summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
-rw-r--r--.gitattributes4
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
-rw-r--r--old/67535-0.txt9297
-rw-r--r--old/67535-0.zipbin174529 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/67535-h.zipbin220430 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/67535-h/67535-h.htm13438
-rw-r--r--old/67535-h/images/policarpo_cover.jpgbin47854 -> 0 bytes
8 files changed, 17 insertions, 22735 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..d7b82bc
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,4 @@
+*.txt text eol=lf
+*.htm text eol=lf
+*.html text eol=lf
+*.md text eol=lf
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..46b54e8
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #67535 (https://www.gutenberg.org/ebooks/67535)
diff --git a/old/67535-0.txt b/old/67535-0.txt
deleted file mode 100644
index e6bd0b3..0000000
--- a/old/67535-0.txt
+++ /dev/null
@@ -1,9297 +0,0 @@
-The Project Gutenberg eBook of Triste Fim de Polycarpo Quaresma, by
-Lima Barreto
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: Triste Fim de Polycarpo Quaresma
-
-Author: Lima Barreto
-
-Release Date: March 1, 2022 [eBook #67535]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by
- the Biblioteca Nacional do Brasil.)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK TRISTE FIM DE POLYCARPO
-QUARESMA ***
-
-
-LIMA BARRETO
-
-Autor de "ISAIAS CAMINHA"
-
-
-
-
-TRISTE FIM DE
-
-POLYCARPO QUARESMA
-
-
-
-
-Typ. "Revista dos Tribunaes"
-
-RUA DO CARMO, 55
-
-RIO DE JANEIRO
-
-1915
-
-
-
-
-A
-
-João Luiz Ferreira
-
-Engenheiro Civil
-
-
-Le grand inconvénient de la vie
-réelle et ce qui la rend insupportable
-à l'homme supérieur, c'est que, si l'on
-y transporte les principes de l'idéal,
-les qualités deviennent des défauts, si
-bien que fort souvent l'homme accompli
-y réussit moins bien que celui qui
-a pour mobiles l'égoisme ou la routine
-vulgaire.
-
-=Renan=, Marc-Auréle
-
-
-
-
-INDICE
-Primeira Parte
-Capitulo
-I. A LIÇÃO DE VIOLÃO
-II. REFORMAS RADICAES
-III. A NOTICIA DO GENELICIO
-IV. DESASTROSAS CONSEQUENCIAS
-DE UM REQUERIMENTO
-V. O BIBELOT
-Segunda Parte
-I. NO «SOCEGO»
-II. ESPINHOS E FLORES
-III. GOLIAS
-IV. «PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ»
-V. O TROVADOR
-Terceira Parte
-I. PATRIOTAS
-II. VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO
-III. ...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS...
-IV. O BOQUEIRÃO
-V. A AFILHADA
-
-
-
-
-PRIMEIRA PARTE
-
-
-
-
-I
-
-A LIÇÃO DE VIOLÃO
-
-Como de habito, Polycarpo Quaresma, mais conhecido por major Quaresma,
-bateu em casa ás 4 e 15 da tarde. Havia mais de vinte annos que isso
-acontecia. Sahindo do Arsenal de Guerra, onde era sub-secretario,
-bongava pelas confeitarias algumas fructas, comprava um queijo, ás
-vezes, e sempre o pão da padaria franceza.
-
-Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de fórma que, ás 3 e
-40, por ahi assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pizar a
-soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de S. Januario, bem
-exactamente ás 4 e 15, como se fosse a apparição de um astro, um
-eclypse, emfim um phenomeno mathematicamente determinado, previsto e
-predito.
-
-A vizinhança já lhe conhecia os habitos e tanto que, na casa do
-Capitão Claudio, onde era costume jantar-se ahi pelas quatro e meia,
-logo que o viam passar, a dona, gritava á criada: «Alice, olha que
-são horas; o Major Quaresma já passou».
-
-E era assim todos os dias, ha quasi trinta annos. Vivendo em casa
-propria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o major
-Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos
-burocraticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e
-respeito de homem abastado.
-
-Não recebia ninguem, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortez
-com os vizinhos que o julgavam esquisito e misanthropo. Se não tinha
-amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a unica desaffeição que
-merecera, fôra a do Dr. Segadas, um clinico afamado no lugar, que não
-podia admittir que Quaresma tivesse livros: «se não era formado, para
-que? Pedantismo»!
-
-O sub-secretario não mostrava os livros a ninguem, mas acontecia que,
-quando se abriam as janellas da sala de sua livraria, da rua
-poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.
-
-Eram esses os seus habitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso
-provocava commentarios no bairro. Além do compadre e da filha, as
-unicas pessoas que o visitavam até então, nos ultimos dias, era visto
-entrar em sua casa, tres vezes por semana e em dias certos, um senhor
-baixo, magro, pallido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça.
-Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa
-tão respeitavel! que seria?
-
-E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma
-amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá p'ra lá, a palmilhar o
-passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante da janella aberta
-do exquisito sub-secretario.
-
-Não foi inutil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal
-sujeito, empunhando o _pinho_ na posição de tocar, o major,
-attentamente, ouvia: «Olhe, major, assim». E as cordas vibravam
-vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre adduzia: «é _ré_,
-aprendeu».
-
-Mais não foi precizo pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o
-major aprendia a tocar violão. Mas que cousa? Um homem tão sério
-mettido nessas malandragens!
-
-Uma tarde de sol--sol de Março, forte e implacavel--ahi pelas cercanias
-das quatro horas, as janellas de uma erma rua de S. Januario povoaram-se
-rapida e repentinamente, de um e de outro lado. Até da casa do General
-vieram moças á janella! Que era? Um batalhão? Um incendio? Nada
-disto: o Major Quaresma, de cabeça, baixa, com pequenos passos de boi
-de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico.
-
-É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o
-vestuario não lhe escondia inteiramente as formas. Á vista de tão
-escandaloso facto, a consideração e o respeito que o major Polycarpo
-Quresma merecia nos arredores de sua casa, diminuiram um pouco. Estava
-perdido, maluco, diziam. Elle, porém, continuou serenamente nos seus
-estudos, mesmo porque não percebeu essa diminuição.
-
-Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava _pince-nez_, olhava
-sempre baixo, mas, quando fixava alguem ou alguma cousa, os seus olhos
-tomavam, por detraz das lentes, um forte brilho de penetração, e era
-como se elle quizesse ir á alma da pessoa ou da cousa que fixava.
-
-Comtudo, sempre os trazia baixo, como se guiasse pela ponta do
-cavaignac que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto,
-azul, ou de cinza, de panno listrado, mas sempre de fraque, e era raro
-que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita,
-segundo um figurino antigo de que elle sabia com precisão a epocha.
-
-Quando entrou em casa, naquelle dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta,
-perguntando:
-
---Janta já?
-
---Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje comnosco.
-
---Polycarpo, você precisa tomar juizo. Um homem de idade, com
-posição, respeitavel, como você é, andar mettido com esse
-seresteiro, um quasi capadocio--não é bonito!
-
-O major descançou o chapéo de sól--um antigo chapéo de sól, com a
-haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de
-pequenos losangos de madreperola--e respondeu:
-
---Mas você está muito enganada, mana. É preconceito suppor-se que
-todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais
-genuina expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que
-ella pede. Nós é que temos abandonado o genero, mas elle já esteve em
-honra, em Lisboa, no seculo passado, com o padre Caldas, que teve um
-auditorio de fidalgas. Beckford, um inglez notavel, muito o elogia.
-
---Mas isso foi em outro tempo,--agora...
-
---Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as
-nossas tradições, os usos genuinamente nacionaes...
-
---Bem, Polycarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as
-suas manias.
-
-O major entrou para um aposento proximo, emquanto sua irmã seguia em
-direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a
-roupa de casa, veiu para a bibliotheca, sentou-se a uma cadeira de
-balanço, descançando.
-
-Estava num aposento vasto, com janellas para uma rua lateral, e todo
-elle era forrado de estantes de ferro.
-
-Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os
-livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquella grande
-collecção de livros havia de espantar-se ao perceber o espirito que
-presidia a sua reunião.
-
-Na ficção, havia unicamente autores nacionaes ou tidos como taes: o
-Bento Teixeira, da Prosopopéa; o Gregorio de Mattos, o Basilio da Gama,
-o Santa Rita de Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o
-Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que
-nem um dos autores nacionaes ou nacionalizados de oitenta p'ra lá
-faltava nas estantes do Major.
-
-De Historia do Brasil, era farta a messe: os chronistas, Gabriel Soares,
-Gandavo; e Rocha Pitta, Frei Vicente Salvador, Armitage, Ayres Casal,
-Pereira da Silva, Handelmann (Geschitchte von Brasilien), Mello Moraes,
-Capistrano de Abreu, Southey, Warnhagen, além de outros mais raros ou
-menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza!
-Lá estavam Hans Stade, o Jean de Lery, o Saint-Hilaire, o Martius, o
-principe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassis, Couto
-Magalhães e se encontravam tambem Darwin, Freycinet, Cook,
-Boungainville e até o famoso Pigafetta, chronista da viagem de
-Magalhães, é porque todos esses ultimos viajantes tocavam no Brasil,
-resumida ou amplamente.
-
-Alem destes, havia livros subsidiarios: diccionarios, manuaes,
-encyclopedias, compendios, em varios idiomas.
-
-Vê-se assim que a sua predilecção pela poetica de Porto Alegre e
-Magalhães não lhe vinha de uma irremediavel ignorancia das linguas
-literarias da Europa; ao contrario o major conhecia bem soffrivelmente
-francez, inglez e allemão; e se não falava taes idiomas, lia-os e
-traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa
-disposição particular de seu espirito, no forte sentimento que guiava
-sua vida. Polycarpo era patriota. Desde moço, ahi pelos vinte annos, o
-amor da patria tomou-o todo inteiro. Não fôra o amor commum, palrador
-e vasio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de
-ambições politicas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou
-melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro
-do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois
-então apontar os remedios, as medidas progressivas, com pleno
-conhecimento de causa.
-
-Não se sabia bem onde nascera, mas não fôra de certo em S. Paulo, nem
-no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quizesse encontrar nelle
-qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha
-predilecção por esta ou aquella parte de seu pai tanto assim que aquillo
-que o fazia vibrar de paixão não eram só os Pampas do Sul com o seu
-gado, não era o café de S. Paulo, não eram o ouro e os diamantes de
-Minas, não era a belleza da Guanabara, não era a altura da Paulo
-Affonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o impeto de Andrade
-Neves--era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrellada
-do Cruzeiro.
-
-Logo aos dezoito annos quiz fazer-se militar; mas a junta de saude
-julgou-o incapaz. Desgostou-se, soffreu, mas não maldisse a Patria. O
-Ministerio era liberal, elle se fez conservador e continuou mais do que
-nunca a amar a _terra que o viu nascer_. Impossibilitado de evoluir-se
-sob os dourados do Exercito, procurou a administração e dos seus ramos
-escolheu o militar.
-
-Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de
-papelada inçada de kilos de polvora, de nomes de fuzis e termos
-technicos de artilharia, aspirava diariamente aquelle halito de guerra,
-de bravura, de victoria, de triumpho, que é bem o halito da Patria.
-
-Durante os lazeres burocraticos, estudou, mas estudou a Patria, nas suas
-riquezas naturaes, na sua historia, na sua geographia, na sua literatura
-e na sua politica. Quaresma sabia as especies de mineraes, vegetaes e
-animaes, que o Brasil continha; sabia, o valor do ouro, dos diamantes
-exportados por Minas, as guerras hollandezas, as batalhas do Paraguay,
-as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão
-a proeminencia do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para
-isso ia até ao crime de amputar alguns kilometros ao Nilo e era com
-este rival do _seu_ rio que elle mais implicava. Ai de quem o citasse na
-sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e
-malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do
-Nilo.
-
-Havia um anno a esta parte que se dedicava ao tupy-guarany. Todas as
-manhãs, antes que a «Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao
-louro Phebo», elle se atracava até ao almoço com o Montoya, _Arte y
-diccionario de la lengua guarany ó mâs bien tupy_, e estudava o jargão
-caboclo com afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados,
-amanuenses e escreventes, tendo noticia desse seu estudo do idioma
-tupiniquim, deram não sei sabe porque em chamal-o--Ubirajára. Certa
-vez, o escrevente Azevedo, ao assignar o ponto, distrahido, sem reparar
-quem lhe estava ás costas, disse em tom chocareiro: «você já vio que
-hoje o Ubirajára esta tardando».
-
-Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade, a sua illustração, a
-modestia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos.
-Sentindo que o alcunha lhe era dirigido, não perdeu a dignidade, não
-prorompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concertou o _pince-nez_,
-levantou o dedo indicador no ar e respondeu:
-
---Sr. Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridiculo aquelles
-que trabalham em silencio, para a grandeza e a emancipação da Patria.
-
-Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do
-café, quando os empregados deixavam as bancas, transmittir aos
-companheiros o fructo de seus estados, as descobertas que fazia, no seu
-gabinete de trabalho, de riquezas nacionaes. Um dia era o petroleo que
-lera em qualquer parte, como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era
-um novo exemplar de arvore de borracha que crescia no rio Pardo, em
-Matto-Grosso; outra, era um sabio, uma notabilidade, cuja bisavó era
-brasileira; e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela
-chorographia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegavel, os
-melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um
-franco percurso da foz ás nascentes. Elle amava sobremodo os rios; as
-montanhas lhe eram indifferentes. Pequenas talvez...
-
-Os collegas ouviam-no respeitosos e ninguem, a não ser esse tal
-Azevedo, se animava na sua frente a lhe fazer a menor objecção, a
-avançar uma pilheria, um dito. Ao voltar as costas, porém, vingavam-se
-da cacetada, cobrindo-o de troças: «Este Quaresma! que cacete! Pensa
-que somos meninos de tico-tico... Arre! Não tem outra conversa».
-
-E desse modo elle ia levando a vida, metade na repartição, sem ser
-comprehendido, e a outra metade em casa, tambem sem ser comprehendido.
-No dia em que o chamaram de Ubirajára, Quaresma ficou reservado,
-taciturno, mudo, e só veiu a falar porque, quando lavavam, as mãos num
-aposento proximo á secretaria e se preparavam para sahir, alguem
-suspirando, disse: «Ah! Meu Deus! Quando poderei ir á Europa»! O
-major não se conteve: levantou o olhar, concertou o _pince-nez_ e falou
-fraternal e persuasivo: «Ingrato! Tens uma terra tão bella, tão rica,
-e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer
-a minha de principio ao fim!
-
-O outro objectou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major
-contestou-lhe com estatisticas e até provou exuberantemente que o
-Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. Era um clima calumniado
-pelos viciosos que de lá vinham doentes...
-
-Era assim o major Polycarpo Quaresma que acabava de chegar á sua
-residencia, ás 4 e 15 da tarde, sem erro de um minuto, como todas as
-tardes, excepto aos domingos, exactamente, ao geito da apparição de um
-astro ou de um eclypse.
-
-No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aquelles que têm
-ambições politicas ou de fortuna, porque Quaresma, não as tinha no
-minimo grau.
-
-Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua bibliotheca, o
-major abriu um livro e pôz-se a lel-o á espera do conviva. Era o velho
-Rocha Pitta, o enthusiastico e gongorico Rocha Pitta da Historia da
-America Portugueza. Quaresma estava lendo aquelle famoso periodo: «Em
-nenhuma outra região se mostra o céo mais sereno, nem madruga mais
-bella a aurora; o sol em nenhum outro hemispherio tem os raios mais
-dourados...» mas não pôde ir ao fim. Batiam á porta. Foi abril-a em
-pessoa.
-
---Tardei, major? perguntou o visitante.
-
---Não. Chegaste á hora.
-
-Acabava de entrar em casa do major Quaresma o Sr. Ricardo Coração dos
-Outros, homem celebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar
-violão. Em começo, a sua fama estivera limitada a um pequeno suburbio
-da cidade, em cujos _saráos_ elle e seu violão figuravam como Paganini
-e a sua rabeca em festas de Duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi
-tomando toda a extensão dos suburbios, crescendo, solidificando-se,
-até ser considerada como cousa propria a elles. Não se julgue,
-entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas ahi qualquer, um
-capadocio. Não; Ricardo Coração dos Outros era um artista a
-frequentar e a honrar as melhores familias do Meyer, Piedade e
-Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na
-casa do Tenente Marques, do Dr. Bulhões ou do _seu_ Castro, a sua
-presença era sempre requerida, instada e apreciada. O Dr. Bulhões,
-até, tinha, pelo Ricardo uma admiração especial, um delirio, um
-frenesi e, quando o trovador cantava, ficava em extase. Gosto muito de
-canto, dizia o doutor no trem certa vez, mas só duas pessoas me enchem
-as medidas: o Tamagno e o Ricardo. Esse doutor tinha uma grande
-reputação nos suburbios, não como medico, pois que nem oleo de ricino
-receitava, mas como entendido em legislação telegraphica, por ser
-chefe de secção da Secretaria dos Telegraphos.
-
-Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da
-alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial o que só
-é alta nos suburbios. Compõe-se em geral de funccionarios publicos, de
-pequenos negociantes, de medicos com alguma clinica, de tenentes de
-differentes milicias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas
-daquellas distantes regiões, assim como nas festas e nos bailes, com
-mais força que a burguezia de Petropolis e Botafogo. Isto é só lá,
-nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se algum dos seus representantes
-vê um typo mais ou menos, olha-o da cabeça aos pés, demoradamente,
-assim como quem diz: apparece lá em casa que te dou um prato de comida.
-Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia
-jantar e almoço, muito feijão, muita carne secca, muito ensopado--ahi,
-julga ella, e que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da
-distincção.
-
-Fóra dos suburbios, na rua do Ouvidor, nos theatros, nas grandes festas
-centraes, essa gente mingua, apaga-se, desapparece, chegando até as
-suas mulheres e filhas a perder a belleza com que deslumbram, quasi
-diariamente, os lindos cavalheiros dos interminaveis bailes diarios
-daquellas redondezas.
-
-Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia,
-extravasou e passou á cidade, propriamente. A sua fama já chegava a S.
-Christovão e em breve (elle o esperava) Botafogo convidal-o-ia, pois os
-jornaes já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da
-sua poetica...
-
-Mas que vinha elle fazer ali, na casa de pessoa de propositos tão altos
-e tão severos habitos? Não é difficil atinar. De certo, não vinha
-auxiliar o major nos seus estudos de geologia, de poetica, de
-mineralogia e historia brasileiras.
-
-Como bem suppoz a vizinhança, o Coração dos Outros vinha ali tão
-sómente ensinar o Major a cantar modinhas e a tocar violão. Nada mais,
-e é simples.
-
-De accôrdo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a
-meditar qual seria a expressão poetico-musical caracteristica da alma
-nacional. Consultou historiadores, chronistas e philosophos e adquiriu
-certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa
-verdade, não teve duvidas: tratou de aprender o instrumento
-genuinamente brasileiro: e entrar nos segredos da modinha. Estava nisso
-tudo _a quo_, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor
-da cidade e tomou lições com elle. O seu fim era disciplinar a
-modinha, e tirar della um forte motivo original de arte.
-
-Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas, antes disso, por convite
-especial do discipulo, ia compartilhar o seu jantar; e fôra por isso
-que o famoso trovador chegou mais cedo á casa do sub-secretario.
-
---Já sabe dar o _ré_ sustenido, major? perguntou Ricardo logo ao
-sentar-se.
-
---Já.
-
---Vamos ver.
-
-Dizendo isto, foi desencapotar o seu sagrado violão; mas não houve
-tempo, D. Adelaide, a irmã de Quaresma, entrou e convidou-os a irem
-jantar. A sopa já esfriava na mesa, que fossem!
-
---O Sr. Ricardo ha de nos desculpar, disse a velha senhora, a pobreza do
-nosso jantar. Eu lhe quiz fazer um frango com _petit-pois_, mas
-Polycarpo não deixou. Disse-me que esse tal _petit-pois_ é estrangeiro
-e que eu o substituisse por guando. Onde é que se viu frango com
-guando?
-
-Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom, seria uma novidade e
-não fazia mal experimentar.
-
---É uma mania de seu amigo, Sr. Ricardo, esta de só querer cousas
-nacionaes, e a gente tem que ingerir cada droga, chi!
-
---Qual, Adelaide, você tem certas ogerizas! A nossa terra, que tem todos
-os climas do mundo, é capaz de produzir tudo que é necessario para o
-estomago mais exigente. Você é que deu para implicar.
-
---Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa.
-
---É porque é de leite, se fosse como essas estrangeiras ahi,
-fabricadas com gorduras de esgotos, talvez não se estragasse... É
-isto, Ricardo! Não querem nada da nossa terra...
-
---Em geral é assim, disse Ricardo.
-
---Mas é um erro... Não protegem as industrias nacionaes... Commigo
-não ha disso: de tudo que ha nacional, eu não uso estrangeiro.
-Visto-me com panno nacional, calço botas nacionaes e assim por diante.
-
-Sentaram-se á mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de crystal e
-serviu dous calices de paraty.
-
---É do programma nacional, fez a irmã, sorrindo.
-
---De certo, e é um magnifico aperitivo. Esses vermutes por ahi, drogas!
-Isto é alcool puro, bom, de canna, não é de batatas ou milho...
-
-Ricardo agarrou o calice com delicadeza e respeito, levou-o aos labios e
-foi como se todo elle bebesse o licor nacional.
-
---Está bom, hein? indagou o major.
-
---Magnifico, fez Ricardo, estalando os labios.
-
---É de Angra. Agora tu vais ver que magnifico vinho do Rio Grande
-temos... Qual Borgonha! Qual Bordeaux? Temos no Sul muito melhores...
-
-E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os productos
-nacionaes: a banha, o toucinho e o arroz; a irmã fazia pequenas
-objecções e Ricardo dizia: «é, é, não, ha duvida»--rolando nas
-orbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no
-cabello aspero, forçando muito a sua physionomia meuda e dura a
-adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.
-
-Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem
-uma flôr... Certamente não se podia tomar por tal miseros beijos de
-frade, palmas de Santa Rita, quaresmas luctulentas, manacás
-melancolicos e outros bellos exemplares dos nossos campos e prados. Como
-em tudo o mais, o Major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada
-de rosas, de chrysanthemos, de magnolias--flôres exoticas; ás nossas
-terras tinham outras mais bellas, mais expressivas, mais olentes, como
-aquellas que elle tinha ali.
-
-Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala, quando o
-crepusculo vinha de vagar, muito vagaroso e lento, como si fosse um
-longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas cousas a sua
-poesia dolente e a sua deliquescencia.
-
-Mal foi accesso o gaz, o mestre de violão empunhou o instrumento,
-apertou as cravelhas, correu a escala, abaixando-se sobre elle como se o
-quizesse beijar. Tirou alguns accordes, para experimentar; e dirigiu-se
-ao discipulo, que já tinha o seu em posição:
-
---Vamos ver. Tire a escala, major.
-
-Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas não havia na sua
-execução nem a firmeza, nem o dengue com que o mestre fazia a mesma
-operação.
-
---Ohe, major, é assim.
-
-E mostrava a posição do instrumento, indo do collo ao braço esquerdo
-extendido, seguro levemente pelo direito; e em seguida accrescentou:
-
---Major, o violão é o instrumento da paixão. Preciza de peito para
-falar... É preciso encostal-o, mas encostal-o com macieza e amor, como
-se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos...
-
-Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo elle
-fremindo de paixão pelo instrumento desprezado.
-
-A lição durou uns cincoenta minutos. O major sentiu-se cansado e pediu
-que o mestre cantasse. Era a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse
-pedido; embora lisongeado, quiz a vaidade profissional que elle, a
-principio, se negasse.
-
---Oh! Não tenho nada novo, uma composição minha.
-
-D. Adelaide obtemperou então:
-
---Cante uma de outro.
-
---Oh! por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O
-Bilac--conhecem?--quiz fazer-me uma modinha, eu não aceitei;
-você não entende de violão, seu Bilac. A questão não está em
-escrever uns versos certos que digam cousas bonitas; o essencial
-é achar-se as palavras que o violão pede e deseja. Por exemplo:
-se eu dissesse, como em começo quiz, n'_O Pé_, uma modinha minha:
-_o teu pé é uma folha de trevo_--não ia com o violão. Querem
-ver? E ensaiou em voz baixa, acompanhando pelo instrumento:
-_o--teu--pé--é--uma--folha--de--tre--vo_.
-
---Vejam, continuou elle, como não dá. Agora reparem:
-_o--teu--pé--é--uma--uma--ro--sa--de--myr--rha_. É outra cousa, não
-acham?
-
---Não ha duvida, disse a irmã de Quaresma.
-
---Cante esta, convidou o major.
-
---Não, objectou Ricardo. Está velha, vou cantar a _Promessa_,
-conhecem?
-
---Não, disseram os dous irmãos.
-
---Oh! Anda por ahi como as _Pombas_ do Raymundo.
-
---Cante lá, Sr. Ricardo, pediu D. Adelaide.
-
-Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e
-começou em voz fraca:
-
-
- _Prometto pelo Santissimo Sacramento
- Que serei tua paixão_...
-
-
---Vão vendo, disse elle num intervallo, quanta imagem, quanta imagem!
-
-E continuou. As janellas estavam abertas. Moças e rapazes começaram a
-se amontoar na calçada para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua se
-interessava Coração dos Outros foi apurando a dicção, tomando um ar
-feroz que elle suppunha ser de ternura e enthusiasmo; e, quando acabou,
-as palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando D.
-Adelaide.
-
---Senta-te Ismenia, disse ella.
-
---A demora é pouca.
-
-Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco moça e continuou a
-dissertar sobre a modinha. Aproveitando uma pausa, a irmã de Quaresma
-perguntou á moça:
-
---Então quando te casas?
-
-Era a pergunta que se lhe fazia sempre. Ella então curvava do lado
-direito a sua triste cabecinha, coroada de magnificos cabellos
-castanhos, com tons de ouro, e respondia.
-
---Não sei... Cavalcanti forma-se no fim do anno e então marcaremos.
-
-Isto era dito arrastado, com uma preguiça de impressionar.
-
-Não era feia a menina, a filha do General, vizinho de Quaresma. Era
-até bem sympathica, com a sua physionomia de pequenos traços mal
-desenhados e cobertos de umas tintas de bondade.
-
-Aquelle seu noivado durava ha annos; o noivo, o tal Cavalcanti, estudava
-para dentista, um curso de dous annos, mas que elle arrastava ha quatro,
-e Ismenia tinha sempre que responder á famosa pergunta:--«Então
-quando se casa»?--«Não sei... Cavalcanti forma-se para o anno e...»
-
-Intimamente ella não se incommodava. Na vida, para ella, só havia uma
-cousa importante: casar-se; mas pressa não tinha, nada nella a pedia.
-Já agarrara um noivo, o resto era questão de tempo...
-
-Após responder a D. Adelaide, explicou o motivo da visita.
-
-Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em
-casa della.
-
---Papai, disse D. Ismenia, gosta muito de modinhas... do Norte; a
-senhora sabe, D. Adelaide, que gente do Norte aprecia muito. Venham.
-
-E para lá foram.
-
-
-
-
-II
-
-REFORMAS RADICAES
-
-
-Havia bem dez dias que o major Quaresma não sahia do casa. Na sua
-meiga, e socegada casa de S. Christovão, enchia os dias da fórma mais
-util e agradavel ás necessidades do seu espirito, e do seu
-temperamento. De manhã, depois da _toilette_, e do café, sentava-se no
-divan da sala principal e lia os jornaes. Lia diversos, porque sempre
-esperava encontrar num ou noutro uma noticia curiosa, a suggestão de
-uma idéa util á sua cara patria. Os seus habitos burocraticos
-faziam-no almoçar cedo; e, embora estivesse de férias, para os não
-perder, continuava a tomar a primeira refeição de garfo ás nove e
-meia da manhã.
-
-Acabado o almoço, dava umas voltas pela chacara, chacara em que
-predominavam as fruteiras nacionaes, recebendo a pitanga e o camboim os
-mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia, como se fossem
-bem cerejas ou figos.
-
-O passeio era demorado e philosophico. Conversando com o preto
-Anastacio, que lhe servia ha trinta annos, sobre cousas antigas--o
-casamento das princezas, a quebra do Souto e outras--o Major continuava
-com o pensamento preso nas problemas que o preoccupavam ultimamente.
-Após uma hora ou menos, voltara á bibliotheca e mergulhava nas
-revistas do Instituto Historico, no Fernão Cardim, nas cartas de
-Nobrega, nos annaes da Bibliotheca, no von den Stein e tomava notas
-sobre notas, guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os
-indios. Não fica bem dizer estudava, porque já o fizera ha tempos,
-não só no tocante á lingua, que já quasi falara, como tambem nos
-simples aspectos ethnographicos e anthropologicos. Recordava (é melhor
-dizer assim), affirmava certas noções dos seus estudos anteriores,
-visto estar organizando um systema de ceremonias e festas que se
-baseasse nos costumes dos nossos selvicolas e abrangesse todas as
-relações sociaes.
-
-Para bem se comprehender o motivo disso, é precizo não esquecer que o
-Major, depois de trinta armas de meditação patriotica, de estudos e
-reflexões, chegava agora ao periodo da fructificação. A convicção
-que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro paiz do mundo e o seu
-grande amor á patria, eram agora activos e impelliram-no a grandes
-commettimemtos. Elle sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir, de
-obrar e de concretizar suas idéas. Eram pequenos melhoramentos, simples
-toques, porque em si mesma (era a sua opinião), a grande patria do
-Cruzeiro só precizava de tempo para ser superior á Inglaterra.
-
-Tinha todos os climas, todos os fructos, todos os mineraes e animaes
-uteis, as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais
-hospitaleira, mais intelligente e mais doce do mundo--o que precizava
-mais? Tempo e um pouco de originalidade. Portanto, duvidas não
-fluctuavam mais no seu espirito, mas no que se referia á originalidade
-de costumes e usanças, não se tinham ellas dissipado, antes se
-transformaram em certeza após tomar parte na folia do _Tangolomango_,
-numa festa que o general dera em casa.
-
-Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veiu
-despertar no general e na familia um gosto pelas festanças, cantigas e
-habitos genuinamente nacionaes como se diz por ahi. Houve em todos um
-desejo de sentir, de sonhar, de poetar á maneira popular dos velhos
-tempos. Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto taes cerimonias na
-sua infancia: D. Maricota, sua mulher, até ainda se lembrava de uns
-versos de Reis; e os seus filhos, cinco moças e um rapaz, viram na
-cousa um pretexto de festas e, portanto, applaudiram o enthusiasmo dos
-progenitores. A modinha era pouco; os seus espiritos pediam cousa mais
-plebea, mais caracteristica e extravagante.
-
-Quaresma ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma
-chegança, á moda do Norte, por occasião do anniversario de sua
-praça. Em casa do general era assim: qualquer anniversario tinha a sua
-festa, de fórma que havia bem umas trinta por anno, não contando
-domingos, dias feriados e santificados em que se dansava tambem.
-
-O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e dansas
-tradicionaes, entretanto viu logo a significação altamente patriotica
-do intento. Approvou e animou o vizinho. Mas quem havia de ensaiar, de
-dar os versos e a musica? Alguem lembrou a tia Maria Rita, uma preta
-velha, que morava em Bemfica, antiga lavadeira da familia Albernaz. Lá
-foram os dous, o general Albernaz e o major Quaresma, alegres,
-apressados, por uma linda e crystallina tarde de Abril.
-
-O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não
-posuisse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma unica
-batalha, não tivera um commando, nada fizera que tivesse relação com
-a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fôra sempre ajudante de
-ordens, assistente, encarregado disso ou daquillo, escripturario,
-almoxarife, e era secretario do Conselho Supremo Militar, quando, se
-reformou em general. Os seus habitos eram de um bom chefe de secção e
-a sua intelligencia não era muito differente dos seus habitos. Nada
-entendia de guerras, de estrategia, de tactica ou de historia militar; a
-sua sabedoria a tal respeito estava reduzida ás batalhas do Paraguay,
-para elle a maior e a mais extraordinaria guerra de todos os tempos.
-
-O altisonante titulo de general, que lembrava cousas sobrehumanas dos
-Cesares, dos Tuxennes e dos Gustavos Adolphos, ficava mal naquelle homem
-placido, mediocre, bonachão, cuja unica preoccupação era casar as
-cinco filhas e arranjar _pistolões_ para fazer passar o filho nos
-exames do Collegio Militar. Comtudo, não era conveniente que se
-duvidasse das suas aptidões guerreiras. Elle mesmo, percebendo o seu ar
-muito civil, de onde em onde, contava um episodio de guerra, uma
-anedocta militar. «Foi em Lommas Valentinas, dizia elle»... Se alguem
-perguntava: «O general assistiu a batalha»? Elle respondia logo:
-«Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vesperas. Mas soube pelo
-Camisão, pelo Venancio que a cousa esteve preta».
-
-O bonde que os levava até á velha Maria Rita, percorria um dos trechos
-mais interessantes da cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da
-cidade, antigo termino de um picadão que ia ter a Minas, se esgalhava
-para S. Paulo e abria communicações com o Curato de Santa Cruz.
-
-Por ahi em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de
-Minas e ainda ultimamente os chamados generos do paiz. Não havia ainda
-cem annos que as carruagens d'El Rey D. João VI, pesadas como naus, a
-balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por ali
-para irem ter ao longiquo Santa Cruz. Não se póde crer que a cousa
-fosse lá muito imponente; a Côrte andava em apuros de dinheiro e o rei
-era relaxado. Não obstante os soldados remendados, tristemente montados
-em _pangarés_ desanimados, o prestito devia ter a sua grandeza, não
-por elle mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos
-tinham que dar á sua lamentavel majestade.
-
-Entre nós tudo é inconsistente, provisorio, não dura. Não havia ali
-nada que lembrasse esse passado. As casas velhas, com grandes janellas,
-quasi quadradas, e vidraças de pequenos vidros eram de ha bem poucos
-annos, menos de cincoenta.
-
-Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquillo sem reminiscencias e foram
-até ao ponto. Antes perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção
-da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animaes e
-corridas, tendo grandes ferraduras, cabeças de cavallos, panoplias de
-chicotes e outros emblemas hippicos, nos pilares dos portões, nas
-almofadas das portas, por toda parte onde taes distinctivos fiquem bem e
-dêm na vista.
-
-A casa da velha preta ficava além do ponto, para as bandas da estação
-da estrada de ferro Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação.
-Sobre um largo terreiro, negro de moinha de carvão de pedra, médas de
-lenha e immensas tulhas de saccos de carvão vegetal se accumulavam;
-mais adiante um deposito de locomotivas e sobre os trilhos algumas
-manobravam e outras arfavam sob pressão.
-
-Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo
-estivera secco e por isso se podia andar por elle. Para além do
-caminho, extendia-se a vasta região de mangues, uma zona immensa,
-triste e feia, que vai até ao fundo da bahia e, no horizonte, morre ao
-sopé das montanhas azues de Petropolis. Chegaram á casa da velha. Era
-baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas portuguezas. Ficava um
-pouco afastada da estrada. Á direita havia um monturo: restos de
-cozinha, trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira--um
-sambaqui a fazer-se para gaudio de um archeologo de futuro remoto: á
-esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto á cerca, no mesmo lado, havia
-um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça appareceu na janella
-aberta.
-
---Que desejam?
-
-Disseram o que queriam e approximaram-se. A moça gritou para o interior
-da casa:
-
---Vovó estão ahi dous _moços_ que querem falar com a senhora. Entrem,
-façam o favor--disse ella depois, dirigindo-se ao General e ao seu
-companheiro.
-
-A sala era pequena e de telha vã. Pelas paredes, velhos chromos de
-folinhas, registros de Santos, recortes de illustrações de jornaes
-baralhavam-se e subiam por ellas acima até dous terços da altura. Ao
-lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Victor Emmanuel
-com enormes bigodes em desordem; um chromo sentimental de folhinha--uma
-cabeça de mulher em posição de sonho--parecia olhar um S. João
-Baptista ao lado. No alto da porta que levava ao interior da casa, uma
-lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a Conceição de louça.
-
-Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando
-o peito descamado, enfeitado com um collar de missangas de duas voltas.
-Capengava de um pé e parecia querer ajudar a marcha, com a mão
-esquerda pousada na perna correspondente.
-
---Boas tardes, tia Maria Rita disse o General.
-
-Ella respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava.
-O General atalhou:
-
---Não me conhece mais? Sou o General, o Coronel Albernaz.
-
---Ah! É sô coroné!... Ha quanto tempo! Como está nhã Maricota?
-
---Vai bem.
-
---Minha velha, nós queriamos que você nos ensinasse umas cantigas.
-
---Quem sou eu, yôyô!
-
---Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe
-o _Bumba meu boi_?
-
---Quá, yôyô, já mi esqueceu.
-
---E o _Boi espacio_?
-
---Cousa véia, do tempo do captiveiro--p'ra que sô coroné qué sabê
-isso?
-
-Ella fallava arrastando as syllabas, com um doce sorriso e um olhar
-vago.
-
---É para uma festa... Qual é a que você sabe?
-
-A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma
-cousa, deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes
-immaculados:
-
---Vovó já não se lembra.
-
-O General, que a velha chamava Coronel, por tel-o conhecido nesse posto,
-não attendeu a observação da moça e insistiu:
-
---Qual esquecida, o que! Deve saber ainda alguma cousa, não é, titia?
-
---Só sei o bicho «Tutu», disse a velha.
-
---Cante lá!
-
---Yôyô sabe! Não sabe? quá, sabe!
-
---Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu
-amigo, o Major Polycarpo, se sei.
-
-Quaresma fez com a cabeça signal affirmativo e a preta velha, talvez
-com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande
-casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor recordar-se, e
-entôou:
-
-
- «É vêm tutu'
- Por detrás do murundu
- P'ra cumê sinhosinho
- C'um bucado de angu'».
-
-
---Ora! fez o General com enfado, isso é cousa antiga de emballar
-crianças. Você não sabe outra?
-
---Não, sinhô. Já mi esqueceu.
-
-Os dous sahiram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo
-não guardava as tradições de trinta annos passados? Com que rapidez
-morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções?
-Era bem um signal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade
-diante daquelles povos tenazes que os guardam durante seculos!
-Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições,
-mantel-as sempre vivazes nas memorias e nos costumes...
-
-Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um numero bom para a festa
-que ia dar, e escapava-lhe. Era quasi a esperança de casamento de uma
-das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma dellas já estava
-garantida, graças a Deus!
-
-O crepusculo chegava e elles entraram em casa mergulhados na melancolia
-da hora.
-
-A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismenia,
-informou que nas immediações morava um literato, teimoso cultivador
-dos contos e canções populares do Brasil. Foram a elle. Era um velho
-poeta que teve sua fama ahi pelos setenta e tantos, homem doce e ingenuo
-que se deixara esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em
-publicar collecções que ninguem lia, de contos, canções, adagios e
-dictados populares.
-
-Foi grande a sua alegria quando soube o objecta da visita daquelles
-senhores. Quaresma estava animado e falou com calor; e Albernaz tambem,
-porque via na sua festa,--com um numero de _folk-lore_, meio de chamar a
-attenção sobre sua casa, attrahir gente e... casar as filhas.
-
-A sala em que foram recebidos, era ampla; mas estava tão cheia de
-mesas, estantes, pejadas de livros, pastas, latas, que mal se podia
-mover nella. Numa lata lia-se: Santa Anna dos Tócos; numa pasta: S.
-Bonifácio do Cabresto.
-
---Os Srs. não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia
-popular! que surprezas ella reserva!... Ainda ha dias recebi uma carta
-de Urubu, de Baixo com uma linda canção. Querem ver?
-
-O colleccionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde
-leu:
-
-
- _Se Deus enxergasse pobre
- Não me deixaria assim:
- Dava no coração della
- Um logarsinho p'ra mim._
-
- _O amor que tenho por ella
- Já não cabe no meu peito;
- Sae-me pelos olhos afóra
- Vôa ás nuvens direito._
-
-
---Não é bonito?... Muito! Se os Srs. conhecessem então o cyclo do
-macaco, a collecção de historias que o povo tem sobre o simio?... Oh!
-Uma verdadeira epopéa comica!
-
-Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de algum que
-encontrou um semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado
-pela paixão do foklorista, tinha mais intelligencia no olhar com que o
-encarava.
-
-O velho poeta guardou, a canção de Urubu de Baixo, numa pasta; e foi
-logo á outra, donde tirou varias folhas de papel. Veio até junto aos
-dous visitantes e disse-lhes:
-
---Vou ler aos senhores uma pequena historia do macaco, das muitas que o
-nosso povo conta... Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo
-publical-as, sob o titulo _Historias do Mestre Simão_.
-
-E, sem perguntar se os incommodava ou se estavam dispostos a ouvir,
-começou:
-
-«_O macaco perante o juiz de direito_. Andava um bando de macacos em
-troça, pulando de arvore em arvore, nas bordas de uma gróta. Eis
-senão quando, um delles vê no fundo uma onça que lá caira. Os
-macacos se enternecem e resolvem salval-a. Para isso, arrancaram cipós,
-emendaram-nos bem, amarraram a corda assim feita á cintura de cada um
-delles e atiraram uma das pontas á onça. Com o esforço reunido de
-todos, conseguiram içal-a e logo se desamarraram, fugindo. Um delles,
-porém, não o pôde fazer a tempo e a onça segurou-o immediatamente.
-
---Compadre Macaco, disse ella, tenha paciencia. Estou com fome e você
-vai fazer-me o favor de deixar-se comer.
-
-O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexivel. Simão
-então lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram
-a elle; o macaco sempre agarrado pela onça. É juiz de direito entre os
-animaes, o jaboty, cujas audiencias, são dadas á borda dos rios,
-collocando-se elle em cima de uma pedra. Os dous chegaram e o macaco
-expôz as suas razões.
-
-O jaboty ouviu-os e no fim ordenou;
-
---Bata palmas.
-
-Apezar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas.
-Chegou a vez da onça, que tambem expôz as suas razões e motivos. O
-juiz, como da primeira vez, determinou ao felino:
-
---Bata palmas.
-
-A onça não teve remedio senão largar o macaco, que se escapou, e
-tambem o juiz, atirando-se n'agua».
-
-Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous:
-
---Não acham interessante? Muito! Ha no nosso povo muita invenção,
-muita creação, verdadeiro material para _fabliaux_ interessantes... No
-dia em que apparecer um literato de genio que o fixe numa forma
-immortal... Ah! Então!
-
-Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de
-satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lagrimas furtivas.
-
---Agora, continuou elle, depois de passada a emoção--vamos ao que
-serve. _O boi espacio_ ou o _Bumba meu boi_ ainda é muita cousa para
-vocês... É melhor irmos de vagar, começar pelo mais facil... Está
-ahi o _Tangolomango_, conhecem?
-
---Não, disseram os dous.
-
---É divertido. Arranjem dez crianças, uma mascara de velho, uma roupa
-estrambolica para um dos Srs. que eu ensaio.
-
-O dia chegou. A casa do General estava cheia. Cavalcanti viera; e elle e
-a noiva, á parte, no vão de uma janella, pareciam ser os unicos que
-não tinham interesse pela folia. Elle, falando muito, cheio de
-trejeitos no olhar; ella, meio fria, deitando de quando em quando, para
-o noivo, um olhar de gratidão.
-
-Quaresma, foz o _Tangolomango_, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do
-General, pôz uma immensa mascara de velho, agarrou-se a um bordão
-curvo, em forma de baculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram
-em côro:
-
-
- _Uma mãe teve dez filhos
- Todos os dez dentro de um pote:
- Deu o Tangolomango nelle
- Não ficaram senão nove._
-
-
-Por ahi, o major avançava, batia com o baculo no assoalho, fazia: hu!
-hu! hu! as crianças fugiam, afinal elle agarrava uma e levava para
-dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando, pela
-quinta estrophe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista, escura e cahiu.
-Tiraram-lhe a mascara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a
-si.
-
-O accidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo _folk-lore_.
-Comprou livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção
-lhe veiu ao fim de algumas semanas de estudo.
-
-Quasi todas as tradições e canções eram estrangeiras; o proprio
-_Tangolomango_ o era tambem. Tornava-se, portanto, precizo arranjar
-alguma cousa propria, original, uma creação da nossa terra e dos
-nossos ares.
-
-Essa idéa levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéa
-traz outra, logo ampliou o seu proposito e eis a razão porque estava
-organizando um codigo de relações, de cumprimentos, de cerimonias
-domesticas e festas, calcado nos preceitos tupys.
-
-Desde dez dias que se entregava a essa ardua tarefa, quando (era
-domingo) lhe bateram á porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não
-apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabellos,
-como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de
-dentro, o Anastacio tambem, e o compadre e a filha, pois eram elles,
-ficaram estupefactos no limiar da porta.
-
---Mas que é isso, compadre?
-
---Que é isso, Polycarpo?
-
---Mas, meu padrinho...
-
-Elle ainda chorou um pouco. Enxugou as lagrimas e, depois, explicou com
-a maior naturalidade:
-
---Eis ahi! Vocês não têm a minima noção das cousas da nossa terra.
-Queriam que eu apertasse a mão... Isto não é nosso! Nosso cumprimento
-é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os
-tupinambás.
-
-O seu compadre Vicente, a filha e D. Adelaide entreolharam-se, sem saber
-o que dizer. O homem estaria doido? Que extravagancia!
-
---Mas, Sr. Polycarpo, disse-lhe o compadre, é possivel que isto seja
-muito brasileiro, mas é bem triste, compadre.
-
---De certo, padrinho, accrescentou a moça com vivacidade; parece até
-agouro...
-
-Este seu compadre era italiano de nascimento. A historia das suas
-relações vale a pena contar. Quitandeiro ambulante, fôra fornecedor
-da casa de Quaresma ha vinte e tantos annos. O Major já tinha as suas
-idéas patrioticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e
-até gostava de vel-o suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas
-vermelhas nas faces muito brancas de europeu recem-chegado. Mas um bello
-dia, ia Quaresma pelo largo do Paço, muito distrahido, a pensar nas
-maravilhas architectonicas do chafariz do mestre Valentim, quando veio a
-encontrar-se com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquella
-simplicidade d'alma que era bem sua, e notou que o rapaz tinha alguma
-preoccupação séria. Não só de onde em onde, soltava exclamações
-sem ligação com a conversa actual, como tambem, cerrava os labios,
-rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio
-a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu collega, estando
-disposto a matal-o, pois perdera o credito e em breve estaria na
-miseria. Havia na sua affirmação uma tal energia e um grande e
-extranho accento de ferocidade, que fizeram empregar o Major toda a sua
-doçura e persuasão para dissuadil-o do proposito. E não ficou nisto
-só: emprestou-lhe tambem dinheiro. Vicente Coleoni poz uma quitanda,
-ganhou uns contos de réis, fez-se logo empreiteiro, enriqueceu, casou,
-veiu a ter aquella filha, que foi levada á pia pelo seu bemfeitor.
-Inutil é dizer que Quaresma não notou a contradicção entre as suas
-idéas patrioticas e o seu acto.
-
-É verdade que elle não as tinha ainda muito firmes, mas já fluctuavam
-na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciencia como tenues desejos,
-veleidades de rapaz de pouco mais de vinte annos, veleidades que não
-tardariam tomar consistencia, e só esperavam os annos para desabrochar
-em actos.
-
-Fora, pois, ao seu compadre Vicente e á sua afilhada Olga que elle
-recebera com o mais legitimo ceremonial guaytacaz, e, se não envergara
-o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o não
-tel-o. Estava até á mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.
-
---Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre elle
-os seus olhos muito luminosos.
-
-Havia entre os dous uma grande affeição. Quaresma era um tanto
-reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no economico
-nas demonstrações affectuosas. Adivinhava-se, entretanto, que a moça
-occupava-lhe no coração o logar dos filhos que não tivera nem teria
-jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente,
-não escondia a sua affeição tanto mais que sentia confusamente nelle
-alguma cousa da superior, uma ancia de idéal, uma tenacidade em seguir
-um sonho, uma idéa, um vôo emfim para as altas regiões do espirito
-que ella não estava habituada a ver em ninguem do mundo que
-frequentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a
-commum ás moças de seu nascimento. Vinha de um pendôr proprio, talvez
-das proximidades européas do seu nascimento, que a fizeram um pouco
-differente das nossas moças.
-
-Fora com um olhar luminoso e prescrutador que ella perguntara ao
-padrinho.
-
---Então padrinho, lê-se muito?
-
---Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a
-emancipação de um povo.
-
-Vicente fôra com D. Adelaide para o interior da casa e os dous
-conversavam a sós na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma
-tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta segurança, elle que
-antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar--que diabo! Não,
-não era possivel... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos
-seus olhos--uma alegria de mathematico que resolveu um problema, de
-inventor feliz!
-
---Não se vá metter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.
-
---Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso
-violencias...
-
-Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo
-fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça. O Major fez as
-apresentações.
-
---Já o conhecia de nome, Sr. Ricardo, disse Olga.
-
-Coração dos Outros encheu-se de um alviçareiro contentamento. A sua
-physionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a
-sua cutis que era reseccada e de um tom de velho marmore, como que ficou
-macia e joven. Aquella moça parecia rica, era fina e bonita,
-conhecia-o--que satisfação! Elle que era sempre um tanto parvo e
-atrapalhado, quando se encontrava diante das moças, fossem de que
-condição fossem, animava-se, soltava a lingua, amaciava a voz e ficava
-numeroso e eloquente.
-
---Leu então os meus versos, não é, minha senhora?
-
---Não tive esse prazer, mas li, ha mezes, uma apreciação sobre um
-trabalho seu.
-
---No «Tempo», não foi?
-
---Foi.
-
---Muito injusta! accrescentou Ricardo. Todos os criticos se atêm a essa
-questão de metrificação. Dizem que os meus versos não são versos...
-São, sim; mas são versos para violão. V. Ex. sabe que os versos para
-musica têm alguma cousa de differente dos communs, não é? Não ha,
-portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam
-outra metrica e outro systema, não acha?
-
---De certo, disse a moça. Mas parece-me que o Sr. faz versos para a
-musica e não musica para os versos.
-
-E ella sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar
-luminoso, emquanto Ricardo, desconfiado, lhe sondava a intenção com os
-seus olhinhos vivos e meudos de camondongo.
-
-Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio:
-
---O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o
-violão.
-
---Eu sei, padrinho. Eu sei...
-
---Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a
-serio essas tentativas nacionaes mas, na Europa, todos respeitam e
-auxiliam... Como é que se chama, major, aquelle poeta que escreveu em
-francez popular?
-
---Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francez popular; é o
-provençal, uma verdadeira lingua.
-
---Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado,
-respeitado? Eu, no tocante ao violão, estou fazendo o mesmo.
-
-Olhou triumphante para um e outro circumstante: e Olga dirigindo-se a
-elle, disse:
-
---Continue na tentativa, Sr. Ricardo, que é digno de louvor.
-
---Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um bello
-instrumento e tem grandes difficuldades. Por exemplo...
-
---Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Ha outros mais difficeis.
-
---O piano? perguntou Ricardo.
-
---Que piano! O maracá, a inubia.
-
---Não conheço.
-
---Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionaes possiveis, os
-unicos que o são verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados,
-daquella gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta
-linda terra. Os caboclos!
-
---Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo.
-
---De caboclo! Que é que tem? O Lery diz que são muito sonoros e
-agradaveis de ouvir... Se é por ser de caboclo, o violão tambem não
-vale nada--é um instrumento do capadocio.
-
---De capadocio, major! Não diga isso...
-
-E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpreza,
-espantada, sem atinar, som explicação para aquella inopinada
-transformação de genio do seu padrinho, até ali tão socegado e tão
-calmo.
-
-
-
-
-III
-
-A NOTICIA DO GENELICIO
-
-
---Então quando se casa, D. Ismenia?
-
---Em Março. Cavalcanti já está formado e...
-
-Afinal a filha do General pôde responder com segurança á pergunta que
-se lhe vinha fazendo ha quasi cinco annos. O noivo finalmente encontrara
-o fim do curso de dentista e marcara o casamento para dahi a tres mezes.
-A alegria foi grande na familia; e, como em tal caso, uma alegria não
-podia passar sem um baile, uma festa foi annunciada para o sabbado que
-se seguia ao pedido da pragmatica.
-
-As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes
-que a irmã nubente. Parecia que ella lhes ia deixar o caminho
-desembaraçada, e fôra a irmã quem até ali tinha impedido que se
-casassem.
-
-Noiva havia quasi cinco annos, Ismenia já se sentia meio casada. Esse
-sentimento junto á sua natureza pobre fel-a não sentir um pouco mais
-de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ella, pão era negocio de
-paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéa,
-uma pura idéa. Aquella sua intelligencia rudimentar tinha separado da
-idéa de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade,
-a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer:
-«Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar»... Ou senão:
-«Você preciza aprender a pregar botões, porque quando você se
-casar...»
-
-A todo instante e a toda hora, lá vinha aquelle--«porque, quando você
-se casar...»--e a menina foi se convencendo de que toda a existencia
-só tendia para o casamento. A instrucção, as satisfações intimas, a
-alegria, tudo isso era inutil; a vida se resumia numa cousa: casar.
-
-De resto, não era só dentro do sua familia que ella encontrava aquella
-preoccupação. No collegio, na rua, em casa das familias conhecidas,
-só se falava em casar. «Sabe, D. Maricota, a Lili casou-se; não fez
-grande negocio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa»; ou
-então: «A Zezé está doida para arranjar casamento mas é tão feia,
-meu Deus!...»
-
-A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéas, o
-nosso proprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para
-aquelle cerebrozimho; e, de tal forma casar-se se lhe representou cousa
-importante, uma especie de dever, que não se casar, ficar solteira,
-_tia_, parecia-lhe um crime, uma vergonha.
-
-De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa
-profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para
-um grande afecto, na sua intelligencia a idéa de casar-se incrustou-se
-teimosamente como uma obsessão.
-
-Ella não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o
-narizinho mal feito, mas galante, não muito baixa nem muito magra e a
-sua apparencia de bondade passiva, de indolencia de corpo, de idéas e de
-sentidos era até um bom typo das meninas a que os namorados
-chamam--_bonitinhas_. O seu traço de belleza dominante, porém, eram os
-seus cabellos: uns bastos cabellos castanhos, com tons de ouro, sedosos
-até ao olhar.
-
-Aos dezenove annos arranjou namoro com o Cavalcanti, e á fraqueza de
-sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a
-facilidade com que o futuro dentista a conquistou.
-
-O pai fez má cara. Elle andava sempre ao par dos namoros das filhas:
-«Diga-me sempre, Maricota--dizia elle--quem são. Olho vivo!...» É
-melhor prevenir que curar... Póde ser um valdevinos e...» Sabendo que
-o pretendente á Ismenia era um dentista, não gostou muito. Que é um
-dentista? perguntava elle de si para si. Um cidadão semi-formado, uma
-especie de barbeiro. Preferia um official, tinha montepio e meio soldo;
-mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e elle
-accedeu.
-
-Começou então Cavalcanti a frequentar a casa na qualidade de noivo
-_paisano_ isto é, que não pediu, não é ainda _official_.
-
-No fim do primeiro anno, tendo noticia das difficuldades com que o
-futuro genro lutava para acabar os estudos, o General foi generosamente
-em seu soccorro. Pagou-lhe taxas de matriculas, livros e outras cousas.
-Não era raro que após uma longa conversa com a filha, D. Maricota
-viesse ao marido e dissesse: «Chico, arranja-me vinte mil réis que o
-Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia».
-
-O General era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretenção
-marcial, não havia no seu caracter a minima falha. Demais, aquella
-necessidade de casar as filhas ainda o faziam melhor quando se tratava
-dos interesses dellas.
-
-Elle ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para
-evitar despezas ao futuro genro, convidou-o a jantar em casa todo o dia;
-e assim o namoro foi correndo até ali.
-
-Enfim--dizia Albernaz á mulher, na noite do pedido, quando já
-recolhidos--a cousa vai acabar. Felizmente, respondia-lhe D. Maricota,
-vamos descontar esta lettra.
-
-A satisfação resignada do General era porém, falsa; ao contrario:
-elle estava radiante. Na rua, se encontrava um camarada, no primeiro
-momento azado, lá dizia elle:
-
---É um inferno, esta vida! imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho
-que casar uma filha!
-
-Ao que Castro interrogava:
-
---Qual dellas?
-
---A Ismenia, a segunda, respondia Albernaz e logo accrescentava: tu é
-que és feliz: só tiveste filhos.
-
---Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malicia, aprendi a receita.
-Porque não fizeste o mesmo?
-
-Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazens, ás lojas de
-louça, comprava mais pratos, mais compoteiras, um centro de mesa,
-porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundancia e riqueza
-que traduzisse o seu grande contentamento.
-
-Na manhã do dia da festa commemorativa do pedido, D. Maricota amanheceu
-cantando. Era raro que o fizesse: mas nos dias de grande alegria, ella
-cantarolava uma velha aria, uma cousa do seu tempo de moça e as filhas
-que sentiam nisto signal certo de alegria corriam a ella, pedindo-lhe
-isto ou aquillo.
-
-Muito activa, muito diligente, não havia dona de casa mais economica,
-mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço
-das criadas. Logo que despertou, pôz tudo em actividade, as criadas e
-as filhas. Vivi e Quinota fôram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram
-as raparigas na arrumação das salas e dos quartos, emquanto ella e
-Ismenia iam arrumar a mesa, dispol-a com muito gosto e esplendor. O
-movel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria
-de D. Maricota era grande; ella não comprehendia que uma mulher pudesse
-viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava
-exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e deshonroso para a
-familia. A sua satisfação não vinha do simples facto de ter
-descontado uma letra, como ella dizia. Vinha mais profundamente dos seus
-sentimentos maternos e de familia.
-
-Ella arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indifferente.
-
---Mas, minha filha, dizia ella, até parece que não é você quem se
-vai casar! Que cara! Você parece ahi uma mosca morta.
-
---Mamãe, que quer que eu faça?
-
---Não é bonito rir-se muito, andar ahi como uma serigaita, mas tambem
-assim como você está! Eu nunca vi noiva assim.
-
-Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas
-logo lhe tomava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibração
-sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e não tardava em
-cahir naquelle doentia lassidão que lhe era propria.
-
-Veiu muita gente. Além das moças e as respeitaveis mães, acudiram ao
-convite do General, o Contra-Almirante Caldas, o Dr. Florencio,
-engenheiro das Aguas, o Major honorario Innocencio Bustamante, o Sr.
-Bastos, guarda-livros, ainda parente de D. Maricota, e outras pessoas
-importantes. Ricardo não fôra convidado porque o General temia a
-opinião publica sobre a presença delle em festa seria; Quaresma o
-fôra, mas não viéra; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros.
-
-Ás seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismenia,
-cumprimentado-a, não sem um pouco de inveja no olhar.
-
-Irene, uma alourada e alta, aconselhava:
-
---Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.
-
-Tratava-se do enxoval. Todas ellas, embora solteiras, davam conselhos,
-sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes e as que podiam
-ser dispensadas. Estavam ao par.
-
-A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:
-
---Eu, hontem, vi na rua da Constituição um dormitorio de casal, muito
-bonito, você porque não vai ver, Ismenia? Parece barato.
-
-A Ismenia era a menos enthusiasmada, quasi não respondia ás perguntas;
-e, se as respondia, ora por monosyllabos. Houve um momento em que sorriu
-quasi com alegria e abandono. Estephania, a doutora, a normalista, que
-tinha nos dedos um annel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num
-dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma
-confidencia. Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quizesse
-confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e
-disse alto:
-
---Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei...
-
-Ella alludia á resposta que, á sua confidencia, Ismenia tinha dado com
-parcimonia: qual o que!
-
-Todas ellas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma
-parte dos velhos rodeavam Cavalcanti, muito solenne, dentro de um grande
-fraque preto.
-
---Então, Dr. acabou, heim? dizia este a geito de um cumprimento.
-
---É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os
-embargos--fui de um heroismo!...
-
---Conhece o Chavantes? perguntava um outro.
-
---Conheço. Um chronico, um pandego...
-
---Foi seu collega?
-
---Foi, isto é, elle é do curso de medicina. Matriculamo-nos no mesmo
-anno.
-
-Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de attender a este e já era
-obrigado a ouvir a observação de outro.
-
---É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava
-agora a quebrar a cabeça no _Dever_ e _Haver_. Hoje, torço a orelha e
-não sai sangue.
-
---Actualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente
-Cavalcanti. Com essas academias livres... Imaginem que já se fala numa
-Academia Livre de Odontologia! É o cumulo! Um curso difficil e caro,
-que exige cadaveres, apparelhos, bons professores, como é que
-particulares poderão mantel-o? Se o Governo mantem mal...
-
---Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabens. Digo-lhe o que
-disse ao meu sobrinho, quando se formou: vá furando!
-
---Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.
-
---Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.
-
---Boa carreira.
-
-Nos intervallos da conversa, todos elles olhavam o novel dentista como
-se fosse um ente sobrenatural.
-
-Para aquella gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era
-homem e mais alguma cousa sagrada e de essencia superior; e não
-juntavam á imagem que tinham delle actualmente, as cousas que
-porventura elle pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava
-nella de modo algum; e aquelle typo, para alguns, continuava a ser
-vulgar, commum, na apparencia, mas a sua substancia tinha mudado, era
-outra differente da delles e fora ungido de não sei que cousa vagamente
-fóra da natureza terrestre, quasi divina.
-
-Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os
-menos importantes. O General ficara na sala de jantar, fumando, cercado
-dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com elle o
-Contra-Almirante Caldas, o Major Innocencio, o Dr. Florencio e o
-Capitão de Bombeiros Segismundo.
-
-Innocencio aproveitou a occasião para fazer uma consulta a Caldas sobre
-assumpto de legislação militar. O Contra-Almirante era
-interessantissimo. Na marinha, por pouco que não fazia _pendant_ com
-Albernaz no Exercito. Nunca embarcara a não ser na guerra do Paraguay,
-mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era delle.
-Logo que se viu 1° Tenente, Caldas foi aos poucos se mettendo comsigo,
-abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos e sem
-amigos nos altos logares, se esqueciam delle e não lhe davam
-commissões de embarque. É curiosa essa cousa das administrações
-militares: as commissões são merecimento, mas só se as dá aos
-protegidos.
-
-Certa vez, quando era já Capitão Tenente, deram-lhe um embarque em
-Matto Grosso. Nomearam-no para commandar o couraçado «Lima Barros».
-Elle lá foi, mas, quando se apresentou ao commandante da flotilha, teve
-noticia que não existia no rio Paraguay semelhante navio. Indagou daqui
-e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal «Lima Barros»
-fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguay. Consultou o commandante.
-
---Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia immediatamente para a
-flotilha do Rio Grande.
-
-Eil-o a fazer malas para o Alto-Uruguay, onde chegou emfim, depois de
-uma penosa e fatigante viagem. Mas ahi tambem não estava o tal «Lima
-Barros». Onde estaria então? Quiz telegraphar para o Rio de Janeiro,
-mas teve medo de ser censurado, tanto mais, que não andava em cheiro de
-santidade. Esteve assim um mez em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e
-sem saber que destino tomar. Um dia lhe veiu a idéa de que o navio bem
-poderia estar no Amazonas. Embarcou na intenção de ir ao extremo norte
-e quando passou pelo Rio, conforme a praxe, apresentou-se ás altas
-autoridades da Marinha. Foi preso e submettido a conselho.
-
-O «Lima Barros» tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguay.
-
-Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus
-generaes. Todos o tinham na conta de parvo, de um commandante de opereta
-que andava á cata do seu navio pelos quatro pontos cardeaes.
-Deixaram-n'o _encostado_, como se diz na gyria militar, e elle levou
-quasi quarenta annos para chegar de Guarda-Marinha a Capitão de
-Fragata. Reformado no posto immediato, com graduação do seguinte, todo
-o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de
-estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referissem a
-promoções de officiaes. Comprava repertorios de legislação,
-armazenava collecções de leis, relatorios, e encheu a casa de toda
-essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos,
-pedindo a modificação da sua reforma, choviam sobre os ministros da
-Marinha. Corriam mezes o infinito rosario de repartições e eram sempre
-indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal
-Militar. Ultimamente constituira advogado junto á justiça federal e
-lá andava elle de cartorio em cartorio, acotovelando-se com meirinhos,
-escrivães, juizes e advogados--esse poviléo rebarbativo do fôro que
-parece ter contrahido todas as miserias que lhe passam pelas mãos e
-pelos olhos.
-
-Innocencio Bustamante tambem tinha a mesma mania demandista. Era
-renitente, teimoso, mas servil e humilde. Antigo voluntario da patria,
-possuindo honras de Major, não havia dia em que não fosse ao quartel
-general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia
-inclusão no Asylo dos Invalidos, noutro honras de Tenente-Coronel,
-noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha nenhum, ia ver o dos
-outros.
-
-Não se prezou mesmo de tratar do pedido de um maniaco que, por ser
-tenente honorario e tambem da Guarda Nacional, requereu lhe fosse
-passada a patente de major, visto que dous galões mais outros dous
-fazem quatro--o que quer dizer: Major.
-
-Conhecedor dos estudos meticulosos do Almirante, Bustamante fez a sua
-consulta.
-
---Assim de prompto, não sei. Não é a minha especialidade o Exercito,
-mas vou ver. Isto tambem anda tão atrapalhado!
-
-Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos que lhe
-davam um ar de _commodoro_ ou de chacareiro portuguez, pois era forte
-nelle o typo luzitano.
-
---Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina!
-
---Não ha mais gente que preste, disse Bustamante.
-
-Segismundo por ahi aventurou tambem a sua opinião dizendo:
-
---Eu não sou militar, mas...
-
---Como não é militar? fez Albernaz com impeto. Os Srs. é que são os
-verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas?
-
---De certo, de certo, fez o Almirante cofiando os favoritos.
-
---Como ia dizendo, continuou Segismundo, apezar de não ser militar, eu
-me animo, a dizer que a nossa força está muito por baixo. Onde está
-um Porto Alegre, um Caxias?
-
---Não ha mais, meu caro, confirmou com voz tenue o Dr. Florencio.
-
---Não sei porque, pois tudo hoje não vai pela sciencia?
-
-Fôra Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e
-retrucou-lhe com certo calor:
-
---Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de _xx_ e _yy_, em
-Curupaity, hein Caldas? hein Innocencio?
-
-O Dr. Florencio era o unico paisano da roda. Engenheiro e empregado
-publico, os annos e o socego da vida lhe tinham feito perder todo o
-saber que porventura pudesse ter tido ao sahir da escola. Era mais um
-guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de
-Albernaz, era raro que não viesse roda a tarde jogar o sólo com o
-General. O Dr. Florencio perguntou:
-
---O Sr. assistiu, não foi, General?
-
-O General não se deteve, não, se atrapalhou, não gaguejou e disse com
-a maxima naturalidade:
-
---Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vesperas. Mas tive muitos
-amigos lá: o Camisão, o Venancio...
-
-Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janella da sala onde
-estavam, não se via nem um monte. O horizonte estava circumscripto aos
-fundos dos quintaes das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a
-lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas
-lembrava tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já
-tinha desapparecido do horizonte e as tenues luzes dos bicos de gaz e
-dos lampeões familiares começavam a accender-se por detraz das
-vidraças.
-
-Bustamante quebrou o silencio:
-
---Este paiz pão vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento,
-pedindo honras de Tenente Coronel, está no ministerio ha seis mezes!
-
---Uma desordem, exclamaram todos.
-
-Era noite. D. Maricota chegou até onde elles estavam, muito activa,
-muito diligente e com o rosto aberto de alegria.
-
---Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao
-Chico, sim?
-
-Albernaz sahiu fóra da róda dos amigos e foi até a um canto da sala,
-onde a mulher lhe disse alguma cousa em voz baixa. Ouviu a mulher,
-depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto, nestes
-termos:
-
---Se não dançam é porque não querem. Estou pegando algum?
-
-D. Maricota approximou-se dos amigos do marido e explicou:
-
---Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguem tira par, ninguem,
-tóca. Estão lá tantas moças, tantos rapazes, é uma pena!
-
---Bem; eu vou lá, disse Albernaz.
-
-Deixou os amigos e foi á sala de visitas dar começo ao baile.
-
---Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa!
-
-E elle mesmo em pessoa ia juntando os pares: «Não General, já tenho
-par, dizia uma moça. Não faz mal, retrucava elle, danse com o
-Raymundinho; o outro espera». Depois de ter dado inicio ao baile, veio
-para a roda dos amigos, suado, mas contente.
-
---Isto de familia! Qual! A gente até parece bôbo, dizia. Você é que
-fez bem, Caldas; não se quiz casar!
-
---Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?
-
---Vamos jogar o sólo, convidou Albernaz.
-
---Somos cinco, como ha de ser? observou Florencio.
-
---Não, eu não jogo, disse Bustamante.
-
---Então jogamos os quatro de garancho? lembrou Albernaz.
-
-As cartas vieram e tambem uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros
-sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. Coube a Florencio dar.
-Começaram, Albernaz tinha um ar attento quando jogava: a cabeça lhe
-cahia sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de
-reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade
-de um Lord Almirante numa partida de «whist». Segismundo jogava com
-todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para
-fugir á fumaça. Bustamante fôra á sala ver as dansas.
-
-Tinham começado a partida, quando dona Quinota, uma das filhas do
-General, atravessou a sala e foi beber agua. Caldas, coçando um dos
-favoritos, perguntou á moça:
-
---Então, D. Quinota, que dê o Genelicio?
-
-A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muchocho e respondeu
-com falso máu humor:
-
---Ué! Sei lá! Ando atrás delle?
-
---Não precisa zangar-se, D. Quinota; é uma simples pergunta, advertiu
-Caldas.
-
-O General que examinava attentamente as cartas recebidas, interrompeu a
-conversa com voz grave:
-
---Eu passo.
-
-D. Quinota retirou-se. Este Genelicio ora o seu namorado. Parente ainda
-de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na familia. A sua
-candidatura era favorecida por todos. D. Maricota e o marido enchiam-n'o
-de festas. Empregado do Thesouro, já no meio da carreira, moço de
-menos de trinta annos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia
-ninguem mais bajulador e submisso do que elle. Nenhum pudor, nenhuma
-vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia.
-Quando sahia, remancheava, lavava tres ou quatro vezes as mãos, até
-poder apanhar o director na porta. Acompanhava-o, conversava com elle
-sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava este ou aquelle
-collega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava
-um ministro, fazia-se escolher como interprete dos companheiros e
-deitava um discurso; nos anniversarios de nascimento, era um soneto que
-começava sempre por--salve--e acabava tambem por--Salve! Tres vezes
-Salve!
-
-O modelo era sempre o mesmo; elle só mudava o nome do ministro e punha
-a data.
-
-No dia seguinte, os jornaes falavam do seu nome, e publicavam o soneto.
-
-Em quatro annos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser
-aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima.
-
-Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente genio.
-Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros
-processos. Um dos que se servia, eram as publicações nas folhas
-diarias. No intuito de annunciar nos ministros e directores que tinha
-uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornaes longos
-artigos sobre contabilidade publica. Eram meras compilações de
-bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citações de autores
-francezes ou portuguezes.
-
-Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande
-conta o seu saber e elle vivia na secção cercado do respeito de um
-genio, um genio do papelorio e das informações. Accresce que Genelicio
-juntava á sua segura posição administrativa, um curso de direito a
-acabar; e tantos titulos juntos não podiam deixar de impressionar
-favoravelmente ás preoccupações casamenteiras do casal Albernaz.
-
-Fóra da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre physico
-fazia comico, mas que a convicção do alto auxilio que prestava ao
-Estado, mantinha e sustentava. Um empregado modelo!...
-
-O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das
-_mãos_ fazia-se um breve commentario ou outro, e no começo ouviam-se
-unicamente as falas sacramentaes do jogo; _sólo, bólo, melhoro,
-passo_. Feitas ellas jogava-se em silencio; da sala, porém, vinha o
-ruido festivo das dansas e das conversas.
-
---Olhem quem está ahi!
-
---O Genelicio, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?
-
-Deixou o chapéo e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos.
-Pequeno, já um tanto curvado, chupado de rosto, com um pince-nez
-azulado, todo elle trahia a profissão, os seus gostos e habitos. Era um
-escripturario.
-
---Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negocios.
-
---Vão bem? perguntou Florencio.
-
---Quasi garantido. O Ministro prometteu... Não ha nada, estou bem
-cunhado!
-
---Estimo muito, disse o General.
-
---Obrigado. Sabe de uma cousa, General?
-
---O que é?
-
---O Quaresma está doido.
-
---Mas... o que? quem foi que te disse?
-
---Aquelle homem do violão. Já está na casa de saude...
-
---Eu logo vi, disse Albernaz, aquelle requerimento era de doido.
-
---Mas não é só, General, accrescentou Genelicio, Fez um officio em
-tupy e mandou ao ministro.
-
---É o que eu dizia, fez Albernaz.
-
---Quem é? perguntou Florencio.
-
---Aquelle vizinho, empregado do Arsenal, não conhece?
-
---Um baixo, de pince-nez?
-
---Este mesmo, confirmou Caldas?
-
---Nem se podia esperar outra cousa, disse o Dr. Florencio. Aquelles
-livros, aquella mania de leitura...
-
---P'ra que elle lia tanto? indagou Caldas.
-
---Telha de menos, disse Florencio.
-
-Genelicio atalhou com autoridade:
-
---Elle não era formado, para que metter-se em livros?
-
---É verdade, fez Florencio.
-
---Isto de livros é bom para os sabios, para os doutores, observou
-Segismundo.
-
---Devia até ser prohibido, disse Genelicio, a quem não possuisse um
-titulo _academico_ ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não
-acham?
-
---De certo, disse Albernaz.
-
---De certo, fez Caldas.
-
---De certo, disse tambem Segismundo.
-
-Calaram-se um instante, e as attenções convergiram para o jogo.
-
---Já sahiram todos os trunfos?
-
---Contasse, meu amigo.
-
-Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silencio. Cavalcanti ia recitar.
-Atravessou a sala triumphantemente, com um largo sorriso na face e foi
-postar-se ao lado do piano, Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz
-metallica, apurando muito os finaes em _s_, começou:
-
-
- A vida é uma comedia sem sentido
- Uma historia de sangue e de poeira
- Um deserto sem luz...
-
-
-E o piano gemia.
-
-
-
-
-IV
-
-DESASTROSAS CONSEQUENCIAS
-DE UM REQUERIMENTO
-
-
-Os acontecimentos a que alludiam os graves personagens reunidos em tomo
-da mesa de sólo, na tarde memoravel da festa commemorativa do pedido de
-casamento de Ismenia, se tinham desenrolado com rapidez fulminante. A
-força de idéas e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado em
-actos imprevistos com uma sequencia brusca e uma velocidade de
-turbilhão. O primeiro facto surprehendeu, mas vieram outros e outros,
-de forma que o que pareceu no começo uma extravagancia, uma pequena
-mania, se apresentou logo em insania declarada.
-
-Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a
-sessão da Camara, o Secretario teve que proceder á leitura de um
-requerimento singular e que veiu a ter uma fortuna de publicidade e
-commentario pouco usual em documentos de tal natureza.
-
-O borborinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensavel
-ao elevado trabalho de legislar, não permittiram que os deputados o
-ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam proximo á mesa, ao
-ouvil-o, proromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes á
-magestade do logar. O riso é contagioso. O Secretario, no meio da
-leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, já ria-se o Presidente, ria
-se o official da acta, ria-se o continuo--toda a mesa e aquella
-população que a cerca, riram-se da petição, largamente, querendo
-sempre conter o riso, havendo em alguns tão franca alegria que as
-lagrimas vieram.
-
-Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço, de
-trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa
-tristeza, ouvindo aquelle rir inoffensivo diante della. Merecia raiva,
-odio, um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava á mesa da
-Camara, mas não aquelle recebimento hilarico, de uma hilaridade
-innocente, sem fundo algum, assim como se estivesse a rir de uma
-palhaçada, de uma sorte de circo de cavallinhos ou de uma careta de
-_clown_.
-
-Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só viam nelle um motivo
-para riso franco e sem maldade. A sessão daquelle dia fôra fria; e,
-por ser assim, as secções dos jornaes referentes á Camara, no dia
-seguinte, publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os
-tons.
-
-Era assim concebida a petição:
-
-
-«Polycarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funccionario publico, certo
-de que a lingua portugueza é emprestada ao Brasil; certo tambem de que,
-por esse facto, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das
-lettras, se vêm na humilhante contigencia de soffrer continuamente
-censuras asperas dos proprietarios da lingua; sabendo, além, que,
-dentro do nosso paiz, os autores os escriptores, com especialidade os
-grammaticos, não se entendem no tocante á correcção grammatical,
-vendo-se, diariamente, surgir azedas polemicas entre os mais profundos
-estudiosos do nosso idioma--usando do direito que lhe confere a
-Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o
-tupy-guarany, como lingua official e nacional do povo brasileiro.
-
-O supplicante, deixando de parte os armamentos historicos que militam em
-favor de sua idéa, pede venia para lembrar que a lingua é o mais alta
-manifestação da intelligencia de um povo, é a sua creação mais viva
-e original; e, portanto, a emancipação política do paiz requer como
-complemento e consequencia a sua emancipação idiomatica.
-
-Demais, Srs. Congressistas, o tupy-guarany, lingua originalissima,
-agglutinante, é verdade, mas que o polysynthetismo dá multiplas
-feições de riqueza, é a unica capaz de traduzir as nossas bellezas,
-de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente
-aos nossos orgãos vocaes e cerebraes, por ser creação de povos que
-aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização
-physiologica e psychologica para que tendemos, evitando-se dessa fórma
-as estereis controversias grammaticaes, oriundas de uma difficil
-adaptação de uma lingua de outra região á nossa organização
-cerebral e ao nosso apparelho vocal--controversias que tanto impecem o
-progresso da nossa cultura literaria, scientifica e philosophica.
-
-Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para
-realizar semelhante medida e conscio de que a Camara e o Senado pezarão
-o seu alcance e utilidade P. e E. deferimento».
-
-
-Assignado e devidamente estampilhado, este requerimento do Major foi
-durante dias assumpto de todas as palestras. Publicado em todos os
-jornaes, com commentarios facetos, não havia quem não fizesse uma
-pilheria sobre elle, quem não ensaiasse um espirito á custa da
-lembrança de Quaresma. Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quiz
-mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era casado, se era solteiro.
-Uma illustração semanal publicou-lhe a caricatura e o Major foi
-apontado na rua.
-
-Os pequenos jornaes alegres, esses semanarios de espirito e troça,
-então! eram «de um encarniçamento atroz com o pobre Major. Como uma
-abundancia que marcava a felicidade dos redactores em terem encontrado
-um assumpto facil, o texto vinha cheio delle: o Major Quaresma disse
-isso; o Major Quaresma fez aquillo.
-
-Um delles, além de outras referencias, occupou uma pagina inteira com o
-assumpto da semana. Intitulava-se a illustração: «O matadouro de
-Santa Cruz, segundo o Major Quaresma», e o desenho representava uma
-fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via á
-esquerda. Um outro referia-se ao caso pintando um açougue, «O açougue
-Quaresma»; legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro:
-
---O Sr. tem lingua de vacca? O açougueiro respondia: Não, só temos
-lingua de moça, quer?
-
-Com mais, ou menos espirito, os commentarios não cessavam e a ausencia
-de relações de Quaresma no meio de que sahiam, fazia com que fossem de
-uma constancia pouco habitual. Levaram duas semanas com o nome do
-sub-secretario.
-
-Tudo isto irritava profundamente Quaresma. Vivendo ha trinta annos quasi
-só, sem se chocar com o mundo, adquirira urna sensibilidade muito viva
-e capaz de soffrer profundamente com a menor cousa. Nunca soffrera
-criticas, nunca se atirou, á publicidade, vivia immerso no seu sonho,
-incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fóra delles, elle
-não conhecia ninguem; e, com as pessoas com quem falava, trocava
-pequenas banalidades, ditos de todo o dia, cousas com que a sua alma e o
-seu coração nada tinham que ver.
-
-Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse mais que
-a todos.
-
-Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de extranho a
-tudo, ás competições, ás ambições, pois nada dessas cousas que
-fazem os odios e as lutas tinha entrado no seu temperamento.
-
-Desinteressado de dinheiro, de gloria e posição, vivendo numa reserva
-de sonho, adquirira a candura e a pureza d'alma que vão habitar esses
-homens de uma idéa fixa, os grandes estudiosos, os sabios, e os
-inventores, gente que fica mais terna, mais ingenua, mais innocence que
-as donzellas das poesias de outras épocas.
-
-É raro encontrar homens assim, mas os ha e, quando se os encontra,
-mesmo tocados de um grão de loucura, a gente sente mais sympathia pela
-nossa especie, orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da
-raça.
-
-A continuidade das troças feitas nos jornaes, a maneira com que o
-olhavam na rua, exasperavam-no e mais forte se enraizava nelle a sua
-idéa. Á medida que engulia uma troça, uma pilheria, vinha-lhe meditar
-sobre a sua lembrança, pezar-lhe todos os aspectos, examinal-a
-detidamente, comparal-a a cousas semelhantes, recordar os autores e
-autoridades; e, á proporção que fazia isso, a sua propria convicção
-mostrava a inanidade da critica, a ligeireza da pilheria, e a idéa o
-tomava, o avassalava, o absorvia cada vez mais.
-
-Se os jornaes tinham recebido o requerimento com facecias de fundo
-inofensivo e sem odio, a repartição ficou furiosa. Nos meios
-burocraticos, uma superioridade que nasce fora delles, que é feita e
-organizada com outros materiaes que não os officios, a sabença de
-textos de regulamentos e a boa calligrafia, é recebida com a
-hostilidade de uma pequena inveja.
-
-É como se visse no portador da superioridade um traidor á
-mediocridade, ao anonimato papeleiro. Não ha só uma questão de
-promoção, de interesse pecuniario; ha uma questão de amor proprio, de
-sentimentos feridos, vendo aquelle collega, aquelle galé como elles,
-sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes, ás olhadelas
-superiores dos ministros, com mais titulos á consideração, com algum
-direito a infringir as regras e os preceitos.
-
-Olha-se para elle com o odio dissimulado com que assassino plebeu olha
-para o assassino marquez que matou a mulher e o amante. Ambos são
-assassinos, mas, mesmo na prisão, ainda o nobre e o burguez trazem o ar
-do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o
-seu humilde collega de desgraça.
-
-Assim, quando surge numa secretaria alguem cujo nome não lembra sempre
-o titulo de sua nomeação, apparecem as pequeninas perfidias, as
-maledicencias ditas ao ouvido, as indirectas, todo o arsenal do ciume
-invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor
-do que ella.
-
-Amam-se ou antes supportam-se melhor aquelles que se fazem celebres nas
-informações, na redacção, na assiduidade ao trabalho, mesmo os
-doutores, os bachareis, do que os que têm nomeada e fama. Em geral, a
-incomprehensão da obra ou do merito do collega é total e nenhum delles
-se póde capacitar que aquelle typo, aquelle amanuense, como elles,
-faça qualquer cousa que interesse 06 extranhos e dê que falar a uma
-cidade inteira.
-
-A brusca popularidade de Quaresma, o seu successo e nomeada ephemera
-irritaram os seus collegas e superiores. Já se viu! dizia o Secretario.
-Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa! Pretencioso! O
-director, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o
-regulamento não cogitasse do caso para lhe infringir uma censura. O
-collega archivista era o menos terrivel, mas chamou-o logo de doido.
-
-O Major sentia bem aquelle ambiente falso, aquellas allusões e isso
-mais augmentava o seu desespero e a teimosia na sua idéa. Não
-comprehendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades, essa
-má vontade geral; era uma cousa innocente, uma lembrança patriotica
-que merecia e devia ter o assentimento de todo o mundo; e meditava,
-voltava á idéa, e a examinava com mais attenção.
-
-A extensa publicidade, que o facto tomou, attingiu o palacete de Real
-Grandeza, onde morava o seu compadre Coleoni. Rico com os lucros das
-empreitadas de construcções de predios, viuvo, o antigo quitandeiro
-retirara-se dos negocios e vivia socegado na ampla casa que elle mesmo
-edificara e tinha todos os seus remates architectonicos do seu gosto
-predilecto: compoteiras na cimalha, um immenso monogramma sobre a porta
-da entrada, dous cães de louça, nos pilares do portão da entrada e
-outros detalhes equivalentes.
-
-A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão alto,
-tinha um razoavel jardim na frente, que avançava pelos lados,
-pontilhado de bolas multicores; varanda, um viveiro, onde pelo calor os
-passaros morriam tristemente. Era uma installação burgueza, no gosto
-nacional, vistosa, cara, pouco de accordo com o clima e sem conforto.
-
-No interior o capricho dominava, tudo obedecia a a uma fantasia baroca,
-a um ecletismo desesperador. Os moveis se amontoavam, os tapetes, as
-sanefas, os bibelots e, a fantasia da filha, irregular e indisciplinada,
-ainda trazia mais desordem áquella collecção de cousas caras.
-
-Viuvo, havia já alguns annos, era uma velha cunhada quem dirigia a casa
-e a filha, quem o encaminhava nas distracções e nas festas. Coleoni
-aceitava de bom coração esta doce tyrannia. Queria casar a filha, bem
-e ao gosto della, não punha, portanto nenhum obstaculo ao programma de
-Olga.
-
-Em começo, pensou em dal-a a seu ajudante ou contra-mestre, uma especie
-de architecto que não desenhava, mas projectava casas e grandes
-edificios. Primeiro sondou a filha. Não encontrou resistencia, mas não
-encontrou tambem assentimento. Convenceu-se de que aquella vaporosidade
-da menina, aquelle seu ar distante de heroina, a sua intelligencia, o
-seu fantastico, não se dariam bem com as rudezas e a simplicidade
-camponias de seu auxiliar.
-
-Ella quer um doutor--pensava elle--que arranje! Com certeza, não terá
-ceitil, mas eu tenho e as cousas se accommodam.
-
-Elle se havia habituado a ver no doutor nacional, o marquez ou o barão
-de sua terra natal. Cada terra tem a sua nobreza; lá, é visconde;
-aqui, é doutor, bacharel ou dentista; e julgou muito acceitavel comprar
-a satisfação de ennobrecer a filha com umas meias duzias de contos de
-réis.
-
-Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propositos da menina.
-Gostando de dormir cedo, tinha que perder noites e noites no Lyrico, nos
-bailes; amando estar sentado em chinellas a fumar cachimbo, era obrigado
-a andar horas e horas pelas ruas, saltitando de casa em casa de modas,
-atraz da filha, para no fim do dia ter comprado meio metro de fita, uns
-grampos e um frasco de perfume.
-
-Era engraçado vel-o nas lojas de fazendas cheio de complacencia de pai
-que quer ennobrecer o filho, a dar opinião sobre o tecido, achar este
-mais bonito, comparar um com outro, com uma falta de sentimento
-daquellas cousas que se adivinhava até no pagal-as. Mas elle ia,
-demorava-se e esforçava-se por entrar no segredo, no mysterio, cheio de
-tenacidade e candura perfeitamente paternaes.
-
-Até ahi elle ia bem e calcava a contrariedade. Só o contrariavam
-bastante, as visitas, as collegas da filha, suas mães, suas irmães,
-com seus modos de falsa nobreza, os seus desdens dissimulados, deixando
-perceber ao velho empreiteiro o quanto estava elle distante da sociedade
-das amigas e das collegas de Olga.
-
-Não se aborrecia, porém, muito profundamente; elle assim o quizera e a
-fizera, tinha que se conformar. Quasi sempre, quando chegavam taes
-visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior da casa. Entretanto,
-não lhe era sempre possivel fazer isso; nas grandes festas e
-recepções tinha que estar presente e era quando mais sentia, o velado
-pouco caso da alta nobreza da terra que o frequentava. Elle ficara
-sempre empreiteiro, com poucas idéas além do seu officio, hão sabendo
-fingir, de modo que não se interessava por aquellas tagarelices de
-casamentos, de bailes, de festas e passeios caros.
-
-Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e
-sempre perdia. Chegou mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia
-parte o conhecido advogado Pacheco. Perdeu e muito, mas não foi isso
-que o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos--uma ninharia! A
-questão, porém, é que Pacheco jogava com seis cartas. A primeira vez
-que Coleoni deu com isso, pareceu-lhe simples distracção do distincto
-jornalista e do famoso advogado. Um homem honesto não ia fazer aquillo!
-E na segunda, seria tambem? e na terceira?
-
-Não era possivel tanta distracção. Adquiriu a certeza da
-trampolinagem, calou-se, conteve-se com uma dignidade não esperada em
-um antigo quitandeiro, e esperou. Quando vieram a jogar outra vez e o
-passe foi posto em pratica, Vicente accendeu o charuto e observou com a
-maior naturalidade deste mundo:
-
---Os Srs. sabem que ha agora, na Europa, um novo systema de jogar o
-poker?
-
---Qual é? perguntou alguém.
-
---A differença é pequena: joga-se com seis cartas, isto é, um dos
-parceiros, sómente.
-
-Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar e a ganhar,
-despediu-se á meia-noite cheio de delicadeza, fez alguns commentarios
-sobre a partida e não voltou mais.
-
-Conforme o seu velho habito, Coleoni lia de manhã os jornaes, com o
-vagar e a lentidão de homem pouco habituado á leitura, quando se lhe
-deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal.
-
-Elle não comprehendeu bem o requerimento, mas os jornaes faziam tanta
-troça, cahiam tão a fundo sobre a cousa, que imaginou o seu antigo
-bemfeitor enleiado numa meiada criminosa, tendo praticado, por
-inadvertencia, alguma falta grave.
-
-Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda
-tinha, mais dahi quem sabe? Na ultima vez que o visitou elle não veiu
-com aquelles modos extranhos? Podia ser uma pilheria...
-
-Apezar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro
-compadre. Havia nelle não só a gratidão de camponez que recebeu um
-grande beneficio, como um duplo respeito pelo major, oriundo da sua
-qualidade de funccionario e de sabio.
-
-Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquelle
-sagrado respeito dos camponezes pelos homens que recebem a investidura
-do Estado; e, como, apezar dos bastos annos de Brasil, ainda não sabia
-juntar saber aos titulos, tinha em grande consideração a erudição do
-compadre.
-
-Não é, pois, de extranhar que elle visse com magna o nome de Quaresma
-envolvido em factos que os jornaes reprovavam. Leu de novo o
-requerimento, mas não entendeu o que elle queria dizer. Chamou a filha.
-
---Olga!
-
-Elle pronunciava o nome da filha quasi sem sotaque; mas, quando fallava
-portuguez, punha nas palavras uma rouquidão singular, e salpicava as
-phrases de exclamações e pequenas expressões italianas.
-
---Olga, que quer dizer isto? _Non capisco_...
-
-A moça sentou-se a uma cadeira proxima e leu no jornal, o requerimento
-e os commentarios.
-
---_Che_! Então?
-
---O padrinho quer substituir o portuguez pela lingua tupy, entende o
-senhor?
-
---Como?
-
---Hoje, nós não falamos portuguez? Pois bem: elle quer que daqui em
-diante falemos tupy.
-
---_Tutti_?
-
---Todos os brasileiros, todos.
-
---_Ma che_ cousa! Não é possivel?
-
---Póde ser. Os tcheques tem uma lingua propria, e foram obrigados a
-falar allemão, depois de conquistados pelos austriacos; os lorenos,
-francezes...
-
---_Per la madona_! Allemão é lingua, agora esse acugêlê, _ecco_!
-
---Acugêlê é da Africa, papai; tupy é daqui.
-
---_Per Baccho_! É o mesmo... Está doido!
-
---Mas não ha loucura alguma, papai.
-
---Como? Então é cousa de um homem _bene_?
-
---De juizo, talvez não seja; mas de doido, tambem não.
-
---_Non capisco_.
-
---É uma idéa, meu pai, é um plano, talvez á primeira vista absurdo,
-fóra dos moldes, mas não de todo doido. É ousado, talvez, mas...
-
-Por mais que quizesse, ella não podia julgar o acto do padrinho sob o
-criterio de seu pai. Neste falava o bom senso e nella o amor ás grandes
-cousas, aos arrojos e commettimentos ousados. Lembrou-se de que Quaresma
-lhe falara em emancipação; e se houve no fundo de si um sentimento que
-não fosse de admiração pelo atrevimento do Major, não foi de certo o
-de reprovação ou lastima; foi de piedade sympathica por ver mal
-comprehendido o acto daquelle homem que ella conhecia ha tantos annos,
-seguindo o seu sonho, isolado, obscuro e tenaz.
-
---Isto vai causar-lhe transtorno, observou Coleoni.
-
-E elle tinha razão. A sentença do archivista foi vencedora nas
-discussões dos corredores e a suspeita de que Quaresma estivesse doido
-foi tomando fóros do certeza. Em principio, o sub-secretario supportou
-bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o suppunham insciente no
-tupy, irritou-se, encheu-se, de uma raiva surda, que se continha
-difficilmente. Como eram cegos! Elle que ha trinta annos estudava o
-Brasil minuciosamente; elle que em virtude desses estudos, fôra
-obrigado a aprender o rebarbativo allemão, não saber tupy, a lingua
-brasileira, a unica que o era--que suspeita miseravel!
-
-Que o julgassem doido--vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas
-affirmações, não! E elle pensava, procurava meios de se rehabilitar,
-cahia em distracções, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana.
-Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo dia, e a
-outra, na preoccupação de provar que sabia o tupy.
-
-O Secretario veiu a faltar um dia e o Major lhe ficou fazendo as vezes.
-O expediente fôra grande e elle mesmo redigira e copiara uma parte.
-Tinha começado a passar a limpo um officio sobre cousas de Mato-Grosso,
-onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã, quando o Carmo disse lá do
-fundo da sala, com acccento escarninho:
-
---Homero, isto de saber é uma cousa, dizer é outra.
-
-Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupy
-que se encontravam na minuta, fosse pela allusão do funccionario Carmo,
-o certo é que elle insensivelmente foi traduzindo a peça official para
-o idioma indigena.
-
-Ao acabar, deu com a districção, mas logo vieram outros empregados com
-o trabalho que fizeram, para que elle examinasse. Novas preoccupações
-afastaram a primeira, esqueceu-se e o officio em tupy seguiu com os
-companheiros. O Director não reparou, assignou e o tupinambá foi dar
-ao ministerio.
-
-Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. Que lingua
-era? Consultou-se o Dr. Rocha, o homem mais habil da secretaria, a
-respeito do assumpto. O funccionario limpou o pince-nez, agarrou o
-papel, voltou-o de traz para diante, pôl-o de pernas para o ar e
-concluiu que era grego, por causa dos _yy_.
-
-O doutor Rocha tinha na Secretaria a fama de sabio, porque era bacharel
-em direito e não dizia cousa alguma.
-
---Mas, indagou o chefe, officialmente as autoridades se podem communicar
-em linguas estrangeiras? Creio que ha um aviso de 84... Veja, Sr. Dr.
-Rocha...
-
-Consultaram-se todos os regulamentos e repertorios de legislação,
-andou-se de meza em meza pedindo auxilio á memoria de cada um e nada se
-encontrara a respeito. Enfim, o Dr. Rocha, após tres dias de
-meditação, foi ao chefe e disse com emphase e segurança:
-
---O aviso de 84 trata de orthographia.
-
-Ü Director olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando
-as suas qualidades de empregado zeloso, intelligente e... assiduo. Foi
-informado que a legislação era omissa no tocante á lingua em que
-deviam ser escriptos os documentos officiaes; entretanto não parecia
-regular usar uma que não fosse a do paiz.
-
-O Ministro, tendo em vista esta informação e varias outras consultas,
-devolveu o officio e censurou o Arsenal.
-
-Que manhã foi essa no Arsenal! Os tympanos soavam furiosamente, os
-continuos andavam numa doubadoura terrivel e a toda a hora perguntavam
-pelo secretario que tardava em chegar.
-
-Censurado! monologava o Director. Ia-se por agua a baixo o seu
-generalato. Viver tantos annos a sonhar com aquellas estrellas e ellas
-se escapavam assim, talvez por causa da molecagem de um escripturario!
-
-Ainda se a situação mudasse... Mas qual!
-
-O Secretario chegou, foi ao gabinete do Director. Inteirado do motivo,
-examinou o officio e pela lettra conheceu que fora Quaresma quem o
-escrevera. Mande-o cá, disse o Coronel. O Major encaminhou-se pensando
-nuns versos tupys que lera de manhã.
-
---Então o Sr. leva a divertir-se commigo, não é?
-
---Como? fez Quaresma espantado.
-
---Quem escreveu isso?
-
-O Major nem quiz examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da
-distracção e confessou com firmeza:
-
---Fui eu.
-
---Então confessa?
-
---Pois não. Mas V. Ex. não sabe...
-
---Não sabe! que diz?
-
-O Director levantou-se da cadeira, com os labios brancos e a mão
-levantada á altura da cabeça. Tinha sido offendido tres vezes: na sua
-honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento de
-ensino que frequentara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro
-estabelecimento scientifico do mundo. Além disso escrevera no
-«Prytaneu», a revista da escola, um conto--«A Saudade»--producção
-muito elogiada pelos collegas. Dessa forma, lendo em todos os exames
-plenamente e distincção, uma dupla corôa de sabio e artista
-cingia-lbe a fronte. Tantos titulos valiosos e raros de se encontrarem
-reunidos mesmo em Descartes ou Shakspeare, transformavam aquelle--não
-sabe--de um amanuense em offensa profunda, em injuria.
-
---Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor
-porventura o curso de Benjamin Constant? Sabe o senhor mathematica,
-astronomia, physica, chimica, sociologia e moral? Como ousa então? Pois
-o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francezinho ahi,
-póde hombrear-se com quem tirou gráu 9 em Calculo, 10 em Mecanica, 8
-em Astronomia, 10 em Hydraulica, 9 em Descriptiva? Então?!
-
-E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma
-que já se julgava fuzilado.
-
---Mas, Sr. Coronel...
-
---Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda
-ordem.
-
-Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fôra seu proposito duvidar da
-sabedoria do seu director. Elle não tinha nenhuma pretenção a sabio e
-pronunciara a phrase para começar a desculpa; mas, quando viu aquella
-enxurrada de saber, de titulos, a sobrenadar em aguas tão furiosas,
-perdeu o fio do pensamento, a fala, as idéas e nada mais sôbe nem
-pôde dizer.
-
-Sahiu abatido, como um criminoso, do gabinete do Coronel, que não
-deixava de olhal-o furiosamente, indignadamente, ferozmente, como quem
-foi ferido em todas as fibras do seu ser. Sahiu afinal. Chegando á sala
-do trabalho nada disse; pegou no chapéo, na bengala e atirou-se pela
-porta afóra, cambaleando como um bebedo. Deu umas voltas, foi ao
-livreiro buscar uns livros. Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo
-Coração dos Outros.
-
---Cedo, hein Major?
-
---É verdade.
-
-E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. Ricardo
-avançou algumas palavras:
-
---O Major, hoje, parece que tem uma idéa, um pensamento muito forte.
-
---Tenho, filho, não de hoje, mas de ha muito tempo.
-
---É bom pensar, sonhar consola.
-
---Consola, talvez; mas faz-nos tambem differentes dos outros, cava
-abysmos entre os homens...
-
---E os dous separaram-se. O Major tomou o bonde e Ricardo desceu
-descuidado a rua do Ouvidor, com o seu passo acanhado e as calças
-dobradas nas canellas, sobraçando o violão na sua armadura de
-camurça.
-
-
-
-
-V
-
-O BIBELOT
-
-
-Não era a primeira vez que ella vinha ali. Mais de uma dezena já
-subira aquella larga escada de pedra, com grupos de marmores de Lisboa
-de um lado e do outro, a Caridade e N. S. da Piedade; penetrara por
-aquelle portico de columnas doricas, atravessara o atrio ladrilhado,
-deixando á esquerda e á direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o
-angustioso mysterio da loucura; subira outra escada encerada
-cuidadosamente e fôra ter com o padrinho lá em cima, triste e
-absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia ás vezes, aos
-domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando
-Quaresma. Ha quanto tempo estava elle ali? Ella não se lembrava ao
-certo; uns tres ou quatro mezes, se tanto.
-
-Só o nome da casa mettia medo. O Hospicio! É assim como uma sepultura
-em vida, um semi-enterramento, enterramento do espirito, da razão
-conductora, de cuja ausencia os corpos raramente se resentem, A saude
-não depende della e ha muitos que parecem até adquirir mais força de
-vida, prolongar a existencia, quando ella se evola não se sabe por que
-orificio do corpo e para onde.
-
-Com que terror, uma especie de pavor de cousa sobrenatural, espanto de
-inimigo invisivel e omnipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao
-estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte, diziam.
-
-No primeiro aspecto, não se comprehendia bem esse pasmo, esse espanto,
-esse terror do povo por aquella casa immensa, severa e grave, meio
-hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janellas gradeadas, a
-se extender por uns centos de metros, em face do mar immenso e verde,
-lá na entrada da bahia, na praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns
-homens calmos, pensativos, meditabundos, como monges em recolhimento e
-prece.
-
-De resto, com aquella entrada silenciosa! clara e respeitavel, perdia-se
-logo a idéa popular da loucura; o escarcéo, os trejeitos, as furias, o
-entrechoque de tolices ditas aqui e ali.
-
-Não havia nada disso; era uma calma, um silencio, uma ordem
-perfeitamente naturaes. No fim, porém, quando se examinavam bem, na
-sala das visitas, aquellas faces transtornadas, aquelles ares
-aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheiados e
-mergulhados em um sonho intimo sem fim, e via-se tambem a excitação de
-uns, mais viva em face á atonia de outros, é que se sentia o horror da
-loucura, o angustioso mysterio que encerra, feito não sei de que
-inexplicavel fuga do espirito daquillo que se suppõe o real, para se
-apossar e viver das apparencias das cousas ou de outras apparencias das
-mesmas.
-
-Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifravel da nossa propria
-natureza, fica amedrontado, sentindo que o germen daquillo está
-depositado em nós e que por qualquer cousa elle nos invade, nos toma,
-nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora comprehensão inversa e
-absurda, de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o
-seu mundo e para ele não ha mais semelhantes: o que foi antes da
-loucura é outro muito outro do que elle vem a ser após.
-
-E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quasi nunca
-acaba. Com o seu padrinho, como fôra? A principio, aquelle
-requerimento... Mas que era aquillo? Um capricho, uma fantasia, cousa
-sem importancia, uma idéa de velho sem consequencia. Depois, aquelle
-officio? Não tinha importancia, uma simples distracção, cousa que
-acontece a cada passo... E emfim? A loucura declarada, a tôrva e
-ironica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos
-rebaixa... Emfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de
-não sahir, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os
-amigos, os melhores. Como fôra doloroso aquillo? A primeira phase do
-seu delirio, aquella agitação desordenada, aquelle falar sem nexo, sem
-accordo com que se realizava fóra delle e com os actos passados, um
-falar que não se sabia donde vinha, donde sahia, de que ponto do seu
-ser tomava nascimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu
-um cataclysma, que o fazia tremer todo, desde os pés á cabeça, e
-enchia-o de indifferença para tudo mais que não fosse o seu proprio
-delirio.
-
-A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam á matroca.
-Para elle, nada disso valia, nada disso tinha existencia e importancia.
-Eram sombras, apparencias; o real eram os inimigos, os inimigos
-terriveis cujos nomes o seu delirio não chegava a criar. A velha
-irmã, atarantada, atordoada, sem direcção, sem saber que alvitre
-tomar. Educada em casa sempre com um homem ao lado, o pai, depois o
-irmão, ella não sabia lidar com o mundo, com negocios, com as
-autoridades e pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiencia e
-ternura de irmã, oscillava entre a crença de que aquillo fosse verdade
-e a suspeita do que fosse loucura pura e simples.
-
-Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se
-interessava, chamando a si interesses da familia e evitando a demissão
-de que estava ameaçado, transformando-a em aposentadoria, que seria
-delle? Como é facil na vida tudo ruir! Aquelle homem pautado, regrado,
-honesto, com emprego seguro, tinha uma apparencia inabalavel;
-entretanto bastou um grãosinho de sandice...
-
-Estava ha uns mezes no Hospicio, o seu padrinho, e a irmã não o podia
-visitar. Era tal o seu abalo de nervos, era tal a emoção ao vel-o ali
-naquella meia-prisão, decaindo delle mesmo que um ataque se seguia e
-não podia ser evitado.
-
-Vinham ella e o pai, ás vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram
-só os tres a visital-o.
-
-Aquelle domingo estava particularmente lindo, principalmente em
-Botafogo, nas proximidades do mar e das montanhas altas que se
-recortavam num céo de seda. O ar era macio e docemente o sol faiscava
-nas calçadas.
-
-O pai vinha lendo os jornaes e ella, pensando, de quando em quando
-folheando as revistas illustradas que trazia para alegrar e distrahir o
-padrinho.
-
-Elle estava como pensionista; mas, embora assim, no começo, ella teve
-um certo pudor em se misturar com os visitantes.
-
-Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar miserias;
-recalcou porém, dentro de si esse pensamento egoista, o seu orgulho de
-classe, e agora entrava naturalmente, pondo em mais destaque a sua
-elegancia natural. Amava esses sacrificios, essas abnegações, tinha o
-sentimento da grandeza delles, e ficou contente comsigo mesma.
-
-No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no
-portão do manicomio. Como em todas as portas dos nossos infernos
-sociaes, havia de toda a gente, de varias condições, nascimentos e
-fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a
-molestia passam tambem a sua razoura pelas distincções que inventamos.
-
-Os bem vestidos e os mal vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e
-os bonitos, os intelligentes e os nescios, entravam com respeito, com
-concentração, com uma ponta de pavor nos olhos como se penetrassem
-noutro mundo.
-
-Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam; eram guloseimas,
-fumo, meias, chinellas, ás vezes livros e jornaes. Dos doentes uns
-conversavam com os parentes; outros mantinham-se calados, num mutismo
-feroz e inexplicavel; outros indifferentes; e era tal a variedade de
-aspectos dessas recepções que se chegava a esquecer o imperio da
-doença sobre todos aquelles infelizes, tanto ella variava neste ou
-naquelle, para se pensar em caprichos pessoaes, em dictames das vontades
-livres de cada um.
-
-E ella pensava como esta nossa vida é variada e diversa, como ella é
-mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como na variedade da
-vida a tristeza póde mais variar que a alegria c como que dá o proprio
-movimento da vida.
-
-Verificando isso, quasi teve satisfação, pois a sua natureza
-intelligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu
-espirito fazia.
-
-Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delirio parecia querer
-desapparecer completamente. Chocando-se com aquelle meio, houve logo
-nelle uma reacção salutar e necessaria. Estava doido, pois se o punham
-ali...
-
-Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de
-satisfação por baixo do bigode já grisalho. Tinha emmagrecido um
-pouco, os cabellos pretos estavam um pouco brancos, mas o aspecto geral
-era o mesmo. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar,
-mas quando a mania lhe tomava ficava um tanto secco e desconfiado. Ao
-vel-os disse amavelmente:
-
---Então vieram sempre... Estava a espera...
-
-Cumprimentaram-se e elle deu mesmo um largo abraço na afilhada.
-
---Como está Adelaide?
-
---Bem. Mandou lembranças e não veiu porque... adiantou Coleoni.
-
---Coitada! disse elle, e pendeu a cabeça como se quizesse afastar uma
-recordação triste; em seguida, perguntou:
-
---E o Ricardo?
-
-A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e
-alegria. Via-o já escapo á semi-sepultura da insania.
-
---Está bom, padrinho. Procurou papai ha dias e disse que a sua
-aposentadoria já está quasi acabada.
-
-Coleoni tinha-se sentado. Quaresma tambem e a moça estava de pé, para
-melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no
-encarar. Guardas, internos e medicos passavam pelas portas com a
-indifferença profissional. Os visitantes, não se olhavam, pareciam que
-não queriam conhecer-se na rua. Lá fóra, era o dia lindo, os ares
-macios, o mar infinito e melancolico, as montanhas a se recortar num
-céo de seda--a belleza da natureza imponente e indecifravel. Coleoni,
-embora mais assiduo nas visitas, notava as melhoras do compadre com
-satisfação que errava na sua physionomia, num ligeiro sorriso. Num
-dado momento aventurou:
-
---O Major já está muito melhor; quer sahir?
-
-Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e
-vagarosamente:
-
---É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incommodar-te tanto,
-mas vocês que têm sido tão bons, hão de levar tudo isso para conta
-da propria bondade. Quem tem inimigos deve ter tambem bons amigos...
-
-O pai e a filha entreolharam-se; o Major levantou a cabeça e parecia
-que as lagrimas queriam rebentar. A moça interveio de prompto:
-
---Sabe, padrinho, vou casar-me.
-
---É verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós vínhamos
-prevenil-o.
-
---Quem é teu noivo? perguntou Quaresma.
-
---É um rapaz...
-
---De certo, interrompeu o padrinho sorrindo.
-
-E os dous acompanharam-n'o com familiaridade e contentamento. Era um bom
-signal.
-
---É o Sr. Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho? fez
-Olga gentilmente.
-
---Então é para depois do fim do anno.
-
---Esperamos que seja por ahi, disse o italiano.
-
---Gostas muito delle? indagou o padrinho.
-
-Ella não sabia responder aquella pergunta. Queria sentir que gostava,
-mas estava que não. E porque casava? Não sabia... Um impulso do seu
-meio, uma cousa que não vinha della--não sabia... Gostava de outro?
-Tambem não. Todos os rapazes que ella conhecia, não possuiam relevo
-que a ferisse, não tinham o _que_, ainda indeterminado na sua emoção
-e na sua intelligencia, que a fascinasse ou subjugasse. Ella não sabia
-bem o que era, não chegava a extremar na percepção das suas
-inclinações a qualidade que ella queria ver dominante no homem. Era o
-heroico, era o fóra do commum, era a força de projecção para as
-grandes cousas; mas nessa confusão mental dos nossos primeiros annos,
-quando as idéas e os desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não
-podia colher e registrar esse anhelo, esse modo de se representar e de
-amar o individuo masculino.
-
-E tinha razão em se casar sem obedecer á sua concepção. É tão
-difficil ver nitidamente num homem, de 20 a 30 annos, o que ella sonhara
-que era bem possivel tomasse a nuvem por Juno... Casava por habito de
-sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e
-aguçar a sensibilidade. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu
-sem convicção ao padrinho:
-
---Gosto.
-
-A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rapida,
-não convinha fatigar a attenção do convalescente. Os dous sahiram sem
-esconder que iam esperançados e satisfeitos.
-
-Na porta ja havia alguns visitantes á espera do bonde. Como não
-estivesse o vehiculo no ponto, foram indo ao longo da fachada do
-manicomio até lá. Em meio do caminho, encontraram, encostada ao
-gradil, uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ella:
-
---Que tem, minha velha?
-
-A pobre mulher deitou sobre elle um demorado olhar, humido e doce, cheio
-de uma irremediavel tristeza, e respondeu:
-
---Ah! meu sinhô!... É triste... Um filho, tão bom, coitado!
-
-E continuou a chorar. Coleoni começou a commover-se; a filha olhou-a
-com interesse e perguntou no fim de um instante:
-
---Morreu?
-
---Antes fosse sinhasinha.
-
-E por entre lagrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais,
-não lhe respondia ás perguntas; era como um extranho. Enxugou as
-lagrimas e concluiu:
-
---_Foi cousa feita._
-
-Os dous afastaram-se tristes, levando n'alma um pouco daquella humilde
-dôr.
-
-O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a
-face do mar em pequenas ondas brancas. O Pão de Assucar erguia-se
-negro, hirto, solemne, das ondas espumejantes, e como que punha uma
-sombra no dia muito claro.
-
-No Instituto dos Cégos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada
-do instrumento parecia sahir daquellas cousas todas, da sua tristeza e
-da sua solemnidade.
-
-O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no largo da Carioca.
-É bom ver-se a cidade nos dias de descanço, com as suas lojas
-fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os passos resoam como em
-claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto, faltam-lhes as
-carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e
-gente. Na porta de uma loja ou outra, os filhos do negociante brincam em
-velocipedes, atiram bolas e ainda mais se sente a differença da cidade
-do dia anterior.
-
-Não havia ainda o habito de procurar os arrabaldes pittorescos e só
-encontravam, por vezes, casaes que iam apressadamente a visitas, como
-elles agora. O largo de S. Francisco estava silencioso e a estatua, no
-centro daquelle pequeno jardim que desappareceu, parecia um simples
-enfeite. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos
-passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse á casa de
-Quaresma. Lá foram. A tarde se approximava e as _toilettes_
-domingueiras já appareciam nas janellas. Pretos com roupas claras e
-grandes charutos ou cigarros; grupos de caixeiros com flores
-estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas
-anti-deluvianas ao lado de vestidos pesados de setim negro, envergados
-em corpos fartos de matronas sedentarias; e o domingo apparecia assim
-decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a
-ostentação dos tolos.
-
-D. Adelaide não estava só. Ricardo viera visital-a e conversavam.
-Quando o compadre de seu irmão bateu no portão, elle contava á velha
-senhora o seu ultimo triumpho:
-
---Não sei como ha de ser, D. Adelaide. Eu não guardo as minhas
-musicas, não escrevo--é um inferno!
-
-O caso era de pôr um autor em maus lençóes. O Sr. Paysandon, de
-Cordova (Republica Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade,
-lhe tinha escripto, pedindo exemplares de suas musicas e canções.
-Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escriptos, mas a musica
-não. É verdade que as sabia de cór, porém, escrevel-as de uma hora
-para outra era trabalho acima de sua força.
-
---É o diabo! continuou elle. Não é por mim; a questão é que se
-perde uma occasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro.
-
-A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A
-sua educação que se fizera, vendo semelhante instrumento entregue a
-escravos ou gente parecida, não podia admittir que elle preoccupasse a
-attenção de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, supportava
-a mania de Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima
-pelo famoso trovador dos suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela
-dedicação com que elle se houve no seu drama familiar. Os pequenos
-serviços e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo
-de Ricardo, que os desempenhara com boa vontade e diligencia.
-
-Actualmente era elle o encarregado de tratar da aposentadoria do seu
-antigo discipulo. É um trabalho arduo, esse de liquidar uma
-aposentadoria, como se diz na gyria burocratica. Aposentado o sujeito,
-solemnemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e
-funccionarios para ser ultimada. Nada ha mais grave do que a gravidade
-com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o calculo; e a cousa
-demora um mez, mais até, como se tratasse de mecanica celeste.
-
-Coleoni era o procurador do Major, mas não sendo entendido em cousas
-officiaes, entregou ao Coração dos Outros aquella parte do seu
-mandato.
-
-Graças á popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a
-resistencia da machina burocratica e a liquidação estava annunciada
-para breve.
-
-Foi isso que elle annunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da
-filha. Pediram, tanto elle como D. Adelaide, noticias do amigo e do
-irmão.
-
-A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise não o ficou
-comprehendendo melhor; mas a sentira profundamente com o sentimento
-simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura.
-
-Ricardo Coração dos Outros gostava do Major, encontrara nelle certo
-apoio moral e intellectual de que precisava. Os outros gostavam de ouvir
-o seu canto, apreciavam como simples dilletantes: mas o Major era o
-unico que ia ao fundo da sua tentativa e comprehendia o alcance
-patriotico do sua obra.
-
-De resto, elle agora soffria particularmente--soffria na sua gloria,
-producto de um lenço e seguido trabalho de annos. É que apparecera um
-creoulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era
-citado ao lado do seu.
-
-Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser
-preto; e segundo: por causa das suas theorias.
-
-Não é que elle tivesse ogeriza particular aos pretos. O que elle via
-no facto de haver um preto famoso tocar violão, era que tal cousa ia
-diminuir ainda mais o prestigio do instrumento. Se o seu rival tocasse
-piano e por isso ficasse celebre, não havia mal algum; ao contrario: o
-talento do rapaz levantava a sua pessoa, por intermedio do instrumento
-considerado; mas, tocando violão, era o inverso: o preconceito que lhe
-cercava a pessoa, desmoralisava o mysterioso violão que elle tanto
-estimava. E além disso com aquellas theorias! Ora! querer que a modinha
-diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice!
-
-E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim
-diante delle como um obstaculo imprevisto na subida maravilhosa para a
-sua gloria. Precisava afastal-o, esmagal-o, mostrar a sua superioridade
-indiscutivel; mas como?
-
-A _reclame_ já não bastava; o rival a empregava tambem. Se elle
-tivesse um homem notavel, um grande literato, que escrevesse um artigo
-sobre elle e a sua obra, a victoria estava certa. Era difficil
-encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão
-absorvidos em cousas francezas... Pensou num jornal, «O Violão», em
-que elle desafiasse o rival e o esmagasse numa polemica.
-
-Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma,
-actualmente recolhido ao Hospicio, mas felizmente em via de cura. A sua
-alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor.
-
---Não pude ir hoje, disse elle, mas irei domingo. Está mais gordo?
-
---Pouca cousa, disse a moça.
-
---Conversou bem, accrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube
-que Olga ia casar-se.
-
---Vai casar-se, D. Olga? Parabens.
-
---Obrigada, fez ella.
-
---Quando é Olga? perguntou D. Adelaide.
-
---Lá para o fim do anno... Tem tempo...
-
-E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações
-sobre o casamento.
-
-E ella se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as
-considerações, impudentes e irritantes; queria fugir á conversa, mas
-voltavam ao mesmo assumpto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide, mais
-loquaz e curiosa que commumente. Esse supplicio que se repetia em todas
-as visitas, quasi a fazia arrepender-se de ter acceitado o pedido. Por
-fim achou um subterfugio, perguntando:
-
---Como vai o General?
-
---Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Elle deve andar bem,
-a Ismenia é que anda triste, desolada coitadinha!
-
-D. Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha
-do General. Cavalcanti, aquelle Jacob de cinco annos, embarcara para o
-interior, ha tres ou quatro mezes e não mandara nem uma carta nem um
-cartão. A menina tinha aquillo como um rompimento; e ella, tão incapaz
-de um sentimento mais profundo, de uma applicação mais seria de
-energia mental e physica, sentia-o muito, como cousa irremediavel que
-absorvia toda a sua attenção.
-
-Para Ismenia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado
-de existir. Arranjar outro era problema insoluvel, era trabalho acima de
-suas forças. Cousa difficil! Namorar, escrever cartinhas, fazer acenos,
-dançar, ir a passeios--ella não podia mais com isso. Decididamente,
-estava condemnada a não se casar, a ser tia, a supportar durante toda a
-existencia esse estado de solteira que a apavorava. Quasi não se
-lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz
-duro e fortemente osseo; independente da memoria delle, vinha-lhe sempre
-á consciencia, quando, de manhã, o estafeta não lhe entregava carta,
-essa outra idéa: não casar. Era um castigo... A Quinota ia casar-se, o
-Genelicio já estava tratando dos papeis; e ella que esperam tanto, e
-fôra a primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada diante de
-todas. Parecia até que ambos estavam contentes com aquella fuga
-inexplicavel de Cavalcanti. Como elles se riam durante o Carnaval! Como
-elles atiraram aos seus olhos aquella sua viuvez prematura, durante os
-folguedos carnavalescos! Punham tanta furia no jogo de confetes e
-bisnagas, de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos, aquella
-marcha gloriosa e invejava para o casamento, em face do seu abandono.
-
-Ella disfarçava bem a impressão da alegria delles que lhe parecia
-indecente e hostil; mas o escarneo da irmã que lhe dizia
-constantemente: «Brinca, Ismenia! Elle está longe, vai
-aproveitando»--metia-lhe raiva, a raiva terrivel de gente fraca, que
-corróe interiormente, por não poder arrebentar de qualquer forma.
-
-Então, para espantar os máus pensamentos, ella se punha a olhar o
-aspecto pueril da rua, marchetada de papeluchos multicores, e as
-serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem á sua
-natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquelle ruido de
-atabaques, e adufes, de tambores e pratos. Mergulhando nessa barulheira,
-o seu pensamento repousava e como que a idéa que a perseguia desde
-tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça.
-
-De resto, aquelles vestuarios extravagantes de indios, aquelles adornos
-de uma mythologia francamente selvagem, jacarés, cobras, jabotys,
-vivos, bem vivos, traziam á pobreza de sua imaginação imagens
-risonhas de rios claros, florestas immensas, logares de socego e pureza
-que a reconfortavam.
-
-Tambem aquellas cantigas gritadas, berradas, num rytmo duro e de uma
-grande indigencia melodica, vinham como reprimir a magua que ia nella,
-abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão de gritos, mas
-para o que não lhe sobrava força bastante e sufficiente.
-
-O noivo partira um mez antes do Carnaval e depois do grande festejo
-carioca a sua tortura foi maior. Sem habito de leitura e de conversa,
-sem actividade domestica qualquer, ella passava os dias deitada,
-sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe
-doce chorar.
-
-Nas horas da entrega da correspondencia, tinha ainda uma alegre
-esperança. Talvez? Mas a carta não vinha, e, voltava ao seu
-pensamento: não casar.
-
-D. Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismenia, commentou:
-
---Merecia um castigo isso, não acham?
-
-Coleoni interveio com brandura e boa vontade.
-
---Não ha razão para desesperar. Ha muita gente que tem preguiça de
-escrever...
-
---Qual! fez D. Adelaide. Ha tres mezes, sr. Vicente!
-
---Não volta, disse Ricardo sentenciosamente.
-
---E ella ainda o espera, D. ADelaide? perguntou Olga.
-
---Não sei, minha filha. Ninguem entende essa moça. Fala pouco, se fala
-diz meias-palavras... É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem
-nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não fala.
-
---É orgulho? perguntou ainda Olga.
-
---Não, não... Se fosse orgulho, ella não se referia de vez em quando
-ao noivo. É antes molleza, preguiça... Parece que ella tem medo de
-falar para que as cousas não venham acontecer.
-
---E os paes que dizem a isso? indagou Coleoni.
-
-Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incommodo do General não é
-grande e D. Maricota julga que ella deve arranjar _outro_.
-
---Era o melhor, disse Ricardo.
-
---Eu creio que ella não tem mais pratica, disse sorrindo D. Adelaide.
-Levou tanto tempo noiva...
-
-E a conversa já tinha virado para outros assumptos, quando a Ismenia
-veiu fazer a sua visita diaria á irmã de Quaresma.
-
-Cumprimentou todos e todos sentiram que ella penava. O soffrimento
-dava-lhe mais actividade á physionomia.
-
-As palpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham
-mais brilho e expansão. Indagou da saude de Quaresma e depois
-calaram-se um instante. Por fim D. Adelaide lhe perguntou:
-
---Recebeste carta, Ismenia?
-
---Ainda não, respondeu ella com grande economia de voz.
-
-Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num _dunkerque_, veiu
-atirar ao chão uma figurinha de _biscuit_, que se esphacelou em
-innumeros fragmentos, quasi sem ruido.
-
-
-
-
-SEGUNDA PARTE
-
-
-
-
-I
-
-NO «SOCEGO»
-
-
-Não era feio o logar, mas não era bello. Tinha, entretanto, o aspecto
-tranquillo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte.
-
-A casa erguia-se sobre um socalco, uma especie de degrau, formando a
-subida para, a maior altura de uma pequena collina que lhe corria nos
-fundos. Em frente, por entre os bambús da cerca, olhava uma planicie a
-morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regalo de aguas paradas e
-sujas cortava-a parallemente á testada da casa; mais adeante, o trem
-passava vincando a planicie com a fita clara de sua linha capinada; um
-carreiro, com casas, de um e do outro lado, sahia da esquerda e ia ter
-á estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A
-habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte, olhando para o
-levante, a _noruega_, e era tambem risonha e graciosa nos seus muros
-caiados. Edificada com a desoladora indigencia architectonica das nossas
-casas de campo, possuia, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com
-janella, e uma varanda com uma columnata heterodoxa. Além desta
-principal, o sitio do «Socego», como se chamava, tinha outras
-construcções: a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto
-e a roda desmontada, e uma estrebaria coberta de sapê.
-
-Não havia tres mezes que viera habitar aquella casa, naquelle ermo
-logar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro, após ter passado seis
-mezes no Hospicio da praia das Saudades. Sahira curado? Quem sabe lá?
-Parecia: não delirava e os seus gestos e propositos eram do homem
-commum embora, sob tal apparencia, se pudesse sempre crer que não se
-lhe despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que
-cevara durante tantos annos. Foram mais seis mezes de repouzo e util
-sequestração que mesmo de uso de uma therapeutica psychiatrica.
-
-Quaresma viveu lá, no manicomio, resignadamente, conversando com os
-seus companheiros, onde via ricos que se diziam pobres, pobres que se
-queriam ricos, sabios a mal dizer da sabedoria, ignorantes a se
-proclamarem sabios; mas, delles todos, daquelle que mais se admirou,
-foi de um velho e placido negociante da rua dos Pescadores que se
-suppunha Attila. Eu, dizia o pacato velho, sou Attila, sabe? Sou Attila.
-Tinha fracas noticias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou
-Attila, matei muita gente--e era só.
-
-Sahiu o Major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as
-cousas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais
-depressora e pungente.
-
-Aquella continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo
-imperceptivel, mas profundo e quasi sempre insondavel, que a inutiliza
-inteiramente, faz pensar em alguma cousa mais forte que nós, que nos
-guia, que nos impelle e em cujas mãos somos simples joguetes. Em varios
-tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão
-nisso no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco
-desarrazoar, pensamos logo que já não é elle quem fala, é alguém,
-alguém que vê por elle, interpreta as cousas por elle, está atraz
-delle, invisivel!...
-
-Quaresma sahiu envolvido, penetrado da tristeza do manicomio. Voltou á
-sua casa, mas a vista das suas cousas familiares não lhe tirou a forte
-impressão de que vinha impregnado. Embora nunca tivesse sido alegre, a
-sua physionomia apresentara mais desgosto que antes, muito abatimento
-moral, e foi para levantar o animo que se recolheu áquella risonha casa
-de roça, onde se dedicava a modestas culturas.
-
-Não fora elle, porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe
-á idéa aquelle doce acabar para a sua vida. Vendo-o naquelle estado de
-abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sahir, enclausurado em sua
-casa de São Cristovam, Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e
-filialmente:
-
---O padrinho porque não compra um sitio? Seria tão bom fazer as suas
-culturas, ter o seu pomar, a sua horta... não acha?
-
-Tão taciturno que elle estivesse, não pôde deixar de modificar
-immediatamente a sua physionomia á lembrança da moça. Era um velho
-desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna; e
-foi lembrando dos seus antigos projectos que respondeu á afilhada:
-
---É verdade, minha filha. Que magnifica idéa, tens tu! Ha por ahi
-tantas terras ferteis sem emprego... A nossa terra tem os terrenos mais
-ferteis do mundo... O milho póde dar até duas colheitas e quatrocentos
-por um...
-
-A moça esteve quasi arrependida da sua lembrança. Pareceu-lhe que ia
-atêar no espirito do padrinho manias já extinctas.
-
---Em toda a parte--não acha, meu padrinho?--ha terras ferteis.
-
---Mas como no Brasil, apressou-se elle em dizer, ha poucos paizes que as
-tenham. Vou fazer o que tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o
-feijão, a batata ingleza... Tu irás ver as minhas culturas, a minha
-horta, o meu pomar--então é que te convencerás como são fecundas as
-nossas terras!
-
-A idéa cahiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado
-e só estirava uma bôa semente. Não lhe voltou a alegria que jamais
-teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento moral, e veiu-lhe a
-actividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos. Indagou
-dos preços correntes das fructas, dos legumes, das batatas, dos aipins;
-calculou que cincoenta laranjeiras, trinta abacateiras, oitenta
-pecegueiros, outras arvores fruticferas, além dos abacaxis (que mina!)
-das aboboras e outros productos menos importantes, podiam dar o
-rendimento annual de mais de quatro contos, tirando as despezas. Seria
-ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus calculos, baseados em tudo
-no que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura
-Nacional. Levou em linha de conta a producção média de cada pé de
-fructeira, de hectare cultivado, e tambem os salarios, as perdia
-inevitaveis; e, quanto aos preços, elle foi em pessoa no mercado
-buscal-os.
-
-Planejou a sua vida agricola com a exactidão e meticulosidade que punha
-em todos os seus projectos. Encarou-a por todas as faces, pezou as
-vantagens e onus; e muito contente ficou em vel-a monetariamente
-attrahente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso
-mais uma demonstração das excellencias do Brasil.
-
-E foi obedecendo a essa ordem de idéas que comprou aquelle sitio, cujo
-nome--«Socego»--cabia tão bem á nova vida que adoptara, após a
-tempestade que o sacudira durante quasi um anno. Não ficava longe do
-Rio e elle o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado, para melhor
-demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho, no trabalho
-agricola. Esperava grandes colheitas de fructas, de grãos, de legumes;
-e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores, estando em breve a
-grande capital cercada de um verdadeiro celleiro, virente e abundante a
-dispensar os argentinos e europeus.
-
-Com que alegria elle foi para lá! Quasi não teve saudades de sua velha
-casa de S. Januario, agora propriedade de outras mãos, talvez destinada
-ao mercenario mister de lar de aluguel... Não sentiu que aquella vasta
-sala, abrigo calmo dos seus livros durante tantos annos, fosse servir
-para salão de baile futil, fosse testemunhar talvez rixas de casaes
-desentendidos, odios de familia--ella tão boa, tão doce, tão
-sympathica, com o seu tecto alto e as suas paredes lisas, em que se
-tinham encrustado os desejos de sua alma e toda ella penetrada da
-exhalação dos seus sonhos!...
-
-Elle foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro
-contos de réis por anno, tirados da terra, facilmente, docemente,
-alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser
-empregado publico, apodrecer numa banca, soffrer na sua independencia e
-no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem
-ar, sem luz, respirar um ambiente epidemico, sustentar-se de maus
-alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta,
-livre, alegre e saudavel?
-
-E era agora que elle chegava a essa conclusão, depois de ter soffrido a
-miseria da cidade e o emasculamento da repartição publica, durante
-tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto de que não pudesse antes
-da morte travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade
-das terras brasileiras. Então pensou que foram vãos aquelles seus
-desejos de reformas capitaes nas instituições e costumes: o que era
-principal á grandeza da patria estremecida, era uma forte base
-agricola, um culto pelo seu solo uberrimo, para alicerçar fortemente
-todos os outros destinos que ella tinha de preencher.
-
-Demais, com terras tão ferteis, climas variados, a permittir uma
-agricultura facil e rendosa, este caminho estava naturalmente indicado.
-
-E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras, em flôr,
-olentes, muito brancas, a se enfileirar pelas encostas das collinas,
-como theorias de noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar
-com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar
-dos caules rijos; os abacaxis coroados que nem reis, recebendo a
-uncção quente do sol; as abobreiras a se arrastarem com flores
-carnudas cheias de pollen; as melancias de um verde tão fixo que
-parecia pintado; os pecegos veludosos, as jacas monstruosas, os jambos,
-as mangas capitosas; e dentre tudo aquillo surgia uma linda mulher, com
-o regaço cheio de fructos e um dos hombros nu, a lhe sorrir agradecida,
-com um imaterial sorriso demorado de deusa--era Pomona, a deusa dos
-vergeis e dos jardins!...
-
-As primeiras semanas que passou no «Socego», Quaresma as empregou numa
-exploração em regra da sua nova propriedade. Havia nella terra
-bastante, velhas arvores fructiferas, um capoeirão grosso com camarás,
-bacurubús, tinguacibas, tibibuyas, munjólos, e outros specimens.
-Anastacio que o acompanhara, appelava para as suas recordações de
-antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava os nomes dos individuos
-da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras.
-
-O Major logo organizou um museu dos productos naturaes do «Socego». As
-especies florestaes e campezinas foram etiquetadas com os seus nomes
-vulgares, e quando era possivel com os scientificos. Os arbustos, em
-herbario e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e
-transversalmente.
-
-Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as sciencias naturaes e
-o furor auto-didacta dera a Quaresma solidas noções de botanica,
-zoologia, mineralogia e geologia.
-
-Não foram só os vegetaes que mereceram as honras de um inventario; os
-animaes tambem, mas como elle não tinha espaço sufficiente e a
-conservação dos exemplares exigia mais cuidado, Quaresma limitou-se a
-fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas
-de tatús, cotias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs,
-avinhados, colleiros, tyês, etc. A parte mineral era pobre, argillas,
-arêa e, aqui e ali, uns blocos de granito exfoliando-se.
-
-Acabado esse inventario, passou duas semanas a organizar a sua
-bibliotheca agricola e uma relação de instrumentos metereologicos para
-auxiliar os trabalhos da lavoura.
-
-Encommendou livros nacionaes, francezes, portuguezes; comprou
-thermometros, barometros, pluviometros, hygrometros, anemometros. Vieram
-estes e foram arrumados e collocados convenientemente.
-
-Anastacio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que
-tanta cousa, tanto livro, tanto vidro? Estaria o seu amigo patrão dando
-para pharmaceutico? A duvida do preto velho não durou muito. Estando
-certa vez Quaresma a ler o pluviometro, Anastacio, ao lado, olhava-o
-espantado, como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou
-o espanto do criado, e disse:
-
---Sabes o que estou fazendo, Anastacio?
-
---Não _sinhô_.
-
---Estou vendo se choveu muito.
-
---Para que isso, patrão? A gente sabe logo _de olho_ quando chove muito
-ou pouco... Isso de plantar é capim; pôr a semente na terra, deixar
-crescer e apanhar...
-
-Elle falava com a sua voz molle de africano, sem _rr_ fortes, com
-lentidão e convicção.
-
-Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consideração o
-conselho de seu empregado. O capim e o matto cobriam as suas terras. As
-larangeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos, cheios de
-galhos mortos, e cobertos de uma medusina cabelleira de herva de
-passarinho; mas, como não fosse época propria á póda e ao corte dos
-galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras.
-De manhã, logo ao amanhecer, elle mais o Anastacio, lá iam, de enxada
-ao hombro, para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão,
-estava no auge, mas Quaresma era inflexível e corajoso. Lá ia.
-
-Era de vel-o, coberto com um chapéo de palha de côco, atracado a um
-grande enxadão de cabo nodoso, elle, muito pequeno, myope, a dar golpes
-sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. A sua enxada mais
-parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento agricola.
-Anastacio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto
-andar naquelle sól a capinar sem saber?... Ha cada cousa neste mundo!
-
-E os dous iam continuando. O velho preto, ligeiro, rapido, raspando o
-matto rasteiro, com a mão habituada, a cujo impulso a enxada resvalava
-sem obstaculo pelo solo, destruindo a herva má; Quaresma, furioso, a
-arrancar torrões de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada
-arbusto; e, ás vezes, quando o golpe falhava e a lamina do instrumento
-roçava a terra, a força era tanta que se erguia uma poeira infernal,
-fazendo suppor que por aquellas paragens passara um pelotão de
-cavallaria. Anastacio, então, intervinha humildemente, mas em tom
-professoral:
-
---Não é assim, _seu majó_. Não se mette a enxada pela terra a
-dentro. É de leve, assim.
-
-E ensinava ao Cincinato inexperiente o geito de servir-se do velho
-instrumento de trabalho.
-
-Quaresma agarrava-o, punha-se em posição e procurava com toda a boa
-vontade usal-o da maneira ensinada. Era em vão. O _flange_ batia na
-herva, a enxada saltava e ouvia-se um passaro ao alto soltar uma piada
-ironica: Bemtevi! O Major enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se,
-suava, enchia-se de raiva e batia com toda a força; e houve varias
-vezes que a enxada, batendo em falso, escapando do chão, fel-o perder o
-equilibrio, cahir, e beijar a terra, mãe dos fructos e dos homens. O
-pince-nez saltava, partia-se de encontro a um seixo.
-
-O Major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia á
-tarefa que se impuzera; mas, tanto é em nossos musclos firme a memoria
-ancestral desse sagrado trabalho de tirar da terra o sustento de nossa
-vida, que não foi impossivel a Quaresma acordar nos seus o geito, a
-maneira de empregar a enxada vetusta.
-
-Ao fim de um mez, elle capinava razoavelmente, não seguido, de sol a
-sol, mas com grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta de
-habito requeriam.
-
-Ás vezes, o fiel Anastacio seguia-o no descanço e ambos, lado a lado,
-á sombra de uma fructeira mais copada, ficavam a ver o ar pesado
-daquelles dias de verão que enrodilhava as folhas das arvores e punha
-nas cousas um forte accento de resignação morbida. Então, ahi por
-depois do meio dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar
-em silencio a vida inteira, é que o velho Major percebia bem a alma
-dos tropicos, feita de desencontros como aquelle que se via agora, de um
-sol alto, claro, olympico a brilhar sobre um torpor de morte, que elle
-mesmo provocava.
-
-Almoçavam mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente
-sobre um improvisado fogão de calháos, e o trabalho ia assim ate á
-hora do jantar. Havia em Quaresma um enthusiasmo sincero, enthusiasmo de
-ideologo que quer pôr em pratica a sua idéa. Não se agastou com as
-primeiras ingratidões da terra, aquelle seu morbido amor pelas hervas
-damninhas e o incomprehensivel odio pela enxada fecundante. Capinava, e
-capinava sempre até vir jantar.
-
-Esta refeição elle fazia mais demorada. Conversava um pouco com a
-irmã, contava-lhe a tarefa do dia, consistindo sempre em avaliar a area
-já limpa.
-
---Sabes, Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas, não ficará
-nem mais uma touceira de matto.
-
-A irmã, mais velha que elle, não partilhava aquelle seu enthusiasmo
-pelas cousas da roça. Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com
-elle, não foi senão pelo habito de acompanhal-o. De certo, ella o
-estimava, mas não o comprehendia. Não chegava a entender nem os seus
-gestos nem a sua agitação interna. Porque não seguira elle o caminho
-dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito...
-Andar com livros, annos e annos, para não ser nada, que doideira!
-Scguira-o ao «Socego» e, para entreter-se, criava gallinhas, com
-grande alegria do irmão cultivador.
-
---Está direito, dizia ella, quando o irmão lhe contava as cousas do
-seu trabalho. Não vá ficares doente... Neste sol todo o dia...
-
---Qual, doente, Adelaide! Não estas vendo como essa gente tem tanta
-saude por ahi... Se adoecem, é porque não trabalham.
-
-Acabado o jantar. Quaresma chegava á janella que dava para o
-gallinheiro e atirava migalhas de pão ás aves.
-
-Elle gostava desse espectaculo, daquella luta encarniçada entre patos,
-ganços, gallinhas, pequenos e grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da
-vida e dos premios que ella comporta. Depois, fazia indagações sobre
-a vida do gallinheiro:
-
---Já, nasceram os patos, Adelaide?
-
---Ainda não. Faltam oito dias ainda.
-
-E logo a irmã accrescentava:
-
---Tua afilhada deve casar-se sabbado, tu não vaes?
-
---Não. Não posso... Vou encommodar-me, luxo... Mando um leitão e um
-perú.
-
---Ora, tu! Que presente!
-
---Que é que tem? É da tradição.
-
-Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala
-de jantar da velha casa roceira, quando Anastacio veiu avisar-lhes que
-se achava um cavalheiro na porteira.
-
-Desde que ali se installara, nenhuma visita batera á porta de Quaresma,
-a não ser a gente pobre do logar, a pedir isso ou aquillo, esmolando
-disfarçadamente. Elle mesmo não travara conhecimento com ninguem, de
-modo que foi com surpreza que recebeu o aviso do velho preto.
-
-Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Elle já subia
-a pequena escada da frente e penetrava pela varanda a dentro.
-
---Boas tardes, Major.
-
---Boas tardes. Faça o favor de entrar.
-
-O desconhecido entrou e sentou-se. Era um typo commum, mas o que havia
-nelle de extranho, era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas
-tinha um aspecto deshonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a
-mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim
-como a de um lagarto que enthezoura enxundia para o inverno ingrato.
-Atravez da gordura de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua
-magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era naquella idade,
-com pouco mais de trinta annos, sem dar tempo que todo elle engordasse;
-porque, se as suas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras
-com longos dedos fusiformes e ageis. O visitante falou:
-
---Eu sou o Tenente Antonino Dutra escrivão da collectoria.
-
---Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.
-
---Nenhuma, Major. Já sabemos quem o senhor é; não ha novidade nem
-nenhuma exigencia legal.
-
-O escrivão tossiu, tirou um cigarro, offereceu outro a Quaresma e
-continuou:
-
---Sabendo que o Major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir
-incommodal-o... Não é cousa de importancia... Creio que o Major...
-
---Oh! Por Deus, Tenente!
-
---Venho pedir-lhe um pequeno auxilio, um obulo, para a festa da
-Conceição, a nossa padroeira, de cuja irmandade sou thesoureiro.
-
---Perfeitamente. É muito justo. Apezar de não ser religioso, estou...
-
---Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do logar que devemos
-manter.
-
---É justo.
-
---O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a
-irmandade tambem, de forma que somos obrigados a appellar para a boa
-vontade dos moradores mais remediados. Desde já, portanto, Major...
-
---Não. Espere um pouco...
-
---Oh! Major, não se incommode. Não é p'ra já.
-
-Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fóra e
-accrescentou:
-
---Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, Major?
-
---Muito bem.
-
---Pretende dedicar-se á agricultura?
-
---Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça.
-
---Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sitio já foi uma
-lindeza, Major! Quanta fructa! Quanta farinha! As terras estão
-cançadas e...
-
---Que cançadas, seu Antonino! Não ha terras cançadas.... A Europa é
-cultivada ha milhares de annos, entretanto...
-
---Mas lá se trabalha.
-
---Porque não se ha de trabalhar aqui tambem?
-
---Lá isso é verdade; mas ha tantas contrariedades na nossa terra
-que...
-
---Qual, meu caro Tenente! Não ha nada que não se vença.
-
---O Sr. verá com o tempo, Major. Na nossa terra não se vive senão de
-politica, fóra disso, ba-báo! Agora mesmo anda tudo brigado por causa
-da questão da eleição de deputados...
-
-Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas palpebras gordas
-um olhar pesquizador sobre a ingenua physionomia de Quaresma.
-
---Que questão é? indagou Quaresma.
-
-O Tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria:
-
---Então não sabe?
-
---Não.
-
---Eu lhe explico: o candidato do Governo é o Dr. Castrioto, moço
-honesto, bom orador; mas entenderam aqui certos presidentes de Camaras
-Municipaes do Districto que se hão de sobrepor ao Governo, só porque
-o Senador Guaryba rompeu com o Governador: e--zás--apresentaram um tal
-Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influencia... Que
-pensa o Senhor?
-
---Eu... Nada!
-
-O serventuario do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que,
-sabendo e morando no Municipio de Curuzú, não se incommodasse com a
-briga ao Senador Guaryba com o Governador do Estado! Não era possivel!
-Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse elle consigo, este
-malandro quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem
-difficuldade. Estava tirando sardinha com mão de gato... Aquillo devia
-ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as azas daquelle
-_estrangeiro_, que vinha não se sabe donde!
-
---O Major é um philosopho, disse elle com malicia.
-
---Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.
-
-Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão,
-mas, desanimado de penetrar nas tenções occultas do Major, apagou a
-physionomia e disse em ar de despedida:
-
---Então o Major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?
-
---De certo.
-
-Os dous se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vel-o
-montar no seu pequeno castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O
-escrivão afastou-se, desappareceu na estrada, e o Major ficou a pensar
-no interesse extranho que essa gente punha nas lutas politicas, nessas
-tricas eleitoraes, como se nellas houvesse qualquer cousa de vital e
-importante. Não atinara porque uma resinga entre dous figurões
-importantes vinha pôr desharmonia entre tanta gente, cuja vida estava
-tão fóra da esphera daquelles. Não estava ali a terra boa para
-cultivar e criar: Não exigia ella uma ardua luta diaria? Porque não se
-empregava o esforço que se punha naquelles barulhos de votos, de actas,
-no trabalho de fecundal-a, de tirar della seres, vidas--trabalho igual
-ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e
-guarybas, quando a nossa vida pede tudo à terra e ella quer carinho,
-luta, trabalho e amor...
-
-O suffrageo universal pareceu-lhe um flagello.
-
-O trem apitou e elle demorou-se a vel-o chegar. É uma emoção especial
-de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos
-põem em communicação com o resto do mundo. Ha uma mescla de medo e
-de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se tambem
-más. A alternativa angustia...
-
-O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mysterio, e traz,
-além de noticias geraes, bôas ou más tambem o gosto, um sorriso, a
-voz das pessoas que amamos e estão longe.
-
-Quaresma esperou o trem. Elle chegou arfando e se extirando como um
-reptil pela estação afóra á luz forte do sol no poente. Não se
-demorou muito. Apitou de novo e sahiu a levar noticias, amigos,
-riquezas, tristezas por outras estações além. O Major pensou ainda um
-pouco como aquillo era bruto e feio, e como as invenções do nosso
-tempo se afastam tanto da linha imaginaria da belleza que os nossos
-educadores de dous mil annos atrás nos legaram. Olhou a estrada que
-levava á estação. Vinha um sujeito... Dirigia-se para a sua casa...
-Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que
-caminhava com pressa... Quem era? Aquelle chapéo dobrado, como um
-morrião... Aquelle fraque comprido... Passo miudo... Um violão! Era
-elle!
-
---Adelaide está ahi o Ricardo.
-
-
-
-
-II
-
-ESPINHOS E FLORES
-
-
-Os suburbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em materia de
-edificação de cidade. A topographia do local, caprichosamente
-montuosa, influiu de certo para tal aspecto, mais influiram, porém, os
-azares das construcções.
-
-Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser
-imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e,
-conforme as casas, as ruas se fizeram. Ha algumas dellas que começam
-largas como «boulevards» e acabam estreitas que nem viellas; dão
-voltas, circuitos inuteis e parecem fugir ao alinhamento recto com um
-odio tenaz e sagrado.
-
-Ás vezes se succedem na mesma direcção com uma frequencia irritante,
-outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervallo coheso e
-fechado de casas. Num trecho, ha casas amontoadas umas sobre outras numa
-angustia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao
-nosso olhar uma ampla perspectiva.
-
-Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento.
-Ha casas de todos os gostos e construidas de todas as formas.
-
-Vai-se por uma rua a ver um correr de «chalets», de porta e janella,
-parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma
-casa burgueza, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer
-sobre um porão alto com mezzaninos gradeados. Passada essa surpreza,
-olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau a pique, coberta de
-zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante,
-é uma velha casa de roça, com varanda e columnas de estylo pouco
-classificavel, que parece vexada e querer occultar-se, diante daquella
-onda de edificios disparatados e novos.
-
-Não ha nos nossos suburbios cousa alguma que nos lembre os famosos das
-grandes cidades européas, com as suas villas de ar repousado e
-satisfeito, as suas estradas e ruas macadamisadas e cuidadas, nem mesmo
-se encontram aquelles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados,
-porque os nossos, se os ha, são em geral pobres, feios e desleixados.
-
-Os cuidados municipaes tambem são variaveis e caprichosos. Ás vezes,
-nas ruas, ha passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de
-communicação são calçadas e outras da mesma importancia estão ainda
-em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre
-um rio secco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma
-pinguella de trilhos mal juntos.
-
-Ha pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo
-que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; ha operarios de
-tamancos; ha peralvilhos á ultima moda: ha mulheres de chita; e assim
-pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla
-se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quasi sempre o mais bem posto
-não é que entra na melhor casa.
-
-Alem disto, os suburbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no
-namoro epidemico e no espiritismo endemico; as casas de commodos (quem
-as supporia lá!) constituem um delles bem inedito. Casas que mal dariam
-para uma pequena familia, são divididas, subdivididas, e os minusculos
-aposentos assim obtidos, alugados á população miseravel da cidade.
-Ahi, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos
-observada da nossa vida, sobre a qual a miseria paira com um rigor
-londrino.
-
-Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da
-gente que habita taes caixinhas. Além dos serventes de repartições,
-continuos de escriptorios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas
-de bilros, compradores de garrafas vasias, castradores de gatos, cães e
-gallos, mandingueiros, catadores de hervas medicinaes, emfim, uma
-variedade de profissões miseraveis que as nossas pequena e grande
-burguezias não podem adivinhar. Ás vezes num cubiculo desses se
-amontoa uma familia, e ha occasiões que os seus chefes vão a pé para
-a cidade por falta da nickel do trem.
-
-Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de commodos de um
-dos suburbios. Não era das sordidas, mas era uma casa de commodos dos
-suburbios.
-
-Desde annos que elle a habitava e gostava da casa que ficava trepada
-sobre uma collina, olhando a janella do seu quarto para uma ampla
-extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. Vistos assim do
-alto, os suburbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de
-azul, de branco, de óca, engastadas nas comas verde-negras das
-mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira,
-alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho
-das ruas põe no panorama um sabor do confusão democratica, de
-solidariedade perfeita entre as gentes que as habitam; e o trem
-minusculo, rapido, atravessa tudo aquillo, dobrando d esquerda,
-inclinando-se para a direita, muito flexivel nas suas grandes vertebras
-de carros, como uma cobra entre pedrouços.
-
-Era daquella janella que Ricardo, espraiava as suas alegrias, as suas
-satisfações, os seus triumphos e tambem os seus soffrimentos e maguas.
-
-Ainda agora estava elle lá, debruçado no peitoril, com a mão em
-concha no queixo, colhendo com a vista uma grande parte daquella bella,
-grande e original cidade, capital de um grande paiz de que elle a modos
-que era e se sentia ser, a alma, consubstanciando os seus tenues sonhos
-e desejos em versos discutiveis, mas que a plangencia do violão, se
-não lhes dava sentido, dava um que de balbucio, de queixume dorido da
-patria criança ainda, ainda na sua formação...
-
-Em que pensava elle? Não pensava só, soffria tambem. Aquelle tal preto
-continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma cousa, e
-tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival delle, Ricardo; outros
-já affirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros, e
-alguns mais--ingratos!--já esqueciam os trabalhos, o tenaz trabalhar de
-Ricardo Coração dos Outros em pról do levantamento da modinha e do
-violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro.
-
-Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infancia, daquella sua
-aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido
-dos vitellos. E o queijo? Aquelle queijo tão substancial, tão forte,
-feio como aquella terra, mas feraz como ella tanto que bastava comer
-delle uma pequena fatia para se sentir almoçado... E as festas?
-Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o Maneco Borges,
-não lhe predissera o futuro: «Irás longe, Ricardo. A viola quer teu
-coração».
-
-Por que então aquelle encarniçamento, aquelle odio contra elle--elle
-que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma, o suco, a
-substancia do paiz!
-
-E as lagrimas lhe saltaram quentes dos olhos afóra. Olhou um pouco as
-montanhas, farejou o mar lá longe... Era bella a terra, era linda, era
-magestosa, mas parecia ingrata e aspera no seu granito omnipresente que
-se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das arvores.
-
-E elle estava ali só, só com a sua gloria e o seu tormento, sem amor,
-sem confidente, sem amigo, só como um deus ou como um apostolo em terra
-ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova.
-
-Soffria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse aquellas
-lagrimas que iam cahir no solo indifferente. Por ahi, lembrou-se dos
-famosos versos: _Se choro... bebe o pranto a areia ardente_...
-
-Com a lembrança, elle baixou um pouco o olhar á terra e viu que no
-tanque da casa, um tanto escondida delle, uma rapariga preta lavava.
-Ella abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso,
-ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro á pedra, e recomeçava. Teve
-pena daquella pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua
-côr. Veiu-lhe um afflux de ternura e, depois, poz-se a pensar no mundo,
-nas desgraças, ficando um instante enleiado no enigma do nosso
-miseravel destino humano.
-
-A rapariga não o viu, distrahida com o trabalho; e se pôz a cantar:
-
-
- _Da doçura dos teus olhos
- A brisa inveja já vem_
-
-
-Era delle. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquella
-pobre mulher, abraçal-a...
-
-E como eram as cousas? Elle recebia lenitivo daquella rapariga; era a
-sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe
-então á memoria aquelles versos do padre Caldas, esse seu antecessor
-feliz que teve um auditorio de fidalgas:
-
-
- _Lereno alegrou os outros
- E nunca teve alegria_...
-
-
-Enfim era uma missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se
-pôde conter:
-
---Vai bem, D. Alice, vai bem! Se não fosse porque eu lhe pedia _bis_.
-
-A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:
-
---Não sabia que o senhor estava ahi, senão não cantava na vista do
-senhor.
-
---Qual o que! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante.
-
---Deus me livre! Para o senhor me _criticar_...
-
-Embora insistisse muito, a rapariga não quiz continuar. As maguas
-pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Veiu ao interior do
-quarto e pôz-se á meza na tenção de escrever.
-
-O seu quarto tinha o mobiliario mais reduzido possivel. Havia uma rede
-com franjas de rendas, uma mesa de pinho, sobre ella objectos de
-escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a uma parede
-o violão na sua armadura de camurça. Havia tambem uma machina para
-fazer café.
-
-Sentou-se e quiz começar uma modinha sobre a Gloria, essa cousa fugace,
-que se tem e se pensa que não se tem, alguma cousa impalpavel,
-incolhivel como um sopro, que nos alancêa, queima, inquieta e abraza
-como o Amor.
-
-Tentou começar, dispoz o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido
-forte, toda a sua natureza tinha sido lavrada, baralhada, com a idéa
-daquelle furto que se queria fazer ao seu merito. Não conseguiu
-assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a musica zumbir
-no ouvido.
-
-A manhã ia alta. As ciganas defronte chilreavam no tamarineiro
-desfolhado; começava a esquentar e o céo estava de um azul ligeiro,
-tenue, fino. Quiz sahir, procurar um amigo, espairecer com elle, mas
-quem? Ainda, se o Quaresma... Ah! O Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe
-conforto e consolo.
-
-É verdade que ultimamente esse seu amigo achava-se pouco interessado
-pela modinha; mas assim mesmo comprehendia o seu proposito, os fins e o
-alcance da obra a que elle, Ricardo, se propunha. Ainda se o Major
-estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava
-a dous mil réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria.
-Bateram á porta. Traziam-lhe uma carta. Não reconheceu a letra; rasgou
-o envelope com emoção. Que seria? Leu:
-
-«Meu caro Ricardo--Saude--Minha filha Quinota casa-se depois de
-amanhã, quinta-feira. Ella e o noivo fazem muito gosto que V.
-appareça. Se o amigo não estiver compromettido com alguem, agarre o
-violão e venha até cá tomar uma chavena de chá comnosco--Seu amigo
-Albernaz».
-
-O trovador, á proporção que lia, ia mudando de physionomia. Até
-então estava carregada e dura: quando acabou de ler o bilhete, um
-sorriso brincava por toda ella, descia e subia, ia de uma face a outra.
-O General não o abandonara; para o respeitavel milhar, Ricardo
-Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Iria e arranjaria
-passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco o
-violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um
-idolo bemfazejo.
-
-Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o ultimo brinde
-havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em
-pequenos grupos. D. Maricota vestia seda malva e o seu busto curto
-parecia ainda mais abafado, mais socado, naquelle tecido caro que parece
-requerer corpos elegantes e flexiveis. Quinota estava radiante no
-vestido de noiva. Ella era alta, de feições mais regulares que a irmã
-Ismenia, mas menos interessante e mais commum de temperamento e alma,
-embora faceira. Lalá a terceira filha do General, que já se ageitava a
-moça, tinha muito pó de arroz, estava sempre a concertar o penteado e
-a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado.
-Genelicio dava o braço á noiva, encasacado numa casaca mal talhada,
-que punha bem á mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado
-nos apertados sapatos de verniz.
-
-Ricardo não os viu passar, pois ao entrar, a fila estava no General,
-mettido num segundo uniforme dos grandes dias, que lhe ia mal como a
-farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem tinha um ar
-importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o
-Contra-Almirante Caldas. Fôra padrinho e estava irreprehensivel na sua
-casaca do uniforme. As ancoras reluziam como metaes de bordo em hora de
-revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e
-pareciam desejar com ardôr os grandes ventos do vasto oceano sem fim.
-Ismenia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente, com o
-seu vagar, com os seus gestos lentos, dando providencias. O Lulú, o
-unico filho do General, impava no seu uniforme do Collegio Militar,
-cheio de dourados e cabellos, tanto mais que passara de anno, graças
-aos empenhos do pai.
-
-O General não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o
-trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse
-um--_sou muito feliz_...--deitando a cabeça de lado e sorrindo para o
-chão, sorriso que encheu de immenso transporte a candida alma do
-menestrel.
-
-Deram começo as dansas e o General, o Almirante, o Major Innocencio
-Bustamante, que tambem viera de uniforme, com a sua banda roxa de
-honorario, o Dr. Florencio, Ricardo e dous convidados outros foram para
-a sala de jantar palestrar um pouco.
-
-O General estava satisfeito. Sonhava ha tantos annos uma cerimonia
-daquellas em sua casa e emfim pela primeira vez via realizado esse
-anceio.
-
-A Ismenia foi aquella desgraça... O ingrato?... Mas para que recordar?
-
-Os cumprimentos se repetiram.
-
---É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos.
-
-O General tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e
-emquanto o limpava, respondeu, olhando com aquelle geito dos myopes:
-
---Estou muito contente.
-
-Por ahi pôz o pince-nez, endireitou o truncelim e continuou:
-
-Creio que casei bem minha filha: rapaz formado bem encaminhando e
-intelligente.
-
-O Almirante acudiu:
-
---E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dous
-annos escripturario do Thezouro, é cousa nunca vista.
-
---O Genelicio não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou
-Florencio.
-
---Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado novo, que era
-da amizade do recem-casado.
-
-De facto, Genelicio tinha arranjado a transferencia e não fôra só
-isso que o decidira a casar-se. Tendo escripto uma--«Synthese de
-Contabilidade Publica Scientifica»--viu-se, sem saber como, cumulado de
-elogios pela _imprensa desta capital_. O Ministro, attendendo ao merito
-excepcional da obra, mandou-lhe dar dous contos de premio, tendo sido a
-edição feita á custa do Estado, na Imprensa Nacional. Era um grosso
-volume de 400 paginas, typo dôze, escripto em estylo de officio, com
-uma basta documentação de decretos, e portarias, occupando dous
-terços do livro.
-
-A primeira phrase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente
-synthetico e scientifico, fôra até muito notada e gabada pelos
-criticos, não só pela novidade da idéa, conto tambem pela belleza da
-expressão.
-
-Dizia assim: «A Contabilidade Publica é a arte ou sciencia de
-escripturar convenientemente a despeza e receita do Estado».
-
-Além do premio e da transferencia, elle já tinha promessa de ser
-sub-director na primeira vaga.
-
-Ouvindo tudo isso que tinham dito o Almirante, o General e os convidados
-novos, o Major não pôde deixar de observar:
-
---Depois da militar, a melhor carreira é a de Fazenda, não acham?
-
---Sim... Bem entendido, fez o Dr. Florencio.
-
---Eu não quero falar dos formados, apressou-se o Major. Esses...
-
-Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando
-a primeira phrase que lhe veiu aos labios:
-
---Quando se prospera, todas as profissões são boas.
-
---Não é assim tanto, obtemperou o Almirante, alisando um dos
-favoritos. Não é para desfazer nas outras, mas a nossa, hein Albernaz?
-hein Innocencio?
-
-Albernaz levantou a cabeça como se quizesse apanhar no ar uma
-lembrança e depois replicou:
-
---É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo
-daqui, tiro dali, morre um, grita outro como em Curupaity, então...
-
---O Sr. esteve lá, General? perguntou o convidado amigo de Genelicio.
-
---Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não
-imaginam o que foi--Você sabe, não é Innocencio?
-
---Se estive lá...
-
---Polydoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores a esquerda e _nós_
-cahimos sobre os Paraguayos. Mas os malandros estavam bem
-entrincheirados, tinham aproveitado o tempo...
-
---Foi _seu_ Mitre, disse Innocencio.
-
---Foi. Atacamos com furia. Era um ribombar de canhões que mettia medo,
-bala por todo o canto, os homens morriam como moscas... Um inferno!
-
---Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.
-
-Todos se entreolharam admirados, excepto o General que julgava a
-sabedoria do Paraguay excepcional.
-
---Foram os paraguayos, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso
-que eu digo que a nossa profissão é bella, mas tem as suas _cousas_...
-
---Isso não quer dizer nada. Tambem na passagem de Humaytá... ia
-dizendo o Almirante.
-
---O senhor estava a bordo?
-
---Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse
-designado, porque o embarque equivalia a uma promoção... Mas, na
-passagem de Humaytá...
-
-Na sala de visitas as dansas continuavam com animação. Era raro que
-alguém viesse lá de dentro até onde elles estavam. Os risos, a
-musica, e o mais que se adivinhava não distrahiam aquelles homens das
-suas preoccupações bellicosas.
-
-O General, o Almirante e o Major enchiam de pasmo aquelles burguezes
-pacificos, contando batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas
-que não pelejaram.
-
-Não ha como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos
-generosos, para apreciar as narrações de guerra. Elle só vê a parte
-pittoresca, a parte por assim dizer espiritual das batalhas, dos
-encontros; os tiros são os de salva e se matam é cousa de sómenos. A
-Morte mesmo, nas narrações feitas assim, perde a sua importancia
-tragica: 3.000 mortos, só!!!
-
-De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a
-guerra, a cousa ficava edulcorada, uma guerra «bibliothèque rose»,
-guerra de estampa popular, em que não apparecem a carniçaria, a
-brutalidade e a ferocidade normaes.
-
-Estavam Ricardo, o Dr. Florencio, o exacto empregado como engenheiro das
-Aguas, aquelles dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos,
-boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginarias daquelles tres
-militares, um honorario, talvez o menos pacifico dos tres, o unico que
-tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira--quando D. Maricota
-chegou, sempre diligente, activa, dando movimento e vida á festa. Era
-mais moça que o marido, tinha ainda inteiramente pretos os cabellos na
-sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo enorme. Ella
-vinha offegante e dirigiu-se ao marido:
-
---Então, Chico, que é isso? Ficam ahi e eu que faça sala, que anime
-as moças... P'ra sala todos!
-
---Já vamos D. Maricota, disse alguém.
-
---Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, seu Caldas, seu
-Ricardo, os senhores!
-
-E foi empurrando um a um pelo hombro.
-
---Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o
-senhor... Está ouvindo, _seu_ Ricardo!
-
---Pois não, minha senhora. É uma ordem...
-
-E foram. No caminho o General parou um pouco, chegou-se a Coração dos
-Outros e perguntou:
-
---Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?
-
---Vai bem.
-
---Tem-lhe escripto?
-
---Ás vezes. Eu queria, General...
-
-O General suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que
-começava a cahir, e perguntou:
-
---O que?
-
-Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a
-pergunta. Depois de uma ligeira, hesitação, respondeu de um jacto, com
-medo de perder a s palavras:
-
---Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir
-vel-o.
-
-O General esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabello e
-disse:
-
---Isso é difficil, mas você appareça lá, na repartição, amanhã.
-
-E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros accrescentou:
-
---Estou com saudades delle, depois tenho certos desgostos... O senhor
-sabe: um homem que tem nome...
-
---Vá lá amanhã.
-
-D. Maricota appareceu na frente e falou agastada:
-
---Vocês não vêm!
-
---Já vamos, fez o General.
-
-E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
-
---Aquelle Quaresma podia estar bem, mas foi metter-se com livros... É
-isto! Eu, ha bem quarenta annos, que não pego em livro...
-
-Chegaram á sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas
-molduras douradas, furiosos retratos a oleo de Albernaz e da mulher; um
-espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava completa. Da
-mobilia não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço
-aos dansantes. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a
-festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e
-muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janella, Ricardo pôde ver
-a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim;
-só de lá os curiosos, os _serenos_, podiam ver alguma cousa da festa.
-Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O General
-contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...
-
-A moça, a famosa filha do Lemos, dispoz-se a cantar. Foi ao piano,
-collocou a partitura e começou. Era uma romanza italiana que ella
-cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem educada. Acabou.
-Palmas geraes, mas frias, soaram.
-
-O Dr. Florencio que ficara atraz do General, commentou:
-
---Tem uma bella voz esta moça. Quem é?
-
---É a filha do Lemos, do Dr. Lemos da Hygiene, respondeu o General.
-
---Canta muito bem.
-
---Está no ultimo anno do Conservatorio, observou ainda Albernaz.
-
-Chegou a vez de Ricardo. Elle occupou um canto da sala, agarrou o
-violão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar tragico de
-quem vai representar o Oedipo-Rei e falou com voz grossa: «Senhoritas,
-senhores e senhoras». Parou. Concertou a voz e continuou: «Vou cantar
-«Os teus braços», modinha de minha composição, musica e versos. É
-uma composição terna, decente e de uma poesia exaltada». Seus olhos,
-por ahi, quasi lhe sabiam das orbitas. Emendou: «Espero que nenhum
-ruido se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão
-instrumento muito... mui...to _dê li ca do_. Bem».
-
-A attenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebuado, macio
-e longo, como um soluço de onda; depois, houve uma parte rapida,
-saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro,
-a modinha acabou.
-
-Aquillo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e
-aos desejos dos homens. As palmas foram ininterruptas. O General
-abraçou-o, Genelicio levantou-se e deu-lhe a mão, Quinota, no seu
-immaculado vestido de noiva, tambem.
-
-Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu á sala de jantar. No
-corredor chamaram-n'o: Sr. Ricardo, Sr. Ricardo! Voltou-se. Que ordena
-minha senhora? Era uma moca que lhe pedia uma copia da modinha.
-
---Não se esqueça, dizia ella com meiguice, não se esqueça. Gosto
-tanto das suas modinhas... São tão ternas tão delicadas... Olhe: dê
-aqui a Ismenia para me entregar.
-
-A noiva de Cavalcanti approximava-se e, ouvindo falar em seu nome,
-perguntou:
-
---Que é, Dulce?
-
-A outra explicou-lhe. Ella aceitou a incumbencia: e, por sua vez,
-perguntou a Ricardo com a sua voz dolente:
-
---_Seu_ Ricardo, quando é que o Sr. pretende estar com D. Adelaide.
-
---Depois de amanhã, espero eu.
-
---Vai lá.
-
---Vou.
-
---Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma
-carta...
-
-E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.
-
-
-
-
-III
-
-GOLIAS
-
-
-No sabbado da semana seguinte áquella em que a filha do General
-recebera como marido o grave e giboso Genelicio, gloria e orgulho do
-nosso funccionalismo publico, Olga casara-se. A cerimonia correra com a
-pompa e a riqueza acostumadas em pessoas de sua camada. Houve uns
-arremedos parisienses de _corbeille_ de noiva e outros pequenos detalhes
-chics, que não a aborreceram, mas que não a encheram lá de
-satisfação maior que as noivas communs. Talvez nem mesmo essa ella
-tivesse.
-
-Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua
-vontade. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquelle
-acto, mas, apparentemente, nenhuma vontade extranha á sua influira para
-isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva,
-mas com a volta que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo medico,
-cheio de talento nas notas e recompensas escolares, via diante de si uma
-larga estrada de triumphos nas posições e na industria clinica. Não
-tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal titulo um fóral de
-nobreza, equivalente áquelles com que os authenticos fidalgos da Europa
-brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros _yankees_. Apezar de
-ser seu pai um importante fazendeiro por ahi, em algum logar deste
-Brasil, o sogro lhe dera tudo e tudo elle aceitara sem pejo, com o
-desprezo de um duque, duque de plenamentes e medalhas, a receber
-homenagens de um villão que não _roçou os bancos de uma Academia_.
-
-Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso titulo, o
-pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo titulo, mas pela sua
-simulação de intelligencia, de amor á sciencia, de desmedidos sonhos
-de sabio. Tal imagem que delle fizera, durara instantes em Olga; depois
-foi a inercia da sociedade, a sua tyrannia e a timidez natural da moça
-em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ella, de si para
-si, pensava que se não fosse este, seria outro a elle igual, e o melhor
-era não adiar.
-
-Era por isso que ella não ia para a igreja, em virtude de uma
-determinação certa de sua vontade, embora sem perceber o
-constrangimento de um commando fora della.
-
-Apezar da pompa, esteve longe de ser uma noiva magestosa. Não obstante
-as origens puramente européas, era pequena, muito mesmo, ao lado do
-noivo, alto, erecto, com uma physionomia irradiante de felicidade; e,
-desse modo, ella desapparecia dentro do vestido, dos véos e daquelles
-atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar, De
-resto, a tua belleza não era a grande belleza--aquella que nós
-exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas classicas.
-
-No seu rosto, nada de grego, desse grego authentico on de pacotilha, ou
-tambem dessa magestade de opera lyrica. Havia nos seus traços muita
-irregularidade, mas a sua physionomia era profunda e propria. Não só a
-luz dos seus grandes olhos negros, que quasi cobriam toda a cavidade
-orbitaria, fazia fulgurar o seu rosto mobil, como a sua pequena boca, de
-um desenho fino, exprimia bondade, malicia e o seu ar geral era de
-reflexão e curiosidade.
-
-Ao contrario do costume, não sahiram da cidade e foram morar em casa do
-antigo empreiteiro.
-
-Quaresma não fora á festa, mandara o leitão e o perú da tradição e
-escrevera uma longa carta. O sitio empolgara-o, o calor ia passar, vinha
-a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-se de suas
-terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous,
-era como se começasse a desertar da batalha.
-
-O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da
-horta. A visita de Ricardo veiu distrail-o um pouco, sem desvial-o
-comtudo, de seus afazeres agricolas.
-
-Passou um mez com o Major, e foi um triumpho. A fama do seu nome
-precedia-o, de forma que todo o municipio o disputava e festejava.
-
-O seu primeiro trabalho foi ir á villa. Ficava a quatro kilometros
-adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação
-lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de rodagem,
-se assim se póde chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e
-descia morros, cortava planicies e rios em toscas pontes. A villa!...
-Tinha duas ruas principaes: a antiga, determinada pelo velho caminho de
-tropas, e a nova, cuja origem veiu da ligação da velha com a estrada
-de ferro. Ellas se encontravam em _T_, sendo o braço vertical o caminho
-da estação. As outras partiam dellas, as casas juntavam-se urbanamente
-no começo, depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em
-campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova,
-Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da rua
-Marechal Deodoro, partia a da Matriz, ia ter á igreja, ao alto de uma
-collina, feia e pobre no seu estylo jesuitico. Á esquerda da estação,
-num campo, a praça da Republica, a que ia dar uma rua mal esboçada por
-espaçadas casas, ficava a Camara Municipal.
-
-Em um grande parallepipeto de tijolo, cimalha, janella com sacadas de
-grade de ferro, puro estylo mestre de obras. Compungia essa pobreza de
-gosto a quem se lembrasse dos edificios da mesma natureza das pequenas
-communas francezas e belgas da idade média.
-
-Ricardo entrou num barbeiro da rua Marechal Deodoro, salão Rio de
-Janeiro, e fez a barba. O figaro deu-lhe informações a villa e elle se
-deu a conhecer. Havia certos circumstantes, um delles tomou-o a seu
-cargo e dahi em pouco estava relacionado.
-
-Quando voltou para a casa do Major já tinha convite para o baile do Dr.
-Campos, presidente da Camara, festa que teria logar na quarta-feira
-proxima.
-
-Chegara sabbado e fora passeiar á villa domingo.
-
-Tinha havido missa e o trovador assistiu a sahida. A concurrencia nunca
-é grande na roça, mas Ricardo pôde ver algumas daquellas moças do
-interior, lymphaticas e tristes, ataviadinhas, cheias de laços,
-descendo silenciosas a collina em que se erguia a igreja, espalhando-se
-pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de
-reclusão e tedio. Foi na sahida da missa que lhe apresentaram o Dr.
-Campos.
-
-Era o medico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de
-«aranha» com a sua filha, Nair, assistir o officio religioso.
-
-O trovador e o medico estiveram um instante conversando, emquanto a
-filha, muito magra, pallida, com uns longos braços descarnados, olhava
-com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando elles partiram,
-ainda Ricardo considerou um pouco aquelle rebento dos ares livres do
-Brasil.
-
-Á festa do Dr. Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de
-sua presença e a alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas
-gozava a sua victoria. Se bem que o Major tivesse abandonado o violão,
-ainda continuava a prezar aquelle instrumento essencialmente nacional.
-As consequencias desastrosas do seu requerimento em nada tinham abalado
-as suas convicções patrioticas. Continuavam as suas idéas
-profundamente arraigadas, tão sómente elle as escondia, para não
-soffrer com a incomprehensão e maldade dos homens.
-
-Gozava, portanto, a fulminante victoria de Ricardo, que indicava bem
-naquella população a existencia de um residuo forte da nossa
-nacionalidade a resistir ás invasões das modas e gostos estrangeiros.
-
-Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os
-partidos. O Dr. Campos, presidente da Camara, era quem mais o cumulava
-de homenagens. Naquella manhã até esperava um dos cavallos do edil,
-para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que
-ainda não tinha partido para o eito:
-
---Major, foi uma boa idéa vir para a roça. Vive-se bem e pode-se
-subir...
-
---Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são extranhas
-todas essas cousas.
-
---Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos offerecem, não
-devemos rejeitar, não acha?
-
---Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de commandar
-uma esquadra.
-
---Até ahi não vou. Olhe, Major: eu gosto muito de violão, mesmo
-dedico a minha vida ao seu levantamento moral a intellectual,
-entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: «Seu Ricardo, Você vai
-ser deputado», o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo
-perfeitamente que não podia mais desferir os threnos do instrumento?
-Ora, se não! Não se deve perder vasa, Major.
-
---Cada um tem as suas theorias.
-
---De certo. Outra cousa. Major: conhece o Dr. Campos?
-
---De nome.
-
---Sabe que elle é presidente da Camara.
-
-Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança, O
-menestrél não notou o gesto do amigo e emendou.
-
---Móra daqui a uma legua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavallo
-passeiar com elle.
-
---Fazes bem.
-
---Elle quer conhecel-o. Posso trazel-o aqui?
-
---Pódes.
-
-Um camarada do Dr. Campos, neste instante, entrava pela porteira
-trazendo o cavallo promettido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a
-roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora dous, pois, além
-do Anastacio, que não era bem um empregado, mas aggregado, admittira o
-Felizardo.
-
-Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores
-tinham attenuado a temperatura.
-
-Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi
-caminhando por entre aquelle rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar
-do mato e do piar das aves e passaros. Esvoaçavam tyês vermelhos,
-bandos de colleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras no
-verdor das arvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos
-campos, no momento, parece que tinham sahindo á luz, não sómente para
-a fecundação vegetal mas tambem para a belleza.
-
-Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e
-fôra para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. Era este um
-camarada magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um simio.
-Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma apparencia de
-fraqueza muscular, não havia ninguem mais valente que elle a roçar.
-Com isto era um tagarella incansavel. De manhã, quando chegava, ahi
-pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do municipio.
-
-O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado do norte do
-sitio, que o capão invadira. Obtido elle, o Major plantaria obra de
-meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervallos batatas
-inglezas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se
-fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, porém, não lhe
-quizera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando delle
-os principios volateis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus
-mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miudos e folhas,
-elle removia para longe, onde então queimaria em coiváras pequenas.
-
-Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós
-e tocos; mas promettia dar um rendimento maior ao plantio.
-
-Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se
-distrahir. Ha quem cante, elle falava e pouco se incommodava que lhe
-dessem ou não attençâo.
-
---Essa gente anda accesa por ahi, disse Felizardo logo que o Major
-chegou.
-
-Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, attendia-lhe a conversa,
-raras não. Anastacio era silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e,
-de quando em quando, parava, considerava, numa postura hieratica de uma
-pintura mural thebana. O Major perguntou ao Felizardo:
-
---Que é que ha, Felizardo?
-
-O camarada descançou o grosso tronco de camará no monte, limpou o
-suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante:
-
---Negocio de politica... Seu Tenente Antonino quasi briga hontem com
-_seu dotô Campo_.
-
---Onde?
-
---Na estação.
-
---Porque?
-
---Negocio de partido. Pelo que ouvi: seu Tenente-Antonino é pelo
-_governadô_ e _seu dodô Campo_ é pelo _senadô_... Um sarcêro,
-patrão!
-
---E você, por quem é?
-
-Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um
-galho que enleiava o tronco a remover. Anastacio estava de pé e
-considerou um instante a figura do companheiro palrador. Respondeu
-afinal:
-
---Eu! sei lá... Urubu pellado não se mette no meio dos coroados. Isso
-é bom p'r'o _sinhô_.
-
---Eu sou como você, Felizardo.
-
---Quem me dera, meu _sinhô_. Inda _traz-antonte_ ouvi _dizê_ que o
-patrão é amigo do _marechá_...
-
-Afastou-se com o pau; e, quando voltou Quaresma indagou assustado:
-
---Quem disse?
-
---Não sei, não _sinhô_. Ouvi a modo de _dizê_ lá na venda do
-hespanhol, tanto assim que _doutô Campo tá_ inchado que nem sapo com a
-sua amizade.
-
---Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma...
-Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguem... Qual amigo!
-
---_Quá_! fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão _tá_ é
-varrendo a testada.
-
-Apezar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquella
-cabeça infantil a idéa de que elle fosse amigo do Marechal Floriano.
-«Conheci-o no meu emprego»--dizia o Major: Felizardo sorria grosso e
-por uma vez dizia: «_Quá_! o patrão é fino que nem cobra».
-
-Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer
-aquillo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações pela
-manhã... Elle tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel,
-incapaz de lhe estar armando laços para passar máos momentos; os
-enthusiasmos delle, entretanto, junto á vontade de ser bom amigo,
-podiam illudil-o e fazel-o instrumento de algum perverso. Quaresma ficou
-um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve,
-porém, esqueceu-se e a preoccupação dissipou-se. Á tarde, quando foi
-jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu
-natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de
-cogitações por parte delle.
-
-D. Adelaide, sempre com a sua _matinée_ creme e saia preta, sentava-se
-á cabeceira; Quaresma á direita e á esquerda, Ricardo. Era a velha
-quem sempre puxava a lingua do trovador.
-
---Gostou muito do passeio, Sr. Ricardo?
-
-Não havia meio della dizer _seu_. A sua educacão de _senhora_ de
-outros tempos, não lhe permittia usar esse plebeismo generalizado. Vira
-os pais, gente ainda fortemente portugueza, dizer _senhor_ e continuava
-a dizer, sem fingimento, naturalmente.
-
---Muito. Que logar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é
-que se tem inspiração.
-
---E elle tomava aquella altitude de arroubo: uma physionomia de mascara
-de tragico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada
-abafada.
-
---Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.
-
---Hoje acabei uma modinha.
-
---Como se chama? indagou D. Adelaide.
-
---«Os labios da Carola».
-
---Bonito! Já fez a musica?
-
-Era ainda a irmã da Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo
-a boca; deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com
-toda a convicção:
-
---A musica, minha senhora, é a primeira coesa que faço.
-
---Has de nol-a cantar logo.
-
---Pois não, Major.
-
-Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros sahiram a passeiar no
-sitio. Fôra essa a unica concessão que ao amigo fizera Polycarpo, no
-tocante ao regimen de seus trabalhos agricolas. Levava sempre o pedaço
-de pão, esfarelava em migalhas no gallinheiro, para ver a atroz disputa
-entre as aves. Acabando, ficava um instante a considerar aquellas vidas,
-criadas, mantidas e protegidas para sustento da sua. Sorria para os
-frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito vivos e avidos, e
-demorava-se a apreciar a estupidez do perú, imponente, fazendo roda, a
-dar estouros presumpçosos. Em seguida, ia ao chiqueiro; assistia
-Anastacio dar a ração, despejando-a nos cochos. O enorme cevado de
-grandes orelhas pendentes levantava-se difficilmente e solemnemente
-vinha mergulhar a cabeça na caldeira; noutro compartimento os
-bacurinhos grunhiam e grunhindo vinham com a mãe charfurdar-se na
-comida.
-
-A avidez daquelles animaes era deveras repugnante mas os seus olhos
-tinham uma longa doçura bem humana que os fazia sympathicos.
-
-Ricardo apreciava pouco aquellas formas inferiores de vida, mas Quaresma
-ficava minutos esquecido a contemplal-as numa demorada interrogação
-muda. Sentavam-se a um tronco de arvore; e Quaresma olhava o céo alto
-emquanto Coração dos Outros contava qualquer historia.
-
-A tarde ia adiantada, A terra já começava a amollecer, pelo fim
-daquelle beijo ardente e demorado do sol. Os bambús suspiravam; as
-cigarras ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos o Major
-voltou-se. Padrinho! Olga!
-
-Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram ficaram ainda a olhar
-um para o outro, com as mãos presas. E vieram aquellas estupidas e
-tocantes phrases dos encontros satisfeitos: quando chegaste? Não
-esperava... É longe... Ricardo olhava embevecido com a ternura dos
-dous; Anastacio tirara o chapéo e olhava a «sinhasinha», com o o seu
-terno e vasio olhar de africano.
-
-Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois
-passeou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou:
-
---Que dê teu marido?
-
---O doutor?... Está lá dentro.
-
-O marido tinha resistido muito em acompanhal-a até ali. Não lhe
-parecia bem aquella intimidade com um sujeito sem titulo, sem posição
-brilhante e sem fortuna. Elle não comprehendia como o seu sogro, apezar
-de tudo um homem rico, de outra esphera, tinha podido manter e estreitar
-relações com um pequeno empregado de uma repartição secundaria, e
-até fazel-o seu compadre! Que o contrario se desse, era justo; mas como
-estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade
-nacional. Mas, em definitivo, quando D. Adelaide o recebeu cheia de um
-immenso respeito, de uma particular consideração, ele ficou desarmado e
-todas as suas pequenas vaidades foram tocadas e satisfeitas.
-
-D. Adelaide, mulher velha, do tempo em que o imperio armava essa nobreza
-escolar, possuia em si uma particular reverencia, um culto pelo
-doutorado; e não lhe foi, pois, difficil demonstral-o quando se viu
-diante do Dr. Armando Borges, de cujas notas e premios ella tinha exacta
-noticia.
-
-Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o
-doutor, gozando aquelle seu sobrehumano prestigio, ia conversando
-pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, á proporção que
-conversava, talvez para que o effeito não se dissipasse, virava com a
-mão direita o grande annelão _symbolico_, o talisman, que cobria a
-phalange do dedo indicador esquerdo, ao geito de _marquise_.
-
-Conversaram muito. O joven par contou a agitação politica do Rio, a
-revolta da fortaleza de Santa Cruz; D. Adelaide a epopéa da mudança,
-moveis quebrados, objectos partidos. Pela meia noite todos foram dormir
-com uma alegria particular, emquanto os sapos levantavam no riacho
-defronte o seu grave hymno á transcendente belleza do céo negro,
-profundo e estrellado.
-
-Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e
-esteve conversando com o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um
-jornal. Rasgou a cinta e leu o titulo. Era o «O Municipio», orgão
-local, hebdomadario, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia
-afastado; elle aproveitou a occasião para ler o jornaleco. Pôz o
-pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e desdobrou o jornal.
-Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam
-mollemente. Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se
-«Intrusos» e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos
-no logar que moravam nelle--verdadeiros _estrangeiros que se vinham
-intrometter na vida particular e politica da familia curuzuense,
-perturbando-lhe a paz e a tranquillidade_.
-
-Que diabo queria dizer aquillo? Ia deitar fóra o jornaleco, quando lhe
-pareceu ler seu nome entre versos. Procurou o logar e deu com estas
-quadrinhas:
-
-
- _POLITICA de CURUZU_
-
- _Quaresma, meu bem, Quaresma!
- Quaresma do coração!
- Deixa as batatas em paz
- Deixa em paz o feijão._
-
- _Geito não tens para isso
- Quaresma, meu cocumby!
- Volta á mania antiga
- De redigir em tupy._
-
- _Olho Vivo._
-
-
-O Major ficou estuporado. Que vinha ser aquillo? Porque? Quem era? Não
-atinava, não achava o motivo o fundo de semelhante ataque. A irmã
-approximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma estendeu-lhe o jornal
-com o braço tremendo: «Lê isto, Adelaide».
-
-A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa c
-solicitude. Ella tinha aquella ampla maternidade das solteironas; pois
-parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da mulher
-pelas dores do outros. Emquanto ella lia, Quaresma dizia: mas que fiz
-eu? que tenho com politica? E coçava os cabellos já tanto encanecidos.
-
-D. Adelaide disse então docemente:
-
---Socega, Polycarpo. Por isso só?... Ora!
-
-A afilhada leu tambem os versos e perguntou ao padrinho:
-
---O Sr. se metteu algum dia nessa politica daqui?
-
---Eu nunca!... Vou até declarar que...
-
---Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a
-irmã:
-
---Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca!
-
-O doutor e Ricardo chegavam de fóra e encontraram os tres nessas
-considerações. Notaram a alteração de Quaresma. Estava pallido,
-tinha os olhos humidos e coçava successivamente a cabeça.
-
---Que ha, Major? indagou o troveiro.
-
-As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo
-depois contou o que ouvira na villa. Acreditavam todos que o Major viera
-para ali no intuito de fazer politica, tanto assim que dava esmolas,
-deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuia remedios
-homeopathicos... O Antonino affirmara que havia de desmascarar
-semelhante tartufo.
-
---E não desmentiste? perguntou Quaresma.
-
-Ricardo affirmou que sim, mas o escrivão não quizera acreditar nelle e
-reiterara os seus propositos de ataque.
-
-O Major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de accordo com
-seu genio, incubou nos primeiros tempos a impressão, e, emquanto
-estiveram com elle os seus amigos, não demonstrou preoccupação.
-
-Olga e o marido passaram no «Socego» cerca de quinze dias. O marido,
-ao fim de uma semana, já parecia cançado. Os passeios não eram
-muitos. Em geral, os nossos logarejos são de uma grande pobreza do
-pittoresco; ha um ou dous logares celebres, assim como na Europa cada
-aldeia tem a sua curiosidade historica.
-
-Em Curuzú, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas
-leguas da casa de Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe
-barravam o horizonte fronteiro. O Dr. Campos já travara relações com
-o Major e, graças a elle, houve cavallos e silhão que tambem
-permitisse á moça ir á cachoeira.
-
-Foram de manhã, o Presidente da Camara, o doutor, sua mulher e a filha
-de Campos. O logar não era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze
-metros de altura, despenhava-se em tres partes, pelo flanco da montanha
-abaixo. A agua estremecia na quéda, como que se enrodilhava e vinha
-pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia
-muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma aboboda de
-arvores. O sol coava-se difficilmente e vinha faiscar sobre a agua ou
-sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os
-periquitos, de um verde mais claro, pousados nos galhos eram como as
-incrustações daquelle salão fantastico.
-
-Olga pôde ver tudo isso bem á vontade, andando de um para outro lado,
-porque a filha do presidente era de um silencio de tumulo e o pae desta
-tomava com o sou marido informações sobre novidades medicinaes: Como
-se cura hoje erysipela? Ainda se usa muito o tartaro emetico?
-
-O que mais a impressionou no passeio foi a miseria geral, a falta de
-cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre.
-Educada na cidade, ella tinha dos roceiros idéa de que eram felizes
-saudaveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta agua, porque as casas
-não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquelle sapê
-sinistro e aquelle «sopapo» que deixava ver a trama de varas, como o
-esqueleto de um doente. Porque ao redor dessas casas, não havia
-culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão facil, trabalho de horas.
-E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um
-carneiro. Porque? Mesmo nas fazendas, o espectaculo não era mais
-animador. Todas soturnas, baixas, quasi sem o pomar olente e a horta
-succulenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ella não
-pôde ver outra lavoura, outra industria agricola. Não podia ser
-preguiça só ou indolencia. Para o seu gasto, para uso proprio, o homem
-tem sempre energia para trabalhar. As populações mais accusadas de
-preguiça, trabalham relativamente. Na Africa, na India, na Cochinchina,
-em toda parte, os casaes, as familias, as tribos, plantam um pouco,
-algumas cousas para elles. Seria a terra? Que seria? E todas essas
-questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e tambem
-a sua piedade e sympathia por aquelles parias, maltrapilhos, mal
-alojados, talvez com fome, sorumbaticos!...
-
-Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades
-mezes e annos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar o
-motivo e o remedio. Aquillo era uma situação do camponez da idade
-média e começo da nossa; era o famoso animal de La Bruyére que tinha
-face humana e voz articulada...
-
-Como no dia seguinte fosse passeiar ao roçado do padrinho, aproveitou a
-occasião para interrogar a respeito o tagarella Felizardo. A faina do
-roçado ia quasi no fim; o grande trato da terra estava quasi
-inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a collina que formava a
-lombada do sitio.
-
-Olga encontrou o camarada cá em baixo, cortando a machado as madeiras
-mais grossas; Anastacio estava no alto, na orla do mato, juntando, a
-ancinho, as folhas caidas. Ella lhe falou.
-
---Bons dias, _sá dona_.
-
---Então trabalha-se muito, Felizardo?
-
---O que se póde.
-
---Estive hontem no Carico, bonito logar... Onde é que você mora,
-Felizardo?
-
---É d'outra banda, na estrada da villa.
-
---É grande o sitio de você?
-
---Tem alguma terra, sim, senhora, _sá dona_.
-
---Você porque não planta para você?
-
---_Quá sá dona_! O que é que a gente come?
-
---O que plantar ou aquillo que a plantação der em dinheiro.
-
---_Sá dona tá_ pensando uma cousa e a cousa é outra. Emquanto planta
-cresce, e então? _Quá, sá dona_, não é assim...
-
-Deu uma machadada; o tronco escapou: collocou-o melhor no picador e,
-antes de desferir o machado, ainda disse:
-
---Terra não é nossa... E _frumiga_?... Nós não _tem_ ferramenta...
-isso é bom para italiano ou _allamão_, que Governo dá tudo... Governo
-não gosta de nós...
-
-Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas
-partes, quasi iguaes, de um claro amarellado, onde o cérne escuro
-começava a apparecer.
-
-Ella voltou querendo afastar do espirito aquelle desacordo que o
-camarada indicara, mas não pôde. Era certo. Pela primeira vez notava
-que o _self-help_ do Governo era só para os nacionaes; para os outros
-todos os auxilios e facilidades, não contando com a sua anterior
-educação e apoio dos patricios.
-
-E a terra não era delle? Mas de quem era então, tanta terra abandonada
-que se encontrava por ahi? Ella vira até fazendas fechadas, com as
-casas em ruinas... Porque esse acaparamento, esses latifundios inuteis e
-improductivos?
-
-A fraqueza de attenção não lhe permittiu pensar mais no problema. Foi
-vindo para casa, tanto mais que era hora de jantar e a fome lhe chegava.
-
-Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquelle perdera um pouco da
-sua _morgue_; havia mesmo occasião em que era até natural. Quando ella
-chegou, o padrinho exclamava:
-
---Adubos! É lá possivel que um brasileiro tenha tal idéa! Pois se
-temos as terras mais ferteis do mundo!
-
---Mas se esgotam, Major, observou o doutor
-
-D. Adelaide, calada, seguia com attenção o _crochet_ que estava
-fazendo; Ricardo ouvia, com os olhos arregalados; e Olga intrometteu-se
-na conversa:
-
---Que zanga é essa, padrinho?
-
---É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de
-adubos... Isto é até uma injuria!
-
---Pois fique certo, Major, se eu fosse o senhor, adduziu o doutor,
-ensaiava uns phosphatos...
-
---De certo, Major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar
-violão não queria aprender musica... Qual musica! Qual nada! A
-inspiração basta!... Hoje veio que é preciso... É assim, resumia
-elle.
-
-Todos se entreolharam, excepto Quaresma que logo disse com toda a força
-d'alma:
-
---Sr. doutor, o Brasil é o paiz mais fertil do mundo, é o mais bem
-dotado e as suas terras não precisam _emprestimos_ para dar sustento ao
-homem. Fique certo!
-
---Ha mais ferteis, Major, avançou o doutor.
-
---Onde?
-
---Na Europa.
-
---Na Europa!
-
---Sim, na Europa. As terras negras da Russia, por exemplo.
-
-O Major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triumphante:
-
---O Sr. não é patriota! Esses moços...
-
-O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações
-sobre o violão. Á noite, o menestrel cantou a sua ultima producção:
-«Os labios da Carola». Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do
-Dr. Campos; mas ninguem alludiu a isso. Ouviram-mo com interesse e elle
-foi muito acclamado. Olga tocou no velho piano de D. Adelaide; e, antes
-das onze horas, estavam todos recolhidos.
-
-Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e,
-deitado, poz-se a ler um velho elogio das riquezas e opulencias do
-Brasil.
-
-A casa estava em silencio; do lado de fora, não havia a minima bulha.
-Os sapos tinham suspendido um instante a sua orchestra nocturna.
-Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto
-dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinario! pensou. Da despensa,
-que ficava junto a seu aposento, vinha um ruido extranho. Apurou o
-ouvido e prestou attenção. Os sapos recomeçaram o seu hymno. Havia
-vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia á outra,
-num dado instante todas se juntaram num _unisono_ sustentado.
-Suspenderam um instante a musica. O Major apurou o ouvido; o ruido
-continuava. Que era? Eram uns estalos tenues; pareciam que quebravam
-gravetos, que deixavam outros cahir ao chão... Os sapos recomeçaram; o
-regente deu uma martellada e logo vieram os baixos e os tenores.
-Demoraram muito; Quaresma pôde ler umas cinco paginas. Os batrachios
-pararam; a bulha continuava. O Major levantou-se, agarrou o castiçal e
-foi á dependencia da casa donde partia o ruido, assim mesmo como
-estava, em camisa de dormir.
-
-Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma
-ferroada no peito do pé. Quasi gritou. Abaixou a vela para ver melhor e
-deu com uma enorme sauva agarrada com toda a furia á sua pelle magra.
-Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco no
-assoalho, lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas
-de milho e feijão, cujos recipientes tinham sido deixados abertos por
-inadvertencia. O chão estava negro, e carregadas com os grãos, ellas,
-em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade
-subterranea.
-
-Quiz afugental-as. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e
-cada vez mais o exercito augmentava. Veiu uma mordeu-o, depois outra, e
-o foram mordendo pelas pernas, pelos pés, subindo pelo seu corpo. Não
-poude aguentar, gritou, sapateou e deixou a vela cahir.
-
-Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu
-daquelle infimo inimigo que, talvez, nem mesmo á luz radiante do sól,
-o visse distinctamente...
-
-
-
-
-IV
-
-«PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ»
-
-
-D. Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro annos mais que elle.
-Era uma bella velha, com um corpo médio, uma tez que começava a
-adquirir aquella patina da grande velhice, uma espessa cabelleira já
-inteiramente amarellada e um olhar tranquillo, calmo e doce. Fria, sem
-imaginação, de intelligencia lucida e positiva, em tudo formava um
-grande contraste com o irmão; comtudo, nunca houve entre elles uma
-separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ella não
-entendia nem procurava entender a substancia do irmão, e sobre elle em
-nada reagia aquelle ser methodico, ordenado e organizado, de idéas
-simples, medias e claras.
-
-Ella já attingira aos cincoenta e elle para lá marchava; mas ambos
-tinham ar saudavel, poucos achaques, e promettiam ainda muita vida. A
-existencia calma, doce e regrada que tinham levado até ali, concorrera
-muito para a boa saude de ambos. Quaresma incubou as suas manias até
-depois dos quarenta e ella nunca tivera qualquer.
-
-Para D. Adelaide, a vida era cousa simples, era viver, isto é, ter uma
-casa, jantar e almoço, vestuario, tudo modesto, medio. Não tinha
-ambições, paixões, desejos. Moça, não sonhara principes, bellezas,
-triumphos, nem mesmo um marido. Se não casou foi porque não sentiu
-necessidade disso; o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ella sempre
-se sentiu completa.
-
-O seu aspecto tranquillo e o socego dos seus olhos verdes, de um brilho
-lunar de esmeralda, emolduravam e realçavam naquelle interior familiar
-a agitação e a inquietude, o alanceado do irmão.
-
-Não se vá suppor que Quaresma andasse transtornado como um doido.
-Felizmente não. Na apparencia até poder-se-ia imaginar que nada
-conturbava sua alma; porém, se mais vagarosamente se examinassem os
-seus habitos, gestos e attitudes logo se havia de ver que o socego e a
-placidez não moravam no seu pensamento.
-
-Occasiões havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao
-longe o horizonte, perdido em scisma; outras, isso quando no trabalho da
-roça, em que suspendia todos os movimentos, fincava o olhar no chão,
-demorava-se assim um instante, coçando uma mão com a outra, dava
-depois um muchocho, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em
-que não reprimia uma exclamação ou uma phrase.
-
-Anastacio em taes instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O
-antigo escravo não os sabia mais fixar, e nada dizia; Felizardo
-continuava a contar a fuga da filha do Custodio com o Manduca da venda;
-e o trabalho marchava.
-
-Inutil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a
-não ser no jantar e nas primeiras horas do dia elles viviam separados.
-Quaresma na roça, nas plantações, e ella superintendendo o serviço
-domestico.
-
-As outras pessoas de suas relações não podiam tambem notar as
-preoccupações absorventes do Major, pelo simples motivo de que estavam
-longe.
-
-Ricardo havia seis mezes que não lhe visitava e da afilhada e do
-compadre as ultimas cartas que recebera, datavam de uma semana, não
-vendo aquella ha tanto tempo, quanto ao trovador e aquelle desde quasi
-um anno, isto é, o tempo em que estava no «Socego».
-
-Durante esse tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo
-approveitamento de suas terras. Os seus habitos não foram mudados e a
-sua actividade continuava sempre a mesma. É verdade que deixara de
-parte os instrumentos de meteorologia.
-
-O hygrometro, o barometro e os outros companheiros não eram mais
-consultados e as observações registradas num caderno. Dera-se mal com
-elles. Fosse inexperiencia e ignorancia das bases theoricas delles,
-fosse porque fosse, o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia
-baseado em combinações dos seus dados, sahiam erradas. Se esperava
-tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava chuva, lá vinha secca.
-
-Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus apparelhos,
-com aquelle grosso e cavernoso sorriso de troglodyta:
-
---_Quá_ patrão! Isso de chuva vem quando Deus _qué_.
-
-O barometro aneroide continuava a um canto a dansar o seu ponteiro sem
-ser percebido; o thermometro de maxima e minima, legitimo Casella, jazia
-dependurado na varanda sem receber um olhar amigo; a caçamba do
-pluviometro estava no gallinheiro e servia de bebedouro ás aves; só o
-anemometro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já sem fio, no
-alto do mastro, como se protestasse contra aquelle desprezo pela
-sciencia que Quaresma representava.
-
-Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido,
-embora tendo deixado de ser publica, lavrava occultamente. Havia no seu
-espirito e no seu caracter uma vontade de acabal-a de vez, mas como? Se
-não o accusavam, se não articulavam nada contra elle directamente? Era
-um combate com sombras, com apparencias, que seria ridiculo acceitar.
-
-De resto, a situação geral que o cercava, aquella miseria da
-população campestre que nunca suspeitara, aquelle abandono de terras
-á improductividade, encaminhavam sua alma de patriota meditativo a
-preoccupações angustiosas.
-
-Via o Major com tristeza não existir naquella gente humilde sentimento
-de solidariedade, de apoio mutuo. Não se associavam para cousa alguma e
-viviam separados, isolados, em familias geralmente irregulares, sem
-sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. Entretanto,
-tinham bem perto o exemplo dos portuguezes que, unidos aos seis e mais,
-conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa importancia,
-lucrar e viver. Mesmo o velho costume do _moitirão_ já se havia
-apagado.
-
-Como remediar isso?
-
-Quaresma desesperava...
-
-A tal affirmação de falta de braços pareceu-lhe uma affirmação de
-má fé ou estupida, e estupido ou de má fé era o Governo que os
-andava importando aos milhares, sem se preoccupar com os que já
-existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia duzia de
-cabeças de gado, fossem introduzidas mais tres, para augmenter o
-estrume!...
-
-Pelo seu caso, elle via bem as difficuldades, os obices de toda a sorte
-que havia para fazer a terra productiva e remunerada. Um facto veiu
-mostrar-lhe com eloquencia um dos aspectos da questão. Vencendo a herva
-de passarinho, os maus tratos e o abandono de tantos annos, os
-abacateiros de suas terras conseguiram fructificar, fracamente é
-verdade, mas de forma superior ás necessidades de sua casa.
-
-A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos
-dinheiro que lhe dava a terra, sempre mãe e sempre virgem. Tratou de
-vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou outro que os queria
-comprar por preços infimos. Com decisão foi ao Rio procurar comprador.
-Andou de porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que
-procurasse um tal Sr. Azevedo no Mercado, o rei das fructas. Lá foi.
-
---Abacates! Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos!
-
---Entretanto, disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e
-pediram-me pela duzia cinco mil réis.
-
---Em porção, o Sr. sabe que...
-
---É isso... Emfim, se quer mande-os...
-
-Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, pôz uma das mãos na cava
-do collete e quasi de costas para o Major:
-
---É preciso vel-os... O tamanho influe...
-
-Quaresma os mandou e, quando lhe veiu o dinheiro, teve a satisfação
-orgulhosa, de quem acaba de ganhar uma grande batalha immortal.
-Acariciou uma por uma aquellas notas encardidas, leu-lhes bem o numero e
-a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma meza e muito
-tempo levou sem animo de trocal-as.
-
-Para avaliar o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carroça,
-o custo dos caixões, o salario dos auxiliares e, após esse calculo que
-não era laborioso, teve a evidencia de que ganhara 1$500, mil e
-quinhentos réis, nem mais nem menos. O Sr. Azevedo tinha-lhe pago pelo
-cento a quantia com que se compra uma duzia.
-
-Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e elle viu naquelle ridiculo
-lucro objecto para maior contentamento do que se recebesse um avultado
-ordenado.
-
-Foi, portanto, com redobrada actividade que se poz ao trabalho. Para o
-anno, o lucro seria maior. Tratava-se agora de limpar as fructeiras.
-Anastacio e Felizardo continuavam occupados nas grandes plantações;
-contratou um outro empregado para ajudal-o no tratamento das velhas
-arvores fructiferas.
-
-Foi, pois, com o Mané Candieiro que elle se pôz a serrar os galhos das
-arvores, os galhos mortos e aquelles em que a herva damninha segurava as
-suas raizes. Era arduo e difficil o trabalho. Tinham ás vezes que subir
-ás grimpas para a extirparão do galho attingido; os espinhos rasgavam
-as roupas e feriam as carnes; e em muitas occasiões estiveram em risco
-de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada.
-
-Mané Candieiro falava pouco, a não ser que se tratasse de cousas de
-caça; mas cantava que nem passarinho. Estava a serrar, estava a cantar
-trovas roceiras, ingenuas, onde com surpreza o Major não via entrar a
-fauna, a flora locaes, os costumes das profissões roceiras. Eram
-vaporosamente sensuaes e muito ternas, mellosas até; por acaso lá
-vinha uma em que um passaro local entrara; então o Major escutava.
-
-
- _Eu vou dar a despedida
- Como deu o bacuráo,
- Uma perna no cantinho
- Outra no galho de páu._
-
-
-Este bacuráo que entrava ahi satisfazia particularmente ás
-aspirações de Quaresma. A observação popular já começava a
-interessar-se pelo espectaculo ambiente, já se emocionava com elle e a
-nossa raça deitava, portanto, raizes na grande terra que habitara. Elle
-a copiou e mandou ao velho poeta de S. Christovão. Felizardo dizia que
-Mané Candieiro era um mentiroso, pois todas aquellas caçadas do
-caitetus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento
-poetico, principalmente no desafio: o moleque é bom!
-
-Elle era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e
-fortes, um tanto amollecidas pelo sangue africano.
-
-Quaresma procurou descobrir nelle aquella odiosa catadura que Darwin
-achou nos mestiços; mas, sinceramente, não a encontrou.
-
-Com auxilio de Mané Candieiro, foi que Quaresma conseguiu acabar de
-limpar as fructeiras daquelle velho sitio abandonado ha quasi dez
-annos. Quando o serviço ficou prompto, elle viu com tristeza aquellas
-velhas arvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali...
-Pareciam soffrer e elle se lembrou das mãos que as tinham plantado ha
-vinte ou trinta annos, escravos, talvez, banzeiros e desesperançados!...
-
-Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdescesse, e o
-renascimento das arvores como que trouxe o contentamento das aves e do
-passaredo solto. De manhã, esvoaçavam os tyês vermelhos, com o seu
-pio pobre, especie de ave tão inutil e tão bella de plumas que parece
-ter nascido para os chapéos das damas; as rolas pardas e caboclas em
-bando, mariscando, no chão capinado; pelo correr do dia, eram os
-sanhassús a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens de
-colleiros; e de tarde como que todos elles se reuniam, piando, cantando,
-chilreando, pelas altas mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros,
-entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma.
-
-Não durou muito essa alegria. Um inimigo appareceu inopinadamente, com
-a rapidez ousadissima de um general consumado. Até ali elle se mostrara
-timido, parecia que sómente mandava esclarecedores.
-
-Desde aquelle ataque ás provisões de Quaresma, logo afugentadas, não
-mais as formigas reappareceram; mas, naquella manhã, quando contemplou
-o seu milharal, foi como se lhe tirassem a alma, e ficou sem acção e
-as lagrimas lhe vieram aos olhos.
-
-O milho que já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez
-de criança, crescera cerca de meio palmo acima da terra; o Major até
-mandara buscar o sulphato de cobre para a solução em que ia lavar a
-batata ingleza a plantar nos intervallos dos pés.
-
-Toda a manhã, elle ia lá e já via o milharal crescido com o seu
-pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho, oscillando ao
-vento: naquella, elle não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham
-sido cortados e levados para longe! A modo que e obra de gente, disse
-Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terriveis
-hymhopteros, piratas infimos que lhe cahiam em cima do trabalho com uma
-rapacidade turca... Era preciso combatel-os. Quaresma poz-se logo em
-campo, descobriu as aberturas principaes do formigueiro e em cada uma
-queimou a formicida mortal. Passaram-se dias: os inimigos pareciam
-derrotados; mas, certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite
-estrellada, Quaresma ouviu uma bulha exquisita, como se alguem esmagasse
-as folhas mortas das arvores... Um estalido... E era perto... Accendeu
-um phosphoro e o que viu, meu Deus! Quasi todas as larangeiras estavam
-negras de iminensas saúvas. Havia dellas ás centenas, pelos troncos e
-pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas
-transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam,
-outras desciam; nada de atropellos, de confusão, de desordem. O
-trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima umas
-cortavam as folhas pelo peciolo; cá em baixo, outras serravam-nas em
-pedaços e afinal eram carregadas por terceiros, levantando-as acima da
-descomunal cabeça, era longas fileiras pelo trilho limpo, aberto entre
-a herva rasteira.
-
-Houve um instante de desanimo na alma do Major. Não tinha contado com
-aquelle obstaculo nem o suppuzera tão forte. Agora via bem que era a
-uma sociedade intelligente, organizada, ouzada e tenaz com quem se tinha
-de haver. Veio-lhe então á lembrança aquella phrase de Saint-Hilaire:
-se nós não expulsássemos as formigas ellas nos expulsariam.
-
-O Major não estava lembrado ao certo se eram essas palavras, mas o
-sentido era, e ficou admirado que só agora ella lhe ocorresse.
-
-No dia seguinte, tinha recobrado o amino. Comprou ingredientes e eil-o
-mais o Mané Candieiro, a abrir picadas a fazer esforços de sagacidade,
-para descobrir os reductos centraes, as _panellas_ dos insectos
-terriveis. Então era como se os bombardeassem: o sulpheto queimava,
-estourava em tiros seguidos, mortiferos, lethaes!
-
-E dahi em diante, foi uma batalha sem treguas. Se apparecia uma
-abertura, um _olho_, logo se lhe applicava a formicida, pois do
-contrario, nenhuma plantação era possivel, tanto mais que extinctos os
-das suas terras, não tardariam os formigueiros das visinhanças ou dos
-logradouros publicos a deitar caniculos para o seu terreno.
-
-Era um supplicio, um castigo, uma especie de vigilancia a dique
-hollandez e Quaresma viu bem que só uma autoridade central, um governo
-qualquer, ou um accôrdo entre os cultivadores, podia levar a effeito a
-extincção daquelle flagello, peor que a saraiva, que a geada, que a
-secca, sempre presente, inverno ou verão, outomno ou primavera.
-
-Não obstante essa luta diaria, o Major não desanimou e pôde colher
-alguns productos das plantações que tinha feito. Se por occasião das
-fructas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda ella
-foi, quando viu partir para a estação em successivas carretas, as
-aboboras, os aipins, as batatas doces, em cestos cobertos com saccos
-cozidos. Os fructos, em parte, eram de outras mãos; as arvores não
-tinham sido plantadas por elle; mas aquillo não, vinha do seu suor, da
-sua iniciativa, do seu trabalho!
-
-Elle ainda foi ver aquelles cestos na estação, com a ternura de um pai
-que vê partir seu filho para a gloria, e para a victoria. Recebeu o
-dinheiro dias depois, contou o e esteve deduzindo os lucros.
-
-Não foi á roça nesse dia; o trabalho de guarda livros roubou o de
-cultivador. A sua attenção, já um tanto gasta, não lhe favorecia a
-tarefa das cifras, e só pelo meio do dia, pôde dizer a irmã:
-
---Sabes qual foi o lucro, Adelaide?
-
---Não, menor do que o dos abacates?
-
---Um pouco mais.
-
---Então... Quanto?
-
---Dous mil quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando
-syllaba por syllaba.
-
---O que?
-
---Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil quinhentos.
-
-D. Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura
-que fazia, depois, levantando o olhar:
-
---Homem, Polycarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito
-dinheiro... Só com as formigas!
-
---Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar
-exemplo, levantar a agricultura, aproveitar as nossas terras
-feracissimas...
-
---É isto... Queres sempre ser a abelha mestra... Já viste os grandes
-fazerem esses sacrificios... Vê lá se fazem! Historias... Mettem-se no
-café que tem todas as protecções...
-
---Mas, faço eu.
-
-A irmã prestou mais attenção a costura, Polycarpo levantou-se, foi
-até á janella que dava para o gallinheiro. Fazia um dia fosco e
-irritante. Elle concertou o pince-nez, esteve olhando e de lá falou:
-
---Oh! Adelaide! Aquillo não é uma gallinha morta...
-
-A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até á janella e verificou
-com a vista:
-
---É... É já a segunda que morre hoje.
-
-Após esta leve conversa, Quaresma voltou á sua sala de estudos.
-Meditava grandes reformas agricolas. Mandara buscar catalogos e ia
-examinal-os. Tinha já em mente uma charrúa dupla, um capinador
-mecanico, um semeador, um deslocador, grades, tudo americano, de aço,
-dando o rendimento effectivo de 20 homens. Até então, não quizera
-essas innovações; as terras mais ricas do mundo, não precisaram desse
-processos que lhe pareciam artificiaes, para produzir; estava, porém,
-agora disposto a empregal-os como experiencia. Aos adubos, no
-entretanto, o seu espirito resistia. Terra virada, dizia Felizardo,
-terra estrumada; parecia o Quaresma uma profanação estar a empregar
-nitratos, phosphatos ou mesmo estrume commum, numa terra brasileira...
-Uma injuria!
-
-Quando se convencesse de que eram necessarios, parecia-lhe que todo o
-seu systema de idéas ia por terra e os moveis de sua vida
-desappareceriam. Estava assim a escolher arados e outros «Planets»,
-«Bajacs» e «Brabants» de varios feitios, quando o seu pequeno
-copeiro lhe annunciou a visita do dr. Campos.
-
-O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão, e o seu grande
-corpo. Era alto e gordo, pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos,
-quasi á flôr do rosto, uma testa média e recta: o nariz, mal feito.
-Um tanto trigueiro, cabellos corridos e já grisalhos, era o que se
-chama por ahi um caboclo, embora o seu bigode fosse crespo. Não nascera
-em Curuzú, era da Bahia ou de Sergipe, habitava, porém, o logar ha
-mais de vinte annos, onde casara e prosperara, graças ao dote da mulher
-e á sua actividade clinica. Com esta, não gastava grande energia,
-mental: tendo de côr uma meia duzia de receitas, elle, desde muito,
-conseguira enquadrar as molestias locaes no seu reduzido formulario.
-
-Presidente da Camara, era das pessoas mais consideraveis da Curuzú, e
-Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade, pela sua
-affabilidade e simplicidade.
-
---Ora, viva Major! Como vai isto por ahi? muita formiga? Lá em casa já
-não ha mais.
-
-Quaresma respondeu com menor enthusiasmo e jovialidade, mas comente com
-a alegria communicativa do doutor. Elle continuava a falar com
-desembaraço e naturalidade:
-
---Sabe o que me traz aqui, Major? Não sabe, não é? Preciso de um
-pequeno obsequio seu.
-
-O Major não se espantou; sympathizava com o homem e abriu-se em
-offerecimentos.
-
---Como o Major sabe...
-
-Agora a sua voz era doce, flexivel, subtil; as palavras cahiam-lhe da
-boca adocicadas, dobravam-se, colleavam-se:
-
---Como o Major sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A
-victoria é _nossa_. Todas as mezas estão comnosco, excepto uma... Ahi
-mesmo, se o Major quizer...
-
---Mas, como? se eu não sou eleitor, não me metto, nem quero metter-me
-em politica? perguntou Quaresma ingenuamente.
-
---Exactamente por isso, disse o doutor com voz forte: e em seguida
-brandamente: a secção funcciona na sua vizinhança, é ali, na escola,
-se...
-
---E dahi?
-
---Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o Major quer
-responder (é melhor já) que não houve eleição... Quer?
-
-Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavaignac e
-respondeu claramente, firmemente:
-
---Absolutamente não.
-
-O doutor não se zangou. Pôz mais uncção e maciez a na voz, adduziu
-argumentos: que era para o partido, o unico que pugnava pelo
-levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexivel; disse que não, que
-lhe eram absolutamente antipathicas taes disputas, que não tinha
-partido e mesmo que tivesse não iria affirmar uma cousa que elle não
-sabia ainda se era mentira ou verdade.
-
-Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre
-cousas banaes e despediu-se com o ar amavel, com a jovialidade mais sua
-que era possivel.
-
-Isto se passou na terça-feira, naquelle dia de luz fosca e irritante.
-Á tarde houve trovoada, choveu muito. O tempo só levantou na
-quinta-feira, dia em que o Major foi surprehendido com a visita de um
-sujeito com um uniforme velho e lamentavel, portador de um papel
-official para elle, proprietario do «Socego», conforme mesmo disse o
-tal homem fardado.
-
-Em virtude das posturas e leis municipaes, rezava o papel, O Sr.
-Polycarpo Quaresma, proprietario do sitio «Socego» era intimado, sob
-as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e capinar as testadas do
-referido sitio que confrontavam com as vias publicas.
-
-O Major ficou um tempo pensando. Julgava impossivel uma tal intimação.
-Seria mesmo? Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assignatura do
-Dr. Campos. Era certo... Mas que absurda intimação esta de capinar e
-limpar estradas na extensão de mil duzentos metros, pois seu sitio dava
-de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na
-extensão de oitocentos metros--era possivel!?
-
-A antiga corvéa!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sitio.
-Consultando a irmã, ella lhe aconselhou que falasse ao Dr. Campos.
-Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com elle dias antes.
-
---Mas és tolo, Polycarpo. Foi elle mesmo...
-
-A luz se lhe fez no pensamento... Aquella rede de leis, de posturas, de
-codigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de taes caciques, se
-transformava em pôtro, em polé, em instrumento de supplicios para
-torturar os inimigos, opprimir as populações, crestar-lhes a
-iniciativa e a independencia, abatendo-as e desmoralizando-as.
-
-Pelos seus olhos passaram num instante aquellas faces amarelladas e
-chupadas que se encostavam nos portaes das vendas preguiçosamente; viu
-tambem aquellas crianças maltrapilhas e sujas, d'olhos baixos, a
-esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquellas terras
-abandonadas, improductivas, entregues ás hervas e insectos damninhos;
-viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, activo e trabalhador, sem
-animo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que
-lhe passava pelas mãos--este quadro passou-lhe pelos olhos com a
-rapidez e o brilho sinistro do relampago; e só se apagou de todo,
-quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara.
-
-Vinha viva e alegre. Contava pequenas historias de sua vida, a viagem
-proxima do papai, á Europa, o desespero do marido no dia em que sahiu
-sem annel, pedia noticias do padrinho, de D. Adelaide e, sem
-desrespeito, recommendava á irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado
-com o manto de arminho da «Duqueza».
-
-A «Duqueza» era uma grande pata branca, de penas alvas a macias ao
-olhar, que, pela lentidão e magestade do andar, com o pescoço alto e o
-passo firme, merecera de Olga esse appellido nobre. O animal tinha
-morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas duzias de
-patos, levara a «Duqueza» tambem. Era uma especie de paralysia que
-tomava as pernas, depois o resto do corpo. Tres dias levou a agonizar.
-Deitada sobre o peito, com o bico collado ao chão, atacada pelas
-formigas, o animal só dava signal de vida por uma lenta oscillação do
-pescoço em torno do bico, espantando as moscas que a importunavam na
-sua ultima hora.
-
-Era de ver como aquella vida tão extranha á nossa, naquelle instante
-penetrava em nós e sentiamo-lhe o soffrimento, a agonia e a dôr.
-
-O gallinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou gallinhas,
-perús, patos; ora sobre uma forma, ora sobre outra, foi ceifando,
-matando, até reduzir a sua população a menos de metade.
-
-E não havia quem soubesse curar. Numa terra, cujo Governo tinha tantas
-escolas que produziam tantos sabios, não havia um só homem que pudesse
-reduzir, com as suas drogas ou receitas aquelle consideravel prejuizo.
-
-Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador
-enthusiastico dos primeiros mezes; entretanto não passara pela mente
-de Quaresma abandonar os seus propositos. Adquiriu compendios de
-veterinaria e até já tratava de comprar as machinas agricolas
-descriptas nos catalogos.
-
-Uma tarde, porém, estava á espera da junta de bois que encommendara
-para o trabalho do arado, quando lhe appareceu á porta um soldado de
-policia com um papel official. Elle se lembrou da intimação municipal.
-Estava disposto a resistir, não se incommodou muito.
-
-Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da
-collectoria, cujo escrivão, Antonio Dutra, conforme estava no papel,
-intimava o Sr. Polycarpo Quaresma a pagar quinhentos mil réis de multa,
-por ter enviado productos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos
-impostos.
-
-Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento
-voou logo para as cousas geraes, levado pelo seu patriotismo profundo.
-
-A quarenta kilometros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao
-mercado umas batatas? Depois de Turgot da Revolução, ainda havia
-alfandegas interiores?
-
-Como era possivel fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e
-impostos? Se ao monopolio dos atravessadores do Rio se juntavam as
-exacções do Estado, como era possivel tirar da terra a remuneração
-consoladora?
-
-E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação
-da municipalidade, voltou-lhe de novo, mais tetrico, mais sombrio, mais
-lugubre; e anteviu a epoca em que aquella gente teria de comer sapo,
-cobras, animaes mortos, como em França os camponezes, em tempos de
-grandes reis.
-
-Quaresma veiu a recordar-se do seu tupy, do seu _folk-lore_, das
-modinhas, das suas tentativas agricolas--tudo isso lhe pareceu
-insignificante, pueril, infantil.
-
-Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessario
-refazer a administração. Imaginava um Governo forte, respeitado,
-intelligente, removendo todos esses obices, esses entraves, Sully e
-Henrique IV, espalhando sabias leis agrarias, levantando o cultivador...
-Então sim! O celleiro surgiria e a patria seria feliz.
-
-Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar á
-estação, e lhe disse:
-
---Seu patrão, amanhã não venho _trabaiá_.
-
---Por certo; é dia feriado... A Independencia.
-
---Não é por isso.
-
---Porque então?
-
---Ha _baruio_ na Côrte e dizem que vão _arrecutá_. Vou p'r'o mato...
-Nada!
-
---Que barulho?
-
---_Tá_ nas _foias_, sim _sinhô_.
-
-Abriu o jornal e logo deu com a noticia de que os navios da esquadra se
-haviam insurgido e intimado ao Presidente a sahir do poder. Lembrou-se
-das suas reflexões de instantes atrás; um Governo forte, até á
-tyrannia... Medidas agrarias... Sully e Henrique IV...
-
-Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao
-interior da casa, nada disse á irmã, tomou o chapéo, e dirigiu-se á
-estação.
-
-Chegou ao telegrapho e escreveu: «Marechal Floriano, Rio. Peço
-energia. Sigo já.--Quaresma».
-
-
-
-
-V
-
-O TROVADOR
-
-
---De certo, Albernaz, não é possivel continuar assim... Então,
-mette-se um sujeito num navio, assesta os canhões p'ra terra e diz: sai
-d'ahi _seu_ presidente; e o homem vai sahindo?... Não! É preciso um
-exemplo....
-
---Eu penso tambem da mesma maneira, Caldas. A Republica precisa ficar
-forte, consolidada... Esta terra necessita de Governo que se faça
-respeitar... É incrivel! Um paiz como este, tão rico, talvez o mais
-rico do mundo, é, no emtanto, pobre, deve a todo o mundo... Porque? Por
-causa dos Governos que temos tido que não têm prestigio, força... É
-por isso.
-
-Vinham andando, á sombra das grandes e magestosas arvores do parque
-abandonado; ambos fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto
-intervallo, continuou:
-
---Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por
-ahi, que o não chamasse de «banana» e outras cousas... Sahia no
-Carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um
-intruso.
-
---E era um bom homem, observou o Almirante. Amava o seu paiz... Deodoro
-nunca soube o que fez.
-
-Continuavam a andar. O Almirante coçou um dos favoritos e Albernaz
-olhou um instante para todos os lados, accendeu o cigarro de palha e
-retomou a conversa:
-
---Morreu arrependido... Nem com a farda quiz ir para a cóva!... Aqui
-para nós que ninguem nos ouve: foi um ingrato; o Imperador tinha feito
-tanto por toda a familia, não acha?
-
---Não ha duvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa:
-estavamos melhor naquelle tempo, digam lá o que disserem...
-
---Quem diz o contrario? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias?
-um Rio Branco?
-
---E mais justiça mesmo, disse com firmeza o Almirante. O que eu soffri,
-não foi por causa do _velho_, foi a canalha... Demais, tudo barato...
-
---Eu não sei, disse Albernaz com particular accento, como ha ainda quem
-se case... Anda tudo pela hora da morte!
-
-Elles olharam um instante as velhas arvores da Quinta Imperial, por onde
-vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes
-que jamais tinham pousado os olhos sobre amores tão soberbas, tão
-bellas, tão tranquillas e seguras de si, como aquellas que espalhavam
-sob os seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam
-que medravam sentindo-se em terra propria, dellas, da qual nunca
-sahiriam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e esse
-sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade
-de se expandirem. O sólo sobre a qual cresciam, era dellas e agradeciam
-á terra extendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem,
-para dar á boa mãe, frescura e protecção contra a inclemencia do
-sol.
-
-As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas,
-quasi beijavam o chão. As jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se
-inclinavam, de um lado e outro da aléa, e cobriam a terra com uma ogiva
-verde...
-
-O velho edificio imperial se erguia sobre a pequena collina. Elles lhe
-viam o fundo, aquella parte de construcção mais antiga, joannina, com
-a torre do relogio um pouco afastada e separada do corpo do edificio.
-
-Não era bello o palacio, não tinha mesmo nenhum traço de belleza, era
-até pobre e monotono. As janellas acanhadas daquella fachada velha, os
-andares de pequena altura impressionavam mal; todo elle, porém, tinha
-uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco commum nas
-nossas habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente
-viver, não para um instante, mas para annos, para seculos... As
-palmeiras cercavam-n'o, erectas, firmes, com es seus grandes penachos
-verdes, muito altos, alongados para o céo...
-
-Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do
-seu mister e funcção.
-
-Albernaz interrompeu o silencio:
-
---Em que dará isto tudo, Caldas?
-
---Sei lá.
-
---O _homem_ deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o
-Custodio... hum!
-
---O poder é o poder, Albernaz.
-
-Vinham andando em demanda á estação de S. Christovão. Atravessaram o
-velho parque imperial transversalmente, desde o portão da Cancella até
-á linha da Estrada de Ferro. Era de manhã, e o dia estava limpido e
-fresco.
-
-Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de
-sahirem da Quinta, deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz
-teve vontade de acordal-o: camarada! camarada! O soldado levantou-se
-estremunhado: e, dando com aquelles dous officiaes superiores,
-concertou-se rapidamente, fez a continencia que lhes era devida e ficou
-com a mão no bonet, um instante firme, mas logo bambeou.
-
---Abaixe a mão, fez o General. Que faz você aqui?
-
-Albernaz falou em tom rispido e de commando. A praça, falando a medo,
-explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. A força se
-recolhera aos quarteis; elle obtivera licença para ir em casa, mas o
-somno fôra muito e descançava ali um pouco.
-
---Então como vão as cousas? perguntou o General.
-
---Não sei, não _sinhô_.
-
---Os homens desistem ou não?
-
-O General esteve um instante examinando o soldado, Era branco e tinha os
-cabellos alourados, de um louro sujo e degradado; as feições eram
-feias: mallares salientes, testa ossea e todo elle anguloso e
-desconjuntado.
-
---Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.
-
---Do Piauhy, sim _sinhô_.
-
---Da capital?
-
---Do sertão, de Paranaguá, sim _sinhô_.
-
-O Almirante até ali não interrogara o soldado que continuava
-amedrontado, respondendo tropegamente. Caldas, para acalmal-o, resolveu
-falar-lhe com doçura.
-
---Você não sabe, camarada, quaes são os navios que _elles_ têm?
-
---O «Aquidaban»... A «Lucy».
-
---A «Lucy» não é navio.
-
---É verdade, sim; sinhô. O «Aquidaban»... Um _bandão_ delles, sim,
-_sinhô_.
-
-O General interveio então. Falou-lhe com brandura, quasi paternal,
-mudando o tratamento de você para tu, que parece mais doce e intimo
-quando se fala aos inferiores:
-
---Bem, descança, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te
-o sabre e estás na _ignacia_.
-
-Os dous generaes continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na
-plataforma, da estação. A pequena estação tinha um razoavel
-movimento. Um grande numero de officiaes, activos, reformados,
-honorarios moravam-lhe nas cercanias e os editaes chamavam todos a se
-apresentar ás autoridades competentes. Albernaz e Caldas atravessaram
-a plataforma no meio de continencias. O General, era mais conhecido em
-virtude de seu emprego; o Almirante, não. Quando passavam, ouviam
-perguntar: «quem é este Almirante»? Caldas ficava contente e
-orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incognito.
-
-Havia uma unica mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e
-lembrou-se um instante de sua filha Ismenia... Coitada!... Ficaria boa?
-
-Aquellas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lagrimas, mas elle as
-reteve com força.
-
-Já a levara a uma meia duzia de medicos e nenhum fazia parar aquelle
-escapamento do juizo que parecia fugir aos poucos do cerebro da moça.
-
-A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrepido, apitando
-com furia e deixando fumaça pesada, pelos ares que rompia, afastou-o de
-pensar na filha. Passou o monstro, pejado de soldados, de uniformes e os
-trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam.
-
-Bustamante appareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para
-apresentar-se. Trazia o seu velho uniforme do Paraguay, talhado segundo
-os moldes dos guerreiros da Criméa. A barretina era um tronco de cône
-que avançava para a frente; e, com aquella banda roxa e casaquinha
-curta, parecia ter sahido, fugido, saltado de uma téla de Victor
-Meirelles.
-
---Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorario.
-
---Viemos pela Quinta, disse o Almirante.
-
---Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me
-importa morrer, mas quero morrer combatendo; isso de morrer por ahi, á
-toa, sem saber como, não vai commigo...
-
-O General falara um pouco alto e os jovens officiaes que estavam
-proximo, olharam-n'o com mal disfarçada censura. Albernaz percebeu e
-ajuntou immmediatamente:
-
---Conheço bem esse negocio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe,
-Bustamante, que, em Curuzú...
-
---A cousa foi terrivel, accrescentou Bustamante.
-
-O trem atracava na estação. Veiu chegando manso, vagaroso, a
-locomotiva, muito negra, bufando, sumido gordurosamente, com a sua
-grande lanterna na frente, um olho de cyclope, avançava que nem uma
-apparição sobrenattural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e
-parou por fim.
-
-Estava repleto, muitas fardas de officiaes, a avaliar por ali o Rio
-devia ter uma guarnição de cem mil homens. Os militares palravam
-alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados. Se
-falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de
-traz.
-
-A cidade andava inçada de secretas, _familiares_ do Santo Officio
-Republicano, e as delações eram moedas com que se obtinham postos e
-recompensas.
-
-Bastava a minima critica, para se perder o emprego, a liberdade,--quem
-sabe?--a vida tambem. Ainda estavamos no começo da revolta, mas o
-regimen já publicara o seu prologo e todos estavam avisados. O chefe de
-policia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distincção de
-posição e talentos. Mereciam as mesmas perseguições do Governo um
-pobre continuo e um influente senador; um lente e um simples empregado
-de escriptorio. Demais surgiam as vinganças! mesquinhas, a revide de
-pequenas implicancias... Todos mandavam: a autoridade estava em todas as
-mãos.
-
-Em nome do Marechal Floriano, qualquer official, ou mesmo cidadão, sem
-funcção publica alguma, prendia e ai de quem cahia na prisão, lá
-ficava esquecido, soffrendo angustiosos supplicios de uma imaginação
-dominicana. Os funccionarios disputavam-se em bajulação, em
-servilismo... Era um terror, um terror baço, sem coragem, sangrento,
-ás occultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem
-responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier
-Tinville.
-
-Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes,
-os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação vinha da
-convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a
-companhia, a todos esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia
-sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse
-nefasto o hypocrita positivismo, um pedantismo tyrannico, limitado e
-estreito, que justificava todas as violencias, todos os assassinios
-todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição
-necessaria, lá diz elle, ao progresso e tambem ao advento do regimen
-normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com
-fanhosas musicas de cornetins e versos detestaveis, o paraizo emfim, com
-inscripções em escriptura phonetica e eleitos calçados com sapatos de
-sola de borracha!...
-
-Os positivistas discutiam e citavam theoremas de mecanica para
-justificar as suas idéas de Governo, em tudo semelhantes aos khanatos e
-emirados orientaes.
-
-A mathematica do positivismo foi sempre um puro falatorio que,
-naquelles tempos, amedrontava toda a gente. Havia mesmo quem estivesse
-convencido que a mathematica tinha sido feita e criada para o
-positivismo, como se a Biblia estivesse sido criada unicamente para a
-Igreja Catholica e não tambem para a Anglicana. O prestigio delle era,
-portanto, enorme.
-
-O trem correu, parou ainda em uma estação e foi ter á praça da
-Republica. O Almirante, cozido com as paredes, seguiu para o Arsenal de
-Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel General. Penetraram
-no grande casarão, no meio do retinir de espadas, de tiques de
-cornetas; o grande pateo estava cheio de soldados, bandeiras, canhões,
-feixes de armas ensarilhadas, bayonetas reluzindo ao sol obliquo...
-
-No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vai-e-vem
-de fardas, dourados, fazendas multicores, uniformes de varias
-corporações e milicias, no meio dos quaes os trages escuros dos civis
-eram importunos como moscas. Misturavam-se officiaes da guarda nacional,
-da policia, da armada, do exercito, de bombeiros e de batalhões
-patrioticos que começavam a surgir.
-
-Apresentaram-se e, depois de tel-o feito ao Ajudante General e Ministro
-da Guerra, a um só tempo, ficaram a conversar nos corredores, com
-bastante prazer, pois que tinham encontrado o Tenente Fontes e ambos
-gostavam de ouvil-o.
-
-O General porque já era noivo de sua filha Lalá, e Bustamante porque
-aprendia com elle alguma cousa de nomenclatura dos armamentos modernos.
-
-Fontes estava indignado, todo elle era horror, maldição contra os
-insurrectos, e propunha os peores castigos.
-
---Hão de ver o resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso do Marechal,
-se os pegasse... ai delles!
-
-O Tenente não era feroz nem mau, antes bom e até generoso, mas era
-positivista e tinha da sua Republica uma idéa religiosa e
-transcendente. Fazia repousar nella toda a felicidade humana e não
-admittia que a quizessem de outra forma que não aquella que imaginava
-boa. Fóra dahi não havia boa fé, sinceriddae; eram hereticos
-interesseiros, e, dominicano do seu barrete phrygio, raivoso por não
-poder queimal-os em autos de fé, congesto, via passar por seus olhos
-uma serie enorme de réos confitentes, relapsos, contumazes, falsos,
-simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por ahi...
-
-Albernaz não tinha tanta furia contra os adversarios. No fundo d'alma,
-elle os queria até, tinha amigos lá, e essas divergencias nada
-significavam para a sua idade e experiencia.
-
-Depositava, entretanto, uma certa esperança na acção do Marechal.
-Estando em apuros financeiros, não lhe dando o bastante a sua reforma e
-a gratificação de organizador do archivo do largo do Moura, esperava
-obter uma outra commissão, que lhe permitisse mais folgadamente
-adquirir o enxoval de Lalá.
-
-O Almirante, tambem, tinha grande confiança nos talentos guerreiros e
-de estadista de Floriano. A sua causa não ia lá muito bem. Perdera-a
-em primeira instancia, estava gastando muito dinheiro... O Governo
-precisava de officiais de marinha, quasi todos estavam na revolta;
-talvez lhe dessem uma esquadra a commandar... É verdade que... Mas, que
-diabo! Se fosse um navio, então sim: mas uma esquadra a cousa não era
-difficil: bastava coragem para combater.
-
-Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim
-que, para apoial-o e defender o seu Governo, imaginava organizar um
-batalhão patriotico, de que já tinha o nome «Cruzeiro do Sul» e
-naturalmente seria o seu commandante, com todas as vantagens do posto de
-coronel.
-
-Genelicio, cuja actividade nada tinha de guerreira, esperava muito da
-energia e da decisão do Governo de Floriano: esperava ser sub-director
-e não podia um Governo sério, honesto e energico, fazer outra cousa,
-desde que quizesse pôr ordem na sua secção.
-
-Essas secretas esperanças eram mais geraes do que se pode suppor. Nós
-vivemos do Governo e a revolta representava uma confusão nos empregos,
-nas honrarias e nas posições que o Estado espalha. Os suspeitos
-abririam vagas e as dedicações suppririam os titulos e habilitações
-para occupal-as; além disso, o Governo, precisando de sympathias e
-homens, tinha que nomear, espalhar, prodigalizar, inventar, criar e
-distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações.
-
-O proprio Dr. Armando Borges, o marido de Olga e sabio sereno e dedicado
-quando estudante, collocava na revolta a realização de risonhos
-anhelos.
-
-Medico e rico, pela fortuna da mulher, elle não andava satisfeito. A
-ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-n'o. Já era
-medico do Hospital Syrio, onde ia tres vezes por semana e, em meia hora,
-via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro, dava-lhe
-informações, o doutor ia de cama em cama, perguntando: como vai? Vou
-melhor seu doutor, respondia o syrio com voz gutural. Na seguinte,
-indagava: Já está melhor? E assim passava a visita; chegando ao
-gabinete receitava: doente n. 1, repita a receita; doente 5... quem
-é?... Quem é aquelle barbado... Ahn! E receitava.
-
-Mas medico de um hospital particular não dá fama a ninguem: o
-indispensavel é ser do Governo, senão elle não passava, de um simples
-pratico. Queria ter um cargo official, medico, director ou mesmo lente
-da Faculdade.
-
-E isso não era difficil, desde que arranjasse boas recommendações,
-pois já tinha certo nome, graças á sua actividade e fertilidade de
-recursos.
-
-De quando em quando, publicava um folheto «O cobreiro, Etiologia,
-Prophylaxia e tratamento» ou «Contribuição para o estudo da sarna no
-Brasil»; e mandava o folheto, quarenta e sessenta paginas, aos jornaes
-que se occupavam delle duas ou tres vezes por anno; _o operoso, Dr.
-Armando Borges, o illustre clinico, o proficiente medico da nossos
-hospitaes, etc. etc_.
-
-Obtinha isso graças á precaução que tomara em estudante de se
-relacionar com os rapazes da imprensa.
-
-Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que
-não havia nada de proprio, mas ricos de citações em francez, inglez e
-allemão.
-
-O logar de lente é que o tentava mais; o concurso porém, mettia-lhe
-medo. Tinha elementos, estava bem relacionado e cotado na Congregação,
-mas aquella historia de arguição apavorava-o.
-
-Não havia dia em que não comprasse livros, em francez, inglez e
-italiano; tomara até um professor de allemão para entrar na sciencia
-germanica; mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a sua
-felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando
-estudante.
-
-A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em bibliotheca.
-As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes
-tratados. Ar noite, elle abria as janellas das venezianas, accendia
-todos os bicos de gaz e se punha á meza, todo de branco com um livro
-aberto sob os olhos.
-
-O somno não tardava a vir ao fim da quinta pagina... isso era o diabo!
-Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances francezes, Goncourt,
-Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira
-que os tratados. Elle não comprehendia a grandeza daquellas analyses,
-daquellas descripções, o interesse e o valor dellas, revelando a
-todos, á sociedade, a vida, os sentimentos, as dores daquelles
-personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa sciencia e a
-pobreza de sua instrucção geral faziam-n'o ver naquillo tudo,
-brinquedos, passatempos, falatorios, tanto mais que elle dormia á
-leitura, de taes livros.
-
-Precisava, porém, illudir-se, a si mesmo e á mulher. De resto, da rua,
-viam-n'o e se dessem com elle a dormir sobre os livros?!... Tratou de
-encommendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com titulos
-trocados e afastou o somno.
-
-A sua clinica, entretanto, prosperava. De commandita com o tutor, chegou
-a ganhar uns seis contos, tratando de um febrão de uma orphã rica.
-
-Desde muito que a mulher lhe entrara na sua simulação de
-intelligencia, mas aquella manobra indecorosa, indignou-a. Que
-necessidade tinha elle disso? Não era já rico? Não era moço? Não
-tinha o privilegio de um titulo universitario? Tal acto pareceu á moça
-mais vil, mais baixo, que a usura de um judeu, que o aluguel de uma
-penna...
-
-Não foi desprezo, nojo que ella teve pelo marido; foi um sentimento
-mais calmo, menos activo; desinteressou-se delle, destacou-se de sua
-pessoa. Ella sentiu que tinham cortado todos os laços de affeição, de
-sympathia, que prendiam ambos, toda a ligação moral, emfim.
-
-Mesmo quando noiva, verificara que aquellas cousas de amor ao estudo, de
-interesse pela sciencia, de ambições de descobertas, nelle, eram
-superficiaes, estavam á flor da pelle; mas desculpou. Muitas vezes nós
-nos enganamos sobre as nossas proprias forças e capacidades; sonhamos
-ser Shakespeare e sahimos Mal dos Vinhas. Era perdoavel, mas charlatão?
-Era de mais!
-
-Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quasi
-indignidade?... Todos os homens deviam ser iguaes, era inutil mudar
-deste para aquelle...
-
-Quando chegou a esta conclusão, sentiu um grande allivio, e a sua
-physionomia se illuminou de novo como se já estivesse de todo passada a
-nuvem que empanava o sol dos seus olhos.
-
-Naquella carreira atropellada para o nome facil, elle não deu pelas
-modificações da mulher. Ella dissimulava os seus sentimentos, mais por
-dignidade e delicadeza, que mesmo por qualquer outro motivo; e a elle
-faltavam a sagacidade e finura necessarias para descobril-os sob o seu
-esconderijo.
-
-Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quando estavam longe um
-do outro!...
-
-A revolta veiu encontral-os assim; e o doutor, desde tres dias, pois ha
-tanto ella rebentara, meditava a sua ascenção social e monetaria.
-
-O sogro suspendera a viagem á Europa, e, naquella manhã, após o
-almoço, conforme o seu habito, lia recostado numa cadeira de viagem os
-jornaes do dia. O genro vestia-se e a filha; occupava-se com sua
-correspondencia, escrevendo á cabeceira da meza de jantar. Ella tinha
-um gabinete, com todo o luxo, livros, secretaria, estantes, mas gostava
-pela manhã, de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe parecia mais
-clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade
-ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no escrever.
-
-Ella escrevia e o pai lia; num dado momento elle disse:
-
---Sabes quem vem ahi, minha filha?
-
---Quem é?
-
---Teu padrinho. Telegraphou ao Floriano, dizendo que vinha... Está
-aqui, n'«O Paiz».
-
-A moça adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir do facto sobre
-as idéas e sentimentos de Quaresma. Quiz desapprovar, censurar;
-sentiu-o, porém, tão coherente com elle mesmo, tão de accordo com a
-substancia da vida que elle mesmo fabricara, que se limitou a sorrir
-complacente:
-
---O padrinho...
-
---Está doido, disse Coleoni. _Per la madona_! Pois um homem que está
-quieto, socegado, vem metter-se nesta barafunda, neste inferno...
-
-O doutor voltava já inteiramente vestido, com a sobrecasaca funebre e a
-cartola reluzente na mão. Vinha irradiante e o seu rosto redondo
-reluzia, excepto onde o grande bigode punha sombras. Ainda ouviu as
-ultimas palavras do sogro, pronunciadas com aquelle seu portuguez rouco.
-
---Que ha? perguntou elle.
-
-Coleoni explicou a repetiu os commentarios que já fizera:
-
---Mas não ha tal, disse o doutor. É o dever de todo o patriota... Que
-tem a idade? Quarenta e poucos annos, não é lá velho... Póde ainda
-bater-se pela Republica...
-
---Mas não tem interesse nisso, objectou o velho.
-
---E ha de ser só quem tem interesse que se deve bater pela Republica?
-interrogou o doutor.
-
-A moça que acabava de ler a carta que tinha escripto, mesmo sem
-levantar a cabeça, disse:
-
---De certo.
-
---É vêm você com as suas theorias, filhinha. O patriotismo não está
-na barriga...
-
-E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes
-postiços mais falsificava.
-
---Mas vocês só falam em patriotismo? E os
-outros! É monopolio de vocês o patriotismo? fez Olga.
-
---De certo. Se elles fossem patriotas não estariam a despejar balas
-para a cidade, a entorpecer e desmoralisar a acção da autoridade
-constituida.
-
---Deviam continuar a presenciar as prisões, as deportações, os
-fuzilamentos, toda a serie de violencias que se vêm commettendo, aqui e
-no Sul?
-
---Você, no fundo, é uma revoltosa, disse o doutor fechando a
-discussão.
-
-Ella não deixava de ser. A sympathia dos desinteressados, da
-população. inteira era pelos insurgentes. Não só isso sempre
-acontece em toda a parte, como particularmente, no Brasil, devido a
-multiplos factores, ha de ser assim normalmente.
-
-Os Governos, com os seus inevitaveis processos de violencia e
-hypocrisias, ficam alheiados da sympathia dos que acreditam nelle; e
-demais, esquecidos de sua vital impotencia e inutilidade, levam a
-prometter o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que
-pedem sempre mudanças e mudanças.
-
-Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para os revoltosos; e
-Coleoni, estrangeiro e conhecendo, graças á sua vida, as nossas
-autoridades, calasse as suas sympathias num mutismo prudente.
-
---Não me vá comprometter, hein Olga?
-
-Ella se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco,
-deitou-lhe o seu grande olhar luminoso e com os finos labios um pouco
-franzidos:
-
---Você sabe bem que eu não te comprometto.
-
-O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do
-portão disse adeus a mulher, que lhe seguiu a sahida, debruçada na
-varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados.
-
-Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado das contingencias
-terrenas.
-
-Ricardo vivia ainda na sua casa de commodos dos suburbios, cuja vista ia
-de Todos os Santos á Piedade, abrangendo um grande trato de area
-edificada, um panorama de casas e arvores.
-
-Já não se falava mais no seu rival e a sua magua tinha assentado.
-
-Por esses dias o seu triumpho desfilava sem contestação. Toda a cidade
-o tinha na consideração devida e elle quasi se julgava ao termo da sua
-carreira. Faltava o assentimento de Botafogo, mas estava certo de obter.
-
-Já publicara mais de um volume de canções; e, agora pensava em
-publicar mais outro.
-
-Ha dias vivia em casa, pouco sahindo, organizando o seu livro. Passava
-confinado no seu quarto, almoçando café, que elle mesmo fazia, e pão,
-indo á tarde jantar a uma tasca proximo á estação.
-
-Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que
-jantavam nas mezas sujas, abaixavam a voz e olhavam-n'o desconfiados;
-mas não deu importancia...
-
-Apezar de popular no logar, não encontrara pessoa alguma conhecida
-durante os tres ultimos dias; elle mesmo evitava falar e, em sua casa,
-limitava-se ao «bom dia» e á «boa tarde» trocados com os vizinhos.
-
-Gostava de passar assim dias, mettido em si mesmo e ouvindo o seu
-coração. Não lia jornaes para não distrahir a attenção do seu
-trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de
-ser mais uma victoria para elle e para o violão estremecido.
-
-Naquella tarde estava sentado á meza, corrigindo um dos seus trabalhos,
-um dos ultimos, aquelle que compuzera no sitio de Quaresma--«Os lábios
-de Carola».
-
-Primeiro, leu toda a producção, cantarolando: voltou a lel-a, agarrou
-o violão para melhor apanhar o effeito e empacou nestes:
-
-
- É mais bella que Helena e Margarida,
- Quando sorri meneando a ventarola.
- Só se encontra a illusão que adoça a vida
- Nos labios de Carola.
-
-
-Nisto ouviu um tiro, depois outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de
-ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a
-cantar os labios de Carola, onde encontrava a illusão que adoça a
-vida...
-
-
-
-
-TERCEIRA PARTE
-
-
-
-
-I
-
-PATRIOTAS
-
-
-Havia mais do uma hora que elle estava ali, num grande salão do
-palacio, vendo o Marechal, mas sem lhe poder falar. Quasi não se
-encontravam difficuldades para se chegar á sua presença, mas
-falar-lhe, a cousa não era tão facil.
-
-O palacio tinha um ar de intimidade, de quasi relaxamento,
-representativo o eloquente. Não era raro ver-se pelos divans, em outras
-salas, ajudantes de ordens, ordenanças, continuos, cochilando, meio
-deitados e desabotoados. Tudo nelle era desleixo e molleza. Os cantos
-dos tectos tinham teias de aranha; dos tapetes, quando pisados com mais
-força, subia uma poeira do rua mal varrida.
-
-Quaresma não pudera vir logo, como annunciara no telegramma. Fôra
-preciso por em ordem os seus negocios, arranjar quem fizesse companhia
-á irmã. Fizera D. Adelaide mil objecções á sua partida;
-mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompativeis com a sua idade
-e superiores á sua força; elle, porém, não se deixara abater, fizera
-pé firme, pois sentia, indispensavel, necessario que toda a sua
-vontade, que toda a sua intelligencia, que tudo o que elle tinha de
-vida e actividade fosse posto á disposição do Governo, para
-então!... oh!
-
-Aproveitava os dias até para redigir um memorial que ia entregar a
-Floriano. Nelle expunham-se as medidas necessarias para o levantamento
-da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande
-propriedade, das exacções fiscaes, da carestia de fretes, da
-estreiteza dos mercados e das violencias politicas.
-
-O Major apertava o manuscripto na mão e lembrava-se da sua casa, lá
-longe, no canto daquella planicie feia, olhando, no poente, as montanhas
-que se alongavam, se afilavam nos dias claros e transparentes;
-lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e placidos que o viram
-partir com uma impassibilidade que não era natural; mas do que se
-lembrava mais, naquelle momento, era do Anastacio, o seu preto velho, do
-seu longo olhar, não mais com aquella ternura passiva de animal
-domestico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito
-nas orbitas as escleroticas muito brancas, quando o viu penetrar no
-vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça... Não lhe
-era commum tal attitude e como que a tomava por ter descoberto nas
-cousas signaes de dolorosos acontecimentos a vir... Ora!...
-
-Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro á espera que o
-Presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia e
-Floriano tinha ainda, como signal do almoço, o palito na boca.
-
-Falou em primeiro logar a uma commissão de senhoras que vinham
-offerecer o seu braço e o seu sangue em defeza das instituições e da
-patria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto, gorda, com
-grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita.
-
-Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam
-tantas nella que uma escondia a outra, furtando toda ella a uma
-classificação honesta.
-
-Emquanto falava, a mulhersinha deitava sobre o Marechal os grandes olhos
-que despediam chispas. Floriano parecia incommodado com aquelle
-chammejar; era como se temesse derreter-se ao calor daquelle olhar que
-queimava mais seducção que patriotismo. Fugia encaral-a, abaixava o
-rosto como um adolescente, batia com os dedos na meza...
-
-Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem
-encarar a mulher, e, com um grosso e difficil sorriso do roceiro,
-declinou da offerta, visto a Republica ainda dispor de bastante força
-para vencer.
-
-A ultima phrase, elle a disse com mais vagar e quasi ironicamente. As
-damas despediram-se; o Marechal gyrou o olhar em torno do salão e deu
-com Quaresma: Então, Quaresma? fez elle familiarmente.
-
-O Major ia approximar-se, mas logo estacou no logar em que estava. Uma
-chusma de officiaes subalternos e cadetes cercou o dictador e a sua
-attenção convergiu para elles. Não se ouvia o que diziam. Falavam ao
-ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espaduas. O Marechal
-quasi não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossylabo,
-cousa que Quaresma percebia pela articulação dos labios.
-
-Começaram a sahir. Apertavam a mão do dictador e, um delles, mais
-jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com força a mão
-molle, bateu-lhe no hombro com intimidade, e disse alto e com emphase;
-energia, Marechal!
-
-Aquillo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo
-ceremonial da Republica, que ninguem, nem o proprio Floriano, teve a
-minima surpreza, ao contrario alguns até sorriram alegres por ver o
-califado khan, o emir, transmittir um pouco do que tinha de sagrado ao
-subalterno desabusado. Não se foram todos immediatamente. Um delles
-demorou-se mais a segredar cousas á suprema autoridade do paiz. Era um
-cadete da Escola Militar, com a sua farda azul turqueza, talim e sabre de
-praça de pret.
-
-Os cadetes da Escola Militar formavam a phalange sagrada.
-
-Tinham todos os privilegios e todos os direitos; precediam ministros nas
-entrevistas com o dictador e abusavam dessa situação de esteio do
-sylla, para opprimir e vexar a cidade inteira.
-
-Uns trapos do positivismo se tinham collado naquellas intelligencias e
-uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando a
-autoridade, especialmente Floriano e vagamente a Republica, em artigo de
-fé, em feitiço, em idolo mexicano, em cujo altar todas as violencias
-e crimes eram oblatas dignas e offerendas uteis para a sua satisfação
-e eternidade.
-
-O cadete lá estava...
-
-Quaresma pôde então ver melhor a physionomia do homem que ia enfeixar
-em suas mãos, durante quasi um anno, tão fortes poderes, poderes de
-imperador Romano pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar
-obstaculo algum aos seus caprichos, ás suas fraquezas e vontades, nem
-mas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal e humana.
-
-Era vulgar e desoladora. O bigode cahido; o labio inferior pendente e
-molle a que se agarrava uma grande _mosca_; os traços flacidos e
-grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse
-propria, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço,
-redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era
-individual, mas nativa, de raça; e todo elle era gelatinoso, parecia
-não ter nervos.
-
-Não quiz o Major ver em taes signaes nada que lhe denotasse o caracter,
-a intelligencia e o temperamento. Essas cousas não vogam, disse elle de
-si para si.
-
-O seu enthusiasmo por aquelle idolo politico era forte, sincero e
-desinteressado. Tinha-o na conta de energico, de fino e supervidente,
-tenaz e conhecedor das necessidades do paiz, manhoso talvez um pouco,
-uma especie de Luiz XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era
-assim. Com uma ausencia total de qualidades intellectuaes, havia no
-caracter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tristeza de
-animo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça commum,
-essa preguiça de nós todos; era uma preguiça morbida, como que uma
-pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insufficiente quantidade
-de irrigação no seu organismo. Pelos logares que passou, tornou-se
-notavel pela indolencia e desamor ás obrigações dos seus cargos.
-
-
-Quando director do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para
-assignar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro
-da guerra, passava mezes e mezes sem lá ir, deixando tudo por assignar,
-pelo que legou ao seu substituto um trabalho avultadissimo.
-
-Quem conhece a actividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de
-um Philippe II, de um Guilherme I, da Allemanha, em geral de todos os
-grandes homens de Estado, não comprehende o descaso florianesco pela
-expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades,
-de suas vistas, certamente necessarias deviam ser taes transmissões
-para que o seu senso superior se fizesse sentir e influisse na marcha
-das cousas governamentaes e administrativas.
-
-Dessa sua preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus
-mysteriosos monosyllabos, levados á altura de ditos sybillinos, as
-famosas _encruzilhadas dos tal vezes_, que tanto reagiram sobre a
-intelligencia e imaginação nacionaes, mendigas de heroes e grandes
-homens.
-
-Essa doentia preguiça, fazia-o andar de chinellos e deu-lhe aquelle
-aspecto de calma superior, calma de grande homem de estado ou de
-guerreiro extraordinario.
-
-Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros mezes de
-governo. A braços com o levante de presos, praças e inferiores da
-fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inquerito, abafou-o com
-medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra
-sedicção, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores
-e mais altas recompensas.
-
-Demais, ninguem póde admittir um homem forte, um Cesar, um Napoleão,
-que permitta aos subalternos aquellas intimidades deprimentes e tenha
-com elles as condescendencias que elle tinha, consentindo que o seu nome
-servisse de labaro para uma vasta serie de crimes de toda a especie.
-
-Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atomosphera de má vontade
-Napoleão assumiu o commando do exercito da Italia. Augereau que o
-chamava «general de rua», disse a alguem, após lhe ter falado: «o
-homem metteu-me medo»; e o corso estava senhor do exercito, sem
-_balidellas_ no hombro, sem delegar tacita ou explicitamente a sua
-autoridade a subalternos irresponsaveis.
-
-De resto, a lentidão com que suffocou a revolta de 6 de Setembro mostra
-bem a incerteza, a vacillação de vontade de um homem que dispunha
-daquelles extraordinarios recursos que estavam ás suas ordens.
-
-Ha uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus
-movimentos, actos e gestos. Era o seu amor á familia, um amor
-entranhado, alguma cousa de patriarchal, de antigo que já se vai
-esvaindo com a marcha da civilização.
-
-Em virtude de insuccessos na exploração agricola de duas das suas
-propriedades, a sua situação particular era precaria, e não queria
-morrer sem deixar á familia as suas propriedades agricolas desoneradas
-do peso das dividas.
-
-Honesto e probo como era, a unica esperança que lhe restava, repousava
-nas economias sobre os seus ordenados. Dahi lhe veiu essa dubiedade,
-esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensavel para conservar os
-rendosos logares que teve e o fez atarrachar-se tenazmente á
-presidencia da Republica. A hypotheca do «Brejão» e do «Duarte» foi
-o seu nariz de Cleopatra...
-
-A sua preguiça, a sua tistreza de animo e o seu amor fervoroso pelo lar
-deram em resultado esse _homem-talvez_ que, refractado nas
-necessidades mentaes e sociaes dos homens do tempo, foi transformado em
-estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais
-teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até
-enthusiasmo e fanatismo.
-
-Esse enthusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que
-o sustentaram, só teriam sido possiveis, depois de ter elle sido
-ajudante general do Imperio, senador, ministro, isto após se ter
-_fabricado_ á vista de todos o chrystalizado a lenda na mente de todos.
-
-A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia,
-nem a aristocracia; era a de uma tyrannia domestica. O bêbê portou-se
-mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande o portar-se mal em fazer-lhe
-opposição, ter opiniões contrarias ás suas e o castigo não eram
-mais palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não ha dinheiro no
-Thesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se
-faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais agua.
-
-Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce
-a essa concepção infantil, raiando-a de violencia, não tanto por elle
-em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela vida
-humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade
-dos seus auxiliares e asseclas.
-
-Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; elle com muitos homens
-honestas e sinceros do tempo, foram tomados pelo enthusiasmo contagioso
-que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino
-reservava aquella figura placida e triste; na reforma radical que elle
-ia levar organismo anniquilado da patria, que o Major se habituara a
-crer a mais rica do mundo, embora, de uns tempos para cá, já tivesse
-duvidas a certos respeitos.
-
-De certo, elle não negaria taes esperanças e a sua acção poderosa
-havia de se fazer sentir pelos oito milhões de kilometros quadrados do
-Brasil, levando-lhes estradas, segurança, protecção aos fracos,
-assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.
-
-Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro de
-espera, desde que o Marechal lhe falou familiarmente, começou a
-considerar aquelle homem pequenino, taciturno, de _pince-nez_ e foi-se
-chegando, se approximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quasi
-como um terrivel segredo:
-
---Elles vão ver o _caboclo_... O Major ha muito que o conhece?
-
-Respondeu-lhe o Major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o
-presidente, porém, ficara só e Quaresma avançou.
-
---Então, Quaresma? fez Floriano.
-
---Venho offerecer á V. Ex. os meus fracos prestimos.
-
-O presidente considerou um instante aquella pequenez de homem, sorriu
-com difficuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu
-por ahi a força de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa.
-
---Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal.
-
-Floriano tinha essa capacidade de guardar physionomias, nomes, empregos,
-situações dos subalternos com quem lidava. Tinha alguma cousa de
-asiatico; era cruel e paternal ao mesmo tempo.
-
-Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a occasião para lhe falar
-em leis agrarias, medidas tendentes a desafogar e dar novas bases á
-nossa vida agricola. O Marechal ouviu-o distrahido, com uma dobra de
-aborrecimento no canto dos labios.
-
---Trazia á V. Ex. até este memorial...
-
-O presidente teve um gesto de mau humor, um quasi «não me amole» e
-disse com preguiça a Quaresma:
-
---Deixa ahi...
-
-Depositou o manuscripto sobre meza e logo o dictador dirigiu-se ao
-interlocutor de ainda agora:
-
---Que ha, Bustamante? e o batalhão, vai?
-
-O homem approximou-se mais, um tanto amedrontado!
-
---Vai bem, Marechal. Precisamos de um quartel... Se V. Ex. desse
-ordem...
-
---É exacto. Fala ao Rufino em meu nome que elle póde arranjar... Ou
-antes: leva-lhe este bilhete.
-
-Rasgou um pedaço de uma das primeiras paginas do manuscripto de
-Quaresma, e assim mesmo, sobre aquella ponta de papel, a lapiz azul,
-escreveu algumas palavras ao seu ministro da guerra. Ao acabar é que
-deu com a desconsideração:
-
---Ora! Quaresma! rasguei o teu escripto... Não faz mal... Era a parte
-de cima, não tinha nada escripto.
-
-O Major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para
-Bustamante:
-
---Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres?
-
---Eu! foz Quaresma estupidamente.
-
---Bem. Vocês lá se entendam.
-
-Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas
-do Itamaraty. Até á rua nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um
-pouco frio. O dia estava claro e quente; o movimento da cidade parecia
-não ter soffrido alteração apreciavel. Havia a mesma agitação de
-bondes, carros e carroças; mas nas physionomias, um terror, um espanto,
-alguma cousa de tremendo ameaçava, todos e parecia estar suspenso no
-ar.
-
-Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora
-Tenente-Coronel, velho amigo do Marechal, seu companheiro no Paraguay.
-
---Mas nós nos conhecemos! exclamou elle.
-
-Quaresma esteve olhando aquelle velho mulato escuro, com uma grande
-barba mosaica e olhos espertos, mas não se lembrou de tel-o já
-encontrado algum dia.
-
---Não me recordo... Donde?
-
---Da casa do General Albernaz... Não se lembra?
-
-Polycarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a
-formação do seu batalhão patriotico «Cruzeiro do Sul».
-
---O Sr. quer fazer parte?
-
---Pois não, fez Quaresma.
-
---Estamos em difficuldades... Fardamento, calçado para as praças...
-Nas primeiras despezas devemos auxiliar o Governo... Não convém
-sangrar o Thesouro, não acha?
-
---Certamente, disse com enthusiasmo Quaresma.
-
---Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota...
-Resolvi por isso fazer um rateio pelos officiaes, em proporção ao
-posto: um alferes concorre com cem mil réis, um tenente com duzentos...
-O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O senhor é major, não é?
-
-Quaresma então explicou por que o tratavam por Major. Um amigo,
-influencia no Ministerio do Interior, lhe tinha mettido o nome numa lista
-de guardas nacionaes, com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos,
-viu-se, entretanto, sempre tratado Major, e a cousa pegou. A principio,
-protestou, mas como teimassem deixou.
-
---Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo Major.
-
---Qual é a minha quota?
-
---Quatrocentos mil réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um
-posto importante... Aceita?
-
---Pois não.
-
-Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha do lapiz e
-despediu-se jovialmente.
-
---Então, Major, ás seis, no quartel provisorio.
-
-A conversa se havia passado na esquina da rua Larga com o Campo de
-Sant'Anna. Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da
-cidade. Tencionava visitar o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas
-para a sua iniciação militar.
-
-A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto
-compassado das mulas; de quando em quando ou via-se um toque de corneta,
-rufos de tambor, e do portão central do Quartel General sahia uma
-força, armas ao hombro, bayonetas caladas, dansando nos hombros dos
-recrutas, faiscando com um brilho duro e máu.
-
-Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o
-secco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o bonde attingisse
-á rua da Constituição, todos os rumores guerreiros tinham cessado, e
-quem não estivesse avisado havia de suppor-se em tempos normaes.
-
-Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que
-comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido;
-bateram-lhe no hombro. Voltou-se.
-
---Oh! General!
-
-O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimonias e
-tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos
-que se tinham enfraquecido por uma separação qualquer. Estava fardado,
-com aquelle seu uniforme mal tratado; não trazia espada e o _pince-nez_
-continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detraz da
-orelha esquerda.
-
---Então vem ver a cousa?
-
---Vim. Já me apresentei ao Marechal.
-
---_Elles_ vão ver com quem se metteram. Pensam que tratam com o
-Deodoro, enganam-se!... A Republica, graças a Deus, tem agora um homem
-na sua frente... O _caboclo_ é de ferro... No Paraguay...
-
---O Sr. conheceu-o lá, não, General?
-
---Isto é... Não chegamos a nos encontrar, mas o Camisão... É duro, o
-homem. Estou como encarregado das munições... É fino o _caboclo_;
-não me quiz no litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que
-saia das minhas mãos, é munição... Lá, no deposito, não me sai um
-caixote que eu não examine... É necessario... No Paraguay, houve muita
-desordem e comilança: mandou-se muita cal por polvora--não sabia?
-
---Não.
-
-Pois foi. O meu gasto era ir para as praias, para o combate: mas o
-_homem_ quer que eu fique com as munições... Capitão manda marinheiro
-faz... Elle sabe lá...
-
-Deu de hombros, concertou o trancelim que já cahia da orelha e esteve
-calado um instante. Quaresma perguntou:
-
---Como vai a familia?
-
---Bem. Sabe que Quinota casou-se?
-
---Sabia, o Ricardo me disse. E D. Ismenia, como vai?
-
-A physionomia do General toldou-se e respondeu como a contragosto:
-
---Vai no mesmo.
-
-O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha
-enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros
-calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de
-estatua, numa atonia de inanimado, como que cahira em imbecilidade; mas
-vinha uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria
-á mãe, dizendo: «Aprompta-me, mamãe. O meu noivo não deve tardar...
-é hoje o meu casamento». Outras vezes recortava papel, em forma de
-participações, e escrevia: Ismenia de Albernaz e Fulano (variava)
-participam o seu casamento.
-
-O General já consultara uma duzia de medicos, o espiritismo e agora
-andava ás voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, porém, não
-sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espirito
-naquella obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que
-não attingira, aniquilando-se, porém, o seu espirito e a sua mocidade
-em pleno verdor.
-
-Entristecia o seu estado aquella casa outr'ora tão alegre, tão
-festiva. Os bailes tinham diminuido: e, quando eram obrigados a dar um,
-nas datas principaes, a moça, com todos os cuidados, á custa de todas
-as promessas, era levada para casa da irmã casada, e lá ficava,
-emquanto as outras dansavam, um instante esquecidas da irmã que
-soffria.
-
-Albernaz não quis revelar aquella dôr de sua velhice: reprimiu a
-emoção e continuou no tom mais natural, naquelle seu tom familiar e
-intimo que usava com todos:
-
---Isto é uma infamia, Sr. Quaresma. Que atrazo para o paiz! E os
-prejuizos? Um porto destes fechado ao commercio nacional, quantos annos
-de retardamento não representa!
-
-O Major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de
-forma a tornar impossivel a reproducção de levantes e insurreições.
-
---De certo, adduziu o General. Assim não progredimos, não nos
-adiantamos. E no estrangeiro que mau effeito!
-
-O bonde chegara ao largo de S. Francisco e os dous se separaram.
-Quaresma foi direitinho ao largo da Carioca e Albernaz seguiu para a rua
-do Rosario.
-
-Olga viu entrar seu padrinho sem aquella alegria expansiva de sempre.
-Não foi indifferença que sentiu, foi espanto, assombro, quasi modo,
-embora soubesse perfeitamente que elle estava a chegar. Entretanto, não
-havia mudança na physionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo elle.
-Era o mesmo homem baixo, pallido, com aquelle cavaignac apontado e o
-olhar agudo por detraz do _pince-nez_... Nem mesmo estava mais queimado
-e o geito de apertar os labios era o mesmo que ella conhecia ha tantos
-annos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impellido, empurrado por
-uma força extranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto,
-verificou que lhe entrara naturalmente, com o seu passo meudo e firme.
-Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirava sua
-alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de
-jantar e Quaresma não se fazia annunciar; ia entrando conforme o velho
-habito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua
-entrada:
-
---Papae saiu; e o Armando está lá em baixo escrevendo.
-
-De facto, elle estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para
-o _classico_ um grande artigo sobre «Ferimentos por arma de fogo». O
-seu ultimo _truc_ intellectual era este do classico. Buscava nisto uma
-distincção, uma separação intellectual desses meninos por ahi que
-escrevem contos e romances nos jornaes. Elle, um sabio, e sobretudo, um
-doutor, não podia escrever da mesma forma que elles. A sua sabedoria
-superior e o seu titulo _academico_ não podia usar da mesma lingua, dos
-mesmos modismos, da mesma syntaxe que esses poetastros e literatecos.
-Veio-lhe então a idéa do classico. O processo era simples: escrevia do
-modo commum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as
-orações, picava o periodo com virgulas e substituia _incomodar_ por
-_molestar_, ao _redor_ por _derredor_, _isto_ por _esto_, _quão grande_
-ou _tão grande_ por _quammanho_, sarapintava tudo de _ao invez_,
-_empós_, e assim obtinha o seu estylo classico que começava a causar
-admiração aos seus pares e ao publico em geral.
-
-Gostava muito da expressão--_ás rebatinhas_; usava-a a todo o momento
-e, guando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu estylo
-uma força e um brilho pascalinos e ás suas idéas unia sufficiencia
-transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo ás primeiras
-linhas o somno lhe vinha e dormia sonhando-se _physico_, tratado de
-mestre, em pleno seiscentos, prescrevendo sangria e agua quente, tal e
-qual o Dr. Sangrado.
-
-A sua traducção estava quasi no fim, já estava bastante pratico, pois
-com o tempo adquirira um vocabulario sufficiente e a versão era feita
-mentalmente, em quasi metade, logo na primeira escripta. Recebeu o
-recado da mulher, annunciando-lhe a visita, com um pequeno
-aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente
-classico para _orificio_, julgou util a interrupção. Queria pôr
-_buraco_, mas era plebeu; _orificio_, se bem que muito usado, era,
-entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou: e subiu á
-sala de jantar. Elle entrou prazenteiro, com o seu grande bigode
-esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada
-empenhados em uma discussão sobre autoridade.
-
-Dizia ella:
-
---Eu não posso comprehender esse tom divino com que os senhores falam
-da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse
-respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes?
-
-O doutor, que ouvira toda a phrase, não pôde deixar de objetar:
-
---Mas é preciso, indispensavel... Nós sabemos bem que elles são
-homens como nós, mas, se não for assim tudo vai por agua abaixo.
-
-Quaresma acrescentou:
-
---É em virtude das proprias necessidades internas e externas da nossa
-sociedade que ella existe... Nas formigas, nas abelhas...
-
---Admitto. Mas ha revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade
-se mantem lá á custa de assassinios, exacções e violencias?
-
---Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.
-
-O doutor não teve duvidas e foi logo dizendo:
-
---Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pinaculo da
-escala zoologica iremos buscar normas de vida entre insectos?
-
---Não, é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos delles a certeza
-da generalidade do phenomeno, da sua immanencia, por assim dizer, disse
-Quaresma com doçura.
-
-Elle não tinha acabado a explicação e já Olga reflectia:
-
---Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade--vá; mas não; de
-que vale?
-
---Ha de trazer, affirmou categoricamente Quaresma. A questão é
-consolidal-a.
-
-Conversaram ainda muito tempo. O Major contou a sua visita a Floriano, a
-sua proxima incorporação ao batalhão «Cruzeiro do Sul». O doutor
-teve uma ponta de inveja, quando elle se referiu ao modo familiar por
-que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno _lunch_ e Quaresma saiu.
-
-Sentia necessidade de rever aquellas ruas estreitas, com as suas lojas
-profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um
-subterraneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléa,
-a casquilha rua do Ouvidor davam-lhe saudades.
-
-A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no
-Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, os _jacobinos_, a
-guarda abnegada da Republica, os intransigentes, a cujos olhos, a
-moderação, a tolerancia e o respeito pela liberdade e a vida alheias
-eram crimes de lesa-patria, sintomas de monarquismo criminoso e
-abdicação desonesta diante do estrangeiro. O estrangeiro era sobretudo
-o portuguez, o que não impedia de haver jornaes _jacobinissimos_
-redigidos por portuguezes da mais bella agua.
-
-A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a rua do Ouvidor era a
-mesma. Os namoros se faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia
-no alto céo azul, luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam
-para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o
-sangue a subir ás faces pouco e pouco, depois da pallidez do medo.
-
-Quaresma jantou num _restaurant_ e dirigiu-se ao quartel, que
-funccionava provisoriamente num velho cortiço condemnado pela hygiene,
-lá pelos lados da cidade Nova. Tinha o tal cortiço andar terreo e
-sobrado, ambos divididos em cubiculos do tamanho de camarotes de navio.
-No sobrado, havia uma varanda de grade de páu e uma escada de madeira
-levava até lá, escada tosca e oscillante, que gemia á menor passada.
-A casa da ordem funccionava no primeiro quartinho do sobrado e o pateo,
-já sem as cordas de seccar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas
-das barrélas e da agua de sabão, servia para a instrucção dos
-recrutas. O instructor era um sargento reformado, um tanto coxo, e
-admittido no batalhão com o posto de alferes, que gritava com uma
-demora majestosa: _hom--brô_... armas!
-
-O Major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o
-modelo do fardamento.
-
-Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dolman era
-verde-garrafa e tinha uns vivos azul ferrete, alamares dourados e quatro
-estrellas prateadas, em cruz, na góla.
-
-Uma gritaria fel-os vir até á varanda. Entre soldados entrava um
-homem, a se debater, a chorar e a implorar, ao mesmo tempo, levando de
-quando em quando uma reflada.
-
---É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, Coronel?
-continuou ele com interesse e piedade.
-
-Bustamante estava impassivel na varanda e só respondeu depois de algum
-tempo:
-
---Conheço... É um voluntario recalcitrante, um patriota rebelde.
-
-Os soldados subiram com o _voluntario_ e Ricardo logo que deu com o
-major, suplicou-lhe:
-
---Salve-me major!
-
-Quaresma chamou de parte o Coronel, rogou-lhe e supplicou-lhe, mas foi
-inutil... Ha necessidade de gente... Enfim, fazia-o cabo.
-
-Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e
-exclamou:
-
---Eu sirvo sim, sim, mas dêm-me o meu violão.
-
-Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:
-
---Restituam o violão ao cabo Ricardo!
-
-
-
-
-II
-
-VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO
-
-
-Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado de terra,
-mal se enxergam as partes baixas dos edificios proximos; para o lado do
-mar, então, a vista é impotente contra aquella treva esbranquiçada e
-fluctuante, contra aquella muralha de flócos e opaca, que se condensa
-ali e aqui em apparições, em semelhanças de cousas. O mar está
-silencioso: ha grandes intervallos entre o seu fraco marulho. Vê-se da
-praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odôr da maresia
-parece mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o
-desconhecido, o Mysterio. Entretanto, aquella pasta espessa, de uma
-claridade diffusa, está povoada de ruidos. O chiar das serras vizinhas,
-os apitos de fabricas e locomotivas, os guinchos do guindastes dos
-navios enchem aquella manhã indecifravel e taciturna; e ouve-se mesmo a
-bulha compassada de remos que ferem o mar. Accredita-se, dentro daquelle
-decoro, que é Charonte que traz a sua barca para uma das margens do
-Styge...
-
-Attenção! Todos prescrutam a cortina de nevoa pastosa. Os rostos
-estão alterados; parece que, do seio da bruma, vão surgir demonios...
-
-Não se ouve mais a bulha: o escaler afastou-se. As physionomias
-respiram aliviadas...
-
-Não é noite, não é dia; não é o diluculo, não é o crepusculo:
-é a hora da angustia, é a luz da incerteza. No mar, não ha estrellas
-nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro ás paredes
-brancas das casas. A nossa miseria é mais completa e a falta daquelles
-mudos marcos da nossa actividade dá mais forte percepção do nosso
-isolamento no seio da natureza grandiosa.
-
-Os ruidos continuam, e, como nada se vê, parece que vêm do fundo da
-terra ou são allucinações auditivas. A realidade só nos vem do
-pedaço de mar que se avista, marulhando com grandes intervallos,
-fracamente, tenuemente, a medo, de encontro a areia da praia, suja de
-bodelhas, algas e sargaços.
-
-Aos grupos, após o rumor dos remos, os soldados deitaram-se pela relva
-que continua a praia. Alguns já cochilam; outros procuram com os olhos
-o céo atravez do nevoeiro que lhes humedece o rosto.
-
-O cabo Ricardo Coração dos Outros, de rifle á cintura e gorro á
-cabeça, sentado numa pedra, está de parte, sósinho, e olha aquella
-manhã angustiosa.
-
-Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar, onde ella
-faz sentir toda a sua força de desesperar. Em geral, elle só tinha
-olhos para as alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes;
-aquelle amanhecer brumoso e feio, era uma novidade para elle.
-
-Sob o fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquella vida
-solta da caserna vai-lhe bem n'alma: o violão está lá dentro e, em
-horas de folga, elle o experimenta, cantarolando em voz baixa. É
-preciso não enferrujar os dedos... O seu pequeno aborrecimento é não
-poder, de quando em quando, soltar o peito.
-
-O commandante do destacamento é Quaresma que, talvez, consentisse...
-
-O Major está no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu
-estudo predilecto é agora artilharia. Comprou compendios; mas, como sua
-instrucção é insufficiente, da artilharia vai á balistica, da
-balistica á mecanica, da mecanica ao calculo e á geometria analytica;
-desce mais a escada; vai á trigonometria, á geometria e á algebra e
-á arithmetica. Elle percorre essa cadeia de sciencias entrelaçadas com
-uma fé de inventor. Aprende uma noção elementarissima após um
-rosario de consultas, de compendio em compendio; e leva assim aquelles
-dias de ocio guerreiro enfronhado na mathematica, nessa mathematica
-rebarbativa e hostil aos cerebros que já não são mais moços.
-
-Ha no destacamento um canhão Krupp, mas elle nada tem a ver com o
-mortifero apparelho: comtudo, estuda artilharia. É encarregado delle o
-Tenente Fontes, que não dá obediencia alguma ao patriota Major.
-Quaresma não se incommoda com isso; vai aprendendo lentamente a
-servir-se da boca de fogo e submete-se á arrogancia do subalterno.
-
-O Commandante do «Cruzeiro do Sul», o Bustamante da barba mosaica,
-continua no quartel, superintendendo a vida do batalhão, A unidade tem
-poucos officiaes e muito poucas praças; mas o Estado paga o pret de
-quatrocentas. Ha falta de capitães, o numero de alferes está justo, o
-de tenentes quasi, más já ha um major, que é Quaresma, e o
-commandante, Bustamante, que por modestia, se fez simplesmente
-Tenente-Coronel.
-
-Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma commanda, tres alferes,
-dous tenentes; mas os officiaes pouco apparecem. Estão doentes ou
-licenciados e só elle, o antigo agricultor do «Socego», e um alferes,
-Polydoro, este mesmo só á noite, estão a postos. Um soldado entrou:
-
---Sr. Commandante, posso ir almoçar?
-
---Póde. Chama-me o cabo Ricardo.
-
-A praça sahiu capengando em cima de grandes botinas: o pobre homem
-usava aquella peça protectora como um castigo. Assim que se viu no
-matto, que levava á casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da
-liberdade.
-
-O commandante chegou á janella. A cerração se ia dissipando. Já se
-via o sol que brilhava como um disco de ouro fosco.
-
-Ricardo Coração dos Outros appareceu. Estava engraçado dentro do seu
-fardamento de caporal. A blusa era curtissima, sungada; os punhos lhe
-apareciam inteiramente: e as calças eram compridissimas e arrastavam no
-chão.
-
---Como vaes Ricardo?
-
---Bem. E o Sr. Major?
-
---Assim.
-
-Quaresma deitou sobre o inferior e amigo, aquelle seu olhar agudo e
-demorado:
-
---Andas aborrecido, não é?
-
-O trovador sentiu-se alegre com o interesse do commandante:
-
---Não... Para que dizer, Major, que sim... Se a cousa for assim até ao
-fim, não é mau... O diabo é quando ha tiro... Uma cousa, Major; não
-se poderia, assim, ahi pelas horas em que não ha que fazer, ir nas
-mangueiras, cantar um pouco...
-
-O Major coçou a cabeça, alisou o cavaignac e disse:
-
---Eu, não sei... É..
-
---O Sr. sabe que isso de cantar baixo é remar em secco... Dizem que no
-Paraguay...
-
---Bem. Cante lá; mas não grite, hein?
-
-Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o Major recommendou:
-
---Manda-me trazer o almoço.
-
-Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro tambem dormir. As
-refeições eram-lhe fornecidas por um _frege_ proximo e elle dormia em
-um quarto daquella edificação imperial. Porque a casa em que se
-acantonara o destacamento, era o pavilhão do Imperador, situado na
-antiga Quinta da Ponta do Cajú. Ficavam nella tambem a estação da
-estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e bulhenta serraria. Quaresma
-veiu até á porta, olhou a praia suja e ficou admirado que o Imperador
-a quizesse para banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente.
-
-As formas das cousas sahiam modeladas do seio daquella massa de nevoa
-pesada; e, satisfeitas, como se o pesadello tivesse passado. Primeiro
-surgiam as partes baixas, lentamente: e por fim, quasi repentinamente,
-as altas.
-
-Á direita, havia a Saude, a Gamboa, os navios de commercio: galeras de
-tres mastros, cargueiros a vapor, altaneiros barcos á vela--que iam
-sahindo da bruma, e, por instantes aquillo tudo tinha um ar de paysagem
-hollandeza, á esquerda, era o sacco da Raposa, o Retiro Saudoso, a
-Sapucaia horrenda, a ilha do Governador, os Orgãos Azues, altos de
-tocar no céo; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os seus depositos de
-carvão; e, alongando a vista pelo mar socegado, Nictheroy, cujas
-montanhas acabavam de recortar-se no céo azul, á luz daquella manhã
-atrazada.
-
-A neblina foi se e um gallo cantou. Era como se a alegria voltasse á
-terra: era uma alleluia. Aquelles chiados, aquelles apitos, os guinchos
-tinham um accento festivo de contentamento.
-
-Chegou o almoço e o sargento veiu dizer a Quaresma que havia duas
-deserções.
-
---Mais duas? fez admirado o Major.
-
---Sim, senhor. O 125 e o 320 não responderam hoje a revista.
-
---Faça a parte.
-
-Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quasi
-nunca dormia ali; pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as
-cousas como iam.
-
-Uma madrugada, elle não estava. A treva ainda era profunda. O soldado
-de vigia viu lá, ao longe, um vulto que se movia dentro da sombra,
-resvalando sobre as aguas do mar. Não trazia luz alguma; só o
-movimento daquella mancha escura, revelava uma embarcação, e tambem a
-ligeira phosphorescencia das aguas. O soldado deu rebate; o pequeno
-destacamento poz-se a postos e Quaresma appareceu.
-
---O canhão! Já! Avante! ordenou o commandante.
-
-E, em seguida, nervoso, recommendou:
-
---Esperem um pouco.
-
-Correu á casa e foi consultar os seus compendios e tabellas. Demorou-se
-e a lancha avançava, os soldados estavam tontos e um delles tomou a
-iniciativa: carregou a peça e disparou-a.
-
-Quaresma reappareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo
-resfolegar:
-
---Viram bem... a distancia... a alça... o angulo... É preciso ter
-sempre em vista a efficiencia do fogo.
-
-Fontes veiu e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito:
-
---Ora, Major, você pensa que está em um polygno, fazendo estudos
-praticos... Fogo para diante!
-
-E assim era. Quasi todas as tardes havia bombardeio, do mar para as
-fortalezas, e das fortalezas para o mar; e, tanto os navios como os
-fortes, sahiam incolumes de tão terriveis armas.
-
-Lá vinha uma occasião, porém, que acertavam, então os jornaes
-noticiavam: «Hontem, o forte Academico, fez um maravilhoso disparo. Com
-o canhão tal, metteu uma bala no «Guanabara». No dia seguinte, o
-mesmo jornal rectificava, a pedido da bateria do cáes Pharoux que era
-a que tinha feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já
-estava esquecida, quando apparecia uma carta de Nictheroy, reclamando as
-honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.
-
-O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de
-entendedor. Havia uma trincheira de fardos de alfafa e a boca da peça
-sabia por entre os fiapos da palha, como as guellas de um animal feroz
-occulto entre hervas.
-
-Olhava o horizonte, depois de exame attento ao canhão, e considerava a
-ilha das Cobras, quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia:
-
-
-_Prometto pelo Santissimo Sacramento_...
-
-
-Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe deparou este
-lindissimo quadro: á sombra de uma grande arvore, os soldados deitados
-ou sentados em circulo, em torno de Ricardo Coração dos Outros, que
-entoava endeixas magoadas.
-
-As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão
-embevecidas na canção de Ricardo que não deram pela chegada do joven
-official.
-
---Que é isto? disse elle severamente.
-
-Os soldados levantaram-se todos, em continencia; e Ricardo, com a mão
-direita no gorro, perfilada, e a esquerda, segurando o violão, que
-repousava no chão, desculpou-se:
-
---_Seu_ Tenente, foi o Major quem permittiu, V. S. sabe que se nós não
-tivéssemos ordem, não iriamos brincar.
-
---Bem. Não quero mais isto, disse o official.
-
---Mas, objectou Ricardo, o Sr. Major Quaresma...
-
---Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já disse!
-
-Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa
-imperial, ao encontro do Major do «Cruzeiro do Sul». Quaresma
-continuava no seu estudo, um rolar de Sysipho, mas voluntario, para a
-grandeza da patria. Fontes foi entrando e dizendo:
-
---Que é isto, _seu_ Quaresma! Então o senhor permitte cantorias no
-destacamento?
-
-O Major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo
-e rispido do moço. Elle repetiu:
-
---Então o senhor permitte que os inferiores cantem modinhas e toquem
-violão, em pleno serviço?
-
---Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha...
-
---E a disciplina? e o respeito?
-
---Bem, vou prohibir, disse Quaresma.
-
---Não é preciso. Já prohibi.
-
-Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento
-e disse com doçura:
-
---Fez bem.
-
-Em seguida perguntou ao official o modo de extrahir a raiz quadrada de
-uma fracção decimal; o rapaz ensinou-lhe e elles estiveram
-cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Fontes era noivo de
-Lalá, a terceira filha do General Albernaz, e esperava acabar a revolta
-para effectuar o casamento. Durante uma hora a conversa entre os dous
-versou sobre este pequenino facto familiar a que estavam ligados
-aquelles estrondos, aquelles tiros, aquella solemne disputa entre duas
-ambições. Subitamente, a corneta feriu o ar com a sua voz metallica.
-Fontes assestou o ouvido; o Major perguntou:
-
---Que toque é?
-
---Sentido.
-
-Os dous sahiram. Fontes perfeitamente fardado; e o Major apertando o
-talim, sem encontrar geito, tropeçando na espada veneravel que teimava
-em se lhe metter entre as pernas curtas. Os soldados já estavam nas
-trincheiras, armas á mão; o canhão tinha ao lado a munição
-necessaria. Uma lancha avançava lentamente, com a prôa alta assestada
-para o posto. De repente, sahiu de sua borda um golfão de fumaça
-espessa: Queimou!--gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou
-alto, zunindo, cantando, inoffensiva. A lancha continuava a avançar
-impavida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o
-tiroteio, e fôra um destes que gritara: queimou!
-
-E assim sempre. Ás vezes elles chegavam bem perto á tropa, ás
-trincheiras, atrapalhando o serviço: em outras, um cidadão qualquer,
-chegava ao official e muito delicadamente pedia: o senhor dá licença
-que dê um tiro. O official accedia, os serventes carregavam a peça e o
-homem fazia a pontaria e um tiro partia.
-
-Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da
-cidade... Quando se annunciava um bombardeio, num segundo, o terraço do
-Passeio Publico se enchia. Era como se fosse uma noite de luar, no tempo
-em que era do tom aprecial-as no velho jardim de D. Luiz de
-Vasconcellos, vendo o astro solitario pratear a agua e encher o céo.
-
-Alugavam-se binoculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como
-as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação de theatro:
-«queimou Santa Cruz! Agora é o «Aquidaban»! Lá vai»! E dessa
-maneira a revolvia correndo familiarmente, entrando nos habitos e nos
-costumes da cidade.
-
-No cáes Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornaes,
-engraxates, quitandeiros ficavam atrás das portadas, dos urinarios, das
-arvores, a ver, a esperar a quéda das balas; e quando acontecia cahir
-uma, corriam todos em bôlo, a apanhal-a como se fosse uma moeda ou
-guloseima.
-
-As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de
-relogio, lapizeiras, feitas com as pequenas balas de fuzis: faziam-se
-tambem collecções das medias e com os seus estojos de metal, areados,
-polidos, lixados, ornavam consolos, os _dunkerques_ das casas médias;
-as grandes, os _melões_ e as _aboboras_, como chamavam, guarneciam os
-jardins, como vasos de faiança ou estatuas.
-
-A lancha continuava a atirar: Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o
-projectil, recuou um pouco e logo foi posto em posição. A embarcação
-respondeu e o rapazote gritou: queimou!
-
-Eram sempre esses garotos que a anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam
-o fuzilar breve e a fumaça, lá longe, no navio, jorrar de vagar, muito
-pesada, gritavam queimou!
-
-Houve um em Nictheroy que teve o seu quarto de hora de celebridade.
-Chamavam-n'o _trinta réis_; os jornaes do tempo occuparam-se com elle,
-fizeram-se subscripções a seu favor. Um heroi! Passou a revolta e foi
-esquecido, tanto elle como a «Lucy», uma lancha que chegou a fazer-se
-entidade na imaginação da _urbs_, a interessal-a, a criar inimigos e
-admiradores.
-
-A embarcação deixou de provocar a furia do posto do Cajú, e Fontes
-deu instrucções ao seu chefe da peça, e foi-se embora.
-
-Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos
-guerreiros. Os mais dias que passou naquelle extremo da cidade não eram
-differentes deste. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra cahia na
-banalidade da repetição dos mesmos episodios.
-
-A espaços, quando o aborrecimento lhe vinha, sahia. Descia a cidade e
-deixava o posto entregue a Polydoro ou a Fontes, se estava.
-
-Raras vezes o fazia, de dia, porque Polydoro, o mais assiduo, marcineiro
-de profissão e em actividade numa fabrica de moveis, só vinha á
-noite.
-
-No centro da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro,
-o Governo pagava soldos dobrados, e, ás vezes, gratificações, além
-do que havia tambem a morte sempre presente; e tudo isso estimulava o
-divertir-se. Os theatros eram frequentados e os _restaurants_ nocturnos
-tambem.
-
-Quaresma, porém, não se mettia naquelle ruido de praça semi-sitiada.
-Ia ás vezes ao theatro, á paisana, e, logo acabado o espectaculo,
-voltava para o quarto da cidade ou para o posto.
-
-Em outras tardes, logo que Polydoro chegava, sahia a pé, pelas ruas dos
-arredores, pelas praias até ao campo de São Christovão.
-
-Ia vendo aquella successão de cemiterios, com as suas campas alvas que
-sobem montanhas, como carneiros tosqueados e limpos a pastar; aquelles
-cyprestes meditativos que as vigiam; e como que se lhe representava que
-aquella parte da cidade era feudo e senhorio da morte.
-
-As casas tinham um aspecto funebre, recolhidas e concentradas; o mar
-marulhava lugubremente na ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam
-doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes era triste e lugubre.
-
-A paysagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali
-mais ainda, para fazer sentir nella tão forte aspecto funereo.
-
-Foi vindo ate ao Campo; ahi deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e
-afinal entrou na residencia do General Albernaz. Devia-lhe aquella
-visita e aproveitou o ensejo.
-
-Acabavam de jantar e jantara com o General, além do Tenente Fontes e o
-Almirante Caldas, o commandante de Quaresma, o Tenente Coronel
-Innocencio Bustamante.
-
-Bustamante era um commandante activo, mas dentro do quartel. Não havia
-quem como elle se interessasse pelos livros, pela boa calligraphia, com
-que eram escriptos os livros mestres, as relações de mostra, os mappas
-de companhia e outros documentos. Com auxilio delles, a organização do
-seu batalhão era irreprehensivel; e, para não deixar de vigiar a
-escripturação, apparecia de onde em onde nos destacamentos do seu
-corpo.
-
-Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, elle logo
-perguntou ao Major:
-
---Quantas deserções?
-
---Até hoje, nove, disse Quaresma.
-
-Bustamante coçou a cabeça desesperado e reflectiu:
-
---Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome...
-Falta-lhes patriotismo!
-
---Fazem muito bem... Ora! disse o Almirante.
-
-Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora
-o Governo não lhe tinha dado cousa alguma. O seu patriotismo se
-enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia
-Vice-Almirante. É verdade que o Governo ainda não organizara a sua
-esquadra; entretanto, pelo rumor que corria, elle não commandaria nem
-uma divisão. Uma inquidade! Era velho um pouco, é verdade; mas, por
-não ter nunca commandado, nessa materia elle podia despender toda uma
-energia moça.
-
---O Almirante não deve falar assim... A patria está logo abaixo da
-humanidade.
-
-Meu caro Tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas...
-
---Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os
-outros e para os vindouros, continuou Fontes persuasivo.
-
---Que tenho eu com elles? fez agastado Caldas.
-
-Bustamante, o General e Quaresma assistiam a pequena discussão calados
-e os dous primeiros um tanto sorridentes com a furia de Caldas, que não
-se cansava de dansar a perna e alizar os longos favoritos brancos. O
-Tenente respondeu:
-
---Muito, Almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas
-melhores, de ordem, de felicidade e elevação moral.
-
---Nunca houve e nunca haverá! disse de um jacto Caldas.
-
---Eu tambem penso assim, accrescentou Albernaz.
-
---Isto ha de sempre ser o mesmo, adduziu scepticamente Bustamante.
-
-O Major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face
-daquellas contestações, ao contrario dos seus congeneres da seita,
-não se agastou. Elle era magro e chupado, moreno carregado e a oval do
-seu rosto estava amassada aqui e ali.
-
-Com a sua voz arrastada e nazal, agitando a mão direita no geito
-favorito dos sermonarios, depois de ouvir todos, falou com uncção:
-
---Houve já um esboço: a idade média.
-
-Ninguem ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia historia do Brasil e
-os outros nenhuma.
-
-E a sua affirmação fez calar todos, embora no intimo duvidosos. É uma
-curiosa idade média, essa de elevação moral, que a gente não sabe
-onde fica, em que anno? Se a gente diz: no tempo de Clotario, elle
-proprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu
-filho Chrame mais a mulher deste e filhos--o positivista, objecta: ainda
-não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja. S. Luís,
-diremos logo nós, quis executar um senhor feudal porque mandou enforcar
-tres crianças que tinham morto um coelho nas suas mattas. Objecta o
-fiel: Você não sabe que a nossa idade media vai até o apparecimento
-da Divina Comedia? S. Luís já era a decadencia... Citam-se as
-epidemias de molestias nervosas, a miseria dos camponios, as ladroagens
-á mão armada dos barões, as allucinações do milenio, as crueis
-matanças que Carlos Magno fez aos saxões; elles respondem: uma hora
-que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da
-igreja; outra que elle já tinha desapparecido.
-
-Nada disso foi objectado ao positivista e a conversa, resvalou para a
-revolta. O Almirante criticava severamente o Governo.
-
-Não tinha plano algum, levava a dar tiros á toa; na sua opinião, já
-devia ter feito todo o esforço para occupar a ilha das Cobras, embora
-isso custasse rios de sangue. Bustamante não tinha opinião assentada;
-mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e
-de uma improficuidade patente. Albernaz, ainda não tinha dado o seu
-aviso, e veiu a fazel-o assim:
-
---Mas nós reconhecemos Humaytá, e por pouco!
-
---Entretanto, não a tomaram, disse Fontes. As condições naturaes eram
-outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente inutil... O Sr.
-sabe, esteve lá!
-
---Isto é... Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camisão
-disse-me que foi arriscado.
-
-Quaresma voltara ao silencio. Elle procurava ver Ismenia. Fontes lhe
-tinha inteirado do seu estado e o Major se sentia por qualquer cousa
-preso á molestia da moça. Viu todos: D. Maricota, sempre activa e
-diligente; Lalá, a arrancar, com o olhar, o noivo da conversa
-interminavel, e as outras que vinham, de quando em quando, da sala de
-visitas á sala de jantar onde elle estava. Porfim, não se conteve,
-perguntou. Soube que estava em casa da irmã casada e ia peor, cada vez
-mais abysmada na sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O General contou
-tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquella sua
-desgraça intima, disse com um longo suspiro:
-
---Não sei, Quaresma... Não sei.
-
-Eram dez horas quando o Major se despediu. Voltou de bonde para a Ponta
-do Cajú. Saltou e recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio da
-perturbação, especial que põe em nós o luar que estava lindo, terno
-e leitoso, naquella noite. É uma emoção de desafogo do corpo, de
-deliquio; parece que nos tiram o envoltorio material e ficamos só alma,
-envolvidos numa branda athmosphera de sonhos e chimeras. O Major não
-colhia bem a sensação transcendente, mas soffria sem perceber o
-effeito da luz pallida e fria do luar. Deitou-se um pouco, vestido, não
-por somno, mas em virtude daquella doce embriaguez que o astro lhe tinha
-posto nos sentidos.
-
-Dentro em pouco Ricardo veiu chamal-o: o Marechal estava ahi. Era seu
-habito sahir á noite, ás vezes, de madrugada, e ir de posto em posto.
-O facto se espalhou pelo publico que o apreciava extraordinariamente, e
-o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de
-estadista consumado.
-
-Quaresma veiu ao seu encontro. Floriano vestia chapéo de feltro molle,
-abas largas, e uma curta sobrecasaca surrada. Tinha um ar de malfeitor
-ou de exemplar chefe de familia em aventuras extra-conjugaes.
-
-O Maior cumprimentou-o e esteve a dar-lhe noticias do ataque que fora
-feito ao seu posto, ha dias passados. O Marechal respondia por
-monosyllabos preguiçosos e olhava ao redor. Quasi ao despedir-se, falou
-mais, dizendo vagarosamente, lentamente:
-
---Hei de mandar pôr um holophote aqui.
-
-Quaresma veiu acompanhal-o até ao bonde. Atravessavam o velho sitio de
-recreio dos Imperadores. Um pouco afastada da estação uma locomotiva,
-semi-accesa, resfolegava. Semelhava roncar, dormindo; os carros,
-pequenos, banhados pelo luar, muito quietos, socegados como que dormiam.
-As annosas mangueiras, com falta de galhos aqui e ali, pareciam
-polvilhadas preciosamente de prata. O luar estava magnifico. Os dous
-andavam, o marechal perguntou:
-
---Quantos homens tem você?
-
---Quarenta.
-
-O Marechal mastigou um: _não é muito_; e voltou ao mutismo. Num dado
-momento, Quaresma viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua. Pareceu-lhe
-mais sympatica a do dictador. Se lhe falasse...
-
-Preparou a pergunta; mas não teve coragem de pronuncial-a. Continuaram
-a andar. O Major pensou; que é que tem? não ha desrespeito algum.
-Approximavam-se do portão. Num dado momento como que houve uma bulha
-atrás. Quaresma voltou-se, mas Floriano quasi não o fez.
-
-Os edificios da serraria pareciam cobertos de neve, tanto era o branco
-luar. O Major continuou a mastigar a sua pergunta; urgia, era
-indispensavel; o portão estava a dous passos. Tomou coragem, ousou e
-falou:
-
---V. Ex. já leu o meu memorial, Marechal?
-
-Floriano respondeu lentamente, quasi sem levantar o labio inferior
-pendente:
-
---Li.
-
-Quaresma enthusiasmou-se:
-
---Vê V. Ex. como é facil erguer este paiz. Desde que se cortem todos
-aquelles empecilhos que eu apontei, no memorial que V. Ex. teve a
-bondade de ler; desde que se corrijam os erros de uma legislação
-defeituosa e inadaptavel ás condições do paiz, V. Ex. verá que tudo
-isto muda, que, em vez de tributarios, ficaremos com a nossa
-independencia feita... Se V. Ex. quisesse...
-
-Á proporção que falava, mais Quaresma se enthusiasmava. Elle não
-podia ver bem a physionomia do dictador, encoberto agora como lhe estava
-o rosto pelas abas do chapéo de feltro; mas, se a visse, teria de
-esfriar, pois havia na sua mascara sinaes do aborrecimento mais mortal.
-Aquelle falatorio de Quaresma, aquelle apelo á legislação, a medidas
-governamentaes, iam mover-lhe o pensamento, por mais que não quizesse.
-O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse:
-
---Mas, pensa você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada na mão de
-cada um desses vadios?! Não havia exercito que chegasse...
-
-Quaresma espantou-se, titubeou, mas retorquiu:
-
---Mas, mão é isso, Marechal. V. Ex. com o seu prestigio e poder, está
-capaz de favorecer, com medidas energicas e adequadas, o apparecimento
-de iniciativas, de encaminhar o trabalho, de favorecel-o e tornal-o
-remunerador... Bastava, por exemplo...
-
-Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. O luar continuava
-lindo, plastico e opalescente. Um grande edificio inacabado que havia na
-rua, parecia terminado, com vidraças e portas feitas com a luz da lua.
-Era um palacio de sonho.
-
-Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou; elle se
-despediu do Major, dizendo com aquella sua placidez de voz:
-
---Você, Quaresma, é um visionario...
-
-O bonde partiu. A lua povoava os espaços, dava physionomia ás cousas,
-fazia nascer soalhos em nossa alma, enchia a vida, enfim, com a sua luz
-emprestada...
-
-
-
-
-III
-
-...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS...
-
-
---Eu tenho experimentado tudo, Quaresma, mas não sei... não ha meio!
-
---Já a levou a um medico especialista?
-
---Já. Tenho corrido medicos, espiritas até feiticeiros, Quaresma!
-
-E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do _pince-nez_. Os dous se
-haviam encontrado na pagadoria da guerra e vinham pelo campo de
-Sant'Anna, a pé, andando pequenos passos e conversando. O General era
-mais alto que Quaresma, e emquanto este tinha a cabeça sobre um
-pescoço alto, aquelle a tinha mettida entre os hombros proeminentes,
-como cotos de azas. Albernaz reatou:
-
---E remedios! Cada medico receita uma cousa; os espiritas são os
-melhores, dão homœpathia; os feiticeiros, tizanas, rezas e
-defumações... Eu não sei. Quaresma!
-
-E levantou os olhos para o céo, que estava um tanto plumbeo. Não se
-demorou, porém, muito nessa postura; o _pince-nez_ não permittia, já
-começava a cahir.
-
-Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as
-granulações do granito do passeio. Levantou o olhar ao fim de algum
-tempo, e disse:
-
---Por que não a recolhe a uma casa de saude, General?
-
---Meu medico já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo,
-no estado em que a menina está, não vale a pena...
-
-Falava da filha, da Ismenia, que, naquelles ultimos mezes, péorara
-sensivelmente, não tanto da sua molestia mental, mas da saude commum,
-vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo, definhando, marchando a
-passos largos para o abraço frio da morte.
-
-Albernaz dizia a verdade; para, cural-a tanto de sua loucura conto da
-actual molestia intercorrente, lançara mão de todos os recursos, de
-todos os conselhos apontados por quem quer que fosse.
-
-Era de fazer reflectir ver aquelle homem, General, marcado com um curso
-governamental, procurar mediuns e feiticeiros, para sarar a filha.
-
-Ás vezes até levava-os em casa. Os mediuns chegavam perto da moça,
-davam um estremeção, ficavam com uns olhos desvairados, fixos,
-gritavam: sai, irmão!--e sacudiam as mãos, do peito para a moça, de
-lá para cá, rapidamente, nervosamente, no intuito de descarregar sobre
-ella os fluidos milagrosos.
-
-Os feiticeiros tinham outros passes e as ceremonias para entrar no
-conhecimento das forças occultas que nos cercam, eram demoradas, lentas
-e acabadas. Em geral, eram pretos africanos. Chegavam, accendiam um
-fogareiro no quarto, tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra
-cousa exquisita, batiam com feixes de hervas, ensaiavam passos de dança
-e pronunciavam palavras inintelligiveis. O ritual era complicado e tinha
-a sua demora.
-
-Na sahida, a pobre D. Maricota, um tanto já diminuida da sua actividade
-e diligencia, olhando, ternamente aquelle grande rosto negro do
-mandigueiro, onde a barba branca punha mais veneração e certa
-grandeza, perguntava:
-
---Então, titio?
-
-O preto considerava um instante, como se estivesse recebendo as ultimas
-communicações do que não se vê nem se percebe, e dizia com a sua
-magestade de africano:
-
---Vó vê, nhã nhã... Tô crôtando mandinga...
-
-Ella e o General tinham assistido a ceremonia e o amor de paes e tambem
-esse fundo de superstição que ha em todos nós, levavam a olhal-a com
-respeito, quasi com fé.
-
---Então foi feitiço que fizeram á minha filha? perguntava a senhora.
-
---Foi, sim, nhãnhã.
-
---Quem?
-
---Santo não qué dizê.
-
-E o preto obscuro, velho escravo, arrancado ha um meio seculo dos
-confins da Africa, sahia arrastando a sua velhice e deixando naquelles
-dous corações uma esperança fugaz.
-
-Era uma singular situação, a daquelle preto africano, ainda certamente
-pouco esquecido das dores do seu longo captiveiro, lançando mão dos
-residuos de suas ingenuas crenças tribaes, residuos que tão a custo
-tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros
-deuses--e empregando-os na consolação dos seus senhores de outro
-tempo. Como que os deuses de sua infancia e de sua raça; aquelles
-sanguinarios manipanços da Africa indecifravel, quizessem vingal-o á
-legendaria maneira do Christo dos Evangelios...
-
-A doente assistia tudo aquillo sem comprehender e se interessar por
-aquelles trejeitos e passes de tão poderosos homens que se
-communicavam, que tinham ás suas ordens os seres immateriaes, as
-existencias fora e acima da nossa.
-
-Andando, ao lado de Quaresma, o General lembrava-se de tudo isso e teve
-um pensamento amargo contra a sciencia, contra os espiritos, contra os
-feitiços, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos, sem
-piedade e commiseração.
-
-O Major não sabia o que dizer diante daquella immensa dor de pai e
-parecia-lhe toda o qualquer palavra de consolo parva e idiota. Afinal
-disse:
-
---General, o Sr. permitte que eu a faça ver por um medico?
-
---Quem é?
-
---É o marido de minha afilhada... o Sr. conhece... É moço, quem sabe
-lá! Não acha? Póde ser, não é?
-
-O General consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as
-faces enrugadas. Cada medico que consultava, cada espirita, cada
-feiticeiro reanimava-o, pois de todos elle esperava o milagre. Nesse
-mesmo dia, Quaresma foi procurar o Dr. Armando.
-
-A revolta já tinha mais de quatro mezes de vida e as vantagens do
-Governo eram problematicas. No Sul, a insurreição chegava ás portas
-de S. Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas paginas
-dignas e limpas de todo aquelle enxurro de paixões. A pequena cidade
-tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia,
-uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante e justo.
-Não se desmanchou em violencias de apavorado e soube tornar verdade a
-gasta phrase grandiloquente: resistir até á morte.
-
-A ilha do Governador tinha sido occupada e Magé tomado, os revoltosos,
-porém, tinham a vasta bahia e a barra apertada, por onde sahiam e
-entravam, sem temer o estorvo das fortalezas.
-
-As violencias, os crimes que tinham assignalado esses dous marcos de
-actividade guerreira do Governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e elle
-soffria.
-
-Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de moveis, roupas e
-outros haveres. O que não podia ser transportado, era destruido pelo
-fogo e pelo machado.
-
-A occupação deixou lá a mais execranda memoria, e até hoje os seus
-habitantes ainda se recordam dolorosamente de um Capitão, patriotico ou
-da guarda nacional, Ortiz, pela sua ferocidade e insoffrido gosto pelo
-saque e outras vexações. Passava um pescador, com uma tampa de peixe,
-e o Capitão chamava o pobre homem:
-
---Venha cá!
-
-O homem approximava-se amedrontado e Ortiz perguntava.
-
---Quanto quer por isso?
-
---Tres mil réis, capitão.
-
-Elle sorria diabolicamente e familiarmente regateava:
-
---Você não deixa por menos... Está caro... Isso é peixe ordinario...
-Carapebas! Ora!
-
---Bem, Capitão, vá lá por dous e quinhentos.
-
---Leve isso lá dentro.
-
-Elle falava na porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em
-pé, demonstrando que esperava o dinheiro. Ortiz balançava a cabeça e
-dizia escarninho:
-
---Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano.
-
-Entretanto, Moreira Cesar deixou boas recordações de e ainda hoje ha
-lá quem se lembre delle, agradecido por este ou aquelle beneficio que o
-famoso Coronel lhe prestou.
-
-As forças revoltosas parceiam não ter enfraquecido; tinham, porém,
-perdido dous navios, sendo um destes o «Javary», cuja reputação na
-revolta era das mais altas e consideradas. As forças de terra
-detestavam-n'o particularmente. Era um monitor, chato, razo com a agua,
-uma especie de saurio ou chelonio de ferro, de construcção franceza.
-A sua artilharia era temida; o que sobremodo enraivecia os adversarios,
-era elle não ter quasi borda acima d'agua, ficar quasi ao nivel do mar
-e fugir assim aos tiros incertos de terra. As suas machinas não
-funccionavam, e a grande tartaruga vinha collocar-se em posição de
-combate com auxilio de um rebocador.
-
-Um dia em que estava nas proximidades de Villegagnon, foi a pique. Não
-se soube e até hoje não foi esclarecido, porque foi. Os legalistas
-affirmaram que foi uma bala de Gragoatá; mas os revoltosos asseguraram
-que foi a abertura de uma valvula ou um outro accidente qualquer.
-
-Como o do seu irmão, o «Solimões», que desappareceu nas costas do
-cabo Polonio, o fim do «Javary» ainda está envolvido no mysterio.
-
-Quaresma permanecia de guarnição no Cajú, e viera receber dinheiro.
-Deixara lá Polydoro, pois os outros officiaes estavam doentes ou
-licenciados, e Fontes, que, sendo uma especie de inspector geral, ao
-contrario de seus habitos, dormira aquella noite no pequeno pavilhão
-imperial e ia ficar até á tarde.
-
-Ricardo Coração dos Outros, desde o dia da prohibição de tocar
-violão, andava macambuzio. Tinham-lhe tirado o sangue, o motivo de
-viver, e passava os dias taciturno, encostado a um tronco de arvore,
-maldizendo no fundo de si a incomprehensão dos homens e os caprichos do
-destino. Fontes notara a sua tristeza; e, para minorar-lhe o desgosto,
-obrigara a Bustamante a fazel-o sargento. Não foi sem custo, porque o
-antigo veterano do Paraguay encarecia muito essa graduação e só a
-dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas
-importantes.
-
-A vida do pobre menestrel era assim a de um melro engaiolado; e, de
-quando em quando, elle se afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver
-se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos disparos.
-
-Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu
-demorar-se mais, e, após despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para a
-casa do seu compadre, afim de cumprir a promessa que fizera ao general.
-
-Coleoni ainda não decidira a sua viagem á Europa. Hesitava, esperando
-o fim da rebellião que não parecia estar proximo. Elle nada tinha com
-ella; até ali, não dissera a ninguem a sua opinião; e, se era muito
-instado, appelava para a sua condição de estrangeiro e mettia-se numa
-reserva prudente. Mas, aquella exigencia do passaporte, tirado na
-chefatura de policia, dava-lhe susto. Naquelles tempos, toda a gente
-tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta má vontade com os
-estrangeiros, tanta arrogancia nos funccionarios que elle não se
-animava a ir obter o documento, temendo que uma palavra, que um olhar,
-que um gesto, interpretados por qualquer funccionario zeloso e dedicado,
-não o levassem a soffrer maus quartos de hora.
-
-Verdade é que elle era italiano e a Italia já fizera ver ao dictador
-que era uma grande potencia, mas no caso de que se lembrava, tratava-se
-de um marinheiro, por cuja vida, extincta por uma descarga das forças
-legaes, Floriano pagara a quantia de cem contos. Elle, Coleoni, porém,
-não era marinheiro, e não sabia, caso fosse preso, se os
-representantes diplomaticos de seu paiz tomariam interesse pela sua
-liberdade.
-
-De resto, não tendo protestado manter a sua nacionalidade quando o
-Governo provisorio expediu o famoso decreto de naturalização, era bem
-possivel que uma ou outra parte se ativessem a isso, para
-desinteressar-se delle ou mantel-o na famosa galeria 7, da Casa de
-Correição, transformada, por uma pennada magica, em prisão de Estado.
-
-
-A época era de susto e temor, e todos esses que elle sentia, só os
-communicava a filha, porque o genro cada vez mais se fazia florianista e
-jacobino, de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos
-estrangeiros.
-
-E o doutor tinha razão; já obtivera uma graça governamental. Fôra
-nomeado medico do Hospital de Santa Barbara, na vaga de um collega,
-demittido a bem do serviço publico como suspeito por ter ido visitar um
-amigo na prisão. Como o hospital, porém, ficasse no ilhéo do mesmo
-nome, dentro da bahia, em frente á Saude e a Guanabara ainda estivesse
-em mão dos revoltosos, elle nada tinha que fazer, pois até agora o
-Governo não aceitara, os seus offerecimentos de auxiliar o tratamento
-dos feridos.
-
-O Major foi encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha sahido, ido
-dar uma volta pela cidade, dar arrhas de sua dedicação á causa legal,
-conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio, não
-esquecendo tambem de passear pelos corredores do Itamaraty, fazendo-se
-ver pelos ajudantes de ordens, secretarios e outras pessoas influentes
-no animo de Floriano.
-
-A moça viu entrar Quaresma com aquelle sentimento extranho que o seu
-padrinho lhe causava ultimamente, e esse sentimento mais agudo se
-tornava quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento, a
-passagem de balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente,
-como se fossem feições de uma festa, de uma justa, de um divertimento
-qualquer em que a morte não estivesse presente.
-
-Tanto mais que o via apprehensivo, deixando perceber numa phrase e
-noutra desanimo e desesperança.
-
-Na verdade o Major tinha um espinho n'alma. Aquella recepção de
-Floriano ás suas lembranças de reformas não esperavam nem o seu
-enthusiasmo e sinceridade nem tão pouco a idéa que elle fazia do
-dictador. Sahira ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar
-com um presidente que o chamava de visionario, que não avaliava o
-alcance dos seus projectos, que os não examinava sequer, desinteressado
-daquellas altas cousas de governo como só não o fosse!... Era pois
-para sustentar tal homem que deixara o socego de sua casa e se arriscava
-nas trincheiras? Era, pois, por esse homem que tanta gente morria? Que
-direito tinha elle de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se
-não se interessava pela sorte delles, pela sua vida feliz e abundante,
-pelo enriquecimento do paiz, o progresso de sua lavoura e o bem estar de
-sua população rural?
-
-Pensando assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma
-raiva de si mesmo; mas em seguida considerava: o homem está
-atrapalhado, não póde agora; mais tarde com certeza elle fará a
-cousa...
-
-Vivia nessa alternativa dolorosa e era ella que lhe trazia
-apprehensões, desanimo e desesperança, notados por sua afilhada na sua
-physionomia já um pouco acabrunhada.
-
-Não tardou, porém, que, abandonando os episodios da sua vida militar,
-Quaresma explicasse o motivo de sua visita.
-
---Mas qual dellas? perguntou a afilhada.
-
---A segunda, a Ismenia.
-
---Aquella que estava para casar com o dentista?
-
---Esta mesmo.
-
---Ahn!...
-
-Ella pronunciou este _ahn_ muito longo e profundo, como se puzesse nelle
-tudo que queria dizer sobre o caso. Via bem o que fazia o desespero da
-moça, mas via melhor a causa, naquella obrigação que incrustam no
-espirito das meninas, que ellas se devem casar a todo o custo, fazendo
-do casamento o pólo e fim da vida, a ponto de parecer uma deshonra, uma
-injuria, ficar solteira.
-
-O casamento já não é mais amor, não é maternidade, não é nada
-disso: é simplesmente casamento, uma cousa vasia, sem fundamento nem na
-nossa natureza nem nas nossas necessidades.
-
-Graças á frouxidão, á pobreza intellectual e fraqueza de energia
-vital de Ismenia, aquella fuga do noivo se transformou em certeza de
-não casar mais e tudo nella se abysmou nessa idéa desesperada.
-
-Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se. Sendo bom de fundo, quando
-lutava pela fortuna se fez duro e aspero, mas logo que se viu rico,
-perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem que só se póde
-ser bom quando se é forte de algum modo.
-
-Ultimamente o Major tinha diminuido um pouco o interesse pela moça;
-andava atormentado com o seu caso de consciencia; entretanto, se não
-tinha um constante e particular pensamento pela desdita da filha de
-Albernaz, abrangia-a ainda na sua bondade geral, larga e humana.
-
-Não se demorou muito na casa do compadre; elle queria, antes de voltar
-ao Cajú, passar pelo quartel do seu batalhão. Ia ver se arranjava uma
-pequena licença, para visitar a irmã que deixara lá, no «Socego», e
-de quem tinha noticias, por carta, tres vezes por semana. Eram ellas
-satisfatorias, comtudo elle tinha necessidade de ver tanto ella como o
-Anastacio, physionomias com quem se encontrava diariamente ha tantos
-annos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituisse a
-calma e a paz de espirito.
-
-A ultima carta que recebera de D. Adelaide, havia uma phrase de que, no
-momento, se lembrava sorrindo: «Não te exponhas muito, Polycarpo. Toma
-muita cautela». Pobre Adelaide! Estava a pensar que esse negocio de
-balas é assim como a chuva?!...
-
-O quartel ainda ficava tio velho cortiço condemnado pela hygiene, lá
-para as bandas da cidade nova. Assim que Quaresma apontou na esquina, a
-sentinella deu um grande berro, fez uma immensa bulha com a arma e elle
-entrou, tirando o chapéo da cabeça baixa, pois estava á paisana e
-tinha abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as
-susceptibilidades republicanas dos jacobinos.
-
-No pateo, o instructor côxo adestrava novos voluntarios e os seus
-magestosos e demorados gritos: hom-broôô... armas! Mei-ããã volta...
-volver! subiam ao céo e ecoavam longamente pelos muros da antiga
-estalagem.
-
-Bustamante estava no seu cubiculo, mais conhecido por gabinete,
-irreprehensivel no seu uniforme verde garrafa, alamares dourados e vivos
-azul ferrete. Com auxilio de um sargento, examinava a escripta de um
-livro quarteleiro.
-
---Tinta vermelha, Sargento! É como mandam as instrucções de 1864.
-
-Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante.
-
-Logo que viu Quaresma entrar, o commandante exclamou radiante:
-
---O Major adivinhou!
-
-Quaresma descançou placidamente o chapéo, bebeu um pouco d'agua, e o
-Coronel Innocencio explicou a alegria:
-
---Sabe que temos de marchar?
-
---Para onde?
-
---Não sei... Recebi ordem do Itamaraty.
-
-Elle não dizia nunca do Quartel-General, nem mesmo do Ministro da
-Guerra: era do Itamaraty, do Presidente, do chefe supremo. Parecia que
-assim dava mais importancia a si mesmo e ao seu batalhão, fazia-o uma
-especie de batalhão da guarda, favorito e amado do dictador.
-
-Quaresma não se espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossivel
-obter a licença e tambem necessario mudar os seus estudos: da
-artilharia, tinha que passar para a infantaria.
-
---O Major é que vai commandar o corpo, sabia?
-
---Não, Coronel. E o senhor não vai?
-
---Não, disse Bustamante, alisando o cavaignac mosaico e abrindo a bocca
-para o lado esquerdo. Tenho que acabar a organização da unidade e não
-posso... Não se assuste, mais tarde irei lá ter...
-
-Começava a tarde, quando Quaresma sahiu do quartel. O instructor côxo
-continuava, com força, magestade e demora, a gritar: hom-brôôô...
-armas! A sentinella não pôde fazer a bulha da entrada, porque só viu
-o Major, quando já ia longe. Elle desceu até á cidade e foi ao
-Correio. Havia alguns tiros espaçados; no Café do Rio, os levitas
-continuavam a trocar idéas para a consolidação definitiva da
-Republica.
-
-Antes de chegar ao Correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a
-uma livraria e comprou livros sobre infantaria; precisava tambem dos
-regulamentos: arranjaria no quartel-general.
-
-Para onde ia? Para o Sul, para Magé, para Nictheroy? Não sabia... Não
-sabia... Ah! se isso fosse para realização dos seus desejos e sonhos!
-Mas quem sabe?... Podia ser... talvez... Mais tarde...
-
-E passou o dia atormentado pela duvida do bom emprego de sua vida e de
-suas energias.
-
-O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do General.
-Elle levava a intima convicção de que a sua sciencia toda nova pudesse
-fazer alguma cousa; mas assim não se deu.
-
-A moça continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco attenuada,
-o seu organismo cahia. Estava magra e fraca, a ponto de quasi não poder
-sentar-se na cama. Era sua mãe quem mais junto a ella vivia; as irmãs
-se desinteressavam um pouco, pois as exigencias de sua mocidade
-levavam-n'as para outros lados.
-
-D. Maricota, tendo perdido todo aquelle antigo fervor pelas festas e
-bailes, estava sempre no quarto da filha, a consolal-a, animal-a, e, ás
-vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um tanto culpada pela
-sua infelicidade.
-
-A molestia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismenia, tinha-lhe
-diminuido a lassidão, tirado o mortiço dos olhos e os seus lindos
-cabellos castanhos, com reflexos de ouro, mais bellos se faziam quando
-cercavam a pallidez de sua face.
-
-Raro era falar muito; e assim foi que, naquelle dia, se espantou muito
-D. Maricota com a loquacidade da filha.
-
---Mamãe, quando se casa Lalá?
-
---Quando se acabar a revolta.
-
---A revolta ainda não acabou?
-
-A mãe respondeu-lhe e ella esteve um instante calada, olhando o tecto,
-e, após essa contemplação disse á mãe:
-
---Mamãe... Eu vou morrer...
-
-As palavras sairam-lhe dos labios, seguras, doces e naturaes.
-
---Não diga isso, minha filha, adiantou-se D. Maricota. Qual morrer!
-Você vai ficar boa; seu pai vai levar você para Minas; você engorda,
-toma forças...
-
-A mãe dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como
-se tratasse de uma criança. Ella ouvia tudo com paciencia e voltou
-por sua vez serenamente:
-
---Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa a senhora...
-
-A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em
-redor, deu com a porta semi-cerrada e levantou-se para fechal-a. Quiz
-ainda ver se a dissuadia daquelle pensamento; Ismenia, porém,
-continuava a repetil-o pacientemente docemente, serenamente:
-
---Eu sei, mamãe.
-
---Bem. Supponho que é verdade: o que é que você quer?
-
---Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva.
-
-D. Maricota ainda quiz brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para
-o outro lado, poz-se a dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe
-saiu do quarto, commovida, com lagrimas nos olhos e a secreta certeza de
-que a filha, falava a verdade.
-
-Não tardou muito a se verificar. O Dr. Armando a tinha visitado
-naquella manhã pela quarta vez; ella parecia melhor, desde alguns dias,
-falava com discernimento, sentava-se á cama e conversava com prazer.
-
-D. Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue ás
-irmãs. Ellas foram lá ao quarto varias vezes e parecia dormir.
-Distrahiram-se.
-
-Ismenia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio
-aberto, o seu traje de noiva. Teve vontade de vel-o mais de perto.
-Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplal-o. Chegou-lhe
-o desejo de vestil-o. Poz a saia: e, por ahi, vieram recordações do
-seu casamento falhado. Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente
-osseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas não se recordou com
-odio, antes como se fosse um logar visto ha muito tempo, e que a tivesse
-impressionado.
-
-De quem ella se lembrava com raiva era da cartomante. Illudindo sua
-mãe, acompanhada por uma criada, tinha conseguido consultar Mme.
-Sinhá. Com que indifferença ella lhe respondeu: não volta! Aquillo
-doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah!... Acabou de abotoar a
-saia em cima do corpinho, pois não encontrara collete; e foi ao
-espelho. Viu os seus hombros nús, o seu collo muito branco...
-Surprehendeu-se. Era della aquillo tudo? Apalpou-se um pouco e depois
-collocou a corôa. O véo afagou-lhe as espaduas carinhosamente, como um
-adejo de borboleta. Teve uma fraqueja, uma cousa, deu um ai e cahiu de
-costas na cama, com as pernas para fóra... Quando a vieram ver, estava
-morta. Tinha ainda a corda na cabeça e um seio, muito branco e redondo,
-saltava-lhe do corpinho.
-
-O enterro foi feito no dia immediato e a casa de Albernaz esteve os dous
-dias cheia, como nos dias de suas melhores festas.
-
-Quaresma foi ao enterro; elle não gostava muito dessa cerimonia; mas
-veiu, e foi ver a pobre moça, no caixão, coberta de flores, vestida de
-noiva, com um ar immaculado de imagem. Pouco mudara, entretanto. Era
-ella mesma ali; era a Ismenia dolente e pobre de nervos, com os seus
-traços meudos e os seus lindos cabellos, que estava dentro daquellas
-quatro taboas. A morte tinha fixado a sua pequena belleza e o seu
-aspecto pueril; e ella ia para a cova com a insignificancia, com a
-innocencia e a falta de accento proprio que tinha tido em vida.
-
-Contemplando aquelles tristes restos, Quaresma viu caixão do coche
-parar na porta do cemiterio, atravessar pelas ruas de tumulos--uma
-multidão que trepava, se tocava, lutava por espaço, na estreiteza da
-varzea e nas encostas das collinas. Algumas sepulturas como se olhavam
-com affecto e se queriam approximar; em outras, transparecia repugnancia
-por estarem perto. Havia ali, naquelle mudo laboratorio de
-decomposições, solicitações incomprehensiveis, repulsões,
-sympathias e antipathias; havia tumulos arrogantes, vaidosos,
-orgulhosos, humildes, alegres e tristes; e de muitos, recumava o
-esforço, um esforço extraordinario, para escapar ao nivelamento da
-morte, ao apagamento que ella traz ás condições e ás fortunas.
-
-Quaresma ainda contemplava o cadaver da moça e o cemiterio surgia aos
-seus olhos com as esculpturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e
-inscripções, em alguns tumulos; noutros, eram pyramides de pedra
-tosca, retratos, caramanchões extravagantes, complicações de ornatos,
-cousas barôcas e delirantes, para fugir ao anonymato do tumulo, ao fim
-dos fins.
-
-As inscripções exuberantes são longas, são breves: têm nomes, têm
-datas, sobrenomes, filiações, toda a certidão de idade do morto que,
-lá em baixo, não se póde mais conhecer e é lama putrida.
-
-E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem
-uma celebridade, uma notabilidade, um desses nomes que enchem decadas e,
-ás vezes mesmo, já mortos, parece que continuam a viver. Tudo é
-desconhecido; todas aquelles que querem fugir do tumulo para a memoria
-dos vivos, são anodynos felizes e mediocres existencias que passaram
-pelo mundo sem ser notadas.
-
-E lá ia aquella moça por ali afóra para o buraco escuro, para o fim,
-sem deixar na vida um traço mais fundo de sua pessoa, de seus
-sentimentos, de sua alma!
-
-Quaresma quiz afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior
-da casa. Elle estivera na sala de visitas, onde D. Maricota tambem
-estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. O Lulú,
-fardado do Collegio, com fumo no braço, cochilava a uma cadeira. As
-irmãs iam e vinham. Na sala de jantar, estava o General silencioso,
-tendo ao lado Fontes e outros amigos.
-
-Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma
-passou, pôde ouvir o Almirante dizer:
-
---Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui... O Governo está
-exhausto.
-
-O Major ficou na janella que dava para o quintal. O tecido do céo se
-tinha adelgaçado; o azul estava sedoso e fino; e tudo tranquillo,
-sereno e calmo.
-
-A Estephania, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo
-ao lado Lalá, que levava, de quando em quando, o lenço aos olhos já
-seccos, a quem aquella dizia:
-
---Eu, se fosse você, não comprava lá... É caro! Vai ao «Bonheur
-des Dames»... Dizem que tem cousas boas e é pechincheiro.
-
-O Major voltou de novo a contemplar o céo que cobriu o quintal. Tinha
-uma tranquillidade quasi indifferente. Genelicio appareceu
-demasiadamente funebre. Todo de preto, elle tinha afivelado ao rosto a
-mais profunda mascara de tristeza. O seu _pince-nez_ azulado tambem
-parecia de luto.
-
-Não lhe fôra possivel deixar de ir trabalhar; um serviço urgente,
-fizera-o indispensavel na repartição.
-
---É isto, General, disse elle, não esta lá o Dr. Genelicio, nada se
-faz... Não ha meio da «Marinha» mandar os processos certos... É um
-relaxamento...
-
-O General não respondeu; estava deveras combalido. Bustamante e Caldas
-continuavam a conversar baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua.
-Quinota chegou á sala de jantar:
-
---Papae, está ahi o coche.
-
-O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou á
-mulher que se ergueu com a face contrahida, exprimindo uma grande
-contensão. Os seus cabellos já tinham muitos fios de prata. Não deu
-um passo; esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando.
-Todos estavam vendo sem saber o que fazer; alguns choravam; Genelicio
-tomou um partido: foi retirando os cirios de ao redor do caixão. A mãe
-levantou-se, veiu até ao esquife, beijou o cadaver: minha filha!
-
-Quaresma adiantou-se, foi sahindo com o chapéo na mão. No corredor,
-ainda ouviu Estephania dizer a alguem: o coche é bonito.
-
-Saiu. Na rua parecia que havia testa. As crianças da visinhança
-cercavam-o carro funebre e faziam innocentes commentarios sobre os
-dourados e enfeites. As grinaldas foram apparecendo e sendo dependuradas
-nas extremidades das columnas do coche: «Á minha querida filha», «Á
-minha irmã». As fitas rôxas e pretas, com lettras douradas, moviam-se
-lentamente ao leve vento que soprava.
-
-Appareceu o caixão, todo roxo, com guarnições do galões dourados,
-muito brilhantes. Tudo aquillo ia p'ra terra. As janellas se povoaram,
-de um lado e d'outro da rua; um menino na casa proxima, gritou da rua
-para o interior: «mamãe, lá vai o enterro da moça»!
-
-O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuario, cujos
-cavallos, russos, cobertos com uma rede preta, escarvavam o chão cheios
-de impaciencia.
-
-Aquelles que iam acompanhar até ao cemiterio, procuravam os seus
-carros. Embarcaram todos, e o enterro rodou.
-
-A esse tempo, na visinhança, alguns pombos immaculadamente brancos, as
-aves de Venus, ergueram o vôo, ergueram o vôo, ruflando
-estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo
-silenciosos, quasi sem bater azas, para o pombal que se occultava nos
-quintaes burguezes...
-
-
-
-
-IV
-
-O BOQUEIRÃO
-
-
-O sitio de Quaresma, em Curuzú, voltava aos poucos ao estado de
-abandono em que elle o encontrara. A herva damninha crescia e cobria
-tudo. As plantações que fizera, tinham desapparecido na invasão do
-capim, do carrapicho, das ortigas e outros arbustos. Os arredores da
-casa offereciam um aspecto desolador, apezar dos esforços de Anastacio,
-sempre vigoroso e trabalhador na sua forte velhice africana, mas baldo
-de iniciativa, de methodo, de continuidade no esforço.
-
-Um dia capinava aqui, outro dia ali, outro pedaço; assim ia saltando de
-trecho em trecho, sem fazer trabalho que se visse, permittindo que as
-terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto de desleixo que
-não condizia como seu trabalho effectivo.
-
-As formigas voltaram tambem, mais terriveis e depredadoras, vencendo
-obstaculos, devastando tudo, restos de seara, brotos de fructeiras, até
-os araçazeiros depenavam com uma energia e bravura que sorriam nos
-fracos expedientes da intelligencia crestada do antigo escravo, incapaz
-de achar meios efficazes de batel-as ou afugenta-las.
-
-Entretanto elle cultivava. Era a sua mania, o seu vicio, uma teimosia de
-caduco. Tinha uma horta que disputava diariamente ás saúvas; e, como
-os animaes da visinhança a tivessem um dia invadido, elle a protegeu
-pacientemente com uma cerca de materiaes mais inconcebiveis: latas de
-kerozene desdobradas, caibros bons, folhas de coqueiros, taboas de
-caixão, não obstante ter á mão bambus á vontade.
-
-Na sua intelligencia havia uma necessidade do tortuoso; do
-apparentemente facil; e, em tudo elle punha esse geito de sua psyche,
-tanto no falar, com grandes rodeios, como nos canteiros que traçava,
-irregulares, maiores aqui, menores ali, fugindo á regularidade, ao
-parallelismo, á symetria, com um horror artistico.
-
-A revolta tinha tido sobre a politica local effeito pacificador. Todos
-os partidos se fizeram dedicadamente governistas, de forma que, entre os
-dous poderosos contendores, o Dr. Campos e o Tenente Antonino, houve um
-traço de união que os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso que
-ambos disputavam encarniçadamente, chegou um outro mais forte que poz
-em perigo a segurança de ambos e elles se puzeram em expectativa, um
-instante unidos.
-
-O candidato foi imposto pelo Governo Central e as eleições chegaram.
-É um momento bem curioso esse das eleições na roça. Não se sabe bem
-donde sabem tantos typos exoticos. De tal forma são elles esquesitos
-que se póde mesmo esperar que appareçam calções e bofes de renda,
-espadins e gibão. Ha sobrecasacas de cintura, ha calças boca de sino,
-ha chapéos de seda--todo um museu de indumentaria que aquelles roceiros
-vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e
-estradas poeirentas das villas e logarejos. Não faltam tambem os
-valentões, com calças bombachas e grandes bengalões de piquiá, á
-espera do que der e vier.
-
-Para a monotona vida que levava D. Adelaide, esse desfile de manequins
-de museu, por sua porteira, em direcção á secção eleitoral que lhe
-ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ella passava longo e
-tristes dias naquelle isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito a
-mulher de Felizardo, a sinhá Chica, uma velha cafusa, especie de Medéa
-esqueletica, cuja fama de rezadeira pairava por sobre todo o municipio.
-Não havia quem como ella soubesse rezar dores, cortar febres, curar
-cobreiros e conhecesse os effeitos das hervas medicinaes: a lingua de
-vacca, a silvina, o cipó chumbo--toda aquella drogaria que crescia
-pelos campos, pelas capoeiras, e pelos troncos de arvores.
-
-Além desse saber que a fazia estimada e respeitavel, tinha tambem a
-habilidade de assistir partos. Na redondeza, entre a gente pobre e mesmo
-remediada, todos os nascimentos se faziam aos cuidados de suas luzes.
-
-Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento
-domestico em cruz, repetidas vezes, sobre a séde da dor ou da tarefa,
-rezando em voz baixa, balbuciando preces que afugentavam o espirito
-maligno que estava ali. Contavam-se della milagres, victorias
-extraordinarias, denunciadoras do seu extranho poder quasi magico, sobre
-as forças occultas, que nos perseguem ou nos auxiliam.
-
-Um dos mais curiosos, e era contado em toda a parte e á toda a hora,
-consistia no afastamento das lagartas. Os vermes haviam dado num
-feijoal, aos milheiros, cobrindo as folhas e os colmos; o proprietario
-já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos
-maravilhosos poderes de Sinhá Chica. A velha lá foi. Pôz cruzes de
-gravetos pelas bordas da roça, assim como se fizesse uma cerca de
-invisivel material que nellas se apoiasse; deixou uma extremidade aberta
-e collocou-se na opposta a rezar. Não tardou o milagre a verificar-se.
-Os vermes, num rebanho moroso e serpejante, como se fossem tocados pela
-vara de um pastor, foram sahindo na sua frente, de vagar, aos dous, aos
-quatros, aos cinco, aos dez, aos vinte, e um só não ficou.
-
-O doutor Campos não linha absolutamente nenhuma especie de ciume dessa
-rival. Armou-se de um pequeno desdem pelo poder sobrehumano da mulher,
-mas não appellou nunca para o arsenal de leis, que vedava o exercicio
-de sua transcedente medicina. Seria a impopularidade; elle era
-politico...
-
-No interior, e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro, as
-duas medicinas coexistem sem raiva e ambas attendem ás necessidades
-mentaes e economicas da população.
-
-A da Sinhá Chica, quasi gratis, ia ao encontro da população pobre,
-daquella em cujos cerebros, por contagio ou herança, ainda vivem os
-manitus e manipanços, sujeitos a fugirem aos exorcismos, benzeduras e
-fumigações. A sua clientela, entretanto, não se resumia só na gente
-pobre da terra, ali nascida ou criada; havia mesmo recem-chegados de
-outros ares, italianos, portuguezes e hespanhoes, que se socorriam da
-sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contagio das crenças
-ambientes, mas tambem por aquella estranha superstição européa de que
-todo o negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as
-coisas malignas e exercer a feitiçaria.
-
-Emquanto a therapeutica fluidica ou herbacea de Sinhá Chica attendia
-aos miseraveis, aos pobretões, a do doutor Campos era requerida pelos
-mais cultos e ricos, cuja evolução mental exigia a medicina regular e
-official.
-
-Ás vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas molestias
-graves, nas complicadas, nas incuraveis, quando as hervas e as rezas da
-milagrosa nada podiam ou os xaropes e pillulas do doutor eram
-impotentes.
-
-Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradavel. Vivia sempre
-mergulhada no seu sonho divino, abysmada nos mysteriosos poderes dos
-feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos baixos, fixos, de
-fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de mumia, tanto ella era
-encarquilhada e secca.
-
-Não esquecia tambem os santos, a santa madre igreja, os mandamentos,
-as orações orthodoxas; embora não soubesse ler, era forte no
-cathecismo e conhecia a historia sagrada aos pedaços, adduzindo a
-elles interpretações suas e interpelações pittorescas.
-
-Com o Appolinario, o famoso capellão das ladainhas, era ella o forte
-poder espiritual da terra. O vigario ficava relegado a um papel de
-funccionario, especie de official de registro civil, encarregado dos
-baptisados e casamentos, pois toda a communicação com Deus e o
-Invisivel se fazia por intermedio de Sinhá Chica ou do Appolinario. É
-de dever falar em casamentos, mas bem podiam ser esquecidos, porque a
-nossa gente pobre faz um reduzido de tal sacramento e a simples
-mancebia, por toda a parte, substitue a solemne instituição catholica.
-
-Felizardo, o marido della, apparecia pouco em casa de Quaresma; e, se
-apparecia, era á noite passando os dias pelos mattos com medo do
-recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o barulho já
-tinha acabado.
-
-Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janella e
-embrenhando-se na capoeira, á menor bulha ou vida.
-
-Tinham dous filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam á depressão
-moral dos paes uma pobreza de vigor physico e uma indolencia repugnante.
-Eram dous rapazes; o mais velho, José, orçava pelos 20 annos; ambos
-inertes, molles, sem força e sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria,
-das rezas e benzeduras, que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito
-do pae.
-
-Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um
-trabalho continuo. De quando em quando, assim de quinze em quinze dias,
-faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade
-do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um lenço de
-cores vivas, um vidro de agua da Colonia, um espelho, bugigangas que
-denunciavam ainda nelles gostos bastante selvagens.
-
-Passavam então uma semana em casa, a dormir ou á perambular pelas
-estradas e vendas; á noite, quasi sempre nos dias de festas e domingos,
-sahiam com a _harmonica_ a tocar peças, no que eram eximios, sendo a
-presença delles muito requesitada nos bailes da visinhança.
-
-Embora seus paes vivessem em casa de Quaresma, raramente lá appareciam;
-e, se o faziam, era porque de todo não tinham que comer. Levavam o
-descuido da vida, a imprevidencia, a ponto de não terem medo do
-recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e
-bondade, mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes á
-natureza, como uma pena ou um castigo.
-
-Essa atonia da nossa população, essa especie de desanimo doentio, de
-indifferença nirvanesca por tudo e todas as cousas, cercam de uma
-caligem de tristeza, desesperada a a nossa roça e tira-lhe o encanto, a
-poesia o o viço seductor de plena natureza.
-
-Parece que nem um dos grandes paizes opprimidos, a Polonia, a Irlanda, a
-India apresentará o aspecto cataleptico do nosso interior. Tudo ahi
-dorme, cochila, parece morto; naquelles ha revolta, ha fuga para o
-sonho; no nosso... Oh!... dorme-se...
-
-A ausencia de Ouaresma trouxera para o seu sitio essa atmosphera geral
-da roça. O «Socego» parecia dormir, dormir de encantamento, á espera
-que o principe o viesse despertar.
-
-Machinas agricolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a
-etiqueta da casa. Aquelles arados de ponta de aço, que tinham chegado
-com a relha reluzente, de um brilho azulado e doce, estavam hediondos e
-morriam de tedio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente
-para o céo mudo. De manhã, não se ouvia mais o cacarejar das aves no
-gallinheiro, o esvoaçar dos pombos--todo esse hymno matinal de vida, de
-trabalho, de fartura não mais se casava com as auroras rosadas e com o
-chilreio alacre do passaredo; e ninguem sabia ver as paineiras em flor,
-com as suas lindas flores rosadas e brancas que, a espaços, cahiam
-docemente como aves feridas.
-
-D. Adelaide não linha nem gosto nem actividade para superintender
-aquelles serviços e fruir a poesia da roça. Soffria com a separação
-do irmão e vivia como se estivesse na cidade. Comprava os generos na
-venda e não se incommodava com as cousas do sitio.
-
-Anceiava pela volta da irmão; escrevia-lhe cartas desesperadas, ás
-quaes elle respondia aconselhando calma, fazendo promessas. A ultima
-recebida, porém, tinha de sopetão outro accento; não era mais
-confiante, enthusiastica, trahia desanimo, desalento, mesmo desespero.
-
-«Querida Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que recebi ha
-quasi duas semanas. Justamente quando ella me chegou ás mãos, acabava
-de ser ferido, ferimento ligeiro é verdade, mas que me levou á cama e
-traz-me-á unia convalescença longa. Que combate, minha filha! Que
-horror! Quando me lembro delle, passo as mãos pelos olhos como para
-afastar uma visão má. Fiquei com um horror á guerra que ninguem póde
-avaliar... Uma confusão, um infernal zunir de balas, clarões
-sinistros, imprecações--e tudo isto no seio da treva profunda da
-noite... Houve momentos que se abandonaram as armas de fogo: batiamo-nos
-á bayoneta, a coronhadas, a machado, a facão. Filha: um combate de
-troglodytas, um cousa prehistorica... Eu duvido, eu duvido, duvido da
-justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo
-e necessario ir tirar do fundo de nós todos a ferocidade adormecida,
-aquella ferocidade que se fez e se depositou em nós nos millenarios
-combates com as féras, quando disputavamos a terra e ellas... Eu não
-vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon do Néanderthal armados com
-machados de silex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar,
-sempre a matar... Este teu irmão que estás vendo, tambem fez das suas,
-tambem foi descobrir dentro do si muita brutalidade, muita ferocidade,
-muita crueldade... Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de
-matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus
-pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não
-sei a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguem emfim... Não
-imaginas como isto faz-me soffrer... Quando cahi em baixo de uma
-carreta, o que me doia não era a ferida, era a alma, era a consciencia;
-e Ricardo, que foi ferido e cahiu ao meu lado, a gemer e
-pedir--_capitão, meu gorro; meu gorro_!--parecia que era o meu proprio
-pensamento que ironizava o meu destino...
-
-Esta vida é absurda e illogica; eu já tenho medo de viver, Adelaide.
-Tenho medo, porque não sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã,
-de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol...
-
-O melhor é não agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre destes
-encargos, irei viver na quietude, na quietude mais absoluta possivel,
-para que do fundo de mim mesmo ou do mysterio das cousas não provoque a
-minha acção o apparecimento de energias extranhas á minha vontade,
-que mais me façam soffrer e tirem o doce sabor de viver...
-
-Além do que, penso que todo este meu sacrificio tem sido inutil. Tudo o
-que nelle puz de pensamento não foi attingido; e o sangue que derramei,
-e o soffrimento que vou soffrer toda a vida, foram empregados, foram
-gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralisados em pról
-de uma tolice politica qualquer...
-
-Ninguem comprehende o que quero, ninguem deseja penetrar e sentir; passo
-por doido, tolo, maniaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a
-sua brutalidade e fealdade».
-
- * * * * *
-
-Como Quaresma dizia na carta, o seu ferimento não era grave, era
-porém, delicado e exigia tempo para uma cura completa e sem perigos.
-Ricardo, este, fora ferido mais gravemente. E se o soffrimento de
-Quaresma era profundamente moral, o de Coração dos Outros era physico
-e não se cançava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara
-até á posição de combatente.
-
-Os hospitaes em que tratavam estavam separados pela bahia, agora
-intransponivel, exigindo a viagem de uma margem á outra bem doze horas
-por estrada de ferro.
-
-Tanto na ida como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela
-estação em que morava. O trem, porém, não parava, e elle se limitou
-a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para aquelle seu
-«Socego», de terras pobres e arvores velhas, onde sonhara repousar
-calmamente por toda a vida; e, entretanto, o lançara na mais terrivel
-das aventuras.
-
-E elle perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro
-socego, onde se poderia encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo
-qual tanto anceiava, depois dos sacolejamentos por que vinha
-passando--onde? E o mappa dos continentes, as cartas dos paizes, as
-plantas das cidades, passavam-lhe pelos olhos e não viu, não encontrou
-um paiz, uma provincia, uma cidade, uma rua onde o houvesse.
-
-A sua sensação era de fadiga, não physica, mas moral r intellectual.
-Tinha vontade de não mais pensar, de não mais amar: queria, comtudo,
-viver, por prazer physico, pela sensação material pura e simples de
-viver.
-
-Assim, convalesceu longamente, demoradamente, melancolicamente, sem uma
-visita, sem ver uma face amiga.
-
-Coleoni e familia se haviam retirado para fóra; o General, por
-preguiça e desleixo, não viera vel-o. Vivia só, envolvido na
-suavidade da convalescença, a pensar no Destino, na sua vida, nas suas
-idéas e mais que tudo nas suas desillusões.
-
-Entretanto, a revolta na bahia chegava ao fim; toda a gente já
-presentia isso e queria esse allivio.
-
-O Almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim
-com tristeza. O primeiro via fugir o seu sonho de commandar uma esquadra
-e a consequente volta para o quadro; e o General sentia perder a sua
-commissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notavel melhorar a
-situação da familia.
-
-Naquella manhã, bem cedo, D. Maricota accordara o marido:
-
---Chico, levanta-te! Olha que tens que ir á missa do Senador
-Clarimundo...
-
-Ouvindo a recommendação da mulher, Albernaz ergueu-se logo do leito.
-Era preciso não faltar. A sua presença se impunha e significava muito.
-Clarimundo fôra um republicano historico, agitador, tribuno temido, no
-tempo do Imperio; após a Republica, porém, não apresentara aos seus
-pares do Senado nada de util e bemfasejo. Embora assim, a sua influencia
-ficara sendo grande; e, com diversos outros, era chamado patriarcha da
-Republica. Ha nos proceres republicanos uma necessidade extraordinaria
-de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro, a que elles se
-recommendam com teimoso interesse.
-
-Clarimundo era um desses proceres e, durante a commoção, não se sabia
-bem porque, o seu prestigio cresceu e já se falava nelle para
-substituir o Marechal. Albernaz conhecera-o vagamente, mas assistir a
-sua missa era quasi uma affirmação politica.
-
-A dor da morte da filha já se esvaira muito na sua memoria. O que o
-fazia soffrer era aquella semi-vida da moça, mergulhada na loucura e na
-molestia. A morte tem a virtude de ser brusca, de chocar, mas não
-corroer, como essas molestias duradouras nas pessoas amadas: passado que
-é o choque, vai ficando em nós uma suave recordação do ente
-querido, uma boa physionomia sempre presente aos nossos olhos.
-
-Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua
-jovialidade natural foram voltando insensivelmente.
-
-Obediente á mulher, preparou-se, vestiu-se e sahiu. Comquanto se
-estivesse ainda em plena revolta, esses officios funebres se faziam nas
-igrejas do centro da cidade. O General chegou a tempo e á hora. Havia
-uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assignar as listas de
-presença. Não tanto que quisessem attestar á familia do morto esse
-acto delicado; dominava-os, além disso, a esperança de ter os nomes
-nos jornaes.
-
-Albernaz não deixou de atirar-se tambem a uma das listas que andavam
-pelas mesas da sacristia; e, quando ia assignar, alguem lhe falou. Era o
-Almirante. A missa ia começar, mas ambos evitaram entrar na nave cheia,
-e ficaram a um vão da janella, na sacristia, conversando.
-
---Então acaba breve, hein?
-
---Dizem que a esquadra já sahiu de Pernambuco.
-
-Fôra Caldas quem falara primeiro e a resposta do General fel-o sorrir
-ironico dizendo:
-
---Emfim...
-
---A bahia está cercada de canhões, continuou o General, após uma
-pausa, e o Marechal vai intimal-os a renderem-se.
-
---Já era tempo, fez Caldas... Commigo, a cousa ja estava acabada...
-Levar quasi sete mezes para dar cabo de uns calhambeques!...
-
---Você exagera, Caldas; a cousa não era tão facil assim... E o mar?
-
---Que fez a esquadra tanto tempo no Recife, você não me dirá? Ah! si
-fosse com este seu criado, tinha logo partido e atacado... Sou pelas
-decisões promptas...
-
-O padre, no interior da igreja, continuava a pedir Deus repouso para a
-alma do Senador Clarimundo. O mystico cheiro de incenso vinha até elles
-e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz e da bondade, não os demovia
-dos seus pensamentos guerreiros.
-
---Entre nós, adduziu Caldas, não ha mais gente que preste... Isto é
-um paiz perdido, acaba colonia ingleza...
-
-Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho
-do chão. Albernaz avançou, meio sarcastico:
-
---Agora não; agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma
-era de progresso vai abrir-se para o Brasil.
-
---Qual o que! Onde é que você viu um Governo...
-
---Mais baixo, Caldas!
-
---...onde é que se viu um Governo que não aproveita as aptidões,
-abandona-as, deixa-as por ahi vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas
-riquezas naturaes: jazem por ahi á toa!
-
-A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma
-porção de homens, todos de negro, ajoelhados, contrictos, batendo nos
-peitos, a confessar de si para si: _mea culpa, mea maxima culpa_...
-
-Uma restea de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia
-sobre algumas cabeças.
-
-Insensivelmente, os dous, na sacristia, levaram a mão ao peito e
-confessaram tambem: _mea culpa, mea maxima culpa_...
-
-A missa veiu a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmatica. A
-nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranquillo de immortalidade.
-
-Todos tinham um grande ar de compuncção: amigos, parentes, conhecidos
-e desconhecidos pareciam soffrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que
-penetraram no corpo da igreja, apanharam no ar um sentimento profundo e
-afivelaram-no ao rosto.
-
-Genelicio tambem viera; elle tinha o vicio das missas das pessoas
-importantes, dos cartões de pezames, dos cumprimentos em dias de
-anniversario. Temendo que a memoria não lhe ajudasse, possuia um
-caderninho onde as datas aniversarias estavam assentadas e as
-residencias tambem. O indice era organizado com muito cuidado. Não
-havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem importante, que, em dia de
-anniversario, não recebesse os seus parabens, e, por morte, não o
-levasse á igreja em missa de setimo dia.
-
-O seu traje de luto era de panno grosso, pesado e, olhando-o,
-lembrava-nos logo de um castigo dantesco.
-
-Na rua, Genelicio escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia
-ao sogro e ao Almirante:
-
---A cousa está p'ra acabar...! Breve...
-
---E se resistirem? perguntou o General.
-
---Qual! Não resistem. Corre que já propuzeram rendição... É preciso
-arranjar uma manifestação ao Marechal...
-
---Não acredito, fez o Almirante. Conheço muito o Saldanha, é
-orgulhoso e não se entrega assim...
-
-Genelicio ficou um pouco assustado com a intonação da voz do seu
-parente; teve medo que elle falasse mais alto, désse na vista e o
-compromettesse. Calou-se; Albernaz, porem, avançou:
-
---Não ha orgulho que resista a uma esquadra mais forte.
-
---Forte! Uns calhambeques, homem!
-
-Caldas continha a custo a furia que lhe ia n'alma. O céo estava azul e
-calmo. Havia nelle nuvens brancas, leves, esgarçadas, que se moviam
-lentamente, como velas, naquelle mar infinito. Genelicio olhou-o um
-pouco e aconselhou:
-
---Almirante não fale assim... Olhe que...
-
---Qual! Não tenho medo... Porcarias!...
-
---Bom, fez Genelicio, eu tenho que ir á rua Primeiro de Março e...
-
-Despediu-se e sahiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão
-com o seu pince-nez azulado, palmilhando a rua com passo meudo e
-cauteloso.
-
-Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram
-sempre amigos, cada um com o seu desgosto e a sua decepção.
-
-Tinham razão: a revolta veiu a acabar d'ahi a dias. A esquadra legal
-entrou: os officiaes revoltosos se refugiaram nos navios de guerra
-portuguezes e o Marechal Floriano ficou senhor da bahia.
-
-No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte
-da população abandonou a cidade, refugiando-se nos suburbios, por
-baixo das arvores, na casa de amigos ou nos galpões construidos adrede
-pelo Estado.
-
-Era de ver o terror que se estampava naquellas physionomias, a ancia e a
-angustia tambem. Levavam trouxas, samburás, pequenas malas; crianças
-de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro de estimação, o
-passarinho que de ha muito quebrava a tristeza de uma casa pobre.
-
-O que mais mettia medo era o famoso canhão de dynamite, do
-«Nictheroy», uma espalhafatosa invenção americana, instrumento
-terrivel, capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das
-montanhas graniticas do Rio.
-
-As crianças e as mulheres, mesmo fóra do alcance de seu poder, temiam
-ouvir o seu estrondo: entretanto, esse fantasma _yankee_, esse
-pesadello, essa quasi força da natureza, foi morrer abandonado num
-caes, desprezado e inoffensivo.
-
-O fim do levante foi um allivio; a cousa já estava, ficando monotona e
-o Marechal ganhou feições sobrehumanas com a victoria.
-
-Quaresma teve alta por esse tempo; e uma ala de seu batalhão foi
-destacada para guarnecer a ilha das Enxadas. Innocencio Bustamante
-continuava a superintender o corpo com muito zelo, do interior do seu
-gabinete, na estalagem condemnada que lhe servia de quartel. A
-escripturação estava em dia e era feita com a melhor letra.
-
-Polycarpo acceitou com repugnancia o papel de carcereiro, pois na ilha
-das Enxadas estavam depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus
-tormentos d'alma mais cresceram com o exercicio de tal funcção. Quasi
-os não olhava: tinha vexame, piedade e parecia-lhe que dentre elles um
-conhecia o segredo de sua consciencia.
-
-De resto, todo o systema de idéas que o fizera meter-se na guerra civil
-se tinha desmoronado. Não encontrara o Sully e muito menos o Henrique
-IV. Sentia tambem que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma
-das pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos
-politicos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os
-moços, que eram muitos, se não havia baixo interesse, existia uma
-adoração fetichica pela forma republicana, um exagero das virtudes
-della, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações
-não podiam achar justos. Era grande a sua desillusão.
-
-Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos
-dos aspirantes. Havia simples marinheiros; havia inferiores; havia,
-escreventes e operarios de bordo. Brancos, pretos, mulatos, caboclos,
-gente de todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha
-incitado em tal aventura pelo habito de obedecer, gente inteiramente
-extranha á questão em debate, gente arrancada á força aos lares ou
-á calaçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado
-por miseria; gente ignara, simples, ás vezes cruel e perversa como
-crianças inconscientes; ás vezes, boa e docil como um cordeiro, mas,
-enfim, gente sem responsabilidade, sem anceio politico, sem vontade
-propria, simples automatos nas mãos dos chefes e superiores que a
-tinham abandonado á mercê do vencedor.
-
-De tarde, elle ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava
-ainda e as gaivotas continuavam a pescar. Os barcos passavam. Ora, eram
-lanchas fumarentas que lá iam para fundo da bahia; ora pequenos botes
-ou canôas, roçando carinhosamente a superficie das aguas, pendendo
-para lá e para cá, como se as suas alvas velas enfunadas quizessem
-afagar a espelhenta superficie do abysmo. Os Orgãos vinham suavemente
-morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul immaterial que
-inebriava, embriagava, como um licor capitoso.
-
-Ficava assim um tempo longo, a ver, e quando se voltava, olhava a cidade
-que entrava na sombra, aos beijos sangrentos do occaso.
-
-A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar,
-meditando, pensando, soffrendo com aquelles lembranças de odios, de
-sangueiras e ferocidade.
-
-A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas, e imaginou que do
-exemplo dellas vinham os crimes que aquella punia, castigava e procurava
-restringir. Eram negras e desesperadas, as suas idéas; muita vez julgou
-que delirava.
-
-E então se lamentava por estar sósinho, par não ter um companheiro
-com quem conversar, que lhe fizesse fugir aquelles tristes pensamentos
-que o assediavam e se chiavam transformando em obsessão.
-
-Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras: e, mesmo que ali
-estivesse, os rigores da disciplina não lhe permittiriam uma conversa
-mais amigavel. Vinha a noite inteiramente, e o silencio e a treva
-envolviam tudo.
-
-Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da
-bahia, onde quasi não havia luzes que interrompessem a continuidade do
-negror nocturno.
-
-Fixava bem os olhos para lá, como se os quizesse habituar a peneirar
-nas cousas indecifraveis e adivinhar dentro da sombra negra a forma das
-montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito desapparecer.
-
-Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insomnias e, se queria
-ler, a attenção recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito
-longe do livro.
-
-Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veiu accordal-o pela
-madrugada:
-
---Sr. Major, está ahi o _home_ do Itamaraty.
-
---Que homem?
-
---O official que vem buscar a turma do Boqueirão.
-
-Sem attinar bem do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do
-visitante. O homem já estava no interior de um dos alojamentos. Uma
-escolta estava á porta. Seguiam-no algumas praças, das quaes uma
-levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna
-amarellada. A vasta sala estava cheia de corpos, deitados, semi-nus, e
-havia todo o iris das cores humanas. Uns roncavam, outros dormiam
-sómente; e quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho,
-gemeu--ai! Cumprimentaram-se Quaresma e o emissario do Itamaraty, e nada
-disseram. Ambos tiveram medo de falar. O official despertou um dos
-prisioneiros e disse para as praças: Levem este.
-
-Seguiu adiante e despertou outro:--onde você esteve? Eu--respondeu o
-marinheiro--na «Guanabara»... Ah! patife, acudiu o homem do
-Itamaraty... Este tambem... Levem!...
-
-Os soldados conductores iam até á porta, deixaram o prisioneiro e
-voltavam.
-
-O official passou por uma porção delles e não fez reparo: adiante,
-deu com um rapaz claro, franzino, que não dormia. Gritou então:
-levante-se! O rapaz ergueu-se tremendo.--Onde esteve você?
-perguntou.--Eu era enfermeiro, retrucou o rapaz.--Que enfermeiro! fez o
-emissario. Levem este tambem...
-
---Mas, seu Tenente, deixe-me escrever á minha mãe, pediu o rapaz quasi
-chorando.
-
---Que mãe respondeu o homem do Itamaraty. Siga! Vá!
-
-E assim foi uma duzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta,
-a embarcar num batelão que uma lancha logo rebocou para fóra das
-aguas da ilha.
-
-Quaresma não atinou de prompto com o sentido da scena e foi, após o
-afastamento da lancha, que elle encontrou uma explicação.
-
-Não deixou de pensar então por que força mysteriosa, por que
-injuncção ironica elle se tinha misturado em tão tenebrosos
-acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do regimen...
-
-A embarcação não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro as
-pedras do caes. A esteira da embarcação estrellejava phosphorescente.
-No alto, num céo negro e profundo, as estrellas brilhavam serenamente.
-
-A lancha desappareceu nas trevas do fundo da bahia. Para onde ia? Para o
-Boqueirão...
-
-
-
-
-V
-
-A AFILHADA
-
-
-Como lhe parecia illogico com elle mesmo estar ali mettido naquelle
-estreito calabouço. Pois elle, o Quaresma placido, o Quaresma de tão
-profundos pensamentos patrioticos, merecia aquelle triste fim? De que
-maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que elle pudesse
-presentir o seu extravagante proposito, tão apparentemente sem
-relação com o resto da sua vida? Teria sido elle com os seus actos
-passados, com as suas acções encadeiadas no tempo, que fizera com que
-aquelle velho deus docilmente o trouxesse até á execução de tal
-designio? Ou teriam sido os factos externos, que venceram a elle,
-Quaresma, e fizeram-n'o escravo da sentença da omnipotente divindade?
-Elle não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas cousas se
-baralhavam, se emmaranhavam e a conclusão certa e exacta lhe fugia.
-
-Não estava ali ha muitas horas. Fôra preso pela manhã, logo ao
-erguer-se da cama; e, pelo calculo approximado do tempo, pois estava sem
-relogio e mesmo se o tivesse não poderia consultal-o á fraca luz da
-masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
-
-Porque estava preso? Ao certo não sabia; o official que o conduzira,
-nada lhe quizera dizer; e, desde que sahira da ilha das Enxadas para a
-das Cobras, não trocara palavra com ninguem, não vira nenhum conhecido
-no caminho, nem o proprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um
-gesto, trazer socego ás suas duvidas. Entretanto, elle attribuia a
-prisão á carta que escrevera ao Presidente, protestando contra a scena
-que presenciara na vespera.
-
-Não se pudera conter. Aquella leva de desgraça a sahir assim, as
-deshonras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo
-a todos os seus sentimentos puzera diante dos seus olhos todos os seus
-principios moraes; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade
-humana: e elle escrevera a carta com vehemencia, com paixão, indignado.
-Nada omittiu do seu pensamento: falou claro, franca e nitidamente.
-
-Deve ser por isso que elle estava ali naquella masmorra, engaiolado,
-trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma féra, como um
-criminoso, sepultado na treva, soffrendo humidade, misturado com os seus
-detrictos quasi sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta
-lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquella angustia
-provocava pensar. Não havia base para qualquer hypothese. Era de
-conducta tão irregular e incerta o Governo que tudo elle, podia
-esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquella.
-
-O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sêde de matar,
-para affirmar mais a victoria e sentil-a bem na consciencia cousa sua,
-propria, e altamente honrosa.
-
-Iria morrer, quem sabe se naquella noite mesmo. E que tinha elle feito
-de sua vida? Nada. Levara toda ella atraz da miragem de estudar a
-patria, por amal-a e querel-a muito, no intuito de contribuir para a sua
-felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua
-virilidade tambem; e, agora que estava na velhice, como ella o
-recompensava, como ella o premiava, como ella o condecorava? Matando-o.
-E o que não deixara de ver, de gosar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não
-brincara, não pandegara, não amara--todo esse lado da existencia que
-parece fugir um pouco á sua tristeza necessaria, elle não vira, elle
-não provara, elle não experimentara.
-
-Desde dezoito annos que o tal patriotismo lhe absorvia e por elle fizera
-a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram
-grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade
-saber o nome dos heróes do Brasil? Em nada... O importante é que elle
-tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupy, do
-_folk lore_, das suas tentativas agricolas... Restava disso tudo em sua
-alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
-
-O tupy encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escarneo; e
-levou-o á loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras
-não eram ferazes e ella não era facil como diziam os livros. Outra
-decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que
-achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois elle
-não a viu combater como féras? Pois não a via matar prisioneiros,
-innumeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma serie,
-melhor, um encadeiamento de decepções.
-
-A patria que quizera ter era um mytho; era um fantasma criado por elle
-no silencio do seu gabinete. Nem a physica, nem a moral, nem a
-intellectual, nem a politica que julgava existir, havia. A que existia
-de facto, era a do Tenente Antonino, a do Dr. Campos, a do homem do
-Itamaraty.
-
-E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Patria? Não
-teria levado toda a sua vida norteado por uma illusão, por uma idéa a
-menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma Deusa cujo imperio se
-esvaia? Não sabia que essa idéa nascera da amplificação da crendice
-dos povos grego-romanos de que ancestraes mortos continuaram a viver
-como sombras e era preciso alimental-as para que elles não perseguissem
-os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Conlangos... Lembrou-se de
-que essa noção nada é para os menenanan, para tantas pesos...
-Pareceu-lhes que essa idéa como que fôra explorada pelos
-conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviencias
-psychologicas, no intuito de servir ás suas proprias ambições...
-
-Reviu a historia; viu as mutilações, os accrescimos em todos os paizes
-historicos e perguntou de si para si; como um homem que vivesse quatro
-seculos, sendo francez, inglez, italiano, allemão, podia sentir a
-Patria?
-
-Uma hora, para o francez, o Franco-Condado era terra dos seus avós,
-outra não era; num dado momento, a Alsacia não era, depois era e
-afinal não vinha a ser.
-
-Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura,
-sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso soffremos
-qualquer magua?
-
-Certamente era uma noção sem consistencia racional e precisava ser
-revista.
-
-Mas, como é que elle tão sereno, tão lucido, empregara sua vida,
-gastara o seu tempo, envelhecera atraz de tal chimera? Como é que não
-viu nitidamente a realidade, não a presentiu logo e se deixou enganar,
-por um falaz idolo, absorver-se nelle, dar-lhe em holocausto toda a sua
-existencia? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e
-assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um
-amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma
-asneira!
-
-Nada deixava que affirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada
-de saboroso.
-
-Comtudo, quem sabe se outros que lhe seguissem pegadas não seriam mais
-felizes? E logo respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera
-communicar, se nada dissera e não prendera o seu sonho, dando-lhe corpo
-e substancia?
-
-E esse seguimento adiantaria alguma cousa? E essa continuidade traria
-enfim para a terra alguma felicidade? Ha quantos annos vidas mais
-valiosas que a delle, se vinham offerecendo, sacrificando e as cousas
-ficaram na mesma, a terra, na mesma miseria, na mesma oppressão, na
-mesma tristeza.
-
-E elle se lembrava que ha bem cem annos, ali, naquelle mesmo logar onde
-estava, talvez naquella mesma prisão, homens generosos e illustres
-estiveram presos por quererem melhorar o estado de cousas de seu tempo.
-Talvez só tivessem pensado, mas soffreram pelo seu pensamento. Tinha
-havido vantagem? As condições geraes tinham melhorado? Apparentemente
-sim: mas, bem examinado, não.
-
-Aquelles homens, accusados de crime tão nefando em face da legislação
-da época, tinham levado dous annos a ser julgados; e elle, que não
-tinha crime algum, nem era ouvido, nem era julgado: seria simplesmente
-executado!
-
-Fôra bom, fôra generoso, fôra honesto, fôra virtuoso--elle que fôra
-tudo isso, ia para a cova sem o acompanhamento de um parente, de um
-amigo, de um camarada...
-
-Onde estariam elles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros, tão simples
-e tão innocente na sua mania de violão, elle não poria mais os olhos?
-Era tão bom que o pudesse, para mandar á sua irmã o ultimo recado, ao
-preto Anastacio um adeus, á sua afilhada um abraço! Nunca mais
-vel-os-ia, nunca!
-
-E elle chorou um pouco.
-
-Quaresma, porem, enganava-se em parte. Ricardo soubera de sua prisão e
-procurava soltal-o. Teve noticia do exacto motivo della; mas não se
-intimidou. Sabia perfeitamente que corria grande risco, pois a
-indignação no palacio contra Quaresma fôra geral. A victoria tinha
-feito os victoriosos inclementes e ferozes, e aquelle protesto soou
-entre elles como um desejo de diminuir o valor das vantagens
-alcançadas. Não havia mais piedade, não havia mais sympathia, nem
-respeito pela vida humana; o que era necessario era citar o exemplo de um
-massacre á turca, porém clandestino, para que jamais o poder
-constituido fosse atacado ou mesmo discutido. Era a philosophia social
-da época, com forças de religião, com os seus fanaticos, com os seus
-sacerdotes e pregadoras, e ella agia com a maldade de uma crença forte,
-sobre a qual fizessemos repousar a felicidade de muitos.
-
-Ricardo, entretanto, não se amedrontou; procurou influencias e amigos.
-Ao entrar no largo de S. Francisco encontrou Genelicio. Vinha da missa
-da irmã da sogra do deputado Castro. Como sempre, trajava uma pesada
-sobrecasaca preta que parecia de chumbo. Já estava sub-director e o seu
-trabalho era agora imaginar meios e modos de ser director. A cousa era
-difficil; mas trabalhava num livro: «Os Tribunaes de Contas nos Paizes
-asiaticos»--o qual, demonstrando uma erudição superior, talvez lhe
-levasse ao alto logar cubiçado.
-
-Vendo-o, Ricardo não se deteve. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe:
-
---Doutor, V. Ex. dá licença que lhe dê uma palavra?
-
-Genelicio perfilou-se todo e, como tivesse pessima memoria das
-physionomias humildes, perguntou com solemnidade e arrogancia:
-
---Que deseja, camarada?
-
-Coração dos Outros estava com a sua farda do «Cruzeiro do Sul» e
-não ficava bem a Genelicio dar-se como conhecido de um soldado, O
-trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente:
-
---Não me conhece mais, doutor?
-
-Genelicio fechou um pouco os olhos por detraz do pince-nez azulado e
-disse seccamente:
-
---Não.
-
---Eu, fez com humildade Ricardo, sou Ricardo Coração dos Outros, que
-cantou no seu casamento.
-
-Genelicio não sorriu, não deu mostras de alegria e limitou-se:
-
---Ah? É o senhor! Bem: que deseja?
-
---O senhor não sabe que o Major Quaresma está preso?
-
---Quem é?
-
---Aquelle que foi vizinho do seu sogro.
-
---Aquelle maluco... Ahn!... E d'ahi?
-
---Eu queria que o senhor se interessasse...
-
---Não me metto nessas cousas, meu amigo. O Governo tem sempre razão.
-Passe bem.
-
-E Genelicio seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das
-botas, emquanto Ricardo ficava de pé a olhar o largo, a gente que
-passava, a estatua immovel, as casas feias, a igreja... Tudo lhe pareceu
-hostil, máo ou indifferente; aquellas caras de homens tinham cataduras
-de feras e elle quiz por um momento chorar de desespero por não poder
-salvar o amigo.
-
-Lembrou-se, porém, de Albernaz, e correu a procural-o. Não era longe,
-mas o General ainda não tinha chegado. Ao fim de uma hora o General
-chegou e, dando com Ricardo, perguntou:
-
---Que ha?
-
-O trovador, bastante emocionado, explicou-lhe com voz dorida todo o
-facto. Albernaz concertou o pince-nez, ageitou bem o trancelim de ouro
-na orelha e disse com doçura:
-
---Meu filho, eu não passo... Você sabe: sou governista e parece, se eu
-fôr pedir por um preso, que já não o sou bastante... Sinto muito,
-mas... que se ha de fazer? Paciencia.
-
-E entrou para o seu gabinete prazenteiro, muito seguro de si, dentro do
-seu placido uniforme de General.
-
-Os officiaes continuavam a entrar e a sahir; as campainhas soavam; os
-continuos iam r vinham; e Ricardo procurava entre todas aquellas
-physionomias uma que lhe pudesse valer. Não havia e elle desesperava.
-Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o commandante; e foi ter
-com o Coronel Bustamante, na velha estalagem que servia de quartel ao
-garboso «Cruzeiro do Sul».
-
-O batalhão ainda continuava em pé de guerra. Embora terminada a
-revolta no porto do Rio de Janeiro era preciso mandar forças para o
-Sul, de forma que os batalhões não tinham sido dissolvidos e um dos
-apontados para partir era o «Cruzeiro».
-
-O Alferes côxo, no ensaboado pateo da antiga estalagem, continuava na
-sua faina de instructor dos novos recrutas. Hom--brôoo... armas!
-Mei--ãã volta!
-
-Ricardo entrou, subiu rapidamente a oscillante escada do velho cortiço
-e logo que chegou ao cubiculo do commandante, gritou: com licença,
-Commandante!
-
-Bustamante andava de máo humor. Aquelle negocio de partir para o
-Paraná não lhe agradava. Como é que havia de superintender a escripta
-do batalhão, no fervor de batalhas, nas desordens de marchas e
-contramarchas? Isso era uma tolice do Commandante marchar; o chefe devia
-ficar a resguardo, para providenciar e dirigir a escripturação.
-
-Elle pensava nessas cousas, quando Ricardo pediu licença.
-
---Entre, disse elle.
-
-O bravo Coronel coçava a grande barba mosaica, tinha o dolman
-desabotoado e acabava de calçar um dos pes de botina, para com mais
-decencia receber o inferior.
-
-Ricardo expoz o seu pedido r esperou com paciencia a resposta, que
-custou a vir. Por fim, Innocencio disse sacudindo a cabeça e olhando o
-inferior cheio, de severidade:
-
---Vai-te embora, senão mando-te prender! Já!
-
-E apontou com o dedo a porta da sahida num gesto marcial e energico. O
-cabo não se demorou mais. No pateo o instructor coso, veterano do
-Paraguay, continuava com solemnidade a encher a arruinada estalagem com
-as suas vozes de commando: Hom-brõo... armas! Mei--ãã... volta...
-volver!
-
-Ricardo veiu andando triste e desalentado. O mundo lhe parecia vasio de
-afecto e de amor. Elle que sempre decantara nas suas modinhas a
-dedicação, o amor, as sympathias, via agora que taes sentimentos não
-existiam, tinha marchado atraz de cousas fóra da realidade, de
-chimeras. Olhou o céo alto. Estava tranquillo e calmo. Olhou as
-arvores. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam
-attingir o céo. Olhou as casas, as igrejas, os palacios e lembrou-se
-das guerras, do sangue, das dores que tudo aquillo custara. E era assim
-que se fazia a vida, a historia e o heroismo: com violencia sobre os
-outros, com oppressões e soffrimentos.
-
-Logo, porém, recordou que era preciso salvar o amigo que era necessario
-dar mais uns passos. Quem poderia? Consultou sua memoria. Viu um, viu
-outro e por fim lembrou-se da afilhada de Quaresma, e foi procural-a na
-Real Grandeza.
-
-Chegou, narrou-lhe o facto e as suas sinistras apprehensões. Ella estava
-só, pois o marido cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos da
-victoria; não perdia um minuto, andando atraz de um e de outro.
-
-Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu eterno sonhar, da sua ternura,
-da tenacidade que punha em seguir as suas idéas, da sua candura de
-donzella romantica...
-
-Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a
-vontade de agir. Pareceu-lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de
-algum modo dar lenitivo ao soffrimento do padrinho; mas bem cedo o viu
-ensanguentado--elle, tão generoso, elle, tão bom, e pensou em
-salval-o.
-
---Mas que fazer, meu caro sr. Ricardo, que fazer? Eu não conheço
-ninguem... Eu não tenho relações... Minhas amigas... A Alice, a
-mulher do Dr. Brandão, está fora... A Cassilda, a filha do Castrioto,
-não pode... Não sei, meu Deus!
-
-E accentuou estas ultimas palavras com grande e lancinante desespero. Os
-dous ficaram calados. A moça, que estava sentada, tomou a cabeça entre
-as mãos e as sua unhas longas e aperoladas engastaram-se nos seus
-cabellos negros. Ricardo estava de pé e aparvalhado.
-
---Que hei de fazer, meu Deus? repetiu ella.
-
-Pela primeira vez, ella sentiu que a vida tinha cousa desesperadoras.
-Possuia a mais forte disposição de salvar seu padrinho; faria
-sacrificio de tudo, mas era impossivel, impossivel! Não havia um meio;
-não havia um caminho. Ella tinha que ir para o posto de supplicio,
-tinha que subir o seu Calvario, sem esperança de ressurreição.
-
---Talvez seu marido, disse Ricardo.
-
-Pensou um pouco, demorou-se mais no exame do caracter do esposo; mas, em
-breve, viu bem que o seu egoismo, a sua ambição e a sua ferocidade
-interesseira não pemittiriam que elle désse o minimo passo.
-
---Qual, esse...
-
-Ricardo não sabia o que aconselhal-a e olhava sem pensamento os moveis
-e a montanha negra e alta que se avistava da sala onde estavam. Queria
-encontrar um alvitre, um conselho; mas nada!
-
-A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabellos negros e a olhar
-a mesa em que repousavam os seus cotovellos. O silencio era augusto.
-
-Num dado momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse:
-
---Se a senhora fosse lá...
-
-Ella levantou a cabeça; os seus olhos se dilataram, de espanto e o
-rosto lhe ficou rigido. Pensou um pouco, um nada, e falou com firmeza:
-
---Vou.
-
-Ricardo ficou só e sentou-se. Olga foi vestir-se.
-
-Elle então pensou com admiração naquella moça que por simples
-amizade se dava a tão arriscado sacrificio, que tinha a alma tão ao
-alcance della mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo, deste nosso
-egoismo, dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar
-de reconhecimento.
-
-Não tardou que ella ficasse prompta e ainda abotoava as luvas, na sala
-de jantar, quando o marido entrou. Vinha radiante, com os seus grandes
-bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si mesmo. Nem fez
-menção de ter visto Ricardo e foi logo direito á mulher:
-
---Vaes sahir?
-
-Ella, afogueada pela ancia desesperada de salvar Quaresma, disse com
-certa vivacidade:
-
---Vou.
-
-Armando ficou admirado de vel-a falar daquelle modo. Voltou-se um
-instante para Ricardo, quiz interrogal-o, mas logo, dirigindo-se á
-mulher, perguntou com autoridade:
-
---Onde vaes?
-
-A mulher não lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou o
-trovador:
-
---Que faz o senhor aqui?
-
-Coração dos Outros não teve animo de responder; adivinhava uma scena
-violenta que elle teria querido evitar; mas Olga adiantou-se:
-
---Vai acompanhar-me ao Itamaraty, para salvar da norte meu padrinho. Já
-sabe?
-
-O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suasorios, poderia
-evitar que a mulher désse passo tão perigoso para os seus interesses e
-ambições. Falou docemente:
-
---Fazes mal.
-
---Porque? perguntou ella com calor.
-
---Vaes comprometter-me. Sabes que...
-
-Ella, não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grandes
-olhos cheios de escarneo; mirou-o um, dous minutos; depois, riu-se um
-pouco e disse:
-
---É isto! _Eu_, porque _eu_, porque _eu_, é só _eu_ para aqui, _eu_
-para ali... Não pensas noutra coisa... A vida é feita para ti, todos
-só devem viver para ti... Muito engraçado! De forma que eu (agora digo
-_eu_ tambem) não tenho direito de me sacrificar, de provar a minha
-amizade, de ter na minha vida um traço superior? É interessante! Não
-sou nada, nada! Sou alguma coisa como um movel, um adorno, não tenho
-relações, não tenho amizades, não tenho caracter? Ora!...
-
-Ella falava, ora vagarosa e irónica, ora rapidamente e apaixonada: e o
-marido tinha diante de suas palavras um grande espanto. Elle vivera
-sempre tão longe della que não a julgara nunca capaz de taes assomos.
-Então aquella menina? Então aquelle _bibelot_? Quem lhe teria ensinado
-taes cousas? Quiz desarmal-a com uma ironia e disse risonho:
-
---Estás no theatro?
-
-Ella lhe respondeu logo:
-
---Se é só no theatro que ha grandes cousas, estou.
-
-E accrescentou com força:
-
---É o que te digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque é do
-meu direito.
-
-Apanhou a sombrinha, concertou o véo e sahiu solemne, firme, alta e
-nobre. O marido não sabia o que fazer. Ficou assombrado e assombrado e
-silencioso viu-a sahir pela porta fóra.
-
-Em breve, estava no palacio da rua Larga. Ricardo não entrou; deixou
-que a moça o fizesse e foi esperal-a no Campo de Sant'Anna.
-
-Ella subiu. Havia um immenso borborinho, uma agitação de entradas e
-sahidas. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano, queria
-cumprimental-o, queria dar mostras da sua dedicação, provar os seus
-serviços, mostrando-se coparticipante na sua victoria. Lançavam mão
-de todos os meios, de todos os planos, de todos os processos. O dictador
-tão accessivel antes, agora se esquivava. Havia quem lhe quisesse
-beijar as mãos, como ao papa ou a um imperador; e elle já tinha nojo
-de tanta subserviencia. O califa não se suppunha sagrado e
-aborrecia-se.
-
-Olga falou aos continuos, pedindo ser recebida pelo Marechal. Foi
-inutil. A muito custo conseguiu falar a um secretario ou ajudante de
-ordens. Quando ella lhe disse a que vinha, a physionomia terrosa do
-homem tornou-se de óca e sob as suas palpebras correu um firme e rapido
-lampejo de espada:
-
---Quem, Quaresma? disse elle. Um traidor! Um bandido!
-
-Depois, arrependeu-se da vehemencia, fez com certa delicadeza:
-
---Não é possivel, minha senhora. O Marechal não a attenderá.
-
-Ella nem lhe esperou o fim da phrase. Ergueu-se orgulhosamente, deu-lhe
-as costas e teve vergonha de ter de pedir, de ter descido do seu orgulho
-e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com o seu pedido. Com tal
-gente, era melhor tel-o deixado morrer só e heroicamente num ilhéo
-qualquer, mas levando para o tumulo inteiramente intacto o seu orgulho,
-a sua doçura, a sua personalidade moral, sem a macula de um empenho que
-diminuisse a injustiça de sua morte, que de algum modo fizesse crer aos
-seus algozes que elles tinham direito de matal-o.
-
-Sahiu e andou. Olhou o céo, os ares, as arvores de Santa Thereza, e se
-lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribus selvagens, das
-quaes um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil
-inimigos. Fôra ha quatro seculos. Olhou de novo o céo, os ares, as
-arvores de Santa Thereza, as casas, as igrejas: viu os bondes passarem;
-uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha,
-atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do Campo... Tinha havido
-grandes e innumeras modificações. Que fôra aquelle parque? Talvez um
-charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na physionomia
-da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ella; e seguiu
-serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.
-
-
-
-
-Todos os Santos (Rio de Janeiro), Janeiro--Março de 1911.
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK TRISTE FIM DE POLYCARPO
-QUARESMA ***
-
-Updated editions will replace the previous one--the old editions will
-be renamed.
-
-Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
-law means that no one owns a United States copyright in these works,
-so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the
-United States without permission and without paying copyright
-royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
-of this license, apply to copying and distributing Project
-Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
-concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
-and may not be used if you charge for an eBook, except by following
-the terms of the trademark license, including paying royalties for use
-of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for
-copies of this eBook, complying with the trademark license is very
-easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation
-of derivative works, reports, performances and research. Project
-Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away--you may
-do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected
-by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark
-license, especially commercial redistribution.
-
-START: FULL LICENSE
-
-THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
-PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
-
-To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
-distribution of electronic works, by using or distributing this work
-(or any other work associated in any way with the phrase "Project
-Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
-Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
-www.gutenberg.org/license.
-
-Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
-Gutenberg-tm electronic works
-
-1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
-electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
-and accept all the terms of this license and intellectual property
-(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
-the terms of this agreement, you must cease using and return or
-destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
-possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
-Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
-by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
-person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
-1.E.8.
-
-1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
-used on or associated in any way with an electronic work by people who
-agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
-things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
-even without complying with the full terms of this agreement. See
-paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
-agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
-electronic works. See paragraph 1.E below.
-
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
-Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
-United States and you are located in the United States, we do not
-claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
-displaying or creating derivative works based on the work as long as
-all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
-that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
-free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
-works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
-Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
-comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
-same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
-you share it without charge with others.
-
-1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
-what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
-in a constant state of change. If you are outside the United States,
-check the laws of your country in addition to the terms of this
-agreement before downloading, copying, displaying, performing,
-distributing or creating derivative works based on this work or any
-other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
-representations concerning the copyright status of any work in any
-country other than the United States.
-
-1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
-
-1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
-immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
-prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
-on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
-phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
-performed, viewed, copied or distributed:
-
- This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
- most other parts of the world at no cost and with almost no
- restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
- under the terms of the Project Gutenberg License included with this
- eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
- United States, you will have to check the laws of the country where
- you are located before using this eBook.
-
-1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
-derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
-contain a notice indicating that it is posted with permission of the
-copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
-the United States without paying any fees or charges. If you are
-redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
-Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
-either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
-obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
-trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
-with the permission of the copyright holder, your use and distribution
-must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
-
-1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
-License terms from this work, or any files containing a part of this
-work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
-
-1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
-electronic work, or any part of this electronic work, without
-prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
-active links or immediate access to the full terms of the Project
-Gutenberg-tm License.
-
-1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
-compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
-any word processing or hypertext form. However, if you provide access
-to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
-other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
-version posted on the official Project Gutenberg-tm website
-(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
-to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
-of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
-Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
-full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.
-
-1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
-performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
-unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
-access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
-provided that:
-
-* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
- the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
- you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
- to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
- agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
- within 60 days following each date on which you prepare (or are
- legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
- payments should be clearly marked as such and sent to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
- Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
- Literary Archive Foundation."
-
-* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
- you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
- does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
- License. You must require such a user to return or destroy all
- copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
- all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
- works.
-
-* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
-
-* You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg-tm works.
-
-1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
-Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
-are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
-from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of
-the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the Foundation as set
-forth in Section 3 below.
-
-1.F.
-
-1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
-effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
-works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
-Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
-electronic works, and the medium on which they may be stored, may
-contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
-or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
-intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
-other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
-cannot be read by your equipment.
-
-1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
-of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
-Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
-Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
-liability to you for damages, costs and expenses, including legal
-fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
-LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
-PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
-TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
-LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
-INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
-DAMAGE.
-
-1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
-defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
-receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
-written explanation to the person you received the work from. If you
-received the work on a physical medium, you must return the medium
-with your written explanation. The person or entity that provided you
-with the defective work may elect to provide a replacement copy in
-lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
-or entity providing it to you may choose to give you a second
-opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
-the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
-without further opportunities to fix the problem.
-
-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-
-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
-Defect you cause.
-
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation's website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without
-widespread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This website includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
diff --git a/old/67535-0.zip b/old/67535-0.zip
deleted file mode 100644
index 8cc13aa..0000000
--- a/old/67535-0.zip
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/67535-h.zip b/old/67535-h.zip
deleted file mode 100644
index 730a83a..0000000
--- a/old/67535-h.zip
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/67535-h/67535-h.htm b/old/67535-h/67535-h.htm
deleted file mode 100644
index a2f5d64..0000000
--- a/old/67535-h/67535-h.htm
+++ /dev/null
@@ -1,13438 +0,0 @@
-<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN"
- "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd">
-<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt">
- <head>
- <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=utf-8" />
- <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" />
- <title>
- The Project Gutenberg eBook of Triste Fim de Polycarpo Quaresma,
- by Lima Barreto.
- </title>
- <style type="text/css">
-
-body {
- margin-left: 10%;
- margin-right: 10%;
-}
-
- h1,h2,h3,h4,h5,h6 {
- text-align: center; /* all headings centered */
- clear: both;
-}
-
-p {
- margin-top: .51em;
- text-align: justify;
- margin-bottom: .49em;
- text-indent:4%;
-}
-
-.p2 {margin-top: 2em;}
-.p4 {margin-top: 4em;}
-.p6 {margin-top: 6em;}
-
-.nind {text-indent:0%;}
-
-hr {
- width: 33%;
- margin-top: 2em;
- margin-bottom: 2em;
- margin-left: auto;
- margin-right: auto;
- clear: both;
-}
-
-hr.tb {width: 45%;}
-hr.chap {width: 65%}
-hr.full {width: 95%;}
-
-hr.r5 {width: 5%; margin-top: 1em; margin-bottom: 1em;}
-hr.r65 {width: 65%; margin-top: 3em; margin-bottom: 3em;}
-
-table {
- margin-left: auto;
- margin-right: auto;
-}
-
- .tdl {text-align: left;}
- .tdr {text-align: right;}
- .tdc {text-align: center;}
-
-
-.linenum {
- position: absolute;
- top: auto;
- right: 10%;
-} /* poetry number */
-
-.blockquot {
- margin-left: 5%;
- margin-right: 10%;
-}
-
-.blockquot-half {
- padding-top: 2em;
- padding-bottom: 2em;
- margin-left: 50%;
-}
-
-
-.bb {border-bottom: solid 2px;}
-
-.bl {border-left: solid 2px;}
-
-.bt {border-top: solid 2px;}
-
-.br {border-right: solid 2px;}
-
-.bbox {border: solid 2px;}
-
-.center {text-align: center;}
-
-.right {text-align: right;}
-
-.smcap {font-variant: small-caps;}
-
-.u {text-decoration: underline;}
-
-.tb {
- text-align: center;
- padding-top: .76em;
- padding-bottom: .24em;
- letter-spacing: 1.5em;
- margin-right: -1.5em;
-}
-
-/* Images */
-.figcenter {
- margin: auto;
- text-align: center;
-}
-
-/* Poetry */
-.poem {
- margin-left:10%;
- margin-right:10%;
- text-align: left;
-}
-
-.poem br {display: none;}
-.poetry-container { text-align: center; }
-.poem { display: inline-block; text-align: left; }
-.poem .stanza {margin: 1em 0em 1em 0em;}
-.poem span.i2 {display: block; margin-left: 1em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;}
-.poem span.i4 {display: block; margin-left: 2em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;}
-.poem span.i8 {display: block; margin-left: 4em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;}
-.poem span.i10 {display: block; margin-left: 5em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;}
-
-/* Transcriber's notes */
-.transnote {background-color: #E6E6FA;
- color: black;
- font-size:smaller;
- padding:0.5em;
- margin-bottom:5em;
- font-family:sans-serif, serif; }
- </style>
- </head>
-<body>
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>Triste Fim de Polycarpo Quaresma</span>, by Lima Barreto</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
-at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
-are not located in the United States, you will have to check the laws of the
-country where you are located before using this eBook.
-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Triste Fim de Polycarpo Quaresma</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Lima Barreto</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: March 1, 2022 [eBook #67535]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by the Biblioteca Nacional do Brasil.)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>TRISTE FIM DE POLYCARPO QUARESMA</span> ***</div>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/policarpo_cover.jpg" width="500" alt="" />
-</div>
-
-
-<h2>LIMA BARRETO</h2>
-
-<h3>Autor de "ISAIAS CAMINHA"</h3>
-
-<p><br /></p>
-
-<h1>TRISTE FIM DE
-<br />
-POLYCARPO QUARESMA</h1>
-
-<p><br /></p>
-
-<h4>Typ. "Revista dos Tribunaes"</h4>
-
-<h4>RUA DO CARMO, 55</h4>
-
-<h4>RIO DE JANEIRO</h4>
-
-<h5>1915</h5>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>A
-<br />
-João Luiz Ferreira
-<br />
-Engenheiro Civil</h4>
-
-<blockquote><p>
-Le grand inconvénient de la vie
-réelle et ce qui la rend insupportable
-à l'homme supérieur, c'est que, si l'on
-y transporte les principes de l'idéal,
-les qualités deviennent des défauts, si
-bien que fort souvent l'homme accompli
-y réussit moins bien que celui qui
-a pour mobiles l'égoisme ou la routine
-vulgaire.
-</p>
-
-<p style="margin-left: 50%;">
-<b>Renan</b>, Marc-Auréle
-</p></blockquote>
-
-
-
-<h4>INDICE</h4>
-<p class="nind"><a href="#Primeira">Primeira Parte</a><br />
-Capitulo<br />
-I. <a href="#chap01">A LIÇÃO DE VIOLÃO</a><br />
-II. <a href="#chap02">REFORMAS RADICAES</a><br />
-III. <a href="#chap03">A NOTICIA DO GENELICIO</a><br />
-IV. <a href="#chap04">DESASTROSAS CONSEQUENCIAS<br />
-DE UM REQUERIMENTO</a><br />
-V. <a href="#chap05">O BIBELOT</a><br />
-<a href="#Segunda">Segunda Parte</a><br />
-I. <a href="#chap01_2">NO «SOCEGO»</a><br />
-II. <a href="#chap02_2">ESPINHOS E FLORES</a><br />
-III. <a href="#chap03_2">GOLIAS</a><br />
-IV. <a href="#chap04_2">«PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ»</a><br />
-V. <a href="#chap05_2">O TROVADOR</a><br />
-<a href="#Terceira">Terceira Parte</a><br />
-I. <a href="#chap01_3">PATRIOTAS</a><br />
-II. <a href="#chap02_3">VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO</a><br />
-III. <a href="#chap03_3">...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS...</a><br />
-IV. <a href="#chap04_3">O BOQUEIRÃO</a><br />
-V. <a href="#chap05_3">A AFILHADA</a></p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="Primeira">PRIMEIRA PARTE</a></h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap01"></a></h4>
-
-<h4>I
-<br /><br />
-A LIÇÃO DE VIOLÃO</h4>
-
-<p>
-Como de habito, Polycarpo Quaresma, mais conhecido por major Quaresma,
-bateu em casa ás 4 e 15 da tarde. Havia mais de vinte annos que isso
-acontecia. Sahindo do Arsenal de Guerra, onde era sub-secretario,
-bongava pelas confeitarias algumas fructas, comprava um queijo, ás
-vezes, e sempre o pão da padaria franceza.
-</p>
-
-<p>
-Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de fórma que, ás 3 e
-40, por ahi assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pizar a
-soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de S. Januario, bem
-exactamente ás 4 e 15, como se fosse a apparição de um astro, um
-eclypse, emfim um phenomeno mathematicamente determinado, previsto e
-predito.
-</p>
-
-<p>
-A vizinhança já lhe conhecia os habitos e tanto que, na casa do
-Capitão Claudio, onde era costume jantar-se ahi pelas quatro e meia,
-logo que o viam passar, a dona, gritava á criada: «Alice, olha que
-são horas; o Major Quaresma já passou».
-</p>
-
-<p>
-E era assim todos os dias, ha quasi trinta annos. Vivendo em casa
-propria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o major
-Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos
-burocraticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e
-respeito de homem abastado.
-</p>
-
-<p>
-Não recebia ninguem, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortez
-com os vizinhos que o julgavam esquisito e misanthropo. Se não tinha
-amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a unica desaffeição que
-merecera, fôra a do Dr. Segadas, um clinico afamado no lugar, que não
-podia admittir que Quaresma tivesse livros: «se não era formado, para
-que? Pedantismo»!
-</p>
-
-<p>
-O sub-secretario não mostrava os livros a ninguem, mas acontecia que,
-quando se abriam as janellas da sala de sua livraria, da rua
-poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.
-</p>
-
-<p>
-Eram esses os seus habitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso
-provocava commentarios no bairro. Além do compadre e da filha, as
-unicas pessoas que o visitavam até então, nos ultimos dias, era visto
-entrar em sua casa, tres vezes por semana e em dias certos, um senhor
-baixo, magro, pallido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça.
-Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa
-tão respeitavel! que seria?
-</p>
-
-<p>
-E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma
-amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá p'ra lá, a palmilhar o
-passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante da janella aberta
-do exquisito sub-secretario.
-</p>
-
-<p>
-Não foi inutil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal
-sujeito, empunhando o <i>pinho</i> na posição de tocar, o major,
-attentamente, ouvia: «Olhe, major, assim». E as cordas vibravam
-vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre adduzia: «é <i>ré</i>,
-aprendeu».
-</p>
-
-<p>
-Mais não foi precizo pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o
-major aprendia a tocar violão. Mas que cousa? Um homem tão sério
-mettido nessas malandragens!
-</p>
-
-<p>
-Uma tarde de sol&mdash;sol de Março, forte e implacavel&mdash;ahi pelas
-cercanias das quatro horas, as janellas de uma erma rua de S. Januario
-povoaram-se rapida e repentinamente, de um e de outro lado. Até da casa
-do General vieram moças á janella! Que era? Um batalhão? Um incendio?
-Nada disto: o Major Quaresma, de cabeça, baixa, com pequenos passos de
-boi de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico.
-</p>
-
-<p>
-É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o
-vestuario não lhe escondia inteiramente as formas. Á vista de tão
-escandaloso facto, a consideração e o respeito que o major Polycarpo
-Quresma merecia nos arredores de sua casa, diminuiram um pouco. Estava
-perdido, maluco, diziam. Elle, porém, continuou serenamente nos seus
-estudos, mesmo porque não percebeu essa diminuição.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava <i>pince-nez</i>, olhava
-sempre baixo, mas, quando fixava alguem ou alguma cousa, os seus olhos
-tomavam, por detraz das lentes, um forte brilho de penetração, e era
-como se elle quizesse ir á alma da pessoa ou da cousa que fixava.
-</p>
-
-<p>
-Comtudo, sempre os trazia baixo, como se guiasse pela ponta do
-cavaignac que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto,
-azul, ou de cinza, de panno listrado, mas sempre de fraque, e era raro
-que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita,
-segundo um figurino antigo de que elle sabia com precisão a epocha.
-</p>
-
-<p>
-Quando entrou em casa, naquelle dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta,
-perguntando:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Janta já?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje comnosco.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Polycarpo, você precisa tomar juizo. Um homem de idade, com
-posição, respeitavel, como você é, andar mettido com esse
-seresteiro, um quasi capadocio&mdash;não é bonito!
-</p>
-
-<p>
-O major descançou o chapéo de sól&mdash;um antigo chapéo de sól, com a
-haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de
-pequenos losangos de madreperola&mdash;e respondeu:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas você está muito enganada, mana. É preconceito suppor-se que
-todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais
-genuina expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que
-ella pede. Nós é que temos abandonado o genero, mas elle já esteve em
-honra, em Lisboa, no seculo passado, com o padre Caldas, que teve um
-auditorio de fidalgas. Beckford, um inglez notavel, muito o elogia.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas isso foi em outro tempo,&mdash;agora...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as
-nossas tradições, os usos genuinamente nacionaes...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem, Polycarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as
-suas manias.
-</p>
-
-<p>
-O major entrou para um aposento proximo, emquanto sua irmã seguia em
-direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a
-roupa de casa, veiu para a bibliotheca, sentou-se a uma cadeira de
-balanço, descançando.
-</p>
-
-<p>
-Estava num aposento vasto, com janellas para uma rua lateral, e todo
-elle era forrado de estantes de ferro.
-</p>
-
-<p>
-Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os
-livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquella grande
-collecção de livros havia de espantar-se ao perceber o espirito que
-presidia a sua reunião.
-</p>
-
-<p>
-Na ficção, havia unicamente autores nacionaes ou tidos como taes: o
-Bento Teixeira, da Prosopopéa; o Gregorio de Mattos, o Basilio da Gama,
-o Santa Rita de Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o
-Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que
-nem um dos autores nacionaes ou nacionalizados de oitenta p'ra lá
-faltava nas estantes do Major.
-</p>
-
-<p>
-De Historia do Brasil, era farta a messe: os chronistas, Gabriel Soares,
-Gandavo; e Rocha Pitta, Frei Vicente Salvador, Armitage, Ayres Casal,
-Pereira da Silva, Handelmann (Geschitchte von Brasilien), Mello Moraes,
-Capistrano de Abreu, Southey, Warnhagen, além de outros mais raros ou
-menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza!
-Lá estavam Hans Stade, o Jean de Lery, o Saint-Hilaire, o Martius, o
-principe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassis, Couto
-Magalhães e se encontravam tambem Darwin, Freycinet, Cook,
-Boungainville e até o famoso Pigafetta, chronista da viagem de
-Magalhães, é porque todos esses ultimos viajantes tocavam no Brasil,
-resumida ou amplamente.
-</p>
-
-<p>
-Alem destes, havia livros subsidiarios: diccionarios, manuaes,
-encyclopedias, compendios, em varios idiomas.
-</p>
-
-<p>
-Vê-se assim que a sua predilecção pela poetica de Porto Alegre e
-Magalhães não lhe vinha de uma irremediavel ignorancia das linguas
-literarias da Europa; ao contrario o major conhecia bem soffrivelmente
-francez, inglez e allemão; e se não falava taes idiomas, lia-os e
-traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa
-disposição particular de seu espirito, no forte sentimento que guiava
-sua vida. Polycarpo era patriota. Desde moço, ahi pelos vinte annos, o
-amor da patria tomou-o todo inteiro. Não fôra o amor commum, palrador
-e vasio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de
-ambições politicas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou
-melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro
-do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois
-então apontar os remedios, as medidas progressivas, com pleno
-conhecimento de causa.
-</p>
-
-<p>
-Não se sabia bem onde nascera, mas não fôra de certo em S. Paulo, nem
-no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quizesse encontrar nelle
-qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha
-predilecção por esta ou aquella parte de seu pai tanto assim que aquillo
-que o fazia vibrar de paixão não eram só os Pampas do Sul com o seu
-gado, não era o café de S. Paulo, não eram o ouro e os diamantes de
-Minas, não era a belleza da Guanabara, não era a altura da Paulo
-Affonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o impeto de Andrade
-Neves&mdash;era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira
-estrellada do Cruzeiro.
-</p>
-
-<p>
-Logo aos dezoito annos quiz fazer-se militar; mas a junta de saude
-julgou-o incapaz. Desgostou-se, soffreu, mas não maldisse a Patria. O
-Ministerio era liberal, elle se fez conservador e continuou mais do que
-nunca a amar a <i>terra que o viu nascer</i>. Impossibilitado de evoluir-se
-sob os dourados do Exercito, procurou a administração e dos seus ramos
-escolheu o militar.
-</p>
-
-<p>
-Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de
-papelada inçada de kilos de polvora, de nomes de fuzis e termos
-technicos de artilharia, aspirava diariamente aquelle halito de guerra,
-de bravura, de victoria, de triumpho, que é bem o halito da Patria.
-</p>
-
-<p>
-Durante os lazeres burocraticos, estudou, mas estudou a Patria, nas suas
-riquezas naturaes, na sua historia, na sua geographia, na sua literatura
-e na sua politica. Quaresma sabia as especies de mineraes, vegetaes e
-animaes, que o Brasil continha; sabia, o valor do ouro, dos diamantes
-exportados por Minas, as guerras hollandezas, as batalhas do Paraguay,
-as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão
-a proeminencia do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para
-isso ia até ao crime de amputar alguns kilometros ao Nilo e era com
-este rival do <i>seu</i> rio que elle mais implicava. Ai de quem o citasse
-na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e
-malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do
-Nilo.
-</p>
-
-<p>
-Havia um anno a esta parte que se dedicava ao tupy-guarany. Todas as
-manhãs, antes que a «Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao
-louro Phebo», elle se atracava até ao almoço com o Montoya, <i>Arte y
-diccionario de la lengua guarany ó mâs bien tupy</i>, e estudava o jargão
-caboclo com afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados,
-amanuenses e escreventes, tendo noticia desse seu estudo do idioma
-tupiniquim, deram não sei sabe porque em chamal-o&mdash;Ubirajára. Certa
-vez, o escrevente Azevedo, ao assignar o ponto, distrahido, sem reparar
-quem lhe estava ás costas, disse em tom chocareiro: «você já vio que
-hoje o Ubirajára esta tardando».
-</p>
-
-<p>
-Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade, a sua illustração, a
-modestia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos.
-Sentindo que o alcunha lhe era dirigido, não perdeu a dignidade, não
-prorompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concertou o
-<i>pince-nez</i>, levantou o dedo indicador no ar e respondeu:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sr. Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridiculo aquelles
-que trabalham em silencio, para a grandeza e a emancipação da Patria.
-</p>
-
-<p>
-Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do
-café, quando os empregados deixavam as bancas, transmittir aos
-companheiros o fructo de seus estados, as descobertas que fazia, no seu
-gabinete de trabalho, de riquezas nacionaes. Um dia era o petroleo que
-lera em qualquer parte, como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era
-um novo exemplar de arvore de borracha que crescia no rio Pardo, em
-Matto-Grosso; outra, era um sabio, uma notabilidade, cuja bisavó era
-brasileira; e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela
-chorographia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegavel, os
-melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um
-franco percurso da foz ás nascentes. Elle amava sobremodo os rios; as
-montanhas lhe eram indifferentes. Pequenas talvez...
-</p>
-
-<p>
-Os collegas ouviam-no respeitosos e ninguem, a não ser esse tal
-Azevedo, se animava na sua frente a lhe fazer a menor objecção, a
-avançar uma pilheria, um dito. Ao voltar as costas, porém, vingavam-se
-da cacetada, cobrindo-o de troças: «Este Quaresma! que cacete! Pensa
-que somos meninos de tico-tico... Arre! Não tem outra conversa».
-</p>
-
-<p>
-E desse modo elle ia levando a vida, metade na repartição, sem ser
-comprehendido, e a outra metade em casa, tambem sem ser comprehendido.
-No dia em que o chamaram de Ubirajára, Quaresma ficou reservado,
-taciturno, mudo, e só veiu a falar porque, quando lavavam, as mãos num
-aposento proximo á secretaria e se preparavam para sahir, alguem
-suspirando, disse: «Ah! Meu Deus! Quando poderei ir á Europa»! O major
-não se conteve: levantou o olhar, concertou o <i>pince-nez</i> e falou
-fraternal e persuasivo: «Ingrato! Tens uma terra tão bella, tão rica,
-e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer
-a minha de principio ao fim!
-</p>
-
-<p>
-O outro objectou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major
-contestou-lhe com estatisticas e até provou exuberantemente que o
-Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. Era um clima calumniado
-pelos viciosos que de lá vinham doentes...
-</p>
-
-<p>
-Era assim o major Polycarpo Quaresma que acabava de chegar á sua
-residencia, ás 4 e 15 da tarde, sem erro de um minuto, como todas as
-tardes, excepto aos domingos, exactamente, ao geito da apparição de um
-astro ou de um eclypse.
-</p>
-
-<p>
-No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aquelles que têm
-ambições politicas ou de fortuna, porque Quaresma, não as tinha no
-minimo grau.
-</p>
-
-<p>
-Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua bibliotheca, o
-major abriu um livro e pôz-se a lel-o á espera do conviva. Era o velho
-Rocha Pitta, o enthusiastico e gongorico Rocha Pitta da Historia da
-America Portugueza. Quaresma estava lendo aquelle famoso periodo: «Em
-nenhuma outra região se mostra o céo mais sereno, nem madruga mais
-bella a aurora; o sol em nenhum outro hemispherio tem os raios mais
-dourados...» mas não pôde ir ao fim. Batiam á porta. Foi abril-a em
-pessoa.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Tardei, major? perguntou o visitante.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não. Chegaste á hora.
-</p>
-
-<p>
-Acabava de entrar em casa do major Quaresma o Sr. Ricardo Coração dos
-Outros, homem celebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar
-violão. Em começo, a sua fama estivera limitada a um pequeno suburbio
-da cidade, em cujos <i>saráos</i> elle e seu violão figuravam como Paganini
-e a sua rabeca em festas de Duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi
-tomando toda a extensão dos suburbios, crescendo, solidificando-se,
-até ser considerada como cousa propria a elles. Não se julgue,
-entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas ahi qualquer, um
-capadocio. Não; Ricardo Coração dos Outros era um artista a
-frequentar e a honrar as melhores familias do Meyer, Piedade e
-Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na
-casa do Tenente Marques, do Dr. Bulhões ou do <i>seu</i> Castro, a sua
-presença era sempre requerida, instada e apreciada. O Dr. Bulhões,
-até, tinha, pelo Ricardo uma admiração especial, um delirio, um
-frenesi e, quando o trovador cantava, ficava em extase. Gosto muito de
-canto, dizia o doutor no trem certa vez, mas só duas pessoas me enchem
-as medidas: o Tamagno e o Ricardo. Esse doutor tinha uma grande
-reputação nos suburbios, não como medico, pois que nem oleo de ricino
-receitava, mas como entendido em legislação telegraphica, por ser
-chefe de secção da Secretaria dos Telegraphos.
-</p>
-
-<p>
-Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da
-alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial o que só
-é alta nos suburbios. Compõe-se em geral de funccionarios publicos, de
-pequenos negociantes, de medicos com alguma clinica, de tenentes de
-differentes milicias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas
-daquellas distantes regiões, assim como nas festas e nos bailes, com
-mais força que a burguezia de Petropolis e Botafogo. Isto é só lá,
-nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se algum dos seus representantes
-vê um typo mais ou menos, olha-o da cabeça aos pés, demoradamente,
-assim como quem diz: apparece lá em casa que te dou um prato de comida.
-Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia
-jantar e almoço, muito feijão, muita carne secca, muito ensopado&mdash;ahi,
-julga ella, e que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da
-distincção.
-</p>
-
-<p>
-Fóra dos suburbios, na rua do Ouvidor, nos theatros, nas grandes festas
-centraes, essa gente mingua, apaga-se, desapparece, chegando até as
-suas mulheres e filhas a perder a belleza com que deslumbram, quasi
-diariamente, os lindos cavalheiros dos interminaveis bailes diarios
-daquellas redondezas.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia,
-extravasou e passou á cidade, propriamente. A sua fama já chegava a S.
-Christovão e em breve (elle o esperava) Botafogo convidal-o-ia, pois os
-jornaes já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da
-sua poetica...
-</p>
-
-<p>
-Mas que vinha elle fazer ali, na casa de pessoa de propositos tão altos
-e tão severos habitos? Não é difficil atinar. De certo, não vinha
-auxiliar o major nos seus estudos de geologia, de poetica, de
-mineralogia e historia brasileiras.
-</p>
-
-<p>
-Como bem suppoz a vizinhança, o Coração dos Outros vinha ali tão
-sómente ensinar o Major a cantar modinhas e a tocar violão. Nada mais,
-e é simples.
-</p>
-
-<p>
-De accôrdo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a
-meditar qual seria a expressão poetico-musical caracteristica da alma
-nacional. Consultou historiadores, chronistas e philosophos e adquiriu
-certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa
-verdade, não teve duvidas: tratou de aprender o instrumento
-genuinamente brasileiro: e entrar nos segredos da modinha. Estava nisso
-tudo <i>a quo</i>, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor
-da cidade e tomou lições com elle. O seu fim era disciplinar a
-modinha, e tirar della um forte motivo original de arte.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas, antes disso, por convite
-especial do discipulo, ia compartilhar o seu jantar; e fôra por isso
-que o famoso trovador chegou mais cedo á casa do sub-secretario.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Já sabe dar o <i>ré</i> sustenido, major? perguntou Ricardo logo ao
-sentar-se.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Já.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vamos ver.
-</p>
-
-<p>
-Dizendo isto, foi desencapotar o seu sagrado violão; mas não houve
-tempo, D. Adelaide, a irmã de Quaresma, entrou e convidou-os a irem
-jantar. A sopa já esfriava na mesa, que fossem!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Sr. Ricardo ha de nos desculpar, disse a velha senhora, a
-pobreza do nosso jantar. Eu lhe quiz fazer um frango com
-<i>petit-pois</i>, mas Polycarpo não deixou. Disse-me que esse tal
-<i>petit-pois</i> é estrangeiro e que eu o substituisse por guando.
-Onde é que se viu frango com guando?
-</p>
-
-<p>
-Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom, seria uma novidade e
-não fazia mal experimentar.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É uma mania de seu amigo, Sr. Ricardo, esta de só querer cousas
-nacionaes, e a gente tem que ingerir cada droga, chi!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual, Adelaide, você tem certas ogerizas! A nossa terra, que tem
-todos os climas do mundo, é capaz de produzir tudo que é necessario para o
-estomago mais exigente. Você é que deu para implicar.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É porque é de leite, se fosse como essas estrangeiras ahi,
-fabricadas com gorduras de esgotos, talvez não se estragasse... É
-isto, Ricardo! Não querem nada da nossa terra...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Em geral é assim, disse Ricardo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas é um erro... Não protegem as industrias nacionaes... Commigo
-não ha disso: de tudo que ha nacional, eu não uso estrangeiro.
-Visto-me com panno nacional, calço botas nacionaes e assim por diante.
-</p>
-
-<p>
-Sentaram-se á mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de crystal e
-serviu dous calices de paraty.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É do programma nacional, fez a irmã, sorrindo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo, e é um magnifico aperitivo. Esses vermutes por ahi,
-drogas! Isto é alcool puro, bom, de canna, não é de batatas ou milho...
-</p>
-
-<p>
-Ricardo agarrou o calice com delicadeza e respeito, levou-o aos labios e
-foi como se todo elle bebesse o licor nacional.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Está bom, hein? indagou o major.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Magnifico, fez Ricardo, estalando os labios.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É de Angra. Agora tu vais ver que magnifico vinho do Rio Grande
-temos... Qual Borgonha! Qual Bordeaux? Temos no Sul muito melhores...
-</p>
-
-<p>
-E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os productos
-nacionaes: a banha, o toucinho e o arroz; a irmã fazia pequenas
-objecções e Ricardo dizia: «é, é, não, ha duvida»&mdash;rolando nas
-orbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no
-cabello aspero, forçando muito a sua physionomia meuda e dura a
-adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.
-</p>
-
-<p>
-Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem
-uma flôr... Certamente não se podia tomar por tal miseros beijos de
-frade, palmas de Santa Rita, quaresmas luctulentas, manacás
-melancolicos e outros bellos exemplares dos nossos campos e prados. Como
-em tudo o mais, o Major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada
-de rosas, de chrysanthemos, de magnolias&mdash;flôres exoticas; ás nossas
-terras tinham outras mais bellas, mais expressivas, mais olentes, como
-aquellas que elle tinha ali.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala, quando o
-crepusculo vinha de vagar, muito vagaroso e lento, como si fosse um
-longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas cousas a sua
-poesia dolente e a sua deliquescencia.
-</p>
-
-<p>
-Mal foi accesso o gaz, o mestre de violão empunhou o instrumento,
-apertou as cravelhas, correu a escala, abaixando-se sobre elle como se o
-quizesse beijar. Tirou alguns accordes, para experimentar; e dirigiu-se
-ao discipulo, que já tinha o seu em posição:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vamos ver. Tire a escala, major.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas não havia na sua
-execução nem a firmeza, nem o dengue com que o mestre fazia a mesma
-operação.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ohe, major, é assim.
-</p>
-
-<p>
-E mostrava a posição do instrumento, indo do collo ao braço esquerdo
-extendido, seguro levemente pelo direito; e em seguida accrescentou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Major, o violão é o instrumento da paixão. Preciza de peito para
-falar... É preciso encostal-o, mas encostal-o com macieza e amor, como
-se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos...
-</p>
-
-<p>
-Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo elle
-fremindo de paixão pelo instrumento desprezado.
-</p>
-
-<p>
-A lição durou uns cincoenta minutos. O major sentiu-se cansado e pediu
-que o mestre cantasse. Era a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse
-pedido; embora lisongeado, quiz a vaidade profissional que elle, a
-principio, se negasse.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Oh! Não tenho nada novo, uma composição minha.
-</p>
-
-<p>
-D. Adelaide obtemperou então:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Cante uma de outro.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Oh! por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O
-Bilac&mdash;conhecem?&mdash;quiz fazer-me uma modinha, eu não aceitei;
-você não entende de violão, seu Bilac. A questão não está em
-escrever uns versos certos que digam cousas bonitas; o essencial é
-achar-se as palavras que o violão pede e deseja. Por exemplo: se eu
-dissesse, como em começo quiz, n'<i>O Pé</i>, uma modinha minha: <i>o
-teu pé é uma folha de trevo</i>&mdash;não ia com o violão. Querem
-ver? E ensaiou em voz baixa, acompanhando pelo instrumento:
-<i>o&mdash;teu&mdash;pé&mdash;é&mdash;uma&mdash;folha&mdash;de&mdash;tre&mdash;vo</i>.
-
-
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vejam, continuou elle, como não dá. Agora reparem:
-<i>o&mdash;teu&mdash;pé&mdash;é&mdash;uma&mdash;uma&mdash;ro&mdash;sa&mdash;de&mdash;myr&mdash;rha</i>. É outra cousa, não
-acham?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não ha duvida, disse a irmã de Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Cante esta, convidou o major.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, objectou Ricardo. Está velha, vou cantar a <i>Promessa</i>,
-conhecem?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, disseram os dous irmãos.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Oh! Anda por ahi como as <i>Pombas</i> do Raymundo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Cante lá, Sr. Ricardo, pediu D. Adelaide.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e
-começou em voz fraca:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Prometto pelo Santissimo Sacramento</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Que serei tua paixão...</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-&mdash;Vão vendo, disse elle num intervallo, quanta imagem, quanta imagem!
-</p>
-
-<p>
-E continuou. As janellas estavam abertas. Moças e rapazes começaram a
-se amontoar na calçada para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua se
-interessava Coração dos Outros foi apurando a dicção, tomando um ar
-feroz que elle suppunha ser de ternura e enthusiasmo; e, quando acabou,
-as palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando D.
-Adelaide.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Senta-te Ismenia, disse ella.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;A demora é pouca.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco moça e continuou a
-dissertar sobre a modinha. Aproveitando uma pausa, a irmã de Quaresma
-perguntou á moça:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então quando te casas?
-</p>
-
-<p>
-Era a pergunta que se lhe fazia sempre. Ella então curvava do lado
-direito a sua triste cabecinha, coroada de magnificos cabellos
-castanhos, com tons de ouro, e respondia.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sei... Cavalcanti forma-se no fim do anno e então marcaremos.
-</p>
-
-<p>
-Isto era dito arrastado, com uma preguiça de impressionar.
-</p>
-
-<p>
-Não era feia a menina, a filha do General, vizinho de Quaresma. Era
-até bem sympathica, com a sua physionomia de pequenos traços mal
-desenhados e cobertos de umas tintas de bondade.
-</p>
-
-<p>
-Aquelle seu noivado durava ha annos; o noivo, o tal Cavalcanti, estudava
-para dentista, um curso de dous annos, mas que elle arrastava ha quatro,
-e Ismenia tinha sempre que responder á famosa pergunta:&mdash;«Então
-quando se casa»?&mdash;«Não sei... Cavalcanti forma-se para o anno e...»
-</p>
-
-<p>
-Intimamente ella não se incommodava. Na vida, para ella, só havia uma
-cousa importante: casar-se; mas pressa não tinha, nada nella a pedia.
-Já agarrara um noivo, o resto era questão de tempo...
-</p>
-
-<p>
-Após responder a D. Adelaide, explicou o motivo da visita.
-</p>
-
-<p>
-Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em
-casa della.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Papai, disse D. Ismenia, gosta muito de modinhas... do Norte; a
-senhora sabe, D. Adelaide, que gente do Norte aprecia muito. Venham.
-</p>
-
-<p>
-E para lá foram.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap02"></a></h4>
-
-<h4>II
-<br /><br />
-REFORMAS RADICAES</h4>
-
-<p>
-Havia bem dez dias que o major Quaresma não sahia do casa. Na sua
-meiga, e socegada casa de S. Christovão, enchia os dias da fórma mais
-util e agradavel ás necessidades do seu espirito, e do seu
-temperamento. De manhã, depois da <i>toilette</i>, e do café, sentava-se no
-divan da sala principal e lia os jornaes. Lia diversos, porque sempre
-esperava encontrar num ou noutro uma noticia curiosa, a suggestão de
-uma idéa util á sua cara patria. Os seus habitos burocraticos
-faziam-no almoçar cedo; e, embora estivesse de férias, para os não
-perder, continuava a tomar a primeira refeição de garfo ás nove e
-meia da manhã.
-</p>
-
-<p>
-Acabado o almoço, dava umas voltas pela chacara, chacara em que
-predominavam as fruteiras nacionaes, recebendo a pitanga e o camboim os
-mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia, como se fossem
-bem cerejas ou figos.
-</p>
-
-<p>
-O passeio era demorado e philosophico. Conversando com o preto
-Anastacio, que lhe servia ha trinta annos, sobre cousas antigas&mdash;o
-casamento das princezas, a quebra do Souto e outras&mdash;o Major
-continuava com o pensamento preso nas problemas que o preoccupavam
-ultimamente. Após uma hora ou menos, voltara á bibliotheca e
-mergulhava nas revistas do Instituto Historico, no Fernão Cardim, nas
-cartas de Nobrega, nos annaes da Bibliotheca, no von den Stein e tomava
-notas sobre notas, guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os
-indios. Não fica bem dizer estudava, porque já o fizera ha tempos,
-não só no tocante á lingua, que já quasi falara, como tambem nos
-simples aspectos ethnographicos e anthropologicos. Recordava (é melhor
-dizer assim), affirmava certas noções dos seus estudos anteriores,
-visto estar organizando um systema de ceremonias e festas que se
-baseasse nos costumes dos nossos selvicolas e abrangesse todas as
-relações sociaes.
-</p>
-
-<p>
-Para bem se comprehender o motivo disso, é precizo não esquecer que o
-Major, depois de trinta armas de meditação patriotica, de estudos e
-reflexões, chegava agora ao periodo da fructificação. A convicção
-que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro paiz do mundo e o seu
-grande amor á patria, eram agora activos e impelliram-no a grandes
-commettimemtos. Elle sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir, de
-obrar e de concretizar suas idéas. Eram pequenos melhoramentos, simples
-toques, porque em si mesma (era a sua opinião), a grande patria do
-Cruzeiro só precizava de tempo para ser superior á Inglaterra.
-</p>
-
-<p>
-Tinha todos os climas, todos os fructos, todos os mineraes e animaes
-uteis, as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais
-hospitaleira, mais intelligente e mais doce do mundo&mdash;o que precizava
-mais? Tempo e um pouco de originalidade. Portanto, duvidas não
-fluctuavam mais no seu espirito, mas no que se referia á originalidade
-de costumes e usanças, não se tinham ellas dissipado, antes se
-transformaram em certeza após tomar parte na folia do <i>Tangolomango</i>,
-numa festa que o general dera em casa.
-</p>
-
-<p>
-Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veiu
-despertar no general e na familia um gosto pelas festanças, cantigas e
-habitos genuinamente nacionaes como se diz por ahi. Houve em todos um
-desejo de sentir, de sonhar, de poetar á maneira popular dos velhos
-tempos. Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto taes cerimonias na
-sua infancia: D. Maricota, sua mulher, até ainda se lembrava de uns
-versos de Reis; e os seus filhos, cinco moças e um rapaz, viram na
-cousa um pretexto de festas e, portanto, applaudiram o enthusiasmo dos
-progenitores. A modinha era pouco; os seus espiritos pediam cousa mais
-plebea, mais caracteristica e extravagante.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma
-chegança, á moda do Norte, por occasião do anniversario de sua
-praça. Em casa do general era assim: qualquer anniversario tinha a sua
-festa, de fórma que havia bem umas trinta por anno, não contando
-domingos, dias feriados e santificados em que se dansava tambem.
-</p>
-
-<p>
-O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e dansas
-tradicionaes, entretanto viu logo a significação altamente patriotica
-do intento. Approvou e animou o vizinho. Mas quem havia de ensaiar, de
-dar os versos e a musica? Alguem lembrou a tia Maria Rita, uma preta
-velha, que morava em Bemfica, antiga lavadeira da familia Albernaz. Lá
-foram os dous, o general Albernaz e o major Quaresma, alegres,
-apressados, por uma linda e crystallina tarde de Abril.
-</p>
-
-<p>
-O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não
-posuisse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma unica
-batalha, não tivera um commando, nada fizera que tivesse relação com
-a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fôra sempre ajudante de
-ordens, assistente, encarregado disso ou daquillo, escripturario,
-almoxarife, e era secretario do Conselho Supremo Militar, quando, se
-reformou em general. Os seus habitos eram de um bom chefe de secção e
-a sua intelligencia não era muito differente dos seus habitos. Nada
-entendia de guerras, de estrategia, de tactica ou de historia militar; a
-sua sabedoria a tal respeito estava reduzida ás batalhas do Paraguay,
-para elle a maior e a mais extraordinaria guerra de todos os tempos.
-</p>
-
-<p>
-O altisonante titulo de general, que lembrava cousas sobrehumanas dos
-Cesares, dos Tuxennes e dos Gustavos Adolphos, ficava mal naquelle homem
-placido, mediocre, bonachão, cuja unica preoccupação era casar as
-cinco filhas e arranjar <i>pistolões</i> para fazer passar o filho nos
-exames do Collegio Militar. Comtudo, não era conveniente que se
-duvidasse das suas aptidões guerreiras. Elle mesmo, percebendo o seu ar
-muito civil, de onde em onde, contava um episodio de guerra, uma
-anedocta militar. «Foi em Lommas Valentinas, dizia elle»... Se alguem
-perguntava: «O general assistiu a batalha» ?Elle respondia logo:
-«Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vesperas. Mas soube pelo
-Camisão, pelo Venancio que a cousa esteve preta».
-</p>
-
-<p>
-O bonde que os levava até á velha Maria Rita, percorria um dos trechos
-mais interessantes da cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da
-cidade, antigo termino de um picadão que ia ter a Minas, se esgalhava
-para S. Paulo e abria communicações com o Curato de Santa Cruz.
-</p>
-
-<p>
-Por ahi em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de
-Minas e ainda ultimamente os chamados generos do paiz. Não havia ainda
-cem annos que as carruagens d'El Rey D. João VI, pesadas como naus, a
-balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por ali
-para irem ter ao longiquo Santa Cruz. Não se póde crer que a cousa
-fosse lá muito imponente; a Côrte andava em apuros de dinheiro e o rei
-era relaxado. Não obstante os soldados remendados, tristemente montados
-em <i>pangarés</i> desanimados, o prestito devia ter a sua grandeza, não
-por elle mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos
-tinham que dar á sua lamentavel majestade.
-</p>
-
-<p>
-Entre nós tudo é inconsistente, provisorio, não dura. Não havia ali
-nada que lembrasse esse passado. As casas velhas, com grandes janellas,
-quasi quadradas, e vidraças de pequenos vidros eram de ha bem poucos
-annos, menos de cincoenta.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquillo sem reminiscencias e foram
-até ao ponto. Antes perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção
-da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animaes e
-corridas, tendo grandes ferraduras, cabeças de cavallos, panoplias de
-chicotes e outros emblemas hippicos, nos pilares dos portões, nas
-almofadas das portas, por toda parte onde taes distinctivos fiquem bem e
-dêm na vista.
-</p>
-
-<p>
-A casa da velha preta ficava além do ponto, para as bandas da estação
-da estrada de ferro Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação.
-Sobre um largo terreiro, negro de moinha de carvão de pedra, médas de
-lenha e immensas tulhas de saccos de carvão vegetal se accumulavam;
-mais adiante um deposito de locomotivas e sobre os trilhos algumas
-manobravam e outras arfavam sob pressão.
-</p>
-
-<p>
-Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo
-estivera secco e por isso se podia andar por elle. Para além do
-caminho, extendia-se a vasta região de mangues, uma zona immensa,
-triste e feia, que vai até ao fundo da bahia e, no horizonte, morre ao
-sopé das montanhas azues de Petropolis. Chegaram á casa da velha. Era
-baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas portuguezas. Ficava um
-pouco afastada da estrada. Á direita havia um monturo: restos de
-cozinha, trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira&mdash;um
-sambaqui a fazer-se para gaudio de um archeologo de futuro remoto: á
-esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto á cerca, no mesmo lado, havia
-um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça appareceu na janella
-aberta.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que desejam?
-</p>
-
-<p>
-Disseram o que queriam e approximaram-se. A moça gritou para o interior
-da casa:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vovó estão ahi dous <i>moços</i> que querem falar com a senhora.
-Entrem, façam o favor&mdash;disse ella depois, dirigindo-se ao General e
-ao seu companheiro.
-</p>
-
-<p>
-A sala era pequena e de telha vã. Pelas paredes, velhos chromos de
-folinhas, registros de Santos, recortes de illustrações de jornaes
-baralhavam-se e subiam por ellas acima até dous terços da altura. Ao
-lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Victor Emmanuel
-com enormes bigodes em desordem; um chromo sentimental de
-folhinha&mdash;uma cabeça de mulher em posição de sonho&mdash;parecia
-olhar um S. João Baptista ao lado. No alto da porta que levava ao
-interior da casa, uma lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a
-Conceição de louça.
-</p>
-
-<p>
-Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando
-o peito descamado, enfeitado com um collar de missangas de duas voltas.
-Capengava de um pé e parecia querer ajudar a marcha, com a mão
-esquerda pousada na perna correspondente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Boas tardes, tia Maria Rita disse o General.
-</p>
-
-<p>
-Ella respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava.
-O General atalhou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não me conhece mais? Sou o General, o Coronel Albernaz.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ah! É sô coroné!... Ha quanto tempo! Como está nhã Maricota?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vai bem.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Minha velha, nós queriamos que você nos ensinasse umas cantigas.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem sou eu, yôyô!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe
-o <i>Bumba meu boi</i>?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quá, yôyô, já mi esqueceu.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E o <i>Boi espacio</i>?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Cousa véia, do tempo do captiveiro&mdash;p'ra que sô coroné qué sabê
-isso?
-</p>
-
-<p>
-Ella fallava arrastando as syllabas, com um doce sorriso e um olhar
-vago.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É para uma festa... Qual é a que você sabe?
-</p>
-
-<p>
-A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma
-cousa, deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes
-immaculados:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vovó já não se lembra.
-</p>
-
-<p>
-O General, que a velha chamava Coronel, por tel-o conhecido nesse posto,
-não attendeu a observação da moça e insistiu:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual esquecida, o que! Deve saber ainda alguma cousa, não é, titia?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Só sei o bicho «Tutu», disse a velha.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Cante lá!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Yôyô sabe! Não sabe? quá, sabe!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu
-amigo, o Major Polycarpo, se sei.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma fez com a cabeça signal affirmativo e a preta velha, talvez
-com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande
-casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor recordar-se, e
-entôou:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2">«É vêm tutu'</span><br />
-<span class="i2">Por detrás do murundu</span><br />
-<span class="i2">P'ra cumê sinhosinho</span><br />
-<span class="i2">C'um bucado de angu'».</span>
-</div></div>
-
-<p>
-&mdash;Ora! fez o General com enfado, isso é cousa antiga de emballar
-crianças. Você não sabe outra?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, sinhô. Já mi esqueceu.
-</p>
-
-<p>
-Os dous sahiram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo
-não guardava as tradições de trinta annos passados? Com que rapidez
-morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções?
-Era bem um signal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade
-diante daquelles povos tenazes que os guardam durante seculos!
-Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições,
-mantel-as sempre vivazes nas memorias e nos costumes...
-</p>
-
-<p>
-Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um numero bom para a festa
-que ia dar, e escapava-lhe. Era quasi a esperança de casamento de uma
-das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma dellas já estava
-garantida, graças a Deus!
-</p>
-
-<p>
-O crepusculo chegava e elles entraram em casa mergulhados na melancolia
-da hora.
-</p>
-
-<p>
-A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismenia,
-informou que nas immediações morava um literato, teimoso cultivador
-dos contos e canções populares do Brasil. Foram a elle. Era um velho
-poeta que teve sua fama ahi pelos setenta e tantos, homem doce e ingenuo
-que se deixara esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em
-publicar collecções que ninguem lia, de contos, canções, adagios e
-dictados populares.
-</p>
-
-<p>
-Foi grande a sua alegria quando soube o objecta da visita daquelles
-senhores. Quaresma estava animado e falou com calor; e Albernaz tambem,
-porque via na sua festa,&mdash;com um numero de <i>folk-lore</i>, meio de
-chamar a attenção sobre sua casa, attrahir gente e... casar as filhas.
-</p>
-
-<p>
-A sala em que foram recebidos, era ampla; mas estava tão cheia de
-mesas, estantes, pejadas de livros, pastas, latas, que mal se podia
-mover nella. Numa lata lia-se: Santa Anna dos Tócos; numa pasta: S.
-Bonifácio do Cabresto.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Os Srs. não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia
-popular! que surprezas ella reserva!... Ainda ha dias recebi uma carta
-de Urubu, de Baixo com uma linda canção. Querem ver?
-</p>
-
-<p>
-O colleccionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde
-leu:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Se Deus enxergasse pobre</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Não me deixaria assim:</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Dava no coração della</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Um logarsinho p'ra mim.</i></span>
-</div><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>O amor que tenho por ella</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Já não cabe no meu peito;</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Sae-me pelos olhos afóra</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Vôa ás nuvens direito.</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-&mdash;Não é bonito?... Muito! Se os Srs. conhecessem então o cyclo do
-macaco, a collecção de historias que o povo tem sobre o simio?... Oh!
-Uma verdadeira epopéa comica!
-</p>
-
-<p>
-Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de algum que
-encontrou um semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado
-pela paixão do foklorista, tinha mais intelligencia no olhar com que o
-encarava.
-</p>
-
-<p>
-O velho poeta guardou, a canção de Urubu de Baixo, numa pasta; e foi
-logo á outra, donde tirou varias folhas de papel. Veio até junto aos
-dous visitantes e disse-lhes:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vou ler aos senhores uma pequena historia do macaco, das muitas que
-o nosso povo conta... Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo
-publical-as, sob o titulo <i>Historias do Mestre Simão</i>.
-</p>
-
-<p>
-E, sem perguntar se os incommodava ou se estavam dispostos a ouvir,
-começou:
-</p>
-
-<p>
-«<i>O macaco perante o juiz de direito</i>. Andava um bando de macacos em
-troça, pulando de arvore em arvore, nas bordas de uma gróta. Eis
-senão quando, um delles vê no fundo uma onça que lá caira. Os
-macacos se enternecem e resolvem salval-a. Para isso, arrancaram cipós,
-emendaram-nos bem, amarraram a corda assim feita á cintura de cada um
-delles e atiraram uma das pontas á onça. Com o esforço reunido de
-todos, conseguiram içal-a e logo se desamarraram, fugindo. Um delles,
-porém, não o pôde fazer a tempo e a onça segurou-o immediatamente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Compadre Macaco, disse ella, tenha paciencia. Estou com fome e você
-vai fazer-me o favor de deixar-se comer.
-</p>
-
-<p>
-O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexivel. Simão
-então lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram
-a elle; o macaco sempre agarrado pela onça. É juiz de direito entre os
-animaes, o jaboty, cujas audiencias, são dadas á borda dos rios,
-collocando-se elle em cima de uma pedra. Os dous chegaram e o macaco
-expôz as suas razões.
-</p>
-
-<p>
-O jaboty ouviu-os e no fim ordenou;
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bata palmas.
-</p>
-
-<p>
-Apezar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas.
-Chegou a vez da onça, que tambem expôz as suas razões e motivos. O
-juiz, como da primeira vez, determinou ao felino:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bata palmas.
-</p>
-
-<p>
-A onça não teve remedio senão largar o macaco, que se escapou, e
-tambem o juiz, atirando-se n'agua».
-</p>
-
-<p>
-Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não acham interessante? Muito! Ha no nosso povo muita invenção,
-muita creação, verdadeiro material para <i>fabliaux</i> interessantes... No
-dia em que apparecer um literato de genio que o fixe numa forma
-immortal... Ah! Então!
-</p>
-
-<p>
-Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de
-satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lagrimas furtivas.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Agora, continuou elle, depois de passada a emoção&mdash;vamos ao que
-serve. <i>O boi espacio</i> ou o <i>Bumba meu boi</i> ainda é muita cousa
-para vocês... É melhor irmos de vagar, começar pelo mais facil... Está
-ahi o <i>Tangolomango</i>, conhecem?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, disseram os dous.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É divertido. Arranjem dez crianças, uma mascara de velho, uma roupa
-estrambolica para um dos Srs. que eu ensaio.
-</p>
-
-<p>
-O dia chegou. A casa do General estava cheia. Cavalcanti viera; e elle e
-a noiva, á parte, no vão de uma janella, pareciam ser os unicos que
-não tinham interesse pela folia. Elle, falando muito, cheio de
-trejeitos no olhar; ella, meio fria, deitando de quando em quando, para
-o noivo, um olhar de gratidão.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma, foz o <i>Tangolomango</i>, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca
-do General, pôz uma immensa mascara de velho, agarrou-se a um bordão
-curvo, em forma de baculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram
-em côro:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Uma mãe teve dez filhos</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Todos os dez dentro de um pote:</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Deu o Tangolomango nelle</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Não ficaram senão nove.</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-Por ahi, o major avançava, batia com o baculo no assoalho, fazia: hu!
-hu! hu! as crianças fugiam, afinal elle agarrava uma e levava para
-dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando, pela
-quinta estrophe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista, escura e cahiu.
-Tiraram-lhe a mascara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a
-si.
-</p>
-
-<p>
-O accidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo <i>folk-lore</i>.
-Comprou livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção
-lhe veiu ao fim de algumas semanas de estudo.
-</p>
-
-<p>
-Quasi todas as tradições e canções eram estrangeiras; o proprio
-<i>Tangolomango</i> o era tambem. Tornava-se, portanto, precizo arranjar
-alguma cousa propria, original, uma creação da nossa terra e dos
-nossos ares.
-</p>
-
-<p>
-Essa idéa levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéa
-traz outra, logo ampliou o seu proposito e eis a razão porque estava
-organizando um codigo de relações, de cumprimentos, de cerimonias
-domesticas e festas, calcado nos preceitos tupys.
-</p>
-
-<p>
-Desde dez dias que se entregava a essa ardua tarefa, quando (era
-domingo) lhe bateram á porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não
-apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabellos,
-como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de
-dentro, o Anastacio tambem, e o compadre e a filha, pois eram elles,
-ficaram estupefactos no limiar da porta.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas que é isso, compadre?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que é isso, Polycarpo?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas, meu padrinho...
-</p>
-
-<p>
-Elle ainda chorou um pouco. Enxugou as lagrimas e, depois, explicou com
-a maior naturalidade:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eis ahi! Vocês não têm a minima noção das cousas da nossa terra.
-Queriam que eu apertasse a mão... Isto não é nosso! Nosso cumprimento
-é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os
-tupinambás.
-</p>
-
-<p>
-O seu compadre Vicente, a filha e D. Adelaide entreolharam-se, sem saber
-o que dizer. O homem estaria doido? Que extravagancia!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas, Sr. Polycarpo, disse-lhe o compadre, é possivel que isto seja
-muito brasileiro, mas é bem triste, compadre.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo, padrinho, accrescentou a moça com vivacidade; parece até
-agouro...
-</p>
-
-<p>
-Este seu compadre era italiano de nascimento. A historia das suas
-relações vale a pena contar. Quitandeiro ambulante, fôra fornecedor
-da casa de Quaresma ha vinte e tantos annos. O Major já tinha as suas
-idéas patrioticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e
-até gostava de vel-o suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas
-vermelhas nas faces muito brancas de europeu recem-chegado. Mas um bello
-dia, ia Quaresma pelo largo do Paço, muito distrahido, a pensar nas
-maravilhas architectonicas do chafariz do mestre Valentim, quando veio a
-encontrar-se com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquella
-simplicidade d'alma que era bem sua, e notou que o rapaz tinha alguma
-preoccupação séria. Não só de onde em onde, soltava exclamações
-sem ligação com a conversa actual, como tambem, cerrava os labios,
-rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio
-a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu collega, estando
-disposto a matal-o, pois perdera o credito e em breve estaria na
-miseria. Havia na sua affirmação uma tal energia e um grande e
-extranho accento de ferocidade, que fizeram empregar o Major toda a sua
-doçura e persuasão para dissuadil-o do proposito. E não ficou nisto
-só: emprestou-lhe tambem dinheiro. Vicente Coleoni poz uma quitanda,
-ganhou uns contos de réis, fez-se logo empreiteiro, enriqueceu, casou,
-veiu a ter aquella filha, que foi levada á pia pelo seu bemfeitor.
-Inutil é dizer que Quaresma não notou a contradicção entre as suas
-idéas patrioticas e o seu acto.
-</p>
-
-<p>
-É verdade que elle não as tinha ainda muito firmes, mas já fluctuavam
-na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciencia como tenues desejos,
-veleidades de rapaz de pouco mais de vinte annos, veleidades que não
-tardariam tomar consistencia, e só esperavam os annos para desabrochar
-em actos.
-</p>
-
-<p>
-Fora, pois, ao seu compadre Vicente e á sua afilhada Olga que elle
-recebera com o mais legitimo ceremonial guaytacaz, e, se não envergara
-o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o não
-tel-o. Estava até á mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre elle
-os seus olhos muito luminosos.
-</p>
-
-<p>
-Havia entre os dous uma grande affeição. Quaresma era um tanto
-reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no economico
-nas demonstrações affectuosas. Adivinhava-se, entretanto, que a moça
-occupava-lhe no coração o logar dos filhos que não tivera nem teria
-jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente,
-não escondia a sua affeição tanto mais que sentia confusamente nelle
-alguma cousa da superior, uma ancia de idéal, uma tenacidade em seguir
-um sonho, uma idéa, um vôo emfim para as altas regiões do espirito
-que ella não estava habituada a ver em ninguem do mundo que
-frequentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a
-commum ás moças de seu nascimento. Vinha de um pendôr proprio, talvez
-das proximidades européas do seu nascimento, que a fizeram um pouco
-differente das nossas moças.
-</p>
-
-<p>
-Fora com um olhar luminoso e prescrutador que ella perguntara ao
-padrinho.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então padrinho, lê-se muito?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a
-emancipação de um povo.
-</p>
-
-<p>
-Vicente fôra com D. Adelaide para o interior da casa e os dous
-conversavam a sós na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma
-tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta segurança, elle que
-antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar&mdash;que diabo! Não,
-não era possivel... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos
-seus olhos&mdash;uma alegria de mathematico que resolveu um problema, de
-inventor feliz!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não se vá metter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso
-violencias...
-</p>
-
-<p>
-Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo
-fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça. O Major fez as
-apresentações.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Já o conhecia de nome, Sr. Ricardo, disse Olga.
-</p>
-
-<p>
-Coração dos Outros encheu-se de um alviçareiro contentamento. A sua
-physionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a
-sua cutis que era reseccada e de um tom de velho marmore, como que ficou
-macia e joven. Aquella moça parecia rica, era fina e bonita,
-conhecia-o&mdash;que satisfação! Elle que era sempre um tanto parvo e
-atrapalhado, quando se encontrava diante das moças, fossem de que
-condição fossem, animava-se, soltava a lingua, amaciava a voz e ficava
-numeroso e eloquente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Leu então os meus versos, não é, minha senhora?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não tive esse prazer, mas li, ha mezes, uma apreciação sobre um
-trabalho seu.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;No «Tempo», não foi?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Foi.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Muito injusta! accrescentou Ricardo. Todos os criticos se atêm a
-essa questão de metrificação. Dizem que os meus versos não são versos...
-São, sim; mas são versos para violão. V. Ex. sabe que os versos para
-musica têm alguma cousa de differente dos communs, não é? Não ha,
-portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam
-outra metrica e outro systema, não acha?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo, disse a moça. Mas parece-me que o Sr. faz versos para a
-musica e não musica para os versos.
-</p>
-
-<p>
-E ella sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar
-luminoso, emquanto Ricardo, desconfiado, lhe sondava a intenção com os
-seus olhinhos vivos e meudos de camondongo.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o
-violão.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu sei, padrinho. Eu sei...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a
-serio essas tentativas nacionaes mas, na Europa, todos respeitam e
-auxiliam... Como é que se chama, major, aquelle poeta que escreveu em
-francez popular?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francez popular; é o
-provençal, uma verdadeira lingua.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado,
-respeitado? Eu, no tocante ao violão, estou fazendo o mesmo.
-</p>
-
-<p>
-Olhou triumphante para um e outro circumstante: e Olga dirigindo-se a
-elle, disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Continue na tentativa, Sr. Ricardo, que é digno de louvor.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um bello
-instrumento e tem grandes difficuldades. Por exemplo...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Ha outros mais difficeis.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O piano? perguntou Ricardo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que piano! O maracá, a inubia.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não conheço.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionaes possiveis, os
-unicos que o são verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados,
-daquella gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta
-linda terra. Os caboclos!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De caboclo! Que é que tem? O Lery diz que são muito sonoros e
-agradaveis de ouvir... Se é por ser de caboclo, o violão tambem não
-vale nada&mdash;é um instrumento do capadocio.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De capadocio, major! Não diga isso...
-</p>
-
-<p>
-E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpreza,
-espantada, sem atinar, som explicação para aquella inopinada
-transformação de genio do seu padrinho, até ali tão socegado e tão
-calmo.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap03"></a></h4>
-
-<h4>III
-<br /><br />
-A NOTICIA DO GENELICIO</h4>
-
-<p>
-&mdash;Então quando se casa, D. Ismenia?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Em Março. Cavalcanti já está formado e...
-</p>
-
-<p>
-Afinal a filha do General pôde responder com segurança á pergunta que
-se lhe vinha fazendo ha quasi cinco annos. O noivo finalmente encontrara
-o fim do curso de dentista e marcara o casamento para dahi a tres mezes.
-A alegria foi grande na familia; e, como em tal caso, uma alegria não
-podia passar sem um baile, uma festa foi annunciada para o sabbado que
-se seguia ao pedido da pragmatica.
-</p>
-
-<p>
-As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes
-que a irmã nubente. Parecia que ella lhes ia deixar o caminho
-desembaraçada, e fôra a irmã quem até ali tinha impedido que se
-casassem.
-</p>
-
-<p>
-Noiva havia quasi cinco annos, Ismenia já se sentia meio casada. Esse
-sentimento junto á sua natureza pobre fel-a não sentir um pouco mais
-de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ella, pão era negocio de
-paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéa,
-uma pura idéa. Aquella sua intelligencia rudimentar tinha separado da
-idéa de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade,
-a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer:
-«Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar»... Ou senão:
-«Você preciza aprender a pregar botões, porque quando você se
-casar...»
-</p>
-
-<p>
-A todo instante e a toda hora, lá vinha aquelle&mdash;«porque, quando você
-se casar...»&mdash;e a menina foi se convencendo de que toda a existencia
-só tendia para o casamento. A instrucção, as satisfações intimas, a
-alegria, tudo isso era inutil; a vida se resumia numa cousa: casar.
-</p>
-
-<p>
-De resto, não era só dentro do sua familia que ella encontrava aquella
-preoccupação. No collegio, na rua, em casa das familias conhecidas,
-só se falava em casar. «Sabe, D. Maricota, a Lili casou-se; não fez
-grande negocio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa»; ou
-então: «A Zezé está doida para arranjar casamento mas é tão feia,
-meu Deus!...»
-</p>
-
-<p>
-A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéas, o
-nosso proprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para
-aquelle cerebrozimho; e, de tal forma casar-se se lhe representou cousa
-importante, uma especie de dever, que não se casar, ficar solteira,
-<i>tia</i>, parecia-lhe um crime, uma vergonha.
-</p>
-
-<p>
-De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa
-profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para
-um grande afecto, na sua intelligencia a idéa de casar-se incrustou-se
-teimosamente como uma obsessão.
-</p>
-
-<p>
-Ella não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o
-narizinho mal feito, mas galante, não muito baixa nem muito magra e a
-sua apparencia de bondade passiva, de indolencia de corpo, de idéas e de
-sentidos era até um bom typo das meninas a que os namorados
-chamam&mdash;<i>bonitinhas</i>. O seu traço de belleza dominante, porém,
-eram os seus cabellos: uns bastos cabellos castanhos, com tons de ouro,
-sedosos até ao olhar.
-</p>
-
-<p>
-Aos dezenove annos arranjou namoro com o Cavalcanti, e á fraqueza de
-sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a
-facilidade com que o futuro dentista a conquistou.
-</p>
-
-<p>
-O pai fez má cara. Elle andava sempre ao par dos namoros das filhas:
-«Diga-me sempre, Maricota&mdash;dizia elle&mdash;quem são. Olho vivo!...» É
-melhor prevenir que curar... Póde ser um valdevinos e...» Sabendo que
-o pretendente á Ismenia era um dentista, não gostou muito. Que é um
-dentista? perguntava elle de si para si. Um cidadão semi-formado, uma
-especie de barbeiro. Preferia um official, tinha montepio e meio soldo;
-mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e elle
-accedeu.
-</p>
-
-<p>
-Começou então Cavalcanti a frequentar a casa na qualidade de noivo
-<i>paisano</i> isto é, que não pediu, não é ainda <i>official</i>.
-</p>
-
-<p>
-No fim do primeiro anno, tendo noticia das difficuldades com que o
-futuro genro lutava para acabar os estudos, o General foi generosamente
-em seu soccorro. Pagou-lhe taxas de matriculas, livros e outras cousas.
-Não era raro que após uma longa conversa com a filha, D. Maricota
-viesse ao marido e dissesse: «Chico, arranja-me vinte mil réis que o
-Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia».
-</p>
-
-<p>
-O General era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretenção
-marcial, não havia no seu caracter a minima falha. Demais, aquella
-necessidade de casar as filhas ainda o faziam melhor quando se tratava
-dos interesses dellas.
-</p>
-
-<p>
-Elle ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para
-evitar despezas ao futuro genro, convidou-o a jantar em casa todo o dia;
-e assim o namoro foi correndo até ali.
-</p>
-
-<p>
-Enfim&mdash;dizia Albernaz á mulher, na noite do pedido, quando já
-recolhidos&mdash;a cousa vai acabar. Felizmente, respondia-lhe D. Maricota,
-vamos descontar esta lettra.
-</p>
-
-<p>
-A satisfação resignada do General era porém, falsa; ao contrario:
-elle estava radiante. Na rua, se encontrava um camarada, no primeiro
-momento azado, lá dizia elle:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É um inferno, esta vida! imagina tu, Castro, que ainda por cima
-tenho que casar uma filha!
-</p>
-
-<p>
-Ao que Castro interrogava:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual dellas?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;A Ismenia, a segunda, respondia Albernaz e logo accrescentava: tu é
-que és feliz: só tiveste filhos.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malicia, aprendi a receita.
-Porque não fizeste o mesmo?
-</p>
-
-<p>
-Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazens, ás lojas de
-louça, comprava mais pratos, mais compoteiras, um centro de mesa,
-porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundancia e riqueza
-que traduzisse o seu grande contentamento.
-</p>
-
-<p>
-Na manhã do dia da festa commemorativa do pedido, D. Maricota amanheceu
-cantando. Era raro que o fizesse: mas nos dias de grande alegria, ella
-cantarolava uma velha aria, uma cousa do seu tempo de moça e as filhas
-que sentiam nisto signal certo de alegria corriam a ella, pedindo-lhe
-isto ou aquillo.
-</p>
-
-<p>
-Muito activa, muito diligente, não havia dona de casa mais economica,
-mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço
-das criadas. Logo que despertou, pôz tudo em actividade, as criadas e
-as filhas. Vivi e Quinota fôram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram
-as raparigas na arrumação das salas e dos quartos, emquanto ella e
-Ismenia iam arrumar a mesa, dispol-a com muito gosto e esplendor. O
-movel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria
-de D. Maricota era grande; ella não comprehendia que uma mulher pudesse
-viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava
-exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e deshonroso para a
-familia. A sua satisfação não vinha do simples facto de ter
-descontado uma letra, como ella dizia. Vinha mais profundamente dos seus
-sentimentos maternos e de familia.
-</p>
-
-<p>
-Ella arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indifferente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas, minha filha, dizia ella, até parece que não é você quem se
-vai casar! Que cara! Você parece ahi uma mosca morta.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mamãe, que quer que eu faça?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não é bonito rir-se muito, andar ahi como uma serigaita, mas tambem
-assim como você está! Eu nunca vi noiva assim.
-</p>
-
-<p>
-Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas
-logo lhe tomava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibração
-sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e não tardava em
-cahir naquelle doentia lassidão que lhe era propria.
-</p>
-
-<p>
-Veiu muita gente. Além das moças e as respeitaveis mães, acudiram ao
-convite do General, o Contra-Almirante Caldas, o Dr. Florencio,
-engenheiro das Aguas, o Major honorario Innocencio Bustamante, o Sr.
-Bastos, guarda-livros, ainda parente de D. Maricota, e outras pessoas
-importantes. Ricardo não fôra convidado porque o General temia a
-opinião publica sobre a presença delle em festa seria; Quaresma o
-fôra, mas não viéra; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros.
-</p>
-
-<p>
-Ás seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismenia,
-cumprimentado-a, não sem um pouco de inveja no olhar.
-</p>
-
-<p>
-Irene, uma alourada e alta, aconselhava:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.
-</p>
-
-<p>
-Tratava-se do enxoval. Todas ellas, embora solteiras, davam conselhos,
-sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes e as que podiam
-ser dispensadas. Estavam ao par.
-</p>
-
-<p>
-A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu, hontem, vi na rua da Constituição um dormitorio de casal, muito
-bonito, você porque não vai ver, Ismenia? Parece barato.
-</p>
-
-<p>
-A Ismenia era a menos enthusiasmada, quasi não respondia ás perguntas;
-e, se as respondia, ora por monosyllabos. Houve um momento em que sorriu
-quasi com alegria e abandono. Estephania, a doutora, a normalista, que
-tinha nos dedos um annel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num
-dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma
-confidencia. Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quizesse
-confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e
-disse alto:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei...
-</p>
-
-<p>
-Ella alludia á resposta que, á sua confidencia, Ismenia tinha dado com
-parcimonia: qual o que!
-</p>
-
-<p>
-Todas ellas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma
-parte dos velhos rodeavam Cavalcanti, muito solenne, dentro de um grande
-fraque preto.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então, Dr. acabou, heim? dizia este a geito de um cumprimento.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os
-embargos&mdash;fui de um heroismo!...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Conhece o Chavantes? perguntava um outro.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Conheço. Um chronico, um pandego...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Foi seu collega?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Foi, isto é, elle é do curso de medicina. Matriculamo-nos no mesmo
-anno.
-</p>
-
-<p>
-Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de attender a este e já era
-obrigado a ouvir a observação de outro.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava
-agora a quebrar a cabeça no <i>Dever</i> e <i>Haver</i>. Hoje, torço a
-orelha e não sai sangue.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Actualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente
-Cavalcanti. Com essas academias livres... Imaginem que já se fala numa
-Academia Livre de Odontologia! É o cumulo! Um curso difficil e caro,
-que exige cadaveres, apparelhos, bons professores, como é que
-particulares poderão mantel-o? Se o Governo mantem mal...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabens. Digo-lhe o que
-disse ao meu sobrinho, quando se formou: vá furando!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Boa carreira.
-</p>
-
-<p>
-Nos intervallos da conversa, todos elles olhavam o novel dentista como
-se fosse um ente sobrenatural.
-</p>
-
-<p>
-Para aquella gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era
-homem e mais alguma cousa sagrada e de essencia superior; e não
-juntavam á imagem que tinham delle actualmente, as cousas que
-porventura elle pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava
-nella de modo algum; e aquelle typo, para alguns, continuava a ser
-vulgar, commum, na apparencia, mas a sua substancia tinha mudado, era
-outra differente da delles e fora ungido de não sei que cousa vagamente
-fóra da natureza terrestre, quasi divina.
-</p>
-
-<p>
-Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os
-menos importantes. O General ficara na sala de jantar, fumando, cercado
-dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com elle o
-Contra-Almirante Caldas, o Major Innocencio, o Dr. Florencio e o
-Capitão de Bombeiros Segismundo.
-</p>
-
-<p>
-Innocencio aproveitou a occasião para fazer uma consulta a Caldas sobre
-assumpto de legislação militar. O Contra-Almirante era
-interessantissimo. Na marinha, por pouco que não fazia <i>pendant</i> com
-Albernaz no Exercito. Nunca embarcara a não ser na guerra do Paraguay,
-mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era delle.
-Logo que se viu 1° Tenente, Caldas foi aos poucos se mettendo comsigo,
-abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos e sem
-amigos nos altos logares, se esqueciam delle e não lhe davam
-commissões de embarque. É curiosa essa cousa das administrações
-militares: as commissões são merecimento, mas só se as dá aos
-protegidos.
-</p>
-
-<p>
-Certa vez, quando era já Capitão Tenente, deram-lhe um embarque em
-Matto Grosso. Nomearam-no para commandar o couraçado «Lima Barros».
-Elle lá foi, mas, quando se apresentou ao commandante da flotilha, teve
-noticia que não existia no rio Paraguay semelhante navio. Indagou daqui
-e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal «Lima Barros»
-fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguay. Consultou o commandante.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia immediatamente para a
-flotilha do Rio Grande.
-</p>
-
-<p>
-Eil-o a fazer malas para o Alto-Uruguay, onde chegou emfim, depois de
-uma penosa e fatigante viagem. Mas ahi tambem não estava o tal «Lima
-Barros». Onde estaria então? Quiz telegraphar para o Rio de Janeiro,
-mas teve medo de ser censurado, tanto mais, que não andava em cheiro de
-santidade. Esteve assim um mez em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e
-sem saber que destino tomar. Um dia lhe veiu a idéa de que o navio bem
-poderia estar no Amazonas. Embarcou na intenção de ir ao extremo norte
-e quando passou pelo Rio, conforme a praxe, apresentou-se ás altas
-autoridades da Marinha. Foi preso e submettido a conselho.
-</p>
-
-<p>
-O «Lima Barros» tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguay.
-</p>
-
-<p>
-Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus
-generaes. Todos o tinham na conta de parvo, de um commandante de opereta
-que andava á cata do seu navio pelos quatro pontos cardeaes.
-Deixaram-n'o <i>encostado</i>, como se diz na gyria militar, e elle levou
-quasi quarenta annos para chegar de Guarda-Marinha a Capitão de
-Fragata. Reformado no posto immediato, com graduação do seguinte, todo
-o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de
-estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referissem a
-promoções de officiaes. Comprava repertorios de legislação,
-armazenava collecções de leis, relatorios, e encheu a casa de toda
-essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos,
-pedindo a modificação da sua reforma, choviam sobre os ministros da
-Marinha. Corriam mezes o infinito rosario de repartições e eram sempre
-indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal
-Militar. Ultimamente constituira advogado junto á justiça federal e
-lá andava elle de cartorio em cartorio, acotovelando-se com meirinhos,
-escrivães, juizes e advogados&mdash;esse poviléo rebarbativo do fôro que
-parece ter contrahido todas as miserias que lhe passam pelas mãos e
-pelos olhos.
-</p>
-
-<p>
-Innocencio Bustamante tambem tinha a mesma mania demandista. Era
-renitente, teimoso, mas servil e humilde. Antigo voluntario da patria,
-possuindo honras de Major, não havia dia em que não fosse ao quartel
-general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia
-inclusão no Asylo dos Invalidos, noutro honras de Tenente-Coronel,
-noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha nenhum, ia ver o dos
-outros.
-</p>
-
-<p>
-Não se prezou mesmo de tratar do pedido de um maniaco que, por ser
-tenente honorario e tambem da Guarda Nacional, requereu lhe fosse
-passada a patente de major, visto que dous galões mais outros dous
-fazem quatro&mdash;o que quer dizer: Major.
-</p>
-
-<p>
-Conhecedor dos estudos meticulosos do Almirante, Bustamante fez a sua
-consulta.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Assim de prompto, não sei. Não é a minha especialidade o Exercito,
-mas vou ver. Isto tambem anda tão atrapalhado!
-</p>
-
-<p>
-Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos que lhe
-davam um ar de <i>commodoro</i> ou de chacareiro portuguez, pois era forte
-nelle o typo luzitano.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não ha mais gente que preste, disse Bustamante.
-</p>
-
-<p>
-Segismundo por ahi aventurou tambem a sua opinião dizendo:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu não sou militar, mas...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como não é militar? fez Albernaz com impeto. Os Srs. é que são os
-verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo, de certo, fez o Almirante cofiando os favoritos.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como ia dizendo, continuou Segismundo, apezar de não ser militar, eu
-me animo, a dizer que a nossa força está muito por baixo. Onde está
-um Porto Alegre, um Caxias?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não ha mais, meu caro, confirmou com voz tenue o Dr. Florencio.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sei porque, pois tudo hoje não vai pela sciencia?
-</p>
-
-<p>
-Fôra Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e
-retrucou-lhe com certo calor:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de
-<i>xx</i> e <i>yy</i>, em Curupaity, hein Caldas? hein Innocencio?
-</p>
-
-<p>
-O Dr. Florencio era o unico paisano da roda. Engenheiro e empregado
-publico, os annos e o socego da vida lhe tinham feito perder todo o
-saber que porventura pudesse ter tido ao sahir da escola. Era mais um
-guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de
-Albernaz, era raro que não viesse roda a tarde jogar o sólo com o
-General. O Dr. Florencio perguntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Sr. assistiu, não foi, General?
-</p>
-
-<p>
-O General não se deteve, não, se atrapalhou, não gaguejou e disse com
-a maxima naturalidade:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vesperas. Mas tive
-muitos amigos lá: o Camisão, o Venancio...
-</p>
-
-<p>
-Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janella da sala onde
-estavam, não se via nem um monte. O horizonte estava circumscripto aos
-fundos dos quintaes das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a
-lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas
-lembrava tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já
-tinha desapparecido do horizonte e as tenues luzes dos bicos de gaz e
-dos lampeões familiares começavam a accender-se por detraz das
-vidraças.
-</p>
-
-<p>
-Bustamante quebrou o silencio:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Este paiz pão vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento,
-pedindo honras de Tenente Coronel, está no ministerio ha seis mezes!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Uma desordem, exclamaram todos.
-</p>
-
-<p>
-Era noite. D. Maricota chegou até onde elles estavam, muito activa,
-muito diligente e com o rosto aberto de alegria.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao
-Chico, sim?
-</p>
-
-<p>
-Albernaz sahiu fóra da róda dos amigos e foi até a um canto da sala,
-onde a mulher lhe disse alguma cousa em voz baixa. Ouviu a mulher,
-depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto, nestes
-termos:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Se não dançam é porque não querem. Estou pegando algum?
-</p>
-
-<p>
-D. Maricota approximou-se dos amigos do marido e explicou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguem tira par, ninguem,
-tóca. Estão lá tantas moças, tantos rapazes, é uma pena!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem; eu vou lá, disse Albernaz.
-</p>
-
-<p>
-Deixou os amigos e foi á sala de visitas dar começo ao baile.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa!
-</p>
-
-<p>
-E elle mesmo em pessoa ia juntando os pares: «Não General, já tenho
-par, dizia uma moça. Não faz mal, retrucava elle, danse com o
-Raymundinho; o outro espera». Depois de ter dado inicio ao baile, veio
-para a roda dos amigos, suado, mas contente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Isto de familia! Qual! A gente até parece bôbo, dizia. Você é que
-fez bem, Caldas; não se quiz casar!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vamos jogar o sólo, convidou Albernaz.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Somos cinco, como ha de ser? observou Florencio.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, eu não jogo, disse Bustamante.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então jogamos os quatro de garancho? lembrou Albernaz.
-</p>
-
-<p>
-As cartas vieram e tambem uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros
-sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. Coube a Florencio dar.
-Começaram, Albernaz tinha um ar attento quando jogava: a cabeça lhe
-cahia sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de
-reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade
-de um Lord Almirante numa partida de «whist». Segismundo jogava com
-todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para
-fugir á fumaça. Bustamante fôra á sala ver as dansas.
-</p>
-
-<p>
-Tinham começado a partida, quando dona Quinota, uma das filhas do
-General, atravessou a sala e foi beber agua. Caldas, coçando um dos
-favoritos, perguntou á moça:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então, D. Quinota, que dê o Genelicio?
-</p>
-
-<p>
-A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muchocho e respondeu
-com falso máu humor:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ué! Sei lá! Ando atrás delle?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não precisa zangar-se, D. Quinota; é uma simples pergunta, advertiu
-Caldas.
-</p>
-
-<p>
-O General que examinava attentamente as cartas recebidas, interrompeu a
-conversa com voz grave:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu passo.
-</p>
-
-<p>
-D. Quinota retirou-se. Este Genelicio ora o seu namorado. Parente ainda
-de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na familia. A sua
-candidatura era favorecida por todos. D. Maricota e o marido enchiam-n'o
-de festas. Empregado do Thesouro, já no meio da carreira, moço de
-menos de trinta annos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia
-ninguem mais bajulador e submisso do que elle. Nenhum pudor, nenhuma
-vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia.
-Quando sahia, remancheava, lavava tres ou quatro vezes as mãos, até
-poder apanhar o director na porta. Acompanhava-o, conversava com elle
-sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava este ou aquelle
-collega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava
-um ministro, fazia-se escolher como interprete dos companheiros e
-deitava um discurso; nos anniversarios de nascimento, era um soneto que
-começava sempre por&mdash;salve&mdash;e acabava tambem por&mdash;Salve!
-Tres vezes Salve!
-</p>
-
-<p>
-O modelo era sempre o mesmo; elle só mudava o nome do ministro e punha
-a data.
-</p>
-
-<p>
-No dia seguinte, os jornaes falavam do seu nome, e publicavam o soneto.
-</p>
-
-<p>
-Em quatro annos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser
-aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima.
-</p>
-
-<p>
-Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente genio.
-Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros
-processos. Um dos que se servia, eram as publicações nas folhas
-diarias. No intuito de annunciar nos ministros e directores que tinha
-uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornaes longos
-artigos sobre contabilidade publica. Eram meras compilações de
-bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citações de autores
-francezes ou portuguezes.
-</p>
-
-<p>
-Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande
-conta o seu saber e elle vivia na secção cercado do respeito de um
-genio, um genio do papelorio e das informações. Accresce que Genelicio
-juntava á sua segura posição administrativa, um curso de direito a
-acabar; e tantos titulos juntos não podiam deixar de impressionar
-favoravelmente ás preoccupações casamenteiras do casal Albernaz.
-</p>
-
-<p>
-Fóra da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre physico
-fazia comico, mas que a convicção do alto auxilio que prestava ao
-Estado, mantinha e sustentava. Um empregado modelo!...
-</p>
-
-<p>
-O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das
-<i>mãos</i> fazia-se um breve commentario ou outro, e no começo ouviam-se
-unicamente as falas sacramentaes do jogo; <i>sólo, bólo, melhoro,
-passo</i>. Feitas ellas jogava-se em silencio; da sala, porém, vinha o
-ruido festivo das dansas e das conversas.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Olhem quem está ahi!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Genelicio, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?
-</p>
-
-<p>
-Deixou o chapéo e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos.
-Pequeno, já um tanto curvado, chupado de rosto, com um pince-nez
-azulado, todo elle trahia a profissão, os seus gostos e habitos. Era um
-escripturario.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negocios.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vão bem? perguntou Florencio.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quasi garantido. O Ministro prometteu... Não ha nada, estou bem
-cunhado!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Estimo muito, disse o General.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Obrigado. Sabe de uma cousa, General?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O que é?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Quaresma está doido.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas... o que? quem foi que te disse?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Aquelle homem do violão. Já está na casa de saude...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu logo vi, disse Albernaz, aquelle requerimento era de doido.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas não é só, General, accrescentou Genelicio, Fez um officio em
-tupy e mandou ao ministro.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É o que eu dizia, fez Albernaz.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem é? perguntou Florencio.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Aquelle vizinho, empregado do Arsenal, não conhece?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Um baixo, de pince-nez?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Este mesmo, confirmou Caldas?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Nem se podia esperar outra cousa, disse o Dr. Florencio. Aquelles
-livros, aquella mania de leitura...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;P'ra que elle lia tanto? indagou Caldas.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Telha de menos, disse Florencio.
-</p>
-
-<p>
-Genelicio atalhou com autoridade:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Elle não era formado, para que metter-se em livros?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É verdade, fez Florencio.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Isto de livros é bom para os sabios, para os doutores, observou
-Segismundo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Devia até ser prohibido, disse Genelicio, a quem não possuisse um
-titulo <i>academico</i> ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não
-acham?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo, disse Albernaz.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo, fez Caldas.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo, disse tambem Segismundo.
-</p>
-
-<p>
-Calaram-se um instante, e as attenções convergiram para o jogo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Já sahiram todos os trunfos?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Contasse, meu amigo.
-</p>
-
-<p>
-Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silencio. Cavalcanti ia recitar.
-Atravessou a sala triumphantemente, com um largo sorriso na face e foi
-postar-se ao lado do piano, Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz
-metallica, apurando muito os finaes em <i>s</i>, começou:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2">A vida é uma comedia sem sentido</span><br />
-<span class="i2">Uma historia de sangue e de poeira</span><br />
-<span class="i4">Um deserto sem luz...</span>
-</div></div>
-
-<p>
-E o piano gemia.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap04"></a></h4>
-
-<h4>IV
-<br /><br />
-DESASTROSAS CONSEQUENCIAS<br />
-DE UM REQUERIMENTO</h4>
-
-<p>
-Os acontecimentos a que alludiam os graves personagens reunidos em tomo
-da mesa de sólo, na tarde memoravel da festa commemorativa do pedido de
-casamento de Ismenia, se tinham desenrolado com rapidez fulminante. A
-força de idéas e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado em
-actos imprevistos com uma sequencia brusca e uma velocidade de
-turbilhão. O primeiro facto surprehendeu, mas vieram outros e outros,
-de forma que o que pareceu no começo uma extravagancia, uma pequena
-mania, se apresentou logo em insania declarada.
-</p>
-
-<p>
-Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a
-sessão da Camara, o Secretario teve que proceder á leitura de um
-requerimento singular e que veiu a ter uma fortuna de publicidade e
-commentario pouco usual em documentos de tal natureza.
-</p>
-
-<p>
-O borborinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensavel
-ao elevado trabalho de legislar, não permittiram que os deputados o
-ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam proximo á mesa, ao
-ouvil-o, proromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes á
-magestade do logar. O riso é contagioso. O Secretario, no meio da
-leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, já ria-se o Presidente, ria
-se o official da acta, ria-se o continuo&mdash;toda a mesa e aquella
-população que a cerca, riram-se da petição, largamente, querendo
-sempre conter o riso, havendo em alguns tão franca alegria que as
-lagrimas vieram.
-</p>
-
-<p>
-Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço, de
-trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa
-tristeza, ouvindo aquelle rir inoffensivo diante della. Merecia raiva,
-odio, um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava á mesa da
-Camara, mas não aquelle recebimento hilarico, de uma hilaridade
-innocente, sem fundo algum, assim como se estivesse a rir de uma
-palhaçada, de uma sorte de circo de cavallinhos ou de uma careta de
-<i>clown</i>.
-</p>
-
-<p>
-Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só viam nelle um motivo
-para riso franco e sem maldade. A sessão daquelle dia fôra fria; e,
-por ser assim, as secções dos jornaes referentes á Camara, no dia
-seguinte, publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os
-tons.
-</p>
-
-<p>
-Era assim concebida a petição:
-</p>
-
-<blockquote><p>
-«Polycarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funccionario publico, certo
-de que a lingua portugueza é emprestada ao Brasil; certo tambem de que,
-por esse facto, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das
-lettras, se vêm na humilhante contigencia de soffrer continuamente
-censuras asperas dos proprietarios da lingua; sabendo, além, que,
-dentro do nosso paiz, os autores os escriptores, com especialidade os
-grammaticos, não se entendem no tocante á correcção grammatical,
-vendo-se, diariamente, surgir azedas polemicas entre os mais profundos
-estudiosos do nosso idioma&mdash;usando do direito que lhe confere a
-Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o
-tupy-guarany, como lingua official e nacional do povo brasileiro.
-</p>
-
-<p>
-O supplicante, deixando de parte os armamentos historicos que militam em
-favor de sua idéa, pede venia para lembrar que a lingua é o mais alta
-manifestação da intelligencia de um povo, é a sua creação mais viva
-e original; e, portanto, a emancipação política do paiz requer como
-complemento e consequencia a sua emancipação idiomatica.
-</p>
-
-<p>
-Demais, Srs. Congressistas, o tupy-guarany, lingua originalissima,
-agglutinante, é verdade, mas que o polysynthetismo dá multiplas
-feições de riqueza, é a unica capaz de traduzir as nossas bellezas,
-de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente
-aos nossos orgãos vocaes e cerebraes, por ser creação de povos que
-aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização
-physiologica e psychologica para que tendemos, evitando-se dessa fórma
-as estereis controversias grammaticaes, oriundas de uma difficil
-adaptação de uma lingua de outra região á nossa organização
-cerebral e ao nosso apparelho vocal&mdash;controversias que tanto impecem o
-progresso da nossa cultura literaria, scientifica e philosophica.
-</p>
-
-<p>
-Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para
-realizar semelhante medida e conscio de que a Camara e o Senado pezarão
-o seu alcance e utilidade P. e E. deferimento».
-</p></blockquote>
-
-<p>
-Assignado e devidamente estampilhado, este requerimento do Major foi
-durante dias assumpto de todas as palestras. Publicado em todos os
-jornaes, com commentarios facetos, não havia quem não fizesse uma
-pilheria sobre elle, quem não ensaiasse um espirito á custa da
-lembrança de Quaresma. Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quiz
-mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era casado, se era solteiro.
-Uma illustração semanal publicou-lhe a caricatura e o Major foi
-apontado na rua.
-</p>
-
-<p>
-Os pequenos jornaes alegres, esses semanarios de espirito e troça,
-então! eram «de um encarniçamento atroz com o pobre Major. Como uma
-abundancia que marcava a felicidade dos redactores em terem encontrado
-um assumpto facil, o texto vinha cheio delle: o Major Quaresma disse
-isso; o Major Quaresma fez aquillo.
-</p>
-
-<p>
-Um delles, além de outras referencias, occupou uma pagina inteira com o
-assumpto da semana. Intitulava-se a illustração: «O matadouro de
-Santa Cruz, segundo o Major Quaresma», e o desenho representava uma
-fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via á
-esquerda. Um outro referia-se ao caso pintando um açougue, «O açougue
-Quaresma»; legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Sr. tem lingua de vacca? O açougueiro respondia: Não, só temos
-lingua de moça, quer?
-</p>
-
-<p>
-Com mais, ou menos espirito, os commentarios não cessavam e a ausencia
-de relações de Quaresma no meio de que sahiam, fazia com que fossem de
-uma constancia pouco habitual. Levaram duas semanas com o nome do
-sub-secretario.
-</p>
-
-<p>
-Tudo isto irritava profundamente Quaresma. Vivendo ha trinta annos quasi
-só, sem se chocar com o mundo, adquirira urna sensibilidade muito viva
-e capaz de soffrer profundamente com a menor cousa. Nunca soffrera
-criticas, nunca se atirou, á publicidade, vivia immerso no seu sonho,
-incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fóra delles, elle
-não conhecia ninguem; e, com as pessoas com quem falava, trocava
-pequenas banalidades, ditos de todo o dia, cousas com que a sua alma e o
-seu coração nada tinham que ver.
-</p>
-
-<p>
-Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse mais que
-a todos.
-</p>
-
-<p>
-Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de extranho a
-tudo, ás competições, ás ambições, pois nada dessas cousas que
-fazem os odios e as lutas tinha entrado no seu temperamento.
-</p>
-
-<p>
-Desinteressado de dinheiro, de gloria e posição, vivendo numa reserva
-de sonho, adquirira a candura e a pureza d'alma que vão habitar esses
-homens de uma idéa fixa, os grandes estudiosos, os sabios, e os
-inventores, gente que fica mais terna, mais ingenua, mais innocence que
-as donzellas das poesias de outras épocas.
-</p>
-
-<p>
-É raro encontrar homens assim, mas os ha e, quando se os encontra,
-mesmo tocados de um grão de loucura, a gente sente mais sympathia pela
-nossa especie, orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da
-raça.
-</p>
-
-<p>
-A continuidade das troças feitas nos jornaes, a maneira com que o
-olhavam na rua, exasperavam-no e mais forte se enraizava nelle a sua
-idéa. Á medida que engulia uma troça, uma pilheria, vinha-lhe meditar
-sobre a sua lembrança, pezar-lhe todos os aspectos, examinal-a
-detidamente, comparal-a a cousas semelhantes, recordar os autores e
-autoridades; e, á proporção que fazia isso, a sua propria convicção
-mostrava a inanidade da critica, a ligeireza da pilheria, e a idéa o
-tomava, o avassalava, o absorvia cada vez mais.
-</p>
-
-<p>
-Se os jornaes tinham recebido o requerimento com facecias de fundo
-inofensivo e sem odio, a repartição ficou furiosa. Nos meios
-burocraticos, uma superioridade que nasce fora delles, que é feita e
-organizada com outros materiaes que não os officios, a sabença de
-textos de regulamentos e a boa calligrafia, é recebida com a
-hostilidade de uma pequena inveja.
-</p>
-
-<p>
-É como se visse no portador da superioridade um traidor á
-mediocridade, ao anonimato papeleiro. Não ha só uma questão de
-promoção, de interesse pecuniario; ha uma questão de amor proprio, de
-sentimentos feridos, vendo aquelle collega, aquelle galé como elles,
-sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes, ás olhadelas
-superiores dos ministros, com mais titulos á consideração, com algum
-direito a infringir as regras e os preceitos.
-</p>
-
-<p>
-Olha-se para elle com o odio dissimulado com que assassino plebeu olha
-para o assassino marquez que matou a mulher e o amante. Ambos são
-assassinos, mas, mesmo na prisão, ainda o nobre e o burguez trazem o ar
-do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o
-seu humilde collega de desgraça.
-</p>
-
-<p>
-Assim, quando surge numa secretaria alguem cujo nome não lembra sempre
-o titulo de sua nomeação, apparecem as pequeninas perfidias, as
-maledicencias ditas ao ouvido, as indirectas, todo o arsenal do ciume
-invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor
-do que ella.
-</p>
-
-<p>
-Amam-se ou antes supportam-se melhor aquelles que se fazem celebres nas
-informações, na redacção, na assiduidade ao trabalho, mesmo os
-doutores, os bachareis, do que os que têm nomeada e fama. Em geral, a
-incomprehensão da obra ou do merito do collega é total e nenhum delles
-se póde capacitar que aquelle typo, aquelle amanuense, como elles,
-faça qualquer cousa que interesse 06 extranhos e dê que falar a uma
-cidade inteira.
-</p>
-
-<p>
-A brusca popularidade de Quaresma, o seu successo e nomeada ephemera
-irritaram os seus collegas e superiores. Já se viu! dizia o Secretario.
-Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa! Pretencioso! O
-director, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o
-regulamento não cogitasse do caso para lhe infringir uma censura. O
-collega archivista era o menos terrivel, mas chamou-o logo de doido.
-</p>
-
-<p>
-O Major sentia bem aquelle ambiente falso, aquellas allusões e isso
-mais augmentava o seu desespero e a teimosia na sua idéa. Não
-comprehendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades, essa
-má vontade geral; era uma cousa innocente, uma lembrança patriotica
-que merecia e devia ter o assentimento de todo o mundo; e meditava,
-voltava á idéa, e a examinava com mais attenção.
-</p>
-
-<p>
-A extensa publicidade, que o facto tomou, attingiu o palacete de Real
-Grandeza, onde morava o seu compadre Coleoni. Rico com os lucros das
-empreitadas de construcções de predios, viuvo, o antigo quitandeiro
-retirara-se dos negocios e vivia socegado na ampla casa que elle mesmo
-edificara e tinha todos os seus remates architectonicos do seu gosto
-predilecto: compoteiras na cimalha, um immenso monogramma sobre a porta
-da entrada, dous cães de louça, nos pilares do portão da entrada e
-outros detalhes equivalentes.
-</p>
-
-<p>
-A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão alto,
-tinha um razoavel jardim na frente, que avançava pelos lados,
-pontilhado de bolas multicores; varanda, um viveiro, onde pelo calor os
-passaros morriam tristemente. Era uma installação burgueza, no gosto
-nacional, vistosa, cara, pouco de accordo com o clima e sem conforto.
-</p>
-
-<p>
-No interior o capricho dominava, tudo obedecia a a uma fantasia baroca,
-a um ecletismo desesperador. Os moveis se amontoavam, os tapetes, as
-sanefas, os bibelots e, a fantasia da filha, irregular e indisciplinada,
-ainda trazia mais desordem áquella collecção de cousas caras.
-</p>
-
-<p>
-Viuvo, havia já alguns annos, era uma velha cunhada quem dirigia a casa
-e a filha, quem o encaminhava nas distracções e nas festas. Coleoni
-aceitava de bom coração esta doce tyrannia. Queria casar a filha, bem
-e ao gosto della, não punha, portanto nenhum obstaculo ao programma de
-Olga.
-</p>
-
-<p>
-Em começo, pensou em dal-a a seu ajudante ou contra-mestre, uma especie
-de architecto que não desenhava, mas projectava casas e grandes
-edificios. Primeiro sondou a filha. Não encontrou resistencia, mas não
-encontrou tambem assentimento. Convenceu-se de que aquella vaporosidade
-da menina, aquelle seu ar distante de heroina, a sua intelligencia, o
-seu fantastico, não se dariam bem com as rudezas e a simplicidade
-camponias de seu auxiliar.
-</p>
-
-<p>
-Ella quer um doutor&mdash;pensava elle&mdash;que arranje! Com certeza, não
-terá ceitil, mas eu tenho e as cousas se accommodam.
-</p>
-
-<p>
-Elle se havia habituado a ver no doutor nacional, o marquez ou o barão
-de sua terra natal. Cada terra tem a sua nobreza; lá, é visconde;
-aqui, é doutor, bacharel ou dentista; e julgou muito acceitavel comprar
-a satisfação de ennobrecer a filha com umas meias duzias de contos de
-réis.
-</p>
-
-<p>
-Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propositos da menina.
-Gostando de dormir cedo, tinha que perder noites e noites no Lyrico, nos
-bailes; amando estar sentado em chinellas a fumar cachimbo, era obrigado
-a andar horas e horas pelas ruas, saltitando de casa em casa de modas,
-atraz da filha, para no fim do dia ter comprado meio metro de fita, uns
-grampos e um frasco de perfume.
-</p>
-
-<p>
-Era engraçado vel-o nas lojas de fazendas cheio de complacencia de pai
-que quer ennobrecer o filho, a dar opinião sobre o tecido, achar este
-mais bonito, comparar um com outro, com uma falta de sentimento
-daquellas cousas que se adivinhava até no pagal-as. Mas elle ia,
-demorava-se e esforçava-se por entrar no segredo, no mysterio, cheio de
-tenacidade e candura perfeitamente paternaes.
-</p>
-
-<p>
-Até ahi elle ia bem e calcava a contrariedade. Só o contrariavam
-bastante, as visitas, as collegas da filha, suas mães, suas irmães,
-com seus modos de falsa nobreza, os seus desdens dissimulados, deixando
-perceber ao velho empreiteiro o quanto estava elle distante da sociedade
-das amigas e das collegas de Olga.
-</p>
-
-<p>
-Não se aborrecia, porém, muito profundamente; elle assim o quizera e a
-fizera, tinha que se conformar. Quasi sempre, quando chegavam taes
-visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior da casa. Entretanto,
-não lhe era sempre possivel fazer isso; nas grandes festas e
-recepções tinha que estar presente e era quando mais sentia, o velado
-pouco caso da alta nobreza da terra que o frequentava. Elle ficara
-sempre empreiteiro, com poucas idéas além do seu officio, hão sabendo
-fingir, de modo que não se interessava por aquellas tagarelices de
-casamentos, de bailes, de festas e passeios caros.
-</p>
-
-<p>
-Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e
-sempre perdia. Chegou mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia
-parte o conhecido advogado Pacheco. Perdeu e muito, mas não foi isso
-que o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos&mdash;uma ninharia! A
-questão, porém, é que Pacheco jogava com seis cartas. A primeira vez
-que Coleoni deu com isso, pareceu-lhe simples distracção do distincto
-jornalista e do famoso advogado. Um homem honesto não ia fazer aquillo!
-E na segunda, seria tambem? e na terceira?
-</p>
-
-<p>
-Não era possivel tanta distracção. Adquiriu a certeza da
-trampolinagem, calou-se, conteve-se com uma dignidade não esperada em
-um antigo quitandeiro, e esperou. Quando vieram a jogar outra vez e o
-passe foi posto em pratica, Vicente accendeu o charuto e observou com a
-maior naturalidade deste mundo:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Os Srs. sabem que ha agora, na Europa, um novo systema de jogar o
-poker?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual é? perguntou alguém.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;A differença é pequena: joga-se com seis cartas, isto é, um dos
-parceiros, sómente.
-</p>
-
-<p>
-Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar e a ganhar,
-despediu-se á meia-noite cheio de delicadeza, fez alguns commentarios
-sobre a partida e não voltou mais.
-</p>
-
-<p>
-Conforme o seu velho habito, Coleoni lia de manhã os jornaes, com o
-vagar e a lentidão de homem pouco habituado á leitura, quando se lhe
-deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal.
-</p>
-
-<p>
-Elle não comprehendeu bem o requerimento, mas os jornaes faziam tanta
-troça, cahiam tão a fundo sobre a cousa, que imaginou o seu antigo
-bemfeitor enleiado numa meiada criminosa, tendo praticado, por
-inadvertencia, alguma falta grave.
-</p>
-
-<p>
-Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda
-tinha, mais dahi quem sabe? Na ultima vez que o visitou elle não veiu
-com aquelles modos extranhos? Podia ser uma pilheria...
-</p>
-
-<p>
-Apezar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro
-compadre. Havia nelle não só a gratidão de camponez que recebeu um
-grande beneficio, como um duplo respeito pelo major, oriundo da sua
-qualidade de funccionario e de sabio.
-</p>
-
-<p>
-Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquelle
-sagrado respeito dos camponezes pelos homens que recebem a investidura
-do Estado; e, como, apezar dos bastos annos de Brasil, ainda não sabia
-juntar saber aos titulos, tinha em grande consideração a erudição do
-compadre.
-</p>
-
-<p>
-Não é, pois, de extranhar que elle visse com magna o nome de Quaresma
-envolvido em factos que os jornaes reprovavam. Leu de novo o
-requerimento, mas não entendeu o que elle queria dizer. Chamou a filha.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Olga!
-</p>
-
-<p>
-Elle pronunciava o nome da filha quasi sem sotaque; mas, quando fallava
-portuguez, punha nas palavras uma rouquidão singular, e salpicava as
-phrases de exclamações e pequenas expressões italianas.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Olga, que quer dizer isto? <i>Non capisco</i>...
-</p>
-
-<p>
-A moça sentou-se a uma cadeira proxima e leu no jornal, o requerimento
-e os commentarios.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Che</i>! Então?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O padrinho quer substituir o portuguez pela lingua tupy, entende o
-senhor?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Hoje, nós não falamos portuguez? Pois bem: elle quer que daqui em
-diante falemos tupy.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Tutti</i>?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Todos os brasileiros, todos.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Ma che</i> cousa! Não é possivel?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Póde ser. Os tcheques tem uma lingua propria, e foram obrigados a
-falar allemão, depois de conquistados pelos austriacos; os lorenos,
-francezes...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Per la madona</i>! Allemão é lingua, agora esse acugêlê,
-<i>ecco</i>!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Acugêlê é da Africa, papai; tupy é daqui.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Per Baccho</i>! É o mesmo... Está doido!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas não ha loucura alguma, papai.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como? Então é cousa de um homem <i>bene</i>?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De juizo, talvez não seja; mas de doido, tambem não.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Non capisco</i>.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É uma idéa, meu pai, é um plano, talvez á primeira vista absurdo,
-fóra dos moldes, mas não de todo doido. É ousado, talvez, mas...
-</p>
-
-<p>
-Por mais que quizesse, ella não podia julgar o acto do padrinho sob o
-criterio de seu pai. Neste falava o bom senso e nella o amor ás grandes
-cousas, aos arrojos e commettimentos ousados. Lembrou-se de que Quaresma
-lhe falara em emancipação; e se houve no fundo de si um sentimento que
-não fosse de admiração pelo atrevimento do Major, não foi de certo o
-de reprovação ou lastima; foi de piedade sympathica por ver mal
-comprehendido o acto daquelle homem que ella conhecia ha tantos annos,
-seguindo o seu sonho, isolado, obscuro e tenaz.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Isto vai causar-lhe transtorno, observou Coleoni.
-</p>
-
-<p>
-E elle tinha razão. A sentença do archivista foi vencedora nas
-discussões dos corredores e a suspeita de que Quaresma estivesse doido
-foi tomando fóros do certeza. Em principio, o sub-secretario supportou
-bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o suppunham insciente no
-tupy, irritou-se, encheu-se, de uma raiva surda, que se continha
-difficilmente. Como eram cegos! Elle que ha trinta annos estudava o
-Brasil minuciosamente; elle que em virtude desses estudos, fôra
-obrigado a aprender o rebarbativo allemão, não saber tupy, a lingua
-brasileira, a unica que o era&mdash;que suspeita miseravel!
-</p>
-
-<p>
-Que o julgassem doido&mdash;vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de
-suas affirmações, não! E elle pensava, procurava meios de se rehabilitar,
-cahia em distracções, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana.
-Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo dia, e a
-outra, na preoccupação de provar que sabia o tupy.
-</p>
-
-<p>
-O Secretario veiu a faltar um dia e o Major lhe ficou fazendo as vezes.
-O expediente fôra grande e elle mesmo redigira e copiara uma parte.
-Tinha começado a passar a limpo um officio sobre cousas de Mato-Grosso,
-onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã, quando o Carmo disse lá do
-fundo da sala, com acccento escarninho:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Homero, isto de saber é uma cousa, dizer é outra.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupy
-que se encontravam na minuta, fosse pela allusão do funccionario Carmo,
-o certo é que elle insensivelmente foi traduzindo a peça official para
-o idioma indigena.
-</p>
-
-<p>
-Ao acabar, deu com a districção, mas logo vieram outros empregados com
-o trabalho que fizeram, para que elle examinasse. Novas preoccupações
-afastaram a primeira, esqueceu-se e o officio em tupy seguiu com os
-companheiros. O Director não reparou, assignou e o tupinambá foi dar
-ao ministerio.
-</p>
-
-<p>
-Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. Que lingua
-era? Consultou-se o Dr. Rocha, o homem mais habil da secretaria, a
-respeito do assumpto. O funccionario limpou o pince-nez, agarrou o
-papel, voltou-o de traz para diante, pôl-o de pernas para o ar e
-concluiu que era grego, por causa dos <i>yy</i>.
-</p>
-
-<p>
-O doutor Rocha tinha na Secretaria a fama de sabio, porque era bacharel
-em direito e não dizia cousa alguma.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas, indagou o chefe, officialmente as autoridades se podem
-communicar em linguas estrangeiras? Creio que ha um aviso de 84... Veja,
-Sr. Dr. Rocha...
-</p>
-
-<p>
-Consultaram-se todos os regulamentos e repertorios de legislação,
-andou-se de meza em meza pedindo auxilio á memoria de cada um e nada se
-encontrara a respeito. Enfim, o Dr. Rocha, após tres dias de
-meditação, foi ao chefe e disse com emphase e segurança:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O aviso de 84 trata de orthographia.
-</p>
-
-<p>
-Ü Director olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando
-as suas qualidades de empregado zeloso, intelligente e... assiduo. Foi
-informado que a legislação era omissa no tocante á lingua em que
-deviam ser escriptos os documentos officiaes; entretanto não parecia
-regular usar uma que não fosse a do paiz.
-</p>
-
-<p>
-O Ministro, tendo em vista esta informação e varias outras consultas,
-devolveu o officio e censurou o Arsenal.
-</p>
-
-<p>
-Que manhã foi essa no Arsenal! Os tympanos soavam furiosamente, os
-continuos andavam numa doubadoura terrivel e a toda a hora perguntavam
-pelo secretario que tardava em chegar.
-</p>
-
-<p>
-Censurado! monologava o Director. Ia-se por agua a baixo o seu
-generalato. Viver tantos annos a sonhar com aquellas estrellas e ellas
-se escapavam assim, talvez por causa da molecagem de um escripturario!
-</p>
-
-<p>
-Ainda se a situação mudasse... Mas qual!
-</p>
-
-<p>
-O Secretario chegou, foi ao gabinete do Director. Inteirado do motivo,
-examinou o officio e pela lettra conheceu que fora Quaresma quem o
-escrevera. Mande-o cá, disse o Coronel. O Major encaminhou-se pensando
-nuns versos tupys que lera de manhã.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então o Sr. leva a divertir-se commigo, não é?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como? fez Quaresma espantado.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem escreveu isso?
-</p>
-
-<p>
-O Major nem quiz examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da
-distracção e confessou com firmeza:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Fui eu.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então confessa?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pois não. Mas V. Ex. não sabe...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sabe! que diz?
-</p>
-
-<p>
-O Director levantou-se da cadeira, com os labios brancos e a mão
-levantada á altura da cabeça. Tinha sido offendido tres vezes: na sua
-honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento de
-ensino que frequentara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro
-estabelecimento scientifico do mundo. Além disso escrevera no
-«Prytaneu», a revista da escola, um conto&mdash;«A Saudade»&mdash;producção
-muito elogiada pelos collegas. Dessa forma, lendo em todos os exames
-plenamente e distincção, uma dupla corôa de sabio e artista
-cingia-lbe a fronte. Tantos titulos valiosos e raros de se encontrarem
-reunidos mesmo em Descartes ou Shakspeare, transformavam aquelle&mdash;não
-sabe&mdash;de um amanuense em offensa profunda, em injuria.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor
-porventura o curso de Benjamin Constant? Sabe o senhor mathematica,
-astronomia, physica, chimica, sociologia e moral? Como ousa então? Pois
-o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francezinho ahi,
-póde hombrear-se com quem tirou gráu 9 em Calculo, 10 em Mecanica, 8
-em Astronomia, 10 em Hydraulica, 9 em Descriptiva? Então?!
-</p>
-
-<p>
-E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma
-que já se julgava fuzilado.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas, Sr. Coronel...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda
-ordem.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fôra seu proposito duvidar da
-sabedoria do seu director. Elle não tinha nenhuma pretenção a sabio e
-pronunciara a phrase para começar a desculpa; mas, quando viu aquella
-enxurrada de saber, de titulos, a sobrenadar em aguas tão furiosas,
-perdeu o fio do pensamento, a fala, as idéas e nada mais sôbe nem
-pôde dizer.
-</p>
-
-<p>
-Sahiu abatido, como um criminoso, do gabinete do Coronel, que não
-deixava de olhal-o furiosamente, indignadamente, ferozmente, como quem
-foi ferido em todas as fibras do seu ser. Sahiu afinal. Chegando á sala
-do trabalho nada disse; pegou no chapéo, na bengala e atirou-se pela
-porta afóra, cambaleando como um bebedo. Deu umas voltas, foi ao
-livreiro buscar uns livros. Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo
-Coração dos Outros.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Cedo, hein Major?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É verdade.
-</p>
-
-<p>
-E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. Ricardo
-avançou algumas palavras:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Major, hoje, parece que tem uma idéa, um pensamento muito forte.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Tenho, filho, não de hoje, mas de ha muito tempo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É bom pensar, sonhar consola.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Consola, talvez; mas faz-nos tambem differentes dos outros, cava
-abysmos entre os homens...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E os dous separaram-se. O Major tomou o bonde e Ricardo desceu
-descuidado a rua do Ouvidor, com o seu passo acanhado e as calças
-dobradas nas canellas, sobraçando o violão na sua armadura de
-camurça.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap05"></a></h4>
-
-<h4>V
-<br /><br />
-O BIBELOT</h4>
-
-<p>
-Não era a primeira vez que ella vinha ali. Mais de uma dezena já
-subira aquella larga escada de pedra, com grupos de marmores de Lisboa
-de um lado e do outro, a Caridade e N. S. da Piedade; penetrara por
-aquelle portico de columnas doricas, atravessara o atrio ladrilhado,
-deixando á esquerda e á direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o
-angustioso mysterio da loucura; subira outra escada encerada
-cuidadosamente e fôra ter com o padrinho lá em cima, triste e
-absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia ás vezes, aos
-domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando
-Quaresma. Ha quanto tempo estava elle ali? Ella não se lembrava ao
-certo; uns tres ou quatro mezes, se tanto.
-</p>
-
-<p>
-Só o nome da casa mettia medo. O Hospicio! É assim como uma sepultura
-em vida, um semi-enterramento, enterramento do espirito, da razão
-conductora, de cuja ausencia os corpos raramente se resentem, A saude
-não depende della e ha muitos que parecem até adquirir mais força de
-vida, prolongar a existencia, quando ella se evola não se sabe por que
-orificio do corpo e para onde.
-</p>
-
-<p>
-Com que terror, uma especie de pavor de cousa sobrenatural, espanto de
-inimigo invisivel e omnipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao
-estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte, diziam.
-</p>
-
-<p>
-No primeiro aspecto, não se comprehendia bem esse pasmo, esse espanto,
-esse terror do povo por aquella casa immensa, severa e grave, meio
-hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janellas gradeadas, a
-se extender por uns centos de metros, em face do mar immenso e verde,
-lá na entrada da bahia, na praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns
-homens calmos, pensativos, meditabundos, como monges em recolhimento e
-prece.
-</p>
-
-<p>
-De resto, com aquella entrada silenciosa! clara e respeitavel, perdia-se
-logo a idéa popular da loucura; o escarcéo, os trejeitos, as furias, o
-entrechoque de tolices ditas aqui e ali.
-</p>
-
-<p>
-Não havia nada disso; era uma calma, um silencio, uma ordem
-perfeitamente naturaes. No fim, porém, quando se examinavam bem, na
-sala das visitas, aquellas faces transtornadas, aquelles ares
-aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheiados e
-mergulhados em um sonho intimo sem fim, e via-se tambem a excitação de
-uns, mais viva em face á atonia de outros, é que se sentia o horror da
-loucura, o angustioso mysterio que encerra, feito não sei de que
-inexplicavel fuga do espirito daquillo que se suppõe o real, para se
-apossar e viver das apparencias das cousas ou de outras apparencias das
-mesmas.
-</p>
-
-<p>
-Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifravel da nossa propria
-natureza, fica amedrontado, sentindo que o germen daquillo está
-depositado em nós e que por qualquer cousa elle nos invade, nos toma,
-nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora comprehensão inversa e
-absurda, de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o
-seu mundo e para ele não ha mais semelhantes: o que foi antes da
-loucura é outro muito outro do que elle vem a ser após.
-</p>
-
-<p>
-E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quasi nunca
-acaba. Com o seu padrinho, como fôra? A principio, aquelle
-requerimento... Mas que era aquillo? Um capricho, uma fantasia, cousa
-sem importancia, uma idéa de velho sem consequencia. Depois, aquelle
-officio? Não tinha importancia, uma simples distracção, cousa que
-acontece a cada passo... E emfim? A loucura declarada, a tôrva e
-ironica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos
-rebaixa... Emfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de
-não sahir, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os
-amigos, os melhores. Como fôra doloroso aquillo? A primeira phase do
-seu delirio, aquella agitação desordenada, aquelle falar sem nexo, sem
-accordo com que se realizava fóra delle e com os actos passados, um
-falar que não se sabia donde vinha, donde sahia, de que ponto do seu
-ser tomava nascimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu
-um cataclysma, que o fazia tremer todo, desde os pés á cabeça, e
-enchia-o de indifferença para tudo mais que não fosse o seu proprio
-delirio.
-</p>
-
-<p>
-A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam á matroca.
-Para elle, nada disso valia, nada disso tinha existencia e importancia.
-Eram sombras, apparencias; o real eram os inimigos, os inimigos
-terriveis cujos nomes o seu delirio não chegava a criar. A velha
-irmã, atarantada, atordoada, sem direcção, sem saber que alvitre
-tomar. Educada em casa sempre com um homem ao lado, o pai, depois o
-irmão, ella não sabia lidar com o mundo, com negocios, com as
-autoridades e pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiencia e
-ternura de irmã, oscillava entre a crença de que aquillo fosse verdade
-e a suspeita do que fosse loucura pura e simples.
-</p>
-
-<p>
-Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se
-interessava, chamando a si interesses da familia e evitando a demissão
-de que estava ameaçado, transformando-a em aposentadoria, que seria
-delle? Como é facil na vida tudo ruir! Aquelle homem pautado, regrado,
-honesto, com emprego seguro, tinha uma apparencia inabalavel;
-entretanto bastou um grãosinho de sandice...
-</p>
-
-<p>
-Estava ha uns mezes no Hospicio, o seu padrinho, e a irmã não o podia
-visitar. Era tal o seu abalo de nervos, era tal a emoção ao vel-o ali
-naquella meia-prisão, decaindo delle mesmo que um ataque se seguia e
-não podia ser evitado.
-</p>
-
-<p>
-Vinham ella e o pai, ás vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram
-só os tres a visital-o.
-</p>
-
-<p>
-Aquelle domingo estava particularmente lindo, principalmente em
-Botafogo, nas proximidades do mar e das montanhas altas que se
-recortavam num céo de seda. O ar era macio e docemente o sol faiscava
-nas calçadas.
-</p>
-
-<p>
-O pai vinha lendo os jornaes e ella, pensando, de quando em quando
-folheando as revistas illustradas que trazia para alegrar e distrahir o
-padrinho.
-</p>
-
-<p>
-Elle estava como pensionista; mas, embora assim, no começo, ella teve
-um certo pudor em se misturar com os visitantes.
-</p>
-
-<p>
-Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar miserias;
-recalcou porém, dentro de si esse pensamento egoista, o seu orgulho de
-classe, e agora entrava naturalmente, pondo em mais destaque a sua
-elegancia natural. Amava esses sacrificios, essas abnegações, tinha o
-sentimento da grandeza delles, e ficou contente comsigo mesma.
-</p>
-
-<p>
-No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no
-portão do manicomio. Como em todas as portas dos nossos infernos
-sociaes, havia de toda a gente, de varias condições, nascimentos e
-fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a
-molestia passam tambem a sua razoura pelas distincções que inventamos.
-</p>
-
-<p>
-Os bem vestidos e os mal vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e
-os bonitos, os intelligentes e os nescios, entravam com respeito, com
-concentração, com uma ponta de pavor nos olhos como se penetrassem
-noutro mundo.
-</p>
-
-<p>
-Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam; eram guloseimas,
-fumo, meias, chinellas, ás vezes livros e jornaes. Dos doentes uns
-conversavam com os parentes; outros mantinham-se calados, num mutismo
-feroz e inexplicavel; outros indifferentes; e era tal a variedade de
-aspectos dessas recepções que se chegava a esquecer o imperio da
-doença sobre todos aquelles infelizes, tanto ella variava neste ou
-naquelle, para se pensar em caprichos pessoaes, em dictames das vontades
-livres de cada um.
-</p>
-
-<p>
-E ella pensava como esta nossa vida é variada e diversa, como ella é
-mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como na variedade da
-vida a tristeza póde mais variar que a alegria c como que dá o proprio
-movimento da vida.
-</p>
-
-<p>
-Verificando isso, quasi teve satisfação, pois a sua natureza
-intelligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu
-espirito fazia.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delirio parecia querer
-desapparecer completamente. Chocando-se com aquelle meio, houve logo
-nelle uma reacção salutar e necessaria. Estava doido, pois se o punham
-ali...
-</p>
-
-<p>
-Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de
-satisfação por baixo do bigode já grisalho. Tinha emmagrecido um
-pouco, os cabellos pretos estavam um pouco brancos, mas o aspecto geral
-era o mesmo. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar,
-mas quando a mania lhe tomava ficava um tanto secco e desconfiado. Ao
-vel-os disse amavelmente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então vieram sempre... Estava a espera...
-</p>
-
-<p>
-Cumprimentaram-se e elle deu mesmo um largo abraço na afilhada.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como está Adelaide?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem. Mandou lembranças e não veiu porque... adiantou Coleoni.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Coitada! disse elle, e pendeu a cabeça como se quizesse afastar uma
-recordação triste; em seguida, perguntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E o Ricardo?
-</p>
-
-<p>
-A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e
-alegria. Via-o já escapo á semi-sepultura da insania.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Está bom, padrinho. Procurou papai ha dias e disse que a sua
-aposentadoria já está quasi acabada.
-</p>
-
-<p>
-Coleoni tinha-se sentado. Quaresma tambem e a moça estava de pé, para
-melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no
-encarar. Guardas, internos e medicos passavam pelas portas com a
-indifferença profissional. Os visitantes, não se olhavam, pareciam que
-não queriam conhecer-se na rua. Lá fóra, era o dia lindo, os ares
-macios, o mar infinito e melancolico, as montanhas a se recortar num
-céo de seda&mdash;a belleza da natureza imponente e indecifravel. Coleoni,
-embora mais assiduo nas visitas, notava as melhoras do compadre com
-satisfação que errava na sua physionomia, num ligeiro sorriso. Num
-dado momento aventurou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Major já está muito melhor; quer sahir?
-</p>
-
-<p>
-Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e
-vagarosamente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incommodar-te tanto,
-mas vocês que têm sido tão bons, hão de levar tudo isso para conta
-da propria bondade. Quem tem inimigos deve ter tambem bons amigos...
-</p>
-
-<p>
-O pai e a filha entreolharam-se; o Major levantou a cabeça e parecia
-que as lagrimas queriam rebentar. A moça interveio de prompto:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sabe, padrinho, vou casar-me.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós vínhamos
-prevenil-o.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem é teu noivo? perguntou Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É um rapaz...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo, interrompeu o padrinho sorrindo.
-</p>
-
-<p>
-E os dous acompanharam-n'o com familiaridade e contentamento. Era um bom
-signal.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É o Sr. Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho? fez
-Olga gentilmente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então é para depois do fim do anno.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Esperamos que seja por ahi, disse o italiano.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Gostas muito delle? indagou o padrinho.
-</p>
-
-<p>
-Ella não sabia responder aquella pergunta. Queria sentir que gostava,
-mas estava que não. E porque casava? Não sabia... Um impulso do seu
-meio, uma cousa que não vinha della&mdash;não sabia... Gostava de outro?
-Tambem não. Todos os rapazes que ella conhecia, não possuiam relevo
-que a ferisse, não tinham o <i>que</i>, ainda indeterminado na sua emoção
-e na sua intelligencia, que a fascinasse ou subjugasse. Ella não sabia
-bem o que era, não chegava a extremar na percepção das suas
-inclinações a qualidade que ella queria ver dominante no homem. Era o
-heroico, era o fóra do commum, era a força de projecção para as
-grandes cousas; mas nessa confusão mental dos nossos primeiros annos,
-quando as idéas e os desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não
-podia colher e registrar esse anhelo, esse modo de se representar e de
-amar o individuo masculino.
-</p>
-
-<p>
-E tinha razão em se casar sem obedecer á sua concepção. É tão
-difficil ver nitidamente num homem, de 20 a 30 annos, o que ella sonhara
-que era bem possivel tomasse a nuvem por Juno... Casava por habito de
-sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e
-aguçar a sensibilidade. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu
-sem convicção ao padrinho:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Gosto.
-</p>
-
-<p>
-A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rapida,
-não convinha fatigar a attenção do convalescente. Os dous sahiram sem
-esconder que iam esperançados e satisfeitos.
-</p>
-
-<p>
-Na porta ja havia alguns visitantes á espera do bonde. Como não
-estivesse o vehiculo no ponto, foram indo ao longo da fachada do
-manicomio até lá. Em meio do caminho, encontraram, encostada ao
-gradil, uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ella:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que tem, minha velha?
-</p>
-
-<p>
-A pobre mulher deitou sobre elle um demorado olhar, humido e doce, cheio
-de uma irremediavel tristeza, e respondeu:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ah! meu sinhô!... É triste... Um filho, tão bom, coitado!
-</p>
-
-<p>
-E continuou a chorar. Coleoni começou a commover-se; a filha olhou-a
-com interesse e perguntou no fim de um instante:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Morreu?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Antes fosse sinhasinha.
-</p>
-
-<p>
-E por entre lagrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais,
-não lhe respondia ás perguntas; era como um extranho. Enxugou as
-lagrimas e concluiu:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Foi cousa feita.</i>
-</p>
-
-<p>
-Os dous afastaram-se tristes, levando n'alma um pouco daquella humilde
-dôr.
-</p>
-
-<p>
-O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a
-face do mar em pequenas ondas brancas. O Pão de Assucar erguia-se
-negro, hirto, solemne, das ondas espumejantes, e como que punha uma
-sombra no dia muito claro.
-</p>
-
-<p>
-No Instituto dos Cégos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada
-do instrumento parecia sahir daquellas cousas todas, da sua tristeza e
-da sua solemnidade.
-</p>
-
-<p>
-O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no largo da Carioca.
-É bom ver-se a cidade nos dias de descanço, com as suas lojas
-fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os passos resoam como em
-claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto, faltam-lhes as
-carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e
-gente. Na porta de uma loja ou outra, os filhos do negociante brincam em
-velocipedes, atiram bolas e ainda mais se sente a differença da cidade
-do dia anterior.
-</p>
-
-<p>
-Não havia ainda o habito de procurar os arrabaldes pittorescos e só
-encontravam, por vezes, casaes que iam apressadamente a visitas, como
-elles agora. O largo de S. Francisco estava silencioso e a estatua, no
-centro daquelle pequeno jardim que desappareceu, parecia um simples
-enfeite. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos
-passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse á casa de
-Quaresma. Lá foram. A tarde se approximava e as <i>toilettes</i>
-domingueiras já appareciam nas janellas. Pretos com roupas claras e
-grandes charutos ou cigarros; grupos de caixeiros com flores
-estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas
-anti-deluvianas ao lado de vestidos pesados de setim negro, envergados
-em corpos fartos de matronas sedentarias; e o domingo apparecia assim
-decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a
-ostentação dos tolos.
-</p>
-
-<p>
-D. Adelaide não estava só. Ricardo viera visital-a e conversavam.
-Quando o compadre de seu irmão bateu no portão, elle contava á velha
-senhora o seu ultimo triumpho:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sei como ha de ser, D. Adelaide. Eu não guardo as minhas
-musicas, não escrevo&mdash;é um inferno!
-</p>
-
-<p>
-O caso era de pôr um autor em maus lençóes. O Sr. Paysandon, de
-Cordova (Republica Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade,
-lhe tinha escripto, pedindo exemplares de suas musicas e canções.
-Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escriptos, mas a musica
-não. É verdade que as sabia de cór, porém, escrevel-as de uma hora
-para outra era trabalho acima de sua força.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É o diabo! continuou elle. Não é por mim; a questão é que se
-perde uma occasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro.
-</p>
-
-<p>
-A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A
-sua educação que se fizera, vendo semelhante instrumento entregue a
-escravos ou gente parecida, não podia admittir que elle preoccupasse a
-attenção de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, supportava
-a mania de Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima
-pelo famoso trovador dos suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela
-dedicação com que elle se houve no seu drama familiar. Os pequenos
-serviços e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo
-de Ricardo, que os desempenhara com boa vontade e diligencia.
-</p>
-
-<p>
-Actualmente era elle o encarregado de tratar da aposentadoria do seu
-antigo discipulo. É um trabalho arduo, esse de liquidar uma
-aposentadoria, como se diz na gyria burocratica. Aposentado o sujeito,
-solemnemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e
-funccionarios para ser ultimada. Nada ha mais grave do que a gravidade
-com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o calculo; e a cousa
-demora um mez, mais até, como se tratasse de mecanica celeste.
-</p>
-
-<p>
-Coleoni era o procurador do Major, mas não sendo entendido em cousas
-officiaes, entregou ao Coração dos Outros aquella parte do seu
-mandato.
-</p>
-
-<p>
-Graças á popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a
-resistencia da machina burocratica e a liquidação estava annunciada
-para breve.
-</p>
-
-<p>
-Foi isso que elle annunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da
-filha. Pediram, tanto elle como D. Adelaide, noticias do amigo e do
-irmão.
-</p>
-
-<p>
-A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise não o ficou
-comprehendendo melhor; mas a sentira profundamente com o sentimento
-simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo Coração dos Outros gostava do Major, encontrara nelle certo
-apoio moral e intellectual de que precisava. Os outros gostavam de ouvir
-o seu canto, apreciavam como simples dilletantes: mas o Major era o
-unico que ia ao fundo da sua tentativa e comprehendia o alcance
-patriotico do sua obra.
-</p>
-
-<p>
-De resto, elle agora soffria particularmente&mdash;soffria na sua gloria,
-producto de um lenço e seguido trabalho de annos. É que apparecera um
-creoulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era
-citado ao lado do seu.
-</p>
-
-<p>
-Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser
-preto; e segundo: por causa das suas theorias.
-</p>
-
-<p>
-Não é que elle tivesse ogeriza particular aos pretos. O que elle via
-no facto de haver um preto famoso tocar violão, era que tal cousa ia
-diminuir ainda mais o prestigio do instrumento. Se o seu rival tocasse
-piano e por isso ficasse celebre, não havia mal algum; ao contrario: o
-talento do rapaz levantava a sua pessoa, por intermedio do instrumento
-considerado; mas, tocando violão, era o inverso: o preconceito que lhe
-cercava a pessoa, desmoralisava o mysterioso violão que elle tanto
-estimava. E além disso com aquellas theorias! Ora! querer que a modinha
-diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice!
-</p>
-
-<p>
-E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim
-diante delle como um obstaculo imprevisto na subida maravilhosa para a
-sua gloria. Precisava afastal-o, esmagal-o, mostrar a sua superioridade
-indiscutivel; mas como?
-</p>
-
-<p>
-A <i>reclame</i> já não bastava; o rival a empregava tambem. Se elle
-tivesse um homem notavel, um grande literato, que escrevesse um artigo
-sobre elle e a sua obra, a victoria estava certa. Era difficil
-encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão
-absorvidos em cousas francezas... Pensou num jornal, «O Violão», em
-que elle desafiasse o rival e o esmagasse numa polemica.
-</p>
-
-<p>
-Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma,
-actualmente recolhido ao Hospicio, mas felizmente em via de cura. A sua
-alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não pude ir hoje, disse elle, mas irei domingo. Está mais gordo?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pouca cousa, disse a moça.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Conversou bem, accrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube
-que Olga ia casar-se.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vai casar-se, D. Olga? Parabens.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Obrigada, fez ella.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quando é Olga? perguntou D. Adelaide.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Lá para o fim do anno... Tem tempo...
-</p>
-
-<p>
-E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações
-sobre o casamento.
-</p>
-
-<p>
-E ella se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as
-considerações, impudentes e irritantes; queria fugir á conversa, mas
-voltavam ao mesmo assumpto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide, mais
-loquaz e curiosa que commumente. Esse supplicio que se repetia em todas
-as visitas, quasi a fazia arrepender-se de ter acceitado o pedido. Por
-fim achou um subterfugio, perguntando:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como vai o General?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Elle deve andar bem,
-a Ismenia é que anda triste, desolada coitadinha!
-</p>
-
-<p>
-D. Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha
-do General. Cavalcanti, aquelle Jacob de cinco annos, embarcara para o
-interior, ha tres ou quatro mezes e não mandara nem uma carta nem um
-cartão. A menina tinha aquillo como um rompimento; e ella, tão incapaz
-de um sentimento mais profundo, de uma applicação mais seria de
-energia mental e physica, sentia-o muito, como cousa irremediavel que
-absorvia toda a sua attenção.
-</p>
-
-<p>
-Para Ismenia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado
-de existir. Arranjar outro era problema insoluvel, era trabalho acima de
-suas forças. Cousa difficil! Namorar, escrever cartinhas, fazer acenos,
-dançar, ir a passeios&mdash;ella não podia mais com isso. Decididamente,
-estava condemnada a não se casar, a ser tia, a supportar durante toda a
-existencia esse estado de solteira que a apavorava. Quasi não se
-lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz
-duro e fortemente osseo; independente da memoria delle, vinha-lhe sempre
-á consciencia, quando, de manhã, o estafeta não lhe entregava carta,
-essa outra idéa: não casar. Era um castigo... A Quinota ia casar-se, o
-Genelicio já estava tratando dos papeis; e ella que esperam tanto, e
-fôra a primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada diante de
-todas. Parecia até que ambos estavam contentes com aquella fuga
-inexplicavel de Cavalcanti. Como elles se riam durante o Carnaval! Como
-elles atiraram aos seus olhos aquella sua viuvez prematura, durante os
-folguedos carnavalescos! Punham tanta furia no jogo de confetes e
-bisnagas, de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos, aquella
-marcha gloriosa e invejava para o casamento, em face do seu abandono.
-</p>
-
-<p>
-Ella disfarçava bem a impressão da alegria delles que lhe parecia
-indecente e hostil; mas o escarneo da irmã que lhe dizia
-constantemente: «Brinca, Ismenia! Elle está longe, vai
-aproveitando»&mdash;metia-lhe raiva, a raiva terrivel de gente fraca, que
-corróe interiormente, por não poder arrebentar de qualquer forma.
-</p>
-
-<p>
-Então, para espantar os máus pensamentos, ella se punha a olhar o
-aspecto pueril da rua, marchetada de papeluchos multicores, e as
-serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem á sua
-natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquelle ruido de
-atabaques, e adufes, de tambores e pratos. Mergulhando nessa barulheira,
-o seu pensamento repousava e como que a idéa que a perseguia desde
-tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça.
-</p>
-
-<p>
-De resto, aquelles vestuarios extravagantes de indios, aquelles adornos
-de uma mythologia francamente selvagem, jacarés, cobras, jabotys,
-vivos, bem vivos, traziam á pobreza de sua imaginação imagens
-risonhas de rios claros, florestas immensas, logares de socego e pureza
-que a reconfortavam.
-</p>
-
-<p>
-Tambem aquellas cantigas gritadas, berradas, num rytmo duro e de uma
-grande indigencia melodica, vinham como reprimir a magua que ia nella,
-abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão de gritos, mas
-para o que não lhe sobrava força bastante e sufficiente.
-</p>
-
-<p>
-O noivo partira um mez antes do Carnaval e depois do grande festejo
-carioca a sua tortura foi maior. Sem habito de leitura e de conversa,
-sem actividade domestica qualquer, ella passava os dias deitada,
-sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe
-doce chorar.
-</p>
-
-<p>
-Nas horas da entrega da correspondencia, tinha ainda uma alegre
-esperança. Talvez? Mas a carta não vinha, e, voltava ao seu
-pensamento: não casar.
-</p>
-
-<p>
-D. Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismenia, commentou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Merecia um castigo isso, não acham?
-</p>
-
-<p>
-Coleoni interveio com brandura e boa vontade.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não ha razão para desesperar. Ha muita gente que tem preguiça de
-escrever...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual! fez D. Adelaide. Ha tres mezes, sr. Vicente!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não volta, disse Ricardo sentenciosamente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E ella ainda o espera, D. ADelaide? perguntou Olga.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sei, minha filha. Ninguem entende essa moça. Fala pouco, se fala
-diz meias-palavras... É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem
-nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não fala.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É orgulho? perguntou ainda Olga.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, não... Se fosse orgulho, ella não se referia de vez em quando
-ao noivo. É antes molleza, preguiça... Parece que ella tem medo de
-falar para que as cousas não venham acontecer.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E os paes que dizem a isso? indagou Coleoni.
-</p>
-
-<p>
-Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incommodo do General não é
-grande e D. Maricota julga que ella deve arranjar <i>outro</i>.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Era o melhor, disse Ricardo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu creio que ella não tem mais pratica, disse sorrindo D. Adelaide.
-Levou tanto tempo noiva...
-</p>
-
-<p>
-E a conversa já tinha virado para outros assumptos, quando a Ismenia
-veiu fazer a sua visita diaria á irmã de Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-Cumprimentou todos e todos sentiram que ella penava. O soffrimento
-dava-lhe mais actividade á physionomia.
-</p>
-
-<p>
-As palpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham
-mais brilho e expansão. Indagou da saude de Quaresma e depois
-calaram-se um instante. Por fim D. Adelaide lhe perguntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Recebeste carta, Ismenia?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ainda não, respondeu ella com grande economia de voz.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num <i>dunkerque</i>, veiu
-atirar ao chão uma figurinha de <i>biscuit</i>, que se esphacelou em
-innumeros fragmentos, quasi sem ruido.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="Segunda">SEGUNDA PARTE</a></h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap01_2"></a></h4>
-
-<h4>I
-<br /><br />
-NO «SOCEGO»</h4>
-
-<p>
-Não era feio o logar, mas não era bello. Tinha, entretanto, o aspecto
-tranquillo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte.
-</p>
-
-<p>
-A casa erguia-se sobre um socalco, uma especie de degrau, formando a
-subida para, a maior altura de uma pequena collina que lhe corria nos
-fundos. Em frente, por entre os bambús da cerca, olhava uma planicie a
-morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regalo de aguas paradas e
-sujas cortava-a parallemente á testada da casa; mais adeante, o trem
-passava vincando a planicie com a fita clara de sua linha capinada; um
-carreiro, com casas, de um e do outro lado, sahia da esquerda e ia ter
-á estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A
-habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte, olhando para o
-levante, a <i>noruega</i>, e era tambem risonha e graciosa nos seus muros
-caiados. Edificada com a desoladora indigencia architectonica das nossas
-casas de campo, possuia, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com
-janella, e uma varanda com uma columnata heterodoxa. Além desta
-principal, o sitio do «Socego», como se chamava, tinha outras
-construcções: a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto
-e a roda desmontada, e uma estrebaria coberta de sapê.
-</p>
-
-<p>
-Não havia tres mezes que viera habitar aquella casa, naquelle ermo
-logar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro, após ter passado seis
-mezes no Hospicio da praia das Saudades. Sahira curado? Quem sabe lá?
-Parecia: não delirava e os seus gestos e propositos eram do homem
-commum embora, sob tal apparencia, se pudesse sempre crer que não se
-lhe despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que
-cevara durante tantos annos. Foram mais seis mezes de repouzo e util
-sequestração que mesmo de uso de uma therapeutica psychiatrica.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma viveu lá, no manicomio, resignadamente, conversando com os
-seus companheiros, onde via ricos que se diziam pobres, pobres que se
-queriam ricos, sabios a mal dizer da sabedoria, ignorantes a se
-proclamarem sabios; mas, delles todos, daquelle que mais se admirou,
-foi de um velho e placido negociante da rua dos Pescadores que se
-suppunha Attila. Eu, dizia o pacato velho, sou Attila, sabe? Sou Attila.
-Tinha fracas noticias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou
-Attila, matei muita gente&mdash;e era só.
-</p>
-
-<p>
-Sahiu o Major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as
-cousas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais
-depressora e pungente.
-</p>
-
-<p>
-Aquella continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo
-imperceptivel, mas profundo e quasi sempre insondavel, que a inutiliza
-inteiramente, faz pensar em alguma cousa mais forte que nós, que nos
-guia, que nos impelle e em cujas mãos somos simples joguetes. Em varios
-tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão
-nisso no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco
-desarrazoar, pensamos logo que já não é elle quem fala, é alguém,
-alguém que vê por elle, interpreta as cousas por elle, está atraz
-delle, invisivel!...
-</p>
-
-<p>
-Quaresma sahiu envolvido, penetrado da tristeza do manicomio. Voltou á
-sua casa, mas a vista das suas cousas familiares não lhe tirou a forte
-impressão de que vinha impregnado. Embora nunca tivesse sido alegre, a
-sua physionomia apresentara mais desgosto que antes, muito abatimento
-moral, e foi para levantar o animo que se recolheu áquella risonha casa
-de roça, onde se dedicava a modestas culturas.
-</p>
-
-<p>
-Não fora elle, porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe
-á idéa aquelle doce acabar para a sua vida. Vendo-o naquelle estado de
-abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sahir, enclausurado em sua
-casa de São Cristovam, Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e
-filialmente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O padrinho porque não compra um sitio? Seria tão bom fazer as suas
-culturas, ter o seu pomar, a sua horta... não acha?
-</p>
-
-<p>
-Tão taciturno que elle estivesse, não pôde deixar de modificar
-immediatamente a sua physionomia á lembrança da moça. Era um velho
-desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna; e
-foi lembrando dos seus antigos projectos que respondeu á afilhada:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É verdade, minha filha. Que magnifica idéa, tens tu! Ha por ahi
-tantas terras ferteis sem emprego... A nossa terra tem os terrenos mais
-ferteis do mundo... O milho póde dar até duas colheitas e quatrocentos
-por um...
-</p>
-
-<p>
-A moça esteve quasi arrependida da sua lembrança. Pareceu-lhe que ia
-atêar no espirito do padrinho manias já extinctas.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Em toda a parte&mdash;não acha, meu padrinho?&mdash;ha terras
-ferteis.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas como no Brasil, apressou-se elle em dizer, ha poucos paizes que
-as tenham. Vou fazer o que tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o
-feijão, a batata ingleza... Tu irás ver as minhas culturas, a minha
-horta, o meu pomar&mdash;então é que te convencerás como são fecundas as
-nossas terras!
-</p>
-
-<p>
-A idéa cahiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado
-e só estirava uma bôa semente. Não lhe voltou a alegria que jamais
-teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento moral, e veiu-lhe a
-actividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos. Indagou
-dos preços correntes das fructas, dos legumes, das batatas, dos aipins;
-calculou que cincoenta laranjeiras, trinta abacateiras, oitenta
-pecegueiros, outras arvores fruticferas, além dos abacaxis (que mina!)
-das aboboras e outros productos menos importantes, podiam dar o
-rendimento annual de mais de quatro contos, tirando as despezas. Seria
-ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus calculos, baseados em tudo
-no que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura
-Nacional. Levou em linha de conta a producção média de cada pé de
-fructeira, de hectare cultivado, e tambem os salarios, as perdia
-inevitaveis; e, quanto aos preços, elle foi em pessoa no mercado
-buscal-os.
-</p>
-
-<p>
-Planejou a sua vida agricola com a exactidão e meticulosidade que punha
-em todos os seus projectos. Encarou-a por todas as faces, pezou as
-vantagens e onus; e muito contente ficou em vel-a monetariamente
-attrahente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso
-mais uma demonstração das excellencias do Brasil.
-</p>
-
-<p>
-E foi obedecendo a essa ordem de idéas que comprou aquelle sitio, cujo
-nome&mdash;«Socego»&mdash;cabia tão bem á nova vida que adoptara, após a
-tempestade que o sacudira durante quasi um anno. Não ficava longe do
-Rio e elle o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado, para melhor
-demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho, no trabalho
-agricola. Esperava grandes colheitas de fructas, de grãos, de legumes;
-e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores, estando em breve a
-grande capital cercada de um verdadeiro celleiro, virente e abundante a
-dispensar os argentinos e europeus.
-</p>
-
-<p>
-Com que alegria elle foi para lá! Quasi não teve saudades de sua velha
-casa de S. Januario, agora propriedade de outras mãos, talvez destinada
-ao mercenario mister de lar de aluguel... Não sentiu que aquella vasta
-sala, abrigo calmo dos seus livros durante tantos annos, fosse servir
-para salão de baile futil, fosse testemunhar talvez rixas de casaes
-desentendidos, odios de familia&mdash;ella tão boa, tão doce, tão
-sympathica, com o seu tecto alto e as suas paredes lisas, em que se
-tinham encrustado os desejos de sua alma e toda ella penetrada da
-exhalação dos seus sonhos!...
-</p>
-
-<p>
-Elle foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro
-contos de réis por anno, tirados da terra, facilmente, docemente,
-alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser
-empregado publico, apodrecer numa banca, soffrer na sua independencia e
-no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem
-ar, sem luz, respirar um ambiente epidemico, sustentar-se de maus
-alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta,
-livre, alegre e saudavel?
-</p>
-
-<p>
-E era agora que elle chegava a essa conclusão, depois de ter soffrido a
-miseria da cidade e o emasculamento da repartição publica, durante
-tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto de que não pudesse antes
-da morte travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade
-das terras brasileiras. Então pensou que foram vãos aquelles seus
-desejos de reformas capitaes nas instituições e costumes: o que era
-principal á grandeza da patria estremecida, era uma forte base
-agricola, um culto pelo seu solo uberrimo, para alicerçar fortemente
-todos os outros destinos que ella tinha de preencher.
-</p>
-
-<p>
-Demais, com terras tão ferteis, climas variados, a permittir uma
-agricultura facil e rendosa, este caminho estava naturalmente indicado.
-</p>
-
-<p>
-E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras, em flôr,
-olentes, muito brancas, a se enfileirar pelas encostas das collinas,
-como theorias de noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar
-com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar
-dos caules rijos; os abacaxis coroados que nem reis, recebendo a
-uncção quente do sol; as abobreiras a se arrastarem com flores
-carnudas cheias de pollen; as melancias de um verde tão fixo que
-parecia pintado; os pecegos veludosos, as jacas monstruosas, os jambos,
-as mangas capitosas; e dentre tudo aquillo surgia uma linda mulher, com
-o regaço cheio de fructos e um dos hombros nu, a lhe sorrir agradecida,
-com um imaterial sorriso demorado de deusa&mdash;era Pomona, a deusa dos
-vergeis e dos jardins!...
-</p>
-
-<p>
-As primeiras semanas que passou no «Socego», Quaresma as empregou numa
-exploração em regra da sua nova propriedade. Havia nella terra
-bastante, velhas arvores fructiferas, um capoeirão grosso com camarás,
-bacurubús, tinguacibas, tibibuyas, munjólos, e outros specimens.
-Anastacio que o acompanhara, appelava para as suas recordações de
-antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava os nomes dos individuos
-da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras.
-</p>
-
-<p>
-O Major logo organizou um museu dos productos naturaes do «Socego». As
-especies florestaes e campezinas foram etiquetadas com os seus nomes
-vulgares, e quando era possivel com os scientificos. Os arbustos, em
-herbario e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e
-transversalmente.
-</p>
-
-<p>
-Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as sciencias naturaes e
-o furor auto-didacta dera a Quaresma solidas noções de botanica,
-zoologia, mineralogia e geologia.
-</p>
-
-<p>
-Não foram só os vegetaes que mereceram as honras de um inventario; os
-animaes tambem, mas como elle não tinha espaço sufficiente e a
-conservação dos exemplares exigia mais cuidado, Quaresma limitou-se a
-fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas
-de tatús, cotias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs,
-avinhados, colleiros, tyês, etc. A parte mineral era pobre, argillas,
-arêa e, aqui e ali, uns blocos de granito exfoliando-se.
-</p>
-
-<p>
-Acabado esse inventario, passou duas semanas a organizar a sua
-bibliotheca agricola e uma relação de instrumentos metereologicos para
-auxiliar os trabalhos da lavoura.
-</p>
-
-<p>
-Encommendou livros nacionaes, francezes, portuguezes; comprou
-thermometros, barometros, pluviometros, hygrometros, anemometros. Vieram
-estes e foram arrumados e collocados convenientemente.
-</p>
-
-<p>
-Anastacio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que
-tanta cousa, tanto livro, tanto vidro? Estaria o seu amigo patrão dando
-para pharmaceutico? A duvida do preto velho não durou muito. Estando
-certa vez Quaresma a ler o pluviometro, Anastacio, ao lado, olhava-o
-espantado, como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou
-o espanto do criado, e disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sabes o que estou fazendo, Anastacio?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não <i>sinhô</i>.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Estou vendo se choveu muito.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Para que isso, patrão? A gente sabe logo <i>de olho</i> quando chove
-muito ou pouco... Isso de plantar é capim; pôr a semente na terra, deixar
-crescer e apanhar...
-</p>
-
-<p>
-Elle falava com a sua voz molle de africano, sem <i>rr</i> fortes, com
-lentidão e convicção.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consideração o
-conselho de seu empregado. O capim e o matto cobriam as suas terras. As
-larangeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos, cheios de
-galhos mortos, e cobertos de uma medusina cabelleira de herva de
-passarinho; mas, como não fosse época propria á póda e ao corte dos
-galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras.
-De manhã, logo ao amanhecer, elle mais o Anastacio, lá iam, de enxada
-ao hombro, para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão,
-estava no auge, mas Quaresma era inflexível e corajoso. Lá ia.
-</p>
-
-<p>
-Era de vel-o, coberto com um chapéo de palha de côco, atracado a um
-grande enxadão de cabo nodoso, elle, muito pequeno, myope, a dar golpes
-sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. A sua enxada mais
-parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento agricola.
-Anastacio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto
-andar naquelle sól a capinar sem saber?... Ha cada cousa neste mundo!
-</p>
-
-<p>
-E os dous iam continuando. O velho preto, ligeiro, rapido, raspando o
-matto rasteiro, com a mão habituada, a cujo impulso a enxada resvalava
-sem obstaculo pelo solo, destruindo a herva má; Quaresma, furioso, a
-arrancar torrões de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada
-arbusto; e, ás vezes, quando o golpe falhava e a lamina do instrumento
-roçava a terra, a força era tanta que se erguia uma poeira infernal,
-fazendo suppor que por aquellas paragens passara um pelotão de
-cavallaria. Anastacio, então, intervinha humildemente, mas em tom
-professoral:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não é assim, <i>seu majó</i>. Não se mette a enxada pela terra a
-dentro. É de leve, assim.
-</p>
-
-<p>
-E ensinava ao Cincinato inexperiente o geito de servir-se do velho
-instrumento de trabalho.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma agarrava-o, punha-se em posição e procurava com toda a boa
-vontade usal-o da maneira ensinada. Era em vão. O <i>flange</i> batia na
-herva, a enxada saltava e ouvia-se um passaro ao alto soltar uma piada
-ironica: Bemtevi! O Major enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se,
-suava, enchia-se de raiva e batia com toda a força; e houve varias
-vezes que a enxada, batendo em falso, escapando do chão, fel-o perder o
-equilibrio, cahir, e beijar a terra, mãe dos fructos e dos homens. O
-pince-nez saltava, partia-se de encontro a um seixo.
-</p>
-
-<p>
-O Major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia á
-tarefa que se impuzera; mas, tanto é em nossos musclos firme a memoria
-ancestral desse sagrado trabalho de tirar da terra o sustento de nossa
-vida, que não foi impossivel a Quaresma acordar nos seus o geito, a
-maneira de empregar a enxada vetusta.
-</p>
-
-<p>
-Ao fim de um mez, elle capinava razoavelmente, não seguido, de sol a
-sol, mas com grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta de
-habito requeriam.
-</p>
-
-<p>
-Ás vezes, o fiel Anastacio seguia-o no descanço e ambos, lado a lado,
-á sombra de uma fructeira mais copada, ficavam a ver o ar pesado
-daquelles dias de verão que enrodilhava as folhas das arvores e punha
-nas cousas um forte accento de resignação morbida. Então, ahi por
-depois do meio dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar
-em silencio a vida inteira, é que o velho Major percebia bem a alma
-dos tropicos, feita de desencontros como aquelle que se via agora, de um
-sol alto, claro, olympico a brilhar sobre um torpor de morte, que elle
-mesmo provocava.
-</p>
-
-<p>
-Almoçavam mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente
-sobre um improvisado fogão de calháos, e o trabalho ia assim ate á
-hora do jantar. Havia em Quaresma um enthusiasmo sincero, enthusiasmo de
-ideologo que quer pôr em pratica a sua idéa. Não se agastou com as
-primeiras ingratidões da terra, aquelle seu morbido amor pelas hervas
-damninhas e o incomprehensivel odio pela enxada fecundante. Capinava, e
-capinava sempre até vir jantar.
-</p>
-
-<p>
-Esta refeição elle fazia mais demorada. Conversava um pouco com a
-irmã, contava-lhe a tarefa do dia, consistindo sempre em avaliar a area
-já limpa.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sabes, Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas, não ficará
-nem mais uma touceira de matto.
-</p>
-
-<p>
-A irmã, mais velha que elle, não partilhava aquelle seu enthusiasmo
-pelas cousas da roça. Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com
-elle, não foi senão pelo habito de acompanhal-o. De certo, ella o
-estimava, mas não o comprehendia. Não chegava a entender nem os seus
-gestos nem a sua agitação interna. Porque não seguira elle o caminho
-dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito...
-Andar com livros, annos e annos, para não ser nada, que doideira!
-Scguira-o ao «Socego» e, para entreter-se, criava gallinhas, com
-grande alegria do irmão cultivador.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Está direito, dizia ella, quando o irmão lhe contava as cousas do
-seu trabalho. Não vá ficares doente... Neste sol todo o dia...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual, doente, Adelaide! Não estas vendo como essa gente tem tanta
-saude por ahi... Se adoecem, é porque não trabalham.
-</p>
-
-<p>
-Acabado o jantar. Quaresma chegava á janella que dava para o
-gallinheiro e atirava migalhas de pão ás aves.
-</p>
-
-<p>
-Elle gostava desse espectaculo, daquella luta encarniçada entre patos,
-ganços, gallinhas, pequenos e grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da
-vida e dos premios que ella comporta. Depois, fazia indagações sobre
-a vida do gallinheiro:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Já, nasceram os patos, Adelaide?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ainda não. Faltam oito dias ainda.
-</p>
-
-<p>
-E logo a irmã accrescentava:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Tua afilhada deve casar-se sabbado, tu não vaes?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não. Não posso... Vou encommodar-me, luxo... Mando um leitão e um
-perú.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ora, tu! Que presente!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que é que tem? É da tradição.
-</p>
-
-<p>
-Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala
-de jantar da velha casa roceira, quando Anastacio veiu avisar-lhes que
-se achava um cavalheiro na porteira.
-</p>
-
-<p>
-Desde que ali se installara, nenhuma visita batera á porta de Quaresma,
-a não ser a gente pobre do logar, a pedir isso ou aquillo, esmolando
-disfarçadamente. Elle mesmo não travara conhecimento com ninguem, de
-modo que foi com surpreza que recebeu o aviso do velho preto.
-</p>
-
-<p>
-Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Elle já subia
-a pequena escada da frente e penetrava pela varanda a dentro.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Boas tardes, Major.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Boas tardes. Faça o favor de entrar.
-</p>
-
-<p>
-O desconhecido entrou e sentou-se. Era um typo commum, mas o que havia
-nelle de extranho, era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas
-tinha um aspecto deshonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a
-mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim
-como a de um lagarto que enthezoura enxundia para o inverno ingrato.
-Atravez da gordura de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua
-magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era naquella idade,
-com pouco mais de trinta annos, sem dar tempo que todo elle engordasse;
-porque, se as suas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras
-com longos dedos fusiformes e ageis. O visitante falou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu sou o Tenente Antonino Dutra escrivão da collectoria.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Nenhuma, Major. Já sabemos quem o senhor é; não ha novidade nem
-nenhuma exigencia legal.
-</p>
-
-<p>
-O escrivão tossiu, tirou um cigarro, offereceu outro a Quaresma e
-continuou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sabendo que o Major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de
-vir incommodal-o... Não é cousa de importancia... Creio que o Major...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Oh! Por Deus, Tenente!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Venho pedir-lhe um pequeno auxilio, um obulo, para a festa da
-Conceição, a nossa padroeira, de cuja irmandade sou thesoureiro.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Perfeitamente. É muito justo. Apezar de não ser religioso, estou...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do logar que devemos
-manter.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É justo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a
-irmandade tambem, de forma que somos obrigados a appellar para a boa
-vontade dos moradores mais remediados. Desde já, portanto, Major...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não. Espere um pouco...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Oh! Major, não se incommode. Não é p'ra já.
-</p>
-
-<p>
-Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fóra e
-accrescentou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, Major?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Muito bem.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pretende dedicar-se á agricultura?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sitio já foi uma
-lindeza, Major! Quanta fructa! Quanta farinha! As terras estão
-cançadas e...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que cançadas, seu Antonino! Não ha terras cançadas.... A Europa é
-cultivada ha milhares de annos, entretanto...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas lá se trabalha.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Porque não se ha de trabalhar aqui tambem?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Lá isso é verdade; mas ha tantas contrariedades na nossa terra
-que...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual, meu caro Tenente! Não ha nada que não se vença.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Sr. verá com o tempo, Major. Na nossa terra não se vive senão de
-politica, fóra disso, ba-báo! Agora mesmo anda tudo brigado por causa
-da questão da eleição de deputados...
-</p>
-
-<p>
-Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas palpebras gordas
-um olhar pesquizador sobre a ingenua physionomia de Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que questão é? indagou Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-O Tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então não sabe?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu lhe explico: o candidato do Governo é o Dr. Castrioto, moço
-honesto, bom orador; mas entenderam aqui certos presidentes de Camaras
-Municipaes do Districto que se hão de sobrepor ao Governo, só porque
-o Senador Guaryba rompeu com o Governador: e&mdash;zás&mdash;apresentaram
-um tal Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influencia...
-Que pensa o Senhor?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu... Nada!
-</p>
-
-<p>
-O serventuario do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que,
-sabendo e morando no Municipio de Curuzú, não se incommodasse com a
-briga ao Senador Guaryba com o Governador do Estado! Não era possivel!
-Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse elle consigo, este
-malandro quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem
-difficuldade. Estava tirando sardinha com mão de gato... Aquillo devia
-ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as azas daquelle
-<i>estrangeiro</i>, que vinha não se sabe donde!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Major é um philosopho, disse elle com malicia.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão,
-mas, desanimado de penetrar nas tenções occultas do Major, apagou a
-physionomia e disse em ar de despedida:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então o Major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo.
-</p>
-
-<p>
-Os dous se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vel-o
-montar no seu pequeno castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O
-escrivão afastou-se, desappareceu na estrada, e o Major ficou a pensar
-no interesse extranho que essa gente punha nas lutas politicas, nessas
-tricas eleitoraes, como se nellas houvesse qualquer cousa de vital e
-importante. Não atinara porque uma resinga entre dous figurões
-importantes vinha pôr desharmonia entre tanta gente, cuja vida estava
-tão fóra da esphera daquelles. Não estava ali a terra boa para
-cultivar e criar: Não exigia ella uma ardua luta diaria? Porque não se
-empregava o esforço que se punha naquelles barulhos de votos, de actas,
-no trabalho de fecundal-a, de tirar della seres, vidas&mdash;trabalho igual
-ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e
-guarybas, quando a nossa vida pede tudo à terra e ella quer carinho,
-luta, trabalho e amor...
-</p>
-
-<p>
-O suffrageo universal pareceu-lhe um flagello.
-</p>
-
-<p>
-O trem apitou e elle demorou-se a vel-o chegar. É uma emoção especial
-de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos
-põem em communicação com o resto do mundo. Ha uma mescla de medo e
-de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se tambem
-más. A alternativa angustia...
-</p>
-
-<p>
-O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mysterio, e traz,
-além de noticias geraes, bôas ou más tambem o gosto, um sorriso, a
-voz das pessoas que amamos e estão longe.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma esperou o trem. Elle chegou arfando e se extirando como um
-reptil pela estação afóra á luz forte do sol no poente. Não se
-demorou muito. Apitou de novo e sahiu a levar noticias, amigos,
-riquezas, tristezas por outras estações além. O Major pensou ainda um
-pouco como aquillo era bruto e feio, e como as invenções do nosso
-tempo se afastam tanto da linha imaginaria da belleza que os nossos
-educadores de dous mil annos atrás nos legaram. Olhou a estrada que
-levava á estação. Vinha um sujeito... Dirigia-se para a sua casa...
-Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que
-caminhava com pressa... Quem era? Aquelle chapéo dobrado, como um
-morrião... Aquelle fraque comprido... Passo miudo... Um violão! Era
-elle!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Adelaide está ahi o Ricardo.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap02_2"></a></h4>
-
-<h4>II
-<br /><br />
-ESPINHOS E FLORES</h4>
-
-<p>
-Os suburbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em materia de
-edificação de cidade. A topographia do local, caprichosamente
-montuosa, influiu de certo para tal aspecto, mais influiram, porém, os
-azares das construcções.
-</p>
-
-<p>
-Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser
-imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e,
-conforme as casas, as ruas se fizeram. Ha algumas dellas que começam
-largas como «boulevards» e acabam estreitas que nem viellas; dão
-voltas, circuitos inuteis e parecem fugir ao alinhamento recto com um
-odio tenaz e sagrado.
-</p>
-
-<p>
-Ás vezes se succedem na mesma direcção com uma frequencia irritante,
-outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervallo coheso e
-fechado de casas. Num trecho, ha casas amontoadas umas sobre outras numa
-angustia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao
-nosso olhar uma ampla perspectiva.
-</p>
-
-<p>
-Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento.
-Ha casas de todos os gostos e construidas de todas as formas.
-</p>
-
-<p>
-Vai-se por uma rua a ver um correr de «chalets», de porta e janella,
-parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma
-casa burgueza, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer
-sobre um porão alto com mezzaninos gradeados. Passada essa surpreza,
-olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau a pique, coberta de
-zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante,
-é uma velha casa de roça, com varanda e columnas de estylo pouco
-classificavel, que parece vexada e querer occultar-se, diante daquella
-onda de edificios disparatados e novos.
-</p>
-
-<p>
-Não ha nos nossos suburbios cousa alguma que nos lembre os famosos das
-grandes cidades européas, com as suas villas de ar repousado e
-satisfeito, as suas estradas e ruas macadamisadas e cuidadas, nem mesmo
-se encontram aquelles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados,
-porque os nossos, se os ha, são em geral pobres, feios e desleixados.
-</p>
-
-<p>
-Os cuidados municipaes tambem são variaveis e caprichosos. Ás vezes,
-nas ruas, ha passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de
-communicação são calçadas e outras da mesma importancia estão ainda
-em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre
-um rio secco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma
-pinguella de trilhos mal juntos.
-</p>
-
-<p>
-Ha pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo
-que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; ha operarios de
-tamancos; ha peralvilhos á ultima moda: ha mulheres de chita; e assim
-pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla
-se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quasi sempre o mais bem posto
-não é que entra na melhor casa.
-</p>
-
-<p>
-Alem disto, os suburbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no
-namoro epidemico e no espiritismo endemico; as casas de commodos (quem
-as supporia lá!) constituem um delles bem inedito. Casas que mal dariam
-para uma pequena familia, são divididas, subdivididas, e os minusculos
-aposentos assim obtidos, alugados á população miseravel da cidade.
-Ahi, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos
-observada da nossa vida, sobre a qual a miseria paira com um rigor
-londrino.
-</p>
-
-<p>
-Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da
-gente que habita taes caixinhas. Além dos serventes de repartições,
-continuos de escriptorios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas
-de bilros, compradores de garrafas vasias, castradores de gatos, cães e
-gallos, mandingueiros, catadores de hervas medicinaes, emfim, uma
-variedade de profissões miseraveis que as nossas pequena e grande
-burguezias não podem adivinhar. Ás vezes num cubiculo desses se
-amontoa uma familia, e ha occasiões que os seus chefes vão a pé para
-a cidade por falta da nickel do trem.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de commodos de um
-dos suburbios. Não era das sordidas, mas era uma casa de commodos dos
-suburbios.
-</p>
-
-<p>
-Desde annos que elle a habitava e gostava da casa que ficava trepada
-sobre uma collina, olhando a janella do seu quarto para uma ampla
-extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. Vistos assim do
-alto, os suburbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de
-azul, de branco, de óca, engastadas nas comas verde-negras das
-mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira,
-alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho
-das ruas põe no panorama um sabor do confusão democratica, de
-solidariedade perfeita entre as gentes que as habitam; e o trem
-minusculo, rapido, atravessa tudo aquillo, dobrando d esquerda,
-inclinando-se para a direita, muito flexivel nas suas grandes vertebras
-de carros, como uma cobra entre pedrouços.
-</p>
-
-<p>
-Era daquella janella que Ricardo, espraiava as suas alegrias, as suas
-satisfações, os seus triumphos e tambem os seus soffrimentos e maguas.
-</p>
-
-<p>
-Ainda agora estava elle lá, debruçado no peitoril, com a mão em
-concha no queixo, colhendo com a vista uma grande parte daquella bella,
-grande e original cidade, capital de um grande paiz de que elle a modos
-que era e se sentia ser, a alma, consubstanciando os seus tenues sonhos
-e desejos em versos discutiveis, mas que a plangencia do violão, se
-não lhes dava sentido, dava um que de balbucio, de queixume dorido da
-patria criança ainda, ainda na sua formação...
-</p>
-
-<p>
-Em que pensava elle? Não pensava só, soffria tambem. Aquelle tal preto
-continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma cousa, e
-tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival delle, Ricardo; outros
-já affirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros, e
-alguns mais&mdash;ingratos!&mdash;já esqueciam os trabalhos, o tenaz
-trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em pról do levantamento da modinha
-e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro.
-</p>
-
-<p>
-Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infancia, daquella sua
-aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido
-dos vitellos. E o queijo? Aquelle queijo tão substancial, tão forte,
-feio como aquella terra, mas feraz como ella tanto que bastava comer
-delle uma pequena fatia para se sentir almoçado... E as festas?
-Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o Maneco Borges,
-não lhe predissera o futuro: «Irás longe, Ricardo. A viola quer teu
-coração».
-</p>
-
-<p>
-Por que então aquelle encarniçamento, aquelle odio contra elle&mdash;elle
-que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma, o suco, a
-substancia do paiz!
-</p>
-
-<p>
-E as lagrimas lhe saltaram quentes dos olhos afóra. Olhou um pouco as
-montanhas, farejou o mar lá longe... Era bella a terra, era linda, era
-magestosa, mas parecia ingrata e aspera no seu granito omnipresente que
-se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das arvores.
-</p>
-
-<p>
-E elle estava ali só, só com a sua gloria e o seu tormento, sem amor,
-sem confidente, sem amigo, só como um deus ou como um apostolo em terra
-ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova.
-</p>
-
-<p>
-Soffria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse aquellas
-lagrimas que iam cahir no solo indifferente. Por ahi, lembrou-se dos
-famosos versos: <i>Se choro... bebe o pranto a areia ardente</i>...
-</p>
-
-<p>
-Com a lembrança, elle baixou um pouco o olhar á terra e viu que no
-tanque da casa, um tanto escondida delle, uma rapariga preta lavava.
-Ella abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso,
-ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro á pedra, e recomeçava. Teve
-pena daquella pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua
-côr. Veiu-lhe um afflux de ternura e, depois, poz-se a pensar no mundo,
-nas desgraças, ficando um instante enleiado no enigma do nosso
-miseravel destino humano.
-</p>
-
-<p>
-A rapariga não o viu, distrahida com o trabalho; e se pôz a cantar:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Da doçura dos teus olhos</i></span><br />
-<span class="i2"><i>A brisa inveja já vem</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-Era delle. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquella
-pobre mulher, abraçal-a...
-</p>
-
-<p>
-E como eram as cousas? Elle recebia lenitivo daquella rapariga; era a
-sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe
-então á memoria aquelles versos do padre Caldas, esse seu antecessor
-feliz que teve um auditorio de fidalgas:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Lereno alegrou os outros</i></span><br />
-<span class="i2"><i>E nunca teve alegria</i>...</span>
-</div></div>
-
-<p>
-Enfim era uma missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se
-pôde conter:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vai bem, D. Alice, vai bem! Se não fosse porque eu lhe pedia
-<i>bis</i>.
-</p>
-
-<p>
-A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sabia que o senhor estava ahi, senão não cantava na vista do
-senhor.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual o que! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Deus me livre! Para o senhor me <i>criticar</i>...
-</p>
-
-<p>
-Embora insistisse muito, a rapariga não quiz continuar. As maguas
-pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Veiu ao interior do
-quarto e pôz-se á meza na tenção de escrever.
-</p>
-
-<p>
-O seu quarto tinha o mobiliario mais reduzido possivel. Havia uma rede
-com franjas de rendas, uma mesa de pinho, sobre ella objectos de
-escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a uma parede
-o violão na sua armadura de camurça. Havia tambem uma machina para
-fazer café.
-</p>
-
-<p>
-Sentou-se e quiz começar uma modinha sobre a Gloria, essa cousa fugace,
-que se tem e se pensa que não se tem, alguma cousa impalpavel,
-incolhivel como um sopro, que nos alancêa, queima, inquieta e abraza
-como o Amor.
-</p>
-
-<p>
-Tentou começar, dispoz o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido
-forte, toda a sua natureza tinha sido lavrada, baralhada, com a idéa
-daquelle furto que se queria fazer ao seu merito. Não conseguiu
-assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a musica zumbir
-no ouvido.
-</p>
-
-<p>
-A manhã ia alta. As ciganas defronte chilreavam no tamarineiro
-desfolhado; começava a esquentar e o céo estava de um azul ligeiro,
-tenue, fino. Quiz sahir, procurar um amigo, espairecer com elle, mas
-quem? Ainda, se o Quaresma... Ah! O Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe
-conforto e consolo.
-</p>
-
-<p>
-É verdade que ultimamente esse seu amigo achava-se pouco interessado
-pela modinha; mas assim mesmo comprehendia o seu proposito, os fins e o
-alcance da obra a que elle, Ricardo, se propunha. Ainda se o Major
-estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava
-a dous mil réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria.
-Bateram á porta. Traziam-lhe uma carta. Não reconheceu a letra; rasgou
-o envelope com emoção. Que seria? Leu:
-</p>
-
-<p>
-«Meu caro Ricardo&mdash;Saude&mdash;Minha filha Quinota casa-se depois de
-amanhã, quinta-feira. Ella e o noivo fazem muito gosto que V.
-appareça. Se o amigo não estiver compromettido com alguem, agarre o
-violão e venha até cá tomar uma chavena de chá comnosco&mdash;Seu amigo
-Albernaz».
-</p>
-
-<p>
-O trovador, á proporção que lia, ia mudando de physionomia. Até
-então estava carregada e dura: quando acabou de ler o bilhete, um
-sorriso brincava por toda ella, descia e subia, ia de uma face a outra.
-O General não o abandonara; para o respeitavel milhar, Ricardo
-Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Iria e arranjaria
-passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco o
-violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um
-idolo bemfazejo.
-</p>
-
-<p>
-Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o ultimo brinde
-havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em
-pequenos grupos. D. Maricota vestia seda malva e o seu busto curto
-parecia ainda mais abafado, mais socado, naquelle tecido caro que parece
-requerer corpos elegantes e flexiveis. Quinota estava radiante no
-vestido de noiva. Ella era alta, de feições mais regulares que a irmã
-Ismenia, mas menos interessante e mais commum de temperamento e alma,
-embora faceira. Lalá a terceira filha do General, que já se ageitava a
-moça, tinha muito pó de arroz, estava sempre a concertar o penteado e
-a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado.
-Genelicio dava o braço á noiva, encasacado numa casaca mal talhada,
-que punha bem á mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado
-nos apertados sapatos de verniz.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo não os viu passar, pois ao entrar, a fila estava no General,
-mettido num segundo uniforme dos grandes dias, que lhe ia mal como a
-farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem tinha um ar
-importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o
-Contra-Almirante Caldas. Fôra padrinho e estava irreprehensivel na sua
-casaca do uniforme. As ancoras reluziam como metaes de bordo em hora de
-revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e
-pareciam desejar com ardôr os grandes ventos do vasto oceano sem fim.
-Ismenia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente, com o
-seu vagar, com os seus gestos lentos, dando providencias. O Lulú, o
-unico filho do General, impava no seu uniforme do Collegio Militar,
-cheio de dourados e cabellos, tanto mais que passara de anno, graças
-aos empenhos do pai.
-</p>
-
-<p>
-O General não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o
-trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse
-um&mdash;<i>sou muito feliz</i>...&mdash;deitando a cabeça de lado e
-sorrindo para o chão, sorriso que encheu de immenso transporte a candida
-alma do menestrel.
-</p>
-
-<p>
-Deram começo as dansas e o General, o Almirante, o Major Innocencio
-Bustamante, que tambem viera de uniforme, com a sua banda roxa de
-honorario, o Dr. Florencio, Ricardo e dous convidados outros foram para
-a sala de jantar palestrar um pouco.
-</p>
-
-<p>
-O General estava satisfeito. Sonhava ha tantos annos uma cerimonia
-daquellas em sua casa e emfim pela primeira vez via realizado esse
-anceio.
-</p>
-
-<p>
-A Ismenia foi aquella desgraça... O ingrato?... Mas para que recordar?
-</p>
-
-<p>
-Os cumprimentos se repetiram.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos.
-</p>
-
-<p>
-O General tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e
-emquanto o limpava, respondeu, olhando com aquelle geito dos myopes:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Estou muito contente.
-</p>
-
-<p>
-Por ahi pôz o pince-nez, endireitou o truncelim e continuou:
-</p>
-
-<p>
-Creio que casei bem minha filha: rapaz formado bem encaminhando e
-intelligente.
-</p>
-
-<p>
-O Almirante acudiu:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dous
-annos escripturario do Thezouro, é cousa nunca vista.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Genelicio não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou
-Florencio.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado novo, que
-era da amizade do recem-casado.
-</p>
-
-<p>
-De facto, Genelicio tinha arranjado a transferencia e não fôra só
-isso que o decidira a casar-se. Tendo escripto uma&mdash;«Synthese de
-Contabilidade Publica Scientifica»&mdash;viu-se, sem saber como, cumulado
-de elogios pela <i>imprensa desta capital</i>. O Ministro, attendendo ao
-merito excepcional da obra, mandou-lhe dar dous contos de premio, tendo
-sido a edição feita á custa do Estado, na Imprensa Nacional. Era um grosso
-volume de 400 paginas, typo dôze, escripto em estylo de officio, com
-uma basta documentação de decretos, e portarias, occupando dous
-terços do livro.
-</p>
-
-<p>
-A primeira phrase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente
-synthetico e scientifico, fôra até muito notada e gabada pelos
-criticos, não só pela novidade da idéa, conto tambem pela belleza da
-expressão.
-</p>
-
-<p>
-Dizia assim: «A Contabilidade Publica é a arte ou sciencia de
-escripturar convenientemente a despeza e receita do Estado».
-</p>
-
-<p>
-Além do premio e da transferencia, elle já tinha promessa de ser
-sub-director na primeira vaga.
-</p>
-
-<p>
-Ouvindo tudo isso que tinham dito o Almirante, o General e os convidados
-novos, o Major não pôde deixar de observar:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Depois da militar, a melhor carreira é a de Fazenda, não acham?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sim... Bem entendido, fez o Dr. Florencio.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu não quero falar dos formados, apressou-se o Major. Esses...
-</p>
-
-<p>
-Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando
-a primeira phrase que lhe veiu aos labios:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quando se prospera, todas as profissões são boas.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não é assim tanto, obtemperou o Almirante, alisando um dos
-favoritos. Não é para desfazer nas outras, mas a nossa, hein Albernaz?
-hein Innocencio?
-</p>
-
-<p>
-Albernaz levantou a cabeça como se quizesse apanhar no ar uma
-lembrança e depois replicou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo
-daqui, tiro dali, morre um, grita outro como em Curupaity, então...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Sr. esteve lá, General? perguntou o convidado amigo de Genelicio.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não
-imaginam o que foi&mdash;Você sabe, não é Innocencio?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Se estive lá...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Polydoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores a esquerda e <i>nós</i>
-cahimos sobre os Paraguayos. Mas os malandros estavam bem
-entrincheirados, tinham aproveitado o tempo...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Foi <i>seu</i> Mitre, disse Innocencio.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Foi. Atacamos com furia. Era um ribombar de canhões que mettia medo,
-bala por todo o canto, os homens morriam como moscas... Um inferno!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.
-</p>
-
-<p>
-Todos se entreolharam admirados, excepto o General que julgava a
-sabedoria do Paraguay excepcional.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Foram os paraguayos, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso
-que eu digo que a nossa profissão é bella, mas tem as suas <i>cousas</i>...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Isso não quer dizer nada. Tambem na passagem de Humaytá... ia
-dizendo o Almirante.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O senhor estava a bordo?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse
-designado, porque o embarque equivalia a uma promoção... Mas, na
-passagem de Humaytá...
-</p>
-
-<p>
-Na sala de visitas as dansas continuavam com animação. Era raro que
-alguém viesse lá de dentro até onde elles estavam. Os risos, a
-musica, e o mais que se adivinhava não distrahiam aquelles homens das
-suas preoccupações bellicosas.
-</p>
-
-<p>
-O General, o Almirante e o Major enchiam de pasmo aquelles burguezes
-pacificos, contando batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas
-que não pelejaram.
-</p>
-
-<p>
-Não ha como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos
-generosos, para apreciar as narrações de guerra. Elle só vê a parte
-pittoresca, a parte por assim dizer espiritual das batalhas, dos
-encontros; os tiros são os de salva e se matam é cousa de sómenos. A
-Morte mesmo, nas narrações feitas assim, perde a sua importancia
-tragica: 3.000 mortos, só!!!
-</p>
-
-<p>
-De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a
-guerra, a cousa ficava edulcorada, uma guerra «bibliothèque rose»,
-guerra de estampa popular, em que não apparecem a carniçaria, a
-brutalidade e a ferocidade normaes.
-</p>
-
-<p>
-Estavam Ricardo, o Dr. Florencio, o exacto empregado como engenheiro das
-Aguas, aquelles dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos,
-boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginarias daquelles tres
-militares, um honorario, talvez o menos pacifico dos tres, o unico que
-tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira&mdash;quando D.
-Maricota chegou, sempre diligente, activa, dando movimento e vida á festa.
-Era mais moça que o marido, tinha ainda inteiramente pretos os cabellos na
-sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo enorme. Ella
-vinha offegante e dirigiu-se ao marido:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então, Chico, que é isso? Ficam ahi e eu que faça sala, que anime
-as moças... P'ra sala todos!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Já vamos D. Maricota, disse alguém.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, seu Caldas, seu
-Ricardo, os senhores!
-</p>
-
-<p>
-E foi empurrando um a um pelo hombro.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o
-senhor... Está ouvindo, <i>seu</i> Ricardo!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pois não, minha senhora. É uma ordem...
-</p>
-
-<p>
-E foram. No caminho o General parou um pouco, chegou-se a Coração dos
-Outros e perguntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vai bem.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Tem-lhe escripto?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ás vezes. Eu queria, General...
-</p>
-
-<p>
-O General suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que
-começava a cahir, e perguntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O que?
-</p>
-
-<p>
-Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a
-pergunta. Depois de uma ligeira, hesitação, respondeu de um jacto, com
-medo de perder a s palavras:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir
-vel-o.
-</p>
-
-<p>
-O General esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabello e
-disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Isso é difficil, mas você appareça lá, na repartição, amanhã.
-</p>
-
-<p>
-E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros accrescentou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Estou com saudades delle, depois tenho certos desgostos... O senhor
-sabe: um homem que tem nome...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vá lá amanhã.
-</p>
-
-<p>
-D. Maricota appareceu na frente e falou agastada:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vocês não vêm!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Já vamos, fez o General.
-</p>
-
-<p>
-E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Aquelle Quaresma podia estar bem, mas foi metter-se com livros... É
-isto! Eu, ha bem quarenta annos, que não pego em livro...
-</p>
-
-<p>
-Chegaram á sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas
-molduras douradas, furiosos retratos a oleo de Albernaz e da mulher; um
-espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava completa. Da
-mobilia não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço
-aos dansantes. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a
-festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e
-muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janella, Ricardo pôde ver
-a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim;
-só de lá os curiosos, os <i>serenos</i>, podiam ver alguma cousa da festa.
-Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O General
-contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...
-</p>
-
-<p>
-A moça, a famosa filha do Lemos, dispoz-se a cantar. Foi ao piano,
-collocou a partitura e começou. Era uma romanza italiana que ella
-cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem educada. Acabou.
-Palmas geraes, mas frias, soaram.
-</p>
-
-<p>
-O Dr. Florencio que ficara atraz do General, commentou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Tem uma bella voz esta moça. Quem é?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É a filha do Lemos, do Dr. Lemos da Hygiene, respondeu o General.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Canta muito bem.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Está no ultimo anno do Conservatorio, observou ainda Albernaz.
-</p>
-
-<p>
-Chegou a vez de Ricardo. Elle occupou um canto da sala, agarrou o
-violão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar tragico de
-quem vai representar o Oedipo-Rei e falou com voz grossa: «Senhoritas,
-senhores e senhoras». Parou. Concertou a voz e continuou: «Vou cantar
-«Os teus braços», modinha de minha composição, musica e versos. É
-uma composição terna, decente e de uma poesia exaltada». Seus olhos,
-por ahi, quasi lhe sabiam das orbitas. Emendou: «Espero que nenhum
-ruido se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão
-instrumento muito... mui...to <i>dê li ca do</i>. Bem».
-</p>
-
-<p>
-A attenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebuado, macio
-e longo, como um soluço de onda; depois, houve uma parte rapida,
-saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro,
-a modinha acabou.
-</p>
-
-<p>
-Aquillo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e
-aos desejos dos homens. As palmas foram ininterruptas. O General
-abraçou-o, Genelicio levantou-se e deu-lhe a mão, Quinota, no seu
-immaculado vestido de noiva, tambem.
-</p>
-
-<p>
-Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu á sala de jantar. No
-corredor chamaram-n'o: Sr. Ricardo, Sr. Ricardo! Voltou-se. Que ordena
-minha senhora? Era uma moca que lhe pedia uma copia da modinha.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não se esqueça, dizia ella com meiguice, não se esqueça. Gosto
-tanto das suas modinhas... São tão ternas tão delicadas... Olhe: dê
-aqui a Ismenia para me entregar.
-</p>
-
-<p>
-A noiva de Cavalcanti approximava-se e, ouvindo falar em seu nome,
-perguntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que é, Dulce?
-</p>
-
-<p>
-A outra explicou-lhe. Ella aceitou a incumbencia: e, por sua vez,
-perguntou a Ricardo com a sua voz dolente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Seu</i> Ricardo, quando é que o Sr. pretende estar com D.
-Adelaide.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Depois de amanhã, espero eu.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vai lá.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vou.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma
-carta...
-</p>
-
-<p>
-E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap03_2"></a></h4>
-
-<h4>III
-<br /><br />
-GOLIAS</h4>
-
-<p>
-No sabbado da semana seguinte áquella em que a filha do General
-recebera como marido o grave e giboso Genelicio, gloria e orgulho do
-nosso funccionalismo publico, Olga casara-se. A cerimonia correra com a
-pompa e a riqueza acostumadas em pessoas de sua camada. Houve uns
-arremedos parisienses de <i>corbeille</i> de noiva e outros pequenos
-detalhes chics, que não a aborreceram, mas que não a encheram lá de
-satisfação maior que as noivas communs. Talvez nem mesmo essa ella
-tivesse.
-</p>
-
-<p>
-Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua
-vontade. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquelle
-acto, mas, apparentemente, nenhuma vontade extranha á sua influira para
-isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva,
-mas com a volta que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo medico,
-cheio de talento nas notas e recompensas escolares, via diante de si uma
-larga estrada de triumphos nas posições e na industria clinica. Não
-tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal titulo um fóral de
-nobreza, equivalente áquelles com que os authenticos fidalgos da Europa
-brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros <i>yankees</i>. Apezar de
-ser seu pai um importante fazendeiro por ahi, em algum logar deste
-Brasil, o sogro lhe dera tudo e tudo elle aceitara sem pejo, com o
-desprezo de um duque, duque de plenamentes e medalhas, a receber
-homenagens de um villão que não <i>roçou os bancos de uma Academia</i>.
-</p>
-
-<p>
-Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso titulo, o
-pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo titulo, mas pela sua
-simulação de intelligencia, de amor á sciencia, de desmedidos sonhos
-de sabio. Tal imagem que delle fizera, durara instantes em Olga; depois
-foi a inercia da sociedade, a sua tyrannia e a timidez natural da moça
-em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ella, de si para
-si, pensava que se não fosse este, seria outro a elle igual, e o melhor
-era não adiar.
-</p>
-
-<p>
-Era por isso que ella não ia para a igreja, em virtude de uma
-determinação certa de sua vontade, embora sem perceber o
-constrangimento de um commando fora della.
-</p>
-
-<p>
-Apezar da pompa, esteve longe de ser uma noiva magestosa. Não obstante
-as origens puramente européas, era pequena, muito mesmo, ao lado do
-noivo, alto, erecto, com uma physionomia irradiante de felicidade; e,
-desse modo, ella desapparecia dentro do vestido, dos véos e daquelles
-atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar, De
-resto, a tua belleza não era a grande belleza&mdash;aquella que nós
-exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas classicas.
-</p>
-
-<p>
-No seu rosto, nada de grego, desse grego authentico on de pacotilha, ou
-tambem dessa magestade de opera lyrica. Havia nos seus traços muita
-irregularidade, mas a sua physionomia era profunda e propria. Não só a
-luz dos seus grandes olhos negros, que quasi cobriam toda a cavidade
-orbitaria, fazia fulgurar o seu rosto mobil, como a sua pequena boca, de
-um desenho fino, exprimia bondade, malicia e o seu ar geral era de
-reflexão e curiosidade.
-</p>
-
-<p>
-Ao contrario do costume, não sahiram da cidade e foram morar em casa do
-antigo empreiteiro.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma não fora á festa, mandara o leitão e o perú da tradição e
-escrevera uma longa carta. O sitio empolgara-o, o calor ia passar, vinha
-a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-se de suas
-terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous,
-era como se começasse a desertar da batalha.
-</p>
-
-<p>
-O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da
-horta. A visita de Ricardo veiu distrail-o um pouco, sem desvial-o
-comtudo, de seus afazeres agricolas.
-</p>
-
-<p>
-Passou um mez com o Major, e foi um triumpho. A fama do seu nome
-precedia-o, de forma que todo o municipio o disputava e festejava.
-</p>
-
-<p>
-O seu primeiro trabalho foi ir á villa. Ficava a quatro kilometros
-adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação
-lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de rodagem,
-se assim se póde chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e
-descia morros, cortava planicies e rios em toscas pontes. A villa!...
-Tinha duas ruas principaes: a antiga, determinada pelo velho caminho de
-tropas, e a nova, cuja origem veiu da ligação da velha com a estrada de
-ferro. Ellas se encontravam em <i>T</i>, sendo o braço vertical o caminho
-da estação. As outras partiam dellas, as casas juntavam-se urbanamente
-no começo, depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em
-campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova,
-Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da rua
-Marechal Deodoro, partia a da Matriz, ia ter á igreja, ao alto de uma
-collina, feia e pobre no seu estylo jesuitico. Á esquerda da estação,
-num campo, a praça da Republica, a que ia dar uma rua mal esboçada por
-espaçadas casas, ficava a Camara Municipal.
-</p>
-
-<p>
-Em um grande parallepipeto de tijolo, cimalha, janella com sacadas de
-grade de ferro, puro estylo mestre de obras. Compungia essa pobreza de
-gosto a quem se lembrasse dos edificios da mesma natureza das pequenas
-communas francezas e belgas da idade média.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo entrou num barbeiro da rua Marechal Deodoro, salão Rio de
-Janeiro, e fez a barba. O figaro deu-lhe informações a villa e elle se
-deu a conhecer. Havia certos circumstantes, um delles tomou-o a seu
-cargo e dahi em pouco estava relacionado.
-</p>
-
-<p>
-Quando voltou para a casa do Major já tinha convite para o baile do Dr.
-Campos, presidente da Camara, festa que teria logar na quarta-feira
-proxima.
-</p>
-
-<p>
-Chegara sabbado e fora passeiar á villa domingo.
-</p>
-
-<p>
-Tinha havido missa e o trovador assistiu a sahida. A concurrencia nunca
-é grande na roça, mas Ricardo pôde ver algumas daquellas moças do
-interior, lymphaticas e tristes, ataviadinhas, cheias de laços,
-descendo silenciosas a collina em que se erguia a igreja, espalhando-se
-pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de
-reclusão e tedio. Foi na sahida da missa que lhe apresentaram o Dr.
-Campos.
-</p>
-
-<p>
-Era o medico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de
-«aranha» com a sua filha, Nair, assistir o officio religioso.
-</p>
-
-<p>
-O trovador e o medico estiveram um instante conversando, emquanto a
-filha, muito magra, pallida, com uns longos braços descarnados, olhava
-com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando elles partiram,
-ainda Ricardo considerou um pouco aquelle rebento dos ares livres do
-Brasil.
-</p>
-
-<p>
-Á festa do Dr. Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de
-sua presença e a alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas
-gozava a sua victoria. Se bem que o Major tivesse abandonado o violão,
-ainda continuava a prezar aquelle instrumento essencialmente nacional.
-As consequencias desastrosas do seu requerimento em nada tinham abalado
-as suas convicções patrioticas. Continuavam as suas idéas
-profundamente arraigadas, tão sómente elle as escondia, para não
-soffrer com a incomprehensão e maldade dos homens.
-</p>
-
-<p>
-Gozava, portanto, a fulminante victoria de Ricardo, que indicava bem
-naquella população a existencia de um residuo forte da nossa
-nacionalidade a resistir ás invasões das modas e gostos estrangeiros.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os
-partidos. O Dr. Campos, presidente da Camara, era quem mais o cumulava
-de homenagens. Naquella manhã até esperava um dos cavallos do edil,
-para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que
-ainda não tinha partido para o eito:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Major, foi uma boa idéa vir para a roça. Vive-se bem e pode-se
-subir...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são extranhas
-todas essas cousas.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos offerecem, não
-devemos rejeitar, não acha?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de
-commandar uma esquadra.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Até ahi não vou. Olhe, Major: eu gosto muito de violão, mesmo
-dedico a minha vida ao seu levantamento moral a intellectual,
-entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: «Seu Ricardo, Você vai
-ser deputado», o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo
-perfeitamente que não podia mais desferir os threnos do instrumento?
-Ora, se não! Não se deve perder vasa, Major.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Cada um tem as suas theorias.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo. Outra cousa. Major: conhece o Dr. Campos?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De nome.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sabe que elle é presidente da Camara.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança, O
-menestrél não notou o gesto do amigo e emendou.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Móra daqui a uma legua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavallo
-passeiar com elle.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Fazes bem.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Elle quer conhecel-o. Posso trazel-o aqui?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pódes.
-</p>
-
-<p>
-Um camarada do Dr. Campos, neste instante, entrava pela porteira
-trazendo o cavallo promettido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a
-roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora dous, pois, além
-do Anastacio, que não era bem um empregado, mas aggregado, admittira o
-Felizardo.
-</p>
-
-<p>
-Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores
-tinham attenuado a temperatura.
-</p>
-
-<p>
-Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi
-caminhando por entre aquelle rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar
-do mato e do piar das aves e passaros. Esvoaçavam tyês vermelhos,
-bandos de colleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras no
-verdor das arvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos
-campos, no momento, parece que tinham sahindo á luz, não sómente para
-a fecundação vegetal mas tambem para a belleza.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e
-fôra para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. Era este um
-camarada magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um simio.
-Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma apparencia de
-fraqueza muscular, não havia ninguem mais valente que elle a roçar.
-Com isto era um tagarella incansavel. De manhã, quando chegava, ahi
-pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do municipio.
-</p>
-
-<p>
-O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado do norte do
-sitio, que o capão invadira. Obtido elle, o Major plantaria obra de
-meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervallos batatas
-inglezas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se
-fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, porém, não lhe
-quizera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando delle
-os principios volateis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus
-mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miudos e folhas,
-elle removia para longe, onde então queimaria em coiváras pequenas.
-</p>
-
-<p>
-Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós
-e tocos; mas promettia dar um rendimento maior ao plantio.
-</p>
-
-<p>
-Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se
-distrahir. Ha quem cante, elle falava e pouco se incommodava que lhe
-dessem ou não attençâo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Essa gente anda accesa por ahi, disse Felizardo logo que o Major
-chegou.
-</p>
-
-<p>
-Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, attendia-lhe a conversa,
-raras não. Anastacio era silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e,
-de quando em quando, parava, considerava, numa postura hieratica de uma
-pintura mural thebana. O Major perguntou ao Felizardo:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que é que ha, Felizardo?
-</p>
-
-<p>
-O camarada descançou o grosso tronco de camará no monte, limpou o
-suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Negocio de politica... Seu Tenente Antonino quasi briga hontem com
-<i>seu dotô Campo</i>.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Onde?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Na estação.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Porque?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Negocio de partido. Pelo que ouvi: seu Tenente-Antonino é pelo
-<i>governadô</i> e <i>seu dodô Campo</i> é pelo <i>senadô</i>... Um
-sarcêro, patrão!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E você, por quem é?
-</p>
-
-<p>
-Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um
-galho que enleiava o tronco a remover. Anastacio estava de pé e
-considerou um instante a figura do companheiro palrador. Respondeu
-afinal:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu! sei lá... Urubu pellado não se mette no meio dos coroados. Isso
-é bom p'r'o <i>sinhô</i>.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu sou como você, Felizardo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem me dera, meu <i>sinhô</i>. Inda <i>traz-antonte</i> ouvi
-<i>dizê</i> que o patrão é amigo do <i>marechá</i>...
-</p>
-
-<p>
-Afastou-se com o pau; e, quando voltou Quaresma indagou assustado:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem disse?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sei, não <i>sinhô</i>. Ouvi a modo de <i>dizê</i> lá na venda do
-hespanhol, tanto assim que <i>doutô Campo tá</i> inchado que nem sapo com a
-sua amizade.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma...
-Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguem... Qual amigo!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Quá</i>! fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão
-<i>tá</i> é varrendo a testada.
-</p>
-
-<p>
-Apezar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquella
-cabeça infantil a idéa de que elle fosse amigo do Marechal Floriano.
-«Conheci-o no meu emprego»&mdash;dizia o Major: Felizardo sorria grosso e
-por uma vez dizia: «<i>Quá</i>! o patrão é fino que nem cobra».
-</p>
-
-<p>
-Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer
-aquillo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações pela
-manhã... Elle tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel,
-incapaz de lhe estar armando laços para passar máos momentos; os
-enthusiasmos delle, entretanto, junto á vontade de ser bom amigo,
-podiam illudil-o e fazel-o instrumento de algum perverso. Quaresma ficou
-um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve,
-porém, esqueceu-se e a preoccupação dissipou-se. Á tarde, quando foi
-jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu
-natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de
-cogitações por parte delle.
-</p>
-
-<p>
-D. Adelaide, sempre com a sua <i>matinée</i> creme e saia preta, sentava-se
-á cabeceira; Quaresma á direita e á esquerda, Ricardo. Era a velha
-quem sempre puxava a lingua do trovador.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Gostou muito do passeio, Sr. Ricardo?
-</p>
-
-<p>
-Não havia meio della dizer <i>seu</i>. A sua educacão de <i>senhora</i> de
-outros tempos, não lhe permittia usar esse plebeismo generalizado. Vira
-os pais, gente ainda fortemente portugueza, dizer <i>senhor</i> e
-continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Muito. Que logar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é
-que se tem inspiração.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E elle tomava aquella altitude de arroubo: uma physionomia de
-mascara de tragico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada
-abafada.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Hoje acabei uma modinha.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como se chama? indagou D. Adelaide.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;«Os labios da Carola».
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bonito! Já fez a musica?
-</p>
-
-<p>
-Era ainda a irmã da Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo
-a boca; deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com
-toda a convicção:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;A musica, minha senhora, é a primeira coesa que faço.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Has de nol-a cantar logo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pois não, Major.
-</p>
-
-<p>
-Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros sahiram a passeiar no
-sitio. Fôra essa a unica concessão que ao amigo fizera Polycarpo, no
-tocante ao regimen de seus trabalhos agricolas. Levava sempre o pedaço
-de pão, esfarelava em migalhas no gallinheiro, para ver a atroz disputa
-entre as aves. Acabando, ficava um instante a considerar aquellas vidas,
-criadas, mantidas e protegidas para sustento da sua. Sorria para os
-frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito vivos e avidos, e
-demorava-se a apreciar a estupidez do perú, imponente, fazendo roda, a
-dar estouros presumpçosos. Em seguida, ia ao chiqueiro; assistia
-Anastacio dar a ração, despejando-a nos cochos. O enorme cevado de
-grandes orelhas pendentes levantava-se difficilmente e solemnemente
-vinha mergulhar a cabeça na caldeira; noutro compartimento os
-bacurinhos grunhiam e grunhindo vinham com a mãe charfurdar-se na
-comida.
-</p>
-
-<p>
-A avidez daquelles animaes era deveras repugnante mas os seus olhos
-tinham uma longa doçura bem humana que os fazia sympathicos.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo apreciava pouco aquellas formas inferiores de vida, mas Quaresma
-ficava minutos esquecido a contemplal-as numa demorada interrogação
-muda. Sentavam-se a um tronco de arvore; e Quaresma olhava o céo alto
-emquanto Coração dos Outros contava qualquer historia.
-</p>
-
-<p>
-A tarde ia adiantada, A terra já começava a amollecer, pelo fim
-daquelle beijo ardente e demorado do sol. Os bambús suspiravam; as
-cigarras ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos o Major
-voltou-se. Padrinho! Olga!
-</p>
-
-<p>
-Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram ficaram ainda a olhar
-um para o outro, com as mãos presas. E vieram aquellas estupidas e
-tocantes phrases dos encontros satisfeitos: quando chegaste? Não
-esperava... É longe... Ricardo olhava embevecido com a ternura dos
-dous; Anastacio tirara o chapéo e olhava a «sinhasinha», com o o seu
-terno e vasio olhar de africano.
-</p>
-
-<p>
-Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois
-passeou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que dê teu marido?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O doutor?... Está lá dentro.
-</p>
-
-<p>
-O marido tinha resistido muito em acompanhal-a até ali. Não lhe
-parecia bem aquella intimidade com um sujeito sem titulo, sem posição
-brilhante e sem fortuna. Elle não comprehendia como o seu sogro, apezar
-de tudo um homem rico, de outra esphera, tinha podido manter e estreitar
-relações com um pequeno empregado de uma repartição secundaria, e
-até fazel-o seu compadre! Que o contrario se desse, era justo; mas como
-estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade
-nacional. Mas, em definitivo, quando D. Adelaide o recebeu cheia de um
-immenso respeito, de uma particular consideração, ele ficou desarmado e
-todas as suas pequenas vaidades foram tocadas e satisfeitas.
-</p>
-
-<p>
-D. Adelaide, mulher velha, do tempo em que o imperio armava essa nobreza
-escolar, possuia em si uma particular reverencia, um culto pelo
-doutorado; e não lhe foi, pois, difficil demonstral-o quando se viu
-diante do Dr. Armando Borges, de cujas notas e premios ella tinha exacta
-noticia.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o
-doutor, gozando aquelle seu sobrehumano prestigio, ia conversando
-pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, á proporção que
-conversava, talvez para que o effeito não se dissipasse, virava com a
-mão direita o grande annelão <i>symbolico</i>, o talisman, que cobria a
-phalange do dedo indicador esquerdo, ao geito de <i>marquise</i>.
-</p>
-
-<p>
-Conversaram muito. O joven par contou a agitação politica do Rio, a
-revolta da fortaleza de Santa Cruz; D. Adelaide a epopéa da mudança,
-moveis quebrados, objectos partidos. Pela meia noite todos foram dormir
-com uma alegria particular, emquanto os sapos levantavam no riacho
-defronte o seu grave hymno á transcendente belleza do céo negro,
-profundo e estrellado.
-</p>
-
-<p>
-Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e
-esteve conversando com o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um
-jornal. Rasgou a cinta e leu o titulo. Era o «O Municipio», orgão
-local, hebdomadario, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia
-afastado; elle aproveitou a occasião para ler o jornaleco. Pôz o
-pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e desdobrou o jornal.
-Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam
-mollemente. Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se
-«Intrusos» e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos
-no logar que moravam nelle&mdash;verdadeiros <i>estrangeiros que se vinham
-intrometter na vida particular e politica da familia curuzuense,
-perturbando-lhe a paz e a tranquillidade</i>.
-</p>
-
-<p>
-Que diabo queria dizer aquillo? Ia deitar fóra o jornaleco, quando lhe
-pareceu ler seu nome entre versos. Procurou o logar e deu com estas
-quadrinhas:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i8"><i>POLITICA de CURUZU</i></span>
-</div><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Quaresma, meu bem, Quaresma!</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Quaresma do coração!</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Deixa as batatas em paz</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Deixa em paz o feijão.</i></span>
-</div><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Geito não tens para isso</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Quaresma, meu cocumby!</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Volta á mania antiga</i></span><br />
-<span class="i2"><i>De redigir em tupy.</i></span>
-</div><div class="stanza">
-<span class="i10"><i>Olho Vivo.</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-O Major ficou estuporado. Que vinha ser aquillo? Porque? Quem era? Não
-atinava, não achava o motivo o fundo de semelhante ataque. A irmã
-approximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma estendeu-lhe o jornal
-com o braço tremendo: «Lê isto, Adelaide».
-</p>
-
-<p>
-A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa c
-solicitude. Ella tinha aquella ampla maternidade das solteironas; pois
-parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da mulher
-pelas dores do outros. Emquanto ella lia, Quaresma dizia: mas que fiz
-eu? que tenho com politica? E coçava os cabellos já tanto encanecidos.
-</p>
-
-<p>
-D. Adelaide disse então docemente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Socega, Polycarpo. Por isso só?... Ora!
-</p>
-
-<p>
-A afilhada leu tambem os versos e perguntou ao padrinho:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Sr. se metteu algum dia nessa politica daqui?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu nunca!... Vou até declarar que...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a
-irmã:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca!
-</p>
-
-<p>
-O doutor e Ricardo chegavam de fóra e encontraram os tres nessas
-considerações. Notaram a alteração de Quaresma. Estava pallido,
-tinha os olhos humidos e coçava successivamente a cabeça.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que ha, Major? indagou o troveiro.
-</p>
-
-<p>
-As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo
-depois contou o que ouvira na villa. Acreditavam todos que o Major viera
-para ali no intuito de fazer politica, tanto assim que dava esmolas,
-deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuia remedios
-homeopathicos... O Antonino affirmara que havia de desmascarar
-semelhante tartufo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E não desmentiste? perguntou Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo affirmou que sim, mas o escrivão não quizera acreditar nelle e
-reiterara os seus propositos de ataque.
-</p>
-
-<p>
-O Major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de accordo com
-seu genio, incubou nos primeiros tempos a impressão, e, emquanto
-estiveram com elle os seus amigos, não demonstrou preoccupação.
-</p>
-
-<p>
-Olga e o marido passaram no «Socego» cerca de quinze dias. O marido,
-ao fim de uma semana, já parecia cançado. Os passeios não eram
-muitos. Em geral, os nossos logarejos são de uma grande pobreza do
-pittoresco; ha um ou dous logares celebres, assim como na Europa cada
-aldeia tem a sua curiosidade historica.
-</p>
-
-<p>
-Em Curuzú, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas
-leguas da casa de Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe
-barravam o horizonte fronteiro. O Dr. Campos já travara relações com
-o Major e, graças a elle, houve cavallos e silhão que tambem
-permitisse á moça ir á cachoeira.
-</p>
-
-<p>
-Foram de manhã, o Presidente da Camara, o doutor, sua mulher e a filha
-de Campos. O logar não era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze
-metros de altura, despenhava-se em tres partes, pelo flanco da montanha
-abaixo. A agua estremecia na quéda, como que se enrodilhava e vinha
-pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia
-muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma aboboda de
-arvores. O sol coava-se difficilmente e vinha faiscar sobre a agua ou
-sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os
-periquitos, de um verde mais claro, pousados nos galhos eram como as
-incrustações daquelle salão fantastico.
-</p>
-
-<p>
-Olga pôde ver tudo isso bem á vontade, andando de um para outro lado,
-porque a filha do presidente era de um silencio de tumulo e o pae desta
-tomava com o sou marido informações sobre novidades medicinaes: Como
-se cura hoje erysipela? Ainda se usa muito o tartaro emetico?
-</p>
-
-<p>
-O que mais a impressionou no passeio foi a miseria geral, a falta de
-cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre.
-Educada na cidade, ella tinha dos roceiros idéa de que eram felizes
-saudaveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta agua, porque as casas
-não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquelle sapê
-sinistro e aquelle «sopapo» que deixava ver a trama de varas, como o
-esqueleto de um doente. Porque ao redor dessas casas, não havia
-culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão facil, trabalho de horas.
-E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um
-carneiro. Porque? Mesmo nas fazendas, o espectaculo não era mais
-animador. Todas soturnas, baixas, quasi sem o pomar olente e a horta
-succulenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ella não
-pôde ver outra lavoura, outra industria agricola. Não podia ser
-preguiça só ou indolencia. Para o seu gasto, para uso proprio, o homem
-tem sempre energia para trabalhar. As populações mais accusadas de
-preguiça, trabalham relativamente. Na Africa, na India, na Cochinchina,
-em toda parte, os casaes, as familias, as tribos, plantam um pouco,
-algumas cousas para elles. Seria a terra? Que seria? E todas essas
-questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e tambem
-a sua piedade e sympathia por aquelles parias, maltrapilhos, mal
-alojados, talvez com fome, sorumbaticos!...
-</p>
-
-<p>
-Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades
-mezes e annos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar o
-motivo e o remedio. Aquillo era uma situação do camponez da idade
-média e começo da nossa; era o famoso animal de La Bruyére que tinha
-face humana e voz articulada...
-</p>
-
-<p>
-Como no dia seguinte fosse passeiar ao roçado do padrinho, aproveitou a
-occasião para interrogar a respeito o tagarella Felizardo. A faina do
-roçado ia quasi no fim; o grande trato da terra estava quasi
-inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a collina que formava a
-lombada do sitio.
-</p>
-
-<p>
-Olga encontrou o camarada cá em baixo, cortando a machado as madeiras
-mais grossas; Anastacio estava no alto, na orla do mato, juntando, a
-ancinho, as folhas caidas. Ella lhe falou.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bons dias, <i>sá dona</i>.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então trabalha-se muito, Felizardo?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O que se póde.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Estive hontem no Carico, bonito logar... Onde é que você mora,
-Felizardo?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É d'outra banda, na estrada da villa.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É grande o sitio de você?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Tem alguma terra, sim, senhora, <i>sá dona</i>.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Você porque não planta para você?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Quá sá dona</i>! O que é que a gente come?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O que plantar ou aquillo que a plantação der em dinheiro.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Sá dona tá</i> pensando uma cousa e a cousa é outra. Emquanto
-planta cresce, e então? <i>Quá, sá dona</i>, não é assim...
-</p>
-
-<p>
-Deu uma machadada; o tronco escapou: collocou-o melhor no picador e,
-antes de desferir o machado, ainda disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Terra não é nossa... E <i>frumiga</i>?... Nós não <i>tem</i>
-ferramenta... isso é bom para italiano ou <i>allamão</i>, que Governo dá
-tudo... Governo não gosta de nós...
-</p>
-
-<p>
-Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas
-partes, quasi iguaes, de um claro amarellado, onde o cérne escuro
-começava a apparecer.
-</p>
-
-<p>
-Ella voltou querendo afastar do espirito aquelle desacordo que o
-camarada indicara, mas não pôde. Era certo. Pela primeira vez notava
-que o <i>self-help</i> do Governo era só para os nacionaes; para os outros
-todos os auxilios e facilidades, não contando com a sua anterior
-educação e apoio dos patricios.
-</p>
-
-<p>
-E a terra não era delle? Mas de quem era então, tanta terra abandonada
-que se encontrava por ahi? Ella vira até fazendas fechadas, com as
-casas em ruinas... Porque esse acaparamento, esses latifundios inuteis e
-improductivos?
-</p>
-
-<p>
-A fraqueza de attenção não lhe permittiu pensar mais no problema. Foi
-vindo para casa, tanto mais que era hora de jantar e a fome lhe chegava.
-</p>
-
-<p>
-Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquelle perdera um pouco da
-sua <i>morgue</i>; havia mesmo occasião em que era até natural. Quando ella
-chegou, o padrinho exclamava:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Adubos! É lá possivel que um brasileiro tenha tal idéa! Pois se
-temos as terras mais ferteis do mundo!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas se esgotam, Major, observou o doutor
-</p>
-
-<p>
-D. Adelaide, calada, seguia com attenção o <i>crochet</i> que estava
-fazendo; Ricardo ouvia, com os olhos arregalados; e Olga intrometteu-se
-na conversa:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que zanga é essa, padrinho?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de
-adubos... Isto é até uma injuria!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pois fique certo, Major, se eu fosse o senhor, adduziu o doutor,
-ensaiava uns phosphatos...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo, Major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar
-violão não queria aprender musica... Qual musica! Qual nada! A
-inspiração basta!... Hoje veio que é preciso... É assim, resumia
-elle.
-</p>
-
-<p>
-Todos se entreolharam, excepto Quaresma que logo disse com toda a força
-d'alma:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sr. doutor, o Brasil é o paiz mais fertil do mundo, é o mais bem
-dotado e as suas terras não precisam <i>emprestimos</i> para dar sustento
-ao homem. Fique certo!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ha mais ferteis, Major, avançou o doutor.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Onde?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Na Europa.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Na Europa!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sim, na Europa. As terras negras da Russia, por exemplo.
-</p>
-
-<p>
-O Major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triumphante:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Sr. não é patriota! Esses moços...
-</p>
-
-<p>
-O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações
-sobre o violão. Á noite, o menestrel cantou a sua ultima producção:
-«Os labios da Carola». Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do
-Dr. Campos; mas ninguem alludiu a isso. Ouviram-mo com interesse e elle
-foi muito acclamado. Olga tocou no velho piano de D. Adelaide; e, antes
-das onze horas, estavam todos recolhidos.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e,
-deitado, poz-se a ler um velho elogio das riquezas e opulencias do
-Brasil.
-</p>
-
-<p>
-A casa estava em silencio; do lado de fora, não havia a minima bulha.
-Os sapos tinham suspendido um instante a sua orchestra nocturna.
-Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto
-dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinario! pensou. Da despensa,
-que ficava junto a seu aposento, vinha um ruido extranho. Apurou o
-ouvido e prestou attenção. Os sapos recomeçaram o seu hymno. Havia
-vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia á outra,
-num dado instante todas se juntaram num <i>unisono</i> sustentado.
-Suspenderam um instante a musica. O Major apurou o ouvido; o ruido
-continuava. Que era? Eram uns estalos tenues; pareciam que quebravam
-gravetos, que deixavam outros cahir ao chão... Os sapos recomeçaram; o
-regente deu uma martellada e logo vieram os baixos e os tenores.
-Demoraram muito; Quaresma pôde ler umas cinco paginas. Os batrachios
-pararam; a bulha continuava. O Major levantou-se, agarrou o castiçal e
-foi á dependencia da casa donde partia o ruido, assim mesmo como
-estava, em camisa de dormir.
-</p>
-
-<p>
-Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma
-ferroada no peito do pé. Quasi gritou. Abaixou a vela para ver melhor e
-deu com uma enorme sauva agarrada com toda a furia á sua pelle magra.
-Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco no
-assoalho, lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas
-de milho e feijão, cujos recipientes tinham sido deixados abertos por
-inadvertencia. O chão estava negro, e carregadas com os grãos, ellas,
-em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade
-subterranea.
-</p>
-
-<p>
-Quiz afugental-as. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e
-cada vez mais o exercito augmentava. Veiu uma mordeu-o, depois outra, e
-o foram mordendo pelas pernas, pelos pés, subindo pelo seu corpo. Não
-poude aguentar, gritou, sapateou e deixou a vela cahir.
-</p>
-
-<p>
-Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu
-daquelle infimo inimigo que, talvez, nem mesmo á luz radiante do sól,
-o visse distinctamente...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap04_2"></a></h4>
-
-<h4>IV
-<br /><br />
-«PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ»</h4>
-
-<p>
-D. Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro annos mais que elle.
-Era uma bella velha, com um corpo médio, uma tez que começava a
-adquirir aquella patina da grande velhice, uma espessa cabelleira já
-inteiramente amarellada e um olhar tranquillo, calmo e doce. Fria, sem
-imaginação, de intelligencia lucida e positiva, em tudo formava um
-grande contraste com o irmão; comtudo, nunca houve entre elles uma
-separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ella não
-entendia nem procurava entender a substancia do irmão, e sobre elle em
-nada reagia aquelle ser methodico, ordenado e organizado, de idéas
-simples, medias e claras.
-</p>
-
-<p>
-Ella já attingira aos cincoenta e elle para lá marchava; mas ambos
-tinham ar saudavel, poucos achaques, e promettiam ainda muita vida. A
-existencia calma, doce e regrada que tinham levado até ali, concorrera
-muito para a boa saude de ambos. Quaresma incubou as suas manias até
-depois dos quarenta e ella nunca tivera qualquer.
-</p>
-
-<p>
-Para D. Adelaide, a vida era cousa simples, era viver, isto é, ter uma
-casa, jantar e almoço, vestuario, tudo modesto, medio. Não tinha
-ambições, paixões, desejos. Moça, não sonhara principes, bellezas,
-triumphos, nem mesmo um marido. Se não casou foi porque não sentiu
-necessidade disso; o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ella sempre
-se sentiu completa.
-</p>
-
-<p>
-O seu aspecto tranquillo e o socego dos seus olhos verdes, de um brilho
-lunar de esmeralda, emolduravam e realçavam naquelle interior familiar
-a agitação e a inquietude, o alanceado do irmão.
-</p>
-
-<p>
-Não se vá suppor que Quaresma andasse transtornado como um doido.
-Felizmente não. Na apparencia até poder-se-ia imaginar que nada
-conturbava sua alma; porém, se mais vagarosamente se examinassem os
-seus habitos, gestos e attitudes logo se havia de ver que o socego e a
-placidez não moravam no seu pensamento.
-</p>
-
-<p>
-Occasiões havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao
-longe o horizonte, perdido em scisma; outras, isso quando no trabalho da
-roça, em que suspendia todos os movimentos, fincava o olhar no chão,
-demorava-se assim um instante, coçando uma mão com a outra, dava
-depois um muchocho, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em
-que não reprimia uma exclamação ou uma phrase.
-</p>
-
-<p>
-Anastacio em taes instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O
-antigo escravo não os sabia mais fixar, e nada dizia; Felizardo
-continuava a contar a fuga da filha do Custodio com o Manduca da venda;
-e o trabalho marchava.
-</p>
-
-<p>
-Inutil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a
-não ser no jantar e nas primeiras horas do dia elles viviam separados.
-Quaresma na roça, nas plantações, e ella superintendendo o serviço
-domestico.
-</p>
-
-<p>
-As outras pessoas de suas relações não podiam tambem notar as
-preoccupações absorventes do Major, pelo simples motivo de que estavam
-longe.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo havia seis mezes que não lhe visitava e da afilhada e do
-compadre as ultimas cartas que recebera, datavam de uma semana, não
-vendo aquella ha tanto tempo, quanto ao trovador e aquelle desde quasi
-um anno, isto é, o tempo em que estava no «Socego».
-</p>
-
-<p>
-Durante esse tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo
-approveitamento de suas terras. Os seus habitos não foram mudados e a
-sua actividade continuava sempre a mesma. É verdade que deixara de
-parte os instrumentos de meteorologia.
-</p>
-
-<p>
-O hygrometro, o barometro e os outros companheiros não eram mais
-consultados e as observações registradas num caderno. Dera-se mal com
-elles. Fosse inexperiencia e ignorancia das bases theoricas delles,
-fosse porque fosse, o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia
-baseado em combinações dos seus dados, sahiam erradas. Se esperava
-tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava chuva, lá vinha secca.
-</p>
-
-<p>
-Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus apparelhos,
-com aquelle grosso e cavernoso sorriso de troglodyta:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Quá</i> patrão! Isso de chuva vem quando Deus <i>qué</i>.
-</p>
-
-<p>
-O barometro aneroide continuava a um canto a dansar o seu ponteiro sem
-ser percebido; o thermometro de maxima e minima, legitimo Casella, jazia
-dependurado na varanda sem receber um olhar amigo; a caçamba do
-pluviometro estava no gallinheiro e servia de bebedouro ás aves; só o
-anemometro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já sem fio, no
-alto do mastro, como se protestasse contra aquelle desprezo pela
-sciencia que Quaresma representava.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido,
-embora tendo deixado de ser publica, lavrava occultamente. Havia no seu
-espirito e no seu caracter uma vontade de acabal-a de vez, mas como? Se
-não o accusavam, se não articulavam nada contra elle directamente? Era
-um combate com sombras, com apparencias, que seria ridiculo acceitar.
-</p>
-
-<p>
-De resto, a situação geral que o cercava, aquella miseria da
-população campestre que nunca suspeitara, aquelle abandono de terras
-á improductividade, encaminhavam sua alma de patriota meditativo a
-preoccupações angustiosas.
-</p>
-
-<p>
-Via o Major com tristeza não existir naquella gente humilde sentimento
-de solidariedade, de apoio mutuo. Não se associavam para cousa alguma e
-viviam separados, isolados, em familias geralmente irregulares, sem
-sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. Entretanto,
-tinham bem perto o exemplo dos portuguezes que, unidos aos seis e mais,
-conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa importancia,
-lucrar e viver. Mesmo o velho costume do <i>moitirão</i> já se havia
-apagado.
-</p>
-
-<p>
-Como remediar isso?
-</p>
-
-<p>
-Quaresma desesperava...
-</p>
-
-<p>
-A tal affirmação de falta de braços pareceu-lhe uma affirmação de
-má fé ou estupida, e estupido ou de má fé era o Governo que os
-andava importando aos milhares, sem se preoccupar com os que já
-existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia duzia de
-cabeças de gado, fossem introduzidas mais tres, para augmenter o
-estrume!...
-</p>
-
-<p>
-Pelo seu caso, elle via bem as difficuldades, os obices de toda a sorte
-que havia para fazer a terra productiva e remunerada. Um facto veiu
-mostrar-lhe com eloquencia um dos aspectos da questão. Vencendo a herva
-de passarinho, os maus tratos e o abandono de tantos annos, os
-abacateiros de suas terras conseguiram fructificar, fracamente é
-verdade, mas de forma superior ás necessidades de sua casa.
-</p>
-
-<p>
-A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos
-dinheiro que lhe dava a terra, sempre mãe e sempre virgem. Tratou de
-vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou outro que os queria
-comprar por preços infimos. Com decisão foi ao Rio procurar comprador.
-Andou de porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que
-procurasse um tal Sr. Azevedo no Mercado, o rei das fructas. Lá foi.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Abacates! Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Entretanto, disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e
-pediram-me pela duzia cinco mil réis.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Em porção, o Sr. sabe que...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É isso... Emfim, se quer mande-os...
-</p>
-
-<p>
-Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, pôz uma das mãos na cava
-do collete e quasi de costas para o Major:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É preciso vel-os... O tamanho influe...
-</p>
-
-<p>
-Quaresma os mandou e, quando lhe veiu o dinheiro, teve a satisfação
-orgulhosa, de quem acaba de ganhar uma grande batalha immortal.
-Acariciou uma por uma aquellas notas encardidas, leu-lhes bem o numero e
-a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma meza e muito
-tempo levou sem animo de trocal-as.
-</p>
-
-<p>
-Para avaliar o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carroça,
-o custo dos caixões, o salario dos auxiliares e, após esse calculo que
-não era laborioso, teve a evidencia de que ganhara 1$500, mil e
-quinhentos réis, nem mais nem menos. O Sr. Azevedo tinha-lhe pago pelo
-cento a quantia com que se compra uma duzia.
-</p>
-
-<p>
-Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e elle viu naquelle ridiculo
-lucro objecto para maior contentamento do que se recebesse um avultado
-ordenado.
-</p>
-
-<p>
-Foi, portanto, com redobrada actividade que se poz ao trabalho. Para o
-anno, o lucro seria maior. Tratava-se agora de limpar as fructeiras.
-Anastacio e Felizardo continuavam occupados nas grandes plantações;
-contratou um outro empregado para ajudal-o no tratamento das velhas
-arvores fructiferas.
-</p>
-
-<p>
-Foi, pois, com o Mané Candieiro que elle se pôz a serrar os galhos das
-arvores, os galhos mortos e aquelles em que a herva damninha segurava as
-suas raizes. Era arduo e difficil o trabalho. Tinham ás vezes que subir
-ás grimpas para a extirparão do galho attingido; os espinhos rasgavam
-as roupas e feriam as carnes; e em muitas occasiões estiveram em risco
-de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada.
-</p>
-
-<p>
-Mané Candieiro falava pouco, a não ser que se tratasse de cousas de
-caça; mas cantava que nem passarinho. Estava a serrar, estava a cantar
-trovas roceiras, ingenuas, onde com surpreza o Major não via entrar a
-fauna, a flora locaes, os costumes das profissões roceiras. Eram
-vaporosamente sensuaes e muito ternas, mellosas até; por acaso lá
-vinha uma em que um passaro local entrara; então o Major escutava.
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Eu vou dar a despedida</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Como deu o bacuráo,</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Uma perna no cantinho</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Outra no galho de páu.</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-Este bacuráo que entrava ahi satisfazia particularmente ás
-aspirações de Quaresma. A observação popular já começava a
-interessar-se pelo espectaculo ambiente, já se emocionava com elle e a
-nossa raça deitava, portanto, raizes na grande terra que habitara. Elle
-a copiou e mandou ao velho poeta de S. Christovão. Felizardo dizia que
-Mané Candieiro era um mentiroso, pois todas aquellas caçadas do
-caitetus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento
-poetico, principalmente no desafio: o moleque é bom!
-</p>
-
-<p>
-Elle era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e
-fortes, um tanto amollecidas pelo sangue africano.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma procurou descobrir nelle aquella odiosa catadura que Darwin
-achou nos mestiços; mas, sinceramente, não a encontrou.
-</p>
-
-<p>
-Com auxilio de Mané Candieiro, foi que Quaresma conseguiu acabar de
-limpar as fructeiras daquelle velho sitio abandonado ha quasi dez
-annos. Quando o serviço ficou prompto, elle viu com tristeza aquellas
-velhas arvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali...
-Pareciam soffrer e elle se lembrou das mãos que as tinham plantado ha
-vinte ou trinta annos, escravos, talvez, banzeiros e desesperançados!...
-</p>
-
-<p>
-Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdescesse, e o
-renascimento das arvores como que trouxe o contentamento das aves e do
-passaredo solto. De manhã, esvoaçavam os tyês vermelhos, com o seu
-pio pobre, especie de ave tão inutil e tão bella de plumas que parece
-ter nascido para os chapéos das damas; as rolas pardas e caboclas em
-bando, mariscando, no chão capinado; pelo correr do dia, eram os
-sanhassús a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens de
-colleiros; e de tarde como que todos elles se reuniam, piando, cantando,
-chilreando, pelas altas mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros,
-entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-Não durou muito essa alegria. Um inimigo appareceu inopinadamente, com
-a rapidez ousadissima de um general consumado. Até ali elle se mostrara
-timido, parecia que sómente mandava esclarecedores.
-</p>
-
-<p>
-Desde aquelle ataque ás provisões de Quaresma, logo afugentadas, não
-mais as formigas reappareceram; mas, naquella manhã, quando contemplou
-o seu milharal, foi como se lhe tirassem a alma, e ficou sem acção e
-as lagrimas lhe vieram aos olhos.
-</p>
-
-<p>
-O milho que já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez
-de criança, crescera cerca de meio palmo acima da terra; o Major até
-mandara buscar o sulphato de cobre para a solução em que ia lavar a
-batata ingleza a plantar nos intervallos dos pés.
-</p>
-
-<p>
-Toda a manhã, elle ia lá e já via o milharal crescido com o seu
-pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho, oscillando ao
-vento: naquella, elle não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham
-sido cortados e levados para longe! A modo que e obra de gente, disse
-Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terriveis
-hymhopteros, piratas infimos que lhe cahiam em cima do trabalho com uma
-rapacidade turca... Era preciso combatel-os. Quaresma poz-se logo em
-campo, descobriu as aberturas principaes do formigueiro e em cada uma
-queimou a formicida mortal. Passaram-se dias: os inimigos pareciam
-derrotados; mas, certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite
-estrellada, Quaresma ouviu uma bulha exquisita, como se alguem esmagasse
-as folhas mortas das arvores... Um estalido... E era perto... Accendeu
-um phosphoro e o que viu, meu Deus! Quasi todas as larangeiras estavam
-negras de iminensas saúvas. Havia dellas ás centenas, pelos troncos e
-pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas
-transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam,
-outras desciam; nada de atropellos, de confusão, de desordem. O
-trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima umas
-cortavam as folhas pelo peciolo; cá em baixo, outras serravam-nas em
-pedaços e afinal eram carregadas por terceiros, levantando-as acima da
-descomunal cabeça, era longas fileiras pelo trilho limpo, aberto entre
-a herva rasteira.
-</p>
-
-<p>
-Houve um instante de desanimo na alma do Major. Não tinha contado com
-aquelle obstaculo nem o suppuzera tão forte. Agora via bem que era a
-uma sociedade intelligente, organizada, ouzada e tenaz com quem se tinha
-de haver. Veio-lhe então á lembrança aquella phrase de Saint-Hilaire:
-se nós não expulsássemos as formigas ellas nos expulsariam.
-</p>
-
-<p>
-O Major não estava lembrado ao certo se eram essas palavras, mas o
-sentido era, e ficou admirado que só agora ella lhe ocorresse.
-</p>
-
-<p>
-No dia seguinte, tinha recobrado o amino. Comprou ingredientes e eil-o
-mais o Mané Candieiro, a abrir picadas a fazer esforços de sagacidade,
-para descobrir os reductos centraes, as <i>panellas</i> dos insectos
-terriveis. Então era como se os bombardeassem: o sulpheto queimava,
-estourava em tiros seguidos, mortiferos, lethaes!
-</p>
-
-<p>
-E dahi em diante, foi uma batalha sem treguas. Se apparecia uma
-abertura, um <i>olho</i>, logo se lhe applicava a formicida, pois do
-contrario, nenhuma plantação era possivel, tanto mais que extinctos os
-das suas terras, não tardariam os formigueiros das visinhanças ou dos
-logradouros publicos a deitar caniculos para o seu terreno.
-</p>
-
-<p>
-Era um supplicio, um castigo, uma especie de vigilancia a dique
-hollandez e Quaresma viu bem que só uma autoridade central, um governo
-qualquer, ou um accôrdo entre os cultivadores, podia levar a effeito a
-extincção daquelle flagello, peor que a saraiva, que a geada, que a
-secca, sempre presente, inverno ou verão, outomno ou primavera.
-</p>
-
-<p>
-Não obstante essa luta diaria, o Major não desanimou e pôde colher
-alguns productos das plantações que tinha feito. Se por occasião das
-fructas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda ella
-foi, quando viu partir para a estação em successivas carretas, as
-aboboras, os aipins, as batatas doces, em cestos cobertos com saccos
-cozidos. Os fructos, em parte, eram de outras mãos; as arvores não
-tinham sido plantadas por elle; mas aquillo não, vinha do seu suor, da
-sua iniciativa, do seu trabalho!
-</p>
-
-<p>
-Elle ainda foi ver aquelles cestos na estação, com a ternura de um pai
-que vê partir seu filho para a gloria, e para a victoria. Recebeu o
-dinheiro dias depois, contou o e esteve deduzindo os lucros.
-</p>
-
-<p>
-Não foi á roça nesse dia; o trabalho de guarda livros roubou o de
-cultivador. A sua attenção, já um tanto gasta, não lhe favorecia a
-tarefa das cifras, e só pelo meio do dia, pôde dizer a irmã:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sabes qual foi o lucro, Adelaide?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, menor do que o dos abacates?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Um pouco mais.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então... Quanto?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Dous mil quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando
-syllaba por syllaba.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O que?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil quinhentos.
-</p>
-
-<p>
-D. Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura
-que fazia, depois, levantando o olhar:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Homem, Polycarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito
-dinheiro... Só com as formigas!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar
-exemplo, levantar a agricultura, aproveitar as nossas terras
-feracissimas...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É isto... Queres sempre ser a abelha mestra... Já viste os grandes
-fazerem esses sacrificios... Vê lá se fazem! Historias... Mettem-se no
-café que tem todas as protecções...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas, faço eu.
-</p>
-
-<p>
-A irmã prestou mais attenção a costura, Polycarpo levantou-se, foi
-até á janella que dava para o gallinheiro. Fazia um dia fosco e
-irritante. Elle concertou o pince-nez, esteve olhando e de lá falou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Oh! Adelaide! Aquillo não é uma gallinha morta...
-</p>
-
-<p>
-A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até á janella e verificou
-com a vista:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É... É já a segunda que morre hoje.
-</p>
-
-<p>
-Após esta leve conversa, Quaresma voltou á sua sala de estudos.
-Meditava grandes reformas agricolas. Mandara buscar catalogos e ia
-examinal-os. Tinha já em mente uma charrúa dupla, um capinador
-mecanico, um semeador, um deslocador, grades, tudo americano, de aço,
-dando o rendimento effectivo de 20 homens. Até então, não quizera
-essas innovações; as terras mais ricas do mundo, não precisaram desse
-processos que lhe pareciam artificiaes, para produzir; estava, porém,
-agora disposto a empregal-os como experiencia. Aos adubos, no
-entretanto, o seu espirito resistia. Terra virada, dizia Felizardo,
-terra estrumada; parecia o Quaresma uma profanação estar a empregar
-nitratos, phosphatos ou mesmo estrume commum, numa terra brasileira...
-Uma injuria!
-</p>
-
-<p>
-Quando se convencesse de que eram necessarios, parecia-lhe que todo o
-seu systema de idéas ia por terra e os moveis de sua vida
-desappareceriam. Estava assim a escolher arados e outros «Planets»,
-«Bajacs» e «Brabants» de varios feitios, quando o seu pequeno
-copeiro lhe annunciou a visita do dr. Campos.
-</p>
-
-<p>
-O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão, e o seu grande
-corpo. Era alto e gordo, pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos,
-quasi á flôr do rosto, uma testa média e recta: o nariz, mal feito.
-Um tanto trigueiro, cabellos corridos e já grisalhos, era o que se
-chama por ahi um caboclo, embora o seu bigode fosse crespo. Não nascera
-em Curuzú, era da Bahia ou de Sergipe, habitava, porém, o logar ha
-mais de vinte annos, onde casara e prosperara, graças ao dote da mulher
-e á sua actividade clinica. Com esta, não gastava grande energia,
-mental: tendo de côr uma meia duzia de receitas, elle, desde muito,
-conseguira enquadrar as molestias locaes no seu reduzido formulario.
-</p>
-
-<p>
-Presidente da Camara, era das pessoas mais consideraveis da Curuzú, e
-Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade, pela sua
-affabilidade e simplicidade.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ora, viva Major! Como vai isto por ahi? muita formiga? Lá em casa já
-não ha mais.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma respondeu com menor enthusiasmo e jovialidade, mas comente com
-a alegria communicativa do doutor. Elle continuava a falar com
-desembaraço e naturalidade:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sabe o que me traz aqui, Major? Não sabe, não é? Preciso de um
-pequeno obsequio seu.
-</p>
-
-<p>
-O Major não se espantou; sympathizava com o homem e abriu-se em
-offerecimentos.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como o Major sabe...
-</p>
-
-<p>
-Agora a sua voz era doce, flexivel, subtil; as palavras cahiam-lhe da
-boca adocicadas, dobravam-se, colleavam-se:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como o Major sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A
-victoria é <i>nossa</i>. Todas as mezas estão comnosco, excepto uma... Ahi
-mesmo, se o Major quizer...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas, como? se eu não sou eleitor, não me metto, nem quero metter-me
-em politica? perguntou Quaresma ingenuamente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Exactamente por isso, disse o doutor com voz forte: e em seguida
-brandamente: a secção funcciona na sua vizinhança, é ali, na escola,
-se...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E dahi?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o Major quer
-responder (é melhor já) que não houve eleição... Quer?
-</p>
-
-<p>
-Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavaignac e
-respondeu claramente, firmemente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Absolutamente não.
-</p>
-
-<p>
-O doutor não se zangou. Pôz mais uncção e maciez a na voz, adduziu
-argumentos: que era para o partido, o unico que pugnava pelo
-levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexivel; disse que não, que
-lhe eram absolutamente antipathicas taes disputas, que não tinha
-partido e mesmo que tivesse não iria affirmar uma cousa que elle não
-sabia ainda se era mentira ou verdade.
-</p>
-
-<p>
-Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre
-cousas banaes e despediu-se com o ar amavel, com a jovialidade mais sua
-que era possivel.
-</p>
-
-<p>
-Isto se passou na terça-feira, naquelle dia de luz fosca e irritante.
-Á tarde houve trovoada, choveu muito. O tempo só levantou na
-quinta-feira, dia em que o Major foi surprehendido com a visita de um
-sujeito com um uniforme velho e lamentavel, portador de um papel
-official para elle, proprietario do «Socego», conforme mesmo disse o
-tal homem fardado.
-</p>
-
-<p>
-Em virtude das posturas e leis municipaes, rezava o papel, O Sr.
-Polycarpo Quaresma, proprietario do sitio «Socego» era intimado, sob
-as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e capinar as testadas do
-referido sitio que confrontavam com as vias publicas.
-</p>
-
-<p>
-O Major ficou um tempo pensando. Julgava impossivel uma tal intimação.
-Seria mesmo? Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assignatura do
-Dr. Campos. Era certo... Mas que absurda intimação esta de capinar e
-limpar estradas na extensão de mil duzentos metros, pois seu sitio dava
-de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na
-extensão de oitocentos metros&mdash;era possivel!?
-</p>
-
-<p>
-A antiga corvéa!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sitio.
-Consultando a irmã, ella lhe aconselhou que falasse ao Dr. Campos.
-Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com elle dias antes.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas és tolo, Polycarpo. Foi elle mesmo...
-</p>
-
-<p>
-A luz se lhe fez no pensamento... Aquella rede de leis, de posturas, de
-codigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de taes caciques, se
-transformava em pôtro, em polé, em instrumento de supplicios para
-torturar os inimigos, opprimir as populações, crestar-lhes a
-iniciativa e a independencia, abatendo-as e desmoralizando-as.
-</p>
-
-<p>
-Pelos seus olhos passaram num instante aquellas faces amarelladas e
-chupadas que se encostavam nos portaes das vendas preguiçosamente; viu
-tambem aquellas crianças maltrapilhas e sujas, d'olhos baixos, a
-esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquellas terras
-abandonadas, improductivas, entregues ás hervas e insectos damninhos;
-viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, activo e trabalhador, sem
-animo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que
-lhe passava pelas mãos&mdash;este quadro passou-lhe pelos olhos com a
-rapidez e o brilho sinistro do relampago; e só se apagou de todo,
-quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara.
-</p>
-
-<p>
-Vinha viva e alegre. Contava pequenas historias de sua vida, a viagem
-proxima do papai, á Europa, o desespero do marido no dia em que sahiu
-sem annel, pedia noticias do padrinho, de D. Adelaide e, sem
-desrespeito, recommendava á irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado
-com o manto de arminho da «Duqueza».
-</p>
-
-<p>
-A «Duqueza» era uma grande pata branca, de penas alvas a macias ao
-olhar, que, pela lentidão e magestade do andar, com o pescoço alto e o
-passo firme, merecera de Olga esse appellido nobre. O animal tinha
-morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas duzias de
-patos, levara a «Duqueza» tambem. Era uma especie de paralysia que
-tomava as pernas, depois o resto do corpo. Tres dias levou a agonizar.
-Deitada sobre o peito, com o bico collado ao chão, atacada pelas
-formigas, o animal só dava signal de vida por uma lenta oscillação do
-pescoço em torno do bico, espantando as moscas que a importunavam na
-sua ultima hora.
-</p>
-
-<p>
-Era de ver como aquella vida tão extranha á nossa, naquelle instante
-penetrava em nós e sentiamo-lhe o soffrimento, a agonia e a dôr.
-</p>
-
-<p>
-O gallinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou gallinhas,
-perús, patos; ora sobre uma forma, ora sobre outra, foi ceifando,
-matando, até reduzir a sua população a menos de metade.
-</p>
-
-<p>
-E não havia quem soubesse curar. Numa terra, cujo Governo tinha tantas
-escolas que produziam tantos sabios, não havia um só homem que pudesse
-reduzir, com as suas drogas ou receitas aquelle consideravel prejuizo.
-</p>
-
-<p>
-Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador
-enthusiastico dos primeiros mezes; entretanto não passara pela mente
-de Quaresma abandonar os seus propositos. Adquiriu compendios de
-veterinaria e até já tratava de comprar as machinas agricolas
-descriptas nos catalogos.
-</p>
-
-<p>
-Uma tarde, porém, estava á espera da junta de bois que encommendara
-para o trabalho do arado, quando lhe appareceu á porta um soldado de
-policia com um papel official. Elle se lembrou da intimação municipal.
-Estava disposto a resistir, não se incommodou muito.
-</p>
-
-<p>
-Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da
-collectoria, cujo escrivão, Antonio Dutra, conforme estava no papel,
-intimava o Sr. Polycarpo Quaresma a pagar quinhentos mil réis de multa,
-por ter enviado productos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos
-impostos.
-</p>
-
-<p>
-Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento
-voou logo para as cousas geraes, levado pelo seu patriotismo profundo.
-</p>
-
-<p>
-A quarenta kilometros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao
-mercado umas batatas? Depois de Turgot da Revolução, ainda havia
-alfandegas interiores?
-</p>
-
-<p>
-Como era possivel fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e
-impostos? Se ao monopolio dos atravessadores do Rio se juntavam as
-exacções do Estado, como era possivel tirar da terra a remuneração
-consoladora?
-</p>
-
-<p>
-E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação
-da municipalidade, voltou-lhe de novo, mais tetrico, mais sombrio, mais
-lugubre; e anteviu a epoca em que aquella gente teria de comer sapo,
-cobras, animaes mortos, como em França os camponezes, em tempos de
-grandes reis.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma veiu a recordar-se do seu tupy, do seu <i>folk-lore</i>, das
-modinhas, das suas tentativas agricolas&mdash;tudo isso lhe pareceu
-insignificante, pueril, infantil.
-</p>
-
-<p>
-Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessario
-refazer a administração. Imaginava um Governo forte, respeitado,
-intelligente, removendo todos esses obices, esses entraves, Sully e
-Henrique IV, espalhando sabias leis agrarias, levantando o cultivador...
-Então sim! O celleiro surgiria e a patria seria feliz.
-</p>
-
-<p>
-Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar á
-estação, e lhe disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Seu patrão, amanhã não venho <i>trabaiá</i>.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Por certo; é dia feriado... A Independencia.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não é por isso.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Porque então?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ha <i>baruio</i> na Côrte e dizem que vão <i>arrecutá</i>. Vou
-p'r'o mato... Nada!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que barulho?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Tá</i> nas <i>foias</i>, sim <i>sinhô</i>.
-</p>
-
-<p>
-Abriu o jornal e logo deu com a noticia de que os navios da esquadra se
-haviam insurgido e intimado ao Presidente a sahir do poder. Lembrou-se
-das suas reflexões de instantes atrás; um Governo forte, até á
-tyrannia... Medidas agrarias... Sully e Henrique IV...
-</p>
-
-<p>
-Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao
-interior da casa, nada disse á irmã, tomou o chapéo, e dirigiu-se á
-estação.
-</p>
-
-<p>
-Chegou ao telegrapho e escreveu: «Marechal Floriano, Rio. Peço
-energia. Sigo já.&mdash;Quaresma».
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap05_2"></a></h4>
-
-<h4>V
-<br /><br />
-O TROVADOR</h4>
-
-<p>
-&mdash;De certo, Albernaz, não é possivel continuar assim... Então,
-mette-se um sujeito num navio, assesta os canhões p'ra terra e diz: sai
-d'ahi <i>seu</i> presidente; e o homem vai sahindo?... Não! É preciso um
-exemplo....
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu penso tambem da mesma maneira, Caldas. A Republica precisa ficar
-forte, consolidada... Esta terra necessita de Governo que se faça
-respeitar... É incrivel! Um paiz como este, tão rico, talvez o mais
-rico do mundo, é, no emtanto, pobre, deve a todo o mundo... Porque? Por
-causa dos Governos que temos tido que não têm prestigio, força... É
-por isso.
-</p>
-
-<p>
-Vinham andando, á sombra das grandes e magestosas arvores do parque
-abandonado; ambos fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto
-intervallo, continuou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por
-ahi, que o não chamasse de «banana» e outras cousas... Sahia no
-Carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um
-intruso.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E era um bom homem, observou o Almirante. Amava o seu paiz...
-Deodoro nunca soube o que fez.
-</p>
-
-<p>
-Continuavam a andar. O Almirante coçou um dos favoritos e Albernaz
-olhou um instante para todos os lados, accendeu o cigarro de palha e
-retomou a conversa:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Morreu arrependido... Nem com a farda quiz ir para a cóva!... Aqui
-para nós que ninguem nos ouve: foi um ingrato; o Imperador tinha feito
-tanto por toda a familia, não acha?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não ha duvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa:
-estavamos melhor naquelle tempo, digam lá o que disserem...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem diz o contrario? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias?
-um Rio Branco?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E mais justiça mesmo, disse com firmeza o Almirante. O que eu
-soffri, não foi por causa do <i>velho</i>, foi a canalha... Demais, tudo
-barato...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu não sei, disse Albernaz com particular accento, como ha ainda
-quem se case... Anda tudo pela hora da morte!
-</p>
-
-<p>
-Elles olharam um instante as velhas arvores da Quinta Imperial, por onde
-vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes
-que jamais tinham pousado os olhos sobre amores tão soberbas, tão
-bellas, tão tranquillas e seguras de si, como aquellas que espalhavam
-sob os seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam
-que medravam sentindo-se em terra propria, dellas, da qual nunca
-sahiriam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e esse
-sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade
-de se expandirem. O sólo sobre a qual cresciam, era dellas e agradeciam
-á terra extendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem,
-para dar á boa mãe, frescura e protecção contra a inclemencia do
-sol.
-</p>
-
-<p>
-As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas,
-quasi beijavam o chão. As jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se
-inclinavam, de um lado e outro da aléa, e cobriam a terra com uma ogiva
-verde...
-</p>
-
-<p>
-O velho edificio imperial se erguia sobre a pequena collina. Elles lhe
-viam o fundo, aquella parte de construcção mais antiga, joannina, com
-a torre do relogio um pouco afastada e separada do corpo do edificio.
-</p>
-
-<p>
-Não era bello o palacio, não tinha mesmo nenhum traço de belleza, era
-até pobre e monotono. As janellas acanhadas daquella fachada velha, os
-andares de pequena altura impressionavam mal; todo elle, porém, tinha
-uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco commum nas
-nossas habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente
-viver, não para um instante, mas para annos, para seculos... As
-palmeiras cercavam-n'o, erectas, firmes, com es seus grandes penachos
-verdes, muito altos, alongados para o céo...
-</p>
-
-<p>
-Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do
-seu mister e funcção.
-</p>
-
-<p>
-Albernaz interrompeu o silencio:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Em que dará isto tudo, Caldas?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sei lá.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O <i>homem</i> deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande,
-agora o Custodio... hum!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O poder é o poder, Albernaz.
-</p>
-
-<p>
-Vinham andando em demanda á estação de S. Christovão. Atravessaram o
-velho parque imperial transversalmente, desde o portão da Cancella até
-á linha da Estrada de Ferro. Era de manhã, e o dia estava limpido e
-fresco.
-</p>
-
-<p>
-Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de
-sahirem da Quinta, deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz
-teve vontade de acordal-o: camarada! camarada! O soldado levantou-se
-estremunhado: e, dando com aquelles dous officiaes superiores,
-concertou-se rapidamente, fez a continencia que lhes era devida e ficou
-com a mão no bonet, um instante firme, mas logo bambeou.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Abaixe a mão, fez o General. Que faz você aqui?
-</p>
-
-<p>
-Albernaz falou em tom rispido e de commando. A praça, falando a medo,
-explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. A força se
-recolhera aos quarteis; elle obtivera licença para ir em casa, mas o
-somno fôra muito e descançava ali um pouco.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então como vão as cousas? perguntou o General.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sei, não <i>sinhô</i>.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Os homens desistem ou não?
-</p>
-
-<p>
-O General esteve um instante examinando o soldado, Era branco e tinha os
-cabellos alourados, de um louro sujo e degradado; as feições eram
-feias: mallares salientes, testa ossea e todo elle anguloso e
-desconjuntado.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Do Piauhy, sim <i>sinhô</i>.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Da capital?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Do sertão, de Paranaguá, sim <i>sinhô</i>.
-</p>
-
-<p>
-O Almirante até ali não interrogara o soldado que continuava
-amedrontado, respondendo tropegamente. Caldas, para acalmal-o, resolveu
-falar-lhe com doçura.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Você não sabe, camarada, quaes são os navios que <i>elles</i> têm?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O «Aquidaban»... A «Lucy».
-</p>
-
-<p>
-&mdash;A «Lucy» não é navio.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É verdade, sim; sinhô. O «Aquidaban»... Um <i>bandão</i> delles,
-sim, <i>sinhô</i>.
-</p>
-
-<p>
-O General interveio então. Falou-lhe com brandura, quasi paternal,
-mudando o tratamento de você para tu, que parece mais doce e intimo
-quando se fala aos inferiores:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem, descança, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te
-o sabre e estás na <i>ignacia</i>.
-</p>
-
-<p>
-Os dous generaes continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na
-plataforma, da estação. A pequena estação tinha um razoavel
-movimento. Um grande numero de officiaes, activos, reformados,
-honorarios moravam-lhe nas cercanias e os editaes chamavam todos a se
-apresentar ás autoridades competentes. Albernaz e Caldas atravessaram
-a plataforma no meio de continencias. O General, era mais conhecido em
-virtude de seu emprego; o Almirante, não. Quando passavam, ouviam
-perguntar: «quem é este Almirante»? Caldas ficava contente e
-orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incognito.
-</p>
-
-<p>
-Havia uma unica mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e
-lembrou-se um instante de sua filha Ismenia... Coitada!... Ficaria boa?
-</p>
-
-<p>
-Aquellas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lagrimas, mas elle as
-reteve com força.
-</p>
-
-<p>
-Já a levara a uma meia duzia de medicos e nenhum fazia parar aquelle
-escapamento do juizo que parecia fugir aos poucos do cerebro da moça.
-</p>
-
-<p>
-A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrepido, apitando
-com furia e deixando fumaça pesada, pelos ares que rompia, afastou-o de
-pensar na filha. Passou o monstro, pejado de soldados, de uniformes e os
-trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam.
-</p>
-
-<p>
-Bustamante appareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para
-apresentar-se. Trazia o seu velho uniforme do Paraguay, talhado segundo
-os moldes dos guerreiros da Criméa. A barretina era um tronco de cône
-que avançava para a frente; e, com aquella banda roxa e casaquinha
-curta, parecia ter sahido, fugido, saltado de uma téla de Victor
-Meirelles.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorario.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Viemos pela Quinta, disse o Almirante.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me
-importa morrer, mas quero morrer combatendo; isso de morrer por ahi, á
-toa, sem saber como, não vai commigo...
-</p>
-
-<p>
-O General falara um pouco alto e os jovens officiaes que estavam
-proximo, olharam-n'o com mal disfarçada censura. Albernaz percebeu e
-ajuntou immmediatamente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Conheço bem esse negocio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe,
-Bustamante, que, em Curuzú...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;A cousa foi terrivel, accrescentou Bustamante.
-</p>
-
-<p>
-O trem atracava na estação. Veiu chegando manso, vagaroso, a
-locomotiva, muito negra, bufando, sumido gordurosamente, com a sua
-grande lanterna na frente, um olho de cyclope, avançava que nem uma
-apparição sobrenattural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e
-parou por fim.
-</p>
-
-<p>
-Estava repleto, muitas fardas de officiaes, a avaliar por ali o Rio
-devia ter uma guarnição de cem mil homens. Os militares palravam
-alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados. Se
-falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de
-traz.
-</p>
-
-<p>
-A cidade andava inçada de secretas, <i>familiares</i> do Santo Officio
-Republicano, e as delações eram moedas com que se obtinham postos e
-recompensas.
-</p>
-
-<p>
-Bastava a minima critica, para se perder o emprego, a liberdade,&mdash;quem
-sabe?&mdash;a vida tambem. Ainda estavamos no começo da revolta, mas o
-regimen já publicara o seu prologo e todos estavam avisados. O chefe de
-policia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distincção de
-posição e talentos. Mereciam as mesmas perseguições do Governo um
-pobre continuo e um influente senador; um lente e um simples empregado
-de escriptorio. Demais surgiam as vinganças! mesquinhas, a revide de
-pequenas implicancias... Todos mandavam: a autoridade estava em todas as
-mãos.
-</p>
-
-<p>
-Em nome do Marechal Floriano, qualquer official, ou mesmo cidadão, sem
-funcção publica alguma, prendia e ai de quem cahia na prisão, lá
-ficava esquecido, soffrendo angustiosos supplicios de uma imaginação
-dominicana. Os funccionarios disputavam-se em bajulação, em
-servilismo... Era um terror, um terror baço, sem coragem, sangrento,
-ás occultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem
-responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier
-Tinville.
-</p>
-
-<p>
-Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes,
-os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação vinha da
-convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a
-companhia, a todos esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia
-sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse
-nefasto o hypocrita positivismo, um pedantismo tyrannico, limitado e
-estreito, que justificava todas as violencias, todos os assassinios
-todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição
-necessaria, lá diz elle, ao progresso e tambem ao advento do regimen
-normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com
-fanhosas musicas de cornetins e versos detestaveis, o paraizo emfim, com
-inscripções em escriptura phonetica e eleitos calçados com sapatos de
-sola de borracha!...
-</p>
-
-<p>
-Os positivistas discutiam e citavam theoremas de mecanica para
-justificar as suas idéas de Governo, em tudo semelhantes aos khanatos e
-emirados orientaes.
-</p>
-
-<p>
-A mathematica do positivismo foi sempre um puro falatorio que,
-naquelles tempos, amedrontava toda a gente. Havia mesmo quem estivesse
-convencido que a mathematica tinha sido feita e criada para o
-positivismo, como se a Biblia estivesse sido criada unicamente para a
-Igreja Catholica e não tambem para a Anglicana. O prestigio delle era,
-portanto, enorme.
-</p>
-
-<p>
-O trem correu, parou ainda em uma estação e foi ter á praça da
-Republica. O Almirante, cozido com as paredes, seguiu para o Arsenal de
-Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel General. Penetraram
-no grande casarão, no meio do retinir de espadas, de tiques de
-cornetas; o grande pateo estava cheio de soldados, bandeiras, canhões,
-feixes de armas ensarilhadas, bayonetas reluzindo ao sol obliquo...
-</p>
-
-<p>
-No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vai-e-vem
-de fardas, dourados, fazendas multicores, uniformes de varias
-corporações e milicias, no meio dos quaes os trages escuros dos civis
-eram importunos como moscas. Misturavam-se officiaes da guarda nacional,
-da policia, da armada, do exercito, de bombeiros e de batalhões
-patrioticos que começavam a surgir.
-</p>
-
-<p>
-Apresentaram-se e, depois de tel-o feito ao Ajudante General e Ministro
-da Guerra, a um só tempo, ficaram a conversar nos corredores, com
-bastante prazer, pois que tinham encontrado o Tenente Fontes e ambos
-gostavam de ouvil-o.
-</p>
-
-<p>
-O General porque já era noivo de sua filha Lalá, e Bustamante porque
-aprendia com elle alguma cousa de nomenclatura dos armamentos modernos.
-</p>
-
-<p>
-Fontes estava indignado, todo elle era horror, maldição contra os
-insurrectos, e propunha os peores castigos.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Hão de ver o resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso do
-Marechal, se os pegasse... ai delles!
-</p>
-
-<p>
-O Tenente não era feroz nem mau, antes bom e até generoso, mas era
-positivista e tinha da sua Republica uma idéa religiosa e
-transcendente. Fazia repousar nella toda a felicidade humana e não
-admittia que a quizessem de outra forma que não aquella que imaginava
-boa. Fóra dahi não havia boa fé, sinceriddae; eram hereticos
-interesseiros, e, dominicano do seu barrete phrygio, raivoso por não
-poder queimal-os em autos de fé, congesto, via passar por seus olhos
-uma serie enorme de réos confitentes, relapsos, contumazes, falsos,
-simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por ahi...
-</p>
-
-<p>
-Albernaz não tinha tanta furia contra os adversarios. No fundo d'alma,
-elle os queria até, tinha amigos lá, e essas divergencias nada
-significavam para a sua idade e experiencia.
-</p>
-
-<p>
-Depositava, entretanto, uma certa esperança na acção do Marechal.
-Estando em apuros financeiros, não lhe dando o bastante a sua reforma e
-a gratificação de organizador do archivo do largo do Moura, esperava
-obter uma outra commissão, que lhe permitisse mais folgadamente
-adquirir o enxoval de Lalá.
-</p>
-
-<p>
-O Almirante, tambem, tinha grande confiança nos talentos guerreiros e
-de estadista de Floriano. A sua causa não ia lá muito bem. Perdera-a
-em primeira instancia, estava gastando muito dinheiro... O Governo
-precisava de officiais de marinha, quasi todos estavam na revolta;
-talvez lhe dessem uma esquadra a commandar... É verdade que... Mas, que
-diabo! Se fosse um navio, então sim: mas uma esquadra a cousa não era
-difficil: bastava coragem para combater.
-</p>
-
-<p>
-Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim
-que, para apoial-o e defender o seu Governo, imaginava organizar um
-batalhão patriotico, de que já tinha o nome «Cruzeiro do Sul» e
-naturalmente seria o seu commandante, com todas as vantagens do posto de
-coronel.
-</p>
-
-<p>
-Genelicio, cuja actividade nada tinha de guerreira, esperava muito da
-energia e da decisão do Governo de Floriano: esperava ser sub-director
-e não podia um Governo sério, honesto e energico, fazer outra cousa,
-desde que quizesse pôr ordem na sua secção.
-</p>
-
-<p>
-Essas secretas esperanças eram mais geraes do que se pode suppor. Nós
-vivemos do Governo e a revolta representava uma confusão nos empregos,
-nas honrarias e nas posições que o Estado espalha. Os suspeitos
-abririam vagas e as dedicações suppririam os titulos e habilitações
-para occupal-as; além disso, o Governo, precisando de sympathias e
-homens, tinha que nomear, espalhar, prodigalizar, inventar, criar e
-distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações.
-</p>
-
-<p>
-O proprio Dr. Armando Borges, o marido de Olga e sabio sereno e dedicado
-quando estudante, collocava na revolta a realização de risonhos
-anhelos.
-</p>
-
-<p>
-Medico e rico, pela fortuna da mulher, elle não andava satisfeito. A
-ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-n'o. Já era
-medico do Hospital Syrio, onde ia tres vezes por semana e, em meia hora,
-via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro, dava-lhe
-informações, o doutor ia de cama em cama, perguntando: como vai? Vou
-melhor seu doutor, respondia o syrio com voz gutural. Na seguinte,
-indagava: Já está melhor? E assim passava a visita; chegando ao
-gabinete receitava: doente n. 1, repita a receita; doente 5... quem
-é?... Quem é aquelle barbado... Ahn! E receitava.
-</p>
-
-<p>
-Mas medico de um hospital particular não dá fama a ninguem: o
-indispensavel é ser do Governo, senão elle não passava, de um simples
-pratico. Queria ter um cargo official, medico, director ou mesmo lente
-da Faculdade.
-</p>
-
-<p>
-E isso não era difficil, desde que arranjasse boas recommendações,
-pois já tinha certo nome, graças á sua actividade e fertilidade de
-recursos.
-</p>
-
-<p>
-De quando em quando, publicava um folheto «O cobreiro, Etiologia,
-Prophylaxia e tratamento» ou «Contribuição para o estudo da sarna no
-Brasil»; e mandava o folheto, quarenta e sessenta paginas, aos jornaes
-que se occupavam delle duas ou tres vezes por anno; <i>o operoso, Dr.
-Armando Borges, o illustre clinico, o proficiente medico da nossos
-hospitaes, etc. etc</i>.
-</p>
-
-<p>
-Obtinha isso graças á precaução que tomara em estudante de se
-relacionar com os rapazes da imprensa.
-</p>
-
-<p>
-Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que
-não havia nada de proprio, mas ricos de citações em francez, inglez e
-allemão.
-</p>
-
-<p>
-O logar de lente é que o tentava mais; o concurso porém, mettia-lhe
-medo. Tinha elementos, estava bem relacionado e cotado na Congregação,
-mas aquella historia de arguição apavorava-o.
-</p>
-
-<p>
-Não havia dia em que não comprasse livros, em francez, inglez e
-italiano; tomara até um professor de allemão para entrar na sciencia
-germanica; mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a sua
-felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando
-estudante.
-</p>
-
-<p>
-A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em bibliotheca.
-As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes
-tratados. Ar noite, elle abria as janellas das venezianas, accendia
-todos os bicos de gaz e se punha á meza, todo de branco com um livro
-aberto sob os olhos.
-</p>
-
-<p>
-O somno não tardava a vir ao fim da quinta pagina... isso era o diabo!
-Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances francezes, Goncourt,
-Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira
-que os tratados. Elle não comprehendia a grandeza daquellas analyses,
-daquellas descripções, o interesse e o valor dellas, revelando a
-todos, á sociedade, a vida, os sentimentos, as dores daquelles
-personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa sciencia e a
-pobreza de sua instrucção geral faziam-n'o ver naquillo tudo,
-brinquedos, passatempos, falatorios, tanto mais que elle dormia á
-leitura, de taes livros.
-</p>
-
-<p>
-Precisava, porém, illudir-se, a si mesmo e á mulher. De resto, da rua,
-viam-n'o e se dessem com elle a dormir sobre os livros?!... Tratou de
-encommendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com titulos
-trocados e afastou o somno.
-</p>
-
-<p>
-A sua clinica, entretanto, prosperava. De commandita com o tutor, chegou
-a ganhar uns seis contos, tratando de um febrão de uma orphã rica.
-</p>
-
-<p>
-Desde muito que a mulher lhe entrara na sua simulação de
-intelligencia, mas aquella manobra indecorosa, indignou-a. Que
-necessidade tinha elle disso? Não era já rico? Não era moço? Não
-tinha o privilegio de um titulo universitario? Tal acto pareceu á moça
-mais vil, mais baixo, que a usura de um judeu, que o aluguel de uma
-penna...
-</p>
-
-<p>
-Não foi desprezo, nojo que ella teve pelo marido; foi um sentimento
-mais calmo, menos activo; desinteressou-se delle, destacou-se de sua
-pessoa. Ella sentiu que tinham cortado todos os laços de affeição, de
-sympathia, que prendiam ambos, toda a ligação moral, emfim.
-</p>
-
-<p>
-Mesmo quando noiva, verificara que aquellas cousas de amor ao estudo, de
-interesse pela sciencia, de ambições de descobertas, nelle, eram
-superficiaes, estavam á flor da pelle; mas desculpou. Muitas vezes nós
-nos enganamos sobre as nossas proprias forças e capacidades; sonhamos
-ser Shakespeare e sahimos Mal dos Vinhas. Era perdoavel, mas charlatão?
-Era de mais!
-</p>
-
-<p>
-Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quasi
-indignidade?... Todos os homens deviam ser iguaes, era inutil mudar
-deste para aquelle...
-</p>
-
-<p>
-Quando chegou a esta conclusão, sentiu um grande allivio, e a sua
-physionomia se illuminou de novo como se já estivesse de todo passada a
-nuvem que empanava o sol dos seus olhos.
-</p>
-
-<p>
-Naquella carreira atropellada para o nome facil, elle não deu pelas
-modificações da mulher. Ella dissimulava os seus sentimentos, mais por
-dignidade e delicadeza, que mesmo por qualquer outro motivo; e a elle
-faltavam a sagacidade e finura necessarias para descobril-os sob o seu
-esconderijo.
-</p>
-
-<p>
-Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quando estavam longe um
-do outro!...
-</p>
-
-<p>
-A revolta veiu encontral-os assim; e o doutor, desde tres dias, pois ha
-tanto ella rebentara, meditava a sua ascenção social e monetaria.
-</p>
-
-<p>
-O sogro suspendera a viagem á Europa, e, naquella manhã, após o
-almoço, conforme o seu habito, lia recostado numa cadeira de viagem os
-jornaes do dia. O genro vestia-se e a filha; occupava-se com sua
-correspondencia, escrevendo á cabeceira da meza de jantar. Ella tinha
-um gabinete, com todo o luxo, livros, secretaria, estantes, mas gostava
-pela manhã, de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe parecia mais
-clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade
-ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no escrever.
-</p>
-
-<p>
-Ella escrevia e o pai lia; num dado momento elle disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sabes quem vem ahi, minha filha?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem é?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Teu padrinho. Telegraphou ao Floriano, dizendo que vinha... Está
-aqui, n'«O Paiz».
-</p>
-
-<p>
-A moça adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir do facto sobre
-as idéas e sentimentos de Quaresma. Quiz desapprovar, censurar;
-sentiu-o, porém, tão coherente com elle mesmo, tão de accordo com a
-substancia da vida que elle mesmo fabricara, que se limitou a sorrir
-complacente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O padrinho...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Está doido, disse Coleoni. <i>Per la madona</i>! Pois um homem que
-está quieto, socegado, vem metter-se nesta barafunda, neste inferno...
-</p>
-
-<p>
-O doutor voltava já inteiramente vestido, com a sobrecasaca funebre e a
-cartola reluzente na mão. Vinha irradiante e o seu rosto redondo
-reluzia, excepto onde o grande bigode punha sombras. Ainda ouviu as
-ultimas palavras do sogro, pronunciadas com aquelle seu portuguez rouco.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que ha? perguntou elle.
-</p>
-
-<p>
-Coleoni explicou a repetiu os commentarios que já fizera:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas não ha tal, disse o doutor. É o dever de todo o patriota... Que
-tem a idade? Quarenta e poucos annos, não é lá velho... Póde ainda
-bater-se pela Republica...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas não tem interesse nisso, objectou o velho.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E ha de ser só quem tem interesse que se deve bater pela Republica?
-interrogou o doutor.
-</p>
-
-<p>
-A moça que acabava de ler a carta que tinha escripto, mesmo sem
-levantar a cabeça, disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É vêm você com as suas theorias, filhinha. O patriotismo não está
-na barriga...
-</p>
-
-<p>
-E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes
-postiços mais falsificava.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas vocês só falam em patriotismo? E os
-outros! É monopolio de vocês o patriotismo? fez Olga.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo. Se elles fossem patriotas não estariam a despejar balas
-para a cidade, a entorpecer e desmoralisar a acção da autoridade
-constituida.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Deviam continuar a presenciar as prisões, as deportações, os
-fuzilamentos, toda a serie de violencias que se vêm commettendo, aqui e
-no Sul?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Você, no fundo, é uma revoltosa, disse o doutor fechando a
-discussão.
-</p>
-
-<p>
-Ella não deixava de ser. A sympathia dos desinteressados, da
-população. inteira era pelos insurgentes. Não só isso sempre
-acontece em toda a parte, como particularmente, no Brasil, devido a
-multiplos factores, ha de ser assim normalmente.
-</p>
-
-<p>
-Os Governos, com os seus inevitaveis processos de violencia e
-hypocrisias, ficam alheiados da sympathia dos que acreditam nelle; e
-demais, esquecidos de sua vital impotencia e inutilidade, levam a
-prometter o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que
-pedem sempre mudanças e mudanças.
-</p>
-
-<p>
-Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para os revoltosos; e
-Coleoni, estrangeiro e conhecendo, graças á sua vida, as nossas
-autoridades, calasse as suas sympathias num mutismo prudente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não me vá comprometter, hein Olga?
-</p>
-
-<p>
-Ella se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco,
-deitou-lhe o seu grande olhar luminoso e com os finos labios um pouco
-franzidos:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Você sabe bem que eu não te comprometto.
-</p>
-
-<p>
-O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do
-portão disse adeus a mulher, que lhe seguiu a sahida, debruçada na
-varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados.
-</p>
-
-<p>
-Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado das contingencias
-terrenas.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo vivia ainda na sua casa de commodos dos suburbios, cuja vista ia
-de Todos os Santos á Piedade, abrangendo um grande trato de area
-edificada, um panorama de casas e arvores.
-</p>
-
-<p>
-Já não se falava mais no seu rival e a sua magua tinha assentado.
-</p>
-
-<p>
-Por esses dias o seu triumpho desfilava sem contestação. Toda a cidade
-o tinha na consideração devida e elle quasi se julgava ao termo da sua
-carreira. Faltava o assentimento de Botafogo, mas estava certo de obter.
-</p>
-
-<p>
-Já publicara mais de um volume de canções; e, agora pensava em
-publicar mais outro.
-</p>
-
-<p>
-Ha dias vivia em casa, pouco sahindo, organizando o seu livro. Passava
-confinado no seu quarto, almoçando café, que elle mesmo fazia, e pão,
-indo á tarde jantar a uma tasca proximo á estação.
-</p>
-
-<p>
-Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que
-jantavam nas mezas sujas, abaixavam a voz e olhavam-n'o desconfiados;
-mas não deu importancia...
-</p>
-
-<p>
-Apezar de popular no logar, não encontrara pessoa alguma conhecida
-durante os tres ultimos dias; elle mesmo evitava falar e, em sua casa,
-limitava-se ao «bom dia» e á «boa tarde» trocados com os vizinhos.
-</p>
-
-<p>
-Gostava de passar assim dias, mettido em si mesmo e ouvindo o seu
-coração. Não lia jornaes para não distrahir a attenção do seu
-trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de
-ser mais uma victoria para elle e para o violão estremecido.
-</p>
-
-<p>
-Naquella tarde estava sentado á meza, corrigindo um dos seus trabalhos,
-um dos ultimos, aquelle que compuzera no sitio de Quaresma&mdash;«Os lábios
-de Carola».
-</p>
-
-<p>
-Primeiro, leu toda a producção, cantarolando: voltou a lel-a, agarrou
-o violão para melhor apanhar o effeito e empacou nestes:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2">É mais bella que Helena e Margarida,</span><br />
-<span class="i2">Quando sorri meneando a ventarola.</span><br />
-<span class="i2">Só se encontra a illusão que adoça a vida</span><br />
-<span class="i4">Nos labios de Carola.</span>
-</div></div>
-
-<p>
-Nisto ouviu um tiro, depois outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de
-ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a
-cantar os labios de Carola, onde encontrava a illusão que adoça a
-vida...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="Terceira">TERCEIRA PARTE</a></h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap01_3"></a></h4>
-
-<h4>I
-<br /><br />
-PATRIOTAS</h4>
-
-<p>
-Havia mais do uma hora que elle estava ali, num grande salão do
-palacio, vendo o Marechal, mas sem lhe poder falar. Quasi não se
-encontravam difficuldades para se chegar á sua presença, mas
-falar-lhe, a cousa não era tão facil.
-</p>
-
-<p>
-O palacio tinha um ar de intimidade, de quasi relaxamento,
-representativo o eloquente. Não era raro ver-se pelos divans, em outras
-salas, ajudantes de ordens, ordenanças, continuos, cochilando, meio
-deitados e desabotoados. Tudo nelle era desleixo e molleza. Os cantos
-dos tectos tinham teias de aranha; dos tapetes, quando pisados com mais
-força, subia uma poeira do rua mal varrida.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma não pudera vir logo, como annunciara no telegramma. Fôra
-preciso por em ordem os seus negocios, arranjar quem fizesse companhia
-á irmã. Fizera D. Adelaide mil objecções á sua partida;
-mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompativeis com a sua idade
-e superiores á sua força; elle, porém, não se deixara abater, fizera
-pé firme, pois sentia, indispensavel, necessario que toda a sua
-vontade, que toda a sua intelligencia, que tudo o que elle tinha de
-vida e actividade fosse posto á disposição do Governo, para
-então!... oh!
-</p>
-
-<p>
-Aproveitava os dias até para redigir um memorial que ia entregar a
-Floriano. Nelle expunham-se as medidas necessarias para o levantamento
-da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande
-propriedade, das exacções fiscaes, da carestia de fretes, da
-estreiteza dos mercados e das violencias politicas.
-</p>
-
-<p>
-O Major apertava o manuscripto na mão e lembrava-se da sua casa, lá
-longe, no canto daquella planicie feia, olhando, no poente, as montanhas
-que se alongavam, se afilavam nos dias claros e transparentes;
-lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e placidos que o viram
-partir com uma impassibilidade que não era natural; mas do que se
-lembrava mais, naquelle momento, era do Anastacio, o seu preto velho, do
-seu longo olhar, não mais com aquella ternura passiva de animal
-domestico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito
-nas orbitas as escleroticas muito brancas, quando o viu penetrar no
-vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça... Não lhe
-era commum tal attitude e como que a tomava por ter descoberto nas
-cousas signaes de dolorosos acontecimentos a vir... Ora!...
-</p>
-
-<p>
-Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro á espera que o
-Presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia e
-Floriano tinha ainda, como signal do almoço, o palito na boca.
-</p>
-
-<p>
-Falou em primeiro logar a uma commissão de senhoras que vinham
-offerecer o seu braço e o seu sangue em defeza das instituições e da
-patria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto, gorda, com
-grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita.
-</p>
-
-<p>
-Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam
-tantas nella que uma escondia a outra, furtando toda ella a uma
-classificação honesta.
-</p>
-
-<p>
-Emquanto falava, a mulhersinha deitava sobre o Marechal os grandes olhos
-que despediam chispas. Floriano parecia incommodado com aquelle
-chammejar; era como se temesse derreter-se ao calor daquelle olhar que
-queimava mais seducção que patriotismo. Fugia encaral-a, abaixava o
-rosto como um adolescente, batia com os dedos na meza...
-</p>
-
-<p>
-Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem
-encarar a mulher, e, com um grosso e difficil sorriso do roceiro,
-declinou da offerta, visto a Republica ainda dispor de bastante força
-para vencer.
-</p>
-
-<p>
-A ultima phrase, elle a disse com mais vagar e quasi ironicamente. As
-damas despediram-se; o Marechal gyrou o olhar em torno do salão e deu
-com Quaresma: Então, Quaresma? fez elle familiarmente.
-</p>
-
-<p>
-O Major ia approximar-se, mas logo estacou no logar em que estava. Uma
-chusma de officiaes subalternos e cadetes cercou o dictador e a sua
-attenção convergiu para elles. Não se ouvia o que diziam. Falavam ao
-ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espaduas. O Marechal
-quasi não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossylabo,
-cousa que Quaresma percebia pela articulação dos labios.
-</p>
-
-<p>
-Começaram a sahir. Apertavam a mão do dictador e, um delles, mais
-jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com força a mão
-molle, bateu-lhe no hombro com intimidade, e disse alto e com emphase;
-energia, Marechal!
-</p>
-
-<p>
-Aquillo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo
-ceremonial da Republica, que ninguem, nem o proprio Floriano, teve a
-minima surpreza, ao contrario alguns até sorriram alegres por ver o
-califado khan, o emir, transmittir um pouco do que tinha de sagrado ao
-subalterno desabusado. Não se foram todos immediatamente. Um delles
-demorou-se mais a segredar cousas á suprema autoridade do paiz. Era um
-cadete da Escola Militar, com a sua farda azul turqueza, talim e sabre de
-praça de pret.
-</p>
-
-<p>
-Os cadetes da Escola Militar formavam a phalange sagrada.
-</p>
-
-<p>
-Tinham todos os privilegios e todos os direitos; precediam ministros nas
-entrevistas com o dictador e abusavam dessa situação de esteio do
-sylla, para opprimir e vexar a cidade inteira.
-</p>
-
-<p>
-Uns trapos do positivismo se tinham collado naquellas intelligencias e
-uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando a
-autoridade, especialmente Floriano e vagamente a Republica, em artigo de
-fé, em feitiço, em idolo mexicano, em cujo altar todas as violencias
-e crimes eram oblatas dignas e offerendas uteis para a sua satisfação
-e eternidade.
-</p>
-
-<p>
-O cadete lá estava...
-</p>
-
-<p>
-Quaresma pôde então ver melhor a physionomia do homem que ia enfeixar
-em suas mãos, durante quasi um anno, tão fortes poderes, poderes de
-imperador Romano pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar
-obstaculo algum aos seus caprichos, ás suas fraquezas e vontades, nem
-mas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal e humana.
-</p>
-
-<p>
-Era vulgar e desoladora. O bigode cahido; o labio inferior pendente e
-molle a que se agarrava uma grande <i>mosca</i>; os traços flacidos e
-grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse
-propria, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço,
-redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era
-individual, mas nativa, de raça; e todo elle era gelatinoso, parecia
-não ter nervos.
-</p>
-
-<p>
-Não quiz o Major ver em taes signaes nada que lhe denotasse o caracter,
-a intelligencia e o temperamento. Essas cousas não vogam, disse elle de
-si para si.
-</p>
-
-<p>
-O seu enthusiasmo por aquelle idolo politico era forte, sincero e
-desinteressado. Tinha-o na conta de energico, de fino e supervidente,
-tenaz e conhecedor das necessidades do paiz, manhoso talvez um pouco,
-uma especie de Luiz XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era
-assim. Com uma ausencia total de qualidades intellectuaes, havia no
-caracter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tristeza de
-animo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça commum,
-essa preguiça de nós todos; era uma preguiça morbida, como que uma
-pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insufficiente quantidade
-de irrigação no seu organismo. Pelos logares que passou, tornou-se
-notavel pela indolencia e desamor ás obrigações dos seus cargos.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Quando director do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para
-assignar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro
-da guerra, passava mezes e mezes sem lá ir, deixando tudo por assignar,
-pelo que legou ao seu substituto um trabalho avultadissimo.
-</p>
-
-<p>
-Quem conhece a actividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de
-um Philippe II, de um Guilherme I, da Allemanha, em geral de todos os
-grandes homens de Estado, não comprehende o descaso florianesco pela
-expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades,
-de suas vistas, certamente necessarias deviam ser taes transmissões
-para que o seu senso superior se fizesse sentir e influisse na marcha
-das cousas governamentaes e administrativas.
-</p>
-
-<p>
-Dessa sua preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus
-mysteriosos monosyllabos, levados á altura de ditos sybillinos, as
-famosas <i>encruzilhadas dos tal vezes</i>, que tanto reagiram sobre a
-intelligencia e imaginação nacionaes, mendigas de heroes e grandes
-homens.
-</p>
-
-<p>
-Essa doentia preguiça, fazia-o andar de chinellos e deu-lhe aquelle
-aspecto de calma superior, calma de grande homem de estado ou de
-guerreiro extraordinario.
-</p>
-
-<p>
-Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros mezes de
-governo. A braços com o levante de presos, praças e inferiores da
-fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inquerito, abafou-o com
-medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra
-sedicção, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores
-e mais altas recompensas.
-</p>
-
-<p>
-Demais, ninguem póde admittir um homem forte, um Cesar, um Napoleão,
-que permitta aos subalternos aquellas intimidades deprimentes e tenha
-com elles as condescendencias que elle tinha, consentindo que o seu nome
-servisse de labaro para uma vasta serie de crimes de toda a especie.
-</p>
-
-<p>
-Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atomosphera de má vontade
-Napoleão assumiu o commando do exercito da Italia. Augereau que o
-chamava «general de rua», disse a alguem, após lhe ter falado: «o
-homem metteu-me medo»; e o corso estava senhor do exercito, sem
-<i>balidellas</i> no hombro, sem delegar tacita ou explicitamente a sua
-autoridade a subalternos irresponsaveis.
-</p>
-
-<p>
-De resto, a lentidão com que suffocou a revolta de 6 de Setembro mostra
-bem a incerteza, a vacillação de vontade de um homem que dispunha
-daquelles extraordinarios recursos que estavam ás suas ordens.
-</p>
-
-<p>
-Ha uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus
-movimentos, actos e gestos. Era o seu amor á familia, um amor
-entranhado, alguma cousa de patriarchal, de antigo que já se vai
-esvaindo com a marcha da civilização.
-</p>
-
-<p>
-Em virtude de insuccessos na exploração agricola de duas das suas
-propriedades, a sua situação particular era precaria, e não queria
-morrer sem deixar á familia as suas propriedades agricolas desoneradas
-do peso das dividas.
-</p>
-
-<p>
-Honesto e probo como era, a unica esperança que lhe restava, repousava
-nas economias sobre os seus ordenados. Dahi lhe veiu essa dubiedade,
-esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensavel para conservar os
-rendosos logares que teve e o fez atarrachar-se tenazmente á
-presidencia da Republica. A hypotheca do «Brejão» e do «Duarte» foi
-o seu nariz de Cleopatra...
-</p>
-
-<p>
-A sua preguiça, a sua tistreza de animo e o seu amor fervoroso pelo lar
-deram em resultado esse <i>homem-talvez</i> que, refractado nas
-necessidades mentaes e sociaes dos homens do tempo, foi transformado em
-estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais
-teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até
-enthusiasmo e fanatismo.
-</p>
-
-<p>
-Esse enthusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que
-o sustentaram, só teriam sido possiveis, depois de ter elle sido
-ajudante general do Imperio, senador, ministro, isto após se ter
-<i>fabricado</i> á vista de todos o chrystalizado a lenda na mente de
-todos.
-</p>
-
-<p>
-A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia,
-nem a aristocracia; era a de uma tyrannia domestica. O bêbê portou-se
-mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande o portar-se mal em fazer-lhe
-opposição, ter opiniões contrarias ás suas e o castigo não eram
-mais palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não ha dinheiro no
-Thesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se
-faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais agua.
-</p>
-
-<p>
-Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce
-a essa concepção infantil, raiando-a de violencia, não tanto por elle
-em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela vida
-humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade
-dos seus auxiliares e asseclas.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; elle com muitos homens
-honestas e sinceros do tempo, foram tomados pelo enthusiasmo contagioso
-que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino
-reservava aquella figura placida e triste; na reforma radical que elle
-ia levar organismo anniquilado da patria, que o Major se habituara a
-crer a mais rica do mundo, embora, de uns tempos para cá, já tivesse
-duvidas a certos respeitos.
-</p>
-
-<p>
-De certo, elle não negaria taes esperanças e a sua acção poderosa
-havia de se fazer sentir pelos oito milhões de kilometros quadrados do
-Brasil, levando-lhes estradas, segurança, protecção aos fracos,
-assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.
-</p>
-
-<p>
-Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro de
-espera, desde que o Marechal lhe falou familiarmente, começou a
-considerar aquelle homem pequenino, taciturno, de <i>pince-nez</i> e foi-se
-chegando, se approximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quasi
-como um terrivel segredo:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Elles vão ver o <i>caboclo</i>... O Major ha muito que o conhece?
-</p>
-
-<p>
-Respondeu-lhe o Major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o
-presidente, porém, ficara só e Quaresma avançou.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então, Quaresma? fez Floriano.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Venho offerecer á V. Ex. os meus fracos prestimos.
-</p>
-
-<p>
-O presidente considerou um instante aquella pequenez de homem, sorriu
-com difficuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu
-por ahi a força de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal.
-</p>
-
-<p>
-Floriano tinha essa capacidade de guardar physionomias, nomes, empregos,
-situações dos subalternos com quem lidava. Tinha alguma cousa de
-asiatico; era cruel e paternal ao mesmo tempo.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a occasião para lhe falar
-em leis agrarias, medidas tendentes a desafogar e dar novas bases á
-nossa vida agricola. O Marechal ouviu-o distrahido, com uma dobra de
-aborrecimento no canto dos labios.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Trazia á V. Ex. até este memorial...
-</p>
-
-<p>
-O presidente teve um gesto de mau humor, um quasi «não me amole» e
-disse com preguiça a Quaresma:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Deixa ahi...
-</p>
-
-<p>
-Depositou o manuscripto sobre meza e logo o dictador dirigiu-se ao
-interlocutor de ainda agora:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que ha, Bustamante? e o batalhão, vai?
-</p>
-
-<p>
-O homem approximou-se mais, um tanto amedrontado!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vai bem, Marechal. Precisamos de um quartel... Se V. Ex. desse
-ordem...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É exacto. Fala ao Rufino em meu nome que elle póde arranjar... Ou
-antes: leva-lhe este bilhete.
-</p>
-
-<p>
-Rasgou um pedaço de uma das primeiras paginas do manuscripto de
-Quaresma, e assim mesmo, sobre aquella ponta de papel, a lapiz azul,
-escreveu algumas palavras ao seu ministro da guerra. Ao acabar é que
-deu com a desconsideração:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ora! Quaresma! rasguei o teu escripto... Não faz mal... Era a parte
-de cima, não tinha nada escripto.
-</p>
-
-<p>
-O Major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para
-Bustamante:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu! foz Quaresma estupidamente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem. Vocês lá se entendam.
-</p>
-
-<p>
-Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas
-do Itamaraty. Até á rua nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um
-pouco frio. O dia estava claro e quente; o movimento da cidade parecia
-não ter soffrido alteração apreciavel. Havia a mesma agitação de
-bondes, carros e carroças; mas nas physionomias, um terror, um espanto,
-alguma cousa de tremendo ameaçava, todos e parecia estar suspenso no
-ar.
-</p>
-
-<p>
-Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora
-Tenente-Coronel, velho amigo do Marechal, seu companheiro no Paraguay.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas nós nos conhecemos! exclamou elle.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma esteve olhando aquelle velho mulato escuro, com uma grande
-barba mosaica e olhos espertos, mas não se lembrou de tel-o já
-encontrado algum dia.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não me recordo... Donde?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Da casa do General Albernaz... Não se lembra?
-</p>
-
-<p>
-Polycarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a
-formação do seu batalhão patriotico «Cruzeiro do Sul».
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Sr. quer fazer parte?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pois não, fez Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Estamos em difficuldades... Fardamento, calçado para as praças...
-Nas primeiras despezas devemos auxiliar o Governo... Não convém
-sangrar o Thesouro, não acha?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Certamente, disse com enthusiasmo Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um
-patriota... Resolvi por isso fazer um rateio pelos officiaes, em proporção
-ao posto: um alferes concorre com cem mil réis, um tenente com duzentos...
-O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O senhor é major, não é?
-</p>
-
-<p>
-Quaresma então explicou por que o tratavam por Major. Um amigo,
-influencia no Ministerio do Interior, lhe tinha mettido o nome numa lista
-de guardas nacionaes, com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos,
-viu-se, entretanto, sempre tratado Major, e a cousa pegou. A principio,
-protestou, mas como teimassem deixou.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo Major.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual é a minha quota?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quatrocentos mil réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um
-posto importante... Aceita?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Pois não.
-</p>
-
-<p>
-Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha do lapiz e
-despediu-se jovialmente.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então, Major, ás seis, no quartel provisorio.
-</p>
-
-<p>
-A conversa se havia passado na esquina da rua Larga com o Campo de
-Sant'Anna. Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da
-cidade. Tencionava visitar o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas
-para a sua iniciação militar.
-</p>
-
-<p>
-A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto
-compassado das mulas; de quando em quando ou via-se um toque de corneta,
-rufos de tambor, e do portão central do Quartel General sahia uma
-força, armas ao hombro, bayonetas caladas, dansando nos hombros dos
-recrutas, faiscando com um brilho duro e máu.
-</p>
-
-<p>
-Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o
-secco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o bonde attingisse
-á rua da Constituição, todos os rumores guerreiros tinham cessado, e
-quem não estivesse avisado havia de suppor-se em tempos normaes.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que
-comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido;
-bateram-lhe no hombro. Voltou-se.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Oh! General!
-</p>
-
-<p>
-O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimonias e
-tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos
-que se tinham enfraquecido por uma separação qualquer. Estava fardado, com
-aquelle seu uniforme mal tratado; não trazia espada e o <i>pince-nez</i>
-continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detraz da
-orelha esquerda.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então vem ver a cousa?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vim. Já me apresentei ao Marechal.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Elles</i> vão ver com quem se metteram. Pensam que tratam com o
-Deodoro, enganam-se!... A Republica, graças a Deus, tem agora um homem
-na sua frente... O <i>caboclo</i> é de ferro... No Paraguay...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Sr. conheceu-o lá, não, General?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Isto é... Não chegamos a nos encontrar, mas o Camisão... É duro, o
-homem. Estou como encarregado das munições... É fino o <i>caboclo</i>;
-não me quiz no litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que
-saia das minhas mãos, é munição... Lá, no deposito, não me sai um
-caixote que eu não examine... É necessario... No Paraguay, houve muita
-desordem e comilança: mandou-se muita cal por polvora&mdash;não sabia?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não.
-</p>
-
-<p>
-Pois foi. O meu gasto era ir para as praias, para o combate: mas o
-<i>homem</i> quer que eu fique com as munições... Capitão manda marinheiro
-faz... Elle sabe lá...
-</p>
-
-<p>
-Deu de hombros, concertou o trancelim que já cahia da orelha e esteve
-calado um instante. Quaresma perguntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como vai a familia?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem. Sabe que Quinota casou-se?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sabia, o Ricardo me disse. E D. Ismenia, como vai?
-</p>
-
-<p>
-A physionomia do General toldou-se e respondeu como a contragosto:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vai no mesmo.
-</p>
-
-<p>
-O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha
-enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros
-calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de
-estatua, numa atonia de inanimado, como que cahira em imbecilidade; mas
-vinha uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria
-á mãe, dizendo: «Aprompta-me, mamãe. O meu noivo não deve tardar...
-é hoje o meu casamento». Outras vezes recortava papel, em forma de
-participações, e escrevia: Ismenia de Albernaz e Fulano (variava)
-participam o seu casamento.
-</p>
-
-<p>
-O General já consultara uma duzia de medicos, o espiritismo e agora
-andava ás voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, porém, não
-sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espirito
-naquella obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que
-não attingira, aniquilando-se, porém, o seu espirito e a sua mocidade
-em pleno verdor.
-</p>
-
-<p>
-Entristecia o seu estado aquella casa outr'ora tão alegre, tão
-festiva. Os bailes tinham diminuido: e, quando eram obrigados a dar um,
-nas datas principaes, a moça, com todos os cuidados, á custa de todas
-as promessas, era levada para casa da irmã casada, e lá ficava,
-emquanto as outras dansavam, um instante esquecidas da irmã que
-soffria.
-</p>
-
-<p>
-Albernaz não quis revelar aquella dôr de sua velhice: reprimiu a
-emoção e continuou no tom mais natural, naquelle seu tom familiar e
-intimo que usava com todos:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Isto é uma infamia, Sr. Quaresma. Que atrazo para o paiz! E os
-prejuizos? Um porto destes fechado ao commercio nacional, quantos annos
-de retardamento não representa!
-</p>
-
-<p>
-O Major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de
-forma a tornar impossivel a reproducção de levantes e insurreições.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;De certo, adduziu o General. Assim não progredimos, não nos
-adiantamos. E no estrangeiro que mau effeito!
-</p>
-
-<p>
-O bonde chegara ao largo de S. Francisco e os dous se separaram.
-Quaresma foi direitinho ao largo da Carioca e Albernaz seguiu para a rua
-do Rosario.
-</p>
-
-<p>
-Olga viu entrar seu padrinho sem aquella alegria expansiva de sempre.
-Não foi indifferença que sentiu, foi espanto, assombro, quasi modo,
-embora soubesse perfeitamente que elle estava a chegar. Entretanto, não
-havia mudança na physionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo elle.
-Era o mesmo homem baixo, pallido, com aquelle cavaignac apontado e o olhar
-agudo por detraz do <i>pince-nez</i>... Nem mesmo estava mais queimado
-e o geito de apertar os labios era o mesmo que ella conhecia ha tantos
-annos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impellido, empurrado por
-uma força extranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto,
-verificou que lhe entrara naturalmente, com o seu passo meudo e firme.
-Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirava sua
-alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de
-jantar e Quaresma não se fazia annunciar; ia entrando conforme o velho
-habito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua
-entrada:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Papae saiu; e o Armando está lá em baixo escrevendo.
-</p>
-
-<p>
-De facto, elle estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para
-o <i>classico</i> um grande artigo sobre «Ferimentos por arma de
-fogo». O seu ultimo <i>truc</i> intellectual era este do classico.
-Buscava nisto uma distincção, uma separação intellectual desses
-meninos por ahi que escrevem contos e romances nos jornaes. Elle, um
-sabio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma que
-elles. A sua sabedoria superior e o seu titulo <i>academico</i> não
-podia usar da mesma lingua, dos mesmos modismos, da mesma syntaxe que
-esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a idéa do classico. O
-processo era simples: escrevia do modo commum, com as palavras e o jeito
-de hoje, em seguida invertia as orações, picava o periodo com virgulas
-e substituia <i>incomodar</i> por <i>molestar</i>, ao <i>redor</i> por
-<i>derredor</i>, <i>isto</i> por <i>esto</i>, <i>quão grande</i> ou
-<i>tão grande</i> por <i>quammanho</i>, sarapintava tudo de <i>ao
-invez</i>, <i>empós</i>, e assim obtinha o seu estylo classico que
-começava a causar admiração aos seus pares e ao publico em geral.
-</p>
-
-<p>
-Gostava muito da expressão&mdash;<i>ás rebatinhas</i>; usava-a a todo o
-momento e, guando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu
-estylo uma força e um brilho pascalinos e ás suas idéas unia sufficiencia
-transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo ás primeiras
-linhas o somno lhe vinha e dormia sonhando-se <i>physico</i>, tratado de
-mestre, em pleno seiscentos, prescrevendo sangria e agua quente, tal e
-qual o Dr. Sangrado.
-</p>
-
-<p>
-A sua traducção estava quasi no fim, já estava bastante pratico, pois
-com o tempo adquirira um vocabulario sufficiente e a versão era feita
-mentalmente, em quasi metade, logo na primeira escripta. Recebeu o
-recado da mulher, annunciando-lhe a visita, com um pequeno
-aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente
-classico para <i>orificio</i>, julgou util a interrupção. Queria pôr
-<i>buraco</i>, mas era plebeu; <i>orificio</i>, se bem que muito usado,
-era, entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou: e subiu á
-sala de jantar. Elle entrou prazenteiro, com o seu grande bigode
-esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada
-empenhados em uma discussão sobre autoridade.
-</p>
-
-<p>
-Dizia ella:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu não posso comprehender esse tom divino com que os senhores falam
-da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse
-respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes?
-</p>
-
-<p>
-O doutor, que ouvira toda a phrase, não pôde deixar de objetar:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas é preciso, indispensavel... Nós sabemos bem que elles são
-homens como nós, mas, se não for assim tudo vai por agua abaixo.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma acrescentou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É em virtude das proprias necessidades internas e externas da nossa
-sociedade que ella existe... Nas formigas, nas abelhas...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Admitto. Mas ha revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade
-se mantem lá á custa de assassinios, exacções e violencias?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-O doutor não teve duvidas e foi logo dizendo:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pinaculo da
-escala zoologica iremos buscar normas de vida entre insectos?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos delles a certeza
-da generalidade do phenomeno, da sua immanencia, por assim dizer, disse
-Quaresma com doçura.
-</p>
-
-<p>
-Elle não tinha acabado a explicação e já Olga reflectia:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade&mdash;vá; mas não;
-de que vale?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ha de trazer, affirmou categoricamente Quaresma. A questão é
-consolidal-a.
-</p>
-
-<p>
-Conversaram ainda muito tempo. O Major contou a sua visita a Floriano, a
-sua proxima incorporação ao batalhão «Cruzeiro do Sul». O doutor
-teve uma ponta de inveja, quando elle se referiu ao modo familiar por
-que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno <i>lunch</i> e Quaresma saiu.
-</p>
-
-<p>
-Sentia necessidade de rever aquellas ruas estreitas, com as suas lojas
-profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um
-subterraneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléa,
-a casquilha rua do Ouvidor davam-lhe saudades.
-</p>
-
-<p>
-A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no
-Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, os <i>jacobinos</i>, a
-guarda abnegada da Republica, os intransigentes, a cujos olhos, a
-moderação, a tolerancia e o respeito pela liberdade e a vida alheias
-eram crimes de lesa-patria, sintomas de monarquismo criminoso e
-abdicação desonesta diante do estrangeiro. O estrangeiro era sobretudo
-o portuguez, o que não impedia de haver jornaes <i>jacobinissimos</i>
-redigidos por portuguezes da mais bella agua.
-</p>
-
-<p>
-A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a rua do Ouvidor era a
-mesma. Os namoros se faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia
-no alto céo azul, luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam
-para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o
-sangue a subir ás faces pouco e pouco, depois da pallidez do medo.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma jantou num <i>restaurant</i> e dirigiu-se ao quartel, que
-funccionava provisoriamente num velho cortiço condemnado pela hygiene,
-lá pelos lados da cidade Nova. Tinha o tal cortiço andar terreo e
-sobrado, ambos divididos em cubiculos do tamanho de camarotes de navio.
-No sobrado, havia uma varanda de grade de páu e uma escada de madeira
-levava até lá, escada tosca e oscillante, que gemia á menor passada.
-A casa da ordem funccionava no primeiro quartinho do sobrado e o pateo,
-já sem as cordas de seccar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas
-das barrélas e da agua de sabão, servia para a instrucção dos
-recrutas. O instructor era um sargento reformado, um tanto coxo, e
-admittido no batalhão com o posto de alferes, que gritava com uma
-demora majestosa: <i>hom&mdash;brô</i>... armas!
-</p>
-
-<p>
-O Major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o
-modelo do fardamento.
-</p>
-
-<p>
-Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dolman era
-verde-garrafa e tinha uns vivos azul ferrete, alamares dourados e quatro
-estrellas prateadas, em cruz, na góla.
-</p>
-
-<p>
-Uma gritaria fel-os vir até á varanda. Entre soldados entrava um
-homem, a se debater, a chorar e a implorar, ao mesmo tempo, levando de
-quando em quando uma reflada.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, Coronel?
-continuou ele com interesse e piedade.
-</p>
-
-<p>
-Bustamante estava impassivel na varanda e só respondeu depois de algum
-tempo:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Conheço... É um voluntario recalcitrante, um patriota rebelde.
-</p>
-
-<p>
-Os soldados subiram com o <i>voluntario</i> e Ricardo logo que deu com o
-major, suplicou-lhe:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Salve-me major!
-</p>
-
-<p>
-Quaresma chamou de parte o Coronel, rogou-lhe e supplicou-lhe, mas foi
-inutil... Ha necessidade de gente... Enfim, fazia-o cabo.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e
-exclamou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu sirvo sim, sim, mas dêm-me o meu violão.
-</p>
-
-<p>
-Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Restituam o violão ao cabo Ricardo!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap02_3"></a></h4>
-
-<h4>II
-<br /><br />
-VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO</h4>
-
-<p>
-Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado de terra,
-mal se enxergam as partes baixas dos edificios proximos; para o lado do
-mar, então, a vista é impotente contra aquella treva esbranquiçada e
-fluctuante, contra aquella muralha de flócos e opaca, que se condensa
-ali e aqui em apparições, em semelhanças de cousas. O mar está
-silencioso: ha grandes intervallos entre o seu fraco marulho. Vê-se da
-praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odôr da maresia
-parece mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o
-desconhecido, o Mysterio. Entretanto, aquella pasta espessa, de uma
-claridade diffusa, está povoada de ruidos. O chiar das serras vizinhas,
-os apitos de fabricas e locomotivas, os guinchos do guindastes dos
-navios enchem aquella manhã indecifravel e taciturna; e ouve-se mesmo a
-bulha compassada de remos que ferem o mar. Accredita-se, dentro daquelle
-decoro, que é Charonte que traz a sua barca para uma das margens do
-Styge...
-</p>
-
-<p>
-Attenção! Todos prescrutam a cortina de nevoa pastosa. Os rostos
-estão alterados; parece que, do seio da bruma, vão surgir demonios...
-</p>
-
-<p>
-Não se ouve mais a bulha: o escaler afastou-se. As physionomias
-respiram aliviadas...
-</p>
-
-<p>
-Não é noite, não é dia; não é o diluculo, não é o crepusculo:
-é a hora da angustia, é a luz da incerteza. No mar, não ha estrellas
-nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro ás paredes
-brancas das casas. A nossa miseria é mais completa e a falta daquelles
-mudos marcos da nossa actividade dá mais forte percepção do nosso
-isolamento no seio da natureza grandiosa.
-</p>
-
-<p>
-Os ruidos continuam, e, como nada se vê, parece que vêm do fundo da
-terra ou são allucinações auditivas. A realidade só nos vem do
-pedaço de mar que se avista, marulhando com grandes intervallos,
-fracamente, tenuemente, a medo, de encontro a areia da praia, suja de
-bodelhas, algas e sargaços.
-</p>
-
-<p>
-Aos grupos, após o rumor dos remos, os soldados deitaram-se pela relva
-que continua a praia. Alguns já cochilam; outros procuram com os olhos
-o céo atravez do nevoeiro que lhes humedece o rosto.
-</p>
-
-<p>
-O cabo Ricardo Coração dos Outros, de rifle á cintura e gorro á
-cabeça, sentado numa pedra, está de parte, sósinho, e olha aquella
-manhã angustiosa.
-</p>
-
-<p>
-Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar, onde ella
-faz sentir toda a sua força de desesperar. Em geral, elle só tinha
-olhos para as alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes;
-aquelle amanhecer brumoso e feio, era uma novidade para elle.
-</p>
-
-<p>
-Sob o fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquella vida
-solta da caserna vai-lhe bem n'alma: o violão está lá dentro e, em
-horas de folga, elle o experimenta, cantarolando em voz baixa. É
-preciso não enferrujar os dedos... O seu pequeno aborrecimento é não
-poder, de quando em quando, soltar o peito.
-</p>
-
-<p>
-O commandante do destacamento é Quaresma que, talvez, consentisse...
-</p>
-
-<p>
-O Major está no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu
-estudo predilecto é agora artilharia. Comprou compendios; mas, como sua
-instrucção é insufficiente, da artilharia vai á balistica, da
-balistica á mecanica, da mecanica ao calculo e á geometria analytica;
-desce mais a escada; vai á trigonometria, á geometria e á algebra e
-á arithmetica. Elle percorre essa cadeia de sciencias entrelaçadas com
-uma fé de inventor. Aprende uma noção elementarissima após um
-rosario de consultas, de compendio em compendio; e leva assim aquelles
-dias de ocio guerreiro enfronhado na mathematica, nessa mathematica
-rebarbativa e hostil aos cerebros que já não são mais moços.
-</p>
-
-<p>
-Ha no destacamento um canhão Krupp, mas elle nada tem a ver com o
-mortifero apparelho: comtudo, estuda artilharia. É encarregado delle o
-Tenente Fontes, que não dá obediencia alguma ao patriota Major.
-Quaresma não se incommoda com isso; vai aprendendo lentamente a
-servir-se da boca de fogo e submete-se á arrogancia do subalterno.
-</p>
-
-<p>
-O Commandante do «Cruzeiro do Sul», o Bustamante da barba mosaica,
-continua no quartel, superintendendo a vida do batalhão, A unidade tem
-poucos officiaes e muito poucas praças; mas o Estado paga o pret de
-quatrocentas. Ha falta de capitães, o numero de alferes está justo, o
-de tenentes quasi, más já ha um major, que é Quaresma, e o
-commandante, Bustamante, que por modestia, se fez simplesmente
-Tenente-Coronel.
-</p>
-
-<p>
-Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma commanda, tres alferes,
-dous tenentes; mas os officiaes pouco apparecem. Estão doentes ou
-licenciados e só elle, o antigo agricultor do «Socego», e um alferes,
-Polydoro, este mesmo só á noite, estão a postos. Um soldado entrou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sr. Commandante, posso ir almoçar?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Póde. Chama-me o cabo Ricardo.
-</p>
-
-<p>
-A praça sahiu capengando em cima de grandes botinas: o pobre homem
-usava aquella peça protectora como um castigo. Assim que se viu no
-matto, que levava á casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da
-liberdade.
-</p>
-
-<p>
-O commandante chegou á janella. A cerração se ia dissipando. Já se
-via o sol que brilhava como um disco de ouro fosco.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo Coração dos Outros appareceu. Estava engraçado dentro do seu
-fardamento de caporal. A blusa era curtissima, sungada; os punhos lhe
-apareciam inteiramente: e as calças eram compridissimas e arrastavam no
-chão.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Como vaes Ricardo?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem. E o Sr. Major?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Assim.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma deitou sobre o inferior e amigo, aquelle seu olhar agudo e
-demorado:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Andas aborrecido, não é?
-</p>
-
-<p>
-O trovador sentiu-se alegre com o interesse do commandante:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não... Para que dizer, Major, que sim... Se a cousa for assim até ao
-fim, não é mau... O diabo é quando ha tiro... Uma cousa, Major; não
-se poderia, assim, ahi pelas horas em que não ha que fazer, ir nas
-mangueiras, cantar um pouco...
-</p>
-
-<p>
-O Major coçou a cabeça, alisou o cavaignac e disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu, não sei... É..
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Sr. sabe que isso de cantar baixo é remar em secco... Dizem que no
-Paraguay...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem. Cante lá; mas não grite, hein?
-</p>
-
-<p>
-Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o Major recommendou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Manda-me trazer o almoço.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro tambem dormir. As
-refeições eram-lhe fornecidas por um <i>frege</i> proximo e elle dormia em
-um quarto daquella edificação imperial. Porque a casa em que se
-acantonara o destacamento, era o pavilhão do Imperador, situado na
-antiga Quinta da Ponta do Cajú. Ficavam nella tambem a estação da
-estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e bulhenta serraria. Quaresma
-veiu até á porta, olhou a praia suja e ficou admirado que o Imperador
-a quizesse para banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente.
-</p>
-
-<p>
-As formas das cousas sahiam modeladas do seio daquella massa de nevoa
-pesada; e, satisfeitas, como se o pesadello tivesse passado. Primeiro
-surgiam as partes baixas, lentamente: e por fim, quasi repentinamente,
-as altas.
-</p>
-
-<p>
-Á direita, havia a Saude, a Gamboa, os navios de commercio: galeras de
-tres mastros, cargueiros a vapor, altaneiros barcos á vela&mdash;que iam
-sahindo da bruma, e, por instantes aquillo tudo tinha um ar de paysagem
-hollandeza, á esquerda, era o sacco da Raposa, o Retiro Saudoso, a
-Sapucaia horrenda, a ilha do Governador, os Orgãos Azues, altos de
-tocar no céo; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os seus depositos de
-carvão; e, alongando a vista pelo mar socegado, Nictheroy, cujas
-montanhas acabavam de recortar-se no céo azul, á luz daquella manhã
-atrazada.
-</p>
-
-<p>
-A neblina foi se e um gallo cantou. Era como se a alegria voltasse á
-terra: era uma alleluia. Aquelles chiados, aquelles apitos, os guinchos
-tinham um accento festivo de contentamento.
-</p>
-
-<p>
-Chegou o almoço e o sargento veiu dizer a Quaresma que havia duas
-deserções.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mais duas? fez admirado o Major.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sim, senhor. O 125 e o 320 não responderam hoje a revista.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Faça a parte.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quasi
-nunca dormia ali; pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as
-cousas como iam.
-</p>
-
-<p>
-Uma madrugada, elle não estava. A treva ainda era profunda. O soldado
-de vigia viu lá, ao longe, um vulto que se movia dentro da sombra,
-resvalando sobre as aguas do mar. Não trazia luz alguma; só o
-movimento daquella mancha escura, revelava uma embarcação, e tambem a
-ligeira phosphorescencia das aguas. O soldado deu rebate; o pequeno
-destacamento poz-se a postos e Quaresma appareceu.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O canhão! Já! Avante! ordenou o commandante.
-</p>
-
-<p>
-E, em seguida, nervoso, recommendou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Esperem um pouco.
-</p>
-
-<p>
-Correu á casa e foi consultar os seus compendios e tabellas. Demorou-se
-e a lancha avançava, os soldados estavam tontos e um delles tomou a
-iniciativa: carregou a peça e disparou-a.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma reappareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo
-resfolegar:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Viram bem... a distancia... a alça... o angulo... É preciso ter
-sempre em vista a efficiencia do fogo.
-</p>
-
-<p>
-Fontes veiu e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ora, Major, você pensa que está em um polygno, fazendo estudos
-praticos... Fogo para diante!
-</p>
-
-<p>
-E assim era. Quasi todas as tardes havia bombardeio, do mar para as
-fortalezas, e das fortalezas para o mar; e, tanto os navios como os
-fortes, sahiam incolumes de tão terriveis armas.
-</p>
-
-<p>
-Lá vinha uma occasião, porém, que acertavam, então os jornaes
-noticiavam: «Hontem, o forte Academico, fez um maravilhoso disparo. Com
-o canhão tal, metteu uma bala no «Guanabara». No dia seguinte, o
-mesmo jornal rectificava, a pedido da bateria do cáes Pharoux que era
-a que tinha feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já
-estava esquecida, quando apparecia uma carta de Nictheroy, reclamando as
-honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.
-</p>
-
-<p>
-O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de
-entendedor. Havia uma trincheira de fardos de alfafa e a boca da peça
-sabia por entre os fiapos da palha, como as guellas de um animal feroz
-occulto entre hervas.
-</p>
-
-<p>
-Olhava o horizonte, depois de exame attento ao canhão, e considerava a
-ilha das Cobras, quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Prometto pelo Santissimo Sacramento</i>...</span>
-</div></div>
-
-<p>
-Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe deparou este
-lindissimo quadro: á sombra de uma grande arvore, os soldados deitados
-ou sentados em circulo, em torno de Ricardo Coração dos Outros, que
-entoava endeixas magoadas.
-</p>
-
-<p>
-As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão
-embevecidas na canção de Ricardo que não deram pela chegada do joven
-official.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que é isto? disse elle severamente.
-</p>
-
-<p>
-Os soldados levantaram-se todos, em continencia; e Ricardo, com a mão
-direita no gorro, perfilada, e a esquerda, segurando o violão, que
-repousava no chão, desculpou-se:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;<i>Seu</i> Tenente, foi o Major quem permittiu, V. S. sabe que se
-nós não tivéssemos ordem, não iriamos brincar.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem. Não quero mais isto, disse o official.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas, objectou Ricardo, o Sr. Major Quaresma...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já disse!
-</p>
-
-<p>
-Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa
-imperial, ao encontro do Major do «Cruzeiro do Sul». Quaresma
-continuava no seu estudo, um rolar de Sysipho, mas voluntario, para a
-grandeza da patria. Fontes foi entrando e dizendo:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que é isto, <i>seu</i> Quaresma! Então o senhor permitte cantorias
-no destacamento?
-</p>
-
-<p>
-O Major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo
-e rispido do moço. Elle repetiu:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então o senhor permitte que os inferiores cantem modinhas e toquem
-violão, em pleno serviço?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E a disciplina? e o respeito?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem, vou prohibir, disse Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não é preciso. Já prohibi.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento
-e disse com doçura:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Fez bem.
-</p>
-
-<p>
-Em seguida perguntou ao official o modo de extrahir a raiz quadrada de
-uma fracção decimal; o rapaz ensinou-lhe e elles estiveram
-cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Fontes era noivo de
-Lalá, a terceira filha do General Albernaz, e esperava acabar a revolta
-para effectuar o casamento. Durante uma hora a conversa entre os dous
-versou sobre este pequenino facto familiar a que estavam ligados
-aquelles estrondos, aquelles tiros, aquella solemne disputa entre duas
-ambições. Subitamente, a corneta feriu o ar com a sua voz metallica.
-Fontes assestou o ouvido; o Major perguntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que toque é?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sentido.
-</p>
-
-<p>
-Os dous sahiram. Fontes perfeitamente fardado; e o Major apertando o
-talim, sem encontrar geito, tropeçando na espada veneravel que teimava
-em se lhe metter entre as pernas curtas. Os soldados já estavam nas
-trincheiras, armas á mão; o canhão tinha ao lado a munição
-necessaria. Uma lancha avançava lentamente, com a prôa alta assestada
-para o posto. De repente, sahiu de sua borda um golfão de fumaça
-espessa: Queimou!&mdash;gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou
-alto, zunindo, cantando, inoffensiva. A lancha continuava a avançar
-impavida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o
-tiroteio, e fôra um destes que gritara: queimou!
-</p>
-
-<p>
-E assim sempre. Ás vezes elles chegavam bem perto á tropa, ás
-trincheiras, atrapalhando o serviço: em outras, um cidadão qualquer,
-chegava ao official e muito delicadamente pedia: o senhor dá licença
-que dê um tiro. O official accedia, os serventes carregavam a peça e o
-homem fazia a pontaria e um tiro partia.
-</p>
-
-<p>
-Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da
-cidade... Quando se annunciava um bombardeio, num segundo, o terraço do
-Passeio Publico se enchia. Era como se fosse uma noite de luar, no tempo
-em que era do tom aprecial-as no velho jardim de D. Luiz de
-Vasconcellos, vendo o astro solitario pratear a agua e encher o céo.
-</p>
-
-<p>
-Alugavam-se binoculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como
-as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação de theatro:
-«queimou Santa Cruz! Agora é o «Aquidaban»! Lá vai»! E dessa
-maneira a revolvia correndo familiarmente, entrando nos habitos e nos
-costumes da cidade.
-</p>
-
-<p>
-No cáes Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornaes,
-engraxates, quitandeiros ficavam atrás das portadas, dos urinarios, das
-arvores, a ver, a esperar a quéda das balas; e quando acontecia cahir
-uma, corriam todos em bôlo, a apanhal-a como se fosse uma moeda ou
-guloseima.
-</p>
-
-<p>
-As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de
-relogio, lapizeiras, feitas com as pequenas balas de fuzis: faziam-se
-tambem collecções das medias e com os seus estojos de metal, areados,
-polidos, lixados, ornavam consolos, os <i>dunkerques</i> das casas médias;
-as grandes, os <i>melões</i> e as <i>aboboras</i>, como chamavam,
-guarneciam os jardins, como vasos de faiança ou estatuas.
-</p>
-
-<p>
-A lancha continuava a atirar: Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o
-projectil, recuou um pouco e logo foi posto em posição. A embarcação
-respondeu e o rapazote gritou: queimou!
-</p>
-
-<p>
-Eram sempre esses garotos que a anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam
-o fuzilar breve e a fumaça, lá longe, no navio, jorrar de vagar, muito
-pesada, gritavam queimou!
-</p>
-
-<p>
-Houve um em Nictheroy que teve o seu quarto de hora de celebridade.
-Chamavam-n'o <i>trinta réis</i>; os jornaes do tempo occuparam-se com elle,
-fizeram-se subscripções a seu favor. Um heroi! Passou a revolta e foi
-esquecido, tanto elle como a «Lucy», uma lancha que chegou a fazer-se
-entidade na imaginação da <i>urbs</i>, a interessal-a, a criar inimigos e
-admiradores.
-</p>
-
-<p>
-A embarcação deixou de provocar a furia do posto do Cajú, e Fontes
-deu instrucções ao seu chefe da peça, e foi-se embora.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos
-guerreiros. Os mais dias que passou naquelle extremo da cidade não eram
-differentes deste. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra cahia na
-banalidade da repetição dos mesmos episodios.
-</p>
-
-<p>
-A espaços, quando o aborrecimento lhe vinha, sahia. Descia a cidade e
-deixava o posto entregue a Polydoro ou a Fontes, se estava.
-</p>
-
-<p>
-Raras vezes o fazia, de dia, porque Polydoro, o mais assiduo, marcineiro
-de profissão e em actividade numa fabrica de moveis, só vinha á
-noite.
-</p>
-
-<p>
-No centro da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro,
-o Governo pagava soldos dobrados, e, ás vezes, gratificações, além
-do que havia tambem a morte sempre presente; e tudo isso estimulava o
-divertir-se. Os theatros eram frequentados e os <i>restaurants</i>
-nocturnos tambem.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma, porém, não se mettia naquelle ruido de praça semi-sitiada.
-Ia ás vezes ao theatro, á paisana, e, logo acabado o espectaculo,
-voltava para o quarto da cidade ou para o posto.
-</p>
-
-<p>
-Em outras tardes, logo que Polydoro chegava, sahia a pé, pelas ruas dos
-arredores, pelas praias até ao campo de São Christovão.
-</p>
-
-<p>
-Ia vendo aquella successão de cemiterios, com as suas campas alvas que
-sobem montanhas, como carneiros tosqueados e limpos a pastar; aquelles
-cyprestes meditativos que as vigiam; e como que se lhe representava que
-aquella parte da cidade era feudo e senhorio da morte.
-</p>
-
-<p>
-As casas tinham um aspecto funebre, recolhidas e concentradas; o mar
-marulhava lugubremente na ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam
-doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes era triste e lugubre.
-</p>
-
-<p>
-A paysagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali
-mais ainda, para fazer sentir nella tão forte aspecto funereo.
-</p>
-
-<p>
-Foi vindo ate ao Campo; ahi deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e
-afinal entrou na residencia do General Albernaz. Devia-lhe aquella
-visita e aproveitou o ensejo.
-</p>
-
-<p>
-Acabavam de jantar e jantara com o General, além do Tenente Fontes e o
-Almirante Caldas, o commandante de Quaresma, o Tenente Coronel
-Innocencio Bustamante.
-</p>
-
-<p>
-Bustamante era um commandante activo, mas dentro do quartel. Não havia
-quem como elle se interessasse pelos livros, pela boa calligraphia, com
-que eram escriptos os livros mestres, as relações de mostra, os mappas
-de companhia e outros documentos. Com auxilio delles, a organização do
-seu batalhão era irreprehensivel; e, para não deixar de vigiar a
-escripturação, apparecia de onde em onde nos destacamentos do seu
-corpo.
-</p>
-
-<p>
-Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, elle logo
-perguntou ao Major:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quantas deserções?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Até hoje, nove, disse Quaresma.
-</p>
-
-<p>
-Bustamante coçou a cabeça desesperado e reflectiu:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome...
-Falta-lhes patriotismo!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Fazem muito bem... Ora! disse o Almirante.
-</p>
-
-<p>
-Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora
-o Governo não lhe tinha dado cousa alguma. O seu patriotismo se
-enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia
-Vice-Almirante. É verdade que o Governo ainda não organizara a sua
-esquadra; entretanto, pelo rumor que corria, elle não commandaria nem
-uma divisão. Uma inquidade! Era velho um pouco, é verdade; mas, por
-não ter nunca commandado, nessa materia elle podia despender toda uma
-energia moça.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Almirante não deve falar assim... A patria está logo abaixo da
-humanidade.
-</p>
-
-<p>
-Meu caro Tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os
-outros e para os vindouros, continuou Fontes persuasivo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que tenho eu com elles? fez agastado Caldas.
-</p>
-
-<p>
-Bustamante, o General e Quaresma assistiam a pequena discussão calados
-e os dous primeiros um tanto sorridentes com a furia de Caldas, que não
-se cansava de dansar a perna e alizar os longos favoritos brancos. O
-Tenente respondeu:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Muito, Almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas
-melhores, de ordem, de felicidade e elevação moral.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Nunca houve e nunca haverá! disse de um jacto Caldas.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu tambem penso assim, accrescentou Albernaz.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Isto ha de sempre ser o mesmo, adduziu scepticamente Bustamante.
-</p>
-
-<p>
-O Major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face
-daquellas contestações, ao contrario dos seus congeneres da seita,
-não se agastou. Elle era magro e chupado, moreno carregado e a oval do
-seu rosto estava amassada aqui e ali.
-</p>
-
-<p>
-Com a sua voz arrastada e nazal, agitando a mão direita no geito
-favorito dos sermonarios, depois de ouvir todos, falou com uncção:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Houve já um esboço: a idade média.
-</p>
-
-<p>
-Ninguem ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia historia do Brasil e
-os outros nenhuma.
-</p>
-
-<p>
-E a sua affirmação fez calar todos, embora no intimo duvidosos. É uma
-curiosa idade média, essa de elevação moral, que a gente não sabe
-onde fica, em que anno? Se a gente diz: no tempo de Clotario, elle
-proprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu
-filho Chrame mais a mulher deste e filhos&mdash;o positivista, objecta:
-ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja. S.
-Luís, diremos logo nós, quis executar um senhor feudal porque mandou
-enforcar tres crianças que tinham morto um coelho nas suas mattas. Objecta
-o fiel: Você não sabe que a nossa idade media vai até o apparecimento
-da Divina Comedia? S. Luís já era a decadencia... Citam-se as
-epidemias de molestias nervosas, a miseria dos camponios, as ladroagens
-á mão armada dos barões, as allucinações do milenio, as crueis
-matanças que Carlos Magno fez aos saxões; elles respondem: uma hora
-que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da
-igreja; outra que elle já tinha desapparecido.
-</p>
-
-<p>
-Nada disso foi objectado ao positivista e a conversa, resvalou para a
-revolta. O Almirante criticava severamente o Governo.
-</p>
-
-<p>
-Não tinha plano algum, levava a dar tiros á toa; na sua opinião, já
-devia ter feito todo o esforço para occupar a ilha das Cobras, embora
-isso custasse rios de sangue. Bustamante não tinha opinião assentada;
-mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e
-de uma improficuidade patente. Albernaz, ainda não tinha dado o seu
-aviso, e veiu a fazel-o assim:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas nós reconhecemos Humaytá, e por pouco!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Entretanto, não a tomaram, disse Fontes. As condições naturaes eram
-outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente inutil... O Sr.
-sabe, esteve lá!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Isto é... Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camisão
-disse-me que foi arriscado.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma voltara ao silencio. Elle procurava ver Ismenia. Fontes lhe
-tinha inteirado do seu estado e o Major se sentia por qualquer cousa
-preso á molestia da moça. Viu todos: D. Maricota, sempre activa e
-diligente; Lalá, a arrancar, com o olhar, o noivo da conversa
-interminavel, e as outras que vinham, de quando em quando, da sala de
-visitas á sala de jantar onde elle estava. Porfim, não se conteve,
-perguntou. Soube que estava em casa da irmã casada e ia peor, cada vez
-mais abysmada na sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O General contou
-tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquella sua
-desgraça intima, disse com um longo suspiro:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sei, Quaresma... Não sei.
-</p>
-
-<p>
-Eram dez horas quando o Major se despediu. Voltou de bonde para a Ponta
-do Cajú. Saltou e recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio da
-perturbação, especial que põe em nós o luar que estava lindo, terno
-e leitoso, naquella noite. É uma emoção de desafogo do corpo, de
-deliquio; parece que nos tiram o envoltorio material e ficamos só alma,
-envolvidos numa branda athmosphera de sonhos e chimeras. O Major não
-colhia bem a sensação transcendente, mas soffria sem perceber o
-effeito da luz pallida e fria do luar. Deitou-se um pouco, vestido, não
-por somno, mas em virtude daquella doce embriaguez que o astro lhe tinha
-posto nos sentidos.
-</p>
-
-<p>
-Dentro em pouco Ricardo veiu chamal-o: o Marechal estava ahi. Era seu
-habito sahir á noite, ás vezes, de madrugada, e ir de posto em posto.
-O facto se espalhou pelo publico que o apreciava extraordinariamente, e
-o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de
-estadista consumado.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma veiu ao seu encontro. Floriano vestia chapéo de feltro molle,
-abas largas, e uma curta sobrecasaca surrada. Tinha um ar de malfeitor
-ou de exemplar chefe de familia em aventuras extra-conjugaes.
-</p>
-
-<p>
-O Maior cumprimentou-o e esteve a dar-lhe noticias do ataque que fora
-feito ao seu posto, ha dias passados. O Marechal respondia por
-monosyllabos preguiçosos e olhava ao redor. Quasi ao despedir-se, falou
-mais, dizendo vagarosamente, lentamente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Hei de mandar pôr um holophote aqui.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma veiu acompanhal-o até ao bonde. Atravessavam o velho sitio de
-recreio dos Imperadores. Um pouco afastada da estação uma locomotiva,
-semi-accesa, resfolegava. Semelhava roncar, dormindo; os carros,
-pequenos, banhados pelo luar, muito quietos, socegados como que dormiam.
-As annosas mangueiras, com falta de galhos aqui e ali, pareciam
-polvilhadas preciosamente de prata. O luar estava magnifico. Os dous
-andavam, o marechal perguntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quantos homens tem você?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quarenta.
-</p>
-
-<p>
-O Marechal mastigou um: <i>não é muito</i>; e voltou ao mutismo. Num dado
-momento, Quaresma viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua. Pareceu-lhe
-mais sympatica a do dictador. Se lhe falasse...
-</p>
-
-<p>
-Preparou a pergunta; mas não teve coragem de pronuncial-a. Continuaram
-a andar. O Major pensou; que é que tem? não ha desrespeito algum.
-Approximavam-se do portão. Num dado momento como que houve uma bulha
-atrás. Quaresma voltou-se, mas Floriano quasi não o fez.
-</p>
-
-<p>
-Os edificios da serraria pareciam cobertos de neve, tanto era o branco
-luar. O Major continuou a mastigar a sua pergunta; urgia, era
-indispensavel; o portão estava a dous passos. Tomou coragem, ousou e
-falou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;V. Ex. já leu o meu memorial, Marechal?
-</p>
-
-<p>
-Floriano respondeu lentamente, quasi sem levantar o labio inferior
-pendente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Li.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma enthusiasmou-se:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vê V. Ex. como é facil erguer este paiz. Desde que se cortem todos
-aquelles empecilhos que eu apontei, no memorial que V. Ex. teve a
-bondade de ler; desde que se corrijam os erros de uma legislação
-defeituosa e inadaptavel ás condições do paiz, V. Ex. verá que tudo
-isto muda, que, em vez de tributarios, ficaremos com a nossa
-independencia feita... Se V. Ex. quisesse...
-</p>
-
-<p>
-Á proporção que falava, mais Quaresma se enthusiasmava. Elle não
-podia ver bem a physionomia do dictador, encoberto agora como lhe estava
-o rosto pelas abas do chapéo de feltro; mas, se a visse, teria de
-esfriar, pois havia na sua mascara sinaes do aborrecimento mais mortal.
-Aquelle falatorio de Quaresma, aquelle apelo á legislação, a medidas
-governamentaes, iam mover-lhe o pensamento, por mais que não quizesse.
-O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas, pensa você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada na mão de
-cada um desses vadios?! Não havia exercito que chegasse...
-</p>
-
-<p>
-Quaresma espantou-se, titubeou, mas retorquiu:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas, mão é isso, Marechal. V. Ex. com o seu prestigio e poder, está
-capaz de favorecer, com medidas energicas e adequadas, o apparecimento
-de iniciativas, de encaminhar o trabalho, de favorecel-o e tornal-o
-remunerador... Bastava, por exemplo...
-</p>
-
-<p>
-Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. O luar continuava
-lindo, plastico e opalescente. Um grande edificio inacabado que havia na
-rua, parecia terminado, com vidraças e portas feitas com a luz da lua.
-Era um palacio de sonho.
-</p>
-
-<p>
-Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou; elle se
-despediu do Major, dizendo com aquella sua placidez de voz:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Você, Quaresma, é um visionario...
-</p>
-
-<p>
-O bonde partiu. A lua povoava os espaços, dava physionomia ás cousas,
-fazia nascer soalhos em nossa alma, enchia a vida, enfim, com a sua luz
-emprestada...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap03_3"></a></h4>
-
-<h4>III
-<br /><br />
-...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS...</h4>
-
-<p>
-&mdash;Eu tenho experimentado tudo, Quaresma, mas não sei... não ha meio!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Já a levou a um medico especialista?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Já. Tenho corrido medicos, espiritas até feiticeiros, Quaresma!
-</p>
-
-<p>
-E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do <i>pince-nez</i>. Os dous se
-haviam encontrado na pagadoria da guerra e vinham pelo campo de
-Sant'Anna, a pé, andando pequenos passos e conversando. O General era
-mais alto que Quaresma, e emquanto este tinha a cabeça sobre um
-pescoço alto, aquelle a tinha mettida entre os hombros proeminentes,
-como cotos de azas. Albernaz reatou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E remedios! Cada medico receita uma cousa; os espiritas são os
-melhores, dão homœpathia; os feiticeiros, tizanas, rezas e
-defumações... Eu não sei. Quaresma!
-</p>
-
-<p>
-E levantou os olhos para o céo, que estava um tanto plumbeo. Não se
-demorou, porém, muito nessa postura; o <i>pince-nez</i> não permittia, já
-começava a cahir.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as
-granulações do granito do passeio. Levantou o olhar ao fim de algum
-tempo, e disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Por que não a recolhe a uma casa de saude, General?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Meu medico já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo,
-no estado em que a menina está, não vale a pena...
-</p>
-
-<p>
-Falava da filha, da Ismenia, que, naquelles ultimos mezes, péorara
-sensivelmente, não tanto da sua molestia mental, mas da saude commum,
-vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo, definhando, marchando a
-passos largos para o abraço frio da morte.
-</p>
-
-<p>
-Albernaz dizia a verdade; para, cural-a tanto de sua loucura conto da
-actual molestia intercorrente, lançara mão de todos os recursos, de
-todos os conselhos apontados por quem quer que fosse.
-</p>
-
-<p>
-Era de fazer reflectir ver aquelle homem, General, marcado com um curso
-governamental, procurar mediuns e feiticeiros, para sarar a filha.
-</p>
-
-<p>
-Ás vezes até levava-os em casa. Os mediuns chegavam perto da moça,
-davam um estremeção, ficavam com uns olhos desvairados, fixos,
-gritavam: sai, irmão!&mdash;e sacudiam as mãos, do peito para a moça, de
-lá para cá, rapidamente, nervosamente, no intuito de descarregar sobre
-ella os fluidos milagrosos.
-</p>
-
-<p>
-Os feiticeiros tinham outros passes e as ceremonias para entrar no
-conhecimento das forças occultas que nos cercam, eram demoradas, lentas
-e acabadas. Em geral, eram pretos africanos. Chegavam, accendiam um
-fogareiro no quarto, tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra
-cousa exquisita, batiam com feixes de hervas, ensaiavam passos de dança
-e pronunciavam palavras inintelligiveis. O ritual era complicado e tinha
-a sua demora.
-</p>
-
-<p>
-Na sahida, a pobre D. Maricota, um tanto já diminuida da sua actividade
-e diligencia, olhando, ternamente aquelle grande rosto negro do
-mandigueiro, onde a barba branca punha mais veneração e certa
-grandeza, perguntava:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então, titio?
-</p>
-
-<p>
-O preto considerava um instante, como se estivesse recebendo as ultimas
-communicações do que não se vê nem se percebe, e dizia com a sua
-magestade de africano:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vó vê, nhã nhã... Tô crôtando mandinga...
-</p>
-
-<p>
-Ella e o General tinham assistido a ceremonia e o amor de paes e tambem
-esse fundo de superstição que ha em todos nós, levavam a olhal-a com
-respeito, quasi com fé.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então foi feitiço que fizeram á minha filha? perguntava a senhora.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Foi, sim, nhãnhã.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Santo não qué dizê.
-</p>
-
-<p>
-E o preto obscuro, velho escravo, arrancado ha um meio seculo dos
-confins da Africa, sahia arrastando a sua velhice e deixando naquelles
-dous corações uma esperança fugaz.
-</p>
-
-<p>
-Era uma singular situação, a daquelle preto africano, ainda certamente
-pouco esquecido das dores do seu longo captiveiro, lançando mão dos
-residuos de suas ingenuas crenças tribaes, residuos que tão a custo
-tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros
-deuses&mdash;e empregando-os na consolação dos seus senhores de outro
-tempo. Como que os deuses de sua infancia e de sua raça; aquelles
-sanguinarios manipanços da Africa indecifravel, quizessem vingal-o á
-legendaria maneira do Christo dos Evangelios...
-</p>
-
-<p>
-A doente assistia tudo aquillo sem comprehender e se interessar por
-aquelles trejeitos e passes de tão poderosos homens que se
-communicavam, que tinham ás suas ordens os seres immateriaes, as
-existencias fora e acima da nossa.
-</p>
-
-<p>
-Andando, ao lado de Quaresma, o General lembrava-se de tudo isso e teve
-um pensamento amargo contra a sciencia, contra os espiritos, contra os
-feitiços, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos, sem
-piedade e commiseração.
-</p>
-
-<p>
-O Major não sabia o que dizer diante daquella immensa dor de pai e
-parecia-lhe toda o qualquer palavra de consolo parva e idiota. Afinal
-disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;General, o Sr. permitte que eu a faça ver por um medico?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem é?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É o marido de minha afilhada... o Sr. conhece... É moço, quem sabe
-lá! Não acha? Póde ser, não é?
-</p>
-
-<p>
-O General consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as
-faces enrugadas. Cada medico que consultava, cada espirita, cada
-feiticeiro reanimava-o, pois de todos elle esperava o milagre. Nesse
-mesmo dia, Quaresma foi procurar o Dr. Armando.
-</p>
-
-<p>
-A revolta já tinha mais de quatro mezes de vida e as vantagens do
-Governo eram problematicas. No Sul, a insurreição chegava ás portas
-de S. Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas paginas
-dignas e limpas de todo aquelle enxurro de paixões. A pequena cidade
-tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia,
-uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante e justo.
-Não se desmanchou em violencias de apavorado e soube tornar verdade a
-gasta phrase grandiloquente: resistir até á morte.
-</p>
-
-<p>
-A ilha do Governador tinha sido occupada e Magé tomado, os revoltosos,
-porém, tinham a vasta bahia e a barra apertada, por onde sahiam e
-entravam, sem temer o estorvo das fortalezas.
-</p>
-
-<p>
-As violencias, os crimes que tinham assignalado esses dous marcos de
-actividade guerreira do Governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e elle
-soffria.
-</p>
-
-<p>
-Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de moveis, roupas e
-outros haveres. O que não podia ser transportado, era destruido pelo
-fogo e pelo machado.
-</p>
-
-<p>
-A occupação deixou lá a mais execranda memoria, e até hoje os seus
-habitantes ainda se recordam dolorosamente de um Capitão, patriotico ou
-da guarda nacional, Ortiz, pela sua ferocidade e insoffrido gosto pelo
-saque e outras vexações. Passava um pescador, com uma tampa de peixe,
-e o Capitão chamava o pobre homem:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Venha cá!
-</p>
-
-<p>
-O homem approximava-se amedrontado e Ortiz perguntava.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quanto quer por isso?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Tres mil réis, capitão.
-</p>
-
-<p>
-Elle sorria diabolicamente e familiarmente regateava:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Você não deixa por menos... Está caro... Isso é peixe ordinario...
-Carapebas! Ora!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem, Capitão, vá lá por dous e quinhentos.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Leve isso lá dentro.
-</p>
-
-<p>
-Elle falava na porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em
-pé, demonstrando que esperava o dinheiro. Ortiz balançava a cabeça e
-dizia escarninho:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano.
-</p>
-
-<p>
-Entretanto, Moreira Cesar deixou boas recordações de e ainda hoje ha
-lá quem se lembre delle, agradecido por este ou aquelle beneficio que o
-famoso Coronel lhe prestou.
-</p>
-
-<p>
-As forças revoltosas parceiam não ter enfraquecido; tinham, porém,
-perdido dous navios, sendo um destes o «Javary», cuja reputação na
-revolta era das mais altas e consideradas. As forças de terra
-detestavam-n'o particularmente. Era um monitor, chato, razo com a agua,
-uma especie de saurio ou chelonio de ferro, de construcção franceza.
-A sua artilharia era temida; o que sobremodo enraivecia os adversarios,
-era elle não ter quasi borda acima d'agua, ficar quasi ao nivel do mar
-e fugir assim aos tiros incertos de terra. As suas machinas não
-funccionavam, e a grande tartaruga vinha collocar-se em posição de
-combate com auxilio de um rebocador.
-</p>
-
-<p>
-Um dia em que estava nas proximidades de Villegagnon, foi a pique. Não
-se soube e até hoje não foi esclarecido, porque foi. Os legalistas
-affirmaram que foi uma bala de Gragoatá; mas os revoltosos asseguraram
-que foi a abertura de uma valvula ou um outro accidente qualquer.
-</p>
-
-<p>
-Como o do seu irmão, o «Solimões», que desappareceu nas costas do
-cabo Polonio, o fim do «Javary» ainda está envolvido no mysterio.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma permanecia de guarnição no Cajú, e viera receber dinheiro.
-Deixara lá Polydoro, pois os outros officiaes estavam doentes ou
-licenciados, e Fontes, que, sendo uma especie de inspector geral, ao
-contrario de seus habitos, dormira aquella noite no pequeno pavilhão
-imperial e ia ficar até á tarde.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo Coração dos Outros, desde o dia da prohibição de tocar
-violão, andava macambuzio. Tinham-lhe tirado o sangue, o motivo de
-viver, e passava os dias taciturno, encostado a um tronco de arvore,
-maldizendo no fundo de si a incomprehensão dos homens e os caprichos do
-destino. Fontes notara a sua tristeza; e, para minorar-lhe o desgosto,
-obrigara a Bustamante a fazel-o sargento. Não foi sem custo, porque o
-antigo veterano do Paraguay encarecia muito essa graduação e só a
-dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas
-importantes.
-</p>
-
-<p>
-A vida do pobre menestrel era assim a de um melro engaiolado; e, de
-quando em quando, elle se afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver
-se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos disparos.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu
-demorar-se mais, e, após despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para a
-casa do seu compadre, afim de cumprir a promessa que fizera ao general.
-</p>
-
-<p>
-Coleoni ainda não decidira a sua viagem á Europa. Hesitava, esperando
-o fim da rebellião que não parecia estar proximo. Elle nada tinha com
-ella; até ali, não dissera a ninguem a sua opinião; e, se era muito
-instado, appelava para a sua condição de estrangeiro e mettia-se numa
-reserva prudente. Mas, aquella exigencia do passaporte, tirado na
-chefatura de policia, dava-lhe susto. Naquelles tempos, toda a gente
-tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta má vontade com os
-estrangeiros, tanta arrogancia nos funccionarios que elle não se
-animava a ir obter o documento, temendo que uma palavra, que um olhar,
-que um gesto, interpretados por qualquer funccionario zeloso e dedicado,
-não o levassem a soffrer maus quartos de hora.
-</p>
-
-<p>
-Verdade é que elle era italiano e a Italia já fizera ver ao dictador
-que era uma grande potencia, mas no caso de que se lembrava, tratava-se
-de um marinheiro, por cuja vida, extincta por uma descarga das forças
-legaes, Floriano pagara a quantia de cem contos. Elle, Coleoni, porém,
-não era marinheiro, e não sabia, caso fosse preso, se os
-representantes diplomaticos de seu paiz tomariam interesse pela sua
-liberdade.
-</p>
-
-<p>
-De resto, não tendo protestado manter a sua nacionalidade quando o
-Governo provisorio expediu o famoso decreto de naturalização, era bem
-possivel que uma ou outra parte se ativessem a isso, para
-desinteressar-se delle ou mantel-o na famosa galeria 7, da Casa de
-Correição, transformada, por uma pennada magica, em prisão de Estado.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-A época era de susto e temor, e todos esses que elle sentia, só os
-communicava a filha, porque o genro cada vez mais se fazia florianista e
-jacobino, de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos
-estrangeiros.
-</p>
-
-<p>
-E o doutor tinha razão; já obtivera uma graça governamental. Fôra
-nomeado medico do Hospital de Santa Barbara, na vaga de um collega,
-demittido a bem do serviço publico como suspeito por ter ido visitar um
-amigo na prisão. Como o hospital, porém, ficasse no ilhéo do mesmo
-nome, dentro da bahia, em frente á Saude e a Guanabara ainda estivesse
-em mão dos revoltosos, elle nada tinha que fazer, pois até agora o
-Governo não aceitara, os seus offerecimentos de auxiliar o tratamento
-dos feridos.
-</p>
-
-<p>
-O Major foi encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha sahido, ido
-dar uma volta pela cidade, dar arrhas de sua dedicação á causa legal,
-conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio, não
-esquecendo tambem de passear pelos corredores do Itamaraty, fazendo-se
-ver pelos ajudantes de ordens, secretarios e outras pessoas influentes
-no animo de Floriano.
-</p>
-
-<p>
-A moça viu entrar Quaresma com aquelle sentimento extranho que o seu
-padrinho lhe causava ultimamente, e esse sentimento mais agudo se
-tornava quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento, a
-passagem de balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente,
-como se fossem feições de uma festa, de uma justa, de um divertimento
-qualquer em que a morte não estivesse presente.
-</p>
-
-<p>
-Tanto mais que o via apprehensivo, deixando perceber numa phrase e
-noutra desanimo e desesperança.
-</p>
-
-<p>
-Na verdade o Major tinha um espinho n'alma. Aquella recepção de
-Floriano ás suas lembranças de reformas não esperavam nem o seu
-enthusiasmo e sinceridade nem tão pouco a idéa que elle fazia do
-dictador. Sahira ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar
-com um presidente que o chamava de visionario, que não avaliava o
-alcance dos seus projectos, que os não examinava sequer, desinteressado
-daquellas altas cousas de governo como só não o fosse!... Era pois
-para sustentar tal homem que deixara o socego de sua casa e se arriscava
-nas trincheiras? Era, pois, por esse homem que tanta gente morria? Que
-direito tinha elle de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se
-não se interessava pela sorte delles, pela sua vida feliz e abundante,
-pelo enriquecimento do paiz, o progresso de sua lavoura e o bem estar de
-sua população rural?
-</p>
-
-<p>
-Pensando assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma
-raiva de si mesmo; mas em seguida considerava: o homem está
-atrapalhado, não póde agora; mais tarde com certeza elle fará a
-cousa...
-</p>
-
-<p>
-Vivia nessa alternativa dolorosa e era ella que lhe trazia
-apprehensões, desanimo e desesperança, notados por sua afilhada na sua
-physionomia já um pouco acabrunhada.
-</p>
-
-<p>
-Não tardou, porém, que, abandonando os episodios da sua vida militar,
-Quaresma explicasse o motivo de sua visita.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas qual dellas? perguntou a afilhada.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;A segunda, a Ismenia.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Aquella que estava para casar com o dentista?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Esta mesmo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ahn!...
-</p>
-
-<p>
-Ella pronunciou este <i>ahn</i> muito longo e profundo, como se puzesse
-nelle tudo que queria dizer sobre o caso. Via bem o que fazia o desespero
-da moça, mas via melhor a causa, naquella obrigação que incrustam no
-espirito das meninas, que ellas se devem casar a todo o custo, fazendo
-do casamento o pólo e fim da vida, a ponto de parecer uma deshonra, uma
-injuria, ficar solteira.
-</p>
-
-<p>
-O casamento já não é mais amor, não é maternidade, não é nada
-disso: é simplesmente casamento, uma cousa vasia, sem fundamento nem na
-nossa natureza nem nas nossas necessidades.
-</p>
-
-<p>
-Graças á frouxidão, á pobreza intellectual e fraqueza de energia
-vital de Ismenia, aquella fuga do noivo se transformou em certeza de
-não casar mais e tudo nella se abysmou nessa idéa desesperada.
-</p>
-
-<p>
-Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se. Sendo bom de fundo, quando
-lutava pela fortuna se fez duro e aspero, mas logo que se viu rico,
-perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem que só se póde
-ser bom quando se é forte de algum modo.
-</p>
-
-<p>
-Ultimamente o Major tinha diminuido um pouco o interesse pela moça;
-andava atormentado com o seu caso de consciencia; entretanto, se não
-tinha um constante e particular pensamento pela desdita da filha de
-Albernaz, abrangia-a ainda na sua bondade geral, larga e humana.
-</p>
-
-<p>
-Não se demorou muito na casa do compadre; elle queria, antes de voltar
-ao Cajú, passar pelo quartel do seu batalhão. Ia ver se arranjava uma
-pequena licença, para visitar a irmã que deixara lá, no «Socego», e
-de quem tinha noticias, por carta, tres vezes por semana. Eram ellas
-satisfatorias, comtudo elle tinha necessidade de ver tanto ella como o
-Anastacio, physionomias com quem se encontrava diariamente ha tantos
-annos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituisse a
-calma e a paz de espirito.
-</p>
-
-<p>
-A ultima carta que recebera de D. Adelaide, havia uma phrase de que, no
-momento, se lembrava sorrindo: «Não te exponhas muito, Polycarpo. Toma
-muita cautela». Pobre Adelaide! Estava a pensar que esse negocio de
-balas é assim como a chuva?!...
-</p>
-
-<p>
-O quartel ainda ficava tio velho cortiço condemnado pela hygiene, lá
-para as bandas da cidade nova. Assim que Quaresma apontou na esquina, a
-sentinella deu um grande berro, fez uma immensa bulha com a arma e elle
-entrou, tirando o chapéo da cabeça baixa, pois estava á paisana e
-tinha abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as
-susceptibilidades republicanas dos jacobinos.
-</p>
-
-<p>
-No pateo, o instructor côxo adestrava novos voluntarios e os seus
-magestosos e demorados gritos: hom-broôô... armas! Mei-ããã volta...
-volver! subiam ao céo e ecoavam longamente pelos muros da antiga
-estalagem.
-</p>
-
-<p>
-Bustamante estava no seu cubiculo, mais conhecido por gabinete,
-irreprehensivel no seu uniforme verde garrafa, alamares dourados e vivos
-azul ferrete. Com auxilio de um sargento, examinava a escripta de um
-livro quarteleiro.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Tinta vermelha, Sargento! É como mandam as instrucções de 1864.
-</p>
-
-<p>
-Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante.
-</p>
-
-<p>
-Logo que viu Quaresma entrar, o commandante exclamou radiante:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Major adivinhou!
-</p>
-
-<p>
-Quaresma descançou placidamente o chapéo, bebeu um pouco d'agua, e o
-Coronel Innocencio explicou a alegria:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sabe que temos de marchar?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Para onde?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não sei... Recebi ordem do Itamaraty.
-</p>
-
-<p>
-Elle não dizia nunca do Quartel-General, nem mesmo do Ministro da
-Guerra: era do Itamaraty, do Presidente, do chefe supremo. Parecia que
-assim dava mais importancia a si mesmo e ao seu batalhão, fazia-o uma
-especie de batalhão da guarda, favorito e amado do dictador.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma não se espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossivel
-obter a licença e tambem necessario mudar os seus estudos: da
-artilharia, tinha que passar para a infantaria.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O Major é que vai commandar o corpo, sabia?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, Coronel. E o senhor não vai?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não, disse Bustamante, alisando o cavaignac mosaico e abrindo a
-bocca para o lado esquerdo. Tenho que acabar a organização da unidade e não
-posso... Não se assuste, mais tarde irei lá ter...
-</p>
-
-<p>
-Começava a tarde, quando Quaresma sahiu do quartel. O instructor côxo
-continuava, com força, magestade e demora, a gritar: hom-brôôô...
-armas! A sentinella não pôde fazer a bulha da entrada, porque só viu
-o Major, quando já ia longe. Elle desceu até á cidade e foi ao
-Correio. Havia alguns tiros espaçados; no Café do Rio, os levitas
-continuavam a trocar idéas para a consolidação definitiva da
-Republica.
-</p>
-
-<p>
-Antes de chegar ao Correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a
-uma livraria e comprou livros sobre infantaria; precisava tambem dos
-regulamentos: arranjaria no quartel-general.
-</p>
-
-<p>
-Para onde ia? Para o Sul, para Magé, para Nictheroy? Não sabia... Não
-sabia... Ah! se isso fosse para realização dos seus desejos e sonhos!
-Mas quem sabe?... Podia ser... talvez... Mais tarde...
-</p>
-
-<p>
-E passou o dia atormentado pela duvida do bom emprego de sua vida e de
-suas energias.
-</p>
-
-<p>
-O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do General.
-Elle levava a intima convicção de que a sua sciencia toda nova pudesse
-fazer alguma cousa; mas assim não se deu.
-</p>
-
-<p>
-A moça continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco attenuada,
-o seu organismo cahia. Estava magra e fraca, a ponto de quasi não poder
-sentar-se na cama. Era sua mãe quem mais junto a ella vivia; as irmãs
-se desinteressavam um pouco, pois as exigencias de sua mocidade
-levavam-n'as para outros lados.
-</p>
-
-<p>
-D. Maricota, tendo perdido todo aquelle antigo fervor pelas festas e
-bailes, estava sempre no quarto da filha, a consolal-a, animal-a, e, ás
-vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um tanto culpada pela
-sua infelicidade.
-</p>
-
-<p>
-A molestia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismenia, tinha-lhe
-diminuido a lassidão, tirado o mortiço dos olhos e os seus lindos
-cabellos castanhos, com reflexos de ouro, mais bellos se faziam quando
-cercavam a pallidez de sua face.
-</p>
-
-<p>
-Raro era falar muito; e assim foi que, naquelle dia, se espantou muito
-D. Maricota com a loquacidade da filha.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mamãe, quando se casa Lalá?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quando se acabar a revolta.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;A revolta ainda não acabou?
-</p>
-
-<p>
-A mãe respondeu-lhe e ella esteve um instante calada, olhando o tecto,
-e, após essa contemplação disse á mãe:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mamãe... Eu vou morrer...
-</p>
-
-<p>
-As palavras sairam-lhe dos labios, seguras, doces e naturaes.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não diga isso, minha filha, adiantou-se D. Maricota. Qual morrer!
-Você vai ficar boa; seu pai vai levar você para Minas; você engorda,
-toma forças...
-</p>
-
-<p>
-A mãe dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como
-se tratasse de uma criança. Ella ouvia tudo com paciencia e voltou
-por sua vez serenamente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa a senhora...
-</p>
-
-<p>
-A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em
-redor, deu com a porta semi-cerrada e levantou-se para fechal-a. Quiz
-ainda ver se a dissuadia daquelle pensamento; Ismenia, porém,
-continuava a repetil-o pacientemente docemente, serenamente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu sei, mamãe.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bem. Supponho que é verdade: o que é que você quer?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva.
-</p>
-
-<p>
-D. Maricota ainda quiz brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para
-o outro lado, poz-se a dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe
-saiu do quarto, commovida, com lagrimas nos olhos e a secreta certeza de
-que a filha, falava a verdade.
-</p>
-
-<p>
-Não tardou muito a se verificar. O Dr. Armando a tinha visitado
-naquella manhã pela quarta vez; ella parecia melhor, desde alguns dias,
-falava com discernimento, sentava-se á cama e conversava com prazer.
-</p>
-
-<p>
-D. Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue ás
-irmãs. Ellas foram lá ao quarto varias vezes e parecia dormir.
-Distrahiram-se.
-</p>
-
-<p>
-Ismenia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio
-aberto, o seu traje de noiva. Teve vontade de vel-o mais de perto.
-Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplal-o. Chegou-lhe
-o desejo de vestil-o. Poz a saia: e, por ahi, vieram recordações do
-seu casamento falhado. Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente
-osseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas não se recordou com
-odio, antes como se fosse um logar visto ha muito tempo, e que a tivesse
-impressionado.
-</p>
-
-<p>
-De quem ella se lembrava com raiva era da cartomante. Illudindo sua
-mãe, acompanhada por uma criada, tinha conseguido consultar Mme.
-Sinhá. Com que indifferença ella lhe respondeu: não volta! Aquillo
-doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah!... Acabou de abotoar a
-saia em cima do corpinho, pois não encontrara collete; e foi ao
-espelho. Viu os seus hombros nús, o seu collo muito branco...
-Surprehendeu-se. Era della aquillo tudo? Apalpou-se um pouco e depois
-collocou a corôa. O véo afagou-lhe as espaduas carinhosamente, como um
-adejo de borboleta. Teve uma fraqueja, uma cousa, deu um ai e cahiu de
-costas na cama, com as pernas para fóra... Quando a vieram ver, estava
-morta. Tinha ainda a corda na cabeça e um seio, muito branco e redondo,
-saltava-lhe do corpinho.
-</p>
-
-<p>
-O enterro foi feito no dia immediato e a casa de Albernaz esteve os dous
-dias cheia, como nos dias de suas melhores festas.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma foi ao enterro; elle não gostava muito dessa cerimonia; mas
-veiu, e foi ver a pobre moça, no caixão, coberta de flores, vestida de
-noiva, com um ar immaculado de imagem. Pouco mudara, entretanto. Era
-ella mesma ali; era a Ismenia dolente e pobre de nervos, com os seus
-traços meudos e os seus lindos cabellos, que estava dentro daquellas
-quatro taboas. A morte tinha fixado a sua pequena belleza e o seu
-aspecto pueril; e ella ia para a cova com a insignificancia, com a
-innocencia e a falta de accento proprio que tinha tido em vida.
-</p>
-
-<p>
-Contemplando aquelles tristes restos, Quaresma viu caixão do coche
-parar na porta do cemiterio, atravessar pelas ruas de tumulos&mdash;uma
-multidão que trepava, se tocava, lutava por espaço, na estreiteza da
-varzea e nas encostas das collinas. Algumas sepulturas como se olhavam
-com affecto e se queriam approximar; em outras, transparecia repugnancia
-por estarem perto. Havia ali, naquelle mudo laboratorio de
-decomposições, solicitações incomprehensiveis, repulsões,
-sympathias e antipathias; havia tumulos arrogantes, vaidosos,
-orgulhosos, humildes, alegres e tristes; e de muitos, recumava o
-esforço, um esforço extraordinario, para escapar ao nivelamento da
-morte, ao apagamento que ella traz ás condições e ás fortunas.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma ainda contemplava o cadaver da moça e o cemiterio surgia aos
-seus olhos com as esculpturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e
-inscripções, em alguns tumulos; noutros, eram pyramides de pedra
-tosca, retratos, caramanchões extravagantes, complicações de ornatos,
-cousas barôcas e delirantes, para fugir ao anonymato do tumulo, ao fim
-dos fins.
-</p>
-
-<p>
-As inscripções exuberantes são longas, são breves: têm nomes, têm
-datas, sobrenomes, filiações, toda a certidão de idade do morto que,
-lá em baixo, não se póde mais conhecer e é lama putrida.
-</p>
-
-<p>
-E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem
-uma celebridade, uma notabilidade, um desses nomes que enchem decadas e,
-ás vezes mesmo, já mortos, parece que continuam a viver. Tudo é
-desconhecido; todas aquelles que querem fugir do tumulo para a memoria
-dos vivos, são anodynos felizes e mediocres existencias que passaram
-pelo mundo sem ser notadas.
-</p>
-
-<p>
-E lá ia aquella moça por ali afóra para o buraco escuro, para o fim,
-sem deixar na vida um traço mais fundo de sua pessoa, de seus
-sentimentos, de sua alma!
-</p>
-
-<p>
-Quaresma quiz afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior
-da casa. Elle estivera na sala de visitas, onde D. Maricota tambem
-estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. O Lulú,
-fardado do Collegio, com fumo no braço, cochilava a uma cadeira. As
-irmãs iam e vinham. Na sala de jantar, estava o General silencioso,
-tendo ao lado Fontes e outros amigos.
-</p>
-
-<p>
-Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma
-passou, pôde ouvir o Almirante dizer:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui... O Governo está
-exhausto.
-</p>
-
-<p>
-O Major ficou na janella que dava para o quintal. O tecido do céo se
-tinha adelgaçado; o azul estava sedoso e fino; e tudo tranquillo,
-sereno e calmo.
-</p>
-
-<p>
-A Estephania, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo
-ao lado Lalá, que levava, de quando em quando, o lenço aos olhos já
-seccos, a quem aquella dizia:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu, se fosse você, não comprava lá... É caro! Vai ao «Bonheur
-des Dames»... Dizem que tem cousas boas e é pechincheiro.
-</p>
-
-<p>
-O Major voltou de novo a contemplar o céo que cobriu o quintal. Tinha
-uma tranquillidade quasi indifferente. Genelicio appareceu
-demasiadamente funebre. Todo de preto, elle tinha afivelado ao rosto a
-mais profunda mascara de tristeza. O seu <i>pince-nez</i> azulado tambem
-parecia de luto.
-</p>
-
-<p>
-Não lhe fôra possivel deixar de ir trabalhar; um serviço urgente,
-fizera-o indispensavel na repartição.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É isto, General, disse elle, não esta lá o Dr. Genelicio, nada se
-faz... Não ha meio da «Marinha» mandar os processos certos... É um
-relaxamento...
-</p>
-
-<p>
-O General não respondeu; estava deveras combalido. Bustamante e Caldas
-continuavam a conversar baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua.
-Quinota chegou á sala de jantar:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Papae, está ahi o coche.
-</p>
-
-<p>
-O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou á
-mulher que se ergueu com a face contrahida, exprimindo uma grande
-contensão. Os seus cabellos já tinham muitos fios de prata. Não deu
-um passo; esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando.
-Todos estavam vendo sem saber o que fazer; alguns choravam; Genelicio
-tomou um partido: foi retirando os cirios de ao redor do caixão. A mãe
-levantou-se, veiu até ao esquife, beijou o cadaver: minha filha!
-</p>
-
-<p>
-Quaresma adiantou-se, foi sahindo com o chapéo na mão. No corredor,
-ainda ouviu Estephania dizer a alguem: o coche é bonito.
-</p>
-
-<p>
-Saiu. Na rua parecia que havia testa. As crianças da visinhança
-cercavam-o carro funebre e faziam innocentes commentarios sobre os
-dourados e enfeites. As grinaldas foram apparecendo e sendo dependuradas
-nas extremidades das columnas do coche: «Á minha querida filha», «Á
-minha irmã». As fitas rôxas e pretas, com lettras douradas, moviam-se
-lentamente ao leve vento que soprava.
-</p>
-
-<p>
-Appareceu o caixão, todo roxo, com guarnições do galões dourados,
-muito brilhantes. Tudo aquillo ia p'ra terra. As janellas se povoaram,
-de um lado e d'outro da rua; um menino na casa proxima, gritou da rua
-para o interior: «mamãe, lá vai o enterro da moça»!
-</p>
-
-<p>
-O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuario, cujos
-cavallos, russos, cobertos com uma rede preta, escarvavam o chão cheios
-de impaciencia.
-</p>
-
-<p>
-Aquelles que iam acompanhar até ao cemiterio, procuravam os seus
-carros. Embarcaram todos, e o enterro rodou.
-</p>
-
-<p>
-A esse tempo, na visinhança, alguns pombos immaculadamente brancos, as
-aves de Venus, ergueram o vôo, ergueram o vôo, ruflando
-estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo
-silenciosos, quasi sem bater azas, para o pombal que se occultava nos
-quintaes burguezes...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap04_3"></a></h4>
-
-<h4>IV
-<br /><br />
-O BOQUEIRÃO</h4>
-
-<p>
-O sitio de Quaresma, em Curuzú, voltava aos poucos ao estado de
-abandono em que elle o encontrara. A herva damninha crescia e cobria
-tudo. As plantações que fizera, tinham desapparecido na invasão do
-capim, do carrapicho, das ortigas e outros arbustos. Os arredores da
-casa offereciam um aspecto desolador, apezar dos esforços de Anastacio,
-sempre vigoroso e trabalhador na sua forte velhice africana, mas baldo
-de iniciativa, de methodo, de continuidade no esforço.
-</p>
-
-<p>
-Um dia capinava aqui, outro dia ali, outro pedaço; assim ia saltando de
-trecho em trecho, sem fazer trabalho que se visse, permittindo que as
-terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto de desleixo que
-não condizia como seu trabalho effectivo.
-</p>
-
-<p>
-As formigas voltaram tambem, mais terriveis e depredadoras, vencendo
-obstaculos, devastando tudo, restos de seara, brotos de fructeiras, até
-os araçazeiros depenavam com uma energia e bravura que sorriam nos
-fracos expedientes da intelligencia crestada do antigo escravo, incapaz
-de achar meios efficazes de batel-as ou afugenta-las.
-</p>
-
-<p>
-Entretanto elle cultivava. Era a sua mania, o seu vicio, uma teimosia de
-caduco. Tinha uma horta que disputava diariamente ás saúvas; e, como
-os animaes da visinhança a tivessem um dia invadido, elle a protegeu
-pacientemente com uma cerca de materiaes mais inconcebiveis: latas de
-kerozene desdobradas, caibros bons, folhas de coqueiros, taboas de
-caixão, não obstante ter á mão bambus á vontade.
-</p>
-
-<p>
-Na sua intelligencia havia uma necessidade do tortuoso; do
-apparentemente facil; e, em tudo elle punha esse geito de sua psyche,
-tanto no falar, com grandes rodeios, como nos canteiros que traçava,
-irregulares, maiores aqui, menores ali, fugindo á regularidade, ao
-parallelismo, á symetria, com um horror artistico.
-</p>
-
-<p>
-A revolta tinha tido sobre a politica local effeito pacificador. Todos
-os partidos se fizeram dedicadamente governistas, de forma que, entre os
-dous poderosos contendores, o Dr. Campos e o Tenente Antonino, houve um
-traço de união que os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso que
-ambos disputavam encarniçadamente, chegou um outro mais forte que poz
-em perigo a segurança de ambos e elles se puzeram em expectativa, um
-instante unidos.
-</p>
-
-<p>
-O candidato foi imposto pelo Governo Central e as eleições chegaram.
-É um momento bem curioso esse das eleições na roça. Não se sabe bem
-donde sabem tantos typos exoticos. De tal forma são elles esquesitos
-que se póde mesmo esperar que appareçam calções e bofes de renda,
-espadins e gibão. Ha sobrecasacas de cintura, ha calças boca de sino, ha
-chapéos de seda&mdash;todo um museu de indumentaria que aquelles roceiros
-vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e
-estradas poeirentas das villas e logarejos. Não faltam tambem os
-valentões, com calças bombachas e grandes bengalões de piquiá, á
-espera do que der e vier.
-</p>
-
-<p>
-Para a monotona vida que levava D. Adelaide, esse desfile de manequins
-de museu, por sua porteira, em direcção á secção eleitoral que lhe
-ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ella passava longo e
-tristes dias naquelle isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito a
-mulher de Felizardo, a sinhá Chica, uma velha cafusa, especie de Medéa
-esqueletica, cuja fama de rezadeira pairava por sobre todo o municipio.
-Não havia quem como ella soubesse rezar dores, cortar febres, curar
-cobreiros e conhecesse os effeitos das hervas medicinaes: a lingua de
-vacca, a silvina, o cipó chumbo&mdash;toda aquella drogaria que crescia
-pelos campos, pelas capoeiras, e pelos troncos de arvores.
-</p>
-
-<p>
-Além desse saber que a fazia estimada e respeitavel, tinha tambem a
-habilidade de assistir partos. Na redondeza, entre a gente pobre e mesmo
-remediada, todos os nascimentos se faziam aos cuidados de suas luzes.
-</p>
-
-<p>
-Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento
-domestico em cruz, repetidas vezes, sobre a séde da dor ou da tarefa,
-rezando em voz baixa, balbuciando preces que afugentavam o espirito
-maligno que estava ali. Contavam-se della milagres, victorias
-extraordinarias, denunciadoras do seu extranho poder quasi magico, sobre
-as forças occultas, que nos perseguem ou nos auxiliam.
-</p>
-
-<p>
-Um dos mais curiosos, e era contado em toda a parte e á toda a hora,
-consistia no afastamento das lagartas. Os vermes haviam dado num
-feijoal, aos milheiros, cobrindo as folhas e os colmos; o proprietario
-já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos
-maravilhosos poderes de Sinhá Chica. A velha lá foi. Pôz cruzes de
-gravetos pelas bordas da roça, assim como se fizesse uma cerca de
-invisivel material que nellas se apoiasse; deixou uma extremidade aberta
-e collocou-se na opposta a rezar. Não tardou o milagre a verificar-se.
-Os vermes, num rebanho moroso e serpejante, como se fossem tocados pela
-vara de um pastor, foram sahindo na sua frente, de vagar, aos dous, aos
-quatros, aos cinco, aos dez, aos vinte, e um só não ficou.
-</p>
-
-<p>
-O doutor Campos não linha absolutamente nenhuma especie de ciume dessa
-rival. Armou-se de um pequeno desdem pelo poder sobrehumano da mulher,
-mas não appellou nunca para o arsenal de leis, que vedava o exercicio
-de sua transcedente medicina. Seria a impopularidade; elle era
-politico...
-</p>
-
-<p>
-No interior, e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro, as
-duas medicinas coexistem sem raiva e ambas attendem ás necessidades
-mentaes e economicas da população.
-</p>
-
-<p>
-A da Sinhá Chica, quasi gratis, ia ao encontro da população pobre,
-daquella em cujos cerebros, por contagio ou herança, ainda vivem os
-manitus e manipanços, sujeitos a fugirem aos exorcismos, benzeduras e
-fumigações. A sua clientela, entretanto, não se resumia só na gente
-pobre da terra, ali nascida ou criada; havia mesmo recem-chegados de
-outros ares, italianos, portuguezes e hespanhoes, que se socorriam da
-sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contagio das crenças
-ambientes, mas tambem por aquella estranha superstição européa de que
-todo o negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as
-coisas malignas e exercer a feitiçaria.
-</p>
-
-<p>
-Emquanto a therapeutica fluidica ou herbacea de Sinhá Chica attendia
-aos miseraveis, aos pobretões, a do doutor Campos era requerida pelos
-mais cultos e ricos, cuja evolução mental exigia a medicina regular e
-official.
-</p>
-
-<p>
-Ás vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas molestias
-graves, nas complicadas, nas incuraveis, quando as hervas e as rezas da
-milagrosa nada podiam ou os xaropes e pillulas do doutor eram
-impotentes.
-</p>
-
-<p>
-Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradavel. Vivia sempre
-mergulhada no seu sonho divino, abysmada nos mysteriosos poderes dos
-feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos baixos, fixos, de
-fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de mumia, tanto ella era
-encarquilhada e secca.
-</p>
-
-<p>
-Não esquecia tambem os santos, a santa madre igreja, os mandamentos,
-as orações orthodoxas; embora não soubesse ler, era forte no
-cathecismo e conhecia a historia sagrada aos pedaços, adduzindo a
-elles interpretações suas e interpelações pittorescas.
-</p>
-
-<p>
-Com o Appolinario, o famoso capellão das ladainhas, era ella o forte
-poder espiritual da terra. O vigario ficava relegado a um papel de
-funccionario, especie de official de registro civil, encarregado dos
-baptisados e casamentos, pois toda a communicação com Deus e o
-Invisivel se fazia por intermedio de Sinhá Chica ou do Appolinario. É
-de dever falar em casamentos, mas bem podiam ser esquecidos, porque a
-nossa gente pobre faz um reduzido de tal sacramento e a simples
-mancebia, por toda a parte, substitue a solemne instituição catholica.
-</p>
-
-<p>
-Felizardo, o marido della, apparecia pouco em casa de Quaresma; e, se
-apparecia, era á noite passando os dias pelos mattos com medo do
-recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o barulho já
-tinha acabado.
-</p>
-
-<p>
-Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janella e
-embrenhando-se na capoeira, á menor bulha ou vida.
-</p>
-
-<p>
-Tinham dous filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam á depressão
-moral dos paes uma pobreza de vigor physico e uma indolencia repugnante.
-Eram dous rapazes; o mais velho, José, orçava pelos 20 annos; ambos
-inertes, molles, sem força e sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria,
-das rezas e benzeduras, que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito
-do pae.
-</p>
-
-<p>
-Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um
-trabalho continuo. De quando em quando, assim de quinze em quinze dias,
-faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade
-do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um lenço de
-cores vivas, um vidro de agua da Colonia, um espelho, bugigangas que
-denunciavam ainda nelles gostos bastante selvagens.
-</p>
-
-<p>
-Passavam então uma semana em casa, a dormir ou á perambular pelas
-estradas e vendas; á noite, quasi sempre nos dias de festas e domingos,
-sahiam com a <i>harmonica</i> a tocar peças, no que eram eximios, sendo a
-presença delles muito requesitada nos bailes da visinhança.
-</p>
-
-<p>
-Embora seus paes vivessem em casa de Quaresma, raramente lá appareciam;
-e, se o faziam, era porque de todo não tinham que comer. Levavam o
-descuido da vida, a imprevidencia, a ponto de não terem medo do
-recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e
-bondade, mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes á
-natureza, como uma pena ou um castigo.
-</p>
-
-<p>
-Essa atonia da nossa população, essa especie de desanimo doentio, de
-indifferença nirvanesca por tudo e todas as cousas, cercam de uma
-caligem de tristeza, desesperada a a nossa roça e tira-lhe o encanto, a
-poesia o o viço seductor de plena natureza.
-</p>
-
-<p>
-Parece que nem um dos grandes paizes opprimidos, a Polonia, a Irlanda, a
-India apresentará o aspecto cataleptico do nosso interior. Tudo ahi
-dorme, cochila, parece morto; naquelles ha revolta, ha fuga para o
-sonho; no nosso... Oh!... dorme-se...
-</p>
-
-<p>
-A ausencia de Ouaresma trouxera para o seu sitio essa atmosphera geral
-da roça. O «Socego» parecia dormir, dormir de encantamento, á espera
-que o principe o viesse despertar.
-</p>
-
-<p>
-Machinas agricolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a
-etiqueta da casa. Aquelles arados de ponta de aço, que tinham chegado
-com a relha reluzente, de um brilho azulado e doce, estavam hediondos e
-morriam de tedio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente
-para o céo mudo. De manhã, não se ouvia mais o cacarejar das aves no
-gallinheiro, o esvoaçar dos pombos&mdash;todo esse hymno matinal de vida,
-de trabalho, de fartura não mais se casava com as auroras rosadas e com o
-chilreio alacre do passaredo; e ninguem sabia ver as paineiras em flor,
-com as suas lindas flores rosadas e brancas que, a espaços, cahiam
-docemente como aves feridas.
-</p>
-
-<p>
-D. Adelaide não linha nem gosto nem actividade para superintender
-aquelles serviços e fruir a poesia da roça. Soffria com a separação
-do irmão e vivia como se estivesse na cidade. Comprava os generos na
-venda e não se incommodava com as cousas do sitio.
-</p>
-
-<p>
-Anceiava pela volta da irmão; escrevia-lhe cartas desesperadas, ás
-quaes elle respondia aconselhando calma, fazendo promessas. A ultima
-recebida, porém, tinha de sopetão outro accento; não era mais
-confiante, enthusiastica, trahia desanimo, desalento, mesmo desespero.
-</p>
-
-<p>
-«Querida Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que recebi ha
-quasi duas semanas. Justamente quando ella me chegou ás mãos, acabava
-de ser ferido, ferimento ligeiro é verdade, mas que me levou á cama e
-traz-me-á unia convalescença longa. Que combate, minha filha! Que
-horror! Quando me lembro delle, passo as mãos pelos olhos como para
-afastar uma visão má. Fiquei com um horror á guerra que ninguem póde
-avaliar... Uma confusão, um infernal zunir de balas, clarões
-sinistros, imprecações&mdash;e tudo isto no seio da treva profunda da
-noite... Houve momentos que se abandonaram as armas de fogo: batiamo-nos
-á bayoneta, a coronhadas, a machado, a facão. Filha: um combate de
-troglodytas, um cousa prehistorica... Eu duvido, eu duvido, duvido da
-justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo
-e necessario ir tirar do fundo de nós todos a ferocidade adormecida,
-aquella ferocidade que se fez e se depositou em nós nos millenarios
-combates com as féras, quando disputavamos a terra e ellas... Eu não
-vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon do Néanderthal armados com
-machados de silex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar,
-sempre a matar... Este teu irmão que estás vendo, tambem fez das suas,
-tambem foi descobrir dentro do si muita brutalidade, muita ferocidade,
-muita crueldade... Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de
-matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus
-pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não
-sei a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguem emfim... Não
-imaginas como isto faz-me soffrer... Quando cahi em baixo de
-uma carreta, o que me doia não era a ferida, era a alma, era a
-consciencia; e Ricardo, que foi ferido e cahiu ao meu lado, a gemer e
-pedir&mdash;<i>capitão, meu gorro; meu gorro</i>!&mdash;parecia que era o
-meu proprio pensamento que ironizava o meu destino...
-</p>
-
-<p>
-Esta vida é absurda e illogica; eu já tenho medo de viver, Adelaide.
-Tenho medo, porque não sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã,
-de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol...
-</p>
-
-<p>
-O melhor é não agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre destes
-encargos, irei viver na quietude, na quietude mais absoluta possivel,
-para que do fundo de mim mesmo ou do mysterio das cousas não provoque a
-minha acção o apparecimento de energias extranhas á minha vontade,
-que mais me façam soffrer e tirem o doce sabor de viver...
-</p>
-
-<p>
-Além do que, penso que todo este meu sacrificio tem sido inutil. Tudo o
-que nelle puz de pensamento não foi attingido; e o sangue que derramei,
-e o soffrimento que vou soffrer toda a vida, foram empregados, foram
-gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralisados em pról
-de uma tolice politica qualquer...
-</p>
-
-<p>
-Ninguem comprehende o que quero, ninguem deseja penetrar e sentir; passo
-por doido, tolo, maniaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a
-sua brutalidade e fealdade».
-</p>
-
-<div class="tb">* * * * *</div>
-
-<p>
-Como Quaresma dizia na carta, o seu ferimento não era grave, era
-porém, delicado e exigia tempo para uma cura completa e sem perigos.
-Ricardo, este, fora ferido mais gravemente. E se o soffrimento de
-Quaresma era profundamente moral, o de Coração dos Outros era physico
-e não se cançava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara
-até á posição de combatente.
-</p>
-
-<p>
-Os hospitaes em que tratavam estavam separados pela bahia, agora
-intransponivel, exigindo a viagem de uma margem á outra bem doze horas
-por estrada de ferro.
-</p>
-
-<p>
-Tanto na ida como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela
-estação em que morava. O trem, porém, não parava, e elle se limitou
-a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para aquelle seu
-«Socego», de terras pobres e arvores velhas, onde sonhara repousar
-calmamente por toda a vida; e, entretanto, o lançara na mais terrivel
-das aventuras.
-</p>
-
-<p>
-E elle perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro
-socego, onde se poderia encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo
-qual tanto anceiava, depois dos sacolejamentos por que vinha
-passando&mdash;onde? E o mappa dos continentes, as cartas dos paizes, as
-plantas das cidades, passavam-lhe pelos olhos e não viu, não encontrou
-um paiz, uma provincia, uma cidade, uma rua onde o houvesse.
-</p>
-
-<p>
-A sua sensação era de fadiga, não physica, mas moral r intellectual.
-Tinha vontade de não mais pensar, de não mais amar: queria, comtudo,
-viver, por prazer physico, pela sensação material pura e simples de
-viver.
-</p>
-
-<p>
-Assim, convalesceu longamente, demoradamente, melancolicamente, sem uma
-visita, sem ver uma face amiga.
-</p>
-
-<p>
-Coleoni e familia se haviam retirado para fóra; o General, por
-preguiça e desleixo, não viera vel-o. Vivia só, envolvido na
-suavidade da convalescença, a pensar no Destino, na sua vida, nas suas
-idéas e mais que tudo nas suas desillusões.
-</p>
-
-<p>
-Entretanto, a revolta na bahia chegava ao fim; toda a gente já
-presentia isso e queria esse allivio.
-</p>
-
-<p>
-O Almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim
-com tristeza. O primeiro via fugir o seu sonho de commandar uma esquadra
-e a consequente volta para o quadro; e o General sentia perder a sua
-commissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notavel melhorar a
-situação da familia.
-</p>
-
-<p>
-Naquella manhã, bem cedo, D. Maricota accordara o marido:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Chico, levanta-te! Olha que tens que ir á missa do Senador
-Clarimundo...
-</p>
-
-<p>
-Ouvindo a recommendação da mulher, Albernaz ergueu-se logo do leito.
-Era preciso não faltar. A sua presença se impunha e significava muito.
-Clarimundo fôra um republicano historico, agitador, tribuno temido, no
-tempo do Imperio; após a Republica, porém, não apresentara aos seus
-pares do Senado nada de util e bemfasejo. Embora assim, a sua influencia
-ficara sendo grande; e, com diversos outros, era chamado patriarcha da
-Republica. Ha nos proceres republicanos uma necessidade extraordinaria
-de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro, a que elles se
-recommendam com teimoso interesse.
-</p>
-
-<p>
-Clarimundo era um desses proceres e, durante a commoção, não se sabia
-bem porque, o seu prestigio cresceu e já se falava nelle para
-substituir o Marechal. Albernaz conhecera-o vagamente, mas assistir a
-sua missa era quasi uma affirmação politica.
-</p>
-
-<p>
-A dor da morte da filha já se esvaira muito na sua memoria. O que o
-fazia soffrer era aquella semi-vida da moça, mergulhada na loucura e na
-molestia. A morte tem a virtude de ser brusca, de chocar, mas não
-corroer, como essas molestias duradouras nas pessoas amadas: passado que
-é o choque, vai ficando em nós uma suave recordação do ente
-querido, uma boa physionomia sempre presente aos nossos olhos.
-</p>
-
-<p>
-Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua
-jovialidade natural foram voltando insensivelmente.
-</p>
-
-<p>
-Obediente á mulher, preparou-se, vestiu-se e sahiu. Comquanto se
-estivesse ainda em plena revolta, esses officios funebres se faziam nas
-igrejas do centro da cidade. O General chegou a tempo e á hora. Havia
-uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assignar as listas de
-presença. Não tanto que quisessem attestar á familia do morto esse
-acto delicado; dominava-os, além disso, a esperança de ter os nomes
-nos jornaes.
-</p>
-
-<p>
-Albernaz não deixou de atirar-se tambem a uma das listas que andavam
-pelas mesas da sacristia; e, quando ia assignar, alguem lhe falou. Era o
-Almirante. A missa ia começar, mas ambos evitaram entrar na nave cheia,
-e ficaram a um vão da janella, na sacristia, conversando.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Então acaba breve, hein?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Dizem que a esquadra já sahiu de Pernambuco.
-</p>
-
-<p>
-Fôra Caldas quem falara primeiro e a resposta do General fel-o sorrir
-ironico dizendo:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Emfim...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;A bahia está cercada de canhões, continuou o General, após uma
-pausa, e o Marechal vai intimal-os a renderem-se.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Já era tempo, fez Caldas... Commigo, a cousa ja estava acabada...
-Levar quasi sete mezes para dar cabo de uns calhambeques!...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Você exagera, Caldas; a cousa não era tão facil assim... E o mar?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que fez a esquadra tanto tempo no Recife, você não me dirá? Ah! si
-fosse com este seu criado, tinha logo partido e atacado... Sou pelas
-decisões promptas...
-</p>
-
-<p>
-O padre, no interior da igreja, continuava a pedir Deus repouso para a
-alma do Senador Clarimundo. O mystico cheiro de incenso vinha até elles
-e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz e da bondade, não os demovia
-dos seus pensamentos guerreiros.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Entre nós, adduziu Caldas, não ha mais gente que preste... Isto é
-um paiz perdido, acaba colonia ingleza...
-</p>
-
-<p>
-Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho
-do chão. Albernaz avançou, meio sarcastico:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Agora não; agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma
-era de progresso vai abrir-se para o Brasil.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual o que! Onde é que você viu um Governo...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mais baixo, Caldas!
-</p>
-
-<p>
-&mdash;...onde é que se viu um Governo que não aproveita as aptidões,
-abandona-as, deixa-as por ahi vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas
-riquezas naturaes: jazem por ahi á toa!
-</p>
-
-<p>
-A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma
-porção de homens, todos de negro, ajoelhados, contrictos, batendo nos
-peitos, a confessar de si para si: <i>mea culpa, mea maxima culpa</i>...
-</p>
-
-<p>
-Uma restea de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia
-sobre algumas cabeças.
-</p>
-
-<p>
-Insensivelmente, os dous, na sacristia, levaram a mão ao peito e
-confessaram tambem: <i>mea culpa, mea maxima culpa</i>...
-</p>
-
-<p>
-A missa veiu a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmatica. A
-nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranquillo de immortalidade.
-</p>
-
-<p>
-Todos tinham um grande ar de compuncção: amigos, parentes, conhecidos
-e desconhecidos pareciam soffrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que
-penetraram no corpo da igreja, apanharam no ar um sentimento profundo e
-afivelaram-no ao rosto.
-</p>
-
-<p>
-Genelicio tambem viera; elle tinha o vicio das missas das pessoas
-importantes, dos cartões de pezames, dos cumprimentos em dias de
-anniversario. Temendo que a memoria não lhe ajudasse, possuia um
-caderninho onde as datas aniversarias estavam assentadas e as
-residencias tambem. O indice era organizado com muito cuidado. Não
-havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem importante, que, em dia de
-anniversario, não recebesse os seus parabens, e, por morte, não o
-levasse á igreja em missa de setimo dia.
-</p>
-
-<p>
-O seu traje de luto era de panno grosso, pesado e, olhando-o,
-lembrava-nos logo de um castigo dantesco.
-</p>
-
-<p>
-Na rua, Genelicio escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia
-ao sogro e ao Almirante:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;A cousa está p'ra acabar...! Breve...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;E se resistirem? perguntou o General.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual! Não resistem. Corre que já propuzeram rendição... É preciso
-arranjar uma manifestação ao Marechal...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não acredito, fez o Almirante. Conheço muito o Saldanha, é
-orgulhoso e não se entrega assim...
-</p>
-
-<p>
-Genelicio ficou um pouco assustado com a intonação da voz do seu
-parente; teve medo que elle falasse mais alto, désse na vista e o
-compromettesse. Calou-se; Albernaz, porem, avançou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não ha orgulho que resista a uma esquadra mais forte.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Forte! Uns calhambeques, homem!
-</p>
-
-<p>
-Caldas continha a custo a furia que lhe ia n'alma. O céo estava azul e
-calmo. Havia nelle nuvens brancas, leves, esgarçadas, que se moviam
-lentamente, como velas, naquelle mar infinito. Genelicio olhou-o um
-pouco e aconselhou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Almirante não fale assim... Olhe que...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual! Não tenho medo... Porcarias!...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Bom, fez Genelicio, eu tenho que ir á rua Primeiro de Março e...
-</p>
-
-<p>
-Despediu-se e sahiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão
-com o seu pince-nez azulado, palmilhando a rua com passo meudo e
-cauteloso.
-</p>
-
-<p>
-Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram
-sempre amigos, cada um com o seu desgosto e a sua decepção.
-</p>
-
-<p>
-Tinham razão: a revolta veiu a acabar d'ahi a dias. A esquadra legal
-entrou: os officiaes revoltosos se refugiaram nos navios de guerra
-portuguezes e o Marechal Floriano ficou senhor da bahia.
-</p>
-
-<p>
-No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte
-da população abandonou a cidade, refugiando-se nos suburbios, por
-baixo das arvores, na casa de amigos ou nos galpões construidos adrede
-pelo Estado.
-</p>
-
-<p>
-Era de ver o terror que se estampava naquellas physionomias, a ancia e a
-angustia tambem. Levavam trouxas, samburás, pequenas malas; crianças
-de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro de estimação, o
-passarinho que de ha muito quebrava a tristeza de uma casa pobre.
-</p>
-
-<p>
-O que mais mettia medo era o famoso canhão de dynamite, do
-«Nictheroy», uma espalhafatosa invenção americana, instrumento
-terrivel, capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das
-montanhas graniticas do Rio.
-</p>
-
-<p>
-As crianças e as mulheres, mesmo fóra do alcance de seu poder, temiam
-ouvir o seu estrondo: entretanto, esse fantasma <i>yankee</i>, esse
-pesadello, essa quasi força da natureza, foi morrer abandonado num
-caes, desprezado e inoffensivo.
-</p>
-
-<p>
-O fim do levante foi um allivio; a cousa já estava, ficando monotona e
-o Marechal ganhou feições sobrehumanas com a victoria.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma teve alta por esse tempo; e uma ala de seu batalhão foi
-destacada para guarnecer a ilha das Enxadas. Innocencio Bustamante
-continuava a superintender o corpo com muito zelo, do interior do seu
-gabinete, na estalagem condemnada que lhe servia de quartel. A
-escripturação estava em dia e era feita com a melhor letra.
-</p>
-
-<p>
-Polycarpo acceitou com repugnancia o papel de carcereiro, pois na ilha
-das Enxadas estavam depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus
-tormentos d'alma mais cresceram com o exercicio de tal funcção. Quasi
-os não olhava: tinha vexame, piedade e parecia-lhe que dentre elles um
-conhecia o segredo de sua consciencia.
-</p>
-
-<p>
-De resto, todo o systema de idéas que o fizera meter-se na guerra civil
-se tinha desmoronado. Não encontrara o Sully e muito menos o Henrique
-IV. Sentia tambem que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma
-das pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos
-politicos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os
-moços, que eram muitos, se não havia baixo interesse, existia uma
-adoração fetichica pela forma republicana, um exagero das virtudes
-della, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações
-não podiam achar justos. Era grande a sua desillusão.
-</p>
-
-<p>
-Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos
-dos aspirantes. Havia simples marinheiros; havia inferiores; havia,
-escreventes e operarios de bordo. Brancos, pretos, mulatos, caboclos,
-gente de todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha
-incitado em tal aventura pelo habito de obedecer, gente inteiramente
-extranha á questão em debate, gente arrancada á força aos lares ou
-á calaçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado
-por miseria; gente ignara, simples, ás vezes cruel e perversa como
-crianças inconscientes; ás vezes, boa e docil como um cordeiro, mas,
-enfim, gente sem responsabilidade, sem anceio politico, sem vontade
-propria, simples automatos nas mãos dos chefes e superiores que a
-tinham abandonado á mercê do vencedor.
-</p>
-
-<p>
-De tarde, elle ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava
-ainda e as gaivotas continuavam a pescar. Os barcos passavam. Ora, eram
-lanchas fumarentas que lá iam para fundo da bahia; ora pequenos botes
-ou canôas, roçando carinhosamente a superficie das aguas, pendendo
-para lá e para cá, como se as suas alvas velas enfunadas quizessem
-afagar a espelhenta superficie do abysmo. Os Orgãos vinham suavemente
-morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul immaterial que
-inebriava, embriagava, como um licor capitoso.
-</p>
-
-<p>
-Ficava assim um tempo longo, a ver, e quando se voltava, olhava a cidade
-que entrava na sombra, aos beijos sangrentos do occaso.
-</p>
-
-<p>
-A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar,
-meditando, pensando, soffrendo com aquelles lembranças de odios, de
-sangueiras e ferocidade.
-</p>
-
-<p>
-A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas, e imaginou que do
-exemplo dellas vinham os crimes que aquella punia, castigava e procurava
-restringir. Eram negras e desesperadas, as suas idéas; muita vez julgou
-que delirava.
-</p>
-
-<p>
-E então se lamentava por estar sósinho, par não ter um companheiro
-com quem conversar, que lhe fizesse fugir aquelles tristes pensamentos
-que o assediavam e se chiavam transformando em obsessão.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras: e, mesmo que ali
-estivesse, os rigores da disciplina não lhe permittiriam uma conversa
-mais amigavel. Vinha a noite inteiramente, e o silencio e a treva
-envolviam tudo.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da
-bahia, onde quasi não havia luzes que interrompessem a continuidade do
-negror nocturno.
-</p>
-
-<p>
-Fixava bem os olhos para lá, como se os quizesse habituar a peneirar
-nas cousas indecifraveis e adivinhar dentro da sombra negra a forma das
-montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito desapparecer.
-</p>
-
-<p>
-Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insomnias e, se queria
-ler, a attenção recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito
-longe do livro.
-</p>
-
-<p>
-Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veiu accordal-o pela
-madrugada:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Sr. Major, está ahi o <i>home</i> do Itamaraty.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que homem?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O official que vem buscar a turma do Boqueirão.
-</p>
-
-<p>
-Sem attinar bem do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do
-visitante. O homem já estava no interior de um dos alojamentos. Uma
-escolta estava á porta. Seguiam-no algumas praças, das quaes uma
-levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna
-amarellada. A vasta sala estava cheia de corpos, deitados, semi-nus, e
-havia todo o iris das cores humanas. Uns roncavam, outros dormiam
-sómente; e quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho,
-gemeu&mdash;ai! Cumprimentaram-se Quaresma e o emissario do Itamaraty, e
-nada disseram. Ambos tiveram medo de falar. O official despertou um dos
-prisioneiros e disse para as praças: Levem este.
-</p>
-
-<p>
-Seguiu adiante e despertou outro:&mdash;onde você esteve?
-Eu&mdash;respondeu o marinheiro&mdash;na «Guanabara»... Ah! patife,
-acudiu o homem do Itamaraty... Este tambem... Levem!...
-</p>
-
-<p>
-Os soldados conductores iam até á porta, deixaram o prisioneiro e
-voltavam.
-</p>
-
-<p>
-O official passou por uma porção delles e não fez reparo: adiante,
-deu com um rapaz claro, franzino, que não dormia. Gritou então:
-levante-se! O rapaz ergueu-se tremendo.&mdash;Onde esteve você?
-perguntou.&mdash;Eu era enfermeiro, retrucou o rapaz.&mdash;Que enfermeiro!
-fez o emissario. Levem este tambem...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas, seu Tenente, deixe-me escrever á minha mãe, pediu o rapaz quasi
-chorando.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que mãe respondeu o homem do Itamaraty. Siga! Vá!
-</p>
-
-<p>
-E assim foi uma duzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta,
-a embarcar num batelão que uma lancha logo rebocou para fóra das
-aguas da ilha.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma não atinou de prompto com o sentido da scena e foi, após o
-afastamento da lancha, que elle encontrou uma explicação.
-</p>
-
-<p>
-Não deixou de pensar então por que força mysteriosa, por que
-injuncção ironica elle se tinha misturado em tão tenebrosos
-acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do regimen...
-</p>
-
-<p>
-A embarcação não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro as
-pedras do caes. A esteira da embarcação estrellejava phosphorescente.
-No alto, num céo negro e profundo, as estrellas brilhavam serenamente.
-</p>
-
-<p>
-A lancha desappareceu nas trevas do fundo da bahia. Para onde ia? Para o
-Boqueirão...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="chap05_3"></a></h4>
-
-<h4>V
-<br /><br />
-A AFILHADA</h4>
-
-<p>
-Como lhe parecia illogico com elle mesmo estar ali mettido naquelle
-estreito calabouço. Pois elle, o Quaresma placido, o Quaresma de tão
-profundos pensamentos patrioticos, merecia aquelle triste fim? De que
-maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que elle pudesse
-presentir o seu extravagante proposito, tão apparentemente sem
-relação com o resto da sua vida? Teria sido elle com os seus actos
-passados, com as suas acções encadeiadas no tempo, que fizera com que
-aquelle velho deus docilmente o trouxesse até á execução de tal
-designio? Ou teriam sido os factos externos, que venceram a elle,
-Quaresma, e fizeram-n'o escravo da sentença da omnipotente divindade?
-Elle não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas cousas se
-baralhavam, se emmaranhavam e a conclusão certa e exacta lhe fugia.
-</p>
-
-<p>
-Não estava ali ha muitas horas. Fôra preso pela manhã, logo ao
-erguer-se da cama; e, pelo calculo approximado do tempo, pois estava sem
-relogio e mesmo se o tivesse não poderia consultal-o á fraca luz da
-masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
-</p>
-
-<p>
-Porque estava preso? Ao certo não sabia; o official que o conduzira,
-nada lhe quizera dizer; e, desde que sahira da ilha das Enxadas para a
-das Cobras, não trocara palavra com ninguem, não vira nenhum conhecido
-no caminho, nem o proprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um
-gesto, trazer socego ás suas duvidas. Entretanto, elle attribuia a
-prisão á carta que escrevera ao Presidente, protestando contra a scena
-que presenciara na vespera.
-</p>
-
-<p>
-Não se pudera conter. Aquella leva de desgraça a sahir assim, as
-deshonras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo
-a todos os seus sentimentos puzera diante dos seus olhos todos os seus
-principios moraes; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade
-humana: e elle escrevera a carta com vehemencia, com paixão, indignado.
-Nada omittiu do seu pensamento: falou claro, franca e nitidamente.
-</p>
-
-<p>
-Deve ser por isso que elle estava ali naquella masmorra, engaiolado,
-trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma féra, como um
-criminoso, sepultado na treva, soffrendo humidade, misturado com os seus
-detrictos quasi sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta
-lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquella angustia
-provocava pensar. Não havia base para qualquer hypothese. Era de
-conducta tão irregular e incerta o Governo que tudo elle, podia
-esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquella.
-</p>
-
-<p>
-O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sêde de matar,
-para affirmar mais a victoria e sentil-a bem na consciencia cousa sua,
-propria, e altamente honrosa.
-</p>
-
-<p>
-Iria morrer, quem sabe se naquella noite mesmo. E que tinha elle feito
-de sua vida? Nada. Levara toda ella atraz da miragem de estudar a
-patria, por amal-a e querel-a muito, no intuito de contribuir para a sua
-felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua
-virilidade tambem; e, agora que estava na velhice, como ella o
-recompensava, como ella o premiava, como ella o condecorava? Matando-o.
-E o que não deixara de ver, de gosar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não
-brincara, não pandegara, não amara&mdash;todo esse lado da existencia que
-parece fugir um pouco á sua tristeza necessaria, elle não vira, elle
-não provara, elle não experimentara.
-</p>
-
-<p>
-Desde dezoito annos que o tal patriotismo lhe absorvia e por elle fizera
-a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram
-grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade
-saber o nome dos heróes do Brasil? Em nada... O importante é que elle
-tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupy, do
-<i>folk lore</i>, das suas tentativas agricolas... Restava disso tudo em
-sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
-</p>
-
-<p>
-O tupy encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escarneo; e
-levou-o á loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras
-não eram ferazes e ella não era facil como diziam os livros. Outra
-decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que
-achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois elle
-não a viu combater como féras? Pois não a via matar prisioneiros,
-innumeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma serie,
-melhor, um encadeiamento de decepções.
-</p>
-
-<p>
-A patria que quizera ter era um mytho; era um fantasma criado por elle
-no silencio do seu gabinete. Nem a physica, nem a moral, nem a
-intellectual, nem a politica que julgava existir, havia. A que existia
-de facto, era a do Tenente Antonino, a do Dr. Campos, a do homem do
-Itamaraty.
-</p>
-
-<p>
-E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Patria? Não
-teria levado toda a sua vida norteado por uma illusão, por uma idéa a
-menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma Deusa cujo imperio se
-esvaia? Não sabia que essa idéa nascera da amplificação da crendice
-dos povos grego-romanos de que ancestraes mortos continuaram a viver
-como sombras e era preciso alimental-as para que elles não perseguissem
-os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Conlangos... Lembrou-se de
-que essa noção nada é para os menenanan, para tantas pesos...
-Pareceu-lhes que essa idéa como que fôra explorada pelos
-conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviencias
-psychologicas, no intuito de servir ás suas proprias ambições...
-</p>
-
-<p>
-Reviu a historia; viu as mutilações, os accrescimos em todos os paizes
-historicos e perguntou de si para si; como um homem que vivesse quatro
-seculos, sendo francez, inglez, italiano, allemão, podia sentir a
-Patria?
-</p>
-
-<p>
-Uma hora, para o francez, o Franco-Condado era terra dos seus avós,
-outra não era; num dado momento, a Alsacia não era, depois era e
-afinal não vinha a ser.
-</p>
-
-<p>
-Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura,
-sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso soffremos
-qualquer magua?
-</p>
-
-<p>
-Certamente era uma noção sem consistencia racional e precisava ser
-revista.
-</p>
-
-<p>
-Mas, como é que elle tão sereno, tão lucido, empregara sua vida,
-gastara o seu tempo, envelhecera atraz de tal chimera? Como é que não
-viu nitidamente a realidade, não a presentiu logo e se deixou enganar,
-por um falaz idolo, absorver-se nelle, dar-lhe em holocausto toda a sua
-existencia? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e
-assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um
-amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma
-asneira!
-</p>
-
-<p>
-Nada deixava que affirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada
-de saboroso.
-</p>
-
-<p>
-Comtudo, quem sabe se outros que lhe seguissem pegadas não seriam mais
-felizes? E logo respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera
-communicar, se nada dissera e não prendera o seu sonho, dando-lhe corpo
-e substancia?
-</p>
-
-<p>
-E esse seguimento adiantaria alguma cousa? E essa continuidade traria
-enfim para a terra alguma felicidade? Ha quantos annos vidas mais
-valiosas que a delle, se vinham offerecendo, sacrificando e as cousas
-ficaram na mesma, a terra, na mesma miseria, na mesma oppressão, na
-mesma tristeza.
-</p>
-
-<p>
-E elle se lembrava que ha bem cem annos, ali, naquelle mesmo logar onde
-estava, talvez naquella mesma prisão, homens generosos e illustres
-estiveram presos por quererem melhorar o estado de cousas de seu tempo.
-Talvez só tivessem pensado, mas soffreram pelo seu pensamento. Tinha
-havido vantagem? As condições geraes tinham melhorado? Apparentemente
-sim: mas, bem examinado, não.
-</p>
-
-<p>
-Aquelles homens, accusados de crime tão nefando em face da legislação
-da época, tinham levado dous annos a ser julgados; e elle, que não
-tinha crime algum, nem era ouvido, nem era julgado: seria simplesmente
-executado!
-</p>
-
-<p>
-Fôra bom, fôra generoso, fôra honesto, fôra virtuoso&mdash;elle que fôra
-tudo isso, ia para a cova sem o acompanhamento de um parente, de um
-amigo, de um camarada...
-</p>
-
-<p>
-Onde estariam elles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros, tão simples
-e tão innocente na sua mania de violão, elle não poria mais os olhos?
-Era tão bom que o pudesse, para mandar á sua irmã o ultimo recado, ao
-preto Anastacio um adeus, á sua afilhada um abraço! Nunca mais
-vel-os-ia, nunca!
-</p>
-
-<p>
-E elle chorou um pouco.
-</p>
-
-<p>
-Quaresma, porem, enganava-se em parte. Ricardo soubera de sua prisão e
-procurava soltal-o. Teve noticia do exacto motivo della; mas não se
-intimidou. Sabia perfeitamente que corria grande risco, pois a
-indignação no palacio contra Quaresma fôra geral. A victoria tinha
-feito os victoriosos inclementes e ferozes, e aquelle protesto soou
-entre elles como um desejo de diminuir o valor das vantagens
-alcançadas. Não havia mais piedade, não havia mais sympathia, nem
-respeito pela vida humana; o que era necessario era citar o exemplo de um
-massacre á turca, porém clandestino, para que jamais o poder
-constituido fosse atacado ou mesmo discutido. Era a philosophia social
-da época, com forças de religião, com os seus fanaticos, com os seus
-sacerdotes e pregadoras, e ella agia com a maldade de uma crença forte,
-sobre a qual fizessemos repousar a felicidade de muitos.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo, entretanto, não se amedrontou; procurou influencias e amigos.
-Ao entrar no largo de S. Francisco encontrou Genelicio. Vinha da missa
-da irmã da sogra do deputado Castro. Como sempre, trajava uma pesada
-sobrecasaca preta que parecia de chumbo. Já estava sub-director e o seu
-trabalho era agora imaginar meios e modos de ser director. A cousa era
-difficil; mas trabalhava num livro: «Os Tribunaes de Contas nos Paizes
-asiaticos»&mdash;o qual, demonstrando uma erudição superior, talvez lhe
-levasse ao alto logar cubiçado.
-</p>
-
-<p>
-Vendo-o, Ricardo não se deteve. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Doutor, V. Ex. dá licença que lhe dê uma palavra?
-</p>
-
-<p>
-Genelicio perfilou-se todo e, como tivesse pessima memoria das
-physionomias humildes, perguntou com solemnidade e arrogancia:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que deseja, camarada?
-</p>
-
-<p>
-Coração dos Outros estava com a sua farda do «Cruzeiro do Sul» e
-não ficava bem a Genelicio dar-se como conhecido de um soldado, O
-trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não me conhece mais, doutor?
-</p>
-
-<p>
-Genelicio fechou um pouco os olhos por detraz do pince-nez azulado e
-disse seccamente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu, fez com humildade Ricardo, sou Ricardo Coração dos Outros, que
-cantou no seu casamento.
-</p>
-
-<p>
-Genelicio não sorriu, não deu mostras de alegria e limitou-se:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Ah? É o senhor! Bem: que deseja?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;O senhor não sabe que o Major Quaresma está preso?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem é?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Aquelle que foi vizinho do seu sogro.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Aquelle maluco... Ahn!... E d'ahi?
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Eu queria que o senhor se interessasse...
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não me metto nessas cousas, meu amigo. O Governo tem sempre razão.
-Passe bem.
-</p>
-
-<p>
-E Genelicio seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das
-botas, emquanto Ricardo ficava de pé a olhar o largo, a gente que
-passava, a estatua immovel, as casas feias, a igreja... Tudo lhe pareceu
-hostil, máo ou indifferente; aquellas caras de homens tinham cataduras
-de feras e elle quiz por um momento chorar de desespero por não poder
-salvar o amigo.
-</p>
-
-<p>
-Lembrou-se, porém, de Albernaz, e correu a procural-o. Não era longe,
-mas o General ainda não tinha chegado. Ao fim de uma hora o General
-chegou e, dando com Ricardo, perguntou:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que ha?
-</p>
-
-<p>
-O trovador, bastante emocionado, explicou-lhe com voz dorida todo o
-facto. Albernaz concertou o pince-nez, ageitou bem o trancelim de ouro
-na orelha e disse com doçura:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Meu filho, eu não passo... Você sabe: sou governista e parece, se eu
-fôr pedir por um preso, que já não o sou bastante... Sinto muito,
-mas... que se ha de fazer? Paciencia.
-</p>
-
-<p>
-E entrou para o seu gabinete prazenteiro, muito seguro de si, dentro do
-seu placido uniforme de General.
-</p>
-
-<p>
-Os officiaes continuavam a entrar e a sahir; as campainhas soavam; os
-continuos iam r vinham; e Ricardo procurava entre todas aquellas
-physionomias uma que lhe pudesse valer. Não havia e elle desesperava.
-Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o commandante; e foi ter
-com o Coronel Bustamante, na velha estalagem que servia de quartel ao
-garboso «Cruzeiro do Sul».
-</p>
-
-<p>
-O batalhão ainda continuava em pé de guerra. Embora terminada a
-revolta no porto do Rio de Janeiro era preciso mandar forças para o
-Sul, de forma que os batalhões não tinham sido dissolvidos e um dos
-apontados para partir era o «Cruzeiro».
-</p>
-
-<p>
-O Alferes côxo, no ensaboado pateo da antiga estalagem, continuava na
-sua faina de instructor dos novos recrutas. Hom&mdash;brôoo... armas!
-Mei&mdash;ãã volta!
-</p>
-
-<p>
-Ricardo entrou, subiu rapidamente a oscillante escada do velho cortiço
-e logo que chegou ao cubiculo do commandante, gritou: com licença,
-Commandante!
-</p>
-
-<p>
-Bustamante andava de máo humor. Aquelle negocio de partir para o
-Paraná não lhe agradava. Como é que havia de superintender a escripta
-do batalhão, no fervor de batalhas, nas desordens de marchas e
-contramarchas? Isso era uma tolice do Commandante marchar; o chefe devia
-ficar a resguardo, para providenciar e dirigir a escripturação.
-</p>
-
-<p>
-Elle pensava nessas cousas, quando Ricardo pediu licença.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Entre, disse elle.
-</p>
-
-<p>
-O bravo Coronel coçava a grande barba mosaica, tinha o dolman
-desabotoado e acabava de calçar um dos pes de botina, para com mais
-decencia receber o inferior.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo expoz o seu pedido r esperou com paciencia a resposta, que
-custou a vir. Por fim, Innocencio disse sacudindo a cabeça e olhando o
-inferior cheio, de severidade:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vai-te embora, senão mando-te prender! Já!
-</p>
-
-<p>
-E apontou com o dedo a porta da sahida num gesto marcial e energico. O
-cabo não se demorou mais. No pateo o instructor coso, veterano do
-Paraguay, continuava com solemnidade a encher a arruinada estalagem com
-as suas vozes de commando: Hom-brõo... armas! Mei&mdash;ãã... volta...
-volver!
-</p>
-
-<p>
-Ricardo veiu andando triste e desalentado. O mundo lhe parecia vasio de
-afecto e de amor. Elle que sempre decantara nas suas modinhas a
-dedicação, o amor, as sympathias, via agora que taes sentimentos não
-existiam, tinha marchado atraz de cousas fóra da realidade, de
-chimeras. Olhou o céo alto. Estava tranquillo e calmo. Olhou as
-arvores. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam
-attingir o céo. Olhou as casas, as igrejas, os palacios e lembrou-se
-das guerras, do sangue, das dores que tudo aquillo custara. E era assim
-que se fazia a vida, a historia e o heroismo: com violencia sobre os
-outros, com oppressões e soffrimentos.
-</p>
-
-<p>
-Logo, porém, recordou que era preciso salvar o amigo que era necessario
-dar mais uns passos. Quem poderia? Consultou sua memoria. Viu um, viu
-outro e por fim lembrou-se da afilhada de Quaresma, e foi procural-a na
-Real Grandeza.
-</p>
-
-<p>
-Chegou, narrou-lhe o facto e as suas sinistras apprehensões. Ella estava
-só, pois o marido cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos da
-victoria; não perdia um minuto, andando atraz de um e de outro.
-</p>
-
-<p>
-Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu eterno sonhar, da sua ternura,
-da tenacidade que punha em seguir as suas idéas, da sua candura de
-donzella romantica...
-</p>
-
-<p>
-Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a
-vontade de agir. Pareceu-lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de
-algum modo dar lenitivo ao soffrimento do padrinho; mas bem cedo o viu
-ensanguentado&mdash;elle, tão generoso, elle, tão bom, e pensou em
-salval-o.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Mas que fazer, meu caro sr. Ricardo, que fazer? Eu não conheço
-ninguem... Eu não tenho relações... Minhas amigas... A Alice, a
-mulher do Dr. Brandão, está fora... A Cassilda, a filha do Castrioto,
-não pode... Não sei, meu Deus!
-</p>
-
-<p>
-E accentuou estas ultimas palavras com grande e lancinante desespero. Os
-dous ficaram calados. A moça, que estava sentada, tomou a cabeça entre
-as mãos e as sua unhas longas e aperoladas engastaram-se nos seus
-cabellos negros. Ricardo estava de pé e aparvalhado.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que hei de fazer, meu Deus? repetiu ella.
-</p>
-
-<p>
-Pela primeira vez, ella sentiu que a vida tinha cousa desesperadoras.
-Possuia a mais forte disposição de salvar seu padrinho; faria
-sacrificio de tudo, mas era impossivel, impossivel! Não havia um meio;
-não havia um caminho. Ella tinha que ir para o posto de supplicio,
-tinha que subir o seu Calvario, sem esperança de ressurreição.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Talvez seu marido, disse Ricardo.
-</p>
-
-<p>
-Pensou um pouco, demorou-se mais no exame do caracter do esposo; mas, em
-breve, viu bem que o seu egoismo, a sua ambição e a sua ferocidade
-interesseira não pemittiriam que elle désse o minimo passo.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Qual, esse...
-</p>
-
-<p>
-Ricardo não sabia o que aconselhal-a e olhava sem pensamento os moveis
-e a montanha negra e alta que se avistava da sala onde estavam. Queria
-encontrar um alvitre, um conselho; mas nada!
-</p>
-
-<p>
-A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabellos negros e a olhar
-a mesa em que repousavam os seus cotovellos. O silencio era augusto.
-</p>
-
-<p>
-Num dado momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Se a senhora fosse lá...
-</p>
-
-<p>
-Ella levantou a cabeça; os seus olhos se dilataram, de espanto e o
-rosto lhe ficou rigido. Pensou um pouco, um nada, e falou com firmeza:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vou.
-</p>
-
-<p>
-Ricardo ficou só e sentou-se. Olga foi vestir-se.
-</p>
-
-<p>
-Elle então pensou com admiração naquella moça que por simples
-amizade se dava a tão arriscado sacrificio, que tinha a alma tão ao
-alcance della mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo, deste nosso
-egoismo, dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar
-de reconhecimento.
-</p>
-
-<p>
-Não tardou que ella ficasse prompta e ainda abotoava as luvas, na sala
-de jantar, quando o marido entrou. Vinha radiante, com os seus grandes
-bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si mesmo. Nem fez
-menção de ter visto Ricardo e foi logo direito á mulher:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vaes sahir?
-</p>
-
-<p>
-Ella, afogueada pela ancia desesperada de salvar Quaresma, disse com
-certa vivacidade:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vou.
-</p>
-
-<p>
-Armando ficou admirado de vel-a falar daquelle modo. Voltou-se um
-instante para Ricardo, quiz interrogal-o, mas logo, dirigindo-se á
-mulher, perguntou com autoridade:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Onde vaes?
-</p>
-
-<p>
-A mulher não lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou o
-trovador:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Que faz o senhor aqui?
-</p>
-
-<p>
-Coração dos Outros não teve animo de responder; adivinhava uma scena
-violenta que elle teria querido evitar; mas Olga adiantou-se:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vai acompanhar-me ao Itamaraty, para salvar da norte meu padrinho.
-Já sabe?
-</p>
-
-<p>
-O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suasorios, poderia
-evitar que a mulher désse passo tão perigoso para os seus interesses e
-ambições. Falou docemente:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Fazes mal.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Porque? perguntou ella com calor.
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Vaes comprometter-me. Sabes que...
-</p>
-
-<p>
-Ella, não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grandes
-olhos cheios de escarneo; mirou-o um, dous minutos; depois, riu-se um
-pouco e disse:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É isto! <i>Eu</i>, porque <i>eu</i>, porque <i>eu</i>, é só
-<i>eu</i> para aqui, <i>eu</i> para ali... Não pensas noutra coisa... A
-vida é feita para ti, todos só devem viver para ti... Muito
-engraçado! De forma que eu (agora digo <i>eu</i> tambem) não tenho
-direito de me sacrificar, de provar a minha amizade, de ter na minha
-vida um traço superior? É interessante! Não sou nada, nada! Sou
-alguma coisa como um movel, um adorno, não tenho relações, não tenho
-amizades, não tenho caracter? Ora!...
-</p>
-
-<p>
-Ella falava, ora vagarosa e irónica, ora rapidamente e apaixonada: e o
-marido tinha diante de suas palavras um grande espanto. Elle vivera
-sempre tão longe della que não a julgara nunca capaz de taes assomos.
-Então aquella menina? Então aquelle <i>bibelot</i>? Quem lhe teria ensinado
-taes cousas? Quiz desarmal-a com uma ironia e disse risonho:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Estás no theatro?
-</p>
-
-<p>
-Ella lhe respondeu logo:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Se é só no theatro que ha grandes cousas, estou.
-</p>
-
-<p>
-E accrescentou com força:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;É o que te digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque é do
-meu direito.
-</p>
-
-<p>
-Apanhou a sombrinha, concertou o véo e sahiu solemne, firme, alta e
-nobre. O marido não sabia o que fazer. Ficou assombrado e assombrado e
-silencioso viu-a sahir pela porta fóra.
-</p>
-
-<p>
-Em breve, estava no palacio da rua Larga. Ricardo não entrou; deixou
-que a moça o fizesse e foi esperal-a no Campo de Sant'Anna.
-</p>
-
-<p>
-Ella subiu. Havia um immenso borborinho, uma agitação de entradas e
-sahidas. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano, queria
-cumprimental-o, queria dar mostras da sua dedicação, provar os seus
-serviços, mostrando-se coparticipante na sua victoria. Lançavam mão
-de todos os meios, de todos os planos, de todos os processos. O dictador
-tão accessivel antes, agora se esquivava. Havia quem lhe quisesse
-beijar as mãos, como ao papa ou a um imperador; e elle já tinha nojo
-de tanta subserviencia. O califa não se suppunha sagrado e
-aborrecia-se.
-</p>
-
-<p>
-Olga falou aos continuos, pedindo ser recebida pelo Marechal. Foi
-inutil. A muito custo conseguiu falar a um secretario ou ajudante de
-ordens. Quando ella lhe disse a que vinha, a physionomia terrosa do
-homem tornou-se de óca e sob as suas palpebras correu um firme e rapido
-lampejo de espada:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Quem, Quaresma? disse elle. Um traidor! Um bandido!
-</p>
-
-<p>
-Depois, arrependeu-se da vehemencia, fez com certa delicadeza:
-</p>
-
-<p>
-&mdash;Não é possivel, minha senhora. O Marechal não a attenderá.
-</p>
-
-<p>
-Ella nem lhe esperou o fim da phrase. Ergueu-se orgulhosamente, deu-lhe
-as costas e teve vergonha de ter de pedir, de ter descido do seu orgulho
-e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com o seu pedido. Com tal
-gente, era melhor tel-o deixado morrer só e heroicamente num ilhéo
-qualquer, mas levando para o tumulo inteiramente intacto o seu orgulho,
-a sua doçura, a sua personalidade moral, sem a macula de um empenho que
-diminuisse a injustiça de sua morte, que de algum modo fizesse crer aos
-seus algozes que elles tinham direito de matal-o.
-</p>
-
-<p>
-Sahiu e andou. Olhou o céo, os ares, as arvores de Santa Thereza, e se
-lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribus selvagens, das
-quaes um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil
-inimigos. Fôra ha quatro seculos. Olhou de novo o céo, os ares, as
-arvores de Santa Thereza, as casas, as igrejas: viu os bondes passarem;
-uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha,
-atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do Campo... Tinha havido
-grandes e innumeras modificações. Que fôra aquelle parque? Talvez um
-charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na physionomia
-da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ella; e seguiu
-serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Todos os Santos (Rio de Janeiro), Janeiro&mdash;Março de 1911.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>TRISTE FIM DE POLYCARPO QUARESMA</span> ***</div>
-<div style='text-align:left'>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Updated editions will replace the previous one&#8212;the old editions will
-be renamed.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
-law means that no one owns a United States copyright in these works,
-so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
-States without permission and without paying copyright
-royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
-of this license, apply to copying and distributing Project
-Gutenberg&#8482; electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG&#8482;
-concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
-and may not be used if you charge for an eBook, except by following
-the terms of the trademark license, including paying royalties for use
-of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for
-copies of this eBook, complying with the trademark license is very
-easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation
-of derivative works, reports, performances and research. Project
-Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away&#8212;you may
-do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected
-by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark
-license, especially commercial redistribution.
-</div>
-
-<div style='margin:0.83em 0; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE<br />
-<span style='font-size:smaller'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE<br />
-PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</span>
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-To protect the Project Gutenberg&#8482; mission of promoting the free
-distribution of electronic works, by using or distributing this work
-(or any other work associated in any way with the phrase &#8220;Project
-Gutenberg&#8221;), you agree to comply with all the terms of the Full
-Project Gutenberg&#8482; License available with this file or online at
-www.gutenberg.org/license.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg&#8482;
-electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
-and accept all the terms of this license and intellectual property
-(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
-the terms of this agreement, you must cease using and return or
-destroy all copies of Project Gutenberg&#8482; electronic works in your
-possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
-Project Gutenberg&#8482; electronic work and you do not agree to be bound
-by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person
-or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.B. &#8220;Project Gutenberg&#8221; is a registered trademark. It may only be
-used on or associated in any way with an electronic work by people who
-agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
-things that you can do with most Project Gutenberg&#8482; electronic works
-even without complying with the full terms of this agreement. See
-paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
-Gutenberg&#8482; electronic works if you follow the terms of this
-agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg&#8482;
-electronic works. See paragraph 1.E below.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (&#8220;the
-Foundation&#8221; or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg&#8482; electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
-United States and you are located in the United States, we do not
-claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
-displaying or creating derivative works based on the work as long as
-all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
-that you will support the Project Gutenberg&#8482; mission of promoting
-free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg&#8482;
-works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
-Project Gutenberg&#8482; name associated with the work. You can easily
-comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
-same format with its attached full Project Gutenberg&#8482; License when
-you share it without charge with others.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
-what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
-in a constant state of change. If you are outside the United States,
-check the laws of your country in addition to the terms of this
-agreement before downloading, copying, displaying, performing,
-distributing or creating derivative works based on this work or any
-other Project Gutenberg&#8482; work. The Foundation makes no
-representations concerning the copyright status of any work in any
-country other than the United States.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
-immediate access to, the full Project Gutenberg&#8482; License must appear
-prominently whenever any copy of a Project Gutenberg&#8482; work (any work
-on which the phrase &#8220;Project Gutenberg&#8221; appears, or with which the
-phrase &#8220;Project Gutenberg&#8221; is associated) is accessed, displayed,
-performed, viewed, copied or distributed:
-</div>
-
-<blockquote>
- <div style='display:block; margin:1em 0'>
- This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
- other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
- whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
- of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
- at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
- are not located in the United States, you will have to check the laws
- of the country where you are located before using this eBook.
- </div>
-</blockquote>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.E.2. If an individual Project Gutenberg&#8482; electronic work is
-derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
-contain a notice indicating that it is posted with permission of the
-copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
-the United States without paying any fees or charges. If you are
-redistributing or providing access to a work with the phrase &#8220;Project
-Gutenberg&#8221; associated with or appearing on the work, you must comply
-either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
-obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg&#8482;
-trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.E.3. If an individual Project Gutenberg&#8482; electronic work is posted
-with the permission of the copyright holder, your use and distribution
-must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg&#8482; License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg&#8482;
-License terms from this work, or any files containing a part of this
-work or any other work associated with Project Gutenberg&#8482;.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
-electronic work, or any part of this electronic work, without
-prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
-active links or immediate access to the full terms of the Project
-Gutenberg&#8482; License.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
-compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
-any word processing or hypertext form. However, if you provide access
-to or distribute copies of a Project Gutenberg&#8482; work in a format
-other than &#8220;Plain Vanilla ASCII&#8221; or other format used in the official
-version posted on the official Project Gutenberg&#8482; website
-(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
-to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
-of obtaining a copy upon request, of the work in its original &#8220;Plain
-Vanilla ASCII&#8221; or other form. Any alternate format must include the
-full Project Gutenberg&#8482; License as specified in paragraph 1.E.1.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
-performing, copying or distributing any Project Gutenberg&#8482; works
-unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
-access to or distributing Project Gutenberg&#8482; electronic works
-provided that:
-</div>
-
-<div style='margin-left:0.7em;'>
- <div style='text-indent:-0.7em'>
- &#8226; You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
- the use of Project Gutenberg&#8482; works calculated using the method
- you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
- to the owner of the Project Gutenberg&#8482; trademark, but he has
- agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
- within 60 days following each date on which you prepare (or are
- legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
- payments should be clearly marked as such and sent to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
- Section 4, &#8220;Information about donations to the Project Gutenberg
- Literary Archive Foundation.&#8221;
- </div>
-
- <div style='text-indent:-0.7em'>
- &#8226; You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
- you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
- does not agree to the terms of the full Project Gutenberg&#8482;
- License. You must require such a user to return or destroy all
- copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
- all use of and all access to other copies of Project Gutenberg&#8482;
- works.
- </div>
-
- <div style='text-indent:-0.7em'>
- &#8226; You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
- </div>
-
- <div style='text-indent:-0.7em'>
- &#8226; You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg&#8482; works.
- </div>
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
-Gutenberg&#8482; electronic work or group of works on different terms than
-are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
-from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of
-the Project Gutenberg&#8482; trademark. Contact the Foundation as set
-forth in Section 3 below.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.F.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
-effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
-works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
-Gutenberg&#8482; collection. Despite these efforts, Project Gutenberg&#8482;
-electronic works, and the medium on which they may be stored, may
-contain &#8220;Defects,&#8221; such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
-or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
-intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
-other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
-cannot be read by your equipment.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the &#8220;Right
-of Replacement or Refund&#8221; described in paragraph 1.F.3, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
-Gutenberg&#8482; trademark, and any other party distributing a Project
-Gutenberg&#8482; electronic work under this agreement, disclaim all
-liability to you for damages, costs and expenses, including legal
-fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
-LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
-PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
-TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
-LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
-INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
-DAMAGE.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
-defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
-receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
-written explanation to the person you received the work from. If you
-received the work on a physical medium, you must return the medium
-with your written explanation. The person or entity that provided you
-with the defective work may elect to provide a replacement copy in
-lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
-or entity providing it to you may choose to give you a second
-opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
-the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
-without further opportunities to fix the problem.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you &#8216;AS-IS&#8217;, WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg&#8482; electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg&#8482;
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg&#8482; work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg&#8482; work, and (c) any
-Defect you cause.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
-goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
-visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This website includes information about Project Gutenberg&#8482;,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-</div>
-
-</div>
-</div>
-</body>
-
-</html>
diff --git a/old/67535-h/images/policarpo_cover.jpg b/old/67535-h/images/policarpo_cover.jpg
deleted file mode 100644
index 2d54878..0000000
--- a/old/67535-h/images/policarpo_cover.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ