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+The Project Gutenberg EBook of Verdades amargas, by Claúdio José Nunes
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Verdades amargas
+ estudo politico dedicado às classes que pensam, que possuem
+ e que trabalham
+
+Author: Claúdio José Nunes
+
+Release Date: November 30, 2006 [EBook #19974]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VERDADES AMARGAS ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal))
+
+
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+
+
+
+VERDADES AMARGAS
+
+ESTUDO POLITICO
+
+DEDICADO ÁS CLASSES QUE PENSAM, QUE POSSUEM E QUE TRABALHAM
+
+POR
+
+CLAUDIO JOSÉ NUNES
+
+
+LISBOA
+
+TYPOGRAPHIA DE FRANCISCO XAVIER DE SOUSA & FILHO 26, Rua do Ferregial de
+Baixo, 26
+
+*1870*
+
+
+
+
+AO LEITOR
+
+
+O auctor d'estas linhas não pretende endireitar com ellas o mundo, nem
+dar conselhos a quem lh'os não pede.
+
+Como pertence, porém, a essa tribu de sonhadores que tem a simplicidade
+de gastar alguns minutos no estudo das cousas da patria, e tantas vezes
+te ouve ponderar--a ti mesmo, que tens agora este folheto nas mãos--o
+que adiante acharás, julgou dever condensar em letra redonda a expressão
+de teus patrioticos reparos.
+
+Ignora elle, comtudo, se o pudor convencional te fará agora tapar os
+olhos em publico na presença da verdade nua, que tão frequentemente
+despes nas côrtes e na imprensa, na sala e na rua.
+
+É natural que não.
+
+Mas se esse facto se der; se a tua hypocrisia tomar geitos de castidade,
+repara que, ferindo o auctor, cravarás o ferro em tua propria lingua.
+
+Ha só uma differença. Tens dito mil vezes que o paiz está podre. Aqui
+diz-se unicamente que o paiz apodrece.
+
+Pódes, pois, á vontade hervar a setta da critica.
+
+
+Outubro de 1870.
+
+
+
+
+VERDADES AMARGAS
+
+
+Ha na vida dos povos alguns momentos em que é honra e proveito o
+trabalharem todos os cidadãos na redempção da patria commum.
+
+O nosso paiz atravessa uma hora difficil.
+
+De norte a sul, em todos os recantos d'este velho torrão portuguez, o
+edificio social escaliça e range, como se houvesse caído sobre elle uma
+d'essas biblicas maldições que imprimiam o cunho de uma irremissivel
+fatalidade.
+
+As forças vivas do paiz vão esmorecendo n'um deploravel abatimento.
+Definha o commercio; retrae-se a industria; a agricultura vê seccar os
+peitos uberrimos.
+
+Sobre os factores da riqueza nacional anda uma athmosphera suffocadora.
+A intelligencia annuvia-se; o capital adormece; o trabalho
+espreguiça-se.
+
+O melhor e maior de todos elles, a confiança publica, declina
+rapidamente para um funestissimo occaso.
+
+Porque?
+
+Porque um povo não vive só do que palpa e do que vê. Transpõe-se o rio;
+corta-se o monte; povoa-se o estalleiro; fertilisa-se o solo; mas se
+todo o progresso material fôr automaticamente produzido, sem que o
+illumine uma faisca d'esse espirito publico, que constitue a alma das
+grandes nações, tarde ou cedo a ephemera florescencia murchará de
+encontro ao mais ligeiro attricto.
+
+E assim é.
+
+Quiz Portugal acompanhar a Europa no caminho da civilisação. Poz a
+estrada aonde era o barranco e o caminho de ferro aonde era a estrada.
+Estimulou a producção pelo consummo e o consummo pela producção. Fez do
+credito a alavanca de multiplicadas emprezas. Viveu em vinte annos o que
+não vivêra n'um seculo. Mas como, no meio d'esse tumultuar de
+interesses, não quiz ter olhos e coração para o culto das cousas do
+espirito, vê-se hoje a braços com uma crise angustiosa, nascida em
+grande parte da relaxação moral em que labora o paiz, debaixo do ponto
+de vista politico e social.
+
+ * * * * *
+
+Diga-se a verdade, custe o que custar. Não é com o silencio que se dá
+rebate a um povo em perigo. Ponha-se o cauterio na ferida, embora as
+carnes estremeçam com a dor.
+
+O verdadeiro patriotismo não cala nem dissimula; descobre e repara.
+
+E o remedio urge. Um veneno subtil, mescla atroz de apathia, de
+relaxação e de egoismo, vai-se lentamente infiltrando por quasi todas as
+camadas da sociedade portugueza e acabará por matal-a, se contra elle
+não reagir a poderosa triaga de moralisadora e energica acção.
+
+Sem criterio moral não terá o paiz o sentimento de seus direitos e de
+sua responsabilidade.
+
+Se lhe faltar esse duplo sentimento, faltar-lhe-ha a vontade propria.
+
+Sem vontade propria não ha elementos de boa politica.
+
+Sem boa politica não ha governos estaveis.
+
+Sem estabilidade nos governos não ha confiança publica.
+
+Sem confiança publica não ha grangeio de riquezas.
+
+Sem augmento de riquezas não se avoluma facilmente a receita do estado.
+
+Sem equilibrio no orçamento vai-se direito á ruina.
+
+Ruina que não provém, pois, unicamente de razões physicas occasionaes,
+mas que tem raiz e tronco na condição moral em que vivemos.
+
+Ruina que póde levar-nos ao suicidio na bancarota ou na Iberia.
+
+Incuta-se, pois, no paiz um novo alento e o que hoje é beira de abysmo,
+na phrase tradicional da imprensa, talvez não passe amanhã de ponto
+confuso na topographía politica de um povo regenerado.
+
+
+I
+
+
+Haverá criterio moral no paiz, em tão larga escala e com tal cunho, que
+dê physionomia á vida publica portugueza?
+
+Infelizmente, não.
+
+É certo que não escaceia nas transacções da vida particular essa
+honestidade, que á força de ser obrigação, não passa de banal virtude.
+Toda a terra em que ella chegasse a constituir excepção cedo se
+converteria n'uma charneca de salteadores, aonde o mais robusto e o mais
+audaz tomaria a realeza do roubo e do assassinato.
+
+Não falta igualmente quem modele o seu procedimento, no tracto commum,
+pelas normas de escrupulosa delicadeza, não consentindo que a sombra
+sequer de uma duvida lhe embacie a transparencia do nome.
+
+Mas não se trata aqui de individuos; aprecia-se a collectividade.
+
+Não se allude a homens; falla-se do paiz.
+
+Do paiz que elege.
+
+Do paiz que legisla.
+
+Do paiz que governa.
+
+Do paiz politico, n'uma palavra.
+
+N'este, força é confessal-o, as excepções invadem a regra geral.
+
+As convicções andam alli geralmente á mercê dos ventos do ceu.
+
+Um enxame de incredulos, que borboleteiam de despeito em despeito ou de
+interesse em interesse, pousando hoje aqui e além ámanhã, suga o mel do
+partido em que eventualmente pousou, flor tanto mais procurada quanto
+mais se espaneja ao sol do poder.
+
+Os proprios programmas partidarios batem repetidas terçãs. Ardem na
+febre ou gelam no frio, segundo são difficuldades de governo ou
+facilidades de opposição.
+
+No meio d'esta balburdia quasi toda a gente é correligionaria de quasi
+toda a gente.
+
+Parece que o pobre do orçamento é floresta aonde se caça a furão e a
+rede, a tiro e a pau.
+
+Não ha mezes defezos, nem habilitação policial.
+
+Entra quem póde. Fere, mata e apanha quem teve melhor olho ou mais
+vigoroso lebreu.
+
+Gasta-se metade do anno a demolir os adversarios e a outra metade a
+forjar com elles alguma salvadora fusão.
+
+E como n'esta abençoada terra não se discutem principios mas homens, o
+imbecil, o devasso, o infame da vespera será no dia seguinte honrado
+collega.
+
+A abnegação democratica é apregoada de boca em boca mas, para honra e
+gloria d'ella, um chuveiro de titulos e condecorações alaga por vezes em
+ridiculo a prosapia do agraciado e a referenda do bemfeitor.
+
+Mais ainda. Tropeça um conde na plebe, levanta-se logo marquez.
+
+Se vem a republica, é certo o ducado.
+
+A lei anda em interinidade. Reformas de reformas reformam o que foi
+reformado. Quem se descuidar um mez de estar em dia com a legislação
+arrisca-se a dar comsigo n'algum labyrintho de referencias ou n'algum
+fojo de multas.
+
+Leis não faltam. Verdade é que, em compensação, ficam muitas em letra
+morta.
+
+O respeito ao principio de auctoridade, sem o qual nem a propria
+liberdade florece e fructifica, vai-se pouco a pouco obliterando no
+espirito das massas.
+
+Só em tempo de eleições e a tres metros da urna é que, por uma fatal
+inversão, a indisciplinada turbulencia do campanario se dobra aos
+conselhos de quem alli representa aquelle desprezado principio.
+
+Fóra d'essa quadra excepcional, queimam-se cartorios publicos;
+espancam-se empregados; negam-se esclarecimentos e toca-se a rebate
+contra os agentes da lei.
+
+A intriga e a calumnia são moeda corrente. Emquanto a mentiras já não
+incommodam quem as ouve e as diz. O caso é que se minta a proposito e
+bem.
+
+Questão de habilidade.
+
+As varias fórmas da utilidade invadem todos os corpos e todas as almas.
+Subir e medrar, gozar e vencer são os pontos cardeaes do mappa das
+crenças.
+
+Quem negará que o escandalo seja uma excellente recommendação?
+
+Exemplifique-se:
+
+Anda por ventura a attenção popular em curioso convivio com os mestres
+da escripta; com a musa da forte e sã litteratura; com Garrett,
+Herculano, Castilho, Rebello e Mendes Leal?
+
+Passa a vista pelos trabalhos serios da imprensa?
+
+Occupa-se, porventura, em ler as discussões parlamentares?
+
+Não, não. No seu paladar pervertido sómente causa o estimulo da
+curiosidade algum pamphleto immundo, em que se insulte a decencia; se
+morda na lingua; se cuspa nas instituições e se esbofeteie a verdade.
+
+E quanto mais é cobarde a insinuação; quanto é mais vil a denuncia;
+quanto mais salgada é a infamia da phrase, tanto mais as saboreia a
+avidez popular e se deleita com ellas o commum dos leitores.
+
+ * * * * *
+
+Mas basta de generalidades e venha um facto concreto.
+
+Triumpha uma sedição militar. Nos salões, outr'ora desertos, do
+conspirador, acotovella-se, horas depois, a turba cerrada dos cortezãos
+da victoria. Não admira. Ha musica no côro e bodo no pateo. Rebenta um
+partido do cofre das graças. Formigam as adhesões. Enxameam os
+enthusiastas. Não chegam os clarins para os arautos da gloria.
+
+Á excepção da parcialidade vencida, todas as outras se derretem em
+negaças ao heroe do momento. De todos os cantos estalla um catharro
+provocador.
+
+E um sargento de caçadores fechára as portas do parlamento!
+
+Vem uma e diz:
+
+«Sou a Regeneração. Já não me conhece, marechal? As amizades antigas
+nunca se perdem. Se não tenho o fogo da mocidade, tenho a madureza de
+espirito, qualidade digna de ser apreciada por quem já não tem pulmões
+para folegos profundos. Em vez de cirios e cavalgatas, passaremos os
+serões a grudar as folhas da Carta, violentamente rasgada n'um minuto de
+pressa, e, grudar por grudar, grudemol-as nós. Esqueçam-se quinze annos
+de amuo nas aras de um prudente consorcio.»
+
+Mas uma voz grita do lado:
+
+«Arreda-te, bruxa maldita. Aqui estou eu, que sou a Reforma. Sou joven e
+bella, airosa e poupada. Uma choça e teu coração, meu guapo marechal!
+Ahi fiaremos uma existencia de rolas e pediremos á egreja que abençõe
+este feliz matrimonio.»
+
+Clamam de baixo:
+
+«E eu sou a Revolta! Nos meus braços robustos tens um throno de
+affectos. Só eu sou a forte; só eu sou a bella. Despreza a velhice
+prudente e a infancia dengosa. Rodopiarei comtigo n'uma orgia perpetua.
+Ora soltarei os cabellos aos ventos da demagogia, ora polvilharei de
+ouro as tranças luzentes Desde a lama até ás estrellas será estreito o
+espaço para as nossas folias.»
+
+E assim foi.
+
+E haverá criterio moral n'um paiz aonde se corteja o poder com tão
+notavel impudor?
+
+E depois?
+
+Depois veio a queda. Um golpe de estado desfez o que fizera o motim.
+
+Cura perigosa de uma perigosa doença.
+
+O paiz não achára em si força sufficiente para debellal-a e entregou á
+corôa a manipulação do remedio.
+
+Triste confissão de impotencia! Triste symptoma constitucional!
+
+Caiu o marechal. Era execrada a dictadura. Moveu-se-lhe guerra em nome
+da nossa autonomia. Contra os actos d'ella subiram as queixas dos
+partidos até aos degráos do throno, que as ouviu e attendeu.
+
+Pois bem. Despediu-se o artista mas guardou-se a obra. As leis da
+dictadura são leis do paiz. Os auctores e collaboradores d'essa gloriosa
+empreza, acabam em santa paz a digestão do festim, e um _muito a meu
+contento_ que seria a condemnação do proprio decreto em que foi lavrado,
+se não fôra uma ficção constitucional, passa um golpe de esponja sobre a
+logica de uma situação!
+
+Assim era necessario para que quem morrera ministro resuscitasse
+embaixador; isto é, n'um cargo de absoluta confiança politica ao serviço
+de uma das parcialidades que maior guerra lhe movêra!
+
+Um recebe e parte.
+
+Outro não parte e recebe.
+
+O paiz olha e paga.
+
+Á vista de um episodio d'estes haverá criterio moral no paiz?
+
+
+II
+
+
+Se é verdade, o que fica exposto, não deve causar estranheza que o paiz
+não tenha claras noções de seus direitos e de sua responsabilidade;
+direitos pelos quaes deve responder não perante a maioria mas perante a
+universalidade dos cidadãos portuguezes; responsabilidade que lhe
+compete diante da prosperidade publica, da lei e da historia.
+
+O codigo de nossos direitos é a Carta constitucional da monarchia.
+
+Em quanto existir será o vehiculo legal de toda a actividade politica.
+
+Mas quaes são, de entre alguns milhões de portuguezes, os que tem
+conhecimento directo d'esse pequeno volume, que nos custou rios de
+sangue e montanhas de ouro?
+
+O povo, opprimido ainda pela tradição secular da ignorancia que lhe era
+imposta pelo interesse de uma politica de confessionario e de côrte, nos
+tempos do direito divino, sae ainda hoje, lentamente e como que a custo,
+de uma existencia passiva e expressamente concentrada nas cousas do
+mundo physico, para as regiões moraes aonde brilha a idéa democratica da
+sociedade moderna.
+
+Conhece, portanto, a constituição só pela pratica, e como a pratica não
+tem geralmente sido a fiel interpretação da theoria original, não admira
+que o grosso do paiz ao cabo de trinta e tres annos de exercicio
+constitucional, ainda não comprehenda bem até onde chega o alcance das
+armas que lhe poz nas mãos o systema representativo.
+
+As fontes do exemplo, seu guia, espelho e mestre, não lhe tem, de certo,
+vertido os mais puros licores.
+
+ * * * * *
+
+Na cupula do edificio está o poder moderador na pessoa do chefe do
+estado.
+
+É certo que ás espheras serenas, aonde paira, não devem chegar as
+lufadas das paixões partidarias nem os pratos da balança em que se peza
+a sorte arbitraria dos ministerios.
+
+É certo que o rei é irresponsavel.
+
+Mas tambem não é menos exacto que essa irresponsabilidade não é
+congenita ao exercicio da corôa, porém nasce unicamente de um artigo da
+Carta.
+
+Suspensa, pois, de facto a constituição pela dictadura, a
+irresponsabilidade real caduca desde logo.
+
+Morta a causa, desapparece o effeito.
+
+Póde-se, pois, alludir, sem quebra de lei, a um acto importante de
+responsabilidade pessoal, que teve logar no mez de maio do corrente
+anno.
+
+Quatrocentos soldados invadem o paço da Ajuda. Falla a polvora e caem as
+victimas. O duque de Saldanha intima a demissão do ministerio, ao qual
+dera a sua palavra de honra de que nunca se revoltaria.
+
+Cede o rei e concede a dictadura. A bondade natural de seu coração recua
+diante da possibilidade de um conflicto que levasse os salpicos do
+sangue até ás ruas da capital. Em seu animo, inclinado á paz, bate de
+chofre, paralysando-o, a responsabilidade eventual de uma guerra civil.
+
+Não se discuta o acto; pergunte-se unicamente:
+
+Em que ficou o direito que assiste á corôa de escolher livremente seus
+conselheiros responsaveis?
+
+Em que lhe ficou o direito de addiar ou dissolver a camara dos
+deputados, quando um piquete de tropa de linha dissolveu de facto os
+eleitos do povo?
+
+Em que lhe ficou o direito de perdoar, quando, seguramente contra a
+vontade do soberano, o general vencedor castigou o crime de obediencia
+ao juramento prestado?
+
+Tres direitos offendidos. Tres perniciosos exemplos.
+
+ * * * * *
+
+O principal direito do poder legislativo é o de fazer leis que subam
+depois á sancção real.
+
+Direito que se exercita tanto sobre propostas do governo como sobre as
+que dimanam da iniciativa individual dos membros do parlamento.
+
+Mas quem ignora que esta ultima hypothese se evapora, quasi sempre,
+n'uma illusoria garantia e que falta habitualmente ás camaras a energia
+para zelarem, como deviam, os direitos de cada um dos que a ellas
+pertencem, discutindo e apreciando os trabalhos de iniciativa
+particular, mórmente quando recaem sobre assumptos de interesse geral?
+
+Exceptuem-se algumas ninharias locaes e alguns negocios sobre os quaes
+não tenha convindo aos governos o comprometterem-se a favor de uma
+opinião definida, e contem-se os projectos importantes que, saídos da
+carteira do deputado ou do par do reino, tenham chegado á meza do
+conselho de estado.
+
+O direito de interpellação é uma das mais preciosas faculdades do
+parlamento. É a fiscalisação constante, a sentinella permanente do
+cumprimento da lei; a recompensa de bons serviços e o freio de
+iniquidades.
+
+E que acontece frequentemente? Vem um deputado e interpella o ministro.
+O caso é difficil. A defeza hade custar, se não fôr impossivel. Muito
+bem; não se responde. O queixoso renova tres, quatro, cinco vezes a
+embaraçosa pergunta, e a maioria condescendente renova outras tantas um
+adiamento que é sempre a negação de um direito.
+
+ * * * * *
+
+Não lucta o poder executivo com menores contrariedades no exercicio de
+suas legitimas funcções, nem menos vezes abdica de algumas d'estas com
+prejuizo publico.
+
+Transfere ou demitte o governo um funccionario, que está dentro das
+attribuições do poder executivo demittir ou mudar. Rompe a celeuma. Era
+o acto talvez conveniente e moral. Embora. Redemoinham em torno do
+carrasco os parentes da victima, até grau desconhecido no codigo civil,
+e o anjo da amnistia apaga com as pontas das azas a assignatura que
+legalisara a fatal, mas honesta sentença.
+
+Quer o governo prover um logar, ou resiste ao pedido de qualquer
+demissão, sollicitada por terceiro? Sobre o uso de seu direito
+accumula-se tal pressão, que o ministro dobra-se ou quebra, quebrando
+com elle o direito e a moralidade.
+
+Tumultua a ignorancia, explorada pela politica, armando a insurreição
+contra o dominio da lei. Responde o governo á força com a força, no uso
+de incontestavel direito, depois de esgotados os outros recursos? Nem
+sempre. Titubeando entre o dever e a responsabilidade; não achando por
+ventura na consciencia a base do necessario rigor, vacilla, estremece,
+informa-se e contemporisa, sendo talvez necessario ir depois mais longe
+do que podera, se um energico e opportuno exercicio de seu direito
+constitucional tivesse atacado na origem o transtorno da ordem publica.
+
+D'esta unanime indifferença pelos direitos de governos e camaras nasce
+um tristissimo resultado. O governo, olhando só para os outros e não
+olhando para si, julga poder assumir diante do parlamento uma quasi
+attitude de superioridade; o parlamento, vendo no governo a
+maleabilidade de que já por vezes tirou beneficio, acostuma-se a
+acreditar que os ministros devem ser chancella de empenhos ou boceta de
+recommendações.
+
+Tem o paiz o direito....
+
+Adiante. Quem falla n'isso?
+
+ * * * * *
+
+O peor é que, por uma logica inexoravel, aonde falta a noção do direito,
+anda igualmente em falta o sentimento da responsabilidade.
+
+Serio e bem serio deve elle ser, quando seriamente comprehendido.
+
+Mas a verdade é que de responsabilidades ninguem cura, porque a ninguem
+se tornam effectivas.
+
+Cada um faz, geralmente, o que quer.
+
+O ponto está em que haja audacia para fazel-o e algum vestigio de força
+para o sustentar.
+
+Por exemplo:
+
+Manda um ministro pagar sete annos de ordenados a quem não serviu, por
+ter sido desligado da competente repartição. Já foi reparada essa
+extorsão ao thesouro do estado? Já se pediu a responsabilidade d'esse
+inaudito successo?
+
+A Bruxellas! A Bruxellas! E o passado, passado!
+
+E quando se despreza assim a responsabilidade legal, a que assenta em
+cousas tangiveis, o que succederá com essa outra que vive nas regiões do
+mundo moral? Que não entra nos codigos, porque não sae das consciencias?
+Que não sae das consciencias, porque nem tudo arromba o metal e a pedra?
+
+Que sentimento de responsabilidade acompanha o agitador, que a troco de
+alguns reaes, submerge na desordem a vida laboriosa de seus concidadãos?
+
+Que sentimento de responsabilidade influe nas phalanges cerradas de
+eleitores, que envernizam com um diploma alguma carunchosa podridão?
+
+Que sentimento de responsabilidade onera os que despedaçam os idolos da
+vespera, para alimento do fogo em que arde o incenso aos triumphadores
+da ultima hora?
+
+Que sentimento de responsabilidade impera no indifferente, que entre
+dois bocejos, lança a vista, apathica e distraida, para o veio de agua
+que leva á costa o desarvorado baixel da causa publica?
+
+Que sentimento de responsabilidade aconselha o voto do deputado que
+limpa com a dignidade os pés dos eleitores, ou que traz no diploma o
+vinco das libras?
+
+Que sentimento de responsabilidade opprime o funccionario publico nas
+mãos de quem os negocios ficam sempre em processos pendentes?
+
+Que sentimento de responsabilidade experimenta o militar que semeia a
+indisciplina nas tarimbas dos quarteis?
+
+E que sentimento de responsabilidade tem uma nação que, no seu desapego
+profundo ao que de perto lhe deve tocar, se contenta com o sorrir á
+carencia de todas estas responsabilidades?
+
+Essa carencia não fórma ainda o typo completo da nossa sociedade, mas
+alastra-se tanto sobre a politica e sobre a administração, que a
+existencia da nodoa será problematica sómente para quem escuta e não
+ouve; para quem olha e não vê.
+
+
+III
+
+
+Do que dito fica deriva esta natural consequencia:
+
+O paiz não tem vontade propria.
+
+A recordação do que se acaba de passar, no curto espaço de sete mezes,
+dará inequivoca prova d'esta deploravel proposição.
+
+Corria o mez de março de 1870. Governava o partido historico. Houve
+eleição geral. D'ella saiu tão numerosa maioria, que apenas dez ou doze
+candidaturas de opposição declarada conseguiram cantar victoria no dia
+da lucta.
+
+Caiu o ministerio progressista e veio o senhor duque de Saldanha, que,
+mais feliz do que Diogenes, conseguiu ao cabo de alguns dias achar o seu
+homem. Foi ministro do reino o sr. José Dias Ferreira e dissolvida a
+camara dos deputados. No fim de poucas semanas as urnas inchavam com tal
+hydropisia ministerial, que a opposição luctava apenas n'um terço dos
+circulos.
+
+Passou d'esta para melhor vida a pasta do sr. José Dias. Entrou o sr.
+bispo de Vizeu. Pois dezoito dias bastaram para que a maioria, que
+andava na forja, tão luzida e primorosa, se convertesse em refugo diante
+do baculo episcopal.
+
+Terá, portanto, vontade propria o paiz?
+
+Responda o que fica narrado.
+
+É fóra de duvida que ainda ha muito cidadão honesto e intelligente, que
+tem a consciencia do acto que pratica, quando lança um voto na urna.
+Suppôr o contrario seria injusto e pouco verdadeiro. Quem escreve estas
+linhas sabe, por experiencia propria, até aonde póde alcançar o
+desinteresse e subir a dedicação reflectida de centenares de eleitores.
+
+Desgraçadamente a regra é outra. O corpo eleitoral tem por nome Legião,
+e ahi, aonde se conta por dezenas de milhares, nem sempre a
+espontaneidade e o raciocinio constituem a mais pronunciada feição
+d'essa cohorte numerosissima.
+
+O que o paiz quer sabemos nós todos. Quer boa administração; quer paz;
+quer ordem publica; quer finanças prosperas, independencia e moralidade.
+
+O que o paiz não sabe querer é servir-se dos meios legaes para a
+obtenção do que deseja.
+
+E, comtudo, a formula de eterno conselho:--«Ajuda-te que Deos te
+ajudará»--leva mais de cincoenta seculos de existencia nos ouvidos da
+humanidade!
+
+Ora como o paiz não sabe querer, corre tudo geralmente fóra de seu
+influxo directo.
+
+As eleições, a primeira funcção constitucional; a melhor Egeria da
+corôa; a pedra de toque da popularidade; a expressão da mais augusta
+soberania, a soberania popular, não dependem, em sua maioria, do
+sentimento politico, na boa e lata accepção da palavra: systema, idéas,
+principios, mas de uma evolução artificial dentro de tres detestaveis
+corporações que as falsificam com uma influencia impura ou deleteria:
+
+O grupo dos indifferentes;
+
+O rebanho dos timoratos;
+
+A guerrilha dos corruptos.
+
+Para os da testa do rol todos os candidatos são de igual estatura. Uma
+razoira, implacavel por descuidosa, confunde n'uma superficie commum o
+talento e a estupidez; o saber e a ignorancia; a aptidão e a
+inutilidade; a boa fé e a especulação; a honradez e a improbidade. Dão
+ao favor, á cortezia, á amizade e ao empenho, o que deveriam conceder ao
+interesse publico e á reflexão. Para elles tanto vale que entre nas
+côrtes um homem d'estado, como que alli tome assento alguma creatura que
+do velhissimo Adão só tenha herdado o barro quebradiço, ermo de qualquer
+fagulha de espirito.
+
+Quanto mais de ao pé da porta os salteia a petição; quanto mais palpam
+no candidato alguma costella de parentesco; quanto mais de cima lhes
+baixa o memorial, tanto mais batem as redeas ao Pegaso do elogio, que
+vôa de aldeia em aldeia, levando no dorso a musa da recommendação.
+
+Sorrirá o leitor das ampoulas da phrase. Não tem razão. Chama-se a isto
+côr local, ou cousa que a valha.
+
+A lista é para elles uma carta que não necessita de ser aberta. O papel,
+a estampilha, a marca e o portador, bastam para satisfazer-lhes a
+curiosidade.
+
+Porém se os indifferentes são muitos, os timoratos ainda são mais.
+
+Está n'elles a materia prima das maiorias parlamentares.
+
+São o _paiz_ de varios governos.
+
+São a _opinião publica_ de algumas situações.
+
+Á frente d'elles caminha a auctoridade, que se já respigou na primeira
+corporação, ceifa aqui, a fouce plena, por entre braçados de votos, mil
+affagos do eleito ou de quem o mandou nomear.
+
+Tudo varía. Ha revoluções no ceu e revoluções na terra. Giram os astros
+na immensidade e succedem-se no mundo as estações. Tudo varía. Só o
+rebanho dos que votam com quem está de cima estende o lombo á thesoura
+eleitoral com imperturbavel constancia, submissamente pastoreado por
+esses vigarios do Poder na terra, que se chamam administradores de
+concelho, regedores de parochia, escrivães, cabos de policia, vereadores
+e malsins.
+
+Suspende-se o catalogo para não enfadar quem lêr, e lá se foram os
+ministros d'estado e os governadores civis!
+
+E não se diga que nem todos os ministros; nem todos os governadores
+civis; nem todos os administradores de concelho; nem todos os regedores
+de parochia; nem todos os escrivães; nem todos os cabos de policia; nem
+todos os vereadores e nem todos os malsins, trabalham n'essa tosquia.
+
+Tosquia a especie. Dos individuos não se trata aqui e é possivel que até
+não sejam raros os que o não fazem, ou que, á menor repugnancia da
+ovelha, a deixam sair intacta e livre das mãos do tonsurador.
+
+Outros são de peor genio. Travam de pés e mãos a paciente; tomam-lhe o
+pescoço entre os joelhos e, sem que o velo não caia ao fio do
+instrumento, não a deixam saltar do redil para o campo.
+
+E quantas vezes leva na pelle as costuras!
+
+O que mais custa a confessar é que anda tão atrazada a educação politica
+do paiz, que, se a auctoridade não collabora um pouco na formação das
+maiorias, apparecem camaras anarchicas, aonde os chefes são tantos como
+os soldados, e os partidos, por um sentimento de pudor constitucional,
+se dão a si mesmos o nome de _grupos_.
+
+Cumpre que isto não seja assim.
+
+É da maior urgencia que a auctoridade administre e não eleja.
+
+Se, á primeira vista, a intervenção d'ella, mais ou menos directa, pode,
+em dadas circumstancias, aparentar uma sombra de proveito em favor de
+uma necessidade parlamentar e constitucional, qual a da existencia de
+uma maioria solidamente organisada, essa apparencia desapparece ao mais
+ligeiro exame.
+
+Primeiramente, não ha maioria solida quando, em vez da ligação de
+principios, tem só para unil-a a identidade de uma origem viciosa, que
+lhe rouba as condições de prestigio, sem que não pode desassombradamente
+funccionar.
+
+Em segundo logar, ha menor perigo na eleição de uma camara, que pela sua
+turbulencia sirva de escarmento e lição ao povo, do que em habituar este
+a uma subserviencia; que apague n'elle o sentimento de seus direitos e
+de sua responsabilidade, e, portanto, qualquer impulso de vontade
+propria.
+
+ * * * * *
+
+Se a verdade da representação soffre com a intervenção da auctoridade
+nas eleições, não padece com ella menos a regularidade da administração.
+
+Que força moral pode conservar sobre os seus administrados o
+funccionario que, no espaço de alguns mezes, de algumas semanas, de
+alguns dias até, como succedeu ultimamente, apoia o mesmo nome que pouco
+tempo antes guerreara, ou guerreia aquelle que dias antes defendera?
+Voltando, ás vezes, dias depois a combater o que combatera e a
+recommendar o que recommendara?
+
+Que prestigio lhe assiste quando se vê forçado, por interesses
+eleitoraes, a lançar mão da escoria de sua localidade, pelo unico motivo
+de que entre ella pode recrutar algumas dezenas de votos?
+
+Que auctoridade lhe dá o comprometter em vão a sua palavra com promessas
+que não possa cumprir, ou o abater a dignidade de seu cargo tornando-se
+o homem ligio de qualquer suzerania de campanario?
+
+Para se salvar das consequencias do primeiro erro ou do primeiro
+delicto, terá de requintar cada vez mais a violencia ou a sujeição, e,
+ainda mesmo que a consciencia de seu dever ou de sua dignidade lhe não
+tenha consentido que se exceda ou se avilte, a mescla de politica e de
+administração redundará sempre em prejuizo do serviço e em descredito
+das instituições.
+
+ * * * * *
+
+Mas os corruptos? Aonde ficam os corruptos?
+
+Bom seria não polluir a penna com esta hedionda palavra, mas a cousa
+existe e o seu nome é este; e, como se está seguindo um filão de
+verdades, força é que se atravesse esse immundo deposito de abjecções,
+pois de tudo ha na mina,--ora tapetada de esplendidos crystaes, ora
+vertendo lamas infectas infectas--a que vulgarmente se chama eleição.
+
+E mina é, ou parece, para quem faz commercio de votos; commercio que,
+devendo ter tido por berço provavelmente um armario sem pão, vai hoje
+tambem querendo matar a fome de vaidades ou de interesses, nos salões da
+abastança.
+
+Não é o peor corrupto quem se vende por alguns reaes.
+
+É-o muitas vezes quem compra.
+
+Porque, salvas honrosas excepções, a diploma comprado deve corresponder
+deputado vendido.
+
+Ora a corrupção eleitoral cresce de anno para anno.
+
+O sublime do genero é comprar a fazenda com a algibeira do vendedor!
+
+O que parecia molestia esporadica vai-se transformando em epidemia.
+
+É corrupto:
+
+Da penuria---o que se vende a dinheiro;
+
+Da estulticia---o que se vende a promessas;
+
+Da vaidade--o que se vende a fitas;
+
+Do odio--o que se vende a vinganças;
+
+Da pieguice--o que se vende a mesuras;
+
+Do interesse baixo e sordido--o que se vende, remediado de bens de
+fortuna, a qualquer favor que lhe poupe, ou faça ganhar alguns reaes, ou
+o dispense de alguns ligeiros incommodos.
+
+Ainda ha outra especie de corrupção, não tão cynica, porém mais
+perigosa:
+
+A corrupção collectiva em nome da utilidade publica.
+
+São corruptos, por exemplo:
+
+O districto que se vende a estradas;
+
+O concelho que se vende a arames;
+
+A freguezia que se vende a reparos;
+
+A localidade que se vende a concertos;
+
+Tudo com _et coetera_ na clave.
+
+Todos os votos, emfim, que se hypothecam ao lucro.
+
+Trabalhe o deputado por satisfazer as necessidades do circulo. É dever;
+mas não se reduza o beneficio a contracto. Isso rebaixa.
+
+Demais, se o contracto é decente e justo, torne-se extensivo a todas as
+povoações do reino e diga-se depois o que serão os orçamentos das
+camaras municipaes, dos districtos e do estado, e que imposto chegará
+para satisfazel-os.
+
+Não se torne extensivo a todas, e pagará a independencia uma parte do
+preço da compra, que terá de sair do cofre commum.
+
+Paga a honestidade o que lucra a mercancia.
+
+Indifferença, subserviencia, corrupção!
+
+E por ellas e com ellas se atraiçoam os amigos; se quebra a fé jurada;
+se falsificam os escrutinios; se deshonra o mais sagrado de todos os
+direitos!
+
+Uma observação:
+
+Quanto ganhou n'este commercio o operario ou o jornaleiro que vendeu o
+voto por algumas peças de prata?
+
+Concorreu para a feitura de um mau deputado. Maus deputados dão más
+camaras. Más camaras dão maus governos. Maus governos dão más finanças.
+Más finanças assustam os capitaes. O susto dos capitaes faz esmorecer o
+trabalho. Sem trabalho não ha pão, e o jornaleiro e o operario perderão
+mais n'essas _grèves_ forçadas, de semanas e mezes, do que lucraram
+n'esse dia de ignobil veniaga.
+
+Nem ao menos a compensação do proveito!
+
+Estenda-se o argumento a todas as outras fórmas de corrupção e
+achar-se-ha sempre o mesmo fatal resultado.
+
+ * * * * *
+
+Vontade propria no paiz!
+
+São dez horas da manhã do dia 19 de maio de 1870.
+
+Está Lisboa em socego profundo.
+
+Nem a mais ligeira alteração na apparencia da nobre cidade!
+
+A loja não se abre a meia porta; patenteia-se de par em par ao freguez
+que a procura, como a procurara na vespera, pacifico e talvez risonho.
+
+O negociante trabalha no escriptorio.
+
+O operario moureja na officina.
+
+O vendedor ambulante apregoa na rua.
+
+Socego profundo! Uma tal ou qual reacção que houve, sómente semanas
+depois começou a traduzir-se em factos.
+
+E, comtudo, o paiz desandara em dez horas o que lhe levara dez annos a
+andar!
+
+A ordem e a liberdade, o rei e a lei, estavam á mercê da espada!
+
+Francamente; haverá no paiz vontade propria?
+
+
+IV
+
+
+Sem vontade propria; sem que se pense, se compare e se escolha; sem
+iniciativa de dentro e sensibilidade por fóra, não póde haver elementos
+de boa politica n'uma nação que se rege pelo systema representativo.
+
+Porque não ha boa politica sem bons partidos, e não ha partidos
+regulares sem espirito publico no povo.
+
+Quando falta o espirito publico não ha partidos; ha _parcialidades_ e
+_grupos_.
+
+A raiz etymologica é a mesma, mas a accepção philosophica cava um abysmo
+entre estas palavras.
+
+As ultimas são o troco, em cobre azebrado, de uma peça de ouro formosa e
+luzente.
+
+Valor convencional em frente de valor intrinseco.
+
+Partido regular é o que tem logica nas idéas; constancia na defensão
+d'ellas; unidade e disciplina.
+
+Quantos conta Portugal n'estas circumstancias?
+
+A logica:
+
+Estão seis homens em conversa politica. Andam ha dois ou tres annos
+(dois ou tres seculos!) em camaradagem seguida. Frequentam as mesmas
+reuniões e tem por guia identico chefe. Muito bem. Trata-se de uma
+escaramuça de bando? Unanimidade completa? Discute-se um interesse de
+grupo? Completa unanimidade. Mas appareça uma questão economica ou
+social: a liberdade de commercio; a descentralisação administrativa;
+qualquer outra que deva ser crença de escola, e a concordia desapparece,
+sendo talvez necessario que uma parte dos correligionarios busque
+reforço na sala visinha, aonde um conventiculo de adversarios se
+dilacera tambem, á mesma hora, ácerca do mesmissimo ponto.
+
+Grita-se, discute-se, invectiva-se. O amigo é inimigo. O inimigo,
+defensor ardente. Confundem-se os campos e só algum incidente que traga
+a terreiro uma questão grave, uma questão pessoal, por exemplo, terá o
+condão de restituir cada um aos amigos com quem batalhara.
+
+A constancia:
+
+Combate a opposição em pró de uma doutrina. Nos seus jornaes, nos seus
+comicios, na tribuna e no livro bate em brecha com a propaganda escripta
+ou fallada os erros de seus contrarios. Um golpe de fortuna; a fraqueza
+do ministerio; certa manobra parlamentar, deposita-lhe as pastas nas
+mãos. Pois desde esse momento caduca o enthusiasmo pela reforma pedida e
+os erros tomam taes laivos de inoffensivas bagatellas, que talvez possam
+passar, em momentos criticos, por necessidades a que não se póde fugir.
+
+A unidade:
+
+As fusões;
+
+As colligações;
+
+As conciliações.
+
+A disciplina:
+
+O despeito;
+
+A inveja;
+
+A sizania.
+
+Um homem que falla e se move faz mais ruido do que cem, mudos e quedos.
+As individualidades inquietas e ambiciosas das parcialidades politicas,
+dão-lhes muitas vezes a feição com que a condescendencia dos
+companheiros as deixa mascarar, e que, por ser a mais visivel, se torna
+a mais caracterisada.
+
+ * * * * *
+
+Da falta de partidos logicamente organisados e fortemente constituidos,
+não em vista de uma necessidade de momento ou de um ponto especial de
+administração, mas de um systema fixo, tem nascido as approximações,
+esboçadas ou realisadas nos ultimos tempos.
+
+A maior ou menor fraqueza dos grupos tem promovido esses actos, que
+andam em moda permanente de ha cinco annos para cá, mas que deviam ser
+anormaes n'um paiz, que soubesse comprehender bem as instituições que
+nos regem:
+
+Fusões, em que cada um dos fusionados conta pelos dedos quantos governos
+civis ou quantas candidaturas lhe couberam em partilha, e que fundem tão
+bem, que cada um se separa dos outros no momento opportuno, sem que as
+forças da cohesão ponham estorvo a esse trabalho;
+
+Conciliações que nada podem conciliar e que desmoralisam todos e tudo.
+
+Necessita a nação de todos os esforços de seus filhos para arrostar com
+immensas difficuldades? Haja patriotismo e saiba-se usar d'elle.
+Auxilie-se o poder constituido n'essa immensa tarefa.
+
+Diz-se popular o governo? Carregue com as consequencias d'essa
+popularidade. Tome a responsabilidade da iniciativa nas medidas de
+salvação publica.
+
+Pedem as circumstancias que as opposições ensarilhem as armas? Faça-se
+isso lealmente, mas não se confundam nos bancos ministeriaes,
+inutilisando-se mutuamente para os effeitos da rotação no poder, os que
+fóra d'elles podem dar ao paiz melhor documento de sua isenção
+partidaria.
+
+Conciliação sincera e permanente de todos seria a extincção completa dos
+partidos, proposição que antes de ser uma quimera seria um absurdo
+constitucional.
+
+Conciliação, apenas de alguns e temporaria, não seria conciliação; seria
+unicamente um novo elemento de confusão no que anda já tão confundido.
+
+Que temos nós visto e com que resultado?
+
+Maiorias de colligação em frente sempre de opposições colligadas.
+
+Colligações que só tem uma certa desculpa na tenuidade das linhas
+divisorias que separam, por emquanto, uns dos outros os partidos de
+maior valor no paiz.
+
+Como não ha systemas completos de governo, falla este em ordem publica e
+respeito á constituição; aquelle em fomento; esse outro em economias.
+Todos, na organisação das finanças. Mas desde quando a ordem publica, o
+respeito á constituição, o fomento, a economia e a organisação das
+finanças, pontos que devem ser communs a todos os partidos serios, podem
+constituir o programma especial de cada um d'elles? Não prova que anda
+ausente o dogma, ou que é de fé para todos, quando se falla só nas
+exterioridades do culto? Que ha em alguns d'aquelles rotulos mais
+artificio do que verdade? Que são maiores, de grupo para grupo, as
+incompatibilidades de pessoas que de cousas?
+
+ * * * * *
+
+Em Portugal a organisação de um _partido_ é a cousa mais facil do mundo.
+
+Ha tres, cinco, dez homens (não urge que sejam mais) que, desejosos de
+terem uma influencia que não podem alcançar, por andarem confundidos com
+outros que os affogam no numero, buscam o modo de adquirir essa
+importancia que lhes anda roubada, quer pela ingratidão da patria, quer
+pela sombra dos proprios amigos. Problema posto, problema resolvido.
+Inspira-se um jornal. Inventa-se um nome. Chrisma-se um chefe. Falla-se
+no paiz, e, depois de estar prompto o scenario, põe-se o titulo á
+comedia, cujos auctores se esfalfam em dar ao publico, por belleza
+excelsa e privativa d'elles, o que nunca devera passar de logar commum
+n'este ramo de litteratura dramatica.
+
+Outros nem se cansam com estas poeiras. Mettem no laminador o simples
+nome de um homem; estendem-no até que chegue á desinencia adoptada pelo
+uso, e está feito o partido!
+
+O partido!
+
+Pobre vocabulo, que já tens sido a estrella polar de intelligencias em
+busca da perfeição social, quem te diria que viria tempo em que por ahi
+te reduzissem a alampada de viella obscura, ardendo de dia e de noite, e
+mais de noite do que de dia, diante de algum santo, advogado contra as
+cambras em quem deseja trepar ás alturas do poder!
+
+Como se póde chamar partido a qualquer associação de homens, que não
+ache até dentro de si quem possa tomar o peso ás pastas n'um momento de
+crise?
+
+Como se póde dar esse nome a qualquer confraria, que em tempo de
+procissão não possa com o andor, ou dê com a imagem em terra logo á
+beira do altar?
+
+Como merece tal importancia o grupo que não se atreva a galgar sem
+dianteiras a mais leve encosta da governação publica?
+
+E em taes casos a fraqueza é má conselheira.
+
+Para que augmente o numero dos adeptos não se olha a condições.
+
+Todas as vadiagens; todas as deserções; todas as insignificancias; todas
+as immoralidades; todas as traições; todos os cynismos; todos os
+despropositos são bem vindos, quando encarnados em quem dê mais um
+elogio na imprensa ou mais um voto nas côrtes.
+
+Ha eleições. Combate-se com decencia, honra e lealdade, contra alguns
+especuladores que farejam donde correm os ventos. Succube-se. No dia
+seguinte, com a estatistica na mão, cortejam os socios da vespera a
+existencia do facto brutal, e os adversarios, aínda que vencessem pelo
+suborno e pela infamia, recebem um sorriso amavel, prologo e provocação
+de allianças, ao passo que um gesto desdenhoso acolhe os amigos que
+perpetraram o crime de não querer triumphar por identicos meios.
+
+Ó moralidade!
+
+Para obviar á fraqueza, recorre-se ainda á forte alimentação das
+secretarias de estado. Atulham-se as pastas de recommendações. Cada
+dignitario da ordem tem mesa posta na cella. O thesouro é copa e
+cosinha. O despacho é mesa e talher.
+
+Por fraqueza propria se larga o poder e por fraqueza dos outros se torna
+a alcançar, para depois o tornar a perder.
+
+Á fraqueza dos partidos; á falta de escólas politicas definidas, logicas
+e racionaes; á carencia de esta móla indispensavel ao jogo regular das
+instituições representativas, deve esta nação um originalissimo
+espectaculo.
+
+O sr. marquez de Avila e de Bolama, que diz que não tem partido, foi
+ultimamente ministro em 1865, 1868 e 1870.
+
+Que o fosse por ser, como é, zeloso e honrado administrador, não poderia
+causar isso estranheza; mas tel-o sido, n'um paiz constitucional, talvez
+especialmente pela condição de não ser no governo a representação
+ministerial de um partido qualquer, é porventura a maior singularidade
+do liberalismo contemporaneo.
+
+Contae isto ao mais obscuro membro do parlamento inglez, e podeis estar
+certos de que o vosso interlocutor se encurvará, dos pés até á cabeça,
+na mais espantada interrogação que jámais tenha desaprumado a proverbial
+rigidez britannica.
+
+D'esse paradoxo tem resultado que as camaras eleitas sob a immediata
+influencia d'esse distincto homem de estado não lhe tenham produzido
+maiorias que o habilitem a governar, ficando depois sujeitas a deserções
+vergonhosas ou a uma dissolução infallivel. Não se contraría impunemente
+a indole do systema representativo.
+
+
+V
+
+
+Haja partidos sinceros e fortes, e haverá estabilidade nos governos,
+condição em que não vivem as situações que se vão succedendo com pasmosa
+rapidez.
+
+Um ministerio entre nós é geralmente um castello de cartas.
+
+Toma a criança um baralho. Dobra, ampara, ajusta e compõe. Começa a
+desenvolver-se o vistoso edificio. Crescem os estrados; sobem as
+galerias. O que, ha um instante, cabia no bolso, ameaça dar comsigo no
+tecto. Mas venha um grão de arêa; uma carta mal disposta; um movimento
+de impaciencia, ou mesmo um gesto de alegria trema no braço do joven
+architecto, e o que era Alhambra rendada se converterá logo em naipes
+dispersos no chão.
+
+Outro tanto acontece com a politica da nossa terra.
+
+Organisa-se um ministerio com todas as apparencias de força e de vida.
+Parece que o leva ao poder uma onda de popularidade. Em torno ha só
+ruinas. Tem maioria nas camaras e goza da confiança da corôa. Espera-se
+que dure o tempo necessario para, ao menos, transpôr o mar de calmarias
+que se chama--o estudo--e que é preliminar quasi obrigado n'estas
+viagens, ainda mesmo para os pilotos mais experimentados e que uma
+pratica de annos e annos devia já ter desviado de similhantes derrotas.
+
+Mas de repente, sem que até muitas vezes se saiba como e porque, desmaia
+o commandante, esmorece a tripulação, e pede-se ao cabo do rebocador a
+salvação, que não se poude encontrar na paciencia perdida e na energia
+esgotada.
+
+Outras vezes, já voga o navio. De repente, tambem, cavam-se as ondas,
+sem que um minuto antes sopre a menor brisa, e a marinhagem boqui-aberta
+vê que o baixel aprôa ao recife, que, n'um relampago, o descose e
+afunda.
+
+E como póde haver manobra a tempo, se uma parte da tripulação descora
+diante do perigo; outra, por bisonha, cambaleia de enjoada; esta, não
+conhece da faina, e aquella, indifferente ou turbulenta, não quer ou não
+sabe submetter-se a trabalho proveitoso, sendo poucos os marinheiros que
+restam para que o barco possa resistir á tormenta?
+
+ * * * * *
+
+As razões determinantes da instabilidade dos ministerios são de natureza
+objectiva ou subjectiva, mas subordinadas sempre á falta de partidos e a
+todas as consequencias que d'ella derivam.
+
+São de natureza objectiva:
+
+As vacillações do poder moderador diante de tumultos preparados adrede
+na rua, e as quaes, embora nascidas de melindres de obtemperação ao que
+se lhe figurou opinião publica, e embora ligadas na origem a um receio
+de guerra civil ou de derramamento de sangue, tem comtudo influido
+desfavoravelmente desde 1868 na marcha politica do paiz, deixando
+quebrar maiorias que iam, ao lado dos governos, gerindo com alguma
+regularidade os negócios do estado e occorrendo ás mais urgentes
+necessidades financeiras, por meio de augmento nas receitas publicas;
+vacillações que deixam pairar sempre uma tal ou qual incerteza sobre o
+desenlace de qualquer conflicto que de novo se forje, e cerceiam a força
+moral dos governos;
+
+O estado geral do paiz, profundamente anarchisado pelos conselhos da
+especulação, que o tem levado a pedir melhoramentos sobre melhoramentos,
+incutindo-lhe ao mesmo tempo a falsa idéa de que os não deve pagar,
+quando a especulação vê que os adversarios serão os que tem de cobrar o
+augmento de receita, depois de legalmente votado;
+
+A descrença que lavra com referencia aos homens que se succedem nos
+bancos ministeriaes, descrença devida em grande parte ao trabalho
+constante da imprensa em demolir reputações dentro de uma terra tão
+pequena como a nossa, aonde o pessoal de gente habilitada para voltar,
+ou subir, aos conselhos da corôa está em harmonia com a exiguidade de
+população e territorio. Ao cabo de tres mezes de ministerio, ou de
+simples desejo, ás vezes, de ser ministro, é raro o homem que já não
+ande escalavrado no conceito popular e apontado como indigno de tão
+nobres destinos, acabando a nação por acreditar, á força de lh'o
+repetirem uns contra os outros, que Portugal anda entregue a quem o leva
+á perdição com perfeito conhecimento de causa e por erro expresso de
+vontade;
+
+A vadiagem politica dos que percebendo que o governo estaciona na
+carreira ascendente, e que não ha perigo de dissolução ou de qualquer
+outro acto que os contrarie, começam a virar o thuribulo para os lados
+do oriente; ou dos que trazendo já satisfeito qualquer empenho de costa
+arriba, ou perdido a esperança de alcançar o que lhes anda pendente do
+favor ministerial, se deitam a morder a mão que se abriu antes de tempo,
+ou que não quer abrir-se em cornucopia de graças;
+
+A ambição invejosa dos acolitos, que principiam a duvidar de que o
+governo seja o melhor dos governos possiveis, desde que alguns d'elles
+se acham preteridos para o posto de ministro de estado, quando já contam
+dez ou vinte semanas de praça assente nas côrtes, e já pensaram n'um
+discurso, que ainda não poderam pronunciar, por um conjuncto de
+infelicidades inauditas, mas que de certo salvaria a patria se o tivesse
+já humedecido o copo de agua da tribuna parlamentar; a ambição invejosa
+dos especialistas... de todas as pastas.
+
+São de natureza subjectiva:
+
+A falta de firmeza para se resistir, em todas as estações do processo
+politico, á pressão externa que difficulta os movimentos do ministerio,
+que, como parte que é de um poder independente, segundo a carta, deve
+ter plena liberdade de acção e de conselho dentro da esphera legal de
+suas attribuições;
+
+O pequeno valor da media politica ou pessoal dos conselheiros
+responsaveis da corôa, entre os quaes por vezes uma minoria de
+individualidades importantes é absorvida, aos olhos do paiz, na
+obscuridade relativa de seus companheiros, que talvez escolhidos por
+interesses de _coterie_, prejudicam, no sentir popular, quem tinha
+melhores direitos a sentar-se nas cadeiras ministeriaes;
+
+A falta de prestigio que resulta de se reunirem no governo individuos
+que dias antes se olhavam de revez, e que (sem que o paiz tivesse
+conhecimento da purificação anterior e reciproca dos delictos de que
+mutuamente se accusavam, e em que talvez o povo não acreditava, mas em
+que deviam acreditar elles, uma vez que os expunham) apparecem de chofre
+tão intimamente ligados, que se diria que nunca a sombra de uma nuvem
+passara entre esses obreiros da ultima hora;
+
+A constituição de ministerios sem que os membros d'elles tenham
+formalmente combinado entre si a maneira de resolver os mais urgentes
+negocios, deixando para conversas, em conselho de ministros, o que
+devera ter sido conversado antes de subirem os decretos de nomeação á
+assignatura do chefe do estado--«Entremos e depois conversaremos»--é a
+formula invertida da mais elementar noção de politica constitucional, em
+que a responsabilidade solidaria dos governos exige um perfeito accordo
+entre os membros do ministerio. É a remora na quilha. O travão na roda.
+A impotencia ou a discordia;
+
+A gravitação em torno de cada ministro de um grupo especial de
+satellites, que, segundo é mais ou menos numeroso, lhe dá voz
+preponderante no conselho, ou lhe amesquinha a importancia entre os seus
+proprios collegas;
+
+A falta de cumprimento de promessas feitas na opposição, e as opiniões
+imprudentemente sustentadas n'esse campo para grangeio de popularidade,
+mas que se convertem depois em armas de guerra ao serviço dos mesmos
+contra quem foram dirigidas quando o poder estava longe do braço e o
+odio perto do coração;
+
+A versatilidade de temperamentos que ora se desencadeiam em paroxismos
+de ardor para sustentar a posição adquirida, ora se espreguiçam em
+bocejos de tedio, não acertando em achar entre o aborrecimento e a teima
+o meio termo de prudencia corajosa e placida.
+
+Accrescente-se a tudo o nosso estado financeiro e facilmente se
+comprehenderá que ande o paiz mal com todos os governos, e que andem
+todos os governos mal com o paiz; isto é: que a instabilidade seja a
+feição mais caracteristica dos gabinetes, por se reflectir n'elles a
+perturbação moral que agita a sociedade em que vivem.
+
+ * * * * *
+
+E não se queixe dos governos o paiz.
+
+Seria o mesmo que o original a queixar-se da photographia, apezar de a
+luz lhe ter sido exactissimo pintor.
+
+Quereis que o edificio não grete, quando a base em que assenta não tenha
+a firmeza indispensavel?
+
+Quereis que a planta vos dê flores e fructos, se as raizes não acharem
+alimento no solo?
+
+Quereis effeitos sem causas?
+
+Quereis que as causas não produzam seus necessarios effeitos?
+
+Effeitos em virtude dos quaes é raro que um governo viva entre nós menos
+da propria força do que na debilidade alheia.
+
+Continuae, portanto, a desprezar o desenvolvimento das forças moraes do
+paiz e deplorae depois que o governo seja ámanhã uma simples questão de
+densidade relativa, em virtude da qual as camadas mais leves do talento
+ou da aptidão, da honestidade ou do patriotismo, subam á superfície da
+governação do estado, alagando em mil desgraças o paiz, que terá de
+soffrer as consequencias do facto, sem se poder até queixar d'ellas com
+razão, porque as deverá á sua propria imprevidencia, senão á sua propria
+cumplicidade!
+
+O que é finalmente impossível é que o governo em Portugal ande arrendado
+a trimestres, e que se resolvam as crises por conferencias que nada
+resolvem, e as conferencias por crises que ainda resolvem menos.
+
+Circulo vicioso em que se pode gastar a vida a percorrer centenas de
+leguas sem que se pize mais do que um palmo de chão!
+
+
+VI
+
+
+É ponto axiomatico que da instabilidade das situações resulta
+naturalmente a falta de confiança publica.
+
+Quando se não sabe qual será o dia de ámanhã, o sentimento da duvida,
+assaltando os espiritos, suspende n'elles esse _quid_ mysterioso, em que
+se fundam os actos do raciocinio e da vontade.
+
+O raciocinio obscurece-se á falta de bases solidas; a vontade contrae-se
+no receio.
+
+Sem confiança publica não funcciona regularmente, portanto, o systema
+representativo, que é o governo do livre arbitrio, aconselhado pela
+intelligencia, dentro das orbitas legaes do direito e da acção.
+
+Comprehende-se, pois, que o governo absoluto possa, até certo ponto,
+existir sem esse poderoso auxiliar, porque centralisando em si a origem
+da lei e sendo o juiz unico da utilidade, em nome do interesse social,
+produz pela força e pelo segredo o que no governo da opinião deve nascer
+da liberdade.
+
+Perante as instituições que nos regem o caso é outro. Sem confiança
+publica, saída das entranhas do paiz, adoece tudo e morre no seio de uma
+geral estagnação.
+
+E a confiança publica não se intima com programmas de ministerios nem
+com discursos de parlamentos. Positivista como o apostolo, quer ver para
+acreditar. O facto para ella é o melhor argumento. Serve-lhe mais uma
+realidade do que mil intenções.
+
+Quer, pois, factos, e factos estaveis. Quer realidades, mas realidades
+serias.
+
+Necessita de saber com o que póde contar.
+
+Sendo isto verdade, como é, que confiança publica póde haver n'uma nação
+aonde as situações politicas andam como as luas, ora em minguante, ora
+em crescente, mas em prazos tão curtos e tão irregulares, que não ha
+sciencia astronomica que se atreva a calcular as intermittencias das
+phases?
+
+E que fazem os governos para diminuir as consequencias de essa
+instabilidade, que está sendo a vida normal de todos elles?
+
+Ligam n'uma tradição corrente algum systema certo de administração?
+
+Deixam os negocios mais urgentes sem solução de continuidade?
+
+Atam logicamente o que é ao que foi, preparando facil soldadura ao que
+ha-de ser ámanhã?
+
+Nem sempre.
+
+O mais commum é:
+
+Que se anarchise a tradição envolvendo-a em reformas mais de nomes do
+que de idéas;
+
+Que se abra mão do que é urgente em beneficio do apparatoso;
+
+Que se semeie de difficuldades a resolução futura do que não se soube
+realisar.
+
+ * * * * *
+
+E que fazem os partidos?
+
+Apertam as filas em presença do ataque?
+
+Obrigam a governar depressa e bem?
+
+Sujeitam-se lealmente ás consequências de uma batalha perdida?
+
+Poucas vezes.
+
+Não faltam exemplos de que:
+
+Aos primeiros tiros debandem as tropas;
+
+As maiorias não se considerem responsaveis pela frouxidão ou pela
+incapacidade dos governos que apoiam;
+
+A embuscada traiçoeira substitua o combate a peito descoberto.
+
+E os governos a mudar, e a confiança publica a desapparecer!
+
+Circumstancia deploravel que envolve n'um descredito commum o fructo
+amargo da sedição, e a flôr esperançosa de algum ministerio que por
+ventura teria de resolver-se em pomos sazonados, se lhe dessem ar e luz,
+espaço e tempo, solo e nutrição!
+
+Atmosphera suffocadora em que respira, desde o primeiro momento, tanto o
+que nasce da violencia ou da intriga, como o que deve a existencia á
+indicação constitucional!
+
+ * * * * *
+
+Incerto do presente e, ainda mais, do futuro, como quereis que o paiz
+progrida desafogado; se uma perpetua interrogação é a formula de nossa
+politica, para além da qual ninguem sabe se ha fojo ou caminho?
+
+A experiencia é a grande mestra da vida, e como o instincto não é talvez
+mais do que a experiencia dos individuos, crystalisada nos attributos da
+raça, o instincto popular, auxiliando a razão, gera a desconfiança
+publica, quando vê que de mudanças repetidas não tem saido mais do que
+augmento de incompatibilidades, antigas nos homens, e de confusão,
+preexistente nas cousas.
+
+ * * * * *
+
+As dissoluções succedem-se em vertiginoso tropel. Andam as urnas em
+serviço consecutivo, e, quanto mais esfalfadas, menos força tem para
+suster na fuga a confiança publica, que se assusta com estes appellos
+repetidos, symptomas de grave molestia nas funcções constitucionaes do
+paiz e a mais desgraçada escola de devassidão para a massa dos
+eleitores.
+
+Nove dissoluções da camara dos deputados em treze annos! E para que?
+
+Para que o fabrico de diplomas tenha entrado na industria politica, como
+officio de applicação permanente, e a confiança publica olhe cada vez
+mais de soslaio para esse laboratorio de popularidades a tanto por voto.
+
+A confiança vive de paz e de ordem. Ora as dissoluções repetidas são a
+revolução dentro das instituições, quando as não aconselha uma
+impreterivel necessidade. Compromettem a paz sem salvar o poder.
+
+Condemnar a revolução, a verdadeira revolução, a que batalha fóra da lei
+mas em nome de um grande principio, seria condemnar o advento da
+liberdade em todos os paizes aonde ella resplandece. Entre nós, por
+exemplo, 1820 e 1833 são datas de gloriosa recordação. Mas os motins de
+ambição em torno das pastas; os tumultos de capricho em volta das urnas,
+tanto mais perigosos quanto mais engendrados á sombra da lei, só podem
+ter comparação em alguma d'essas revoluções em que se grita por amor ao
+ruido e se destroe por affecto á variedade.
+
+A paz compromette-se. Não essa paz material que alguns soldados podem
+facilmente fazer respeitar; mas a paz entre os visinhos da aldeia; a que
+não póde resistir a estas amiudadas provações, e que, á falta de tempo
+que apague, entre eleição e eleição, a lembrança dos conflictos que
+sempre as acompanham, cede o campo á guerra de personalidades hostis
+para todas as transacções da vida publica e particular. Os espiritos
+incommodados pelos incidentes de tantas brigas, fazem com que o povo
+maldiga esse fermento de discordia que por vezes o entalla entre
+influencias poderosas, e d'este mal-estar local, multiplicado pela
+freguezia, pelo concelho e pelo districto, sae uma das maiores verbas
+para a somma geral da desconfiança em que vive a nação.
+
+E não costumam as dissoluções salvar o poder. Pelo abuso d'ellas, o brio
+partidario anda tão esmorecido que é frequente o ver-se que certas
+candidaturas, ministeriaes na vespera da eleição, se transformam em
+deputados eleitos de opposição, quando no dia seguinte o especulador,
+que só adorava no governo o influxo da auctoridade, começa a buscar em
+novas regiões a continuação do mesmo favor. E o governo recua de
+espantado diante d'estas deserções sem se lembrar de que entre o partido
+e a turba collecticia; entre a convicção e o lucro; entre a coherencia e
+a vagabundagem, existe a mesma distancia que entre elle e um verdadeiro
+ministerio, segundo o espirito do systema representativo, leal e
+puramente executado!
+
+ * * * * *
+
+Como póde haver confiança publica n'uma terra que vê com frequencia os
+governos estudarem quasi exclusivamente na legislação dos outros paizes
+as reformas a que devem proceder, sem que lhes occupe a menor attenção a
+indole e o estudo do povo portuguez, e darem á theoria pura, senão
+impura ás vezes, o que devia tambem ser dado, em parte pelo menos, á
+pratica do solo em que é deitada a semente?
+
+Imprudencia em virtude da qual muitas reformas ficam em meio, por não
+haver sequer pessoal idoneo que lhes dê conveniente execução.
+
+Como inspirar confiança a um paiz em que a questão fazendaria anda e
+desanda quasi sempre dentro da esphera mesquinha de uma questão de
+parcialidades, ora votando-se, ora negando-se o lançamento de impostos,
+segundo se priva ou não com a politica ministerial?
+
+Como, se a instabilidade nas pessoas e nas leis, nos factos e nas
+opiniões, faz com que a duvida coaja pelo susto a liberdade do paiz em
+suas expansões de actividade material, matando até n'elle, por constante
+e profunda, o sentimento bemfazejo da esperança!
+
+
+VII
+
+
+Quando não ha confiança publica, soffre com isso o desenvolvimento da
+riqueza nacional.
+
+A falta de confiança fazendo irremissivelmente baixar o preço dos
+titulos de divida consolidada, a cargo do thesouro, deprecia, _ipso
+facto_, todos os valores do paiz, á excepção da moeda, que então mais
+vale porque mais com ella se compra.
+
+Depreciação que não póde deixar de ter logar n'uma terra como a nossa,
+em que o papel do estado é a primeira base das grandes operações de
+credito e em que o estado é o maior concorrente ao emprego dos capitaes
+disponiveis.
+
+Do facto economico da depreciação dos valores nacionaes, pela baixa dos
+fundos, resulta logicamente uma diminuição na riqueza capitalisada e a
+necessidade, portanto, de reconstruir pela accumulação da renda o
+capital diminuido pela depreciação dos valores.
+
+A circulação, pois, esmorece, collaborando tambem para este resultado
+ora o susto que se apodera dos capitaes em especie, ora a esperança para
+elles de mais rendoso emprego quanto mais, na continuação da crise, fôr
+subindo o valor da moeda metallica.
+
+Dois sentimentos, que partindo de polos oppostos, se encontram todavia
+no terreno da retracção, da qual não saem geralmente senão para
+augmentarem a verba da divida fluctuante do estado, o qual por meio de
+um juro alto, pago á custa da nação, affronta assim com uma concorrencia
+desleal o commercio e a industria do paiz.
+
+ * * * * *
+
+Aceito o facto da retracção dos capitaes e da capitalisação de uma parte
+da renda, em vista de uma prudente reserva, a industria começa desde
+logo a padecer com a existencia d'elle.
+
+O credito, por uma inevitavel consequencia, restringe o campo de suas
+especulações, operando mais sobre a representação de valores já creados
+do que na creação de novos valores, dependentes quasi sempre de maior ou
+menor risco, que a desconfiança exagera.
+
+Depois, o consummo do paiz, influenciado pelo estado geral, limita os
+seus pedidos, e essa limitação não estimulando a offerta por meio de
+aquelle poderoso agente economico, repercute-se logo em abatimento na
+producção, principalmente na fabril, que só cria valores em vista da
+permutação, e que tem no paiz o seu quasi exclusivo mercado.
+
+A agricultura, a nossa grande industria, estaciona tambem no grangeio de
+novas riquezas; não desbrava, arroteia, melhora e compõe, à falta de
+capitaes que a auxiliem no fomento da terra, ou de preço remunerador
+para os artigos de sua producção, alcançada á força de pesados
+sacrificios, em tempos de desconfiança geral.
+
+E, comtudo, no desenvolvimento de nossa industria agricola está de certo
+um dos maiores elementos da prosperidade do paiz.
+
+Cada hectare de charneca brava, que a roçadoura entrega á enxada e á
+charrua, é mais um degrau subido no caminho da civilisação; mais um
+passo na estrada da riqueza e da moralidade.
+
+Menos uma enxerga de hospital.
+
+Menos um registro de cadêa.
+
+Menos um farrapo de nudez.
+
+Menos um grito de fome.
+
+Mais trabalho e menos miseria.
+
+Mais um augmento de receita para o thesouro; menos uma amortisação de
+valor productivo.
+
+ * * * * *
+
+Não é menor o prejuizo que soffre o commercio com a desconfiança
+publica.
+
+Basta a consideração de que, baixando o consummo e a producção, devem
+descer as operações da troca, para que se torne bem manifesta essa
+verdade.
+
+Não se desenvolve a indole empreendedora do commercio quando o credito
+encolhe as expansões de seu efficaz auxilio, negando-se a descontar-lhe
+as probabilidades de ganhos futuros.
+
+D'esta frouxidão de mercados, acompanhada pelo retraímento do credito,
+nasce uma situação difficil em que só á força de paliativos perigosos se
+honram os compromissos tomados.
+
+O proprio commercio de importação, o que serve necessidades especiaes,
+que não dependem da producção nacional, ou para as quaes não chega a
+industria do paiz, anda sujeito em ponto sensivel ás consequencias
+d'esse estado de cousas.
+
+Emquanto ao commercio de exportação, quando o capital desconfiado se
+recusa a fecundar o solo, principal fonte de aquella manifestação de
+riqueza, e o credito lucta com o medo, os algarismos de suas transacções
+não soffrem comparação com as sommas que a producção, favorecida por
+outras circumstancias mais fecundadoras, póde levantar do mercado
+estrangeiro.
+
+Em 1851 teve logar o movimento a que se deu o nome de Regeneração. Não é
+logar aqui para se avaliarem as consequencias d'esse facto, que
+parecendo ter sido então de grande valor politico, talvez lançasse á
+terra bastantes sementes de desorganisação partidaria, que hoje
+frondejam em cyprestes de luto. O que é, porém, inegavel é que a
+confiança com que a opinião publica recebeu essa situação, activando por
+todos os modos a vida do paiz, produziu os seguintes resultados,
+esplendidos debaixo do ponto de vista dos interesses materiaes e devido,
+mais do que tudo, a cinco annos de paz e de estabilidade no governo, á
+sombra de um partido numeroso, embora artificial:
+
+
+COMMERCIO DE PORTUGAL
+
++------------------------------------------------+
+| ANNOS | IMPORTAÇÃO | EXPORTAÇÃO |
+|----------+------------------+------------------|
+| 1851 | 13,749:000$000 | 8,228:000$000 |
+| 1856 | 20,452:000$000 | 16,299:000$000 |
+|----------+------------------+------------------|
+| Augmento | 6,703:000$000 | 8,071:000$000 |
++------------------------------------------------+
+
+Em cinco annos duplicou a exportação! Augmento sem precedente na
+historia moderna do paiz.
+
+Verdade é que a reforma das pautas deve ter influido até certo ponto nos
+algarismos citados, especialmente no que respeita ao commercio de
+importação, assim como a maior facilidade de vias de communicação no
+resultado geral; mas é indiscutivel que a confiança publica tenha
+poderosamente contribuido para o augmento descripto, espalhando por todo
+o paiz com mão larga o capital e o credito.
+
+De 1861 a 1865 geriu um governo historico os negocios do estado. Essa
+situação, apoiada por um partido intimamente convencido de que
+trabalhava no bem do paiz, teve a estabilidade necessaria para que a
+confiança publica não desertasse da vida economica da nação.
+
++------------------------------------------------+
+| ANNOS | IMPORTAÇÃO | EXPORTAÇÃO |
+|----------+------------------+------------------|
+| 1851 | 26,634:000$000 | 14,383:000$000 |
+| 1865 | 24,822:000$000 | 20,108:000$000 |
+|----------+------------------+------------------|
+| Augmento | | 5,725:000$00 |
++------------------------------------------------+
+
+Isto é: um augmento de 40 por cento no commercio de exportação n'um
+periodo de quatro annos, resultado tão lisongeiro que pouco o affecta a
+diminuição experimentada no commercio de importação, na somma de
+1.812:000$000 réis.
+
+Attenda-se igualmente a que as inscripções de 3 por cento ficaram a
+perto de 50 por cento quando o ministerio historico deixou o poder, no
+fim de quatro annos de exercicio.
+
+ * * * * *
+
+O desenvolvimento da riqueza nacional necessita de braços.
+
+Ora quando a confiança no futuro do paiz baixa no animo do povo,
+pronuncia-se cada vez mais a tendencia para buscar em outras regiões o
+bem-estar que a patria não parece prometter.
+
+Ou se emigra ou se deseja emigrar.
+
+E o primeiro caso não é talvez o peor para o paiz.
+
+Mau é que quando a população não superabunda (pois o dobro d'ella
+caberia facilmente desde o Minho até ao Algarve se o paiz produzisse o
+que é susceptivel de produzir) os nossos irmãos vão levar a terras
+estranhas a actividade que poderiam empregar dentro da patria.
+Compensam, porém, em parte, este mal os capitaes que a emigração tem
+lançado no paiz, depois de os adquirir no labor de muitos annos longe da
+patria. O que não tem compensação é essa vaga anciedade de espirito que
+se traduz em ociosidade perigosa, quando o homem, profundamente
+convencido de que o seu trabalho no paiz nunca o poderá enriquecer,
+oscilla por longo tempo entre a esperança no El-Dorado e os vinculos que
+o prendem á terra em que nasceu, não pedindo ao braço mais do que o
+estrictamente necessario para, em duas ou tres horas de trabalho por
+dia, ganhar com que satisfazer as mais urgentes necessidades.
+
+Ainda que a idéa da emigração o não visite, esta expressão:--para que me
+hei-de cançar?--é tão frequente formula de desconsolo, que ha-de
+forçosamente influir na somma geral da producção.
+
+Poder-se-ha tambem negar que a falta de confiança influa na população do
+paiz, obstando á creação de novas familias pelo receio de que desgraças
+futuras cerceiem os haveres de casal?
+
+ * * * * *
+
+Que grangeio de riquezas póde haver quando, pelo desapparecimento
+successivo de leis de impostos, tão sensatas quanto o permittiam as
+urgencias do thesouro, se não sabe sobre que expressão de riqueza cairá
+algum tributo vexatorio ou ruinoso?
+
+Quando a confiança publica duvida da boa applicação dos dinheiros
+publicos, mudando-lhes um governo de poucas horas o emprego que lhes
+destinara outro governo de poucos dias?
+
+Quando não adquire a certeza de que a um ministerio, que vive em
+perpetuos balanços, lhe chegue o tempo para cuidar na independencia das
+quinas de Portugal?
+
+Quando o motim da rua influe na duração dos ministerios, ou n'elle
+influe a pressa das opposições ajudada pela insignificancia dos
+governos, e a confiança publica recua espantada diante d'estas mutações
+de scena?
+
+Quando a devassidão politica segreda ao ouvido do pobre que a riqueza é
+um crime e o trabalho uma escravidão?
+
+Logo que estas circumstancias se dêem é impossivel que a riqueza se
+desenvolva. Trata-se mais de defender do que de augmentar; de conservar
+do que de produzir.
+
+Um fatal estacionamento trava a roda da prosperidade publica.
+
+A fabrica, o navio, o campo, a loja, o escriptorio e a officina moderam
+a actividade.
+
+E o medo, quebrando todas as energias, reina despoticamente sobre um
+povo de assustados.
+
+Mau rei e mau povo.
+
+
+VIII
+
+
+Nem no que fica escripto, nem no que adiante segue, existe a estulta
+pretenção de tratar a questão do imposto, tão melindrosa e complicada,
+ou de resolver o problema financeiro, tão complicado e melindroso.
+
+Trabalho é esse para mais rijos pulsos.
+
+O que unicamente aqui se quer é reforçar com alguns argumentos, e poucos
+algarismos, a demonstração de uma these politica, cuja resolução deve
+ter immediata influencia sobre esses dois momentosos assumptos.
+
+ * * * * *
+
+É fóra de duvida para quem não se deixa voluntariamente enganar, ou é
+traiçoeiramente enganado, que as forças do paiz ainda podem com mais
+alguns sacrificios tributarios, sem que a vida economica d'elle seja
+atacada nas fontes em que bebe a existencia.
+
+Mau serviço faz ao povo quem, desattendendo o estado da fazenda publica
+e em nome de interesses de bando, lhe incute no espirito a negação
+d'essa verdade, pois que essa negação, contribuindo para augmentar cada
+vez mais o _deficit_, redunda em prejuizo não só do thesouro, como dos
+proprios contribuintes, que tem de ser opprimidos com mais violentos
+encargos, á medida que se fôr demorando a applicação do remedio, sem o
+qual se parará fatalmente na morte.
+
+A ultima contribuição predial lançada foi a seguinte:
+
+No continente:
+
+Contingente { ordinario 1.649:211$000
+ principal { extraordinario 329:842$200
+
+Contingente de predios
+ novamente inscriptos 36:000$000
+
+Viação 659:684$400
+
+Falhas 46:177$900
+
+ ------------- 2.720:915$500
+
+Nas ilhas adjacentes:
+
+Contingente { ordinario 178:903$970
+ principal { extraordinario 17:890$397
+
+Contingente de predios
+ novamente inscriptos 3:850$000
+
+Viação 71:561$588
+
+Falhas 5:009$319
+
+ ------------- 277:215$274
+
+ Somma total 2.998:130$774
+
+que recae sobre um rendimento collectavel, em verbas redondas, de:
+
+No continente 22.300:000$000
+Nas ilhas 2.750:000$000
+
+Ora este rendimento collectavel de 25.050:000$000 réis representa
+aproximadamente 50.000:000$000 réis de producto bruto da propriedade, o
+qual deve subir visivelmente a mais elevada quantia se se calcular:
+
+1.^o Que os dizimos, no tempo da velha monarchia, em 1812, por exemplo,
+deviam ter produzido a somma de 5.400:000$000 réis, porque o rendimento
+da contribuição extraordinaria de defeza, n'esse anno, a qual era de um
+terço dos dizimos, produziu a verba de 1.800:000$000 réis; d'onde
+resulta que já n'essa epoca o producto bruto dos fructos da terra devia
+chegar a mais de 50.000:000$000 réis.
+
+2.^o Que a producção da terra tem augmentado, porque, além de occorrer,
+em grande parte, a um accrescimo de população a qual era, em 1811, de
+2.877:071 almas, e em 1863 de 4.341:319, tem influido no commercio de
+exportação (para o qual a industria fabril entra apenas por uma quinta
+parte) e influido de modo que esse ramo de commercio subiu de
+5.581:000$OOO réis, em 1842, a 20.108:000$000 réis, em 1864, sendo de
+18.041:000$000 réis em 1868.
+
+3.^o Que, subindo o rendimento colletavel da propriedade urbana a
+3.542:000$000 réis, representa o producto bruto do solo uma quantia que
+deve rastejar 46.000:000$000 réis, a qual dividida por 4.341:519
+habitantes, dá uma verba media annual de pouco mais de 10$000 réis para
+alimentação, em generos, de cada um d'elles, o que é absurdo. Verdade é
+que o paiz importa generos alimenticios cujo valor deve accrescer ao dos
+algarismos citados, mas tambem é exacto que a verba de 46.000:000$000
+réis é, por outro lado, desfalcada pela exportação de milhares de contos
+de réis em objectos de alimentação; pelas reservas para sementeiras, e
+pela inserção, em varias matrizes, de mattos, pastagens, florestas e
+outros artigos que não collaboram directamente na alimentação do povo. O
+que não é possível é que cada cidadão portuguez consumma alimentação no
+valor medio diario de menos de trinta réis, o que seria expressão de
+miseria tal, que o paiz teria acabado á falta de gente.
+
+Identicas observações se poderiam fazer com relação a muitos outros
+rendimentos do estado, se nos traços rapidissimos do presente escripto,
+podesse caber uma analyse miuda do que fornece cada um d'elles ao
+thesouro publico.
+
+Note-se unicamente de passagem que a verba da contribuição industrial
+leva quasi á conclusão de que o paiz anda descalço e nu; de que não
+dorme debaixo de telhas nem conhece o _conforto_ moderno, que augmenta
+cada vez mais o numero de certas superfluidades dando-lhes a natureza de
+necessidades verdadeiras.
+
+ * * * * *
+
+É pois fóra de duvida que os rendimentos publicos podem ser augmentados
+por meio do imposto.
+
+O que é absurdo e vexatorio é que novos addiccionaes venham
+constantemente aggravar as desigualdades já existentes, ao ponto de
+tornal-as intoleraveis pela comparação.
+
+Pague-se, mas paguem todos e proporcionalmente.
+
+Mas se aquella proposição é verdadeira com referencia á massa geral das
+transacções materiaes do paiz, será possivel que o augmento de tributo,
+só por si, chegue para dar prompto allivio á crise em que labora a
+fazenda nacional?
+
+Seria loucura o pensal-o.
+
+O _deficit_ do anno economico que teve fim em 30 de junho do corrente
+anno sobe talvez de facto a perto de 8.000:000$000 réis!
+
+Vê-se, pois, que pedir o saldo do orçamento ao imposto, seria augmentar
+este de fórma que o tornaria impossivel debaixo do ponto de vista da
+ordem publica, e, ainda mais, sob o aspecto economico.
+
+Seria atacar a producção na origem; arruinar o paiz.
+
+Para se alcançar um augmento effectivo de cobrança no valor de
+8.000:000$000 réis, quanto seria necessario lançar, attendendo á quebra
+que soffreria o movimento economico do paiz em todas as suas
+manifestações e á repercussão d'essa quebra na cobrança do imposto?
+
+Nem pensar n'isso é bom.
+
+ * * * * *
+
+Bastará o auxilio das economias--isto é: de reducção nas despezas--dado
+à prudente elevação do imposto, para pôr a nado a encalhada e fendida
+nau de nossa fazenda?
+
+Ainda assim, não. Quanto mais vindo as economias desacompanhadas de tal
+soccorro!
+
+As economias são uma boa e excellente cousa, como funcçao ordinaria de
+governação publica e elemento de confiança nos destinos do paiz.
+
+Para salvação não bastam.
+
+Tem-se abusado d'essa palavra sonora, martellando com ella o espirito
+popular, para favorecer intuitos de mando e combater com ella o augmento
+de contribuição.
+
+Poupam-se alguns contos de réis por um lado, quando se poupam.
+Esbanja-se, pelo outro, o capital do bom juizo publico, dilapidando-o,
+com falsas idéas.
+
+A differença é contra o paiz.
+
+Quem não deseja que se economise até ao ultimo real na administração do
+estado, sizando com mão avarenta todos os gastos que não forem
+indispensaveis á gerencia da nação?
+
+Ninguem.
+
+Quem não pensa que a economia deva ser permanente empenho de todos os
+homens publicos?
+
+Ninguem.
+
+Quem não vê na reducção das despezas um dos melhores meios para alliviar
+as finanças das difficuldades que as peiam?
+
+Ninguem.
+
+Mas quem faz das economias bandeira exclusiva de parcialidade?
+
+Quem lhes attribue o condão de fazer brotar o dinheiro em jorros taes,
+que matem a sede de meios em que ardem os cofres do paiz?
+
+A especulação.
+
+Economise-se, que economisar é proveito e dever.
+
+Mas o _deficit_ é talvez de 8.000:000$000 réis!
+
+Com que economias o quereis attenuar em ponto sensivel?
+
+Ha muito a cortar no matagal do orçamento?
+
+De accordo. Corte-se; e corto-se desapiedadamente.
+
+Mas quanto?
+
+A resposta mata a parte politica da questão. O lemma esfarrapa a
+bandeira.
+
+Por isso até hoje a economia tem sido mais uma formula geral de
+programma de grupo, do que a applicação immediata de um principio santo.
+
+Mas a idéa é tão boa em si, que, apezar de se terem empregado bem as
+diligencias para a desacreditar, alguns resultados vai produzindo.
+
+ * * * * *
+
+Ora se o imposto e a economia não são sufficientes hoje para avolumarem
+facilmente as nossas receitas até ás ultimas visinhanças de nossas
+necessidades, o que pode, senão o desenvolvimento da riqueza publica,
+estendendo a base da materia tributavel, arredar dos horizontes do
+futuro a cerração em que andam vendados?
+
+Desenvolvimento de riqueza pela confiança, e de confiança pela extincção
+da detestavel politica em que se tem vivido nos ultimos annos, e que, de
+envolta com a moralidade, vai fazendo declinar os interesses materiaes
+do paiz.
+
+Nos ultimos tres annos a contribuição de registro e o rendimento das
+alfandegas tem baixado por fórma sensivel, pois tendo sido creados desde
+1867 novos impostos, ou augmentados os então existentes, na importancia
+de 1.816:000$000 réis, sómente tem a receita publica crescido em cerca
+de 1.200:000$000 réis.
+
+A desconfiança a cercear as forças reaes do paiz!
+
+Promova-se, pois, o desenvolvimento da riqueza nacional.
+
+A base antes da cupula.
+
+Promova-se, não por meio de um fomento _à outrance_, que onere a divida
+publica com juros superiores ás vantagens que se pódem auferir d'elle,
+mas por via de uma prudente applicação d'esse agente poderoso, resoluto
+e valentemente auxiliado pelas forças moraes que o possam tornar
+permanentemente productivo e proficuamente fecundante.
+
+É inegavel que o paiz deve grandes serviços ás administrações que tem
+curado de o dotar com os melhoramentos de que precisava. Mas talvez seja
+opportuno continuar a suster um pouco tão violenta carreira, a fim de
+que o thesouro não rebente no meio do caminho.
+
+Tem-se gasto desde novembro de 1852 até 30 de abril de 1869 em obras
+publicas:
+
+No continente:
+
+Estradas ordinarias 15.836:803$683
+
+Caminhos de ferro 19.668:664$181
+
+Obras publicas diversas,
+ incluindo o atterro, canos
+ de Lisboa, Lazareto, etc 4.539:186$710
+
+Barras, portos e rios 2.002:857$174
+
+Telegraphos 1.589:078$003
+
+Caminho de ferro no pinhal
+ de Leiria 317:763$289
+
+ -------------- 43.954:353$040
+
+Nas ilhas:
+
+Ponta Delgada 364:023$450
+
+Angra 281:994$184
+
+Horta 329:367$853
+
+Funchal 478:997$399
+
+Docka de S. Miguel 1.170:119$505
+
+ -------------- 2.624:502$391
+
+ --------------
+
+ Somma total 46.578:855$431
+
+O que já não dá ao paiz a nota de refractario á civilisação... e ao
+_deficit_.
+
+ * * * * *
+
+Mais uma vez, porque é bom que isto se repita: no desenvolvimento da
+riqueza nacional está a salvação do paiz.
+
+Só assim pode crescer o imposto em proporções alentadas, sem sobresalto,
+sem violencia, sem transtorno da economia publica, e sufficientes para
+nos livrarem de uma ruina, que sem tal esconjuro virá bater-nos á porta,
+mais cedo ou mais tarde.
+
+
+IX
+
+
+Bater-nos-ha á porta a ruina?
+
+Bate de certo.
+
+De anno para anno o _deficit_ toma tal corpulencia que ameaça esmagar o
+paiz debaixo do pezo d'essa mole tremenda.
+
+ DEFICIT ORÇAMENTO DO ESTADO CONTAS DO THESOURO
+----------------------------------------------------------
+ 1864-1865 2.718:953$347 | 3.709:441$590
+ 1865-1866 3.666:517$110 | 5.813:548$730
+ 1866-1867 5.028:674$579 | 7.870:531$454
+ 1867-1868 6.478:862$856 | 6.773:524$044
+ 1868-1869 6.133:631$721 | 4.764:847$779
+
+Esta ultima verba accrescentada com a de réis 2.830:041$297, que ficou
+em divida á Junta do Credito Publico no dia 30 de junho de 1869, sobe á
+importancia do 7.594:889$076 réis!
+
+_Deficit_ igual a quasi 50 por cento da receita realisada n'esse anno
+economico, a qual foi de réis 16.513:420$330!
+
+_Deficit_ que em 1869-1870 deve ter subido talvez a 8.000:000$000 réis,
+ao passo que a receita é possivel que tenha baixado por motivo dos
+acontecimentos politicos de maio do corrente anno!
+
+A nossa despeza nos ultimos cinco annos tem sido a seguinte:
+
+ CONTAS DO THESOURO
+----------------------------------------------------
+ 1864-1865 21.475:719$247
+ 1865-1866 21.284:218$335
+ 1866-1867 22.836:957$724
+ 1867-1868 23.317:163$231
+ 1868-1869 (com a divida á Junta) 24.108:309$406
+
+Devendo-se accrescentar ao anno de 1867-1868 mais a despeza em
+inscripções para amortisação de varios emprestimos com juro e
+amortisação, inclusive o saldo do emprestimo dos 4.000:000$000 réis.
+
+O seguinte mappa mostrará a progressão das despezas publicas nos annos
+economicos de 1864-1865, comparadas com as do quinquennio anterior, de
+1868-1869:
+
+
+*Despeza do Thesouro*--em contos de réis--*fundos saídos para pagamento
+de despezas*
+
+ A B C D E F G H I J L
+---------------------------------------------------------------------------
+L1 2.967 1.205 435 2.894 1.218 179 3.099 4.099 052 16.148 --
+L2 3.083 1.280 478 3.046 1.223 169 2.788 4.031 002 16.100 --
+L3 3.817 1.335 472 2.903 1.115 276 6.715 4.305 002 20.940 --
+L4 3.264 1.411 501 3.029 1.472 214 7.145 5.292 001 22.329 --
+L5 3.899 1.438 531 3.132 1.781 224 5.015 5.733 001 21.754 --
+L6 3.880 1.508 569 3.237 2.109 212 4.037 5.924 -- 21.476 --
+L7 4.249 1.593 595 3.378 1.902 227 3.485 5.855 001 21.285 --
+L8 4.926 1.634 612 4.315 1.902 241 3.001 6.205 001 22.837 --
+L9 4.548 1.804 637 3.997 1.866 266 3.272 6.927 -- 23.317 6.263
+L10 3.925 1.709 590 3.616 1.809 215 2.640 6.774 -- 21.278 --
+---------------------------------------------------------------------------
+ 38.558 14.917 5.420 33.547 16.397 2.223 41.197 55.145 060 207.464
+===========================================================================
+L11 17.030 6.669 2.417 15.004 6.809 1.062 24.762 23.460 058 97.271
+L12 21.528 8.248 3.003 18.543 9.588 1.161 16.435 31.685 002 110.193 6.263
+---------------------------------------------------------------------------
+L13 4.498 1.579 586 3.539 2.779 99 8.225 21.305 6.263
+L14 8.327 056 8.383
+ -------------
+L15 12.922 6.263
+-----------------------------------------------------------================
+L16 899 316 117 708 556 19 1.645 4.260 1.252
+L17 1.665 011 1.676
+ -------------
+L18 2.584 1.252
+===========================================================================
+
+*Legenda:*
+
+MINISTERIOS:
+ Fazenda coluna [A]
+ Reino coluna [B]
+ Justiça coluna [C]
+ Guerra coluna [D]
+ Marinha coluna [E]
+ Estrangeiros coluna [F]
+ Obras Publicas coluna [G]
+Junta do Credito Publico coluna [H]
+Amortisação de Notas coluna [I]
+Somma coluna [J]
+Amortisação en Inscripç. coluna [L]
+
+
+ Total
+1859-1860 linha [L1] 16.148
+1860-1861 linha [L2] 16.100
+1861-1862 linha [L3] 20.940
+1862-1863 linha [L4] 22.329
+1863-1864 linha [L5] 21.754
+1864-1865 linha [L6] 21.476
+1865-1866 linha [L7] 21.285
+1866-1867 linha [L8] 22.837
+1867-1868 linha [L9] 29.580
+1868-1869 linha [L10] 21.278
+ ----------
+ 213.727
+
+1.^o Quinquennio linha [L11] 97.271
+2.^o Quinquennio linha [L12] 116.456
+
+Augmento no 2.^o linha [L13] 27.568
+Diminuição no 2.^o linha [L14] 8.383
+Augmento liquido linha [L15] 19.185
+
+Media por anno:
+ do augmento linha [L16] 5.512
+ da diminuição linha [L17] 1.676
+Augmento medio linha [L18] 3.836
+
+
+Vê-se, d'este mappa, que as despezas publicas subiram em 3.836:000$000
+réis de média annual, em cada um dos annos economicos que vão do 1.^o de
+julho de 1864 a 30 de junho de 1869, comparadas com a média dos que
+alcançam do 1.^o de julho de 1859 a 30 de junho de 1864!
+
+Os juros da divida consolidada são:
+
+Da divida interna 5.569:227$218
+Da divida externa 4.768:318$629
+ --------------
+Somma total 10.337:545$847
+
+Mas, segundo o orçamento apresentado pelo sr. Anselmo Braamcamp, deviam
+existir, em 31 de março de 1870, titulos para serem cancellados,
+representando encargos:
+
+Da divida interna 1.176:109$000
+Da divida externa 76:734$000
+ --------------
+ 1.252:843$000
+
+Mais:
+
+Na posse da fazenda 615:880$500
+ --------------
+ 1.868:723$500
+
+que descontados dos 10.337:545$847 réis reduzem esta verba a
+8.468:832$347 réis.
+
+O que resta saber, porém, é se ainda estão disponiveis os titulos que o
+sr. Braamcamp cancellava na importancia nominal de 41.760:000$000 réis
+aproximadamente e que representavam os encargos, acima indicados, de
+1.252:843$000 réis.
+
+Ora é isto exactamente o que se não póde verificar, por falta de
+documentos officiaes que elucidem a questão. O que se póde asseverar é
+que ainda até hoje não se cancellou titulo algum d'esses, aliás teria
+constado isso dos termos mensaes das amortisações feitas pela Junta do
+Credito Publico, amortisações que ultimamente tem consistido, segundo
+parece, em queimar papeis velhos, que são trocados por novos.
+
+Na presença d'este quadro póde, ou não, a ruina chegar, e depressa?
+
+ * * * * *
+
+Póde, e é lastima que tal aconteça.
+
+O paiz tem elementos em si para arredar essa temerosa eventualidade.
+
+Uma simples observação:
+
+Um povo que tem, amortisados no fundo de suas gavetas, em inscripções,
+fundos estrangeiros; acções de bancos e companhias, etc., valores
+superiores talvez a 350.000:000$000 réis, nominaes, não está tão pobre
+que deva perder a esperança de se salvar da crise que o ameaça.
+
+Bastaria pôr em circulação productiva uma parte d'esta riqueza;
+bastaria, talvez, que os capitaes absorvidos na divida fluctuante, na
+importancia effectiva de 8.529:693$499 réis, quizessem fecundar a terra,
+o commercio e a fabrica, para que o desenvolvimento da actividade
+nacional começasse a fazer raiar alguma aurora de redempção.
+
+Mas o facto é que, como se disse algumas paginas atraz, o commercio
+definha; a industria retrae-se; a agricultura vê seccar os peitos
+uberrimos.
+
+E o paiz tem um solo fertilissimo e colonias extensas!
+
+Tem territorio no continente para 10:000.000 de almas e lava-se nas
+aguas de tres oceanos!
+
+ * * * * *
+
+Do equilibrio possivel do orçamento depende, pois, a sorte da nação
+portugueza. Mais seis, oito, quatro annos de funesta accumulação de
+enormes saldos negativos, e o paiz verá abrir-se diante d'elle uma valla
+que não poderá transpôr, e na qual ha-de cair.
+
+Abysmo que chama com dois braços: a bancarota e a Iberia.
+
+A propriedade territorial será então quasi a unica que se poderá suster
+á borda.
+
+O _deficit_ duplicou em quatro annos. Como poderá o paiz, se durar essa
+infernal progressão, resistir, de hoje a outros quatro, a 15.000:000$090
+réis de desquilibrio orçamental?
+
+E ainda ha quem pergunte anciosamente: «O que ha de novo?» com relação
+unicamente á saída ou á entrada, no ministerio, d'esta ou d'aquella
+individualidade?
+
+Questão de pessoas em frente da questão do paiz! Vale a pena.
+
+Mas quem é o verdadeiro culpado?
+
+Diga-o a si próprio o paiz.
+
+
+X
+
+
+Em vista do que fica apontado em rapido esboço, não será chegado o tempo
+de se buscar remedio para o mal que invade o paiz, e de cuja propagação
+talvez seja elle o primeiro culpado?
+
+Quando uma nação quer, e quer deveras, póde achar na vontade energica
+thesouros de força e de valentia.
+
+Se a fé transporta montanhas, a vontade transpõe-as.
+
+A primeira, a grande reforma a fazer, não está tanto nos que governam
+como nos que são governados. Comecem por moralisar o povo os que andam
+perto d'elle, porque é de baixo que se dá principio a qualquer trabalho
+de construcção solida e racional.
+
+Os governos retratam sempre mais ou menos fielmente o estado das
+sociedades que administram. Podem seguramente ter contribuido para o
+estado geral do paiz, mas é fóra de duvida que o paiz tem exagerado
+voluntariamente em si as consequencias dos erros commettidos, em vez de
+collaborar na emenda com resolução e fervor.
+
+Facto singular! Acredita o paiz em tudo e de tudo descrê. Tem assomos de
+colera e espasmos de fraqueza. Censura nos ministerios o que todos os
+dias faz em miniatura. É critico sem obras; sacerdote sem culto;
+inquisidor sem fé.
+
+Devem os nossos governos ter sobre a consciencia o peso de grandes
+culpas. Quem o nega? Mas em que os ajuda o paiz, quando nasce de
+qualquer d'elles alguma iniciativa util ou necessaria? Dando ouvidos á
+intriga; acolhendo a diffamação; desdobrando-se até ao infinito em
+individualidades que tratam de si, em vez de se condensar cada vez mais
+n'uma collectividade que visite patrioticamente os interesses de todos.
+
+Pedem, geralmente, os eleitores contas aos deputados pelos votos que
+deram na decisão dos negocios importantes? Longe de tal. Contam os
+memoriaes despachados e os que profundaram no lymbo, e, se o thesouro
+ficou, á propria custa do povo, mais onerado com alguma verba
+desnecessaria, não ha louros que cheguem para a reeleição triumphante do
+grande homem de estado.
+
+Quereis que de agua estagnada saiam aromas e saude? Por mais que n'ella
+se espelhe o sol, esse calor, que é para a immensidade da natureza fonte
+de vida e de esplendor, será, luzindo sobre o pantano, apenas origem
+certa de fetidos venenos.
+
+Pois entre tantos homens, que se tem succedido no poder, não terá havido
+alguns que olhem com seriedade para as cousas do paiz?
+
+Não terão subido aos conselhos da corôa a probidade, a illustração, a
+prudencia e o patriotismo?
+
+Tem, com certeza. Verdade é que tambem alli tem chegado quem possa gerar
+no espirito publico largas hesitações. Mas o que infelizmente o paiz tem
+feito é confundir todos os homens perante uma repugnancia tal que faz
+persuadir, até certo ponto, que já não é contra ministros que se
+pronuncía a cada passo, mas contra o principio de auctoridade, sem o
+qual as sociedades não podem existir.
+
+Estas reacções constantes dos erros dos governos sobre o paiz e dos
+erros do paiz sobre os governos tem produzido um estado de cousas
+intoleravel e perigoso.
+
+Pois o que é o estar a administração superior continuamente influenciada
+pela desorganisação moral do paiz, e o paiz sempre debaixo da
+desorganisação politica em que vivem, quando vivem, os governos?
+
+Em que param as necessidades urgentes quando o paiz se recusa a
+trabalhar seriamente na satisfação d'ellas, sujeitando-se aos
+sacrificios indispensaveis, e os governos consomem o tempo na tarefa,
+quasi unica, de assegurarem a existencia, sempre ameaçada pela sua
+propria fraqueza?
+
+Que paiz é este em que qualquer ambição audaciosa pode lembrar-se, com
+visos de probabilidade, de obter o que sonha, se não lhe faltar a
+audacia ao serviço da intriga?
+
+E no meio de tudo chovem as calamidades. A cheia cresce. Agora invade um
+principio; alaga logo um direito. Escava aqui uma garantia, submerge
+além uma conveniencia.
+
+E ao fundo, lá ao fundo, mas aonde a vista alcança já, ameaça levar
+comsigo a fortuna e quem sabe se o nome d'esta nação!
+
+ * * * * *
+
+Tentem os que pensam, os que possuem e os que trabalham; todos os que
+são as forças vivas do paiz, pôr dique á devastadora torrente,
+intervindo franca, directa e proveitosamente, no governo do estado.
+
+São elles os verdadeiros responsaveis pelo que vae succedendo.
+
+São a intelligencia, o capital e o trabalho.
+
+São mais ainda: O Numero.
+
+E o numero no systema representativo é a realeza de facto.
+
+A responsabilidade é d'elle.
+
+É responsavel cada cidadão para com todos; são responsaveis todos para
+com cada um d'elles.
+
+Ainda mais: é responsável cada cidadão para comsigo mesmo.
+
+Solidariedade absoluta.
+
+Esta responsabilidade, que é immensa, impõe deveres a que se não deve
+faltar, porque são protectores de interesses que se não pódem preterir.
+
+Para que serve ao paiz a intelligencia, se o primeiro dever d'ella não
+fôr o de empregar todos os recursos no estudo e na remoção dos males que
+o affligem, e de que serve a quem a tem, se não achar ambiente em que a
+desenvolva e aproveite?
+
+Não diminue a massa do capital nacional, quando a falta de credito,
+proveniente de uma errada politica, cerceia todos os valores
+representativos em face da desconfiança publica, e até reduz os valores
+reaes, o da propriedade territorial, por exemplo, augmentando
+exageradamente o preço da moeda metallica?
+
+Não soffre o trabalho com a má gerencia dos negocios publicos, a qual ao
+cabo de periodo mais ou menos longo, influe inevitavelmente no consumo
+geral, e, pela diminuição do consumo, em todos os coefficientes da
+producção?
+
+Quem poderá ter, pois, maior interesse do que o trabalho, o capital e a
+intelligencia, em que o paiz seja regularmente administrado?
+
+E, comtudo, julga-se acertado e prudente o pensar que a politica deve
+ser apenas obra de alguns especialistas, arvorados por auctoridade
+propria em directores, thesoureiros e guarda-livros, d'esta immensa
+sociedade!
+
+Se até ha quem pense que a politica é emprego de ociosos!
+
+ * * * * *
+
+É obrigação de todos o trabalharem na tarefa commum.
+
+É urgente, portanto, que se acabe um grande partido: o partido dos
+abstencionistas.
+
+Partido do desanimo, do egoismo e do orgulho.
+
+Partido negativo para o bem; positivo para o mal, que deixa fazer.
+
+Força perdida aonde não sobejam as forças.
+
+E occorrencia notavel! São os que mais se abstem os que mais lagrimas
+vertem sobre a sorte da patria, e os que fustigam com mais desapiedada
+censura os erros, a que não tentam offerecer o minimo estorvo!
+
+Pois que? Achaes-vos melindrados nos vossos principios de moralidade;
+affectados no vosso patriotismo; offendidos nos vossos interesses, e só
+tendes fel na palavra em vez de energia na acção?
+
+Que dirieis vós do soldado, que, vendo em perigo a bandeira de seu
+regimento, cruzasse os braços commodamente sobre o cano da espingarda,
+crivando de longe com doestos os que se batessem em volta do estandarte
+nacional, e que, ainda que por ventura o não fizessem por uma causa
+irreprehensivel, sabiam pelo menos luctar e morrer?
+
+Que direito tendes de vos queixar, quando nem sequer vos merece um
+minuto de attenção a causa remota da queixa?
+
+O _perinde ac cadaver_ do jesuita, se era um aniquilamento diante da
+vontade, era uma actividade ao serviço da ordem. Os vossos estatutos
+ainda rezam de menos.
+
+Transformam-vos n'uma abdicação ao serviço de uma inutilidade.
+
+Sois um partido que habilita qualquer obscuro cidadão a dirigir-se ao
+mais illustre de vossos adeptos, e dizer-lhe: «Sois um grande escriptor.
+Por vós o nome litterario d'este canto de terra anda conhecido entre os
+sabios da Europa. Erguestes um monumento á patria. Sois uma gloria
+nacional. Mas attendei: desde que vos fizestes o apostolo da descrença;
+o oraculo do desanimo; o censor infecundo e irresponsavel das miserias
+alheias; desde que rebaixastes ao nivel de vosso desprezo o paiz em que
+nascestes, e que prejudicaes com o vosso exemplo, tanto mais deploravel
+quanto que parte de um homem como vós, eu, humilde entre os humildes,
+curvando-me respeitoso diante de vossa grandeza, tenho o direito, com a
+mão sobre a consciencia, de vos dizer estas simples palavras:--sois um
+mau cidadão!
+
+Desappareça, pois, de Portugal essa perniciosissima seita. Use cada um
+não só de seu voto mas de sua legitima influencia em pró da communidade.
+
+_Res, non verba_.
+
+Dado este passo importante; alcançada esta grande victoria, organisae,
+vós os que pensaes, que possuis e que trabalhaes, a grande cruzada em
+favor da moralisação do paiz.
+
+Prégae-a com a voz, com a penna e, sobretudo, com o exemplo, o melhor
+argumento para ensinar e convencer.
+
+O criterio moral do paiz, desenvolvido e purificado, auxiliará a
+formação de partidos fortes, que serão garantia de governos productivos
+e regeneração da politica nacional.
+
+Estão diante de vós tres estradas distinctas:
+
+O absolutismo, a monarchia constitucional, a republica.
+
+O passado, o presente, o futuro.
+
+A saudade, a prudencia, a theoria.
+
+Nos extremos: a tradição e o mysterio. No centro: o facto.
+
+Tratae do facto, que é agora o mais urgente.
+
+Facto que representa oito seculos de independencia e alguns annos de
+liberdade.
+
+ * * * * *
+
+A nossa terra é pequena para que n'ella possam caber á larga todos os
+grupos actuaes.
+
+Ha:
+
+Historicos;
+
+Regeneradores;
+
+Reformistas;
+
+Amigos do sr. A;
+
+Amigos do sr. B;
+
+Amigos do sr. C;
+
+E assim por diante até á extincção do alphabeto!
+
+Todos progressistas! Todos repellindo com azedume a qualificação de
+conservadores!
+
+E comtudo esta divisão é o facto universal, quando a politica de partido
+não degenera em politica de bando.
+
+Reconstrui a primeira pela aniquilação da segunda.
+
+Concentrae-vos em dois grandes exercitos, chamando a vós os vossos
+correligionarios que andam dispersos por todos os grupos, e obrigando o
+partido, que julgardes dever escolher, a formular um programma, que seja
+corpo de doutrinas, logico e perfeito.
+
+Sêde progressistas ou conservadores; mas sêde alguma cousa, e sêde-o
+deveras, em nome de systemas completos e harmonicos.
+
+Dêem logar os nomes ás realidades.
+
+Ahi tendes o livre cambio, a descentralisação, a reforma parlamentar, o
+regimen colonial, mil outras questões de que podeis fazer bandeira de
+escola.
+
+Formae partidos fortes, que possam dar governos uteis.
+
+Sois progressistas? Intervinde, e depressa. Aproveitando os quadros do
+velho partido historico, reforçae-o com as massas de vossos tropas
+frescas; redigi um programma de pontos concretos, em harmonia com as
+idéas que adoptaes, e abri as vossas fileiras para receber n'ellas, por
+meio de uma verdadeira incorporação, de entre reformistas e
+regeneradores, os que já são hoje talvez mais vossos verdadeiros
+camaradas em opiniões do que alguns dos que militam ás ordens de vossos
+chefes.
+
+Sois conservadores? Segui, o mesmo processo e com igual energia.
+Agrupae-vos. Formulae o vosso credo. Nomeae os vossos chefes. Dizei o
+que sois, que nada tem de deshonroso, e o que quereis, que pode ser
+necessario em dados momentos.
+
+Se dentro da lei e da liberdade obrigardes as parcialidades existentes a
+condensarem-se em dois partidos bem distinctos, que ponham fim a
+colligações de interesses e de homens, como as que por ahi tem
+desmoralisado e vão desmoralisando o paiz, tereis feito o mais relevante
+serviço e salvado a nação de crises estereis e de grandes calamidades.
+
+Feito isso, acabaria a vadiagem politica, essa praga que nos arruina. A
+decencia queimaria na testa; com o ferro em braza do desprezo publico, o
+especulador que mudasse todas as semanas de partido, ao sabor de suas
+conveniencias.
+
+Teria fim a politica pessoal, peste que nos roe as entranhas e corrompe
+tudo o que toca.
+
+Intervinde, intervinde, vós que pensaes, que possuis e que trabalhaes.
+Pesae na politica com a vossa collaboração. Influi nos negocios do paiz,
+que são os vossos, e não os deixeis correr á revelia, entregues a
+governos ephemeros e a corretores de eleições.
+
+Tem ainda o paiz grandes recursos.
+
+Tudo está em saber aproveital-os.
+
+Aproveitem-n'os boas administrações, nascidas á luz da moralidade, e
+levadas á pia baptismal nos braços de partidos robustos.
+
+Só assim se póde viver.
+
+O contrario será a morte na Iberia ou na banca-rota.
+
+Senão em ambas.
+
+
+XI
+
+
+Capitalistas e proprietarios; industriaes e commerciantes; vós, que sois
+geralmente os mais teimosos abstencionistas, ponde os olhos e a
+intelligencia na contemplação do que foi o imperio francez.
+
+Ainda não ha muito que alli a prosperidade material parecia sobranceira
+a todos os riscos.
+
+Uma activa circulação de valores levava a saude e a vida a todo esse
+corpo que moia de inveja os mais poderosos visinhos.
+
+O commercio duplicava em dez annos as transacções. A industria punha a
+resgate o mundo inteiro, prezo nos laços de mil frivolidades. O capital,
+decuplicado pelo credito, corria em abundantissimos veios, fertilisando
+por todos os modos a actividade febril da arrogante nação.
+
+A aguia napoleonica voava de Sebastopol ao Mexico, estendendo a sombra
+das azas desde as vertentes dos Alpes até ás planuras do mais remoto
+oriente.
+
+Nas fragatas e nos batalhões do imperio parecia ter-se incarnado o genio
+da Força.
+
+Uma opposição, minoria de minoria, aturdida e estonteada com os votos de
+maio, luctava sem esperança contra uma dynastia que centralisava sete
+milhões de suffragios.
+
+Estatua de ouro, tendo por dupla base um governo de ferro e um exercito
+de bronze!
+
+Mas de todo esse metal andava ausente um grande espirito.
+
+O homem, que firmara o throno no perjurio, abatera o nivel moral do paiz
+até ás ultimas consequencias de um governo de familia e de facção.
+
+A França entregou-se ao culto exclusivo da materia. Deixou roubar, ou
+vendeu, a representação parlamentar. Deliu em gozos physicos a antiga
+virilidade. Abdicou no chefe do estado o sceptro da opinião.
+
+Passou ao lado da moralidade encolhendo os hombros n'um gesto de enorme
+fastio. Ganhar depressa e gozar rindo foram os dois limites de seu
+stadio social.
+
+Na politica, Morny. Na arte, Offenbach.
+
+Dois fructos de bastardia. Dois typos da época.
+
+Rebentou a guerra. A França tinha o pão, mas faltava-lhe o circo.
+
+A victoria, essa ex-divindade, que trocou o Olympo pela alcova,
+vendeu-se a quem lhe lançou no colo mais bayonetas e mais canhões.
+
+Os soldados do rei Guilherme pisaram as terras e os brios da França, e
+ella, a dissoluta, atrophiada por vinte annos de materialismo e de
+corrupção, consentiu que as tropas do mystico e illuminado representante
+do absolutismo da espada chegassem aos muros de Paris, sem que os filhos
+dos heroes de cem batalhas, de um só jacto e com um só pensamento, se
+erguessem todos para deter o passo ao exercito allemão!
+
+Memorando e triste exemplo do que póde a ausencia das forças moraes!
+Contam-se por centenas de milhares, por milhões talvez, os que recuando
+perante a invasão não pensaram que o nome da patria merecia o sacrificio
+de menos alguns annos de vida, ou de menos alguns francos de renda. A
+resistencia, que devia ser obra de todos, tem sido apenas tarefa de
+alguns. Quatro lanceiros tomam Nancy, e o espião francez, realisando o
+ideal da infamia, vende a thalers a vida de seus proprios irmãos!
+
+E a Prussia caminha, caminha sempre, elaborando nas almas de seus
+seiscentos mil soldados um vago sentimento de hegemonia teutonica,
+entrevista desde longos annos nas brumas dos tempos, á luz de uma
+predestinação divina que lhe põe nas mãos a tutéla do mundo.
+
+E que lucrou o capitalista, o proprietario, o industrial, o commerciante
+em se ter abstido de uma intervenção directa e moralisadora na politica
+da França? Os valores em ruina; os campos talados; as fabricas em cinza
+e os armazens desertos e fechados dão triste, mas sufficiente resposta.
+
+Se o povo francez não tivesse reduzido a religião politica a um ritual
+dissolvente; se não se tivesse engolfado na subserviencia ao poder,
+deixando-o corromper ou esmagar as consciencias; se, por inevitavel
+reacção, não tivesse dado ouvidos ás theorias subversivas dos
+exploradores de popularidade; se tivesse obstado a que uma profunda
+devassidão lhe envenenasse as fontes da vida; se tivesse avocado a si,
+por meio de bons e leaes representantes, a gerencia dos negocios
+publicos, provavel seria que a guerra não tivesse rebentado para servir
+a ambição de uma dynastia periclitante e satisfazer os instinctos
+depravados das multidões, que, só á força de estimulos, sentiam ainda
+pulsar no peito o velho coração, em que tantas vezes tem batido a sorte
+da humanidade e a emancipação liberal de metade da Europa.
+
+O olho do paiz, limpo de fumaradas de polvora e de orgulho, veria melhor
+e mais fundo. Repousaria com mais jubilo nos conselhos da prudencia e
+nas abundancias da paz do que nos lances da sorte e nas inclemencias da
+guerra.
+
+Se esta, porém, fosse inevitavel; se tivesse de resolver-se pelo fogo e
+pelo ferro uma questão de equilibrio ou de preponderancia entre as duas
+nações rivaes, embora o exercito francez eventualmente succumbisse
+debaixo do peso dos batalhões prussianos, ter-se-hia poupado ao mundo o
+afflictivo espectaculo de ver-se uma grande nação fugir a custo de um
+somno profundo, para dar de rosto desde logo n'uma profunda anarchia.
+
+É possivel que a França tivesse baqueado, mas cortejar-lhe-hia a queda o
+respeito universal, factor immenso nas contas futuras da paz. A pressão
+moral de sympathias, que não proviessem unicamente de uma utilidade
+politica friamente calculada, teria de pesar no animo do vencedor,
+levada até alli não só pelo concerto das chancellarias, como tambem pelo
+impulso unanime de todos os povos cultos.
+
+Mas a gangrena moral tombou no pó o chefe da vaca latina. Como que
+receiosa do contagio, a Europa tem assistido impassivel a essa dolorosa
+agonia, que oxalá possa terminar em brilhante resurreição á voz do
+patriotismo e da liberdade, reagindo contra a podridão do imperio.
+
+E se isto acontece com a França, com o gigante que, baqueando moribundo,
+póde esmagar ainda com o peso do corpo o imprudente que lhe esteja ao
+alcance da queda, o que seria com um paiz como o nosso, nesga de terra
+perdida n'um canto da peninsula?
+
+Transportae o exemplo a Portugal. Imaginae um conflicto que tenha de
+resolver-se ámanhã pelas armas. Sonhae que um exercito hespanhol nos
+arromba a fronteira e que uma frota couraçada mette a prôa ás aguas do
+Tejo.
+
+Não urje que a hypothese seja provavel; basta que seja possivel.
+
+E depois?
+
+Não levanteis a tempo as forças moraes do paiz; não lhe insuffleis nos
+pulmões o ar puro e vivificador dos grandes e generosos sentimentos; não
+o moraliseis com o exemplo e o conselho; não lhe ensineis que, acima do
+que se toca, existe o que se sente, e admirae-vos depois de que não haja
+quem possa suster a bandeira da patria, ou vencer na defensão de vossa
+liberdade e de vossas fortunas, que seriam o primeiro pasto do dente de
+guerra.
+
+Mas (hypothese absurda, por impossivel) não ha resistencia. Um passeio
+militar conduz o inimigo ao coração do paiz. Os quatro uhlanos de Nancy
+resuscitam entre Elvas e Lisboa. E julgaes, vós capitalistas, vós
+proprietarios, vós industriaes, vós commerciantes, que os vossos fundos,
+os vossos campos, as vossas fabricas e os vossos armazens ficariam
+livres de mil deploraveis contingencias? Enganaes-vos. Para começar,
+pagarieis as despezas da invasão. Depois, a fibra popular, passado o
+primeiro estonteamento, reagiria contra o hespanhol, que se póde ser
+excellente para amigo e quasi irmão, deve ser detestavel para amo e
+senhor.
+
+Não se desfaz n'um dia o que fizeram oito seculos de odios e luctas.
+
+Uma Polonia portugueza morderia sempre o flanco de uma Russia
+castelhana.
+
+E que farieis vós então, apertados entre o interesse e o patriotismo?
+
+Collaborarieis na empreza da restauração, trabalho tanto mais difficil
+quanto mais o invasor se houvesse internado no reino, e a reacção
+tivesse de tomar corpo na presença de quem andasse já na posse militar
+do paiz? Mas então o vosso dinheiro continuaria a custear as despezas da
+guerra; o vosso trabalho pertenceria á communidade em perigo, e de
+vossos predios, bombardeados e destruidos, se faria o parapeito do
+reducto inimigo ou o baluarte dos defensores da nação.
+
+Mas (nova e absurdissima hypothese) aguilhoados pelo instincto da
+conservação, e pisando as tradicções da nacionalidade portugueza,
+acceitaveis o facto consummado e formaveis ao lado do invasor hespanhol.
+
+_Quid inde_?
+
+Trocarieis então uma guerra politica por uma guerra social; guerra de
+pobres contra ricos; guerra das massas contra as classes favorecidas;
+guerra do proletariado patriota contra a burguezia satisfeita; guerra do
+passado e do futuro contra o presente; guerra que semearia odios eternos
+entre os que recalcitrassem e os que consentissem; entre os portuguezes
+por fé e os ibericos por transacção.
+
+E ai d'estes, se um inesperado successo, dos que por ahi desconcertam as
+mais bem combinadas presumpções, viesse no espaço de um sol a outro sol
+restituir a Portugal a roubada independencia.
+
+Quem os salvaria então do furor das turbas amotinadas?
+
+Quem lhes poria as propriedades ao abrigo do archote?
+
+Quem lhes daria a mão no sorvedouro que se lhes abriria debaixo dos pés?
+
+Então, ninguem. Antes, o paiz.
+
+Mas um paiz que torne absolutamente impossiveis as hypotheses que ahi
+ficam phantasiadas, e que as torne impossiveis pela convergencia de
+todas as vontades, pelo emprego honesto e patriotico de todas as forças
+no grangeio intelligente e honrado do patrimonio commum.
+
+É difficil hoje que quatro milhões de homens possam resistir a quatorze
+d'essas unidades.
+
+Restabeleça-se o equilibrio, ganhando-se em ordem; em boa e liberal
+politica; em sabia e recta administração do paiz pelo paiz; em respeito
+de estranhos e nacionaes o que a natureza nos faz perder em extensão e
+em numero.
+
+Portugal bem administrado póde arcar peito a peito com a Hespanha
+diluida em vinte parcialidades e estrebuxando nas convulsões de uma
+desorganisação, que ainda não disse a ultima palavra.
+
+Porém se a esse estado responder-mos com um estado igual, a questão do
+peso physico obedecerá ás leis da materia.
+
+Quaes ellas são, todos o sabem.
+
+
+XII
+
+
+Capitalistas e proprietarios, industriaes e commerciantes, ponde a
+intelligencia, já que felizmente ainda lhe não podeis pôr os olhos, no
+que seria a bancarota.
+
+Se hoje vos queixaes de que os vossos fundos, os vossos predios, as
+vossas fabricas, os vossos armazens padecem com o estado do paiz, o que
+seria se desabasse tudo n'uma ruina geral?
+
+E geral teria ella de ser.
+
+Fallido o thesouro, é natural que essa fallencia arrastasse a grandes
+difficuldades a maioria dos estabelecimentos de credito. Dado isto, a
+ramificação do desastre chegaria á mais solitaria cabana e ao mais
+obscuro balcão.
+
+Tanto no espelho dourado dos salões da opulencia, como no barro vidrado
+da baixella do pobre, se reflectiria algum gesto de tristeza ou de
+angustia.
+
+O luxo retirar-se-hia diante da parcimonia. A parcimonia diante do
+constrangimento. O constrangimento diante da fome.
+
+Porque, não vos illudaes, o paiz vive em grande parte á sombra do
+estado.
+
+Morto este pela fome, a fome de uma parte do paiz sairia directamente
+d'essa ligação apertadissima.
+
+De que vive geralmente o funccionario publico, quer elle se chame
+empregado, professor ou militar?
+
+De que vivem os portadores de milhares e milhares de contos de réis em
+titulos de divida fundada espalhados no paiz?
+
+A repercussão d'essa desgraça chegaria immediatamente a todos, porque é
+em grande parte o estado quem vos paga o juro de vossos capitaes, a
+renda de vossos predios, os artefactos de vossas officinas e os artigos
+de vosso commercio.
+
+A incidencia da bancarota, o mais pesado de todos os impostos, porque
+arruina o capital, procurar-vos-hia em todas as transacções da vida
+social, percorrendo por vias mysteriosas todas as representações do
+trabalho e da riqueza.
+
+ * * * * *
+
+Qual seria a depreciação de todos os valores actuaes pela raridade, e,
+portanto, pela carestia da moeda cunhada?
+
+Que somma de moeda chegaria para as necessidades da circulação e da
+producção, se o credito a não a auxiliasse com a sua poderosa
+camaradagem?
+
+Que soccorro vos daria o credito em frente d'esse cataclysmo, elle, a
+melindrosissima entre as mais melindrosas das molas sociaes, e que o
+mais ligeiro abalo contrae, como a folha da sensitiva se fecha ao
+contacto de um só dedo que a toque?
+
+E comprehendeis vós sem o credito as sociedades modernas, em que uma
+actividade devoradora, que é muitas vezes uma ficção, necessita de
+outras ficções para mover os cem braços com que se agita o mundo
+contemporaneo?
+
+ * * * * *
+
+Tendes-vos lembrado de quaes seriam as consequencias politicas da
+bancarota?
+
+Os vinculos sociaes e politicos, infelizmente já de si tão frouxos,
+desatar-se-hiam n'uma dissolução completa.
+
+As paixões ruins, explorando a miseria publica, recrutariam n'ella
+perigosos batalhões.
+
+A especulação tomaria a soldo a revolta.
+
+E não tumultuariam unicamente na praça publica os pretorianos do motim;
+os que, sem o estimulo de uma idéa, passeiam nas ruas apenas a ambição
+de quem os paga, formulada em gritos indifferentes aos que recebem o
+estipendio, e que ámanhã gritarão com identico enthusiasmo a favor de
+quem na vespera cubriram de vituperios.
+
+Tumultuaria tambem na rua a fome dos verdadeiros necessitados; dos que
+iriam esquecer na sedição as lagrimas da familia, ou que, movidos por um
+vislumbre de esperança, pediriam a uma transformação radical a cura de
+suas desgraças.
+
+Não seria então um partido sério o que tomaria as redeas do poder. A
+logica das cousas, a mais inexoravel de todas, pol-as-hia nas mãos dos
+mais audaciosos, nos momentos em que a audacia é tudo, e arredaria para
+o lado os pacificos e illustrados cultivadores da idéa apparentamente
+victoriosa, mas que seria na realidade envilecida e conspurcada pela
+cooperação material de homens para quem servisse só de mentirosa
+bandeira.
+
+E imagine-se o que seria se, livre das piozes de qualquer superioridade,
+que o contivesse, o açor podesse pairar á solta com a omnipotencia de
+sua vontade em toda a extensão do facto e da lei!
+
+ * * * * *
+
+A moral soffreria igualmente graves affrontas.
+
+Não é quando falta o pão que mais se escutam os conselhos d'ella.
+
+A probidade recuaria diante da astucia e da violencia.
+
+A reserva, abandonando a prudencia, rebentaria em explosões de colera,
+que mais activariam as chammas do incendio.
+
+Aonde houvera a espontaneidade ficaria a coacção.
+
+Ao pudor da familia segredaria o demonio do ouro suas infernaes
+tentações.
+
+O proprio archanjo da caridade tentaria debalde chegar-se ás camas dos
+enfermos nas misericordias e hospitaes, porque só alli acharia leitos
+nus, aonde, á força de miseria nas arcas vazias, não haveria misearias
+que proteger e consolar.
+
+ * * * * *
+
+A bancarota!
+
+Já encarastes bem essa atroz eventualidade?
+
+Não é a venda da herança por um prato de lentilhas; é a venda do
+patrimonio por um espectaculo de horrores.
+
+A bancarota é o prejuizo material multiplicado pelo sobresalto do
+espirito; operação que, em virtude d'um phenonemo inevitavel, produz
+sempre um resultado superior á intervenção dos dois factores que n'ella
+collaboraram.
+
+A bancarota ainda é mais do que tudo isso. Mais do que a pobreza; mais
+do que o perigo; mais do que o descredito; mais do que a barbaridade;
+mais do que a sedição.
+
+É a deshonra do nome da patria!
+
+E querereis, vós os que pensaes, que possuis e trabalhaes; vós todos os
+que andaes na vanguarda do movimento nacional, que o nome do vosso paiz
+fique deshonrado na historia do seculo?
+
+Não é possivel.
+
+E não basta que a bancarota não seja um facto inevitavel; é necessario
+que o não pareça.
+
+Porque em pontos tão delicados parecer é quasi ser.
+
+Intervinde, intervinde, pois, que ainda é tempo. Salvae o paiz pelo
+paiz. Saccudi o habitual torpor e trabalhae desde já n'esta empreza tão
+util para vós, como gloriosa para o nome portuguez.
+
+Não se vos dá um grito de terror no meio da batalha.
+
+É uma voz de--sentido!
+
+
+XIII
+
+
+Resumindo:
+
+Fuja o paiz da ruina equilibrando, quanto possivel, o orçamento do
+estado.
+
+Equilibre o orçamento augmentando as receitas.
+
+Augmente as receitas desenvolvendo a riqueza.
+
+Desenvolva a riqueza promovendo a confiança.
+
+Promova a confiança tendo governos estaveis.
+
+Tenha governos estaveis inaugurando boa politica.
+
+Inaugure boa politica criando vontade propria.
+
+Crie vontade propria adquirindo noções de seus direitos e de suas
+responsabilidades.
+
+Adquira essas noções por meio do desenvolvimento do criterio moral, que
+anda tão descurado e empobrecido, devendo ser o motor de qualquer
+sociedade que não queira finar-se na impotencia, na ruina ou na
+desordem.
+
+ * * * * *
+
+Assim como a egreja nega o chão bento ao corpo dos suicidas, a
+posteridade atira para a valla commum da historia os nomes dos povos que
+morrem ás suas proprias mãos.
+
+Haja fé na salvação do paiz e o paiz salvar-se-ha. Porém se Portugal, no
+correr dos annos, tiver algum dia de baixar á cova, que possa ao menos
+uma cruz negra dizer ás gerações futuras, no cemiterio das nações: _Aqui
+jaz um povo que viveu como honesto e morreu como bravo_.
+
+FIM
+
+
+
+
+POST-SCRIPTUM
+
+
+Depois de estar na imprensa este pequeno trabalho deram-se dois factos
+importantes: a rendição de Metz aos Prussianos e uma crise ministerial
+no governo do nosso paiz.
+
+N'esta approximação não vae a menor sombra de epigramma. É uma questão
+de datas. Nada mais e nada menos.
+
+Á puridade se affirma que não se quer estabelecer relação alguma entre
+Moltke, ou Bismark, com os homens d'estado que estão gerindo os negocios
+de Portugal.
+
+ * * * * *
+
+Caiu Metz. A toupeira napoleonica parece ter minado o baluarte aonde
+cento e cincoenta mil soldados albergavam a honra militar, que,
+violentamente affrontada em Sedan, fôra depositar nas mãos de Bazaine as
+tradições gloriosas do exercito francez.
+
+Pobre França! Se assim foi, não bastava que vinte annos de compressão e
+de immoralidade te houvessem debilitado o braço e o coração; faltava-te
+ainda que um marechal do imperio te arrancasse parte da armadura, a fim
+de que a lança inimiga te chegue melhor ao corpo nu, quando um clarão de
+patriotismo começava a tingir em côr de sangue as barricadas heroicas de
+Saint-Quintin e Chateaudun!
+
+Pobre mãe abandonada! Não era pouco que os teus proprios filhos para ahi
+te deixassem rasgar o seio ás mãos da soldadesca de alem-Rheno;
+faltava-te ainda que um d'elles, arrancando a corôa virginal da cidade
+impolluta, te ferisse com ella no rosto, quando lhe sorrias de
+esperança, por entre as lagrimas de teu penoso martyrio!
+
+Na presença das traições de que é victima a França, não cabe o coração
+no peito de quem tem alma para sentir, e uma parte d'elle vôa a
+consubstanciar-se no do povo cuja tunica parece estar sendo jogada por
+Napoleão sobre um tambor prussiano.
+
+Para quem está escrevendo as presentes linhas, a causa da França, em
+guerra com a Prussia, foi sempre a do interesse liberal e portuguez.
+
+Bonaparte era um accidente que o furacão podia varrer.
+
+O rei Guilherme é um systema, que terá sempre por objectivo a cruz da
+espada no calvario da liberdade politica.
+
+Hoje, porém, collabora o sentimento com a razão.
+
+Se o prisioneiro de Wilhelmshohe viesse a Paris sobre um canhão de
+Krupp, antes Rochefort na presidencia do que Bonaparte no throno.
+
+Antes o incendio do que a podridão.
+
+Antes o sangue do que o lodo.
+
+A desordem pode passar. A deshonra fica.
+
+Se a restauração consolidasse um precedente de tal ordem, a moralidade
+espavorida teria de arrancar o vôo do occidente da Europa, levando
+comsigo nas azas os ultimos lampejos da decencia e as ultimas vibrações
+do patriotismo.
+
+Praza a Deos que a França possa guardar esse resto, sem subverter os
+alicerces da sociedade, no desculpavel delirio de uma nação que vê a
+morte de perto.
+
+ * * * * *
+
+Em Portugal correm as cousas menos tragicamente.
+
+Organisou-se uma administração debaixo da presidencia do sr. marquez
+d'Avila e de Bolama, o mais attendido conselheiro da finada dictadura, e
+sob a immediata inspiração do sr. bispo de Vizeu, um dos mais
+intrataveis adversarios da situação creada pelo sr. duque de Saldanha.
+
+Esta incompatibilidade, que já dera anteriormente em resultado a saída
+do sr. marquez d'Avila e de Bolama do gabinete presidido pelo sr.
+marquez de Sá da Bandeira, produziu novamente... a juncção d'esse
+cavalheiro e do sr. bispo nos bancos do poder.
+
+Ha, pois, _governo_, mas segundo o verdadeiro espirito do systema
+representativo não ha _ministerio_, porque os actuaes conselheiros da
+corôa, pessoas individualmente dignas de todo o respeito pelos seus
+dotes de coração e de intelligencia, não representam mais do que uma
+colligação de homens, sem corpo de doutrinas que os possam graduar em
+representação de _partido_.
+
+Que não ha um verdadeiro partido atraz do governo, prova-o tambem
+exuberantemente a necessidade, em que se julgaram ver os organisadores
+da situação, de irem buscar alguns ministros fóra do parlamento, o que
+constitue uma violação flagrante das praticas constitucionaes e seria um
+erro indisculpavel se houvesse um partido ministerial, forte e
+preponderante, que tivesse dentro de si os elementos para a gerencia de
+todas as pastas.
+
+Este raciocinio deve forçosamente ser exacto porque é impossivel que os
+deputados verdadeiramente ministeriaes, se os houvesse, se deixassem
+preterir em publico, como pessoas, por outros cavalheiros de opiniões
+pouco definidas, e que não haviam recebido o sacramento da confirmação
+na urna popular.
+
+Viverá, portanto, o novo governo o tempo que vivem as rosas; ou durará o
+que as rosas não duram, se lh'o consentirem as opposições que lhe estão
+defronte e que farão bom serviço ao paiz não precipitando nova crise,
+que teria de resolver-se por alguma nova colligação.
+
+Impotencia diante de perplexidade. Governo sem força na presença de
+opposição sem norte certo.
+
+E ainda não será chegada a opportunidade de regularisar a politica do
+paiz?
+
+O que obsta a que se comecem a agrupar desde já os elementos
+progressistas que andam dispersos por historicos, regeneradores e
+reformistas, e reconstruam um verdadeiro partido, adoptando um
+programma, não de sonoras banalidades mas de pontos determinados,
+indicando desde logo a maneira pela qual os resolveriam no dia em que
+fossem poder?
+
+O que impede que façam outro tanto os elementos conservadores,
+espalhados igualmente por historicos, regeneradores e reformistas, e que
+podem até achar dentro do governo actual um chefe, que trocaria assim
+uma posição falsissima por outra mais digna de um homem d'estado?
+
+Resolvida esta natural e indispensavel delimitação, porque não
+auxiliariam ambos os partidos o gabinete, não a resolver a questão de
+fazenda, porque essa não se resolve só com impostos e córtes na despeza,
+mas a votar, desde já, os tributos e as economias que são urgentissimos
+para desaffogar o thesouro das necessidades mais ameaçadoras?
+
+Feito este grande serviço; organisados os partidos durante as treguas,
+porque não se feriria depois uma grande batalha parlamentar entre
+progressistas e conservadores, indo o governo a quem saisse victorioso
+da lucta?
+
+É possivel que reagissem contra estas indicações salvadoras os estados
+maiores de algumas das actuaes parcialidades, os quaes talvez desejem
+que subsistam as divisões existentes, para terem maior importancia
+dentro de seus pequeninos exercitos.
+
+Se isto é verdade, prepare-se então o paiz, e com tempo, a fim de que,
+chegado o momento opportuno, possa dar a lei a quem se mostrar rebelde
+aos conselhos do interesse publico.
+
+Se proceder com energia e concerto, poderá impor aos seus representantes
+condições de boa politica e ter governos estaveis, obviando igualmente a
+que dissoluções repetidas corrompam cada vez mais os costumes da nação.
+
+Porém se continuar a permittir a anarchia politica em que está vivendo a
+responsabilidade será sua.
+
+As consequencias d'ella já se estão sentido.
+
+Até aonde chegará a debilidade do paiz?
+
+Para o fundo, até á perda de nossa fortuna?
+
+Para atraz, até á perda de nossa existencia?
+
+Oxalá que elle tome o caminho dos astros, até á riqueza e á
+independencia, á ordem e á liberdade!
+
+2 de novembro de 1870.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Verdades amargas, by Claúdio José Nunes
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VERDADES AMARGAS ***
+
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+opportunities to fix the problem.
+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+works.
+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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