verse indent2">Se eu morresse ámanhã.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Quanta gloria presinto em meu futuro!</div>
-<div class="verse">Que aurora de porvir e que manhã!</div>
-<div class="verse">Eu perdêra chorando essas corôas,</div>
-<div class="verse indent2">Se eu morresse ámanhã.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Que sol! que ceu azul! que doce n’alva</div>
-<div class="verse">Acorda a natureza mais louçã!</div>
-<div class="verse">Não me batêra tanto amor no peito,</div>
-<div class="verse indent2">Se eu morresse ámanhã.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Mas essa dôr da vida, que devora</div>
-<div class="verse">A ancia de gloria, o dolorido afan...</div>
-<div class="verse">A dôr no peito emmudecêra ao menos,</div>
-<div class="verse indent2">Se eu morresse ámanhã...</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Na verdade o estudante de Alcacer difficilmente
-poderia ter escolhido outra poesia, que melhor
-traduzisse as grandes luctas intimas da sua alma.
-É certo que nos pormenores da composição
-não havia inteira identidade de circumstancias
-entre o recitador e o poeta. O estudante nunca
-tivera irmã nenhuma, e porisso estava bem longe
-de que a piedade fraterna tomasse sobre si o encargo
-de lhe fechar os olhos. E ainda que caisse
-ferido no campo da honra, de pistola em punho,
-sua mãe não morreria de saudade, pela simples<span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span>
-rasão de já ter morrido, alguns annos antes, com
-as febres de Alcacer. Quanto ás <i>corôas</i>, que elle
-perderia morrendo, a dessimilhança era profunda.
-O pae, com quanto fosse um bom proprietario
-de marinhas, estava cançado com as prodigalidades
-do filho,—isto pelo que toca ás corôas
-de... dez tostões; quanto ás de loiro, colhidas
-nas lides de Minerva, as <i>raposas</i> encarregavam-se
-de lh’as devorar annualmente. Mas, em tudo
-o mais, essa triste prophecia de Alvares de Azevedo
-parecia quadrar á situação do estudante.</p>
-
-<p>Soledad deu mediana importancia aos versos
-e ao recitador... N’essa noite parecia deliciada
-em conhecer como um homem forte do norte
-póde estontear de amor sob a influencia de uma
-mulher do sul. Quando o estudante sahiu da
-sala, jurando aos seus deuses matar o sueco,
-depois de ter matado o jornalista, o marcador
-chegou-se ao pé d’elle, e lembrou-lhe <i>aquella
-continha de dezoito vintens, visto que ha viver
-e morrer, e elle haver dito que o duello havia de
-ser de morte</i>...</p>
-
-<p>O estudante ficou vivamente contrariado, remexeu
-nas algibeiras, e poude, ao cabo de muitas
-pesquizas, encontrar 150 réis.</p>
-
-<p>—Aqui tem, disse elle ao marcador; e se eu
-morrer, mandem-me penhorar pelo resto no inferno.
-O cobrador que pergunte ao Cerbéro por
-Julio de Lemos. Cerbéro é um cão...</p>
-
-<p>—Lá isso é, ficou dizendo o marcador, e de
-210! Corja de pulhas!...</p>
-
-<p>No gabinete as negociações haviam caminhado
-rapidamente durante a breve ausencia do estudante.
-Os <i>padrinhos</i> conferenciaram, o alferes
-Ruivo declarou muitas vezes, piscando o olho
-para o lado, que o duello havia de ser de morte,
-que o seu committente queria matar ou morrer,<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span>
-que a offensa tinha sido grave, mas foi redigindo
-a seguinte acta, que já estava prompta quando
-o estudante entrou:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>«Nós abaixo assignados fomos encarregados
-pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos de procurar o ex.ᵐᵒ
-sr. Aurelio Goes, a fim de lhe pedirmos explicações
-sobre algumas phrases violentas que na
-tarde de hoje, e junto ao oratorio de Mendoliva,
-suburbio de Setubal, dirigira ao nosso digno e
-brioso committente. Immediatamente o ex.ᵐᵒ sr.
-Aurelio Goes encarregou os dois cavalheiros,
-que comnosco assignam, de nos procurarem
-para deliberarmos sobre o que á honra de ambos
-mais conviesse, fazendo-se reciprocas declarações
-de que tanto um como o outro estavam
-dispostos a sacrificar-se para satisfação da propria
-honra, caso se reconhecesse que havia sido
-offendida. Examinada por nós maduramente a
-causa do conflicto, e a maneira por que elle se
-deu, entendemos em nossa consciencia e dignidade
-que as phrases tidas por violentas, apenas
-continham allusões litterarias, que de nenhum
-modo podiam susceptibilisar (<i>sic</i>) os brios pessoaes
-d’aquelles dois cavalheiros, pelo que foi
-por nós quatro reconhecido que não havia motivo
-rasoavel para que esta pendencia proseguisse,
-devendo outrosim declararmos que os
-nossos committentes se comportaram de modo a
-affirmar louvavelmente o seu pundonor e a sua
-coragem, como pessoas que nobremente antepõem
-o respeito pela honra individual a todas e
-quaesquer conveniencias materiaes.</p>
-
-<p>Setubal, etc., etc.</p>
-
-<p>Pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos, <i>Fuão</i> e <i>Fuão</i>.</p>
-
-<p>Pelo ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, <i>Fuão</i> e <i>Fuão</i>.</p>
-
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span></p>
-
-<p>O alferes Ruivo achou prudente não levar mais
-longe a brincadeira do duello, receiando que o
-coronel de caçadores 1 tomasse a coisa a serio,
-se elles chegassem a ir ao campo.</p>
-
-<p>O estudante, ouvindo lêr a acta, conjunctamente
-com o jornalista, declarou que effectivamente lhe
-parecia que os factos estavam correctamente
-apreciados, mas que muito o contrariava não
-poder experimentar no campo da honra a sua
-coragem; por sua parte, o jornalista disse
-que os factos haviam sido fielmente interpretados,
-mas que lamentava que ainda d’aquella vez
-elle não podesse provar que pertencia ao numero
-dos jornalistas, que acceitam a responsabilidade
-das suas acções e das suas palavras em qualquer
-campo aonde sejam chamados.</p>
-
-<p>Resolveu-se mais que as pazes fossem solemnemente
-selladas com um abraço, e que uma
-copia authentica da acta apparecesse no proximo
-domingo nas columnas da <i>Gazeta Setubalense</i>, e
-na <i>Trombeta Ulyssiponense</i>, de que Aurelio Goes
-era redactor effectivo.</p>
-
-<p>O morgado de Reguengos e o proprietario das
-Alcaçovas riram a bandeiras despregadas quando
-ouviram lêr a acta, e declararam categoricamente
-que, se os duellistas houvessem tentado bater-se,
-teriam ido separal-os a murro e a ponta-pé.</p>
-
-<p>Havia tal energia alemtejana n’esta declaração
-dos dois, que toda a gente os acreditou, incluindo
-os padrinhos e os proprios duellistas.</p>
-
-<p>Julio de Lemos sentiu os seus nervos mais
-tranquillos, porque a verdade é que ninguem
-sabe aonde uma bala póde ir parar; mas por outro
-lado foi obrigado a reconhecer que lhe faltava
-o prestigio da heroicidade, que lhe tinha
-fugido das mãos um titulo altamente recommendavel,—a
-reputação de duellista.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span></p>
-
-<p>D. Enrique Saavedra entendeu que eram horas
-de pôr têrmo á <i>tertulia</i>, quando na egreja de S.
-Julião bateram as dez. Que sua mulher estava
-só em casa... e além d’isso o banho... que a
-maré era cedo: respondia elle ás instancias com
-que lhe pediam meia hora, mais meia horinha ao
-menos. Mas a verdade era que D. Enrique estava
-aborrecido por lhe faltar o cirurgião ajudante,
-para fallar com elle sobre a politica do Hespanha,
-e que, por causa do duello, não apanhára
-ninguem a quem podesse massar.</p>
-
-<p>Na praia, quando a familia Saavedra se dirigia
-para casa, acompanhada por todos aquelles que
-constituiam o seu sequito habitual, um vulto
-passava em direcção opposta, e, sendo reconhecido,
-chegára-se a D. Enrique e dissera-lhe a
-meia voz, com alguma atrapalhação:</p>
-
-<p>—Sabe <i>usted</i> que ainda não pude até agora
-arranjar azeite bom para a caldeirada de amanha?!
-Com mau azeite não ha caldeirada que
-preste...</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer3.jpg" width="150" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header1.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>IV</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="160" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Amanheceu glorioso o dia seguinte.</p>
-
-<p>Ás sete horas da manhã, já o conselheiro
-Antunes andava no velho mercado
-da praça do Sapal, comprando as
-melhores fructas que pôde encontrar.
-Tambem comprou algumas flôres para offerecer
-a D. Estanislada e a Soledad. Seguiam-n’o
-dois rapazitos com cêstas á cabeça. Do Sapal,
-onde não olhou a dinheiro, dirigiu-se para o mercado
-do peixe, onde comprou o melhor e o mais
-caro. A sorte favoreceu-o: os salmonetes eram
-a rôdos. A caldeirada devia ficar famosa.</p>
-
-<p>Foi no mercado do peixe que o estudante d’Alcacer
-lhe appareceu todo açodado.</p>
-
-<p>—Tão matutino, sr. Julio de Lemos! exclamou,
-ao vêl-o, o conselheiro.</p>
-
-<p>—Ha caso! respondeu o estudante.</p>
-
-<p>—Caso! repetiu com surpresa o conselheiro.
-Querem vêr que a D. Estanislada tornou a apanhar
-uma indigestão, e que já não vamos a Troia!
-Pois ha de perder-se tudo isto!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span></p>
-
-<p>E com um olhar desalentado, em que se liam
-poemas d’angustia, relanceou os olhos ás flores,
-ás fructas, ao peixe. Se podesse olhar para si
-mesmo, o conselheiro Antunes tel-o-ia feito involuntariamente,
-significando a magua que lhe causava
-o perder-se tambem elle proprio, o seu raro
-talento culinario, que desejava exhibir, n’esse dia,
-perante D. Estanislada, e os outros.</p>
-
-<p>—Qual! Nada d’isso e melhor que isso!</p>
-
-<p>Aquietou-se o semblante do conselheiro, que
-entretanto se havia lembrado de que se perderia
-tambem o excellente azeite, que finalmente podéra
-descobrir. Não era isso? Ainda bem! Salvava-se
-tudo, incluindo o azeite magnifico e o
-talento culinario.</p>
-
-<p>Julio de Lemos, rapidamente, explicou:</p>
-
-<p>—Chegaram hontem á tarde as <i>netas do Padre
-Eterno</i>!</p>
-
-<p>O conselheiro fez uma cara de espanto, de surpreza,
-e desconfiança: cara de quem não percebia
-nada.</p>
-
-<p>—Como! exclamou. As <i>netas do Padre Eterno</i>!
-Então vossa senhoria, sr. Julio de Lemos,
-propõe-se agora brincar com o Padre Eterno e
-comigo!</p>
-
-<p>E, de repente, reconquistou toda a plenitude do
-seu bello ar conselheiratico, muito emproado.</p>
-
-<p>—Pois vossa excellencia imagina que estou
-brincando! respondeu o estudante. As <i>netas do
-Padre Eterno</i> são tres lindas meninas da Messejana,
-que já cá estiveram ha dois annos, e deixaram
-toda a gente encantada.</p>
-
-<p>—Mas o que têm essas tres lindas meninas
-com o Padre Eterno? perguntou auctoritariamente
-o conselheiro.</p>
-
-<p>—Têm... que são netas do avô. Nós pozémos-lhes
-a alcunha de netas do Padre Eterno,<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span>
-porque o avô, o Rodarte, é um velho de grandes
-barbas brancas, que faz lembrar as imagens do
-Padre Eterno. Não ha ninguem mais estimavel
-do que o bom velho, que morre por jogar o voltarete,
-e que mette as cartas pelos olhos dentro,
-porque é muito myope. Mas as netas, as netas,
-sr. conselheiro, são as tres graças, acredite!</p>
-
-<p>—Bem! Bom é que a praia se vá animando
-cada vez mais! Mas não percebo a razão por que
-o sr. Julio de Lemos classifica de <i>caso</i> esse acontecimento,
-aliás vulgar!</p>
-
-<p>—É que eu encontrei-as agora. Estive-lhes a
-contar o que ia por cá, o que nos temos divertido
-com a familia de D. Enrique, e a caldeirada
-que hoje vamos fazer, graças ao talento culinario
-de vossa excellencia.</p>
-
-<p>—Muito obrigado pelo seu obsequio, disse o
-conselheiro, lisongeado nas suas prosapias de
-Vatel amador.</p>
-
-<p>—E, como ellas mostrassem pena de perder a
-caldeirada, julguei que não era decente deixar de
-convidal-as. Vinha, portanto, prevenir d’isto
-vossa excellencia, na sua qualidade de nosso
-amavel amphitryão, e pedir-lhe desculpa da minha
-ousadia, que aliás as circumstancias justificam.</p>
-
-<p>—É um acto de gentileza, que se deve ter sempre
-com as damas... Nada tenho que objectar.
-Apenas, não sei se a familia de D. Enrique deveria
-ter sido prevenida primeiro...</p>
-
-<p>—Qual! N’uma praia não ha dessas etiquetas.
-De mais a mais D. Estanislada e Soledad são
-muito sociaveis, gostam immenso de boa companhia,
-e a prova está em que apreciam sempre a
-presença de vossa excellencia...</p>
-
-<p>—Oh! sr. Julio de Lemos! Mil vezes obrigado...
-Bem! bem! Eu vou reforçar um pouco o<span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span>
-contingente dos salmonetes, visto que os ha com
-abundancia no mercado, felizmente! Só peço a
-vossa senhoria que tenha a bondade de explicar
-a D. Estanislada o gentil passo que deu, de modo
-a não me poder ser imputada a iniciativa d’elle.</p>
-
-<p>—Perfeitamente. Mil vezes obrigado. Então a
-que horas é a partida? Preciso ir prevenir as Rodartes.</p>
-
-<p>—Ás duas em ponto, no caes do Livramento.</p>
-
-<p>—Bem! bem! Ás duas em ponto lá estaremos,
-e terá vossa excellencia occasião de conhecer
-as tres lindas netas...</p>
-
-<p>—Do Padre Eterno, atalhou, sorrindo, o conselheiro.</p>
-
-<p>E foi d’ali <i>reforçar</i>, como elle disse, <i>o contingente
-dos salmonetes</i>.</p>
-
-<p>O estudante andára com certa finura em todo
-este negocio.</p>
-
-<p>Quando viu as Rodartes, que eram realmente
-tres lindas mulheres, ficou contentissimo por se
-lhe deparar tão feliz achado. Lembrou-se logo de
-que ellas cahiam do ceu para disputar a Soledad
-o premio da belleza. D’este modo conseguir-se-ia
-abater, pela concorrencia, o orgulho da andaluza.
-E elle, namorando alguma das tres, a
-Hilda, principalmente, a quem já havia, dois annos
-antes, arrastado a aza, vingar-se-ia dos desdens
-com que Soledad acolhia por vezes, sempre
-caprichosa e indefinida, os seus galanteios.</p>
-
-<p>Inculcou-se ao Rodarte e ás netas como um
-dos promotores da caldeirada, tendo portanto auctoridade
-para fazer o convite, que, n’essa fé, foi
-acceito.</p>
-
-<p>Depois correu a procurar o conselheiro, mudando
-as guardas á fechadura: desculpando-se
-do que fizera, pois que o conselheiro era o amphitryão
-da caldeirada.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span></p>
-
-<p>E, tendo visto flôres dentro de um dos cestos,
-flôres que eram certamente destinadas a D. Estanislada
-e Soledad, não quiz ficar atraz em gentileza
-para com as Rodartes. Foi ao Sapal comprar
-dois ramos de flôres, que uma palmelôa lhe
-vendeu por quatro vintens. O seu desejo era comprar
-tres ramos, mas, para isso, não lhe chegava
-o dinheiro. Cortou o nó gordio, desfazendo
-em casa os dois ramos, e compondo tres, que
-sahiram mais geitosos do que estavam os dois.</p>
-
-<p>Olhando, contente da sua obra, para elles, teve
-Julio de Lemos esta observação sensatissima:</p>
-
-<p>—Para saber economia, não é preciso ser economista:
-basta não ter dinheiro.</p>
-
-<p>Depois foi avisar a familia Rodarte de que ás
-duas horas em ponto partiriam todos do caes do
-Livramento.</p>
-
-<p>Ficaram contentissimas as Rodartes com a boa
-estreia que a sua estação balnear ia ter.</p>
-
-<p>Orphãs de pai e mãe muito novas, era com o
-avô que tinham sido creadas. Baboso por ellas, o
-velho Rodarte fazia o que as netas queriam, não
-tinha vontade propria. Extremamente myope, como
-o estudante d’Alcacer dissera, ia para toda a
-parte comboyado pelo braço de alguma das netas,
-quasi sempre Salomé, que era a mais velha,
-e das tres a menos formosa. Tinha vinte e tres
-annos.</p>
-
-<p>Hilda e Maria Ignez eram gémeas e encantadoras.
-Vinte e um annos adoraveis. Mulheres
-fortes, de olhos negros, faces radiosas, braços
-<i>potelés</i>, cobertos de um frouxel que reluzia ao
-sol como uma pennugem de ouro.</p>
-
-<p>Salomé era menos forte e menos bella. Mas
-havia na sua physionomia uma graça peninsular,
-que não tinha inveja á formosura. E a sua conversação,
-os seus ditos de espirito, partiam da<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span>
-sua bocca graciosa e sã como settas que brilhavam
-mais do que feriam.</p>
-
-<p>Eram ricas, duplamente ricas, pelo pae e pela
-mãe. No districto de Beja não havia casa melhor
-do que a sua, cujas herdades e montados se espalhavam
-para o oriente até ao Chança e para o
-sul até Almodovar.</p>
-
-<p>O avô recommendava-lhes sempre que não tivessem
-pressa de casar, porque não poderiam
-encontrar noivos que as estimassem mais do que
-elle.</p>
-
-<p>E enterradas na Messejana, lonje das tentações
-do mundo, ellas pareciam, realmente, não ter
-pressa de casar.</p>
-
-<p>No tempo dos banhos costumavam ir para Sines,
-que era uma semsaboria pouco melhor que
-a Messejana. Um anno, para variar, conseguiram
-arrastar o avô até Setubal, onde fizeram
-sensação, e ficaram sendo conhecidas pelas <i>netas
-do Padre Eterno</i>. Mas o avô fatigara-se com
-a jornada, e no anno seguinte voltaram para Sines.
-Agora fôra elle que voluntariamente, conhecendo
-que as suas tres graças preferiam naturalmente
-Setubal a Sines, se offerecera de motu
-proprio ao sacrificio, com a sua patriarchal bonhomia
-de avô baboso.</p>
-
-<p>Julio de Lemos, que encontrára na Physica da
-Escola Polytechnica um barranco ainda não vencido,
-resignava-se, durante as ferias, do desgosto
-que no fim de todos os annos lectivos recebia em
-Lisboa. Namorando e perpetrando o seu verso,
-preparava-se para no anno seguinte investir novamente
-com a Physica.</p>
-
-<p>Fôra um dos mais dedicados satellytes das <i>Netas
-do Padre Eterno</i>, quando ellas pela primeira
-vez appareceram em Setubal. Versejára em honra
-de todas tres, mas não era um namorado que<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span>
-ninguem tomasse a serio. Todos os galanteios
-que as irmãs Rodartes inspiraram, e foram muitos,
-não podiam auctorisar-se com a esperança
-de casamento. Mas, em compensação, ellas haviam
-atravessado triumphantemente Setubal, durante
-toda uma epocha balnear, sob uma chuva
-de flores.</p>
-
-<p>Agora, que voltavam inesperadamente, encontravam
-ainda Julio de Lemos escravisado pela
-Physica da Escóla Polytechnica, mas disposto a
-divinisal-as mais uma vez, não só para honrar o
-passado, como para aligeirar o presente, e, sobretudo,
-para vingar-se da altivez castelhana de
-Soledad.</p>
-
-<p>Orientado por este complexo programma, não
-podendo disfarçar a alegria com que se propunha
-realisal-o, appareceu ás duas horas em ponto,
-no caes do Livramento, acompanhando as formosas
-<i>Netas do Padre Eterno</i>, á frente Hilda e
-Maria Ignez, elle a par das duas, mais atraz
-Salomé dando o braço ao avô myope, como Antigone
-a Œdipo.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer4.jpg" width="150" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header6.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>V</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="150" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Estava já no caes a bella Soledad com toda
-a sua côrte.</p>
-
-<p>O conselheiro Antunes dava ordens,
-fazia recommendações aos barqueiros:
-que não esquecessem isto, que
-não deixassem ficar em terra os cabazes com as
-loiças, e as celhas com o peixe.</p>
-
-<p>D. Enrique lia um jornal hespanhol, recebido
-n’essa manhã, e de momento a momento commentava
-a leitura monologando: <i>Qué broma!</i></p>
-
-<p>D. Estalisnada mostrava-se encantada com a
-solicitude cavalheirosa do conselheiro Antunes,
-e fallava tantas vezes no azeite, que o morgado
-de Reguengos disse para o proprietario das Alcaçovas:
-«N’isto do azeite anda marosca; é linguagem
-combinada.»</p>
-
-<p>Quando o grupo das Rodartes chegou, houve
-sensação no grupo de Soledad. Foi como se duas
-côrtes se chocassem.</p>
-
-<p>O morgado de Reguengos, o proprietario das
-Alcaçovas, os dois officiaes de caçadores 1 e o<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span>
-Vianninha já as conheciam. Correram a cumprimental-as,
-a dar-lhes as boas-vindas, a fallar ao
-avô.</p>
-
-<p>Julio de Lemos, muito expansivo, apresentou a
-familia Rodarte aos que pela primeira vez a viam.</p>
-
-<p>Dirigindo-se a Soledad, teve uma phrase tão
-amável como ironica:</p>
-
-<p>—Ficará eternamente na memoria do rio Sado
-este encontro da belleza de Portugal com a belleza
-de Hespanha.</p>
-
-<p>Uma explosão de riso saudou esta apresentação
-original. As tres Rodartes sorriram, mas
-coráram. Soledad sorriu, mas feriu-se. Percebeu
-que n’esse momento lhe vacillava na cabeça a
-corôa de rainha da belleza, até ahi indisputada.</p>
-
-<p>A apresentação ao conselheiro Antunes foi, por
-parte do estudante, muito respeitosa:</p>
-
-<p>—Apresento a vossas excellencias um dos
-mais illustres e respeitaveis cavalheiros que tenho
-tido a honra de conhecer: o abastado proprietario
-de Santarem, dr. Antonio José Antunes,
-do conselho de sua magestade fidelissima, e presidente
-da junta geral d’aquelle districto. A vossa
-excellencia, sr. conselheiro, apresento o abastado
-proprietario da Messejana, o sr. Araujo
-Rodarte, e suas encantadoras netas.</p>
-
-<p>Julio de Lemos, em attenção a ser o conselheiro
-o amphitryão da festa, carregou a mão nos
-elogios que lhe teceu, para de algum modo o indemnisar
-da despeza que elle fizera <i>reforçando
-um pouco o contingente dos salmonetes</i>.</p>
-
-<p>D. Enrique, na primeira occasião que teve,
-perguntou a Julio de Lemos se o velho Rodarte
-era bom conversador. Ficou contente de obter
-uma resposta affirmativa, porque encontrava mais
-uma victima para as suas estopadas sobre a politica
-hespanhola.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span></p>
-
-<p>E, para estreitar desde logo as relações com a
-sua victima, dirigiu-se a ella dizendo-lhe:</p>
-
-<p>—<i>És usted un imponente anciano, de mi mayor
-respeto.</i></p>
-
-<p><i>Imponente anciano!</i> Esta só podia lembrar a
-um hespanhol! Mas as barbas brancas do velho
-Rodarte eram dignas da hespanholada.</p>
-
-<p>Embarcaram todos, não sem a hilaridade que
-o embarque de senhoras produz sempre. D. Estanislada
-precisou que o conselheiro Antunes,
-muito cavalheiresco, lhe désse a mão. Os barcos,
-largando do caes, aproáram a Troia.</p>
-
-<p>Soledad quiz que o sueco, cujo nome eu não
-citarei emquanto o não souber escrever correctamente,
-o que aliás não é facil, se sentasse a seu
-lado. Era a resposta ao cartel de desafio, que o
-estudante lhe trouxera com a presença das Rodartes.
-O seu raciocinio devia ter sido este: «Portugal
-quer esmagar-me? Pois bem! eu esmagarei
-Portugal.» E sobre o Sado, como na vespera, era
-a Suecia que triumphava.</p>
-
-<p>Chegados a Troia, tratou-se em primeiro logar
-de montar o arsenal culinario.</p>
-
-<p>O conselheiro Antunes quiz desde logo installar-se
-como Vatel amador. Muito methodico, elle
-mesmo dispunha os utensilios, procurava os
-tempêros, emquanto os barqueiros accendiam o
-lume. Dir-se-ia que elle desejava imprimir o cunho
-da sua individualidade não só á caldeirada,
-que ia cosinhar, mas ao trem da cosinha, que
-estava organisando com o maior esmero.</p>
-
-<p>Como, durante a travessia do Sado, o Vianninha
-e os officiaes de caçadores 1 fossem explicando
-que em Troia existira uma cidade romana,
-chamada Cetóbriga, de que se encontravam ainda
-ruinas e outros vestigios, taes como amphoras
-e medalhas, toda a caravana, com excepção de<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span>
-duas pessoas, quiz ir procurar as ruinas, especialmente
-as medalhas, pois que o Vianninha
-affirmava que se encontravam com facilidade, e
-que elle mesmo possuia uma de bronze do tempo
-de Trajano.</p>
-
-<p>As duas pessoas, que não acompanharam as
-outras, eram o conselheiro Antunes e D. Estanislada,
-que se offereceu para auxilial-o no mister
-de cosinheiro.</p>
-
-<p>D. Enrique achou isto muito natural, e o morgado
-de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas
-disseram entre si, commentando: «<i>Azeite</i>
-não falta; a caldeirada ha de ficar magnifica.»</p>
-
-<p>Soledad, fingindo que lhe custava a andar sobre
-a area, enfiou o braço no do sueco, pendurando-se
-d’elle com abandono. Continuava, portanto,
-a sustentar o seu plano de combate. Em
-Troia, como no Sado, era a Suecia que triumphava.</p>
-
-<p>Os outros perceberam a intenção de Soledad,
-e rodeavam, em despique, as tres Rodartes, acompanhando-as
-n’uma especie de cortejo triumphal
-e de certamen galante. O proprio hespanholito
-D. Ramon, julgando-se vencido pela Scandinavia,
-vingava a Iberia masculina arrastando a
-aza a Maria Ignez. O jornalista Aurelio Goes e o
-marialva do Chiado pareciam propender mais
-para Hilda. O proprietario das Alcaçovas e o
-morgado de Reguengos entabolaram conversação
-com Salomé sobre assumptos graves do
-Alemtejo: porcos e cortiça. Os officiaes de caçadores
-1 e o Vianninha iam adiante dos grupos
-em exploração archeologica. Julio de Lemos, já
-despeitado pela concorrencia dos outros, especialmente
-de Aurelio Goes, que não respeitava
-os seus direitos de apresentante, e lhe estorvava
-a conquista de Hilda, principiava a lamentar-se<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span>
-de ter perdido a occasião do duello para lhe atravessar
-o coração com uma bala.</p>
-
-<p>«Quem o seu inimigo poupa, pensava elle, nas
-mãos lhe morre.»</p>
-
-<p>D. Enrique apossara-se do <i>imponente anciano</i>,
-levava-o a reboque pelo braço, e descrevia-lhe
-os horrores da insurreição cantonal, parando a
-cada momento, exclamando:</p>
-
-<p>—<i>Que barbaridad!... que atentado!</i></p>
-
-<p>O alferes Ruivo, o tenente Epaminondas e o
-Vianninha indicaram alguns vestigios da antiguidade
-romana de Cetóbriga, a que ninguem
-deu grande importancia.</p>
-
-<p>Como o morgado de Reguengos mettesse á bulha
-o Vianninha por causa da grande abundancia
-de moedas, que segundo elle, se encontravam
-em Troia, o Vianninha, auxiliado pelos dois militares,
-ainda quiz justificar-se, excavando no
-areal.</p>
-
-<p>Soledad, conversando com o sueco, cuja face
-irradiava como uma aurora polar, olhava desdenhosamente
-para tudo aquillo.</p>
-
-<p>Aurelio Goes, colhendo uma florinha que brotava
-da areia humida, offereceu-a a Hilda Rodarte.</p>
-
-<p>Julio de Lemos estava fulo; a sua sêde de vingança
-abrangia agora duas pessoas: Soledad e
-o redactor da <i>Trombeta Ullyssiponense</i>.</p>
-
-<p>Mastigava represalias... em sêcco.</p>
-
-<p>Não appareceu nenhuma moeda romana, apesar
-das affirmações categoricas do Vianninha, e
-do padre Vicente Salgado, um franciscano erudito,
-que, occupando-se do assumpto, havia chamado
-a Troia—<i>terreno fertilissimo d’estes achados</i>.</p>
-
-<p>Como o sol apertasse, o numeroso grupo, dividido
-em pelotões, retrocedeu, a fim de procurar<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span>
-o abrigo do toldo que os barqueiros já deviam
-ter armado, para sob elle ser servida a caldeirada.</p>
-
-<p>Com effeito, estava quasi prompto o improvisado
-pavilhão, feito de vélas de barco.</p>
-
-<p>O conselheiro Antunes e D. Estanislada, afogueados
-do rosto, debruçados sobre a caldeira,
-provavam pela mesma colhér o tempêro da caldeirada,
-e annunciavam que estava divina.</p>
-
-<p>Soledad, fingindo-se fatigada, sentou-se á sombra
-do toldo, deixando ficar a descoberto metade
-do sapato enfitado. O sueco, embasbacado,
-bebado de amor, contemplava-lhe o pé, respondendo
-muito abstracto ao que ella lhe dizia.</p>
-
-<p>Julio de Lemos começou a fazer troça do sueco,
-com os outros. Havia risinhos. Soledad percebia,
-e de vez em quando ella mesma, com uma audacia
-castelhana, olhava para a ponta do sapato,
-como a encaminhar para esse alvo, que aliás era
-preto, o olhar do sueco.</p>
-
-<p>Mas, de repente, notando que Aurelio Goes tivera
-a ousadia de sentar-se na areia perto de Hilda,
-perdeu a tramontana e começou a escancarar
-umas gargalhadas alvares. Resolveu logo
-embebedar-se para tirar a desforra.</p>
-
-<p>O conselheiro Antunes, apparecendo debaixo
-do pavilhão, annunciou que ia ser posta a toalha,
-porque a caldeirada estava prompta, e que por
-isso cada um devia tratar de occupar logar em
-volta do recinto destinado á toalha.</p>
-
-<p>Por uma evolução rapida, mas estrategica, Julio
-de Lemos sentou-se na areia entre Hilda e Soledad,
-ganhando uma excellente posição. O sueco
-poude ainda aninhar-se á direita de Soledad, e o
-Goes á esquerda de Hilda. Mas o estudante de
-Alcacer ficou ardendo entre dois fogos, tinha á<span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span>
-direita a Hespanha e á esquerda a Messejana:
-ficou no meio da Peninsula.</p>
-
-<p>Quando D. Estanislada appareceu, notou-se
-que ella vinha um pouco mascarrada n’uma das
-faces.</p>
-
-<p>—É talvez do fumo da caldeira, explicou, muito
-solicito, o conselheiro Antunes.</p>
-
-<p>Os homens, com excepção de D. Enrique, trocavam
-entre si olhares intelligentes: o conselheiro
-Antunes pintava o bigode.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer5.jpg" width="150" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header12.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>VI</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="160" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">A caldeirada estava deliciosa: até os anjos
-a poderiam comer.</p>
-
-<p>O conselheiro havia carregado a mão
-no tempêro: a pimenta fazia arder
-a bocca. Mas era bom, muito apetitoso,
-puxativo, como dizia Julio de Lemos, bebendo
-grandes tragos de uma boa pinga de Azeitão,
-por uma caneca branca, comprada, como
-toda a outra loiça, na Innocencia da Praia.</p>
-
-<p>A conversação animára-se, phrases cruzavam-se,
-havia allusões, referencias que esvoaçavam
-por sobre a cabeça dos convivas. Julio de Lemos
-dizia coisas para a direita e para a esquerda,
-a Soledad e a Hilda, quasi sem dar tempo a que
-ellas podessem responder a mais ninguem.</p>
-
-<p>O sueco embezerrou despeitado, não fallava, e
-o redactor da <i>Trombeta</i>, muito habituado a <i>lunchs</i>,
-comia como uma frieira, mettendo a colherada
-em todos os assumptos. Era um perfeito
-exemplar de jornalista.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span></p>
-
-<p>Soledad, sempre incomprehensivel, mudou da
-tactica. Desfazia-se em amabilidades com o estudante,
-ella mesma lhe enchia de vinho a caneca
-de loiça, e lhe suggeria a inspiração dos
-brindes.</p>
-
-<p>Hilda, menos petulante que a hespanhola, conservava-se
-modesta n’aquella atmosphera capitosa
-de vinho e pimenta. As irmãs, como ella,
-respondiam concertadamente ás perguntas e ás
-amabilidades que lhes dirigiam.</p>
-
-<p>O sueco, muito rubro, soprava como uma fóca,
-e Soledad parecia divertir-se com isso, gostar de
-o vêr subitamente despenhado do pedestal a que
-o tinha subido.</p>
-
-<p>D. Estanislada entrava pela caldeirada com o
-desembaraço de quem está habituado a indigestões.
-E D. Enrique, para não envergonhar a mulher,
-acompanhava-a no bom apetite com que repetia
-salmonete sobre salmonete.</p>
-
-<p>O conselheiro, como um artista que se sente
-galardoado, comia pouco, contentava-se de vêr
-comer os outros. Reconhecia-se lisongeado no
-apetite alheio, especialmente no de D. Estanislada,
-que era francamente glorioso para elle.</p>
-
-<p>O Rodarte, muito discreto, encarecia o talento
-culinario do conselheiro, dizia-lhe que nunca na
-sua vida tinha comido uma caldeirada que lhe
-soubesse melhor.</p>
-
-<p>Julio de Lemos, já meio tonto, aproveitou de
-uma vez a deixa do Rodarte, e, pondo-se de joelhos,
-caneca em punho, declamou:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Eu saúdo o illustre conselheiro,</div>
-<div class="verse">Ultimo em nada, e em tudo o mais primeiro</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Aurelio Goes desfechou uma gargalhada, interrompendo
-o improviso.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span></p>
-
-<p>—Que é lá isso?! perguntou o estudante esgalgando-se,
-para o ver, por deante de Hilda.</p>
-
-<p>E o Rodarte, muito prudente, muito discreto,
-deitou agua na fervura:</p>
-
-<p>—Não é nada. Tudo aqui se passa em boa
-amisade. Queira continuar, sr. Lemos.</p>
-
-<p>—Acha mau talvez, o menino! Elle que os faça
-melhores, se é capaz, insistiu o estudante.</p>
-
-<p>—Então!... então! atalhou o Rodarte. Queira
-continuar o seu improviso.</p>
-
-<p>—Já lhe perdi o fio! Não sei... Ora esta!...
-Acho que era isto:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Mas unico talvez na caldeirada:</div>
-<div class="verse">Que é comêl-a e morrer...</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Julio de Lemos engasgou-se.</p>
-
-<p>—Não diz mais nada?! exclamou o tenente
-Epaminondas completando o verso em que o estudante
-se pegára.</p>
-
-<p>Uma explosão de gargalhadas saudou este comico
-episodio, e o estudante, que não tinha espinha
-com o tenente, antes era seu amigo, riu
-tambem, aproveitando a tangente para fugir á difficuldade
-do verso.</p>
-
-<p>Então Aurelio Goes, pondo-se de pé, bateu as
-palmas, e recitou:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Eu, n’esta agradavel festa,</div>
-<div class="verse">Tão grata e tão jovial,</div>
-<div class="verse">Brindo, honrando o bello sexo,</div>
-<div class="verse">Por Hespanha e Portugal.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>—São de cravo da Praça da Figueira! berrou
-o estudante.</p>
-
-<p>—Viva! viva! clamaram muitas vozes cobrindo
-com applausos a inconveniente apostrophe do
-estudante.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span></p>
-
-<p>E o velho Rodarte, apoiando-se no hombro de
-Salomé, levantou-se pausadamente.</p>
-
-<p>—Tambem eu quero fazer o meu brinde.</p>
-
-<p>Logo se estabeleceu um silencio respeitoso.</p>
-
-<p>—Ora, meus senhores, como eu, nas barbas,
-me pareço um pouco com S. Pedro, permittam-me
-que feche a porta dos brindes. Bebo em honra
-do illustre conselheiro, dignissimo presidente da
-junta geral do districto de Santarem.</p>
-
-<p>Beberam todos. E levantaram-se a pouco e
-pouco, alguns com difficuldade.</p>
-
-<p>O conselheiro foi abraçar o Rodarte, agradecer-lhe,
-e, emquanto se abraçavam, cochicharam
-ao ouvido.</p>
-
-<p>Os barqueiros trataram de recolher as loiças,
-e os cabazes.</p>
-
-<p>E o Rodarte, muito previdente, disse que, seria
-melhor que o barco fosse primeiro a Setubal
-levar as senhoras, e que voltasse depois. Que
-elle, pela sua idade avançada, desde já se considerava
-senhora; que o sr. conselheiro, que devia
-estar fatigado, iria tambem com as senhoras,
-bem como D. Enrique, para acompanhar a esposa
-e a filha. Era a combinação que tinham
-feito ao ouvido, suggerida pela prudencia do velho
-Rodarte.</p>
-
-<p>Os outros ficaram com cara de parvos, mas o
-Rodarte, chamando de parte o morgado de Reguengos
-e o proprietario das Alcaçovas, explicou-lhes:</p>
-
-<p>—Que aquillo era preciso por causa dos rapazes.
-Que desculpassem. E que lhes pedia o favor
-de olharem por elles.</p>
-
-<p>Um e outro concordaram:</p>
-
-<p>—Que era bem pensado. Que estivesse tranquillo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p>
-
-<p>Largou de Troia o barco com as senhoras, D.
-Enrique, o Rodarte e o conselheiro.</p>
-
-<p>Os rapazes ficaram por longo tempo acenando
-com os lenços, dizendo adeus.</p>
-
-<p>Desembarcaram as damas no caes do Livramento,
-e o barco voltou a buscar os que tinham
-ficado.</p>
-
-<p>Entretanto cahia a noite, as trevas principiavam
-a descer sobre o Sado, a envolvel-o n’um
-veo que a pouco foi perdendo a transparencia.
-Apenas um ponto luminoso brilhava ao longe na
-areial de Troia.</p>
-
-<p>Deram oito horas, e o barco não tinha voltado
-ainda.</p>
-
-<p>No café <i>Esperança</i>, do Zé Lapido, esperava-se
-o regresso dos rapazes.</p>
-
-<p>Uns commentavam:</p>
-
-<p>—Que tal foi a bebedeira!</p>
-
-<p>Outros, mais timoratos, diziam:</p>
-
-<p>—Queira Deus que não acontecesse por lá alguma
-semsaboria!</p>
-
-<p>Deram nove horas, e o barco não voltava.</p>
-
-<p>Então alguns officiaes de caçadores resolveram
-ir a Troia ver o que tinha acontecido.</p>
-
-<p>Tomaram um barco, e largaram.</p>
-
-<p>A meio do rio, ouviram o ranger de remos, e
-perguntaram:</p>
-
-<p>—Quem vem lá?</p>
-
-<p>—Somos nós, respondeu a voz do proprietario
-das Alcaçovas.</p>
-
-<p>—Ha novidade a bordo? disseram os officiaes.</p>
-
-<p>—Nenhuma, respondeu o morgado de Reguengos.</p>
-
-<p>Mas não se ouvia nenhuma outra voz.</p>
-
-<p>—Ali houve coisa!... disseram entre si os officiaes.</p>
-
-<p>E perguntaram:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p>
-
-<p>—Vem ahi os nossos camaradas?</p>
-
-<p>—Vamos, respondeu o alferes Ruivo.</p>
-
-<p>—Vamos, respondeu o tenente Epaminondas.</p>
-
-<p>—Ali houve coisa, porque elles vem muito silenciosos!...
-continuavam a dizer entre si os officiaes
-que tinham ido procurar os outros.</p>
-
-<p>Os dois barcos chegaram quasi ao mesmo
-tempo ao caes do Livramento. Então poude verificar-se
-que effectivamente os da caldeirada vinham
-macambuzios, entrombados, e que o sueco,
-estatelado no fundo do barco, e occupando-o
-quasi todo, dormia profundamente, a ponto de
-terem que acordal-o berrando.</p>
-
-<p>E como elle grunhisse uns roncos cavernosos,
-sem comtudo se levantar, foi preciso que o proprietario
-das Alcaçovas, com o seu pulso de ferro,
-o filasse pelo gasnete, e o pozesse de pé.</p>
-
-<p>—Mas o que se passou? o que se passou?
-perguntavam cheios de curiosidade os que tinham
-ido buscal-os.</p>
-
-<p>—Vamos lá para o Zé Lapido tomar um copo de
-genebra, disse o das Alcaçovas, e conversaremos.</p>
-
-<p>Quando entraram no café, e logo que se sentaram,
-deram pela falta do sueco, que se tinha
-escapulido.</p>
-
-<p>Todos os conhecidos, que estavam no botequim,
-lhes fizeram circulo, sentando-se em torno da
-mesma mesa.</p>
-
-<p>O tenente Epaminondas contou miudamente
-as peripecias do <i>pic-nic</i>, incluindo a mascarra de
-D. Estanislada, historia que produziu grande hilaridade
-no auditorio.</p>
-
-<p>Depois poz em relevo a prudente astucia com
-que o <i>Padre Eterno</i>, pois que no café todos lhe
-chamavam assim, se safára com as netas e as
-hespanholas quando vira romper as hostilidades
-entre o estudante e o jornalista.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span></p>
-
-<p>Disse que, logo que o barco partiu, o sueco
-investira, muito bebado, contra o estudante, accusando-o
-de acintosamente ter ido sentar-se ao
-lado de Soledad para o prejudicar nas vantagens
-que, como preferido, havia conquistado nos ultimos
-dias.</p>
-
-<p>Que, por sua vez, o estudante, não menos bebado,
-começara a implicar com o Goes, accusando-o
-de o ter querido metter a ridiculo, prejudicando-lhe
-o improviso com uma gargalhada insolente.</p>
-
-<p>O sueco agarrava-se ao estudante, e o estudante
-ao jornalista.</p>
-
-<p>Fôra preciso que os outros interviessem apartando-os
-a murro, e contou o tenente que o proprietario
-das Alcaçovas conseguira abalar a columna
-vertebral e a colera do sueco com um valente
-pontapé applicado em cheio no sitio em que
-as costas mudam de nome.</p>
-
-<p>—E a Scandinavia resoou! observou humoristicamente
-o alferes Ruivo.</p>
-
-<p>Gargalhada geral.</p>
-
-<p>—Que no meio de toda esta balburdia o morgado
-de Reguengos lembrára jovialmente que,
-para de uma vez pôr termo a tão impertinentes
-conflictos, e definir a situação de todos, o melhor
-seria confiar á sorte a distribuição do papel amoroso
-de cada um.</p>
-
-<p>Esta lembrança produzira um excellente effeito,
-foi como que um punhado de areia atirado aos
-olhos de todos. Cegou-os. Todos imaginavam que
-seriam favorecidos pela fortuna e que, d’esse modo,
-ficariam livres de concorrentes perigosos e
-incommodos.</p>
-
-<p>Deram pois a sua palavra de que respeitariam
-fielmente os decretos da sorte.</p>
-
-<p>Trataram então de espertar a fogueira, que tinha
-servido para a caldeirada. E á luz d’ella fizeram,<span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span>
-de cartas velhas e outros pedaços de papel,
-pequenas listas, em que escreveram a lapis
-os nomes de todos elles. Enroladas as listas, deitaram-n’as
-na copa de um chapeu. Depois inscreveram
-n’outras listas os nomes das quatro damas,
-mas, n’esta occasião, houve um protesto
-do proprietario das Alcaçovas, que reclamou a
-favor do recenseamento de D. Estanislada, como
-<i>premio de consolação</i> ao que ficasse a ver navios.</p>
-
-<p>O jornalista observou que D. Estanislada já
-pertencia, pela mascarra, ao conselheiro Antunes.</p>
-
-<p>O morgado sustentou o seu protesto, auctoritariamente,
-dizendo que, desde o momento em que
-a sorte era chamada a decidir, desapparecia a
-principio dos <i>direitos adquiridos</i>.</p>
-
-<p>Por essa occasião o estudante observára:</p>
-
-<p>—Sim, senhor! Fica abolido o direito pautal do
-<i>azeite</i>.</p>
-
-<p>Todo o café <i>Esperança</i> ria, a bandeiras despregadas,
-com a narração do tenente Epaminondas.</p>
-
-<p>Lançadas as cinco listas, e mais algumas em
-branco na copa de outro chapeu, procedeu-se ao
-sorteio, que deu o seguinte resultado:</p>
-
-<p><i>Morgado de Reguengos—D. Hilda.</i></p>
-
-<p><i>Proprietario das Alcaçovas—D. Maria Ignez.</i></p>
-
-<p><i>D. Ramon Mendoza—Soledad.</i></p>
-
-<p><i>Vianninha—Salomé.</i></p>
-
-<p><i>O sueco—D. Estanislada.</i></p>
-
-<p>Os que a sorte desfavorecera, especialmente o
-sueco, o estudante e o jornalista, romperam em
-protestos contra o acto eleitoral, distinguindo-se
-o sueco que, nem pelo diabo, queria resignar-se
-a acceitar D. Estanislada.</p>
-
-<p>E tanto berrava e barafustava, que o proprietario
-das Alcaçovas teve que atiral-o para o fundo
-do barco, onde elle escabujou ao principio e adormeceu
-depois.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header7.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>VII</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-n.jpg" width="210" height="130" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">No dia seguinte, pela manhã, appareceu
-affixado nas esquinas de Setubal o
-seguinte pasquim:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<div class="verse">A roda que andou em Troia,</div>
-<div class="verse">Andou bem, quem o diria!</div>
-<div class="verse">Nem mesmo a da Santa Casa</div>
-<div class="verse">É tão boa loteria.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">O premio grande de Hespanha</div>
-<div class="verse">Ficou na Hespanha. Era justo.</div>
-<div class="verse">E o sueco, derreado,</div>
-<div class="verse">Inda assim, salvou-se... a custo!</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">O Alemtejo, que a sopapo</div>
-<div class="verse">Tudo escaca e tudo arrasa,</div>
-<div class="verse">Não apanhando <i>a taluda</i>,</div>
-<div class="verse">Ficou bem, ficou em casa.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Setubal, n’esta partilha,</div>
-<div class="verse">Tem motivos d’alegria,</div>
-<div class="verse">Porque a sorte, previdente,</div>
-<div class="verse">Deu-lhe <i>sal</i> na loteria.</div><span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Só Minerva e Guttemberg,</div>
-<div class="verse">Marte e a junta geral,</div>
-<div class="verse">Por não beberem <i>azeite</i>,</div>
-<div class="verse">Ficam olhando ao signal.</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Este pasquim attraiu a curiosidade, produziu
-risota, foi lido com vivo interesse.</p>
-
-<p>Como era natural, todos procuraram interpretar
-as allusões n’elle contidas, e assim aconteceu
-que não só o facto principal, o sorteio, se tornou
-ao dominio publico, mas tambem tiveram grande
-notoriedade todos os episodios que accidentaram
-alegremente o <i>pic-nic</i> da vespera.</p>
-
-<p>De pergunta em pergunta todos ficaram sabendo
-o que se tinha passado, e entendendo cabalmente
-o pasquim, com excepção de uma só
-quadra.</p>
-
-<p>Não restou duvida a ninguem de que Minerva
-se referia ao estudante, Guttemberg ao jornalista,
-e Marte ao alferes e ao tenente de caçadores.</p>
-
-<p>Uma só passagem permaneceu obscura por
-muito tempo, o sentido da quarta quadra ficava
-em suspenso, pois que não podia atinar-se com a
-allusão ao <i>sal</i> no ultimo verso.</p>
-
-<p>Que aquillo era com o Vianninha, percebia-se,
-visto ser elle o unico setubalense que tinha assistido
-a caldeirada. Mas o <i>sal</i>, sublinhado, era
-um problema, um enygma, um hieroglipho.</p>
-
-<p>Alguns curiosos roiam as unhas parados ás
-esquinas, matutando deante dos pasquins. Que
-diabo de <i>sal</i> era aquelle? O que queria dizer
-aquillo?</p>
-
-<p>Alguem lembrou que o Castanha, mestre-escola,
-apezar de vesgo, via bem as charadas. Era
-um alho para as decifrar. Chamou-se o Castanha,
-que estava a dar aula, decifrando enygmas do<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span>
-<i>Almanach de Lembranças</i>, emquanto os pequenos
-se entretinham uns com os outros.</p>
-
-<p>Era como elle dava aula sempre.</p>
-
-<p>O Castanha veio quasi em triumpho até á primeira
-esquina,—essa esquina que devia, em
-breve, converter-se para elle n’um monumento
-de gloria... salvo o mictorio.</p>
-
-<p>Explicaram-lhe o caso, o que se tinha passado,
-e a duvida em que estavam quanto ao vocabulo
-<i>sal</i>.</p>
-
-<p>O Castanha enviezou o olhar strabico ao cartaz,
-deteve-se um momento a engulir em sêcco,
-até que de repente, com a sagacidade de um charadista
-que combina idéas, perguntou:</p>
-
-<p>—Elle como se chama ella?</p>
-
-<p>O Castanha tinha o costume de anteceder pelo
-pronome—elle—todas as phrases interrogativas.</p>
-
-<p>—Ella, quem? perguntaram-lhe.</p>
-
-<p>—A madama que sahiu ao Vianninha?</p>
-
-<p>—Salomé.</p>
-
-<p>E o Castanha, desfiando as syllabas, <i>Sa-lo-mé</i>,
-monologava:</p>
-
-<p>—Não pode ser isso!</p>
-
-<p>Mas, de subito, exclama:</p>
-
-<p>—É isso, é!</p>
-
-<p>—Então é ou não é? perguntaram.</p>
-
-<p>—Não vêem, disse elle triumphalmente, não
-vêem que o nome—Salomé—principia por <i>sal</i>?!</p>
-
-<p>—É verdade! exclamaram vozes.</p>
-
-<p>—É isso! applaudiram bôccas.</p>
-
-<p>E o Castanha, muito enchicharrado, muito vesgo
-na commoção nervosa do triumpho, apartava os
-grupos para passar, charadista glorioso.</p>
-
-<p>Durante todo esse dia o sueco, o estudante, o
-jornalista e os dois officiaes de caçadores estiveram
-recebendo bilhetes de visita, a <i>pesames</i>, com<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span>
-palavras de sentimento, expressões de condolencia,
-pelo desgosto que acabavam de soffrer.</p>
-
-<p>Foi uma <i>scie</i> medonha, que partia do café <i>Esperança</i>,
-dizia-se, e dos outros officiaes de caçadores,
-rapazes alegres, que gostavam de divertir-se
-e não tinham muitas occasiões para isso.</p>
-
-<p>O sueco embatucou, deu sorte com a chalaça.
-Desappareceu de repente. Constou que tinha vindo
-para Cintra, a fim de evitar que a troça o perseguisse.</p>
-
-<p>Não se conheciam ainda outras consequencias
-d’aquella brincadeira fatal. Parecia que D. Enrique,
-o Rodarte e o conselheiro a ignoravam. Mas
-não aconteceu inteiramente assim.</p>
-
-<p>Dos tres, não tardou muito a mostrar-se desgostoso
-o conselheiro Antunes.</p>
-
-<p>Fallando com o estudante, extranhou, com palavras
-severas, que <i>se rifasse uma senhora casada</i>.
-Textual. Accrescentou que, se D. Enrique
-o soubesse, poderia haver <i>uma tragedia de sangue</i>.
-Tambem textual. Pela sua parte, apenas
-sentia que fosse elle proprio que tivesse proporcionado
-a occasião para um tão <i>grave desacerto</i>,
-inventando a caldeirada. Que o caso ja havia dado
-de si, porque o <i>respeitavel snr. sueco</i>, um cavalheiro
-digno de toda a estima, se havia auzentado,
-desgostoso.</p>
-
-<p>Julio de Lemos contestou que tudo aquillo não
-tinha passado de uma brincadeira inoffensiva,
-que em nada podia affectar a honra das cinco
-damas, todas ellas respeitabilissimas. Que o vocabulo—<i>rifa</i>—era
-violento, porque a rifa presuppunha
-immediata adjudicação do objecto rifado,
-e não se dava esse caso.</p>
-
-<p>Mas o conselheiro, procurando sustentar a sua
-opinião, descobriu um pouco as baterias. Deixou
-perceber que a expressão do pasquim—<i>junta<span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span>
-geral</i>—o tinha maguado pessoalmente. E como
-o estudante se lembrasse de dizer que a <i>junta geral</i>
-do pasquim não era a do districto de Santarem,
-mas a collectividade dos pretendentes amorosos
-das trez Rodartes e da hespanhola (velhacamente,
-o estudante ia pondo de parte D. Estanislada
-para lisongear o seu interlocutor) o
-conselheiro, muito formalisado, disse que não
-era pretendente á mão de nenhuma dama, que
-apenas se considerava um solteirão aposentado.
-Que se tivesse querido casar, o poderia ter feito
-ha muitos annos com formosas e abastadas senhoras
-de Santarem, de Almeirim e de Alpiarça.
-Que não só receiava que D. Enrique o viesse a
-saber, e se desgostasse, mas tambem que o <i>venerando
-Rodarte</i>, um modelo de cortezia e prudencia,
-se <i>chocasse</i> com essa <i>brincadeira de mau
-gosto</i>, que envolvia o nome das suas tres netas.</p>
-
-<p>No dia seguinte, um sabbado, D. Enrique foi
-visto no Sapal, passeiando e lendo, peripateticamente,
-uma gazeta de Sevilha. Parecia preoccupado.
-O conselheiro foi fallar-lhe. D. Enrique
-disse-lhe que ia passar alguns dias a Lisboa.
-Teria vontade o conselheiro de perguntar-lhe se
-ia só ou acompanhado. Mas não se atreveu a
-tanto. E logo conjecturou que era um pretexto
-de D. Enrique para retirar-se de vez, sem alarde.
-Aqui está, pensou o conselheiro com os seus excellentissimos
-botões, o que aquelles diabos arranjaram
-com a brincadeira da <i>rifa</i>!</p>
-
-<p>Deixando D. Enrique, o conselheiro foi dizendo,
-principalmente aos implicados na patuscada
-de Troia, que principiavam a fazer-se sentir as
-consequencias d’aquelle <i>grave desacerto</i>; que D.
-Enrique ia á Lisboa ou, segundo elle suspeitava,
-para Lisboa, d’onde talvez não voltasse, desgostoso.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span></p>
-
-<p>A noticia correu rapidamente. Alguns logistas,
-que tinham rido com o pasquim, começaram a
-queixar-se de que por uma imprudencia alheia
-estivessem arriscados a perder freguezes importantes.</p>
-
-<p>O conselheiro tirou-se dos seus cuidados, e
-foi á estação vêr partir o comboyo para Lisboa.
-D. Henrique e Soledad embarcaram. D. Estanislada
-ficava, portanto, só, em Setubal, durante
-alguns dias. Oh felicidade! exclamou mentalmente
-o conselheiro.</p>
-
-<p>De tarde, na Praia, o conselheiro parou a conversar
-com alguns grupos.</p>
-
-<p>—Então, D. Enrique sempre se retira para
-Lisboa?</p>
-
-<p>—Creio que sim, respondia elle; supponho
-que parte ámanhã.</p>
-
-<p>O velhaco! O que elle não queria era que se
-soubesse que o hespanhol já tinha partido, e que
-D. Estanislada ficára.</p>
-
-<p>Houve logo quem aventasse a ideia de que
-uma commissão do setubalenses viesse a Lisboa,
-no caso de D. Enrique partir, pedir-lhe que não
-desse importancia a uma mera brincadeira, e
-que voltasse.</p>
-
-<p>O Rodarte, esse, parecia ignorar tudo o que se
-passava. Ninguem o informou de que tivessem
-apparecido pasquins; não ousou fazel-o ninguem.
-E elle, muito myope, não podia tel-os lido.</p>
-
-<p>Conversando com o morgado de Reguengos
-apenas dissera que os <i>pic-nics</i> eram a mais arriscada
-de todas as distracções de uma praia.
-Que se felicitava por ter tido a boa ideia de deitar
-agua na fervura, fechando a serie dos brindes,
-que já estavam denunciando uma certa
-excitação dos convivas, quando julgou opportuno
-intervir.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span></p>
-
-<p>O proprietario das Alcaçovas tambem, n’essa
-tarde, acompanhava o grupo do <i>Padre Eterno</i> e
-das netas, porque, tanto elle como o morgado,
-estavam resolvidos a fazer valer os direitos que
-a sorte lhes proporcionára.</p>
-
-<p>Poderiam, ambos elles, ter supplantado a murro
-e a pontapé todos os outros concorrentes.
-Mas fazel-o seria violento... especialmente para
-as victimas. Os dois, homens fortes, de musculo
-tuchado, possuiam o bom humor e a prudencia
-que os nevroticos desconhecem.</p>
-
-<p>A hespanhola impozera-se-lhes pela belleza, no
-primeiro momento. Mas depois appareceram as
-Rodartes, bellas mulheres, habituadas á vida do
-Alemtejo, ricas, bem educadas, e ambos elles,
-sem o terem communicado um ao outro, acharam
-preferivel jogar com tino, na banca do Amor,
-a aventurarem-se á conquista de uma hespanhola,
-que tinha o grande defeito de ser caprichosa e
-de saber quanto valia.</p>
-
-<p>A primeira confidencia que os dois tiveram entre
-si foi á volta de Troia, quando o de Reguengos
-explicou ao das Alcaçovas que propozera a
-loteria, porque a sorte nunca deixára de o beneficiar
-sempre que a tentava.</p>
-
-<p>—Eu estava certo, disse elle, de que me calhava
-a hespanhola ou a Hilda, que eu preferia
-á hespanhola. Em loterias tenho uma sorte brutal.</p>
-
-<p>—Pois eu, respondeu-lhe o das Alcaçovas, sou
-infelicissimo em todos os jogos d’azar. Agora explico
-a minha sorte por termos sido parceiros no
-jogo.</p>
-
-<p>E riram ambos, riram muito, tomando a brincadeira...
-a serio.</p>
-
-<p>O Vianninha tambem n’essa tarde andou no
-grupo das Rodartes, arrastando a aza a Salomé,
-que o não recebia bem nem mal.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span></p>
-
-<p>O estudante de Alcacer appareceu, mas sumiu-se
-logo que viu o morgado de Reguengos a
-passeiar ao lado de Hilda Rodarte.</p>
-
-<p>—Então aquella grande besta, exclamou elle,
-toma a coisa a serio!</p>
-
-<p>O jornalista, com os officiaes de caçadores, e
-outros, sentados fóra da porta do Lapido, bebiam
-gazosa e faziam a critica do grupo que ia
-passando.</p>
-
-<p>D. Ramon Mendoza appareceu no botequim, e
-os da mesa da gazosa perguntaram-lhe com desfructe:</p>
-
-<p>—Então o que é feito do premio grande <i>d’usted</i>?</p>
-
-<p>—Eu sei lá! Nunca mais tornei a ver Soledad!</p>
-
-<p>E, batendo as palmas, mandou vir gazosa.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer6.jpg" width="150" height="170" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header4.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>VIII</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="160" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Ao anoitecer, o conselheiro Antunes foi,
-muito disfarçado, bater á porta de D.
-Enrique.</p>
-
-<p>Respondeu-lhe, do patamar, D.
-Estanislada, que perfeitamente lhe
-conheceu a voz.</p>
-
-<p>—Que D. Enrique tinha sahido com Soledad,
-disse ella, mas que subisse, que lhe dava com
-isso muito prazer.</p>
-
-<p>Tudo parecia correr ás mil maravilhas para o
-ditoso conselheiro. Que D. Enrique e a filha haviam
-sahido, bem o sabia elle: mas a facilidade
-amavel com que D. Estanislada o recebia em sua
-propria casa, não estando o marido, era quasi
-promessa de felicidade... immediata.</p>
-
-<p>O conselheiro, bastante manhoso para dissimular
-a alegria que esta risonha situação lhe causava,
-disse, parado ainda ao fundo da escada,<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span>
-algumas palavras aconselhadas por apparencias
-de conveniencia e respeito.</p>
-
-<p>—Mas, minha senhora, não sei se deva entrar...</p>
-
-<p>—Que entrasse, que subisse, porque, de mais
-a mais, havia de gostar da companhia.</p>
-
-<p>Esta phrase—<i>gostar da companhia</i>—pareceu
-maliciosa ao conselheiro. E, a seu ver, a promessa
-de immediata felicidade accentuava-se n’essa
-phrase.</p>
-
-<p>Subiu, pois, sentindo palpitar vertiginosamente
-o coração, que lhe dava saltos dentro do peito.</p>
-
-<p>Mas, entrando na saleta, ficou tão admirado,
-como contrariado, vendo que D. Estanislada não
-estava só.</p>
-
-<p>Ó desillusão! ó desapontamento!</p>
-
-<p>D. Estanislada apresentou-lhe as suas visitas:
-a senhoria e a filha.</p>
-
-<p>A senhoria, a sr.ª Magdalena, era uma mulher
-de cincoenta annos, viuva, muito devota e
-temente a Deus. A filha, a menina Ricardina, tinha
-vinte e dois annos, e um palmo de cara que
-não era desengraçado.</p>
-
-<p>D. Estanislada alludia á menina Ricardina
-quando disse ao conselheiro que—havia de gostar
-da companhia.</p>
-
-<p>A mulher que se sente amada tem d’estes falsos
-assomos de modestia, para experimentar o
-valor da affeição que inspirou, qualquer que seja
-a sua idade. Diz que todas as outras são mais
-bellas, mais tentadoras do que ella, porque se
-sente lisonjeada de triumphar da concorrencia de
-todas as outras.</p>
-
-<p>D. Estanislada seguiu esta tactica.</p>
-
-<p>Elogiou muito ao conselheiro a belleza da menina
-Ricardina, que se envergonhava dos gabos,
-côrando.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span></p>
-
-<p>A mãe, a sr.ª Magdalena, rindo de satisfeita,
-repetia esta phrase:</p>
-
-<p>—É sãsinha, graças a Deus!</p>
-
-<p>O conselheiro, muito contrariado, procurava no
-seu espirito uma phrase com que, sem correr o
-risco de ser indiscreto, podesse dar a entender a
-D. Estanislada que, ao pé d’ella, o rosto de qualquer
-outra mulher lhe passava despercebido.</p>
-
-<p>Finalmente, pareceu-lhe que tinha achado a
-phrase precisa, e disse-a:</p>
-
-<p>—O rosto d’esta menina é realmente muito interessante,
-e eu felicito por isso a senhora sua
-mãe; porem não permittamos á sr.ª D. Estanislada
-que se esteja escondendo na sombra, qual
-timida violeta.</p>
-
-<p>D. Estanislada gostou de se vêr tratada por
-violeta. E, saboreando a amabilidade, como se
-estivesse chupando um rebuçado, contestou:</p>
-
-<p>—<i>Yo, pobrecita de mi, yo estoy hecha una
-vieja!</i></p>
-
-<p>—Pelo amor de Deus! exclamou o conselheiro
-levantando os braços quasi até á altura da cabeça.</p>
-
-<p>—Que não, acudiu a sr.ª Magdalena, que estava
-ainda muito fresca, muito bem disposta, que
-até parecia irmã mais velha da filha.</p>
-
-<p>E a menina Ricardina accrescentava que a sr.ª
-D. Estanislada não devia dizer a ninguem que
-era mãe da <i>señorita</i> Soledad.</p>
-
-<p>Este tiroteio de lisonjas, de que D. Estanislada
-foi alvo, durou alguns minutos.</p>
-
-<p>O conselheiro, quando entre todos pareceu ficar
-decidido que D. Estanislada era qual <i>timida
-violeta</i>, sem que ella já ouzasse protestar, fingiu-se
-novamente admirado da ausencia de D. Enrique
-e de Soledad.</p>
-
-<p>—<i>Fueron á Lisboa</i>, respondeu D. Estanislada.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span></p>
-
-<p>—Mas demoram-se pouco? insistiu o conselheiro.</p>
-
-<p>—<i>Vuelven el lunes, no sé si por la mañana ó
-por la tarde.</i></p>
-
-<p>—Ainda bem, pensou o conselheiro, e ainda
-mal! Ainda bem, porque D. Enrique ou não tinha
-lido o pasquim ou lhe não dava importancia:
-continuaria portanto a demorar-se em Setubal.
-Ainda mal, porque a ausencia era breve de mais
-para que elle conselheiro podesse encher a medida
-dos seus desejos.</p>
-
-<p>Fez menção de levantar-se para sahir.</p>
-
-<p>—Que não, que ficasse, insistiu D. Estanislada,
-que iam tomar chá, e que lhes désse o prazer
-da sua amavel companhia.</p>
-
-<p>—Que não desejava ser importuno... que ia
-dar uma volta.</p>
-
-<p>Mas D. Estanislada, com toda a sua intimativa
-de hespanhola, ordenou-lhe que ficasse, e o conselheiro
-Antunes ficou de muito bom grado.</p>
-
-<p>Foram para a casa de jantar e abancaram para
-tomar chá.</p>
-
-<p>D. Estanislada fez sentar o conselheiro á sua
-direita, e a sr.ª Magdalena á sua esquerda. A
-menina Ricardina ficou ao lado da mãe, posição
-estrategica que D. Estanislada lhe distribuiu...
-por cautela. Ella bem sabia quanto o conselheiro
-Antunes, apesar da sua grave encadernação
-de presidente da junta geral de Santarem,
-era lambareiro de mulheres.</p>
-
-<p>Emquanto tomaram chá, ao dialogo respeitoso
-de D. Estanislada e do conselheiro, sobre coisas
-frivolas, correspondia, debaixo da mesa, outro
-dialogo bem menos respeitoso: o dialogo dos
-pés.</p>
-
-<p>Certamente que este dialogo nos interessa muito
-mais do que o outro. Vamos pois escutal-o.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p>
-
-<p><i>A bota do conselheiro, explorando terreno</i>:—Onde
-estás tu, adoravel pé de D. Estanislada?
-Pois que o teu senhor se acha ausente, pódes vir
-ao mirante do castello escutar a minha serenata
-de amor...</p>
-
-<p><i>O sapato de cordovão de D. Estanislada</i>:—Eu
-fujo-te, menestrel audaz, para tornar mais
-intensa a febre dos teus desejos. Bem deves saber
-que toda eu sou a <i>timida violeta</i> de que fallaste
-ha pouco.</p>
-
-<p><i>A bota</i>:—A violeta é a flôr da sombra, e debaixo
-da meza tudo é sombra e mysterio. Estás,
-pois, no teu logar, violeta timida. Não me fujas,
-ó esquiva Galatéa, cujo adorado pé eu ando procurando
-ás escuras, como um cego d’amor.</p>
-
-<p><i>O sapato</i>:—Tenho medo de que a sr.ª Magdalena
-e a menina Ricardina dêem tino do que se
-está passando no soalho. Para entalação bem
-bastou já aquella mascarra que o teu beijo de
-Troia me deixou na face... Não me persigas,
-que me tentas, seductor!</p>
-
-<p><i>A bota</i>:—Eu sou discreto como um conselheiro,
-que me prézo de ser. Muitas vezes, na
-junta geral de Santarem, tenho tido necessidade
-de pisar o pé a um collega para o prevenir de
-qualquer maniversia politica, e a junta nunca deu
-por isso, tão bem eu sei pisar o proximo! Encantadora
-Estanislada! fica sabendo que a electricidade
-procura as extremidades: os meus pés estão,
-portanto, carregados da electricidade do meu coração.
-Chega-te, e verás.</p>
-
-<p><i>O sapato, aproximando-se</i>:—Quem póde resistir
-á fascinação das tuas palavras, e á discrição
-dos teus processos?! Pois que tudo se vae
-passar na sombra, com a cautela de que tu sabes
-usar, como conselheiro e como amante, consentirei
-que o meu sapato caminhe para a tua bota,<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span>
-com o pejo, aliás, que fica bem a toda a mulher,
-e com a timidez que é propria de toda a violeta.</p>
-
-<p><i>A bota, encontrando o bico do sapato, e arrastando-o
-ternamente</i>:—Vem, vem finalmente cahir
-nas doces talas do amor, adorado pé! Quero
-apertar-te com a ternura com que Romeu abraçava
-Julieta. Nas dôres physicas do amor, ha
-uma voluptuosidade que endoidece de deleite.
-Vem, ó pé feiticeiro! ó pé encantador!</p>
-
-<p><i>O sapato</i>:—Eis-me aqui, como um escravo
-que não póde resistir, que não ouza luctar.</p>
-
-<p>Então, o pé esquerdo do conselheiro Antunes,
-tendo empolgado o pé direito de D. Estanislada,
-demora-se um momento como para certificar-se
-de tudo que se está passando em segredo. E,
-após esse momento de pausa, a bota do pé direito
-acode a comprimir ternamente, de accordo
-com o pé esquerdo, o sapato de D. Estanislada,
-que fica entalado entre as duas botas.</p>
-
-<p>Toda a electricidade acode pois ás extremidades
-de um e outro.</p>
-
-<p>D. Estanislada, com a perna direita torcida,
-offerece mais chá á sr.ª Magdalena, e o conselheiro
-Antunes, com ambas as pernas repuxadas
-para a esquerda, mette a colhér dentro da chicara,
-faz menção de não querer mais chá.</p>
-
-<p>Devia ter sido deliciosa toda essa secreta iberisação
-de duas botas portuguezas junto de um
-sapato andaluz; deliciosa, principalmente, se nenhum
-dos pés tinha calos.</p>
-
-<p>A conversação foi-se arrastando á custa da
-sr.ª Magdalena, que entrou no seu assumpto
-predilecto, os milagres do Senhor do Bomfim.</p>
-
-<p>D. Estanislada e o conselheiro apenas contribuiam
-com monossyllabos, interjeições, porque a
-electricidade, que acudia ás extremidades, os tinha
-n’uma vibração nervosa, que os entaramelava.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span></p>
-
-<p>A menina Ricardina, a quem um dos seus namorados
-havia pisado o pé, n’uma occasião em
-que jogára o loto em familia, desconfiou da marosca,
-e as suas suspeitas foram-se accentuando
-em convicção, porque lhe não passou despercebido
-que o corpo do conselheiro estava visivelmente
-esguelhado para a esquerda e o de D. Estanislada
-enviezado para a direita.</p>
-
-<p>Com essa subtil astucia que é propria da gente
-moça, a menina Ricardina imaginou tirar a prova
-real das suas suspeitas. Arrancando do dedo
-um annel de ouro, começou a brincar com elle
-sobre a mesa: fazia-o rodopiar, dançar, graças
-ao impulso combinado dos dedos indicadores.</p>
-
-<p>A folhas tantas, o impulso foi maior e o annel
-saltou ao chão.</p>
-
-<p>—Ai! o meu annel! exclamou ella, curvando-se
-rapidamente para apanhal-o.</p>
-
-<p>Pôde ainda, vêr, perfeitamente, a fuga precipitada,
-e algo ruidosa, dos tres pés cumplices.</p>
-
-<p>D. Estanislada fez-se rubra; o conselheiro fez-se
-branco. E a menina Ricardina, apanhando o
-annel, disse com o seu melhor ar de riso:</p>
-
-<p>—Não se incommodem; já aqui está. Muito
-obrigada.</p>
-
-<p>Aquelle inesperado incidente do annel desarranjou
-a agradavel união iberica dos tres pés.</p>
-
-<p>O conselheiro, levantando-se, disse que iam
-sendo horas da sr.ª D. Estanislada se recolher.
-A sr.ª Magdalena, ouvindo isto, lembrou-se de
-que ás seis horas da manhã tinha de ir cumprir
-uma promessa ao Senhor do Bomfim.</p>
-
-<p>Despediram-se todos, e o conselheiro, voltando-se
-no patamar da escada, exclamou:</p>
-
-<p>—Já me ia esquecendo, D. Estanislada! Encommendei
-o azeite. Mandaram-me dizer em telegramma
-que era expedido hoje mesmo ás onze horas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p>
-
-<p>—<i>Muchas gracias</i>, respondeu ella encostando-se
-á porta da saleta.</p>
-
-<p>Quando batiam em S. Julião as onze horas da
-noite, um embuçado, cosendo-se muito com a
-sombra das paredes, dirigia-se mysteriosamente
-para casa de D. Enrique. Era o <i>azeite</i>: o conselheiro.
-Mas teve de fazer torcicollos porque reconheceu
-o sueco, que estava contemplando as
-janellas de D. Estanislada. Por sua vez, o sueco,
-mal que viu aproximar-se um vulto, deitou a fugir.</p>
-
-<p>O presidente da junta geral do districto de Santarem,
-lembrando-se da <i>rifa</i>, e, portanto, de que
-D. Estanislada havia sahido em premio ao sueco,
-teve uma forte commoção de ciume.</p>
-
-<p>—Pois então elle, pensou o conselheiro, tinha
-ido para Cintra e apparece mysteriosamente em
-Setubal ás onze horas da noite!</p>
-
-<p>E, como um Othello furioso, empurrou a porta
-de Desdémona e entrou.</p>
-
-<p>Por dentro dos vidros da sua janella, a menina
-Ricardina, muito matreira, tendo apanhado no
-ar a phrase do <i>azeite</i>, estava á côca, e vira tudo
-o que se passára.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer3.jpg" width="150" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header5.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>IX</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-o.jpg" width="85" height="95" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">O conselheiro Antunes, subindo a escada,
-deixou-se guiar mansamente, na treva,
-pela mão da hespanhola. Parecia um borrego
-amoroso comboyado pela respectiva
-cordeira. Mas logo que se apanhou no quarto de
-D. Estanislada e a luz da lamparina lhe aclarou
-a situação, o borrego transformou-se em lobo
-cerval. Desdémona teve que haver-se com Othello.</p>
-
-<p>Ora o que ali se passou, em rapidos momentos,
-foi pouco mais ou menos a famosa fabula do
-lobo e do cordeiro.</p>
-
-<p>Othello accusou violentamente Desdémona: era
-o lobo que fallava.</p>
-
-<p>Não alludiu á <i>rifa</i>, mas affirmou saber de boa
-origem que o sueco disfarçava com a filha as
-suas pretensões á mãe. A hespanhola, entre lisonjeada
-e surprehendida, tomou o logar do cordeiro
-do apólogo, salvo o sexo. Procurou tranquillisar<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span>
-o conselheiro, dizendo-lhe que o sueco
-não a pretendia a ella, mas á filha, <i>que era mais
-nova</i>. O lobo pediu provas, visto que só com provas
-importantes poderia desfazer a impressão que
-lhe deixára a presença do sueco, n’aquella rua,
-ás onze horas da noite, sendo certo constar em
-toda a cidade que Soledad tinha ido para Lisboa
-com o pae.</p>
-
-<p>D. Estanislada pôde, felizmente, lembrar-se de
-uma prova. Era uma carta que n’aquella mesma
-tarde tinha chegado pelo correio, dirigida a Soledad
-Saavedra. A lettra do sobrescripto era esquisita,
-estrangeirada: naturalmente seria do
-sueco.</p>
-
-<p>—Pois bem! propozera D. Estanislada, abrir-se-ia
-a carta e, se effectivamente fosse do sueco,
-talvez a questão podesse ficar esclarecida.</p>
-
-<p>Foi pé-ante-pé buscar a carta, e abriu-a com
-denodo. Era effectivamente do sueco.</p>
-
-<p>Á luz da lamparina, muito curvados sobre uma
-cómmoda, lêram-na ambos.</p>
-
-<p>Custou-lhes a entrar com o texto, uma verdadeira
-torre de Babel, onde as linguas se confundiam
-e baralhavam: o sueco, o portuguez e o
-hespanhol andavam ali em cabriolas de amor de
-um coração polyglótta.</p>
-
-<p>Soletrando, entendendo aqui, não entendendo
-acolá, chegaram á conclusão de que o scandinavo
-alludia a um desgosto que tivera no <i>pic-nic</i>
-de Troia, que o obrigára a retirar-se para o
-Barreiro, tendo aliás feito constar que ia para
-Cintra, afim de desorientar a perseguição dos
-trocistas. Mais uma vez declarava a Soledad o
-seu ardente amor e, para definir uma situação
-embaraçosa, pedia que lhe apparecesse á janella
-ás onze horas da noite.</p>
-
-<p>Esta carta providencial, que não chegou ao seu<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span>
-destino, esclareceu a situação, amansou as furias
-do lobo amoroso. Ao contrario do que acontece
-no apólogo, e n’isto é que a realidade se apartou
-da fabula, o lobo ficou vencido, e o cordeiro, salvo
-sempre o sexo, ficou vencedor.</p>
-
-<p>Na rua, emquanto o conselheiro e D. Estanislada
-decifravam a carta, o sueco, o qual por sua
-vez ficára ciumento vendo um vulto, mas não o
-reconhecendo, voltára ao sitio d’onde havia fugido
-e, ardendo em zelos, esperava que a janella
-de Soledad se abrisse.</p>
-
-<p>Estava elle ali parado, olhando para todos os
-lados, palpitante de anciedade e receoso da troça,
-quando sentiu abrir-se mansamente a porta de
-um <i>rez-de-chaussée</i>.</p>
-
-<p>Teve medo de alguma insidia, não porque fosse
-um fraco, mas porque era um estrangeiro esmagado
-pela chacota indigena. Ouviu um <i>psiu</i>,
-tres vezes repetido, um <i>psiu</i> que não podia ser
-senão para elle, porque na rua não havia mais
-ninguem, e esteve quasi para fugir outra vez.</p>
-
-<p>Era uma mulher que o chamava, parecia, pelo
-menos, que era uma mulher, mas quem lhe podia
-affirmar que não fosse o Julio de Lemos ou
-o Aurelio Goes ou algum ladino official de caçadores
-disfarçado em mulher? Hesitava, e teria
-talvez fugido, se não se convencesse de que era
-effectivamente uma voz de mulher que, depois
-de o ter chamado, lhe estava dizendo cautelosamente:</p>
-
-<p>—Venha aqui, que lhe posso dar noticias interessantes.</p>
-
-<p>O sueco aproximou-se, e ficou encantado de
-se lhe deparar na janella uma rapariga de cerca
-de vinte annos, algo morena, mas sympathica.
-Os olhos eram vivos, porque brilhavam na treva.
-E, ao vêr diante de si uma realidade agradavel,<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span>
-o sueco encostou-se á janella e sentiu um brando
-cheiro a mangericão, que o seio da rapariga exhalava,
-e que a elle lhe soube tão bem como um
-copo de <i>Kirsch-Vasser</i>.</p>
-
-<p>—Faça favor de fallar baixo, disse ella, que
-está ali minha mãe a dormir.</p>
-
-<p>—Ó encantadorra menina! exclamou elle.</p>
-
-<p>—Ainda que eu mal pergunte, continuou ella,
-o sr. estrangeiro anda aqui por causa da mãe ou
-da filha?</p>
-
-<p>—Que dizerr menina?</p>
-
-<p>—Sim, porque eu tenho visto o sr. estrangeiro
-no grupo da hespanhola, mas não sei ao certo
-se anda arrastando a aza á <i>señorita</i> Soledad ou
-a D. Estanislada...</p>
-
-<p>—Linda menina desfrructarr-me a mim?</p>
-
-<p>—Não, senhor! Pelo contrario. Desejo ser-lhe
-agradavel. Posso dar-lhe informações tanto a
-respeito da <i>señorita</i> como da mãe. Se é por causa
-da filha, o sr. estrangeiro andava aqui hoje a
-perder o seu tempo...</p>
-
-<p>—Porque dizerr linda menina isso?</p>
-
-<p>—Porque Soledad foi esta tarde para Lisboa
-com o pae, e só volta depois d’amanhã.</p>
-
-<p>—Mas quem serr então uma pessoa homem
-que andava esprreitando inda bocadinho?</p>
-
-<p>—E o sr. estrangeiro não dirá nada do que
-lhe vou contar?</p>
-
-<p>—Oh! nó!</p>
-
-<p>—Era o conselheiro Antunes.</p>
-
-<p>—E onde estarr elle?</p>
-
-<p>—Lá dentro.</p>
-
-<p>—Aqui?</p>
-
-<p>—Credo! Lá dentro da casa de D. Enrique.</p>
-
-<p>—Mas estarr só?</p>
-
-<p>—Não, sr. Está fazendo companhia á D. Estanislada...
-O sr. desculpe...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span></p>
-
-<p>—Nó! D. Enrrique é que desculparrá, se quizerr.</p>
-
-<p>—É uma pouca vergonha como nunca se viu!
-Minha mãe tem alugado aquella casa a muitas
-familias hespanholas, mas ainda não vi gente tão
-levantada da cabeça como esta! Entre mãe e filha
-venha o diabo e escolha!</p>
-
-<p>—Mãe menina serr senhorria casa?</p>
-
-<p>—Sim, senhor.</p>
-
-<p>—Então menina terr visto tudo?</p>
-
-<p>—Tudo! Não, senhor. Tenho visto muita coisa.
-Ainda esta noite...</p>
-
-<p>—Que terr visto menina esta noite?</p>
-
-<p>—Eu e a minha mãe fomos visitar D. Estanislada
-por imaginarmos que, estando o marido
-e a filha em Lisboa, não teria quem lhe fizesse
-companhia. Estavamos lá quando entrou o conselheiro
-Antunes. Ó sr. estrangeiro, aquillo foi
-mesmo uma pouca vergonha!</p>
-
-<p>—Como serr?</p>
-
-<p>—Debaixo da mesa...</p>
-
-<p>—Como debaixo de mesa?!</p>
-
-<p>—Pisando os pés um ao outro, D. Estanislada
-e o conselheiro! Estiveram toda a santa noite
-n’aquelle debique. Depois sahimos todos, mas o
-conselheiro, á sahida, disse a D. Estanislada que
-ás onze horas vinha o azeite...</p>
-
-<p>—Oh! sim! o azeite! Serr uma combinação
-entrre ambos!</p>
-
-<p>—Tal qual. Mas eu, que não gosto que me façam
-o ninho atraz da orelha, fiquei aqui á espreita
-por dentro dos vidros. Vi chegar o sr. estrangeiro
-e pasmar-se para a casa de D. Enrique.
-Vi chegar depois o conselheiro Antunes. O
-sr. estrangeiro fugiu, e o conselheiro entrou.</p>
-
-<p>—Menina terr cerrteza que conselheirro estarr
-lá?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p>
-
-<p>—Sim, sr.! Como dois e dois serem quatro...</p>
-
-<p>—Pouca verrgonha!</p>
-
-<p>—Ó sr. estrangeiro! mãe e filha é tudo a
-mesma loiça! A filha, quando não anda pela rua
-com todos os namorados, está á janella a catrapiscar
-a um e a outro, a todos os que vão chegando!
-O sr. estrangeiro tambem tem feito bem
-bonitos papelinhos!</p>
-
-<p>—Serr porr brrincadeirra. E terr muitos namorrados?</p>
-
-<p>—Mais de um cento! Elle é o Lemos de Alcacer,
-elle é o tal das gazetas de Lisboa, elle é o
-hespanholito esgrouviado, elle é o tolo do Vianninha
-que tem a pobre da Sequeira a morrer por
-causa d’elle; elle são os officiaes de caçadores;
-elle são os morgados do Alemtejo; elle era o marialva
-que andou ahi um tempo. E elle é tambem
-o sr. estrangeiro... disse Ricardina sorrindo.</p>
-
-<p>—Eu serr brrincadeirra.</p>
-
-<p>—Olhe, da parte d’ella talvez fosse, porque
-quando o sr. voltava costas, a <i>señorita</i> e a mãe
-desatavam a rir pelas casas dentro.</p>
-
-<p>—Pouca verrgonha!</p>
-
-<p>—Pois olhe que é a pura da verdade!</p>
-
-<p>—Muito obrrigado, linda menina. Eu poderr
-virr amanha á mesm’horra fallarr com menina
-aqui?</p>
-
-<p>—E para que quer o sr. estrangeiro fallar comigo?
-É porque está apaixonado pela <i>señorita</i> e
-deseja saber noticias...</p>
-
-<p>—Nó! É por gostarr de menina.</p>
-
-<p>—O sr. estrangeiro está a caçoar com uma
-pobre rapariga!...</p>
-
-<p>—Caçoarr! Nó! Eu virr amanhã mesm’horra.
-Linda menina, fazerr favorr esperrar mim?</p>
-
-<p>E o sueco, apertando na sua manápula a mão
-de Ricardina, sentiu-se deliciosamente agitado<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span>
-por esse contacto, que era um triumpho amoroso
-cahido do céo.</p>
-
-<p>Por sua vez, Ricardina, que sahira vibrante de
-casa de D. Estanislada, sentia-se bem, feliz, por
-ter podido até certo ponto descarregar a electricidade
-que de lá trouxera.</p>
-
-<p>O sueco era um homem sadio, de boas côres, e
-devia ter dinheiro, porque estava ali como commissario
-de uma importante casa da Suecia, importadora
-de sal.</p>
-
-<p>De mais a mais Ricardina, como todas as mulheres,
-lisonjeava-se de ter arrancado um vassallo
-ao coração da <i>señorita</i>, que estava absorvendo
-todas as attenções de Setubal.</p>
-
-<p>O sueco, ruminando a sua boa fortuna, foi
-passear audaciosamente para a praia, como se já
-não temesse os ridiculos da troça.</p>
-
-<p>Dados alguns passos, encontrou o estudante
-de Alcacer, que, muito noctivago, recolhia do
-café <i>Esperança</i>.</p>
-
-<p>—Ó seu sueco! disse-lhe o Lemos. Então você
-não tinha ido para Cintra?!</p>
-
-<p>O sueco respondeu-lhe que effectivamente tinha
-estado em Cintra, por passeio, e não porque
-se houvesse importado com a historia do <i>pic-nic</i>;
-que se estava rindo da <i>señorita</i>, que era uma
-tola, e até de D. Estanislada, que era a amante
-do conselheiro Antunes.</p>
-
-<p>E, sem se referir a Ricardina, contou ao Lemos
-que Soledad e D. Enrique tinham ido para Lisboa
-e que o conselheiro estava áquella hora em
-casa de D. Enrique.</p>
-
-<p>—Está lá com certeza? perguntou o Lemos.</p>
-
-<p>O sueco affirmou positivamente que estava;
-que tinha entrado ás onze horas.</p>
-
-<p>—Olhe lá, disse o Lemos, venha comigo, vamos<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span>
-pregar uma <i>partida</i> a essa marafona da D.
-Estanislada.</p>
-
-<p>E, mettendo o braço ao sueco, foi-o levando
-comsigo a reboque.</p>
-
-<p>Depois que passára a tempestade do ciume, D.
-Estanislada e o conselheiro reconciliaram-se n’um
-longo idillio de amor. Tinham adormecido nos
-braços um do outro, e D. Estanislada sonhava
-afflictivamente que D. Enrique, voltando de Lisboa,
-estava batendo á porta.</p>
-
-<p>Accordou sobresaltada, sentou-se na cama offegante,
-olhando para o conselheiro que dormia tranquillamente
-e assobiava por um dos cantos da
-bôcca.</p>
-
-<p>Agitada entre a impressão do sonho e da realidade,
-isto é, entre a imagem de D. Enrique e a
-pessoa do conselheiro, estava limpando o suor
-da testa, quando ouviu resoar tres pancadas na
-porta e uma voz roufenha dizer:</p>
-
-<p>—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!</p>
-
-<p>Agarrando-se trémula, convulsa ao conselheiro,
-accordou-o, e elle, despertando aturdido, ouviu
-tambem, distinctamente, a voz roufenha dizer:</p>
-
-<p>—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!</p>
-
-<p>Era o estudante d’Alcacer, que se tinha lembrado
-de pregar aos dois esta <i>partida</i>.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer2.jpg" width="150" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header7.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>X</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-t.jpg" width="150" height="105" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Tarde de domingo, lucida e serena como um
-crystal da Bohemia. O Sado dorme n’um
-azul tranquillo, n’um leito de saphira, que
-a menor aragem não agita, o que poucas
-vezes succede. O Campo do Bomfim immobilisa-se
-n’uma grande quietação bucolica, e os arvoredos
-circumjacentes recortam-se n’um fundo de
-stereoscópo longamente pittoresco...</p>
-
-<p>As Rodartes foram passeiar a Brancannes:
-Hilda e Maria Ignez, de braço dado; Salomé
-guiando, como sempre, o avô,—Antigone que
-vae conduzindo Œdipo.</p>
-
-<p>Habituadas á vida placida da Messejana, sentiam-se
-bem na solidão dos campos, mais convidativos
-ali do que na sua arida provincia do
-Alemtejo.</p>
-
-<p>O velho <i>Padre Eterno</i> não queria outra felicidade
-que a de vêr-se rodeado pelo grupo encantador<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span>
-das suas tres Graças: onde ellas estivessem,
-estava o céo.</p>
-
-<p>Nenhum dos cavalheiros serventes tinha apparecido
-ainda, e não faziam falta a ninguem, nem
-mesmo ás tres damas, que elles n’aquella tarde
-pareciam ter esquecido.</p>
-
-<p>Salomé e o avô conversavam sobre negocios
-da administração da casa, porque aquella neta
-era o secretario particular do velho Rodarte: toda
-a correspondencia com os feitores e caseiros corria
-pela sua mão.</p>
-
-<p>Hilda e Maria Ignez fallavam de coisas frivolas,
-assumptos de Setubal, que lhes serviam para
-ir matando o tempo.</p>
-
-<p>—A andaluza foi com o pae a Lisboa, dizia
-Maria Ignez.</p>
-
-<p>—Como sabes tu isso? perguntou Hilda.</p>
-
-<p>—Porque m’o disse hoje o banheiro na praia.</p>
-
-<p>—Ah! por isso, replicou Hilda, ninguem ainda
-viu nenhum dos seus pagens! Ou foram tambem
-para Lisboa ou estão mettidos em casa a chorar
-de saudade...</p>
-
-<p>E riram ambas, sem despeito, apenas com a
-alegre ironia, que é uma feição caracteristica dos
-espiritos moços e despreoccupados.</p>
-
-<p>—O sueco é que desappareceu da circulação!</p>
-
-<p>—E o Lemos tambem!</p>
-
-<p>—Não. O Lemos estava outro dia sentado á
-porta do café quando nós passamos.</p>
-
-<p>—Parece que não está bem comnosco!</p>
-
-<p>—Porquê?</p>
-
-<p>—Eu sei lá! Deixal-o estar.</p>
-
-<p>—E o jornalista?</p>
-
-<p>O avô e Salomé haviam-se calado momentos
-antes.</p>
-
-<p>—O jornalista, disse o velho Rodarte, mandou-me
-hoje a sua <i>Trombeta</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span></p>
-
-<p>—A da Fama, avôsinho? perguntou Maria
-Ignez.</p>
-
-<p>—Não, a d’elle, a <i>Trombeta Ullyssiponense</i>.</p>
-
-<p>—Por signal, accrescentou Salomé, que vem
-lá uns versos d’elle, que não são feios.</p>
-
-<p>—Como são? perguntou Hilda. Tu que tens
-boa memoria, dize lá como são.</p>
-
-<p>—Parece-me que sei apenas o principio. Intitulam-se
-<i>Noites ao norte</i>.</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Noite fria, noite branca,</div>
-<div class="verse">Noite da Russia polar,</div>
-<div class="verse">És como a imagem da morte,</div>
-<div class="verse">Ó longa noite do norte,</div>
-<div class="verse">Feita de neve e luar.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>—Dize lá o resto.</p>
-
-<p>—Não sei. Tive de escrever para a Messejana
-uma carta que o avôsinho queria, e puz logo o
-jornal de parte.</p>
-
-<p>—Esses versos fazem frio! disse rindo o avô.</p>
-
-<p>—Frio e mêdo! accrescentou Hilda.</p>
-
-<p>—Se elle faz d’esses versos á <i>señorita</i>, constipa-a,
-disse Maria Ignez.</p>
-
-<p>O avô e as duas outras meninas riram muito
-da phrase.</p>
-
-<p>—Coitados! continuou o Rodarte. Chega a ser
-comico esse cortejo da hespanhola! Tirados os
-nossos dois patricios, que são alegres, mas excellentes
-pessoas e proprietarios abastados, tudo
-o mais não vale um caracol.</p>
-
-<p>—E D. Ramon? perguntou Maria Ignez.</p>
-
-<p>—Quem sabe lá o que elle é! É um emigrado,
-que me não parece um forte sustentaculo da monarchia,
-nem um inimigo poderoso da republica.</p>
-
-<p>—E o Vianninha? perguntou Hilda.</p>
-
-<p>—O Vianninha é um pobre escripturario de<span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span>
-fazenda, respondeu Araujo Rodarte, que anda a
-estudar o modo de não morrer de fome.</p>
-
-<p>—Não, avôsinho! replicou Hilda. Elle anda a
-estudar o meio de conquistar a <i>señorita</i>.</p>
-
-<p>—Está ella feliz com esse pretendente!</p>
-
-<p>—Pois assim pobre como é, disse Maria Ignez,
-está apaixonada por elle a Sequeira. Dizem até
-que tem deitado sangue pela bôcca.</p>
-
-<p>—Pobre rapariga! que tão mal empregou o
-seu coração! ponderou o Rodarte. E elle é um
-tolo, porque o pae da Sequeira tem alguma coisa
-de seu, possue duas marinhas em Alcacer, e é um
-homem que trabalha muito. De mais a mais, boa
-gente.</p>
-
-<p>E Maria Ignez interrompeu a conversação, exclamando:</p>
-
-<p>—Sabem quem vem acolá? São os nossos patricios.</p>
-
-<p>—Antes elles do que os outros, disse o avô.</p>
-
-<p>O morgado de Reguengos e o proprietario das
-Alcaçovas vinham effectivamente subindo para
-Brancannes, onde sabiam que iam encontrar as
-tres lindas patricias.</p>
-
-<p>A sua chegada trouxe maior animação ao dialogo.</p>
-
-<p>—Então que vae lá por esse mundo da praia?
-perguntou o velho Rodarte.</p>
-
-<p>—Algumas novidades ha.</p>
-
-<p>—Novidades! Quaes?</p>
-
-<p>—A andaluza foi com o pae para Lisboa, disse
-o morgado de Reguengos.</p>
-
-<p>—Os nossos sentimentos... replicou Hilda.</p>
-
-<p>O morgado fez-se purpurino.</p>
-
-<p>—Ó minha senhora! disse elle. Tanto eu como
-este meu companheiro estamos aqui a banhos e
-queremos divertir-nos. Olhamos para tudo isto
-como se estivessemos no theatro. A andaluza<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span>
-tem sido a peça que está em scena: assistimos
-ao espectaculo e divertimo-nos a nosso modo.</p>
-
-<p>—Assim é, confirmou o proprietario das Alcaçovas.</p>
-
-<p>—Pois que hão de elles fazer! ponderou Araujo
-Rodarte. E mais?</p>
-
-<p>—O conselheiro anda fazendo as suas despedidas.
-Já nos foi deixar bilhete.</p>
-
-<p>—Mas elle contava ainda demorar-se! observou
-Araujo Rodarte.</p>
-
-<p>—Lá estão commentando no Lapido a resolução
-do conselheiro.</p>
-
-<p>—Mas ainda ha mais novidades! lembrou o
-morgado de Reguengos.</p>
-
-<p>—Digam sempre.</p>
-
-<p>—O Lemos planeou agora um espectaculo de
-curiosos em favor do Asylo. Parece que querem
-representar uma comedia escripta pelo Goes.</p>
-
-<p>—Mas quem representa? perguntou Maria
-Ignez.</p>
-
-<p>—Elles esperam que v. ex.ᵃˢ entrem.</p>
-
-<p>—Nós! conclamaram as tres meninas.</p>
-
-<p>—Ellas! exclamou simultaneamente o avô.</p>
-
-<p>—Mas a mim consta-me por linhas travessas,
-disse o proprietario das Alcaçovas, que o pae do
-Lemos está furioso com a demora d’elle em Setubal,
-e que mais dia menos dia o virá buscar
-para o acompanhar a Lisboa, visto que se vae
-aproximando a época da abertura das aulas.</p>
-
-<p>—Pobre pae! observou o Rodarte. O rapaz
-está aqui está a tomar capêllo em Physica.</p>
-
-<p>—Tempo tem elle já para isso!</p>
-
-<p>—Pois essa idéa do espectaculo é mesmo d’uma
-cabeça desconcertada!</p>
-
-<p>—Outra novidade! exclamou o morgado de
-Reguengos.</p>
-
-<p>—Qual?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p>
-
-<p>—Appareceu o sueco!</p>
-
-<p>—Tinha-se perdido? perguntou rindo Araujo
-Rodarte.</p>
-
-<p>—Não, senhor. Tinha ido a Cintra sem dar
-cavaco á gente.</p>
-
-<p>Os dois alemtejanos foram a Brancannes com
-o proposito astucioso de evitar que as Rodartes
-tomassem parte no espectaculo planeado n’aquella
-manhã pelo estudante d’Alcacer. Sondariam sobre
-o assumpto o animo do velho Rodarte. Mas logo
-ficaram tranquillos vendo que tanto o avô como
-as netas pensavam do mesmo modo: ellas não
-entrariam na récita.</p>
-
-<p>O morgado de Reguengos e o proprietario das
-Alcaçovas continuaram a não dar importancia á
-concorrencia amorosa do estudante e dos outros,
-que <i>não tinham onde cahir mortos</i>. Mas o galanteio
-de ambos com as duas Rodartes ia-se accentuando
-com um caracter de seriedade, que abrangia
-já a ideia do casamento, se ellas os não repellissem.</p>
-
-<p>Queriam pois evitar, um e outro, que collaborassem
-n’um espectaculo de rapazes as duas senhoras,
-Hilda e Maria Ignez, admittida a possibilidade
-de que ellas lhes acceitassem a côrte.</p>
-
-<p>Não sabiam elles ao certo o numero de personagens
-femininos que a peça exigiria; mas preveniam
-a hypothese de uma annuencia ao convite
-do estudante.</p>
-
-<p>Combinado o espectaculo no café <i>Esperança</i>, e
-compromettido Aurelio Goes a escrever a peça, o
-estudante, o jornalista e o Vianninha foram em
-grupo ao encontro das Rodartes.</p>
-
-<p>Vinham ellas já descendo de Brancannes com
-o avô e os dois alemtejanos, quando os tres as
-avistaram.</p>
-
-<p>N’essa occasião o morgado de Reguengos colhia<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span>
-uma flôr e offerecia-a a Hilda. O estudante
-viu isto, e desfechou de longe uma gargalhada.</p>
-
-<p>—Sabem vocês, disse elle aos companheiros,
-o que aquelle pedaço de bruto lhe está dizendo
-decerto agora?</p>
-
-<p>—O que é?</p>
-
-<p>—Aposto que ha de ser isto:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Aqui tem este raminho,</div>
-<div class="verse">Que da minha mão se offerece.</div>
-<div class="verse">Não é como eu queria,</div>
-<div class="verse">Nem como a senhora D. Hilda merece.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>E riram todos tres.</p>
-
-<p>—Parece-me que á bêsta nos viu rir? disse o
-estudante.</p>
-
-<p>—Tambem a mim me parece! respondeu o
-Vianninha, muito timido.</p>
-
-<p>—Pois com tamanha bêsta não quero eu brincadeiras.</p>
-
-<p>E o estudante foi o primeiro a desandar pelo
-mesmo caminho, sendo logo seguido pelos seus
-dois companheiros.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer5.jpg" width="150" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header6.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>XI</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-o.jpg" width="85" height="95" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">O conselheiro Antunes e D. Estanislada ficaram
-inquietos com o que tinham ouvido.</p>
-
-<p>O seu segredo estava descoberto: o
-<i>azeite</i> havia-se entornado, enodoando ambos.</p>
-
-<p>Não era D. Enrique que batera á porta, porque
-D. Enrique estava em Lisboa, mas devia ser uma
-pessoa que soubesse <i>tudo</i>.</p>
-
-<p>Quem seria essa pessoa?</p>
-
-<p>D. Estanislada propendia a crêr que fosse a
-senhoria.</p>
-
-<p>—Porquê? perguntou-lhe o conselheiro.</p>
-
-<p>—<i>Porque es beata, y las beatas lo saben todo:
-lo que Dios no les dice, lo saben ellas por el Diablo.</i></p>
-
-<p>Era uma razão, mas o conselheiro não a acceitava
-sem repugnancia:</p>
-
-<p>—Nada! Foi um homem. Certamente o sueco,<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span>
-que andava por aqui. É verdade que elle não me
-viu entrar, porque fugiu. Mas suspeitou que eu
-houvesse entrado e, n’essa supposição, veio pregar-nos
-esta peça.</p>
-
-<p>—<i>Nada!</i> teimava D. Estanislada. <i>La voz no
-era la del sueco!</i></p>
-
-<p>—Precisamos acautelar-nos, porque podem
-resultar de tudo isto consequencias muito desagradaveis.
-Eu sou um homem sério, e se não
-desejo comprometter uma dama, não desejo comprometter-me
-tambem a mim proprio. O melhor
-será eu recolher-me por alguns dias a Santarem,
-antes mesmo de D. Enrique voltar, porque d’este
-modo elle não poderá crêr, se lhe chegar aos ouvidos
-a denuncia, que eu desaproveitasse um só
-instante da sua ausencia.</p>
-
-<p>—<i>D. Enrique nada sabrá</i>, dizia a hespanhola,
-muito menos timida que o conselheiro.</p>
-
-<p>—Eu sei lá! Isto leva caminho de lhe chegar
-aos ouvidos. O seguro morreu de velho, e o melhor
-é acautelarmo-nos. Estanislada, minha rica
-Estanislada do meu coração, eu vou passar uns
-dias a Santarem, e voltarei depois.</p>
-
-<p>—<i>Que fatalidad!</i> exclamava ella.</p>
-
-<p>O conselheiro não descansou senão quando se
-viu fóra da porta. D. Estanislada viera antes á
-janella para o certificar de que não estava ninguem
-na rua.</p>
-
-<p>—Nada! Não quero comprometter a minha
-reputação, a minha respeitabilidade, tudo! ia monologando
-o conselheiro. Amanhã faço constar
-que o governador civil de Santarem me chamou
-para um negocio urgente da politica do districto.
-Faço, pelo sim pelo não, as minhas despedidas,
-para não alimentar suspeitas, para mostrar que
-<i>parto</i> mas não <i>fujo</i>, e por aqui me sirvo até mais
-vêr.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span></p>
-
-<p>E, apos uma pausa, muito sentencioso:</p>
-
-<p>—Não ha mulher nenhuma que valha a reputação
-de um homem.</p>
-
-<p>Effectivamente, no comboio de segunda-feira
-pela manhã o conselheiro partiu para Lisboa e
-de Lisboa para Santarem.</p>
-
-<p>Ao apear-se na estação da sua terra, o mesmo
-pensamento sentencioso acudiu ao espirito do
-conselheiro:</p>
-
-<p>—Nada! Não ha mulher nenhuma que valha
-a reputação de um homem!</p>
-
-<p>O estudante de Alcacer havia divulgado a
-<i>peça</i> que pregára ao conselheiro e a D. Estanislada.
-Era já do dominio publico á hora em
-que o conselheiro andava fazendo as suas despedidas.</p>
-
-<p>Os dois alemtejanos sabiam-no perfeitamente
-quando se encontraram com as Rodartes, no domingo,
-em Brancannes, mas limitaram-se, por
-conveniencia devida ás damas, a dizer que no
-café <i>Esperança</i> estavam discutindo os motivos da
-retirada do conselheiro.</p>
-
-<p>E era verdade. Em todo esse dia a hespanhola
-mãe foi ali tão discutida quanto a hespanhola filha
-o havia sido quando era a unica belleza dominadora
-de Setubal, isto é, antes da chegada
-das tres netas do <i>Padre Eterno</i>.</p>
-
-<p>D. Enrique regressou na segunda-feira de tarde
-com Soledad.</p>
-
-<p>—Foi usted a Lisboa? perguntavam-lhe os desfructadores.</p>
-
-<p>—<i>He ido á los toros!</i></p>
-
-<p>—Ah! Foi usted aos touros? E que tal?</p>
-
-<p>—<i>Una broma!</i></p>
-
-<p>E ficavam-se a rir, logo que elle voltava costas,
-da singular coincidencia de ter ido aos touros
-aquelle homem que, durante a sua ausencia,<span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span>
-fôra, segundo a expressão picaresca do estudante,
-lidado pelo conselheiro.</p>
-
-<p>Mas D. Enrique vinha mais contente do que
-fôra, porque tivera occasião de fallar em Lisboa
-com outros emigrados, e a opinião d’elles era
-que o estado anarchico de Hespanha não podia
-continuar por muito tempo. O remedio viria de
-alguma parte, ou d’uma intervenção das potencias
-estrangeiras ou de uma reacção espontanea
-do paiz.</p>
-
-<p>Era a esperança providencial de todos os
-emigrados a prefigurar-lhes um desfecho mais
-rapido do que os factos em verdade promettiam.</p>
-
-<p>O estudante, o jornalista e o Vianninha resolveram,
-á volta de Brancannes, demorar o convite
-ás Rodartes, para entrarem na récita, até que estivesse
-escripta a comedia e se soubesse ao certo
-qual o numero dos personagens femininos.</p>
-
-<p>O jornalista metteu-se em casa a trabalhar de
-afogadilho na sua <i>peça</i>, de que elle proprio já
-fallava com orgulho, quando ás dez horas da
-noite apparecia no café do Lapido para tomar cognac,
-como uma celebridade noctivaga.</p>
-
-<p>Contava com uma verdadeira glorificação no
-theatro, esperava que o seu triumpho no palco
-de Setubal teria grande écco em Lisboa. Coroado
-como dramaturgo na patria de Bocage, para entrar
-no palco de <i>D. Maria II</i> só lhe seria preciso...
-atravessar o Tejo.</p>
-
-<p>A sua reputação estava feita ou perto d’isso.</p>
-
-<p>Ao segundo dia de trabalho, annunciou que na
-sua comedia apenas entraria uma mulher. Esta
-noticia contrariou muito o estudante, mas Aurelio
-Goes respondeu-lhe que a espontaneidade do
-talento não se podia torcer como um arame, e
-que o que a sua cabeça lhe déra espontaneamente<span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span>
-fôra uma comedia com um só personagem feminino.</p>
-
-<p>Então, alguns desfructadores, <i>habitués</i> do Lapido,
-suggeriram a ideia de que, para não melindrar
-as damas, o melhor seria não convidar
-nenhuma, e encarregar-se o estudante de um <i>travesti</i>.</p>
-
-<p>Não repugnou a Julio de Lemos esta ideia,
-porque lhe daria no palco maior evidencia e, por
-isso mesmo, maior gloria.</p>
-
-<p>Acceitou.</p>
-
-<p>—Que nome tenho eu lá na peça? perguntava
-elle a Aurelio Goes.</p>
-
-<p>—És a baroneza de Piães.</p>
-
-<p>—Casada ou solteira?</p>
-
-<p>—Casada.</p>
-
-<p>—E distincta?</p>
-
-<p>—Certamente.</p>
-
-<p>Escriptas as primeiras scenas, foram-se logo
-ensaiando.</p>
-
-<p>O jornalista distribuiu os papeis; os ensaios
-faziam-se de dia, depois do almoço. Uma commissão
-encarregára-se de passar a casa: a coisa
-corria ás mil maravilhas.</p>
-
-<p>Eis o programma da festa, redigido pelo dramaturgo:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p class="center">UMA NOITE SINISTRA</p>
-
-<p><i>Comedia em tres actos e em verso, original do festejado
-escriptor o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes</i></p>
-
-<p class="center">DISTRIBUIÇÃO DOS PERSONAGENS</p>
-
-<table summary="DISTRIBUIÇÃO DOS PERSONAGENS">
- <tr>
- <td><i>Baroneza de Piães</i></td>
- <td>Sr. Julio de Lemos</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Barão de Piães</i></td>
- <td>Sr. J. Vianna</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>D. Mendo Espinote</i></td>
- <td>Sr. Aurelio Goes</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span><i>D. Diogo Cucufate</i></td>
- <td>Sr. Tenente Epaminondas</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>D. Fafes Estorninho</i></td>
- <td>Sr. Tenente Rosalgar</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>D. Gualter Byscaia</i></td>
- <td>Sr. Alferes Ruivo</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>O escrivão de fazenda</i></td>
- <td>N. N.</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p>A acção passa-se na actualidade, em Braga.</p>
-
-<p><i>Ensaiador</i>—Sr. Aurelio Goes.</p>
-
-</div>
-
-<p>A <i>Gazeta Setubalense</i> e a <i>Trombeta Ullyssiponense</i>
-annunciaram, além e áquem do Tejo, o brilhante
-espectaculo que ia realisar-se em Setubal,
-punham no sette estrello o novel e talentoso author,
-Aurelio Goes, que, se os calculos não falhavam,
-viria a nivelar-se com Almeida Garrett,
-e elogiavam a vocação artistica dos distinctos
-amadores, que em seguida nomeavam.</p>
-
-<p>Ambas as noticias haviam sido escriptas pelo
-proprio Aurelio Goes.</p>
-
-<p>Tambem elle se lembrára de officiar ao ministerio
-das obras publicas reclamando, para a
-noite da récita, um comboio extraordinario a preços
-reduzidos, mas não obteve resposta.</p>
-
-<p>Escreveu a um amigo de Lisboa encarregando-o
-de encommendar uma coroa de louros, que
-era para elle, e de ir entender-se com o proprietario
-da <i>Trombeta</i>, para que lhe fizesse um adeantamento
-de dois mezes.</p>
-
-<p>A coroa foi logo encommendada, porque o amigo
-de Aurelio Goes tinha tanto juizo como elle.</p>
-
-<p>Mas o proprietario da <i>Trombeta</i>, que só d’ahi
-a dois dias poude ser encontrado, recusou-se
-formalmente a fazer o adeantamento pedido, chegando
-a dizer ao intermediario que o <i>sr. Aurelio</i>
-só lhe mandava de Setubal noticias de interesse
-proprio; que estava muito desgostoso com elle,
-e que se dentro de quinze dias não regressasse
-a Lisboa, o despediria da redacção.</p>
-
-<p>Depois d’esta entrevista desoladora, o amigo
-de Aurelio Goes correu á loja onde tinha encommendado<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span>
-a coroa, para suspender a encommenda,
-mas, ó fatalidade! a coroa estava já feita, e exposta
-na <i>montre</i> com este distico, que tinha tambem
-sido encommendado: <i>Ao notavel e talentoso
-dramaturgo Aurelio Goes, futuro émulo de Garrett</i>.</p>
-
-<p>Pobre emissario! Ficou entalado, responsavel
-pela despeza da coroa. Escreveu para Setubal a
-contar o que era passado, quanto aos louros e á
-brutalidade do proprietario da <i>Trombeta</i>.</p>
-
-<p>Aurelio Goes respondeu, na volta do correio,
-que ia arranjar dinheiro para a coroa, que não
-prescindiria dos louros por caso nenhum, e que
-fosse dizer ao «tyranno da <i>Trombeta</i>», expressão
-sua, que dentro de quinze dias estaria de regresso
-em Lisboa com uma carregação de gloria, que
-faria subir os fundos da <i>Trombeta</i>.</p>
-
-<p>E, para que tudo coubesse no praso fatal que
-lhe era marcado, resolveu-se que a récita se realisasse
-dentro de dez dias.</p>
-
-<p>Activaram-se os trabalhos, Aurelio Goes desenvolvera
-uma actividade assombrosa, retocava
-as ultimas scenas da comedia, assistia aos ensaios,
-e tratava de arranjar dinheiro para os louros.</p>
-
-<p>Julio de Lemos, muito contente com o seu papel
-de baroneza de Piães, em que obteria uma
-ovação, estava d’isso convencido, occupava-se,
-nas horas livres de ensaios, em preparar a sua
-<i>toilette</i>.</p>
-
-<p>Lembrou-se de D. Estanislada para lhe fornecer
-o guarda-roupa, mas lembrou-se obrigado
-pelas circumstancias, porque o morgado de Reguengos
-declarára categoricamente em alguma
-parte que, por seu conselho, as Rodartes não
-contribuiriam para a récita senão com o preço
-do seu camarote.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p>
-
-<p>E o estudante, quando soube isto, dissera:</p>
-
-<p>—Essa grande bêsta imagina talvez que terei
-de apparecer em scena como Eva no Paraizo
-Terreal! Pois engana-se redondamente.</p>
-
-<p>E foi pedir a D. Estanislada que lhe valesse
-n’aquella afflicção.</p>
-
-<p>Soledad tinha ido ao banho com o pae, mas
-D. Estanislada recebeu-o amavelmente, prometteu-lhe
-pôr á sua disposição o guarda-roupa de
-que precisasse.</p>
-
-<p>Julio de Lemos, muito captivado, agradeceu-lhe
-a amabilidade e, para lisonjeal-a na sua formosura,
-contou-lhe a scena que se seguira ao
-<i>pic-nic</i> de Troia, disse-lhe que, no sorteio de damas
-a que se procedêra, ella tinha cahido em
-sorte ao sueco.</p>
-
-<p>D. Estanislada riu muito com essa brincadeira,
-e explicou então a si mesma os ciumes do conselheiro,
-e a presença do sueco, de noite, na sua
-rua.</p>
-
-<p>Esta revelação não cahiu em cesto rôto.</p>
-
-<p>Vencida a difficuldade da <i>toilette</i> para o estudante,
-tudo estava prompto, e a noite da recita
-chegou finalmente.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer5.jpg" width="150" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header5.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>XII</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-s.jpg" width="185" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Subiu o panno. O palco representava
-uma sala, que fingia communicar com
-outras. Ouvia-se um <i>sol-e-dó</i>, com
-pretensões a orchestra de salão. Devia
-ser um baile.</p>
-
-<h3>SCENA I</h3>
-
-<div class="poetry-container max30">
-<div class="poetry">
-
-<p class="center"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> e <span class="smcapuc">D. DIOGO</span> (<i>entram ambos, conversando,
-pela porta do fundo. O sol-e-dó vae esmorecendo.
-Salienta-se á vista dos espectadores a casaca
-de D. Mendo, que é antiga e enorme.</i>)</p>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">Mas se conhecem?</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div>
-<div class="verse indent9">Sim! sim!</div>
-<div class="verse">Agora, que estás no baile,</div>
-<div class="verse">Emancipa-te de mim.</div>
-<div class="verse">Passeia, namora, primo,</div>
-<div class="verse">Faze a côrte, dize graças,</div>
-<div class="verse">Pódes até, se quizeres,</div>
-<div class="verse">Tu, morgado de Boaças,</div>
-<div class="verse">Ser um rei entre as mulheres!</div><span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">Um rei com manto emprestado!</div>
-<div class="verse">Julgo ouvir, a cada passo,</div>
-<div class="verse">Dizer a voz de um palhaço:</div>
-<div class="verse">«Largue a casaca, morgado!»</div>
-<div class="verse">Que entre a fôrma e entre o fato</div>
-<div class="verse">Deve a união ser tamanha</div>
-<div class="verse">Como entre a casca e a lagosta,</div>
-<div class="verse">Entre o ouriço e a castanha.</div>
-<div class="verse">Mas eu com esta casaca</div>
-<div class="verse">Cheiro a D. Miguel I.</div>
-<div class="verse">Suppõe que eu sou a castanha:</div>
-<div class="verse">Ella é o ouriço... cacheiro.</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div>
-<div class="verse">Ora adeus! Em Braga serve...</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">Essa ironia é cruel!</div>
-<div class="verse">Onde ella faria vista</div>
-<div class="verse">Seria em Penafiel,</div>
-<div class="verse">Que lá as casacas todas</div>
-<div class="verse">São ainda mais pesadas</div>
-<div class="verse">E têm as abas dobradas,</div>
-<div class="verse">Dizem...</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div>
-<div class="verse indent6">Pensei que sabias!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">Não. Eu já lá estive uns dias,</div>
-<div class="verse">Mas nunca mudei de fato.</div>
-<div class="verse">Ora eu com esta casaca</div>
-<div class="verse">A que Bocage decerto</div>
-<div class="verse">Fez no seu tempo uma quadra,</div>
-<div class="verse">Devo par’cer um retrato</div>
-<div class="verse">D’estes da Feira da Ladra!</div>
-<div class="verse">E depois que desconcerto</div>
-<div class="verse">Entre a casaca e o chapeu!</div>
-<div class="verse">Percebem todos á legua</div>
-<div class="verse">Que trago o que não é meu.</div>
-<div class="verse">Um chapeu moderno, <i>claque</i>,</div>
-<div class="verse">Fôrro preto, lettra de ouro,</div>
-<div class="verse">Armado com boas molas,</div><span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span>
-<div class="verse">Dando ao abrir-se um estouro. (<i>E abriu a claque com estrondo.</i>)</div>
-<div class="verse">A casaca... um monumento</div>
-<div class="verse">De remota fundação!</div>
-<div class="verse">Faz lembrar a sé de Braga</div>
-<div class="verse">Com abas e cabeção;</div>
-<div class="verse">A guerra de Troia em panno;</div>
-<div class="verse">Affonso Henriques cosido.</div>
-<div class="verse">Affonso Henriques decerto</div>
-<div class="verse">É que eu trago em mim vestido!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div>
-<div class="verse">Pateta! Mais te valia</div>
-<div class="verse">Talvez deitar-te ao sol-posto</div>
-<div class="verse">Com as gallinhas! (<i>ironico.</i>)</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse indent9">Que ouvi?!</div>
-<div class="verse">Pôr as gallinhas, entendo,</div>
-<div class="verse">Mas pôr o sol, nunca vi!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div>
-<div class="verse">Ahi vem a dona da casa!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">Agora, que vou ter publico,</div>
-<div class="verse">Sinto-me arder n’uma braza!</div>
-</div>
-</div>
-
-<h3>SCENA II</h3>
-
-<div class="poetry-container max30">
-<div class="poetry">
-
-<p class="center"><i>Entra Julio de Lemos em travesti de mulher. A sua
-entrada em scena produz hilaridade no publico.</i></p>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">BARONEZA</span></div>
-<div class="verse">Ó morgado! que surpreza!</div>
-<div class="verse">Que prazer! quanto eu estimo!</div>
-<div class="verse">Beijo-lhe as mãos, D. Diogo,</div>
-<div class="verse">Pois que nos trouxe seu primo.</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">Baroneza! Eu folgo muito...</div>
-<div class="verse">O meu peito rejubila... (<i>Inclina-se. Sóbe-lhe para a cabeça o cabeção da casaca.</i>)</div>
-<div class="verse">(<i>á parte</i>) Não posso dár á cabeça,</div>
-<div class="verse">Que me não suba a mochilla!</div><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span> (<i>apertando a mão á baroneza</i>)</div>
-<div class="verse">E tem que me agradecer,</div>
-<div class="verse">Porque o primo não queria</div>
-<div class="verse">Vir ao baile!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">BARONEZA</span></div>
-<div class="verse indent6">Póde ser!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div>
-<div class="verse">Só questão de <i>toilette</i>.</div>
-<div class="verse">Mas emfim...</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse indent2">(<i>á parte</i>) Vim de casaca,</div>
-<div class="verse">E ainda cabiam mais sete!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">BARONEZA</span></div>
-<div class="verse">O barão, quando soubér,</div>
-<div class="verse">Ha de ficar encantado</div>
-<div class="verse">Co’a surpreza do morgado.</div>
-<div class="verse">Eu mesma lh’o vou dizer.</div>
-<div class="verse">E agora, morgado, goze,</div>
-<div class="verse">Que entre a fina flôr do Minho</div>
-<div class="verse">Não ha quem lhe leve a palma,</div>
-<div class="verse">Quem tenha mais gentil alma,</div>
-<div class="verse">Melhor sangue em pergaminho,</div>
-<div class="verse">Além do que nós sabemos...</div>
-<div class="verse">Pois por cá todos lhe dão</div>
-<div class="verse">Umas cem pipas de vinho</div>
-<div class="verse">E oitenta carros de pão.</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">Ai! baroneza! Foi tempo!...</div>
-<div class="verse">Já não sou quem d’antes era.</div>
-<div class="verse">Sinto-me triste, sou mono.</div>
-<div class="verse">Matou-me o phylloxera!</div>
-<div class="verse">Deu nas vinhas... e no dono!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">BARONEZA</span></div>
-<div class="verse">Não se chore... pobresinho!</div>
-<div class="verse">Que não é occasião.</div>
-<div class="verse">Se quizer... compro-lhe o vinho,</div>
-<div class="verse">Seu primo... compra-lhe o pão.</div><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div>
-<div class="verse">Está dito, baroneza.</div>
-<div class="verse">Quer o meu braço?</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">BARONEZA</span></div>
-<div class="verse indent9">Pois não!</div>
-<div class="verse">Morgado, goze, namore,</div>
-<div class="verse">Que eu vou dizer ao barão. (<i>A baroneza e D. Diogo saem de braço dado por uma das portas lateraes.</i>)</div>
-</div>
-</div>
-
-<h3>SCENA III</h3>
-
-<div class="poetry-container max30">
-<div class="poetry">
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> (<i>só</i>)</div>
-<div class="verse">Goze! Namore! Tem graça!</div>
-<div class="verse">Póde alguem ser tão audaz,</div>
-<div class="verse">Que vá mostrar-se n’um baile</div>
-<div class="verse">Assim, por deante e (<i>volta-se</i>) por traz!</div>
-<div class="verse">Vim de rastos, constrangido,</div>
-<div class="verse">Estou aqui compromettido!</div>
-<div class="verse">Não saio d’aqui, não saio.</div>
-<div class="verse">Fallar ás damas? Dançar?</div>
-<div class="verse">N’essa tolice não caio.</div>
-<div class="verse">Não me hão de lá apanhar! (<i>Sentando-se.</i>)</div>
-<div class="verse">Chego a Braga d’esta vez</div>
-<div class="verse">Por uns dois dias ou trez.</div>
-<div class="verse">Trago um fato de viagem:</div>
-<div class="verse">Eis toda a minha bagagem.</div>
-<div class="verse">Entro em casa de meu primo.</div>
-<div class="verse">—Como vaes tu?—Que surpreza!</div>
-<div class="verse">Ó diabo! adivinhaste!</div>
-<div class="verse">Mas tu sabes que apanhaste</div>
-<div class="verse">Um baile da baroneza?!</div>
-<div class="verse">—Um baile?—Um baile!—E depois?</div>
-<div class="verse">—Um baile d’estes que valem,</div>
-<div class="verse">Dados em Braga, por dois.</div>
-<div class="verse">—Não vou.—Has de ir.—Mas não posso!</div>
-<div class="verse">—Não pódes! porque?—Por tudo!</div>
-<div class="verse">Ou melhor, talvez, por nada!</div>
-<div class="verse">Pensas que eu visto casaca</div>
-<div class="verse">P’ra fazer uma jornada?!</div>
-<div class="verse">Que é da casaca? Não tenho!</div>
-<div class="verse">Gosto de andar á ligeira,</div>
-<div class="verse">Cheio de sol e poeira,</div>
-<div class="verse">Assim mesmo,—como venho.</div><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span>
-<div class="verse">—Mas, primo, talvez se arranje</div>
-<div class="verse">Algum meio... deixa vêr.</div>
-<div class="verse">—Só o capote de um conego</div>
-<div class="verse">Me póde agora valer!</div>
-<div class="verse">—Não rias! Que ideia! Espera!</div>
-<div class="verse">Se me não falha a memoria,</div>
-<div class="verse">A casaca do papá,</div>
-<div class="verse">Que Deus tenha em santa gloria,</div>
-<div class="verse">No guarda-roupa ainda está.</div>
-<div class="verse">—Santo Deus! quero lá isso!</div>
-<div class="verse">Ó primo! que reinação!</div>
-<div class="verse">Uma casaca, talvez,</div>
-<div class="verse">Com que o tio outr’ora fez</div>
-<div class="verse">De valido papa-fina</div>
-<div class="verse">Quando a Carlota Joaquina</div>
-<div class="verse">Burlou a Constituição!</div>
-<div class="verse">—Vae-se vêr. Tem paciencia...</div>
-<div class="verse">Vem a casaca. Medonha!</div>
-<div class="verse">Isto que eu trago vestido</div>
-<div class="verse">E em que me sinto mettido</div>
-<div class="verse">Como dentro d’uma fronha!</div>
-<div class="verse">—Primo, não vou.—Qual historia!</div>
-<div class="verse">Verás lá muitas assim.</div>
-<div class="verse">N’esta Braga, que é fiel,</div>
-<div class="verse">O tempo de D. Miguel</div>
-<div class="verse">Dura ainda, e não tem fim!</div>
-<div class="verse">Vaes á moda.—Á moda... antiga!</div>
-<div class="verse">—Talvez que alguma morgada,</div>
-<div class="verse">Camapheu como o seu broche,</div>
-<div class="verse">Se sinta lisonjeada</div>
-<div class="verse">D’esse aspecto <i>vieille-roche</i>.</div>
-<div class="verse">—E entre no meu coração,</div>
-<div class="verse">Por engano, e por seu pé,</div>
-<div class="verse">Julgando, por ser em Braga,</div>
-<div class="verse">Que vae ouvir missa á Sé!</div>
-<div class="verse">—Ora adeus! Calças, collete,</div>
-<div class="verse">Gravata, lenço, chapeu,</div>
-<div class="verse">O resto da <i>toilette</i>,</div>
-<div class="verse">Tudo isso, empresto-te eu.</div>
-<div class="verse">E zás, põe me na tortura,</div>
-<div class="verse">Despe-me, veste-me, entala-me,</div>
-<div class="verse">Puxa, repuxa, estrebucha,</div>
-<div class="verse">Desaperta, aperta, empala-me!</div>
-<div class="verse">Traz-me ajoujado, arrastado,</div>
-<div class="verse">Acho-me, sem saber como,</div>
-<div class="verse">Preso dentro de uma sacca!</div><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span>
-<div class="verse">Vim a pé... n’esta casaca,</div>
-<div class="verse">E o primo veio a meu lado!</div>
-</div>
-</div>
-
-<h3>SCENA IV</h3>
-
-<div class="poetry-container max30">
-<div class="poetry">
-
-<p class="center">(<i>D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão
-de fazenda entram pela porta do fundo.
-D. Mendo levantas-se vendo-os entrar.</i>)</p>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span> e <span class="smcapuc">D. GUALTER</span> (<i>simultaneamente</i>)</div>
-<div class="verse">Ó que surpreza! Um abraço!</div>
-<div class="verse">Que noite nem estreiada! (<i>abraçam-n’o de um e outro lado.</i>)</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> (<i>á parte</i>)</div>
-<div class="verse">Fica tão longe a casaca,</div>
-<div class="verse">Que não senti mesmo nada! (<i>Olhando para o escrivão de fazenda, que lhe abaixa a cabeça.</i>)</div>
-<div class="verse">Ó D. Gualter, ó D. Fafes,</div>
-<div class="verse">Ser apresentado estimo</div>
-<div class="verse">Ao distincto cavalheiro,</div>
-<div class="verse">Que tendes por companheiro.</div>
-<div class="verse">Será elle nosso primo?</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span></div>
-<div class="verse">Não é. Mas outra valia</div>
-<div class="verse">Este senhor recommenda.</div>
-<div class="verse">Isto já de fidalguia!...</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span></div>
-<div class="verse">É o escrivão de fazenda. (<i>apresentando D. Mendo</i>)</div>
-<div class="verse">Meu primo Mendo de Sousa</div>
-<div class="verse">Noronha Alvim e Lambaças...</div>
-<div class="verse">Aqui falta alguma cousa!</div>
-<div class="verse">Emfim: senhor de Boaças.</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">Falta o Tinoco materno.</div>
-<div class="verse">De meu pae falta o Rolim.</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span> (<i>emendando</i>)</div>
-<div class="verse">Mendo de Sousa Noronha</div>
-<div class="verse">Alvim Tinoco Rolim,</div>
-<div class="verse">Senhor do Brejo e Boaças.</div><span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">Agora falta o Lambaças!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span> (<i>rindo</i>)</div>
-<div class="verse">Nenhum de nossos avós</div>
-<div class="verse">Faz falta onde estamos nós!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> (<i>ao escrivão</i>)</div>
-<div class="verse">Muito emfim me lisonjea</div>
-<div class="verse">Conhecer este senhor.</div>
-<div class="verse">Faça de conta, de ideia</div>
-<div class="verse">Que me tem ao seu dispôr.</div>
-<div class="verse">Estendo-lhe a minha mão,</div>
-<div class="verse">Senhor... senhor escrivão</div>
-<div class="verse">De fazenda... propria ou alheia?</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span> (<i>precipitado</i>)</div>
-<div class="verse">Não faças troça do homem.</div>
-<div class="verse">N’estes bons tempos felizes</div>
-<div class="verse">De liberdade e igualdade</div>
-<div class="verse">Nós andamos nas mãos d’elle</div>
-<div class="verse">P’ra que não nos tire a pelle</div>
-<div class="verse">Esticando-a nas matrizes.</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">Então cá vocês não pagam?</div>
-
-<p class="center">(<i>D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda</i>)</p>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span></div>
-<div class="verse">Pagamos pouco. Bem vês</div>
-<div class="verse">Que ninguem faz em colheitas</div>
-<div class="verse">O que antigamente fez.</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">E então recorrem ás peitas!</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>N’esta altura da representação começou-se a ouvir barulho no palco. Não
-parecia que fosse rubrica da peça.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span></p>
-
-<p>D. Mendo, extranhando o barulho, dirigiu-se á porta do fundo, e gritou
-para dentro: Calem-se, seus burros!</p>
-
-<div class="poetry-container max30">
-<div class="poetry">
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span> (<i>levantando a voz para poder ser ouvido</i>)</div>
-<div class="verse">Finge a gente que o estima,</div>
-<div class="verse">Trata-o de Santo Antoninho,</div>
-<div class="verse">Mão por baixo, mão por cima.</div>
-<div class="verse">Se não ha nem pão nem vinho!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> (<i>descendo da porta do fundo, muito arreliado porque o barulho entre-scenas continua</i>)</div>
-<div class="verse">Mão por cima... é bom criterio.</div>
-<div class="verse">Mas mão por baixo... é mais serio!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span> (<i>explicando com o gesto correspondente</i>)</div>
-<div class="verse">Mão por cima e mão por baixo.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Continua e augmenta o barulho entre-scenas. Sente-se fallar de rijo,
-altercar. Da platêa rompem alguns scius.</p>
-
-<div class="poetry-container max30">
-<div class="poetry">
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div>
-<div class="verse">Isso então tinha outro nome</div>
-<div class="verse">Quando não havia fome.</div>
-<div class="verse">Chamava-se: ser capacho!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span> (<i>em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder dominar o barulho que vinha do fundo do palco</i>)</div>
-<div class="verse">Muito alegre este D. Mendo!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span> (<i>berrando para poder ser ouvido</i>)</div>
-<div class="verse">Parece rapaz, e é velho!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span> (<i>gritando cada vez mais</i>)</div>
-<div class="verse">Tem uma casa soberba!</div>
-
-<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> (<i>com voz de estentor, para o escrivão de fazenda</i>)</div>
-<div class="verse">Tenho. Mas n’outro concelho.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>N’isto o barulho augmenta entre-scenas, sente-se
-cahir uma cadeira, e de repente, correndo
-de um lado para outro, atravessa o palco Julio
-de Lemos, em <i>travesti</i> de baroneza de Piães e<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span>
-atraz d’elle, aos pontapés, um dos quaes ainda
-lhe raspou, um sujeito de cabellos grisalhos,
-baixo, atarracado, ardendo em colera.</p>
-
-<p>Uma grande parte do publico, composto de
-setubalenses, reconheceu o homem dos pontapés:
-era o pae do estudante de Alcacer. As familias
-banhistas, incluindo as Rodartes e Soledad, assustaram-se.
-Ouviram-se guinchos hystericos. Na
-platêa explodiram risadas. E ao charivari no palco
-correspondeu o charivari dos guinchos e das
-gargalhadas na platêa e nos camarotes.</p>
-
-<p>Os actores, D. Mendo, D. Fafes, D. Gualter e
-todos os mais, corriam de um lado para outro
-gritando, berrando, apparecendo e desapparecendo
-por entre os bastidores.</p>
-
-<p>O administrador do concelho sahiu precipitadamente
-do seu camarote.</p>
-
-<p>Ao cabo de cinco minutos de tumulto, o panno
-desceu.</p>
-
-<p>Na platêa continuavam as risadas, mas nos camarotes
-iam diminuindo os guinchos.</p>
-
-<p>Vozes explicavam da platêa para os camarotes:</p>
-
-<p>—Não é nada! É o pae do estudante que o
-veio buscar!</p>
-
-<p>—É o pae! é o pae! Não se afflijam, minhas
-senhoras.</p>
-
-<p>Alguns homens sahiam da platêa, corriam ao
-palco.</p>
-
-<p>D. Enrique berrava ao fundo do seu camarote:</p>
-
-<p>—<i>Que broma! que broma!</i></p>
-
-<p>Finalmente, ao cabo de um quarto de hora de
-verdadeira ingrezia, o panno subiu, e Aurelio
-Goes, ainda enfardelado na sua enorme casaca
-de D. Mendo, veio dizer á bôcca da scena:</p>
-
-<p>—Minhas senhoras e meus senhores: tendo<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span>
-desapparecido do palco o sr. Julio de Lemos, o
-espectaculo não póde continuar hoje.</p>
-
-<p>O proprietario das Alcaçovas, que tinha ido ao
-camarote das Rodartes, para lhes explicar o que
-tudo aquillo era, e tranquillisal-as, dizia:</p>
-
-<p>—Bem me constava a mim que o pae do Lemos
-estava muito quesilado com elle, e não tardaria
-a vir buscal-o. Rebentou hoje como uma
-bomba!</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer4.jpg" width="150" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header6.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>XIII</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-i.jpg" width="50" height="90" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Imagine-se quanto deu que fallar este caso
-estupendamente comico!</p>
-
-<p>Pela manhã dizia-se na praia que o pae
-do estudante havia corrido atraz d’elle pela
-rua da Conceição, e que um popular, vendo
-uma mulher a fugir e um homem a gritar
-que a prendessem, deitara a mão á supposta
-mulher; que Julio de Lemos apanhára n’esse
-momento nova roda de pontapés, e que o pae,
-agarrando-lhe por um braço, o levára para a
-hospedaria, tendo embarcado ambos no comboio
-da manhã para Lisboa.</p>
-
-<p>Episodios altamente risiveis, boquejavam-se:
-soube-se então que o jornalista havia mandado
-vir de Lisboa, para si proprio, uma coroa de
-louros, a qual coroa de louros ficára no theatro
-pendurada de um prego. Fazia-se <i>calembour</i> com
-a palavra <i>prego</i>, porque se soube logo tambem a<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span>
-quem o jornalista pedira emprestado o dinheiro
-para pagar a coroa. Accrescentava-se que o estudante
-se esquecêra, na atrapalhação em que ficára,
-de restituir a <i>toilette</i> a D. Estanislada, mas
-averiguou-se depois que o pae de Julio de Lemos
-havia mandado entregar tudo.</p>
-
-<p>Aurelio Goes não apparecia, estava envergonhado
-e furioso: envergonhado pelo <i>fiasco</i> e furioso
-por vêr perdida a occasião de trepar para
-o pedestal de Garrett.</p>
-
-<p>Á noite asseverou-se, e era verdade, que Aurelio
-Goes havia partido no comboio da tarde
-para Lisboa, á franceza, sem dizer adeus a ninguem,
-nem mesmo á pessoa que lhe havia emprestado
-o dinheiro para a coroa de louros.</p>
-
-<p>Só duas pessoas, não que ellas o dissessem a
-ninguem, haviam tirado algum proveito d’essa
-mallograda récita.</p>
-
-<p>A primeira era D. Estanislada que, graças ao
-estudante, ficára sabendo que, no sorteio de
-Troia, havia cahido em sorte ao sueco.</p>
-
-<p>A segunda era o sueco que, na noite da récita,
-tinha offerecido um camarote de segunda
-ordem á senhora Magdalena e á menina Ricardina.</p>
-
-<p>Pois que! A menina Ricardina soubera tecer
-a sua rede, e apanhou nas malhas o sueco. Foi
-com esse fim que ella o chamára para lhe fazer
-as confidencias que sabemos. Elle, encantado com
-tão boa fortuna, porque era essa a primeira portugueza
-que se lhe tornava accessivel, voltára na
-noite seguinte, e logo n’essa noite ficou estabelecido
-o galanteio.</p>
-
-<p>A menina Ricardina contou á mãe que o sueco
-lhe tinha dito que queria desposal-a, e a sr.ª
-Magdalena, depois da filha lhe prometter que <i>teria
-muito juizo</i>, prometteu ao Senhor do Bomfim<span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span>
-um sueco de cêra, se o namoro viesse a disparar
-em casamento.</p>
-
-<p>Annunciada a récita, o sueco offereceu á namorada
-um camarote de segunda ordem, camarote
-de industria escolhido para dar pouco nas
-vistas: era de bôcca.</p>
-
-<p>E logo que a sr.ª Magdalena e a filha se sentaram
-no camarote offerecido, o sueco, a proposito
-de saber se ellas queriam alguma coisa, foi
-visital-as, e ficou.</p>
-
-<p>Sentou-se discretamente ao fundo do camarote,
-encantado com a mobilidade gracil com que Ricardina
-mexia a cabeça, olhando para um e outro
-lado como um passaro na gaiola.</p>
-
-<p>Ella estava delirante de alegria por se vêr no
-theatro, coisa que já lhe não acontecia havia dois
-annos, desde que um rapaz, que tinha ido a banhos,
-lhe offerecera duas cadeiras no barracão
-dos Dallots para ella assistir com a mãe á representação
-da <i>Mão do finado</i>.</p>
-
-<p>Mas vêr-se de camarote, n’um espectaculo concorrido
-pelas melhores familias da terra e de fóra,
-estonteava-a d’alegria e de orgulho.</p>
-
-<p>Quando principou a desencadear-se no palco a
-tempestade, que fez gorar o espectaculo, a menina
-Ricardina pôz-se de pé, como quasi toda a
-gente, e aproveitou a occasião para ir sentar-se,
-ao fundo do camarote, perto do sueco.</p>
-
-<p>A mãe ficou muito entretida a vêr o escandalo
-do palco, sem dar a menor attenção ao escandalo
-do camarote. O sueco e a menina Ricardina,
-de mãos entrelaçadas, muito ternos, já se
-não importavam senão comsigo mesmos, indifferentes
-ao tumulto que de repente se havia levantado.</p>
-
-<p>Entretanto D. Estanislada estranhava não vêr
-o sueco, porque, depois que o estudante lhe contára<span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span>
-a historia do sorteio, ella havia architectado
-um romance de amor internacional.</p>
-
-<p>O sueco, na sua opinião, tomára a sério o sorteio,
-o sueco amava-a, e por isso o conselheiro.
-Antunes o tinha encontrado perto da casa de D.
-Enrique, com o que, como sabemos, ficára furioso.</p>
-
-<p>Havia, é verdade, uma carta do sueco para
-Soledad, carta que D. Estanislada e o conselheiro
-abriram e leram, mas essa carta bem podia ser
-um habil disfarce do sueco para prevenir a hypothese
-de qualquer escandalo futuro.</p>
-
-<p>Não fingira a principio o conselheiro, tambem
-habilmente, namorar Soledad para afastar suspeitas
-do seu galanteio com D. Estanislada? Pois
-muito bem! O sueco fazia o contrario, simulava
-namorar Soledad para se aproximar, sem dar
-nas vistas, do coração de D. Estanislada.</p>
-
-<p>A hespanhola mãe principiava a sentir-se amada
-pela segunda vez em Setubal.</p>
-
-<p>O sueco mal podia imaginal-o! Elle andava
-n’umas paschoas desde que possuia o coração da
-menina Ricardina. Já se não importava de Soledad,
-que seria mais bella, não o negava, mas
-não era tão accessivel, tão meiga, tão carinhosa
-para elle.</p>
-
-<p>O theatro, n’aquella noite da récita mallograda,
-foi-se esvaziando, os espectadores sahiam fazendo
-commentarios em voz alta, rindo, só a sr.ª
-Magdalena, a menina Ricardina e o sueco se deixaram
-ficar para ser os ultimos a sahir.</p>
-
-<p>Já começavam a apagar-se as luzes quando os
-tres desceram. E como a noite estivesse serena,
-posto não houvesse luar, o sueco convidou a sr.ª
-Magdalena a irem dar um pequeno passeio. Ella
-objectou que poderia ser isso reparado, mas a filha,
-vendo que a mãe não se entendia muito bem<span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span>
-com a aravia do sueco, replicou que não havia
-luar e que até fazia bem dar um passeio n’uma
-noite de verão: que bem encalmada saira ella do
-theatro. Calma d’amor, principalmente, porque o
-sueco, de mãos enlaçadas com a menina Ricardina,
-fizera subir o thermometro.</p>
-
-<p>Foram caminhando até ao largo das Almas, e
-ahi metteram para o Campo do Bomfim, os dois
-adiante, a sr.ª Magdalena fiscalisando-os.</p>
-
-<p>Contornaram o campo, e a sr.ª Magdalena,
-quando passavam em direcção á capella do Senhor
-do Bomfim,, não se dispensou de parar para
-rezar de longe á milagrosa imagem da sua especial
-devoção.</p>
-
-<p>Foi n’essa occasião que o sueco roubára um
-beijo á menina Ricardina.</p>
-
-<p>Estou a imaginar o que algum dos mais ingenuos
-dos meus leitores dirá comsigo mesmo:
-«Ah! o primeiro beijo! que delicioso momento
-de felicidade, esse!»</p>
-
-<p>Perdão, leitor ingenuo! Não era o primeiro
-beijo que elle dava, mas o terceiro. Sim, o terceiro,
-um terceiro... franciscano, a julgar pela
-modestia com que passou dos labios do sueco
-para a face da menina Ricardina, como se passasse
-de uma cella para outra. Dir-se-ia que era
-um beijo de sandalias, porque passou sem fazer
-barulho.</p>
-
-<p>Quando recolheram a casa, a sr.ª Magdalena
-disse á menina Ricardina:</p>
-
-<p>—Não sei como tu te podes entender com o
-sueco!</p>
-
-<p>—Por quê, minha mãe?</p>
-
-<p>—Eu entendo muito pouco do que elle diz!</p>
-
-<p>—Pois eu entendo-o perfeitamente...</p>
-
-<p>Ó amor! ó lingua universal dos corações namorados!
-tu és a unica lingua que se póde aprender<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span>
-sem grammatica e sem diccionario! lingua
-de substantivos apenas, em que dois nomes proprios
-se juntam para formar o plural!</p>
-
-<p>Todos os acontecimentos que se tinham dado
-nos ultimos dias haviam contribuido para diminuir
-e empallidecer a côrte de admiradores que,
-antes da chegada das Rodartes, acompanhava
-por toda a parte a bella andaluza.</p>
-
-<p>Os dois alemtejanos, como dois corações patriotas,
-desertaram da côrte castelhana para a
-côrte portugueza, logo que o Alemtejo se viu soberanamente
-glorificado na pessoa das tres Graças
-da Messejana.</p>
-
-<p>O sueco havia-se retirado para Cintra, segundo
-constava, quando Soledad fôra para Lisboa com
-o pae. Estava certamente contrariado pela concorrencia
-que lhe faziam os outros pretendentes
-á mão da bella andaluza. Ella propria pensava
-isto.</p>
-
-<p>O conselheiro Antunes retirára-se para Santarem.</p>
-
-<p>Depois da noite fatal da récita, o estudante e o
-jornalista desappareceram, abandonaram o seu
-posto de cortezãos.</p>
-
-<p>Restavam apenas o hespanhol, o Vianninha e
-os officiaes de caçadores.</p>
-
-<p>Já não havia <i>tertulias</i> possiveis, Soledad passava
-as noites sentada com a familia n’um banco
-da Praia, aturando ás vezes D. Ramon, outras
-vezes o Vianninha ou o tenente Epaminondas ou
-o alferes Ruivo, mas nada d’isso, que era pouco,
-podia contentar a sua alma de andaluza: a <i>tertulia</i>,
-a querida <i>tertulia</i>, que tanto lhe electrisava
-os nervos, fazia-lhe muita falta.</p>
-
-<p>Abrindo e fechando o <i>abanico</i>, aborrecia-se,
-chegava a bocejar. Tinha desesperos intimos,
-raivas surdas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span></p>
-
-<p>E, quando passava pela casa das Rodartes,
-e via luz nas janellas, uma revoltada emulação
-fazia brilhar, n’um relampago, as pupillas negras
-dos seus olhos.</p>
-
-<p>—Ao menos as tres irmãs, as Rodartes, entretinham-se
-ás noites, ao passo que ella, rainha
-quasi desthronada, só tinha por futuro um
-banco da Praia e uma côrte cada vez mais reduzida.</p>
-
-<p>Uma vez, com manifesto mau humor, perguntára
-Soledad ao tenente Epaminondas, ironicamente,
-se aquillo que havia ás noites em casa
-das Rodartes eram <i>tertulias</i>.</p>
-
-<p>E o tenente, muito desdenhoso, respondera
-rindo:</p>
-
-<p>—Quaes <i>tertulias</i>! São os dois alemtejanos
-que estão a jogar o loto na côrte do <i>Padre Eterno</i>!</p>
-
-<p>Mas Soledad, raivosa, mordera o beiço.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer2.jpg" width="150" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header4.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>XIV</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="130" height="90" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">D. Ramon Mendoza, que era o hespanhol
-mais insipido de que ha memoria,
-não conquistára vantagens
-amorosas junto de Soledad.</p>
-
-<p>Ella achava-o, como toda a gente, uma individualidade
-incolor, fugidia, d’estas que não deixam
-a ninguem uma impressão duradoira.</p>
-
-<p>Apesar de vêr muito dizimada a sua côrte galante,
-Soledad não dava maior attenção ao hespanholito.
-Nem o coração nem a razão a impelliam
-para elle. O coração recebia-o com indifferença;
-a razão dizia a Soledad que, depois de ter
-tido um tão variado cortejo, seria um desaire recorrer
-á <i>prata de casa</i>,—a um patricio insignificante.</p>
-
-<p>Sabendo que o sueco voltára a Setubal, lembrou-se
-de atiçar de novo a chamma do amor
-n’esse coração da Scandinavia, que tanta vez se<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span>
-lhe havia rendido. Mas por onde andava elle, que
-lhe não apparecia?</p>
-
-<p>Uma noite, tendo a familia Saavedra recolhido
-a casa, depois de passear na alameda da Praia,
-Soledad ficou por algum tempo á janella.</p>
-
-<p>A noite estava calmosa, a casa era abafada,
-tinha apenas duas janellas. D. Enrique deitára-se,
-fôra para a cama lêr os jornaes hespanhoes que
-n’esse dia o correio lhe trouxera.</p>
-
-<p>D. Estanislada andava, como sabemos, em reservada
-observação a respeito do sueco: se elle
-era um namorado timido, como suppunha, ella o
-alentaria com a sua audacia de abelha-mestra andaluza.</p>
-
-<p>Deitado o marido, D. Estanislada abriu a outra
-janella da sala, a pretexto de tomar ar. Cada
-uma, mãe e filha, occupava sua janella. E ambas
-tinham o mesmo pensamento: vêr se o sueco,
-protegido pela noite, passaria por ali.</p>
-
-<p>A menina Ricardina, por dentro da vidraça do
-seu <i>rez-de-chaussée</i>, esperava tambem o sueco,
-e sentia-se contrariada pela presença das hespanholas,
-que pareciam não ter somno n’aquella
-noite.</p>
-
-<p>A principio suppôz que mãe e filha estivessem
-apenas tomando o fresco, mas deram onze e meia
-no relogio de S. Julião, deu meia noite, e ellas
-não sahiam da janella.</p>
-
-<p>A meia noite era a hora marcada para a entrevista
-do sueco com a menina Ricardina. A sr.ª
-Magdalena dormia profundamente a essa hora. A
-filha levantava-se do leito, abria cautelosamente
-a janella, vinha esperar, no silencio da noite, o
-sueco. Mas n’aquella noite, vendo as hespanholas,
-ficára por dentro da vidraça, espreitando-as.</p>
-
-<p>Á meia noite em ponto—a pontualidade em
-tudo é uma caracteristica das raças do norte—o<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span>
-sueco assomou á esquina da rua, que julgava
-deserta a essa hora, segundo o costume.</p>
-
-<p>Viu porém gente nas duas janellas da casa de
-D. Enrique, e fechada a vidraça de Ricardina.</p>
-
-<p>Ficou por sua vez contrariado, perplexo, sem
-saber se havia de retroceder ou de avançar. Coseu-se
-com a sombra do muro, parou, indeciso.</p>
-
-<p>N’esse momento tres corações de mulher monologaram
-simultaneamente.</p>
-
-<p>O coração de Ricardina:</p>
-
-<p>—É elle!</p>
-
-<p>O coração de Soledad:</p>
-
-<p>—É elle!</p>
-
-<p>O coração de D. Estanislada:</p>
-
-<p>—É elle!</p>
-
-<p>O sueco observava de longe, via dois vultos
-de mulher nas janellas da casa de D. Enrique,
-sem comtudo poder distinguil-os. Mas um d’esses
-vultos havia de ser, certamente, o de Soledad,
-e então aviventou-se no coração do sueco
-o rescaldo da agradavel impressão, que a belleza
-d’essa mulher lhe havia causado.</p>
-
-<p>Ella era realmente formosa, tinha uma graça
-acirrante, uma graça meridional, que punha em
-vibração os nervos de todos os homens, especialmente
-os de um homem do norte.</p>
-
-<p>Mas Ricardina, sem ser tão bella, nem tão
-graciosa, sabia melhor talvez conquistar e deixar-se
-conquistar. As pequenas felicidades que Ricardina
-já lhe havia concedido, eram o prologo tentador
-de uma promessa, e não ha homem nenhum,
-seja do norte ou do sul, que se não sinta vibrante
-a dois passos de uma posse sem restricções.</p>
-
-<p>Estava, pois, o sueco ardendo em dois fogos,
-e muito longe de imaginar que um terceiro incendio
-o ameaçava de perto. Esse terceiro incendio
-era D. Estanislada.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p>
-
-<p>De repente, olhando do escuro para a casa de
-D. Enrique, viu mexer-se n’uma das janellas um
-lenço branco.</p>
-
-<p>Era o lenço de Soledad.</p>
-
-<p>D’ahi a momentos, na segunda janella, outro
-lenço branco passou cavillosamente pelas narinas
-de D. Estanislada.</p>
-
-<p>Elle viu tudo isto, e, sem poder reconhecer
-Soledad nem D. Estanislada, ficou cada vez mais
-desorientado.</p>
-
-<p>Lembrando-se de que Ricardina, comquanto
-tivesse a janella fechada, o devia estar esperando,
-olhou para o <i>rez-de-chaussée</i>, e viu uma ponta
-de lenço assomar por baixo da vidraça e logo
-desapparecer.</p>
-
-<p>Sem saber o que fizesse, deixou-se estar no escuro,
-esperando os acontecimentos.</p>
-
-<p>D’ahi a pouco, um lenço branco cahiu de uma
-das janellas de D. Enrique para a rua, e ouviu-se
-descer uma vidraça.</p>
-
-<p>Era Soledad que ia deitar-se e que, disfarçadamente,
-para que a mãe não désse por isso, tinha
-deixado cahir o lenço como de um balcão da
-idade média.</p>
-
-<p>D. Estanislada, a quem não era facil enganar,
-viu a manobra do lenço da filha e, mal ella voltara
-costas, fez o mesmo, com mais algum descaramento:
-agitou o lenço e deixou-o cahir á rua.
-Depois fechou com estrondo a janella.</p>
-
-<p>D. Enrique, que, tendo passado pela vista os
-jornaes, já dormitava, accordou ouvindo o barulho
-da vidraça; teve um estremecimento nervoso
-e regougou:</p>
-
-<p>—<i>Que broma!</i></p>
-
-<p>Voltando-se para o outro lado, tornou a pegar
-no somno.</p>
-
-<p>O sueco ainda esteve cerca de um quarto de<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span>
-hora alapardado no escuro, mas, vendo abrir-se
-a janella de Ricardina, sahiu da sombra, sem todavia
-perder de vista os dois lenços brancos, que
-estavam no chão.</p>
-
-<p>Quando elle se approximava do <i>rez-de-chaussé</i>,
-sentiu abrir-se cautelosamente a porta da sr.ª
-Magdalena.</p>
-
-<p>Um fremito de electricidade amorosa percorreu
-todo o seu corpo; n’aquella noite o amor triumpharia
-sem restricções, pensou elle.</p>
-
-<p>Mas Ricardina atravessou rapidamente a rua,
-com um passinho de passaro, apanhou os dois
-lenços que estavam no chão debaixo das janellas
-das hespanholas, e correu para casa.</p>
-
-<p>O sueco, sem saber a façanha gloriosa de Martim
-Moniz no castello de Lisboa, ia a imital-o por
-intuição, quiz atravessar-se na porta, para entrar,
-mas Ricardina empurrou-o com desabrimento, dizendo
-iracunda:</p>
-
-<p>—Não! nunca!</p>
-
-<p>E fechou a porta da rua. Depois fechou as portas
-da janella.</p>
-
-<p>E o sueco achou-se em plena rua, cada vez
-mais atarantado, sem perceber nada de tudo
-aquillo.</p>
-
-<p>Ricardina estava como uma bicha contra o
-sueco, contra as hespanholas, contra o enguiço
-d’aquella noite.</p>
-
-<p>Jurava vingar-se de tudo e de todos, e, tendo
-visto cahir os lenços, quizera adquiril-os como
-prova da leviandade de Soledad e de D. Estanislada.
-Percebera, com a sua aguda intuição maliciosa,
-a comedia representada pela mãe e pela filha,
-procurando enganarem-se uma á outra.</p>
-
-<p>A primeira ideia de Ricardina foi lançar mão
-de todos os meios que podessem libertal-a da visinhança
-das hespanholas: lembrou-se de mandar<span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span>
-os lenços a D. Enrique, dentro de uma carta
-anonyma, em que lhe explicasse o que se tinha
-passado.</p>
-
-<p>Mas receando ir provocar uma tragedia domestica—como
-ella conhecia mal D. Enrique!—resolveu,
-por fim, enviar á filha o lenço da mãe,
-enviar á mãe o lenço da filha, descobrindo o plano
-de ambas, e ameaçando-as com uma denuncia.</p>
-
-<p>Assim fez. Chamou um rapasito que tinha andado
-com ella na escóla, e encarregou-o de escrever
-as duas cartas, e de sobrescriptal-as.</p>
-
-<p>A D. Estanislada dizia:</p>
-
-<p>«Ahi vae o lenço que a senhora sua filha atirou
-hontem ao sueco, pensando que usted não
-dava por isso. Tenha tento na bola, quando não
-eu aviso o seu homem, e espalho em toda a cidade
-este grande escandalo. O melhor é safar-se
-d’aqui quanto antes.»</p>
-
-<p>Para Soledad o texto era este:</p>
-
-<p>«A senhora sua mãe, logo que usted fechou
-hontem a janella, atirou ao sueco este lenço, que
-lhe mando. Veja usted que tem dentro das portas
-a sua primeira rival. Aconselho-a, se quizer
-evitar um grande escandalo, a que trate de sahir
-de Setubal».</p>
-
-<p>Ricardina esperou que D. Enrique sahisse de
-casa, para mandar entregar, pelo mesmo rapasito,
-as duas cartas, com os lenços dentro.</p>
-
-<p>O expediente surtiu effeito, porque n’essa noite
-não se abriram as janellas da casa de D. Enrique.</p>
-
-<p>O sueco, ao dar da meia noite, foi, muito timidamente,
-procurar uma reconciliação com Ricardina.</p>
-
-<p>Viu a janella fechada, mas, perdendo um pouco
-a timidez, aproximou-se da vidraça: Ricardina<span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span>
-estava n’uma posição estudada, com o rosto
-apoiado na mão direita, olhando para o céo onde
-a lua passava entre nuvens.</p>
-
-<p>O sueco bateu com os dedos na vidraça, e Ricardina,
-que lhe seguia disfarçadamente os movimentos,
-fingiu despertar, sobresaltada, da sua
-apaixonada <i>réverie</i>. Encarando com o sueco, fez
-um movimento de desdem, e recahiu em simulada
-contemplação.</p>
-
-<p>Elle pôz as mãos como supplicando-lhe que levantas-se
-a vidraça.</p>
-
-<p>Ricardina, mostrando-se contrariada, abriu a
-janella e perguntou-lhe de repellão:</p>
-
-<p>—O que quer o sr. de mim? Ainda tem cara
-de me apparecer aqui?!</p>
-
-<p>O sueco desculpou-se: que sim, que tinha cara,
-porque tinha coração. Que a amava muito. Que
-na vespera não quizera aproximar-se para a não
-comprometter. Que não tinha culpa de que as
-hespanholas—e n’isto teve graça—se lembrassem
-de fazer d’elle lavadeira, dando-lhe lenços para
-lavar.</p>
-
-<p>Ricardina mostrou-se resentida, ciumenta, e
-não quiz dizer n’essa noite a sua ultima palavra
-de perdão. Era uma tactica habil, para subjugar
-o sueco, para o obrigar a reconquistar o terreno
-perdido.</p>
-
-<p>Por dentro dos vidros, ás escuras, Soledad e
-D. Estanislada tinham vindo, cada uma por sua
-vez, espreitar para a rua, na esperança de que o
-sueco voltasse.</p>
-
-<p>Ambas o viram: Soledad surprehendeu-o n’uma
-attitude comica, a implorar de mãos postas á menina
-Ricardina que levantasse a vidraça. Ficou
-indignada, não tanto pela attitude humilhante
-d’elle, como por ter a certeza de que lhe roubavam...
-<i>mais um</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span></p>
-
-<p>D. Estanislada, a quem a filha não fallava desde
-pela manhã, deixou-a deitar para vir pé-ante-pé
-espreitar por dentro dos vidros.</p>
-
-<p>Reconheceu facilmente a corpolencia do sueco,
-dobrado sobre a janella de Ricardina.</p>
-
-<p>—Ai! pensou D. Estanislada, que elle namora
-a lambisgoia da filha da senhoria! Estou bem arranjada
-com maus visinhos de ao pé da porta!
-O melhor é tratar de pôr-me ao fresco, porque
-eu já fiquei desconfiada quando n’aquella noite,
-em que cá esteve o conselheiro, a tal menina Ricardina
-deixou cahir o annel debaixo da meza!</p>
-
-<p>E reflectindo um instante:</p>
-
-<p>—Ai! que foi ella que bateu e gritou á porta!</p>
-
-<p>No dia seguinte, á volta do banho, quiz o acaso
-que as duas hespanholas encontrassem o sueco.
-Elle ia para cumprimental-as, quando Soledad,
-que levava grande dianteira á mãe, lhe disse
-bruscamente:</p>
-
-<p>—<i>Picaro!</i></p>
-
-<p>Sem ter percebido bem o que Soledad dissera,
-mas reconhecendo em todo caso que ella quizera
-insultal-o, atordoado, indeciso, levou a mão
-ao chapeu quando passava junto de D. Estanislada.</p>
-
-<p>E ella, sem parar, disse-lhe altivamente:</p>
-
-<p>—<i>Infáme!</i></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer3.jpg" width="150" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header7.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>XV</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="160" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Ás sete horas da manhã, Araujo Rodarte
-e as suas tres netas sahiram, como de
-costume, para o banho.</p>
-
-<p>Atravessaram o passeio da Praia
-de Troino, riscado havia tres annos. Os eucalyptos
-haviam crescido com a precocidade que
-caracterisa o desenvolvimento d’estas arvores, de
-modo que abrigavam uma legião de passaros,
-cuja chilreada era como que um doce concerto
-matutino.</p>
-
-<p>Sobre o lago, e nas seis extensas avenidas que
-do lago irradiam, algumas borboletas passavam,
-batendo, na palpitação da luz, as suas azas brancas.</p>
-
-<p>Um rapasito, que vinha de levar o almoço ao
-pae, empregado na Doca, havia poisado a cafeteira
-sobre a borda do lago, e, de joelhos, brincava
-mettendo as mãos na agua, agitando-a, para
-fazer turbilhonar os peixes vermelhos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span></p>
-
-<p>As Rodartes e o avô sentaram-se alguns momentos
-em dois dos bancos que torneam o lago,
-porque o sol ia descobrindo, e era agradavel aos
-banhistas, na travessia de casa para o banho,
-descansar na frescura d’aquelle oasis.</p>
-
-<p>Depois cortaram na direcção da praia, a que
-faltava o pittoresco das praias do norte do paiz,
-onde os arruamentos das barracas alvejam garridamente.</p>
-
-<p>Em Setubal o systema seguido é o do wagon e
-o da prancha. Os banhistas despem-se e vestem-se
-nos compartimentos do wagon, e mergulham
-na agua agarrados á prancha. Os <i>mirones</i> aproveitam
-a sombra escassa do wagon para sentar-se
-a gosar o espectaculo da praia.</p>
-
-<p>Salomé e o avô, que não tomavam banho, sentaram-se
-á sombra, emquanto Hilda e Maria
-Ignez foram fazer a sua <i>toilette</i> balnear.</p>
-
-<p>O Sado estava tranquillo e diamantino. Alguns
-golfinhos davam saltos, ao largo, n’uma folia de
-<i>clowns</i> aquaticos.</p>
-
-<p>Sobre a abertura da barra a luz cahia em jorros
-doirando o mar, e a torre do Outão, com os
-seus contornos duros, dava relevo á margem direita
-do Sado.</p>
-
-<p>A concorrencia de banhistas era, áquella hora,
-diminuta. Uma creança, nos braços do banheiro,
-gritava como possessa, e outra creança, de sete
-a oito annos, mettida dentro d’agua, ria de vêr
-chorar a outra, e chapinhava-a saracoteando-se
-no banho. Uma hespanhola gorda, agarrada
-á prancha, resfolegava como uma phoca. E um
-padre, de camisola de malha, fazia ensaios de natação
-inhabil, arrastando-se na ondulação da agua
-até ir esbarrar na areia.</p>
-
-<p>Araujo Rodarte e Salomé estiveram um momento
-calados, até que, de repente, disse elle á neta:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span></p>
-
-<p>—Admira não estarem cá hoje os nossos patricios!</p>
-
-<p>—Foram a Lisboa tratar de negocios, segundo
-disseram ás manas, respondeu Salomé.</p>
-
-<p>E o velho, com ar de alegre ironia, observou:</p>
-
-<p>—Como ellas andam bem informadas!</p>
-
-<p>Salomé sorriu-se.</p>
-
-<p>—Sempre quero vêr—disse o Rodarte após
-um momento de silencio—se aquellas duas senhoras—referia-se
-a Hilda e Maria Ignez—terão
-coragem para me fazer alguma traição!...</p>
-
-<p>—Alguma traição?!</p>
-
-<p>—Sim, se terão coragem para me deixar só
-comtigo na Messejana!</p>
-
-<p>—Não pense n’isso, avôsinho.</p>
-
-<p>—Dizes tu que não pense n’isso! Mas em que
-hei-de eu pensar senão em vocês! Que tenho eu
-que me prenda agora mais no mundo?! A velhice
-não me tornou ainda tão tolo, que não perceba o
-que é um namoro. Lá de que as tuas irmãs são
-requestadas pelos nossos patricios, já não posso
-eu duvidar. E não me revolta isso, mas entristece-me.
-Sempre vos tenho dito que não tenhaes
-pressa de casar, sobretudo de casar mal, porque
-estaes habituadas a viver bem; mas não posso
-levar a minha exigencia até ao ponto de vos querer
-para freiras. Que anda moiro na costa, é certo,
-e que os dois nossos patricios são pessoas
-estimaveis, e maridos convenientes, não é menos
-certo. Mas o que me entristece é o receio de vêr
-desfeito de um dia para o outro o nosso pequeno
-grupo de familia, indo a Hilda para Reguengos
-e a Maria Ignez para as Alcaçovas. Ficaremos
-nós, como dois solitarios, no casarão da Messejana.
-E tu, Salomé, e tu, que noticias me dás do
-teu coração?...</p>
-
-<p>—Nem o sinto! respondeu, sorrindo, Salomé.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span></p>
-
-<p>—Pareceu-me que o pateta do Vianninha pretendia
-fazer-te a côrte...</p>
-
-<p>—Sim... talvez. Perdia o tempo.</p>
-
-<p>—Já anda desilludido, porque apparece menos.
-Era um mau casamento, porque é sempre um
-mau casamento aquelle em que se conquista uma
-supposta felicidade á custa da infelicidade de outrem.
-O pateta tem feito soffrer a Sequeira, que
-se apaixonou por elle, e que podia empregar-se
-melhor. E o ratão do sueco! o que é feito d’elle?</p>
-
-<p>—Creio que andará arrastando a aza á <i>señorita</i>.
-Não o tenho visto.</p>
-
-<p>—Grande aza deve ser, se fôr proporcional ao
-hombro! Olha lá: o hespanholito?</p>
-
-<p>—D. Ramon?</p>
-
-<p>—Sim.</p>
-
-<p>—Deve andar com os seus patricios. Tambem
-o não tenho visto.</p>
-
-<p>—De toda essa <i>ala dos namorados</i> que ahi appareceu
-tão galharda, apenas se salvaram talvez
-dois cavalleiros andantes.</p>
-
-<p>—Quaes, avôsinho?</p>
-
-<p>—Quaes! Os que combatem por tuas irmãs, e
-que m’as querem levar, cada um para sua terra
-differente...</p>
-
-<p>N’este momento Hilda e Maria Ignez, vestidas
-para o banho, sahiram do wagon.</p>
-
-<p>São raras as mulheres que conseguem triumphar
-de uma tão desgraçada <i>toilette</i>: blusa e
-calção de flanella. Mas principalmente Hilda, graças
-á sua correcta plastica, livrava-se do ridiculo
-da <i>toilette</i>. O relevo do seio, accentuado sem exagero,
-aformoseava-lhe o busto.</p>
-
-<p>Sentindo-as fallar, o avô gritou-lhes logo:</p>
-
-<p>—Não apanhem sol, meninas!</p>
-
-<p>—Já vamos, avôsinho, já vamos, responderam
-ellas quasi simultaneamente.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span></p>
-
-<p>E, dando as mãos uma á outra, saltaram da
-prancha ao mesmo tempo, fazendo agitar a agua,
-que salpicou a prancha e ainda o wagon.</p>
-
-<p>Rindo e mergulhando, o banho foi para ellas,
-como sempre, uma folia quasi infantil.</p>
-
-<p>Araujo Rodarte, ouvindo-as, ficou pensativo,
-calado. O seu espirito fixou-se n’um pensamento,
-que, momentos antes, havia revelado a Salomé:
-queriam roubar-lhe aquellas duas netas, e entristecia-o
-o lembrar-se que tinha de separar-se d’ellas.</p>
-
-<p>Estavam ainda as duas Rodartes no banho,
-quando chegaram á praia o alferes Ruivo e o tenente
-Rosalgar, que não deixavam nunca, todas
-as manhãs, de ir dár uma vista de olhos ás banhistas.</p>
-
-<p>Desde o mallogrado espectaculo da <i>Noite sinistra</i>,
-aquelles dois officiaes, bem como o tenente
-Epaminondas, ficaram sendo conhecidos no café
-<i>Esperança</i> pelos nomes dos personagens que na
-peça lhes haviam sido distribuidos.</p>
-
-<p>Assim, por isso que as alcunhas se tinham já
-divulgado, podemos dizer que <i>D. Fafes Estorninho</i>
-e <i>D. Gualter Byscaia</i> estão sobre o wagon,
-conversando com Araujo Rodarte e Salomé, sem
-comtudo deixarem de dar attenção ao banho de
-Hilda e Maria Ignez.</p>
-
-<p>—Parece-me, disse aos dois Araujo Rodarte,
-que ainda não tinha tido o gosto de os vêr desde
-aquella noite....</p>
-
-<p>—Aquella <i>Noite sinistra</i>! atalharam ambos os
-officiaes, fazendo allusão ao titulo da peça, e rindo
-ás gargalhadas.</p>
-
-<p>—Foi pena que tivessem tanto trabalho!</p>
-
-<p>—Tudo aquillo divertiu, respondeu o alferes
-Ruivo. Divertiu mais ainda, talvez, do que se se
-tivesse preenchido todo o espectaculo. E deixou<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span>
-recordações alegres para muito tempo! Sabem v.
-ex.ᵃˢ uma coisa? Desde a <i>Noite sinistra</i> eu passei
-a ser conhecido por <i>D. Gualter Byscaia</i>, e
-aqui o tenente por <i>D. Fafes Estorninho</i>.</p>
-
-<p>—Tem graça! observou Araujo Rodarte.</p>
-
-<p>Os dois officiaes continuaram a rir, enviezando
-o olhar para Hilda e Maria Ignez, que sahiam do
-banho, subindo á prancha.</p>
-
-<p>—Mas, disse Salomé, ainda entrava tambem
-um collega de v. ex.ᵃˢ....</p>
-
-<p>—Era o Epaminondas, minha senhora, respondeu
-o tenente Rosalgar. Esse é o <i>D. Diogo Cucufate</i>.</p>
-
-<p>Salomé e o avô riram.</p>
-
-<p>—E a comedia do Goes parecia ter algum merecimento.
-Foi pena que não chegasse ao fim!
-disse Araujo Rodarte.</p>
-
-<p>—Pena especialmente para o Lemos—observou
-o alferes Ruivo—que nunca foi egualado
-em tamanha desgraça por nenhum Talma amador!</p>
-
-<p>—Pobre rapaz... e pobre pae! reflexionou
-Araujo Rodarte.</p>
-
-<p>—Eu nunca vi apanhar tanto pontapé! atalhou
-o tenente Rosalgar.</p>
-
-<p>—E como o Julio, accrescentou o alferes, largou
-a fugir vestido de mulher, galgando dois
-a dois os degraus da escada até se vêr na rua!</p>
-
-<p>—O que lhe valeu foi não tropeçar no vestido!
-commentou o tenente.</p>
-
-<p>—A D. Estanislada esteve em risco, disse o
-alferes, de perder uma das melhores peças do
-seu guarda-roupa.</p>
-
-<p>—Não! Quem perdeu a peça foi o Goes. A
-peça e a gloria!</p>
-
-<p>Riram todos muito com esta observação do tenente
-Rosalgar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span></p>
-
-<p>E d’ahi a momentos o alferes:</p>
-
-<p>—A gloria e... a coroa!</p>
-
-<p>—O que é isso da coroa? perguntou Araujo
-Rodarte.</p>
-
-<p>—Ah! Pois v. exc.ᵃˢ não sabem? O Goes tinha
-mandado vir de Lisboa uma coroa de louros para
-se coroar a si proprio!</p>
-
-<p>—Sim?! perguntou Salomé.</p>
-
-<p>—Sim, minha senhora, explicou o alferes. Ora
-o melhor da passagem é que foi o Marcolino,
-marcador do café <i>Esperança</i>, quem emprestou
-ao Goes o dinheiro para pagar a coroa, e parece
-que está resolvido a rifal-a para vêr se salva o
-emprestimo.</p>
-
-<p>—Isso tem muita graça! apostrophou Araujo
-Rodarte. Eu recebi lá em casa a importancia do
-meu camarote. Se soubesse que se rifava a coroa,
-tinha reservado essa quantia para me habilitar
-a ser coroado, perorou o velho rindo.</p>
-
-<p>—O administrador do concelho, de combinação
-com o presidente do conselho director do Asylo,
-resolveu, visto que o espectaculo não chegou
-a ultimar-se, mandar restituir aos espectadores
-a importancia das respectivas entradas. Mas o
-Marcolino fez justiça por suas proprias mãos:
-vendo a coroa dependurada no camarim do Goes,
-deitou-lhe a mão, para não perder tudo, e vae rifal-a.</p>
-
-<p>—Uma acção bonita, alvitrou o tenente Rosalgar,
-era comprar um bilhete da rifa em nome de
-Bocage, que tem mais direito á coroa do que o
-Goes.</p>
-
-<p>—Não! eu cá, se me sahir o premio, disse o
-alferes, faço presente da coroa á tia Felismina do
-hotel Escoveiro: ao menos, durante um semestre,
-não nos ha-de faltar louro na comida.</p>
-
-<p>—Pois o melhor de tudo, observou Araujo<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span>
-Rodarte, era mandar de presente a coroa ao rapaz,
-porque lhe póde servir para outra vez.</p>
-
-<p>—N’essa não cáe o Marcolino!</p>
-
-<p>D’ahi a pouco mais de dez minutos, Hilda e
-Maria Ignez sahiam do wagon.</p>
-
-<p>O Rodarte e as netas despediram-se dos dois
-officiaes.</p>
-
-<p>E o alferes Ruivo ficou dizendo ao tenente:</p>
-
-<p>—Ellas vinham do banho um appetite!</p>
-
-<p>—Ó filho, a Hilda é uma mulher de truz! e
-a outra não é nenhuma asneira tambem!</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer5.jpg" width="150" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header8.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>XVI</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="130" height="90" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">D. Estanislada principiou a pensar na
-conveniencia de sahir de Setubal.</p>
-
-<p>Desde o momento em que uma
-pessoa d’aquella terra possuia dois
-dos seus segredos amorosos, conhecia a historia
-das suas leviandades internacionaes, um pouco
-serodias, só restava á delinquente fazer ablativo
-de viagem, para evitar a atoada do ridiculo.</p>
-
-<p>D. Enrique incommodava-a menos que o ridiculo.
-Não era do marido que receava, mas das
-más linguas, que n’uma terra pequena ferem
-mais, porque mordem de perto.</p>
-
-<p>Indignava-a o preconceito social que impõe
-ao coração humano o dever de esfriar antes de
-morrer. Segundo as praxes estabelecidas, uma
-mulher de vinte annos póde ter vinte namoros.
-Acha-se isso muito natural, e diz-se d’essa mulher
-com um certo ar de desculpa: «É alegre».
-Mas se uma mulher de quarenta annos tiver dois
-namoros, toda a gente a censura, e a opinião
-publica não faz senão gritar por toda a parte:
-«É devassa».</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span></p>
-
-<p>Ora a boa logica ensina que a mulher de quarenta
-annos tem menos tempo para viver do que
-a mulher de vinte. Rasão é esta para aproveitar
-o tempo, para se despedir da vida, que já não
-póde ser longa.</p>
-
-<p>A propria natureza intercallou o dia natural,
-que é um symbolo da existencia humana, entre
-dois crepusculos, o da manhã e o da tarde. Porque
-ha de pois ser negado ao coração o direito
-de ter dois momentos de brilho e de calor, dois
-crepusculos amorosos, que abram e fechem a
-existencia?</p>
-
-<p>D. Estanislada achava profundamente odiosa e
-absurda a fiscalisação que a sociedade exerce
-com a mulher casada. Se o marido não vê ou
-não quer vêr, para que ha de a bisbilhotice malevola
-emprestar-lhe os oculos da moralidade?</p>
-
-<p>D. Enrique não era um Othello, nunca o fôra.
-Se lhe dissessem alguma coisa em desabono da
-esposa, encolheria desdenhosamente os hombros,
-limitar-se-ia certamente a dizer: <i>Es una
-broma!</i></p>
-
-<p>Com que direito vinha a menina Ricardina
-substituir-se a D. Enrique para o effeito da moralidade?!</p>
-
-<p>Então D. Estanislada havia casado com D.
-Enrique, e era a menina Ricardina quem fiscalisava,
-sem procuração de D. Enrique, a fidelidade
-conjugal de D. Estanislada!</p>
-
-<p>De mais a mais, a menina Ricardina podia esperar
-que a mãe se deitasse, para vir á janella
-conversar com um homem, e a D. Estanislada
-não era permittido que, estando o marido a dormir,
-fizesse exactamente a mesma coisa?!</p>
-
-<p>Em conclusão: D. Estanislada achava o mundo
-mal organisado, e estava disposta, não a concertal-o,
-mas a illudil-o.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p>
-
-<p>Ora desde que a menina Ricardina, má visinha
-de ao pé da porta, sabia tudo, era impossivel
-illudil-a: convinha, portanto, ir tentar melhor
-fortuna n’outra região onde a illusão podesse florescer
-mais desafogada d’espiões.</p>
-
-<p>Pensando na resolução de todos estes problemas,
-que de perto a interessavam, e reconhecida
-a impossibilidade de regressar desde logo a Hespanha,
-cujo estado politico continuava a ser o
-mesmo, D. Estanislada lembrou-se, com certa
-saudade, do conselheiro Antunes.</p>
-
-<p>Elle amara-a, déra-lhe provas d’isso; só tinha
-o defeito de ser, como todos os portuguezes, na
-opinião de D. Estanislada, muito timido. Mas
-sendo timidos os portuguezes, sendo esse o seu
-natural, não havia encontral-os melhores. E, timidez
-por timidez, o conselheiro já estava experimentado,
-gostava d’ella.</p>
-
-<p>O mesmo foi lembrar-lhe o conselheiro e, como
-ideia associada, Santarem, onde elle vivia.</p>
-
-<p>Fez pois tenção de aconselhar o marido a sahir
-de Setubal, cidade insipida, que mais insipida
-ficaria ainda depois de encerrada a estação balnear.</p>
-
-<p>Não consultou, sobre este projecto, Soledad,
-que, como já n’outras occasiões tinha acontecido,
-andava amuada com a mãe. Tambem Soledad
-parecia rezar ás vezes pela cartilha da sociedade,
-e resentir-se de que a mãe não sacrificasse em
-sua honra os ultimos clarões da belleza que declinava.</p>
-
-<p>Não era porque Soledad amasse o sueco. Mas
-o seu brio de hespanhola revoltava-se contra a
-ideia de que todos pretendessem roubar-lhe admiradores,
-até sua propria mãe.</p>
-
-<p>Soledad olhava para o <i>abanico</i>, que com tanto
-<i>salero</i> requebrava, e parecia-lhe que era como<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span>
-que uma espada partida na mão de um conquistador.</p>
-
-<p>Cuidava ouvir dizer-lhe o <i>abanico</i>:</p>
-
-<p>—Soledad, flôr da Andaluzia, tanto me tens
-incommodado, abrindo-me e fechando-me, fazendo-me
-bailar na tua mão nervosa, como n’um
-<i>bolero</i> sem fim, e o que tens tu, bella Soledad,
-conseguido com isso? Os teus admiradores vão
-desertando uns após outros; tu, que a principio
-timbraste em mostrar-te altiva e incomprehensivel,
-porque te imaginavas inegualavel, tens
-visto fazer-se em roda de ti a solidão das realezas
-decahidas, a solidão da ilha de Santa Helena,
-onde se abateu o maior orgulho humano. As
-Rodartes foram mais felizes do que tu, e comtudo
-não dispõem dos teus recursos de hespanhola,
-do <i>salero</i> e do <i>abanico</i>, dois irmãos gemeos,
-que fazemos estremecer os corações. Os leques
-de que ellas usam foram comprados alli na
-Praça do Bocage, na loja do Trindade, e são semsaborões
-como todos os leques portuguezes, ao
-passo que eu, apesar de haver uma republica
-hespanhola, continuo a ser o rei das Hespanhas,—a
-alma do Cid recortada sobre uma folha de
-papel. Até a Ricardina te roubou o sueco: és,
-pobre de ti! como o leão moribundo, a quem as
-Ricardinas injuriam. Desperta, altiva flôr da Andaluzia,
-readquire o teu orgulho de raça, volta
-as costas a este mundo prosaico, onde só parece
-haver sal nas marinhas, e vai procurar n’outra
-parte os triumphos, as homenagens a que a tua
-belleza te dá direito.</p>
-
-<p>Soledad ouviu o <i>abanico</i> e deu-lhe credito,
-como todas as hespanholas. Por isso, quando D.
-Enrique, já meio convencido por D. Estanislada,
-fallou um dia em transferirem-se para Santarem,
-Soledad pareceu apoiar esse projecto, que lhe<span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span>
-promettia uma vida mais alegre do que a de Setubal.</p>
-
-<p>O Marcolino, marcador do café <i>Esperança</i>,
-perguntou a D. Enrique se queria ficar com um
-bilhete para a rifa da coroa de louros.</p>
-
-<p>E o hespanhol, muito desdenhoso, respondeu-lhe
-que não, porque <i>se iba a marchar</i>.</p>
-
-<p>—Para Hespanha? insistiu o marcador.</p>
-
-<p>D. Enrique zangou-se: que para Hespanha só
-voltaria com a realeza dos Bourbons.</p>
-
-<p>E o Marcolino, que foi o primeiro republicano
-que pimpolhou em Setubal, respondeu-lhe mentalmente:</p>
-
-<p>—Tens que esperar!...</p>
-
-<p>Mas saber o Marcolino uma noticia era o mesmo
-que sabel-a todo o café <i>Esperança</i>, e, dentro
-de algumas horas, toda a cidade de Setubal, e,
-dentro d’alguns dias, as aldeias de Azeitão e a
-povoação de Palmella.</p>
-
-<p>—Que D. Enrique se <i>iba a marchar</i>, dizia-se,
-espalhava-se.</p>
-
-<p>No café <i>Esperança</i> apertavam D. Ramon Mendoza,
-troçavam-n’o, perguntavam-lhe se elle não
-fazia valer os direitos que a sorte lhe concedera;
-que casta de hespanhol era elle, que deixava fugir,
-sem a ter ferido no coração, a sua bella patricia?</p>
-
-<p>E D. Ramon, muito indifferente, muito insôsso,
-pedia gazoza, e respondia sorrindo:</p>
-
-<p>—Que santos de casa não fazem milagres.</p>
-
-<p>Não tardou a chegar ao conhecimento da menina
-Ricardina a noticia de que a familia Saavedra
-ia retirar-se. Ricardina ficou contentissima,
-e a sr.ª Magdalena não o ficou menos, porque
-havia arrendado a casa por seis mezes a D. Enrique,
-e poderia alugal-a ainda outra vez, para
-aproveitar o resto da estação balnear.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span></p>
-
-<p>Ricardina, na esperança de que a noticia fosse
-verdadeira, achou que devia tratar o sueco de
-modo a desvial-o de Soledad, sem comtudo se
-alargar em concessões, que o satisfizessem.</p>
-
-<p>Assim foi que se mostrou menos crua para elle:
-abriu a janella, e permittiu-lhe que a beijasse nas
-mãos.</p>
-
-<p>—Só nas mãos, porque, dizia ella, não podia
-confiar n’elle.</p>
-
-<p>O sueco pretendeu mais uma vez justificar-se,
-e contou a Ricardina a scena que tivera com as
-hespanholas, que não só o não cumprimentaram,
-mas até o mimosearam com epithetos offensivos.</p>
-
-<p>—O sr. é que tem a culpa de tudo isso! disse-lhe
-Ricardina continuando a fingir-se ciumenta.</p>
-
-<p>—Eu! nó! respondeu elle com uma convicção
-muito guttural.</p>
-
-<p>—Pois quem! O sr. andava a acolytal-as a
-ambas, á mãe e á filha, e não queria levar com
-as galhetas na cara!</p>
-
-<p>O sueco percebeu pouco d’esta metaphora, que
-Ricardina aprendera nos habitos devotos, egrejeiros
-da mãe.</p>
-
-<p>E ella, muito tagarella, continuára moendo palavras:</p>
-
-<p>—Sabe o sr. o que deve fazer agora?</p>
-
-<p>—Nó saberr!</p>
-
-<p>—Vá para onde ellas forem. O que lhe importa
-o negocio do sal? Mais vale um gosto na
-vida que seis vintens na algibeira.</p>
-
-<p>—Nó! Nó! respondia o sueco com uma bonhomia
-babosa.</p>
-
-<p>Elle já estava habituado a que Ricardina o
-tratasse por tu, tratamento carinhoso, que nunca
-mais havia recebido desde que sahira da Scandinavia,
-e todo o seu ideal consistia agora em conseguir<span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span>
-que ella voltasse a empregar esse terno
-vocativo.</p>
-
-<p>Mas Ricardina, muito arteira, obstinava-se em
-tratal-o por <i>senhor</i>, sem o repellir, é certo, mas
-sem o acarinhar como antes d’aquella fatal noite
-dos dois lenços.</p>
-
-<p>Um namorado meridional haveria, decerto, feito
-uma scena de ciumes, diria a Ricardina que, pois
-que ella assim o aconselhava, seguiria as Saavedras
-para onde quer que ellas fossem, mas um
-homem do norte, muito calmo, muito pacifico,
-não encontra no seu temperamento a facilidade
-de representar no amor o drama tempestuoso.</p>
-
-<p>Quando o sueco se despedia de Ricardina, beijando-lhe
-outra vez as mãos, ia resignado a esperar
-que o diluvio passasse e que o arco da
-alliança brilhasse sobre os ultimos destroços do
-diluvio.</p>
-
-<p>Depois, chegando ao <i>hotel Escoveiro</i>, dois copinhos
-de <i>Kirsch-wasser</i> adormeciam-n’o n’uma
-serena esperança de que Ricardina voltaria a ser
-a mesma.</p>
-
-<p>E, por entre os fumos do <i>Kirsch</i> e do cachimbo,
-pensava elle:</p>
-
-<p>—Que voltas que o mundo dá! Quem me havia
-de dizer a mim que estimaria ainda a ausencia
-de Soledad!</p>
-
-<p>E o cachimbo ia-se apagando, e o sueco adormecia
-tranquillamente...</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer7.jpg" width="150" height="45" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header9.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>XVII</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="130" height="90" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Dentro de tres dias a familia Saavedra
-preparou as suas malas para sahir
-de Setubal.</p>
-
-<p>D. Enrique andou fazendo despedidas
-e partiu para Santarem primeiro
-que a mulher e a filha: ia alugar casa. Lá
-estava o conselheiro Antunes para n’esta e outras
-tarefas lhe servir de Cyreneu...</p>
-
-<p>A mãe de Soledad dizia a quem a queria ouvir
-que apenas levava saudades do peixe-espada. Soledad
-mostrava-se muito contente com a mudança
-de terra.</p>
-
-<p>No café <i>Esperança</i> commentava-se esta subita
-retirada da familia Saavedra, e attribuia-se a duas
-causas principaes: a attracção que, de Santarem,
-o conselheiro Antunes exercia no coração de D.
-Estanislada, e a emulação de Soledad pela concorrencia
-das Rodartes no amor.</p>
-
-<p>A <i>blague</i> não poupava D. Enrique, que, segundo
-se dizia, ia metter-se na boca do lobo: o lobo
-era, n’este caso, o conselheiro Antunes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span></p>
-
-<p>Quanto ás Rodartes, a opinião publica elogiava-as
-pela modestia com que se apresentavam:
-se ellas tinham prejudicado o prestigio de Soledad,
-não era porque houvessem concorrido acintosamente
-para isso.</p>
-
-<p>Fôra uma serie de fatalidades imprevistas que
-apeiára Soledad do pedestal em que nos primeiros
-tempos se enthronisou. Todos os grandes imperios
-desabam, segundo a lei fatal da Historia:
-Soledad teve a mesma sorte dos grandes imperios.</p>
-
-<p>Era certo, já toda a gente o sabia, que o morgado
-de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas
-estavam namorados de Hilda e Maria Ignez,
-mas não fôra porque ellas os disputassem encarniçadamente
-a Soledad, nem porque se salientassem
-em garridices espectaculosas.</p>
-
-<p>O <i>Padre Eterno</i>, como geralmente se chamava
-a Araujo Rodarte, era um velho sympathico, que
-a opinião publica respeitava, e mais ainda o respeitou,
-quando se tornou conhecido um facto em
-que o seu nome se achou envolvido.</p>
-
-<p>O Sequeira, negociante, fôra visitar o Rodarte
-e descrevera-lhe, com lagrimas nos olhos, o estado
-da filha, cuja vida perigava, porque a infeliz
-menina, apaixonada pelo Vianninha, passava dias
-encerrada no seu quarto, chorando, sem querer
-vêr ninguem.</p>
-
-<p>Commoveu-se o velho Rodarte da angustia de
-um pae, cujo coração a dôr dilacerava.</p>
-
-<p>—Mas, dissera Araujo Rodarte ao Sequeira,
-porque não procura ter uma conferencia com o
-Vianninha, a fim de que elle cabalmente se explique
-sobre as suas intenções?</p>
-
-<p>—Não posso, sr. Rodarte, respondera-lhe o
-Sequeira. Não posso. É superior ás minhas forças
-o ter que pedir a um homem que corresponda
-ao amor de minha filha, sobretudo quando<span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span>
-esse homem se deveria julgar muito feliz em desposal-a.</p>
-
-<p>Araujo Rodarte ficou pensativo durante alguns
-momentos, e disse depois:</p>
-
-<p>—Tem rasão, sr. Sequeira. Mas eu acho que
-o Vianninha não é senão um doidivanas, que gosta
-de se divertir sem criterio. Succede isso a muitos
-moços. São raros até os que pensam de outro
-modo.</p>
-
-<p>—Depois que veiu para ahi essa maldita hespanhola
-foi que elle, suciando com o Lemos e
-com o tal jornalista de Lisboa, principiou a despresar
-a minha filha.</p>
-
-<p>—A hespanhola, sr. Sequeira, não tem culpa
-de ser bonita, nem de haver sido educada á maneira
-do seu paiz. Sabe v. s.ª perfeitamente que
-os costumes hespanhoes dão maior liberdade á
-mulher do que entre nós. Se uma menina portugueza
-andasse constantemente seguida por um
-cortejo de admiradores, seria isso reparado e censurado.
-Mas em Hespanha vive-se muito ao ar
-livre, na rua, e são admittidas liberdades que em
-grande parte resultam d’esse teor de vida. Olhe,
-eu, quando aqui cheguei, condescendi em ir a um
-<i>pic-nic</i>, porque julguei que seria essa uma festa
-tão pacata como as do meu Alemtejo. Quando lá
-me vi, arrependi-me muito de ter acceitado o convite,
-e arrependi-me, sobretudo, porque, além das
-minhas netas, apenas havia duas senhoras, a mulher
-e a filha de D. Enrique, cujos habitos de
-educação brigavam naturalmente com os de tres
-pobres meninas nadas e creadas, longe da sociedade,
-n’um canto do Alemtejo. Fiz logo tenção
-de me afastar o mais que podesse, não por falta
-de confiança em minhas netas, mas para evitar
-que ellas andassem nas bôccas do mundo. Este
-meu procedimento não foi ditado por orgulho ou<span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span>
-por qualquer outro sentimento de altivez pessoal.
-Foi prudencia, foi experiencia do mundo... Mas
-vamos ao caso do Vianninha. Acho justas as rasões
-pelas quaes o sr. Sequeira não quer ter explicações
-com elle. Comtudo, se a isso me auctorisa,
-e se isso deseja, poderei eu tel-as.</p>
-
-<p>—Ó sr. Rodarte! grande favor me faria encarregando-se
-d’essa missão, procurando salvar minha
-filha de uma vida tormentosa, a que a morte
-porá termo em breve, certamente.</p>
-
-<p>Afogaram-se em lagrimas os olhos do Sequeira,
-e nos olhos de Araujo Rodarte tambem passaram
-lagrimas.</p>
-
-<p>Despediram-se os dois cordealmente.</p>
-
-<p>Araujo Rodarte, não querendo dar a saber a
-Salomé o motivo d’aquella entrevista que tivera
-com o Sequeira, mandou recado ao seu banheiro
-para que lhe fosse fallar. Não podendo escrever
-elle proprio, quiz evitar que Salomé tivesse de
-escrever ao Vianninha solicitando uma audiencia
-para o avô.</p>
-
-<p>Pelo banheiro mandou Araujo Rodarte dizer ao
-Vianninha que esperava dever-lhe o obsequio de
-lhe dispensar dois momentos de attenção.</p>
-
-<p>Logo que sahiu da repartição de fazenda, o
-Vianninha foi procurar Araujo Rodarte.</p>
-
-<p>Houve quem o visse entrar para lá, e envenenasse
-o facto, espalhando logo que o Vianninha
-requestava Salomé, a unica das tres irmãs cujo
-coração era considerado devoluto.</p>
-
-<p>Araujo Rodarte expoz com bondosa gravidade
-os motivos d’aquella entrevista, desculpando-se
-com a sua auctoridade de velho para intervir n’um
-assumpto que não lhe dizia directamente respeito.</p>
-
-<p>—Trata-se, explicou, da menina Sequeira. Conheço
-a familia d’essa pobre menina, cuja vida
-corre perigo, e cuja felicidade e salvação consistiria<span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span>
-em poder ser esposa do sr. Vianna. Peço-lhe,
-pois, que me diga, por attenção para com a
-minha edade, quaes são as suas intenções a este
-respeito.</p>
-
-<p>O Vianninha ficou surprehendido com a interpellação:</p>
-
-<p>—As minhas intenções, sr. Rodarte! Eu digo a
-v. ex.ª o que posso dizer sobre o assumpto: Adelaide
-e eu fomos creados juntos, paredes meias,
-porque nossos paes eram visinhos. Viamo-nos a
-toda a hora, e habituámo-nos a ser amigos um
-do outro. Mas pensava eu que Adelaide apenas
-tinha por mim o sentimento que eu tinha por ella,—simples
-estima, nada mais. E tanto isto é verdade,
-da minha parte, que eu tive passageiros
-namoros com outras meninas. É certo, porém,
-que eu sabia que Adelaide se contrariava com isso.
-Amuava, deixava de me fallar, de me cumprimentar
-até. Mas eu ria-me, não fazia caso, e dizia-lhe
-adeus por brincadeira, sempre que a via
-á janella, embora ella me não correspondesse.
-Quando veiu a <i>señorita</i>,—refiro-me á filha de D.
-Enrique—eu, por ser amigo do Lemos e por me
-ter relacionado com o Goes, que andavam no
-grupo da familia Saavedra, associei-me a elles,
-passeiava com Soledad e com a mãe, e devo dizer
-francamente que me não era desagradavel a companhia.
-Soube então que Adelaide suspeitou de
-que eu namorasse Soledad, e que se tinha incommodado
-com isso, a ponto de se fechar no seu
-quarto, e não querer tomar alimentos. Uma vez,
-tendo pena d’ella, cheguei a rufar com os dedos
-na vidraça do seu quarto, chamando-a. Bastava-me
-para isso estender o braço por uma das janellas
-da minha casa. Adelaide devia calcular que
-era eu, mas não veiu á janella, não quiz responder.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p>
-
-<p>—Talvez não ouvisse, atalhou Araujo Rodarte.</p>
-
-<p>—Ouvia por força, porque estava fechada no
-seu quarto.</p>
-
-<p>—Resentida com o sr. Vianna, quiz mostrar o
-seu resentimento.</p>
-
-<p>—Pois foi isso talvez, mas eu nunca mais a vi.</p>
-
-<p>—E, se não sou indiscreto, o que lhe teria dito
-n’essa occasião o sr. Vianna, se ella abrisse a
-janella?</p>
-
-<p>—Eu? Eu ter-lhe-ia dito que se não amofinasse
-com tolices, que era seu amigo, que gostava apenas
-de me divertir, e que não queria que ella se
-ralasse com isso.</p>
-
-<p>—Ah! n’esse caso, o sr. Vianna, sem aliás tomar
-um compromisso com essa senhora, dava-lhe
-uma prova de amisade e de estima, que mostra
-que ella não deixou ainda de ser, no seu espirito,
-a dedicada companheira de infancia...</p>
-
-<p>—Pois decerto. Estimaria que ella se não tornasse
-infeliz por culpa do seu proprio genio.</p>
-
-<p>—Não diga genio, sr. Vianna. Chame-lhe antes
-coração. Ella ama, e soffre as torturas de um
-amor, que não julga correspondido. Triste cegueira
-a dos moços, que não se lembram um momento
-de que nada torna tão agradavel a existencia
-como um coração que nos seja sinceramente
-dedicado! Desculpe-me que lhe falle assim, em
-nome dos meus cabellos brancos, sr. Vianna. O
-coração de D. Adelaide Sequeira já está experimentado:
-tem sido firme e leal, apesar de não ser
-correspondido. Que maior e melhor felicidade poderia
-encontrar o sr. Vianna!</p>
-
-<p>—Eu reconheço tudo isso, sr. Rodarte, mas
-devo confessar que me vexa a ideia de que sou
-pobre e Adelaide é rica. Esse casamento seria mal
-visto por muitas pessoas, especialmente pelo pae
-de Adelaide...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span></p>
-
-<p>—O pae! atalhou Araujo Rodarte. O que um
-pae deseja sempre é a felicidade dos seus filhos.
-O pae de D. Adelaide Sequeira vê a filha doente,
-ameaçada de morte, e deseja certamente salval-a.
-Quanto á opinião publica, o que poderá ella dizer
-contra um casamento que o amor santifica? E se
-disser, deixal-a dizer, porque a opinião publica,
-quando não tem rasão, é combatida pelas consciencias
-honestas, e essas são os unicos juizes
-auctorisados. N’uma palavra, não repugna ao sr.
-Vianna sahir d’esta casa noivo de D. Adelaide
-Sequeira?</p>
-
-<p>—Mas subsistem ainda as minhas duvidas
-quanto á familia d’ella...</p>
-
-<p>—Não subsistem. O sr. Vianna tem o incommodo
-de voltar amanhã á mesma hora, e todas
-as suas duvidas deixarão de existir.</p>
-
-<p>No dia seguinte, quando o Vianninha voltou a
-casa de Araujo Rodarte, encontrou-se com o pae
-de Adelaide Sequeira: o casamento ficou ajustado
-n’esse dia.</p>
-
-<p>Constou isto, a maledicencia, que desconfiou da
-ida do Vianninha a casa das Rodartes, teve de
-confessar-se vencida, e a intervenção do <i>Padre
-Eterno</i>, n’esta negociação feliz, tornou-se sympathica
-á opinião publica, deu maior prestigio ao
-avô, e, reflexamente, ás netas.</p>
-
-<p>Quando fallavam ao velho Araujo Rodarte no
-proximo casamento da Sequeira, dizia elle:</p>
-
-<p>—Fiz-me agora S. Gonçalo d’Amarante,—com
-uma unica differença.</p>
-
-<p>—Qual?</p>
-
-<p>—Caso as novas, em vez das velhas, o que
-prova que não faço milagres.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header10.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>XVIII</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-o.jpg" width="85" height="95" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">O namoro dos dois alemtejanos com as irmãs
-Rodartes não era um d’esses galanteios
-romanticos, que obriga a excessos
-de lyrismo.</p>
-
-<p>Se o fosse, dar-me-ia ensejo a descrever serenatas
-de mandolim, arroubos de Romeu debaixo
-da varanda de Julietta,—tudo em duplicado, os
-Romeus e as Juliettas, ficando apenas no singular
-a varanda, que era a mesma.</p>
-
-<p>Homens novos, posto já orçassem pelos trinta
-annos ambos elles, fortes, alegres, de physionomia
-agradavel e costumes chãos, o morgado de
-Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam
-longe de poder ser dois pagens namorados,
-com todas as pieguices concomitantes á poesia
-do amor medieval.</p>
-
-<p>O temperamento, mais talvez do que a edade,
-e não pouco a educação, contribuiam para furtal-os
-ás cegueiras da exaltação amorosa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span></p>
-
-<p>Não eram frios, nem o podiam ser, porque tinham
-bom sangue, como a maior parte dos alemtejanos,
-se exceptuarmos os que vivem nas regiões
-atormentadas pelas febres palustres. Mas
-eram serenos; homens em quem os musculos,
-saudavelmente desenvolvidos, subjugavam os
-nervos. Possuiam essa alegria moderada que
-provém da robustez, da constituição sadia. Não
-tinham por isso as phantasias melancolicas dos
-nevroticos, nem a irritabilidade azeda dos biliosos.
-Bom coração, bom estomago, bom figado:
-com estes predicados, e com as suas herdades,
-viviam felizes.</p>
-
-<p>Não pensavam em S. Carlos e muito menos
-em Pariz; mas nem S. Carlos nem Pariz lhes
-repugnavam... para uma vez.</p>
-
-<p>Entendiam menos de francez que de cortiça,
-mais de porcos que de tenores, mas não eram
-selvagens ao ponto de não querer jámais vêr a
-França, nem ouvir nunca uma opera.</p>
-
-<p>De manhã cedo montavam a cavallo, percorriam
-as suas herdades, davam instrucções aos
-feitores, e regressavam a casa com bom apetite
-e boa alegria. Raras vezes se queixavam de um
-incommodo. Dos dois, apenas o morgado de Reguengos
-tinha azias de quando em quando, mas
-uma colhér de bicarbonato de soda curava-o rapidamente.
-Uma hora depois estava habilitado a
-comer.</p>
-
-<p>A provincia do Alemtejo tem sido pouco explorada
-no romance, talvez porque os seus costumes
-são essencialmente pacatos, algo monotonos.</p>
-
-<p>O sangue arabe, que os alemtejanos herdaram,
-enrijeceu-lhes o organismo, deu-lhes a saude,
-mas, já modificado pela transmissão de gerações
-successivas, não referve em éstos como os que
-incendiavam as veias dos guerreiros d’Agar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span></p>
-
-<p>Nos costumes, em que a dominação sarracena
-influiu poderosamente, uma serenidade, ás vezes
-monotona, como se nota nas danças e nas canções
-populares, accentua-se com evidencia.</p>
-
-<p>A falta de paisagem poderá explicar a falta de
-bucolismo no amor. Os rios pittorescos do Minho,
-orlados de salgueiros e matisados de insuas
-verdejantes, fazem poetas. No Alemtejo, a vegetação
-ganha em utilidade agricola o que perde
-em pittoresco de pintura. Mas ha excepções, como
-sempre acontece: Bernardim Ribeiro, o mavioso
-bucolico, nasceu ao que parece na villa do Torrão,
-que é Alemtejo arido. Todavia as excepções
-não invalidam a regra geral, antes a confirmam.</p>
-
-<p>Mas, em compensação, a vida da provincia
-transtagana é laboriosa, util e pratica.</p>
-
-<p>Os seus habitantes não téem esse aspecto
-atormentado, contrahido, que um francez habil
-me dizia notar na maior parte dos retratos portuguezes.</p>
-
-<p>Ora eu estou certamente condemnado a naufragar
-no tepôr do assumpto, o amor entre alemtejanos,
-que sabe a capilé morno.</p>
-
-<p>Mas copío a verdade, e não quero adulteral-a
-com mixordias de pura phantasia, como os taberneiros
-fazem ao vinho, e certos romancistas
-á verdade.</p>
-
-<p>O morgado de Reguengos e o proprietario das
-Alcaçovas amavam como quem eram. Em pleno
-galanteio vimol-os ir a Lisboa umas vezes por
-outras tratar negocios, receber as prestações da
-venda da cortiça, vender cevados aos salchicheiros
-da Baixa.</p>
-
-<p>E quando regressavam a Setubal, com o dinheiro
-a cantar nas algibeiras, sabia-lhes bem a
-suave familiaridade da casa das Rodartes, onde,
-antes de abancarem a jogar o loto com as netas,<span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span>
-contavam ao avô, francamente, o resultado das
-suas transacções em Lisboa.</p>
-
-<p>E as duas meninas, que se foram affeiçoando
-lentamente a elles, porque encontraram dois homens
-cujo typo conheciam, pois que era o da
-sua provincia, as duas meninas ouviam-n’os fallar
-de cevados, entendiam-n’os.</p>
-
-<p>Horror! gritará a leitora alfacinha.</p>
-
-<p>Pois minha senhora, nada e creada na patria
-de Ulysses, perdoe V. Ex.ª o horror da verdade.
-Tanto a formosa Hilda, como Maria Ignez, como,
-principalmente, Salomé, que era o braço direito
-do avô, sabiam a cotação das cabeças suinas, e
-conheciam todos os processos da engorda dos
-cevados.</p>
-
-<p>Isto póde não ser poetico, mas é portuguez de
-boa lei, portuguez do Alemtejo, onde a azinheira
-produz a boléta, que é riqueza.</p>
-
-<p>Nem Hilda, que gostava de cantar, sabia trechos
-das operas de S. Carlos, nem das operetas
-da Trindade. A sua canção predilecta era a <i>Ceifeira</i>
-de Palmeirim, poeta genuinamente nacional,
-que ha quarenta annos se vulgarisou tanto
-no norte como no sul do paiz.</p>
-
-<p>O rythmo da canção era dolente como o de
-toda a musica popular do Alemtejo, mas lá gostavam
-de ouvir Hilda soluçar, como um <i>Fado</i>,
-as trovas do poeta:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Ha quem diga por inveja</div>
-<div class="verse">Que és feia por ser trigueira;</div>
-<div class="verse">Dizem as damas da côrte,</div>
-<div class="verse">Deixal-as dizer, ceifeira.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>As ceifeiras da Messejana, quando á noite voltavam
-dos campos, queimadas pelo sol, morriam
-por ouvil-a cantar a canção que tanto as lisonjeava,<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span>
-porque fallava d’ellas, e pediam-lhe que a
-repetisse.</p>
-
-<p>Araujo Rodarte intervinha com o seu bom humor
-patriarchal n’esses serões agricolas do Alemtejo,
-em que a neta, sentada nas escadas de pedra
-do palacete, cantava para ser ouvida pelas ceifeiras
-e pelos <i>Ratinhos</i>, que descançavam ao luar.</p>
-
-<p>O bom velho tinha sempre uma graça para dizer
-ás raparigas.</p>
-
-<p>Uma vez, por exemplo, tendo a neta acabado
-de cantar, disse elle:</p>
-
-<p>—Sabem vocês, rapazes e raparigas, de quem
-é esta poesia que a minha Hilda vos cantou
-agora?</p>
-
-<p>—Não sabemos, senhor.</p>
-
-<p>—Pois é de um poeta de Lisboa, que se chama
-Palmeirim. E não fez só poesias que as meninas
-cantem; tambem fez algumas que servem para
-os velhos cantar.</p>
-
-<p>Gargalhada unisona das ceifeiras e dos <i>Ratinhos</i>.</p>
-
-<p>—Não se riam vocês, que eu tambem vou
-cantar agora.</p>
-
-<p>—O sr. Rodarte!</p>
-
-<p>—Eu mesmo.</p>
-
-<p>E com uma voz, cuja rouquidão exagerou comicamente,
-começou:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Vet’rano fiz as campanhas</div>
-<div class="verse">Da guerra peninsular.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>—Mais! mais! pediram muitas vozes.</p>
-
-<p>—Nem mais nem menos, respondeu Araujo
-Rodarte rindo. Um veterano não póde passar
-d’aqui.</p>
-
-<p>Nova e prolongada hilaridade dos <i>Ratinhos</i> e
-das ceifeiras.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span></p>
-
-<p>Algumas vezes, em pleno sol, ouvia-se cantar
-nos campos, que a foice dos trabalhadores ia
-deixando reduzidos á seccura do restolho:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Ha quem diga por inveja</div>
-<div class="verse">Que és feia por ser trigueira;</div>
-<div class="verse">Dizem as damas da côrte,</div>
-<div class="verse">Deixal-as dizer, ceifeira.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>—Olha os teus discipulos, dizia Araujo Rodarte
-a Hilda, como honram a professora! Ainda
-não houve <i>prima-donna</i> de S. Carlos que fizesse
-escola como tu.</p>
-
-<p>Hilda e as irmãs ouviam fallar de S. Carlos
-como a gente ouve fallar de um paiz longinquo.
-O proprio Rodarte, que fallava de S. Carlos, conhecia-o
-pouco. Quando alguma vez viera da
-Messejana a Lisboa, aconteceu ir ouvir uma ou
-outra opera, sobretudo se a opera era do velho
-Bellini, que toda a gente d’esse tempo preconisava
-por ser, especialmente, o auctor da <i>Norma</i>.</p>
-
-<p>D’uma dessas raras vezes aconteceu-lhe até
-uma ratice, que Araujo Rodarte sempre contava
-rindo.</p>
-
-<p>Annunciava-se a <i>Norma</i>, e elle não resistiu
-ao cartaz. Mandou comprar a S. Carlos um bilhete
-da <i>geral</i>. Á noite dirigiu-se para o theatro,
-cuidando que ia ouvir o grande Bellini. Pois não
-ouviu ninguem! O theatro estava aberto, mas a
-platéa vazia. No salão havia grupos commentando
-um caso extraordinario. <i>Adalgiza</i> fôra raptada
-pela famosa <i>Sociedade do delirio</i>. Dizia-se
-que o marquez de Niza, disfarçado em cocheiro,
-fizera voar os cavallos da carruagem em que
-<i>Adalgiza</i> entrou, ao descer do <i>hotel</i>. O que é
-certo é que a cantora não chegou a S. Carlos,
-pelo menos n’aquella noite, e que fôra visto passar
-ao Campo Grande, n’uma batida doida, um<span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span>
-<i>coupé</i>, ladeado por dois cavalleiros que o guardavam.</p>
-
-<p>Era a <i>Sociedade do delirio</i>, que praticára mais
-uma das suas proezas,—o rapto d’uma italiana,
-que talvez fosse sabina.</p>
-
-<p>Nenhum dos dois alemtejanos, o morgado de
-Reguengos e o proprietario das Alcaçovas, fez o
-que em amor se chama uma <i>declaração</i>. Esse
-doce e embaraçoso momento, em que o maior
-orador do mundo póde sentir-se entaramellado,
-momento de vibração nervosa e de exaltada sensibilidade,
-não o passaram elles. O namoro foi
-derivando suavemente n’uma intimidade agradavel,
-no trato familiar de todos os dias, e no <i>loto</i>
-de todas as noites.</p>
-
-<p>As duas Rodartes sabiam-se amadas, não porque
-elles lh’o confessassem, mas porque as mulheres
-sabem mais, em materia de amor, pelo
-que adivinham que pelo que lhes dizem.</p>
-
-<p>Salomé contára ás irmãs as referencias que o
-avô, certa manhã na praia, fizera ao namoro dos
-alemtejanos, e o receio que mostrára de que elles
-o obrigassem a separar-se das duas netas.</p>
-
-<p>Estou certo, sem comtudo poder affirmal-o,
-que, ouvindo isto, Hilda e Maria Ignez tiveram
-ambas o mesmo pensamento:</p>
-
-<p>—Pois esteja o avôsinho socegado que, se nós
-casarmos, não o abandonaremos nunca.</p>
-
-<p>E tambem me quer parecer que Araujo Rodarte,
-muito intencionalmente, fallára n’esse assumpto
-a Salomé, para que ella fosse contar ás
-irmãs o que o avô lhe estivera dizendo e para
-que Hilda e Maria Ignez o dissessem aos dois
-alemtejanos, quando fosse occasião.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header11.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>XIX</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="130" height="90" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">D. Enrique abandonou a casa de Setubal
-sem lhe mandar pôr escriptos.</p>
-
-<p>Que de Setubal não queria saber
-mais, dissera elle á sr.ª Magdalena
-quando lhe entregou a chave.</p>
-
-<p>A menina Ricardina e a sr.ª Magdalena ficaram
-satisfeitissimas, por muitas e variadas razões.</p>
-
-<p>Em primeiro logar, Ricardina havia contado á
-mãe que, n’aquella casa de pouca vergonha, tanto
-a hespanhola velha como a hespanhola nova,
-expressão sua, lhe disputavam o sueco, o qual
-parecia disposto, se podesse vencer-se aquella
-dupla contrariedade, a dar o nó do hymeneu.</p>
-
-<p>A sr.ª Magdalena, na esperança de vêr a filha
-bem casada, prometteu uma via-sacra ao Senhor
-do Bomfim se as duas hespanholas lhe deixassem
-em paz a filha e o sueco.</p>
-
-<p>O Senhor Jesus do Bomfim fizera-lhe a vontade,<span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span>
-e a sr.ª Magdalena tratára logo de cumprir
-a promessa.</p>
-
-<p>Em segundo logar, a menina Ricardina gostava
-muito, quando a casa estava com escriptos,
-de atravessar a rua para ir mostral-a.</p>
-
-<p>Fôra n’uma d’essas sahidas que ella annos antes
-ouvira, á queima-roupa, a declaração de um
-rapaz banhista, que chegára primeiro que a familia
-para arrendar casa, e o qual, depois de estabelecidas
-relações de intimidade entre as senhorias
-e os inquilinos, gostava muito de pisar-lhe
-o pé debaixo da mesa do chá.</p>
-
-<p>Logo que D. Enrique entregou a chave, a menina
-Ricardina foi, por ordem da mãe, verificar
-o estado em que a familia Saavedra havia deixado
-ficar a casa.</p>
-
-<p>—Que porcaria! dizia mentalmente a menina
-Ricardina abrindo as janellas e olhando de relance
-para o pavimento e para os moveis.</p>
-
-<p>Pelo chão, por cima das mezas, havia bocados
-de papel, migalhas de pão, ganchos do cabello,
-e a um canto uma ruma de jornaes hespanhoes
-e um leque velho, rasgado, com as varetas quebradas
-e pendentes.</p>
-
-<p>Feito o primeiro exame <i>à vol d’oiseau</i>, Ricardina
-abriu as gavetas de alguns moveis, sem
-nada encontrar. Mas já lhe não aconteceu o
-mesmo quando passava revista á gaveta do lavatorio.
-Encontrou ahi um pequeno embrulho de
-papel, que lhe despertou a curiosidade.</p>
-
-<p>Desembrulhou o papel, e encontrou uma caixinha
-oblonga, de cartão verde.</p>
-
-<p>—O que será isto?! pensava Ricardina.</p>
-
-<p>Abriu, com muito interesse, e viu uma dentadura
-postiça, nova em folha.</p>
-
-<p>Largou a rir do achado, que estava longe de
-esperar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span></p>
-
-<p>Passada a primeira surpreza, começou a reflectir:</p>
-
-<p>—Para qual dos tres seria isto?</p>
-
-<p>E, parada no meio da casa, com a caixinha
-de cartão deante dos olhos, continuou a pensar:</p>
-
-<p>—Não, de Soledad não é, porque os seus dentes
-eram muito mais pequenos. De D. Enrique
-tambem não é, porque tinha os dentes estragados
-pelo tabaco. Ah! já sei!...—e largou a rir
-ás gargalhadas.—Os dentes de D. Estanislada
-eram bonitos, brancos como o marfim, mas postiços.
-Agora é que eu sei que eram postiços!
-Ora a velha tonta! E não saber eu isto antes!
-Foi dentadura que comprou em Lisboa.—Ricardina
-ia lendo a inscripção da tampa da caixa—para
-a ter de sobreselente, talvez por ser mais
-barata ou melhor do que a que trazia.</p>
-
-<p>E continuou a rir, a rir.</p>
-
-<p>—Quando faria ella tenção de mudar de dentes!
-pensava Ricardina. Algum d’estes ha-de ser
-o do siso, que bem preciso lhe é!</p>
-
-<p>E, tendo posto a caixinha no mesmo sitio em
-que estava, foi contar á mãe a alegre historia do
-seu achado.</p>
-
-<p>—Que eram fraquezas da humanidade, disse
-a sr.ª Magdalena; que se não risse; que não
-offendesse o Senhor Jesus do Bomfim, que lhes
-havia feito o milagre.</p>
-
-<p>Ricardina respondeu que o Senhor do Bomfim
-não se podia offender de que ella risse dos dentes
-postiços de D. Estanislada; que uma coisa
-não tinha nada com a outra.</p>
-
-<p>A primeira pessoa a quem Ricardina contou a
-historia da dentadura foi o mesmo rapazito, que
-tinha levado as duas cartas com os dois lenços
-a casa de D. Enrique.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span></p>
-
-<p>Recommendou-lhe que fosse contar tudo ao
-Marcolino, marcador do bilhar no café <i>Esperança</i>,
-porque era esse o melhor meio de vulgarisar o
-caso em toda a cidade.</p>
-
-<p>O rapazito, a quem Ricardina dera um tostão,
-foi logo comprar amendoas e cigarros á loja do
-Passos, na Praça do Bocage, e depois ao café
-<i>Esperança</i> contar a historia ao marcador.</p>
-
-<p>Á tarde, os <i>habitués</i> do botequim commentavam
-o caso rindo, e ao anoitecer constava em
-toda a cidade que D. Estanislada, a <i>leôa velha</i>,
-como começavam a chamar-lhe, usava dentes
-postiços.</p>
-
-<p>D’ahi a quarenta e oito horas appareceu em
-Setubal, inesperadamente, D. Enrique Saavedra.</p>
-
-<p>Foi direito da estação do caminho de ferro a
-casa da sr.ª Magdalena.</p>
-
-<p>—Então o sr. D. Enrique outra vez por cá?!
-perguntou a beata.</p>
-
-<p>—Dizia que não queria mais nada da nossa
-terra! atalhou Ricardina.</p>
-
-<p>—<i>Que broma!</i> exclamou D. Enrique. <i>Olvidé
-una joya que vengo à buscar.</i></p>
-
-<p>—Uma joia! Credo, Senhor Jesus do Bomfim!
-que falso testemunho! exclamou a mãe de
-Ricardina.</p>
-
-<p>—Uma joia! Ora essa! Isso havemos nós de
-vêr! apostrophou arrogantemente Ricardina.</p>
-
-<p>—<i>Si, una joya de pequeño valor. Nó se aflijan
-ustedes.</i></p>
-
-<p>—E em que sitio calculam que estava a joia?
-perguntou Ricardina, muito esperta.</p>
-
-<p>—<i>En el cajon del labatorio</i>, respondeu D. Enrique.</p>
-
-<p>—Pois se lá estava, lá ha de estar, disse
-triumphantemente Ricardina. Vamos já vêr.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p>
-
-<p>Foram.</p>
-
-<p>D. Enrique dirigiu-se logo á gaveta do lavatorio
-e, encontrando a caixa, exclamou:</p>
-
-<p>—<i>Aqui está la joya!</i></p>
-
-<p>—Não! disse Ricardina, que com difficuldade
-continha o riso. Veja <i>usted</i> se a joia está como
-a deixaram. Faça favor de examinar.</p>
-
-<p>D. Enrique entreabriu a caixa mesmo dentro
-da gaveta, e, como Ricardina se approximasse,
-elle fechou de repente a caixa, e metteu-a na algibeira.</p>
-
-<p>—Está ou não está? É negocio muito sério!
-Deve vêr, para que a verdade fique bem esclarecida!</p>
-
-<p>—<i>Está todo como habia quedado</i>, respondeu
-D. Enrique.</p>
-
-<p>—Deve ser joia de muito valor, para <i>usted</i> se
-sujeitar a vir a Setubal procural-a? perguntava,
-muito desfructadora, Ricardina.</p>
-
-<p>—<i>Una joya de familia, de mas estimacion que
-valor.</i></p>
-
-<p>—Bem me queria parecer que era joia de familia!...
-Ora ainda bem que appareceu! E a
-quem pertence essa joia? É sua, sr. D. Enrique?</p>
-
-<p>—<i>Nó, és de mi mujer.</i></p>
-
-<p>—Já estão em Santarem?</p>
-
-<p>—<i>Todavia nó. Hemos estado en Lisboa y vamos
-mañana para Santarem.</i></p>
-
-<p>—Peço-lhe o favor, sr. D. Enrique, de dar
-muitas lembranças minhas ao sr. conselheiro,
-disse ironicamente Ricardina.</p>
-
-<p>—<i>Seran entregadas.</i></p>
-
-<p>Quando D. Enrique foi almoçar ao <i>Escoveiro</i>,
-por isso que só de tarde podia regressar a Lisboa,
-sahiram-lhe ao encontro alguns conhecidos.</p>
-
-<p>—Com que, D. Enrique, outra vez em Setubal?!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span></p>
-
-<p>—<i>He venido buscar una joya de familia, que
-habia dejado quedar olvidada.</i></p>
-
-<p>—E appareceu?</p>
-
-<p>—<i>Ah! perfectamente. Estaba en su sitio.</i></p>
-
-<p>—Então já está em Santarem?</p>
-
-<p>—<i>Todavia nó. Solo partiremos mañana de
-Lisboa.</i></p>
-
-<p>—E tenciona demorar-se muito em Santarem?</p>
-
-<p>—<i>Hasta vuelvan los Borbones.</i></p>
-
-<p>—E as sr.ᵃˢ como passam?</p>
-
-<p>—<i>Magnificas!</i></p>
-
-<p>E cada um lhe ia dizendo por sua vez:</p>
-
-<p>—Então, em Santarem, dê visitas minhas ao
-conselheiro. Não se esqueça, D. Enrique.</p>
-
-<p>—<i>Jamás.</i></p>
-
-<p>No comboyo da tarde D. Henrique regressou
-a Lisboa, levando na algibeira a joia de familia,—a
-dentadura de D. Estanislada.</p>
-
-<p>O caso deu que rir, em Setubal, durante muitos
-dias.</p>
-
-<p>A sr.ª Magdalena, logo de manhã cedo, continuava
-a fazer a via-sacra, que promettera ao
-Senhor Jesus do Bomfim.</p>
-
-<p>Ricardina aproveitava essa occasião para ir
-arejar a casa em que D. Enrique morára, e que
-ainda não estava arrendada.</p>
-
-<p>De uma d’essas vezes, seriam seis horas e
-meia, Ricardina estava á janella, parecendo que
-se deliciava em tomar o ar fresco da manhã. Demorava-se,
-olhando ao longo da rua.</p>
-
-<p>N’isto apparece o sueco, que parou debaixo
-da janella, e perguntou muito respeitosamente:</p>
-
-<p>—É parra alugarr esse casa?</p>
-
-<p>—É, sim, respondeu Ricardina.</p>
-
-<p>—Poderrei verr agórra?</p>
-
-<p>—Tenha a bondade de subir, respondeu Ricardina.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span></p>
-
-<p>O sueco, a julgar pelo tempo que se demorou,
-examinou com interesse todos os compartimentos
-da casa, que aliás não eram muitos.</p>
-
-<p>E gostou, porque n’essa mesma manhã procurou
-a sr.ª Magdalena, para lhe dizer que desejava
-ser seu inquilino.</p>
-
-<p>—Que tinha muita honra n’isso, respondeu
-affavelmente a mãe de Ricardina.</p>
-
-<p>Attendendo a que já ia adiantada a estação
-balnear, e a que o inquilino poderia vir a ser
-genro da senhoria, a sr.ª Magdalena levou-lhe
-mais quatro libras do que pediria a qualquer outro.</p>
-
-<p>O sueco alugou mobilia e installou-se immediatamente.
-Jantava no <i>Hotel Escoveiro</i>, mas almoçava
-em casa. Como não tinha criada, porque
-a menina Ricardina lhe prohibira que a tivesse,
-era ella propria quem ás oito horas da
-manhã lhe ia fazer o bife e o café do almoço.</p>
-
-<p>Quando ella sahia de casa, a sr.ª Magdalena
-recommendava-lhe sempre:</p>
-
-<p>—Juizinho, Ricardina! Vê lá tú!</p>
-
-<p>—Esteja socegada, minha mãe, eu não sou
-d’essas...</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer1.jpg" width="150" height="140" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header11.jpg" width="500" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<h2>XX</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-n.jpg" width="210" height="130" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">No fim de setembro, o morgado de Reguengos
-e o proprietario das Alcaçovas
-estiveram jogando uma noite
-o loto em casa das Rodartes, como
-era costume.</p>
-
-<p>Nada se passou de extraordinario, que podesse
-manifestar a importante resolução que os dois
-alemtejanos haviam tomado.</p>
-
-<p>Repetiram-se as phrases do estylo: o velho Rodarte
-lamentou mais uma vez, ao sentar-se á
-mesa, que o proprietario das Alcaçovas não soubesse
-jogar o voltarete, seu jogo predilecto; fallou-se
-da Sequeira, que, alegre e feliz, estava
-tratando do enxoval para casar com o Vianninha;
-combinou-se a hora do banho, no dia seguinte,
-em conformidade com a maré. E das dez<span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span>
-e meia para as onze os dois alemtejanos retiraram-se,
-foram deitar-se tranquillamente.</p>
-
-<p>No dia seguinte estiveram na praia, tomaram
-banho como de costume, esperaram que as Rodartes
-chegassem para fallar-lhes, e ás nove horas
-estavam sentados á mesa do almoço comendo
-com excellente apetite.</p>
-
-<p>Depois do meio dia sahiram ambos, foram procurar
-Araujo Rodarte, o que aliás não estava em
-costume.</p>
-
-<p>Foi o morgado de Reguengos quem primeiro
-usou da palavra, fallando em nome dos dois.</p>
-
-<p>—V. Ex.ª, disse elle ao dono da casa, ha-de
-certamente estranhar uma visita a hora que não
-está nos nossos habitos. Mas o motivo que aqui
-nos traz é de tal modo solemne, que exigia da
-nossa parte uma visita especial para o expôrmos.
-E como nós, os alemtejanos, somos homens
-que não estamos costumados a grandes
-discursos, entraremos já no assumpto, se V.
-Ex.ª assim o permittir.</p>
-
-<p>Araujo Rodarte comprehendeu logo do que se
-ia tratar, e o seu coração bateu apressadamente
-n’uma commoção que teve tanto ou quanto de
-dolorosa.</p>
-
-<p>—Estou ás ordens de V. Ex.ᵃˢ, respondeu elle.</p>
-
-<p>—V. Ex.ª, continuou o morgado de Reguengos,
-sabe muito bem quem nós somos, e os meios
-de fortuna que possuimos. N’estas circumstancias
-julgamos que directamente poderiamos apresentar-nos
-a pedir, eu a mão da sr.ª D. Hilda, o
-nosso patricio e meu amigo a mão da sr.ª D.
-Maria Ignez. Eis o assumpto especial da nossa
-visita.</p>
-
-<p>—Eu, accrescentou do lado o proprietario das
-Alcaçovas, louvo-me nas palavras que V. Ex.ª
-acaba de ouvir.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span></p>
-
-<p>—Pela minha parte, respondeu o avô das duas
-meninas, devo dizer a V. Ex.ᵃˢ que nada tenho
-que oppôr ao seu pedido. Custa-me, é certo, ter
-que separar-me d’estas creanças que com tanto
-amor eduquei depois que seus paes morreram,
-mas tambem é certo que nunca fiz tenção, porque
-o amor exclue o egoismo, de as conservar
-indefinidamente presas á minha ordem. Apenas
-sempre recommendei ás minhas netas que não
-tivessem pressa de casar, isto é, que o não fizessem
-irreflectidamente, porque lhes não faltavam
-commodidades, regalos e carinhos. Estou,
-porém, convencido de que V. Ex.ᵃˢ as saberão
-estimar, senão mais do que eu, porque seria impossivel,
-permittam-me esta vaidade, pelo menos
-tanto como eu.</p>
-
-<p>N’este momento arrazaram-se de lagrimas os
-olhos de Araujo Rodarte.</p>
-
-<p>Houve um momento de silencio.</p>
-
-<p>—Mas, continuou o velho enxugando as lagrimas,
-não basta n’esta grave materia o que eu
-digo. É preciso, primeiro que tudo, saber o
-que dizem as interessadas. V. Ex.ᵃˢ já de certo
-as tinham prevenido dos intuitos d’esta sua visita...</p>
-
-<p>Os dois alemtejanos responderam quasi ao
-mesmo tampo:</p>
-
-<p>—Não, sr.</p>
-
-<p>—Não? Ainda bem! exclamou Araujo Rodarte.
-Ainda bem, porque esse facto mostra ao meu
-coração que as minhas netas não teem segredos
-para mim. A reserva seria desculpavel por parte
-d’ellas, mas não deixaria de maguar-me, porque
-representava até certo ponto falta de confiança
-no seu velho e affectuoso avô.</p>
-
-<p>—Nós dois, disse o proprietario das Alcaçovas
-sorrindo, vamos agora saber pela primeira vez o<span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span>
-que as duas netas de V. Ex.ª pensam a nosso
-respeito.</p>
-
-<p>—Pois eu vou chamal-as para que ellas o digam
-com a franqueza que o momento requer.</p>
-
-<p>Levantando-se da cadeira, Araujo Rodarte foi
-a meio do corredor, e chamou em voz alta:</p>
-
-<p>—Salomé! Salomé!</p>
-
-<p>—Meu avô!</p>
-
-<p>—Dize a tuas irmãs que venham aqui, e vem
-tu tambem.</p>
-
-<p>Voltando á sala, Araujo Rodarte disse aos
-dois patricios:</p>
-
-<p>—Não estranhem V. Ex.ᵃˢ que eu chame tambem
-minha neta Salomé. É o meu braço direito.
-Em minha casa todas as resoluções são tomadas
-em conselho de familia. Não desejo que este espirito
-de solidariedade se interrompa justamente
-no momento em que vae tomar-se uma resolução
-importante para nós todos.</p>
-
-<p>Não tardaram a apparecer as tres meninas.</p>
-
-<p>Se não fosse trazerem o rosto um pouco mais
-purpurino, dir-se-hia que Hilda e Maria Ignez
-não adivinhavam o que se ia tratar. Salomé, pelo
-contrario, estava mais pallida que de costume,
-parecia ser ella a noiva, pela commoção que denunciava.</p>
-
-<p>Feitos os cumprimentos, Araujo Rodarte disse
-voltando-se para Hilda e Maria Ignez:</p>
-
-<p>—Estes dois cavalheiros, nossos patricios e
-amigos, acabam de me expôr um assumpto que
-exige resposta vossa. Pela minha parte, apreciando-os
-como devo, porque ambos são pessoas
-que me merecem o melhor conceito, nada terei
-que oppôr á vossa vontade. Podeis e deveis fallar
-com franqueza, porque se trata do vosso
-futuro. O sr. morgado pede a tua mão, Hilda,
-e este cavalheiro a tua, Maria Ignez. Respondei<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span>
-agora ou quando quizerdes, e como quizerdes.</p>
-
-<p>As duas meninas ficaram por algum tempo silenciosas,
-cravando no avô os olhos embaciados
-de lagrimas.</p>
-
-<p>Araujo Rodarte procurava mostrar-se forte,
-para desopprimir o animo das netas.</p>
-
-<p>Os dois alemtejanos rastejavam o olhar no pavimento
-da casa.</p>
-
-<p>—Podeis e deveis fallar como entenderdes,
-disse Araujo Rodarte.</p>
-
-<p>—Eu, pela minha parte, respondeu Hilda mais
-purpurina ainda das faces do que havia entrado,
-porei apenas uma condição.</p>
-
-<p>—Qual? perguntou Araujo Rodarte.</p>
-
-<p>—Que ficaremos vivendo na Messejana em
-companhia do avô.</p>
-
-<p>Resplandeceu de jubilo a physionomia do velho
-ao ouvir estas palavras.</p>
-
-<p>—E eu acceito, respondeu com firmeza o morgado.
-Não quero que o sr. Rodarte tenha motivo
-algum para desgostar-se com o meu casamento.</p>
-
-<p>—Bem! bem! exclamou o velho Rodarte radiante
-de alegria. V. Ex.ª, disse elle risonho ao
-morgado, já está despachado. Vamos agora ouvir
-a minha Ignez. Falla tu, menina.</p>
-
-<p>—Eu, meu avôsinho, digo que a mana Hilda
-fallou por ella e por mim. Dou a mesma resposta
-com a mesma condição.</p>
-
-<p>—Pois eu, respondeu o proprietario das Alcaçovas,
-não tenho a accrescentar uma virgula
-ao que disse o morgado. O que elle disse é o que
-eu digo tambem.</p>
-
-<p>Araujo Rodarte, sorrindo e chorando ao mesmo
-tempo, levantou-se da cadeira e apostrophou
-erguendo as mãos e os olhos:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span></p>
-
-<p>—Estamos todos despenados, felizmente! Obrigado,
-meu Deus!</p>
-
-<p>As tres netas correram a abraçar-se no avô,
-que effusivamente as beijava no cabello.</p>
-
-<p>Os dois alemtejanos, respeitosos, com os olhos
-no chão, assistiam de pé a esta encantadora scena
-de ternura patriarchal.</p>
-
-<p>Dois dias depois, Araujo Rodarte, muito satisfeito,
-nadando em felicidade, dizia familiarmente
-ao morgado de Reguengos:</p>
-
-<p>—Ora vamos lá. Os velhos são muito curiosos.
-Como foi que isto começou?</p>
-
-<p>—Ora! respondeu o morgado. Começou por
-uma brincadeira!</p>
-
-<p>—Como?</p>
-
-<p>—Na Troia, depois do <i>pic-nic</i>, nós dois, p’ra
-nos rirmos com a rapaziada, que estava levada
-da bréca por ciume uns dos outros, lembramo-nos
-de tirar á sorte os nomes das damas que
-cada um havia de namorar.</p>
-
-<p>—Tem graça! commentou Araujo Rodarte.</p>
-
-<p>—Nós dois, não, disse o proprietario das Alcaçovas.
-Foste tu, morgado. Porque elle, sr. Rodarte,
-lá mesmo se gabou de ter muita sorte a
-todos os jogos.</p>
-
-<p>—Bem se vê, observou o velho, bem se vê
-pelo dinheiro que nos tem apanhado ao loto! Que
-fará ao voltarete! Mas mesmo assim não desisto.
-Ó morgado, logo que estivermos na Messejana,
-havemos de ensinar o voltarete a seu cunhado.</p>
-
-<p>—Dito.</p>
-
-<p>—Mas então, continuou interrogando o velho,
-a minha Hilda coube em sorte ao morgado.</p>
-
-<p>—E a mim a sr.ª D. Ignez, atalhou o proprietario
-das Alcaçovas.</p>
-
-<p>—E o agouro sahiu certo! Tem graça! tem<span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span>
-graça! Parece romance! E, diga-me, a andaluza
-não entrou tambem na loteria?</p>
-
-<p>—Entrou. Sahiu ao D. Ramon.</p>
-
-<p>—Ahi é que me parece que o agouro falhou.
-Mas quem sabe? O futuro a Deus pertence. Mas
-o hespanholito ainda ahi está, pois não está?</p>
-
-<p>—Sim, sr.</p>
-
-<p>—Não o tenho visto!</p>
-
-<p>—Elle não sae do café <i>Esperança</i>, onde bebe
-gazozas umas sobre outras. Não parece disposto
-a morrer de saudades pela <i>señorita</i>.</p>
-
-<p>—Não é homem de grandes fogos! disse Araujo
-Rodarte.</p>
-
-<p>—Tanto se lhe dá como se lhe deu, observou
-o proprietario das Alcaçovas. Nem parece hespanhol!
-Á força de tomar gazoza, já a tem nas
-veias.</p>
-
-<p>Riram todos muito com esta observação, que
-era exacta.</p>
-
-<p>O que não passou pela cabeça de Araujo Rodarte,
-nem os dois alemtejanos ousaram dizer-lhe,
-é que D. Estanislada tambem havia entrado
-no sorteio.</p>
-
-<p>—Mas a minha Salomé? a minha Salomé a
-quem coube em sorte?</p>
-
-<p>—Ao Vianninha.</p>
-
-<p>—Pobre Salomé! disse Araujo Rodarte, rindo.
-Essa fica sem noivo. Vejam lá os srs.! Lembrei-me
-primeiro da hespanhola que da minha Salomé!
-Como é o meu braço direito, não me lembro
-nunca de que ella póde casar um dia! Nem
-quero lembrar!</p>
-
-<p>Não se soube logo no café <i>Esperança</i> que as
-duas Rodartes iam casar. Os dois alemtejanos
-não eram pessoas que divulgassem a sua felicidade.
-Mas quando se soube, o alferes Ruivo,
-sempre alegre, propôz que se abrisse uma garrafa<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span>
-de vinho do Porto, para saudar mais
-uma vez a victoria de Portugal sobre a Hespanha.</p>
-
-<p>—Meus senhores, disse elle de copo em punho,
-vamos ter um novo 1640, sem revolução e
-sem Miguel de Vasconcellos. A Hespanha entrou
-arrogante em Setubal, escravisou os corações
-portuguezes, tratou-os como vencidos, opprimiu-os.
-Mas o sentimento da independencia da
-patria póde mais que o jugo da belleza. A Hespanha
-foi derrotada, o leão de Castella teve de
-retirar sobre Santarem, protegido pela Junta Geral
-d’aquelle districto, que merece se lance na
-acta um voto de censura em nome da patria offendida.
-(<i>Hilaridade geral.</i>) Ficou triumphante a
-belleza de Portugal, sem precisar para isso recorrer
-á <i>tertulia</i>, ao <i>abanico</i>, nem aos dentes
-postiços da mamã. (<i>Alguns dos «habitués» do
-café Esperança choravam de riso</i>). Peço-lhes
-pois que, em nome da alma nacional, e em homenagem
-á provincia a que Setubal pertence geographicamente,
-repitam com sincero enthusiasmo
-as palavras que eu vou dizer.</p>
-
-<p>E fez uma longa pausa.</p>
-
-<p>—Então?</p>
-
-<p>—Venham de lá as taes palavras!</p>
-
-<p>—Vem ou não vem?</p>
-
-<p>O alferes, circumvagando o olhar pelo auditorio,
-esvazia o copo e recita com emphase:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Que mais querem de nós? apoz tamanha</div>
-<div class="verse">galhardia d’algoz, ébrios de gloria,</div>
-<div class="verse">apagaram acaso a luz da Historia?</div>
-<div class="verse">não lêem seus feitos?... Que nos quer a Hespanha?...</div><span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Quer insultar a lapide funerea</div>
-<div class="verse">que pesa sobre vós, heroes de <i>Ourique</i>!...</div>
-<div class="verse">Estremecei de horror, filhos de Henrique!...</div>
-<div class="verse">Repercuti meu canto, éccos da Iberia!</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="titlepage"><span class="smcap">Fim</span></p>
-
-<p class="mt3"><i>Post scriptum.</i>—Pude finalmente conseguir escrever
-o nome do sueco. Chamava-se Andreas Setterquist.
-A menina Ricardina, muito carinhosa,
-chamava-lhe familiarmente o seu <i>Settequiz</i>. E o
-malicioso alferes Ruivo dizia que, a contar por
-alto, devia effectivamente ser o setimo.</p>
-
-<hr />
-
-<h2>ERRATA</h2>
-
-<p><a href="#Page_129">Pag. 129</a>:</p>
-
-<p>Linha 10.ª, onde se lê—«terão coragem para me fazerem
-alguma traição», deve lêr-se—«terão coragem para
-me fazer alguma traição».</p>
-
-<p>Linha 18.ª, onde se lê—«A velhice que me tornou ainda
-tão tolo», deve lêr-se—«A velhice não me tornou ainda
-tão tolo, etc.»</p>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of Project Gutenberg's As Netas do Padre Eterno, by Alberto Pimentel
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NETAS DO PADRE ETERNO ***
-
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