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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: Triste Fim de Polycarpo Quaresma - -Author: Lima Barreto - -Release Date: March 1, 2022 [eBook #67535] - -Language: Portuguese - -Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by - the Biblioteca Nacional do Brasil.) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK TRISTE FIM DE POLYCARPO -QUARESMA *** - - -LIMA BARRETO - -Autor de "ISAIAS CAMINHA" - - - - -TRISTE FIM DE - -POLYCARPO QUARESMA - - - - -Typ. "Revista dos Tribunaes" - -RUA DO CARMO, 55 - -RIO DE JANEIRO - -1915 - - - - -A - -João Luiz Ferreira - -Engenheiro Civil - - -Le grand inconvénient de la vie -réelle et ce qui la rend insupportable -à l'homme supérieur, c'est que, si l'on -y transporte les principes de l'idéal, -les qualités deviennent des défauts, si -bien que fort souvent l'homme accompli -y réussit moins bien que celui qui -a pour mobiles l'égoisme ou la routine -vulgaire. - -=Renan=, Marc-Auréle - - - - -INDICE -Primeira Parte -Capitulo -I. A LIÇÃO DE VIOLÃO -II. REFORMAS RADICAES -III. A NOTICIA DO GENELICIO -IV. DESASTROSAS CONSEQUENCIAS -DE UM REQUERIMENTO -V. O BIBELOT -Segunda Parte -I. NO «SOCEGO» -II. ESPINHOS E FLORES -III. GOLIAS -IV. «PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ» -V. O TROVADOR -Terceira Parte -I. PATRIOTAS -II. VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO -III. ...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS... -IV. O BOQUEIRÃO -V. A AFILHADA - - - - -PRIMEIRA PARTE - - - - -I - -A LIÇÃO DE VIOLÃO - -Como de habito, Polycarpo Quaresma, mais conhecido por major Quaresma, -bateu em casa ás 4 e 15 da tarde. Havia mais de vinte annos que isso -acontecia. Sahindo do Arsenal de Guerra, onde era sub-secretario, -bongava pelas confeitarias algumas fructas, comprava um queijo, ás -vezes, e sempre o pão da padaria franceza. - -Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de fórma que, ás 3 e -40, por ahi assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pizar a -soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de S. Januario, bem -exactamente ás 4 e 15, como se fosse a apparição de um astro, um -eclypse, emfim um phenomeno mathematicamente determinado, previsto e -predito. - -A vizinhança já lhe conhecia os habitos e tanto que, na casa do -Capitão Claudio, onde era costume jantar-se ahi pelas quatro e meia, -logo que o viam passar, a dona, gritava á criada: «Alice, olha que -são horas; o Major Quaresma já passou». - -E era assim todos os dias, ha quasi trinta annos. Vivendo em casa -propria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o major -Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos -burocraticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e -respeito de homem abastado. - -Não recebia ninguem, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortez -com os vizinhos que o julgavam esquisito e misanthropo. Se não tinha -amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a unica desaffeição que -merecera, fôra a do Dr. Segadas, um clinico afamado no lugar, que não -podia admittir que Quaresma tivesse livros: «se não era formado, para -que? Pedantismo»! - -O sub-secretario não mostrava os livros a ninguem, mas acontecia que, -quando se abriam as janellas da sala de sua livraria, da rua -poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo. - -Eram esses os seus habitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso -provocava commentarios no bairro. Além do compadre e da filha, as -unicas pessoas que o visitavam até então, nos ultimos dias, era visto -entrar em sua casa, tres vezes por semana e em dias certos, um senhor -baixo, magro, pallido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. -Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa -tão respeitavel! que seria? - -E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma -amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá p'ra lá, a palmilhar o -passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante da janella aberta -do exquisito sub-secretario. - -Não foi inutil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal -sujeito, empunhando o _pinho_ na posição de tocar, o major, -attentamente, ouvia: «Olhe, major, assim». E as cordas vibravam -vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre adduzia: «é _ré_, -aprendeu». - -Mais não foi precizo pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o -major aprendia a tocar violão. Mas que cousa? Um homem tão sério -mettido nessas malandragens! - -Uma tarde de sol--sol de Março, forte e implacavel--ahi pelas cercanias -das quatro horas, as janellas de uma erma rua de S. Januario povoaram-se -rapida e repentinamente, de um e de outro lado. Até da casa do General -vieram moças á janella! Que era? Um batalhão? Um incendio? Nada -disto: o Major Quaresma, de cabeça, baixa, com pequenos passos de boi -de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico. - -É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o -vestuario não lhe escondia inteiramente as formas. Á vista de tão -escandaloso facto, a consideração e o respeito que o major Polycarpo -Quresma merecia nos arredores de sua casa, diminuiram um pouco. Estava -perdido, maluco, diziam. Elle, porém, continuou serenamente nos seus -estudos, mesmo porque não percebeu essa diminuição. - -Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava _pince-nez_, olhava -sempre baixo, mas, quando fixava alguem ou alguma cousa, os seus olhos -tomavam, por detraz das lentes, um forte brilho de penetração, e era -como se elle quizesse ir á alma da pessoa ou da cousa que fixava. - -Comtudo, sempre os trazia baixo, como se guiasse pela ponta do -cavaignac que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, -azul, ou de cinza, de panno listrado, mas sempre de fraque, e era raro -que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita, -segundo um figurino antigo de que elle sabia com precisão a epocha. - -Quando entrou em casa, naquelle dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, -perguntando: - ---Janta já? - ---Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje comnosco. - ---Polycarpo, você precisa tomar juizo. Um homem de idade, com -posição, respeitavel, como você é, andar mettido com esse -seresteiro, um quasi capadocio--não é bonito! - -O major descançou o chapéo de sól--um antigo chapéo de sól, com a -haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de -pequenos losangos de madreperola--e respondeu: - ---Mas você está muito enganada, mana. É preconceito suppor-se que -todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais -genuina expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que -ella pede. Nós é que temos abandonado o genero, mas elle já esteve em -honra, em Lisboa, no seculo passado, com o padre Caldas, que teve um -auditorio de fidalgas. Beckford, um inglez notavel, muito o elogia. - ---Mas isso foi em outro tempo,--agora... - ---Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as -nossas tradições, os usos genuinamente nacionaes... - ---Bem, Polycarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as -suas manias. - -O major entrou para um aposento proximo, emquanto sua irmã seguia em -direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a -roupa de casa, veiu para a bibliotheca, sentou-se a uma cadeira de -balanço, descançando. - -Estava num aposento vasto, com janellas para uma rua lateral, e todo -elle era forrado de estantes de ferro. - -Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os -livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquella grande -collecção de livros havia de espantar-se ao perceber o espirito que -presidia a sua reunião. - -Na ficção, havia unicamente autores nacionaes ou tidos como taes: o -Bento Teixeira, da Prosopopéa; o Gregorio de Mattos, o Basilio da Gama, -o Santa Rita de Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o -Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que -nem um dos autores nacionaes ou nacionalizados de oitenta p'ra lá -faltava nas estantes do Major. - -De Historia do Brasil, era farta a messe: os chronistas, Gabriel Soares, -Gandavo; e Rocha Pitta, Frei Vicente Salvador, Armitage, Ayres Casal, -Pereira da Silva, Handelmann (Geschitchte von Brasilien), Mello Moraes, -Capistrano de Abreu, Southey, Warnhagen, além de outros mais raros ou -menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! -Lá estavam Hans Stade, o Jean de Lery, o Saint-Hilaire, o Martius, o -principe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassis, Couto -Magalhães e se encontravam tambem Darwin, Freycinet, Cook, -Boungainville e até o famoso Pigafetta, chronista da viagem de -Magalhães, é porque todos esses ultimos viajantes tocavam no Brasil, -resumida ou amplamente. - -Alem destes, havia livros subsidiarios: diccionarios, manuaes, -encyclopedias, compendios, em varios idiomas. - -Vê-se assim que a sua predilecção pela poetica de Porto Alegre e -Magalhães não lhe vinha de uma irremediavel ignorancia das linguas -literarias da Europa; ao contrario o major conhecia bem soffrivelmente -francez, inglez e allemão; e se não falava taes idiomas, lia-os e -traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa -disposição particular de seu espirito, no forte sentimento que guiava -sua vida. Polycarpo era patriota. Desde moço, ahi pelos vinte annos, o -amor da patria tomou-o todo inteiro. Não fôra o amor commum, palrador -e vasio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de -ambições politicas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou -melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro -do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois -então apontar os remedios, as medidas progressivas, com pleno -conhecimento de causa. - -Não se sabia bem onde nascera, mas não fôra de certo em S. Paulo, nem -no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quizesse encontrar nelle -qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha -predilecção por esta ou aquella parte de seu pai tanto assim que aquillo -que o fazia vibrar de paixão não eram só os Pampas do Sul com o seu -gado, não era o café de S. Paulo, não eram o ouro e os diamantes de -Minas, não era a belleza da Guanabara, não era a altura da Paulo -Affonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o impeto de Andrade -Neves--era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrellada -do Cruzeiro. - -Logo aos dezoito annos quiz fazer-se militar; mas a junta de saude -julgou-o incapaz. Desgostou-se, soffreu, mas não maldisse a Patria. O -Ministerio era liberal, elle se fez conservador e continuou mais do que -nunca a amar a _terra que o viu nascer_. Impossibilitado de evoluir-se -sob os dourados do Exercito, procurou a administração e dos seus ramos -escolheu o militar. - -Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de -papelada inçada de kilos de polvora, de nomes de fuzis e termos -technicos de artilharia, aspirava diariamente aquelle halito de guerra, -de bravura, de victoria, de triumpho, que é bem o halito da Patria. - -Durante os lazeres burocraticos, estudou, mas estudou a Patria, nas suas -riquezas naturaes, na sua historia, na sua geographia, na sua literatura -e na sua politica. Quaresma sabia as especies de mineraes, vegetaes e -animaes, que o Brasil continha; sabia, o valor do ouro, dos diamantes -exportados por Minas, as guerras hollandezas, as batalhas do Paraguay, -as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão -a proeminencia do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para -isso ia até ao crime de amputar alguns kilometros ao Nilo e era com -este rival do _seu_ rio que elle mais implicava. Ai de quem o citasse na -sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e -malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do -Nilo. - -Havia um anno a esta parte que se dedicava ao tupy-guarany. Todas as -manhãs, antes que a «Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao -louro Phebo», elle se atracava até ao almoço com o Montoya, _Arte y -diccionario de la lengua guarany ó mâs bien tupy_, e estudava o jargão -caboclo com afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados, -amanuenses e escreventes, tendo noticia desse seu estudo do idioma -tupiniquim, deram não sei sabe porque em chamal-o--Ubirajára. Certa -vez, o escrevente Azevedo, ao assignar o ponto, distrahido, sem reparar -quem lhe estava ás costas, disse em tom chocareiro: «você já vio que -hoje o Ubirajára esta tardando». - -Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade, a sua illustração, a -modestia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos. -Sentindo que o alcunha lhe era dirigido, não perdeu a dignidade, não -prorompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concertou o _pince-nez_, -levantou o dedo indicador no ar e respondeu: - ---Sr. Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridiculo aquelles -que trabalham em silencio, para a grandeza e a emancipação da Patria. - -Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do -café, quando os empregados deixavam as bancas, transmittir aos -companheiros o fructo de seus estados, as descobertas que fazia, no seu -gabinete de trabalho, de riquezas nacionaes. Um dia era o petroleo que -lera em qualquer parte, como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era -um novo exemplar de arvore de borracha que crescia no rio Pardo, em -Matto-Grosso; outra, era um sabio, uma notabilidade, cuja bisavó era -brasileira; e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela -chorographia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegavel, os -melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um -franco percurso da foz ás nascentes. Elle amava sobremodo os rios; as -montanhas lhe eram indifferentes. Pequenas talvez... - -Os collegas ouviam-no respeitosos e ninguem, a não ser esse tal -Azevedo, se animava na sua frente a lhe fazer a menor objecção, a -avançar uma pilheria, um dito. Ao voltar as costas, porém, vingavam-se -da cacetada, cobrindo-o de troças: «Este Quaresma! que cacete! Pensa -que somos meninos de tico-tico... Arre! Não tem outra conversa». - -E desse modo elle ia levando a vida, metade na repartição, sem ser -comprehendido, e a outra metade em casa, tambem sem ser comprehendido. -No dia em que o chamaram de Ubirajára, Quaresma ficou reservado, -taciturno, mudo, e só veiu a falar porque, quando lavavam, as mãos num -aposento proximo á secretaria e se preparavam para sahir, alguem -suspirando, disse: «Ah! Meu Deus! Quando poderei ir á Europa»! O -major não se conteve: levantou o olhar, concertou o _pince-nez_ e falou -fraternal e persuasivo: «Ingrato! Tens uma terra tão bella, tão rica, -e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer -a minha de principio ao fim! - -O outro objectou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major -contestou-lhe com estatisticas e até provou exuberantemente que o -Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. Era um clima calumniado -pelos viciosos que de lá vinham doentes... - -Era assim o major Polycarpo Quaresma que acabava de chegar á sua -residencia, ás 4 e 15 da tarde, sem erro de um minuto, como todas as -tardes, excepto aos domingos, exactamente, ao geito da apparição de um -astro ou de um eclypse. - -No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aquelles que têm -ambições politicas ou de fortuna, porque Quaresma, não as tinha no -minimo grau. - -Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua bibliotheca, o -major abriu um livro e pôz-se a lel-o á espera do conviva. Era o velho -Rocha Pitta, o enthusiastico e gongorico Rocha Pitta da Historia da -America Portugueza. Quaresma estava lendo aquelle famoso periodo: «Em -nenhuma outra região se mostra o céo mais sereno, nem madruga mais -bella a aurora; o sol em nenhum outro hemispherio tem os raios mais -dourados...» mas não pôde ir ao fim. Batiam á porta. Foi abril-a em -pessoa. - ---Tardei, major? perguntou o visitante. - ---Não. Chegaste á hora. - -Acabava de entrar em casa do major Quaresma o Sr. Ricardo Coração dos -Outros, homem celebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar -violão. Em começo, a sua fama estivera limitada a um pequeno suburbio -da cidade, em cujos _saráos_ elle e seu violão figuravam como Paganini -e a sua rabeca em festas de Duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi -tomando toda a extensão dos suburbios, crescendo, solidificando-se, -até ser considerada como cousa propria a elles. Não se julgue, -entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas ahi qualquer, um -capadocio. Não; Ricardo Coração dos Outros era um artista a -frequentar e a honrar as melhores familias do Meyer, Piedade e -Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na -casa do Tenente Marques, do Dr. Bulhões ou do _seu_ Castro, a sua -presença era sempre requerida, instada e apreciada. O Dr. Bulhões, -até, tinha, pelo Ricardo uma admiração especial, um delirio, um -frenesi e, quando o trovador cantava, ficava em extase. Gosto muito de -canto, dizia o doutor no trem certa vez, mas só duas pessoas me enchem -as medidas: o Tamagno e o Ricardo. Esse doutor tinha uma grande -reputação nos suburbios, não como medico, pois que nem oleo de ricino -receitava, mas como entendido em legislação telegraphica, por ser -chefe de secção da Secretaria dos Telegraphos. - -Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da -alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial o que só -é alta nos suburbios. Compõe-se em geral de funccionarios publicos, de -pequenos negociantes, de medicos com alguma clinica, de tenentes de -differentes milicias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas -daquellas distantes regiões, assim como nas festas e nos bailes, com -mais força que a burguezia de Petropolis e Botafogo. Isto é só lá, -nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se algum dos seus representantes -vê um typo mais ou menos, olha-o da cabeça aos pés, demoradamente, -assim como quem diz: apparece lá em casa que te dou um prato de comida. -Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia -jantar e almoço, muito feijão, muita carne secca, muito ensopado--ahi, -julga ella, e que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da -distincção. - -Fóra dos suburbios, na rua do Ouvidor, nos theatros, nas grandes festas -centraes, essa gente mingua, apaga-se, desapparece, chegando até as -suas mulheres e filhas a perder a belleza com que deslumbram, quasi -diariamente, os lindos cavalheiros dos interminaveis bailes diarios -daquellas redondezas. - -Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, -extravasou e passou á cidade, propriamente. A sua fama já chegava a S. -Christovão e em breve (elle o esperava) Botafogo convidal-o-ia, pois os -jornaes já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da -sua poetica... - -Mas que vinha elle fazer ali, na casa de pessoa de propositos tão altos -e tão severos habitos? Não é difficil atinar. De certo, não vinha -auxiliar o major nos seus estudos de geologia, de poetica, de -mineralogia e historia brasileiras. - -Como bem suppoz a vizinhança, o Coração dos Outros vinha ali tão -sómente ensinar o Major a cantar modinhas e a tocar violão. Nada mais, -e é simples. - -De accôrdo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a -meditar qual seria a expressão poetico-musical caracteristica da alma -nacional. Consultou historiadores, chronistas e philosophos e adquiriu -certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa -verdade, não teve duvidas: tratou de aprender o instrumento -genuinamente brasileiro: e entrar nos segredos da modinha. Estava nisso -tudo _a quo_, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor -da cidade e tomou lições com elle. O seu fim era disciplinar a -modinha, e tirar della um forte motivo original de arte. - -Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas, antes disso, por convite -especial do discipulo, ia compartilhar o seu jantar; e fôra por isso -que o famoso trovador chegou mais cedo á casa do sub-secretario. - ---Já sabe dar o _ré_ sustenido, major? perguntou Ricardo logo ao -sentar-se. - ---Já. - ---Vamos ver. - -Dizendo isto, foi desencapotar o seu sagrado violão; mas não houve -tempo, D. Adelaide, a irmã de Quaresma, entrou e convidou-os a irem -jantar. A sopa já esfriava na mesa, que fossem! - ---O Sr. Ricardo ha de nos desculpar, disse a velha senhora, a pobreza do -nosso jantar. Eu lhe quiz fazer um frango com _petit-pois_, mas -Polycarpo não deixou. Disse-me que esse tal _petit-pois_ é estrangeiro -e que eu o substituisse por guando. Onde é que se viu frango com -guando? - -Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom, seria uma novidade e -não fazia mal experimentar. - ---É uma mania de seu amigo, Sr. Ricardo, esta de só querer cousas -nacionaes, e a gente tem que ingerir cada droga, chi! - ---Qual, Adelaide, você tem certas ogerizas! A nossa terra, que tem todos -os climas do mundo, é capaz de produzir tudo que é necessario para o -estomago mais exigente. Você é que deu para implicar. - ---Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa. - ---É porque é de leite, se fosse como essas estrangeiras ahi, -fabricadas com gorduras de esgotos, talvez não se estragasse... É -isto, Ricardo! Não querem nada da nossa terra... - ---Em geral é assim, disse Ricardo. - ---Mas é um erro... Não protegem as industrias nacionaes... Commigo -não ha disso: de tudo que ha nacional, eu não uso estrangeiro. -Visto-me com panno nacional, calço botas nacionaes e assim por diante. - -Sentaram-se á mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de crystal e -serviu dous calices de paraty. - ---É do programma nacional, fez a irmã, sorrindo. - ---De certo, e é um magnifico aperitivo. Esses vermutes por ahi, drogas! -Isto é alcool puro, bom, de canna, não é de batatas ou milho... - -Ricardo agarrou o calice com delicadeza e respeito, levou-o aos labios e -foi como se todo elle bebesse o licor nacional. - ---Está bom, hein? indagou o major. - ---Magnifico, fez Ricardo, estalando os labios. - ---É de Angra. Agora tu vais ver que magnifico vinho do Rio Grande -temos... Qual Borgonha! Qual Bordeaux? Temos no Sul muito melhores... - -E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os productos -nacionaes: a banha, o toucinho e o arroz; a irmã fazia pequenas -objecções e Ricardo dizia: «é, é, não, ha duvida»--rolando nas -orbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no -cabello aspero, forçando muito a sua physionomia meuda e dura a -adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação. - -Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem -uma flôr... Certamente não se podia tomar por tal miseros beijos de -frade, palmas de Santa Rita, quaresmas luctulentas, manacás -melancolicos e outros bellos exemplares dos nossos campos e prados. Como -em tudo o mais, o Major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada -de rosas, de chrysanthemos, de magnolias--flôres exoticas; ás nossas -terras tinham outras mais bellas, mais expressivas, mais olentes, como -aquellas que elle tinha ali. - -Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala, quando o -crepusculo vinha de vagar, muito vagaroso e lento, como si fosse um -longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas cousas a sua -poesia dolente e a sua deliquescencia. - -Mal foi accesso o gaz, o mestre de violão empunhou o instrumento, -apertou as cravelhas, correu a escala, abaixando-se sobre elle como se o -quizesse beijar. Tirou alguns accordes, para experimentar; e dirigiu-se -ao discipulo, que já tinha o seu em posição: - ---Vamos ver. Tire a escala, major. - -Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas não havia na sua -execução nem a firmeza, nem o dengue com que o mestre fazia a mesma -operação. - ---Ohe, major, é assim. - -E mostrava a posição do instrumento, indo do collo ao braço esquerdo -extendido, seguro levemente pelo direito; e em seguida accrescentou: - ---Major, o violão é o instrumento da paixão. Preciza de peito para -falar... É preciso encostal-o, mas encostal-o com macieza e amor, como -se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos... - -Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo elle -fremindo de paixão pelo instrumento desprezado. - -A lição durou uns cincoenta minutos. O major sentiu-se cansado e pediu -que o mestre cantasse. Era a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse -pedido; embora lisongeado, quiz a vaidade profissional que elle, a -principio, se negasse. - ---Oh! Não tenho nada novo, uma composição minha. - -D. Adelaide obtemperou então: - ---Cante uma de outro. - ---Oh! por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O -Bilac--conhecem?--quiz fazer-me uma modinha, eu não aceitei; -você não entende de violão, seu Bilac. A questão não está em -escrever uns versos certos que digam cousas bonitas; o essencial -é achar-se as palavras que o violão pede e deseja. Por exemplo: -se eu dissesse, como em começo quiz, n'_O Pé_, uma modinha minha: -_o teu pé é uma folha de trevo_--não ia com o violão. Querem -ver? E ensaiou em voz baixa, acompanhando pelo instrumento: -_o--teu--pé--é--uma--folha--de--tre--vo_. - ---Vejam, continuou elle, como não dá. Agora reparem: -_o--teu--pé--é--uma--uma--ro--sa--de--myr--rha_. É outra cousa, não -acham? - ---Não ha duvida, disse a irmã de Quaresma. - ---Cante esta, convidou o major. - ---Não, objectou Ricardo. Está velha, vou cantar a _Promessa_, -conhecem? - ---Não, disseram os dous irmãos. - ---Oh! Anda por ahi como as _Pombas_ do Raymundo. - ---Cante lá, Sr. Ricardo, pediu D. Adelaide. - -Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e -começou em voz fraca: - - - _Prometto pelo Santissimo Sacramento - Que serei tua paixão_... - - ---Vão vendo, disse elle num intervallo, quanta imagem, quanta imagem! - -E continuou. As janellas estavam abertas. Moças e rapazes começaram a -se amontoar na calçada para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua se -interessava Coração dos Outros foi apurando a dicção, tomando um ar -feroz que elle suppunha ser de ternura e enthusiasmo; e, quando acabou, -as palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando D. -Adelaide. - ---Senta-te Ismenia, disse ella. - ---A demora é pouca. - -Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco moça e continuou a -dissertar sobre a modinha. Aproveitando uma pausa, a irmã de Quaresma -perguntou á moça: - ---Então quando te casas? - -Era a pergunta que se lhe fazia sempre. Ella então curvava do lado -direito a sua triste cabecinha, coroada de magnificos cabellos -castanhos, com tons de ouro, e respondia. - ---Não sei... Cavalcanti forma-se no fim do anno e então marcaremos. - -Isto era dito arrastado, com uma preguiça de impressionar. - -Não era feia a menina, a filha do General, vizinho de Quaresma. Era -até bem sympathica, com a sua physionomia de pequenos traços mal -desenhados e cobertos de umas tintas de bondade. - -Aquelle seu noivado durava ha annos; o noivo, o tal Cavalcanti, estudava -para dentista, um curso de dous annos, mas que elle arrastava ha quatro, -e Ismenia tinha sempre que responder á famosa pergunta:--«Então -quando se casa»?--«Não sei... Cavalcanti forma-se para o anno e...» - -Intimamente ella não se incommodava. Na vida, para ella, só havia uma -cousa importante: casar-se; mas pressa não tinha, nada nella a pedia. -Já agarrara um noivo, o resto era questão de tempo... - -Após responder a D. Adelaide, explicou o motivo da visita. - -Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em -casa della. - ---Papai, disse D. Ismenia, gosta muito de modinhas... do Norte; a -senhora sabe, D. Adelaide, que gente do Norte aprecia muito. Venham. - -E para lá foram. - - - - -II - -REFORMAS RADICAES - - -Havia bem dez dias que o major Quaresma não sahia do casa. Na sua -meiga, e socegada casa de S. Christovão, enchia os dias da fórma mais -util e agradavel ás necessidades do seu espirito, e do seu -temperamento. De manhã, depois da _toilette_, e do café, sentava-se no -divan da sala principal e lia os jornaes. Lia diversos, porque sempre -esperava encontrar num ou noutro uma noticia curiosa, a suggestão de -uma idéa util á sua cara patria. Os seus habitos burocraticos -faziam-no almoçar cedo; e, embora estivesse de férias, para os não -perder, continuava a tomar a primeira refeição de garfo ás nove e -meia da manhã. - -Acabado o almoço, dava umas voltas pela chacara, chacara em que -predominavam as fruteiras nacionaes, recebendo a pitanga e o camboim os -mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia, como se fossem -bem cerejas ou figos. - -O passeio era demorado e philosophico. Conversando com o preto -Anastacio, que lhe servia ha trinta annos, sobre cousas antigas--o -casamento das princezas, a quebra do Souto e outras--o Major continuava -com o pensamento preso nas problemas que o preoccupavam ultimamente. -Após uma hora ou menos, voltara á bibliotheca e mergulhava nas -revistas do Instituto Historico, no Fernão Cardim, nas cartas de -Nobrega, nos annaes da Bibliotheca, no von den Stein e tomava notas -sobre notas, guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os -indios. Não fica bem dizer estudava, porque já o fizera ha tempos, -não só no tocante á lingua, que já quasi falara, como tambem nos -simples aspectos ethnographicos e anthropologicos. Recordava (é melhor -dizer assim), affirmava certas noções dos seus estudos anteriores, -visto estar organizando um systema de ceremonias e festas que se -baseasse nos costumes dos nossos selvicolas e abrangesse todas as -relações sociaes. - -Para bem se comprehender o motivo disso, é precizo não esquecer que o -Major, depois de trinta armas de meditação patriotica, de estudos e -reflexões, chegava agora ao periodo da fructificação. A convicção -que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro paiz do mundo e o seu -grande amor á patria, eram agora activos e impelliram-no a grandes -commettimemtos. Elle sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir, de -obrar e de concretizar suas idéas. Eram pequenos melhoramentos, simples -toques, porque em si mesma (era a sua opinião), a grande patria do -Cruzeiro só precizava de tempo para ser superior á Inglaterra. - -Tinha todos os climas, todos os fructos, todos os mineraes e animaes -uteis, as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais -hospitaleira, mais intelligente e mais doce do mundo--o que precizava -mais? Tempo e um pouco de originalidade. Portanto, duvidas não -fluctuavam mais no seu espirito, mas no que se referia á originalidade -de costumes e usanças, não se tinham ellas dissipado, antes se -transformaram em certeza após tomar parte na folia do _Tangolomango_, -numa festa que o general dera em casa. - -Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veiu -despertar no general e na familia um gosto pelas festanças, cantigas e -habitos genuinamente nacionaes como se diz por ahi. Houve em todos um -desejo de sentir, de sonhar, de poetar á maneira popular dos velhos -tempos. Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto taes cerimonias na -sua infancia: D. Maricota, sua mulher, até ainda se lembrava de uns -versos de Reis; e os seus filhos, cinco moças e um rapaz, viram na -cousa um pretexto de festas e, portanto, applaudiram o enthusiasmo dos -progenitores. A modinha era pouco; os seus espiritos pediam cousa mais -plebea, mais caracteristica e extravagante. - -Quaresma ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma -chegança, á moda do Norte, por occasião do anniversario de sua -praça. Em casa do general era assim: qualquer anniversario tinha a sua -festa, de fórma que havia bem umas trinta por anno, não contando -domingos, dias feriados e santificados em que se dansava tambem. - -O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e dansas -tradicionaes, entretanto viu logo a significação altamente patriotica -do intento. Approvou e animou o vizinho. Mas quem havia de ensaiar, de -dar os versos e a musica? Alguem lembrou a tia Maria Rita, uma preta -velha, que morava em Bemfica, antiga lavadeira da familia Albernaz. Lá -foram os dous, o general Albernaz e o major Quaresma, alegres, -apressados, por uma linda e crystallina tarde de Abril. - -O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não -posuisse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma unica -batalha, não tivera um commando, nada fizera que tivesse relação com -a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fôra sempre ajudante de -ordens, assistente, encarregado disso ou daquillo, escripturario, -almoxarife, e era secretario do Conselho Supremo Militar, quando, se -reformou em general. Os seus habitos eram de um bom chefe de secção e -a sua intelligencia não era muito differente dos seus habitos. Nada -entendia de guerras, de estrategia, de tactica ou de historia militar; a -sua sabedoria a tal respeito estava reduzida ás batalhas do Paraguay, -para elle a maior e a mais extraordinaria guerra de todos os tempos. - -O altisonante titulo de general, que lembrava cousas sobrehumanas dos -Cesares, dos Tuxennes e dos Gustavos Adolphos, ficava mal naquelle homem -placido, mediocre, bonachão, cuja unica preoccupação era casar as -cinco filhas e arranjar _pistolões_ para fazer passar o filho nos -exames do Collegio Militar. Comtudo, não era conveniente que se -duvidasse das suas aptidões guerreiras. Elle mesmo, percebendo o seu ar -muito civil, de onde em onde, contava um episodio de guerra, uma -anedocta militar. «Foi em Lommas Valentinas, dizia elle»... Se alguem -perguntava: «O general assistiu a batalha»? Elle respondia logo: -«Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vesperas. Mas soube pelo -Camisão, pelo Venancio que a cousa esteve preta». - -O bonde que os levava até á velha Maria Rita, percorria um dos trechos -mais interessantes da cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da -cidade, antigo termino de um picadão que ia ter a Minas, se esgalhava -para S. Paulo e abria communicações com o Curato de Santa Cruz. - -Por ahi em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de -Minas e ainda ultimamente os chamados generos do paiz. Não havia ainda -cem annos que as carruagens d'El Rey D. João VI, pesadas como naus, a -balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por ali -para irem ter ao longiquo Santa Cruz. Não se póde crer que a cousa -fosse lá muito imponente; a Côrte andava em apuros de dinheiro e o rei -era relaxado. Não obstante os soldados remendados, tristemente montados -em _pangarés_ desanimados, o prestito devia ter a sua grandeza, não -por elle mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos -tinham que dar á sua lamentavel majestade. - -Entre nós tudo é inconsistente, provisorio, não dura. Não havia ali -nada que lembrasse esse passado. As casas velhas, com grandes janellas, -quasi quadradas, e vidraças de pequenos vidros eram de ha bem poucos -annos, menos de cincoenta. - -Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquillo sem reminiscencias e foram -até ao ponto. Antes perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção -da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animaes e -corridas, tendo grandes ferraduras, cabeças de cavallos, panoplias de -chicotes e outros emblemas hippicos, nos pilares dos portões, nas -almofadas das portas, por toda parte onde taes distinctivos fiquem bem e -dêm na vista. - -A casa da velha preta ficava além do ponto, para as bandas da estação -da estrada de ferro Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação. -Sobre um largo terreiro, negro de moinha de carvão de pedra, médas de -lenha e immensas tulhas de saccos de carvão vegetal se accumulavam; -mais adiante um deposito de locomotivas e sobre os trilhos algumas -manobravam e outras arfavam sob pressão. - -Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo -estivera secco e por isso se podia andar por elle. Para além do -caminho, extendia-se a vasta região de mangues, uma zona immensa, -triste e feia, que vai até ao fundo da bahia e, no horizonte, morre ao -sopé das montanhas azues de Petropolis. Chegaram á casa da velha. Era -baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas portuguezas. Ficava um -pouco afastada da estrada. Á direita havia um monturo: restos de -cozinha, trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira--um -sambaqui a fazer-se para gaudio de um archeologo de futuro remoto: á -esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto á cerca, no mesmo lado, havia -um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça appareceu na janella -aberta. - ---Que desejam? - -Disseram o que queriam e approximaram-se. A moça gritou para o interior -da casa: - ---Vovó estão ahi dous _moços_ que querem falar com a senhora. Entrem, -façam o favor--disse ella depois, dirigindo-se ao General e ao seu -companheiro. - -A sala era pequena e de telha vã. Pelas paredes, velhos chromos de -folinhas, registros de Santos, recortes de illustrações de jornaes -baralhavam-se e subiam por ellas acima até dous terços da altura. Ao -lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Victor Emmanuel -com enormes bigodes em desordem; um chromo sentimental de folhinha--uma -cabeça de mulher em posição de sonho--parecia olhar um S. João -Baptista ao lado. No alto da porta que levava ao interior da casa, uma -lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a Conceição de louça. - -Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando -o peito descamado, enfeitado com um collar de missangas de duas voltas. -Capengava de um pé e parecia querer ajudar a marcha, com a mão -esquerda pousada na perna correspondente. - ---Boas tardes, tia Maria Rita disse o General. - -Ella respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava. -O General atalhou: - ---Não me conhece mais? Sou o General, o Coronel Albernaz. - ---Ah! É sô coroné!... Ha quanto tempo! Como está nhã Maricota? - ---Vai bem. - ---Minha velha, nós queriamos que você nos ensinasse umas cantigas. - ---Quem sou eu, yôyô! - ---Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe -o _Bumba meu boi_? - ---Quá, yôyô, já mi esqueceu. - ---E o _Boi espacio_? - ---Cousa véia, do tempo do captiveiro--p'ra que sô coroné qué sabê -isso? - -Ella fallava arrastando as syllabas, com um doce sorriso e um olhar -vago. - ---É para uma festa... Qual é a que você sabe? - -A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma -cousa, deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes -immaculados: - ---Vovó já não se lembra. - -O General, que a velha chamava Coronel, por tel-o conhecido nesse posto, -não attendeu a observação da moça e insistiu: - ---Qual esquecida, o que! Deve saber ainda alguma cousa, não é, titia? - ---Só sei o bicho «Tutu», disse a velha. - ---Cante lá! - ---Yôyô sabe! Não sabe? quá, sabe! - ---Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu -amigo, o Major Polycarpo, se sei. - -Quaresma fez com a cabeça signal affirmativo e a preta velha, talvez -com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande -casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor recordar-se, e -entôou: - - - «É vêm tutu' - Por detrás do murundu - P'ra cumê sinhosinho - C'um bucado de angu'». - - ---Ora! fez o General com enfado, isso é cousa antiga de emballar -crianças. Você não sabe outra? - ---Não, sinhô. Já mi esqueceu. - -Os dous sahiram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo -não guardava as tradições de trinta annos passados? Com que rapidez -morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções? -Era bem um signal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade -diante daquelles povos tenazes que os guardam durante seculos! -Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições, -mantel-as sempre vivazes nas memorias e nos costumes... - -Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um numero bom para a festa -que ia dar, e escapava-lhe. Era quasi a esperança de casamento de uma -das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma dellas já estava -garantida, graças a Deus! - -O crepusculo chegava e elles entraram em casa mergulhados na melancolia -da hora. - -A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismenia, -informou que nas immediações morava um literato, teimoso cultivador -dos contos e canções populares do Brasil. Foram a elle. Era um velho -poeta que teve sua fama ahi pelos setenta e tantos, homem doce e ingenuo -que se deixara esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em -publicar collecções que ninguem lia, de contos, canções, adagios e -dictados populares. - -Foi grande a sua alegria quando soube o objecta da visita daquelles -senhores. Quaresma estava animado e falou com calor; e Albernaz tambem, -porque via na sua festa,--com um numero de _folk-lore_, meio de chamar a -attenção sobre sua casa, attrahir gente e... casar as filhas. - -A sala em que foram recebidos, era ampla; mas estava tão cheia de -mesas, estantes, pejadas de livros, pastas, latas, que mal se podia -mover nella. Numa lata lia-se: Santa Anna dos Tócos; numa pasta: S. -Bonifácio do Cabresto. - ---Os Srs. não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia -popular! que surprezas ella reserva!... Ainda ha dias recebi uma carta -de Urubu, de Baixo com uma linda canção. Querem ver? - -O colleccionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde -leu: - - - _Se Deus enxergasse pobre - Não me deixaria assim: - Dava no coração della - Um logarsinho p'ra mim._ - - _O amor que tenho por ella - Já não cabe no meu peito; - Sae-me pelos olhos afóra - Vôa ás nuvens direito._ - - ---Não é bonito?... Muito! Se os Srs. conhecessem então o cyclo do -macaco, a collecção de historias que o povo tem sobre o simio?... Oh! -Uma verdadeira epopéa comica! - -Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de algum que -encontrou um semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado -pela paixão do foklorista, tinha mais intelligencia no olhar com que o -encarava. - -O velho poeta guardou, a canção de Urubu de Baixo, numa pasta; e foi -logo á outra, donde tirou varias folhas de papel. Veio até junto aos -dous visitantes e disse-lhes: - ---Vou ler aos senhores uma pequena historia do macaco, das muitas que o -nosso povo conta... Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo -publical-as, sob o titulo _Historias do Mestre Simão_. - -E, sem perguntar se os incommodava ou se estavam dispostos a ouvir, -começou: - -«_O macaco perante o juiz de direito_. Andava um bando de macacos em -troça, pulando de arvore em arvore, nas bordas de uma gróta. Eis -senão quando, um delles vê no fundo uma onça que lá caira. Os -macacos se enternecem e resolvem salval-a. Para isso, arrancaram cipós, -emendaram-nos bem, amarraram a corda assim feita á cintura de cada um -delles e atiraram uma das pontas á onça. Com o esforço reunido de -todos, conseguiram içal-a e logo se desamarraram, fugindo. Um delles, -porém, não o pôde fazer a tempo e a onça segurou-o immediatamente. - ---Compadre Macaco, disse ella, tenha paciencia. Estou com fome e você -vai fazer-me o favor de deixar-se comer. - -O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexivel. Simão -então lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram -a elle; o macaco sempre agarrado pela onça. É juiz de direito entre os -animaes, o jaboty, cujas audiencias, são dadas á borda dos rios, -collocando-se elle em cima de uma pedra. Os dous chegaram e o macaco -expôz as suas razões. - -O jaboty ouviu-os e no fim ordenou; - ---Bata palmas. - -Apezar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas. -Chegou a vez da onça, que tambem expôz as suas razões e motivos. O -juiz, como da primeira vez, determinou ao felino: - ---Bata palmas. - -A onça não teve remedio senão largar o macaco, que se escapou, e -tambem o juiz, atirando-se n'agua». - -Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous: - ---Não acham interessante? Muito! Ha no nosso povo muita invenção, -muita creação, verdadeiro material para _fabliaux_ interessantes... No -dia em que apparecer um literato de genio que o fixe numa forma -immortal... Ah! Então! - -Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de -satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lagrimas furtivas. - ---Agora, continuou elle, depois de passada a emoção--vamos ao que -serve. _O boi espacio_ ou o _Bumba meu boi_ ainda é muita cousa para -vocês... É melhor irmos de vagar, começar pelo mais facil... Está -ahi o _Tangolomango_, conhecem? - ---Não, disseram os dous. - ---É divertido. Arranjem dez crianças, uma mascara de velho, uma roupa -estrambolica para um dos Srs. que eu ensaio. - -O dia chegou. A casa do General estava cheia. Cavalcanti viera; e elle e -a noiva, á parte, no vão de uma janella, pareciam ser os unicos que -não tinham interesse pela folia. Elle, falando muito, cheio de -trejeitos no olhar; ella, meio fria, deitando de quando em quando, para -o noivo, um olhar de gratidão. - -Quaresma, foz o _Tangolomango_, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do -General, pôz uma immensa mascara de velho, agarrou-se a um bordão -curvo, em forma de baculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram -em côro: - - - _Uma mãe teve dez filhos - Todos os dez dentro de um pote: - Deu o Tangolomango nelle - Não ficaram senão nove._ - - -Por ahi, o major avançava, batia com o baculo no assoalho, fazia: hu! -hu! hu! as crianças fugiam, afinal elle agarrava uma e levava para -dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando, pela -quinta estrophe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista, escura e cahiu. -Tiraram-lhe a mascara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a -si. - -O accidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo _folk-lore_. -Comprou livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção -lhe veiu ao fim de algumas semanas de estudo. - -Quasi todas as tradições e canções eram estrangeiras; o proprio -_Tangolomango_ o era tambem. Tornava-se, portanto, precizo arranjar -alguma cousa propria, original, uma creação da nossa terra e dos -nossos ares. - -Essa idéa levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéa -traz outra, logo ampliou o seu proposito e eis a razão porque estava -organizando um codigo de relações, de cumprimentos, de cerimonias -domesticas e festas, calcado nos preceitos tupys. - -Desde dez dias que se entregava a essa ardua tarefa, quando (era -domingo) lhe bateram á porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não -apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabellos, -como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de -dentro, o Anastacio tambem, e o compadre e a filha, pois eram elles, -ficaram estupefactos no limiar da porta. - ---Mas que é isso, compadre? - ---Que é isso, Polycarpo? - ---Mas, meu padrinho... - -Elle ainda chorou um pouco. Enxugou as lagrimas e, depois, explicou com -a maior naturalidade: - ---Eis ahi! Vocês não têm a minima noção das cousas da nossa terra. -Queriam que eu apertasse a mão... Isto não é nosso! Nosso cumprimento -é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os -tupinambás. - -O seu compadre Vicente, a filha e D. Adelaide entreolharam-se, sem saber -o que dizer. O homem estaria doido? Que extravagancia! - ---Mas, Sr. Polycarpo, disse-lhe o compadre, é possivel que isto seja -muito brasileiro, mas é bem triste, compadre. - ---De certo, padrinho, accrescentou a moça com vivacidade; parece até -agouro... - -Este seu compadre era italiano de nascimento. A historia das suas -relações vale a pena contar. Quitandeiro ambulante, fôra fornecedor -da casa de Quaresma ha vinte e tantos annos. O Major já tinha as suas -idéas patrioticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e -até gostava de vel-o suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas -vermelhas nas faces muito brancas de europeu recem-chegado. Mas um bello -dia, ia Quaresma pelo largo do Paço, muito distrahido, a pensar nas -maravilhas architectonicas do chafariz do mestre Valentim, quando veio a -encontrar-se com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquella -simplicidade d'alma que era bem sua, e notou que o rapaz tinha alguma -preoccupação séria. Não só de onde em onde, soltava exclamações -sem ligação com a conversa actual, como tambem, cerrava os labios, -rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio -a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu collega, estando -disposto a matal-o, pois perdera o credito e em breve estaria na -miseria. Havia na sua affirmação uma tal energia e um grande e -extranho accento de ferocidade, que fizeram empregar o Major toda a sua -doçura e persuasão para dissuadil-o do proposito. E não ficou nisto -só: emprestou-lhe tambem dinheiro. Vicente Coleoni poz uma quitanda, -ganhou uns contos de réis, fez-se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, -veiu a ter aquella filha, que foi levada á pia pelo seu bemfeitor. -Inutil é dizer que Quaresma não notou a contradicção entre as suas -idéas patrioticas e o seu acto. - -É verdade que elle não as tinha ainda muito firmes, mas já fluctuavam -na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciencia como tenues desejos, -veleidades de rapaz de pouco mais de vinte annos, veleidades que não -tardariam tomar consistencia, e só esperavam os annos para desabrochar -em actos. - -Fora, pois, ao seu compadre Vicente e á sua afilhada Olga que elle -recebera com o mais legitimo ceremonial guaytacaz, e, se não envergara -o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o não -tel-o. Estava até á mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se. - ---Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre elle -os seus olhos muito luminosos. - -Havia entre os dous uma grande affeição. Quaresma era um tanto -reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no economico -nas demonstrações affectuosas. Adivinhava-se, entretanto, que a moça -occupava-lhe no coração o logar dos filhos que não tivera nem teria -jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente, -não escondia a sua affeição tanto mais que sentia confusamente nelle -alguma cousa da superior, uma ancia de idéal, uma tenacidade em seguir -um sonho, uma idéa, um vôo emfim para as altas regiões do espirito -que ella não estava habituada a ver em ninguem do mundo que -frequentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a -commum ás moças de seu nascimento. Vinha de um pendôr proprio, talvez -das proximidades européas do seu nascimento, que a fizeram um pouco -differente das nossas moças. - -Fora com um olhar luminoso e prescrutador que ella perguntara ao -padrinho. - ---Então padrinho, lê-se muito? - ---Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a -emancipação de um povo. - -Vicente fôra com D. Adelaide para o interior da casa e os dous -conversavam a sós na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma -tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta segurança, elle que -antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar--que diabo! Não, -não era possivel... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos -seus olhos--uma alegria de mathematico que resolveu um problema, de -inventor feliz! - ---Não se vá metter em alguma conspiração, disse a moça gracejando. - ---Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso -violencias... - -Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo -fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça. O Major fez as -apresentações. - ---Já o conhecia de nome, Sr. Ricardo, disse Olga. - -Coração dos Outros encheu-se de um alviçareiro contentamento. A sua -physionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a -sua cutis que era reseccada e de um tom de velho marmore, como que ficou -macia e joven. Aquella moça parecia rica, era fina e bonita, -conhecia-o--que satisfação! Elle que era sempre um tanto parvo e -atrapalhado, quando se encontrava diante das moças, fossem de que -condição fossem, animava-se, soltava a lingua, amaciava a voz e ficava -numeroso e eloquente. - ---Leu então os meus versos, não é, minha senhora? - ---Não tive esse prazer, mas li, ha mezes, uma apreciação sobre um -trabalho seu. - ---No «Tempo», não foi? - ---Foi. - ---Muito injusta! accrescentou Ricardo. Todos os criticos se atêm a essa -questão de metrificação. Dizem que os meus versos não são versos... -São, sim; mas são versos para violão. V. Ex. sabe que os versos para -musica têm alguma cousa de differente dos communs, não é? Não ha, -portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam -outra metrica e outro systema, não acha? - ---De certo, disse a moça. Mas parece-me que o Sr. faz versos para a -musica e não musica para os versos. - -E ella sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar -luminoso, emquanto Ricardo, desconfiado, lhe sondava a intenção com os -seus olhinhos vivos e meudos de camondongo. - -Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio: - ---O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o -violão. - ---Eu sei, padrinho. Eu sei... - ---Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a -serio essas tentativas nacionaes mas, na Europa, todos respeitam e -auxiliam... Como é que se chama, major, aquelle poeta que escreveu em -francez popular? - ---Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francez popular; é o -provençal, uma verdadeira lingua. - ---Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado, -respeitado? Eu, no tocante ao violão, estou fazendo o mesmo. - -Olhou triumphante para um e outro circumstante: e Olga dirigindo-se a -elle, disse: - ---Continue na tentativa, Sr. Ricardo, que é digno de louvor. - ---Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um bello -instrumento e tem grandes difficuldades. Por exemplo... - ---Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Ha outros mais difficeis. - ---O piano? perguntou Ricardo. - ---Que piano! O maracá, a inubia. - ---Não conheço. - ---Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionaes possiveis, os -unicos que o são verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados, -daquella gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta -linda terra. Os caboclos! - ---Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo. - ---De caboclo! Que é que tem? O Lery diz que são muito sonoros e -agradaveis de ouvir... Se é por ser de caboclo, o violão tambem não -vale nada--é um instrumento do capadocio. - ---De capadocio, major! Não diga isso... - -E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpreza, -espantada, sem atinar, som explicação para aquella inopinada -transformação de genio do seu padrinho, até ali tão socegado e tão -calmo. - - - - -III - -A NOTICIA DO GENELICIO - - ---Então quando se casa, D. Ismenia? - ---Em Março. Cavalcanti já está formado e... - -Afinal a filha do General pôde responder com segurança á pergunta que -se lhe vinha fazendo ha quasi cinco annos. O noivo finalmente encontrara -o fim do curso de dentista e marcara o casamento para dahi a tres mezes. -A alegria foi grande na familia; e, como em tal caso, uma alegria não -podia passar sem um baile, uma festa foi annunciada para o sabbado que -se seguia ao pedido da pragmatica. - -As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes -que a irmã nubente. Parecia que ella lhes ia deixar o caminho -desembaraçada, e fôra a irmã quem até ali tinha impedido que se -casassem. - -Noiva havia quasi cinco annos, Ismenia já se sentia meio casada. Esse -sentimento junto á sua natureza pobre fel-a não sentir um pouco mais -de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ella, pão era negocio de -paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéa, -uma pura idéa. Aquella sua intelligencia rudimentar tinha separado da -idéa de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, -a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: -«Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar»... Ou senão: -«Você preciza aprender a pregar botões, porque quando você se -casar...» - -A todo instante e a toda hora, lá vinha aquelle--«porque, quando você -se casar...»--e a menina foi se convencendo de que toda a existencia -só tendia para o casamento. A instrucção, as satisfações intimas, a -alegria, tudo isso era inutil; a vida se resumia numa cousa: casar. - -De resto, não era só dentro do sua familia que ella encontrava aquella -preoccupação. No collegio, na rua, em casa das familias conhecidas, -só se falava em casar. «Sabe, D. Maricota, a Lili casou-se; não fez -grande negocio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa»; ou -então: «A Zezé está doida para arranjar casamento mas é tão feia, -meu Deus!...» - -A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéas, o -nosso proprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para -aquelle cerebrozimho; e, de tal forma casar-se se lhe representou cousa -importante, uma especie de dever, que não se casar, ficar solteira, -_tia_, parecia-lhe um crime, uma vergonha. - -De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa -profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para -um grande afecto, na sua intelligencia a idéa de casar-se incrustou-se -teimosamente como uma obsessão. - -Ella não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o -narizinho mal feito, mas galante, não muito baixa nem muito magra e a -sua apparencia de bondade passiva, de indolencia de corpo, de idéas e de -sentidos era até um bom typo das meninas a que os namorados -chamam--_bonitinhas_. O seu traço de belleza dominante, porém, eram os -seus cabellos: uns bastos cabellos castanhos, com tons de ouro, sedosos -até ao olhar. - -Aos dezenove annos arranjou namoro com o Cavalcanti, e á fraqueza de -sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a -facilidade com que o futuro dentista a conquistou. - -O pai fez má cara. Elle andava sempre ao par dos namoros das filhas: -«Diga-me sempre, Maricota--dizia elle--quem são. Olho vivo!...» É -melhor prevenir que curar... Póde ser um valdevinos e...» Sabendo que -o pretendente á Ismenia era um dentista, não gostou muito. Que é um -dentista? perguntava elle de si para si. Um cidadão semi-formado, uma -especie de barbeiro. Preferia um official, tinha montepio e meio soldo; -mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e elle -accedeu. - -Começou então Cavalcanti a frequentar a casa na qualidade de noivo -_paisano_ isto é, que não pediu, não é ainda _official_. - -No fim do primeiro anno, tendo noticia das difficuldades com que o -futuro genro lutava para acabar os estudos, o General foi generosamente -em seu soccorro. Pagou-lhe taxas de matriculas, livros e outras cousas. -Não era raro que após uma longa conversa com a filha, D. Maricota -viesse ao marido e dissesse: «Chico, arranja-me vinte mil réis que o -Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia». - -O General era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretenção -marcial, não havia no seu caracter a minima falha. Demais, aquella -necessidade de casar as filhas ainda o faziam melhor quando se tratava -dos interesses dellas. - -Elle ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para -evitar despezas ao futuro genro, convidou-o a jantar em casa todo o dia; -e assim o namoro foi correndo até ali. - -Enfim--dizia Albernaz á mulher, na noite do pedido, quando já -recolhidos--a cousa vai acabar. Felizmente, respondia-lhe D. Maricota, -vamos descontar esta lettra. - -A satisfação resignada do General era porém, falsa; ao contrario: -elle estava radiante. Na rua, se encontrava um camarada, no primeiro -momento azado, lá dizia elle: - ---É um inferno, esta vida! imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho -que casar uma filha! - -Ao que Castro interrogava: - ---Qual dellas? - ---A Ismenia, a segunda, respondia Albernaz e logo accrescentava: tu é -que és feliz: só tiveste filhos. - ---Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malicia, aprendi a receita. -Porque não fizeste o mesmo? - -Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazens, ás lojas de -louça, comprava mais pratos, mais compoteiras, um centro de mesa, -porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundancia e riqueza -que traduzisse o seu grande contentamento. - -Na manhã do dia da festa commemorativa do pedido, D. Maricota amanheceu -cantando. Era raro que o fizesse: mas nos dias de grande alegria, ella -cantarolava uma velha aria, uma cousa do seu tempo de moça e as filhas -que sentiam nisto signal certo de alegria corriam a ella, pedindo-lhe -isto ou aquillo. - -Muito activa, muito diligente, não havia dona de casa mais economica, -mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço -das criadas. Logo que despertou, pôz tudo em actividade, as criadas e -as filhas. Vivi e Quinota fôram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram -as raparigas na arrumação das salas e dos quartos, emquanto ella e -Ismenia iam arrumar a mesa, dispol-a com muito gosto e esplendor. O -movel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria -de D. Maricota era grande; ella não comprehendia que uma mulher pudesse -viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava -exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e deshonroso para a -familia. A sua satisfação não vinha do simples facto de ter -descontado uma letra, como ella dizia. Vinha mais profundamente dos seus -sentimentos maternos e de familia. - -Ella arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indifferente. - ---Mas, minha filha, dizia ella, até parece que não é você quem se -vai casar! Que cara! Você parece ahi uma mosca morta. - ---Mamãe, que quer que eu faça? - ---Não é bonito rir-se muito, andar ahi como uma serigaita, mas tambem -assim como você está! Eu nunca vi noiva assim. - -Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas -logo lhe tomava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibração -sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e não tardava em -cahir naquelle doentia lassidão que lhe era propria. - -Veiu muita gente. Além das moças e as respeitaveis mães, acudiram ao -convite do General, o Contra-Almirante Caldas, o Dr. Florencio, -engenheiro das Aguas, o Major honorario Innocencio Bustamante, o Sr. -Bastos, guarda-livros, ainda parente de D. Maricota, e outras pessoas -importantes. Ricardo não fôra convidado porque o General temia a -opinião publica sobre a presença delle em festa seria; Quaresma o -fôra, mas não viéra; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros. - -Ás seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismenia, -cumprimentado-a, não sem um pouco de inveja no olhar. - -Irene, uma alourada e alta, aconselhava: - ---Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque. - -Tratava-se do enxoval. Todas ellas, embora solteiras, davam conselhos, -sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes e as que podiam -ser dispensadas. Estavam ao par. - -A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos: - ---Eu, hontem, vi na rua da Constituição um dormitorio de casal, muito -bonito, você porque não vai ver, Ismenia? Parece barato. - -A Ismenia era a menos enthusiasmada, quasi não respondia ás perguntas; -e, se as respondia, ora por monosyllabos. Houve um momento em que sorriu -quasi com alegria e abandono. Estephania, a doutora, a normalista, que -tinha nos dedos um annel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num -dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma -confidencia. Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quizesse -confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e -disse alto: - ---Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei... - -Ella alludia á resposta que, á sua confidencia, Ismenia tinha dado com -parcimonia: qual o que! - -Todas ellas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma -parte dos velhos rodeavam Cavalcanti, muito solenne, dentro de um grande -fraque preto. - ---Então, Dr. acabou, heim? dizia este a geito de um cumprimento. - ---É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os -embargos--fui de um heroismo!... - ---Conhece o Chavantes? perguntava um outro. - ---Conheço. Um chronico, um pandego... - ---Foi seu collega? - ---Foi, isto é, elle é do curso de medicina. Matriculamo-nos no mesmo -anno. - -Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de attender a este e já era -obrigado a ouvir a observação de outro. - ---É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava -agora a quebrar a cabeça no _Dever_ e _Haver_. Hoje, torço a orelha e -não sai sangue. - ---Actualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente -Cavalcanti. Com essas academias livres... Imaginem que já se fala numa -Academia Livre de Odontologia! É o cumulo! Um curso difficil e caro, -que exige cadaveres, apparelhos, bons professores, como é que -particulares poderão mantel-o? Se o Governo mantem mal... - ---Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabens. Digo-lhe o que -disse ao meu sobrinho, quando se formou: vá furando! - ---Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti. - ---Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias. - ---Boa carreira. - -Nos intervallos da conversa, todos elles olhavam o novel dentista como -se fosse um ente sobrenatural. - -Para aquella gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era -homem e mais alguma cousa sagrada e de essencia superior; e não -juntavam á imagem que tinham delle actualmente, as cousas que -porventura elle pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava -nella de modo algum; e aquelle typo, para alguns, continuava a ser -vulgar, commum, na apparencia, mas a sua substancia tinha mudado, era -outra differente da delles e fora ungido de não sei que cousa vagamente -fóra da natureza terrestre, quasi divina. - -Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os -menos importantes. O General ficara na sala de jantar, fumando, cercado -dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com elle o -Contra-Almirante Caldas, o Major Innocencio, o Dr. Florencio e o -Capitão de Bombeiros Segismundo. - -Innocencio aproveitou a occasião para fazer uma consulta a Caldas sobre -assumpto de legislação militar. O Contra-Almirante era -interessantissimo. Na marinha, por pouco que não fazia _pendant_ com -Albernaz no Exercito. Nunca embarcara a não ser na guerra do Paraguay, -mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era delle. -Logo que se viu 1° Tenente, Caldas foi aos poucos se mettendo comsigo, -abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos e sem -amigos nos altos logares, se esqueciam delle e não lhe davam -commissões de embarque. É curiosa essa cousa das administrações -militares: as commissões são merecimento, mas só se as dá aos -protegidos. - -Certa vez, quando era já Capitão Tenente, deram-lhe um embarque em -Matto Grosso. Nomearam-no para commandar o couraçado «Lima Barros». -Elle lá foi, mas, quando se apresentou ao commandante da flotilha, teve -noticia que não existia no rio Paraguay semelhante navio. Indagou daqui -e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal «Lima Barros» -fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguay. Consultou o commandante. - ---Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia immediatamente para a -flotilha do Rio Grande. - -Eil-o a fazer malas para o Alto-Uruguay, onde chegou emfim, depois de -uma penosa e fatigante viagem. Mas ahi tambem não estava o tal «Lima -Barros». Onde estaria então? Quiz telegraphar para o Rio de Janeiro, -mas teve medo de ser censurado, tanto mais, que não andava em cheiro de -santidade. Esteve assim um mez em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e -sem saber que destino tomar. Um dia lhe veiu a idéa de que o navio bem -poderia estar no Amazonas. Embarcou na intenção de ir ao extremo norte -e quando passou pelo Rio, conforme a praxe, apresentou-se ás altas -autoridades da Marinha. Foi preso e submettido a conselho. - -O «Lima Barros» tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguay. - -Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus -generaes. Todos o tinham na conta de parvo, de um commandante de opereta -que andava á cata do seu navio pelos quatro pontos cardeaes. -Deixaram-n'o _encostado_, como se diz na gyria militar, e elle levou -quasi quarenta annos para chegar de Guarda-Marinha a Capitão de -Fragata. Reformado no posto immediato, com graduação do seguinte, todo -o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de -estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referissem a -promoções de officiaes. Comprava repertorios de legislação, -armazenava collecções de leis, relatorios, e encheu a casa de toda -essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, -pedindo a modificação da sua reforma, choviam sobre os ministros da -Marinha. Corriam mezes o infinito rosario de repartições e eram sempre -indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal -Militar. Ultimamente constituira advogado junto á justiça federal e -lá andava elle de cartorio em cartorio, acotovelando-se com meirinhos, -escrivães, juizes e advogados--esse poviléo rebarbativo do fôro que -parece ter contrahido todas as miserias que lhe passam pelas mãos e -pelos olhos. - -Innocencio Bustamante tambem tinha a mesma mania demandista. Era -renitente, teimoso, mas servil e humilde. Antigo voluntario da patria, -possuindo honras de Major, não havia dia em que não fosse ao quartel -general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia -inclusão no Asylo dos Invalidos, noutro honras de Tenente-Coronel, -noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha nenhum, ia ver o dos -outros. - -Não se prezou mesmo de tratar do pedido de um maniaco que, por ser -tenente honorario e tambem da Guarda Nacional, requereu lhe fosse -passada a patente de major, visto que dous galões mais outros dous -fazem quatro--o que quer dizer: Major. - -Conhecedor dos estudos meticulosos do Almirante, Bustamante fez a sua -consulta. - ---Assim de prompto, não sei. Não é a minha especialidade o Exercito, -mas vou ver. Isto tambem anda tão atrapalhado! - -Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos que lhe -davam um ar de _commodoro_ ou de chacareiro portuguez, pois era forte -nelle o typo luzitano. - ---Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina! - ---Não ha mais gente que preste, disse Bustamante. - -Segismundo por ahi aventurou tambem a sua opinião dizendo: - ---Eu não sou militar, mas... - ---Como não é militar? fez Albernaz com impeto. Os Srs. é que são os -verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas? - ---De certo, de certo, fez o Almirante cofiando os favoritos. - ---Como ia dizendo, continuou Segismundo, apezar de não ser militar, eu -me animo, a dizer que a nossa força está muito por baixo. Onde está -um Porto Alegre, um Caxias? - ---Não ha mais, meu caro, confirmou com voz tenue o Dr. Florencio. - ---Não sei porque, pois tudo hoje não vai pela sciencia? - -Fôra Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e -retrucou-lhe com certo calor: - ---Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de _xx_ e _yy_, em -Curupaity, hein Caldas? hein Innocencio? - -O Dr. Florencio era o unico paisano da roda. Engenheiro e empregado -publico, os annos e o socego da vida lhe tinham feito perder todo o -saber que porventura pudesse ter tido ao sahir da escola. Era mais um -guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de -Albernaz, era raro que não viesse roda a tarde jogar o sólo com o -General. O Dr. Florencio perguntou: - ---O Sr. assistiu, não foi, General? - -O General não se deteve, não, se atrapalhou, não gaguejou e disse com -a maxima naturalidade: - ---Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vesperas. Mas tive muitos -amigos lá: o Camisão, o Venancio... - -Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janella da sala onde -estavam, não se via nem um monte. O horizonte estava circumscripto aos -fundos dos quintaes das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a -lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas -lembrava tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já -tinha desapparecido do horizonte e as tenues luzes dos bicos de gaz e -dos lampeões familiares começavam a accender-se por detraz das -vidraças. - -Bustamante quebrou o silencio: - ---Este paiz pão vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento, -pedindo honras de Tenente Coronel, está no ministerio ha seis mezes! - ---Uma desordem, exclamaram todos. - -Era noite. D. Maricota chegou até onde elles estavam, muito activa, -muito diligente e com o rosto aberto de alegria. - ---Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao -Chico, sim? - -Albernaz sahiu fóra da róda dos amigos e foi até a um canto da sala, -onde a mulher lhe disse alguma cousa em voz baixa. Ouviu a mulher, -depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto, nestes -termos: - ---Se não dançam é porque não querem. Estou pegando algum? - -D. Maricota approximou-se dos amigos do marido e explicou: - ---Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguem tira par, ninguem, -tóca. Estão lá tantas moças, tantos rapazes, é uma pena! - ---Bem; eu vou lá, disse Albernaz. - -Deixou os amigos e foi á sala de visitas dar começo ao baile. - ---Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa! - -E elle mesmo em pessoa ia juntando os pares: «Não General, já tenho -par, dizia uma moça. Não faz mal, retrucava elle, danse com o -Raymundinho; o outro espera». Depois de ter dado inicio ao baile, veio -para a roda dos amigos, suado, mas contente. - ---Isto de familia! Qual! A gente até parece bôbo, dizia. Você é que -fez bem, Caldas; não se quiz casar! - ---Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos? - ---Vamos jogar o sólo, convidou Albernaz. - ---Somos cinco, como ha de ser? observou Florencio. - ---Não, eu não jogo, disse Bustamante. - ---Então jogamos os quatro de garancho? lembrou Albernaz. - -As cartas vieram e tambem uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros -sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. Coube a Florencio dar. -Começaram, Albernaz tinha um ar attento quando jogava: a cabeça lhe -cahia sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de -reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade -de um Lord Almirante numa partida de «whist». Segismundo jogava com -todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para -fugir á fumaça. Bustamante fôra á sala ver as dansas. - -Tinham começado a partida, quando dona Quinota, uma das filhas do -General, atravessou a sala e foi beber agua. Caldas, coçando um dos -favoritos, perguntou á moça: - ---Então, D. Quinota, que dê o Genelicio? - -A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muchocho e respondeu -com falso máu humor: - ---Ué! Sei lá! Ando atrás delle? - ---Não precisa zangar-se, D. Quinota; é uma simples pergunta, advertiu -Caldas. - -O General que examinava attentamente as cartas recebidas, interrompeu a -conversa com voz grave: - ---Eu passo. - -D. Quinota retirou-se. Este Genelicio ora o seu namorado. Parente ainda -de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na familia. A sua -candidatura era favorecida por todos. D. Maricota e o marido enchiam-n'o -de festas. Empregado do Thesouro, já no meio da carreira, moço de -menos de trinta annos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia -ninguem mais bajulador e submisso do que elle. Nenhum pudor, nenhuma -vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia. -Quando sahia, remancheava, lavava tres ou quatro vezes as mãos, até -poder apanhar o director na porta. Acompanhava-o, conversava com elle -sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava este ou aquelle -collega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava -um ministro, fazia-se escolher como interprete dos companheiros e -deitava um discurso; nos anniversarios de nascimento, era um soneto que -começava sempre por--salve--e acabava tambem por--Salve! Tres vezes -Salve! - -O modelo era sempre o mesmo; elle só mudava o nome do ministro e punha -a data. - -No dia seguinte, os jornaes falavam do seu nome, e publicavam o soneto. - -Em quatro annos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser -aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima. - -Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente genio. -Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros -processos. Um dos que se servia, eram as publicações nas folhas -diarias. No intuito de annunciar nos ministros e directores que tinha -uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornaes longos -artigos sobre contabilidade publica. Eram meras compilações de -bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citações de autores -francezes ou portuguezes. - -Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande -conta o seu saber e elle vivia na secção cercado do respeito de um -genio, um genio do papelorio e das informações. Accresce que Genelicio -juntava á sua segura posição administrativa, um curso de direito a -acabar; e tantos titulos juntos não podiam deixar de impressionar -favoravelmente ás preoccupações casamenteiras do casal Albernaz. - -Fóra da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre physico -fazia comico, mas que a convicção do alto auxilio que prestava ao -Estado, mantinha e sustentava. Um empregado modelo!... - -O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das -_mãos_ fazia-se um breve commentario ou outro, e no começo ouviam-se -unicamente as falas sacramentaes do jogo; _sólo, bólo, melhoro, -passo_. Feitas ellas jogava-se em silencio; da sala, porém, vinha o -ruido festivo das dansas e das conversas. - ---Olhem quem está ahi! - ---O Genelicio, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz? - -Deixou o chapéo e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. -Pequeno, já um tanto curvado, chupado de rosto, com um pince-nez -azulado, todo elle trahia a profissão, os seus gostos e habitos. Era um -escripturario. - ---Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negocios. - ---Vão bem? perguntou Florencio. - ---Quasi garantido. O Ministro prometteu... Não ha nada, estou bem -cunhado! - ---Estimo muito, disse o General. - ---Obrigado. Sabe de uma cousa, General? - ---O que é? - ---O Quaresma está doido. - ---Mas... o que? quem foi que te disse? - ---Aquelle homem do violão. Já está na casa de saude... - ---Eu logo vi, disse Albernaz, aquelle requerimento era de doido. - ---Mas não é só, General, accrescentou Genelicio, Fez um officio em -tupy e mandou ao ministro. - ---É o que eu dizia, fez Albernaz. - ---Quem é? perguntou Florencio. - ---Aquelle vizinho, empregado do Arsenal, não conhece? - ---Um baixo, de pince-nez? - ---Este mesmo, confirmou Caldas? - ---Nem se podia esperar outra cousa, disse o Dr. Florencio. Aquelles -livros, aquella mania de leitura... - ---P'ra que elle lia tanto? indagou Caldas. - ---Telha de menos, disse Florencio. - -Genelicio atalhou com autoridade: - ---Elle não era formado, para que metter-se em livros? - ---É verdade, fez Florencio. - ---Isto de livros é bom para os sabios, para os doutores, observou -Segismundo. - ---Devia até ser prohibido, disse Genelicio, a quem não possuisse um -titulo _academico_ ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não -acham? - ---De certo, disse Albernaz. - ---De certo, fez Caldas. - ---De certo, disse tambem Segismundo. - -Calaram-se um instante, e as attenções convergiram para o jogo. - ---Já sahiram todos os trunfos? - ---Contasse, meu amigo. - -Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silencio. Cavalcanti ia recitar. -Atravessou a sala triumphantemente, com um largo sorriso na face e foi -postar-se ao lado do piano, Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz -metallica, apurando muito os finaes em _s_, começou: - - - A vida é uma comedia sem sentido - Uma historia de sangue e de poeira - Um deserto sem luz... - - -E o piano gemia. - - - - -IV - -DESASTROSAS CONSEQUENCIAS -DE UM REQUERIMENTO - - -Os acontecimentos a que alludiam os graves personagens reunidos em tomo -da mesa de sólo, na tarde memoravel da festa commemorativa do pedido de -casamento de Ismenia, se tinham desenrolado com rapidez fulminante. A -força de idéas e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado em -actos imprevistos com uma sequencia brusca e uma velocidade de -turbilhão. O primeiro facto surprehendeu, mas vieram outros e outros, -de forma que o que pareceu no começo uma extravagancia, uma pequena -mania, se apresentou logo em insania declarada. - -Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a -sessão da Camara, o Secretario teve que proceder á leitura de um -requerimento singular e que veiu a ter uma fortuna de publicidade e -commentario pouco usual em documentos de tal natureza. - -O borborinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensavel -ao elevado trabalho de legislar, não permittiram que os deputados o -ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam proximo á mesa, ao -ouvil-o, proromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes á -magestade do logar. O riso é contagioso. O Secretario, no meio da -leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, já ria-se o Presidente, ria -se o official da acta, ria-se o continuo--toda a mesa e aquella -população que a cerca, riram-se da petição, largamente, querendo -sempre conter o riso, havendo em alguns tão franca alegria que as -lagrimas vieram. - -Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço, de -trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa -tristeza, ouvindo aquelle rir inoffensivo diante della. Merecia raiva, -odio, um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava á mesa da -Camara, mas não aquelle recebimento hilarico, de uma hilaridade -innocente, sem fundo algum, assim como se estivesse a rir de uma -palhaçada, de uma sorte de circo de cavallinhos ou de uma careta de -_clown_. - -Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só viam nelle um motivo -para riso franco e sem maldade. A sessão daquelle dia fôra fria; e, -por ser assim, as secções dos jornaes referentes á Camara, no dia -seguinte, publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os -tons. - -Era assim concebida a petição: - - -«Polycarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funccionario publico, certo -de que a lingua portugueza é emprestada ao Brasil; certo tambem de que, -por esse facto, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das -lettras, se vêm na humilhante contigencia de soffrer continuamente -censuras asperas dos proprietarios da lingua; sabendo, além, que, -dentro do nosso paiz, os autores os escriptores, com especialidade os -grammaticos, não se entendem no tocante á correcção grammatical, -vendo-se, diariamente, surgir azedas polemicas entre os mais profundos -estudiosos do nosso idioma--usando do direito que lhe confere a -Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o -tupy-guarany, como lingua official e nacional do povo brasileiro. - -O supplicante, deixando de parte os armamentos historicos que militam em -favor de sua idéa, pede venia para lembrar que a lingua é o mais alta -manifestação da intelligencia de um povo, é a sua creação mais viva -e original; e, portanto, a emancipação política do paiz requer como -complemento e consequencia a sua emancipação idiomatica. - -Demais, Srs. Congressistas, o tupy-guarany, lingua originalissima, -agglutinante, é verdade, mas que o polysynthetismo dá multiplas -feições de riqueza, é a unica capaz de traduzir as nossas bellezas, -de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente -aos nossos orgãos vocaes e cerebraes, por ser creação de povos que -aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização -physiologica e psychologica para que tendemos, evitando-se dessa fórma -as estereis controversias grammaticaes, oriundas de uma difficil -adaptação de uma lingua de outra região á nossa organização -cerebral e ao nosso apparelho vocal--controversias que tanto impecem o -progresso da nossa cultura literaria, scientifica e philosophica. - -Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para -realizar semelhante medida e conscio de que a Camara e o Senado pezarão -o seu alcance e utilidade P. e E. deferimento». - - -Assignado e devidamente estampilhado, este requerimento do Major foi -durante dias assumpto de todas as palestras. Publicado em todos os -jornaes, com commentarios facetos, não havia quem não fizesse uma -pilheria sobre elle, quem não ensaiasse um espirito á custa da -lembrança de Quaresma. Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quiz -mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era casado, se era solteiro. -Uma illustração semanal publicou-lhe a caricatura e o Major foi -apontado na rua. - -Os pequenos jornaes alegres, esses semanarios de espirito e troça, -então! eram «de um encarniçamento atroz com o pobre Major. Como uma -abundancia que marcava a felicidade dos redactores em terem encontrado -um assumpto facil, o texto vinha cheio delle: o Major Quaresma disse -isso; o Major Quaresma fez aquillo. - -Um delles, além de outras referencias, occupou uma pagina inteira com o -assumpto da semana. Intitulava-se a illustração: «O matadouro de -Santa Cruz, segundo o Major Quaresma», e o desenho representava uma -fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via á -esquerda. Um outro referia-se ao caso pintando um açougue, «O açougue -Quaresma»; legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro: - ---O Sr. tem lingua de vacca? O açougueiro respondia: Não, só temos -lingua de moça, quer? - -Com mais, ou menos espirito, os commentarios não cessavam e a ausencia -de relações de Quaresma no meio de que sahiam, fazia com que fossem de -uma constancia pouco habitual. Levaram duas semanas com o nome do -sub-secretario. - -Tudo isto irritava profundamente Quaresma. Vivendo ha trinta annos quasi -só, sem se chocar com o mundo, adquirira urna sensibilidade muito viva -e capaz de soffrer profundamente com a menor cousa. Nunca soffrera -criticas, nunca se atirou, á publicidade, vivia immerso no seu sonho, -incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fóra delles, elle -não conhecia ninguem; e, com as pessoas com quem falava, trocava -pequenas banalidades, ditos de todo o dia, cousas com que a sua alma e o -seu coração nada tinham que ver. - -Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse mais que -a todos. - -Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de extranho a -tudo, ás competições, ás ambições, pois nada dessas cousas que -fazem os odios e as lutas tinha entrado no seu temperamento. - -Desinteressado de dinheiro, de gloria e posição, vivendo numa reserva -de sonho, adquirira a candura e a pureza d'alma que vão habitar esses -homens de uma idéa fixa, os grandes estudiosos, os sabios, e os -inventores, gente que fica mais terna, mais ingenua, mais innocence que -as donzellas das poesias de outras épocas. - -É raro encontrar homens assim, mas os ha e, quando se os encontra, -mesmo tocados de um grão de loucura, a gente sente mais sympathia pela -nossa especie, orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da -raça. - -A continuidade das troças feitas nos jornaes, a maneira com que o -olhavam na rua, exasperavam-no e mais forte se enraizava nelle a sua -idéa. Á medida que engulia uma troça, uma pilheria, vinha-lhe meditar -sobre a sua lembrança, pezar-lhe todos os aspectos, examinal-a -detidamente, comparal-a a cousas semelhantes, recordar os autores e -autoridades; e, á proporção que fazia isso, a sua propria convicção -mostrava a inanidade da critica, a ligeireza da pilheria, e a idéa o -tomava, o avassalava, o absorvia cada vez mais. - -Se os jornaes tinham recebido o requerimento com facecias de fundo -inofensivo e sem odio, a repartição ficou furiosa. Nos meios -burocraticos, uma superioridade que nasce fora delles, que é feita e -organizada com outros materiaes que não os officios, a sabença de -textos de regulamentos e a boa calligrafia, é recebida com a -hostilidade de uma pequena inveja. - -É como se visse no portador da superioridade um traidor á -mediocridade, ao anonimato papeleiro. Não ha só uma questão de -promoção, de interesse pecuniario; ha uma questão de amor proprio, de -sentimentos feridos, vendo aquelle collega, aquelle galé como elles, -sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes, ás olhadelas -superiores dos ministros, com mais titulos á consideração, com algum -direito a infringir as regras e os preceitos. - -Olha-se para elle com o odio dissimulado com que assassino plebeu olha -para o assassino marquez que matou a mulher e o amante. Ambos são -assassinos, mas, mesmo na prisão, ainda o nobre e o burguez trazem o ar -do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o -seu humilde collega de desgraça. - -Assim, quando surge numa secretaria alguem cujo nome não lembra sempre -o titulo de sua nomeação, apparecem as pequeninas perfidias, as -maledicencias ditas ao ouvido, as indirectas, todo o arsenal do ciume -invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor -do que ella. - -Amam-se ou antes supportam-se melhor aquelles que se fazem celebres nas -informações, na redacção, na assiduidade ao trabalho, mesmo os -doutores, os bachareis, do que os que têm nomeada e fama. Em geral, a -incomprehensão da obra ou do merito do collega é total e nenhum delles -se póde capacitar que aquelle typo, aquelle amanuense, como elles, -faça qualquer cousa que interesse 06 extranhos e dê que falar a uma -cidade inteira. - -A brusca popularidade de Quaresma, o seu successo e nomeada ephemera -irritaram os seus collegas e superiores. Já se viu! dizia o Secretario. -Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa! Pretencioso! O -director, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o -regulamento não cogitasse do caso para lhe infringir uma censura. O -collega archivista era o menos terrivel, mas chamou-o logo de doido. - -O Major sentia bem aquelle ambiente falso, aquellas allusões e isso -mais augmentava o seu desespero e a teimosia na sua idéa. Não -comprehendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades, essa -má vontade geral; era uma cousa innocente, uma lembrança patriotica -que merecia e devia ter o assentimento de todo o mundo; e meditava, -voltava á idéa, e a examinava com mais attenção. - -A extensa publicidade, que o facto tomou, attingiu o palacete de Real -Grandeza, onde morava o seu compadre Coleoni. Rico com os lucros das -empreitadas de construcções de predios, viuvo, o antigo quitandeiro -retirara-se dos negocios e vivia socegado na ampla casa que elle mesmo -edificara e tinha todos os seus remates architectonicos do seu gosto -predilecto: compoteiras na cimalha, um immenso monogramma sobre a porta -da entrada, dous cães de louça, nos pilares do portão da entrada e -outros detalhes equivalentes. - -A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão alto, -tinha um razoavel jardim na frente, que avançava pelos lados, -pontilhado de bolas multicores; varanda, um viveiro, onde pelo calor os -passaros morriam tristemente. Era uma installação burgueza, no gosto -nacional, vistosa, cara, pouco de accordo com o clima e sem conforto. - -No interior o capricho dominava, tudo obedecia a a uma fantasia baroca, -a um ecletismo desesperador. Os moveis se amontoavam, os tapetes, as -sanefas, os bibelots e, a fantasia da filha, irregular e indisciplinada, -ainda trazia mais desordem áquella collecção de cousas caras. - -Viuvo, havia já alguns annos, era uma velha cunhada quem dirigia a casa -e a filha, quem o encaminhava nas distracções e nas festas. Coleoni -aceitava de bom coração esta doce tyrannia. Queria casar a filha, bem -e ao gosto della, não punha, portanto nenhum obstaculo ao programma de -Olga. - -Em começo, pensou em dal-a a seu ajudante ou contra-mestre, uma especie -de architecto que não desenhava, mas projectava casas e grandes -edificios. Primeiro sondou a filha. Não encontrou resistencia, mas não -encontrou tambem assentimento. Convenceu-se de que aquella vaporosidade -da menina, aquelle seu ar distante de heroina, a sua intelligencia, o -seu fantastico, não se dariam bem com as rudezas e a simplicidade -camponias de seu auxiliar. - -Ella quer um doutor--pensava elle--que arranje! Com certeza, não terá -ceitil, mas eu tenho e as cousas se accommodam. - -Elle se havia habituado a ver no doutor nacional, o marquez ou o barão -de sua terra natal. Cada terra tem a sua nobreza; lá, é visconde; -aqui, é doutor, bacharel ou dentista; e julgou muito acceitavel comprar -a satisfação de ennobrecer a filha com umas meias duzias de contos de -réis. - -Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propositos da menina. -Gostando de dormir cedo, tinha que perder noites e noites no Lyrico, nos -bailes; amando estar sentado em chinellas a fumar cachimbo, era obrigado -a andar horas e horas pelas ruas, saltitando de casa em casa de modas, -atraz da filha, para no fim do dia ter comprado meio metro de fita, uns -grampos e um frasco de perfume. - -Era engraçado vel-o nas lojas de fazendas cheio de complacencia de pai -que quer ennobrecer o filho, a dar opinião sobre o tecido, achar este -mais bonito, comparar um com outro, com uma falta de sentimento -daquellas cousas que se adivinhava até no pagal-as. Mas elle ia, -demorava-se e esforçava-se por entrar no segredo, no mysterio, cheio de -tenacidade e candura perfeitamente paternaes. - -Até ahi elle ia bem e calcava a contrariedade. Só o contrariavam -bastante, as visitas, as collegas da filha, suas mães, suas irmães, -com seus modos de falsa nobreza, os seus desdens dissimulados, deixando -perceber ao velho empreiteiro o quanto estava elle distante da sociedade -das amigas e das collegas de Olga. - -Não se aborrecia, porém, muito profundamente; elle assim o quizera e a -fizera, tinha que se conformar. Quasi sempre, quando chegavam taes -visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior da casa. Entretanto, -não lhe era sempre possivel fazer isso; nas grandes festas e -recepções tinha que estar presente e era quando mais sentia, o velado -pouco caso da alta nobreza da terra que o frequentava. Elle ficara -sempre empreiteiro, com poucas idéas além do seu officio, hão sabendo -fingir, de modo que não se interessava por aquellas tagarelices de -casamentos, de bailes, de festas e passeios caros. - -Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e -sempre perdia. Chegou mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia -parte o conhecido advogado Pacheco. Perdeu e muito, mas não foi isso -que o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos--uma ninharia! A -questão, porém, é que Pacheco jogava com seis cartas. A primeira vez -que Coleoni deu com isso, pareceu-lhe simples distracção do distincto -jornalista e do famoso advogado. Um homem honesto não ia fazer aquillo! -E na segunda, seria tambem? e na terceira? - -Não era possivel tanta distracção. Adquiriu a certeza da -trampolinagem, calou-se, conteve-se com uma dignidade não esperada em -um antigo quitandeiro, e esperou. Quando vieram a jogar outra vez e o -passe foi posto em pratica, Vicente accendeu o charuto e observou com a -maior naturalidade deste mundo: - ---Os Srs. sabem que ha agora, na Europa, um novo systema de jogar o -poker? - ---Qual é? perguntou alguém. - ---A differença é pequena: joga-se com seis cartas, isto é, um dos -parceiros, sómente. - -Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar e a ganhar, -despediu-se á meia-noite cheio de delicadeza, fez alguns commentarios -sobre a partida e não voltou mais. - -Conforme o seu velho habito, Coleoni lia de manhã os jornaes, com o -vagar e a lentidão de homem pouco habituado á leitura, quando se lhe -deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal. - -Elle não comprehendeu bem o requerimento, mas os jornaes faziam tanta -troça, cahiam tão a fundo sobre a cousa, que imaginou o seu antigo -bemfeitor enleiado numa meiada criminosa, tendo praticado, por -inadvertencia, alguma falta grave. - -Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda -tinha, mais dahi quem sabe? Na ultima vez que o visitou elle não veiu -com aquelles modos extranhos? Podia ser uma pilheria... - -Apezar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro -compadre. Havia nelle não só a gratidão de camponez que recebeu um -grande beneficio, como um duplo respeito pelo major, oriundo da sua -qualidade de funccionario e de sabio. - -Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquelle -sagrado respeito dos camponezes pelos homens que recebem a investidura -do Estado; e, como, apezar dos bastos annos de Brasil, ainda não sabia -juntar saber aos titulos, tinha em grande consideração a erudição do -compadre. - -Não é, pois, de extranhar que elle visse com magna o nome de Quaresma -envolvido em factos que os jornaes reprovavam. Leu de novo o -requerimento, mas não entendeu o que elle queria dizer. Chamou a filha. - ---Olga! - -Elle pronunciava o nome da filha quasi sem sotaque; mas, quando fallava -portuguez, punha nas palavras uma rouquidão singular, e salpicava as -phrases de exclamações e pequenas expressões italianas. - ---Olga, que quer dizer isto? _Non capisco_... - -A moça sentou-se a uma cadeira proxima e leu no jornal, o requerimento -e os commentarios. - ---_Che_! Então? - ---O padrinho quer substituir o portuguez pela lingua tupy, entende o -senhor? - ---Como? - ---Hoje, nós não falamos portuguez? Pois bem: elle quer que daqui em -diante falemos tupy. - ---_Tutti_? - ---Todos os brasileiros, todos. - ---_Ma che_ cousa! Não é possivel? - ---Póde ser. Os tcheques tem uma lingua propria, e foram obrigados a -falar allemão, depois de conquistados pelos austriacos; os lorenos, -francezes... - ---_Per la madona_! Allemão é lingua, agora esse acugêlê, _ecco_! - ---Acugêlê é da Africa, papai; tupy é daqui. - ---_Per Baccho_! É o mesmo... Está doido! - ---Mas não ha loucura alguma, papai. - ---Como? Então é cousa de um homem _bene_? - ---De juizo, talvez não seja; mas de doido, tambem não. - ---_Non capisco_. - ---É uma idéa, meu pai, é um plano, talvez á primeira vista absurdo, -fóra dos moldes, mas não de todo doido. É ousado, talvez, mas... - -Por mais que quizesse, ella não podia julgar o acto do padrinho sob o -criterio de seu pai. Neste falava o bom senso e nella o amor ás grandes -cousas, aos arrojos e commettimentos ousados. Lembrou-se de que Quaresma -lhe falara em emancipação; e se houve no fundo de si um sentimento que -não fosse de admiração pelo atrevimento do Major, não foi de certo o -de reprovação ou lastima; foi de piedade sympathica por ver mal -comprehendido o acto daquelle homem que ella conhecia ha tantos annos, -seguindo o seu sonho, isolado, obscuro e tenaz. - ---Isto vai causar-lhe transtorno, observou Coleoni. - -E elle tinha razão. A sentença do archivista foi vencedora nas -discussões dos corredores e a suspeita de que Quaresma estivesse doido -foi tomando fóros do certeza. Em principio, o sub-secretario supportou -bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o suppunham insciente no -tupy, irritou-se, encheu-se, de uma raiva surda, que se continha -difficilmente. Como eram cegos! Elle que ha trinta annos estudava o -Brasil minuciosamente; elle que em virtude desses estudos, fôra -obrigado a aprender o rebarbativo allemão, não saber tupy, a lingua -brasileira, a unica que o era--que suspeita miseravel! - -Que o julgassem doido--vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas -affirmações, não! E elle pensava, procurava meios de se rehabilitar, -cahia em distracções, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana. -Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo dia, e a -outra, na preoccupação de provar que sabia o tupy. - -O Secretario veiu a faltar um dia e o Major lhe ficou fazendo as vezes. -O expediente fôra grande e elle mesmo redigira e copiara uma parte. -Tinha começado a passar a limpo um officio sobre cousas de Mato-Grosso, -onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã, quando o Carmo disse lá do -fundo da sala, com acccento escarninho: - ---Homero, isto de saber é uma cousa, dizer é outra. - -Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupy -que se encontravam na minuta, fosse pela allusão do funccionario Carmo, -o certo é que elle insensivelmente foi traduzindo a peça official para -o idioma indigena. - -Ao acabar, deu com a districção, mas logo vieram outros empregados com -o trabalho que fizeram, para que elle examinasse. Novas preoccupações -afastaram a primeira, esqueceu-se e o officio em tupy seguiu com os -companheiros. O Director não reparou, assignou e o tupinambá foi dar -ao ministerio. - -Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. Que lingua -era? Consultou-se o Dr. Rocha, o homem mais habil da secretaria, a -respeito do assumpto. O funccionario limpou o pince-nez, agarrou o -papel, voltou-o de traz para diante, pôl-o de pernas para o ar e -concluiu que era grego, por causa dos _yy_. - -O doutor Rocha tinha na Secretaria a fama de sabio, porque era bacharel -em direito e não dizia cousa alguma. - ---Mas, indagou o chefe, officialmente as autoridades se podem communicar -em linguas estrangeiras? Creio que ha um aviso de 84... Veja, Sr. Dr. -Rocha... - -Consultaram-se todos os regulamentos e repertorios de legislação, -andou-se de meza em meza pedindo auxilio á memoria de cada um e nada se -encontrara a respeito. Enfim, o Dr. Rocha, após tres dias de -meditação, foi ao chefe e disse com emphase e segurança: - ---O aviso de 84 trata de orthographia. - -Ü Director olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando -as suas qualidades de empregado zeloso, intelligente e... assiduo. Foi -informado que a legislação era omissa no tocante á lingua em que -deviam ser escriptos os documentos officiaes; entretanto não parecia -regular usar uma que não fosse a do paiz. - -O Ministro, tendo em vista esta informação e varias outras consultas, -devolveu o officio e censurou o Arsenal. - -Que manhã foi essa no Arsenal! Os tympanos soavam furiosamente, os -continuos andavam numa doubadoura terrivel e a toda a hora perguntavam -pelo secretario que tardava em chegar. - -Censurado! monologava o Director. Ia-se por agua a baixo o seu -generalato. Viver tantos annos a sonhar com aquellas estrellas e ellas -se escapavam assim, talvez por causa da molecagem de um escripturario! - -Ainda se a situação mudasse... Mas qual! - -O Secretario chegou, foi ao gabinete do Director. Inteirado do motivo, -examinou o officio e pela lettra conheceu que fora Quaresma quem o -escrevera. Mande-o cá, disse o Coronel. O Major encaminhou-se pensando -nuns versos tupys que lera de manhã. - ---Então o Sr. leva a divertir-se commigo, não é? - ---Como? fez Quaresma espantado. - ---Quem escreveu isso? - -O Major nem quiz examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da -distracção e confessou com firmeza: - ---Fui eu. - ---Então confessa? - ---Pois não. Mas V. Ex. não sabe... - ---Não sabe! que diz? - -O Director levantou-se da cadeira, com os labios brancos e a mão -levantada á altura da cabeça. Tinha sido offendido tres vezes: na sua -honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento de -ensino que frequentara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro -estabelecimento scientifico do mundo. Além disso escrevera no -«Prytaneu», a revista da escola, um conto--«A Saudade»--producção -muito elogiada pelos collegas. Dessa forma, lendo em todos os exames -plenamente e distincção, uma dupla corôa de sabio e artista -cingia-lbe a fronte. Tantos titulos valiosos e raros de se encontrarem -reunidos mesmo em Descartes ou Shakspeare, transformavam aquelle--não -sabe--de um amanuense em offensa profunda, em injuria. - ---Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor -porventura o curso de Benjamin Constant? Sabe o senhor mathematica, -astronomia, physica, chimica, sociologia e moral? Como ousa então? Pois -o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francezinho ahi, -póde hombrear-se com quem tirou gráu 9 em Calculo, 10 em Mecanica, 8 -em Astronomia, 10 em Hydraulica, 9 em Descriptiva? Então?! - -E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma -que já se julgava fuzilado. - ---Mas, Sr. Coronel... - ---Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda -ordem. - -Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fôra seu proposito duvidar da -sabedoria do seu director. Elle não tinha nenhuma pretenção a sabio e -pronunciara a phrase para começar a desculpa; mas, quando viu aquella -enxurrada de saber, de titulos, a sobrenadar em aguas tão furiosas, -perdeu o fio do pensamento, a fala, as idéas e nada mais sôbe nem -pôde dizer. - -Sahiu abatido, como um criminoso, do gabinete do Coronel, que não -deixava de olhal-o furiosamente, indignadamente, ferozmente, como quem -foi ferido em todas as fibras do seu ser. Sahiu afinal. Chegando á sala -do trabalho nada disse; pegou no chapéo, na bengala e atirou-se pela -porta afóra, cambaleando como um bebedo. Deu umas voltas, foi ao -livreiro buscar uns livros. Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo -Coração dos Outros. - ---Cedo, hein Major? - ---É verdade. - -E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. Ricardo -avançou algumas palavras: - ---O Major, hoje, parece que tem uma idéa, um pensamento muito forte. - ---Tenho, filho, não de hoje, mas de ha muito tempo. - ---É bom pensar, sonhar consola. - ---Consola, talvez; mas faz-nos tambem differentes dos outros, cava -abysmos entre os homens... - ---E os dous separaram-se. O Major tomou o bonde e Ricardo desceu -descuidado a rua do Ouvidor, com o seu passo acanhado e as calças -dobradas nas canellas, sobraçando o violão na sua armadura de -camurça. - - - - -V - -O BIBELOT - - -Não era a primeira vez que ella vinha ali. Mais de uma dezena já -subira aquella larga escada de pedra, com grupos de marmores de Lisboa -de um lado e do outro, a Caridade e N. S. da Piedade; penetrara por -aquelle portico de columnas doricas, atravessara o atrio ladrilhado, -deixando á esquerda e á direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o -angustioso mysterio da loucura; subira outra escada encerada -cuidadosamente e fôra ter com o padrinho lá em cima, triste e -absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia ás vezes, aos -domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando -Quaresma. Ha quanto tempo estava elle ali? Ella não se lembrava ao -certo; uns tres ou quatro mezes, se tanto. - -Só o nome da casa mettia medo. O Hospicio! É assim como uma sepultura -em vida, um semi-enterramento, enterramento do espirito, da razão -conductora, de cuja ausencia os corpos raramente se resentem, A saude -não depende della e ha muitos que parecem até adquirir mais força de -vida, prolongar a existencia, quando ella se evola não se sabe por que -orificio do corpo e para onde. - -Com que terror, uma especie de pavor de cousa sobrenatural, espanto de -inimigo invisivel e omnipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao -estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte, diziam. - -No primeiro aspecto, não se comprehendia bem esse pasmo, esse espanto, -esse terror do povo por aquella casa immensa, severa e grave, meio -hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janellas gradeadas, a -se extender por uns centos de metros, em face do mar immenso e verde, -lá na entrada da bahia, na praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns -homens calmos, pensativos, meditabundos, como monges em recolhimento e -prece. - -De resto, com aquella entrada silenciosa! clara e respeitavel, perdia-se -logo a idéa popular da loucura; o escarcéo, os trejeitos, as furias, o -entrechoque de tolices ditas aqui e ali. - -Não havia nada disso; era uma calma, um silencio, uma ordem -perfeitamente naturaes. No fim, porém, quando se examinavam bem, na -sala das visitas, aquellas faces transtornadas, aquelles ares -aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheiados e -mergulhados em um sonho intimo sem fim, e via-se tambem a excitação de -uns, mais viva em face á atonia de outros, é que se sentia o horror da -loucura, o angustioso mysterio que encerra, feito não sei de que -inexplicavel fuga do espirito daquillo que se suppõe o real, para se -apossar e viver das apparencias das cousas ou de outras apparencias das -mesmas. - -Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifravel da nossa propria -natureza, fica amedrontado, sentindo que o germen daquillo está -depositado em nós e que por qualquer cousa elle nos invade, nos toma, -nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora comprehensão inversa e -absurda, de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o -seu mundo e para ele não ha mais semelhantes: o que foi antes da -loucura é outro muito outro do que elle vem a ser após. - -E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quasi nunca -acaba. Com o seu padrinho, como fôra? A principio, aquelle -requerimento... Mas que era aquillo? Um capricho, uma fantasia, cousa -sem importancia, uma idéa de velho sem consequencia. Depois, aquelle -officio? Não tinha importancia, uma simples distracção, cousa que -acontece a cada passo... E emfim? A loucura declarada, a tôrva e -ironica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos -rebaixa... Emfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de -não sahir, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os -amigos, os melhores. Como fôra doloroso aquillo? A primeira phase do -seu delirio, aquella agitação desordenada, aquelle falar sem nexo, sem -accordo com que se realizava fóra delle e com os actos passados, um -falar que não se sabia donde vinha, donde sahia, de que ponto do seu -ser tomava nascimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu -um cataclysma, que o fazia tremer todo, desde os pés á cabeça, e -enchia-o de indifferença para tudo mais que não fosse o seu proprio -delirio. - -A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam á matroca. -Para elle, nada disso valia, nada disso tinha existencia e importancia. -Eram sombras, apparencias; o real eram os inimigos, os inimigos -terriveis cujos nomes o seu delirio não chegava a criar. A velha -irmã, atarantada, atordoada, sem direcção, sem saber que alvitre -tomar. Educada em casa sempre com um homem ao lado, o pai, depois o -irmão, ella não sabia lidar com o mundo, com negocios, com as -autoridades e pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiencia e -ternura de irmã, oscillava entre a crença de que aquillo fosse verdade -e a suspeita do que fosse loucura pura e simples. - -Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se -interessava, chamando a si interesses da familia e evitando a demissão -de que estava ameaçado, transformando-a em aposentadoria, que seria -delle? Como é facil na vida tudo ruir! Aquelle homem pautado, regrado, -honesto, com emprego seguro, tinha uma apparencia inabalavel; -entretanto bastou um grãosinho de sandice... - -Estava ha uns mezes no Hospicio, o seu padrinho, e a irmã não o podia -visitar. Era tal o seu abalo de nervos, era tal a emoção ao vel-o ali -naquella meia-prisão, decaindo delle mesmo que um ataque se seguia e -não podia ser evitado. - -Vinham ella e o pai, ás vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram -só os tres a visital-o. - -Aquelle domingo estava particularmente lindo, principalmente em -Botafogo, nas proximidades do mar e das montanhas altas que se -recortavam num céo de seda. O ar era macio e docemente o sol faiscava -nas calçadas. - -O pai vinha lendo os jornaes e ella, pensando, de quando em quando -folheando as revistas illustradas que trazia para alegrar e distrahir o -padrinho. - -Elle estava como pensionista; mas, embora assim, no começo, ella teve -um certo pudor em se misturar com os visitantes. - -Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar miserias; -recalcou porém, dentro de si esse pensamento egoista, o seu orgulho de -classe, e agora entrava naturalmente, pondo em mais destaque a sua -elegancia natural. Amava esses sacrificios, essas abnegações, tinha o -sentimento da grandeza delles, e ficou contente comsigo mesma. - -No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no -portão do manicomio. Como em todas as portas dos nossos infernos -sociaes, havia de toda a gente, de varias condições, nascimentos e -fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a -molestia passam tambem a sua razoura pelas distincções que inventamos. - -Os bem vestidos e os mal vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e -os bonitos, os intelligentes e os nescios, entravam com respeito, com -concentração, com uma ponta de pavor nos olhos como se penetrassem -noutro mundo. - -Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam; eram guloseimas, -fumo, meias, chinellas, ás vezes livros e jornaes. Dos doentes uns -conversavam com os parentes; outros mantinham-se calados, num mutismo -feroz e inexplicavel; outros indifferentes; e era tal a variedade de -aspectos dessas recepções que se chegava a esquecer o imperio da -doença sobre todos aquelles infelizes, tanto ella variava neste ou -naquelle, para se pensar em caprichos pessoaes, em dictames das vontades -livres de cada um. - -E ella pensava como esta nossa vida é variada e diversa, como ella é -mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como na variedade da -vida a tristeza póde mais variar que a alegria c como que dá o proprio -movimento da vida. - -Verificando isso, quasi teve satisfação, pois a sua natureza -intelligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu -espirito fazia. - -Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delirio parecia querer -desapparecer completamente. Chocando-se com aquelle meio, houve logo -nelle uma reacção salutar e necessaria. Estava doido, pois se o punham -ali... - -Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de -satisfação por baixo do bigode já grisalho. Tinha emmagrecido um -pouco, os cabellos pretos estavam um pouco brancos, mas o aspecto geral -era o mesmo. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar, -mas quando a mania lhe tomava ficava um tanto secco e desconfiado. Ao -vel-os disse amavelmente: - ---Então vieram sempre... Estava a espera... - -Cumprimentaram-se e elle deu mesmo um largo abraço na afilhada. - ---Como está Adelaide? - ---Bem. Mandou lembranças e não veiu porque... adiantou Coleoni. - ---Coitada! disse elle, e pendeu a cabeça como se quizesse afastar uma -recordação triste; em seguida, perguntou: - ---E o Ricardo? - -A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e -alegria. Via-o já escapo á semi-sepultura da insania. - ---Está bom, padrinho. Procurou papai ha dias e disse que a sua -aposentadoria já está quasi acabada. - -Coleoni tinha-se sentado. Quaresma tambem e a moça estava de pé, para -melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no -encarar. Guardas, internos e medicos passavam pelas portas com a -indifferença profissional. Os visitantes, não se olhavam, pareciam que -não queriam conhecer-se na rua. Lá fóra, era o dia lindo, os ares -macios, o mar infinito e melancolico, as montanhas a se recortar num -céo de seda--a belleza da natureza imponente e indecifravel. Coleoni, -embora mais assiduo nas visitas, notava as melhoras do compadre com -satisfação que errava na sua physionomia, num ligeiro sorriso. Num -dado momento aventurou: - ---O Major já está muito melhor; quer sahir? - -Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e -vagarosamente: - ---É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incommodar-te tanto, -mas vocês que têm sido tão bons, hão de levar tudo isso para conta -da propria bondade. Quem tem inimigos deve ter tambem bons amigos... - -O pai e a filha entreolharam-se; o Major levantou a cabeça e parecia -que as lagrimas queriam rebentar. A moça interveio de prompto: - ---Sabe, padrinho, vou casar-me. - ---É verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós vínhamos -prevenil-o. - ---Quem é teu noivo? perguntou Quaresma. - ---É um rapaz... - ---De certo, interrompeu o padrinho sorrindo. - -E os dous acompanharam-n'o com familiaridade e contentamento. Era um bom -signal. - ---É o Sr. Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho? fez -Olga gentilmente. - ---Então é para depois do fim do anno. - ---Esperamos que seja por ahi, disse o italiano. - ---Gostas muito delle? indagou o padrinho. - -Ella não sabia responder aquella pergunta. Queria sentir que gostava, -mas estava que não. E porque casava? Não sabia... Um impulso do seu -meio, uma cousa que não vinha della--não sabia... Gostava de outro? -Tambem não. Todos os rapazes que ella conhecia, não possuiam relevo -que a ferisse, não tinham o _que_, ainda indeterminado na sua emoção -e na sua intelligencia, que a fascinasse ou subjugasse. Ella não sabia -bem o que era, não chegava a extremar na percepção das suas -inclinações a qualidade que ella queria ver dominante no homem. Era o -heroico, era o fóra do commum, era a força de projecção para as -grandes cousas; mas nessa confusão mental dos nossos primeiros annos, -quando as idéas e os desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não -podia colher e registrar esse anhelo, esse modo de se representar e de -amar o individuo masculino. - -E tinha razão em se casar sem obedecer á sua concepção. É tão -difficil ver nitidamente num homem, de 20 a 30 annos, o que ella sonhara -que era bem possivel tomasse a nuvem por Juno... Casava por habito de -sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e -aguçar a sensibilidade. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu -sem convicção ao padrinho: - ---Gosto. - -A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rapida, -não convinha fatigar a attenção do convalescente. Os dous sahiram sem -esconder que iam esperançados e satisfeitos. - -Na porta ja havia alguns visitantes á espera do bonde. Como não -estivesse o vehiculo no ponto, foram indo ao longo da fachada do -manicomio até lá. Em meio do caminho, encontraram, encostada ao -gradil, uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ella: - ---Que tem, minha velha? - -A pobre mulher deitou sobre elle um demorado olhar, humido e doce, cheio -de uma irremediavel tristeza, e respondeu: - ---Ah! meu sinhô!... É triste... Um filho, tão bom, coitado! - -E continuou a chorar. Coleoni começou a commover-se; a filha olhou-a -com interesse e perguntou no fim de um instante: - ---Morreu? - ---Antes fosse sinhasinha. - -E por entre lagrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais, -não lhe respondia ás perguntas; era como um extranho. Enxugou as -lagrimas e concluiu: - ---_Foi cousa feita._ - -Os dous afastaram-se tristes, levando n'alma um pouco daquella humilde -dôr. - -O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a -face do mar em pequenas ondas brancas. O Pão de Assucar erguia-se -negro, hirto, solemne, das ondas espumejantes, e como que punha uma -sombra no dia muito claro. - -No Instituto dos Cégos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada -do instrumento parecia sahir daquellas cousas todas, da sua tristeza e -da sua solemnidade. - -O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no largo da Carioca. -É bom ver-se a cidade nos dias de descanço, com as suas lojas -fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os passos resoam como em -claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto, faltam-lhes as -carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e -gente. Na porta de uma loja ou outra, os filhos do negociante brincam em -velocipedes, atiram bolas e ainda mais se sente a differença da cidade -do dia anterior. - -Não havia ainda o habito de procurar os arrabaldes pittorescos e só -encontravam, por vezes, casaes que iam apressadamente a visitas, como -elles agora. O largo de S. Francisco estava silencioso e a estatua, no -centro daquelle pequeno jardim que desappareceu, parecia um simples -enfeite. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos -passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse á casa de -Quaresma. Lá foram. A tarde se approximava e as _toilettes_ -domingueiras já appareciam nas janellas. Pretos com roupas claras e -grandes charutos ou cigarros; grupos de caixeiros com flores -estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas -anti-deluvianas ao lado de vestidos pesados de setim negro, envergados -em corpos fartos de matronas sedentarias; e o domingo apparecia assim -decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a -ostentação dos tolos. - -D. Adelaide não estava só. Ricardo viera visital-a e conversavam. -Quando o compadre de seu irmão bateu no portão, elle contava á velha -senhora o seu ultimo triumpho: - ---Não sei como ha de ser, D. Adelaide. Eu não guardo as minhas -musicas, não escrevo--é um inferno! - -O caso era de pôr um autor em maus lençóes. O Sr. Paysandon, de -Cordova (Republica Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade, -lhe tinha escripto, pedindo exemplares de suas musicas e canções. -Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escriptos, mas a musica -não. É verdade que as sabia de cór, porém, escrevel-as de uma hora -para outra era trabalho acima de sua força. - ---É o diabo! continuou elle. Não é por mim; a questão é que se -perde uma occasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro. - -A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A -sua educação que se fizera, vendo semelhante instrumento entregue a -escravos ou gente parecida, não podia admittir que elle preoccupasse a -attenção de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, supportava -a mania de Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima -pelo famoso trovador dos suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela -dedicação com que elle se houve no seu drama familiar. Os pequenos -serviços e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo -de Ricardo, que os desempenhara com boa vontade e diligencia. - -Actualmente era elle o encarregado de tratar da aposentadoria do seu -antigo discipulo. É um trabalho arduo, esse de liquidar uma -aposentadoria, como se diz na gyria burocratica. Aposentado o sujeito, -solemnemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e -funccionarios para ser ultimada. Nada ha mais grave do que a gravidade -com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o calculo; e a cousa -demora um mez, mais até, como se tratasse de mecanica celeste. - -Coleoni era o procurador do Major, mas não sendo entendido em cousas -officiaes, entregou ao Coração dos Outros aquella parte do seu -mandato. - -Graças á popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a -resistencia da machina burocratica e a liquidação estava annunciada -para breve. - -Foi isso que elle annunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da -filha. Pediram, tanto elle como D. Adelaide, noticias do amigo e do -irmão. - -A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise não o ficou -comprehendendo melhor; mas a sentira profundamente com o sentimento -simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura. - -Ricardo Coração dos Outros gostava do Major, encontrara nelle certo -apoio moral e intellectual de que precisava. Os outros gostavam de ouvir -o seu canto, apreciavam como simples dilletantes: mas o Major era o -unico que ia ao fundo da sua tentativa e comprehendia o alcance -patriotico do sua obra. - -De resto, elle agora soffria particularmente--soffria na sua gloria, -producto de um lenço e seguido trabalho de annos. É que apparecera um -creoulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era -citado ao lado do seu. - -Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser -preto; e segundo: por causa das suas theorias. - -Não é que elle tivesse ogeriza particular aos pretos. O que elle via -no facto de haver um preto famoso tocar violão, era que tal cousa ia -diminuir ainda mais o prestigio do instrumento. Se o seu rival tocasse -piano e por isso ficasse celebre, não havia mal algum; ao contrario: o -talento do rapaz levantava a sua pessoa, por intermedio do instrumento -considerado; mas, tocando violão, era o inverso: o preconceito que lhe -cercava a pessoa, desmoralisava o mysterioso violão que elle tanto -estimava. E além disso com aquellas theorias! Ora! querer que a modinha -diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice! - -E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim -diante delle como um obstaculo imprevisto na subida maravilhosa para a -sua gloria. Precisava afastal-o, esmagal-o, mostrar a sua superioridade -indiscutivel; mas como? - -A _reclame_ já não bastava; o rival a empregava tambem. Se elle -tivesse um homem notavel, um grande literato, que escrevesse um artigo -sobre elle e a sua obra, a victoria estava certa. Era difficil -encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão -absorvidos em cousas francezas... Pensou num jornal, «O Violão», em -que elle desafiasse o rival e o esmagasse numa polemica. - -Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma, -actualmente recolhido ao Hospicio, mas felizmente em via de cura. A sua -alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor. - ---Não pude ir hoje, disse elle, mas irei domingo. Está mais gordo? - ---Pouca cousa, disse a moça. - ---Conversou bem, accrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube -que Olga ia casar-se. - ---Vai casar-se, D. Olga? Parabens. - ---Obrigada, fez ella. - ---Quando é Olga? perguntou D. Adelaide. - ---Lá para o fim do anno... Tem tempo... - -E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações -sobre o casamento. - -E ella se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as -considerações, impudentes e irritantes; queria fugir á conversa, mas -voltavam ao mesmo assumpto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide, mais -loquaz e curiosa que commumente. Esse supplicio que se repetia em todas -as visitas, quasi a fazia arrepender-se de ter acceitado o pedido. Por -fim achou um subterfugio, perguntando: - ---Como vai o General? - ---Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Elle deve andar bem, -a Ismenia é que anda triste, desolada coitadinha! - -D. Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha -do General. Cavalcanti, aquelle Jacob de cinco annos, embarcara para o -interior, ha tres ou quatro mezes e não mandara nem uma carta nem um -cartão. A menina tinha aquillo como um rompimento; e ella, tão incapaz -de um sentimento mais profundo, de uma applicação mais seria de -energia mental e physica, sentia-o muito, como cousa irremediavel que -absorvia toda a sua attenção. - -Para Ismenia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado -de existir. Arranjar outro era problema insoluvel, era trabalho acima de -suas forças. Cousa difficil! Namorar, escrever cartinhas, fazer acenos, -dançar, ir a passeios--ella não podia mais com isso. Decididamente, -estava condemnada a não se casar, a ser tia, a supportar durante toda a -existencia esse estado de solteira que a apavorava. Quasi não se -lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz -duro e fortemente osseo; independente da memoria delle, vinha-lhe sempre -á consciencia, quando, de manhã, o estafeta não lhe entregava carta, -essa outra idéa: não casar. Era um castigo... A Quinota ia casar-se, o -Genelicio já estava tratando dos papeis; e ella que esperam tanto, e -fôra a primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada diante de -todas. Parecia até que ambos estavam contentes com aquella fuga -inexplicavel de Cavalcanti. Como elles se riam durante o Carnaval! Como -elles atiraram aos seus olhos aquella sua viuvez prematura, durante os -folguedos carnavalescos! Punham tanta furia no jogo de confetes e -bisnagas, de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos, aquella -marcha gloriosa e invejava para o casamento, em face do seu abandono. - -Ella disfarçava bem a impressão da alegria delles que lhe parecia -indecente e hostil; mas o escarneo da irmã que lhe dizia -constantemente: «Brinca, Ismenia! Elle está longe, vai -aproveitando»--metia-lhe raiva, a raiva terrivel de gente fraca, que -corróe interiormente, por não poder arrebentar de qualquer forma. - -Então, para espantar os máus pensamentos, ella se punha a olhar o -aspecto pueril da rua, marchetada de papeluchos multicores, e as -serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem á sua -natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquelle ruido de -atabaques, e adufes, de tambores e pratos. Mergulhando nessa barulheira, -o seu pensamento repousava e como que a idéa que a perseguia desde -tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça. - -De resto, aquelles vestuarios extravagantes de indios, aquelles adornos -de uma mythologia francamente selvagem, jacarés, cobras, jabotys, -vivos, bem vivos, traziam á pobreza de sua imaginação imagens -risonhas de rios claros, florestas immensas, logares de socego e pureza -que a reconfortavam. - -Tambem aquellas cantigas gritadas, berradas, num rytmo duro e de uma -grande indigencia melodica, vinham como reprimir a magua que ia nella, -abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão de gritos, mas -para o que não lhe sobrava força bastante e sufficiente. - -O noivo partira um mez antes do Carnaval e depois do grande festejo -carioca a sua tortura foi maior. Sem habito de leitura e de conversa, -sem actividade domestica qualquer, ella passava os dias deitada, -sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe -doce chorar. - -Nas horas da entrega da correspondencia, tinha ainda uma alegre -esperança. Talvez? Mas a carta não vinha, e, voltava ao seu -pensamento: não casar. - -D. Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismenia, commentou: - ---Merecia um castigo isso, não acham? - -Coleoni interveio com brandura e boa vontade. - ---Não ha razão para desesperar. Ha muita gente que tem preguiça de -escrever... - ---Qual! fez D. Adelaide. Ha tres mezes, sr. Vicente! - ---Não volta, disse Ricardo sentenciosamente. - ---E ella ainda o espera, D. ADelaide? perguntou Olga. - ---Não sei, minha filha. Ninguem entende essa moça. Fala pouco, se fala -diz meias-palavras... É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem -nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não fala. - ---É orgulho? perguntou ainda Olga. - ---Não, não... Se fosse orgulho, ella não se referia de vez em quando -ao noivo. É antes molleza, preguiça... Parece que ella tem medo de -falar para que as cousas não venham acontecer. - ---E os paes que dizem a isso? indagou Coleoni. - -Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incommodo do General não é -grande e D. Maricota julga que ella deve arranjar _outro_. - ---Era o melhor, disse Ricardo. - ---Eu creio que ella não tem mais pratica, disse sorrindo D. Adelaide. -Levou tanto tempo noiva... - -E a conversa já tinha virado para outros assumptos, quando a Ismenia -veiu fazer a sua visita diaria á irmã de Quaresma. - -Cumprimentou todos e todos sentiram que ella penava. O soffrimento -dava-lhe mais actividade á physionomia. - -As palpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham -mais brilho e expansão. Indagou da saude de Quaresma e depois -calaram-se um instante. Por fim D. Adelaide lhe perguntou: - ---Recebeste carta, Ismenia? - ---Ainda não, respondeu ella com grande economia de voz. - -Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num _dunkerque_, veiu -atirar ao chão uma figurinha de _biscuit_, que se esphacelou em -innumeros fragmentos, quasi sem ruido. - - - - -SEGUNDA PARTE - - - - -I - -NO «SOCEGO» - - -Não era feio o logar, mas não era bello. Tinha, entretanto, o aspecto -tranquillo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte. - -A casa erguia-se sobre um socalco, uma especie de degrau, formando a -subida para, a maior altura de uma pequena collina que lhe corria nos -fundos. Em frente, por entre os bambús da cerca, olhava uma planicie a -morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regalo de aguas paradas e -sujas cortava-a parallemente á testada da casa; mais adeante, o trem -passava vincando a planicie com a fita clara de sua linha capinada; um -carreiro, com casas, de um e do outro lado, sahia da esquerda e ia ter -á estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A -habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte, olhando para o -levante, a _noruega_, e era tambem risonha e graciosa nos seus muros -caiados. Edificada com a desoladora indigencia architectonica das nossas -casas de campo, possuia, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com -janella, e uma varanda com uma columnata heterodoxa. Além desta -principal, o sitio do «Socego», como se chamava, tinha outras -construcções: a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto -e a roda desmontada, e uma estrebaria coberta de sapê. - -Não havia tres mezes que viera habitar aquella casa, naquelle ermo -logar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro, após ter passado seis -mezes no Hospicio da praia das Saudades. Sahira curado? Quem sabe lá? -Parecia: não delirava e os seus gestos e propositos eram do homem -commum embora, sob tal apparencia, se pudesse sempre crer que não se -lhe despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que -cevara durante tantos annos. Foram mais seis mezes de repouzo e util -sequestração que mesmo de uso de uma therapeutica psychiatrica. - -Quaresma viveu lá, no manicomio, resignadamente, conversando com os -seus companheiros, onde via ricos que se diziam pobres, pobres que se -queriam ricos, sabios a mal dizer da sabedoria, ignorantes a se -proclamarem sabios; mas, delles todos, daquelle que mais se admirou, -foi de um velho e placido negociante da rua dos Pescadores que se -suppunha Attila. Eu, dizia o pacato velho, sou Attila, sabe? Sou Attila. -Tinha fracas noticias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou -Attila, matei muita gente--e era só. - -Sahiu o Major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as -cousas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais -depressora e pungente. - -Aquella continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo -imperceptivel, mas profundo e quasi sempre insondavel, que a inutiliza -inteiramente, faz pensar em alguma cousa mais forte que nós, que nos -guia, que nos impelle e em cujas mãos somos simples joguetes. Em varios -tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão -nisso no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco -desarrazoar, pensamos logo que já não é elle quem fala, é alguém, -alguém que vê por elle, interpreta as cousas por elle, está atraz -delle, invisivel!... - -Quaresma sahiu envolvido, penetrado da tristeza do manicomio. Voltou á -sua casa, mas a vista das suas cousas familiares não lhe tirou a forte -impressão de que vinha impregnado. Embora nunca tivesse sido alegre, a -sua physionomia apresentara mais desgosto que antes, muito abatimento -moral, e foi para levantar o animo que se recolheu áquella risonha casa -de roça, onde se dedicava a modestas culturas. - -Não fora elle, porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe -á idéa aquelle doce acabar para a sua vida. Vendo-o naquelle estado de -abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sahir, enclausurado em sua -casa de São Cristovam, Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e -filialmente: - ---O padrinho porque não compra um sitio? Seria tão bom fazer as suas -culturas, ter o seu pomar, a sua horta... não acha? - -Tão taciturno que elle estivesse, não pôde deixar de modificar -immediatamente a sua physionomia á lembrança da moça. Era um velho -desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna; e -foi lembrando dos seus antigos projectos que respondeu á afilhada: - ---É verdade, minha filha. Que magnifica idéa, tens tu! Ha por ahi -tantas terras ferteis sem emprego... A nossa terra tem os terrenos mais -ferteis do mundo... O milho póde dar até duas colheitas e quatrocentos -por um... - -A moça esteve quasi arrependida da sua lembrança. Pareceu-lhe que ia -atêar no espirito do padrinho manias já extinctas. - ---Em toda a parte--não acha, meu padrinho?--ha terras ferteis. - ---Mas como no Brasil, apressou-se elle em dizer, ha poucos paizes que as -tenham. Vou fazer o que tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o -feijão, a batata ingleza... Tu irás ver as minhas culturas, a minha -horta, o meu pomar--então é que te convencerás como são fecundas as -nossas terras! - -A idéa cahiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado -e só estirava uma bôa semente. Não lhe voltou a alegria que jamais -teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento moral, e veiu-lhe a -actividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos. Indagou -dos preços correntes das fructas, dos legumes, das batatas, dos aipins; -calculou que cincoenta laranjeiras, trinta abacateiras, oitenta -pecegueiros, outras arvores fruticferas, além dos abacaxis (que mina!) -das aboboras e outros productos menos importantes, podiam dar o -rendimento annual de mais de quatro contos, tirando as despezas. Seria -ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus calculos, baseados em tudo -no que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura -Nacional. Levou em linha de conta a producção média de cada pé de -fructeira, de hectare cultivado, e tambem os salarios, as perdia -inevitaveis; e, quanto aos preços, elle foi em pessoa no mercado -buscal-os. - -Planejou a sua vida agricola com a exactidão e meticulosidade que punha -em todos os seus projectos. Encarou-a por todas as faces, pezou as -vantagens e onus; e muito contente ficou em vel-a monetariamente -attrahente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso -mais uma demonstração das excellencias do Brasil. - -E foi obedecendo a essa ordem de idéas que comprou aquelle sitio, cujo -nome--«Socego»--cabia tão bem á nova vida que adoptara, após a -tempestade que o sacudira durante quasi um anno. Não ficava longe do -Rio e elle o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado, para melhor -demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho, no trabalho -agricola. Esperava grandes colheitas de fructas, de grãos, de legumes; -e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores, estando em breve a -grande capital cercada de um verdadeiro celleiro, virente e abundante a -dispensar os argentinos e europeus. - -Com que alegria elle foi para lá! Quasi não teve saudades de sua velha -casa de S. Januario, agora propriedade de outras mãos, talvez destinada -ao mercenario mister de lar de aluguel... Não sentiu que aquella vasta -sala, abrigo calmo dos seus livros durante tantos annos, fosse servir -para salão de baile futil, fosse testemunhar talvez rixas de casaes -desentendidos, odios de familia--ella tão boa, tão doce, tão -sympathica, com o seu tecto alto e as suas paredes lisas, em que se -tinham encrustado os desejos de sua alma e toda ella penetrada da -exhalação dos seus sonhos!... - -Elle foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro -contos de réis por anno, tirados da terra, facilmente, docemente, -alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser -empregado publico, apodrecer numa banca, soffrer na sua independencia e -no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem -ar, sem luz, respirar um ambiente epidemico, sustentar-se de maus -alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, -livre, alegre e saudavel? - -E era agora que elle chegava a essa conclusão, depois de ter soffrido a -miseria da cidade e o emasculamento da repartição publica, durante -tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto de que não pudesse antes -da morte travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade -das terras brasileiras. Então pensou que foram vãos aquelles seus -desejos de reformas capitaes nas instituições e costumes: o que era -principal á grandeza da patria estremecida, era uma forte base -agricola, um culto pelo seu solo uberrimo, para alicerçar fortemente -todos os outros destinos que ella tinha de preencher. - -Demais, com terras tão ferteis, climas variados, a permittir uma -agricultura facil e rendosa, este caminho estava naturalmente indicado. - -E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras, em flôr, -olentes, muito brancas, a se enfileirar pelas encostas das collinas, -como theorias de noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar -com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar -dos caules rijos; os abacaxis coroados que nem reis, recebendo a -uncção quente do sol; as abobreiras a se arrastarem com flores -carnudas cheias de pollen; as melancias de um verde tão fixo que -parecia pintado; os pecegos veludosos, as jacas monstruosas, os jambos, -as mangas capitosas; e dentre tudo aquillo surgia uma linda mulher, com -o regaço cheio de fructos e um dos hombros nu, a lhe sorrir agradecida, -com um imaterial sorriso demorado de deusa--era Pomona, a deusa dos -vergeis e dos jardins!... - -As primeiras semanas que passou no «Socego», Quaresma as empregou numa -exploração em regra da sua nova propriedade. Havia nella terra -bastante, velhas arvores fructiferas, um capoeirão grosso com camarás, -bacurubús, tinguacibas, tibibuyas, munjólos, e outros specimens. -Anastacio que o acompanhara, appelava para as suas recordações de -antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava os nomes dos individuos -da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras. - -O Major logo organizou um museu dos productos naturaes do «Socego». As -especies florestaes e campezinas foram etiquetadas com os seus nomes -vulgares, e quando era possivel com os scientificos. Os arbustos, em -herbario e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e -transversalmente. - -Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as sciencias naturaes e -o furor auto-didacta dera a Quaresma solidas noções de botanica, -zoologia, mineralogia e geologia. - -Não foram só os vegetaes que mereceram as honras de um inventario; os -animaes tambem, mas como elle não tinha espaço sufficiente e a -conservação dos exemplares exigia mais cuidado, Quaresma limitou-se a -fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas -de tatús, cotias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs, -avinhados, colleiros, tyês, etc. A parte mineral era pobre, argillas, -arêa e, aqui e ali, uns blocos de granito exfoliando-se. - -Acabado esse inventario, passou duas semanas a organizar a sua -bibliotheca agricola e uma relação de instrumentos metereologicos para -auxiliar os trabalhos da lavoura. - -Encommendou livros nacionaes, francezes, portuguezes; comprou -thermometros, barometros, pluviometros, hygrometros, anemometros. Vieram -estes e foram arrumados e collocados convenientemente. - -Anastacio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que -tanta cousa, tanto livro, tanto vidro? Estaria o seu amigo patrão dando -para pharmaceutico? A duvida do preto velho não durou muito. Estando -certa vez Quaresma a ler o pluviometro, Anastacio, ao lado, olhava-o -espantado, como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou -o espanto do criado, e disse: - ---Sabes o que estou fazendo, Anastacio? - ---Não _sinhô_. - ---Estou vendo se choveu muito. - ---Para que isso, patrão? A gente sabe logo _de olho_ quando chove muito -ou pouco... Isso de plantar é capim; pôr a semente na terra, deixar -crescer e apanhar... - -Elle falava com a sua voz molle de africano, sem _rr_ fortes, com -lentidão e convicção. - -Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consideração o -conselho de seu empregado. O capim e o matto cobriam as suas terras. As -larangeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos, cheios de -galhos mortos, e cobertos de uma medusina cabelleira de herva de -passarinho; mas, como não fosse época propria á póda e ao corte dos -galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras. -De manhã, logo ao amanhecer, elle mais o Anastacio, lá iam, de enxada -ao hombro, para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão, -estava no auge, mas Quaresma era inflexível e corajoso. Lá ia. - -Era de vel-o, coberto com um chapéo de palha de côco, atracado a um -grande enxadão de cabo nodoso, elle, muito pequeno, myope, a dar golpes -sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. A sua enxada mais -parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento agricola. -Anastacio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto -andar naquelle sól a capinar sem saber?... Ha cada cousa neste mundo! - -E os dous iam continuando. O velho preto, ligeiro, rapido, raspando o -matto rasteiro, com a mão habituada, a cujo impulso a enxada resvalava -sem obstaculo pelo solo, destruindo a herva má; Quaresma, furioso, a -arrancar torrões de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada -arbusto; e, ás vezes, quando o golpe falhava e a lamina do instrumento -roçava a terra, a força era tanta que se erguia uma poeira infernal, -fazendo suppor que por aquellas paragens passara um pelotão de -cavallaria. Anastacio, então, intervinha humildemente, mas em tom -professoral: - ---Não é assim, _seu majó_. Não se mette a enxada pela terra a -dentro. É de leve, assim. - -E ensinava ao Cincinato inexperiente o geito de servir-se do velho -instrumento de trabalho. - -Quaresma agarrava-o, punha-se em posição e procurava com toda a boa -vontade usal-o da maneira ensinada. Era em vão. O _flange_ batia na -herva, a enxada saltava e ouvia-se um passaro ao alto soltar uma piada -ironica: Bemtevi! O Major enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se, -suava, enchia-se de raiva e batia com toda a força; e houve varias -vezes que a enxada, batendo em falso, escapando do chão, fel-o perder o -equilibrio, cahir, e beijar a terra, mãe dos fructos e dos homens. O -pince-nez saltava, partia-se de encontro a um seixo. - -O Major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia á -tarefa que se impuzera; mas, tanto é em nossos musclos firme a memoria -ancestral desse sagrado trabalho de tirar da terra o sustento de nossa -vida, que não foi impossivel a Quaresma acordar nos seus o geito, a -maneira de empregar a enxada vetusta. - -Ao fim de um mez, elle capinava razoavelmente, não seguido, de sol a -sol, mas com grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta de -habito requeriam. - -Ás vezes, o fiel Anastacio seguia-o no descanço e ambos, lado a lado, -á sombra de uma fructeira mais copada, ficavam a ver o ar pesado -daquelles dias de verão que enrodilhava as folhas das arvores e punha -nas cousas um forte accento de resignação morbida. Então, ahi por -depois do meio dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar -em silencio a vida inteira, é que o velho Major percebia bem a alma -dos tropicos, feita de desencontros como aquelle que se via agora, de um -sol alto, claro, olympico a brilhar sobre um torpor de morte, que elle -mesmo provocava. - -Almoçavam mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente -sobre um improvisado fogão de calháos, e o trabalho ia assim ate á -hora do jantar. Havia em Quaresma um enthusiasmo sincero, enthusiasmo de -ideologo que quer pôr em pratica a sua idéa. Não se agastou com as -primeiras ingratidões da terra, aquelle seu morbido amor pelas hervas -damninhas e o incomprehensivel odio pela enxada fecundante. Capinava, e -capinava sempre até vir jantar. - -Esta refeição elle fazia mais demorada. Conversava um pouco com a -irmã, contava-lhe a tarefa do dia, consistindo sempre em avaliar a area -já limpa. - ---Sabes, Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas, não ficará -nem mais uma touceira de matto. - -A irmã, mais velha que elle, não partilhava aquelle seu enthusiasmo -pelas cousas da roça. Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com -elle, não foi senão pelo habito de acompanhal-o. De certo, ella o -estimava, mas não o comprehendia. Não chegava a entender nem os seus -gestos nem a sua agitação interna. Porque não seguira elle o caminho -dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito... -Andar com livros, annos e annos, para não ser nada, que doideira! -Scguira-o ao «Socego» e, para entreter-se, criava gallinhas, com -grande alegria do irmão cultivador. - ---Está direito, dizia ella, quando o irmão lhe contava as cousas do -seu trabalho. Não vá ficares doente... Neste sol todo o dia... - ---Qual, doente, Adelaide! Não estas vendo como essa gente tem tanta -saude por ahi... Se adoecem, é porque não trabalham. - -Acabado o jantar. Quaresma chegava á janella que dava para o -gallinheiro e atirava migalhas de pão ás aves. - -Elle gostava desse espectaculo, daquella luta encarniçada entre patos, -ganços, gallinhas, pequenos e grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da -vida e dos premios que ella comporta. Depois, fazia indagações sobre -a vida do gallinheiro: - ---Já, nasceram os patos, Adelaide? - ---Ainda não. Faltam oito dias ainda. - -E logo a irmã accrescentava: - ---Tua afilhada deve casar-se sabbado, tu não vaes? - ---Não. Não posso... Vou encommodar-me, luxo... Mando um leitão e um -perú. - ---Ora, tu! Que presente! - ---Que é que tem? É da tradição. - -Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala -de jantar da velha casa roceira, quando Anastacio veiu avisar-lhes que -se achava um cavalheiro na porteira. - -Desde que ali se installara, nenhuma visita batera á porta de Quaresma, -a não ser a gente pobre do logar, a pedir isso ou aquillo, esmolando -disfarçadamente. Elle mesmo não travara conhecimento com ninguem, de -modo que foi com surpreza que recebeu o aviso do velho preto. - -Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Elle já subia -a pequena escada da frente e penetrava pela varanda a dentro. - ---Boas tardes, Major. - ---Boas tardes. Faça o favor de entrar. - -O desconhecido entrou e sentou-se. Era um typo commum, mas o que havia -nelle de extranho, era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas -tinha um aspecto deshonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a -mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim -como a de um lagarto que enthezoura enxundia para o inverno ingrato. -Atravez da gordura de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua -magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era naquella idade, -com pouco mais de trinta annos, sem dar tempo que todo elle engordasse; -porque, se as suas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras -com longos dedos fusiformes e ageis. O visitante falou: - ---Eu sou o Tenente Antonino Dutra escrivão da collectoria. - ---Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma. - ---Nenhuma, Major. Já sabemos quem o senhor é; não ha novidade nem -nenhuma exigencia legal. - -O escrivão tossiu, tirou um cigarro, offereceu outro a Quaresma e -continuou: - ---Sabendo que o Major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir -incommodal-o... Não é cousa de importancia... Creio que o Major... - ---Oh! Por Deus, Tenente! - ---Venho pedir-lhe um pequeno auxilio, um obulo, para a festa da -Conceição, a nossa padroeira, de cuja irmandade sou thesoureiro. - ---Perfeitamente. É muito justo. Apezar de não ser religioso, estou... - ---Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do logar que devemos -manter. - ---É justo. - ---O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a -irmandade tambem, de forma que somos obrigados a appellar para a boa -vontade dos moradores mais remediados. Desde já, portanto, Major... - ---Não. Espere um pouco... - ---Oh! Major, não se incommode. Não é p'ra já. - -Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fóra e -accrescentou: - ---Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, Major? - ---Muito bem. - ---Pretende dedicar-se á agricultura? - ---Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça. - ---Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sitio já foi uma -lindeza, Major! Quanta fructa! Quanta farinha! As terras estão -cançadas e... - ---Que cançadas, seu Antonino! Não ha terras cançadas.... A Europa é -cultivada ha milhares de annos, entretanto... - ---Mas lá se trabalha. - ---Porque não se ha de trabalhar aqui tambem? - ---Lá isso é verdade; mas ha tantas contrariedades na nossa terra -que... - ---Qual, meu caro Tenente! Não ha nada que não se vença. - ---O Sr. verá com o tempo, Major. Na nossa terra não se vive senão de -politica, fóra disso, ba-báo! Agora mesmo anda tudo brigado por causa -da questão da eleição de deputados... - -Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas palpebras gordas -um olhar pesquizador sobre a ingenua physionomia de Quaresma. - ---Que questão é? indagou Quaresma. - -O Tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria: - ---Então não sabe? - ---Não. - ---Eu lhe explico: o candidato do Governo é o Dr. Castrioto, moço -honesto, bom orador; mas entenderam aqui certos presidentes de Camaras -Municipaes do Districto que se hão de sobrepor ao Governo, só porque -o Senador Guaryba rompeu com o Governador: e--zás--apresentaram um tal -Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influencia... Que -pensa o Senhor? - ---Eu... Nada! - -O serventuario do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que, -sabendo e morando no Municipio de Curuzú, não se incommodasse com a -briga ao Senador Guaryba com o Governador do Estado! Não era possivel! -Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse elle consigo, este -malandro quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem -difficuldade. Estava tirando sardinha com mão de gato... Aquillo devia -ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as azas daquelle -_estrangeiro_, que vinha não se sabe donde! - ---O Major é um philosopho, disse elle com malicia. - ---Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma. - -Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão, -mas, desanimado de penetrar nas tenções occultas do Major, apagou a -physionomia e disse em ar de despedida: - ---Então o Major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é? - ---De certo. - -Os dous se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vel-o -montar no seu pequeno castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O -escrivão afastou-se, desappareceu na estrada, e o Major ficou a pensar -no interesse extranho que essa gente punha nas lutas politicas, nessas -tricas eleitoraes, como se nellas houvesse qualquer cousa de vital e -importante. Não atinara porque uma resinga entre dous figurões -importantes vinha pôr desharmonia entre tanta gente, cuja vida estava -tão fóra da esphera daquelles. Não estava ali a terra boa para -cultivar e criar: Não exigia ella uma ardua luta diaria? Porque não se -empregava o esforço que se punha naquelles barulhos de votos, de actas, -no trabalho de fecundal-a, de tirar della seres, vidas--trabalho igual -ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e -guarybas, quando a nossa vida pede tudo à terra e ella quer carinho, -luta, trabalho e amor... - -O suffrageo universal pareceu-lhe um flagello. - -O trem apitou e elle demorou-se a vel-o chegar. É uma emoção especial -de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos -põem em communicação com o resto do mundo. Ha uma mescla de medo e -de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se tambem -más. A alternativa angustia... - -O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mysterio, e traz, -além de noticias geraes, bôas ou más tambem o gosto, um sorriso, a -voz das pessoas que amamos e estão longe. - -Quaresma esperou o trem. Elle chegou arfando e se extirando como um -reptil pela estação afóra á luz forte do sol no poente. Não se -demorou muito. Apitou de novo e sahiu a levar noticias, amigos, -riquezas, tristezas por outras estações além. O Major pensou ainda um -pouco como aquillo era bruto e feio, e como as invenções do nosso -tempo se afastam tanto da linha imaginaria da belleza que os nossos -educadores de dous mil annos atrás nos legaram. Olhou a estrada que -levava á estação. Vinha um sujeito... Dirigia-se para a sua casa... -Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que -caminhava com pressa... Quem era? Aquelle chapéo dobrado, como um -morrião... Aquelle fraque comprido... Passo miudo... Um violão! Era -elle! - ---Adelaide está ahi o Ricardo. - - - - -II - -ESPINHOS E FLORES - - -Os suburbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em materia de -edificação de cidade. A topographia do local, caprichosamente -montuosa, influiu de certo para tal aspecto, mais influiram, porém, os -azares das construcções. - -Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser -imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, -conforme as casas, as ruas se fizeram. Ha algumas dellas que começam -largas como «boulevards» e acabam estreitas que nem viellas; dão -voltas, circuitos inuteis e parecem fugir ao alinhamento recto com um -odio tenaz e sagrado. - -Ás vezes se succedem na mesma direcção com uma frequencia irritante, -outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervallo coheso e -fechado de casas. Num trecho, ha casas amontoadas umas sobre outras numa -angustia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao -nosso olhar uma ampla perspectiva. - -Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. -Ha casas de todos os gostos e construidas de todas as formas. - -Vai-se por uma rua a ver um correr de «chalets», de porta e janella, -parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma -casa burgueza, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer -sobre um porão alto com mezzaninos gradeados. Passada essa surpreza, -olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau a pique, coberta de -zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, -é uma velha casa de roça, com varanda e columnas de estylo pouco -classificavel, que parece vexada e querer occultar-se, diante daquella -onda de edificios disparatados e novos. - -Não ha nos nossos suburbios cousa alguma que nos lembre os famosos das -grandes cidades européas, com as suas villas de ar repousado e -satisfeito, as suas estradas e ruas macadamisadas e cuidadas, nem mesmo -se encontram aquelles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, -porque os nossos, se os ha, são em geral pobres, feios e desleixados. - -Os cuidados municipaes tambem são variaveis e caprichosos. Ás vezes, -nas ruas, ha passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de -communicação são calçadas e outras da mesma importancia estão ainda -em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre -um rio secco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma -pinguella de trilhos mal juntos. - -Ha pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo -que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; ha operarios de -tamancos; ha peralvilhos á ultima moda: ha mulheres de chita; e assim -pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla -se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quasi sempre o mais bem posto -não é que entra na melhor casa. - -Alem disto, os suburbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no -namoro epidemico e no espiritismo endemico; as casas de commodos (quem -as supporia lá!) constituem um delles bem inedito. Casas que mal dariam -para uma pequena familia, são divididas, subdivididas, e os minusculos -aposentos assim obtidos, alugados á população miseravel da cidade. -Ahi, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos -observada da nossa vida, sobre a qual a miseria paira com um rigor -londrino. - -Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da -gente que habita taes caixinhas. Além dos serventes de repartições, -continuos de escriptorios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas -de bilros, compradores de garrafas vasias, castradores de gatos, cães e -gallos, mandingueiros, catadores de hervas medicinaes, emfim, uma -variedade de profissões miseraveis que as nossas pequena e grande -burguezias não podem adivinhar. Ás vezes num cubiculo desses se -amontoa uma familia, e ha occasiões que os seus chefes vão a pé para -a cidade por falta da nickel do trem. - -Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de commodos de um -dos suburbios. Não era das sordidas, mas era uma casa de commodos dos -suburbios. - -Desde annos que elle a habitava e gostava da casa que ficava trepada -sobre uma collina, olhando a janella do seu quarto para uma ampla -extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. Vistos assim do -alto, os suburbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de -azul, de branco, de óca, engastadas nas comas verde-negras das -mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira, -alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho -das ruas põe no panorama um sabor do confusão democratica, de -solidariedade perfeita entre as gentes que as habitam; e o trem -minusculo, rapido, atravessa tudo aquillo, dobrando d esquerda, -inclinando-se para a direita, muito flexivel nas suas grandes vertebras -de carros, como uma cobra entre pedrouços. - -Era daquella janella que Ricardo, espraiava as suas alegrias, as suas -satisfações, os seus triumphos e tambem os seus soffrimentos e maguas. - -Ainda agora estava elle lá, debruçado no peitoril, com a mão em -concha no queixo, colhendo com a vista uma grande parte daquella bella, -grande e original cidade, capital de um grande paiz de que elle a modos -que era e se sentia ser, a alma, consubstanciando os seus tenues sonhos -e desejos em versos discutiveis, mas que a plangencia do violão, se -não lhes dava sentido, dava um que de balbucio, de queixume dorido da -patria criança ainda, ainda na sua formação... - -Em que pensava elle? Não pensava só, soffria tambem. Aquelle tal preto -continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma cousa, e -tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival delle, Ricardo; outros -já affirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros, e -alguns mais--ingratos!--já esqueciam os trabalhos, o tenaz trabalhar de -Ricardo Coração dos Outros em pról do levantamento da modinha e do -violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro. - -Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infancia, daquella sua -aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido -dos vitellos. E o queijo? Aquelle queijo tão substancial, tão forte, -feio como aquella terra, mas feraz como ella tanto que bastava comer -delle uma pequena fatia para se sentir almoçado... E as festas? -Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o Maneco Borges, -não lhe predissera o futuro: «Irás longe, Ricardo. A viola quer teu -coração». - -Por que então aquelle encarniçamento, aquelle odio contra elle--elle -que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma, o suco, a -substancia do paiz! - -E as lagrimas lhe saltaram quentes dos olhos afóra. Olhou um pouco as -montanhas, farejou o mar lá longe... Era bella a terra, era linda, era -magestosa, mas parecia ingrata e aspera no seu granito omnipresente que -se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das arvores. - -E elle estava ali só, só com a sua gloria e o seu tormento, sem amor, -sem confidente, sem amigo, só como um deus ou como um apostolo em terra -ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova. - -Soffria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse aquellas -lagrimas que iam cahir no solo indifferente. Por ahi, lembrou-se dos -famosos versos: _Se choro... bebe o pranto a areia ardente_... - -Com a lembrança, elle baixou um pouco o olhar á terra e viu que no -tanque da casa, um tanto escondida delle, uma rapariga preta lavava. -Ella abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso, -ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro á pedra, e recomeçava. Teve -pena daquella pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua -côr. Veiu-lhe um afflux de ternura e, depois, poz-se a pensar no mundo, -nas desgraças, ficando um instante enleiado no enigma do nosso -miseravel destino humano. - -A rapariga não o viu, distrahida com o trabalho; e se pôz a cantar: - - - _Da doçura dos teus olhos - A brisa inveja já vem_ - - -Era delle. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquella -pobre mulher, abraçal-a... - -E como eram as cousas? Elle recebia lenitivo daquella rapariga; era a -sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe -então á memoria aquelles versos do padre Caldas, esse seu antecessor -feliz que teve um auditorio de fidalgas: - - - _Lereno alegrou os outros - E nunca teve alegria_... - - -Enfim era uma missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se -pôde conter: - ---Vai bem, D. Alice, vai bem! Se não fosse porque eu lhe pedia _bis_. - -A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse: - ---Não sabia que o senhor estava ahi, senão não cantava na vista do -senhor. - ---Qual o que! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante. - ---Deus me livre! Para o senhor me _criticar_... - -Embora insistisse muito, a rapariga não quiz continuar. As maguas -pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Veiu ao interior do -quarto e pôz-se á meza na tenção de escrever. - -O seu quarto tinha o mobiliario mais reduzido possivel. Havia uma rede -com franjas de rendas, uma mesa de pinho, sobre ella objectos de -escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a uma parede -o violão na sua armadura de camurça. Havia tambem uma machina para -fazer café. - -Sentou-se e quiz começar uma modinha sobre a Gloria, essa cousa fugace, -que se tem e se pensa que não se tem, alguma cousa impalpavel, -incolhivel como um sopro, que nos alancêa, queima, inquieta e abraza -como o Amor. - -Tentou começar, dispoz o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido -forte, toda a sua natureza tinha sido lavrada, baralhada, com a idéa -daquelle furto que se queria fazer ao seu merito. Não conseguiu -assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a musica zumbir -no ouvido. - -A manhã ia alta. As ciganas defronte chilreavam no tamarineiro -desfolhado; começava a esquentar e o céo estava de um azul ligeiro, -tenue, fino. Quiz sahir, procurar um amigo, espairecer com elle, mas -quem? Ainda, se o Quaresma... Ah! O Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe -conforto e consolo. - -É verdade que ultimamente esse seu amigo achava-se pouco interessado -pela modinha; mas assim mesmo comprehendia o seu proposito, os fins e o -alcance da obra a que elle, Ricardo, se propunha. Ainda se o Major -estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava -a dous mil réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria. -Bateram á porta. Traziam-lhe uma carta. Não reconheceu a letra; rasgou -o envelope com emoção. Que seria? Leu: - -«Meu caro Ricardo--Saude--Minha filha Quinota casa-se depois de -amanhã, quinta-feira. Ella e o noivo fazem muito gosto que V. -appareça. Se o amigo não estiver compromettido com alguem, agarre o -violão e venha até cá tomar uma chavena de chá comnosco--Seu amigo -Albernaz». - -O trovador, á proporção que lia, ia mudando de physionomia. Até -então estava carregada e dura: quando acabou de ler o bilhete, um -sorriso brincava por toda ella, descia e subia, ia de uma face a outra. -O General não o abandonara; para o respeitavel milhar, Ricardo -Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Iria e arranjaria -passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco o -violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um -idolo bemfazejo. - -Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o ultimo brinde -havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em -pequenos grupos. D. Maricota vestia seda malva e o seu busto curto -parecia ainda mais abafado, mais socado, naquelle tecido caro que parece -requerer corpos elegantes e flexiveis. Quinota estava radiante no -vestido de noiva. Ella era alta, de feições mais regulares que a irmã -Ismenia, mas menos interessante e mais commum de temperamento e alma, -embora faceira. Lalá a terceira filha do General, que já se ageitava a -moça, tinha muito pó de arroz, estava sempre a concertar o penteado e -a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado. -Genelicio dava o braço á noiva, encasacado numa casaca mal talhada, -que punha bem á mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado -nos apertados sapatos de verniz. - -Ricardo não os viu passar, pois ao entrar, a fila estava no General, -mettido num segundo uniforme dos grandes dias, que lhe ia mal como a -farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem tinha um ar -importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o -Contra-Almirante Caldas. Fôra padrinho e estava irreprehensivel na sua -casaca do uniforme. As ancoras reluziam como metaes de bordo em hora de -revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e -pareciam desejar com ardôr os grandes ventos do vasto oceano sem fim. -Ismenia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente, com o -seu vagar, com os seus gestos lentos, dando providencias. O Lulú, o -unico filho do General, impava no seu uniforme do Collegio Militar, -cheio de dourados e cabellos, tanto mais que passara de anno, graças -aos empenhos do pai. - -O General não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o -trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse -um--_sou muito feliz_...--deitando a cabeça de lado e sorrindo para o -chão, sorriso que encheu de immenso transporte a candida alma do -menestrel. - -Deram começo as dansas e o General, o Almirante, o Major Innocencio -Bustamante, que tambem viera de uniforme, com a sua banda roxa de -honorario, o Dr. Florencio, Ricardo e dous convidados outros foram para -a sala de jantar palestrar um pouco. - -O General estava satisfeito. Sonhava ha tantos annos uma cerimonia -daquellas em sua casa e emfim pela primeira vez via realizado esse -anceio. - -A Ismenia foi aquella desgraça... O ingrato?... Mas para que recordar? - -Os cumprimentos se repetiram. - ---É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos. - -O General tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e -emquanto o limpava, respondeu, olhando com aquelle geito dos myopes: - ---Estou muito contente. - -Por ahi pôz o pince-nez, endireitou o truncelim e continuou: - -Creio que casei bem minha filha: rapaz formado bem encaminhando e -intelligente. - -O Almirante acudiu: - ---E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dous -annos escripturario do Thezouro, é cousa nunca vista. - ---O Genelicio não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou -Florencio. - ---Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado novo, que era -da amizade do recem-casado. - -De facto, Genelicio tinha arranjado a transferencia e não fôra só -isso que o decidira a casar-se. Tendo escripto uma--«Synthese de -Contabilidade Publica Scientifica»--viu-se, sem saber como, cumulado de -elogios pela _imprensa desta capital_. O Ministro, attendendo ao merito -excepcional da obra, mandou-lhe dar dous contos de premio, tendo sido a -edição feita á custa do Estado, na Imprensa Nacional. Era um grosso -volume de 400 paginas, typo dôze, escripto em estylo de officio, com -uma basta documentação de decretos, e portarias, occupando dous -terços do livro. - -A primeira phrase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente -synthetico e scientifico, fôra até muito notada e gabada pelos -criticos, não só pela novidade da idéa, conto tambem pela belleza da -expressão. - -Dizia assim: «A Contabilidade Publica é a arte ou sciencia de -escripturar convenientemente a despeza e receita do Estado». - -Além do premio e da transferencia, elle já tinha promessa de ser -sub-director na primeira vaga. - -Ouvindo tudo isso que tinham dito o Almirante, o General e os convidados -novos, o Major não pôde deixar de observar: - ---Depois da militar, a melhor carreira é a de Fazenda, não acham? - ---Sim... Bem entendido, fez o Dr. Florencio. - ---Eu não quero falar dos formados, apressou-se o Major. Esses... - -Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando -a primeira phrase que lhe veiu aos labios: - ---Quando se prospera, todas as profissões são boas. - ---Não é assim tanto, obtemperou o Almirante, alisando um dos -favoritos. Não é para desfazer nas outras, mas a nossa, hein Albernaz? -hein Innocencio? - -Albernaz levantou a cabeça como se quizesse apanhar no ar uma -lembrança e depois replicou: - ---É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo -daqui, tiro dali, morre um, grita outro como em Curupaity, então... - ---O Sr. esteve lá, General? perguntou o convidado amigo de Genelicio. - ---Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não -imaginam o que foi--Você sabe, não é Innocencio? - ---Se estive lá... - ---Polydoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores a esquerda e _nós_ -cahimos sobre os Paraguayos. Mas os malandros estavam bem -entrincheirados, tinham aproveitado o tempo... - ---Foi _seu_ Mitre, disse Innocencio. - ---Foi. Atacamos com furia. Era um ribombar de canhões que mettia medo, -bala por todo o canto, os homens morriam como moscas... Um inferno! - ---Quem venceu? perguntou um dos convidados novos. - -Todos se entreolharam admirados, excepto o General que julgava a -sabedoria do Paraguay excepcional. - ---Foram os paraguayos, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso -que eu digo que a nossa profissão é bella, mas tem as suas _cousas_... - ---Isso não quer dizer nada. Tambem na passagem de Humaytá... ia -dizendo o Almirante. - ---O senhor estava a bordo? - ---Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse -designado, porque o embarque equivalia a uma promoção... Mas, na -passagem de Humaytá... - -Na sala de visitas as dansas continuavam com animação. Era raro que -alguém viesse lá de dentro até onde elles estavam. Os risos, a -musica, e o mais que se adivinhava não distrahiam aquelles homens das -suas preoccupações bellicosas. - -O General, o Almirante e o Major enchiam de pasmo aquelles burguezes -pacificos, contando batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas -que não pelejaram. - -Não ha como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos -generosos, para apreciar as narrações de guerra. Elle só vê a parte -pittoresca, a parte por assim dizer espiritual das batalhas, dos -encontros; os tiros são os de salva e se matam é cousa de sómenos. A -Morte mesmo, nas narrações feitas assim, perde a sua importancia -tragica: 3.000 mortos, só!!! - -De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a -guerra, a cousa ficava edulcorada, uma guerra «bibliothèque rose», -guerra de estampa popular, em que não apparecem a carniçaria, a -brutalidade e a ferocidade normaes. - -Estavam Ricardo, o Dr. Florencio, o exacto empregado como engenheiro das -Aguas, aquelles dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, -boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginarias daquelles tres -militares, um honorario, talvez o menos pacifico dos tres, o unico que -tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira--quando D. Maricota -chegou, sempre diligente, activa, dando movimento e vida á festa. Era -mais moça que o marido, tinha ainda inteiramente pretos os cabellos na -sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo enorme. Ella -vinha offegante e dirigiu-se ao marido: - ---Então, Chico, que é isso? Ficam ahi e eu que faça sala, que anime -as moças... P'ra sala todos! - ---Já vamos D. Maricota, disse alguém. - ---Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, seu Caldas, seu -Ricardo, os senhores! - -E foi empurrando um a um pelo hombro. - ---Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o -senhor... Está ouvindo, _seu_ Ricardo! - ---Pois não, minha senhora. É uma ordem... - -E foram. No caminho o General parou um pouco, chegou-se a Coração dos -Outros e perguntou: - ---Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma? - ---Vai bem. - ---Tem-lhe escripto? - ---Ás vezes. Eu queria, General... - -O General suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que -começava a cahir, e perguntou: - ---O que? - -Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a -pergunta. Depois de uma ligeira, hesitação, respondeu de um jacto, com -medo de perder a s palavras: - ---Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir -vel-o. - -O General esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabello e -disse: - ---Isso é difficil, mas você appareça lá, na repartição, amanhã. - -E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros accrescentou: - ---Estou com saudades delle, depois tenho certos desgostos... O senhor -sabe: um homem que tem nome... - ---Vá lá amanhã. - -D. Maricota appareceu na frente e falou agastada: - ---Vocês não vêm! - ---Já vamos, fez o General. - -E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou: - ---Aquelle Quaresma podia estar bem, mas foi metter-se com livros... É -isto! Eu, ha bem quarenta annos, que não pego em livro... - -Chegaram á sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas -molduras douradas, furiosos retratos a oleo de Albernaz e da mulher; um -espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava completa. Da -mobilia não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço -aos dansantes. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a -festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e -muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janella, Ricardo pôde ver -a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; -só de lá os curiosos, os _serenos_, podiam ver alguma cousa da festa. -Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O General -contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador... - -A moça, a famosa filha do Lemos, dispoz-se a cantar. Foi ao piano, -collocou a partitura e começou. Era uma romanza italiana que ella -cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem educada. Acabou. -Palmas geraes, mas frias, soaram. - -O Dr. Florencio que ficara atraz do General, commentou: - ---Tem uma bella voz esta moça. Quem é? - ---É a filha do Lemos, do Dr. Lemos da Hygiene, respondeu o General. - ---Canta muito bem. - ---Está no ultimo anno do Conservatorio, observou ainda Albernaz. - -Chegou a vez de Ricardo. Elle occupou um canto da sala, agarrou o -violão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar tragico de -quem vai representar o Oedipo-Rei e falou com voz grossa: «Senhoritas, -senhores e senhoras». Parou. Concertou a voz e continuou: «Vou cantar -«Os teus braços», modinha de minha composição, musica e versos. É -uma composição terna, decente e de uma poesia exaltada». Seus olhos, -por ahi, quasi lhe sabiam das orbitas. Emendou: «Espero que nenhum -ruido se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão -instrumento muito... mui...to _dê li ca do_. Bem». - -A attenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebuado, macio -e longo, como um soluço de onda; depois, houve uma parte rapida, -saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro, -a modinha acabou. - -Aquillo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e -aos desejos dos homens. As palmas foram ininterruptas. O General -abraçou-o, Genelicio levantou-se e deu-lhe a mão, Quinota, no seu -immaculado vestido de noiva, tambem. - -Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu á sala de jantar. No -corredor chamaram-n'o: Sr. Ricardo, Sr. Ricardo! Voltou-se. Que ordena -minha senhora? Era uma moca que lhe pedia uma copia da modinha. - ---Não se esqueça, dizia ella com meiguice, não se esqueça. Gosto -tanto das suas modinhas... São tão ternas tão delicadas... Olhe: dê -aqui a Ismenia para me entregar. - -A noiva de Cavalcanti approximava-se e, ouvindo falar em seu nome, -perguntou: - ---Que é, Dulce? - -A outra explicou-lhe. Ella aceitou a incumbencia: e, por sua vez, -perguntou a Ricardo com a sua voz dolente: - ---_Seu_ Ricardo, quando é que o Sr. pretende estar com D. Adelaide. - ---Depois de amanhã, espero eu. - ---Vai lá. - ---Vou. - ---Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma -carta... - -E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado. - - - - -III - -GOLIAS - - -No sabbado da semana seguinte áquella em que a filha do General -recebera como marido o grave e giboso Genelicio, gloria e orgulho do -nosso funccionalismo publico, Olga casara-se. A cerimonia correra com a -pompa e a riqueza acostumadas em pessoas de sua camada. Houve uns -arremedos parisienses de _corbeille_ de noiva e outros pequenos detalhes -chics, que não a aborreceram, mas que não a encheram lá de -satisfação maior que as noivas communs. Talvez nem mesmo essa ella -tivesse. - -Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua -vontade. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquelle -acto, mas, apparentemente, nenhuma vontade extranha á sua influira para -isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva, -mas com a volta que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo medico, -cheio de talento nas notas e recompensas escolares, via diante de si uma -larga estrada de triumphos nas posições e na industria clinica. Não -tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal titulo um fóral de -nobreza, equivalente áquelles com que os authenticos fidalgos da Europa -brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros _yankees_. Apezar de -ser seu pai um importante fazendeiro por ahi, em algum logar deste -Brasil, o sogro lhe dera tudo e tudo elle aceitara sem pejo, com o -desprezo de um duque, duque de plenamentes e medalhas, a receber -homenagens de um villão que não _roçou os bancos de uma Academia_. - -Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso titulo, o -pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo titulo, mas pela sua -simulação de intelligencia, de amor á sciencia, de desmedidos sonhos -de sabio. Tal imagem que delle fizera, durara instantes em Olga; depois -foi a inercia da sociedade, a sua tyrannia e a timidez natural da moça -em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ella, de si para -si, pensava que se não fosse este, seria outro a elle igual, e o melhor -era não adiar. - -Era por isso que ella não ia para a igreja, em virtude de uma -determinação certa de sua vontade, embora sem perceber o -constrangimento de um commando fora della. - -Apezar da pompa, esteve longe de ser uma noiva magestosa. Não obstante -as origens puramente européas, era pequena, muito mesmo, ao lado do -noivo, alto, erecto, com uma physionomia irradiante de felicidade; e, -desse modo, ella desapparecia dentro do vestido, dos véos e daquelles -atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar, De -resto, a tua belleza não era a grande belleza--aquella que nós -exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas classicas. - -No seu rosto, nada de grego, desse grego authentico on de pacotilha, ou -tambem dessa magestade de opera lyrica. Havia nos seus traços muita -irregularidade, mas a sua physionomia era profunda e propria. Não só a -luz dos seus grandes olhos negros, que quasi cobriam toda a cavidade -orbitaria, fazia fulgurar o seu rosto mobil, como a sua pequena boca, de -um desenho fino, exprimia bondade, malicia e o seu ar geral era de -reflexão e curiosidade. - -Ao contrario do costume, não sahiram da cidade e foram morar em casa do -antigo empreiteiro. - -Quaresma não fora á festa, mandara o leitão e o perú da tradição e -escrevera uma longa carta. O sitio empolgara-o, o calor ia passar, vinha -a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-se de suas -terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous, -era como se começasse a desertar da batalha. - -O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da -horta. A visita de Ricardo veiu distrail-o um pouco, sem desvial-o -comtudo, de seus afazeres agricolas. - -Passou um mez com o Major, e foi um triumpho. A fama do seu nome -precedia-o, de forma que todo o municipio o disputava e festejava. - -O seu primeiro trabalho foi ir á villa. Ficava a quatro kilometros -adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação -lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de rodagem, -se assim se póde chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e -descia morros, cortava planicies e rios em toscas pontes. A villa!... -Tinha duas ruas principaes: a antiga, determinada pelo velho caminho de -tropas, e a nova, cuja origem veiu da ligação da velha com a estrada -de ferro. Ellas se encontravam em _T_, sendo o braço vertical o caminho -da estação. As outras partiam dellas, as casas juntavam-se urbanamente -no começo, depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em -campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova, -Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da rua -Marechal Deodoro, partia a da Matriz, ia ter á igreja, ao alto de uma -collina, feia e pobre no seu estylo jesuitico. Á esquerda da estação, -num campo, a praça da Republica, a que ia dar uma rua mal esboçada por -espaçadas casas, ficava a Camara Municipal. - -Em um grande parallepipeto de tijolo, cimalha, janella com sacadas de -grade de ferro, puro estylo mestre de obras. Compungia essa pobreza de -gosto a quem se lembrasse dos edificios da mesma natureza das pequenas -communas francezas e belgas da idade média. - -Ricardo entrou num barbeiro da rua Marechal Deodoro, salão Rio de -Janeiro, e fez a barba. O figaro deu-lhe informações a villa e elle se -deu a conhecer. Havia certos circumstantes, um delles tomou-o a seu -cargo e dahi em pouco estava relacionado. - -Quando voltou para a casa do Major já tinha convite para o baile do Dr. -Campos, presidente da Camara, festa que teria logar na quarta-feira -proxima. - -Chegara sabbado e fora passeiar á villa domingo. - -Tinha havido missa e o trovador assistiu a sahida. A concurrencia nunca -é grande na roça, mas Ricardo pôde ver algumas daquellas moças do -interior, lymphaticas e tristes, ataviadinhas, cheias de laços, -descendo silenciosas a collina em que se erguia a igreja, espalhando-se -pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de -reclusão e tedio. Foi na sahida da missa que lhe apresentaram o Dr. -Campos. - -Era o medico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de -«aranha» com a sua filha, Nair, assistir o officio religioso. - -O trovador e o medico estiveram um instante conversando, emquanto a -filha, muito magra, pallida, com uns longos braços descarnados, olhava -com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando elles partiram, -ainda Ricardo considerou um pouco aquelle rebento dos ares livres do -Brasil. - -Á festa do Dr. Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de -sua presença e a alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas -gozava a sua victoria. Se bem que o Major tivesse abandonado o violão, -ainda continuava a prezar aquelle instrumento essencialmente nacional. -As consequencias desastrosas do seu requerimento em nada tinham abalado -as suas convicções patrioticas. Continuavam as suas idéas -profundamente arraigadas, tão sómente elle as escondia, para não -soffrer com a incomprehensão e maldade dos homens. - -Gozava, portanto, a fulminante victoria de Ricardo, que indicava bem -naquella população a existencia de um residuo forte da nossa -nacionalidade a resistir ás invasões das modas e gostos estrangeiros. - -Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os -partidos. O Dr. Campos, presidente da Camara, era quem mais o cumulava -de homenagens. Naquella manhã até esperava um dos cavallos do edil, -para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que -ainda não tinha partido para o eito: - ---Major, foi uma boa idéa vir para a roça. Vive-se bem e pode-se -subir... - ---Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são extranhas -todas essas cousas. - ---Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos offerecem, não -devemos rejeitar, não acha? - ---Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de commandar -uma esquadra. - ---Até ahi não vou. Olhe, Major: eu gosto muito de violão, mesmo -dedico a minha vida ao seu levantamento moral a intellectual, -entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: «Seu Ricardo, Você vai -ser deputado», o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo -perfeitamente que não podia mais desferir os threnos do instrumento? -Ora, se não! Não se deve perder vasa, Major. - ---Cada um tem as suas theorias. - ---De certo. Outra cousa. Major: conhece o Dr. Campos? - ---De nome. - ---Sabe que elle é presidente da Camara. - -Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança, O -menestrél não notou o gesto do amigo e emendou. - ---Móra daqui a uma legua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavallo -passeiar com elle. - ---Fazes bem. - ---Elle quer conhecel-o. Posso trazel-o aqui? - ---Pódes. - -Um camarada do Dr. Campos, neste instante, entrava pela porteira -trazendo o cavallo promettido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a -roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora dous, pois, além -do Anastacio, que não era bem um empregado, mas aggregado, admittira o -Felizardo. - -Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores -tinham attenuado a temperatura. - -Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi -caminhando por entre aquelle rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar -do mato e do piar das aves e passaros. Esvoaçavam tyês vermelhos, -bandos de colleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras no -verdor das arvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos -campos, no momento, parece que tinham sahindo á luz, não sómente para -a fecundação vegetal mas tambem para a belleza. - -Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e -fôra para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. Era este um -camarada magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um simio. -Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma apparencia de -fraqueza muscular, não havia ninguem mais valente que elle a roçar. -Com isto era um tagarella incansavel. De manhã, quando chegava, ahi -pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do municipio. - -O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado do norte do -sitio, que o capão invadira. Obtido elle, o Major plantaria obra de -meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervallos batatas -inglezas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se -fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, porém, não lhe -quizera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando delle -os principios volateis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus -mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miudos e folhas, -elle removia para longe, onde então queimaria em coiváras pequenas. - -Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós -e tocos; mas promettia dar um rendimento maior ao plantio. - -Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se -distrahir. Ha quem cante, elle falava e pouco se incommodava que lhe -dessem ou não attençâo. - ---Essa gente anda accesa por ahi, disse Felizardo logo que o Major -chegou. - -Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, attendia-lhe a conversa, -raras não. Anastacio era silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, -de quando em quando, parava, considerava, numa postura hieratica de uma -pintura mural thebana. O Major perguntou ao Felizardo: - ---Que é que ha, Felizardo? - -O camarada descançou o grosso tronco de camará no monte, limpou o -suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante: - ---Negocio de politica... Seu Tenente Antonino quasi briga hontem com -_seu dotô Campo_. - ---Onde? - ---Na estação. - ---Porque? - ---Negocio de partido. Pelo que ouvi: seu Tenente-Antonino é pelo -_governadô_ e _seu dodô Campo_ é pelo _senadô_... Um sarcêro, -patrão! - ---E você, por quem é? - -Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um -galho que enleiava o tronco a remover. Anastacio estava de pé e -considerou um instante a figura do companheiro palrador. Respondeu -afinal: - ---Eu! sei lá... Urubu pellado não se mette no meio dos coroados. Isso -é bom p'r'o _sinhô_. - ---Eu sou como você, Felizardo. - ---Quem me dera, meu _sinhô_. Inda _traz-antonte_ ouvi _dizê_ que o -patrão é amigo do _marechá_... - -Afastou-se com o pau; e, quando voltou Quaresma indagou assustado: - ---Quem disse? - ---Não sei, não _sinhô_. Ouvi a modo de _dizê_ lá na venda do -hespanhol, tanto assim que _doutô Campo tá_ inchado que nem sapo com a -sua amizade. - ---Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma... -Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguem... Qual amigo! - ---_Quá_! fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão _tá_ é -varrendo a testada. - -Apezar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquella -cabeça infantil a idéa de que elle fosse amigo do Marechal Floriano. -«Conheci-o no meu emprego»--dizia o Major: Felizardo sorria grosso e -por uma vez dizia: «_Quá_! o patrão é fino que nem cobra». - -Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer -aquillo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações pela -manhã... Elle tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel, -incapaz de lhe estar armando laços para passar máos momentos; os -enthusiasmos delle, entretanto, junto á vontade de ser bom amigo, -podiam illudil-o e fazel-o instrumento de algum perverso. Quaresma ficou -um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve, -porém, esqueceu-se e a preoccupação dissipou-se. Á tarde, quando foi -jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu -natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de -cogitações por parte delle. - -D. Adelaide, sempre com a sua _matinée_ creme e saia preta, sentava-se -á cabeceira; Quaresma á direita e á esquerda, Ricardo. Era a velha -quem sempre puxava a lingua do trovador. - ---Gostou muito do passeio, Sr. Ricardo? - -Não havia meio della dizer _seu_. A sua educacão de _senhora_ de -outros tempos, não lhe permittia usar esse plebeismo generalizado. Vira -os pais, gente ainda fortemente portugueza, dizer _senhor_ e continuava -a dizer, sem fingimento, naturalmente. - ---Muito. Que logar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é -que se tem inspiração. - ---E elle tomava aquella altitude de arroubo: uma physionomia de mascara -de tragico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada -abafada. - ---Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma. - ---Hoje acabei uma modinha. - ---Como se chama? indagou D. Adelaide. - ---«Os labios da Carola». - ---Bonito! Já fez a musica? - -Era ainda a irmã da Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo -a boca; deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com -toda a convicção: - ---A musica, minha senhora, é a primeira coesa que faço. - ---Has de nol-a cantar logo. - ---Pois não, Major. - -Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros sahiram a passeiar no -sitio. Fôra essa a unica concessão que ao amigo fizera Polycarpo, no -tocante ao regimen de seus trabalhos agricolas. Levava sempre o pedaço -de pão, esfarelava em migalhas no gallinheiro, para ver a atroz disputa -entre as aves. Acabando, ficava um instante a considerar aquellas vidas, -criadas, mantidas e protegidas para sustento da sua. Sorria para os -frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito vivos e avidos, e -demorava-se a apreciar a estupidez do perú, imponente, fazendo roda, a -dar estouros presumpçosos. Em seguida, ia ao chiqueiro; assistia -Anastacio dar a ração, despejando-a nos cochos. O enorme cevado de -grandes orelhas pendentes levantava-se difficilmente e solemnemente -vinha mergulhar a cabeça na caldeira; noutro compartimento os -bacurinhos grunhiam e grunhindo vinham com a mãe charfurdar-se na -comida. - -A avidez daquelles animaes era deveras repugnante mas os seus olhos -tinham uma longa doçura bem humana que os fazia sympathicos. - -Ricardo apreciava pouco aquellas formas inferiores de vida, mas Quaresma -ficava minutos esquecido a contemplal-as numa demorada interrogação -muda. Sentavam-se a um tronco de arvore; e Quaresma olhava o céo alto -emquanto Coração dos Outros contava qualquer historia. - -A tarde ia adiantada, A terra já começava a amollecer, pelo fim -daquelle beijo ardente e demorado do sol. Os bambús suspiravam; as -cigarras ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos o Major -voltou-se. Padrinho! Olga! - -Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram ficaram ainda a olhar -um para o outro, com as mãos presas. E vieram aquellas estupidas e -tocantes phrases dos encontros satisfeitos: quando chegaste? Não -esperava... É longe... Ricardo olhava embevecido com a ternura dos -dous; Anastacio tirara o chapéo e olhava a «sinhasinha», com o o seu -terno e vasio olhar de africano. - -Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois -passeou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou: - ---Que dê teu marido? - ---O doutor?... Está lá dentro. - -O marido tinha resistido muito em acompanhal-a até ali. Não lhe -parecia bem aquella intimidade com um sujeito sem titulo, sem posição -brilhante e sem fortuna. Elle não comprehendia como o seu sogro, apezar -de tudo um homem rico, de outra esphera, tinha podido manter e estreitar -relações com um pequeno empregado de uma repartição secundaria, e -até fazel-o seu compadre! Que o contrario se desse, era justo; mas como -estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade -nacional. Mas, em definitivo, quando D. Adelaide o recebeu cheia de um -immenso respeito, de uma particular consideração, ele ficou desarmado e -todas as suas pequenas vaidades foram tocadas e satisfeitas. - -D. Adelaide, mulher velha, do tempo em que o imperio armava essa nobreza -escolar, possuia em si uma particular reverencia, um culto pelo -doutorado; e não lhe foi, pois, difficil demonstral-o quando se viu -diante do Dr. Armando Borges, de cujas notas e premios ella tinha exacta -noticia. - -Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o -doutor, gozando aquelle seu sobrehumano prestigio, ia conversando -pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, á proporção que -conversava, talvez para que o effeito não se dissipasse, virava com a -mão direita o grande annelão _symbolico_, o talisman, que cobria a -phalange do dedo indicador esquerdo, ao geito de _marquise_. - -Conversaram muito. O joven par contou a agitação politica do Rio, a -revolta da fortaleza de Santa Cruz; D. Adelaide a epopéa da mudança, -moveis quebrados, objectos partidos. Pela meia noite todos foram dormir -com uma alegria particular, emquanto os sapos levantavam no riacho -defronte o seu grave hymno á transcendente belleza do céo negro, -profundo e estrellado. - -Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e -esteve conversando com o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um -jornal. Rasgou a cinta e leu o titulo. Era o «O Municipio», orgão -local, hebdomadario, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia -afastado; elle aproveitou a occasião para ler o jornaleco. Pôz o -pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e desdobrou o jornal. -Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam -mollemente. Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se -«Intrusos» e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos -no logar que moravam nelle--verdadeiros _estrangeiros que se vinham -intrometter na vida particular e politica da familia curuzuense, -perturbando-lhe a paz e a tranquillidade_. - -Que diabo queria dizer aquillo? Ia deitar fóra o jornaleco, quando lhe -pareceu ler seu nome entre versos. Procurou o logar e deu com estas -quadrinhas: - - - _POLITICA de CURUZU_ - - _Quaresma, meu bem, Quaresma! - Quaresma do coração! - Deixa as batatas em paz - Deixa em paz o feijão._ - - _Geito não tens para isso - Quaresma, meu cocumby! - Volta á mania antiga - De redigir em tupy._ - - _Olho Vivo._ - - -O Major ficou estuporado. Que vinha ser aquillo? Porque? Quem era? Não -atinava, não achava o motivo o fundo de semelhante ataque. A irmã -approximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma estendeu-lhe o jornal -com o braço tremendo: «Lê isto, Adelaide». - -A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa c -solicitude. Ella tinha aquella ampla maternidade das solteironas; pois -parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da mulher -pelas dores do outros. Emquanto ella lia, Quaresma dizia: mas que fiz -eu? que tenho com politica? E coçava os cabellos já tanto encanecidos. - -D. Adelaide disse então docemente: - ---Socega, Polycarpo. Por isso só?... Ora! - -A afilhada leu tambem os versos e perguntou ao padrinho: - ---O Sr. se metteu algum dia nessa politica daqui? - ---Eu nunca!... Vou até declarar que... - ---Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a -irmã: - ---Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca! - -O doutor e Ricardo chegavam de fóra e encontraram os tres nessas -considerações. Notaram a alteração de Quaresma. Estava pallido, -tinha os olhos humidos e coçava successivamente a cabeça. - ---Que ha, Major? indagou o troveiro. - -As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo -depois contou o que ouvira na villa. Acreditavam todos que o Major viera -para ali no intuito de fazer politica, tanto assim que dava esmolas, -deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuia remedios -homeopathicos... O Antonino affirmara que havia de desmascarar -semelhante tartufo. - ---E não desmentiste? perguntou Quaresma. - -Ricardo affirmou que sim, mas o escrivão não quizera acreditar nelle e -reiterara os seus propositos de ataque. - -O Major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de accordo com -seu genio, incubou nos primeiros tempos a impressão, e, emquanto -estiveram com elle os seus amigos, não demonstrou preoccupação. - -Olga e o marido passaram no «Socego» cerca de quinze dias. O marido, -ao fim de uma semana, já parecia cançado. Os passeios não eram -muitos. Em geral, os nossos logarejos são de uma grande pobreza do -pittoresco; ha um ou dous logares celebres, assim como na Europa cada -aldeia tem a sua curiosidade historica. - -Em Curuzú, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas -leguas da casa de Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe -barravam o horizonte fronteiro. O Dr. Campos já travara relações com -o Major e, graças a elle, houve cavallos e silhão que tambem -permitisse á moça ir á cachoeira. - -Foram de manhã, o Presidente da Camara, o doutor, sua mulher e a filha -de Campos. O logar não era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze -metros de altura, despenhava-se em tres partes, pelo flanco da montanha -abaixo. A agua estremecia na quéda, como que se enrodilhava e vinha -pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia -muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma aboboda de -arvores. O sol coava-se difficilmente e vinha faiscar sobre a agua ou -sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os -periquitos, de um verde mais claro, pousados nos galhos eram como as -incrustações daquelle salão fantastico. - -Olga pôde ver tudo isso bem á vontade, andando de um para outro lado, -porque a filha do presidente era de um silencio de tumulo e o pae desta -tomava com o sou marido informações sobre novidades medicinaes: Como -se cura hoje erysipela? Ainda se usa muito o tartaro emetico? - -O que mais a impressionou no passeio foi a miseria geral, a falta de -cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre. -Educada na cidade, ella tinha dos roceiros idéa de que eram felizes -saudaveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta agua, porque as casas -não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquelle sapê -sinistro e aquelle «sopapo» que deixava ver a trama de varas, como o -esqueleto de um doente. Porque ao redor dessas casas, não havia -culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão facil, trabalho de horas. -E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um -carneiro. Porque? Mesmo nas fazendas, o espectaculo não era mais -animador. Todas soturnas, baixas, quasi sem o pomar olente e a horta -succulenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ella não -pôde ver outra lavoura, outra industria agricola. Não podia ser -preguiça só ou indolencia. Para o seu gasto, para uso proprio, o homem -tem sempre energia para trabalhar. As populações mais accusadas de -preguiça, trabalham relativamente. Na Africa, na India, na Cochinchina, -em toda parte, os casaes, as familias, as tribos, plantam um pouco, -algumas cousas para elles. Seria a terra? Que seria? E todas essas -questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e tambem -a sua piedade e sympathia por aquelles parias, maltrapilhos, mal -alojados, talvez com fome, sorumbaticos!... - -Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades -mezes e annos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar o -motivo e o remedio. Aquillo era uma situação do camponez da idade -média e começo da nossa; era o famoso animal de La Bruyére que tinha -face humana e voz articulada... - -Como no dia seguinte fosse passeiar ao roçado do padrinho, aproveitou a -occasião para interrogar a respeito o tagarella Felizardo. A faina do -roçado ia quasi no fim; o grande trato da terra estava quasi -inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a collina que formava a -lombada do sitio. - -Olga encontrou o camarada cá em baixo, cortando a machado as madeiras -mais grossas; Anastacio estava no alto, na orla do mato, juntando, a -ancinho, as folhas caidas. Ella lhe falou. - ---Bons dias, _sá dona_. - ---Então trabalha-se muito, Felizardo? - ---O que se póde. - ---Estive hontem no Carico, bonito logar... Onde é que você mora, -Felizardo? - ---É d'outra banda, na estrada da villa. - ---É grande o sitio de você? - ---Tem alguma terra, sim, senhora, _sá dona_. - ---Você porque não planta para você? - ---_Quá sá dona_! O que é que a gente come? - ---O que plantar ou aquillo que a plantação der em dinheiro. - ---_Sá dona tá_ pensando uma cousa e a cousa é outra. Emquanto planta -cresce, e então? _Quá, sá dona_, não é assim... - -Deu uma machadada; o tronco escapou: collocou-o melhor no picador e, -antes de desferir o machado, ainda disse: - ---Terra não é nossa... E _frumiga_?... Nós não _tem_ ferramenta... -isso é bom para italiano ou _allamão_, que Governo dá tudo... Governo -não gosta de nós... - -Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas -partes, quasi iguaes, de um claro amarellado, onde o cérne escuro -começava a apparecer. - -Ella voltou querendo afastar do espirito aquelle desacordo que o -camarada indicara, mas não pôde. Era certo. Pela primeira vez notava -que o _self-help_ do Governo era só para os nacionaes; para os outros -todos os auxilios e facilidades, não contando com a sua anterior -educação e apoio dos patricios. - -E a terra não era delle? Mas de quem era então, tanta terra abandonada -que se encontrava por ahi? Ella vira até fazendas fechadas, com as -casas em ruinas... Porque esse acaparamento, esses latifundios inuteis e -improductivos? - -A fraqueza de attenção não lhe permittiu pensar mais no problema. Foi -vindo para casa, tanto mais que era hora de jantar e a fome lhe chegava. - -Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquelle perdera um pouco da -sua _morgue_; havia mesmo occasião em que era até natural. Quando ella -chegou, o padrinho exclamava: - ---Adubos! É lá possivel que um brasileiro tenha tal idéa! Pois se -temos as terras mais ferteis do mundo! - ---Mas se esgotam, Major, observou o doutor - -D. Adelaide, calada, seguia com attenção o _crochet_ que estava -fazendo; Ricardo ouvia, com os olhos arregalados; e Olga intrometteu-se -na conversa: - ---Que zanga é essa, padrinho? - ---É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de -adubos... Isto é até uma injuria! - ---Pois fique certo, Major, se eu fosse o senhor, adduziu o doutor, -ensaiava uns phosphatos... - ---De certo, Major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar -violão não queria aprender musica... Qual musica! Qual nada! A -inspiração basta!... Hoje veio que é preciso... É assim, resumia -elle. - -Todos se entreolharam, excepto Quaresma que logo disse com toda a força -d'alma: - ---Sr. doutor, o Brasil é o paiz mais fertil do mundo, é o mais bem -dotado e as suas terras não precisam _emprestimos_ para dar sustento ao -homem. Fique certo! - ---Ha mais ferteis, Major, avançou o doutor. - ---Onde? - ---Na Europa. - ---Na Europa! - ---Sim, na Europa. As terras negras da Russia, por exemplo. - -O Major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triumphante: - ---O Sr. não é patriota! Esses moços... - -O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações -sobre o violão. Á noite, o menestrel cantou a sua ultima producção: -«Os labios da Carola». Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do -Dr. Campos; mas ninguem alludiu a isso. Ouviram-mo com interesse e elle -foi muito acclamado. Olga tocou no velho piano de D. Adelaide; e, antes -das onze horas, estavam todos recolhidos. - -Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, -deitado, poz-se a ler um velho elogio das riquezas e opulencias do -Brasil. - -A casa estava em silencio; do lado de fora, não havia a minima bulha. -Os sapos tinham suspendido um instante a sua orchestra nocturna. -Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto -dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinario! pensou. Da despensa, -que ficava junto a seu aposento, vinha um ruido extranho. Apurou o -ouvido e prestou attenção. Os sapos recomeçaram o seu hymno. Havia -vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia á outra, -num dado instante todas se juntaram num _unisono_ sustentado. -Suspenderam um instante a musica. O Major apurou o ouvido; o ruido -continuava. Que era? Eram uns estalos tenues; pareciam que quebravam -gravetos, que deixavam outros cahir ao chão... Os sapos recomeçaram; o -regente deu uma martellada e logo vieram os baixos e os tenores. -Demoraram muito; Quaresma pôde ler umas cinco paginas. Os batrachios -pararam; a bulha continuava. O Major levantou-se, agarrou o castiçal e -foi á dependencia da casa donde partia o ruido, assim mesmo como -estava, em camisa de dormir. - -Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma -ferroada no peito do pé. Quasi gritou. Abaixou a vela para ver melhor e -deu com uma enorme sauva agarrada com toda a furia á sua pelle magra. -Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco no -assoalho, lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas -de milho e feijão, cujos recipientes tinham sido deixados abertos por -inadvertencia. O chão estava negro, e carregadas com os grãos, ellas, -em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade -subterranea. - -Quiz afugental-as. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e -cada vez mais o exercito augmentava. Veiu uma mordeu-o, depois outra, e -o foram mordendo pelas pernas, pelos pés, subindo pelo seu corpo. Não -poude aguentar, gritou, sapateou e deixou a vela cahir. - -Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu -daquelle infimo inimigo que, talvez, nem mesmo á luz radiante do sól, -o visse distinctamente... - - - - -IV - -«PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ» - - -D. Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro annos mais que elle. -Era uma bella velha, com um corpo médio, uma tez que começava a -adquirir aquella patina da grande velhice, uma espessa cabelleira já -inteiramente amarellada e um olhar tranquillo, calmo e doce. Fria, sem -imaginação, de intelligencia lucida e positiva, em tudo formava um -grande contraste com o irmão; comtudo, nunca houve entre elles uma -separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ella não -entendia nem procurava entender a substancia do irmão, e sobre elle em -nada reagia aquelle ser methodico, ordenado e organizado, de idéas -simples, medias e claras. - -Ella já attingira aos cincoenta e elle para lá marchava; mas ambos -tinham ar saudavel, poucos achaques, e promettiam ainda muita vida. A -existencia calma, doce e regrada que tinham levado até ali, concorrera -muito para a boa saude de ambos. Quaresma incubou as suas manias até -depois dos quarenta e ella nunca tivera qualquer. - -Para D. Adelaide, a vida era cousa simples, era viver, isto é, ter uma -casa, jantar e almoço, vestuario, tudo modesto, medio. Não tinha -ambições, paixões, desejos. Moça, não sonhara principes, bellezas, -triumphos, nem mesmo um marido. Se não casou foi porque não sentiu -necessidade disso; o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ella sempre -se sentiu completa. - -O seu aspecto tranquillo e o socego dos seus olhos verdes, de um brilho -lunar de esmeralda, emolduravam e realçavam naquelle interior familiar -a agitação e a inquietude, o alanceado do irmão. - -Não se vá suppor que Quaresma andasse transtornado como um doido. -Felizmente não. Na apparencia até poder-se-ia imaginar que nada -conturbava sua alma; porém, se mais vagarosamente se examinassem os -seus habitos, gestos e attitudes logo se havia de ver que o socego e a -placidez não moravam no seu pensamento. - -Occasiões havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao -longe o horizonte, perdido em scisma; outras, isso quando no trabalho da -roça, em que suspendia todos os movimentos, fincava o olhar no chão, -demorava-se assim um instante, coçando uma mão com a outra, dava -depois um muchocho, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em -que não reprimia uma exclamação ou uma phrase. - -Anastacio em taes instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O -antigo escravo não os sabia mais fixar, e nada dizia; Felizardo -continuava a contar a fuga da filha do Custodio com o Manduca da venda; -e o trabalho marchava. - -Inutil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a -não ser no jantar e nas primeiras horas do dia elles viviam separados. -Quaresma na roça, nas plantações, e ella superintendendo o serviço -domestico. - -As outras pessoas de suas relações não podiam tambem notar as -preoccupações absorventes do Major, pelo simples motivo de que estavam -longe. - -Ricardo havia seis mezes que não lhe visitava e da afilhada e do -compadre as ultimas cartas que recebera, datavam de uma semana, não -vendo aquella ha tanto tempo, quanto ao trovador e aquelle desde quasi -um anno, isto é, o tempo em que estava no «Socego». - -Durante esse tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo -approveitamento de suas terras. Os seus habitos não foram mudados e a -sua actividade continuava sempre a mesma. É verdade que deixara de -parte os instrumentos de meteorologia. - -O hygrometro, o barometro e os outros companheiros não eram mais -consultados e as observações registradas num caderno. Dera-se mal com -elles. Fosse inexperiencia e ignorancia das bases theoricas delles, -fosse porque fosse, o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia -baseado em combinações dos seus dados, sahiam erradas. Se esperava -tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava chuva, lá vinha secca. - -Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus apparelhos, -com aquelle grosso e cavernoso sorriso de troglodyta: - ---_Quá_ patrão! Isso de chuva vem quando Deus _qué_. - -O barometro aneroide continuava a um canto a dansar o seu ponteiro sem -ser percebido; o thermometro de maxima e minima, legitimo Casella, jazia -dependurado na varanda sem receber um olhar amigo; a caçamba do -pluviometro estava no gallinheiro e servia de bebedouro ás aves; só o -anemometro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já sem fio, no -alto do mastro, como se protestasse contra aquelle desprezo pela -sciencia que Quaresma representava. - -Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido, -embora tendo deixado de ser publica, lavrava occultamente. Havia no seu -espirito e no seu caracter uma vontade de acabal-a de vez, mas como? Se -não o accusavam, se não articulavam nada contra elle directamente? Era -um combate com sombras, com apparencias, que seria ridiculo acceitar. - -De resto, a situação geral que o cercava, aquella miseria da -população campestre que nunca suspeitara, aquelle abandono de terras -á improductividade, encaminhavam sua alma de patriota meditativo a -preoccupações angustiosas. - -Via o Major com tristeza não existir naquella gente humilde sentimento -de solidariedade, de apoio mutuo. Não se associavam para cousa alguma e -viviam separados, isolados, em familias geralmente irregulares, sem -sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. Entretanto, -tinham bem perto o exemplo dos portuguezes que, unidos aos seis e mais, -conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa importancia, -lucrar e viver. Mesmo o velho costume do _moitirão_ já se havia -apagado. - -Como remediar isso? - -Quaresma desesperava... - -A tal affirmação de falta de braços pareceu-lhe uma affirmação de -má fé ou estupida, e estupido ou de má fé era o Governo que os -andava importando aos milhares, sem se preoccupar com os que já -existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia duzia de -cabeças de gado, fossem introduzidas mais tres, para augmenter o -estrume!... - -Pelo seu caso, elle via bem as difficuldades, os obices de toda a sorte -que havia para fazer a terra productiva e remunerada. Um facto veiu -mostrar-lhe com eloquencia um dos aspectos da questão. Vencendo a herva -de passarinho, os maus tratos e o abandono de tantos annos, os -abacateiros de suas terras conseguiram fructificar, fracamente é -verdade, mas de forma superior ás necessidades de sua casa. - -A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos -dinheiro que lhe dava a terra, sempre mãe e sempre virgem. Tratou de -vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou outro que os queria -comprar por preços infimos. Com decisão foi ao Rio procurar comprador. -Andou de porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que -procurasse um tal Sr. Azevedo no Mercado, o rei das fructas. Lá foi. - ---Abacates! Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos! - ---Entretanto, disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e -pediram-me pela duzia cinco mil réis. - ---Em porção, o Sr. sabe que... - ---É isso... Emfim, se quer mande-os... - -Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, pôz uma das mãos na cava -do collete e quasi de costas para o Major: - ---É preciso vel-os... O tamanho influe... - -Quaresma os mandou e, quando lhe veiu o dinheiro, teve a satisfação -orgulhosa, de quem acaba de ganhar uma grande batalha immortal. -Acariciou uma por uma aquellas notas encardidas, leu-lhes bem o numero e -a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma meza e muito -tempo levou sem animo de trocal-as. - -Para avaliar o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carroça, -o custo dos caixões, o salario dos auxiliares e, após esse calculo que -não era laborioso, teve a evidencia de que ganhara 1$500, mil e -quinhentos réis, nem mais nem menos. O Sr. Azevedo tinha-lhe pago pelo -cento a quantia com que se compra uma duzia. - -Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e elle viu naquelle ridiculo -lucro objecto para maior contentamento do que se recebesse um avultado -ordenado. - -Foi, portanto, com redobrada actividade que se poz ao trabalho. Para o -anno, o lucro seria maior. Tratava-se agora de limpar as fructeiras. -Anastacio e Felizardo continuavam occupados nas grandes plantações; -contratou um outro empregado para ajudal-o no tratamento das velhas -arvores fructiferas. - -Foi, pois, com o Mané Candieiro que elle se pôz a serrar os galhos das -arvores, os galhos mortos e aquelles em que a herva damninha segurava as -suas raizes. Era arduo e difficil o trabalho. Tinham ás vezes que subir -ás grimpas para a extirparão do galho attingido; os espinhos rasgavam -as roupas e feriam as carnes; e em muitas occasiões estiveram em risco -de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada. - -Mané Candieiro falava pouco, a não ser que se tratasse de cousas de -caça; mas cantava que nem passarinho. Estava a serrar, estava a cantar -trovas roceiras, ingenuas, onde com surpreza o Major não via entrar a -fauna, a flora locaes, os costumes das profissões roceiras. Eram -vaporosamente sensuaes e muito ternas, mellosas até; por acaso lá -vinha uma em que um passaro local entrara; então o Major escutava. - - - _Eu vou dar a despedida - Como deu o bacuráo, - Uma perna no cantinho - Outra no galho de páu._ - - -Este bacuráo que entrava ahi satisfazia particularmente ás -aspirações de Quaresma. A observação popular já começava a -interessar-se pelo espectaculo ambiente, já se emocionava com elle e a -nossa raça deitava, portanto, raizes na grande terra que habitara. Elle -a copiou e mandou ao velho poeta de S. Christovão. Felizardo dizia que -Mané Candieiro era um mentiroso, pois todas aquellas caçadas do -caitetus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento -poetico, principalmente no desafio: o moleque é bom! - -Elle era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e -fortes, um tanto amollecidas pelo sangue africano. - -Quaresma procurou descobrir nelle aquella odiosa catadura que Darwin -achou nos mestiços; mas, sinceramente, não a encontrou. - -Com auxilio de Mané Candieiro, foi que Quaresma conseguiu acabar de -limpar as fructeiras daquelle velho sitio abandonado ha quasi dez -annos. Quando o serviço ficou prompto, elle viu com tristeza aquellas -velhas arvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali... -Pareciam soffrer e elle se lembrou das mãos que as tinham plantado ha -vinte ou trinta annos, escravos, talvez, banzeiros e desesperançados!... - -Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdescesse, e o -renascimento das arvores como que trouxe o contentamento das aves e do -passaredo solto. De manhã, esvoaçavam os tyês vermelhos, com o seu -pio pobre, especie de ave tão inutil e tão bella de plumas que parece -ter nascido para os chapéos das damas; as rolas pardas e caboclas em -bando, mariscando, no chão capinado; pelo correr do dia, eram os -sanhassús a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens de -colleiros; e de tarde como que todos elles se reuniam, piando, cantando, -chilreando, pelas altas mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros, -entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma. - -Não durou muito essa alegria. Um inimigo appareceu inopinadamente, com -a rapidez ousadissima de um general consumado. Até ali elle se mostrara -timido, parecia que sómente mandava esclarecedores. - -Desde aquelle ataque ás provisões de Quaresma, logo afugentadas, não -mais as formigas reappareceram; mas, naquella manhã, quando contemplou -o seu milharal, foi como se lhe tirassem a alma, e ficou sem acção e -as lagrimas lhe vieram aos olhos. - -O milho que já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez -de criança, crescera cerca de meio palmo acima da terra; o Major até -mandara buscar o sulphato de cobre para a solução em que ia lavar a -batata ingleza a plantar nos intervallos dos pés. - -Toda a manhã, elle ia lá e já via o milharal crescido com o seu -pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho, oscillando ao -vento: naquella, elle não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham -sido cortados e levados para longe! A modo que e obra de gente, disse -Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terriveis -hymhopteros, piratas infimos que lhe cahiam em cima do trabalho com uma -rapacidade turca... Era preciso combatel-os. Quaresma poz-se logo em -campo, descobriu as aberturas principaes do formigueiro e em cada uma -queimou a formicida mortal. Passaram-se dias: os inimigos pareciam -derrotados; mas, certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite -estrellada, Quaresma ouviu uma bulha exquisita, como se alguem esmagasse -as folhas mortas das arvores... Um estalido... E era perto... Accendeu -um phosphoro e o que viu, meu Deus! Quasi todas as larangeiras estavam -negras de iminensas saúvas. Havia dellas ás centenas, pelos troncos e -pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas -transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, -outras desciam; nada de atropellos, de confusão, de desordem. O -trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima umas -cortavam as folhas pelo peciolo; cá em baixo, outras serravam-nas em -pedaços e afinal eram carregadas por terceiros, levantando-as acima da -descomunal cabeça, era longas fileiras pelo trilho limpo, aberto entre -a herva rasteira. - -Houve um instante de desanimo na alma do Major. Não tinha contado com -aquelle obstaculo nem o suppuzera tão forte. Agora via bem que era a -uma sociedade intelligente, organizada, ouzada e tenaz com quem se tinha -de haver. Veio-lhe então á lembrança aquella phrase de Saint-Hilaire: -se nós não expulsássemos as formigas ellas nos expulsariam. - -O Major não estava lembrado ao certo se eram essas palavras, mas o -sentido era, e ficou admirado que só agora ella lhe ocorresse. - -No dia seguinte, tinha recobrado o amino. Comprou ingredientes e eil-o -mais o Mané Candieiro, a abrir picadas a fazer esforços de sagacidade, -para descobrir os reductos centraes, as _panellas_ dos insectos -terriveis. Então era como se os bombardeassem: o sulpheto queimava, -estourava em tiros seguidos, mortiferos, lethaes! - -E dahi em diante, foi uma batalha sem treguas. Se apparecia uma -abertura, um _olho_, logo se lhe applicava a formicida, pois do -contrario, nenhuma plantação era possivel, tanto mais que extinctos os -das suas terras, não tardariam os formigueiros das visinhanças ou dos -logradouros publicos a deitar caniculos para o seu terreno. - -Era um supplicio, um castigo, uma especie de vigilancia a dique -hollandez e Quaresma viu bem que só uma autoridade central, um governo -qualquer, ou um accôrdo entre os cultivadores, podia levar a effeito a -extincção daquelle flagello, peor que a saraiva, que a geada, que a -secca, sempre presente, inverno ou verão, outomno ou primavera. - -Não obstante essa luta diaria, o Major não desanimou e pôde colher -alguns productos das plantações que tinha feito. Se por occasião das -fructas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda ella -foi, quando viu partir para a estação em successivas carretas, as -aboboras, os aipins, as batatas doces, em cestos cobertos com saccos -cozidos. Os fructos, em parte, eram de outras mãos; as arvores não -tinham sido plantadas por elle; mas aquillo não, vinha do seu suor, da -sua iniciativa, do seu trabalho! - -Elle ainda foi ver aquelles cestos na estação, com a ternura de um pai -que vê partir seu filho para a gloria, e para a victoria. Recebeu o -dinheiro dias depois, contou o e esteve deduzindo os lucros. - -Não foi á roça nesse dia; o trabalho de guarda livros roubou o de -cultivador. A sua attenção, já um tanto gasta, não lhe favorecia a -tarefa das cifras, e só pelo meio do dia, pôde dizer a irmã: - ---Sabes qual foi o lucro, Adelaide? - ---Não, menor do que o dos abacates? - ---Um pouco mais. - ---Então... Quanto? - ---Dous mil quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando -syllaba por syllaba. - ---O que? - ---Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil quinhentos. - -D. Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura -que fazia, depois, levantando o olhar: - ---Homem, Polycarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito -dinheiro... Só com as formigas! - ---Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar -exemplo, levantar a agricultura, aproveitar as nossas terras -feracissimas... - ---É isto... Queres sempre ser a abelha mestra... Já viste os grandes -fazerem esses sacrificios... Vê lá se fazem! Historias... Mettem-se no -café que tem todas as protecções... - ---Mas, faço eu. - -A irmã prestou mais attenção a costura, Polycarpo levantou-se, foi -até á janella que dava para o gallinheiro. Fazia um dia fosco e -irritante. Elle concertou o pince-nez, esteve olhando e de lá falou: - ---Oh! Adelaide! Aquillo não é uma gallinha morta... - -A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até á janella e verificou -com a vista: - ---É... É já a segunda que morre hoje. - -Após esta leve conversa, Quaresma voltou á sua sala de estudos. -Meditava grandes reformas agricolas. Mandara buscar catalogos e ia -examinal-os. Tinha já em mente uma charrúa dupla, um capinador -mecanico, um semeador, um deslocador, grades, tudo americano, de aço, -dando o rendimento effectivo de 20 homens. Até então, não quizera -essas innovações; as terras mais ricas do mundo, não precisaram desse -processos que lhe pareciam artificiaes, para produzir; estava, porém, -agora disposto a empregal-os como experiencia. Aos adubos, no -entretanto, o seu espirito resistia. Terra virada, dizia Felizardo, -terra estrumada; parecia o Quaresma uma profanação estar a empregar -nitratos, phosphatos ou mesmo estrume commum, numa terra brasileira... -Uma injuria! - -Quando se convencesse de que eram necessarios, parecia-lhe que todo o -seu systema de idéas ia por terra e os moveis de sua vida -desappareceriam. Estava assim a escolher arados e outros «Planets», -«Bajacs» e «Brabants» de varios feitios, quando o seu pequeno -copeiro lhe annunciou a visita do dr. Campos. - -O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão, e o seu grande -corpo. Era alto e gordo, pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos, -quasi á flôr do rosto, uma testa média e recta: o nariz, mal feito. -Um tanto trigueiro, cabellos corridos e já grisalhos, era o que se -chama por ahi um caboclo, embora o seu bigode fosse crespo. Não nascera -em Curuzú, era da Bahia ou de Sergipe, habitava, porém, o logar ha -mais de vinte annos, onde casara e prosperara, graças ao dote da mulher -e á sua actividade clinica. Com esta, não gastava grande energia, -mental: tendo de côr uma meia duzia de receitas, elle, desde muito, -conseguira enquadrar as molestias locaes no seu reduzido formulario. - -Presidente da Camara, era das pessoas mais consideraveis da Curuzú, e -Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade, pela sua -affabilidade e simplicidade. - ---Ora, viva Major! Como vai isto por ahi? muita formiga? Lá em casa já -não ha mais. - -Quaresma respondeu com menor enthusiasmo e jovialidade, mas comente com -a alegria communicativa do doutor. Elle continuava a falar com -desembaraço e naturalidade: - ---Sabe o que me traz aqui, Major? Não sabe, não é? Preciso de um -pequeno obsequio seu. - -O Major não se espantou; sympathizava com o homem e abriu-se em -offerecimentos. - ---Como o Major sabe... - -Agora a sua voz era doce, flexivel, subtil; as palavras cahiam-lhe da -boca adocicadas, dobravam-se, colleavam-se: - ---Como o Major sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A -victoria é _nossa_. Todas as mezas estão comnosco, excepto uma... Ahi -mesmo, se o Major quizer... - ---Mas, como? se eu não sou eleitor, não me metto, nem quero metter-me -em politica? perguntou Quaresma ingenuamente. - ---Exactamente por isso, disse o doutor com voz forte: e em seguida -brandamente: a secção funcciona na sua vizinhança, é ali, na escola, -se... - ---E dahi? - ---Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o Major quer -responder (é melhor já) que não houve eleição... Quer? - -Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavaignac e -respondeu claramente, firmemente: - ---Absolutamente não. - -O doutor não se zangou. Pôz mais uncção e maciez a na voz, adduziu -argumentos: que era para o partido, o unico que pugnava pelo -levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexivel; disse que não, que -lhe eram absolutamente antipathicas taes disputas, que não tinha -partido e mesmo que tivesse não iria affirmar uma cousa que elle não -sabia ainda se era mentira ou verdade. - -Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre -cousas banaes e despediu-se com o ar amavel, com a jovialidade mais sua -que era possivel. - -Isto se passou na terça-feira, naquelle dia de luz fosca e irritante. -Á tarde houve trovoada, choveu muito. O tempo só levantou na -quinta-feira, dia em que o Major foi surprehendido com a visita de um -sujeito com um uniforme velho e lamentavel, portador de um papel -official para elle, proprietario do «Socego», conforme mesmo disse o -tal homem fardado. - -Em virtude das posturas e leis municipaes, rezava o papel, O Sr. -Polycarpo Quaresma, proprietario do sitio «Socego» era intimado, sob -as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e capinar as testadas do -referido sitio que confrontavam com as vias publicas. - -O Major ficou um tempo pensando. Julgava impossivel uma tal intimação. -Seria mesmo? Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assignatura do -Dr. Campos. Era certo... Mas que absurda intimação esta de capinar e -limpar estradas na extensão de mil duzentos metros, pois seu sitio dava -de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na -extensão de oitocentos metros--era possivel!? - -A antiga corvéa!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sitio. -Consultando a irmã, ella lhe aconselhou que falasse ao Dr. Campos. -Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com elle dias antes. - ---Mas és tolo, Polycarpo. Foi elle mesmo... - -A luz se lhe fez no pensamento... Aquella rede de leis, de posturas, de -codigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de taes caciques, se -transformava em pôtro, em polé, em instrumento de supplicios para -torturar os inimigos, opprimir as populações, crestar-lhes a -iniciativa e a independencia, abatendo-as e desmoralizando-as. - -Pelos seus olhos passaram num instante aquellas faces amarelladas e -chupadas que se encostavam nos portaes das vendas preguiçosamente; viu -tambem aquellas crianças maltrapilhas e sujas, d'olhos baixos, a -esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquellas terras -abandonadas, improductivas, entregues ás hervas e insectos damninhos; -viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, activo e trabalhador, sem -animo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que -lhe passava pelas mãos--este quadro passou-lhe pelos olhos com a -rapidez e o brilho sinistro do relampago; e só se apagou de todo, -quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara. - -Vinha viva e alegre. Contava pequenas historias de sua vida, a viagem -proxima do papai, á Europa, o desespero do marido no dia em que sahiu -sem annel, pedia noticias do padrinho, de D. Adelaide e, sem -desrespeito, recommendava á irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado -com o manto de arminho da «Duqueza». - -A «Duqueza» era uma grande pata branca, de penas alvas a macias ao -olhar, que, pela lentidão e magestade do andar, com o pescoço alto e o -passo firme, merecera de Olga esse appellido nobre. O animal tinha -morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas duzias de -patos, levara a «Duqueza» tambem. Era uma especie de paralysia que -tomava as pernas, depois o resto do corpo. Tres dias levou a agonizar. -Deitada sobre o peito, com o bico collado ao chão, atacada pelas -formigas, o animal só dava signal de vida por uma lenta oscillação do -pescoço em torno do bico, espantando as moscas que a importunavam na -sua ultima hora. - -Era de ver como aquella vida tão extranha á nossa, naquelle instante -penetrava em nós e sentiamo-lhe o soffrimento, a agonia e a dôr. - -O gallinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou gallinhas, -perús, patos; ora sobre uma forma, ora sobre outra, foi ceifando, -matando, até reduzir a sua população a menos de metade. - -E não havia quem soubesse curar. Numa terra, cujo Governo tinha tantas -escolas que produziam tantos sabios, não havia um só homem que pudesse -reduzir, com as suas drogas ou receitas aquelle consideravel prejuizo. - -Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador -enthusiastico dos primeiros mezes; entretanto não passara pela mente -de Quaresma abandonar os seus propositos. Adquiriu compendios de -veterinaria e até já tratava de comprar as machinas agricolas -descriptas nos catalogos. - -Uma tarde, porém, estava á espera da junta de bois que encommendara -para o trabalho do arado, quando lhe appareceu á porta um soldado de -policia com um papel official. Elle se lembrou da intimação municipal. -Estava disposto a resistir, não se incommodou muito. - -Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da -collectoria, cujo escrivão, Antonio Dutra, conforme estava no papel, -intimava o Sr. Polycarpo Quaresma a pagar quinhentos mil réis de multa, -por ter enviado productos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos -impostos. - -Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento -voou logo para as cousas geraes, levado pelo seu patriotismo profundo. - -A quarenta kilometros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao -mercado umas batatas? Depois de Turgot da Revolução, ainda havia -alfandegas interiores? - -Como era possivel fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e -impostos? Se ao monopolio dos atravessadores do Rio se juntavam as -exacções do Estado, como era possivel tirar da terra a remuneração -consoladora? - -E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação -da municipalidade, voltou-lhe de novo, mais tetrico, mais sombrio, mais -lugubre; e anteviu a epoca em que aquella gente teria de comer sapo, -cobras, animaes mortos, como em França os camponezes, em tempos de -grandes reis. - -Quaresma veiu a recordar-se do seu tupy, do seu _folk-lore_, das -modinhas, das suas tentativas agricolas--tudo isso lhe pareceu -insignificante, pueril, infantil. - -Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessario -refazer a administração. Imaginava um Governo forte, respeitado, -intelligente, removendo todos esses obices, esses entraves, Sully e -Henrique IV, espalhando sabias leis agrarias, levantando o cultivador... -Então sim! O celleiro surgiria e a patria seria feliz. - -Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar á -estação, e lhe disse: - ---Seu patrão, amanhã não venho _trabaiá_. - ---Por certo; é dia feriado... A Independencia. - ---Não é por isso. - ---Porque então? - ---Ha _baruio_ na Côrte e dizem que vão _arrecutá_. Vou p'r'o mato... -Nada! - ---Que barulho? - ---_Tá_ nas _foias_, sim _sinhô_. - -Abriu o jornal e logo deu com a noticia de que os navios da esquadra se -haviam insurgido e intimado ao Presidente a sahir do poder. Lembrou-se -das suas reflexões de instantes atrás; um Governo forte, até á -tyrannia... Medidas agrarias... Sully e Henrique IV... - -Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao -interior da casa, nada disse á irmã, tomou o chapéo, e dirigiu-se á -estação. - -Chegou ao telegrapho e escreveu: «Marechal Floriano, Rio. Peço -energia. Sigo já.--Quaresma». - - - - -V - -O TROVADOR - - ---De certo, Albernaz, não é possivel continuar assim... Então, -mette-se um sujeito num navio, assesta os canhões p'ra terra e diz: sai -d'ahi _seu_ presidente; e o homem vai sahindo?... Não! É preciso um -exemplo.... - ---Eu penso tambem da mesma maneira, Caldas. A Republica precisa ficar -forte, consolidada... Esta terra necessita de Governo que se faça -respeitar... É incrivel! Um paiz como este, tão rico, talvez o mais -rico do mundo, é, no emtanto, pobre, deve a todo o mundo... Porque? Por -causa dos Governos que temos tido que não têm prestigio, força... É -por isso. - -Vinham andando, á sombra das grandes e magestosas arvores do parque -abandonado; ambos fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto -intervallo, continuou: - ---Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por -ahi, que o não chamasse de «banana» e outras cousas... Sahia no -Carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um -intruso. - ---E era um bom homem, observou o Almirante. Amava o seu paiz... Deodoro -nunca soube o que fez. - -Continuavam a andar. O Almirante coçou um dos favoritos e Albernaz -olhou um instante para todos os lados, accendeu o cigarro de palha e -retomou a conversa: - ---Morreu arrependido... Nem com a farda quiz ir para a cóva!... Aqui -para nós que ninguem nos ouve: foi um ingrato; o Imperador tinha feito -tanto por toda a familia, não acha? - ---Não ha duvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa: -estavamos melhor naquelle tempo, digam lá o que disserem... - ---Quem diz o contrario? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias? -um Rio Branco? - ---E mais justiça mesmo, disse com firmeza o Almirante. O que eu soffri, -não foi por causa do _velho_, foi a canalha... Demais, tudo barato... - ---Eu não sei, disse Albernaz com particular accento, como ha ainda quem -se case... Anda tudo pela hora da morte! - -Elles olharam um instante as velhas arvores da Quinta Imperial, por onde -vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes -que jamais tinham pousado os olhos sobre amores tão soberbas, tão -bellas, tão tranquillas e seguras de si, como aquellas que espalhavam -sob os seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam -que medravam sentindo-se em terra propria, dellas, da qual nunca -sahiriam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e esse -sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade -de se expandirem. O sólo sobre a qual cresciam, era dellas e agradeciam -á terra extendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem, -para dar á boa mãe, frescura e protecção contra a inclemencia do -sol. - -As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas, -quasi beijavam o chão. As jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se -inclinavam, de um lado e outro da aléa, e cobriam a terra com uma ogiva -verde... - -O velho edificio imperial se erguia sobre a pequena collina. Elles lhe -viam o fundo, aquella parte de construcção mais antiga, joannina, com -a torre do relogio um pouco afastada e separada do corpo do edificio. - -Não era bello o palacio, não tinha mesmo nenhum traço de belleza, era -até pobre e monotono. As janellas acanhadas daquella fachada velha, os -andares de pequena altura impressionavam mal; todo elle, porém, tinha -uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco commum nas -nossas habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente -viver, não para um instante, mas para annos, para seculos... As -palmeiras cercavam-n'o, erectas, firmes, com es seus grandes penachos -verdes, muito altos, alongados para o céo... - -Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do -seu mister e funcção. - -Albernaz interrompeu o silencio: - ---Em que dará isto tudo, Caldas? - ---Sei lá. - ---O _homem_ deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o -Custodio... hum! - ---O poder é o poder, Albernaz. - -Vinham andando em demanda á estação de S. Christovão. Atravessaram o -velho parque imperial transversalmente, desde o portão da Cancella até -á linha da Estrada de Ferro. Era de manhã, e o dia estava limpido e -fresco. - -Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de -sahirem da Quinta, deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz -teve vontade de acordal-o: camarada! camarada! O soldado levantou-se -estremunhado: e, dando com aquelles dous officiaes superiores, -concertou-se rapidamente, fez a continencia que lhes era devida e ficou -com a mão no bonet, um instante firme, mas logo bambeou. - ---Abaixe a mão, fez o General. Que faz você aqui? - -Albernaz falou em tom rispido e de commando. A praça, falando a medo, -explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. A força se -recolhera aos quarteis; elle obtivera licença para ir em casa, mas o -somno fôra muito e descançava ali um pouco. - ---Então como vão as cousas? perguntou o General. - ---Não sei, não _sinhô_. - ---Os homens desistem ou não? - -O General esteve um instante examinando o soldado, Era branco e tinha os -cabellos alourados, de um louro sujo e degradado; as feições eram -feias: mallares salientes, testa ossea e todo elle anguloso e -desconjuntado. - ---Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz. - ---Do Piauhy, sim _sinhô_. - ---Da capital? - ---Do sertão, de Paranaguá, sim _sinhô_. - -O Almirante até ali não interrogara o soldado que continuava -amedrontado, respondendo tropegamente. Caldas, para acalmal-o, resolveu -falar-lhe com doçura. - ---Você não sabe, camarada, quaes são os navios que _elles_ têm? - ---O «Aquidaban»... A «Lucy». - ---A «Lucy» não é navio. - ---É verdade, sim; sinhô. O «Aquidaban»... Um _bandão_ delles, sim, -_sinhô_. - -O General interveio então. Falou-lhe com brandura, quasi paternal, -mudando o tratamento de você para tu, que parece mais doce e intimo -quando se fala aos inferiores: - ---Bem, descança, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te -o sabre e estás na _ignacia_. - -Os dous generaes continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na -plataforma, da estação. A pequena estação tinha um razoavel -movimento. Um grande numero de officiaes, activos, reformados, -honorarios moravam-lhe nas cercanias e os editaes chamavam todos a se -apresentar ás autoridades competentes. Albernaz e Caldas atravessaram -a plataforma no meio de continencias. O General, era mais conhecido em -virtude de seu emprego; o Almirante, não. Quando passavam, ouviam -perguntar: «quem é este Almirante»? Caldas ficava contente e -orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incognito. - -Havia uma unica mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e -lembrou-se um instante de sua filha Ismenia... Coitada!... Ficaria boa? - -Aquellas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lagrimas, mas elle as -reteve com força. - -Já a levara a uma meia duzia de medicos e nenhum fazia parar aquelle -escapamento do juizo que parecia fugir aos poucos do cerebro da moça. - -A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrepido, apitando -com furia e deixando fumaça pesada, pelos ares que rompia, afastou-o de -pensar na filha. Passou o monstro, pejado de soldados, de uniformes e os -trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam. - -Bustamante appareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para -apresentar-se. Trazia o seu velho uniforme do Paraguay, talhado segundo -os moldes dos guerreiros da Criméa. A barretina era um tronco de cône -que avançava para a frente; e, com aquella banda roxa e casaquinha -curta, parecia ter sahido, fugido, saltado de uma téla de Victor -Meirelles. - ---Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorario. - ---Viemos pela Quinta, disse o Almirante. - ---Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me -importa morrer, mas quero morrer combatendo; isso de morrer por ahi, á -toa, sem saber como, não vai commigo... - -O General falara um pouco alto e os jovens officiaes que estavam -proximo, olharam-n'o com mal disfarçada censura. Albernaz percebeu e -ajuntou immmediatamente: - ---Conheço bem esse negocio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe, -Bustamante, que, em Curuzú... - ---A cousa foi terrivel, accrescentou Bustamante. - -O trem atracava na estação. Veiu chegando manso, vagaroso, a -locomotiva, muito negra, bufando, sumido gordurosamente, com a sua -grande lanterna na frente, um olho de cyclope, avançava que nem uma -apparição sobrenattural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e -parou por fim. - -Estava repleto, muitas fardas de officiaes, a avaliar por ali o Rio -devia ter uma guarnição de cem mil homens. Os militares palravam -alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados. Se -falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de -traz. - -A cidade andava inçada de secretas, _familiares_ do Santo Officio -Republicano, e as delações eram moedas com que se obtinham postos e -recompensas. - -Bastava a minima critica, para se perder o emprego, a liberdade,--quem -sabe?--a vida tambem. Ainda estavamos no começo da revolta, mas o -regimen já publicara o seu prologo e todos estavam avisados. O chefe de -policia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distincção de -posição e talentos. Mereciam as mesmas perseguições do Governo um -pobre continuo e um influente senador; um lente e um simples empregado -de escriptorio. Demais surgiam as vinganças! mesquinhas, a revide de -pequenas implicancias... Todos mandavam: a autoridade estava em todas as -mãos. - -Em nome do Marechal Floriano, qualquer official, ou mesmo cidadão, sem -funcção publica alguma, prendia e ai de quem cahia na prisão, lá -ficava esquecido, soffrendo angustiosos supplicios de uma imaginação -dominicana. Os funccionarios disputavam-se em bajulação, em -servilismo... Era um terror, um terror baço, sem coragem, sangrento, -ás occultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem -responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier -Tinville. - -Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, -os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação vinha da -convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a -companhia, a todos esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia -sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse -nefasto o hypocrita positivismo, um pedantismo tyrannico, limitado e -estreito, que justificava todas as violencias, todos os assassinios -todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição -necessaria, lá diz elle, ao progresso e tambem ao advento do regimen -normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com -fanhosas musicas de cornetins e versos detestaveis, o paraizo emfim, com -inscripções em escriptura phonetica e eleitos calçados com sapatos de -sola de borracha!... - -Os positivistas discutiam e citavam theoremas de mecanica para -justificar as suas idéas de Governo, em tudo semelhantes aos khanatos e -emirados orientaes. - -A mathematica do positivismo foi sempre um puro falatorio que, -naquelles tempos, amedrontava toda a gente. Havia mesmo quem estivesse -convencido que a mathematica tinha sido feita e criada para o -positivismo, como se a Biblia estivesse sido criada unicamente para a -Igreja Catholica e não tambem para a Anglicana. O prestigio delle era, -portanto, enorme. - -O trem correu, parou ainda em uma estação e foi ter á praça da -Republica. O Almirante, cozido com as paredes, seguiu para o Arsenal de -Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel General. Penetraram -no grande casarão, no meio do retinir de espadas, de tiques de -cornetas; o grande pateo estava cheio de soldados, bandeiras, canhões, -feixes de armas ensarilhadas, bayonetas reluzindo ao sol obliquo... - -No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vai-e-vem -de fardas, dourados, fazendas multicores, uniformes de varias -corporações e milicias, no meio dos quaes os trages escuros dos civis -eram importunos como moscas. Misturavam-se officiaes da guarda nacional, -da policia, da armada, do exercito, de bombeiros e de batalhões -patrioticos que começavam a surgir. - -Apresentaram-se e, depois de tel-o feito ao Ajudante General e Ministro -da Guerra, a um só tempo, ficaram a conversar nos corredores, com -bastante prazer, pois que tinham encontrado o Tenente Fontes e ambos -gostavam de ouvil-o. - -O General porque já era noivo de sua filha Lalá, e Bustamante porque -aprendia com elle alguma cousa de nomenclatura dos armamentos modernos. - -Fontes estava indignado, todo elle era horror, maldição contra os -insurrectos, e propunha os peores castigos. - ---Hão de ver o resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso do Marechal, -se os pegasse... ai delles! - -O Tenente não era feroz nem mau, antes bom e até generoso, mas era -positivista e tinha da sua Republica uma idéa religiosa e -transcendente. Fazia repousar nella toda a felicidade humana e não -admittia que a quizessem de outra forma que não aquella que imaginava -boa. Fóra dahi não havia boa fé, sinceriddae; eram hereticos -interesseiros, e, dominicano do seu barrete phrygio, raivoso por não -poder queimal-os em autos de fé, congesto, via passar por seus olhos -uma serie enorme de réos confitentes, relapsos, contumazes, falsos, -simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por ahi... - -Albernaz não tinha tanta furia contra os adversarios. No fundo d'alma, -elle os queria até, tinha amigos lá, e essas divergencias nada -significavam para a sua idade e experiencia. - -Depositava, entretanto, uma certa esperança na acção do Marechal. -Estando em apuros financeiros, não lhe dando o bastante a sua reforma e -a gratificação de organizador do archivo do largo do Moura, esperava -obter uma outra commissão, que lhe permitisse mais folgadamente -adquirir o enxoval de Lalá. - -O Almirante, tambem, tinha grande confiança nos talentos guerreiros e -de estadista de Floriano. A sua causa não ia lá muito bem. Perdera-a -em primeira instancia, estava gastando muito dinheiro... O Governo -precisava de officiais de marinha, quasi todos estavam na revolta; -talvez lhe dessem uma esquadra a commandar... É verdade que... Mas, que -diabo! Se fosse um navio, então sim: mas uma esquadra a cousa não era -difficil: bastava coragem para combater. - -Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim -que, para apoial-o e defender o seu Governo, imaginava organizar um -batalhão patriotico, de que já tinha o nome «Cruzeiro do Sul» e -naturalmente seria o seu commandante, com todas as vantagens do posto de -coronel. - -Genelicio, cuja actividade nada tinha de guerreira, esperava muito da -energia e da decisão do Governo de Floriano: esperava ser sub-director -e não podia um Governo sério, honesto e energico, fazer outra cousa, -desde que quizesse pôr ordem na sua secção. - -Essas secretas esperanças eram mais geraes do que se pode suppor. Nós -vivemos do Governo e a revolta representava uma confusão nos empregos, -nas honrarias e nas posições que o Estado espalha. Os suspeitos -abririam vagas e as dedicações suppririam os titulos e habilitações -para occupal-as; além disso, o Governo, precisando de sympathias e -homens, tinha que nomear, espalhar, prodigalizar, inventar, criar e -distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações. - -O proprio Dr. Armando Borges, o marido de Olga e sabio sereno e dedicado -quando estudante, collocava na revolta a realização de risonhos -anhelos. - -Medico e rico, pela fortuna da mulher, elle não andava satisfeito. A -ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-n'o. Já era -medico do Hospital Syrio, onde ia tres vezes por semana e, em meia hora, -via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro, dava-lhe -informações, o doutor ia de cama em cama, perguntando: como vai? Vou -melhor seu doutor, respondia o syrio com voz gutural. Na seguinte, -indagava: Já está melhor? E assim passava a visita; chegando ao -gabinete receitava: doente n. 1, repita a receita; doente 5... quem -é?... Quem é aquelle barbado... Ahn! E receitava. - -Mas medico de um hospital particular não dá fama a ninguem: o -indispensavel é ser do Governo, senão elle não passava, de um simples -pratico. Queria ter um cargo official, medico, director ou mesmo lente -da Faculdade. - -E isso não era difficil, desde que arranjasse boas recommendações, -pois já tinha certo nome, graças á sua actividade e fertilidade de -recursos. - -De quando em quando, publicava um folheto «O cobreiro, Etiologia, -Prophylaxia e tratamento» ou «Contribuição para o estudo da sarna no -Brasil»; e mandava o folheto, quarenta e sessenta paginas, aos jornaes -que se occupavam delle duas ou tres vezes por anno; _o operoso, Dr. -Armando Borges, o illustre clinico, o proficiente medico da nossos -hospitaes, etc. etc_. - -Obtinha isso graças á precaução que tomara em estudante de se -relacionar com os rapazes da imprensa. - -Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que -não havia nada de proprio, mas ricos de citações em francez, inglez e -allemão. - -O logar de lente é que o tentava mais; o concurso porém, mettia-lhe -medo. Tinha elementos, estava bem relacionado e cotado na Congregação, -mas aquella historia de arguição apavorava-o. - -Não havia dia em que não comprasse livros, em francez, inglez e -italiano; tomara até um professor de allemão para entrar na sciencia -germanica; mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a sua -felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando -estudante. - -A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em bibliotheca. -As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes -tratados. Ar noite, elle abria as janellas das venezianas, accendia -todos os bicos de gaz e se punha á meza, todo de branco com um livro -aberto sob os olhos. - -O somno não tardava a vir ao fim da quinta pagina... isso era o diabo! -Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances francezes, Goncourt, -Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira -que os tratados. Elle não comprehendia a grandeza daquellas analyses, -daquellas descripções, o interesse e o valor dellas, revelando a -todos, á sociedade, a vida, os sentimentos, as dores daquelles -personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa sciencia e a -pobreza de sua instrucção geral faziam-n'o ver naquillo tudo, -brinquedos, passatempos, falatorios, tanto mais que elle dormia á -leitura, de taes livros. - -Precisava, porém, illudir-se, a si mesmo e á mulher. De resto, da rua, -viam-n'o e se dessem com elle a dormir sobre os livros?!... Tratou de -encommendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com titulos -trocados e afastou o somno. - -A sua clinica, entretanto, prosperava. De commandita com o tutor, chegou -a ganhar uns seis contos, tratando de um febrão de uma orphã rica. - -Desde muito que a mulher lhe entrara na sua simulação de -intelligencia, mas aquella manobra indecorosa, indignou-a. Que -necessidade tinha elle disso? Não era já rico? Não era moço? Não -tinha o privilegio de um titulo universitario? Tal acto pareceu á moça -mais vil, mais baixo, que a usura de um judeu, que o aluguel de uma -penna... - -Não foi desprezo, nojo que ella teve pelo marido; foi um sentimento -mais calmo, menos activo; desinteressou-se delle, destacou-se de sua -pessoa. Ella sentiu que tinham cortado todos os laços de affeição, de -sympathia, que prendiam ambos, toda a ligação moral, emfim. - -Mesmo quando noiva, verificara que aquellas cousas de amor ao estudo, de -interesse pela sciencia, de ambições de descobertas, nelle, eram -superficiaes, estavam á flor da pelle; mas desculpou. Muitas vezes nós -nos enganamos sobre as nossas proprias forças e capacidades; sonhamos -ser Shakespeare e sahimos Mal dos Vinhas. Era perdoavel, mas charlatão? -Era de mais! - -Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quasi -indignidade?... Todos os homens deviam ser iguaes, era inutil mudar -deste para aquelle... - -Quando chegou a esta conclusão, sentiu um grande allivio, e a sua -physionomia se illuminou de novo como se já estivesse de todo passada a -nuvem que empanava o sol dos seus olhos. - -Naquella carreira atropellada para o nome facil, elle não deu pelas -modificações da mulher. Ella dissimulava os seus sentimentos, mais por -dignidade e delicadeza, que mesmo por qualquer outro motivo; e a elle -faltavam a sagacidade e finura necessarias para descobril-os sob o seu -esconderijo. - -Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quando estavam longe um -do outro!... - -A revolta veiu encontral-os assim; e o doutor, desde tres dias, pois ha -tanto ella rebentara, meditava a sua ascenção social e monetaria. - -O sogro suspendera a viagem á Europa, e, naquella manhã, após o -almoço, conforme o seu habito, lia recostado numa cadeira de viagem os -jornaes do dia. O genro vestia-se e a filha; occupava-se com sua -correspondencia, escrevendo á cabeceira da meza de jantar. Ella tinha -um gabinete, com todo o luxo, livros, secretaria, estantes, mas gostava -pela manhã, de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe parecia mais -clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade -ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no escrever. - -Ella escrevia e o pai lia; num dado momento elle disse: - ---Sabes quem vem ahi, minha filha? - ---Quem é? - ---Teu padrinho. Telegraphou ao Floriano, dizendo que vinha... Está -aqui, n'«O Paiz». - -A moça adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir do facto sobre -as idéas e sentimentos de Quaresma. Quiz desapprovar, censurar; -sentiu-o, porém, tão coherente com elle mesmo, tão de accordo com a -substancia da vida que elle mesmo fabricara, que se limitou a sorrir -complacente: - ---O padrinho... - ---Está doido, disse Coleoni. _Per la madona_! Pois um homem que está -quieto, socegado, vem metter-se nesta barafunda, neste inferno... - -O doutor voltava já inteiramente vestido, com a sobrecasaca funebre e a -cartola reluzente na mão. Vinha irradiante e o seu rosto redondo -reluzia, excepto onde o grande bigode punha sombras. Ainda ouviu as -ultimas palavras do sogro, pronunciadas com aquelle seu portuguez rouco. - ---Que ha? perguntou elle. - -Coleoni explicou a repetiu os commentarios que já fizera: - ---Mas não ha tal, disse o doutor. É o dever de todo o patriota... Que -tem a idade? Quarenta e poucos annos, não é lá velho... Póde ainda -bater-se pela Republica... - ---Mas não tem interesse nisso, objectou o velho. - ---E ha de ser só quem tem interesse que se deve bater pela Republica? -interrogou o doutor. - -A moça que acabava de ler a carta que tinha escripto, mesmo sem -levantar a cabeça, disse: - ---De certo. - ---É vêm você com as suas theorias, filhinha. O patriotismo não está -na barriga... - -E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes -postiços mais falsificava. - ---Mas vocês só falam em patriotismo? E os -outros! É monopolio de vocês o patriotismo? fez Olga. - ---De certo. Se elles fossem patriotas não estariam a despejar balas -para a cidade, a entorpecer e desmoralisar a acção da autoridade -constituida. - ---Deviam continuar a presenciar as prisões, as deportações, os -fuzilamentos, toda a serie de violencias que se vêm commettendo, aqui e -no Sul? - ---Você, no fundo, é uma revoltosa, disse o doutor fechando a -discussão. - -Ella não deixava de ser. A sympathia dos desinteressados, da -população. inteira era pelos insurgentes. Não só isso sempre -acontece em toda a parte, como particularmente, no Brasil, devido a -multiplos factores, ha de ser assim normalmente. - -Os Governos, com os seus inevitaveis processos de violencia e -hypocrisias, ficam alheiados da sympathia dos que acreditam nelle; e -demais, esquecidos de sua vital impotencia e inutilidade, levam a -prometter o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que -pedem sempre mudanças e mudanças. - -Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para os revoltosos; e -Coleoni, estrangeiro e conhecendo, graças á sua vida, as nossas -autoridades, calasse as suas sympathias num mutismo prudente. - ---Não me vá comprometter, hein Olga? - -Ella se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco, -deitou-lhe o seu grande olhar luminoso e com os finos labios um pouco -franzidos: - ---Você sabe bem que eu não te comprometto. - -O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do -portão disse adeus a mulher, que lhe seguiu a sahida, debruçada na -varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados. - -Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado das contingencias -terrenas. - -Ricardo vivia ainda na sua casa de commodos dos suburbios, cuja vista ia -de Todos os Santos á Piedade, abrangendo um grande trato de area -edificada, um panorama de casas e arvores. - -Já não se falava mais no seu rival e a sua magua tinha assentado. - -Por esses dias o seu triumpho desfilava sem contestação. Toda a cidade -o tinha na consideração devida e elle quasi se julgava ao termo da sua -carreira. Faltava o assentimento de Botafogo, mas estava certo de obter. - -Já publicara mais de um volume de canções; e, agora pensava em -publicar mais outro. - -Ha dias vivia em casa, pouco sahindo, organizando o seu livro. Passava -confinado no seu quarto, almoçando café, que elle mesmo fazia, e pão, -indo á tarde jantar a uma tasca proximo á estação. - -Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que -jantavam nas mezas sujas, abaixavam a voz e olhavam-n'o desconfiados; -mas não deu importancia... - -Apezar de popular no logar, não encontrara pessoa alguma conhecida -durante os tres ultimos dias; elle mesmo evitava falar e, em sua casa, -limitava-se ao «bom dia» e á «boa tarde» trocados com os vizinhos. - -Gostava de passar assim dias, mettido em si mesmo e ouvindo o seu -coração. Não lia jornaes para não distrahir a attenção do seu -trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de -ser mais uma victoria para elle e para o violão estremecido. - -Naquella tarde estava sentado á meza, corrigindo um dos seus trabalhos, -um dos ultimos, aquelle que compuzera no sitio de Quaresma--«Os lábios -de Carola». - -Primeiro, leu toda a producção, cantarolando: voltou a lel-a, agarrou -o violão para melhor apanhar o effeito e empacou nestes: - - - É mais bella que Helena e Margarida, - Quando sorri meneando a ventarola. - Só se encontra a illusão que adoça a vida - Nos labios de Carola. - - -Nisto ouviu um tiro, depois outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de -ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a -cantar os labios de Carola, onde encontrava a illusão que adoça a -vida... - - - - -TERCEIRA PARTE - - - - -I - -PATRIOTAS - - -Havia mais do uma hora que elle estava ali, num grande salão do -palacio, vendo o Marechal, mas sem lhe poder falar. Quasi não se -encontravam difficuldades para se chegar á sua presença, mas -falar-lhe, a cousa não era tão facil. - -O palacio tinha um ar de intimidade, de quasi relaxamento, -representativo o eloquente. Não era raro ver-se pelos divans, em outras -salas, ajudantes de ordens, ordenanças, continuos, cochilando, meio -deitados e desabotoados. Tudo nelle era desleixo e molleza. Os cantos -dos tectos tinham teias de aranha; dos tapetes, quando pisados com mais -força, subia uma poeira do rua mal varrida. - -Quaresma não pudera vir logo, como annunciara no telegramma. Fôra -preciso por em ordem os seus negocios, arranjar quem fizesse companhia -á irmã. Fizera D. Adelaide mil objecções á sua partida; -mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompativeis com a sua idade -e superiores á sua força; elle, porém, não se deixara abater, fizera -pé firme, pois sentia, indispensavel, necessario que toda a sua -vontade, que toda a sua intelligencia, que tudo o que elle tinha de -vida e actividade fosse posto á disposição do Governo, para -então!... oh! - -Aproveitava os dias até para redigir um memorial que ia entregar a -Floriano. Nelle expunham-se as medidas necessarias para o levantamento -da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande -propriedade, das exacções fiscaes, da carestia de fretes, da -estreiteza dos mercados e das violencias politicas. - -O Major apertava o manuscripto na mão e lembrava-se da sua casa, lá -longe, no canto daquella planicie feia, olhando, no poente, as montanhas -que se alongavam, se afilavam nos dias claros e transparentes; -lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e placidos que o viram -partir com uma impassibilidade que não era natural; mas do que se -lembrava mais, naquelle momento, era do Anastacio, o seu preto velho, do -seu longo olhar, não mais com aquella ternura passiva de animal -domestico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito -nas orbitas as escleroticas muito brancas, quando o viu penetrar no -vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça... Não lhe -era commum tal attitude e como que a tomava por ter descoberto nas -cousas signaes de dolorosos acontecimentos a vir... Ora!... - -Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro á espera que o -Presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia e -Floriano tinha ainda, como signal do almoço, o palito na boca. - -Falou em primeiro logar a uma commissão de senhoras que vinham -offerecer o seu braço e o seu sangue em defeza das instituições e da -patria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto, gorda, com -grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita. - -Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam -tantas nella que uma escondia a outra, furtando toda ella a uma -classificação honesta. - -Emquanto falava, a mulhersinha deitava sobre o Marechal os grandes olhos -que despediam chispas. Floriano parecia incommodado com aquelle -chammejar; era como se temesse derreter-se ao calor daquelle olhar que -queimava mais seducção que patriotismo. Fugia encaral-a, abaixava o -rosto como um adolescente, batia com os dedos na meza... - -Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem -encarar a mulher, e, com um grosso e difficil sorriso do roceiro, -declinou da offerta, visto a Republica ainda dispor de bastante força -para vencer. - -A ultima phrase, elle a disse com mais vagar e quasi ironicamente. As -damas despediram-se; o Marechal gyrou o olhar em torno do salão e deu -com Quaresma: Então, Quaresma? fez elle familiarmente. - -O Major ia approximar-se, mas logo estacou no logar em que estava. Uma -chusma de officiaes subalternos e cadetes cercou o dictador e a sua -attenção convergiu para elles. Não se ouvia o que diziam. Falavam ao -ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espaduas. O Marechal -quasi não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossylabo, -cousa que Quaresma percebia pela articulação dos labios. - -Começaram a sahir. Apertavam a mão do dictador e, um delles, mais -jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com força a mão -molle, bateu-lhe no hombro com intimidade, e disse alto e com emphase; -energia, Marechal! - -Aquillo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo -ceremonial da Republica, que ninguem, nem o proprio Floriano, teve a -minima surpreza, ao contrario alguns até sorriram alegres por ver o -califado khan, o emir, transmittir um pouco do que tinha de sagrado ao -subalterno desabusado. Não se foram todos immediatamente. Um delles -demorou-se mais a segredar cousas á suprema autoridade do paiz. Era um -cadete da Escola Militar, com a sua farda azul turqueza, talim e sabre de -praça de pret. - -Os cadetes da Escola Militar formavam a phalange sagrada. - -Tinham todos os privilegios e todos os direitos; precediam ministros nas -entrevistas com o dictador e abusavam dessa situação de esteio do -sylla, para opprimir e vexar a cidade inteira. - -Uns trapos do positivismo se tinham collado naquellas intelligencias e -uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando a -autoridade, especialmente Floriano e vagamente a Republica, em artigo de -fé, em feitiço, em idolo mexicano, em cujo altar todas as violencias -e crimes eram oblatas dignas e offerendas uteis para a sua satisfação -e eternidade. - -O cadete lá estava... - -Quaresma pôde então ver melhor a physionomia do homem que ia enfeixar -em suas mãos, durante quasi um anno, tão fortes poderes, poderes de -imperador Romano pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar -obstaculo algum aos seus caprichos, ás suas fraquezas e vontades, nem -mas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal e humana. - -Era vulgar e desoladora. O bigode cahido; o labio inferior pendente e -molle a que se agarrava uma grande _mosca_; os traços flacidos e -grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse -propria, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, -redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era -individual, mas nativa, de raça; e todo elle era gelatinoso, parecia -não ter nervos. - -Não quiz o Major ver em taes signaes nada que lhe denotasse o caracter, -a intelligencia e o temperamento. Essas cousas não vogam, disse elle de -si para si. - -O seu enthusiasmo por aquelle idolo politico era forte, sincero e -desinteressado. Tinha-o na conta de energico, de fino e supervidente, -tenaz e conhecedor das necessidades do paiz, manhoso talvez um pouco, -uma especie de Luiz XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era -assim. Com uma ausencia total de qualidades intellectuaes, havia no -caracter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tristeza de -animo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça commum, -essa preguiça de nós todos; era uma preguiça morbida, como que uma -pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insufficiente quantidade -de irrigação no seu organismo. Pelos logares que passou, tornou-se -notavel pela indolencia e desamor ás obrigações dos seus cargos. - - -Quando director do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para -assignar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro -da guerra, passava mezes e mezes sem lá ir, deixando tudo por assignar, -pelo que legou ao seu substituto um trabalho avultadissimo. - -Quem conhece a actividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de -um Philippe II, de um Guilherme I, da Allemanha, em geral de todos os -grandes homens de Estado, não comprehende o descaso florianesco pela -expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, -de suas vistas, certamente necessarias deviam ser taes transmissões -para que o seu senso superior se fizesse sentir e influisse na marcha -das cousas governamentaes e administrativas. - -Dessa sua preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus -mysteriosos monosyllabos, levados á altura de ditos sybillinos, as -famosas _encruzilhadas dos tal vezes_, que tanto reagiram sobre a -intelligencia e imaginação nacionaes, mendigas de heroes e grandes -homens. - -Essa doentia preguiça, fazia-o andar de chinellos e deu-lhe aquelle -aspecto de calma superior, calma de grande homem de estado ou de -guerreiro extraordinario. - -Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros mezes de -governo. A braços com o levante de presos, praças e inferiores da -fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inquerito, abafou-o com -medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra -sedicção, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores -e mais altas recompensas. - -Demais, ninguem póde admittir um homem forte, um Cesar, um Napoleão, -que permitta aos subalternos aquellas intimidades deprimentes e tenha -com elles as condescendencias que elle tinha, consentindo que o seu nome -servisse de labaro para uma vasta serie de crimes de toda a especie. - -Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atomosphera de má vontade -Napoleão assumiu o commando do exercito da Italia. Augereau que o -chamava «general de rua», disse a alguem, após lhe ter falado: «o -homem metteu-me medo»; e o corso estava senhor do exercito, sem -_balidellas_ no hombro, sem delegar tacita ou explicitamente a sua -autoridade a subalternos irresponsaveis. - -De resto, a lentidão com que suffocou a revolta de 6 de Setembro mostra -bem a incerteza, a vacillação de vontade de um homem que dispunha -daquelles extraordinarios recursos que estavam ás suas ordens. - -Ha uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus -movimentos, actos e gestos. Era o seu amor á familia, um amor -entranhado, alguma cousa de patriarchal, de antigo que já se vai -esvaindo com a marcha da civilização. - -Em virtude de insuccessos na exploração agricola de duas das suas -propriedades, a sua situação particular era precaria, e não queria -morrer sem deixar á familia as suas propriedades agricolas desoneradas -do peso das dividas. - -Honesto e probo como era, a unica esperança que lhe restava, repousava -nas economias sobre os seus ordenados. Dahi lhe veiu essa dubiedade, -esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensavel para conservar os -rendosos logares que teve e o fez atarrachar-se tenazmente á -presidencia da Republica. A hypotheca do «Brejão» e do «Duarte» foi -o seu nariz de Cleopatra... - -A sua preguiça, a sua tistreza de animo e o seu amor fervoroso pelo lar -deram em resultado esse _homem-talvez_ que, refractado nas -necessidades mentaes e sociaes dos homens do tempo, foi transformado em -estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais -teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até -enthusiasmo e fanatismo. - -Esse enthusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que -o sustentaram, só teriam sido possiveis, depois de ter elle sido -ajudante general do Imperio, senador, ministro, isto após se ter -_fabricado_ á vista de todos o chrystalizado a lenda na mente de todos. - -A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, -nem a aristocracia; era a de uma tyrannia domestica. O bêbê portou-se -mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande o portar-se mal em fazer-lhe -opposição, ter opiniões contrarias ás suas e o castigo não eram -mais palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não ha dinheiro no -Thesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se -faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais agua. - -Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce -a essa concepção infantil, raiando-a de violencia, não tanto por elle -em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela vida -humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade -dos seus auxiliares e asseclas. - -Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; elle com muitos homens -honestas e sinceros do tempo, foram tomados pelo enthusiasmo contagioso -que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino -reservava aquella figura placida e triste; na reforma radical que elle -ia levar organismo anniquilado da patria, que o Major se habituara a -crer a mais rica do mundo, embora, de uns tempos para cá, já tivesse -duvidas a certos respeitos. - -De certo, elle não negaria taes esperanças e a sua acção poderosa -havia de se fazer sentir pelos oito milhões de kilometros quadrados do -Brasil, levando-lhes estradas, segurança, protecção aos fracos, -assegurando o trabalho e promovendo a riqueza. - -Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro de -espera, desde que o Marechal lhe falou familiarmente, começou a -considerar aquelle homem pequenino, taciturno, de _pince-nez_ e foi-se -chegando, se approximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quasi -como um terrivel segredo: - ---Elles vão ver o _caboclo_... O Major ha muito que o conhece? - -Respondeu-lhe o Major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o -presidente, porém, ficara só e Quaresma avançou. - ---Então, Quaresma? fez Floriano. - ---Venho offerecer á V. Ex. os meus fracos prestimos. - -O presidente considerou um instante aquella pequenez de homem, sorriu -com difficuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu -por ahi a força de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa. - ---Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal. - -Floriano tinha essa capacidade de guardar physionomias, nomes, empregos, -situações dos subalternos com quem lidava. Tinha alguma cousa de -asiatico; era cruel e paternal ao mesmo tempo. - -Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a occasião para lhe falar -em leis agrarias, medidas tendentes a desafogar e dar novas bases á -nossa vida agricola. O Marechal ouviu-o distrahido, com uma dobra de -aborrecimento no canto dos labios. - ---Trazia á V. Ex. até este memorial... - -O presidente teve um gesto de mau humor, um quasi «não me amole» e -disse com preguiça a Quaresma: - ---Deixa ahi... - -Depositou o manuscripto sobre meza e logo o dictador dirigiu-se ao -interlocutor de ainda agora: - ---Que ha, Bustamante? e o batalhão, vai? - -O homem approximou-se mais, um tanto amedrontado! - ---Vai bem, Marechal. Precisamos de um quartel... Se V. Ex. desse -ordem... - ---É exacto. Fala ao Rufino em meu nome que elle póde arranjar... Ou -antes: leva-lhe este bilhete. - -Rasgou um pedaço de uma das primeiras paginas do manuscripto de -Quaresma, e assim mesmo, sobre aquella ponta de papel, a lapiz azul, -escreveu algumas palavras ao seu ministro da guerra. Ao acabar é que -deu com a desconsideração: - ---Ora! Quaresma! rasguei o teu escripto... Não faz mal... Era a parte -de cima, não tinha nada escripto. - -O Major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para -Bustamante: - ---Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres? - ---Eu! foz Quaresma estupidamente. - ---Bem. Vocês lá se entendam. - -Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas -do Itamaraty. Até á rua nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um -pouco frio. O dia estava claro e quente; o movimento da cidade parecia -não ter soffrido alteração apreciavel. Havia a mesma agitação de -bondes, carros e carroças; mas nas physionomias, um terror, um espanto, -alguma cousa de tremendo ameaçava, todos e parecia estar suspenso no -ar. - -Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora -Tenente-Coronel, velho amigo do Marechal, seu companheiro no Paraguay. - ---Mas nós nos conhecemos! exclamou elle. - -Quaresma esteve olhando aquelle velho mulato escuro, com uma grande -barba mosaica e olhos espertos, mas não se lembrou de tel-o já -encontrado algum dia. - ---Não me recordo... Donde? - ---Da casa do General Albernaz... Não se lembra? - -Polycarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a -formação do seu batalhão patriotico «Cruzeiro do Sul». - ---O Sr. quer fazer parte? - ---Pois não, fez Quaresma. - ---Estamos em difficuldades... Fardamento, calçado para as praças... -Nas primeiras despezas devemos auxiliar o Governo... Não convém -sangrar o Thesouro, não acha? - ---Certamente, disse com enthusiasmo Quaresma. - ---Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota... -Resolvi por isso fazer um rateio pelos officiaes, em proporção ao -posto: um alferes concorre com cem mil réis, um tenente com duzentos... -O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O senhor é major, não é? - -Quaresma então explicou por que o tratavam por Major. Um amigo, -influencia no Ministerio do Interior, lhe tinha mettido o nome numa lista -de guardas nacionaes, com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos, -viu-se, entretanto, sempre tratado Major, e a cousa pegou. A principio, -protestou, mas como teimassem deixou. - ---Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo Major. - ---Qual é a minha quota? - ---Quatrocentos mil réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um -posto importante... Aceita? - ---Pois não. - -Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha do lapiz e -despediu-se jovialmente. - ---Então, Major, ás seis, no quartel provisorio. - -A conversa se havia passado na esquina da rua Larga com o Campo de -Sant'Anna. Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da -cidade. Tencionava visitar o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas -para a sua iniciação militar. - -A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto -compassado das mulas; de quando em quando ou via-se um toque de corneta, -rufos de tambor, e do portão central do Quartel General sahia uma -força, armas ao hombro, bayonetas caladas, dansando nos hombros dos -recrutas, faiscando com um brilho duro e máu. - -Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o -secco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o bonde attingisse -á rua da Constituição, todos os rumores guerreiros tinham cessado, e -quem não estivesse avisado havia de suppor-se em tempos normaes. - -Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que -comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido; -bateram-lhe no hombro. Voltou-se. - ---Oh! General! - -O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimonias e -tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos -que se tinham enfraquecido por uma separação qualquer. Estava fardado, -com aquelle seu uniforme mal tratado; não trazia espada e o _pince-nez_ -continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detraz da -orelha esquerda. - ---Então vem ver a cousa? - ---Vim. Já me apresentei ao Marechal. - ---_Elles_ vão ver com quem se metteram. Pensam que tratam com o -Deodoro, enganam-se!... A Republica, graças a Deus, tem agora um homem -na sua frente... O _caboclo_ é de ferro... No Paraguay... - ---O Sr. conheceu-o lá, não, General? - ---Isto é... Não chegamos a nos encontrar, mas o Camisão... É duro, o -homem. Estou como encarregado das munições... É fino o _caboclo_; -não me quiz no litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que -saia das minhas mãos, é munição... Lá, no deposito, não me sai um -caixote que eu não examine... É necessario... No Paraguay, houve muita -desordem e comilança: mandou-se muita cal por polvora--não sabia? - ---Não. - -Pois foi. O meu gasto era ir para as praias, para o combate: mas o -_homem_ quer que eu fique com as munições... Capitão manda marinheiro -faz... Elle sabe lá... - -Deu de hombros, concertou o trancelim que já cahia da orelha e esteve -calado um instante. Quaresma perguntou: - ---Como vai a familia? - ---Bem. Sabe que Quinota casou-se? - ---Sabia, o Ricardo me disse. E D. Ismenia, como vai? - -A physionomia do General toldou-se e respondeu como a contragosto: - ---Vai no mesmo. - -O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha -enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros -calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de -estatua, numa atonia de inanimado, como que cahira em imbecilidade; mas -vinha uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria -á mãe, dizendo: «Aprompta-me, mamãe. O meu noivo não deve tardar... -é hoje o meu casamento». Outras vezes recortava papel, em forma de -participações, e escrevia: Ismenia de Albernaz e Fulano (variava) -participam o seu casamento. - -O General já consultara uma duzia de medicos, o espiritismo e agora -andava ás voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, porém, não -sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espirito -naquella obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que -não attingira, aniquilando-se, porém, o seu espirito e a sua mocidade -em pleno verdor. - -Entristecia o seu estado aquella casa outr'ora tão alegre, tão -festiva. Os bailes tinham diminuido: e, quando eram obrigados a dar um, -nas datas principaes, a moça, com todos os cuidados, á custa de todas -as promessas, era levada para casa da irmã casada, e lá ficava, -emquanto as outras dansavam, um instante esquecidas da irmã que -soffria. - -Albernaz não quis revelar aquella dôr de sua velhice: reprimiu a -emoção e continuou no tom mais natural, naquelle seu tom familiar e -intimo que usava com todos: - ---Isto é uma infamia, Sr. Quaresma. Que atrazo para o paiz! E os -prejuizos? Um porto destes fechado ao commercio nacional, quantos annos -de retardamento não representa! - -O Major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de -forma a tornar impossivel a reproducção de levantes e insurreições. - ---De certo, adduziu o General. Assim não progredimos, não nos -adiantamos. E no estrangeiro que mau effeito! - -O bonde chegara ao largo de S. Francisco e os dous se separaram. -Quaresma foi direitinho ao largo da Carioca e Albernaz seguiu para a rua -do Rosario. - -Olga viu entrar seu padrinho sem aquella alegria expansiva de sempre. -Não foi indifferença que sentiu, foi espanto, assombro, quasi modo, -embora soubesse perfeitamente que elle estava a chegar. Entretanto, não -havia mudança na physionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo elle. -Era o mesmo homem baixo, pallido, com aquelle cavaignac apontado e o -olhar agudo por detraz do _pince-nez_... Nem mesmo estava mais queimado -e o geito de apertar os labios era o mesmo que ella conhecia ha tantos -annos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impellido, empurrado por -uma força extranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, -verificou que lhe entrara naturalmente, com o seu passo meudo e firme. -Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirava sua -alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de -jantar e Quaresma não se fazia annunciar; ia entrando conforme o velho -habito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua -entrada: - ---Papae saiu; e o Armando está lá em baixo escrevendo. - -De facto, elle estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para -o _classico_ um grande artigo sobre «Ferimentos por arma de fogo». O -seu ultimo _truc_ intellectual era este do classico. Buscava nisto uma -distincção, uma separação intellectual desses meninos por ahi que -escrevem contos e romances nos jornaes. Elle, um sabio, e sobretudo, um -doutor, não podia escrever da mesma forma que elles. A sua sabedoria -superior e o seu titulo _academico_ não podia usar da mesma lingua, dos -mesmos modismos, da mesma syntaxe que esses poetastros e literatecos. -Veio-lhe então a idéa do classico. O processo era simples: escrevia do -modo commum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as -orações, picava o periodo com virgulas e substituia _incomodar_ por -_molestar_, ao _redor_ por _derredor_, _isto_ por _esto_, _quão grande_ -ou _tão grande_ por _quammanho_, sarapintava tudo de _ao invez_, -_empós_, e assim obtinha o seu estylo classico que começava a causar -admiração aos seus pares e ao publico em geral. - -Gostava muito da expressão--_ás rebatinhas_; usava-a a todo o momento -e, guando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu estylo -uma força e um brilho pascalinos e ás suas idéas unia sufficiencia -transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo ás primeiras -linhas o somno lhe vinha e dormia sonhando-se _physico_, tratado de -mestre, em pleno seiscentos, prescrevendo sangria e agua quente, tal e -qual o Dr. Sangrado. - -A sua traducção estava quasi no fim, já estava bastante pratico, pois -com o tempo adquirira um vocabulario sufficiente e a versão era feita -mentalmente, em quasi metade, logo na primeira escripta. Recebeu o -recado da mulher, annunciando-lhe a visita, com um pequeno -aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente -classico para _orificio_, julgou util a interrupção. Queria pôr -_buraco_, mas era plebeu; _orificio_, se bem que muito usado, era, -entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou: e subiu á -sala de jantar. Elle entrou prazenteiro, com o seu grande bigode -esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada -empenhados em uma discussão sobre autoridade. - -Dizia ella: - ---Eu não posso comprehender esse tom divino com que os senhores falam -da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse -respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes? - -O doutor, que ouvira toda a phrase, não pôde deixar de objetar: - ---Mas é preciso, indispensavel... Nós sabemos bem que elles são -homens como nós, mas, se não for assim tudo vai por agua abaixo. - -Quaresma acrescentou: - ---É em virtude das proprias necessidades internas e externas da nossa -sociedade que ella existe... Nas formigas, nas abelhas... - ---Admitto. Mas ha revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade -se mantem lá á custa de assassinios, exacções e violencias? - ---Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma. - -O doutor não teve duvidas e foi logo dizendo: - ---Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pinaculo da -escala zoologica iremos buscar normas de vida entre insectos? - ---Não, é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos delles a certeza -da generalidade do phenomeno, da sua immanencia, por assim dizer, disse -Quaresma com doçura. - -Elle não tinha acabado a explicação e já Olga reflectia: - ---Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade--vá; mas não; de -que vale? - ---Ha de trazer, affirmou categoricamente Quaresma. A questão é -consolidal-a. - -Conversaram ainda muito tempo. O Major contou a sua visita a Floriano, a -sua proxima incorporação ao batalhão «Cruzeiro do Sul». O doutor -teve uma ponta de inveja, quando elle se referiu ao modo familiar por -que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno _lunch_ e Quaresma saiu. - -Sentia necessidade de rever aquellas ruas estreitas, com as suas lojas -profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um -subterraneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléa, -a casquilha rua do Ouvidor davam-lhe saudades. - -A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no -Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, os _jacobinos_, a -guarda abnegada da Republica, os intransigentes, a cujos olhos, a -moderação, a tolerancia e o respeito pela liberdade e a vida alheias -eram crimes de lesa-patria, sintomas de monarquismo criminoso e -abdicação desonesta diante do estrangeiro. O estrangeiro era sobretudo -o portuguez, o que não impedia de haver jornaes _jacobinissimos_ -redigidos por portuguezes da mais bella agua. - -A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a rua do Ouvidor era a -mesma. Os namoros se faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia -no alto céo azul, luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam -para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o -sangue a subir ás faces pouco e pouco, depois da pallidez do medo. - -Quaresma jantou num _restaurant_ e dirigiu-se ao quartel, que -funccionava provisoriamente num velho cortiço condemnado pela hygiene, -lá pelos lados da cidade Nova. Tinha o tal cortiço andar terreo e -sobrado, ambos divididos em cubiculos do tamanho de camarotes de navio. -No sobrado, havia uma varanda de grade de páu e uma escada de madeira -levava até lá, escada tosca e oscillante, que gemia á menor passada. -A casa da ordem funccionava no primeiro quartinho do sobrado e o pateo, -já sem as cordas de seccar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas -das barrélas e da agua de sabão, servia para a instrucção dos -recrutas. O instructor era um sargento reformado, um tanto coxo, e -admittido no batalhão com o posto de alferes, que gritava com uma -demora majestosa: _hom--brô_... armas! - -O Major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o -modelo do fardamento. - -Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dolman era -verde-garrafa e tinha uns vivos azul ferrete, alamares dourados e quatro -estrellas prateadas, em cruz, na góla. - -Uma gritaria fel-os vir até á varanda. Entre soldados entrava um -homem, a se debater, a chorar e a implorar, ao mesmo tempo, levando de -quando em quando uma reflada. - ---É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, Coronel? -continuou ele com interesse e piedade. - -Bustamante estava impassivel na varanda e só respondeu depois de algum -tempo: - ---Conheço... É um voluntario recalcitrante, um patriota rebelde. - -Os soldados subiram com o _voluntario_ e Ricardo logo que deu com o -major, suplicou-lhe: - ---Salve-me major! - -Quaresma chamou de parte o Coronel, rogou-lhe e supplicou-lhe, mas foi -inutil... Ha necessidade de gente... Enfim, fazia-o cabo. - -Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e -exclamou: - ---Eu sirvo sim, sim, mas dêm-me o meu violão. - -Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados: - ---Restituam o violão ao cabo Ricardo! - - - - -II - -VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO - - -Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado de terra, -mal se enxergam as partes baixas dos edificios proximos; para o lado do -mar, então, a vista é impotente contra aquella treva esbranquiçada e -fluctuante, contra aquella muralha de flócos e opaca, que se condensa -ali e aqui em apparições, em semelhanças de cousas. O mar está -silencioso: ha grandes intervallos entre o seu fraco marulho. Vê-se da -praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odôr da maresia -parece mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o -desconhecido, o Mysterio. Entretanto, aquella pasta espessa, de uma -claridade diffusa, está povoada de ruidos. O chiar das serras vizinhas, -os apitos de fabricas e locomotivas, os guinchos do guindastes dos -navios enchem aquella manhã indecifravel e taciturna; e ouve-se mesmo a -bulha compassada de remos que ferem o mar. Accredita-se, dentro daquelle -decoro, que é Charonte que traz a sua barca para uma das margens do -Styge... - -Attenção! Todos prescrutam a cortina de nevoa pastosa. Os rostos -estão alterados; parece que, do seio da bruma, vão surgir demonios... - -Não se ouve mais a bulha: o escaler afastou-se. As physionomias -respiram aliviadas... - -Não é noite, não é dia; não é o diluculo, não é o crepusculo: -é a hora da angustia, é a luz da incerteza. No mar, não ha estrellas -nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro ás paredes -brancas das casas. A nossa miseria é mais completa e a falta daquelles -mudos marcos da nossa actividade dá mais forte percepção do nosso -isolamento no seio da natureza grandiosa. - -Os ruidos continuam, e, como nada se vê, parece que vêm do fundo da -terra ou são allucinações auditivas. A realidade só nos vem do -pedaço de mar que se avista, marulhando com grandes intervallos, -fracamente, tenuemente, a medo, de encontro a areia da praia, suja de -bodelhas, algas e sargaços. - -Aos grupos, após o rumor dos remos, os soldados deitaram-se pela relva -que continua a praia. Alguns já cochilam; outros procuram com os olhos -o céo atravez do nevoeiro que lhes humedece o rosto. - -O cabo Ricardo Coração dos Outros, de rifle á cintura e gorro á -cabeça, sentado numa pedra, está de parte, sósinho, e olha aquella -manhã angustiosa. - -Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar, onde ella -faz sentir toda a sua força de desesperar. Em geral, elle só tinha -olhos para as alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes; -aquelle amanhecer brumoso e feio, era uma novidade para elle. - -Sob o fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquella vida -solta da caserna vai-lhe bem n'alma: o violão está lá dentro e, em -horas de folga, elle o experimenta, cantarolando em voz baixa. É -preciso não enferrujar os dedos... O seu pequeno aborrecimento é não -poder, de quando em quando, soltar o peito. - -O commandante do destacamento é Quaresma que, talvez, consentisse... - -O Major está no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu -estudo predilecto é agora artilharia. Comprou compendios; mas, como sua -instrucção é insufficiente, da artilharia vai á balistica, da -balistica á mecanica, da mecanica ao calculo e á geometria analytica; -desce mais a escada; vai á trigonometria, á geometria e á algebra e -á arithmetica. Elle percorre essa cadeia de sciencias entrelaçadas com -uma fé de inventor. Aprende uma noção elementarissima após um -rosario de consultas, de compendio em compendio; e leva assim aquelles -dias de ocio guerreiro enfronhado na mathematica, nessa mathematica -rebarbativa e hostil aos cerebros que já não são mais moços. - -Ha no destacamento um canhão Krupp, mas elle nada tem a ver com o -mortifero apparelho: comtudo, estuda artilharia. É encarregado delle o -Tenente Fontes, que não dá obediencia alguma ao patriota Major. -Quaresma não se incommoda com isso; vai aprendendo lentamente a -servir-se da boca de fogo e submete-se á arrogancia do subalterno. - -O Commandante do «Cruzeiro do Sul», o Bustamante da barba mosaica, -continua no quartel, superintendendo a vida do batalhão, A unidade tem -poucos officiaes e muito poucas praças; mas o Estado paga o pret de -quatrocentas. Ha falta de capitães, o numero de alferes está justo, o -de tenentes quasi, más já ha um major, que é Quaresma, e o -commandante, Bustamante, que por modestia, se fez simplesmente -Tenente-Coronel. - -Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma commanda, tres alferes, -dous tenentes; mas os officiaes pouco apparecem. Estão doentes ou -licenciados e só elle, o antigo agricultor do «Socego», e um alferes, -Polydoro, este mesmo só á noite, estão a postos. Um soldado entrou: - ---Sr. Commandante, posso ir almoçar? - ---Póde. Chama-me o cabo Ricardo. - -A praça sahiu capengando em cima de grandes botinas: o pobre homem -usava aquella peça protectora como um castigo. Assim que se viu no -matto, que levava á casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da -liberdade. - -O commandante chegou á janella. A cerração se ia dissipando. Já se -via o sol que brilhava como um disco de ouro fosco. - -Ricardo Coração dos Outros appareceu. Estava engraçado dentro do seu -fardamento de caporal. A blusa era curtissima, sungada; os punhos lhe -apareciam inteiramente: e as calças eram compridissimas e arrastavam no -chão. - ---Como vaes Ricardo? - ---Bem. E o Sr. Major? - ---Assim. - -Quaresma deitou sobre o inferior e amigo, aquelle seu olhar agudo e -demorado: - ---Andas aborrecido, não é? - -O trovador sentiu-se alegre com o interesse do commandante: - ---Não... Para que dizer, Major, que sim... Se a cousa for assim até ao -fim, não é mau... O diabo é quando ha tiro... Uma cousa, Major; não -se poderia, assim, ahi pelas horas em que não ha que fazer, ir nas -mangueiras, cantar um pouco... - -O Major coçou a cabeça, alisou o cavaignac e disse: - ---Eu, não sei... É.. - ---O Sr. sabe que isso de cantar baixo é remar em secco... Dizem que no -Paraguay... - ---Bem. Cante lá; mas não grite, hein? - -Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o Major recommendou: - ---Manda-me trazer o almoço. - -Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro tambem dormir. As -refeições eram-lhe fornecidas por um _frege_ proximo e elle dormia em -um quarto daquella edificação imperial. Porque a casa em que se -acantonara o destacamento, era o pavilhão do Imperador, situado na -antiga Quinta da Ponta do Cajú. Ficavam nella tambem a estação da -estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e bulhenta serraria. Quaresma -veiu até á porta, olhou a praia suja e ficou admirado que o Imperador -a quizesse para banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente. - -As formas das cousas sahiam modeladas do seio daquella massa de nevoa -pesada; e, satisfeitas, como se o pesadello tivesse passado. Primeiro -surgiam as partes baixas, lentamente: e por fim, quasi repentinamente, -as altas. - -Á direita, havia a Saude, a Gamboa, os navios de commercio: galeras de -tres mastros, cargueiros a vapor, altaneiros barcos á vela--que iam -sahindo da bruma, e, por instantes aquillo tudo tinha um ar de paysagem -hollandeza, á esquerda, era o sacco da Raposa, o Retiro Saudoso, a -Sapucaia horrenda, a ilha do Governador, os Orgãos Azues, altos de -tocar no céo; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os seus depositos de -carvão; e, alongando a vista pelo mar socegado, Nictheroy, cujas -montanhas acabavam de recortar-se no céo azul, á luz daquella manhã -atrazada. - -A neblina foi se e um gallo cantou. Era como se a alegria voltasse á -terra: era uma alleluia. Aquelles chiados, aquelles apitos, os guinchos -tinham um accento festivo de contentamento. - -Chegou o almoço e o sargento veiu dizer a Quaresma que havia duas -deserções. - ---Mais duas? fez admirado o Major. - ---Sim, senhor. O 125 e o 320 não responderam hoje a revista. - ---Faça a parte. - -Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quasi -nunca dormia ali; pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as -cousas como iam. - -Uma madrugada, elle não estava. A treva ainda era profunda. O soldado -de vigia viu lá, ao longe, um vulto que se movia dentro da sombra, -resvalando sobre as aguas do mar. Não trazia luz alguma; só o -movimento daquella mancha escura, revelava uma embarcação, e tambem a -ligeira phosphorescencia das aguas. O soldado deu rebate; o pequeno -destacamento poz-se a postos e Quaresma appareceu. - ---O canhão! Já! Avante! ordenou o commandante. - -E, em seguida, nervoso, recommendou: - ---Esperem um pouco. - -Correu á casa e foi consultar os seus compendios e tabellas. Demorou-se -e a lancha avançava, os soldados estavam tontos e um delles tomou a -iniciativa: carregou a peça e disparou-a. - -Quaresma reappareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo -resfolegar: - ---Viram bem... a distancia... a alça... o angulo... É preciso ter -sempre em vista a efficiencia do fogo. - -Fontes veiu e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito: - ---Ora, Major, você pensa que está em um polygno, fazendo estudos -praticos... Fogo para diante! - -E assim era. Quasi todas as tardes havia bombardeio, do mar para as -fortalezas, e das fortalezas para o mar; e, tanto os navios como os -fortes, sahiam incolumes de tão terriveis armas. - -Lá vinha uma occasião, porém, que acertavam, então os jornaes -noticiavam: «Hontem, o forte Academico, fez um maravilhoso disparo. Com -o canhão tal, metteu uma bala no «Guanabara». No dia seguinte, o -mesmo jornal rectificava, a pedido da bateria do cáes Pharoux que era -a que tinha feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já -estava esquecida, quando apparecia uma carta de Nictheroy, reclamando as -honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz. - -O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de -entendedor. Havia uma trincheira de fardos de alfafa e a boca da peça -sabia por entre os fiapos da palha, como as guellas de um animal feroz -occulto entre hervas. - -Olhava o horizonte, depois de exame attento ao canhão, e considerava a -ilha das Cobras, quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia: - - -_Prometto pelo Santissimo Sacramento_... - - -Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe deparou este -lindissimo quadro: á sombra de uma grande arvore, os soldados deitados -ou sentados em circulo, em torno de Ricardo Coração dos Outros, que -entoava endeixas magoadas. - -As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão -embevecidas na canção de Ricardo que não deram pela chegada do joven -official. - ---Que é isto? disse elle severamente. - -Os soldados levantaram-se todos, em continencia; e Ricardo, com a mão -direita no gorro, perfilada, e a esquerda, segurando o violão, que -repousava no chão, desculpou-se: - ---_Seu_ Tenente, foi o Major quem permittiu, V. S. sabe que se nós não -tivéssemos ordem, não iriamos brincar. - ---Bem. Não quero mais isto, disse o official. - ---Mas, objectou Ricardo, o Sr. Major Quaresma... - ---Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já disse! - -Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa -imperial, ao encontro do Major do «Cruzeiro do Sul». Quaresma -continuava no seu estudo, um rolar de Sysipho, mas voluntario, para a -grandeza da patria. Fontes foi entrando e dizendo: - ---Que é isto, _seu_ Quaresma! Então o senhor permitte cantorias no -destacamento? - -O Major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo -e rispido do moço. Elle repetiu: - ---Então o senhor permitte que os inferiores cantem modinhas e toquem -violão, em pleno serviço? - ---Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha... - ---E a disciplina? e o respeito? - ---Bem, vou prohibir, disse Quaresma. - ---Não é preciso. Já prohibi. - -Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento -e disse com doçura: - ---Fez bem. - -Em seguida perguntou ao official o modo de extrahir a raiz quadrada de -uma fracção decimal; o rapaz ensinou-lhe e elles estiveram -cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Fontes era noivo de -Lalá, a terceira filha do General Albernaz, e esperava acabar a revolta -para effectuar o casamento. Durante uma hora a conversa entre os dous -versou sobre este pequenino facto familiar a que estavam ligados -aquelles estrondos, aquelles tiros, aquella solemne disputa entre duas -ambições. Subitamente, a corneta feriu o ar com a sua voz metallica. -Fontes assestou o ouvido; o Major perguntou: - ---Que toque é? - ---Sentido. - -Os dous sahiram. Fontes perfeitamente fardado; e o Major apertando o -talim, sem encontrar geito, tropeçando na espada veneravel que teimava -em se lhe metter entre as pernas curtas. Os soldados já estavam nas -trincheiras, armas á mão; o canhão tinha ao lado a munição -necessaria. Uma lancha avançava lentamente, com a prôa alta assestada -para o posto. De repente, sahiu de sua borda um golfão de fumaça -espessa: Queimou!--gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou -alto, zunindo, cantando, inoffensiva. A lancha continuava a avançar -impavida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o -tiroteio, e fôra um destes que gritara: queimou! - -E assim sempre. Ás vezes elles chegavam bem perto á tropa, ás -trincheiras, atrapalhando o serviço: em outras, um cidadão qualquer, -chegava ao official e muito delicadamente pedia: o senhor dá licença -que dê um tiro. O official accedia, os serventes carregavam a peça e o -homem fazia a pontaria e um tiro partia. - -Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da -cidade... Quando se annunciava um bombardeio, num segundo, o terraço do -Passeio Publico se enchia. Era como se fosse uma noite de luar, no tempo -em que era do tom aprecial-as no velho jardim de D. Luiz de -Vasconcellos, vendo o astro solitario pratear a agua e encher o céo. - -Alugavam-se binoculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como -as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação de theatro: -«queimou Santa Cruz! Agora é o «Aquidaban»! Lá vai»! E dessa -maneira a revolvia correndo familiarmente, entrando nos habitos e nos -costumes da cidade. - -No cáes Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornaes, -engraxates, quitandeiros ficavam atrás das portadas, dos urinarios, das -arvores, a ver, a esperar a quéda das balas; e quando acontecia cahir -uma, corriam todos em bôlo, a apanhal-a como se fosse uma moeda ou -guloseima. - -As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de -relogio, lapizeiras, feitas com as pequenas balas de fuzis: faziam-se -tambem collecções das medias e com os seus estojos de metal, areados, -polidos, lixados, ornavam consolos, os _dunkerques_ das casas médias; -as grandes, os _melões_ e as _aboboras_, como chamavam, guarneciam os -jardins, como vasos de faiança ou estatuas. - -A lancha continuava a atirar: Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o -projectil, recuou um pouco e logo foi posto em posição. A embarcação -respondeu e o rapazote gritou: queimou! - -Eram sempre esses garotos que a anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam -o fuzilar breve e a fumaça, lá longe, no navio, jorrar de vagar, muito -pesada, gritavam queimou! - -Houve um em Nictheroy que teve o seu quarto de hora de celebridade. -Chamavam-n'o _trinta réis_; os jornaes do tempo occuparam-se com elle, -fizeram-se subscripções a seu favor. Um heroi! Passou a revolta e foi -esquecido, tanto elle como a «Lucy», uma lancha que chegou a fazer-se -entidade na imaginação da _urbs_, a interessal-a, a criar inimigos e -admiradores. - -A embarcação deixou de provocar a furia do posto do Cajú, e Fontes -deu instrucções ao seu chefe da peça, e foi-se embora. - -Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos -guerreiros. Os mais dias que passou naquelle extremo da cidade não eram -differentes deste. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra cahia na -banalidade da repetição dos mesmos episodios. - -A espaços, quando o aborrecimento lhe vinha, sahia. Descia a cidade e -deixava o posto entregue a Polydoro ou a Fontes, se estava. - -Raras vezes o fazia, de dia, porque Polydoro, o mais assiduo, marcineiro -de profissão e em actividade numa fabrica de moveis, só vinha á -noite. - -No centro da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro, -o Governo pagava soldos dobrados, e, ás vezes, gratificações, além -do que havia tambem a morte sempre presente; e tudo isso estimulava o -divertir-se. Os theatros eram frequentados e os _restaurants_ nocturnos -tambem. - -Quaresma, porém, não se mettia naquelle ruido de praça semi-sitiada. -Ia ás vezes ao theatro, á paisana, e, logo acabado o espectaculo, -voltava para o quarto da cidade ou para o posto. - -Em outras tardes, logo que Polydoro chegava, sahia a pé, pelas ruas dos -arredores, pelas praias até ao campo de São Christovão. - -Ia vendo aquella successão de cemiterios, com as suas campas alvas que -sobem montanhas, como carneiros tosqueados e limpos a pastar; aquelles -cyprestes meditativos que as vigiam; e como que se lhe representava que -aquella parte da cidade era feudo e senhorio da morte. - -As casas tinham um aspecto funebre, recolhidas e concentradas; o mar -marulhava lugubremente na ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam -doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes era triste e lugubre. - -A paysagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali -mais ainda, para fazer sentir nella tão forte aspecto funereo. - -Foi vindo ate ao Campo; ahi deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e -afinal entrou na residencia do General Albernaz. Devia-lhe aquella -visita e aproveitou o ensejo. - -Acabavam de jantar e jantara com o General, além do Tenente Fontes e o -Almirante Caldas, o commandante de Quaresma, o Tenente Coronel -Innocencio Bustamante. - -Bustamante era um commandante activo, mas dentro do quartel. Não havia -quem como elle se interessasse pelos livros, pela boa calligraphia, com -que eram escriptos os livros mestres, as relações de mostra, os mappas -de companhia e outros documentos. Com auxilio delles, a organização do -seu batalhão era irreprehensivel; e, para não deixar de vigiar a -escripturação, apparecia de onde em onde nos destacamentos do seu -corpo. - -Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, elle logo -perguntou ao Major: - ---Quantas deserções? - ---Até hoje, nove, disse Quaresma. - -Bustamante coçou a cabeça desesperado e reflectiu: - ---Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome... -Falta-lhes patriotismo! - ---Fazem muito bem... Ora! disse o Almirante. - -Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora -o Governo não lhe tinha dado cousa alguma. O seu patriotismo se -enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia -Vice-Almirante. É verdade que o Governo ainda não organizara a sua -esquadra; entretanto, pelo rumor que corria, elle não commandaria nem -uma divisão. Uma inquidade! Era velho um pouco, é verdade; mas, por -não ter nunca commandado, nessa materia elle podia despender toda uma -energia moça. - ---O Almirante não deve falar assim... A patria está logo abaixo da -humanidade. - -Meu caro Tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas... - ---Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os -outros e para os vindouros, continuou Fontes persuasivo. - ---Que tenho eu com elles? fez agastado Caldas. - -Bustamante, o General e Quaresma assistiam a pequena discussão calados -e os dous primeiros um tanto sorridentes com a furia de Caldas, que não -se cansava de dansar a perna e alizar os longos favoritos brancos. O -Tenente respondeu: - ---Muito, Almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas -melhores, de ordem, de felicidade e elevação moral. - ---Nunca houve e nunca haverá! disse de um jacto Caldas. - ---Eu tambem penso assim, accrescentou Albernaz. - ---Isto ha de sempre ser o mesmo, adduziu scepticamente Bustamante. - -O Major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face -daquellas contestações, ao contrario dos seus congeneres da seita, -não se agastou. Elle era magro e chupado, moreno carregado e a oval do -seu rosto estava amassada aqui e ali. - -Com a sua voz arrastada e nazal, agitando a mão direita no geito -favorito dos sermonarios, depois de ouvir todos, falou com uncção: - ---Houve já um esboço: a idade média. - -Ninguem ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia historia do Brasil e -os outros nenhuma. - -E a sua affirmação fez calar todos, embora no intimo duvidosos. É uma -curiosa idade média, essa de elevação moral, que a gente não sabe -onde fica, em que anno? Se a gente diz: no tempo de Clotario, elle -proprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu -filho Chrame mais a mulher deste e filhos--o positivista, objecta: ainda -não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja. S. Luís, -diremos logo nós, quis executar um senhor feudal porque mandou enforcar -tres crianças que tinham morto um coelho nas suas mattas. Objecta o -fiel: Você não sabe que a nossa idade media vai até o apparecimento -da Divina Comedia? S. Luís já era a decadencia... Citam-se as -epidemias de molestias nervosas, a miseria dos camponios, as ladroagens -á mão armada dos barões, as allucinações do milenio, as crueis -matanças que Carlos Magno fez aos saxões; elles respondem: uma hora -que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da -igreja; outra que elle já tinha desapparecido. - -Nada disso foi objectado ao positivista e a conversa, resvalou para a -revolta. O Almirante criticava severamente o Governo. - -Não tinha plano algum, levava a dar tiros á toa; na sua opinião, já -devia ter feito todo o esforço para occupar a ilha das Cobras, embora -isso custasse rios de sangue. Bustamante não tinha opinião assentada; -mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e -de uma improficuidade patente. Albernaz, ainda não tinha dado o seu -aviso, e veiu a fazel-o assim: - ---Mas nós reconhecemos Humaytá, e por pouco! - ---Entretanto, não a tomaram, disse Fontes. As condições naturaes eram -outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente inutil... O Sr. -sabe, esteve lá! - ---Isto é... Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camisão -disse-me que foi arriscado. - -Quaresma voltara ao silencio. Elle procurava ver Ismenia. Fontes lhe -tinha inteirado do seu estado e o Major se sentia por qualquer cousa -preso á molestia da moça. Viu todos: D. Maricota, sempre activa e -diligente; Lalá, a arrancar, com o olhar, o noivo da conversa -interminavel, e as outras que vinham, de quando em quando, da sala de -visitas á sala de jantar onde elle estava. Porfim, não se conteve, -perguntou. Soube que estava em casa da irmã casada e ia peor, cada vez -mais abysmada na sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O General contou -tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquella sua -desgraça intima, disse com um longo suspiro: - ---Não sei, Quaresma... Não sei. - -Eram dez horas quando o Major se despediu. Voltou de bonde para a Ponta -do Cajú. Saltou e recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio da -perturbação, especial que põe em nós o luar que estava lindo, terno -e leitoso, naquella noite. É uma emoção de desafogo do corpo, de -deliquio; parece que nos tiram o envoltorio material e ficamos só alma, -envolvidos numa branda athmosphera de sonhos e chimeras. O Major não -colhia bem a sensação transcendente, mas soffria sem perceber o -effeito da luz pallida e fria do luar. Deitou-se um pouco, vestido, não -por somno, mas em virtude daquella doce embriaguez que o astro lhe tinha -posto nos sentidos. - -Dentro em pouco Ricardo veiu chamal-o: o Marechal estava ahi. Era seu -habito sahir á noite, ás vezes, de madrugada, e ir de posto em posto. -O facto se espalhou pelo publico que o apreciava extraordinariamente, e -o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de -estadista consumado. - -Quaresma veiu ao seu encontro. Floriano vestia chapéo de feltro molle, -abas largas, e uma curta sobrecasaca surrada. Tinha um ar de malfeitor -ou de exemplar chefe de familia em aventuras extra-conjugaes. - -O Maior cumprimentou-o e esteve a dar-lhe noticias do ataque que fora -feito ao seu posto, ha dias passados. O Marechal respondia por -monosyllabos preguiçosos e olhava ao redor. Quasi ao despedir-se, falou -mais, dizendo vagarosamente, lentamente: - ---Hei de mandar pôr um holophote aqui. - -Quaresma veiu acompanhal-o até ao bonde. Atravessavam o velho sitio de -recreio dos Imperadores. Um pouco afastada da estação uma locomotiva, -semi-accesa, resfolegava. Semelhava roncar, dormindo; os carros, -pequenos, banhados pelo luar, muito quietos, socegados como que dormiam. -As annosas mangueiras, com falta de galhos aqui e ali, pareciam -polvilhadas preciosamente de prata. O luar estava magnifico. Os dous -andavam, o marechal perguntou: - ---Quantos homens tem você? - ---Quarenta. - -O Marechal mastigou um: _não é muito_; e voltou ao mutismo. Num dado -momento, Quaresma viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua. Pareceu-lhe -mais sympatica a do dictador. Se lhe falasse... - -Preparou a pergunta; mas não teve coragem de pronuncial-a. Continuaram -a andar. O Major pensou; que é que tem? não ha desrespeito algum. -Approximavam-se do portão. Num dado momento como que houve uma bulha -atrás. Quaresma voltou-se, mas Floriano quasi não o fez. - -Os edificios da serraria pareciam cobertos de neve, tanto era o branco -luar. O Major continuou a mastigar a sua pergunta; urgia, era -indispensavel; o portão estava a dous passos. Tomou coragem, ousou e -falou: - ---V. Ex. já leu o meu memorial, Marechal? - -Floriano respondeu lentamente, quasi sem levantar o labio inferior -pendente: - ---Li. - -Quaresma enthusiasmou-se: - ---Vê V. Ex. como é facil erguer este paiz. Desde que se cortem todos -aquelles empecilhos que eu apontei, no memorial que V. Ex. teve a -bondade de ler; desde que se corrijam os erros de uma legislação -defeituosa e inadaptavel ás condições do paiz, V. Ex. verá que tudo -isto muda, que, em vez de tributarios, ficaremos com a nossa -independencia feita... Se V. Ex. quisesse... - -Á proporção que falava, mais Quaresma se enthusiasmava. Elle não -podia ver bem a physionomia do dictador, encoberto agora como lhe estava -o rosto pelas abas do chapéo de feltro; mas, se a visse, teria de -esfriar, pois havia na sua mascara sinaes do aborrecimento mais mortal. -Aquelle falatorio de Quaresma, aquelle apelo á legislação, a medidas -governamentaes, iam mover-lhe o pensamento, por mais que não quizesse. -O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse: - ---Mas, pensa você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada na mão de -cada um desses vadios?! Não havia exercito que chegasse... - -Quaresma espantou-se, titubeou, mas retorquiu: - ---Mas, mão é isso, Marechal. V. Ex. com o seu prestigio e poder, está -capaz de favorecer, com medidas energicas e adequadas, o apparecimento -de iniciativas, de encaminhar o trabalho, de favorecel-o e tornal-o -remunerador... Bastava, por exemplo... - -Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. O luar continuava -lindo, plastico e opalescente. Um grande edificio inacabado que havia na -rua, parecia terminado, com vidraças e portas feitas com a luz da lua. -Era um palacio de sonho. - -Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou; elle se -despediu do Major, dizendo com aquella sua placidez de voz: - ---Você, Quaresma, é um visionario... - -O bonde partiu. A lua povoava os espaços, dava physionomia ás cousas, -fazia nascer soalhos em nossa alma, enchia a vida, enfim, com a sua luz -emprestada... - - - - -III - -...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS... - - ---Eu tenho experimentado tudo, Quaresma, mas não sei... não ha meio! - ---Já a levou a um medico especialista? - ---Já. Tenho corrido medicos, espiritas até feiticeiros, Quaresma! - -E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do _pince-nez_. Os dous se -haviam encontrado na pagadoria da guerra e vinham pelo campo de -Sant'Anna, a pé, andando pequenos passos e conversando. O General era -mais alto que Quaresma, e emquanto este tinha a cabeça sobre um -pescoço alto, aquelle a tinha mettida entre os hombros proeminentes, -como cotos de azas. Albernaz reatou: - ---E remedios! Cada medico receita uma cousa; os espiritas são os -melhores, dão homœpathia; os feiticeiros, tizanas, rezas e -defumações... Eu não sei. Quaresma! - -E levantou os olhos para o céo, que estava um tanto plumbeo. Não se -demorou, porém, muito nessa postura; o _pince-nez_ não permittia, já -começava a cahir. - -Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as -granulações do granito do passeio. Levantou o olhar ao fim de algum -tempo, e disse: - ---Por que não a recolhe a uma casa de saude, General? - ---Meu medico já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo, -no estado em que a menina está, não vale a pena... - -Falava da filha, da Ismenia, que, naquelles ultimos mezes, péorara -sensivelmente, não tanto da sua molestia mental, mas da saude commum, -vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo, definhando, marchando a -passos largos para o abraço frio da morte. - -Albernaz dizia a verdade; para, cural-a tanto de sua loucura conto da -actual molestia intercorrente, lançara mão de todos os recursos, de -todos os conselhos apontados por quem quer que fosse. - -Era de fazer reflectir ver aquelle homem, General, marcado com um curso -governamental, procurar mediuns e feiticeiros, para sarar a filha. - -Ás vezes até levava-os em casa. Os mediuns chegavam perto da moça, -davam um estremeção, ficavam com uns olhos desvairados, fixos, -gritavam: sai, irmão!--e sacudiam as mãos, do peito para a moça, de -lá para cá, rapidamente, nervosamente, no intuito de descarregar sobre -ella os fluidos milagrosos. - -Os feiticeiros tinham outros passes e as ceremonias para entrar no -conhecimento das forças occultas que nos cercam, eram demoradas, lentas -e acabadas. Em geral, eram pretos africanos. Chegavam, accendiam um -fogareiro no quarto, tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra -cousa exquisita, batiam com feixes de hervas, ensaiavam passos de dança -e pronunciavam palavras inintelligiveis. O ritual era complicado e tinha -a sua demora. - -Na sahida, a pobre D. Maricota, um tanto já diminuida da sua actividade -e diligencia, olhando, ternamente aquelle grande rosto negro do -mandigueiro, onde a barba branca punha mais veneração e certa -grandeza, perguntava: - ---Então, titio? - -O preto considerava um instante, como se estivesse recebendo as ultimas -communicações do que não se vê nem se percebe, e dizia com a sua -magestade de africano: - ---Vó vê, nhã nhã... Tô crôtando mandinga... - -Ella e o General tinham assistido a ceremonia e o amor de paes e tambem -esse fundo de superstição que ha em todos nós, levavam a olhal-a com -respeito, quasi com fé. - ---Então foi feitiço que fizeram á minha filha? perguntava a senhora. - ---Foi, sim, nhãnhã. - ---Quem? - ---Santo não qué dizê. - -E o preto obscuro, velho escravo, arrancado ha um meio seculo dos -confins da Africa, sahia arrastando a sua velhice e deixando naquelles -dous corações uma esperança fugaz. - -Era uma singular situação, a daquelle preto africano, ainda certamente -pouco esquecido das dores do seu longo captiveiro, lançando mão dos -residuos de suas ingenuas crenças tribaes, residuos que tão a custo -tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros -deuses--e empregando-os na consolação dos seus senhores de outro -tempo. Como que os deuses de sua infancia e de sua raça; aquelles -sanguinarios manipanços da Africa indecifravel, quizessem vingal-o á -legendaria maneira do Christo dos Evangelios... - -A doente assistia tudo aquillo sem comprehender e se interessar por -aquelles trejeitos e passes de tão poderosos homens que se -communicavam, que tinham ás suas ordens os seres immateriaes, as -existencias fora e acima da nossa. - -Andando, ao lado de Quaresma, o General lembrava-se de tudo isso e teve -um pensamento amargo contra a sciencia, contra os espiritos, contra os -feitiços, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos, sem -piedade e commiseração. - -O Major não sabia o que dizer diante daquella immensa dor de pai e -parecia-lhe toda o qualquer palavra de consolo parva e idiota. Afinal -disse: - ---General, o Sr. permitte que eu a faça ver por um medico? - ---Quem é? - ---É o marido de minha afilhada... o Sr. conhece... É moço, quem sabe -lá! Não acha? Póde ser, não é? - -O General consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as -faces enrugadas. Cada medico que consultava, cada espirita, cada -feiticeiro reanimava-o, pois de todos elle esperava o milagre. Nesse -mesmo dia, Quaresma foi procurar o Dr. Armando. - -A revolta já tinha mais de quatro mezes de vida e as vantagens do -Governo eram problematicas. No Sul, a insurreição chegava ás portas -de S. Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas paginas -dignas e limpas de todo aquelle enxurro de paixões. A pequena cidade -tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia, -uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante e justo. -Não se desmanchou em violencias de apavorado e soube tornar verdade a -gasta phrase grandiloquente: resistir até á morte. - -A ilha do Governador tinha sido occupada e Magé tomado, os revoltosos, -porém, tinham a vasta bahia e a barra apertada, por onde sahiam e -entravam, sem temer o estorvo das fortalezas. - -As violencias, os crimes que tinham assignalado esses dous marcos de -actividade guerreira do Governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e elle -soffria. - -Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de moveis, roupas e -outros haveres. O que não podia ser transportado, era destruido pelo -fogo e pelo machado. - -A occupação deixou lá a mais execranda memoria, e até hoje os seus -habitantes ainda se recordam dolorosamente de um Capitão, patriotico ou -da guarda nacional, Ortiz, pela sua ferocidade e insoffrido gosto pelo -saque e outras vexações. Passava um pescador, com uma tampa de peixe, -e o Capitão chamava o pobre homem: - ---Venha cá! - -O homem approximava-se amedrontado e Ortiz perguntava. - ---Quanto quer por isso? - ---Tres mil réis, capitão. - -Elle sorria diabolicamente e familiarmente regateava: - ---Você não deixa por menos... Está caro... Isso é peixe ordinario... -Carapebas! Ora! - ---Bem, Capitão, vá lá por dous e quinhentos. - ---Leve isso lá dentro. - -Elle falava na porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em -pé, demonstrando que esperava o dinheiro. Ortiz balançava a cabeça e -dizia escarninho: - ---Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano. - -Entretanto, Moreira Cesar deixou boas recordações de e ainda hoje ha -lá quem se lembre delle, agradecido por este ou aquelle beneficio que o -famoso Coronel lhe prestou. - -As forças revoltosas parceiam não ter enfraquecido; tinham, porém, -perdido dous navios, sendo um destes o «Javary», cuja reputação na -revolta era das mais altas e consideradas. As forças de terra -detestavam-n'o particularmente. Era um monitor, chato, razo com a agua, -uma especie de saurio ou chelonio de ferro, de construcção franceza. -A sua artilharia era temida; o que sobremodo enraivecia os adversarios, -era elle não ter quasi borda acima d'agua, ficar quasi ao nivel do mar -e fugir assim aos tiros incertos de terra. As suas machinas não -funccionavam, e a grande tartaruga vinha collocar-se em posição de -combate com auxilio de um rebocador. - -Um dia em que estava nas proximidades de Villegagnon, foi a pique. Não -se soube e até hoje não foi esclarecido, porque foi. Os legalistas -affirmaram que foi uma bala de Gragoatá; mas os revoltosos asseguraram -que foi a abertura de uma valvula ou um outro accidente qualquer. - -Como o do seu irmão, o «Solimões», que desappareceu nas costas do -cabo Polonio, o fim do «Javary» ainda está envolvido no mysterio. - -Quaresma permanecia de guarnição no Cajú, e viera receber dinheiro. -Deixara lá Polydoro, pois os outros officiaes estavam doentes ou -licenciados, e Fontes, que, sendo uma especie de inspector geral, ao -contrario de seus habitos, dormira aquella noite no pequeno pavilhão -imperial e ia ficar até á tarde. - -Ricardo Coração dos Outros, desde o dia da prohibição de tocar -violão, andava macambuzio. Tinham-lhe tirado o sangue, o motivo de -viver, e passava os dias taciturno, encostado a um tronco de arvore, -maldizendo no fundo de si a incomprehensão dos homens e os caprichos do -destino. Fontes notara a sua tristeza; e, para minorar-lhe o desgosto, -obrigara a Bustamante a fazel-o sargento. Não foi sem custo, porque o -antigo veterano do Paraguay encarecia muito essa graduação e só a -dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas -importantes. - -A vida do pobre menestrel era assim a de um melro engaiolado; e, de -quando em quando, elle se afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver -se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos disparos. - -Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu -demorar-se mais, e, após despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para a -casa do seu compadre, afim de cumprir a promessa que fizera ao general. - -Coleoni ainda não decidira a sua viagem á Europa. Hesitava, esperando -o fim da rebellião que não parecia estar proximo. Elle nada tinha com -ella; até ali, não dissera a ninguem a sua opinião; e, se era muito -instado, appelava para a sua condição de estrangeiro e mettia-se numa -reserva prudente. Mas, aquella exigencia do passaporte, tirado na -chefatura de policia, dava-lhe susto. Naquelles tempos, toda a gente -tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta má vontade com os -estrangeiros, tanta arrogancia nos funccionarios que elle não se -animava a ir obter o documento, temendo que uma palavra, que um olhar, -que um gesto, interpretados por qualquer funccionario zeloso e dedicado, -não o levassem a soffrer maus quartos de hora. - -Verdade é que elle era italiano e a Italia já fizera ver ao dictador -que era uma grande potencia, mas no caso de que se lembrava, tratava-se -de um marinheiro, por cuja vida, extincta por uma descarga das forças -legaes, Floriano pagara a quantia de cem contos. Elle, Coleoni, porém, -não era marinheiro, e não sabia, caso fosse preso, se os -representantes diplomaticos de seu paiz tomariam interesse pela sua -liberdade. - -De resto, não tendo protestado manter a sua nacionalidade quando o -Governo provisorio expediu o famoso decreto de naturalização, era bem -possivel que uma ou outra parte se ativessem a isso, para -desinteressar-se delle ou mantel-o na famosa galeria 7, da Casa de -Correição, transformada, por uma pennada magica, em prisão de Estado. - - -A época era de susto e temor, e todos esses que elle sentia, só os -communicava a filha, porque o genro cada vez mais se fazia florianista e -jacobino, de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos -estrangeiros. - -E o doutor tinha razão; já obtivera uma graça governamental. Fôra -nomeado medico do Hospital de Santa Barbara, na vaga de um collega, -demittido a bem do serviço publico como suspeito por ter ido visitar um -amigo na prisão. Como o hospital, porém, ficasse no ilhéo do mesmo -nome, dentro da bahia, em frente á Saude e a Guanabara ainda estivesse -em mão dos revoltosos, elle nada tinha que fazer, pois até agora o -Governo não aceitara, os seus offerecimentos de auxiliar o tratamento -dos feridos. - -O Major foi encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha sahido, ido -dar uma volta pela cidade, dar arrhas de sua dedicação á causa legal, -conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio, não -esquecendo tambem de passear pelos corredores do Itamaraty, fazendo-se -ver pelos ajudantes de ordens, secretarios e outras pessoas influentes -no animo de Floriano. - -A moça viu entrar Quaresma com aquelle sentimento extranho que o seu -padrinho lhe causava ultimamente, e esse sentimento mais agudo se -tornava quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento, a -passagem de balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente, -como se fossem feições de uma festa, de uma justa, de um divertimento -qualquer em que a morte não estivesse presente. - -Tanto mais que o via apprehensivo, deixando perceber numa phrase e -noutra desanimo e desesperança. - -Na verdade o Major tinha um espinho n'alma. Aquella recepção de -Floriano ás suas lembranças de reformas não esperavam nem o seu -enthusiasmo e sinceridade nem tão pouco a idéa que elle fazia do -dictador. Sahira ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar -com um presidente que o chamava de visionario, que não avaliava o -alcance dos seus projectos, que os não examinava sequer, desinteressado -daquellas altas cousas de governo como só não o fosse!... Era pois -para sustentar tal homem que deixara o socego de sua casa e se arriscava -nas trincheiras? Era, pois, por esse homem que tanta gente morria? Que -direito tinha elle de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se -não se interessava pela sorte delles, pela sua vida feliz e abundante, -pelo enriquecimento do paiz, o progresso de sua lavoura e o bem estar de -sua população rural? - -Pensando assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma -raiva de si mesmo; mas em seguida considerava: o homem está -atrapalhado, não póde agora; mais tarde com certeza elle fará a -cousa... - -Vivia nessa alternativa dolorosa e era ella que lhe trazia -apprehensões, desanimo e desesperança, notados por sua afilhada na sua -physionomia já um pouco acabrunhada. - -Não tardou, porém, que, abandonando os episodios da sua vida militar, -Quaresma explicasse o motivo de sua visita. - ---Mas qual dellas? perguntou a afilhada. - ---A segunda, a Ismenia. - ---Aquella que estava para casar com o dentista? - ---Esta mesmo. - ---Ahn!... - -Ella pronunciou este _ahn_ muito longo e profundo, como se puzesse nelle -tudo que queria dizer sobre o caso. Via bem o que fazia o desespero da -moça, mas via melhor a causa, naquella obrigação que incrustam no -espirito das meninas, que ellas se devem casar a todo o custo, fazendo -do casamento o pólo e fim da vida, a ponto de parecer uma deshonra, uma -injuria, ficar solteira. - -O casamento já não é mais amor, não é maternidade, não é nada -disso: é simplesmente casamento, uma cousa vasia, sem fundamento nem na -nossa natureza nem nas nossas necessidades. - -Graças á frouxidão, á pobreza intellectual e fraqueza de energia -vital de Ismenia, aquella fuga do noivo se transformou em certeza de -não casar mais e tudo nella se abysmou nessa idéa desesperada. - -Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se. Sendo bom de fundo, quando -lutava pela fortuna se fez duro e aspero, mas logo que se viu rico, -perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem que só se póde -ser bom quando se é forte de algum modo. - -Ultimamente o Major tinha diminuido um pouco o interesse pela moça; -andava atormentado com o seu caso de consciencia; entretanto, se não -tinha um constante e particular pensamento pela desdita da filha de -Albernaz, abrangia-a ainda na sua bondade geral, larga e humana. - -Não se demorou muito na casa do compadre; elle queria, antes de voltar -ao Cajú, passar pelo quartel do seu batalhão. Ia ver se arranjava uma -pequena licença, para visitar a irmã que deixara lá, no «Socego», e -de quem tinha noticias, por carta, tres vezes por semana. Eram ellas -satisfatorias, comtudo elle tinha necessidade de ver tanto ella como o -Anastacio, physionomias com quem se encontrava diariamente ha tantos -annos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituisse a -calma e a paz de espirito. - -A ultima carta que recebera de D. Adelaide, havia uma phrase de que, no -momento, se lembrava sorrindo: «Não te exponhas muito, Polycarpo. Toma -muita cautela». Pobre Adelaide! Estava a pensar que esse negocio de -balas é assim como a chuva?!... - -O quartel ainda ficava tio velho cortiço condemnado pela hygiene, lá -para as bandas da cidade nova. Assim que Quaresma apontou na esquina, a -sentinella deu um grande berro, fez uma immensa bulha com a arma e elle -entrou, tirando o chapéo da cabeça baixa, pois estava á paisana e -tinha abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as -susceptibilidades republicanas dos jacobinos. - -No pateo, o instructor côxo adestrava novos voluntarios e os seus -magestosos e demorados gritos: hom-broôô... armas! Mei-ããã volta... -volver! subiam ao céo e ecoavam longamente pelos muros da antiga -estalagem. - -Bustamante estava no seu cubiculo, mais conhecido por gabinete, -irreprehensivel no seu uniforme verde garrafa, alamares dourados e vivos -azul ferrete. Com auxilio de um sargento, examinava a escripta de um -livro quarteleiro. - ---Tinta vermelha, Sargento! É como mandam as instrucções de 1864. - -Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante. - -Logo que viu Quaresma entrar, o commandante exclamou radiante: - ---O Major adivinhou! - -Quaresma descançou placidamente o chapéo, bebeu um pouco d'agua, e o -Coronel Innocencio explicou a alegria: - ---Sabe que temos de marchar? - ---Para onde? - ---Não sei... Recebi ordem do Itamaraty. - -Elle não dizia nunca do Quartel-General, nem mesmo do Ministro da -Guerra: era do Itamaraty, do Presidente, do chefe supremo. Parecia que -assim dava mais importancia a si mesmo e ao seu batalhão, fazia-o uma -especie de batalhão da guarda, favorito e amado do dictador. - -Quaresma não se espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossivel -obter a licença e tambem necessario mudar os seus estudos: da -artilharia, tinha que passar para a infantaria. - ---O Major é que vai commandar o corpo, sabia? - ---Não, Coronel. E o senhor não vai? - ---Não, disse Bustamante, alisando o cavaignac mosaico e abrindo a bocca -para o lado esquerdo. Tenho que acabar a organização da unidade e não -posso... Não se assuste, mais tarde irei lá ter... - -Começava a tarde, quando Quaresma sahiu do quartel. O instructor côxo -continuava, com força, magestade e demora, a gritar: hom-brôôô... -armas! A sentinella não pôde fazer a bulha da entrada, porque só viu -o Major, quando já ia longe. Elle desceu até á cidade e foi ao -Correio. Havia alguns tiros espaçados; no Café do Rio, os levitas -continuavam a trocar idéas para a consolidação definitiva da -Republica. - -Antes de chegar ao Correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a -uma livraria e comprou livros sobre infantaria; precisava tambem dos -regulamentos: arranjaria no quartel-general. - -Para onde ia? Para o Sul, para Magé, para Nictheroy? Não sabia... Não -sabia... Ah! se isso fosse para realização dos seus desejos e sonhos! -Mas quem sabe?... Podia ser... talvez... Mais tarde... - -E passou o dia atormentado pela duvida do bom emprego de sua vida e de -suas energias. - -O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do General. -Elle levava a intima convicção de que a sua sciencia toda nova pudesse -fazer alguma cousa; mas assim não se deu. - -A moça continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco attenuada, -o seu organismo cahia. Estava magra e fraca, a ponto de quasi não poder -sentar-se na cama. Era sua mãe quem mais junto a ella vivia; as irmãs -se desinteressavam um pouco, pois as exigencias de sua mocidade -levavam-n'as para outros lados. - -D. Maricota, tendo perdido todo aquelle antigo fervor pelas festas e -bailes, estava sempre no quarto da filha, a consolal-a, animal-a, e, ás -vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um tanto culpada pela -sua infelicidade. - -A molestia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismenia, tinha-lhe -diminuido a lassidão, tirado o mortiço dos olhos e os seus lindos -cabellos castanhos, com reflexos de ouro, mais bellos se faziam quando -cercavam a pallidez de sua face. - -Raro era falar muito; e assim foi que, naquelle dia, se espantou muito -D. Maricota com a loquacidade da filha. - ---Mamãe, quando se casa Lalá? - ---Quando se acabar a revolta. - ---A revolta ainda não acabou? - -A mãe respondeu-lhe e ella esteve um instante calada, olhando o tecto, -e, após essa contemplação disse á mãe: - ---Mamãe... Eu vou morrer... - -As palavras sairam-lhe dos labios, seguras, doces e naturaes. - ---Não diga isso, minha filha, adiantou-se D. Maricota. Qual morrer! -Você vai ficar boa; seu pai vai levar você para Minas; você engorda, -toma forças... - -A mãe dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como -se tratasse de uma criança. Ella ouvia tudo com paciencia e voltou -por sua vez serenamente: - ---Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa a senhora... - -A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em -redor, deu com a porta semi-cerrada e levantou-se para fechal-a. Quiz -ainda ver se a dissuadia daquelle pensamento; Ismenia, porém, -continuava a repetil-o pacientemente docemente, serenamente: - ---Eu sei, mamãe. - ---Bem. Supponho que é verdade: o que é que você quer? - ---Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva. - -D. Maricota ainda quiz brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para -o outro lado, poz-se a dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe -saiu do quarto, commovida, com lagrimas nos olhos e a secreta certeza de -que a filha, falava a verdade. - -Não tardou muito a se verificar. O Dr. Armando a tinha visitado -naquella manhã pela quarta vez; ella parecia melhor, desde alguns dias, -falava com discernimento, sentava-se á cama e conversava com prazer. - -D. Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue ás -irmãs. Ellas foram lá ao quarto varias vezes e parecia dormir. -Distrahiram-se. - -Ismenia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio -aberto, o seu traje de noiva. Teve vontade de vel-o mais de perto. -Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplal-o. Chegou-lhe -o desejo de vestil-o. Poz a saia: e, por ahi, vieram recordações do -seu casamento falhado. Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente -osseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas não se recordou com -odio, antes como se fosse um logar visto ha muito tempo, e que a tivesse -impressionado. - -De quem ella se lembrava com raiva era da cartomante. Illudindo sua -mãe, acompanhada por uma criada, tinha conseguido consultar Mme. -Sinhá. Com que indifferença ella lhe respondeu: não volta! Aquillo -doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah!... Acabou de abotoar a -saia em cima do corpinho, pois não encontrara collete; e foi ao -espelho. Viu os seus hombros nús, o seu collo muito branco... -Surprehendeu-se. Era della aquillo tudo? Apalpou-se um pouco e depois -collocou a corôa. O véo afagou-lhe as espaduas carinhosamente, como um -adejo de borboleta. Teve uma fraqueja, uma cousa, deu um ai e cahiu de -costas na cama, com as pernas para fóra... Quando a vieram ver, estava -morta. Tinha ainda a corda na cabeça e um seio, muito branco e redondo, -saltava-lhe do corpinho. - -O enterro foi feito no dia immediato e a casa de Albernaz esteve os dous -dias cheia, como nos dias de suas melhores festas. - -Quaresma foi ao enterro; elle não gostava muito dessa cerimonia; mas -veiu, e foi ver a pobre moça, no caixão, coberta de flores, vestida de -noiva, com um ar immaculado de imagem. Pouco mudara, entretanto. Era -ella mesma ali; era a Ismenia dolente e pobre de nervos, com os seus -traços meudos e os seus lindos cabellos, que estava dentro daquellas -quatro taboas. A morte tinha fixado a sua pequena belleza e o seu -aspecto pueril; e ella ia para a cova com a insignificancia, com a -innocencia e a falta de accento proprio que tinha tido em vida. - -Contemplando aquelles tristes restos, Quaresma viu caixão do coche -parar na porta do cemiterio, atravessar pelas ruas de tumulos--uma -multidão que trepava, se tocava, lutava por espaço, na estreiteza da -varzea e nas encostas das collinas. Algumas sepulturas como se olhavam -com affecto e se queriam approximar; em outras, transparecia repugnancia -por estarem perto. Havia ali, naquelle mudo laboratorio de -decomposições, solicitações incomprehensiveis, repulsões, -sympathias e antipathias; havia tumulos arrogantes, vaidosos, -orgulhosos, humildes, alegres e tristes; e de muitos, recumava o -esforço, um esforço extraordinario, para escapar ao nivelamento da -morte, ao apagamento que ella traz ás condições e ás fortunas. - -Quaresma ainda contemplava o cadaver da moça e o cemiterio surgia aos -seus olhos com as esculpturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e -inscripções, em alguns tumulos; noutros, eram pyramides de pedra -tosca, retratos, caramanchões extravagantes, complicações de ornatos, -cousas barôcas e delirantes, para fugir ao anonymato do tumulo, ao fim -dos fins. - -As inscripções exuberantes são longas, são breves: têm nomes, têm -datas, sobrenomes, filiações, toda a certidão de idade do morto que, -lá em baixo, não se póde mais conhecer e é lama putrida. - -E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem -uma celebridade, uma notabilidade, um desses nomes que enchem decadas e, -ás vezes mesmo, já mortos, parece que continuam a viver. Tudo é -desconhecido; todas aquelles que querem fugir do tumulo para a memoria -dos vivos, são anodynos felizes e mediocres existencias que passaram -pelo mundo sem ser notadas. - -E lá ia aquella moça por ali afóra para o buraco escuro, para o fim, -sem deixar na vida um traço mais fundo de sua pessoa, de seus -sentimentos, de sua alma! - -Quaresma quiz afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior -da casa. Elle estivera na sala de visitas, onde D. Maricota tambem -estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. O Lulú, -fardado do Collegio, com fumo no braço, cochilava a uma cadeira. As -irmãs iam e vinham. Na sala de jantar, estava o General silencioso, -tendo ao lado Fontes e outros amigos. - -Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma -passou, pôde ouvir o Almirante dizer: - ---Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui... O Governo está -exhausto. - -O Major ficou na janella que dava para o quintal. O tecido do céo se -tinha adelgaçado; o azul estava sedoso e fino; e tudo tranquillo, -sereno e calmo. - -A Estephania, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo -ao lado Lalá, que levava, de quando em quando, o lenço aos olhos já -seccos, a quem aquella dizia: - ---Eu, se fosse você, não comprava lá... É caro! Vai ao «Bonheur -des Dames»... Dizem que tem cousas boas e é pechincheiro. - -O Major voltou de novo a contemplar o céo que cobriu o quintal. Tinha -uma tranquillidade quasi indifferente. Genelicio appareceu -demasiadamente funebre. Todo de preto, elle tinha afivelado ao rosto a -mais profunda mascara de tristeza. O seu _pince-nez_ azulado tambem -parecia de luto. - -Não lhe fôra possivel deixar de ir trabalhar; um serviço urgente, -fizera-o indispensavel na repartição. - ---É isto, General, disse elle, não esta lá o Dr. Genelicio, nada se -faz... Não ha meio da «Marinha» mandar os processos certos... É um -relaxamento... - -O General não respondeu; estava deveras combalido. Bustamante e Caldas -continuavam a conversar baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua. -Quinota chegou á sala de jantar: - ---Papae, está ahi o coche. - -O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou á -mulher que se ergueu com a face contrahida, exprimindo uma grande -contensão. Os seus cabellos já tinham muitos fios de prata. Não deu -um passo; esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando. -Todos estavam vendo sem saber o que fazer; alguns choravam; Genelicio -tomou um partido: foi retirando os cirios de ao redor do caixão. A mãe -levantou-se, veiu até ao esquife, beijou o cadaver: minha filha! - -Quaresma adiantou-se, foi sahindo com o chapéo na mão. No corredor, -ainda ouviu Estephania dizer a alguem: o coche é bonito. - -Saiu. Na rua parecia que havia testa. As crianças da visinhança -cercavam-o carro funebre e faziam innocentes commentarios sobre os -dourados e enfeites. As grinaldas foram apparecendo e sendo dependuradas -nas extremidades das columnas do coche: «Á minha querida filha», «Á -minha irmã». As fitas rôxas e pretas, com lettras douradas, moviam-se -lentamente ao leve vento que soprava. - -Appareceu o caixão, todo roxo, com guarnições do galões dourados, -muito brilhantes. Tudo aquillo ia p'ra terra. As janellas se povoaram, -de um lado e d'outro da rua; um menino na casa proxima, gritou da rua -para o interior: «mamãe, lá vai o enterro da moça»! - -O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuario, cujos -cavallos, russos, cobertos com uma rede preta, escarvavam o chão cheios -de impaciencia. - -Aquelles que iam acompanhar até ao cemiterio, procuravam os seus -carros. Embarcaram todos, e o enterro rodou. - -A esse tempo, na visinhança, alguns pombos immaculadamente brancos, as -aves de Venus, ergueram o vôo, ergueram o vôo, ruflando -estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo -silenciosos, quasi sem bater azas, para o pombal que se occultava nos -quintaes burguezes... - - - - -IV - -O BOQUEIRÃO - - -O sitio de Quaresma, em Curuzú, voltava aos poucos ao estado de -abandono em que elle o encontrara. A herva damninha crescia e cobria -tudo. As plantações que fizera, tinham desapparecido na invasão do -capim, do carrapicho, das ortigas e outros arbustos. Os arredores da -casa offereciam um aspecto desolador, apezar dos esforços de Anastacio, -sempre vigoroso e trabalhador na sua forte velhice africana, mas baldo -de iniciativa, de methodo, de continuidade no esforço. - -Um dia capinava aqui, outro dia ali, outro pedaço; assim ia saltando de -trecho em trecho, sem fazer trabalho que se visse, permittindo que as -terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto de desleixo que -não condizia como seu trabalho effectivo. - -As formigas voltaram tambem, mais terriveis e depredadoras, vencendo -obstaculos, devastando tudo, restos de seara, brotos de fructeiras, até -os araçazeiros depenavam com uma energia e bravura que sorriam nos -fracos expedientes da intelligencia crestada do antigo escravo, incapaz -de achar meios efficazes de batel-as ou afugenta-las. - -Entretanto elle cultivava. Era a sua mania, o seu vicio, uma teimosia de -caduco. Tinha uma horta que disputava diariamente ás saúvas; e, como -os animaes da visinhança a tivessem um dia invadido, elle a protegeu -pacientemente com uma cerca de materiaes mais inconcebiveis: latas de -kerozene desdobradas, caibros bons, folhas de coqueiros, taboas de -caixão, não obstante ter á mão bambus á vontade. - -Na sua intelligencia havia uma necessidade do tortuoso; do -apparentemente facil; e, em tudo elle punha esse geito de sua psyche, -tanto no falar, com grandes rodeios, como nos canteiros que traçava, -irregulares, maiores aqui, menores ali, fugindo á regularidade, ao -parallelismo, á symetria, com um horror artistico. - -A revolta tinha tido sobre a politica local effeito pacificador. Todos -os partidos se fizeram dedicadamente governistas, de forma que, entre os -dous poderosos contendores, o Dr. Campos e o Tenente Antonino, houve um -traço de união que os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso que -ambos disputavam encarniçadamente, chegou um outro mais forte que poz -em perigo a segurança de ambos e elles se puzeram em expectativa, um -instante unidos. - -O candidato foi imposto pelo Governo Central e as eleições chegaram. -É um momento bem curioso esse das eleições na roça. Não se sabe bem -donde sabem tantos typos exoticos. De tal forma são elles esquesitos -que se póde mesmo esperar que appareçam calções e bofes de renda, -espadins e gibão. Ha sobrecasacas de cintura, ha calças boca de sino, -ha chapéos de seda--todo um museu de indumentaria que aquelles roceiros -vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e -estradas poeirentas das villas e logarejos. Não faltam tambem os -valentões, com calças bombachas e grandes bengalões de piquiá, á -espera do que der e vier. - -Para a monotona vida que levava D. Adelaide, esse desfile de manequins -de museu, por sua porteira, em direcção á secção eleitoral que lhe -ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ella passava longo e -tristes dias naquelle isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito a -mulher de Felizardo, a sinhá Chica, uma velha cafusa, especie de Medéa -esqueletica, cuja fama de rezadeira pairava por sobre todo o municipio. -Não havia quem como ella soubesse rezar dores, cortar febres, curar -cobreiros e conhecesse os effeitos das hervas medicinaes: a lingua de -vacca, a silvina, o cipó chumbo--toda aquella drogaria que crescia -pelos campos, pelas capoeiras, e pelos troncos de arvores. - -Além desse saber que a fazia estimada e respeitavel, tinha tambem a -habilidade de assistir partos. Na redondeza, entre a gente pobre e mesmo -remediada, todos os nascimentos se faziam aos cuidados de suas luzes. - -Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento -domestico em cruz, repetidas vezes, sobre a séde da dor ou da tarefa, -rezando em voz baixa, balbuciando preces que afugentavam o espirito -maligno que estava ali. Contavam-se della milagres, victorias -extraordinarias, denunciadoras do seu extranho poder quasi magico, sobre -as forças occultas, que nos perseguem ou nos auxiliam. - -Um dos mais curiosos, e era contado em toda a parte e á toda a hora, -consistia no afastamento das lagartas. Os vermes haviam dado num -feijoal, aos milheiros, cobrindo as folhas e os colmos; o proprietario -já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos -maravilhosos poderes de Sinhá Chica. A velha lá foi. Pôz cruzes de -gravetos pelas bordas da roça, assim como se fizesse uma cerca de -invisivel material que nellas se apoiasse; deixou uma extremidade aberta -e collocou-se na opposta a rezar. Não tardou o milagre a verificar-se. -Os vermes, num rebanho moroso e serpejante, como se fossem tocados pela -vara de um pastor, foram sahindo na sua frente, de vagar, aos dous, aos -quatros, aos cinco, aos dez, aos vinte, e um só não ficou. - -O doutor Campos não linha absolutamente nenhuma especie de ciume dessa -rival. Armou-se de um pequeno desdem pelo poder sobrehumano da mulher, -mas não appellou nunca para o arsenal de leis, que vedava o exercicio -de sua transcedente medicina. Seria a impopularidade; elle era -politico... - -No interior, e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro, as -duas medicinas coexistem sem raiva e ambas attendem ás necessidades -mentaes e economicas da população. - -A da Sinhá Chica, quasi gratis, ia ao encontro da população pobre, -daquella em cujos cerebros, por contagio ou herança, ainda vivem os -manitus e manipanços, sujeitos a fugirem aos exorcismos, benzeduras e -fumigações. A sua clientela, entretanto, não se resumia só na gente -pobre da terra, ali nascida ou criada; havia mesmo recem-chegados de -outros ares, italianos, portuguezes e hespanhoes, que se socorriam da -sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contagio das crenças -ambientes, mas tambem por aquella estranha superstição européa de que -todo o negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as -coisas malignas e exercer a feitiçaria. - -Emquanto a therapeutica fluidica ou herbacea de Sinhá Chica attendia -aos miseraveis, aos pobretões, a do doutor Campos era requerida pelos -mais cultos e ricos, cuja evolução mental exigia a medicina regular e -official. - -Ás vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas molestias -graves, nas complicadas, nas incuraveis, quando as hervas e as rezas da -milagrosa nada podiam ou os xaropes e pillulas do doutor eram -impotentes. - -Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradavel. Vivia sempre -mergulhada no seu sonho divino, abysmada nos mysteriosos poderes dos -feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos baixos, fixos, de -fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de mumia, tanto ella era -encarquilhada e secca. - -Não esquecia tambem os santos, a santa madre igreja, os mandamentos, -as orações orthodoxas; embora não soubesse ler, era forte no -cathecismo e conhecia a historia sagrada aos pedaços, adduzindo a -elles interpretações suas e interpelações pittorescas. - -Com o Appolinario, o famoso capellão das ladainhas, era ella o forte -poder espiritual da terra. O vigario ficava relegado a um papel de -funccionario, especie de official de registro civil, encarregado dos -baptisados e casamentos, pois toda a communicação com Deus e o -Invisivel se fazia por intermedio de Sinhá Chica ou do Appolinario. É -de dever falar em casamentos, mas bem podiam ser esquecidos, porque a -nossa gente pobre faz um reduzido de tal sacramento e a simples -mancebia, por toda a parte, substitue a solemne instituição catholica. - -Felizardo, o marido della, apparecia pouco em casa de Quaresma; e, se -apparecia, era á noite passando os dias pelos mattos com medo do -recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o barulho já -tinha acabado. - -Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janella e -embrenhando-se na capoeira, á menor bulha ou vida. - -Tinham dous filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam á depressão -moral dos paes uma pobreza de vigor physico e uma indolencia repugnante. -Eram dous rapazes; o mais velho, José, orçava pelos 20 annos; ambos -inertes, molles, sem força e sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria, -das rezas e benzeduras, que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito -do pae. - -Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um -trabalho continuo. De quando em quando, assim de quinze em quinze dias, -faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade -do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um lenço de -cores vivas, um vidro de agua da Colonia, um espelho, bugigangas que -denunciavam ainda nelles gostos bastante selvagens. - -Passavam então uma semana em casa, a dormir ou á perambular pelas -estradas e vendas; á noite, quasi sempre nos dias de festas e domingos, -sahiam com a _harmonica_ a tocar peças, no que eram eximios, sendo a -presença delles muito requesitada nos bailes da visinhança. - -Embora seus paes vivessem em casa de Quaresma, raramente lá appareciam; -e, se o faziam, era porque de todo não tinham que comer. Levavam o -descuido da vida, a imprevidencia, a ponto de não terem medo do -recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e -bondade, mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes á -natureza, como uma pena ou um castigo. - -Essa atonia da nossa população, essa especie de desanimo doentio, de -indifferença nirvanesca por tudo e todas as cousas, cercam de uma -caligem de tristeza, desesperada a a nossa roça e tira-lhe o encanto, a -poesia o o viço seductor de plena natureza. - -Parece que nem um dos grandes paizes opprimidos, a Polonia, a Irlanda, a -India apresentará o aspecto cataleptico do nosso interior. Tudo ahi -dorme, cochila, parece morto; naquelles ha revolta, ha fuga para o -sonho; no nosso... Oh!... dorme-se... - -A ausencia de Ouaresma trouxera para o seu sitio essa atmosphera geral -da roça. O «Socego» parecia dormir, dormir de encantamento, á espera -que o principe o viesse despertar. - -Machinas agricolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a -etiqueta da casa. Aquelles arados de ponta de aço, que tinham chegado -com a relha reluzente, de um brilho azulado e doce, estavam hediondos e -morriam de tedio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente -para o céo mudo. De manhã, não se ouvia mais o cacarejar das aves no -gallinheiro, o esvoaçar dos pombos--todo esse hymno matinal de vida, de -trabalho, de fartura não mais se casava com as auroras rosadas e com o -chilreio alacre do passaredo; e ninguem sabia ver as paineiras em flor, -com as suas lindas flores rosadas e brancas que, a espaços, cahiam -docemente como aves feridas. - -D. Adelaide não linha nem gosto nem actividade para superintender -aquelles serviços e fruir a poesia da roça. Soffria com a separação -do irmão e vivia como se estivesse na cidade. Comprava os generos na -venda e não se incommodava com as cousas do sitio. - -Anceiava pela volta da irmão; escrevia-lhe cartas desesperadas, ás -quaes elle respondia aconselhando calma, fazendo promessas. A ultima -recebida, porém, tinha de sopetão outro accento; não era mais -confiante, enthusiastica, trahia desanimo, desalento, mesmo desespero. - -«Querida Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que recebi ha -quasi duas semanas. Justamente quando ella me chegou ás mãos, acabava -de ser ferido, ferimento ligeiro é verdade, mas que me levou á cama e -traz-me-á unia convalescença longa. Que combate, minha filha! Que -horror! Quando me lembro delle, passo as mãos pelos olhos como para -afastar uma visão má. Fiquei com um horror á guerra que ninguem póde -avaliar... Uma confusão, um infernal zunir de balas, clarões -sinistros, imprecações--e tudo isto no seio da treva profunda da -noite... Houve momentos que se abandonaram as armas de fogo: batiamo-nos -á bayoneta, a coronhadas, a machado, a facão. Filha: um combate de -troglodytas, um cousa prehistorica... Eu duvido, eu duvido, duvido da -justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo -e necessario ir tirar do fundo de nós todos a ferocidade adormecida, -aquella ferocidade que se fez e se depositou em nós nos millenarios -combates com as féras, quando disputavamos a terra e ellas... Eu não -vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon do Néanderthal armados com -machados de silex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar, -sempre a matar... Este teu irmão que estás vendo, tambem fez das suas, -tambem foi descobrir dentro do si muita brutalidade, muita ferocidade, -muita crueldade... Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de -matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus -pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não -sei a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguem emfim... Não -imaginas como isto faz-me soffrer... Quando cahi em baixo de uma -carreta, o que me doia não era a ferida, era a alma, era a consciencia; -e Ricardo, que foi ferido e cahiu ao meu lado, a gemer e -pedir--_capitão, meu gorro; meu gorro_!--parecia que era o meu proprio -pensamento que ironizava o meu destino... - -Esta vida é absurda e illogica; eu já tenho medo de viver, Adelaide. -Tenho medo, porque não sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã, -de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol... - -O melhor é não agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre destes -encargos, irei viver na quietude, na quietude mais absoluta possivel, -para que do fundo de mim mesmo ou do mysterio das cousas não provoque a -minha acção o apparecimento de energias extranhas á minha vontade, -que mais me façam soffrer e tirem o doce sabor de viver... - -Além do que, penso que todo este meu sacrificio tem sido inutil. Tudo o -que nelle puz de pensamento não foi attingido; e o sangue que derramei, -e o soffrimento que vou soffrer toda a vida, foram empregados, foram -gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralisados em pról -de uma tolice politica qualquer... - -Ninguem comprehende o que quero, ninguem deseja penetrar e sentir; passo -por doido, tolo, maniaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a -sua brutalidade e fealdade». - - * * * * * - -Como Quaresma dizia na carta, o seu ferimento não era grave, era -porém, delicado e exigia tempo para uma cura completa e sem perigos. -Ricardo, este, fora ferido mais gravemente. E se o soffrimento de -Quaresma era profundamente moral, o de Coração dos Outros era physico -e não se cançava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara -até á posição de combatente. - -Os hospitaes em que tratavam estavam separados pela bahia, agora -intransponivel, exigindo a viagem de uma margem á outra bem doze horas -por estrada de ferro. - -Tanto na ida como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela -estação em que morava. O trem, porém, não parava, e elle se limitou -a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para aquelle seu -«Socego», de terras pobres e arvores velhas, onde sonhara repousar -calmamente por toda a vida; e, entretanto, o lançara na mais terrivel -das aventuras. - -E elle perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro -socego, onde se poderia encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo -qual tanto anceiava, depois dos sacolejamentos por que vinha -passando--onde? E o mappa dos continentes, as cartas dos paizes, as -plantas das cidades, passavam-lhe pelos olhos e não viu, não encontrou -um paiz, uma provincia, uma cidade, uma rua onde o houvesse. - -A sua sensação era de fadiga, não physica, mas moral r intellectual. -Tinha vontade de não mais pensar, de não mais amar: queria, comtudo, -viver, por prazer physico, pela sensação material pura e simples de -viver. - -Assim, convalesceu longamente, demoradamente, melancolicamente, sem uma -visita, sem ver uma face amiga. - -Coleoni e familia se haviam retirado para fóra; o General, por -preguiça e desleixo, não viera vel-o. Vivia só, envolvido na -suavidade da convalescença, a pensar no Destino, na sua vida, nas suas -idéas e mais que tudo nas suas desillusões. - -Entretanto, a revolta na bahia chegava ao fim; toda a gente já -presentia isso e queria esse allivio. - -O Almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim -com tristeza. O primeiro via fugir o seu sonho de commandar uma esquadra -e a consequente volta para o quadro; e o General sentia perder a sua -commissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notavel melhorar a -situação da familia. - -Naquella manhã, bem cedo, D. Maricota accordara o marido: - ---Chico, levanta-te! Olha que tens que ir á missa do Senador -Clarimundo... - -Ouvindo a recommendação da mulher, Albernaz ergueu-se logo do leito. -Era preciso não faltar. A sua presença se impunha e significava muito. -Clarimundo fôra um republicano historico, agitador, tribuno temido, no -tempo do Imperio; após a Republica, porém, não apresentara aos seus -pares do Senado nada de util e bemfasejo. Embora assim, a sua influencia -ficara sendo grande; e, com diversos outros, era chamado patriarcha da -Republica. Ha nos proceres republicanos uma necessidade extraordinaria -de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro, a que elles se -recommendam com teimoso interesse. - -Clarimundo era um desses proceres e, durante a commoção, não se sabia -bem porque, o seu prestigio cresceu e já se falava nelle para -substituir o Marechal. Albernaz conhecera-o vagamente, mas assistir a -sua missa era quasi uma affirmação politica. - -A dor da morte da filha já se esvaira muito na sua memoria. O que o -fazia soffrer era aquella semi-vida da moça, mergulhada na loucura e na -molestia. A morte tem a virtude de ser brusca, de chocar, mas não -corroer, como essas molestias duradouras nas pessoas amadas: passado que -é o choque, vai ficando em nós uma suave recordação do ente -querido, uma boa physionomia sempre presente aos nossos olhos. - -Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua -jovialidade natural foram voltando insensivelmente. - -Obediente á mulher, preparou-se, vestiu-se e sahiu. Comquanto se -estivesse ainda em plena revolta, esses officios funebres se faziam nas -igrejas do centro da cidade. O General chegou a tempo e á hora. Havia -uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assignar as listas de -presença. Não tanto que quisessem attestar á familia do morto esse -acto delicado; dominava-os, além disso, a esperança de ter os nomes -nos jornaes. - -Albernaz não deixou de atirar-se tambem a uma das listas que andavam -pelas mesas da sacristia; e, quando ia assignar, alguem lhe falou. Era o -Almirante. A missa ia começar, mas ambos evitaram entrar na nave cheia, -e ficaram a um vão da janella, na sacristia, conversando. - ---Então acaba breve, hein? - ---Dizem que a esquadra já sahiu de Pernambuco. - -Fôra Caldas quem falara primeiro e a resposta do General fel-o sorrir -ironico dizendo: - ---Emfim... - ---A bahia está cercada de canhões, continuou o General, após uma -pausa, e o Marechal vai intimal-os a renderem-se. - ---Já era tempo, fez Caldas... Commigo, a cousa ja estava acabada... -Levar quasi sete mezes para dar cabo de uns calhambeques!... - ---Você exagera, Caldas; a cousa não era tão facil assim... E o mar? - ---Que fez a esquadra tanto tempo no Recife, você não me dirá? Ah! si -fosse com este seu criado, tinha logo partido e atacado... Sou pelas -decisões promptas... - -O padre, no interior da igreja, continuava a pedir Deus repouso para a -alma do Senador Clarimundo. O mystico cheiro de incenso vinha até elles -e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz e da bondade, não os demovia -dos seus pensamentos guerreiros. - ---Entre nós, adduziu Caldas, não ha mais gente que preste... Isto é -um paiz perdido, acaba colonia ingleza... - -Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho -do chão. Albernaz avançou, meio sarcastico: - ---Agora não; agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma -era de progresso vai abrir-se para o Brasil. - ---Qual o que! Onde é que você viu um Governo... - ---Mais baixo, Caldas! - ---...onde é que se viu um Governo que não aproveita as aptidões, -abandona-as, deixa-as por ahi vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas -riquezas naturaes: jazem por ahi á toa! - -A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma -porção de homens, todos de negro, ajoelhados, contrictos, batendo nos -peitos, a confessar de si para si: _mea culpa, mea maxima culpa_... - -Uma restea de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia -sobre algumas cabeças. - -Insensivelmente, os dous, na sacristia, levaram a mão ao peito e -confessaram tambem: _mea culpa, mea maxima culpa_... - -A missa veiu a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmatica. A -nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranquillo de immortalidade. - -Todos tinham um grande ar de compuncção: amigos, parentes, conhecidos -e desconhecidos pareciam soffrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que -penetraram no corpo da igreja, apanharam no ar um sentimento profundo e -afivelaram-no ao rosto. - -Genelicio tambem viera; elle tinha o vicio das missas das pessoas -importantes, dos cartões de pezames, dos cumprimentos em dias de -anniversario. Temendo que a memoria não lhe ajudasse, possuia um -caderninho onde as datas aniversarias estavam assentadas e as -residencias tambem. O indice era organizado com muito cuidado. Não -havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem importante, que, em dia de -anniversario, não recebesse os seus parabens, e, por morte, não o -levasse á igreja em missa de setimo dia. - -O seu traje de luto era de panno grosso, pesado e, olhando-o, -lembrava-nos logo de um castigo dantesco. - -Na rua, Genelicio escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia -ao sogro e ao Almirante: - ---A cousa está p'ra acabar...! Breve... - ---E se resistirem? perguntou o General. - ---Qual! Não resistem. Corre que já propuzeram rendição... É preciso -arranjar uma manifestação ao Marechal... - ---Não acredito, fez o Almirante. Conheço muito o Saldanha, é -orgulhoso e não se entrega assim... - -Genelicio ficou um pouco assustado com a intonação da voz do seu -parente; teve medo que elle falasse mais alto, désse na vista e o -compromettesse. Calou-se; Albernaz, porem, avançou: - ---Não ha orgulho que resista a uma esquadra mais forte. - ---Forte! Uns calhambeques, homem! - -Caldas continha a custo a furia que lhe ia n'alma. O céo estava azul e -calmo. Havia nelle nuvens brancas, leves, esgarçadas, que se moviam -lentamente, como velas, naquelle mar infinito. Genelicio olhou-o um -pouco e aconselhou: - ---Almirante não fale assim... Olhe que... - ---Qual! Não tenho medo... Porcarias!... - ---Bom, fez Genelicio, eu tenho que ir á rua Primeiro de Março e... - -Despediu-se e sahiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão -com o seu pince-nez azulado, palmilhando a rua com passo meudo e -cauteloso. - -Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram -sempre amigos, cada um com o seu desgosto e a sua decepção. - -Tinham razão: a revolta veiu a acabar d'ahi a dias. A esquadra legal -entrou: os officiaes revoltosos se refugiaram nos navios de guerra -portuguezes e o Marechal Floriano ficou senhor da bahia. - -No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte -da população abandonou a cidade, refugiando-se nos suburbios, por -baixo das arvores, na casa de amigos ou nos galpões construidos adrede -pelo Estado. - -Era de ver o terror que se estampava naquellas physionomias, a ancia e a -angustia tambem. Levavam trouxas, samburás, pequenas malas; crianças -de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro de estimação, o -passarinho que de ha muito quebrava a tristeza de uma casa pobre. - -O que mais mettia medo era o famoso canhão de dynamite, do -«Nictheroy», uma espalhafatosa invenção americana, instrumento -terrivel, capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das -montanhas graniticas do Rio. - -As crianças e as mulheres, mesmo fóra do alcance de seu poder, temiam -ouvir o seu estrondo: entretanto, esse fantasma _yankee_, esse -pesadello, essa quasi força da natureza, foi morrer abandonado num -caes, desprezado e inoffensivo. - -O fim do levante foi um allivio; a cousa já estava, ficando monotona e -o Marechal ganhou feições sobrehumanas com a victoria. - -Quaresma teve alta por esse tempo; e uma ala de seu batalhão foi -destacada para guarnecer a ilha das Enxadas. Innocencio Bustamante -continuava a superintender o corpo com muito zelo, do interior do seu -gabinete, na estalagem condemnada que lhe servia de quartel. A -escripturação estava em dia e era feita com a melhor letra. - -Polycarpo acceitou com repugnancia o papel de carcereiro, pois na ilha -das Enxadas estavam depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus -tormentos d'alma mais cresceram com o exercicio de tal funcção. Quasi -os não olhava: tinha vexame, piedade e parecia-lhe que dentre elles um -conhecia o segredo de sua consciencia. - -De resto, todo o systema de idéas que o fizera meter-se na guerra civil -se tinha desmoronado. Não encontrara o Sully e muito menos o Henrique -IV. Sentia tambem que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma -das pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos -politicos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os -moços, que eram muitos, se não havia baixo interesse, existia uma -adoração fetichica pela forma republicana, um exagero das virtudes -della, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações -não podiam achar justos. Era grande a sua desillusão. - -Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos -dos aspirantes. Havia simples marinheiros; havia inferiores; havia, -escreventes e operarios de bordo. Brancos, pretos, mulatos, caboclos, -gente de todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha -incitado em tal aventura pelo habito de obedecer, gente inteiramente -extranha á questão em debate, gente arrancada á força aos lares ou -á calaçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado -por miseria; gente ignara, simples, ás vezes cruel e perversa como -crianças inconscientes; ás vezes, boa e docil como um cordeiro, mas, -enfim, gente sem responsabilidade, sem anceio politico, sem vontade -propria, simples automatos nas mãos dos chefes e superiores que a -tinham abandonado á mercê do vencedor. - -De tarde, elle ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava -ainda e as gaivotas continuavam a pescar. Os barcos passavam. Ora, eram -lanchas fumarentas que lá iam para fundo da bahia; ora pequenos botes -ou canôas, roçando carinhosamente a superficie das aguas, pendendo -para lá e para cá, como se as suas alvas velas enfunadas quizessem -afagar a espelhenta superficie do abysmo. Os Orgãos vinham suavemente -morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul immaterial que -inebriava, embriagava, como um licor capitoso. - -Ficava assim um tempo longo, a ver, e quando se voltava, olhava a cidade -que entrava na sombra, aos beijos sangrentos do occaso. - -A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar, -meditando, pensando, soffrendo com aquelles lembranças de odios, de -sangueiras e ferocidade. - -A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas, e imaginou que do -exemplo dellas vinham os crimes que aquella punia, castigava e procurava -restringir. Eram negras e desesperadas, as suas idéas; muita vez julgou -que delirava. - -E então se lamentava por estar sósinho, par não ter um companheiro -com quem conversar, que lhe fizesse fugir aquelles tristes pensamentos -que o assediavam e se chiavam transformando em obsessão. - -Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras: e, mesmo que ali -estivesse, os rigores da disciplina não lhe permittiriam uma conversa -mais amigavel. Vinha a noite inteiramente, e o silencio e a treva -envolviam tudo. - -Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da -bahia, onde quasi não havia luzes que interrompessem a continuidade do -negror nocturno. - -Fixava bem os olhos para lá, como se os quizesse habituar a peneirar -nas cousas indecifraveis e adivinhar dentro da sombra negra a forma das -montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito desapparecer. - -Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insomnias e, se queria -ler, a attenção recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito -longe do livro. - -Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veiu accordal-o pela -madrugada: - ---Sr. Major, está ahi o _home_ do Itamaraty. - ---Que homem? - ---O official que vem buscar a turma do Boqueirão. - -Sem attinar bem do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do -visitante. O homem já estava no interior de um dos alojamentos. Uma -escolta estava á porta. Seguiam-no algumas praças, das quaes uma -levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna -amarellada. A vasta sala estava cheia de corpos, deitados, semi-nus, e -havia todo o iris das cores humanas. Uns roncavam, outros dormiam -sómente; e quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho, -gemeu--ai! Cumprimentaram-se Quaresma e o emissario do Itamaraty, e nada -disseram. Ambos tiveram medo de falar. O official despertou um dos -prisioneiros e disse para as praças: Levem este. - -Seguiu adiante e despertou outro:--onde você esteve? Eu--respondeu o -marinheiro--na «Guanabara»... Ah! patife, acudiu o homem do -Itamaraty... Este tambem... Levem!... - -Os soldados conductores iam até á porta, deixaram o prisioneiro e -voltavam. - -O official passou por uma porção delles e não fez reparo: adiante, -deu com um rapaz claro, franzino, que não dormia. Gritou então: -levante-se! O rapaz ergueu-se tremendo.--Onde esteve você? -perguntou.--Eu era enfermeiro, retrucou o rapaz.--Que enfermeiro! fez o -emissario. Levem este tambem... - ---Mas, seu Tenente, deixe-me escrever á minha mãe, pediu o rapaz quasi -chorando. - ---Que mãe respondeu o homem do Itamaraty. Siga! Vá! - -E assim foi uma duzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta, -a embarcar num batelão que uma lancha logo rebocou para fóra das -aguas da ilha. - -Quaresma não atinou de prompto com o sentido da scena e foi, após o -afastamento da lancha, que elle encontrou uma explicação. - -Não deixou de pensar então por que força mysteriosa, por que -injuncção ironica elle se tinha misturado em tão tenebrosos -acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do regimen... - -A embarcação não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro as -pedras do caes. A esteira da embarcação estrellejava phosphorescente. -No alto, num céo negro e profundo, as estrellas brilhavam serenamente. - -A lancha desappareceu nas trevas do fundo da bahia. Para onde ia? Para o -Boqueirão... - - - - -V - -A AFILHADA - - -Como lhe parecia illogico com elle mesmo estar ali mettido naquelle -estreito calabouço. Pois elle, o Quaresma placido, o Quaresma de tão -profundos pensamentos patrioticos, merecia aquelle triste fim? De que -maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que elle pudesse -presentir o seu extravagante proposito, tão apparentemente sem -relação com o resto da sua vida? Teria sido elle com os seus actos -passados, com as suas acções encadeiadas no tempo, que fizera com que -aquelle velho deus docilmente o trouxesse até á execução de tal -designio? Ou teriam sido os factos externos, que venceram a elle, -Quaresma, e fizeram-n'o escravo da sentença da omnipotente divindade? -Elle não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas cousas se -baralhavam, se emmaranhavam e a conclusão certa e exacta lhe fugia. - -Não estava ali ha muitas horas. Fôra preso pela manhã, logo ao -erguer-se da cama; e, pelo calculo approximado do tempo, pois estava sem -relogio e mesmo se o tivesse não poderia consultal-o á fraca luz da -masmorra, imaginava podiam ser onze horas. - -Porque estava preso? Ao certo não sabia; o official que o conduzira, -nada lhe quizera dizer; e, desde que sahira da ilha das Enxadas para a -das Cobras, não trocara palavra com ninguem, não vira nenhum conhecido -no caminho, nem o proprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um -gesto, trazer socego ás suas duvidas. Entretanto, elle attribuia a -prisão á carta que escrevera ao Presidente, protestando contra a scena -que presenciara na vespera. - -Não se pudera conter. Aquella leva de desgraça a sahir assim, as -deshonras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo -a todos os seus sentimentos puzera diante dos seus olhos todos os seus -principios moraes; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade -humana: e elle escrevera a carta com vehemencia, com paixão, indignado. -Nada omittiu do seu pensamento: falou claro, franca e nitidamente. - -Deve ser por isso que elle estava ali naquella masmorra, engaiolado, -trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma féra, como um -criminoso, sepultado na treva, soffrendo humidade, misturado com os seus -detrictos quasi sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta -lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquella angustia -provocava pensar. Não havia base para qualquer hypothese. Era de -conducta tão irregular e incerta o Governo que tudo elle, podia -esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquella. - -O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sêde de matar, -para affirmar mais a victoria e sentil-a bem na consciencia cousa sua, -propria, e altamente honrosa. - -Iria morrer, quem sabe se naquella noite mesmo. E que tinha elle feito -de sua vida? Nada. Levara toda ella atraz da miragem de estudar a -patria, por amal-a e querel-a muito, no intuito de contribuir para a sua -felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua -virilidade tambem; e, agora que estava na velhice, como ella o -recompensava, como ella o premiava, como ella o condecorava? Matando-o. -E o que não deixara de ver, de gosar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não -brincara, não pandegara, não amara--todo esse lado da existencia que -parece fugir um pouco á sua tristeza necessaria, elle não vira, elle -não provara, elle não experimentara. - -Desde dezoito annos que o tal patriotismo lhe absorvia e por elle fizera -a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram -grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade -saber o nome dos heróes do Brasil? Em nada... O importante é que elle -tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupy, do -_folk lore_, das suas tentativas agricolas... Restava disso tudo em sua -alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma! - -O tupy encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escarneo; e -levou-o á loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras -não eram ferazes e ella não era facil como diziam os livros. Outra -decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que -achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois elle -não a viu combater como féras? Pois não a via matar prisioneiros, -innumeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma serie, -melhor, um encadeiamento de decepções. - -A patria que quizera ter era um mytho; era um fantasma criado por elle -no silencio do seu gabinete. Nem a physica, nem a moral, nem a -intellectual, nem a politica que julgava existir, havia. A que existia -de facto, era a do Tenente Antonino, a do Dr. Campos, a do homem do -Itamaraty. - -E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Patria? Não -teria levado toda a sua vida norteado por uma illusão, por uma idéa a -menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma Deusa cujo imperio se -esvaia? Não sabia que essa idéa nascera da amplificação da crendice -dos povos grego-romanos de que ancestraes mortos continuaram a viver -como sombras e era preciso alimental-as para que elles não perseguissem -os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Conlangos... Lembrou-se de -que essa noção nada é para os menenanan, para tantas pesos... -Pareceu-lhes que essa idéa como que fôra explorada pelos -conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviencias -psychologicas, no intuito de servir ás suas proprias ambições... - -Reviu a historia; viu as mutilações, os accrescimos em todos os paizes -historicos e perguntou de si para si; como um homem que vivesse quatro -seculos, sendo francez, inglez, italiano, allemão, podia sentir a -Patria? - -Uma hora, para o francez, o Franco-Condado era terra dos seus avós, -outra não era; num dado momento, a Alsacia não era, depois era e -afinal não vinha a ser. - -Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura, -sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso soffremos -qualquer magua? - -Certamente era uma noção sem consistencia racional e precisava ser -revista. - -Mas, como é que elle tão sereno, tão lucido, empregara sua vida, -gastara o seu tempo, envelhecera atraz de tal chimera? Como é que não -viu nitidamente a realidade, não a presentiu logo e se deixou enganar, -por um falaz idolo, absorver-se nelle, dar-lhe em holocausto toda a sua -existencia? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e -assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um -amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma -asneira! - -Nada deixava que affirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada -de saboroso. - -Comtudo, quem sabe se outros que lhe seguissem pegadas não seriam mais -felizes? E logo respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera -communicar, se nada dissera e não prendera o seu sonho, dando-lhe corpo -e substancia? - -E esse seguimento adiantaria alguma cousa? E essa continuidade traria -enfim para a terra alguma felicidade? Ha quantos annos vidas mais -valiosas que a delle, se vinham offerecendo, sacrificando e as cousas -ficaram na mesma, a terra, na mesma miseria, na mesma oppressão, na -mesma tristeza. - -E elle se lembrava que ha bem cem annos, ali, naquelle mesmo logar onde -estava, talvez naquella mesma prisão, homens generosos e illustres -estiveram presos por quererem melhorar o estado de cousas de seu tempo. -Talvez só tivessem pensado, mas soffreram pelo seu pensamento. Tinha -havido vantagem? As condições geraes tinham melhorado? Apparentemente -sim: mas, bem examinado, não. - -Aquelles homens, accusados de crime tão nefando em face da legislação -da época, tinham levado dous annos a ser julgados; e elle, que não -tinha crime algum, nem era ouvido, nem era julgado: seria simplesmente -executado! - -Fôra bom, fôra generoso, fôra honesto, fôra virtuoso--elle que fôra -tudo isso, ia para a cova sem o acompanhamento de um parente, de um -amigo, de um camarada... - -Onde estariam elles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros, tão simples -e tão innocente na sua mania de violão, elle não poria mais os olhos? -Era tão bom que o pudesse, para mandar á sua irmã o ultimo recado, ao -preto Anastacio um adeus, á sua afilhada um abraço! Nunca mais -vel-os-ia, nunca! - -E elle chorou um pouco. - -Quaresma, porem, enganava-se em parte. Ricardo soubera de sua prisão e -procurava soltal-o. Teve noticia do exacto motivo della; mas não se -intimidou. Sabia perfeitamente que corria grande risco, pois a -indignação no palacio contra Quaresma fôra geral. A victoria tinha -feito os victoriosos inclementes e ferozes, e aquelle protesto soou -entre elles como um desejo de diminuir o valor das vantagens -alcançadas. Não havia mais piedade, não havia mais sympathia, nem -respeito pela vida humana; o que era necessario era citar o exemplo de um -massacre á turca, porém clandestino, para que jamais o poder -constituido fosse atacado ou mesmo discutido. Era a philosophia social -da época, com forças de religião, com os seus fanaticos, com os seus -sacerdotes e pregadoras, e ella agia com a maldade de uma crença forte, -sobre a qual fizessemos repousar a felicidade de muitos. - -Ricardo, entretanto, não se amedrontou; procurou influencias e amigos. -Ao entrar no largo de S. Francisco encontrou Genelicio. Vinha da missa -da irmã da sogra do deputado Castro. Como sempre, trajava uma pesada -sobrecasaca preta que parecia de chumbo. Já estava sub-director e o seu -trabalho era agora imaginar meios e modos de ser director. A cousa era -difficil; mas trabalhava num livro: «Os Tribunaes de Contas nos Paizes -asiaticos»--o qual, demonstrando uma erudição superior, talvez lhe -levasse ao alto logar cubiçado. - -Vendo-o, Ricardo não se deteve. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe: - ---Doutor, V. Ex. dá licença que lhe dê uma palavra? - -Genelicio perfilou-se todo e, como tivesse pessima memoria das -physionomias humildes, perguntou com solemnidade e arrogancia: - ---Que deseja, camarada? - -Coração dos Outros estava com a sua farda do «Cruzeiro do Sul» e -não ficava bem a Genelicio dar-se como conhecido de um soldado, O -trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente: - ---Não me conhece mais, doutor? - -Genelicio fechou um pouco os olhos por detraz do pince-nez azulado e -disse seccamente: - ---Não. - ---Eu, fez com humildade Ricardo, sou Ricardo Coração dos Outros, que -cantou no seu casamento. - -Genelicio não sorriu, não deu mostras de alegria e limitou-se: - ---Ah? É o senhor! Bem: que deseja? - ---O senhor não sabe que o Major Quaresma está preso? - ---Quem é? - ---Aquelle que foi vizinho do seu sogro. - ---Aquelle maluco... Ahn!... E d'ahi? - ---Eu queria que o senhor se interessasse... - ---Não me metto nessas cousas, meu amigo. O Governo tem sempre razão. -Passe bem. - -E Genelicio seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das -botas, emquanto Ricardo ficava de pé a olhar o largo, a gente que -passava, a estatua immovel, as casas feias, a igreja... Tudo lhe pareceu -hostil, máo ou indifferente; aquellas caras de homens tinham cataduras -de feras e elle quiz por um momento chorar de desespero por não poder -salvar o amigo. - -Lembrou-se, porém, de Albernaz, e correu a procural-o. Não era longe, -mas o General ainda não tinha chegado. Ao fim de uma hora o General -chegou e, dando com Ricardo, perguntou: - ---Que ha? - -O trovador, bastante emocionado, explicou-lhe com voz dorida todo o -facto. Albernaz concertou o pince-nez, ageitou bem o trancelim de ouro -na orelha e disse com doçura: - ---Meu filho, eu não passo... Você sabe: sou governista e parece, se eu -fôr pedir por um preso, que já não o sou bastante... Sinto muito, -mas... que se ha de fazer? Paciencia. - -E entrou para o seu gabinete prazenteiro, muito seguro de si, dentro do -seu placido uniforme de General. - -Os officiaes continuavam a entrar e a sahir; as campainhas soavam; os -continuos iam r vinham; e Ricardo procurava entre todas aquellas -physionomias uma que lhe pudesse valer. Não havia e elle desesperava. -Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o commandante; e foi ter -com o Coronel Bustamante, na velha estalagem que servia de quartel ao -garboso «Cruzeiro do Sul». - -O batalhão ainda continuava em pé de guerra. Embora terminada a -revolta no porto do Rio de Janeiro era preciso mandar forças para o -Sul, de forma que os batalhões não tinham sido dissolvidos e um dos -apontados para partir era o «Cruzeiro». - -O Alferes côxo, no ensaboado pateo da antiga estalagem, continuava na -sua faina de instructor dos novos recrutas. Hom--brôoo... armas! -Mei--ãã volta! - -Ricardo entrou, subiu rapidamente a oscillante escada do velho cortiço -e logo que chegou ao cubiculo do commandante, gritou: com licença, -Commandante! - -Bustamante andava de máo humor. Aquelle negocio de partir para o -Paraná não lhe agradava. Como é que havia de superintender a escripta -do batalhão, no fervor de batalhas, nas desordens de marchas e -contramarchas? Isso era uma tolice do Commandante marchar; o chefe devia -ficar a resguardo, para providenciar e dirigir a escripturação. - -Elle pensava nessas cousas, quando Ricardo pediu licença. - ---Entre, disse elle. - -O bravo Coronel coçava a grande barba mosaica, tinha o dolman -desabotoado e acabava de calçar um dos pes de botina, para com mais -decencia receber o inferior. - -Ricardo expoz o seu pedido r esperou com paciencia a resposta, que -custou a vir. Por fim, Innocencio disse sacudindo a cabeça e olhando o -inferior cheio, de severidade: - ---Vai-te embora, senão mando-te prender! Já! - -E apontou com o dedo a porta da sahida num gesto marcial e energico. O -cabo não se demorou mais. No pateo o instructor coso, veterano do -Paraguay, continuava com solemnidade a encher a arruinada estalagem com -as suas vozes de commando: Hom-brõo... armas! Mei--ãã... volta... -volver! - -Ricardo veiu andando triste e desalentado. O mundo lhe parecia vasio de -afecto e de amor. Elle que sempre decantara nas suas modinhas a -dedicação, o amor, as sympathias, via agora que taes sentimentos não -existiam, tinha marchado atraz de cousas fóra da realidade, de -chimeras. Olhou o céo alto. Estava tranquillo e calmo. Olhou as -arvores. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam -attingir o céo. Olhou as casas, as igrejas, os palacios e lembrou-se -das guerras, do sangue, das dores que tudo aquillo custara. E era assim -que se fazia a vida, a historia e o heroismo: com violencia sobre os -outros, com oppressões e soffrimentos. - -Logo, porém, recordou que era preciso salvar o amigo que era necessario -dar mais uns passos. Quem poderia? Consultou sua memoria. Viu um, viu -outro e por fim lembrou-se da afilhada de Quaresma, e foi procural-a na -Real Grandeza. - -Chegou, narrou-lhe o facto e as suas sinistras apprehensões. Ella estava -só, pois o marido cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos da -victoria; não perdia um minuto, andando atraz de um e de outro. - -Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu eterno sonhar, da sua ternura, -da tenacidade que punha em seguir as suas idéas, da sua candura de -donzella romantica... - -Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a -vontade de agir. Pareceu-lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de -algum modo dar lenitivo ao soffrimento do padrinho; mas bem cedo o viu -ensanguentado--elle, tão generoso, elle, tão bom, e pensou em -salval-o. - ---Mas que fazer, meu caro sr. Ricardo, que fazer? Eu não conheço -ninguem... Eu não tenho relações... Minhas amigas... A Alice, a -mulher do Dr. Brandão, está fora... A Cassilda, a filha do Castrioto, -não pode... Não sei, meu Deus! - -E accentuou estas ultimas palavras com grande e lancinante desespero. Os -dous ficaram calados. A moça, que estava sentada, tomou a cabeça entre -as mãos e as sua unhas longas e aperoladas engastaram-se nos seus -cabellos negros. Ricardo estava de pé e aparvalhado. - ---Que hei de fazer, meu Deus? repetiu ella. - -Pela primeira vez, ella sentiu que a vida tinha cousa desesperadoras. -Possuia a mais forte disposição de salvar seu padrinho; faria -sacrificio de tudo, mas era impossivel, impossivel! Não havia um meio; -não havia um caminho. Ella tinha que ir para o posto de supplicio, -tinha que subir o seu Calvario, sem esperança de ressurreição. - ---Talvez seu marido, disse Ricardo. - -Pensou um pouco, demorou-se mais no exame do caracter do esposo; mas, em -breve, viu bem que o seu egoismo, a sua ambição e a sua ferocidade -interesseira não pemittiriam que elle désse o minimo passo. - ---Qual, esse... - -Ricardo não sabia o que aconselhal-a e olhava sem pensamento os moveis -e a montanha negra e alta que se avistava da sala onde estavam. Queria -encontrar um alvitre, um conselho; mas nada! - -A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabellos negros e a olhar -a mesa em que repousavam os seus cotovellos. O silencio era augusto. - -Num dado momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse: - ---Se a senhora fosse lá... - -Ella levantou a cabeça; os seus olhos se dilataram, de espanto e o -rosto lhe ficou rigido. Pensou um pouco, um nada, e falou com firmeza: - ---Vou. - -Ricardo ficou só e sentou-se. Olga foi vestir-se. - -Elle então pensou com admiração naquella moça que por simples -amizade se dava a tão arriscado sacrificio, que tinha a alma tão ao -alcance della mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo, deste nosso -egoismo, dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar -de reconhecimento. - -Não tardou que ella ficasse prompta e ainda abotoava as luvas, na sala -de jantar, quando o marido entrou. Vinha radiante, com os seus grandes -bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si mesmo. Nem fez -menção de ter visto Ricardo e foi logo direito á mulher: - ---Vaes sahir? - -Ella, afogueada pela ancia desesperada de salvar Quaresma, disse com -certa vivacidade: - ---Vou. - -Armando ficou admirado de vel-a falar daquelle modo. Voltou-se um -instante para Ricardo, quiz interrogal-o, mas logo, dirigindo-se á -mulher, perguntou com autoridade: - ---Onde vaes? - -A mulher não lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou o -trovador: - ---Que faz o senhor aqui? - -Coração dos Outros não teve animo de responder; adivinhava uma scena -violenta que elle teria querido evitar; mas Olga adiantou-se: - ---Vai acompanhar-me ao Itamaraty, para salvar da norte meu padrinho. Já -sabe? - -O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suasorios, poderia -evitar que a mulher désse passo tão perigoso para os seus interesses e -ambições. Falou docemente: - ---Fazes mal. - ---Porque? perguntou ella com calor. - ---Vaes comprometter-me. Sabes que... - -Ella, não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grandes -olhos cheios de escarneo; mirou-o um, dous minutos; depois, riu-se um -pouco e disse: - ---É isto! _Eu_, porque _eu_, porque _eu_, é só _eu_ para aqui, _eu_ -para ali... Não pensas noutra coisa... A vida é feita para ti, todos -só devem viver para ti... Muito engraçado! De forma que eu (agora digo -_eu_ tambem) não tenho direito de me sacrificar, de provar a minha -amizade, de ter na minha vida um traço superior? É interessante! Não -sou nada, nada! Sou alguma coisa como um movel, um adorno, não tenho -relações, não tenho amizades, não tenho caracter? Ora!... - -Ella falava, ora vagarosa e irónica, ora rapidamente e apaixonada: e o -marido tinha diante de suas palavras um grande espanto. Elle vivera -sempre tão longe della que não a julgara nunca capaz de taes assomos. -Então aquella menina? Então aquelle _bibelot_? Quem lhe teria ensinado -taes cousas? Quiz desarmal-a com uma ironia e disse risonho: - ---Estás no theatro? - -Ella lhe respondeu logo: - ---Se é só no theatro que ha grandes cousas, estou. - -E accrescentou com força: - ---É o que te digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque é do -meu direito. - -Apanhou a sombrinha, concertou o véo e sahiu solemne, firme, alta e -nobre. O marido não sabia o que fazer. Ficou assombrado e assombrado e -silencioso viu-a sahir pela porta fóra. - -Em breve, estava no palacio da rua Larga. Ricardo não entrou; deixou -que a moça o fizesse e foi esperal-a no Campo de Sant'Anna. - -Ella subiu. Havia um immenso borborinho, uma agitação de entradas e -sahidas. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano, queria -cumprimental-o, queria dar mostras da sua dedicação, provar os seus -serviços, mostrando-se coparticipante na sua victoria. Lançavam mão -de todos os meios, de todos os planos, de todos os processos. O dictador -tão accessivel antes, agora se esquivava. Havia quem lhe quisesse -beijar as mãos, como ao papa ou a um imperador; e elle já tinha nojo -de tanta subserviencia. O califa não se suppunha sagrado e -aborrecia-se. - -Olga falou aos continuos, pedindo ser recebida pelo Marechal. Foi -inutil. A muito custo conseguiu falar a um secretario ou ajudante de -ordens. Quando ella lhe disse a que vinha, a physionomia terrosa do -homem tornou-se de óca e sob as suas palpebras correu um firme e rapido -lampejo de espada: - ---Quem, Quaresma? disse elle. Um traidor! Um bandido! - -Depois, arrependeu-se da vehemencia, fez com certa delicadeza: - ---Não é possivel, minha senhora. O Marechal não a attenderá. - -Ella nem lhe esperou o fim da phrase. Ergueu-se orgulhosamente, deu-lhe -as costas e teve vergonha de ter de pedir, de ter descido do seu orgulho -e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com o seu pedido. Com tal -gente, era melhor tel-o deixado morrer só e heroicamente num ilhéo -qualquer, mas levando para o tumulo inteiramente intacto o seu orgulho, -a sua doçura, a sua personalidade moral, sem a macula de um empenho que -diminuisse a injustiça de sua morte, que de algum modo fizesse crer aos -seus algozes que elles tinham direito de matal-o. - -Sahiu e andou. Olhou o céo, os ares, as arvores de Santa Thereza, e se -lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribus selvagens, das -quaes um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil -inimigos. Fôra ha quatro seculos. Olhou de novo o céo, os ares, as -arvores de Santa Thereza, as casas, as igrejas: viu os bondes passarem; -uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, -atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do Campo... Tinha havido -grandes e innumeras modificações. Que fôra aquelle parque? Talvez um -charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na physionomia -da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ella; e seguiu -serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros. - - - - -Todos os Santos (Rio de Janeiro), Janeiro--Março de 1911. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK TRISTE FIM DE POLYCARPO -QUARESMA *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for -copies of this eBook, complying with the trademark license is very -easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation -of derivative works, reports, performances and research. Project -Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away--you may -do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected -by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. 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Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our website which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This website includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/67535-0.zip b/old/67535-0.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 8cc13aa..0000000 --- a/old/67535-0.zip +++ /dev/null diff --git a/old/67535-h.zip b/old/67535-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 730a83a..0000000 --- a/old/67535-h.zip +++ /dev/null diff --git a/old/67535-h/67535-h.htm b/old/67535-h/67535-h.htm deleted file mode 100644 index a2f5d64..0000000 --- a/old/67535-h/67535-h.htm +++ /dev/null @@ -1,13438 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" - "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> - <head> - <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=utf-8" /> - <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> - <title> - The Project Gutenberg eBook of Triste Fim de Polycarpo Quaresma, - by Lima Barreto. - </title> - <style type="text/css"> - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - - h1,h2,h3,h4,h5,h6 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; - text-indent:4%; -} - -.p2 {margin-top: 2em;} -.p4 {margin-top: 4em;} -.p6 {margin-top: 6em;} - -.nind {text-indent:0%;} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: auto; - margin-right: auto; - clear: both; -} - -hr.tb {width: 45%;} -hr.chap {width: 65%} -hr.full {width: 95%;} - -hr.r5 {width: 5%; margin-top: 1em; margin-bottom: 1em;} -hr.r65 {width: 65%; margin-top: 3em; margin-bottom: 3em;} - -table { - margin-left: auto; - margin-right: auto; -} - - .tdl {text-align: left;} - .tdr {text-align: right;} - .tdc {text-align: center;} - - -.linenum { - position: absolute; - top: auto; - right: 10%; -} /* poetry number */ - -.blockquot { - margin-left: 5%; - margin-right: 10%; -} - -.blockquot-half { - padding-top: 2em; - padding-bottom: 2em; - margin-left: 50%; -} - - -.bb {border-bottom: solid 2px;} - -.bl {border-left: solid 2px;} - -.bt {border-top: solid 2px;} - -.br {border-right: solid 2px;} - -.bbox {border: solid 2px;} - -.center {text-align: center;} - -.right {text-align: right;} - -.smcap {font-variant: small-caps;} - -.u {text-decoration: underline;} - -.tb { - text-align: center; - padding-top: .76em; - padding-bottom: .24em; - letter-spacing: 1.5em; - margin-right: -1.5em; -} - -/* Images */ -.figcenter { - margin: auto; - text-align: center; -} - -/* Poetry */ -.poem { - margin-left:10%; - margin-right:10%; - text-align: left; -} - -.poem br {display: none;} -.poetry-container { text-align: center; } -.poem { display: inline-block; text-align: left; } -.poem .stanza {margin: 1em 0em 1em 0em;} -.poem span.i2 {display: block; margin-left: 1em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} -.poem span.i4 {display: block; margin-left: 2em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} -.poem span.i8 {display: block; margin-left: 4em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} -.poem span.i10 {display: block; margin-left: 5em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} - -/* Transcriber's notes */ -.transnote {background-color: #E6E6FA; - color: black; - font-size:smaller; - padding:0.5em; - margin-bottom:5em; - font-family:sans-serif, serif; } - </style> - </head> -<body> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>Triste Fim de Polycarpo Quaresma</span>, by Lima Barreto</p> -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. 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If you -are not located in the United States, you will have to check the laws of the -country where you are located before using this eBook. -</div> -</div> - -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Triste Fim de Polycarpo Quaresma</span></p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Lima Barreto</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: March 1, 2022 [eBook #67535]</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p> - <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by the Biblioteca Nacional do Brasil.)</p> -<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>TRISTE FIM DE POLYCARPO QUARESMA</span> ***</div> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/policarpo_cover.jpg" width="500" alt="" /> -</div> - - -<h2>LIMA BARRETO</h2> - -<h3>Autor de "ISAIAS CAMINHA"</h3> - -<p><br /></p> - -<h1>TRISTE FIM DE -<br /> -POLYCARPO QUARESMA</h1> - -<p><br /></p> - -<h4>Typ. "Revista dos Tribunaes"</h4> - -<h4>RUA DO CARMO, 55</h4> - -<h4>RIO DE JANEIRO</h4> - -<h5>1915</h5> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>A -<br /> -João Luiz Ferreira -<br /> -Engenheiro Civil</h4> - -<blockquote><p> -Le grand inconvénient de la vie -réelle et ce qui la rend insupportable -à l'homme supérieur, c'est que, si l'on -y transporte les principes de l'idéal, -les qualités deviennent des défauts, si -bien que fort souvent l'homme accompli -y réussit moins bien que celui qui -a pour mobiles l'égoisme ou la routine -vulgaire. -</p> - -<p style="margin-left: 50%;"> -<b>Renan</b>, Marc-Auréle -</p></blockquote> - - - -<h4>INDICE</h4> -<p class="nind"><a href="#Primeira">Primeira Parte</a><br /> -Capitulo<br /> -I. <a href="#chap01">A LIÇÃO DE VIOLÃO</a><br /> -II. <a href="#chap02">REFORMAS RADICAES</a><br /> -III. <a href="#chap03">A NOTICIA DO GENELICIO</a><br /> -IV. <a href="#chap04">DESASTROSAS CONSEQUENCIAS<br /> -DE UM REQUERIMENTO</a><br /> -V. <a href="#chap05">O BIBELOT</a><br /> -<a href="#Segunda">Segunda Parte</a><br /> -I. <a href="#chap01_2">NO «SOCEGO»</a><br /> -II. <a href="#chap02_2">ESPINHOS E FLORES</a><br /> -III. <a href="#chap03_2">GOLIAS</a><br /> -IV. <a href="#chap04_2">«PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ»</a><br /> -V. <a href="#chap05_2">O TROVADOR</a><br /> -<a href="#Terceira">Terceira Parte</a><br /> -I. <a href="#chap01_3">PATRIOTAS</a><br /> -II. <a href="#chap02_3">VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO</a><br /> -III. <a href="#chap03_3">...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS...</a><br /> -IV. <a href="#chap04_3">O BOQUEIRÃO</a><br /> -V. <a href="#chap05_3">A AFILHADA</a></p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="Primeira">PRIMEIRA PARTE</a></h4> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap01"></a></h4> - -<h4>I -<br /><br /> -A LIÇÃO DE VIOLÃO</h4> - -<p> -Como de habito, Polycarpo Quaresma, mais conhecido por major Quaresma, -bateu em casa ás 4 e 15 da tarde. Havia mais de vinte annos que isso -acontecia. Sahindo do Arsenal de Guerra, onde era sub-secretario, -bongava pelas confeitarias algumas fructas, comprava um queijo, ás -vezes, e sempre o pão da padaria franceza. -</p> - -<p> -Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de fórma que, ás 3 e -40, por ahi assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pizar a -soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de S. Januario, bem -exactamente ás 4 e 15, como se fosse a apparição de um astro, um -eclypse, emfim um phenomeno mathematicamente determinado, previsto e -predito. -</p> - -<p> -A vizinhança já lhe conhecia os habitos e tanto que, na casa do -Capitão Claudio, onde era costume jantar-se ahi pelas quatro e meia, -logo que o viam passar, a dona, gritava á criada: «Alice, olha que -são horas; o Major Quaresma já passou». -</p> - -<p> -E era assim todos os dias, ha quasi trinta annos. Vivendo em casa -propria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o major -Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos -burocraticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e -respeito de homem abastado. -</p> - -<p> -Não recebia ninguem, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortez -com os vizinhos que o julgavam esquisito e misanthropo. Se não tinha -amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a unica desaffeição que -merecera, fôra a do Dr. Segadas, um clinico afamado no lugar, que não -podia admittir que Quaresma tivesse livros: «se não era formado, para -que? Pedantismo»! -</p> - -<p> -O sub-secretario não mostrava os livros a ninguem, mas acontecia que, -quando se abriam as janellas da sala de sua livraria, da rua -poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo. -</p> - -<p> -Eram esses os seus habitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso -provocava commentarios no bairro. Além do compadre e da filha, as -unicas pessoas que o visitavam até então, nos ultimos dias, era visto -entrar em sua casa, tres vezes por semana e em dias certos, um senhor -baixo, magro, pallido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. -Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa -tão respeitavel! que seria? -</p> - -<p> -E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma -amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá p'ra lá, a palmilhar o -passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante da janella aberta -do exquisito sub-secretario. -</p> - -<p> -Não foi inutil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal -sujeito, empunhando o <i>pinho</i> na posição de tocar, o major, -attentamente, ouvia: «Olhe, major, assim». E as cordas vibravam -vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre adduzia: «é <i>ré</i>, -aprendeu». -</p> - -<p> -Mais não foi precizo pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o -major aprendia a tocar violão. Mas que cousa? Um homem tão sério -mettido nessas malandragens! -</p> - -<p> -Uma tarde de sol—sol de Março, forte e implacavel—ahi pelas -cercanias das quatro horas, as janellas de uma erma rua de S. Januario -povoaram-se rapida e repentinamente, de um e de outro lado. Até da casa -do General vieram moças á janella! Que era? Um batalhão? Um incendio? -Nada disto: o Major Quaresma, de cabeça, baixa, com pequenos passos de -boi de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico. -</p> - -<p> -É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o -vestuario não lhe escondia inteiramente as formas. Á vista de tão -escandaloso facto, a consideração e o respeito que o major Polycarpo -Quresma merecia nos arredores de sua casa, diminuiram um pouco. Estava -perdido, maluco, diziam. Elle, porém, continuou serenamente nos seus -estudos, mesmo porque não percebeu essa diminuição. -</p> - -<p> -Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava <i>pince-nez</i>, olhava -sempre baixo, mas, quando fixava alguem ou alguma cousa, os seus olhos -tomavam, por detraz das lentes, um forte brilho de penetração, e era -como se elle quizesse ir á alma da pessoa ou da cousa que fixava. -</p> - -<p> -Comtudo, sempre os trazia baixo, como se guiasse pela ponta do -cavaignac que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, -azul, ou de cinza, de panno listrado, mas sempre de fraque, e era raro -que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita, -segundo um figurino antigo de que elle sabia com precisão a epocha. -</p> - -<p> -Quando entrou em casa, naquelle dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, -perguntando: -</p> - -<p> -—Janta já? -</p> - -<p> -—Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje comnosco. -</p> - -<p> -—Polycarpo, você precisa tomar juizo. Um homem de idade, com -posição, respeitavel, como você é, andar mettido com esse -seresteiro, um quasi capadocio—não é bonito! -</p> - -<p> -O major descançou o chapéo de sól—um antigo chapéo de sól, com a -haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de -pequenos losangos de madreperola—e respondeu: -</p> - -<p> -—Mas você está muito enganada, mana. É preconceito suppor-se que -todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais -genuina expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que -ella pede. Nós é que temos abandonado o genero, mas elle já esteve em -honra, em Lisboa, no seculo passado, com o padre Caldas, que teve um -auditorio de fidalgas. Beckford, um inglez notavel, muito o elogia. -</p> - -<p> -—Mas isso foi em outro tempo,—agora... -</p> - -<p> -—Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as -nossas tradições, os usos genuinamente nacionaes... -</p> - -<p> -—Bem, Polycarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as -suas manias. -</p> - -<p> -O major entrou para um aposento proximo, emquanto sua irmã seguia em -direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a -roupa de casa, veiu para a bibliotheca, sentou-se a uma cadeira de -balanço, descançando. -</p> - -<p> -Estava num aposento vasto, com janellas para uma rua lateral, e todo -elle era forrado de estantes de ferro. -</p> - -<p> -Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os -livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquella grande -collecção de livros havia de espantar-se ao perceber o espirito que -presidia a sua reunião. -</p> - -<p> -Na ficção, havia unicamente autores nacionaes ou tidos como taes: o -Bento Teixeira, da Prosopopéa; o Gregorio de Mattos, o Basilio da Gama, -o Santa Rita de Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o -Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que -nem um dos autores nacionaes ou nacionalizados de oitenta p'ra lá -faltava nas estantes do Major. -</p> - -<p> -De Historia do Brasil, era farta a messe: os chronistas, Gabriel Soares, -Gandavo; e Rocha Pitta, Frei Vicente Salvador, Armitage, Ayres Casal, -Pereira da Silva, Handelmann (Geschitchte von Brasilien), Mello Moraes, -Capistrano de Abreu, Southey, Warnhagen, além de outros mais raros ou -menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! -Lá estavam Hans Stade, o Jean de Lery, o Saint-Hilaire, o Martius, o -principe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassis, Couto -Magalhães e se encontravam tambem Darwin, Freycinet, Cook, -Boungainville e até o famoso Pigafetta, chronista da viagem de -Magalhães, é porque todos esses ultimos viajantes tocavam no Brasil, -resumida ou amplamente. -</p> - -<p> -Alem destes, havia livros subsidiarios: diccionarios, manuaes, -encyclopedias, compendios, em varios idiomas. -</p> - -<p> -Vê-se assim que a sua predilecção pela poetica de Porto Alegre e -Magalhães não lhe vinha de uma irremediavel ignorancia das linguas -literarias da Europa; ao contrario o major conhecia bem soffrivelmente -francez, inglez e allemão; e se não falava taes idiomas, lia-os e -traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa -disposição particular de seu espirito, no forte sentimento que guiava -sua vida. Polycarpo era patriota. Desde moço, ahi pelos vinte annos, o -amor da patria tomou-o todo inteiro. Não fôra o amor commum, palrador -e vasio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de -ambições politicas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou -melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro -do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois -então apontar os remedios, as medidas progressivas, com pleno -conhecimento de causa. -</p> - -<p> -Não se sabia bem onde nascera, mas não fôra de certo em S. Paulo, nem -no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quizesse encontrar nelle -qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha -predilecção por esta ou aquella parte de seu pai tanto assim que aquillo -que o fazia vibrar de paixão não eram só os Pampas do Sul com o seu -gado, não era o café de S. Paulo, não eram o ouro e os diamantes de -Minas, não era a belleza da Guanabara, não era a altura da Paulo -Affonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o impeto de Andrade -Neves—era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira -estrellada do Cruzeiro. -</p> - -<p> -Logo aos dezoito annos quiz fazer-se militar; mas a junta de saude -julgou-o incapaz. Desgostou-se, soffreu, mas não maldisse a Patria. O -Ministerio era liberal, elle se fez conservador e continuou mais do que -nunca a amar a <i>terra que o viu nascer</i>. Impossibilitado de evoluir-se -sob os dourados do Exercito, procurou a administração e dos seus ramos -escolheu o militar. -</p> - -<p> -Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de -papelada inçada de kilos de polvora, de nomes de fuzis e termos -technicos de artilharia, aspirava diariamente aquelle halito de guerra, -de bravura, de victoria, de triumpho, que é bem o halito da Patria. -</p> - -<p> -Durante os lazeres burocraticos, estudou, mas estudou a Patria, nas suas -riquezas naturaes, na sua historia, na sua geographia, na sua literatura -e na sua politica. Quaresma sabia as especies de mineraes, vegetaes e -animaes, que o Brasil continha; sabia, o valor do ouro, dos diamantes -exportados por Minas, as guerras hollandezas, as batalhas do Paraguay, -as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão -a proeminencia do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para -isso ia até ao crime de amputar alguns kilometros ao Nilo e era com -este rival do <i>seu</i> rio que elle mais implicava. Ai de quem o citasse -na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e -malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do -Nilo. -</p> - -<p> -Havia um anno a esta parte que se dedicava ao tupy-guarany. Todas as -manhãs, antes que a «Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao -louro Phebo», elle se atracava até ao almoço com o Montoya, <i>Arte y -diccionario de la lengua guarany ó mâs bien tupy</i>, e estudava o jargão -caboclo com afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados, -amanuenses e escreventes, tendo noticia desse seu estudo do idioma -tupiniquim, deram não sei sabe porque em chamal-o—Ubirajára. Certa -vez, o escrevente Azevedo, ao assignar o ponto, distrahido, sem reparar -quem lhe estava ás costas, disse em tom chocareiro: «você já vio que -hoje o Ubirajára esta tardando». -</p> - -<p> -Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade, a sua illustração, a -modestia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos. -Sentindo que o alcunha lhe era dirigido, não perdeu a dignidade, não -prorompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concertou o -<i>pince-nez</i>, levantou o dedo indicador no ar e respondeu: -</p> - -<p> -—Sr. Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridiculo aquelles -que trabalham em silencio, para a grandeza e a emancipação da Patria. -</p> - -<p> -Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do -café, quando os empregados deixavam as bancas, transmittir aos -companheiros o fructo de seus estados, as descobertas que fazia, no seu -gabinete de trabalho, de riquezas nacionaes. Um dia era o petroleo que -lera em qualquer parte, como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era -um novo exemplar de arvore de borracha que crescia no rio Pardo, em -Matto-Grosso; outra, era um sabio, uma notabilidade, cuja bisavó era -brasileira; e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela -chorographia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegavel, os -melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um -franco percurso da foz ás nascentes. Elle amava sobremodo os rios; as -montanhas lhe eram indifferentes. Pequenas talvez... -</p> - -<p> -Os collegas ouviam-no respeitosos e ninguem, a não ser esse tal -Azevedo, se animava na sua frente a lhe fazer a menor objecção, a -avançar uma pilheria, um dito. Ao voltar as costas, porém, vingavam-se -da cacetada, cobrindo-o de troças: «Este Quaresma! que cacete! Pensa -que somos meninos de tico-tico... Arre! Não tem outra conversa». -</p> - -<p> -E desse modo elle ia levando a vida, metade na repartição, sem ser -comprehendido, e a outra metade em casa, tambem sem ser comprehendido. -No dia em que o chamaram de Ubirajára, Quaresma ficou reservado, -taciturno, mudo, e só veiu a falar porque, quando lavavam, as mãos num -aposento proximo á secretaria e se preparavam para sahir, alguem -suspirando, disse: «Ah! Meu Deus! Quando poderei ir á Europa»! O major -não se conteve: levantou o olhar, concertou o <i>pince-nez</i> e falou -fraternal e persuasivo: «Ingrato! Tens uma terra tão bella, tão rica, -e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer -a minha de principio ao fim! -</p> - -<p> -O outro objectou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major -contestou-lhe com estatisticas e até provou exuberantemente que o -Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. Era um clima calumniado -pelos viciosos que de lá vinham doentes... -</p> - -<p> -Era assim o major Polycarpo Quaresma que acabava de chegar á sua -residencia, ás 4 e 15 da tarde, sem erro de um minuto, como todas as -tardes, excepto aos domingos, exactamente, ao geito da apparição de um -astro ou de um eclypse. -</p> - -<p> -No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aquelles que têm -ambições politicas ou de fortuna, porque Quaresma, não as tinha no -minimo grau. -</p> - -<p> -Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua bibliotheca, o -major abriu um livro e pôz-se a lel-o á espera do conviva. Era o velho -Rocha Pitta, o enthusiastico e gongorico Rocha Pitta da Historia da -America Portugueza. Quaresma estava lendo aquelle famoso periodo: «Em -nenhuma outra região se mostra o céo mais sereno, nem madruga mais -bella a aurora; o sol em nenhum outro hemispherio tem os raios mais -dourados...» mas não pôde ir ao fim. Batiam á porta. Foi abril-a em -pessoa. -</p> - -<p> -—Tardei, major? perguntou o visitante. -</p> - -<p> -—Não. Chegaste á hora. -</p> - -<p> -Acabava de entrar em casa do major Quaresma o Sr. Ricardo Coração dos -Outros, homem celebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar -violão. Em começo, a sua fama estivera limitada a um pequeno suburbio -da cidade, em cujos <i>saráos</i> elle e seu violão figuravam como Paganini -e a sua rabeca em festas de Duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi -tomando toda a extensão dos suburbios, crescendo, solidificando-se, -até ser considerada como cousa propria a elles. Não se julgue, -entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas ahi qualquer, um -capadocio. Não; Ricardo Coração dos Outros era um artista a -frequentar e a honrar as melhores familias do Meyer, Piedade e -Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na -casa do Tenente Marques, do Dr. Bulhões ou do <i>seu</i> Castro, a sua -presença era sempre requerida, instada e apreciada. O Dr. Bulhões, -até, tinha, pelo Ricardo uma admiração especial, um delirio, um -frenesi e, quando o trovador cantava, ficava em extase. Gosto muito de -canto, dizia o doutor no trem certa vez, mas só duas pessoas me enchem -as medidas: o Tamagno e o Ricardo. Esse doutor tinha uma grande -reputação nos suburbios, não como medico, pois que nem oleo de ricino -receitava, mas como entendido em legislação telegraphica, por ser -chefe de secção da Secretaria dos Telegraphos. -</p> - -<p> -Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da -alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial o que só -é alta nos suburbios. Compõe-se em geral de funccionarios publicos, de -pequenos negociantes, de medicos com alguma clinica, de tenentes de -differentes milicias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas -daquellas distantes regiões, assim como nas festas e nos bailes, com -mais força que a burguezia de Petropolis e Botafogo. Isto é só lá, -nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se algum dos seus representantes -vê um typo mais ou menos, olha-o da cabeça aos pés, demoradamente, -assim como quem diz: apparece lá em casa que te dou um prato de comida. -Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia -jantar e almoço, muito feijão, muita carne secca, muito ensopado—ahi, -julga ella, e que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da -distincção. -</p> - -<p> -Fóra dos suburbios, na rua do Ouvidor, nos theatros, nas grandes festas -centraes, essa gente mingua, apaga-se, desapparece, chegando até as -suas mulheres e filhas a perder a belleza com que deslumbram, quasi -diariamente, os lindos cavalheiros dos interminaveis bailes diarios -daquellas redondezas. -</p> - -<p> -Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, -extravasou e passou á cidade, propriamente. A sua fama já chegava a S. -Christovão e em breve (elle o esperava) Botafogo convidal-o-ia, pois os -jornaes já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da -sua poetica... -</p> - -<p> -Mas que vinha elle fazer ali, na casa de pessoa de propositos tão altos -e tão severos habitos? Não é difficil atinar. De certo, não vinha -auxiliar o major nos seus estudos de geologia, de poetica, de -mineralogia e historia brasileiras. -</p> - -<p> -Como bem suppoz a vizinhança, o Coração dos Outros vinha ali tão -sómente ensinar o Major a cantar modinhas e a tocar violão. Nada mais, -e é simples. -</p> - -<p> -De accôrdo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a -meditar qual seria a expressão poetico-musical caracteristica da alma -nacional. Consultou historiadores, chronistas e philosophos e adquiriu -certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa -verdade, não teve duvidas: tratou de aprender o instrumento -genuinamente brasileiro: e entrar nos segredos da modinha. Estava nisso -tudo <i>a quo</i>, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor -da cidade e tomou lições com elle. O seu fim era disciplinar a -modinha, e tirar della um forte motivo original de arte. -</p> - -<p> -Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas, antes disso, por convite -especial do discipulo, ia compartilhar o seu jantar; e fôra por isso -que o famoso trovador chegou mais cedo á casa do sub-secretario. -</p> - -<p> -—Já sabe dar o <i>ré</i> sustenido, major? perguntou Ricardo logo ao -sentar-se. -</p> - -<p> -—Já. -</p> - -<p> -—Vamos ver. -</p> - -<p> -Dizendo isto, foi desencapotar o seu sagrado violão; mas não houve -tempo, D. Adelaide, a irmã de Quaresma, entrou e convidou-os a irem -jantar. A sopa já esfriava na mesa, que fossem! -</p> - -<p> -—O Sr. Ricardo ha de nos desculpar, disse a velha senhora, a -pobreza do nosso jantar. Eu lhe quiz fazer um frango com -<i>petit-pois</i>, mas Polycarpo não deixou. Disse-me que esse tal -<i>petit-pois</i> é estrangeiro e que eu o substituisse por guando. -Onde é que se viu frango com guando? -</p> - -<p> -Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom, seria uma novidade e -não fazia mal experimentar. -</p> - -<p> -—É uma mania de seu amigo, Sr. Ricardo, esta de só querer cousas -nacionaes, e a gente tem que ingerir cada droga, chi! -</p> - -<p> -—Qual, Adelaide, você tem certas ogerizas! A nossa terra, que tem -todos os climas do mundo, é capaz de produzir tudo que é necessario para o -estomago mais exigente. Você é que deu para implicar. -</p> - -<p> -—Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa. -</p> - -<p> -—É porque é de leite, se fosse como essas estrangeiras ahi, -fabricadas com gorduras de esgotos, talvez não se estragasse... É -isto, Ricardo! Não querem nada da nossa terra... -</p> - -<p> -—Em geral é assim, disse Ricardo. -</p> - -<p> -—Mas é um erro... Não protegem as industrias nacionaes... Commigo -não ha disso: de tudo que ha nacional, eu não uso estrangeiro. -Visto-me com panno nacional, calço botas nacionaes e assim por diante. -</p> - -<p> -Sentaram-se á mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de crystal e -serviu dous calices de paraty. -</p> - -<p> -—É do programma nacional, fez a irmã, sorrindo. -</p> - -<p> -—De certo, e é um magnifico aperitivo. Esses vermutes por ahi, -drogas! Isto é alcool puro, bom, de canna, não é de batatas ou milho... -</p> - -<p> -Ricardo agarrou o calice com delicadeza e respeito, levou-o aos labios e -foi como se todo elle bebesse o licor nacional. -</p> - -<p> -—Está bom, hein? indagou o major. -</p> - -<p> -—Magnifico, fez Ricardo, estalando os labios. -</p> - -<p> -—É de Angra. Agora tu vais ver que magnifico vinho do Rio Grande -temos... Qual Borgonha! Qual Bordeaux? Temos no Sul muito melhores... -</p> - -<p> -E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os productos -nacionaes: a banha, o toucinho e o arroz; a irmã fazia pequenas -objecções e Ricardo dizia: «é, é, não, ha duvida»—rolando nas -orbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no -cabello aspero, forçando muito a sua physionomia meuda e dura a -adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação. -</p> - -<p> -Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem -uma flôr... Certamente não se podia tomar por tal miseros beijos de -frade, palmas de Santa Rita, quaresmas luctulentas, manacás -melancolicos e outros bellos exemplares dos nossos campos e prados. Como -em tudo o mais, o Major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada -de rosas, de chrysanthemos, de magnolias—flôres exoticas; ás nossas -terras tinham outras mais bellas, mais expressivas, mais olentes, como -aquellas que elle tinha ali. -</p> - -<p> -Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala, quando o -crepusculo vinha de vagar, muito vagaroso e lento, como si fosse um -longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas cousas a sua -poesia dolente e a sua deliquescencia. -</p> - -<p> -Mal foi accesso o gaz, o mestre de violão empunhou o instrumento, -apertou as cravelhas, correu a escala, abaixando-se sobre elle como se o -quizesse beijar. Tirou alguns accordes, para experimentar; e dirigiu-se -ao discipulo, que já tinha o seu em posição: -</p> - -<p> -—Vamos ver. Tire a escala, major. -</p> - -<p> -Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas não havia na sua -execução nem a firmeza, nem o dengue com que o mestre fazia a mesma -operação. -</p> - -<p> -—Ohe, major, é assim. -</p> - -<p> -E mostrava a posição do instrumento, indo do collo ao braço esquerdo -extendido, seguro levemente pelo direito; e em seguida accrescentou: -</p> - -<p> -—Major, o violão é o instrumento da paixão. Preciza de peito para -falar... É preciso encostal-o, mas encostal-o com macieza e amor, como -se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos... -</p> - -<p> -Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo elle -fremindo de paixão pelo instrumento desprezado. -</p> - -<p> -A lição durou uns cincoenta minutos. O major sentiu-se cansado e pediu -que o mestre cantasse. Era a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse -pedido; embora lisongeado, quiz a vaidade profissional que elle, a -principio, se negasse. -</p> - -<p> -—Oh! Não tenho nada novo, uma composição minha. -</p> - -<p> -D. Adelaide obtemperou então: -</p> - -<p> -—Cante uma de outro. -</p> - -<p> -—Oh! por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O -Bilac—conhecem?—quiz fazer-me uma modinha, eu não aceitei; -você não entende de violão, seu Bilac. A questão não está em -escrever uns versos certos que digam cousas bonitas; o essencial é -achar-se as palavras que o violão pede e deseja. Por exemplo: se eu -dissesse, como em começo quiz, n'<i>O Pé</i>, uma modinha minha: <i>o -teu pé é uma folha de trevo</i>—não ia com o violão. Querem -ver? E ensaiou em voz baixa, acompanhando pelo instrumento: -<i>o—teu—pé—é—uma—folha—de—tre—vo</i>. - - -</p> - -<p> -—Vejam, continuou elle, como não dá. Agora reparem: -<i>o—teu—pé—é—uma—uma—ro—sa—de—myr—rha</i>. É outra cousa, não -acham? -</p> - -<p> -—Não ha duvida, disse a irmã de Quaresma. -</p> - -<p> -—Cante esta, convidou o major. -</p> - -<p> -—Não, objectou Ricardo. Está velha, vou cantar a <i>Promessa</i>, -conhecem? -</p> - -<p> -—Não, disseram os dous irmãos. -</p> - -<p> -—Oh! Anda por ahi como as <i>Pombas</i> do Raymundo. -</p> - -<p> -—Cante lá, Sr. Ricardo, pediu D. Adelaide. -</p> - -<p> -Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e -começou em voz fraca: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Prometto pelo Santissimo Sacramento</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Que serei tua paixão...</i></span> -</div></div> - -<p> -—Vão vendo, disse elle num intervallo, quanta imagem, quanta imagem! -</p> - -<p> -E continuou. As janellas estavam abertas. Moças e rapazes começaram a -se amontoar na calçada para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua se -interessava Coração dos Outros foi apurando a dicção, tomando um ar -feroz que elle suppunha ser de ternura e enthusiasmo; e, quando acabou, -as palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando D. -Adelaide. -</p> - -<p> -—Senta-te Ismenia, disse ella. -</p> - -<p> -—A demora é pouca. -</p> - -<p> -Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco moça e continuou a -dissertar sobre a modinha. Aproveitando uma pausa, a irmã de Quaresma -perguntou á moça: -</p> - -<p> -—Então quando te casas? -</p> - -<p> -Era a pergunta que se lhe fazia sempre. Ella então curvava do lado -direito a sua triste cabecinha, coroada de magnificos cabellos -castanhos, com tons de ouro, e respondia. -</p> - -<p> -—Não sei... Cavalcanti forma-se no fim do anno e então marcaremos. -</p> - -<p> -Isto era dito arrastado, com uma preguiça de impressionar. -</p> - -<p> -Não era feia a menina, a filha do General, vizinho de Quaresma. Era -até bem sympathica, com a sua physionomia de pequenos traços mal -desenhados e cobertos de umas tintas de bondade. -</p> - -<p> -Aquelle seu noivado durava ha annos; o noivo, o tal Cavalcanti, estudava -para dentista, um curso de dous annos, mas que elle arrastava ha quatro, -e Ismenia tinha sempre que responder á famosa pergunta:—«Então -quando se casa»?—«Não sei... Cavalcanti forma-se para o anno e...» -</p> - -<p> -Intimamente ella não se incommodava. Na vida, para ella, só havia uma -cousa importante: casar-se; mas pressa não tinha, nada nella a pedia. -Já agarrara um noivo, o resto era questão de tempo... -</p> - -<p> -Após responder a D. Adelaide, explicou o motivo da visita. -</p> - -<p> -Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em -casa della. -</p> - -<p> -—Papai, disse D. Ismenia, gosta muito de modinhas... do Norte; a -senhora sabe, D. Adelaide, que gente do Norte aprecia muito. Venham. -</p> - -<p> -E para lá foram. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap02"></a></h4> - -<h4>II -<br /><br /> -REFORMAS RADICAES</h4> - -<p> -Havia bem dez dias que o major Quaresma não sahia do casa. Na sua -meiga, e socegada casa de S. Christovão, enchia os dias da fórma mais -util e agradavel ás necessidades do seu espirito, e do seu -temperamento. De manhã, depois da <i>toilette</i>, e do café, sentava-se no -divan da sala principal e lia os jornaes. Lia diversos, porque sempre -esperava encontrar num ou noutro uma noticia curiosa, a suggestão de -uma idéa util á sua cara patria. Os seus habitos burocraticos -faziam-no almoçar cedo; e, embora estivesse de férias, para os não -perder, continuava a tomar a primeira refeição de garfo ás nove e -meia da manhã. -</p> - -<p> -Acabado o almoço, dava umas voltas pela chacara, chacara em que -predominavam as fruteiras nacionaes, recebendo a pitanga e o camboim os -mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia, como se fossem -bem cerejas ou figos. -</p> - -<p> -O passeio era demorado e philosophico. Conversando com o preto -Anastacio, que lhe servia ha trinta annos, sobre cousas antigas—o -casamento das princezas, a quebra do Souto e outras—o Major -continuava com o pensamento preso nas problemas que o preoccupavam -ultimamente. Após uma hora ou menos, voltara á bibliotheca e -mergulhava nas revistas do Instituto Historico, no Fernão Cardim, nas -cartas de Nobrega, nos annaes da Bibliotheca, no von den Stein e tomava -notas sobre notas, guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os -indios. Não fica bem dizer estudava, porque já o fizera ha tempos, -não só no tocante á lingua, que já quasi falara, como tambem nos -simples aspectos ethnographicos e anthropologicos. Recordava (é melhor -dizer assim), affirmava certas noções dos seus estudos anteriores, -visto estar organizando um systema de ceremonias e festas que se -baseasse nos costumes dos nossos selvicolas e abrangesse todas as -relações sociaes. -</p> - -<p> -Para bem se comprehender o motivo disso, é precizo não esquecer que o -Major, depois de trinta armas de meditação patriotica, de estudos e -reflexões, chegava agora ao periodo da fructificação. A convicção -que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro paiz do mundo e o seu -grande amor á patria, eram agora activos e impelliram-no a grandes -commettimemtos. Elle sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir, de -obrar e de concretizar suas idéas. Eram pequenos melhoramentos, simples -toques, porque em si mesma (era a sua opinião), a grande patria do -Cruzeiro só precizava de tempo para ser superior á Inglaterra. -</p> - -<p> -Tinha todos os climas, todos os fructos, todos os mineraes e animaes -uteis, as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais -hospitaleira, mais intelligente e mais doce do mundo—o que precizava -mais? Tempo e um pouco de originalidade. Portanto, duvidas não -fluctuavam mais no seu espirito, mas no que se referia á originalidade -de costumes e usanças, não se tinham ellas dissipado, antes se -transformaram em certeza após tomar parte na folia do <i>Tangolomango</i>, -numa festa que o general dera em casa. -</p> - -<p> -Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veiu -despertar no general e na familia um gosto pelas festanças, cantigas e -habitos genuinamente nacionaes como se diz por ahi. Houve em todos um -desejo de sentir, de sonhar, de poetar á maneira popular dos velhos -tempos. Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto taes cerimonias na -sua infancia: D. Maricota, sua mulher, até ainda se lembrava de uns -versos de Reis; e os seus filhos, cinco moças e um rapaz, viram na -cousa um pretexto de festas e, portanto, applaudiram o enthusiasmo dos -progenitores. A modinha era pouco; os seus espiritos pediam cousa mais -plebea, mais caracteristica e extravagante. -</p> - -<p> -Quaresma ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma -chegança, á moda do Norte, por occasião do anniversario de sua -praça. Em casa do general era assim: qualquer anniversario tinha a sua -festa, de fórma que havia bem umas trinta por anno, não contando -domingos, dias feriados e santificados em que se dansava tambem. -</p> - -<p> -O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e dansas -tradicionaes, entretanto viu logo a significação altamente patriotica -do intento. Approvou e animou o vizinho. Mas quem havia de ensaiar, de -dar os versos e a musica? Alguem lembrou a tia Maria Rita, uma preta -velha, que morava em Bemfica, antiga lavadeira da familia Albernaz. Lá -foram os dous, o general Albernaz e o major Quaresma, alegres, -apressados, por uma linda e crystallina tarde de Abril. -</p> - -<p> -O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não -posuisse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma unica -batalha, não tivera um commando, nada fizera que tivesse relação com -a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fôra sempre ajudante de -ordens, assistente, encarregado disso ou daquillo, escripturario, -almoxarife, e era secretario do Conselho Supremo Militar, quando, se -reformou em general. Os seus habitos eram de um bom chefe de secção e -a sua intelligencia não era muito differente dos seus habitos. Nada -entendia de guerras, de estrategia, de tactica ou de historia militar; a -sua sabedoria a tal respeito estava reduzida ás batalhas do Paraguay, -para elle a maior e a mais extraordinaria guerra de todos os tempos. -</p> - -<p> -O altisonante titulo de general, que lembrava cousas sobrehumanas dos -Cesares, dos Tuxennes e dos Gustavos Adolphos, ficava mal naquelle homem -placido, mediocre, bonachão, cuja unica preoccupação era casar as -cinco filhas e arranjar <i>pistolões</i> para fazer passar o filho nos -exames do Collegio Militar. Comtudo, não era conveniente que se -duvidasse das suas aptidões guerreiras. Elle mesmo, percebendo o seu ar -muito civil, de onde em onde, contava um episodio de guerra, uma -anedocta militar. «Foi em Lommas Valentinas, dizia elle»... Se alguem -perguntava: «O general assistiu a batalha» ?Elle respondia logo: -«Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vesperas. Mas soube pelo -Camisão, pelo Venancio que a cousa esteve preta». -</p> - -<p> -O bonde que os levava até á velha Maria Rita, percorria um dos trechos -mais interessantes da cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da -cidade, antigo termino de um picadão que ia ter a Minas, se esgalhava -para S. Paulo e abria communicações com o Curato de Santa Cruz. -</p> - -<p> -Por ahi em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de -Minas e ainda ultimamente os chamados generos do paiz. Não havia ainda -cem annos que as carruagens d'El Rey D. João VI, pesadas como naus, a -balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por ali -para irem ter ao longiquo Santa Cruz. Não se póde crer que a cousa -fosse lá muito imponente; a Côrte andava em apuros de dinheiro e o rei -era relaxado. Não obstante os soldados remendados, tristemente montados -em <i>pangarés</i> desanimados, o prestito devia ter a sua grandeza, não -por elle mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos -tinham que dar á sua lamentavel majestade. -</p> - -<p> -Entre nós tudo é inconsistente, provisorio, não dura. Não havia ali -nada que lembrasse esse passado. As casas velhas, com grandes janellas, -quasi quadradas, e vidraças de pequenos vidros eram de ha bem poucos -annos, menos de cincoenta. -</p> - -<p> -Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquillo sem reminiscencias e foram -até ao ponto. Antes perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção -da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animaes e -corridas, tendo grandes ferraduras, cabeças de cavallos, panoplias de -chicotes e outros emblemas hippicos, nos pilares dos portões, nas -almofadas das portas, por toda parte onde taes distinctivos fiquem bem e -dêm na vista. -</p> - -<p> -A casa da velha preta ficava além do ponto, para as bandas da estação -da estrada de ferro Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação. -Sobre um largo terreiro, negro de moinha de carvão de pedra, médas de -lenha e immensas tulhas de saccos de carvão vegetal se accumulavam; -mais adiante um deposito de locomotivas e sobre os trilhos algumas -manobravam e outras arfavam sob pressão. -</p> - -<p> -Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo -estivera secco e por isso se podia andar por elle. Para além do -caminho, extendia-se a vasta região de mangues, uma zona immensa, -triste e feia, que vai até ao fundo da bahia e, no horizonte, morre ao -sopé das montanhas azues de Petropolis. Chegaram á casa da velha. Era -baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas portuguezas. Ficava um -pouco afastada da estrada. Á direita havia um monturo: restos de -cozinha, trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira—um -sambaqui a fazer-se para gaudio de um archeologo de futuro remoto: á -esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto á cerca, no mesmo lado, havia -um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça appareceu na janella -aberta. -</p> - -<p> -—Que desejam? -</p> - -<p> -Disseram o que queriam e approximaram-se. A moça gritou para o interior -da casa: -</p> - -<p> -—Vovó estão ahi dous <i>moços</i> que querem falar com a senhora. -Entrem, façam o favor—disse ella depois, dirigindo-se ao General e -ao seu companheiro. -</p> - -<p> -A sala era pequena e de telha vã. Pelas paredes, velhos chromos de -folinhas, registros de Santos, recortes de illustrações de jornaes -baralhavam-se e subiam por ellas acima até dous terços da altura. Ao -lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Victor Emmanuel -com enormes bigodes em desordem; um chromo sentimental de -folhinha—uma cabeça de mulher em posição de sonho—parecia -olhar um S. João Baptista ao lado. No alto da porta que levava ao -interior da casa, uma lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a -Conceição de louça. -</p> - -<p> -Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando -o peito descamado, enfeitado com um collar de missangas de duas voltas. -Capengava de um pé e parecia querer ajudar a marcha, com a mão -esquerda pousada na perna correspondente. -</p> - -<p> -—Boas tardes, tia Maria Rita disse o General. -</p> - -<p> -Ella respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava. -O General atalhou: -</p> - -<p> -—Não me conhece mais? Sou o General, o Coronel Albernaz. -</p> - -<p> -—Ah! É sô coroné!... Ha quanto tempo! Como está nhã Maricota? -</p> - -<p> -—Vai bem. -</p> - -<p> -—Minha velha, nós queriamos que você nos ensinasse umas cantigas. -</p> - -<p> -—Quem sou eu, yôyô! -</p> - -<p> -—Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe -o <i>Bumba meu boi</i>? -</p> - -<p> -—Quá, yôyô, já mi esqueceu. -</p> - -<p> -—E o <i>Boi espacio</i>? -</p> - -<p> -—Cousa véia, do tempo do captiveiro—p'ra que sô coroné qué sabê -isso? -</p> - -<p> -Ella fallava arrastando as syllabas, com um doce sorriso e um olhar -vago. -</p> - -<p> -—É para uma festa... Qual é a que você sabe? -</p> - -<p> -A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma -cousa, deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes -immaculados: -</p> - -<p> -—Vovó já não se lembra. -</p> - -<p> -O General, que a velha chamava Coronel, por tel-o conhecido nesse posto, -não attendeu a observação da moça e insistiu: -</p> - -<p> -—Qual esquecida, o que! Deve saber ainda alguma cousa, não é, titia? -</p> - -<p> -—Só sei o bicho «Tutu», disse a velha. -</p> - -<p> -—Cante lá! -</p> - -<p> -—Yôyô sabe! Não sabe? quá, sabe! -</p> - -<p> -—Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu -amigo, o Major Polycarpo, se sei. -</p> - -<p> -Quaresma fez com a cabeça signal affirmativo e a preta velha, talvez -com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande -casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor recordar-se, e -entôou: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2">«É vêm tutu'</span><br /> -<span class="i2">Por detrás do murundu</span><br /> -<span class="i2">P'ra cumê sinhosinho</span><br /> -<span class="i2">C'um bucado de angu'».</span> -</div></div> - -<p> -—Ora! fez o General com enfado, isso é cousa antiga de emballar -crianças. Você não sabe outra? -</p> - -<p> -—Não, sinhô. Já mi esqueceu. -</p> - -<p> -Os dous sahiram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo -não guardava as tradições de trinta annos passados? Com que rapidez -morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções? -Era bem um signal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade -diante daquelles povos tenazes que os guardam durante seculos! -Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições, -mantel-as sempre vivazes nas memorias e nos costumes... -</p> - -<p> -Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um numero bom para a festa -que ia dar, e escapava-lhe. Era quasi a esperança de casamento de uma -das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma dellas já estava -garantida, graças a Deus! -</p> - -<p> -O crepusculo chegava e elles entraram em casa mergulhados na melancolia -da hora. -</p> - -<p> -A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismenia, -informou que nas immediações morava um literato, teimoso cultivador -dos contos e canções populares do Brasil. Foram a elle. Era um velho -poeta que teve sua fama ahi pelos setenta e tantos, homem doce e ingenuo -que se deixara esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em -publicar collecções que ninguem lia, de contos, canções, adagios e -dictados populares. -</p> - -<p> -Foi grande a sua alegria quando soube o objecta da visita daquelles -senhores. Quaresma estava animado e falou com calor; e Albernaz tambem, -porque via na sua festa,—com um numero de <i>folk-lore</i>, meio de -chamar a attenção sobre sua casa, attrahir gente e... casar as filhas. -</p> - -<p> -A sala em que foram recebidos, era ampla; mas estava tão cheia de -mesas, estantes, pejadas de livros, pastas, latas, que mal se podia -mover nella. Numa lata lia-se: Santa Anna dos Tócos; numa pasta: S. -Bonifácio do Cabresto. -</p> - -<p> -—Os Srs. não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia -popular! que surprezas ella reserva!... Ainda ha dias recebi uma carta -de Urubu, de Baixo com uma linda canção. Querem ver? -</p> - -<p> -O colleccionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde -leu: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Se Deus enxergasse pobre</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Não me deixaria assim:</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Dava no coração della</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Um logarsinho p'ra mim.</i></span> -</div><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>O amor que tenho por ella</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Já não cabe no meu peito;</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Sae-me pelos olhos afóra</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Vôa ás nuvens direito.</i></span> -</div></div> - -<p> -—Não é bonito?... Muito! Se os Srs. conhecessem então o cyclo do -macaco, a collecção de historias que o povo tem sobre o simio?... Oh! -Uma verdadeira epopéa comica! -</p> - -<p> -Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de algum que -encontrou um semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado -pela paixão do foklorista, tinha mais intelligencia no olhar com que o -encarava. -</p> - -<p> -O velho poeta guardou, a canção de Urubu de Baixo, numa pasta; e foi -logo á outra, donde tirou varias folhas de papel. Veio até junto aos -dous visitantes e disse-lhes: -</p> - -<p> -—Vou ler aos senhores uma pequena historia do macaco, das muitas que -o nosso povo conta... Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo -publical-as, sob o titulo <i>Historias do Mestre Simão</i>. -</p> - -<p> -E, sem perguntar se os incommodava ou se estavam dispostos a ouvir, -começou: -</p> - -<p> -«<i>O macaco perante o juiz de direito</i>. Andava um bando de macacos em -troça, pulando de arvore em arvore, nas bordas de uma gróta. Eis -senão quando, um delles vê no fundo uma onça que lá caira. Os -macacos se enternecem e resolvem salval-a. Para isso, arrancaram cipós, -emendaram-nos bem, amarraram a corda assim feita á cintura de cada um -delles e atiraram uma das pontas á onça. Com o esforço reunido de -todos, conseguiram içal-a e logo se desamarraram, fugindo. Um delles, -porém, não o pôde fazer a tempo e a onça segurou-o immediatamente. -</p> - -<p> -—Compadre Macaco, disse ella, tenha paciencia. Estou com fome e você -vai fazer-me o favor de deixar-se comer. -</p> - -<p> -O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexivel. Simão -então lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram -a elle; o macaco sempre agarrado pela onça. É juiz de direito entre os -animaes, o jaboty, cujas audiencias, são dadas á borda dos rios, -collocando-se elle em cima de uma pedra. Os dous chegaram e o macaco -expôz as suas razões. -</p> - -<p> -O jaboty ouviu-os e no fim ordenou; -</p> - -<p> -—Bata palmas. -</p> - -<p> -Apezar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas. -Chegou a vez da onça, que tambem expôz as suas razões e motivos. O -juiz, como da primeira vez, determinou ao felino: -</p> - -<p> -—Bata palmas. -</p> - -<p> -A onça não teve remedio senão largar o macaco, que se escapou, e -tambem o juiz, atirando-se n'agua». -</p> - -<p> -Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous: -</p> - -<p> -—Não acham interessante? Muito! Ha no nosso povo muita invenção, -muita creação, verdadeiro material para <i>fabliaux</i> interessantes... No -dia em que apparecer um literato de genio que o fixe numa forma -immortal... Ah! Então! -</p> - -<p> -Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de -satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lagrimas furtivas. -</p> - -<p> -—Agora, continuou elle, depois de passada a emoção—vamos ao que -serve. <i>O boi espacio</i> ou o <i>Bumba meu boi</i> ainda é muita cousa -para vocês... É melhor irmos de vagar, começar pelo mais facil... Está -ahi o <i>Tangolomango</i>, conhecem? -</p> - -<p> -—Não, disseram os dous. -</p> - -<p> -—É divertido. Arranjem dez crianças, uma mascara de velho, uma roupa -estrambolica para um dos Srs. que eu ensaio. -</p> - -<p> -O dia chegou. A casa do General estava cheia. Cavalcanti viera; e elle e -a noiva, á parte, no vão de uma janella, pareciam ser os unicos que -não tinham interesse pela folia. Elle, falando muito, cheio de -trejeitos no olhar; ella, meio fria, deitando de quando em quando, para -o noivo, um olhar de gratidão. -</p> - -<p> -Quaresma, foz o <i>Tangolomango</i>, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca -do General, pôz uma immensa mascara de velho, agarrou-se a um bordão -curvo, em forma de baculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram -em côro: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Uma mãe teve dez filhos</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Todos os dez dentro de um pote:</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Deu o Tangolomango nelle</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Não ficaram senão nove.</i></span> -</div></div> - -<p> -Por ahi, o major avançava, batia com o baculo no assoalho, fazia: hu! -hu! hu! as crianças fugiam, afinal elle agarrava uma e levava para -dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando, pela -quinta estrophe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista, escura e cahiu. -Tiraram-lhe a mascara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a -si. -</p> - -<p> -O accidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo <i>folk-lore</i>. -Comprou livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção -lhe veiu ao fim de algumas semanas de estudo. -</p> - -<p> -Quasi todas as tradições e canções eram estrangeiras; o proprio -<i>Tangolomango</i> o era tambem. Tornava-se, portanto, precizo arranjar -alguma cousa propria, original, uma creação da nossa terra e dos -nossos ares. -</p> - -<p> -Essa idéa levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéa -traz outra, logo ampliou o seu proposito e eis a razão porque estava -organizando um codigo de relações, de cumprimentos, de cerimonias -domesticas e festas, calcado nos preceitos tupys. -</p> - -<p> -Desde dez dias que se entregava a essa ardua tarefa, quando (era -domingo) lhe bateram á porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não -apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabellos, -como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de -dentro, o Anastacio tambem, e o compadre e a filha, pois eram elles, -ficaram estupefactos no limiar da porta. -</p> - -<p> -—Mas que é isso, compadre? -</p> - -<p> -—Que é isso, Polycarpo? -</p> - -<p> -—Mas, meu padrinho... -</p> - -<p> -Elle ainda chorou um pouco. Enxugou as lagrimas e, depois, explicou com -a maior naturalidade: -</p> - -<p> -—Eis ahi! Vocês não têm a minima noção das cousas da nossa terra. -Queriam que eu apertasse a mão... Isto não é nosso! Nosso cumprimento -é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os -tupinambás. -</p> - -<p> -O seu compadre Vicente, a filha e D. Adelaide entreolharam-se, sem saber -o que dizer. O homem estaria doido? Que extravagancia! -</p> - -<p> -—Mas, Sr. Polycarpo, disse-lhe o compadre, é possivel que isto seja -muito brasileiro, mas é bem triste, compadre. -</p> - -<p> -—De certo, padrinho, accrescentou a moça com vivacidade; parece até -agouro... -</p> - -<p> -Este seu compadre era italiano de nascimento. A historia das suas -relações vale a pena contar. Quitandeiro ambulante, fôra fornecedor -da casa de Quaresma ha vinte e tantos annos. O Major já tinha as suas -idéas patrioticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e -até gostava de vel-o suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas -vermelhas nas faces muito brancas de europeu recem-chegado. Mas um bello -dia, ia Quaresma pelo largo do Paço, muito distrahido, a pensar nas -maravilhas architectonicas do chafariz do mestre Valentim, quando veio a -encontrar-se com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquella -simplicidade d'alma que era bem sua, e notou que o rapaz tinha alguma -preoccupação séria. Não só de onde em onde, soltava exclamações -sem ligação com a conversa actual, como tambem, cerrava os labios, -rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio -a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu collega, estando -disposto a matal-o, pois perdera o credito e em breve estaria na -miseria. Havia na sua affirmação uma tal energia e um grande e -extranho accento de ferocidade, que fizeram empregar o Major toda a sua -doçura e persuasão para dissuadil-o do proposito. E não ficou nisto -só: emprestou-lhe tambem dinheiro. Vicente Coleoni poz uma quitanda, -ganhou uns contos de réis, fez-se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, -veiu a ter aquella filha, que foi levada á pia pelo seu bemfeitor. -Inutil é dizer que Quaresma não notou a contradicção entre as suas -idéas patrioticas e o seu acto. -</p> - -<p> -É verdade que elle não as tinha ainda muito firmes, mas já fluctuavam -na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciencia como tenues desejos, -veleidades de rapaz de pouco mais de vinte annos, veleidades que não -tardariam tomar consistencia, e só esperavam os annos para desabrochar -em actos. -</p> - -<p> -Fora, pois, ao seu compadre Vicente e á sua afilhada Olga que elle -recebera com o mais legitimo ceremonial guaytacaz, e, se não envergara -o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o não -tel-o. Estava até á mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se. -</p> - -<p> -—Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre elle -os seus olhos muito luminosos. -</p> - -<p> -Havia entre os dous uma grande affeição. Quaresma era um tanto -reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no economico -nas demonstrações affectuosas. Adivinhava-se, entretanto, que a moça -occupava-lhe no coração o logar dos filhos que não tivera nem teria -jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente, -não escondia a sua affeição tanto mais que sentia confusamente nelle -alguma cousa da superior, uma ancia de idéal, uma tenacidade em seguir -um sonho, uma idéa, um vôo emfim para as altas regiões do espirito -que ella não estava habituada a ver em ninguem do mundo que -frequentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a -commum ás moças de seu nascimento. Vinha de um pendôr proprio, talvez -das proximidades européas do seu nascimento, que a fizeram um pouco -differente das nossas moças. -</p> - -<p> -Fora com um olhar luminoso e prescrutador que ella perguntara ao -padrinho. -</p> - -<p> -—Então padrinho, lê-se muito? -</p> - -<p> -—Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a -emancipação de um povo. -</p> - -<p> -Vicente fôra com D. Adelaide para o interior da casa e os dous -conversavam a sós na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma -tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta segurança, elle que -antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar—que diabo! Não, -não era possivel... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos -seus olhos—uma alegria de mathematico que resolveu um problema, de -inventor feliz! -</p> - -<p> -—Não se vá metter em alguma conspiração, disse a moça gracejando. -</p> - -<p> -—Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso -violencias... -</p> - -<p> -Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo -fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça. O Major fez as -apresentações. -</p> - -<p> -—Já o conhecia de nome, Sr. Ricardo, disse Olga. -</p> - -<p> -Coração dos Outros encheu-se de um alviçareiro contentamento. A sua -physionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a -sua cutis que era reseccada e de um tom de velho marmore, como que ficou -macia e joven. Aquella moça parecia rica, era fina e bonita, -conhecia-o—que satisfação! Elle que era sempre um tanto parvo e -atrapalhado, quando se encontrava diante das moças, fossem de que -condição fossem, animava-se, soltava a lingua, amaciava a voz e ficava -numeroso e eloquente. -</p> - -<p> -—Leu então os meus versos, não é, minha senhora? -</p> - -<p> -—Não tive esse prazer, mas li, ha mezes, uma apreciação sobre um -trabalho seu. -</p> - -<p> -—No «Tempo», não foi? -</p> - -<p> -—Foi. -</p> - -<p> -—Muito injusta! accrescentou Ricardo. Todos os criticos se atêm a -essa questão de metrificação. Dizem que os meus versos não são versos... -São, sim; mas são versos para violão. V. Ex. sabe que os versos para -musica têm alguma cousa de differente dos communs, não é? Não ha, -portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam -outra metrica e outro systema, não acha? -</p> - -<p> -—De certo, disse a moça. Mas parece-me que o Sr. faz versos para a -musica e não musica para os versos. -</p> - -<p> -E ella sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar -luminoso, emquanto Ricardo, desconfiado, lhe sondava a intenção com os -seus olhinhos vivos e meudos de camondongo. -</p> - -<p> -Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio: -</p> - -<p> -—O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o -violão. -</p> - -<p> -—Eu sei, padrinho. Eu sei... -</p> - -<p> -—Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a -serio essas tentativas nacionaes mas, na Europa, todos respeitam e -auxiliam... Como é que se chama, major, aquelle poeta que escreveu em -francez popular? -</p> - -<p> -—Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francez popular; é o -provençal, uma verdadeira lingua. -</p> - -<p> -—Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado, -respeitado? Eu, no tocante ao violão, estou fazendo o mesmo. -</p> - -<p> -Olhou triumphante para um e outro circumstante: e Olga dirigindo-se a -elle, disse: -</p> - -<p> -—Continue na tentativa, Sr. Ricardo, que é digno de louvor. -</p> - -<p> -—Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um bello -instrumento e tem grandes difficuldades. Por exemplo... -</p> - -<p> -—Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Ha outros mais difficeis. -</p> - -<p> -—O piano? perguntou Ricardo. -</p> - -<p> -—Que piano! O maracá, a inubia. -</p> - -<p> -—Não conheço. -</p> - -<p> -—Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionaes possiveis, os -unicos que o são verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados, -daquella gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta -linda terra. Os caboclos! -</p> - -<p> -—Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo. -</p> - -<p> -—De caboclo! Que é que tem? O Lery diz que são muito sonoros e -agradaveis de ouvir... Se é por ser de caboclo, o violão tambem não -vale nada—é um instrumento do capadocio. -</p> - -<p> -—De capadocio, major! Não diga isso... -</p> - -<p> -E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpreza, -espantada, sem atinar, som explicação para aquella inopinada -transformação de genio do seu padrinho, até ali tão socegado e tão -calmo. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap03"></a></h4> - -<h4>III -<br /><br /> -A NOTICIA DO GENELICIO</h4> - -<p> -—Então quando se casa, D. Ismenia? -</p> - -<p> -—Em Março. Cavalcanti já está formado e... -</p> - -<p> -Afinal a filha do General pôde responder com segurança á pergunta que -se lhe vinha fazendo ha quasi cinco annos. O noivo finalmente encontrara -o fim do curso de dentista e marcara o casamento para dahi a tres mezes. -A alegria foi grande na familia; e, como em tal caso, uma alegria não -podia passar sem um baile, uma festa foi annunciada para o sabbado que -se seguia ao pedido da pragmatica. -</p> - -<p> -As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes -que a irmã nubente. Parecia que ella lhes ia deixar o caminho -desembaraçada, e fôra a irmã quem até ali tinha impedido que se -casassem. -</p> - -<p> -Noiva havia quasi cinco annos, Ismenia já se sentia meio casada. Esse -sentimento junto á sua natureza pobre fel-a não sentir um pouco mais -de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ella, pão era negocio de -paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéa, -uma pura idéa. Aquella sua intelligencia rudimentar tinha separado da -idéa de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, -a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: -«Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar»... Ou senão: -«Você preciza aprender a pregar botões, porque quando você se -casar...» -</p> - -<p> -A todo instante e a toda hora, lá vinha aquelle—«porque, quando você -se casar...»—e a menina foi se convencendo de que toda a existencia -só tendia para o casamento. A instrucção, as satisfações intimas, a -alegria, tudo isso era inutil; a vida se resumia numa cousa: casar. -</p> - -<p> -De resto, não era só dentro do sua familia que ella encontrava aquella -preoccupação. No collegio, na rua, em casa das familias conhecidas, -só se falava em casar. «Sabe, D. Maricota, a Lili casou-se; não fez -grande negocio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa»; ou -então: «A Zezé está doida para arranjar casamento mas é tão feia, -meu Deus!...» -</p> - -<p> -A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéas, o -nosso proprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para -aquelle cerebrozimho; e, de tal forma casar-se se lhe representou cousa -importante, uma especie de dever, que não se casar, ficar solteira, -<i>tia</i>, parecia-lhe um crime, uma vergonha. -</p> - -<p> -De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa -profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para -um grande afecto, na sua intelligencia a idéa de casar-se incrustou-se -teimosamente como uma obsessão. -</p> - -<p> -Ella não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o -narizinho mal feito, mas galante, não muito baixa nem muito magra e a -sua apparencia de bondade passiva, de indolencia de corpo, de idéas e de -sentidos era até um bom typo das meninas a que os namorados -chamam—<i>bonitinhas</i>. O seu traço de belleza dominante, porém, -eram os seus cabellos: uns bastos cabellos castanhos, com tons de ouro, -sedosos até ao olhar. -</p> - -<p> -Aos dezenove annos arranjou namoro com o Cavalcanti, e á fraqueza de -sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a -facilidade com que o futuro dentista a conquistou. -</p> - -<p> -O pai fez má cara. Elle andava sempre ao par dos namoros das filhas: -«Diga-me sempre, Maricota—dizia elle—quem são. Olho vivo!...» É -melhor prevenir que curar... Póde ser um valdevinos e...» Sabendo que -o pretendente á Ismenia era um dentista, não gostou muito. Que é um -dentista? perguntava elle de si para si. Um cidadão semi-formado, uma -especie de barbeiro. Preferia um official, tinha montepio e meio soldo; -mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e elle -accedeu. -</p> - -<p> -Começou então Cavalcanti a frequentar a casa na qualidade de noivo -<i>paisano</i> isto é, que não pediu, não é ainda <i>official</i>. -</p> - -<p> -No fim do primeiro anno, tendo noticia das difficuldades com que o -futuro genro lutava para acabar os estudos, o General foi generosamente -em seu soccorro. Pagou-lhe taxas de matriculas, livros e outras cousas. -Não era raro que após uma longa conversa com a filha, D. Maricota -viesse ao marido e dissesse: «Chico, arranja-me vinte mil réis que o -Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia». -</p> - -<p> -O General era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretenção -marcial, não havia no seu caracter a minima falha. Demais, aquella -necessidade de casar as filhas ainda o faziam melhor quando se tratava -dos interesses dellas. -</p> - -<p> -Elle ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para -evitar despezas ao futuro genro, convidou-o a jantar em casa todo o dia; -e assim o namoro foi correndo até ali. -</p> - -<p> -Enfim—dizia Albernaz á mulher, na noite do pedido, quando já -recolhidos—a cousa vai acabar. Felizmente, respondia-lhe D. Maricota, -vamos descontar esta lettra. -</p> - -<p> -A satisfação resignada do General era porém, falsa; ao contrario: -elle estava radiante. Na rua, se encontrava um camarada, no primeiro -momento azado, lá dizia elle: -</p> - -<p> -—É um inferno, esta vida! imagina tu, Castro, que ainda por cima -tenho que casar uma filha! -</p> - -<p> -Ao que Castro interrogava: -</p> - -<p> -—Qual dellas? -</p> - -<p> -—A Ismenia, a segunda, respondia Albernaz e logo accrescentava: tu é -que és feliz: só tiveste filhos. -</p> - -<p> -—Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malicia, aprendi a receita. -Porque não fizeste o mesmo? -</p> - -<p> -Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazens, ás lojas de -louça, comprava mais pratos, mais compoteiras, um centro de mesa, -porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundancia e riqueza -que traduzisse o seu grande contentamento. -</p> - -<p> -Na manhã do dia da festa commemorativa do pedido, D. Maricota amanheceu -cantando. Era raro que o fizesse: mas nos dias de grande alegria, ella -cantarolava uma velha aria, uma cousa do seu tempo de moça e as filhas -que sentiam nisto signal certo de alegria corriam a ella, pedindo-lhe -isto ou aquillo. -</p> - -<p> -Muito activa, muito diligente, não havia dona de casa mais economica, -mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço -das criadas. Logo que despertou, pôz tudo em actividade, as criadas e -as filhas. Vivi e Quinota fôram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram -as raparigas na arrumação das salas e dos quartos, emquanto ella e -Ismenia iam arrumar a mesa, dispol-a com muito gosto e esplendor. O -movel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria -de D. Maricota era grande; ella não comprehendia que uma mulher pudesse -viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava -exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e deshonroso para a -familia. A sua satisfação não vinha do simples facto de ter -descontado uma letra, como ella dizia. Vinha mais profundamente dos seus -sentimentos maternos e de familia. -</p> - -<p> -Ella arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indifferente. -</p> - -<p> -—Mas, minha filha, dizia ella, até parece que não é você quem se -vai casar! Que cara! Você parece ahi uma mosca morta. -</p> - -<p> -—Mamãe, que quer que eu faça? -</p> - -<p> -—Não é bonito rir-se muito, andar ahi como uma serigaita, mas tambem -assim como você está! Eu nunca vi noiva assim. -</p> - -<p> -Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas -logo lhe tomava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibração -sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e não tardava em -cahir naquelle doentia lassidão que lhe era propria. -</p> - -<p> -Veiu muita gente. Além das moças e as respeitaveis mães, acudiram ao -convite do General, o Contra-Almirante Caldas, o Dr. Florencio, -engenheiro das Aguas, o Major honorario Innocencio Bustamante, o Sr. -Bastos, guarda-livros, ainda parente de D. Maricota, e outras pessoas -importantes. Ricardo não fôra convidado porque o General temia a -opinião publica sobre a presença delle em festa seria; Quaresma o -fôra, mas não viéra; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros. -</p> - -<p> -Ás seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismenia, -cumprimentado-a, não sem um pouco de inveja no olhar. -</p> - -<p> -Irene, uma alourada e alta, aconselhava: -</p> - -<p> -—Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque. -</p> - -<p> -Tratava-se do enxoval. Todas ellas, embora solteiras, davam conselhos, -sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes e as que podiam -ser dispensadas. Estavam ao par. -</p> - -<p> -A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos: -</p> - -<p> -—Eu, hontem, vi na rua da Constituição um dormitorio de casal, muito -bonito, você porque não vai ver, Ismenia? Parece barato. -</p> - -<p> -A Ismenia era a menos enthusiasmada, quasi não respondia ás perguntas; -e, se as respondia, ora por monosyllabos. Houve um momento em que sorriu -quasi com alegria e abandono. Estephania, a doutora, a normalista, que -tinha nos dedos um annel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num -dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma -confidencia. Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quizesse -confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e -disse alto: -</p> - -<p> -—Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei... -</p> - -<p> -Ella alludia á resposta que, á sua confidencia, Ismenia tinha dado com -parcimonia: qual o que! -</p> - -<p> -Todas ellas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma -parte dos velhos rodeavam Cavalcanti, muito solenne, dentro de um grande -fraque preto. -</p> - -<p> -—Então, Dr. acabou, heim? dizia este a geito de um cumprimento. -</p> - -<p> -—É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os -embargos—fui de um heroismo!... -</p> - -<p> -—Conhece o Chavantes? perguntava um outro. -</p> - -<p> -—Conheço. Um chronico, um pandego... -</p> - -<p> -—Foi seu collega? -</p> - -<p> -—Foi, isto é, elle é do curso de medicina. Matriculamo-nos no mesmo -anno. -</p> - -<p> -Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de attender a este e já era -obrigado a ouvir a observação de outro. -</p> - -<p> -—É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava -agora a quebrar a cabeça no <i>Dever</i> e <i>Haver</i>. Hoje, torço a -orelha e não sai sangue. -</p> - -<p> -—Actualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente -Cavalcanti. Com essas academias livres... Imaginem que já se fala numa -Academia Livre de Odontologia! É o cumulo! Um curso difficil e caro, -que exige cadaveres, apparelhos, bons professores, como é que -particulares poderão mantel-o? Se o Governo mantem mal... -</p> - -<p> -—Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabens. Digo-lhe o que -disse ao meu sobrinho, quando se formou: vá furando! -</p> - -<p> -—Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti. -</p> - -<p> -—Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias. -</p> - -<p> -—Boa carreira. -</p> - -<p> -Nos intervallos da conversa, todos elles olhavam o novel dentista como -se fosse um ente sobrenatural. -</p> - -<p> -Para aquella gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era -homem e mais alguma cousa sagrada e de essencia superior; e não -juntavam á imagem que tinham delle actualmente, as cousas que -porventura elle pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava -nella de modo algum; e aquelle typo, para alguns, continuava a ser -vulgar, commum, na apparencia, mas a sua substancia tinha mudado, era -outra differente da delles e fora ungido de não sei que cousa vagamente -fóra da natureza terrestre, quasi divina. -</p> - -<p> -Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os -menos importantes. O General ficara na sala de jantar, fumando, cercado -dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com elle o -Contra-Almirante Caldas, o Major Innocencio, o Dr. Florencio e o -Capitão de Bombeiros Segismundo. -</p> - -<p> -Innocencio aproveitou a occasião para fazer uma consulta a Caldas sobre -assumpto de legislação militar. O Contra-Almirante era -interessantissimo. Na marinha, por pouco que não fazia <i>pendant</i> com -Albernaz no Exercito. Nunca embarcara a não ser na guerra do Paraguay, -mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era delle. -Logo que se viu 1° Tenente, Caldas foi aos poucos se mettendo comsigo, -abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos e sem -amigos nos altos logares, se esqueciam delle e não lhe davam -commissões de embarque. É curiosa essa cousa das administrações -militares: as commissões são merecimento, mas só se as dá aos -protegidos. -</p> - -<p> -Certa vez, quando era já Capitão Tenente, deram-lhe um embarque em -Matto Grosso. Nomearam-no para commandar o couraçado «Lima Barros». -Elle lá foi, mas, quando se apresentou ao commandante da flotilha, teve -noticia que não existia no rio Paraguay semelhante navio. Indagou daqui -e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal «Lima Barros» -fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguay. Consultou o commandante. -</p> - -<p> -—Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia immediatamente para a -flotilha do Rio Grande. -</p> - -<p> -Eil-o a fazer malas para o Alto-Uruguay, onde chegou emfim, depois de -uma penosa e fatigante viagem. Mas ahi tambem não estava o tal «Lima -Barros». Onde estaria então? Quiz telegraphar para o Rio de Janeiro, -mas teve medo de ser censurado, tanto mais, que não andava em cheiro de -santidade. Esteve assim um mez em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e -sem saber que destino tomar. Um dia lhe veiu a idéa de que o navio bem -poderia estar no Amazonas. Embarcou na intenção de ir ao extremo norte -e quando passou pelo Rio, conforme a praxe, apresentou-se ás altas -autoridades da Marinha. Foi preso e submettido a conselho. -</p> - -<p> -O «Lima Barros» tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguay. -</p> - -<p> -Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus -generaes. Todos o tinham na conta de parvo, de um commandante de opereta -que andava á cata do seu navio pelos quatro pontos cardeaes. -Deixaram-n'o <i>encostado</i>, como se diz na gyria militar, e elle levou -quasi quarenta annos para chegar de Guarda-Marinha a Capitão de -Fragata. Reformado no posto immediato, com graduação do seguinte, todo -o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de -estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referissem a -promoções de officiaes. Comprava repertorios de legislação, -armazenava collecções de leis, relatorios, e encheu a casa de toda -essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, -pedindo a modificação da sua reforma, choviam sobre os ministros da -Marinha. Corriam mezes o infinito rosario de repartições e eram sempre -indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal -Militar. Ultimamente constituira advogado junto á justiça federal e -lá andava elle de cartorio em cartorio, acotovelando-se com meirinhos, -escrivães, juizes e advogados—esse poviléo rebarbativo do fôro que -parece ter contrahido todas as miserias que lhe passam pelas mãos e -pelos olhos. -</p> - -<p> -Innocencio Bustamante tambem tinha a mesma mania demandista. Era -renitente, teimoso, mas servil e humilde. Antigo voluntario da patria, -possuindo honras de Major, não havia dia em que não fosse ao quartel -general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia -inclusão no Asylo dos Invalidos, noutro honras de Tenente-Coronel, -noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha nenhum, ia ver o dos -outros. -</p> - -<p> -Não se prezou mesmo de tratar do pedido de um maniaco que, por ser -tenente honorario e tambem da Guarda Nacional, requereu lhe fosse -passada a patente de major, visto que dous galões mais outros dous -fazem quatro—o que quer dizer: Major. -</p> - -<p> -Conhecedor dos estudos meticulosos do Almirante, Bustamante fez a sua -consulta. -</p> - -<p> -—Assim de prompto, não sei. Não é a minha especialidade o Exercito, -mas vou ver. Isto tambem anda tão atrapalhado! -</p> - -<p> -Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos que lhe -davam um ar de <i>commodoro</i> ou de chacareiro portuguez, pois era forte -nelle o typo luzitano. -</p> - -<p> -—Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina! -</p> - -<p> -—Não ha mais gente que preste, disse Bustamante. -</p> - -<p> -Segismundo por ahi aventurou tambem a sua opinião dizendo: -</p> - -<p> -—Eu não sou militar, mas... -</p> - -<p> -—Como não é militar? fez Albernaz com impeto. Os Srs. é que são os -verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas? -</p> - -<p> -—De certo, de certo, fez o Almirante cofiando os favoritos. -</p> - -<p> -—Como ia dizendo, continuou Segismundo, apezar de não ser militar, eu -me animo, a dizer que a nossa força está muito por baixo. Onde está -um Porto Alegre, um Caxias? -</p> - -<p> -—Não ha mais, meu caro, confirmou com voz tenue o Dr. Florencio. -</p> - -<p> -—Não sei porque, pois tudo hoje não vai pela sciencia? -</p> - -<p> -Fôra Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e -retrucou-lhe com certo calor: -</p> - -<p> -—Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de -<i>xx</i> e <i>yy</i>, em Curupaity, hein Caldas? hein Innocencio? -</p> - -<p> -O Dr. Florencio era o unico paisano da roda. Engenheiro e empregado -publico, os annos e o socego da vida lhe tinham feito perder todo o -saber que porventura pudesse ter tido ao sahir da escola. Era mais um -guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de -Albernaz, era raro que não viesse roda a tarde jogar o sólo com o -General. O Dr. Florencio perguntou: -</p> - -<p> -—O Sr. assistiu, não foi, General? -</p> - -<p> -O General não se deteve, não, se atrapalhou, não gaguejou e disse com -a maxima naturalidade: -</p> - -<p> -—Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vesperas. Mas tive -muitos amigos lá: o Camisão, o Venancio... -</p> - -<p> -Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janella da sala onde -estavam, não se via nem um monte. O horizonte estava circumscripto aos -fundos dos quintaes das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a -lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas -lembrava tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já -tinha desapparecido do horizonte e as tenues luzes dos bicos de gaz e -dos lampeões familiares começavam a accender-se por detraz das -vidraças. -</p> - -<p> -Bustamante quebrou o silencio: -</p> - -<p> -—Este paiz pão vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento, -pedindo honras de Tenente Coronel, está no ministerio ha seis mezes! -</p> - -<p> -—Uma desordem, exclamaram todos. -</p> - -<p> -Era noite. D. Maricota chegou até onde elles estavam, muito activa, -muito diligente e com o rosto aberto de alegria. -</p> - -<p> -—Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao -Chico, sim? -</p> - -<p> -Albernaz sahiu fóra da róda dos amigos e foi até a um canto da sala, -onde a mulher lhe disse alguma cousa em voz baixa. Ouviu a mulher, -depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto, nestes -termos: -</p> - -<p> -—Se não dançam é porque não querem. Estou pegando algum? -</p> - -<p> -D. Maricota approximou-se dos amigos do marido e explicou: -</p> - -<p> -—Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguem tira par, ninguem, -tóca. Estão lá tantas moças, tantos rapazes, é uma pena! -</p> - -<p> -—Bem; eu vou lá, disse Albernaz. -</p> - -<p> -Deixou os amigos e foi á sala de visitas dar começo ao baile. -</p> - -<p> -—Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa! -</p> - -<p> -E elle mesmo em pessoa ia juntando os pares: «Não General, já tenho -par, dizia uma moça. Não faz mal, retrucava elle, danse com o -Raymundinho; o outro espera». Depois de ter dado inicio ao baile, veio -para a roda dos amigos, suado, mas contente. -</p> - -<p> -—Isto de familia! Qual! A gente até parece bôbo, dizia. Você é que -fez bem, Caldas; não se quiz casar! -</p> - -<p> -—Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos? -</p> - -<p> -—Vamos jogar o sólo, convidou Albernaz. -</p> - -<p> -—Somos cinco, como ha de ser? observou Florencio. -</p> - -<p> -—Não, eu não jogo, disse Bustamante. -</p> - -<p> -—Então jogamos os quatro de garancho? lembrou Albernaz. -</p> - -<p> -As cartas vieram e tambem uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros -sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. Coube a Florencio dar. -Começaram, Albernaz tinha um ar attento quando jogava: a cabeça lhe -cahia sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de -reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade -de um Lord Almirante numa partida de «whist». Segismundo jogava com -todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para -fugir á fumaça. Bustamante fôra á sala ver as dansas. -</p> - -<p> -Tinham começado a partida, quando dona Quinota, uma das filhas do -General, atravessou a sala e foi beber agua. Caldas, coçando um dos -favoritos, perguntou á moça: -</p> - -<p> -—Então, D. Quinota, que dê o Genelicio? -</p> - -<p> -A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muchocho e respondeu -com falso máu humor: -</p> - -<p> -—Ué! Sei lá! Ando atrás delle? -</p> - -<p> -—Não precisa zangar-se, D. Quinota; é uma simples pergunta, advertiu -Caldas. -</p> - -<p> -O General que examinava attentamente as cartas recebidas, interrompeu a -conversa com voz grave: -</p> - -<p> -—Eu passo. -</p> - -<p> -D. Quinota retirou-se. Este Genelicio ora o seu namorado. Parente ainda -de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na familia. A sua -candidatura era favorecida por todos. D. Maricota e o marido enchiam-n'o -de festas. Empregado do Thesouro, já no meio da carreira, moço de -menos de trinta annos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia -ninguem mais bajulador e submisso do que elle. Nenhum pudor, nenhuma -vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia. -Quando sahia, remancheava, lavava tres ou quatro vezes as mãos, até -poder apanhar o director na porta. Acompanhava-o, conversava com elle -sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava este ou aquelle -collega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava -um ministro, fazia-se escolher como interprete dos companheiros e -deitava um discurso; nos anniversarios de nascimento, era um soneto que -começava sempre por—salve—e acabava tambem por—Salve! -Tres vezes Salve! -</p> - -<p> -O modelo era sempre o mesmo; elle só mudava o nome do ministro e punha -a data. -</p> - -<p> -No dia seguinte, os jornaes falavam do seu nome, e publicavam o soneto. -</p> - -<p> -Em quatro annos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser -aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima. -</p> - -<p> -Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente genio. -Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros -processos. Um dos que se servia, eram as publicações nas folhas -diarias. No intuito de annunciar nos ministros e directores que tinha -uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornaes longos -artigos sobre contabilidade publica. Eram meras compilações de -bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citações de autores -francezes ou portuguezes. -</p> - -<p> -Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande -conta o seu saber e elle vivia na secção cercado do respeito de um -genio, um genio do papelorio e das informações. Accresce que Genelicio -juntava á sua segura posição administrativa, um curso de direito a -acabar; e tantos titulos juntos não podiam deixar de impressionar -favoravelmente ás preoccupações casamenteiras do casal Albernaz. -</p> - -<p> -Fóra da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre physico -fazia comico, mas que a convicção do alto auxilio que prestava ao -Estado, mantinha e sustentava. Um empregado modelo!... -</p> - -<p> -O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das -<i>mãos</i> fazia-se um breve commentario ou outro, e no começo ouviam-se -unicamente as falas sacramentaes do jogo; <i>sólo, bólo, melhoro, -passo</i>. Feitas ellas jogava-se em silencio; da sala, porém, vinha o -ruido festivo das dansas e das conversas. -</p> - -<p> -—Olhem quem está ahi! -</p> - -<p> -—O Genelicio, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz? -</p> - -<p> -Deixou o chapéo e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. -Pequeno, já um tanto curvado, chupado de rosto, com um pince-nez -azulado, todo elle trahia a profissão, os seus gostos e habitos. Era um -escripturario. -</p> - -<p> -—Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negocios. -</p> - -<p> -—Vão bem? perguntou Florencio. -</p> - -<p> -—Quasi garantido. O Ministro prometteu... Não ha nada, estou bem -cunhado! -</p> - -<p> -—Estimo muito, disse o General. -</p> - -<p> -—Obrigado. Sabe de uma cousa, General? -</p> - -<p> -—O que é? -</p> - -<p> -—O Quaresma está doido. -</p> - -<p> -—Mas... o que? quem foi que te disse? -</p> - -<p> -—Aquelle homem do violão. Já está na casa de saude... -</p> - -<p> -—Eu logo vi, disse Albernaz, aquelle requerimento era de doido. -</p> - -<p> -—Mas não é só, General, accrescentou Genelicio, Fez um officio em -tupy e mandou ao ministro. -</p> - -<p> -—É o que eu dizia, fez Albernaz. -</p> - -<p> -—Quem é? perguntou Florencio. -</p> - -<p> -—Aquelle vizinho, empregado do Arsenal, não conhece? -</p> - -<p> -—Um baixo, de pince-nez? -</p> - -<p> -—Este mesmo, confirmou Caldas? -</p> - -<p> -—Nem se podia esperar outra cousa, disse o Dr. Florencio. Aquelles -livros, aquella mania de leitura... -</p> - -<p> -—P'ra que elle lia tanto? indagou Caldas. -</p> - -<p> -—Telha de menos, disse Florencio. -</p> - -<p> -Genelicio atalhou com autoridade: -</p> - -<p> -—Elle não era formado, para que metter-se em livros? -</p> - -<p> -—É verdade, fez Florencio. -</p> - -<p> -—Isto de livros é bom para os sabios, para os doutores, observou -Segismundo. -</p> - -<p> -—Devia até ser prohibido, disse Genelicio, a quem não possuisse um -titulo <i>academico</i> ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não -acham? -</p> - -<p> -—De certo, disse Albernaz. -</p> - -<p> -—De certo, fez Caldas. -</p> - -<p> -—De certo, disse tambem Segismundo. -</p> - -<p> -Calaram-se um instante, e as attenções convergiram para o jogo. -</p> - -<p> -—Já sahiram todos os trunfos? -</p> - -<p> -—Contasse, meu amigo. -</p> - -<p> -Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silencio. Cavalcanti ia recitar. -Atravessou a sala triumphantemente, com um largo sorriso na face e foi -postar-se ao lado do piano, Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz -metallica, apurando muito os finaes em <i>s</i>, começou: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2">A vida é uma comedia sem sentido</span><br /> -<span class="i2">Uma historia de sangue e de poeira</span><br /> -<span class="i4">Um deserto sem luz...</span> -</div></div> - -<p> -E o piano gemia. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap04"></a></h4> - -<h4>IV -<br /><br /> -DESASTROSAS CONSEQUENCIAS<br /> -DE UM REQUERIMENTO</h4> - -<p> -Os acontecimentos a que alludiam os graves personagens reunidos em tomo -da mesa de sólo, na tarde memoravel da festa commemorativa do pedido de -casamento de Ismenia, se tinham desenrolado com rapidez fulminante. A -força de idéas e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado em -actos imprevistos com uma sequencia brusca e uma velocidade de -turbilhão. O primeiro facto surprehendeu, mas vieram outros e outros, -de forma que o que pareceu no começo uma extravagancia, uma pequena -mania, se apresentou logo em insania declarada. -</p> - -<p> -Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a -sessão da Camara, o Secretario teve que proceder á leitura de um -requerimento singular e que veiu a ter uma fortuna de publicidade e -commentario pouco usual em documentos de tal natureza. -</p> - -<p> -O borborinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensavel -ao elevado trabalho de legislar, não permittiram que os deputados o -ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam proximo á mesa, ao -ouvil-o, proromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes á -magestade do logar. O riso é contagioso. O Secretario, no meio da -leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, já ria-se o Presidente, ria -se o official da acta, ria-se o continuo—toda a mesa e aquella -população que a cerca, riram-se da petição, largamente, querendo -sempre conter o riso, havendo em alguns tão franca alegria que as -lagrimas vieram. -</p> - -<p> -Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço, de -trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa -tristeza, ouvindo aquelle rir inoffensivo diante della. Merecia raiva, -odio, um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava á mesa da -Camara, mas não aquelle recebimento hilarico, de uma hilaridade -innocente, sem fundo algum, assim como se estivesse a rir de uma -palhaçada, de uma sorte de circo de cavallinhos ou de uma careta de -<i>clown</i>. -</p> - -<p> -Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só viam nelle um motivo -para riso franco e sem maldade. A sessão daquelle dia fôra fria; e, -por ser assim, as secções dos jornaes referentes á Camara, no dia -seguinte, publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os -tons. -</p> - -<p> -Era assim concebida a petição: -</p> - -<blockquote><p> -«Polycarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funccionario publico, certo -de que a lingua portugueza é emprestada ao Brasil; certo tambem de que, -por esse facto, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das -lettras, se vêm na humilhante contigencia de soffrer continuamente -censuras asperas dos proprietarios da lingua; sabendo, além, que, -dentro do nosso paiz, os autores os escriptores, com especialidade os -grammaticos, não se entendem no tocante á correcção grammatical, -vendo-se, diariamente, surgir azedas polemicas entre os mais profundos -estudiosos do nosso idioma—usando do direito que lhe confere a -Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o -tupy-guarany, como lingua official e nacional do povo brasileiro. -</p> - -<p> -O supplicante, deixando de parte os armamentos historicos que militam em -favor de sua idéa, pede venia para lembrar que a lingua é o mais alta -manifestação da intelligencia de um povo, é a sua creação mais viva -e original; e, portanto, a emancipação política do paiz requer como -complemento e consequencia a sua emancipação idiomatica. -</p> - -<p> -Demais, Srs. Congressistas, o tupy-guarany, lingua originalissima, -agglutinante, é verdade, mas que o polysynthetismo dá multiplas -feições de riqueza, é a unica capaz de traduzir as nossas bellezas, -de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente -aos nossos orgãos vocaes e cerebraes, por ser creação de povos que -aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização -physiologica e psychologica para que tendemos, evitando-se dessa fórma -as estereis controversias grammaticaes, oriundas de uma difficil -adaptação de uma lingua de outra região á nossa organização -cerebral e ao nosso apparelho vocal—controversias que tanto impecem o -progresso da nossa cultura literaria, scientifica e philosophica. -</p> - -<p> -Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para -realizar semelhante medida e conscio de que a Camara e o Senado pezarão -o seu alcance e utilidade P. e E. deferimento». -</p></blockquote> - -<p> -Assignado e devidamente estampilhado, este requerimento do Major foi -durante dias assumpto de todas as palestras. Publicado em todos os -jornaes, com commentarios facetos, não havia quem não fizesse uma -pilheria sobre elle, quem não ensaiasse um espirito á custa da -lembrança de Quaresma. Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quiz -mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era casado, se era solteiro. -Uma illustração semanal publicou-lhe a caricatura e o Major foi -apontado na rua. -</p> - -<p> -Os pequenos jornaes alegres, esses semanarios de espirito e troça, -então! eram «de um encarniçamento atroz com o pobre Major. Como uma -abundancia que marcava a felicidade dos redactores em terem encontrado -um assumpto facil, o texto vinha cheio delle: o Major Quaresma disse -isso; o Major Quaresma fez aquillo. -</p> - -<p> -Um delles, além de outras referencias, occupou uma pagina inteira com o -assumpto da semana. Intitulava-se a illustração: «O matadouro de -Santa Cruz, segundo o Major Quaresma», e o desenho representava uma -fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via á -esquerda. Um outro referia-se ao caso pintando um açougue, «O açougue -Quaresma»; legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro: -</p> - -<p> -—O Sr. tem lingua de vacca? O açougueiro respondia: Não, só temos -lingua de moça, quer? -</p> - -<p> -Com mais, ou menos espirito, os commentarios não cessavam e a ausencia -de relações de Quaresma no meio de que sahiam, fazia com que fossem de -uma constancia pouco habitual. Levaram duas semanas com o nome do -sub-secretario. -</p> - -<p> -Tudo isto irritava profundamente Quaresma. Vivendo ha trinta annos quasi -só, sem se chocar com o mundo, adquirira urna sensibilidade muito viva -e capaz de soffrer profundamente com a menor cousa. Nunca soffrera -criticas, nunca se atirou, á publicidade, vivia immerso no seu sonho, -incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fóra delles, elle -não conhecia ninguem; e, com as pessoas com quem falava, trocava -pequenas banalidades, ditos de todo o dia, cousas com que a sua alma e o -seu coração nada tinham que ver. -</p> - -<p> -Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse mais que -a todos. -</p> - -<p> -Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de extranho a -tudo, ás competições, ás ambições, pois nada dessas cousas que -fazem os odios e as lutas tinha entrado no seu temperamento. -</p> - -<p> -Desinteressado de dinheiro, de gloria e posição, vivendo numa reserva -de sonho, adquirira a candura e a pureza d'alma que vão habitar esses -homens de uma idéa fixa, os grandes estudiosos, os sabios, e os -inventores, gente que fica mais terna, mais ingenua, mais innocence que -as donzellas das poesias de outras épocas. -</p> - -<p> -É raro encontrar homens assim, mas os ha e, quando se os encontra, -mesmo tocados de um grão de loucura, a gente sente mais sympathia pela -nossa especie, orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da -raça. -</p> - -<p> -A continuidade das troças feitas nos jornaes, a maneira com que o -olhavam na rua, exasperavam-no e mais forte se enraizava nelle a sua -idéa. Á medida que engulia uma troça, uma pilheria, vinha-lhe meditar -sobre a sua lembrança, pezar-lhe todos os aspectos, examinal-a -detidamente, comparal-a a cousas semelhantes, recordar os autores e -autoridades; e, á proporção que fazia isso, a sua propria convicção -mostrava a inanidade da critica, a ligeireza da pilheria, e a idéa o -tomava, o avassalava, o absorvia cada vez mais. -</p> - -<p> -Se os jornaes tinham recebido o requerimento com facecias de fundo -inofensivo e sem odio, a repartição ficou furiosa. Nos meios -burocraticos, uma superioridade que nasce fora delles, que é feita e -organizada com outros materiaes que não os officios, a sabença de -textos de regulamentos e a boa calligrafia, é recebida com a -hostilidade de uma pequena inveja. -</p> - -<p> -É como se visse no portador da superioridade um traidor á -mediocridade, ao anonimato papeleiro. Não ha só uma questão de -promoção, de interesse pecuniario; ha uma questão de amor proprio, de -sentimentos feridos, vendo aquelle collega, aquelle galé como elles, -sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes, ás olhadelas -superiores dos ministros, com mais titulos á consideração, com algum -direito a infringir as regras e os preceitos. -</p> - -<p> -Olha-se para elle com o odio dissimulado com que assassino plebeu olha -para o assassino marquez que matou a mulher e o amante. Ambos são -assassinos, mas, mesmo na prisão, ainda o nobre e o burguez trazem o ar -do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o -seu humilde collega de desgraça. -</p> - -<p> -Assim, quando surge numa secretaria alguem cujo nome não lembra sempre -o titulo de sua nomeação, apparecem as pequeninas perfidias, as -maledicencias ditas ao ouvido, as indirectas, todo o arsenal do ciume -invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor -do que ella. -</p> - -<p> -Amam-se ou antes supportam-se melhor aquelles que se fazem celebres nas -informações, na redacção, na assiduidade ao trabalho, mesmo os -doutores, os bachareis, do que os que têm nomeada e fama. Em geral, a -incomprehensão da obra ou do merito do collega é total e nenhum delles -se póde capacitar que aquelle typo, aquelle amanuense, como elles, -faça qualquer cousa que interesse 06 extranhos e dê que falar a uma -cidade inteira. -</p> - -<p> -A brusca popularidade de Quaresma, o seu successo e nomeada ephemera -irritaram os seus collegas e superiores. Já se viu! dizia o Secretario. -Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa! Pretencioso! O -director, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o -regulamento não cogitasse do caso para lhe infringir uma censura. O -collega archivista era o menos terrivel, mas chamou-o logo de doido. -</p> - -<p> -O Major sentia bem aquelle ambiente falso, aquellas allusões e isso -mais augmentava o seu desespero e a teimosia na sua idéa. Não -comprehendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades, essa -má vontade geral; era uma cousa innocente, uma lembrança patriotica -que merecia e devia ter o assentimento de todo o mundo; e meditava, -voltava á idéa, e a examinava com mais attenção. -</p> - -<p> -A extensa publicidade, que o facto tomou, attingiu o palacete de Real -Grandeza, onde morava o seu compadre Coleoni. Rico com os lucros das -empreitadas de construcções de predios, viuvo, o antigo quitandeiro -retirara-se dos negocios e vivia socegado na ampla casa que elle mesmo -edificara e tinha todos os seus remates architectonicos do seu gosto -predilecto: compoteiras na cimalha, um immenso monogramma sobre a porta -da entrada, dous cães de louça, nos pilares do portão da entrada e -outros detalhes equivalentes. -</p> - -<p> -A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão alto, -tinha um razoavel jardim na frente, que avançava pelos lados, -pontilhado de bolas multicores; varanda, um viveiro, onde pelo calor os -passaros morriam tristemente. Era uma installação burgueza, no gosto -nacional, vistosa, cara, pouco de accordo com o clima e sem conforto. -</p> - -<p> -No interior o capricho dominava, tudo obedecia a a uma fantasia baroca, -a um ecletismo desesperador. Os moveis se amontoavam, os tapetes, as -sanefas, os bibelots e, a fantasia da filha, irregular e indisciplinada, -ainda trazia mais desordem áquella collecção de cousas caras. -</p> - -<p> -Viuvo, havia já alguns annos, era uma velha cunhada quem dirigia a casa -e a filha, quem o encaminhava nas distracções e nas festas. Coleoni -aceitava de bom coração esta doce tyrannia. Queria casar a filha, bem -e ao gosto della, não punha, portanto nenhum obstaculo ao programma de -Olga. -</p> - -<p> -Em começo, pensou em dal-a a seu ajudante ou contra-mestre, uma especie -de architecto que não desenhava, mas projectava casas e grandes -edificios. Primeiro sondou a filha. Não encontrou resistencia, mas não -encontrou tambem assentimento. Convenceu-se de que aquella vaporosidade -da menina, aquelle seu ar distante de heroina, a sua intelligencia, o -seu fantastico, não se dariam bem com as rudezas e a simplicidade -camponias de seu auxiliar. -</p> - -<p> -Ella quer um doutor—pensava elle—que arranje! Com certeza, não -terá ceitil, mas eu tenho e as cousas se accommodam. -</p> - -<p> -Elle se havia habituado a ver no doutor nacional, o marquez ou o barão -de sua terra natal. Cada terra tem a sua nobreza; lá, é visconde; -aqui, é doutor, bacharel ou dentista; e julgou muito acceitavel comprar -a satisfação de ennobrecer a filha com umas meias duzias de contos de -réis. -</p> - -<p> -Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propositos da menina. -Gostando de dormir cedo, tinha que perder noites e noites no Lyrico, nos -bailes; amando estar sentado em chinellas a fumar cachimbo, era obrigado -a andar horas e horas pelas ruas, saltitando de casa em casa de modas, -atraz da filha, para no fim do dia ter comprado meio metro de fita, uns -grampos e um frasco de perfume. -</p> - -<p> -Era engraçado vel-o nas lojas de fazendas cheio de complacencia de pai -que quer ennobrecer o filho, a dar opinião sobre o tecido, achar este -mais bonito, comparar um com outro, com uma falta de sentimento -daquellas cousas que se adivinhava até no pagal-as. Mas elle ia, -demorava-se e esforçava-se por entrar no segredo, no mysterio, cheio de -tenacidade e candura perfeitamente paternaes. -</p> - -<p> -Até ahi elle ia bem e calcava a contrariedade. Só o contrariavam -bastante, as visitas, as collegas da filha, suas mães, suas irmães, -com seus modos de falsa nobreza, os seus desdens dissimulados, deixando -perceber ao velho empreiteiro o quanto estava elle distante da sociedade -das amigas e das collegas de Olga. -</p> - -<p> -Não se aborrecia, porém, muito profundamente; elle assim o quizera e a -fizera, tinha que se conformar. Quasi sempre, quando chegavam taes -visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior da casa. Entretanto, -não lhe era sempre possivel fazer isso; nas grandes festas e -recepções tinha que estar presente e era quando mais sentia, o velado -pouco caso da alta nobreza da terra que o frequentava. Elle ficara -sempre empreiteiro, com poucas idéas além do seu officio, hão sabendo -fingir, de modo que não se interessava por aquellas tagarelices de -casamentos, de bailes, de festas e passeios caros. -</p> - -<p> -Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e -sempre perdia. Chegou mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia -parte o conhecido advogado Pacheco. Perdeu e muito, mas não foi isso -que o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos—uma ninharia! A -questão, porém, é que Pacheco jogava com seis cartas. A primeira vez -que Coleoni deu com isso, pareceu-lhe simples distracção do distincto -jornalista e do famoso advogado. Um homem honesto não ia fazer aquillo! -E na segunda, seria tambem? e na terceira? -</p> - -<p> -Não era possivel tanta distracção. Adquiriu a certeza da -trampolinagem, calou-se, conteve-se com uma dignidade não esperada em -um antigo quitandeiro, e esperou. Quando vieram a jogar outra vez e o -passe foi posto em pratica, Vicente accendeu o charuto e observou com a -maior naturalidade deste mundo: -</p> - -<p> -—Os Srs. sabem que ha agora, na Europa, um novo systema de jogar o -poker? -</p> - -<p> -—Qual é? perguntou alguém. -</p> - -<p> -—A differença é pequena: joga-se com seis cartas, isto é, um dos -parceiros, sómente. -</p> - -<p> -Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar e a ganhar, -despediu-se á meia-noite cheio de delicadeza, fez alguns commentarios -sobre a partida e não voltou mais. -</p> - -<p> -Conforme o seu velho habito, Coleoni lia de manhã os jornaes, com o -vagar e a lentidão de homem pouco habituado á leitura, quando se lhe -deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal. -</p> - -<p> -Elle não comprehendeu bem o requerimento, mas os jornaes faziam tanta -troça, cahiam tão a fundo sobre a cousa, que imaginou o seu antigo -bemfeitor enleiado numa meiada criminosa, tendo praticado, por -inadvertencia, alguma falta grave. -</p> - -<p> -Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda -tinha, mais dahi quem sabe? Na ultima vez que o visitou elle não veiu -com aquelles modos extranhos? Podia ser uma pilheria... -</p> - -<p> -Apezar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro -compadre. Havia nelle não só a gratidão de camponez que recebeu um -grande beneficio, como um duplo respeito pelo major, oriundo da sua -qualidade de funccionario e de sabio. -</p> - -<p> -Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquelle -sagrado respeito dos camponezes pelos homens que recebem a investidura -do Estado; e, como, apezar dos bastos annos de Brasil, ainda não sabia -juntar saber aos titulos, tinha em grande consideração a erudição do -compadre. -</p> - -<p> -Não é, pois, de extranhar que elle visse com magna o nome de Quaresma -envolvido em factos que os jornaes reprovavam. Leu de novo o -requerimento, mas não entendeu o que elle queria dizer. Chamou a filha. -</p> - -<p> -—Olga! -</p> - -<p> -Elle pronunciava o nome da filha quasi sem sotaque; mas, quando fallava -portuguez, punha nas palavras uma rouquidão singular, e salpicava as -phrases de exclamações e pequenas expressões italianas. -</p> - -<p> -—Olga, que quer dizer isto? <i>Non capisco</i>... -</p> - -<p> -A moça sentou-se a uma cadeira proxima e leu no jornal, o requerimento -e os commentarios. -</p> - -<p> -—<i>Che</i>! Então? -</p> - -<p> -—O padrinho quer substituir o portuguez pela lingua tupy, entende o -senhor? -</p> - -<p> -—Como? -</p> - -<p> -—Hoje, nós não falamos portuguez? Pois bem: elle quer que daqui em -diante falemos tupy. -</p> - -<p> -—<i>Tutti</i>? -</p> - -<p> -—Todos os brasileiros, todos. -</p> - -<p> -—<i>Ma che</i> cousa! Não é possivel? -</p> - -<p> -—Póde ser. Os tcheques tem uma lingua propria, e foram obrigados a -falar allemão, depois de conquistados pelos austriacos; os lorenos, -francezes... -</p> - -<p> -—<i>Per la madona</i>! Allemão é lingua, agora esse acugêlê, -<i>ecco</i>! -</p> - -<p> -—Acugêlê é da Africa, papai; tupy é daqui. -</p> - -<p> -—<i>Per Baccho</i>! É o mesmo... Está doido! -</p> - -<p> -—Mas não ha loucura alguma, papai. -</p> - -<p> -—Como? Então é cousa de um homem <i>bene</i>? -</p> - -<p> -—De juizo, talvez não seja; mas de doido, tambem não. -</p> - -<p> -—<i>Non capisco</i>. -</p> - -<p> -—É uma idéa, meu pai, é um plano, talvez á primeira vista absurdo, -fóra dos moldes, mas não de todo doido. É ousado, talvez, mas... -</p> - -<p> -Por mais que quizesse, ella não podia julgar o acto do padrinho sob o -criterio de seu pai. Neste falava o bom senso e nella o amor ás grandes -cousas, aos arrojos e commettimentos ousados. Lembrou-se de que Quaresma -lhe falara em emancipação; e se houve no fundo de si um sentimento que -não fosse de admiração pelo atrevimento do Major, não foi de certo o -de reprovação ou lastima; foi de piedade sympathica por ver mal -comprehendido o acto daquelle homem que ella conhecia ha tantos annos, -seguindo o seu sonho, isolado, obscuro e tenaz. -</p> - -<p> -—Isto vai causar-lhe transtorno, observou Coleoni. -</p> - -<p> -E elle tinha razão. A sentença do archivista foi vencedora nas -discussões dos corredores e a suspeita de que Quaresma estivesse doido -foi tomando fóros do certeza. Em principio, o sub-secretario supportou -bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o suppunham insciente no -tupy, irritou-se, encheu-se, de uma raiva surda, que se continha -difficilmente. Como eram cegos! Elle que ha trinta annos estudava o -Brasil minuciosamente; elle que em virtude desses estudos, fôra -obrigado a aprender o rebarbativo allemão, não saber tupy, a lingua -brasileira, a unica que o era—que suspeita miseravel! -</p> - -<p> -Que o julgassem doido—vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de -suas affirmações, não! E elle pensava, procurava meios de se rehabilitar, -cahia em distracções, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana. -Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo dia, e a -outra, na preoccupação de provar que sabia o tupy. -</p> - -<p> -O Secretario veiu a faltar um dia e o Major lhe ficou fazendo as vezes. -O expediente fôra grande e elle mesmo redigira e copiara uma parte. -Tinha começado a passar a limpo um officio sobre cousas de Mato-Grosso, -onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã, quando o Carmo disse lá do -fundo da sala, com acccento escarninho: -</p> - -<p> -—Homero, isto de saber é uma cousa, dizer é outra. -</p> - -<p> -Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupy -que se encontravam na minuta, fosse pela allusão do funccionario Carmo, -o certo é que elle insensivelmente foi traduzindo a peça official para -o idioma indigena. -</p> - -<p> -Ao acabar, deu com a districção, mas logo vieram outros empregados com -o trabalho que fizeram, para que elle examinasse. Novas preoccupações -afastaram a primeira, esqueceu-se e o officio em tupy seguiu com os -companheiros. O Director não reparou, assignou e o tupinambá foi dar -ao ministerio. -</p> - -<p> -Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. Que lingua -era? Consultou-se o Dr. Rocha, o homem mais habil da secretaria, a -respeito do assumpto. O funccionario limpou o pince-nez, agarrou o -papel, voltou-o de traz para diante, pôl-o de pernas para o ar e -concluiu que era grego, por causa dos <i>yy</i>. -</p> - -<p> -O doutor Rocha tinha na Secretaria a fama de sabio, porque era bacharel -em direito e não dizia cousa alguma. -</p> - -<p> -—Mas, indagou o chefe, officialmente as autoridades se podem -communicar em linguas estrangeiras? Creio que ha um aviso de 84... Veja, -Sr. Dr. Rocha... -</p> - -<p> -Consultaram-se todos os regulamentos e repertorios de legislação, -andou-se de meza em meza pedindo auxilio á memoria de cada um e nada se -encontrara a respeito. Enfim, o Dr. Rocha, após tres dias de -meditação, foi ao chefe e disse com emphase e segurança: -</p> - -<p> -—O aviso de 84 trata de orthographia. -</p> - -<p> -Ü Director olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando -as suas qualidades de empregado zeloso, intelligente e... assiduo. Foi -informado que a legislação era omissa no tocante á lingua em que -deviam ser escriptos os documentos officiaes; entretanto não parecia -regular usar uma que não fosse a do paiz. -</p> - -<p> -O Ministro, tendo em vista esta informação e varias outras consultas, -devolveu o officio e censurou o Arsenal. -</p> - -<p> -Que manhã foi essa no Arsenal! Os tympanos soavam furiosamente, os -continuos andavam numa doubadoura terrivel e a toda a hora perguntavam -pelo secretario que tardava em chegar. -</p> - -<p> -Censurado! monologava o Director. Ia-se por agua a baixo o seu -generalato. Viver tantos annos a sonhar com aquellas estrellas e ellas -se escapavam assim, talvez por causa da molecagem de um escripturario! -</p> - -<p> -Ainda se a situação mudasse... Mas qual! -</p> - -<p> -O Secretario chegou, foi ao gabinete do Director. Inteirado do motivo, -examinou o officio e pela lettra conheceu que fora Quaresma quem o -escrevera. Mande-o cá, disse o Coronel. O Major encaminhou-se pensando -nuns versos tupys que lera de manhã. -</p> - -<p> -—Então o Sr. leva a divertir-se commigo, não é? -</p> - -<p> -—Como? fez Quaresma espantado. -</p> - -<p> -—Quem escreveu isso? -</p> - -<p> -O Major nem quiz examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da -distracção e confessou com firmeza: -</p> - -<p> -—Fui eu. -</p> - -<p> -—Então confessa? -</p> - -<p> -—Pois não. Mas V. Ex. não sabe... -</p> - -<p> -—Não sabe! que diz? -</p> - -<p> -O Director levantou-se da cadeira, com os labios brancos e a mão -levantada á altura da cabeça. Tinha sido offendido tres vezes: na sua -honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento de -ensino que frequentara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro -estabelecimento scientifico do mundo. Além disso escrevera no -«Prytaneu», a revista da escola, um conto—«A Saudade»—producção -muito elogiada pelos collegas. Dessa forma, lendo em todos os exames -plenamente e distincção, uma dupla corôa de sabio e artista -cingia-lbe a fronte. Tantos titulos valiosos e raros de se encontrarem -reunidos mesmo em Descartes ou Shakspeare, transformavam aquelle—não -sabe—de um amanuense em offensa profunda, em injuria. -</p> - -<p> -—Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor -porventura o curso de Benjamin Constant? Sabe o senhor mathematica, -astronomia, physica, chimica, sociologia e moral? Como ousa então? Pois -o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francezinho ahi, -póde hombrear-se com quem tirou gráu 9 em Calculo, 10 em Mecanica, 8 -em Astronomia, 10 em Hydraulica, 9 em Descriptiva? Então?! -</p> - -<p> -E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma -que já se julgava fuzilado. -</p> - -<p> -—Mas, Sr. Coronel... -</p> - -<p> -—Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda -ordem. -</p> - -<p> -Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fôra seu proposito duvidar da -sabedoria do seu director. Elle não tinha nenhuma pretenção a sabio e -pronunciara a phrase para começar a desculpa; mas, quando viu aquella -enxurrada de saber, de titulos, a sobrenadar em aguas tão furiosas, -perdeu o fio do pensamento, a fala, as idéas e nada mais sôbe nem -pôde dizer. -</p> - -<p> -Sahiu abatido, como um criminoso, do gabinete do Coronel, que não -deixava de olhal-o furiosamente, indignadamente, ferozmente, como quem -foi ferido em todas as fibras do seu ser. Sahiu afinal. Chegando á sala -do trabalho nada disse; pegou no chapéo, na bengala e atirou-se pela -porta afóra, cambaleando como um bebedo. Deu umas voltas, foi ao -livreiro buscar uns livros. Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo -Coração dos Outros. -</p> - -<p> -—Cedo, hein Major? -</p> - -<p> -—É verdade. -</p> - -<p> -E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. Ricardo -avançou algumas palavras: -</p> - -<p> -—O Major, hoje, parece que tem uma idéa, um pensamento muito forte. -</p> - -<p> -—Tenho, filho, não de hoje, mas de ha muito tempo. -</p> - -<p> -—É bom pensar, sonhar consola. -</p> - -<p> -—Consola, talvez; mas faz-nos tambem differentes dos outros, cava -abysmos entre os homens... -</p> - -<p> -—E os dous separaram-se. O Major tomou o bonde e Ricardo desceu -descuidado a rua do Ouvidor, com o seu passo acanhado e as calças -dobradas nas canellas, sobraçando o violão na sua armadura de -camurça. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap05"></a></h4> - -<h4>V -<br /><br /> -O BIBELOT</h4> - -<p> -Não era a primeira vez que ella vinha ali. Mais de uma dezena já -subira aquella larga escada de pedra, com grupos de marmores de Lisboa -de um lado e do outro, a Caridade e N. S. da Piedade; penetrara por -aquelle portico de columnas doricas, atravessara o atrio ladrilhado, -deixando á esquerda e á direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o -angustioso mysterio da loucura; subira outra escada encerada -cuidadosamente e fôra ter com o padrinho lá em cima, triste e -absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia ás vezes, aos -domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando -Quaresma. Ha quanto tempo estava elle ali? Ella não se lembrava ao -certo; uns tres ou quatro mezes, se tanto. -</p> - -<p> -Só o nome da casa mettia medo. O Hospicio! É assim como uma sepultura -em vida, um semi-enterramento, enterramento do espirito, da razão -conductora, de cuja ausencia os corpos raramente se resentem, A saude -não depende della e ha muitos que parecem até adquirir mais força de -vida, prolongar a existencia, quando ella se evola não se sabe por que -orificio do corpo e para onde. -</p> - -<p> -Com que terror, uma especie de pavor de cousa sobrenatural, espanto de -inimigo invisivel e omnipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao -estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte, diziam. -</p> - -<p> -No primeiro aspecto, não se comprehendia bem esse pasmo, esse espanto, -esse terror do povo por aquella casa immensa, severa e grave, meio -hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janellas gradeadas, a -se extender por uns centos de metros, em face do mar immenso e verde, -lá na entrada da bahia, na praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns -homens calmos, pensativos, meditabundos, como monges em recolhimento e -prece. -</p> - -<p> -De resto, com aquella entrada silenciosa! clara e respeitavel, perdia-se -logo a idéa popular da loucura; o escarcéo, os trejeitos, as furias, o -entrechoque de tolices ditas aqui e ali. -</p> - -<p> -Não havia nada disso; era uma calma, um silencio, uma ordem -perfeitamente naturaes. No fim, porém, quando se examinavam bem, na -sala das visitas, aquellas faces transtornadas, aquelles ares -aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheiados e -mergulhados em um sonho intimo sem fim, e via-se tambem a excitação de -uns, mais viva em face á atonia de outros, é que se sentia o horror da -loucura, o angustioso mysterio que encerra, feito não sei de que -inexplicavel fuga do espirito daquillo que se suppõe o real, para se -apossar e viver das apparencias das cousas ou de outras apparencias das -mesmas. -</p> - -<p> -Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifravel da nossa propria -natureza, fica amedrontado, sentindo que o germen daquillo está -depositado em nós e que por qualquer cousa elle nos invade, nos toma, -nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora comprehensão inversa e -absurda, de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o -seu mundo e para ele não ha mais semelhantes: o que foi antes da -loucura é outro muito outro do que elle vem a ser após. -</p> - -<p> -E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quasi nunca -acaba. Com o seu padrinho, como fôra? A principio, aquelle -requerimento... Mas que era aquillo? Um capricho, uma fantasia, cousa -sem importancia, uma idéa de velho sem consequencia. Depois, aquelle -officio? Não tinha importancia, uma simples distracção, cousa que -acontece a cada passo... E emfim? A loucura declarada, a tôrva e -ironica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos -rebaixa... Emfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de -não sahir, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os -amigos, os melhores. Como fôra doloroso aquillo? A primeira phase do -seu delirio, aquella agitação desordenada, aquelle falar sem nexo, sem -accordo com que se realizava fóra delle e com os actos passados, um -falar que não se sabia donde vinha, donde sahia, de que ponto do seu -ser tomava nascimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu -um cataclysma, que o fazia tremer todo, desde os pés á cabeça, e -enchia-o de indifferença para tudo mais que não fosse o seu proprio -delirio. -</p> - -<p> -A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam á matroca. -Para elle, nada disso valia, nada disso tinha existencia e importancia. -Eram sombras, apparencias; o real eram os inimigos, os inimigos -terriveis cujos nomes o seu delirio não chegava a criar. A velha -irmã, atarantada, atordoada, sem direcção, sem saber que alvitre -tomar. Educada em casa sempre com um homem ao lado, o pai, depois o -irmão, ella não sabia lidar com o mundo, com negocios, com as -autoridades e pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiencia e -ternura de irmã, oscillava entre a crença de que aquillo fosse verdade -e a suspeita do que fosse loucura pura e simples. -</p> - -<p> -Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se -interessava, chamando a si interesses da familia e evitando a demissão -de que estava ameaçado, transformando-a em aposentadoria, que seria -delle? Como é facil na vida tudo ruir! Aquelle homem pautado, regrado, -honesto, com emprego seguro, tinha uma apparencia inabalavel; -entretanto bastou um grãosinho de sandice... -</p> - -<p> -Estava ha uns mezes no Hospicio, o seu padrinho, e a irmã não o podia -visitar. Era tal o seu abalo de nervos, era tal a emoção ao vel-o ali -naquella meia-prisão, decaindo delle mesmo que um ataque se seguia e -não podia ser evitado. -</p> - -<p> -Vinham ella e o pai, ás vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram -só os tres a visital-o. -</p> - -<p> -Aquelle domingo estava particularmente lindo, principalmente em -Botafogo, nas proximidades do mar e das montanhas altas que se -recortavam num céo de seda. O ar era macio e docemente o sol faiscava -nas calçadas. -</p> - -<p> -O pai vinha lendo os jornaes e ella, pensando, de quando em quando -folheando as revistas illustradas que trazia para alegrar e distrahir o -padrinho. -</p> - -<p> -Elle estava como pensionista; mas, embora assim, no começo, ella teve -um certo pudor em se misturar com os visitantes. -</p> - -<p> -Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar miserias; -recalcou porém, dentro de si esse pensamento egoista, o seu orgulho de -classe, e agora entrava naturalmente, pondo em mais destaque a sua -elegancia natural. Amava esses sacrificios, essas abnegações, tinha o -sentimento da grandeza delles, e ficou contente comsigo mesma. -</p> - -<p> -No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no -portão do manicomio. Como em todas as portas dos nossos infernos -sociaes, havia de toda a gente, de varias condições, nascimentos e -fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a -molestia passam tambem a sua razoura pelas distincções que inventamos. -</p> - -<p> -Os bem vestidos e os mal vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e -os bonitos, os intelligentes e os nescios, entravam com respeito, com -concentração, com uma ponta de pavor nos olhos como se penetrassem -noutro mundo. -</p> - -<p> -Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam; eram guloseimas, -fumo, meias, chinellas, ás vezes livros e jornaes. Dos doentes uns -conversavam com os parentes; outros mantinham-se calados, num mutismo -feroz e inexplicavel; outros indifferentes; e era tal a variedade de -aspectos dessas recepções que se chegava a esquecer o imperio da -doença sobre todos aquelles infelizes, tanto ella variava neste ou -naquelle, para se pensar em caprichos pessoaes, em dictames das vontades -livres de cada um. -</p> - -<p> -E ella pensava como esta nossa vida é variada e diversa, como ella é -mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como na variedade da -vida a tristeza póde mais variar que a alegria c como que dá o proprio -movimento da vida. -</p> - -<p> -Verificando isso, quasi teve satisfação, pois a sua natureza -intelligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu -espirito fazia. -</p> - -<p> -Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delirio parecia querer -desapparecer completamente. Chocando-se com aquelle meio, houve logo -nelle uma reacção salutar e necessaria. Estava doido, pois se o punham -ali... -</p> - -<p> -Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de -satisfação por baixo do bigode já grisalho. Tinha emmagrecido um -pouco, os cabellos pretos estavam um pouco brancos, mas o aspecto geral -era o mesmo. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar, -mas quando a mania lhe tomava ficava um tanto secco e desconfiado. Ao -vel-os disse amavelmente: -</p> - -<p> -—Então vieram sempre... Estava a espera... -</p> - -<p> -Cumprimentaram-se e elle deu mesmo um largo abraço na afilhada. -</p> - -<p> -—Como está Adelaide? -</p> - -<p> -—Bem. Mandou lembranças e não veiu porque... adiantou Coleoni. -</p> - -<p> -—Coitada! disse elle, e pendeu a cabeça como se quizesse afastar uma -recordação triste; em seguida, perguntou: -</p> - -<p> -—E o Ricardo? -</p> - -<p> -A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e -alegria. Via-o já escapo á semi-sepultura da insania. -</p> - -<p> -—Está bom, padrinho. Procurou papai ha dias e disse que a sua -aposentadoria já está quasi acabada. -</p> - -<p> -Coleoni tinha-se sentado. Quaresma tambem e a moça estava de pé, para -melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no -encarar. Guardas, internos e medicos passavam pelas portas com a -indifferença profissional. Os visitantes, não se olhavam, pareciam que -não queriam conhecer-se na rua. Lá fóra, era o dia lindo, os ares -macios, o mar infinito e melancolico, as montanhas a se recortar num -céo de seda—a belleza da natureza imponente e indecifravel. Coleoni, -embora mais assiduo nas visitas, notava as melhoras do compadre com -satisfação que errava na sua physionomia, num ligeiro sorriso. Num -dado momento aventurou: -</p> - -<p> -—O Major já está muito melhor; quer sahir? -</p> - -<p> -Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e -vagarosamente: -</p> - -<p> -—É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incommodar-te tanto, -mas vocês que têm sido tão bons, hão de levar tudo isso para conta -da propria bondade. Quem tem inimigos deve ter tambem bons amigos... -</p> - -<p> -O pai e a filha entreolharam-se; o Major levantou a cabeça e parecia -que as lagrimas queriam rebentar. A moça interveio de prompto: -</p> - -<p> -—Sabe, padrinho, vou casar-me. -</p> - -<p> -—É verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós vínhamos -prevenil-o. -</p> - -<p> -—Quem é teu noivo? perguntou Quaresma. -</p> - -<p> -—É um rapaz... -</p> - -<p> -—De certo, interrompeu o padrinho sorrindo. -</p> - -<p> -E os dous acompanharam-n'o com familiaridade e contentamento. Era um bom -signal. -</p> - -<p> -—É o Sr. Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho? fez -Olga gentilmente. -</p> - -<p> -—Então é para depois do fim do anno. -</p> - -<p> -—Esperamos que seja por ahi, disse o italiano. -</p> - -<p> -—Gostas muito delle? indagou o padrinho. -</p> - -<p> -Ella não sabia responder aquella pergunta. Queria sentir que gostava, -mas estava que não. E porque casava? Não sabia... Um impulso do seu -meio, uma cousa que não vinha della—não sabia... Gostava de outro? -Tambem não. Todos os rapazes que ella conhecia, não possuiam relevo -que a ferisse, não tinham o <i>que</i>, ainda indeterminado na sua emoção -e na sua intelligencia, que a fascinasse ou subjugasse. Ella não sabia -bem o que era, não chegava a extremar na percepção das suas -inclinações a qualidade que ella queria ver dominante no homem. Era o -heroico, era o fóra do commum, era a força de projecção para as -grandes cousas; mas nessa confusão mental dos nossos primeiros annos, -quando as idéas e os desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não -podia colher e registrar esse anhelo, esse modo de se representar e de -amar o individuo masculino. -</p> - -<p> -E tinha razão em se casar sem obedecer á sua concepção. É tão -difficil ver nitidamente num homem, de 20 a 30 annos, o que ella sonhara -que era bem possivel tomasse a nuvem por Juno... Casava por habito de -sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e -aguçar a sensibilidade. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu -sem convicção ao padrinho: -</p> - -<p> -—Gosto. -</p> - -<p> -A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rapida, -não convinha fatigar a attenção do convalescente. Os dous sahiram sem -esconder que iam esperançados e satisfeitos. -</p> - -<p> -Na porta ja havia alguns visitantes á espera do bonde. Como não -estivesse o vehiculo no ponto, foram indo ao longo da fachada do -manicomio até lá. Em meio do caminho, encontraram, encostada ao -gradil, uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ella: -</p> - -<p> -—Que tem, minha velha? -</p> - -<p> -A pobre mulher deitou sobre elle um demorado olhar, humido e doce, cheio -de uma irremediavel tristeza, e respondeu: -</p> - -<p> -—Ah! meu sinhô!... É triste... Um filho, tão bom, coitado! -</p> - -<p> -E continuou a chorar. Coleoni começou a commover-se; a filha olhou-a -com interesse e perguntou no fim de um instante: -</p> - -<p> -—Morreu? -</p> - -<p> -—Antes fosse sinhasinha. -</p> - -<p> -E por entre lagrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais, -não lhe respondia ás perguntas; era como um extranho. Enxugou as -lagrimas e concluiu: -</p> - -<p> -—<i>Foi cousa feita.</i> -</p> - -<p> -Os dous afastaram-se tristes, levando n'alma um pouco daquella humilde -dôr. -</p> - -<p> -O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a -face do mar em pequenas ondas brancas. O Pão de Assucar erguia-se -negro, hirto, solemne, das ondas espumejantes, e como que punha uma -sombra no dia muito claro. -</p> - -<p> -No Instituto dos Cégos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada -do instrumento parecia sahir daquellas cousas todas, da sua tristeza e -da sua solemnidade. -</p> - -<p> -O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no largo da Carioca. -É bom ver-se a cidade nos dias de descanço, com as suas lojas -fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os passos resoam como em -claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto, faltam-lhes as -carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e -gente. Na porta de uma loja ou outra, os filhos do negociante brincam em -velocipedes, atiram bolas e ainda mais se sente a differença da cidade -do dia anterior. -</p> - -<p> -Não havia ainda o habito de procurar os arrabaldes pittorescos e só -encontravam, por vezes, casaes que iam apressadamente a visitas, como -elles agora. O largo de S. Francisco estava silencioso e a estatua, no -centro daquelle pequeno jardim que desappareceu, parecia um simples -enfeite. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos -passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse á casa de -Quaresma. Lá foram. A tarde se approximava e as <i>toilettes</i> -domingueiras já appareciam nas janellas. Pretos com roupas claras e -grandes charutos ou cigarros; grupos de caixeiros com flores -estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas -anti-deluvianas ao lado de vestidos pesados de setim negro, envergados -em corpos fartos de matronas sedentarias; e o domingo apparecia assim -decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a -ostentação dos tolos. -</p> - -<p> -D. Adelaide não estava só. Ricardo viera visital-a e conversavam. -Quando o compadre de seu irmão bateu no portão, elle contava á velha -senhora o seu ultimo triumpho: -</p> - -<p> -—Não sei como ha de ser, D. Adelaide. Eu não guardo as minhas -musicas, não escrevo—é um inferno! -</p> - -<p> -O caso era de pôr um autor em maus lençóes. O Sr. Paysandon, de -Cordova (Republica Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade, -lhe tinha escripto, pedindo exemplares de suas musicas e canções. -Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escriptos, mas a musica -não. É verdade que as sabia de cór, porém, escrevel-as de uma hora -para outra era trabalho acima de sua força. -</p> - -<p> -—É o diabo! continuou elle. Não é por mim; a questão é que se -perde uma occasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro. -</p> - -<p> -A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A -sua educação que se fizera, vendo semelhante instrumento entregue a -escravos ou gente parecida, não podia admittir que elle preoccupasse a -attenção de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, supportava -a mania de Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima -pelo famoso trovador dos suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela -dedicação com que elle se houve no seu drama familiar. Os pequenos -serviços e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo -de Ricardo, que os desempenhara com boa vontade e diligencia. -</p> - -<p> -Actualmente era elle o encarregado de tratar da aposentadoria do seu -antigo discipulo. É um trabalho arduo, esse de liquidar uma -aposentadoria, como se diz na gyria burocratica. Aposentado o sujeito, -solemnemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e -funccionarios para ser ultimada. Nada ha mais grave do que a gravidade -com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o calculo; e a cousa -demora um mez, mais até, como se tratasse de mecanica celeste. -</p> - -<p> -Coleoni era o procurador do Major, mas não sendo entendido em cousas -officiaes, entregou ao Coração dos Outros aquella parte do seu -mandato. -</p> - -<p> -Graças á popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a -resistencia da machina burocratica e a liquidação estava annunciada -para breve. -</p> - -<p> -Foi isso que elle annunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da -filha. Pediram, tanto elle como D. Adelaide, noticias do amigo e do -irmão. -</p> - -<p> -A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise não o ficou -comprehendendo melhor; mas a sentira profundamente com o sentimento -simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura. -</p> - -<p> -Ricardo Coração dos Outros gostava do Major, encontrara nelle certo -apoio moral e intellectual de que precisava. Os outros gostavam de ouvir -o seu canto, apreciavam como simples dilletantes: mas o Major era o -unico que ia ao fundo da sua tentativa e comprehendia o alcance -patriotico do sua obra. -</p> - -<p> -De resto, elle agora soffria particularmente—soffria na sua gloria, -producto de um lenço e seguido trabalho de annos. É que apparecera um -creoulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era -citado ao lado do seu. -</p> - -<p> -Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser -preto; e segundo: por causa das suas theorias. -</p> - -<p> -Não é que elle tivesse ogeriza particular aos pretos. O que elle via -no facto de haver um preto famoso tocar violão, era que tal cousa ia -diminuir ainda mais o prestigio do instrumento. Se o seu rival tocasse -piano e por isso ficasse celebre, não havia mal algum; ao contrario: o -talento do rapaz levantava a sua pessoa, por intermedio do instrumento -considerado; mas, tocando violão, era o inverso: o preconceito que lhe -cercava a pessoa, desmoralisava o mysterioso violão que elle tanto -estimava. E além disso com aquellas theorias! Ora! querer que a modinha -diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice! -</p> - -<p> -E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim -diante delle como um obstaculo imprevisto na subida maravilhosa para a -sua gloria. Precisava afastal-o, esmagal-o, mostrar a sua superioridade -indiscutivel; mas como? -</p> - -<p> -A <i>reclame</i> já não bastava; o rival a empregava tambem. Se elle -tivesse um homem notavel, um grande literato, que escrevesse um artigo -sobre elle e a sua obra, a victoria estava certa. Era difficil -encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão -absorvidos em cousas francezas... Pensou num jornal, «O Violão», em -que elle desafiasse o rival e o esmagasse numa polemica. -</p> - -<p> -Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma, -actualmente recolhido ao Hospicio, mas felizmente em via de cura. A sua -alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor. -</p> - -<p> -—Não pude ir hoje, disse elle, mas irei domingo. Está mais gordo? -</p> - -<p> -—Pouca cousa, disse a moça. -</p> - -<p> -—Conversou bem, accrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube -que Olga ia casar-se. -</p> - -<p> -—Vai casar-se, D. Olga? Parabens. -</p> - -<p> -—Obrigada, fez ella. -</p> - -<p> -—Quando é Olga? perguntou D. Adelaide. -</p> - -<p> -—Lá para o fim do anno... Tem tempo... -</p> - -<p> -E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações -sobre o casamento. -</p> - -<p> -E ella se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as -considerações, impudentes e irritantes; queria fugir á conversa, mas -voltavam ao mesmo assumpto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide, mais -loquaz e curiosa que commumente. Esse supplicio que se repetia em todas -as visitas, quasi a fazia arrepender-se de ter acceitado o pedido. Por -fim achou um subterfugio, perguntando: -</p> - -<p> -—Como vai o General? -</p> - -<p> -—Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Elle deve andar bem, -a Ismenia é que anda triste, desolada coitadinha! -</p> - -<p> -D. Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha -do General. Cavalcanti, aquelle Jacob de cinco annos, embarcara para o -interior, ha tres ou quatro mezes e não mandara nem uma carta nem um -cartão. A menina tinha aquillo como um rompimento; e ella, tão incapaz -de um sentimento mais profundo, de uma applicação mais seria de -energia mental e physica, sentia-o muito, como cousa irremediavel que -absorvia toda a sua attenção. -</p> - -<p> -Para Ismenia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado -de existir. Arranjar outro era problema insoluvel, era trabalho acima de -suas forças. Cousa difficil! Namorar, escrever cartinhas, fazer acenos, -dançar, ir a passeios—ella não podia mais com isso. Decididamente, -estava condemnada a não se casar, a ser tia, a supportar durante toda a -existencia esse estado de solteira que a apavorava. Quasi não se -lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz -duro e fortemente osseo; independente da memoria delle, vinha-lhe sempre -á consciencia, quando, de manhã, o estafeta não lhe entregava carta, -essa outra idéa: não casar. Era um castigo... A Quinota ia casar-se, o -Genelicio já estava tratando dos papeis; e ella que esperam tanto, e -fôra a primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada diante de -todas. Parecia até que ambos estavam contentes com aquella fuga -inexplicavel de Cavalcanti. Como elles se riam durante o Carnaval! Como -elles atiraram aos seus olhos aquella sua viuvez prematura, durante os -folguedos carnavalescos! Punham tanta furia no jogo de confetes e -bisnagas, de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos, aquella -marcha gloriosa e invejava para o casamento, em face do seu abandono. -</p> - -<p> -Ella disfarçava bem a impressão da alegria delles que lhe parecia -indecente e hostil; mas o escarneo da irmã que lhe dizia -constantemente: «Brinca, Ismenia! Elle está longe, vai -aproveitando»—metia-lhe raiva, a raiva terrivel de gente fraca, que -corróe interiormente, por não poder arrebentar de qualquer forma. -</p> - -<p> -Então, para espantar os máus pensamentos, ella se punha a olhar o -aspecto pueril da rua, marchetada de papeluchos multicores, e as -serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem á sua -natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquelle ruido de -atabaques, e adufes, de tambores e pratos. Mergulhando nessa barulheira, -o seu pensamento repousava e como que a idéa que a perseguia desde -tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça. -</p> - -<p> -De resto, aquelles vestuarios extravagantes de indios, aquelles adornos -de uma mythologia francamente selvagem, jacarés, cobras, jabotys, -vivos, bem vivos, traziam á pobreza de sua imaginação imagens -risonhas de rios claros, florestas immensas, logares de socego e pureza -que a reconfortavam. -</p> - -<p> -Tambem aquellas cantigas gritadas, berradas, num rytmo duro e de uma -grande indigencia melodica, vinham como reprimir a magua que ia nella, -abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão de gritos, mas -para o que não lhe sobrava força bastante e sufficiente. -</p> - -<p> -O noivo partira um mez antes do Carnaval e depois do grande festejo -carioca a sua tortura foi maior. Sem habito de leitura e de conversa, -sem actividade domestica qualquer, ella passava os dias deitada, -sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe -doce chorar. -</p> - -<p> -Nas horas da entrega da correspondencia, tinha ainda uma alegre -esperança. Talvez? Mas a carta não vinha, e, voltava ao seu -pensamento: não casar. -</p> - -<p> -D. Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismenia, commentou: -</p> - -<p> -—Merecia um castigo isso, não acham? -</p> - -<p> -Coleoni interveio com brandura e boa vontade. -</p> - -<p> -—Não ha razão para desesperar. Ha muita gente que tem preguiça de -escrever... -</p> - -<p> -—Qual! fez D. Adelaide. Ha tres mezes, sr. Vicente! -</p> - -<p> -—Não volta, disse Ricardo sentenciosamente. -</p> - -<p> -—E ella ainda o espera, D. ADelaide? perguntou Olga. -</p> - -<p> -—Não sei, minha filha. Ninguem entende essa moça. Fala pouco, se fala -diz meias-palavras... É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem -nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não fala. -</p> - -<p> -—É orgulho? perguntou ainda Olga. -</p> - -<p> -—Não, não... Se fosse orgulho, ella não se referia de vez em quando -ao noivo. É antes molleza, preguiça... Parece que ella tem medo de -falar para que as cousas não venham acontecer. -</p> - -<p> -—E os paes que dizem a isso? indagou Coleoni. -</p> - -<p> -Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incommodo do General não é -grande e D. Maricota julga que ella deve arranjar <i>outro</i>. -</p> - -<p> -—Era o melhor, disse Ricardo. -</p> - -<p> -—Eu creio que ella não tem mais pratica, disse sorrindo D. Adelaide. -Levou tanto tempo noiva... -</p> - -<p> -E a conversa já tinha virado para outros assumptos, quando a Ismenia -veiu fazer a sua visita diaria á irmã de Quaresma. -</p> - -<p> -Cumprimentou todos e todos sentiram que ella penava. O soffrimento -dava-lhe mais actividade á physionomia. -</p> - -<p> -As palpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham -mais brilho e expansão. Indagou da saude de Quaresma e depois -calaram-se um instante. Por fim D. Adelaide lhe perguntou: -</p> - -<p> -—Recebeste carta, Ismenia? -</p> - -<p> -—Ainda não, respondeu ella com grande economia de voz. -</p> - -<p> -Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num <i>dunkerque</i>, veiu -atirar ao chão uma figurinha de <i>biscuit</i>, que se esphacelou em -innumeros fragmentos, quasi sem ruido. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="Segunda">SEGUNDA PARTE</a></h4> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap01_2"></a></h4> - -<h4>I -<br /><br /> -NO «SOCEGO»</h4> - -<p> -Não era feio o logar, mas não era bello. Tinha, entretanto, o aspecto -tranquillo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte. -</p> - -<p> -A casa erguia-se sobre um socalco, uma especie de degrau, formando a -subida para, a maior altura de uma pequena collina que lhe corria nos -fundos. Em frente, por entre os bambús da cerca, olhava uma planicie a -morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regalo de aguas paradas e -sujas cortava-a parallemente á testada da casa; mais adeante, o trem -passava vincando a planicie com a fita clara de sua linha capinada; um -carreiro, com casas, de um e do outro lado, sahia da esquerda e ia ter -á estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A -habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte, olhando para o -levante, a <i>noruega</i>, e era tambem risonha e graciosa nos seus muros -caiados. Edificada com a desoladora indigencia architectonica das nossas -casas de campo, possuia, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com -janella, e uma varanda com uma columnata heterodoxa. Além desta -principal, o sitio do «Socego», como se chamava, tinha outras -construcções: a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto -e a roda desmontada, e uma estrebaria coberta de sapê. -</p> - -<p> -Não havia tres mezes que viera habitar aquella casa, naquelle ermo -logar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro, após ter passado seis -mezes no Hospicio da praia das Saudades. Sahira curado? Quem sabe lá? -Parecia: não delirava e os seus gestos e propositos eram do homem -commum embora, sob tal apparencia, se pudesse sempre crer que não se -lhe despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que -cevara durante tantos annos. Foram mais seis mezes de repouzo e util -sequestração que mesmo de uso de uma therapeutica psychiatrica. -</p> - -<p> -Quaresma viveu lá, no manicomio, resignadamente, conversando com os -seus companheiros, onde via ricos que se diziam pobres, pobres que se -queriam ricos, sabios a mal dizer da sabedoria, ignorantes a se -proclamarem sabios; mas, delles todos, daquelle que mais se admirou, -foi de um velho e placido negociante da rua dos Pescadores que se -suppunha Attila. Eu, dizia o pacato velho, sou Attila, sabe? Sou Attila. -Tinha fracas noticias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou -Attila, matei muita gente—e era só. -</p> - -<p> -Sahiu o Major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as -cousas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais -depressora e pungente. -</p> - -<p> -Aquella continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo -imperceptivel, mas profundo e quasi sempre insondavel, que a inutiliza -inteiramente, faz pensar em alguma cousa mais forte que nós, que nos -guia, que nos impelle e em cujas mãos somos simples joguetes. Em varios -tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão -nisso no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco -desarrazoar, pensamos logo que já não é elle quem fala, é alguém, -alguém que vê por elle, interpreta as cousas por elle, está atraz -delle, invisivel!... -</p> - -<p> -Quaresma sahiu envolvido, penetrado da tristeza do manicomio. Voltou á -sua casa, mas a vista das suas cousas familiares não lhe tirou a forte -impressão de que vinha impregnado. Embora nunca tivesse sido alegre, a -sua physionomia apresentara mais desgosto que antes, muito abatimento -moral, e foi para levantar o animo que se recolheu áquella risonha casa -de roça, onde se dedicava a modestas culturas. -</p> - -<p> -Não fora elle, porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe -á idéa aquelle doce acabar para a sua vida. Vendo-o naquelle estado de -abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sahir, enclausurado em sua -casa de São Cristovam, Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e -filialmente: -</p> - -<p> -—O padrinho porque não compra um sitio? Seria tão bom fazer as suas -culturas, ter o seu pomar, a sua horta... não acha? -</p> - -<p> -Tão taciturno que elle estivesse, não pôde deixar de modificar -immediatamente a sua physionomia á lembrança da moça. Era um velho -desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna; e -foi lembrando dos seus antigos projectos que respondeu á afilhada: -</p> - -<p> -—É verdade, minha filha. Que magnifica idéa, tens tu! Ha por ahi -tantas terras ferteis sem emprego... A nossa terra tem os terrenos mais -ferteis do mundo... O milho póde dar até duas colheitas e quatrocentos -por um... -</p> - -<p> -A moça esteve quasi arrependida da sua lembrança. Pareceu-lhe que ia -atêar no espirito do padrinho manias já extinctas. -</p> - -<p> -—Em toda a parte—não acha, meu padrinho?—ha terras -ferteis. -</p> - -<p> -—Mas como no Brasil, apressou-se elle em dizer, ha poucos paizes que -as tenham. Vou fazer o que tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o -feijão, a batata ingleza... Tu irás ver as minhas culturas, a minha -horta, o meu pomar—então é que te convencerás como são fecundas as -nossas terras! -</p> - -<p> -A idéa cahiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado -e só estirava uma bôa semente. Não lhe voltou a alegria que jamais -teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento moral, e veiu-lhe a -actividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos. Indagou -dos preços correntes das fructas, dos legumes, das batatas, dos aipins; -calculou que cincoenta laranjeiras, trinta abacateiras, oitenta -pecegueiros, outras arvores fruticferas, além dos abacaxis (que mina!) -das aboboras e outros productos menos importantes, podiam dar o -rendimento annual de mais de quatro contos, tirando as despezas. Seria -ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus calculos, baseados em tudo -no que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura -Nacional. Levou em linha de conta a producção média de cada pé de -fructeira, de hectare cultivado, e tambem os salarios, as perdia -inevitaveis; e, quanto aos preços, elle foi em pessoa no mercado -buscal-os. -</p> - -<p> -Planejou a sua vida agricola com a exactidão e meticulosidade que punha -em todos os seus projectos. Encarou-a por todas as faces, pezou as -vantagens e onus; e muito contente ficou em vel-a monetariamente -attrahente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso -mais uma demonstração das excellencias do Brasil. -</p> - -<p> -E foi obedecendo a essa ordem de idéas que comprou aquelle sitio, cujo -nome—«Socego»—cabia tão bem á nova vida que adoptara, após a -tempestade que o sacudira durante quasi um anno. Não ficava longe do -Rio e elle o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado, para melhor -demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho, no trabalho -agricola. Esperava grandes colheitas de fructas, de grãos, de legumes; -e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores, estando em breve a -grande capital cercada de um verdadeiro celleiro, virente e abundante a -dispensar os argentinos e europeus. -</p> - -<p> -Com que alegria elle foi para lá! Quasi não teve saudades de sua velha -casa de S. Januario, agora propriedade de outras mãos, talvez destinada -ao mercenario mister de lar de aluguel... Não sentiu que aquella vasta -sala, abrigo calmo dos seus livros durante tantos annos, fosse servir -para salão de baile futil, fosse testemunhar talvez rixas de casaes -desentendidos, odios de familia—ella tão boa, tão doce, tão -sympathica, com o seu tecto alto e as suas paredes lisas, em que se -tinham encrustado os desejos de sua alma e toda ella penetrada da -exhalação dos seus sonhos!... -</p> - -<p> -Elle foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro -contos de réis por anno, tirados da terra, facilmente, docemente, -alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser -empregado publico, apodrecer numa banca, soffrer na sua independencia e -no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem -ar, sem luz, respirar um ambiente epidemico, sustentar-se de maus -alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, -livre, alegre e saudavel? -</p> - -<p> -E era agora que elle chegava a essa conclusão, depois de ter soffrido a -miseria da cidade e o emasculamento da repartição publica, durante -tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto de que não pudesse antes -da morte travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade -das terras brasileiras. Então pensou que foram vãos aquelles seus -desejos de reformas capitaes nas instituições e costumes: o que era -principal á grandeza da patria estremecida, era uma forte base -agricola, um culto pelo seu solo uberrimo, para alicerçar fortemente -todos os outros destinos que ella tinha de preencher. -</p> - -<p> -Demais, com terras tão ferteis, climas variados, a permittir uma -agricultura facil e rendosa, este caminho estava naturalmente indicado. -</p> - -<p> -E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras, em flôr, -olentes, muito brancas, a se enfileirar pelas encostas das collinas, -como theorias de noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar -com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar -dos caules rijos; os abacaxis coroados que nem reis, recebendo a -uncção quente do sol; as abobreiras a se arrastarem com flores -carnudas cheias de pollen; as melancias de um verde tão fixo que -parecia pintado; os pecegos veludosos, as jacas monstruosas, os jambos, -as mangas capitosas; e dentre tudo aquillo surgia uma linda mulher, com -o regaço cheio de fructos e um dos hombros nu, a lhe sorrir agradecida, -com um imaterial sorriso demorado de deusa—era Pomona, a deusa dos -vergeis e dos jardins!... -</p> - -<p> -As primeiras semanas que passou no «Socego», Quaresma as empregou numa -exploração em regra da sua nova propriedade. Havia nella terra -bastante, velhas arvores fructiferas, um capoeirão grosso com camarás, -bacurubús, tinguacibas, tibibuyas, munjólos, e outros specimens. -Anastacio que o acompanhara, appelava para as suas recordações de -antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava os nomes dos individuos -da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras. -</p> - -<p> -O Major logo organizou um museu dos productos naturaes do «Socego». As -especies florestaes e campezinas foram etiquetadas com os seus nomes -vulgares, e quando era possivel com os scientificos. Os arbustos, em -herbario e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e -transversalmente. -</p> - -<p> -Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as sciencias naturaes e -o furor auto-didacta dera a Quaresma solidas noções de botanica, -zoologia, mineralogia e geologia. -</p> - -<p> -Não foram só os vegetaes que mereceram as honras de um inventario; os -animaes tambem, mas como elle não tinha espaço sufficiente e a -conservação dos exemplares exigia mais cuidado, Quaresma limitou-se a -fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas -de tatús, cotias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs, -avinhados, colleiros, tyês, etc. A parte mineral era pobre, argillas, -arêa e, aqui e ali, uns blocos de granito exfoliando-se. -</p> - -<p> -Acabado esse inventario, passou duas semanas a organizar a sua -bibliotheca agricola e uma relação de instrumentos metereologicos para -auxiliar os trabalhos da lavoura. -</p> - -<p> -Encommendou livros nacionaes, francezes, portuguezes; comprou -thermometros, barometros, pluviometros, hygrometros, anemometros. Vieram -estes e foram arrumados e collocados convenientemente. -</p> - -<p> -Anastacio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que -tanta cousa, tanto livro, tanto vidro? Estaria o seu amigo patrão dando -para pharmaceutico? A duvida do preto velho não durou muito. Estando -certa vez Quaresma a ler o pluviometro, Anastacio, ao lado, olhava-o -espantado, como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou -o espanto do criado, e disse: -</p> - -<p> -—Sabes o que estou fazendo, Anastacio? -</p> - -<p> -—Não <i>sinhô</i>. -</p> - -<p> -—Estou vendo se choveu muito. -</p> - -<p> -—Para que isso, patrão? A gente sabe logo <i>de olho</i> quando chove -muito ou pouco... Isso de plantar é capim; pôr a semente na terra, deixar -crescer e apanhar... -</p> - -<p> -Elle falava com a sua voz molle de africano, sem <i>rr</i> fortes, com -lentidão e convicção. -</p> - -<p> -Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consideração o -conselho de seu empregado. O capim e o matto cobriam as suas terras. As -larangeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos, cheios de -galhos mortos, e cobertos de uma medusina cabelleira de herva de -passarinho; mas, como não fosse época propria á póda e ao corte dos -galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras. -De manhã, logo ao amanhecer, elle mais o Anastacio, lá iam, de enxada -ao hombro, para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão, -estava no auge, mas Quaresma era inflexível e corajoso. Lá ia. -</p> - -<p> -Era de vel-o, coberto com um chapéo de palha de côco, atracado a um -grande enxadão de cabo nodoso, elle, muito pequeno, myope, a dar golpes -sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. A sua enxada mais -parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento agricola. -Anastacio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto -andar naquelle sól a capinar sem saber?... Ha cada cousa neste mundo! -</p> - -<p> -E os dous iam continuando. O velho preto, ligeiro, rapido, raspando o -matto rasteiro, com a mão habituada, a cujo impulso a enxada resvalava -sem obstaculo pelo solo, destruindo a herva má; Quaresma, furioso, a -arrancar torrões de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada -arbusto; e, ás vezes, quando o golpe falhava e a lamina do instrumento -roçava a terra, a força era tanta que se erguia uma poeira infernal, -fazendo suppor que por aquellas paragens passara um pelotão de -cavallaria. Anastacio, então, intervinha humildemente, mas em tom -professoral: -</p> - -<p> -—Não é assim, <i>seu majó</i>. Não se mette a enxada pela terra a -dentro. É de leve, assim. -</p> - -<p> -E ensinava ao Cincinato inexperiente o geito de servir-se do velho -instrumento de trabalho. -</p> - -<p> -Quaresma agarrava-o, punha-se em posição e procurava com toda a boa -vontade usal-o da maneira ensinada. Era em vão. O <i>flange</i> batia na -herva, a enxada saltava e ouvia-se um passaro ao alto soltar uma piada -ironica: Bemtevi! O Major enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se, -suava, enchia-se de raiva e batia com toda a força; e houve varias -vezes que a enxada, batendo em falso, escapando do chão, fel-o perder o -equilibrio, cahir, e beijar a terra, mãe dos fructos e dos homens. O -pince-nez saltava, partia-se de encontro a um seixo. -</p> - -<p> -O Major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia á -tarefa que se impuzera; mas, tanto é em nossos musclos firme a memoria -ancestral desse sagrado trabalho de tirar da terra o sustento de nossa -vida, que não foi impossivel a Quaresma acordar nos seus o geito, a -maneira de empregar a enxada vetusta. -</p> - -<p> -Ao fim de um mez, elle capinava razoavelmente, não seguido, de sol a -sol, mas com grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta de -habito requeriam. -</p> - -<p> -Ás vezes, o fiel Anastacio seguia-o no descanço e ambos, lado a lado, -á sombra de uma fructeira mais copada, ficavam a ver o ar pesado -daquelles dias de verão que enrodilhava as folhas das arvores e punha -nas cousas um forte accento de resignação morbida. Então, ahi por -depois do meio dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar -em silencio a vida inteira, é que o velho Major percebia bem a alma -dos tropicos, feita de desencontros como aquelle que se via agora, de um -sol alto, claro, olympico a brilhar sobre um torpor de morte, que elle -mesmo provocava. -</p> - -<p> -Almoçavam mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente -sobre um improvisado fogão de calháos, e o trabalho ia assim ate á -hora do jantar. Havia em Quaresma um enthusiasmo sincero, enthusiasmo de -ideologo que quer pôr em pratica a sua idéa. Não se agastou com as -primeiras ingratidões da terra, aquelle seu morbido amor pelas hervas -damninhas e o incomprehensivel odio pela enxada fecundante. Capinava, e -capinava sempre até vir jantar. -</p> - -<p> -Esta refeição elle fazia mais demorada. Conversava um pouco com a -irmã, contava-lhe a tarefa do dia, consistindo sempre em avaliar a area -já limpa. -</p> - -<p> -—Sabes, Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas, não ficará -nem mais uma touceira de matto. -</p> - -<p> -A irmã, mais velha que elle, não partilhava aquelle seu enthusiasmo -pelas cousas da roça. Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com -elle, não foi senão pelo habito de acompanhal-o. De certo, ella o -estimava, mas não o comprehendia. Não chegava a entender nem os seus -gestos nem a sua agitação interna. Porque não seguira elle o caminho -dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito... -Andar com livros, annos e annos, para não ser nada, que doideira! -Scguira-o ao «Socego» e, para entreter-se, criava gallinhas, com -grande alegria do irmão cultivador. -</p> - -<p> -—Está direito, dizia ella, quando o irmão lhe contava as cousas do -seu trabalho. Não vá ficares doente... Neste sol todo o dia... -</p> - -<p> -—Qual, doente, Adelaide! Não estas vendo como essa gente tem tanta -saude por ahi... Se adoecem, é porque não trabalham. -</p> - -<p> -Acabado o jantar. Quaresma chegava á janella que dava para o -gallinheiro e atirava migalhas de pão ás aves. -</p> - -<p> -Elle gostava desse espectaculo, daquella luta encarniçada entre patos, -ganços, gallinhas, pequenos e grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da -vida e dos premios que ella comporta. Depois, fazia indagações sobre -a vida do gallinheiro: -</p> - -<p> -—Já, nasceram os patos, Adelaide? -</p> - -<p> -—Ainda não. Faltam oito dias ainda. -</p> - -<p> -E logo a irmã accrescentava: -</p> - -<p> -—Tua afilhada deve casar-se sabbado, tu não vaes? -</p> - -<p> -—Não. Não posso... Vou encommodar-me, luxo... Mando um leitão e um -perú. -</p> - -<p> -—Ora, tu! Que presente! -</p> - -<p> -—Que é que tem? É da tradição. -</p> - -<p> -Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala -de jantar da velha casa roceira, quando Anastacio veiu avisar-lhes que -se achava um cavalheiro na porteira. -</p> - -<p> -Desde que ali se installara, nenhuma visita batera á porta de Quaresma, -a não ser a gente pobre do logar, a pedir isso ou aquillo, esmolando -disfarçadamente. Elle mesmo não travara conhecimento com ninguem, de -modo que foi com surpreza que recebeu o aviso do velho preto. -</p> - -<p> -Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Elle já subia -a pequena escada da frente e penetrava pela varanda a dentro. -</p> - -<p> -—Boas tardes, Major. -</p> - -<p> -—Boas tardes. Faça o favor de entrar. -</p> - -<p> -O desconhecido entrou e sentou-se. Era um typo commum, mas o que havia -nelle de extranho, era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas -tinha um aspecto deshonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a -mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim -como a de um lagarto que enthezoura enxundia para o inverno ingrato. -Atravez da gordura de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua -magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era naquella idade, -com pouco mais de trinta annos, sem dar tempo que todo elle engordasse; -porque, se as suas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras -com longos dedos fusiformes e ageis. O visitante falou: -</p> - -<p> -—Eu sou o Tenente Antonino Dutra escrivão da collectoria. -</p> - -<p> -—Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma. -</p> - -<p> -—Nenhuma, Major. Já sabemos quem o senhor é; não ha novidade nem -nenhuma exigencia legal. -</p> - -<p> -O escrivão tossiu, tirou um cigarro, offereceu outro a Quaresma e -continuou: -</p> - -<p> -—Sabendo que o Major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de -vir incommodal-o... Não é cousa de importancia... Creio que o Major... -</p> - -<p> -—Oh! Por Deus, Tenente! -</p> - -<p> -—Venho pedir-lhe um pequeno auxilio, um obulo, para a festa da -Conceição, a nossa padroeira, de cuja irmandade sou thesoureiro. -</p> - -<p> -—Perfeitamente. É muito justo. Apezar de não ser religioso, estou... -</p> - -<p> -—Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do logar que devemos -manter. -</p> - -<p> -—É justo. -</p> - -<p> -—O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a -irmandade tambem, de forma que somos obrigados a appellar para a boa -vontade dos moradores mais remediados. Desde já, portanto, Major... -</p> - -<p> -—Não. Espere um pouco... -</p> - -<p> -—Oh! Major, não se incommode. Não é p'ra já. -</p> - -<p> -Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fóra e -accrescentou: -</p> - -<p> -—Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, Major? -</p> - -<p> -—Muito bem. -</p> - -<p> -—Pretende dedicar-se á agricultura? -</p> - -<p> -—Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça. -</p> - -<p> -—Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sitio já foi uma -lindeza, Major! Quanta fructa! Quanta farinha! As terras estão -cançadas e... -</p> - -<p> -—Que cançadas, seu Antonino! Não ha terras cançadas.... A Europa é -cultivada ha milhares de annos, entretanto... -</p> - -<p> -—Mas lá se trabalha. -</p> - -<p> -—Porque não se ha de trabalhar aqui tambem? -</p> - -<p> -—Lá isso é verdade; mas ha tantas contrariedades na nossa terra -que... -</p> - -<p> -—Qual, meu caro Tenente! Não ha nada que não se vença. -</p> - -<p> -—O Sr. verá com o tempo, Major. Na nossa terra não se vive senão de -politica, fóra disso, ba-báo! Agora mesmo anda tudo brigado por causa -da questão da eleição de deputados... -</p> - -<p> -Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas palpebras gordas -um olhar pesquizador sobre a ingenua physionomia de Quaresma. -</p> - -<p> -—Que questão é? indagou Quaresma. -</p> - -<p> -O Tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria: -</p> - -<p> -—Então não sabe? -</p> - -<p> -—Não. -</p> - -<p> -—Eu lhe explico: o candidato do Governo é o Dr. Castrioto, moço -honesto, bom orador; mas entenderam aqui certos presidentes de Camaras -Municipaes do Districto que se hão de sobrepor ao Governo, só porque -o Senador Guaryba rompeu com o Governador: e—zás—apresentaram -um tal Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influencia... -Que pensa o Senhor? -</p> - -<p> -—Eu... Nada! -</p> - -<p> -O serventuario do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que, -sabendo e morando no Municipio de Curuzú, não se incommodasse com a -briga ao Senador Guaryba com o Governador do Estado! Não era possivel! -Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse elle consigo, este -malandro quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem -difficuldade. Estava tirando sardinha com mão de gato... Aquillo devia -ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as azas daquelle -<i>estrangeiro</i>, que vinha não se sabe donde! -</p> - -<p> -—O Major é um philosopho, disse elle com malicia. -</p> - -<p> -—Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma. -</p> - -<p> -Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão, -mas, desanimado de penetrar nas tenções occultas do Major, apagou a -physionomia e disse em ar de despedida: -</p> - -<p> -—Então o Major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é? -</p> - -<p> -—De certo. -</p> - -<p> -Os dous se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vel-o -montar no seu pequeno castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O -escrivão afastou-se, desappareceu na estrada, e o Major ficou a pensar -no interesse extranho que essa gente punha nas lutas politicas, nessas -tricas eleitoraes, como se nellas houvesse qualquer cousa de vital e -importante. Não atinara porque uma resinga entre dous figurões -importantes vinha pôr desharmonia entre tanta gente, cuja vida estava -tão fóra da esphera daquelles. Não estava ali a terra boa para -cultivar e criar: Não exigia ella uma ardua luta diaria? Porque não se -empregava o esforço que se punha naquelles barulhos de votos, de actas, -no trabalho de fecundal-a, de tirar della seres, vidas—trabalho igual -ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e -guarybas, quando a nossa vida pede tudo à terra e ella quer carinho, -luta, trabalho e amor... -</p> - -<p> -O suffrageo universal pareceu-lhe um flagello. -</p> - -<p> -O trem apitou e elle demorou-se a vel-o chegar. É uma emoção especial -de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos -põem em communicação com o resto do mundo. Ha uma mescla de medo e -de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se tambem -más. A alternativa angustia... -</p> - -<p> -O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mysterio, e traz, -além de noticias geraes, bôas ou más tambem o gosto, um sorriso, a -voz das pessoas que amamos e estão longe. -</p> - -<p> -Quaresma esperou o trem. Elle chegou arfando e se extirando como um -reptil pela estação afóra á luz forte do sol no poente. Não se -demorou muito. Apitou de novo e sahiu a levar noticias, amigos, -riquezas, tristezas por outras estações além. O Major pensou ainda um -pouco como aquillo era bruto e feio, e como as invenções do nosso -tempo se afastam tanto da linha imaginaria da belleza que os nossos -educadores de dous mil annos atrás nos legaram. Olhou a estrada que -levava á estação. Vinha um sujeito... Dirigia-se para a sua casa... -Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que -caminhava com pressa... Quem era? Aquelle chapéo dobrado, como um -morrião... Aquelle fraque comprido... Passo miudo... Um violão! Era -elle! -</p> - -<p> -—Adelaide está ahi o Ricardo. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap02_2"></a></h4> - -<h4>II -<br /><br /> -ESPINHOS E FLORES</h4> - -<p> -Os suburbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em materia de -edificação de cidade. A topographia do local, caprichosamente -montuosa, influiu de certo para tal aspecto, mais influiram, porém, os -azares das construcções. -</p> - -<p> -Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser -imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, -conforme as casas, as ruas se fizeram. Ha algumas dellas que começam -largas como «boulevards» e acabam estreitas que nem viellas; dão -voltas, circuitos inuteis e parecem fugir ao alinhamento recto com um -odio tenaz e sagrado. -</p> - -<p> -Ás vezes se succedem na mesma direcção com uma frequencia irritante, -outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervallo coheso e -fechado de casas. Num trecho, ha casas amontoadas umas sobre outras numa -angustia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao -nosso olhar uma ampla perspectiva. -</p> - -<p> -Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. -Ha casas de todos os gostos e construidas de todas as formas. -</p> - -<p> -Vai-se por uma rua a ver um correr de «chalets», de porta e janella, -parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma -casa burgueza, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer -sobre um porão alto com mezzaninos gradeados. Passada essa surpreza, -olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau a pique, coberta de -zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, -é uma velha casa de roça, com varanda e columnas de estylo pouco -classificavel, que parece vexada e querer occultar-se, diante daquella -onda de edificios disparatados e novos. -</p> - -<p> -Não ha nos nossos suburbios cousa alguma que nos lembre os famosos das -grandes cidades européas, com as suas villas de ar repousado e -satisfeito, as suas estradas e ruas macadamisadas e cuidadas, nem mesmo -se encontram aquelles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, -porque os nossos, se os ha, são em geral pobres, feios e desleixados. -</p> - -<p> -Os cuidados municipaes tambem são variaveis e caprichosos. Ás vezes, -nas ruas, ha passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de -communicação são calçadas e outras da mesma importancia estão ainda -em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre -um rio secco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma -pinguella de trilhos mal juntos. -</p> - -<p> -Ha pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo -que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; ha operarios de -tamancos; ha peralvilhos á ultima moda: ha mulheres de chita; e assim -pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla -se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quasi sempre o mais bem posto -não é que entra na melhor casa. -</p> - -<p> -Alem disto, os suburbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no -namoro epidemico e no espiritismo endemico; as casas de commodos (quem -as supporia lá!) constituem um delles bem inedito. Casas que mal dariam -para uma pequena familia, são divididas, subdivididas, e os minusculos -aposentos assim obtidos, alugados á população miseravel da cidade. -Ahi, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos -observada da nossa vida, sobre a qual a miseria paira com um rigor -londrino. -</p> - -<p> -Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da -gente que habita taes caixinhas. Além dos serventes de repartições, -continuos de escriptorios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas -de bilros, compradores de garrafas vasias, castradores de gatos, cães e -gallos, mandingueiros, catadores de hervas medicinaes, emfim, uma -variedade de profissões miseraveis que as nossas pequena e grande -burguezias não podem adivinhar. Ás vezes num cubiculo desses se -amontoa uma familia, e ha occasiões que os seus chefes vão a pé para -a cidade por falta da nickel do trem. -</p> - -<p> -Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de commodos de um -dos suburbios. Não era das sordidas, mas era uma casa de commodos dos -suburbios. -</p> - -<p> -Desde annos que elle a habitava e gostava da casa que ficava trepada -sobre uma collina, olhando a janella do seu quarto para uma ampla -extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. Vistos assim do -alto, os suburbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de -azul, de branco, de óca, engastadas nas comas verde-negras das -mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira, -alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho -das ruas põe no panorama um sabor do confusão democratica, de -solidariedade perfeita entre as gentes que as habitam; e o trem -minusculo, rapido, atravessa tudo aquillo, dobrando d esquerda, -inclinando-se para a direita, muito flexivel nas suas grandes vertebras -de carros, como uma cobra entre pedrouços. -</p> - -<p> -Era daquella janella que Ricardo, espraiava as suas alegrias, as suas -satisfações, os seus triumphos e tambem os seus soffrimentos e maguas. -</p> - -<p> -Ainda agora estava elle lá, debruçado no peitoril, com a mão em -concha no queixo, colhendo com a vista uma grande parte daquella bella, -grande e original cidade, capital de um grande paiz de que elle a modos -que era e se sentia ser, a alma, consubstanciando os seus tenues sonhos -e desejos em versos discutiveis, mas que a plangencia do violão, se -não lhes dava sentido, dava um que de balbucio, de queixume dorido da -patria criança ainda, ainda na sua formação... -</p> - -<p> -Em que pensava elle? Não pensava só, soffria tambem. Aquelle tal preto -continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma cousa, e -tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival delle, Ricardo; outros -já affirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros, e -alguns mais—ingratos!—já esqueciam os trabalhos, o tenaz -trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em pról do levantamento da modinha -e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro. -</p> - -<p> -Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infancia, daquella sua -aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido -dos vitellos. E o queijo? Aquelle queijo tão substancial, tão forte, -feio como aquella terra, mas feraz como ella tanto que bastava comer -delle uma pequena fatia para se sentir almoçado... E as festas? -Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o Maneco Borges, -não lhe predissera o futuro: «Irás longe, Ricardo. A viola quer teu -coração». -</p> - -<p> -Por que então aquelle encarniçamento, aquelle odio contra elle—elle -que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma, o suco, a -substancia do paiz! -</p> - -<p> -E as lagrimas lhe saltaram quentes dos olhos afóra. Olhou um pouco as -montanhas, farejou o mar lá longe... Era bella a terra, era linda, era -magestosa, mas parecia ingrata e aspera no seu granito omnipresente que -se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das arvores. -</p> - -<p> -E elle estava ali só, só com a sua gloria e o seu tormento, sem amor, -sem confidente, sem amigo, só como um deus ou como um apostolo em terra -ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova. -</p> - -<p> -Soffria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse aquellas -lagrimas que iam cahir no solo indifferente. Por ahi, lembrou-se dos -famosos versos: <i>Se choro... bebe o pranto a areia ardente</i>... -</p> - -<p> -Com a lembrança, elle baixou um pouco o olhar á terra e viu que no -tanque da casa, um tanto escondida delle, uma rapariga preta lavava. -Ella abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso, -ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro á pedra, e recomeçava. Teve -pena daquella pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua -côr. Veiu-lhe um afflux de ternura e, depois, poz-se a pensar no mundo, -nas desgraças, ficando um instante enleiado no enigma do nosso -miseravel destino humano. -</p> - -<p> -A rapariga não o viu, distrahida com o trabalho; e se pôz a cantar: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Da doçura dos teus olhos</i></span><br /> -<span class="i2"><i>A brisa inveja já vem</i></span> -</div></div> - -<p> -Era delle. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquella -pobre mulher, abraçal-a... -</p> - -<p> -E como eram as cousas? Elle recebia lenitivo daquella rapariga; era a -sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe -então á memoria aquelles versos do padre Caldas, esse seu antecessor -feliz que teve um auditorio de fidalgas: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Lereno alegrou os outros</i></span><br /> -<span class="i2"><i>E nunca teve alegria</i>...</span> -</div></div> - -<p> -Enfim era uma missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se -pôde conter: -</p> - -<p> -—Vai bem, D. Alice, vai bem! Se não fosse porque eu lhe pedia -<i>bis</i>. -</p> - -<p> -A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse: -</p> - -<p> -—Não sabia que o senhor estava ahi, senão não cantava na vista do -senhor. -</p> - -<p> -—Qual o que! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante. -</p> - -<p> -—Deus me livre! Para o senhor me <i>criticar</i>... -</p> - -<p> -Embora insistisse muito, a rapariga não quiz continuar. As maguas -pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Veiu ao interior do -quarto e pôz-se á meza na tenção de escrever. -</p> - -<p> -O seu quarto tinha o mobiliario mais reduzido possivel. Havia uma rede -com franjas de rendas, uma mesa de pinho, sobre ella objectos de -escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a uma parede -o violão na sua armadura de camurça. Havia tambem uma machina para -fazer café. -</p> - -<p> -Sentou-se e quiz começar uma modinha sobre a Gloria, essa cousa fugace, -que se tem e se pensa que não se tem, alguma cousa impalpavel, -incolhivel como um sopro, que nos alancêa, queima, inquieta e abraza -como o Amor. -</p> - -<p> -Tentou começar, dispoz o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido -forte, toda a sua natureza tinha sido lavrada, baralhada, com a idéa -daquelle furto que se queria fazer ao seu merito. Não conseguiu -assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a musica zumbir -no ouvido. -</p> - -<p> -A manhã ia alta. As ciganas defronte chilreavam no tamarineiro -desfolhado; começava a esquentar e o céo estava de um azul ligeiro, -tenue, fino. Quiz sahir, procurar um amigo, espairecer com elle, mas -quem? Ainda, se o Quaresma... Ah! O Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe -conforto e consolo. -</p> - -<p> -É verdade que ultimamente esse seu amigo achava-se pouco interessado -pela modinha; mas assim mesmo comprehendia o seu proposito, os fins e o -alcance da obra a que elle, Ricardo, se propunha. Ainda se o Major -estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava -a dous mil réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria. -Bateram á porta. Traziam-lhe uma carta. Não reconheceu a letra; rasgou -o envelope com emoção. Que seria? Leu: -</p> - -<p> -«Meu caro Ricardo—Saude—Minha filha Quinota casa-se depois de -amanhã, quinta-feira. Ella e o noivo fazem muito gosto que V. -appareça. Se o amigo não estiver compromettido com alguem, agarre o -violão e venha até cá tomar uma chavena de chá comnosco—Seu amigo -Albernaz». -</p> - -<p> -O trovador, á proporção que lia, ia mudando de physionomia. Até -então estava carregada e dura: quando acabou de ler o bilhete, um -sorriso brincava por toda ella, descia e subia, ia de uma face a outra. -O General não o abandonara; para o respeitavel milhar, Ricardo -Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Iria e arranjaria -passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco o -violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um -idolo bemfazejo. -</p> - -<p> -Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o ultimo brinde -havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em -pequenos grupos. D. Maricota vestia seda malva e o seu busto curto -parecia ainda mais abafado, mais socado, naquelle tecido caro que parece -requerer corpos elegantes e flexiveis. Quinota estava radiante no -vestido de noiva. Ella era alta, de feições mais regulares que a irmã -Ismenia, mas menos interessante e mais commum de temperamento e alma, -embora faceira. Lalá a terceira filha do General, que já se ageitava a -moça, tinha muito pó de arroz, estava sempre a concertar o penteado e -a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado. -Genelicio dava o braço á noiva, encasacado numa casaca mal talhada, -que punha bem á mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado -nos apertados sapatos de verniz. -</p> - -<p> -Ricardo não os viu passar, pois ao entrar, a fila estava no General, -mettido num segundo uniforme dos grandes dias, que lhe ia mal como a -farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem tinha um ar -importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o -Contra-Almirante Caldas. Fôra padrinho e estava irreprehensivel na sua -casaca do uniforme. As ancoras reluziam como metaes de bordo em hora de -revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e -pareciam desejar com ardôr os grandes ventos do vasto oceano sem fim. -Ismenia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente, com o -seu vagar, com os seus gestos lentos, dando providencias. O Lulú, o -unico filho do General, impava no seu uniforme do Collegio Militar, -cheio de dourados e cabellos, tanto mais que passara de anno, graças -aos empenhos do pai. -</p> - -<p> -O General não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o -trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse -um—<i>sou muito feliz</i>...—deitando a cabeça de lado e -sorrindo para o chão, sorriso que encheu de immenso transporte a candida -alma do menestrel. -</p> - -<p> -Deram começo as dansas e o General, o Almirante, o Major Innocencio -Bustamante, que tambem viera de uniforme, com a sua banda roxa de -honorario, o Dr. Florencio, Ricardo e dous convidados outros foram para -a sala de jantar palestrar um pouco. -</p> - -<p> -O General estava satisfeito. Sonhava ha tantos annos uma cerimonia -daquellas em sua casa e emfim pela primeira vez via realizado esse -anceio. -</p> - -<p> -A Ismenia foi aquella desgraça... O ingrato?... Mas para que recordar? -</p> - -<p> -Os cumprimentos se repetiram. -</p> - -<p> -—É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos. -</p> - -<p> -O General tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e -emquanto o limpava, respondeu, olhando com aquelle geito dos myopes: -</p> - -<p> -—Estou muito contente. -</p> - -<p> -Por ahi pôz o pince-nez, endireitou o truncelim e continuou: -</p> - -<p> -Creio que casei bem minha filha: rapaz formado bem encaminhando e -intelligente. -</p> - -<p> -O Almirante acudiu: -</p> - -<p> -—E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dous -annos escripturario do Thezouro, é cousa nunca vista. -</p> - -<p> -—O Genelicio não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou -Florencio. -</p> - -<p> -—Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado novo, que -era da amizade do recem-casado. -</p> - -<p> -De facto, Genelicio tinha arranjado a transferencia e não fôra só -isso que o decidira a casar-se. Tendo escripto uma—«Synthese de -Contabilidade Publica Scientifica»—viu-se, sem saber como, cumulado -de elogios pela <i>imprensa desta capital</i>. O Ministro, attendendo ao -merito excepcional da obra, mandou-lhe dar dous contos de premio, tendo -sido a edição feita á custa do Estado, na Imprensa Nacional. Era um grosso -volume de 400 paginas, typo dôze, escripto em estylo de officio, com -uma basta documentação de decretos, e portarias, occupando dous -terços do livro. -</p> - -<p> -A primeira phrase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente -synthetico e scientifico, fôra até muito notada e gabada pelos -criticos, não só pela novidade da idéa, conto tambem pela belleza da -expressão. -</p> - -<p> -Dizia assim: «A Contabilidade Publica é a arte ou sciencia de -escripturar convenientemente a despeza e receita do Estado». -</p> - -<p> -Além do premio e da transferencia, elle já tinha promessa de ser -sub-director na primeira vaga. -</p> - -<p> -Ouvindo tudo isso que tinham dito o Almirante, o General e os convidados -novos, o Major não pôde deixar de observar: -</p> - -<p> -—Depois da militar, a melhor carreira é a de Fazenda, não acham? -</p> - -<p> -—Sim... Bem entendido, fez o Dr. Florencio. -</p> - -<p> -—Eu não quero falar dos formados, apressou-se o Major. Esses... -</p> - -<p> -Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando -a primeira phrase que lhe veiu aos labios: -</p> - -<p> -—Quando se prospera, todas as profissões são boas. -</p> - -<p> -—Não é assim tanto, obtemperou o Almirante, alisando um dos -favoritos. Não é para desfazer nas outras, mas a nossa, hein Albernaz? -hein Innocencio? -</p> - -<p> -Albernaz levantou a cabeça como se quizesse apanhar no ar uma -lembrança e depois replicou: -</p> - -<p> -—É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo -daqui, tiro dali, morre um, grita outro como em Curupaity, então... -</p> - -<p> -—O Sr. esteve lá, General? perguntou o convidado amigo de Genelicio. -</p> - -<p> -—Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não -imaginam o que foi—Você sabe, não é Innocencio? -</p> - -<p> -—Se estive lá... -</p> - -<p> -—Polydoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores a esquerda e <i>nós</i> -cahimos sobre os Paraguayos. Mas os malandros estavam bem -entrincheirados, tinham aproveitado o tempo... -</p> - -<p> -—Foi <i>seu</i> Mitre, disse Innocencio. -</p> - -<p> -—Foi. Atacamos com furia. Era um ribombar de canhões que mettia medo, -bala por todo o canto, os homens morriam como moscas... Um inferno! -</p> - -<p> -—Quem venceu? perguntou um dos convidados novos. -</p> - -<p> -Todos se entreolharam admirados, excepto o General que julgava a -sabedoria do Paraguay excepcional. -</p> - -<p> -—Foram os paraguayos, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso -que eu digo que a nossa profissão é bella, mas tem as suas <i>cousas</i>... -</p> - -<p> -—Isso não quer dizer nada. Tambem na passagem de Humaytá... ia -dizendo o Almirante. -</p> - -<p> -—O senhor estava a bordo? -</p> - -<p> -—Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse -designado, porque o embarque equivalia a uma promoção... Mas, na -passagem de Humaytá... -</p> - -<p> -Na sala de visitas as dansas continuavam com animação. Era raro que -alguém viesse lá de dentro até onde elles estavam. Os risos, a -musica, e o mais que se adivinhava não distrahiam aquelles homens das -suas preoccupações bellicosas. -</p> - -<p> -O General, o Almirante e o Major enchiam de pasmo aquelles burguezes -pacificos, contando batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas -que não pelejaram. -</p> - -<p> -Não ha como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos -generosos, para apreciar as narrações de guerra. Elle só vê a parte -pittoresca, a parte por assim dizer espiritual das batalhas, dos -encontros; os tiros são os de salva e se matam é cousa de sómenos. A -Morte mesmo, nas narrações feitas assim, perde a sua importancia -tragica: 3.000 mortos, só!!! -</p> - -<p> -De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a -guerra, a cousa ficava edulcorada, uma guerra «bibliothèque rose», -guerra de estampa popular, em que não apparecem a carniçaria, a -brutalidade e a ferocidade normaes. -</p> - -<p> -Estavam Ricardo, o Dr. Florencio, o exacto empregado como engenheiro das -Aguas, aquelles dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, -boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginarias daquelles tres -militares, um honorario, talvez o menos pacifico dos tres, o unico que -tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira—quando D. -Maricota chegou, sempre diligente, activa, dando movimento e vida á festa. -Era mais moça que o marido, tinha ainda inteiramente pretos os cabellos na -sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo enorme. Ella -vinha offegante e dirigiu-se ao marido: -</p> - -<p> -—Então, Chico, que é isso? Ficam ahi e eu que faça sala, que anime -as moças... P'ra sala todos! -</p> - -<p> -—Já vamos D. Maricota, disse alguém. -</p> - -<p> -—Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, seu Caldas, seu -Ricardo, os senhores! -</p> - -<p> -E foi empurrando um a um pelo hombro. -</p> - -<p> -—Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o -senhor... Está ouvindo, <i>seu</i> Ricardo! -</p> - -<p> -—Pois não, minha senhora. É uma ordem... -</p> - -<p> -E foram. No caminho o General parou um pouco, chegou-se a Coração dos -Outros e perguntou: -</p> - -<p> -—Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma? -</p> - -<p> -—Vai bem. -</p> - -<p> -—Tem-lhe escripto? -</p> - -<p> -—Ás vezes. Eu queria, General... -</p> - -<p> -O General suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que -começava a cahir, e perguntou: -</p> - -<p> -—O que? -</p> - -<p> -Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a -pergunta. Depois de uma ligeira, hesitação, respondeu de um jacto, com -medo de perder a s palavras: -</p> - -<p> -—Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir -vel-o. -</p> - -<p> -O General esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabello e -disse: -</p> - -<p> -—Isso é difficil, mas você appareça lá, na repartição, amanhã. -</p> - -<p> -E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros accrescentou: -</p> - -<p> -—Estou com saudades delle, depois tenho certos desgostos... O senhor -sabe: um homem que tem nome... -</p> - -<p> -—Vá lá amanhã. -</p> - -<p> -D. Maricota appareceu na frente e falou agastada: -</p> - -<p> -—Vocês não vêm! -</p> - -<p> -—Já vamos, fez o General. -</p> - -<p> -E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou: -</p> - -<p> -—Aquelle Quaresma podia estar bem, mas foi metter-se com livros... É -isto! Eu, ha bem quarenta annos, que não pego em livro... -</p> - -<p> -Chegaram á sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas -molduras douradas, furiosos retratos a oleo de Albernaz e da mulher; um -espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava completa. Da -mobilia não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço -aos dansantes. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a -festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e -muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janella, Ricardo pôde ver -a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; -só de lá os curiosos, os <i>serenos</i>, podiam ver alguma cousa da festa. -Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O General -contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador... -</p> - -<p> -A moça, a famosa filha do Lemos, dispoz-se a cantar. Foi ao piano, -collocou a partitura e começou. Era uma romanza italiana que ella -cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem educada. Acabou. -Palmas geraes, mas frias, soaram. -</p> - -<p> -O Dr. Florencio que ficara atraz do General, commentou: -</p> - -<p> -—Tem uma bella voz esta moça. Quem é? -</p> - -<p> -—É a filha do Lemos, do Dr. Lemos da Hygiene, respondeu o General. -</p> - -<p> -—Canta muito bem. -</p> - -<p> -—Está no ultimo anno do Conservatorio, observou ainda Albernaz. -</p> - -<p> -Chegou a vez de Ricardo. Elle occupou um canto da sala, agarrou o -violão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar tragico de -quem vai representar o Oedipo-Rei e falou com voz grossa: «Senhoritas, -senhores e senhoras». Parou. Concertou a voz e continuou: «Vou cantar -«Os teus braços», modinha de minha composição, musica e versos. É -uma composição terna, decente e de uma poesia exaltada». Seus olhos, -por ahi, quasi lhe sabiam das orbitas. Emendou: «Espero que nenhum -ruido se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão -instrumento muito... mui...to <i>dê li ca do</i>. Bem». -</p> - -<p> -A attenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebuado, macio -e longo, como um soluço de onda; depois, houve uma parte rapida, -saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro, -a modinha acabou. -</p> - -<p> -Aquillo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e -aos desejos dos homens. As palmas foram ininterruptas. O General -abraçou-o, Genelicio levantou-se e deu-lhe a mão, Quinota, no seu -immaculado vestido de noiva, tambem. -</p> - -<p> -Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu á sala de jantar. No -corredor chamaram-n'o: Sr. Ricardo, Sr. Ricardo! Voltou-se. Que ordena -minha senhora? Era uma moca que lhe pedia uma copia da modinha. -</p> - -<p> -—Não se esqueça, dizia ella com meiguice, não se esqueça. Gosto -tanto das suas modinhas... São tão ternas tão delicadas... Olhe: dê -aqui a Ismenia para me entregar. -</p> - -<p> -A noiva de Cavalcanti approximava-se e, ouvindo falar em seu nome, -perguntou: -</p> - -<p> -—Que é, Dulce? -</p> - -<p> -A outra explicou-lhe. Ella aceitou a incumbencia: e, por sua vez, -perguntou a Ricardo com a sua voz dolente: -</p> - -<p> -—<i>Seu</i> Ricardo, quando é que o Sr. pretende estar com D. -Adelaide. -</p> - -<p> -—Depois de amanhã, espero eu. -</p> - -<p> -—Vai lá. -</p> - -<p> -—Vou. -</p> - -<p> -—Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma -carta... -</p> - -<p> -E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap03_2"></a></h4> - -<h4>III -<br /><br /> -GOLIAS</h4> - -<p> -No sabbado da semana seguinte áquella em que a filha do General -recebera como marido o grave e giboso Genelicio, gloria e orgulho do -nosso funccionalismo publico, Olga casara-se. A cerimonia correra com a -pompa e a riqueza acostumadas em pessoas de sua camada. Houve uns -arremedos parisienses de <i>corbeille</i> de noiva e outros pequenos -detalhes chics, que não a aborreceram, mas que não a encheram lá de -satisfação maior que as noivas communs. Talvez nem mesmo essa ella -tivesse. -</p> - -<p> -Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua -vontade. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquelle -acto, mas, apparentemente, nenhuma vontade extranha á sua influira para -isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva, -mas com a volta que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo medico, -cheio de talento nas notas e recompensas escolares, via diante de si uma -larga estrada de triumphos nas posições e na industria clinica. Não -tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal titulo um fóral de -nobreza, equivalente áquelles com que os authenticos fidalgos da Europa -brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros <i>yankees</i>. Apezar de -ser seu pai um importante fazendeiro por ahi, em algum logar deste -Brasil, o sogro lhe dera tudo e tudo elle aceitara sem pejo, com o -desprezo de um duque, duque de plenamentes e medalhas, a receber -homenagens de um villão que não <i>roçou os bancos de uma Academia</i>. -</p> - -<p> -Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso titulo, o -pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo titulo, mas pela sua -simulação de intelligencia, de amor á sciencia, de desmedidos sonhos -de sabio. Tal imagem que delle fizera, durara instantes em Olga; depois -foi a inercia da sociedade, a sua tyrannia e a timidez natural da moça -em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ella, de si para -si, pensava que se não fosse este, seria outro a elle igual, e o melhor -era não adiar. -</p> - -<p> -Era por isso que ella não ia para a igreja, em virtude de uma -determinação certa de sua vontade, embora sem perceber o -constrangimento de um commando fora della. -</p> - -<p> -Apezar da pompa, esteve longe de ser uma noiva magestosa. Não obstante -as origens puramente européas, era pequena, muito mesmo, ao lado do -noivo, alto, erecto, com uma physionomia irradiante de felicidade; e, -desse modo, ella desapparecia dentro do vestido, dos véos e daquelles -atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar, De -resto, a tua belleza não era a grande belleza—aquella que nós -exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas classicas. -</p> - -<p> -No seu rosto, nada de grego, desse grego authentico on de pacotilha, ou -tambem dessa magestade de opera lyrica. Havia nos seus traços muita -irregularidade, mas a sua physionomia era profunda e propria. Não só a -luz dos seus grandes olhos negros, que quasi cobriam toda a cavidade -orbitaria, fazia fulgurar o seu rosto mobil, como a sua pequena boca, de -um desenho fino, exprimia bondade, malicia e o seu ar geral era de -reflexão e curiosidade. -</p> - -<p> -Ao contrario do costume, não sahiram da cidade e foram morar em casa do -antigo empreiteiro. -</p> - -<p> -Quaresma não fora á festa, mandara o leitão e o perú da tradição e -escrevera uma longa carta. O sitio empolgara-o, o calor ia passar, vinha -a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-se de suas -terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous, -era como se começasse a desertar da batalha. -</p> - -<p> -O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da -horta. A visita de Ricardo veiu distrail-o um pouco, sem desvial-o -comtudo, de seus afazeres agricolas. -</p> - -<p> -Passou um mez com o Major, e foi um triumpho. A fama do seu nome -precedia-o, de forma que todo o municipio o disputava e festejava. -</p> - -<p> -O seu primeiro trabalho foi ir á villa. Ficava a quatro kilometros -adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação -lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de rodagem, -se assim se póde chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e -descia morros, cortava planicies e rios em toscas pontes. A villa!... -Tinha duas ruas principaes: a antiga, determinada pelo velho caminho de -tropas, e a nova, cuja origem veiu da ligação da velha com a estrada de -ferro. Ellas se encontravam em <i>T</i>, sendo o braço vertical o caminho -da estação. As outras partiam dellas, as casas juntavam-se urbanamente -no começo, depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em -campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova, -Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da rua -Marechal Deodoro, partia a da Matriz, ia ter á igreja, ao alto de uma -collina, feia e pobre no seu estylo jesuitico. Á esquerda da estação, -num campo, a praça da Republica, a que ia dar uma rua mal esboçada por -espaçadas casas, ficava a Camara Municipal. -</p> - -<p> -Em um grande parallepipeto de tijolo, cimalha, janella com sacadas de -grade de ferro, puro estylo mestre de obras. Compungia essa pobreza de -gosto a quem se lembrasse dos edificios da mesma natureza das pequenas -communas francezas e belgas da idade média. -</p> - -<p> -Ricardo entrou num barbeiro da rua Marechal Deodoro, salão Rio de -Janeiro, e fez a barba. O figaro deu-lhe informações a villa e elle se -deu a conhecer. Havia certos circumstantes, um delles tomou-o a seu -cargo e dahi em pouco estava relacionado. -</p> - -<p> -Quando voltou para a casa do Major já tinha convite para o baile do Dr. -Campos, presidente da Camara, festa que teria logar na quarta-feira -proxima. -</p> - -<p> -Chegara sabbado e fora passeiar á villa domingo. -</p> - -<p> -Tinha havido missa e o trovador assistiu a sahida. A concurrencia nunca -é grande na roça, mas Ricardo pôde ver algumas daquellas moças do -interior, lymphaticas e tristes, ataviadinhas, cheias de laços, -descendo silenciosas a collina em que se erguia a igreja, espalhando-se -pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de -reclusão e tedio. Foi na sahida da missa que lhe apresentaram o Dr. -Campos. -</p> - -<p> -Era o medico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de -«aranha» com a sua filha, Nair, assistir o officio religioso. -</p> - -<p> -O trovador e o medico estiveram um instante conversando, emquanto a -filha, muito magra, pallida, com uns longos braços descarnados, olhava -com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando elles partiram, -ainda Ricardo considerou um pouco aquelle rebento dos ares livres do -Brasil. -</p> - -<p> -Á festa do Dr. Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de -sua presença e a alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas -gozava a sua victoria. Se bem que o Major tivesse abandonado o violão, -ainda continuava a prezar aquelle instrumento essencialmente nacional. -As consequencias desastrosas do seu requerimento em nada tinham abalado -as suas convicções patrioticas. Continuavam as suas idéas -profundamente arraigadas, tão sómente elle as escondia, para não -soffrer com a incomprehensão e maldade dos homens. -</p> - -<p> -Gozava, portanto, a fulminante victoria de Ricardo, que indicava bem -naquella população a existencia de um residuo forte da nossa -nacionalidade a resistir ás invasões das modas e gostos estrangeiros. -</p> - -<p> -Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os -partidos. O Dr. Campos, presidente da Camara, era quem mais o cumulava -de homenagens. Naquella manhã até esperava um dos cavallos do edil, -para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que -ainda não tinha partido para o eito: -</p> - -<p> -—Major, foi uma boa idéa vir para a roça. Vive-se bem e pode-se -subir... -</p> - -<p> -—Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são extranhas -todas essas cousas. -</p> - -<p> -—Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos offerecem, não -devemos rejeitar, não acha? -</p> - -<p> -—Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de -commandar uma esquadra. -</p> - -<p> -—Até ahi não vou. Olhe, Major: eu gosto muito de violão, mesmo -dedico a minha vida ao seu levantamento moral a intellectual, -entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: «Seu Ricardo, Você vai -ser deputado», o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo -perfeitamente que não podia mais desferir os threnos do instrumento? -Ora, se não! Não se deve perder vasa, Major. -</p> - -<p> -—Cada um tem as suas theorias. -</p> - -<p> -—De certo. Outra cousa. Major: conhece o Dr. Campos? -</p> - -<p> -—De nome. -</p> - -<p> -—Sabe que elle é presidente da Camara. -</p> - -<p> -Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança, O -menestrél não notou o gesto do amigo e emendou. -</p> - -<p> -—Móra daqui a uma legua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavallo -passeiar com elle. -</p> - -<p> -—Fazes bem. -</p> - -<p> -—Elle quer conhecel-o. Posso trazel-o aqui? -</p> - -<p> -—Pódes. -</p> - -<p> -Um camarada do Dr. Campos, neste instante, entrava pela porteira -trazendo o cavallo promettido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a -roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora dous, pois, além -do Anastacio, que não era bem um empregado, mas aggregado, admittira o -Felizardo. -</p> - -<p> -Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores -tinham attenuado a temperatura. -</p> - -<p> -Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi -caminhando por entre aquelle rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar -do mato e do piar das aves e passaros. Esvoaçavam tyês vermelhos, -bandos de colleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras no -verdor das arvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos -campos, no momento, parece que tinham sahindo á luz, não sómente para -a fecundação vegetal mas tambem para a belleza. -</p> - -<p> -Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e -fôra para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. Era este um -camarada magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um simio. -Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma apparencia de -fraqueza muscular, não havia ninguem mais valente que elle a roçar. -Com isto era um tagarella incansavel. De manhã, quando chegava, ahi -pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do municipio. -</p> - -<p> -O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado do norte do -sitio, que o capão invadira. Obtido elle, o Major plantaria obra de -meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervallos batatas -inglezas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se -fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, porém, não lhe -quizera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando delle -os principios volateis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus -mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miudos e folhas, -elle removia para longe, onde então queimaria em coiváras pequenas. -</p> - -<p> -Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós -e tocos; mas promettia dar um rendimento maior ao plantio. -</p> - -<p> -Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se -distrahir. Ha quem cante, elle falava e pouco se incommodava que lhe -dessem ou não attençâo. -</p> - -<p> -—Essa gente anda accesa por ahi, disse Felizardo logo que o Major -chegou. -</p> - -<p> -Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, attendia-lhe a conversa, -raras não. Anastacio era silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, -de quando em quando, parava, considerava, numa postura hieratica de uma -pintura mural thebana. O Major perguntou ao Felizardo: -</p> - -<p> -—Que é que ha, Felizardo? -</p> - -<p> -O camarada descançou o grosso tronco de camará no monte, limpou o -suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante: -</p> - -<p> -—Negocio de politica... Seu Tenente Antonino quasi briga hontem com -<i>seu dotô Campo</i>. -</p> - -<p> -—Onde? -</p> - -<p> -—Na estação. -</p> - -<p> -—Porque? -</p> - -<p> -—Negocio de partido. Pelo que ouvi: seu Tenente-Antonino é pelo -<i>governadô</i> e <i>seu dodô Campo</i> é pelo <i>senadô</i>... Um -sarcêro, patrão! -</p> - -<p> -—E você, por quem é? -</p> - -<p> -Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um -galho que enleiava o tronco a remover. Anastacio estava de pé e -considerou um instante a figura do companheiro palrador. Respondeu -afinal: -</p> - -<p> -—Eu! sei lá... Urubu pellado não se mette no meio dos coroados. Isso -é bom p'r'o <i>sinhô</i>. -</p> - -<p> -—Eu sou como você, Felizardo. -</p> - -<p> -—Quem me dera, meu <i>sinhô</i>. Inda <i>traz-antonte</i> ouvi -<i>dizê</i> que o patrão é amigo do <i>marechá</i>... -</p> - -<p> -Afastou-se com o pau; e, quando voltou Quaresma indagou assustado: -</p> - -<p> -—Quem disse? -</p> - -<p> -—Não sei, não <i>sinhô</i>. Ouvi a modo de <i>dizê</i> lá na venda do -hespanhol, tanto assim que <i>doutô Campo tá</i> inchado que nem sapo com a -sua amizade. -</p> - -<p> -—Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma... -Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguem... Qual amigo! -</p> - -<p> -—<i>Quá</i>! fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão -<i>tá</i> é varrendo a testada. -</p> - -<p> -Apezar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquella -cabeça infantil a idéa de que elle fosse amigo do Marechal Floriano. -«Conheci-o no meu emprego»—dizia o Major: Felizardo sorria grosso e -por uma vez dizia: «<i>Quá</i>! o patrão é fino que nem cobra». -</p> - -<p> -Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer -aquillo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações pela -manhã... Elle tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel, -incapaz de lhe estar armando laços para passar máos momentos; os -enthusiasmos delle, entretanto, junto á vontade de ser bom amigo, -podiam illudil-o e fazel-o instrumento de algum perverso. Quaresma ficou -um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve, -porém, esqueceu-se e a preoccupação dissipou-se. Á tarde, quando foi -jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu -natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de -cogitações por parte delle. -</p> - -<p> -D. Adelaide, sempre com a sua <i>matinée</i> creme e saia preta, sentava-se -á cabeceira; Quaresma á direita e á esquerda, Ricardo. Era a velha -quem sempre puxava a lingua do trovador. -</p> - -<p> -—Gostou muito do passeio, Sr. Ricardo? -</p> - -<p> -Não havia meio della dizer <i>seu</i>. A sua educacão de <i>senhora</i> de -outros tempos, não lhe permittia usar esse plebeismo generalizado. Vira -os pais, gente ainda fortemente portugueza, dizer <i>senhor</i> e -continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente. -</p> - -<p> -—Muito. Que logar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é -que se tem inspiração. -</p> - -<p> -—E elle tomava aquella altitude de arroubo: uma physionomia de -mascara de tragico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada -abafada. -</p> - -<p> -—Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma. -</p> - -<p> -—Hoje acabei uma modinha. -</p> - -<p> -—Como se chama? indagou D. Adelaide. -</p> - -<p> -—«Os labios da Carola». -</p> - -<p> -—Bonito! Já fez a musica? -</p> - -<p> -Era ainda a irmã da Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo -a boca; deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com -toda a convicção: -</p> - -<p> -—A musica, minha senhora, é a primeira coesa que faço. -</p> - -<p> -—Has de nol-a cantar logo. -</p> - -<p> -—Pois não, Major. -</p> - -<p> -Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros sahiram a passeiar no -sitio. Fôra essa a unica concessão que ao amigo fizera Polycarpo, no -tocante ao regimen de seus trabalhos agricolas. Levava sempre o pedaço -de pão, esfarelava em migalhas no gallinheiro, para ver a atroz disputa -entre as aves. Acabando, ficava um instante a considerar aquellas vidas, -criadas, mantidas e protegidas para sustento da sua. Sorria para os -frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito vivos e avidos, e -demorava-se a apreciar a estupidez do perú, imponente, fazendo roda, a -dar estouros presumpçosos. Em seguida, ia ao chiqueiro; assistia -Anastacio dar a ração, despejando-a nos cochos. O enorme cevado de -grandes orelhas pendentes levantava-se difficilmente e solemnemente -vinha mergulhar a cabeça na caldeira; noutro compartimento os -bacurinhos grunhiam e grunhindo vinham com a mãe charfurdar-se na -comida. -</p> - -<p> -A avidez daquelles animaes era deveras repugnante mas os seus olhos -tinham uma longa doçura bem humana que os fazia sympathicos. -</p> - -<p> -Ricardo apreciava pouco aquellas formas inferiores de vida, mas Quaresma -ficava minutos esquecido a contemplal-as numa demorada interrogação -muda. Sentavam-se a um tronco de arvore; e Quaresma olhava o céo alto -emquanto Coração dos Outros contava qualquer historia. -</p> - -<p> -A tarde ia adiantada, A terra já começava a amollecer, pelo fim -daquelle beijo ardente e demorado do sol. Os bambús suspiravam; as -cigarras ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos o Major -voltou-se. Padrinho! Olga! -</p> - -<p> -Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram ficaram ainda a olhar -um para o outro, com as mãos presas. E vieram aquellas estupidas e -tocantes phrases dos encontros satisfeitos: quando chegaste? Não -esperava... É longe... Ricardo olhava embevecido com a ternura dos -dous; Anastacio tirara o chapéo e olhava a «sinhasinha», com o o seu -terno e vasio olhar de africano. -</p> - -<p> -Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois -passeou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou: -</p> - -<p> -—Que dê teu marido? -</p> - -<p> -—O doutor?... Está lá dentro. -</p> - -<p> -O marido tinha resistido muito em acompanhal-a até ali. Não lhe -parecia bem aquella intimidade com um sujeito sem titulo, sem posição -brilhante e sem fortuna. Elle não comprehendia como o seu sogro, apezar -de tudo um homem rico, de outra esphera, tinha podido manter e estreitar -relações com um pequeno empregado de uma repartição secundaria, e -até fazel-o seu compadre! Que o contrario se desse, era justo; mas como -estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade -nacional. Mas, em definitivo, quando D. Adelaide o recebeu cheia de um -immenso respeito, de uma particular consideração, ele ficou desarmado e -todas as suas pequenas vaidades foram tocadas e satisfeitas. -</p> - -<p> -D. Adelaide, mulher velha, do tempo em que o imperio armava essa nobreza -escolar, possuia em si uma particular reverencia, um culto pelo -doutorado; e não lhe foi, pois, difficil demonstral-o quando se viu -diante do Dr. Armando Borges, de cujas notas e premios ella tinha exacta -noticia. -</p> - -<p> -Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o -doutor, gozando aquelle seu sobrehumano prestigio, ia conversando -pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, á proporção que -conversava, talvez para que o effeito não se dissipasse, virava com a -mão direita o grande annelão <i>symbolico</i>, o talisman, que cobria a -phalange do dedo indicador esquerdo, ao geito de <i>marquise</i>. -</p> - -<p> -Conversaram muito. O joven par contou a agitação politica do Rio, a -revolta da fortaleza de Santa Cruz; D. Adelaide a epopéa da mudança, -moveis quebrados, objectos partidos. Pela meia noite todos foram dormir -com uma alegria particular, emquanto os sapos levantavam no riacho -defronte o seu grave hymno á transcendente belleza do céo negro, -profundo e estrellado. -</p> - -<p> -Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e -esteve conversando com o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um -jornal. Rasgou a cinta e leu o titulo. Era o «O Municipio», orgão -local, hebdomadario, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia -afastado; elle aproveitou a occasião para ler o jornaleco. Pôz o -pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e desdobrou o jornal. -Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam -mollemente. Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se -«Intrusos» e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos -no logar que moravam nelle—verdadeiros <i>estrangeiros que se vinham -intrometter na vida particular e politica da familia curuzuense, -perturbando-lhe a paz e a tranquillidade</i>. -</p> - -<p> -Que diabo queria dizer aquillo? Ia deitar fóra o jornaleco, quando lhe -pareceu ler seu nome entre versos. Procurou o logar e deu com estas -quadrinhas: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i8"><i>POLITICA de CURUZU</i></span> -</div><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Quaresma, meu bem, Quaresma!</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Quaresma do coração!</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Deixa as batatas em paz</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Deixa em paz o feijão.</i></span> -</div><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Geito não tens para isso</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Quaresma, meu cocumby!</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Volta á mania antiga</i></span><br /> -<span class="i2"><i>De redigir em tupy.</i></span> -</div><div class="stanza"> -<span class="i10"><i>Olho Vivo.</i></span> -</div></div> - -<p> -O Major ficou estuporado. Que vinha ser aquillo? Porque? Quem era? Não -atinava, não achava o motivo o fundo de semelhante ataque. A irmã -approximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma estendeu-lhe o jornal -com o braço tremendo: «Lê isto, Adelaide». -</p> - -<p> -A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa c -solicitude. Ella tinha aquella ampla maternidade das solteironas; pois -parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da mulher -pelas dores do outros. Emquanto ella lia, Quaresma dizia: mas que fiz -eu? que tenho com politica? E coçava os cabellos já tanto encanecidos. -</p> - -<p> -D. Adelaide disse então docemente: -</p> - -<p> -—Socega, Polycarpo. Por isso só?... Ora! -</p> - -<p> -A afilhada leu tambem os versos e perguntou ao padrinho: -</p> - -<p> -—O Sr. se metteu algum dia nessa politica daqui? -</p> - -<p> -—Eu nunca!... Vou até declarar que... -</p> - -<p> -—Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a -irmã: -</p> - -<p> -—Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca! -</p> - -<p> -O doutor e Ricardo chegavam de fóra e encontraram os tres nessas -considerações. Notaram a alteração de Quaresma. Estava pallido, -tinha os olhos humidos e coçava successivamente a cabeça. -</p> - -<p> -—Que ha, Major? indagou o troveiro. -</p> - -<p> -As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo -depois contou o que ouvira na villa. Acreditavam todos que o Major viera -para ali no intuito de fazer politica, tanto assim que dava esmolas, -deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuia remedios -homeopathicos... O Antonino affirmara que havia de desmascarar -semelhante tartufo. -</p> - -<p> -—E não desmentiste? perguntou Quaresma. -</p> - -<p> -Ricardo affirmou que sim, mas o escrivão não quizera acreditar nelle e -reiterara os seus propositos de ataque. -</p> - -<p> -O Major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de accordo com -seu genio, incubou nos primeiros tempos a impressão, e, emquanto -estiveram com elle os seus amigos, não demonstrou preoccupação. -</p> - -<p> -Olga e o marido passaram no «Socego» cerca de quinze dias. O marido, -ao fim de uma semana, já parecia cançado. Os passeios não eram -muitos. Em geral, os nossos logarejos são de uma grande pobreza do -pittoresco; ha um ou dous logares celebres, assim como na Europa cada -aldeia tem a sua curiosidade historica. -</p> - -<p> -Em Curuzú, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas -leguas da casa de Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe -barravam o horizonte fronteiro. O Dr. Campos já travara relações com -o Major e, graças a elle, houve cavallos e silhão que tambem -permitisse á moça ir á cachoeira. -</p> - -<p> -Foram de manhã, o Presidente da Camara, o doutor, sua mulher e a filha -de Campos. O logar não era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze -metros de altura, despenhava-se em tres partes, pelo flanco da montanha -abaixo. A agua estremecia na quéda, como que se enrodilhava e vinha -pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia -muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma aboboda de -arvores. O sol coava-se difficilmente e vinha faiscar sobre a agua ou -sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os -periquitos, de um verde mais claro, pousados nos galhos eram como as -incrustações daquelle salão fantastico. -</p> - -<p> -Olga pôde ver tudo isso bem á vontade, andando de um para outro lado, -porque a filha do presidente era de um silencio de tumulo e o pae desta -tomava com o sou marido informações sobre novidades medicinaes: Como -se cura hoje erysipela? Ainda se usa muito o tartaro emetico? -</p> - -<p> -O que mais a impressionou no passeio foi a miseria geral, a falta de -cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre. -Educada na cidade, ella tinha dos roceiros idéa de que eram felizes -saudaveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta agua, porque as casas -não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquelle sapê -sinistro e aquelle «sopapo» que deixava ver a trama de varas, como o -esqueleto de um doente. Porque ao redor dessas casas, não havia -culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão facil, trabalho de horas. -E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um -carneiro. Porque? Mesmo nas fazendas, o espectaculo não era mais -animador. Todas soturnas, baixas, quasi sem o pomar olente e a horta -succulenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ella não -pôde ver outra lavoura, outra industria agricola. Não podia ser -preguiça só ou indolencia. Para o seu gasto, para uso proprio, o homem -tem sempre energia para trabalhar. As populações mais accusadas de -preguiça, trabalham relativamente. Na Africa, na India, na Cochinchina, -em toda parte, os casaes, as familias, as tribos, plantam um pouco, -algumas cousas para elles. Seria a terra? Que seria? E todas essas -questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e tambem -a sua piedade e sympathia por aquelles parias, maltrapilhos, mal -alojados, talvez com fome, sorumbaticos!... -</p> - -<p> -Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades -mezes e annos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar o -motivo e o remedio. Aquillo era uma situação do camponez da idade -média e começo da nossa; era o famoso animal de La Bruyére que tinha -face humana e voz articulada... -</p> - -<p> -Como no dia seguinte fosse passeiar ao roçado do padrinho, aproveitou a -occasião para interrogar a respeito o tagarella Felizardo. A faina do -roçado ia quasi no fim; o grande trato da terra estava quasi -inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a collina que formava a -lombada do sitio. -</p> - -<p> -Olga encontrou o camarada cá em baixo, cortando a machado as madeiras -mais grossas; Anastacio estava no alto, na orla do mato, juntando, a -ancinho, as folhas caidas. Ella lhe falou. -</p> - -<p> -—Bons dias, <i>sá dona</i>. -</p> - -<p> -—Então trabalha-se muito, Felizardo? -</p> - -<p> -—O que se póde. -</p> - -<p> -—Estive hontem no Carico, bonito logar... Onde é que você mora, -Felizardo? -</p> - -<p> -—É d'outra banda, na estrada da villa. -</p> - -<p> -—É grande o sitio de você? -</p> - -<p> -—Tem alguma terra, sim, senhora, <i>sá dona</i>. -</p> - -<p> -—Você porque não planta para você? -</p> - -<p> -—<i>Quá sá dona</i>! O que é que a gente come? -</p> - -<p> -—O que plantar ou aquillo que a plantação der em dinheiro. -</p> - -<p> -—<i>Sá dona tá</i> pensando uma cousa e a cousa é outra. Emquanto -planta cresce, e então? <i>Quá, sá dona</i>, não é assim... -</p> - -<p> -Deu uma machadada; o tronco escapou: collocou-o melhor no picador e, -antes de desferir o machado, ainda disse: -</p> - -<p> -—Terra não é nossa... E <i>frumiga</i>?... Nós não <i>tem</i> -ferramenta... isso é bom para italiano ou <i>allamão</i>, que Governo dá -tudo... Governo não gosta de nós... -</p> - -<p> -Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas -partes, quasi iguaes, de um claro amarellado, onde o cérne escuro -começava a apparecer. -</p> - -<p> -Ella voltou querendo afastar do espirito aquelle desacordo que o -camarada indicara, mas não pôde. Era certo. Pela primeira vez notava -que o <i>self-help</i> do Governo era só para os nacionaes; para os outros -todos os auxilios e facilidades, não contando com a sua anterior -educação e apoio dos patricios. -</p> - -<p> -E a terra não era delle? Mas de quem era então, tanta terra abandonada -que se encontrava por ahi? Ella vira até fazendas fechadas, com as -casas em ruinas... Porque esse acaparamento, esses latifundios inuteis e -improductivos? -</p> - -<p> -A fraqueza de attenção não lhe permittiu pensar mais no problema. Foi -vindo para casa, tanto mais que era hora de jantar e a fome lhe chegava. -</p> - -<p> -Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquelle perdera um pouco da -sua <i>morgue</i>; havia mesmo occasião em que era até natural. Quando ella -chegou, o padrinho exclamava: -</p> - -<p> -—Adubos! É lá possivel que um brasileiro tenha tal idéa! Pois se -temos as terras mais ferteis do mundo! -</p> - -<p> -—Mas se esgotam, Major, observou o doutor -</p> - -<p> -D. Adelaide, calada, seguia com attenção o <i>crochet</i> que estava -fazendo; Ricardo ouvia, com os olhos arregalados; e Olga intrometteu-se -na conversa: -</p> - -<p> -—Que zanga é essa, padrinho? -</p> - -<p> -—É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de -adubos... Isto é até uma injuria! -</p> - -<p> -—Pois fique certo, Major, se eu fosse o senhor, adduziu o doutor, -ensaiava uns phosphatos... -</p> - -<p> -—De certo, Major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar -violão não queria aprender musica... Qual musica! Qual nada! A -inspiração basta!... Hoje veio que é preciso... É assim, resumia -elle. -</p> - -<p> -Todos se entreolharam, excepto Quaresma que logo disse com toda a força -d'alma: -</p> - -<p> -—Sr. doutor, o Brasil é o paiz mais fertil do mundo, é o mais bem -dotado e as suas terras não precisam <i>emprestimos</i> para dar sustento -ao homem. Fique certo! -</p> - -<p> -—Ha mais ferteis, Major, avançou o doutor. -</p> - -<p> -—Onde? -</p> - -<p> -—Na Europa. -</p> - -<p> -—Na Europa! -</p> - -<p> -—Sim, na Europa. As terras negras da Russia, por exemplo. -</p> - -<p> -O Major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triumphante: -</p> - -<p> -—O Sr. não é patriota! Esses moços... -</p> - -<p> -O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações -sobre o violão. Á noite, o menestrel cantou a sua ultima producção: -«Os labios da Carola». Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do -Dr. Campos; mas ninguem alludiu a isso. Ouviram-mo com interesse e elle -foi muito acclamado. Olga tocou no velho piano de D. Adelaide; e, antes -das onze horas, estavam todos recolhidos. -</p> - -<p> -Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, -deitado, poz-se a ler um velho elogio das riquezas e opulencias do -Brasil. -</p> - -<p> -A casa estava em silencio; do lado de fora, não havia a minima bulha. -Os sapos tinham suspendido um instante a sua orchestra nocturna. -Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto -dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinario! pensou. Da despensa, -que ficava junto a seu aposento, vinha um ruido extranho. Apurou o -ouvido e prestou attenção. Os sapos recomeçaram o seu hymno. Havia -vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia á outra, -num dado instante todas se juntaram num <i>unisono</i> sustentado. -Suspenderam um instante a musica. O Major apurou o ouvido; o ruido -continuava. Que era? Eram uns estalos tenues; pareciam que quebravam -gravetos, que deixavam outros cahir ao chão... Os sapos recomeçaram; o -regente deu uma martellada e logo vieram os baixos e os tenores. -Demoraram muito; Quaresma pôde ler umas cinco paginas. Os batrachios -pararam; a bulha continuava. O Major levantou-se, agarrou o castiçal e -foi á dependencia da casa donde partia o ruido, assim mesmo como -estava, em camisa de dormir. -</p> - -<p> -Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma -ferroada no peito do pé. Quasi gritou. Abaixou a vela para ver melhor e -deu com uma enorme sauva agarrada com toda a furia á sua pelle magra. -Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco no -assoalho, lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas -de milho e feijão, cujos recipientes tinham sido deixados abertos por -inadvertencia. O chão estava negro, e carregadas com os grãos, ellas, -em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade -subterranea. -</p> - -<p> -Quiz afugental-as. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e -cada vez mais o exercito augmentava. Veiu uma mordeu-o, depois outra, e -o foram mordendo pelas pernas, pelos pés, subindo pelo seu corpo. Não -poude aguentar, gritou, sapateou e deixou a vela cahir. -</p> - -<p> -Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu -daquelle infimo inimigo que, talvez, nem mesmo á luz radiante do sól, -o visse distinctamente... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap04_2"></a></h4> - -<h4>IV -<br /><br /> -«PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ»</h4> - -<p> -D. Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro annos mais que elle. -Era uma bella velha, com um corpo médio, uma tez que começava a -adquirir aquella patina da grande velhice, uma espessa cabelleira já -inteiramente amarellada e um olhar tranquillo, calmo e doce. Fria, sem -imaginação, de intelligencia lucida e positiva, em tudo formava um -grande contraste com o irmão; comtudo, nunca houve entre elles uma -separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ella não -entendia nem procurava entender a substancia do irmão, e sobre elle em -nada reagia aquelle ser methodico, ordenado e organizado, de idéas -simples, medias e claras. -</p> - -<p> -Ella já attingira aos cincoenta e elle para lá marchava; mas ambos -tinham ar saudavel, poucos achaques, e promettiam ainda muita vida. A -existencia calma, doce e regrada que tinham levado até ali, concorrera -muito para a boa saude de ambos. Quaresma incubou as suas manias até -depois dos quarenta e ella nunca tivera qualquer. -</p> - -<p> -Para D. Adelaide, a vida era cousa simples, era viver, isto é, ter uma -casa, jantar e almoço, vestuario, tudo modesto, medio. Não tinha -ambições, paixões, desejos. Moça, não sonhara principes, bellezas, -triumphos, nem mesmo um marido. Se não casou foi porque não sentiu -necessidade disso; o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ella sempre -se sentiu completa. -</p> - -<p> -O seu aspecto tranquillo e o socego dos seus olhos verdes, de um brilho -lunar de esmeralda, emolduravam e realçavam naquelle interior familiar -a agitação e a inquietude, o alanceado do irmão. -</p> - -<p> -Não se vá suppor que Quaresma andasse transtornado como um doido. -Felizmente não. Na apparencia até poder-se-ia imaginar que nada -conturbava sua alma; porém, se mais vagarosamente se examinassem os -seus habitos, gestos e attitudes logo se havia de ver que o socego e a -placidez não moravam no seu pensamento. -</p> - -<p> -Occasiões havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao -longe o horizonte, perdido em scisma; outras, isso quando no trabalho da -roça, em que suspendia todos os movimentos, fincava o olhar no chão, -demorava-se assim um instante, coçando uma mão com a outra, dava -depois um muchocho, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em -que não reprimia uma exclamação ou uma phrase. -</p> - -<p> -Anastacio em taes instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O -antigo escravo não os sabia mais fixar, e nada dizia; Felizardo -continuava a contar a fuga da filha do Custodio com o Manduca da venda; -e o trabalho marchava. -</p> - -<p> -Inutil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a -não ser no jantar e nas primeiras horas do dia elles viviam separados. -Quaresma na roça, nas plantações, e ella superintendendo o serviço -domestico. -</p> - -<p> -As outras pessoas de suas relações não podiam tambem notar as -preoccupações absorventes do Major, pelo simples motivo de que estavam -longe. -</p> - -<p> -Ricardo havia seis mezes que não lhe visitava e da afilhada e do -compadre as ultimas cartas que recebera, datavam de uma semana, não -vendo aquella ha tanto tempo, quanto ao trovador e aquelle desde quasi -um anno, isto é, o tempo em que estava no «Socego». -</p> - -<p> -Durante esse tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo -approveitamento de suas terras. Os seus habitos não foram mudados e a -sua actividade continuava sempre a mesma. É verdade que deixara de -parte os instrumentos de meteorologia. -</p> - -<p> -O hygrometro, o barometro e os outros companheiros não eram mais -consultados e as observações registradas num caderno. Dera-se mal com -elles. Fosse inexperiencia e ignorancia das bases theoricas delles, -fosse porque fosse, o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia -baseado em combinações dos seus dados, sahiam erradas. Se esperava -tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava chuva, lá vinha secca. -</p> - -<p> -Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus apparelhos, -com aquelle grosso e cavernoso sorriso de troglodyta: -</p> - -<p> -—<i>Quá</i> patrão! Isso de chuva vem quando Deus <i>qué</i>. -</p> - -<p> -O barometro aneroide continuava a um canto a dansar o seu ponteiro sem -ser percebido; o thermometro de maxima e minima, legitimo Casella, jazia -dependurado na varanda sem receber um olhar amigo; a caçamba do -pluviometro estava no gallinheiro e servia de bebedouro ás aves; só o -anemometro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já sem fio, no -alto do mastro, como se protestasse contra aquelle desprezo pela -sciencia que Quaresma representava. -</p> - -<p> -Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido, -embora tendo deixado de ser publica, lavrava occultamente. Havia no seu -espirito e no seu caracter uma vontade de acabal-a de vez, mas como? Se -não o accusavam, se não articulavam nada contra elle directamente? Era -um combate com sombras, com apparencias, que seria ridiculo acceitar. -</p> - -<p> -De resto, a situação geral que o cercava, aquella miseria da -população campestre que nunca suspeitara, aquelle abandono de terras -á improductividade, encaminhavam sua alma de patriota meditativo a -preoccupações angustiosas. -</p> - -<p> -Via o Major com tristeza não existir naquella gente humilde sentimento -de solidariedade, de apoio mutuo. Não se associavam para cousa alguma e -viviam separados, isolados, em familias geralmente irregulares, sem -sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. Entretanto, -tinham bem perto o exemplo dos portuguezes que, unidos aos seis e mais, -conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa importancia, -lucrar e viver. Mesmo o velho costume do <i>moitirão</i> já se havia -apagado. -</p> - -<p> -Como remediar isso? -</p> - -<p> -Quaresma desesperava... -</p> - -<p> -A tal affirmação de falta de braços pareceu-lhe uma affirmação de -má fé ou estupida, e estupido ou de má fé era o Governo que os -andava importando aos milhares, sem se preoccupar com os que já -existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia duzia de -cabeças de gado, fossem introduzidas mais tres, para augmenter o -estrume!... -</p> - -<p> -Pelo seu caso, elle via bem as difficuldades, os obices de toda a sorte -que havia para fazer a terra productiva e remunerada. Um facto veiu -mostrar-lhe com eloquencia um dos aspectos da questão. Vencendo a herva -de passarinho, os maus tratos e o abandono de tantos annos, os -abacateiros de suas terras conseguiram fructificar, fracamente é -verdade, mas de forma superior ás necessidades de sua casa. -</p> - -<p> -A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos -dinheiro que lhe dava a terra, sempre mãe e sempre virgem. Tratou de -vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou outro que os queria -comprar por preços infimos. Com decisão foi ao Rio procurar comprador. -Andou de porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que -procurasse um tal Sr. Azevedo no Mercado, o rei das fructas. Lá foi. -</p> - -<p> -—Abacates! Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos! -</p> - -<p> -—Entretanto, disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e -pediram-me pela duzia cinco mil réis. -</p> - -<p> -—Em porção, o Sr. sabe que... -</p> - -<p> -—É isso... Emfim, se quer mande-os... -</p> - -<p> -Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, pôz uma das mãos na cava -do collete e quasi de costas para o Major: -</p> - -<p> -—É preciso vel-os... O tamanho influe... -</p> - -<p> -Quaresma os mandou e, quando lhe veiu o dinheiro, teve a satisfação -orgulhosa, de quem acaba de ganhar uma grande batalha immortal. -Acariciou uma por uma aquellas notas encardidas, leu-lhes bem o numero e -a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma meza e muito -tempo levou sem animo de trocal-as. -</p> - -<p> -Para avaliar o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carroça, -o custo dos caixões, o salario dos auxiliares e, após esse calculo que -não era laborioso, teve a evidencia de que ganhara 1$500, mil e -quinhentos réis, nem mais nem menos. O Sr. Azevedo tinha-lhe pago pelo -cento a quantia com que se compra uma duzia. -</p> - -<p> -Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e elle viu naquelle ridiculo -lucro objecto para maior contentamento do que se recebesse um avultado -ordenado. -</p> - -<p> -Foi, portanto, com redobrada actividade que se poz ao trabalho. Para o -anno, o lucro seria maior. Tratava-se agora de limpar as fructeiras. -Anastacio e Felizardo continuavam occupados nas grandes plantações; -contratou um outro empregado para ajudal-o no tratamento das velhas -arvores fructiferas. -</p> - -<p> -Foi, pois, com o Mané Candieiro que elle se pôz a serrar os galhos das -arvores, os galhos mortos e aquelles em que a herva damninha segurava as -suas raizes. Era arduo e difficil o trabalho. Tinham ás vezes que subir -ás grimpas para a extirparão do galho attingido; os espinhos rasgavam -as roupas e feriam as carnes; e em muitas occasiões estiveram em risco -de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada. -</p> - -<p> -Mané Candieiro falava pouco, a não ser que se tratasse de cousas de -caça; mas cantava que nem passarinho. Estava a serrar, estava a cantar -trovas roceiras, ingenuas, onde com surpreza o Major não via entrar a -fauna, a flora locaes, os costumes das profissões roceiras. Eram -vaporosamente sensuaes e muito ternas, mellosas até; por acaso lá -vinha uma em que um passaro local entrara; então o Major escutava. -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Eu vou dar a despedida</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Como deu o bacuráo,</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Uma perna no cantinho</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Outra no galho de páu.</i></span> -</div></div> - -<p> -Este bacuráo que entrava ahi satisfazia particularmente ás -aspirações de Quaresma. A observação popular já começava a -interessar-se pelo espectaculo ambiente, já se emocionava com elle e a -nossa raça deitava, portanto, raizes na grande terra que habitara. Elle -a copiou e mandou ao velho poeta de S. Christovão. Felizardo dizia que -Mané Candieiro era um mentiroso, pois todas aquellas caçadas do -caitetus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento -poetico, principalmente no desafio: o moleque é bom! -</p> - -<p> -Elle era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e -fortes, um tanto amollecidas pelo sangue africano. -</p> - -<p> -Quaresma procurou descobrir nelle aquella odiosa catadura que Darwin -achou nos mestiços; mas, sinceramente, não a encontrou. -</p> - -<p> -Com auxilio de Mané Candieiro, foi que Quaresma conseguiu acabar de -limpar as fructeiras daquelle velho sitio abandonado ha quasi dez -annos. Quando o serviço ficou prompto, elle viu com tristeza aquellas -velhas arvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali... -Pareciam soffrer e elle se lembrou das mãos que as tinham plantado ha -vinte ou trinta annos, escravos, talvez, banzeiros e desesperançados!... -</p> - -<p> -Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdescesse, e o -renascimento das arvores como que trouxe o contentamento das aves e do -passaredo solto. De manhã, esvoaçavam os tyês vermelhos, com o seu -pio pobre, especie de ave tão inutil e tão bella de plumas que parece -ter nascido para os chapéos das damas; as rolas pardas e caboclas em -bando, mariscando, no chão capinado; pelo correr do dia, eram os -sanhassús a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens de -colleiros; e de tarde como que todos elles se reuniam, piando, cantando, -chilreando, pelas altas mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros, -entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma. -</p> - -<p> -Não durou muito essa alegria. Um inimigo appareceu inopinadamente, com -a rapidez ousadissima de um general consumado. Até ali elle se mostrara -timido, parecia que sómente mandava esclarecedores. -</p> - -<p> -Desde aquelle ataque ás provisões de Quaresma, logo afugentadas, não -mais as formigas reappareceram; mas, naquella manhã, quando contemplou -o seu milharal, foi como se lhe tirassem a alma, e ficou sem acção e -as lagrimas lhe vieram aos olhos. -</p> - -<p> -O milho que já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez -de criança, crescera cerca de meio palmo acima da terra; o Major até -mandara buscar o sulphato de cobre para a solução em que ia lavar a -batata ingleza a plantar nos intervallos dos pés. -</p> - -<p> -Toda a manhã, elle ia lá e já via o milharal crescido com o seu -pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho, oscillando ao -vento: naquella, elle não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham -sido cortados e levados para longe! A modo que e obra de gente, disse -Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terriveis -hymhopteros, piratas infimos que lhe cahiam em cima do trabalho com uma -rapacidade turca... Era preciso combatel-os. Quaresma poz-se logo em -campo, descobriu as aberturas principaes do formigueiro e em cada uma -queimou a formicida mortal. Passaram-se dias: os inimigos pareciam -derrotados; mas, certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite -estrellada, Quaresma ouviu uma bulha exquisita, como se alguem esmagasse -as folhas mortas das arvores... Um estalido... E era perto... Accendeu -um phosphoro e o que viu, meu Deus! Quasi todas as larangeiras estavam -negras de iminensas saúvas. Havia dellas ás centenas, pelos troncos e -pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas -transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, -outras desciam; nada de atropellos, de confusão, de desordem. O -trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima umas -cortavam as folhas pelo peciolo; cá em baixo, outras serravam-nas em -pedaços e afinal eram carregadas por terceiros, levantando-as acima da -descomunal cabeça, era longas fileiras pelo trilho limpo, aberto entre -a herva rasteira. -</p> - -<p> -Houve um instante de desanimo na alma do Major. Não tinha contado com -aquelle obstaculo nem o suppuzera tão forte. Agora via bem que era a -uma sociedade intelligente, organizada, ouzada e tenaz com quem se tinha -de haver. Veio-lhe então á lembrança aquella phrase de Saint-Hilaire: -se nós não expulsássemos as formigas ellas nos expulsariam. -</p> - -<p> -O Major não estava lembrado ao certo se eram essas palavras, mas o -sentido era, e ficou admirado que só agora ella lhe ocorresse. -</p> - -<p> -No dia seguinte, tinha recobrado o amino. Comprou ingredientes e eil-o -mais o Mané Candieiro, a abrir picadas a fazer esforços de sagacidade, -para descobrir os reductos centraes, as <i>panellas</i> dos insectos -terriveis. Então era como se os bombardeassem: o sulpheto queimava, -estourava em tiros seguidos, mortiferos, lethaes! -</p> - -<p> -E dahi em diante, foi uma batalha sem treguas. Se apparecia uma -abertura, um <i>olho</i>, logo se lhe applicava a formicida, pois do -contrario, nenhuma plantação era possivel, tanto mais que extinctos os -das suas terras, não tardariam os formigueiros das visinhanças ou dos -logradouros publicos a deitar caniculos para o seu terreno. -</p> - -<p> -Era um supplicio, um castigo, uma especie de vigilancia a dique -hollandez e Quaresma viu bem que só uma autoridade central, um governo -qualquer, ou um accôrdo entre os cultivadores, podia levar a effeito a -extincção daquelle flagello, peor que a saraiva, que a geada, que a -secca, sempre presente, inverno ou verão, outomno ou primavera. -</p> - -<p> -Não obstante essa luta diaria, o Major não desanimou e pôde colher -alguns productos das plantações que tinha feito. Se por occasião das -fructas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda ella -foi, quando viu partir para a estação em successivas carretas, as -aboboras, os aipins, as batatas doces, em cestos cobertos com saccos -cozidos. Os fructos, em parte, eram de outras mãos; as arvores não -tinham sido plantadas por elle; mas aquillo não, vinha do seu suor, da -sua iniciativa, do seu trabalho! -</p> - -<p> -Elle ainda foi ver aquelles cestos na estação, com a ternura de um pai -que vê partir seu filho para a gloria, e para a victoria. Recebeu o -dinheiro dias depois, contou o e esteve deduzindo os lucros. -</p> - -<p> -Não foi á roça nesse dia; o trabalho de guarda livros roubou o de -cultivador. A sua attenção, já um tanto gasta, não lhe favorecia a -tarefa das cifras, e só pelo meio do dia, pôde dizer a irmã: -</p> - -<p> -—Sabes qual foi o lucro, Adelaide? -</p> - -<p> -—Não, menor do que o dos abacates? -</p> - -<p> -—Um pouco mais. -</p> - -<p> -—Então... Quanto? -</p> - -<p> -—Dous mil quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando -syllaba por syllaba. -</p> - -<p> -—O que? -</p> - -<p> -—Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil quinhentos. -</p> - -<p> -D. Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura -que fazia, depois, levantando o olhar: -</p> - -<p> -—Homem, Polycarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito -dinheiro... Só com as formigas! -</p> - -<p> -—Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar -exemplo, levantar a agricultura, aproveitar as nossas terras -feracissimas... -</p> - -<p> -—É isto... Queres sempre ser a abelha mestra... Já viste os grandes -fazerem esses sacrificios... Vê lá se fazem! Historias... Mettem-se no -café que tem todas as protecções... -</p> - -<p> -—Mas, faço eu. -</p> - -<p> -A irmã prestou mais attenção a costura, Polycarpo levantou-se, foi -até á janella que dava para o gallinheiro. Fazia um dia fosco e -irritante. Elle concertou o pince-nez, esteve olhando e de lá falou: -</p> - -<p> -—Oh! Adelaide! Aquillo não é uma gallinha morta... -</p> - -<p> -A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até á janella e verificou -com a vista: -</p> - -<p> -—É... É já a segunda que morre hoje. -</p> - -<p> -Após esta leve conversa, Quaresma voltou á sua sala de estudos. -Meditava grandes reformas agricolas. Mandara buscar catalogos e ia -examinal-os. Tinha já em mente uma charrúa dupla, um capinador -mecanico, um semeador, um deslocador, grades, tudo americano, de aço, -dando o rendimento effectivo de 20 homens. Até então, não quizera -essas innovações; as terras mais ricas do mundo, não precisaram desse -processos que lhe pareciam artificiaes, para produzir; estava, porém, -agora disposto a empregal-os como experiencia. Aos adubos, no -entretanto, o seu espirito resistia. Terra virada, dizia Felizardo, -terra estrumada; parecia o Quaresma uma profanação estar a empregar -nitratos, phosphatos ou mesmo estrume commum, numa terra brasileira... -Uma injuria! -</p> - -<p> -Quando se convencesse de que eram necessarios, parecia-lhe que todo o -seu systema de idéas ia por terra e os moveis de sua vida -desappareceriam. Estava assim a escolher arados e outros «Planets», -«Bajacs» e «Brabants» de varios feitios, quando o seu pequeno -copeiro lhe annunciou a visita do dr. Campos. -</p> - -<p> -O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão, e o seu grande -corpo. Era alto e gordo, pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos, -quasi á flôr do rosto, uma testa média e recta: o nariz, mal feito. -Um tanto trigueiro, cabellos corridos e já grisalhos, era o que se -chama por ahi um caboclo, embora o seu bigode fosse crespo. Não nascera -em Curuzú, era da Bahia ou de Sergipe, habitava, porém, o logar ha -mais de vinte annos, onde casara e prosperara, graças ao dote da mulher -e á sua actividade clinica. Com esta, não gastava grande energia, -mental: tendo de côr uma meia duzia de receitas, elle, desde muito, -conseguira enquadrar as molestias locaes no seu reduzido formulario. -</p> - -<p> -Presidente da Camara, era das pessoas mais consideraveis da Curuzú, e -Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade, pela sua -affabilidade e simplicidade. -</p> - -<p> -—Ora, viva Major! Como vai isto por ahi? muita formiga? Lá em casa já -não ha mais. -</p> - -<p> -Quaresma respondeu com menor enthusiasmo e jovialidade, mas comente com -a alegria communicativa do doutor. Elle continuava a falar com -desembaraço e naturalidade: -</p> - -<p> -—Sabe o que me traz aqui, Major? Não sabe, não é? Preciso de um -pequeno obsequio seu. -</p> - -<p> -O Major não se espantou; sympathizava com o homem e abriu-se em -offerecimentos. -</p> - -<p> -—Como o Major sabe... -</p> - -<p> -Agora a sua voz era doce, flexivel, subtil; as palavras cahiam-lhe da -boca adocicadas, dobravam-se, colleavam-se: -</p> - -<p> -—Como o Major sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A -victoria é <i>nossa</i>. Todas as mezas estão comnosco, excepto uma... Ahi -mesmo, se o Major quizer... -</p> - -<p> -—Mas, como? se eu não sou eleitor, não me metto, nem quero metter-me -em politica? perguntou Quaresma ingenuamente. -</p> - -<p> -—Exactamente por isso, disse o doutor com voz forte: e em seguida -brandamente: a secção funcciona na sua vizinhança, é ali, na escola, -se... -</p> - -<p> -—E dahi? -</p> - -<p> -—Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o Major quer -responder (é melhor já) que não houve eleição... Quer? -</p> - -<p> -Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavaignac e -respondeu claramente, firmemente: -</p> - -<p> -—Absolutamente não. -</p> - -<p> -O doutor não se zangou. Pôz mais uncção e maciez a na voz, adduziu -argumentos: que era para o partido, o unico que pugnava pelo -levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexivel; disse que não, que -lhe eram absolutamente antipathicas taes disputas, que não tinha -partido e mesmo que tivesse não iria affirmar uma cousa que elle não -sabia ainda se era mentira ou verdade. -</p> - -<p> -Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre -cousas banaes e despediu-se com o ar amavel, com a jovialidade mais sua -que era possivel. -</p> - -<p> -Isto se passou na terça-feira, naquelle dia de luz fosca e irritante. -Á tarde houve trovoada, choveu muito. O tempo só levantou na -quinta-feira, dia em que o Major foi surprehendido com a visita de um -sujeito com um uniforme velho e lamentavel, portador de um papel -official para elle, proprietario do «Socego», conforme mesmo disse o -tal homem fardado. -</p> - -<p> -Em virtude das posturas e leis municipaes, rezava o papel, O Sr. -Polycarpo Quaresma, proprietario do sitio «Socego» era intimado, sob -as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e capinar as testadas do -referido sitio que confrontavam com as vias publicas. -</p> - -<p> -O Major ficou um tempo pensando. Julgava impossivel uma tal intimação. -Seria mesmo? Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assignatura do -Dr. Campos. Era certo... Mas que absurda intimação esta de capinar e -limpar estradas na extensão de mil duzentos metros, pois seu sitio dava -de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na -extensão de oitocentos metros—era possivel!? -</p> - -<p> -A antiga corvéa!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sitio. -Consultando a irmã, ella lhe aconselhou que falasse ao Dr. Campos. -Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com elle dias antes. -</p> - -<p> -—Mas és tolo, Polycarpo. Foi elle mesmo... -</p> - -<p> -A luz se lhe fez no pensamento... Aquella rede de leis, de posturas, de -codigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de taes caciques, se -transformava em pôtro, em polé, em instrumento de supplicios para -torturar os inimigos, opprimir as populações, crestar-lhes a -iniciativa e a independencia, abatendo-as e desmoralizando-as. -</p> - -<p> -Pelos seus olhos passaram num instante aquellas faces amarelladas e -chupadas que se encostavam nos portaes das vendas preguiçosamente; viu -tambem aquellas crianças maltrapilhas e sujas, d'olhos baixos, a -esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquellas terras -abandonadas, improductivas, entregues ás hervas e insectos damninhos; -viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, activo e trabalhador, sem -animo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que -lhe passava pelas mãos—este quadro passou-lhe pelos olhos com a -rapidez e o brilho sinistro do relampago; e só se apagou de todo, -quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara. -</p> - -<p> -Vinha viva e alegre. Contava pequenas historias de sua vida, a viagem -proxima do papai, á Europa, o desespero do marido no dia em que sahiu -sem annel, pedia noticias do padrinho, de D. Adelaide e, sem -desrespeito, recommendava á irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado -com o manto de arminho da «Duqueza». -</p> - -<p> -A «Duqueza» era uma grande pata branca, de penas alvas a macias ao -olhar, que, pela lentidão e magestade do andar, com o pescoço alto e o -passo firme, merecera de Olga esse appellido nobre. O animal tinha -morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas duzias de -patos, levara a «Duqueza» tambem. Era uma especie de paralysia que -tomava as pernas, depois o resto do corpo. Tres dias levou a agonizar. -Deitada sobre o peito, com o bico collado ao chão, atacada pelas -formigas, o animal só dava signal de vida por uma lenta oscillação do -pescoço em torno do bico, espantando as moscas que a importunavam na -sua ultima hora. -</p> - -<p> -Era de ver como aquella vida tão extranha á nossa, naquelle instante -penetrava em nós e sentiamo-lhe o soffrimento, a agonia e a dôr. -</p> - -<p> -O gallinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou gallinhas, -perús, patos; ora sobre uma forma, ora sobre outra, foi ceifando, -matando, até reduzir a sua população a menos de metade. -</p> - -<p> -E não havia quem soubesse curar. Numa terra, cujo Governo tinha tantas -escolas que produziam tantos sabios, não havia um só homem que pudesse -reduzir, com as suas drogas ou receitas aquelle consideravel prejuizo. -</p> - -<p> -Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador -enthusiastico dos primeiros mezes; entretanto não passara pela mente -de Quaresma abandonar os seus propositos. Adquiriu compendios de -veterinaria e até já tratava de comprar as machinas agricolas -descriptas nos catalogos. -</p> - -<p> -Uma tarde, porém, estava á espera da junta de bois que encommendara -para o trabalho do arado, quando lhe appareceu á porta um soldado de -policia com um papel official. Elle se lembrou da intimação municipal. -Estava disposto a resistir, não se incommodou muito. -</p> - -<p> -Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da -collectoria, cujo escrivão, Antonio Dutra, conforme estava no papel, -intimava o Sr. Polycarpo Quaresma a pagar quinhentos mil réis de multa, -por ter enviado productos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos -impostos. -</p> - -<p> -Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento -voou logo para as cousas geraes, levado pelo seu patriotismo profundo. -</p> - -<p> -A quarenta kilometros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao -mercado umas batatas? Depois de Turgot da Revolução, ainda havia -alfandegas interiores? -</p> - -<p> -Como era possivel fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e -impostos? Se ao monopolio dos atravessadores do Rio se juntavam as -exacções do Estado, como era possivel tirar da terra a remuneração -consoladora? -</p> - -<p> -E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação -da municipalidade, voltou-lhe de novo, mais tetrico, mais sombrio, mais -lugubre; e anteviu a epoca em que aquella gente teria de comer sapo, -cobras, animaes mortos, como em França os camponezes, em tempos de -grandes reis. -</p> - -<p> -Quaresma veiu a recordar-se do seu tupy, do seu <i>folk-lore</i>, das -modinhas, das suas tentativas agricolas—tudo isso lhe pareceu -insignificante, pueril, infantil. -</p> - -<p> -Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessario -refazer a administração. Imaginava um Governo forte, respeitado, -intelligente, removendo todos esses obices, esses entraves, Sully e -Henrique IV, espalhando sabias leis agrarias, levantando o cultivador... -Então sim! O celleiro surgiria e a patria seria feliz. -</p> - -<p> -Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar á -estação, e lhe disse: -</p> - -<p> -—Seu patrão, amanhã não venho <i>trabaiá</i>. -</p> - -<p> -—Por certo; é dia feriado... A Independencia. -</p> - -<p> -—Não é por isso. -</p> - -<p> -—Porque então? -</p> - -<p> -—Ha <i>baruio</i> na Côrte e dizem que vão <i>arrecutá</i>. Vou -p'r'o mato... Nada! -</p> - -<p> -—Que barulho? -</p> - -<p> -—<i>Tá</i> nas <i>foias</i>, sim <i>sinhô</i>. -</p> - -<p> -Abriu o jornal e logo deu com a noticia de que os navios da esquadra se -haviam insurgido e intimado ao Presidente a sahir do poder. Lembrou-se -das suas reflexões de instantes atrás; um Governo forte, até á -tyrannia... Medidas agrarias... Sully e Henrique IV... -</p> - -<p> -Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao -interior da casa, nada disse á irmã, tomou o chapéo, e dirigiu-se á -estação. -</p> - -<p> -Chegou ao telegrapho e escreveu: «Marechal Floriano, Rio. Peço -energia. Sigo já.—Quaresma». -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap05_2"></a></h4> - -<h4>V -<br /><br /> -O TROVADOR</h4> - -<p> -—De certo, Albernaz, não é possivel continuar assim... Então, -mette-se um sujeito num navio, assesta os canhões p'ra terra e diz: sai -d'ahi <i>seu</i> presidente; e o homem vai sahindo?... Não! É preciso um -exemplo.... -</p> - -<p> -—Eu penso tambem da mesma maneira, Caldas. A Republica precisa ficar -forte, consolidada... Esta terra necessita de Governo que se faça -respeitar... É incrivel! Um paiz como este, tão rico, talvez o mais -rico do mundo, é, no emtanto, pobre, deve a todo o mundo... Porque? Por -causa dos Governos que temos tido que não têm prestigio, força... É -por isso. -</p> - -<p> -Vinham andando, á sombra das grandes e magestosas arvores do parque -abandonado; ambos fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto -intervallo, continuou: -</p> - -<p> -—Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por -ahi, que o não chamasse de «banana» e outras cousas... Sahia no -Carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um -intruso. -</p> - -<p> -—E era um bom homem, observou o Almirante. Amava o seu paiz... -Deodoro nunca soube o que fez. -</p> - -<p> -Continuavam a andar. O Almirante coçou um dos favoritos e Albernaz -olhou um instante para todos os lados, accendeu o cigarro de palha e -retomou a conversa: -</p> - -<p> -—Morreu arrependido... Nem com a farda quiz ir para a cóva!... Aqui -para nós que ninguem nos ouve: foi um ingrato; o Imperador tinha feito -tanto por toda a familia, não acha? -</p> - -<p> -—Não ha duvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa: -estavamos melhor naquelle tempo, digam lá o que disserem... -</p> - -<p> -—Quem diz o contrario? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias? -um Rio Branco? -</p> - -<p> -—E mais justiça mesmo, disse com firmeza o Almirante. O que eu -soffri, não foi por causa do <i>velho</i>, foi a canalha... Demais, tudo -barato... -</p> - -<p> -—Eu não sei, disse Albernaz com particular accento, como ha ainda -quem se case... Anda tudo pela hora da morte! -</p> - -<p> -Elles olharam um instante as velhas arvores da Quinta Imperial, por onde -vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes -que jamais tinham pousado os olhos sobre amores tão soberbas, tão -bellas, tão tranquillas e seguras de si, como aquellas que espalhavam -sob os seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam -que medravam sentindo-se em terra propria, dellas, da qual nunca -sahiriam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e esse -sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade -de se expandirem. O sólo sobre a qual cresciam, era dellas e agradeciam -á terra extendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem, -para dar á boa mãe, frescura e protecção contra a inclemencia do -sol. -</p> - -<p> -As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas, -quasi beijavam o chão. As jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se -inclinavam, de um lado e outro da aléa, e cobriam a terra com uma ogiva -verde... -</p> - -<p> -O velho edificio imperial se erguia sobre a pequena collina. Elles lhe -viam o fundo, aquella parte de construcção mais antiga, joannina, com -a torre do relogio um pouco afastada e separada do corpo do edificio. -</p> - -<p> -Não era bello o palacio, não tinha mesmo nenhum traço de belleza, era -até pobre e monotono. As janellas acanhadas daquella fachada velha, os -andares de pequena altura impressionavam mal; todo elle, porém, tinha -uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco commum nas -nossas habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente -viver, não para um instante, mas para annos, para seculos... As -palmeiras cercavam-n'o, erectas, firmes, com es seus grandes penachos -verdes, muito altos, alongados para o céo... -</p> - -<p> -Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do -seu mister e funcção. -</p> - -<p> -Albernaz interrompeu o silencio: -</p> - -<p> -—Em que dará isto tudo, Caldas? -</p> - -<p> -—Sei lá. -</p> - -<p> -—O <i>homem</i> deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, -agora o Custodio... hum! -</p> - -<p> -—O poder é o poder, Albernaz. -</p> - -<p> -Vinham andando em demanda á estação de S. Christovão. Atravessaram o -velho parque imperial transversalmente, desde o portão da Cancella até -á linha da Estrada de Ferro. Era de manhã, e o dia estava limpido e -fresco. -</p> - -<p> -Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de -sahirem da Quinta, deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz -teve vontade de acordal-o: camarada! camarada! O soldado levantou-se -estremunhado: e, dando com aquelles dous officiaes superiores, -concertou-se rapidamente, fez a continencia que lhes era devida e ficou -com a mão no bonet, um instante firme, mas logo bambeou. -</p> - -<p> -—Abaixe a mão, fez o General. Que faz você aqui? -</p> - -<p> -Albernaz falou em tom rispido e de commando. A praça, falando a medo, -explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. A força se -recolhera aos quarteis; elle obtivera licença para ir em casa, mas o -somno fôra muito e descançava ali um pouco. -</p> - -<p> -—Então como vão as cousas? perguntou o General. -</p> - -<p> -—Não sei, não <i>sinhô</i>. -</p> - -<p> -—Os homens desistem ou não? -</p> - -<p> -O General esteve um instante examinando o soldado, Era branco e tinha os -cabellos alourados, de um louro sujo e degradado; as feições eram -feias: mallares salientes, testa ossea e todo elle anguloso e -desconjuntado. -</p> - -<p> -—Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz. -</p> - -<p> -—Do Piauhy, sim <i>sinhô</i>. -</p> - -<p> -—Da capital? -</p> - -<p> -—Do sertão, de Paranaguá, sim <i>sinhô</i>. -</p> - -<p> -O Almirante até ali não interrogara o soldado que continuava -amedrontado, respondendo tropegamente. Caldas, para acalmal-o, resolveu -falar-lhe com doçura. -</p> - -<p> -—Você não sabe, camarada, quaes são os navios que <i>elles</i> têm? -</p> - -<p> -—O «Aquidaban»... A «Lucy». -</p> - -<p> -—A «Lucy» não é navio. -</p> - -<p> -—É verdade, sim; sinhô. O «Aquidaban»... Um <i>bandão</i> delles, -sim, <i>sinhô</i>. -</p> - -<p> -O General interveio então. Falou-lhe com brandura, quasi paternal, -mudando o tratamento de você para tu, que parece mais doce e intimo -quando se fala aos inferiores: -</p> - -<p> -—Bem, descança, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te -o sabre e estás na <i>ignacia</i>. -</p> - -<p> -Os dous generaes continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na -plataforma, da estação. A pequena estação tinha um razoavel -movimento. Um grande numero de officiaes, activos, reformados, -honorarios moravam-lhe nas cercanias e os editaes chamavam todos a se -apresentar ás autoridades competentes. Albernaz e Caldas atravessaram -a plataforma no meio de continencias. O General, era mais conhecido em -virtude de seu emprego; o Almirante, não. Quando passavam, ouviam -perguntar: «quem é este Almirante»? Caldas ficava contente e -orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incognito. -</p> - -<p> -Havia uma unica mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e -lembrou-se um instante de sua filha Ismenia... Coitada!... Ficaria boa? -</p> - -<p> -Aquellas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lagrimas, mas elle as -reteve com força. -</p> - -<p> -Já a levara a uma meia duzia de medicos e nenhum fazia parar aquelle -escapamento do juizo que parecia fugir aos poucos do cerebro da moça. -</p> - -<p> -A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrepido, apitando -com furia e deixando fumaça pesada, pelos ares que rompia, afastou-o de -pensar na filha. Passou o monstro, pejado de soldados, de uniformes e os -trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam. -</p> - -<p> -Bustamante appareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para -apresentar-se. Trazia o seu velho uniforme do Paraguay, talhado segundo -os moldes dos guerreiros da Criméa. A barretina era um tronco de cône -que avançava para a frente; e, com aquella banda roxa e casaquinha -curta, parecia ter sahido, fugido, saltado de uma téla de Victor -Meirelles. -</p> - -<p> -—Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorario. -</p> - -<p> -—Viemos pela Quinta, disse o Almirante. -</p> - -<p> -—Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me -importa morrer, mas quero morrer combatendo; isso de morrer por ahi, á -toa, sem saber como, não vai commigo... -</p> - -<p> -O General falara um pouco alto e os jovens officiaes que estavam -proximo, olharam-n'o com mal disfarçada censura. Albernaz percebeu e -ajuntou immmediatamente: -</p> - -<p> -—Conheço bem esse negocio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe, -Bustamante, que, em Curuzú... -</p> - -<p> -—A cousa foi terrivel, accrescentou Bustamante. -</p> - -<p> -O trem atracava na estação. Veiu chegando manso, vagaroso, a -locomotiva, muito negra, bufando, sumido gordurosamente, com a sua -grande lanterna na frente, um olho de cyclope, avançava que nem uma -apparição sobrenattural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e -parou por fim. -</p> - -<p> -Estava repleto, muitas fardas de officiaes, a avaliar por ali o Rio -devia ter uma guarnição de cem mil homens. Os militares palravam -alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados. Se -falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de -traz. -</p> - -<p> -A cidade andava inçada de secretas, <i>familiares</i> do Santo Officio -Republicano, e as delações eram moedas com que se obtinham postos e -recompensas. -</p> - -<p> -Bastava a minima critica, para se perder o emprego, a liberdade,—quem -sabe?—a vida tambem. Ainda estavamos no começo da revolta, mas o -regimen já publicara o seu prologo e todos estavam avisados. O chefe de -policia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distincção de -posição e talentos. Mereciam as mesmas perseguições do Governo um -pobre continuo e um influente senador; um lente e um simples empregado -de escriptorio. Demais surgiam as vinganças! mesquinhas, a revide de -pequenas implicancias... Todos mandavam: a autoridade estava em todas as -mãos. -</p> - -<p> -Em nome do Marechal Floriano, qualquer official, ou mesmo cidadão, sem -funcção publica alguma, prendia e ai de quem cahia na prisão, lá -ficava esquecido, soffrendo angustiosos supplicios de uma imaginação -dominicana. Os funccionarios disputavam-se em bajulação, em -servilismo... Era um terror, um terror baço, sem coragem, sangrento, -ás occultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem -responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier -Tinville. -</p> - -<p> -Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, -os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação vinha da -convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a -companhia, a todos esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia -sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse -nefasto o hypocrita positivismo, um pedantismo tyrannico, limitado e -estreito, que justificava todas as violencias, todos os assassinios -todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição -necessaria, lá diz elle, ao progresso e tambem ao advento do regimen -normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com -fanhosas musicas de cornetins e versos detestaveis, o paraizo emfim, com -inscripções em escriptura phonetica e eleitos calçados com sapatos de -sola de borracha!... -</p> - -<p> -Os positivistas discutiam e citavam theoremas de mecanica para -justificar as suas idéas de Governo, em tudo semelhantes aos khanatos e -emirados orientaes. -</p> - -<p> -A mathematica do positivismo foi sempre um puro falatorio que, -naquelles tempos, amedrontava toda a gente. Havia mesmo quem estivesse -convencido que a mathematica tinha sido feita e criada para o -positivismo, como se a Biblia estivesse sido criada unicamente para a -Igreja Catholica e não tambem para a Anglicana. O prestigio delle era, -portanto, enorme. -</p> - -<p> -O trem correu, parou ainda em uma estação e foi ter á praça da -Republica. O Almirante, cozido com as paredes, seguiu para o Arsenal de -Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel General. Penetraram -no grande casarão, no meio do retinir de espadas, de tiques de -cornetas; o grande pateo estava cheio de soldados, bandeiras, canhões, -feixes de armas ensarilhadas, bayonetas reluzindo ao sol obliquo... -</p> - -<p> -No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vai-e-vem -de fardas, dourados, fazendas multicores, uniformes de varias -corporações e milicias, no meio dos quaes os trages escuros dos civis -eram importunos como moscas. Misturavam-se officiaes da guarda nacional, -da policia, da armada, do exercito, de bombeiros e de batalhões -patrioticos que começavam a surgir. -</p> - -<p> -Apresentaram-se e, depois de tel-o feito ao Ajudante General e Ministro -da Guerra, a um só tempo, ficaram a conversar nos corredores, com -bastante prazer, pois que tinham encontrado o Tenente Fontes e ambos -gostavam de ouvil-o. -</p> - -<p> -O General porque já era noivo de sua filha Lalá, e Bustamante porque -aprendia com elle alguma cousa de nomenclatura dos armamentos modernos. -</p> - -<p> -Fontes estava indignado, todo elle era horror, maldição contra os -insurrectos, e propunha os peores castigos. -</p> - -<p> -—Hão de ver o resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso do -Marechal, se os pegasse... ai delles! -</p> - -<p> -O Tenente não era feroz nem mau, antes bom e até generoso, mas era -positivista e tinha da sua Republica uma idéa religiosa e -transcendente. Fazia repousar nella toda a felicidade humana e não -admittia que a quizessem de outra forma que não aquella que imaginava -boa. Fóra dahi não havia boa fé, sinceriddae; eram hereticos -interesseiros, e, dominicano do seu barrete phrygio, raivoso por não -poder queimal-os em autos de fé, congesto, via passar por seus olhos -uma serie enorme de réos confitentes, relapsos, contumazes, falsos, -simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por ahi... -</p> - -<p> -Albernaz não tinha tanta furia contra os adversarios. No fundo d'alma, -elle os queria até, tinha amigos lá, e essas divergencias nada -significavam para a sua idade e experiencia. -</p> - -<p> -Depositava, entretanto, uma certa esperança na acção do Marechal. -Estando em apuros financeiros, não lhe dando o bastante a sua reforma e -a gratificação de organizador do archivo do largo do Moura, esperava -obter uma outra commissão, que lhe permitisse mais folgadamente -adquirir o enxoval de Lalá. -</p> - -<p> -O Almirante, tambem, tinha grande confiança nos talentos guerreiros e -de estadista de Floriano. A sua causa não ia lá muito bem. Perdera-a -em primeira instancia, estava gastando muito dinheiro... O Governo -precisava de officiais de marinha, quasi todos estavam na revolta; -talvez lhe dessem uma esquadra a commandar... É verdade que... Mas, que -diabo! Se fosse um navio, então sim: mas uma esquadra a cousa não era -difficil: bastava coragem para combater. -</p> - -<p> -Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim -que, para apoial-o e defender o seu Governo, imaginava organizar um -batalhão patriotico, de que já tinha o nome «Cruzeiro do Sul» e -naturalmente seria o seu commandante, com todas as vantagens do posto de -coronel. -</p> - -<p> -Genelicio, cuja actividade nada tinha de guerreira, esperava muito da -energia e da decisão do Governo de Floriano: esperava ser sub-director -e não podia um Governo sério, honesto e energico, fazer outra cousa, -desde que quizesse pôr ordem na sua secção. -</p> - -<p> -Essas secretas esperanças eram mais geraes do que se pode suppor. Nós -vivemos do Governo e a revolta representava uma confusão nos empregos, -nas honrarias e nas posições que o Estado espalha. Os suspeitos -abririam vagas e as dedicações suppririam os titulos e habilitações -para occupal-as; além disso, o Governo, precisando de sympathias e -homens, tinha que nomear, espalhar, prodigalizar, inventar, criar e -distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações. -</p> - -<p> -O proprio Dr. Armando Borges, o marido de Olga e sabio sereno e dedicado -quando estudante, collocava na revolta a realização de risonhos -anhelos. -</p> - -<p> -Medico e rico, pela fortuna da mulher, elle não andava satisfeito. A -ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-n'o. Já era -medico do Hospital Syrio, onde ia tres vezes por semana e, em meia hora, -via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro, dava-lhe -informações, o doutor ia de cama em cama, perguntando: como vai? Vou -melhor seu doutor, respondia o syrio com voz gutural. Na seguinte, -indagava: Já está melhor? E assim passava a visita; chegando ao -gabinete receitava: doente n. 1, repita a receita; doente 5... quem -é?... Quem é aquelle barbado... Ahn! E receitava. -</p> - -<p> -Mas medico de um hospital particular não dá fama a ninguem: o -indispensavel é ser do Governo, senão elle não passava, de um simples -pratico. Queria ter um cargo official, medico, director ou mesmo lente -da Faculdade. -</p> - -<p> -E isso não era difficil, desde que arranjasse boas recommendações, -pois já tinha certo nome, graças á sua actividade e fertilidade de -recursos. -</p> - -<p> -De quando em quando, publicava um folheto «O cobreiro, Etiologia, -Prophylaxia e tratamento» ou «Contribuição para o estudo da sarna no -Brasil»; e mandava o folheto, quarenta e sessenta paginas, aos jornaes -que se occupavam delle duas ou tres vezes por anno; <i>o operoso, Dr. -Armando Borges, o illustre clinico, o proficiente medico da nossos -hospitaes, etc. etc</i>. -</p> - -<p> -Obtinha isso graças á precaução que tomara em estudante de se -relacionar com os rapazes da imprensa. -</p> - -<p> -Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que -não havia nada de proprio, mas ricos de citações em francez, inglez e -allemão. -</p> - -<p> -O logar de lente é que o tentava mais; o concurso porém, mettia-lhe -medo. Tinha elementos, estava bem relacionado e cotado na Congregação, -mas aquella historia de arguição apavorava-o. -</p> - -<p> -Não havia dia em que não comprasse livros, em francez, inglez e -italiano; tomara até um professor de allemão para entrar na sciencia -germanica; mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a sua -felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando -estudante. -</p> - -<p> -A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em bibliotheca. -As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes -tratados. Ar noite, elle abria as janellas das venezianas, accendia -todos os bicos de gaz e se punha á meza, todo de branco com um livro -aberto sob os olhos. -</p> - -<p> -O somno não tardava a vir ao fim da quinta pagina... isso era o diabo! -Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances francezes, Goncourt, -Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira -que os tratados. Elle não comprehendia a grandeza daquellas analyses, -daquellas descripções, o interesse e o valor dellas, revelando a -todos, á sociedade, a vida, os sentimentos, as dores daquelles -personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa sciencia e a -pobreza de sua instrucção geral faziam-n'o ver naquillo tudo, -brinquedos, passatempos, falatorios, tanto mais que elle dormia á -leitura, de taes livros. -</p> - -<p> -Precisava, porém, illudir-se, a si mesmo e á mulher. De resto, da rua, -viam-n'o e se dessem com elle a dormir sobre os livros?!... Tratou de -encommendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com titulos -trocados e afastou o somno. -</p> - -<p> -A sua clinica, entretanto, prosperava. De commandita com o tutor, chegou -a ganhar uns seis contos, tratando de um febrão de uma orphã rica. -</p> - -<p> -Desde muito que a mulher lhe entrara na sua simulação de -intelligencia, mas aquella manobra indecorosa, indignou-a. Que -necessidade tinha elle disso? Não era já rico? Não era moço? Não -tinha o privilegio de um titulo universitario? Tal acto pareceu á moça -mais vil, mais baixo, que a usura de um judeu, que o aluguel de uma -penna... -</p> - -<p> -Não foi desprezo, nojo que ella teve pelo marido; foi um sentimento -mais calmo, menos activo; desinteressou-se delle, destacou-se de sua -pessoa. Ella sentiu que tinham cortado todos os laços de affeição, de -sympathia, que prendiam ambos, toda a ligação moral, emfim. -</p> - -<p> -Mesmo quando noiva, verificara que aquellas cousas de amor ao estudo, de -interesse pela sciencia, de ambições de descobertas, nelle, eram -superficiaes, estavam á flor da pelle; mas desculpou. Muitas vezes nós -nos enganamos sobre as nossas proprias forças e capacidades; sonhamos -ser Shakespeare e sahimos Mal dos Vinhas. Era perdoavel, mas charlatão? -Era de mais! -</p> - -<p> -Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quasi -indignidade?... Todos os homens deviam ser iguaes, era inutil mudar -deste para aquelle... -</p> - -<p> -Quando chegou a esta conclusão, sentiu um grande allivio, e a sua -physionomia se illuminou de novo como se já estivesse de todo passada a -nuvem que empanava o sol dos seus olhos. -</p> - -<p> -Naquella carreira atropellada para o nome facil, elle não deu pelas -modificações da mulher. Ella dissimulava os seus sentimentos, mais por -dignidade e delicadeza, que mesmo por qualquer outro motivo; e a elle -faltavam a sagacidade e finura necessarias para descobril-os sob o seu -esconderijo. -</p> - -<p> -Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quando estavam longe um -do outro!... -</p> - -<p> -A revolta veiu encontral-os assim; e o doutor, desde tres dias, pois ha -tanto ella rebentara, meditava a sua ascenção social e monetaria. -</p> - -<p> -O sogro suspendera a viagem á Europa, e, naquella manhã, após o -almoço, conforme o seu habito, lia recostado numa cadeira de viagem os -jornaes do dia. O genro vestia-se e a filha; occupava-se com sua -correspondencia, escrevendo á cabeceira da meza de jantar. Ella tinha -um gabinete, com todo o luxo, livros, secretaria, estantes, mas gostava -pela manhã, de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe parecia mais -clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade -ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no escrever. -</p> - -<p> -Ella escrevia e o pai lia; num dado momento elle disse: -</p> - -<p> -—Sabes quem vem ahi, minha filha? -</p> - -<p> -—Quem é? -</p> - -<p> -—Teu padrinho. Telegraphou ao Floriano, dizendo que vinha... Está -aqui, n'«O Paiz». -</p> - -<p> -A moça adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir do facto sobre -as idéas e sentimentos de Quaresma. Quiz desapprovar, censurar; -sentiu-o, porém, tão coherente com elle mesmo, tão de accordo com a -substancia da vida que elle mesmo fabricara, que se limitou a sorrir -complacente: -</p> - -<p> -—O padrinho... -</p> - -<p> -—Está doido, disse Coleoni. <i>Per la madona</i>! Pois um homem que -está quieto, socegado, vem metter-se nesta barafunda, neste inferno... -</p> - -<p> -O doutor voltava já inteiramente vestido, com a sobrecasaca funebre e a -cartola reluzente na mão. Vinha irradiante e o seu rosto redondo -reluzia, excepto onde o grande bigode punha sombras. Ainda ouviu as -ultimas palavras do sogro, pronunciadas com aquelle seu portuguez rouco. -</p> - -<p> -—Que ha? perguntou elle. -</p> - -<p> -Coleoni explicou a repetiu os commentarios que já fizera: -</p> - -<p> -—Mas não ha tal, disse o doutor. É o dever de todo o patriota... Que -tem a idade? Quarenta e poucos annos, não é lá velho... Póde ainda -bater-se pela Republica... -</p> - -<p> -—Mas não tem interesse nisso, objectou o velho. -</p> - -<p> -—E ha de ser só quem tem interesse que se deve bater pela Republica? -interrogou o doutor. -</p> - -<p> -A moça que acabava de ler a carta que tinha escripto, mesmo sem -levantar a cabeça, disse: -</p> - -<p> -—De certo. -</p> - -<p> -—É vêm você com as suas theorias, filhinha. O patriotismo não está -na barriga... -</p> - -<p> -E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes -postiços mais falsificava. -</p> - -<p> -—Mas vocês só falam em patriotismo? E os -outros! É monopolio de vocês o patriotismo? fez Olga. -</p> - -<p> -—De certo. Se elles fossem patriotas não estariam a despejar balas -para a cidade, a entorpecer e desmoralisar a acção da autoridade -constituida. -</p> - -<p> -—Deviam continuar a presenciar as prisões, as deportações, os -fuzilamentos, toda a serie de violencias que se vêm commettendo, aqui e -no Sul? -</p> - -<p> -—Você, no fundo, é uma revoltosa, disse o doutor fechando a -discussão. -</p> - -<p> -Ella não deixava de ser. A sympathia dos desinteressados, da -população. inteira era pelos insurgentes. Não só isso sempre -acontece em toda a parte, como particularmente, no Brasil, devido a -multiplos factores, ha de ser assim normalmente. -</p> - -<p> -Os Governos, com os seus inevitaveis processos de violencia e -hypocrisias, ficam alheiados da sympathia dos que acreditam nelle; e -demais, esquecidos de sua vital impotencia e inutilidade, levam a -prometter o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que -pedem sempre mudanças e mudanças. -</p> - -<p> -Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para os revoltosos; e -Coleoni, estrangeiro e conhecendo, graças á sua vida, as nossas -autoridades, calasse as suas sympathias num mutismo prudente. -</p> - -<p> -—Não me vá comprometter, hein Olga? -</p> - -<p> -Ella se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco, -deitou-lhe o seu grande olhar luminoso e com os finos labios um pouco -franzidos: -</p> - -<p> -—Você sabe bem que eu não te comprometto. -</p> - -<p> -O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do -portão disse adeus a mulher, que lhe seguiu a sahida, debruçada na -varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados. -</p> - -<p> -Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado das contingencias -terrenas. -</p> - -<p> -Ricardo vivia ainda na sua casa de commodos dos suburbios, cuja vista ia -de Todos os Santos á Piedade, abrangendo um grande trato de area -edificada, um panorama de casas e arvores. -</p> - -<p> -Já não se falava mais no seu rival e a sua magua tinha assentado. -</p> - -<p> -Por esses dias o seu triumpho desfilava sem contestação. Toda a cidade -o tinha na consideração devida e elle quasi se julgava ao termo da sua -carreira. Faltava o assentimento de Botafogo, mas estava certo de obter. -</p> - -<p> -Já publicara mais de um volume de canções; e, agora pensava em -publicar mais outro. -</p> - -<p> -Ha dias vivia em casa, pouco sahindo, organizando o seu livro. Passava -confinado no seu quarto, almoçando café, que elle mesmo fazia, e pão, -indo á tarde jantar a uma tasca proximo á estação. -</p> - -<p> -Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que -jantavam nas mezas sujas, abaixavam a voz e olhavam-n'o desconfiados; -mas não deu importancia... -</p> - -<p> -Apezar de popular no logar, não encontrara pessoa alguma conhecida -durante os tres ultimos dias; elle mesmo evitava falar e, em sua casa, -limitava-se ao «bom dia» e á «boa tarde» trocados com os vizinhos. -</p> - -<p> -Gostava de passar assim dias, mettido em si mesmo e ouvindo o seu -coração. Não lia jornaes para não distrahir a attenção do seu -trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de -ser mais uma victoria para elle e para o violão estremecido. -</p> - -<p> -Naquella tarde estava sentado á meza, corrigindo um dos seus trabalhos, -um dos ultimos, aquelle que compuzera no sitio de Quaresma—«Os lábios -de Carola». -</p> - -<p> -Primeiro, leu toda a producção, cantarolando: voltou a lel-a, agarrou -o violão para melhor apanhar o effeito e empacou nestes: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2">É mais bella que Helena e Margarida,</span><br /> -<span class="i2">Quando sorri meneando a ventarola.</span><br /> -<span class="i2">Só se encontra a illusão que adoça a vida</span><br /> -<span class="i4">Nos labios de Carola.</span> -</div></div> - -<p> -Nisto ouviu um tiro, depois outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de -ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a -cantar os labios de Carola, onde encontrava a illusão que adoça a -vida... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="Terceira">TERCEIRA PARTE</a></h4> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap01_3"></a></h4> - -<h4>I -<br /><br /> -PATRIOTAS</h4> - -<p> -Havia mais do uma hora que elle estava ali, num grande salão do -palacio, vendo o Marechal, mas sem lhe poder falar. Quasi não se -encontravam difficuldades para se chegar á sua presença, mas -falar-lhe, a cousa não era tão facil. -</p> - -<p> -O palacio tinha um ar de intimidade, de quasi relaxamento, -representativo o eloquente. Não era raro ver-se pelos divans, em outras -salas, ajudantes de ordens, ordenanças, continuos, cochilando, meio -deitados e desabotoados. Tudo nelle era desleixo e molleza. Os cantos -dos tectos tinham teias de aranha; dos tapetes, quando pisados com mais -força, subia uma poeira do rua mal varrida. -</p> - -<p> -Quaresma não pudera vir logo, como annunciara no telegramma. Fôra -preciso por em ordem os seus negocios, arranjar quem fizesse companhia -á irmã. Fizera D. Adelaide mil objecções á sua partida; -mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompativeis com a sua idade -e superiores á sua força; elle, porém, não se deixara abater, fizera -pé firme, pois sentia, indispensavel, necessario que toda a sua -vontade, que toda a sua intelligencia, que tudo o que elle tinha de -vida e actividade fosse posto á disposição do Governo, para -então!... oh! -</p> - -<p> -Aproveitava os dias até para redigir um memorial que ia entregar a -Floriano. Nelle expunham-se as medidas necessarias para o levantamento -da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande -propriedade, das exacções fiscaes, da carestia de fretes, da -estreiteza dos mercados e das violencias politicas. -</p> - -<p> -O Major apertava o manuscripto na mão e lembrava-se da sua casa, lá -longe, no canto daquella planicie feia, olhando, no poente, as montanhas -que se alongavam, se afilavam nos dias claros e transparentes; -lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e placidos que o viram -partir com uma impassibilidade que não era natural; mas do que se -lembrava mais, naquelle momento, era do Anastacio, o seu preto velho, do -seu longo olhar, não mais com aquella ternura passiva de animal -domestico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito -nas orbitas as escleroticas muito brancas, quando o viu penetrar no -vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça... Não lhe -era commum tal attitude e como que a tomava por ter descoberto nas -cousas signaes de dolorosos acontecimentos a vir... Ora!... -</p> - -<p> -Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro á espera que o -Presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia e -Floriano tinha ainda, como signal do almoço, o palito na boca. -</p> - -<p> -Falou em primeiro logar a uma commissão de senhoras que vinham -offerecer o seu braço e o seu sangue em defeza das instituições e da -patria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto, gorda, com -grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita. -</p> - -<p> -Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam -tantas nella que uma escondia a outra, furtando toda ella a uma -classificação honesta. -</p> - -<p> -Emquanto falava, a mulhersinha deitava sobre o Marechal os grandes olhos -que despediam chispas. Floriano parecia incommodado com aquelle -chammejar; era como se temesse derreter-se ao calor daquelle olhar que -queimava mais seducção que patriotismo. Fugia encaral-a, abaixava o -rosto como um adolescente, batia com os dedos na meza... -</p> - -<p> -Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem -encarar a mulher, e, com um grosso e difficil sorriso do roceiro, -declinou da offerta, visto a Republica ainda dispor de bastante força -para vencer. -</p> - -<p> -A ultima phrase, elle a disse com mais vagar e quasi ironicamente. As -damas despediram-se; o Marechal gyrou o olhar em torno do salão e deu -com Quaresma: Então, Quaresma? fez elle familiarmente. -</p> - -<p> -O Major ia approximar-se, mas logo estacou no logar em que estava. Uma -chusma de officiaes subalternos e cadetes cercou o dictador e a sua -attenção convergiu para elles. Não se ouvia o que diziam. Falavam ao -ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espaduas. O Marechal -quasi não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossylabo, -cousa que Quaresma percebia pela articulação dos labios. -</p> - -<p> -Começaram a sahir. Apertavam a mão do dictador e, um delles, mais -jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com força a mão -molle, bateu-lhe no hombro com intimidade, e disse alto e com emphase; -energia, Marechal! -</p> - -<p> -Aquillo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo -ceremonial da Republica, que ninguem, nem o proprio Floriano, teve a -minima surpreza, ao contrario alguns até sorriram alegres por ver o -califado khan, o emir, transmittir um pouco do que tinha de sagrado ao -subalterno desabusado. Não se foram todos immediatamente. Um delles -demorou-se mais a segredar cousas á suprema autoridade do paiz. Era um -cadete da Escola Militar, com a sua farda azul turqueza, talim e sabre de -praça de pret. -</p> - -<p> -Os cadetes da Escola Militar formavam a phalange sagrada. -</p> - -<p> -Tinham todos os privilegios e todos os direitos; precediam ministros nas -entrevistas com o dictador e abusavam dessa situação de esteio do -sylla, para opprimir e vexar a cidade inteira. -</p> - -<p> -Uns trapos do positivismo se tinham collado naquellas intelligencias e -uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando a -autoridade, especialmente Floriano e vagamente a Republica, em artigo de -fé, em feitiço, em idolo mexicano, em cujo altar todas as violencias -e crimes eram oblatas dignas e offerendas uteis para a sua satisfação -e eternidade. -</p> - -<p> -O cadete lá estava... -</p> - -<p> -Quaresma pôde então ver melhor a physionomia do homem que ia enfeixar -em suas mãos, durante quasi um anno, tão fortes poderes, poderes de -imperador Romano pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar -obstaculo algum aos seus caprichos, ás suas fraquezas e vontades, nem -mas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal e humana. -</p> - -<p> -Era vulgar e desoladora. O bigode cahido; o labio inferior pendente e -molle a que se agarrava uma grande <i>mosca</i>; os traços flacidos e -grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse -propria, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, -redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era -individual, mas nativa, de raça; e todo elle era gelatinoso, parecia -não ter nervos. -</p> - -<p> -Não quiz o Major ver em taes signaes nada que lhe denotasse o caracter, -a intelligencia e o temperamento. Essas cousas não vogam, disse elle de -si para si. -</p> - -<p> -O seu enthusiasmo por aquelle idolo politico era forte, sincero e -desinteressado. Tinha-o na conta de energico, de fino e supervidente, -tenaz e conhecedor das necessidades do paiz, manhoso talvez um pouco, -uma especie de Luiz XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era -assim. Com uma ausencia total de qualidades intellectuaes, havia no -caracter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tristeza de -animo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça commum, -essa preguiça de nós todos; era uma preguiça morbida, como que uma -pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insufficiente quantidade -de irrigação no seu organismo. Pelos logares que passou, tornou-se -notavel pela indolencia e desamor ás obrigações dos seus cargos. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Quando director do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para -assignar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro -da guerra, passava mezes e mezes sem lá ir, deixando tudo por assignar, -pelo que legou ao seu substituto um trabalho avultadissimo. -</p> - -<p> -Quem conhece a actividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de -um Philippe II, de um Guilherme I, da Allemanha, em geral de todos os -grandes homens de Estado, não comprehende o descaso florianesco pela -expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, -de suas vistas, certamente necessarias deviam ser taes transmissões -para que o seu senso superior se fizesse sentir e influisse na marcha -das cousas governamentaes e administrativas. -</p> - -<p> -Dessa sua preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus -mysteriosos monosyllabos, levados á altura de ditos sybillinos, as -famosas <i>encruzilhadas dos tal vezes</i>, que tanto reagiram sobre a -intelligencia e imaginação nacionaes, mendigas de heroes e grandes -homens. -</p> - -<p> -Essa doentia preguiça, fazia-o andar de chinellos e deu-lhe aquelle -aspecto de calma superior, calma de grande homem de estado ou de -guerreiro extraordinario. -</p> - -<p> -Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros mezes de -governo. A braços com o levante de presos, praças e inferiores da -fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inquerito, abafou-o com -medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra -sedicção, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores -e mais altas recompensas. -</p> - -<p> -Demais, ninguem póde admittir um homem forte, um Cesar, um Napoleão, -que permitta aos subalternos aquellas intimidades deprimentes e tenha -com elles as condescendencias que elle tinha, consentindo que o seu nome -servisse de labaro para uma vasta serie de crimes de toda a especie. -</p> - -<p> -Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atomosphera de má vontade -Napoleão assumiu o commando do exercito da Italia. Augereau que o -chamava «general de rua», disse a alguem, após lhe ter falado: «o -homem metteu-me medo»; e o corso estava senhor do exercito, sem -<i>balidellas</i> no hombro, sem delegar tacita ou explicitamente a sua -autoridade a subalternos irresponsaveis. -</p> - -<p> -De resto, a lentidão com que suffocou a revolta de 6 de Setembro mostra -bem a incerteza, a vacillação de vontade de um homem que dispunha -daquelles extraordinarios recursos que estavam ás suas ordens. -</p> - -<p> -Ha uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus -movimentos, actos e gestos. Era o seu amor á familia, um amor -entranhado, alguma cousa de patriarchal, de antigo que já se vai -esvaindo com a marcha da civilização. -</p> - -<p> -Em virtude de insuccessos na exploração agricola de duas das suas -propriedades, a sua situação particular era precaria, e não queria -morrer sem deixar á familia as suas propriedades agricolas desoneradas -do peso das dividas. -</p> - -<p> -Honesto e probo como era, a unica esperança que lhe restava, repousava -nas economias sobre os seus ordenados. Dahi lhe veiu essa dubiedade, -esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensavel para conservar os -rendosos logares que teve e o fez atarrachar-se tenazmente á -presidencia da Republica. A hypotheca do «Brejão» e do «Duarte» foi -o seu nariz de Cleopatra... -</p> - -<p> -A sua preguiça, a sua tistreza de animo e o seu amor fervoroso pelo lar -deram em resultado esse <i>homem-talvez</i> que, refractado nas -necessidades mentaes e sociaes dos homens do tempo, foi transformado em -estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais -teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até -enthusiasmo e fanatismo. -</p> - -<p> -Esse enthusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que -o sustentaram, só teriam sido possiveis, depois de ter elle sido -ajudante general do Imperio, senador, ministro, isto após se ter -<i>fabricado</i> á vista de todos o chrystalizado a lenda na mente de -todos. -</p> - -<p> -A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, -nem a aristocracia; era a de uma tyrannia domestica. O bêbê portou-se -mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande o portar-se mal em fazer-lhe -opposição, ter opiniões contrarias ás suas e o castigo não eram -mais palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não ha dinheiro no -Thesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se -faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais agua. -</p> - -<p> -Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce -a essa concepção infantil, raiando-a de violencia, não tanto por elle -em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela vida -humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade -dos seus auxiliares e asseclas. -</p> - -<p> -Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; elle com muitos homens -honestas e sinceros do tempo, foram tomados pelo enthusiasmo contagioso -que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino -reservava aquella figura placida e triste; na reforma radical que elle -ia levar organismo anniquilado da patria, que o Major se habituara a -crer a mais rica do mundo, embora, de uns tempos para cá, já tivesse -duvidas a certos respeitos. -</p> - -<p> -De certo, elle não negaria taes esperanças e a sua acção poderosa -havia de se fazer sentir pelos oito milhões de kilometros quadrados do -Brasil, levando-lhes estradas, segurança, protecção aos fracos, -assegurando o trabalho e promovendo a riqueza. -</p> - -<p> -Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro de -espera, desde que o Marechal lhe falou familiarmente, começou a -considerar aquelle homem pequenino, taciturno, de <i>pince-nez</i> e foi-se -chegando, se approximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quasi -como um terrivel segredo: -</p> - -<p> -—Elles vão ver o <i>caboclo</i>... O Major ha muito que o conhece? -</p> - -<p> -Respondeu-lhe o Major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o -presidente, porém, ficara só e Quaresma avançou. -</p> - -<p> -—Então, Quaresma? fez Floriano. -</p> - -<p> -—Venho offerecer á V. Ex. os meus fracos prestimos. -</p> - -<p> -O presidente considerou um instante aquella pequenez de homem, sorriu -com difficuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu -por ahi a força de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa. -</p> - -<p> -—Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal. -</p> - -<p> -Floriano tinha essa capacidade de guardar physionomias, nomes, empregos, -situações dos subalternos com quem lidava. Tinha alguma cousa de -asiatico; era cruel e paternal ao mesmo tempo. -</p> - -<p> -Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a occasião para lhe falar -em leis agrarias, medidas tendentes a desafogar e dar novas bases á -nossa vida agricola. O Marechal ouviu-o distrahido, com uma dobra de -aborrecimento no canto dos labios. -</p> - -<p> -—Trazia á V. Ex. até este memorial... -</p> - -<p> -O presidente teve um gesto de mau humor, um quasi «não me amole» e -disse com preguiça a Quaresma: -</p> - -<p> -—Deixa ahi... -</p> - -<p> -Depositou o manuscripto sobre meza e logo o dictador dirigiu-se ao -interlocutor de ainda agora: -</p> - -<p> -—Que ha, Bustamante? e o batalhão, vai? -</p> - -<p> -O homem approximou-se mais, um tanto amedrontado! -</p> - -<p> -—Vai bem, Marechal. Precisamos de um quartel... Se V. Ex. desse -ordem... -</p> - -<p> -—É exacto. Fala ao Rufino em meu nome que elle póde arranjar... Ou -antes: leva-lhe este bilhete. -</p> - -<p> -Rasgou um pedaço de uma das primeiras paginas do manuscripto de -Quaresma, e assim mesmo, sobre aquella ponta de papel, a lapiz azul, -escreveu algumas palavras ao seu ministro da guerra. Ao acabar é que -deu com a desconsideração: -</p> - -<p> -—Ora! Quaresma! rasguei o teu escripto... Não faz mal... Era a parte -de cima, não tinha nada escripto. -</p> - -<p> -O Major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para -Bustamante: -</p> - -<p> -—Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres? -</p> - -<p> -—Eu! foz Quaresma estupidamente. -</p> - -<p> -—Bem. Vocês lá se entendam. -</p> - -<p> -Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas -do Itamaraty. Até á rua nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um -pouco frio. O dia estava claro e quente; o movimento da cidade parecia -não ter soffrido alteração apreciavel. Havia a mesma agitação de -bondes, carros e carroças; mas nas physionomias, um terror, um espanto, -alguma cousa de tremendo ameaçava, todos e parecia estar suspenso no -ar. -</p> - -<p> -Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora -Tenente-Coronel, velho amigo do Marechal, seu companheiro no Paraguay. -</p> - -<p> -—Mas nós nos conhecemos! exclamou elle. -</p> - -<p> -Quaresma esteve olhando aquelle velho mulato escuro, com uma grande -barba mosaica e olhos espertos, mas não se lembrou de tel-o já -encontrado algum dia. -</p> - -<p> -—Não me recordo... Donde? -</p> - -<p> -—Da casa do General Albernaz... Não se lembra? -</p> - -<p> -Polycarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a -formação do seu batalhão patriotico «Cruzeiro do Sul». -</p> - -<p> -—O Sr. quer fazer parte? -</p> - -<p> -—Pois não, fez Quaresma. -</p> - -<p> -—Estamos em difficuldades... Fardamento, calçado para as praças... -Nas primeiras despezas devemos auxiliar o Governo... Não convém -sangrar o Thesouro, não acha? -</p> - -<p> -—Certamente, disse com enthusiasmo Quaresma. -</p> - -<p> -—Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um -patriota... Resolvi por isso fazer um rateio pelos officiaes, em proporção -ao posto: um alferes concorre com cem mil réis, um tenente com duzentos... -O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O senhor é major, não é? -</p> - -<p> -Quaresma então explicou por que o tratavam por Major. Um amigo, -influencia no Ministerio do Interior, lhe tinha mettido o nome numa lista -de guardas nacionaes, com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos, -viu-se, entretanto, sempre tratado Major, e a cousa pegou. A principio, -protestou, mas como teimassem deixou. -</p> - -<p> -—Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo Major. -</p> - -<p> -—Qual é a minha quota? -</p> - -<p> -—Quatrocentos mil réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um -posto importante... Aceita? -</p> - -<p> -—Pois não. -</p> - -<p> -Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha do lapiz e -despediu-se jovialmente. -</p> - -<p> -—Então, Major, ás seis, no quartel provisorio. -</p> - -<p> -A conversa se havia passado na esquina da rua Larga com o Campo de -Sant'Anna. Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da -cidade. Tencionava visitar o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas -para a sua iniciação militar. -</p> - -<p> -A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto -compassado das mulas; de quando em quando ou via-se um toque de corneta, -rufos de tambor, e do portão central do Quartel General sahia uma -força, armas ao hombro, bayonetas caladas, dansando nos hombros dos -recrutas, faiscando com um brilho duro e máu. -</p> - -<p> -Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o -secco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o bonde attingisse -á rua da Constituição, todos os rumores guerreiros tinham cessado, e -quem não estivesse avisado havia de suppor-se em tempos normaes. -</p> - -<p> -Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que -comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido; -bateram-lhe no hombro. Voltou-se. -</p> - -<p> -—Oh! General! -</p> - -<p> -O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimonias e -tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos -que se tinham enfraquecido por uma separação qualquer. Estava fardado, com -aquelle seu uniforme mal tratado; não trazia espada e o <i>pince-nez</i> -continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detraz da -orelha esquerda. -</p> - -<p> -—Então vem ver a cousa? -</p> - -<p> -—Vim. Já me apresentei ao Marechal. -</p> - -<p> -—<i>Elles</i> vão ver com quem se metteram. Pensam que tratam com o -Deodoro, enganam-se!... A Republica, graças a Deus, tem agora um homem -na sua frente... O <i>caboclo</i> é de ferro... No Paraguay... -</p> - -<p> -—O Sr. conheceu-o lá, não, General? -</p> - -<p> -—Isto é... Não chegamos a nos encontrar, mas o Camisão... É duro, o -homem. Estou como encarregado das munições... É fino o <i>caboclo</i>; -não me quiz no litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que -saia das minhas mãos, é munição... Lá, no deposito, não me sai um -caixote que eu não examine... É necessario... No Paraguay, houve muita -desordem e comilança: mandou-se muita cal por polvora—não sabia? -</p> - -<p> -—Não. -</p> - -<p> -Pois foi. O meu gasto era ir para as praias, para o combate: mas o -<i>homem</i> quer que eu fique com as munições... Capitão manda marinheiro -faz... Elle sabe lá... -</p> - -<p> -Deu de hombros, concertou o trancelim que já cahia da orelha e esteve -calado um instante. Quaresma perguntou: -</p> - -<p> -—Como vai a familia? -</p> - -<p> -—Bem. Sabe que Quinota casou-se? -</p> - -<p> -—Sabia, o Ricardo me disse. E D. Ismenia, como vai? -</p> - -<p> -A physionomia do General toldou-se e respondeu como a contragosto: -</p> - -<p> -—Vai no mesmo. -</p> - -<p> -O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha -enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros -calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de -estatua, numa atonia de inanimado, como que cahira em imbecilidade; mas -vinha uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria -á mãe, dizendo: «Aprompta-me, mamãe. O meu noivo não deve tardar... -é hoje o meu casamento». Outras vezes recortava papel, em forma de -participações, e escrevia: Ismenia de Albernaz e Fulano (variava) -participam o seu casamento. -</p> - -<p> -O General já consultara uma duzia de medicos, o espiritismo e agora -andava ás voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, porém, não -sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espirito -naquella obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que -não attingira, aniquilando-se, porém, o seu espirito e a sua mocidade -em pleno verdor. -</p> - -<p> -Entristecia o seu estado aquella casa outr'ora tão alegre, tão -festiva. Os bailes tinham diminuido: e, quando eram obrigados a dar um, -nas datas principaes, a moça, com todos os cuidados, á custa de todas -as promessas, era levada para casa da irmã casada, e lá ficava, -emquanto as outras dansavam, um instante esquecidas da irmã que -soffria. -</p> - -<p> -Albernaz não quis revelar aquella dôr de sua velhice: reprimiu a -emoção e continuou no tom mais natural, naquelle seu tom familiar e -intimo que usava com todos: -</p> - -<p> -—Isto é uma infamia, Sr. Quaresma. Que atrazo para o paiz! E os -prejuizos? Um porto destes fechado ao commercio nacional, quantos annos -de retardamento não representa! -</p> - -<p> -O Major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de -forma a tornar impossivel a reproducção de levantes e insurreições. -</p> - -<p> -—De certo, adduziu o General. Assim não progredimos, não nos -adiantamos. E no estrangeiro que mau effeito! -</p> - -<p> -O bonde chegara ao largo de S. Francisco e os dous se separaram. -Quaresma foi direitinho ao largo da Carioca e Albernaz seguiu para a rua -do Rosario. -</p> - -<p> -Olga viu entrar seu padrinho sem aquella alegria expansiva de sempre. -Não foi indifferença que sentiu, foi espanto, assombro, quasi modo, -embora soubesse perfeitamente que elle estava a chegar. Entretanto, não -havia mudança na physionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo elle. -Era o mesmo homem baixo, pallido, com aquelle cavaignac apontado e o olhar -agudo por detraz do <i>pince-nez</i>... Nem mesmo estava mais queimado -e o geito de apertar os labios era o mesmo que ella conhecia ha tantos -annos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impellido, empurrado por -uma força extranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, -verificou que lhe entrara naturalmente, com o seu passo meudo e firme. -Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirava sua -alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de -jantar e Quaresma não se fazia annunciar; ia entrando conforme o velho -habito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua -entrada: -</p> - -<p> -—Papae saiu; e o Armando está lá em baixo escrevendo. -</p> - -<p> -De facto, elle estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para -o <i>classico</i> um grande artigo sobre «Ferimentos por arma de -fogo». O seu ultimo <i>truc</i> intellectual era este do classico. -Buscava nisto uma distincção, uma separação intellectual desses -meninos por ahi que escrevem contos e romances nos jornaes. Elle, um -sabio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma que -elles. A sua sabedoria superior e o seu titulo <i>academico</i> não -podia usar da mesma lingua, dos mesmos modismos, da mesma syntaxe que -esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a idéa do classico. O -processo era simples: escrevia do modo commum, com as palavras e o jeito -de hoje, em seguida invertia as orações, picava o periodo com virgulas -e substituia <i>incomodar</i> por <i>molestar</i>, ao <i>redor</i> por -<i>derredor</i>, <i>isto</i> por <i>esto</i>, <i>quão grande</i> ou -<i>tão grande</i> por <i>quammanho</i>, sarapintava tudo de <i>ao -invez</i>, <i>empós</i>, e assim obtinha o seu estylo classico que -começava a causar admiração aos seus pares e ao publico em geral. -</p> - -<p> -Gostava muito da expressão—<i>ás rebatinhas</i>; usava-a a todo o -momento e, guando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu -estylo uma força e um brilho pascalinos e ás suas idéas unia sufficiencia -transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo ás primeiras -linhas o somno lhe vinha e dormia sonhando-se <i>physico</i>, tratado de -mestre, em pleno seiscentos, prescrevendo sangria e agua quente, tal e -qual o Dr. Sangrado. -</p> - -<p> -A sua traducção estava quasi no fim, já estava bastante pratico, pois -com o tempo adquirira um vocabulario sufficiente e a versão era feita -mentalmente, em quasi metade, logo na primeira escripta. Recebeu o -recado da mulher, annunciando-lhe a visita, com um pequeno -aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente -classico para <i>orificio</i>, julgou util a interrupção. Queria pôr -<i>buraco</i>, mas era plebeu; <i>orificio</i>, se bem que muito usado, -era, entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou: e subiu á -sala de jantar. Elle entrou prazenteiro, com o seu grande bigode -esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada -empenhados em uma discussão sobre autoridade. -</p> - -<p> -Dizia ella: -</p> - -<p> -—Eu não posso comprehender esse tom divino com que os senhores falam -da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse -respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes? -</p> - -<p> -O doutor, que ouvira toda a phrase, não pôde deixar de objetar: -</p> - -<p> -—Mas é preciso, indispensavel... Nós sabemos bem que elles são -homens como nós, mas, se não for assim tudo vai por agua abaixo. -</p> - -<p> -Quaresma acrescentou: -</p> - -<p> -—É em virtude das proprias necessidades internas e externas da nossa -sociedade que ella existe... Nas formigas, nas abelhas... -</p> - -<p> -—Admitto. Mas ha revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade -se mantem lá á custa de assassinios, exacções e violencias? -</p> - -<p> -—Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma. -</p> - -<p> -O doutor não teve duvidas e foi logo dizendo: -</p> - -<p> -—Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pinaculo da -escala zoologica iremos buscar normas de vida entre insectos? -</p> - -<p> -—Não, é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos delles a certeza -da generalidade do phenomeno, da sua immanencia, por assim dizer, disse -Quaresma com doçura. -</p> - -<p> -Elle não tinha acabado a explicação e já Olga reflectia: -</p> - -<p> -—Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade—vá; mas não; -de que vale? -</p> - -<p> -—Ha de trazer, affirmou categoricamente Quaresma. A questão é -consolidal-a. -</p> - -<p> -Conversaram ainda muito tempo. O Major contou a sua visita a Floriano, a -sua proxima incorporação ao batalhão «Cruzeiro do Sul». O doutor -teve uma ponta de inveja, quando elle se referiu ao modo familiar por -que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno <i>lunch</i> e Quaresma saiu. -</p> - -<p> -Sentia necessidade de rever aquellas ruas estreitas, com as suas lojas -profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um -subterraneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléa, -a casquilha rua do Ouvidor davam-lhe saudades. -</p> - -<p> -A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no -Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, os <i>jacobinos</i>, a -guarda abnegada da Republica, os intransigentes, a cujos olhos, a -moderação, a tolerancia e o respeito pela liberdade e a vida alheias -eram crimes de lesa-patria, sintomas de monarquismo criminoso e -abdicação desonesta diante do estrangeiro. O estrangeiro era sobretudo -o portuguez, o que não impedia de haver jornaes <i>jacobinissimos</i> -redigidos por portuguezes da mais bella agua. -</p> - -<p> -A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a rua do Ouvidor era a -mesma. Os namoros se faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia -no alto céo azul, luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam -para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o -sangue a subir ás faces pouco e pouco, depois da pallidez do medo. -</p> - -<p> -Quaresma jantou num <i>restaurant</i> e dirigiu-se ao quartel, que -funccionava provisoriamente num velho cortiço condemnado pela hygiene, -lá pelos lados da cidade Nova. Tinha o tal cortiço andar terreo e -sobrado, ambos divididos em cubiculos do tamanho de camarotes de navio. -No sobrado, havia uma varanda de grade de páu e uma escada de madeira -levava até lá, escada tosca e oscillante, que gemia á menor passada. -A casa da ordem funccionava no primeiro quartinho do sobrado e o pateo, -já sem as cordas de seccar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas -das barrélas e da agua de sabão, servia para a instrucção dos -recrutas. O instructor era um sargento reformado, um tanto coxo, e -admittido no batalhão com o posto de alferes, que gritava com uma -demora majestosa: <i>hom—brô</i>... armas! -</p> - -<p> -O Major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o -modelo do fardamento. -</p> - -<p> -Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dolman era -verde-garrafa e tinha uns vivos azul ferrete, alamares dourados e quatro -estrellas prateadas, em cruz, na góla. -</p> - -<p> -Uma gritaria fel-os vir até á varanda. Entre soldados entrava um -homem, a se debater, a chorar e a implorar, ao mesmo tempo, levando de -quando em quando uma reflada. -</p> - -<p> -—É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, Coronel? -continuou ele com interesse e piedade. -</p> - -<p> -Bustamante estava impassivel na varanda e só respondeu depois de algum -tempo: -</p> - -<p> -—Conheço... É um voluntario recalcitrante, um patriota rebelde. -</p> - -<p> -Os soldados subiram com o <i>voluntario</i> e Ricardo logo que deu com o -major, suplicou-lhe: -</p> - -<p> -—Salve-me major! -</p> - -<p> -Quaresma chamou de parte o Coronel, rogou-lhe e supplicou-lhe, mas foi -inutil... Ha necessidade de gente... Enfim, fazia-o cabo. -</p> - -<p> -Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e -exclamou: -</p> - -<p> -—Eu sirvo sim, sim, mas dêm-me o meu violão. -</p> - -<p> -Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados: -</p> - -<p> -—Restituam o violão ao cabo Ricardo! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap02_3"></a></h4> - -<h4>II -<br /><br /> -VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO</h4> - -<p> -Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado de terra, -mal se enxergam as partes baixas dos edificios proximos; para o lado do -mar, então, a vista é impotente contra aquella treva esbranquiçada e -fluctuante, contra aquella muralha de flócos e opaca, que se condensa -ali e aqui em apparições, em semelhanças de cousas. O mar está -silencioso: ha grandes intervallos entre o seu fraco marulho. Vê-se da -praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odôr da maresia -parece mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o -desconhecido, o Mysterio. Entretanto, aquella pasta espessa, de uma -claridade diffusa, está povoada de ruidos. O chiar das serras vizinhas, -os apitos de fabricas e locomotivas, os guinchos do guindastes dos -navios enchem aquella manhã indecifravel e taciturna; e ouve-se mesmo a -bulha compassada de remos que ferem o mar. Accredita-se, dentro daquelle -decoro, que é Charonte que traz a sua barca para uma das margens do -Styge... -</p> - -<p> -Attenção! Todos prescrutam a cortina de nevoa pastosa. Os rostos -estão alterados; parece que, do seio da bruma, vão surgir demonios... -</p> - -<p> -Não se ouve mais a bulha: o escaler afastou-se. As physionomias -respiram aliviadas... -</p> - -<p> -Não é noite, não é dia; não é o diluculo, não é o crepusculo: -é a hora da angustia, é a luz da incerteza. No mar, não ha estrellas -nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro ás paredes -brancas das casas. A nossa miseria é mais completa e a falta daquelles -mudos marcos da nossa actividade dá mais forte percepção do nosso -isolamento no seio da natureza grandiosa. -</p> - -<p> -Os ruidos continuam, e, como nada se vê, parece que vêm do fundo da -terra ou são allucinações auditivas. A realidade só nos vem do -pedaço de mar que se avista, marulhando com grandes intervallos, -fracamente, tenuemente, a medo, de encontro a areia da praia, suja de -bodelhas, algas e sargaços. -</p> - -<p> -Aos grupos, após o rumor dos remos, os soldados deitaram-se pela relva -que continua a praia. Alguns já cochilam; outros procuram com os olhos -o céo atravez do nevoeiro que lhes humedece o rosto. -</p> - -<p> -O cabo Ricardo Coração dos Outros, de rifle á cintura e gorro á -cabeça, sentado numa pedra, está de parte, sósinho, e olha aquella -manhã angustiosa. -</p> - -<p> -Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar, onde ella -faz sentir toda a sua força de desesperar. Em geral, elle só tinha -olhos para as alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes; -aquelle amanhecer brumoso e feio, era uma novidade para elle. -</p> - -<p> -Sob o fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquella vida -solta da caserna vai-lhe bem n'alma: o violão está lá dentro e, em -horas de folga, elle o experimenta, cantarolando em voz baixa. É -preciso não enferrujar os dedos... O seu pequeno aborrecimento é não -poder, de quando em quando, soltar o peito. -</p> - -<p> -O commandante do destacamento é Quaresma que, talvez, consentisse... -</p> - -<p> -O Major está no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu -estudo predilecto é agora artilharia. Comprou compendios; mas, como sua -instrucção é insufficiente, da artilharia vai á balistica, da -balistica á mecanica, da mecanica ao calculo e á geometria analytica; -desce mais a escada; vai á trigonometria, á geometria e á algebra e -á arithmetica. Elle percorre essa cadeia de sciencias entrelaçadas com -uma fé de inventor. Aprende uma noção elementarissima após um -rosario de consultas, de compendio em compendio; e leva assim aquelles -dias de ocio guerreiro enfronhado na mathematica, nessa mathematica -rebarbativa e hostil aos cerebros que já não são mais moços. -</p> - -<p> -Ha no destacamento um canhão Krupp, mas elle nada tem a ver com o -mortifero apparelho: comtudo, estuda artilharia. É encarregado delle o -Tenente Fontes, que não dá obediencia alguma ao patriota Major. -Quaresma não se incommoda com isso; vai aprendendo lentamente a -servir-se da boca de fogo e submete-se á arrogancia do subalterno. -</p> - -<p> -O Commandante do «Cruzeiro do Sul», o Bustamante da barba mosaica, -continua no quartel, superintendendo a vida do batalhão, A unidade tem -poucos officiaes e muito poucas praças; mas o Estado paga o pret de -quatrocentas. Ha falta de capitães, o numero de alferes está justo, o -de tenentes quasi, más já ha um major, que é Quaresma, e o -commandante, Bustamante, que por modestia, se fez simplesmente -Tenente-Coronel. -</p> - -<p> -Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma commanda, tres alferes, -dous tenentes; mas os officiaes pouco apparecem. Estão doentes ou -licenciados e só elle, o antigo agricultor do «Socego», e um alferes, -Polydoro, este mesmo só á noite, estão a postos. Um soldado entrou: -</p> - -<p> -—Sr. Commandante, posso ir almoçar? -</p> - -<p> -—Póde. Chama-me o cabo Ricardo. -</p> - -<p> -A praça sahiu capengando em cima de grandes botinas: o pobre homem -usava aquella peça protectora como um castigo. Assim que se viu no -matto, que levava á casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da -liberdade. -</p> - -<p> -O commandante chegou á janella. A cerração se ia dissipando. Já se -via o sol que brilhava como um disco de ouro fosco. -</p> - -<p> -Ricardo Coração dos Outros appareceu. Estava engraçado dentro do seu -fardamento de caporal. A blusa era curtissima, sungada; os punhos lhe -apareciam inteiramente: e as calças eram compridissimas e arrastavam no -chão. -</p> - -<p> -—Como vaes Ricardo? -</p> - -<p> -—Bem. E o Sr. Major? -</p> - -<p> -—Assim. -</p> - -<p> -Quaresma deitou sobre o inferior e amigo, aquelle seu olhar agudo e -demorado: -</p> - -<p> -—Andas aborrecido, não é? -</p> - -<p> -O trovador sentiu-se alegre com o interesse do commandante: -</p> - -<p> -—Não... Para que dizer, Major, que sim... Se a cousa for assim até ao -fim, não é mau... O diabo é quando ha tiro... Uma cousa, Major; não -se poderia, assim, ahi pelas horas em que não ha que fazer, ir nas -mangueiras, cantar um pouco... -</p> - -<p> -O Major coçou a cabeça, alisou o cavaignac e disse: -</p> - -<p> -—Eu, não sei... É.. -</p> - -<p> -—O Sr. sabe que isso de cantar baixo é remar em secco... Dizem que no -Paraguay... -</p> - -<p> -—Bem. Cante lá; mas não grite, hein? -</p> - -<p> -Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o Major recommendou: -</p> - -<p> -—Manda-me trazer o almoço. -</p> - -<p> -Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro tambem dormir. As -refeições eram-lhe fornecidas por um <i>frege</i> proximo e elle dormia em -um quarto daquella edificação imperial. Porque a casa em que se -acantonara o destacamento, era o pavilhão do Imperador, situado na -antiga Quinta da Ponta do Cajú. Ficavam nella tambem a estação da -estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e bulhenta serraria. Quaresma -veiu até á porta, olhou a praia suja e ficou admirado que o Imperador -a quizesse para banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente. -</p> - -<p> -As formas das cousas sahiam modeladas do seio daquella massa de nevoa -pesada; e, satisfeitas, como se o pesadello tivesse passado. Primeiro -surgiam as partes baixas, lentamente: e por fim, quasi repentinamente, -as altas. -</p> - -<p> -Á direita, havia a Saude, a Gamboa, os navios de commercio: galeras de -tres mastros, cargueiros a vapor, altaneiros barcos á vela—que iam -sahindo da bruma, e, por instantes aquillo tudo tinha um ar de paysagem -hollandeza, á esquerda, era o sacco da Raposa, o Retiro Saudoso, a -Sapucaia horrenda, a ilha do Governador, os Orgãos Azues, altos de -tocar no céo; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os seus depositos de -carvão; e, alongando a vista pelo mar socegado, Nictheroy, cujas -montanhas acabavam de recortar-se no céo azul, á luz daquella manhã -atrazada. -</p> - -<p> -A neblina foi se e um gallo cantou. Era como se a alegria voltasse á -terra: era uma alleluia. Aquelles chiados, aquelles apitos, os guinchos -tinham um accento festivo de contentamento. -</p> - -<p> -Chegou o almoço e o sargento veiu dizer a Quaresma que havia duas -deserções. -</p> - -<p> -—Mais duas? fez admirado o Major. -</p> - -<p> -—Sim, senhor. O 125 e o 320 não responderam hoje a revista. -</p> - -<p> -—Faça a parte. -</p> - -<p> -Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quasi -nunca dormia ali; pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as -cousas como iam. -</p> - -<p> -Uma madrugada, elle não estava. A treva ainda era profunda. O soldado -de vigia viu lá, ao longe, um vulto que se movia dentro da sombra, -resvalando sobre as aguas do mar. Não trazia luz alguma; só o -movimento daquella mancha escura, revelava uma embarcação, e tambem a -ligeira phosphorescencia das aguas. O soldado deu rebate; o pequeno -destacamento poz-se a postos e Quaresma appareceu. -</p> - -<p> -—O canhão! Já! Avante! ordenou o commandante. -</p> - -<p> -E, em seguida, nervoso, recommendou: -</p> - -<p> -—Esperem um pouco. -</p> - -<p> -Correu á casa e foi consultar os seus compendios e tabellas. Demorou-se -e a lancha avançava, os soldados estavam tontos e um delles tomou a -iniciativa: carregou a peça e disparou-a. -</p> - -<p> -Quaresma reappareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo -resfolegar: -</p> - -<p> -—Viram bem... a distancia... a alça... o angulo... É preciso ter -sempre em vista a efficiencia do fogo. -</p> - -<p> -Fontes veiu e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito: -</p> - -<p> -—Ora, Major, você pensa que está em um polygno, fazendo estudos -praticos... Fogo para diante! -</p> - -<p> -E assim era. Quasi todas as tardes havia bombardeio, do mar para as -fortalezas, e das fortalezas para o mar; e, tanto os navios como os -fortes, sahiam incolumes de tão terriveis armas. -</p> - -<p> -Lá vinha uma occasião, porém, que acertavam, então os jornaes -noticiavam: «Hontem, o forte Academico, fez um maravilhoso disparo. Com -o canhão tal, metteu uma bala no «Guanabara». No dia seguinte, o -mesmo jornal rectificava, a pedido da bateria do cáes Pharoux que era -a que tinha feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já -estava esquecida, quando apparecia uma carta de Nictheroy, reclamando as -honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz. -</p> - -<p> -O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de -entendedor. Havia uma trincheira de fardos de alfafa e a boca da peça -sabia por entre os fiapos da palha, como as guellas de um animal feroz -occulto entre hervas. -</p> - -<p> -Olhava o horizonte, depois de exame attento ao canhão, e considerava a -ilha das Cobras, quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Prometto pelo Santissimo Sacramento</i>...</span> -</div></div> - -<p> -Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe deparou este -lindissimo quadro: á sombra de uma grande arvore, os soldados deitados -ou sentados em circulo, em torno de Ricardo Coração dos Outros, que -entoava endeixas magoadas. -</p> - -<p> -As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão -embevecidas na canção de Ricardo que não deram pela chegada do joven -official. -</p> - -<p> -—Que é isto? disse elle severamente. -</p> - -<p> -Os soldados levantaram-se todos, em continencia; e Ricardo, com a mão -direita no gorro, perfilada, e a esquerda, segurando o violão, que -repousava no chão, desculpou-se: -</p> - -<p> -—<i>Seu</i> Tenente, foi o Major quem permittiu, V. S. sabe que se -nós não tivéssemos ordem, não iriamos brincar. -</p> - -<p> -—Bem. Não quero mais isto, disse o official. -</p> - -<p> -—Mas, objectou Ricardo, o Sr. Major Quaresma... -</p> - -<p> -—Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já disse! -</p> - -<p> -Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa -imperial, ao encontro do Major do «Cruzeiro do Sul». Quaresma -continuava no seu estudo, um rolar de Sysipho, mas voluntario, para a -grandeza da patria. Fontes foi entrando e dizendo: -</p> - -<p> -—Que é isto, <i>seu</i> Quaresma! Então o senhor permitte cantorias -no destacamento? -</p> - -<p> -O Major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo -e rispido do moço. Elle repetiu: -</p> - -<p> -—Então o senhor permitte que os inferiores cantem modinhas e toquem -violão, em pleno serviço? -</p> - -<p> -—Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha... -</p> - -<p> -—E a disciplina? e o respeito? -</p> - -<p> -—Bem, vou prohibir, disse Quaresma. -</p> - -<p> -—Não é preciso. Já prohibi. -</p> - -<p> -Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento -e disse com doçura: -</p> - -<p> -—Fez bem. -</p> - -<p> -Em seguida perguntou ao official o modo de extrahir a raiz quadrada de -uma fracção decimal; o rapaz ensinou-lhe e elles estiveram -cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Fontes era noivo de -Lalá, a terceira filha do General Albernaz, e esperava acabar a revolta -para effectuar o casamento. Durante uma hora a conversa entre os dous -versou sobre este pequenino facto familiar a que estavam ligados -aquelles estrondos, aquelles tiros, aquella solemne disputa entre duas -ambições. Subitamente, a corneta feriu o ar com a sua voz metallica. -Fontes assestou o ouvido; o Major perguntou: -</p> - -<p> -—Que toque é? -</p> - -<p> -—Sentido. -</p> - -<p> -Os dous sahiram. Fontes perfeitamente fardado; e o Major apertando o -talim, sem encontrar geito, tropeçando na espada veneravel que teimava -em se lhe metter entre as pernas curtas. Os soldados já estavam nas -trincheiras, armas á mão; o canhão tinha ao lado a munição -necessaria. Uma lancha avançava lentamente, com a prôa alta assestada -para o posto. De repente, sahiu de sua borda um golfão de fumaça -espessa: Queimou!—gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou -alto, zunindo, cantando, inoffensiva. A lancha continuava a avançar -impavida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o -tiroteio, e fôra um destes que gritara: queimou! -</p> - -<p> -E assim sempre. Ás vezes elles chegavam bem perto á tropa, ás -trincheiras, atrapalhando o serviço: em outras, um cidadão qualquer, -chegava ao official e muito delicadamente pedia: o senhor dá licença -que dê um tiro. O official accedia, os serventes carregavam a peça e o -homem fazia a pontaria e um tiro partia. -</p> - -<p> -Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da -cidade... Quando se annunciava um bombardeio, num segundo, o terraço do -Passeio Publico se enchia. Era como se fosse uma noite de luar, no tempo -em que era do tom aprecial-as no velho jardim de D. Luiz de -Vasconcellos, vendo o astro solitario pratear a agua e encher o céo. -</p> - -<p> -Alugavam-se binoculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como -as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação de theatro: -«queimou Santa Cruz! Agora é o «Aquidaban»! Lá vai»! E dessa -maneira a revolvia correndo familiarmente, entrando nos habitos e nos -costumes da cidade. -</p> - -<p> -No cáes Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornaes, -engraxates, quitandeiros ficavam atrás das portadas, dos urinarios, das -arvores, a ver, a esperar a quéda das balas; e quando acontecia cahir -uma, corriam todos em bôlo, a apanhal-a como se fosse uma moeda ou -guloseima. -</p> - -<p> -As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de -relogio, lapizeiras, feitas com as pequenas balas de fuzis: faziam-se -tambem collecções das medias e com os seus estojos de metal, areados, -polidos, lixados, ornavam consolos, os <i>dunkerques</i> das casas médias; -as grandes, os <i>melões</i> e as <i>aboboras</i>, como chamavam, -guarneciam os jardins, como vasos de faiança ou estatuas. -</p> - -<p> -A lancha continuava a atirar: Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o -projectil, recuou um pouco e logo foi posto em posição. A embarcação -respondeu e o rapazote gritou: queimou! -</p> - -<p> -Eram sempre esses garotos que a anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam -o fuzilar breve e a fumaça, lá longe, no navio, jorrar de vagar, muito -pesada, gritavam queimou! -</p> - -<p> -Houve um em Nictheroy que teve o seu quarto de hora de celebridade. -Chamavam-n'o <i>trinta réis</i>; os jornaes do tempo occuparam-se com elle, -fizeram-se subscripções a seu favor. Um heroi! Passou a revolta e foi -esquecido, tanto elle como a «Lucy», uma lancha que chegou a fazer-se -entidade na imaginação da <i>urbs</i>, a interessal-a, a criar inimigos e -admiradores. -</p> - -<p> -A embarcação deixou de provocar a furia do posto do Cajú, e Fontes -deu instrucções ao seu chefe da peça, e foi-se embora. -</p> - -<p> -Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos -guerreiros. Os mais dias que passou naquelle extremo da cidade não eram -differentes deste. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra cahia na -banalidade da repetição dos mesmos episodios. -</p> - -<p> -A espaços, quando o aborrecimento lhe vinha, sahia. Descia a cidade e -deixava o posto entregue a Polydoro ou a Fontes, se estava. -</p> - -<p> -Raras vezes o fazia, de dia, porque Polydoro, o mais assiduo, marcineiro -de profissão e em actividade numa fabrica de moveis, só vinha á -noite. -</p> - -<p> -No centro da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro, -o Governo pagava soldos dobrados, e, ás vezes, gratificações, além -do que havia tambem a morte sempre presente; e tudo isso estimulava o -divertir-se. Os theatros eram frequentados e os <i>restaurants</i> -nocturnos tambem. -</p> - -<p> -Quaresma, porém, não se mettia naquelle ruido de praça semi-sitiada. -Ia ás vezes ao theatro, á paisana, e, logo acabado o espectaculo, -voltava para o quarto da cidade ou para o posto. -</p> - -<p> -Em outras tardes, logo que Polydoro chegava, sahia a pé, pelas ruas dos -arredores, pelas praias até ao campo de São Christovão. -</p> - -<p> -Ia vendo aquella successão de cemiterios, com as suas campas alvas que -sobem montanhas, como carneiros tosqueados e limpos a pastar; aquelles -cyprestes meditativos que as vigiam; e como que se lhe representava que -aquella parte da cidade era feudo e senhorio da morte. -</p> - -<p> -As casas tinham um aspecto funebre, recolhidas e concentradas; o mar -marulhava lugubremente na ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam -doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes era triste e lugubre. -</p> - -<p> -A paysagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali -mais ainda, para fazer sentir nella tão forte aspecto funereo. -</p> - -<p> -Foi vindo ate ao Campo; ahi deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e -afinal entrou na residencia do General Albernaz. Devia-lhe aquella -visita e aproveitou o ensejo. -</p> - -<p> -Acabavam de jantar e jantara com o General, além do Tenente Fontes e o -Almirante Caldas, o commandante de Quaresma, o Tenente Coronel -Innocencio Bustamante. -</p> - -<p> -Bustamante era um commandante activo, mas dentro do quartel. Não havia -quem como elle se interessasse pelos livros, pela boa calligraphia, com -que eram escriptos os livros mestres, as relações de mostra, os mappas -de companhia e outros documentos. Com auxilio delles, a organização do -seu batalhão era irreprehensivel; e, para não deixar de vigiar a -escripturação, apparecia de onde em onde nos destacamentos do seu -corpo. -</p> - -<p> -Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, elle logo -perguntou ao Major: -</p> - -<p> -—Quantas deserções? -</p> - -<p> -—Até hoje, nove, disse Quaresma. -</p> - -<p> -Bustamante coçou a cabeça desesperado e reflectiu: -</p> - -<p> -—Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome... -Falta-lhes patriotismo! -</p> - -<p> -—Fazem muito bem... Ora! disse o Almirante. -</p> - -<p> -Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora -o Governo não lhe tinha dado cousa alguma. O seu patriotismo se -enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia -Vice-Almirante. É verdade que o Governo ainda não organizara a sua -esquadra; entretanto, pelo rumor que corria, elle não commandaria nem -uma divisão. Uma inquidade! Era velho um pouco, é verdade; mas, por -não ter nunca commandado, nessa materia elle podia despender toda uma -energia moça. -</p> - -<p> -—O Almirante não deve falar assim... A patria está logo abaixo da -humanidade. -</p> - -<p> -Meu caro Tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas... -</p> - -<p> -—Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os -outros e para os vindouros, continuou Fontes persuasivo. -</p> - -<p> -—Que tenho eu com elles? fez agastado Caldas. -</p> - -<p> -Bustamante, o General e Quaresma assistiam a pequena discussão calados -e os dous primeiros um tanto sorridentes com a furia de Caldas, que não -se cansava de dansar a perna e alizar os longos favoritos brancos. O -Tenente respondeu: -</p> - -<p> -—Muito, Almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas -melhores, de ordem, de felicidade e elevação moral. -</p> - -<p> -—Nunca houve e nunca haverá! disse de um jacto Caldas. -</p> - -<p> -—Eu tambem penso assim, accrescentou Albernaz. -</p> - -<p> -—Isto ha de sempre ser o mesmo, adduziu scepticamente Bustamante. -</p> - -<p> -O Major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face -daquellas contestações, ao contrario dos seus congeneres da seita, -não se agastou. Elle era magro e chupado, moreno carregado e a oval do -seu rosto estava amassada aqui e ali. -</p> - -<p> -Com a sua voz arrastada e nazal, agitando a mão direita no geito -favorito dos sermonarios, depois de ouvir todos, falou com uncção: -</p> - -<p> -—Houve já um esboço: a idade média. -</p> - -<p> -Ninguem ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia historia do Brasil e -os outros nenhuma. -</p> - -<p> -E a sua affirmação fez calar todos, embora no intimo duvidosos. É uma -curiosa idade média, essa de elevação moral, que a gente não sabe -onde fica, em que anno? Se a gente diz: no tempo de Clotario, elle -proprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu -filho Chrame mais a mulher deste e filhos—o positivista, objecta: -ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja. S. -Luís, diremos logo nós, quis executar um senhor feudal porque mandou -enforcar tres crianças que tinham morto um coelho nas suas mattas. Objecta -o fiel: Você não sabe que a nossa idade media vai até o apparecimento -da Divina Comedia? S. Luís já era a decadencia... Citam-se as -epidemias de molestias nervosas, a miseria dos camponios, as ladroagens -á mão armada dos barões, as allucinações do milenio, as crueis -matanças que Carlos Magno fez aos saxões; elles respondem: uma hora -que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da -igreja; outra que elle já tinha desapparecido. -</p> - -<p> -Nada disso foi objectado ao positivista e a conversa, resvalou para a -revolta. O Almirante criticava severamente o Governo. -</p> - -<p> -Não tinha plano algum, levava a dar tiros á toa; na sua opinião, já -devia ter feito todo o esforço para occupar a ilha das Cobras, embora -isso custasse rios de sangue. Bustamante não tinha opinião assentada; -mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e -de uma improficuidade patente. Albernaz, ainda não tinha dado o seu -aviso, e veiu a fazel-o assim: -</p> - -<p> -—Mas nós reconhecemos Humaytá, e por pouco! -</p> - -<p> -—Entretanto, não a tomaram, disse Fontes. As condições naturaes eram -outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente inutil... O Sr. -sabe, esteve lá! -</p> - -<p> -—Isto é... Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camisão -disse-me que foi arriscado. -</p> - -<p> -Quaresma voltara ao silencio. Elle procurava ver Ismenia. Fontes lhe -tinha inteirado do seu estado e o Major se sentia por qualquer cousa -preso á molestia da moça. Viu todos: D. Maricota, sempre activa e -diligente; Lalá, a arrancar, com o olhar, o noivo da conversa -interminavel, e as outras que vinham, de quando em quando, da sala de -visitas á sala de jantar onde elle estava. Porfim, não se conteve, -perguntou. Soube que estava em casa da irmã casada e ia peor, cada vez -mais abysmada na sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O General contou -tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquella sua -desgraça intima, disse com um longo suspiro: -</p> - -<p> -—Não sei, Quaresma... Não sei. -</p> - -<p> -Eram dez horas quando o Major se despediu. Voltou de bonde para a Ponta -do Cajú. Saltou e recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio da -perturbação, especial que põe em nós o luar que estava lindo, terno -e leitoso, naquella noite. É uma emoção de desafogo do corpo, de -deliquio; parece que nos tiram o envoltorio material e ficamos só alma, -envolvidos numa branda athmosphera de sonhos e chimeras. O Major não -colhia bem a sensação transcendente, mas soffria sem perceber o -effeito da luz pallida e fria do luar. Deitou-se um pouco, vestido, não -por somno, mas em virtude daquella doce embriaguez que o astro lhe tinha -posto nos sentidos. -</p> - -<p> -Dentro em pouco Ricardo veiu chamal-o: o Marechal estava ahi. Era seu -habito sahir á noite, ás vezes, de madrugada, e ir de posto em posto. -O facto se espalhou pelo publico que o apreciava extraordinariamente, e -o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de -estadista consumado. -</p> - -<p> -Quaresma veiu ao seu encontro. Floriano vestia chapéo de feltro molle, -abas largas, e uma curta sobrecasaca surrada. Tinha um ar de malfeitor -ou de exemplar chefe de familia em aventuras extra-conjugaes. -</p> - -<p> -O Maior cumprimentou-o e esteve a dar-lhe noticias do ataque que fora -feito ao seu posto, ha dias passados. O Marechal respondia por -monosyllabos preguiçosos e olhava ao redor. Quasi ao despedir-se, falou -mais, dizendo vagarosamente, lentamente: -</p> - -<p> -—Hei de mandar pôr um holophote aqui. -</p> - -<p> -Quaresma veiu acompanhal-o até ao bonde. Atravessavam o velho sitio de -recreio dos Imperadores. Um pouco afastada da estação uma locomotiva, -semi-accesa, resfolegava. Semelhava roncar, dormindo; os carros, -pequenos, banhados pelo luar, muito quietos, socegados como que dormiam. -As annosas mangueiras, com falta de galhos aqui e ali, pareciam -polvilhadas preciosamente de prata. O luar estava magnifico. Os dous -andavam, o marechal perguntou: -</p> - -<p> -—Quantos homens tem você? -</p> - -<p> -—Quarenta. -</p> - -<p> -O Marechal mastigou um: <i>não é muito</i>; e voltou ao mutismo. Num dado -momento, Quaresma viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua. Pareceu-lhe -mais sympatica a do dictador. Se lhe falasse... -</p> - -<p> -Preparou a pergunta; mas não teve coragem de pronuncial-a. Continuaram -a andar. O Major pensou; que é que tem? não ha desrespeito algum. -Approximavam-se do portão. Num dado momento como que houve uma bulha -atrás. Quaresma voltou-se, mas Floriano quasi não o fez. -</p> - -<p> -Os edificios da serraria pareciam cobertos de neve, tanto era o branco -luar. O Major continuou a mastigar a sua pergunta; urgia, era -indispensavel; o portão estava a dous passos. Tomou coragem, ousou e -falou: -</p> - -<p> -—V. Ex. já leu o meu memorial, Marechal? -</p> - -<p> -Floriano respondeu lentamente, quasi sem levantar o labio inferior -pendente: -</p> - -<p> -—Li. -</p> - -<p> -Quaresma enthusiasmou-se: -</p> - -<p> -—Vê V. Ex. como é facil erguer este paiz. Desde que se cortem todos -aquelles empecilhos que eu apontei, no memorial que V. Ex. teve a -bondade de ler; desde que se corrijam os erros de uma legislação -defeituosa e inadaptavel ás condições do paiz, V. Ex. verá que tudo -isto muda, que, em vez de tributarios, ficaremos com a nossa -independencia feita... Se V. Ex. quisesse... -</p> - -<p> -Á proporção que falava, mais Quaresma se enthusiasmava. Elle não -podia ver bem a physionomia do dictador, encoberto agora como lhe estava -o rosto pelas abas do chapéo de feltro; mas, se a visse, teria de -esfriar, pois havia na sua mascara sinaes do aborrecimento mais mortal. -Aquelle falatorio de Quaresma, aquelle apelo á legislação, a medidas -governamentaes, iam mover-lhe o pensamento, por mais que não quizesse. -O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse: -</p> - -<p> -—Mas, pensa você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada na mão de -cada um desses vadios?! Não havia exercito que chegasse... -</p> - -<p> -Quaresma espantou-se, titubeou, mas retorquiu: -</p> - -<p> -—Mas, mão é isso, Marechal. V. Ex. com o seu prestigio e poder, está -capaz de favorecer, com medidas energicas e adequadas, o apparecimento -de iniciativas, de encaminhar o trabalho, de favorecel-o e tornal-o -remunerador... Bastava, por exemplo... -</p> - -<p> -Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. O luar continuava -lindo, plastico e opalescente. Um grande edificio inacabado que havia na -rua, parecia terminado, com vidraças e portas feitas com a luz da lua. -Era um palacio de sonho. -</p> - -<p> -Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou; elle se -despediu do Major, dizendo com aquella sua placidez de voz: -</p> - -<p> -—Você, Quaresma, é um visionario... -</p> - -<p> -O bonde partiu. A lua povoava os espaços, dava physionomia ás cousas, -fazia nascer soalhos em nossa alma, enchia a vida, enfim, com a sua luz -emprestada... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap03_3"></a></h4> - -<h4>III -<br /><br /> -...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS...</h4> - -<p> -—Eu tenho experimentado tudo, Quaresma, mas não sei... não ha meio! -</p> - -<p> -—Já a levou a um medico especialista? -</p> - -<p> -—Já. Tenho corrido medicos, espiritas até feiticeiros, Quaresma! -</p> - -<p> -E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do <i>pince-nez</i>. Os dous se -haviam encontrado na pagadoria da guerra e vinham pelo campo de -Sant'Anna, a pé, andando pequenos passos e conversando. O General era -mais alto que Quaresma, e emquanto este tinha a cabeça sobre um -pescoço alto, aquelle a tinha mettida entre os hombros proeminentes, -como cotos de azas. Albernaz reatou: -</p> - -<p> -—E remedios! Cada medico receita uma cousa; os espiritas são os -melhores, dão homœpathia; os feiticeiros, tizanas, rezas e -defumações... Eu não sei. Quaresma! -</p> - -<p> -E levantou os olhos para o céo, que estava um tanto plumbeo. Não se -demorou, porém, muito nessa postura; o <i>pince-nez</i> não permittia, já -começava a cahir. -</p> - -<p> -Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as -granulações do granito do passeio. Levantou o olhar ao fim de algum -tempo, e disse: -</p> - -<p> -—Por que não a recolhe a uma casa de saude, General? -</p> - -<p> -—Meu medico já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo, -no estado em que a menina está, não vale a pena... -</p> - -<p> -Falava da filha, da Ismenia, que, naquelles ultimos mezes, péorara -sensivelmente, não tanto da sua molestia mental, mas da saude commum, -vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo, definhando, marchando a -passos largos para o abraço frio da morte. -</p> - -<p> -Albernaz dizia a verdade; para, cural-a tanto de sua loucura conto da -actual molestia intercorrente, lançara mão de todos os recursos, de -todos os conselhos apontados por quem quer que fosse. -</p> - -<p> -Era de fazer reflectir ver aquelle homem, General, marcado com um curso -governamental, procurar mediuns e feiticeiros, para sarar a filha. -</p> - -<p> -Ás vezes até levava-os em casa. Os mediuns chegavam perto da moça, -davam um estremeção, ficavam com uns olhos desvairados, fixos, -gritavam: sai, irmão!—e sacudiam as mãos, do peito para a moça, de -lá para cá, rapidamente, nervosamente, no intuito de descarregar sobre -ella os fluidos milagrosos. -</p> - -<p> -Os feiticeiros tinham outros passes e as ceremonias para entrar no -conhecimento das forças occultas que nos cercam, eram demoradas, lentas -e acabadas. Em geral, eram pretos africanos. Chegavam, accendiam um -fogareiro no quarto, tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra -cousa exquisita, batiam com feixes de hervas, ensaiavam passos de dança -e pronunciavam palavras inintelligiveis. O ritual era complicado e tinha -a sua demora. -</p> - -<p> -Na sahida, a pobre D. Maricota, um tanto já diminuida da sua actividade -e diligencia, olhando, ternamente aquelle grande rosto negro do -mandigueiro, onde a barba branca punha mais veneração e certa -grandeza, perguntava: -</p> - -<p> -—Então, titio? -</p> - -<p> -O preto considerava um instante, como se estivesse recebendo as ultimas -communicações do que não se vê nem se percebe, e dizia com a sua -magestade de africano: -</p> - -<p> -—Vó vê, nhã nhã... Tô crôtando mandinga... -</p> - -<p> -Ella e o General tinham assistido a ceremonia e o amor de paes e tambem -esse fundo de superstição que ha em todos nós, levavam a olhal-a com -respeito, quasi com fé. -</p> - -<p> -—Então foi feitiço que fizeram á minha filha? perguntava a senhora. -</p> - -<p> -—Foi, sim, nhãnhã. -</p> - -<p> -—Quem? -</p> - -<p> -—Santo não qué dizê. -</p> - -<p> -E o preto obscuro, velho escravo, arrancado ha um meio seculo dos -confins da Africa, sahia arrastando a sua velhice e deixando naquelles -dous corações uma esperança fugaz. -</p> - -<p> -Era uma singular situação, a daquelle preto africano, ainda certamente -pouco esquecido das dores do seu longo captiveiro, lançando mão dos -residuos de suas ingenuas crenças tribaes, residuos que tão a custo -tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros -deuses—e empregando-os na consolação dos seus senhores de outro -tempo. Como que os deuses de sua infancia e de sua raça; aquelles -sanguinarios manipanços da Africa indecifravel, quizessem vingal-o á -legendaria maneira do Christo dos Evangelios... -</p> - -<p> -A doente assistia tudo aquillo sem comprehender e se interessar por -aquelles trejeitos e passes de tão poderosos homens que se -communicavam, que tinham ás suas ordens os seres immateriaes, as -existencias fora e acima da nossa. -</p> - -<p> -Andando, ao lado de Quaresma, o General lembrava-se de tudo isso e teve -um pensamento amargo contra a sciencia, contra os espiritos, contra os -feitiços, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos, sem -piedade e commiseração. -</p> - -<p> -O Major não sabia o que dizer diante daquella immensa dor de pai e -parecia-lhe toda o qualquer palavra de consolo parva e idiota. Afinal -disse: -</p> - -<p> -—General, o Sr. permitte que eu a faça ver por um medico? -</p> - -<p> -—Quem é? -</p> - -<p> -—É o marido de minha afilhada... o Sr. conhece... É moço, quem sabe -lá! Não acha? Póde ser, não é? -</p> - -<p> -O General consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as -faces enrugadas. Cada medico que consultava, cada espirita, cada -feiticeiro reanimava-o, pois de todos elle esperava o milagre. Nesse -mesmo dia, Quaresma foi procurar o Dr. Armando. -</p> - -<p> -A revolta já tinha mais de quatro mezes de vida e as vantagens do -Governo eram problematicas. No Sul, a insurreição chegava ás portas -de S. Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas paginas -dignas e limpas de todo aquelle enxurro de paixões. A pequena cidade -tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia, -uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante e justo. -Não se desmanchou em violencias de apavorado e soube tornar verdade a -gasta phrase grandiloquente: resistir até á morte. -</p> - -<p> -A ilha do Governador tinha sido occupada e Magé tomado, os revoltosos, -porém, tinham a vasta bahia e a barra apertada, por onde sahiam e -entravam, sem temer o estorvo das fortalezas. -</p> - -<p> -As violencias, os crimes que tinham assignalado esses dous marcos de -actividade guerreira do Governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e elle -soffria. -</p> - -<p> -Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de moveis, roupas e -outros haveres. O que não podia ser transportado, era destruido pelo -fogo e pelo machado. -</p> - -<p> -A occupação deixou lá a mais execranda memoria, e até hoje os seus -habitantes ainda se recordam dolorosamente de um Capitão, patriotico ou -da guarda nacional, Ortiz, pela sua ferocidade e insoffrido gosto pelo -saque e outras vexações. Passava um pescador, com uma tampa de peixe, -e o Capitão chamava o pobre homem: -</p> - -<p> -—Venha cá! -</p> - -<p> -O homem approximava-se amedrontado e Ortiz perguntava. -</p> - -<p> -—Quanto quer por isso? -</p> - -<p> -—Tres mil réis, capitão. -</p> - -<p> -Elle sorria diabolicamente e familiarmente regateava: -</p> - -<p> -—Você não deixa por menos... Está caro... Isso é peixe ordinario... -Carapebas! Ora! -</p> - -<p> -—Bem, Capitão, vá lá por dous e quinhentos. -</p> - -<p> -—Leve isso lá dentro. -</p> - -<p> -Elle falava na porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em -pé, demonstrando que esperava o dinheiro. Ortiz balançava a cabeça e -dizia escarninho: -</p> - -<p> -—Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano. -</p> - -<p> -Entretanto, Moreira Cesar deixou boas recordações de e ainda hoje ha -lá quem se lembre delle, agradecido por este ou aquelle beneficio que o -famoso Coronel lhe prestou. -</p> - -<p> -As forças revoltosas parceiam não ter enfraquecido; tinham, porém, -perdido dous navios, sendo um destes o «Javary», cuja reputação na -revolta era das mais altas e consideradas. As forças de terra -detestavam-n'o particularmente. Era um monitor, chato, razo com a agua, -uma especie de saurio ou chelonio de ferro, de construcção franceza. -A sua artilharia era temida; o que sobremodo enraivecia os adversarios, -era elle não ter quasi borda acima d'agua, ficar quasi ao nivel do mar -e fugir assim aos tiros incertos de terra. As suas machinas não -funccionavam, e a grande tartaruga vinha collocar-se em posição de -combate com auxilio de um rebocador. -</p> - -<p> -Um dia em que estava nas proximidades de Villegagnon, foi a pique. Não -se soube e até hoje não foi esclarecido, porque foi. Os legalistas -affirmaram que foi uma bala de Gragoatá; mas os revoltosos asseguraram -que foi a abertura de uma valvula ou um outro accidente qualquer. -</p> - -<p> -Como o do seu irmão, o «Solimões», que desappareceu nas costas do -cabo Polonio, o fim do «Javary» ainda está envolvido no mysterio. -</p> - -<p> -Quaresma permanecia de guarnição no Cajú, e viera receber dinheiro. -Deixara lá Polydoro, pois os outros officiaes estavam doentes ou -licenciados, e Fontes, que, sendo uma especie de inspector geral, ao -contrario de seus habitos, dormira aquella noite no pequeno pavilhão -imperial e ia ficar até á tarde. -</p> - -<p> -Ricardo Coração dos Outros, desde o dia da prohibição de tocar -violão, andava macambuzio. Tinham-lhe tirado o sangue, o motivo de -viver, e passava os dias taciturno, encostado a um tronco de arvore, -maldizendo no fundo de si a incomprehensão dos homens e os caprichos do -destino. Fontes notara a sua tristeza; e, para minorar-lhe o desgosto, -obrigara a Bustamante a fazel-o sargento. Não foi sem custo, porque o -antigo veterano do Paraguay encarecia muito essa graduação e só a -dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas -importantes. -</p> - -<p> -A vida do pobre menestrel era assim a de um melro engaiolado; e, de -quando em quando, elle se afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver -se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos disparos. -</p> - -<p> -Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu -demorar-se mais, e, após despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para a -casa do seu compadre, afim de cumprir a promessa que fizera ao general. -</p> - -<p> -Coleoni ainda não decidira a sua viagem á Europa. Hesitava, esperando -o fim da rebellião que não parecia estar proximo. Elle nada tinha com -ella; até ali, não dissera a ninguem a sua opinião; e, se era muito -instado, appelava para a sua condição de estrangeiro e mettia-se numa -reserva prudente. Mas, aquella exigencia do passaporte, tirado na -chefatura de policia, dava-lhe susto. Naquelles tempos, toda a gente -tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta má vontade com os -estrangeiros, tanta arrogancia nos funccionarios que elle não se -animava a ir obter o documento, temendo que uma palavra, que um olhar, -que um gesto, interpretados por qualquer funccionario zeloso e dedicado, -não o levassem a soffrer maus quartos de hora. -</p> - -<p> -Verdade é que elle era italiano e a Italia já fizera ver ao dictador -que era uma grande potencia, mas no caso de que se lembrava, tratava-se -de um marinheiro, por cuja vida, extincta por uma descarga das forças -legaes, Floriano pagara a quantia de cem contos. Elle, Coleoni, porém, -não era marinheiro, e não sabia, caso fosse preso, se os -representantes diplomaticos de seu paiz tomariam interesse pela sua -liberdade. -</p> - -<p> -De resto, não tendo protestado manter a sua nacionalidade quando o -Governo provisorio expediu o famoso decreto de naturalização, era bem -possivel que uma ou outra parte se ativessem a isso, para -desinteressar-se delle ou mantel-o na famosa galeria 7, da Casa de -Correição, transformada, por uma pennada magica, em prisão de Estado. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -A época era de susto e temor, e todos esses que elle sentia, só os -communicava a filha, porque o genro cada vez mais se fazia florianista e -jacobino, de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos -estrangeiros. -</p> - -<p> -E o doutor tinha razão; já obtivera uma graça governamental. Fôra -nomeado medico do Hospital de Santa Barbara, na vaga de um collega, -demittido a bem do serviço publico como suspeito por ter ido visitar um -amigo na prisão. Como o hospital, porém, ficasse no ilhéo do mesmo -nome, dentro da bahia, em frente á Saude e a Guanabara ainda estivesse -em mão dos revoltosos, elle nada tinha que fazer, pois até agora o -Governo não aceitara, os seus offerecimentos de auxiliar o tratamento -dos feridos. -</p> - -<p> -O Major foi encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha sahido, ido -dar uma volta pela cidade, dar arrhas de sua dedicação á causa legal, -conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio, não -esquecendo tambem de passear pelos corredores do Itamaraty, fazendo-se -ver pelos ajudantes de ordens, secretarios e outras pessoas influentes -no animo de Floriano. -</p> - -<p> -A moça viu entrar Quaresma com aquelle sentimento extranho que o seu -padrinho lhe causava ultimamente, e esse sentimento mais agudo se -tornava quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento, a -passagem de balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente, -como se fossem feições de uma festa, de uma justa, de um divertimento -qualquer em que a morte não estivesse presente. -</p> - -<p> -Tanto mais que o via apprehensivo, deixando perceber numa phrase e -noutra desanimo e desesperança. -</p> - -<p> -Na verdade o Major tinha um espinho n'alma. Aquella recepção de -Floriano ás suas lembranças de reformas não esperavam nem o seu -enthusiasmo e sinceridade nem tão pouco a idéa que elle fazia do -dictador. Sahira ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar -com um presidente que o chamava de visionario, que não avaliava o -alcance dos seus projectos, que os não examinava sequer, desinteressado -daquellas altas cousas de governo como só não o fosse!... Era pois -para sustentar tal homem que deixara o socego de sua casa e se arriscava -nas trincheiras? Era, pois, por esse homem que tanta gente morria? Que -direito tinha elle de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se -não se interessava pela sorte delles, pela sua vida feliz e abundante, -pelo enriquecimento do paiz, o progresso de sua lavoura e o bem estar de -sua população rural? -</p> - -<p> -Pensando assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma -raiva de si mesmo; mas em seguida considerava: o homem está -atrapalhado, não póde agora; mais tarde com certeza elle fará a -cousa... -</p> - -<p> -Vivia nessa alternativa dolorosa e era ella que lhe trazia -apprehensões, desanimo e desesperança, notados por sua afilhada na sua -physionomia já um pouco acabrunhada. -</p> - -<p> -Não tardou, porém, que, abandonando os episodios da sua vida militar, -Quaresma explicasse o motivo de sua visita. -</p> - -<p> -—Mas qual dellas? perguntou a afilhada. -</p> - -<p> -—A segunda, a Ismenia. -</p> - -<p> -—Aquella que estava para casar com o dentista? -</p> - -<p> -—Esta mesmo. -</p> - -<p> -—Ahn!... -</p> - -<p> -Ella pronunciou este <i>ahn</i> muito longo e profundo, como se puzesse -nelle tudo que queria dizer sobre o caso. Via bem o que fazia o desespero -da moça, mas via melhor a causa, naquella obrigação que incrustam no -espirito das meninas, que ellas se devem casar a todo o custo, fazendo -do casamento o pólo e fim da vida, a ponto de parecer uma deshonra, uma -injuria, ficar solteira. -</p> - -<p> -O casamento já não é mais amor, não é maternidade, não é nada -disso: é simplesmente casamento, uma cousa vasia, sem fundamento nem na -nossa natureza nem nas nossas necessidades. -</p> - -<p> -Graças á frouxidão, á pobreza intellectual e fraqueza de energia -vital de Ismenia, aquella fuga do noivo se transformou em certeza de -não casar mais e tudo nella se abysmou nessa idéa desesperada. -</p> - -<p> -Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se. Sendo bom de fundo, quando -lutava pela fortuna se fez duro e aspero, mas logo que se viu rico, -perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem que só se póde -ser bom quando se é forte de algum modo. -</p> - -<p> -Ultimamente o Major tinha diminuido um pouco o interesse pela moça; -andava atormentado com o seu caso de consciencia; entretanto, se não -tinha um constante e particular pensamento pela desdita da filha de -Albernaz, abrangia-a ainda na sua bondade geral, larga e humana. -</p> - -<p> -Não se demorou muito na casa do compadre; elle queria, antes de voltar -ao Cajú, passar pelo quartel do seu batalhão. Ia ver se arranjava uma -pequena licença, para visitar a irmã que deixara lá, no «Socego», e -de quem tinha noticias, por carta, tres vezes por semana. Eram ellas -satisfatorias, comtudo elle tinha necessidade de ver tanto ella como o -Anastacio, physionomias com quem se encontrava diariamente ha tantos -annos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituisse a -calma e a paz de espirito. -</p> - -<p> -A ultima carta que recebera de D. Adelaide, havia uma phrase de que, no -momento, se lembrava sorrindo: «Não te exponhas muito, Polycarpo. Toma -muita cautela». Pobre Adelaide! Estava a pensar que esse negocio de -balas é assim como a chuva?!... -</p> - -<p> -O quartel ainda ficava tio velho cortiço condemnado pela hygiene, lá -para as bandas da cidade nova. Assim que Quaresma apontou na esquina, a -sentinella deu um grande berro, fez uma immensa bulha com a arma e elle -entrou, tirando o chapéo da cabeça baixa, pois estava á paisana e -tinha abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as -susceptibilidades republicanas dos jacobinos. -</p> - -<p> -No pateo, o instructor côxo adestrava novos voluntarios e os seus -magestosos e demorados gritos: hom-broôô... armas! Mei-ããã volta... -volver! subiam ao céo e ecoavam longamente pelos muros da antiga -estalagem. -</p> - -<p> -Bustamante estava no seu cubiculo, mais conhecido por gabinete, -irreprehensivel no seu uniforme verde garrafa, alamares dourados e vivos -azul ferrete. Com auxilio de um sargento, examinava a escripta de um -livro quarteleiro. -</p> - -<p> -—Tinta vermelha, Sargento! É como mandam as instrucções de 1864. -</p> - -<p> -Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante. -</p> - -<p> -Logo que viu Quaresma entrar, o commandante exclamou radiante: -</p> - -<p> -—O Major adivinhou! -</p> - -<p> -Quaresma descançou placidamente o chapéo, bebeu um pouco d'agua, e o -Coronel Innocencio explicou a alegria: -</p> - -<p> -—Sabe que temos de marchar? -</p> - -<p> -—Para onde? -</p> - -<p> -—Não sei... Recebi ordem do Itamaraty. -</p> - -<p> -Elle não dizia nunca do Quartel-General, nem mesmo do Ministro da -Guerra: era do Itamaraty, do Presidente, do chefe supremo. Parecia que -assim dava mais importancia a si mesmo e ao seu batalhão, fazia-o uma -especie de batalhão da guarda, favorito e amado do dictador. -</p> - -<p> -Quaresma não se espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossivel -obter a licença e tambem necessario mudar os seus estudos: da -artilharia, tinha que passar para a infantaria. -</p> - -<p> -—O Major é que vai commandar o corpo, sabia? -</p> - -<p> -—Não, Coronel. E o senhor não vai? -</p> - -<p> -—Não, disse Bustamante, alisando o cavaignac mosaico e abrindo a -bocca para o lado esquerdo. Tenho que acabar a organização da unidade e não -posso... Não se assuste, mais tarde irei lá ter... -</p> - -<p> -Começava a tarde, quando Quaresma sahiu do quartel. O instructor côxo -continuava, com força, magestade e demora, a gritar: hom-brôôô... -armas! A sentinella não pôde fazer a bulha da entrada, porque só viu -o Major, quando já ia longe. Elle desceu até á cidade e foi ao -Correio. Havia alguns tiros espaçados; no Café do Rio, os levitas -continuavam a trocar idéas para a consolidação definitiva da -Republica. -</p> - -<p> -Antes de chegar ao Correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a -uma livraria e comprou livros sobre infantaria; precisava tambem dos -regulamentos: arranjaria no quartel-general. -</p> - -<p> -Para onde ia? Para o Sul, para Magé, para Nictheroy? Não sabia... Não -sabia... Ah! se isso fosse para realização dos seus desejos e sonhos! -Mas quem sabe?... Podia ser... talvez... Mais tarde... -</p> - -<p> -E passou o dia atormentado pela duvida do bom emprego de sua vida e de -suas energias. -</p> - -<p> -O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do General. -Elle levava a intima convicção de que a sua sciencia toda nova pudesse -fazer alguma cousa; mas assim não se deu. -</p> - -<p> -A moça continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco attenuada, -o seu organismo cahia. Estava magra e fraca, a ponto de quasi não poder -sentar-se na cama. Era sua mãe quem mais junto a ella vivia; as irmãs -se desinteressavam um pouco, pois as exigencias de sua mocidade -levavam-n'as para outros lados. -</p> - -<p> -D. Maricota, tendo perdido todo aquelle antigo fervor pelas festas e -bailes, estava sempre no quarto da filha, a consolal-a, animal-a, e, ás -vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um tanto culpada pela -sua infelicidade. -</p> - -<p> -A molestia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismenia, tinha-lhe -diminuido a lassidão, tirado o mortiço dos olhos e os seus lindos -cabellos castanhos, com reflexos de ouro, mais bellos se faziam quando -cercavam a pallidez de sua face. -</p> - -<p> -Raro era falar muito; e assim foi que, naquelle dia, se espantou muito -D. Maricota com a loquacidade da filha. -</p> - -<p> -—Mamãe, quando se casa Lalá? -</p> - -<p> -—Quando se acabar a revolta. -</p> - -<p> -—A revolta ainda não acabou? -</p> - -<p> -A mãe respondeu-lhe e ella esteve um instante calada, olhando o tecto, -e, após essa contemplação disse á mãe: -</p> - -<p> -—Mamãe... Eu vou morrer... -</p> - -<p> -As palavras sairam-lhe dos labios, seguras, doces e naturaes. -</p> - -<p> -—Não diga isso, minha filha, adiantou-se D. Maricota. Qual morrer! -Você vai ficar boa; seu pai vai levar você para Minas; você engorda, -toma forças... -</p> - -<p> -A mãe dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como -se tratasse de uma criança. Ella ouvia tudo com paciencia e voltou -por sua vez serenamente: -</p> - -<p> -—Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa a senhora... -</p> - -<p> -A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em -redor, deu com a porta semi-cerrada e levantou-se para fechal-a. Quiz -ainda ver se a dissuadia daquelle pensamento; Ismenia, porém, -continuava a repetil-o pacientemente docemente, serenamente: -</p> - -<p> -—Eu sei, mamãe. -</p> - -<p> -—Bem. Supponho que é verdade: o que é que você quer? -</p> - -<p> -—Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva. -</p> - -<p> -D. Maricota ainda quiz brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para -o outro lado, poz-se a dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe -saiu do quarto, commovida, com lagrimas nos olhos e a secreta certeza de -que a filha, falava a verdade. -</p> - -<p> -Não tardou muito a se verificar. O Dr. Armando a tinha visitado -naquella manhã pela quarta vez; ella parecia melhor, desde alguns dias, -falava com discernimento, sentava-se á cama e conversava com prazer. -</p> - -<p> -D. Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue ás -irmãs. Ellas foram lá ao quarto varias vezes e parecia dormir. -Distrahiram-se. -</p> - -<p> -Ismenia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio -aberto, o seu traje de noiva. Teve vontade de vel-o mais de perto. -Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplal-o. Chegou-lhe -o desejo de vestil-o. Poz a saia: e, por ahi, vieram recordações do -seu casamento falhado. Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente -osseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas não se recordou com -odio, antes como se fosse um logar visto ha muito tempo, e que a tivesse -impressionado. -</p> - -<p> -De quem ella se lembrava com raiva era da cartomante. Illudindo sua -mãe, acompanhada por uma criada, tinha conseguido consultar Mme. -Sinhá. Com que indifferença ella lhe respondeu: não volta! Aquillo -doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah!... Acabou de abotoar a -saia em cima do corpinho, pois não encontrara collete; e foi ao -espelho. Viu os seus hombros nús, o seu collo muito branco... -Surprehendeu-se. Era della aquillo tudo? Apalpou-se um pouco e depois -collocou a corôa. O véo afagou-lhe as espaduas carinhosamente, como um -adejo de borboleta. Teve uma fraqueja, uma cousa, deu um ai e cahiu de -costas na cama, com as pernas para fóra... Quando a vieram ver, estava -morta. Tinha ainda a corda na cabeça e um seio, muito branco e redondo, -saltava-lhe do corpinho. -</p> - -<p> -O enterro foi feito no dia immediato e a casa de Albernaz esteve os dous -dias cheia, como nos dias de suas melhores festas. -</p> - -<p> -Quaresma foi ao enterro; elle não gostava muito dessa cerimonia; mas -veiu, e foi ver a pobre moça, no caixão, coberta de flores, vestida de -noiva, com um ar immaculado de imagem. Pouco mudara, entretanto. Era -ella mesma ali; era a Ismenia dolente e pobre de nervos, com os seus -traços meudos e os seus lindos cabellos, que estava dentro daquellas -quatro taboas. A morte tinha fixado a sua pequena belleza e o seu -aspecto pueril; e ella ia para a cova com a insignificancia, com a -innocencia e a falta de accento proprio que tinha tido em vida. -</p> - -<p> -Contemplando aquelles tristes restos, Quaresma viu caixão do coche -parar na porta do cemiterio, atravessar pelas ruas de tumulos—uma -multidão que trepava, se tocava, lutava por espaço, na estreiteza da -varzea e nas encostas das collinas. Algumas sepulturas como se olhavam -com affecto e se queriam approximar; em outras, transparecia repugnancia -por estarem perto. Havia ali, naquelle mudo laboratorio de -decomposições, solicitações incomprehensiveis, repulsões, -sympathias e antipathias; havia tumulos arrogantes, vaidosos, -orgulhosos, humildes, alegres e tristes; e de muitos, recumava o -esforço, um esforço extraordinario, para escapar ao nivelamento da -morte, ao apagamento que ella traz ás condições e ás fortunas. -</p> - -<p> -Quaresma ainda contemplava o cadaver da moça e o cemiterio surgia aos -seus olhos com as esculpturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e -inscripções, em alguns tumulos; noutros, eram pyramides de pedra -tosca, retratos, caramanchões extravagantes, complicações de ornatos, -cousas barôcas e delirantes, para fugir ao anonymato do tumulo, ao fim -dos fins. -</p> - -<p> -As inscripções exuberantes são longas, são breves: têm nomes, têm -datas, sobrenomes, filiações, toda a certidão de idade do morto que, -lá em baixo, não se póde mais conhecer e é lama putrida. -</p> - -<p> -E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem -uma celebridade, uma notabilidade, um desses nomes que enchem decadas e, -ás vezes mesmo, já mortos, parece que continuam a viver. Tudo é -desconhecido; todas aquelles que querem fugir do tumulo para a memoria -dos vivos, são anodynos felizes e mediocres existencias que passaram -pelo mundo sem ser notadas. -</p> - -<p> -E lá ia aquella moça por ali afóra para o buraco escuro, para o fim, -sem deixar na vida um traço mais fundo de sua pessoa, de seus -sentimentos, de sua alma! -</p> - -<p> -Quaresma quiz afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior -da casa. Elle estivera na sala de visitas, onde D. Maricota tambem -estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. O Lulú, -fardado do Collegio, com fumo no braço, cochilava a uma cadeira. As -irmãs iam e vinham. Na sala de jantar, estava o General silencioso, -tendo ao lado Fontes e outros amigos. -</p> - -<p> -Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma -passou, pôde ouvir o Almirante dizer: -</p> - -<p> -—Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui... O Governo está -exhausto. -</p> - -<p> -O Major ficou na janella que dava para o quintal. O tecido do céo se -tinha adelgaçado; o azul estava sedoso e fino; e tudo tranquillo, -sereno e calmo. -</p> - -<p> -A Estephania, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo -ao lado Lalá, que levava, de quando em quando, o lenço aos olhos já -seccos, a quem aquella dizia: -</p> - -<p> -—Eu, se fosse você, não comprava lá... É caro! Vai ao «Bonheur -des Dames»... Dizem que tem cousas boas e é pechincheiro. -</p> - -<p> -O Major voltou de novo a contemplar o céo que cobriu o quintal. Tinha -uma tranquillidade quasi indifferente. Genelicio appareceu -demasiadamente funebre. Todo de preto, elle tinha afivelado ao rosto a -mais profunda mascara de tristeza. O seu <i>pince-nez</i> azulado tambem -parecia de luto. -</p> - -<p> -Não lhe fôra possivel deixar de ir trabalhar; um serviço urgente, -fizera-o indispensavel na repartição. -</p> - -<p> -—É isto, General, disse elle, não esta lá o Dr. Genelicio, nada se -faz... Não ha meio da «Marinha» mandar os processos certos... É um -relaxamento... -</p> - -<p> -O General não respondeu; estava deveras combalido. Bustamante e Caldas -continuavam a conversar baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua. -Quinota chegou á sala de jantar: -</p> - -<p> -—Papae, está ahi o coche. -</p> - -<p> -O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou á -mulher que se ergueu com a face contrahida, exprimindo uma grande -contensão. Os seus cabellos já tinham muitos fios de prata. Não deu -um passo; esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando. -Todos estavam vendo sem saber o que fazer; alguns choravam; Genelicio -tomou um partido: foi retirando os cirios de ao redor do caixão. A mãe -levantou-se, veiu até ao esquife, beijou o cadaver: minha filha! -</p> - -<p> -Quaresma adiantou-se, foi sahindo com o chapéo na mão. No corredor, -ainda ouviu Estephania dizer a alguem: o coche é bonito. -</p> - -<p> -Saiu. Na rua parecia que havia testa. As crianças da visinhança -cercavam-o carro funebre e faziam innocentes commentarios sobre os -dourados e enfeites. As grinaldas foram apparecendo e sendo dependuradas -nas extremidades das columnas do coche: «Á minha querida filha», «Á -minha irmã». As fitas rôxas e pretas, com lettras douradas, moviam-se -lentamente ao leve vento que soprava. -</p> - -<p> -Appareceu o caixão, todo roxo, com guarnições do galões dourados, -muito brilhantes. Tudo aquillo ia p'ra terra. As janellas se povoaram, -de um lado e d'outro da rua; um menino na casa proxima, gritou da rua -para o interior: «mamãe, lá vai o enterro da moça»! -</p> - -<p> -O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuario, cujos -cavallos, russos, cobertos com uma rede preta, escarvavam o chão cheios -de impaciencia. -</p> - -<p> -Aquelles que iam acompanhar até ao cemiterio, procuravam os seus -carros. Embarcaram todos, e o enterro rodou. -</p> - -<p> -A esse tempo, na visinhança, alguns pombos immaculadamente brancos, as -aves de Venus, ergueram o vôo, ergueram o vôo, ruflando -estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo -silenciosos, quasi sem bater azas, para o pombal que se occultava nos -quintaes burguezes... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap04_3"></a></h4> - -<h4>IV -<br /><br /> -O BOQUEIRÃO</h4> - -<p> -O sitio de Quaresma, em Curuzú, voltava aos poucos ao estado de -abandono em que elle o encontrara. A herva damninha crescia e cobria -tudo. As plantações que fizera, tinham desapparecido na invasão do -capim, do carrapicho, das ortigas e outros arbustos. Os arredores da -casa offereciam um aspecto desolador, apezar dos esforços de Anastacio, -sempre vigoroso e trabalhador na sua forte velhice africana, mas baldo -de iniciativa, de methodo, de continuidade no esforço. -</p> - -<p> -Um dia capinava aqui, outro dia ali, outro pedaço; assim ia saltando de -trecho em trecho, sem fazer trabalho que se visse, permittindo que as -terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto de desleixo que -não condizia como seu trabalho effectivo. -</p> - -<p> -As formigas voltaram tambem, mais terriveis e depredadoras, vencendo -obstaculos, devastando tudo, restos de seara, brotos de fructeiras, até -os araçazeiros depenavam com uma energia e bravura que sorriam nos -fracos expedientes da intelligencia crestada do antigo escravo, incapaz -de achar meios efficazes de batel-as ou afugenta-las. -</p> - -<p> -Entretanto elle cultivava. Era a sua mania, o seu vicio, uma teimosia de -caduco. Tinha uma horta que disputava diariamente ás saúvas; e, como -os animaes da visinhança a tivessem um dia invadido, elle a protegeu -pacientemente com uma cerca de materiaes mais inconcebiveis: latas de -kerozene desdobradas, caibros bons, folhas de coqueiros, taboas de -caixão, não obstante ter á mão bambus á vontade. -</p> - -<p> -Na sua intelligencia havia uma necessidade do tortuoso; do -apparentemente facil; e, em tudo elle punha esse geito de sua psyche, -tanto no falar, com grandes rodeios, como nos canteiros que traçava, -irregulares, maiores aqui, menores ali, fugindo á regularidade, ao -parallelismo, á symetria, com um horror artistico. -</p> - -<p> -A revolta tinha tido sobre a politica local effeito pacificador. Todos -os partidos se fizeram dedicadamente governistas, de forma que, entre os -dous poderosos contendores, o Dr. Campos e o Tenente Antonino, houve um -traço de união que os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso que -ambos disputavam encarniçadamente, chegou um outro mais forte que poz -em perigo a segurança de ambos e elles se puzeram em expectativa, um -instante unidos. -</p> - -<p> -O candidato foi imposto pelo Governo Central e as eleições chegaram. -É um momento bem curioso esse das eleições na roça. Não se sabe bem -donde sabem tantos typos exoticos. De tal forma são elles esquesitos -que se póde mesmo esperar que appareçam calções e bofes de renda, -espadins e gibão. Ha sobrecasacas de cintura, ha calças boca de sino, ha -chapéos de seda—todo um museu de indumentaria que aquelles roceiros -vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e -estradas poeirentas das villas e logarejos. Não faltam tambem os -valentões, com calças bombachas e grandes bengalões de piquiá, á -espera do que der e vier. -</p> - -<p> -Para a monotona vida que levava D. Adelaide, esse desfile de manequins -de museu, por sua porteira, em direcção á secção eleitoral que lhe -ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ella passava longo e -tristes dias naquelle isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito a -mulher de Felizardo, a sinhá Chica, uma velha cafusa, especie de Medéa -esqueletica, cuja fama de rezadeira pairava por sobre todo o municipio. -Não havia quem como ella soubesse rezar dores, cortar febres, curar -cobreiros e conhecesse os effeitos das hervas medicinaes: a lingua de -vacca, a silvina, o cipó chumbo—toda aquella drogaria que crescia -pelos campos, pelas capoeiras, e pelos troncos de arvores. -</p> - -<p> -Além desse saber que a fazia estimada e respeitavel, tinha tambem a -habilidade de assistir partos. Na redondeza, entre a gente pobre e mesmo -remediada, todos os nascimentos se faziam aos cuidados de suas luzes. -</p> - -<p> -Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento -domestico em cruz, repetidas vezes, sobre a séde da dor ou da tarefa, -rezando em voz baixa, balbuciando preces que afugentavam o espirito -maligno que estava ali. Contavam-se della milagres, victorias -extraordinarias, denunciadoras do seu extranho poder quasi magico, sobre -as forças occultas, que nos perseguem ou nos auxiliam. -</p> - -<p> -Um dos mais curiosos, e era contado em toda a parte e á toda a hora, -consistia no afastamento das lagartas. Os vermes haviam dado num -feijoal, aos milheiros, cobrindo as folhas e os colmos; o proprietario -já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos -maravilhosos poderes de Sinhá Chica. A velha lá foi. Pôz cruzes de -gravetos pelas bordas da roça, assim como se fizesse uma cerca de -invisivel material que nellas se apoiasse; deixou uma extremidade aberta -e collocou-se na opposta a rezar. Não tardou o milagre a verificar-se. -Os vermes, num rebanho moroso e serpejante, como se fossem tocados pela -vara de um pastor, foram sahindo na sua frente, de vagar, aos dous, aos -quatros, aos cinco, aos dez, aos vinte, e um só não ficou. -</p> - -<p> -O doutor Campos não linha absolutamente nenhuma especie de ciume dessa -rival. Armou-se de um pequeno desdem pelo poder sobrehumano da mulher, -mas não appellou nunca para o arsenal de leis, que vedava o exercicio -de sua transcedente medicina. Seria a impopularidade; elle era -politico... -</p> - -<p> -No interior, e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro, as -duas medicinas coexistem sem raiva e ambas attendem ás necessidades -mentaes e economicas da população. -</p> - -<p> -A da Sinhá Chica, quasi gratis, ia ao encontro da população pobre, -daquella em cujos cerebros, por contagio ou herança, ainda vivem os -manitus e manipanços, sujeitos a fugirem aos exorcismos, benzeduras e -fumigações. A sua clientela, entretanto, não se resumia só na gente -pobre da terra, ali nascida ou criada; havia mesmo recem-chegados de -outros ares, italianos, portuguezes e hespanhoes, que se socorriam da -sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contagio das crenças -ambientes, mas tambem por aquella estranha superstição européa de que -todo o negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as -coisas malignas e exercer a feitiçaria. -</p> - -<p> -Emquanto a therapeutica fluidica ou herbacea de Sinhá Chica attendia -aos miseraveis, aos pobretões, a do doutor Campos era requerida pelos -mais cultos e ricos, cuja evolução mental exigia a medicina regular e -official. -</p> - -<p> -Ás vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas molestias -graves, nas complicadas, nas incuraveis, quando as hervas e as rezas da -milagrosa nada podiam ou os xaropes e pillulas do doutor eram -impotentes. -</p> - -<p> -Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradavel. Vivia sempre -mergulhada no seu sonho divino, abysmada nos mysteriosos poderes dos -feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos baixos, fixos, de -fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de mumia, tanto ella era -encarquilhada e secca. -</p> - -<p> -Não esquecia tambem os santos, a santa madre igreja, os mandamentos, -as orações orthodoxas; embora não soubesse ler, era forte no -cathecismo e conhecia a historia sagrada aos pedaços, adduzindo a -elles interpretações suas e interpelações pittorescas. -</p> - -<p> -Com o Appolinario, o famoso capellão das ladainhas, era ella o forte -poder espiritual da terra. O vigario ficava relegado a um papel de -funccionario, especie de official de registro civil, encarregado dos -baptisados e casamentos, pois toda a communicação com Deus e o -Invisivel se fazia por intermedio de Sinhá Chica ou do Appolinario. É -de dever falar em casamentos, mas bem podiam ser esquecidos, porque a -nossa gente pobre faz um reduzido de tal sacramento e a simples -mancebia, por toda a parte, substitue a solemne instituição catholica. -</p> - -<p> -Felizardo, o marido della, apparecia pouco em casa de Quaresma; e, se -apparecia, era á noite passando os dias pelos mattos com medo do -recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o barulho já -tinha acabado. -</p> - -<p> -Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janella e -embrenhando-se na capoeira, á menor bulha ou vida. -</p> - -<p> -Tinham dous filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam á depressão -moral dos paes uma pobreza de vigor physico e uma indolencia repugnante. -Eram dous rapazes; o mais velho, José, orçava pelos 20 annos; ambos -inertes, molles, sem força e sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria, -das rezas e benzeduras, que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito -do pae. -</p> - -<p> -Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um -trabalho continuo. De quando em quando, assim de quinze em quinze dias, -faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade -do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um lenço de -cores vivas, um vidro de agua da Colonia, um espelho, bugigangas que -denunciavam ainda nelles gostos bastante selvagens. -</p> - -<p> -Passavam então uma semana em casa, a dormir ou á perambular pelas -estradas e vendas; á noite, quasi sempre nos dias de festas e domingos, -sahiam com a <i>harmonica</i> a tocar peças, no que eram eximios, sendo a -presença delles muito requesitada nos bailes da visinhança. -</p> - -<p> -Embora seus paes vivessem em casa de Quaresma, raramente lá appareciam; -e, se o faziam, era porque de todo não tinham que comer. Levavam o -descuido da vida, a imprevidencia, a ponto de não terem medo do -recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e -bondade, mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes á -natureza, como uma pena ou um castigo. -</p> - -<p> -Essa atonia da nossa população, essa especie de desanimo doentio, de -indifferença nirvanesca por tudo e todas as cousas, cercam de uma -caligem de tristeza, desesperada a a nossa roça e tira-lhe o encanto, a -poesia o o viço seductor de plena natureza. -</p> - -<p> -Parece que nem um dos grandes paizes opprimidos, a Polonia, a Irlanda, a -India apresentará o aspecto cataleptico do nosso interior. Tudo ahi -dorme, cochila, parece morto; naquelles ha revolta, ha fuga para o -sonho; no nosso... Oh!... dorme-se... -</p> - -<p> -A ausencia de Ouaresma trouxera para o seu sitio essa atmosphera geral -da roça. O «Socego» parecia dormir, dormir de encantamento, á espera -que o principe o viesse despertar. -</p> - -<p> -Machinas agricolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a -etiqueta da casa. Aquelles arados de ponta de aço, que tinham chegado -com a relha reluzente, de um brilho azulado e doce, estavam hediondos e -morriam de tedio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente -para o céo mudo. De manhã, não se ouvia mais o cacarejar das aves no -gallinheiro, o esvoaçar dos pombos—todo esse hymno matinal de vida, -de trabalho, de fartura não mais se casava com as auroras rosadas e com o -chilreio alacre do passaredo; e ninguem sabia ver as paineiras em flor, -com as suas lindas flores rosadas e brancas que, a espaços, cahiam -docemente como aves feridas. -</p> - -<p> -D. Adelaide não linha nem gosto nem actividade para superintender -aquelles serviços e fruir a poesia da roça. Soffria com a separação -do irmão e vivia como se estivesse na cidade. Comprava os generos na -venda e não se incommodava com as cousas do sitio. -</p> - -<p> -Anceiava pela volta da irmão; escrevia-lhe cartas desesperadas, ás -quaes elle respondia aconselhando calma, fazendo promessas. A ultima -recebida, porém, tinha de sopetão outro accento; não era mais -confiante, enthusiastica, trahia desanimo, desalento, mesmo desespero. -</p> - -<p> -«Querida Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que recebi ha -quasi duas semanas. Justamente quando ella me chegou ás mãos, acabava -de ser ferido, ferimento ligeiro é verdade, mas que me levou á cama e -traz-me-á unia convalescença longa. Que combate, minha filha! Que -horror! Quando me lembro delle, passo as mãos pelos olhos como para -afastar uma visão má. Fiquei com um horror á guerra que ninguem póde -avaliar... Uma confusão, um infernal zunir de balas, clarões -sinistros, imprecações—e tudo isto no seio da treva profunda da -noite... Houve momentos que se abandonaram as armas de fogo: batiamo-nos -á bayoneta, a coronhadas, a machado, a facão. Filha: um combate de -troglodytas, um cousa prehistorica... Eu duvido, eu duvido, duvido da -justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo -e necessario ir tirar do fundo de nós todos a ferocidade adormecida, -aquella ferocidade que se fez e se depositou em nós nos millenarios -combates com as féras, quando disputavamos a terra e ellas... Eu não -vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon do Néanderthal armados com -machados de silex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar, -sempre a matar... Este teu irmão que estás vendo, tambem fez das suas, -tambem foi descobrir dentro do si muita brutalidade, muita ferocidade, -muita crueldade... Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de -matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus -pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não -sei a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguem emfim... Não -imaginas como isto faz-me soffrer... Quando cahi em baixo de -uma carreta, o que me doia não era a ferida, era a alma, era a -consciencia; e Ricardo, que foi ferido e cahiu ao meu lado, a gemer e -pedir—<i>capitão, meu gorro; meu gorro</i>!—parecia que era o -meu proprio pensamento que ironizava o meu destino... -</p> - -<p> -Esta vida é absurda e illogica; eu já tenho medo de viver, Adelaide. -Tenho medo, porque não sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã, -de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol... -</p> - -<p> -O melhor é não agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre destes -encargos, irei viver na quietude, na quietude mais absoluta possivel, -para que do fundo de mim mesmo ou do mysterio das cousas não provoque a -minha acção o apparecimento de energias extranhas á minha vontade, -que mais me façam soffrer e tirem o doce sabor de viver... -</p> - -<p> -Além do que, penso que todo este meu sacrificio tem sido inutil. Tudo o -que nelle puz de pensamento não foi attingido; e o sangue que derramei, -e o soffrimento que vou soffrer toda a vida, foram empregados, foram -gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralisados em pról -de uma tolice politica qualquer... -</p> - -<p> -Ninguem comprehende o que quero, ninguem deseja penetrar e sentir; passo -por doido, tolo, maniaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a -sua brutalidade e fealdade». -</p> - -<div class="tb">* * * * *</div> - -<p> -Como Quaresma dizia na carta, o seu ferimento não era grave, era -porém, delicado e exigia tempo para uma cura completa e sem perigos. -Ricardo, este, fora ferido mais gravemente. E se o soffrimento de -Quaresma era profundamente moral, o de Coração dos Outros era physico -e não se cançava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara -até á posição de combatente. -</p> - -<p> -Os hospitaes em que tratavam estavam separados pela bahia, agora -intransponivel, exigindo a viagem de uma margem á outra bem doze horas -por estrada de ferro. -</p> - -<p> -Tanto na ida como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela -estação em que morava. O trem, porém, não parava, e elle se limitou -a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para aquelle seu -«Socego», de terras pobres e arvores velhas, onde sonhara repousar -calmamente por toda a vida; e, entretanto, o lançara na mais terrivel -das aventuras. -</p> - -<p> -E elle perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro -socego, onde se poderia encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo -qual tanto anceiava, depois dos sacolejamentos por que vinha -passando—onde? E o mappa dos continentes, as cartas dos paizes, as -plantas das cidades, passavam-lhe pelos olhos e não viu, não encontrou -um paiz, uma provincia, uma cidade, uma rua onde o houvesse. -</p> - -<p> -A sua sensação era de fadiga, não physica, mas moral r intellectual. -Tinha vontade de não mais pensar, de não mais amar: queria, comtudo, -viver, por prazer physico, pela sensação material pura e simples de -viver. -</p> - -<p> -Assim, convalesceu longamente, demoradamente, melancolicamente, sem uma -visita, sem ver uma face amiga. -</p> - -<p> -Coleoni e familia se haviam retirado para fóra; o General, por -preguiça e desleixo, não viera vel-o. Vivia só, envolvido na -suavidade da convalescença, a pensar no Destino, na sua vida, nas suas -idéas e mais que tudo nas suas desillusões. -</p> - -<p> -Entretanto, a revolta na bahia chegava ao fim; toda a gente já -presentia isso e queria esse allivio. -</p> - -<p> -O Almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim -com tristeza. O primeiro via fugir o seu sonho de commandar uma esquadra -e a consequente volta para o quadro; e o General sentia perder a sua -commissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notavel melhorar a -situação da familia. -</p> - -<p> -Naquella manhã, bem cedo, D. Maricota accordara o marido: -</p> - -<p> -—Chico, levanta-te! Olha que tens que ir á missa do Senador -Clarimundo... -</p> - -<p> -Ouvindo a recommendação da mulher, Albernaz ergueu-se logo do leito. -Era preciso não faltar. A sua presença se impunha e significava muito. -Clarimundo fôra um republicano historico, agitador, tribuno temido, no -tempo do Imperio; após a Republica, porém, não apresentara aos seus -pares do Senado nada de util e bemfasejo. Embora assim, a sua influencia -ficara sendo grande; e, com diversos outros, era chamado patriarcha da -Republica. Ha nos proceres republicanos uma necessidade extraordinaria -de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro, a que elles se -recommendam com teimoso interesse. -</p> - -<p> -Clarimundo era um desses proceres e, durante a commoção, não se sabia -bem porque, o seu prestigio cresceu e já se falava nelle para -substituir o Marechal. Albernaz conhecera-o vagamente, mas assistir a -sua missa era quasi uma affirmação politica. -</p> - -<p> -A dor da morte da filha já se esvaira muito na sua memoria. O que o -fazia soffrer era aquella semi-vida da moça, mergulhada na loucura e na -molestia. A morte tem a virtude de ser brusca, de chocar, mas não -corroer, como essas molestias duradouras nas pessoas amadas: passado que -é o choque, vai ficando em nós uma suave recordação do ente -querido, uma boa physionomia sempre presente aos nossos olhos. -</p> - -<p> -Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua -jovialidade natural foram voltando insensivelmente. -</p> - -<p> -Obediente á mulher, preparou-se, vestiu-se e sahiu. Comquanto se -estivesse ainda em plena revolta, esses officios funebres se faziam nas -igrejas do centro da cidade. O General chegou a tempo e á hora. Havia -uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assignar as listas de -presença. Não tanto que quisessem attestar á familia do morto esse -acto delicado; dominava-os, além disso, a esperança de ter os nomes -nos jornaes. -</p> - -<p> -Albernaz não deixou de atirar-se tambem a uma das listas que andavam -pelas mesas da sacristia; e, quando ia assignar, alguem lhe falou. Era o -Almirante. A missa ia começar, mas ambos evitaram entrar na nave cheia, -e ficaram a um vão da janella, na sacristia, conversando. -</p> - -<p> -—Então acaba breve, hein? -</p> - -<p> -—Dizem que a esquadra já sahiu de Pernambuco. -</p> - -<p> -Fôra Caldas quem falara primeiro e a resposta do General fel-o sorrir -ironico dizendo: -</p> - -<p> -—Emfim... -</p> - -<p> -—A bahia está cercada de canhões, continuou o General, após uma -pausa, e o Marechal vai intimal-os a renderem-se. -</p> - -<p> -—Já era tempo, fez Caldas... Commigo, a cousa ja estava acabada... -Levar quasi sete mezes para dar cabo de uns calhambeques!... -</p> - -<p> -—Você exagera, Caldas; a cousa não era tão facil assim... E o mar? -</p> - -<p> -—Que fez a esquadra tanto tempo no Recife, você não me dirá? Ah! si -fosse com este seu criado, tinha logo partido e atacado... Sou pelas -decisões promptas... -</p> - -<p> -O padre, no interior da igreja, continuava a pedir Deus repouso para a -alma do Senador Clarimundo. O mystico cheiro de incenso vinha até elles -e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz e da bondade, não os demovia -dos seus pensamentos guerreiros. -</p> - -<p> -—Entre nós, adduziu Caldas, não ha mais gente que preste... Isto é -um paiz perdido, acaba colonia ingleza... -</p> - -<p> -Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho -do chão. Albernaz avançou, meio sarcastico: -</p> - -<p> -—Agora não; agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma -era de progresso vai abrir-se para o Brasil. -</p> - -<p> -—Qual o que! Onde é que você viu um Governo... -</p> - -<p> -—Mais baixo, Caldas! -</p> - -<p> -—...onde é que se viu um Governo que não aproveita as aptidões, -abandona-as, deixa-as por ahi vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas -riquezas naturaes: jazem por ahi á toa! -</p> - -<p> -A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma -porção de homens, todos de negro, ajoelhados, contrictos, batendo nos -peitos, a confessar de si para si: <i>mea culpa, mea maxima culpa</i>... -</p> - -<p> -Uma restea de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia -sobre algumas cabeças. -</p> - -<p> -Insensivelmente, os dous, na sacristia, levaram a mão ao peito e -confessaram tambem: <i>mea culpa, mea maxima culpa</i>... -</p> - -<p> -A missa veiu a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmatica. A -nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranquillo de immortalidade. -</p> - -<p> -Todos tinham um grande ar de compuncção: amigos, parentes, conhecidos -e desconhecidos pareciam soffrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que -penetraram no corpo da igreja, apanharam no ar um sentimento profundo e -afivelaram-no ao rosto. -</p> - -<p> -Genelicio tambem viera; elle tinha o vicio das missas das pessoas -importantes, dos cartões de pezames, dos cumprimentos em dias de -anniversario. Temendo que a memoria não lhe ajudasse, possuia um -caderninho onde as datas aniversarias estavam assentadas e as -residencias tambem. O indice era organizado com muito cuidado. Não -havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem importante, que, em dia de -anniversario, não recebesse os seus parabens, e, por morte, não o -levasse á igreja em missa de setimo dia. -</p> - -<p> -O seu traje de luto era de panno grosso, pesado e, olhando-o, -lembrava-nos logo de um castigo dantesco. -</p> - -<p> -Na rua, Genelicio escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia -ao sogro e ao Almirante: -</p> - -<p> -—A cousa está p'ra acabar...! Breve... -</p> - -<p> -—E se resistirem? perguntou o General. -</p> - -<p> -—Qual! Não resistem. Corre que já propuzeram rendição... É preciso -arranjar uma manifestação ao Marechal... -</p> - -<p> -—Não acredito, fez o Almirante. Conheço muito o Saldanha, é -orgulhoso e não se entrega assim... -</p> - -<p> -Genelicio ficou um pouco assustado com a intonação da voz do seu -parente; teve medo que elle falasse mais alto, désse na vista e o -compromettesse. Calou-se; Albernaz, porem, avançou: -</p> - -<p> -—Não ha orgulho que resista a uma esquadra mais forte. -</p> - -<p> -—Forte! Uns calhambeques, homem! -</p> - -<p> -Caldas continha a custo a furia que lhe ia n'alma. O céo estava azul e -calmo. Havia nelle nuvens brancas, leves, esgarçadas, que se moviam -lentamente, como velas, naquelle mar infinito. Genelicio olhou-o um -pouco e aconselhou: -</p> - -<p> -—Almirante não fale assim... Olhe que... -</p> - -<p> -—Qual! Não tenho medo... Porcarias!... -</p> - -<p> -—Bom, fez Genelicio, eu tenho que ir á rua Primeiro de Março e... -</p> - -<p> -Despediu-se e sahiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão -com o seu pince-nez azulado, palmilhando a rua com passo meudo e -cauteloso. -</p> - -<p> -Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram -sempre amigos, cada um com o seu desgosto e a sua decepção. -</p> - -<p> -Tinham razão: a revolta veiu a acabar d'ahi a dias. A esquadra legal -entrou: os officiaes revoltosos se refugiaram nos navios de guerra -portuguezes e o Marechal Floriano ficou senhor da bahia. -</p> - -<p> -No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte -da população abandonou a cidade, refugiando-se nos suburbios, por -baixo das arvores, na casa de amigos ou nos galpões construidos adrede -pelo Estado. -</p> - -<p> -Era de ver o terror que se estampava naquellas physionomias, a ancia e a -angustia tambem. Levavam trouxas, samburás, pequenas malas; crianças -de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro de estimação, o -passarinho que de ha muito quebrava a tristeza de uma casa pobre. -</p> - -<p> -O que mais mettia medo era o famoso canhão de dynamite, do -«Nictheroy», uma espalhafatosa invenção americana, instrumento -terrivel, capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das -montanhas graniticas do Rio. -</p> - -<p> -As crianças e as mulheres, mesmo fóra do alcance de seu poder, temiam -ouvir o seu estrondo: entretanto, esse fantasma <i>yankee</i>, esse -pesadello, essa quasi força da natureza, foi morrer abandonado num -caes, desprezado e inoffensivo. -</p> - -<p> -O fim do levante foi um allivio; a cousa já estava, ficando monotona e -o Marechal ganhou feições sobrehumanas com a victoria. -</p> - -<p> -Quaresma teve alta por esse tempo; e uma ala de seu batalhão foi -destacada para guarnecer a ilha das Enxadas. Innocencio Bustamante -continuava a superintender o corpo com muito zelo, do interior do seu -gabinete, na estalagem condemnada que lhe servia de quartel. A -escripturação estava em dia e era feita com a melhor letra. -</p> - -<p> -Polycarpo acceitou com repugnancia o papel de carcereiro, pois na ilha -das Enxadas estavam depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus -tormentos d'alma mais cresceram com o exercicio de tal funcção. Quasi -os não olhava: tinha vexame, piedade e parecia-lhe que dentre elles um -conhecia o segredo de sua consciencia. -</p> - -<p> -De resto, todo o systema de idéas que o fizera meter-se na guerra civil -se tinha desmoronado. Não encontrara o Sully e muito menos o Henrique -IV. Sentia tambem que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma -das pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos -politicos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os -moços, que eram muitos, se não havia baixo interesse, existia uma -adoração fetichica pela forma republicana, um exagero das virtudes -della, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações -não podiam achar justos. Era grande a sua desillusão. -</p> - -<p> -Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos -dos aspirantes. Havia simples marinheiros; havia inferiores; havia, -escreventes e operarios de bordo. Brancos, pretos, mulatos, caboclos, -gente de todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha -incitado em tal aventura pelo habito de obedecer, gente inteiramente -extranha á questão em debate, gente arrancada á força aos lares ou -á calaçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado -por miseria; gente ignara, simples, ás vezes cruel e perversa como -crianças inconscientes; ás vezes, boa e docil como um cordeiro, mas, -enfim, gente sem responsabilidade, sem anceio politico, sem vontade -propria, simples automatos nas mãos dos chefes e superiores que a -tinham abandonado á mercê do vencedor. -</p> - -<p> -De tarde, elle ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava -ainda e as gaivotas continuavam a pescar. Os barcos passavam. Ora, eram -lanchas fumarentas que lá iam para fundo da bahia; ora pequenos botes -ou canôas, roçando carinhosamente a superficie das aguas, pendendo -para lá e para cá, como se as suas alvas velas enfunadas quizessem -afagar a espelhenta superficie do abysmo. Os Orgãos vinham suavemente -morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul immaterial que -inebriava, embriagava, como um licor capitoso. -</p> - -<p> -Ficava assim um tempo longo, a ver, e quando se voltava, olhava a cidade -que entrava na sombra, aos beijos sangrentos do occaso. -</p> - -<p> -A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar, -meditando, pensando, soffrendo com aquelles lembranças de odios, de -sangueiras e ferocidade. -</p> - -<p> -A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas, e imaginou que do -exemplo dellas vinham os crimes que aquella punia, castigava e procurava -restringir. Eram negras e desesperadas, as suas idéas; muita vez julgou -que delirava. -</p> - -<p> -E então se lamentava por estar sósinho, par não ter um companheiro -com quem conversar, que lhe fizesse fugir aquelles tristes pensamentos -que o assediavam e se chiavam transformando em obsessão. -</p> - -<p> -Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras: e, mesmo que ali -estivesse, os rigores da disciplina não lhe permittiriam uma conversa -mais amigavel. Vinha a noite inteiramente, e o silencio e a treva -envolviam tudo. -</p> - -<p> -Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da -bahia, onde quasi não havia luzes que interrompessem a continuidade do -negror nocturno. -</p> - -<p> -Fixava bem os olhos para lá, como se os quizesse habituar a peneirar -nas cousas indecifraveis e adivinhar dentro da sombra negra a forma das -montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito desapparecer. -</p> - -<p> -Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insomnias e, se queria -ler, a attenção recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito -longe do livro. -</p> - -<p> -Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veiu accordal-o pela -madrugada: -</p> - -<p> -—Sr. Major, está ahi o <i>home</i> do Itamaraty. -</p> - -<p> -—Que homem? -</p> - -<p> -—O official que vem buscar a turma do Boqueirão. -</p> - -<p> -Sem attinar bem do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do -visitante. O homem já estava no interior de um dos alojamentos. Uma -escolta estava á porta. Seguiam-no algumas praças, das quaes uma -levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna -amarellada. A vasta sala estava cheia de corpos, deitados, semi-nus, e -havia todo o iris das cores humanas. Uns roncavam, outros dormiam -sómente; e quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho, -gemeu—ai! Cumprimentaram-se Quaresma e o emissario do Itamaraty, e -nada disseram. Ambos tiveram medo de falar. O official despertou um dos -prisioneiros e disse para as praças: Levem este. -</p> - -<p> -Seguiu adiante e despertou outro:—onde você esteve? -Eu—respondeu o marinheiro—na «Guanabara»... Ah! patife, -acudiu o homem do Itamaraty... Este tambem... Levem!... -</p> - -<p> -Os soldados conductores iam até á porta, deixaram o prisioneiro e -voltavam. -</p> - -<p> -O official passou por uma porção delles e não fez reparo: adiante, -deu com um rapaz claro, franzino, que não dormia. Gritou então: -levante-se! O rapaz ergueu-se tremendo.—Onde esteve você? -perguntou.—Eu era enfermeiro, retrucou o rapaz.—Que enfermeiro! -fez o emissario. Levem este tambem... -</p> - -<p> -—Mas, seu Tenente, deixe-me escrever á minha mãe, pediu o rapaz quasi -chorando. -</p> - -<p> -—Que mãe respondeu o homem do Itamaraty. Siga! Vá! -</p> - -<p> -E assim foi uma duzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta, -a embarcar num batelão que uma lancha logo rebocou para fóra das -aguas da ilha. -</p> - -<p> -Quaresma não atinou de prompto com o sentido da scena e foi, após o -afastamento da lancha, que elle encontrou uma explicação. -</p> - -<p> -Não deixou de pensar então por que força mysteriosa, por que -injuncção ironica elle se tinha misturado em tão tenebrosos -acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do regimen... -</p> - -<p> -A embarcação não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro as -pedras do caes. A esteira da embarcação estrellejava phosphorescente. -No alto, num céo negro e profundo, as estrellas brilhavam serenamente. -</p> - -<p> -A lancha desappareceu nas trevas do fundo da bahia. Para onde ia? Para o -Boqueirão... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="chap05_3"></a></h4> - -<h4>V -<br /><br /> -A AFILHADA</h4> - -<p> -Como lhe parecia illogico com elle mesmo estar ali mettido naquelle -estreito calabouço. Pois elle, o Quaresma placido, o Quaresma de tão -profundos pensamentos patrioticos, merecia aquelle triste fim? De que -maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que elle pudesse -presentir o seu extravagante proposito, tão apparentemente sem -relação com o resto da sua vida? Teria sido elle com os seus actos -passados, com as suas acções encadeiadas no tempo, que fizera com que -aquelle velho deus docilmente o trouxesse até á execução de tal -designio? Ou teriam sido os factos externos, que venceram a elle, -Quaresma, e fizeram-n'o escravo da sentença da omnipotente divindade? -Elle não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas cousas se -baralhavam, se emmaranhavam e a conclusão certa e exacta lhe fugia. -</p> - -<p> -Não estava ali ha muitas horas. Fôra preso pela manhã, logo ao -erguer-se da cama; e, pelo calculo approximado do tempo, pois estava sem -relogio e mesmo se o tivesse não poderia consultal-o á fraca luz da -masmorra, imaginava podiam ser onze horas. -</p> - -<p> -Porque estava preso? Ao certo não sabia; o official que o conduzira, -nada lhe quizera dizer; e, desde que sahira da ilha das Enxadas para a -das Cobras, não trocara palavra com ninguem, não vira nenhum conhecido -no caminho, nem o proprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um -gesto, trazer socego ás suas duvidas. Entretanto, elle attribuia a -prisão á carta que escrevera ao Presidente, protestando contra a scena -que presenciara na vespera. -</p> - -<p> -Não se pudera conter. Aquella leva de desgraça a sahir assim, as -deshonras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo -a todos os seus sentimentos puzera diante dos seus olhos todos os seus -principios moraes; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade -humana: e elle escrevera a carta com vehemencia, com paixão, indignado. -Nada omittiu do seu pensamento: falou claro, franca e nitidamente. -</p> - -<p> -Deve ser por isso que elle estava ali naquella masmorra, engaiolado, -trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma féra, como um -criminoso, sepultado na treva, soffrendo humidade, misturado com os seus -detrictos quasi sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta -lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquella angustia -provocava pensar. Não havia base para qualquer hypothese. Era de -conducta tão irregular e incerta o Governo que tudo elle, podia -esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquella. -</p> - -<p> -O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sêde de matar, -para affirmar mais a victoria e sentil-a bem na consciencia cousa sua, -propria, e altamente honrosa. -</p> - -<p> -Iria morrer, quem sabe se naquella noite mesmo. E que tinha elle feito -de sua vida? Nada. Levara toda ella atraz da miragem de estudar a -patria, por amal-a e querel-a muito, no intuito de contribuir para a sua -felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua -virilidade tambem; e, agora que estava na velhice, como ella o -recompensava, como ella o premiava, como ella o condecorava? Matando-o. -E o que não deixara de ver, de gosar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não -brincara, não pandegara, não amara—todo esse lado da existencia que -parece fugir um pouco á sua tristeza necessaria, elle não vira, elle -não provara, elle não experimentara. -</p> - -<p> -Desde dezoito annos que o tal patriotismo lhe absorvia e por elle fizera -a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram -grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade -saber o nome dos heróes do Brasil? Em nada... O importante é que elle -tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupy, do -<i>folk lore</i>, das suas tentativas agricolas... Restava disso tudo em -sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma! -</p> - -<p> -O tupy encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escarneo; e -levou-o á loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras -não eram ferazes e ella não era facil como diziam os livros. Outra -decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que -achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois elle -não a viu combater como féras? Pois não a via matar prisioneiros, -innumeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma serie, -melhor, um encadeiamento de decepções. -</p> - -<p> -A patria que quizera ter era um mytho; era um fantasma criado por elle -no silencio do seu gabinete. Nem a physica, nem a moral, nem a -intellectual, nem a politica que julgava existir, havia. A que existia -de facto, era a do Tenente Antonino, a do Dr. Campos, a do homem do -Itamaraty. -</p> - -<p> -E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Patria? Não -teria levado toda a sua vida norteado por uma illusão, por uma idéa a -menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma Deusa cujo imperio se -esvaia? Não sabia que essa idéa nascera da amplificação da crendice -dos povos grego-romanos de que ancestraes mortos continuaram a viver -como sombras e era preciso alimental-as para que elles não perseguissem -os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Conlangos... Lembrou-se de -que essa noção nada é para os menenanan, para tantas pesos... -Pareceu-lhes que essa idéa como que fôra explorada pelos -conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviencias -psychologicas, no intuito de servir ás suas proprias ambições... -</p> - -<p> -Reviu a historia; viu as mutilações, os accrescimos em todos os paizes -historicos e perguntou de si para si; como um homem que vivesse quatro -seculos, sendo francez, inglez, italiano, allemão, podia sentir a -Patria? -</p> - -<p> -Uma hora, para o francez, o Franco-Condado era terra dos seus avós, -outra não era; num dado momento, a Alsacia não era, depois era e -afinal não vinha a ser. -</p> - -<p> -Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura, -sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso soffremos -qualquer magua? -</p> - -<p> -Certamente era uma noção sem consistencia racional e precisava ser -revista. -</p> - -<p> -Mas, como é que elle tão sereno, tão lucido, empregara sua vida, -gastara o seu tempo, envelhecera atraz de tal chimera? Como é que não -viu nitidamente a realidade, não a presentiu logo e se deixou enganar, -por um falaz idolo, absorver-se nelle, dar-lhe em holocausto toda a sua -existencia? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e -assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um -amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma -asneira! -</p> - -<p> -Nada deixava que affirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada -de saboroso. -</p> - -<p> -Comtudo, quem sabe se outros que lhe seguissem pegadas não seriam mais -felizes? E logo respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera -communicar, se nada dissera e não prendera o seu sonho, dando-lhe corpo -e substancia? -</p> - -<p> -E esse seguimento adiantaria alguma cousa? E essa continuidade traria -enfim para a terra alguma felicidade? Ha quantos annos vidas mais -valiosas que a delle, se vinham offerecendo, sacrificando e as cousas -ficaram na mesma, a terra, na mesma miseria, na mesma oppressão, na -mesma tristeza. -</p> - -<p> -E elle se lembrava que ha bem cem annos, ali, naquelle mesmo logar onde -estava, talvez naquella mesma prisão, homens generosos e illustres -estiveram presos por quererem melhorar o estado de cousas de seu tempo. -Talvez só tivessem pensado, mas soffreram pelo seu pensamento. Tinha -havido vantagem? As condições geraes tinham melhorado? Apparentemente -sim: mas, bem examinado, não. -</p> - -<p> -Aquelles homens, accusados de crime tão nefando em face da legislação -da época, tinham levado dous annos a ser julgados; e elle, que não -tinha crime algum, nem era ouvido, nem era julgado: seria simplesmente -executado! -</p> - -<p> -Fôra bom, fôra generoso, fôra honesto, fôra virtuoso—elle que fôra -tudo isso, ia para a cova sem o acompanhamento de um parente, de um -amigo, de um camarada... -</p> - -<p> -Onde estariam elles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros, tão simples -e tão innocente na sua mania de violão, elle não poria mais os olhos? -Era tão bom que o pudesse, para mandar á sua irmã o ultimo recado, ao -preto Anastacio um adeus, á sua afilhada um abraço! Nunca mais -vel-os-ia, nunca! -</p> - -<p> -E elle chorou um pouco. -</p> - -<p> -Quaresma, porem, enganava-se em parte. Ricardo soubera de sua prisão e -procurava soltal-o. Teve noticia do exacto motivo della; mas não se -intimidou. Sabia perfeitamente que corria grande risco, pois a -indignação no palacio contra Quaresma fôra geral. A victoria tinha -feito os victoriosos inclementes e ferozes, e aquelle protesto soou -entre elles como um desejo de diminuir o valor das vantagens -alcançadas. Não havia mais piedade, não havia mais sympathia, nem -respeito pela vida humana; o que era necessario era citar o exemplo de um -massacre á turca, porém clandestino, para que jamais o poder -constituido fosse atacado ou mesmo discutido. Era a philosophia social -da época, com forças de religião, com os seus fanaticos, com os seus -sacerdotes e pregadoras, e ella agia com a maldade de uma crença forte, -sobre a qual fizessemos repousar a felicidade de muitos. -</p> - -<p> -Ricardo, entretanto, não se amedrontou; procurou influencias e amigos. -Ao entrar no largo de S. Francisco encontrou Genelicio. Vinha da missa -da irmã da sogra do deputado Castro. Como sempre, trajava uma pesada -sobrecasaca preta que parecia de chumbo. Já estava sub-director e o seu -trabalho era agora imaginar meios e modos de ser director. A cousa era -difficil; mas trabalhava num livro: «Os Tribunaes de Contas nos Paizes -asiaticos»—o qual, demonstrando uma erudição superior, talvez lhe -levasse ao alto logar cubiçado. -</p> - -<p> -Vendo-o, Ricardo não se deteve. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe: -</p> - -<p> -—Doutor, V. Ex. dá licença que lhe dê uma palavra? -</p> - -<p> -Genelicio perfilou-se todo e, como tivesse pessima memoria das -physionomias humildes, perguntou com solemnidade e arrogancia: -</p> - -<p> -—Que deseja, camarada? -</p> - -<p> -Coração dos Outros estava com a sua farda do «Cruzeiro do Sul» e -não ficava bem a Genelicio dar-se como conhecido de um soldado, O -trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente: -</p> - -<p> -—Não me conhece mais, doutor? -</p> - -<p> -Genelicio fechou um pouco os olhos por detraz do pince-nez azulado e -disse seccamente: -</p> - -<p> -—Não. -</p> - -<p> -—Eu, fez com humildade Ricardo, sou Ricardo Coração dos Outros, que -cantou no seu casamento. -</p> - -<p> -Genelicio não sorriu, não deu mostras de alegria e limitou-se: -</p> - -<p> -—Ah? É o senhor! Bem: que deseja? -</p> - -<p> -—O senhor não sabe que o Major Quaresma está preso? -</p> - -<p> -—Quem é? -</p> - -<p> -—Aquelle que foi vizinho do seu sogro. -</p> - -<p> -—Aquelle maluco... Ahn!... E d'ahi? -</p> - -<p> -—Eu queria que o senhor se interessasse... -</p> - -<p> -—Não me metto nessas cousas, meu amigo. O Governo tem sempre razão. -Passe bem. -</p> - -<p> -E Genelicio seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das -botas, emquanto Ricardo ficava de pé a olhar o largo, a gente que -passava, a estatua immovel, as casas feias, a igreja... Tudo lhe pareceu -hostil, máo ou indifferente; aquellas caras de homens tinham cataduras -de feras e elle quiz por um momento chorar de desespero por não poder -salvar o amigo. -</p> - -<p> -Lembrou-se, porém, de Albernaz, e correu a procural-o. Não era longe, -mas o General ainda não tinha chegado. Ao fim de uma hora o General -chegou e, dando com Ricardo, perguntou: -</p> - -<p> -—Que ha? -</p> - -<p> -O trovador, bastante emocionado, explicou-lhe com voz dorida todo o -facto. Albernaz concertou o pince-nez, ageitou bem o trancelim de ouro -na orelha e disse com doçura: -</p> - -<p> -—Meu filho, eu não passo... Você sabe: sou governista e parece, se eu -fôr pedir por um preso, que já não o sou bastante... Sinto muito, -mas... que se ha de fazer? Paciencia. -</p> - -<p> -E entrou para o seu gabinete prazenteiro, muito seguro de si, dentro do -seu placido uniforme de General. -</p> - -<p> -Os officiaes continuavam a entrar e a sahir; as campainhas soavam; os -continuos iam r vinham; e Ricardo procurava entre todas aquellas -physionomias uma que lhe pudesse valer. Não havia e elle desesperava. -Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o commandante; e foi ter -com o Coronel Bustamante, na velha estalagem que servia de quartel ao -garboso «Cruzeiro do Sul». -</p> - -<p> -O batalhão ainda continuava em pé de guerra. Embora terminada a -revolta no porto do Rio de Janeiro era preciso mandar forças para o -Sul, de forma que os batalhões não tinham sido dissolvidos e um dos -apontados para partir era o «Cruzeiro». -</p> - -<p> -O Alferes côxo, no ensaboado pateo da antiga estalagem, continuava na -sua faina de instructor dos novos recrutas. Hom—brôoo... armas! -Mei—ãã volta! -</p> - -<p> -Ricardo entrou, subiu rapidamente a oscillante escada do velho cortiço -e logo que chegou ao cubiculo do commandante, gritou: com licença, -Commandante! -</p> - -<p> -Bustamante andava de máo humor. Aquelle negocio de partir para o -Paraná não lhe agradava. Como é que havia de superintender a escripta -do batalhão, no fervor de batalhas, nas desordens de marchas e -contramarchas? Isso era uma tolice do Commandante marchar; o chefe devia -ficar a resguardo, para providenciar e dirigir a escripturação. -</p> - -<p> -Elle pensava nessas cousas, quando Ricardo pediu licença. -</p> - -<p> -—Entre, disse elle. -</p> - -<p> -O bravo Coronel coçava a grande barba mosaica, tinha o dolman -desabotoado e acabava de calçar um dos pes de botina, para com mais -decencia receber o inferior. -</p> - -<p> -Ricardo expoz o seu pedido r esperou com paciencia a resposta, que -custou a vir. Por fim, Innocencio disse sacudindo a cabeça e olhando o -inferior cheio, de severidade: -</p> - -<p> -—Vai-te embora, senão mando-te prender! Já! -</p> - -<p> -E apontou com o dedo a porta da sahida num gesto marcial e energico. O -cabo não se demorou mais. No pateo o instructor coso, veterano do -Paraguay, continuava com solemnidade a encher a arruinada estalagem com -as suas vozes de commando: Hom-brõo... armas! Mei—ãã... volta... -volver! -</p> - -<p> -Ricardo veiu andando triste e desalentado. O mundo lhe parecia vasio de -afecto e de amor. Elle que sempre decantara nas suas modinhas a -dedicação, o amor, as sympathias, via agora que taes sentimentos não -existiam, tinha marchado atraz de cousas fóra da realidade, de -chimeras. Olhou o céo alto. Estava tranquillo e calmo. Olhou as -arvores. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam -attingir o céo. Olhou as casas, as igrejas, os palacios e lembrou-se -das guerras, do sangue, das dores que tudo aquillo custara. E era assim -que se fazia a vida, a historia e o heroismo: com violencia sobre os -outros, com oppressões e soffrimentos. -</p> - -<p> -Logo, porém, recordou que era preciso salvar o amigo que era necessario -dar mais uns passos. Quem poderia? Consultou sua memoria. Viu um, viu -outro e por fim lembrou-se da afilhada de Quaresma, e foi procural-a na -Real Grandeza. -</p> - -<p> -Chegou, narrou-lhe o facto e as suas sinistras apprehensões. Ella estava -só, pois o marido cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos da -victoria; não perdia um minuto, andando atraz de um e de outro. -</p> - -<p> -Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu eterno sonhar, da sua ternura, -da tenacidade que punha em seguir as suas idéas, da sua candura de -donzella romantica... -</p> - -<p> -Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a -vontade de agir. Pareceu-lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de -algum modo dar lenitivo ao soffrimento do padrinho; mas bem cedo o viu -ensanguentado—elle, tão generoso, elle, tão bom, e pensou em -salval-o. -</p> - -<p> -—Mas que fazer, meu caro sr. Ricardo, que fazer? Eu não conheço -ninguem... Eu não tenho relações... Minhas amigas... A Alice, a -mulher do Dr. Brandão, está fora... A Cassilda, a filha do Castrioto, -não pode... Não sei, meu Deus! -</p> - -<p> -E accentuou estas ultimas palavras com grande e lancinante desespero. Os -dous ficaram calados. A moça, que estava sentada, tomou a cabeça entre -as mãos e as sua unhas longas e aperoladas engastaram-se nos seus -cabellos negros. Ricardo estava de pé e aparvalhado. -</p> - -<p> -—Que hei de fazer, meu Deus? repetiu ella. -</p> - -<p> -Pela primeira vez, ella sentiu que a vida tinha cousa desesperadoras. -Possuia a mais forte disposição de salvar seu padrinho; faria -sacrificio de tudo, mas era impossivel, impossivel! Não havia um meio; -não havia um caminho. Ella tinha que ir para o posto de supplicio, -tinha que subir o seu Calvario, sem esperança de ressurreição. -</p> - -<p> -—Talvez seu marido, disse Ricardo. -</p> - -<p> -Pensou um pouco, demorou-se mais no exame do caracter do esposo; mas, em -breve, viu bem que o seu egoismo, a sua ambição e a sua ferocidade -interesseira não pemittiriam que elle désse o minimo passo. -</p> - -<p> -—Qual, esse... -</p> - -<p> -Ricardo não sabia o que aconselhal-a e olhava sem pensamento os moveis -e a montanha negra e alta que se avistava da sala onde estavam. Queria -encontrar um alvitre, um conselho; mas nada! -</p> - -<p> -A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabellos negros e a olhar -a mesa em que repousavam os seus cotovellos. O silencio era augusto. -</p> - -<p> -Num dado momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse: -</p> - -<p> -—Se a senhora fosse lá... -</p> - -<p> -Ella levantou a cabeça; os seus olhos se dilataram, de espanto e o -rosto lhe ficou rigido. Pensou um pouco, um nada, e falou com firmeza: -</p> - -<p> -—Vou. -</p> - -<p> -Ricardo ficou só e sentou-se. Olga foi vestir-se. -</p> - -<p> -Elle então pensou com admiração naquella moça que por simples -amizade se dava a tão arriscado sacrificio, que tinha a alma tão ao -alcance della mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo, deste nosso -egoismo, dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar -de reconhecimento. -</p> - -<p> -Não tardou que ella ficasse prompta e ainda abotoava as luvas, na sala -de jantar, quando o marido entrou. Vinha radiante, com os seus grandes -bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si mesmo. Nem fez -menção de ter visto Ricardo e foi logo direito á mulher: -</p> - -<p> -—Vaes sahir? -</p> - -<p> -Ella, afogueada pela ancia desesperada de salvar Quaresma, disse com -certa vivacidade: -</p> - -<p> -—Vou. -</p> - -<p> -Armando ficou admirado de vel-a falar daquelle modo. Voltou-se um -instante para Ricardo, quiz interrogal-o, mas logo, dirigindo-se á -mulher, perguntou com autoridade: -</p> - -<p> -—Onde vaes? -</p> - -<p> -A mulher não lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou o -trovador: -</p> - -<p> -—Que faz o senhor aqui? -</p> - -<p> -Coração dos Outros não teve animo de responder; adivinhava uma scena -violenta que elle teria querido evitar; mas Olga adiantou-se: -</p> - -<p> -—Vai acompanhar-me ao Itamaraty, para salvar da norte meu padrinho. -Já sabe? -</p> - -<p> -O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suasorios, poderia -evitar que a mulher désse passo tão perigoso para os seus interesses e -ambições. Falou docemente: -</p> - -<p> -—Fazes mal. -</p> - -<p> -—Porque? perguntou ella com calor. -</p> - -<p> -—Vaes comprometter-me. Sabes que... -</p> - -<p> -Ella, não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grandes -olhos cheios de escarneo; mirou-o um, dous minutos; depois, riu-se um -pouco e disse: -</p> - -<p> -—É isto! <i>Eu</i>, porque <i>eu</i>, porque <i>eu</i>, é só -<i>eu</i> para aqui, <i>eu</i> para ali... Não pensas noutra coisa... A -vida é feita para ti, todos só devem viver para ti... Muito -engraçado! De forma que eu (agora digo <i>eu</i> tambem) não tenho -direito de me sacrificar, de provar a minha amizade, de ter na minha -vida um traço superior? É interessante! Não sou nada, nada! Sou -alguma coisa como um movel, um adorno, não tenho relações, não tenho -amizades, não tenho caracter? Ora!... -</p> - -<p> -Ella falava, ora vagarosa e irónica, ora rapidamente e apaixonada: e o -marido tinha diante de suas palavras um grande espanto. Elle vivera -sempre tão longe della que não a julgara nunca capaz de taes assomos. -Então aquella menina? Então aquelle <i>bibelot</i>? Quem lhe teria ensinado -taes cousas? Quiz desarmal-a com uma ironia e disse risonho: -</p> - -<p> -—Estás no theatro? -</p> - -<p> -Ella lhe respondeu logo: -</p> - -<p> -—Se é só no theatro que ha grandes cousas, estou. -</p> - -<p> -E accrescentou com força: -</p> - -<p> -—É o que te digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque é do -meu direito. -</p> - -<p> -Apanhou a sombrinha, concertou o véo e sahiu solemne, firme, alta e -nobre. O marido não sabia o que fazer. Ficou assombrado e assombrado e -silencioso viu-a sahir pela porta fóra. -</p> - -<p> -Em breve, estava no palacio da rua Larga. Ricardo não entrou; deixou -que a moça o fizesse e foi esperal-a no Campo de Sant'Anna. -</p> - -<p> -Ella subiu. Havia um immenso borborinho, uma agitação de entradas e -sahidas. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano, queria -cumprimental-o, queria dar mostras da sua dedicação, provar os seus -serviços, mostrando-se coparticipante na sua victoria. Lançavam mão -de todos os meios, de todos os planos, de todos os processos. O dictador -tão accessivel antes, agora se esquivava. Havia quem lhe quisesse -beijar as mãos, como ao papa ou a um imperador; e elle já tinha nojo -de tanta subserviencia. O califa não se suppunha sagrado e -aborrecia-se. -</p> - -<p> -Olga falou aos continuos, pedindo ser recebida pelo Marechal. Foi -inutil. A muito custo conseguiu falar a um secretario ou ajudante de -ordens. Quando ella lhe disse a que vinha, a physionomia terrosa do -homem tornou-se de óca e sob as suas palpebras correu um firme e rapido -lampejo de espada: -</p> - -<p> -—Quem, Quaresma? disse elle. Um traidor! Um bandido! -</p> - -<p> -Depois, arrependeu-se da vehemencia, fez com certa delicadeza: -</p> - -<p> -—Não é possivel, minha senhora. O Marechal não a attenderá. -</p> - -<p> -Ella nem lhe esperou o fim da phrase. Ergueu-se orgulhosamente, deu-lhe -as costas e teve vergonha de ter de pedir, de ter descido do seu orgulho -e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com o seu pedido. Com tal -gente, era melhor tel-o deixado morrer só e heroicamente num ilhéo -qualquer, mas levando para o tumulo inteiramente intacto o seu orgulho, -a sua doçura, a sua personalidade moral, sem a macula de um empenho que -diminuisse a injustiça de sua morte, que de algum modo fizesse crer aos -seus algozes que elles tinham direito de matal-o. -</p> - -<p> -Sahiu e andou. Olhou o céo, os ares, as arvores de Santa Thereza, e se -lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribus selvagens, das -quaes um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil -inimigos. Fôra ha quatro seculos. Olhou de novo o céo, os ares, as -arvores de Santa Thereza, as casas, as igrejas: viu os bondes passarem; -uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, -atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do Campo... Tinha havido -grandes e innumeras modificações. Que fôra aquelle parque? Talvez um -charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na physionomia -da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ella; e seguiu -serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Todos os Santos (Rio de Janeiro), Janeiro—Março de 1911. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>TRISTE FIM DE POLYCARPO QUARESMA</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin:0.83em 0; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE<br /> -<span style='font-size:smaller'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE<br /> -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</span> -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. 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Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. 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