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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: As Netas do Padre Eterno - Romance original - -Author: Alberto Pimentel - -Release Date: July 19, 2020 [EBook #62706] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NETAS DO PADRE ETERNO *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - - - - - -N.º 32—COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA - -AS NETAS DO PADRE ETERNO - - - - - COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA - - AS NETAS - DO - PADRE ETERNO - - ROMANCE ORIGINAL - - POR - Alberto Pimentel - - [Illustration] - - LISBOA - LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA—EDITOR - 50, 52—Rua Augusta—52, 54 - 1895 - - LISBOA—Typ. e Stereotypia Moderna—Apostolos, 11, 1.º - - - - -I - - -Desde a primavera até ao inverno de 1873, decorre, na historia da moderna -Hespanha, um periodo de rubra agitação demagogica, em que tanto a -abandonada coroa da velha Monarchia de S. Fernando como o recente barrete -phrygio da Republica fluctuam n’um mar de sangue, golphado do proprio -coração d’esse bello paiz meridional, e sinistramente illuminado pelos -reflexos coruscantes dos incendios de Alcoy, que eram o facho tristemente -glorioso da insurreição cantonal. - -Nação essencialmente catholica, a Hespanha viu profanados os seus -templos, principalmente em Barcelona, onde as mulheres, n’uma infrene -orgia de bacchantes, envergavam as vestes sacerdotaes, entoando cantares -obscenos, e derramando por sobre os altares o vinho que trasbordava das -taças. - -Nas ruas, as allucinações da musa popular, terrivelmente revolucionaria, -alternavam-se com as detonações dos fuzilamentos, e aos dithyrambos -entoados á beira dos altares correspondiam, fóra dos templos, trovas -sacrilegas, dissolventes, anarchicas: - - Yá se le acabó á los curas - El comer á dos carrillos, - Y el ir de noche al café - Con el ama y los chiquillos. - - Abajo las estrellas, - Abajo los galones, - Que no quiere mandones - La santa federal. - -É certo que na alma popular da Hespanha não estavam de todo pervertidos -os sentimentos cavalheirescos da raça castelhana, mas a revolução ia -alastrando dia a dia o seu dominio,—em Sevilha era incendiada a _calle -de las Sierpes_, em Cadiz punha-se em almoeda a custodia do _Corpus -Christi_, em Málaga dois bandos rivaes porfiavam em horrores de barbarie, -em Granada os desenfreamentos do vandalismo desmoronavam as instituições -e os templos, como acontecia em Barcelona, em cujos campos os bosques -incendiados chammejavam como enorme fornalha: por isso só timidamente a -musa das ruas ousava contrapôr um grito de justa indignação aos desvarios -da demagogia que golpeava o coração da patria, enodoando de sangue as -mais bellas paginas da historia nacional. - -D’esses timidos gritos de reacção popular não se perdeu comtudo a -nota caracteristica, que ainda hoje póde encontrar ecco na apreciação -imparcial d’esse periodo demagogico: - - La republica en Guarena - La cantan los taberneros, - Y en D. Benito la cantan - Los sastres y zapateros. - - El candido de Figueras, - Y el radical Figuerola, - Nos ha dejado em cuerines - Sin calzon ni camisola. - -Um illustre escriptor hespanhol, o sr. Vicente Barrantes, emigrando -n’essa epocha para Portugal, escreveu sob o titulo de _Dias sin sol_, um -livro interessante, em que estão consignadas as dolorosas impressões que -as desgraças da Hespanha punham no coração dos seus angustiados filhos. -Uma pagina d’esse livro diz: - -«Com mão debil e porventura timida empunhou o tribuno Emilio Castellar -as redeas da dictadura, ao tempo que a fronteira portugueza, onde eu -me achava, offerecia um lancinante espectaculo. Cerrada a do norte -pelos carlistas, era aquella a unica porta para escapar d’este inferno -de Hespanha, e cada trem do caminho de ferro iberico parecia barcada -de Acheronte, como aquellas que rangendo os dentes e blasphemando -até dos paes de seus paes viu passar o grande poeta da Edade-Média -pelo lodoso lago que ao inferno conduz... De Madrid, de Alcoy, de -Cartagena, de Valencia, de Cadiz, de Sevilha, de Jerez chegavam por -centenas familias dispersas, como quem foge de uma peste; e isto um dia -e outro dia, e mezes inteiros; e récuas e caravanas de inoffensivos -lavradores, de pacificos artistas, de laboriosos industriaes desembocavam -simultaneamente por todas as povoções da fronteira, desde Barrancos a -Setubal, desde Elvas a Lisboa, desde Zamora e Ciudad-Rodrigo ao Porto: -misero formigueiro de emigrantes de todas as classes e condições, com os -olhos voltados para Hespanha, mas receiando, a cada hora que o horror os -convertesse em estatuas, como á mulher da Biblia.» - -Setubal, pela amenidade do seu clima, e pela belleza dos seus campos, -hospedou uma importante colonia hespanhola, atravez da qual eu passeei -algumas vezes os meus ocios de _touriste_. Principalmente no verão, -em julho, que foi a epocha mais calamitosa da revolução, a affluencia -de emigrados era numerosissima ali. E o que é verdadeiramente notavel -é que os havia de todas as côres politicas, porque o perigo era egual -para todos. A revolução não curava de perscrutar as opiniões de cada um. -Perseguia, roubava, incendiava, fuzilava indistinctamente. Já não era -pequena felicidade poder fugir á morte, salvar a vida. Dos emigrados, -conheci alguns ricos, poucos, e esses eram os que tinham logrado liquidar -a tempo os seus haveres, antes que a _santa federal_ se encarregasse da -liquidação. D’este numero era a familia Saavedra, de Sevilha, que tem de -figurar n’esta historia. Tres pessoas apenas: pae, mãe e filha. - -O pae, o sr. D. Enrique Saavedra, havia collocado uma somma importante -n’um Banco inglez. Era um industrial acreditado, e teve o bom senso -de fechar as suas fabricas mal que soaram os primeiros rugidos da -insurreição cantonal. Se não tivesse procedido assim, haveria decerto -succumbido ás mãos dos seus proprios operarios. Em politica, era -francamente monarchico; principalmente, partidario dos Bourbons. «Qué -broma! dizia-me elle, D. Izabel está exilada. Mas ou a revolução aniquila -de vez a Hespanha, ou a Hespanha ainda chamará a rainha». Com effeito, em -pouco se enganou D. Enrique: um filho de Isabel II occupou o throno de S. -Fernando. Os Bourbons voltaram. - -Quem se não importava grandemente com os acontecimentos politicos de -Hespanha, era sua filha, Soledad, a mais _salerosa_ individualidade de -mulher que é dado phantasiar na vaga idealisação de uma noite de serenata. - -Bocage, quando do alto do seu monumento a viu, estremeceu. - -Setubal ficou encantada, não obstante ter-se iberisado então pelas -relações commerciaes que mantinha com a colonia dos emigrados. E digo -commerciaes, porque os hespanhoes eram os primeiros a queixar-se que só -tratassem com elles os setubalenses nas transacções ordinarias da vida: -dá cá, toma lá. De resto os emigrados entretinham-se uns com os outros, -com duas ou tres pessoas da terra, e com as que eram de fóra. - -O ideal de Soledad era uma _tertulia_ ou, como hoje dizemos á franceza, -uma _soirée_. Por muito tempo procurou desesperadamente uma _tertulia_, -e se alguma vez ouvia tocar piano, parava de subito, attentava o ouvido -e, com uma graça vivaz, picante, exclamava: _Qué! És una tertulia?_ Era -apenas um piano que tertuliava uma valsa... platonicamente. - -Chegára o verão, começaram a apparecer os banhistas, muita gente do -Alemtejo. Ao fim da tarde sentavam-se na praia, olhando para o mar, -e ou fallavam dos seus montados e das suas courellas, ou descahiam -em somnolencia mazomba. Alguns d’elles, de faces rosaceas, abdomen -enxundioso, e instinctos retemperados pela bella fibra suina tinham -exclamações carnaes quando a hespanhola passava, e digo a hespanhola, -porque era assim que toda a gente fallava d’ella, sem embargo de que -n’esse momento outras muitas estivessem em Setubal. Era, porém, como se -se dissesse: a bella hespanhola, a formosa por excellencia. - -Das pessoas da terra foram poucas as que romperam com a tradição local -de retraimento bisonho, arrastadas pela fascinação. E essas poucas, eram -homens. As senhoras visitavam-se então em Setubal difficilmente, e esta -difficuldade augmentava para com os estrangeiros, cuja procedencia era -quasi impossivel esquadrinhar, a não se fazer obra pelas informações dos -seus patricios, suspeitas para o caso. - -Um dia, porém, Soledad comprehendeu que os seus olhos podiam, elles -mesmos, em toda a parte, improvisar uma _tertulia_; que no seu sorriso -alegre e resplendente de andaluza havia encantos de sobra para fazer -conhecidos e namorados, e desde esse momento ella zombou poderosamente -da semsaboria setubalense, trazendo comsigo, a toda a hora, de manhã ou -á noite, uma _tertulia_ completa, attrahida pelo iman da sua formosura, -rebocada pela sua fascinação iberica. Era a sua côrte, a sua _coterie_, o -seu séquito. Por accordo tacito, conferiu-se-lhe o sceptro das Hespanhas, -que a princeza de la Cisterna havia deposto. Vassalos enthusiastas -rodeavam-n’a como nunca os tivera a rainha Maria Victoria. Cada dia -que passava trazia um novo alliado. Alguem que vinha a Lisboa, dizia: -«Que bella hespanhola que está em Setubal!»—«O que?!» perguntavam no -Chiado.—«Unica! incomparavel! sublime!» era a replica. Os curiosos iam, -e ficavam. Creio que os generos alimenticios chegaram a encarecer em -Setubal. Mas o que embarateceu foi a poesia. N’aquelle tempo, ainda o -verso era o vehiculo do amor, e com razão se julgava que para uma mulher -de um paiz ardente não havia para inflammar-lhe a phantasia como uma -metralha de alexandrinos. - -Em redor da bella andaluza, fallava-se um hespanhol mascavado, que ás -vezes parecia ser-lhe ainda de mais difficil comprehensão do que o -vasconço o é para o commum dos hespanhoes. Mas que se importava Soledad -com as palavras? Ella já sabia o que lhe diziam, o que por força se -havia de dizer ao pé d’ella: que a amavam. Sorria, e respondia com os -olhos, augmentando a fascinação, sem se comprometter: este segredo que -só os olhos das hespanholas possuem. As portuguezas, com habitarem a -mesma peninsula e serem da mesma raça, affirmam ou negam com os olhos, -compromettem-se pelo olhar. Os olhos das hespanholas fallam sempre, -mas raras vezes para affirmar ou negar. A duvida atiça o amor, e ella -espalhava a duvida com o olhar. Não era bem prometter, não era bem -recusar, seria tudo isso talvez, ou, ainda melhor, nada d’isso seria. -Semeava esperanças, atirava flores e olhares ao acaso, emquanto o pae -fallava dos assassinatos de Montilla, dos incendios de Alcoy e dos -sacrilegios de Barcelona, e emquanto a mãe, que se morria por peixe, e -era ainda arrebitada, ia por ali fóra, deixando vêr no sorriso uns dentes -alvissimos, marchando com um desembaraço verdadeiramente hespanhol, em -direcção á Ribeira, para comprar um safio ou uma corvina. Assim mesmo é -que era; sem _ficelles_ realistas, pela minha parte.—Ah! ditoso safio! -ah! venturosa corvina! diziam muitos, que não podendo occupar o coração -de Soledad, se contentariam com achar logar no seu estomago. Eu nunca -fui d’esta opinião; não pelo acto em si mesmo, mas pelas consequencias. -Todavia ha paladares para tudo... - -Alguns entendiam que o melhor modo de conquistar a filha era captivar -a mãe—pela bocca. Offereciam-lhe carregações de peixe-espada, cardumes -de salmonetes, cabazes de laranjas—e então aquellas laranjas, as de -Setubal! Um adorador setubalense mandou-lhe de uma vez um presente de -sal, que chegava bem para salgar uma geração inteira. Outro _attaché_, -lisboeta, riu do caso, fazendo notar que quem possuia uma filha assim -tinha mais sal do que todas as marinhas do Sado. - -Para brindar Soledad, os seus admiradores iam colhêr as melhores flores -das quintas de Brancannes, que dispunham em graciosos _bouquets_ e lindas -_corbeilles_, recorrendo ao velho estratagema amoroso de esconder entre -as flores uns versos ou uma carta, se bem que ella parecesse ás vezes -gostar muito mais de laranjas que de flores. - -O proprio D. Enrique era obsequiado com garrafas de excellente moscatel, -e seja dito em abono da verdade que o moscatel de Setubal parecia ter o -condão de lhe aligeirar os desgostos causados pelas desgraças da patria. - -De dia para dia se tornava cada vez mais numerosa e obsequiadora a -côrte em que a bella andaluza era rainha absoluta, omnipotente. Soledad -sabia, como ninguem mais, conservar a illusão, a duvida ao mesmo passo -cruel e deleitosa, que traz suspensos os namorados entre a esperança e o -desalento. Não se deixava comprehender: esse era o seu grande segredo. A -maior desgraça que póde acontecer a uma mulher é o ser comprehendida por -todos. Umas vezes, parecia enlevada em extasis romanticos, tinha vagas -abstracções, o seu olhar pairava no azul luminoso da noite. _Que bella es -la luna!_ dizia. Dos seus labios adejava um suspiro, que era impossivel -interpretar. Outras vezes, quando lhe faziam notar a belleza da lua, -ria com desdem petulante, replicando que já estava enfastiada de ouvir -fallar da lua de Portugal e da revolução de Hespanha. - -Emquanto uns fallavam a Soledad, vogando na ondulação das suas -esperanças, ora afagadas, ora combatidas, D. Estanislada, a mãe, -discorria a proposito do peixe-espada que tinha comido ao jantar com -salada de alface e azeitonas, e D. Enrique discursava sobre a queda dos -Bourbons ou sobre a frasqueira do sr. Fonseca, de Azeitão. - -Eu não posso dizer quantos e quaes fossem os satellites de Soledad a -esse tempo. Eram muitos. Citarei apenas os que me forem lembrando. Um -jornalista de Lisboa, o Goes, que mandava mais versos do que laranjas, -e um morgado de Reguengos, que mandava mais laranjas do que versos. Um -proprietario das Alcaçovas que se atirava ao coração de Soledad com -sorrisos e presuntos. Um rapaz de Setubal, o Vianninha, que recorria -ao auxilio das flôres, e que deixára pela bella hespanhola uma menina -da terra, a Sequeira, que estava padecendo horriveis hysterismos por -se vêr abandonada. O conselheiro Antunes, de Santarem, pessoa grave e -dinheirosa, que se dirigia principalmente á mãe, não se sabia se para -ficar por ahi, se como ponto de partida para se aproximar da filha. Um -morrinhento hespanholito, tambem emigrado, D. Ramon Mendoza, que recitava -versos como quem está a solfejar cantochão. O alferes Ruivo e o tenente -Epaminondas, de caçadores 1. Um sueco, que estava ali a negocio: alto, -louro, rosado e inintelligivel. Um marialva do Chiado, que fôra a uma -corrida de touros, e não se demorára menos de quinze dias. Um estudante -de Alcacer, Julio de Lemos, que tinha ido a férias, e não chegára a -casa. Mas, francamente, é-me completamente impossivel enumerar todos -os cortezãos da bella andaluza, tanto mais que todos os dias pareciam -multiplicar-se como as cabeças da hydra de Lerna e os algarismos da -divida fluctuante. - -Em face de tão numeroso cortejo, terá decerto perguntado já o leitor a si -proprio como é que elles podiam conviver uns com os outros, sem desatar á -descompostura e ao murro. A todos os trazia illudidos a esperança, como -a duzentos candidatos que requerem o mesmo emprego. Fallavam-se, como -os pretendentes se fallam debaixo da Arcada. Cada um tratava de metter -memorial, e de arranjar as suas coisas. Havia _hotel_, o _Escoveiro_ -por exemplo, onde dormiam dois a dois, por falta de leitos. Ás vezes -intrigavam-se. Finalmente, estavam em Setubal a amar a bella hespanhola -como podiam estar em Lisboa a amar o deputado do circulo. - -Todos elles possuiam o retrato de Soledad, reproduzido do _cliché_ que um -photographo ambulante, temporariamente estabelecido no largo das Almas, -durante a estação de banhos, punha ao serviço do amor, na razão de 1$500 -réis por photographia. O retratista estava fazendo um grande negocio; -parecia ter fome, quando ali chegou, mas, passados dias, ia todas as -manhãs á praça do Sapal comprar uma bella posta de carne de vacca e um -chouriço, levando tudo para casa n’uma folha de couve. - -Estes retratos duravam só mais quatorze manhãs do que a rosa de Malherbe. -Quando muito, ao cabo de tres semanas a imagem desapparecia, apagava-se. -Os enamorados iam fornecer-se de novo, n’uma grande anciedade amorosa, da -qual o photographo ambulante desentranhava chouriços no dia seguinte. - -Á hora da ceia, na longa meza dos _hoteis_, um grupo de amorosos, -n’uma orgia de moscatel, brindava pelo amor e pela esperança, havendo -cada um encostado á garrafa ou á compoteira o retrato de Soledad. -Então extasiavam-se, soltando _hurrahs_ perante o seu talhe _mignon_, -o seu collo de pomba, os seus bellos cabellos negros, caprichosamente -amontoados sob as rendas brancas da mantilha, os seus olhos penetrantes -como punhaes de Toledo e vivos como carvões accesos, o seu gracioso ar -petulante, illuminado por essa luz mysteriosa, que se projecta sobre as -mulheres hespanholas, e que se chama—o _salero_. - -O conselheiro Antunes, que tambem estava n’um _hotel_, não tomava parte -n’estas bacchanaes amorosas, condemnava-as mesmo, e tiravam-lhe o somno, -quer fosse pelo ciume ou pela algazarra. No dia seguinte queixava-se de -persevejos. - -O sueco, esse, embebedava-se com kirsch, e tornava-se inintelligivelmente -gárrulo. Punha os olhos no tecto, parecendo recitar as mais sentimentaes -estrophes da Scandinavia, ao passo que os portuguezes choravam de riso ao -vel-o arroubado, e perguntavam entre si: «_Que diabo estará a dizer este -pedaço de bruto!_» - -Uma noite, havia dado uma hora na egreja de S. Julião, e no _Hotel -Escoveiro_ o grupo dos enamorados abordava a setima garrafa de moscatel, -tendo cada um o retrato de Soledad em frente do seu prato, quando de -repente, á porta da sala, uma figura inesperada apparece. - -Era D. Enrique Saavedra. - -O estudante d’Alcacer, que receiou uma tragedia de colera paterna em -cinco actos e outras tantas bengaladas, lembrou-se de apagar o candeeiro. - -Fez-se um silencio profundo, que o sueco, alheio ao que se passava, e -grandemente enkirschado, interrompeu começando a declamar palavras de -quinze syllabas, longas e sibilantes como um comboyo. - -De repente, a voz de D. Enrique troveja: - -—_Hombres, por Dios, atencion!_ - -O estudante foi tacteando a meza, ás escuras, para esconder os retratos, -e aconteceu-lhe metter uma das mãos dentro de uma chicara de café. - -O sueco calou-se, porque o proprietario das Alcaçovas lhe deitou as mãos -ás guelas. - -O jornalista lisboeta gritou que deixassem ouvir. - -Então D. Enrique declarou o que queria: Procurar o cirurgião ajudante de -caçadores 1, para acudir a D. Estanislada, que estava afflictissima com -uma indigestão de peixe-espada e salada d’alface. - - - - -II - - -No dia seguinte, Julio de Lemos, o estudante de Alcacer do Sal, passeiava -a sua paixão escholastica sob as arvores do largo das Almas, quando -de repente lhe apparece, de physionomia completamente transtornada, o -photographo ambulante. Que se encontrava n’uma situação afflictissima, -disse-lhe o retratista. Um agiota de Lisboa, a quem devia cem mil -réis, sabendo que estava fazendo interesses em Setubal, cahira sobre -elle de chofre, tendo chegado no comboyo da manhã, para exigir-lhe o -prompto reembolso de uma parte da divida. Que elle photographo se havia -esquecido realmente de satisfazer as prestações estipuladas, que a -mulher e os filhos gostavam muito de bifes, e que elle gostava não só de -bifes mas tambem de moscatel de Azeitão. Que não tinha dinheiro algum -de que podesse dispôr, e que o agiota queria retirar-se para Lisboa no -comboyo da tarde, levando algum dinheiro. Sou um homem muito desgraçado! -exclamava o photographo. E acrescentava: Portugal é um paiz perdido para -os artistas! São todos como eu. (Referia-se certamente á pobreza, não ao -moscatel e aos bifes). - -O estudante ouviu-o tendo nos labios um sorriso de extranha -superioridade, com as mãos nos bolsos das calças, enfunando-as á hussard. -E perguntou ao retratista: - -—O senhor viu alguma vez a _Cora_ em D. Maria II? - -—Vi, sim, respondeu promptamente o photographo. E acrescentou:—Uma só -vez, sabe Deus com que sacrificio! para vêr o panorama do Mississipi, que -me tinham gabado muito,—por amor da arte! - -—Pois bem. Lembra-se como o Cesar de Lima fechava um acto?... - -—_O senhor já viu alguma vez a Providencia? Pois a Providencia sou eu!_ -Parece-me que era isto. - -—Exactamente. É essa a phrase, observou Julio de Lemos. Em Lisboa a -Providencia é o Cesar de Lima; em Setubal, sou eu. - -—O senhor! - -—Eu mesmo, _me adsum_. - -E tirou do bolso do frak todos os retratos que na vespera á noite havia -podido encontrar sobre a mesa do _Hotel Escoveiro_, para que D. Enrique -Saavedra os não visse. Mostrou-os ao photographo dizendo-lhe: - -—Vê isto? - -—Vejo. São os retratos da _senhorita Soledad_, como o photographo, no -seu calão de circo, costumava chamar sempre á bella andaluza. Mas não -comprehendo! - -—Pois não comprehende! extranhou o estudante. Vai comprehender. Hontem á -noite, estando nós a ceiar no _Hotel Escoveiro_ e tendo os retratos de -Soledad sobre a mesa, entrou inesperadamente D. Enrique Saavedra. - -—Oh diabo! exclamou o photographo. E elle soube que sou eu quem os tiro?! - -—Qual historia! Quando elle entrou, eu tive a idéa luminosa de apagar o -candeeiro... - -—Então não foi luminosa, exclamou o photographo já tranquillo, e contente -de si, por ter feito um dito gracioso. - -—É boa! exclamou o estudante, rindo estrepitosamente, e dando dois -piparotes no estomago do photographo. Apanhou-a bem!... - -—É que d’estas coisas de luz, um photographo entende sempre. - -E riram de novo. - -—Ora bem, continuou Julio de Lemos. Eu tive a escura idéa de apagar o -candeeiro, e de procurar em cima da mesa os retratos de Soledad. Durante -a viagem das minhas mãos por sobre a toalha, introduzi uma d’ellas -dentro de uma chicara de café, e estive para partir uma garrafa. Mas, -felizmente, pude apanhar todos os retratos. São estes. - -O photographo começou a comprehender; sorria velhacamente. - -—Hoje, continuou o estudante, todos os hospedes do _Hotel Escoveiro_ irão -a sua casa procurar retratos de Soledad, e o sr. venderá estes mesmos, -exceptuando o meu, se quizer acceitar as condições que lhe vou propôr. - -O photographo ouvia attentamente, com uma curiosidade cheia de pontos de -interrogação. - -—As condições são dar-me a commissão de vinte por cento em cada um -d’esses retratos... - -Nos labios do photographo passou rapidamente um movimento de despeito. -Litteralmente traduzida, essa crispação quereria dizer: Ah! maroto, que -me comeste! - -Mas em voz alta: - -—Vá feito. - -—Espere lá,—continuou o estudante, que havia tres dias estava sem -dinheiro—o meu amigo ainda não pensou na possibilidade de ir alguem -a Lisboa mandar copiar qualquer d’estes retratos, de modo a poder-se -reproduzir um _cliché_ por um preço muito inferior a 1$500 réis o cartão? - -—Sim... lá isso... mas a despeza do caminho de ferro?... e o -incommodo?... e sobretudo... o ter que ausentar-se da senhorita Soledad, -deixando o campo livre ao inimigo! - -Esta ultima advertencia do photographo tinha visivelmente por fim ferir a -corda sensivel do coração do estudante, que se deu pressa em responder: - -—Ora o meu amigo excede na arte de não saber photographar o proprio -Marcel das _Scenas da vida da bohemia_ (o livro predilecto do estudante) -que tirava retratos aos granadeiros de Pariz com a similhança garantida -por um anno. A imagem das suas photographias só pode ser garantida por -quinze dias, o maximo. Portanto, d’aqui a oito dias, estes retratos -estarão completamente apagados, o meu amigo terá novas encommendas, e eu -continuarei a receber a commissão de vinte por cento, com direito a um -retrato gratuito. - -O photographo transigiu, pactuou. O estudante entregou-lhe os retratos de -Soledad, que n’esse mesmo dia foram vendidos aos seus admiradores—pela -segunda vez. - -No dia seguinte, o photographo ia, com o producto d’esta receita -inesperada, fazer uma patuscada a Azeitão, levando comsigo a mulher, a -sogra, e os pequenos. O agiota de Lisboa tinha sido uma fabula inventada -pelo desejo com que o photographo accordára de dar um rega-bofes a toda a -familia. E o estudante habilitava-se a comprar ao feitor de uma quinta de -Brancannes um bello ramo de flores com que corrêra a presentear Soledad, -por isso que, _inopia pecuniae_, se havia deixado preterir n’este genero -de galanteria idyllica. - -D. Estanislada estava inteiramente restabelecida. O cirurgião ajudante -de caçadores 1 fôra felicissimo na prompta applicação de um copinho de -genebra de Hollanda, que pôde quebrantar os impetos do peixe-espada -no estomago da afflicta senhora. _Es usted un doctor completo!_ dizia -ao outro dia D. Enrique Saavedra ao cirurgião, passeiando com elle -na praia, e impingindo-lhe a centessima edição da historia oral dos -acontecimentos de Hespanha. E como o doutor cahisse ingenuamente em dizer -que andava fazendo estudos sobre a historia da poesia revolucionaria na -peninsula, D. Enrique Saavedra começou a repetir-lhe, com uma facundia -verdadeiramente hespanhola, varias quadras _callejeras_, como elle dizia, -taes como estas: - - Ay qué risa, qué risa, qué risa - Que Amadeo lo he visto en camisa! - Ay salero, ay salero, ay salero, - Que á Amadeo lo he visto yo en cuero! - - Si nos cumplen la palabra - Zorrilla, Rivéro y Martos, - Le pondrémes á Amadeo - El passaporte en la mano. - -Entretanto, D. Estanislada, Soledad e o grupo dos admiradores da bella -andaluza haviam-se encaminhado para o Passeio da praia de Troino. Era -convidativo o local, e a grande serenidade do Sado punha no horisonte da -paizagem uma vaga doçura inexplicavel. - -O sueco sentia-se bem deante do aspecto grandioso das aguas do rio, e -do mar que se avistava ao longe. Era, em toda a sua pujança, n’esse -momento, um homem do norte, habituado a vêr os grandes rios e os grandes -lagos, sem se arripiar de frio, graças ao habito do clima septentrional -e... ao kirsch. Como Soledad parasse ao pé do lago para lhe atirar uma -pedrinha, que desappareceu descrevendo á superficie da agua ondulações -concentricas, o sueco disse-lhe, na sua linguagem arrevesada, que se ella -visse o lago Moelar, em Stockholmo, semeado de pequenas ilhas, ficaria -verdadeiramente encantada, e baixo, ao ouvido, acrescentou: _Senhora -poderr irr comiga, se querr casa mim._ - -Como fosse o sueco quem n’essa tarde parecia ter adiantado terreno, -os outros iam despeitados, e alguns, n’um grupo, faziam troça e iam -chasqueando das suas calças curtas, das suas grandes botas rugosas, do -seu passo de pachiderme, e da sua _gaucherie_ amorosa. O conselheiro -Antunes, fallando com D. Estanislada, aconselhava-lhe que para a outra -vez se abstivesse do peixe-espada, que na sua opinião era muito reimoso. - -Chegados á beira do rio, Soledad sentou-se, poz os olhos na corrente -plácida do Sado, e tirou da sua alma de andaluza um suspiro que mandou ao -Guadalquivir. Explicou ao sueco que a cidade de Sevilha ficava á margem -do Guadalquivir, um bello rio, o mais formoso de todo o mundo! exclamou -ella n’uma arrojada hyperbole hespanhola. O sueco sentiu-se ferido -na corda do patriotismo, e replicou: _Nó! nó!_ E procurou justificar -a negativa citando os principaes rios da Scandinavia, enumerando o -_Tornea_, o _Lulea_, o _Pitea_ e o _Umea_. E o estudante, troçando, -acrescentou do lado com ruidoso applauso dos circumstantes, e com a -rapidez de quem está declinando nomes latinos: E o _Gelea_, o _Gouvea_, o -_Obrea_, e o _Lamprea_. - -O sueco fez-se encarnado como uma cereja, sem perceber ao certo senão -que estavam rindo d’elle, e Soledad vibrou uma gargalhada sonora como um -tinido de crystaes, que se houvessem encontrado na sua garganta. - -Era que o estudante de Alcacer estava verdadeiramente desesperado. N’esse -mesmo dia em que havia ido comprar um _bouquet_ a uma quinta, a cuja -porta um grande cão arremettêra contra elle ladrando encolerisado, n’esse -mesmo dia em que com varia fortuna tivera a vantagem de só elle offerecer -flores e a contrariedade das iras do cão, via-se preterido pelo sueco. - -O estudante procurou desesperadamente no seu espirito uma idéa salvadora, -que pudesse restituir-lhe a importancia que visivelmente ia perdendo. -Queria a todo o custo deslocar o sueco da bella posição em que se -encontrava, e pretendeu despertar na alma de Soledad as tendencias -devaneadoras que por vezes se caracterisavam n’uma intermittencia de -romanticismo. Propoz um passeio ao oratorio de Mendoliva, um sitio -poetico, na encosta da serra de S. Filippe, quasi á beira-mar. Com -effeito, o espirito da bella andaluza exaltou-se promptamente. Ella não -sabia o que era Mendoliva, nem qual fosse a belleza d’esse local. Mas o -seu delicado instincto de mulher e de andaluza adivinhou que se tratava -de uma tradição romantica, de uma lenda nacional, e abraçou o alvitre. - -O estudante delirou de alegria, julgou-se victorioso. - -D. Estanislada perguntou a que distancia ficaria o oratorio. Indicou-lhe -a direcção o Vianninha, o rapaz de Setubal, aquelle por quem a Sequeira -estava bebendo anti-hysterico todas as noites. O alferes Ruivo e -o tenente Epaminondas affirmaram que o sitio era delicioso. Mas o -conselheiro Antunes recordou a D. Estanislada o preceito da eschola de -Salerno: - - _Post prandium sta, post cœnam ambula_, - -e aconselhou-lhe que ficasse, que elle lhe faria companhia, _com muito -gosto e muita honra_—palavras suas—, _minha senhora_. D. Estanislada -acceitou a advertencia—por causa do estomago e de outros orgãos. - -Partiu em direcção ao oratorio de Mendoliva o alegre rancho da bella -andaluza e dos seus cavalleiros _servientes_. O caminho, á beira-mar, é -em verdade delicioso. O sol, n’uma grande explosão de luz, lançava sobre -o mar uma chuva de oiro. Manchas encarnadas, de um colorido á Rubens, -punham no horisonte uns tons de purpura, que davam ao sol uma magestade -olympica, como as cortinas de um throno asiatico. Chegaram com effeito -ao local da antiga ermida de S. Braz, onde em outro tempo um soldado -portuguez se elevou em extasis de asceta, havendo trocado a espada pelo -habito. - -Soledad gostou muito, comprehendeu a vaga poesia que se respirava ali, e -pediu ao estudante a lenda do sitio. - -Pobre estudante! Viu-se entalado, sem saber como havia de tirar-se -d’aquelle mau passo. Concluiu por dizer que o sitio não tinha lenda. Foi -um golpe de espada de Alexandre. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas -foram da mesma opinião: que o sitio não tinha historia. O proprietario -das Alcaçovas acrescentou com uma rudeza brutal que não podia ser assim: -que _Mendoliva_ havia por força de dizer alguma coisa. O morgado de -Reguengos acudiu em auxilio do patricio, pela honra do Alemtejo: que -_Mendoliva_ havia de ter uma significação qualquer. Então o jornalista -Aurelio Goes, que se havia conservado calado, com um sorriso de ironia -nos labios, poz-se em evidencia: disse que o chronista Ruy de Pina -contava que Mendo Gomes de Seabra fôra um cavalleiro do tempo de D. João -I, que, mais tarde, já depois do desastre de Tanger, se apartára do mundo -ermando ali, e que, passados annos, fundára o mosteiro de Alferrara. - -Julio de Lemos, desesperado, apopletico de colera, observou que o -jornalista estava confundindo Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares -Pereira, que fôra quem depois de ter militado nos exercitos de D. João -I resolvêra vestir o habito monastico, e que provavelmente o povo -setubalense confundiu os dois individuos na mesma lenda. - -Aurelio Goes despeitou-se, e perguntou ao estudante se elle já havia -feito exame de historia portugueza. O Lemos respondeu insolentemente: -que sim, mas que talvez a tivesse desaprendido lendo os jornaes. O -jornalista perguntou se se referia ao jornal de que elle era redactor. -E o Lemos, querendo nivelar-se á altura de um Cid campeador perante a -bella andaluza, respondeu que não podia referir-se a outro jornal, visto -que o seu redactor confundia Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares -Pereira. Aurelio Goes ainda avançou para o estudante, mas o proprietario -das Alcaçovas deitou-lhe a mão ao braço, como na vespera havia deitado as -mãos ás guelas do sueco. - -Soledad acompanhou com os seus bellos olhos penetrantes todos os -episodios d’este conflicto. Comprehendeu perfeitamente tudo o que se -havia passado, e quiz dissipar a nuvem negra que subitamente se formára. -Lembrou que o sitio era encantador, que convidava á poesia, e pediu ao -estudante que recitasse uns versos. Julio de Lemos desculpou-se, que -estava indisposto, que se não lembrava de versos nenhuns. Ella insistiu, -com imperiosa meiguice. Que não, que não podia, tornou o estudante. -Soledad redobrou de instancias. O estudante, com as faces rubras como -papoulas e os olhos congestionados, teve que ceder e começou a recitar, -com uma precipitação colerica: - - As flores d’alma que se alteiam bellas, - Puras, singelas, orvalhadas, vivas, - Têm mais aromas, e são mais formosas, - Que as pobres rosas, n’um jardim captivas. - -Completamente fóra de si, fez uma longa pausa, procurando visivelmente -lembrar-se da segunda quadra. Depois ia continuar com igual precipitação: - - Sol bemfazejo lhes aquece a chamma - -e, olhando n’este momento para Aurelio Goes, viu que elle sorrira. Sem -mesmo perceber que se havia enganado, e dito uma tolice, o estudante -exclamou: «Oh! é de mais!» Subitamente, Soledad levantou-se e disse com -uma gravidade que ninguem podia decerto esperar: _Caballeros, hagan -usteds favor de acompañarme_. - -Seguiram-n’a todos, n’um cortejo silencioso. Mas, poucos passos -andados, Soledad desfechou uma gargalhada crystallina, e, voltando-se -para D. Ramon Mendoza, declamou com ares mysteriosos, com uma graça -verdadeiramente andaluza: - - ...á fé mia, - Que estoy resuelto á mataros - Y no alcanzara á libraros - La misma virgen Maria. - -As gargalhadas eram estrondosas, resoantes; o estudante, tendo dado o -braço ao alferes Ruivo, dizia-lhe a meia voz, cheio de colera: «O que -elle não sabe é que tem de se bater comigo! Por força!» - -Sahiram-lhes ao encontro D. Estanislada e o conselheiro Antunes, aos -quaes se haviam juntado D. Enrique Saavedra, e o cirurgião ajudante de -caçadores 1. - -—É bonito? perguntou D. Estanislada á filha, em hespanhol, ainda a certa -distancia. - -—Formosissimo! respondeu Soledad. - -—Sabes tu! disse D. Estanislada, temos aqui um insigne cosinheiro, -e indicou o conselheiro Antunes. Iremos ámanhã comer uma grande -caldeirada... aonde?... como se chama aquillo? e apontou para a outra -margem do rio. - -—Troia, respondeu o conselheiro com a gravidade de um Páris de cincoenta -annos. - -—Excellente! commentou o morgado de Reguengos. As laranjas, essas, ficam -por minha conta. - -—Havemos de bater-nos, por força, tornou o estudante a dizer a meia voz -ao alferes de caçadores. - - - - -III - - -N’essa noite, foi no _Club Setubalense_ que se improvisou a _tertulia_. -Soledad e mais tres senhoras hespanholas constituiam todo o feminino da -sala; mas por muitos que fossem os satellites, e por mais brilhante que -palpitasse o lume de seus olhos castelhanos, Soledad, o bello astro da -praia, a todos offuscaria com a graça picante dos seus sorrisos, dos seus -olhares, e do seu desembaraço andaluz. Não havia, portanto, necessidade -de mais senhoras ali. Em estando Soledad, ella só bastava a encher de -torrentes de vida a sala e os corações. A irradiação da sua belleza era -como a da lua, nas formosas noites de verão. - -No elemento masculino notava-se, porém, uma certa agitação n’essa noite. -Os admiradores de Soledad entravam e sahiam frequentemente da sala, -cheios de uma certa preoccupação mysteriosa. O proprio conselheiro -Antunes desapparecêra. Algumas pessoas envenenavam este facto, fazendo -notar que Dona Estanislada não estava presente. Mas bem podia ser que o -conselheiro Antunes, entrando nas suas funcções de cosinheiro, corresse a -cidade em todas as direcções, procedendo aos preparativos indispensaveis -para a caldeirada do dia seguinte. Elle comprehendia perfeitamente -que todos os conselheiros portuguezes ficariam compromettidos na sua -respeitabilidade de classe, se o _pic-nic_ disparasse n’um enorme -_fiasco_ culinario. De mais a mais, a sua reputação individual de Vatel -amador, affirmada por muitas vezes nas patuscadas aristocraticas de -Santarem, encontraria nas areias de Troia um verdadeiro Waterloo, uma -deploravel ruina. - -Isto pelo que respeita ao conselheiro. Quanto aos outros, a causa da -sua preoccupação era diversa. Sentia-se effectivamente que andava no -ar um acontecimento extranho, extraordinario, alarmante. N’um gabinete -interior conferenciava-se em tom discreto; entravam uns, sahiam outros, -e o marcador do bilhar, que espreitava cheio de curiosidade por um -pequeno buraco do tabique, chegou a suspeitar de que estivessem bebendo -á socapa,—julgando-se até certo ponto desconsiderado por lhe não haverem -distribuido o papel de Ganimedes do festim. - -O marcador era um tolo, um guloso, para não dizer um borracho. Ali, no -gabinete, não se tratava de beber vinho; se havia sêde, era de sangue. -O estudante de Alcacer queria sugar as veias do jornalista de Lisboa, -escorropichar-lhe as arterias, mastigar-lhe o coração. Uma carnificina! -O alferes Ruivo dirigia os preliminares do duello, e dizia facetamente -que, _coisas d’esta natureza_, em que elle entrasse, haviam de acabar por -força em sarrabulho. Que não era para brincadeiras, que tinha uma farda, -que devia honral-a, e que estava n’essa firme convicção. Que o duello -havia de ser de morte, a poucos passos de distancia, á pistola, pelo -menos; por não estar em costume bater-se ninguem a canhão, porque seria -esse o meio mais racional de dois sujeitos se metralharem. - -No botequim da praia contava-se, commentava-se o _escandalo_ d’aquelle -dia. Que o Lemos e o Goes não só se haviam insultado de palavras, na -presença de Soledad e por causa d’ella, mas que tinham mesmo chegado -a vias de facto, arrancando os cabellos, e não sei se os olhos, um ao -outro. Alguns curiosos foram ao lugar do conflicto para verificar se -havia no chão nodoas de sangue, e algum olho perdido. Não encontraram -nada. Acrescentava-se que o administrador do concelho já tinha tomado -conhecimento do facto, que o poder judicial receberia participação, e -todo este _escandalosinho_ era saboreado a pequenos goles, como um vinho -generoso. Em Setubal, quando algum acontecimento extraordinario occorre, -põem-n’o de escabeche para durar mais tempo. Sabem tratar muito bem do -peixe e do escandalo de conserva. Depois, os commentarios saltavam. Uns -velhos sacudiam o seu caruncho em phrases desdenhosas: «Que tolos! são -uns asnos! Tudo isto por causa de uma hespanhola que os anda a comer!» E -outros, mais philosophos: «Todas as mulheres são da mesma massa, tanto -faz que sejam hespanholas como portuguezas.» E um bregeirote, do lado: -«Se ella fosse de massa não se massavam elles tanto!...» «Aquillo é para -lavar e durar!» commentava um capitão de navios, vermelho e grosso, já -entrado na genebra de Hollanda, que bebia aos copinhos, de um só sorvo. - -No gabinete do _Club_ resolveram que era melhor o estudante apparecer na -sala da dança, para _dissipar suspeitas_. Quando o marcador o apanhou na -casa do bilhar, depois de haver sabido por um frequentador do botequim, -que ali entrara a historia exagerada do conflicto na praia, chegou-se-lhe -ao ouvido, e disse com os ares de superioridade de quem está de posse -de um segredo: «Então o senhor tira a desforra, hein?» «Chut! respondeu -Julio de Lemos. Eu cá sou assim, ha de ser duello de morte!» O marcador -ficou entalado: «De morte?» perguntou. E como o estudante lhe voltasse -as costas, saboreando a sua reputação de duellista, o marcador foi -vêr ao livro dos _fiados_ a quanto montava a divida do estudante. E -sommou: Cinco partidas de bilhar, dois charutos, um copo de vinho do -Porto: total, 360 réis. O Lemos fez a sua entrada na sala, apparentando -uma serenidade heroica, a serenidade fria de um Cassagnac; julgava-se -circumdado de um resplendor glorioso. Mas Soledad parecia não o haver -comprehendido, mostrava-se uma digna representante de um paiz de antigos -brigões de capa e espada, e de modernos toureiros audaciosos. Não fez -caso do heroe. Estava apertando a cravelha amorosa ao sueco, conseguindo -extrahir d’elle, do _Stradivarius_ que todo o homem tem no coração, -notas de uma melifluidade assombrosa nas raças do norte. Ella tinha-o -embriagado com o _Kirsch-Wasser_ dos seus olhos. Estava tonto de amor o -sueco, bebado de _salero_, e, no _grand’-chaine_ dos _Lanceiros_, as suas -mãos enormes, duras e grossas, pareciam ter uma delicadesa de sensitiva, -as contracções nervosas dos tentaculos de um caranguejo, ao colherem os -dedos avelludados e finos de Soledad. - -Depois da dança, rendeu-se culto á poesia. O estudante, que estava sempre -na vanguarda dos recitadores, menos do que nunca se fez rogar n’essa -noite. Recitou versos de Alvares de Azevedo, o mais genial, o mais -nacional dos poetas brazileiros, talvez. E de pé, tendo na voz todas -as commoções ao mesmo passo epicas e lyricas do homem que vae expôr-se -heroicamente á morte, estando psychologicamente mais vivo do que nunca, -declamou: - - Se eu morresse ámanhã, viria ao menos - Fechar meus olhos minha triste irmã: - Minha mãe de saudades morreria, - Se eu morresse ámanhã. - - Quanta gloria presinto em meu futuro! - Que aurora de porvir e que manhã! - Eu perdêra chorando essas corôas, - Se eu morresse ámanhã. - - Que sol! que ceu azul! que doce n’alva - Acorda a natureza mais louçã! - Não me batêra tanto amor no peito, - Se eu morresse ámanhã. - - Mas essa dôr da vida, que devora - A ancia de gloria, o dolorido afan... - A dôr no peito emmudecêra ao menos, - Se eu morresse ámanhã... - -Na verdade o estudante de Alcacer difficilmente poderia ter escolhido -outra poesia, que melhor traduzisse as grandes luctas intimas da sua -alma. É certo que nos pormenores da composição não havia inteira -identidade de circumstancias entre o recitador e o poeta. O estudante -nunca tivera irmã nenhuma, e porisso estava bem longe de que a piedade -fraterna tomasse sobre si o encargo de lhe fechar os olhos. E ainda -que caisse ferido no campo da honra, de pistola em punho, sua mãe não -morreria de saudade, pela simples rasão de já ter morrido, alguns annos -antes, com as febres de Alcacer. Quanto ás _corôas_, que elle perderia -morrendo, a dessimilhança era profunda. O pae, com quanto fosse um -bom proprietario de marinhas, estava cançado com as prodigalidades do -filho,—isto pelo que toca ás corôas de... dez tostões; quanto ás de -loiro, colhidas nas lides de Minerva, as _raposas_ encarregavam-se de -lh’as devorar annualmente. Mas, em tudo o mais, essa triste prophecia de -Alvares de Azevedo parecia quadrar á situação do estudante. - -Soledad deu mediana importancia aos versos e ao recitador... N’essa noite -parecia deliciada em conhecer como um homem forte do norte póde estontear -de amor sob a influencia de uma mulher do sul. Quando o estudante sahiu -da sala, jurando aos seus deuses matar o sueco, depois de ter matado o -jornalista, o marcador chegou-se ao pé d’elle, e lembrou-lhe _aquella -continha de dezoito vintens, visto que ha viver e morrer, e elle haver -dito que o duello havia de ser de morte_... - -O estudante ficou vivamente contrariado, remexeu nas algibeiras, e poude, -ao cabo de muitas pesquizas, encontrar 150 réis. - -—Aqui tem, disse elle ao marcador; e se eu morrer, mandem-me penhorar -pelo resto no inferno. O cobrador que pergunte ao Cerbéro por Julio de -Lemos. Cerbéro é um cão... - -—Lá isso é, ficou dizendo o marcador, e de 210! Corja de pulhas!... - -No gabinete as negociações haviam caminhado rapidamente durante a breve -ausencia do estudante. Os _padrinhos_ conferenciaram, o alferes Ruivo -declarou muitas vezes, piscando o olho para o lado, que o duello havia -de ser de morte, que o seu committente queria matar ou morrer, que a -offensa tinha sido grave, mas foi redigindo a seguinte acta, que já -estava prompta quando o estudante entrou: - - «Nós abaixo assignados fomos encarregados pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio - de Lemos de procurar o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, a fim de lhe - pedirmos explicações sobre algumas phrases violentas que na - tarde de hoje, e junto ao oratorio de Mendoliva, suburbio - de Setubal, dirigira ao nosso digno e brioso committente. - Immediatamente o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes encarregou os dois - cavalheiros, que comnosco assignam, de nos procurarem para - deliberarmos sobre o que á honra de ambos mais conviesse, - fazendo-se reciprocas declarações de que tanto um como o outro - estavam dispostos a sacrificar-se para satisfação da propria - honra, caso se reconhecesse que havia sido offendida. Examinada - por nós maduramente a causa do conflicto, e a maneira por que - elle se deu, entendemos em nossa consciencia e dignidade que - as phrases tidas por violentas, apenas continham allusões - litterarias, que de nenhum modo podiam susceptibilisar (_sic_) - os brios pessoaes d’aquelles dois cavalheiros, pelo que foi - por nós quatro reconhecido que não havia motivo rasoavel para - que esta pendencia proseguisse, devendo outrosim declararmos - que os nossos committentes se comportaram de modo a affirmar - louvavelmente o seu pundonor e a sua coragem, como pessoas que - nobremente antepõem o respeito pela honra individual a todas e - quaesquer conveniencias materiaes. - - Setubal, etc., etc. - - Pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos, _Fuão_ e _Fuão_. - - Pelo ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, _Fuão_ e _Fuão_. - -O alferes Ruivo achou prudente não levar mais longe a brincadeira do -duello, receiando que o coronel de caçadores 1 tomasse a coisa a serio, -se elles chegassem a ir ao campo. - -O estudante, ouvindo lêr a acta, conjunctamente com o jornalista, -declarou que effectivamente lhe parecia que os factos estavam -correctamente apreciados, mas que muito o contrariava não poder -experimentar no campo da honra a sua coragem; por sua parte, o jornalista -disse que os factos haviam sido fielmente interpretados, mas que -lamentava que ainda d’aquella vez elle não podesse provar que pertencia -ao numero dos jornalistas, que acceitam a responsabilidade das suas -acções e das suas palavras em qualquer campo aonde sejam chamados. - -Resolveu-se mais que as pazes fossem solemnemente selladas com um abraço, -e que uma copia authentica da acta apparecesse no proximo domingo nas -columnas da _Gazeta Setubalense_, e na _Trombeta Ulyssiponense_, de que -Aurelio Goes era redactor effectivo. - -O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas riram a bandeiras -despregadas quando ouviram lêr a acta, e declararam categoricamente que, -se os duellistas houvessem tentado bater-se, teriam ido separal-os a -murro e a ponta-pé. - -Havia tal energia alemtejana n’esta declaração dos dois, que toda a gente -os acreditou, incluindo os padrinhos e os proprios duellistas. - -Julio de Lemos sentiu os seus nervos mais tranquillos, porque a verdade -é que ninguem sabe aonde uma bala póde ir parar; mas por outro lado foi -obrigado a reconhecer que lhe faltava o prestigio da heroicidade, que lhe -tinha fugido das mãos um titulo altamente recommendavel,—a reputação de -duellista. - -D. Enrique Saavedra entendeu que eram horas de pôr têrmo á _tertulia_, -quando na egreja de S. Julião bateram as dez. Que sua mulher estava só em -casa... e além d’isso o banho... que a maré era cedo: respondia elle ás -instancias com que lhe pediam meia hora, mais meia horinha ao menos. Mas -a verdade era que D. Enrique estava aborrecido por lhe faltar o cirurgião -ajudante, para fallar com elle sobre a politica do Hespanha, e que, por -causa do duello, não apanhára ninguem a quem podesse massar. - -Na praia, quando a familia Saavedra se dirigia para casa, acompanhada por -todos aquelles que constituiam o seu sequito habitual, um vulto passava -em direcção opposta, e, sendo reconhecido, chegára-se a D. Enrique e -dissera-lhe a meia voz, com alguma atrapalhação: - -—Sabe _usted_ que ainda não pude até agora arranjar azeite bom para a -caldeirada de amanha?! Com mau azeite não ha caldeirada que preste... - - - - -IV - - -Amanheceu glorioso o dia seguinte. - -Ás sete horas da manhã, já o conselheiro Antunes andava no velho mercado -da praça do Sapal, comprando as melhores fructas que pôde encontrar. -Tambem comprou algumas flôres para offerecer a D. Estanislada e a -Soledad. Seguiam-n’o dois rapazitos com cêstas á cabeça. Do Sapal, onde -não olhou a dinheiro, dirigiu-se para o mercado do peixe, onde comprou o -melhor e o mais caro. A sorte favoreceu-o: os salmonetes eram a rôdos. A -caldeirada devia ficar famosa. - -Foi no mercado do peixe que o estudante d’Alcacer lhe appareceu todo -açodado. - -—Tão matutino, sr. Julio de Lemos! exclamou, ao vêl-o, o conselheiro. - -—Ha caso! respondeu o estudante. - -—Caso! repetiu com surpresa o conselheiro. Querem vêr que a D. -Estanislada tornou a apanhar uma indigestão, e que já não vamos a Troia! -Pois ha de perder-se tudo isto! - -E com um olhar desalentado, em que se liam poemas d’angustia, relanceou -os olhos ás flores, ás fructas, ao peixe. Se podesse olhar para si mesmo, -o conselheiro Antunes tel-o-ia feito involuntariamente, significando a -magua que lhe causava o perder-se tambem elle proprio, o seu raro talento -culinario, que desejava exhibir, n’esse dia, perante D. Estanislada, e os -outros. - -—Qual! Nada d’isso e melhor que isso! - -Aquietou-se o semblante do conselheiro, que entretanto se havia lembrado -de que se perderia tambem o excellente azeite, que finalmente podéra -descobrir. Não era isso? Ainda bem! Salvava-se tudo, incluindo o azeite -magnifico e o talento culinario. - -Julio de Lemos, rapidamente, explicou: - -—Chegaram hontem á tarde as _netas do Padre Eterno_! - -O conselheiro fez uma cara de espanto, de surpreza, e desconfiança: cara -de quem não percebia nada. - -—Como! exclamou. As _netas do Padre Eterno_! Então vossa senhoria, sr. -Julio de Lemos, propõe-se agora brincar com o Padre Eterno e comigo! - -E, de repente, reconquistou toda a plenitude do seu bello ar -conselheiratico, muito emproado. - -—Pois vossa excellencia imagina que estou brincando! respondeu o -estudante. As _netas do Padre Eterno_ são tres lindas meninas da -Messejana, que já cá estiveram ha dois annos, e deixaram toda a gente -encantada. - -—Mas o que têm essas tres lindas meninas com o Padre Eterno? perguntou -auctoritariamente o conselheiro. - -—Têm... que são netas do avô. Nós pozémos-lhes a alcunha de netas do -Padre Eterno, porque o avô, o Rodarte, é um velho de grandes barbas -brancas, que faz lembrar as imagens do Padre Eterno. Não ha ninguem mais -estimavel do que o bom velho, que morre por jogar o voltarete, e que -mette as cartas pelos olhos dentro, porque é muito myope. Mas as netas, -as netas, sr. conselheiro, são as tres graças, acredite! - -—Bem! Bom é que a praia se vá animando cada vez mais! Mas não percebo -a razão por que o sr. Julio de Lemos classifica de _caso_ esse -acontecimento, aliás vulgar! - -—É que eu encontrei-as agora. Estive-lhes a contar o que ia por cá, o que -nos temos divertido com a familia de D. Enrique, e a caldeirada que hoje -vamos fazer, graças ao talento culinario de vossa excellencia. - -—Muito obrigado pelo seu obsequio, disse o conselheiro, lisongeado nas -suas prosapias de Vatel amador. - -—E, como ellas mostrassem pena de perder a caldeirada, julguei que não -era decente deixar de convidal-as. Vinha, portanto, prevenir d’isto vossa -excellencia, na sua qualidade de nosso amavel amphitryão, e pedir-lhe -desculpa da minha ousadia, que aliás as circumstancias justificam. - -—É um acto de gentileza, que se deve ter sempre com as damas... Nada -tenho que objectar. Apenas, não sei se a familia de D. Enrique deveria -ter sido prevenida primeiro... - -—Qual! N’uma praia não ha dessas etiquetas. De mais a mais D. Estanislada -e Soledad são muito sociaveis, gostam immenso de boa companhia, e a prova -está em que apreciam sempre a presença de vossa excellencia... - -—Oh! sr. Julio de Lemos! Mil vezes obrigado... Bem! bem! Eu vou reforçar -um pouco o contingente dos salmonetes, visto que os ha com abundancia -no mercado, felizmente! Só peço a vossa senhoria que tenha a bondade de -explicar a D. Estanislada o gentil passo que deu, de modo a não me poder -ser imputada a iniciativa d’elle. - -—Perfeitamente. Mil vezes obrigado. Então a que horas é a partida? -Preciso ir prevenir as Rodartes. - -—Ás duas em ponto, no caes do Livramento. - -—Bem! bem! Ás duas em ponto lá estaremos, e terá vossa excellencia -occasião de conhecer as tres lindas netas... - -—Do Padre Eterno, atalhou, sorrindo, o conselheiro. - -E foi d’ali _reforçar_, como elle disse, _o contingente dos salmonetes_. - -O estudante andára com certa finura em todo este negocio. - -Quando viu as Rodartes, que eram realmente tres lindas mulheres, ficou -contentissimo por se lhe deparar tão feliz achado. Lembrou-se logo de que -ellas cahiam do ceu para disputar a Soledad o premio da belleza. D’este -modo conseguir-se-ia abater, pela concorrencia, o orgulho da andaluza. -E elle, namorando alguma das tres, a Hilda, principalmente, a quem já -havia, dois annos antes, arrastado a aza, vingar-se-ia dos desdens com -que Soledad acolhia por vezes, sempre caprichosa e indefinida, os seus -galanteios. - -Inculcou-se ao Rodarte e ás netas como um dos promotores da caldeirada, -tendo portanto auctoridade para fazer o convite, que, n’essa fé, foi -acceito. - -Depois correu a procurar o conselheiro, mudando as guardas á fechadura: -desculpando-se do que fizera, pois que o conselheiro era o amphitryão da -caldeirada. - -E, tendo visto flôres dentro de um dos cestos, flôres que eram certamente -destinadas a D. Estanislada e Soledad, não quiz ficar atraz em gentileza -para com as Rodartes. Foi ao Sapal comprar dois ramos de flôres, que uma -palmelôa lhe vendeu por quatro vintens. O seu desejo era comprar tres -ramos, mas, para isso, não lhe chegava o dinheiro. Cortou o nó gordio, -desfazendo em casa os dois ramos, e compondo tres, que sahiram mais -geitosos do que estavam os dois. - -Olhando, contente da sua obra, para elles, teve Julio de Lemos esta -observação sensatissima: - -—Para saber economia, não é preciso ser economista: basta não ter -dinheiro. - -Depois foi avisar a familia Rodarte de que ás duas horas em ponto -partiriam todos do caes do Livramento. - -Ficaram contentissimas as Rodartes com a boa estreia que a sua estação -balnear ia ter. - -Orphãs de pai e mãe muito novas, era com o avô que tinham sido creadas. -Baboso por ellas, o velho Rodarte fazia o que as netas queriam, não tinha -vontade propria. Extremamente myope, como o estudante d’Alcacer dissera, -ia para toda a parte comboyado pelo braço de alguma das netas, quasi -sempre Salomé, que era a mais velha, e das tres a menos formosa. Tinha -vinte e tres annos. - -Hilda e Maria Ignez eram gémeas e encantadoras. Vinte e um annos -adoraveis. Mulheres fortes, de olhos negros, faces radiosas, braços -_potelés_, cobertos de um frouxel que reluzia ao sol como uma pennugem de -ouro. - -Salomé era menos forte e menos bella. Mas havia na sua physionomia uma -graça peninsular, que não tinha inveja á formosura. E a sua conversação, -os seus ditos de espirito, partiam da sua bocca graciosa e sã como -settas que brilhavam mais do que feriam. - -Eram ricas, duplamente ricas, pelo pae e pela mãe. No districto de -Beja não havia casa melhor do que a sua, cujas herdades e montados se -espalhavam para o oriente até ao Chança e para o sul até Almodovar. - -O avô recommendava-lhes sempre que não tivessem pressa de casar, porque -não poderiam encontrar noivos que as estimassem mais do que elle. - -E enterradas na Messejana, lonje das tentações do mundo, ellas pareciam, -realmente, não ter pressa de casar. - -No tempo dos banhos costumavam ir para Sines, que era uma semsaboria -pouco melhor que a Messejana. Um anno, para variar, conseguiram arrastar -o avô até Setubal, onde fizeram sensação, e ficaram sendo conhecidas -pelas _netas do Padre Eterno_. Mas o avô fatigara-se com a jornada, e no -anno seguinte voltaram para Sines. Agora fôra elle que voluntariamente, -conhecendo que as suas tres graças preferiam naturalmente Setubal a -Sines, se offerecera de motu proprio ao sacrificio, com a sua patriarchal -bonhomia de avô baboso. - -Julio de Lemos, que encontrára na Physica da Escola Polytechnica um -barranco ainda não vencido, resignava-se, durante as ferias, do desgosto -que no fim de todos os annos lectivos recebia em Lisboa. Namorando e -perpetrando o seu verso, preparava-se para no anno seguinte investir -novamente com a Physica. - -Fôra um dos mais dedicados satellytes das _Netas do Padre Eterno_, quando -ellas pela primeira vez appareceram em Setubal. Versejára em honra de -todas tres, mas não era um namorado que ninguem tomasse a serio. Todos -os galanteios que as irmãs Rodartes inspiraram, e foram muitos, não -podiam auctorisar-se com a esperança de casamento. Mas, em compensação, -ellas haviam atravessado triumphantemente Setubal, durante toda uma -epocha balnear, sob uma chuva de flores. - -Agora, que voltavam inesperadamente, encontravam ainda Julio de -Lemos escravisado pela Physica da Escóla Polytechnica, mas disposto -a divinisal-as mais uma vez, não só para honrar o passado, como para -aligeirar o presente, e, sobretudo, para vingar-se da altivez castelhana -de Soledad. - -Orientado por este complexo programma, não podendo disfarçar a alegria -com que se propunha realisal-o, appareceu ás duas horas em ponto, no caes -do Livramento, acompanhando as formosas _Netas do Padre Eterno_, á frente -Hilda e Maria Ignez, elle a par das duas, mais atraz Salomé dando o braço -ao avô myope, como Antigone a Œdipo. - - - - -V - - -Estava já no caes a bella Soledad com toda a sua côrte. - -O conselheiro Antunes dava ordens, fazia recommendações aos barqueiros: -que não esquecessem isto, que não deixassem ficar em terra os cabazes com -as loiças, e as celhas com o peixe. - -D. Enrique lia um jornal hespanhol, recebido n’essa manhã, e de momento a -momento commentava a leitura monologando: _Qué broma!_ - -D. Estalisnada mostrava-se encantada com a solicitude cavalheirosa do -conselheiro Antunes, e fallava tantas vezes no azeite, que o morgado de -Reguengos disse para o proprietario das Alcaçovas: «N’isto do azeite anda -marosca; é linguagem combinada.» - -Quando o grupo das Rodartes chegou, houve sensação no grupo de Soledad. -Foi como se duas côrtes se chocassem. - -O morgado de Reguengos, o proprietario das Alcaçovas, os dois -officiaes de caçadores 1 e o Vianninha já as conheciam. Correram a -cumprimental-as, a dar-lhes as boas-vindas, a fallar ao avô. - -Julio de Lemos, muito expansivo, apresentou a familia Rodarte aos que -pela primeira vez a viam. - -Dirigindo-se a Soledad, teve uma phrase tão amável como ironica: - -—Ficará eternamente na memoria do rio Sado este encontro da belleza de -Portugal com a belleza de Hespanha. - -Uma explosão de riso saudou esta apresentação original. As tres Rodartes -sorriram, mas coráram. Soledad sorriu, mas feriu-se. Percebeu que n’esse -momento lhe vacillava na cabeça a corôa de rainha da belleza, até ahi -indisputada. - -A apresentação ao conselheiro Antunes foi, por parte do estudante, muito -respeitosa: - -—Apresento a vossas excellencias um dos mais illustres e respeitaveis -cavalheiros que tenho tido a honra de conhecer: o abastado proprietario -de Santarem, dr. Antonio José Antunes, do conselho de sua magestade -fidelissima, e presidente da junta geral d’aquelle districto. A vossa -excellencia, sr. conselheiro, apresento o abastado proprietario da -Messejana, o sr. Araujo Rodarte, e suas encantadoras netas. - -Julio de Lemos, em attenção a ser o conselheiro o amphitryão da festa, -carregou a mão nos elogios que lhe teceu, para de algum modo o indemnisar -da despeza que elle fizera _reforçando um pouco o contingente dos -salmonetes_. - -D. Enrique, na primeira occasião que teve, perguntou a Julio de Lemos se -o velho Rodarte era bom conversador. Ficou contente de obter uma resposta -affirmativa, porque encontrava mais uma victima para as suas estopadas -sobre a politica hespanhola. - -E, para estreitar desde logo as relações com a sua victima, dirigiu-se a -ella dizendo-lhe: - -—_És usted un imponente anciano, de mi mayor respeto._ - -_Imponente anciano!_ Esta só podia lembrar a um hespanhol! Mas as barbas -brancas do velho Rodarte eram dignas da hespanholada. - -Embarcaram todos, não sem a hilaridade que o embarque de senhoras -produz sempre. D. Estanislada precisou que o conselheiro Antunes, muito -cavalheiresco, lhe désse a mão. Os barcos, largando do caes, aproáram a -Troia. - -Soledad quiz que o sueco, cujo nome eu não citarei emquanto o não souber -escrever correctamente, o que aliás não é facil, se sentasse a seu lado. -Era a resposta ao cartel de desafio, que o estudante lhe trouxera com a -presença das Rodartes. O seu raciocinio devia ter sido este: «Portugal -quer esmagar-me? Pois bem! eu esmagarei Portugal.» E sobre o Sado, como -na vespera, era a Suecia que triumphava. - -Chegados a Troia, tratou-se em primeiro logar de montar o arsenal -culinario. - -O conselheiro Antunes quiz desde logo installar-se como Vatel amador. -Muito methodico, elle mesmo dispunha os utensilios, procurava os -tempêros, emquanto os barqueiros accendiam o lume. Dir-se-ia que elle -desejava imprimir o cunho da sua individualidade não só á caldeirada, que -ia cosinhar, mas ao trem da cosinha, que estava organisando com o maior -esmero. - -Como, durante a travessia do Sado, o Vianninha e os officiaes de -caçadores 1 fossem explicando que em Troia existira uma cidade romana, -chamada Cetóbriga, de que se encontravam ainda ruinas e outros vestigios, -taes como amphoras e medalhas, toda a caravana, com excepção de duas -pessoas, quiz ir procurar as ruinas, especialmente as medalhas, pois que -o Vianninha affirmava que se encontravam com facilidade, e que elle mesmo -possuia uma de bronze do tempo de Trajano. - -As duas pessoas, que não acompanharam as outras, eram o conselheiro -Antunes e D. Estanislada, que se offereceu para auxilial-o no mister de -cosinheiro. - -D. Enrique achou isto muito natural, e o morgado de Reguengos e o -proprietario das Alcaçovas disseram entre si, commentando: «_Azeite_ não -falta; a caldeirada ha de ficar magnifica.» - -Soledad, fingindo que lhe custava a andar sobre a area, enfiou o braço -no do sueco, pendurando-se d’elle com abandono. Continuava, portanto, a -sustentar o seu plano de combate. Em Troia, como no Sado, era a Suecia -que triumphava. - -Os outros perceberam a intenção de Soledad, e rodeavam, em despique, -as tres Rodartes, acompanhando-as n’uma especie de cortejo triumphal -e de certamen galante. O proprio hespanholito D. Ramon, julgando-se -vencido pela Scandinavia, vingava a Iberia masculina arrastando a aza a -Maria Ignez. O jornalista Aurelio Goes e o marialva do Chiado pareciam -propender mais para Hilda. O proprietario das Alcaçovas e o morgado de -Reguengos entabolaram conversação com Salomé sobre assumptos graves do -Alemtejo: porcos e cortiça. Os officiaes de caçadores 1 e o Vianninha -iam adiante dos grupos em exploração archeologica. Julio de Lemos, já -despeitado pela concorrencia dos outros, especialmente de Aurelio Goes, -que não respeitava os seus direitos de apresentante, e lhe estorvava a -conquista de Hilda, principiava a lamentar-se de ter perdido a occasião -do duello para lhe atravessar o coração com uma bala. - -«Quem o seu inimigo poupa, pensava elle, nas mãos lhe morre.» - -D. Enrique apossara-se do _imponente anciano_, levava-o a reboque pelo -braço, e descrevia-lhe os horrores da insurreição cantonal, parando a -cada momento, exclamando: - -—_Que barbaridad!... que atentado!_ - -O alferes Ruivo, o tenente Epaminondas e o Vianninha indicaram alguns -vestigios da antiguidade romana de Cetóbriga, a que ninguem deu grande -importancia. - -Como o morgado de Reguengos mettesse á bulha o Vianninha por causa da -grande abundancia de moedas, que segundo elle, se encontravam em Troia, -o Vianninha, auxiliado pelos dois militares, ainda quiz justificar-se, -excavando no areal. - -Soledad, conversando com o sueco, cuja face irradiava como uma aurora -polar, olhava desdenhosamente para tudo aquillo. - -Aurelio Goes, colhendo uma florinha que brotava da areia humida, -offereceu-a a Hilda Rodarte. - -Julio de Lemos estava fulo; a sua sêde de vingança abrangia agora duas -pessoas: Soledad e o redactor da _Trombeta Ullyssiponense_. - -Mastigava represalias... em sêcco. - -Não appareceu nenhuma moeda romana, apesar das affirmações categoricas -do Vianninha, e do padre Vicente Salgado, um franciscano erudito, que, -occupando-se do assumpto, havia chamado a Troia—_terreno fertilissimo -d’estes achados_. - -Como o sol apertasse, o numeroso grupo, dividido em pelotões, retrocedeu, -a fim de procurar o abrigo do toldo que os barqueiros já deviam ter -armado, para sob elle ser servida a caldeirada. - -Com effeito, estava quasi prompto o improvisado pavilhão, feito de vélas -de barco. - -O conselheiro Antunes e D. Estanislada, afogueados do rosto, debruçados -sobre a caldeira, provavam pela mesma colhér o tempêro da caldeirada, e -annunciavam que estava divina. - -Soledad, fingindo-se fatigada, sentou-se á sombra do toldo, deixando -ficar a descoberto metade do sapato enfitado. O sueco, embasbacado, -bebado de amor, contemplava-lhe o pé, respondendo muito abstracto ao que -ella lhe dizia. - -Julio de Lemos começou a fazer troça do sueco, com os outros. Havia -risinhos. Soledad percebia, e de vez em quando ella mesma, com uma -audacia castelhana, olhava para a ponta do sapato, como a encaminhar para -esse alvo, que aliás era preto, o olhar do sueco. - -Mas, de repente, notando que Aurelio Goes tivera a ousadia de sentar-se -na areia perto de Hilda, perdeu a tramontana e começou a escancarar umas -gargalhadas alvares. Resolveu logo embebedar-se para tirar a desforra. - -O conselheiro Antunes, apparecendo debaixo do pavilhão, annunciou que ia -ser posta a toalha, porque a caldeirada estava prompta, e que por isso -cada um devia tratar de occupar logar em volta do recinto destinado á -toalha. - -Por uma evolução rapida, mas estrategica, Julio de Lemos sentou-se na -areia entre Hilda e Soledad, ganhando uma excellente posição. O sueco -poude ainda aninhar-se á direita de Soledad, e o Goes á esquerda de -Hilda. Mas o estudante de Alcacer ficou ardendo entre dois fogos, -tinha á direita a Hespanha e á esquerda a Messejana: ficou no meio da -Peninsula. - -Quando D. Estanislada appareceu, notou-se que ella vinha um pouco -mascarrada n’uma das faces. - -—É talvez do fumo da caldeira, explicou, muito solicito, o conselheiro -Antunes. - -Os homens, com excepção de D. Enrique, trocavam entre si olhares -intelligentes: o conselheiro Antunes pintava o bigode. - - - - -VI - - -A caldeirada estava deliciosa: até os anjos a poderiam comer. - -O conselheiro havia carregado a mão no tempêro: a pimenta fazia arder -a bocca. Mas era bom, muito apetitoso, puxativo, como dizia Julio de -Lemos, bebendo grandes tragos de uma boa pinga de Azeitão, por uma caneca -branca, comprada, como toda a outra loiça, na Innocencia da Praia. - -A conversação animára-se, phrases cruzavam-se, havia allusões, -referencias que esvoaçavam por sobre a cabeça dos convivas. Julio de -Lemos dizia coisas para a direita e para a esquerda, a Soledad e a Hilda, -quasi sem dar tempo a que ellas podessem responder a mais ninguem. - -O sueco embezerrou despeitado, não fallava, e o redactor da _Trombeta_, -muito habituado a _lunchs_, comia como uma frieira, mettendo a colherada -em todos os assumptos. Era um perfeito exemplar de jornalista. - -Soledad, sempre incomprehensivel, mudou da tactica. Desfazia-se em -amabilidades com o estudante, ella mesma lhe enchia de vinho a caneca de -loiça, e lhe suggeria a inspiração dos brindes. - -Hilda, menos petulante que a hespanhola, conservava-se modesta n’aquella -atmosphera capitosa de vinho e pimenta. As irmãs, como ella, respondiam -concertadamente ás perguntas e ás amabilidades que lhes dirigiam. - -O sueco, muito rubro, soprava como uma fóca, e Soledad parecia -divertir-se com isso, gostar de o vêr subitamente despenhado do pedestal -a que o tinha subido. - -D. Estanislada entrava pela caldeirada com o desembaraço de quem está -habituado a indigestões. E D. Enrique, para não envergonhar a mulher, -acompanhava-a no bom apetite com que repetia salmonete sobre salmonete. - -O conselheiro, como um artista que se sente galardoado, comia pouco, -contentava-se de vêr comer os outros. Reconhecia-se lisongeado no apetite -alheio, especialmente no de D. Estanislada, que era francamente glorioso -para elle. - -O Rodarte, muito discreto, encarecia o talento culinario do conselheiro, -dizia-lhe que nunca na sua vida tinha comido uma caldeirada que lhe -soubesse melhor. - -Julio de Lemos, já meio tonto, aproveitou de uma vez a deixa do Rodarte, -e, pondo-se de joelhos, caneca em punho, declamou: - - Eu saúdo o illustre conselheiro, - Ultimo em nada, e em tudo o mais primeiro - -Aurelio Goes desfechou uma gargalhada, interrompendo o improviso. - -—Que é lá isso?! perguntou o estudante esgalgando-se, para o ver, por -deante de Hilda. - -E o Rodarte, muito prudente, muito discreto, deitou agua na fervura: - -—Não é nada. Tudo aqui se passa em boa amisade. Queira continuar, sr. -Lemos. - -—Acha mau talvez, o menino! Elle que os faça melhores, se é capaz, -insistiu o estudante. - -—Então!... então! atalhou o Rodarte. Queira continuar o seu improviso. - -—Já lhe perdi o fio! Não sei... Ora esta!... Acho que era isto: - - Mas unico talvez na caldeirada: - Que é comêl-a e morrer... - -Julio de Lemos engasgou-se. - -—Não diz mais nada?! exclamou o tenente Epaminondas completando o verso -em que o estudante se pegára. - -Uma explosão de gargalhadas saudou este comico episodio, e o estudante, -que não tinha espinha com o tenente, antes era seu amigo, riu tambem, -aproveitando a tangente para fugir á difficuldade do verso. - -Então Aurelio Goes, pondo-se de pé, bateu as palmas, e recitou: - - Eu, n’esta agradavel festa, - Tão grata e tão jovial, - Brindo, honrando o bello sexo, - Por Hespanha e Portugal. - -—São de cravo da Praça da Figueira! berrou o estudante. - -—Viva! viva! clamaram muitas vozes cobrindo com applausos a inconveniente -apostrophe do estudante. - -E o velho Rodarte, apoiando-se no hombro de Salomé, levantou-se -pausadamente. - -—Tambem eu quero fazer o meu brinde. - -Logo se estabeleceu um silencio respeitoso. - -—Ora, meus senhores, como eu, nas barbas, me pareço um pouco com S. -Pedro, permittam-me que feche a porta dos brindes. Bebo em honra do -illustre conselheiro, dignissimo presidente da junta geral do districto -de Santarem. - -Beberam todos. E levantaram-se a pouco e pouco, alguns com difficuldade. - -O conselheiro foi abraçar o Rodarte, agradecer-lhe, e, emquanto se -abraçavam, cochicharam ao ouvido. - -Os barqueiros trataram de recolher as loiças, e os cabazes. - -E o Rodarte, muito previdente, disse que, seria melhor que o barco fosse -primeiro a Setubal levar as senhoras, e que voltasse depois. Que elle, -pela sua idade avançada, desde já se considerava senhora; que o sr. -conselheiro, que devia estar fatigado, iria tambem com as senhoras, bem -como D. Enrique, para acompanhar a esposa e a filha. Era a combinação que -tinham feito ao ouvido, suggerida pela prudencia do velho Rodarte. - -Os outros ficaram com cara de parvos, mas o Rodarte, chamando de parte o -morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas, explicou-lhes: - -—Que aquillo era preciso por causa dos rapazes. Que desculpassem. E que -lhes pedia o favor de olharem por elles. - -Um e outro concordaram: - -—Que era bem pensado. Que estivesse tranquillo. - -Largou de Troia o barco com as senhoras, D. Enrique, o Rodarte e o -conselheiro. - -Os rapazes ficaram por longo tempo acenando com os lenços, dizendo adeus. - -Desembarcaram as damas no caes do Livramento, e o barco voltou a buscar -os que tinham ficado. - -Entretanto cahia a noite, as trevas principiavam a descer sobre o Sado, a -envolvel-o n’um veo que a pouco foi perdendo a transparencia. Apenas um -ponto luminoso brilhava ao longe na areial de Troia. - -Deram oito horas, e o barco não tinha voltado ainda. - -No café _Esperança_, do Zé Lapido, esperava-se o regresso dos rapazes. - -Uns commentavam: - -—Que tal foi a bebedeira! - -Outros, mais timoratos, diziam: - -—Queira Deus que não acontecesse por lá alguma semsaboria! - -Deram nove horas, e o barco não voltava. - -Então alguns officiaes de caçadores resolveram ir a Troia ver o que tinha -acontecido. - -Tomaram um barco, e largaram. - -A meio do rio, ouviram o ranger de remos, e perguntaram: - -—Quem vem lá? - -—Somos nós, respondeu a voz do proprietario das Alcaçovas. - -—Ha novidade a bordo? disseram os officiaes. - -—Nenhuma, respondeu o morgado de Reguengos. - -Mas não se ouvia nenhuma outra voz. - -—Ali houve coisa!... disseram entre si os officiaes. - -E perguntaram: - -—Vem ahi os nossos camaradas? - -—Vamos, respondeu o alferes Ruivo. - -—Vamos, respondeu o tenente Epaminondas. - -—Ali houve coisa, porque elles vem muito silenciosos!... continuavam a -dizer entre si os officiaes que tinham ido procurar os outros. - -Os dois barcos chegaram quasi ao mesmo tempo ao caes do Livramento. -Então poude verificar-se que effectivamente os da caldeirada vinham -macambuzios, entrombados, e que o sueco, estatelado no fundo do barco, -e occupando-o quasi todo, dormia profundamente, a ponto de terem que -acordal-o berrando. - -E como elle grunhisse uns roncos cavernosos, sem comtudo se levantar, foi -preciso que o proprietario das Alcaçovas, com o seu pulso de ferro, o -filasse pelo gasnete, e o pozesse de pé. - -—Mas o que se passou? o que se passou? perguntavam cheios de curiosidade -os que tinham ido buscal-os. - -—Vamos lá para o Zé Lapido tomar um copo de genebra, disse o das -Alcaçovas, e conversaremos. - -Quando entraram no café, e logo que se sentaram, deram pela falta do -sueco, que se tinha escapulido. - -Todos os conhecidos, que estavam no botequim, lhes fizeram circulo, -sentando-se em torno da mesma mesa. - -O tenente Epaminondas contou miudamente as peripecias do _pic-nic_, -incluindo a mascarra de D. Estanislada, historia que produziu grande -hilaridade no auditorio. - -Depois poz em relevo a prudente astucia com que o _Padre Eterno_, pois -que no café todos lhe chamavam assim, se safára com as netas e as -hespanholas quando vira romper as hostilidades entre o estudante e o -jornalista. - -Disse que, logo que o barco partiu, o sueco investira, muito bebado, -contra o estudante, accusando-o de acintosamente ter ido sentar-se ao -lado de Soledad para o prejudicar nas vantagens que, como preferido, -havia conquistado nos ultimos dias. - -Que, por sua vez, o estudante, não menos bebado, começara a implicar com -o Goes, accusando-o de o ter querido metter a ridiculo, prejudicando-lhe -o improviso com uma gargalhada insolente. - -O sueco agarrava-se ao estudante, e o estudante ao jornalista. - -Fôra preciso que os outros interviessem apartando-os a murro, e contou -o tenente que o proprietario das Alcaçovas conseguira abalar a columna -vertebral e a colera do sueco com um valente pontapé applicado em cheio -no sitio em que as costas mudam de nome. - -—E a Scandinavia resoou! observou humoristicamente o alferes Ruivo. - -Gargalhada geral. - -—Que no meio de toda esta balburdia o morgado de Reguengos lembrára -jovialmente que, para de uma vez pôr termo a tão impertinentes -conflictos, e definir a situação de todos, o melhor seria confiar á sorte -a distribuição do papel amoroso de cada um. - -Esta lembrança produzira um excellente effeito, foi como que um punhado -de areia atirado aos olhos de todos. Cegou-os. Todos imaginavam que -seriam favorecidos pela fortuna e que, d’esse modo, ficariam livres de -concorrentes perigosos e incommodos. - -Deram pois a sua palavra de que respeitariam fielmente os decretos da -sorte. - -Trataram então de espertar a fogueira, que tinha servido para a -caldeirada. E á luz d’ella fizeram, de cartas velhas e outros pedaços -de papel, pequenas listas, em que escreveram a lapis os nomes de todos -elles. Enroladas as listas, deitaram-n’as na copa de um chapeu. Depois -inscreveram n’outras listas os nomes das quatro damas, mas, n’esta -occasião, houve um protesto do proprietario das Alcaçovas, que reclamou a -favor do recenseamento de D. Estanislada, como _premio de consolação_ ao -que ficasse a ver navios. - -O jornalista observou que D. Estanislada já pertencia, pela mascarra, ao -conselheiro Antunes. - -O morgado sustentou o seu protesto, auctoritariamente, dizendo que, desde -o momento em que a sorte era chamada a decidir, desapparecia a principio -dos _direitos adquiridos_. - -Por essa occasião o estudante observára: - -—Sim, senhor! Fica abolido o direito pautal do _azeite_. - -Todo o café _Esperança_ ria, a bandeiras despregadas, com a narração do -tenente Epaminondas. - -Lançadas as cinco listas, e mais algumas em branco na copa de outro -chapeu, procedeu-se ao sorteio, que deu o seguinte resultado: - -_Morgado de Reguengos—D. Hilda._ - -_Proprietario das Alcaçovas—D. Maria Ignez._ - -_D. Ramon Mendoza—Soledad._ - -_Vianninha—Salomé._ - -_O sueco—D. Estanislada._ - -Os que a sorte desfavorecera, especialmente o sueco, o estudante -e o jornalista, romperam em protestos contra o acto eleitoral, -distinguindo-se o sueco que, nem pelo diabo, queria resignar-se a -acceitar D. Estanislada. - -E tanto berrava e barafustava, que o proprietario das Alcaçovas teve -que atiral-o para o fundo do barco, onde elle escabujou ao principio e -adormeceu depois. - - - - -VII - - -No dia seguinte, pela manhã, appareceu affixado nas esquinas de Setubal o -seguinte pasquim: - - A roda que andou em Troia, - Andou bem, quem o diria! - Nem mesmo a da Santa Casa - É tão boa loteria. - - O premio grande de Hespanha - Ficou na Hespanha. Era justo. - E o sueco, derreado, - Inda assim, salvou-se... a custo! - - O Alemtejo, que a sopapo - Tudo escaca e tudo arrasa, - Não apanhando _a taluda_, - Ficou bem, ficou em casa. - - Setubal, n’esta partilha, - Tem motivos d’alegria, - Porque a sorte, previdente, - Deu-lhe _sal_ na loteria. - - Só Minerva e Guttemberg, - Marte e a junta geral, - Por não beberem _azeite_, - Ficam olhando ao signal. - -Este pasquim attraiu a curiosidade, produziu risota, foi lido com vivo -interesse. - -Como era natural, todos procuraram interpretar as allusões n’elle -contidas, e assim aconteceu que não só o facto principal, o sorteio, se -tornou ao dominio publico, mas tambem tiveram grande notoriedade todos os -episodios que accidentaram alegremente o _pic-nic_ da vespera. - -De pergunta em pergunta todos ficaram sabendo o que se tinha passado, e -entendendo cabalmente o pasquim, com excepção de uma só quadra. - -Não restou duvida a ninguem de que Minerva se referia ao estudante, -Guttemberg ao jornalista, e Marte ao alferes e ao tenente de caçadores. - -Uma só passagem permaneceu obscura por muito tempo, o sentido da quarta -quadra ficava em suspenso, pois que não podia atinar-se com a allusão ao -_sal_ no ultimo verso. - -Que aquillo era com o Vianninha, percebia-se, visto ser elle o unico -setubalense que tinha assistido a caldeirada. Mas o _sal_, sublinhado, -era um problema, um enygma, um hieroglipho. - -Alguns curiosos roiam as unhas parados ás esquinas, matutando deante dos -pasquins. Que diabo de _sal_ era aquelle? O que queria dizer aquillo? - -Alguem lembrou que o Castanha, mestre-escola, apezar de vesgo, via bem as -charadas. Era um alho para as decifrar. Chamou-se o Castanha, que estava -a dar aula, decifrando enygmas do _Almanach de Lembranças_, emquanto os -pequenos se entretinham uns com os outros. - -Era como elle dava aula sempre. - -O Castanha veio quasi em triumpho até á primeira esquina,—essa esquina -que devia, em breve, converter-se para elle n’um monumento de gloria... -salvo o mictorio. - -Explicaram-lhe o caso, o que se tinha passado, e a duvida em que estavam -quanto ao vocabulo _sal_. - -O Castanha enviezou o olhar strabico ao cartaz, deteve-se um momento a -engulir em sêcco, até que de repente, com a sagacidade de um charadista -que combina idéas, perguntou: - -—Elle como se chama ella? - -O Castanha tinha o costume de anteceder pelo pronome—elle—todas as -phrases interrogativas. - -—Ella, quem? perguntaram-lhe. - -—A madama que sahiu ao Vianninha? - -—Salomé. - -E o Castanha, desfiando as syllabas, _Sa-lo-mé_, monologava: - -—Não pode ser isso! - -Mas, de subito, exclama: - -—É isso, é! - -—Então é ou não é? perguntaram. - -—Não vêem, disse elle triumphalmente, não vêem que o -nome—Salomé—principia por _sal_?! - -—É verdade! exclamaram vozes. - -—É isso! applaudiram bôccas. - -E o Castanha, muito enchicharrado, muito vesgo na commoção nervosa do -triumpho, apartava os grupos para passar, charadista glorioso. - -Durante todo esse dia o sueco, o estudante, o jornalista e os dois -officiaes de caçadores estiveram recebendo bilhetes de visita, a -_pesames_, com palavras de sentimento, expressões de condolencia, pelo -desgosto que acabavam de soffrer. - -Foi uma _scie_ medonha, que partia do café _Esperança_, dizia-se, e -dos outros officiaes de caçadores, rapazes alegres, que gostavam de -divertir-se e não tinham muitas occasiões para isso. - -O sueco embatucou, deu sorte com a chalaça. Desappareceu de repente. -Constou que tinha vindo para Cintra, a fim de evitar que a troça o -perseguisse. - -Não se conheciam ainda outras consequencias d’aquella brincadeira fatal. -Parecia que D. Enrique, o Rodarte e o conselheiro a ignoravam. Mas não -aconteceu inteiramente assim. - -Dos tres, não tardou muito a mostrar-se desgostoso o conselheiro Antunes. - -Fallando com o estudante, extranhou, com palavras severas, que _se -rifasse uma senhora casada_. Textual. Accrescentou que, se D. Enrique o -soubesse, poderia haver _uma tragedia de sangue_. Tambem textual. Pela -sua parte, apenas sentia que fosse elle proprio que tivesse proporcionado -a occasião para um tão _grave desacerto_, inventando a caldeirada. -Que o caso ja havia dado de si, porque o _respeitavel snr. sueco_, um -cavalheiro digno de toda a estima, se havia auzentado, desgostoso. - -Julio de Lemos contestou que tudo aquillo não tinha passado de uma -brincadeira inoffensiva, que em nada podia affectar a honra das cinco -damas, todas ellas respeitabilissimas. Que o vocabulo—_rifa_—era -violento, porque a rifa presuppunha immediata adjudicação do objecto -rifado, e não se dava esse caso. - -Mas o conselheiro, procurando sustentar a sua opinião, descobriu um -pouco as baterias. Deixou perceber que a expressão do pasquim—_junta -geral_—o tinha maguado pessoalmente. E como o estudante se lembrasse de -dizer que a _junta geral_ do pasquim não era a do districto de Santarem, -mas a collectividade dos pretendentes amorosos das trez Rodartes e da -hespanhola (velhacamente, o estudante ia pondo de parte D. Estanislada -para lisongear o seu interlocutor) o conselheiro, muito formalisado, -disse que não era pretendente á mão de nenhuma dama, que apenas se -considerava um solteirão aposentado. Que se tivesse querido casar, o -poderia ter feito ha muitos annos com formosas e abastadas senhoras de -Santarem, de Almeirim e de Alpiarça. Que não só receiava que D. Enrique o -viesse a saber, e se desgostasse, mas tambem que o _venerando Rodarte_, -um modelo de cortezia e prudencia, se _chocasse_ com essa _brincadeira de -mau gosto_, que envolvia o nome das suas tres netas. - -No dia seguinte, um sabbado, D. Enrique foi visto no Sapal, passeiando -e lendo, peripateticamente, uma gazeta de Sevilha. Parecia preoccupado. -O conselheiro foi fallar-lhe. D. Enrique disse-lhe que ia passar alguns -dias a Lisboa. Teria vontade o conselheiro de perguntar-lhe se ia só ou -acompanhado. Mas não se atreveu a tanto. E logo conjecturou que era um -pretexto de D. Enrique para retirar-se de vez, sem alarde. Aqui está, -pensou o conselheiro com os seus excellentissimos botões, o que aquelles -diabos arranjaram com a brincadeira da _rifa_! - -Deixando D. Enrique, o conselheiro foi dizendo, principalmente aos -implicados na patuscada de Troia, que principiavam a fazer-se sentir as -consequencias d’aquelle _grave desacerto_; que D. Enrique ia á Lisboa -ou, segundo elle suspeitava, para Lisboa, d’onde talvez não voltasse, -desgostoso. - -A noticia correu rapidamente. Alguns logistas, que tinham rido com -o pasquim, começaram a queixar-se de que por uma imprudencia alheia -estivessem arriscados a perder freguezes importantes. - -O conselheiro tirou-se dos seus cuidados, e foi á estação vêr partir o -comboyo para Lisboa. D. Henrique e Soledad embarcaram. D. Estanislada -ficava, portanto, só, em Setubal, durante alguns dias. Oh felicidade! -exclamou mentalmente o conselheiro. - -De tarde, na Praia, o conselheiro parou a conversar com alguns grupos. - -—Então, D. Enrique sempre se retira para Lisboa? - -—Creio que sim, respondia elle; supponho que parte ámanhã. - -O velhaco! O que elle não queria era que se soubesse que o hespanhol já -tinha partido, e que D. Estanislada ficára. - -Houve logo quem aventasse a ideia de que uma commissão do setubalenses -viesse a Lisboa, no caso de D. Enrique partir, pedir-lhe que não desse -importancia a uma mera brincadeira, e que voltasse. - -O Rodarte, esse, parecia ignorar tudo o que se passava. Ninguem o -informou de que tivessem apparecido pasquins; não ousou fazel-o ninguem. -E elle, muito myope, não podia tel-os lido. - -Conversando com o morgado de Reguengos apenas dissera que os _pic-nics_ -eram a mais arriscada de todas as distracções de uma praia. Que se -felicitava por ter tido a boa ideia de deitar agua na fervura, fechando -a serie dos brindes, que já estavam denunciando uma certa excitação dos -convivas, quando julgou opportuno intervir. - -O proprietario das Alcaçovas tambem, n’essa tarde, acompanhava o grupo do -_Padre Eterno_ e das netas, porque, tanto elle como o morgado, estavam -resolvidos a fazer valer os direitos que a sorte lhes proporcionára. - -Poderiam, ambos elles, ter supplantado a murro e a pontapé todos os -outros concorrentes. Mas fazel-o seria violento... especialmente para -as victimas. Os dois, homens fortes, de musculo tuchado, possuiam o bom -humor e a prudencia que os nevroticos desconhecem. - -A hespanhola impozera-se-lhes pela belleza, no primeiro momento. Mas -depois appareceram as Rodartes, bellas mulheres, habituadas á vida do -Alemtejo, ricas, bem educadas, e ambos elles, sem o terem communicado -um ao outro, acharam preferivel jogar com tino, na banca do Amor, a -aventurarem-se á conquista de uma hespanhola, que tinha o grande defeito -de ser caprichosa e de saber quanto valia. - -A primeira confidencia que os dois tiveram entre si foi á volta de Troia, -quando o de Reguengos explicou ao das Alcaçovas que propozera a loteria, -porque a sorte nunca deixára de o beneficiar sempre que a tentava. - -—Eu estava certo, disse elle, de que me calhava a hespanhola ou a Hilda, -que eu preferia á hespanhola. Em loterias tenho uma sorte brutal. - -—Pois eu, respondeu-lhe o das Alcaçovas, sou infelicissimo em todos os -jogos d’azar. Agora explico a minha sorte por termos sido parceiros no -jogo. - -E riram ambos, riram muito, tomando a brincadeira... a serio. - -O Vianninha tambem n’essa tarde andou no grupo das Rodartes, arrastando a -aza a Salomé, que o não recebia bem nem mal. - -O estudante de Alcacer appareceu, mas sumiu-se logo que viu o morgado de -Reguengos a passeiar ao lado de Hilda Rodarte. - -—Então aquella grande besta, exclamou elle, toma a coisa a serio! - -O jornalista, com os officiaes de caçadores, e outros, sentados fóra -da porta do Lapido, bebiam gazosa e faziam a critica do grupo que ia -passando. - -D. Ramon Mendoza appareceu no botequim, e os da mesa da gazosa -perguntaram-lhe com desfructe: - -—Então o que é feito do premio grande _d’usted_? - -—Eu sei lá! Nunca mais tornei a ver Soledad! - -E, batendo as palmas, mandou vir gazosa. - - - - -VIII - - -Ao anoitecer, o conselheiro Antunes foi, muito disfarçado, bater á porta -de D. Enrique. - -Respondeu-lhe, do patamar, D. Estanislada, que perfeitamente lhe conheceu -a voz. - -—Que D. Enrique tinha sahido com Soledad, disse ella, mas que subisse, -que lhe dava com isso muito prazer. - -Tudo parecia correr ás mil maravilhas para o ditoso conselheiro. Que -D. Enrique e a filha haviam sahido, bem o sabia elle: mas a facilidade -amavel com que D. Estanislada o recebia em sua propria casa, não estando -o marido, era quasi promessa de felicidade... immediata. - -O conselheiro, bastante manhoso para dissimular a alegria que esta -risonha situação lhe causava, disse, parado ainda ao fundo da escada, -algumas palavras aconselhadas por apparencias de conveniencia e respeito. - -—Mas, minha senhora, não sei se deva entrar... - -—Que entrasse, que subisse, porque, de mais a mais, havia de gostar da -companhia. - -Esta phrase—_gostar da companhia_—pareceu maliciosa ao conselheiro. E, a -seu ver, a promessa de immediata felicidade accentuava-se n’essa phrase. - -Subiu, pois, sentindo palpitar vertiginosamente o coração, que lhe dava -saltos dentro do peito. - -Mas, entrando na saleta, ficou tão admirado, como contrariado, vendo que -D. Estanislada não estava só. - -Ó desillusão! ó desapontamento! - -D. Estanislada apresentou-lhe as suas visitas: a senhoria e a filha. - -A senhoria, a sr.ª Magdalena, era uma mulher de cincoenta annos, viuva, -muito devota e temente a Deus. A filha, a menina Ricardina, tinha vinte e -dois annos, e um palmo de cara que não era desengraçado. - -D. Estanislada alludia á menina Ricardina quando disse ao conselheiro -que—havia de gostar da companhia. - -A mulher que se sente amada tem d’estes falsos assomos de modestia, para -experimentar o valor da affeição que inspirou, qualquer que seja a sua -idade. Diz que todas as outras são mais bellas, mais tentadoras do que -ella, porque se sente lisonjeada de triumphar da concorrencia de todas as -outras. - -D. Estanislada seguiu esta tactica. - -Elogiou muito ao conselheiro a belleza da menina Ricardina, que se -envergonhava dos gabos, côrando. - -A mãe, a sr.ª Magdalena, rindo de satisfeita, repetia esta phrase: - -—É sãsinha, graças a Deus! - -O conselheiro, muito contrariado, procurava no seu espirito uma phrase -com que, sem correr o risco de ser indiscreto, podesse dar a entender a -D. Estanislada que, ao pé d’ella, o rosto de qualquer outra mulher lhe -passava despercebido. - -Finalmente, pareceu-lhe que tinha achado a phrase precisa, e disse-a: - -—O rosto d’esta menina é realmente muito interessante, e eu felicito por -isso a senhora sua mãe; porem não permittamos á sr.ª D. Estanislada que -se esteja escondendo na sombra, qual timida violeta. - -D. Estanislada gostou de se vêr tratada por violeta. E, saboreando a -amabilidade, como se estivesse chupando um rebuçado, contestou: - -—_Yo, pobrecita de mi, yo estoy hecha una vieja!_ - -—Pelo amor de Deus! exclamou o conselheiro levantando os braços quasi até -á altura da cabeça. - -—Que não, acudiu a sr.ª Magdalena, que estava ainda muito fresca, muito -bem disposta, que até parecia irmã mais velha da filha. - -E a menina Ricardina accrescentava que a sr.ª D. Estanislada não devia -dizer a ninguem que era mãe da _señorita_ Soledad. - -Este tiroteio de lisonjas, de que D. Estanislada foi alvo, durou alguns -minutos. - -O conselheiro, quando entre todos pareceu ficar decidido que D. -Estanislada era qual _timida violeta_, sem que ella já ouzasse protestar, -fingiu-se novamente admirado da ausencia de D. Enrique e de Soledad. - -—_Fueron á Lisboa_, respondeu D. Estanislada. - -—Mas demoram-se pouco? insistiu o conselheiro. - -—_Vuelven el lunes, no sé si por la mañana ó por la tarde._ - -—Ainda bem, pensou o conselheiro, e ainda mal! Ainda bem, porque D. -Enrique ou não tinha lido o pasquim ou lhe não dava importancia: -continuaria portanto a demorar-se em Setubal. Ainda mal, porque a -ausencia era breve de mais para que elle conselheiro podesse encher a -medida dos seus desejos. - -Fez menção de levantar-se para sahir. - -—Que não, que ficasse, insistiu D. Estanislada, que iam tomar chá, e que -lhes désse o prazer da sua amavel companhia. - -—Que não desejava ser importuno... que ia dar uma volta. - -Mas D. Estanislada, com toda a sua intimativa de hespanhola, ordenou-lhe -que ficasse, e o conselheiro Antunes ficou de muito bom grado. - -Foram para a casa de jantar e abancaram para tomar chá. - -D. Estanislada fez sentar o conselheiro á sua direita, e a sr.ª Magdalena -á sua esquerda. A menina Ricardina ficou ao lado da mãe, posição -estrategica que D. Estanislada lhe distribuiu... por cautela. Ella bem -sabia quanto o conselheiro Antunes, apesar da sua grave encadernação de -presidente da junta geral de Santarem, era lambareiro de mulheres. - -Emquanto tomaram chá, ao dialogo respeitoso de D. Estanislada e do -conselheiro, sobre coisas frivolas, correspondia, debaixo da mesa, outro -dialogo bem menos respeitoso: o dialogo dos pés. - -Certamente que este dialogo nos interessa muito mais do que o outro. -Vamos pois escutal-o. - -_A bota do conselheiro, explorando terreno_:—Onde estás tu, adoravel pé -de D. Estanislada? Pois que o teu senhor se acha ausente, pódes vir ao -mirante do castello escutar a minha serenata de amor... - -_O sapato de cordovão de D. Estanislada_:—Eu fujo-te, menestrel audaz, -para tornar mais intensa a febre dos teus desejos. Bem deves saber que -toda eu sou a _timida violeta_ de que fallaste ha pouco. - -_A bota_:—A violeta é a flôr da sombra, e debaixo da meza tudo é sombra -e mysterio. Estás, pois, no teu logar, violeta timida. Não me fujas, ó -esquiva Galatéa, cujo adorado pé eu ando procurando ás escuras, como um -cego d’amor. - -_O sapato_:—Tenho medo de que a sr.ª Magdalena e a menina Ricardina dêem -tino do que se está passando no soalho. Para entalação bem bastou já -aquella mascarra que o teu beijo de Troia me deixou na face... Não me -persigas, que me tentas, seductor! - -_A bota_:—Eu sou discreto como um conselheiro, que me prézo de ser. -Muitas vezes, na junta geral de Santarem, tenho tido necessidade de pisar -o pé a um collega para o prevenir de qualquer maniversia politica, e a -junta nunca deu por isso, tão bem eu sei pisar o proximo! Encantadora -Estanislada! fica sabendo que a electricidade procura as extremidades: -os meus pés estão, portanto, carregados da electricidade do meu coração. -Chega-te, e verás. - -_O sapato, aproximando-se_:—Quem póde resistir á fascinação das tuas -palavras, e á discrição dos teus processos?! Pois que tudo se vae passar -na sombra, com a cautela de que tu sabes usar, como conselheiro e como -amante, consentirei que o meu sapato caminhe para a tua bota, com o -pejo, aliás, que fica bem a toda a mulher, e com a timidez que é propria -de toda a violeta. - -_A bota, encontrando o bico do sapato, e arrastando-o ternamente_:—Vem, -vem finalmente cahir nas doces talas do amor, adorado pé! Quero -apertar-te com a ternura com que Romeu abraçava Julieta. Nas dôres -physicas do amor, ha uma voluptuosidade que endoidece de deleite. Vem, ó -pé feiticeiro! ó pé encantador! - -_O sapato_:—Eis-me aqui, como um escravo que não póde resistir, que não -ouza luctar. - -Então, o pé esquerdo do conselheiro Antunes, tendo empolgado o pé direito -de D. Estanislada, demora-se um momento como para certificar-se de tudo -que se está passando em segredo. E, após esse momento de pausa, a bota do -pé direito acode a comprimir ternamente, de accordo com o pé esquerdo, o -sapato de D. Estanislada, que fica entalado entre as duas botas. - -Toda a electricidade acode pois ás extremidades de um e outro. - -D. Estanislada, com a perna direita torcida, offerece mais chá á sr.ª -Magdalena, e o conselheiro Antunes, com ambas as pernas repuxadas para a -esquerda, mette a colhér dentro da chicara, faz menção de não querer mais -chá. - -Devia ter sido deliciosa toda essa secreta iberisação de duas botas -portuguezas junto de um sapato andaluz; deliciosa, principalmente, se -nenhum dos pés tinha calos. - -A conversação foi-se arrastando á custa da sr.ª Magdalena, que entrou no -seu assumpto predilecto, os milagres do Senhor do Bomfim. - -D. Estanislada e o conselheiro apenas contribuiam com monossyllabos, -interjeições, porque a electricidade, que acudia ás extremidades, os -tinha n’uma vibração nervosa, que os entaramelava. - -A menina Ricardina, a quem um dos seus namorados havia pisado o pé, n’uma -occasião em que jogára o loto em familia, desconfiou da marosca, e as -suas suspeitas foram-se accentuando em convicção, porque lhe não passou -despercebido que o corpo do conselheiro estava visivelmente esguelhado -para a esquerda e o de D. Estanislada enviezado para a direita. - -Com essa subtil astucia que é propria da gente moça, a menina Ricardina -imaginou tirar a prova real das suas suspeitas. Arrancando do dedo um -annel de ouro, começou a brincar com elle sobre a mesa: fazia-o rodopiar, -dançar, graças ao impulso combinado dos dedos indicadores. - -A folhas tantas, o impulso foi maior e o annel saltou ao chão. - -—Ai! o meu annel! exclamou ella, curvando-se rapidamente para apanhal-o. - -Pôde ainda, vêr, perfeitamente, a fuga precipitada, e algo ruidosa, dos -tres pés cumplices. - -D. Estanislada fez-se rubra; o conselheiro fez-se branco. E a menina -Ricardina, apanhando o annel, disse com o seu melhor ar de riso: - -—Não se incommodem; já aqui está. Muito obrigada. - -Aquelle inesperado incidente do annel desarranjou a agradavel união -iberica dos tres pés. - -O conselheiro, levantando-se, disse que iam sendo horas da sr.ª D. -Estanislada se recolher. A sr.ª Magdalena, ouvindo isto, lembrou-se de -que ás seis horas da manhã tinha de ir cumprir uma promessa ao Senhor do -Bomfim. - -Despediram-se todos, e o conselheiro, voltando-se no patamar da escada, -exclamou: - -—Já me ia esquecendo, D. Estanislada! Encommendei o azeite. Mandaram-me -dizer em telegramma que era expedido hoje mesmo ás onze horas. - -—_Muchas gracias_, respondeu ella encostando-se á porta da saleta. - -Quando batiam em S. Julião as onze horas da noite, um embuçado, -cosendo-se muito com a sombra das paredes, dirigia-se mysteriosamente -para casa de D. Enrique. Era o _azeite_: o conselheiro. Mas teve de -fazer torcicollos porque reconheceu o sueco, que estava contemplando -as janellas de D. Estanislada. Por sua vez, o sueco, mal que viu -aproximar-se um vulto, deitou a fugir. - -O presidente da junta geral do districto de Santarem, lembrando-se da -_rifa_, e, portanto, de que D. Estanislada havia sahido em premio ao -sueco, teve uma forte commoção de ciume. - -—Pois então elle, pensou o conselheiro, tinha ido para Cintra e apparece -mysteriosamente em Setubal ás onze horas da noite! - -E, como um Othello furioso, empurrou a porta de Desdémona e entrou. - -Por dentro dos vidros da sua janella, a menina Ricardina, muito matreira, -tendo apanhado no ar a phrase do _azeite_, estava á côca, e vira tudo o -que se passára. - - - - -IX - - -O conselheiro Antunes, subindo a escada, deixou-se guiar mansamente, na -treva, pela mão da hespanhola. Parecia um borrego amoroso comboyado pela -respectiva cordeira. Mas logo que se apanhou no quarto de D. Estanislada -e a luz da lamparina lhe aclarou a situação, o borrego transformou-se em -lobo cerval. Desdémona teve que haver-se com Othello. - -Ora o que ali se passou, em rapidos momentos, foi pouco mais ou menos a -famosa fabula do lobo e do cordeiro. - -Othello accusou violentamente Desdémona: era o lobo que fallava. - -Não alludiu á _rifa_, mas affirmou saber de boa origem que o sueco -disfarçava com a filha as suas pretensões á mãe. A hespanhola, entre -lisonjeada e surprehendida, tomou o logar do cordeiro do apólogo, salvo -o sexo. Procurou tranquillisar o conselheiro, dizendo-lhe que o sueco -não a pretendia a ella, mas á filha, _que era mais nova_. O lobo pediu -provas, visto que só com provas importantes poderia desfazer a impressão -que lhe deixára a presença do sueco, n’aquella rua, ás onze horas da -noite, sendo certo constar em toda a cidade que Soledad tinha ido para -Lisboa com o pae. - -D. Estanislada pôde, felizmente, lembrar-se de uma prova. Era uma -carta que n’aquella mesma tarde tinha chegado pelo correio, dirigida a -Soledad Saavedra. A lettra do sobrescripto era esquisita, estrangeirada: -naturalmente seria do sueco. - -—Pois bem! propozera D. Estanislada, abrir-se-ia a carta e, se -effectivamente fosse do sueco, talvez a questão podesse ficar esclarecida. - -Foi pé-ante-pé buscar a carta, e abriu-a com denodo. Era effectivamente -do sueco. - -Á luz da lamparina, muito curvados sobre uma cómmoda, lêram-na ambos. - -Custou-lhes a entrar com o texto, uma verdadeira torre de Babel, onde as -linguas se confundiam e baralhavam: o sueco, o portuguez e o hespanhol -andavam ali em cabriolas de amor de um coração polyglótta. - -Soletrando, entendendo aqui, não entendendo acolá, chegaram á conclusão -de que o scandinavo alludia a um desgosto que tivera no _pic-nic_ de -Troia, que o obrigára a retirar-se para o Barreiro, tendo aliás feito -constar que ia para Cintra, afim de desorientar a perseguição dos -trocistas. Mais uma vez declarava a Soledad o seu ardente amor e, para -definir uma situação embaraçosa, pedia que lhe apparecesse á janella ás -onze horas da noite. - -Esta carta providencial, que não chegou ao seu destino, esclareceu a -situação, amansou as furias do lobo amoroso. Ao contrario do que acontece -no apólogo, e n’isto é que a realidade se apartou da fabula, o lobo ficou -vencido, e o cordeiro, salvo sempre o sexo, ficou vencedor. - -Na rua, emquanto o conselheiro e D. Estanislada decifravam a carta, o -sueco, o qual por sua vez ficára ciumento vendo um vulto, mas não o -reconhecendo, voltára ao sitio d’onde havia fugido e, ardendo em zelos, -esperava que a janella de Soledad se abrisse. - -Estava elle ali parado, olhando para todos os lados, palpitante de -anciedade e receoso da troça, quando sentiu abrir-se mansamente a porta -de um _rez-de-chaussée_. - -Teve medo de alguma insidia, não porque fosse um fraco, mas porque era um -estrangeiro esmagado pela chacota indigena. Ouviu um _psiu_, tres vezes -repetido, um _psiu_ que não podia ser senão para elle, porque na rua não -havia mais ninguem, e esteve quasi para fugir outra vez. - -Era uma mulher que o chamava, parecia, pelo menos, que era uma mulher, -mas quem lhe podia affirmar que não fosse o Julio de Lemos ou o Aurelio -Goes ou algum ladino official de caçadores disfarçado em mulher? -Hesitava, e teria talvez fugido, se não se convencesse de que era -effectivamente uma voz de mulher que, depois de o ter chamado, lhe estava -dizendo cautelosamente: - -—Venha aqui, que lhe posso dar noticias interessantes. - -O sueco aproximou-se, e ficou encantado de se lhe deparar na janella -uma rapariga de cerca de vinte annos, algo morena, mas sympathica. Os -olhos eram vivos, porque brilhavam na treva. E, ao vêr diante de si uma -realidade agradavel, o sueco encostou-se á janella e sentiu um brando -cheiro a mangericão, que o seio da rapariga exhalava, e que a elle lhe -soube tão bem como um copo de _Kirsch-Vasser_. - -—Faça favor de fallar baixo, disse ella, que está ali minha mãe a dormir. - -—Ó encantadorra menina! exclamou elle. - -—Ainda que eu mal pergunte, continuou ella, o sr. estrangeiro anda aqui -por causa da mãe ou da filha? - -—Que dizerr menina? - -—Sim, porque eu tenho visto o sr. estrangeiro no grupo da hespanhola, mas -não sei ao certo se anda arrastando a aza á _señorita_ Soledad ou a D. -Estanislada... - -—Linda menina desfrructarr-me a mim? - -—Não, senhor! Pelo contrario. Desejo ser-lhe agradavel. Posso dar-lhe -informações tanto a respeito da _señorita_ como da mãe. Se é por causa da -filha, o sr. estrangeiro andava aqui hoje a perder o seu tempo... - -—Porque dizerr linda menina isso? - -—Porque Soledad foi esta tarde para Lisboa com o pae, e só volta depois -d’amanhã. - -—Mas quem serr então uma pessoa homem que andava esprreitando inda -bocadinho? - -—E o sr. estrangeiro não dirá nada do que lhe vou contar? - -—Oh! nó! - -—Era o conselheiro Antunes. - -—E onde estarr elle? - -—Lá dentro. - -—Aqui? - -—Credo! Lá dentro da casa de D. Enrique. - -—Mas estarr só? - -—Não, sr. Está fazendo companhia á D. Estanislada... O sr. desculpe... - -—Nó! D. Enrrique é que desculparrá, se quizerr. - -—É uma pouca vergonha como nunca se viu! Minha mãe tem alugado aquella -casa a muitas familias hespanholas, mas ainda não vi gente tão levantada -da cabeça como esta! Entre mãe e filha venha o diabo e escolha! - -—Mãe menina serr senhorria casa? - -—Sim, senhor. - -—Então menina terr visto tudo? - -—Tudo! Não, senhor. Tenho visto muita coisa. Ainda esta noite... - -—Que terr visto menina esta noite? - -—Eu e a minha mãe fomos visitar D. Estanislada por imaginarmos que, -estando o marido e a filha em Lisboa, não teria quem lhe fizesse -companhia. Estavamos lá quando entrou o conselheiro Antunes. Ó sr. -estrangeiro, aquillo foi mesmo uma pouca vergonha! - -—Como serr? - -—Debaixo da mesa... - -—Como debaixo de mesa?! - -—Pisando os pés um ao outro, D. Estanislada e o conselheiro! Estiveram -toda a santa noite n’aquelle debique. Depois sahimos todos, mas o -conselheiro, á sahida, disse a D. Estanislada que ás onze horas vinha o -azeite... - -—Oh! sim! o azeite! Serr uma combinação entrre ambos! - -—Tal qual. Mas eu, que não gosto que me façam o ninho atraz da orelha, -fiquei aqui á espreita por dentro dos vidros. Vi chegar o sr. estrangeiro -e pasmar-se para a casa de D. Enrique. Vi chegar depois o conselheiro -Antunes. O sr. estrangeiro fugiu, e o conselheiro entrou. - -—Menina terr cerrteza que conselheirro estarr lá? - -—Sim, sr.! Como dois e dois serem quatro... - -—Pouca verrgonha! - -—Ó sr. estrangeiro! mãe e filha é tudo a mesma loiça! A filha, quando não -anda pela rua com todos os namorados, está á janella a catrapiscar a um e -a outro, a todos os que vão chegando! O sr. estrangeiro tambem tem feito -bem bonitos papelinhos! - -—Serr porr brrincadeirra. E terr muitos namorrados? - -—Mais de um cento! Elle é o Lemos de Alcacer, elle é o tal das gazetas de -Lisboa, elle é o hespanholito esgrouviado, elle é o tolo do Vianninha que -tem a pobre da Sequeira a morrer por causa d’elle; elle são os officiaes -de caçadores; elle são os morgados do Alemtejo; elle era o marialva que -andou ahi um tempo. E elle é tambem o sr. estrangeiro... disse Ricardina -sorrindo. - -—Eu serr brrincadeirra. - -—Olhe, da parte d’ella talvez fosse, porque quando o sr. voltava costas, -a _señorita_ e a mãe desatavam a rir pelas casas dentro. - -—Pouca verrgonha! - -—Pois olhe que é a pura da verdade! - -—Muito obrrigado, linda menina. Eu poderr virr amanha á mesm’horra -fallarr com menina aqui? - -—E para que quer o sr. estrangeiro fallar comigo? É porque está -apaixonado pela _señorita_ e deseja saber noticias... - -—Nó! É por gostarr de menina. - -—O sr. estrangeiro está a caçoar com uma pobre rapariga!... - -—Caçoarr! Nó! Eu virr amanhã mesm’horra. Linda menina, fazerr favorr -esperrar mim? - -E o sueco, apertando na sua manápula a mão de Ricardina, sentiu-se -deliciosamente agitado por esse contacto, que era um triumpho amoroso -cahido do céo. - -Por sua vez, Ricardina, que sahira vibrante de casa de D. Estanislada, -sentia-se bem, feliz, por ter podido até certo ponto descarregar a -electricidade que de lá trouxera. - -O sueco era um homem sadio, de boas côres, e devia ter dinheiro, porque -estava ali como commissario de uma importante casa da Suecia, importadora -de sal. - -De mais a mais Ricardina, como todas as mulheres, lisonjeava-se de ter -arrancado um vassallo ao coração da _señorita_, que estava absorvendo -todas as attenções de Setubal. - -O sueco, ruminando a sua boa fortuna, foi passear audaciosamente para a -praia, como se já não temesse os ridiculos da troça. - -Dados alguns passos, encontrou o estudante de Alcacer, que, muito -noctivago, recolhia do café _Esperança_. - -—Ó seu sueco! disse-lhe o Lemos. Então você não tinha ido para Cintra?! - -O sueco respondeu-lhe que effectivamente tinha estado em Cintra, por -passeio, e não porque se houvesse importado com a historia do _pic-nic_; -que se estava rindo da _señorita_, que era uma tola, e até de D. -Estanislada, que era a amante do conselheiro Antunes. - -E, sem se referir a Ricardina, contou ao Lemos que Soledad e D. Enrique -tinham ido para Lisboa e que o conselheiro estava áquella hora em casa de -D. Enrique. - -—Está lá com certeza? perguntou o Lemos. - -O sueco affirmou positivamente que estava; que tinha entrado ás onze -horas. - -—Olhe lá, disse o Lemos, venha comigo, vamos pregar uma _partida_ a essa -marafona da D. Estanislada. - -E, mettendo o braço ao sueco, foi-o levando comsigo a reboque. - -Depois que passára a tempestade do ciume, D. Estanislada e o conselheiro -reconciliaram-se n’um longo idillio de amor. Tinham adormecido nos braços -um do outro, e D. Estanislada sonhava afflictivamente que D. Enrique, -voltando de Lisboa, estava batendo á porta. - -Accordou sobresaltada, sentou-se na cama offegante, olhando para o -conselheiro que dormia tranquillamente e assobiava por um dos cantos da -bôcca. - -Agitada entre a impressão do sonho e da realidade, isto é, entre a imagem -de D. Enrique e a pessoa do conselheiro, estava limpando o suor da testa, -quando ouviu resoar tres pancadas na porta e uma voz roufenha dizer: - -—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique! - -Agarrando-se trémula, convulsa ao conselheiro, accordou-o, e elle, -despertando aturdido, ouviu tambem, distinctamente, a voz roufenha dizer: - -—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique! - -Era o estudante d’Alcacer, que se tinha lembrado de pregar aos dois esta -_partida_. - - - - -X - - -Tarde de domingo, lucida e serena como um crystal da Bohemia. O Sado -dorme n’um azul tranquillo, n’um leito de saphira, que a menor aragem não -agita, o que poucas vezes succede. O Campo do Bomfim immobilisa-se n’uma -grande quietação bucolica, e os arvoredos circumjacentes recortam-se n’um -fundo de stereoscópo longamente pittoresco... - -As Rodartes foram passeiar a Brancannes: Hilda e Maria Ignez, de braço -dado; Salomé guiando, como sempre, o avô,—Antigone que vae conduzindo -Œdipo. - -Habituadas á vida placida da Messejana, sentiam-se bem na solidão dos -campos, mais convidativos ali do que na sua arida provincia do Alemtejo. - -O velho _Padre Eterno_ não queria outra felicidade que a de vêr-se -rodeado pelo grupo encantador das suas tres Graças: onde ellas -estivessem, estava o céo. - -Nenhum dos cavalheiros serventes tinha apparecido ainda, e não faziam -falta a ninguem, nem mesmo ás tres damas, que elles n’aquella tarde -pareciam ter esquecido. - -Salomé e o avô conversavam sobre negocios da administração da casa, -porque aquella neta era o secretario particular do velho Rodarte: toda a -correspondencia com os feitores e caseiros corria pela sua mão. - -Hilda e Maria Ignez fallavam de coisas frivolas, assumptos de Setubal, -que lhes serviam para ir matando o tempo. - -—A andaluza foi com o pae a Lisboa, dizia Maria Ignez. - -—Como sabes tu isso? perguntou Hilda. - -—Porque m’o disse hoje o banheiro na praia. - -—Ah! por isso, replicou Hilda, ninguem ainda viu nenhum dos seus pagens! -Ou foram tambem para Lisboa ou estão mettidos em casa a chorar de -saudade... - -E riram ambas, sem despeito, apenas com a alegre ironia, que é uma feição -caracteristica dos espiritos moços e despreoccupados. - -—O sueco é que desappareceu da circulação! - -—E o Lemos tambem! - -—Não. O Lemos estava outro dia sentado á porta do café quando nós -passamos. - -—Parece que não está bem comnosco! - -—Porquê? - -—Eu sei lá! Deixal-o estar. - -—E o jornalista? - -O avô e Salomé haviam-se calado momentos antes. - -—O jornalista, disse o velho Rodarte, mandou-me hoje a sua _Trombeta_. - -—A da Fama, avôsinho? perguntou Maria Ignez. - -—Não, a d’elle, a _Trombeta Ullyssiponense_. - -—Por signal, accrescentou Salomé, que vem lá uns versos d’elle, que não -são feios. - -—Como são? perguntou Hilda. Tu que tens boa memoria, dize lá como são. - -—Parece-me que sei apenas o principio. Intitulam-se _Noites ao norte_. - - Noite fria, noite branca, - Noite da Russia polar, - És como a imagem da morte, - Ó longa noite do norte, - Feita de neve e luar. - -—Dize lá o resto. - -—Não sei. Tive de escrever para a Messejana uma carta que o avôsinho -queria, e puz logo o jornal de parte. - -—Esses versos fazem frio! disse rindo o avô. - -—Frio e mêdo! accrescentou Hilda. - -—Se elle faz d’esses versos á _señorita_, constipa-a, disse Maria Ignez. - -O avô e as duas outras meninas riram muito da phrase. - -—Coitados! continuou o Rodarte. Chega a ser comico esse cortejo da -hespanhola! Tirados os nossos dois patricios, que são alegres, mas -excellentes pessoas e proprietarios abastados, tudo o mais não vale um -caracol. - -—E D. Ramon? perguntou Maria Ignez. - -—Quem sabe lá o que elle é! É um emigrado, que me não parece um forte -sustentaculo da monarchia, nem um inimigo poderoso da republica. - -—E o Vianninha? perguntou Hilda. - -—O Vianninha é um pobre escripturario de fazenda, respondeu Araujo -Rodarte, que anda a estudar o modo de não morrer de fome. - -—Não, avôsinho! replicou Hilda. Elle anda a estudar o meio de conquistar -a _señorita_. - -—Está ella feliz com esse pretendente! - -—Pois assim pobre como é, disse Maria Ignez, está apaixonada por elle a -Sequeira. Dizem até que tem deitado sangue pela bôcca. - -—Pobre rapariga! que tão mal empregou o seu coração! ponderou o Rodarte. -E elle é um tolo, porque o pae da Sequeira tem alguma coisa de seu, -possue duas marinhas em Alcacer, e é um homem que trabalha muito. De mais -a mais, boa gente. - -E Maria Ignez interrompeu a conversação, exclamando: - -—Sabem quem vem acolá? São os nossos patricios. - -—Antes elles do que os outros, disse o avô. - -O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas vinham -effectivamente subindo para Brancannes, onde sabiam que iam encontrar as -tres lindas patricias. - -A sua chegada trouxe maior animação ao dialogo. - -—Então que vae lá por esse mundo da praia? perguntou o velho Rodarte. - -—Algumas novidades ha. - -—Novidades! Quaes? - -—A andaluza foi com o pae para Lisboa, disse o morgado de Reguengos. - -—Os nossos sentimentos... replicou Hilda. - -O morgado fez-se purpurino. - -—Ó minha senhora! disse elle. Tanto eu como este meu companheiro estamos -aqui a banhos e queremos divertir-nos. Olhamos para tudo isto como se -estivessemos no theatro. A andaluza tem sido a peça que está em scena: -assistimos ao espectaculo e divertimo-nos a nosso modo. - -—Assim é, confirmou o proprietario das Alcaçovas. - -—Pois que hão de elles fazer! ponderou Araujo Rodarte. E mais? - -—O conselheiro anda fazendo as suas despedidas. Já nos foi deixar bilhete. - -—Mas elle contava ainda demorar-se! observou Araujo Rodarte. - -—Lá estão commentando no Lapido a resolução do conselheiro. - -—Mas ainda ha mais novidades! lembrou o morgado de Reguengos. - -—Digam sempre. - -—O Lemos planeou agora um espectaculo de curiosos em favor do Asylo. -Parece que querem representar uma comedia escripta pelo Goes. - -—Mas quem representa? perguntou Maria Ignez. - -—Elles esperam que v. ex.ᵃˢ entrem. - -—Nós! conclamaram as tres meninas. - -—Ellas! exclamou simultaneamente o avô. - -—Mas a mim consta-me por linhas travessas, disse o proprietario das -Alcaçovas, que o pae do Lemos está furioso com a demora d’elle em -Setubal, e que mais dia menos dia o virá buscar para o acompanhar a -Lisboa, visto que se vae aproximando a época da abertura das aulas. - -—Pobre pae! observou o Rodarte. O rapaz está aqui está a tomar capêllo em -Physica. - -—Tempo tem elle já para isso! - -—Pois essa idéa do espectaculo é mesmo d’uma cabeça desconcertada! - -—Outra novidade! exclamou o morgado de Reguengos. - -—Qual? - -—Appareceu o sueco! - -—Tinha-se perdido? perguntou rindo Araujo Rodarte. - -—Não, senhor. Tinha ido a Cintra sem dar cavaco á gente. - -Os dois alemtejanos foram a Brancannes com o proposito astucioso de -evitar que as Rodartes tomassem parte no espectaculo planeado n’aquella -manhã pelo estudante d’Alcacer. Sondariam sobre o assumpto o animo do -velho Rodarte. Mas logo ficaram tranquillos vendo que tanto o avô como as -netas pensavam do mesmo modo: ellas não entrariam na récita. - -O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas continuaram a não -dar importancia á concorrencia amorosa do estudante e dos outros, que -_não tinham onde cahir mortos_. Mas o galanteio de ambos com as duas -Rodartes ia-se accentuando com um caracter de seriedade, que abrangia já -a ideia do casamento, se ellas os não repellissem. - -Queriam pois evitar, um e outro, que collaborassem n’um espectaculo de -rapazes as duas senhoras, Hilda e Maria Ignez, admittida a possibilidade -de que ellas lhes acceitassem a côrte. - -Não sabiam elles ao certo o numero de personagens femininos que a peça -exigiria; mas preveniam a hypothese de uma annuencia ao convite do -estudante. - -Combinado o espectaculo no café _Esperança_, e compromettido Aurelio Goes -a escrever a peça, o estudante, o jornalista e o Vianninha foram em grupo -ao encontro das Rodartes. - -Vinham ellas já descendo de Brancannes com o avô e os dois alemtejanos, -quando os tres as avistaram. - -N’essa occasião o morgado de Reguengos colhia uma flôr e offerecia-a a -Hilda. O estudante viu isto, e desfechou de longe uma gargalhada. - -—Sabem vocês, disse elle aos companheiros, o que aquelle pedaço de bruto -lhe está dizendo decerto agora? - -—O que é? - -—Aposto que ha de ser isto: - - Aqui tem este raminho, - Que da minha mão se offerece. - Não é como eu queria, - Nem como a senhora D. Hilda merece. - -E riram todos tres. - -—Parece-me que á bêsta nos viu rir? disse o estudante. - -—Tambem a mim me parece! respondeu o Vianninha, muito timido. - -—Pois com tamanha bêsta não quero eu brincadeiras. - -E o estudante foi o primeiro a desandar pelo mesmo caminho, sendo logo -seguido pelos seus dois companheiros. - - - - -XI - - -O conselheiro Antunes e D. Estanislada ficaram inquietos com o que tinham -ouvido. - -O seu segredo estava descoberto: o _azeite_ havia-se entornado, enodoando -ambos. - -Não era D. Enrique que batera á porta, porque D. Enrique estava em -Lisboa, mas devia ser uma pessoa que soubesse _tudo_. - -Quem seria essa pessoa? - -D. Estanislada propendia a crêr que fosse a senhoria. - -—Porquê? perguntou-lhe o conselheiro. - -—_Porque es beata, y las beatas lo saben todo: lo que Dios no les dice, -lo saben ellas por el Diablo._ - -Era uma razão, mas o conselheiro não a acceitava sem repugnancia: - -—Nada! Foi um homem. Certamente o sueco, que andava por aqui. É verdade -que elle não me viu entrar, porque fugiu. Mas suspeitou que eu houvesse -entrado e, n’essa supposição, veio pregar-nos esta peça. - -—_Nada!_ teimava D. Estanislada. _La voz no era la del sueco!_ - -—Precisamos acautelar-nos, porque podem resultar de tudo isto -consequencias muito desagradaveis. Eu sou um homem sério, e se não desejo -comprometter uma dama, não desejo comprometter-me tambem a mim proprio. -O melhor será eu recolher-me por alguns dias a Santarem, antes mesmo de -D. Enrique voltar, porque d’este modo elle não poderá crêr, se lhe chegar -aos ouvidos a denuncia, que eu desaproveitasse um só instante da sua -ausencia. - -—_D. Enrique nada sabrá_, dizia a hespanhola, muito menos timida que o -conselheiro. - -—Eu sei lá! Isto leva caminho de lhe chegar aos ouvidos. O seguro -morreu de velho, e o melhor é acautelarmo-nos. Estanislada, minha rica -Estanislada do meu coração, eu vou passar uns dias a Santarem, e voltarei -depois. - -—_Que fatalidad!_ exclamava ella. - -O conselheiro não descansou senão quando se viu fóra da porta. D. -Estanislada viera antes á janella para o certificar de que não estava -ninguem na rua. - -—Nada! Não quero comprometter a minha reputação, a minha -respeitabilidade, tudo! ia monologando o conselheiro. Amanhã faço constar -que o governador civil de Santarem me chamou para um negocio urgente da -politica do districto. Faço, pelo sim pelo não, as minhas despedidas, -para não alimentar suspeitas, para mostrar que _parto_ mas não _fujo_, e -por aqui me sirvo até mais vêr. - -E, apos uma pausa, muito sentencioso: - -—Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem. - -Effectivamente, no comboio de segunda-feira pela manhã o conselheiro -partiu para Lisboa e de Lisboa para Santarem. - -Ao apear-se na estação da sua terra, o mesmo pensamento sentencioso -acudiu ao espirito do conselheiro: - -—Nada! Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem! - -O estudante de Alcacer havia divulgado a _peça_ que pregára ao -conselheiro e a D. Estanislada. Era já do dominio publico á hora em que o -conselheiro andava fazendo as suas despedidas. - -Os dois alemtejanos sabiam-no perfeitamente quando se encontraram com as -Rodartes, no domingo, em Brancannes, mas limitaram-se, por conveniencia -devida ás damas, a dizer que no café _Esperança_ estavam discutindo os -motivos da retirada do conselheiro. - -E era verdade. Em todo esse dia a hespanhola mãe foi ali tão discutida -quanto a hespanhola filha o havia sido quando era a unica belleza -dominadora de Setubal, isto é, antes da chegada das tres netas do _Padre -Eterno_. - -D. Enrique regressou na segunda-feira de tarde com Soledad. - -—Foi usted a Lisboa? perguntavam-lhe os desfructadores. - -—_He ido á los toros!_ - -—Ah! Foi usted aos touros? E que tal? - -—_Una broma!_ - -E ficavam-se a rir, logo que elle voltava costas, da singular -coincidencia de ter ido aos touros aquelle homem que, durante a sua -ausencia, fôra, segundo a expressão picaresca do estudante, lidado pelo -conselheiro. - -Mas D. Enrique vinha mais contente do que fôra, porque tivera occasião -de fallar em Lisboa com outros emigrados, e a opinião d’elles era que -o estado anarchico de Hespanha não podia continuar por muito tempo. -O remedio viria de alguma parte, ou d’uma intervenção das potencias -estrangeiras ou de uma reacção espontanea do paiz. - -Era a esperança providencial de todos os emigrados a prefigurar-lhes um -desfecho mais rapido do que os factos em verdade promettiam. - -O estudante, o jornalista e o Vianninha resolveram, á volta de -Brancannes, demorar o convite ás Rodartes, para entrarem na récita, até -que estivesse escripta a comedia e se soubesse ao certo qual o numero dos -personagens femininos. - -O jornalista metteu-se em casa a trabalhar de afogadilho na sua _peça_, -de que elle proprio já fallava com orgulho, quando ás dez horas da noite -apparecia no café do Lapido para tomar cognac, como uma celebridade -noctivaga. - -Contava com uma verdadeira glorificação no theatro, esperava que o seu -triumpho no palco de Setubal teria grande écco em Lisboa. Coroado como -dramaturgo na patria de Bocage, para entrar no palco de _D. Maria II_ só -lhe seria preciso... atravessar o Tejo. - -A sua reputação estava feita ou perto d’isso. - -Ao segundo dia de trabalho, annunciou que na sua comedia apenas entraria -uma mulher. Esta noticia contrariou muito o estudante, mas Aurelio Goes -respondeu-lhe que a espontaneidade do talento não se podia torcer como -um arame, e que o que a sua cabeça lhe déra espontaneamente fôra uma -comedia com um só personagem feminino. - -Então, alguns desfructadores, _habitués_ do Lapido, suggeriram a ideia de -que, para não melindrar as damas, o melhor seria não convidar nenhuma, e -encarregar-se o estudante de um _travesti_. - -Não repugnou a Julio de Lemos esta ideia, porque lhe daria no palco maior -evidencia e, por isso mesmo, maior gloria. - -Acceitou. - -—Que nome tenho eu lá na peça? perguntava elle a Aurelio Goes. - -—És a baroneza de Piães. - -—Casada ou solteira? - -—Casada. - -—E distincta? - -—Certamente. - -Escriptas as primeiras scenas, foram-se logo ensaiando. - -O jornalista distribuiu os papeis; os ensaios faziam-se de dia, depois do -almoço. Uma commissão encarregára-se de passar a casa: a coisa corria ás -mil maravilhas. - -Eis o programma da festa, redigido pelo dramaturgo: - - UMA NOITE SINISTRA - - _Comedia em tres actos e em verso, original do festejado - escriptor o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes_ - - DISTRIBUIÇÃO DOS PERSONAGENS - - _Baroneza de Piães_ Sr. Julio de Lemos - _Barão de Piães_ Sr. J. Vianna - _D. Mendo Espinote_ Sr. Aurelio Goes - _D. Diogo Cucufate_ Sr. Tenente Epaminondas - _D. Fafes Estorninho_ Sr. Tenente Rosalgar - _D. Gualter Byscaia_ Sr. Alferes Ruivo - _O escrivão de fazenda_ N. N. - - A acção passa-se na actualidade, em Braga. - - _Ensaiador_—Sr. Aurelio Goes. - -A _Gazeta Setubalense_ e a _Trombeta Ullyssiponense_ annunciaram, além -e áquem do Tejo, o brilhante espectaculo que ia realisar-se em Setubal, -punham no sette estrello o novel e talentoso author, Aurelio Goes, que, -se os calculos não falhavam, viria a nivelar-se com Almeida Garrett, e -elogiavam a vocação artistica dos distinctos amadores, que em seguida -nomeavam. - -Ambas as noticias haviam sido escriptas pelo proprio Aurelio Goes. - -Tambem elle se lembrára de officiar ao ministerio das obras publicas -reclamando, para a noite da récita, um comboio extraordinario a preços -reduzidos, mas não obteve resposta. - -Escreveu a um amigo de Lisboa encarregando-o de encommendar uma coroa -de louros, que era para elle, e de ir entender-se com o proprietario da -_Trombeta_, para que lhe fizesse um adeantamento de dois mezes. - -A coroa foi logo encommendada, porque o amigo de Aurelio Goes tinha tanto -juizo como elle. - -Mas o proprietario da _Trombeta_, que só d’ahi a dois dias poude ser -encontrado, recusou-se formalmente a fazer o adeantamento pedido, -chegando a dizer ao intermediario que o _sr. Aurelio_ só lhe mandava -de Setubal noticias de interesse proprio; que estava muito desgostoso -com elle, e que se dentro de quinze dias não regressasse a Lisboa, o -despediria da redacção. - -Depois d’esta entrevista desoladora, o amigo de Aurelio Goes correu á -loja onde tinha encommendado a coroa, para suspender a encommenda, mas, -ó fatalidade! a coroa estava já feita, e exposta na _montre_ com este -distico, que tinha tambem sido encommendado: _Ao notavel e talentoso -dramaturgo Aurelio Goes, futuro émulo de Garrett_. - -Pobre emissario! Ficou entalado, responsavel pela despeza da coroa. -Escreveu para Setubal a contar o que era passado, quanto aos louros e á -brutalidade do proprietario da _Trombeta_. - -Aurelio Goes respondeu, na volta do correio, que ia arranjar dinheiro -para a coroa, que não prescindiria dos louros por caso nenhum, e que -fosse dizer ao «tyranno da _Trombeta_», expressão sua, que dentro de -quinze dias estaria de regresso em Lisboa com uma carregação de gloria, -que faria subir os fundos da _Trombeta_. - -E, para que tudo coubesse no praso fatal que lhe era marcado, resolveu-se -que a récita se realisasse dentro de dez dias. - -Activaram-se os trabalhos, Aurelio Goes desenvolvera uma actividade -assombrosa, retocava as ultimas scenas da comedia, assistia aos ensaios, -e tratava de arranjar dinheiro para os louros. - -Julio de Lemos, muito contente com o seu papel de baroneza de Piães, em -que obteria uma ovação, estava d’isso convencido, occupava-se, nas horas -livres de ensaios, em preparar a sua _toilette_. - -Lembrou-se de D. Estanislada para lhe fornecer o guarda-roupa, mas -lembrou-se obrigado pelas circumstancias, porque o morgado de Reguengos -declarára categoricamente em alguma parte que, por seu conselho, as -Rodartes não contribuiriam para a récita senão com o preço do seu -camarote. - -E o estudante, quando soube isto, dissera: - -—Essa grande bêsta imagina talvez que terei de apparecer em scena como -Eva no Paraizo Terreal! Pois engana-se redondamente. - -E foi pedir a D. Estanislada que lhe valesse n’aquella afflicção. - -Soledad tinha ido ao banho com o pae, mas D. Estanislada recebeu-o -amavelmente, prometteu-lhe pôr á sua disposição o guarda-roupa de que -precisasse. - -Julio de Lemos, muito captivado, agradeceu-lhe a amabilidade e, para -lisonjeal-a na sua formosura, contou-lhe a scena que se seguira ao -_pic-nic_ de Troia, disse-lhe que, no sorteio de damas a que se -procedêra, ella tinha cahido em sorte ao sueco. - -D. Estanislada riu muito com essa brincadeira, e explicou então a si -mesma os ciumes do conselheiro, e a presença do sueco, de noite, na sua -rua. - -Esta revelação não cahiu em cesto rôto. - -Vencida a difficuldade da _toilette_ para o estudante, tudo estava -prompto, e a noite da recita chegou finalmente. - - - - -XII - - -Subiu o panno. O palco representava uma sala, que fingia communicar com -outras. Ouvia-se um _sol-e-dó_, com pretensões a orchestra de salão. -Devia ser um baile. - - -SCENA I - -D. MENDO e D. DIOGO (_entram ambos, conversando, pela porta do fundo. O -sol-e-dó vae esmorecendo. Salienta-se á vista dos espectadores a casaca -de D. Mendo, que é antiga e enorme._) - - D. MENDO - - Mas se conhecem? - - D. DIOGO - - Sim! sim! - Agora, que estás no baile, - Emancipa-te de mim. - Passeia, namora, primo, - Faze a côrte, dize graças, - Pódes até, se quizeres, - Tu, morgado de Boaças, - Ser um rei entre as mulheres! - - D. MENDO - - Um rei com manto emprestado! - Julgo ouvir, a cada passo, - Dizer a voz de um palhaço: - «Largue a casaca, morgado!» - Que entre a fôrma e entre o fato - Deve a união ser tamanha - Como entre a casca e a lagosta, - Entre o ouriço e a castanha. - Mas eu com esta casaca - Cheiro a D. Miguel I. - Suppõe que eu sou a castanha: - Ella é o ouriço... cacheiro. - - D. DIOGO - - Ora adeus! Em Braga serve... - - D. MENDO - - Essa ironia é cruel! - Onde ella faria vista - Seria em Penafiel, - Que lá as casacas todas - São ainda mais pesadas - E têm as abas dobradas, - Dizem... - - D. DIOGO - - Pensei que sabias! - - D. MENDO - - Não. Eu já lá estive uns dias, - Mas nunca mudei de fato. - Ora eu com esta casaca - A que Bocage decerto - Fez no seu tempo uma quadra, - Devo par’cer um retrato - D’estes da Feira da Ladra! - E depois que desconcerto - Entre a casaca e o chapeu! - Percebem todos á legua - Que trago o que não é meu. - Um chapeu moderno, _claque_, - Fôrro preto, lettra de ouro, - Armado com boas molas, - Dando ao abrir-se um estouro. (_E abriu a claque com estrondo._) - A casaca... um monumento - De remota fundação! - Faz lembrar a sé de Braga - Com abas e cabeção; - A guerra de Troia em panno; - Affonso Henriques cosido. - Affonso Henriques decerto - É que eu trago em mim vestido! - - D. DIOGO - - Pateta! Mais te valia - Talvez deitar-te ao sol-posto - Com as gallinhas! (_ironico._) - - D. MENDO - - Que ouvi?! - Pôr as gallinhas, entendo, - Mas pôr o sol, nunca vi! - - D. DIOGO - - Ahi vem a dona da casa! - - D. MENDO - - Agora, que vou ter publico, - Sinto-me arder n’uma braza! - - -SCENA II - -_Entra Julio de Lemos em travesti de mulher. A sua entrada em scena -produz hilaridade no publico._ - - BARONEZA - - Ó morgado! que surpreza! - Que prazer! quanto eu estimo! - Beijo-lhe as mãos, D. Diogo, - Pois que nos trouxe seu primo. - - D. MENDO - - Baroneza! Eu folgo muito... - O meu peito rejubila... (_Inclina-se. Sóbe-lhe para a cabeça - o cabeção da casaca._) - (_á parte_) Não posso dár á cabeça, - Que me não suba a mochilla! - - D. DIOGO (_apertando a mão á baroneza_) - - E tem que me agradecer, - Porque o primo não queria - Vir ao baile! - - BARONEZA - - Póde ser! - - D. DIOGO - - Só questão de _toilette_. - Mas emfim... - - D. MENDO - - (_á parte_) Vim de casaca, - E ainda cabiam mais sete! - - BARONEZA - - O barão, quando soubér, - Ha de ficar encantado - Co’a surpreza do morgado. - Eu mesma lh’o vou dizer. - E agora, morgado, goze, - Que entre a fina flôr do Minho - Não ha quem lhe leve a palma, - Quem tenha mais gentil alma, - Melhor sangue em pergaminho, - Além do que nós sabemos... - Pois por cá todos lhe dão - Umas cem pipas de vinho - E oitenta carros de pão. - - D. MENDO - - Ai! baroneza! Foi tempo!... - Já não sou quem d’antes era. - Sinto-me triste, sou mono. - Matou-me o phylloxera! - Deu nas vinhas... e no dono! - - BARONEZA - - Não se chore... pobresinho! - Que não é occasião. - Se quizer... compro-lhe o vinho, - Seu primo... compra-lhe o pão. - - D. DIOGO - - Está dito, baroneza. - Quer o meu braço? - - BARONEZA - - Pois não! - Morgado, goze, namore, - Que eu vou dizer ao barão. (_A baroneza e D. Diogo saem de - braço dado por uma das portas lateraes._) - - -SCENA III - - D. MENDO (_só_) - - Goze! Namore! Tem graça! - Póde alguem ser tão audaz, - Que vá mostrar-se n’um baile - Assim, por deante e (_volta-se_) por traz! - Vim de rastos, constrangido, - Estou aqui compromettido! - Não saio d’aqui, não saio. - Fallar ás damas? Dançar? - N’essa tolice não caio. - Não me hão de lá apanhar! (_Sentando-se._) - Chego a Braga d’esta vez - Por uns dois dias ou trez. - Trago um fato de viagem: - Eis toda a minha bagagem. - Entro em casa de meu primo. - —Como vaes tu?—Que surpreza! - Ó diabo! adivinhaste! - Mas tu sabes que apanhaste - Um baile da baroneza?! - —Um baile?—Um baile!—E depois? - —Um baile d’estes que valem, - Dados em Braga, por dois. - —Não vou.—Has de ir.—Mas não posso! - —Não pódes! porque?—Por tudo! - Ou melhor, talvez, por nada! - Pensas que eu visto casaca - P’ra fazer uma jornada?! - Que é da casaca? Não tenho! - Gosto de andar á ligeira, - Cheio de sol e poeira, - Assim mesmo,—como venho. - —Mas, primo, talvez se arranje - Algum meio... deixa vêr. - —Só o capote de um conego - Me póde agora valer! - —Não rias! Que ideia! Espera! - Se me não falha a memoria, - A casaca do papá, - Que Deus tenha em santa gloria, - No guarda-roupa ainda está. - —Santo Deus! quero lá isso! - Ó primo! que reinação! - Uma casaca, talvez, - Com que o tio outr’ora fez - De valido papa-fina - Quando a Carlota Joaquina - Burlou a Constituição! - —Vae-se vêr. Tem paciencia... - Vem a casaca. Medonha! - Isto que eu trago vestido - E em que me sinto mettido - Como dentro d’uma fronha! - —Primo, não vou.—Qual historia! - Verás lá muitas assim. - N’esta Braga, que é fiel, - O tempo de D. Miguel - Dura ainda, e não tem fim! - Vaes á moda.—Á moda... antiga! - —Talvez que alguma morgada, - Camapheu como o seu broche, - Se sinta lisonjeada - D’esse aspecto _vieille-roche_. - —E entre no meu coração, - Por engano, e por seu pé, - Julgando, por ser em Braga, - Que vae ouvir missa á Sé! - —Ora adeus! Calças, collete, - Gravata, lenço, chapeu, - O resto da _toilette_, - Tudo isso, empresto-te eu. - E zás, põe me na tortura, - Despe-me, veste-me, entala-me, - Puxa, repuxa, estrebucha, - Desaperta, aperta, empala-me! - Traz-me ajoujado, arrastado, - Acho-me, sem saber como, - Preso dentro de uma sacca! - Vim a pé... n’esta casaca, - E o primo veio a meu lado! - - -SCENA IV - -(_D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão de fazenda entram -pela porta do fundo. D. Mendo levantas-se vendo-os entrar._) - - D. FAFES e D. GUALTER (_simultaneamente_) - - Ó que surpreza! Um abraço! - Que noite nem estreiada! (_abraçam-n’o de um e outro lado._) - - D. MENDO (_á parte_) - - Fica tão longe a casaca, - Que não senti mesmo nada! (_Olhando para o escrivão de fazenda, - que lhe abaixa a cabeça._) - Ó D. Gualter, ó D. Fafes, - Ser apresentado estimo - Ao distincto cavalheiro, - Que tendes por companheiro. - Será elle nosso primo? - - D. GUALTER - - Não é. Mas outra valia - Este senhor recommenda. - Isto já de fidalguia!... - - D. FAFES - - É o escrivão de fazenda. (_apresentando D. Mendo_) - Meu primo Mendo de Sousa - Noronha Alvim e Lambaças... - Aqui falta alguma cousa! - Emfim: senhor de Boaças. - - D. MENDO - - Falta o Tinoco materno. - De meu pae falta o Rolim. - - D. FAFES (_emendando_) - - Mendo de Sousa Noronha - Alvim Tinoco Rolim, - Senhor do Brejo e Boaças. - - D. MENDO - - Agora falta o Lambaças! - - D. FAFES (_rindo_) - - Nenhum de nossos avós - Faz falta onde estamos nós! - - D. MENDO (_ao escrivão_) - - Muito emfim me lisonjea - Conhecer este senhor. - Faça de conta, de ideia - Que me tem ao seu dispôr. - Estendo-lhe a minha mão, - Senhor... senhor escrivão - De fazenda... propria ou alheia? - - D. GUALTER (_precipitado_) - - Não faças troça do homem. - N’estes bons tempos felizes - De liberdade e igualdade - Nós andamos nas mãos d’elle - P’ra que não nos tire a pelle - Esticando-a nas matrizes. - - D. MENDO - - Então cá vocês não pagam? - - (_D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda_) - - D. GUALTER - - Pagamos pouco. Bem vês - Que ninguem faz em colheitas - O que antigamente fez. - - D. MENDO - - E então recorrem ás peitas! - -N’esta altura da representação começou-se a ouvir barulho no palco. Não -parecia que fosse rubrica da peça. - -D. Mendo, extranhando o barulho, dirigiu-se á porta do fundo, e gritou -para dentro: Calem-se, seus burros! - - D. GUALTER (_levantando a voz para poder ser ouvido_) - - Finge a gente que o estima, - Trata-o de Santo Antoninho, - Mão por baixo, mão por cima. - Se não ha nem pão nem vinho! - - D. MENDO (_descendo da porta do fundo, muito arreliado - porque o barulho entre-scenas continua_) - - Mão por cima... é bom criterio. - Mas mão por baixo... é mais serio! - - D. GUALTER (_explicando com o gesto correspondente_) - - Mão por cima e mão por baixo. - -Continua e augmenta o barulho entre-scenas. Sente-se fallar de rijo, -altercar. Da platêa rompem alguns scius. - - D. MENDO - - Isso então tinha outro nome - Quando não havia fome. - Chamava-se: ser capacho! - - D. FAFES (_em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder - dominar o barulho que vinha do fundo do palco_) - - Muito alegre este D. Mendo! - - D. GUALTER (_berrando para poder ser ouvido_) - - Parece rapaz, e é velho! - - D. FAFES (_gritando cada vez mais_) - - Tem uma casa soberba! - - D. MENDO (_com voz de estentor, para o escrivão de fazenda_) - - Tenho. Mas n’outro concelho. - -N’isto o barulho augmenta entre-scenas, sente-se cahir uma cadeira, e -de repente, correndo de um lado para outro, atravessa o palco Julio de -Lemos, em _travesti_ de baroneza de Piães e atraz d’elle, aos pontapés, -um dos quaes ainda lhe raspou, um sujeito de cabellos grisalhos, baixo, -atarracado, ardendo em colera. - -Uma grande parte do publico, composto de setubalenses, reconheceu o homem -dos pontapés: era o pae do estudante de Alcacer. As familias banhistas, -incluindo as Rodartes e Soledad, assustaram-se. Ouviram-se guinchos -hystericos. Na platêa explodiram risadas. E ao charivari no palco -correspondeu o charivari dos guinchos e das gargalhadas na platêa e nos -camarotes. - -Os actores, D. Mendo, D. Fafes, D. Gualter e todos os mais, corriam de -um lado para outro gritando, berrando, apparecendo e desapparecendo por -entre os bastidores. - -O administrador do concelho sahiu precipitadamente do seu camarote. - -Ao cabo de cinco minutos de tumulto, o panno desceu. - -Na platêa continuavam as risadas, mas nos camarotes iam diminuindo os -guinchos. - -Vozes explicavam da platêa para os camarotes: - -—Não é nada! É o pae do estudante que o veio buscar! - -—É o pae! é o pae! Não se afflijam, minhas senhoras. - -Alguns homens sahiam da platêa, corriam ao palco. - -D. Enrique berrava ao fundo do seu camarote: - -—_Que broma! que broma!_ - -Finalmente, ao cabo de um quarto de hora de verdadeira ingrezia, o panno -subiu, e Aurelio Goes, ainda enfardelado na sua enorme casaca de D. -Mendo, veio dizer á bôcca da scena: - -—Minhas senhoras e meus senhores: tendo desapparecido do palco o sr. -Julio de Lemos, o espectaculo não póde continuar hoje. - -O proprietario das Alcaçovas, que tinha ido ao camarote das Rodartes, -para lhes explicar o que tudo aquillo era, e tranquillisal-as, dizia: - -—Bem me constava a mim que o pae do Lemos estava muito quesilado com -elle, e não tardaria a vir buscal-o. Rebentou hoje como uma bomba! - - - - -XIII - - -Imagine-se quanto deu que fallar este caso estupendamente comico! - -Pela manhã dizia-se na praia que o pae do estudante havia corrido atraz -d’elle pela rua da Conceição, e que um popular, vendo uma mulher a fugir -e um homem a gritar que a prendessem, deitara a mão á supposta mulher; -que Julio de Lemos apanhára n’esse momento nova roda de pontapés, e que -o pae, agarrando-lhe por um braço, o levára para a hospedaria, tendo -embarcado ambos no comboio da manhã para Lisboa. - -Episodios altamente risiveis, boquejavam-se: soube-se então que o -jornalista havia mandado vir de Lisboa, para si proprio, uma coroa de -louros, a qual coroa de louros ficára no theatro pendurada de um prego. -Fazia-se _calembour_ com a palavra _prego_, porque se soube logo tambem -a quem o jornalista pedira emprestado o dinheiro para pagar a coroa. -Accrescentava-se que o estudante se esquecêra, na atrapalhação em que -ficára, de restituir a _toilette_ a D. Estanislada, mas averiguou-se -depois que o pae de Julio de Lemos havia mandado entregar tudo. - -Aurelio Goes não apparecia, estava envergonhado e furioso: envergonhado -pelo _fiasco_ e furioso por vêr perdida a occasião de trepar para o -pedestal de Garrett. - -Á noite asseverou-se, e era verdade, que Aurelio Goes havia partido no -comboio da tarde para Lisboa, á franceza, sem dizer adeus a ninguem, nem -mesmo á pessoa que lhe havia emprestado o dinheiro para a coroa de louros. - -Só duas pessoas, não que ellas o dissessem a ninguem, haviam tirado algum -proveito d’essa mallograda récita. - -A primeira era D. Estanislada que, graças ao estudante, ficára sabendo -que, no sorteio de Troia, havia cahido em sorte ao sueco. - -A segunda era o sueco que, na noite da récita, tinha offerecido um -camarote de segunda ordem á senhora Magdalena e á menina Ricardina. - -Pois que! A menina Ricardina soubera tecer a sua rede, e apanhou nas -malhas o sueco. Foi com esse fim que ella o chamára para lhe fazer as -confidencias que sabemos. Elle, encantado com tão boa fortuna, porque -era essa a primeira portugueza que se lhe tornava accessivel, voltára na -noite seguinte, e logo n’essa noite ficou estabelecido o galanteio. - -A menina Ricardina contou á mãe que o sueco lhe tinha dito que queria -desposal-a, e a sr.ª Magdalena, depois da filha lhe prometter que _teria -muito juizo_, prometteu ao Senhor do Bomfim um sueco de cêra, se o -namoro viesse a disparar em casamento. - -Annunciada a récita, o sueco offereceu á namorada um camarote de segunda -ordem, camarote de industria escolhido para dar pouco nas vistas: era de -bôcca. - -E logo que a sr.ª Magdalena e a filha se sentaram no camarote offerecido, -o sueco, a proposito de saber se ellas queriam alguma coisa, foi -visital-as, e ficou. - -Sentou-se discretamente ao fundo do camarote, encantado com a mobilidade -gracil com que Ricardina mexia a cabeça, olhando para um e outro lado -como um passaro na gaiola. - -Ella estava delirante de alegria por se vêr no theatro, coisa que já -lhe não acontecia havia dois annos, desde que um rapaz, que tinha ido a -banhos, lhe offerecera duas cadeiras no barracão dos Dallots para ella -assistir com a mãe á representação da _Mão do finado_. - -Mas vêr-se de camarote, n’um espectaculo concorrido pelas melhores -familias da terra e de fóra, estonteava-a d’alegria e de orgulho. - -Quando principou a desencadear-se no palco a tempestade, que fez gorar o -espectaculo, a menina Ricardina pôz-se de pé, como quasi toda a gente, e -aproveitou a occasião para ir sentar-se, ao fundo do camarote, perto do -sueco. - -A mãe ficou muito entretida a vêr o escandalo do palco, sem dar a menor -attenção ao escandalo do camarote. O sueco e a menina Ricardina, de mãos -entrelaçadas, muito ternos, já se não importavam senão comsigo mesmos, -indifferentes ao tumulto que de repente se havia levantado. - -Entretanto D. Estanislada estranhava não vêr o sueco, porque, depois que -o estudante lhe contára a historia do sorteio, ella havia architectado -um romance de amor internacional. - -O sueco, na sua opinião, tomára a sério o sorteio, o sueco amava-a, e -por isso o conselheiro. Antunes o tinha encontrado perto da casa de D. -Enrique, com o que, como sabemos, ficára furioso. - -Havia, é verdade, uma carta do sueco para Soledad, carta que D. -Estanislada e o conselheiro abriram e leram, mas essa carta bem podia -ser um habil disfarce do sueco para prevenir a hypothese de qualquer -escandalo futuro. - -Não fingira a principio o conselheiro, tambem habilmente, namorar -Soledad para afastar suspeitas do seu galanteio com D. Estanislada? Pois -muito bem! O sueco fazia o contrario, simulava namorar Soledad para se -aproximar, sem dar nas vistas, do coração de D. Estanislada. - -A hespanhola mãe principiava a sentir-se amada pela segunda vez em -Setubal. - -O sueco mal podia imaginal-o! Elle andava n’umas paschoas desde que -possuia o coração da menina Ricardina. Já se não importava de Soledad, -que seria mais bella, não o negava, mas não era tão accessivel, tão -meiga, tão carinhosa para elle. - -O theatro, n’aquella noite da récita mallograda, foi-se esvaziando, os -espectadores sahiam fazendo commentarios em voz alta, rindo, só a sr.ª -Magdalena, a menina Ricardina e o sueco se deixaram ficar para ser os -ultimos a sahir. - -Já começavam a apagar-se as luzes quando os tres desceram. E como a -noite estivesse serena, posto não houvesse luar, o sueco convidou a sr.ª -Magdalena a irem dar um pequeno passeio. Ella objectou que poderia ser -isso reparado, mas a filha, vendo que a mãe não se entendia muito bem -com a aravia do sueco, replicou que não havia luar e que até fazia bem -dar um passeio n’uma noite de verão: que bem encalmada saira ella do -theatro. Calma d’amor, principalmente, porque o sueco, de mãos enlaçadas -com a menina Ricardina, fizera subir o thermometro. - -Foram caminhando até ao largo das Almas, e ahi metteram para o Campo do -Bomfim, os dois adiante, a sr.ª Magdalena fiscalisando-os. - -Contornaram o campo, e a sr.ª Magdalena, quando passavam em direcção á -capella do Senhor do Bomfim,, não se dispensou de parar para rezar de -longe á milagrosa imagem da sua especial devoção. - -Foi n’essa occasião que o sueco roubára um beijo á menina Ricardina. - -Estou a imaginar o que algum dos mais ingenuos dos meus leitores -dirá comsigo mesmo: «Ah! o primeiro beijo! que delicioso momento de -felicidade, esse!» - -Perdão, leitor ingenuo! Não era o primeiro beijo que elle dava, mas o -terceiro. Sim, o terceiro, um terceiro... franciscano, a julgar pela -modestia com que passou dos labios do sueco para a face da menina -Ricardina, como se passasse de uma cella para outra. Dir-se-ia que era um -beijo de sandalias, porque passou sem fazer barulho. - -Quando recolheram a casa, a sr.ª Magdalena disse á menina Ricardina: - -—Não sei como tu te podes entender com o sueco! - -—Por quê, minha mãe? - -—Eu entendo muito pouco do que elle diz! - -—Pois eu entendo-o perfeitamente... - -Ó amor! ó lingua universal dos corações namorados! tu és a unica lingua -que se póde aprender sem grammatica e sem diccionario! lingua de -substantivos apenas, em que dois nomes proprios se juntam para formar o -plural! - -Todos os acontecimentos que se tinham dado nos ultimos dias haviam -contribuido para diminuir e empallidecer a côrte de admiradores que, -antes da chegada das Rodartes, acompanhava por toda a parte a bella -andaluza. - -Os dois alemtejanos, como dois corações patriotas, desertaram da -côrte castelhana para a côrte portugueza, logo que o Alemtejo se viu -soberanamente glorificado na pessoa das tres Graças da Messejana. - -O sueco havia-se retirado para Cintra, segundo constava, quando -Soledad fôra para Lisboa com o pae. Estava certamente contrariado pela -concorrencia que lhe faziam os outros pretendentes á mão da bella -andaluza. Ella propria pensava isto. - -O conselheiro Antunes retirára-se para Santarem. - -Depois da noite fatal da récita, o estudante e o jornalista -desappareceram, abandonaram o seu posto de cortezãos. - -Restavam apenas o hespanhol, o Vianninha e os officiaes de caçadores. - -Já não havia _tertulias_ possiveis, Soledad passava as noites sentada com -a familia n’um banco da Praia, aturando ás vezes D. Ramon, outras vezes o -Vianninha ou o tenente Epaminondas ou o alferes Ruivo, mas nada d’isso, -que era pouco, podia contentar a sua alma de andaluza: a _tertulia_, a -querida _tertulia_, que tanto lhe electrisava os nervos, fazia-lhe muita -falta. - -Abrindo e fechando o _abanico_, aborrecia-se, chegava a bocejar. Tinha -desesperos intimos, raivas surdas. - -E, quando passava pela casa das Rodartes, e via luz nas janellas, uma -revoltada emulação fazia brilhar, n’um relampago, as pupillas negras dos -seus olhos. - -—Ao menos as tres irmãs, as Rodartes, entretinham-se ás noites, ao passo -que ella, rainha quasi desthronada, só tinha por futuro um banco da Praia -e uma côrte cada vez mais reduzida. - -Uma vez, com manifesto mau humor, perguntára Soledad ao tenente -Epaminondas, ironicamente, se aquillo que havia ás noites em casa das -Rodartes eram _tertulias_. - -E o tenente, muito desdenhoso, respondera rindo: - -—Quaes _tertulias_! São os dois alemtejanos que estão a jogar o loto na -côrte do _Padre Eterno_! - -Mas Soledad, raivosa, mordera o beiço. - - - - -XIV - - -D. Ramon Mendoza, que era o hespanhol mais insipido de que ha memoria, -não conquistára vantagens amorosas junto de Soledad. - -Ella achava-o, como toda a gente, uma individualidade incolor, fugidia, -d’estas que não deixam a ninguem uma impressão duradoira. - -Apesar de vêr muito dizimada a sua côrte galante, Soledad não dava maior -attenção ao hespanholito. Nem o coração nem a razão a impelliam para -elle. O coração recebia-o com indifferença; a razão dizia a Soledad que, -depois de ter tido um tão variado cortejo, seria um desaire recorrer á -_prata de casa_,—a um patricio insignificante. - -Sabendo que o sueco voltára a Setubal, lembrou-se de atiçar de novo a -chamma do amor n’esse coração da Scandinavia, que tanta vez se lhe havia -rendido. Mas por onde andava elle, que lhe não apparecia? - -Uma noite, tendo a familia Saavedra recolhido a casa, depois de passear -na alameda da Praia, Soledad ficou por algum tempo á janella. - -A noite estava calmosa, a casa era abafada, tinha apenas duas janellas. -D. Enrique deitára-se, fôra para a cama lêr os jornaes hespanhoes que -n’esse dia o correio lhe trouxera. - -D. Estanislada andava, como sabemos, em reservada observação a respeito -do sueco: se elle era um namorado timido, como suppunha, ella o alentaria -com a sua audacia de abelha-mestra andaluza. - -Deitado o marido, D. Estanislada abriu a outra janella da sala, a -pretexto de tomar ar. Cada uma, mãe e filha, occupava sua janella. E -ambas tinham o mesmo pensamento: vêr se o sueco, protegido pela noite, -passaria por ali. - -A menina Ricardina, por dentro da vidraça do seu _rez-de-chaussée_, -esperava tambem o sueco, e sentia-se contrariada pela presença das -hespanholas, que pareciam não ter somno n’aquella noite. - -A principio suppôz que mãe e filha estivessem apenas tomando o fresco, -mas deram onze e meia no relogio de S. Julião, deu meia noite, e ellas -não sahiam da janella. - -A meia noite era a hora marcada para a entrevista do sueco com a menina -Ricardina. A sr.ª Magdalena dormia profundamente a essa hora. A filha -levantava-se do leito, abria cautelosamente a janella, vinha esperar, no -silencio da noite, o sueco. Mas n’aquella noite, vendo as hespanholas, -ficára por dentro da vidraça, espreitando-as. - -Á meia noite em ponto—a pontualidade em tudo é uma caracteristica das -raças do norte—o sueco assomou á esquina da rua, que julgava deserta a -essa hora, segundo o costume. - -Viu porém gente nas duas janellas da casa de D. Enrique, e fechada a -vidraça de Ricardina. - -Ficou por sua vez contrariado, perplexo, sem saber se havia de retroceder -ou de avançar. Coseu-se com a sombra do muro, parou, indeciso. - -N’esse momento tres corações de mulher monologaram simultaneamente. - -O coração de Ricardina: - -—É elle! - -O coração de Soledad: - -—É elle! - -O coração de D. Estanislada: - -—É elle! - -O sueco observava de longe, via dois vultos de mulher nas janellas da -casa de D. Enrique, sem comtudo poder distinguil-os. Mas um d’esses -vultos havia de ser, certamente, o de Soledad, e então aviventou-se no -coração do sueco o rescaldo da agradavel impressão, que a belleza d’essa -mulher lhe havia causado. - -Ella era realmente formosa, tinha uma graça acirrante, uma graça -meridional, que punha em vibração os nervos de todos os homens, -especialmente os de um homem do norte. - -Mas Ricardina, sem ser tão bella, nem tão graciosa, sabia melhor talvez -conquistar e deixar-se conquistar. As pequenas felicidades que Ricardina -já lhe havia concedido, eram o prologo tentador de uma promessa, e não ha -homem nenhum, seja do norte ou do sul, que se não sinta vibrante a dois -passos de uma posse sem restricções. - -Estava, pois, o sueco ardendo em dois fogos, e muito longe de imaginar -que um terceiro incendio o ameaçava de perto. Esse terceiro incendio era -D. Estanislada. - -De repente, olhando do escuro para a casa de D. Enrique, viu mexer-se -n’uma das janellas um lenço branco. - -Era o lenço de Soledad. - -D’ahi a momentos, na segunda janella, outro lenço branco passou -cavillosamente pelas narinas de D. Estanislada. - -Elle viu tudo isto, e, sem poder reconhecer Soledad nem D. Estanislada, -ficou cada vez mais desorientado. - -Lembrando-se de que Ricardina, comquanto tivesse a janella fechada, o -devia estar esperando, olhou para o _rez-de-chaussée_, e viu uma ponta de -lenço assomar por baixo da vidraça e logo desapparecer. - -Sem saber o que fizesse, deixou-se estar no escuro, esperando os -acontecimentos. - -D’ahi a pouco, um lenço branco cahiu de uma das janellas de D. Enrique -para a rua, e ouviu-se descer uma vidraça. - -Era Soledad que ia deitar-se e que, disfarçadamente, para que a mãe não -désse por isso, tinha deixado cahir o lenço como de um balcão da idade -média. - -D. Estanislada, a quem não era facil enganar, viu a manobra do lenço -da filha e, mal ella voltara costas, fez o mesmo, com mais algum -descaramento: agitou o lenço e deixou-o cahir á rua. Depois fechou com -estrondo a janella. - -D. Enrique, que, tendo passado pela vista os jornaes, já dormitava, -accordou ouvindo o barulho da vidraça; teve um estremecimento nervoso e -regougou: - -—_Que broma!_ - -Voltando-se para o outro lado, tornou a pegar no somno. - -O sueco ainda esteve cerca de um quarto de hora alapardado no escuro, -mas, vendo abrir-se a janella de Ricardina, sahiu da sombra, sem todavia -perder de vista os dois lenços brancos, que estavam no chão. - -Quando elle se approximava do _rez-de-chaussé_, sentiu abrir-se -cautelosamente a porta da sr.ª Magdalena. - -Um fremito de electricidade amorosa percorreu todo o seu corpo; n’aquella -noite o amor triumpharia sem restricções, pensou elle. - -Mas Ricardina atravessou rapidamente a rua, com um passinho de passaro, -apanhou os dois lenços que estavam no chão debaixo das janellas das -hespanholas, e correu para casa. - -O sueco, sem saber a façanha gloriosa de Martim Moniz no castello de -Lisboa, ia a imital-o por intuição, quiz atravessar-se na porta, para -entrar, mas Ricardina empurrou-o com desabrimento, dizendo iracunda: - -—Não! nunca! - -E fechou a porta da rua. Depois fechou as portas da janella. - -E o sueco achou-se em plena rua, cada vez mais atarantado, sem perceber -nada de tudo aquillo. - -Ricardina estava como uma bicha contra o sueco, contra as hespanholas, -contra o enguiço d’aquella noite. - -Jurava vingar-se de tudo e de todos, e, tendo visto cahir os lenços, -quizera adquiril-os como prova da leviandade de Soledad e de D. -Estanislada. Percebera, com a sua aguda intuição maliciosa, a comedia -representada pela mãe e pela filha, procurando enganarem-se uma á outra. - -A primeira ideia de Ricardina foi lançar mão de todos os meios que -podessem libertal-a da visinhança das hespanholas: lembrou-se de -mandar os lenços a D. Enrique, dentro de uma carta anonyma, em que lhe -explicasse o que se tinha passado. - -Mas receando ir provocar uma tragedia domestica—como ella conhecia mal D. -Enrique!—resolveu, por fim, enviar á filha o lenço da mãe, enviar á mãe -o lenço da filha, descobrindo o plano de ambas, e ameaçando-as com uma -denuncia. - -Assim fez. Chamou um rapasito que tinha andado com ella na escóla, e -encarregou-o de escrever as duas cartas, e de sobrescriptal-as. - -A D. Estanislada dizia: - -«Ahi vae o lenço que a senhora sua filha atirou hontem ao sueco, pensando -que usted não dava por isso. Tenha tento na bola, quando não eu aviso o -seu homem, e espalho em toda a cidade este grande escandalo. O melhor é -safar-se d’aqui quanto antes.» - -Para Soledad o texto era este: - -«A senhora sua mãe, logo que usted fechou hontem a janella, atirou ao -sueco este lenço, que lhe mando. Veja usted que tem dentro das portas a -sua primeira rival. Aconselho-a, se quizer evitar um grande escandalo, a -que trate de sahir de Setubal». - -Ricardina esperou que D. Enrique sahisse de casa, para mandar entregar, -pelo mesmo rapasito, as duas cartas, com os lenços dentro. - -O expediente surtiu effeito, porque n’essa noite não se abriram as -janellas da casa de D. Enrique. - -O sueco, ao dar da meia noite, foi, muito timidamente, procurar uma -reconciliação com Ricardina. - -Viu a janella fechada, mas, perdendo um pouco a timidez, aproximou-se da -vidraça: Ricardina estava n’uma posição estudada, com o rosto apoiado na -mão direita, olhando para o céo onde a lua passava entre nuvens. - -O sueco bateu com os dedos na vidraça, e Ricardina, que lhe seguia -disfarçadamente os movimentos, fingiu despertar, sobresaltada, da sua -apaixonada _réverie_. Encarando com o sueco, fez um movimento de desdem, -e recahiu em simulada contemplação. - -Elle pôz as mãos como supplicando-lhe que levantas-se a vidraça. - -Ricardina, mostrando-se contrariada, abriu a janella e perguntou-lhe de -repellão: - -—O que quer o sr. de mim? Ainda tem cara de me apparecer aqui?! - -O sueco desculpou-se: que sim, que tinha cara, porque tinha coração. -Que a amava muito. Que na vespera não quizera aproximar-se para a não -comprometter. Que não tinha culpa de que as hespanholas—e n’isto teve -graça—se lembrassem de fazer d’elle lavadeira, dando-lhe lenços para -lavar. - -Ricardina mostrou-se resentida, ciumenta, e não quiz dizer n’essa noite -a sua ultima palavra de perdão. Era uma tactica habil, para subjugar o -sueco, para o obrigar a reconquistar o terreno perdido. - -Por dentro dos vidros, ás escuras, Soledad e D. Estanislada tinham vindo, -cada uma por sua vez, espreitar para a rua, na esperança de que o sueco -voltasse. - -Ambas o viram: Soledad surprehendeu-o n’uma attitude comica, a implorar -de mãos postas á menina Ricardina que levantasse a vidraça. Ficou -indignada, não tanto pela attitude humilhante d’elle, como por ter a -certeza de que lhe roubavam... _mais um_. - -D. Estanislada, a quem a filha não fallava desde pela manhã, deixou-a -deitar para vir pé-ante-pé espreitar por dentro dos vidros. - -Reconheceu facilmente a corpolencia do sueco, dobrado sobre a janella de -Ricardina. - -—Ai! pensou D. Estanislada, que elle namora a lambisgoia da filha da -senhoria! Estou bem arranjada com maus visinhos de ao pé da porta! O -melhor é tratar de pôr-me ao fresco, porque eu já fiquei desconfiada -quando n’aquella noite, em que cá esteve o conselheiro, a tal menina -Ricardina deixou cahir o annel debaixo da meza! - -E reflectindo um instante: - -—Ai! que foi ella que bateu e gritou á porta! - -No dia seguinte, á volta do banho, quiz o acaso que as duas hespanholas -encontrassem o sueco. Elle ia para cumprimental-as, quando Soledad, que -levava grande dianteira á mãe, lhe disse bruscamente: - -—_Picaro!_ - -Sem ter percebido bem o que Soledad dissera, mas reconhecendo em todo -caso que ella quizera insultal-o, atordoado, indeciso, levou a mão ao -chapeu quando passava junto de D. Estanislada. - -E ella, sem parar, disse-lhe altivamente: - -—_Infáme!_ - - - - -XV - - -Ás sete horas da manhã, Araujo Rodarte e as suas tres netas sahiram, como -de costume, para o banho. - -Atravessaram o passeio da Praia de Troino, riscado havia tres annos. -Os eucalyptos haviam crescido com a precocidade que caracterisa o -desenvolvimento d’estas arvores, de modo que abrigavam uma legião de -passaros, cuja chilreada era como que um doce concerto matutino. - -Sobre o lago, e nas seis extensas avenidas que do lago irradiam, algumas -borboletas passavam, batendo, na palpitação da luz, as suas azas brancas. - -Um rapasito, que vinha de levar o almoço ao pae, empregado na Doca, -havia poisado a cafeteira sobre a borda do lago, e, de joelhos, brincava -mettendo as mãos na agua, agitando-a, para fazer turbilhonar os peixes -vermelhos. - -As Rodartes e o avô sentaram-se alguns momentos em dois dos bancos -que torneam o lago, porque o sol ia descobrindo, e era agradavel aos -banhistas, na travessia de casa para o banho, descansar na frescura -d’aquelle oasis. - -Depois cortaram na direcção da praia, a que faltava o pittoresco das -praias do norte do paiz, onde os arruamentos das barracas alvejam -garridamente. - -Em Setubal o systema seguido é o do wagon e o da prancha. Os banhistas -despem-se e vestem-se nos compartimentos do wagon, e mergulham na agua -agarrados á prancha. Os _mirones_ aproveitam a sombra escassa do wagon -para sentar-se a gosar o espectaculo da praia. - -Salomé e o avô, que não tomavam banho, sentaram-se á sombra, emquanto -Hilda e Maria Ignez foram fazer a sua _toilette_ balnear. - -O Sado estava tranquillo e diamantino. Alguns golfinhos davam saltos, ao -largo, n’uma folia de _clowns_ aquaticos. - -Sobre a abertura da barra a luz cahia em jorros doirando o mar, e a torre -do Outão, com os seus contornos duros, dava relevo á margem direita do -Sado. - -A concorrencia de banhistas era, áquella hora, diminuta. Uma creança, -nos braços do banheiro, gritava como possessa, e outra creança, de -sete a oito annos, mettida dentro d’agua, ria de vêr chorar a outra, e -chapinhava-a saracoteando-se no banho. Uma hespanhola gorda, agarrada á -prancha, resfolegava como uma phoca. E um padre, de camisola de malha, -fazia ensaios de natação inhabil, arrastando-se na ondulação da agua até -ir esbarrar na areia. - -Araujo Rodarte e Salomé estiveram um momento calados, até que, de -repente, disse elle á neta: - -—Admira não estarem cá hoje os nossos patricios! - -—Foram a Lisboa tratar de negocios, segundo disseram ás manas, respondeu -Salomé. - -E o velho, com ar de alegre ironia, observou: - -—Como ellas andam bem informadas! - -Salomé sorriu-se. - -—Sempre quero vêr—disse o Rodarte após um momento de silencio—se aquellas -duas senhoras—referia-se a Hilda e Maria Ignez—terão coragem para me -fazer alguma traição!... - -—Alguma traição?! - -—Sim, se terão coragem para me deixar só comtigo na Messejana! - -—Não pense n’isso, avôsinho. - -—Dizes tu que não pense n’isso! Mas em que hei-de eu pensar senão em -vocês! Que tenho eu que me prenda agora mais no mundo?! A velhice não -me tornou ainda tão tolo, que não perceba o que é um namoro. Lá de que -as tuas irmãs são requestadas pelos nossos patricios, já não posso eu -duvidar. E não me revolta isso, mas entristece-me. Sempre vos tenho dito -que não tenhaes pressa de casar, sobretudo de casar mal, porque estaes -habituadas a viver bem; mas não posso levar a minha exigencia até ao -ponto de vos querer para freiras. Que anda moiro na costa, é certo, e que -os dois nossos patricios são pessoas estimaveis, e maridos convenientes, -não é menos certo. Mas o que me entristece é o receio de vêr desfeito de -um dia para o outro o nosso pequeno grupo de familia, indo a Hilda para -Reguengos e a Maria Ignez para as Alcaçovas. Ficaremos nós, como dois -solitarios, no casarão da Messejana. E tu, Salomé, e tu, que noticias me -dás do teu coração?... - -—Nem o sinto! respondeu, sorrindo, Salomé. - -—Pareceu-me que o pateta do Vianninha pretendia fazer-te a côrte... - -—Sim... talvez. Perdia o tempo. - -—Já anda desilludido, porque apparece menos. Era um mau casamento, porque -é sempre um mau casamento aquelle em que se conquista uma supposta -felicidade á custa da infelicidade de outrem. O pateta tem feito soffrer -a Sequeira, que se apaixonou por elle, e que podia empregar-se melhor. E -o ratão do sueco! o que é feito d’elle? - -—Creio que andará arrastando a aza á _señorita_. Não o tenho visto. - -—Grande aza deve ser, se fôr proporcional ao hombro! Olha lá: o -hespanholito? - -—D. Ramon? - -—Sim. - -—Deve andar com os seus patricios. Tambem o não tenho visto. - -—De toda essa _ala dos namorados_ que ahi appareceu tão galharda, apenas -se salvaram talvez dois cavalleiros andantes. - -—Quaes, avôsinho? - -—Quaes! Os que combatem por tuas irmãs, e que m’as querem levar, cada um -para sua terra differente... - -N’este momento Hilda e Maria Ignez, vestidas para o banho, sahiram do -wagon. - -São raras as mulheres que conseguem triumphar de uma tão desgraçada -_toilette_: blusa e calção de flanella. Mas principalmente Hilda, graças -á sua correcta plastica, livrava-se do ridiculo da _toilette_. O relevo -do seio, accentuado sem exagero, aformoseava-lhe o busto. - -Sentindo-as fallar, o avô gritou-lhes logo: - -—Não apanhem sol, meninas! - -—Já vamos, avôsinho, já vamos, responderam ellas quasi simultaneamente. - -E, dando as mãos uma á outra, saltaram da prancha ao mesmo tempo, fazendo -agitar a agua, que salpicou a prancha e ainda o wagon. - -Rindo e mergulhando, o banho foi para ellas, como sempre, uma folia quasi -infantil. - -Araujo Rodarte, ouvindo-as, ficou pensativo, calado. O seu espirito -fixou-se n’um pensamento, que, momentos antes, havia revelado a Salomé: -queriam roubar-lhe aquellas duas netas, e entristecia-o o lembrar-se que -tinha de separar-se d’ellas. - -Estavam ainda as duas Rodartes no banho, quando chegaram á praia o -alferes Ruivo e o tenente Rosalgar, que não deixavam nunca, todas as -manhãs, de ir dár uma vista de olhos ás banhistas. - -Desde o mallogrado espectaculo da _Noite sinistra_, aquelles dois -officiaes, bem como o tenente Epaminondas, ficaram sendo conhecidos no -café _Esperança_ pelos nomes dos personagens que na peça lhes haviam sido -distribuidos. - -Assim, por isso que as alcunhas se tinham já divulgado, podemos dizer -que _D. Fafes Estorninho_ e _D. Gualter Byscaia_ estão sobre o wagon, -conversando com Araujo Rodarte e Salomé, sem comtudo deixarem de dar -attenção ao banho de Hilda e Maria Ignez. - -—Parece-me, disse aos dois Araujo Rodarte, que ainda não tinha tido o -gosto de os vêr desde aquella noite.... - -—Aquella _Noite sinistra_! atalharam ambos os officiaes, fazendo allusão -ao titulo da peça, e rindo ás gargalhadas. - -—Foi pena que tivessem tanto trabalho! - -—Tudo aquillo divertiu, respondeu o alferes Ruivo. Divertiu mais ainda, -talvez, do que se se tivesse preenchido todo o espectaculo. E deixou -recordações alegres para muito tempo! Sabem v. ex.ᵃˢ uma coisa? Desde a -_Noite sinistra_ eu passei a ser conhecido por _D. Gualter Byscaia_, e -aqui o tenente por _D. Fafes Estorninho_. - -—Tem graça! observou Araujo Rodarte. - -Os dois officiaes continuaram a rir, enviezando o olhar para Hilda e -Maria Ignez, que sahiam do banho, subindo á prancha. - -—Mas, disse Salomé, ainda entrava tambem um collega de v. ex.ᵃˢ.... - -—Era o Epaminondas, minha senhora, respondeu o tenente Rosalgar. Esse é o -_D. Diogo Cucufate_. - -Salomé e o avô riram. - -—E a comedia do Goes parecia ter algum merecimento. Foi pena que não -chegasse ao fim! disse Araujo Rodarte. - -—Pena especialmente para o Lemos—observou o alferes Ruivo—que nunca foi -egualado em tamanha desgraça por nenhum Talma amador! - -—Pobre rapaz... e pobre pae! reflexionou Araujo Rodarte. - -—Eu nunca vi apanhar tanto pontapé! atalhou o tenente Rosalgar. - -—E como o Julio, accrescentou o alferes, largou a fugir vestido de -mulher, galgando dois a dois os degraus da escada até se vêr na rua! - -—O que lhe valeu foi não tropeçar no vestido! commentou o tenente. - -—A D. Estanislada esteve em risco, disse o alferes, de perder uma das -melhores peças do seu guarda-roupa. - -—Não! Quem perdeu a peça foi o Goes. A peça e a gloria! - -Riram todos muito com esta observação do tenente Rosalgar. - -E d’ahi a momentos o alferes: - -—A gloria e... a coroa! - -—O que é isso da coroa? perguntou Araujo Rodarte. - -—Ah! Pois v. exc.ᵃˢ não sabem? O Goes tinha mandado vir de Lisboa uma -coroa de louros para se coroar a si proprio! - -—Sim?! perguntou Salomé. - -—Sim, minha senhora, explicou o alferes. Ora o melhor da passagem é que -foi o Marcolino, marcador do café _Esperança_, quem emprestou ao Goes o -dinheiro para pagar a coroa, e parece que está resolvido a rifal-a para -vêr se salva o emprestimo. - -—Isso tem muita graça! apostrophou Araujo Rodarte. Eu recebi lá em casa -a importancia do meu camarote. Se soubesse que se rifava a coroa, tinha -reservado essa quantia para me habilitar a ser coroado, perorou o velho -rindo. - -—O administrador do concelho, de combinação com o presidente do conselho -director do Asylo, resolveu, visto que o espectaculo não chegou a -ultimar-se, mandar restituir aos espectadores a importancia das -respectivas entradas. Mas o Marcolino fez justiça por suas proprias mãos: -vendo a coroa dependurada no camarim do Goes, deitou-lhe a mão, para não -perder tudo, e vae rifal-a. - -—Uma acção bonita, alvitrou o tenente Rosalgar, era comprar um bilhete da -rifa em nome de Bocage, que tem mais direito á coroa do que o Goes. - -—Não! eu cá, se me sahir o premio, disse o alferes, faço presente da -coroa á tia Felismina do hotel Escoveiro: ao menos, durante um semestre, -não nos ha-de faltar louro na comida. - -—Pois o melhor de tudo, observou Araujo Rodarte, era mandar de presente -a coroa ao rapaz, porque lhe póde servir para outra vez. - -—N’essa não cáe o Marcolino! - -D’ahi a pouco mais de dez minutos, Hilda e Maria Ignez sahiam do wagon. - -O Rodarte e as netas despediram-se dos dois officiaes. - -E o alferes Ruivo ficou dizendo ao tenente: - -—Ellas vinham do banho um appetite! - -—Ó filho, a Hilda é uma mulher de truz! e a outra não é nenhuma asneira -tambem! - - - - -XVI - - -D. Estanislada principiou a pensar na conveniencia de sahir de Setubal. - -Desde o momento em que uma pessoa d’aquella terra possuia dois dos -seus segredos amorosos, conhecia a historia das suas leviandades -internacionaes, um pouco serodias, só restava á delinquente fazer -ablativo de viagem, para evitar a atoada do ridiculo. - -D. Enrique incommodava-a menos que o ridiculo. Não era do marido que -receava, mas das más linguas, que n’uma terra pequena ferem mais, porque -mordem de perto. - -Indignava-a o preconceito social que impõe ao coração humano o dever de -esfriar antes de morrer. Segundo as praxes estabelecidas, uma mulher de -vinte annos póde ter vinte namoros. Acha-se isso muito natural, e diz-se -d’essa mulher com um certo ar de desculpa: «É alegre». Mas se uma mulher -de quarenta annos tiver dois namoros, toda a gente a censura, e a opinião -publica não faz senão gritar por toda a parte: «É devassa». - -Ora a boa logica ensina que a mulher de quarenta annos tem menos tempo -para viver do que a mulher de vinte. Rasão é esta para aproveitar o -tempo, para se despedir da vida, que já não póde ser longa. - -A propria natureza intercallou o dia natural, que é um symbolo da -existencia humana, entre dois crepusculos, o da manhã e o da tarde. -Porque ha de pois ser negado ao coração o direito de ter dois momentos -de brilho e de calor, dois crepusculos amorosos, que abram e fechem a -existencia? - -D. Estanislada achava profundamente odiosa e absurda a fiscalisação que -a sociedade exerce com a mulher casada. Se o marido não vê ou não quer -vêr, para que ha de a bisbilhotice malevola emprestar-lhe os oculos da -moralidade? - -D. Enrique não era um Othello, nunca o fôra. Se lhe dissessem alguma -coisa em desabono da esposa, encolheria desdenhosamente os hombros, -limitar-se-ia certamente a dizer: _Es una broma!_ - -Com que direito vinha a menina Ricardina substituir-se a D. Enrique para -o effeito da moralidade?! - -Então D. Estanislada havia casado com D. Enrique, e era a menina -Ricardina quem fiscalisava, sem procuração de D. Enrique, a fidelidade -conjugal de D. Estanislada! - -De mais a mais, a menina Ricardina podia esperar que a mãe se deitasse, -para vir á janella conversar com um homem, e a D. Estanislada não era -permittido que, estando o marido a dormir, fizesse exactamente a mesma -coisa?! - -Em conclusão: D. Estanislada achava o mundo mal organisado, e estava -disposta, não a concertal-o, mas a illudil-o. - -Ora desde que a menina Ricardina, má visinha de ao pé da porta, sabia -tudo, era impossivel illudil-a: convinha, portanto, ir tentar melhor -fortuna n’outra região onde a illusão podesse florescer mais desafogada -d’espiões. - -Pensando na resolução de todos estes problemas, que de perto a -interessavam, e reconhecida a impossibilidade de regressar desde logo a -Hespanha, cujo estado politico continuava a ser o mesmo, D. Estanislada -lembrou-se, com certa saudade, do conselheiro Antunes. - -Elle amara-a, déra-lhe provas d’isso; só tinha o defeito de ser, como -todos os portuguezes, na opinião de D. Estanislada, muito timido. Mas -sendo timidos os portuguezes, sendo esse o seu natural, não havia -encontral-os melhores. E, timidez por timidez, o conselheiro já estava -experimentado, gostava d’ella. - -O mesmo foi lembrar-lhe o conselheiro e, como ideia associada, Santarem, -onde elle vivia. - -Fez pois tenção de aconselhar o marido a sahir de Setubal, cidade -insipida, que mais insipida ficaria ainda depois de encerrada a estação -balnear. - -Não consultou, sobre este projecto, Soledad, que, como já n’outras -occasiões tinha acontecido, andava amuada com a mãe. Tambem Soledad -parecia rezar ás vezes pela cartilha da sociedade, e resentir-se de que -a mãe não sacrificasse em sua honra os ultimos clarões da belleza que -declinava. - -Não era porque Soledad amasse o sueco. Mas o seu brio de hespanhola -revoltava-se contra a ideia de que todos pretendessem roubar-lhe -admiradores, até sua propria mãe. - -Soledad olhava para o _abanico_, que com tanto _salero_ requebrava, -e parecia-lhe que era como que uma espada partida na mão de um -conquistador. - -Cuidava ouvir dizer-lhe o _abanico_: - -—Soledad, flôr da Andaluzia, tanto me tens incommodado, abrindo-me e -fechando-me, fazendo-me bailar na tua mão nervosa, como n’um _bolero_ -sem fim, e o que tens tu, bella Soledad, conseguido com isso? Os -teus admiradores vão desertando uns após outros; tu, que a principio -timbraste em mostrar-te altiva e incomprehensivel, porque te imaginavas -inegualavel, tens visto fazer-se em roda de ti a solidão das realezas -decahidas, a solidão da ilha de Santa Helena, onde se abateu o maior -orgulho humano. As Rodartes foram mais felizes do que tu, e comtudo não -dispõem dos teus recursos de hespanhola, do _salero_ e do _abanico_, dois -irmãos gemeos, que fazemos estremecer os corações. Os leques de que ellas -usam foram comprados alli na Praça do Bocage, na loja do Trindade, e são -semsaborões como todos os leques portuguezes, ao passo que eu, apesar de -haver uma republica hespanhola, continuo a ser o rei das Hespanhas,—a -alma do Cid recortada sobre uma folha de papel. Até a Ricardina te roubou -o sueco: és, pobre de ti! como o leão moribundo, a quem as Ricardinas -injuriam. Desperta, altiva flôr da Andaluzia, readquire o teu orgulho de -raça, volta as costas a este mundo prosaico, onde só parece haver sal nas -marinhas, e vai procurar n’outra parte os triumphos, as homenagens a que -a tua belleza te dá direito. - -Soledad ouviu o _abanico_ e deu-lhe credito, como todas as hespanholas. -Por isso, quando D. Enrique, já meio convencido por D. Estanislada, -fallou um dia em transferirem-se para Santarem, Soledad pareceu apoiar -esse projecto, que lhe promettia uma vida mais alegre do que a de -Setubal. - -O Marcolino, marcador do café _Esperança_, perguntou a D. Enrique se -queria ficar com um bilhete para a rifa da coroa de louros. - -E o hespanhol, muito desdenhoso, respondeu-lhe que não, porque _se iba a -marchar_. - -—Para Hespanha? insistiu o marcador. - -D. Enrique zangou-se: que para Hespanha só voltaria com a realeza dos -Bourbons. - -E o Marcolino, que foi o primeiro republicano que pimpolhou em Setubal, -respondeu-lhe mentalmente: - -—Tens que esperar!... - -Mas saber o Marcolino uma noticia era o mesmo que sabel-a todo o café -_Esperança_, e, dentro de algumas horas, toda a cidade de Setubal, e, -dentro d’alguns dias, as aldeias de Azeitão e a povoação de Palmella. - -—Que D. Enrique se _iba a marchar_, dizia-se, espalhava-se. - -No café _Esperança_ apertavam D. Ramon Mendoza, troçavam-n’o, -perguntavam-lhe se elle não fazia valer os direitos que a sorte lhe -concedera; que casta de hespanhol era elle, que deixava fugir, sem a ter -ferido no coração, a sua bella patricia? - -E D. Ramon, muito indifferente, muito insôsso, pedia gazoza, e respondia -sorrindo: - -—Que santos de casa não fazem milagres. - -Não tardou a chegar ao conhecimento da menina Ricardina a noticia de que -a familia Saavedra ia retirar-se. Ricardina ficou contentissima, e a sr.ª -Magdalena não o ficou menos, porque havia arrendado a casa por seis mezes -a D. Enrique, e poderia alugal-a ainda outra vez, para aproveitar o resto -da estação balnear. - -Ricardina, na esperança de que a noticia fosse verdadeira, achou que -devia tratar o sueco de modo a desvial-o de Soledad, sem comtudo se -alargar em concessões, que o satisfizessem. - -Assim foi que se mostrou menos crua para elle: abriu a janella, e -permittiu-lhe que a beijasse nas mãos. - -—Só nas mãos, porque, dizia ella, não podia confiar n’elle. - -O sueco pretendeu mais uma vez justificar-se, e contou a Ricardina a -scena que tivera com as hespanholas, que não só o não cumprimentaram, mas -até o mimosearam com epithetos offensivos. - -—O sr. é que tem a culpa de tudo isso! disse-lhe Ricardina continuando a -fingir-se ciumenta. - -—Eu! nó! respondeu elle com uma convicção muito guttural. - -—Pois quem! O sr. andava a acolytal-as a ambas, á mãe e á filha, e não -queria levar com as galhetas na cara! - -O sueco percebeu pouco d’esta metaphora, que Ricardina aprendera nos -habitos devotos, egrejeiros da mãe. - -E ella, muito tagarella, continuára moendo palavras: - -—Sabe o sr. o que deve fazer agora? - -—Nó saberr! - -—Vá para onde ellas forem. O que lhe importa o negocio do sal? Mais vale -um gosto na vida que seis vintens na algibeira. - -—Nó! Nó! respondia o sueco com uma bonhomia babosa. - -Elle já estava habituado a que Ricardina o tratasse por tu, tratamento -carinhoso, que nunca mais havia recebido desde que sahira da Scandinavia, -e todo o seu ideal consistia agora em conseguir que ella voltasse a -empregar esse terno vocativo. - -Mas Ricardina, muito arteira, obstinava-se em tratal-o por _senhor_, sem -o repellir, é certo, mas sem o acarinhar como antes d’aquella fatal noite -dos dois lenços. - -Um namorado meridional haveria, decerto, feito uma scena de ciumes, -diria a Ricardina que, pois que ella assim o aconselhava, seguiria as -Saavedras para onde quer que ellas fossem, mas um homem do norte, muito -calmo, muito pacifico, não encontra no seu temperamento a facilidade de -representar no amor o drama tempestuoso. - -Quando o sueco se despedia de Ricardina, beijando-lhe outra vez as mãos, -ia resignado a esperar que o diluvio passasse e que o arco da alliança -brilhasse sobre os ultimos destroços do diluvio. - -Depois, chegando ao _hotel Escoveiro_, dois copinhos de _Kirsch-wasser_ -adormeciam-n’o n’uma serena esperança de que Ricardina voltaria a ser a -mesma. - -E, por entre os fumos do _Kirsch_ e do cachimbo, pensava elle: - -—Que voltas que o mundo dá! Quem me havia de dizer a mim que estimaria -ainda a ausencia de Soledad! - -E o cachimbo ia-se apagando, e o sueco adormecia tranquillamente... - - - - -XVII - - -Dentro de tres dias a familia Saavedra preparou as suas malas para sahir -de Setubal. - -D. Enrique andou fazendo despedidas e partiu para Santarem primeiro que -a mulher e a filha: ia alugar casa. Lá estava o conselheiro Antunes para -n’esta e outras tarefas lhe servir de Cyreneu... - -A mãe de Soledad dizia a quem a queria ouvir que apenas levava saudades -do peixe-espada. Soledad mostrava-se muito contente com a mudança de -terra. - -No café _Esperança_ commentava-se esta subita retirada da familia -Saavedra, e attribuia-se a duas causas principaes: a attracção que, de -Santarem, o conselheiro Antunes exercia no coração de D. Estanislada, e a -emulação de Soledad pela concorrencia das Rodartes no amor. - -A _blague_ não poupava D. Enrique, que, segundo se dizia, ia metter-se na -boca do lobo: o lobo era, n’este caso, o conselheiro Antunes. - -Quanto ás Rodartes, a opinião publica elogiava-as pela modestia com que -se apresentavam: se ellas tinham prejudicado o prestigio de Soledad, não -era porque houvessem concorrido acintosamente para isso. - -Fôra uma serie de fatalidades imprevistas que apeiára Soledad do pedestal -em que nos primeiros tempos se enthronisou. Todos os grandes imperios -desabam, segundo a lei fatal da Historia: Soledad teve a mesma sorte dos -grandes imperios. - -Era certo, já toda a gente o sabia, que o morgado de Reguengos e o -proprietario das Alcaçovas estavam namorados de Hilda e Maria Ignez, mas -não fôra porque ellas os disputassem encarniçadamente a Soledad, nem -porque se salientassem em garridices espectaculosas. - -O _Padre Eterno_, como geralmente se chamava a Araujo Rodarte, era um -velho sympathico, que a opinião publica respeitava, e mais ainda o -respeitou, quando se tornou conhecido um facto em que o seu nome se achou -envolvido. - -O Sequeira, negociante, fôra visitar o Rodarte e descrevera-lhe, com -lagrimas nos olhos, o estado da filha, cuja vida perigava, porque a -infeliz menina, apaixonada pelo Vianninha, passava dias encerrada no seu -quarto, chorando, sem querer vêr ninguem. - -Commoveu-se o velho Rodarte da angustia de um pae, cujo coração a dôr -dilacerava. - -—Mas, dissera Araujo Rodarte ao Sequeira, porque não procura ter uma -conferencia com o Vianninha, a fim de que elle cabalmente se explique -sobre as suas intenções? - -—Não posso, sr. Rodarte, respondera-lhe o Sequeira. Não posso. É superior -ás minhas forças o ter que pedir a um homem que corresponda ao amor de -minha filha, sobretudo quando esse homem se deveria julgar muito feliz -em desposal-a. - -Araujo Rodarte ficou pensativo durante alguns momentos, e disse depois: - -—Tem rasão, sr. Sequeira. Mas eu acho que o Vianninha não é senão um -doidivanas, que gosta de se divertir sem criterio. Succede isso a muitos -moços. São raros até os que pensam de outro modo. - -—Depois que veiu para ahi essa maldita hespanhola foi que elle, suciando -com o Lemos e com o tal jornalista de Lisboa, principiou a despresar a -minha filha. - -—A hespanhola, sr. Sequeira, não tem culpa de ser bonita, nem de haver -sido educada á maneira do seu paiz. Sabe v. s.ª perfeitamente que os -costumes hespanhoes dão maior liberdade á mulher do que entre nós. Se -uma menina portugueza andasse constantemente seguida por um cortejo de -admiradores, seria isso reparado e censurado. Mas em Hespanha vive-se -muito ao ar livre, na rua, e são admittidas liberdades que em grande -parte resultam d’esse teor de vida. Olhe, eu, quando aqui cheguei, -condescendi em ir a um _pic-nic_, porque julguei que seria essa uma -festa tão pacata como as do meu Alemtejo. Quando lá me vi, arrependi-me -muito de ter acceitado o convite, e arrependi-me, sobretudo, porque, -além das minhas netas, apenas havia duas senhoras, a mulher e a filha -de D. Enrique, cujos habitos de educação brigavam naturalmente com os -de tres pobres meninas nadas e creadas, longe da sociedade, n’um canto -do Alemtejo. Fiz logo tenção de me afastar o mais que podesse, não por -falta de confiança em minhas netas, mas para evitar que ellas andassem -nas bôccas do mundo. Este meu procedimento não foi ditado por orgulho -ou por qualquer outro sentimento de altivez pessoal. Foi prudencia, -foi experiencia do mundo... Mas vamos ao caso do Vianninha. Acho justas -as rasões pelas quaes o sr. Sequeira não quer ter explicações com elle. -Comtudo, se a isso me auctorisa, e se isso deseja, poderei eu tel-as. - -—Ó sr. Rodarte! grande favor me faria encarregando-se d’essa missão, -procurando salvar minha filha de uma vida tormentosa, a que a morte porá -termo em breve, certamente. - -Afogaram-se em lagrimas os olhos do Sequeira, e nos olhos de Araujo -Rodarte tambem passaram lagrimas. - -Despediram-se os dois cordealmente. - -Araujo Rodarte, não querendo dar a saber a Salomé o motivo d’aquella -entrevista que tivera com o Sequeira, mandou recado ao seu banheiro para -que lhe fosse fallar. Não podendo escrever elle proprio, quiz evitar que -Salomé tivesse de escrever ao Vianninha solicitando uma audiencia para o -avô. - -Pelo banheiro mandou Araujo Rodarte dizer ao Vianninha que esperava -dever-lhe o obsequio de lhe dispensar dois momentos de attenção. - -Logo que sahiu da repartição de fazenda, o Vianninha foi procurar Araujo -Rodarte. - -Houve quem o visse entrar para lá, e envenenasse o facto, espalhando logo -que o Vianninha requestava Salomé, a unica das tres irmãs cujo coração -era considerado devoluto. - -Araujo Rodarte expoz com bondosa gravidade os motivos d’aquella -entrevista, desculpando-se com a sua auctoridade de velho para intervir -n’um assumpto que não lhe dizia directamente respeito. - -—Trata-se, explicou, da menina Sequeira. Conheço a familia d’essa pobre -menina, cuja vida corre perigo, e cuja felicidade e salvação consistiria -em poder ser esposa do sr. Vianna. Peço-lhe, pois, que me diga, por -attenção para com a minha edade, quaes são as suas intenções a este -respeito. - -O Vianninha ficou surprehendido com a interpellação: - -—As minhas intenções, sr. Rodarte! Eu digo a v. ex.ª o que posso -dizer sobre o assumpto: Adelaide e eu fomos creados juntos, paredes -meias, porque nossos paes eram visinhos. Viamo-nos a toda a hora, e -habituámo-nos a ser amigos um do outro. Mas pensava eu que Adelaide -apenas tinha por mim o sentimento que eu tinha por ella,—simples -estima, nada mais. E tanto isto é verdade, da minha parte, que eu tive -passageiros namoros com outras meninas. É certo, porém, que eu sabia -que Adelaide se contrariava com isso. Amuava, deixava de me fallar, -de me cumprimentar até. Mas eu ria-me, não fazia caso, e dizia-lhe -adeus por brincadeira, sempre que a via á janella, embora ella me -não correspondesse. Quando veiu a _señorita_,—refiro-me á filha de -D. Enrique—eu, por ser amigo do Lemos e por me ter relacionado com o -Goes, que andavam no grupo da familia Saavedra, associei-me a elles, -passeiava com Soledad e com a mãe, e devo dizer francamente que me não -era desagradavel a companhia. Soube então que Adelaide suspeitou de que -eu namorasse Soledad, e que se tinha incommodado com isso, a ponto de -se fechar no seu quarto, e não querer tomar alimentos. Uma vez, tendo -pena d’ella, cheguei a rufar com os dedos na vidraça do seu quarto, -chamando-a. Bastava-me para isso estender o braço por uma das janellas da -minha casa. Adelaide devia calcular que era eu, mas não veiu á janella, -não quiz responder. - -—Talvez não ouvisse, atalhou Araujo Rodarte. - -—Ouvia por força, porque estava fechada no seu quarto. - -—Resentida com o sr. Vianna, quiz mostrar o seu resentimento. - -—Pois foi isso talvez, mas eu nunca mais a vi. - -—E, se não sou indiscreto, o que lhe teria dito n’essa occasião o sr. -Vianna, se ella abrisse a janella? - -—Eu? Eu ter-lhe-ia dito que se não amofinasse com tolices, que era seu -amigo, que gostava apenas de me divertir, e que não queria que ella se -ralasse com isso. - -—Ah! n’esse caso, o sr. Vianna, sem aliás tomar um compromisso com essa -senhora, dava-lhe uma prova de amisade e de estima, que mostra que ella -não deixou ainda de ser, no seu espirito, a dedicada companheira de -infancia... - -—Pois decerto. Estimaria que ella se não tornasse infeliz por culpa do -seu proprio genio. - -—Não diga genio, sr. Vianna. Chame-lhe antes coração. Ella ama, e soffre -as torturas de um amor, que não julga correspondido. Triste cegueira a -dos moços, que não se lembram um momento de que nada torna tão agradavel -a existencia como um coração que nos seja sinceramente dedicado! -Desculpe-me que lhe falle assim, em nome dos meus cabellos brancos, sr. -Vianna. O coração de D. Adelaide Sequeira já está experimentado: tem -sido firme e leal, apesar de não ser correspondido. Que maior e melhor -felicidade poderia encontrar o sr. Vianna! - -—Eu reconheço tudo isso, sr. Rodarte, mas devo confessar que me vexa a -ideia de que sou pobre e Adelaide é rica. Esse casamento seria mal visto -por muitas pessoas, especialmente pelo pae de Adelaide... - -—O pae! atalhou Araujo Rodarte. O que um pae deseja sempre é a -felicidade dos seus filhos. O pae de D. Adelaide Sequeira vê a filha -doente, ameaçada de morte, e deseja certamente salval-a. Quanto á -opinião publica, o que poderá ella dizer contra um casamento que o amor -santifica? E se disser, deixal-a dizer, porque a opinião publica, quando -não tem rasão, é combatida pelas consciencias honestas, e essas são os -unicos juizes auctorisados. N’uma palavra, não repugna ao sr. Vianna -sahir d’esta casa noivo de D. Adelaide Sequeira? - -—Mas subsistem ainda as minhas duvidas quanto á familia d’ella... - -—Não subsistem. O sr. Vianna tem o incommodo de voltar amanhã á mesma -hora, e todas as suas duvidas deixarão de existir. - -No dia seguinte, quando o Vianninha voltou a casa de Araujo Rodarte, -encontrou-se com o pae de Adelaide Sequeira: o casamento ficou ajustado -n’esse dia. - -Constou isto, a maledicencia, que desconfiou da ida do Vianninha a casa -das Rodartes, teve de confessar-se vencida, e a intervenção do _Padre -Eterno_, n’esta negociação feliz, tornou-se sympathica á opinião publica, -deu maior prestigio ao avô, e, reflexamente, ás netas. - -Quando fallavam ao velho Araujo Rodarte no proximo casamento da Sequeira, -dizia elle: - -—Fiz-me agora S. Gonçalo d’Amarante,—com uma unica differença. - -—Qual? - -—Caso as novas, em vez das velhas, o que prova que não faço milagres. - - - - -XVIII - - -O namoro dos dois alemtejanos com as irmãs Rodartes não era um d’esses -galanteios romanticos, que obriga a excessos de lyrismo. - -Se o fosse, dar-me-ia ensejo a descrever serenatas de mandolim, arroubos -de Romeu debaixo da varanda de Julietta,—tudo em duplicado, os Romeus e -as Juliettas, ficando apenas no singular a varanda, que era a mesma. - -Homens novos, posto já orçassem pelos trinta annos ambos elles, fortes, -alegres, de physionomia agradavel e costumes chãos, o morgado de -Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam longe de poder ser dois -pagens namorados, com todas as pieguices concomitantes á poesia do amor -medieval. - -O temperamento, mais talvez do que a edade, e não pouco a educação, -contribuiam para furtal-os ás cegueiras da exaltação amorosa. - -Não eram frios, nem o podiam ser, porque tinham bom sangue, como a -maior parte dos alemtejanos, se exceptuarmos os que vivem nas regiões -atormentadas pelas febres palustres. Mas eram serenos; homens em quem os -musculos, saudavelmente desenvolvidos, subjugavam os nervos. Possuiam -essa alegria moderada que provém da robustez, da constituição sadia. -Não tinham por isso as phantasias melancolicas dos nevroticos, nem a -irritabilidade azeda dos biliosos. Bom coração, bom estomago, bom figado: -com estes predicados, e com as suas herdades, viviam felizes. - -Não pensavam em S. Carlos e muito menos em Pariz; mas nem S. Carlos nem -Pariz lhes repugnavam... para uma vez. - -Entendiam menos de francez que de cortiça, mais de porcos que de tenores, -mas não eram selvagens ao ponto de não querer jámais vêr a França, nem -ouvir nunca uma opera. - -De manhã cedo montavam a cavallo, percorriam as suas herdades, davam -instrucções aos feitores, e regressavam a casa com bom apetite e boa -alegria. Raras vezes se queixavam de um incommodo. Dos dois, apenas o -morgado de Reguengos tinha azias de quando em quando, mas uma colhér -de bicarbonato de soda curava-o rapidamente. Uma hora depois estava -habilitado a comer. - -A provincia do Alemtejo tem sido pouco explorada no romance, talvez -porque os seus costumes são essencialmente pacatos, algo monotonos. - -O sangue arabe, que os alemtejanos herdaram, enrijeceu-lhes o organismo, -deu-lhes a saude, mas, já modificado pela transmissão de gerações -successivas, não referve em éstos como os que incendiavam as veias dos -guerreiros d’Agar. - -Nos costumes, em que a dominação sarracena influiu poderosamente, uma -serenidade, ás vezes monotona, como se nota nas danças e nas canções -populares, accentua-se com evidencia. - -A falta de paisagem poderá explicar a falta de bucolismo no amor. Os -rios pittorescos do Minho, orlados de salgueiros e matisados de insuas -verdejantes, fazem poetas. No Alemtejo, a vegetação ganha em utilidade -agricola o que perde em pittoresco de pintura. Mas ha excepções, como -sempre acontece: Bernardim Ribeiro, o mavioso bucolico, nasceu ao que -parece na villa do Torrão, que é Alemtejo arido. Todavia as excepções não -invalidam a regra geral, antes a confirmam. - -Mas, em compensação, a vida da provincia transtagana é laboriosa, util e -pratica. - -Os seus habitantes não téem esse aspecto atormentado, contrahido, que um -francez habil me dizia notar na maior parte dos retratos portuguezes. - -Ora eu estou certamente condemnado a naufragar no tepôr do assumpto, o -amor entre alemtejanos, que sabe a capilé morno. - -Mas copío a verdade, e não quero adulteral-a com mixordias de pura -phantasia, como os taberneiros fazem ao vinho, e certos romancistas á -verdade. - -O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas amavam como quem -eram. Em pleno galanteio vimol-os ir a Lisboa umas vezes por outras -tratar negocios, receber as prestações da venda da cortiça, vender -cevados aos salchicheiros da Baixa. - -E quando regressavam a Setubal, com o dinheiro a cantar nas algibeiras, -sabia-lhes bem a suave familiaridade da casa das Rodartes, onde, antes de -abancarem a jogar o loto com as netas, contavam ao avô, francamente, o -resultado das suas transacções em Lisboa. - -E as duas meninas, que se foram affeiçoando lentamente a elles, porque -encontraram dois homens cujo typo conheciam, pois que era o da sua -provincia, as duas meninas ouviam-n’os fallar de cevados, entendiam-n’os. - -Horror! gritará a leitora alfacinha. - -Pois minha senhora, nada e creada na patria de Ulysses, perdoe V. Ex.ª -o horror da verdade. Tanto a formosa Hilda, como Maria Ignez, como, -principalmente, Salomé, que era o braço direito do avô, sabiam a cotação -das cabeças suinas, e conheciam todos os processos da engorda dos cevados. - -Isto póde não ser poetico, mas é portuguez de boa lei, portuguez do -Alemtejo, onde a azinheira produz a boléta, que é riqueza. - -Nem Hilda, que gostava de cantar, sabia trechos das operas de S. Carlos, -nem das operetas da Trindade. A sua canção predilecta era a _Ceifeira_ -de Palmeirim, poeta genuinamente nacional, que ha quarenta annos se -vulgarisou tanto no norte como no sul do paiz. - -O rythmo da canção era dolente como o de toda a musica popular do -Alemtejo, mas lá gostavam de ouvir Hilda soluçar, como um _Fado_, as -trovas do poeta: - - Ha quem diga por inveja - Que és feia por ser trigueira; - Dizem as damas da côrte, - Deixal-as dizer, ceifeira. - -As ceifeiras da Messejana, quando á noite voltavam dos campos, queimadas -pelo sol, morriam por ouvil-a cantar a canção que tanto as lisonjeava, -porque fallava d’ellas, e pediam-lhe que a repetisse. - -Araujo Rodarte intervinha com o seu bom humor patriarchal n’esses serões -agricolas do Alemtejo, em que a neta, sentada nas escadas de pedra do -palacete, cantava para ser ouvida pelas ceifeiras e pelos _Ratinhos_, que -descançavam ao luar. - -O bom velho tinha sempre uma graça para dizer ás raparigas. - -Uma vez, por exemplo, tendo a neta acabado de cantar, disse elle: - -—Sabem vocês, rapazes e raparigas, de quem é esta poesia que a minha -Hilda vos cantou agora? - -—Não sabemos, senhor. - -—Pois é de um poeta de Lisboa, que se chama Palmeirim. E não fez só -poesias que as meninas cantem; tambem fez algumas que servem para os -velhos cantar. - -Gargalhada unisona das ceifeiras e dos _Ratinhos_. - -—Não se riam vocês, que eu tambem vou cantar agora. - -—O sr. Rodarte! - -—Eu mesmo. - -E com uma voz, cuja rouquidão exagerou comicamente, começou: - - Vet’rano fiz as campanhas - Da guerra peninsular. - -—Mais! mais! pediram muitas vozes. - -—Nem mais nem menos, respondeu Araujo Rodarte rindo. Um veterano não póde -passar d’aqui. - -Nova e prolongada hilaridade dos _Ratinhos_ e das ceifeiras. - -Algumas vezes, em pleno sol, ouvia-se cantar nos campos, que a foice dos -trabalhadores ia deixando reduzidos á seccura do restolho: - - Ha quem diga por inveja - Que és feia por ser trigueira; - Dizem as damas da côrte, - Deixal-as dizer, ceifeira. - -—Olha os teus discipulos, dizia Araujo Rodarte a Hilda, como honram a -professora! Ainda não houve _prima-donna_ de S. Carlos que fizesse escola -como tu. - -Hilda e as irmãs ouviam fallar de S. Carlos como a gente ouve fallar -de um paiz longinquo. O proprio Rodarte, que fallava de S. Carlos, -conhecia-o pouco. Quando alguma vez viera da Messejana a Lisboa, -aconteceu ir ouvir uma ou outra opera, sobretudo se a opera era do -velho Bellini, que toda a gente d’esse tempo preconisava por ser, -especialmente, o auctor da _Norma_. - -D’uma dessas raras vezes aconteceu-lhe até uma ratice, que Araujo Rodarte -sempre contava rindo. - -Annunciava-se a _Norma_, e elle não resistiu ao cartaz. Mandou comprar -a S. Carlos um bilhete da _geral_. Á noite dirigiu-se para o theatro, -cuidando que ia ouvir o grande Bellini. Pois não ouviu ninguem! O theatro -estava aberto, mas a platéa vazia. No salão havia grupos commentando um -caso extraordinario. _Adalgiza_ fôra raptada pela famosa _Sociedade do -delirio_. Dizia-se que o marquez de Niza, disfarçado em cocheiro, fizera -voar os cavallos da carruagem em que _Adalgiza_ entrou, ao descer do -_hotel_. O que é certo é que a cantora não chegou a S. Carlos, pelo menos -n’aquella noite, e que fôra visto passar ao Campo Grande, n’uma batida -doida, um _coupé_, ladeado por dois cavalleiros que o guardavam. - -Era a _Sociedade do delirio_, que praticára mais uma das suas proezas,—o -rapto d’uma italiana, que talvez fosse sabina. - -Nenhum dos dois alemtejanos, o morgado de Reguengos e o proprietario -das Alcaçovas, fez o que em amor se chama uma _declaração_. Esse doce -e embaraçoso momento, em que o maior orador do mundo póde sentir-se -entaramellado, momento de vibração nervosa e de exaltada sensibilidade, -não o passaram elles. O namoro foi derivando suavemente n’uma intimidade -agradavel, no trato familiar de todos os dias, e no _loto_ de todas as -noites. - -As duas Rodartes sabiam-se amadas, não porque elles lh’o confessassem, -mas porque as mulheres sabem mais, em materia de amor, pelo que adivinham -que pelo que lhes dizem. - -Salomé contára ás irmãs as referencias que o avô, certa manhã na praia, -fizera ao namoro dos alemtejanos, e o receio que mostrára de que elles o -obrigassem a separar-se das duas netas. - -Estou certo, sem comtudo poder affirmal-o, que, ouvindo isto, Hilda e -Maria Ignez tiveram ambas o mesmo pensamento: - -—Pois esteja o avôsinho socegado que, se nós casarmos, não o -abandonaremos nunca. - -E tambem me quer parecer que Araujo Rodarte, muito intencionalmente, -fallára n’esse assumpto a Salomé, para que ella fosse contar ás irmãs o -que o avô lhe estivera dizendo e para que Hilda e Maria Ignez o dissessem -aos dois alemtejanos, quando fosse occasião. - - - - -XIX - - -D. Enrique abandonou a casa de Setubal sem lhe mandar pôr escriptos. - -Que de Setubal não queria saber mais, dissera elle á sr.ª Magdalena -quando lhe entregou a chave. - -A menina Ricardina e a sr.ª Magdalena ficaram satisfeitissimas, por -muitas e variadas razões. - -Em primeiro logar, Ricardina havia contado á mãe que, n’aquella casa -de pouca vergonha, tanto a hespanhola velha como a hespanhola nova, -expressão sua, lhe disputavam o sueco, o qual parecia disposto, se -podesse vencer-se aquella dupla contrariedade, a dar o nó do hymeneu. - -A sr.ª Magdalena, na esperança de vêr a filha bem casada, prometteu uma -via-sacra ao Senhor do Bomfim se as duas hespanholas lhe deixassem em paz -a filha e o sueco. - -O Senhor Jesus do Bomfim fizera-lhe a vontade, e a sr.ª Magdalena -tratára logo de cumprir a promessa. - -Em segundo logar, a menina Ricardina gostava muito, quando a casa estava -com escriptos, de atravessar a rua para ir mostral-a. - -Fôra n’uma d’essas sahidas que ella annos antes ouvira, á queima-roupa, a -declaração de um rapaz banhista, que chegára primeiro que a familia para -arrendar casa, e o qual, depois de estabelecidas relações de intimidade -entre as senhorias e os inquilinos, gostava muito de pisar-lhe o pé -debaixo da mesa do chá. - -Logo que D. Enrique entregou a chave, a menina Ricardina foi, por ordem -da mãe, verificar o estado em que a familia Saavedra havia deixado ficar -a casa. - -—Que porcaria! dizia mentalmente a menina Ricardina abrindo as janellas e -olhando de relance para o pavimento e para os moveis. - -Pelo chão, por cima das mezas, havia bocados de papel, migalhas de pão, -ganchos do cabello, e a um canto uma ruma de jornaes hespanhoes e um -leque velho, rasgado, com as varetas quebradas e pendentes. - -Feito o primeiro exame _à vol d’oiseau_, Ricardina abriu as gavetas de -alguns moveis, sem nada encontrar. Mas já lhe não aconteceu o mesmo -quando passava revista á gaveta do lavatorio. Encontrou ahi um pequeno -embrulho de papel, que lhe despertou a curiosidade. - -Desembrulhou o papel, e encontrou uma caixinha oblonga, de cartão verde. - -—O que será isto?! pensava Ricardina. - -Abriu, com muito interesse, e viu uma dentadura postiça, nova em folha. - -Largou a rir do achado, que estava longe de esperar. - -Passada a primeira surpreza, começou a reflectir: - -—Para qual dos tres seria isto? - -E, parada no meio da casa, com a caixinha de cartão deante dos olhos, -continuou a pensar: - -—Não, de Soledad não é, porque os seus dentes eram muito mais pequenos. -De D. Enrique tambem não é, porque tinha os dentes estragados pelo -tabaco. Ah! já sei!...—e largou a rir ás gargalhadas.—Os dentes de D. -Estanislada eram bonitos, brancos como o marfim, mas postiços. Agora -é que eu sei que eram postiços! Ora a velha tonta! E não saber eu -isto antes! Foi dentadura que comprou em Lisboa.—Ricardina ia lendo a -inscripção da tampa da caixa—para a ter de sobreselente, talvez por ser -mais barata ou melhor do que a que trazia. - -E continuou a rir, a rir. - -—Quando faria ella tenção de mudar de dentes! pensava Ricardina. Algum -d’estes ha-de ser o do siso, que bem preciso lhe é! - -E, tendo posto a caixinha no mesmo sitio em que estava, foi contar á mãe -a alegre historia do seu achado. - -—Que eram fraquezas da humanidade, disse a sr.ª Magdalena; que se não -risse; que não offendesse o Senhor Jesus do Bomfim, que lhes havia feito -o milagre. - -Ricardina respondeu que o Senhor do Bomfim não se podia offender de que -ella risse dos dentes postiços de D. Estanislada; que uma coisa não tinha -nada com a outra. - -A primeira pessoa a quem Ricardina contou a historia da dentadura foi o -mesmo rapazito, que tinha levado as duas cartas com os dois lenços a casa -de D. Enrique. - -Recommendou-lhe que fosse contar tudo ao Marcolino, marcador do bilhar no -café _Esperança_, porque era esse o melhor meio de vulgarisar o caso em -toda a cidade. - -O rapazito, a quem Ricardina dera um tostão, foi logo comprar amendoas -e cigarros á loja do Passos, na Praça do Bocage, e depois ao café -_Esperança_ contar a historia ao marcador. - -Á tarde, os _habitués_ do botequim commentavam o caso rindo, e ao -anoitecer constava em toda a cidade que D. Estanislada, a _leôa velha_, -como começavam a chamar-lhe, usava dentes postiços. - -D’ahi a quarenta e oito horas appareceu em Setubal, inesperadamente, D. -Enrique Saavedra. - -Foi direito da estação do caminho de ferro a casa da sr.ª Magdalena. - -—Então o sr. D. Enrique outra vez por cá?! perguntou a beata. - -—Dizia que não queria mais nada da nossa terra! atalhou Ricardina. - -—_Que broma!_ exclamou D. Enrique. _Olvidé una joya que vengo à buscar._ - -—Uma joia! Credo, Senhor Jesus do Bomfim! que falso testemunho! exclamou -a mãe de Ricardina. - -—Uma joia! Ora essa! Isso havemos nós de vêr! apostrophou arrogantemente -Ricardina. - -—_Si, una joya de pequeño valor. Nó se aflijan ustedes._ - -—E em que sitio calculam que estava a joia? perguntou Ricardina, muito -esperta. - -—_En el cajon del labatorio_, respondeu D. Enrique. - -—Pois se lá estava, lá ha de estar, disse triumphantemente Ricardina. -Vamos já vêr. - -Foram. - -D. Enrique dirigiu-se logo á gaveta do lavatorio e, encontrando a caixa, -exclamou: - -—_Aqui está la joya!_ - -—Não! disse Ricardina, que com difficuldade continha o riso. Veja _usted_ -se a joia está como a deixaram. Faça favor de examinar. - -D. Enrique entreabriu a caixa mesmo dentro da gaveta, e, como Ricardina -se approximasse, elle fechou de repente a caixa, e metteu-a na algibeira. - -—Está ou não está? É negocio muito sério! Deve vêr, para que a verdade -fique bem esclarecida! - -—_Está todo como habia quedado_, respondeu D. Enrique. - -—Deve ser joia de muito valor, para _usted_ se sujeitar a vir a Setubal -procural-a? perguntava, muito desfructadora, Ricardina. - -—_Una joya de familia, de mas estimacion que valor._ - -—Bem me queria parecer que era joia de familia!... Ora ainda bem que -appareceu! E a quem pertence essa joia? É sua, sr. D. Enrique? - -—_Nó, és de mi mujer._ - -—Já estão em Santarem? - -—_Todavia nó. Hemos estado en Lisboa y vamos mañana para Santarem._ - -—Peço-lhe o favor, sr. D. Enrique, de dar muitas lembranças minhas ao sr. -conselheiro, disse ironicamente Ricardina. - -—_Seran entregadas._ - -Quando D. Enrique foi almoçar ao _Escoveiro_, por isso que só de tarde -podia regressar a Lisboa, sahiram-lhe ao encontro alguns conhecidos. - -—Com que, D. Enrique, outra vez em Setubal?! - -—_He venido buscar una joya de familia, que habia dejado quedar olvidada._ - -—E appareceu? - -—_Ah! perfectamente. Estaba en su sitio._ - -—Então já está em Santarem? - -—_Todavia nó. Solo partiremos mañana de Lisboa._ - -—E tenciona demorar-se muito em Santarem? - -—_Hasta vuelvan los Borbones._ - -—E as sr.ᵃˢ como passam? - -—_Magnificas!_ - -E cada um lhe ia dizendo por sua vez: - -—Então, em Santarem, dê visitas minhas ao conselheiro. Não se esqueça, D. -Enrique. - -—_Jamás._ - -No comboyo da tarde D. Henrique regressou a Lisboa, levando na algibeira -a joia de familia,—a dentadura de D. Estanislada. - -O caso deu que rir, em Setubal, durante muitos dias. - -A sr.ª Magdalena, logo de manhã cedo, continuava a fazer a via-sacra, que -promettera ao Senhor Jesus do Bomfim. - -Ricardina aproveitava essa occasião para ir arejar a casa em que D. -Enrique morára, e que ainda não estava arrendada. - -De uma d’essas vezes, seriam seis horas e meia, Ricardina estava á -janella, parecendo que se deliciava em tomar o ar fresco da manhã. -Demorava-se, olhando ao longo da rua. - -N’isto apparece o sueco, que parou debaixo da janella, e perguntou muito -respeitosamente: - -—É parra alugarr esse casa? - -—É, sim, respondeu Ricardina. - -—Poderrei verr agórra? - -—Tenha a bondade de subir, respondeu Ricardina. - -O sueco, a julgar pelo tempo que se demorou, examinou com interesse todos -os compartimentos da casa, que aliás não eram muitos. - -E gostou, porque n’essa mesma manhã procurou a sr.ª Magdalena, para lhe -dizer que desejava ser seu inquilino. - -—Que tinha muita honra n’isso, respondeu affavelmente a mãe de Ricardina. - -Attendendo a que já ia adiantada a estação balnear, e a que o inquilino -poderia vir a ser genro da senhoria, a sr.ª Magdalena levou-lhe mais -quatro libras do que pediria a qualquer outro. - -O sueco alugou mobilia e installou-se immediatamente. Jantava no _Hotel -Escoveiro_, mas almoçava em casa. Como não tinha criada, porque a menina -Ricardina lhe prohibira que a tivesse, era ella propria quem ás oito -horas da manhã lhe ia fazer o bife e o café do almoço. - -Quando ella sahia de casa, a sr.ª Magdalena recommendava-lhe sempre: - -—Juizinho, Ricardina! Vê lá tú! - -—Esteja socegada, minha mãe, eu não sou d’essas... - - - - -XX - - -No fim de setembro, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas -estiveram jogando uma noite o loto em casa das Rodartes, como era costume. - -Nada se passou de extraordinario, que podesse manifestar a importante -resolução que os dois alemtejanos haviam tomado. - -Repetiram-se as phrases do estylo: o velho Rodarte lamentou mais uma vez, -ao sentar-se á mesa, que o proprietario das Alcaçovas não soubesse jogar -o voltarete, seu jogo predilecto; fallou-se da Sequeira, que, alegre e -feliz, estava tratando do enxoval para casar com o Vianninha; combinou-se -a hora do banho, no dia seguinte, em conformidade com a maré. E das dez -e meia para as onze os dois alemtejanos retiraram-se, foram deitar-se -tranquillamente. - -No dia seguinte estiveram na praia, tomaram banho como de costume, -esperaram que as Rodartes chegassem para fallar-lhes, e ás nove horas -estavam sentados á mesa do almoço comendo com excellente apetite. - -Depois do meio dia sahiram ambos, foram procurar Araujo Rodarte, o que -aliás não estava em costume. - -Foi o morgado de Reguengos quem primeiro usou da palavra, fallando em -nome dos dois. - -—V. Ex.ª, disse elle ao dono da casa, ha-de certamente estranhar uma -visita a hora que não está nos nossos habitos. Mas o motivo que aqui nos -traz é de tal modo solemne, que exigia da nossa parte uma visita especial -para o expôrmos. E como nós, os alemtejanos, somos homens que não estamos -costumados a grandes discursos, entraremos já no assumpto, se V. Ex.ª -assim o permittir. - -Araujo Rodarte comprehendeu logo do que se ia tratar, e o seu coração -bateu apressadamente n’uma commoção que teve tanto ou quanto de dolorosa. - -—Estou ás ordens de V. Ex.ᵃˢ, respondeu elle. - -—V. Ex.ª, continuou o morgado de Reguengos, sabe muito bem quem nós -somos, e os meios de fortuna que possuimos. N’estas circumstancias -julgamos que directamente poderiamos apresentar-nos a pedir, eu a mão da -sr.ª D. Hilda, o nosso patricio e meu amigo a mão da sr.ª D. Maria Ignez. -Eis o assumpto especial da nossa visita. - -—Eu, accrescentou do lado o proprietario das Alcaçovas, louvo-me nas -palavras que V. Ex.ª acaba de ouvir. - -—Pela minha parte, respondeu o avô das duas meninas, devo dizer a V. -Ex.ᵃˢ que nada tenho que oppôr ao seu pedido. Custa-me, é certo, ter -que separar-me d’estas creanças que com tanto amor eduquei depois que -seus paes morreram, mas tambem é certo que nunca fiz tenção, porque o -amor exclue o egoismo, de as conservar indefinidamente presas á minha -ordem. Apenas sempre recommendei ás minhas netas que não tivessem pressa -de casar, isto é, que o não fizessem irreflectidamente, porque lhes não -faltavam commodidades, regalos e carinhos. Estou, porém, convencido de -que V. Ex.ᵃˢ as saberão estimar, senão mais do que eu, porque seria -impossivel, permittam-me esta vaidade, pelo menos tanto como eu. - -N’este momento arrazaram-se de lagrimas os olhos de Araujo Rodarte. - -Houve um momento de silencio. - -—Mas, continuou o velho enxugando as lagrimas, não basta n’esta grave -materia o que eu digo. É preciso, primeiro que tudo, saber o que dizem -as interessadas. V. Ex.ᵃˢ já de certo as tinham prevenido dos intuitos -d’esta sua visita... - -Os dois alemtejanos responderam quasi ao mesmo tampo: - -—Não, sr. - -—Não? Ainda bem! exclamou Araujo Rodarte. Ainda bem, porque esse facto -mostra ao meu coração que as minhas netas não teem segredos para mim. -A reserva seria desculpavel por parte d’ellas, mas não deixaria de -maguar-me, porque representava até certo ponto falta de confiança no seu -velho e affectuoso avô. - -—Nós dois, disse o proprietario das Alcaçovas sorrindo, vamos agora saber -pela primeira vez o que as duas netas de V. Ex.ª pensam a nosso respeito. - -—Pois eu vou chamal-as para que ellas o digam com a franqueza que o -momento requer. - -Levantando-se da cadeira, Araujo Rodarte foi a meio do corredor, e chamou -em voz alta: - -—Salomé! Salomé! - -—Meu avô! - -—Dize a tuas irmãs que venham aqui, e vem tu tambem. - -Voltando á sala, Araujo Rodarte disse aos dois patricios: - -—Não estranhem V. Ex.ᵃˢ que eu chame tambem minha neta Salomé. É o meu -braço direito. Em minha casa todas as resoluções são tomadas em conselho -de familia. Não desejo que este espirito de solidariedade se interrompa -justamente no momento em que vae tomar-se uma resolução importante para -nós todos. - -Não tardaram a apparecer as tres meninas. - -Se não fosse trazerem o rosto um pouco mais purpurino, dir-se-hia que -Hilda e Maria Ignez não adivinhavam o que se ia tratar. Salomé, pelo -contrario, estava mais pallida que de costume, parecia ser ella a noiva, -pela commoção que denunciava. - -Feitos os cumprimentos, Araujo Rodarte disse voltando-se para Hilda e -Maria Ignez: - -—Estes dois cavalheiros, nossos patricios e amigos, acabam de me expôr um -assumpto que exige resposta vossa. Pela minha parte, apreciando-os como -devo, porque ambos são pessoas que me merecem o melhor conceito, nada -terei que oppôr á vossa vontade. Podeis e deveis fallar com franqueza, -porque se trata do vosso futuro. O sr. morgado pede a tua mão, Hilda, e -este cavalheiro a tua, Maria Ignez. Respondei agora ou quando quizerdes, -e como quizerdes. - -As duas meninas ficaram por algum tempo silenciosas, cravando no avô os -olhos embaciados de lagrimas. - -Araujo Rodarte procurava mostrar-se forte, para desopprimir o animo das -netas. - -Os dois alemtejanos rastejavam o olhar no pavimento da casa. - -—Podeis e deveis fallar como entenderdes, disse Araujo Rodarte. - -—Eu, pela minha parte, respondeu Hilda mais purpurina ainda das faces do -que havia entrado, porei apenas uma condição. - -—Qual? perguntou Araujo Rodarte. - -—Que ficaremos vivendo na Messejana em companhia do avô. - -Resplandeceu de jubilo a physionomia do velho ao ouvir estas palavras. - -—E eu acceito, respondeu com firmeza o morgado. Não quero que o sr. -Rodarte tenha motivo algum para desgostar-se com o meu casamento. - -—Bem! bem! exclamou o velho Rodarte radiante de alegria. V. Ex.ª, disse -elle risonho ao morgado, já está despachado. Vamos agora ouvir a minha -Ignez. Falla tu, menina. - -—Eu, meu avôsinho, digo que a mana Hilda fallou por ella e por mim. Dou a -mesma resposta com a mesma condição. - -—Pois eu, respondeu o proprietario das Alcaçovas, não tenho a -accrescentar uma virgula ao que disse o morgado. O que elle disse é o que -eu digo tambem. - -Araujo Rodarte, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, levantou-se da -cadeira e apostrophou erguendo as mãos e os olhos: - -—Estamos todos despenados, felizmente! Obrigado, meu Deus! - -As tres netas correram a abraçar-se no avô, que effusivamente as beijava -no cabello. - -Os dois alemtejanos, respeitosos, com os olhos no chão, assistiam de pé a -esta encantadora scena de ternura patriarchal. - -Dois dias depois, Araujo Rodarte, muito satisfeito, nadando em -felicidade, dizia familiarmente ao morgado de Reguengos: - -—Ora vamos lá. Os velhos são muito curiosos. Como foi que isto começou? - -—Ora! respondeu o morgado. Começou por uma brincadeira! - -—Como? - -—Na Troia, depois do _pic-nic_, nós dois, p’ra nos rirmos com a -rapaziada, que estava levada da bréca por ciume uns dos outros, -lembramo-nos de tirar á sorte os nomes das damas que cada um havia de -namorar. - -—Tem graça! commentou Araujo Rodarte. - -—Nós dois, não, disse o proprietario das Alcaçovas. Foste tu, morgado. -Porque elle, sr. Rodarte, lá mesmo se gabou de ter muita sorte a todos os -jogos. - -—Bem se vê, observou o velho, bem se vê pelo dinheiro que nos tem -apanhado ao loto! Que fará ao voltarete! Mas mesmo assim não desisto. Ó -morgado, logo que estivermos na Messejana, havemos de ensinar o voltarete -a seu cunhado. - -—Dito. - -—Mas então, continuou interrogando o velho, a minha Hilda coube em sorte -ao morgado. - -—E a mim a sr.ª D. Ignez, atalhou o proprietario das Alcaçovas. - -—E o agouro sahiu certo! Tem graça! tem graça! Parece romance! E, -diga-me, a andaluza não entrou tambem na loteria? - -—Entrou. Sahiu ao D. Ramon. - -—Ahi é que me parece que o agouro falhou. Mas quem sabe? O futuro a Deus -pertence. Mas o hespanholito ainda ahi está, pois não está? - -—Sim, sr. - -—Não o tenho visto! - -—Elle não sae do café _Esperança_, onde bebe gazozas umas sobre outras. -Não parece disposto a morrer de saudades pela _señorita_. - -—Não é homem de grandes fogos! disse Araujo Rodarte. - -—Tanto se lhe dá como se lhe deu, observou o proprietario das Alcaçovas. -Nem parece hespanhol! Á força de tomar gazoza, já a tem nas veias. - -Riram todos muito com esta observação, que era exacta. - -O que não passou pela cabeça de Araujo Rodarte, nem os dois alemtejanos -ousaram dizer-lhe, é que D. Estanislada tambem havia entrado no sorteio. - -—Mas a minha Salomé? a minha Salomé a quem coube em sorte? - -—Ao Vianninha. - -—Pobre Salomé! disse Araujo Rodarte, rindo. Essa fica sem noivo. Vejam lá -os srs.! Lembrei-me primeiro da hespanhola que da minha Salomé! Como é o -meu braço direito, não me lembro nunca de que ella póde casar um dia! Nem -quero lembrar! - -Não se soube logo no café _Esperança_ que as duas Rodartes iam casar. Os -dois alemtejanos não eram pessoas que divulgassem a sua felicidade. Mas -quando se soube, o alferes Ruivo, sempre alegre, propôz que se abrisse -uma garrafa de vinho do Porto, para saudar mais uma vez a victoria de -Portugal sobre a Hespanha. - -—Meus senhores, disse elle de copo em punho, vamos ter um novo 1640, sem -revolução e sem Miguel de Vasconcellos. A Hespanha entrou arrogante em -Setubal, escravisou os corações portuguezes, tratou-os como vencidos, -opprimiu-os. Mas o sentimento da independencia da patria póde mais -que o jugo da belleza. A Hespanha foi derrotada, o leão de Castella -teve de retirar sobre Santarem, protegido pela Junta Geral d’aquelle -districto, que merece se lance na acta um voto de censura em nome da -patria offendida. (_Hilaridade geral._) Ficou triumphante a belleza de -Portugal, sem precisar para isso recorrer á _tertulia_, ao _abanico_, nem -aos dentes postiços da mamã. (_Alguns dos «habitués» do café Esperança -choravam de riso_). Peço-lhes pois que, em nome da alma nacional, e em -homenagem á provincia a que Setubal pertence geographicamente, repitam -com sincero enthusiasmo as palavras que eu vou dizer. - -E fez uma longa pausa. - -—Então? - -—Venham de lá as taes palavras! - -—Vem ou não vem? - -O alferes, circumvagando o olhar pelo auditorio, esvazia o copo e recita -com emphase: - - Que mais querem de nós? apoz tamanha - galhardia d’algoz, ébrios de gloria, - apagaram acaso a luz da Historia? - não lêem seus feitos?... Que nos quer a Hespanha?... - - Quer insultar a lapide funerea - que pesa sobre vós, heroes de _Ourique_!... - Estremecei de horror, filhos de Henrique!... - Repercuti meu canto, éccos da Iberia! - - -FIM - - -_Post scriptum._—Pude finalmente conseguir escrever o nome do sueco. -Chamava-se Andreas Setterquist. A menina Ricardina, muito carinhosa, -chamava-lhe familiarmente o seu _Settequiz_. E o malicioso alferes Ruivo -dizia que, a contar por alto, devia effectivamente ser o setimo. - - - - -ERRATA - - -Pag. 129: - -Linha 10.ª, onde se lê—«terão coragem para me fazerem alguma traição», -deve lêr-se—«terão coragem para me fazer alguma traição». - -Linha 18.ª, onde se lê—«A velhice que me tornou ainda tão tolo», deve -lêr-se—«A velhice não me tornou ainda tão tolo, etc.» - - - - - -End of Project Gutenberg's As Netas do Padre Eterno, by Alberto Pimentel - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NETAS DO PADRE ETERNO *** - -***** This file should be named 62706-0.txt or 62706-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/7/0/62706/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: As Netas do Padre Eterno - Romance original - -Author: Alberto Pimentel - -Release Date: July 19, 2020 [EBook #62706] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NETAS DO PADRE ETERNO *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - -</pre> - - -<p class="center larger">N.º 32—<span class="smcapuc">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</span></p> - -<h1>AS NETAS DO PADRE ETERNO</h1> - -<hr /> - -<p class="titlepage smaller">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</p> - -<p class="titlepage larger">AS NETAS<br /> -<span class="smaller">DO</span><br /> -<span class="larger">PADRE ETERNO</span></p> - -<p class="titlepage">ROMANCE ORIGINAL</p> - -<p class="center"><span class="smaller">POR</span><br /> -Alberto Pimentel</p> - -<div class="figcenter mt3" style="width: 100px;"> -<img src="images/amp.jpg" width="100" height="75" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage smaller">LISBOA<br /> -<span class="smaller">LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA—EDITOR<br /> -50, 52—Rua Augusta—52, 54</span><br /> -1895</p> - -<p class="titlepage smaller">LISBOA—Typ. e Stereotypia Moderna—Apostolos, 11, 1.º</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header1.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>I</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="130" height="90" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Desde a primavera até ao inverno de -1873, decorre, na historia da moderna -Hespanha, um periodo de rubra -agitação demagogica, em que tanto -a abandonada coroa da velha Monarchia -de S. Fernando como o recente barrete phrygio -da Republica fluctuam n’um mar de sangue, -golphado do proprio coração d’esse bello paiz meridional, -e sinistramente illuminado pelos reflexos -coruscantes dos incendios de Alcoy, que eram o -facho tristemente glorioso da insurreição cantonal.</p> - -<p>Nação essencialmente catholica, a Hespanha -viu profanados os seus templos, principalmente -em Barcelona, onde as mulheres, n’uma infrene -orgia de bacchantes, envergavam as vestes sacerdotaes, -entoando cantares obscenos, e derramando -por sobre os altares o vinho que trasbordava das -taças.</p> - -<p>Nas ruas, as allucinações da musa popular, -terrivelmente revolucionaria, alternavam-se com<span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span> -as detonações dos fuzilamentos, e aos dithyrambos -entoados á beira dos altares correspondiam, -fóra dos templos, trovas sacrilegas, dissolventes, -anarchicas:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Yá se le acabó á los curas</div> -<div class="verse">El comer á dos carrillos,</div> -<div class="verse">Y el ir de noche al café</div> -<div class="verse">Con el ama y los chiquillos.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Abajo las estrellas,</div> -<div class="verse">Abajo los galones,</div> -<div class="verse">Que no quiere mandones</div> -<div class="verse">La santa federal.</div> -</div> -</div> -</div> - -<p>É certo que na alma popular da Hespanha não -estavam de todo pervertidos os sentimentos cavalheirescos -da raça castelhana, mas a revolução -ia alastrando dia a dia o seu dominio,—em Sevilha -era incendiada a <i>calle de las Sierpes</i>, em -Cadiz punha-se em almoeda a custodia do <i>Corpus -Christi</i>, em Málaga dois bandos rivaes porfiavam -em horrores de barbarie, em Granada os desenfreamentos -do vandalismo desmoronavam as instituições -e os templos, como acontecia em Barcelona, -em cujos campos os bosques incendiados -chammejavam como enorme fornalha: por isso -só timidamente a musa das ruas ousava contrapôr -um grito de justa indignação aos desvarios -da demagogia que golpeava o coração da patria, -enodoando de sangue as mais bellas paginas da -historia nacional.</p> - -<p>D’esses timidos gritos de reacção popular não -se perdeu comtudo a nota caracteristica, que -ainda hoje póde encontrar ecco na apreciação -imparcial d’esse periodo demagogico:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<div class="verse">La republica en Guarena</div> -<div class="verse">La cantan los taberneros,</div> -<div class="verse">Y en D. Benito la cantan</div> -<div class="verse">Los sastres y zapateros.</div><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">El candido de Figueras,</div> -<div class="verse">Y el radical Figuerola,</div> -<div class="verse">Nos ha dejado em cuerines</div> -<div class="verse">Sin calzon ni camisola.</div> -</div> -</div> -</div> - -<p>Um illustre escriptor hespanhol, o sr. Vicente -Barrantes, emigrando n’essa epocha para Portugal, -escreveu sob o titulo de <i>Dias sin sol</i>, um livro -interessante, em que estão consignadas as -dolorosas impressões que as desgraças da Hespanha -punham no coração dos seus angustiados -filhos. Uma pagina d’esse livro diz:</p> - -<p>«Com mão debil e porventura timida empunhou -o tribuno Emilio Castellar as redeas da dictadura, -ao tempo que a fronteira portugueza, -onde eu me achava, offerecia um lancinante espectaculo. -Cerrada a do norte pelos carlistas, era -aquella a unica porta para escapar d’este inferno -de Hespanha, e cada trem do caminho de ferro -iberico parecia barcada de Acheronte, como -aquellas que rangendo os dentes e blasphemando -até dos paes de seus paes viu passar o grande -poeta da Edade-Média pelo lodoso lago que -ao inferno conduz... De Madrid, de Alcoy, de -Cartagena, de Valencia, de Cadiz, de Sevilha, de -Jerez chegavam por centenas familias dispersas, -como quem foge de uma peste; e isto um dia e -outro dia, e mezes inteiros; e récuas e caravanas -de inoffensivos lavradores, de pacificos artistas, -de laboriosos industriaes desembocavam simultaneamente -por todas as povoções da fronteira, -desde Barrancos a Setubal, desde Elvas a Lisboa, -desde Zamora e Ciudad-Rodrigo ao Porto: -misero formigueiro de emigrantes de todas as -classes e condições, com os olhos voltados para -Hespanha, mas receiando, a cada hora que o -horror os convertesse em estatuas, como á mulher -da Biblia.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span></p> - -<p>Setubal, pela amenidade do seu clima, e pela -belleza dos seus campos, hospedou uma importante -colonia hespanhola, atravez da qual eu passeei -algumas vezes os meus ocios de <i>touriste</i>. -Principalmente no verão, em julho, que foi a -epocha mais calamitosa da revolução, a affluencia -de emigrados era numerosissima ali. E o que -é verdadeiramente notavel é que os havia de todas -as côres politicas, porque o perigo era egual -para todos. A revolução não curava de perscrutar -as opiniões de cada um. Perseguia, roubava, -incendiava, fuzilava indistinctamente. Já não era -pequena felicidade poder fugir á morte, salvar -a vida. Dos emigrados, conheci alguns ricos, -poucos, e esses eram os que tinham logrado liquidar -a tempo os seus haveres, antes que a -<i>santa federal</i> se encarregasse da liquidação. -D’este numero era a familia Saavedra, de Sevilha, -que tem de figurar n’esta historia. Tres pessoas -apenas: pae, mãe e filha.</p> - -<p>O pae, o sr. D. Enrique Saavedra, havia collocado -uma somma importante n’um Banco inglez. -Era um industrial acreditado, e teve o bom -senso de fechar as suas fabricas mal que soaram -os primeiros rugidos da insurreição cantonal. -Se não tivesse procedido assim, haveria decerto -succumbido ás mãos dos seus proprios -operarios. Em politica, era francamente monarchico; -principalmente, partidario dos Bourbons. -«Qué broma! dizia-me elle, D. Izabel está exilada. -Mas ou a revolução aniquila de vez a Hespanha, -ou a Hespanha ainda chamará a rainha». -Com effeito, em pouco se enganou D. Enrique: -um filho de Isabel II occupou o throno de S. -Fernando. Os Bourbons voltaram.</p> - -<p>Quem se não importava grandemente com os -acontecimentos politicos de Hespanha, era sua filha,<span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span> -Soledad, a mais <i>salerosa</i> individualidade de -mulher que é dado phantasiar na vaga idealisação -de uma noite de serenata.</p> - -<p>Bocage, quando do alto do seu monumento a -viu, estremeceu.</p> - -<p>Setubal ficou encantada, não obstante ter-se -iberisado então pelas relações commerciaes que -mantinha com a colonia dos emigrados. E digo -commerciaes, porque os hespanhoes eram os -primeiros a queixar-se que só tratassem com -elles os setubalenses nas transacções ordinarias -da vida: dá cá, toma lá. De resto os emigrados -entretinham-se uns com os outros, com duas ou -tres pessoas da terra, e com as que eram de fóra.</p> - -<p>O ideal de Soledad era uma <i>tertulia</i> ou, como -hoje dizemos á franceza, uma <i>soirée</i>. Por muito -tempo procurou desesperadamente uma <i>tertulia</i>, -e se alguma vez ouvia tocar piano, parava de -subito, attentava o ouvido e, com uma graça vivaz, -picante, exclamava: <i>Qué! És una tertulia?</i> -Era apenas um piano que tertuliava uma valsa... -platonicamente.</p> - -<p>Chegára o verão, começaram a apparecer os -banhistas, muita gente do Alemtejo. Ao fim da -tarde sentavam-se na praia, olhando para o mar, -e ou fallavam dos seus montados e das suas courellas, -ou descahiam em somnolencia mazomba. -Alguns d’elles, de faces rosaceas, abdomen enxundioso, -e instinctos retemperados pela bella -fibra suina tinham exclamações carnaes quando -a hespanhola passava, e digo a hespanhola, porque -era assim que toda a gente fallava d’ella, -sem embargo de que n’esse momento outras muitas -estivessem em Setubal. Era, porém, como se -se dissesse: a bella hespanhola, a formosa por -excellencia.</p> - -<p>Das pessoas da terra foram poucas as que romperam<span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span> -com a tradição local de retraimento bisonho, -arrastadas pela fascinação. E essas poucas, -eram homens. As senhoras visitavam-se então -em Setubal difficilmente, e esta difficuldade augmentava -para com os estrangeiros, cuja procedencia -era quasi impossivel esquadrinhar, a não -se fazer obra pelas informações dos seus patricios, -suspeitas para o caso.</p> - -<p>Um dia, porém, Soledad comprehendeu que os -seus olhos podiam, elles mesmos, em toda a -parte, improvisar uma <i>tertulia</i>; que no seu sorriso -alegre e resplendente de andaluza havia encantos -de sobra para fazer conhecidos e namorados, -e desde esse momento ella zombou poderosamente -da semsaboria setubalense, trazendo -comsigo, a toda a hora, de manhã ou á noite, -uma <i>tertulia</i> completa, attrahida pelo iman da -sua formosura, rebocada pela sua fascinação iberica. -Era a sua côrte, a sua <i>coterie</i>, o seu séquito. -Por accordo tacito, conferiu-se-lhe o sceptro -das Hespanhas, que a princeza de la Cisterna -havia deposto. Vassalos enthusiastas rodeavam-n’a -como nunca os tivera a rainha Maria Victoria. -Cada dia que passava trazia um novo alliado. -Alguem que vinha a Lisboa, dizia: «Que bella -hespanhola que está em Setubal!»—«O que?!» -perguntavam no Chiado.—«Unica! incomparavel! -sublime!» era a replica. Os curiosos iam, e -ficavam. Creio que os generos alimenticios chegaram -a encarecer em Setubal. Mas o que embarateceu -foi a poesia. N’aquelle tempo, ainda o -verso era o vehiculo do amor, e com razão se -julgava que para uma mulher de um paiz ardente -não havia para inflammar-lhe a phantasia -como uma metralha de alexandrinos.</p> - -<p>Em redor da bella andaluza, fallava-se um hespanhol -mascavado, que ás vezes parecia ser-lhe<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span> -ainda de mais difficil comprehensão do que o -vasconço o é para o commum dos hespanhoes. -Mas que se importava Soledad com as palavras? -Ella já sabia o que lhe diziam, o que por força se -havia de dizer ao pé d’ella: que a amavam. Sorria, -e respondia com os olhos, augmentando a -fascinação, sem se comprometter: este segredo -que só os olhos das hespanholas possuem. As -portuguezas, com habitarem a mesma peninsula -e serem da mesma raça, affirmam ou negam com -os olhos, compromettem-se pelo olhar. Os olhos -das hespanholas fallam sempre, mas raras vezes -para affirmar ou negar. A duvida atiça o amor, -e ella espalhava a duvida com o olhar. Não era -bem prometter, não era bem recusar, seria tudo -isso talvez, ou, ainda melhor, nada d’isso seria. -Semeava esperanças, atirava flores e olhares ao -acaso, emquanto o pae fallava dos assassinatos -de Montilla, dos incendios de Alcoy e dos sacrilegios -de Barcelona, e emquanto a mãe, que se -morria por peixe, e era ainda arrebitada, ia por -ali fóra, deixando vêr no sorriso uns dentes alvissimos, -marchando com um desembaraço verdadeiramente -hespanhol, em direcção á Ribeira, -para comprar um safio ou uma corvina. Assim -mesmo é que era; sem <i>ficelles</i> realistas, pela minha -parte.—Ah! ditoso safio! ah! venturosa -corvina! diziam muitos, que não podendo occupar -o coração de Soledad, se contentariam com -achar logar no seu estomago. Eu nunca fui d’esta -opinião; não pelo acto em si mesmo, mas pelas -consequencias. Todavia ha paladares para tudo...</p> - -<p>Alguns entendiam que o melhor modo de conquistar -a filha era captivar a mãe—pela bocca. -Offereciam-lhe carregações de peixe-espada, cardumes -de salmonetes, cabazes de laranjas—e<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span> -então aquellas laranjas, as de Setubal! Um adorador -setubalense mandou-lhe de uma vez um -presente de sal, que chegava bem para salgar -uma geração inteira. Outro <i>attaché</i>, lisboeta, riu -do caso, fazendo notar que quem possuia uma -filha assim tinha mais sal do que todas as marinhas -do Sado.</p> - -<p>Para brindar Soledad, os seus admiradores -iam colhêr as melhores flores das quintas de -Brancannes, que dispunham em graciosos <i>bouquets</i> -e lindas <i>corbeilles</i>, recorrendo ao velho estratagema -amoroso de esconder entre as flores -uns versos ou uma carta, se bem que ella parecesse -ás vezes gostar muito mais de laranjas que -de flores.</p> - -<p>O proprio D. Enrique era obsequiado com garrafas -de excellente moscatel, e seja dito em abono -da verdade que o moscatel de Setubal parecia ter -o condão de lhe aligeirar os desgostos causados -pelas desgraças da patria.</p> - -<p>De dia para dia se tornava cada vez mais numerosa -e obsequiadora a côrte em que a bella -andaluza era rainha absoluta, omnipotente. Soledad -sabia, como ninguem mais, conservar a illusão, -a duvida ao mesmo passo cruel e deleitosa, -que traz suspensos os namorados entre a esperança -e o desalento. Não se deixava comprehender: -esse era o seu grande segredo. A maior -desgraça que póde acontecer a uma mulher é o -ser comprehendida por todos. Umas vezes, parecia -enlevada em extasis romanticos, tinha vagas -abstracções, o seu olhar pairava no azul luminoso -da noite. <i>Que bella es la luna!</i> dizia. Dos seus -labios adejava um suspiro, que era impossivel -interpretar. Outras vezes, quando lhe faziam notar -a belleza da lua, ria com desdem petulante, -replicando que já estava enfastiada de ouvir fallar<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span> -da lua de Portugal e da revolução de Hespanha.</p> - -<p>Emquanto uns fallavam a Soledad, vogando -na ondulação das suas esperanças, ora afagadas, -ora combatidas, D. Estanislada, a mãe, discorria -a proposito do peixe-espada que tinha comido ao -jantar com salada de alface e azeitonas, e D. -Enrique discursava sobre a queda dos Bourbons -ou sobre a frasqueira do sr. Fonseca, de Azeitão.</p> - -<p>Eu não posso dizer quantos e quaes fossem os -satellites de Soledad a esse tempo. Eram muitos. -Citarei apenas os que me forem lembrando. -Um jornalista de Lisboa, o Goes, que mandava -mais versos do que laranjas, e um morgado de -Reguengos, que mandava mais laranjas do que -versos. Um proprietario das Alcaçovas que se -atirava ao coração de Soledad com sorrisos e -presuntos. Um rapaz de Setubal, o Vianninha, -que recorria ao auxilio das flôres, e que deixára -pela bella hespanhola uma menina da terra, a -Sequeira, que estava padecendo horriveis hysterismos -por se vêr abandonada. O conselheiro -Antunes, de Santarem, pessoa grave e dinheirosa, -que se dirigia principalmente á mãe, não se -sabia se para ficar por ahi, se como ponto de -partida para se aproximar da filha. Um morrinhento -hespanholito, tambem emigrado, D. Ramon -Mendoza, que recitava versos como quem -está a solfejar cantochão. O alferes Ruivo e o -tenente Epaminondas, de caçadores 1. Um sueco, -que estava ali a negocio: alto, louro, rosado -e inintelligivel. Um marialva do Chiado, que fôra -a uma corrida de touros, e não se demorára -menos de quinze dias. Um estudante de Alcacer, -Julio de Lemos, que tinha ido a férias, e não -chegára a casa. Mas, francamente, é-me completamente -impossivel enumerar todos os cortezãos<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span> -da bella andaluza, tanto mais que todos os -dias pareciam multiplicar-se como as cabeças da -hydra de Lerna e os algarismos da divida fluctuante.</p> - -<p>Em face de tão numeroso cortejo, terá decerto -perguntado já o leitor a si proprio como é que -elles podiam conviver uns com os outros, sem -desatar á descompostura e ao murro. A todos -os trazia illudidos a esperança, como a duzentos -candidatos que requerem o mesmo emprego. -Fallavam-se, como os pretendentes se fallam debaixo -da Arcada. Cada um tratava de metter -memorial, e de arranjar as suas coisas. Havia -<i>hotel</i>, o <i>Escoveiro</i> por exemplo, onde dormiam -dois a dois, por falta de leitos. Ás vezes intrigavam-se. -Finalmente, estavam em Setubal a -amar a bella hespanhola como podiam estar em -Lisboa a amar o deputado do circulo.</p> - -<p>Todos elles possuiam o retrato de Soledad, -reproduzido do <i>cliché</i> que um photographo ambulante, -temporariamente estabelecido no largo -das Almas, durante a estação de banhos, punha -ao serviço do amor, na razão de 1$500 réis por -photographia. O retratista estava fazendo um -grande negocio; parecia ter fome, quando ali -chegou, mas, passados dias, ia todas as manhãs -á praça do Sapal comprar uma bella posta de -carne de vacca e um chouriço, levando tudo para -casa n’uma folha de couve.</p> - -<p>Estes retratos duravam só mais quatorze manhãs -do que a rosa de Malherbe. Quando muito, -ao cabo de tres semanas a imagem desapparecia, -apagava-se. Os enamorados iam fornecer-se -de novo, n’uma grande anciedade amorosa, da -qual o photographo ambulante desentranhava -chouriços no dia seguinte.</p> - -<p>Á hora da ceia, na longa meza dos <i>hoteis</i>, um<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span> -grupo de amorosos, n’uma orgia de moscatel, -brindava pelo amor e pela esperança, havendo -cada um encostado á garrafa ou á compoteira -o retrato de Soledad. Então extasiavam-se, soltando -<i>hurrahs</i> perante o seu talhe <i>mignon</i>, o -seu collo de pomba, os seus bellos cabellos negros, -caprichosamente amontoados sob as rendas -brancas da mantilha, os seus olhos penetrantes -como punhaes de Toledo e vivos como carvões -accesos, o seu gracioso ar petulante, illuminado -por essa luz mysteriosa, que se projecta -sobre as mulheres hespanholas, e que se chama—o -<i>salero</i>.</p> - -<p>O conselheiro Antunes, que tambem estava -n’um <i>hotel</i>, não tomava parte n’estas bacchanaes -amorosas, condemnava-as mesmo, e tiravam-lhe -o somno, quer fosse pelo ciume ou pela algazarra. -No dia seguinte queixava-se de persevejos.</p> - -<p>O sueco, esse, embebedava-se com kirsch, e -tornava-se inintelligivelmente gárrulo. Punha os -olhos no tecto, parecendo recitar as mais sentimentaes -estrophes da Scandinavia, ao passo que -os portuguezes choravam de riso ao vel-o arroubado, -e perguntavam entre si: «<i>Que diabo estará -a dizer este pedaço de bruto!</i>»</p> - -<p>Uma noite, havia dado uma hora na egreja de -S. Julião, e no <i>Hotel Escoveiro</i> o grupo dos enamorados -abordava a setima garrafa de moscatel, -tendo cada um o retrato de Soledad em frente -do seu prato, quando de repente, á porta da sala, -uma figura inesperada apparece.</p> - -<p>Era D. Enrique Saavedra.</p> - -<p>O estudante d’Alcacer, que receiou uma tragedia -de colera paterna em cinco actos e outras -tantas bengaladas, lembrou-se de apagar o candeeiro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span></p> - -<p>Fez-se um silencio profundo, que o sueco, -alheio ao que se passava, e grandemente enkirschado, -interrompeu começando a declamar palavras -de quinze syllabas, longas e sibilantes -como um comboyo.</p> - -<p>De repente, a voz de D. Enrique troveja:</p> - -<p>—<i>Hombres, por Dios, atencion!</i></p> - -<p>O estudante foi tacteando a meza, ás escuras, -para esconder os retratos, e aconteceu-lhe metter -uma das mãos dentro de uma chicara de -café.</p> - -<p>O sueco calou-se, porque o proprietario das -Alcaçovas lhe deitou as mãos ás guelas.</p> - -<p>O jornalista lisboeta gritou que deixassem ouvir.</p> - -<p>Então D. Enrique declarou o que queria: Procurar -o cirurgião ajudante de caçadores 1, para -acudir a D. Estanislada, que estava afflictissima -com uma indigestão de peixe-espada e salada -d’alface.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer1.jpg" width="150" height="140" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header2.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>II</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-n.jpg" width="210" height="130" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">No dia seguinte, Julio de Lemos, o estudante -de Alcacer do Sal, passeiava -a sua paixão escholastica sob as arvores -do largo das Almas, quando -de repente lhe apparece, de physionomia completamente -transtornada, o photographo ambulante. -Que se encontrava n’uma situação afflictissima, -disse-lhe o retratista. Um agiota de Lisboa, a -quem devia cem mil réis, sabendo que estava -fazendo interesses em Setubal, cahira sobre elle -de chofre, tendo chegado no comboyo da manhã, -para exigir-lhe o prompto reembolso de -uma parte da divida. Que elle photographo se -havia esquecido realmente de satisfazer as prestações -estipuladas, que a mulher e os filhos gostavam -muito de bifes, e que elle gostava não só -de bifes mas tambem de moscatel de Azeitão. -Que não tinha dinheiro algum de que podesse -dispôr, e que o agiota queria retirar-se para -Lisboa no comboyo da tarde, levando algum dinheiro. -Sou um homem muito desgraçado! exclamava<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span> -o photographo. E acrescentava: Portugal -é um paiz perdido para os artistas! São todos -como eu. (Referia-se certamente á pobreza, -não ao moscatel e aos bifes).</p> - -<p>O estudante ouviu-o tendo nos labios um sorriso -de extranha superioridade, com as mãos -nos bolsos das calças, enfunando-as á hussard. -E perguntou ao retratista:</p> - -<p>—O senhor viu alguma vez a <i>Cora</i> em D. -Maria II?</p> - -<p>—Vi, sim, respondeu promptamente o photographo. -E acrescentou:—Uma só vez, sabe -Deus com que sacrificio! para vêr o panorama -do Mississipi, que me tinham gabado muito,—por -amor da arte!</p> - -<p>—Pois bem. Lembra-se como o Cesar de Lima -fechava um acto?...</p> - -<p>—<i>O senhor já viu alguma vez a Providencia? -Pois a Providencia sou eu!</i> Parece-me que era -isto.</p> - -<p>—Exactamente. É essa a phrase, observou -Julio de Lemos. Em Lisboa a Providencia é o -Cesar de Lima; em Setubal, sou eu.</p> - -<p>—O senhor!</p> - -<p>—Eu mesmo, <i>me adsum</i>.</p> - -<p>E tirou do bolso do frak todos os retratos que -na vespera á noite havia podido encontrar sobre -a mesa do <i>Hotel Escoveiro</i>, para que D. -Enrique Saavedra os não visse. Mostrou-os ao -photographo dizendo-lhe:</p> - -<p>—Vê isto?</p> - -<p>—Vejo. São os retratos da <i>senhorita Soledad</i>, -como o photographo, no seu calão de circo, costumava -chamar sempre á bella andaluza. Mas -não comprehendo!</p> - -<p>—Pois não comprehende! extranhou o estudante. -Vai comprehender. Hontem á noite, estando<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span> -nós a ceiar no <i>Hotel Escoveiro</i> e tendo os -retratos de Soledad sobre a mesa, entrou inesperadamente -D. Enrique Saavedra.</p> - -<p>—Oh diabo! exclamou o photographo. E elle -soube que sou eu quem os tiro?!</p> - -<p>—Qual historia! Quando elle entrou, eu tive -a idéa luminosa de apagar o candeeiro...</p> - -<p>—Então não foi luminosa, exclamou o photographo -já tranquillo, e contente de si, por ter -feito um dito gracioso.</p> - -<p>—É boa! exclamou o estudante, rindo estrepitosamente, -e dando dois piparotes no estomago -do photographo. Apanhou-a bem!...</p> - -<p>—É que d’estas coisas de luz, um photographo -entende sempre.</p> - -<p>E riram de novo.</p> - -<p>—Ora bem, continuou Julio de Lemos. Eu -tive a escura idéa de apagar o candeeiro, e de -procurar em cima da mesa os retratos de Soledad. -Durante a viagem das minhas mãos por -sobre a toalha, introduzi uma d’ellas dentro de -uma chicara de café, e estive para partir uma -garrafa. Mas, felizmente, pude apanhar todos os -retratos. São estes.</p> - -<p>O photographo começou a comprehender; sorria -velhacamente.</p> - -<p>—Hoje, continuou o estudante, todos os hospedes -do <i>Hotel Escoveiro</i> irão a sua casa procurar -retratos de Soledad, e o sr. venderá estes -mesmos, exceptuando o meu, se quizer acceitar -as condições que lhe vou propôr.</p> - -<p>O photographo ouvia attentamente, com uma -curiosidade cheia de pontos de interrogação.</p> - -<p>—As condições são dar-me a commissão de -vinte por cento em cada um d’esses retratos...</p> - -<p>Nos labios do photographo passou rapidamente -um movimento de despeito. Litteralmente<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span> -traduzida, essa crispação quereria dizer: Ah! -maroto, que me comeste!</p> - -<p>Mas em voz alta:</p> - -<p>—Vá feito.</p> - -<p>—Espere lá,—continuou o estudante, que havia -tres dias estava sem dinheiro—o meu amigo -ainda não pensou na possibilidade de ir alguem -a Lisboa mandar copiar qualquer d’estes retratos, -de modo a poder-se reproduzir um <i>cliché</i> -por um preço muito inferior a 1$500 réis o -cartão?</p> - -<p>—Sim... lá isso... mas a despeza do caminho -de ferro?... e o incommodo?... e sobretudo... -o ter que ausentar-se da senhorita Soledad, -deixando o campo livre ao inimigo!</p> - -<p>Esta ultima advertencia do photographo tinha -visivelmente por fim ferir a corda sensivel do -coração do estudante, que se deu pressa em -responder:</p> - -<p>—Ora o meu amigo excede na arte de não saber -photographar o proprio Marcel das <i>Scenas -da vida da bohemia</i> (o livro predilecto do estudante) -que tirava retratos aos granadeiros de Pariz -com a similhança garantida por um anno. -A imagem das suas photographias só pode ser -garantida por quinze dias, o maximo. Portanto, -d’aqui a oito dias, estes retratos estarão completamente -apagados, o meu amigo terá novas -encommendas, e eu continuarei a receber a commissão -de vinte por cento, com direito a um retrato -gratuito.</p> - -<p>O photographo transigiu, pactuou. O estudante -entregou-lhe os retratos de Soledad, que n’esse -mesmo dia foram vendidos aos seus admiradores—pela -segunda vez.</p> - -<p>No dia seguinte, o photographo ia, com o producto -d’esta receita inesperada, fazer uma patuscada<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span> -a Azeitão, levando comsigo a mulher, a -sogra, e os pequenos. O agiota de Lisboa tinha -sido uma fabula inventada pelo desejo com que o -photographo accordára de dar um rega-bofes a -toda a familia. E o estudante habilitava-se a comprar -ao feitor de uma quinta de Brancannes um -bello ramo de flores com que corrêra a presentear -Soledad, por isso que, <i>inopia pecuniae</i>, se -havia deixado preterir n’este genero de galanteria -idyllica.</p> - -<p>D. Estanislada estava inteiramente restabelecida. -O cirurgião ajudante de caçadores 1 fôra felicissimo -na prompta applicação de um copinho -de genebra de Hollanda, que pôde quebrantar os -impetos do peixe-espada no estomago da afflicta -senhora. <i>Es usted un doctor completo!</i> dizia ao -outro dia D. Enrique Saavedra ao cirurgião, passeiando -com elle na praia, e impingindo-lhe a -centessima edição da historia oral dos acontecimentos -de Hespanha. E como o doutor cahisse ingenuamente -em dizer que andava fazendo estudos -sobre a historia da poesia revolucionaria na -peninsula, D. Enrique Saavedra começou a repetir-lhe, -com uma facundia verdadeiramente hespanhola, -varias quadras <i>callejeras</i>, como elle dizia, -taes como estas:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Ay qué risa, qué risa, qué risa</div> -<div class="verse">Que Amadeo lo he visto en camisa!</div> -<div class="verse">Ay salero, ay salero, ay salero,</div> -<div class="verse">Que á Amadeo lo he visto yo en cuero!</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Si nos cumplen la palabra</div> -<div class="verse">Zorrilla, Rivéro y Martos,</div> -<div class="verse">Le pondrémes á Amadeo</div> -<div class="verse">El passaporte en la mano.</div> -</div> -</div> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p> - -<p>Entretanto, D. Estanislada, Soledad e o grupo -dos admiradores da bella andaluza haviam-se -encaminhado para o Passeio da praia de Troino. -Era convidativo o local, e a grande serenidade -do Sado punha no horisonte da paizagem uma -vaga doçura inexplicavel.</p> - -<p>O sueco sentia-se bem deante do aspecto grandioso -das aguas do rio, e do mar que se avistava -ao longe. Era, em toda a sua pujança, n’esse -momento, um homem do norte, habituado a vêr -os grandes rios e os grandes lagos, sem se arripiar -de frio, graças ao habito do clima septentrional -e... ao kirsch. Como Soledad parasse ao -pé do lago para lhe atirar uma pedrinha, que -desappareceu descrevendo á superficie da agua -ondulações concentricas, o sueco disse-lhe, na -sua linguagem arrevesada, que se ella visse o -lago Moelar, em Stockholmo, semeado de pequenas -ilhas, ficaria verdadeiramente encantada, -e baixo, ao ouvido, acrescentou: <i>Senhora poderr -irr comiga, se querr casa mim.</i></p> - -<p>Como fosse o sueco quem n’essa tarde parecia -ter adiantado terreno, os outros iam despeitados, -e alguns, n’um grupo, faziam troça e iam chasqueando -das suas calças curtas, das suas grandes -botas rugosas, do seu passo de pachiderme, -e da sua <i>gaucherie</i> amorosa. O conselheiro Antunes, -fallando com D. Estanislada, aconselhava-lhe -que para a outra vez se abstivesse do -peixe-espada, que na sua opinião era muito reimoso.</p> - -<p>Chegados á beira do rio, Soledad sentou-se, -poz os olhos na corrente plácida do Sado, e tirou -da sua alma de andaluza um suspiro que mandou -ao Guadalquivir. Explicou ao sueco que a -cidade de Sevilha ficava á margem do Guadalquivir, -um bello rio, o mais formoso de todo o<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span> -mundo! exclamou ella n’uma arrojada hyperbole -hespanhola. O sueco sentiu-se ferido na corda -do patriotismo, e replicou: <i>Nó! nó!</i> E procurou -justificar a negativa citando os principaes rios da -Scandinavia, enumerando o <i>Tornea</i>, o <i>Lulea</i>, o -<i>Pitea</i> e o <i>Umea</i>. E o estudante, troçando, acrescentou -do lado com ruidoso applauso dos circumstantes, -e com a rapidez de quem está declinando -nomes latinos: E o <i>Gelea</i>, o <i>Gouvea</i>, o -<i>Obrea</i>, e o <i>Lamprea</i>.</p> - -<p>O sueco fez-se encarnado como uma cereja, -sem perceber ao certo senão que estavam rindo -d’elle, e Soledad vibrou uma gargalhada sonora -como um tinido de crystaes, que se houvessem -encontrado na sua garganta.</p> - -<p>Era que o estudante de Alcacer estava verdadeiramente -desesperado. N’esse mesmo dia em -que havia ido comprar um <i>bouquet</i> a uma quinta, -a cuja porta um grande cão arremettêra contra -elle ladrando encolerisado, n’esse mesmo dia -em que com varia fortuna tivera a vantagem de -só elle offerecer flores e a contrariedade das iras -do cão, via-se preterido pelo sueco.</p> - -<p>O estudante procurou desesperadamente no -seu espirito uma idéa salvadora, que pudesse -restituir-lhe a importancia que visivelmente ia -perdendo. Queria a todo o custo deslocar o sueco -da bella posição em que se encontrava, e pretendeu -despertar na alma de Soledad as tendencias -devaneadoras que por vezes se caracterisavam -n’uma intermittencia de romanticismo. Propoz -um passeio ao oratorio de Mendoliva, um sitio -poetico, na encosta da serra de S. Filippe, quasi -á beira-mar. Com effeito, o espirito da bella andaluza -exaltou-se promptamente. Ella não sabia -o que era Mendoliva, nem qual fosse a belleza -d’esse local. Mas o seu delicado instincto de<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span> -mulher e de andaluza adivinhou que se tratava -de uma tradição romantica, de uma lenda nacional, -e abraçou o alvitre.</p> - -<p>O estudante delirou de alegria, julgou-se victorioso.</p> - -<p>D. Estanislada perguntou a que distancia ficaria -o oratorio. Indicou-lhe a direcção o Vianninha, -o rapaz de Setubal, aquelle por quem a -Sequeira estava bebendo anti-hysterico todas as -noites. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas -affirmaram que o sitio era delicioso. Mas o -conselheiro Antunes recordou a D. Estanislada -o preceito da eschola de Salerno:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse"><i>Post prandium sta, post cœnam ambula</i>,</div> -</div> -</div> - -<p class="noindent">e aconselhou-lhe que ficasse, que elle lhe faria -companhia, <i>com muito gosto e muita honra</i>—palavras -suas—, <i>minha senhora</i>. D. Estanislada -acceitou a advertencia—por causa do estomago -e de outros orgãos.</p> - -<p>Partiu em direcção ao oratorio de Mendoliva o -alegre rancho da bella andaluza e dos seus cavalleiros -<i>servientes</i>. O caminho, á beira-mar, é -em verdade delicioso. O sol, n’uma grande explosão -de luz, lançava sobre o mar uma chuva -de oiro. Manchas encarnadas, de um colorido á -Rubens, punham no horisonte uns tons de purpura, -que davam ao sol uma magestade olympica, -como as cortinas de um throno asiatico. -Chegaram com effeito ao local da antiga ermida -de S. Braz, onde em outro tempo um soldado -portuguez se elevou em extasis de asceta, havendo -trocado a espada pelo habito.</p> - -<p>Soledad gostou muito, comprehendeu a vaga -poesia que se respirava ali, e pediu ao estudante -a lenda do sitio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span></p> - -<p>Pobre estudante! Viu-se entalado, sem saber -como havia de tirar-se d’aquelle mau passo. Concluiu -por dizer que o sitio não tinha lenda. -Foi um golpe de espada de Alexandre. O alferes -Ruivo e o tenente Epaminondas foram da mesma -opinião: que o sitio não tinha historia. O -proprietario das Alcaçovas acrescentou com uma -rudeza brutal que não podia ser assim: que -<i>Mendoliva</i> havia por força de dizer alguma coisa. -O morgado de Reguengos acudiu em auxilio -do patricio, pela honra do Alemtejo: que -<i>Mendoliva</i> havia de ter uma significação qualquer. -Então o jornalista Aurelio Goes, que se -havia conservado calado, com um sorriso de -ironia nos labios, poz-se em evidencia: disse que -o chronista Ruy de Pina contava que Mendo -Gomes de Seabra fôra um cavalleiro do tempo -de D. João I, que, mais tarde, já depois do desastre -de Tanger, se apartára do mundo ermando -ali, e que, passados annos, fundára o mosteiro -de Alferrara.</p> - -<p>Julio de Lemos, desesperado, apopletico de colera, -observou que o jornalista estava confundindo -Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno -Alvares Pereira, que fôra quem depois de ter -militado nos exercitos de D. João <span class="smcapuc">I</span> resolvêra -vestir o habito monastico, e que provavelmente -o povo setubalense confundiu os dois individuos -na mesma lenda.</p> - -<p>Aurelio Goes despeitou-se, e perguntou ao estudante -se elle já havia feito exame de historia -portugueza. O Lemos respondeu insolentemente: -que sim, mas que talvez a tivesse desaprendido -lendo os jornaes. O jornalista perguntou se se -referia ao jornal de que elle era redactor. E o -Lemos, querendo nivelar-se á altura de um Cid -campeador perante a bella andaluza, respondeu<span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span> -que não podia referir-se a outro jornal, visto que -o seu redactor confundia Mendo Gomes de Seabra -com D. Nuno Alvares Pereira. Aurelio Goes -ainda avançou para o estudante, mas o proprietario -das Alcaçovas deitou-lhe a mão ao braço, -como na vespera havia deitado as mãos ás guelas -do sueco.</p> - -<p>Soledad acompanhou com os seus bellos olhos -penetrantes todos os episodios d’este conflicto. -Comprehendeu perfeitamente tudo o que se havia -passado, e quiz dissipar a nuvem negra que -subitamente se formára. Lembrou que o sitio era -encantador, que convidava á poesia, e pediu ao -estudante que recitasse uns versos. Julio de Lemos -desculpou-se, que estava indisposto, que se -não lembrava de versos nenhuns. Ella insistiu, -com imperiosa meiguice. Que não, que não podia, -tornou o estudante. Soledad redobrou de instancias. -O estudante, com as faces rubras como papoulas -e os olhos congestionados, teve que ceder -e começou a recitar, com uma precipitação colerica:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">As flores d’alma que se alteiam bellas,</div> -<div class="verse">Puras, singelas, orvalhadas, vivas,</div> -<div class="verse">Têm mais aromas, e são mais formosas,</div> -<div class="verse">Que as pobres rosas, n’um jardim captivas.</div> -</div> -</div> - -<p>Completamente fóra de si, fez uma longa pausa, -procurando visivelmente lembrar-se da segunda -quadra. Depois ia continuar com igual -precipitação:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Sol bemfazejo lhes aquece a chamma</div> -</div> -</div> - -<p class="noindent">e, olhando n’este momento para Aurelio Goes, -viu que elle sorrira. Sem mesmo perceber que<span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span> -se havia enganado, e dito uma tolice, o estudante -exclamou: «Oh! é de mais!» Subitamente, Soledad -levantou-se e disse com uma gravidade que -ninguem podia decerto esperar: <i>Caballeros, hagan -usteds favor de acompañarme</i>.</p> - -<p>Seguiram-n’a todos, n’um cortejo silencioso. -Mas, poucos passos andados, Soledad desfechou -uma gargalhada crystallina, e, voltando-se para -D. Ramon Mendoza, declamou com ares mysteriosos, -com uma graça verdadeiramente andaluza:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">...á fé mia,</div> -<div class="verse">Que estoy resuelto á mataros</div> -<div class="verse">Y no alcanzara á libraros</div> -<div class="verse">La misma virgen Maria.</div> -</div> -</div> - -<p>As gargalhadas eram estrondosas, resoantes; -o estudante, tendo dado o braço ao alferes Ruivo, -dizia-lhe a meia voz, cheio de colera: «O que -elle não sabe é que tem de se bater comigo! -Por força!»</p> - -<p>Sahiram-lhes ao encontro D. Estanislada e o -conselheiro Antunes, aos quaes se haviam juntado -D. Enrique Saavedra, e o cirurgião ajudante -de caçadores 1.</p> - -<p>—É bonito? perguntou D. Estanislada á filha, -em hespanhol, ainda a certa distancia.</p> - -<p>—Formosissimo! respondeu Soledad.</p> - -<p>—Sabes tu! disse D. Estanislada, temos aqui -um insigne cosinheiro, e indicou o conselheiro -Antunes. Iremos ámanhã comer uma grande caldeirada... -aonde?... como se chama aquillo? e -apontou para a outra margem do rio.</p> - -<p>—Troia, respondeu o conselheiro com a gravidade -de um Páris de cincoenta annos.</p> - -<p>—Excellente! commentou o morgado de Reguengos.<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span> -As laranjas, essas, ficam por minha -conta.</p> - -<p>—Havemos de bater-nos, por força, tornou o -estudante a dizer a meia voz ao alferes de caçadores.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer2.jpg" width="150" height="150" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header3.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>III</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-n.jpg" width="210" height="130" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">N’essa noite, foi no <i>Club Setubalense</i> -que se improvisou a <i>tertulia</i>. Soledad -e mais tres senhoras hespanholas -constituiam todo o feminino da -sala; mas por muitos que fossem os satellites, e -por mais brilhante que palpitasse o lume de seus -olhos castelhanos, Soledad, o bello astro da praia, -a todos offuscaria com a graça picante dos seus -sorrisos, dos seus olhares, e do seu desembaraço -andaluz. Não havia, portanto, necessidade de mais -senhoras ali. Em estando Soledad, ella só bastava -a encher de torrentes de vida a sala e os -corações. A irradiação da sua belleza era como a -da lua, nas formosas noites de verão.</p> - -<p>No elemento masculino notava-se, porém, uma -certa agitação n’essa noite. Os admiradores de -Soledad entravam e sahiam frequentemente da sala, -cheios de uma certa preoccupação mysteriosa. O -proprio conselheiro Antunes desapparecêra. Algumas -pessoas envenenavam este facto, fazendo -notar que Dona Estanislada não estava presente.<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span> -Mas bem podia ser que o conselheiro Antunes, -entrando nas suas funcções de cosinheiro, corresse -a cidade em todas as direcções, procedendo -aos preparativos indispensaveis para a caldeirada -do dia seguinte. Elle comprehendia perfeitamente -que todos os conselheiros portuguezes ficariam -compromettidos na sua respeitabilidade de classe, -se o <i>pic-nic</i> disparasse n’um enorme <i>fiasco</i> culinario. -De mais a mais, a sua reputação individual -de Vatel amador, affirmada por muitas vezes -nas patuscadas aristocraticas de Santarem, -encontraria nas areias de Troia um verdadeiro -Waterloo, uma deploravel ruina.</p> - -<p>Isto pelo que respeita ao conselheiro. Quanto -aos outros, a causa da sua preoccupação era diversa. -Sentia-se effectivamente que andava no ar -um acontecimento extranho, extraordinario, alarmante. -N’um gabinete interior conferenciava-se -em tom discreto; entravam uns, sahiam outros, e -o marcador do bilhar, que espreitava cheio de curiosidade -por um pequeno buraco do tabique, chegou -a suspeitar de que estivessem bebendo á socapa,—julgando-se -até certo ponto desconsiderado -por lhe não haverem distribuido o papel de -Ganimedes do festim.</p> - -<p>O marcador era um tolo, um guloso, para não -dizer um borracho. Ali, no gabinete, não se tratava -de beber vinho; se havia sêde, era de sangue. O -estudante de Alcacer queria sugar as veias do -jornalista de Lisboa, escorropichar-lhe as arterias, -mastigar-lhe o coração. Uma carnificina! O -alferes Ruivo dirigia os preliminares do duello, e -dizia facetamente que, <i>coisas d’esta natureza</i>, em -que elle entrasse, haviam de acabar por força em -sarrabulho. Que não era para brincadeiras, que -tinha uma farda, que devia honral-a, e que estava -n’essa firme convicção. Que o duello havia<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span> -de ser de morte, a poucos passos de distancia, á -pistola, pelo menos; por não estar em costume -bater-se ninguem a canhão, porque seria esse o -meio mais racional de dois sujeitos se metralharem.</p> - -<p>No botequim da praia contava-se, commentava-se -o <i>escandalo</i> d’aquelle dia. Que o Lemos e o -Goes não só se haviam insultado de palavras, na -presença de Soledad e por causa d’ella, mas que -tinham mesmo chegado a vias de facto, arrancando -os cabellos, e não sei se os olhos, um ao -outro. Alguns curiosos foram ao lugar do conflicto -para verificar se havia no chão nodoas de -sangue, e algum olho perdido. Não encontraram -nada. Acrescentava-se que o administrador do -concelho já tinha tomado conhecimento do facto, -que o poder judicial receberia participação, e todo -este <i>escandalosinho</i> era saboreado a pequenos -goles, como um vinho generoso. Em Setubal, -quando algum acontecimento extraordinario occorre, -põem-n’o de escabeche para durar mais -tempo. Sabem tratar muito bem do peixe e do escandalo -de conserva. Depois, os commentarios -saltavam. Uns velhos sacudiam o seu caruncho -em phrases desdenhosas: «Que tolos! são uns -asnos! Tudo isto por causa de uma hespanhola -que os anda a comer!» E outros, mais philosophos: -«Todas as mulheres são da mesma massa, -tanto faz que sejam hespanholas como portuguezas.» -E um bregeirote, do lado: «Se ella fosse de -massa não se massavam elles tanto!...» «Aquillo -é para lavar e durar!» commentava um capitão -de navios, vermelho e grosso, já entrado na genebra -de Hollanda, que bebia aos copinhos, de um -só sorvo.</p> - -<p>No gabinete do <i>Club</i> resolveram que era melhor -o estudante apparecer na sala da dança, -para <i>dissipar suspeitas</i>. Quando o marcador o<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span> -apanhou na casa do bilhar, depois de haver sabido -por um frequentador do botequim, que ali entrara -a historia exagerada do conflicto na praia, -chegou-se-lhe ao ouvido, e disse com os ares de -superioridade de quem está de posse de um segredo: -«Então o senhor tira a desforra, hein?» -«Chut! respondeu Julio de Lemos. Eu cá sou -assim, ha de ser duello de morte!» O marcador -ficou entalado: «De morte?» perguntou. E como -o estudante lhe voltasse as costas, saboreando a -sua reputação de duellista, o marcador foi vêr ao -livro dos <i>fiados</i> a quanto montava a divida do -estudante. E sommou: Cinco partidas de bilhar, -dois charutos, um copo de vinho do Porto: total, -360 réis. O Lemos fez a sua entrada na sala, -apparentando uma serenidade heroica, a serenidade -fria de um Cassagnac; julgava-se circumdado -de um resplendor glorioso. Mas Soledad -parecia não o haver comprehendido, mostrava-se -uma digna representante de um paiz de antigos -brigões de capa e espada, e de modernos toureiros -audaciosos. Não fez caso do heroe. Estava -apertando a cravelha amorosa ao sueco, conseguindo -extrahir d’elle, do <i>Stradivarius</i> que todo -o homem tem no coração, notas de uma melifluidade -assombrosa nas raças do norte. Ella -tinha-o embriagado com o <i>Kirsch-Wasser</i> dos -seus olhos. Estava tonto de amor o sueco, bebado -de <i>salero</i>, e, no <i>grand’-chaine</i> dos <i>Lanceiros</i>, -as suas mãos enormes, duras e grossas, -pareciam ter uma delicadesa de sensitiva, as -contracções nervosas dos tentaculos de um caranguejo, -ao colherem os dedos avelludados e -finos de Soledad.</p> - -<p>Depois da dança, rendeu-se culto á poesia. O -estudante, que estava sempre na vanguarda dos -recitadores, menos do que nunca se fez rogar<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span> -n’essa noite. Recitou versos de Alvares de Azevedo, -o mais genial, o mais nacional dos poetas -brazileiros, talvez. E de pé, tendo na voz todas -as commoções ao mesmo passo epicas e lyricas -do homem que vae expôr-se heroicamente á -morte, estando psychologicamente mais vivo do -que nunca, declamou:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Se eu morresse ámanhã, viria ao menos</div> -<div class="verse">Fechar meus olhos minha triste irmã:</div> -<div class="verse">Minha mãe de saudades morreria,</div> -<div class="verse indent2">Se eu morresse ámanhã.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Quanta gloria presinto em meu futuro!</div> -<div class="verse">Que aurora de porvir e que manhã!</div> -<div class="verse">Eu perdêra chorando essas corôas,</div> -<div class="verse indent2">Se eu morresse ámanhã.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Que sol! que ceu azul! que doce n’alva</div> -<div class="verse">Acorda a natureza mais louçã!</div> -<div class="verse">Não me batêra tanto amor no peito,</div> -<div class="verse indent2">Se eu morresse ámanhã.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Mas essa dôr da vida, que devora</div> -<div class="verse">A ancia de gloria, o dolorido afan...</div> -<div class="verse">A dôr no peito emmudecêra ao menos,</div> -<div class="verse indent2">Se eu morresse ámanhã...</div> -</div> -</div> -</div> - -<p>Na verdade o estudante de Alcacer difficilmente -poderia ter escolhido outra poesia, que melhor -traduzisse as grandes luctas intimas da sua alma. -É certo que nos pormenores da composição -não havia inteira identidade de circumstancias -entre o recitador e o poeta. O estudante nunca -tivera irmã nenhuma, e porisso estava bem longe -de que a piedade fraterna tomasse sobre si o encargo -de lhe fechar os olhos. E ainda que caisse -ferido no campo da honra, de pistola em punho, -sua mãe não morreria de saudade, pela simples<span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span> -rasão de já ter morrido, alguns annos antes, com -as febres de Alcacer. Quanto ás <i>corôas</i>, que elle -perderia morrendo, a dessimilhança era profunda. -O pae, com quanto fosse um bom proprietario -de marinhas, estava cançado com as prodigalidades -do filho,—isto pelo que toca ás corôas -de... dez tostões; quanto ás de loiro, colhidas -nas lides de Minerva, as <i>raposas</i> encarregavam-se -de lh’as devorar annualmente. Mas, em tudo -o mais, essa triste prophecia de Alvares de Azevedo -parecia quadrar á situação do estudante.</p> - -<p>Soledad deu mediana importancia aos versos -e ao recitador... N’essa noite parecia deliciada -em conhecer como um homem forte do norte -póde estontear de amor sob a influencia de uma -mulher do sul. Quando o estudante sahiu da -sala, jurando aos seus deuses matar o sueco, -depois de ter matado o jornalista, o marcador -chegou-se ao pé d’elle, e lembrou-lhe <i>aquella -continha de dezoito vintens, visto que ha viver -e morrer, e elle haver dito que o duello havia de -ser de morte</i>...</p> - -<p>O estudante ficou vivamente contrariado, remexeu -nas algibeiras, e poude, ao cabo de muitas -pesquizas, encontrar 150 réis.</p> - -<p>—Aqui tem, disse elle ao marcador; e se eu -morrer, mandem-me penhorar pelo resto no inferno. -O cobrador que pergunte ao Cerbéro por -Julio de Lemos. Cerbéro é um cão...</p> - -<p>—Lá isso é, ficou dizendo o marcador, e de -210! Corja de pulhas!...</p> - -<p>No gabinete as negociações haviam caminhado -rapidamente durante a breve ausencia do estudante. -Os <i>padrinhos</i> conferenciaram, o alferes -Ruivo declarou muitas vezes, piscando o olho -para o lado, que o duello havia de ser de morte, -que o seu committente queria matar ou morrer,<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span> -que a offensa tinha sido grave, mas foi redigindo -a seguinte acta, que já estava prompta quando -o estudante entrou:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>«Nós abaixo assignados fomos encarregados -pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos de procurar o ex.ᵐᵒ -sr. Aurelio Goes, a fim de lhe pedirmos explicações -sobre algumas phrases violentas que na -tarde de hoje, e junto ao oratorio de Mendoliva, -suburbio de Setubal, dirigira ao nosso digno e -brioso committente. Immediatamente o ex.ᵐᵒ sr. -Aurelio Goes encarregou os dois cavalheiros, -que comnosco assignam, de nos procurarem -para deliberarmos sobre o que á honra de ambos -mais conviesse, fazendo-se reciprocas declarações -de que tanto um como o outro estavam -dispostos a sacrificar-se para satisfação da propria -honra, caso se reconhecesse que havia sido -offendida. Examinada por nós maduramente a -causa do conflicto, e a maneira por que elle se -deu, entendemos em nossa consciencia e dignidade -que as phrases tidas por violentas, apenas -continham allusões litterarias, que de nenhum -modo podiam susceptibilisar (<i>sic</i>) os brios pessoaes -d’aquelles dois cavalheiros, pelo que foi -por nós quatro reconhecido que não havia motivo -rasoavel para que esta pendencia proseguisse, -devendo outrosim declararmos que os -nossos committentes se comportaram de modo a -affirmar louvavelmente o seu pundonor e a sua -coragem, como pessoas que nobremente antepõem -o respeito pela honra individual a todas e -quaesquer conveniencias materiaes.</p> - -<p>Setubal, etc., etc.</p> - -<p>Pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos, <i>Fuão</i> e <i>Fuão</i>.</p> - -<p>Pelo ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, <i>Fuão</i> e <i>Fuão</i>.</p> - -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span></p> - -<p>O alferes Ruivo achou prudente não levar mais -longe a brincadeira do duello, receiando que o -coronel de caçadores 1 tomasse a coisa a serio, -se elles chegassem a ir ao campo.</p> - -<p>O estudante, ouvindo lêr a acta, conjunctamente -com o jornalista, declarou que effectivamente lhe -parecia que os factos estavam correctamente -apreciados, mas que muito o contrariava não -poder experimentar no campo da honra a sua -coragem; por sua parte, o jornalista disse -que os factos haviam sido fielmente interpretados, -mas que lamentava que ainda d’aquella vez -elle não podesse provar que pertencia ao numero -dos jornalistas, que acceitam a responsabilidade -das suas acções e das suas palavras em qualquer -campo aonde sejam chamados.</p> - -<p>Resolveu-se mais que as pazes fossem solemnemente -selladas com um abraço, e que uma -copia authentica da acta apparecesse no proximo -domingo nas columnas da <i>Gazeta Setubalense</i>, e -na <i>Trombeta Ulyssiponense</i>, de que Aurelio Goes -era redactor effectivo.</p> - -<p>O morgado de Reguengos e o proprietario das -Alcaçovas riram a bandeiras despregadas quando -ouviram lêr a acta, e declararam categoricamente -que, se os duellistas houvessem tentado bater-se, -teriam ido separal-os a murro e a ponta-pé.</p> - -<p>Havia tal energia alemtejana n’esta declaração -dos dois, que toda a gente os acreditou, incluindo -os padrinhos e os proprios duellistas.</p> - -<p>Julio de Lemos sentiu os seus nervos mais -tranquillos, porque a verdade é que ninguem -sabe aonde uma bala póde ir parar; mas por outro -lado foi obrigado a reconhecer que lhe faltava -o prestigio da heroicidade, que lhe tinha -fugido das mãos um titulo altamente recommendavel,—a -reputação de duellista.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span></p> - -<p>D. Enrique Saavedra entendeu que eram horas -de pôr têrmo á <i>tertulia</i>, quando na egreja de S. -Julião bateram as dez. Que sua mulher estava -só em casa... e além d’isso o banho... que a -maré era cedo: respondia elle ás instancias com -que lhe pediam meia hora, mais meia horinha ao -menos. Mas a verdade era que D. Enrique estava -aborrecido por lhe faltar o cirurgião ajudante, -para fallar com elle sobre a politica do Hespanha, -e que, por causa do duello, não apanhára -ninguem a quem podesse massar.</p> - -<p>Na praia, quando a familia Saavedra se dirigia -para casa, acompanhada por todos aquelles que -constituiam o seu sequito habitual, um vulto -passava em direcção opposta, e, sendo reconhecido, -chegára-se a D. Enrique e dissera-lhe a -meia voz, com alguma atrapalhação:</p> - -<p>—Sabe <i>usted</i> que ainda não pude até agora -arranjar azeite bom para a caldeirada de amanha?! -Com mau azeite não ha caldeirada que -preste...</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer3.jpg" width="150" height="150" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header1.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>IV</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="160" height="120" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Amanheceu glorioso o dia seguinte.</p> - -<p>Ás sete horas da manhã, já o conselheiro -Antunes andava no velho mercado -da praça do Sapal, comprando as -melhores fructas que pôde encontrar. -Tambem comprou algumas flôres para offerecer -a D. Estanislada e a Soledad. Seguiam-n’o -dois rapazitos com cêstas á cabeça. Do Sapal, -onde não olhou a dinheiro, dirigiu-se para o mercado -do peixe, onde comprou o melhor e o mais -caro. A sorte favoreceu-o: os salmonetes eram -a rôdos. A caldeirada devia ficar famosa.</p> - -<p>Foi no mercado do peixe que o estudante d’Alcacer -lhe appareceu todo açodado.</p> - -<p>—Tão matutino, sr. Julio de Lemos! exclamou, -ao vêl-o, o conselheiro.</p> - -<p>—Ha caso! respondeu o estudante.</p> - -<p>—Caso! repetiu com surpresa o conselheiro. -Querem vêr que a D. Estanislada tornou a apanhar -uma indigestão, e que já não vamos a Troia! -Pois ha de perder-se tudo isto!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span></p> - -<p>E com um olhar desalentado, em que se liam -poemas d’angustia, relanceou os olhos ás flores, -ás fructas, ao peixe. Se podesse olhar para si -mesmo, o conselheiro Antunes tel-o-ia feito involuntariamente, -significando a magua que lhe causava -o perder-se tambem elle proprio, o seu raro -talento culinario, que desejava exhibir, n’esse dia, -perante D. Estanislada, e os outros.</p> - -<p>—Qual! Nada d’isso e melhor que isso!</p> - -<p>Aquietou-se o semblante do conselheiro, que -entretanto se havia lembrado de que se perderia -tambem o excellente azeite, que finalmente podéra -descobrir. Não era isso? Ainda bem! Salvava-se -tudo, incluindo o azeite magnifico e o -talento culinario.</p> - -<p>Julio de Lemos, rapidamente, explicou:</p> - -<p>—Chegaram hontem á tarde as <i>netas do Padre -Eterno</i>!</p> - -<p>O conselheiro fez uma cara de espanto, de surpreza, -e desconfiança: cara de quem não percebia -nada.</p> - -<p>—Como! exclamou. As <i>netas do Padre Eterno</i>! -Então vossa senhoria, sr. Julio de Lemos, -propõe-se agora brincar com o Padre Eterno e -comigo!</p> - -<p>E, de repente, reconquistou toda a plenitude do -seu bello ar conselheiratico, muito emproado.</p> - -<p>—Pois vossa excellencia imagina que estou -brincando! respondeu o estudante. As <i>netas do -Padre Eterno</i> são tres lindas meninas da Messejana, -que já cá estiveram ha dois annos, e deixaram -toda a gente encantada.</p> - -<p>—Mas o que têm essas tres lindas meninas -com o Padre Eterno? perguntou auctoritariamente -o conselheiro.</p> - -<p>—Têm... que são netas do avô. Nós pozémos-lhes -a alcunha de netas do Padre Eterno,<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span> -porque o avô, o Rodarte, é um velho de grandes -barbas brancas, que faz lembrar as imagens do -Padre Eterno. Não ha ninguem mais estimavel -do que o bom velho, que morre por jogar o voltarete, -e que mette as cartas pelos olhos dentro, -porque é muito myope. Mas as netas, as netas, -sr. conselheiro, são as tres graças, acredite!</p> - -<p>—Bem! Bom é que a praia se vá animando -cada vez mais! Mas não percebo a razão por que -o sr. Julio de Lemos classifica de <i>caso</i> esse acontecimento, -aliás vulgar!</p> - -<p>—É que eu encontrei-as agora. Estive-lhes a -contar o que ia por cá, o que nos temos divertido -com a familia de D. Enrique, e a caldeirada -que hoje vamos fazer, graças ao talento culinario -de vossa excellencia.</p> - -<p>—Muito obrigado pelo seu obsequio, disse o -conselheiro, lisongeado nas suas prosapias de -Vatel amador.</p> - -<p>—E, como ellas mostrassem pena de perder a -caldeirada, julguei que não era decente deixar de -convidal-as. Vinha, portanto, prevenir d’isto -vossa excellencia, na sua qualidade de nosso -amavel amphitryão, e pedir-lhe desculpa da minha -ousadia, que aliás as circumstancias justificam.</p> - -<p>—É um acto de gentileza, que se deve ter sempre -com as damas... Nada tenho que objectar. -Apenas, não sei se a familia de D. Enrique deveria -ter sido prevenida primeiro...</p> - -<p>—Qual! N’uma praia não ha dessas etiquetas. -De mais a mais D. Estanislada e Soledad são -muito sociaveis, gostam immenso de boa companhia, -e a prova está em que apreciam sempre a -presença de vossa excellencia...</p> - -<p>—Oh! sr. Julio de Lemos! Mil vezes obrigado... -Bem! bem! Eu vou reforçar um pouco o<span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span> -contingente dos salmonetes, visto que os ha com -abundancia no mercado, felizmente! Só peço a -vossa senhoria que tenha a bondade de explicar -a D. Estanislada o gentil passo que deu, de modo -a não me poder ser imputada a iniciativa d’elle.</p> - -<p>—Perfeitamente. Mil vezes obrigado. Então a -que horas é a partida? Preciso ir prevenir as Rodartes.</p> - -<p>—Ás duas em ponto, no caes do Livramento.</p> - -<p>—Bem! bem! Ás duas em ponto lá estaremos, -e terá vossa excellencia occasião de conhecer -as tres lindas netas...</p> - -<p>—Do Padre Eterno, atalhou, sorrindo, o conselheiro.</p> - -<p>E foi d’ali <i>reforçar</i>, como elle disse, <i>o contingente -dos salmonetes</i>.</p> - -<p>O estudante andára com certa finura em todo -este negocio.</p> - -<p>Quando viu as Rodartes, que eram realmente -tres lindas mulheres, ficou contentissimo por se -lhe deparar tão feliz achado. Lembrou-se logo de -que ellas cahiam do ceu para disputar a Soledad -o premio da belleza. D’este modo conseguir-se-ia -abater, pela concorrencia, o orgulho da andaluza. -E elle, namorando alguma das tres, a -Hilda, principalmente, a quem já havia, dois annos -antes, arrastado a aza, vingar-se-ia dos desdens -com que Soledad acolhia por vezes, sempre -caprichosa e indefinida, os seus galanteios.</p> - -<p>Inculcou-se ao Rodarte e ás netas como um -dos promotores da caldeirada, tendo portanto auctoridade -para fazer o convite, que, n’essa fé, foi -acceito.</p> - -<p>Depois correu a procurar o conselheiro, mudando -as guardas á fechadura: desculpando-se -do que fizera, pois que o conselheiro era o amphitryão -da caldeirada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span></p> - -<p>E, tendo visto flôres dentro de um dos cestos, -flôres que eram certamente destinadas a D. Estanislada -e Soledad, não quiz ficar atraz em gentileza -para com as Rodartes. Foi ao Sapal comprar -dois ramos de flôres, que uma palmelôa lhe -vendeu por quatro vintens. O seu desejo era comprar -tres ramos, mas, para isso, não lhe chegava -o dinheiro. Cortou o nó gordio, desfazendo -em casa os dois ramos, e compondo tres, que -sahiram mais geitosos do que estavam os dois.</p> - -<p>Olhando, contente da sua obra, para elles, teve -Julio de Lemos esta observação sensatissima:</p> - -<p>—Para saber economia, não é preciso ser economista: -basta não ter dinheiro.</p> - -<p>Depois foi avisar a familia Rodarte de que ás -duas horas em ponto partiriam todos do caes do -Livramento.</p> - -<p>Ficaram contentissimas as Rodartes com a boa -estreia que a sua estação balnear ia ter.</p> - -<p>Orphãs de pai e mãe muito novas, era com o -avô que tinham sido creadas. Baboso por ellas, o -velho Rodarte fazia o que as netas queriam, não -tinha vontade propria. Extremamente myope, como -o estudante d’Alcacer dissera, ia para toda a -parte comboyado pelo braço de alguma das netas, -quasi sempre Salomé, que era a mais velha, -e das tres a menos formosa. Tinha vinte e tres -annos.</p> - -<p>Hilda e Maria Ignez eram gémeas e encantadoras. -Vinte e um annos adoraveis. Mulheres -fortes, de olhos negros, faces radiosas, braços -<i>potelés</i>, cobertos de um frouxel que reluzia ao -sol como uma pennugem de ouro.</p> - -<p>Salomé era menos forte e menos bella. Mas -havia na sua physionomia uma graça peninsular, -que não tinha inveja á formosura. E a sua conversação, -os seus ditos de espirito, partiam da<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span> -sua bocca graciosa e sã como settas que brilhavam -mais do que feriam.</p> - -<p>Eram ricas, duplamente ricas, pelo pae e pela -mãe. No districto de Beja não havia casa melhor -do que a sua, cujas herdades e montados se espalhavam -para o oriente até ao Chança e para o -sul até Almodovar.</p> - -<p>O avô recommendava-lhes sempre que não tivessem -pressa de casar, porque não poderiam -encontrar noivos que as estimassem mais do que -elle.</p> - -<p>E enterradas na Messejana, lonje das tentações -do mundo, ellas pareciam, realmente, não ter -pressa de casar.</p> - -<p>No tempo dos banhos costumavam ir para Sines, -que era uma semsaboria pouco melhor que -a Messejana. Um anno, para variar, conseguiram -arrastar o avô até Setubal, onde fizeram -sensação, e ficaram sendo conhecidas pelas <i>netas -do Padre Eterno</i>. Mas o avô fatigara-se com -a jornada, e no anno seguinte voltaram para Sines. -Agora fôra elle que voluntariamente, conhecendo -que as suas tres graças preferiam naturalmente -Setubal a Sines, se offerecera de motu -proprio ao sacrificio, com a sua patriarchal bonhomia -de avô baboso.</p> - -<p>Julio de Lemos, que encontrára na Physica da -Escola Polytechnica um barranco ainda não vencido, -resignava-se, durante as ferias, do desgosto -que no fim de todos os annos lectivos recebia em -Lisboa. Namorando e perpetrando o seu verso, -preparava-se para no anno seguinte investir novamente -com a Physica.</p> - -<p>Fôra um dos mais dedicados satellytes das <i>Netas -do Padre Eterno</i>, quando ellas pela primeira -vez appareceram em Setubal. Versejára em honra -de todas tres, mas não era um namorado que<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span> -ninguem tomasse a serio. Todos os galanteios -que as irmãs Rodartes inspiraram, e foram muitos, -não podiam auctorisar-se com a esperança -de casamento. Mas, em compensação, ellas haviam -atravessado triumphantemente Setubal, durante -toda uma epocha balnear, sob uma chuva -de flores.</p> - -<p>Agora, que voltavam inesperadamente, encontravam -ainda Julio de Lemos escravisado pela -Physica da Escóla Polytechnica, mas disposto a -divinisal-as mais uma vez, não só para honrar o -passado, como para aligeirar o presente, e, sobretudo, -para vingar-se da altivez castelhana de -Soledad.</p> - -<p>Orientado por este complexo programma, não -podendo disfarçar a alegria com que se propunha -realisal-o, appareceu ás duas horas em ponto, -no caes do Livramento, acompanhando as formosas -<i>Netas do Padre Eterno</i>, á frente Hilda e -Maria Ignez, elle a par das duas, mais atraz -Salomé dando o braço ao avô myope, como Antigone -a Œdipo.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer4.jpg" width="150" height="150" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header6.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>V</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="150" height="115" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Estava já no caes a bella Soledad com toda -a sua côrte.</p> - -<p>O conselheiro Antunes dava ordens, -fazia recommendações aos barqueiros: -que não esquecessem isto, que -não deixassem ficar em terra os cabazes com as -loiças, e as celhas com o peixe.</p> - -<p>D. Enrique lia um jornal hespanhol, recebido -n’essa manhã, e de momento a momento commentava -a leitura monologando: <i>Qué broma!</i></p> - -<p>D. Estalisnada mostrava-se encantada com a -solicitude cavalheirosa do conselheiro Antunes, -e fallava tantas vezes no azeite, que o morgado -de Reguengos disse para o proprietario das Alcaçovas: -«N’isto do azeite anda marosca; é linguagem -combinada.»</p> - -<p>Quando o grupo das Rodartes chegou, houve -sensação no grupo de Soledad. Foi como se duas -côrtes se chocassem.</p> - -<p>O morgado de Reguengos, o proprietario das -Alcaçovas, os dois officiaes de caçadores 1 e o<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span> -Vianninha já as conheciam. Correram a cumprimental-as, -a dar-lhes as boas-vindas, a fallar ao -avô.</p> - -<p>Julio de Lemos, muito expansivo, apresentou a -familia Rodarte aos que pela primeira vez a viam.</p> - -<p>Dirigindo-se a Soledad, teve uma phrase tão -amável como ironica:</p> - -<p>—Ficará eternamente na memoria do rio Sado -este encontro da belleza de Portugal com a belleza -de Hespanha.</p> - -<p>Uma explosão de riso saudou esta apresentação -original. As tres Rodartes sorriram, mas -coráram. Soledad sorriu, mas feriu-se. Percebeu -que n’esse momento lhe vacillava na cabeça a -corôa de rainha da belleza, até ahi indisputada.</p> - -<p>A apresentação ao conselheiro Antunes foi, por -parte do estudante, muito respeitosa:</p> - -<p>—Apresento a vossas excellencias um dos -mais illustres e respeitaveis cavalheiros que tenho -tido a honra de conhecer: o abastado proprietario -de Santarem, dr. Antonio José Antunes, -do conselho de sua magestade fidelissima, e presidente -da junta geral d’aquelle districto. A vossa -excellencia, sr. conselheiro, apresento o abastado -proprietario da Messejana, o sr. Araujo -Rodarte, e suas encantadoras netas.</p> - -<p>Julio de Lemos, em attenção a ser o conselheiro -o amphitryão da festa, carregou a mão nos -elogios que lhe teceu, para de algum modo o indemnisar -da despeza que elle fizera <i>reforçando -um pouco o contingente dos salmonetes</i>.</p> - -<p>D. Enrique, na primeira occasião que teve, -perguntou a Julio de Lemos se o velho Rodarte -era bom conversador. Ficou contente de obter -uma resposta affirmativa, porque encontrava mais -uma victima para as suas estopadas sobre a politica -hespanhola.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span></p> - -<p>E, para estreitar desde logo as relações com a -sua victima, dirigiu-se a ella dizendo-lhe:</p> - -<p>—<i>És usted un imponente anciano, de mi mayor -respeto.</i></p> - -<p><i>Imponente anciano!</i> Esta só podia lembrar a -um hespanhol! Mas as barbas brancas do velho -Rodarte eram dignas da hespanholada.</p> - -<p>Embarcaram todos, não sem a hilaridade que -o embarque de senhoras produz sempre. D. Estanislada -precisou que o conselheiro Antunes, -muito cavalheiresco, lhe désse a mão. Os barcos, -largando do caes, aproáram a Troia.</p> - -<p>Soledad quiz que o sueco, cujo nome eu não -citarei emquanto o não souber escrever correctamente, -o que aliás não é facil, se sentasse a seu -lado. Era a resposta ao cartel de desafio, que o -estudante lhe trouxera com a presença das Rodartes. -O seu raciocinio devia ter sido este: «Portugal -quer esmagar-me? Pois bem! eu esmagarei -Portugal.» E sobre o Sado, como na vespera, era -a Suecia que triumphava.</p> - -<p>Chegados a Troia, tratou-se em primeiro logar -de montar o arsenal culinario.</p> - -<p>O conselheiro Antunes quiz desde logo installar-se -como Vatel amador. Muito methodico, elle -mesmo dispunha os utensilios, procurava os -tempêros, emquanto os barqueiros accendiam o -lume. Dir-se-ia que elle desejava imprimir o cunho -da sua individualidade não só á caldeirada, -que ia cosinhar, mas ao trem da cosinha, que -estava organisando com o maior esmero.</p> - -<p>Como, durante a travessia do Sado, o Vianninha -e os officiaes de caçadores 1 fossem explicando -que em Troia existira uma cidade romana, -chamada Cetóbriga, de que se encontravam ainda -ruinas e outros vestigios, taes como amphoras -e medalhas, toda a caravana, com excepção de<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span> -duas pessoas, quiz ir procurar as ruinas, especialmente -as medalhas, pois que o Vianninha -affirmava que se encontravam com facilidade, e -que elle mesmo possuia uma de bronze do tempo -de Trajano.</p> - -<p>As duas pessoas, que não acompanharam as -outras, eram o conselheiro Antunes e D. Estanislada, -que se offereceu para auxilial-o no mister -de cosinheiro.</p> - -<p>D. Enrique achou isto muito natural, e o morgado -de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas -disseram entre si, commentando: «<i>Azeite</i> -não falta; a caldeirada ha de ficar magnifica.»</p> - -<p>Soledad, fingindo que lhe custava a andar sobre -a area, enfiou o braço no do sueco, pendurando-se -d’elle com abandono. Continuava, portanto, -a sustentar o seu plano de combate. Em -Troia, como no Sado, era a Suecia que triumphava.</p> - -<p>Os outros perceberam a intenção de Soledad, -e rodeavam, em despique, as tres Rodartes, acompanhando-as -n’uma especie de cortejo triumphal -e de certamen galante. O proprio hespanholito -D. Ramon, julgando-se vencido pela Scandinavia, -vingava a Iberia masculina arrastando a -aza a Maria Ignez. O jornalista Aurelio Goes e o -marialva do Chiado pareciam propender mais -para Hilda. O proprietario das Alcaçovas e o -morgado de Reguengos entabolaram conversação -com Salomé sobre assumptos graves do -Alemtejo: porcos e cortiça. Os officiaes de caçadores -1 e o Vianninha iam adiante dos grupos -em exploração archeologica. Julio de Lemos, já -despeitado pela concorrencia dos outros, especialmente -de Aurelio Goes, que não respeitava -os seus direitos de apresentante, e lhe estorvava -a conquista de Hilda, principiava a lamentar-se<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span> -de ter perdido a occasião do duello para lhe atravessar -o coração com uma bala.</p> - -<p>«Quem o seu inimigo poupa, pensava elle, nas -mãos lhe morre.»</p> - -<p>D. Enrique apossara-se do <i>imponente anciano</i>, -levava-o a reboque pelo braço, e descrevia-lhe -os horrores da insurreição cantonal, parando a -cada momento, exclamando:</p> - -<p>—<i>Que barbaridad!... que atentado!</i></p> - -<p>O alferes Ruivo, o tenente Epaminondas e o -Vianninha indicaram alguns vestigios da antiguidade -romana de Cetóbriga, a que ninguem -deu grande importancia.</p> - -<p>Como o morgado de Reguengos mettesse á bulha -o Vianninha por causa da grande abundancia -de moedas, que segundo elle, se encontravam -em Troia, o Vianninha, auxiliado pelos dois militares, -ainda quiz justificar-se, excavando no -areal.</p> - -<p>Soledad, conversando com o sueco, cuja face -irradiava como uma aurora polar, olhava desdenhosamente -para tudo aquillo.</p> - -<p>Aurelio Goes, colhendo uma florinha que brotava -da areia humida, offereceu-a a Hilda Rodarte.</p> - -<p>Julio de Lemos estava fulo; a sua sêde de vingança -abrangia agora duas pessoas: Soledad e -o redactor da <i>Trombeta Ullyssiponense</i>.</p> - -<p>Mastigava represalias... em sêcco.</p> - -<p>Não appareceu nenhuma moeda romana, apesar -das affirmações categoricas do Vianninha, e -do padre Vicente Salgado, um franciscano erudito, -que, occupando-se do assumpto, havia chamado -a Troia—<i>terreno fertilissimo d’estes achados</i>.</p> - -<p>Como o sol apertasse, o numeroso grupo, dividido -em pelotões, retrocedeu, a fim de procurar<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span> -o abrigo do toldo que os barqueiros já deviam -ter armado, para sob elle ser servida a caldeirada.</p> - -<p>Com effeito, estava quasi prompto o improvisado -pavilhão, feito de vélas de barco.</p> - -<p>O conselheiro Antunes e D. Estanislada, afogueados -do rosto, debruçados sobre a caldeira, -provavam pela mesma colhér o tempêro da caldeirada, -e annunciavam que estava divina.</p> - -<p>Soledad, fingindo-se fatigada, sentou-se á sombra -do toldo, deixando ficar a descoberto metade -do sapato enfitado. O sueco, embasbacado, -bebado de amor, contemplava-lhe o pé, respondendo -muito abstracto ao que ella lhe dizia.</p> - -<p>Julio de Lemos começou a fazer troça do sueco, -com os outros. Havia risinhos. Soledad percebia, -e de vez em quando ella mesma, com uma audacia -castelhana, olhava para a ponta do sapato, -como a encaminhar para esse alvo, que aliás era -preto, o olhar do sueco.</p> - -<p>Mas, de repente, notando que Aurelio Goes tivera -a ousadia de sentar-se na areia perto de Hilda, -perdeu a tramontana e começou a escancarar -umas gargalhadas alvares. Resolveu logo -embebedar-se para tirar a desforra.</p> - -<p>O conselheiro Antunes, apparecendo debaixo -do pavilhão, annunciou que ia ser posta a toalha, -porque a caldeirada estava prompta, e que por -isso cada um devia tratar de occupar logar em -volta do recinto destinado á toalha.</p> - -<p>Por uma evolução rapida, mas estrategica, Julio -de Lemos sentou-se na areia entre Hilda e Soledad, -ganhando uma excellente posição. O sueco -poude ainda aninhar-se á direita de Soledad, e o -Goes á esquerda de Hilda. Mas o estudante de -Alcacer ficou ardendo entre dois fogos, tinha á<span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span> -direita a Hespanha e á esquerda a Messejana: -ficou no meio da Peninsula.</p> - -<p>Quando D. Estanislada appareceu, notou-se -que ella vinha um pouco mascarrada n’uma das -faces.</p> - -<p>—É talvez do fumo da caldeira, explicou, muito -solicito, o conselheiro Antunes.</p> - -<p>Os homens, com excepção de D. Enrique, trocavam -entre si olhares intelligentes: o conselheiro -Antunes pintava o bigode.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer5.jpg" width="150" height="100" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header12.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>VI</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="160" height="120" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">A caldeirada estava deliciosa: até os anjos -a poderiam comer.</p> - -<p>O conselheiro havia carregado a mão -no tempêro: a pimenta fazia arder -a bocca. Mas era bom, muito apetitoso, -puxativo, como dizia Julio de Lemos, bebendo -grandes tragos de uma boa pinga de Azeitão, -por uma caneca branca, comprada, como -toda a outra loiça, na Innocencia da Praia.</p> - -<p>A conversação animára-se, phrases cruzavam-se, -havia allusões, referencias que esvoaçavam -por sobre a cabeça dos convivas. Julio de Lemos -dizia coisas para a direita e para a esquerda, -a Soledad e a Hilda, quasi sem dar tempo a que -ellas podessem responder a mais ninguem.</p> - -<p>O sueco embezerrou despeitado, não fallava, e -o redactor da <i>Trombeta</i>, muito habituado a <i>lunchs</i>, -comia como uma frieira, mettendo a colherada -em todos os assumptos. Era um perfeito -exemplar de jornalista.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span></p> - -<p>Soledad, sempre incomprehensivel, mudou da -tactica. Desfazia-se em amabilidades com o estudante, -ella mesma lhe enchia de vinho a caneca -de loiça, e lhe suggeria a inspiração dos -brindes.</p> - -<p>Hilda, menos petulante que a hespanhola, conservava-se -modesta n’aquella atmosphera capitosa -de vinho e pimenta. As irmãs, como ella, -respondiam concertadamente ás perguntas e ás -amabilidades que lhes dirigiam.</p> - -<p>O sueco, muito rubro, soprava como uma fóca, -e Soledad parecia divertir-se com isso, gostar de -o vêr subitamente despenhado do pedestal a que -o tinha subido.</p> - -<p>D. Estanislada entrava pela caldeirada com o -desembaraço de quem está habituado a indigestões. -E D. Enrique, para não envergonhar a mulher, -acompanhava-a no bom apetite com que repetia -salmonete sobre salmonete.</p> - -<p>O conselheiro, como um artista que se sente -galardoado, comia pouco, contentava-se de vêr -comer os outros. Reconhecia-se lisongeado no -apetite alheio, especialmente no de D. Estanislada, -que era francamente glorioso para elle.</p> - -<p>O Rodarte, muito discreto, encarecia o talento -culinario do conselheiro, dizia-lhe que nunca na -sua vida tinha comido uma caldeirada que lhe -soubesse melhor.</p> - -<p>Julio de Lemos, já meio tonto, aproveitou de -uma vez a deixa do Rodarte, e, pondo-se de joelhos, -caneca em punho, declamou:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Eu saúdo o illustre conselheiro,</div> -<div class="verse">Ultimo em nada, e em tudo o mais primeiro</div> -</div> -</div> - -<p>Aurelio Goes desfechou uma gargalhada, interrompendo -o improviso.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span></p> - -<p>—Que é lá isso?! perguntou o estudante esgalgando-se, -para o ver, por deante de Hilda.</p> - -<p>E o Rodarte, muito prudente, muito discreto, -deitou agua na fervura:</p> - -<p>—Não é nada. Tudo aqui se passa em boa -amisade. Queira continuar, sr. Lemos.</p> - -<p>—Acha mau talvez, o menino! Elle que os faça -melhores, se é capaz, insistiu o estudante.</p> - -<p>—Então!... então! atalhou o Rodarte. Queira -continuar o seu improviso.</p> - -<p>—Já lhe perdi o fio! Não sei... Ora esta!... -Acho que era isto:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Mas unico talvez na caldeirada:</div> -<div class="verse">Que é comêl-a e morrer...</div> -</div> -</div> - -<p>Julio de Lemos engasgou-se.</p> - -<p>—Não diz mais nada?! exclamou o tenente -Epaminondas completando o verso em que o estudante -se pegára.</p> - -<p>Uma explosão de gargalhadas saudou este comico -episodio, e o estudante, que não tinha espinha -com o tenente, antes era seu amigo, riu -tambem, aproveitando a tangente para fugir á difficuldade -do verso.</p> - -<p>Então Aurelio Goes, pondo-se de pé, bateu as -palmas, e recitou:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Eu, n’esta agradavel festa,</div> -<div class="verse">Tão grata e tão jovial,</div> -<div class="verse">Brindo, honrando o bello sexo,</div> -<div class="verse">Por Hespanha e Portugal.</div> -</div> -</div> - -<p>—São de cravo da Praça da Figueira! berrou -o estudante.</p> - -<p>—Viva! viva! clamaram muitas vozes cobrindo -com applausos a inconveniente apostrophe do -estudante.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span></p> - -<p>E o velho Rodarte, apoiando-se no hombro de -Salomé, levantou-se pausadamente.</p> - -<p>—Tambem eu quero fazer o meu brinde.</p> - -<p>Logo se estabeleceu um silencio respeitoso.</p> - -<p>—Ora, meus senhores, como eu, nas barbas, -me pareço um pouco com S. Pedro, permittam-me -que feche a porta dos brindes. Bebo em honra -do illustre conselheiro, dignissimo presidente da -junta geral do districto de Santarem.</p> - -<p>Beberam todos. E levantaram-se a pouco e -pouco, alguns com difficuldade.</p> - -<p>O conselheiro foi abraçar o Rodarte, agradecer-lhe, -e, emquanto se abraçavam, cochicharam -ao ouvido.</p> - -<p>Os barqueiros trataram de recolher as loiças, -e os cabazes.</p> - -<p>E o Rodarte, muito previdente, disse que, seria -melhor que o barco fosse primeiro a Setubal -levar as senhoras, e que voltasse depois. Que -elle, pela sua idade avançada, desde já se considerava -senhora; que o sr. conselheiro, que devia -estar fatigado, iria tambem com as senhoras, -bem como D. Enrique, para acompanhar a esposa -e a filha. Era a combinação que tinham -feito ao ouvido, suggerida pela prudencia do velho -Rodarte.</p> - -<p>Os outros ficaram com cara de parvos, mas o -Rodarte, chamando de parte o morgado de Reguengos -e o proprietario das Alcaçovas, explicou-lhes:</p> - -<p>—Que aquillo era preciso por causa dos rapazes. -Que desculpassem. E que lhes pedia o favor -de olharem por elles.</p> - -<p>Um e outro concordaram:</p> - -<p>—Que era bem pensado. Que estivesse tranquillo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p> - -<p>Largou de Troia o barco com as senhoras, D. -Enrique, o Rodarte e o conselheiro.</p> - -<p>Os rapazes ficaram por longo tempo acenando -com os lenços, dizendo adeus.</p> - -<p>Desembarcaram as damas no caes do Livramento, -e o barco voltou a buscar os que tinham -ficado.</p> - -<p>Entretanto cahia a noite, as trevas principiavam -a descer sobre o Sado, a envolvel-o n’um -veo que a pouco foi perdendo a transparencia. -Apenas um ponto luminoso brilhava ao longe na -areial de Troia.</p> - -<p>Deram oito horas, e o barco não tinha voltado -ainda.</p> - -<p>No café <i>Esperança</i>, do Zé Lapido, esperava-se -o regresso dos rapazes.</p> - -<p>Uns commentavam:</p> - -<p>—Que tal foi a bebedeira!</p> - -<p>Outros, mais timoratos, diziam:</p> - -<p>—Queira Deus que não acontecesse por lá alguma -semsaboria!</p> - -<p>Deram nove horas, e o barco não voltava.</p> - -<p>Então alguns officiaes de caçadores resolveram -ir a Troia ver o que tinha acontecido.</p> - -<p>Tomaram um barco, e largaram.</p> - -<p>A meio do rio, ouviram o ranger de remos, e -perguntaram:</p> - -<p>—Quem vem lá?</p> - -<p>—Somos nós, respondeu a voz do proprietario -das Alcaçovas.</p> - -<p>—Ha novidade a bordo? disseram os officiaes.</p> - -<p>—Nenhuma, respondeu o morgado de Reguengos.</p> - -<p>Mas não se ouvia nenhuma outra voz.</p> - -<p>—Ali houve coisa!... disseram entre si os officiaes.</p> - -<p>E perguntaram:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p> - -<p>—Vem ahi os nossos camaradas?</p> - -<p>—Vamos, respondeu o alferes Ruivo.</p> - -<p>—Vamos, respondeu o tenente Epaminondas.</p> - -<p>—Ali houve coisa, porque elles vem muito silenciosos!... -continuavam a dizer entre si os officiaes -que tinham ido procurar os outros.</p> - -<p>Os dois barcos chegaram quasi ao mesmo -tempo ao caes do Livramento. Então poude verificar-se -que effectivamente os da caldeirada vinham -macambuzios, entrombados, e que o sueco, -estatelado no fundo do barco, e occupando-o -quasi todo, dormia profundamente, a ponto de -terem que acordal-o berrando.</p> - -<p>E como elle grunhisse uns roncos cavernosos, -sem comtudo se levantar, foi preciso que o proprietario -das Alcaçovas, com o seu pulso de ferro, -o filasse pelo gasnete, e o pozesse de pé.</p> - -<p>—Mas o que se passou? o que se passou? -perguntavam cheios de curiosidade os que tinham -ido buscal-os.</p> - -<p>—Vamos lá para o Zé Lapido tomar um copo de -genebra, disse o das Alcaçovas, e conversaremos.</p> - -<p>Quando entraram no café, e logo que se sentaram, -deram pela falta do sueco, que se tinha -escapulido.</p> - -<p>Todos os conhecidos, que estavam no botequim, -lhes fizeram circulo, sentando-se em torno da -mesma mesa.</p> - -<p>O tenente Epaminondas contou miudamente -as peripecias do <i>pic-nic</i>, incluindo a mascarra de -D. Estanislada, historia que produziu grande hilaridade -no auditorio.</p> - -<p>Depois poz em relevo a prudente astucia com -que o <i>Padre Eterno</i>, pois que no café todos lhe -chamavam assim, se safára com as netas e as -hespanholas quando vira romper as hostilidades -entre o estudante e o jornalista.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span></p> - -<p>Disse que, logo que o barco partiu, o sueco -investira, muito bebado, contra o estudante, accusando-o -de acintosamente ter ido sentar-se ao -lado de Soledad para o prejudicar nas vantagens -que, como preferido, havia conquistado nos ultimos -dias.</p> - -<p>Que, por sua vez, o estudante, não menos bebado, -começara a implicar com o Goes, accusando-o -de o ter querido metter a ridiculo, prejudicando-lhe -o improviso com uma gargalhada insolente.</p> - -<p>O sueco agarrava-se ao estudante, e o estudante -ao jornalista.</p> - -<p>Fôra preciso que os outros interviessem apartando-os -a murro, e contou o tenente que o proprietario -das Alcaçovas conseguira abalar a columna -vertebral e a colera do sueco com um valente -pontapé applicado em cheio no sitio em que -as costas mudam de nome.</p> - -<p>—E a Scandinavia resoou! observou humoristicamente -o alferes Ruivo.</p> - -<p>Gargalhada geral.</p> - -<p>—Que no meio de toda esta balburdia o morgado -de Reguengos lembrára jovialmente que, -para de uma vez pôr termo a tão impertinentes -conflictos, e definir a situação de todos, o melhor -seria confiar á sorte a distribuição do papel amoroso -de cada um.</p> - -<p>Esta lembrança produzira um excellente effeito, -foi como que um punhado de areia atirado aos -olhos de todos. Cegou-os. Todos imaginavam que -seriam favorecidos pela fortuna e que, d’esse modo, -ficariam livres de concorrentes perigosos e -incommodos.</p> - -<p>Deram pois a sua palavra de que respeitariam -fielmente os decretos da sorte.</p> - -<p>Trataram então de espertar a fogueira, que tinha -servido para a caldeirada. E á luz d’ella fizeram,<span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span> -de cartas velhas e outros pedaços de papel, -pequenas listas, em que escreveram a lapis -os nomes de todos elles. Enroladas as listas, deitaram-n’as -na copa de um chapeu. Depois inscreveram -n’outras listas os nomes das quatro damas, -mas, n’esta occasião, houve um protesto -do proprietario das Alcaçovas, que reclamou a -favor do recenseamento de D. Estanislada, como -<i>premio de consolação</i> ao que ficasse a ver navios.</p> - -<p>O jornalista observou que D. Estanislada já -pertencia, pela mascarra, ao conselheiro Antunes.</p> - -<p>O morgado sustentou o seu protesto, auctoritariamente, -dizendo que, desde o momento em que -a sorte era chamada a decidir, desapparecia a -principio dos <i>direitos adquiridos</i>.</p> - -<p>Por essa occasião o estudante observára:</p> - -<p>—Sim, senhor! Fica abolido o direito pautal do -<i>azeite</i>.</p> - -<p>Todo o café <i>Esperança</i> ria, a bandeiras despregadas, -com a narração do tenente Epaminondas.</p> - -<p>Lançadas as cinco listas, e mais algumas em -branco na copa de outro chapeu, procedeu-se ao -sorteio, que deu o seguinte resultado:</p> - -<p><i>Morgado de Reguengos—D. Hilda.</i></p> - -<p><i>Proprietario das Alcaçovas—D. Maria Ignez.</i></p> - -<p><i>D. Ramon Mendoza—Soledad.</i></p> - -<p><i>Vianninha—Salomé.</i></p> - -<p><i>O sueco—D. Estanislada.</i></p> - -<p>Os que a sorte desfavorecera, especialmente o -sueco, o estudante e o jornalista, romperam em -protestos contra o acto eleitoral, distinguindo-se -o sueco que, nem pelo diabo, queria resignar-se -a acceitar D. Estanislada.</p> - -<p>E tanto berrava e barafustava, que o proprietario -das Alcaçovas teve que atiral-o para o fundo -do barco, onde elle escabujou ao principio e adormeceu -depois.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header7.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>VII</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-n.jpg" width="210" height="130" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">No dia seguinte, pela manhã, appareceu -affixado nas esquinas de Setubal o -seguinte pasquim:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<div class="verse">A roda que andou em Troia,</div> -<div class="verse">Andou bem, quem o diria!</div> -<div class="verse">Nem mesmo a da Santa Casa</div> -<div class="verse">É tão boa loteria.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">O premio grande de Hespanha</div> -<div class="verse">Ficou na Hespanha. Era justo.</div> -<div class="verse">E o sueco, derreado,</div> -<div class="verse">Inda assim, salvou-se... a custo!</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">O Alemtejo, que a sopapo</div> -<div class="verse">Tudo escaca e tudo arrasa,</div> -<div class="verse">Não apanhando <i>a taluda</i>,</div> -<div class="verse">Ficou bem, ficou em casa.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Setubal, n’esta partilha,</div> -<div class="verse">Tem motivos d’alegria,</div> -<div class="verse">Porque a sorte, previdente,</div> -<div class="verse">Deu-lhe <i>sal</i> na loteria.</div><span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Só Minerva e Guttemberg,</div> -<div class="verse">Marte e a junta geral,</div> -<div class="verse">Por não beberem <i>azeite</i>,</div> -<div class="verse">Ficam olhando ao signal.</div> -</div> -</div> -</div> - -<p>Este pasquim attraiu a curiosidade, produziu -risota, foi lido com vivo interesse.</p> - -<p>Como era natural, todos procuraram interpretar -as allusões n’elle contidas, e assim aconteceu -que não só o facto principal, o sorteio, se tornou -ao dominio publico, mas tambem tiveram grande -notoriedade todos os episodios que accidentaram -alegremente o <i>pic-nic</i> da vespera.</p> - -<p>De pergunta em pergunta todos ficaram sabendo -o que se tinha passado, e entendendo cabalmente -o pasquim, com excepção de uma só -quadra.</p> - -<p>Não restou duvida a ninguem de que Minerva -se referia ao estudante, Guttemberg ao jornalista, -e Marte ao alferes e ao tenente de caçadores.</p> - -<p>Uma só passagem permaneceu obscura por -muito tempo, o sentido da quarta quadra ficava -em suspenso, pois que não podia atinar-se com a -allusão ao <i>sal</i> no ultimo verso.</p> - -<p>Que aquillo era com o Vianninha, percebia-se, -visto ser elle o unico setubalense que tinha assistido -a caldeirada. Mas o <i>sal</i>, sublinhado, era -um problema, um enygma, um hieroglipho.</p> - -<p>Alguns curiosos roiam as unhas parados ás -esquinas, matutando deante dos pasquins. Que -diabo de <i>sal</i> era aquelle? O que queria dizer -aquillo?</p> - -<p>Alguem lembrou que o Castanha, mestre-escola, -apezar de vesgo, via bem as charadas. Era -um alho para as decifrar. Chamou-se o Castanha, -que estava a dar aula, decifrando enygmas do<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span> -<i>Almanach de Lembranças</i>, emquanto os pequenos -se entretinham uns com os outros.</p> - -<p>Era como elle dava aula sempre.</p> - -<p>O Castanha veio quasi em triumpho até á primeira -esquina,—essa esquina que devia, em -breve, converter-se para elle n’um monumento -de gloria... salvo o mictorio.</p> - -<p>Explicaram-lhe o caso, o que se tinha passado, -e a duvida em que estavam quanto ao vocabulo -<i>sal</i>.</p> - -<p>O Castanha enviezou o olhar strabico ao cartaz, -deteve-se um momento a engulir em sêcco, -até que de repente, com a sagacidade de um charadista -que combina idéas, perguntou:</p> - -<p>—Elle como se chama ella?</p> - -<p>O Castanha tinha o costume de anteceder pelo -pronome—elle—todas as phrases interrogativas.</p> - -<p>—Ella, quem? perguntaram-lhe.</p> - -<p>—A madama que sahiu ao Vianninha?</p> - -<p>—Salomé.</p> - -<p>E o Castanha, desfiando as syllabas, <i>Sa-lo-mé</i>, -monologava:</p> - -<p>—Não pode ser isso!</p> - -<p>Mas, de subito, exclama:</p> - -<p>—É isso, é!</p> - -<p>—Então é ou não é? perguntaram.</p> - -<p>—Não vêem, disse elle triumphalmente, não -vêem que o nome—Salomé—principia por <i>sal</i>?!</p> - -<p>—É verdade! exclamaram vozes.</p> - -<p>—É isso! applaudiram bôccas.</p> - -<p>E o Castanha, muito enchicharrado, muito vesgo -na commoção nervosa do triumpho, apartava os -grupos para passar, charadista glorioso.</p> - -<p>Durante todo esse dia o sueco, o estudante, o -jornalista e os dois officiaes de caçadores estiveram -recebendo bilhetes de visita, a <i>pesames</i>, com<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span> -palavras de sentimento, expressões de condolencia, -pelo desgosto que acabavam de soffrer.</p> - -<p>Foi uma <i>scie</i> medonha, que partia do café <i>Esperança</i>, -dizia-se, e dos outros officiaes de caçadores, -rapazes alegres, que gostavam de divertir-se -e não tinham muitas occasiões para isso.</p> - -<p>O sueco embatucou, deu sorte com a chalaça. -Desappareceu de repente. Constou que tinha vindo -para Cintra, a fim de evitar que a troça o perseguisse.</p> - -<p>Não se conheciam ainda outras consequencias -d’aquella brincadeira fatal. Parecia que D. Enrique, -o Rodarte e o conselheiro a ignoravam. Mas -não aconteceu inteiramente assim.</p> - -<p>Dos tres, não tardou muito a mostrar-se desgostoso -o conselheiro Antunes.</p> - -<p>Fallando com o estudante, extranhou, com palavras -severas, que <i>se rifasse uma senhora casada</i>. -Textual. Accrescentou que, se D. Enrique -o soubesse, poderia haver <i>uma tragedia de sangue</i>. -Tambem textual. Pela sua parte, apenas -sentia que fosse elle proprio que tivesse proporcionado -a occasião para um tão <i>grave desacerto</i>, -inventando a caldeirada. Que o caso ja havia dado -de si, porque o <i>respeitavel snr. sueco</i>, um cavalheiro -digno de toda a estima, se havia auzentado, -desgostoso.</p> - -<p>Julio de Lemos contestou que tudo aquillo não -tinha passado de uma brincadeira inoffensiva, -que em nada podia affectar a honra das cinco -damas, todas ellas respeitabilissimas. Que o vocabulo—<i>rifa</i>—era -violento, porque a rifa presuppunha -immediata adjudicação do objecto rifado, -e não se dava esse caso.</p> - -<p>Mas o conselheiro, procurando sustentar a sua -opinião, descobriu um pouco as baterias. Deixou -perceber que a expressão do pasquim—<i>junta<span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span> -geral</i>—o tinha maguado pessoalmente. E como -o estudante se lembrasse de dizer que a <i>junta geral</i> -do pasquim não era a do districto de Santarem, -mas a collectividade dos pretendentes amorosos -das trez Rodartes e da hespanhola (velhacamente, -o estudante ia pondo de parte D. Estanislada -para lisongear o seu interlocutor) o -conselheiro, muito formalisado, disse que não -era pretendente á mão de nenhuma dama, que -apenas se considerava um solteirão aposentado. -Que se tivesse querido casar, o poderia ter feito -ha muitos annos com formosas e abastadas senhoras -de Santarem, de Almeirim e de Alpiarça. -Que não só receiava que D. Enrique o viesse a -saber, e se desgostasse, mas tambem que o <i>venerando -Rodarte</i>, um modelo de cortezia e prudencia, -se <i>chocasse</i> com essa <i>brincadeira de mau -gosto</i>, que envolvia o nome das suas tres netas.</p> - -<p>No dia seguinte, um sabbado, D. Enrique foi -visto no Sapal, passeiando e lendo, peripateticamente, -uma gazeta de Sevilha. Parecia preoccupado. -O conselheiro foi fallar-lhe. D. Enrique -disse-lhe que ia passar alguns dias a Lisboa. -Teria vontade o conselheiro de perguntar-lhe se -ia só ou acompanhado. Mas não se atreveu a -tanto. E logo conjecturou que era um pretexto -de D. Enrique para retirar-se de vez, sem alarde. -Aqui está, pensou o conselheiro com os seus excellentissimos -botões, o que aquelles diabos arranjaram -com a brincadeira da <i>rifa</i>!</p> - -<p>Deixando D. Enrique, o conselheiro foi dizendo, -principalmente aos implicados na patuscada -de Troia, que principiavam a fazer-se sentir as -consequencias d’aquelle <i>grave desacerto</i>; que D. -Enrique ia á Lisboa ou, segundo elle suspeitava, -para Lisboa, d’onde talvez não voltasse, desgostoso.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span></p> - -<p>A noticia correu rapidamente. Alguns logistas, -que tinham rido com o pasquim, começaram a -queixar-se de que por uma imprudencia alheia -estivessem arriscados a perder freguezes importantes.</p> - -<p>O conselheiro tirou-se dos seus cuidados, e -foi á estação vêr partir o comboyo para Lisboa. -D. Henrique e Soledad embarcaram. D. Estanislada -ficava, portanto, só, em Setubal, durante -alguns dias. Oh felicidade! exclamou mentalmente -o conselheiro.</p> - -<p>De tarde, na Praia, o conselheiro parou a conversar -com alguns grupos.</p> - -<p>—Então, D. Enrique sempre se retira para -Lisboa?</p> - -<p>—Creio que sim, respondia elle; supponho -que parte ámanhã.</p> - -<p>O velhaco! O que elle não queria era que se -soubesse que o hespanhol já tinha partido, e que -D. Estanislada ficára.</p> - -<p>Houve logo quem aventasse a ideia de que -uma commissão do setubalenses viesse a Lisboa, -no caso de D. Enrique partir, pedir-lhe que não -desse importancia a uma mera brincadeira, e -que voltasse.</p> - -<p>O Rodarte, esse, parecia ignorar tudo o que se -passava. Ninguem o informou de que tivessem -apparecido pasquins; não ousou fazel-o ninguem. -E elle, muito myope, não podia tel-os lido.</p> - -<p>Conversando com o morgado de Reguengos -apenas dissera que os <i>pic-nics</i> eram a mais arriscada -de todas as distracções de uma praia. -Que se felicitava por ter tido a boa ideia de deitar -agua na fervura, fechando a serie dos brindes, -que já estavam denunciando uma certa -excitação dos convivas, quando julgou opportuno -intervir.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span></p> - -<p>O proprietario das Alcaçovas tambem, n’essa -tarde, acompanhava o grupo do <i>Padre Eterno</i> e -das netas, porque, tanto elle como o morgado, -estavam resolvidos a fazer valer os direitos que -a sorte lhes proporcionára.</p> - -<p>Poderiam, ambos elles, ter supplantado a murro -e a pontapé todos os outros concorrentes. -Mas fazel-o seria violento... especialmente para -as victimas. Os dois, homens fortes, de musculo -tuchado, possuiam o bom humor e a prudencia -que os nevroticos desconhecem.</p> - -<p>A hespanhola impozera-se-lhes pela belleza, no -primeiro momento. Mas depois appareceram as -Rodartes, bellas mulheres, habituadas á vida do -Alemtejo, ricas, bem educadas, e ambos elles, -sem o terem communicado um ao outro, acharam -preferivel jogar com tino, na banca do Amor, -a aventurarem-se á conquista de uma hespanhola, -que tinha o grande defeito de ser caprichosa e -de saber quanto valia.</p> - -<p>A primeira confidencia que os dois tiveram entre -si foi á volta de Troia, quando o de Reguengos -explicou ao das Alcaçovas que propozera a -loteria, porque a sorte nunca deixára de o beneficiar -sempre que a tentava.</p> - -<p>—Eu estava certo, disse elle, de que me calhava -a hespanhola ou a Hilda, que eu preferia -á hespanhola. Em loterias tenho uma sorte brutal.</p> - -<p>—Pois eu, respondeu-lhe o das Alcaçovas, sou -infelicissimo em todos os jogos d’azar. Agora explico -a minha sorte por termos sido parceiros no -jogo.</p> - -<p>E riram ambos, riram muito, tomando a brincadeira... -a serio.</p> - -<p>O Vianninha tambem n’essa tarde andou no -grupo das Rodartes, arrastando a aza a Salomé, -que o não recebia bem nem mal.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span></p> - -<p>O estudante de Alcacer appareceu, mas sumiu-se -logo que viu o morgado de Reguengos a -passeiar ao lado de Hilda Rodarte.</p> - -<p>—Então aquella grande besta, exclamou elle, -toma a coisa a serio!</p> - -<p>O jornalista, com os officiaes de caçadores, e -outros, sentados fóra da porta do Lapido, bebiam -gazosa e faziam a critica do grupo que ia -passando.</p> - -<p>D. Ramon Mendoza appareceu no botequim, e -os da mesa da gazosa perguntaram-lhe com desfructe:</p> - -<p>—Então o que é feito do premio grande <i>d’usted</i>?</p> - -<p>—Eu sei lá! Nunca mais tornei a ver Soledad!</p> - -<p>E, batendo as palmas, mandou vir gazosa.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer6.jpg" width="150" height="170" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header4.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>VIII</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="160" height="120" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Ao anoitecer, o conselheiro Antunes foi, -muito disfarçado, bater á porta de D. -Enrique.</p> - -<p>Respondeu-lhe, do patamar, D. -Estanislada, que perfeitamente lhe -conheceu a voz.</p> - -<p>—Que D. Enrique tinha sahido com Soledad, -disse ella, mas que subisse, que lhe dava com -isso muito prazer.</p> - -<p>Tudo parecia correr ás mil maravilhas para o -ditoso conselheiro. Que D. Enrique e a filha haviam -sahido, bem o sabia elle: mas a facilidade -amavel com que D. Estanislada o recebia em sua -propria casa, não estando o marido, era quasi -promessa de felicidade... immediata.</p> - -<p>O conselheiro, bastante manhoso para dissimular -a alegria que esta risonha situação lhe causava, -disse, parado ainda ao fundo da escada,<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span> -algumas palavras aconselhadas por apparencias -de conveniencia e respeito.</p> - -<p>—Mas, minha senhora, não sei se deva entrar...</p> - -<p>—Que entrasse, que subisse, porque, de mais -a mais, havia de gostar da companhia.</p> - -<p>Esta phrase—<i>gostar da companhia</i>—pareceu -maliciosa ao conselheiro. E, a seu ver, a promessa -de immediata felicidade accentuava-se n’essa -phrase.</p> - -<p>Subiu, pois, sentindo palpitar vertiginosamente -o coração, que lhe dava saltos dentro do peito.</p> - -<p>Mas, entrando na saleta, ficou tão admirado, -como contrariado, vendo que D. Estanislada não -estava só.</p> - -<p>Ó desillusão! ó desapontamento!</p> - -<p>D. Estanislada apresentou-lhe as suas visitas: -a senhoria e a filha.</p> - -<p>A senhoria, a sr.ª Magdalena, era uma mulher -de cincoenta annos, viuva, muito devota e -temente a Deus. A filha, a menina Ricardina, tinha -vinte e dois annos, e um palmo de cara que -não era desengraçado.</p> - -<p>D. Estanislada alludia á menina Ricardina -quando disse ao conselheiro que—havia de gostar -da companhia.</p> - -<p>A mulher que se sente amada tem d’estes falsos -assomos de modestia, para experimentar o -valor da affeição que inspirou, qualquer que seja -a sua idade. Diz que todas as outras são mais -bellas, mais tentadoras do que ella, porque se -sente lisonjeada de triumphar da concorrencia de -todas as outras.</p> - -<p>D. Estanislada seguiu esta tactica.</p> - -<p>Elogiou muito ao conselheiro a belleza da menina -Ricardina, que se envergonhava dos gabos, -côrando.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span></p> - -<p>A mãe, a sr.ª Magdalena, rindo de satisfeita, -repetia esta phrase:</p> - -<p>—É sãsinha, graças a Deus!</p> - -<p>O conselheiro, muito contrariado, procurava no -seu espirito uma phrase com que, sem correr o -risco de ser indiscreto, podesse dar a entender a -D. Estanislada que, ao pé d’ella, o rosto de qualquer -outra mulher lhe passava despercebido.</p> - -<p>Finalmente, pareceu-lhe que tinha achado a -phrase precisa, e disse-a:</p> - -<p>—O rosto d’esta menina é realmente muito interessante, -e eu felicito por isso a senhora sua -mãe; porem não permittamos á sr.ª D. Estanislada -que se esteja escondendo na sombra, qual -timida violeta.</p> - -<p>D. Estanislada gostou de se vêr tratada por -violeta. E, saboreando a amabilidade, como se -estivesse chupando um rebuçado, contestou:</p> - -<p>—<i>Yo, pobrecita de mi, yo estoy hecha una -vieja!</i></p> - -<p>—Pelo amor de Deus! exclamou o conselheiro -levantando os braços quasi até á altura da cabeça.</p> - -<p>—Que não, acudiu a sr.ª Magdalena, que estava -ainda muito fresca, muito bem disposta, que -até parecia irmã mais velha da filha.</p> - -<p>E a menina Ricardina accrescentava que a sr.ª -D. Estanislada não devia dizer a ninguem que -era mãe da <i>señorita</i> Soledad.</p> - -<p>Este tiroteio de lisonjas, de que D. Estanislada -foi alvo, durou alguns minutos.</p> - -<p>O conselheiro, quando entre todos pareceu ficar -decidido que D. Estanislada era qual <i>timida -violeta</i>, sem que ella já ouzasse protestar, fingiu-se -novamente admirado da ausencia de D. Enrique -e de Soledad.</p> - -<p>—<i>Fueron á Lisboa</i>, respondeu D. Estanislada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span></p> - -<p>—Mas demoram-se pouco? insistiu o conselheiro.</p> - -<p>—<i>Vuelven el lunes, no sé si por la mañana ó -por la tarde.</i></p> - -<p>—Ainda bem, pensou o conselheiro, e ainda -mal! Ainda bem, porque D. Enrique ou não tinha -lido o pasquim ou lhe não dava importancia: -continuaria portanto a demorar-se em Setubal. -Ainda mal, porque a ausencia era breve de mais -para que elle conselheiro podesse encher a medida -dos seus desejos.</p> - -<p>Fez menção de levantar-se para sahir.</p> - -<p>—Que não, que ficasse, insistiu D. Estanislada, -que iam tomar chá, e que lhes désse o prazer -da sua amavel companhia.</p> - -<p>—Que não desejava ser importuno... que ia -dar uma volta.</p> - -<p>Mas D. Estanislada, com toda a sua intimativa -de hespanhola, ordenou-lhe que ficasse, e o conselheiro -Antunes ficou de muito bom grado.</p> - -<p>Foram para a casa de jantar e abancaram para -tomar chá.</p> - -<p>D. Estanislada fez sentar o conselheiro á sua -direita, e a sr.ª Magdalena á sua esquerda. A -menina Ricardina ficou ao lado da mãe, posição -estrategica que D. Estanislada lhe distribuiu... -por cautela. Ella bem sabia quanto o conselheiro -Antunes, apesar da sua grave encadernação -de presidente da junta geral de Santarem, -era lambareiro de mulheres.</p> - -<p>Emquanto tomaram chá, ao dialogo respeitoso -de D. Estanislada e do conselheiro, sobre coisas -frivolas, correspondia, debaixo da mesa, outro -dialogo bem menos respeitoso: o dialogo dos -pés.</p> - -<p>Certamente que este dialogo nos interessa muito -mais do que o outro. Vamos pois escutal-o.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p> - -<p><i>A bota do conselheiro, explorando terreno</i>:—Onde -estás tu, adoravel pé de D. Estanislada? -Pois que o teu senhor se acha ausente, pódes vir -ao mirante do castello escutar a minha serenata -de amor...</p> - -<p><i>O sapato de cordovão de D. Estanislada</i>:—Eu -fujo-te, menestrel audaz, para tornar mais -intensa a febre dos teus desejos. Bem deves saber -que toda eu sou a <i>timida violeta</i> de que fallaste -ha pouco.</p> - -<p><i>A bota</i>:—A violeta é a flôr da sombra, e debaixo -da meza tudo é sombra e mysterio. Estás, -pois, no teu logar, violeta timida. Não me fujas, -ó esquiva Galatéa, cujo adorado pé eu ando procurando -ás escuras, como um cego d’amor.</p> - -<p><i>O sapato</i>:—Tenho medo de que a sr.ª Magdalena -e a menina Ricardina dêem tino do que se -está passando no soalho. Para entalação bem -bastou já aquella mascarra que o teu beijo de -Troia me deixou na face... Não me persigas, -que me tentas, seductor!</p> - -<p><i>A bota</i>:—Eu sou discreto como um conselheiro, -que me prézo de ser. Muitas vezes, na -junta geral de Santarem, tenho tido necessidade -de pisar o pé a um collega para o prevenir de -qualquer maniversia politica, e a junta nunca deu -por isso, tão bem eu sei pisar o proximo! Encantadora -Estanislada! fica sabendo que a electricidade -procura as extremidades: os meus pés estão, -portanto, carregados da electricidade do meu coração. -Chega-te, e verás.</p> - -<p><i>O sapato, aproximando-se</i>:—Quem póde resistir -á fascinação das tuas palavras, e á discrição -dos teus processos?! Pois que tudo se vae -passar na sombra, com a cautela de que tu sabes -usar, como conselheiro e como amante, consentirei -que o meu sapato caminhe para a tua bota,<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span> -com o pejo, aliás, que fica bem a toda a mulher, -e com a timidez que é propria de toda a violeta.</p> - -<p><i>A bota, encontrando o bico do sapato, e arrastando-o -ternamente</i>:—Vem, vem finalmente cahir -nas doces talas do amor, adorado pé! Quero -apertar-te com a ternura com que Romeu abraçava -Julieta. Nas dôres physicas do amor, ha -uma voluptuosidade que endoidece de deleite. -Vem, ó pé feiticeiro! ó pé encantador!</p> - -<p><i>O sapato</i>:—Eis-me aqui, como um escravo -que não póde resistir, que não ouza luctar.</p> - -<p>Então, o pé esquerdo do conselheiro Antunes, -tendo empolgado o pé direito de D. Estanislada, -demora-se um momento como para certificar-se -de tudo que se está passando em segredo. E, -após esse momento de pausa, a bota do pé direito -acode a comprimir ternamente, de accordo -com o pé esquerdo, o sapato de D. Estanislada, -que fica entalado entre as duas botas.</p> - -<p>Toda a electricidade acode pois ás extremidades -de um e outro.</p> - -<p>D. Estanislada, com a perna direita torcida, -offerece mais chá á sr.ª Magdalena, e o conselheiro -Antunes, com ambas as pernas repuxadas -para a esquerda, mette a colhér dentro da chicara, -faz menção de não querer mais chá.</p> - -<p>Devia ter sido deliciosa toda essa secreta iberisação -de duas botas portuguezas junto de um -sapato andaluz; deliciosa, principalmente, se nenhum -dos pés tinha calos.</p> - -<p>A conversação foi-se arrastando á custa da -sr.ª Magdalena, que entrou no seu assumpto -predilecto, os milagres do Senhor do Bomfim.</p> - -<p>D. Estanislada e o conselheiro apenas contribuiam -com monossyllabos, interjeições, porque a -electricidade, que acudia ás extremidades, os tinha -n’uma vibração nervosa, que os entaramelava.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span></p> - -<p>A menina Ricardina, a quem um dos seus namorados -havia pisado o pé, n’uma occasião em -que jogára o loto em familia, desconfiou da marosca, -e as suas suspeitas foram-se accentuando -em convicção, porque lhe não passou despercebido -que o corpo do conselheiro estava visivelmente -esguelhado para a esquerda e o de D. Estanislada -enviezado para a direita.</p> - -<p>Com essa subtil astucia que é propria da gente -moça, a menina Ricardina imaginou tirar a prova -real das suas suspeitas. Arrancando do dedo -um annel de ouro, começou a brincar com elle -sobre a mesa: fazia-o rodopiar, dançar, graças -ao impulso combinado dos dedos indicadores.</p> - -<p>A folhas tantas, o impulso foi maior e o annel -saltou ao chão.</p> - -<p>—Ai! o meu annel! exclamou ella, curvando-se -rapidamente para apanhal-o.</p> - -<p>Pôde ainda, vêr, perfeitamente, a fuga precipitada, -e algo ruidosa, dos tres pés cumplices.</p> - -<p>D. Estanislada fez-se rubra; o conselheiro fez-se -branco. E a menina Ricardina, apanhando o -annel, disse com o seu melhor ar de riso:</p> - -<p>—Não se incommodem; já aqui está. Muito -obrigada.</p> - -<p>Aquelle inesperado incidente do annel desarranjou -a agradavel união iberica dos tres pés.</p> - -<p>O conselheiro, levantando-se, disse que iam -sendo horas da sr.ª D. Estanislada se recolher. -A sr.ª Magdalena, ouvindo isto, lembrou-se de -que ás seis horas da manhã tinha de ir cumprir -uma promessa ao Senhor do Bomfim.</p> - -<p>Despediram-se todos, e o conselheiro, voltando-se -no patamar da escada, exclamou:</p> - -<p>—Já me ia esquecendo, D. Estanislada! Encommendei -o azeite. Mandaram-me dizer em telegramma -que era expedido hoje mesmo ás onze horas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p> - -<p>—<i>Muchas gracias</i>, respondeu ella encostando-se -á porta da saleta.</p> - -<p>Quando batiam em S. Julião as onze horas da -noite, um embuçado, cosendo-se muito com a -sombra das paredes, dirigia-se mysteriosamente -para casa de D. Enrique. Era o <i>azeite</i>: o conselheiro. -Mas teve de fazer torcicollos porque reconheceu -o sueco, que estava contemplando as -janellas de D. Estanislada. Por sua vez, o sueco, -mal que viu aproximar-se um vulto, deitou a fugir.</p> - -<p>O presidente da junta geral do districto de Santarem, -lembrando-se da <i>rifa</i>, e, portanto, de que -D. Estanislada havia sahido em premio ao sueco, -teve uma forte commoção de ciume.</p> - -<p>—Pois então elle, pensou o conselheiro, tinha -ido para Cintra e apparece mysteriosamente em -Setubal ás onze horas da noite!</p> - -<p>E, como um Othello furioso, empurrou a porta -de Desdémona e entrou.</p> - -<p>Por dentro dos vidros da sua janella, a menina -Ricardina, muito matreira, tendo apanhado no -ar a phrase do <i>azeite</i>, estava á côca, e vira tudo -o que se passára.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer3.jpg" width="150" height="150" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header5.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>IX</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-o.jpg" width="85" height="95" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">O conselheiro Antunes, subindo a escada, -deixou-se guiar mansamente, na treva, -pela mão da hespanhola. Parecia um borrego -amoroso comboyado pela respectiva -cordeira. Mas logo que se apanhou no quarto de -D. Estanislada e a luz da lamparina lhe aclarou -a situação, o borrego transformou-se em lobo -cerval. Desdémona teve que haver-se com Othello.</p> - -<p>Ora o que ali se passou, em rapidos momentos, -foi pouco mais ou menos a famosa fabula do -lobo e do cordeiro.</p> - -<p>Othello accusou violentamente Desdémona: era -o lobo que fallava.</p> - -<p>Não alludiu á <i>rifa</i>, mas affirmou saber de boa -origem que o sueco disfarçava com a filha as -suas pretensões á mãe. A hespanhola, entre lisonjeada -e surprehendida, tomou o logar do cordeiro -do apólogo, salvo o sexo. Procurou tranquillisar<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span> -o conselheiro, dizendo-lhe que o sueco -não a pretendia a ella, mas á filha, <i>que era mais -nova</i>. O lobo pediu provas, visto que só com provas -importantes poderia desfazer a impressão que -lhe deixára a presença do sueco, n’aquella rua, -ás onze horas da noite, sendo certo constar em -toda a cidade que Soledad tinha ido para Lisboa -com o pae.</p> - -<p>D. Estanislada pôde, felizmente, lembrar-se de -uma prova. Era uma carta que n’aquella mesma -tarde tinha chegado pelo correio, dirigida a Soledad -Saavedra. A lettra do sobrescripto era esquisita, -estrangeirada: naturalmente seria do -sueco.</p> - -<p>—Pois bem! propozera D. Estanislada, abrir-se-ia -a carta e, se effectivamente fosse do sueco, -talvez a questão podesse ficar esclarecida.</p> - -<p>Foi pé-ante-pé buscar a carta, e abriu-a com -denodo. Era effectivamente do sueco.</p> - -<p>Á luz da lamparina, muito curvados sobre uma -cómmoda, lêram-na ambos.</p> - -<p>Custou-lhes a entrar com o texto, uma verdadeira -torre de Babel, onde as linguas se confundiam -e baralhavam: o sueco, o portuguez e o -hespanhol andavam ali em cabriolas de amor de -um coração polyglótta.</p> - -<p>Soletrando, entendendo aqui, não entendendo -acolá, chegaram á conclusão de que o scandinavo -alludia a um desgosto que tivera no <i>pic-nic</i> -de Troia, que o obrigára a retirar-se para o -Barreiro, tendo aliás feito constar que ia para -Cintra, afim de desorientar a perseguição dos -trocistas. Mais uma vez declarava a Soledad o -seu ardente amor e, para definir uma situação -embaraçosa, pedia que lhe apparecesse á janella -ás onze horas da noite.</p> - -<p>Esta carta providencial, que não chegou ao seu<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span> -destino, esclareceu a situação, amansou as furias -do lobo amoroso. Ao contrario do que acontece -no apólogo, e n’isto é que a realidade se apartou -da fabula, o lobo ficou vencido, e o cordeiro, salvo -sempre o sexo, ficou vencedor.</p> - -<p>Na rua, emquanto o conselheiro e D. Estanislada -decifravam a carta, o sueco, o qual por sua -vez ficára ciumento vendo um vulto, mas não o -reconhecendo, voltára ao sitio d’onde havia fugido -e, ardendo em zelos, esperava que a janella -de Soledad se abrisse.</p> - -<p>Estava elle ali parado, olhando para todos os -lados, palpitante de anciedade e receoso da troça, -quando sentiu abrir-se mansamente a porta de -um <i>rez-de-chaussée</i>.</p> - -<p>Teve medo de alguma insidia, não porque fosse -um fraco, mas porque era um estrangeiro esmagado -pela chacota indigena. Ouviu um <i>psiu</i>, -tres vezes repetido, um <i>psiu</i> que não podia ser -senão para elle, porque na rua não havia mais -ninguem, e esteve quasi para fugir outra vez.</p> - -<p>Era uma mulher que o chamava, parecia, pelo -menos, que era uma mulher, mas quem lhe podia -affirmar que não fosse o Julio de Lemos ou -o Aurelio Goes ou algum ladino official de caçadores -disfarçado em mulher? Hesitava, e teria -talvez fugido, se não se convencesse de que era -effectivamente uma voz de mulher que, depois -de o ter chamado, lhe estava dizendo cautelosamente:</p> - -<p>—Venha aqui, que lhe posso dar noticias interessantes.</p> - -<p>O sueco aproximou-se, e ficou encantado de -se lhe deparar na janella uma rapariga de cerca -de vinte annos, algo morena, mas sympathica. -Os olhos eram vivos, porque brilhavam na treva. -E, ao vêr diante de si uma realidade agradavel,<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span> -o sueco encostou-se á janella e sentiu um brando -cheiro a mangericão, que o seio da rapariga exhalava, -e que a elle lhe soube tão bem como um -copo de <i>Kirsch-Vasser</i>.</p> - -<p>—Faça favor de fallar baixo, disse ella, que -está ali minha mãe a dormir.</p> - -<p>—Ó encantadorra menina! exclamou elle.</p> - -<p>—Ainda que eu mal pergunte, continuou ella, -o sr. estrangeiro anda aqui por causa da mãe ou -da filha?</p> - -<p>—Que dizerr menina?</p> - -<p>—Sim, porque eu tenho visto o sr. estrangeiro -no grupo da hespanhola, mas não sei ao certo -se anda arrastando a aza á <i>señorita</i> Soledad ou -a D. Estanislada...</p> - -<p>—Linda menina desfrructarr-me a mim?</p> - -<p>—Não, senhor! Pelo contrario. Desejo ser-lhe -agradavel. Posso dar-lhe informações tanto a -respeito da <i>señorita</i> como da mãe. Se é por causa -da filha, o sr. estrangeiro andava aqui hoje a -perder o seu tempo...</p> - -<p>—Porque dizerr linda menina isso?</p> - -<p>—Porque Soledad foi esta tarde para Lisboa -com o pae, e só volta depois d’amanhã.</p> - -<p>—Mas quem serr então uma pessoa homem -que andava esprreitando inda bocadinho?</p> - -<p>—E o sr. estrangeiro não dirá nada do que -lhe vou contar?</p> - -<p>—Oh! nó!</p> - -<p>—Era o conselheiro Antunes.</p> - -<p>—E onde estarr elle?</p> - -<p>—Lá dentro.</p> - -<p>—Aqui?</p> - -<p>—Credo! Lá dentro da casa de D. Enrique.</p> - -<p>—Mas estarr só?</p> - -<p>—Não, sr. Está fazendo companhia á D. Estanislada... -O sr. desculpe...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span></p> - -<p>—Nó! D. Enrrique é que desculparrá, se quizerr.</p> - -<p>—É uma pouca vergonha como nunca se viu! -Minha mãe tem alugado aquella casa a muitas -familias hespanholas, mas ainda não vi gente tão -levantada da cabeça como esta! Entre mãe e filha -venha o diabo e escolha!</p> - -<p>—Mãe menina serr senhorria casa?</p> - -<p>—Sim, senhor.</p> - -<p>—Então menina terr visto tudo?</p> - -<p>—Tudo! Não, senhor. Tenho visto muita coisa. -Ainda esta noite...</p> - -<p>—Que terr visto menina esta noite?</p> - -<p>—Eu e a minha mãe fomos visitar D. Estanislada -por imaginarmos que, estando o marido -e a filha em Lisboa, não teria quem lhe fizesse -companhia. Estavamos lá quando entrou o conselheiro -Antunes. Ó sr. estrangeiro, aquillo foi -mesmo uma pouca vergonha!</p> - -<p>—Como serr?</p> - -<p>—Debaixo da mesa...</p> - -<p>—Como debaixo de mesa?!</p> - -<p>—Pisando os pés um ao outro, D. Estanislada -e o conselheiro! Estiveram toda a santa noite -n’aquelle debique. Depois sahimos todos, mas o -conselheiro, á sahida, disse a D. Estanislada que -ás onze horas vinha o azeite...</p> - -<p>—Oh! sim! o azeite! Serr uma combinação -entrre ambos!</p> - -<p>—Tal qual. Mas eu, que não gosto que me façam -o ninho atraz da orelha, fiquei aqui á espreita -por dentro dos vidros. Vi chegar o sr. estrangeiro -e pasmar-se para a casa de D. Enrique. -Vi chegar depois o conselheiro Antunes. O -sr. estrangeiro fugiu, e o conselheiro entrou.</p> - -<p>—Menina terr cerrteza que conselheirro estarr -lá?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p> - -<p>—Sim, sr.! Como dois e dois serem quatro...</p> - -<p>—Pouca verrgonha!</p> - -<p>—Ó sr. estrangeiro! mãe e filha é tudo a -mesma loiça! A filha, quando não anda pela rua -com todos os namorados, está á janella a catrapiscar -a um e a outro, a todos os que vão chegando! -O sr. estrangeiro tambem tem feito bem -bonitos papelinhos!</p> - -<p>—Serr porr brrincadeirra. E terr muitos namorrados?</p> - -<p>—Mais de um cento! Elle é o Lemos de Alcacer, -elle é o tal das gazetas de Lisboa, elle é o -hespanholito esgrouviado, elle é o tolo do Vianninha -que tem a pobre da Sequeira a morrer por -causa d’elle; elle são os officiaes de caçadores; -elle são os morgados do Alemtejo; elle era o marialva -que andou ahi um tempo. E elle é tambem -o sr. estrangeiro... disse Ricardina sorrindo.</p> - -<p>—Eu serr brrincadeirra.</p> - -<p>—Olhe, da parte d’ella talvez fosse, porque -quando o sr. voltava costas, a <i>señorita</i> e a mãe -desatavam a rir pelas casas dentro.</p> - -<p>—Pouca verrgonha!</p> - -<p>—Pois olhe que é a pura da verdade!</p> - -<p>—Muito obrrigado, linda menina. Eu poderr -virr amanha á mesm’horra fallarr com menina -aqui?</p> - -<p>—E para que quer o sr. estrangeiro fallar comigo? -É porque está apaixonado pela <i>señorita</i> e -deseja saber noticias...</p> - -<p>—Nó! É por gostarr de menina.</p> - -<p>—O sr. estrangeiro está a caçoar com uma -pobre rapariga!...</p> - -<p>—Caçoarr! Nó! Eu virr amanhã mesm’horra. -Linda menina, fazerr favorr esperrar mim?</p> - -<p>E o sueco, apertando na sua manápula a mão -de Ricardina, sentiu-se deliciosamente agitado<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span> -por esse contacto, que era um triumpho amoroso -cahido do céo.</p> - -<p>Por sua vez, Ricardina, que sahira vibrante de -casa de D. Estanislada, sentia-se bem, feliz, por -ter podido até certo ponto descarregar a electricidade -que de lá trouxera.</p> - -<p>O sueco era um homem sadio, de boas côres, e -devia ter dinheiro, porque estava ali como commissario -de uma importante casa da Suecia, importadora -de sal.</p> - -<p>De mais a mais Ricardina, como todas as mulheres, -lisonjeava-se de ter arrancado um vassallo -ao coração da <i>señorita</i>, que estava absorvendo -todas as attenções de Setubal.</p> - -<p>O sueco, ruminando a sua boa fortuna, foi -passear audaciosamente para a praia, como se já -não temesse os ridiculos da troça.</p> - -<p>Dados alguns passos, encontrou o estudante -de Alcacer, que, muito noctivago, recolhia do -café <i>Esperança</i>.</p> - -<p>—Ó seu sueco! disse-lhe o Lemos. Então você -não tinha ido para Cintra?!</p> - -<p>O sueco respondeu-lhe que effectivamente tinha -estado em Cintra, por passeio, e não porque -se houvesse importado com a historia do <i>pic-nic</i>; -que se estava rindo da <i>señorita</i>, que era uma -tola, e até de D. Estanislada, que era a amante -do conselheiro Antunes.</p> - -<p>E, sem se referir a Ricardina, contou ao Lemos -que Soledad e D. Enrique tinham ido para Lisboa -e que o conselheiro estava áquella hora em -casa de D. Enrique.</p> - -<p>—Está lá com certeza? perguntou o Lemos.</p> - -<p>O sueco affirmou positivamente que estava; -que tinha entrado ás onze horas.</p> - -<p>—Olhe lá, disse o Lemos, venha comigo, vamos<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span> -pregar uma <i>partida</i> a essa marafona da D. -Estanislada.</p> - -<p>E, mettendo o braço ao sueco, foi-o levando -comsigo a reboque.</p> - -<p>Depois que passára a tempestade do ciume, D. -Estanislada e o conselheiro reconciliaram-se n’um -longo idillio de amor. Tinham adormecido nos -braços um do outro, e D. Estanislada sonhava -afflictivamente que D. Enrique, voltando de Lisboa, -estava batendo á porta.</p> - -<p>Accordou sobresaltada, sentou-se na cama offegante, -olhando para o conselheiro que dormia tranquillamente -e assobiava por um dos cantos da -bôcca.</p> - -<p>Agitada entre a impressão do sonho e da realidade, -isto é, entre a imagem de D. Enrique e a -pessoa do conselheiro, estava limpando o suor -da testa, quando ouviu resoar tres pancadas na -porta e uma voz roufenha dizer:</p> - -<p>—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!</p> - -<p>Agarrando-se trémula, convulsa ao conselheiro, -accordou-o, e elle, despertando aturdido, ouviu -tambem, distinctamente, a voz roufenha dizer:</p> - -<p>—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!</p> - -<p>Era o estudante d’Alcacer, que se tinha lembrado -de pregar aos dois esta <i>partida</i>.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer2.jpg" width="150" height="150" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header7.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>X</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-t.jpg" width="150" height="105" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Tarde de domingo, lucida e serena como um -crystal da Bohemia. O Sado dorme n’um -azul tranquillo, n’um leito de saphira, que -a menor aragem não agita, o que poucas -vezes succede. O Campo do Bomfim immobilisa-se -n’uma grande quietação bucolica, e os arvoredos -circumjacentes recortam-se n’um fundo de -stereoscópo longamente pittoresco...</p> - -<p>As Rodartes foram passeiar a Brancannes: -Hilda e Maria Ignez, de braço dado; Salomé -guiando, como sempre, o avô,—Antigone que -vae conduzindo Œdipo.</p> - -<p>Habituadas á vida placida da Messejana, sentiam-se -bem na solidão dos campos, mais convidativos -ali do que na sua arida provincia do -Alemtejo.</p> - -<p>O velho <i>Padre Eterno</i> não queria outra felicidade -que a de vêr-se rodeado pelo grupo encantador<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span> -das suas tres Graças: onde ellas estivessem, -estava o céo.</p> - -<p>Nenhum dos cavalheiros serventes tinha apparecido -ainda, e não faziam falta a ninguem, nem -mesmo ás tres damas, que elles n’aquella tarde -pareciam ter esquecido.</p> - -<p>Salomé e o avô conversavam sobre negocios -da administração da casa, porque aquella neta -era o secretario particular do velho Rodarte: toda -a correspondencia com os feitores e caseiros corria -pela sua mão.</p> - -<p>Hilda e Maria Ignez fallavam de coisas frivolas, -assumptos de Setubal, que lhes serviam para -ir matando o tempo.</p> - -<p>—A andaluza foi com o pae a Lisboa, dizia -Maria Ignez.</p> - -<p>—Como sabes tu isso? perguntou Hilda.</p> - -<p>—Porque m’o disse hoje o banheiro na praia.</p> - -<p>—Ah! por isso, replicou Hilda, ninguem ainda -viu nenhum dos seus pagens! Ou foram tambem -para Lisboa ou estão mettidos em casa a chorar -de saudade...</p> - -<p>E riram ambas, sem despeito, apenas com a -alegre ironia, que é uma feição caracteristica dos -espiritos moços e despreoccupados.</p> - -<p>—O sueco é que desappareceu da circulação!</p> - -<p>—E o Lemos tambem!</p> - -<p>—Não. O Lemos estava outro dia sentado á -porta do café quando nós passamos.</p> - -<p>—Parece que não está bem comnosco!</p> - -<p>—Porquê?</p> - -<p>—Eu sei lá! Deixal-o estar.</p> - -<p>—E o jornalista?</p> - -<p>O avô e Salomé haviam-se calado momentos -antes.</p> - -<p>—O jornalista, disse o velho Rodarte, mandou-me -hoje a sua <i>Trombeta</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span></p> - -<p>—A da Fama, avôsinho? perguntou Maria -Ignez.</p> - -<p>—Não, a d’elle, a <i>Trombeta Ullyssiponense</i>.</p> - -<p>—Por signal, accrescentou Salomé, que vem -lá uns versos d’elle, que não são feios.</p> - -<p>—Como são? perguntou Hilda. Tu que tens -boa memoria, dize lá como são.</p> - -<p>—Parece-me que sei apenas o principio. Intitulam-se -<i>Noites ao norte</i>.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Noite fria, noite branca,</div> -<div class="verse">Noite da Russia polar,</div> -<div class="verse">És como a imagem da morte,</div> -<div class="verse">Ó longa noite do norte,</div> -<div class="verse">Feita de neve e luar.</div> -</div> -</div> - -<p>—Dize lá o resto.</p> - -<p>—Não sei. Tive de escrever para a Messejana -uma carta que o avôsinho queria, e puz logo o -jornal de parte.</p> - -<p>—Esses versos fazem frio! disse rindo o avô.</p> - -<p>—Frio e mêdo! accrescentou Hilda.</p> - -<p>—Se elle faz d’esses versos á <i>señorita</i>, constipa-a, -disse Maria Ignez.</p> - -<p>O avô e as duas outras meninas riram muito -da phrase.</p> - -<p>—Coitados! continuou o Rodarte. Chega a ser -comico esse cortejo da hespanhola! Tirados os -nossos dois patricios, que são alegres, mas excellentes -pessoas e proprietarios abastados, tudo -o mais não vale um caracol.</p> - -<p>—E D. Ramon? perguntou Maria Ignez.</p> - -<p>—Quem sabe lá o que elle é! É um emigrado, -que me não parece um forte sustentaculo da monarchia, -nem um inimigo poderoso da republica.</p> - -<p>—E o Vianninha? perguntou Hilda.</p> - -<p>—O Vianninha é um pobre escripturario de<span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span> -fazenda, respondeu Araujo Rodarte, que anda a -estudar o modo de não morrer de fome.</p> - -<p>—Não, avôsinho! replicou Hilda. Elle anda a -estudar o meio de conquistar a <i>señorita</i>.</p> - -<p>—Está ella feliz com esse pretendente!</p> - -<p>—Pois assim pobre como é, disse Maria Ignez, -está apaixonada por elle a Sequeira. Dizem até -que tem deitado sangue pela bôcca.</p> - -<p>—Pobre rapariga! que tão mal empregou o -seu coração! ponderou o Rodarte. E elle é um -tolo, porque o pae da Sequeira tem alguma coisa -de seu, possue duas marinhas em Alcacer, e é um -homem que trabalha muito. De mais a mais, boa -gente.</p> - -<p>E Maria Ignez interrompeu a conversação, exclamando:</p> - -<p>—Sabem quem vem acolá? São os nossos patricios.</p> - -<p>—Antes elles do que os outros, disse o avô.</p> - -<p>O morgado de Reguengos e o proprietario das -Alcaçovas vinham effectivamente subindo para -Brancannes, onde sabiam que iam encontrar as -tres lindas patricias.</p> - -<p>A sua chegada trouxe maior animação ao dialogo.</p> - -<p>—Então que vae lá por esse mundo da praia? -perguntou o velho Rodarte.</p> - -<p>—Algumas novidades ha.</p> - -<p>—Novidades! Quaes?</p> - -<p>—A andaluza foi com o pae para Lisboa, disse -o morgado de Reguengos.</p> - -<p>—Os nossos sentimentos... replicou Hilda.</p> - -<p>O morgado fez-se purpurino.</p> - -<p>—Ó minha senhora! disse elle. Tanto eu como -este meu companheiro estamos aqui a banhos e -queremos divertir-nos. Olhamos para tudo isto -como se estivessemos no theatro. A andaluza<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span> -tem sido a peça que está em scena: assistimos -ao espectaculo e divertimo-nos a nosso modo.</p> - -<p>—Assim é, confirmou o proprietario das Alcaçovas.</p> - -<p>—Pois que hão de elles fazer! ponderou Araujo -Rodarte. E mais?</p> - -<p>—O conselheiro anda fazendo as suas despedidas. -Já nos foi deixar bilhete.</p> - -<p>—Mas elle contava ainda demorar-se! observou -Araujo Rodarte.</p> - -<p>—Lá estão commentando no Lapido a resolução -do conselheiro.</p> - -<p>—Mas ainda ha mais novidades! lembrou o -morgado de Reguengos.</p> - -<p>—Digam sempre.</p> - -<p>—O Lemos planeou agora um espectaculo de -curiosos em favor do Asylo. Parece que querem -representar uma comedia escripta pelo Goes.</p> - -<p>—Mas quem representa? perguntou Maria -Ignez.</p> - -<p>—Elles esperam que v. ex.ᵃˢ entrem.</p> - -<p>—Nós! conclamaram as tres meninas.</p> - -<p>—Ellas! exclamou simultaneamente o avô.</p> - -<p>—Mas a mim consta-me por linhas travessas, -disse o proprietario das Alcaçovas, que o pae do -Lemos está furioso com a demora d’elle em Setubal, -e que mais dia menos dia o virá buscar -para o acompanhar a Lisboa, visto que se vae -aproximando a época da abertura das aulas.</p> - -<p>—Pobre pae! observou o Rodarte. O rapaz -está aqui está a tomar capêllo em Physica.</p> - -<p>—Tempo tem elle já para isso!</p> - -<p>—Pois essa idéa do espectaculo é mesmo d’uma -cabeça desconcertada!</p> - -<p>—Outra novidade! exclamou o morgado de -Reguengos.</p> - -<p>—Qual?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p> - -<p>—Appareceu o sueco!</p> - -<p>—Tinha-se perdido? perguntou rindo Araujo -Rodarte.</p> - -<p>—Não, senhor. Tinha ido a Cintra sem dar -cavaco á gente.</p> - -<p>Os dois alemtejanos foram a Brancannes com -o proposito astucioso de evitar que as Rodartes -tomassem parte no espectaculo planeado n’aquella -manhã pelo estudante d’Alcacer. Sondariam sobre -o assumpto o animo do velho Rodarte. Mas logo -ficaram tranquillos vendo que tanto o avô como -as netas pensavam do mesmo modo: ellas não -entrariam na récita.</p> - -<p>O morgado de Reguengos e o proprietario das -Alcaçovas continuaram a não dar importancia á -concorrencia amorosa do estudante e dos outros, -que <i>não tinham onde cahir mortos</i>. Mas o galanteio -de ambos com as duas Rodartes ia-se accentuando -com um caracter de seriedade, que abrangia -já a ideia do casamento, se ellas os não repellissem.</p> - -<p>Queriam pois evitar, um e outro, que collaborassem -n’um espectaculo de rapazes as duas senhoras, -Hilda e Maria Ignez, admittida a possibilidade -de que ellas lhes acceitassem a côrte.</p> - -<p>Não sabiam elles ao certo o numero de personagens -femininos que a peça exigiria; mas preveniam -a hypothese de uma annuencia ao convite -do estudante.</p> - -<p>Combinado o espectaculo no café <i>Esperança</i>, e -compromettido Aurelio Goes a escrever a peça, o -estudante, o jornalista e o Vianninha foram em -grupo ao encontro das Rodartes.</p> - -<p>Vinham ellas já descendo de Brancannes com -o avô e os dois alemtejanos, quando os tres as -avistaram.</p> - -<p>N’essa occasião o morgado de Reguengos colhia<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span> -uma flôr e offerecia-a a Hilda. O estudante -viu isto, e desfechou de longe uma gargalhada.</p> - -<p>—Sabem vocês, disse elle aos companheiros, -o que aquelle pedaço de bruto lhe está dizendo -decerto agora?</p> - -<p>—O que é?</p> - -<p>—Aposto que ha de ser isto:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Aqui tem este raminho,</div> -<div class="verse">Que da minha mão se offerece.</div> -<div class="verse">Não é como eu queria,</div> -<div class="verse">Nem como a senhora D. Hilda merece.</div> -</div> -</div> - -<p>E riram todos tres.</p> - -<p>—Parece-me que á bêsta nos viu rir? disse o -estudante.</p> - -<p>—Tambem a mim me parece! respondeu o -Vianninha, muito timido.</p> - -<p>—Pois com tamanha bêsta não quero eu brincadeiras.</p> - -<p>E o estudante foi o primeiro a desandar pelo -mesmo caminho, sendo logo seguido pelos seus -dois companheiros.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer5.jpg" width="150" height="100" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header6.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>XI</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-o.jpg" width="85" height="95" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">O conselheiro Antunes e D. Estanislada ficaram -inquietos com o que tinham ouvido.</p> - -<p>O seu segredo estava descoberto: o -<i>azeite</i> havia-se entornado, enodoando ambos.</p> - -<p>Não era D. Enrique que batera á porta, porque -D. Enrique estava em Lisboa, mas devia ser uma -pessoa que soubesse <i>tudo</i>.</p> - -<p>Quem seria essa pessoa?</p> - -<p>D. Estanislada propendia a crêr que fosse a -senhoria.</p> - -<p>—Porquê? perguntou-lhe o conselheiro.</p> - -<p>—<i>Porque es beata, y las beatas lo saben todo: -lo que Dios no les dice, lo saben ellas por el Diablo.</i></p> - -<p>Era uma razão, mas o conselheiro não a acceitava -sem repugnancia:</p> - -<p>—Nada! Foi um homem. Certamente o sueco,<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span> -que andava por aqui. É verdade que elle não me -viu entrar, porque fugiu. Mas suspeitou que eu -houvesse entrado e, n’essa supposição, veio pregar-nos -esta peça.</p> - -<p>—<i>Nada!</i> teimava D. Estanislada. <i>La voz no -era la del sueco!</i></p> - -<p>—Precisamos acautelar-nos, porque podem -resultar de tudo isto consequencias muito desagradaveis. -Eu sou um homem sério, e se não -desejo comprometter uma dama, não desejo comprometter-me -tambem a mim proprio. O melhor -será eu recolher-me por alguns dias a Santarem, -antes mesmo de D. Enrique voltar, porque d’este -modo elle não poderá crêr, se lhe chegar aos ouvidos -a denuncia, que eu desaproveitasse um só -instante da sua ausencia.</p> - -<p>—<i>D. Enrique nada sabrá</i>, dizia a hespanhola, -muito menos timida que o conselheiro.</p> - -<p>—Eu sei lá! Isto leva caminho de lhe chegar -aos ouvidos. O seguro morreu de velho, e o melhor -é acautelarmo-nos. Estanislada, minha rica -Estanislada do meu coração, eu vou passar uns -dias a Santarem, e voltarei depois.</p> - -<p>—<i>Que fatalidad!</i> exclamava ella.</p> - -<p>O conselheiro não descansou senão quando se -viu fóra da porta. D. Estanislada viera antes á -janella para o certificar de que não estava ninguem -na rua.</p> - -<p>—Nada! Não quero comprometter a minha -reputação, a minha respeitabilidade, tudo! ia monologando -o conselheiro. Amanhã faço constar -que o governador civil de Santarem me chamou -para um negocio urgente da politica do districto. -Faço, pelo sim pelo não, as minhas despedidas, -para não alimentar suspeitas, para mostrar que -<i>parto</i> mas não <i>fujo</i>, e por aqui me sirvo até mais -vêr.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span></p> - -<p>E, apos uma pausa, muito sentencioso:</p> - -<p>—Não ha mulher nenhuma que valha a reputação -de um homem.</p> - -<p>Effectivamente, no comboio de segunda-feira -pela manhã o conselheiro partiu para Lisboa e -de Lisboa para Santarem.</p> - -<p>Ao apear-se na estação da sua terra, o mesmo -pensamento sentencioso acudiu ao espirito do -conselheiro:</p> - -<p>—Nada! Não ha mulher nenhuma que valha -a reputação de um homem!</p> - -<p>O estudante de Alcacer havia divulgado a -<i>peça</i> que pregára ao conselheiro e a D. Estanislada. -Era já do dominio publico á hora em -que o conselheiro andava fazendo as suas despedidas.</p> - -<p>Os dois alemtejanos sabiam-no perfeitamente -quando se encontraram com as Rodartes, no domingo, -em Brancannes, mas limitaram-se, por -conveniencia devida ás damas, a dizer que no -café <i>Esperança</i> estavam discutindo os motivos da -retirada do conselheiro.</p> - -<p>E era verdade. Em todo esse dia a hespanhola -mãe foi ali tão discutida quanto a hespanhola filha -o havia sido quando era a unica belleza dominadora -de Setubal, isto é, antes da chegada -das tres netas do <i>Padre Eterno</i>.</p> - -<p>D. Enrique regressou na segunda-feira de tarde -com Soledad.</p> - -<p>—Foi usted a Lisboa? perguntavam-lhe os desfructadores.</p> - -<p>—<i>He ido á los toros!</i></p> - -<p>—Ah! Foi usted aos touros? E que tal?</p> - -<p>—<i>Una broma!</i></p> - -<p>E ficavam-se a rir, logo que elle voltava costas, -da singular coincidencia de ter ido aos touros -aquelle homem que, durante a sua ausencia,<span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span> -fôra, segundo a expressão picaresca do estudante, -lidado pelo conselheiro.</p> - -<p>Mas D. Enrique vinha mais contente do que -fôra, porque tivera occasião de fallar em Lisboa -com outros emigrados, e a opinião d’elles era -que o estado anarchico de Hespanha não podia -continuar por muito tempo. O remedio viria de -alguma parte, ou d’uma intervenção das potencias -estrangeiras ou de uma reacção espontanea -do paiz.</p> - -<p>Era a esperança providencial de todos os -emigrados a prefigurar-lhes um desfecho mais -rapido do que os factos em verdade promettiam.</p> - -<p>O estudante, o jornalista e o Vianninha resolveram, -á volta de Brancannes, demorar o convite -ás Rodartes, para entrarem na récita, até que estivesse -escripta a comedia e se soubesse ao certo -qual o numero dos personagens femininos.</p> - -<p>O jornalista metteu-se em casa a trabalhar de -afogadilho na sua <i>peça</i>, de que elle proprio já -fallava com orgulho, quando ás dez horas da -noite apparecia no café do Lapido para tomar cognac, -como uma celebridade noctivaga.</p> - -<p>Contava com uma verdadeira glorificação no -theatro, esperava que o seu triumpho no palco -de Setubal teria grande écco em Lisboa. Coroado -como dramaturgo na patria de Bocage, para entrar -no palco de <i>D. Maria II</i> só lhe seria preciso... -atravessar o Tejo.</p> - -<p>A sua reputação estava feita ou perto d’isso.</p> - -<p>Ao segundo dia de trabalho, annunciou que na -sua comedia apenas entraria uma mulher. Esta -noticia contrariou muito o estudante, mas Aurelio -Goes respondeu-lhe que a espontaneidade do -talento não se podia torcer como um arame, e -que o que a sua cabeça lhe déra espontaneamente<span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span> -fôra uma comedia com um só personagem feminino.</p> - -<p>Então, alguns desfructadores, <i>habitués</i> do Lapido, -suggeriram a ideia de que, para não melindrar -as damas, o melhor seria não convidar -nenhuma, e encarregar-se o estudante de um <i>travesti</i>.</p> - -<p>Não repugnou a Julio de Lemos esta ideia, -porque lhe daria no palco maior evidencia e, por -isso mesmo, maior gloria.</p> - -<p>Acceitou.</p> - -<p>—Que nome tenho eu lá na peça? perguntava -elle a Aurelio Goes.</p> - -<p>—És a baroneza de Piães.</p> - -<p>—Casada ou solteira?</p> - -<p>—Casada.</p> - -<p>—E distincta?</p> - -<p>—Certamente.</p> - -<p>Escriptas as primeiras scenas, foram-se logo -ensaiando.</p> - -<p>O jornalista distribuiu os papeis; os ensaios -faziam-se de dia, depois do almoço. Uma commissão -encarregára-se de passar a casa: a coisa -corria ás mil maravilhas.</p> - -<p>Eis o programma da festa, redigido pelo dramaturgo:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p class="center">UMA NOITE SINISTRA</p> - -<p><i>Comedia em tres actos e em verso, original do festejado -escriptor o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes</i></p> - -<p class="center">DISTRIBUIÇÃO DOS PERSONAGENS</p> - -<table summary="DISTRIBUIÇÃO DOS PERSONAGENS"> - <tr> - <td><i>Baroneza de Piães</i></td> - <td>Sr. Julio de Lemos</td> - </tr> - <tr> - <td><i>Barão de Piães</i></td> - <td>Sr. J. Vianna</td> - </tr> - <tr> - <td><i>D. Mendo Espinote</i></td> - <td>Sr. Aurelio Goes</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span><i>D. Diogo Cucufate</i></td> - <td>Sr. Tenente Epaminondas</td> - </tr> - <tr> - <td><i>D. Fafes Estorninho</i></td> - <td>Sr. Tenente Rosalgar</td> - </tr> - <tr> - <td><i>D. Gualter Byscaia</i></td> - <td>Sr. Alferes Ruivo</td> - </tr> - <tr> - <td><i>O escrivão de fazenda</i></td> - <td>N. N.</td> - </tr> -</table> - -<p>A acção passa-se na actualidade, em Braga.</p> - -<p><i>Ensaiador</i>—Sr. Aurelio Goes.</p> - -</div> - -<p>A <i>Gazeta Setubalense</i> e a <i>Trombeta Ullyssiponense</i> -annunciaram, além e áquem do Tejo, o brilhante -espectaculo que ia realisar-se em Setubal, -punham no sette estrello o novel e talentoso author, -Aurelio Goes, que, se os calculos não falhavam, -viria a nivelar-se com Almeida Garrett, -e elogiavam a vocação artistica dos distinctos -amadores, que em seguida nomeavam.</p> - -<p>Ambas as noticias haviam sido escriptas pelo -proprio Aurelio Goes.</p> - -<p>Tambem elle se lembrára de officiar ao ministerio -das obras publicas reclamando, para a -noite da récita, um comboio extraordinario a preços -reduzidos, mas não obteve resposta.</p> - -<p>Escreveu a um amigo de Lisboa encarregando-o -de encommendar uma coroa de louros, que -era para elle, e de ir entender-se com o proprietario -da <i>Trombeta</i>, para que lhe fizesse um adeantamento -de dois mezes.</p> - -<p>A coroa foi logo encommendada, porque o amigo -de Aurelio Goes tinha tanto juizo como elle.</p> - -<p>Mas o proprietario da <i>Trombeta</i>, que só d’ahi -a dois dias poude ser encontrado, recusou-se -formalmente a fazer o adeantamento pedido, chegando -a dizer ao intermediario que o <i>sr. Aurelio</i> -só lhe mandava de Setubal noticias de interesse -proprio; que estava muito desgostoso com elle, -e que se dentro de quinze dias não regressasse -a Lisboa, o despediria da redacção.</p> - -<p>Depois d’esta entrevista desoladora, o amigo -de Aurelio Goes correu á loja onde tinha encommendado<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span> -a coroa, para suspender a encommenda, -mas, ó fatalidade! a coroa estava já feita, e exposta -na <i>montre</i> com este distico, que tinha tambem -sido encommendado: <i>Ao notavel e talentoso -dramaturgo Aurelio Goes, futuro émulo de Garrett</i>.</p> - -<p>Pobre emissario! Ficou entalado, responsavel -pela despeza da coroa. Escreveu para Setubal a -contar o que era passado, quanto aos louros e á -brutalidade do proprietario da <i>Trombeta</i>.</p> - -<p>Aurelio Goes respondeu, na volta do correio, -que ia arranjar dinheiro para a coroa, que não -prescindiria dos louros por caso nenhum, e que -fosse dizer ao «tyranno da <i>Trombeta</i>», expressão -sua, que dentro de quinze dias estaria de regresso -em Lisboa com uma carregação de gloria, que -faria subir os fundos da <i>Trombeta</i>.</p> - -<p>E, para que tudo coubesse no praso fatal que -lhe era marcado, resolveu-se que a récita se realisasse -dentro de dez dias.</p> - -<p>Activaram-se os trabalhos, Aurelio Goes desenvolvera -uma actividade assombrosa, retocava -as ultimas scenas da comedia, assistia aos ensaios, -e tratava de arranjar dinheiro para os louros.</p> - -<p>Julio de Lemos, muito contente com o seu papel -de baroneza de Piães, em que obteria uma -ovação, estava d’isso convencido, occupava-se, -nas horas livres de ensaios, em preparar a sua -<i>toilette</i>.</p> - -<p>Lembrou-se de D. Estanislada para lhe fornecer -o guarda-roupa, mas lembrou-se obrigado -pelas circumstancias, porque o morgado de Reguengos -declarára categoricamente em alguma -parte que, por seu conselho, as Rodartes não -contribuiriam para a récita senão com o preço -do seu camarote.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p> - -<p>E o estudante, quando soube isto, dissera:</p> - -<p>—Essa grande bêsta imagina talvez que terei -de apparecer em scena como Eva no Paraizo -Terreal! Pois engana-se redondamente.</p> - -<p>E foi pedir a D. Estanislada que lhe valesse -n’aquella afflicção.</p> - -<p>Soledad tinha ido ao banho com o pae, mas -D. Estanislada recebeu-o amavelmente, prometteu-lhe -pôr á sua disposição o guarda-roupa de -que precisasse.</p> - -<p>Julio de Lemos, muito captivado, agradeceu-lhe -a amabilidade e, para lisonjeal-a na sua formosura, -contou-lhe a scena que se seguira ao -<i>pic-nic</i> de Troia, disse-lhe que, no sorteio de damas -a que se procedêra, ella tinha cahido em -sorte ao sueco.</p> - -<p>D. Estanislada riu muito com essa brincadeira, -e explicou então a si mesma os ciumes do conselheiro, -e a presença do sueco, de noite, na sua -rua.</p> - -<p>Esta revelação não cahiu em cesto rôto.</p> - -<p>Vencida a difficuldade da <i>toilette</i> para o estudante, -tudo estava prompto, e a noite da recita -chegou finalmente.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer5.jpg" width="150" height="100" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header5.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>XII</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-s.jpg" width="185" height="120" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Subiu o panno. O palco representava -uma sala, que fingia communicar com -outras. Ouvia-se um <i>sol-e-dó</i>, com -pretensões a orchestra de salão. Devia -ser um baile.</p> - -<h3>SCENA I</h3> - -<div class="poetry-container max30"> -<div class="poetry"> - -<p class="center"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> e <span class="smcapuc">D. DIOGO</span> (<i>entram ambos, conversando, -pela porta do fundo. O sol-e-dó vae esmorecendo. -Salienta-se á vista dos espectadores a casaca -de D. Mendo, que é antiga e enorme.</i>)</p> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">Mas se conhecem?</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div> -<div class="verse indent9">Sim! sim!</div> -<div class="verse">Agora, que estás no baile,</div> -<div class="verse">Emancipa-te de mim.</div> -<div class="verse">Passeia, namora, primo,</div> -<div class="verse">Faze a côrte, dize graças,</div> -<div class="verse">Pódes até, se quizeres,</div> -<div class="verse">Tu, morgado de Boaças,</div> -<div class="verse">Ser um rei entre as mulheres!</div><span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">Um rei com manto emprestado!</div> -<div class="verse">Julgo ouvir, a cada passo,</div> -<div class="verse">Dizer a voz de um palhaço:</div> -<div class="verse">«Largue a casaca, morgado!»</div> -<div class="verse">Que entre a fôrma e entre o fato</div> -<div class="verse">Deve a união ser tamanha</div> -<div class="verse">Como entre a casca e a lagosta,</div> -<div class="verse">Entre o ouriço e a castanha.</div> -<div class="verse">Mas eu com esta casaca</div> -<div class="verse">Cheiro a D. Miguel I.</div> -<div class="verse">Suppõe que eu sou a castanha:</div> -<div class="verse">Ella é o ouriço... cacheiro.</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div> -<div class="verse">Ora adeus! Em Braga serve...</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">Essa ironia é cruel!</div> -<div class="verse">Onde ella faria vista</div> -<div class="verse">Seria em Penafiel,</div> -<div class="verse">Que lá as casacas todas</div> -<div class="verse">São ainda mais pesadas</div> -<div class="verse">E têm as abas dobradas,</div> -<div class="verse">Dizem...</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div> -<div class="verse indent6">Pensei que sabias!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">Não. Eu já lá estive uns dias,</div> -<div class="verse">Mas nunca mudei de fato.</div> -<div class="verse">Ora eu com esta casaca</div> -<div class="verse">A que Bocage decerto</div> -<div class="verse">Fez no seu tempo uma quadra,</div> -<div class="verse">Devo par’cer um retrato</div> -<div class="verse">D’estes da Feira da Ladra!</div> -<div class="verse">E depois que desconcerto</div> -<div class="verse">Entre a casaca e o chapeu!</div> -<div class="verse">Percebem todos á legua</div> -<div class="verse">Que trago o que não é meu.</div> -<div class="verse">Um chapeu moderno, <i>claque</i>,</div> -<div class="verse">Fôrro preto, lettra de ouro,</div> -<div class="verse">Armado com boas molas,</div><span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span> -<div class="verse">Dando ao abrir-se um estouro. (<i>E abriu a claque com estrondo.</i>)</div> -<div class="verse">A casaca... um monumento</div> -<div class="verse">De remota fundação!</div> -<div class="verse">Faz lembrar a sé de Braga</div> -<div class="verse">Com abas e cabeção;</div> -<div class="verse">A guerra de Troia em panno;</div> -<div class="verse">Affonso Henriques cosido.</div> -<div class="verse">Affonso Henriques decerto</div> -<div class="verse">É que eu trago em mim vestido!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div> -<div class="verse">Pateta! Mais te valia</div> -<div class="verse">Talvez deitar-te ao sol-posto</div> -<div class="verse">Com as gallinhas! (<i>ironico.</i>)</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse indent9">Que ouvi?!</div> -<div class="verse">Pôr as gallinhas, entendo,</div> -<div class="verse">Mas pôr o sol, nunca vi!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div> -<div class="verse">Ahi vem a dona da casa!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">Agora, que vou ter publico,</div> -<div class="verse">Sinto-me arder n’uma braza!</div> -</div> -</div> - -<h3>SCENA II</h3> - -<div class="poetry-container max30"> -<div class="poetry"> - -<p class="center"><i>Entra Julio de Lemos em travesti de mulher. A sua -entrada em scena produz hilaridade no publico.</i></p> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">BARONEZA</span></div> -<div class="verse">Ó morgado! que surpreza!</div> -<div class="verse">Que prazer! quanto eu estimo!</div> -<div class="verse">Beijo-lhe as mãos, D. Diogo,</div> -<div class="verse">Pois que nos trouxe seu primo.</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">Baroneza! Eu folgo muito...</div> -<div class="verse">O meu peito rejubila... (<i>Inclina-se. Sóbe-lhe para a cabeça o cabeção da casaca.</i>)</div> -<div class="verse">(<i>á parte</i>) Não posso dár á cabeça,</div> -<div class="verse">Que me não suba a mochilla!</div><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span> (<i>apertando a mão á baroneza</i>)</div> -<div class="verse">E tem que me agradecer,</div> -<div class="verse">Porque o primo não queria</div> -<div class="verse">Vir ao baile!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">BARONEZA</span></div> -<div class="verse indent6">Póde ser!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div> -<div class="verse">Só questão de <i>toilette</i>.</div> -<div class="verse">Mas emfim...</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse indent2">(<i>á parte</i>) Vim de casaca,</div> -<div class="verse">E ainda cabiam mais sete!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">BARONEZA</span></div> -<div class="verse">O barão, quando soubér,</div> -<div class="verse">Ha de ficar encantado</div> -<div class="verse">Co’a surpreza do morgado.</div> -<div class="verse">Eu mesma lh’o vou dizer.</div> -<div class="verse">E agora, morgado, goze,</div> -<div class="verse">Que entre a fina flôr do Minho</div> -<div class="verse">Não ha quem lhe leve a palma,</div> -<div class="verse">Quem tenha mais gentil alma,</div> -<div class="verse">Melhor sangue em pergaminho,</div> -<div class="verse">Além do que nós sabemos...</div> -<div class="verse">Pois por cá todos lhe dão</div> -<div class="verse">Umas cem pipas de vinho</div> -<div class="verse">E oitenta carros de pão.</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">Ai! baroneza! Foi tempo!...</div> -<div class="verse">Já não sou quem d’antes era.</div> -<div class="verse">Sinto-me triste, sou mono.</div> -<div class="verse">Matou-me o phylloxera!</div> -<div class="verse">Deu nas vinhas... e no dono!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">BARONEZA</span></div> -<div class="verse">Não se chore... pobresinho!</div> -<div class="verse">Que não é occasião.</div> -<div class="verse">Se quizer... compro-lhe o vinho,</div> -<div class="verse">Seu primo... compra-lhe o pão.</div><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. DIOGO</span></div> -<div class="verse">Está dito, baroneza.</div> -<div class="verse">Quer o meu braço?</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">BARONEZA</span></div> -<div class="verse indent9">Pois não!</div> -<div class="verse">Morgado, goze, namore,</div> -<div class="verse">Que eu vou dizer ao barão. (<i>A baroneza e D. Diogo saem de braço dado por uma das portas lateraes.</i>)</div> -</div> -</div> - -<h3>SCENA III</h3> - -<div class="poetry-container max30"> -<div class="poetry"> -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> (<i>só</i>)</div> -<div class="verse">Goze! Namore! Tem graça!</div> -<div class="verse">Póde alguem ser tão audaz,</div> -<div class="verse">Que vá mostrar-se n’um baile</div> -<div class="verse">Assim, por deante e (<i>volta-se</i>) por traz!</div> -<div class="verse">Vim de rastos, constrangido,</div> -<div class="verse">Estou aqui compromettido!</div> -<div class="verse">Não saio d’aqui, não saio.</div> -<div class="verse">Fallar ás damas? Dançar?</div> -<div class="verse">N’essa tolice não caio.</div> -<div class="verse">Não me hão de lá apanhar! (<i>Sentando-se.</i>)</div> -<div class="verse">Chego a Braga d’esta vez</div> -<div class="verse">Por uns dois dias ou trez.</div> -<div class="verse">Trago um fato de viagem:</div> -<div class="verse">Eis toda a minha bagagem.</div> -<div class="verse">Entro em casa de meu primo.</div> -<div class="verse">—Como vaes tu?—Que surpreza!</div> -<div class="verse">Ó diabo! adivinhaste!</div> -<div class="verse">Mas tu sabes que apanhaste</div> -<div class="verse">Um baile da baroneza?!</div> -<div class="verse">—Um baile?—Um baile!—E depois?</div> -<div class="verse">—Um baile d’estes que valem,</div> -<div class="verse">Dados em Braga, por dois.</div> -<div class="verse">—Não vou.—Has de ir.—Mas não posso!</div> -<div class="verse">—Não pódes! porque?—Por tudo!</div> -<div class="verse">Ou melhor, talvez, por nada!</div> -<div class="verse">Pensas que eu visto casaca</div> -<div class="verse">P’ra fazer uma jornada?!</div> -<div class="verse">Que é da casaca? Não tenho!</div> -<div class="verse">Gosto de andar á ligeira,</div> -<div class="verse">Cheio de sol e poeira,</div> -<div class="verse">Assim mesmo,—como venho.</div><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span> -<div class="verse">—Mas, primo, talvez se arranje</div> -<div class="verse">Algum meio... deixa vêr.</div> -<div class="verse">—Só o capote de um conego</div> -<div class="verse">Me póde agora valer!</div> -<div class="verse">—Não rias! Que ideia! Espera!</div> -<div class="verse">Se me não falha a memoria,</div> -<div class="verse">A casaca do papá,</div> -<div class="verse">Que Deus tenha em santa gloria,</div> -<div class="verse">No guarda-roupa ainda está.</div> -<div class="verse">—Santo Deus! quero lá isso!</div> -<div class="verse">Ó primo! que reinação!</div> -<div class="verse">Uma casaca, talvez,</div> -<div class="verse">Com que o tio outr’ora fez</div> -<div class="verse">De valido papa-fina</div> -<div class="verse">Quando a Carlota Joaquina</div> -<div class="verse">Burlou a Constituição!</div> -<div class="verse">—Vae-se vêr. Tem paciencia...</div> -<div class="verse">Vem a casaca. Medonha!</div> -<div class="verse">Isto que eu trago vestido</div> -<div class="verse">E em que me sinto mettido</div> -<div class="verse">Como dentro d’uma fronha!</div> -<div class="verse">—Primo, não vou.—Qual historia!</div> -<div class="verse">Verás lá muitas assim.</div> -<div class="verse">N’esta Braga, que é fiel,</div> -<div class="verse">O tempo de D. Miguel</div> -<div class="verse">Dura ainda, e não tem fim!</div> -<div class="verse">Vaes á moda.—Á moda... antiga!</div> -<div class="verse">—Talvez que alguma morgada,</div> -<div class="verse">Camapheu como o seu broche,</div> -<div class="verse">Se sinta lisonjeada</div> -<div class="verse">D’esse aspecto <i>vieille-roche</i>.</div> -<div class="verse">—E entre no meu coração,</div> -<div class="verse">Por engano, e por seu pé,</div> -<div class="verse">Julgando, por ser em Braga,</div> -<div class="verse">Que vae ouvir missa á Sé!</div> -<div class="verse">—Ora adeus! Calças, collete,</div> -<div class="verse">Gravata, lenço, chapeu,</div> -<div class="verse">O resto da <i>toilette</i>,</div> -<div class="verse">Tudo isso, empresto-te eu.</div> -<div class="verse">E zás, põe me na tortura,</div> -<div class="verse">Despe-me, veste-me, entala-me,</div> -<div class="verse">Puxa, repuxa, estrebucha,</div> -<div class="verse">Desaperta, aperta, empala-me!</div> -<div class="verse">Traz-me ajoujado, arrastado,</div> -<div class="verse">Acho-me, sem saber como,</div> -<div class="verse">Preso dentro de uma sacca!</div><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span> -<div class="verse">Vim a pé... n’esta casaca,</div> -<div class="verse">E o primo veio a meu lado!</div> -</div> -</div> - -<h3>SCENA IV</h3> - -<div class="poetry-container max30"> -<div class="poetry"> - -<p class="center">(<i>D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão -de fazenda entram pela porta do fundo. -D. Mendo levantas-se vendo-os entrar.</i>)</p> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span> e <span class="smcapuc">D. GUALTER</span> (<i>simultaneamente</i>)</div> -<div class="verse">Ó que surpreza! Um abraço!</div> -<div class="verse">Que noite nem estreiada! (<i>abraçam-n’o de um e outro lado.</i>)</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> (<i>á parte</i>)</div> -<div class="verse">Fica tão longe a casaca,</div> -<div class="verse">Que não senti mesmo nada! (<i>Olhando para o escrivão de fazenda, que lhe abaixa a cabeça.</i>)</div> -<div class="verse">Ó D. Gualter, ó D. Fafes,</div> -<div class="verse">Ser apresentado estimo</div> -<div class="verse">Ao distincto cavalheiro,</div> -<div class="verse">Que tendes por companheiro.</div> -<div class="verse">Será elle nosso primo?</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span></div> -<div class="verse">Não é. Mas outra valia</div> -<div class="verse">Este senhor recommenda.</div> -<div class="verse">Isto já de fidalguia!...</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span></div> -<div class="verse">É o escrivão de fazenda. (<i>apresentando D. Mendo</i>)</div> -<div class="verse">Meu primo Mendo de Sousa</div> -<div class="verse">Noronha Alvim e Lambaças...</div> -<div class="verse">Aqui falta alguma cousa!</div> -<div class="verse">Emfim: senhor de Boaças.</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">Falta o Tinoco materno.</div> -<div class="verse">De meu pae falta o Rolim.</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span> (<i>emendando</i>)</div> -<div class="verse">Mendo de Sousa Noronha</div> -<div class="verse">Alvim Tinoco Rolim,</div> -<div class="verse">Senhor do Brejo e Boaças.</div><span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">Agora falta o Lambaças!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span> (<i>rindo</i>)</div> -<div class="verse">Nenhum de nossos avós</div> -<div class="verse">Faz falta onde estamos nós!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> (<i>ao escrivão</i>)</div> -<div class="verse">Muito emfim me lisonjea</div> -<div class="verse">Conhecer este senhor.</div> -<div class="verse">Faça de conta, de ideia</div> -<div class="verse">Que me tem ao seu dispôr.</div> -<div class="verse">Estendo-lhe a minha mão,</div> -<div class="verse">Senhor... senhor escrivão</div> -<div class="verse">De fazenda... propria ou alheia?</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span> (<i>precipitado</i>)</div> -<div class="verse">Não faças troça do homem.</div> -<div class="verse">N’estes bons tempos felizes</div> -<div class="verse">De liberdade e igualdade</div> -<div class="verse">Nós andamos nas mãos d’elle</div> -<div class="verse">P’ra que não nos tire a pelle</div> -<div class="verse">Esticando-a nas matrizes.</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">Então cá vocês não pagam?</div> - -<p class="center">(<i>D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda</i>)</p> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span></div> -<div class="verse">Pagamos pouco. Bem vês</div> -<div class="verse">Que ninguem faz em colheitas</div> -<div class="verse">O que antigamente fez.</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">E então recorrem ás peitas!</div> -</div> -</div> - -<p>N’esta altura da representação começou-se a ouvir barulho no palco. Não -parecia que fosse rubrica da peça.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span></p> - -<p>D. Mendo, extranhando o barulho, dirigiu-se á porta do fundo, e gritou -para dentro: Calem-se, seus burros!</p> - -<div class="poetry-container max30"> -<div class="poetry"> -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span> (<i>levantando a voz para poder ser ouvido</i>)</div> -<div class="verse">Finge a gente que o estima,</div> -<div class="verse">Trata-o de Santo Antoninho,</div> -<div class="verse">Mão por baixo, mão por cima.</div> -<div class="verse">Se não ha nem pão nem vinho!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> (<i>descendo da porta do fundo, muito arreliado porque o barulho entre-scenas continua</i>)</div> -<div class="verse">Mão por cima... é bom criterio.</div> -<div class="verse">Mas mão por baixo... é mais serio!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span> (<i>explicando com o gesto correspondente</i>)</div> -<div class="verse">Mão por cima e mão por baixo.</div> -</div> -</div> - -<p>Continua e augmenta o barulho entre-scenas. Sente-se fallar de rijo, -altercar. Da platêa rompem alguns scius.</p> - -<div class="poetry-container max30"> -<div class="poetry"> -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span></div> -<div class="verse">Isso então tinha outro nome</div> -<div class="verse">Quando não havia fome.</div> -<div class="verse">Chamava-se: ser capacho!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span> (<i>em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder dominar o barulho que vinha do fundo do palco</i>)</div> -<div class="verse">Muito alegre este D. Mendo!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. GUALTER</span> (<i>berrando para poder ser ouvido</i>)</div> -<div class="verse">Parece rapaz, e é velho!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. FAFES</span> (<i>gritando cada vez mais</i>)</div> -<div class="verse">Tem uma casa soberba!</div> - -<div class="speaker"><span class="smcapuc">D. MENDO</span> (<i>com voz de estentor, para o escrivão de fazenda</i>)</div> -<div class="verse">Tenho. Mas n’outro concelho.</div> -</div> -</div> - -<p>N’isto o barulho augmenta entre-scenas, sente-se -cahir uma cadeira, e de repente, correndo -de um lado para outro, atravessa o palco Julio -de Lemos, em <i>travesti</i> de baroneza de Piães e<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span> -atraz d’elle, aos pontapés, um dos quaes ainda -lhe raspou, um sujeito de cabellos grisalhos, -baixo, atarracado, ardendo em colera.</p> - -<p>Uma grande parte do publico, composto de -setubalenses, reconheceu o homem dos pontapés: -era o pae do estudante de Alcacer. As familias -banhistas, incluindo as Rodartes e Soledad, assustaram-se. -Ouviram-se guinchos hystericos. Na -platêa explodiram risadas. E ao charivari no palco -correspondeu o charivari dos guinchos e das -gargalhadas na platêa e nos camarotes.</p> - -<p>Os actores, D. Mendo, D. Fafes, D. Gualter e -todos os mais, corriam de um lado para outro -gritando, berrando, apparecendo e desapparecendo -por entre os bastidores.</p> - -<p>O administrador do concelho sahiu precipitadamente -do seu camarote.</p> - -<p>Ao cabo de cinco minutos de tumulto, o panno -desceu.</p> - -<p>Na platêa continuavam as risadas, mas nos camarotes -iam diminuindo os guinchos.</p> - -<p>Vozes explicavam da platêa para os camarotes:</p> - -<p>—Não é nada! É o pae do estudante que o -veio buscar!</p> - -<p>—É o pae! é o pae! Não se afflijam, minhas -senhoras.</p> - -<p>Alguns homens sahiam da platêa, corriam ao -palco.</p> - -<p>D. Enrique berrava ao fundo do seu camarote:</p> - -<p>—<i>Que broma! que broma!</i></p> - -<p>Finalmente, ao cabo de um quarto de hora de -verdadeira ingrezia, o panno subiu, e Aurelio -Goes, ainda enfardelado na sua enorme casaca -de D. Mendo, veio dizer á bôcca da scena:</p> - -<p>—Minhas senhoras e meus senhores: tendo<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span> -desapparecido do palco o sr. Julio de Lemos, o -espectaculo não póde continuar hoje.</p> - -<p>O proprietario das Alcaçovas, que tinha ido ao -camarote das Rodartes, para lhes explicar o que -tudo aquillo era, e tranquillisal-as, dizia:</p> - -<p>—Bem me constava a mim que o pae do Lemos -estava muito quesilado com elle, e não tardaria -a vir buscal-o. Rebentou hoje como uma -bomba!</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer4.jpg" width="150" height="150" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header6.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>XIII</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-i.jpg" width="50" height="90" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Imagine-se quanto deu que fallar este caso -estupendamente comico!</p> - -<p>Pela manhã dizia-se na praia que o pae -do estudante havia corrido atraz d’elle pela -rua da Conceição, e que um popular, vendo -uma mulher a fugir e um homem a gritar -que a prendessem, deitara a mão á supposta -mulher; que Julio de Lemos apanhára n’esse -momento nova roda de pontapés, e que o pae, -agarrando-lhe por um braço, o levára para a -hospedaria, tendo embarcado ambos no comboio -da manhã para Lisboa.</p> - -<p>Episodios altamente risiveis, boquejavam-se: -soube-se então que o jornalista havia mandado -vir de Lisboa, para si proprio, uma coroa de -louros, a qual coroa de louros ficára no theatro -pendurada de um prego. Fazia-se <i>calembour</i> com -a palavra <i>prego</i>, porque se soube logo tambem a<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span> -quem o jornalista pedira emprestado o dinheiro -para pagar a coroa. Accrescentava-se que o estudante -se esquecêra, na atrapalhação em que ficára, -de restituir a <i>toilette</i> a D. Estanislada, mas -averiguou-se depois que o pae de Julio de Lemos -havia mandado entregar tudo.</p> - -<p>Aurelio Goes não apparecia, estava envergonhado -e furioso: envergonhado pelo <i>fiasco</i> e furioso -por vêr perdida a occasião de trepar para -o pedestal de Garrett.</p> - -<p>Á noite asseverou-se, e era verdade, que Aurelio -Goes havia partido no comboio da tarde -para Lisboa, á franceza, sem dizer adeus a ninguem, -nem mesmo á pessoa que lhe havia emprestado -o dinheiro para a coroa de louros.</p> - -<p>Só duas pessoas, não que ellas o dissessem a -ninguem, haviam tirado algum proveito d’essa -mallograda récita.</p> - -<p>A primeira era D. Estanislada que, graças ao -estudante, ficára sabendo que, no sorteio de -Troia, havia cahido em sorte ao sueco.</p> - -<p>A segunda era o sueco que, na noite da récita, -tinha offerecido um camarote de segunda -ordem á senhora Magdalena e á menina Ricardina.</p> - -<p>Pois que! A menina Ricardina soubera tecer -a sua rede, e apanhou nas malhas o sueco. Foi -com esse fim que ella o chamára para lhe fazer -as confidencias que sabemos. Elle, encantado com -tão boa fortuna, porque era essa a primeira portugueza -que se lhe tornava accessivel, voltára na -noite seguinte, e logo n’essa noite ficou estabelecido -o galanteio.</p> - -<p>A menina Ricardina contou á mãe que o sueco -lhe tinha dito que queria desposal-a, e a sr.ª -Magdalena, depois da filha lhe prometter que <i>teria -muito juizo</i>, prometteu ao Senhor do Bomfim<span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span> -um sueco de cêra, se o namoro viesse a disparar -em casamento.</p> - -<p>Annunciada a récita, o sueco offereceu á namorada -um camarote de segunda ordem, camarote -de industria escolhido para dar pouco nas -vistas: era de bôcca.</p> - -<p>E logo que a sr.ª Magdalena e a filha se sentaram -no camarote offerecido, o sueco, a proposito -de saber se ellas queriam alguma coisa, foi -visital-as, e ficou.</p> - -<p>Sentou-se discretamente ao fundo do camarote, -encantado com a mobilidade gracil com que Ricardina -mexia a cabeça, olhando para um e outro -lado como um passaro na gaiola.</p> - -<p>Ella estava delirante de alegria por se vêr no -theatro, coisa que já lhe não acontecia havia dois -annos, desde que um rapaz, que tinha ido a banhos, -lhe offerecera duas cadeiras no barracão -dos Dallots para ella assistir com a mãe á representação -da <i>Mão do finado</i>.</p> - -<p>Mas vêr-se de camarote, n’um espectaculo concorrido -pelas melhores familias da terra e de fóra, -estonteava-a d’alegria e de orgulho.</p> - -<p>Quando principou a desencadear-se no palco a -tempestade, que fez gorar o espectaculo, a menina -Ricardina pôz-se de pé, como quasi toda a -gente, e aproveitou a occasião para ir sentar-se, -ao fundo do camarote, perto do sueco.</p> - -<p>A mãe ficou muito entretida a vêr o escandalo -do palco, sem dar a menor attenção ao escandalo -do camarote. O sueco e a menina Ricardina, -de mãos entrelaçadas, muito ternos, já se -não importavam senão comsigo mesmos, indifferentes -ao tumulto que de repente se havia levantado.</p> - -<p>Entretanto D. Estanislada estranhava não vêr -o sueco, porque, depois que o estudante lhe contára<span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span> -a historia do sorteio, ella havia architectado -um romance de amor internacional.</p> - -<p>O sueco, na sua opinião, tomára a sério o sorteio, -o sueco amava-a, e por isso o conselheiro. -Antunes o tinha encontrado perto da casa de D. -Enrique, com o que, como sabemos, ficára furioso.</p> - -<p>Havia, é verdade, uma carta do sueco para -Soledad, carta que D. Estanislada e o conselheiro -abriram e leram, mas essa carta bem podia ser -um habil disfarce do sueco para prevenir a hypothese -de qualquer escandalo futuro.</p> - -<p>Não fingira a principio o conselheiro, tambem -habilmente, namorar Soledad para afastar suspeitas -do seu galanteio com D. Estanislada? Pois -muito bem! O sueco fazia o contrario, simulava -namorar Soledad para se aproximar, sem dar -nas vistas, do coração de D. Estanislada.</p> - -<p>A hespanhola mãe principiava a sentir-se amada -pela segunda vez em Setubal.</p> - -<p>O sueco mal podia imaginal-o! Elle andava -n’umas paschoas desde que possuia o coração da -menina Ricardina. Já se não importava de Soledad, -que seria mais bella, não o negava, mas -não era tão accessivel, tão meiga, tão carinhosa -para elle.</p> - -<p>O theatro, n’aquella noite da récita mallograda, -foi-se esvaziando, os espectadores sahiam fazendo -commentarios em voz alta, rindo, só a sr.ª -Magdalena, a menina Ricardina e o sueco se deixaram -ficar para ser os ultimos a sahir.</p> - -<p>Já começavam a apagar-se as luzes quando os -tres desceram. E como a noite estivesse serena, -posto não houvesse luar, o sueco convidou a sr.ª -Magdalena a irem dar um pequeno passeio. Ella -objectou que poderia ser isso reparado, mas a filha, -vendo que a mãe não se entendia muito bem<span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span> -com a aravia do sueco, replicou que não havia -luar e que até fazia bem dar um passeio n’uma -noite de verão: que bem encalmada saira ella do -theatro. Calma d’amor, principalmente, porque o -sueco, de mãos enlaçadas com a menina Ricardina, -fizera subir o thermometro.</p> - -<p>Foram caminhando até ao largo das Almas, e -ahi metteram para o Campo do Bomfim, os dois -adiante, a sr.ª Magdalena fiscalisando-os.</p> - -<p>Contornaram o campo, e a sr.ª Magdalena, -quando passavam em direcção á capella do Senhor -do Bomfim,, não se dispensou de parar para -rezar de longe á milagrosa imagem da sua especial -devoção.</p> - -<p>Foi n’essa occasião que o sueco roubára um -beijo á menina Ricardina.</p> - -<p>Estou a imaginar o que algum dos mais ingenuos -dos meus leitores dirá comsigo mesmo: -«Ah! o primeiro beijo! que delicioso momento -de felicidade, esse!»</p> - -<p>Perdão, leitor ingenuo! Não era o primeiro -beijo que elle dava, mas o terceiro. Sim, o terceiro, -um terceiro... franciscano, a julgar pela -modestia com que passou dos labios do sueco -para a face da menina Ricardina, como se passasse -de uma cella para outra. Dir-se-ia que era -um beijo de sandalias, porque passou sem fazer -barulho.</p> - -<p>Quando recolheram a casa, a sr.ª Magdalena -disse á menina Ricardina:</p> - -<p>—Não sei como tu te podes entender com o -sueco!</p> - -<p>—Por quê, minha mãe?</p> - -<p>—Eu entendo muito pouco do que elle diz!</p> - -<p>—Pois eu entendo-o perfeitamente...</p> - -<p>Ó amor! ó lingua universal dos corações namorados! -tu és a unica lingua que se póde aprender<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span> -sem grammatica e sem diccionario! lingua -de substantivos apenas, em que dois nomes proprios -se juntam para formar o plural!</p> - -<p>Todos os acontecimentos que se tinham dado -nos ultimos dias haviam contribuido para diminuir -e empallidecer a côrte de admiradores que, -antes da chegada das Rodartes, acompanhava -por toda a parte a bella andaluza.</p> - -<p>Os dois alemtejanos, como dois corações patriotas, -desertaram da côrte castelhana para a -côrte portugueza, logo que o Alemtejo se viu soberanamente -glorificado na pessoa das tres Graças -da Messejana.</p> - -<p>O sueco havia-se retirado para Cintra, segundo -constava, quando Soledad fôra para Lisboa com -o pae. Estava certamente contrariado pela concorrencia -que lhe faziam os outros pretendentes -á mão da bella andaluza. Ella propria pensava -isto.</p> - -<p>O conselheiro Antunes retirára-se para Santarem.</p> - -<p>Depois da noite fatal da récita, o estudante e o -jornalista desappareceram, abandonaram o seu -posto de cortezãos.</p> - -<p>Restavam apenas o hespanhol, o Vianninha e -os officiaes de caçadores.</p> - -<p>Já não havia <i>tertulias</i> possiveis, Soledad passava -as noites sentada com a familia n’um banco -da Praia, aturando ás vezes D. Ramon, outras -vezes o Vianninha ou o tenente Epaminondas ou -o alferes Ruivo, mas nada d’isso, que era pouco, -podia contentar a sua alma de andaluza: a <i>tertulia</i>, -a querida <i>tertulia</i>, que tanto lhe electrisava -os nervos, fazia-lhe muita falta.</p> - -<p>Abrindo e fechando o <i>abanico</i>, aborrecia-se, -chegava a bocejar. Tinha desesperos intimos, -raivas surdas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span></p> - -<p>E, quando passava pela casa das Rodartes, -e via luz nas janellas, uma revoltada emulação -fazia brilhar, n’um relampago, as pupillas negras -dos seus olhos.</p> - -<p>—Ao menos as tres irmãs, as Rodartes, entretinham-se -ás noites, ao passo que ella, rainha -quasi desthronada, só tinha por futuro um -banco da Praia e uma côrte cada vez mais reduzida.</p> - -<p>Uma vez, com manifesto mau humor, perguntára -Soledad ao tenente Epaminondas, ironicamente, -se aquillo que havia ás noites em casa -das Rodartes eram <i>tertulias</i>.</p> - -<p>E o tenente, muito desdenhoso, respondera -rindo:</p> - -<p>—Quaes <i>tertulias</i>! São os dois alemtejanos -que estão a jogar o loto na côrte do <i>Padre Eterno</i>!</p> - -<p>Mas Soledad, raivosa, mordera o beiço.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer2.jpg" width="150" height="150" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header4.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>XIV</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="130" height="90" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">D. Ramon Mendoza, que era o hespanhol -mais insipido de que ha memoria, -não conquistára vantagens -amorosas junto de Soledad.</p> - -<p>Ella achava-o, como toda a gente, uma individualidade -incolor, fugidia, d’estas que não deixam -a ninguem uma impressão duradoira.</p> - -<p>Apesar de vêr muito dizimada a sua côrte galante, -Soledad não dava maior attenção ao hespanholito. -Nem o coração nem a razão a impelliam -para elle. O coração recebia-o com indifferença; -a razão dizia a Soledad que, depois de ter -tido um tão variado cortejo, seria um desaire recorrer -á <i>prata de casa</i>,—a um patricio insignificante.</p> - -<p>Sabendo que o sueco voltára a Setubal, lembrou-se -de atiçar de novo a chamma do amor -n’esse coração da Scandinavia, que tanta vez se<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span> -lhe havia rendido. Mas por onde andava elle, que -lhe não apparecia?</p> - -<p>Uma noite, tendo a familia Saavedra recolhido -a casa, depois de passear na alameda da Praia, -Soledad ficou por algum tempo á janella.</p> - -<p>A noite estava calmosa, a casa era abafada, -tinha apenas duas janellas. D. Enrique deitára-se, -fôra para a cama lêr os jornaes hespanhoes que -n’esse dia o correio lhe trouxera.</p> - -<p>D. Estanislada andava, como sabemos, em reservada -observação a respeito do sueco: se elle -era um namorado timido, como suppunha, ella o -alentaria com a sua audacia de abelha-mestra andaluza.</p> - -<p>Deitado o marido, D. Estanislada abriu a outra -janella da sala, a pretexto de tomar ar. Cada -uma, mãe e filha, occupava sua janella. E ambas -tinham o mesmo pensamento: vêr se o sueco, -protegido pela noite, passaria por ali.</p> - -<p>A menina Ricardina, por dentro da vidraça do -seu <i>rez-de-chaussée</i>, esperava tambem o sueco, -e sentia-se contrariada pela presença das hespanholas, -que pareciam não ter somno n’aquella -noite.</p> - -<p>A principio suppôz que mãe e filha estivessem -apenas tomando o fresco, mas deram onze e meia -no relogio de S. Julião, deu meia noite, e ellas -não sahiam da janella.</p> - -<p>A meia noite era a hora marcada para a entrevista -do sueco com a menina Ricardina. A sr.ª -Magdalena dormia profundamente a essa hora. A -filha levantava-se do leito, abria cautelosamente -a janella, vinha esperar, no silencio da noite, o -sueco. Mas n’aquella noite, vendo as hespanholas, -ficára por dentro da vidraça, espreitando-as.</p> - -<p>Á meia noite em ponto—a pontualidade em -tudo é uma caracteristica das raças do norte—o<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span> -sueco assomou á esquina da rua, que julgava -deserta a essa hora, segundo o costume.</p> - -<p>Viu porém gente nas duas janellas da casa de -D. Enrique, e fechada a vidraça de Ricardina.</p> - -<p>Ficou por sua vez contrariado, perplexo, sem -saber se havia de retroceder ou de avançar. Coseu-se -com a sombra do muro, parou, indeciso.</p> - -<p>N’esse momento tres corações de mulher monologaram -simultaneamente.</p> - -<p>O coração de Ricardina:</p> - -<p>—É elle!</p> - -<p>O coração de Soledad:</p> - -<p>—É elle!</p> - -<p>O coração de D. Estanislada:</p> - -<p>—É elle!</p> - -<p>O sueco observava de longe, via dois vultos -de mulher nas janellas da casa de D. Enrique, -sem comtudo poder distinguil-os. Mas um d’esses -vultos havia de ser, certamente, o de Soledad, -e então aviventou-se no coração do sueco -o rescaldo da agradavel impressão, que a belleza -d’essa mulher lhe havia causado.</p> - -<p>Ella era realmente formosa, tinha uma graça -acirrante, uma graça meridional, que punha em -vibração os nervos de todos os homens, especialmente -os de um homem do norte.</p> - -<p>Mas Ricardina, sem ser tão bella, nem tão -graciosa, sabia melhor talvez conquistar e deixar-se -conquistar. As pequenas felicidades que Ricardina -já lhe havia concedido, eram o prologo tentador -de uma promessa, e não ha homem nenhum, -seja do norte ou do sul, que se não sinta vibrante -a dois passos de uma posse sem restricções.</p> - -<p>Estava, pois, o sueco ardendo em dois fogos, -e muito longe de imaginar que um terceiro incendio -o ameaçava de perto. Esse terceiro incendio -era D. Estanislada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p> - -<p>De repente, olhando do escuro para a casa de -D. Enrique, viu mexer-se n’uma das janellas um -lenço branco.</p> - -<p>Era o lenço de Soledad.</p> - -<p>D’ahi a momentos, na segunda janella, outro -lenço branco passou cavillosamente pelas narinas -de D. Estanislada.</p> - -<p>Elle viu tudo isto, e, sem poder reconhecer -Soledad nem D. Estanislada, ficou cada vez mais -desorientado.</p> - -<p>Lembrando-se de que Ricardina, comquanto -tivesse a janella fechada, o devia estar esperando, -olhou para o <i>rez-de-chaussée</i>, e viu uma ponta -de lenço assomar por baixo da vidraça e logo -desapparecer.</p> - -<p>Sem saber o que fizesse, deixou-se estar no escuro, -esperando os acontecimentos.</p> - -<p>D’ahi a pouco, um lenço branco cahiu de uma -das janellas de D. Enrique para a rua, e ouviu-se -descer uma vidraça.</p> - -<p>Era Soledad que ia deitar-se e que, disfarçadamente, -para que a mãe não désse por isso, tinha -deixado cahir o lenço como de um balcão da -idade média.</p> - -<p>D. Estanislada, a quem não era facil enganar, -viu a manobra do lenço da filha e, mal ella voltara -costas, fez o mesmo, com mais algum descaramento: -agitou o lenço e deixou-o cahir á rua. -Depois fechou com estrondo a janella.</p> - -<p>D. Enrique, que, tendo passado pela vista os -jornaes, já dormitava, accordou ouvindo o barulho -da vidraça; teve um estremecimento nervoso -e regougou:</p> - -<p>—<i>Que broma!</i></p> - -<p>Voltando-se para o outro lado, tornou a pegar -no somno.</p> - -<p>O sueco ainda esteve cerca de um quarto de<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span> -hora alapardado no escuro, mas, vendo abrir-se -a janella de Ricardina, sahiu da sombra, sem todavia -perder de vista os dois lenços brancos, que -estavam no chão.</p> - -<p>Quando elle se approximava do <i>rez-de-chaussé</i>, -sentiu abrir-se cautelosamente a porta da sr.ª -Magdalena.</p> - -<p>Um fremito de electricidade amorosa percorreu -todo o seu corpo; n’aquella noite o amor triumpharia -sem restricções, pensou elle.</p> - -<p>Mas Ricardina atravessou rapidamente a rua, -com um passinho de passaro, apanhou os dois -lenços que estavam no chão debaixo das janellas -das hespanholas, e correu para casa.</p> - -<p>O sueco, sem saber a façanha gloriosa de Martim -Moniz no castello de Lisboa, ia a imital-o por -intuição, quiz atravessar-se na porta, para entrar, -mas Ricardina empurrou-o com desabrimento, dizendo -iracunda:</p> - -<p>—Não! nunca!</p> - -<p>E fechou a porta da rua. Depois fechou as portas -da janella.</p> - -<p>E o sueco achou-se em plena rua, cada vez -mais atarantado, sem perceber nada de tudo -aquillo.</p> - -<p>Ricardina estava como uma bicha contra o -sueco, contra as hespanholas, contra o enguiço -d’aquella noite.</p> - -<p>Jurava vingar-se de tudo e de todos, e, tendo -visto cahir os lenços, quizera adquiril-os como -prova da leviandade de Soledad e de D. Estanislada. -Percebera, com a sua aguda intuição maliciosa, -a comedia representada pela mãe e pela filha, -procurando enganarem-se uma á outra.</p> - -<p>A primeira ideia de Ricardina foi lançar mão -de todos os meios que podessem libertal-a da visinhança -das hespanholas: lembrou-se de mandar<span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span> -os lenços a D. Enrique, dentro de uma carta -anonyma, em que lhe explicasse o que se tinha -passado.</p> - -<p>Mas receando ir provocar uma tragedia domestica—como -ella conhecia mal D. Enrique!—resolveu, -por fim, enviar á filha o lenço da mãe, -enviar á mãe o lenço da filha, descobrindo o plano -de ambas, e ameaçando-as com uma denuncia.</p> - -<p>Assim fez. Chamou um rapasito que tinha andado -com ella na escóla, e encarregou-o de escrever -as duas cartas, e de sobrescriptal-as.</p> - -<p>A D. Estanislada dizia:</p> - -<p>«Ahi vae o lenço que a senhora sua filha atirou -hontem ao sueco, pensando que usted não -dava por isso. Tenha tento na bola, quando não -eu aviso o seu homem, e espalho em toda a cidade -este grande escandalo. O melhor é safar-se -d’aqui quanto antes.»</p> - -<p>Para Soledad o texto era este:</p> - -<p>«A senhora sua mãe, logo que usted fechou -hontem a janella, atirou ao sueco este lenço, que -lhe mando. Veja usted que tem dentro das portas -a sua primeira rival. Aconselho-a, se quizer -evitar um grande escandalo, a que trate de sahir -de Setubal».</p> - -<p>Ricardina esperou que D. Enrique sahisse de -casa, para mandar entregar, pelo mesmo rapasito, -as duas cartas, com os lenços dentro.</p> - -<p>O expediente surtiu effeito, porque n’essa noite -não se abriram as janellas da casa de D. Enrique.</p> - -<p>O sueco, ao dar da meia noite, foi, muito timidamente, -procurar uma reconciliação com Ricardina.</p> - -<p>Viu a janella fechada, mas, perdendo um pouco -a timidez, aproximou-se da vidraça: Ricardina<span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span> -estava n’uma posição estudada, com o rosto -apoiado na mão direita, olhando para o céo onde -a lua passava entre nuvens.</p> - -<p>O sueco bateu com os dedos na vidraça, e Ricardina, -que lhe seguia disfarçadamente os movimentos, -fingiu despertar, sobresaltada, da sua -apaixonada <i>réverie</i>. Encarando com o sueco, fez -um movimento de desdem, e recahiu em simulada -contemplação.</p> - -<p>Elle pôz as mãos como supplicando-lhe que levantas-se -a vidraça.</p> - -<p>Ricardina, mostrando-se contrariada, abriu a -janella e perguntou-lhe de repellão:</p> - -<p>—O que quer o sr. de mim? Ainda tem cara -de me apparecer aqui?!</p> - -<p>O sueco desculpou-se: que sim, que tinha cara, -porque tinha coração. Que a amava muito. Que -na vespera não quizera aproximar-se para a não -comprometter. Que não tinha culpa de que as -hespanholas—e n’isto teve graça—se lembrassem -de fazer d’elle lavadeira, dando-lhe lenços para -lavar.</p> - -<p>Ricardina mostrou-se resentida, ciumenta, e -não quiz dizer n’essa noite a sua ultima palavra -de perdão. Era uma tactica habil, para subjugar -o sueco, para o obrigar a reconquistar o terreno -perdido.</p> - -<p>Por dentro dos vidros, ás escuras, Soledad e -D. Estanislada tinham vindo, cada uma por sua -vez, espreitar para a rua, na esperança de que o -sueco voltasse.</p> - -<p>Ambas o viram: Soledad surprehendeu-o n’uma -attitude comica, a implorar de mãos postas á menina -Ricardina que levantasse a vidraça. Ficou -indignada, não tanto pela attitude humilhante -d’elle, como por ter a certeza de que lhe roubavam... -<i>mais um</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span></p> - -<p>D. Estanislada, a quem a filha não fallava desde -pela manhã, deixou-a deitar para vir pé-ante-pé -espreitar por dentro dos vidros.</p> - -<p>Reconheceu facilmente a corpolencia do sueco, -dobrado sobre a janella de Ricardina.</p> - -<p>—Ai! pensou D. Estanislada, que elle namora -a lambisgoia da filha da senhoria! Estou bem arranjada -com maus visinhos de ao pé da porta! -O melhor é tratar de pôr-me ao fresco, porque -eu já fiquei desconfiada quando n’aquella noite, -em que cá esteve o conselheiro, a tal menina Ricardina -deixou cahir o annel debaixo da meza!</p> - -<p>E reflectindo um instante:</p> - -<p>—Ai! que foi ella que bateu e gritou á porta!</p> - -<p>No dia seguinte, á volta do banho, quiz o acaso -que as duas hespanholas encontrassem o sueco. -Elle ia para cumprimental-as, quando Soledad, -que levava grande dianteira á mãe, lhe disse -bruscamente:</p> - -<p>—<i>Picaro!</i></p> - -<p>Sem ter percebido bem o que Soledad dissera, -mas reconhecendo em todo caso que ella quizera -insultal-o, atordoado, indeciso, levou a mão -ao chapeu quando passava junto de D. Estanislada.</p> - -<p>E ella, sem parar, disse-lhe altivamente:</p> - -<p>—<i>Infáme!</i></p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer3.jpg" width="150" height="150" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header7.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>XV</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="160" height="120" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Ás sete horas da manhã, Araujo Rodarte -e as suas tres netas sahiram, como de -costume, para o banho.</p> - -<p>Atravessaram o passeio da Praia -de Troino, riscado havia tres annos. Os eucalyptos -haviam crescido com a precocidade que -caracterisa o desenvolvimento d’estas arvores, de -modo que abrigavam uma legião de passaros, -cuja chilreada era como que um doce concerto -matutino.</p> - -<p>Sobre o lago, e nas seis extensas avenidas que -do lago irradiam, algumas borboletas passavam, -batendo, na palpitação da luz, as suas azas brancas.</p> - -<p>Um rapasito, que vinha de levar o almoço ao -pae, empregado na Doca, havia poisado a cafeteira -sobre a borda do lago, e, de joelhos, brincava -mettendo as mãos na agua, agitando-a, para -fazer turbilhonar os peixes vermelhos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span></p> - -<p>As Rodartes e o avô sentaram-se alguns momentos -em dois dos bancos que torneam o lago, -porque o sol ia descobrindo, e era agradavel aos -banhistas, na travessia de casa para o banho, -descansar na frescura d’aquelle oasis.</p> - -<p>Depois cortaram na direcção da praia, a que -faltava o pittoresco das praias do norte do paiz, -onde os arruamentos das barracas alvejam garridamente.</p> - -<p>Em Setubal o systema seguido é o do wagon e -o da prancha. Os banhistas despem-se e vestem-se -nos compartimentos do wagon, e mergulham -na agua agarrados á prancha. Os <i>mirones</i> aproveitam -a sombra escassa do wagon para sentar-se -a gosar o espectaculo da praia.</p> - -<p>Salomé e o avô, que não tomavam banho, sentaram-se -á sombra, emquanto Hilda e Maria -Ignez foram fazer a sua <i>toilette</i> balnear.</p> - -<p>O Sado estava tranquillo e diamantino. Alguns -golfinhos davam saltos, ao largo, n’uma folia de -<i>clowns</i> aquaticos.</p> - -<p>Sobre a abertura da barra a luz cahia em jorros -doirando o mar, e a torre do Outão, com os -seus contornos duros, dava relevo á margem direita -do Sado.</p> - -<p>A concorrencia de banhistas era, áquella hora, -diminuta. Uma creança, nos braços do banheiro, -gritava como possessa, e outra creança, de sete -a oito annos, mettida dentro d’agua, ria de vêr -chorar a outra, e chapinhava-a saracoteando-se -no banho. Uma hespanhola gorda, agarrada -á prancha, resfolegava como uma phoca. E um -padre, de camisola de malha, fazia ensaios de natação -inhabil, arrastando-se na ondulação da agua -até ir esbarrar na areia.</p> - -<p>Araujo Rodarte e Salomé estiveram um momento -calados, até que, de repente, disse elle á neta:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span></p> - -<p>—Admira não estarem cá hoje os nossos patricios!</p> - -<p>—Foram a Lisboa tratar de negocios, segundo -disseram ás manas, respondeu Salomé.</p> - -<p>E o velho, com ar de alegre ironia, observou:</p> - -<p>—Como ellas andam bem informadas!</p> - -<p>Salomé sorriu-se.</p> - -<p>—Sempre quero vêr—disse o Rodarte após -um momento de silencio—se aquellas duas senhoras—referia-se -a Hilda e Maria Ignez—terão -coragem para me fazer alguma traição!...</p> - -<p>—Alguma traição?!</p> - -<p>—Sim, se terão coragem para me deixar só -comtigo na Messejana!</p> - -<p>—Não pense n’isso, avôsinho.</p> - -<p>—Dizes tu que não pense n’isso! Mas em que -hei-de eu pensar senão em vocês! Que tenho eu -que me prenda agora mais no mundo?! A velhice -não me tornou ainda tão tolo, que não perceba o -que é um namoro. Lá de que as tuas irmãs são -requestadas pelos nossos patricios, já não posso -eu duvidar. E não me revolta isso, mas entristece-me. -Sempre vos tenho dito que não tenhaes -pressa de casar, sobretudo de casar mal, porque -estaes habituadas a viver bem; mas não posso -levar a minha exigencia até ao ponto de vos querer -para freiras. Que anda moiro na costa, é certo, -e que os dois nossos patricios são pessoas -estimaveis, e maridos convenientes, não é menos -certo. Mas o que me entristece é o receio de vêr -desfeito de um dia para o outro o nosso pequeno -grupo de familia, indo a Hilda para Reguengos -e a Maria Ignez para as Alcaçovas. Ficaremos -nós, como dois solitarios, no casarão da Messejana. -E tu, Salomé, e tu, que noticias me dás do -teu coração?...</p> - -<p>—Nem o sinto! respondeu, sorrindo, Salomé.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span></p> - -<p>—Pareceu-me que o pateta do Vianninha pretendia -fazer-te a côrte...</p> - -<p>—Sim... talvez. Perdia o tempo.</p> - -<p>—Já anda desilludido, porque apparece menos. -Era um mau casamento, porque é sempre um -mau casamento aquelle em que se conquista uma -supposta felicidade á custa da infelicidade de outrem. -O pateta tem feito soffrer a Sequeira, que -se apaixonou por elle, e que podia empregar-se -melhor. E o ratão do sueco! o que é feito d’elle?</p> - -<p>—Creio que andará arrastando a aza á <i>señorita</i>. -Não o tenho visto.</p> - -<p>—Grande aza deve ser, se fôr proporcional ao -hombro! Olha lá: o hespanholito?</p> - -<p>—D. Ramon?</p> - -<p>—Sim.</p> - -<p>—Deve andar com os seus patricios. Tambem -o não tenho visto.</p> - -<p>—De toda essa <i>ala dos namorados</i> que ahi appareceu -tão galharda, apenas se salvaram talvez -dois cavalleiros andantes.</p> - -<p>—Quaes, avôsinho?</p> - -<p>—Quaes! Os que combatem por tuas irmãs, e -que m’as querem levar, cada um para sua terra -differente...</p> - -<p>N’este momento Hilda e Maria Ignez, vestidas -para o banho, sahiram do wagon.</p> - -<p>São raras as mulheres que conseguem triumphar -de uma tão desgraçada <i>toilette</i>: blusa e -calção de flanella. Mas principalmente Hilda, graças -á sua correcta plastica, livrava-se do ridiculo -da <i>toilette</i>. O relevo do seio, accentuado sem exagero, -aformoseava-lhe o busto.</p> - -<p>Sentindo-as fallar, o avô gritou-lhes logo:</p> - -<p>—Não apanhem sol, meninas!</p> - -<p>—Já vamos, avôsinho, já vamos, responderam -ellas quasi simultaneamente.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span></p> - -<p>E, dando as mãos uma á outra, saltaram da -prancha ao mesmo tempo, fazendo agitar a agua, -que salpicou a prancha e ainda o wagon.</p> - -<p>Rindo e mergulhando, o banho foi para ellas, -como sempre, uma folia quasi infantil.</p> - -<p>Araujo Rodarte, ouvindo-as, ficou pensativo, -calado. O seu espirito fixou-se n’um pensamento, -que, momentos antes, havia revelado a Salomé: -queriam roubar-lhe aquellas duas netas, e entristecia-o -o lembrar-se que tinha de separar-se d’ellas.</p> - -<p>Estavam ainda as duas Rodartes no banho, -quando chegaram á praia o alferes Ruivo e o tenente -Rosalgar, que não deixavam nunca, todas -as manhãs, de ir dár uma vista de olhos ás banhistas.</p> - -<p>Desde o mallogrado espectaculo da <i>Noite sinistra</i>, -aquelles dois officiaes, bem como o tenente -Epaminondas, ficaram sendo conhecidos no café -<i>Esperança</i> pelos nomes dos personagens que na -peça lhes haviam sido distribuidos.</p> - -<p>Assim, por isso que as alcunhas se tinham já -divulgado, podemos dizer que <i>D. Fafes Estorninho</i> -e <i>D. Gualter Byscaia</i> estão sobre o wagon, -conversando com Araujo Rodarte e Salomé, sem -comtudo deixarem de dar attenção ao banho de -Hilda e Maria Ignez.</p> - -<p>—Parece-me, disse aos dois Araujo Rodarte, -que ainda não tinha tido o gosto de os vêr desde -aquella noite....</p> - -<p>—Aquella <i>Noite sinistra</i>! atalharam ambos os -officiaes, fazendo allusão ao titulo da peça, e rindo -ás gargalhadas.</p> - -<p>—Foi pena que tivessem tanto trabalho!</p> - -<p>—Tudo aquillo divertiu, respondeu o alferes -Ruivo. Divertiu mais ainda, talvez, do que se se -tivesse preenchido todo o espectaculo. E deixou<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span> -recordações alegres para muito tempo! Sabem v. -ex.ᵃˢ uma coisa? Desde a <i>Noite sinistra</i> eu passei -a ser conhecido por <i>D. Gualter Byscaia</i>, e -aqui o tenente por <i>D. Fafes Estorninho</i>.</p> - -<p>—Tem graça! observou Araujo Rodarte.</p> - -<p>Os dois officiaes continuaram a rir, enviezando -o olhar para Hilda e Maria Ignez, que sahiam do -banho, subindo á prancha.</p> - -<p>—Mas, disse Salomé, ainda entrava tambem -um collega de v. ex.ᵃˢ....</p> - -<p>—Era o Epaminondas, minha senhora, respondeu -o tenente Rosalgar. Esse é o <i>D. Diogo Cucufate</i>.</p> - -<p>Salomé e o avô riram.</p> - -<p>—E a comedia do Goes parecia ter algum merecimento. -Foi pena que não chegasse ao fim! -disse Araujo Rodarte.</p> - -<p>—Pena especialmente para o Lemos—observou -o alferes Ruivo—que nunca foi egualado -em tamanha desgraça por nenhum Talma amador!</p> - -<p>—Pobre rapaz... e pobre pae! reflexionou -Araujo Rodarte.</p> - -<p>—Eu nunca vi apanhar tanto pontapé! atalhou -o tenente Rosalgar.</p> - -<p>—E como o Julio, accrescentou o alferes, largou -a fugir vestido de mulher, galgando dois -a dois os degraus da escada até se vêr na rua!</p> - -<p>—O que lhe valeu foi não tropeçar no vestido! -commentou o tenente.</p> - -<p>—A D. Estanislada esteve em risco, disse o -alferes, de perder uma das melhores peças do -seu guarda-roupa.</p> - -<p>—Não! Quem perdeu a peça foi o Goes. A -peça e a gloria!</p> - -<p>Riram todos muito com esta observação do tenente -Rosalgar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span></p> - -<p>E d’ahi a momentos o alferes:</p> - -<p>—A gloria e... a coroa!</p> - -<p>—O que é isso da coroa? perguntou Araujo -Rodarte.</p> - -<p>—Ah! Pois v. exc.ᵃˢ não sabem? O Goes tinha -mandado vir de Lisboa uma coroa de louros para -se coroar a si proprio!</p> - -<p>—Sim?! perguntou Salomé.</p> - -<p>—Sim, minha senhora, explicou o alferes. Ora -o melhor da passagem é que foi o Marcolino, -marcador do café <i>Esperança</i>, quem emprestou -ao Goes o dinheiro para pagar a coroa, e parece -que está resolvido a rifal-a para vêr se salva o -emprestimo.</p> - -<p>—Isso tem muita graça! apostrophou Araujo -Rodarte. Eu recebi lá em casa a importancia do -meu camarote. Se soubesse que se rifava a coroa, -tinha reservado essa quantia para me habilitar -a ser coroado, perorou o velho rindo.</p> - -<p>—O administrador do concelho, de combinação -com o presidente do conselho director do Asylo, -resolveu, visto que o espectaculo não chegou -a ultimar-se, mandar restituir aos espectadores -a importancia das respectivas entradas. Mas o -Marcolino fez justiça por suas proprias mãos: -vendo a coroa dependurada no camarim do Goes, -deitou-lhe a mão, para não perder tudo, e vae rifal-a.</p> - -<p>—Uma acção bonita, alvitrou o tenente Rosalgar, -era comprar um bilhete da rifa em nome de -Bocage, que tem mais direito á coroa do que o -Goes.</p> - -<p>—Não! eu cá, se me sahir o premio, disse o -alferes, faço presente da coroa á tia Felismina do -hotel Escoveiro: ao menos, durante um semestre, -não nos ha-de faltar louro na comida.</p> - -<p>—Pois o melhor de tudo, observou Araujo<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span> -Rodarte, era mandar de presente a coroa ao rapaz, -porque lhe póde servir para outra vez.</p> - -<p>—N’essa não cáe o Marcolino!</p> - -<p>D’ahi a pouco mais de dez minutos, Hilda e -Maria Ignez sahiam do wagon.</p> - -<p>O Rodarte e as netas despediram-se dos dois -officiaes.</p> - -<p>E o alferes Ruivo ficou dizendo ao tenente:</p> - -<p>—Ellas vinham do banho um appetite!</p> - -<p>—Ó filho, a Hilda é uma mulher de truz! e -a outra não é nenhuma asneira tambem!</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer5.jpg" width="150" height="100" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header8.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>XVI</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="130" height="90" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">D. Estanislada principiou a pensar na -conveniencia de sahir de Setubal.</p> - -<p>Desde o momento em que uma -pessoa d’aquella terra possuia dois -dos seus segredos amorosos, conhecia a historia -das suas leviandades internacionaes, um pouco -serodias, só restava á delinquente fazer ablativo -de viagem, para evitar a atoada do ridiculo.</p> - -<p>D. Enrique incommodava-a menos que o ridiculo. -Não era do marido que receava, mas das -más linguas, que n’uma terra pequena ferem -mais, porque mordem de perto.</p> - -<p>Indignava-a o preconceito social que impõe -ao coração humano o dever de esfriar antes de -morrer. Segundo as praxes estabelecidas, uma -mulher de vinte annos póde ter vinte namoros. -Acha-se isso muito natural, e diz-se d’essa mulher -com um certo ar de desculpa: «É alegre». -Mas se uma mulher de quarenta annos tiver dois -namoros, toda a gente a censura, e a opinião -publica não faz senão gritar por toda a parte: -«É devassa».</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span></p> - -<p>Ora a boa logica ensina que a mulher de quarenta -annos tem menos tempo para viver do que -a mulher de vinte. Rasão é esta para aproveitar -o tempo, para se despedir da vida, que já não -póde ser longa.</p> - -<p>A propria natureza intercallou o dia natural, -que é um symbolo da existencia humana, entre -dois crepusculos, o da manhã e o da tarde. Porque -ha de pois ser negado ao coração o direito -de ter dois momentos de brilho e de calor, dois -crepusculos amorosos, que abram e fechem a -existencia?</p> - -<p>D. Estanislada achava profundamente odiosa e -absurda a fiscalisação que a sociedade exerce -com a mulher casada. Se o marido não vê ou -não quer vêr, para que ha de a bisbilhotice malevola -emprestar-lhe os oculos da moralidade?</p> - -<p>D. Enrique não era um Othello, nunca o fôra. -Se lhe dissessem alguma coisa em desabono da -esposa, encolheria desdenhosamente os hombros, -limitar-se-ia certamente a dizer: <i>Es una -broma!</i></p> - -<p>Com que direito vinha a menina Ricardina -substituir-se a D. Enrique para o effeito da moralidade?!</p> - -<p>Então D. Estanislada havia casado com D. -Enrique, e era a menina Ricardina quem fiscalisava, -sem procuração de D. Enrique, a fidelidade -conjugal de D. Estanislada!</p> - -<p>De mais a mais, a menina Ricardina podia esperar -que a mãe se deitasse, para vir á janella -conversar com um homem, e a D. Estanislada -não era permittido que, estando o marido a dormir, -fizesse exactamente a mesma coisa?!</p> - -<p>Em conclusão: D. Estanislada achava o mundo -mal organisado, e estava disposta, não a concertal-o, -mas a illudil-o.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p> - -<p>Ora desde que a menina Ricardina, má visinha -de ao pé da porta, sabia tudo, era impossivel -illudil-a: convinha, portanto, ir tentar melhor -fortuna n’outra região onde a illusão podesse florescer -mais desafogada d’espiões.</p> - -<p>Pensando na resolução de todos estes problemas, -que de perto a interessavam, e reconhecida -a impossibilidade de regressar desde logo a Hespanha, -cujo estado politico continuava a ser o -mesmo, D. Estanislada lembrou-se, com certa -saudade, do conselheiro Antunes.</p> - -<p>Elle amara-a, déra-lhe provas d’isso; só tinha -o defeito de ser, como todos os portuguezes, na -opinião de D. Estanislada, muito timido. Mas -sendo timidos os portuguezes, sendo esse o seu -natural, não havia encontral-os melhores. E, timidez -por timidez, o conselheiro já estava experimentado, -gostava d’ella.</p> - -<p>O mesmo foi lembrar-lhe o conselheiro e, como -ideia associada, Santarem, onde elle vivia.</p> - -<p>Fez pois tenção de aconselhar o marido a sahir -de Setubal, cidade insipida, que mais insipida -ficaria ainda depois de encerrada a estação balnear.</p> - -<p>Não consultou, sobre este projecto, Soledad, -que, como já n’outras occasiões tinha acontecido, -andava amuada com a mãe. Tambem Soledad -parecia rezar ás vezes pela cartilha da sociedade, -e resentir-se de que a mãe não sacrificasse em -sua honra os ultimos clarões da belleza que declinava.</p> - -<p>Não era porque Soledad amasse o sueco. Mas -o seu brio de hespanhola revoltava-se contra a -ideia de que todos pretendessem roubar-lhe admiradores, -até sua propria mãe.</p> - -<p>Soledad olhava para o <i>abanico</i>, que com tanto -<i>salero</i> requebrava, e parecia-lhe que era como<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span> -que uma espada partida na mão de um conquistador.</p> - -<p>Cuidava ouvir dizer-lhe o <i>abanico</i>:</p> - -<p>—Soledad, flôr da Andaluzia, tanto me tens -incommodado, abrindo-me e fechando-me, fazendo-me -bailar na tua mão nervosa, como n’um -<i>bolero</i> sem fim, e o que tens tu, bella Soledad, -conseguido com isso? Os teus admiradores vão -desertando uns após outros; tu, que a principio -timbraste em mostrar-te altiva e incomprehensivel, -porque te imaginavas inegualavel, tens -visto fazer-se em roda de ti a solidão das realezas -decahidas, a solidão da ilha de Santa Helena, -onde se abateu o maior orgulho humano. As -Rodartes foram mais felizes do que tu, e comtudo -não dispõem dos teus recursos de hespanhola, -do <i>salero</i> e do <i>abanico</i>, dois irmãos gemeos, -que fazemos estremecer os corações. Os leques -de que ellas usam foram comprados alli na -Praça do Bocage, na loja do Trindade, e são semsaborões -como todos os leques portuguezes, ao -passo que eu, apesar de haver uma republica -hespanhola, continuo a ser o rei das Hespanhas,—a -alma do Cid recortada sobre uma folha de -papel. Até a Ricardina te roubou o sueco: és, -pobre de ti! como o leão moribundo, a quem as -Ricardinas injuriam. Desperta, altiva flôr da Andaluzia, -readquire o teu orgulho de raça, volta -as costas a este mundo prosaico, onde só parece -haver sal nas marinhas, e vai procurar n’outra -parte os triumphos, as homenagens a que a tua -belleza te dá direito.</p> - -<p>Soledad ouviu o <i>abanico</i> e deu-lhe credito, -como todas as hespanholas. Por isso, quando D. -Enrique, já meio convencido por D. Estanislada, -fallou um dia em transferirem-se para Santarem, -Soledad pareceu apoiar esse projecto, que lhe<span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span> -promettia uma vida mais alegre do que a de Setubal.</p> - -<p>O Marcolino, marcador do café <i>Esperança</i>, -perguntou a D. Enrique se queria ficar com um -bilhete para a rifa da coroa de louros.</p> - -<p>E o hespanhol, muito desdenhoso, respondeu-lhe -que não, porque <i>se iba a marchar</i>.</p> - -<p>—Para Hespanha? insistiu o marcador.</p> - -<p>D. Enrique zangou-se: que para Hespanha só -voltaria com a realeza dos Bourbons.</p> - -<p>E o Marcolino, que foi o primeiro republicano -que pimpolhou em Setubal, respondeu-lhe mentalmente:</p> - -<p>—Tens que esperar!...</p> - -<p>Mas saber o Marcolino uma noticia era o mesmo -que sabel-a todo o café <i>Esperança</i>, e, dentro -de algumas horas, toda a cidade de Setubal, e, -dentro d’alguns dias, as aldeias de Azeitão e a -povoação de Palmella.</p> - -<p>—Que D. Enrique se <i>iba a marchar</i>, dizia-se, -espalhava-se.</p> - -<p>No café <i>Esperança</i> apertavam D. Ramon Mendoza, -troçavam-n’o, perguntavam-lhe se elle não -fazia valer os direitos que a sorte lhe concedera; -que casta de hespanhol era elle, que deixava fugir, -sem a ter ferido no coração, a sua bella patricia?</p> - -<p>E D. Ramon, muito indifferente, muito insôsso, -pedia gazoza, e respondia sorrindo:</p> - -<p>—Que santos de casa não fazem milagres.</p> - -<p>Não tardou a chegar ao conhecimento da menina -Ricardina a noticia de que a familia Saavedra -ia retirar-se. Ricardina ficou contentissima, -e a sr.ª Magdalena não o ficou menos, porque -havia arrendado a casa por seis mezes a D. Enrique, -e poderia alugal-a ainda outra vez, para -aproveitar o resto da estação balnear.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span></p> - -<p>Ricardina, na esperança de que a noticia fosse -verdadeira, achou que devia tratar o sueco de -modo a desvial-o de Soledad, sem comtudo se -alargar em concessões, que o satisfizessem.</p> - -<p>Assim foi que se mostrou menos crua para elle: -abriu a janella, e permittiu-lhe que a beijasse nas -mãos.</p> - -<p>—Só nas mãos, porque, dizia ella, não podia -confiar n’elle.</p> - -<p>O sueco pretendeu mais uma vez justificar-se, -e contou a Ricardina a scena que tivera com as -hespanholas, que não só o não cumprimentaram, -mas até o mimosearam com epithetos offensivos.</p> - -<p>—O sr. é que tem a culpa de tudo isso! disse-lhe -Ricardina continuando a fingir-se ciumenta.</p> - -<p>—Eu! nó! respondeu elle com uma convicção -muito guttural.</p> - -<p>—Pois quem! O sr. andava a acolytal-as a -ambas, á mãe e á filha, e não queria levar com -as galhetas na cara!</p> - -<p>O sueco percebeu pouco d’esta metaphora, que -Ricardina aprendera nos habitos devotos, egrejeiros -da mãe.</p> - -<p>E ella, muito tagarella, continuára moendo palavras:</p> - -<p>—Sabe o sr. o que deve fazer agora?</p> - -<p>—Nó saberr!</p> - -<p>—Vá para onde ellas forem. O que lhe importa -o negocio do sal? Mais vale um gosto na -vida que seis vintens na algibeira.</p> - -<p>—Nó! Nó! respondia o sueco com uma bonhomia -babosa.</p> - -<p>Elle já estava habituado a que Ricardina o -tratasse por tu, tratamento carinhoso, que nunca -mais havia recebido desde que sahira da Scandinavia, -e todo o seu ideal consistia agora em conseguir<span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span> -que ella voltasse a empregar esse terno -vocativo.</p> - -<p>Mas Ricardina, muito arteira, obstinava-se em -tratal-o por <i>senhor</i>, sem o repellir, é certo, mas -sem o acarinhar como antes d’aquella fatal noite -dos dois lenços.</p> - -<p>Um namorado meridional haveria, decerto, feito -uma scena de ciumes, diria a Ricardina que, pois -que ella assim o aconselhava, seguiria as Saavedras -para onde quer que ellas fossem, mas um -homem do norte, muito calmo, muito pacifico, -não encontra no seu temperamento a facilidade -de representar no amor o drama tempestuoso.</p> - -<p>Quando o sueco se despedia de Ricardina, beijando-lhe -outra vez as mãos, ia resignado a esperar -que o diluvio passasse e que o arco da -alliança brilhasse sobre os ultimos destroços do -diluvio.</p> - -<p>Depois, chegando ao <i>hotel Escoveiro</i>, dois copinhos -de <i>Kirsch-wasser</i> adormeciam-n’o n’uma -serena esperança de que Ricardina voltaria a ser -a mesma.</p> - -<p>E, por entre os fumos do <i>Kirsch</i> e do cachimbo, -pensava elle:</p> - -<p>—Que voltas que o mundo dá! Quem me havia -de dizer a mim que estimaria ainda a ausencia -de Soledad!</p> - -<p>E o cachimbo ia-se apagando, e o sueco adormecia -tranquillamente...</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer7.jpg" width="150" height="45" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header9.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>XVII</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="130" height="90" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Dentro de tres dias a familia Saavedra -preparou as suas malas para sahir -de Setubal.</p> - -<p>D. Enrique andou fazendo despedidas -e partiu para Santarem primeiro -que a mulher e a filha: ia alugar casa. Lá -estava o conselheiro Antunes para n’esta e outras -tarefas lhe servir de Cyreneu...</p> - -<p>A mãe de Soledad dizia a quem a queria ouvir -que apenas levava saudades do peixe-espada. Soledad -mostrava-se muito contente com a mudança -de terra.</p> - -<p>No café <i>Esperança</i> commentava-se esta subita -retirada da familia Saavedra, e attribuia-se a duas -causas principaes: a attracção que, de Santarem, -o conselheiro Antunes exercia no coração de D. -Estanislada, e a emulação de Soledad pela concorrencia -das Rodartes no amor.</p> - -<p>A <i>blague</i> não poupava D. Enrique, que, segundo -se dizia, ia metter-se na boca do lobo: o lobo -era, n’este caso, o conselheiro Antunes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span></p> - -<p>Quanto ás Rodartes, a opinião publica elogiava-as -pela modestia com que se apresentavam: -se ellas tinham prejudicado o prestigio de Soledad, -não era porque houvessem concorrido acintosamente -para isso.</p> - -<p>Fôra uma serie de fatalidades imprevistas que -apeiára Soledad do pedestal em que nos primeiros -tempos se enthronisou. Todos os grandes imperios -desabam, segundo a lei fatal da Historia: -Soledad teve a mesma sorte dos grandes imperios.</p> - -<p>Era certo, já toda a gente o sabia, que o morgado -de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas -estavam namorados de Hilda e Maria Ignez, -mas não fôra porque ellas os disputassem encarniçadamente -a Soledad, nem porque se salientassem -em garridices espectaculosas.</p> - -<p>O <i>Padre Eterno</i>, como geralmente se chamava -a Araujo Rodarte, era um velho sympathico, que -a opinião publica respeitava, e mais ainda o respeitou, -quando se tornou conhecido um facto em -que o seu nome se achou envolvido.</p> - -<p>O Sequeira, negociante, fôra visitar o Rodarte -e descrevera-lhe, com lagrimas nos olhos, o estado -da filha, cuja vida perigava, porque a infeliz -menina, apaixonada pelo Vianninha, passava dias -encerrada no seu quarto, chorando, sem querer -vêr ninguem.</p> - -<p>Commoveu-se o velho Rodarte da angustia de -um pae, cujo coração a dôr dilacerava.</p> - -<p>—Mas, dissera Araujo Rodarte ao Sequeira, -porque não procura ter uma conferencia com o -Vianninha, a fim de que elle cabalmente se explique -sobre as suas intenções?</p> - -<p>—Não posso, sr. Rodarte, respondera-lhe o -Sequeira. Não posso. É superior ás minhas forças -o ter que pedir a um homem que corresponda -ao amor de minha filha, sobretudo quando<span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span> -esse homem se deveria julgar muito feliz em desposal-a.</p> - -<p>Araujo Rodarte ficou pensativo durante alguns -momentos, e disse depois:</p> - -<p>—Tem rasão, sr. Sequeira. Mas eu acho que -o Vianninha não é senão um doidivanas, que gosta -de se divertir sem criterio. Succede isso a muitos -moços. São raros até os que pensam de outro -modo.</p> - -<p>—Depois que veiu para ahi essa maldita hespanhola -foi que elle, suciando com o Lemos e -com o tal jornalista de Lisboa, principiou a despresar -a minha filha.</p> - -<p>—A hespanhola, sr. Sequeira, não tem culpa -de ser bonita, nem de haver sido educada á maneira -do seu paiz. Sabe v. s.ª perfeitamente que -os costumes hespanhoes dão maior liberdade á -mulher do que entre nós. Se uma menina portugueza -andasse constantemente seguida por um -cortejo de admiradores, seria isso reparado e censurado. -Mas em Hespanha vive-se muito ao ar -livre, na rua, e são admittidas liberdades que em -grande parte resultam d’esse teor de vida. Olhe, -eu, quando aqui cheguei, condescendi em ir a um -<i>pic-nic</i>, porque julguei que seria essa uma festa -tão pacata como as do meu Alemtejo. Quando lá -me vi, arrependi-me muito de ter acceitado o convite, -e arrependi-me, sobretudo, porque, além das -minhas netas, apenas havia duas senhoras, a mulher -e a filha de D. Enrique, cujos habitos de -educação brigavam naturalmente com os de tres -pobres meninas nadas e creadas, longe da sociedade, -n’um canto do Alemtejo. Fiz logo tenção -de me afastar o mais que podesse, não por falta -de confiança em minhas netas, mas para evitar -que ellas andassem nas bôccas do mundo. Este -meu procedimento não foi ditado por orgulho ou<span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span> -por qualquer outro sentimento de altivez pessoal. -Foi prudencia, foi experiencia do mundo... Mas -vamos ao caso do Vianninha. Acho justas as rasões -pelas quaes o sr. Sequeira não quer ter explicações -com elle. Comtudo, se a isso me auctorisa, -e se isso deseja, poderei eu tel-as.</p> - -<p>—Ó sr. Rodarte! grande favor me faria encarregando-se -d’essa missão, procurando salvar minha -filha de uma vida tormentosa, a que a morte -porá termo em breve, certamente.</p> - -<p>Afogaram-se em lagrimas os olhos do Sequeira, -e nos olhos de Araujo Rodarte tambem passaram -lagrimas.</p> - -<p>Despediram-se os dois cordealmente.</p> - -<p>Araujo Rodarte, não querendo dar a saber a -Salomé o motivo d’aquella entrevista que tivera -com o Sequeira, mandou recado ao seu banheiro -para que lhe fosse fallar. Não podendo escrever -elle proprio, quiz evitar que Salomé tivesse de -escrever ao Vianninha solicitando uma audiencia -para o avô.</p> - -<p>Pelo banheiro mandou Araujo Rodarte dizer ao -Vianninha que esperava dever-lhe o obsequio de -lhe dispensar dois momentos de attenção.</p> - -<p>Logo que sahiu da repartição de fazenda, o -Vianninha foi procurar Araujo Rodarte.</p> - -<p>Houve quem o visse entrar para lá, e envenenasse -o facto, espalhando logo que o Vianninha -requestava Salomé, a unica das tres irmãs cujo -coração era considerado devoluto.</p> - -<p>Araujo Rodarte expoz com bondosa gravidade -os motivos d’aquella entrevista, desculpando-se -com a sua auctoridade de velho para intervir n’um -assumpto que não lhe dizia directamente respeito.</p> - -<p>—Trata-se, explicou, da menina Sequeira. Conheço -a familia d’essa pobre menina, cuja vida -corre perigo, e cuja felicidade e salvação consistiria<span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span> -em poder ser esposa do sr. Vianna. Peço-lhe, -pois, que me diga, por attenção para com a -minha edade, quaes são as suas intenções a este -respeito.</p> - -<p>O Vianninha ficou surprehendido com a interpellação:</p> - -<p>—As minhas intenções, sr. Rodarte! Eu digo a -v. ex.ª o que posso dizer sobre o assumpto: Adelaide -e eu fomos creados juntos, paredes meias, -porque nossos paes eram visinhos. Viamo-nos a -toda a hora, e habituámo-nos a ser amigos um -do outro. Mas pensava eu que Adelaide apenas -tinha por mim o sentimento que eu tinha por ella,—simples -estima, nada mais. E tanto isto é verdade, -da minha parte, que eu tive passageiros -namoros com outras meninas. É certo, porém, -que eu sabia que Adelaide se contrariava com isso. -Amuava, deixava de me fallar, de me cumprimentar -até. Mas eu ria-me, não fazia caso, e dizia-lhe -adeus por brincadeira, sempre que a via -á janella, embora ella me não correspondesse. -Quando veiu a <i>señorita</i>,—refiro-me á filha de D. -Enrique—eu, por ser amigo do Lemos e por me -ter relacionado com o Goes, que andavam no -grupo da familia Saavedra, associei-me a elles, -passeiava com Soledad e com a mãe, e devo dizer -francamente que me não era desagradavel a companhia. -Soube então que Adelaide suspeitou de -que eu namorasse Soledad, e que se tinha incommodado -com isso, a ponto de se fechar no seu -quarto, e não querer tomar alimentos. Uma vez, -tendo pena d’ella, cheguei a rufar com os dedos -na vidraça do seu quarto, chamando-a. Bastava-me -para isso estender o braço por uma das janellas -da minha casa. Adelaide devia calcular que -era eu, mas não veiu á janella, não quiz responder.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p> - -<p>—Talvez não ouvisse, atalhou Araujo Rodarte.</p> - -<p>—Ouvia por força, porque estava fechada no -seu quarto.</p> - -<p>—Resentida com o sr. Vianna, quiz mostrar o -seu resentimento.</p> - -<p>—Pois foi isso talvez, mas eu nunca mais a vi.</p> - -<p>—E, se não sou indiscreto, o que lhe teria dito -n’essa occasião o sr. Vianna, se ella abrisse a -janella?</p> - -<p>—Eu? Eu ter-lhe-ia dito que se não amofinasse -com tolices, que era seu amigo, que gostava apenas -de me divertir, e que não queria que ella se -ralasse com isso.</p> - -<p>—Ah! n’esse caso, o sr. Vianna, sem aliás tomar -um compromisso com essa senhora, dava-lhe -uma prova de amisade e de estima, que mostra -que ella não deixou ainda de ser, no seu espirito, -a dedicada companheira de infancia...</p> - -<p>—Pois decerto. Estimaria que ella se não tornasse -infeliz por culpa do seu proprio genio.</p> - -<p>—Não diga genio, sr. Vianna. Chame-lhe antes -coração. Ella ama, e soffre as torturas de um -amor, que não julga correspondido. Triste cegueira -a dos moços, que não se lembram um momento -de que nada torna tão agradavel a existencia -como um coração que nos seja sinceramente -dedicado! Desculpe-me que lhe falle assim, em -nome dos meus cabellos brancos, sr. Vianna. O -coração de D. Adelaide Sequeira já está experimentado: -tem sido firme e leal, apesar de não ser -correspondido. Que maior e melhor felicidade poderia -encontrar o sr. Vianna!</p> - -<p>—Eu reconheço tudo isso, sr. Rodarte, mas -devo confessar que me vexa a ideia de que sou -pobre e Adelaide é rica. Esse casamento seria mal -visto por muitas pessoas, especialmente pelo pae -de Adelaide...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span></p> - -<p>—O pae! atalhou Araujo Rodarte. O que um -pae deseja sempre é a felicidade dos seus filhos. -O pae de D. Adelaide Sequeira vê a filha doente, -ameaçada de morte, e deseja certamente salval-a. -Quanto á opinião publica, o que poderá ella dizer -contra um casamento que o amor santifica? E se -disser, deixal-a dizer, porque a opinião publica, -quando não tem rasão, é combatida pelas consciencias -honestas, e essas são os unicos juizes -auctorisados. N’uma palavra, não repugna ao sr. -Vianna sahir d’esta casa noivo de D. Adelaide -Sequeira?</p> - -<p>—Mas subsistem ainda as minhas duvidas -quanto á familia d’ella...</p> - -<p>—Não subsistem. O sr. Vianna tem o incommodo -de voltar amanhã á mesma hora, e todas -as suas duvidas deixarão de existir.</p> - -<p>No dia seguinte, quando o Vianninha voltou a -casa de Araujo Rodarte, encontrou-se com o pae -de Adelaide Sequeira: o casamento ficou ajustado -n’esse dia.</p> - -<p>Constou isto, a maledicencia, que desconfiou da -ida do Vianninha a casa das Rodartes, teve de -confessar-se vencida, e a intervenção do <i>Padre -Eterno</i>, n’esta negociação feliz, tornou-se sympathica -á opinião publica, deu maior prestigio ao -avô, e, reflexamente, ás netas.</p> - -<p>Quando fallavam ao velho Araujo Rodarte no -proximo casamento da Sequeira, dizia elle:</p> - -<p>—Fiz-me agora S. Gonçalo d’Amarante,—com -uma unica differença.</p> - -<p>—Qual?</p> - -<p>—Caso as novas, em vez das velhas, o que -prova que não faço milagres.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header10.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>XVIII</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-o.jpg" width="85" height="95" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">O namoro dos dois alemtejanos com as irmãs -Rodartes não era um d’esses galanteios -romanticos, que obriga a excessos -de lyrismo.</p> - -<p>Se o fosse, dar-me-ia ensejo a descrever serenatas -de mandolim, arroubos de Romeu debaixo -da varanda de Julietta,—tudo em duplicado, os -Romeus e as Juliettas, ficando apenas no singular -a varanda, que era a mesma.</p> - -<p>Homens novos, posto já orçassem pelos trinta -annos ambos elles, fortes, alegres, de physionomia -agradavel e costumes chãos, o morgado de -Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam -longe de poder ser dois pagens namorados, -com todas as pieguices concomitantes á poesia -do amor medieval.</p> - -<p>O temperamento, mais talvez do que a edade, -e não pouco a educação, contribuiam para furtal-os -ás cegueiras da exaltação amorosa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span></p> - -<p>Não eram frios, nem o podiam ser, porque tinham -bom sangue, como a maior parte dos alemtejanos, -se exceptuarmos os que vivem nas regiões -atormentadas pelas febres palustres. Mas -eram serenos; homens em quem os musculos, -saudavelmente desenvolvidos, subjugavam os -nervos. Possuiam essa alegria moderada que -provém da robustez, da constituição sadia. Não -tinham por isso as phantasias melancolicas dos -nevroticos, nem a irritabilidade azeda dos biliosos. -Bom coração, bom estomago, bom figado: -com estes predicados, e com as suas herdades, -viviam felizes.</p> - -<p>Não pensavam em S. Carlos e muito menos -em Pariz; mas nem S. Carlos nem Pariz lhes -repugnavam... para uma vez.</p> - -<p>Entendiam menos de francez que de cortiça, -mais de porcos que de tenores, mas não eram -selvagens ao ponto de não querer jámais vêr a -França, nem ouvir nunca uma opera.</p> - -<p>De manhã cedo montavam a cavallo, percorriam -as suas herdades, davam instrucções aos -feitores, e regressavam a casa com bom apetite -e boa alegria. Raras vezes se queixavam de um -incommodo. Dos dois, apenas o morgado de Reguengos -tinha azias de quando em quando, mas -uma colhér de bicarbonato de soda curava-o rapidamente. -Uma hora depois estava habilitado a -comer.</p> - -<p>A provincia do Alemtejo tem sido pouco explorada -no romance, talvez porque os seus costumes -são essencialmente pacatos, algo monotonos.</p> - -<p>O sangue arabe, que os alemtejanos herdaram, -enrijeceu-lhes o organismo, deu-lhes a saude, -mas, já modificado pela transmissão de gerações -successivas, não referve em éstos como os que -incendiavam as veias dos guerreiros d’Agar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span></p> - -<p>Nos costumes, em que a dominação sarracena -influiu poderosamente, uma serenidade, ás vezes -monotona, como se nota nas danças e nas canções -populares, accentua-se com evidencia.</p> - -<p>A falta de paisagem poderá explicar a falta de -bucolismo no amor. Os rios pittorescos do Minho, -orlados de salgueiros e matisados de insuas -verdejantes, fazem poetas. No Alemtejo, a vegetação -ganha em utilidade agricola o que perde -em pittoresco de pintura. Mas ha excepções, como -sempre acontece: Bernardim Ribeiro, o mavioso -bucolico, nasceu ao que parece na villa do Torrão, -que é Alemtejo arido. Todavia as excepções -não invalidam a regra geral, antes a confirmam.</p> - -<p>Mas, em compensação, a vida da provincia -transtagana é laboriosa, util e pratica.</p> - -<p>Os seus habitantes não téem esse aspecto -atormentado, contrahido, que um francez habil -me dizia notar na maior parte dos retratos portuguezes.</p> - -<p>Ora eu estou certamente condemnado a naufragar -no tepôr do assumpto, o amor entre alemtejanos, -que sabe a capilé morno.</p> - -<p>Mas copío a verdade, e não quero adulteral-a -com mixordias de pura phantasia, como os taberneiros -fazem ao vinho, e certos romancistas -á verdade.</p> - -<p>O morgado de Reguengos e o proprietario das -Alcaçovas amavam como quem eram. Em pleno -galanteio vimol-os ir a Lisboa umas vezes por -outras tratar negocios, receber as prestações da -venda da cortiça, vender cevados aos salchicheiros -da Baixa.</p> - -<p>E quando regressavam a Setubal, com o dinheiro -a cantar nas algibeiras, sabia-lhes bem a -suave familiaridade da casa das Rodartes, onde, -antes de abancarem a jogar o loto com as netas,<span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span> -contavam ao avô, francamente, o resultado das -suas transacções em Lisboa.</p> - -<p>E as duas meninas, que se foram affeiçoando -lentamente a elles, porque encontraram dois homens -cujo typo conheciam, pois que era o da -sua provincia, as duas meninas ouviam-n’os fallar -de cevados, entendiam-n’os.</p> - -<p>Horror! gritará a leitora alfacinha.</p> - -<p>Pois minha senhora, nada e creada na patria -de Ulysses, perdoe V. Ex.ª o horror da verdade. -Tanto a formosa Hilda, como Maria Ignez, como, -principalmente, Salomé, que era o braço direito -do avô, sabiam a cotação das cabeças suinas, e -conheciam todos os processos da engorda dos -cevados.</p> - -<p>Isto póde não ser poetico, mas é portuguez de -boa lei, portuguez do Alemtejo, onde a azinheira -produz a boléta, que é riqueza.</p> - -<p>Nem Hilda, que gostava de cantar, sabia trechos -das operas de S. Carlos, nem das operetas -da Trindade. A sua canção predilecta era a <i>Ceifeira</i> -de Palmeirim, poeta genuinamente nacional, -que ha quarenta annos se vulgarisou tanto -no norte como no sul do paiz.</p> - -<p>O rythmo da canção era dolente como o de -toda a musica popular do Alemtejo, mas lá gostavam -de ouvir Hilda soluçar, como um <i>Fado</i>, -as trovas do poeta:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Ha quem diga por inveja</div> -<div class="verse">Que és feia por ser trigueira;</div> -<div class="verse">Dizem as damas da côrte,</div> -<div class="verse">Deixal-as dizer, ceifeira.</div> -</div> -</div> - -<p>As ceifeiras da Messejana, quando á noite voltavam -dos campos, queimadas pelo sol, morriam -por ouvil-a cantar a canção que tanto as lisonjeava,<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span> -porque fallava d’ellas, e pediam-lhe que a -repetisse.</p> - -<p>Araujo Rodarte intervinha com o seu bom humor -patriarchal n’esses serões agricolas do Alemtejo, -em que a neta, sentada nas escadas de pedra -do palacete, cantava para ser ouvida pelas ceifeiras -e pelos <i>Ratinhos</i>, que descançavam ao luar.</p> - -<p>O bom velho tinha sempre uma graça para dizer -ás raparigas.</p> - -<p>Uma vez, por exemplo, tendo a neta acabado -de cantar, disse elle:</p> - -<p>—Sabem vocês, rapazes e raparigas, de quem -é esta poesia que a minha Hilda vos cantou -agora?</p> - -<p>—Não sabemos, senhor.</p> - -<p>—Pois é de um poeta de Lisboa, que se chama -Palmeirim. E não fez só poesias que as meninas -cantem; tambem fez algumas que servem para -os velhos cantar.</p> - -<p>Gargalhada unisona das ceifeiras e dos <i>Ratinhos</i>.</p> - -<p>—Não se riam vocês, que eu tambem vou -cantar agora.</p> - -<p>—O sr. Rodarte!</p> - -<p>—Eu mesmo.</p> - -<p>E com uma voz, cuja rouquidão exagerou comicamente, -começou:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Vet’rano fiz as campanhas</div> -<div class="verse">Da guerra peninsular.</div> -</div> -</div> - -<p>—Mais! mais! pediram muitas vozes.</p> - -<p>—Nem mais nem menos, respondeu Araujo -Rodarte rindo. Um veterano não póde passar -d’aqui.</p> - -<p>Nova e prolongada hilaridade dos <i>Ratinhos</i> e -das ceifeiras.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span></p> - -<p>Algumas vezes, em pleno sol, ouvia-se cantar -nos campos, que a foice dos trabalhadores ia -deixando reduzidos á seccura do restolho:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Ha quem diga por inveja</div> -<div class="verse">Que és feia por ser trigueira;</div> -<div class="verse">Dizem as damas da côrte,</div> -<div class="verse">Deixal-as dizer, ceifeira.</div> -</div> -</div> - -<p>—Olha os teus discipulos, dizia Araujo Rodarte -a Hilda, como honram a professora! Ainda -não houve <i>prima-donna</i> de S. Carlos que fizesse -escola como tu.</p> - -<p>Hilda e as irmãs ouviam fallar de S. Carlos -como a gente ouve fallar de um paiz longinquo. -O proprio Rodarte, que fallava de S. Carlos, conhecia-o -pouco. Quando alguma vez viera da -Messejana a Lisboa, aconteceu ir ouvir uma ou -outra opera, sobretudo se a opera era do velho -Bellini, que toda a gente d’esse tempo preconisava -por ser, especialmente, o auctor da <i>Norma</i>.</p> - -<p>D’uma dessas raras vezes aconteceu-lhe até -uma ratice, que Araujo Rodarte sempre contava -rindo.</p> - -<p>Annunciava-se a <i>Norma</i>, e elle não resistiu -ao cartaz. Mandou comprar a S. Carlos um bilhete -da <i>geral</i>. Á noite dirigiu-se para o theatro, -cuidando que ia ouvir o grande Bellini. Pois não -ouviu ninguem! O theatro estava aberto, mas a -platéa vazia. No salão havia grupos commentando -um caso extraordinario. <i>Adalgiza</i> fôra raptada -pela famosa <i>Sociedade do delirio</i>. Dizia-se -que o marquez de Niza, disfarçado em cocheiro, -fizera voar os cavallos da carruagem em que -<i>Adalgiza</i> entrou, ao descer do <i>hotel</i>. O que é -certo é que a cantora não chegou a S. Carlos, -pelo menos n’aquella noite, e que fôra visto passar -ao Campo Grande, n’uma batida doida, um<span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span> -<i>coupé</i>, ladeado por dois cavalleiros que o guardavam.</p> - -<p>Era a <i>Sociedade do delirio</i>, que praticára mais -uma das suas proezas,—o rapto d’uma italiana, -que talvez fosse sabina.</p> - -<p>Nenhum dos dois alemtejanos, o morgado de -Reguengos e o proprietario das Alcaçovas, fez o -que em amor se chama uma <i>declaração</i>. Esse -doce e embaraçoso momento, em que o maior -orador do mundo póde sentir-se entaramellado, -momento de vibração nervosa e de exaltada sensibilidade, -não o passaram elles. O namoro foi -derivando suavemente n’uma intimidade agradavel, -no trato familiar de todos os dias, e no <i>loto</i> -de todas as noites.</p> - -<p>As duas Rodartes sabiam-se amadas, não porque -elles lh’o confessassem, mas porque as mulheres -sabem mais, em materia de amor, pelo -que adivinham que pelo que lhes dizem.</p> - -<p>Salomé contára ás irmãs as referencias que o -avô, certa manhã na praia, fizera ao namoro dos -alemtejanos, e o receio que mostrára de que elles -o obrigassem a separar-se das duas netas.</p> - -<p>Estou certo, sem comtudo poder affirmal-o, -que, ouvindo isto, Hilda e Maria Ignez tiveram -ambas o mesmo pensamento:</p> - -<p>—Pois esteja o avôsinho socegado que, se nós -casarmos, não o abandonaremos nunca.</p> - -<p>E tambem me quer parecer que Araujo Rodarte, -muito intencionalmente, fallára n’esse assumpto -a Salomé, para que ella fosse contar ás -irmãs o que o avô lhe estivera dizendo e para -que Hilda e Maria Ignez o dissessem aos dois -alemtejanos, quando fosse occasião.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header11.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>XIX</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="130" height="90" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">D. Enrique abandonou a casa de Setubal -sem lhe mandar pôr escriptos.</p> - -<p>Que de Setubal não queria saber -mais, dissera elle á sr.ª Magdalena -quando lhe entregou a chave.</p> - -<p>A menina Ricardina e a sr.ª Magdalena ficaram -satisfeitissimas, por muitas e variadas razões.</p> - -<p>Em primeiro logar, Ricardina havia contado á -mãe que, n’aquella casa de pouca vergonha, tanto -a hespanhola velha como a hespanhola nova, -expressão sua, lhe disputavam o sueco, o qual -parecia disposto, se podesse vencer-se aquella -dupla contrariedade, a dar o nó do hymeneu.</p> - -<p>A sr.ª Magdalena, na esperança de vêr a filha -bem casada, prometteu uma via-sacra ao Senhor -do Bomfim se as duas hespanholas lhe deixassem -em paz a filha e o sueco.</p> - -<p>O Senhor Jesus do Bomfim fizera-lhe a vontade,<span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span> -e a sr.ª Magdalena tratára logo de cumprir -a promessa.</p> - -<p>Em segundo logar, a menina Ricardina gostava -muito, quando a casa estava com escriptos, -de atravessar a rua para ir mostral-a.</p> - -<p>Fôra n’uma d’essas sahidas que ella annos antes -ouvira, á queima-roupa, a declaração de um -rapaz banhista, que chegára primeiro que a familia -para arrendar casa, e o qual, depois de estabelecidas -relações de intimidade entre as senhorias -e os inquilinos, gostava muito de pisar-lhe -o pé debaixo da mesa do chá.</p> - -<p>Logo que D. Enrique entregou a chave, a menina -Ricardina foi, por ordem da mãe, verificar -o estado em que a familia Saavedra havia deixado -ficar a casa.</p> - -<p>—Que porcaria! dizia mentalmente a menina -Ricardina abrindo as janellas e olhando de relance -para o pavimento e para os moveis.</p> - -<p>Pelo chão, por cima das mezas, havia bocados -de papel, migalhas de pão, ganchos do cabello, -e a um canto uma ruma de jornaes hespanhoes -e um leque velho, rasgado, com as varetas quebradas -e pendentes.</p> - -<p>Feito o primeiro exame <i>à vol d’oiseau</i>, Ricardina -abriu as gavetas de alguns moveis, sem -nada encontrar. Mas já lhe não aconteceu o -mesmo quando passava revista á gaveta do lavatorio. -Encontrou ahi um pequeno embrulho de -papel, que lhe despertou a curiosidade.</p> - -<p>Desembrulhou o papel, e encontrou uma caixinha -oblonga, de cartão verde.</p> - -<p>—O que será isto?! pensava Ricardina.</p> - -<p>Abriu, com muito interesse, e viu uma dentadura -postiça, nova em folha.</p> - -<p>Largou a rir do achado, que estava longe de -esperar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span></p> - -<p>Passada a primeira surpreza, começou a reflectir:</p> - -<p>—Para qual dos tres seria isto?</p> - -<p>E, parada no meio da casa, com a caixinha -de cartão deante dos olhos, continuou a pensar:</p> - -<p>—Não, de Soledad não é, porque os seus dentes -eram muito mais pequenos. De D. Enrique -tambem não é, porque tinha os dentes estragados -pelo tabaco. Ah! já sei!...—e largou a rir -ás gargalhadas.—Os dentes de D. Estanislada -eram bonitos, brancos como o marfim, mas postiços. -Agora é que eu sei que eram postiços! -Ora a velha tonta! E não saber eu isto antes! -Foi dentadura que comprou em Lisboa.—Ricardina -ia lendo a inscripção da tampa da caixa—para -a ter de sobreselente, talvez por ser mais -barata ou melhor do que a que trazia.</p> - -<p>E continuou a rir, a rir.</p> - -<p>—Quando faria ella tenção de mudar de dentes! -pensava Ricardina. Algum d’estes ha-de ser -o do siso, que bem preciso lhe é!</p> - -<p>E, tendo posto a caixinha no mesmo sitio em -que estava, foi contar á mãe a alegre historia do -seu achado.</p> - -<p>—Que eram fraquezas da humanidade, disse -a sr.ª Magdalena; que se não risse; que não -offendesse o Senhor Jesus do Bomfim, que lhes -havia feito o milagre.</p> - -<p>Ricardina respondeu que o Senhor do Bomfim -não se podia offender de que ella risse dos dentes -postiços de D. Estanislada; que uma coisa -não tinha nada com a outra.</p> - -<p>A primeira pessoa a quem Ricardina contou a -historia da dentadura foi o mesmo rapazito, que -tinha levado as duas cartas com os dois lenços -a casa de D. Enrique.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span></p> - -<p>Recommendou-lhe que fosse contar tudo ao -Marcolino, marcador do bilhar no café <i>Esperança</i>, -porque era esse o melhor meio de vulgarisar o -caso em toda a cidade.</p> - -<p>O rapazito, a quem Ricardina dera um tostão, -foi logo comprar amendoas e cigarros á loja do -Passos, na Praça do Bocage, e depois ao café -<i>Esperança</i> contar a historia ao marcador.</p> - -<p>Á tarde, os <i>habitués</i> do botequim commentavam -o caso rindo, e ao anoitecer constava em -toda a cidade que D. Estanislada, a <i>leôa velha</i>, -como começavam a chamar-lhe, usava dentes -postiços.</p> - -<p>D’ahi a quarenta e oito horas appareceu em -Setubal, inesperadamente, D. Enrique Saavedra.</p> - -<p>Foi direito da estação do caminho de ferro a -casa da sr.ª Magdalena.</p> - -<p>—Então o sr. D. Enrique outra vez por cá?! -perguntou a beata.</p> - -<p>—Dizia que não queria mais nada da nossa -terra! atalhou Ricardina.</p> - -<p>—<i>Que broma!</i> exclamou D. Enrique. <i>Olvidé -una joya que vengo à buscar.</i></p> - -<p>—Uma joia! Credo, Senhor Jesus do Bomfim! -que falso testemunho! exclamou a mãe de -Ricardina.</p> - -<p>—Uma joia! Ora essa! Isso havemos nós de -vêr! apostrophou arrogantemente Ricardina.</p> - -<p>—<i>Si, una joya de pequeño valor. Nó se aflijan -ustedes.</i></p> - -<p>—E em que sitio calculam que estava a joia? -perguntou Ricardina, muito esperta.</p> - -<p>—<i>En el cajon del labatorio</i>, respondeu D. Enrique.</p> - -<p>—Pois se lá estava, lá ha de estar, disse -triumphantemente Ricardina. Vamos já vêr.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p> - -<p>Foram.</p> - -<p>D. Enrique dirigiu-se logo á gaveta do lavatorio -e, encontrando a caixa, exclamou:</p> - -<p>—<i>Aqui está la joya!</i></p> - -<p>—Não! disse Ricardina, que com difficuldade -continha o riso. Veja <i>usted</i> se a joia está como -a deixaram. Faça favor de examinar.</p> - -<p>D. Enrique entreabriu a caixa mesmo dentro -da gaveta, e, como Ricardina se approximasse, -elle fechou de repente a caixa, e metteu-a na algibeira.</p> - -<p>—Está ou não está? É negocio muito sério! -Deve vêr, para que a verdade fique bem esclarecida!</p> - -<p>—<i>Está todo como habia quedado</i>, respondeu -D. Enrique.</p> - -<p>—Deve ser joia de muito valor, para <i>usted</i> se -sujeitar a vir a Setubal procural-a? perguntava, -muito desfructadora, Ricardina.</p> - -<p>—<i>Una joya de familia, de mas estimacion que -valor.</i></p> - -<p>—Bem me queria parecer que era joia de familia!... -Ora ainda bem que appareceu! E a -quem pertence essa joia? É sua, sr. D. Enrique?</p> - -<p>—<i>Nó, és de mi mujer.</i></p> - -<p>—Já estão em Santarem?</p> - -<p>—<i>Todavia nó. Hemos estado en Lisboa y vamos -mañana para Santarem.</i></p> - -<p>—Peço-lhe o favor, sr. D. Enrique, de dar -muitas lembranças minhas ao sr. conselheiro, -disse ironicamente Ricardina.</p> - -<p>—<i>Seran entregadas.</i></p> - -<p>Quando D. Enrique foi almoçar ao <i>Escoveiro</i>, -por isso que só de tarde podia regressar a Lisboa, -sahiram-lhe ao encontro alguns conhecidos.</p> - -<p>—Com que, D. Enrique, outra vez em Setubal?!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span></p> - -<p>—<i>He venido buscar una joya de familia, que -habia dejado quedar olvidada.</i></p> - -<p>—E appareceu?</p> - -<p>—<i>Ah! perfectamente. Estaba en su sitio.</i></p> - -<p>—Então já está em Santarem?</p> - -<p>—<i>Todavia nó. Solo partiremos mañana de -Lisboa.</i></p> - -<p>—E tenciona demorar-se muito em Santarem?</p> - -<p>—<i>Hasta vuelvan los Borbones.</i></p> - -<p>—E as sr.ᵃˢ como passam?</p> - -<p>—<i>Magnificas!</i></p> - -<p>E cada um lhe ia dizendo por sua vez:</p> - -<p>—Então, em Santarem, dê visitas minhas ao -conselheiro. Não se esqueça, D. Enrique.</p> - -<p>—<i>Jamás.</i></p> - -<p>No comboyo da tarde D. Henrique regressou -a Lisboa, levando na algibeira a joia de familia,—a -dentadura de D. Estanislada.</p> - -<p>O caso deu que rir, em Setubal, durante muitos -dias.</p> - -<p>A sr.ª Magdalena, logo de manhã cedo, continuava -a fazer a via-sacra, que promettera ao -Senhor Jesus do Bomfim.</p> - -<p>Ricardina aproveitava essa occasião para ir -arejar a casa em que D. Enrique morára, e que -ainda não estava arrendada.</p> - -<p>De uma d’essas vezes, seriam seis horas e -meia, Ricardina estava á janella, parecendo que -se deliciava em tomar o ar fresco da manhã. Demorava-se, -olhando ao longo da rua.</p> - -<p>N’isto apparece o sueco, que parou debaixo -da janella, e perguntou muito respeitosamente:</p> - -<p>—É parra alugarr esse casa?</p> - -<p>—É, sim, respondeu Ricardina.</p> - -<p>—Poderrei verr agórra?</p> - -<p>—Tenha a bondade de subir, respondeu Ricardina.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span></p> - -<p>O sueco, a julgar pelo tempo que se demorou, -examinou com interesse todos os compartimentos -da casa, que aliás não eram muitos.</p> - -<p>E gostou, porque n’essa mesma manhã procurou -a sr.ª Magdalena, para lhe dizer que desejava -ser seu inquilino.</p> - -<p>—Que tinha muita honra n’isso, respondeu -affavelmente a mãe de Ricardina.</p> - -<p>Attendendo a que já ia adiantada a estação -balnear, e a que o inquilino poderia vir a ser -genro da senhoria, a sr.ª Magdalena levou-lhe -mais quatro libras do que pediria a qualquer outro.</p> - -<p>O sueco alugou mobilia e installou-se immediatamente. -Jantava no <i>Hotel Escoveiro</i>, mas almoçava -em casa. Como não tinha criada, porque -a menina Ricardina lhe prohibira que a tivesse, -era ella propria quem ás oito horas da -manhã lhe ia fazer o bife e o café do almoço.</p> - -<p>Quando ella sahia de casa, a sr.ª Magdalena -recommendava-lhe sempre:</p> - -<p>—Juizinho, Ricardina! Vê lá tú!</p> - -<p>—Esteja socegada, minha mãe, eu não sou -d’essas...</p> - -<div class="figcenter" style="width: 150px;"> -<img src="images/footer1.jpg" width="150" height="140" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header11.jpg" width="500" height="115" alt="" /> -</div> - -<h2>XX</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-n.jpg" width="210" height="130" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">No fim de setembro, o morgado de Reguengos -e o proprietario das Alcaçovas -estiveram jogando uma noite -o loto em casa das Rodartes, como -era costume.</p> - -<p>Nada se passou de extraordinario, que podesse -manifestar a importante resolução que os dois -alemtejanos haviam tomado.</p> - -<p>Repetiram-se as phrases do estylo: o velho Rodarte -lamentou mais uma vez, ao sentar-se á -mesa, que o proprietario das Alcaçovas não soubesse -jogar o voltarete, seu jogo predilecto; fallou-se -da Sequeira, que, alegre e feliz, estava -tratando do enxoval para casar com o Vianninha; -combinou-se a hora do banho, no dia seguinte, -em conformidade com a maré. E das dez<span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span> -e meia para as onze os dois alemtejanos retiraram-se, -foram deitar-se tranquillamente.</p> - -<p>No dia seguinte estiveram na praia, tomaram -banho como de costume, esperaram que as Rodartes -chegassem para fallar-lhes, e ás nove horas -estavam sentados á mesa do almoço comendo -com excellente apetite.</p> - -<p>Depois do meio dia sahiram ambos, foram procurar -Araujo Rodarte, o que aliás não estava em -costume.</p> - -<p>Foi o morgado de Reguengos quem primeiro -usou da palavra, fallando em nome dos dois.</p> - -<p>—V. Ex.ª, disse elle ao dono da casa, ha-de -certamente estranhar uma visita a hora que não -está nos nossos habitos. Mas o motivo que aqui -nos traz é de tal modo solemne, que exigia da -nossa parte uma visita especial para o expôrmos. -E como nós, os alemtejanos, somos homens -que não estamos costumados a grandes -discursos, entraremos já no assumpto, se V. -Ex.ª assim o permittir.</p> - -<p>Araujo Rodarte comprehendeu logo do que se -ia tratar, e o seu coração bateu apressadamente -n’uma commoção que teve tanto ou quanto de -dolorosa.</p> - -<p>—Estou ás ordens de V. Ex.ᵃˢ, respondeu elle.</p> - -<p>—V. Ex.ª, continuou o morgado de Reguengos, -sabe muito bem quem nós somos, e os meios -de fortuna que possuimos. N’estas circumstancias -julgamos que directamente poderiamos apresentar-nos -a pedir, eu a mão da sr.ª D. Hilda, o -nosso patricio e meu amigo a mão da sr.ª D. -Maria Ignez. Eis o assumpto especial da nossa -visita.</p> - -<p>—Eu, accrescentou do lado o proprietario das -Alcaçovas, louvo-me nas palavras que V. Ex.ª -acaba de ouvir.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span></p> - -<p>—Pela minha parte, respondeu o avô das duas -meninas, devo dizer a V. Ex.ᵃˢ que nada tenho -que oppôr ao seu pedido. Custa-me, é certo, ter -que separar-me d’estas creanças que com tanto -amor eduquei depois que seus paes morreram, -mas tambem é certo que nunca fiz tenção, porque -o amor exclue o egoismo, de as conservar -indefinidamente presas á minha ordem. Apenas -sempre recommendei ás minhas netas que não -tivessem pressa de casar, isto é, que o não fizessem -irreflectidamente, porque lhes não faltavam -commodidades, regalos e carinhos. Estou, -porém, convencido de que V. Ex.ᵃˢ as saberão -estimar, senão mais do que eu, porque seria impossivel, -permittam-me esta vaidade, pelo menos -tanto como eu.</p> - -<p>N’este momento arrazaram-se de lagrimas os -olhos de Araujo Rodarte.</p> - -<p>Houve um momento de silencio.</p> - -<p>—Mas, continuou o velho enxugando as lagrimas, -não basta n’esta grave materia o que eu -digo. É preciso, primeiro que tudo, saber o -que dizem as interessadas. V. Ex.ᵃˢ já de certo -as tinham prevenido dos intuitos d’esta sua visita...</p> - -<p>Os dois alemtejanos responderam quasi ao -mesmo tampo:</p> - -<p>—Não, sr.</p> - -<p>—Não? Ainda bem! exclamou Araujo Rodarte. -Ainda bem, porque esse facto mostra ao meu -coração que as minhas netas não teem segredos -para mim. A reserva seria desculpavel por parte -d’ellas, mas não deixaria de maguar-me, porque -representava até certo ponto falta de confiança -no seu velho e affectuoso avô.</p> - -<p>—Nós dois, disse o proprietario das Alcaçovas -sorrindo, vamos agora saber pela primeira vez o<span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span> -que as duas netas de V. Ex.ª pensam a nosso -respeito.</p> - -<p>—Pois eu vou chamal-as para que ellas o digam -com a franqueza que o momento requer.</p> - -<p>Levantando-se da cadeira, Araujo Rodarte foi -a meio do corredor, e chamou em voz alta:</p> - -<p>—Salomé! Salomé!</p> - -<p>—Meu avô!</p> - -<p>—Dize a tuas irmãs que venham aqui, e vem -tu tambem.</p> - -<p>Voltando á sala, Araujo Rodarte disse aos -dois patricios:</p> - -<p>—Não estranhem V. Ex.ᵃˢ que eu chame tambem -minha neta Salomé. É o meu braço direito. -Em minha casa todas as resoluções são tomadas -em conselho de familia. Não desejo que este espirito -de solidariedade se interrompa justamente -no momento em que vae tomar-se uma resolução -importante para nós todos.</p> - -<p>Não tardaram a apparecer as tres meninas.</p> - -<p>Se não fosse trazerem o rosto um pouco mais -purpurino, dir-se-hia que Hilda e Maria Ignez -não adivinhavam o que se ia tratar. Salomé, pelo -contrario, estava mais pallida que de costume, -parecia ser ella a noiva, pela commoção que denunciava.</p> - -<p>Feitos os cumprimentos, Araujo Rodarte disse -voltando-se para Hilda e Maria Ignez:</p> - -<p>—Estes dois cavalheiros, nossos patricios e -amigos, acabam de me expôr um assumpto que -exige resposta vossa. Pela minha parte, apreciando-os -como devo, porque ambos são pessoas -que me merecem o melhor conceito, nada terei -que oppôr á vossa vontade. Podeis e deveis fallar -com franqueza, porque se trata do vosso -futuro. O sr. morgado pede a tua mão, Hilda, -e este cavalheiro a tua, Maria Ignez. Respondei<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span> -agora ou quando quizerdes, e como quizerdes.</p> - -<p>As duas meninas ficaram por algum tempo silenciosas, -cravando no avô os olhos embaciados -de lagrimas.</p> - -<p>Araujo Rodarte procurava mostrar-se forte, -para desopprimir o animo das netas.</p> - -<p>Os dois alemtejanos rastejavam o olhar no pavimento -da casa.</p> - -<p>—Podeis e deveis fallar como entenderdes, -disse Araujo Rodarte.</p> - -<p>—Eu, pela minha parte, respondeu Hilda mais -purpurina ainda das faces do que havia entrado, -porei apenas uma condição.</p> - -<p>—Qual? perguntou Araujo Rodarte.</p> - -<p>—Que ficaremos vivendo na Messejana em -companhia do avô.</p> - -<p>Resplandeceu de jubilo a physionomia do velho -ao ouvir estas palavras.</p> - -<p>—E eu acceito, respondeu com firmeza o morgado. -Não quero que o sr. Rodarte tenha motivo -algum para desgostar-se com o meu casamento.</p> - -<p>—Bem! bem! exclamou o velho Rodarte radiante -de alegria. V. Ex.ª, disse elle risonho ao -morgado, já está despachado. Vamos agora ouvir -a minha Ignez. Falla tu, menina.</p> - -<p>—Eu, meu avôsinho, digo que a mana Hilda -fallou por ella e por mim. Dou a mesma resposta -com a mesma condição.</p> - -<p>—Pois eu, respondeu o proprietario das Alcaçovas, -não tenho a accrescentar uma virgula -ao que disse o morgado. O que elle disse é o que -eu digo tambem.</p> - -<p>Araujo Rodarte, sorrindo e chorando ao mesmo -tempo, levantou-se da cadeira e apostrophou -erguendo as mãos e os olhos:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span></p> - -<p>—Estamos todos despenados, felizmente! Obrigado, -meu Deus!</p> - -<p>As tres netas correram a abraçar-se no avô, -que effusivamente as beijava no cabello.</p> - -<p>Os dois alemtejanos, respeitosos, com os olhos -no chão, assistiam de pé a esta encantadora scena -de ternura patriarchal.</p> - -<p>Dois dias depois, Araujo Rodarte, muito satisfeito, -nadando em felicidade, dizia familiarmente -ao morgado de Reguengos:</p> - -<p>—Ora vamos lá. Os velhos são muito curiosos. -Como foi que isto começou?</p> - -<p>—Ora! respondeu o morgado. Começou por -uma brincadeira!</p> - -<p>—Como?</p> - -<p>—Na Troia, depois do <i>pic-nic</i>, nós dois, p’ra -nos rirmos com a rapaziada, que estava levada -da bréca por ciume uns dos outros, lembramo-nos -de tirar á sorte os nomes das damas que -cada um havia de namorar.</p> - -<p>—Tem graça! commentou Araujo Rodarte.</p> - -<p>—Nós dois, não, disse o proprietario das Alcaçovas. -Foste tu, morgado. Porque elle, sr. Rodarte, -lá mesmo se gabou de ter muita sorte a -todos os jogos.</p> - -<p>—Bem se vê, observou o velho, bem se vê -pelo dinheiro que nos tem apanhado ao loto! Que -fará ao voltarete! Mas mesmo assim não desisto. -Ó morgado, logo que estivermos na Messejana, -havemos de ensinar o voltarete a seu cunhado.</p> - -<p>—Dito.</p> - -<p>—Mas então, continuou interrogando o velho, -a minha Hilda coube em sorte ao morgado.</p> - -<p>—E a mim a sr.ª D. Ignez, atalhou o proprietario -das Alcaçovas.</p> - -<p>—E o agouro sahiu certo! Tem graça! tem<span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span> -graça! Parece romance! E, diga-me, a andaluza -não entrou tambem na loteria?</p> - -<p>—Entrou. Sahiu ao D. Ramon.</p> - -<p>—Ahi é que me parece que o agouro falhou. -Mas quem sabe? O futuro a Deus pertence. Mas -o hespanholito ainda ahi está, pois não está?</p> - -<p>—Sim, sr.</p> - -<p>—Não o tenho visto!</p> - -<p>—Elle não sae do café <i>Esperança</i>, onde bebe -gazozas umas sobre outras. Não parece disposto -a morrer de saudades pela <i>señorita</i>.</p> - -<p>—Não é homem de grandes fogos! disse Araujo -Rodarte.</p> - -<p>—Tanto se lhe dá como se lhe deu, observou -o proprietario das Alcaçovas. Nem parece hespanhol! -Á força de tomar gazoza, já a tem nas -veias.</p> - -<p>Riram todos muito com esta observação, que -era exacta.</p> - -<p>O que não passou pela cabeça de Araujo Rodarte, -nem os dois alemtejanos ousaram dizer-lhe, -é que D. Estanislada tambem havia entrado -no sorteio.</p> - -<p>—Mas a minha Salomé? a minha Salomé a -quem coube em sorte?</p> - -<p>—Ao Vianninha.</p> - -<p>—Pobre Salomé! disse Araujo Rodarte, rindo. -Essa fica sem noivo. Vejam lá os srs.! Lembrei-me -primeiro da hespanhola que da minha Salomé! -Como é o meu braço direito, não me lembro -nunca de que ella póde casar um dia! Nem -quero lembrar!</p> - -<p>Não se soube logo no café <i>Esperança</i> que as -duas Rodartes iam casar. Os dois alemtejanos -não eram pessoas que divulgassem a sua felicidade. -Mas quando se soube, o alferes Ruivo, -sempre alegre, propôz que se abrisse uma garrafa<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span> -de vinho do Porto, para saudar mais -uma vez a victoria de Portugal sobre a Hespanha.</p> - -<p>—Meus senhores, disse elle de copo em punho, -vamos ter um novo 1640, sem revolução e -sem Miguel de Vasconcellos. A Hespanha entrou -arrogante em Setubal, escravisou os corações -portuguezes, tratou-os como vencidos, opprimiu-os. -Mas o sentimento da independencia da -patria póde mais que o jugo da belleza. A Hespanha -foi derrotada, o leão de Castella teve de -retirar sobre Santarem, protegido pela Junta Geral -d’aquelle districto, que merece se lance na -acta um voto de censura em nome da patria offendida. -(<i>Hilaridade geral.</i>) Ficou triumphante a -belleza de Portugal, sem precisar para isso recorrer -á <i>tertulia</i>, ao <i>abanico</i>, nem aos dentes -postiços da mamã. (<i>Alguns dos «habitués» do -café Esperança choravam de riso</i>). Peço-lhes -pois que, em nome da alma nacional, e em homenagem -á provincia a que Setubal pertence geographicamente, -repitam com sincero enthusiasmo -as palavras que eu vou dizer.</p> - -<p>E fez uma longa pausa.</p> - -<p>—Então?</p> - -<p>—Venham de lá as taes palavras!</p> - -<p>—Vem ou não vem?</p> - -<p>O alferes, circumvagando o olhar pelo auditorio, -esvazia o copo e recita com emphase:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Que mais querem de nós? apoz tamanha</div> -<div class="verse">galhardia d’algoz, ébrios de gloria,</div> -<div class="verse">apagaram acaso a luz da Historia?</div> -<div class="verse">não lêem seus feitos?... Que nos quer a Hespanha?...</div><span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Quer insultar a lapide funerea</div> -<div class="verse">que pesa sobre vós, heroes de <i>Ourique</i>!...</div> -<div class="verse">Estremecei de horror, filhos de Henrique!...</div> -<div class="verse">Repercuti meu canto, éccos da Iberia!</div> -</div> -</div> -</div> - -<p class="titlepage"><span class="smcap">Fim</span></p> - -<p class="mt3"><i>Post scriptum.</i>—Pude finalmente conseguir escrever -o nome do sueco. Chamava-se Andreas Setterquist. -A menina Ricardina, muito carinhosa, -chamava-lhe familiarmente o seu <i>Settequiz</i>. E o -malicioso alferes Ruivo dizia que, a contar por -alto, devia effectivamente ser o setimo.</p> - -<hr /> - -<h2>ERRATA</h2> - -<p><a href="#Page_129">Pag. 129</a>:</p> - -<p>Linha 10.ª, onde se lê—«terão coragem para me fazerem -alguma traição», deve lêr-se—«terão coragem para -me fazer alguma traição».</p> - -<p>Linha 18.ª, onde se lê—«A velhice que me tornou ainda -tão tolo», deve lêr-se—«A velhice não me tornou ainda -tão tolo, etc.»</p> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of Project Gutenberg's As Netas do Padre Eterno, by Alberto Pimentel - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS NETAS DO PADRE ETERNO *** - -***** This file should be named 62706-h.htm or 62706-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/7/0/62706/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org - - - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works. - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - - - -</pre> - -</body> -</html> diff --git a/old/62706-h/images/amp.jpg b/old/62706-h/images/amp.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index f80a3d9..0000000 --- a/old/62706-h/images/amp.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/62706-h/images/cover.jpg b/old/62706-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index c8b75ce..0000000 --- a/old/62706-h/images/cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/62706-h/images/dropcap-a.jpg b/old/62706-h/images/dropcap-a.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 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