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diff --git a/21290-8.txt b/21290-8.txt new file mode 100644 index 0000000..7570406 --- /dev/null +++ b/21290-8.txt @@ -0,0 +1,7898 @@ +The Project Gutenberg EBook of Os Bravos do Mindello, by Faustino da Fonseca + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os Bravos do Mindello + Romance Histórico + +Author: Faustino da Fonseca + +Release Date: May 4, 2007 [EBook #21290] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS BRAVOS DO MINDELLO *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Christine P. Travers and the +Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + + + + +[Nota do transcritor: Esta obra apresenta algumas inconsistências +ortográficas.] + + + + +Obras de Faustino da Fonseca + + + _Lyra da Mocidade_ (primeiros versos) 1892. Exgotado 1 vol. + + _Tres mezes no Limoeiro_, 1896, 1.{a} edição com illustrações + de Leal da Camara. Exgotado 1 vol. + + Segunda edição (popular) 1 vol. + + _O descobrimento do caminho maritimo para a India_ 1 vol. + + _A descoberta da India_ (Drama historico em 5 actos) + 1898 1 vol. + + _O escandalo dos dramas do concurso do centenario + da India_, 1898 1 vol. + + _Regresso ao Lar_, romance, 1896, com illustrações + de Roque Gameiro (folhetim em _O Seculo_.) + + _A descoberta do Brasil_, 1900, com illustrações de + Roque Gameiro, cartas, mappas, fac-similes de documentos. + Exgotado 1 vol. + + _Pedro Alvares Cabral_, 1900 1 vol. + + _Ignez de Castro_ romance historico, 1900. 1.{a} edição + com illustrações de D. Virginia da Fonseca, Augusto Pina, + Bemvindo Ceia. Exgotado 4 vol. + + Segunda edição (popular) com illustrações de Alfredo + de Moraes 2 vol. + + _Escravos_, romance, 1901 (folhetim em _A Folha do Povo_.) + + _Padeira de Aljubarrota_, romance historico, 1901, com + illustrações de Bemvindo Ceia 2 vol. + + _As mulheres portuguêsas na Restauração de Portugal_, + romance historico, 1902, com illustrações de Roque Gameiro 3 vol. + + _El-rei D. Miguel_ (chronica popular do absolutismo) + 1905. Illustrado com retratos e monumentos 1 vol. + + _Os filhos de Ignez de Castro_, romance historico, em + collaboração com Joaquim Leitão, 1905 1 vol. + + _Anedoctas de reis, principes e outras personagens + portuguêsas e estrangeiras_, extrahidas, traduzidas, + compiladas e prefaciadas, 1905 1 vol. + + _Bons ditos de reis, principes e outras personagens + portuguêsas e estrangeiras_, extrahidas, traduzidas, + compiladas e prefaciadas, 1906 1 vol. + + _Beijos por lagrimas_, romance historico. 1906 (folhetim + em _A Lucta_). + + + + + FAUSTINO DA FONSECA + + + OS BRAVOS DO MINDELLO + + + ROMANCE HISTORICO + + + + LISBOA + Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso + _5--Largo de Camões--6_ + 1906 + + + + +I + + +Ao tiro de peça acordou João de um inquieto somno de namorado e, +apoiando o cotovelo no grande leito de alta cabeceira de tarja, +prestou attenção. + +Seria salva do castello, ou vinha navio de Lisboa confirmar as +aprehensões dos sonhos agitados em que Maria se esquivava sempre ao +caloroso enlace dos seus braços, e um subito quebranto o +impossibilitava de perseguil-a, e um sobresalto, como que a queda do +ideal, interrompia o laborioso despertar da sua estuante virilidade? + +Não se repetiram detonações que o tranquilisassem e, no brando rumor +cantante e alegre, reconheceu o romper d'alva. Deitou pelos hombros +um capote azul de cabeção, e fechos de prata, apagou a candeia de +ferro cujo espelho areado reluzia e tirou a tranqueta que especava, +desde a cunha ao encaixe da parede, o postigo das pesadas portas de +cedro da janella de peitoril. + +Pelo pequeno caixilho de minguados vidros azulados percebeu a confusa +luz da manhan. + +Então destrancou vigorosamente as portadas, retirando o grosso +cilindro ao longo da cava da cantaria e, depondo-o contra o poial, +puchou para si os dois pesados batentes e debruçou-se com avidez. + +--Muito madrugaste hoje--disse-lhe debaixo a tia Pulcheria, ajoujada á +celha das lavagens, avental de barras amarellas, ainda com a rede de +dormir apanhando os cabellos brancos. + +Deu-lhe os bons dias e viu-a, por entre os claros da parreira de +Alicante, dirigir-se ao curral onde grunhia o porco alegremente, o +focinho bronco farejando por cima da cancella. + +--Não ouviu uma peça, tia? + +--Ha de ser navio de Lisboa. + +Em passo miudinho, muito activa, a arregaçada cheia de milho, acudia +ao tumulto da capoeira, onde o gallo repenicava, em desafio com os +visinhos, emquanto da pocilga rompia um grunhido satisfeito, +misturado ao chapinhar na agua de semeas. + +Rompeu no castello o toque da alvorada, o echo vibrante do clarim +dando o signal do batalhão, e o terno de cornetas atacou as notas +baixas, até se casarem n'um hymno ao triumphal raiar da aurora. + +Passavam chocalhos de machos carregados de trigo para os moinhos do +Pisão. + +Apregoavam leite homens do monte, vindos da Ribeirinha, barba ruiva, +pé descalço, vestidos de linho branco alvo de neve, a camisola presa +no pescoço por botões de oiro, carapucinha preta com orelhas +vermelhas, pequena como a palma da mão, posta á banda n'um elegante +equilibrio, batendo o bordão com rendilhados na ponteira; rolhas de +pasto no bico negro das cabaças defumadas, com pontos a cordel em +fendas, por onde o leite gotejava, aos solavancos do pau posto ao +hombro esquerdo. + +Apregoavam rapa, vergando a grandes molhos, apressados pastores, +anciosos por se livrarem da carga, trazida desde noite do matto. + +Chiavam carros n'uma orgulhosa competencia, irritando em furiosos +latidos os cães das quintas. + +Soaram trindades em Santa Luzia, vibrou na alegria da madrugada esse +toque de sino, impregnado ao pôr do sol pela melancholia da tarde; +seguiu-se-lhe o repique annunciando festa; tocaram na Sé á missa das +almas. + +Cessou o bater da roupa no lavadoiro da pia, persignaram-se +devotamente e benzeram-se de hombro a hombro a creada e a tia +Pulcheria. + +Veiu de dentro benzendo-se tambem a tia Dorotheia, mais pesada, mais +gorda, encher a talha no perenne jorro d'agua gorgolejando no tanque, +onde os peixes vermelhos mostravam o amplo e fundo d'essa abundancia +de agua, trasbordando para a grande pia de lavar, dando viço aos +cravos, rosas, secias e perpetuas dos canteiros, á madresilva da +janella, á abobora do telhado do forno, ao pé de vinha nascido de +encontro á pedra do fundo, desenvolvendo-se em ramadas junto da +arquinha onde se espetava a bica de ferro. + +Recolheu-se, para o não verem faltar á oração matinal e, assim de pé, +varejava-lhe o olhar o braço d'agua que dera o nome d'Angra á sua +cidade. + +Mas não avistava esse navio todos os dias receiado, cujo tiro +alarmante vinha findar-lhe os devaneios. + +Saíam á pesca barcos á vela, avivando o azul n'um recorte de garça; +vogavam outros em cadencia, como buzios deitando por banda as curvas +pernas a fugirem no calhau. + +Latinos inclinados, bordejava um cahique por dobrar a ponta de Santo +Antonio e entrar no porto onde soprava o vento carpinteiro, lenhador +de navios, dos ilheus ao caes da Figueirinha. + +Illuminava o nascer do sol a humida neblina, desenrolando altas +montanhas, picos azulados, sinuosidades como largas muralhas +flanqueadas por torres, das que vira em registos dos logares santos, +cidades, extensas bahias, arvoredos polvilhados d'oiro, reflexos da +Antillia submergida, que havia de irromper das ondas quando voltasse +el-rei D. Sebastião no cavallo branco; miragem da propria ilha, como a +que arrastára os descobridores a aproarem ao mysterio dos horizontes +sem fim, até ao desengano do gelo do Labrador e da Terra Nova, á +inextricavel vegetação de sargaços d'esse mar de inferno. + +Tambem sentia a ancia do desconhecido, herdada dos primeiros +povoadores da ilha Terceira, base das arremettidas a esse mysterioso +oriente, que pretendiam tomar por occidente, dando por fim rumo a +Colombo; tambem queria saber o que haveria para álem da curva do mar +largo, essas terras onde tudo se decidia: a França, mãe da liberdade, +regressada ao antigo regimen, invadindo a Hespanha constitucional, o +que animara D. Miguel a derrubar na Villafrancada as instituições de +Vinte; a Hespanha, de Cadiz, a cujo exemplo estalára a revolução de 24 +de agosto de 1820, tentando agora restabelecer a inquisição; a +Inglaterra, que apoiára a carta constitucional doada por D. Pedro, e +decerto auxiliaria a revolução de 18 de maio contra a usurpação de D. +Miguel, secundada na ilha em 22 de junho, ainda não havia um mez; o +Brasil de onde vinha dinheiro; Portugal para onde iam tributos; +Lisboa, de onde uma embarcação traria um primo para lhe arrebatar a +mulher amada, ou viria buscal-a e levar-lha. + +Annullado na absorpção do mar largo e das terras aonde conduzia, +surgiu-lhe de repente, a pannos largos, guinando n'uma bordada, saindo +detraz do Monte Brasil, a fragata _Princesa Real_, mostrando no +balanço a bateria rasa, cintada de peças negras em carretas vermelhas +abocadas ás portinholas. + +Colheu o velame dos tres mastros, soltou a ancora, e o golpe rapido da +antena, fazendo respingar a agua, foi o signal para o saltearem +lanchas e escaleres. + +Tudo acabaria assim? + +Sentia-se ligado áquelle navio, dependente da sua rota, do porto de +onde vinha, do ancoradouro para onde havia de largar, das cartas que +trazia no forte bojo, e espicaçava-o o impeto de sair d'essa +dependencia, á mercê do que vinha de fóra, elle como a terra; de +reagir dentro do seu meio, do seu circulo, dos seus desejos, das suas +esperanças, por fórma a terem que contar com elle. + +Havia de ficar áquella mesma janella, vendo-o perder-se na bruma, +adivinhando, no palpitar de um lenço, a noiva perdida para sempre? + +Voltou-se e olhou ao longo da grande bahia do Fanal, a oeste do Monte +Brasil, desde a encosta da serra de Santa Barbara, até ás recortadas +negruras de S. Matheus da Calheta, aonde a espuma arrebentava. + +Sem uma incerteza, por entre a mancha escura dos pomares de S. Carlos +e do Pico da Urze; em meio do xadrez de cerrados amarellos de trigo, +verdes de milharaes, negros da ceifa; fitava o mirante da quinta onde +ella o vinha esperar, o caramanchel em que passavam tardes, o casarão +onde um pae lha defendia. + +Como que via já o pateo cheio, carros de bois carregando os grandes +bahus, ha mezes atulhados de rouparia, empachando a casa de entrada; e +o carroção de coiro bolorento, baloiçando-se nas grossas correias, de +largas fivellas areiadas, arrastado á força da aguilhada por duas +juntas, de guiseiras, levando Maria ao embarque, chocalhando +ferrugentas ferragens. + +Ficou por muito tempo sentado no poial de pedra da janella, a fronte +apoiada na mão esquerda, os dedos entre o cabello castanho anelado, +anediando o ligeiro buço, os olhos pregados na quinta dos Folhadaes, +pensando no que devia fazer. + +Ao tocarem matinas na Sé, começou a preparar-se para saír. + +Do quintal bateu palmas a tia Dorotheia. + +Estava prompto o almoço, e elle decidido a seguir Maria, se a levassem +para Lisboa. + +Reconquistou-o ao descer da torre a sentimentalidade do lar, no cheiro +do comer, no arrastado dos chinelos das tias, no tinir da louça da +India, no tlintar dos talheres de prata, no ranger do trabalhado +armario de madeira do Brasil, com guarnições tremidas e remates +arrendados. + +Deu-lhes os bons dias, ellas beijaram-o e afagaram-o, e quando se +sentou na cadeira de espaldar, de onde o pae e o avô presidiam á +grande meza oval, de pés torneados e parafusos de prata, cujas abas se +fechavam para sempre á medida que a familia se reduzia, +esmoreceram-lhe os impetos, esvaíu-se-lhe a energia. + +Amolentara-o a educação mulherenga, creado entre rabos de saias, +adormecido com pavorosos contos de lobishomens e almas do outro mundo. + +Pobres velhas! Morreriam de dôr se lhes faltasse. + +E as ambições de viajar, de seguir uma carreira, de ser alguem, iam-se +no resignado aniquilamento, na tendencia para a meditação, de que o +haviam adoecido os dias abafadiços e humidos. + +--Já saes?--perguntou Pulcheria, mirando-o atravez dos oculos de +tartaruga. + +Dorotheia accrescentou que não era dia de lição, e o dominio das +velhas impoz-se-lhe, como sempre, tomando-lhe conta de todos os +passos, vigiando-lhe as saídas e entradas, fazendo-lhe scenas de +lagrimas quando voltava tarde «do caminho da perdição!» + +Não resistia, não se insurgia, não protestava, mas nem por isso +deixava de sair e entrar quando lhe parecia, embriagando-se de +liberdade, sem pae que o derrancasse nas sovas que humilhavam outros +da sua edade, ao recolherem fóra d'horas. + +--Nem que fosse dia de lição irias hoje ao padre Jeronymo. + +Pulcheria, magra e sêcca, nervosa, solteirona, alludia á chegada do +navio de Lisboa, sublinhando com intenção. + +E Dorotheia, viuva, mais prompta á lagrima, supplicou-lhe: + +--Não te vás meter em trabalhos. + +--Não se fala senão de vinganças, de prisões, credo!--apoiou +Pulcheria. + +Dorotheia, no instincto de dona de casa, abrangeu logo o lado +economico das perturbações: + +--Tudo mais caro. Os ovos já estão a quatro por um vintem, e querem +uma serrilha por uma gallinha. Os homens do monte fingem ter medo de +entrar na cidade, e não passam do Desterro onde açambarcam a manteiga, +os ovos e as gallinhas os revendilhões, que põem tudo pela hora da +morte, desculpando-se que lhes pediram um horror de dinheiro. A cada +má noticia que vem de Lisboa, os lojistas enchem-se augmentando os +preços. Assim tem hoje casas e quintas essa orgulhosa caixeirada que +veiu para ahi de tamancos! Já não se pagam fóros, ha que tempos não +entram aqui os cestinhos de ovos que nos trazia o capitão Toledo das +Doze, nem os casaes de frangos da Fonte do Bastardo. Para que não se +acabe a capoeira, a mana tem deitado ovos em chôco, mas logo na noite +da revolta, com os tiros dos soldados do Lobão contra os milicianos, +foi-se uma ninhada inteira, dezasete ovos de gallinhas das Flores que +põem duas vezes por dia! É o que se ganha com essas façanhas dos +constitucionaes. + +--Ó tia!...--interveiu sorrindo. + +--Se não has-de defendel-os, não fosses todo do Juvencio!--commentou +Pulcheria, mais directamente ferida pelo gôro. + +Dorotheia censurou, muito sentida: + +--Estás sempre metido na botica a lêr as gazetas, e decerto lá vaes +encafuar-te a saber o que veiu de Lisboa, essa Babilonia, Sodoma e +Ghomorra, a corrupta e devassa Lisboa, como préga, acceso em santas +iras, fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria. + +--Quando o vinho do morgado lhe sobe á cabeça. + +Pulcheria reprimiu João n'um olhar. + +--Não te fica bem o que fazes, nem o que dizes. Fr. Angelico é muito +de casa do senhor morgado dos Folhadaes, o nosso protector. Elles são +do senhor D. Miguel. + +--Estão no seu direito. + +Dorotheia acudiu com a questão do dinheiro: + +--Lembra-te que elle te dá quatro patacas por mez pela escripturação +dos rendeiros; e pelas festas, pelo Espirito Santo, e pelas matanças +manda sempre os seus presentes em salva de prata, com sua toalha de +damasco. Teu pae e teu avô foram muito d'aquella casa, e tu mesmo és +tratado como amigo. + +E reparando na distracção d'elle: + +--Não comes nada? Grande coisa tens hoje! + +Pulcheria observou-o tambem: + +--Naturalmente os pedreiros livres estão falados para a chegada do +navio de Lisboa. + +Retumbou na cosinha um penoso suspiro, como das almas penadas dos +contos, e João surprehendeu a creada, a velha Maria da Assumpção do +Corpo Santo, que lhos contava, movendo os seccos braços inchados de +veias, os dedos ossudos em esgares de esconjuro, depois ungindo a +testa encarquilhada, o nariz acavallado, os beiços pendentes, mascando +a sua maneira especial de se benzer: + + Eu me benzo c'os tres cravos + Abraçados n'uma cruz + Para que possa dizer + Santo nome de Jesus: + + A cruz desça do ceu + E se deite sobre mim + O Deus que n'ella padeceu + Elle responda por mim. + +Por fim o dedo pollegar da mão direita, tornado bento pela tarefa +redemptora, foi beijado devotamente, e só depois a serva se virou para +o lar. + +Dorotheia commentou, compadecida: + +--Dão com ella em doida as innovações dos constitucionaes. Demora-se +toda a manhan nas compras, porque vae para a Sé pôr-se de empada, a +rezar, a rezar, em desaggravo ás heresias, aos desacatos. + +Pulcheria insistiu teimosa, devorando o sobrinho com os olhos: + +--É para o que servem os pedreiros livres! + +Elle riu n'uma explosão juvenil. + +--Pedreiros livres? Julga-me talvez? Tem graça! + +A tia confirmou: + +--A senhora Joaquinina do Ó vê-te sempre no falatorio da botica, e +toda a gente sabe que é ali o coio dos que beijam o diabo á meia +noite. + +--Admiro-me que uma mulher de tanta virtude, que anda sempre com o +cordão de São Francisco á cinta, não diga que tambem lá vê, a jogarem +o gamão, os meus mestres, o senhor conego Penedo, o senhor padre +Jeronymo Emiliano d'Andrade e o senhor conego Ferraz, governador do +bispado. + +--Esses são pedreirões dos grandes! + +--Pois tia, antes me quero com elles do que com fr. Angelico da +Immaculada e as suas confessadas, como a senhora Joaquinina do Ó. + +Comera os figos lampos do quintal, as postas de moreia frita a que +escolhia a pelle torriscada, o _affonso_ de lapas em que o marisco +guisado e o longo musgo das conchas conservavam o acre sabôr do mar; e +tomára, já levantado, o café com leite, esse delicioso café vindo +directamente do Brasil, em paga das saias bordadas em que se +entretinham as tias. + +De olhos no tecto e mãos postas, repetiam tres vezes as velhas, junto +da meza «Bemdito seja Deus, que me deu de comer sem eu lh'o merecer», +notando desgostosas que João se esquivava ultimamente á acção de +graças, o que para Pulcheria era um signal certo de pacto com o +Demonio. + +Despediu-se, saiu, passou ás Monicas lançando um olhar irritado ao +convento, cujas grades a liberdade havia de arrancar, desceu a ingreme +Myragaia, notou grande movimento no palacio do governo, mas, evitando +comprometter-se para com o morgado, não entrou a perguntar novidades +de Lisboa. + +Voltou á rua do Convento da Esperança, e passou por diante do collegio +dos jesuitas, tendo em frente a farta cerca dos franciscanos, a +frontaria do convento esburacada de janellinhas como um pombal, a +fachada com dois grandes braços cruzando-se de punhos fechados contra +a cidade--as armas de S. Francisco. + +Virando a esquina entrou na praça, e foi direito á botica, ao canto do +Passo onde parava a procissão e se cantavam motetes. + +Para ir ali tinha a justificação de falar ao mestre, e trazia-a +engatilhada para alguma pergunta do morgado. + +Esbravejava o boticario, tornando a loja em club: + +--Aqui não se recebem ordens do Miguel! Isto não é terra de burros nem +de corcundas. Bem se quer fazer fino, mettendo-nos á cara o decreto, +o capitão general, mas para cá vem de carrinho! O presidente da +camara convocou uma reunião extraordinaria, a que concorreram as +principaes pessoas dos tres estados, clero, nobreza e povo, e +resolveram não cumprir as cartas regias por falta das formulas da +carta constitucional. E a fragata ha de sair immediatamente, ou não +sae mais, que se lhe ferram dois balasios, e era uma vez uma _Princesa +Real_! + +Não iria n'aquelle navio! E respirava desafogado. Agora nada mais lhe +importava. + +Dissipava-se-lhe o terror, mas aproveitaria a lição, e não ficaria +sujeito ao risco de a ver partir sem que nada tentasse para impedil-o. +Sentia-se bem, tinha vontade de correr, de saltar, como ao sair da +lição de latim do conego Penedo, um alto vermelhaço, de cabello branco +com laivos do passado loiro, olhos azues escarnecendo atravez dos +occulos de aros d'oiro, que tratava uns discipulos por Ciceros e +outros por bêstas, e na rua correspondia aos cumprimentos com a mão +fechada, murmurando uma grossa obscenidade dita por entre os dentes +brancos e largos, onde se arrastavam ruidosamente os érres. + +Como no momento de libertação em que a garrida chamava os conegos á +Sé, e Penedo, bufando, contrariado, repoltreava-se na grande cadeira +do côro, cabeceando, a remoer o ripanço em voz roufenha, ia João na +doidice do mar que, antes de enamorado, era o seu encanto. + +Sentia-se tão livre de cuidados como se tornasse annos atraz, quando +corria pela praia, emquanto espaireciam os conegos, pausadamante, rua +da Sé acima, até ao Passeio do Alto das Covas, onde ficavam +cavaqueando, pitadeando-se, ou deitavam, a desenferrujar as pernas, +portões de S. Pedro em fóra, até ás quintas do Caminho do Meio, a +admirarem as vinhas, n'um culto pagão mais sincero do que aquelle em +que ganhavam a vida a dentro do grande templo frio e escuro. + +Tinha o desejo infantil de vêr, com os proprios olhos, sair o navio, +para ficar com a certeza de que podia dedicar-se a resolver a sua +situação para com Maria, antes que surgisse outra ameaça. + +Evitou o movimento do pateo da alfandega onde se accalorava a questão +politica, seguiu pelo areal da Prainha, junto a destroços de +naufragios, pranchões crivados pelo furo do gusano, chapas de cobre +onde cracas e lapas, toda a riqueza organica das aguas, punham +colonias de pequenos seres; depois abandonou o carreiro do areal +batido pelo constante perpassar, onde já plantas desafiavam o beijo da +resaca, e aproveitava a descida da onda para saltar de pedra em pedra. + +Passou o Portinho Novo e foi até aos penedos do caes da Figueirinha, +onde pescadores, perna pendente, pescavam á canna, aproveitando a +fundura da rocha viva. + +Via-se limpidamente a agua escurecida pelo monte, até aos pedregulhos +do fundo, onde a isca de trapo procurava o polvo. Passavam pequenas +sombras fugidias, sumia-se uma lagosta n'uma fenda, vibrava uma moreia +coleante, relampejavam cardumes de sardinha, corriam laivos azues e +vermelhos de peixes-reis e bodeões. Acudiam engodados, vinham em +cardume á çaga de um barco que recolhia, andavam á babugem dos navios +arrastada pelo mar para o recanto da angra. + +Á picada no anzol correspondia a saccada lesta do caniço; saltava um +peixe, debatendo-se, enrolando-se na linha; estrangulava-o o pescador +adentanhando a guelra; lançava-o ao cesto, onde a frescura dos mais +emprestava um resto de vida ao estrebuchar da sua agonia. + +Mas o cação voltava para o mar degolado, com um escarro de desprezo +no bico; e seguia-o o sargo, repugnado por sugar os olhos d'afogados. + +Subiu a Rocha até ao Relvão. + +Ouvia o batucar dos cutellos picando o engodo no castello de prôa dos +barcos de pesca apoitados ao longe; sentia guinchar o cabrestante a +bordo da fragata, alando os ferros. + +Abrigado do sol contra a muralha do castello de S. João Baptista, +encostado ao granito, as pernas estendidas na relva, viu-a largar os +pannos mal rizados, afastar-se em bordos, a montar os Ilheus, em rumo +da ilha de S. Miguel, e quando ella se sumiu de todo sentiu-se como +protegido pela poderosa fortaleza que a obrigára a retirar, por esse +castello que fôra o symbolo da oppressão hespanhola e se tornára a +unica esperança da liberdade portuguesa! + + + + +II + + +Com alegre surpreza das tias, João entrou á hora do jantar, ao meio +dia em ponto; mas em breve lhes tirou toda a illusão de que não o +interessassem os acontecimentos cujo echo já chegava á Pereira. + +Comeu á pressa, foi aperaltar-se para vêr Maria, e saiu logo, de +chapeo alto de aba direita, casaca de briche nacional côr de castanha +de quatro botões nas abas, collete de grande gola, alta gravata em +volta ao collarinho, calça branca e botas altas de canhão amarello. + +Merendaria na quinta, não contassem com elle. + +E d'ahi a pouco estava na botica, sabendo os ultimos boatos, +occultando-se da Joaquinina do Ó e de outras beatas bisbilhoteiras, +que rondavam o Juvencio, embiocadas no manto negro dos pés á cabeça, +saia de merino preto, o capuz envolvendo-as do taboleiro de cartão até +á cintura, onde passava pregueando-se, estreitamente cingido; os +braços apanhando os extremos do involucro e rebuçando-o na frente, por +fórma a só ficar aberto um pequeno oculo, no extremo do canudo de +cartão, que se movia como um bico de passaro, apontando-se +sinistramente no faro da curiosidade, permittindo-lhes verem sem serem +vistas, para irem delatar no confessionario. + +D'ahi a pouco caminhava pelo campo, ao longo de muros de pedra solta, +evitando a poeirada, contrariando n'uma marcha de automato o seu +incorrigivel acanhamento. + +Lembrava saudoso a infancia em que, fugindo á escola de primeiras +lettras, saltava paredes á cata de ninhos, de gafanhotos, de cigarras; +revolvia os restolhos á procura de grillos, que levava no lenço para +casa, para os ter a cantar dentro de um copo. + +Puzera termo a essas esturdias a preoccupação absorvente de Maria. + +Ao principio, quando de tarde ia trabalhar na escripta, por ter presa +a manhan pelos estudos, lamentava essa prisão, impedido de retoiçar +no areal, deitar-se á agua, nadar, apanhar conchas, enxugar-se +rebolando na areia quente, e ir depois, noite fechada, para a praia +das mulheres, no recanto do Castellinho, vel-as metterem-se na agua +aos gritinhos, compondo as saias enfunadas pelo mar. + +Despertára-lhe novas impressões a intimidade de Maria, e os passeios +com ella sob as arvores substituiram d'ahi em diante todos os +entretimentos de rapaz. + +Escutava-a encantado, admirava-lhe os movimentos, esquecia-se a +contemplal-a e, quando retirava ao pôr do sol, voltava-se para traz a +vêr se ainda a descobria. + +Ia já perto da quinta, mas sempre na mesma indecisão, ora desejando +não chegar nunca, ora querendo precipitar o termo da anciedade que o +torturava. + +Avistou por fim a vivenda dos Folhadaes, os altos telhados em +pyramide, a fachada ennegrecida pelo tempo, as janellas com grades de +convento, o escudo de armas por cima do grande portão de carro, o +extenso muro torreádo por mirantes e caramanchões. + +Entrou pelo postigo aberto no grande portão de cedro, pesado de +trancas e tranquetas, ferrolhos, corrediças e argolões, e o coração +batia-lhe descompassado. + +Saccudiu o pó na banqueta de pedra, de onde subiam as senhoras para as +andilhas, e trepou a escada exterior, que começava na parede do fundo +e cortava em angulo para a da esquerda, receiando uma vertigem, +sentindo fugir-lhe a luz dos olhos. + +Sentou-se no poial do alpendre, a descançar um momento, a dominar o +tremor nervoso, e descobriu Maria ao fim da cerca, com a prima D. +Josepha da Esperança e o primo Jorge. + +Inclinou-se, descobriu-se, ella correspondeu n'uma venia exagerada, +curvando-se muito, no que foi imitada pelos primos, e depois +arrancando o chapeu de palha, rustico, de grandes abas, enfeitado de +espigas, papoilas e malmequeres colhidos pela quinta, imitou-o +cumprimentando como um homem. + +Repetiram as raparigas as zumbaias, e o primo deitava-lhes as tranças +para a frente, ao que, irritadas, respondiam com palmadas e beliscões. + +E quando a creada, de dentro da casa, o convidou a entrar, elle tornou +a saudal-as, e as raparigas responderam rindo ás gargalhadas, +fazendo-lhe figas. + +Transpoz humilhado a porta de imponentes almofadas; nunca lhe +parecera tão triste o casarão onde passava horas enfadonhas, junto de +um frade tresandando a vinho. + +Sabendo os cantos á casa ia encafuar-se no escriptorio, quando a +creada lhe disse que o senhor ainda estava á meza, e o guiou á casa de +jantar. + +--Entra, entra, pequeno--convidou em voz entaramelada o morgado--tu és +como se fosses da familia, aqui como o mestre Jacintho, por parte de +teu avô. Aquillo é que era um homem, o capitão Silveira! Gente de +outro tempo! Hoje só ha fedelhos como tu. + +Ergueu pesadamente o corpanzil obeso, cambaleando nas grossas pernas a +estoirarem os calções de ganga amarella, copiados de D. João VI, que +usava com meia branca e sapatos de fivella de prata. + +Já pelos bofes da camisa, pelo collete e pela casaca, nodoas de vinho +affirmavam o abuso da bebida, e a mão tremula derramou-lhe o copo, que +empunhava de pé, virado para João. + +--Á tua, em memoria de teu avô! + +Bebeu e tornou a sentar-se, pesadamente, apoiando-se á borda da meza e +á grande cadeira de braços, de coiro negro e pregaria amarella, em que +presidia á cabeceira, na velha tradição senhorial. + +--Grande homem que elle era!--apoiou mestre Jacintho--sem desfazer em +quem está presente. + +Endireitou o corpo alquebrado, illuminou-se-lhe o olhar, e o velho +soldado denunciou-se no cabello á escovinha, na colleira de coiro +negro que no pescoço escanzelado saia da camisola de linho de pastor, +na marca das bexigas que lhe favava a cara encorreada, como passada ao +lustre das mochilas. + +Tomou com toda a confiança um copo, bebeu e, sempre de pé, +disciplinado até a escravidão, voltou-se para Martinho Vasques: + +--O que nós fizemos n'aquelle Russillão! + +Attingia a phase piegas a embriaguez do morgado, tremia-lhe o beiço +inferior, descahido e inchado, tornavam-se-lhe muito pequeninos os +olhos duros, de um azul frio, raiados de vermelho, e o nariz +destacava-se-lhe rubro, da côr de telha do rosto apopletico, onde as +sobrancelhas asperas, espessas, unindo-se carrancudas, os longos +pellos das ventas e dos ouvidos, punham em occasiões normaes a marca +da rudeza, da selvageria. + +--Se não fosse teu avô não estava eu aqui! Se não me tivesse deitado a +mão quando eu caí ferido na retirada da Montanha Negra! Devo-lhe a +vida a elle e a este velho! + +Mas a lingua emperrava-se-lhe, a sensibilidade engasgava-o de todo. + +Ancioso sempre de contar façanhas, no orgulho profissional, o +ex-soldado do Roussillon ergueu as mãos á altura dos ouvidos, como a +pedir que o escutassem, e começou n'um bom ar de velhinho, +tremendo-lhe o bigode branco em escova: + +--Quando aquelles malditos franceses caíram sobre nós, eu, mais o meu +capitão e mais vossa excellencia, senhor morgado, fomos para cima +d'elles como leões, e eram cutilladas de alto a baixo, golpes de +rachar de meio a meio... + +Ganhava-o pouco a pouco a furia de assassino profissional: +passavam-lhe no olhar relampagos sinistros; arregaçavam-se-lhe os +beiços, mostrando os dentes pôdres ainda promptos a morder; +crispava-se-lhe a mão esquerda em fórma de garra, o pollegar muito +desenvolvido, erguido acima dos outros dedos, na ameaça de premir a +guela do inimigo; e na mão direita brilhava-lhe uma faca de meza, +brandida com furôr, como nos assaltos á arma branca, em que, com as +mãos a escorrer em sangue, degolava soldados agarrados ás peças, +apertados uns contra os outros, sem espaço para se defenderem no +recanto de uma trincheira. Tinham ás vezes que abrir-lhe a mão á força +para lhe tirarem a podôa de jardineiro, a que se soldavam os dedos +quando brigava com os cavadores, e renovava-se a lição do mal; ou +quando o vinho lhe obliterava a consciencia de homem grato, generoso, +humilde até á servidão. + +Sobresaltado frei Angelico na languidez da digestão, arrotando +empanturrado, flatulento, ergueu-se, arredou o habito pardo de +franciscano n'um meneio feminil, adquirido em menino do côro; o que +ainda parecia, apezar dos quarenta annos, pelo effeminado dos ademanes +de aprendiz de clerigo, pelo tom rosado da face gorda e oleosa, a que +a larga tonsura dava uma frescura de novo; e desapertando o cordão de +nós, clamou na voz de canna rachada, em que outr'ora cantava de +falsete, limpando o suor ao lenço de Alcobaça sujo de rapé: + +--Veja e aprenda, Joãosinho, como se pratíca a verdadeira egualdade, +não a d'esses malditos clubs, mas a que é agradavel ao ceu! Aprenda, +que está em edade. N'esta velha casa fidalga fraternisam, libando o +vinho de Deus, dando graças ao Altissimo pelas suas obras, a nobreza +representada no excellentissimo senhor Martinho Vasques de Linhares +Soeiro, morgado dos Folhadaes, o clero n'este humilde servo do Senhor, +e o povo n'esse villão, esse ninguem, esse bicho da terra, esse pó da +estrada!--e apontava mestre Jacintho.--Exemplos d'estes, só na +educação religiosa se encontram. E para isto não é preciso ser +jacobino, nem republicano, nem pedreiro livre, nem cuspir na hostia +consagrada! + +Benzeu-se horrorisado e, sem transição, desceu do tom de prégador: + +--Mas o Joãosinho não bebeu nada. Vá lá. Um só não faz mal. + +Encheu-lhe um copo, derramando vinho pela toalha, e deitou outro para +si. + +--Beba á saude do senhor morgado, e vamos para o terraço, que se abafa +de calôr. + +Habituado áquellas scenas, bebeu satisfeito João. Talvez lhe désse o +vinho o animo preciso. + +Saíram, o morgado á frente, equilibrando-se ao bordão de marmeleiro +polido, no apparato de uma vara de juiz, em gravidade processional; +depois o frade, arrastando as sandalias, conchegando a proeminente +barriga, levando no regaço o cordão e o rosario, que desapertara; João +pisando respeitoso, ao de leve; e por fim o mestre Jacintho, muito +curvado, rindo e falando comsigo mesmo. + +Assentaram-se a nobreza e o clero na banqueta de azulejo, que corria +ao longo da empêna da casa, no terraço voltado para S. Matheus. +Sentou-se João sem esperar convite, por direito proprio, +considerando-se tanto ou quanto nobre, pelos fóros de fidalguia da +espada do avô; e n'essa decisão já reconhecia o effeito do vinho +fazendo-lhe perder a usual timidez, e já acariciava a proxima +entrevista com Maria. Disciplinado como soldado, e tão firme quanto +lhe era possivel, conservava-se mestre Jacintho de pé ante os seus +superiores hierarchicos, chalaceando, contando historias de caserna, +as mãos perto dos ouvidos, o rosto expandindo-se n'um sorriso de bom +velhote. + +Depois saíu Martinho Vasques com o jardineiro, a vêrem os trabalhos da +quinta, e frei Angelico e João foram para o escriptorio. + +Dobrado para a meza de saia de baeta vermelha, limpando no cabello a +penna de pato, olhava a furto, pela janella fronteira, a varanda de +pedra do fundo da quinta, onde passeavam á sombra da parreira, Maria, +a prima que ia jantar com ella e passar a tarde, e Jorge da Feteira, +namorado de D. Josepha da Esperança, que apparecia para a merenda. + +Tinha ciumes do fidalgote que levava a confiança de primo a beijar +Maria á entrada e á saída, e invejava-lhe a liberdade em que andava +com as duas raparigas ao fresco da tarde, pela recatada vastidão do +pomar. + +Afastavam-se, mas elle espionava o quadro recortado pela janella na +parede nua, e tornava a vêl-os notando a impaciencia com que o +observavam. + +Orgulhava-o esse interesse. Sabia que o estimavam, que o esperavam +para a merenda, mas não deixava de reconhecer, por parte dos primos +reunidos para falarem, o motivo d'essa espectativa, poderem afastar-se +deixando Maria entretida com elle. + +Deitado em cima da papeleira encetára o frade diversas folhas de +papel, mas a penna de pato, rangendo muito, fazia-lhe uma lettra +incerta, incomprehensivel, e a mão tremula deixava cair borrões que +impossibilitavam a continuação. Deitava-lhe areia, encanudava a folha +e despejava-a no recipiente de chumbo, mas os pingos de tinta lá +ficavam. E na atarantação de poupar meia folha de garatujas +despejou-lhe por cima o proprio tinteiro, borrando o lenço, as mãos, +todos os papeis do alçapão. + +Rendeu-se então á evidencia, reconheceu-se incapaz de escrever, e +lançando-se para o hirto canapé de palhinha, tomou rascunhos de cartas +e poz-se a ditar a João. + +Entretido com a janella, elle escrevia machinalmente, repetia +distrahido, errando o ditado; e fr. Angelico, sentindo a cabeça +pesada, crendo seu o engano, envergonhou-se do rapaz e deu por findo +esse tão pouco proveitoso trabalho. + +Ia emfim desabafar! + +Mas o acanhamento assaltava-o de novo, e ainda pensava adiar para mais +tarde essa urgente expansão. + +Desceu ao pateo de entrada, abriu a cancella que dava para as +trazeiras da casa, onde as gallinhas debicavam montes de estrume, e os +filhos do quinteiro pulavam nos picos de matto roçado para o lume; +passou por entre os chiqueiros, atravessou o jardim, rodeiou o +repucho, contornou os taboleiros de onde vinha o cheiro penetrante dos +cravos; e ao fim das ruas de buxo, abriu outro portal, e internou-se +na quinta, por debaixo da latada que em pilares de pedra a dividia ao +meio, deixava dois grandes rectangulos destinados a alfobres e á +horta, e continuava contra os altos muros negros de pedra solta +ensombrando os passeios lateraes. + +Reuniam-se todas as tardes no pomar, ao fim das larangeiras, das +nespereiras, por baixo das quaes nascia silvestre a hortense, e +conversavam até ao escurecer. + +Só encontrou D. Josepha da Esperança e Jorge da Feteira sentados muito +juntos, de mãos dadas, indolentemente reclinados no grande banco de +pedra, com recosto de azulejos onde caçadores, de chapeo tricorne, +perseguiam lebres, acompanhados de cães, quasi de pé como pessoas. + +A falta d'ella permittiu-lhe serenar, confirmar-se no proposito de +dizer-lhe tudo, de sair por uma vez do equivoco em que vivia. + +N'uma aspereza que a tornava mais apetecivel, entrou Maria, saltando +irrequieta, o chapeo deliciosamente deitado para os olhos, n'um +simples vestido vermelho inteiro, de cintura alta, o collo a +descoberto, de tres folhos na saia um tanto curta, deixando vêr o +sapato branco, atado por fitas brancas, sobre a meia branca, no +tornozêlo. + +A sua simplicidade contrastava com o requinte de secia de Josepha, a +opulenta juventude trasbordando de um rico vestido verde, de cinco +folhos, com capoteira de renda em bicos, sapatos de duraque preto, +cabello penteado atraz em cuia, apartado ao meio na frente, grandes +tufos nas fontes, um fio de perolas na testa, desvelos de toucador +destinados ao primo Jorge, que por sua parte caprichava em vestir +grosseiramente á D. Miguel, jaqueta de alamares, cinta, calção, botas +de prateleira, bóné azul, cabello puchado para as fontes, cara rapada, +porque o bigode denotava á legua constitucional. + +Andava pela edade de João, mas parecia mais nova. As doenças da +meninice, as convulsões com que a dotára o alcoolismo paterno, as +impurezas do sangue azul dos casamentos consanguineos tinham-lhe dado +a fragilidade ainda transparente na pallidez, nas fundas olheiras, no +descorado dos labios. Por volta dos onze reagira, ganhára forças, +mercê do longo tratamento com que o pae gastára muito, na teima de +assegurar emfim um herdeiro á casa, depois de tantos morgados e +morgadas, cheios de pustulasinhas, mortos no berço. + +Eram d'elle os olhos azues, desmaiados, o cabello castanho, e a +expressão de aspereza que as sobrancelhas, contrahindo-se, ás vezes +denotavam. Mas na boca pairava-lhe a terna brandura com que a mãe +outrora se resignava aos beijos roubados por infindaveis legiões de +primos. + +Afogueada pela pressa com que viera, Maria falou a João, e sentaram-se +todos, encruzados, na relva, a comerem maçãs e marmelos assados no +forno, trespassados de assucar, que ella trouxera no regaço. + +Falou-se da imprevista partida do navio, dos actos do governo da ilha, +dando elle noticias com simulada indifferença. + +Finda a merenda foram beber agua á pequena cascata do recanto da +quinta onde se abrigavam a estufa de ananazes, e as largas folhas das +bananeiras; amadureciam maracujás do tamanho de ovos côr de chocolate; +desenrolavam-se fetos de entre as pedras negras e vermelhas, fundidas +pela lava em filigranas, em lagrimas; abriam em guarda sol as largas +folhas ovaes do inhame por cima da valla onde escoava o regueiro, +empoçado em nodoas de agrião. + +Satisfeita a gulodice, que já lhe ameaçava de pontos negros os dentes +miudos e mal implantados, Maria lançou-se para a rêde, que pendia +indolente da ramada dos castanheiros, e juntando as mãos sob a cabeça, +fez d'ellas e dos braços, a sairem nús da manga arregaçada, o +travesseiro em que se reclinou indolente, cerrando os olhos, sorrindo +a João. + +Elle puchou uma cadeira de vimes e poz-se a baloiçal-a brandamente. + +Ganhava-os o odôr estonteante das magnolias, o morno perfume adocicado +recendente da estufa. + +De mãos dadas afastavam-se pouco a pouco, os primos namorados até, +como de costume, desapparecerem de todo. + +Correspondia João ao infantil sorriso de Maria, e ha dois annos que +não passavam d'ahi. + +Estiveram muito tempo sem falar, no prazer mudo de se contemplarem, +até que João estremeceu á ideia de a perder. + +--Teve noticias do primo?--perguntou-lhe de repente, indo direito ao +assumpto, sem preparação. + +Ella respondeu indifferente, transportada no brando oscillar da rede: + +--Sim. Está bem. + +Apparentou desinteresse, mas insistiu: + +--Sempre casam? + +N'um movimento de contrariedade, que o animou a ir mais longe, disse +Maria: + +--Bem sabe que sim. + +Ficaria outra vez interrompida a conversação, se elle, animado pelo +que crêra adivinhar, não se arriscasse mais: + +--E gosta? + +--De quê? + +--De casar. + +N'um visivel enfado murmurou: + +--Sei lá! + +Muito nervoso, repetiu: + +--Quero dizer se gosta de casar com elle. + +Tirou-se da rede que, preoccupado, João deixára parar e n'um encolher +de hombros: + +--Se nunca o vi. + +Foi lançar-se descontente no banco de pedra, a fronte ensombrada, no +gesto do pae. + +Ficou João um momento indeciso, e depois approximou-se vagaroso, +offendido: + +--Vejo que não é minha amiga. + +--Porquê? + +--Fala-me com mau modo... + +--Eu? + +--Com frieza, com indifferença... + +--Para o que te havia de dar hoje! + +E como elle se sentasse, succumbido, soltou uma risada, n'um impeto +de volubilidade, e beliscou-o, no seu agreste feitio infantil. + +--Isto então é mau modo? + +Ergueu-se elle corando, e supplicou: + +--Por amor de Deus não brinque commigo! + +--Estás amuado? + +--Pelo menos agora não graceje, e diga-me só: Gostava de ir para +Lisboa? + +Abrangeu n'um olhar a casa, o campo, a vida que levava enclausurada, e +respondeu: + +--Isso gostava. + +Retorquiu João em voz estrangulada: + +--Não se importava então de me deixar? + +Irritada pelo interrogatorio, Maria exclamou, sem o fitar: + +--Que pergunta essa! + +Elle approximou-se, muito commovido: + +--Era uma separação para sempre! para sempre! + +--Sim, talvez! + +E d'olhos no chão encarava agora as consequencias. + +Vendo-a impressionada, João aqueceu: + +--E não levava pena nenhuma? + +N'um repente de sinceridade, Maria accudiu ingenuamente: + +--De me separar de ti, sim. + +--Mas não tinha ainda pensado em mim!--queixou-se elle, muito sentido. + +--Realmente ainda não pensára. + +Começava a sentir-se compromettida, olhava em torno a procurar os +primos. + +João deixara-se arrastar pela arrebatadora emoção d'esse momento tanta +vez sonhado, e tanta vez crido impossivel: + +--É porque nunca me quiz bem! + +Ella via embaciarem-se-lhe os olhos, tremerem-lhe os labios. + +Desculpou-se para não o affligir mais: + +--Como querias que pensasse em ti, se isto tem sido uma coisa no ar? + +--Mas estão preparados para o embarque... + +--É certo que o pae anda com isso ha muito. Mas elle faz e diz tantas +coisas sem fundamento, que eu nunca o tive por decidido. + +--Nem mesmo o casamento? + +--Não pensei a serio em coisa alguma. + +E n'um arremesso de creança que os mimos tornaram voluntariosa: + +--Mesmo isso do casamento com o primo ha de ser se me agradar. + +João estremeceu, desiludido: + +--Ah! Então ainda é possivel? + +--Só Deus o sabe. Mas se não sympathisar com elle, não ha forças +humanas que me obriguem. + +--Quer dizer que ainda póde vir a agradar-se? + +--Quem sabe! + +Cria-o então possivel? É que nunca sentira por elle nenhuma affeição? +E a custo João comprimiu um soluço, que não lhe passou despercebido. + +--Que tens tu? + +Bailando-lhe lagrimas nas pestanas, desabafou: + +--Ando como um doido! Perco as noites a pensar que não nos tornamos +mais a vêr. Toda a minha vida hei de chorar esta casa... + +--Coitado! Faz-te falta o que o pae te dá a ganhar. + +Magoou-o a apreciação. Pois não presentia n'elle outro sentimento? Não +interpretára nunca o verdadeiro culto que lhe votava, olhando-a +absorto, como ás imagens. + +Pensou ainda em manter-se incomprehendido, em calar essa revelação. +Vinha muito tarde! Não o comprehendera em dois annos de intimidade, +não ia agora corresponder-lhe de repente. Mas revoltou-o vêr +accentuada a situação de dependente. + +--Não ia ali por interesse--protestou.--Os seus deixaram-lhe alguma +coisa. Tinha com quê. Era só por ella, para estar ao seu lado, que +acceitava o sacrificio do escriptorio. + +Impressionou-a a paixão com que falava. + +Ainda em tom de gracejo, mas com a voz um tanto abafada, disse sem o +fitar: + +--Querem ver que te deu para me namorares? + +Ficou olhando para a areia vermelha. E como elle permanecesse calado, +insistiu, evitando-o sempre: + +--Não respondes? + +--Fica zangada commigo?--perguntou a medo. + +--Não. + +--Isso é que fica. + +Ella virou-se de repente, e fitou-o com franqueza: + +--Zangada porquê? + +Intimidou-o essa expressão, que não comprehendia; mas era tarde para +recuar. Muito envergonhado, rendeu-se: + +--Pois é verdade. + +Maria ergueu-se n'um riso forçado: + +--Tu, namorado de mim? Tu, meu fedelho! Ora! Não sabes o que dizes. + +Ia afastar-se, mas João supplicou: + +--Já que me não ama, diga ao menos que me perdôa! + +--Tens medo? Descança, não faço queixa ao pae? + +--Não se ria de mim, quero-lhe muito, muito!--soluçou elle.--E quando +soube que a pretendiam casar em Lisboa, chorei de desespero, porque me +costumára a pensar que havia de ser minha mulher. + +Ella encarou-o, franzindo as sobrancelhas, como irritada pelo +atrevimento do plebeu, do insignificante, irrespeitoso para com o +idolo que para todos julgava ser. + +--Estás brincando! É lá possivel! + +Elle enxugou as lagrimas, conteve se: + +--Sinto-o agora, pelo desdem com que me trata. + +--É uma creancice. + +--Sim. Mas que me perdeu para sempre. + +Irritada procurou convencel-o: + +--Pois tu não vês que o pae nem quer que eu fale com o primo Antonio, +nem com o primo Sebastião desde que se lhes metteu em cabeça +pretenderem-me, porque são pobres? E que és tu ao pé d'elles, quasi +tão fidalgos como nós? O que diria o pae se soubesse d'isto! + +--E a menina que diz? + +--Que digo? Não me estás ouvindo? + +--Se me estima. + +--Bem sabes que sim. + +--Muito? + +--Vê lá se me entretenho com mais alguem do que comtigo e com a prima +Josepha da Esperança. + +--E agora, depois do que lhe disse? + +Animava-se momentaneamente, olhava-a transportado, n'um lampejo de +esperança. + +Ella sorriu, bondosa, infantil: + +--Já me viste por ventura algum namorado? Todas as raparigas os têm, +aos dois e aos tres, e eu nunca achei graça a essas tolices. São +brincadeiras estupidas. Mas se gostasse de um homem, muito cá de +dentro... + +Transfigurou-se, dominou-a uma expressão de alegria, mas conteve-se e +exclamou abruptamente: + +--Olha, falemos de outra coisa. + +Comprehendeu que era preciso acabar: + +--Vejo que não quer saber de mim. + +--És doido. Então não temos sido tão amigos? + +--Oh! Como eu esperava ... não! + +--Sabes que mais? És um doido, é o que te digo! + +E afastou-se com mau modo. + +--Um momento, senhora D. Maria, esqueça esta falta de respeito, antes +que me retire para nunca mais voltar. + +--O quê? Não estás bom de cabeça rapaz. Então é que o pae desconfia. E +o que serás tu nas suas mãos, meu franganito! + +--Virei despedir-me com qualquer pretexto ... e nunca mais me tornará +a vêr! + +Ia seguindo Maria, que se esquivava a novas lagrimas, procurando os +primos, aninhados n'algum caramanchão. + +Ao descobrirem-os, disse João precipitadamente: + +--Obrigado pela feliz illusão em que tanto tempo me manteve, e adeus +para sempre! + +--Vae com Deus--redarguiu ella, muito saccudida--e pede a Santa +Catharina que te dê juizo. + +Despediu-se João cerimoniosamente de Jorge da Feteira, de D. Josepha, +e retirou-se corrido. + +Não se atreveu a sair pela porta principal, á vista de todos. + +Atravessou o cannavial, passou ás terras lavradias, saíu pelo portão +de ferro que abria para o cerrado, e seguiu ao longo do muro da +quinta, encoberto pelas faias e caniçados. + +Ao passar debaixo do mirante onde a deixara, surprehendeu pedaços de +conversação a seu respeito. + +Josepha da Esperança reprehendia a prima: + +--Não o devias ter deixado tomar tanta confiança, desde que não o +querias. Vocês pareciam mesmo dois namorados, e sempre os tive por +isso. Andastes muito mal. + +Indignou-se Maria: + +--E tu, e as outras? Vocês teem licença para tudo? E se me desse para +o namorar? Que tens que vêr com isso? Olha, talvez venha a gostar do +entretenimento. + +--Com este? + +--Com este ou com outro. Parece que é tudo o mesmo, á maneira como +vejo variar. + +--Isso é commigo, prima? + +--É com todas. + +--Deu-lhe volta ao miolo! Pois veja se tem mais juizo. + +--Olhe, prima, não a chamei para mestra, e não me venha dar lições sem +que a tome ao meu serviço. + +Voltou-lhe as costas e afastou-se. + +Josepha da Esperança ameaçou, despeitada: + +--O que tu merecias era que eu fosse contar tudo ao tio. + +--Pois experimenta, e verás que te pico os olhos com uma agulha. + +Ao perceber o tom das referencias, João apressava o passo, corrido, +humilhado, occultando se com os silvados, para que nunca mais o +vissem. + + + + +III + + +Passára João interminaveis dias de angustia, e agora apenas ia á lição +de latim, ficando a estudar noite e dia para poder entrar mais +depressa na universidade. + +Manter-se-ia em Coimbra com a pequena legitima paterna que, para se +formar, conservava intacta, sustentado pelas tias, a quem auxiliava +com os ganhos de escrevente. + +Para supprir as quatro patacas pedira ao Juvencio, e ao doutor Ferraz, +que o apreciava das conversas politicas da botica, alguns trabalhos de +expediente da junta provisoria, que podesse fazer de tarde e á noite. + +Mas a subitas abandonava o buffete, chegava á janella, e sentava-se a +contemplar a quinta dos Folhadaes, evocando a derradeira visita. + +Resentia-se da frieza de Maria, do desdem transparente nas censuras de +D. Josepha da Esperança, do olhar sobranceiro de Jorge da Feteira ao +corresponder friamente ao seu cumprimento. + +E avaliava que tal devia ser o primo de Lisboa a quem a destinavam, +por esse arrogante analphabeto, cheirando a estrebaria, orgulhoso de +pegar toiros á unha á saída do curro, de picar a pé á vara larga, de +farpear de dentro do caixão a meio da praça, falando com desprezo da +liberdade que não comprehendia, odiando a letra redonda que nem +soletrava, copiando D. Miguel por fóra e por dentro, dizendo-se, por +bravata, capaz de defender de armas na mão o passado, que lhe dava +direito de primasia sobre a parte intellectual da nação. + +Como fôra ridiculo no seu acanhamento! + +Porque não rompera n'um rasgo soberbo, lançando-lhes em rosto alguma +dura phrase ouvida na botica, predizendo-lhes a aniquilação fatal da +fidalguia, despojada do direito de explorar o povo, annulada pelo +plebeu trabalhador, instruido e saudavel, ella, a casta analphabeta, +indolente, corroida no sangue por heranças de miserias e de vicios? + +Precisava desafrontar-se, lançar-lh'o em cara, citar-lhes os artigos +da Carta que confirmavam a Constituição na extincção dos privilegios, +no estabelecimento da egualdade. + +Mas teria offendido gravemente Maria... + +Fôra melhor assim! + +Ella não podia pensar como o pae, como o primo. + +Tratara-o sempre como um egual e, se manifestára aquella grande +estranheza, fôra decerto por ter ouvido de chofre o seu audacioso +proposito, sem que uma gradual preparação a habilitasse a encarar +aquelle amor como a natural consequencia da intimidade em que viviam. + +Maria amava-o, sem duvida; e assim que lhe importariam os +preconceitos? + +Vibrava na revolta sentimental dos poetas que, em relampagos de genio, +previam a declaração da egualdade, queixando-se de que Deus fizesse +deseguaes os homens, e lhes desse, impiedoso, olhos e sentidos para +escolherem o melhor, e um coração para estalar de dôr; e se fosse +poeta glosaria n'um sentimento vivido, para os enviar a Maria como um +formidavel protesto, os versos de Gil Vicente: + + «Que el amor que aqui me trajo + Aunque yo fuese villano, + El no lo es.» + +Já não havia porém villões e fidalgos; perante a lei eram todos +cidadãos! + +Maria agora sabia tudo e, n'esses longos dias em que se não viam, +tinha tempo de meditar. + +Julgal-o-ia no seu intimo, evocaria, talvez saudosamente, a +jovialidade d'essas tardes! + +Que pensaria o fidalgo em não o vendo? + +Era forçoso ir lá dar-lhe qualquer desculpa. Não podia desapparecer +como um criminoso. + +Precisava mesmo mostrar-lhe, e a todos, que não tinha medo. + +N'esse dia despedir-se-hia d'ella cerimoniosamente. + +Já não era dependente e, se o acolhesse, tratar-se-iam de egual para +egual. + +Voltaria como visita, ou falar-lhe-ia da canada, e havia de +inspirar-lhe confiança, fazendo-lhe vêr como as medidas liberaes, +extinguindo distincções, lhe permittiam elevar-se até aspirar á sua +mão. + +E assim caía de novo na preoccupação politica, sentindo ainda mal +seguro esse estado de coisas que provocava um desdenhoso riso a +Martinho Vasques, e avinhados raptos oratorios ao frade. + +Como sempre que o intimidavam a tranquilla segurança dos adversarios, +as más noticias que por toda a parte espalhavam, decidiu ir á botica +avigorar a fé na convicção enthusiastica do velho clubista. + +Fôra tão forte o abalo soffrido que adiou de dia para dia a visita ao +Juvencio e, sem saír mais que para a aula do padre Jeronymo, continuou +agarrado aos livros, vendo n'elles, no curso para que o preparavam, a +sua melhor desforra. + +Alarmou-o uma manhã o boato trazido de fóra pela creada, quando +estavam almoçando, de que se ia embora o batalhão, e voltava a ilha á +obediencia do senhor D. Miguel. A junta reunia gente armada para +impedir o embarque, mas todos diziam que os caçadores eram levados do +demonio, e nenhum caso fariam da paisanada. + +Não poude encobrir o desgosto, mas não respondeu ás tias, não lhes +contestou os commentarios. + +D'ahi a pouco saía, muito enfiado, disposto a tudo. + +--Que ha de novo, senhor Fulgencio? + +Veiu do interior da loja o boticario, um velho alto, secco, ainda +robusto, só divergindo dos constitucionaes na cara rapada, olhar +inquieto, ardente, bocca energicamente accentuada, expressão decidida, +barretinho de clerigo tapando-lhe a calva, muito correcto n'um velho +traje de gala, repassado aqui e ali, casaca de seda preta, calção e +meia, chinelos em vez dos sapatos de fivela, por causa dos callos. + +Aproximou-se n'um ar mysterioso, occultando-se das beatas que iam +vigial-o de manto, e disse-lhe baixinho: + +--Está reunido o conselho militar. A coisa não ha de ir assim, estejam +descançados. + +E retirou-se, muito activo, n'um passo miudo. + +Seguiu-o João, angustiado. + +--Vieram más novas? + +Voltou Fulgencio a falar-lhe entre portas: + +--Não vieram das melhores, não. Olha, ahi tens gazetas fresquinhas, +chegadas hontem, n'um navio da laranja. Vae-te entretendo, emquanto eu +avio a gente _do monte_, para ficar com as mãos livres, se tivermos +dança. + +Era domingo e, conforme o uso, viera ás compras muito povo do campo. +Estava a botica cheia de cabaças, de alforges, de sacos de estopa. Em +cima de mezas alinhavam-se tijelas onde Fulgencio, de espatula em +punho, ia despejando boiões de unguento. + +Devorava João as pequenas folhas, de um palmo de largo, por palmo e +terça de alto, a duas columnas, encimada pela corôa portugueza, entre +_Gazeta_ e _de Lisboa_, do titulo. + +Vinham cheias de saudações a D. Miguel pela «exaltação ao throno dos +seus maiores»; da lista dos «donativos voluntarios», extorquidos pela +policia e pelos caceteiros sob a ameaça da denuncia por liberal; de +congratulações officiaes pela victoria das tropas fieis contra as +rebeldes. + +Na ultima pagina do n.{o} 184, de 4 de agosto, figurava o annuncio do +retrato de D. Miguel, em ponto grande; para medalha e caixa de rapé a +40 réis a duzia, em preto, a 240 _illuminado_; para medalhas mais +pequenas respectivamente a 30 e 160 réis; para anneis e alfinetes a 20 +e 120 réis. + +Publicava a _Gazeta_ n.{o} 182, de 2 de agosto, o «Assento dos tres +estados», em que se declarava D. Miguel rei absoluto, absolvendo-o de +haver jurado falso com essa interpretação do juramento, que João lia +assombrado: «irrito ou nullo quando cae sobre materia illicita, +quando é extorquido pela violencia, quando da sua observancia +resultaria necessariamente violação de direitos das pessoas e dos +povos, e sobretudo a completa ruina da nação.» + +E os jornaes continuavam a bater a nota das felicitações a D. Miguel e +ás tropas. + +Que significava aquillo? + +Não podia deprehendel-o das _Gazetas_, alheio como estava ha muitos +dias ao movimento politico. + +Mais aliviado de freguezes, veiu Fulgencio esclarecel-o: + +--Sim, foi-se tudo por agua abaixo. Já o sabiamos desde o dia 5, mas +a cara era a mesma, para que esses patifes dos miguelistas não se nos +rissem nas barbas... + +--E as noticias que o doutor Antonio da Silveira foi procurar ao +Porto... + +--Já nos deram a divisão liberal em retirada para a Galliza ... mas +nós: moita, carrasco! + +--Pois não poderam manter-se todas essas tropas da junta do Porto? + +--Perdeu-os a sua ingenuidade! Tu bem sabes que nós não queremos +sangue, nem alçadas, nem perseguições, nem confiscos. Paz e egualdade +para todos! Eis como foram até cerca de Condeixa tres mil soldados +liberaes, por assim dizer como chamariz a deserções. Mandaram-se +proclamações para o campo inimigo, e ao alarme pela aproximação de uma +força adversa romperam as bandas o hymno constitucional, para a +arrastarem á adhesão. Contava-se vencer sem disparar um tiro, sem +derramar o sangue de irmãos! + +--Como em Vinte!--exclamou João enthusiasmado. + +--Eram os principios! Mas as forças do Miguel, seis a oito mil homens, +não quizeram «abraçar os irmãos d'armas», e atacaram na Cruz dos +Moroiços, no momento em que todos os chefes, de major para cima, +tinham ido assistir ao conselho militar em Coimbra. Foi a «acção dos +capitães» e, como tal, as forças sem commando que reunisse os seus +esforços, defenderam com valentia as posições occupadas, mas não +limparam de inimigos o caminho de Lisboa. Depois o nosso general +Refoios, receando que Povoas passasse o Mondego, ordenou a retirada +para o Porto. + +--E ahi? + +--Não se poderam manter. Quando chegaram de Inglaterra os chefes +emigrados já era tarde, e voltaram no mesmo vapor que os levára, +emquanto a divisão retirava para a Galliza. + +--Que desgraça! + +--Ou antes, que inepcia. Essa fuga dos chefes no _Belfast_ não me +passa d'aqui! + +E levou a mão á garganta n'um gesto nervoso. + +Sentiu João as lagrimas nos olhos, e fez exforços para não chorar. + +Assim ruia n'um momento o futuro em que tanto confiára. + +--Então acabou-se tudo?--exclamou em voz estrangulada. + +--Qual! Outros virão! Ha de estalar nova revolta, e o Miguel não +levará a melhor! E agora que aprendemos á nossa custa, nada de hymnos +nem de proclamações. Ha de ser á má cara! + +Dava grandes pernadas pela botica, olhando inquieto a praça, onde se +juntava muito povo defronte da camara. + +Continuou para João, que ficára aturdido: + +--Assim o querem, assim o tenham! O exemplo do sangue veiu d'elles. Já +começou a trabalhar a forca, mas os estudantes de Coimbra, longe de se +intimidarem com o assassinio dos collegas condemnados pela morte dos +lentes em Condeixa... + +Olhou João fixamente, crendo que a sua pallidez provinha da referencia +ao attentado e ás execuções. + +--Ouve lá. Tu que te fazes tão liberal, se te coubesse em sorte +executares um tyranno, um inimigo de liberdade... + +--Não me tremia a mão, tenha a certeza! + +E João ergueu-se, vibrando de enthusiasmo, na esperança de poder tomar +parte na lucta contra a casta dominante cuja oppressão tanto o +magoára. + +Parecia-lhe ha muito que o experimentavam os frequentadores da botica, +e sentia-se attrahido pelo maravilhoso, pelo mysterio do subterraneo +onde constava funccionar uma associação secreta. + +Mostrava agora uma firmeza de homem feito, sentindo-se honrado por +esse convite indirecto a entrar em acção. + +Juvencio fitava n'elle o olhar prescrutador. + +--Todos serão precisos!--disse-lhe por fim--e os rapazes mais do que +os velhos. São vocês que teem a lucrar com a liberdade. Eu não +chegarei a gosal-a em paz. + +Commoveu-se n'uma saudade do periodo constitucional, das humanitarias +illusões em que tinham considerado a nação livre e feliz para sempre. + +Mas o gesto de amargura cedeu ante a impulsão do inquebrantavel +espirito de combatividade, e proseguiu: + +--Como te ia dizendo, a estudantada não se intimidou, e adheriu á +revolução, formando o batalhão academico, que lá retirou com os +emigrados. + +Eram um novo contratempo para João as perturbações da universidade. + +E na obsecação do projecto que por esses dias o absorvera, perguntou: + +--Então assim, talvez não possa matricular-me este anno? + +Sorriu da ingenuidade o boticario. + +--És um creançola! Pois não vês que não torna a haver paz sem que +elles nos enforquem até ao ultimo, ou nós os desarmemos e ponhamos o +Miguel pela barra fóra? + +--Não sou tão inexperiente como julga. Mas pelo que vejo na _Gazeta_, +D. Miguel foi proclamado rei, e tudo são felicitações e offertas... + +--Isso não quer dizer nada. É a gente d'elle, só a d'elle, porque os +nossos estão presos ou emigrados. Mas olha que os embaixadores +cortaram todas as relações diplomaticas, em protesto contra a infamia +dos juramentos falsos com que nos illudiu, com que enganou as nações +estrangeiras. + +Puxou triunfante d'uma carta: + +--Aqui sabe-se tudo, quer eles queiram quer não. Os tres estados, como +tu já ahi lêstes, absolvem-o a seu modo, adoptando a moral jesuitica +do juramento condiccional; mas ainda o desculpam de outra fórma, +dizendo que elle, ante o parlamento, não jurou com a mão nos +evangelhos, mas em cima dos _Burros_ d'esse bandalho do José Agostinho +de Macedo. Tu sabes as minhas opiniões, para mim tanto vale um como o +outro, é tudo palavreado de frades. O crime está na má fé de bandido +com que abusou da confiança attribuida á palavra de honra de qualquer +homem de bem, quanto mais de um principe! + +João indicou-lhe o artigo da _Gazeta_. + +--Dizem que elle foi coagido a jurar. + +--Patife! Estava coacto, sim, é a desculpa d'esses homens que para +vergonha nossa ainda governam cidadãos livres como rebanhos de +carneiros. Na Villafrancada e na Abrilada, D. João sexto e D. Miguel +declararam-se mutuamente coactos e illudidos, para justificarem as +traições e as perfidias em que se digladiava a real familia. A sua +«sciencia certa e o seu poder absoluto» guardam-os esses ungidos do +Senhor para pôrem os gatafunhos nas medidas uteis dos seus ministros. + +Amarrotou a _Gazeta_ furioso, batendo com as costas da mão no artigo +dos «tres estados», emquanto passeiava, declamando: + +--Isto que ele fez agora, deitar a mão á corôa, já o tentou por duas +vezes em vida d'esse pobre diabo de D. João VI, combinado com a porca +da mãe. Correu-lhe mal a coisa, teve que submetter-se na +Villafrancada, e da Abrilada foi rebolindo de castigo para o +extrangeiro. Da Austria, mal se viu livre do pae, escreveu ao senhor +D. Pedro, reconhecendo-o e aceitando-o como herdeiro do throno +portugues. Quando o grande rei liberal usou do poder para abdicar +d'elle no povo, doando nos a Carta Constitucional, e para ceder a +corôa á nossa joven rainha D. Maria da Gloria, sob a condição de D. +Miguel casar com ella e acatar a Carta, jurou-a solemnemente, e até +enviou ao irmão regente um manifesto negando a authoridade do seu nome +a quem impugnasse o novo codigo da liberdade. Escreveu ao rei de +Inglaterra garantindo-lhe o proposito de fazer respeitar as novas +instituições, mantendo por meio d'ellas a paz em Portugal. Ao chegar +a Lisboa, em triumpho, entre meio de partidarios, sem que um só +liberal se lhe podesse aproximar, ratificou, em grande ceremonial, os +juramentos, e ainda cumpriu, a seu modo, a Carta, assignando decretos +em que a applicava. E quando pôz o exercito da sua mão, mudou a +officialidade, augmentou a policia, quando se considerou absolutamente +seguro, desmascarou-se, fez-se proclamar rei absoluto, inventou a +questão da legitimidade, que nunca até hoje fôra apresentada, e fez +trabalhar o cacete e a fôrca. + +--E está realmente acclamado rei em todo o reino, como diz a +_Gazeta_?--perguntou João intimidado. + +Mediu-o Juvencio de alto a baixo, e respondeu n'um aprumo soberbo: + +--Mas não o está na ilha Terceira! + +Elle retorquiu, receioso, mostrando o jornal: + +--Fala-se aqui de uma expedição em que vem a nau _D. João VI_, e mais +dez navios, contra a Madeira e as outras possessões revoltadas... + +--Bem sei. E já fizeram exercicio de desembarque diante do «seu anjo». +Pois que venham cá, e verão a lição que levam! + +Deslumbrava-o o orgulho patriotico: + +--Tinha melhores dentes o Demonio do Meio-Dia, e por duas vezes lhe +corremos com a sorte. O que a nossa terra fez então, póde repetil-o +agora. Até os toiros dos nossos mattos se lhe deitaram na Salga, e +Vadez fugiu, apezar dos seus dois mil soldados cobertos de ferro! Para +se metterem cá tiveram os hespanhoes que mandar oitenta navios e +dezaseis mil homens. Onde tem o Miguel gente para isso? Pois tomára eu +que mandasse muita, para que, livres d'ella, o puzessem os liberaes +mais rasos do que um chinelo. + +Ardia João na impaciencia de saber toda a verdade: + +--Por têr mêdo da esquadra o batalhão quer saír, como corre? + +--Com mêdo, dizes bem. Eis o que valem fanfarronadas de caserna! +Lingua têm elles para se darem como autores de tudo, dadores da +liberdade, mantenedores da independencia. Mas vê lá se alguem os viu +quando entraram os francezes! Nem raça de um. Foram as guerrilhas, +paisanada como eu e como tu, que lhes puzeram as uvas em pisa. E +quando mataram o grande general Gomes Freire? Se foram elles proprios +que o fuzilaram! Havia officiaes inglezes n'esse tempo, mas só meia +duzia. A soldadesca e os agaloados eram todos de cá. Que prendas! Em +Vinte sahiu tudo para a rua, que duvida, se a coisa não cheirava a +esturro. Apenas vivas e palmas! Quando se conspirava contra a +Constituição, ainda juraram defendel-a até á ultima gota do seu +sangue. Mas assim que os franceses entraram por Hespanha, e o Miguel +se levantou, puzeram-se no seguro, e trahiram todos os juramentos, +choramingando que a liberdade era má porque lhes deixava os soldos em +atrazo, quer dizer, porque não lhes dava em promoções e augmentos de +soldo tudo o que pagava o pobre povo. Lá conheceram para que serviam +ao atrelarem-se ao carro de D. João VI, que puxaram como bêstas, +organisando até a relação dos nomes, e disputando aos fidalgos a honra +da preferencia! + +--É então certo que retira? + +--O major José Quintino Dias apenou os navios da laranja para o +levarem a Inglaterra, onde devem ir ter os emigrados. Queria embarcar +hoje mesmo, 24 de agosto! Escolheu bem a data, não haja duvida, quando +faz oito annos que rebentou a revolução constitucional no Porto! + +Considerou tristemente: + +--Oito annos! Como o tempo corre! E estamos peior do que ao começo. + +Nada porém abatia a sua fé inabalavel: + +--Mas havemos de restaurar a liberdade, embora só vocês gosem d'ella! + +João commentou ainda: + +--Mas caçadores cinco foi sempre um corpo liberal! + +--Pois é isso mesmo o que mais me doe. O bravo cinco! Um batalhão +degredado para aqui pela sua firmeza, quando até o famoso dezoito de +infanteria, unico que não fôra á Villafrancada, se bandeou, depois de +ter recebido, n'essa hora tragica, um exemplar da constituição +confiado á sua guarda, e de ter jurado morrer pela liberdade! O cinco, +o bravo cinco! + +E reconsiderando: + +--Mas ouve lá, rapaz, se em geral a tropa não merece confiança, e só +pensa no venha a nós, tem tido verdadeiros heroes liberaes, embora por +excepção! Esses que emigraram, sem acceitarem as concessões do Miguel, +são portugueses de antes quebrar que torcer! Bem viste como se portou +o nosso «cinco» em vinte e dois de junho. Agora é que lhe deu para +desmanchar-se ... Ainda tenho para mim que ha de reconsiderar. + +--Tambem creio que se não vae. + +Juvencio exclamou exaltado: + +--Lá isso é que não vae, podes ter a certeza! Ha de ficar, ao bem ou +ao mal. Não é só meterem-se nas coisas. Quem as arma que as desarme. +Vae por ahi uma gritaria, um desespero que é de cortar o coração. Bem +se sabe o que o Miguel fará se entrar aqui. São mortes, confiscos, +donzellas violentadas, creanças insultadas nos seus lindos olhos +azues, a maldita côr constitucional. A elles póde não importar isso, +mas nós não queremos a desgraça na nossa querida terra. Se teimarem em +fugir, abandonando ao carrasco mulheres e creanças, ensinar-lhe-emos á +força o seu dever! + +Como sempre, fôra avassallado João pela fé do velho liberal: + +--Sim! Sim! Diz muito bem. + +E no rosto lia-se-lhe uma formal decisão. + +Agora Juvencio approximava-se, commovido, os olhos rasos de agua: + +--Quando fôres pae, Joãosinho, comprehenderás a minha dôr. Tenho aqui +em cima tres filhas, e já um neto, cujos cabellos loiros são o meu +encanto! A minha familia é a minha religião. Tudo quanto sou, me +tornei por causa d'elles! A minha alegria é o reflexo da sua alegria, +a minha vida é o trasbordar da sua vida, a mesma que em mim se definha +e n'elles se perpetúa. A mulher é tão velha como eu, mas ellas são +novas e lindas. Queres saber o que os padres prégam do pulpito abaixo? +Que é preciso matar as _malhadas_, as filhas de liberaes como as +minhas, de preferencia as gravidas, porque as creanças já trazem no +ventre o ferrete da malhadice! A minha filha casada está para dar-me +outro neto. Calcula agora as minhas queridas filhas, e os olhos azues +do meu lindo neto, pasto de soldados e de frades! Não! Não ha de ser +assim! + +--Na nossa terra não entram esses barbaros! + +Mais calmo, limpando as lagrimas, aliviado pelo desabafo, Juvencio +continuou: + +--É preciso que não entrem! Toda a esperança da liberdade portuguesa +depende de nós. Se fossemos vencidos reinaria o Miguel por toda a +parte. É o que agora dirão no conselho ao major Quintino. O futuro de +Portugal está-se jogando, n'este instante, ali! A ilha Terceira póde +defender-se, e ha-de defender-se! É tão bravia a costa do mar, que faz +por si só uma muralha, e se n'ella nos vencerem, temos as do +castello. A nossa terra é tão insignificante, estará dizendo Quintino, +que n'um dia se corre toda em volta a pé. Pois quanto mais pequena +fôr, maior o exemplo! Ha-de acabar-se a dependencia. Tornaram isto um +degredo, um escoadouro de tudo quanto tem de mau. Mandam para cá o +refugo dos funccionarios, o que lhes não serve de nada. Pois se o mal +vem de lá, ha-de ir-lhe de cá a lição! Aqui foi o reino do Prior do +Crato; aqui viveu ainda por dois annos o Portugal independente, +vendido pela fidalguia ao rei de Hespanha; ha-de ser aqui o sacrario +da liberdade, que depois reviverá em Portugal! + +Observou a praça, e ficou descontente: + +--Ein? Tudo na mesma. Mau signal. Já tiveram tempo de decidir qualquer +coisa. Pois vamos até lá a vêr se espertam. + +Desappareceu no interior da loja. + +Estremecia João n'um fremito de independencia. + +Sim, resistir aos de fóra, acabar com essa escravidão, o navio cujas +noticias o ameaçavam, o primo do continente a quem estava destinada a +mulher amada. Queria-a para si, e havia de defendel-a com o ardor com +que Juvencio pretendia bater-se pela familia. + +E assim como para o velho constitucional se identificavam os dois +amores, tornando-se um a ampliação do outro, sendo o lar o mais +sentido representante do maior, assim Maria se lhe tornava o symbolo +da sua terra, ameaçada pelos de longe, dominada, como parte da sua +população, pelo preconceito, pelo fanatismo. + +Percorria-o um fremito de bravura, manifestava-se-lhe, ao influxo da +occasião, a hereditariedade guerreira; e sentia-se prompto a combater +por ella e pela liberdade, já sem o triste acanhamento em que se +humilhára ante a frieza do seu olhar altivo, ante o desdem de um boçal +marialva. + +Veiu de dentro Juvencio, de chapeu alto, vendo-se-lhe o barretinho por +baixo, emquanto, de costas, pretendia fechar a porta interior; trazia +o capote preso nos fechos de prata, e debaixo d'elle um volume que lhe +tolhia os movimentos. + +Voltou-se, sorriu ao encarar com João, e pediu-lhe que encostasse a +porta da rua. + +Desembaraçou-se, poz em cima da meza uma espingarda de pederneira e o +cinto de cartuchos. + +Fechou então a porta, metteu a grande chave n'uma gaveta, foi depois +verificar a escorva, e por fim desembainhando a espada posta á cinta, +mostrou a João, que assistia n'uma impassivel gravidade de homem +feito, a lamina onde se lia: «Constituição ou Morte». + +Tivera-a muito bem escondida como uma reliquia, e nem as perseguições +do maldito Stokler lh'a poderam arrancar. + +Cingiu o cinto da polvora, enfiou no hombro a bandoleira da espingarda +e deitou por cima o capote azul, encobrindo as armas. + +N'uma ternura paternal poz a mão no hombro do rapaz, ao despedir-se: + +--Adeus, e mette-te em casa, Joãosinho. Temol-a tramada! + +--Em casa, eu?--protestou quasi offendido pelo conselho.--Olhe tambem +para isto, senhor Juvencio. + +E da alta bengala de madeira preta e castão de marfim, arrancou um +agudo estoque, e sacou das amplas algibeiras do casaco duas pistolas +de pederneira. + +--Estão carregadas! + +Enternecera-se o velho: + +--Pois tambem tu, pequeno! Oh! Com rapazes assim a victoria é nossa. + +Muito orgulhoso, João gracejava: + +--Então o senhor, sósinho, é que havia de defender esta terra toda, lá +por ella ser tão pequena? Eu tambem sou terceirense, tambem tenho +direito ao meu pedaço! + + + + +IV + + +Saíram para a praça, repleta de gente. + +Não queriam voltar para as freguesias ruraes, sem saberem a decisão, +os _homens do monte_, as mulheres com o cabello de risca ao meio a +luzir de unto, saia pela cabeça, entufadas de saias sobre saias, os +pés metidos em galochas de cedro, com pálas de coiro verde, avivadas a +vermelho, luzentes de ilhós, cravejadas de pregos de aço. + +Nos grupos da gente da cidade graves artistas independentes, +carpinteiros, ferreiros, ourives, sapateiros, marceneiros, alfaiates, +trabalhando na propria casa, e para si, auxiliados pelos filhos, ou +por apprendizes e officiaes, que sentavam á sua meza. + +Esperavam n'um grande ar de solemnidade, orgulhosos dos capotes de bom +panno azul ou castanho, presos por fechos trabalhados de latão ou de +prata. + +Commerciantes de chapeu alto, grande casaca, no rigor do trajo +constitucional, ostentando bigodes, afadigavam-se por entre os grupos +de artifices e camponezes, achando todo o apoio n'aquelles, e n'estes +uma desconfiança hostil. + +Sentia nas novas leis o seu advento a burguesia liberal, e defrontava +por toda a parte o fidalgo e o convento, senhores da terra, parasitas +do trabalho, e queria oppor aos monopolios a liberdade commercial. + +Mulheres do povo, de capote berneo, n'uma explosão de escarlate; +burguesas e fidalgas de manto negro, reunidas em pequenos grupos, +parentas, amigas; viravam incessantes os biôcos mal saía uma pessoa da +camara, e atravessava a praça illaqueada pela anciedade da decisão. + +A dentro dos capotes e dos mantos, por sob as pregas apparentemente +uniformes, adivinhavam-se no esguio, no flexivel da cintura, no +irrequieto do bico de passaro, no adejar de vôo dos largos pannos, as +noivas do batalhão, as apaixonadas d'essa juventude que, no prestigio +da farda, na vivacidade de lisboetas, no seu falar cantado, endoidecia +as raparigas, com grave ciume dos patricios offuscados. + +Reconhecia-se o abandono das quarentonas sem futuro, gordanchudas, +afogadas em seios já inuteis, semeadas por entre os grupos como +escolhos, em torno dos quaes esvoaçavam os bandos de garças. + +Havia vendedeiras de capello deitado para traz, suffocadas pelo calor +e pelo medo de perderem o rosario de dividas deixadas pelas tropas ao +levantarem campo. + +Tapavam rebuços os rostos lacrimosos das namoradas e amantes dos +soldados, dos officiaes e dos sargentos; mas carpiam-se, por todas as +saudosas, as _mulheres da Rocha_, lenço de seda na cuia, chaile +terçado, rosetas de vermelhão nas faces, labios pintados, +arrepelando-se, bradando contra a saída d'esses divertidos rapazes, +cujas guitarras trinavam melhor que as enfadonhas violas de arame da +terra, d'esses bons fregueses, tão generosos e tão pandegos. + +Capitaneado pela Joaquinina do Ó, estava o rancho das beatas encoberto +com o canto da rua da Sé. + +De atalaya á botica, destacava alviçareiras para o convento dos +franciscanos; era um constante borboletear de mantos pela ladeira de +São Francisco, e as que voltavam falavam ás que iam, encostando n'um +tremelicar nervoso os biôcos, como antenas de formigas. + +Traziam medalhas com o retrato de D. Miguel, bentas pelos frades, e +que elles proprios lhes tinham posto ao peito, para ostentarem +victoriosamente, mal houvesse a certeza de que retiravam os caçadores. + +Á apparição do boticario, afadigou-se nova emissaria ladeira acima, e +foi adejando o enxame atraz do velho e de João, seguindo-os por entre +os grupos até junto da escada de pedra, que subia exteriormente á +fachada do edificio, encimado pela torre do sino onde se tocava a +recolher. + +Para os lados da rua do Gallo reunia-se o grupo dos mais influentes +constitucionaes, que não tinham assento no conselho. + +Por vezes distrahia a espectativa o borborinho, gritos, risadas, +vindas dos arcos da cadeia. + +Davam para as arcadas que sustentavam a varanda de pedra da fachada, +as janellas das enxovias, onde havia cestos arvorados em canas, como +apparelhos de pesca armados á compaixão. + +Ia a gente do monte agarrar-se ás grades, uns a comprarem pentes e +grosas de botões de chifre, enfiados em agulhas de feno; outros a +mirarem com olhos compassivos a nudez da prisão, a bilha de agua, o +immundo boião dos dejectos, a tarimba de madeira onde se mantinha +acocorado o _Marmanjão_, meditabundo, envolto em pedaços de colcha +esfarrapada, offendido por essa profanadora curiosidade, elle, o +santinho, como lhe chamavam os frades que o tinham de olho para +carrasco; muito temente a Deus, notavel pela frequencia com que se +confessava e commungava, e indigitado para a nobre missão de executor +pela limpeza com que em S. Bartholomeu demolira com uma só paulada o +homemzarrão de um vizinho. + +Regateava em voz fanhosa gaiolas de cana com melros pretos de bico +amarelo, grandes cantores, o _Mujinha_, baixo, olhinhos de bisnau, +pondo um traço de intrigante na cara rugosa; gatuno, fachina da cadeia +e afilhado de chrisma do carcereiro que lhe levava caridosamente á +porta as gaiolas, em ademanes de sacristão. + +Com a pronunciada queda commercial d'esse, contrastava a do seu +visinho de janela, o _Zica_, muito correcto e limpo, cantarolando á +moda da ilha de S. Miguel, vendendo pentes de baleia, cumprindo +resignado a pena imposta por uma desforra tirada á má cara, n'uma +noitada de vinho. + +Este era constitucional, e arvoráva sempre, provocadoramente, as guias +do grande bigode, sem sequer as deitar abaixo, apesar das denuncias do +santarrão pretendente a carrasco, e das intrigas do gaioleiro, durante +o tempo em que a ilha acatára a usurpação. + +Logo na grade contigua outro miguelista, o _Roseiro_, um velhinho sem +dentes, deprimido como uma fava escoada, alegrava os curiosos com +inexgotaveis historias de toiradas, em que era uma auctoridade, e +recebia em troca pedaços de pão de milho, e algum grande pataco com a +effigie do senhor D. João VI, em premio á fidelidade e á coragem com +que descrevia o «senhor D. Miguel» rejoneando toiros desembolados, e o +seu confessor, fr. José da Rocha, saltando á praça e pegando á unha. + +Apoiado aos fortes varões que de seculos de afflictivas despedidas +tinham as quinas amolgadas, como que derretidas pela ardencia em que +se lhes crispavam as mãos dos desgraçados, falava com a familia e os +visinhos do Raminho, um camponez alto, magro, rosto ossudo, enorme +nariz, gago, dentes pôdres, grandes pés descalços espalmados, por +alcunha o _Lindinho_, condemnado por morte d'homem ás Pedras Negras. + +Contava com esse a fradaria para ajudante de carrasco, pois a faina +promettia, e só lamentava que não houvesse n'elle a necessaria uncção +do _Marmanjão_, e que ambos, apesar de já afeitos, não tivessem a +comprovada pericia de carrasco de officio, nem o aspecto, que só por +si fazia chorar as creanças, obrigadas por lei a presencearem as +execuções, de um celebre preto a quem fôra commutada em prisão +perpetua a pena de morte, para fazer pernear condemnados na forca, de +saco pela cabeça, ante a bandeira da misericordia. + +Que falta lhes fazia ali, para a restauração do governo do throno e do +altar, um patriota como o _Cambaças_, que se offerecera para enforcar +os liberaes; ou um preso como o _Fitas_, ladrão celebre, grande +partidista de D. Miguel; que até os ladrões eram por el-rei contra a +immunda canalha jacobina! + +Sentado de lado, contra a grade, sem encarar os ouvintes, o +_Ferrabrás_, faquista, contava historias, que não provocavam +gargalhadas como as do _Roseiro_. Eram de bruxas, de almas do outro +mundo, e o olhar em extasis, e a barba inculta na cara descarnada, +impressionavam, tornando mais horrorosas as apparições de phantasmas +de incorrigiveis constitucionaes, como o illustre general Araujo, o +_diabo_, assassinado pelos reaccionarios, com repiques e illuminações +das freiras de S. Gonçalo, e que ao bater da ultima badalada da meia +noite arrastava correntes pelo Caminho Novo, vendo-se-lhe pelas costas +abertas o fogo do inferno que o consummia. + +Abaladas pelos medonhos pavores caiam mulheres com faniquitos, e então +descia uma ordenança tinindo ferros, a prohibir os choros de uns e as +berratas torreiras de outros. + +Puxava o carcereiro os presos para dentro, n'um ar compungido, mas +severo; obediente ás ordens, mas doendo-se da sua execução; injuriando +os renitentes entre abundancias de «valha-me Deus»; e só não levava o +seu rigor ao ponto de fechar as janelas, porque não tinham portas, +bastando á justiça o gradeamento para que não fugissem os presos, e +convindo-lhe que a chuva molhasse o lagedo, afim de que ao saírem os +condemnados, expiada a pena, se tornasse mais salutar o seu exemplo +por irem tolhidos para o trabalho. + +Cumprida a ordem, ia entregar-se Benicio ao formal desempenho da sua +missão de chaveiro, vigiar a porta chapeada de ferro; e sentava-se +junto d'ella a untar de azeite as chaves do postigo, dos cadeados, do +segredo, do alçapão por onde se despejava cal para aplacar as +desordens, fechando por calculo os olhos ao negocio e os ouvidos ao +falatorio, para que «os pobres de Christo», coitados, podessem fazer o +seu vintem, tanta gente juntára o Senhor n'aquella praça; que elles +afinal não eram maus rapazes no seu fadario, «valha-os Deus», são +sortes, e até no fundo eram generosos, recompensando-lhe a caridade +com que os deixava fazer pela vida. + +Voltavam os presos pouco a pouco ás grades, metia-se á formiga o +povoleu pelas arcarias, e recomeçava a cantilena do «eu te requeiro da +parte de Deus e da Virgem Maria», efficaz para desembruxar almas +penadas; o pittoresco do «e vae o senhor D. Miguel ferra-lhe com o +rojão mesmo no sitio»; a «Chamarrita, chamarrita, chamarrita, chama +Rosa» das cantigas do baleeiro; e a giria commercial do _Mujinha_ «Ó +meu rico freguez, perco n'esta gaiola metade do que dei ao homem que +me foi apanhar os caniços», o chamariz com que ganhava perdendo +sempre. + +N'aquella mesma praça, com essa mesma gente, recordava João, fôra +celebrado ha dois mezes, em 22 de junho, o triumpho da liberdade e da +Carta, a revolução liberal do Porto de 18 de maio. + +Agora, em vez da alegria d'essa manifestação, o receio de que tudo se +desfizesse n'um momento. Estremeceu ao lembrar-se como então, de +subito, ficára o chão regado de sangue do povo, no tumulto provocado +pela malvadez de um padre, e em que a cobardia da soldadesca, +disparando para intimidar, matara quatro indefesos homens. + +Mas tranquilisou-se observando melhor. Não se via nem padres nem +soldados: não havia perigo. + +Fez a impaciencia de Juvencio extravasar a dos mais. + +Se por si só o conselho não tinha força para demover o commandante, +era tempo de intervirem. + +Acharam-lhe razão, e do grupo separou-se logo, sem dizer palavra, +Cypriano da Costa Pessoa, um negociante alquebrado pela doença e pela +edade. + +Subiu alguns degraus da escada de pedra, amparou-se ao corrimão, e +voltando-se para o povo descobriu a cabeça embranqueçida e dispoz-se a +falar: + +«Concidadãos!» + +Custou a fazer silencio e, apesar de restabelecida a ordem nos grupos +mais proximos, ainda da arcada dos carceres, de onde se não via o +orador, vinham echos desencontrados, provocando um sussurro de +protesto. + +«Concidadãos!» + +E a voz cava de Cypriano repetiu a invocação, procurando o volume +preciso para se fazer ouvir até ao extremo. + +Que queria ali aquelle homem? + +Cravavam-lhe olhos esbugalhados os camponezes, pasmados de que alguem +se atrevesse a levantar a voz em publico, sem ser um clerigo, sem ter +que contar milagres de santos. + +N'um grande esforço, conseguira o orador fazer retumbar até ao canto +da praça, onde costumavam juntar-se os mariólas, como um grito de +alarme: + +«Nas actuaes circumstancias mais vale morrer com as armas na mão do +que soffrer os insultos dos satélites do usurpador!» + +A convicção das suas palavras fez estremecer os proprios que +estranhavam esse secular imitando padres, fazendo pulpito da escadaria +municipal. + +Continuava trovejando a voz de Cypriano, modelada pela entoação dos +prégadores, pois não tivera a lição civica da oratoria constitucional. + +N'um fremito de terror echoava aos ouvintes a ameaça, correspondente á +absoluta verdade: + +«Não tardará o massacre de quantos liberaes elles puderem colher ás +mãos!» + +Ante os olhos apavorados dos que se viam, d'um momento para o outro, +sob a alçada do carrasco, passava o rosario de crimes absolutistas, as +perseguições de Stokler ali na ilha, a prisão e deportação dos +deputados ás côrtes constitucionaes, a captura em massa operada +pessoalmente por D. Miguel, de aguilhada em punho, os nove estudantes +enforcados no Caes do Tojo, as covas abertas em Portalegre á porta dos +liberaes, a tortura de Renduffe, o envenenamento de D. João VI, o +assassinio de Loulé. + +Iam ficar sujeitos a taes horrores se caçadores 5 abandonasse a ilha. + +E nas faces consternadas reappareceram as lagrimas. + +Mas nem Cypriano da Costa, nem os liberaes do seu grupo se mostravam +desanimados. + +Cheios de fé, queriam luctar e appellavam para o auxilio de todos. + +Por essa praça, tão divertida em tardes de toiros e cavalhadas, +resoava a mesma voz grave, sentida: + +«Para desviar este mal tão imminente, poupar a nós e a nossas +familias, amigos e parentes, convém que já, já, os amantes da patria e +da boa ordem vão offerecer-se ao governo, alistando-se voluntariamente +para servirem debaixo das armas!» + +Ficou abalada a concorrencia, e a ideia emittida do alto agitou por +camadas a turba, enthusiasmou os liberaes mais proximos, perturbou os +mestres de officios, entonteceu as cabecinhas de capuz escarlate, +revoluteiou as dos amplos capellos, e por fim saccudiu em tardas +negativas os barretinhos de borla, de malha amarela e vermelha, e as +carapucinhas de panno preto, em forma de tijela, talhadas em quartos +como barretes de clerigo, dos camponios. + +Insistiu no convite: + +«N'esse momento, e desde já, não cuidava mais de outros negocios, nem +entendia haver occasião mais conveniente de prestar melhor serviço á +sua patria e a tantas familias,»--e aqui a voz vibrava vergastadas--«sob +pena de serem considerados como pusilanimes e ingratos!» + +Só lhe restavam forças para offerecer o exemplo do seu sacrificio: + +«Emfim, não ha tempo a perder! Todos os que quizerem seguir tão brioso +partido que me sigam a mim!» + +Agitando o chapeu, abrangendo a praça n'um olhar de convite, subiu com +firmeza as escadas, até ao alto da varanda de pedra. + +Foi Juvencio o primeiro a seguil-o, agitando o chapeu alto e erguendo +vivas á Carta e a D. Pedro. + +Responderam acclamações, agitou-se a praça inteira, e á medida que se +aplacou o vozear, perceberam-se gritos, brados de afflicção. + +Das janelas por cima da botica, adivinhando-lhe a intenção, gritavam +as filhas de Juvencio, mas elle, na embriaguez do rasgo, continuava a +subir. + +Arrancando-se aos braços de mulheres que se estorcem, debatem-se +homens enthusiasmados, olhos fitos nos voluntarios que, do alto da +varanda, agradecem as palmas e saudações. + +E correm por fim, vencendo a resistencia das que choram desgrenhadas, +indo sacrificar-se para lhes pouparem mais amargas lagrimas. + +São já quarenta, dos mais distinctos, os voluntarios, mal cabendo na +varanda de pedra, e João encontra-se entre elles, sem ter raciocinado, +sem se lembrar das velhas, do estudo, nem da ida para Coimbra, na +impulsão geral, na ancia de defender a liberdade, na ambição de +apparecer aos olhos de Maria como um homem, aos de Jorge e do frade +como um altivo adversario, aos do morgado como um convicto de que é +egual a elle, e de que vae affirmar, com risco da propria vida, o +direito a erguer os olhos para as pompas do seu brazão. + +No impeto em que se haviam manifestado, logo outro negociante, João +Antonio Bacellar, entrou á frente dos companheiros na sala do conselho +e, offerecendo o serviço voluntario de todos, falou em termos taes que +obrigou o governo a declarar mantidos os principios de legalidade +contra a usurpação de D. Miguel. + +Manifestaram-se no mesmo sentido o secretario da junta Manuel Joaquim +Nogueira, o tenente Lobão, o doutor Antonio da Silveira e Theotonio de +Ornellas que, no enthusiasmo pela obra de 22 de junho, para que tanto +concorrera, chegou a precipitar-se de espada em punho contra o juiz +Calheiros, contrario ao movimento. + +Accede por fim a correr a sorte da ilha o commandante do batalhão, e +na emoção d'essa boa nova o ajudante de ordens vem agradecer e +acceitar, em nome do governo, a offerta dos terceirenses, que ficam +constituindo a companhia de voluntarios reaes, sob o commando do +capitão de milicianos Theotonio de Ornellas, devendo eleger entre si +os outros officiaes. + +Então saem todos para, como em 22 de junho, irem ao castello. No +desafogo do perigo afastado sauda o povo o governo e os voluntarios. O +velho dr. João José da Cunha Ferraz, provisor do bispado, +thesoureiro-mór da Sé, e presidente do cabido, o melhor advogado da +ilha, palpita, apesar dos setenta e tantos, no delirio da juventude, e +vae atirando o barrete ao ar e correspondendo aos vivas na voz +tremula, emperrada pela gaguez. + +Arrebanham-se as beatas, corridas, pela ladeira de S. Francisco, +atravancando-a, alastram pela escadaria do adro, e somem-se pelas tres +grandes portas da egreja do convento, ávidas de consolarem as almas +tão opprimidas, com os exercicios espirituaes dos santos frades, que +não deixarão, decerto, de dar-lhes o prazer de um retumbante sermão de +desabafo, de protesto ao ceu, e de algum desaggravo lithurgico á +affronta feita áquella hora ao seu querido rei, essa encarnação do +archanjo S. Miguel. + +E ali dentro, na protecção do templo, poderiam ostentar as medalhas +dos retratos, em que o rosto do rei apparecia córado, n'uma +vermelhidão de sangue, ostentando-o sem medo nos abundantes peitos de +amas de clerigos. + +Seguiam triumphantes o cortejo as que choravam pelos militares, mas +tanta gente corria ás adufas e acudia ás portas, que o novo bando, +escarlate e negro, escoava-se pela rua de S. João, para se adiantar +pela rua da Rosa, Quatro Cantos e Bôa Nova, indo esperal-o ás alturas +do Relvão, aonde já a curiosidade não macularia de suspeitas o seu +enthusiasmo. + +Assentadas no muro do campo de manobras da fortaleza, entre esse mar +de relva requeimado do sol, onde a primavera semeia papoulas, +borboletas e malmequeres; em face á viçosa explanada que, com as +baterias e banquetas, mascara os caminhos cobertos e os fossos; +deitaram para traz os capellos, offegantes da correria, n'uma +exposição de lindas caras que confirmava aos militares o credito de +invenciveis nas mais frequentes das suas campanhas. + +Transfundira-se na mais pura raça portuguesa do seculo XV o sangue +flamengo que dera o typo esbelto, a frescura de tez, a transparencia +do olhar ás delicadas louras; dotára-a o Brasil da exhuberancia +dolente das creoulas, cabello de azeviche, dentes miudinhos, fundas +olheiras; trouxera-lhe a dominação hespanhola o galante requebro da +andaluza e o preto dos seus olhos seductores; e o dos hebreus fugidos +déra, á sadia carnação das morenas, olhos apaixonados de judia onde +esvoaça a nuvem da saudade. + +Amando-as olvidaram emigrados penas do exilio, e finda a guerra +voltaram, a tornar definitiva a patria em que os adoptara a meiga +ternura. + +Ouvia-se já perto o vivorio; vinha passando o cortejo por baixo das +gelosias do convento de S. Gonçalo, de onde as freiras constitucionaes +acenavam com lenços, gritando no falsete do côro: «Ou Constituição ou +morte!», transportadas pelo fremito de liberdade, acclamando os que +haviam de arrancal-as a essas grades, profanadoras da sua virgindade, +asphyxiantes da sua juventude, e restituil-as á vida, ao amor a que +tinham sido sequestradas. + +Mal as raparigas casadoiras avistaram lenços de côres de mulheres do +fado voejando entre o povo, escabrearam ladeira acima, para entrarem +pelo portão dos carros, seguidas a custo pelas mães e tias que as +pastoreavam, lingua de fóra. + +Já dominavam a praça do castello, da rua que dá para as baterias, +quando resoou na tropeada a ponte de pedra, por sobre o fosso. + +Sentiu-se ranger a ponte levadiça, nos seus engenhos de correntes e +contrapesos de pedra, ao echoarem as passadas na madeira; retiniu +n'uma brilhante extensão de voz um alegre brado de «ás armas»; e sob o +abobadado das portas bateram as pancadas seccas das bandoleiras ao +apresentar armas. + +Nos quarteis vibravam toques de corneta, vozes de commando: Caçadores +cinco que reunia na sua parada, e avançou depois até á praça do +castello. + +Atraz das companhias vinha de dentro, com ranchadas de filhos, outro +grupo de mulheres que as lindas raparigas e as gastas rameiras olhavam +com respeito e compaixão. + +Ficaram-se entre a egreja e o palacio as companheiras do batalhão, +fieis como cães, inconscientes no perigo como os soldados, firmes como +se as sujeitasse a mesma disciplina; lavadeiras das esquadras, +mulheres ou amantes de soldados, seguindo como vivandeiras a tropa; +lisboetas baixinhas, pescoço curto, sombras de buço, de uma viva +petulancia no lenço engomado, em pontas, que usavam na cabeça, com o +capote, com grave offensa dos capellos ilheus; airosas varinas, leves, +saia curta, pé descalço, collete affirmando-lhe o busto e +erguendo-lhe o seio, chapeu de velludo, coração de ouro e grandes +argolas. + +Tinham atada a minguada roupa, promptas a partirem, como as escunas +inglezas que por baixo das muralhas se baloiçavam nas ancoras, sem um +protesto, como ao virem por mar com os seus degredados; na mesma +firmeza de outras bravas mulheres, que de trouxa á cabeça acompanharam +pela Galliza a divisão emigrada, e de lá seguiram com ella para as +miserias de Inglaterra. + +Desembrulhavam os trapos ao tempo em que os navios, desimpedidos, se +abarrotavam de caixas de laranja, e agora desabafavam contra «o +Miguel», em gestos de regateiras, em palavradas de tarimba. + +Formára Theotonio d'Ornellas a companhia de voluntarios á esquerda dos +caçadores, e João, que ficara entre Juvencio e o seu professor de +latinidade, aprumava-se como um verdadeiro soldado. + +Da escadaria do palacio do governador do castello, que servira de +prisão a Affonso VI, discursou o secretario do governo affirmando a +deliberação de se manter a causa. + +Respondeu-lhe o major Quintino Dias declarando-se, elle e todo o +batalhão, dispostos a «derramarem a ultima gota de sangue». + +Avançou a bandeira até á frente dos Reaes Voluntarios, e estes, +estendendo a mão direita, juraram «guardar e fazer guardar a +constituição politica da monarchia portugueza». + +Tocou a banda o hymno constitucional composto pelo imperador em 21, +ergueram-se os vivas da praxe á Santa Religião, á Carta, e a D. Pedro, +e n'essa fraternisação de povo e tropa, gente da terra e de fóra, viu +João estabelecer-se a unidade do sentimento nacional na aspiração de +liberdade, e sentiu-se para sempre ligado ao destino da causa, até ao +triumpho da nova ideia, ou até á morte pelo ideal. + +Dissipara-se-lhe, como a todos, o terror de pela manhã. + +Tinham trepidado alguns, mas eram bem melhores do que os fugidos no +_Belfast_. + +Havia uma consciente decisão n'aquelles dos militares que sempre +tinham querido ficar, communicando-se agora aos que a fraqueza +dominára por um momento. + +Só a aspiração liberal reunia todas as classes da nação. + +Estavam ali, ao abrigo das muralhas, ligando-se nos mesmos protestos, +a nobreza, o clero, a burguezia, o operariado; profissionaes da guerra +como os officiaes, os sargentos e os velhos soldados readmittidos; +populares trazidos á força para a fileira pelo «Joaquim agarrador»; +antigos voluntarios alistados em 23, ao perigar a causa liberal; os +que se offereciam agora; e todos, fardados e á paisana, e os proprios +que ainda não se tinham deixado arrastar, formavam uma phalange, +invencivel porque era realmente a nação armada, e offereciam-se ao +sacrificio no momento em que bordejava contra elles uma forte +esquadra, com o bojo cheio de juizes, de carrascos e de forcas! + + + + +V + + +Já reconciliadas do arrufo, debruçaram-se as primas no mirante da +quinta dos Folhadaes, devorando com os olhos o caminho da cidade. + +--E nunca mais cá veiu?--perguntava Josepha da Esperança. + +--Nunca mais. Como se tornou esse rapaz! Tão orgulhoso como se fosse +fidalgo, tão brioso como nós! + +--É o que elles dizem, que valem tanto como os nobres, que somos todos +eguaes. Que te parece, prima? + +--Não percebo nem quero perceber d'isso. É bom para as caturreiras de +fr. Angelico e do pae. + +--Que elle é melhor que o primo Jorge, lá isso é que é. + +--Achas? + +--Está feito um homem. Diz coisas graves como nenhum dos nossos primos +seria capaz. + +--Deu-lhe para tomar a serio o que não devia passar de uma +brincadeira. + +--Mas tu não desgostavas d'elle. + +--Não desgostava, não. + +--É muito sympathico. + +--É um bonito rapaz, confesso. + +--Aquelle lindo buçosinho... E a covinha do queixo, e as das faces, +quando se ri. É um amôr! + +--Engraças muito com elle. + +--Não fiques com ciumes. + +--Eu? Toma-o para ti, que t'o agradeço. + +--Isso agradecias tu. Não gosto de sobejos, mas lá por falta de mulher +não deixa elle de casar. + +--Como tu és! E o primo? + +--Não lhe chega aos calcanhares. + +--Olha, o teu genio é que eu nunca hei de comprehender. + +--Então, filha, são feitios. Cada um é como Nosso Senhor o fez. Mas ao +menos eu confesso a minha fraqueza, gosto muito, muito, de um bonito +rapaz, e não quero meter-me a freira. E as que dizem que lhe atiram +com pedras, estão pregadas nos mirantes a vigial-os... + +--Já lhe disse, prima, que não quero o João para namorado. + +--Mas para que passa agora todas as tardes aqui, de alcateia... + +--É que me irrita o procedimento d'elle. Dito e feito! Que nunca mais +vinha, e nunca mais appareceu. + +--E isso dá-lhe pena? + +--Não. Mas exaspera-me pelo seu atrevimento. Queria vêl-o mais uma +vez, descompol-o muito, dar-lhe muita bofetada, muita bofetada, +puchar-lhe pelas orelhas, e depois dizer-lhe: «Põe-te fóra, fedelho, e +vê lá para quem te atreves a levantar os olhos». + +--Pois caiste, prima, e não foi sem tempo. Já não pódes passar sem +elle. + +--Não me diga isso, que até me mete raiva. + +--Essas furias já passaram por mim. + +--A prima é muito experiente. + +--Pois sou, e por isso sinto que lhe estás nas mãos, ou nunca mais +pensavas nas suas palavras. + +Maria não lhe respondeu, e continuou a observar a estrada, na +irritação em que ficára desde a saída de João. + +N'uma crise nervosa passára os primeiros dias fechada no quarto, sem +vêr ninguem, depois fatigara-se em pertinazes passeios ao longo das +varandas de pedra, para cá e para lá, olhos fitos na direcção que elle +costumava trazer. + +Abandonada pelo pae, sem intimidade com a mãe, que passava o tempo na +cozinha fazendo doces, ou em exercicios espirituaes com fr. Angelico, +vira-se forçada a mandar chamar a prima Josepha, para ter com quem +desabafar. + +E apezar do que ella lhe dizia, não cuidava amar João. Nutria contra +elle, ao contrario, um sentimento de hostilidade, de revolta. Sentia +uma insurreição de todo o seu ser contra essa creança que de repente, +sem lh'o ter deixado suspeitar, entendera dispôr absolutamente do seu +futuro, querendo-a para sua mulher. + +Continuava Maria amuada, ria á socapa Josepha da Esperança, quando +passou o jardineiro, com um braçado de flores e a podôa na mão. + +--Ora tenham muito bôas tardes, minhas meninas. Então já sabem a +grande novidade? Vem cá hoje o nosso homensinho. + +--Quem, tio Jacintho?--perguntou Josepha, para acirrar Maria. + +--Quem ha de ser? O senhor Joãosinho. + +--Ouves? Temol-o por ahi. + +--Que me importa!--protestou Maria, muito córada. + +--Vi-o hontem na cidade, já anda fardado de voluntario, e a farda +fica-lhe a matar. Está uma flôr! Até se parece com o avô, o capitão +Silveira, que eu vi assentar praça da mesma edade. E ha de ir longe +como elle, ha de ir longe! + +--Não lhe disse nada?--perguntou a prima. + +--Não sejas inconveniente, Josepha, ou ficamos de mal. + +E para impedir alguma inconfidencia do velho: + +--Vá com Deus, tio Jacintho, e obrigada. + +Mas a prima ainda o deteve: + +--Diga-me cá, elle agora póde chegar a official? + +--Até a brigadeiro, que é muito capaz d'isso, e as meninas ainda o hão +de vêr a cavallo a commandar batalhões e regimentos. Eu já hei de +estar debaixo da terra, mas vou consolado por deixal-o bem +encaminhado, que lhe quero como se fosse meu filho. + +Muito maldosa, Josepha virou-se para Maria: + +--Casarás quando elle fôr brigadeiro, muito velhote como o tio +Vicente. + +--Quando deixarás de meter-te na minha vida, prima? + +--Quando tu m'a contares como bôa amiga. Começa lá, e confessa que te +péllas pelo João. + +--Se assim fosse não fazia mysterio, não tinha de quê. Mas não é +verdade, não é verdade! + +E sentou-se pensativa na banqueta, fronte apoiada á mão, a olhar ao +longe. + +Retiraram-se porém subitamente, e foram ambas esconder-se no jardim, +ao avistarem fr. Angelico. Enfadava-as a sua apologia da vida +conventual, no interesse de obter para a ordem os dotes e os bens que, +como ricas herdeiras, lhe trariam; repugnavam-lhes as pretendidas +caricias paternaes em que o seu instinto de mulheres adivinhava +desejos lubricos. + +O frade, que reparara na subita desapparição, passou rosnando ameaças +por debaixo do mirante, e entrou, mesmo sem bater. + +Bufando, limpando o suor, afrontado da caminhada, só deu com Martinho +Vasques na adega, desabotoado, sentado em cima de um barril, +observando o alambique, e provando a aguardente de vinho que mandára +queimar. + +Offereceu-lhe logo uma caneca cheia, que fr. Angelico esvasiou, +limpando a bocca á manga do habito, e explodindo logo na sentença que +viera preparando pelo caminho. + +--Malditos tempos, senhor morgado, malditos tempos! + +Martinho escorropichou gulosamente, e concordou: + +--Não sei como tanta impiedade não provocou já um tremendo castigo! +Deus porém compadeceu-se de nós, e as vinhas continuam, como nos dias +de fé, a dar este saboroso nectar ... Outro, fr. Angelico, outro +copinho... + +Offereceu-lhe, na ancia de propaganda dos alcoolicos. + +Saboreou o frade aos goles, defendendo-se: + +--Senhor, preciso forças para falar. + +Acabando de beber, tornou a bradar em tom de sermão: + +--Tempo de desgraça! Tempo perverso! + +Mirou-o o morgado, surprehendido por essa gravidade, só usada quando +havia gente de fóra. + +--Você tem coisa, ó Angelico! + +--E grave, meu senhor. + +--Pois desembuche. + +--Tenha V. Ex.{a} a bondade de subir ao escriptorio... + +--Homem, subir ... essa agora! + +E olhava apavorado a escada de mão, encostada ao alçapão que da casa +de jantar dava para a adega. + +--Não póde abrir o bico ahi mesmo? + +--Trata-se de um assumpto tão grave ... tão grave... + +Pelo ar mysterioso, ficou Martinho desconfiado: + +--Se é mais dinheiro para guerrilhas acabou-se ... Quero dizer, os +tempos vão maus, os rendeiros pouco pagam ... E você bem sabe que a +estas horas não estou em casa para taes coisas... + +Indo da meza para a adega, saindo da adega para a meza, reconhecera ha +muito o morgado que de tarde não fazia bons negocios, e antes de +jantar fechava as gavetas do dinheiro e saía sem cinco réis, para que +não lh'o extorquissem, com intimidações do inferno, para missas; para +que não lh'o arrancassem, com lagrimas, antigas jovens das redondezas, +invocando as complacencias de solteiras em favôr dos maridos, dos +filhos, dos netos. + +--Não se trata de dinheiro, meu senhor, embora saiba que a sua +generosa bolsa está sempre aberta para a defeza da bôa causa. + +E falando-lhe ao ouvido, insinuou: + +--Trata-se da sua honra, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro! + +Ergueu-se, aprumou-se o morgado, e os musculos do rosto, distendidos +na bonhomia de ebrio, contrahiram-se n'uma inesperada expressão de +gravidade. A normalidade da embriaguez permittia-lhe a consciencia das +situações extremas, ao contrario da absoluta perda de conhecimento dos +que não bebem por habito, e só excepcionalmente se transtornam. + +--Siga-me!--ordenou ao frade, que se humilhava hypocritamente, n'um ar +compungido. + +Encaminhou-se para a escada de mão, segurou-se-lhe, poz o pé no +primeiro degrau, mas ao querer subir cambaleou, em risco de cair. + +Offegante do exforço, accentuou se-lhe na fronte uma ruga, e +pairou-lhe nos labios uma contracção de vergonha, de nojo de si mesmo. +Ia occupar-se da sua honra a cair de bebedo! + +Tinha de dar a volta, e entrar pela escada principal. + +Então abotoou o collete, compoz a casaca, puchou os punhos, arranjou +as pregas dos bofes, e apoiando-se ao marmeleiro que deixára contra as +pipas, caminhou n'um ar magestoso, seguido pelo frade cabisbaixo, +rastejante. + +Pesadamente, no mesmo aprumo, entrou no escriptorio, foi sentar-se na +solida cadeira negra, de alto espaldar, encimada pelo folhado de uma +concha, e agora parecia-se com os retratos dos antepassados da sala +nobre, a grave cabeça apoiada nos hombros largos; a meza, as pennas de +pato de que nem sabia usar, a gravidade do conjuncto dando lhe o ar de +um ministro, de um desembargador. + +--Explique-se!--ordenou-lhe, como um juiz a um reu. + +De pé, nos gestos dos grandes dias, começou fr. Angelico: + +--Senhor, esta casa acaba de ser duplamente enxovalhada. Sentou praça +de voluntario, em reforço ao infame batalhão que é a vergonha e o +grilhão d'esta terra, esse rapaz que V. Ex.{a} protegeu, e que recebia +em sua casa como a um filho... + +--O João? Já tinha reparado na sua falta. + +--Hão de dizer que são os nossos exemplos! + +--Meteram-lhe isso em cabeça, patifes! A culpa é de quem perverte a +juventude, e a arrasta para os abysmos da impiedade. + +--Talvez V. Ex.{a} não leve a sua generosidade a ponto de perdoar-lhe, +quando o vir logo entrar fardado aqui. + +--Aqui? + +--Sim senhor, a titulo de pedir desculpa de não poder continuar com a +escripturação, mas para nos afrontar com o maldito uniforme +constitucional, porque bem sabe quaes são as opiniões de V. Ex.{a} e +minhas. + +--Bom é que venha, que lhe quero dizer algumas verdades, e dar-lhe +puxões de orelhas, que é o que merece. + +--Perdôe-me V. Ex.{a} mas nem devia consentir que viesse... + +--Isso é commigo. + +E dirigindo ao frade um olhar severo: + +--Mas que tem que vêr isso com a minha honra, a que você se atreveu a +alludir? + +Curvou-se mais o frade, e respondeu na voz lagrimejante dos sermões +quaresmaes: + +--Já lá vamos, senhor morgado, já lá vamos, embora o que me pesa ... +só Deus o saiba! + +Aproximou-se da meza, e quasi ao ouvido de Martinho: + +--Perdôe V. Ex.{a}, mas diz-se á bôcca pequena que o miseravel ousa +levantar os olhos para a senhora D. Maria. + +--Para minha filha? + +Ergueu-se apopletico o morgado, o sangue a rebentar do cachaço rubro, +abaixando a fronte, n'um gesto de investida. Zumbia-lhe nos ouvidos um +turbilhão de sangue exasperado, passavam-lhe no olhar relampagos de +vingança, e os labios mexiam-se-lhe convulsos. + +Mas tornou a sentar-se, e disse com certa compostura: + +--Isso póde não passar de uma brincadeira. Comtudo fez bem em me +avisar. + +--Desculpe V. Ex.{a}--insistiu o frade--mas não se trata da +infantilidade que julga. São os conselhos da botica, é a lição da +liberdade! Esses infames querem afundar tudo na anarchia, e lançar mão +das grandes casas fidalgas, em nome da egualdade que apregoam! + +Meditou o morgado, a cabeça apoiada entre as mãos, e depois disse +gravemente, em phrase arrastada: + +--Basta, fr. Angelico. Isso póde ser um calculo d'elle, mas não +alcança minha filha, nem attinge a minha honra, entenda-o bem. Podem +fazer as leis que quizerem sobre egualdades. Quem é do nosso sangue +não desce! Vença quem vencer, nós continuaremos a ser o que sômos, e +elles o que são. Vossa reverendissima não póde comprehender isto, +porque é plebeu. Mas eu sinto-o no sangue, como minha filha o deve +sentir. + +Conteve n'um gesto o frade, que ia a falar. + +--Póde retirar-se. O que tenho a fazer é commigo, juiz e executor em +minha casa, na minha familia e na minha raça, como chefe de linhagem +que sou! + +E correspondendo ás subservientes reverencias de fr. Angelico: + +--De caminho mande-me o quinteiro, faça favôr. + +Saíu pouco satisfeito o franciscano, procurou o quinteiro, mandou o á +presença do fidalgo; depois chegou ao portão da quinta, observou para +fóra antes de o transpôr, e em seguida, muito cosido com o muro, +partiu para os lados de S. Carlos, para voltar á cidade sem se +encontrar com João. + +Notaram-lhe as manobras Maria e Josepha da Esperança, que tinham +voltado ao mirante mal elle entrara. + +Satisfeitas, por se verem livres d'elle, continuaram a observar +impacientes o caminho da cidade. + +Distinguiram por fim ao longe uma figurinha de militar. + +Era João, vestido de guarda nacional, farda curta de saragoça +portugueza, com botões brancos, golla azul claro, laço azul e branco +no chapéu redondo. + +Do ponto onde estava, o mirante sobranceiro ao pateo, em face ao +alpendre da escada, ia vêl-o entrar e, talvez como antigamente, elle +viesse falar-lhe, arrependido da imprudencia. + +Pensando assim, seguia-o Maria n'um olhar de anciedade, encobrindo-se +com as trepadeiras do caniçado, para não lhe dar a confiança de +mostrar que o esperava. + +Vinha já perto, quando notaram dentro movimento desusado. + +Corria o quinteiro, e meia duzia de cavadores de enxada, batendo os +pés descalços na terra endurecida pelo calôr, varapaus ao hombro, +falando alto. + +Desacorrentára o creado dois grandes cães de fila, amarelos, rabo +cortado, focinho negro, fauces ameaçadoras, que de noite rondavam +ganindo e uivando. + +Ao chegarem ao pateo, occultaram-se na cocheira homens e cães, e o +quinteiro foi esconder-se por traz do postigo, como se quizesse +fechal-o mal entrasse João. + +--Que é isto, José?--perguntou Maria, suspeitando uma violencia. + +--Ordens do senhor morgado--respondeu elle, rindo alvarmente--não +quero saber! + +Mas Josepha da Esperança, muito nervosa, nem lhe dera tempo á +resposta, e ao vêr João em frente do mirante, avisou-o: + +--Não entre, que lhe querem bater! + +Maria, correndo ao muro, bradou-lhe tambem: + +--Foge, foge! + +N'uma grande excitação, gritava a prima: + +--Aqui d'el-rei! Aqui d'el-rei! + +Elle recuára ao ouvir os gritos e, vendo apparecer ao postigo a cabeça +lanzuda, comprehendeu que lhe faziam uma espera. + +Desembainhou a baioneta, aprumou-se garboso, e avançou muito pallido +para a porta, que de dentro fecharam com estrondo. + +Sentiu então Maria que o amava, vendo-o encarnar o typo glorioso, +cavalheiresco, da imaginação das raparigas, geralmente fixado nos que +teem por ferramenta a espada e a lança do cavalleiro andante de outras +eras. + +Dirigia-se-lhe com o coração nas mãos, como elle no pomar, n'um rubor +de sangue, lavada em lagrimas, pondo as mãos: + +--João, João, não te percas por minha causa! + +Sem a attender, batia exasperado no portão com o punho da baioneta, +bradando querer falar ao senhor Martinho Vasques. + +Ouvindo ladrar ameaçadores os cães de guarda, virou-se Maria para o +pateo. + +Aos gritos de soccorro de D. Josepha, correra de dentro o jardineiro +com um grosso varapau cruzado como a espingarda, a ponta á altura dos +olhos, fortemente cingido ao corpo. + +--Querem bater no Joãosinho!--explicou-lhe ao vêl-o. + +Correu o veterano ao postigo, aferrolhou-o, e berrou aos caceteiros +que se fossem embora. + +--Quem manda aqui é o fidalgo!--respingou o quinteiro, fazendo-se +forte á frente do bando. + +Mas os camponeses, receiando as furias do velho, mantinham-se +indifferentes, apoiados aos bordões, n'um riso estupido. + +--Deixe-me abrir a porta!--insistia o José da Quinta, querendo deitar +os cães, segundo as ordens do amo. + +--Primeiro te racho de meio a meio!--ameaçou mestre Jacintho, +encostando-se ao postigo. + +--Avem-te com estes!--casquinou o quinteiro, abrindo com um pontapé a +porta da estrebaria. + +Saíram ladrando excitados _Marujo_ e _Sultão_, mas conhecendo o +jardineiro, não lhe pegaram. + +--És peior que os cães, que os animaes não teem entendimento e não +fazem mal só porque os mandam! + +E o velho rilhando o dente, na furia que o tornava terrivel, avançou, +crendo-se em plena batalha, e fez recuar o capataz e o rancho, +levando-os de roldão até ao fundo do pateo. + +Ahi, metido em brios, tentou defender-se o mandatario do morgado, mas +caíu, lavado em sangue, com uma cacetada na cabeça. + +Appareceu no alpendre da escada D. Perpetua entre as creadas, +attrahida pelo alarido. + +Chamou a filha para casa. + +--Vamos para dentro, Maria. Que vergonha! + +E como ella não a attendesse, deu a volta e foi obrigal-a a saír do +mirante. + +--Isto é alguma tarde de toiros? Gostas de vêr no que dão as +bebedeiras de teu pae? + +Arrastada pela mãe, envolvida no berreiro das creadas, Maria, com a +cabeça perdida, não viu que mestre Jacintho abrira a porta e, dando +conta a João do que se passava, aconselhara-o a ir-se embora. Depois +falariam. + +Ao passar no pateo, para entrar em casa, afastou a cabeça para não vêr +a torva lividez do ferido, os olhos vidrados, a testa gotejando, os +cabellos empastados em sangue, a mulher ajoelhada ao pé, clamando que +o morgado lhe metera o homem em trabalhos. + +Ao entrar em casa ainda poude Maria olhar para fóra, e ficou +descançada vendo João já muito longe, a caminho da cidade, salvo de +todo o risco. + +Veiu do fim da quinta Martinho Vasques a vêr como tinham sido +executadas as suas ordens. Ao conhecer o procedimento do veterano, +partiu exasperado em busca d'elle, depois de ter mandado chamar o +barbeiro para curar o ferido. + +--Tu é que déste a pancada no quinteiro?--perguntou-lhe colerico, ao +vêl-o deitado n'um molho de rapa, a resfolegar, muito cançado. + +Ergueu-se logo o velho, empertigou-se na rigidez do habito militar +ante o superior, mas respondeu, orgulhoso da façanha: + +--Pois quem havéra de ser? Quem ha ahi com alma para tirar fumaças a +pimpões? + +--Mas tu sabias que era ordem minha! + +--E que me importava isso a mim? + +--Então, refinadissimo tratante, comes o meu pão para me +desobedeceres? + +--Sabe que mais, patrão, não venha tirar palha commigo. + +Mas o morgado, que via n'elle o culpado da vergonhosa scena em que +fôra desrespeitado, e de que o rapaz saíra triumphante, irritava-se +cada vez mais. + +--Aquella pancada é como se fosse dada em mim mesmo. + +O ex-soldado virou-se para elle, mediu-o de alto a baixo, e de +esguelha, disse-lhe decidido, teimoso: + +--Se o senhor se tivesse ido metter com o menino... + +Arremetteu com elle Martinho Vasques. Porém a reputação do soldado, +apesar da mesquinha attitude em que ia a retirar-se, sem fazer caso, +dobrado ao meio, as mãos pacificamente atraz das costas, o pescoço +magro saíndo da colleira negra, descarapuçado, bastou para conter n'um +prudente respeito o morgado, alto, forçoso, sanguineo, armado do rijo +varapau. + +--Esquecestes quem sou eu? + +--E o fidalgo não se esqueceu do que lhe deve ao avô, do que me deve a +mim, para vir para aqui, vermelho como uma lagosta, impar de raiva +mansa? + +--Se não tivesse que descer a medir-me comtigo, fazia-te engulir tudo +isso com os dentes que te restam. + +Tremia apertando nervosamente o bordão. + +--Com bem passe, senhor Martinho--e o velho dizia-lhe adeus com a mão, +sem se voltar.--Fale-me ámanhã em jejum. + +--Ó bandalho, tu chamas-me bebedo? + +--O patrão é que se está chamando, nanja eu. + +--Olha que eu mando-te fazer uma montaria como a lobo! + +--Pois vamos a isso. Coza-a commigo, que tenho o coirão duro, mas lá +com o menino, cautela! Olhe que lhe sae do pêlo, senhor morgado. + +--Pois atreves-te a ameaçar-me? A mim? + +--Hoje em dia, meu amo, já não se póde mandar matar um homem sem se +bailar n'uma forca, porque se acabaram os fidalgos e as suas +patifarias. + +--Até a isto se pegou a sarna jacobina!--exclamou com desdem, com +desgosto.--Não falavas assim se eu não te désse licença para te ires +emborrachar com a choldra do castello. + +--Aqui, senhor morgado, aqui é que ellas se apanham de caixão á cova. + +Perdendo a cabeça, o morgado poz o pé atraz, empunhou o cacete, mas +envergonhando-se, atirou com elle, e deixou-se cahir no banco de pedra +como aniquilado. + +Ficou para ali vendo anoitecer, não querendo passar pelo pateo onde a +quinteira se arrepelava, bradando que lhe desgraçára o marido. + +Tinha ainda nos ouvidos os gritos de Maria, as injuriosas referencias +da esposa. + +Acabava de insultal-o um creado! + +Sentia inteiramente desfeito o poder, a autoridade de que fôra tão +cioso. + +Todos se voltavam contra elle, todos pareciam ter razão contra a sua +razão, a unica authentica, a unica verdadeira. + +Perdera se a obediencia, quebrara-se o respeito, e em sua casa todos +queriam mandar tanto como elle. + +Estaria então a sociedade tão profundamente minada pelo mal, como +dizia fr. Angelico, que a filha, uma fidalga, descesse até um misero +plebeu, e todos se conspirassem contra elle, tomando partido pelo +insignificante? + +E atreviam-se a falar-lhe cara a cara, a elle, morgado, senhor de +terras, nas novas leis que impediam a nobreza de desafrontar a sua +honra a dentro do seu solar? + +Invadia-o uma amarga dôr, um triste desanimo, como se a sua +integridade physica fosse attingida, como se lhe tivesse quebrado a +cabeça a cacetada, como se lhe mordessem os proprios cães. + +E n'essa hora de abandono assaltava-o o remorso de muita injustiça. + +Mas pouco a pouco reconquistou-o a fé absoluta na verdade das suas +ideias. + +Reanimou-se, decidiu-se. + +O mal crescera, chegára a invadir-lhe a casa! Pois bem, collocar-se-ia +d'ahi em diante ao lado dos que mantinham a verdade do passado, a +honra incorruptivel da fidalguia, a fé religiosa intransigente! + +E levantou-se aprumado, disposto á lucta que a todos reclamava, e a +que até ahi o subtraíra a indolencia do seu viver. + + + + +VI + + +Segundo o costume, mal se levantára, fôra logo o morgado para a casa +de jantar e, com a cabeça apoiada entre as mãos, os olhos fitos nos +montes de rapa, nos picos de esterco do pateo interior, onde fossavam +porcos e depenicavam gallinhas, reconstituia por partes a scena da +vespera, illuminando se-lhe successivamente zonas da memoria, mas sem +continuidade nos acontecimentos, como se uma palavra do frade lhe +ficasse menos gravada, como se um insulto do veterano se marcasse mais +fundo; e depois colligiu tudo, e poz-se a ligar os factos aos +antecedentes e a preparar-lhes, por sua iniciativa, a necessaria +conclusão. + +Batiam alto na cosinha as galochas de sola de cedro da morgada, ao +passar na parte do lagedo raspada pelo rachar da lenha; em sons +abafados, surdos, ao calcar as crôstas de lama negra e luzente, terra +da horta, caldeada ás escorrencias da amassaria. + +Começou a chiar a frigideira na trempe, ao fogo das achas atiçadas +pelo borralho do forno, onde acabava de cozer o pão da semana. + +Ao cheiro da gordura e da linguiça com ovos, desabaram moscas do tecto +de maceira, onde jaziam mortas gerações e gerações, o ventre inchado, +avivado de cintas brancas, presas umas nas bambinelas de teias de +aranha, suspensas outras pela tromba á cal do forro, que sustentava a +telha, apoiando-se ás pernas de asna, firmadas por sua vez no friso +onde amadureciam maçãs, e nas grandes traves em que curavam aboboras. + +Esbarraram algumas, desvairadas, nos vidros poeirentos, grudados aqui +e ali por miolo de pão, no centro das rachas estrelladas; mas depois +precipitaram-se todas na cosinha, d'onde d'ali a pouco vieram pairando +por cima da pratada, quando os pés descalços da creada batiam pancadas +seccas nos degraus de pedra, da cosinha para a casa de jantar. + +Entraram zumbindo pelas janellas as varejeiras dos chiqueiros e da +esterqueira, cujas emanações azedas azotadas e amoniacaes, abafavam o +cheiro da linguiça temperada a oregãos e da banha de vinha d'alhos. + +Distraíu-o momentaneamente a lucta com os insectos, muitos dos quaes +iam morrer na fervente gordura em que boiava a fritada. + +Para comer em socego mandou fechar as janelas, e cessou a baforada da +estrumeira, onde se enthesoiravam os despejos da casa, para riqueza +das terras; mas pela do pateo da entrada, aberta para arejar, veiu o +fedôr a bêsta das estrebarias que ficavam por baixo dos quartos de +cama, onde pelas gretas do sobrado insinuavam ninhadas de pulgas. + +Coube a vez ás moscas de cavallo, tardas, pegajosas, expulsas ás +rabanadas pelas alimarias que, n'um luctar irritante, continuo, +escarvavam o chão calçado de pedra roliça como amendoa, boleada pelo +rolar das marés, pelo limar da areia. + +Postos diante d'elle os torresmos frios, conservados em banha, e o pão +de cabeça ainda quente, levantou-se o morgado e, tomando o cangirão de +barro, de aza partida, cintado por dentro de sarro, foi-se ao barril +cuidadosamente encanteirado, tirou-lhe o espicho e o vinho esguichou +alourado, espumante, tornando a tapar por suas mãos, tanto cuidado lhe +merecia o trato, tanta habilidade considerava necessaria para saber +encher, sem deixar turvar. + +Atestou o grande copo de crystal floreado de meia canada, difficil de +abarcar na grande mão, ergueu-o á altura dos olhos, observou o vinho +contra a luz, sorriu vendo mosquitos sepultos no fundo pelo jacto, e +sobrenadando em redemoinho, prova de que continuava excellente o +verdelho. + +Esvasiou-o, excedendo a receita da sabedoria conventual «antes da sopa +molha-se a bocca», «depois da sopa lava-se a bocca»; e quedou-se a +admirar o vidro, seu unico luxo, a que ligava o valor estimativo dos +reis testando em especial a taça «porque bebiam»; por onde só elle +bebia, e bebia sempre, a não ser o vinho novo que, como entendedor, +tomava por tijelinhas de barro. + +Subiu da cosinha, afadigada, D. Perpetua, batendo nos degraus as +galochas. + +Volumosa pelas muitas saias de estopa e de panno da terra, como as +creadas e as camponezas, trazia á cinta a bolsa de velludo preto, +bordada a vidrilhos, onde tiniam grossos patacos de bronze e mólhos +de chaves, pura ostentação, ante a dispensa escancarada, com a +esbeiçada bexiga da gordura, onde se espetava a colher de pau. + +Baixa, grossa, trigueira, olhar lubrico, beiços carnudos, olheiras em +papos, pelle encarquilhada nas fontes, grandes rugas atravessando a +testa de lado a lado, despenteada ainda como saíra da cama, as mãos +sujas, de unhas negras como olhos de fava, desinteressava-se de tudo +que não fosse fazer dôces, como aprendera no convento, e entregar-se a +exercicios espirituaes com fr. Angelico, a cuja intimidade se agarrara +n'um desespero de abandonada. + +Era o symbolo da desordem que João sentia pairar n'essa casa, +orgulhando-se de que a sua valia mais, porque n'ella transparecia a +solida união que os elevára, emquanto a embriaguez, a preguiça, o +desmazelo dissolviam aquella. + +Sentou-se perto da cabeceira occupada pelo marido, e os dois pareciam +degredados no isolamento da grande meza deserta, onde nos grandes dias +se ostentava a baixella de prata guardada no fundo da arca e se +alinhavam os grandes beberrões dos primos dando-lhe cresta na adega, +por dias de annos, pelas festas; onde em quinta-feira santa jantava a +creadagem com os amos, celebrando a ceia dos apostolos. + +Faltava Maria, e a mãe perguntou á creada: + +--A menina? + +--Mandou ir o almoço ao quarto. + +--Estará doente? + +Interpoz-se o morgado: + +--Não sabe o que ella tem? Sei eu. É que vae saindo á senhora, +herda-lhe as boas prendas, porque não tem outras que herdar. + +Respondeu em furia de hysterica D. Perpetua, envidraçando os olhos que +só para o frade se enterneciam: + +--Vejo que o senhor ainda está com os destemperos de hontem. Já nem +sequer o dormir lh'as coze. + +Não se escandalisou o morgado, acostumado a essas violencias, e +continuou: + +--Por causa de sua filha houve hontem n'esta casa um escandalo. Não +quero que se repitam, nem que ella faça o que a senhora toda a sua +vida fez. + +--O que eu fiz? Mas o que é que eu fiz, senão caír nas bocas do mundo +por causa dos atrevidos do seu jaez. Por ter sido sua victima sou +culpada? E então que nome merece o senhor, que com a sua brutalidade +abusou da minha innocencia? + +Riu Martinho estrondosamente: + +--A innocencia de uma menina de vinte e quatro annos, creada n'um +convento de freiras, acostumada ás denguices das grades, á intimidade +dos primos, sabida em poucas vergonhas de namoros. Innocente, a +senhora! + +--Ria-se, ria-se. Mas não se riu quando o pae que Deus tem, que o +conhecia por dentro e por fóra, o agarrou pelas orelhas: «Has-de +casar, maroto, ou mato-te como a cão damnado, porque me enxovalhastes +a filha». E o senhor tudo eram escrupulos do que se dizia, porque +torna porque deixa, só por eu ser filha segunda, e andar á cata de +herdeiras ricas. Quando viu sacos de cruzados não quiz saber de famas, +de ditos nem mexericos. Meteu-me aqui dentro, tratou-me sempre como +uma escrava, fez de mim esta desgraçada, mas plantou novas cepas para +se emborrachar á vontade, e concertou este pardieiro onde chovia como +na rua. + +E n'um gesto longo abrangeu as paredes de cantaria de onde a cal +despegava, o forro do tecto embarrigado pelo peso da telha, com +lôstras de amarelo sujo, escuras ao centro, esbatidas para os bordos, +da agua da chuva represada pelos coiceis, nascidos nas toiças de +terra entre os regos; vertida pelas telhas rachadas por garotos que +varejavam á funda os altos alamos, á caça de melros. + +--Mente!--protestou o morgado contra a insinuação de +interesseiro.--Cumpri apenas um dever de honra. + +Riu convulsamente D. Perpetua, tendo perdido na intimidade o respeito +á importancia que elle se arrogava ante os estranhos, impressionados +pelo traje de côrte, á antiga, que o marcava como homem de outros +tempos, tornado respeitavel á força de velho. + +--A sua honra! Deixa-me rir! Quando o chamaram a Lisboa para a guerra +com os franceses, o senhor, apesar da sua patente de capitão, não quiz +saber de palavras bonitas, e deixou-se ficar no quartel de saude, como +diz mestre Jacintho. + +Iam comendo e insultando-se, na rotina de trinta annos de rancor. + +--Como ha-de comprehender escrupulos de honra quem nunca os +teve!--commentou o morgado. + +Insistia D. Perpetua, muito teimosa, desabafando o odio ao longo +captiveiro em que a mantivera: + +--A sua honra, a sua embofia de fidalgo, que não o impediu de explorar +como um judeu o primo Chico, pondo-o ao descimento da cruz com os +seus contractos de avarento. + +--Se a senhora não havia de defender esse reles picador de toiros! + +--Que quer dizer com isso? + +--Bem sabe o que fez, mesmo depois de casada, sua descaradona! + +--Não tem senão lingua! Não lhe dar um estupôr que lh'a puzesse lesa! + +--Tambem tenho mãos!--explodiu elle n'uma ameaça, dando um murro na +meza, mostrando o punho fechado.--Não queira tornar a conhecel-as! + +Sentindo reviver a offensa dos bofetões que a atiravam ao chão, +replicou arripiando-se como uma gata: + +--Conheço-lhe as mãos, covarde, mas o primo conhece-lhe a cara. Ainda +o estou a vêr, quando cá veiu, muito enfiado, por causa da quinta do +Pico da Urze: «Tu ficaste-me com as terras, pois então fica-me lá +tambem com esta». E traz! Emplastou-lhe os cinco dedos nas bochechas! + +Terminára o almoço, e ambos se ergueram de mãos postas, dando graças a +Deus. + +Vendo ainda vinho no fundo do jarro, deitou-o Martinho no copazio, +atirou-o á bocca e chamou a mulher: + +--Oiça as minhas ordens. + +Voltou-se D. Perpetua no habito de servidão adquirido n'uma vida +inteira de obediencia, em que apenas havia a revolta das más palavras, +que para o isolamento de ambos se tornára n'uma necessidade. + +Ditava o morgado, sobrancelhas contrahidas, carrancudo, como absoluto +senhor: + +--Maria não tornará a saír do quarto sem minha ordem! + +--Ah! Então fica encarcerada? + +--Cale-se e obedeça! + +--Não, que me sóbe uma coisa á garganta, e rebento se não lhe digo as +verdades! Quer fazer-lhe o que me fez a mim, que me fechou como a um +cão, para se meter com as creadas e com as mulheres do monte, vindas +de proposito pagar as rendas em vez dos homens, para levarem sua +pataca amarrada na ponta do lenço! + +--Já acabou? Então oiça, e veja se tem a imprudencia de me +desobedecer. Já sabe o que lhe custa! + +--Quere-a para freira? + +--D'aqui em deante não a deixe só, não lhe consinta cartas. Não a +perca de vista, tome cautella. Eu vigiarei ambas. + +E confirmando a ordem n'um gesto de ameaça, saíu em passos largos, +bordão em punho, caminho da adega, a visitar o alambique. + +Muito irritada, porque a vigilancia da filha ia alterar-lhe os +habitos, entrou-lhe D. Perpetua com mau modo pelo quarto dentro: + +--Venho aqui esfogueteada por sua causa. Ouvi a seu pae o bom e o +bonito! A menina precisa ter muito juizo. Lembre-se de quem é! Seu pae +não quer que saia do quarto sem licença, e olhe que se ateima no +namoro, é capaz de lhe pregar as janelas. + +Recebeu Maria com indifferença a reprimenda, levantou-se e +encaminhou-se para a porta. + +--Que faz?! + +--Que tenho eu que se ponham a disputar á meza, e depois queiram +exercitar o genio commigo? Não fiz mal nenhum, não quero ficar presa! +Não quero! Não quero! + +--A menina está doida! + +E saíndo para o corredor, apezar da mãe lhe querer tomar a porta: + +--Vou mandar chamar a prima Josepha e o primo Jorge. Com gente de fóra +hão de ter mais vergonha. + +--Olhe, eu é que não estou para me incommodar. Préso muito o meu +socego. Vou fazer queixa a seu pae, vou pôr-lhe tudo em pratos limpos. + +--Pois vá, que não tenho medo do papão. + +Embrenhou-se na quinta, e foi para o sitio onde ouvira o que tinha +alterado o seu viver. + +Longe de todos, repetia as suas palavras, recordava como ellas o iam +transformando. + +Ao principio era ainda o pequeno de escola com quem brincava; o +humilde dependente d'esse frade, que viam passear ao longo da janela +do escriptorio, côr de papoila, dedo no ar, ditando com voz de sermão. + +Ao affirmar que a amava não parecia o mesmo; grave, offendido, dizendo +retirar-se para sempre, decidido talvez a morrer n'essas luctas onde +tantos caíam crivados de balas. + +Na sua imaginação de rapariga apparecia João envolto no prestigio do +sacrificio, via-o galhardamente na estrada brandindo uma lamina, +arrostando com as ameaças, tão differente do tempo em que córava ao +fingir-se ella convencida de que fr. Angelico lhe dava puchões de +orelhas. + +Parecia outro, mais esbelto, mais homem assim fardado; e agora +lembrava com desvanecimento que elle lhe chamára bonita e dissera ter +o futuro nos seus bellos olhos, a esperança de felicidade nos seus +labios. + +Queria-a para mulher. E poderia ser? Elle não era nobre, o que diziam +não ser já preciso para nada. Mas o pae, só por uma desconfiança +fizera o que fizera! Não quereria ouvir falar em semelhante casamento. +Que haviam de fazer? + +João o diria. Decidido como se mostrára, levaria tudo a bom caminho. + +E se casassem? + +Era bem differente do pae; delicado, fino! Não seria desgraçada como a +mãe. + +Que alegria a d'elle se a escutasse. Ah! mas teria vergonha de lh'o +confessar. Da sua bocca nunca o ouviria. Dar-lho ia a saber pela +prima. Oh! pela prima não. Achava-o tão lindo, era capaz de +roubar-lho. Mas João amava-a muito para fazer caso de outra mulher. +Portanto não lho mandaria dizer por pessoa nenhuma, havia de +repetir-lho ella propria. + +Habituar-se-ia, pouco a pouco, um bocadinho de cada vez, dando-lhe a +perceber nos olhos... + +Pois se casassem haviam de ter segredos? + +Affligia-a o remorso. Porque não lhe falara assim quando elle, tão +pallido, se arriscára a desabafar? Não sentaria praça, não passaria +pelo desgosto de o quererem espancar, e ella não estaria agora +ameaçada pelo pae e pela mãe. Sempre o estimára, é certo, mas +deixara-a fria esse inesperado desabafo, tanto estava longe de pensar +n'elle para marido, quando desdenhava morgados, e julgava tudo +merecer. + +Elevara-o a deliberação, a coragem, o firme bem querer manifestado no +rompimento com a situação de inferior. + +Agora sim! Agora comprehendia-o e queria-lhe bem. + +No enlevo d'essa commoção, não pensou mais nas ameaças, e +apresentou-se á hora do jantar, como se nada tivesse havido. + +Quando D. Perpetua lhe foi participar a desobediencia da filha, ficou +muito offendido o morgado, mas não se ergueu do barril, não desamparou +a destillação, nem sequer deu por entendido o recado. + +Reconhecendo a mulher, em intima alegria, quanto o pungia essa +noticia, voltou-lhe costas e foi-se. + +Quando ao jantar, Maria lhe tomou a benção, estremeceu Martinho +Vasques. Creára-a mimosa, votára-lhe certa affeição, embora o seu +genio sêcco não o deixasse transparecer. + +Ante o seu ar alegre, de desafio, não se atreveu a censural-a, e +durante o jantar não se trocou palavra a respeito da vespera. + +Saíram as mulheres após as graças a Deus, e ficcou o morgado, +meditando e bebendo, até á chegada de fr. Angelico. + +Não libaram n'esse dia. + +Tomando a serio o papel de dono de casa, de senhor absoluto, +desfechou-lhe o morgado, á queima roupa, a ordem de fazer contas ao +jardineiro, e de o pôr fóra immediatamente: + +--Não lhe consinta lamurias nem alcovitices. + +Partiu o frade, humilhado da seccura e passando pelo escriptorio para +levar a pataca do mez, foi procurar mestre Jacintho ao casinhoto. + +Voltou á adega o morgado, encarando com mais clareza a situação. Livre +do veterano, não poderia a filha corresponder-se com João, e +esquecer-lhe-ia a perrice. + +E na primeira aberta que lhe permittissem as questões da ilha, toca +para Lisboa! + +Tencionava o frade descarregar no velho o despeito pelo tom imperioso +do fidalgo, quando o viu saír, muito escovada a antiga farda; posto á +banda o boné, n'uma reminiscencia da passada elegancia; calça de +linho, de pastor, de onde rompiam, pesados e bolorentos, os butes do +uniforme; saco de chita debaixo do braço; cacetinho na mão. + +Disse-lhe n'um amargo sorriso: + +--Bem vê que já estava em ordem de marcha. Ao que houve, não contava +com outra coisa. + +Olhou em torno, e como não visse o fidalgo: + +--Admira-me que o senhor morgado não venha pôr-se a arrotar contra +mim. + +E n'um risinho de triumpho: + +--Tem mêdo cá do ginja! Pois não lhe comia nenhum bocado. Palavra que +tenho pena, queria dizer-lhe duas verdades. E d'ahi, não. Aquillo não +tem emenda. É falar ás paredes. + +Ouvia-se rir, ao longe, Maria com a prima Josepha da Esperança. + +--Ó aquella sim, tenho pena! Andei com ella ás cavallotas, quando me +saltava nos canteiros atraz das borboletas, estragando-me as flôres, a +traquinas. + +Abrangeu a casa e a quinta n'um olhar de saudade: + +--Cá fica, a pobre, para ter a sorte da mãe! Mas ella, que ri tanto, +é porque não tem mêdo das parlapatices d'aquella bôa alma do pae. Faz +bem rir, é uma creança! + +E dando uma palmada irrespeitosa no ventre de fr. Angelico: + +--Por mais ameaças que lhe faça, ha de o morgado ir adiante d'ella, é +lei do mundo! Por mais intrigas que forge vossa reverendissima, tambem +irá comer hervas pela raiz, e ella ha de cá ficar, e gostará de quem +lhe der na veneta. Até eu, que não sou nenhum rato de sacristia, hei +de ir á missa de costas, e ella ainda estará em edade de casar com o +menino João. + +--Vocemecê nada mais tem que fazer aqui. Está pago e satisfeito... + +--Põe-me na rua? Não quer que me despeça da D. Mariquinhas? Pois é +melhor para me não saltarem as lagrimas, e vossa reverendissima não se +rir depois á minha custa, quando fôr á lambujem do alambique. + +--Avie-se, que eu tenho mais que fazer. + +--Pois vá-se embora, que não lhe pego. Ah! Fica de sentinella a mim! +Quem tal havia de dizer! Fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria +a governar esta casa! Olhe que eu nunca lhe gosei da carantonha, e +agora comprehendo que vocemecê, e os outros da sucia, como os +mosquitos de roda do vinho bom, andam á espreita das casas ricas, para +apanharem freiras com bons dotes, e quintas onde se refocillem. Mas +esta não apanham, juro-lh'o eu, porque a minha menina não é para +graças. Não vae com cantigas. Aquella ha de fazer sempre o que muito +bem quizer, que a isso a costumaram desde pequena. Era o nosso +«Sant'antoninho, onde te porei»! + +Limpou uma lagrima ao canhão vermelho da jaleca, e virou-se contra o +frade, que já não estava nada satisfeito: + +--Ha de se lhe acabar o governo aqui dentro, como já se lhe acabou lá +fóra! + +Deu alguns passos para a porta, mas ainda se voltou para traz: + +--Vou para o castello. Hão de precisar lá de soldados velhos para +ensinar a recruta á galuchada. + +Passou o postigo que o frade lhe fechou nas costas, de pancada, indo +depois vigial-o para o alpendre. + +Voltara-se mestre Jacintho ao estoiro, e não poude represar as +lagrimas vendo-se expulso d'essa casa, que considerava como a sua. + +Deu alguns passos, vergado ao peso do saco, penosamente apoiado ao +bordão, mas tirara-lhe as pernas a sensibilidade e veiu sentar-se na +banqueta, a refazer-se. + +Descendo para as bandas de S. Jorge, illuminava o sol as vidraças dos +quarteis da fortaleza. + +Abrangeu o velho toda a cortina que vem da bateria de São Diogo, +cintando á beira-mar o Monte Brasil, varejando a bahia do Fanal; +depois os grandes pannos da muralha do Caminho Novo, o torreão e a +ponte levadiça. + +Estava agora ali dentro João, o seu derradeiro affecto, e a velha +espingarda com que fizera a campanha, e que tanto chorara ao abandonar +ao quarteleiro. + +Tinha a proteger essa creança, a reivindicar essa arma, a punir os +aggravos do morgado e do frade. + +Meteu-o em brios o espirito da classe. Ergueu-se, poz o saco no poial, +abaixou-se-lhe, passou os cordões aos hombros e atou-os atraz das +costas, á laia de mochila. Levantou-se com elle e o peso, puxando-o +para traz, fez lhe perder a curvatura senil. + +Deu uns passos amparando-se ao bordão, mas desempenou-o o automatismo +profissional. Pôl-o ao hombro á guisa de espingarda, deu a si proprio +uma voz de commando: + +--Ordinario, marche! + +E a passo cadenciado avançou estrada fóra, rejuvenescido pela +esperança. + + + + +VII + + +Na melancholia do entardecer, em que as trindades põem o echo de um +soluço, impregnado da tristeza do esmorecer do sol, fitava João o +mirante da quinta, quasi totalmente esbatido na folhagem dos pomares. + +Representava-se-lhe a scena da emboscada, revia-se na galharda atitude +em que provocára os adversarios, baioneta em punho; fixára na retina o +rosto transformado de Maria, a ardencia refulgindo-lhe no olhar; e +vibrava-lhe ainda nos ouvidos a commoção dos gritos afflictivos. + +Amava-o! Denunciara-a a surpreza. + +Se estivesse contra elle, riria ao vêl-o corrido pelos cães, ou +ter-se-ia retirado indignada pela sua audacia. + +Mas não! Manifestára-se claramente a seu favôr, e só á força deixára o +torreão. + +Amava-o pois! Era o essencial. + +Sempre contára como hostil o pae. Haviam de vencer com persistencia, +confiando um no outro, certos da mutua fidelidade. E, tão novos, +pertencia-lhes o futuro. + +Como haviam de entender-se? Precisavam apoiar-se, trocar esperanças, +animar-se na penosa separação. + +Iria pela quinta a cavallo, para vêr para dentro, onde o muro era mais +baixo, e poder resistir melhor ás ciladas. Levaria pistolas nos +coldres, e ai de quem se lhe atrevesse! + +Turbavam-o impetos de vingança, deslumbramentos de sangue, ferido pelo +insulto. + +Como concretizar a desforra? + +Indicavam os preparativos que era esperado. Mas quem o denunciára? + +Ao lusco-fusco assoprou a creada o borralho para o corno da isca, +accendeu a candeia da cozinha, e foi levar-lhe, com as bôas noites, o +candieiro de latão de tres bicos, e a branda luz do azeite alagou o +polido do bufete, projectada pelo reflector. + +Illuminado o quarto, deixou de vêr na penumbra o tenue esboço dos +Folhadaes, mas quedou-se no mesmo sitio, esperando que o pontear de +luzes lhe fôsse dando referencias para o reencontrar. + +Gritou lhe de baixo a tia Dorotheia: + +--Ahi vae uma visita. + +Descontente por irem perturbal-o, não acertava com quem fôsse, nem +conhecia os passos pesados, vagarosos e tropegos, subindo para a +torre. + +--Dá licença, camarada?--disseram da porta. + +Era a voz do veterano, rouca da bronchite chronica adquirida nas +noites ao relento. + +--Vocemecê por aqui, mestre Jacintho? + +E mandou-o sentar, no alvoroço de noticias. + +--Como tem passado? Como vae a menina Mariquinhas? + +Acanhou-se, sob o olhar magano do velho. + +--Não se faça vermelho, senhor Joãosinho. + +E batendo palmadas nos joelhos: + +--Então logo a uma morgada, hein? Sim senhor, sim senhor! + +João sentia o sangue rebentar-lhe pela cara, mas a anciedade +impelliu-o: + +--Conte-me que se passou depois que a mãe a levou para dentro. + +--Que se havia de passar? Mais era com ella! + +--Reprehenderam-a? + +--Não é para graças, não tem mêdo. + +--Então o morgado... + +--Commigo, commigo é que foi o bom e o bonito! + +--Coitado! Comprometter-se por minha causa. + +--Não me coite, que não me fui abaixo das pernas. + +--Na sua edade!... + +Ergueu-se o veterano, desvanecido pelo rasgo: + +--Foi-se pôr o morgado a crescer para mim, mas eu, como quem diz, +fingi que não era commigo, que aquillo não tem senão lingua, mas +tambem é como um lavadoiro! + +--Perdôe-me ter sido a causa de tal desgosto. + +--Espere, que elle não se foi sem resposta. + +E possuindo-se da paixão com que falára: + +--Disse-lhe tudo que me veiu á bôcca, deitei-lhe á cara a negra +ingratidão com que nos pagou termos-lhe salvo a pelle, eu e seu avô; e +o matreiro embuchou e ficou-se a assoprar, a roer... + +João pediu-lhe, compungido: + +--Não tome mais o meu partido, não se inquiete por mim... + +--A bôas horas. Hoje o intriguista do frade poz-me na rua. + +--O quê? Pois está despedido? + +--Não se assuste, menino, não hei de morrer á mingua. Aveso algumas +patacas para pão de milho, e n'aquelle castello cabe muita gente. Já +lá fui pôr os trapicalhos e marcar poleiro. + +--Tem a nossa casa, mestre Jacintho. + +--Bem sei, mas obrigado. Se mesmo o menino á escolheu aquella, queria +que eu ficasse a rezar n'umas contas? + +--Vocemecê precisa de socego. + +--Depois, depois. Agora ninguem é de mais ali dentro, que cá por fóra +os patifes são muitos. + +--Desarrumar-se dos seus commodos por môr das minhas creancices! + +--Não se afflija, que eu por mim não tenho pena nenhuma. Só me custa +não ter dado uma afogação em fr. Angelico, que me tratou como a um +negro. + +Mostrava o punho cerrado: + +--Mas não as perde. São favas contadas! + +--Socegue, deixe-o lá. Essa agitação faz-lhe mal. + +--Hei de escalal-o, como a um chicharro, para lhe enforcar o Miguel +nas tripas. + +E como João sorrisse: + +--Ah! Sim? Pois elle chegou muito estugado á quinta antes do menino, e +não se me tira da cabeça que foi armar a tratantada. + +--Elle? + +--Sim senhor. E depois vi arrebentar muito depressa pela porta fóra +aquella cára de condemnado, com estes dois que a terra ha de comer. +Tenho para mim que ia com ella fisgada. + +--Não seria simples coincidencia? + +--É má rez, como todo o homem que veste saias. Sucia de mandriões! + +--E Maria? + +--Não ha mal que lhe chegue. + +--Viu-a hoje? + +--O patife do frade não me deixou, e eu não teimei porque a ouvi rir a +bom rir. + +--Pois ella estava alegre? + +--Eu lhe conto. A senhora D. Perpetua foi muito prognostica dar-lhe o +recado do pae, que ao almoço esteve como uma bicha, ouvia-se-lhe ao +longe a prégação. Mas ella o caso que fez das prohibições foi +escapulir-se logo para a quinta. Rapariga de uma cana! + +Reparou que João entristecera. + +--Não se me ponha a malucar, que se ella estava de risota com a +senhora D. Josepha da Esperança era decerto para não dar o braço a +torcer. + +Depois de luctar comsigo mesmo, aventurou-se a perguntar: + +--Manda-me dizer alguma coisa? + +Riu-se muito Jacintho, meneou a cabeça, e respondeu: + +--Estou velho, mas não ando de capote e capello. + +Arrependeu-se João: + +--Desculpe, não foi por menos consideração. + +--Desculpar o quê? Tivesse falado com ella, que eu mesmo lhe +perguntava se queria alguma coisa para o menino. + +--Como lhe hei de agradecer tanta dedicação! + +--É vicio velho em mim, não me caíam os parentes em deshonra. + +E vigiando que não fôsse ouvido: + +--Já n'esse particular servi de muito ao seu avôsinho. + +Bateu-lhe familiarmente nas costas: + +--Ainda assim, elle não começou tão cêdo, verdade seja dita. + +Desvaneceu-se o rapaz pela admiração implicita n'aquellas palavras, e +animou-se a aproveitar a bôa vontade: + +--Preciso falar-lhe, ou escrever-lhe, comprehende bem. Tenho muito que +lhe dizer, e quero saber o que ella pensa de mim. + +--O que ahi vae, o que ahi vae. + +--Aconselhe-me, mestre Jacintho. Como ha de ser? + +--Dê tempo ao tempo! + +--Hei de desamparal-a quando todos a ameaçam? + +--Não tenha mêdo, que aquillo é taboa que não joga. Teimosa! Que o +diga eu, que muito lhe soffri em mais pequena. + +--Que quer dizer na sua? + +--Espere, espere, que ha de chegar-lhe tempo para tudo. + +--Esperar? Isso não. Quero entender me francamente com ella, por +palavra ou por escripto. E se me quizer como eu lhe quero, como hontem +me pareceu... + +--Casa immediatamente, não é verdade? + +--É claro. + +Recreiou-se o veterano com a resposta: + +--E havia de casar n'essa edade, com dezaseis annos? + +--Que tem que vêr a edade com o amôr? + +--Ora vá-se crear, menino. Isso até lhe fazia mal á saude. + +Córou João até ás orelhas. + +--Não me fique amuado, que isto é brincar. + +--Bem. Então falemos a serio. + +--Não se zangue. Que geniosinho! + +João fôra respirar á janella, a cabeça em fogo, e puzera-se a olhar ao +longe, na direcção das raras luzes das casas de campo, em meio das +quaes reconhecia a d'ella. + +Chegou o velho á janela, abrangendo n'um gesto a cidade e o castello: + +--Sabe que mais? Ponhamos as coisas a direito, que ella lhe ha de ir +parar ás mãos. + +--Não póde ser. E d'aqui até lá ha de ficar abandonada ao pae e á mãe, +sem contar commigo, sem me sentir a seu lado? + +--Tem razão, nanja que eu lha tire. Mas deixe acabar a desconfiança do +morgado, que agora anda tudo de olho em cima d'ella... + +--Será assim, mas não posso esperar. + +--Largos dias tem cem annos. + +Entendeu João pôr-lhe termo aos conselhos, e proceder por sua conta. + +--Pois mestre Jacintho, muito obrigado pelo que por mim fez. E não o +incommodarei mais por esta causa, que agora já não é como no seu +tempo, que só pela altura dos trinta annos é que se julgava uma +senhora em edade casar. Agora vae tudo muito mais depressa. Se até ha +barcos que andam a fogo! + +Queixou-se amargamente o veterano: + +--Foi sempre assim. A mocidade não quer saber da velhice para cousa +nenhuma. + +--Não diga isso. Sabe como o estimo. Só me refiro a estas coisas de +amôr, de que mostra não perceber nada, pois quer que um namorado se +cale, depois de acontecimentos como os de hontem. + +N'uma saudade do passado, da juventude, do amôr, do prazer, +remoçou-lhe o rosto engelhado: + +--Isso é que percebo! Lá por me vêr agora um velhão, olhe que já +passei pela sua edade, e até fui de mama! É o que lhe digo, não se me +ponha a rir nas minhas barbas. No seu tempo, porém, ainda me +entretinha a deitar o pião, não sabia o que fosse o bicho mulher. Mais +tarde, sim; fui desempenado, bonitóte, e antes de me darem as +bexigas, pellavam-se bôas moças por mim. Já vê que percebo, e tive bom +mestre, olé se tive. + +Aproximou-se muito o veterano, e num ar de confidencia, um sorriso +bonacheirão, disse-lhe baixinho: + +--Lições de seu avô, que foi das pontas! Elle atirava-se ás patrôas, e +eu ás creadas. Uma vez... + +Mas arrependeu-se. + +--Nada. Nada. Suas tias podem desconfiar de que estou para aqui a +perdel-o... + +--Ellas não ouvem. Conte, conte. + +--Uma vez que elle foi de castigo para a Graciosa ... Não digo nada, +senão que muitos primos fidalgos tem por ahi, sem imaginar. + +--Quem? Quem? + +--Ora. Vão lá saber. + +Deliciava-se na evocação: + +--Só se atirava ao fino, o maroto. Deus lhe fale n'alma! + +Entristeceu-o a ideia da morte, mas desanuviou-se rapidamente: + +--O menino vae pelo mesmo caminho. Atirou-se logo a uma rica +herdeira... + +--Oh! Não julgue que foi por isso. + +Continuou o velho, sem dar tento na interrupção: + +--Fidalga como as melhores, bonita sem senão, os olhos de todos +n'aquelle palminho de cara, e o morgado crente de que nenhum a valia, +a ponto de a querer levar a um primo do reino. + +--Fosse ella uma pobre de Christo, queria-lhe da mesma maneira, +acredite-me. + +--Pois sim, pois sim; mas ella é o que eu disse, isso é que é a +verdade. Se fôsse uma pobre sem eira, nem beira, nem ramo de figueira, +não lhe açulavam os cães. Tratavam logo de o encambulhar com ella ... +Agora sendo o que é, não espere conseguir d'ali nada ao bem. Ha de ser +á má cara, e é se fôr. + +--Estou resolvido a tudo. + +--Não digo menos d'isso. Quem sae aos seus não degenera. + +--Maria ha de ser minha mulher, ao bem ou ao mal! + +--Que a coisa começa torta, bem vejo eu. O menino já tem chorado +lagrima gorda por causa d'ella. Mas não deve desanimar. A farda sempre +deu sorte em coisas de mulheres. Lá por ella ser morgada, não é mais +do que a imperatriz da Russia, que dava o cavaquinho pelo general +Gomes Freire, com quem andámos no Russilhão. Pois eu não conheci um +corneta, um rapagão como um turco, o menino bonito da rainha nossa +senhora que se perdia a ouvir-lhe repetir os toques? E não vieram +todos desvanecidos os soldados do dezaseis de infantaria de um +destacamento em Queluz quando a Senhora D. Carlota Joaquina estava +presa? Até um granadeiro, alto como uma torre, valha a verdade, trazia +duas cartas de pessôa de dentro! + +E reparando na surpreza de João: + +--O menino ficou vermelho como uma malagueta. Mas olhe que é tudo +verdade. Pergunte lá no castello, que lh'o hão de trocar em miudos. + +Concentrou-se João, e depois perguntou: + +--Em resumo, mestre Jacintho. Está, ou não disposto a auxiliar-me? + +--Com alma e vida. + +--Não podia esperar de si outra coisa. Muito obrigado. Agora diga-me +lá, que lhe parece: devo procural-a ou escrever-lhe? + +--Por emquanto não se podem levar as coisas ás do cabo. O menino ainda +está com os dentes com que mamou, e já quer casar. Valha-o Deus! + +--Lá volta aos gracejos. + +--Mas não torno mais. Olhe, por agora basta que lhe escreva. + +--Tambem me parece. + +--Se a sua firmeza fôr tal como diz, o tempo que levarem separados ha +de fazel-os quererem-se mais um ao outro. + +--Juro-te que é. + +--Ninguem lucra mais com o seu casamento do que eu. Voltar aos meus +canteiros, ao meu buraquinho, fazer de enxota cães quando lá fôr fr. +Angelico ou os collegas, a vêr se pilham alguma coisa. + +--Como lhe hei de mandar a carta, sem a comprometter? + +Meditou um pouco o soldado, e respondeu: + +--O melhor, e o mais seguro de tudo, é falar á senhora D. Josepha. É +muito capaz d'isso, porque gosta muito do menino. Até parecia uma gata +assanhada quando foi da patifaria do quinteiro, que por signal lá anda +com a cabeça amarrada, para não cair n'outra. + +--E como ha de ser para lhe falar? + +--Descance. Eu sei de uns atalhos, por entre as terras, que vão lá +sair mesmo ao pé do canavial ao fim do pomar. + +--Tem a certeza de que não nos podem vêr? + +--Conto que não. + +--Pois então vamos lá amanhã mesmo, visto que não ha nada a receiar. + +--Amanhã? Deus te livre! Andam á espreita d'ella para ganharem o dôce. +Davam-nos logo com o rasto, e o morgado mandava alevantar o muro. +Nada! Nada! Deixe ao meu cuidado saber o que se passa lá dentro, e em +elles andando desprevenidos, damos-lhe a saltada. + +João, por fim, rendeu-se á evidencia: + +--Pois seja assim. Mas vê lá o que promettes. + +--Descance, que não me esquecerei. Não tenho menos vontade n'isso, +creia, para o vêr feliz, e para ajustar as minhas contas. Onde se +fazem, lá se pagam. Ali aonde me desfeitearam é que quero entrar de +cabeça levantada, a deitar foguetes, no dia do casamento. + +--Oxalá! + +--E com esta me vou, senhor Joãosinho. + +Já de pé, sacou do mólhinho de folhas de milho, das mais tenues +camisas que na sóca protegem o grão tenro, leitoso; alisou-a com a +navalha, acamou-lhe o picado de tabaco negro, da terra, accendeu ao +candieiro o cigarro grosso e despediu-se: + +--Com bem passe. + +Ainda João tentou retel-o: + +--Porque não quer ficar? A casa é grande, cabemos todos. + +--Obrigado, menino. Ali é que é o meu poiso. Antes eu de lá nunca +houvesse saído, para ver o que tenho visto. + +E já na escada recommendou ainda, muito baixinho, o dedo na bocca: + +--Deixe esquecer a coisa por estes dias, olhe que o morgado anda com a +pedra no sapato. + + * * * * * + +Ao ficar só, sentou-se ao bufete e poz-se a escrever. Não se recusaria +D. Josepha a pôl-os em relações. + +Acceitava esse alvitre do velho, mas lá deixar de vêl-a, isso é que +não. + +Perguntava-lhe a melhor maneira de o fazerem, e se mestre Jacintho não +accedesse, iria sósinho. + +Com espanto, sentiu perdida, ao escrever-lhe, a timidez em que só por +meias palavras se lhe declarára. Enthusiasmava-se como se a tivesse +diante de si, mas dirigia-se-lhe em termos que, face a face, nunca +arriscaria. + +Era o seu primeiro amor. Sentira bem como á ameaça de um ciume, ao +receiar que a entregassem a outro homem, a amisade de irmãos se +transformára na paixão em que esquecera a sua inferioridade ante a +riqueza e a nobreza da mulher para quem se atrevera a levantar os +olhos. Mas n'estes tempos de liberdade podia aspirar a ella, erguer-se +até á sua grandeza, porque d'ora ávante as posições, os cargos, a +consideração publica ganhar-se-iam com o trabalho, não se obteriam só +por herança. + +E n'uma grande ternura comparava o viver de ambos, tão semelhante; +elle sem pae nem mãe, ella como se os não tivesse, isolada no ermo +casarão onde pairava a sombra da tristeza. + + * * * * * + +Restituiu essa carta a Maria a tranquillidade que lhe roubára o +conflicto, e quando esperava alegremente a prima, e se perdia com ella +pela quinta, nas travessuras de outros tempos, chegava o pae a +suspeitar que recebesse noticias d'elle. + +Não desconfiava, porém, de D. Josepha da Esperança, e toda a +vigilancia era na porta e nos muros, receiando temeridades do veterano +ou algum arrojo de João. + +Tendo como militares garantida a impunidade, cria-os capazes de irem +lá, com algum bando de camaradas, a desforrarem-se da cilada da sua +gente. + +Passaram-se dias, e parecia completamente esquecido o caso. Era, +porém, caprichosa de mais a filha para não querer, ao menos por +despeito, entender-se com João. + +No seu tempo já teria liquidado tudo á valentona. Hoje usava-se de +astucia, e n'esse terreno reconhecia-se inhabil. + +Eram assumptos mais para fr. Angelico, manhoso como frade, batido em +argucias de confessor habituado a lêr no intimo das almas. + +Deixára de apparecer, e fazia lhe falta. Offendera-o a sua +sobranceria. Puzera-se nas suas tamanquinhas, e mandar chamal-o era +uma satisfação. Mas antes dar o braço a torcer, que deixar fazer o +ninho atraz da orelha. Só o frade seria capaz de desenredar a meada, e +de trazer Maria a bom caminho. + + * * * * * + +Resfolegou triumphante fr. Angelico ao receber o recado do morgado. + +Dar-lhe ordens como a um feitor? Era lá coisa que lhe permittisse? +Agora o passado, passado; mas faria render a reconciliação. Não +voltaria da quinta sem grosso donativo a pretexto do levantamento de +guerrilhas; sem algumas das peças que D. Perpetua, na intenção de +salvar a alma, forrava, em demencias de usura, ás despezas da casa, e +escondia no colchão. + +Servia-lhe de pretexto a atitude do fidalgo para acabar com a +intimidade da dona da casa. Fatigava-o já a paixão senil a que ella se +apegára durante vinte annos, desde que succedera na capellania da casa +ao seu mestre, de quem decerto herdára a affectuosidade da morgada, a +sua predilecção pelo lubrico contacto do aspero burel. + +Parecendo-lhe nos primeiros tempos uma antecipação do paraiso, +tornára-se depois o automatismo de um habito, e liquidára por fim nas +repugnancias da obrigação. + +Ia todos os dias a creada saber da saude de sua reverendissima e +falava-lhe da afflicção da senhora, tão sequiosa das suas bemfeitorias +espirituaes. + +Mostrava-se elle theatralmente, no seu palco, ao fundo do sanctuario +onde se armazenavam as imagens sem capella propria, cujos olhos de +vidro brilhavam nas meias tintas do escuro armazem. + +Os grandes pés descalços no lagedo, sem habito, a camisa desabotoada, +empunhando disciplinas de grossa corda e nós nas pontas, simulava fr. +Angelico o soffrimento de terriveis expiações. + +Respondia n'uma voz sumida: + +--Diga a sua ama a grande penitencia que estou cumprindo, a pão e +agua. Que rese por este pobre peccador, para que lhe sejam perdoadas +as fraquezas. + +Regressou um dia a creada com a nova de que reappareceria o frade +chamado do senhor; e D. Perpetua não desamparou o mirante e a varanda, +passeando inquieta, aconchegando ao peito o embrulhinho com que faria +esquecer ao penitente as visões do inferno. + +Mal transpuzéra a porta da saleta, puxou-o para um canto, e meteu-lhe +na mão o saquinho de sêda carmezim, onde elle pelo tacto reconhecia as +peças de oiro. + +--Angelicosinho da minha alma, para que me deixaste, ingrato? Que mal +te fez a tua Perpetua? + +Elle simulava um terror sagrado: + +--Deixa-me, filha, tenho esta alma mais negra que um tição. Já estou a +arder nas penas do inferno, sinto o fogo aqui dentro. + +E comprimia o estomago, onde as penosas digestões de toucinho e +presunto, servido em grandes postas no refeitorio, fermentavam em +dolorosas azias, que afogava a bôa aguardente do fidalgo. + +--É assim que me pagas os sacrificios que tenho feito por ti? São +desculpas como das outras vezes. Nova confessada, descarado. Ha de ser +a tal Joaquinina do Ó, de quem me chegaram uns zum-zuns. + +Elle erguia o olhar ao tecto, n'um ar compungido: + +--Ai filha, que perdeste a minha rica alminha! E não ha remissão para +o peccado da carne, de si mesmo mortal, aggravado ainda em cima com o +disfarce de coisas de religião. + +Forcejava por desprender-se: + +--Nunca mais! Acabou-se! + +Perpetua agarrou-o na angustia do desamparo. Ia-se com elle o ultimo +vislumbre de mocidade, o sonho em que se emancipava da trivialidade do +seu viver. Era a morte aquelle rompimento! + +N'um desespero articulou surdamente: + +--Assim é que se perde a minha alma! + +--Tem paciencia, irmã. Procura a consolação espiritual na penitencia. +Verás como é bom, que gosos celestiaes dão os cilicios e as +disciplinas. Pede á Senhora da Rocha que te ajude a conformar. Tem +dado vista aos cegos e movimento aos paralyticos, fará o milagre de +te dar resignação. + +E aproveitando o desanimo em que ella se amparava ao archibanco, +enfiou pelo corredor em demanda de Martinho. + +Lavando na aguardente o mau sabôr dos beiços de D. Perpetua, +desculpou-se fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria com a +doença, que o impedira de ir receber as ordens do seu bemfeitor. + +E emquanto passavam da casa de jantar á adega, sumindo-se um atraz do +outro pelo alçapão, ia o frade lamentando a incredulidade dos tempos, +e a audacia do governo provisorio. + +Assentado no tampo do barril, o dorso apoiado ás frescas aduelas das +pipas cheias, emquanto lá fóra escaldava o sol, desabafava o morgado, +sentindo-se sem testemunhas: + +--Estou muito isolado, fr. Angelico, desconfio de todos. Hoje só conto +com a sua amisade sincera e desinteressada. + +Agarrou logo o frade a occasião, que vinha preparando: + +--E desinteressada, senhor Martinho Vasques! Permitta-me v. ex.{a} que +accentue essa palavra, ao ser forçado a appellar mais uma vez para a +sua inexgotavel caridade, para a sua nunca desmentida dedicação ao +throno e ao altar! + +Simulava não reparar nos gestos de contrariedade do morgado: + +--N'estes perversos tempos retraem-se os donativos, e o nosso convento +quasi não tem para a sua pobre meza. Peço, pois, uma esmolinha para os +frades de São Francisco, certo de que não recorro em vão á boa e +generosa alma de v. ex.{a} + +Tartamudeou o morgado: + +--Ámanhã, ámanhã... + +Continuava, porém, infatigavel o frade: + +--Tudo se prepara para nos vermos livres d'essa liberdade de má morte. +Apparecerão guerrilhas no concelho da Praia, para restabelecerem os +inauferiveis direitos do nosso legitimo rei, e auxiliarem o +desembarque da esquadra que se espera a todo o momento. Ha muitos +fieis alistados, mas faltam armas e polvora. Todos os defensores da +ordem tem auxiliado a boa causa. Espera-se que v. ex.{a} não deixe de +concorrer... + +--Ámanhã, ámanhã... + +--É de tamanha urgencia... + +--Bem sabe o costume. Só mexo em dinheiro antes do jantar. E cada vez +me sinto peior para contractos, porque o desgosto de minha filha +poz-me muito fraca esta pobre cabeça. + +--Isto não é negocio, senhor D. Martinho, ou antes, grande negocio é +que elle é. Quem dá aos pobres empresta a Deus, recebendo-se no ceu o +principal e os juros. Emquanto á esmola para meus irmãos em Christo. +Que do auxilio aos partidarios do senhor D. Miguel tira logo v. ex.{a} +o lucro, em não ter a sua casa ameaçada de confiscos... + +Tocado na corda sensivel, sobresaltou-se o morgado: + +--E elles irão de vez a terra? + +--Quem o póde duvidar? Em todo o Portugal governa sua magestade. Falta +só este palmo de terra, por vergonha de todos nós! Dá-se a mão aos que +vem pelo mar, e acaba-se com elles n'um instante. + +--Deus o permitta, que não posso ir descançado para Lisboa deixando-os +em cima. São capazes de me darem cabo de tudo. + +--Haja com que comprar espingardas, polvora e bala, e nem terão tempo +de dizer Jesus! Com quanto póde concorrer v. ex.{a}? + +--Já lhe disse que ámanhã. Venha jantar, e antes de nos sentarmos á +meza... + +--Muito obrigado, senhor Martinho Vasques. Vou já annunciar o valioso +auxilio de v. ex.{a} aos amigos da religião. + +--Preciso-o cá, e até o tomaria para sempre como commensal, para +alivio da sua pobre meza, se lh'o consentissem os seus labores. + +--Que honra, senhor morgado. + +--E sabe porque? Preciso da sua influencia junto de minha filha. Se +podesse ganhar n'ella o ascendente que tem em minha mulher... + +--Quizesse-o ella--respondeu o frade n'um suspiro--e eu seria o mais +feliz dos homens! + +Continuou n'um arroubo ascetico: + +--Trazel-a ao bom caminho! Afastal-a d'esses herejes que lhe hão-de +perder a alma! + +--Era isso mesmo que queria que lhe dissesse, porque eu não sou capaz +de a levar ao bem, e não usarei da força senão na ultima extremidade. +Faça o possivel por demovel-a, fr. Angelico. + +E n'uma ameaça, para o lado do pomar, onde a sabia em colloquio com a +prima: + +--Mas ai d'ella se não obedecer! + + + + +VIII + + +--Alviçaras, senhor morgado, alviçaras! Deus amerceiou-se de nós, e +deu por terminada a expiação com que quiz provar os seus servos! + +Olhou-o um tanto desconfiado Martinho, pela falta de fundamento de +semelhantes boatos. + +Mas o frade confirmou, enthusiasmado: + +--Victoria! Victoria! E graças sejam dadas ao ceu! + +--É então verdade o que para ahi dizem? + +--Estão reunidos nos Biscoitos mil e quinhentos homens, commandados +por João Moniz Côrte-Real e Joaquim d'Almeida. Esperam mais gente de +outras freguesias, e vão acclamar el-rei na villa da Praia, e +facilitar ali o desembarque á esquadra do senhor D. Miguel, que saíu +contra a Madeira, e vem agora libertar a nossa terra! + +--E a tropa que marchou hontem contra elles? + +--Protegeu o Senhor os nossos, e deu lhes logo a victoria. Foram +derrotados os dois destacamentos, e ficaram presos os infames soldados +liberaes. Que vergonha para esses fanfarrões! + +--E que vergonha para mim, fr. Angelico--exclamou o morgado, n'um +impeto guerreiro.--Devia estar ao lado d'elles, como me impõe o nome, +a linhagem, o serviço do throno e do estado. Venha d'ahi, sellam-se +dois cavallos, e em quatro horas estamos com elles. + +--Não posso, senhor Martinho Vasques; a minha missão é toda de paz! + +--Sei de muitos frades que se teem batido pela bôa causa. + +--Sempre houve meus irmãos em Christo que usassem a cruz e a espada. +Eu porém sou mais destro no manejo das armas espirituaes... + +--Pois irei eu só. Não quero que notem a minha falta... + +--Lembro-lhe a sua idade, meu senhor, e as molestias que tanto o tem +impossibilitado. O melhor serviço que póde prestar ao senhor D. Miguel +é dar mais alguma quantia... + +--Tem razão, estou já muito velho para essas danças--concordou o +morgado, procurando eximir-se á nova contribuição. + +--Será tido na devida conta o seu soccorro, e Deus reconhecerá n'elle +a sua bôa vontade. + +--Se venceram, como diz, para que precisam elles mais dinheiro? + +--Sempre são mil e quinhentas bôcas a comer... + +--Tomem á força o que precisarem, como fizémos no Roussillon. + +--Não diria o mesmo V. Ex.{a} se esses valentes realistas andassem cá +pelas visinhanças. + +--Tem razão, tem. Mas que isto se decida por uma vez. Acabe-se com a +choldra, para que eu possa embarcar descansado. + +--Ainda persiste em ir para Lisboa? + +--E conto que vossa reverendissima prepare o espirito de minha filha, +para que de todo esqueça esse disparatado namorico, e se disponha a +desposar o primo D. Luiz de Sousa, que dará á minha casa a tão +desejada successão. + +--Perdôe V. Ex.{a} a minha extranheza. Depois do que se tem passado +ainda pensa em tão honrosa alliança? + +--E porque não? + +--Póde um dia o nobre fidalgo a quem a destina pedir contas d'essa +peccaminosa aventura... + +--Noto a insistencia com que vossa reverendissima aggrava o alcance +d'essa creancice, condemnavel, sim, mas pura creancice. Sabe por +ventura alguma coisa? + +--Sei o bastante, senhor morgado. Elle é um perverso, um hereje, um +liberal; em conclusão: um depravado capaz de tudo. + +--Mas minha filha é uma fidalga, e as fidalgas estão muito acima +d'esses miseraveis, para que a sua intimidade se lhes torne perigosa. + +--Na minha qualidade de director espiritual d'esta casa, é-me +permitido manifestar as indicações que faz o Creador ás creaturas +servindo-se dos seus intermediarios. Assim, senhor morgado, dir lhe-ei +que uma voz occulta brada em meu peito: «Quero-a para mim! Quero-a +para mim!» Significa isto que está indicada a clausura como penitencia +da leviandade, e como resposta aos malvados constitucionaes que se +arrojaram a cubiçar os bens de V. Ex.{a} para as suas obras de Satanaz. + +--Se fôsse uma filha segunda já lá estava. Mas é uma morgada, não a +hei de meter freira. + +--Não digo que professe, senhor Martinho Vasques. Aconselho apenas que +a mande para o convento, como castigo pela sua imprudencia, e como +resposta á seita jacobina. Se mais tarde o Senhor lhe inspirasse a +vocação, ver-se-ia. A verdade é que fazendo-a passar pelo claustro, +ficava quite V. Ex.{a} para com seu genro. Creio que a senhora D. Maria +só foi attingida na sua bôa fama. De mais graves estragos, porém, tem +ido refazer-se jovens fidalgas ao seio das virtuosas madres, e bastou +isso para que seus nobres esposos se dessem por satisfeitos. + +Meditou um pouco o morgado, e respondeu: + +--Não posso deshabituar-me da ideia de que hei de vêr um neto varão, +já que Deus não me deixou vingar um filho, que succedesse no meu +appellido e nos meus bens. Quanto ao mais, não tenha receio. Minha +filha leva um magnifico dote, e por minha morte ficará bem. O primo, +que pouco possue, alem da herdade perto de Evora, e do seu grande +nome, terá toda a conveniencia em não dar ouvidos ás intrigas. + +--E a senhora D. Maria quererá casar com elle? + +--Cumprirá o que lhe ordenar, como deve. + +--Assim é em theoria, meu senhor, mas lembro que n'estes malditos +tempos nem fica incolume a propria obediencia filial. Foram por certo +os conselhos d'esse perverso que a fizeram má filha, como a hão-de +fazer má esposa. + +--Entregue-a eu ao marido, e o mais é com elle. Bem sabe a fama de +leviandade que minha mulher teve, e a seriedade com que tem procedido +desde casada. Feche-a, como eu faço, tire-lhe as occasiões, e será +esposa exemplar como as outras. + +--Como a senhora D. Perpetua--exclamou fr. Angelico, pondo a mão no +peito--apesar das más linguas a quem irrita o exemplo da virtude! Que +até em demasia pratíca a minha senhora os seus deveres religiosos. +Appelle V. Ex.{a} para a sua autoridade de marido, e faça-a limitar a +frequencia ao tribunal da penitencia. Ella é insaciavel de +mortificações, e receio que acabe por lhe fazer mal. Imponha-lhe +parcimonia, porque o meu ministerio não é o mais proprio para a +arrancar a excessos de devoção. + +--Não se lhe preste vossa reverendissima ás rabujices de beata. Agora +todo o seu tempo será para corrigir minha filha. Sou o primeiro a +sentir a sua desobediencia e a reconhecer a culpa que n'ella tenho, +pelo mimo de que a rodeei. Por isso recorro ás suas luzes. Repita-lhe +as confissões, meta-lhe medo com o inferno e fale-me, á meza, dos +sacrilegios d'esses patifes. + +--Cumprirei a minha missão de pastor, chamando ao redil a desgarrada +ovelha ... Mas o mais seguro de tudo é a caça aos lobos. É preciso +offerecer a esta nossa terra o espectaculo do desaggravo da religião e +de el-rei, encher as casamatas do castello e dar que fazer á forca! + +--Sim, diz bem. + +--Pois lembre-se V. Ex.{a} dos nossos amigos que já começaram a batida. + +Receioso da incerteza dos tempos, precavia-se d'essa fórma fr. +Angelico, enchendo o seu pé de meia antes que o morgado abalasse para +Lisboa. + +Deu-lhe Martinho, voltando a cara, novo saquitel de dinheiro, fechando +cuidadosamente o contador e, sem mais palavras, foram para a meza. + +Tirou o morgado o vinho, examinaram-o, provaram-o e aguardaram o +comer. + +Para affligir Maria, repetiu o frade ao jantar as noticias da revolta +miguelista, dirigindo-se a D. Perpetua, grande partidaria de Carlota +Joaquina, hostil aos liberaes pelo seu odio aos conventos. + +--Pois minha querida senhora D. Perpetua, vae V. Ex.{a} sentir +desafogada a sua alma pela grande desafronta que na nossa terra vae +haver. Teremos carne fresca, salutares espectaculos a este povo tão +offendido, e estou certo que o senhor morgado não deixará de mandar +pôr o seu carroção para dar ás festas o prestigio da sua presença, e á +menina Mariquinhas, como é de lei, a lição do castigo dos criminosos. + +Muito nervosa, cravou Maria os olhos no prato, não respondeu ás +solicitações directas do frade, e sempre conseguiu reprimir os impetos +de o descompôr. + +Impacientava-a a demora d'esse jantar interminavel. + +Aterrada pelo perigo de vida em que se encontravam os constitucionaes, +anciava vêr Josepha da Esperança que lhe devia contar a verdade. + +Procurava convencer-se de que eram tudo exageros do frade, encommenda +do pae para a fazer abandonar João. + +Contava agora fr. Angelico os desacatos dos liberaes, o desabafo do +povo de Lisboa em 1820, invadindo o palacio da inquisição, e +despedaçando a estatua da Fé, da frontaria; e as invenções fradescas +de Christos servindo de alvo, de imagens arrastadas pelos cabellos em +procissões maçonicas. + +Assustavam esses horrores a inconsciente credulidade de Maria, e +quando o frade lhe falou do milagre de Setubal, dois anjos a cavallo +n'uma nuvem, com a legenda de vivas a D. Miguel, temeu viver em +peccado mortal pela affeição votada a um adepto de Satanaz. + +Mas chocava-a a inverosimilhança de que esse pobre rapazinho, tão +meigo, tão ingenuo, tão respeitador, bebesse vinho por caveiras, e +escarrasse nas cruzes, como o frade ia insinuando, cada vez mais +excitado pelo verdelho. + +Mal se levantou a mãe, ergueu-se logo, e foi para o mirante esperar a +prima, deixando o frade no relato dos castigos celestes, provocados +pelo peccado da liberdade, os tremores de terra, as perdas de +colheitas, a febre amarela que flagellára a Hespanha por causa das +suas côrtes constitucionaes. + +Confirmou-lhe Josepha a apparição da guerrilha, e a derrota dos dois +destacamentos, mas tranquillisou-a, que aquillo não tinha importancia +nenhuma. + +Fôra pedir-lhe João que a animasse. + +N'essa mesma tarde estaria a revolta acabada, porque saíra toda a +tropa do castello para ir afugentar os miguelistas. + +--Por isso ouvi tantos toques de cornetas, que o vento estava de lá. + +--Passaram-me pela porta. Olha que ia bonito! Nunca vi tanta +soldadesca junta, carretas com peças, officiaes a cavallo, a musica a +tocar o hymno constitucional, a garotada dançando á frente, e povo +como bichos atraz. Ao passar, o João abaixou-me a cabeça... + +--Pois elle tambem foi? + +E Maria abraçou-se á prima a chorar. + +--Elle, Josepha, uma creança, metido n'isso por minha causa. Sim, +porque se não fosse dar lhe para gostar de mim, não tinha ido sentar +praça, não se via agora envolvido n'essas guerras, em risco de lá +ficar. + +--Então, filha, aquillo não vale nada. Se tu visses como elle ia +contente, risonho! Parecia um passeio. Se prenderam as outras forças é +porque eram só de vinte homens, e foi cada qual por seu caminho. + +--Mas hão de dar tiros, e se algum acerta n'elle? É capaz d'isso, que +eu sou muito desgraçada, e nunca vae por diante aquillo a que quero +bem. Elle é as flores da minha estima, os canarios das minhas gaiolas. +Credo! Credo! + +--Acredita que não tem perigo. O mestre Jacintho, que lá ia sentado +n'uma carreta, porque percebe muito de peças, a rir-se como um +tolinho, disse ao meu creado que ao primeiro tiro fugirão como bando +de estorninhos. + +--A minha desgraça, Josepha!--continuava Maria, inconsolavel--É como +se já o visse morto! Ao que eu ouvi a fr. Angelico, elles teem tudo +como feito, e já falam de enforcar os liberaes. No que se vae vêr +aquelle pobrinho! + +--Agora vejo que te esteve a meter mêdo, o sujo. Não sei o que me +contem, que não diga um dia ao tio porque vem elle aqui tanta vez, a +exercicios espirituaes. Mas se o maldito continua a fazer-te chorar, +olé se o desmascaro. Hypocrita! É tudo mentira, filha, acredita-me. + +Maria encarou-a mais esperançada. + +--Olha, se o visses, em vez de chorar, rias-te como eu me ri. Elle ia +de mochila, capote, bornal, correias por cima de correias, espingarda +ao hombro, tão carregado de coisas que nem sei como se podia mecher. +Pois apezar d'isso andava tão depressa que desapparecia. Os caçadores +vão desesperados por causa dos paisanos lhe terem prendido os +camaradas. Olha que elles são soldados de fama! Onde chegam, vencem +tudo. + +--Estou mais descançada por ir o mestre Jacintho, que ha de tomar +conta n'elle. + +--Ora vê lá esse velhote, o que tem passado, as guerras em que entrou, +e como ahi está são e escorreito. Teu pae mesmo por lá andou, o avô do +João veiu morrer á sua cama, e quantos e quantos! Até me parece que +elles inventam os perigos, para se darem ares, e que no fundo é tudo +uma santa historia. + +--Deus te oiça, Josepha! + +--O que te posso dizer é que elles iam tão assustados que encaravam +com todas as janelas. E que olhares, filha, parece que queimavam, +tanto calor me subia á cara! Era tão bonito vêl-os marchar, os +officiaes muito empertigados, a retorcerem o bigode, que se me foram +os olhos n'elles. + +Desanuviou-a um pouco a vivacidade de Josepha: + +--Ainda vens a namorar um militar. + +--Cuidas que todas gostam de soldados, como tu? + +Maria acabou por sorrir, e enxugou as ultimas lagrimas. + +--Sabes quem é para ter dó?--continuou Josepha.--É o primo Jorge. Anda +com os guerrilhas, o grande maluco. Foi-se-me mostrar, todo pimpão, +com uma aguilhada de carreiro para imitar o senhor D. Miguel. No que +elle se engana é que aqui os liberaes estão armados, e em Lisboa +andavam com as mãos a abanar, por isso el-rei os perseguia a pampilho. +O que vale é que, como anda a cavallo, e ha-de ser dos primeiros a +fugir, antes que o apanhe alguma bala, põe-se a salvo. + +--Que malditas questões!--suspirou Maria, tornando a +commover-se.--Succeda o que succeder, pelo menos uma de nós ha-de +chorar, se não chorarmos ambas. + +--Lá d'elle vir corrido não me importa nada. Até gosto, se queres que +te diga, porque o João deu-me volta ao miolo. Se isto é ser +constitucional e fica feio, não sei nem quero saber, mas lá em querer +acabar com os conventos teem elles carradas de razão. Para que é +aquillo bom? Para fazer dôces? Pois em nossa casa fazem-se muito +melhores, e não são lambidos por aquellas fufias, crédo, que até me +repugnam os seus beijos repenicados. + +Por fim, ao despedirem-se, combinou Josepha como havia de dar-lhe +noticia certa do que se passasse. Mandaria pelo creado pedir-lhe +qualquer coisa, e isso seria o signal de que João estava incólume. + +Ficando só, entregue ao seu desgosto, poz-se Maria a contemplar as +grandes serras do interior da ilha, a querer descortinar o que atraz +d'ellas se estava passando. + + * * * * * + +Para além das escuras cumeadas marchava João entre as cento e +cincoenta praças da columna, pensando amargamente na abominavel +escravidão mental em que jazia o povo, a ponto de reunir-se em armas +hostilisando os libertadores. + +Tinham que levar pela violencia os proprios a quem emancipavam, +erguendo-os á concepção de uma patria, á realisação de um pais +independente, entregando-lhes a posse dos seus destinos. + +Eram forçados a armarem-se de espingardas contra esses cujo +soffrimento interpretavam, emancipando o individuo, o trabalho, a +terra; abrangendo na mesma redempção o camponês dobrado sobre a +enxada, o plebeu asphyxiado pelo preconceito do nascimento, a mulher +escravisada na clausura. + +Reclamavam para si o logar a que lhes davam direito as faculdades +intellectuaes, mas não esqueciam o cavador, o pescador, o artifice, +formulando as reclamações que elles eram incapazes de conceber, +analphabetos, desmoralisados por castigos corporaes, intimidados pelo +inferno, esperando apenas a felicidade depois de mortos a troco da +completa submissão. + +Por si e por esses que pretendiam elevar pelo ensino obrigatorio, pela +suppressão do direito dos senhores ao producto do trabalho, +expropriaram as classes privilegiadas: funccionarios monopolisadores +das rendas publicas; desembargadores vendilhões da justiça; militares +insaciaveis de promoção e de soldos; capitães-móres que dispensavam de +soldado a troco da honra das mulheres, da virgindade das raparigas; +fidalgos possuidores da terra, do exclusivo dos altos cargos, do +privilegio da venda do vinho, dos moinhos, dos lagares de azeite, da +agua para regas, das pescas nos rios e no mar, das coutadas que por si +sós eram a ruina da agricultura; padres, frades e freiras que, como +proprietarios, usufruiam todos os privilegios da nobreza e exerciam a +maior industria, quasi a unica industria, a exploração da credulidade +publica, pesando terrivelmente, pelas communidades ricas e pelas +ordens mendicantes sobre todo o trabalho nacional. + +E mais uma vez a inconsciencia dos opprimidos, guiada pelos semeadores +do mal, desejava-lhes a morte, e reclamava-a cantando, em córos de +vozes avinhadas: + + Rebenta mação + Remoe liberal, + Livre é Portugal + Da constituição. + + Ó Virgem da Bôa Morte, + Senhora dae-lhes consumo + Para que os _pedreiros_ levem + A volta que leva o fumo. + + A fôrca em bolandas + Andando apressada + Da atroz _pedreirada_ + Acabe as demandas. + +Estavam convencidos os desgraçados populares, arrancados á familia +para derramarem sangue pelos seus parasitas, de que se batiam pela +religião, de que, combatendo os soldados de D. Pedro, esse rei +estrangeiro, liberal e pedreiro livre, que declarára guerra a +Portugal, e lhe arrancára o Brasil, calcando aos pés emblemas +nacionaes, obedeciam aos designios de Deus, que mandara á terra o +archanjo S. Miguel, incarnado no infante, para restabelecer no seu +antigo explendor a fé catholica. + +Tinham-o ante os olhos, resplandecente, prestigioso, n'esses retratos +postos nos altares, como os de santos, ante os quaes se rezava e se +diziam missas; n'essas gravuras que o mostravam pujante de juventude, +na sympathia dos vinte annos, no vigor dos amplos gestos, na rijeza da +musculatura, largo de hombros, amplo arcaboiço, expressão de firmeza +no rosto comprido e trigueiro, lampejos de energia no olhar vivo, a +figura dominadora a cavallo, chapéo de dois bicos vistoso de +plumagens, esmaltado de crachás, espada em punho mandando avançar. + +E murmuravam na uncção de orações, as cantigas em que elle apparecia +como representante do ceu: + + Senhora da Conceição + Madrinha de D. Miguel. + + D. Miguel vae p'r'ó altar + Com dois palmitos aos lados. + + É Miguel anjo de paz + Que Deus tem por general. + +Chegára á villa da Praia, onde celebrou a acclamação de D. Miguel, +lavrando o respectivo auto na camara, a grande guerrilha que já reunia +cinco mil homens, mas retrocedeu ao Pico do Selleiro a esperar a +columna liberal, e ahi rompeu o combate, avançando os soldados em +atiradores até duzentos metros da elevação onde tomara posições. + +Empallideceu João ao vêr esses homens em attitude aggressiva, +apontando-lhe espingardas. + +Jurára morrer pela liberdade, mas estremecia á ideia de ter de matar +em nome d'ella. + +Para que a nova ideia triumphasse era preciso reduzir a um montão de +mortos e de feridos aquelles homens, seus patricios, seus irmãos ante +a noção da fraternidade. + +Era a ignorancia o seu unico crime, e por isso iam ser dizimados pelas +peças, pelas espingardas dos caçadores, pela sua propria arma, que +d'essa fórma ia estrear. + +Mas se até para o bem d'elles era preciso! + +E á voz de fogo, na passividade da disciplina que o tornava uma +simples peça d'essa machina de morte, poz a espingarda á cara e, +fechando os olhos, disparou. + +Atordoou-o a descarga geral, a seca detonação da fuzilaria, o sonoro +estampido dos canhões e, cambaleante do coice, os olhos a arderem da +explosão da carga, a face magoada pela pancada da coronha, alagado em +suor frio, mais morto que vivo, sentiu-se agarrado pelo veterano que, +mal pudéra, fôra reunir-se a elle. + +--Então, menino, isto não vale nada! Anime-se, que até parece mal. +Está amarelo como um defunto! + +--Ah! És tu, meu amigo! + +Recobrando-se, explicou: + +--O tiro rebentou-me mesmo na cara, ia-me deitando ao chão. + +E segurou a espingarda pela bandoleira: + +--Escalda, nem sei por onde lhe hei-de pegar. + +--Não tiveram tempo para lhe ensinar o officio. Pois bem fiz eu em vir +ser seu padrinho no baptismo de fogo, como seu avô foi para mim. Olhe, +pegue-lhe por aqui, pelo delgado do fuste, agarre-a bem, não a +encoste á cara, e não lhe succede mal nenhum. + +Emquanto lhe explicava os manejos d'arma, continuava o combate; +estremecia João ao vêr caír gente do seu lado, sem que parecesse +attingida, e baixava instinctivamente a cabeça ao tiroteio do inimigo. + +--Deixe-os lá--continuou mestre Jacintho--estenderem-se no chão para +fazerem fogo deitado. Não me faça cortesias, menino, que não serve de +nada, e olhe bem direito para a frente, se quer vêr o enxame de moscas +azues e vermelhas que andam a zumbir por entre a gente. + +Fez ajoelhar João, collocou-se ao lado, e poz-se tambem a fazer fogo. + +--Lá vae uma para aquelle patife de desertor do Cinco, que por lá anda +envergonhando a farda Pum! Prompto! Ah! Já fostes escutar a +cavallaria? Ande com elles, Joãosinho, aponte aos fardados, que são +quem nos faz mal, e nos mandam cada _ameixa_! A paizanada, estar ali +ou não estar, é tudo o mesmo. Mire os que andam a cavallo, que são os +chefes, e ferre-me com elles em terra. + +Aqueceu João, enthusiasmou-se, agora carregava a arma febrilmente e, +tão sereno como se não o visassem as duzentas espingardas da +guerrilha, apontava segundo as indicações do veterano, e disparava, de +olhos bem abertos, observando se attingia o alvo. + +--Agora sim! Está um homem, um bravo como seu avô! Pode servir de +exemplo aos mais velhos! Vejam este camarada, rapazes, vocês que +andaram na guerra, mas que são galuchos á minha vista! + +E abraçou-o entre os applausos da sua esquadra. + +--Cá o deixo, já não precisa de mim. Filho de peixe sabe nadar! Temos +homem para ir longe. E agora deixe-me chegar até ás peças, a vêr se me +deixam apontar uma á minha vontade, que já é tempo de varrer aquella +malta. + +Partiu, fazendo-se muito baixinho, dobrado ao meio, descendo aos regos +do terreno para offerecer menos alvo, occultando-se com pedregulhos, +arvores, restos de paredes derrubadas, como soldado afeito á guerra. + +E João continuou muito senhor de si, lembrando-se de que a illusão da +fraternidade perdera o governo constitucional, e depois a revolução do +Porto. + +Só pela violencia se dissolveriam as castas; só pelas armas se +imporiam as medidas liberaes; nunca o progresso se realisaria sem +sangue! + +Após hora e meia de fogo, flanqueou uma força liberal a posição +miguelista, e a guerrilha debandou ao vêr despedaçar pela metralha o +_caçador_, do Porto Judeu. + +--Victoria! Victoria! + +E o veterano voltou a abraçal-o, e pegou-lhe ao collo, como se fosse a +criança que amimára, envaidecendo-se do seu recruta, recordando +enternecido a bravura do seu antigo official. + +Respirava João amplamente, na alegria dos vivas, no orgulho do +triumpho, e queria apparecer por encanto na quinta, mostrar a Maria +que ficára illeso, beijal-a, chorar e rir abraçado a ella, +affirmar-lhe que estava salva a causa, garantida a ventura de ambos. + +--Pois havemos de lá ir, que o mereceu, galucho de uma cana! Que +sustos não terão pregado á pobre menina! + +E a essa evocação do receio dos que ficaram, lembrou-se da afflição +das pobres tias, que tinham ido logo ajoelhar diante do oratorio, a +pedirem por elle ás imagens da sua devoção: Santa Rita, dos +impossiveis; S. José, que tinha ao lado uma palma benta em dia de +Ramos, maior do que elle; o Christo de prata n'uma cruz de ébano; um +coração com tampa de vidro, e dentro um menino entre flôres; um outro +menino Jesus barrigudo, córado, vestido de boneca, com a bola do mundo +na mão; e ainda outro n'um berço côr de rosa, com uma almofadinha +bordada: menino Jesus nusinho para os beijos devotos, em que as beatas +bemdiziam a sua santa virilidade. + +Na manhã seguinte recebeu Maria o recado de Josepha. Mandava pedir +flôres. E ao ir ao jardim dal-as ao creado, soube da bôcca d'elle que +os liberaes tinham vencido facilmente; que João não soffrera nem uma +arranhadura, e que as flôres eram para as visinhas deitarem por cima +dos soldados, que n'essa tarde entrariam triumphantes. + +N'uma explosão de jubilo colheu quanto havia e ao deitar para o cesto +o pouco que lhe dava outubro: «rosas do Japão» vermelhas e brancas, +«esporas de cavalleiro» azul escuras, cheirosas baunilhas, a vermelha +«flôr do laço», a «corôa de rei» azul-claro, misturadas com ramos de +alecrim, era como se das janellas tambem as atirasse para cima de +João, inebriada pela sua victoria. + +Foi o jantar a antithese da vespera; desabafando o frade em +improperios contra os liberaes que vira passar ao som de repiques, com +ramos de louro nas espingardas, sob uma chuva de petalas, e Maria +finava-se de rir pela parte que tivera na festa. + +Veiu á tarde Josepha da Esperança, e contou-lhe que o vira radiante. +Dissera-lhe «até logo», e era capaz de apparecer. + +Foram ambas, alvoroçadas, esperal-o do lado da canada, aonde vinham +dar os atalhos. + + * * * * * + +Mal debandou a força no quartel, correu João a casa, a socegar as +velhas. + +Ao vel-o a creada, a _tia_ Maria da Assumpção, persignou se de uma +maneira especial: + + Eu me benzo + Co'o sangue de Christo + Co'o o leite da Virgem + Co'o a flôr da luz + Para sempre amen Jesus. + +Foram mostrar-lhe a tia Dorotheia e a tia Pulcheria o oratorio a que +ardiam velas em promessa. Proclamavam o milagre, e esperavam que elle +se rendesse, caíndo de joelhos, agradecendo o dom do ceu. Mas só a +ellas se mostrou grato, beijando-as, tornando-se de novo a creancinha +em que não podiam adivinhar o rude soldado da vespera. + +Debatiam-se agora as tres velhas n'um grave caso de consciencia. + +Para que tinham forçado ao milagre a senhora Santa Rita dos +Impossiveis? Fôra um pedido sacrilego! Vinha João mais hereje do que +fôra, sem sequer agradecer aos santinhos que se amerceiaram d'elle. +Salvando-o d'essa forma, talvez se tivessem perdido com elle! + + * * * * * + +O mal disfarçado riso com que Maria offendera á meza o seu despeito, +encolerizára o morgado e o frade. + +A indifferença da vespera, a certeza com que ella n'esse dia se +mostrava ao facto da victoria, aggravou a Martinho as suspeitas de que +se correspondia com João. + +E depois da indispensavel visita ao alambique, foram emboscar-se a +vigial-a. + +Avistaram-os ellas, e reconheceram-se alvo da sua vigilancia, mas por +coisa alguma se resignava Maria a deixar de vêr o namorado. Far-lhe-ia +signal para que não parasse, e defender-se-ia do pae mostrando-se +extranha a essa mera coincidencia. + +Avistaram por fim ao longe o veterano e João, cosendo-se com as +paredes dos cerrados. + +Ao reconhecel-os, quiz o morgado lançar-se n'um impeto, mas +conteve-lhe o frade o mau genio. + +Esperava o momento compromettedor, em que a filha não podesse negar a +leviandade e, confundida, ao vêr-se descoberta, pedisse perdão da +afronta, e se entregasse a um sincero arrependimento. + +Cedeu não sem custo, e quando tornou a olhar por entre as faias, notou +com surpreza que já tinham desapparecido. + +Percebendo os signaes para se afastarem, tinham os dois saltado á +canada. + +Rente com o muro, correra João a atirar-lhe para cima, enrolado a uma +pedra, o bilhete que levava para a hypothese de não poder falar-lhe, e +indo ter com mestre Jacintho saíram ao Caminho de Cima, por entre +quintas. + +Desconfiados, precipitaram-se fr. Angelico e o morgado, ao tempo que +Maria devorava as quatro palavras de João. + +--Dê-me essa carta, senhora!--bradou o frade, que chegára primeiro. + +Sem responder, amarrotou o papel, e com elle fechado na mão, +voltou-lhe as costas n'um olhar de desprezo, e afastou-se de braço com +a prima. + +Deteve-a o pae, exigindo-lhe o bilhete, que Josepha já occultára no +seio, e Maria respondeu que nada tinha. + +--Vi-lh'a eu, senhor, a carta d'esse hereje, d'esse pedreiro livre, +que para deshonra de V. Ex.{a} perdeu a alma da senhora D. Maria! + +E fr. Angelico apoiou a denuncia agarrando-lhe a mão em que a +amarrotára. + +Soltou-se ella violentamente, e o frade, cambaleando com a sacudidela +de Maria e um indignado empurrão de Josepha, caíu contra um renque de +vasos, esfarrapando-se e partindo-os. + +Então o pae cresceu para ella: + +--A menina estava esperando um homem, a quem eu repelli da minha +porta. Além de me desobedecer, offendeu-me agora, resistindo a uma +ordem minha. Repare bem, sou eu quem lh'o exijo! Dê-me a carta. + +--Não tenho carta nenhuma, senhor. Deixe-me passar. + +--Isso é que não. Iria escondel-a. + +E detendo-a: + +--Dê-me esse papel ao bem, ou arrepende-se! + +--Senhor, já lhe disse que não tenho. E se tivese não devia dal-o, nem +o pae m'o devia pedir. + +--Ah! Não tem? É o que vamos vêr. + +E segurando-a, o morgado apalpou-lhe o corpete, rebuscou-lhe a +algibeira da saia, apertando-lhe brutalmente os pulsos emquanto ella +se debatia, e como tudo fosse inutil, atirou-a rudemente contra o +muro. + +--A menina ha-de ficar sabendo que não se zomba d'um pae, e não se +emporcalha um nome fidalgo namorando soldados. + +N'um choro convulso Maria bradava, caída na banqueta: + +--O pae bateu-me! Mas foi a ultima vez. Está enganado commigo. Não +quero ter a sorte da mãe! + +E para Josepha da Esperança, que os dois levavam adiante de si, +tratando-a de encobridora, de enredeadeira: + +--Não me desampares, Josepha! Conta o que vistes, e não te esqueças de +que me bateram, e de que esse frade me magoou! É preciso que elle o +saiba! + + * * * * * + +Tornara-se João tudo para ella! + + + + +IX + + +Bloqueado por temporaes de inverno, dias de chuva torrencial, grandes +frios, installára-se fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria na +quinta dos Folhadaes, mandando como senhor, dirigindo a casa, cujo +governo D. Perpetua abandonára, para se refugiar no quarto de Maria, +horrorisada por adivinhal-o catechizando creadas pelo escuro dos +grandes corredores. + +Enclausurada voluntariamente com a filha, prohibida de sahir do +quarto, comiam ali ambas depois de prévia revista do morgado ou do +frade ao que recebiam, não fossem cartas escondidas. + +Só os dois homens pois iam á meza, e ali passavam quasi de uma á +outra refeição, não se decidindo a arrostar a frieza da adega, nem o +chavascal do campo. + +Aparada em alguidares e em celhas pingava agua do tecto, alastrado de +bolôr; pelas frinchas das janellas empenadas soprava um vento cortante +que os fazia tiritar sob os capotes. + +Desforravam-se a bebericar aguardente, quando a criada foi annunciar o +senhor juiz corregedor. + +--Justiça em minha casa!--exclamou o morgado, pondo-se de pé. + +Chegou á janela e olhou para fóra. Não cessára de chover. + +--Com um tempo d'estes! Deve ser coisa grave. + +Voltou-se para o frade: + +--Descobriria a alçada que eu dei dinheiro para os guerrilhas? + +Tranquillisou-o logo fr. Angelico: + +--Quanto a isso descance v. ex.{a} Não invoquei o seu nome, por causa +das secretas vinganças que os pedreiros livres costumam tirar de quem +os guerreia. Lembre-se dos lentes de Condeixa. + +--Sim, sim, fez bem. Má gente. Mas se não é por isso, que querem de +mim? + +--O mesmo que pretendem dos outros. Intimidar os partidarios do +throno e do altar. E como as suas opiniões são bem conhecidas... + +--Mas eu nunca as manifestei, não saio de casa, não me saliento... + +Voltou-se para a criada: + +--Elle vem só? + +--Saberá v. ex.{a} que sim senhor. + +--Se eu fugisse, fr. Angelico? + +--Não me parece que haja razão para isso. + +--É exactamente por não saber o motivo que receio. + +--Agora! Agora!--accudiu o frade, já desanuviado.--Imaginam que está +por ahi alguem escondido, e como andam á procura do João Moniz e do +Joaquim d'Almeida... + +--Pois lembra bem, deve ser isso--concordou o morgado.--Que hei de +fazer n'esse caso? + +--Recebel-o ás bôas, deixal-o dar busca á sua vontade, e ficaremos +livres d'elle. + +--Pois hei de franquear-lhe minha casa? + +--Que remedio, se pode entrar á força. Estão de cima. É aguentar e +cara alegre, emquanto não chegam melhores dias. + +--Vá então recebel-o em meu nome, e desculpe-me. Diga que estou +doente. + +--Eu, senhor! Não sabe v. ex.{a} o odio que nos votam esses adeptos de +Satanaz! O pobre de mim até foi na lista que elles mandaram ao nosso +provincial, intimando-o a prohibir os franciscanos de defenderem a +causa do throno e do altar. + +--Não posso ver gente de justiça, e demais a mais justiça d'esta! + +--Tenha paciencia, que nos havemos de vingar de tudo. Vá attendel-o v. +ex.{a}, ponha-se ás bôas, trate-o o melhor que puder, para não dar +logar a que exhorbite, e tenho para mim que o ha de confundir a sua +respeitabilidade. Eu ficarei rogando a Deus... + +--Isso é que não. Ou me acompanha, ou não o recebo, e faça o que +melhor lhe parecer. + +Olhou irritado para os campos innundados de agua: + +--Tivesse cá a gente de trabalho, e outro gallo lhe cantára. Mas +assim, não ha com que lhe dar uma lição, que elle com certeza não vem +só, nem com as mãos a abanar. + +E como visse retrahir-se o frade: + +--Ande d'ahi, já lhe disse. + +Apavorado, pediu fr. Angelico, de mãos postas: + +--Só se v. ex.{a} me promette ser conciliador. Disse o Divino Mestre, +que se o inimigo nos offender na face esquerda devemos offerecer-lhe a +direita. + +--Isso aconselharia aos frades, que aos fidalgos não!--respondeu +irritado Martinho. + +--Pois n'esse estado de espirito, meu senhor, Deus me defenda. + +--O melhor é falar vossa reverendissima. Eu acompanho-o, mas +permitto-lhe todas as habilidades conciliadoras, porque tambem prefiro +que não me incommodem. + +--É Deus que o illumina, senhor morgado. Assim verá que fica tudo em +bem. + +--Mande-o entrar para a sala dos retratos--disse o morgado á +criada--peça desculpa da demora, e que já lá vamos. + +Estremeceu o frade de novo: + +--Ah! Senhor do ceu! Basta o tempo que o fizemos esperar para o +esbirro já estar como uma bicha. Que carantonha que não vae fazer! + +Bebeu mais aguardente o fidalgo, tirou o capote, mirou-se, compoz os +bofes, puchou os punhos de rendas, e lançou a fr. Angelico um olhar de +desdem: + +--Você já não conheceu o homem de côrte. Pois fique sabendo que me vi +muita vez nos regios paços de Queluz, e sei bem a etiqueta das salas. +Verá como procedo, e como, sem o humilhar, por que elles estão de +cima, lhe farei sentir a differença que vae de um fidalgo a um +traficante de sentenças. Basta o logar onde o recebo para o +envergonhar do seu baixo nascimento. E certas coisas que lhe direi ao +correr do pello... + +--Não me perca v. ex.{a}, por amor de Deus! Deixe-me ficar no meu +cantinho! + +--Não, que você é manhoso como os que o são e, se eu me desmanchar, +meterá a sua colherada. Beba uma pinga para cobrar animo, e vamos +dar-lhe uma lição mestra já que cá veiu meter o nariz. + +Tomou novo alento ao beber, o frade, mas ainda aconselhou: + +--Lembre-se v. ex.{a} que os demonios teem o poder na mão, e por algum +tempo. Além da victoria do Pico do Selleiro, ainda foi por elles o +temporal que destroçou a esquadra de sua magestade, depois de tomar a +Madeira, quando vinha fazer o mesmo a esta desgraçada terra. Primeiro +que se arme em Lisboa outra frota para vir até cá ... Não se esqueça +v. ex.{a} d'isto. Agora são elles quem manda. + +Ao entrar na sala, empertigou-se mais o morgado em respeito ao +scenario aonde ultimamente só raras vezes se mostrava, télas +escurecidas pelo tempo destacando nas paredes caiadas, o cadeirado de +coiro e pregaria amarela, o grande buffete carregado de finos buzios +rosados, de amplas conchas de madreperola, os reposteiros vermelhos +onde pompeava o seu brazão, com longes de capoeira. + +Saudou o juiz n'uma pirueta cortez: + +--Desculpe v. s.{a} a involuntaria demora. A justiça é como se entrasse +em minha casa el-rei, que vossa senhoria já representou, e em nome de +quem continuará um dia a exercer o mando, como é timbre de homens +d'ordem. + +Mordeu os labios o magistrado ao tratamento e ao remoque, mas, +contando com peior acolhimento, saudou por sua vez o morgado: + +--Está v. s.{a} em sua casa, e sou eu que tenho de escusar-me de o vir +incommodar. + +Córou Martinho Vasques á falta de excellencia, e o frade, que o +percebeu, muito animado pelo tom ordeiro do juiz, interveiu: + +--Permitta-me v. ex.{a}, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro, +que aponte a sua senhoria os achaques... + +Mas o corregedor, sem fazer caso, interrompeu-o, dirigindo um novo +golpe á prosapia de fidalgo: + +--Não julgue, senhor Soeiro, que venho aqui por causa das tristes +perturbações fomentadas pelos mal intencionados que exploram as +disenções de irmãos. Calcula decerto o grave motivo que me traz por +semelhante tempo... + +Ferido no seu orgulho, julgou conveniente o morgado dar-lhe desde logo +a lição projectada, e forçando um sorriso que o tornava mais feio, +respondeu: + +--Quem não deve, não teme, e se eu tivesse que receiar das justiças, +ou não estaria á mercê d'ellas, ou a minha porta achar-se-ia guardada, +com o direito de que sempre usaram em Portugal fidalgos de solar. + +Apontou para fóra o juiz, n'um gesto amavel: + +--Foi informado o tribunal de que ha aqui um quinteiro brigão, o que, +para evitar algum desacato d'esse desordeiro, me forçou a vir +convenientemente acompanhado, não por causa de v. s.{a}, mas por via +d'elle. + +Trocaram um olhar fr. Angelico e o morgado. A escolta lembrava logo +uma prisão. E a referencia á cilada fazia-lhe receiar que João ou o +veterano o tivessem denunciado como conspirador. + +Triumpharam os propositos conciliadores que ditava o mêdo, e o frade +adiantou-se, muito curvado: + +--Perdôe v. ex.{a}, senhor corregedor, não lhe ter offerecido já alguma +coisa quente, uma chavena de café, uma magnifica aguardente da lavra +do fidalgo, para o preservar de uma peitogueira... + +Sorriu muito lhano o magistrado: + +--Lembrou bem vossa reverendissima, e acceito de bôa vontade, com o +que provo os meus amigaveis intuitos. + +Saíu por um momento, muito lépido, o frade a dar ordens; e o morgado, +fazendo um exforço, recalcou as offensas, e submeteu-se ao receio da +escolta: + +--Vejo que v. ex.{a} não me conhece, por attribuir á minha atitude +intuitos diversos da justificadissima surpreza... + +--Oh! De modo algum. + +--E como v. ex.{a} não é da ilha, permitta-me que me apresente, +fazendo-o tomar relações com os meus antepassados, que não lhe podia +ter dado melhor companhia, pois não a ha mais escolhida n'esta terra, +nem lá fóra é frequente a que se lhe possa comparar. + +--Já os estive admirando assim que entrei, e conheço-os por tradicção, +como conheço a v. ex.{a} mais do que imagina. + +Envaideceu Martinho a homenagem do tratamento e, attribuindo-o ao +effeito d'essa berrante linhagem, insistiu no proposito de desenrolar +os pergaminhos. + +--Perde-se a minha geração na noite dos tempos, entroncando-se por +muitas vezes no ramo da dynastia, mas a mais proxima representante é +esta minha trisavó, que morreu em Odivellas em cheiro de santidade. + +Apontou um retrato de moldura oval, que tão bem ia ao rostinho envolto +na toalha: + +--É soror Thereza de Jesus, que em formosura desbancou a madre Paula, +senhora de Melres, e conhecida por isso no convento pela _Melrinha_, +ao que allude o segundo quartel do meu brazão, tres melrinhos de oiro +sobre purpura. Era já fidalga, filha do senhor de Villar de Corvos, +representado no primeiro quartel por aquelle corvo de prata em campo +azul, mas el-rei o senhor D. João V--e curvou-se como se estivesse na +presença do monarcha--houve por bem, ao conceder-lhe o alvará de +legitimação do filho, dar a meu bisavô o titulo de moço fidalgo da +casa real, com serviço no paço. + +Orgulhava-se apontando outro retrato, um homemzarrão em corpo inteiro, +grande cabelleira em caracoes, tricornio debaixo do braço: + +--É meu visavô, D. Francisco, com quem, dizem, me pareço muito. +Batendo-se como um heroe, conquistou para o nosso nome um immorredoiro +prestigio, merecendo pelos seus feitos d'armas, e pela particular +predilecção que sempre nutriu el-rei por minha visavó, as doações com +que se creou o nosso morgado. + +Indicou-lhe outro retrato, em meio corpo: + +--Este é meu pae, D. Fernando, intimo d'el-rei o senhor D. Pedro III, +que o teve em alta estima. A esse prestigio de que sempre gosámos no +paço, deve minha irmã, D. Mafalda, o honroso logar de dama de honor da +rainha senhora D. Carlota Joaquina. + +Era a dama que enchia outra grande téla, em trajo de côrte, vestida a +azul e vermelho, toucado de plumas, opulenta de rotundidades que a +tornavam celebre nos lubricos bailados da rainha, sua rival em fama. + +Por sua vez, indicou o juiz um retrato: + +--Este, que como os meninos postos de castigo está voltado para a +parede, brilha para mim atravez da tela. Conheço-o, é D. Bernardo, o +amigo dedicado do grande marquez de Pombal, que veiu a esta terra +cumprir a ordem de expulsão dos jesuitas. Porque não honra v. ex.{a} as +nobres tradições d'este seu avô? Porque não reconhece que as nossas +ideias teem raizes bem fundadas, e que já foram defendidas por bons +fidalgos, como v. ex.{a} classifica os da sua geração? + +Respondeu gravemente Martinho Vasques: + +--Este infeliz foi transviado, corrompeu-o o mal do tempo, e a sua +alma deve estar no purgatorio, aguardando o juizo final, feliz ainda +assim por levar em seu favôr os serviços que filhos e netos teem +prestado ao throno e ao altar. Os verdadeiros principios da minha +familia são os religiosos; nasceu e creou-se meu visavô no convento; +auxiliou meu pae a restauração religiosa da senhora rainha D. Maria, +que santa gloria haja, e foi minha irmã uma das fundadoras do culto da +Senhora da Rocha. + +Voltára o frade, á frente da creada com a bandeja de dôces, a chicara +do Japão com o café, e a garrafinha dourada com aguardente, a tempo +de auxiliar a defeza dos bons principios: + +--O timbre e lustre da linhagem, excellentissimo senhor, é D. +Francisco, que em serviço d'el-rei e gloria do reino, andou no +cruzeiro d'Angola defendendo para a nação os rebanhos de escravos de +que os malditos estrangeiros queriam lançar mão. Perseguido um dia por +um negreiro hollandez refugiou-se na costa, e com tanta felicidade que +poude dar auxilio a um barco portuguez que carregava _ébano_ para o +Brasil. Não queriam obedecer os malditos pretos, e elle, n'uma +patriotica decisão, desembarcou com uma manga de arcabuzeiros. Não +intimidaram aos ferozes selvagens os elmos, as couraças, nem as +grandes armas apoiadas nas forquilhas. E quando D. Francisco, ao +cravar no sólo a nossa gloriosa bandeira, viu que não se deitavam por +terra, curvando-se ante o lábaro sagrado que levára á Africa a +religião de Christo, mandou-lhes dar uma surriada de arcabuzes, +emquanto o navio os varejava de metralha. E de toda essa multidão +bravia que nutrira a louca ideia de, com settas de cana, emplumadas de +pennas de gallinha, defender mulheres e filhos, não ficou um para +amostra. Dos nossos apenas foi ferido esse bravo dos bravos, com uma +azagaiada na nadega, que toda a vida o fez sentar de banda. + +Muito ancho, accrescentou o morgado: + +--É o feito que commemora aquella cabeça de negro, em fundo de prata, +do meu brazão; e a esse alto tropheu de familia corresponde aquelle +outro emblema, as mãos de ouro em vermelho, como fartando-se d'esse +sangue derramado em prol da nação. + +Muito risonho commentou o juiz, que tomára o café e provára um calice +da justamente celebrada aguardente: + +--Pois conheço-o tão bem, D. Martinho, que me admiro não vêr-lhe sobre +as armas o distinctivo dos bastardos reaes. + +--V. ex.{a} confunde-me! + +--É um direito que só lhe contestam os primos do Alemtejo, dizendo que +n'esse tempo entrava em Odivellas o sequito do rei, até ao ultimo +lacaio, que todas as freiras reclamavam os mesmos prazeres que a madre +Paula, que as santas monjas não recusavam a esmola das graças +corporaes, e que vibrava o mosteiro em alegres risos de muitas +creanças. + +--Sei que meus primos falam por inveja--retorquiu o morgado--mas não +deixam de reconhecer a superioridade do meu ramo, tanto que requestam +para seu filho a mão de minha filha. + +Aproveitou o juiz o ensejo: + +--Desculpe v. ex.{a} o meu involuntario esquecimento. Como está sua +excellentissima filha? + +--Bem, muito obrigado a v. ex.{a} + +--Já que me deu o prazer de conhecer os seus antepassados, desejava +ter a honra de ser apresentado á senhora D. Maria, cujos dotes de +espirito tanto me elogiam. + +Trocaram novo olhar o morgado e o frade, e acudiu fr. Angelico ao amo: + +--Sua excellencia disse «bem», porque felizmente não é coisa de +gravidade, mas a pobre menina não se póde levantar da cama, constipada +por esta frialdade... + +Estranhou o juiz n'uma inflexão grave: + +--Parece que o contrariou o meu desejo. + +--De modo algum. + +--Não m'o recuse pois. O seu ligeiro incommodo não a impedirá de certo +de vir á sala. + +Interveiu de novo o frade: + +--Trata-se de um caso de certa gravidade, que só para não assustar o +senhor morgado, fingimos considerar sem importancia. + +--Acho conveniente--retorquiu o juiz--que se não meta onde não é +chamado. Dirigia-me ao senhor Soeiro, e creio que elle, que tanto se +orgulha da sua nobreza, não ignora que os fidalgos dizem timbrar em +não mentir. + +--E não mentem, senhor!--protestou o morgado. + +--Mantenha então a primeira resposta, de que sua filha se encontrava +de perfeita saude. + +Encolhera-se o frade, e Martinho Vasques dirigiu-se ao juiz, mudando +de tom: + +--Antes de mais nada: Que significa semelhante insistencia? + +--Sabe-o tão bem como eu. + +--Sinto apenas uma certa estranheza... + +--Tratando de sua filha, calcula decerto ao que venho. Vá, um bom +movimento! Ponha de parte os seus escrupulos e torne felizes aquelles +que uma honesta inclinação destinaram um ao outro. + +Passou no olhar do morgado um lampejo de rancor; mordeu furioso os +labios, mas conteve-se ante o receio de ser dado por cumplice dos +revoltosos, e de vêr confiscados os bens. + +Ainda assim entendeu dar por finda a visita: + +--Se v. ex.{a} não tem outro assumpto a tratar... + +Redarguiu energicamente o magistrado: + +--Vejo que comprehendeu o sentido das minhas palavras. Tenho pois todo +o direito a uma resposta. + +Fazendo esforços para se não exceder, respondeu o morgado: + +--Minha filha casará com o primo D. Luiz de Sousa, a quem está +prometida ha muito. + +--É essa a sua ultima palavra? + +--Naturalmente. + +--Desejava conhecer a resposta da senhora D. Maria. + +--Lá vem outra vez com minha filha! + +Accorreu de novo fr. Angelico: + +--As filhas só podem ter a vontade dos paes. + +Tornou a pedir o juiz: + +--Satisfaça v. ex.{a} o meu pedido, e retirar-me-hei com a resposta da +senhora D. Maria, seja qual fôr. + +--Senhor, a sua insistencia! + +--Não se exalte. Quero estabelecer a harmonia e não desejo usar de +outros processos. + +--Ameaça-me? + +--Não. Lembro-lhe apenas quem sou, e o respeito que me é devido. + +--Pois lembre-se tambem em casa de quem está, diante d'estas nobres +figuras, e reconheça que, em vez da atitude pacifica em que se +disfarça, levou a sua audacia, apoiada na escolta, a ponto de me +tratar como um igual quando eu sou um fidalgo, e o senhor, apezar do +seu cargo não passa de um plebeu. + +--Assim é. Na minha familia não ha femeas que tivessem servido de cano +de esgôto para a transfusão do sangue real. Não me orgulho do que +envergonha gente de bem. Quanto a esses mostrengos de narizes +coloridos pela aguardente, só podem interessar a Lavater, que teria +muito que estudar n'aquellas physionomias. Quanto a mim nada me +importam, e de grande paciencia dei provas ouvindo-lhe as historietas +do brazão. + +E como o frade se interpozesse, querendo abrandar o morgado, que +bufava, apopletico: + +--Entremos no assumpto que aqui me traz. Recebeu a justiça uma queixa +de que jaz ha muito tempo em carcere privado e recebe maus tratos, a +senhora D. Maria. A insistencia com que recusou apresentar-m'a +confirma a queixa. Ora nem v. ex.{a} nem pessoa alguma póde encarcerar +por seu arbitrio quem quer que seja. + +Martinho Vasques desabafou: + +--Sente-se bem, no irritante do seu falar, que por terem vencido uma +escaramuça, e haver o temporal desviado a esquadra, tem o rei na +barriga, e se lançam em desenfreadas vinganças. Agora trazem a +anarchia ao seio da familia! Já nem respeitam a santidade do lar! + +--O despotismo familiar não o respeitamos, nem o consentimos. É da +lei, que temos obrigação de cumprir. + +--Essas malditas leis constitucionaes... + +--Já as ordenações do reino o prohibiam, mas eram letra morta as +medidas que defendiam os fracos, pois gosavam da impunidade os +poderosos como v. ex.{a}. Hoje a lei é egual para todos, quer premeie +quer castigue. Eu proprio, por esta mesma diligencia posso ser julgado +se me exceder. São regalias que custaram muito sangue, e hão de custar +ainda mais. Mas o poder despotico de maltratar, de torturar, acabou +para sempre! + +--Se quer que o respeite--bradou o morgado--não alluda mais ás +intrigas tecidas por um atrevido que fui forçado a expulsar d'esta +casa. + +--Saiba, senhor, que a justiça não se rebaixa a intrigas. Ha uma +queixa em fórma, com testemunhas, contra o seu procedimento. + +--Uma queixa d'esses reles soldados... + +--Foi apresentada por uma fidalga, sua parenta, a sr.{a} D. Victoria, +digna portanto de todo o credito. + +--Ah! Espertezas da menina Josepha da Esperança! Essa namoradeira é +outra que tal! Se eu lhe tivesse arrancado as orelhas não era ella que +ia enredar-me... + +--Vem dos mesmos illustres avós que v. ex.{a}, essa dama que maltrata. +Mas não me pertence apreciar se o seu procedimento é ou não de +fidalgo. + +Fazia esforços fr. Angelico por conter Martinho. + +O juiz dirigiu-se a elle: + +--Queira vossa reverendissima aconselhar o seu amigo. É conveniente +evitar aparatos incommodos. Não desejo chamar a minha gente para +testemunhar o encarceramento da senhora D. Maria, o que redundaria +n'um processo crime, com pena de cadeia. Basta-me que lhe possa falar +livremente, e esquecerei tudo o que desagradavel se tem passado. + +Arrastando-o para um canto, tentava o frade convencer o morgado, +falando-lhe em voz baixa, acaloradamente mas, não conseguindo +decidil-o a apresentar Maria, ainda pretendeu abrandar o juiz: + +--Se é necessario o testemunho do ministro do Senhor, aqui estou eu +prompto a jurar, pelo santo nome de Deus, que s. ex.{a} é incapaz de +opprimir sua filha, sendo, pelo contrario, o modelo dos Paes. + +Já enfadado, retorquiu-lhe o corregedor: + +--Vá vossa reverendissima buscar a senhora D. Maria, ou obrigam-me a +praticar uma violencia, em que tambem será envolvido. + +Desculpou-se o frade para com o fidalgo, indicando-lhe o magistrado +n'um gesto: + +--Deus é contra o escandalo. + +Dirigiu-se á porta, para ir chamal-a. + +--Seja assim--disse Martinho Vasques--vá buscal-a, e este senhor +reconhecerá a sem razão das accusações dirigidas contra mim. + +Depois de a vir intimidando pelo corredor, apresentou Maria fr. +Angelico: + +--Aqui a tem, senhor. + +Occupada com a pacificação da ilha, a captura dos guerrilheiros, a +investigação das cumplicidades, não pudera a justiça intervir mais +cedo. + +Estava Maria ao corrente dos seus esforços. Apezar da continua +vigilancia, recebia cartas que o moço de cavallariça lhe metia da +cocheira por uma greta do sobrado, onde introduzia as respostas, +depois de bater devagarinho para baixo. + +Durante mezes interminaveis ambicionára esse momento, mas agora +sentia-se fraquejar ao ter de queixar-se do pae, ao quebrar, ante o +novo amor, a linha de obediencia, o respeito de filha, o periodo de +submissão. + +Compadeceu-se do velho, cujo rosto transtornado vira de soslaio, e +sentia-se sem forças para realisar o que planeára no seu desespero. + +Mas horrorisava-a o que a mãe soffrera, captiva d'esse homem que, por +se dizer seu progenitor, por um direito que era alheio ao seu +consentimento, a maltratára de palavras, a magoára brutalmente, e a +fechára á chave no quarto, prohibindo-lhe os passeios, os +entretenimentos, a correspondencia, o convivio. + +No absoluto isolamento dos primeiros dias horrorisara-se ante a +annulação da individualidade, a suppressão da consciencia, que era a +educação preconisada pelo pae. Ao visitar d'antes a prima Josepha +envergonhava-se de não saber tocar cravo, de não conhecer os livros +em que ella lhe falava, e que só a furto podia devorar, porque, no +entender do morgado, a leitura pervertia a mulher. Não sabia bordar +como ella, nem fazer os pequeninos enfeites que por toda a casa lhe +denotavam a educação e o gosto. + +Depois, quando o frade lhe foi aconselhar uma submissão ainda mais +completa, não só nos actos externos, mas nos seus sentimentos mais +intimos, revoltou-se energicamente. E saíu corrido fr. Angelico, +queixando se de que o demonio, por intermedio do jacobino, se apossára +inteiramente d'ella. + +Por fim a mãe, exasperada pelo abandono, vendo o frade senhor da casa, +pastoreando o rebanho das creadas, passou a odial-o, como odiava o +esposo, comprehendendo o baixo interesse que o ligára a ella, emquanto +do sacco das despezas lhe podia ir dando suas peças, e tornára-se +cumplice da filha, protegendo-lhe a correspondencia, avisando-a do que +elles projectavam, animando-a a insurgir-se, a libertar-se d'elles. + +E n'esses dias enfadonhos, n'essas infindaveis noites de inverno, +contava lhe insulto a insulto, offensa a offensa, grosseria a +grosseria, o seu martyrio de trinta annos. + +Prohibira-lhe o marido as idas á egreja, sua unica distração, mandando +dizer missa na capella da quinta, para lhe tirar esse pretexto de +saír; impedira-a de fazer visitas; negára-a ás pessoas que a +procuravam; afastára-lhe os derradeiros parentes, que ainda arrostavam +com o seu mau modo para não a desampararem; offendera-a, humilhára-a +em intimidades suspeitas com serviçaes, com rendeiras, e fizera d'ella +aquelle trapo, envelhecera-a aos cincoenta annos, moera-a, tornára-a +negra por dentro, matára-a lentamente: que sem punhal ou veneno tambem +se mata! + +Seguia o pae já com ella o systema; nunca vira com bons olhos Josepha, +e por fim expulsára-a; queria entregal-a a um homem a quem +recommendaria os seus processos, e tornal-a-ia uma escrava por sua +vez. + +Oh! Antes morrer! + +Esperava dia a dia a promettida intervenção da autoridade, e tinha-a +antecipadamente como o momento em que passaria a pertencer a João. + +Como elle era differente! Como seria ditosa ao seu lado, no +enthusiasmo d'esse amor juvenil, na meiguice do olhar, na delicadeza +do seu trato, na suavidade das suas falas. Com que direito pois lhe +prohibiam a sua parte de felicidade n'este mundo, se tivera a suprema +ventura de a poder realisar? + +Espreitava por dentro dos ralos a chegada da justiça, adivinhando-a em +todos os vultos que divisava ao longe, nos carroções que denunciava o +estrepito distante, e só n'essa manhã tivera a fortuna de a vêr +chegar. + +Tremendo, abraçada á mãe, a quem n'esses dias de dôr quizera mais que +em toda uma vida de afastamento, de seccura, aguardou que a fossem +buscar. + +Parecia-lhe de mau agouro a demora. + +Quando o frade a chamou, seguiu-a D. Perpetua n'um repente tão +aggressivo que fr. Angelico receiou um desacato. + +Que triste que era o seu noivado! pensava Maria, ao encaminhar-se para +a sala, crente de que a esse rompimento seguiria o consorcio. + +Revoltou-se o juiz ao vêr-lhe os olhos pisados de chorar, as faces +pallidas, cavadas, a agitação em que tremia. + +Pediu-lhe que se sentasse, e perguntou-lhe se era verdade ter sido +maltratada, e encontrar-se prohibida de toda a communicação. + +Acobardou-se ella ante o tom grave da pergunta, e levando o lenço aos +olhos, rompeu a chorar, sem responder. + +--Não preciso melhor confirmação--disse o juiz erguendo-se, e +dirigindo-se a Martinho Vasques--É o caso da lei, abuso do poder +paternal. Sou pois forçado a cumprir o que se me requer, o deposito +judicial em casa do mais proximo parente. + +--Protesto contra semelhante violencia, e juro que lavarei esta +afronta com sangue!--bradou o morgado. + +E increpou violentamente a filha: + +--Basta de comedia, menina. Diga claramente se lhe fiz algum mal. + +--Nenhum, senhor!--respondeu ella, abandonada de toda a energia, +aniquilada pela commoção que, sobre a longa espectativa, lhe esgotava +a resistencia. + +Mas D. Perpetua, que ficára entre portas a vigiar, desconfiada, entrou +bradando como louca: + +--Senhor juiz, minha filha tem mêdo da fera! Este perverso bateu-lhe, +como me bate em mim, e a pobre ainda tem os braços cheios de nodoas +negras. É verdade que a tem fechada como a um cão, e manda ameaçal-a +todos os dias por esse frade, que já se atreveu a levantar a mão para +ella. + +Por unica resposta, disse o juiz: + +--Tenha a bondade, minha senhora, de mandar a sua filha o necessario +para que me acompanhe immediatamente. + +Saíu promptamente a velha, dirigindo a fr. Angelico um olhar de +triumpho. + +Olhar injectado de sangue, labios tremulos, ergueu-se o morgado em +passo mal seguro, e dirigiu-se a Maria, que instinctivamente se +refugiou por traz do magistrado. + +Este interpoz-se, na energia da sua figurinha secca, nervosa, fronte +avincada, bôcca accentuada com firmeza, olhar vivo de argumentador, o +ar decidido de homem novo, habituado aos grandes lances: + +--Que faz, senhor? + +--Quero despedir-me de minha filha!--tartamudeou Martinho--Não me +assiste esse direito? + +Replicou o corregedor com repugnancia: + +--Esta senhora não o evitaria, se fosse um movimento sincero. Está +n'essa repulsão o seu maior castigo. + +Atirou-se o fidalgo, esmagado, para uma cadeira, os olhos queimados de +lagrimas de desespero, fechando os punhos em crispações nervosas: + +--Ah! Que se eu a abraçasse, ia esta noite ceiar com Christo! + +Entrou D. Perpetua, já de manto, o rebuço deitado para traz, ajudou-a +a vestir a saia de merino, atou-lhe o capuz á cintura e deitou-lh'o +pela cabeça, emquanto ella se despedia, abraçando-a e beijando-a: + +--Perdôe-me o passo que vou dar, e peça a Deus que me faça feliz. + +--Não o serás!--exclamou o pae--porque eu te amaldiçôo! Permitta o +Senhor, filha desnaturada, que caias tão baixo que ainda venhas aqui +de rastos, coberta de bichos, pedir uma côdea á porta d'esta casa que +deshonraste. Deus te amaldiçôe, como eu te amaldiçôo! + +--Vamos, minha senhora, tenha coragem!--disse o juiz, dando o braço a +Maria, e encaminhando-se para a porta, sem se despedir, indignado por +semelhantes palavras. + +--Eu vou comtigo, não fico nem mais um dia n'esta casa--murmurou-lhe +ao ouvido D. Perpetua. + +E cobrindo-se poz-se ao lado da filha. + +De um salto, o fidalgo tomou a porta, e deteve-a, emquanto o juiz e +Maria se afastavam. + +--Onde vaes? + +--Sigo minha filha. + +--Isso é que não. A ti governo eu! Has de obedecer-me cegamente, has +de ficar onde eu quizer, entendes bem, onde eu quizer! + +Fechou a porta violentamente, e empurrou-a para dentro. + +De joelhos, mãos postas, ella supplicava: + +--Por amôr de Deus! Deixa-me acompanhal-a! + +--Não! Has de pagar por ella. + + * * * * * + +Já na sége, para onde se deixára arrastar atordoada, reparou Maria na +falta da mãe, e pelos gritos comprehendeu o que se passava. + +Pediu ao juiz que a fosse buscar, mas elle desculpou-se com a lei, que +não o autorizava a tanto. + +N'uma grande amargura, Maria exclamou sentidamente: + +--Então, senhor juiz, para que serve a liberdade, se ainda se pode +opprimir uma mulher! + + + + +X + + +Agora viam-se, falavam-se, estavam ali juntos um do outro, no vão da +janela, um degrau acima do sobrado, como n'um nicho, sentados nos +poiaes de pedra, os joelhos tocando-se, as mãos dadas, tão perto os +labios, que só os impedia de passarem a tarde n'um longo beijo o olhar +vigilante da tia Victorina, a mãe de Josepha da Esperança, enterrada +na poltrona, roca á cinta, fiando massarocas para a Francisca da Bica, +grande tecedeira, que as lançava no tear em guardanapos, lençoes e +colchas, a trinta reis a vara. + +Para impedir o escandalo de se falarem da janela abaixo, +permittia-lhes, aos domingos, a dona da casa, esse curto +desabafo em que pesava com a sua presidencia, impassivel, entre a +commoda negra, de pés recurvos, e a porta de vidraça da escura alcova +onde dormiam as raparigas. + +Nos outros dias, ao passar para o castello e para casa, via-a João ao +postigo do grande ralo, de riscas em diagonal pintadas a verde, com +remates de pinhas nos rectangulos divididos pelos columnellos, manchas +rubras de cravos nos recantos, no alto gaiolas de cana onde saltitavam +canarios. + +Dominava-os a tristeza da casa, em que pairava a viuvez de D. +Victoria, entristecendo a propria filha a quem faltava a distração das +tardes na quinta, para onde, mal acabava de jantar, partia sentada na +burrinha, que o moço tangia, escudeirando-a. + +Maria, olheirenta, emmagrecida, definhada pela vida tão differente que +ali levava, fechada n'uma casa pequena, acostumada como estava a +passar ao ar livre o dia inteiro, queixou-se, dominada por uma +inconsolavel melancholia: + +--João, desde que saí de casa só tenho chorado. Foi praga que me +rogaram. Ha de ser a maldição do pae! + +Em vão pretendia elle reagir contra o desanimo que tambem o +ganhára: + +--Não penses n'isso. Temos que passar por este tributo. A nossa +felicidade fará esquecer estas horas amargas, e até teu pae se cançará +da sua teima, e ha de abençoar-te e querer-te ditosa. + +--Oh! O pae! Não o conheces bem. Mas ainda elle me queira sempre mal, +paciencia. O que mais me custa é a mãe. + +--Está costumada, não soffre tanto como tu. + +--Deu-lhe volta ao juizo a minha saída, ficou a emprehender n'aquillo, +e como lhe fechassem as portas atirou-se da janella abaixo para me vir +vêr. + +--Coitada. + +--Tem estado á morte, e eu receio que morra sem a tornar a vêr. + +Sobresaltou-se João: + +--Acautela-te! Póde ser um estratagema para te obrigarem a voltar a +casa. + +--Não. Infelizmente é verdade. + +--E como o soubeste? + +--Está por ahi tudo cheio. + +--Sim. Eu tambem o ouvi, mas tive-o por maroteira de fr. Angelico. + +Encarou-o Maria aterrada: + +--Foi a tua funesta hostilidade á religião que te inspirou +esse falso testemunho, pois o frade nunca mais voltou á quinta desde +que eu vim para aqui. + +Elle ficou mais receioso ainda: + +--Pois tu defendes esse homem, que tanto mal nos fez, que denunciou a +minha visita, para que me espancassem, e se atreveu a pôr-te as mãos? + +--Não o defendo, não; mas temo por mim e por ti essa tua inclinação +contra tudo o que respeita á egreja. Ainda te póde dar de rosto. + +--Agora, Maria, é que tenho razão para estar triste porque já me não +pareces a mesma! + +--Não sei porquê--retorquiu offendida. + +Atalhou João, para não a desgostar mais: + +--Mas o que ha de tua mãe? + +--Assim que soube que o Malaquias, o mulato, moço do sineiro da Sé, +fôra encanelar-lhe a perna, mandei-o chamar, e só depois de lhe acenar +com uma pataca é que aquelle recancha se decidiu a vir coxeando até +cá, pois tinha ordem de não dizer nada. + +--Era então verdade? + +--Sim. Esteve mais de um mez sem se virar, abandonada de todos, e até +foi despedida uma creada porque a tratava caridosamente. + +--Pobre senhora! + +--Essa veiu cá, e contou-me horrores. Vive no meu quarto, fechada como +eu, arrastando-se pegada a um pausinho. E dão-lhe convulsões que fica +de bôca á banda, tomada de um lado. Para ali vive como um môcho, a +penar, a penar, que antes o Senhor se lembrasse d'ella, Deus me +perdõe! + +Elle tomou uma decisão: + +--Pois meu amôr, em vez de a lamentarmos, o que não lhe serve de nada, +tratemos de a arrancar d'essa maldita casa. Requer-se uma acção de +separação, prova-se com o testemunho da creada e do mulato o carcere +privado, vae lá a justiça, e... + +--Exactamente como a mim. Mas de que me serviu, se sou tão infeliz +como d'antes ... talvez ainda mais? De que servem essas leis, de que +vocês fazem tantos escarceus, se me tiraram de uma prisão para me +meterem n'outra, não nos deixando casar, como desejamos, senão quando +eu tiver vinte e cinco annos; se permittem que uma pobre mulher esteja +encerrada, pela vontade do marido, embora um juiz ouvisse que ella não +queria viver em casa? Não, a felicidade não depende da alçada das +leis, nem da vontade dos homens; a felicidade está na mão de Deus, e +os que, como nós, o teem offendido, não a podem esperar nem +n'este mundo, nem no outro! + +Encarou-a João, como a lêr-lhe no olhar, e depois respondeu commovido: + +--Dizes bem, dizes, não depende das leis a felicidade, nem de nós +proprios, mas dos que nos educaram, dos que nos formaram o espirito, e +que governam sempre dentro em nós. O que os principios porque nos +batemos hão-de impedir d'aqui em diante, é a sementeira do mal, o +obscurecimento dos cerebros, a aniquilação das consciencias. + +E sobresaltado por uma desconfiança, que como um relampago o +esclareceu: + +--Por mais que negues, anda frade n'isto! Não é assim? + +Accentuou-lhe a suspeita a confusão d'ella: + +--Dize-me tudo. Não pódes ter segredos para mim! Sou como teu marido, +desde que por minha causa abandonaste teu pae. Falaste com algum +religioso? + +Negou ella, frouxamente: + +--Não, não falei. + +--Perdôa, mas não te acredito. Veiu aqui alguma d'essas aves de mau +agouro! + +--Como me custa ouvir-te falar assim! + +--Mas veiu ou não veiu algum santo ministro do Senhor? + +--O padre mestre, confessor de minha tia, sim. Vem cá muitas vezes +esse santo homem: que eu distingo bem fr. Angelico d'elle, mas nem me +falou, nem eu ouvi o que diziam. + +--Então é intriga tecida por elle! Tem cá entrada. Mas que admiração, +se em cada rua ha um convento, se a cidade é d'elles mais que dos +moradores! + +E aproximando-se muito, tomando-lhe as mãos, n'uma voz grave, mas +baixa como um murmurio, para que não o ouvisse D. Victoria: + +--Ah, minha querida Maria, que te querem roubar-me! Por amor de Deus +desvia-te d'elles, não lhes dês ouvidos, considera antecipadamente +como envenenadas as suas palavras! Querem separar-te de mim, pretendem +desforrar-se do meu triumpho. E se ainda me queres bem, como o +provaste, recusa-te a ouvil-os, quer falem em nome de tua mãe, que +desgraçaram, porque foram elles que a inutilisaram, pergunta-lh'o um +dia, se puderes; quer te falem em nome de Deus, que trazem sempre nos +labios, tendo o demonio no coração! + +Maria respondeu com lagrimas na voz: + +--Pois pódes duvidar de mim, ao passo que dei! Eu, uma +morgada, esquecer-me do respeito que devo ao meu nome, por amor de ti! +Eu, uma fidalga, expôr-me a commentarios vergonhosos... + +E não poude mais. Afogada n'um choro convulso, que disfarçava tapando +a bocca com o lenço, virando para as gelosias os olhos requeimados. + +Então confessou-lhe tudo. + +A convite do padre mestre, resolvera ir D. Victoria a uma festa em S. +Francisco. Quizera leval-a comsigo, e aos favores que lhe devia não se +pudera recusar. Como ia de manto, ninguem a conheceria. Não tencionava +confessar-lh'o, para o não desgostar. + +Houve missa cantada, distrahiu-se com a cantoria e com as ceremonias, +que não via ha tantos annos, mas ao sermão cuidou morrer de vergonha. + +Bradára um frade contra os desacatos, falára de Christo crivado de +tiros, calices profanados em orgias, altares escolhidos para sentinas; +indicára horriveis castigos para os constitucionaes e para as mulheres +que os seguissem, alvejando intencionalmente as desgraçadas que +abandonavam os paes para seguirem soldados, arrastadas por baixos +apetites, tratando-as a todas por furias e prostitutas, +indignas de se aproximarem da mêsa da communhão. + +Chorára a dentro do biôco, parecendo-lhe que, como bofetadas, a +escaldavam esses insultos, e que todos se voltavam para ella, como se +o seu peccado fosse visivel através do manto, e a fulminassem os +crentes em piedosa indignação. + +--Trahiram-te, meu pobre amor! Ah! que cobardes! Pois não comprehendes +que tudo isso foi forjado para te intimidar! Tua prima decerto não +chorou, tenho a certeza. + +--Até se levantou para se ir embora em meio do sermão, e já se zangou +com o padre mestre pela linda festa para que nos convidára. Elle +desculpou-se, coitado, que todos os sermões eram assim, que se tornava +necessario combater o erro, responder com a guerra aos inimigos da fé! + +--Hypocrita! Mas Christo prégou uma religião de paz e de amôr, e elles +querem o odio e a vingança! Christo foi o primeiro liberal, apontando +a egualdade e a fraternidade. Christo prégou a pobreza e a humildade, +e elles são ricos e poderosos. Acredita-me, os verdadeiros christãos +somos nós! + +Pelo bem que lhe queria, dava-lhe João a ingenua interpretação +do tempo, porque só gradualmente a poderia emancipar. + +Ella sentia-se desafogada com as explicações, porque tambem a chocára +a grossaria, o baixo espirito interesseiro dos industriaes da fé. + +--Mas se vocês são assim, e eu acredito que, pelo menos tu, és como +dizes, para que horrorisam os crentes com esses aggravos? + +--Que lucravamos com isso, tontinha! São elles que os inventam e +praticam, e mostram depois as cruzes derrubadas, para incitarem contra +nós esse pobre povo que queremos emancipar. + +Por fim Maria resignou-se. Tinha de ser d'elle. Estava escripto que +para o conseguir haveria de passar todos aquelles tragos. Pois que +remedio. E João confiava mais n'aquelle fatalismo, na teimosia d'ella +em levar a sua ávante, que em a ter convencido das artimanhas +fradescas. + +Parecia-lhe que mal tinham começado a falar, e já os interrompia a +tosse pontual de D. Victoria. + +--Josepha, fecha-me aquella janela, filha. Em caíndo a tarde, começa a +peitogueira ás voltas commigo. + +Era da praxe n'esta altura interessar-se João pela saude d'ella, não o +fazendo ao principio para não cercear o tempo da entrevista, +e poder demorar-se depois, um pouco mais, junto de Maria. + +Deixara-se sempre illudir a velha. + +--Aquelle peito era uma panela a ferver, a referver, á tardinha +principalmente. Bastante gastára em promessas a S. Braz e Santa +Margarida, advogados contra o mal da garganta, e a S. Tude, protector +contra a tosse, mas cada vez se sentia peior. + +Trazia João engatilhado um repertorio de drogas e esvasiava as +algibeiras de uma provisão de papeis e embrulhinhos. + +--Aquella era a receita de um xarope, invenção da tia Pulcheria, que +lhe tirára uma tosse convulsa, depois de já ter sido chamado o Craca +para lhe tomar medida do caixão; estas pastilhas fizera-as o senhor +Juvencio de encommenda, com tudo quanto havia de melhor e mais +approvado. + +E emquanto se prolongava o colloquio, deliciando-se D. Victoria em +queixar se de todos os seus males, Maria e Josepha, como na quinta, +riam enlaçadas ao fim do corredor, desafiando João. + +Pingavam trindades, erguia-se a velha com esforço e benzia-se +unctuosamente, murmurando as ave-marias e a gloria-patri; e João, +emancipado em casa, transigia ali, imitando-lhe os gestos e mexendo +os labios em furtadelas de olhos para o corredor, no que +Maria julgava, enternecida, vêr uma satisfação aos seus escrupulos, +embora a maldosa Josepha a desiludisse, elogiando as inexgotaveis +manhas do namorado. + +Forçava-o o lusco-fusco a despedir-se, e então seguia pelo corredor, +já escuro, emquanto Josepha avançava á sala a fazer-lhes costas, +entretendo a mãe, e a sua verdadeira entrevista era quando elle a +beijava apaixonadamente, ao propositado ruido de abrir a porta da rua. + +Dissipavam-se os receios de Maria, defendendo-se inhabilmente dos +beijos: + +--Mas como tu estás atrevido. É da farda! Olha que te fica a matar! E +porque é que nunca me beijaste quando estavamos juntos? + +--Não sabia se gostavas de mim. + +--E agora sabes? + +--Percebe-se. + +--E porque não percebias então? + +--Nem tu mesmo o sabias. + +--Isso sabia. Mas que fosse tanto, não; confesso! + +Echoavam estrondos de catarrho. Descia elle, corrido, e ella +voltava de olhos baixos, para ir ao ralo vêl-o sahir. + +Então D. Victoria chamava pela filha, que era o mesmo que chamar por +ella: + +--Venha para dentro, menina, não seja janeleira, que não foi essa a +sua creação. É uma maia, sempre impeirada á janela. Muito perdeu a +menina em seu pae, Deus lhe fale n'alma, que a havia de sopear. + +Meteram-se para dentro, fechou-se a casa, e no escuro da alcova o +terror reconquistou Maria. + +Queria desfazer-lhe Josepha a impressão das reprimendas da mãe: + +--Não faças caso, é genio. Sempre assim foi, mas não julgues que te +quer mal. Olha que foi ella quem, a meu pedido, requereu o teu +deposito e fez a queixa. + +--Antes o não fizesse. + +--Porque? Não estás contente em minha casa? Ligas importancia a +rabugices? + +--Não é a tua casa, filha, é a minha situação que me afflige. Se +soubesse que havia de estar tanto tempo á espera de edade, não saía de +casa, não desgostava a mãe, não offendia o pae. + +--É o que dizes agora. Mas não podias aturar aquella vida. + +--Nem posso supportar esta! Se tivesse casado, tapava a bôca a essa má +gente. Mas assim, fóra de casa, vendo João, recebendo-o, é ser +esbandalhada por essas linguas perversas. E hei-de passar cinco annos +assim? Oh! não posso, não posso! + +--Ó filha, mas se tu não casas com elle é porque não queres. Vão +juntos á missa, e quando o padre estiver quasi quasi a deitar a benção +digam, de mãos dadas, as palavras sacramentaes, que se recebem por +marido e mulher, e o padre, que não pode parar a reza por nada d'este +mundo, tem por força de deitar a benção, deita-a, está deitada, vocês +casados, com toda a egreja por testemunha, e salta logo para casa +d'elle. E se teu pae quizer melhor que se ponha ás bôas e faça boda de +estadão. E até o João pode combinar-se com o padre, que os ha muito +constitucionaes, e é dito e feito. + +--Uma mulher como eu não dá semelhante passo--protestou Maria--Por ter +saído de casa não deixo de ser quem sou, e nunca praticarei um acto de +que se possa fazer pouco. + +--Então queixa-te de ti. + +--Hei de casar com elle, espere quanto tempo esperar, que +não sou das que se esquecem, nem das que se cançam. Mas ou hade ser +como deve ser, ou nunca; ainda que estale de saudade. Se eu sou assim! + +--Mas não vejo que te resignes, te disponhas a esperar com paciencia. +Afinal que queres tu? + +--O que quero? Nem eu sei, Josepha, nem eu sei! + + * * * * * + +Assim passaram longos dias, até que a assustaram boatos de nova +esquadra. + +Falavam com orgulho os miguelistas do seu grande poder: vinte e um +navios, com trezentas e quarenta peças e seis mil homens, entre +soldados e marinheiros; uma alçada para julgar summariamente os +constitucionaes, e um carrasco para os despachar com promptidão. + +Bem sabiam os liberaes o que succederia se fosse tomada a ilha. + +Figuravam-se-lhes os autos de fé do miguelismo: procissões de +condemnados, descalços, entre frades, levando horas da cadeia á forca, +a entoar o _miserere_ deante das capellas do percurso; depois +enforcados no longo ceremonial que com cada um absorvia uma hora, +aggravando a tortura moral dos que esperavam, e divertindo mais damas +e frades que davam vivas a D. Miguel e á religião, acenando com +lenços, applaudindo as execuções. + +Estremeciam de horror ao recordar a viuva de um enforcado morrendo de +afflição; o pae de um rapaz, assassinado pela lei, suicidando-se de +desespero; uma pobre mãe affrontada pela exposição da cabeça do filho, +espetada n'um poste deante da vidraça! + +Era uma perseguição em massa que degradára mil e seiscentas pessoas, +forçára a esconderem-se cinco mil, arrastára á emigração treze mil e +setecentas, mantinha vinte mil sob a vigilancia de suspeitos, tinha a +dentro dos carceres mais de vinte e seis mil pessoas de ambos os +sexos, e sequestrára os bens de oitenta e duas mil familias! + +Longe de os acobardar, incitavam-os esses terriveis exemplos a +combaterem com desespero. + +O conego Ferraz, sabendo bem o que o esperava se triumphassem os +miguelistas, trazia comsigo um frasquinho de veneno, para não caír +vivo em poder do carrasco. + +João procurava tranquilisar Maria, ácêrca dos resultados da lucta. +Assim como se tornára a ilha, agora elevada á cathegoria de reino, o +alvo do odio absolutista, tambem fôra o ponto de concentração dos +liberaes, e assim já tinham para se oppôr ás forças inimigas alguns +reforços de emigrados, armas e munições vindas de Inglaterra, e um +general como Villa-Flôr para dirigir a defeza. + +Todo o littoral estava defendido, nos poucos pontos onde a costa +permittia a abordagem. + +Uma manhã foi João precipitadamente despedir-se, porque ia para a +villa da Praia com os Voluntarios da Rainha. + + * * * * * + +Enthusiasmado com a vinda da esquadra, contando como certa a victoria, +tão grandes os recursos accumulados, arrancou-se o morgado do +isolamento da quinta, onde cada vez bebia mais, para esquecer a +offensa de Maria, para não ouvir os gritos da mulher, e montando a +cavallo dirigiu-se ao convento de São Francisco. + +Ha muito que fr. Angelico não ia á quinta. + +Quando lá fôra a justiça, ao sentir o chocalhar de ferragens da +traquitana, voltára-se desesperada D. Perpetua para o frade: + +--Se não me defendes, Angelico, eu confesso-me a meu marido e então +acabou-se tudo! + +Não permittiam illusões o rosto congestionado, a bôca espumante, o +olhar desvairado, de louca. Fôra logo despedir-se de Martinho Vasques +o franciscano, pretextando o receio da denuncia do juiz e das queixas +de Maria. + +Era bom que n'esse mesmo dia o vissem no templo, votado ao culto, para +desmentir a accusação tanto de temer. + +E sem consentir que o morgado mandasse pôr o carroção, arregaçou o +habito, deitou o capuz pela cabeça, e fugiu debaixo d'agua ás +pernadas, até se abrigar n'um portal. + +Que lhe quereria o morgado? perguntava a si proprio, ao ir recebel-o. + +Dissipou-lhe porém todo o receio a attitude de Martinho, ainda na +grande paixão da desfeita recebida: + +--Deixe-me desabafar, fr. Angelico, que ha tanto tempo não o faço. Já +não ha religião, já não ha respeito filial, já não ha Deus! + +Mãos postas, olhos em alvo, voz de cana rachada, exclamou o frade, +simulando um devoto horror: + +--Não blasfemes, creatura, contra o teu Creador! Curva-te á vontade do +Altissimo, que a tua expiação está terminada! + +E mudando de tom: + +--Alegrar, senhor morgado, que ha grandes novas! + +--Por isso vim, fr. Angelico. É então certo que voltaremos aos bons +tempos? + +--Só podiam duvidar gentes de pouca fé. + +--Pois eu julguei-me abandonado do céo! + +--Espere em Deus, que é pae da misericordia! Sempre ha de haver +frades, sempre ha de haver religião! Vae em dezanove seculos! Havia de +acabar assim, quando já resistiu ao proprio demonio, na pessoa de +Luthero; ao anti-christo encarnado em Bonaparte? Estes pandilhas não +valem nem um nem outro. + +--E agora? + +--Será forçada á obediencia paterna sua infeliz filha... + +--Já não tenho filha! + +Era essa a phrase feita que desde então tivera para todos, mas não +correspondia sinceramente ao seu sentir. + +Queria-a em casa, como desaggravo, como affirmação do poder paternal, +como homenagem á sua categoria. + +--Responde v. ex.{a} como quem é, mas eu procedi como devia, de que lhe +peço perdão, caso não appoie os meus passos. + +--Que quer dizer? + +--Nunca abandonei a sua causa, comquanto os deveres do meu ministerio, +que me impõe a cega obediencia ao poder constituido, me impedissem de +ir receber as suas ordens... + +E aqui, já seguro de que não fôra descoberto, perguntou: + +--Como está a senhora D. Perpetua, depois d'aquella triste fatalidade? +Pobre senhora! + +--Não sei nem quero saber. Nunca mais verei nem uma nem outra. + +Tinha porém, curiosidade de conhecer o que fizera o frade: + +--Ia dizendo... + +--Que não me dei por vencido pelos inimigos de Deus. Pratiquei n'esta +egreja uma das obras de caridade, ensinando os ignorantes, castigando +os que erram, e a filha desobediente ouviu n'um terrivel sermão... + +--Já sei. + +--Mas não foi só isso! Os miseraveis julgam que com garatujas n'um +pedaço de papel governam tudo, e afinal somos nós quem governamos e +havemos de governar sempre. O nosso reino não é d'este mundo, as +nossas armas são espirituaes, e as crenças religiosas ligam-nos para +sempre os cordeirinhos embora desgarrados, promptos a voltarem ao +aprisco mal os ameaça o lobo da heresia. + +--Acabe!--pedia o morgado impaciente. + +--Trouxe sempre vigiada a innocencia por outro grande pastor d'almas, +o nosso padre mestre, que tem feito ver a sua prima D. Victoria o +peccado que commetteu. Ella, que é uma mulher de vergonha... + +--Uma descarada!--protestou Martinho Vasques--Fazer-me o que me fez! +Mas não admira, a fama que ella sempre teve, com a casa cheia de +frades... + +Tocado na corda sensivel, voltou fr. Angelico ao pathetico: + +--Calumnias, meu senhor, calumnias espalhadas pelos filhos de Satanaz. +Não ha nenhum director espiritual d'essas santas senhoras que não +tenha sido conspurcado na sua virtude, na sua innocente castidade. Até +sei pelas suas creadas que a senhora D. Perpetua, n'aquellas +terriveis convulsões em que parece possessa do inimigo, diz contra mim +coisas de se abrir o chão, decerto inspiradas pelo proprio demonio, +como vingança contra o varão forte que por tanto tempo lh'a defendeu +das garras. + +E n'um suspiro, como não obtivesse resposta, voltou a D. Victoria: + +--Ella tem feito todo o possivel para a desgostar, e não se opporá a +que lh'a tirem d'ali. + +Atraiçoou-se o morgado, pondo de parte a rigidez apparente: + +--Dava metade do que possuo para a fazer voltar a casa, sem que, pelo +triumpho dos nossos, a forçassemos, por forma a fazer rebentar a +castanha na bôca aos que se regosijavam com a minha vergonha. + +--Pois dê v. ex.{a} com que eu possa mover o ceu a nosso favor, e +tentarei o milagre. + +Sabendo-lhe as manhas, ia Martinho Vasques prevenido de dinheiro, a +vêr se, a troco de alguma esmola para o convento, lhe deixavam levar o +indispensavel commensal. + +--Pois aqui tem para principio. E quanto mais depressa, melhor. + +--É agora propicia a occasião. Está o seductor seguro na Praia. Mas +pretendem recolher-se ao castello, com as familias, se forem +derrotados á beira-mar, e se lá a metem, então, meu senhor, é que é +fazer-lhe uma cruz. Ficaria perdida a senhora D. Maria, entre +semelhante malta. Da mesma sorte se os nossos desembarcarem +rapidamente, como ha de permtir o ceu, tomando-a por liberal, +violental-a-hão, e á prima, como é do seu dever, para exemplo das +malditas mulheres que preferem as creaturas de Satanaz aos amigos da +religião. Portanto, se podermos recolher desde já a filha prodiga, +teremos mais socego para os ver esganar, pois virá por ahi quem saiba +da póda. + +--Que tenciona fazer? + +--O que Deus me inspirar. + +--Mas quando, quando? + +--Elle o determinará em sua divina sabedoria. + +E como o morgado, apesar de devoto, não ficasse muito satisfeito: + +--Olhe, vá v. ex.{a} a pé por essa cidade, mande a besta esperal-o fóra +dos portões, e a todos que lhe perguntarem por sua esposa dê-a como +perdida, que poucos dias lhe restam de vida, para que a senhora D. +Maria o saiba. Ensinarei o recado ao padre mestre, para dizer a D. +Victoria que é um caso de consciencia encobrir por mais tempo a uma +filha a agonia da mãe. Depois eu darei conta de mim. + + * * * * * + +Uma tarde, tendo ensaiado fr. Angelico um ar compungido, certo da +afflicção de Maria pelas más noticias da mãe, foi a casa de D. +Victoria. + +Mal o viu, atirou-lhe Josepha com a porta, mas o frade insistiu, +percebendo que a mãe a reprehendia, ao saber quem era. + +Em voz de prédica, perguntou da escada se a senhora D. Maria estava em +carcere privado, e se era contra a Carta Constitucional levar a uma +filha noticias de sua mãe. + +Foram abrir-lhe, e Maria, apezar dos exforços de Josepha para a fechar +na alcova, pediu por amor de Deus novas de D. Joanna. + +Elle, n'uma suavidade melada, ergueu os olhos, e declamou: + +--Deus manda perdoar as injurias, esquecer as fraquezas do proximo, e +consolar os afflictos! Fiz ideia como estaria a sua alma, e +arrisquei-me a este passo, que pode ser tão mal apreciado... + +--Diga-me a verdade!--implorou Maria, atterrada pelo exordio. + +--Peço-lhe que não se assuste. A senhora D. Perpetua está gravemente +doente, mas ainda ha esperanças de a salvar. + +Maria recriminou a prima: + +--Ou haverá ou não! Eu bem t'o dizia, Josepha, eu bem t'o dizia. + +Mas ella continuava a disputal-a: + +--Não te deixes enredar! + +--E com isto não enfado mais--disse o frade, cumprimentando muito +correcto, um ar de beatitude a escorrer-lhe pela face alvar--Vim só +trazer esta palavra de consolação, como é dever do meu ministerio. Sua +mãe não está na agonia, como para ahi espalharam, o que me forçou a +vir tranquilisal-a. Eu ainda confio n'um milagre! + +Quiz demoral-o D. Victoria: + +--Então, nem sequer se senta! Faça-me um bocadinho de companhia... + +--Muito obrigado, minha querida senhora, mas a minha presença não +agrada... + +--Peço-lhe perdão pelo que toca a minha filha. Se ella tivesse um pae +que a castigasse... + +Aproveitou o frade o pretexto, e pegaram-se n'uma interminavel +palestra, emquanto Josepha conseguia arrastar a prima para dentro. + +Mas ahi Maria respondeu-lhe frenetica: + +--Que mau sestro tomaram todos de me governar. Foi o pae, a mãe, +depois o João, tua mãe, e agora tu! Pois eu tenho mais juizo que vocês +todos, não preciso de tutôres. + +--Estás sendo muito enganada!--repetiu Josepha. + +--Deixa-me! Deixa-me! + +E refugiou-se na torre, a meditar, sentada n'um bahu, a cabeça apoiada +nas mãos, os olhos vidrados muito abertos, as fontes latejando. + +Depois ergueu-se, enxugou os olhos, e foi direita á sala. + +--Que vaes fazer!--perguntou Josepha, interpondo-se: + +--O que devo! Larga-me. + +E arrependendo-se: + +--Bem sei que me queres bem, mas perdôa. Oh! Ninguem se veja como eu +me vejo! + +No estoicismo da resolução, dirigiu-se a fr. Angelico da Immaculada: + +--Muito obrigada a vossa reverendissima pelas suas noticias. O meu +desejo era ver a mãe... + +--Não esperava menos do seu coração de filha!--exclamou radiante o +frade--É esse effectivamente o seu dever. + +--Ai, Maria, que caiste no laço!--bradou Josepha,--Estás doida? Estás +doida? + +Mas ella, sem a attender, dizia ao frade: + +--Se pudesse ser... + +--Hei de fazer o possivel, alma santa!--respondia fr. Angelico, +revirando os olhos. + +--O pae não ha de querer ...--continuava Maria, emquanto D. Victoria +continha a filha. + +--Oh! Não conhece a grandeza do seu coração! Foi muito offendido, +realmente, mas é pae, é pae! + +--Aconselhe-me então o que devo fazer. + +--Foi Deus que a inspirou. Faça o que disse. Venha vêr sua mãe. Eu +acompanho-a, e respondo pela licença do senhor morgado. + +--E quando? quando? + +--Quanto mais depressa melhor, que a vida e a morte estão nas mãos de +Deus! + +Josepha ainda irrompeu, avançando para o frade: + +--O que falta aqui é um homem para o esbofatear! + +Mas nada poude demover Maria, muito tremula, batendo os dentes, +convulsa, á ideia de ir vêr a mãe. + +Ao saír, com a tia e o frade, ainda Josepha a puchou para dentro: + +--Ó doida! E ao João, que lhe hei de dizer? + +E como ella balbuciasse que ia só vêl-a, e que voltava, tapando a +bôcca, abafando-se no biôco do manto para não a ouvirem soluçar, +gritou-lhe do alto da escada: + +--Mal empregado rapaz! Tu não o mereces! + + + + +XI + + +Pelo caminho, baloiçada na traquitana que tomaram no alto das Covas, +ainda lhe echoavam aos ouvidos as palavras de Josepha: + +«Não o merecia». + +E o que diria elle ao saber que destruira n'um momento o que bastante +lhe custára a conseguir? Era capaz de descrer d'ella. + +Roubar-lh'o-ia a prima, que tanto sympathisava com elle? + +Mas não havia de deixar morrer a mãe á mingua. Deus não lh'o +perdoaria, e para sempre esse peccado ameaçaria a sua felicidade. +João, que era prudente e rasoavel, comprehendel-a-ia. + +E se Josepha a intrigasse? Logo aquella triste coincidencia de estar +na Praia. E ao lembrar-se que elle se encontrava em perigo de vida, +davam-lhe furias de saltar do carro, de fugir para junto da prima. + +Que cobardia a sua! Abandonal-o quando se arriscava, envolvido em tudo +aquillo por causa d'ella! + +Dominava-a, porém, o pavoroso abandono da velha, e via-a como a creada +a pintara, gaguejando, a cama por fazer, atulhada em cisco, envolvida +em trapos! Desgraçada! + +Na sua ingenuidade parecia-lhe assim melhor para todos. Imaginava uma +grande scena de reconciliação, o pae abraçando-a quando se lhe +deitasse aos pés a pedir perdão, e fr. Angelico abençoando-a em nome +de Deus, limpando uma lagrima. + +Agora não lhe parecia mau o frade, n'aquelle ar compungido. + +E crendo possivel pôr tudo em bem, ainda esperava falar a João na +propria quinta, e talvez, quem sabe, ganhar pouco a pouco, pela +submissão, a boa vontade do pae, podendo ser que viesse a casar por +consentimento d'elle. + +Esfarrapava n'um momento a suave visão o echo dos gritos de Josepha, +a lembrança das indignações de João quando soubera do desagravo de S. +Francisco. + +Sendo impossivel contentar a todos, limitar-se-ia ao que a levava ali, +vêr a mãe, tranquilisar-se a respeito do seu estado. + +Chegaram, e, como se já contassem com elles, ninguem appareceu. + +Deixou-as o frade na casa de entrada, e foi em procura do morgado. + +Recordou-se da cilada armada a João, dos maus tratos a que só a +justiça a pudera arrancar, mas, longe de intimidar-se, sentiu que a +emancipára a saída da casa paterna, dando-lhe a consciencia da propria +individualidade. + +Alarmou-a um grito da mãe, um grito de desespero, rouco, abafado pela +porta, vindo do interior. + +Ia accudir-lhe, mas conteve-a D. Victoria, e ella propria reconheceu +então que perdera o direito de entrar como d'antes. + +Appareceu o frade, mostrando-se confuso, transtornado, apparentando +vir offegante como de uma grande discussão. + +Repetiam-se os gritos de D. Perpetua e, como incommodado por elles, +disse á pressa fr. Angelico: + +--Accusou-me de desleal o senhor morgado por a ter introduzido aqui. +Diz que a senhora só póde entrar n'esta casa como filha arrependida e +submissa, e até sem esperança de um perdão, que só a sua conducta +poderá merecer. E Deus me perdoe ter procurado semelhantes trabalhos +por minhas mãos! + +Teve Maria um impeto de voltar para traz, mas os gritos da mãe +pregavam-a ao sobrado. + +Fez-se luz no seu espirito, não duvidou que o frade fôra expressamente +preparar-lhe aquella situação. + +E n'um relance comparou a vida que levava em casa da prima, sem poder +vêr João, senão vigiada. Era-lhe mais doloroso tel-o junto a si, sem +poder desabafar. + +Ali, tratando da mãe, parecer-lhe-ia menos penosa a espera. + +Decidira-se em casa de Josepha, apesar das suas solicitações. Tinha +por melhor esperar ali. + +E respondeu gravemente ao frade que sim, que ficava de vez, desde que +o pae não duvidava acceital-a. + +Despedira-se, applaudindo-a, D. Victoria, desejosa de se vêr livre +d'ella, e Maria, de olhos enxutos, cabeça erguida, caminhou após o +frade em direcção ao seu quarto, aonde agora estava D. Perpetua. + +Então fr. Angelico, retomando o ar de dominio de outros tempos, +reprehendeu-a severamente: + +--Lembre-se que a sua desobediencia trouxe a deshonra e a desgraça a +esta casa, e que a doença de sua mãe é o justo castigo de Deus. + +--Representou bem o seu papel--respondeu-lhe Maria--mas não julgue que +me illudiu, nem creia que se ha-de rir de mim. + +Abriu a porta, fechada por fóra, e tirou a chave. No leito soltava a +mãe phrases incomprehensiveis. + +Sabia que a esperavam, e os seus berros tinham sido para que não +ficasse, para que não tornasse a caír nas mãos dos seus algozes. + +O estado em que a viu fortaleceu Maria na consciencia do dever +cumprido. + +Vibrava o seu corpo fragil n'uma energia de ferro. Olhava para tudo +como senhora, como morgada, e revoltava-a aquelle abandono. + +Ia ao pae para reclamar um medico, e dar então ordem á casa. + +Mas D. Perpetua, temendo ficar só, chamou-a afflicta para junto de si: + +--Filha, não sei se tornarei a vêr-te, que elles são capazes de te +fechar, ou até de te estrangularem, como já me teem querido fazer. + +E o seu espirito doente confundia a realidade com a allucinação: + +--Quero confessar-me, Maria, que estou para Deus me levar; mas ha-de +ser a ti, filha, que não creio no fr. Angelico nem nos outros +malditos! + +Sacudia-a a convulsão, entortavam-se-lhe os olhos, ficava-lhe a bocca +arrepanhada ao lado, asphyxiava-a a escuma sanguinolenta, que Maria +limpava compadecida. + +--Quero confessar-me a ti, sim, filha--voltava ella n'uma insistencia +pavorosa, olhos esgazeados, a voz cortada, difficil de perceber--Tenho +um grande remorso, um peccado mortal, e tu, que estás uma mulher, +pódes comprehender-me e perdoar-me. + +Pedia-lhe que socegasse, mas ella tinha a ancia de falar: + +--Fui rapariga como tu, e não tive a felicidade de encontrar um rapaz +como o que amas, que é o brio dos homens, ao que tem feito por ti. Ha +tanto quem possa ser feliz e tanto quem nunca o poude ser! São +destinos. Eu enganei-me sempre, e querendo tornar-me ditosa fui +ludibriada por teu pae, e vi-me casada com elle sem amor. + +N'uma explosão de raiva e nojo, em arrancos como se vomitasse, +contou-lhe a torpe ligação ao frade, a maneira como elle a explorára e +como por fim a tratava, unindo-se ao marido contra ella. + +Então Maria comprehendeu o sentido das allusões de João e Josepha, +certos sorrisos surprehendidos em beiços de creadas. + +Quando a viu mais tranquilla, aliviada pelo desabafo da sua miseria, +saíu Maria, cada vez mais resoluta. + +Encontrou o frade no escriptorio: + +--Fez-me minha mãe certas revelações, creio que me comprehende... + +E a perturbação de fr. Angelico mostrava-lhe que sim. + +--Não voltará a esta casa, sob pena do pae nunca mais o deixar saír. +Desculpe-se como puder. Aos seus processos, não lhe será difficil. + +Muito enfiado, levantou-se fr. Angelico da papeleira, e deixando a +escripta como estava, compoz o habito, desejando vêr-se muito longe +d'ali. + +Encontrou o morgado á meza, e não teve meio de esquivar-se +immediatamente. + +Podia levantar suspeitas, que lhe seriam fataes, e resignou-se a +acompanhal-o ao jantar, no supplicio de não poder comer. + +Repentinamente Maria entrou e dirigiu-se a Martinho Vasques: + +--A sua benção, pae. + +Tomou-lhe a mão e beijou-lh'a, sem que elle, perturbado, podesse +retirar-lh'a. + +Sempre de pé, declarou n'uma voz sumida: + +--Conforme as suas palavras, procurarei merecer o seu perdão tratando +da mãe. + +Pôz o morgado os olhos no prato, e não respondeu palavra. + +Muito servilmente, para captar a benevolencia d'ella, interveiu o +frade: + +--Volta a viver como outr'ora, foram as palavras de seu pae. Tenha a +bondade de sentar-se--e offereceu-lhe uma cadeira--que eu tenho de +levar até ao fim a missão de que me encarreguei. + +Chamou a creada, mandou pôr-lhe talher, e voltou-se para Martinho, que +continuava comendo, como se nada fosse com elle: + +--O senhor morgado perdoará, porque Deus tambem perdoou! + +--Com licença, pae!--disse Maria sentando-se. + +E emquanto redobrava o pasmo de Martinho, ella adquiria maior firmeza, +mais sangue frio. + +Reapossava-se do seu logar, succedia á mãe como dona da casa, para +depois succeder ao pae como senhora absoluta de tudo. + +Mal teve ensejo, ergueu-se o frade, a despedir-se. + +--Tenha a bondade de mandar immediatamente um bom medico, que não se +póde abandonar uma creatura de Deus no estado a que chegou a mãe. + +Para se furtar ao cumprimento da filha, ergueu-se Martinho e +agarrou-se ao franciscano: + +--Venha d'ahi, fr. Angelico, beber uma golada para o caminho. + +Sentiu-os afastar, discutindo, e então chamou as creadas, +reprehendeu-as, tratando-as de desmazeladas, e levou adiante de si, +tremendo de medo, para arranjarem o quarto, as que ainda ha pouco se +riam da velha. + +No dia seguinte, depois de almoçarem sem trocar palavra, veiu o +medico, que observou demoradamente D. Perpetua. + +Levou-o Maria á presença do pae, a quem elle expoz a situação da +doente. Devia ter sido chamado mais cedo. Talvez nas Caldas da Rainha +podesse obter melhoras. Ali ficaria entrevada de todo. + +Ouviu-o o fidalgo com má sombra, sem responder. + +No seu impenetravel mutismo, meditava na maneira de sahir d'aquella +situação, peior que a anterior, a casa governada pela filha, o exemplo +d'essa arrogancia mostrando-lhe bem o que ella faria quando João +voltasse da Praia e começasse a rondar por ali. + +Animava-o, porém, a confiança de que triumphasse a esquadra +miguelista, desfazendo o castello de cartas do minusculo reino +liberal. + +Então recolhel-a-ia a um convento, até a levar para Lisboa, ou a casar +com o primo, se ainda a podesse render pela clausura, ou a fazel-a +professar. + +Descançava Maria no banco do pomar, onde passava as tardes com João, +pensando n'elle, quando uma creada a foi chamar: + +--Venha vêr, menina, venha vêr que coisa tão linda. É a esquadra do +senhor D. Miguel. + +Subiu assustada ao mirante, e viu ao largo, no pégo do mar, vinda de +oeste, a infinita linha dos navios, carregados de pannos, rebocando +enfiadas de grandes barcos que, n'uma bordada ao sul da Terceira, +tinham ido reunir ás ilhas de baixo para o desembarque. Rindo +inconscientes, as creadas comparavam a resteas d'alhos a correntêza de +lanchas. + +Aterrava-a o grande poder, que ia talvez roubar-lhe para sempre o seu +noivo, a sua ventura. + +No torreão, munido de oculo, contava o morgado a nau, as fragatas, as +corvetas, e considerava como positivo o triumpho dos seus. + +Até ao pôr do sol viram-os sempre, parecendo fixos no mesmo ponto; mas +ao romper da manhã, quando Maria os procurava inquieta, já não os +avistou. + +Por volta das onze horas começaram a ouvir-se estampidos muito +distantes. Estava travado o combate, mas não era contra o castello, +cujas muralhas se avistavam da quinta. + +Só podia ser na villa da Praia, onde estava João! + +E n'uma desesperada angustia figurava-se-lhe o horror de carnificinas, +como a do Pico do Selleiro. + +Ao começo da noite, encostada ao ralo, ouviu passar homens do +trabalho, que vinham da cidade, falando alterados, decerto commentando +as noticias da batalha. + +Gritavam «viva a nau encalhada», mas essa phrase nada lhe fazia +comprehender. + +Chamou o pae um rancho, e perguntou-lhe o que se passára. + +Responderam n'uma attitude hostil, repetindo os vivas, e um explicou +que a nau _D. João VI_ estava perdida. + +--Isso póde lá ser, homem de Deus--contestou Martinho--Uma nau de tres +pontes, que é a flôr da nossa marinha! + +Insistiram, e accrescentaram: + +--A nau encalhou, e os realistas foram todos pescados! + +Afastaram se repetindo o grito de alegria «viva a nau encalhada!» + +--Tinham vencido! É porque Deus os protegia--pensava ella--tão poucos, +tão fracos, creanças como João, e os academicos que tinham ido para a +villa! E elle? Saíria a salvo? Teria ficado ferido ou morto? + +Logo de manhã o creado da prima appareceu com um açafate á cabeça, a +pedir flôres. + +Era o signal da outra vez, querida Josepha! + +Agora sim, agora confiava no futuro. + +Escoltando carros de bois, cheios de _pescados_, vinha João entre +camaradas, enfarruscados de polvora, espingardas enramadas de louros, +cantando na musica do toque da alvorada: + + Ai, meu Deus, + Isto é que é rir! + Vêr os caipiras + Da Praia a fugir. + +Ainda lhe parecia mentira! + +Quando ao desfazer-se o nevoeiro vira a bahia cheia de grandes navios +ameaçadores de portinholas, onde apontavam guelas de canhões, creu +tudo perdido, porque o grosso das forças liberaes estava a quatro +leguas, no castello, e ali só havia quinhentos homens, e onze velhas +peças montadas em ruinas de fortes, com simples soldados por +commandantes! + +Ribombou a artilharia da esquadra, guarnecida de trezentas e quarenta +bôcas de fogo, e ensurdecido pelo estrondear, cego do fumo, da +terraceira projectada pelas balas, julgou tudo fulminado, vencido de +vez. + +Mas ao subir a nuvem azulada, reappareceram os exiguos fortes +liberaes, e os artilheiros, imperturbaveis, n'essa indifferença do +habito que, mais do que tudo, o surprehendia, apontavam agora, e +alguns tiros insignificantes, um como brinco de creanças, responderam +áquella unanimidade de canhonadas. + +Caíu logo uma retranca á nau, e a confusão da tolda demonstrou que os +de terra não tinham perdido a serenidade. + +No forte de S. José, o velho ilheu Manoel Caetano acompanhava os +filhos, artilheiros da costa, para os ensinar a fazerem as pontarias. + +--Senhor governador--dissera ao sargento commandante--feche a porta e +guarde a chave, porque estes mancebos são muito bisonhos, e ainda não +ouviram zunir pelouros. + +Ao cahir um d'elles, dirigiu-se ao que lhe restava: + +--Desvia teu irmão que já pagou a sua divida á patria, e tratemos de o +vingar! + +E só assim, dedicações firmes, convicções inabalaveis, poderam +resistir a esse infernal canhoneio de cinco horas. + +Avançaram ao desembarque mil e tantos homens, o dobro dos que +guarneciam meia legua de areal, e a vantagem do numero e da +concentração, deu-lhes logo o alto do Facho e o forte do Espirito +Santo. + +Mas os liberaes voluntarios correram-os á bayoneta, varejaram-os com +penedos rolados á força de braços, e ao verem-os vencidos, luctando +com as ondas e a braveza dos rochedos, gritavam-lhes que não fizessem +mais fogo, porque os desgraçados, que tinham ordem de não dar quartel, +contavam ser tratados de egual fórma, e ainda disparavam loucos de +desespero. + +Desceram a rocha os constitucionaes, meteram-se ao mar para salval-os, +e João, entre outros, com agua pelos peitos, tirava a braços os +feridos, os estropiados, que a maré dentro em pouco afogaria. + +As victimas da tyrannia miguelista, que até ali os arrastára, olhavam +pasmados esses homens que, para os salvar, arriscavam a vida, e não +comprehendiam a sua fraternidade. + +Poz termo ao combate a chegada da columna de Villa-Flôr, voltando a +tiro as lanchas do segundo desembarque, e obrigando a frota a cortar +amarras e a fazer-se ao largo, podendo agora safar-se com a enchente a +nau, que logo ao começo da acção tocára o fundo. + +Vinha João calculando o decisivo alcance da victoria, que devia +despertar echo em Portugal, levar as potencias a reconhecerem o unico +governo português legitimo, permittir a reunião de recursos para o +desembarque no continente. + +Ao chegar á cidade soube que Maria voltara a casa, perdendo assim a +vantagem a tanto custo conquistada, exactamente quando era a seu favor +essa absoluta consolidação da ilha. + +Conseguira mais o trama de um frade que a natural inclinação dos dois +corações; tivera mais força n'ella a intimidação do inferno que o +enthusiasmo da mocidade a impellil-a para elle. + +Oh! quanto custaria emancipar os espiritos acorrentados ao erro, na +treva da oppressão! + +Pedia-lhe perdão a carta d'ella por não o haver consultado, mas +davam-lhe a mãe agonisante, e a pobre estava realmente mal. Tanto +fazia esperar ali como em outra parte, já que não podiam casar tão +cedo. Não receiasse que a opprimissem, porque o soffrimento fizera-a +mulher. Tivera ensejo de conhecer a hypocrisia que dictava o +procedimento dos frades, e perdera o escrupulo religioso que tanto a +affligia. Concluia affirmando a sua absoluta fidelidade. Nunca fôra +tanto sua como agora. + +Não lhe importavam, porém, as palavras. + +Caíra na anterior situação, estando de novo sob a alçada do frade, que +continuaria a governal-a apesar dos seus ingenuos protestos. + +Escreveu-lhe desesperado, queixando-se da falta de confiança que +denotava a sua precipitação. + +Andava como louco. Que havia de fazer para a arrancar novamente d'ali? + +Tinha a certeza de que ella, só por orgulho, se não reconhecia victima +de uma perfidia, mas que devia anciar por se vêr livre da tyrannia +paterna, a que tanto custára arrancal-a. + +Appellou para Fulgencio, mas o boticario desilludiu-o: + +--Agora? Era pegar-lhe com um trapo quente. Ella quebrára o deposito, +recolhera a casa por _motu proprio_, já a justiça não podia ir +reclamal-a, houvesse o que houvesse. Sim, que isso de tirar uma filha +a um pae não era brincadeira, nem devia ser. + +Enternecido pelas supplicas sahiu a pedir por elle, mas voltou com más +novas. + +--Pódes dizer-lhe adeus. Pensa n'outra, que é o menos que falta. Não +tarda o velho pela barra fóra, que está na lista dos suspeitos, dos +que tramam na sombra e ajudam as guerrilhas por baixo de mão. O +Villa-Flor é têso, faz elle muito bem; ainda não bebeu agua das Covas, +nem bebe, honra lhe seja; não se amolda, pois, aos costumes da terra, +e não quer saber se o Martinho é muito ou pouco fidalgo, se vem de +reis ou de lacaios. Isso é bom para nós, que na nossa insignificancia +ainda caímos de cocoras diante d'esses paparrotões, só porque teem +quatro avoengos, embora os renegassem como esse refinadissimo +«corcunda», tornado em lacaio dos sotainas, quando o avô ajudou a +expulsal-os, cumprindo as medidas de Pombal. Agora que a victoria de +11 de agosto poz isto na ordem, é preciso limpar a terra das hervas +damninhas, porque, meu rapaz, ainda ha muito e muito que fazer. + +Ouvia-o João, transtornado, sem comprehender bem. + +--Quer dizer que Maria se vae embora? + +--Não se trata d'ella, meu rapaz. O nome do pae é que eu vi na lista +dos deportados. + +Foi procurar emigrados, rapazes que o podiam comprehender melhor do +que o velho, e cuja deliberação no combate lhe ganhara a sympathia. + +--Mas afinal que queres tu?--dizia um academico--A rapariga gosta de +ti, não é verdade? Pois muito bem, vamos lá uma noite, tira-se para +fóra, dá-se uma sova nos migueis que se fizerem finos, metel-a em tua +casa, e não queiras mais saber de deposito. Em teres andado tanto +tempo ao rabo da saia d'ella, e deixal-a assim levantar o vôo, bem +mostras que foste educado por padres e te tornaste um maricas. Havia +de ser commigo! + +--Ella é que não quer fugir. Que ha-de casar, e não sae d'ali. + +--Pois tira-se mesmo contra vontade, que quem governa somos nós, e +como tu és das caras direitas que estiveram na batalha da Praia, +fecha-se os olhos á rapaziada. + +--Preciso consultal-a primeiro... + +--O que tens é medo d'ella. Pois deixa-a ir para o primo, que em +chegando a Lisboa não se lembra mais de ti. Aquillo é que é terra! + +--Não durmas sobre o caso--lembraram-lhe--olha que elles não tardam a +ser corridos, que isto agora é dito e feito. + +Escreveu-lhe, pintando o horror d'essa separação. Estava preparado +para a ir buscar, acompanhado por amigos. Não havia perigo, e no caso +de força maior tinha ella completa justificação aos olhos de todos. E +que importava que os censurassem, se a sua felicidade os faria +esquecer tudo? Se não acceitasse é porque nunca lhe quizera bem, +porque cedera apenas a um capricho. + + * * * * * + +Quando viu o pae exultando pela ordem de deportação, arrependeu-se +amargamente Maria de ter voltado a casa. + +Só então o morgado quebrára o teimoso silencio, para se dar como +disposto a tratar a mulher, mas procurando prender assim a filha á +esperança de salvar a mãe. + +Levando Maria para Lisboa, realisaria completamente o seu velho plano. + +Mas comprehendia bem que João devia tentar retêl-a, e queria influir +n'ella astuciosamente, já que pela força nada poderia contra os que se +firmavam em duas victorias, e esmagavam os adversarios. + +Para estar precavido, augmentára o numero de homens de trabalho, a +pretexto das vindimas, e tinha ali muitos dos guerrilhas do Pico do +Selleiro, com armas á mão. + +Sentia ella os olhares dos guardas, mas não duvidava que, se quizesse, +João a viria buscar n'um momento. + +Ainda a carta d'elle a exaltou por instantes, na seducção da aventura, +mas repugnava-lhe o coxixar dos mantos apontando-a em mancebia; as +invejosas, as rivaes voltando-lhe a cara indignadas, e mais uma vez +impoz-se-lhe o orgulho. + +Respondeu-lhe com serenidade, meditando muito as palavras. + +Devia continuar como enfermeira da mãe, que adoecera por sua causa, e +agora ia procurar a cura. Demais, viver com elle, sem casarem, +tornava-se indigno d'ambos. Era descer, abandalhar-se aos olhos de +todos, e talvez até aos d'elle proprio. Haviam de unir-se dignamente, +como mereciam. De outra maneira, não. Só Deus sabia o que lhe custava +separarem-se, mas, como sua mulher, havia de ser a guarda da sua +honra, e não podia começar por sacrificar-lhe o bom nome. Se era +differente das outras, por isso mesmo lhe devia querer mais. Concluia +insistindo que, da mesma forma, ficariam separados quando elle +embarcasse na expedição liberal ao continente, e ella ficasse na ilha +á sua espera. Assim até era melhor, porque iriam encontrar-se em +Portugal. Até lá, pois, e ou seria d'elle, ou de ninguem. + +E como n'essa madrugada em que a chegada do navio, que a devia levar, +o decidira a declarar-se, João, depois de a ter visto embarcar +desfallecida, olhos vermelhos, ao lado da cadeirinha da entrevada, foi +pôr-se á janela. + +Viu o barco largar d'entre as escunas da laranja, que baloiçavam como +berços o leve bojo, finas, veleiras, atrevidas; que fugiam debaixo de +tempo, antes que o suéste as désse á costa; ou redemoinhavam como +pedaços de cortiça, quando os inglezes, reconhecendo se impotentes +para arcarem com a tormenta, fechavam escotilhas e emborrachavam-se na +coberta, para não darem pelo naufragio. + +Oh! Mas d'esta vez iria após ella, como então resolvera, sentindo se +homem ante o risco de a perder; iria após ella, a essas terras onde +tudo se decidia, já sem a emulação de outr'óra, integrado nas mesmas +aspirações dos emigrados, tendo como elles ideias a affirmar, victimas +a remir. + + * * * * * + +Desde então só tem um fito a sua vida, partir como ella, e essa ideia +fixa mantem-o atravez dos momentos de desanimo que tiram o caracter de +decisivo ao combate da Praia; a falta de dinheiro, a intriga +diplomatica, as rivalidades da familia liberal. + +E essa obsessão leva-o a consagrar-se como um fanatico á conquista do +archipelago, com um navio adquirido por subscripção. + +Empolga-o a figura prestigiosa de D. Pedro, indo á ilha organisar a +expedição liberal, pôr-se á frente d'ella; e n'esse imperador de +trinta annos, que abdicára duas corôas, assignára duas constituições, +proclamára a independencia de um imperio, fôra grão-mestre da +maçonaria, e interpretára em dois hymnos a sua ingenua crença liberal; +n'esse principe, hostilisado em Portugal por ter emancipado o Brasil, +guerreado no Brasil por se preocupar com Portugal, via agora o +desenlace do conflicto, pela garantia de ordem que dava á Europa a +cathegoria do novo general dos que, desde Vinte, se batiam pela +liberdade. + +Todos queriam partir, e os officiaes emigrados, que não cabiam nos +quadros das forças, constituiram o Batalhão Sagrado, para terem a +honra de fazer parte do exercito libertador, aonde aos veteranos do +Rousillon, aos soldados da guerra da peninsula e da legião portuguêsa +ao serviço de Napoleão, se juntavam os voluntarios de 23, os +academicos, os alistados agora, os pescados á esquadra, estrangeiros +vibrantes da indignação que agitava a Europa contra a oppressão +portugueza, toda a juventude sangrada aos Açores para a libertação de +Portugal. + +Ao partirem da ilha de S. Miguel, onde se concentrára a expedição, +cantavam enthusiasmados o novo hymno constitucional, que D. Pedro +escrevera ao vir lançar-se na lucta pela carta outhorgada, pelo throno +da filha: + + Da rainha e da carta o pendão + Já nos mares se vê tremular, + Nobre esforço que a honra dirige, + Vae de Lysia a desgraça acabar. + + D'entre a noite no carcere horrendo, + Resurgidos ao dia fatal, + Inda vertem heroes portuguêses + No patibulo o sangue leal. + + Nas entranhas da escura masmorra + Onde reina da morte o terror, + Outros mil inda esperam constantes + Igual sorte c'o mesmo valor. + + Mesta Lysia em gemidos implora + Que as algemas lhes vamos quebrar; + Já nas praias as mães lagrimosas + Pelos filhos se escutam bradar. + +A cada quadra repetia-se o estribilho: + + Foge, foge, ó tyranno e não tentes + Ferreo sceptro mais tempo suster; + Que nas aras da patria juramos + Viver livres, ou livres morrer. + +Como um signal de que o ceu respondia ao appello do hymno + + Nossos votos são carta e rainha; + Nosso guia quem ambas nos deu; + Defendemos a causa do mundo; + É por nós a justiça do ceu. + +appareceu azul o sol, velado por tons de anil, pondo em tudo reflexos +ceruleos, casando se ás côres da nova bandeira azul e branca, as côres +do laço liberal de Vinte, o branco da espuma da onda, o puro azul do +ceu de Portugal. + +Fez-se ao largo temerariamente, em velhos transportes comboiados por +uma esquadrilha, esse punhado de homens, cerca de sete mil e +quinhentos, o numero que a tradicção para sempre fixou, n'uma +commovida gratidão. + +Realisava-se emfim o longo sonho do exilio, e, ao saltarem no +Mindello, prostravam-se os expatriados, beijando o querido solo, cujas +poças de sangue reflectiam as rubras tintas d'uma nova aurora. + +Apertando convulsos as armas fraticidas, com que eram forçados a +apoiar os gritos de liberdade, os votos de egualdade e fraternisação, +pediam novas forças a essa terra que ainda defenderiam cobrindo-a com +o retalho do seu corpo, osculando a na crispação da ultima agonia; +sentiam-se felizes ao tocarem-a, embora para morrerem n'ella, +ameaçados por oitenta mil soldados, e pelo fanatismo catholico mantido +por frades e jesuitas entre as populações a libertar. + +Na patria ensanguentada, apunhalada pelos pés das forcas, oscilavam +garrotados, como pendulos sinistros, marcando á tyrannia a hora fatal. + + + + +XII + + +Observava Maria através das grades. + +Iam as ruas d'Evora coalhadas de soldados miguelistas, e ao convento +chegavam novas da retirada de Santarem. + +--É o fim da guerra, descança--dizia-lhe uma freira de meia edade, +amarela de cera, vislumbres de juventude no olhar vivo, que tambem +observava para fóra. + +--De quantas batalhas o tem dito--respondeu Maria com desanimo. + +E lançou um olhar de desesperança á fria cella, nua, sem conforto, á +cama, á arca, a essa cruz negra que era o sêllo do captiveiro. + +--A guerra prolongar-se-ha como os pesadêlos que me endoidecem n'este +carcere. + +--Para que has de descoroçoar? + +Ouvia-a, muito abatida, sem desfitar os bandos. + +--O peior está passado--continuou a freira. + +E n'um suspiro: + +--És nova, tens vida para tudo. + +--Ha quanto tempo que m'o diz! + +--Desde que viestes. + +--Não podia ser mais feliz, encontrando tão bom coração. + +--Podias, se me tivesses conhecido mais cedo. Aconselhar-te-ia de +outra forma, e decerto não estarias aqui. + +--Agora não tem remedio! + +Continuavam a olhar para fóra. + +--Admira-me não avistar o pae. + +--Não deve ter muita vontade de ver-te, nem suppõe que terás grande +gosto em o encontrar--disse a freira com amargura. + +--O mal que elle me tem feito!--murmurou Maria. + +--Conheço muito bem o senhor meu primo! Era outro que tal o senhor meu +pae, Deus lhe perdôe. Tinham mulheres e filhas por escravas, e +serviam-se d'estas prisões para se desfazerem das filhas segundas, +para imporem casamentos ás morgadas como nós. Infelizes tempos! +Desgraçadas que somos! + +Fixou Maria novos grupos, e perguntou: + +--Se o pae continua a acompanhar D. Miguel, como desde que saiu +desesperado d'aqui, deve ter vindo com elle. + +--Sim. Ha de estar na cidade. + +--Só se lhe succedeu alguma coisa... + +--Quanto a isso está descançada. O infante viu a guerra de longe, não +é como o senhor D. Pedro, que acode ás baterias debaixo de fogo, +aponta as peças como um artilheiro, e apparece no ardôr da peleja a +animar os seus. + +--A não ser da vez que foi ao Porto para incitar o cerco... + +--Que por signal andou abandalhando-se em Braga, com mulheres de má +nota, fazendo flostrias a cavallo para lhes agradar, emquanto que +outros morriam pela sua teimosia de ter cadeias atulhadas de +innocentes, e conventos cheios de desgraçadas como nós. + +Na preocupação da rua, Maria respondeu: + +--Então é porque não quer ser visto. + +--Sabe os sentimentos que inspira. + +E encarando com ella. + +--Não é por lhe querer bem que pensas n'elle, não é verdade? + +Maria titubeou: + +--Apesar de me pretender enterrar em vida, apesar do que fez á mãe... + +--Se elle tivesse vergonha nem voltava a esta terra, onde veiu deixar +os ossos da desgraçada. Soube-se dos seus maus tratos, e todos lh'o +levaram a mal, acredita. Olha que muitos que se dizem realistas, e o +applaudem e a outros que taes, é só por medo d'essas viboras, que se +vingam nos inermes, e fogem a sete pés dos que estão armados. + +Maria abraçou-se a ella, chorando: + +--Perdôe-me, D. Anna, mas como lhe hei de querer, se me tem tratado +cruelmente, se torturou a desgraçadinha, se lançou João no horrôr da +guerra... + +--Deixa-o, filha, não penses mais n'elle. É como se tivesse morrido. E +pede a Deus que ainda lhe possas pagar em caridade, nos seus ultimos +dias, que os ha de ter bem negros! + +--O mal que lhe desejo me venha a mim. + +--Elle não pensa mais em ti, descança. Ha que tempos não me escreve, +não me força a responder-lhe n'essas cartas em que te dou a caminho +da profissão, n'uma vida de penitencia. + +--Tem sido tão bôa para mim. + +--O que mais me custa, Maria, é conter-me, lançar ao papel essas +mentiras, em vez de lhe dizer as duras verdades que merece! + +--Ninguem o convence. + +--E elle tirava-te logo d'aqui. + +--Se suspeitasse o que a tia tem sido para mim! + +--Não ha remedio senão dissimular, que felizmente ha de ser por pouco +tempo. + +--Agradeço lhe a bôa intenção, D. Anna, mas já não espero ver fim a +isto. + +--Pois não vês que a falta das cartas em que elle teimava para que +professasses, não querendo que um dia viesses a casar, mostra que já +não tem cabeça para nada? Sempre que os liberaes ganhavam um palmo de +terreno, apertava-me elle para que te lançassem o habito. Agora não +tuge nem muge. Que mais queres? + +--Talvez desconfie da sua amizade por mim. + +--Como? se só tu a conheces, e não ha muito tempo, porque ao principio +fui para ti o que tinha sido para todas, retrahida, reservada! Quando +me encerraram aqui, os escandalos com que enxovalham a casa de Deus, +que, como tens visto, serve para as mais torpes devassidões, não me +desmoralisaram como ao geral das que cá veem parar. Fizeram-me +conservar á parte, sem me prestar a ditos e mexericos, sem beberetes +na cella ou na grade, sem dar confiança a nenhuma. Segui sempre com +sympathia os liberaes, porque bem sabia que elles libertariam as +pobres enclausuradas. Mas não me manifestei aqui dentro, porque de +nada servia, como as freiras constitucionaes postas a pão e agua no +carcere, forçadas a penitencias vergonhosas diante d'essa communidade +de descaradas, transferidas para longe dos seus. Calei-me sempre, mas +trago no exercito libertador soldados armados e pagos por mim, por via +de encubertos liberaes d'esta terra que fazem o mesmo, a occultas, +para que não os roubem e assassinem. + +--Pois tem feito isso? + +--Tenho. Mas ai de mim se o suspeitassem! + +--Ah! D. Anna, que tem sido a minha verdadeira mãe! + +--Não quiz que soffresses o que eu soffri. E tenho o gosto de te haver +salvo de vez. Sem mim, ao teu genio assomado, caías nos enganos que te +armaram, professavas, e adeus para sempre. + +--E se elle morrer, faço-o, tia! + +--Está a acabar a guerra, foste feliz! + +--Quantas vezes o tenho acreditado, e quantas a realidade me +entristeceu! + +Recordou a sua longa espectativa, passando por alternativas dolorosas, +ora esperando João no dia seguinte, ora julgando nunca mais o vêr. + +Acompanhara-o em espirito, no desembarque no Mindello, e tivera a +mesma desillusão que elles, ao appellarem para os manifestos, na +repugnancia de derramar sangue, contando mais com a adhesão em massa +do que com a dolorosa guerra civil. + +Exultára na recepção do Porto, a cidade em delirio, damas de azul e +branco, lançando mais flores a esses queridos soldados, por entre a +tempestade dos vivas aos libertadores. + +Mas em breve tornaram-se em lagrimas os risos, em crepes os laços +bicolores, em chuva de granadas as de rosas, e em bravas vivandeiras +as donzellas, que os realistas offereciam em pasto á soldadesca, como +premio do assalto. + +Como desejaria estar entre ellas, correr animosa ás trincheiras, +servir polvora e bala aos luctadores, accudir aos feridos, estar ao +lado de João quando o trouxeram n'uma maca, exangue! + +Logo sobre as noticias da entrada triumphal viera a sangueira, a +chacina dos combates, investidas ferozes contra o Porto, e a cidade em +risco de invasão, laços constitucionaes deitados fóra, gente prestes a +fugir pela barra, militares rapando os guerreiros bigodes. + +Tão pouco estavel era ainda a causa, que d'um momento para o outro se +receiava a prisão, o supplicio; e os que, como João, luctavam, tinham +agora a dupla certeza da morte, ou no campo, ou na forca. + +Que desditosa influencia a sua n'esse rapaz, arrancado ao socego da +terra, ao conforto da casa, para dormir ao relento, passar a fome do +cerco, tremer inquieto sob esse maldito bombardeamento, usado pelos +miguelistas em requintes de tortura, em tiros descompassados, para +maior sobresalto, á hora do jantar para tirar o socego da meza, em +pontaria aos hospitaes para augmentar o horror. + +Tremia aos symptomas do cannibalismo da lucta, o prazer do pormenor em +que um general communicava terem ficado os bravos officiaes do +Batalhão Sagrado com as cabeças abertas de meio a meio, pelos celebres +dragões de Chaves que depois se passaram para os liberaes; o auto de +fé planeado pelos frades de S. Francisco, deitando fogo ao convento +para queimarem o batalhão de caçadores 5, quando os soldados dormiam +fatigados da batalha de Ponte Ferreira! + +Para a fazerem professar, no interesse do dote, na avidez de dadivas +do morgado, no odio ao noivo liberal, aggravavam-lhe as freiras as más +novas, dando os constitucionaes como perdidos, e mostrando o evidente +castigo do ceu na morte de certos voluntarios academicos, a quem +attribuiam profanações no convento de Santo Antonio do Livramento, de +Angra, accusando-os, como outr'ora aos Templarios e aos Judeus, de +fazerem alvo da imagem do santo no nicho da frontaria. + +A todos os momentos receiava a noticia de que João morrera, e um dia +as freiras, qual mais havia de arreliar «a do malhado», foram dar-lhe +hypocritas condolencias porque elle recolhera ao hospital, gravemente +ferido n'uma d'essas teimosas sortidas que dizimavam a guarnição. + +Tivera-o por morto, como lhe insinuavam, negando frouxamente, mas +falando-lhe das consolações que a egreja reservava a todas as dôres, +insistindo em que se votasse ao divino esposo, já que tão +misericordiosamente a libertára dos laços do mundo. + +Tomára então a tia, para com a abbadessa e as mais ferozes madres, o +compromisso de a decidir, e, recolhendo se a catechisal-a, abrira-se +com ella. + +Começára por uma reprehensão, em que o olhar brilhára apaixonado, e o +rosto pallido, enrugado, se fôra animando gradualmente, até dar longes +de outros tempos, da juventude impetuosa e ardente, do momento em que +amára e fôra amada, em que se tornára mulher e devia ser mãe. + +--Que mal que fizeste em resistir! Como desperdiçaste a mocidade. Em +nome d'umas formulas vasias sacrificou-te, e a elle, o teu orgulho! E +se te morrer? Que recordação te fica para evocares o breve tempo que +não volta mais? + +Insistira, ao vêl-a debulhar-se em lagrimas: + +--Chora, desabafa, que deves sentir um mortal remorso; chora as duas +vidas que despedaçaste, e convence-te de que nunca o amaste, porque o +verdadeiro amor não raciocina, porque é a suprema lei da vida, tudo se +lhe amolda, e elle não! + +--Que hei-de fazer agora, senão professar--bradava ella, +arrepelando-se. + +--O teu orgulho ainda! Cala-te, vaidosa, que darias mais uma pessima +freira. Vive para elle, é o teu dever. + +--Para elle? E se morreu? + +--Vive para a memoria d'elle, mas nunca a dentro d'um mosteiro, porque +deves lembrar o mal que d'estas casas te adveiu. + +--Então que hei-de fazer? + +--Porque não pensaste em fugir d'aqui, em ires acudir-lhe, pôr-te á +sua cabeceira, tratal-o, acarinhal-o, cerrar-lhe os olhos se Deus o +levar, como fazem as fortes mulheres que estão velando o leito +d'outros feridos, as que não desampararam os maridos na retirada e na +emigração? + +E como ella a olhasse como pasmada: + +--É que ha mulheres, e mulheres; e as mais felizes, como tu, pelo amor +que lhes dedicam, são afinal as que menos o merecem! + +--Tenha dó de mim, não me trate d'essa fórma!--supplicava ella. + +Então compadecera-se D. Anna, e pedira-lhe, mudando de tom: + +--Não tornas mais a falar em profissão, haja o que houver? + +--Não, não torno. + +--Pois bem. Ouve-me agora serenamente. Que te disseram d'elle? Que +estava ferido? Pois bem, ha-de curar-se, e eu tenho maneira de saber +exactamente o seu estado, mas não dês credito senão ao que eu te +disser, e cala-te com isto. + +Depois, n'um enthusiasmo que contrastava com a estudada placidez +usual: + +--Que elle viva ou morra, os liberaes hão de triumphar, pois ao que se +tem soffrido não é possivel vencel-os, pelo desespero com que se +batem. Os conventos acabaram, e temos de saír todas d'estes logares de +maldição. Mas os votos ninguem os tira, os padres não casarão as que +os tiverem. E aquellas que perderem a mocidade, já nada do mundo lh'a +póde restituir! + +Então afogaram-a as lagrimas, e revelou-se tal qual era: + +--Tambem me contrariaram um amor. Fugi com o meu noivo, mataram-m'o, +mas tenho vivido desde então evocando as horas em que me pertenceu. E +esse amor foi o meu culto aqui dentro, a minha religião, porque a +outra perdi-a pouco a pouco, ao vêr da parte de dentro os ministros do +Senhor e as suas esposas, os que communicam com Deus, os +intermediarios da sua graça, do seu perdão! + +Conseguiu D. Anna saber d'elle, e pôl-os em relações. Melhorára +depressa, era já alferes, e a Torre e Espada assignalara-lhe a ferida. + +Depois tivera-o a dois passos, na divisão do duque da Terceira que +atravessou n'um relampago do Algarve a Lisboa, levando adiante de si +os miguelistas, que fugiram espavoridos d'esses dois mil homens, +incitando em desforra as populações a tratarem-os como lobos. + +E o fanatismo catholico dos soldados e das tropas apunhalou no +Algarve, queimou vivos e arrastou á cauda dos cavallos os prisioneiros +liberaes; martyrisou em Beja portadores de ordens; queimou dois +constitucionaes forçando as irmãs a assistirem á execução; despedaçou +á machadada trinta e cinco presos politicos no castello de Extremôz, +incluindo uma creança de seis annos! + +Atravessára Telles Jordão o Tejo para fulminar os liberaes, como +esmagava os presos de S. Julião da Barra, mas ao vêl-os armados, +decididos, o valentão que esbofeteava os miseros encarcerados, lhes +sujava a comida e os obrigava a rezar o Terço, fugiu covardemente, até +que o alcançaram em Cacilhas, vingando os camaradas torturados. + +E fugiram de Lisboa os miguelistas que ainda na vespera, em requintes +de barbaridade, tinham enforcado um liberal, para o impedirem de gosar +o triumpho dos seus, já na Outra Banda; que haviam ensanguentado a +cidade em barbaras repressões. + +Mas nem d'essa vez findára a guerra! + +Os miguelistas, que haviam recusado salvar a esquadra, aprisionada no +Tejo pelos franceses, dando em troca a liberdade aos afflictos +prisioneiros voltaram á carga e encheram de cadaveres, de ruinas, os +arredores da capital. + +Saldanha descercára Lisboa, e D. Pedro, em homenagem, mandou collocar +no pedestal da estatua de D. José o medalhão do avô, o marquez de +Pombal, que os jesuitas haviam arrancado. E assim a epopeia liberal, +ligada á obra de Vinte, á tentativa patriotica de 1817, mostrou se o +logico desenvolvimento da obra de Pombal, que se desenvolvia, +alargando a todas as ordens religiosas, fautôras do retrocesso, +incitadoras dos morticinios, a extincção dos jesuitas. + +Arrastara-se a lucta sanguinaria, e de retirada em retirada tinham +vindo parar ali as forças, ainda importantes, que os mais teimosos +pretendiam levar ao campo, a uma derradeira tentativa. + +Olhavam Maria e D. Anna os grupos de soldados, querendo lêr-lhes no +rosto as decisões d'essa hora suprema, em que as divisões de Saldanha +e Terceira avançavam contra Evora para os esmagar, ou reduzir á +rendição. + +De dentro chegavam-lhes successivas noticias, andavam já em +negociações, decidira capitular o conselho de guerra, e estava +assignada a paz. + +Ouviram ao longe o hymno constitucional, confirmando a noticia, e ao +som da musica, ao ruido atroador dos vivas que se approximavam, +desappareceram, cabisbaixos, os soldados de D. Miguel, e a rua ficou +deserta, emquanto ao longe avançava a onda libertadora. + +--E João viria com esses?--exclamava Maria, em lagrimas de jubilo, +abraçada á freira. + +Ganhára o enthusiasmo a cidade opprimida, dos carceres do convento +irrompiam freiras desgrenhadas a saudarem das grades a victoria. + +Chamaram Maria ao parlatorio, e as duas mulheres desceram logo. + +Em vez de João, esperava-as o morgado. + +Por excepção não se embriágara, na dôr do derruir das ultimas +esperanças, e parecia ebrio, cambaleando, pallido, coberto de suor +frio, o olhar pasmado, as palpebres cerrando-se a meudo. + +Custava-lhe a encarar a luz, como se o deslumbrasse a evidencia do +triumpho. + +Depois de saudar ligeiramente a prima, dirigiu-se á filha: + +--Menina, prepare-se para me acompanhar. + +Maria recuou attónita. Dava-se o que receiára. Tentava o pae +reapossar-se d'ella. + +--Aonde, senhor?--perguntou afflicta. + +Fazendo-se forte no ultimo poder que lhe restava, retorquiu o morgado: + +--Não aprendeu a ser obediente? Pois ainda está em edade de se tornar +bem ensinada. Obedeça-me! + +D. Anna falou n'uma voz grave: + +--Senhor, não lhe basta o mal que tem causado? Não se dá por +satisfeito? + +Descarregou Martinho Vasques a colera que para ellas reservara, +reduzido á impotencia pela convenção de Evora Monte: + +--Que significam essas palavras, prima? + +--Que felizmente já posso desabafar e dizer-lhe tudo o que sinto, sem +receio de que Maria soffra por minha causa. + +--A prima sempre foi uma doida!--explodiu elle--Vejo que fiz mal em +confiar-lhe minha filha. Mas estou a tempo de emendar o erro. + +E voltando-se para Maria: + +--Porque espera? Não ouviu o que lhe mandei? + +--Escusa exaltar-se, senhor--respondeu a freira--Esta menina está sob +a guarda do mosteiro, e só póde saír por ordem superior. + +--Reclamo-a eu, seu pae, com o mesmo direito com que a entreguei. + +--Mas felizmente os seus já não governam, e agora já não se entregam +victimas aos algozes. + +--Tia!--interveiu Maria--pelo amor de Deus não o offenda. Bem lhe +basta o seu desgosto. + +--Ainda não estás pervertida, filha. Pois bem, vamos, que a dignidade +do teu nome impõe-te o dever de seguires teu pae, embora vencido. + +--É tarde, pae! + +--Que significa isso! + +--Já me sacrifiquei bastante. Não posso mais. + +--Então recusas te a acompanhar-me? + +--O senhor já nada representa para ella. Não quiz sepultal-a viva +n'uma tumba? Faça de contas que a matou, como á mãe, e retire-se. Quem +procede como o senhor, perde o direito a ser tratado como pae. E vá +esconder-se, para não passar pela vergonha de ter a sorte que merece. + +Tiniram esporas na portaria, arrastaram-se espadas, e passos d'homem +subiram a escada do locutorio. + +Era João. + +Tendo ouvido as ultimas palavras, dirigiu-se respeitoso ao morgado: + +--Senhor, tanto reconheço os seus sagrados direitos, que peço +respeitosamente a v. ex.{a} a mão de sua filha. + +Elle recuou um passo: + +--Vem zombar dos meus cabellos brancos? + +Levou a mão ao lado, para arrancar da espada, mas deixou pender os +braços, desanimado. + +--Quebrei-a na esquina da rua a minha velha companheira para não a +entregar aos seus. Estou desarmado. Póde insultar-me! + +Tinham as duas mulheres abandonado a grade e, correndo á sala das +visitas, metiam-se de permeio. + +João respondeu commovido: + +--Senhor, acolhemos a todos com o perdão, abrimos os braços aos +camaradas a quem a sorte das armas foi adversa, e n'esta hora solemne +não ha logar para rancores. Fraternisam os filhos da mesma terra. Pois +perdôe-nos tambem v. ex.{a}, e a nossa alegria lhe fará esquecer os +seus desgostos. + +Dava as mãos a Maria, devorando-lhe com os olhos o rosto muito branco, +onde as olheiras pareciam mais fundas, e a dentro d'ellas maiores os +bellos olhos claros, que a melancolia enriquecera de ternura. + +Embevecia-se ella no tostado rosto de João, envolto na fina barba, +bebendo a vida n'esse firme olhar que adquirira lampejos de energia +varonil. + +--O vosso perdão não passa de uma caridade de phariseus!--atirára-lhe +o morgado em resposta. + +Debalde procurava D. Anna convencel-o, emquanto João e Maria se +contemplavam, anciosos por se abraçarem. + +Ainda ella teve coração para sentir o desespero do pae: + +--Fique comnosco, senhor! Na nossa ventura ha logar para si. + +--Não! Não!--retorquiu teimoso o velho--Já não tenho filha, já não +tenho familia! O meu logar é junto do principe proscripto. + +Revia D. Miguel na commoção da retirada, abotoado na sobrecasaca azul, +de chapéu á Napoleão; dando a mão a beijar ao povo fanatisado, com +cuja ignorancia se identificava, merecendo o mesmo perdão pela +inconsciencia em que viviam; alheio ás transformações do tempo, +contando ainda com o milagre; victima tambem, elle o chefe dos +algozes, victima da mãe quo o incitára, do anterior estado social que +o educára, o tornára a sua bandeira, o seu symbolo, e agora o +arrastava comsigo. + +João tambem lhe pediu. + +--Não! Não!--insistia o morgado--Somos o passado, que não transige! +Tambem ha de chegar o nosso dia, e S. Miguel Archanjo ha de voltar! +Adeus, filha desventurada. O meu logar é junto d'elle. + +Ainda correram á janella. + +Afastava-se aniquilado, braços pendentes, sem o bordão que lhe dava o +ar magestoso, sem a espada a que se apoiava, desempenando-se; +irreconciliavel como o passado que ia afogar na sombra do tumulo a sua +amarga desesperança. + + * * * * * + +--Só tu me restas, João!--e Maria deitou-se-lhe ao pescoço. + +--Ha quanto tempo que podia ser!--queixou-se elle, ainda cioso da +felicidade esperdiçada. + +--Não te amava tanto como agora! Sinto-o hoje, porque só sabe amar +quem soffreu muito! + + +FIM + + + + +INDICE DOS CAPITULOS + + + I 5 + II 25 + III 51 + IV 75 + V 97 + VI 121 + VII 141 + VIII 167 + IX 197 + X 227 + XI 255 + XII 281 + + + + + +End of Project Gutenberg's Os Bravos do Mindello, by Faustino da Fonseca + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS BRAVOS DO MINDELLO *** + +***** This file should be named 21290-8.txt or 21290-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/1/2/9/21290/ + +Produced by Ricardo F. Diogo, Christine P. Travers and the +Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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