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+Project Gutenberg's A virtude laureada, by Manoel Maria de Barbosa du Bocage
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A virtude laureada
+ Drama Recitado no Theatro do Salitre
+
+Author: Manoel Maria de Barbosa du Bocage
+
+Release Date: September 5, 2006 [EBook #19189]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VIRTUDE LAUREADA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (Este ficheiro foi produzido
+a partir da digitalização do original, disponibilizada
+pela Biblioteca Nacional de Portugal - This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal)
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+*A VIRTUDE LAUREADA*,
+
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+Drama Recitado no Theatro do Salitre,
+
+Composto, e Dirigido ao Reverendissimo Padre Mestre
+
+Fr. José Marianno Da Conceição Velloso,
+
+_Administrador da Impressão Regia, e Deputado da Junta Económica,
+Administrativa, e Litteraria da mesma Impressão, etc. etc._
+
+Por seu muito devedor, e amigo
+
+Manoel Maria de Barbosa du Bocage
+
+
+Lisboa,
+Na Impressão Regia
+
+
+Anno M.DCCC.V.
+
+
+Por ordem superior.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ADVERTENCIA.
+
+Sería injustiça exigir o desempenho de todos os Preceitos Dramaticaes em
+huma composição deste genero, cujo merito essencial he aprazer aos olhos
+por meio do espectáculo, e variedade das Scenas.
+
+ _Nudo... occurrit, per se pulcherrima, Virtus._
+ Cardos. Cant. de Tripol.
+
+ * * * * *
+
+
+_Ao Reverendissimo Padre Mestre e Senhor Fr. José Marianno da Conceição
+Velloso._
+
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+
+
+*EPISTOLA.*
+
+
+Qual d'entre as rôtas, náufragas cavernas
+Do lenho que se abrio, desfez nas rochas,
+Colhe affanoso, deploravel Nauta
+Reliquias tenues, com que a vida estêe,
+Em erma, ignota praia, a que aboiárão,
+E onde a custo o remio propicia antenna:
+Tal eu, que da Existencia o Pégo, o Abysmo,
+(De que assomão, rebentão, rugem, fervem
+Rochedos, Escarcéos, Tufões, e Raios)
+Tal eu, que da Existencia o Mar sanhudo
+Vi romper meu Baixel, e arremessar-me
+A inhóspitos montões de estranha arêa,
+Triste recolho os míseros sobêjos,
+Com que esvaído alento instaure, esforce,
+E avive os dias, que amorteço em mágoas.
+ Em ti, constante, desvelado Amigo,
+Demando contra a Sorte asylo, e sombra;
+Oh das Musas Fautor, de Flora Alumno!
+(Rasgado o véo da Alegoria) estende
+Ao Metro, que desvale, a Mão, que presta.
+Se azas lhe deres, em suave adêjo
+De Lysia ao seio, que a Virtude amima,
+Della Cultores, voárão meus Versos,
+E o Patrio, doce Amor ser-lhe-ha piedoso.
+
+
+ _Bocage._
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+*ACTORES.*
+
+
+ A Sciencia.
+ A Hospitalidade.
+ A Indigencia.
+ A Policia.
+ A Libertinagem.
+ O Genio Lusitano.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+*ACTO UNICO.*
+
+Praça magnífica sobre as Margens do Téjo.
+
+
+
+
+*SCENA I.*
+
+_A Sciencia por hum lado, e a Indigencia por outro, com a Hospitalidade._
+
+
+_Sciencia._
+
+Eu, que elevo os Mortaes, e os esclarêço,
+Que méço a Lua, o Sol, que o Mundo abranjo,
+Que da vetusta Idade aclaro as sombras,
+Que entro por seus arcanos, e revóco
+D'entre o pó, d'entre a cinza, d'entre o Nada
+Ao Seculo vivente as Eras mortas;
+Que dócil fiz o indómito Oceano,
+Abysmo de pavor, de bôjo immenso,
+Que só por alta Lei não sorve a Terra;
+Eu, do grão Jove, Confidente e Imagem,
+Que do Fado os Mysterios desarreigo,
+E co'a Moral dos Ceos cultivo o Globo;
+Eu, a Sciencia, eu Fonte, eu Mãi das Artes,
+Que sei desirmanar na Intelligencia
+Entes, na fórma iguaes, na especie os mesmos,
+Tornando-os entre si tão desconformes,
+Qual dista do Selvagem bruto, e fero,
+Macio Cidadão, que as Léis polirão,
+Ah! não posso impetrar, colher dos Numes
+Para os Alumnos meus pavêz sagrado
+A teus golpes, Fortuna, inteiro, illeso!
+Sem que benigna mão lhe adoce os Fados,
+Sem que escaça piedade o chame á vida,
+De vigilias mirrado o Sabio morre.
+Almas corrompe do Egoismo a peste;
+Camões, Homeros na penuria cantão:
+Ei-los co'a gloria temperando a sorte;
+Sôão prodigios de hum, prodigios de outro;
+Férrea Caterva os ouve: admira, e foge.
+Só quando o Vate he cinza, o Muito he nada,
+Por elles se interéssa o Mundo ingrato;
+Na gloria estéril de Epitafio triste
+Solidos bens o Barbaro compensa:
+Contradictoria Humanidade insana!
+No insensivel sepulcro os Sabios honra,
+E os Sabios não remio na desventura!
+Quaes elles forão diz, não diz, qual fôra:
+Nas almas frias o remórso he mudo.
+Ai dos Alumnos meus! Soccorre-os, Fado,
+Risca do Livro eterno o duro artigo,
+Que ao Mérito, ao Saber seus premios veda;
+Aquece os Corações no ardor da Gloria,
+Fraterniza os Mortaes; onde suspirão,
+Os poucos Filhos meus co'a Mãi prosperem,
+E onde com seus innumeros sequazes
+Colhe triunfos, a Ignorancia gema.
+
+
+_Indigencia._
+
+Mãi veneravel, teu queixume ouvindo.
+Amarga-me da vida o fel em dobro.
+A filha tua, a misera Indigencia,
+Que muda te escutou piedosas mágoas,
+Comtigo vem gemer, carpir comtigo
+A moral corrupção, que empesta o Globo.
+Plagas e Plagas, entre as Socias minhas,
+Entre as mansas Virtudes, hei vagado.
+Pela voz da Pureza (a que he de todas
+A mais formosa) deprequei o auxilio
+De inchado Cortezão, que hum Deos se cria.
+Melindre, Candidez, virginea Graça
+(Qual flor, em que era orvalho o doce pranto)
+Aos olhos do Soberbo expôz seus males.
+De gesto accezo, ovante, elle a contempla,
+Nem hum momento á dor constrange o vicio:
+Em vil proposição, que as Furias dictão,
+Profana da Innocencia o casto ouvido,
+E em cambio da virtude exige o crime.
+
+
+_Sciencia._
+
+Ceos! Que infamia! Que horror! Prosegue, ó Filha,
+Sucumbio a Innocencia á vil proposta?
+
+
+_Indigencia._
+
+Não, que nos olhos meus velavão Deoses,
+Fautores da Virtude: escuta e folga.
+O celeste rubor, que tinge a Aurora,
+Sóbe á face gentil, e as rosas brilhão,
+Mas súbito tremor branquê-as logo;
+Ei-la, d'olhos no Ceo, recúa e geme:
+Eu, porém, que no effeito observo a causa,
+Ao seductor pestifero arrebato
+O objecto divinal, que o torna hum Monstro.
+
+
+_Sciencia._
+
+Olha o Ceo na Innocencia a imagem sua.
+
+
+_Indigencia._
+
+Murchas no horror do abominavel caso,
+Inda comtudo as esperanças minhas
+Levei de lar em lar; devendo a poucos
+Piedade accidental, bati cem vezes
+Ás surdas portas de sumido Avaro,
+(Sumido em subterraneo abysmo de oiro)
+Fallára o Monstro, se fallasse a Morte,
+O silencio dos túmulos o abrange
+Ante o metal (seu Deos), que em férreos Cofres
+C'o a vista famalenta o Vil devora
+Servos delle (o poder he tal do exemplo!)
+Depois de longo espaço, e vans instancias,
+C'hum desabrido - Não - me affugentárão.
+
+
+_Sciencia._
+
+De tudo ha Monstros mil na Especie humana,
+Mas todos vence da Avareza o Monstro.
+
+
+_Indigencia._
+
+Attende ao mais, e adoçarás teu pranto.
+Do centro da Impiedade em fim retíro
+Os fatigados pés, e os guio aos Campos,
+Absorta nas imagens carinhosas,
+Com que affagais a idéa, oh aureos Tempos.
+
+
+_Sciencia._
+
+Se alli não ha Virtude, onde he que existe!
+
+
+_Indigencia._
+
+Pobre choupana, que forravão colmos,
+Humildes lares, que zelava hum Nume,
+Attrahem meus olhos, e meu passo animão.
+Chego, e curvo Ancião, que alli repousa,
+Grande em seu nada, na indigencia rico,
+Sorrindo-se, me acolhe, amima, e nutre.
+Santa Hospitalidade! Eras a Deosa,
+Que o rugoso Varão, madura Esposa,
+E imberbe Prole sua, abençoava!
+Com milagrosas mãos os parcos fructos
+Nas arvores fadadas avultando,
+Para os errantes, pálidos Mesquinhos,
+Que eterna Providencia lá dirige,
+Leda colhias saboroso alento,
+E qual outr'hora a hum Deos, incluso no Homem,
+Muito do pouco a teu querer surgia.
+
+
+_Hospitalidade._
+
+Conferio-me esse dom quem té no insecto
+Provê, do que lhe cumpre, a tenue vida.
+Deixando influxos meus no casto alvergue,
+Onde Beneficencia e Paz convivem,
+Acompanhar-te quiz ao vasto Emporio
+De Lysia, do Universo, á Grão Cidade,
+Que espelha os Torreões no vitreo Téjo,
+Donde sagradas Leis despede ao Ganges.
+O Globo he puro aqui, e aqui parece
+Estar inda na Infancia a Natureza,
+Bella, serena, candida, innocente:
+Principe amado, imitador dos Numes,
+Ao Público Baixel menêa o leme;
+Numéra os dias seus por Dons, por Graças,
+E o Mérito sem susto encara o Throno:
+Se o gravame do Sceptro acaso inclina,
+He sobre os hombros de Ministros puros,
+Dignos do alto esplendor, que sahe da escolha.
+Hum delles, cujo nome he caro aos justos,
+Que tem, que exerce o Ministerio santo
+De velar sobre o público Repouso,
+Que encarcéra, agrilhôa, opprime o vicio,
+O contagio dos máos aos bons evita,
+E em piedoso Recinto abriga, instrue
+A Puericia, que em flor dispõe ao fructo,
+Luceno, o Zelador dos sãos costumes,
+Pai do Infortunio, da Sciencia amigo,
+Guarida vos promette, exponde, exponde
+Ao Ministro exemplar, meu claro Alumno,
+A vossa condição: vereis descer-lhe
+Dos olhos Paternaes amavel pranto,
+Proveitoso, efficaz, não pranto esteril,
+Que momentaneas sensações produzem,
+E o Mérito infeliz, qual vírão, deixão.
+Em Luceno o favor segue a piedade,
+Mortal, que os Immortaes sem custo imita,
+E o bem, só porque he bem, desenha, opéra.
+Eia, vinde: eu vos guio aos bem fazejos
+Lares seus, Lares meus; sereis ditosas,
+Oh Sciencia! Oh Penuria: os Ceos o ordenão.
+
+
+
+
+*SCENA II.*
+
+_O Genio da Nação, e as mesmas._
+
+
+_O Genio da Nação._
+
+Os Ceos o ordenão, sim, vai, guia, oh Deosa,
+Essa illustre Infeliz, e a mesma Prole
+Ao Magistrado eximio, ao Grande, ao Justo;
+Cessem queixumes, esperanças folguem.
+Ide, o Genio de Lysia, eu que dos Deoses
+Tive alta commissão de olhar por ella,
+De engrandecer-lhe, de affinar-lhe a Gloria,
+E honralla de opulencia incorruptivel;
+Eu, que espontaneo dera o gráo de Nume
+Por este, que exercito, augusto emprêgo
+De escudar Lysia co' pavêz dos Fados,
+Oh Penuria! oh Sciencia! Eu vos abono
+Do Ministro sem par, favor, e asylo.
+
+
+_Sciencia._
+
+O Ceo por ti se exprime: o Ceo não mente;
+Oraculo de Jove, eu te obedeço:
+Vejo sorrir-se ao longe amigos Fados;
+Guia-me, ó Deosa.
+
+
+_Hospitalidade._
+
+Guío-te á ventura. (_vão-se._)
+
+
+
+
+*SCENA III.*
+
+
+_O Genio só._
+
+Tereis o galardão, tereis o loiro
+Que á virtude compete, immota, illésa
+Entre os duros vaivens de iniqua, sorte:
+Desgraçado o Mortal, se o chão não trilha
+Por onde a mão de Jove arreiga espinhos,
+Que súbito depois converte em flores!...
+Mas que ufano Baixel retalha o Téjo![1]
+Brincão no tópe flammulas cambiantes,
+E cambiante bandeira as ondas varre:
+Eis vôa, eis se aproxima!.. Hum quasi monstro,
+De aspecto feminil, tigrinas garras,
+De trage multicôr, lhe volve o leme!
+Que Turba enorme á sua voz marêa!
+E o ferro curvo, e negro ao fundo arroja!
+Desce a vaso menor a horrivel Furia,
+Recolheço-lhe o rosto, os fins lhe alcanço....
+Lá vem, lá toca sobre a arêa e salta.
+Inimiga dos Ceos![2] és tu, profana!
+Sacrilega, fallás, blasfemadôra,
+Peste dos Corações, Orgão do Averno!
+Vens tambem macular com teus venenos,
+Com halito infernal, e atroz systema
+Campos, que meu bafejo Elysios torna!
+
+
+ [1] _Apparece hum Baixel, donde pouco depois desembarca a Libertinagem
+ com sequito numeroso._
+ [2] _Corre para ella._
+
+
+_Libertinagem._
+
+Orgão não sou do Averno, o Averno he sonho[1]
+Para mim, para os meus, não soffro o jugo,
+Que sobre Corações tão férreo péza.
+Fantasticos Deveres não me illudem;
+O sensivel me attrahe, do ideal não curo,
+Só de palpaveis bens fecundo a mente;
+O Bando, que allicio, e que prospéro,
+Vive em prazeres, em prazeres morre.
+Compleição dos Catões, Moral de ferro,
+Furia, Libertinagem me nomêa;
+Mas o carácter meu destroe meu nome.
+Delicias ao teu seio, ó Lysia, trago,
+Não crúas oppressões, nem agros males,
+Que o Fantasma Razão produz, maquina;
+Eu sou a Natureza: ella não manda,
+Que o gosto opprimas, que os desejos torças;
+As paixões contentar, não he loucura:
+Prestar-lhe attenção, vontade, assenso,
+He lei, necessidade, e jus dos Entes.
+Olha: com sceptro de oiro impéro, ó Lysia;
+Franquêa o pensamento a meu systema,
+Despe imagens quiméricas e approva,
+Que a posse do Universo em ti remate.
+
+
+ [1] _Sentimentos abominosos da Libertinagem, refutados vigorosamente
+ pelo Genio da Nação._
+
+
+_Genio._
+
+Enganas-te, Perversa, os Ceos a escudão;
+De Lysia puro Insenço aos Numes sóbe,
+arde em virtude, inflamma-se na Gloria;
+Moral, Religião, saudavel Jugo,
+Que péza aos Impios, que aos Iniquos péza,
+Nunca foi grave a Lysia, Heróe supremo,
+Que he na Terra, o que he Jupiter no Olympo,
+Aqui, não com violencia, e não com arte,
+Mas pelo exemplo morigéra os Lusos,
+Só menos, que as Deidades, venturosos.
+Não manches estes Ceos, Tartareo Monstro,
+Onde jaz da Virtude o trilho impresso.
+Eco da Magestade, a voz te aterre
+Do zeloso Ministro infatigavel,
+Luceno, ao Throno, ás Leis, aos Deoses curvo,
+Que, em vínculo fraterno atando os Póvos,
+Os vê curvos ao Throno, ás Leis, aos Deoses.
+Negreja, a teu pezar, o horror, que doiras,
+O Inferno, que não crês, de ti fuméga,
+E o Remorso tenaz te róe por dentro.
+Este Povo de Heróes, de Irmãos, de Justos,
+Teu carácter maldiz, teu nome odêa.
+Aparta-te daqui... mas tu repugnas!
+Guerreiros da Virtude, e flor da Patria,[1]
+Que limpais a Moral de intrusa escória,
+Eia, apurai o ardor contra esse Monstro;
+A vosso invicto Esforço a Furia cêda,
+Do Gremio da Innocencia o Vicio fuja.
+
+
+ [1] _Sahe Tropa armada, que trava peleja com os sequazes da
+ Libertinagem, e os vai destroçando._
+
+
+_Libertinagem._
+
+Não se alcança de mim victoria facil.
+
+
+_Genio_
+
+Satéllites da Gloria: Avante, avante:
+A Pérfida franquêa, a Palma he vossa.
+
+
+_Libertinagem._
+
+Colheste contra mim Triunfo inutil:
+Lysia perdi, mas senhoreo o Mundo.[1]
+
+
+ [1] _Embarcão-se tumultuosametne, sempre acossados pela Tropa._
+
+
+
+
+*SCENA IV.*
+
+
+_O Genio, e Tropa._
+
+Graças, ó Numes, sucumbio a infame.
+Heróes, eu vos bemdigo o Marcio fogo,
+O rápido valor, que n'hum momento
+A melhor das Nações salvou do estrago...[1]
+Mas, Deoses, soffrereis, que n'outro clima,
+Talvez á infamia sua ignoto ainda,
+Sobre o lenho orgulhoso aporte a Fera,
+E tóxico respire, e peste exhale:
+O sacri1egio pune; hum raio, ó Jove,
+Hum raio a torne cinza, hum raio abysme
+O ligneo Torreão no equóreo centro[2]
+Annuiste-me, oh Deos: He chammas todo!
+Lá cabe, lá se desfaz, e o Tejo o sorve.
+Vai, Monstro , vai saber, desesperado,
+Se he fantasma a Razão, se he sonho o Inferno,
+Vai no horrendo tropel dos teus sequazes
+De momentanea flamma á flamma eterna;
+E eu, ministro dos Ceos, submisso aos Fados,
+Vou por mão de hum Mortal encher seus planos.[3]
+
+
+ [1] _Vai-se a Tropa._
+ [2] _Cahe o raio sobre o Baixel da Libertinagem, e o abraza._
+ [3] _Vai-se._
+
+
+
+
+*SCENA V.*
+
+Carcere subterraneo, onde estarão os Vicios, e os Crimes agrilhoados,
+exprimindo variamente nos géstos a sua desesperação.
+
+
+_A Policia com Guardas._
+
+Contra os Vicios communs, que pouco empecem,
+Exercer correcções não só me he dado.
+Velai, Guardas fieis, sobre os Perversos,
+Que a Policia commette ao zello vosso,
+Até que o raio Némesis dispare
+Co'a férrea voz de Tribunal supremo.
+Eu dos crimes terror, dos crimes freio,
+A supplicio exemplar, que sare a Patria
+D'impia contagião, reservo aquelle
+De todos o mais duro, o mais funesto,
+Que, instrumento servil de atroz vingança,
+Tingio vendida mão no sangue alheio.
+Ao cutélo de Astréa em vão furtaste
+Colo rebelde ás Leis, ó tu, cruento,
+Lobo nocturno, que, vibrando as garras,
+A mansos Cidadãos oiro, existencia
+De mistura usurpavas, sem que ao menos
+Tremesse o coração, e as mãos tremessem.
+Estes, mais que nenhuns, velar se devem,
+Estes nas feias, subterraneas sombras
+Para o pavor da Morte a mente ensaiem.
+Eu, Luz do bom Luceno, eu Alma, eu Tudo,
+Corro, entre-tanto, a suggerir-lhe idéas,
+Com que os públicos Bens floreção, medrem.
+A Sciencia, e Penuria, antigas Socias,
+Em seus Lares por elle ha pouco ouvidas,
+O fertil patrocinio lhe implorárão.
+Em lagrimas lhes deo penhor singelo
+De firme protecção: vós, Indigentes,
+Seus effeitos vereis, vereis, ó Sabios,
+Que a Mente, e o Coração por vós divido.[1]
+
+
+ [1] _Vai-se._
+
+
+
+
+*SCENA VI.*
+
+Salão Magestoso da Policia, adornado das Estatuas de varias Virtudes.
+
+
+_O Genio, e a Hospitalidade._
+
+Eis-me na Estancia da Policia Augusta,
+Cultora da Razão, das Leis, do Solio,
+A fitubante, a pávida Indigencia,
+Que já dos males seus alivio goza,
+Por mão do Bemfeitor, que os Ceos inspirão,
+Vem co'a Sabedoria honrar seu nome,
+De interna Gratidão, sagrar-lhe os cultos;
+Mas profundo respeito os pés lhe tolhe,
+E o Salão venerando entrar não ousão.
+
+
+
+
+*SCENA ULTIMA.*
+
+Os ditos, e a Policia, que, ouvindo as ultimas palavras, sahe de repente.
+
+
+_Policia._
+
+Foi sempre este lugar franco á Virtude,
+Entrai. [1]
+
+
+ [1] _Entrão as duas._
+
+
+_Hospitalidade._
+
+Longe de vós hum vão receio.
+
+
+_Policia._
+
+Cumpri vosso dever, tecei contentes
+De Luceno o louvor. Materia summa
+As Virtudes vos dão, que resplandecem
+Em brilhantes Estatuas magestosas
+Neste brilhante, Magestoso Alcaçar.
+Aquella, que risonha os olhos firma,
+Como que rosto súpplice attentando,
+He a Benevolencia, e diz no affago,
+Que alguns, havendo a honra em mais que os lucros,
+Ante duro Ministro enfrêão preces,
+E só do Compassivo, e só do Affavel
+A presença demandão, que os conforte,
+Que ao rogo n'hum sorriso o effeito augure,
+E não de altiva injúria avilte o rogo.
+Esta he Exemplo, est'outra he a Inteireza;
+Alli Fidelidade o jaspe anima;
+Desinteresse além reluz, e avulta;
+Mais perto voluntaria Obediencia
+Curva o docil joelho: eis as Virtudes,
+Que fórmão, bom Luceno, o teu caracter,
+Todas egregias, necessarias todas.
+
+
+_Sciencia._
+
+Verdade, e Gratidão nos lábios nossos,
+Approvão quanto sôa em honra delle.
+
+
+_Indigencia._
+
+Oh Reinante feliz com taes Vassallos!
+
+
+_Policia._
+
+Folga, Sciencia, e tu, Penuria, folga:
+Dado me he recrear-vos, ser-vos guia
+Ao Principe immortal, de quem reflectem
+Raios de luz para o Ministro excelso,
+Que o seu mór premio tem na Regia Gloria.
+Curvai-vos, e admirai o Heróe sublime,
+Que Lysia adora, e que adorára o Mundo,
+Se o Mundo todo merecesse olhallo.[1]
+Vêde a seus pés o Magistrado insigne,
+Que nelle se revê, que a bem da Patria
+A Grandeza Real submisso implora.
+
+
+ [1] _Abre-se o fundo do Theatro, apparece o Retratro do Principe R. com
+ o Magistrado a seus pés, offerecendo-lhe os Votos mais puros da Nação._
+
+
+_Hospitalidade._
+
+Quanto a Virtude altêa a Dignidade.
+
+
+_Sciencia._
+
+Oh Júbilo: Oh Ventura!
+
+
+_Indigencia._
+
+Eu pasmo, eu tremo.
+
+
+_Genio. (Dirigindo-se para o retrato do Principe R.)_
+
+Heróe, sacro aos Mortaes, acceito aos Numes,
+Olympico Fulgor compõe teus dias;
+Os Ceos na minha voz mil dons te abonão,
+Com meus olhos teu Povo os Ceos vigião,
+O Commercio por ti de fé se nutre;
+As Artes, a Virtude, as Leis triunfão;
+No Solio, no Poder tens base eterna;
+Tua alma sobresahe aos teus Destinos;
+E de teu puro arbitrio esse orgão puro,
+He digna escolha tua, aos Astros vea
+No rasto de oiro, com que o Pólo esmaltas.
+Subditos de JOÃO, rendei mil cultos
+Ao grão Regente, ao inclyto Carácter,
+Que nelle diviniza a especie humana:
+A voz da Gratidão se alongue em Vivas,
+E cordeal ternura os labios honre.
+
+
+(CORO.)
+
+ Oh Luso Heróe! Baixaste
+ Da Estancia divinal!
+ Tu és hum Deos visivel,
+ Oh Principe immortal!
+
+
+FIM.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+*SONETO.*
+
+
+Meu ser evaporei na lida insana
+ Do tropel de paixões, que me arrastava,
+ Ah! cégo eu cria, ah! mísero eu sonhava
+ Em mim, quasi immortal, a essencia humana:
+
+De que innumeros sóes a mente ufana
+ Existencia fallaz me não doirava!
+ Mas eis succumbe a Natureza escrava,
+ Ao mal, que a vida em sua origem damna.
+
+Prazeres, socios meus, e meus tyrannos,
+ Esta alma, que sedenta em si não coube,
+ No abysmo vos sumio dos Desenganos.
+
+Deos... oh Deos! quando a morte a luz me roube,
+ Ganhe hum momento o que perdêrão annos,
+ Saiba morrer o que viver não souve.
+
+ _Bocage._
+
+ * * * * *
+
+
+*SONETO.*
+
+
+De peito impenetravel sempre ao susto,
+ Lédo entre as armas, a folfar no p'rigo,
+ Ó França, teu magnanimo inimigo,
+ Por timbre teu não triunfou sem custo.
+
+Ardendo em gloria o coração robusto,
+ Onde teve o troféo, teve o jazigo:
+ Nelson venceo, venceo por uso antigo;
+ Mas da victoria foi desconto injusto.
+
+Bem que nadante a Gallia em rubro lago,
+ (Domando a morte quem seus brios doma)
+ Crê reparar com isto immenso estrago!
+
+Ah! donde um Nelson cahe, logo outro assoma,
+ Assim,de Heróes privando-te Carthago,
+ Heróes fervião no teu seio, ó Roma.
+
+ _Bocage._
+
+ * * * * *
+
+
+*SONETO.*
+
+
+Mãi de Chefes Heróes, de Heróes soldados
+ A Gallia herdou de Roma o genio, a sorte;
+ Seus filhos no igneo jogo da Mavorte
+ Virão Marcios Leões tremer curvados.
+
+Mas alta Lei dos Penetraes Sagrados
+ Baixou, que o fatal impeto reporte:
+ Fervendo em raios no Oceano a morte,
+ Te obedece, ó Britania, ao mando, aos Fados.
+
+No Continente o Gallo he Deus da guerra;
+ O Anglo audaz sobre o pelago iracundo
+ Da victoria os pendões, troando, afferra...
+
+Ah! nutrão sempre assim rancor profundo.
+ Hum triunfa no mar, outro na terra:
+ Se as mãos se derem, que será do Mundo!
+
+ _Bocage._
+
+ * * * * *
+
+
+*SONETO.*
+
+
+C'hum Diadema de luz no Elysio entrava
+ Envolto Nelson em sanguineo manto!
+ Lavrou nos Manes desusado espanto,
+ E a turba dos Heróes o rodeava.
+
+Grita Alexandre (e nelle os olhos crava)
+ Quem hes, que entre immortaes fulguras tanto?
+ Sou (lhes diz) quem remio de vil quebranto
+ Europa curva, oppressa, e quasi escrava.
+
+Deixei de sangue o pégo rubicundo;
+ Troféos em meu sepulcro a Patria arvora;
+ Raio ardi sobre o Gallo furibundo...
+
+Nisto de novo o Macedonio chora:
+ O que immensa extensão venceo do Mundo,
+ Quem vencêra hum só povo inveja agora.
+
+ _Bocage._
+
+ * * * * *
+
+
+_Á Memoria de Ulmia._
+
+
+
+
+*SONETO.*
+
+
+Quando meu coração de Amor vivia,
+ Ufana a liberdade em ver-se escrava,
+ E quando para mim se variava
+ O Ceo n'um riso, o Ceu n'um ai de Ulmia!
+
+Das escuras Irmans a mais sombria,
+ E que mais com seu pêzo o Mundo aggrava,
+ Na vista divinal, que me encantava,
+ Roubou luz á minha alma, e luz ao dia.
+
+Não mais, Dor, Fado meu, Dor, meu costume,
+ Cedo a paz gozarei, que o peito anhéla,
+ Nos olhos do meu Bem, do Ceo já lume;
+
+Junto á Nynfa immortal, na Estancia bella,
+ Os dias perennaes, que vive hum Nume,
+ Irei (Nume em ser seu) viver com Ella.
+
+ _Bocage._
+
+ * * * * *
+
+
+*SONETO.*
+
+ _Il n'est de malheureux que les coeurs détrompés._
+ Voltaire. Merop. Trag.
+
+
+Em vão, para tecer-me hum ledo engano,
+ Filosofo ostentoso industrias cança;
+ Diz-me em vão, que exhalando-se a esperança,
+ Repousa na apathía o peito humano.
+
+O nauta a soçobrar no Pégo insano
+ Vê rir ao longe a cérula bonança;
+ A mente esperançosa enfreia, amansa
+ Os roncos, e as bravezas do Oceâno.
+
+Se nos míseros cahe da mão dos Fados
+ O negro desengano, eillos anciosos,
+ E á desesperação, e á furia dados.
+
+Doirai-nos o por-vir, oh Ceos piedosos!
+ Justos Ceos! dêm sequer jardins sonhados
+ As flores da ventura aos desditosos.
+
+ _Bocage._
+
+ * * * * *
+
+
+_Ao Senhor Manoel Maria Barbosa du Bocage, por occasião de se ter dito,
+que recebêra o Sagrado Viatico._
+
+
+
+
+*SONETO.*
+
+
+Depois que a teus ouvidos grata vôa
+ Mensagem pura, que ante os Ceos te expia,
+ Por mil Sóes, Orbes mil, por Lactea Via
+ Jove ao proprio teu lar desce em pessoa:[1]
+
+Colloquio amigo, que entre os Dois resôa,
+ Par não soffre em ternura, em energia,
+ He d'hum Cysne expirante a melodia,
+ He a fraze efficaz d'hum Deos, que trôa:
+
+Consagrados eis são Mortal, e Immenso;
+ Fogem subito ao pacto renovado
+ Vã lida, torpe invéja, e morbo intenso!
+
+Rasgou-se o véo do nubilo teu Fado;
+ Dás fragil myrrha por eterno incenso,
+ D'Home és Nume, de Vate és invocado.
+
+ _De Santos e Silva._
+
+
+ [1] Contracção de Jehova.
+
+ * * * * *
+
+_Ao Senhor Manoel Maria Barbosa du Bocage, achando-se o A. molesto._
+
+
+
+*SONETO.*
+
+
+A Musa, que bebeo comtigo alento,
+ Que ao lado teu paixões commerciava,
+ Os sons, que alegre outr'hora derramava,
+ São ais viuvos, que dirige ao vento.
+
+D'entre meus braços te apertar sedento,
+ Por vingar o intervallo soluçava,
+ Que a mal firme existencia me embargava,
+ Sem que podésse olhar-te hum só momento.
+
+Se não pude fartar voraz saudade,
+ Inda mádida a face, enternecida
+ Chora males do amigo em soledade.
+
+Minha alma em tua dor toda embebida,
+ Implora em ais, em pranto aos Ceos piedade,
+ Ama doirar-te a tenebrosa vida.
+
+ _De Pedro José Constancio._
+
+ * * * * *
+
+
+_Ao Senhor Manoel Maria Barbosa du Bocage._
+
+
+
+
+*SONETO.*
+
+
+Entre as flores, que as Graças bafejárão,
+ Curvas d'Elmano á prepotente Lyra,
+ Venus brincando com Adonis gyra,
+ Dando-se beijos, que em rosaes cevárão.
+
+Assim contentes horas deslizárão,
+ Ao som canoro, que o prazer inspira:
+ O Ceo pendente extasiado admira!..
+ Té que os Numes d'inveja ao som raivárão.
+
+Dedos torpecem!.. arrebentão cordas!..
+ Cumprio-se a voz de hum Deos, cumprio-se a Sorte,
+ Em quanto, Eco chorosa, os tons recordas.
+
+C'roai-o, ó Ninfas, pranteai-lhe a morte:
+ E ao menos, Jove, que em prazer transbordas,
+ Deixa vêllo de cá na etherea Corte.
+
+ _Do mesmo._
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+*SONETO.*
+
+
+Pungido pela dor, banhado em pranto,
+ Desato, Elmano, minha voz truncada,
+ Que de gemer, de suspirar cançada,
+ Acha o rouquejo no lugar do canto.
+
+Debalde em pragas mil a voz levanto
+ Contra o Cypreste, lúgubre morada,
+ Que de funereas Aves carregada,
+ Te condensa o pavor, o susto, o espanto.
+
+Para baldar o agoiro, em vão tentára
+ Loiros dispôs em mimo esperançoso,
+ Que na aridez não vinga a ténue vara.
+
+Rouba-me embora, ó Fado rigoroso,
+ Esse que Lysia, o Mundo assoberbára,
+ Que o pranto he meu, prantearei saudoso.
+
+ _Do mesmo._
+
+ * * * * *
+
+
+_Ao Senhor Manoel Maria Barbosa du Bocage._
+
+
+
+
+*SONETO.*
+
+
+Embebido na sólida Verdade,
+ Zombas dos Impios, que sem pejo ou mêdo,
+ Decifrão de Mysterios o segrêdo;
+ Trévas a nós, e Luz á Eternidade:
+
+Adoras a Suprema Divindade,
+ (Teu futuro Juiz ou tarde ou cêdo)
+ Na fé se adóça teu remórso azedo,
+ Esp'rando a divinal Tranquillidade.
+
+Loucas Paixões, que fomentaste outr'hora,
+ (Feiticeiro Manjar dos flóreos annos,
+ Que o Juizo maduro não vigóra)
+
+Esses gostos fataes, gostos mundanos,
+ Expiando na dor, que te devora,
+ Ganhas hum Deos, e choras os Profanos.
+
+ _Joaquim Antonio Soares de Carvalho._
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+*ELOGIO AO PUBLICO*
+
+_Em nome de huma Actriz da Rua dos Condes._
+
+
+A Musa, que nas Scenas de Ulysséa,
+Não sem gloria, ajustava o métro á Lyra,
+De Elmano o só thesoiro (a Sócia mésta
+Da quasi muda cinza, aérea sombra)
+Inda hum salvé tremente á luz envia,
+E dá versos á Patria, ou dá suspiros,
+Da nobre Gratidão pelo orgão puro.
+Oh Lysia! Escuta os sons, talvez extremos;
+Que do seio affanoso, a custo, exhála:
+(O Cysne diviniza os sons da Morte)
+Ouve, em métro não baixo, ouve alto affecto,
+Que me honra o coração, na voz me ferve,
+E no Patrio favor a ardencia nutre.
+Recente Arvoresinha em chão bravio,
+De humor celeste definhando á mingoa,
+(E mimosa jámais de hum Sol fágueiro)
+Eu para a Terra, para a Mãi pendia,
+Que os succos mesquinhava ao tenro Arbusto,
+Talvez de produzillo arrependida.
+Eis braço, a que apiedou meu ser já murcho,
+Me extráhe, propicio, do Terreno avaro,
+E em liberal torrão me põe, me arreiga.
+Súbito espérta, súbito enverdece
+A Planta moribunda, e qual sé, ó Lethes,
+Afferrasse a raiz nas margens tuas,
+Que das Furias o bafo esteriliza.
+Influxo animador me altêa, e fólha;
+Hálito ameno de vivaz Favónio
+Com macios vaivens me embala os ramos,
+Flores me adornão, fructos me atavião:
+Os sorrisos da Patria, os mimos della
+Estas boninas são, são estes fructos.
+Das trévas, e da Morte as Aves feias,
+(De atra voz, em que o Fado ás vezes sôa)
+Fogem d'entorno a mim, carpindo agouros,
+Nas agras, negras furnas vão summir-se;
+E na coma louçã gorgêa encantos
+Teu Cantor, Primavéra, o vosso, Amores.
+Quanto sou, quanto valho, á Lysia devo,
+E á Lysia o coração na voz consagro.
+Acólhe com ternura, acólhe, ó Patria,
+As Offrendas por mim do triste Vate,
+Que para te cantar surgio da Morte,
+E em ancias balbucía o tom dos Numes:
+Honra déste ao Cantor, dá honra ao canto.
+
+ _Bocage_
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+*ODE*
+
+_Ao Senhor Manoel Maria Barbosa du Bocage._
+
+
+Do boto engenho a sequidão, e a mingoa
+Suppri, vós Amizade, e sentimento,
+E a frase ingenua, a Candidez saudosa,
+ Tebêos thesouros valhão.
+
+Tinta sempre de negro a Fantasia,
+Em vão tactêa o viço dos Prazeres;
+As sombras medrão, desaparece o esmalte
+ Dos Parnásidos sonhos.
+
+Anciado o coração, palpita, e pede
+Amenos quadros, que o vigor lhe abonem;
+Mas, o seu oppressor, o Pensamento,
+ Se produz, produz lucto,
+
+E como affugentar, banir-lhe as trévas
+Se de hum, se de outro lado eu sinto, eu vejo
+Duros arremessões, pendentes golpes
+ Do meu verdugo, o Fado.
+
+Daqui me aponta a pálida Amizade,
+O Amigo, o Vate, o Pensador, o Tudo
+(Socio nas ditas, e nas mágoas socio)
+ Desviado, e penando.
+
+Dalli me punge o indomito Destino:
+Novo Tantalo eu sou! Vejo a Ventura,
+Cresce o desejo, esfórços se redobrão,
+ Mas não posso abrangella.
+
+Impertinentes, faceis Conselheiros,
+Sizudo Aristocrata me pertendem
+Systema, e Genio me prohidem; soffro
+ Affanoso contraste.
+
+Nos grilhões de hum dever, que me flagélla,
+Nem do meu coração disponho livre!
+Quantas vezes me vês, Amor, oh quantas!
+ Cobiçar-te, e fugir-te
+
+Na varia compressão, no cerco infando
+De Pezar, e Pezar conheço o pouco,
+Que resiste a Razão, e quanto, e quanto
+ Filosofia he futil!
+
+A Sensassão dispotica ensurdece
+Da sã Prudencia ao madurado Aviso,
+E contra a innata propensão dos Entes
+ Politica o que avulta?
+
+Mente quem me disser, que em homens cabe
+Não gemer, se Afflicção irrita, e lacera:
+Não mais póde o Atilado, o Sapiente,
+ Que evitar-se ao naufragio.
+
+Eu, que desde a bemvinda Primavera,
+Em que a Luz da Razão dourou meu clima,
+Tive sempre comigo, e meus Destinos
+ Atinada pelêja.
+
+Votado desde então a Amor, e ás Musas,
+Filosofo, os espinhos acamando,
+Horas tenho, assim mesmo, em que a meus olhos
+ A existencia negreja.
+
+Ditoso tempo aquelle, Elmano, o caro,
+Que em amiga união (volvendo a teia
+Do Porvir, do passado, e do presente,)
+ Nos davamos constancia!
+
+Então (oh! tempos, que valeis saudades)
+Amizade interesses enlaçando,
+Delicias extrahia ás mãos da sorte,
+ Que trovejava inutil.
+
+Então as Nynfas do Pierio esquivo,
+Com teus Olympios sons extasiadas,
+Folgavão de me ver medrado Alumno,
+ Rastear-te, e com gloria.
+
+Ah! bem que nos separa occulta força,
+Inda te segue o socio Pensamento:[1]
+Se Poder, e Vontade condissessem,
+ Moniz fôra comtigo.
+
+Menos agros talvez teus dias forão,
+E os turvos dias meus, que enlutão mágoas,
+Com doce languidez amenizára
+ O Prazer fugidio.
+
+Matiz equivalente a Paraisos,
+Variado entre Amor, entre Amizade,
+Me enchera o vácuo da existencia ensôssa,
+ Que se definha inerte.
+
+Eu amo, eu sou amado, eu lucro, eu gózo;
+Mas, aí! que a hum dia de prazer succedem
+Dias, e dias de Afflicção teimosa,
+ Que o coração me azédão.
+
+Amas, como eu tambem, tambem amado,
+Mas avesso Poder te engelha os fructos,
+Que já colheste em tempos fortunosos
+ De perpétua lembrança!
+
+Cumpria, que a Amizade suppridora
+Instantes affagasse amargurados,
+Mesmo d'entre os negrumes do Destino
+ Tirasse hum riso a furto.
+
+Infelizes de nós, se não restasse
+No fundo d'alma, de sofrer cansada,
+Divino não sei que, que aos males todos
+ Nos torna sobranceiros.
+
+Eia, pois ao porvir se appelle, Elmano,
+Fonte de gostos, ideaes amenos,
+O Fôlego alargando ao soffrimento,
+ Leda Esperança ondêa.
+
+Ella espinhos crueis em flores torna,
+Sustenta o fio, e dá sabor á vida;
+Retem suicidas mãos, angustias doura,[2]
+ Deve ser nosso Numen.
+
+Se dize com Ovidio: "Eu perdi forças,[3]
+Perdi côr, e mal cobre a pelle o osso,"
+Tambem com elle eu digo: "Immensos males[4]
+ A velhice me avanção."
+
+A Aurora do Prazer talvez que enflore,
+Ermo invernoso da existencia nossa,
+Á Fama vividoura, assombros novos
+ Na Lyra então daremos.
+
+ _Por Nuno Alvares Pereira Moniz._
+
+
+ [1] _Affectus que animi, qui fuit ante manet._
+ Ovid. Trist. lib. 5. Eleg. 2.
+ [2] _Me quoque conantem gladio finire dolorem,
+ Arguit, injectas continuit que manus._
+ Ovid. de Pont. lib. I. Eleg. 6.
+ [3] _Nam neque sunt vires, nec qui color ante solebat,
+ Vixque habeo tenuem, quae tegat ossa, cutem._
+ Ovid. Tris. lib. 4. Eleg. 6.
+ [4] _Me quaque debilisat series immensa laborum,
+ Ante meum tempus, cogor et esse senex.
+ Ovid. de Pont.
+
+ * * * * *
+
+
+ _Carminibus quaero miserarum oblivia rerum._
+ Ovid.
+
+
+
+
+*ODE*
+
+_Ao Senhor Nuno Alvares Pereira Moniz_
+
+
+Já meu estro, Moniz, apenas sólta
+ Desmaiadas faiscas;
+Em que as frôxas idéas mas se aquecem;
+ Elmano do que ha sido
+Qual no gésto desdiz, desdiz na mente;
+ Diástole tardia
+Já da fonte vital me esparge a custo
+ O licor circulante,
+Que he rosa entre os jasmins de virgem Face,
+ Que outr'ora esperto, accezo
+De santa Agitação, de Ardor sagrado,
+ No cérebro em tumulto
+(Estancia então de hum Deos!) me borbolhava.
+ Respiração Divina,
+Enthusiasmo augusto, alma do Vate!
+ Que rápidos portentos,
+Portentos em tropel, não déste á Fama,
+ Não déste á Natureza,
+Á Patria, ao Mundo, a Amor na voz de Elmano!
+ Ora, aplanando os sulcos,
+Com que a Saturnia mão semblantes lavra,
+ A Razão pensadora
+Erguia aos graves sons o grave aspecto:
+ Ora ao ver-se anteposto
+Por deleitosa insânia, a Ella, a Tudo,
+ O grato, Cyprio Nume,
+Fadava docemente o doce canto
+ No Coração de Anália.
+Oh extase! oh relampagos da Gloria!
+ Faustos momentos de ouro,
+Com que meu gráo comprei na Eternidade!
+ Do Tempo meu voando,
+Do Tempo que anuvião negros Males,
+ Brilhais inda em minha alma,
+Entre sombrias, áridas Idéas,
+ Qual entre Aves escuras,
+(Orgãos do Agouro, Interpretes da Morte)
+ Requebros annulando,
+Das Aves de Cithéra o coro alveja...!
+ Mas ah, saudosos Dias,
+Vós sois memoria só, não sois influxo!
+ Não me reluz comvosco
+O Espirito, abysmado em funda trévas,
+ Com gasto, debil fio
+Prêzo á Materia vil, que rálão Dores!
+ Ante meus olhos tristes,
+(Que já d'amiga luz se despedírão)
+ Sahe de eterna Voragem
+Vapor funéreo, que exhalais, oh Fados!
+ Eis meu termo negreja,
+Eis no Marco fatal meu fim terreno!...
+ Mas surgirei nos Astros
+Para nunca morrer: com riso impune
+ Lá zombarei da sorte.
+Moniz! oh puro Amigo: oh Socio! oh Parte
+ Do já ditoso Elmano!
+Ás Musas, como a mim, suave, e caro!
+ De lagrimas, e flores
+Honra-me a cinza, o túmulo me adorna,
+ Não só longa Amizade,
+Novo Sacro Dever te exige extremos:
+ Da Lyra minha herdeiro
+Menu Nume Fébo, e teu te constitue;
+ Fébo apôs mim te augura
+Vasto renome, que sobeje[1] aos Evos:
+ (He dos Annos vantagem,
+Não vantagem do Engenho a precedencia)
+ Teu metro magestoso,
+Que já, todo fulgor, zoilos deslumbra,
+ Teu metro scintilante,
+Das virtudes mimoso, acceito ás Graças,
+ Turvem saudades: canta
+Alguma vez de Elmano, e chora-o sempre,
+ E Amor, e Anália o chorem:
+Amor, e Anália, meus piedosos Numes.
+ Sem, por mim suspirem.
+
+ _Bocage_
+
+
+ [1] Em Lucena, e em outros Quinhentistas de summo apreço, vem sobejar
+ por exceder.
+
+ * * * * *
+
+
+Por largo campo, indómito, e fremente,
+ Corre o Nilo espumoso:
+Feroz alaga a rápida corrente
+ O Egypto fabuloso:
+
+Mas se na grã carreira, ás ondas grato,
+Tributo de caudaes rios acceita,
+ Soberbo não regeita
+Pobre feudo de incógnito regato.
+
+ _Diniz._ Ode I.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+*ODE*
+
+_Por occasião da noticia, que grassou no Porto, das melhoras do Senhor
+Bocage._
+
+ Cisne de immenso vôo! ave, que rója,
+ A medo se abalança aos teus louvores.
+
+
+D'entre a que, eterna, lá no abysmo estala
+Immensa chamma, que accendeo o Immenso,
+Tôrva ullulando, á região do dia
+ Surge a myrrhada Invéja.
+
+Seu hálito empestado a luz suffóca,
+E sécca, e mirra as arvores, as flores;
+Dragão, de linguas tres, na dextra arrôcha,
+ Alça na outra o facho.
+
+Silvão-lhe horrendas na tostada fronte
+Viboras crespas, de que está coalhada;
+Nutre nos peitos ávida serpente,
+ De insaciavel fome.
+
+Atro veneno a lingua lhe destilla,
+A lingua, que de vibora parece:
+Vós Górgonas, vós Furias, tu Medusa,
+ Não sois mais horrorosas.
+
+De espaço meneando as azas longas,
+Demanda vagarosa a Estygia margem;
+E alli, prendendo o vôo, descendo á terra,
+ Que, ao sentilla, estremece.
+
+Alli em subterranea, em ampla furna,
+Desde a infancia dos seculos formada,
+Dura, immutavel lei impondo a tudo,
+ Reside a Morte horrenda.
+
+Montão enorme de esbulhados ossos,
+De crâneos seccos lhe compõem o throno,
+Assôma no alto o descarnado Monstro,
+ A ferrea fouce em punho.
+
+Voão-lhe em roda Lémures, Espectros,
+Jazem-lhe aos pés as lividas Doenças:
+O silencio, o pavor, a escuridade
+ Alli, perennes, mórão.
+
+Nos quatro cantos de horrorosa estancia
+Quatro cyprestes lúgubres se elevão;
+Aves sinistras, rouquejando agouros,
+ Entre os ramos se aninhão.
+
+Para aqui se encaminha a Invéja tôrpe:
+Tremendo, aos pés do throno se apresenta;
+Frio terror os membros lhe entorpece
+ Ao encarar o Nume:
+
+Mas, assanhando a roedora serpe,
+Que no peito lhe pásce, a dor vehemente
+Lhe esperta o coração, lhe volve o acôrdo;
+ E assim troveja a Furia:
+
+"Deosa, dominadora do Universo,
+Cujo imperio vastissimo confina
+Co'a muralha da immensa Eternidade:
+ Branda meu rogo affaga.
+
+Já vezes mil o tétrico veneno
+Das serpes, que me toucão, que alimento,
+Fêz em teus lares borbulhar o sangue
+ De victimas sem conto,
+
+Serviço não vulgar, que te hei prestado,
+Jús me confere a não vulgar indulto:
+Vinga-me, ó Deosa, de hum Mortal soberbo,
+ Que ousa affrontar-me impune.
+
+Elmano, o caro a Febo, e caro a Lysia,
+C'roado ha muito de immurchavel louro,
+Sobre o ludibrio meus alçou ufano
+ Troféo de eterna dura.
+
+Com pé robusto esmigalhou valente
+(Da peçonha mortal nem foi tocado)
+Viboras, que arranquei da trança horrenda,
+ Para arrojar-lhe ao seio.
+
+Tentei vãmente ennegrecer-lhe a Fama,
+Que nivea, e pura os Orbes divagava!
+Meus baldados projectos só servirão
+ De aviventar-lhe o lustre.
+
+Chusmas de Zoilos, meus fieis Ministros,
+Em vão em meu favor as armas tomão:
+Relampaguêa o Vate, e nos abysmos
+ Baqueão, aterrados.
+
+Myrrhada de pezar, baixei ao Orco,
+E alli fui prantear a injúria minha:
+Gritos, que então soltei de dor, de raiva,
+ Inda nelle retumbão.
+
+Foi-me comtudo balsamo suave
+Á dor cruel, que me ralava o peito,
+O grato annúncio, de que o Vate odioso
+ Roçava o ponto extremo.
+
+Mortifero aneurisma promettia
+Romper-lhe antes de muito os nós da vida!
+Meu coração folgou, desaffrontado,
+ Co'a proxima ventura.
+
+Já com soffregas mãos, tintas em sangue,
+No Báratro compunha atróz peçonha,
+Para ensopar-lhe as socegadas cinzas
+ No tácito jazigo.
+
+Porém, ó Deosa, se, exercendo a Fouce,
+O demorado golpe não desfechas,
+As, que alimento, gratas esperanças,
+ Qual fumo, se esvaecem.
+
+Sim, ás contínuas súpplicas de Lysia,
+Como que o Fado a fronte desenruga;
+Brado, macio já, como que intenta
+ Deferir-lhe propicio.
+
+Ah! e quanto, inda assim oppresso, enfermo,
+Quando me affronta, me assoberba Elmano!
+Seu Estro sempre o mesmo, sempre em chammas,
+ Raios me vibra intensos.
+
+Todos de Lysia abalizados Cisnes
+Melifluo canto em seu louvor modúlão;
+Rôto ao porvir (mercê de Apollo) o seio,
+ Vida fádão-lhe eterna.
+
+E serei, ai de mim! assim calcada,
+Sem que possa vingar-me!.." Aqui lhe brótão
+As lágrimas em fio, entre soluços
+ Suffocada, emmudece.
+
+Depois de curto espaço, a Morte horrenda,
+A fronte definada meneando,
+Alça a medonha voz, e assim responde
+ Á consternada Furia:
+
+"Não te desdenho, ó Filha: do meu throno
+Tu és robusto apoio; os teus serviços
+A obrigação me impõe de ser-te grata:
+ Morrerá quem te affronta"
+
+Disse; e n'astea da Fouce o corpo firma,
+Ergue-se, e ensaia para o vôo as azas:
+Nos cantos da caverna os negros Mochos
+ Soltão da morte o grito.
+
+Eis que estranho clarão, rompendo as trévas,
+Súbito inunda a lôbrega morada;
+Eis apparece (mortal raio á Invéja)
+ Em branca nuvem Lysia.
+
+Brando surriso esmalta-lhe o semblante,
+Nos olhos o prazer lhe reverbéra,
+Luz-lhe na dextra lâmina de bronze,
+ Qual astro, fulgurosa.
+
+Com garbo magestoso a vestidura
+Sobraça roçagante; e assim que arrósta
+O Nume aterrador, na voz suave
+ Taes expressões lhe envia:
+
+"Chorosa, amargurada, longo tempo
+Curva ante o Solio do adoravel Fado,
+Ferventes rogos, humidos de pranto,
+ Fiz subir-lhe á presença.
+
+De Elmano, do meu Vate a vida em risco:
+Meu coração materno consternava:
+Elle era a gloria minha; ella morrêra,
+ Se morresse o meu Vate.
+
+Regeitado, porém, não foi meu rogo:
+O Fado para mim sempre benigno,
+Risonho me outorgou (mercê não tenue)
+ O suspirado indulto.
+
+Eis o Decreto seu:" (e entrega ao Monstro
+A lâmina de bronze.) Ao vê-lo a Parca,
+Depondo a curva Fouce, inclina a frente,
+ E reverente o beija.
+
+"Cumpre-se, ó Lysia, (diz) a Lei do Fado."
+Exulta Lysia, e presurosa surge
+Da habitação medonha: opácas sombras
+ De novo alli se espessão.
+
+Oh que horrendo espectaculo não era
+A Invéja furiosa, ardendo em raiva!
+Da dextra, da sinistra a serpe, o facho
+ Arreméça convulsa.
+
+As melenas, frenéticas, arrepéla,
+E de áspides alastra o pavimento;
+Na boca, onde as espumas são veneno,
+ As maldições lhe fervem.
+
+Torcendo, e retorcendo os vesgos olhos,
+Vaguêa delirante a vasta furna:
+A Morte, a propria Morte, ao ver-lhe as furias,
+ Treme no throno horrendo.
+
+O Fado, contra quem vomita o Monstro
+Negra turma de pragas, indignado
+Manda ronque o trovão, fuzile o raio,
+ E sobre ella desabe.
+
+A Furia, remordendo-se, baquêa,
+E no bojo inflammado o Inferno a sorve.
+Em tanto a grande Lysia, exultadora
+ Vôa a abraçar seu Filho.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+*EPISTOLA*
+
+_Feita no julgado ultimo periodo de vida do Senhor Manoel Maria de Barbosa
+du Bocage._
+
+
+ EPIGRAFE.
+
+ _Rebus angustis animosus as que
+ Fortis appare._
+ Horat. Od. 7. liv. 2.
+
+
+Se póde hum mocho, piador nas selvas
+Brancas plumas cobrar, surgir de noite,
+E dos pios colher vozes sonóras,
+Tendo assumpto sem par, Heróes cantando!
+Não sou ave infeliz, odeio as trévas;
+Minha essencia mudei; encaro o dia,
+O dia, que nasceo na luz d'Elmano.
+Ó tu Dominador, de quem domina
+No medonho poder d'escuro pégo,
+Onde morre o Vulgar, existe o Grande;
+Em que ufana de Ti a Eternidade,
+Dos limites sahio, mandou soberba
+Aos Futuros pasmar, tremer aos Fados;
+E nos Livros ao tempo sobranceiros
+O teu nome esculpir, dar vida ás letras;
+Que sedentas té'li de iguaes talentos,
+Sem a mira lançar a mais, ou tanto,
+Novo campo não dão a novo entalhe.
+Accolhe os versos meus, os meus louvores,
+Que o pêjo suffocou; mas cede o pêjo
+Á voz da Gratidão, que em mim resôa.
+Que inaudito prazer me surge n'alma!..
+Elmano, Elmano meu, do Mundo gloria,
+Quando penso que os sons adormecidos
+Da Lyra (que em temor céde á vontade)
+Vão dos Astros romper luzente Espaço,
+Indo aos Numes levarão, que he dos Numes
+Esta empreza, que os Ceos no seio acolhem,
+De que hes justo crédor, que humilde off'reço,
+Hade a Jove aprazer, durar em Jove.
+Se ao jugo dos Mortaes, se ao Fado, á Morte
+Inda liga tua alma a terrea massa,
+Se em tormentos, se em ais, se em dor, se em pranto
+A substancia languece, que te anima,
+E de humano a pensão (dever custoso)
+No continuo pular do sangue ardente[1]
+Encaras com temor; temor não tenhas!
+A morte para o Sabio he gosto, he vida.
+Assim o grão Camões, de Lysia esmalte,
+E das grandes Nações portento, espanto,
+Na desgraça morreo, viveo na morte!
+E o Nume atroador de Pólo a Pólo,
+Por cem aureos canaes fendendo os ares,
+Inda o nome do Heróe espalha ufano,
+Inda alentos lhe dá, vida mais nobre.
+Quebradas as prizões aos ser terreno,
+Que te véda subir de Vate a Nume,
+Hade os tubos encher com sôpro estranho,
+E teus versos mandar ao Ceo da Gloria.
+Não julgues, que se, Heróe, zombas da morte,
+Encarando teu mal desdenho o pranto
+Hade Lysia chorar, darão os Lusos
+Do pranto, que a razão sanar não sabe,
+Grossas agoas ao Téjo caudaloso,
+Que dos limites seus fugindo irado,
+Vá ao Ganges levar, levar ao Nilo
+A noticia cruel, que humanos punge:
+E Josino (que a vida assás molesta
+Nos hombros lhe suppeza alonga os dias
+Que, d'Elmano vivendo assim distante,
+Hãode o manto roubar á noite escura!)
+A tristeza dará da morte o premio.
+Revive, Elmano, pois no Ethereo Reino;
+Que eu, em quanto tiver vitaes alentos,
+Heide em ti prantear d'Amigo a falta,
+E de Vate, e de Heróe ceder ao pasmo.
+
+ _José Joaquim Gerardo de Sampaio._
+
+
+ [1] Alludo ao aneurisma, huma das principaes molestias, que o
+ atormentão.
+
+ * * * * *
+
+
+_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage, achando-se o A. molesto._
+
+
+
+
+*EPISTOLA.*
+
+ O Sabio não vai todo á sepultura,
+ Na memoria dos homens brilha, e dura.
+ _Rim. du Bocag. T. a._
+
+
+Hum triste, hum infeliz, da Sorte avêssa
+Tragando o fel dos ais, o fel da vida,
+Saúda hum triste, que abraçar não póde,
+Penhóra em letras, mensageiras d'alma,
+Os effluvios da candida amizade,
+Os saudosos gemidos, que te envia,
+Elmano, que em soluços te evapóras,
+Que atroppelado pela dor intensa,
+Sóltas dos lumes teus acerbo pranto,
+Que em vão te banha as faces enlutadas,
+Que tenta em vão desenrugar teus Fados.
+Mas ah! cobra valor; constancia, Amigo:
+Esforçada razão represe as mágoas,
+Que a horrenda fantasia, nebulosa
+Avulta em quadros, em que tudo he negro.
+Se ella dá brilho, se a existencia affaga,
+Debuchando na idéa deleitosa
+Glorias, prazeres, jubilos, encantos;
+Tambem nos males nos accurva a mente
+Com duplicados, horridos pavores.
+Baldar o sentimento ao corpo afflicto
+Não quero, Elmano, que tambem sou homem.
+Se Zêno, se Platão sorrindo em ancias,
+Não mostrárão na face a côr do medo,
+Que erão diremos corações de bronze?
+Sentirão, que a desgraça a todos punge;
+Porém soffrêrão com tenaz constancia,
+Engolfados na sãa Filosofia.
+Se qual vivêrão, tal morrêrão lêdos;
+Porque não seguiremos os seus passos?
+Forão d'outra materia, que não somos?
+Forão d'outro talento, que não tenhas?
+Quem da convulsa natureza, opressa
+Falsêa em parte os horridos embates,
+He sobranceiro á morte em gloria firme:
+Se tu com ella nos degráos luzentes,
+Librado sobre os extasis divinos,
+Nectar libaste na Apollinea Mêza;
+Porque tremes das soffregas voragens,
+Em que se abysma a Natureza toda?
+Que saudades do Mundo te acompanhão?
+Por quantos males se não comprão ditas,
+Que bem qual o relampago se esváem!
+Que te valeo na Patria modulando,
+Da bocca deslizar thesoiros d'alma;
+Ora cantando de Marilia a face,
+Aonde se remóça a florea Gnido;
+Ora abrazado em ralador ciume,
+Praguejando o rival de teus amores;
+Detestando a cruel, a fementida;
+Ora carpindo a[1] flor cortada em breve,
+Que acordava o botão medrando em risos;
+Enriquecendo em fim a Patria, o Mundo
+Nos vivos quadros da Moral prestante?
+Se horrorosos baldões o premio forão;
+Se isto se diz viver... se o Mundo he isto...
+Não tens que suspirar; esquece a Terra!
+Não succumbas ao pêzo da desgraça:
+Se te borbulha hum Deos na mente acceza,
+Quem 'sta cheio d'hum Deos não teme a Morte.
+
+ _De Pedro José Constancio._
+
+
+ [1] Alludo ao Idyllio da Saudade Materna, feito pelo Senhor Bocage.
+
+ * * * * *
+
+
+_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage._
+
+
+ _Tu ne cede malis; sed contra audentior ito,
+ Quam tua te Fortuna sinet......_
+ Æneid. 6. vers. 95.
+
+
+He nos revézes que apparece o Sabio,
+Que d'hum peito atravéz, que a Dor crucîa,
+Reluz hum coração, virtudes todo:
+Nunca d'Athenas o lustroso esmalte,
+O Mestre da Moral, o Deos dos Sabios,
+D'alma heroica mostrou mais nobres rasgos,
+Que ao entrar na prizão com rosto alegre,
+E ao beber a cicuta airoso, e forte.
+De Roma nos Annaes, que o Mundo assombrão,
+Não teve cabimento Heróe mais claro,
+Que hum Séneca, fiel ás leis sagradas
+Da Virtude, e Dever , aos pés calcando
+Cruas perseguições, desterro iniquo,
+Sobranceiro ao rigor dos Ceos, da Terra.
+ Nem sómente entre as horridas refregas
+Do procelloso mar, ou nos combates
+D'alma forte resumbra ardor valente:
+Da virtude he tambem theatro o leito;
+Neste mais de huma vez provou-se o Sabio:
+Encara com desdem o Sabio a morte,
+Certo que a preço tal se merca a vida.
+ Temos mui nobre, e remontada Essencia,
+Viemos povoar Terraqueo Globo
+De mui alto lugar; e a prova, Elmano,
+Em nós mesmos se dá, julgando escassa
+Humilde habitação, d'arte os portentos,
+De Arquitectura, e luxo assombros claros,
+Que hum leve sopro esbrôa, esmaga, e prostra;
+Não temendo largar tão baixa esfera.
+ He das dores crueis o termo a morte!
+Entre desgraças mil sempre vagando,
+De molestias sem fim alvos constantes;
+Bem como acontecer deve aos que aberrão
+Do seu clima natal, e estranho habitão.
+Só depois de existir puras substancias,
+Despidas do grosseiro, e terreo manto,
+Gostaremos prazer sadio, estreme.
+Filosofia, és tu, quem dás ao Homem
+Do sepulcro despir-lhe o medo, o tédio;
+Por ti (qual déstro nauta exp'rimentado,
+Que rasgado o velame, os mastros rotos,
+Co'as ruinas da náo prosegue a rota),
+Não succumbe o Mortal da morte á face,
+Não lhe desbóta do semblante as côres,
+Da constancia o vigor não lhe entorpece
+Buido ferro, que centelhas vibra;
+Da vida o termo com sorriso encara,
+Como se alheio fosse, e não seu termo.
+ Genios transcendentaes, que o mundo honrárão,
+Não temêrão largar barrenta capa,
+Que mesquinha entorpece os vôos d'alma:
+Do divino Platão, o Sol da Grecia,
+Ouve attento o clamor, no peito o encerra:
+"O espirito do Sabio anhéla a morte,
+Nella medita, e a quer: sempre que tende
+Fóra de si; taes são seus appetites."[1]
+Quanto ao summo chegou do fim jaz pérto:
+Fructo, que sazonou co'a Primavera,
+Do Outono na estação não orna as mezas!
+Quanto mais clara resplandece a chamma,
+Tanto mais prompta affraca, e se amortece:
+Taes os Engenhos; quanto mais sublimes,
+Tanto mais breves são; que he perto o Occaso,
+D'onde falta o lugar ao crescimento.
+ E pois, Elmano, te guindas-te ao cume
+Do Horizonte, onde és Sol de Lysia aos Vates,
+Cujas centelhas dão calor aos Genios,
+Dão brio, dão vigor para ir á gloria,
+Postergando montões de vis insectos
+De ephemerico ser, d'aspecto ingrato;
+Não deves estranhar, que Atropos dura
+Se antecipe a cortar-te o fio á vida;
+Ella, que sem respeito ao Môço, ao Velho,
+Se apraz de encher de lucto, e pranto o Mundo.
+ Ah! Se a vozes de dor se move a Parca,
+Se do Destino as leis transtornos soffrem,
+Verás, Elmano, decorrer teus dias
+A par dos de Nestor, Tu, que o semelhas
+No mel, que vertem teos divinos labios.
+Lysia, desfeita em ais, banhada em pranto,
+Ante as aras de hum Deos mil preces sólta
+Pela conservação do seu esmalte,
+Do seu Genio melhor, da Gloria sua,
+E aos de Lysia Filinto une os seus votos.
+
+ _Fr. Francisco Freire._
+
+
+ [1] _Sapientes animum tetum in mortem prominere, hoc velle, hoc
+ meditari, hoc semper cupidine ferri in exteriora tendentem._
+ Senec. Consol. ad Marciam.
+
+ * * * * *
+
+
+_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage._
+
+
+
+
+*EPISTOLA.*
+
+
+Ruindo lá do Bárathro medonho
+Lúgubre som, motivador do pranto,
+Que as faces mólha de enlutada Lysia,
+De ti, ó Vate, reclamava o feudo;
+Já lá do Abismo horrendo as furias torpes,
+Por ordem de Plutão na terra surgem;
+Da vil materia, do que he pó, que he nada,
+Opaco manto de endeosados genios,
+Rabidas rompem o ordenado todo.
+"Murchas esp'ranças mais a mais fraquejem,
+Sentimento mortal, tristeza baça
+Nos Lusos corações a dor espalhe;
+Apenas cinza, o que já foi Elmano."
+Esta do Averno a voz, a lei da Morte,
+Que ás funeraes Irmans o Monstro intima!
+Do Sena pelas margens saborosas,
+Pelas praias do Ganges, do Aureo Téjo,
+Assustadas de horror as Ninfas clamão;
+A lei maldizem, que lhes rouba a gloria,
+Carpindo o mimo, que as honrava tanto.
+Os alumnos de Apollo ao nume envião
+Entre cortados ais, sentidas vozes,
+Votos provindos do profundo d'alma,
+Quaes os da Gratidão, e os da Verdade:
+Co'as mentes cheias de saudade infinda,
+Teu nome, ó caro Elmano, a Jove lembrão;
+No fogo ardente de sonóros Hymnos,
+Escudados da candida amizade,
+Da justiça, é dever, da gloria Tua,
+Hum Nume Creador, que uniu os Entes,
+Hum Deos, hum justo Deos piedoso dobrão.
+Eis de repente na brilhante Esfera
+Risonho assoma o dia, a noite fóge;
+Raia alegre o prazer, somem-se as trévas;
+Abrem-se as portas do sulfureo Averno,
+E á feia escuridão as Furias tornão.
+Esforça-se a razão, estudo, e arte
+Das garras a salvar a prêza excelsa:
+Angelico tropel ao leito adeja;
+Da Sacra Região baixando os vôos
+Do Vate aos lares, a melhora guia.
+No Olympo os Numes a harmonia prézão,
+Affeitos a escutar da terra os Vates.
+Oh como de prazer exulta o peito!
+E mano, Elmano vive, oh Ceos, oh dita!
+Por elle a gloria, e honra em Lysia abundão;
+Cisne do Téjo, que trespassa a méta,
+Licita a raros de adejar cançados.
+Fadem teus dias fortunosos lances.
+Praza aos Ceos compassivos, que inda eu possa
+Ver-te immune ao mal, que te consterna;
+Porque possas tambem dar vida á Fama
+De deslizado Heróe, que a cobardia
+Pendura nos portaes do Esquecimento;
+E as azas desprender em canto altivo,
+(Dos Voltaires, Camões, dos Tassos digno)
+Em lustres de Varão, que immortalizes.
+Virente louro não me cinge a frente;
+Tolhem meus gressos as varedas ínvias
+Ao bipartido Cume, ao sacro asilo
+Dos almos Genios, onde entrar não posso:
+A ser-me dado, intrepido verias
+Em duravel engaste, em Padrão d'oiro
+Ir assomar teu nome além dos Evos;
+A ardentes Vates, que o Porvir esconde,
+Engenhos como Tu, mover-lhes pasmo;
+Mostrar-te como exemplo ás Plagas Lusas,
+Disparando o trovão, vibrando os raios,
+Imagens vivas, que dão alma ás pedras;
+Em quanto as graças em Gertruria bella
+Co'os doces folgazões amores brincão;
+Quando surge da Estancia a torva invéja,
+Ou trilhas sem desdouro o Lacio augusto:
+Do filho de Sulmona unindo a cinza,
+Fazendo-o reviver com pompa egregia
+Em veste alheia; mas tão nobre, e rica,
+Que equivale ao valor dos proprios trajes.
+Quizera agora ter o dom de Elpino,
+Invadir com teu nome a Eternidade......
+Mas ah que delirei: oh mente louca!
+Não precisas de quem de ti precisa:
+Rite, rite de mim, ó grande Elmano
+Mas dos desejos não, dos sãos desejos.
+
+ _De João Galvão Mexia de Sousa Mascarenhas._
+
+ * * * * *
+
+
+_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage._
+
+
+
+
+*EPISTOLA.*
+
+
+Vate, que adoro, portentoso Elmano,
+Imagem do Saber, do Pindo gloria,
+Apollineo Cantor, Cantor divino
+Dos Jardins, onde impéra a Natureza;
+Escuta os versos meus, escuta os versos,
+Que dicta o coração, dicta a amizade.
+ Depois, com que pezar o pronuncio!
+Que entrei na estancia triste, onde succumbe,
+Aos impulsos da Dor, Razão, Constancia,[1]
+Diluvio amargo de saudoso pranto,
+Me innunda as faces, me consterna o rosto.
+ Já mais hum só instante, ó caro Elmano,
+Se minóra a tristeza, que me opprime;
+Meu activo pezar, minha amargura,
+Bem não podem narrar toscas palavras:
+Excede a dor humano soffrimento!
+Saudades que a minha alma afflicta sente,
+Podem-se imaginar; mas não dizer-se.
+ Ah quando penso em ti, eu me arrebato:
+Futuras producções imaginando,
+Não césso de chorar a falta, a perda,
+Que as Bellas Letras, Seculos vindouros
+Chorarão, como eu, se a morte horrivel
+Inda em flor decepar teus caros dias.
+ Deste asilo da lúgubre Tristeza,
+Onde os dias, ás noites semelhantes,
+Eu passo envolto em luto, envolto em pranto,[2]
+Te envio tristes ais, ternas lembranças,
+Que meu peito fiel a ti consagra;
+Escuta-as, se he possivel, (pois o triste,
+Com as queixas do triste se consola,)
+No meigo coração grato as acolhe;
+E conhecendo a dor, que assim me fere,
+Pondéra as mágoas, que supporta, e sente
+Falmeno, que sem ti vive morrendo.
+ Sugeito ao mando teu por lei, por gosto,
+Te envio (como amargo talvez util)
+O Folheto de meus insulsos versos:
+Quem quer escravo ser de teus preceitos,
+Sem já mais hesitar, deve cumprillos
+Embora o Zoilo vil louco me chame,
+E pura sugeição julgue vaidade.[3]
+ Adeos, meu caro Elmano, adeos amigo,
+Os teus ais, aos meus ais unidos sejão;
+Unidos vão soar na azul esfera,
+Augurando amizade além da morte.
+
+
+ [1] Alludindo á exasperação em que o vi lutando, na occasião em que
+ excessivas dores muito o atenuavão.
+ [2] A grave molestia do Amigo, e o proximo falecimento da minha Mãi, me
+ inspirou os tres versos acima, em tudo conformes aos meus sentimentos.
+
+ [3] Já mais me atrevera a enviar o Folheto dos meus insipidos versos a
+ tão abalizado Mestre, se a sua determinação me não obrigasse a tanto: as
+ desculpas que exijo, e as causas que allego no Prologo do dito Folheto,
+ não bastão a evitar a critica, que na verdade merece a publicidade de
+ semelhantes Poesias, ás quaes ao presente não dou valor algum.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+*SONETO.*
+
+
+Nesta horrivel morada da saudade,
+Onde chóro, e lamento o teu Destino,
+Dirijo preces mil ao Ser Divino,
+Que dicta o coração, dicta a amizade.
+
+Fiel inclinação, pura verdade
+Repete ardentes votos de contino:
+Tranquillo supportára o mal ferino,
+Se podésse escusar-te a Enfermidade.
+
+Quanto fôra feliz, meu caro Elmano,
+Se a vida, que te offerto, vida escura,
+En teu lugar soffrêra o cruel dano;
+
+Então com gosto olhára a sepultura;
+E resgatando o Heróe, alegre, e ufano,
+Meus dias entregára á Morte dura.[1]
+
+ _Por Felisberto Ignacio Januario Cordeiro._
+
+
+ [1] Se os versos dos dous tercetos parecerem affectados, e excessivos;
+ para se pensar de modo contrario, baste a lembrança, de que o homem
+ verdadeiramente Filosofo, que tem huma existencia triste, e pouco
+ interessante, não terá nunca dúvida (sendo possivel) em sacrificar a
+ sua vida á duração da dos homens sabios, uteis, e necessarios á
+ Republica das Letras, e á Sociedade Civil.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A virtude laureada, by
+Manoel Maria de Barbosa du Bocage
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VIRTUDE LAUREADA ***
+
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+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
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+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
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+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
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+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
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+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
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+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
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+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
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+ License. You must require such a user to return or
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+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
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+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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