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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 01:46:54 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Indice chronologico dos factos mais notaveis da Historia do Brasil + desde seu descobrimento em 1500 até 1849 + +Author: Agostinho Marques Perdigão Malheiro + +Release Date: July 11, 2007 [EBook #22044] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA DO BRASIL *** + + + + +Produced by Pedro Saborano, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +file was produced from images generously made available +by Cornell University Digital Collections) + + + + + + +</pre> + + + + +<div class="ficha_tecnica"> +<h1>INDICE CHRONOLOGICO DOS FACTOS MAIS NOTAVEIS DA HISTORIA DO +BRASIL +DESDE SEU DESCOBRIMENTO EM 1500 ATÉ 1849</h1> + + + +<p>SEGUIDO DE UM SUCCINTO ESBOÇO DO ESTADO DO PAIZ AO +FINDAR O ANNO DE +1849</p> + + + +<p>O. D. C.</p> + + + +<p>AO ILLM. E EXM. SNR. CONSELHEIRO</p> + + + +<p>AGOSTINHO MARQUES PERDIGÃO MALHEIRO</p> + + + +<p>Dignissimo Membro do Supremo Tribunal de Justiça do +Imperio, Fidalgo +Cavalleiro da Casa Imperial, Commendador da Ordem de Christo, Membro +honorario do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, &c. +&c. +&c.</p> + + + +<p>POR SEU FILHO</p> + + + +<p><span class="author">AGOSTINHO MARQUES +PERDIGÃO MALHEIRO</span></p> + + + +<p>Bacharel em Letras pelo Collegio de Pedro II, e Doutor em +Sciencias +Juridicas e Sociaes pela Academia de S. Paulo.</p> + + + +<p>RIO DE JANEIRO<br /> + + + +TYPOGRAPHIA DE FRANCISCO DE PAULA BRITO<br /> + + + +Praça da Constituição N. 64.<br /> + + + +1850.</p> + + + +</div> + + + +<hr /> +<h2>INDICE.</h2> + + + +<ul> + + + + <li><a href="#ch00">Dedicatoria</a></li> + + + + <li><a href="#ch01">Introducção</a></li> + + + +</ul> + + + +<p><a href="#ch1"><b>TITULO I.--SECULO XVI.</b></a></p> + + + +<ul> + + + + <li><a href="#ch1a">Reinado de D. Manoel; de 1500 +a 1521</a></li> + + + + <li><a href="#ch1b">Reinado de D. João +III; de 1521 a 1557</a></li> + + + + <li><a href="#ch1c">Regencia da Rainha D. +Catharina d'Austria; de 1557 a +1562</a></li> + + + + <li><a href="#ch1d">Regencia do Cardeal D. +Henrique; de 1562 a +1568</a></li> + + + + <li><a href="#ch1e">Reinado de D. +Sebastião; de 1568 a 1578</a></li> + + + + <li><a href="#ch1f">Reinado do Cardeal D. Henrique +e Interregno; de 1578 +a 1580</a></li> + + + + <li><a href="#ch1g">Reinado de Philippe II de +Hespanha; de 1580 a +1598</a></li> + + + + <li><a href="#ch1h">Reinado de Philippe III de +Hespanha; desde +1598</a></li> + + + +</ul> + + + +<p><a href="#ch2"><b>TITULO II.--SECULO XVII.</b></a></p> + + + +<ul> + + + + <li><a href="#ch2a">Reinado de Philippe III de +Hespanha; até +1621</a></li> + + + + <li><a href="#ch2b">Reinado de Philippe IV de +Hespanha; de 1621 a +1640</a></li> + + + + <li><a href="#ch2c">Reinado de D. João +IV; de 1640 a 1656</a></li> + + + + <li><a href="#ch2d">Regencia da Rainha D. Luiza de +Gusmão e Reinado de D. +Affonso VI; de 1656 a 1667</a></li> + + + + <li><a href="#ch2e">Regencia do Infante D. Pedro; +de 1667 a 1685</a></li> + + + + <li><a href="#ch2f">Reinado de D. Pedro II; desde +1683</a></li> + + + +</ul> + + + +<p><a href="#ch3"><b>TITULO III.--SECULO XVIII.</b></a></p> + + + +<ul> + + + + <li><a href="#ch3a">Reinado de D. Pedro II; +até 1706</a></li> + + + + <li><a href="#ch3b">Reinado de D. João +V; de 1706 a 1750</a></li> + + + + <li><a href="#ch3c">Reinado de D. José +I; de 1750 a 1777</a></li> + + + + <li><a href="#ch3d">Reinado de D. Maria I; de 1777 +a 1792</a></li> + + + + <li><a href="#ch3e">Regencia do Principe D. +João desde 1792</a></li> + + + +</ul> + + + +<p><a href="#ch4"><b>TITULO IV.--SECULO XIX.</b></a></p> + + + +<p><a href="#ch5">CAPITULO I. 1800--1822.</a></p> + + + +<ul> + + + + <li><a href="#ch5a">Regencia do Principe D. +João; até 1816</a></li> + + + + <li><a href="#ch5b">Reinado de D. João +VI; de 1816 a 1821</a></li> + + + + <li><a href="#ch5c">Regencia do Principe D. Pedro +(no Brazil); de 1821 a +1822</a></li> + + + +</ul> + + + +<p><a href="#ch6">CAPITULO II. 1822--1831.</a></p> + + + +<ul> + + + + <li><a href="#ch6a">Reinado do 1.º +Imperador o Sr. D. Pedro +I</a></li> + + + +</ul> + + + +<p><a href="#ch7">CAPITULO III. 1831--1840.</a></p> + + + +<ul> + + + + <li><a href="#ch7a">Regencia pela minoridade do +2.º +Imperador</a></li> + + + +</ul> + + + +<p><a href="#ch8">CAPITULO IV. 1840--1849.</a></p> + + + +<ul> + + + + <li><a href="#ch8a">Reinado do 2.º +Imperador o Sr. D. Pedro +II</a></li> + + + +</ul> + + + +<p><b>APPENDICE.</b></p> + + + +<ul> + + + + <li><a href="#ch9a">Situação, +&c., do Brazil</a></li> + + + + <li><a href="#ch9b">Limites</a></li> + + + + <li><a href="#ch9c">Linha divisoria</a></li> + + + + <li><a href="#ch9d">Riqueza natural</a></li> + + + + <li><a href="#ch9e">População</a></li> + + + + <li><a href="#ch9f">Religião</a></li> + + + + <li><a href="#ch9g">Divisão +Administrativa</a></li> + + + + <li><a href="#ch9h">Divisão +Ecclesiastica</a></li> + + + + <li><a href="#ch9i">Organisação +politica</a></li> + + + + <li><a href="#ch9j">Organisação +Judiciaria</a></li> + + + + <li><a href="#ch9k">Tranquillidade publica</a></li> + + + + <li><a href="#ch9l">Moral</a></li> + + + + <li><a href="#ch9m">Instrucção +publica</a></li> + + + + <li><a href="#ch9n">Illustração</a></li> + + + + <li><a href="#ch9o">Industria</a></li> + + + + <li><a href="#ch9p">Relações +externas</a></li> + + + + <li><a href="#ch9q">Necessidades do Paiz</a></li> + + + +</ul> + + + +<hr /> +<a name="ch00"></a> +<h1>A MEU PAI.</h1> + + + +<p>Dignai-vos acceitar a exigua offerta que em pública +e solemne prova de +minha eterna e sincera gratidão ouso fazer-vos.</p> + + + +<p>Tudo vos devo, a vida, a educação, a +posição que ora tenho na +sociedade.</p> + + + +<p>E vós não ignoraes os sacrificios que +essa educação vos tem custado.</p> + + + +<p>Acceitando a insignificante offerenda que vos faço, +permitti que com o +vosso nome eu a ampare e resguarde, assim como vós me +amparastes desde a +infancia até a actualidade.</p> + + + +<p>A producção que vêdes +constitue as primicias da seára que com tanto zelo +fizestes cultivar. Mais um titulo para vos ser ella exclusivamente +offerecida.</p> + + + +<p>Não possuo cabedaes, além da +educação que me déstes; della procurei +colher um fructo que vos offertasse em signal de meu reconhecimento.</p> + + + +<p>Eil-o; acceitai-o e protegei-o, que eu serei feliz.</p> + + + +<p>Respeitoso beija as vossas mãos</p> + + + +<p>Vosso filho e amigo</p> + + + +<p>Dr. <i>Agostinho Marques Perdigão Malheiro</i>.</p> + + + +<a name="ch01"></a> +<h1>AO LEITOR.</h1> + + + +<p>Em o <i>Jornal do Commercio</i> de 13 do +fevereiro do anno proximo +passado, fizemos publicar o seguinte:</p> + + + +<div class="quote"> +<p>ATLAS CHRONOLOGICO DOS FACTOS MAIS NOTAVEIS DA HISTORIA DO +BRASIL DESDE 1500 ATÉ 1848, +INCLUSIVE.</p> + + + +<p>«Tal he a primeira producção +que pretendemos dar ao prélo... A obra +constará de sete mappas:--No 1.º se +acharão os factos mais +memoraveis da historia do Brazil no seculo dezeseis; no 2.º, +os +do seculo dezesete; no 3.º, os do seculo dezoito. Os quatro +ultimos darão os do seculo dezenove na ordem seguinte:--o +1.º, +desde 1800 a 1822; o 2.º, desde 1822 a 1831; o 3.º, +desde 1831 a 1840; e o 4.º, desde 1840 a 1848.</p> + + + +<p>«Foi este o systema mais claro e succinto que +excogitámos de escrever a +historia com algum proveito para os que a lerem; porque d'este modo o +leitor terá diante dos olhos em um só quadro a +narração historica dos +factos que mais avultam e sobresahem, e que não devem ser +ignorados de +Brasileiro algum, sobretudo d'aquelles que se consagrão +á vida litteraria, +politica, &c.</p> + + + +<p>«A base do nosso methodo de escrever he, como se vê, +a <i>divisão +chronologica</i> em seculos. Assim dividimos a historia do Brazil +em quatro +seculos:--A dos tres primeiros, isto he, dos seculos dezeseis, +dezesete, e +dezoito, pôde ser escripta cada uma em um só +mappa; de maneira que no +1.º mappa o leitor tem debaixo dos olhos o que de mais notavel +se passou no seculo dezeseis; do mesmo modo no 2.º mappa o do +seculo dezesete; e no 3.º, o do seculo dezoito.</p> + + + +<p>«Mas para o seculo dezenove, não sendo possivel +escrever todos os factos +em um só mappa, foi indispensavel fazer divisões. +Para esta subdivisão +tomámos por base as <i>épocas historicas</i>. +Assim, comprehendendo os +quatro ultimos mappas a historia desde 1800 a 1848, o 1.º +começa +em 1800 e termina em meiados de 1822; o 2.º começa +em 7 de +Setembro de 1822 (época gloriosa da +proclamação da Independencia, em +virtude da qual o Brasil se constituio Imperio livre sob o governo de +seu +magnanimo fundador o Senhor D. Pedro I), e termina em 7 de Abril de +1831 +(época em que teve lugar a abdicação, +findando d'este modo o governo do +primeiro Imperador); o 3.º começa no mesmo dia 7 de +Abril (época +em que pela abdicação ficou o Brasil sob o +governo de uma regencia em nome +do segundo Imperador), e termina em 23 de Julho de 1840 +(época em que pela +proclamação da maioridade do mesmo Senhor cessou +a Regencia); o +4.º, finalmente, começa em 23 de Julho de 1840 +(época em que +começou o governo do segundo Imperador o Senhor D. Pedro +II), e termina em +31 de Dezembro de 1848.</p> + + + +<p>«Por esta exposição vê-se +quanto tempo e trabalho deve necessariamente +ter consumido uma obra d'estas. E com effeito, não nos temos +poupado a +fadigas para apresentar ao publico uma producção +a mais exacta possivel, já +a respeito dos factos em si, já a respeito das causas que +lhes derão +origem, e resultados dos mesmos factos, já finalmente a +respeito da época e +lugar em que se elles passarão; porque não he +bastante saber que tal facto +existio: he preciso, não só remontar á +philosophia da historia, isto he, +indagar a razão da existencia do facto, suas causas, sua +ligação com os que +o precederam, bem como suas consequencias; mas tambem classifical-o +competentemente em relação ao tempo e ao lugar, +isto he, torna-se +indispensavel o auxilio da Geographia e da Chronologia, duas +irmãs gemeas e +inseparaveis da Historia.</p> + + + +<p>«Sem estas condições, inutil he o +conhecimento abstracto dos factos +historicos por mais importantes e interessantes que sejão; +bem como sem a +Philosophia e Critica, he caminhar com pouca segurança na +investigação das +verdades historicas.</p> + + + +<p>«Temos empregado todas as nossas forças para +satisfazer o melhor +possivel a esta nossa intenção; e para isso +havemos revolvido as obras dos +melhores historiadores, as collecções de leis, os +documentos authenticos, +os roteiros e viagens, os periodicos litterarios, a Arte de verificar +as +datas; emfim, um sem numero de obras, sem as quaes impossivel he dar um +só +passo em hum trabalho d'esta natureza. E quem se tiver dado ao estudo +da +historia concordará em tudo quanto hemos dito.</p> + + + +<p>«Por conseguinte, si, apezar disto, o nosso trabalho contiver +defeitos e +lacunas (o que irremediavelmente ha de acontecer, pois que +não ha cousa +alguma, por mais bem elaborada, que sáia perfeita das +mãos de um ente por +sua natureza imperfeito, qual o homem), desde já declaramos +sujeitar-nos ás +observações da <i>boa critica</i>, +d'essa que procura esclarecer os factos, +apresentar a verdade, e não obscurecel-os para d'est'arte +trazer a confusão +e illudir as gerações futuras; e protestamos +tomal-as na devida +consideração, ou para +correcção nossa e melhor +instrucção, ou para as +combatermos, caso tenhamos fundamento em persistir na +opinião por nós +seguida na mencionada obra.</p> + + + +<p>«Nós não nos contentamos unicamente com +exarar os factos; damos tambem a +razão de sua existencia, isto he, as causas que os +originárão, e bem assim +os seus resultados ou consequencias. De espaço em +espaço, em breves +parenthesis, damos noticia do estado do Brazil em differentes +épocas, para +assim ir o leitor seguindo a marcha progressiva ou regressiva do paiz +nos +differentes tempos. Alêm d'isso, offerecemos tambem entre +parenthesis +muitas observações, quer a respeito dos factos, +quer das pessoas que +n'elles representárão, quer das suas causas e +tempo em que se passárão; +porque, havendo muita cousa controversa, indispensavel era dar o +fundamento +do nosso dizer. Por fim terminará a obra com um mui breve e +succinto esboço +do estado do Brazil ao findar o anno de 1848.</p> + + + +<p>«Eis em poucas palavras o plano da obra que pela primeira vez +tencionamos submetter ao juizo publico; a qual, pela +exposição que temos +feito, se conhece não ser huma <i>Historia Geral do +Brazil</i> (para o que +serião necessarios muitos volumes), mas tão +sómente dos factos mais +notaveis d'ella nas épocas indicadas, desde o seu +descobrimento.»</p> + + + +</div> + + + +<p>A obra que actualmente temos a honra de dar á luz +publica he <i>no +fundo</i> a mesma que haviamos promettido no annuncio acima +transcripto, si +bem que modificada no <i>titulo</i> e na <i>fórma</i>.</p> + + + +<p>O systema que haviamos adoptado para sua +publicação era imitativo do de +Le Sage, cuja superior vantagem não soffre +contestação para aquelles que +preferem a solidez e a realidade á superficialidade +acobertada com pomposas +expressões.</p> + + + +<p>Já grande parte se achava typographicamente +composta, quando +circumstancias imprevistas, sobretudo a de não se achar em +uma só parte +d'esta grande Capital o papel cartonado proprio para semelhante genero +de +impressão, e não querermos demorar +indefinidamente a publicação promettida, +á espera que viesse da Europa o papel que se mandasse +buscar, fizerão-nos +de accordo com o Impressor destruir tudo quanto estava feito, e dar <i>nova +fórma e novo titulo</i>.</p> + + + +<p>Eis porque fizemos publicar a obra na fórma +ordinaria, desprezando a dos +mappas (que haviamos promettido), e substituimos o titulo pelo que ora +tem +de <i>Indice Chronologico, etc</i>.</p> + + + +<p>Sirvão portanto estas +considerações de publica +satisfação de huma falta +absolutamente involuntaria, que muito nos têm magoado e +desgostado, como he +facil comprehender.</p> + + + +<p>Em compensação encontrará o +leitor, alêm do promettido, mais a historia +do anno passado (1849), e o estado do Brazil ao findar esse anno e +entrar o +em que nos achamos de 1850.</p> + + + +<p>E, como graves factos se hão passado até +o meiado do corrente anno (data +em que isto escrevemos), para satisfazermos a curiosidade do leitor, +que +quizer hir acompanhando a marcha successiva dos acontecimentos notaveis +de +nossa Historia Contemporanea, aqui os apresentamos em mui succinta +exposição.</p> + + + +<p>Nas relações internas:--A sentidissima +morte do Principe Imperial o +Senhor D. Pedro Affonso (10 de Janeiro); a +pacificação de Pernambuco pela +dissolução das forças insurgentes +acoutadas nas mattas d'Agua-Preta; as +questões suscitadas em consequencia de recusarem alguns +Chefes acceitar as +amnistias condicionaes que lhes forão concedidas; a peste +por quasí todo o +littoral do Brazil, denominada <i>febre amarella</i>, e +que fez milhares de +victimas; o procedimento do Barão de Jacuhy e sua briosa +pertinacia em +continuar no seu intento contra a Banda Oriental, até que se +dissolverão +voluntariamente suas forças, e elle se apresentou em +Porto-Alegre; a +sancção e publicação do +Codigo Commercial Brazileiro, que será dado á +execução de 1.º de Janeiro do anno +proximo futuro em diante; a +agitação dos espiritos por causa dos factos +praticados pelo Cruzeiro +Inglez, as discussões pela imprensa e na tribuna parlamentar +a que elles +tem dado lugar (Junho e Julho): eis os factos que mais +avultão.</p> + + + +<p>Nas relações externas:--As +complicações em que nos achamos no Sul do +Imperio pelos factos do Barão de Jacuhy, haver este +transposto o Quarahim, +e em territorio estrangeiro praticado actos de guerra; as +reclamações ao +Gabinete de Paris e ao Governador de Cayenna sobre o apparecimento de +navios e forças Francezas no lago Amapá no N. do +Imperio; as repetidas +affrontas e insultos que temos soffrido da Grã-Bretanha, a +qual tem +continuado a abusar com o seu despotismo e insolencia proverbiaes, +desprezando todos os principios sagrados do Direito Internacional, +escarnecido do nosso pavilhão, affrontado todos os Poderes +do Estado, e +violado impunemente os nossos direitos soberanos, a honra e dignidade +nacional: eis os factos mais salientes.</p> + + + +<p>A maior questão da actualidade é por sem +duvida a de nossas relações com +a Inglaterra.</p> + + + +<p>O Cruzeiro Inglez acha-se autorizado pelo Governo da +Grã-Bretanha, a +cuja testa se acha Lord Palmerston, para percorrer os nossos mares +territoriaes, entrar nos nossos portos, e em qualquer parte que seja +proceder á <i>vizita e busca</i> nos navios +mercantes que lhe parecer, +<i>aprizional-os</i>, e remettel-os para Santa Helena, ou <i>incendiar</i> +ou <i>metter a pique</i>!</p> + + + +<p>Elle o tem feito; e mais ainda!</p> + + + +<p>E isto em contravenção de todos os +principios, em contravenção da +Convenção de 1826, em +contravenção mesmo do famoso bill de 8 de Agosto +de +1845!</p> + + + +<p>E qual a causa? A continuação do trafico +de Africanos, existir em vigor +o Art. 1.º do Tratado de 23 de Novembro de 1826, e se ter o +Governo do Brazil, desde que cessarão em 1845 os Tratados +que estabelecião +o modo de realisar esse solemne compromisso, recusado sempre chegar a +hum +accordo com a Grã-Bretanha a tal respeito.</p> + + + +<p>Huma duzia de traficantes (que pela maior parte não +são Brazileiros), +insaciaveis de ouro, embora seja elle adquirido pelos meios mais +infames, +vís e criminosos, tem-nos feito passar pelos vexames que ora +nos opprimem, +pela vergonha e ignominia de nos vermos assim atrozmente injuriados e +offendidos no que ha de mais melindroso, em quanto elles +folgão e riem no +meio do lodaçal de suas riquezas adquiridas pelo <i>trafico</i>, +pela +destruição da liberdade dos Africanos, pela venda +de carne humana! E o que +mais enche de indignação he que muitos d'elles +são cobertos de +condecorações e honras (que só +devião brilhar em peitos respeitadores das +leis naturaes, divinas e humanas); e rodeados de prestigio na sociedade +pela influencia do seu ouro!</p> + + + +<p>Basta. Ao Governo cumpre fazer-nos sahir da gravissima +situação em que +nos achamos, do modo que mais condigno fôr com os nossos +interesses, +direitos e honra.</p> + + + +<p>Rio de Janeiro, 14 de Julho de 1850.</p> + + + +<p>O Autor.</p> + + + +<h2>TITULO I.</h2> + + + +<a name="ch1"></a> +<h3>SECULO XVI.</h3> + + + +<a name="ch1a"></a> +<h4>1500.</h4> + + + + +<p>Reinando em Portugal El-Rei <span class="smallcaps">D. +Manoel</span>, +parte de Lisboa huma esquadrilha sob o commando de <i>Pedro +Alvares +Cabral</i> com destino á India, cujo caminho pelo Cabo +Tormentorio ou de +Boa-Esperança havia sido descoberto por Bartholomeo Dias e +Vasco da Gama; +porém obrigado a descambar para O. afim de desviar-se das +cóstas, é +acossado pelos ventos e impellido cada vez mais para este rumo. +Entregue +assim á mercê da Providencia, avista elle terras +da America Meridional em +<i>22 de Abril</i>. (Muito divergem os Historiadores sobre +o dia do +descobrimento do Brasil; porém a opinião mais +geralmente seguida, ao menos +até certa época, foi a de <i>Ozorio</i>, +<i>Barros</i>, e outros que +assignalão a este acontecimento o dia <i>24 de Abril</i>, +fundados talvez +na relação de um piloto que vinha nesta +expedição e por isso testemunha +ocular. Nós porém assignalamos o dia 22, fundados +na carta que a D. Manoel +escreveo <i>Pedro Vaz de Caminha</i>, que vinha na +expedição como Escrivão +da armada, testemunha ocular, e digna de todo o conceito; carta que se +vê +publicada pelo P. Ayres do Cazal na sua insigne--<i>Corographia +Brasilica</i>,--e mais accuradamente nas--<i>Noticias +Ultramarinas Tom. +4.º</i> Além disto temos em nosso apoio as +autoridades mui +valiosas do mesmo <i>Cazal, de Varnaghen, de Fr. Francisco de S. +Luiz</i> +no seu <i>Indice Chronologico</i> e de outros Escriptores. +Accresce que os +proprios Autores que opinão ter sido o dia 24, nos +ministrão armas para nos +confirmarmos nesta nossa opinião: porque o mencionado piloto +assevera ter +sido o descobrimento na <i>Quarta feira</i> do oitavario +de Pascoa, que he +exactamente o mesmo que diz Caminha na carta citada. Estando pois +concordes +huma e outra testemunha ocular no dia da semana, alguma se engana no +dia do +mez. E com effeito, tendo sido neste anno o dia de Pascoa em <i>19 +de +Abril</i> (V. <i>Taboa Chronologica</i> da <i>Arte +de verificar as +datas</i>), <i>Quarta feira</i> do oitavario +não podia ser senão 22, como +com toda a razão diz Caminha, e não 24 como menos +exactamente affirma o +piloto referido).--Ao primeiro monte avistado +dérão o nome de <i>monte +Pascoal</i> e á terra <i>Terra da Vera Cruz</i> +(que depois chamárão <i>de +Santa Cruz</i>, e mais tarde <i>Brasil</i>).--Desembarca +<i>Pedro Alvares +Cabral</i> no lugar denominado mais tarde <i>Porto seguro</i>. +No dia +<i>1.º de Maio</i> planta a Cruz com o +padrão das Armas de +Portugal em signal de solemne posse do paiz para a Corôa +Portugueza. Depois +de despachar para Lisboa o Capitão Gaspar de Lemos a dar +parte a El-Rei da +inesperada e felicissima descoberta, faz-se de véla para o +Cabo de +Boa-Esperança e India seu primeiro destino.</p> + + + +<h4>1501.</h4> + + + +<p>Ao mando de <i>Gonçalo Coelho</i> +chega ao <i>Brasil</i> a primeira +expedição Portugueza para explorar as costas das +novas terras. (N'esta +expedição, segundo alguns escriptores, veio +tambem o celebre <i>Americo +Vespucio</i> em serviço de Portugal. E outros, como +seja <i>Fr. Francisco +de S. Luiz</i> no seu <i>Indice Chronologico</i>, +dão a entender que esta +expedição foi commandada por Americo, o qual +não só percorreo toda a costa +do <i>Brasil</i> até o Prata, como chegou +á Patagonia: porém, a darmos +crédito ás cartas do próprio Americo, +lá temos nas <i>Noticias +Ultramarinas, Tom. 2.º</i>, a sua 1.ª carta, da +qual +se deprehende que não era elle o Capitão da +expedição).</p> + + + +<h4>1503.</h4> + + + +<p>Segunda expedição é enviada +ao Brasil ás ordens de <i>Christovão +Jacques</i>. (Alguns Escriptores dizem ter sido ás +ordens de <i>Fernão de +Noronha</i>, primeiro Donatario da ilha do mesmo nome). Descobre +elle a +Bahia de <i>Todos os Santos</i> (segundo <i>Fr. +Francisco de S. Luiz</i> na +obra já citada, foi esta bahia descoberta por <i>Americo +Vespucio</i> em +huma segunda expedição que fez por mandado do +Rei); e funda huma Colonia em +<i>Vera-Cruz</i>. Depois desta +expedição começa a ser levado +á Europa o páo +<i>brasil</i>, donde veio a +denominação que ora tem o paiz. (Segundo alguns +Escriptores, <i>Christovão Jacques</i> +explorando as costas foi plantando +padrões nos lugares mais apropriados; porém, +segundo outros, cabe este +feito a Martim Affonso de Sousa).</p> + + + +<h4>1510.</h4> + + + +<p>Dá á costa na Bahia de <i>Todos +os Santos</i> hum navio Portuguez. A +maior parte da tripulação e passageiros morreo ou +no naufragio ou ás mãos +dos Indigenas. <i>Diogo Alvares Corrêa</i> +porém consegue a sua salvação e +até fazer-se respeitado e amado desses póvos +anthropophagos por ter podido +salvar comsigo huma arma de fogo, com a qual ajudou-os a debellar e +vencer +os seus formidaveis inimigos. Denominarão-o por isso o <i>Caramurú</i>, +que +quer dizer o <i>homem de fogo</i>.</p> + + + +<h4>1515.</h4> + + + +<p><i>João Dias Solis</i> ao +serviço da Hespanha percorre a costa do +<i>Brasil</i> desde o Cabo de Santo Agostinho +até o Rio da Prata, ao qual +deo o seu nome (e, posto que este rio tivesse perdido o nome de Solis +para +receber o de Prata, comtudo ainda hoje ha o rio de Solis que nelle +desagua, +e que conserva immortal o nome deste illustre navegante). N'esta viagem +descobre elle a Bahia de <i>Nictherohy</i>, depois chamada +do <i>Rio de +Janeiro</i>. (É grave questão quem tenha +sido o descobridor desta Bahia, si +<i>Americo Vespucio</i>, si <i>Gonçalo +Coelho</i>, si <i>Solis</i>, si +<i>Magalhães</i> e <i>Falleiro</i>, +ou si <i>Martim Affonso</i>. Alguns AA. +até querem que tivesse sido em 1501. (V. Pizarro, <i>Memorias +do Rio de +Janeiro</i>; e Varnaghen, <i>Notas ao Roteiro de Pero Lopes</i>)). +Esta +expedição deo lugar a questões de +limites e a reclamações entre Portugal e +Hespanha, sobretudo á vista da celebre decisão do +Papa Alexandre +6.º. O Imperador Carlos 5.º, então Rei de +Hespanha, +attendeo a todas as reclamações, e até +punio os implicados em semelhante +expedição como quebrantadores da paz entre os +dous Reinos.</p> + + + +<h4>1519.</h4> + + + +<p>Entrão na Bahia do Rio de Janeiro os celebres +Portuguezes <i>Fernando de +Magalhães</i>, e <i>Ruy Falleiro</i>, +então ao serviço de Hespanha, os +quaes se destinavão a fazer o primeiro giro á +roda do globo (13 de +Dezembro). Partem ao depois para o seu destino; e Magalhães +dá o seu nome +ao estreito que communica o Atlantico ao Pacifico no S. da America +entre a +Patagonia e Terra-do-Fogo.</p> + + + +<h4>1521.</h4> + + + +<p>Morre El-Rei D. Manoel (13 de Dezembro).--Durante o seu +reinado toda a +attenção estava absorvida pela India, cujas +riquezas já de muito erão +conhecidas na Europa; de sorte que, não merecendo cuidado o +Brasil, apenas +se enviarão a povoar e colonisar o paiz degradados, +criminosos, prostitutas +emfim a escória da sociedade. Taes forão por +muito tempo os primeiros +colonos!</p> + + + +<a name="ch1b"></a> +<h4>1521.</h4> + + + +<p>Sóbe ao throno D. <span class="smallcaps">João +III</span>, filho e +successor de D. Manoel.--Melhor informado que seu Pae, e por isso muito +esperando das novas terras na America, leva este Rei sua +attenção para as +colonias em geral, e muito especialmente para o Brasil.</p> + + + +<h4>1526.</h4> + + + +<p>Para obstar a qualquer tentativa dos estrangeiros no Brasil +parte huma +esquadra ao mando de <i>Christovão Jacques</i>. +Com effeito, chegando este +á Bahia de Todos os Santos encontra e mette a pique dous +navios Francezes +que poucos dias antes ahi havião entrado. Parte depois para +o Norte, e +funda nas costas de Pernambuco a primeira feitoria Portugueza, +denominada +<i>Itamaracá</i>.</p> + + + +<h4>1530.</h4> + + + +<p>Tendo-se os Francezes estabelecido na feitoria de +Itamaracá, por elles +occupada, envia El-Rei <i>Duarte Coelho Pereira</i> que os +expulsa, e +transfere a feitoria para <i>Iguaraçú</i>, +poucas milhas distante da +primeira.--Tendo-se tambem sabido que os Hespanhóes se +achavão +estabelecidos no Rio da Prata, e temendo El-Rei que elles se quizessem +estender pelas terras do Brasil envia uma armada ás ordens +de <i>Martim +Affonso de Sousa</i> (3 de Dezembro).</p> + + + +<h4>1531.</h4> + + + +<p>El-Rei divide o Brasil em Capitanias hereditarias; as quaes +distribue +por pessoas benemeritas por seus serviços com a +obrigação de povoal-as afim +de obstar ás invasões estrangeiras, e aos ataques +dos Indigenas.--Martim +Affonso de Sousa, primeiro Donatario, chega a Pernambuco e dirige-se +para o +sul: entra na Bahia de Nicterohy ou Rio de Janeiro a 30 de Abril (posto +que +alguns Escriptores dizem ter sido ao 1.º de Janeiro de 1532, e +outros ao 1.º de Janeiro de 1531. Nós +porém seguimos neste ponto +o <i>Diario da Navegação</i> de Pero +Lopes, onde se pode ver a observação +que faz Varnaghen a esta questão): corre ao S., e chega +até o Rio da Prata. +Não encontrando pela costa estabelecimento algum Hespanhol +ou estrangeiro, +faz-se de volta á sua Capitania.</p> + + + +<h4>1532.</h4> + + + +<p>Entra Martim Affonso na Bahia de <i>S. Vicente</i> +na Capitania do mesmo +nome (22 de Janeiro), e ahi funda elle a primeira +povoação de alguma +importancia no Brasil, que denomina <i>S. Vicente</i>. +(Outros escriptores +dizem ter Martim Affonso entrado no porto de <i>Santos</i> +e depois disto +fundado ao S. desta Bahia a colonia de S. Vicente. Porém +abandonando esta +opinião por menos bem fundada, seguimos inteiramente a +relação de Pero +Lopes, já tantas vezes citada). Brilhante foi a sua +administração. Por meio +de <i>João Ramalho</i> conseguio a +alliança do celebre Indio +<i>Tebyriçá</i>; e em paz com os +Indigenas, só cuidou na prosperidade da +colonia, introduzio as criações muares, a canna +de assucar, etc.</p> + + + +<h4>1534.</h4> + + + +<p><i>Pero Lopes de Sousa</i>, irmão de +Martim Affonso, tendo obtido a +Capitania de <i>S. Amaro</i> encravada na de S. Vicente, +consegue fundar +huma pequena colonia, não sem bastante resistencia dos +Indigenas.--A +<i>Pero de Goes</i> coube a Capitania da <i>Parahyba +do Sul</i>; e tendo +della tomado posse neste anno, vê-se obrigado a abandonal-a +dentro em pouco +tempo.--A <i>Vasco Fernandes Coutinho</i> coube a +Capitania do <i>Espirito +Santo</i>: consegue estabelecer-se nas +immediações do lugar onde +desembarcou Cabral, e aldêar os Indios Tupininquins ahi +existentes.--A +<i>Jorge de Figueiredo Corrêa</i> foi dada a +Capitania dos <i>Ilhéos</i>; e +a <i>Pero do Campo Toyrinho</i> a de <i>Porto-Seguro</i>. +Ambas estas +Capitanias florecerão dentro em pouco tempo, chegando +até a de Porto-Seguro +a exportar grande quantidade de assucar.</p> + + + +<h4>1535.</h4> + + + +<p>Tendo sido dada a <i>Duarte Coelho Pereira</i> a +Capitania de +<i>Pernambuco</i>, chega elle ao seu destino, trazendo em +sua companhia +grande numero de familias: e depois de expellir os temiveis +Cahetés, lança +os fundamentos da cidade de Olinda. Na expulsão dos +Cahetés muito o +auxiliárão os Indios <i>Tabyra</i>, <i>Hagybe</i> +(braço de ferro), e +<i>Piragyhe</i> (braço de peixe).--Ao celebre +historiador <i>João de +Barros</i> fôra dada a Capitania do <i>Maranhão</i>. +Porém não lhe sendo +possivel tratar immediatamente de povoar e colonisar a Capitania, +cedeo-a +em favor de <i>Luiz de Mello</i>, ao qual succede a +desgraça de naufragar +nos baixios do Maranhão.--A <i>Francisco Pereira +Coutinho</i> coube a +Capitania da <i>Bahia de Todos os Santos</i>; e chega a +seu destino neste +anno. (Afóra as 9 capitanias que temos mencionado, devemos +ás +minuciosissimas investigações do Sr. Varnaghen o +conhecimento de mais 3, +cujos Donatarios foram Ayres da Cunha, Fernão Alvares de +Almada, e Antonio +Cardoso de Barros, perfazendo assim o numero de 12, em que diz Barros +fôra +dividido o Brasil).</p> + + + +<h4>1535--1548.</h4> + + + +<p>Tendo sido mal succedido Luiz de Mello na Capitania do +Maranhão, é João +de Barros reintegrado nos seus direitos a essa Capitania. Faz elle uma +sociedade com <i>Fernão Alvares de Andrade</i>, +e <i>Ayres da Cunha</i> +para a colonisação da Capitania. Sahe com effeito +huma expedição ao mando +de Ayres da Cunha; porém teve nos mesmos baixios do +Maranhão o mesmo +desastroso fim de Luiz de Mello (1536).--Tambem na sua Capitania he +infeliz +Francisco Pereira Coutinho, mas por culpa sua. E com effeito, em lugar +de +tratar brandamente os Indios e de procurar sua amizade e +alliança, fez-lhes +guerra de exterminio, chegando até a apossar-se dolosamente +de Diogo +Alvares Corrêa o <i>Caramurú</i>. A +famosa <i>Paraguassú</i>, esposa de +Caramurú, excita os Tupinambás á +vingança, e obriga Coutinho a fugir. Feita +porém a paz, voltava este á Bahia, quando huma +furiosa tempestade o fez +naufragar em Itaparíca (1548). Os que escaparão +do naufragio morrerão ás +mãos dos Indigenas; entre elles o proprio Coutinho: +só forão poupados +Caramurú, e sua comitiva.</p> + + + +<h4>1549.</h4> + + + +<p>Tendo sido dada aos Donatarios illimitada +jurisdição civil e criminal +sobre as suas respectivas Capitanias, concedendo-se-lhes até +impor a pena +de morte, mesmo ás pessoas de mór qualidade; e +provindo d'ahi innumeros +males porque o abuso dos Senhores Donatarios ia-se tornando +intoleravel, a +anarchia reinava, os colonos erão opprimidos, os Indios +barbaramente +perseguidos; indispensavel era que o Brasil fosse governado por huma +autoridade superior que servisse de centro commum, á que +todos obedecessem. +Assim creou El-Rei D. João III, melhor instruido pela +propria experiencia, +o cargo de <i>Governador Geral do Brasil</i>, que confiou +a <i>Thomé de +Sousa</i>. A 28 de Março chega este á +Bahia, trazendo em sua companhia os +primeiros Jezuitas que pizarão no Brasil. Coadjuvado por +Caramurú consegue +estabelecer-se na Bahia, e funda a cidade de <i>S. Salvador</i>, +séde do +Governo.</p> + + + +<h4>1552.</h4> + + + +<p>Chega á Bahia o primeiro Bispo do Brasil <i>D. +Pedro Fernandes +Sardinha</i>; o qual consegue apaziguar por algum tempo as +desavenças entre +o Clero e os Jezuitas.</p> + + + +<h4>1553.</h4> + + + +<p>Thomé de Sousa retira-se e he substituido no +Governo Geral por <i>Duarte +da Costa</i>. Com o novo Governador vierão alguns +Jezuitas, entre os quaes +o famoso <i>José Anchietta</i>, denominado o <i>Apostolo +do Novo Mundo</i>. +Já com Thomé de Sousa viera <i>Manoel da +Nobrega</i>. A estes dous Padres +he o Brasil devedor de muitos e mui relevantes serviços.</p> + + + +<h4>1554.</h4> + + + +<p>Reconhecendo o Governador Geral vistas ambiciosas nos +Jezuitas, +nega-lhes o seu apoio. Estes retirão-se para o Sul, e +fundão junto ás +planicies de Piratininga huma povoação, e o +Collegio de S. Paulo, donde +veio o nome á cidade e provincia hoje assim chamadas.</p> + + + +<h4>1555.</h4> + + + +<p>O desejo de conquista, e a ambição de +riquezas levão estrangeiros a +tentarem expedições á America. <i>Nicolau +Durand Villegaignon</i>, sob o +falso pretexto de fazer propagar o Calvinismo, protegido pelo Almirante +Gaspar de Coligny, chega com huma expedição +Franceza á bahia de Nictherohy, +e construe no centro della sobre huma pequena ilha hum forte que +denominou--<i>de Coligny</i>--(ou <i>Villegaignon</i>).</p> + + + +<h4>1557.</h4> + + + +<p>Morre El-Rei D. João III. (11 de Junho). Fica na +minoridade D. +Sebastião, neto e successor do Rei.</p> + + + +<a name="ch1c"></a> +<h4>1557.</h4> + + + +<p>He Regente do Reino a Rainha <i>Catharina d'Austria</i>.</p> + + + +<h4>1558.</h4> + + + +<p>Chega ao Brasil o Governador Geral <i>Mem de +Sá</i>.</p> + + + +<h4>1560.</h4> + + + +<p><i>Mem de Sá</i> expelle os Francezes +do forte--Coligny. Estes fogem +para o continente, onde se tornão mais fortes com o auxilio +dos +Tamoios.--Visita o Governador a Capitania de S. Vicente, e deixa a sua +prosperidade confiada aos PP. Manoel da Nobrega, e José +Anchietta, +ordenando ao mesmo tempo que se transferisse para S. Paulo o +estabelecimento de Santo André.--Vê-se Mem de +Sá obrigado a voltar a S. +Salvador para reprimir os attaques dos Aymorés que +incommodavão e assolavão +as Capitanias dos Ilheos e Porto-Seguro: com effeito elle os derrota.</p> + + + +<a name="ch1d"></a> +<h4>1562.</h4> + + + +<p>A Rainha entrega a Regencia ao Cardeal <i>D. Henrique</i>.</p> + + + +<h4>1564.</h4> + + + +<p>Os <i>Tamoyos</i>, senhores de todo o territorio +entre Rio de Janeiro e +S. Vicente, formão com outros Indios huma temivel liga +contra os +Portuguezes e dirigem-se ousadamente a attacar a nova +povoação de S. Paulo. +Porém os Jezuitas ajudados pelo celebre Indio <i>Tebyriçá</i> +(depois do +baptismo <i>Martim Affonso</i>) salvão-a e +repellem os Indigenas.--Tambem a +Capitania do Espirito Santo era muito incommodada pelos Indios; e +já havia +perecido Fernão de Sá filho do Governador, +mandado por seu Pai a debellar +os selvagens.--Continuando cada vez mais terrivel a guerra feita pelos +Indios, os PP. Manoel da Nobrega e José Anchietta, depois de +passarem +milhares de perigos obtem a paz dos Tamoyos (foi por esta +occasião que José +Anchietta compoz em latim e reteve de memoria o celebre poema da +<i>Virgem</i>).--Chega á Bahia <i>Estacio +de Sá</i>, sobrinho do +Governador, enviado pela Côrte a expulsar definitivamente os +Francezes.</p> + + + +<h4>1565--1567.</h4> + + + +<p>Em Março de 1565 desembarca Estacio de +Sá junto ao monte +<i>Pão-d'Assucar</i> no Rio de Janeiro. Depois +de longa resistencia dos +Francezes, ajudado pelo Governador seu Tio, pelos PP. Nobrega e +Anchietta, +e pelo Indio <i>Ararigboia</i>, consegue expellir +definitivamente os +invasores depois de lhes tomar o forte <i>Uraçumiri</i> +(1567): porém não +poude colher os louros da victoria por expirar poucos dias depois, de +huma +gloriosa ferida que recebera.--Os Francezes sahindo do Rio de Janeiro +tentão apossar-se de Pernambuco; porém +são com denodo repellidos pelo +Governador da Capitania.</p> + + + +<a name="ch1e"></a> +<h4>1568.</h4> + + + +<p>He acclamado Rei <span class="smallcaps">D. +Sebastião</span> (20 de +Janeiro), tendo apenas 14 annos de idade.--<i>Salvador +Corrêa de Sá e +Benavides</i>, que muito se distinguira na expulsão +dos Francezes, é +nomeado Governador do Rio de Janeiro, e lança os fundamentos +da Cidade de +<i>S. Sebastião</i> na margem occidental da +bahia (é hoje a Capital do +Imperio), cujo plano já fôra traçado +por Mem de Sá.--Auxiliado pelo celebre +Ararigboia (ou <i>Martim Affonso de Sousa</i>, que +não devemos confundir +com Tebyriçá) repelle os Francezes e Tamoyos que +tinhão vindo attacal-o +inopinadamente para se vingarem da derrota antecedente.</p> + + + +<h4>1572.</h4> + + + +<p>Chega á Bahia o Governador Geral Luiz de Brito de +Almeida; porém não +logra muito tempo o governo geral do Brasil, porque a Metropole julgou +conveniente dividir o Brasil em 2 governos geraes. Assim as Capitanias +do +N. até o Rio Belmonte estavão sujeitas a hum +Governador Geral com sua séde +na Bahia; as do Sul desde esse Rio até o Prata +obedecião a outro Governador +Geral com sua séde no Rio de Janeiro: os Governadores +erão totalmente +independentes hum do outro. Luiz de Brito ficou com o governo do N.; e +o do +S. foi confiado ao Doutor Antonio Salema.--Por esta épocha +tem lugar a +grande emigração dos Tupinambás para o +centro do paiz, os quaes +provavelmente chegárão até o Amazonas.</p> + + + +<h4>1573.</h4> + + + +<p><i>Sebastião Fernandes Toyrinho</i> +sahe de Porto-Seguro; e subindo o +Rio Doce em busca de minas de metaes preciosos, descobre grande parte +do +territorio hoje occupado pela Provincia de Minas-Geraes.</p> + + + +<h4>1576.</h4> + + + +<p>He o Brasil de novo reduzido ao governo de hum só +Governador Geral com +sua séde na Bahia. He elle confiado a Luiz de Brito.</p> + + + +<a name="ch1f"></a> +<h4>1578.</h4> + + + +<p>Diogo Lourenço da Veiga vem substituir Luiz de +Brito no Governo +Geral.--Por ordem sua vai João Tavares estabelecer-se na +Parahyba do Norte +ou Itamaracá, que fôra abandonada pelo seu +primeiro Donatario.--Neste mesmo +anno El-Rei <span class="smallcaps">D. +Sebastião</span> querendo vingar os +revezes e affrontas dos Portuguezes em Africa, ávido de +gloria militar, +desejoso de combater os infieis, e mais que tudo incitado por +vís +aduladores e pelos Jezuitas, parte para Africa: onde perde a vida com a +flôr do exercito na sempre terrivel e memoravel batalha de +Alcaçarquivir (4 +de Agosto).--He acclamado Rei o Cardeal Infante <span class="smallcaps">D. +Henrique</span>.</p> + + + +<a name="ch1g"></a> +<h4>1580.</h4> + + + +<p>Depois de hum reinado de 16 mezes fallece o Cardeal Rei (31 de +Janeiro): +e deixa a corôa do Reino entregue a disputas entre varios +pretendentes. +Entre estes se distinguião D. Antonio, Prior do Crato, a +Duqueza de +Bragança, e Philippe II. de Castella--D. Antonio +já havia sido escolhido e +coroado, quando entra em Portugal hum exercito Hespanhol ao mando do +Duque +d'Alva.--Em consequencia da invasão he <span class="smallcaps">Philippe +II.</span> de Castella reconhecido Rei de Portugal pelas +Côrtes reunidas em +Thomar.--O Brasil segue portanto a sorte da Metropole, e passa ao +dominio +Hespanhol.--Neste mesmo anno o Governador Geral Diogo +Lourenço da Veiga, +achando-se prestes a morrer, entrega o governo ao Senado da Camara da +Bahia +e ao Ouvidor Geral Cosme Rangel de Macedo: foi este o governo interino +até +a chegada do novo Governador Geral.</p> + + + +<h4>1582.</h4> + + + +<p>Chega á Bahia, e toma posse do governo geral Manoel +Telles Barreto.</p> + + + +<h4>1583.</h4> + + + +<p>Rompe a guerra entre Philippe II. e Izabel de Inglaterra: a +formidavel +esquadra Hespanhola denominada <i>Invencivel</i> +é destroçada por hum +furioso temporal.</p> + + + +<h4>1585.</h4> + + + +<p>Envolvido o Brasil na guerra entre Hespanha e Inglaterra, +apparece em +Santos na capitania de S. Vicente a primeira +expedição Ingleza dirigida por +<i>Eduardo Fanton</i>; o qual retira-se depois de hum +combate com huma +esquadrilha Hespanhola que se achava á entrada da +barra.--Por este mesmo +tempo <i>Roberto Dias</i> descendente do celebre +Caramurú, tendo feito +viagens ao interior do Brasil e recolhido immensa quantidade de prata, +vai +offerecer-se a Philippe II. para revelar-lhe o segredo da existencia +das +minas deste metal, obtendo em recompensa o titulo de Marquez das Minas. +Sendo-lhe isto negado, morre sem descobrir o segredo.</p> + + + +<h4>1588.</h4> + + + +<p>Nova expedição Ingleza, commandada por <i>Roberto +Withrington</i> chega +á Bahia: e, depois de assolar o Reconcavo, não +podendo tomar a cidade, +faz-se de vela.</p> + + + +<h4>1590.</h4> + + + +<p>Christovão de Barros, Governador interino do +Brazil, recebe ordem para +repellir os Indios que infestavão as +povoações de Itapicurú e +Villa-Real.--Lanção-se os fundamentos da cidade +de <i>S. Christovão</i> na +foz do rio Cotindiba.</p> + + + +<h4>1591.</h4> + + + +<p>Huma esquadrilha Ingleza ao mando do pirata <i>Thomaz +Cavendish</i> +attaca a villa de Santos na capitania de S. Vicente. Os habitantes, +aproveitando-se da embriaguez dos invasores e das trevas fogem para o +interior levando o que poderão salvar. Cavendish faz-se +á vela, depois de +lançar fogo á povoação de +S. Vicente. Querendo attacar o Espirito Santo he +repellido com grande perda, e obrigado a voltar á Europa: +morre na +viagem.</p> + + + +<h4>1593.</h4> + + + +<p>Outra expedição Ingleza ás +ordens de <i>Jayme de Lancaster</i> attaca +Olinda. O forte he tomado e a cidade saqueada. Lancaster volta +á Inglaterra +levando comsigo immensas riquezas.</p> + + + +<a name="ch1h"></a> +<h4>1598.</h4> + + + +<p>Morre Philippe II. de Castella, e I. de Portugal (<i>13 +de +Setembro</i>).--Sobe ao throno <span class="smallcaps">Philippe +III.</span> +de Castella, e II. de Portugal.</p> + + + +<h4>1599.</h4> + + + +<p>O Governador Geral D. Francisco de Sousa bate os Pitagoares e +construe +hum forte na foz do Rio Grande do Norte, deixando por commandante +Jeronymo +de Albuquerque Coelho.--Lanção-se os fundamentos +da Cidade <i>do +Natal</i>.</p> + + + +<a name="ch2"></a> +<h2>TITULO II.</h2> + + + +<h3>SECULO XVII.</h3> + + + +<a name="ch2a"></a> +<h4>1603.</h4> + + + +<p>Chega á Bahia o governador Geral D. Diogo Botelho +(outros dizem Pedro +Botelho) a substituir D. Francisco de Sousa. Botelho é +infeliz no seu +Governo; faz guerra barbara e deshumana aos Indios, e até +calca aos pés as +salutares e justas leis de Hespanha ácerca da liberdade dos +desgraçados +Indigenas. Comtudo consegue-se a paz com os temiveis Aymorés +pelos esforços +verdadeiramente christãos do colono <i>Alvares</i> +e do Jesuita <i>Domingos +Rodrigues</i>.</p> + + + +<h4>1612.</h4> + + + +<p>Chega ao Maranhão uma +expedição Franceza ao mando de <i>Augusto +de La +Ravardière</i> afim de tornar permanente hum pequeno +estabelecimento ou +colonia Franceza que ha 18 annos tinha ahi sido fundada.</p> + + + +<h4>1614.</h4> + + + +<p><i>Jeronimo de Albuquerque Coelho</i> parte com +uma expedição a expellir +os Francezes do Maranhão. Ajudado por <i>Alexandre de +Moura</i> bate-os na +batalha de <i>Guaxendúba</i>. Mas suspendem-se +as hostilidades.</p> + + + +<h4>1615.</h4> + + + +<p>Rôta a convenção de +Guaxendúba, são completamente batidos os +Francezes, +e obrigados a abandonar o Maranhão, retirando-se na mesma +esquadra de La +Ravardière. Jeronimo de Albuquerque Coelho recebe em +galardão a nomeação de +Capitão-Mór do Maranhão.</p> + + + +<h4>1616.</h4> + + + +<p>Jeronimo de Albuquerque faz partir para o Amazonas <i>Francisco +Caldeira +de Castello-Branco</i>; o qual lançou os fundamentos +da cidade de Belém, e +construio hum forte.--Por este tempo tentão os Hollandezes +estabelecer-se +ao S. do Amazonas; porém não o conseguem e +são repellidos.</p> + + + +<a name="ch2b"></a> +<h4>1621.</h4> + + + +<p>Morre Philippe III. (<i>31 de Março</i>).--Sóbe +ao throno <span class="smallcaps">Philippe IV.</span> +de Hespanha, e III. de +Portugal.--Grandes feitos vão agora ter lugar, e occupar +nossa +attenção.</p> + + + +<h4>1622.</h4> + + + +<p>Chega ao Brazil o Governador Geral Diogo de +Mendonça Furtado.</p> + + + +<h4>1623.</h4> + + + +<p>O caracter de Philippe II. já havia feito +revoltarem-se as suas +possessões da Hollanda. E a guerra feita então +á Hespanha foi de grave +prejuizo a Portugal e ao Brazil. Felizmente trégoas se +havião alcançado por +10 annos desde 1609 reinando já Philippe +III.--Porém, estando a expirar +semelhante trégoa, e achando-se forte a Hollanda com as suas +conquistas na +India e com a existencia da celebre Companhia das Indias, foi proposta +e +resolvida a conquista do Brazil. Em consequencia huma esquadra de 60 +vélas +he neste anno armada para semelhante conquista. <i>Jacob +Villekens</i>, +<i>Pedro Haynes</i><span style="font-style: italic;">, </span><i>Hans Vandort</i> e <i>Adrião +Patrid</i> sahem á +testa da expedição.</p> + + + +<h4>1624.</h4> + + + +<p>O governo de Madrid julga conveniente separar o +Pará e Maranhão do resto +do Brasil: assim o faz, constituindo-os hum estado independente do +resto do +paiz, e sujeito a hum Governador Geral com obediencia unicamente +á +côrte.--Apparece na Bahia a esquadra Hollandeza, que toma +quasi sem +resistencia a cidade. Tal era o estado de fraqueza a que o Brazil tinha +sido reduzido pela côrte de Hespanha! <i>Vandort</i> +fica na Bahia como +Governador. <i>Villekens</i> parte para a Europa. <i>Haynes</i> +vae attacar +o Espirito Sancto. E <i>Adrião Patrid</i> sahe +a conquistar Loanda na Costa +d'Africa.--Tendo sido aprisionado contra a +estipulação e todas as leis do +direito e da honra o Governador Mendonça de Furtado, e +remettido para bordo +da náo Almirante inimiga, devia succeder-lhe no governo +Mathias de +Albuquerque que a este tempo se achava em Pernambuco. Porém, +como as +circunstancias urgião, é eleito Governador e +General em chefe o Bispo <i>D. +Marcos Teixeira</i>; o qual faz de novo cobrar animo aos +Portuguezes e os +leva a expellir os conquistadores.</p> + + + +<h4>1625.</h4> + + + +<p>Chega á Bahia <i>Francisco Nunes Marinho</i> +enviado por Mathias de +Albuquerque a tomar o commando do exercito, que não +assentava bem em hum +Ministro da Religião.--Ao mesmo tempo chega <i>D. +Fradique de Toledo +d'Eça</i>, Marquez de Valdueza (<i>28 de +Março</i>) enviado por +Hespanha.--E reunidos os exforços de ambos, +sitião a cidade e obrigão o +inimigo a capitular. Vandort morreo em hum combate.--Restaurada a +Bahia, +toma posse do governo geral D. Francisco Rolim de Moura.</p> + + + +<h4>1627.</h4> + + + +<p>Haynes fôra repellido do Espirito Sancto.--E Patrid, +tendo sido mal +succedido na conquista d'Africa, volta á Bahia: +porém he obrigado a +retirar-se; e na volta para a Europa apodera-se dos galeões +Hespanhóes que +do Mexico ião carregados de riquezas.--Diogo Luiz de +Oliveira substitue +Rolim de Moura no governo geral do Brasil.</p> + + + +<h4>1629.</h4> + + + +<p>A Côrte de Madrid, avisada de que os Hollandezes +perseverantes na +conquista do Brasil levavam suas vistas para a Capitania de Pernambuco, +ordena a Mathias de Albuquerque que vá fazer face aos +inimigos e +repellil-os. Chega elle a Pernambuco com mui diminuta força (<i>19 +de +Outubro</i>).</p> + + + +<h4>1630.</h4> + + + +<p>Apparece a esquadra Hollandeza, onde vinha o General inimigo <i>Theodoro +Vandemburg</i>.--Occupa este o Recife e Olinda.--Distingue-se <i>João +Fernandes Vieira</i> na defeza do forte S. Jorge com +só 37 guerreiros +contra 4000, até que capitula honrozamente.--Mathias de +Albuquerque volta +do interior; e depois de fortificar-se, ajudado pelo Indio <i>Camarão</i>, +limita-se á defensiva.</p> + + + +<h4>1631.</h4> + + + +<p>Uma esquadra Hollandeza ao mando de <i>Adrião +Patrid</i> chega ao Brasil +trazendo soccorros aos de Pernambuco: assim como huma Hespanhóla +commandada +pelo Almirante <i>D. Antonio Oquendo</i> em auxilio do +paiz. As duas +esquadras encontrão-se nos mares da Bahia, onde +travão formidavel combate. +Patrid, obrigado ou a morrer ou a entregar-se, prefere a morte; e +envolvido +no estandarte da Hollanda lança-se ao mar heroicamente, +proferindo estas +palavras:--<i>O Oceano he o tumulo digno de hum Almirante Batavo</i>.--Da +esquadra Hespanhola he destacado o <i>Conde Bagnolo</i> +para Pernambuco; o +qual chega ao seu destino e reune-se a Mathias d'Albuquerque.--Julgando +os +Hollandezes ser muito maior, do que realmente era, o reforço +chegado aos +Portuguezes, lanção fogo a Olinda, e +concentrão-se no Recife (<i>23 de +Novembro</i>).</p> + + + +<h4>1632.</h4> + + + +<p>Tentão os Hollandezes tomar a Parahyba, o Rio +Grande do Norte, e outros +pontos; não o conseguem.--Porém, felizmente para +elles, o pardo <i>Domingos +Calabar</i> leva-lhes com sua pessoa a victoria. A ilha de +Itamaracá cahe +em poder do inimigo.</p> + + + +<h4>1633.</h4> + + + +<p>Chega a Pernambuco com grandes reforços o General +inimigo <i>Lourenço +Reimbach</i>, que vem substituir Vandemburg.--Mathias de +Albuquerque bate o +novo General, que he morto e substituido por <i>Sigismundo de +Schopp</i>.</p> + + + +<h4>1634.</h4> + + + +<p>Sigismundo ajudado pelo infame Calabar, apodera-se da cidade +do Natal, e +de outras povoações. De sorte que nesta +época o inimigo occupava +Pernambuco, Parahyba, e Rio Grande do Norte.</p> + + + +<h4>1635.</h4> + + + +<p>Resolve Mathias de Albuquerque emigrar para o interior de +Pernambuco. Ao +passar por <i>Porto-Calvo</i>, por hum ardil de <i>Sebastião +do Souto</i>, +então prisioneiro do inimigo, bate a pequena +força que se achava de +guarnição, e toma a villa. Porém, +depois de arrazar as fortificações e de +ter feito executar o traidor Calabar, vendo que no estado em que se +achavão +as tropas e falto de recursos não podia conservar-se em +Pernambuco, emigra +para as Alagôas: outros fogem para a Bahia, Rio de Janeiro, e +para o +interior da propria capitania.--Tendo Mathias sido chamado á +Europa, +desembarca nas Alagôas (<i>25 de Novembro</i>) <i>D. +Luiz di Roxa y +Borgia</i>, nomeado General das forças em Pernambuco. +Com elle veio tambem +o novo Governador Geral <i>Pedro da Silva</i>, que +substitue Oliveira, +igualmente chamado á Europa.--Borgia parte para Pernambuco, +deixando nas +Alagoas huma força ás ordens do Conde +Bagnolo.</p> + + + +<h4>1636.</h4> + + + +<p>Morre Borgia em hum combate, e succede-lhe Bagnolo no commando +geral das +tropas.--Os Hollandezes são muito incommodados pelas +correrías do Indio +Camarão, e do preto <i>Henrique Dias</i>.--Tem +lugar a 2.ª +emigração dos habitantes de Pernambuco, conduzida +por Camarão: Bagnolo +porém conserva-se em Pernambuco.</p> + + + +<h4>1637.</h4> + + + +<p>Chegão ao Brazil novas tropas Hollandezas ao mando +do Principe +<i>Mauricio de Nassau</i> (<i>23 de Janeiro</i>). +O primeiro intento do +novo General foi tomar Porto-Calvo, onde se achava Bagnolo. Renhido +combate +tem lugar entre 4000 Portuguezes e 10000 Hollandezes, no qual se +distinguem +Camarão, sua mulher <i>D. Clara</i>, e Henrique +Dias. Bagnolo desampára +cobardemente Porto-Calvo, e retira-se em direcção +ás Alagoas; todos os +habitantes o acompanhão, ficando unicamente huma pequena +guarnição que se +defende heroicamente, até que capitúla o mais +honrozamente possivel. +Mauricio persegue Bagnolo nas Alagôas, e obriga-o a +retirar-se para +Sergipe: volta depois a cuidar na colonia. Envia soccorros a Sigismundo +para expellir de Sergipe o Conde Bagnolo; o qual, sendo disto avisado, +toma +o partido de emigrar para a Bahia apezar da repugnancia do Governador +Pedro +da Silva. Sigismundo ataca e devasta Sergipe.--Ao mesmo tempo os Indios +do +Ceará convidão Mauricio a apoderar-se desta +Provincia expellindo os +Portuguezes: elle o aceita e é feliz.--Neste mesmo anno sahe +huma +esquadrilha de 47 canôas ás ordens de <i>Pedro +Teixeira</i> para reconhecer +o Amazonas (<i>28 de Outubro</i>). (Já em 1540 +havia Orellana descido pelo +Amazonas, sendo assim o primeiro Europêu que o navegou).</p> + + + +<h4>1638.</h4> + + + +<p>Mauricio, tendo sido mal succedido na sua tentativa de +conquista dos +Ilhéos, resolve-se a pôr em +execução o seu projecto de conquistar a Bahia. +Com effeito ahi apparece com grande esquadra (<i>14 de Abril</i>). +Sitia a +cidade; porém soffre perda consideravel no ataque das +trincheiras, no qual +tambem nós entre outros Officiaes perdemos o famoso +Sebastião do Souto, que +tantos serviços havia prestado nesta guerra. O Conde +Bagnolo, já então na +Bahia, bate Mauricio, e obriga-o a retirar-se para Pernambuco.--Neste +anno +chega a Quito a expedição de Pedro Teixeira e +Bento Rodrigues de Oliveira, +tendo subido pelo Amazonas e alguns de seus confluentes.</p> + + + +<h4>1639.</h4> + + + +<p>Em <i>Janeiro</i> chega á Bahia numa +grande esquadra Hespanhola +destinada a restaurar Pernambuco, e todos os outros pontos do Brazil em +poder do inimigo.--Chega a Belém, já de volta de +Quito, a expedição de +Pedro Teixeira (<i>12 de Dezembro</i>).</p> + + + +<a name="ch2c"></a> +<h4>1640.</h4> + + + +<p>Com grandes exforços e muitos sacrificios +consegue-se reunir tropa no +Rio Grande do Norte sob os chefes Camarão, Henrique Dias, <i>Barbalho</i> +e +<i>Vidal</i>; os quaes voão em auxilio da +Bahia.--Chega á Bahia e toma +posse o novo Governador Geral D. Jorge Mascarenhas, Marquez de +Montalvão, +condecorado com o titulo de <i>Vice-Rei</i> do Brazil.--Em +S. Paulo os +Procuradores de todas as Villas e Camaras (por accordo de <i>13 +de +Julho</i>) expulsão da Capitania os Jezuitas.--Nova +época se prepara para o +Brazil. A tyrannia de <i>Olivarez</i>, Ministro do Rei, a +de <i>Miguel de +Vasconcellos</i>, Vice-Rei de Portugal, e a oppressão +em que vivião os +povos excitão o desejo de liberdade e independencia. +Assassinado Miguel de +Vasconcellos em Lisboa, sacode Portugal o jugo ferreo de Hespanha +(<i>1.º de Dezembro</i>).--He acclamado Rei o +Duque de Bragança +<span class="smallcaps">D. João IV</span>.</p> + + + +<h4>1641.</h4> + + + +<p>Chegando ao Brazil tão grata noticia, entra de novo +no dominio +Portuguez, á excepção do territorio +occupado pelos Hollandezes.--O Vice-Rei +Montalvão é injustamente preso por suspeito e +enviado para Lisboa, onde é +mui bem acolhido pelo Rei. Governa o Brazil huma <i>Junta +Provisoria</i>, +composta de 3 membros.--Conclue-se na Europa huma trégoa de +10 annos entre +Portugal e Hollanda; porém, como ella não devia +ser publicada senão hum +anno depois de ratificada, o Principe Nassau conquista, já +durante a +trégoa, a ilha de Maranhão e Sergipe.</p> + + + +<h4>1642.</h4> + + + +<p>Os Hespanhóes desejando conservar S. Vicente +á corôa de Hespanha (ou +antes, querendo os Vicentistas constituir-se em Estado Independente, +como +com melhor fundamento opinão alguns Escriptores) +tentão acclamar Rei +<i>Amador Bueno da Ribeira</i>. Este porém nobre +e heroicamente recusa tal +offerta; e retirando-se ao Mosteiro dos Benedictinos afim de +pôr em +segurança sua pessoa consegue acclamar e fazer reconhecer +como legitimo +soberano D. João IV. Em consequencia S. Vicente manda +prestar juramento de +fidelidade ao Rei.--Chega ao Brazil o novo Governador Geral Antonio +Telles +da Silva.--Publica-se a trégoa entre Hollanda e Portugal: +cessão as +hostilidades no Brazil, e Mauricio cuida unicamente na prosperidade da +colonia.</p> + + + +<h4>1643.</h4> + + + +<p>Á sombra da paz florecia e prosperava rapidamente a +colonia Hollandeza +sob o governo sabio do Principe Mauricio, quando suspeitas mal fundadas +o +fazem chamar á Europa. Entrega portanto o governo ao <i>Grão-Conselho</i> +do Recife, composto de tres cidadãos; e faz-se á +vela para Hollanda (<i>22 +de Maio</i>).--A sua ausencia, a fraqueza e má +administração do novo +Governo trazem a decadencia da colonia, e excitão nos +Portuguezes o desejo +de liberdade. <i>Antonio Moniz Barreto</i> (ou <i>Barreiros</i>, +segundo +outros) no Maranhão dá o signal, sacodindo o jugo +estrangeiro: o Ceará o +imita. Feliz incentivo para os de Pernambuco!</p> + + + +<h4>1645.</h4> + + + +<p>João Fernandes Vieira trama em Pernambuco huma +temivel conspiração +contra os invasores. Mas desejando o apoio do governo, participa a sua +resolução ao Governador Geral; o qual procedendo +prudentemente envia André +de Vidal Negreiros afim de examinar o estado das cousas e entender-se +com +Vieira. Vidal conforma-se em tudo com Vieira e exhorta-o a proseguir em +tão +gloriosa empreza. Descoberta a conspiração por +denuncia que ao +Grão-Conselho derão dous conjurados, Vieira corre +ás armas abandonando o +Recife.--Encontra-se Vieira com as tropas Hollandezas ao mando de +<i>Henrique Huss</i> junto ao monte <i>Tabocas</i> +(<i>3 de Agosto</i>): o +Chefe inimigo é completamente derrotado e obrigado a +retirar-se para o +Recife.--Chega a Pernambuco huma frota enviada por Telles da Silva sob +o +commando de <i>Serrão de Paiva</i>; nella +vinhão tropas ao mando de Vidal +em favor dos insurgentes sob pretexto de os reduzir á ordem. +Vidal reune-se +a Vieira, ao qual já se havião reunido +Camarão e Dias.--Outra esquadra +sahida do Rio de Janeiro ás ordens de Salvador +Corrêa de Sá reune-se á de +Paiva em Pernambuco; porém logo depois se separa.--No +entanto huma armada +Hollandeza commandada pelo Almirante <i>Cornelio Lichtart</i> +destroe em +<i>Tamarandé</i> a de Paiva, que é +feito prisioneiro.--A revolução lavra +por todas as outras possessões Hollandezas no Brazil, e por +toda a parte +Vieira é reconhecido o chefe della.</p> + + + +<h4>1646.</h4> + + + +<p>Depois de já haver sido batido segunda vez e +aprisionado o General Huss, +depois de já se haverem tomado varias villas e pontos, +é o General +Hollandez expulso de Olinda, vendo-se obrigado a entrincheirar-se no +Recife.--No entanto, em consequencia das +representações do Grão-Conselho, +manda Telles da Silva ordem a Vieira de mandado do Rei para cessar a +guerra; Vieira recusa obedecer dizendo--<i>que depois de +restituir ao seu +Rei esta bella estrella, iria elle proprio exigir o castigo da +desobediencia.</i>--Vieira, animado por tão prosperos +successos de suas +armas, vai sitiar o Recife.--Chega de Hollanda com grande +reforço +Sigismundo de Schopp, que substitue a Junta Governativa. He gravemente +ferido em um combate. Vai atacar a Bahia; mas obrigado a voltar ao +Recife, +toma na passagem a ilha de Itaparica e arraza a +povoação.</p> + + + +<h4>1647.</h4> + + + +<p>Chega ao Brazil o Governador Geral Antonio Telles de Menezes, +Conde de +Villa-pouca, que substitue Telles da Silva, chamado á +Europa.--Chega hum +grande reforço aos Hollandezes.--Neste mesmo anno +é o Brazil elevado a +Principado por D. João IV. na pessoa do Principe D. +Theodosio.</p> + + + +<h4>1648.</h4> + + + +<p>A <i>13 de Janeiro</i> chega ao Brazil <i>Francisco +Barreto de +Menezes</i> a tomar o commando do exercito em Pernambuco. +Coadjuvado sempre +pelo patriotico Vieira, Camarão, Dias, e outros ganha a +primeira memoravel +batalha de <i>Guararapes</i> (<i>19 de Abril</i>) +sobre Sigismundo. +<i>Astolfo Brinck</i>, que commandava no impedimento de +Sigismundo, tambem +é batido. Sigismundo, exacerbado por tantos revezes e +querendo vingar-se, +tendo recebido reforços resolve atacar a Bahia.</p> + + + +<h4>1649.</h4> + + + +<p>Sigismundo volta a Pernambuco, depois de haver saqueado o +Reconcavo da +Bahia.--Tem lugar a segunda batalha de <i>Guararapes</i> +ganha por Barreto +(<i>19 de Fevereiro</i>).</p> + + + +<h4>1650--1654.</h4> + + + +<p>Chega á Bahia o Governador Geral, Conde de +Castello-Melhor, que +substitue Telles de Menezes (1650).--Francisco Dias Velho Monteiro com +sua +familia, e 500 Indios domesticados dá principio á +povoação da Ilha de Santa +Catharina (1651).--Continúa o assedio do Recife por +Vieira.--Chegando +casualmente á Capitania de Pernambuco huma esquadra +portugueza sob o +commando de <i>Pedro Jacques de Magalhães</i>, +o General Barreto pede-lhe +que o auxilie a expellir definitivamente os Hollandezes (fins de 1653). +Por +conseguinte, ajudado pelo fogo da esquadra Vieira é +encarregado da +difficil, mas gloriosa empreza de atacar o Recife, unico ponto occupado +pelo inimigo. Com effeito em 1654 obriga elle Sigismundo a capitular e +abandonar para sempre as pretenções da Hollanda +sobre o Brazil. Neste anno +são elles definitivamente expulsos de todos os pontos; +porque a restauração +de Pernambuco trouxe a de todas as outras Capitanias. Assim, neste +anno, +para sempre de gloriosa memoria, foi Portugal reintegrado de todos os +seus +direitos ao Brazil, e este livre do jugo estrangeiro pelos +esforços +inauditos, e patriotismo sem igual do illustre Vieira, acclamado por +isso +<i>Libertador do Brazil</i>, e <i>Restaurador da +Igreja</i>.</p> + + + +<a name="ch2d"></a> +<h4>1656.</h4> + + + +<p>Morre D. João IV. (<i>6 de Novembro</i>).--É +Regente do Reino a Rainha +<span class="smallcaps">D. Luiza de Gusmão</span>.</p> + + + +<h4>1660.</h4> + + + +<p>Conclue-se entre Portugal e Hollanda hum tratado de paz, em +virtude do +qual são definitivamente restituidas a Portugal as +provincias do Brazil, +devendo em compensação receber a Hollanda 12 +milhões, e poder commerciar +livremente no Brazil e outras possessões.</p> + + + +<h4>1662.</h4> + + + +<p>A Rainha D. Luiza entrega o governo a seu filho, já +maior, D Affonso +(<i>23 de Junho</i>).--Sóbe ao throno <span class="smallcaps">D. Affonso +VI</span>. Pouco reinou, porque a Junta dos tres Estados o depoz +em <i>24 +de Novembro</i> de 1667, e nomeou Regente o Infante D. Pedro.</p> + + + +<a name="ch2e"></a> +<h4>1667.</h4> + + + +<p>É Regente do Reino o Infante <span class="smallcaps">D. +Pedro</span>.--Favorece elle as colonias, e estabelece huma +armada para +comboiar os navios mercantes que do Brazil sahião para +Lisboa.</p> + + + +<h4>1668.</h4> + + + +<p>Conclue-se (<i>13 de Fevereiro</i>) hum tratado de +paz entre Portugal e +Hespanha, em virtude do qual he reconhecida a independencia do Reino e +a +casa reinante de Bragança: e alguma cousa tambem se +convencionou ácerca dos +limites das respectivas possessões na America.</p> + + + +<h4>1675.</h4> + + + +<p>Por morte do Vice-Rei Governador Geral, he o Brazil governado +interinamente por um Triumvirato.</p> + + + +<h4>1676.</h4> + + + +<p>A Igreja da Bahia (que já havia sido elevada a +Bispado em 1550, sendo +seu primeiro Bispo D. Pedro Fernandes Sardinha) he elevada a +Arcebispado +por Bulla de Innocencio XI. (de <i>16 de Novembro</i>): e +elevadas a +Bispados as Igrejas de Maranhão, Pernambuco, e Rio de +Janeiro.</p> + + + +<h4>1678.</h4> + + + +<p>Com a vinda do novo Governador Geral, acaba neste anno o +governo +interino.</p> + + + +<h4>1679.</h4> + + + +<p>D. Manoel de Lobo, Governador do Rio de Janeiro, recebe ordem +do Regente +para fundar a colonia do <i>Sacramento</i> perto do Rio da +Prata afim de +obstar aos ataques e invasões dos Hespanhoes do Paraguay e +Buenos-Ayres.</p> + + + +<h4>1680.</h4> + + + +<p>Tendo-se dirigido ao Prata o Governador Lobo, levanta o forte +do +Sacramento, apezar das representações e +opposição dos Hespanhoes. Mas neste +mesmo anno he o forte tomado pelo Governador de Buenos-Ayres.</p> + + + +<a name="ch2f"></a> +<h4>1683.</h4> + + + +<p>He restituida a Portugal a praça do Sacramento, e +reedificada.--Fallece +D. Affonso VI. (<i>12 de Setembro</i>).--Sobe ao throno <span class="smallcaps">D. Pedro II.</span>, que +até aqui governára como +regente.</p> + + + +<h4>1690.</h4> + + + +<p>Os Vicentistas ou Paulistas tentão novas +peregrinações pelo interior do +paiz em busca de metaes preciosos, e descobrem as minas de +Sabará.</p> + + + +<h4>1697.</h4> + + + +<p>Os Paulistas fundão em Minas-Geraes a +povoação denominada +<i>Villa-Rica</i> (hoje Ouro-Preto), para a qual afluio +quantidade enorme +de colonos attrahidos pelo ouro em que abundava o districto.--Neste +mesmo +anno he destruida completamente a povoação de <i>Palmares</i> +em +Pernambuco, feita por negros de ha muitos annos. Tinha ella crescido a +tal +ponto que foi preciso huma força de 7000 homens, e sitial-a +em regra como +si fôra huma fortaleza ou grande cidade!</p> + + + +<a name="ch3"></a> +<h2>TITULO III.</h2> + + + +<h3>SECULO XVIII.</h3> + + + +<a name="ch3a"></a> +<h4>1701.</h4> + + + +<p>Conclue-se (<i>18 de Junho</i>) hum tratado entre +Portugal e Hespanha, +em virtude do qual Hespanha concedeu-lhe o dominio pleno e perfeito da +margem Septentrional do Rio da Prata.</p> + + + +<h4>1705.</h4> + + + +<p>Os Hespanhoes tomão Sacramento.</p> + + + +<a name="ch3b"></a> +<h4>1706.</h4> + + + +<p>Morre El-Rei D. Pedro II. (<i>9 de Dezembro</i>).--Sobe +ao throno <span class="smallcaps">D. João V.</span></p> + + + +<h4>1707.</h4> + + + +<p>Reune-se no Arcebispado da Bahia hum Synodo Diocesano, que +organisa a +Constituição do Arcebispado; a qual foi approvada +pelo Governo da +Metropole, e ainda hoje he a lei que rege todos os Bispados do Imperio.</p> + + + +<h4>1710.</h4> + + + +<p>Tendo rebentado a guerra de successão á +corôa de Hespanha, na qual +Portugal tomára parte contra a França, varias +expedições são tentadas por +armadores Francezes; algumas das quaes estiverão a ponto de +fazer perder a +Portugal a possessão do Brazil.--Apparece na capitania do +Rio de Janeiro a +primeira expedição commandada por <i>Carlos +Duclerc</i>. Depois de haver +entrado na cidade quasi sem resistencia por causa da pusilanime apathia +do +Governador Francisco de Moraes e Castro, he obrigado a entregar-se e +morre +assassinado na prisão (ou, segundo outros, no acto de +entregar-se +prisioneiro). Assim ficou mallograda esta tentativa.</p> + + + +<h4>1711.</h4> + + + +<p>Apparece no Rio de Janeiro (<i>12 de Setembro</i>) +segunda expedição +Franceza ás ordens de <i>Dugay-Trouin</i> a +vingar a affronta de Duclerc. +Era elle protegido e apoiado por Luiz XIV.--Toma sem resistencia o +forte da +Ilha das Cobras; e depois de fazer fogo sobre a cidade e de varrer +deste +modo as praias, desembarca, e apodera-se de varios pontos importantes. +Depois de um pequeno combate, o Governador Castro capitúla +vergonhosamente, +pagando 610:000 cruzados. Dugay-Trouin faz-se de véla para +França em <i>13 +de Outubro</i>, levando comsigo todos os Francezes aprisionados +no anno +antecedente.--O Governador recebeo o devido castigo de sua cobardia, +sendo +degradado para a India.</p> + + + +<h4>1713.</h4> + + + +<p>Celebra-se o tratado de Utrecht (<i>11 de Abril</i>), +que traz a paz +geral á Europa. A colonia do Sacramento no S. do Brazil +occupada pelos +Hespanhoes desde 1705 he restituida a Portugal.--Ao mesmo tempo +celebra-se +(<i>11 de Abril</i>) hum tratado parcial entre a +França e Portugal debaixo +da mediação de Inglaterra, no qual se +fixão os limites entre o Brazil e a +Guyana Franceza, e se dão outras providencias.</p> + + + +<h4>1715.</h4> + + + +<p>Celebra-se entre Hespanha e Portugal o tratado de Utrecht (<i>6 +de +Fevereiro</i>), segundo o qual devia o Rio da Prata ser o limite +Meridional +do Brazil, voltando a colonia do Sacramento ao poder dos Portuguezes.</p> + + + +<p>(Por esta época continuão os Paulistas +nas suas peregrinações pelo +interior, em quanto as capitanias do Norte vão em regresso +por falta de +protecção da Metropole).</p> + + + +<h4>1719.</h4> + + + +<p>He a Igreja do Pará elevada a Bispado.</p> + + + +<h4>1720.</h4> + + + +<p>He destacado da capitania de S. Paulo o districto das Minas +(C. R. <i>21 +de Fevereiro</i>); e elevado á cathegoria de capitania +com o nome de +Minas-Geraes (Alv. <i>2 de Dezembro</i>).</p> + + + +<h4>1721.</h4> + + + +<p>Os Paulistas chegão até o +Cuyabá em busca de ouro.</p> + + + +<h4>1726.</h4> + + + +<p>O Paulista <i>Bartholomeo Bueno</i>, indo em +busca de minas de ouro no +districto dos Goyazes, as descobre: já em 1682 pouco mais ou +menos ahi +havia chegado seu pae (foi com o ouro extrahido destas minas +abundantissimas que hum de seus descendentes mandou fazer varias +especies +de fructos do paiz em tamanho natural, e offereceo a D. João +V.) Lanção-se +os fundamentos da povoação de Goyaz.</p> + + + +<h4>1729.</h4> + + + +<p>Antonio (ou Bernardo, segundo outros) da Fonseca Lobo acha no +districto +do Sêrro-Frio, em Minas-Geraes, o primeiro diamante +descoberto no Brazil +(deste lugar sahio depois quantidade enorme desta pedra preciosa).</p> + + + +<h4>1735.</h4> + + + +<p>A colonia do Sacramento he atacada pelos Hespanhoes, ao mando +de <i>D. +Miguel de Salcedo</i>; porém são +victoriosamente repellidos pelo bravo e +valente <i>Antonio Pedro de Vasconcellos</i>, commandante +do forte.</p> + + + +<h4>1743.</h4> + + + +<p>Os Paulistas chegão até o Rio da Prata, +e fundão a povoação de S. +Pedro.</p> + + + +<h4>1746.</h4> + + + +<p>A pedido do Rei, o Papa Benedicto XIV. eleva a Bispados as +Igrejas de S. +Paulo e Minas-Geraes (Bulla de <i>6 de Dezembro</i>); e +cria as Prelazias +de Goyaz e Matto-Grosso.</p> + + + +<a name="ch3c"></a> +<h4>1750.</h4> + + + +<p>Conclue-se hum tratado entre Hespanha e Portugal (<i>13 +de Janeiro</i>), +tendo por fim determinar definitivamente os limites das respectivas +possessões na America, e trocar o Sacramento por terras do +Paraguay.--Morre +D. João V. (<i>31 de Julho</i>).--Sobe ao throno +<span class="smallcaps">D. +José I</span>.</p> + + + +<h4>1751.</h4> + + + +<p>Já por L. <i>9 de Março</i> +1609 havia sido criada na Bahia huma +Relação, ou Tribunal da 2.ª instancia; +porém não o havia sido +effectivamente senão em 1652, quando se lhe deo o Regimento +de <i>12 de +Setembro</i>.--Neste anno de 1751 he criada outra +Relação no Rio de Janeiro +(L. <i>16 de Fevereiro</i>), e deo-se-lhe Regimento em <i>13 +de +Outubro</i>.--Já a este tempo existia na Bahia a +Relação Ecclesiastica +Metropolitana, criada em 1677 (Prov. de <i>30 de Novembro</i>) +por D. +Gaspar Barata de Mendonça, 1.º Arcebispo, e +confirmada pelo +Regente D. Pedro (Prov. Regia de <i>30 de Março</i> +de 1678). Neste mesmo +anno he concluido e ratificado o tratado com Hespanha de 1750.</p> + + + +<h4>1752.</h4> + + + +<p>Sahe para o Rio da Prata o Governador do Rio de Janeiro Gomes +Freire de +Andrade (depois Conde de Bobadella), encarregado de pôr em +execução do lado +do Sul o tratado de 1750.--Porém ficou sem effeito este +tratado por causa +das immensas difficuldades que sobrevierão na sua +execução; porquanto, +devendo-se trocar Sacramento por povoações e +terras do Paraguay, de hum +lado os de Sacramento com difficuldade obedecerão +ás ordens da côrte, sendo +até preciso quasi empregar a força, e do outro +tiverão os Portuguezes e +Hespanhoes reunidos de combater os Indios do Paraguay, os quaes +incitados +pelos Jezuitas e habituados a obedecerem unicamente a elles, +recusarão +sujeitar-se.</p> + + + +<h4>1755.</h4> + + + +<p>Sendo Ministro do Rei D. José o grande <i>Sebastião +José de Carvalho e +Mello</i> (depois Marquez de Pombal), levou este suas vistas para +as +colonias, e mais que tudo para o Brazil. A elle he o Brazil devedor de +serviços sem preço, e de medidas justas e +salutares a bem dos Indios, do +commercio, da lavoura, da illustração, da +justiça, etc.--Não podia elle ver +com bons olhos a oppressão em que jazião os +Indios reduzidos á escravidão, +apezar das sabias e justas determinações +já da côrte de Madrid, já mesmo da +de Lisboa, sempre menoscabadas pelos colonos, avidos de riquezas. Em +consequencia a L. <i>6 de Junho</i> mandou restituir a +liberdade, bens, e +commercio aos Indios do Pará e Maranhão assim +como em geral +conservarem-se-lhes as propriedades demarcadas, inteiras e pacificas +para +si e seus herdeiros.</p> + + + +<h4>1758.</h4> + + + +<p>O Alv. de <i>8 de Maio</i> estendeo aos Indios de +todo o Brazil a +disposição do de <i>6 de Junho</i> +1755, mandando que todos elles fossem +senhores de sua liberdade e bens em tudo e por tudo como os do +Maranhão.</p> + + + +<h4>1759.</h4> + + + +<p>Exacerbado o Ministro do Rei com a +opposição que aos seus projectos +sempre encontrava da parte dos Jezuitas tanto em Portugal como na +America e +desejando acabar com o dominio de semelhante Ordem, consegue +expulsal-os do +Reino e dominios (Alv. de <i>19 de Janeiro</i>, C. R. de <i>21 +de +Julho</i>, e L. de <i>3 de Setembro</i>). +Já o Alv. de <i>19 de +Janeiro</i>, e o de <i>28 de Junho</i> deste mesmo +anno lhes havia dado hum +golpe fatal, sequestrando-lhes os bens, mandando-os conservar reclusos +nas +casas principaes das cidades e villas notaveis, e tirando-lhes o +direito de +ensinar e educar.</p> + + + +<h4>1761.</h4> + + + +<p>Celebra-se entre Hespanha e Portugal hum tratado (<i>12 +de +Fevereiro</i>) annullando o de 13 de Janeiro de 1750 e todos os +que delle +forão consequencia.--Mandão-se confiscar para a +corôa e Fazenda Nacional +todos os bens pertencentes aos Jezuitas, á +excepção do que era destinado ao +serviço das Igrejas e Culto Divino (Alv. <i>25 +Fevereiro</i>).</p> + + + +<h4>1762.</h4> + + + +<p>Rompe-se a paz entre Hespanha e Portugal.--As suas colonias na +America +seguem a sorte das Metropoles. <i>D. Pedro Cevallos</i> +ataca de improviso +a colonia do Sacramento, que cahe em poder dos Hespanhoes, bem como +outros +fortes e pontos.</p> + + + +<h4>1763.</h4> + + + +<p>Celebra-se na Europa o tratado de paz (<i>10 de Fevereiro</i>) +entre +Portugal, Hespanha, Inglaterra, e França, no qual algumas +disposições havia +ácerca do Brazil e limites no Sul.--Neste mesmo anno, tendo +morrido o Conde +de Bobadella Governador do Rio de Janeiro, he a capital do Brazil +transferida da Bahia para esta cidade, tendo os Governadores Geraes o +titulo de <i>Vice-Reis</i>.--Chega o 1.º Vice-Rei +<i>D. Antonio +Alvares</i>, Conde da Cunha.</p> + + + +<h4>1764.</h4> + + + +<p>Em virtude do tratado de paz do anno antecedente he Sacramento +restituida aos Portuguezes.</p> + + + +<h4>1767.</h4> + + + +<p>Chega ao Rio de Janeiro o 2.º Vice-Rei <i>D. +Antonio Rolim de +Moura</i>, Conde de Azambuja.</p> + + + +<h4>1768.</h4> + + + +<p>Depois de já se ter creado huma companhia de +commercio do Grão-Pará e +Maranhão, e de se terem dado providencias ácerca +do commercio entre os +colonos e a Metropole, começa de novo huma esquadra a +accompanhar os +combois para a Europa.</p> + + + +<h4>1769.</h4> + + + +<p>Chega ao Rio de Janeiro o 3.º Vice-Rei <i>D. +Luiz +d'Almeida</i>, Marquez de Lavradio.</p> + + + +<h4>1770.</h4> + + + +<p>O Tenente (depois Tenente-General) <i>Candido Xavier de +Almeida e +Sousa</i> descobre os vastissimos campos de <i>Guarapúava</i>.</p> + + + +<h4>1772.</h4> + + + +<p>Tem lugar no dia <i>18 de Fevereiro</i> a +primeira sessão publica da +sociedade litteraria estabelecida no Rio de Janeiro sob os auspicios do +Marquez de Lavradio, denominada <i>Academia Scientifica do Rio +de +Janeiro</i>.--Já outra +associação litteraria existia na Bahia.</p> + + + +<h4>1774.</h4> + + + +<p>Para fazer todo bem possivel ao Brazil, o Marquez de Pombal +attendendo +ao ponto essencial da civilisação e +moralisação dos póvos, a +illustração, +cria escolas regulares nas diversas capitanias.</p> + + + +<h4>1776.</h4> + + + +<p>São restaurados para a corôa Portugueza +os presidios do S. do Brazil que +indevidamente se achavão ainda em poder dos +Hespanhoes.--Porém novas +hostilidades tem lugar entre Hespanha e Portugal; e o Brazil he +ameaçado.</p> + + + +<a name="ch3d"></a> +<h4>1777.</h4> + + + +<p>Huma formidavel esquadra Hespanhola (de 126 velas) ao mando de +D. Pedro +Cevallos toma a ilha de Santa Catharina, e a colonia do +Sacramento.--Morre +El-Rei D. José I. (<i>24 de Fevereiro</i>).--Sobe +ao throno <span class="smallcaps">D. Maria I</span>.--Celebra-se +com Hespanha o tratado +preliminar de paz (<i>1.º de Outubro</i>) chamado +de <i>Santo +Ildefonso</i>, em virtude do qual se fixão novos +limites ao Brazil no Sul, +e se perde a colonia do Sacramento que passa aos Hespanhoes.--No +reinado +desta Rainha descobrem-se em Minas-Geraes minas riquissimas de +diamantes, +perto do Sêrro-Frio, Tejuco, etc., merecendo especial +menção a do +<i>Giquitinhonha</i>.</p> + + + +<h4>1778.</h4> + + + +<p>Em virtude do tratado de paz he a ilha de Santa Catharina +evacuada pelos +Hespanhoes (<i>30 de Julho</i>).</p> + + + +<h4>1779.</h4> + + + +<p>Chega ao Rio de Janeiro o 4.º Vice-Rei <i>D. +Luiz de +Vasconcellos e Sousa</i>.</p> + + + +<a name="ch3e"></a> +<h4>1789--1792.</h4> + + + +<p>Tendo-se tramado em Minas-Geraes huma +conspiração para erigir em +Republica esta capitania, he disto avisado o Governador Luiz da Cunha e +Menezes. O infame Joaquim Silverio dos Reis denuncia os seus consocios +ao +Visconde de Barbacena, então Capitão-General. De +ordem do Vice-Rei são +todos presos. <i>Joaquim José da Silva Xavier</i>, +qualificado chefe da +revolução, he enforcado. <i>Claudio Manoel +da Costa</i>, e <i>Joaquim da +Silva Pinto Rego Fortes</i> morrem na prizão. Os +outros tendo sido +igualmente processados e condemnados á pena ultima, he-lhes +esta comutada +em degredo para Africa (1792): entre elles o celebre poeta <i>Gonzaga</i>. +A este tempo já era governado o Brazil pelo 5.º +Vice-Rei <i>D. +José de Castro</i>, Conde de Rezende, que +tomára posse em 4 de Junho de +1790.--A Rainha D. Maria achando-se atacada de +alienação mental confia o +governo a seu filho o Principe D. João (<i>10 de +Fevereiro</i> de +1792).--He Regente o Principe <span class="smallcaps">D. +João</span>.</p> + + + +<h4>1799.</h4> + + + +<p>Aggravando-se cada vez mais a enfermidade da Rainha, he o +Principe D. +João confirmado na Regencia por Decr. de <i>16 de +Julho</i>.</p> + + + +<a name="ch4"></a> +<h2>TITULO IV.</h2> + + + +<h3>SECULO XIX.</h3> + + + +<a name="ch5"></a> +<h4>CAPITULO I.</h4> + + + +<a name="ch5a"></a> +<h4>1800.</h4> + + + +<p>Tres malfeitores condemnados a desterro descobrem em +Minas-Geraes o +enorme diamante, que pertence hoje á corôa +Portugueza. Em recompensa são +perdoados.</p> + + + +<h4>1801.</h4> + + + +<p>Rompe a guerra entre Hespanha e Portugal. Por conseguinte nova +guerra se +suscita no S. do Brazil. Felizmente não foi de longa +duração, porque a <i>6 +de Junho</i> concluio-se o tratado de paz entre as duas +potencias.--Chega +ao Rio de Janeiro e toma posse do governo (<i>14 de Outubro</i>) +o +6.º Vice-Rei <i>D. Fernando José de Portugal</i>, +depois Marquez +de Aguiar.</p> + + + +<h4>1802.</h4> + + + +<p>Em consequencia da paz celebrada entre as Metropoles, +cessão as +hostilidades no S. do Brazil.</p> + + + +<h4>1806.</h4> + + + +<p>Chega ao Brazil e toma as redeas do governo (<i>21 de +Agosto</i>) o +7.º e ultimo Vice-Rei <i>D. Marcos de Noronha e Brito</i>, +Conde +dos Arcos.</p> + + + +<h4>1807.</h4> + + + +<p>Em consequencia da celebre convenção de +Fontainebleau, Napoleão resolve +conquistar Portugal e riscar a familia de Bragança do throno +deste Reino, +apezar de já haver o Principe D. João adherido ao +famoso bloqueio +continental e fechado por um decreto os seus portos aos Inglezes. Junot +entra pois em Portugal e marcha sobre Lisboa.--O Principe Regente, +depois +de deixar hum governo interino, sahe para o Brazil com toda a familia, +accompanhado por huma esquadra Ingleza.</p> + + + +<h4>1808.</h4> + + + +<p>Tendo hum temporal dispersado os diversos vasos que +compunhão a +esquadra, arriba á Bahia (<i>19 de Janeiro</i>) +a náo que conduzia o +Principe Real. Ahi promulga-se o salutar decreto (<i>28 de Janeiro</i>) +franqueando os portos e commercio do Brazil a todas as +nações em paz com +Portugal.--A <i>7 de Março</i> chega o Principe +ao Rio de Janeiro, onde se +reune á familia, e estabelece sua côrte.--Manda +estabelecer immediatamente +huma typographia regia (já em meiados do seculo passado +fôra a imprensa +introduzida no Brazil; porém pouco durou).--A <i>5 de +Maio</i> cria a +Academia de Marinha no Brazil.--Por Dec. de <i>10 de Maio</i> +eleva a +Relação do Rio de Janeiro á cathegoria +de Casa da Supplicação; o que foi de +summa utilidade para a administração da +justiça por não ser preciso +recorrer á de Lisboa.--Já por Alv. de <i>22 +de Abril</i> havia sido creado +no Rio de Janeiro o Tribunal do Dezembargo do Paço; +tornando-se deste modo +totalmente desnecessarios para os Brazileiros os tribunaes existentes +em +Portugal, e facilitando-se em extremo a +administração da justiça.--Pelo +mesmo Alv. se creou no Rio de Janeiro a Meza de Consciencia e Ordens, +competindo-lhe, bem como ao Dezembargo do Paço a +jurisdicção e attribuições +do Conselho Ultramarino, que não foi estabelecido no +Brazil.--Por Alv. de +<i>28 de Junho</i> creou-se o Conselho da Fazenda.--Pela C. +R. de <i>12 de +Outubro</i> estabeleceo-se o Banco do Brazil.</p> + + + +<h4>1809.</h4> + + + +<p>Continuando a guerra entre Portugal e a França, e +tendo o Principe +Regente mandado attacar <i>Cayenna</i>, capital da Guyanna +Franceza, cahe +ella em poder dos Portuguezes (<i>14 de Janeiro</i>). Assim +nesta época os +limites do Brasil no N. estenderão-se ate á foz +do <i>Marony</i>, não +chegando anteriormente senão até o rio <i>Oyapock</i>.</p> + + + +<p>(As sabias medidas tomadas pelo Principe, o estabelecimento de +huma +côrte europêa no Brazil, a presença do +Chefe do Estado fazem prosperar +rapidamente a colonia).</p> + + + +<h4>1810.</h4> + + + +<p>Celebrão-se dous tratados de identica data (<i>19 +de Fevereiro</i>) +entre Portugal e a Grã-Bretanha, hum denominado de <i>paz +e amizade</i>, e +o outro de <i>amizade, commercio, e +navegação</i>; nos quaes muita cousa se +acha estipulada ácerca do Brazil.--Por C. L. de <i>4 +de Dezembro</i> +cria-se no Rio de Janeiro a Academia Militar.</p> + + + +<h4>1811.</h4> + + + +<p>O Principe Regente, receiando que o movimento da independencia +de +Buenos-Ayres arrastasse tambem os de Montevidéo e alterasse +a paz no +Brasil, envia hum exercito de observação (6.000 +h.) ás fronteiras do Sul +sob as ordens do General <i>D. Diogo de Souza</i>, +Governador do Rio Grande +do Sul. Com effeito, apezar de sermos incommodados pelas correrias de <i>D. +José Artigas</i>, as nossas armas forão +felizes em alguns encontros com +este caudilho.--A Resol. <i>23 de Agosto</i> manda criar a +Relação do +Maranhão.</p> + + + +<h4>1812.</h4> + + + +<p>A instancias de Buenos-Ayres conclue-se hum armisticio com o +General D. +Diogo de Souza, em virtude do qual evacúa elle o territorio +de +Montevidéo.</p> + + + +<h4>1813.</h4> + + + +<p>Constando ao Principe existirem minas de ferro em Minas Geraes +manda +elle o Barão de Eschwege exploral-as.</p> + + + +<h4>1814.</h4> + + + +<p>Tendo entrado em Paris pela primeira vez os alliados, e +obrigado +Napoleão a abdicar, conclue-se a paz geral, e o 1.º +tratado de +Paris de <i>30 de Maio</i>; em virtude do qual devia a +Guyana ser +restituida á França, voltando por conseguinte o +Brazil no N. aos antigos +limites.--Estabelece-se a Real Bibliotheca no Rio de Janeiro.</p> + + + +<h4>1815.</h4> + + + +<p>Celebra-se entre Portugal e Inglaterra (<i>22 de Janeiro</i>) +hum +tratado para reprimir e extinguir o trafico de escravos.--He o Brasil +elevado á cathegoria de Reino, unido aos de Portugal e +Algarves (C. L. de +<i>16 de Dezembro</i>).</p> + + + +<a name="ch5b"></a> +<h4>1816.</h4> + + + +<p>Morre <span class="smallcaps">D. Maria I</span> +(<i>20 de +Março</i>).--Sobe ao throno <span class="smallcaps">D. +João +VI</span>.--Chega ao Brazil huma divisão de +voluntarios Portuguezes e o +General <i>Beresford</i> com destino ao Sul do Estado, +para onde parte a +<i>12 de Junho</i>.--Atacado Montevidéo pelos de +Buenos-Ayres, vôa em seu +soccorro o General <i>Carlos Frederico Lecor</i> (depois +Visconde da +Laguna).--<i>D. Fructuoso Rivera</i> commanda as tropas +inimigas, em quanto +de outro lado <i>D. José Artigas</i> procura +sublevar os povos de Missões, +e infesta os mares de corsarios que muito incommodão o +commercio +Portuguez.--Artigas he batido a <i>3 de Outubro</i> no +povo de <i>S. +Borja</i> pelo Tenente Coronel <i>José de Abreu</i>; +e a 19 do mesmo mez, +proximo a <i>Ynhanduy</i> e <i>Paipaes</i> +pelo Brigadeiro <i>João de Deos +Mena Barreto</i>.--Fructuoso Rivera he batído a <i>24 +de Setembro</i> no +Passo do <i>Chafalote</i> pelo Major <i>Manoel +Marques de Souza</i>; e em +<i>India-Morta</i> a <i>19 de Novembro</i> +pelo Marechal <i>Sebastião Pinto +de Araujo Corrêa</i>.</p> + + + +<h4>1817.</h4> + + + +<p>Continúa a campanha do Sul.--<i>Verdun</i> +he completamente derrotado +(<i>4 de Janeiro</i>) em <i>Catalan</i> pela +legião Paulista reunida á +divisão do Tenente Coronel José de Abreu.--A <i>20 +de Janeiro</i> entrão os +nossos triumphantes em Montevidéo, tendo á sua +frente o General Lecor. +Terminou pois esta campanha pela occupação de +Montevidéo, Colonia e +Maldonado. Nella se distinguirão, além dos +officiaes já mencionados, +<i>Joaquim Xavier Curado</i> (depois Conde de S. +João das Duas-Barras), +<i>Bento Manoel Ribeiro</i>, e <i>Manoel Jorge +Rodrigues</i> (depois Barão +de Taquary).--Em quanto isto se passava no Sul do Reino, he o Norte +ameaçado por huma grave crise revolucionaria. Rebenta a <i>6 +de Março</i> +em Pernambuco hum movimento politico, que o proclama independente do +Rei. +Começou prematuramente pelo assassinato do General Manoel +Joaquim Barbosa +de Castro. He chefe da revolta <i>Domingos José +Martins</i>. Institue-se +hum governo provisorio de 5 membros.--O Conde dos Arcos, +então Governador +da Bahia, manda immediatamente huma força ás +ordens do General <i>Joaquim +de Mello Leite Cogominho de Lacerda</i> a debellar os revoltosos. +Huma +esquadrilha bloqueia o Recife. Novos vasos sahidos do Rio de Janeiro +apertão o bloqueio. Nova esquadra parte da côrte, +levando huma divisão ás +ordens do General Luiz do Rego Barreto, nomeado Governador de +Pernambuco.--Martins, sabendo da aproximação do +General Lacerda, sahe a +combatel-o; porém he completamente derrotado nos Campos de <i>Ipojuca</i> +(<i>15 de Maio</i>); e, feito prisioneiro, he remettido +para a +Bahia.--Desanimados com semelhante revéz, dissolvem-se os +revoltosos. De +maneira que, quando chegou a Pernambuco o General Rego, já +tudo tinha +entrado na ordem, e não fez mais do que tomar posse do +governo.--Martins e +mais alguns forão condemnados á morte e +executados; outros forão +degradados; outros finalmente, entre os quaes Antonio Carlos Ribeiro de +Andrada que muito concorreo depois para a nossa independencia, +obtiverão o +perdão.--Celebra-se com Inglaterra huma +convenção (<i>28 de Julho</i>) para +estabelecer-se huma Commissão-Mixta, que devia residir em +Londres; e se +concedeo á Grã-Bretanha o direito de <i>visita +e busca</i> nos vasos +mercantes Brazileiros suspeitos de se empregarem no trafico de +Africanos. +Celebra-se com a França hum tratado (<i>28 de Agosto</i>), +em virtude do +qual se estipula definitivamente a restituição da +Guyana, e se fixão os +limites respectivos (V. tambem Art. 107 do acto final do Congresso de +Vienna em <i>9 de Junho</i> de 1815); em observancia do +qual he Cayenna +evacuada pelos Brazileiros (<i>8 de Novembro de 1818</i>) e +entregue aos +Francezes. O rio Oyapock volta a ser o limite N. do Brazil.--Chega ao +Rio +de Janeiro (<i>5 de Novembro</i>) a Archiduqueza de Austria +<i>D. Maria +Leopoldina Josefa Carolina</i>, Augusta Esposa do Principe D. +Pedro.</p> + + + +<h4>1818.</h4> + + + +<p>Tem lugar no Rio de Janeiro o acto solemne da +coroação de D. João VI. +(<i>6 de Fevereiro</i>).--Começa a 2.ª +campanha do +Sul.--Continuando a incommodar-nos as guerrilhas de <i>D. +José Artigas</i>, +rompem as hostilidades contra elle e contra <i>D. Fructuoso +Rivera</i>, que +pouco depois se lhe reunio.--Varias partidas do inimigo são +batidas pelo +Tenente Coronel <i>Caetano Alberto de Souza Canavarro</i>, +pelo Marechal +<i>Francisco das Chagas Santos</i>, e pelo +Sargento-Mór <i>Antero José +Ferreira de Brito</i>.--Cria-se hum Musêo Nacional no +Rio de Janeiro (Decr. +de <i>6 de Junho</i>).</p> + + + +<h4>1819.</h4> + + + +<p>Em principios deste anno estabelecem-se no Rio de Janeiro e em +Serra-Leôa as Commissões-Mixtas Anglo-Brazileiras +para, em conformidade do +Art. 8.º da convenção de <i>28 de +Julho</i> de 1817, julgarem +das prezas de vasos empregados no trafico de escravos.--Promove-se por +outro lado a emigração de colonos +Europêos para o Brazil, sobretudo +Allemães e Suissos; porém é mal +succedida esta tentativa.--Desejoso +Montevidéo de regular definitivamente suas fronteiras com o +Brazil +celebra-se huma convenção sobre limites, de que +forão negociadores por +parte do Brazil o Conde da Figueira, e de Montevidéo D. +Prudencio +Morguiondo (V. o que sobre esta convenção diz o +Visconde de S. Leopoldo nos +seus <i>Annaes de S. Pedro do Sul</i>).</p> + + + +<h4>1820.</h4> + + + +<p>Depois de varios encontros de nossas forças no Sul +com as de Rivera e +Artigas, nos quaes quasi sempre fomos victoriosos, tem lugar a batalha +de +<i>Taquarembó</i> (<i>22 de Janeiro</i>), +ganha sobre os inimigos pelo +<i>Conde da Figueira</i>, Brigadeiro <i>Bento +Corrêa da Camara</i>, e +<i>José de Abreu</i> reunidos. Em consequencia +são obrigados a retirar-se, +continuando porém a incommodar-nos as guerrilhas e mais que +tudo os piratas +artiguenhos. Artigas foge para o Paraguay, onde he retido pelo Dictador +Francia. Assim terminou esta campanha; na qual se +distinguirão, afóra os +Capitães já mencionados, o General <i>Bernardo +da Silveira Pinto</i>, o +General <i>Curado</i>, e a esquadrilha ao mando de <i>Jacintho +Roque de +Sena Pereira</i>, e varios outros.--Em quanto isto se passa na +America, +grandes cousas se preparão na Europa, arrastando tambem o +Brazil.--Portugal, levado por varios motivos, dominado pelas novas +idéas +politicas da revolução Franceza, e mais que tudo +incitado pelo exemplo de +Hespanha que proclamara o grito da liberdade constitucional, quer +tambem +huma Constituição: a +guarnição do Porto dá o primeiro grito +(<i>24 de +Agosto</i>) pedindo a convocação de um +Congresso Nacional.--Chegando +semelhante nova ao Brazil, he este impellido a huma crise +revolucionaria.</p> + + + +<a name="ch5c"></a> +<h4>1821.</h4> + + + +<p>No Brazil começa a revolução +pelo Pará em <i>1.º de +Janeiro</i>, sendo demitido o Governador Conde de +Villa-Flôr, que he +substituido por huma Junta Provisoria: he enviado Domingos +Simões da Cunha +a congratular as Côrtes Constituintes, já +installadas em Lisboa.--Imita a +Bahia o exemplo do Pará e adhere á +revolução de Portugal (<i>10 de +Fevereiro</i>). O Conde de Palma, então Governador, +rejeita a presidencia +da Junta Provisoria ahi installada.--Seguio-se Pernambuco, onde tudo se +fez +pacificamente, porque o Governador Luiz do Rego Barreto transigio com o +espirito revolucionario, e por huma proclamação +adherio ao movimento +politico.--No Rio de Janeiro, apenas se soube destes factos, formou-se +huma +sociedade para fazer com que a tropa, reunida no largo do Rocio por +meio de +avisos secretos, adherisse ao movimento geral. Porém o +Principe D. Pedro, +sabendo deste plano, chega ao largo do Rocio (<i>26 de Fevereiro</i>), +e +subindo ao terraço do theatro de S. João (hoje de +S. Pedro) lê o Decreto +(<i>24 de Fevereiro</i>) pelo qual El-Rei approvava a +Constituição que +fizessem as côrtes em Portugal. Em consequencia +prestarão todos juramento, +e tudo terminou pacificamente por vivas e +acclamações.--Pouco depois deste +successo hum Decreto (<i>2 de Março</i>) +concedeo liberdade de imprensa, +porém com restricções.--No entanto a +presença do Rei em Portugal tornava-se +indispensavel pelo espirito e caracter que ia tomando a +revolução. Por isso +o Decr. de <i>7 de Março</i> deixa no Brazil o +Principe D. Pedro, +encarregado do Governo Provisorio; e manda proceder á +eleição dos Deputados +Brazileiros á Constituinte em Lisboa na fórma de +outro Decreto de identica +data.--Tendo-se pois de proceder á +eleição dos Deputados no Rio de Janeiro +sob a presidencia de Joaquim José de Queiroz, reunidos os +Eleitores na +Praça do Commercio, e tambem grande concurso de povo (a +maior parte +occultamente armado), levanta-se de repente grande vozería +pedindo que +fosse acclamada a Constituição Hespanhola. Huma +deputação leva ao Rei este +pedido, que he approvado por hum Decreto (<i>21 de Abril</i>). +Porém, +sabendo-se que El-Rei quer partir, manda a Junta ordem ás +fortalezas para o +impedirem de sahir. Augmentando de mais em mais o tumulto no Collegio +Eleitoral, he cercado o edificio pelas tropas que fazem fogo sobre os +cidadãos, de que resultarão algumas mortes e +ferimentos.--No dia seguinte +(<i>22 de Abril</i>) revoga El-Rei o Decreto que adoptava a +Constituição +Hespanhola.--E no dia <i>26 de Abril</i> levanta ancora +para Portugal, +deixando no Brazil como Regente e seu Lugar-Tenente com amplos poderes +seu +filho D. Pedro.--Por este mesmo tempo houve em Santos hum motim militar +por +falta de pagamento; Lazaro José Gonçalves desce +de S. Paulo e restabelece a +ordem e tranquillidade.--Neste mesmo anno o Decreto de <i>6 de +Fevereiro</i> manda criar a Relação de +Pernambuco.</p> + + + +<h4>1821.</h4> + + + +<p>He Regente do Brazil o Principe <span class="smallcaps">D. +Pedro</span>.--Em <i>5 de Junho</i> tem lugar no Rio +de Janeiro huma +revolução, cujos resultados forão a +expulsão do Conde dos Arcos, a criação +de huma Junta Provisoria, e o juramento das bases da +Constituição.--No +entanto em Montevidéo grande questão se debatia, +qual era--<i>si devia esse +Estado conservar-se independente sobre si, apezar de fraco; ou si +reunir-se +á Confederação do Rio da Prata; ou si +ao Brazil</i>.--Foi abraçado o ultimo +partido; e a <i>31 de Julho</i> declarou-se a +incorporação voluntaria de +Montevidéo ao Brazil, sob certas +condições, debaixo do nome de <i>Provincia +Cisplatina</i>. (De sorte que por este facto estendia-se o Brazil +nesta +época até o Rio da Prata).--Em quanto isto se +passa no Sul, he o Norte +ameaçado de tremenda borrasca. Em <i>29 de Agosto</i> +rebenta em Goyana +(Pernambuco) hum movimento revolucionario. Não querendo os +revoltosos +annuir ás proposições pacificas da +Junta Governativa do Recife, resolvem-se +atacar Olinda e a capital; porém são repellidos. +Finalmente a convenção de +<i>Biberibe</i> (<i>9 de Outubro</i>) +restabelece a ordem. O General Luiz +do Rego, que combatêra os revoltosos, depois de haver +capitulado em Olinda +retira-se para Portugal.--Em Portugal as Côrtes de Lisboa +mostrão vistas +menos favoraveis ao Brazil, apezar da opposição +dos Deputados Brazileiros, +cuja voz se torna inutil pela superioridade numerica dos contrarios. +Decretão pois a criação de Juntas +Governativas em todas as Provincias; a +extincção dos Tribunaes Brazileiros; e +chamão á Europa o Principe Real D. +Pedro sob pretexto de instruir-se viajando.--O Norte e Sul do Estado +seguem +partidos diversos. Em quanto aquelle recusa obediencia ao Principe, faz +o +povo no Rio de Janeiro, impellido por <i>José Joaquim +da Rocha</i> hum +requerimento á Camara Municipal afim de ir pedir ao Principe +a graça de +demorar a sua partida. Quasi ao mesmo tempo chegão (fins +deste anno) de S. +Paulo huma energica representação, agenciada por <i>José +Bonifacio de +Andrada e Silva</i>; e outra da villa de Barbacena em +Minas-Geraes por +<i>Paulo Barbosa da Silva</i> contra as +determinações do Congresso de +Lisboa.</p> + + + +<h4>1822.</h4> + + + +<p>O Principe Regente D. Pedro attendendo a todas as +reclamações dos povos +delibera-se a ficar no Brazil (<i>9 de Janeiro</i>); e +assim o declara ao +Presidente da Camara Municipal da capital <i>José +Clemente Pereira</i>, +encarregado da mensagem.--No entanto em Minas Geraes o partido das +Côrtes, +representado principalmente por <i>José Maria Pinto +Peixoto</i>, e +<i>Cassiano Spiridião de Mello e Mattos</i> +recusava obedecer ao Principe. +Em consequencia resolve este fazer entrar tudo na ordem indo +pessoalmente a +Minas. A <i>25 de Março</i> sahe elle do Rio de +Janeiro, acompanhado de mui +poucas pessoas, e em breves dias achava-se em Ouro Preto. Depois de +apaziguar tudo com sua presença e de restabelecer a ordem +fazendo sahir da +Provincia os resistentes, volta á côrte, onde +chega a <i>25 de +Abril</i>.--De volta ao Rio de Janeiro offerece-lhe a Camara +desta cidade o +titulo e cargo de <i>Defensor Perpetuo do Brazil</i>, que +he acceito (<i>13 +de Maio</i>).--Havendo o Decreto de <i>16 de Fevereiro</i> +criado hum +Conselho de Procuradores das Provincias do Brazil, installa-se este no +dia +<i>2 de Junho</i>.--E tendo a Camara do Rio de Janeiro +pedido no dia <i>20 +de Maio</i> a convocação de huma +Assembléa Constituinte e Legislativa para +o Brazil, o Decreto de <i>3 de Junho</i> a convoca.--No +entanto certas +desavenças em S. Paulo, ameaçando a paz e +tranquillidade publica, exigem a +presença do Principe, que para lá parte no dia <i>14 +de Agosto</i>.</p> + + + +<a name="ch6"></a> +<h2>TITULO IV.</h2> + + + +<h3>SECULO XIX.</h3> + + + +<h4>CAPITULO II.</h4> + + + +<a name="ch6a"></a> +<h4>1822.</h4> + + + +<p>Nos campos do <i>Ypiranga</i> em S. Paulo recebe +o Principe D. Pedro +Decretos da côrte de Lisboa, ordenando-lhe terminantemente +que se retirasse +para a Europa, e dando por nullos e irritos todos os actos feitos a +pedido +dos povos. Immediatamente calcando aos pés semelhantes +Decretos, levanta o +grito--<i>Independencia ou Morte</i>--(<i>7 de +Setembro</i>) que retumbou +das margens do Ypiranga até o Amazonas e +Prata.--Restabelecida a ordem em +S. Paulo, volta á côrte onde chega no dia <i>15 +de Setembro</i>.--A <i>12 +de Outubro</i> he acclamado <i>Imperador Constitucional e +Defensor Perpetuo +do Brazil</i>.--E a <i>1.º de Dezembro</i> +sagrado e coroado; +criando neste mesmo dia a Imperial <i>Ordem do Cruzeiro do Sul</i>. +(Fica +pois emancipado o Brazil, e constituido Imperio sob o governo de seu +magnanimo fundador <span class="smallcaps">D. Pedro I.</span>--D'aqui +começa a sua existencia politica como +Nação livre e independente. E em +pouco mais de 20 annos tem caminhado com passos gigantescos na estrada +da +civilisação, apezar das graves +commoções intestinas que constantemente o +perseguem retardando o seu progresso estupendo).</p> + + + +<h4>1823.</h4> + + + +<p>Os Deputados Brazileiros á Constituinte Portugueza, +não tendo podido +alcançar das Côrtes cousa alguma em favor do +Brazil, conseguem evadir-se de +Lisboa, e chegão á sua patria.--Convocada a +Assembléa Constituinte +Brazileira, e feita a eleição, he ella aberta no +dia <i>3 de Maio</i>.--No +entanto a rivalidade dos Generaes <i>Ignacio Luiz Madeira de +Mello</i> e +<i>Manoel Pedro de Freitas Guimarães</i> na +Bahia havia dado lugar a graves +desordens, por isso que ambos querião o commando geral das +tropas, o +primeiro fundado na sua nomeação official, e o +segundo na nomeação popular; +além de que a noticia da independencia já +lá havia chegado, e a Bahia não +queria em seu seio tropas Portuguezas, e muito menos hum Chefe +Portuguez. O +General <i>Pedro Labatut</i> he enviado á +Bahia, auxiliando-o ao mesmo +tempo huma esquadrilha ás ordens do Almirante <i>Lord +Cockrane</i>. Porém +<i>Labatut</i> foi exonerado desta commissão, e +substituido por <i>José +Joaquim de Lima e Silva</i>, que obriga Madeira a capitular. No +dia <i>2 de +Julho</i> os Portuguezes evacuão a Bahia; a qual +adhere á +independencia.--Pernambuco já havia adherido á +independencia, não sem ter +soffrido graves desordens provenientes da +insubordinação da tropa.--Porém o +Piauhy, Maranhão, e Pará resistem á +independencia.--No Piauhy <i>João José +da Cunha Fidié</i> quer sustentar as Côrtes +Portuguezas; mas os Cearenses +conduzidos por <i>José Pereira Filgueiras</i> +invadem o Piauhy e obrigão +Fidié a retirar-se.--No Maranhão <i>José +Felix Pereira de Burgos</i> bate +os resistentes em <i>Itapicurúmirim</i>: e com +a apparição da esquadra de +Cockrane he restabelecida a paz e jurada a independencia.--No +Pará o +General <i>José Maria de Moura</i> quer +resistir; porém do Maranhão he +destacado por Cockrane hum vaso ao mando de <i>João +Pascoé Greenffel</i> +para obrigar o Pará a reconhecer a independencia: com +effeito assim +succede, sendo preso e remettido para Lisboa o General Moura. +Porém a +excessiva alegria do povo ia degenerando em anarchia, tendo lugar +graves +desordens: Greenffel desembarca com alguma tropa e restabelece a +tranquillidade, aprisionando os revoltosos e desordeiros; e +não havendo em +terra prisão segura, lança no porão do +seu navio mais de 300 presos; e +fazendo elles motim, manda disparar alguns tiros para contel-os: no dia +seguinte amanhecem quasi todos asphyxiados!--Voltando ao Sul do +Imperio, +hum facto grave se passava no Rio de Janeiro. O Imperador reconhecendo +vistas ultra-constitucionaes em alguns dos Deputados, dissolve a +Assembléa +Constituinte (Decreto de <i>12 de Novembro</i>), e deporta +alguns de seus +membros (entre os quaes o Patriarcha de nossa independencia <i>José +Bonifacio de Andrada</i>, e seus dous irmãos <i>Antonio +Carlos</i> e +<i>Martim Francisco</i>).--No extremo Sul do Imperio o <i>Barão +da +Laguna</i>, declarando-se a favor da independencia quer obrigar +Montevidéo +a adherir a este movimento; porém o General <i>D. +Alvaro</i> resiste, até +que capitúla em <i>18 de Novembro</i>, depois +de hum longo +assédio.--Tendo-se dissolvido a Constituinte e promettido o +Imperador huma +Constituição aos povos, o Decreto de <i>26 +de Novembro</i> nomea huma +commissão especial de 10 membros para a +redacção de semelhante Codigo +Politico.--Já era apparecida a L. <i>20 de Outubro</i>, +declarando qual a +legislação vigente no Brazil: e mandou-se que se +observasse a mesma que até +então vigorava, a saber, o Codigo Philippino e demais leis +extravagantes +promulgadas até o dia <i>25 de Abril</i> de +1821, todas as promulgadas pelo +Principe D. Pedro como Regente e Imperador, e algumas leis da +Constituinte +posteriores áquella data, especificadas na tabella annexa +á dita Lei. (Esta +legislação tem sido muito alterada por leis +nossas modernas; apontaremos as +modificações mais profundas).</p> + + + +<h4>1824.</h4> + + + +<p>Redigida a Constituição pela +commissão para isso nomeada; he ella +offerecida aos povos pelo Imperador e jurada no dia <i>25 de +Março</i>. Por +ella se estabeleceu o governo <i>Monarchico Hereditario +Constitucional +Representativo</i> no Brazil; e se consolidou assim a unica +Monarchia +existente na America. Forão seus Redactores <i>João +Severiano Maciel da +Costa</i> (Marquez de Quéluz); <i>Luiz +José de Carvalho e Mello</i> +(Visconde da Cachoeira); <i>Clemente Ferreira França</i> +(Marquez de +Nazareth); <i>Mariano José Pereira da Fonseca</i> +(Marquez de Maricá); +<i>João Gomes da Silveira Mendonça</i> +(Visconde do Fanado e Marquez do +Sabará);--<i>Francísco Villela Barbosa</i> +(Marquez de Paranaguá); <i>Barão +de Santo Amaro</i> (Marquez do mesmo titulo); <i>Antonio +Luiz Pereira da +Cunha</i> (Marquez de Inhambupe); <i>Manoel Jacintho +Nogueira da Gama</i> +(Marquez de Baependy); e <i>José Joaquim Carneiro de +Campos</i> (Marquez de +Caravellas).--Em Pernambuco as idéas mal extinctas da +revolução de 1817 são +renovadas pelos escriptos incendiarios de <i>Cypriano +José Barata de +Almeida</i>. Em consequencia <i>Manoel de Carvalho Paes de +Andrade</i> +proclama nesta Provincia o governo Republicano (<i>24 de Julho</i>) +e +convida as demais Provincias do Norte a ligarem-se a Pernambuco e +constituirem a Republica ou <i>Confederação +do Equador</i>. No Ceará foi +este convite acceito por Tristão Gonçalves de +Alencar Araripe e José +Pereira Filgueiras; porém o povo não quiz adherir +a semelhante movimento. +Do Rio de Janeiro he enviado a Pernambuco o Brigadeiro <i>Francisco +de Lima +e Silva</i>. Desembarca este nas Alagôas; e, +aconselhado pelo engenheiro +Conrado Jacob de Niemeyer toma de sorpreza o Recife (<i>12 de +Setembro</i>); e tendo batido os insurgentes em <i>Boa-Vista</i> +ajudado +pela esquadra de <i>Cockrane</i>, havendo fugido Paes de +Andrade para bordo +de hum vaso Inglez, e os revoltosos abandonado Olinda e Recife, +são estes +dous pontos definitivamente occupados pelo Brigadeiro Lima em <i>17 +de +Setembro</i>. Assim restabelece-se a paz, sendo alguns dos +insurgentes +condemnados á morte e executados (entre outros o celebre +João Guilherme +Recktliff, homem de luzes e sentimentos).--He preso na Bahia e +cobardemente +assassinado pela escolta que o conduzia o General Felisberto Gomes +Caldeira +(<i>25 de Outubro</i>).--Horrivel secca lavra pelo Norte, +sobretudo no +Ceará, summamente sujeito a ellas pelos seus grandes +desertos arenosos.</p> + + + +<h4>1825.</h4> + + + +<p>A nossa independencia he reconhecida por Portugal em virtude +da +convenção de <i>29 de Agosto</i>.--Nova +guerra vae suscitar-se no Sul do +Imperio, e começar assim a 3.ª e ultima campanha. +Hum partido, a +cuja frente se achava <i>Fructuoso Rivera</i> em +Montevidéo deseja +separal-o do Brazil. Com effeito Rivera começa a +revolução, sahindo de +Montevidéo e pondo-lhe cerco. Pouco depois se lhe reune <i>D. +João Antonio +Lavalleja</i>, que salta no <i>Porto das Vaccas</i> +em <i>19 de Abril</i>. +A <i>14 de Junho</i> estabelecem hum Governo Provisorio na +<i>Villa de la +Florida</i>; e a <i>20 de Agosto</i> installa-se sua +primeira Camara +Legislativa que declara irritos e nullos todos os actos de +incorporação ao +Brazil.--Commandava nossas forças terrestres o <i>Visconde +da Laguna</i>; +porém achavão-se ellas muito diminuidas pela +retirada de algumas divisões +destacadas para diversos pontos do Imperio afim de nelles restabelecer +e +conservar a ordem e tranquillidade.--Conhecendo Buenos-Ayres nossa +fraqueza +declara-nos a guerra, e liga-se ao partido Republicano em +Montevidéo.--<i>Bento Manoel Ribeiro</i>, +fascinado pela honra do commando +e ávido de gloria militar trava combate com Lavalleja; e +faz-nos pela sua +imprudencia e temeridade perder a batalha de <i>Sarandi</i> +(<i>12 de +Outubro</i>).--Nas aguas do Prata porém a nossa +esquadra commandada por +<i>Pedro Antonio Nunes</i> leva vantagem á do +Almirante <i>Guilherme +Brown</i>.--Novos reforços partem do Rio de +Janeiro.--O Congresso decreta a +incorporação de Montevidéo +á Republica unida do Rio da Prata, e assim o +communica ao Gabinete do Brazil em nota de <i>4 de Novembro</i>.--O +Brazil +declara a guerra a Buenos-Ayres e expende as suas razões no +manifesto de +<i>10 de Dezembro</i>.--Tem lugar no Rio de Janeiro o +nascimento do +Principe D. Pedro (<i>2 de Dezembro</i>).</p> + + + +<h4>1826.</h4> + + + +<p>Celebra-se com a França (<i>8 de Janeiro</i>) +hum tratado perpetuo de +amizade e garantias.--Celebra-se com a Inglaterra hum tratado (<i>23 +de +Novembro</i>) para abolição do trafico de +escravos, e nomeação de +commissões mixtas em tudo e por tudo como o de 28 de Julho +de 1817.--As +continuas desordens na Bahia levão o Imperador a ir +pessoalmente +apazigual-as: com effeito parte da côrte a <i>3 de +Fevereiro</i> e a 27 do +mesmo mez lá se achava: restabelecida a ordem, volta +á côrte, onde chega no +dia <i>1.º de Abril</i>.--Por morte de D. +João VI. em Portugal +(<i>10 de Março</i>), sendo chamado a +succeder-lhe seu filho D. Pedro IV. +(Pedro I. do Brazil) abdíca este a corôa em sua +filha D. Maria da Gloria +(<i>3 de Maio</i>), hoje Rainha de Portugal D. Maria +II.--Abre-se no Rio de +Janeiro a 1.ª Assembléa Legislativa do Brazil (<i>3 +de +Maio</i>).--Continúa a campanha do Sul. <i>Rodrigo +Pinto Guedes</i> toma o +commando da esquadra Brazileira (<i>11 de Maio</i>). +Atacando Lavalleja a +Colonia do Sacramento, he repellido pela brava +guarnição ao mando do habil +General <i>Manoel Jorge Rodrigues</i>; assim como pouco +depois tambem +succede o mesmo a <i>D. Manoel Oribe</i>. Ao mesmo tempo <i>Frederico +Mariath</i> obsta ao ataque da colonia por huma esquadrilha +inimiga. O +Imperador parte para o Sul afim de dirigir elle proprio a guerra contra +os +Argentinos (<i>24 de Novembro</i>).--Durante a sua ausencia +fallece na +côrte a Imperatriz D. Leopoldina (<i>11 de Dezembro</i>).--O +Dec. de <i>16 +de Abril</i> cria a <i>Ordem de Pedro I</i>.</p> + + + +<h4>1827.</h4> + + + +<p>O Imperador, depois de substituir no commando do exercito do +Sul o +Visconde da Laguna pelo <i>Marquez de Barbacena</i>, volta +á côrte em <i>15 +de Janeiro</i>.--Continúa a campanha do Sul. Apezar do +máo estado do +exercito, sahem a campo as nossas tropas. Depois de pequenos tiroteios, +de +marchas e contra-marchas, cujo fim he ainda hoje desconhecido, tem +lugar +(<i>20 de Fevereiro</i>) huma batalha chamada de <i>Ituzaingo</i> +ou do +<i>Passo do Rosario</i>, em que os nossos em numero de +5:000 e tantos +homens combaterão valorozamente contra 9:000 inimigos: mal +dirigida a acção +pelo General em Chefe, he ella ganha pelos contrarios, apezar dos +exforços +de valentes Generaes e Officiaes, como o <i>Barão do +Sêrro Largo</i> (que +morreo), <i>Bento Manoel Ribeiro</i>, <i>Bento +Gonçalves da Silva</i> e +outros.--Pelo contrario nas aguas do Prata a esquadra Brazileira ao +mando +de <i>Rodrigo Pinto Guedes</i> (Barão do Rio da +Prata) composta de 40 vasos +repelle a do Almirante <i>Brown</i>: quando a esquadrilha +commandada por +<i>Jacintho Roque de Sena Pereira</i> já havia +sido obrigada a render-se ao +inimigo, (<i>9 de Fevereiro</i>).--Apezar das victorias +alcançadas pelo +inimigo, propõe elle mesmo a paz. E no Rio de Janeiro +celebra-se huma +convenção preliminar de paz com Buenos-Ayres (<i>24 +de Maio</i>), que +infelizmente não foi ratificada pelo governo dessa +Republica.--A C. L. de +<i>11 de Agosto</i> manda criar dous cursos juridicos no +Imperio, hum em +Olinda, e outro em S. Paulo: abolio por conseguinte a necessidade de +ainda +se recorrer á Universidade de Coimbra para o estudo do +Direito. (No entanto +parece-nos inutil a existencia de duas academias de Direito, assim como +de +duas academias de Medicina no Imperio. Talvez fosse preferivel o +seguinte +systema de instrucção publica: 1.º aulas +de primeiras letras em +todas as cidades, villas e mesmo povoações; +2.º Lyceos ou +Collegios de Bellas-Letras em todas as Provincias; 3.º huma +só +Universidade, onde se estudasse a sciencia Medica, o Direito, a +Theologia e +Canones, a Arte Militar, a da Marinha, etc.)--Celebrão-se +este anno varios +tratados. A <i>16 de Junho</i> hum tratado de <i>commercio +e navegação</i> +entre o Brazil e a Austria.--A <i>9 de Julho</i> hum outro +entre o Brazil e +Prussia. A <i>17 de Agosto</i> hum com a Inglaterra, +concedendo-se-lhe +muitos privilegios e favores commerciaes além de se lhe +conservar o direito +de <i>visita e busca</i> nos vasos Brazileiros suspeitos +de se empregarem +no trafico de Africanos, dando-se <i>privilegio de +fôro criminal</i> aos +subditos Inglezes, e conservando-se as <i>commissões +mixtas</i> no Rio de +Janeiro e Serra-Leôa (tratado summamente oneroso para +nós e que nos trouxe +bastantes vexames).--A <i>17 de Novembro</i> hum outro de +commercio e +navegação entre o Brazil e Republicas +Anseaticas.--O Decreto de <i>3 de +Novembro</i> approva a Bulla do Papa Leão +12.º que eleva a +Bispados as Prelazias de Goyaz e Matto-Grosso.</p> + + + +<h4>1828.</h4> + + + +<p>A <i>11 de Junho</i> teve lugar no Rio de Janeiro +hum motim militar +causado pela sublevação do batalhão de +Allemães, ao qual se reunio o de +Irlandezes. Porém, depois de batidos pela tropa nacional, +entra tudo em +socego sendo reenviados para a Europa os Irlandezes, e entrando de novo +na +obediencia os Allemães.--A <i>6 de Julho</i> +apparece no Rio de Janeiro o +Vice-Almirante Francez <i>Barão Roussin</i> a +reclamar (de morrões +accesos!) as presas feitas sobre sua Nação pela +esquadra Brazileira no Rio +da Prata. Tal era nossa fraqueza, que em vez de repellirmos semelhante +audacia, a soffremos humildemente como escravos!--Tendo continuado no +Sul a +ultima campanha, já o nosso exercito se achava de posse das +melhores +posições pelas acertadas manobras do General <i>Visconde +da Laguna</i>, de +novo no commando geral das tropas, quando o Governo resolveo acceitar a +paz +com Buenos-Ayres. E no Rio de Janeiro celebrou-se o tratado preliminar +de +paz (<i>27 de Agosto</i>), em virtude do qual reconhecemos +e garantimos a +independencia de Montevidéo, perdendo assim esta bella +estrella, e recuando +os nossos limites do Prata: estipulou-se tambem que deveria ter lugar +entre +o Brazil e Montevidéo hum tratado definitivo de limites; +porém até hoje não +tem sido possivel celebrar-se tal tratado definitivo, de sorte que, +como +pensa o Visconde de S. Leopoldo, deve vigorar a ultima +convenção de 1819. +Assim terminou huma longa campanha, que tantos sacrificios custara ao +Brazil!--A C. L. de <i>18 de Setembro</i> cria +effectivamente o Supremo +Tribunal de Justiça, já virtualmente criado pela +Constituição.--A L. de +<i>22 de Setembro</i> extingue o Desembargo do +Paço, a Mesa de Consciencia +e Ordens, e outros tribunaes: e determina a que autoridades +devão passar +suas attribuições, algumas das quaes +já lhes tinhão sido tiradas e dadas +aos Poderes do Estado.--A L. de <i>1.º de Outubro</i> +dá nova +fórma ás Camaras Municipaes, tirando-lhes toda a +jurisdicção contenciosa, e +reduzindo-as a méros corpos +administrativos.--Celebrão-se tratados de +<i>commercio e navegação</i>: +1.º com a Dinamarca (<i>26 de +Abril</i>); 2.º com os Estados-Unidos (<i>12 de +Dezembro</i>); +3.º com os Paizes-Baixos (<i>20 de Dezembro</i>).</p> + + + +<h4>1829.</h4> + + + +<p>O Decreto de <i>27 de Fevereiro</i> manda +suspender as garantias +constitucionaes na Provincia de Pernambuco (os effeitos deste Decreto +forão +mandados suspender pelo de <i>27 de Abril</i> do mesmo +anno).--No dia <i>24 +de Abril</i> he evacuada pelo General Francisco José +de Sousa Soares de +Andréa a praça de Montevidéo na +conformidade do tratado de paz (apezar de +ter sido 22 dias depois do prazo fixado pela +convenção).--A <i>3 de +Setembro</i> encerra o Imperador as Camaras Legislativas com a +seguinte +desusada e summamente laconica falla <i>está fechada +a sessão</i>; o que +mostra a grande indisposição que então +havia entre o Chefe do Estado e a +Representação Nacional.--A <i>16 de Outubro</i> +chega á côrte a Duqueza de +Leuchtemberg <i>D. Amelia</i>, segunda esposa do +Imperador; e em sua +companhia a Princeza D. Maria da Gloria, que no anno antecedente +partira +para a Europa, acompanhada pelo Marquez de Barbacena.--O Decreto de <i>17 +de Outubro</i> cria a <i>Ordem da Roza</i>.</p> + + + +<h4>1830.</h4> + + + +<p>A <i>16 de Dezembro</i> apparece o nosso Codigo +Criminal, que substituio +assim a antiga barbara legislação penal que nos +regia.--Os espiritos no +Imperio vão-se exacerbando; a imprensa periodica commette +excessivos abusos +atacando tudo quanto ha de mais sagrado, a vida privada dos +cidadãos, a +pessoa do Monarcha, e até as bases fundamentaes da +Constituição, apezar das +providencias e leis mandadas executar e promulgadas neste anno com o +fim de +reprimir taes abusos. Em Minas-Geraes he tal o descontentamento, e a +exaltação do povo, que o Imperador resolve-se a +ir segunda vez a essa +Provincia. Com effeito a <i>30 de Dezembro</i> parte elle, +levando em sua +companhia a Imperatriz.</p> + + + +<h4>1831.</h4> + + + +<p>A <i>11 de Março</i> acha-se de novo +na côrte o Imperador, depois de +haver publicado em Ouro-Preto huma proclamação (<i>22 +de Fevereiro</i>); a +qual desgraçadamente não surtio o desejado +effeito, antes azedou mais os +espiritos pelas falsas interpretações que lhe +derão.--Cresce a +impopularidade do Monarcha, e o povo começa a commetter +desordens.--Tendo o +Imperador modificado o ministerio, o povo no Rio de Janeiro pede que +sejão +reintegrados os ministros demittidos. O Imperador recusa. O povo se +amotina, e a tropa se lhe reune no Campo de Sant'Anna.--O Imperador +desgostoso por muitos motivos, e de outro lado querendo assegurar a sua +filha D. Maria a corôa de Portugal, á qual D. +Miguel se julgava com +direito, abdíca em favor de seu filho o Principe D. Pedro a +corôa do Brazil +(<i>7 de Abril</i>). E, depois de entregar ao Major Frias o +decreto de sua +abdicação e de nomear tutor de seus filhos +José Bonifacio de Andrada, +faz-se de vela no dia <i>13 de abril</i>. (Notemos que +esta revolução de 7 +de abril não foi filha do momento; não, ella +já de muito se achava +preparada e devia lavrar por varias Provincias; tanto assim que na +Bahia +rebentou ella no dia 4 d'este mesmo mez).</p> + + + +<a name="ch7"></a> +<h2>TITULO IV.</h2> + + + +<h3>SECULO XIX.</h3> + + + +<h4>CAPITULO III.</h4> + + + +<a name="ch7a"></a> +<h4>1831.</h4> + + + +<p>Ficando na minoridade o Principe D. Pedro, é o +Brazil governado por uma +<i>Regencia</i>. Os Senadores e Deputados existentes no Rio +de Janeiro +reunem-se no paço do Senado, e elegem (<i>7 de abril</i>) +uma <i>Regencia +Provisoria</i> de 3 membros, que forão o <i>Marquez +de Caravellas</i>, o +Brigadeiro <i>Francisco de Lima e Silva</i>, o Senador <i>Nicolau +Pereira +de Campos Vergueiro</i>. Indisciplinando-se a tropa, e +ameaçada a capital +do Imperio de funestas desordens, são dissolvidos varios +corpos, e presos +muitos officiaes; varios outros corpos são remettidos para a +Bahia e +Pernambuco afim de affastal-os da côrte. A <i>18 de +Junho</i> a Assembléa +Geral elege a <i>Regencia Permanente</i> composta de 3 +membros, e a confia +ao Brigadeiro <i>Francisco de Lima e Silva</i>, e aos +Deputados <i>José da +Costa Carvalho</i> (hoje Visconde de Monte-Alegre), e <i>João +Braulio +Moniz</i>.--O Norte do Imperio he victima de graves +desordens.--No Pará, +tendo ahi chegado a noticia da abdicação, he +pedida por hum partido a +demissão do Commandante das Armas Francisco José +de Sousa Soares de Andréa; +porém outro partido mais forte o sustenta: até +que chegão novo Presidente, +e novo Commandante das Armas; o Presidente (Visconde de Goyanna) he +tumultuariamente preso e deportado em consequencia de huma +sedição militar +(<i>7 de Agosto</i>).--No Maranhão tambem houve +huma pequena revolução, +depois que alli chegou a noticia da abdicação. No +dia <i>13 de Setembro</i> +a tropa e o povo depõe o Commandante das Armas, expellem da +Provincia +varios Magistrados e pessoas de consideração; o +Presidente Candido José de +Araujo Vianna porta-se com energia; os insurgentes fogem para o +interior; +e, sendo mortos e desbaratados, restabelece-se a tranquillidade.--Em +Pernambuco teve lugar huma horrivel sedição, +filha da insubordinação que +nesta época lavrava pelo exercito. Na noite de <i>14 +de Setembro</i> e no +dia seguinte he a capital desta Provincia assolada pela tropa, depois +de +haver morto o Commandante das Armas: até que no dia 16 o +povo cahe sobre os +soldados ébrios, mata grande numero, e faz o resto +prisioneiro.--Tambem no +Rio de Janeiro o corpo d'Artilharia de Marinha insurge-se na Ilha das +Cobras, e em outros fortes (<i>7 de Outubro</i>); +porêm entra tudo de novo +na ordem com o auxilio da Guarda Nacional (já creada por lei +de 18 de +Agosto), e de outros corpos.--No Ceará o Coronel de Milicias +<i>Joaquim +Pinto Madeira</i>, depois que alli chegou a nova da +abdicação, é perseguido +atrozmente como <i>realista</i>; e rompe (<i>14 de +Dezembro</i>) uma +contra-revolução: porêm no anno +seguinte (<i>13 de Outubro</i> de 1832) +vê-se obrigado a entregar-se ao General <i>Labatut</i>, +sob promessa de o +enviarem á côrte onde pertendia justificar-se. +Mas, depois de errar de +prisão em prisão, ora em Pernambuco, ora no +Maranhão, foi afinal julgado +mesmo no Ceará, e juridicamente assassinado (<i>Novembro +de +1834</i>).--Apparece a lei de <i>4 de Outubro</i> +que extingue o Conselho +da Fazenda, e cria o Thesouro Publico, e Thesourarias Provinciaes.</p> + + + +<h4>1832.</h4> + + + +<p>A <i>12 de Abril</i> uma +sedição militar tem lugar na comarca do +Rio-Negro no Pará, da qual foi resultado o assassinato do +commandante +militar da mesma comarca o Coronel Joaquim Philippe Reis. E a <i>23 +de +Junho</i> o Conego <i>Baptista</i>, homem influente +no Pará, e que havia +suscitado a revolta, proclama a comarca do Rio-Negro independente do +governo do Pará. O Presidente vê-se obrigado a +ligar-se ao Conego de +maneira tal, que, chegando ahi novo Presidente e Commandante das Armas, +o +Presidente desobedeceo e não os deixou desembarcar.--Em +Pernambuco teve +lugar no dia <i>14 de Abril</i> nova +revolução militar começada por um +batalhão de Milicias dirigido pelo Tenente Coronel <i>Francisco +José +Martins</i>: rebentou ella na capital; mas não podendo +os insurgentes +receber reforços á vista das medidas energicas +tomadas pelo Presidente, +restabelece-se a tranquillidade no dia 16 do mesmo mez. Porêm +o resultado +deste movimento foi apparecer mais tarde em <i>Panellas de +Miranda</i> na +mesma Provincia a celebre e formidavel guerra dos <i>Cabanos</i>, +que durou +perto de 4 annos.--(Em quanto isto se passa no Norte, voltemos ao Sul. +É +sabido que diversos partidos politicos existião no Brazil a +este tempo. As +facções, que por esta época tambem +apparecerão não fizerão com suas +derrotas senão augmentar a influencia do partido <i>moderado</i>, +que +dominou por muito tempo a politica do governo).--Em <i>30 de +Julho</i> a +Regencia quer resignar o Poder ante as Camaras; estas porêm +não o +permittem.--A L. <i>3 de Outubro</i> reforma as antigas +Academias +Medico-Cirurgicas dando-lhes a denominação de +Faculdades de Medicina e +Cirurgia (Bahia e Rio de Janeiro), e nova +organisação.--A L. de <i>29 de +Novembro</i> dá-nos o nosso Codigo do Processo +Criminal, que reformou a +antiga legislação das +Ordenações e mais leis extravagantes; estabeleceo +o +Jury de accusação e de sentença para +todos os crimes em geral; deo nova +organisação ao Poder Judiciario; e na Parte Civel +estabeleceo disposições +novas relativas ao processo, e igualou as +Relações do Imperio, extinguindo +assim a Casa de Supplicação.</p> + + + +<h4>1833.</h4> + + + +<p>A <i>22 de Março</i> rompe uma +revolução em Ouro-Preto na Provincia de +Minas Geraes. O Vice-Presidente vê-se obrigado a retirar-se +para S. João +d'El-Rei. O Marechal <i>José Maria Pinto Peixoto</i>, +enviado da côrte +apenas com 4 Officiaes, chega a Minas; e á frente da Guarda +Nacional faz +dentro em pouco entrar tudo na ordem.--A <i>16 de Abril</i> +tem lugar na +capital do Pará horrivel matança.--Neste anno as +sessões da Assembléa Geral +Legislativa estiverão grandemente agitadas pela +discussão de 2 importantes +projectos, o das <i>Reformas Constitucionaes</i>, e do +banimento do +<i>Ex-Imperador</i>.--Tem lugar no Rio de Janeiro algumas +desordens, que +apenas limitarão-se a quebrar typographias, +vidraças de casas de algumas +pessoas consideraveis, a illuminação da Sociedade +Militar, &c.--No dia +<i>15 de Dezembro</i> é cercado o +Paço da Boa Vista, e preso por ordem do +Governo o Tutor dos Imperiaes Pupillos--José Bonifacio de +Andrada.</p> + + + +<h4>1834.</h4> + + + +<p>No Cuiabá tem lugar horrivel mortandade e anarchia +desde <i>30 de +Maio</i> até <i>5 de Julho</i>.--Cahe no +Senado o projecto de banimento do +Ex-Imperador, que já havia passado na Camara dos +Deputados.--Apparece a Lei +das Reformas Constitucionaes (<i>12 de Agosto</i>), chamada +<i>Acto +Addicional</i>; pela qual se extinguirão os Conselhos +Geraes de Provincia, +creando-se em seu lugar as Assembléas Legislativas +Provinciaes com muito +mais amplas attribuições; bem como se extinguio o +Conselho d'Estado.--A 24 +de Setembro morre em Portugal o Ex-Imperador; e com sua morte +desapparece +no Brazil o partido <i>Caramurú</i>, pois que +este só tinha em vista chamar +de novo D. Pedro ao Brazil afim de pôr termo ao estado +critico do +Imperio.--Hum Decreto concede amnistia geral a todos os compromettidos +na +revolução do Ouro-Preto e outros pontos.--E a L. <i>3 +de Outubro</i> dá o +Regimento dos Presidentes de Provincia.</p> + + + +<h4>1835.</h4> + + + +<p>O Pará, depois da matança de 16 de Abril +de 1833, é flagellado perto de +4 annos por scenas iguaes a essa. No dia <i>7 de Janeiro</i> +do presente +anno de 35 forão ahi assassinados o Presidente <i>Lobo +de Souza</i>, o +Commandante das Armas Major <i>Santiago</i>, e o +Commandante da Estação +Naval. Os revoltosos nomeião Presidente o Tenente Coronel de +Milicias +<i>Felix Antonio Clemente Malcher</i>, e Commandante das +Armas hum +traficante de nome <i>Francisco Pedro Vinagre</i>; +porêm Malcher é +assassinado, e Vinagre fica com todo o mando civil e militar. Tendo +chegado +ao Pará o Marechal <i>Manoel Jorge Rodrigues</i>, +finge Vinagre obedecer +entregando o governo; mas achando-se mais forte, revolta-se e obriga o +Marechal a abandonar a capital.--A <i>7 de Abril</i> +procede-se em todo o +Imperio á eleição de hum só +Regente na fórma do Acto Addicional: e, tendo +sido eleito o Padre <i>Diogo Antonio Feijó</i>, +presta elle juramento no +dia 12 de Outubro.--A 20 de Setembro rompe no Rio Grande do Sul huma +desastrosa e terrivel revolução. O Presidente <i>Antonio +Rodrigues +Fernandes Braga</i> vê-se obrigado a abandonar Porto +Alegre e fugir para a +villa do Rio Grande.--O chefe da revolta <i>Bento +Gonçalves da Silva</i> +publica o seu manifesto (<i>25 de Setembro</i>) expondo os +motivos do seu +procedimento. O Presidente não podendo conservar-se, +retira-se para a +côrte; e é substituido por <i>José +de Araujo Ribeiro</i>, que consegue +chamar a si um dos chefes revoltosos o Coronel <i>Bento Manoel +Ribeiro</i>, +e fazer entrar na ordem Porto Alegre.--No Norte do Imperio termina em +Novembro deste anno a formidavel guerra dos Cabanos, mais pelos meios +espirituaes empregados pelo Bispo de Pernambuco <i>D. +João da Purificação +Marques Perdigão</i>, do que pelos exforços +do Major <i>Joaquim José +Luiz</i>.</p> + + + +<h4>1836.</h4> + + + +<p>A <i>6 de Abril</i> soffrem os legalistas no Sul +huma derrota junto a +<i>Pelotas</i>, sendo morto o Coronel Albano e ficando +prisioneiros dos +rebeldes o Major Marques e outros. Porêm este revez +é grandemente +compensado pela victoria de <i>Fanfa</i> (<i>Outubro</i>) +em que é +prisioneiro o intitulado Presidente da Republica de Piratinim Bento +Gonçalves; o qual é remettido para a +côrte, donde o enviarão para uma +fortaleza na Bahia.--Para o Pará é nomeado +Presidente e Commandante das +Armas o Brigadeiro <i>Soares de Andréa</i>; o +qual, depois de fazer occupar +a capital por tropas ajudadas pela Divisão Naval ao mando de +<i>Frederico +Mariath</i>, entra e toma posse (<i>13 de Maio</i>); +bate em varios +encontros os revoltosos, fazendo prisioneiros Vinagre e outros +chefes.--O +Regente, depois de demittir e nomear por duas vezes Presidente do Rio +Grande do Sul José de Araujo Ribeiro, fal-o substituir pelo +Brigadeiro +<i>Antero José Ferreira de Brito</i>, +continuando porêm no Commando das +Armas o Coronel <i>Bento Manoel</i>.</p> + + + +<h4>1837.</h4> + + + +<p>A conducta impolitica do novo Presidente excita +desconfianças em Bento +Manoel, que o prende a <i>23 de Março</i> no <i>Passo +do Tapevy</i>; em +consequencia do que abandona o partido legalista, e abraça a +causa que +combatia. Este desastre torna summamente precaria no Sul a +posição de +nossas armas e a causa da legalidade; pelo contrario os rebeldes +adquirem +com isto tamanha força, que tomão <i>Cassapava</i> +(<i>8 de Abril</i>), e +ahi batem o Coronel João Chrisostomo e toda a gente ao seu +commando. Outro +acontecimento veio ainda empeiorar a nossa +condição nesta Provincia: Bento +Gonçalves, que se achava preso na Bahia, consegue evadir-se (<i>10 +de +Setembro</i>), e vai reunir-se aos seus, dando-lhes com sua +presença maior +energia e força. O Governo, sabendo de todos estes factos, +nomeia +Presidente o cidadão <i>Feliciano Nunes Pires</i>, +o qual nada consegue dos +rebeldes por ser homem de poucas relações na +Provincia, e de nenhum +prestigio. Com tudo a legalidade se sustenta pelos exforços +da Guarda +Nacional e de alguns Officiaes.--No Rio de Janeiro o Regente +não podendo +conservar por mais tempo o poder, por lhe faltar apoio nas Camaras e +haver +huma forte opposição, nomeia Ministro do Imperio +o Senador <i>Pedro de +Araujo Lima</i> (hoje Visconde de Olinda), e no dia <i>19 +de Setembro</i> +entrega-lhe a Regencia.--Em quanto isto se passava no Sul do Imperio, +he o +Pará completamente pacificado da +revolução de Vinagre pelos exforços +inauditos do Brigadeiro Andréa.--Pelo contrario na Bahia +rebenta (<i>7 de +Novembro</i>) huma revolução, que, +acobertada a principio com o nome de S. +M. I., ao depois deu bem a conhecer quaes erão seus fins +ultimos; a qual +viria a ser terrivel, si não fôra logo reprimida. +Seu chefe era hum +individuo de nome <i>Sabino</i>.--O Decreto de <i>2 +de Dezembro</i> cria no +Rio de Janeiro hum Collegio de Bellas-Letras denominado de <i>Pedro +II</i>.</p> + + + +<h4>1838.</h4> + + + +<p>A revolução Sabino na Bahia obriga o +Presidente <i>Antonio Pereira +Barreto Pedroso</i> a sahir para o Reconcavo, onde se lhe reunem +innumeras +familias, toda a tropa de linha e a Guarda Nacional. O General <i>João +Chrisostomo Callado</i> bate os revoltosos e derrota-os +completamente +dentro mesmo da cidade, fazendo avançar sobre esta a tropa +na occasião em +que começava a ser incendiada (<i>16</i>, <i>17</i> +e <i>18 de Março</i>). +Sabino he preso e confinado para Matto-Grosso.--Já a este +tempo era +Presidente e Commandante das Armas no Rio Grande do Sul o Brigadeiro +<i>Antonio Eliziario de Miranda e Brito</i>. A <i>30 +de Abril</i> são +batidas e derrotadas na villa do <i>Rio-Pardo</i> as +forças legalistas ao +mando do Marechal Barreto e dos Brigadeiros Cunha e Calderon: a villa +cahe +em poder dos rebeldes.--A <i>21 de Outubro</i> o Conego <i>Januario +da +Cunha Barboza</i> consegue fundar no Rio de Janeiro o <i>Instituto +Historico e Geographico Brasileiro</i>.--Apparece no +Maranhão na villa da +<i>Manga do Iguará</i> huma +sedição, a cuja frente se acha <i>Raymundo +Gomes</i> (<i>14 de Dezembro</i>).</p> + + + +<h4>1839.</h4> + + + +<p>A sedição de Raymundo Gomes assola o +Maranhão e o incendía: cresce de +dia em dia o numero dos revoltosos, a ponto de tomarem e saquiarem +<i>Caxias</i> (<i>1.º de Julho</i>).--No +Rio Grande do Sul erão +a principio summamente infelizes as nossas armas porque no rio <i>Cahy</i> +nos tomarão os rebeldes 2 canhoneiras (<i>31 de Janeiro</i>), +e obrigarão o +Marechal Eliziario a retirar-se apressadamente do Cahy (<i>2 de +Fevereiro</i>). Já senhores de grande parte dos +campos, e necessitando de +hum porto de mar, tomão e occupão a cidade da <i>Laguna</i> +(<i>23 de +Julho</i>) assim como toda a Provincia de Santa Catharina +á excepção da +ilha. O Chefe inimigo <i>David Canavarro</i>, que havia +tomado a Laguna, +arma em corso varios navios, e fal-os sahir a incommodar o nosso +commercio. +Mas chega ao Sul o Marechal <i>Soares de Andréa</i> +como Presidente e +commandante das Armas, e <i>Frederico Mariath</i> como +commandante das +forças navaes: ainda commandava os nossos no campo o Tenente +General +<i>Manoel Jorge Rodrigues</i>. E pela actividade de +Andréa muda a face das +cousas: Mariath expelle da Laguna os rebeldes e a occupa (<i>15 +de +Novembro</i>): de sorte que tudo nos dava prosperas +esperanças para a +seguinte campanha, pois que quasi toda a Provincia já se +achava +restaurada.--Pelos fins deste anno (<i>12 de Dezembro</i>) +é nomeado +Presidente e Commandante das Armas no Maranhão o Coronel <i>Luiz +Alves de +Lima</i> (hoje Conde de Caxias) afim de pôr termo +ás desordens do bando de +Raymundo Gomes.</p> + + + +<h4>1840.</h4> + + + +<p>Continuão a sedição do +Maranhão, e a guerra do Sul.--No Maranhão +são os +revoltosos batidos constantemente pelo Coronel Lima, e perseguidos +até nas +Provincias do Piauhy e Ceará.--No Rio Grande as +forças legalistas ao mando +de Manoel Jorge Rodrigues encontrão-se com as de Bento +Gonçalves no +<i>Taquary</i>; porêm nenhum resultado se tirou +de semelhante combate (<i>3 +de Maio</i>). Depois disto, Bento Gonçalves ataca a +Villa de <i>S. José do +Norte</i>, e não consegue tomal-a pela briosa +resistencia que encontrou +(<i>16 de Julho</i>).--Em quanto isto se passa no N. e S. +do Imperio, +voltemos á côrte, onde grande movimento se +prepara, e nova épocha vae ter +lugar. Aberta a Assembléa Geral, é no dia <i>13 +de Maio</i> proposto no +Senado hum projecto de lei declarando <i>maior</i> o +Senhor D. Pedro II; +porêm cahio. No dia <i>3 de Julho</i> o Deputado +<i>Francisco Alvares +Machado de Vasconcellos</i>, procurou mostrar a illegalidade com +que ainda +se conservava no poder o Regente Lima. Entrou depois em +discussão a reforma +do Art. 121 da Constituição (onde se fixa a +maioridade do Imperador aos 18 +annos); a qual trouxe debates calorosissimos. No dia <i>20 de +Julho</i> o +Deputado <i>Martim Francisco Ribeiro de Andrada</i> +apresenta hum projecto +declarando <i>desde logo</i> maior o Senhor D. Pedro. No +dia seguinte +<i>Antonio Carlos Ribeiro de Andrada</i> apresenta outro +projecto igual ao +de seu irmão. Pede-se a urgencia, e propõe-se a +fusão das Camaras para +deliberarem sobre tão grave objecto. Estando as cousas neste +ponto, o Decr. +do Governo de 22 adia as Camaras para 20 de Novembro do mesmo anno (era +então Ministro do Imperio Bernardo Pereira de Vasconcellos). +Porêm alguns +Deputados reunem-se aos Senadores que se achavão ainda no +Senado, envião a +S. Christovão huma Deputacão, e obtem a +convocação da Assembléa para o dia +seguinte afim de se declarar maior o Senhor D. Pedro II. Com effeito no +dia +<i>23 de Julho</i> tem lugar a +declaração da maioridade, e a +acclamação do +Imperador. Terminou tudo pacificamente com geral regosijo e festejos +sem +limite.</p> + + + +<a name="ch8"></a> +<h2>TITULO IV.</h2> + + + +<h3>SECULO XIX.</h3> + + + +<h4>CAPITULO IV.</h4> + + + +<a name="ch8a"></a> +<h4>1840.</h4> + + + +<p>Desde <i>23 de Julho</i> cessa a Regencia no +Brazil, e impéra o Senhor +<i>D. Pedro II</i>.--O primeiro grande acto do seu reinado +foi a amnistia +geral concedida a todos os implicados nas +revoluções em todo o Imperio +(Decr. <i>22 de Agosto</i>).--O Deputado <i>Alvares +Machado</i> vai em +commissão ao Rio Grande do Sul, a vêr se por meio +da amnistia consegue +reduzir á obediencia os revollosos; porém estes +não a acceitão. Em +consequencia o Presidente Alvares Machado rompe com os rebeldes; e de +novo +começão as hostilidades (<i>10 de Dezembro</i>).--Apparece +a L. <i>12 de +Agosto</i>; contendo a interpretação de +alguns artigos do Acto Addicional +(mas não o interpretou unicamente, alterou muito o Acto, +tirando ás +Assembléas Provinciaes algumas das exorbitantes prerogativas +que lhes +havião sido concedidas).</p> + + + +<h4>1841.</h4> + + + +<p>Os exforços do Coronel <i>Lima</i> e a +apparição da amnistia geral +conseguem a completa e inteira pacificação do +Maranhão.--Tambem no Pará a +amnistia produzio beneficos resultados, fazendo cessar de todo as +desordens, e chamando ao gremio da sociedade aquelles que ainda +receiavão +fazel-o.--No Sul porêm continuão as hostilidades, +sem resultado algum +notavel.--A <i>18 de Julho</i> tem lugar na +côrte o acto solemne da +Sagração e Coroação de S. +M. I. Foi sagrado na Capella Imperial pelo +Arcebispo da Bahia (apezar da grave disputa que houve entre este e o +Bispo +Diocesano Capellão-Mór).--Apparecem duas leis que +derão lugar ou antes +servirão de <i>pretextos</i> a movimentos +revolucionários. São +ellas:--1.º a L. <i>23 de Novembro</i>, criando +hum Conselho de +Estado, pois o que existia pela Constituição +fôra abolido pelo Acto +Addicional.--2.º a L. <i>3 de Dezembro</i>, +contendo as reformas +judiciarias.</p> + + + +<h4>1842.</h4> + + + +<p>A Assembléa Provincial de S. Paulo envia ao Rio de +Janeiro huma +commissão de 3 membros (Nicoláu Pereira de Campos +Vergueiro, Bernardo José +Pinto Gavião Peixoto, e Francisco Antonio de Souza Queiroz +que chegarão no +dia 3 de Fevereiro) afim de levar a S. M. I. huma +representação, porêm não +é recebida e volta para S. Paulo.--Devendo reunir-se a +Assembléa Geral, he +a Camara temporaria dissolvida por Decr. do <i>1.º de +Maio</i>, +e convocada outra para <i>1.º de Novembro</i>.--Predispostos +já +os espiritos em varias Provincias, e exacerbados ainda mais pela +existencia +das leis do anno antecedente, pela recusa da +recepção da commissão, e pela +dissolução da Camara, rompe (<i>13 de Maio</i>) +em <i>Sorocaba</i>, na +Provincia de S. Paulo, a revolução a cuja testa +se poz <i>Raphael Tobias de +Aguiar</i>, acclamado Presidente pelos desordeiros. Era +então Presidente da +Provincia o <i>Barão de Monte Alegre</i>; o +qual já havia tomado medidas +para obstar á entrada dos insurgentes na capital, e pedido +soccorros á +côrte. Parte immediatamente (<i>19 de Maio</i>) +para S. Paulo o <i>Barão de +Caxias</i>, nomeado Commandante em Chefe das forças +imperiaes nesta +Provincia.--Quasi ao mesmo tempo (<i>10 de Junho</i>) rompe +a revolução em +<i>Barbacena</i>, na provincia de Minas Geraes, tendo +á sua frente <i>José +Feliciano Pinto Coelho</i> acclamado Presidente pelos +insurgentes: era +Presidente da Provincia Bernardo Jacintho da Veiga. Estes +incendião a ponte +do <i>Parahybuna</i> que communica a Provincia de Minas +com o Rio de +Janeiro, pensando assim obstar á passagem de tropas e +soccorros.--Pelo +mesmo tempo o Decr. de <i>18 de Junho</i> suspende por um +mez na côrte e +Provincia do Rio de Janeiro as garantias constitucionaes.--A 20 de +Junho +estava completamente suffocada em S. Paulo a rebellião +tendo-se dispersado +os insurgentes á approximação das +forças legalistas, sobre tudo depois do +ataque da Venda Grande.--A <i>3 de Julho</i> +são deportados alguns +individuos existentes no Rio de Janeiro, e dos quaes se receiava alguma +tentativa de revolução na côrte (entre +outros Antonio Paulino Limpo de +Abreu, Dr. Joaquim Candido Soares de Meirelles, Francisco de Salles +Torres-Homem, etc.)--O Decreto de <i>27 de Julho</i> +transfere para +<i>1.º de Janeiro</i> de 1843 a +convocação da nova Assembléa +Geral.--Tendo chegado a Minas o <i>Barão de Caxias</i> +(que havia sahido da +côrte no dia <i>25 de Julho</i>), encontra-se +com os insurgentes no arraial +de <i>Santa Luzia</i>; porém elles resistem com +denodo: já o Barão havia +queimado toda a polvora, e corria grave perigo a causa da legalidade, +quando apparece por felicidade extrema hum reforço +ás ordens de <i>José +Joaquim de Lima e Silva</i>: assim forão completamente +desbaratados os +insurgentes com grande mortandade, e he restituida a paz á +Provincia.--De +volta á côrte he o Barão de Caxias +nomeado Presidente e Commandante das +Armas no Rio Grande do Sul, para onde parte com novas tropas no dia <i>29 +de Outubro</i> afim de terminar tão desastrosa guerra +civil.</p> + + + +<h4>1843.</h4> + + + +<p>Em o <i>1.º de Maio</i> celebra-se no +Rio de Janeiro o +casamento do Principe de Joinville com a Princeza D. Francisca: pouco +depois retirão-se para a Europa.--Continua a guerra civil no +Sul. O Chefe +de Esquadra <i>Greenfell</i> he substituido por <i>Antonio +Pedro de +Carvalho</i> no commando das forças navaes nestas +paragens. Os rebeldes são +completamente batidos pela tropa legalista no lugar denominado +<i>Ponche-Verde</i> (<i>26 de Maio</i>).--A <i>30 +de Maio</i> casa-se S. M. +I., por procuração em Napoles com a Senhora <i>D. +Thereza Christina +Maria</i>, irmã do Rei das Duas-Sicilias. Chega a +Imperatriz ao Rio de +Janeiro (<i>3 de Setembro</i>).--Neste anno houve grave +debate no Senado +por occasião da questão do julgamento dos +Senadores implicados nas +revoluções de 42. Huns opinavão que +não podião ser processados e julgados +por não haver lei que determinasse a <i>fórma</i> +do processo, apezar de se +achar determinado em lei qual a autoridade, qual o crime e a pena; que +o +contrario seria a violação mais revoltante do +Art. 179, § 11 da +Constituição: outros porém +combatião esta opinião, dizendo que se +applicasse a fórma geral do processo nos crimes de +responsabilidade +conforme o Art. 170 do Cod. do Proc. Crim. O resultado foi prevalecer a +primeira opinião, julgar-se improcedente o processo, e +tratar-se de fazer a +lei que preenchesse esta lacuna da legislação +penal. Em consequencia a +Resol. de <i>14 de Junho</i> deste anno applica aos crimes +individuaes dos +membros do Corpo Legislativo o Art. 170 do Cod. do Proc. Crim.</p> + + + +<h4>1844.</h4> + + + +<p>Em <i>24 de Janeiro</i> ha hum levantamento no <i>Pilão-Arcado</i> +(Provincia da Bahia), movido por <i>Militão</i> +e <i>Guerreiros</i>: +comettem toda a sorte de desacatos, mortes, roubos, etc. O Presidente +manda +força e o Chefe de Policia a restabelecer a ordem.--Na +côrte os Ministros +retirão-se do Ministerio; e com a +organisação do novo Gabinete desce do +poder o partido <i>monarchista</i> ou <i>Saquarema</i>, +e sobe o +<i>liberal</i> ou <i>Santa Luzia</i> (<i>2 +de Fevereiro</i>).--O Decr. de +<i>14 de Março</i> concede amnistia aos +revoltosos de Minas e S. Paulo.--Ao +mesmo tempo autorisa-se o Presidente de S. Pedro do Sul a conceder +amnistia +aos rebeldes que se viessem entregar; mas esta +autorisação foi só por +espaço de 3 mezes.--Em <i>28 de Abril</i> +casa-se no Rio de Janeiro o +Cunhado de S. M. o Imperador o Conde d'Aquila, com a Princeza D. +Januaria, +os quaes pouco depois retirão-se para Europa.--O Decr. de <i>24 +de Maio</i> +dissolve a Camara dos Deputados, e convoca a Assembléa para +o +<i>1.º de Janeiro</i> do anno seguinte.--Em <i>Outubro</i> +rebenta nas Alagôas huma revolução: os +sediciosos entrão por duas vezes na +capital, obrigando o Presidente a fugir para bordo de vasos de guerra. +Chegão tropas da Bahia e Pernambuco, em quanto sahe do Rio +de Janeiro o +Brigadeiro <i>Seára</i> com alguma tropa a +restabelecer a tranquillidade. +Com effeito encontrão-se os insurgentes e legalistas na +villa da +<i>Atalaia</i> (<i>4 de Novembro</i>), onde +depois de luta encarniçada e +grande derramamento de sangue são vencidos e repellidos os +desordeiros. Mas +nem por isso foi totalmente restabelecida a tranquillidade; o que +só se +conseguio com a mudança do Presidente. E na realidade tendo +tomado posse da +Presidencia (<i>9 de Dezembro</i>) o Senador <i>Caetano +Maria Lopes +Gama</i>, os sediciosos entregão as armas: e a paz +é completamente +restabelecida com a amnistia que lhes foi concedida.--No Sul do Imperio +continuavão felizes as nossas armas: de modo que os rebeldes +envião á côrte +(onde chega no dia <i>10 de Dezembro</i>) em +commissão <i>Antonio Vicente +de Fontoura</i> afim de tratar com o Governo ácerca do +restabelecimento da +paz n'aquella Provincia sob certas condições; +Fontoura volta ao Rio Grande; +e o Barão de Caxias recebe plenos poderes para tratar com os +rebeldes.</p> + + + +<h4>1845.</h4> + + + +<p>Nasce no Rio de Janeiro o Principe Imperial, primogenito do +Senhor D. +Pedro 2.º (<i>23 de Fevereiro</i>).--Termina neste +anno a longa +luta civil em S. Pedro do Sul, que durara quasi 10 annos e trouxera +graves +desastres e calamidades a essa malfadada Provincia e ao Brazil inteiro. +David Canavarro, chefe dos rebeldes, convoca todos os chefes e +officiaes +para o lugar denominado Ponche-Verde, e ahi lhes propõe +voltarem á paz sob +a promessa Imperial de não serem inquietados: todos +aceitão. E no dia <i>28 +de Fevereiro</i> entregão as armas, voltando para o +seio de suas familias, +e obrigando-se a não alterarem mais em tempo algum a paz e +tranquillidade +publica. Esta noticia é por todo o Brazil recebida com +jubilo +extraordinario.--Muitos são os Officiaes que se +distinguirão nesta guerra, +e merecem grandes elogios: além dos que já temos +citado, muito se +distinguio o bravo <i>Francisco Pedro de Abrêu</i>, +o Brigadeiro <i>Bento +Manoel Ribeiro</i>, já por ultimo reduzido de novo +á legalidade, e que +muito coadjuvou o <i>Barão de Caxias</i> na +total e definitiva pacificação +d'esta Provincia.--Em <i>13 de Março</i> deste +anno terminou o prazo de +duração do tratado de 1827 com a Inglaterra, +apezar de ter sido prolongado +por mais 3 annos além do tempo convencionado, depois de huma +grave questão +entre o Gabinete do Rio de Janeiro e o de Londres sobre a intelligencia +de +hum artigo do mesmo tratado em que se fixava para sua +duração o prazo de 15 +annos. Cessão por conseguinte as <i>Commissões +Mixtas</i> no Rio de Janeiro +e Serra-Leôa (<i>13 de Setembro</i>). Cessa o +direito de <i>visita e +busca</i> nos vasos mercantes Brazileiros suspeitos de se +empregarem no +trafico de escravos. Cessa o <i>privilegio de fôro</i> +de que gosavão até +aqui os subditos Inglezes. Cessão tambem os <i>privilegios +commerciaes</i> +e <i>favores</i> concedidos pelo dito tratado.--Tem lugar +na côrte o +baptismo do Principe Imperial (<i>25 de Março</i>) +que recebe o nome de +<i>D. Affonso</i>.--Horrivel secca lavra pelo Norte do +Imperio sobretudo na +desgraçada Provincia do Ceará.--Tendo S. M. I. +annunciado na falla de +encerramento da Assembléa Geral que pertendia visitar as +provincias do +Imperio, parte com effeito da côrte (<i>6 de Outubro</i>) +em direcção ao +Sul. Visita as Provincias de Santa Catharina e Rio Grande, percorrendo +quasi todas as povoações e fazendo immensos +donativos pios. Era acompanhado +de Sua Augusta Esposa.--Neste mesmo anno um facto da maior importancia +tem +lugar em Inglaterra. <i>Lord Aberdeen</i> obtem do +Parlamento o celebre +bill (<i>8 de Agosto</i>), que sujeita os navios e subditos +Brazileiros +suspeitos de se empregarem no trafico de escravos a serem julgados +pelos +seus Tribunaes, e punidos pelas leis Inglezas como <i>piratas</i>.--Como +era de esperar, o Governo Brazileiro protestou (Manif. de <i>22 +de +Outubro</i>) contra semelhante offensa de todos os direitos e +honra +nacional.--Por outro lado o <i>Memorandum</i> do Visconde +de Abrantes (de +<i>9 de Novembro de 1844</i>) aos Gabinetes de Londres e +Paris sobre a +intervenção Europea nos negocios do Rio da Prata +excita reclamações da +parte de Buenos-Ayres, que complicão ainda mais as nossas +relações com esta +Republica, relações já alteradas por +varios motivos.</p> + + + +<h4>1846.</h4> + + + +<p>SS. MM. II. depois de visitarem as Provincias de Santa +Catharina e S. +Pedro do Sul dirigem-se para S. Paulo. Chegão a Santos no +dia <i>18 de +Fevereiro</i>. E, depois de percorrerem varios pontos da +Provincia, +fazem-se de véla para a côrte no dia <i>15 +de Abril</i>.--S. M. a +Imperatriz dá na côrte á luz huma +Princeza (<i>29 de Julho</i>).--Apparece +a <i>Lei das Eleições</i> (<i>19 +de Agosto</i> deste anno), regulando o +modo de se proceder ás eleições dos +Deputados Geraes e Provinciaes, dos +Senadores, Juizes de Paz e Vereadores.--Tem lugar no Rio de Janeiro hum +facto que comprometteo de certo modo as boas intelligencias entre o +Brazil +e os Estados-Unidos, não pelo facto em si, mas pela maneira +porque se +portou o Ministro d'aquella Republica. No dia <i>31 de Outubro</i> +procedendo-se no Largo do Paço á +prisão de alguns marinheiros Americanos +por se estarem espancando armados até de facas, alguns +Officiaes da Marinha +dos Estados-Unidos querem obstar á prisão, e hum +delles até chega a ter a +audacia de desattender á Guarda do Paço Imperial, +avançando para ella com +huma espada na mão. Este Official foi em consequencia +legitimamente preso +pela autoridade competente. O Ministro <i>Wise</i> reclama +a soltura do +Official, e porta-se de huma maneira inaudita, incivil, brutal. O nosso +governo por condescendencia e deferencia para com o dos Estados-Unidos +deixa sahir o Official, continuando porém o processo +até final. Já isto foi +fraqueza do nosso Ministro <i>Barão de +Cayrú</i>. Porém a nossa +posição e a +honra nacional forão mais compromettidas pela maneira pouco +decorosa e +digna com que se portou nos Estados-Unidos o nosso representante <i>Gaspar +José Lisboa</i>, que em vez de reclamar huma +satisfação do governo de +Washington deo-a como si foramos nós os injuriadores. +É verdade que, nem o +Governo do Brazil approvou o procedimento do nosso Ministro, nem o dos +Estados-Unidos o do seu; pois que no anno seguinte os +fizerão +substituir.--Tem lugar na côrte o Baptismo da Princeza que +recebe o nome de +<i>D. Izabel</i> (<i>15 de Novembro</i>).</p> + + + +<h4>1847.</h4> + + + +<p>A <i>20 de Março</i> sahe o Imperador +a visitar a Provincia do Rio de +Janeiro; e depois de chegar até Campos, volta á +côrte em breves +dias.--Fallece no Rio de Janeiro o Principe Imperial D. Affonso (<i>11 +de +Junho</i>): igual sorte tem tido todos os primogenitos da Casa de +Bragança.--S. M. a Imperatriz dá á luz +huma Princeza (<i>13 de +Julho</i>).--Tendo sido escolhidos Senadores por Pernambuco +Antonio Pinto +Chichorro da Gama e Ernesto Ferreira França, o Senado na +sessão de <i>16 de +Julho</i> annulla as eleições, e manda +proceder a novas. Os espiritos nesta +Provincia se exacerbão, e os periodicos tornão-se +insultantes, +revolucionarios, e incendiarios, não poupando mesmo a pessoa +sagrada e +inviolavel do Monarcha Brazileiro.--Durante o mez de Julho teve lugar +nas +Camaras huma gravissima questão, qual a +interpretação do Art. 61 da +Constituição; pois que o Senado fundou-se nesse +artigo para não annuir ao +convite que fizera a Camara dos Deputados para se reunirem em +Assembléa +Geral. O resultado foi não ter lugar a fusão das +Camaras, ficando por +conseguinte entendido--<i>que é livre acceitar ou +não o convite para se +reunirem em Assembléa Geral.</i>--O Decr. de <i>20 +de Julho</i> cria hum +Presidente do Conselho de Ministros de Estado.--Em <i>5 de Agosto</i> +chega +ao Rio de Janeiro <i>Lord Howden</i> como Enviado +Extraordinario e Ministro +Plenipotenciario da Grã-Bretanha junto ao nosso Governo. +Desde que cessou o +tratado com a Inglaterra, foi este o 3.º Ministro que veio +entabolar novas negociações, tendo sido mal +succedidos <i>Ellis, e +Hamilton-Hamilton</i>; porém a nenhum agouramos melhor +sorte, em quanto +subsistir o bill de 1845; ao menos são estes os nossos +votos.--A <i>8 de +Agosto</i> chega o Senhor Todd, como Ministro dos Estados-Unidos, +e +substitue a Wise, que tão mal e incivilmente se +portára na questão de que +acima fallámos.--A <i>7 de Setembro</i> tem +lugar no Rio de Janeiro o +Baptismo de S. A., que recebe o nome de <i>D. Leopoldina</i>.--Durante +este +mesmo mez de Setembro graves contestações +tiverão lugar no Senado sobre as +cousas de Pernambuco, e espirito revolucionario que se ia ali +desenvolvendo +com côres bem negras, sobretudo por causa das +eleições para Senador e por +se conservar na Presidencia o Senhor <i>Chichorro</i>.--No +dia 7 deste +mesmo mez, anniversario de nossa independencia, vierão +ás mãos na Capital +do Maranhão os dous partidos ali existentes; depois de +alguns ferimentos, +espancamentos e mortes, é restabelecida a ordem á +approximação da +tropa.--Durante o mez <i>de Novembro</i> tem lugar +desordens e mesmo +derramamento de sangue em algumas Provincias do Norte por causa das +eleições primarias para a nova legislatura, +sobretudo nas Provincias do +Ceará e Maranhão. Em Pernambuco tambem houve suas +desordens, que virião a +ter funestas consequencias a não serem immediatamente +reprimidas.--A <i>7 +de Dezembro</i> procede-se em todo o Imperio á +eleição dos Deputados á +Assembléa Geral, na forma da nova Lei.--Nada mais de +importante se passou +durante o anno, a não ser a +continuação da discussão na +Assembléa Geral do +projecto de hum Codigo Commercial para o Brazil, Codigo reclamado de ha +muito imperiosamente pelas necessidades do nosso commercio.</p> + + + +<h4>1848.</h4> + + + +<p>--A <i>1.º de Fevereiro</i> sahe o +Imperador a visitar varios +pontos da Provincia do Rio de Janeiro; e, depois de percorrer as villas +da +Parahyba, Valença, Vassouras, e Iguassú, volta +á côrte onde chegou no dia +28 do mesmo mez. Em todas as suas viagens tem o Monarcha Brazileiro +recebido as provas mais indubitaveis da adhesão do povo aos +principios que +nos regem, e da estima que consagra ao Chefe Supremo do Estado: de seu +lado +tambem o Monarcha tem sabido captivar ainda mais o povo pelas suas +bellas e +delicadas maneiras, pelas graças distribuidas aos +cidadãos, e mais ainda +pelos beneficios de todo genero, donativos e +fundação de estabelecimentos +pios e outros que serão sempre o padrão mais +indestructivel dos nobres e +bellos sentimentos que ornão seu +coração.--No Maranhão, tendo de +proceder-se á eleição de um Senador +foi tal o encarniçamento dos partidos +que no dia <i>23 de Abril</i> vierão +ás mãos, sendo necessario intervir a +policia para pôr termo, não sem derramamento de +sangue, a semelhante +desordem. Scenas iguaes tem flagellado sempre o Imperio nas criticas +épocas +de eleições!--São de novo annulladas +as eleições de 2 Senadores por +Pernambuco, havendo sido novamente escolhidos Chichorro e +França: chegando +á Provincia tal noticia, ha na capital huma pequena +desordem, que foi logo +suffocada. Ahi mesmo nos dias <i>26</i> e <i>27 de +Junho</i> houve +desordens, que terião funestas consequencias a +não serem immediatamente +reprimidas, porque tendião a assassinar e expellir da +Provincia todos os +Portuguezes, allegando futeis motivos, e querendo dest'arte renovar a +odiosidade do tempo colonial, odiosidade que devia ter desapparecido +com a +nossa regeneração politica.--A <i>19 de +Julho</i> S. M. a Imperatriz dá á +luz hum Principe.--Procedendo-se no Rio de Janeiro á +eleição de Vereadores +e Juizes de Paz, tem lugar nos dias <i>7</i>, <i>8</i> +e <i>9 de +Setembro</i> pequenas desordens e espancamentos entre Brazileiros +e +Portuguezes; as quaes cessarão immediatamente, +restabelecendo-se +perfeitamente a tranquillidade.--A <i>29 de Setembro</i> +organisa-se o novo +Ministerio, deixando deste modo o poder o partido <i>liberal</i> +ou +<i>Santa Luzia</i>, que nelle se achava desde 1844, e +subindo o partido +<i>monarchista</i> ou <i>saquarema</i>. (A +terminar este anno, e entrar o +de 1849, acha-se o Ministerio organisado do modo seguinte: Presidente +do +Conselho e Ministro dos Estrangeiros, <i>Visconde de Olinda</i>; +Ministro +do Imperio, <i>Visconde de Monte Alegre</i>; Ministro da +Justiça, +<i>Euzebio de Queiroz Coutinho Mattozo da Camara</i>; +Ministro da Marinha e +interinamente da Guerra, <i>Manoel Felizardo de Souza e Mello</i>; +Ministro +da Fazenda, <i>Joaquim José Rodrigues Torres</i>).--No +dia <i>4 de +Outubro</i> teve lugar na côrte o baptismo do Principe +herdeiro +presumptivo, que recebeu o nome de <i>D. Pedro</i>.--Neste +anno as +discussões da Assembléa estiverão +muitissimo calorosas, freneticas e +tumultuarias, sobretudo pelos negocios de Pernambuco, seu estado +critico e +acontecimentos de Junho, pelos acontecimentos de Setembro na +côrte, e +ultimamente por se recusarem os novos Ministros a declarar perante a +Representação Nacional a politica que pertendia +seguir o actual Gabinete, +como exigião alguns Deputados. De sorte que, não +sendo possivel continuar +em semelhante estado de effervescencia os trabalhos legislativos, +são as +Camaras adiadas em <i>5 de Outubro</i> para <i>23 +de Abril de 1849</i>.--Em +Pernambuco, exacerbados os espiritos pelos escriptos incendiarios de +varios +periodicos de hum dos partidos (<i>o praieiro</i> ou <i>liberal</i>) +em que +se acha dividida a Provincia, pelos acontecimentos de Junho e motivos +pouco +justos que lhes derão lugar, e por ultimo vendo o partido +que certas +autoridades estavão demittidas, reunem-se varios grupos em +diversos pontos +da Provincia com o fim de se oppôrem, mesmo com as armas, +á execução das +ordens superiores. Rompe por conseguinte (<i>7 de Novembro</i>) +a revolução +já de muito preparada e que só esperava um +pretexto para apparecer e tentar +a realisação das idéas <i>ultra-liberaes</i>, +que por vezes tem sido causa +de revoluções no Imperio. É Presidente +da Provincia <i>Herculano Ferreira +Penna</i>. O Coronel <i>João Vicente de Amorim +Bezerra</i> bate os +insurgentes em <i>Maricota</i> (<i>10 de Novembro</i>), +e <i>Mussupinho</i> +(<i>14 de Novembro</i>) onde muito se distinguio o +capitão <i>Brazil</i>. +Do Ceará e Alagôas sahem tropas para combater a +revolução em Pernambuco. +Tambem da Bahia sahem algumas ao mando do Brigadeiro <i>José +Joaquim +Coelho</i>. Os insurgentes continuão a ser batidos em +outros pontos. +Organisa-se o corpo de Voluntarios, cujo commando é confiado +ao conselheiro +<i>Sebastião do Rego Barros</i>. O Brigadeiro +Coelho toma o commando em +chefe das forças em Pernambuco (<i>23 de Novembro</i>).--Oito +Deputados á +Assembléa Geral publicão hum Manifesto (<i>25 +de Novembro</i>) em que +procurão justificar a revolução (<i>Joaquim +Nunes Machado, Antonio Affonso +Ferreira, Dr. Jeronymo Villela de Castro Tavares, Dr. Philippe Lopes +Netto, +José Francisco de Arruda Camara, Antonio da Costa Rego +Monteiro, Dr. +Joaquim Francisco de Faria, e Felix Peixoto de Brito e Mello</i>). +Os +revoltosos são batidos em <i>Nazareth</i> (<i>28 +de Novembro</i>) pelo +Tenente-Coronel <i>José Maria Ildefonso Jacome da +Veiga Pessoa</i>; em +<i>Maricota</i> (<i>30 de Novembro</i>) pelo +Coronel <i>Bezerra</i>; sempre +que batidos acoutão-se nas mattas do <i>Catucá</i>, +onde se acha o celebre +<i>João Ignacio Ribeiro Roma</i>, commandante em +chefe dos revoltosos, e +donde sahem em pequenas guerrilhas a incommodar as +povoações e forças +legalistas. São batidos em <i>Una</i> (<i>8 +de Dezembro</i>) pelo Major +<i>Siqueira Leão</i>, bem como nas mattas do <i>Catucá</i> +(<i>10 de +Dezembro</i>) pelo General em Chefe <i>Coelho</i>. +Porém no dia <i>13 de +Dezembro</i> occupão a cidade de <i>Goianna</i>, +tendo havido grande +derramamento de sangue; mas no seguinte a abandonão, e +occupão no dia 16 a +povoação de <i>Pedras de Fogo</i>. +Já no dia 12 havião partido tropas e +armamento da côrte para Pernambuco. São batidos os +insurgentes em +<i>Cruangy</i> (<i>20 de Dezembro</i>) pelo +General <i>Coelho</i>. A <i>25 +de Dezembro</i> toma posse da Presidencia o Dezembargador <i>Manoel +Vieira +Tosta</i>, que substitue <i>Ferreira Penna</i>. Os +revoltosos são batidos +em <i>Almécega</i>, e <i>Gaipió</i> +(26, 30 e 31). Os mesmos Deputados, que +assignarão o Manifesto de 25 de Novembro, +assignão huma proclamação, onde +declarão alto e bom som adherir ao movimento revolucionario, +e collocar-se +á frente delle. Em consequencia sahem da capital (<i>31 +de Dezembro</i>) +<i>Nunes Machado, Affonso Ferreira, Peixoto de Brito, e Villela +Tavares</i> +a dirigirem a revolução no Sul da Provincia e +convidarem Alagôas a +sublevar-se.</p> + + + +<h4>1849.</h4> + + + +<p>Continúa a rebellião em Pernambuco.--Os +rebeldes da parte do N. da +Provincia são batidos em <i>Mãe Catharina</i> +(<i>5 de Janeiro</i>); e +procurando o S. para se reunirem aos seus consocios na comarca do Rio +Formoso são batidos successivamente em <i>Carauna</i> +e <i>Camaragibe</i> +(<i>13 de Janeiro</i>), apezar de se acharem em alguma +força; +entranhando-se sempre pelas mattas afim de melhor continuarem a marcha +que +levavão para o S., e incommodarem com suas guerrilhas as +forças +legalistas.--No entanto o Deputado Nunes Machado e outros, que a 31 de +Dezembro p. p. havião sahido do Recife para dirigirem a +revolução no Sul da +Provincia, e desembarcado na praia da Gamella, tendo conseguido reunir +alguma gente, dirigem-se para a comarca do Rio Formoso, e +tomão +<i>Barreiros</i> nos confins com Alagôas (<i>10 +de Janeiro</i>). Em breve +porém abandonão este ponto por saberem que as +forças de Alagôas e de +Pernambuco combinadas os ião attacar; e +retirão-se para +<i>Tentugal</i>.--Os revoltosos do N. conseguem reunir-se +aos do S. e +dirigem-se todos para <i>Agua Preta</i>, onde +concentrão suas forças: +existindo tambem outros pequenos bandos dispersos pela comarca do +Bonito, +depois que forão batidos (<i>22 de Janeiro</i>) +perto da villa deste nome +pelas tropas em operações n'este ponto.--O +General em Chefe Coelho, e já +antes delle o Coronel João do Rego Barros sahem para Agua +Preta a bater as +forças reunidas dos revoltosos.--Estes porém +abandonão Agua Preta (<i>26 de +Janeiro</i>), e avanção sobre a capital a +marchas tão violentas, que a +<i>1.º de Fevereiro</i> se achavão mui +perto della. Capitaniados +por <i>Peixoto de Brito</i> e outros caudilhos, e de +intelligencia com os +seus co-religionarios da capital, aproveitão-se da ausencia +do General +Coelho e das forças a seu mando, e atacão em +numero maior de 2:000 o +<i>Recife</i> (<i>2 de Fevereiro</i>). Renhida +e mortifera foi a luta; mas +afinal forão victoriosamente repellidos pelos +exforços das tropas e Guarda +Nacional que se achavão na cidade, ajudadas por alguns +vasos, sobretudo +pelo vapôr de guerra nacional <i>D. Affonso</i>, +e ultimamente pelas forças +do General Coelho que a marchas forçadas chegou a tempo de +auxiliar a +defeza da cidade. O resultado deste combate foi mortandade immensa de +parte +a parte, em cujo numero muitos officiaes e outras pessoas de alguma +representação na sociedade, entre as quaes um dos +Deputados rebeldes Nunes +Machado; muito maior numero de prisioneiros e feridos; dispersarem-se +fugitivos os revoltosos, terminando assim a louca +pertenção de á força +conseguirem seus intentos.--Os rebeldes fogem divididos em 2 grupos; +hum +commandado por <i>Peixoto de Brito, Borges da Fonseca</i> +e outros +dirige-se para o N.; o outro sob a direcção de <i>Pedro +Ivo</i>, +entranhando-se pelas mattas toma a direcção do +S.--Em sua marcha o grupo do +N. devasta e assola a cidade de <i>Goianna</i>; +porém perseguido sempre +pelo Tenente-Coronel <i>Falcão</i>, e batido em +<i>Páo-Amarello</i> (<i>13 +de Fevereiro</i>): em consequencia fogem para a Parahyba, onde se +acoutão +na cidade de <i>Arêas</i>; mas são +daqui expellidos (<i>21 de +Fevereiro</i>) pelo mesmo Falcão, vendo-se assim na +dura necessidade de se +refugiarem nas mattas. Porêm não achando apoio na +Provincia, fogem de novo +para Pernambuco (<i>27 de Fevereiro</i>); onde abandonados +a maior parte +pelos seus proprios chefes entregão-se ao Governo, confiados +na Clemencia +Imperial e na amnistia promettida pelo Presidente em <i>3 de +Março</i>, e +para a qual se achava autorisado pelo Decr. de <i>11 de Janeiro</i>. +Ainda +pequeno numero se conservou hostil sob o mando de Borges da Fonseca, +achando abrigo unicamente nas mattas; porêm estes mesmos, +depois de +pequenos ataques, são afinal batidos e +destroçados no lugar das +<i>Tres-Ladeiras</i>, termo de Iguarassú (<i>30 +de Março</i>), sendo +prisioneiros seu chefe Borges da Fonseca e outros; perseguidos e +vencidos +dest'arte, entregão-se confiados na amnistia. Assim se +dissipa o grupo do +N.--Quanto ao grupo do S., conseguio elle fixar-se em <i>Agua-Preta</i>; +porêm a abandonão á +approximação das forças legaes; e a <i>13 +de Março</i> +he occupada pelo Tenente-Coronel <i>Antonio Maria de Souza</i> +e forças das +Alagôas. Os rebeldes deste lado da Provincia tambem se +entregão pouco a +pouco implorando a Clemencia Imperial, mesmo alguns de seus chefes +(como +seja <i>Caetano Alves</i>, que em <i>5 de Abril</i> +se entregou com 324 +homens).--Assim, perseguidos sem cessar, batidos sempre e obrigados a +acharem por unico abrigo as mattas, presos alguns chefes, outros +fugidos, e +apresentando-se a maior parte dos seus sequazes implorando a Clemencia +Imperial; terminada se deve considerar uma luta, que por mais de 5 +mezes só +servio de assolar, arruinar e desmoralisar huma das mais bellas +Provincias +do Brazil; de derramar inutilmente o precioso sangue Brazileiro; +diminuir +as forças do Imperio; sobrecarregar os seus cofres de +despeza immensa; e +arruinar e desgraçar muitas e muitas familias. Sem motivo +mais que saciar +mesquinhas e vis paixões, vingar interesses pessoaes +contrariados e não +satisfeitos, conseguir a todo custo a convocação +de huma Constituinte, +proclamou-se tal revolta, com vistas futuras, si fôra bem +succedida: e +deste modo não se duvidou affrontar tudo quanto ha de mais +sagrado, +calcarão-se todas as Leis, todos os deveres e +considerações, e ateou-se no +paiz a guerra civil com todas as suas horriveis consequencias.--O +Presidente Tosta é substituido por <i>Honorio Hermeto +Carneiro Leão</i>, +que toma posse a <i>2 de Julho</i>, continuando no +commando das Armas o +Marechal Coelho.--Dissolvida a Camara Temporaria por Decr. de <i>19 +de +Fevereiro</i> e convocada outra para o dia <i>1.º +de Janeiro</i> +de 1850, procede-se em todo o Imperio ás +eleições primarias para a actual +8.ª Legislatura (<i>5 de Agosto</i>); +não deixando de haver, +como sempre, algumas pequenas desordens em varios pontos. E logo depois +á +eleição dos Deputados para a mesma (<i>5 de +Setembro</i>).--Na côrte, o +Ministerio soffre modificação. <i>Manoel +Vieira Tosta</i> toma conta da +pasta da <i>Marinha</i> (<i>1.º de Setembro</i>), +para a qual se +achava nomeado por Decr. de <i>23 de Julho</i>; +continuando com a da Guerra +Manoel Felizardo. O Visconde de Olinda deixa a pasta dos +<i>Estrangeiros</i>, que é confiada a <i>Paulino +José Soares de Souza</i>; +e a Presidencia de Ministros que passa ao Visconde de Monte Alegre (<i>8 +de +Outubro</i>).--No <i>Rio Grande do Sul</i> varios +grupos se reunirão na +fronteira para se desforçarem de attentados e barbaridades +praticados +contra os nossos pelos Orientaes (<i>Novembro e Dezembro</i>); +tornando-se +notavel o feito do <i>Barão de Jacuhy</i> +(Francisco Pedro de Abrêu).--No +entanto a guerra civil em Pernambuco, que parecia terminada, +é de novo +atêada (<i>Julho</i>) pelo Capitão <i>Pedro +Ivo</i>, que com falsos boatos +consegue chamar a si para mais de 400 desgraçados, +reunindo-se-lhe tambem +<i>Caetano Alves</i> que em menos-preço da +amnistia que lhe fôra concedida +não duvidou alterar de novo a ordem publica e hastear a +bandeira da +rebeldia. Conserva-se em posição hostil nas +mattas de <i>Agua-Preta</i>. O +Presidente embalde procura chamal-o á ordem pelos meios +brandos, +offerecendo-lhe amnistia com certas condições; +elle, instigado pelos réos +politicos em Recife, resiste sempre, tudo recusa, e obriga a empregar +meios +energicos e a força (<i>Outubro</i>). Diversos +grupos apparecem em outros +pontos; pequenos encontros tem lugar, sem resultado algum decisivo por +se +recusarem os rebeldes a sahir das mattas e a acceitar combate formal: +hum +grupo que se achava para as bandas de <i>Serra-Negra</i> +foi dispersado +pelo Capitão <i>Brazil</i> (<i>11 de +Dezembro</i>); e hum outro que se +havia acoutado nas mattas do <i>Catucá</i>, +apartando-se d'ahi e seguindo +para o N. foi batido na <i>Barra de Natuba</i>, Provincia +da Parahyba, pelo +Tenente-Coronel <i>Innocencio</i> (30 de Dezembro). Os +rebeldes, seguindo +sempre o cauteloso systema de se acoutarem nas mattas, dellas +não sahem +senão para commetterem depredações e +assassinatos, prolongando dest'arte +huma luta summamente prejudicial ao Brazil por qualquer lado que a +encaremos, e mais particularmente á bella Provincia de +Pernambuco.</p> + + + +<h2>SUCCINTO ESBOÇO<br /> + + + +DO<br /> + + + +ESTADO DO BRASIL AO FINDAR O ANNO DE 1849.</h2> + + + +<h3>RELAÇÕES INTERNAS.</h3> + + + +<a name="ch9a"></a> +<h4>SITUAÇÃO, POSIÇÃO +ASTRONOMICA E EXTENSÃO.</h4> + + + +<p>O Brazil, hum dos mais vastos Imperios do mundo, acha-se +situado na +America Meridional entre 4.° 30' lat. N. e 34.° 15' lat +S., 37.° e 75.° +long. Occ. do meridiano de Paris, occupando assim huma superficie de +mais +de 400:000 legoas quadradas.</p> + + + +<a name="ch9b"></a> +<h4>LIMITES.</h4> + + + +<p>Ao N. as Guyanas e a Republica federada de Nova Granada, +Equador e +Venezuela (antigas Columbia e Venezuela); a O. a mesma Republica +federada, +Perú, Bolivia, Paraguay e Republica Argentina; ao S. a mesma +Argentina e a +de Monte-Vidéo; a N. E., L., e S.E. o Atlantico.</p> + + + +<a name="ch9c"></a> +<h4>LINHA DIVISORIA.</h4> + + + +<p>Ainda não se acha clara e definitivamente fixada: +com tudo a seguirmos a +opinião mais bem fundada diremos ser a seguinte.</p> + + + +<p>Começa na barra do rio <i>Oyapock</i>, +seguindo-o até suas cabeceiras; +continúa pelos sêrros que dividem as agoas que +vão para o N. das que se +lanção no Amazonas, passando pelas cabeceiras do +rio <i>Branco</i>; vae por +este acima até a barra do <i>Jabary</i>, +acompanhando-o até 9.° lat. S.; +d'aqui parte em linha recta de O. para L. até o <i>Guaporé</i>, +seguindo-o +até as visinhanças da cidade de Matto Grosso; +continúa até a barra do +<i>Jaurú</i> no <i>Paraguay</i>, +seguindo o curso deste ultimo até 24.° +lat. S.; aqui corta pelos campos até encontrar o <i>Paraná</i>, +o +<i>Iguassú</i>, e o <i>Uruguay</i>; +segue por este ultimo até a sua +confluencia com o galho principal do <i>Arapey</i> hum +pouco abaixo do povo +de Belém; segue por este galho; continua pela <i>Cruz +de S. Pedro</i> +cortando em linha recta os sêrros de <i>Aceguá</i>; +busca o galho mais ao +Sul do <i>Jaguarão Chico</i>; segue por este +até sua confluencia com o +<i>Jaguarão</i>; continua pela costa occidental +da lagôa <i>Merim</i>, +resalvando sempre a distancia para o S. de dous tiros de +canhão de calibre +24; busca o arroio de <i>S. Luiz</i>, legoa e meia da sua +barra; a +<i>Pequena Canhada</i> salvos os sêrros de S. +Miguel; as vertentes da lagôa +<i>Palmares</i>; e termina na costa do mar na <i>Angustura +de +Castilhos</i>.</p> + + + +<a name="ch9d"></a> +<h4>RIQUEZA NATURAL.</h4> + + + +<p>He proverbial a riqueza do Brazil em todos os reinos da +natureza. Em +huma extensão immensa de costa banhada pelo Atlantico +são os seus mares +abundantissimos da mais variada pesca desde a rainha do Oceano, a +balêa, +até os mais insignificantes peixes: assim como +são tambem summamente +piscosos os seus rios, em alguns dos quaes abundão +tartarugas. Em terra ha +a mais variada profusão de todos os animaes desde o tigre +temivel até o +mimoso saguim, desde o condôr-rei até o delicado +beija-flôr. As suas mattas +immensas fornecem toda a sorte de madeiras de +construcção, de tinturaria, +de marceneria, &c: e além disto o reino vegetal +offerece tudo quanto he +indispensavel á vida quer para vestuario e alimento, quer +para +restabelecimento da saude. No reino mineral temos ouro, de que se torna +digna de menção a mina de Congo-Socco na +Provincia de Minas Geraes, +pertencente a huma companhia ingleza que della tem extrahido +milhões e +milhões de libras deste metal; diamantes, de que n'outro +tempo se extrahio +quantidade enorme nesta mesma Provincia; amethystas e outras pedras +preciosas; ferro, de que existe uma mina abundantissima, e fabrica em +S. +João de Ipanema na Provincia de S. Paulo: tambem consta que +existem minas +de carvão de pedra, sobretudo na Provincia de Santa +Catharina; assim como +de cobre, chumbo, marmore, e outros mineraes em varias Provincias.</p> + + + +<p>Si quizessemos enumerar todos os objectos que +compõe a riqueza, de que a +natureza com prodiga mão adornou o nosso paiz, e especificar +as Provincias +e localidades em que elles mais abundão, seria preciso +escrever volumes. +Contentemo-nos pois com o que temos dito, ficando certos de que +não ha paiz +no mundo mais rico em todos os reinos.</p> + + + +<p>Accresce que o Brazil pela sua posição +geographica, e astronomica +offerece elementos de grandeza e prosperidade que assombrão: +terreno o mais +fertil possivel; variedade de climas; rios por toda parte capazes de +navegação, mesmo para barcos de mais alto bordo, +até o interior; e mil +outras circumstancias todas favoraveis.</p> + + + +<p>Si a Providencia dotou o nosso paiz com tantos e +tão poderosos elementos +de riqueza, e grandeza, não foi certamente sem hum fim. E si +pelos +<i>meios</i> é facil chegar a comprehender-se o <i>fim</i>, +devemos +confessar que Deos mesmo destina o Brazil a ser hum dia talvez a +primeira +Nação do Mundo.</p> + + + +<a name="ch9e"></a> +<h4>POPULAÇÃO.</h4> + + + +<p>Muito é de lamentar a falta de huma estatistica da +população do Imperio. +Com tudo, segundo calculos approximativos, podemos avalial-a em 7 a 8 +milhões de habitantes: dos quaes 3 milhões +são sem duvida alguma +escravos.</p> + + + +<p>Eis em nossa organisação social hum +elemento retrogrado na civilisação, +assim como de discordia e desordens.</p> + + + +<p>Quem ha que ignore a influencia da escravidão na +educação dos povos? O +poder quasi absoluto que exerce o senhor sobre o escravo, faz-lhe +adquirir +costumes senhoriaes, que se revelão de modo indigno nas +relações familiares +e nas sociaes.--A maneira desabrida, os continuos vituperios que o +senhor +lança em rosto ao escravo, que não se atreve a +dizer palavra e tudo ouve e +soffre humildemente, muitas vezes se mostra nas +relações sociaes e +familiares, revelando a poderosa influencia do habito de tratar os +escravos.--O continuo martyrio que o senhor faz o escravo soffrer, +já +opprimindo-o com pezados ferros, já castigando-o +desproporcionadamente á +falta commettida, e ás vezes innocentemente, já +fazendo-lhe soffrer crueis +tormentos, e tudo isto sem querer ouvir huma razão +justificativa, huma +queixa, hum ai; faz-lhe perder ou pelo menos muito arrefecer os +sentimentos +nobres e generosos, a compaixão do proximo, e até +o principio do justo e +injusto: barbariza-o, e a todos que taes factos presencião +quotidianamente.</p> + + + +<p>E he debaixo da influencia tão immediata de taes +elementos que se educa +o nosso povo!</p> + + + +<p>Por outro lado, quem ha tambem que ignore a odiosidade nata, +terrivel, e +justa entre o principio <i>escravo</i> e o <i>livre</i>? +A historia de +todos os povos e de todos os tempos ahi está para o +demonstrar: basta lêr +huma pagina da historia do hoje Imperio do Haiti. Si a +escravidão em hum +paiz he elemento opposto á +civilisação; o he tambem de discordia e +desordens temiveis. He a mina sempre prompta a fazer horrivel +explosão e +tudo despedaçar, logo que se offereça +occasião favoravel.</p> + + + +<p>Mas não pára aqui. Hum outro elemento de +discordia ainda existe entre +nós. É a diversidade de raças. A nossa +população compõe-se de brancos, +negros, indios, mestiços e mulatos. E quem ignora a +odiosidade que tem +todos á raça branca, por se acharem em +posição inferior na ordem social, +por força dos prejuizos e preconceitos da sociedade?</p> + + + +<p>Ah! si não fôra o erro fatal dos nossos +antepassados, primeiros +colonisadores do Brazil, hoje teriamos muito maior +população, toda composta +de gente valente, laboriosa e livre. Si acariciassem os Indigenas, si +lhes +fossem ensinando a lingua e chamando-os paulatinamente á +vida civilisada e +ao gremio da nossa Religião e sociedade, elles +não se terião exterminado +nem fugido. Como querião os Portuguezes que os Indios, +acostumados a huma +vida indolente, se sujeitassem logo a duros trabalhos, taes como os da +mineração, lavoura e outros? Como, que +abandonassem logo as suas crenças +religiosas, já arraigadas em seus +corações, para abraçarem a +fé christã, os +dogmas e principios sublimes de nossa Religião para elles +incomprehensiveis? D'aqui a resistencia que elles oppozerão +aos seus +avarentos, infames e vis oppressores. D'aqui as guerras, o odio, o +exterminio barbaro até se refugiarem no interior das mattas +mais +remotas.</p> + + + +<p>Cumpre agora remediar de algum modo os passados erros, +empregando todos +os meios de colonisar o paiz com braços laboriosos e livres, +preparando-lhe +assim um futuro risonho e prospero.</p> + + + +<a name="ch9f"></a> +<h4>RELIGIÃO.</h4> + + + +<p>A Religião do Estado é a +Catholica-Apostolica-Romana. Porêm a nossa +Constituição, conciliando mui sábia e +prudentemente o exclusivismo dos +nossos maiores em materia de Religião com a tolerancia e +liberdade +religiosa introduzida depois das graves disputas de Luthero, Calvino, e +das +idéas ultra-tolerantes da revolução +franceza, permittio a tolerancia +religiosa limitada, isto he, concedeo ampla liberdade de consciencia +(sobretudo nunca tendo existido no Brazil a chamada +Sancta-Inquisição), com +tanto que as casas destinadas para o culto não tivessem +fórma exterior de +templo: é assim que vemos hoje entre nós alguns +destes templos, como sejam +o Inglez e Allemão no Rio de Janeiro.</p> + + + +<a name="ch9g"></a> +<h4>DIVISÃO ADMINISTRATIVA.</h4> + + + +<p>De 19 Provincias se compunha o Imperio até certa +época. Todavia só 18 o +formão actualmente, depois que pelo tratado de 1828 +reconhecemos a +independencia de Monte-Vidéo (antiga Provincia Cisplatina).</p> + + + +<p>São ellas: no littoral <i>Pará</i> +(capital Belém); <i>Maranhão</i> +(capital S. Luiz); <i>Piauhy</i> (capital Oeiras); <i>Ceará</i> +(capital +Fortaleza); <i>Rio Grande do Norte</i> (capital Natal); <i>Parahyba</i> +(capital Parahyba); <i>Pernambuco</i> (capital Recife); <i>Alagôas</i> +(capital Maceió); <i>Sergipe</i> (capital S. +Christovão); <i>Bahia</i> +(capital S. Salvador, ou Bahia); <i>Espirito Santo</i> +(capital Victoria); +<i>Rio de Janeiro</i> (capital Nicterohy); <i>S. +Paulo</i> (capital S. +Paulo); <i>Santa Catharina</i> (capital Desterro); e <i>S. +Pedro do Sul</i> +(capital Porto Alegre); no centro <i>Minas</i> (capital +Ouro-Preto); +<i>Goyaz</i> (capital Goyaz); e <i>Matto-Grosso</i> +(capital +Cuiabá).--Existe além disso, encravado na +Provincia do Rio de Janeiro, o +<i>municipio neutro</i>, onde se acha a capital do Imperio +a cidade de +<i>S. Sebastião do Rio de Janeiro</i>.</p> + + + +<p>Para maior commodidade e melhor +administração, as Provincias são +divididas em <i>comarcas</i>, estas em <i>termos</i>, +etc.</p> + + + +<p>E, como existem 4 Relações no Imperio, a +cada huma se fixaram +<i>districtos</i>, abrangendo cada hum varias Provincias.</p> + + + +<a name="ch9h"></a> +<h4>DIVISÃO ECCLESIASTICA.</h4> + + + +<p>Ha no Brazil hum Arcebispado, o da Bahia; e 9 Bispados, que +são: Pará, +Maranhão, Pernambuco, Rio de Janeiro, S. Paulo, Marianna, +Goyaz, Matto +Grosso, e S. Pedro do Sul (criado este por Bulla de Pio IX, confirmada +por +Decr. de 7 de Dezembro de 1848).</p> + + + +<p>A divisão ecclesiastica é mui distincta +da civil; porque ha muitas +Dioceses que entram por territorio de Provincias onde tambem ha +Diocese. +Talvez fosse preferivel reformar esta divisão, fixando a +cada Diocese certo +numero de Provincias.</p> + + + +<a name="ch9i"></a> +<h4>ORGANISAÇÃO POLITICA.</h4> + + + +<p>A nossa Constituição estabelecendo e +firmando no Brazil a fórma de +Governo admittio o +<i>Monarchico-Hereditario-Constitucional-Representativo</i>.</p> + + + +<p>E para sua organisação reconheceo 4 +Poderes: o <i>Moderador</i>, chave e +centro de todos; o <i>Legislativo</i>; o <i>Executivo</i>; +e o +<i>Judicial</i>. Suas attribuições +lá existem determinadas na propria +Constituição.</p> + + + +<p>O <i>Moderador</i> foi confiado privativamente ao +Imperador, que tem +ingerencia mediata ou immediata em todos os outros Poderes do Estado.</p> + + + +<p>O <i>Legislativo</i> é confiado a 2 +Camaras, huma temporaria, e outra +vitalicia; mas as Leis que se fizerem devem ser sanccionadas pelo +Imperador +antes que sejam promulgadas.--Além da Assembléa +Geral, existem as +Assembléas Provinciaes, cujas Leis são +sanccionadas pelos Presidentes de +Provincia.</p> + + + +<p>O <i>Executivo</i> tem por Chefe o Imperador, que +o exercita por meio do +Ministerio.--O Ministerio compõe-se de 6 Ministros d'Estado, +dos quaes um é +o Presidente do Conselho.--Como parte do Executivo temos ainda o +Conselho +d'Estado, mas unicamente com <i>voto consultivo</i>.--E, +como o Governo +precisa de Delegados seus nas Provincias, temos como parte integrante +do +Poder Executivo os Presidentes de Provincia.</p> + + + +<a name="ch9j"></a> +<h4>ORGANISAÇÃO DO PODER JUDICIAL.</h4> + + + +<p>Os membros que exercem este Poder são huns da massa +geral do Povo, e +outros não.</p> + + + +<p>Assim, os Juizes de Paz, os Jurados, e a Assembléa +Geral e Provinciaes +(quando estas se constituem Tribunal Criminal nos casos em que a +Constituição e Leis o determinam) pertencem +á 1.ª classe.</p> + + + +<p>Porém os Juizes Municipaes, de Orfãos, +de Direito, e outros, os +Dezembargadores, membros do Supremo Tribunal de Justiça, +etc., não só são +de nomeação do Imperador (o que não +acontece aos da 1.ª classe), +como se exige para o serem habilitações em +Direito.</p> + + + +<p>Os Juizes Municipaes, de Orfãos e de Direito +são chamados Juizes de +1.ª instancia.</p> + + + +<p>Além disto existem no Imperio 4 +Relações, que julgam em 2.ª e +ultima instancia.</p> + + + +<p>Temos tambem o Supremo Tribunal de Justiça, cujos +membros são tirados +das Relações por suas antiguidades. Compete-lhe +na materia civel a +concessão ou denegação de revistas.</p> + + + +<p>As Relações e o Supremo Tribunal tambem +podem conhecer de causas crimes, +quer quando se trata de appellações e revistas +para ellas interpostas nos +casos em que as Leis o permittem, quer quando se constituem Tribunal +Criminal.</p> + + + +<p>Além destes Tribunaes e Juizes, temos na materia +puramente espiritual os +Juizes Ecclesiasticos e a Relação Metropolitana +da Bahia que julga em +2.ª e ultima instancia: bem como na materia puramente militar +a +antiga organisação de Conselhos de Guerra, e +julgamento no Conselho Supremo +Militar de Justiça. Sendo de notar que das causas puramente +ecclesiasticas +e militares não cabe recurso de revista.</p> + + + +<p>Tal he em resumo nossa organisação +judiciaria no pé em que se acha +presentemente. Achamos-lhe graves defeitos; os quaes não +apontamos, nem +quaes as reformas que julgamos indispensaveis; porque seria necessario +descer a considerações que nos farião +desviar do fim limitado deste nosso +trabalho.</p> + + + +<a name="ch9k"></a> +<h4>TRANQUILLIDADE PUBLICA.</h4> + + + +<p>Lavra em Pernambuco a guerra civil. Não poucas +vezes tem o Brazil sido +victima destas desastrosas commoções, que +não fazem senão retardar o seu +progresso, e enfraquecel-o cada vez mais. Tal he o triste e misero +estado a +que se acha reduzida nossa bella patria, digna de melhor sorte, e com +todos +os elementos e condições de hum porvir grandioso +e brilhante!</p> + + + +<p>E qual a causa? Hum erro fatal, huma falsa idéa de <i>opposição</i>.</p> + + + +<p>O que he a opposição, segundo a nossa +Constituição, e segundo todos os +principios Constitucionaes governativos dos povos illustrados? He acaso +a +resistencia desarrazoada e até armada aos principios e +medidas dos +governantes? He acaso repellir sem criterio todas as medidas e negar os +auxilios? He acaso procurar dividir o paiz a ponto de se introduzirem +os +odios, as vinganças, as discordias intestinas e guerras +civis? Não por +certo: que a Constituição que tal permittisse +seria a mais hedionda e +terrivel concepção do pensamento humano.</p> + + + +<p>A opposição he a legal +discussão dos principios e medidas governativas; +he a analyse justa e razoavel desses principios e medidas para se +chegar ao +conhecimento de que são ou não são +capazes de conseguirem o seu fim, qual +he a felicidade e prosperidade do paiz.</p> + + + +<p>Sendo assim, a opposição he boa e +até indispensavel; porque suscitando a +discussão obriga a maior e mais profundo exame a fim de se +chegar com mais +segurança ao conhecimento da verdade.</p> + + + +<p>Taes são os justos limites da +opposição. E foi com estas vistas que a +nossa Constituição mui sabiamente consagrando o +principio governativo +constitucional forneceo ao mesmo tempo os meios de se conseguir o +predominio dos principios: liberdade de pensamento, +discussão na tribuna +parlamentar e pela imprensa, taes são os meios legitimos de +alcançarmos o +triumpho das idéas.</p> + + + +<p>Não se deduza, porêm, do que temos dito, +que queiramos reduzir o povo ao +estado de jámais lançar mão das armas +e usar de resistencia. Não; longe de +nós semelhante pensamento. Reconhecemos, com a sciencia, que +ao povo resta +intacto e inalienavel o sagrado e soberano direito de oppor-se com +mão +armada. E não só a sciencia, como a historia de +toda a humanidade ahi está +para demonstrar este principio.--Mas em que circumstancias deve ser +exercido semelhante direito? Quando os Poderes do Estado exorbitando de +suas attribuições procurão ludibriar e +escarnecer as instituições +fundamentaes, excedendo o mandado que receberão em prejuizo +da nação; +quando procurão esmagar o povo e fazer delle hum automato +que obedeça +cégamente a seus caprichos. Então o povo +espontaneamente se levantará todo +como se fôra hum só homem, e irá pedir +contas e fazer pagar caro a quem o +espesinha e calca aos pés seus direitos sagrados. Neste caso +a resistencia +armada he hum direito e hum dever imperioso.</p> + + + +<p>Do mesmo modo que entre as nações a +guerra he hum direito supremo e +ultimo recurso; tambem nas relações internas de +um povo a resistencia +armada he o ultimo recurso a lançar mão. +Então he a humanidade que, +opprimida e vexada, sacode o jugo e pune os culpados.</p> + + + +<p>Á vista disto, como arrogar-se huma pequena +fracção de hum povo os +direitos soberanos que só ao povo inteiro competem? Tal +ousadia he punida +immediatamente; porque essa fracção +vê-se isolada, tendo contra si a +maioria da Nação: e por isso deverá +reconhecer que o motivo que a impellio +não era verdadeiro, real e bastante poderoso para usar desse +ultimo +recurso; porque aliás acharia écho em toda a +parte e auxilio prompto e +efficaz, sendo a consequencia o triumpho.</p> + + + +<p>A historia de todos os povos, e mesmo a nossa, ahi +está para confirmar e +provar o que deixamos dito.</p> + + + +<p>No extremo sul do Imperio o Barão de Jacuhy, para +vingar actos de +barbaridade e vandalismo praticados pelos Orientaes contra os +Brasileiros, +poz-se á testa de um punhado de homens reunidos nas +fronteiras, e passou o +Quarahim invadindo o Estado Oriental: complicando dest'arte nossas +relações +com o estrangeiro.--Como Jurisconsultos certamente não +approvamos +semelhante acto, antes o achamos censuravel e criminoso; porque +não he dado +a hum cidadão fazer a guerra por sua conta, nem vingar-se +por suas mãos das +injustiças, vexames e prejuizos que tenha soffrido; nem +tão pouco provocar +huma guerra estrangeira. Mas como Brazileiros e como historiadores +não só o +approvamos, como louvamos: porque as depredações +e assassinatos que contra +os Brazileiros tem constantemente exercido os Orientaes; as leis +barbaras +ou antes a vontade caprichosa e despotica de Oribe prohibindo a +passagem de +gados do Estado Oriental para o Rio Grande; a nenhuma garantia por elle +dada á propriedade e ás pessoas; e as +invasões continuas do estrangeiro no +territorio brazileiro, e roubos por elle commettidos, são +factos que +altamente exacerbárão os espiritos e +provocárão as represalias. Em taes +circumstancias não ha meio termo; he indispensavel mostrar +ao estrangeiro +que não somos escravos, que temos brio e sentimentos, e que +não se +commettem em plena paz actos só proprios de huma guerra de +selvagens, sem +que sejão seguidos da justa punição de +tanta ousadia.--Mais huma pagina de +gloria reserva a historia para o illustre Brazileiro que assim +procedeo.</p> + + + +<a name="ch9l"></a> +<h4>MORAL.</h4> + + + +<p>Peza-nos dizel-o, mas he força confessar: o paiz +acha-se profundamente +desviado dos unicos verdadeiros principios da sã moral. Por +todas as +classes da sociedade, com honrosas excepções, tem +lavrado os tres grandes +males que entre nós hão feito desprezar a +observancia religiosa dos +principios do dever da consciencia e dos da moral christã, +unicos capazes +de conduzir á verdadeira felicidade os homens e as +Nações.</p> + + + +<p>O <i>egoismo</i>, suffocando todos os deveres e +considerações, e fazendo +predominar tão sómente a individualidade pessoal +em todas as relações, he o +maior mal que hoje peza sobre a nossa sociedade: e por elle +são +sacrificados todos os deveres moraes e sociaes.</p> + + + +<p>Por outro lado as <i>paixões politicas</i>, +de todas a mais cega, +frenetica e embriagadora, arrastão como huma torrente +impetuosa os homens +aos maiores desvarios; fal-os calcar aos pés todas as leis, +todos os +deveres, todas as considerações, para conseguirem +o triumpho de seus, ás +vezes pretendidos e tresvairados principios. Ellas tem dividido a +Nação, +levado a sizania ás familias, inimizado paes e filhos, os +proprios irmãos +entre si, emfim tem trazido ao paiz os maiores males que sobre elle +pezão.</p> + + + +<p>A estes dous males junta-se ainda o <i>patronato</i> +mais escandaloso em +todos os ramos da organisação social. Homens de +merito e de independencia +de caracter, que não se sujeitão nem se +aviltão a andar rastejando, quaes +vermes despreziveis, são inteiramente esquecidos; e, ainda +em concurrencia +com outros de muito inferior capacidade, são preteridos, si +lhes falta o +forte escudo desta nova potencia intitulada <i>empenho</i>: +soffrendo com +isto muito e muito a publica administração. Este +cancro terrivel tem +penetrado até no augusto sanctuario da Justiça.</p> + + + +<p>Estes tres gravissimos males tem profundamente corroido a +nossa +sociedade, e ameação-nos de morte ou de huma +revolução tal, que abalando-a +em seus alicerces e revolvendo-a em huma fervúra geral os +faça +desapparecer, restituindo-nos a hum estado capaz de trazer-nos a +felicidade.</p> + + + +<p>Mas esperamos da Providencia Divina que, depois de longa e +fatal +experiencia, nós entremos no verdadeiro caminho e observemos +os principios +da moral sancta e sublime do Christianismo.</p> + + + +<a name="ch9m"></a> +<h4>INSTRUCÇÃO PUBLICA.</h4> + + + +<p>A instrucção publica, ou antes a +educação de hum povo he a solida base +de sua felicidade e prosperidade. Essa educação +portanto he o ponto que +mais de perto deve interessar o Governo do Estado, e merecer seus +cuidados +e desvelos.</p> + + + +<p>Mas huma boa educação, para ser completa +deve: 1.º dirigir-se +não só á intelligencia, mas aos +sentimentos, e ao physico, isto he, a +educação de um povo não deve ser +meramente <i>intellectual</i>, mas tambem +<i>moral</i>, <i>religiosa</i>, e <i>physica</i>; +2.º estar +reduzida a hum systema tal, que nelle predomine hum pensamento, huma +idéa, +isto he, deve ter <i>regularidade</i>, e <i>unidade</i>; +3.º as +pessoas encarregadas da augusta missão de educar a mocidade +devem reunir em +si todas as qualidades capazes de conseguir o seu fim; 4.º +estar +debaixo da vigilancia e <i>inspecção</i> +da Autoridade Suprema.</p> + + + +<p>Entre nós a educação publica +resente-se de gravissimos defeitos, que +exigem urgente reforma.</p> + + + +<p>Em 1.º lugar não ha <i>regularidade</i> +nem <i>unidade</i>; +não ha systema. Cada Assembléa Provincial legisla +como lhe parece, sobre a +instrucção primaria e secundaria nas respectivas +provincias. Além disso +tambem os particulares nacionaes ou estrangeiros, encarando a +educação da +mocidade como huma industria, vão abrindo seus +estabelecimentos de educação +primaria e secundaria, e seguindo o systema que a cada hum parece +melhor. +De sorte que são tantos systemas, quantos os +estabelecimentos publicos e +particulares.</p> + + + +<p>Em 2.º lugar o ensino superior nas faculdades tambem +he +summamente defeituoso, já pela exorbitancia da existencia em +duplicata das +faculdades de Medicina e de Direito, já pela falta da +faculdade de Canones, +já pela má distribuição de +materias, já por mil outras circumstancias.</p> + + + +<p>Em terceiro lugar o pessoal, a quem está confiada a +educação publica +entre nós, merece tambem reforma radical. Que +educação póde receber hum +menino ou hum mancebo que tem por professor hum estupido, ignorante, ou +hum +bebado, immoral, vicioso, incivil? Que sentimentos de boa moral e +religiosos pode com taes exemplos receber a mocidade? Que solida +instrucção +receber de hum professor preguiçoso, ou sem methodo de +ensinar, ou que +falla de maneira a não se lhe poder ouvir huma só +palavra? Para ser +professor, desde as primeiras letras até os estudos +superiores, exigem-se +muitas qualidades reunidas, que nem todos possuem: não he +bastante ter +grande instrucção, he preciso ter bons +sentimentos moraes e religiosos; +saber exprimir-se com methodo e clareza; não basta ter +talento, he preciso +não ter preguiça de estudar para ir sempre +acompanhando o progresso da +sciencia.--Não queremos com isto offender a pessoa alguma; +apenas notamos +que ha muitos que não estão no caso de serem +professores por lhes faltarem +as qualidades para isso: e que o continuarem as cousas neste estado he +hum +gravissimo mal.</p> + + + +<p>Em ultimo lugar, não ha entre nós huma <i>inspecção</i> +sobre a educação +geral. De sorte que os particulares abrem seus estabelecimentos, sem +que a +autoridade publica saiba si elles tem as +condições indispensaveis para +cuidarem na educação da mocidade. Do mesmo modo +os estabelecimentos +publicos não são visitados nem inspeccionados, +como o deverão ser, por +pessoas encarregadas de examinarem como nelles vai a +educação. De maneira +que a relaxação e o desleixo, contaminando a +educação, a infecciona desde +seu principio; e em lugar de imbuir na mocidade o desejo e ardor do +trabalho, lh'o diminue e quasi extingue: e outros defeitos, que, vistos +e +conhecidos, podião logo ser corrigidos, continuão +e vão lavrando com mais +força.</p> + + + +<p>Tal he o misero estado da instrucção +publica entre nós, estado que exige +radical reforma.</p> + + + +<p>Em primeiro lugar devia-se tirar ás +Assembléas Provinciaes toda e +qualquer ingerencia na educação mesmo primaria. E +em segundo, ás Camaras +Municipaes a inspecção que lhes confere a lei de +sua criação. Tudo devia +ser confiado ao Governo e ao poder geral.</p> + + + +<p>Na organisação do systema, desejariamos +que elle fosse o seguinte: +escólas primarias em todas as Provincias no maior numero +possivel, para que +ao menos essa educação chegasse a todos. Em todas +as Provincias hum +collegio de bellas-lettras, aonde a par de huma +instrucção litteraria e +scientifica proporcionada ás necessidades e ao tempo, a par +de huma moral +sã, de hum verdadeiro e santo temor de Deos, o +desenvolvimento do corpo por +todos os jogos gymnasticos completasse a +educação. Finalmente huma unica +Universidade onde se viesse estudar o direito, a medicina, a theologia, +a +arte da guerra, a navegação, &c.</p> + + + +<p>Reformada assim a educação publica entre +nós, encarregada ella a pessoas +que tivessem todas as qualidades indispensaveis, e organisado ao mesmo +tempo hum ministerio publico de inspecção, e +abolidos muitos abusos e +vicios de que se acha ella eivada actualmente, poderiamos caminhar com +mais +firmeza e melhores esperanças.</p> + + + +<a name="ch9n"></a> +<h4>ILLUSTRAÇÃO.</h4> + + + +<p>A intelligencia no Brazil he o que deveria ser em hum paiz +ardente, novo +e virgem, collocado debaixo dos raios de hum sol brilhante e abrazador, +de +hum céo puro e matizado dos mais bellos astros. Desde o +seculo XVI a +litteratura e as sciencias se cultivão com esmero e muito +aproveitamento na +terra de Santa Cruz. A terra virgem e grande em tudo quanto pode haver +de +bello, magestoso e sublime, não podia deixar de gerar filhos +que a +honrassem e gloria lhe dessem. Os nomes de tantos poetas e escriptores +Brazileiros dos seculos anteriores ao nosso jámais +serão esquecidos.</p> + + + +<p>Muito tambem deve o Brazil aos exforços dos +Jezuitas, pois forão elles +que verdadeiramente cuidarão nas letras e em illuminar o +povo dando-lhe a +devida instrucção, desde que com Thomé +de Souza se vierão estabelecer no +paiz. Ao passo que os colonos se vião continuamente a +braços com as +repetidas invasões estrangeiras, e com as guerras seguidas +que lhes fazião +os Indigenas, os Padres da Companhia não cessavão +de andar em missões +civilisadoras ensinando as letras, e prégando a +Religião e Moral de +Christo. E a Historia não deixará de tecer +elogios a Nobrega, Anchietta, +Antonio Vieira e tantos outros que com perigo imminente da propria vida +se +abalançarão a tão ardua empreza. +Forão os Jezuitas os primeiros que +fundarão escolas, onde se ia beber a +illustração e a sciencia.</p> + + + +<p>Mas no reinado de D. José I forão elles +expulsos; e o Brazil muito +soffreria, se o grande Pombal não mandasse então +regularisar o ensino +publico, criando escolas em diversas partes. Porém os +Brazileiros não se +contentavão com a pouca instrucção que +no paiz recebião, pois o que mais se +cultivava era a latinidade: e anhelando beber mais solida e variada +instrucção, forão não +poucos buscal-a á Metropole, dando assim honra a +Coimbra e gloria á patria.</p> + + + +<p>Dest'arte foi sempre o paiz caminhando com passos de gigante +na +illustração pelos exforços inauditos +de seus filhos; até que com a vinda do +Principe Regente D. João criarão-se, +além de muitas escolas, a Academia +Militar, a de Marinha, e as escolas de Cirurgia e Medicina. +Dispensando-se +deste modo em parte a necessidade de ir a Coimbra, maior numero podia +cultivar as letras, e de brilhante resultado forão coroados +seus +exforços.</p> + + + +<p>A época porém de que data o progresso +realmente maravilhoso do Brazil +neste ponto he a da Independencia. Não era possivel que o +grito da +liberdade deixasse de electrisar corações +Americanos. Esse grito foi a voz +do Senhor que com hum só acêno destruio o +cháos fazendo apparecer a luz +brilhante e os astros que ornão hoje o horizonte e +céo politico, +scientifico, litterario e artistico do Imperio. Proclamada a +independencia, +reformarão-se as escolas de Medicina, criarão-se +Academias de Direito etc, +dispensando-se deste modo absolutamente a necessidade e dependencia de +atravessar o Oceano para além-mar em Coimbra receber a +instrucção. E em +pouco mais de 20 annos de existencia que progresso estupendo tem feito +as +letras Brazileiras! Corão de vergonha os seculos brilhantes +de Pericles, +Demosthenes, Augusto e Luiz XIV, que o novo Sol Americano os eclipsa a +todos! Em tão breves annos quantos nomes illustres +já tem a posteridade de +inserir no catalogo dos benemeritos!</p> + + + +<p>E quaes os meios para se chegar a este fim tão +maravilhoso, que deixa +abysmado de admiração o homem pensador? +Além do amor nato dos Brazileiros +ás sciencias, letras e artes; além da clara e +vasta intelligencia com que a +natureza os adornou; além das Escolas e Academias francas a +todos; além das +Bibliothécas publicas e particulares (pois não ha +hoje homem estudioso que +não possua huma Bibliothéca mais ou menos +escolhida, mais ou menos rica e +abundante; do mesmo modo que sociedades particulares, e as +Corporações +Religiosas); além pois de todos estes elementos, outros se +descobrem +introduzidos pela moderna civilisação: e +são a liberdade de pensamento, a +abolição da censura, a liberdade de imprensa, o +estabelecimento de +typographias em todas as Provincias concorrendo dest'arte para propagar +os +conhecimentos e excitar a cultivar o espirito (assim não +houvessem os +abusos que temos presenciado!), e finalmente a +illustração que recebemos +dos paizes civilisados com a leitura das suas melhores obras e +lições dos +grandes mestres.--Accresce que, não satisfeitos os +Brazileiros com o estudo +e trabalho isolado, sempre reconhecerão que o concurso de +muitos he o +verdadeiro meio de prosperar: assim fundarão-se sociedades +scientificas e +litterarias não só no tempo do Marquez de +Lavradio no Rio de Janeiro, como +muito antes na Bahia. E hoje que numero prodigioso existe! +Associações para +o estudo da Historia e Geographia, para o da Philosophia, para o do +Direito, para o da Medicina, etc., etc., existem por toda a parte: e +bem +assim muitos periodicos litterarios e scientificos, que +demonstrão o desejo +de estudar e de propagar o mais possivel no paiz os conhecimentos +humanos +em todos os ramos.</p> + + + +<p>O pensamento não conhece limites ao seu +vôo; o infinito he a sua méta: e +pois avante sempre, que só assim se conquistará o +lugar que ao Brazil +compete na ordem das nações grandes e illustradas.</p> + + + +<a name="ch9o"></a> +<h4>INDUSTRIA.</h4> + + + +<p>O Brazil tem prosperado em todos os ramos da industria, quer +agricola, +quer fabril, quer commercial. Mas longe está ainda do auge a +que desejamos +que se eleve.</p> + + + +<p>A <i>lavoura</i>, essa alma de nossa existencia, +foi sempre a +predilecta; e tem-se desenvolvido prodigiosamente, sobretudo depois de +sábias medidas em seu beneficio, e da liberdade de commercio +com as nações +estrangeiras. Além das madeiras de toda a casta, +além das plantas +medicinaes, o nacional e estrangeiro acha na lavoura tudo quanto +necessita, +não só de generos alimentares, como tambem de +algodão, canna de assucar, +café, chá, fumo, etc. (o chá cultivado +com muita vantagem em S. Paulo e +Minas). Consta que se começa de novo a cultivar com vantagem +no Rio Grande +do Sul o trigo, que já em outros tempos produzia com tal +abundancia que +suppria a todas as necessidades da Provincia e até algum se +exportava.</p> + + + +<p>Mas huma questão da mais alta importancia se +suscita, e nella vai a vida +ou morte de nossa lavoura:--<i>Si he hum mal para o paiz e huma +offensa á +humanidade e aos direitos e dignidade do homem a escravidão, +e si a nossa +lavoura não pode progredir nem mesmo existir sem +braços affeitos aos rudes +trabalhos que ella importa, como substituir os braços +escravos por braços +livres?</i>--De hum lado, o estrangeiro que chega ao Brazil acha +mil modos +de vida mais commodos do que os asperos e rudes trabalhos de nossa +lavoura; +e como pouco trabalho e mais suave lhe dá o necessario e +mesmo mais do que +o necessario, elle despreza sujeitar-se a taes serviços: +demais, como he +facil manter-se sem sujeitar-se aos caprichos e dominio de outrem, o +estrangeiro prefere, mesmo quando se entregue á agricultura, +viver sobre +si, independente, ainda que pobre; a propriedade torna-lhe mais vivo o +sentimento da liberdade. De outro lado, o elemento da +escravidão obsta a +que trabalhadores brancos livres, sobretudo estrangeiros, se sujeitem a +trabalhar a par de escravos; porque julgão descer da +dignidade de homem +hombreando no serviço com tal gente. Por conseguinte, +á vista destes +obstaculos por ora quasi invenciveis, julgamos que tempo +virá em que seja +possivel a tão desejada substituição; +mas que não será em tão breves annos. +E, em nosso pensar, os meios de se preparar essa reforma social, +são: +1.º, ir destruindo a pouco e pouco a escravidão no +paiz; +2.º, promover quanto antes em grande escala a +colonisação, +sobretudo de povos que se entreguem de preferencia á lavoura.</p> + + + +<p>A industria <i>fabril</i> tambem tem-se +desenvolvido grandemente. E +fabricas de tecidos de lã, algodão, e de muitos +outros generos existem por +todo o Imperio; merecendo especial e honrosa +menção a Provincia de Minas +Geraes, que apezar de central, he a que mais exforços tem +feito desde +muitos annos, não esmorecendo com a concurrencia +estrangeira. Mas ainda +resta muito a caminhar para chegar á +perfeição.</p> + + + +<p>O emprego das machinas e do vapor são de huma +vantagem incalculavel no +progresso industrial, sobretudo em hum paiz mesquinho de +braços como o +nosso. Eis, pois, o mais poderoso auxiliar de que deve +lançar mão a nossa +industria para seu engrandecimento.</p> + + + +<p>A industria <i>commercial</i> tambem tem +progredido maravilhosamente, +sobretudo depois que se abrirão os portos a todas as +Nações do mundo. O +estrangeiro traz-nos tudo quanto necessitamos, desde generos +alimentares, +tecidos de lã, seda e algodão até +objectos de luxo; e leva-nos o algodão em +rama, o assucar, a aguardente, fumo, café, madeiras, plantas +medicinaes e +outros objectos. Mas he de lastimar que o commercio externo ainda seja +feito absolutamente por vasos estrangeiros, e que o nosso +pavilhão não +tremule nos portos das outras Nações, conduzindo +nós mesmos os proprios +generos. O commercio de cabotagem, porêm, he feito +exclusivamente por +barcos brasileiros; e tem florecido, sobretudo com a +introducção dos barcos +de vapor. O mesmo não diremos do commercio terrestre, porque +as enormes +difficuldades a vencer, a falta de boas estradas, as longas viagens e +perigos que correm os generos retardão o seu desenvolvimento.</p> + + + +<a name="ch9p"></a> +<h4>RELAÇÕES EXTERNAS.</h4> + + + +<p>Nossas relações com as outras +Nações continuão pacificas e +procurão +estreitar-se por meio do commercio. Comtudo não ignoramos +que ainda pendião +em fins de 1848 sem solução definitiva varias +questões de grande monta. +Erão ellas:</p> + + + +<p>1.º Com a Inglaterra para a +revogação do famigerado bill de +1845, e não continuar a exercer o direito de <i>visita +e busca</i> nos +vasos mercantes brazileiros suspeitos de se empregarem no trafico de +Africanos, e muito menos a sujeital-os ao julgamento em seus tribunaes; +pois que tendo terminado o prazo do tratado que lhe concedia esse +direito +de <i>visita e busca</i>, e havendo cessado tambem as +commissões mixtas, só +ao Brazil e seus tribunaes compete punir os que se fizerem +réos de tal +crime, importando Africanos.</p> + + + +<p>2.º Com a França por usar do direito de <i>visita +e busca</i> +nos vasos mercantes brazileiros, suspeitos de traficarem em Africanos, +e +por sujeital-os ao julgamento em seus tribunaes, quando nunca existio +tratado com o Brazil que lhe désse tal faculdade.</p> + + + +<p>3.º Com Portugal pelo mesmo motivo que com a +França.</p> + + + +<p>4.º Com os Estados-Unidos pela questão +Wise.</p> + + + +<p>5.º Com a Bolivia por causa de limites, julgando-se +ella com +direito á margem direita do rio Paraguay em sua confluencia +com o Jaurú nas +fronteiras de Matto Grosso.</p> + + + +<p>6.º Finalmente com Buenos-Ayres por muitos motivos de +parte a +parte.</p> + + + +<p>Ao findar, porém, o anno de 1849 o estado de nossas +relações com o +estrangeiro he o seguinte:</p> + + + +<p>1.º Pende ainda a questão com a Inglaterra +por causa do bill +de 1845. E novas reclamações tem feito o Brazil +pelos factos de insolente +despotismo e atrevimento com que ella nos espesinha a todo momento para +ver +si assim consegue mais facilmente extorquir-nos hum tratado commercial +como +ella entende mais convir-lhe.</p> + + + +<p>2.º A questão com a França +pode-se reputar terminada, desde +que o Governo Francez participou ao de Inglaterra não ter +direito algum a +proceder como o fizera até ali.</p> + + + +<p>3.º Com Portugal, do mesmo modo, desde que o seu +Governo +expedio ordens para Africa, reconhecendo não ter direito +algum de +<i>visitar</i> e <i>apresar</i> sem tratado +expresso que o autorise.</p> + + + +<p>4.º Com os Estados-Unidos tambem terminada, porque os +Governos satisfizerão-se com as +explicações de parte a parte.</p> + + + +<p>5.º Com a Bolivia ainda pende; no entanto as +forças +Bolivianas evacuarão o territorio, que foi occupado pelas +nossas.</p> + + + +<p>6.º Com Buenos-Ayres continúa no +pé antigo. Os motivos são os +seguintes: não reconhecimento pelo Brazil do bloqueio de +Monte-Vidéo em +1843; memorandum do Visconde de Abrantes em 1844 aos gabinetes de +Londres e +Paris sobre a intervenção nos negocios do Rio da +Prata; não reconhecimento +do bloqueio de Monte-Vidéo e Maldonado em 1845; a +concessão de passaportes +a Rivera; a supposta protecção dada pelo Brazil +ao General Paz; o +reconhecimento solemne da independencia do Paraguay; e até +satisfações por +opiniões emittidas nas Camaras! ultimamente +reclamações sobre reuniões na +fronteira do Rio Grande do Sul.</p> + + + +<a name="ch9q"></a> +<h4>NECESSIDADES DO PAIZ.</h4> + + + +<p>Comquanto pela rezenha que temos feito, pareça por +hum lado prospero o +estado do paiz, todavia não nos illudamos. Para sua +verdadeira e solida +prosperidade em tudo, necessita elle:</p> + + + +<p>1.º De boas providencias que tendão +não só a abolir +effectivamente o barbaro e infame trafico de Africanos, como a +escravidão +no paiz.</p> + + + +<p>2.º Promover em grande escala a +colonisação, com preferencia +de povos que se dediquem á lavoura.</p> + + + +<p>3.º De medidas que protejão e +fação prosperar a lavoura, o +commercio interno e externo (as duas grandes arterias de nossa +existencia e +grandeza); a navegação, tanto costeira como +fluvial e além-mar até os +portos estrangeiros; e a industria manufactureira.</p> + + + +<p>4.º De providencias que garantão +efficazmente a propriedade e +segurança individual do cidadão e estrangeiro, +sem as quaes acanhado he o +progresso.</p> + + + +<p>5.º De reforma no ensino publico.</p> + + + +<p>6.º De reforma na organisação +Judiciaria actualmente +existente, dando aos Magistrados a importancia e garantias que devem +ter, e +sem as quaes a independencia do Poder Judicial he letra morta na +Constituição do Imperio.</p> + + + +<p>7.º De huma Lei de Eleições; +pois que a de 1846 acha-se tão +explicada que já não ha Lei.</p> + + + +<p>8.º De novo regimento da Guarda Nacional, +organisando-a de +tal modo que toda ella seja hum formidavel exercito de reserva +perfeitamente disciplinado.--A necessidade de dar aos Brazileiros huma +educação tambem militar, adestral-os no manejo de +todas as armas, e nas +evoluções militares he inegavel e palpitante. Em +hum paiz tão extenso como +o nosso, e de população tão diminuta, +quasi nada he para hum caso mais +grave hum exercito de 20 ou mesmo 50 mil homens: a Guarda Nacional tem +de +ser quasi infallivelmente a primeira a combater o inimigo, ou pelo +menos +auxiliar muito poderoso da tropa de linha. Si ella portanto for +perfeitamente disciplinada, teremos não 20 ou 50 mil homens, +porém 500 ou +600 mil bayonetas promptas a expellir o estrangeiro em qualquer parte +que +elle se apresente. O contrario he deixar-se matar sem se saber +defender.</p> + + + +<p>9.º De reforma nas Leis Militares.</p> + + + +<p>10.º De medidas que procurem elevar a nossa Marinha +de Guerra ao pé de +importancia que deve ter, augmentando a nossa insignificante esquadra +sobretudo com vapores de guerra para dest'arte podermos melhor defender +nossas extensissimas costas e fazer-nos respeitar das outras +Nações; +porque, segundo hum grande Publicista--<i>Si as +Nações querem ser +respeitadas devem no tempo de paz estar preparadas para a guerra</i>--; +entre as Nações a força he o respeito.</p> + + + +<p>11.º A confecção de hum Codigo +Civil que substitua a tão emmaranhada +legislação que ainda nos rege.</p> + + + +<p>12.º Tratados que fixem definitivamente os limites do +Imperio.--He sabido +que poucos são os tratados que temos em vigor; porque os de +1777 e 1778 +forão rotos pela guerra de 1801, e não +restaurados pelo tratado de paz de 6 +de Junho do mesmo anno; de sorte que do lado do Sul apenas temos o de +1819 +com Monte-Vidéo, visto que o definitivo promettido pela +convenção de 1828 +ainda se não fez. Do lado do N. temos com as Guyanas +sobretudo Franceza +varios tratados e convenções. De maneira que em +tudo mais o Brazil continúa +a reger-se pelo principio do <i>uti possidetis</i>; o que +tem dado lugar a +muitas questões mesmo na actualidade. Para cessarem portanto +todas as +questões e difficuldades futuras he indispensavel tratar-se +de convenções +definitivas de limites com todos os nossos visinhos, buscando +então a linha +que mais nos convier.</p> + + + +<p>Eis em poucas palavras o estado do Brazil ao findar o anno de +1849, e +suas necessidades mais vitaes. A Providencia vele sobre nossa patria e +lhe +dê o futuro grandioso e brilhante a que tem direito de +aspirar, fazendo +cessar todos os motivos e elementos que ora retardão seu +progresso +estupendo. Que o Brazil seja a primeira das +Nações, eis o nosso mais +ardente voto. Mas quão longe de nós essa +época ditosa! Feliz a geração que +vir o Brazil povoado de centenas de milhões de homens, +porêm livres todos; +semeiado de ricas e populosas cidades; florecente pelo commercio, +agricultura, industria, sciencias, letras e artes; com bellas estradas +de +ferro que transportem de huns a outros pontos com a rapidez do raio os +immensos thesouros ainda pouco conhecidos e apreciados de nossas +Provincias, sobretudo centraes; com telegraphos electricos que levem as +noticias e providencias com a velocidade do relampago desde o +Pará até S. +Pedro do Sul, desde o Rio de Janeiro até os extremos confins +de Matto +Grosso; com huma brilhante navegação costeira, +fluvial e além-mar; com huma +Marinha de Guerra ainda mais brilhante, que faça tremular o +nosso pavilhão +nas cinco partes do mundo, e nos faça respeitar e temer de +todas as Nações! +Remota época, mas não impossivel! Unamo-nos e +trabalhemos todos com +enthusiasmo para esse fim ultimo, concorrendo cada qual com o maior +contingente que poder; que os nossos votos se cumprirão, e a +terra de Santa +Cruz ha de hum dia gozar dos fructos do nosso trabalho. Com o auxilio +do +Omnipotente nada he impossivel; e Elle protege e ampara o Brazil. +Trabalhemos pois todos para a sua grandeza, que só assim bem +mereceremos da +patria e das gerações futuras.</p> + + + +<b>FIN.</b> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Indice chronologico dos factos mais +notaveis da Historia do Brasil, by Agostinho Marques Perdigão Malheiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA DO BRASIL *** + +***** This file should be named 22044-h.htm or 22044-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/2/0/4/22044/ + +Produced by Pedro Saborano, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +file was produced from images generously made available +by Cornell University Digital Collections) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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