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(produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + +O POETA CHIADO + + +ALBERTO PIMENTEL + + +O POETA CHIADO + + +(Novas investigações sobre a sua vida e escriptos) + + Reverendo frei Chiado + de Virtude grande imigo, + sente tua alma comtigo + e verás se estas desculpado + d'isto que agora te digo. + + AFFONSO ALVARES. + + +LISBOA + +Empreza da Historia de Portugal. + +_Sociedade editora_ + +LIVRARIA MODERNA + +_R. Augusta, 95_ + +TYPOGRAPHIA + +_35, R. Ivens, 37_ + +1903 + + + + +I + + +As relações de amizade entre os vivos e os mortos são menos quebradiças +e ephémeras do que as dos vivos uns com outros. + +E a razão é facil de explicar: quem vai, não volta. + +Os mortos não falam, não intrigam, não atraiçôam, não desmerecem, por +isso, da estima e consideração em que uma vez os tomamos. + +Affeiçôa-se a gente a um escriptor, a um _maestro_, a um pintor ou a um +estatuário, que morreu ha muitos annos ou ha longos seculos, e não +deixamos apagar nunca a lampada do seu culto: colleccionamos-lhe as +obras sem olhar a dinheiro, por mais raras que sejam; conservamol-as em +grande veneração como thesouros que um avarento aferrolha a sete chaves; +e estamos sempre promptos a combater de ponto em branco pela gloria e +belleza de suas producções, quando apparece algum zoilo a menosprezal-as +com azedume. + +E se nas relações com os vivos fazemos selecção do caracter d'elles para +estabelecer convivencia e amizade, pouco nos importa a condição e +procedimento dos mortos quando os estimamos em suas creações artisticas +ou literarias com intransigente fanatismo. + +O meu fallecido amigo visconde de Alemquer, que era um _gentleman_ +distinctissimo, primoroso em maneiras e acções, além de ser um +biblióphilo digno de apreço e consulta, tomou tanto gosto pelas obras do +padre José Agostinho de Macedo, que passou a maior parte da existencia a +colleccional-as por bom preço e a muito custo. + +Comtudo, havia tanta disparidade entre o caracter de um e do outro, +porque o auctor dos _Burros_ foi o mais atrabiliario, inconstante e +perigoso homem de letras de todo o nosso Portugal, que o visconde de +Alemquer, se houvesse sido contemporaneo do padre José Agostinho, nunca +teria podido ser seu amigo, nem seu defensor, nem jámais o quereria vêr +em intimidade de portas a dentro. + +Pela minha parte, tambem sou obrigado a confessar um similhante fraco, +não pelo mesmo padre, mas por outro que, sob o ponto de vista da +disciplina monastica e da dignidade sacerdotal, não valia mais. +Refiro-me ao franciscano Antonio Ribeiro o Chiado, que tambem despiu o +habito e foi tunante irrequieto, sendo egualmente homem de letras. + +Até 1889, anno em que logrei dar a lume as suas obras, quasi perdidas, e +geralmente desconhecidas[1], custou-me o Chiado bom trabalho e canceiras +para resuscital-o aos olhos do grande publico em toda a sua +individualidade literaria. + + [1] _Obras do poeta Chiado_, colligidas, annotadas e prefaciadas por + Alberto Pimentel. Na officina typographica da Empreza Literaria de + Lisboa, calçada de S. Francisco, 1 a 7. + +D'então para cá não deixei de pensar n'elle a investigar-lhe a +biographia, que é das mais obscuras e complicadas, e a procurar aquellas +de suas obras que até 1889 não consegui haver á mão por mais que as +desejasse e buscasse. + +Alguma coisa achei n'este lapso de onze annos. Não é tudo ainda. Mas não +perdi o tempo, nem parei, porque me repugna a inercia, e porque, +verdade-verdade, tomei gosto ao Chiado, que não foi um vulto preeminente +nas letras, mas que tem relevo como bohemio e dizedor, como trovista +alegre e zombeteiro, farçante popularissimo, que a praça publica +applaudia e que os escriptores mais notaveis não desconsideravam. + +Outros meus contemporaneos teem consagrado todo o seu tempo ao Chiado +rua, e talvez esses se riam de mim, que prezo mais o literato do que o +_Regent Street_ alfacinha. + +Todavia, cumpre advertil-os de que a rua lembra o escriptor, e de que +foi elle, como julgo poder demonstrar agora, que deu nome á rua. + +Eu já em 1889 pendia para esta opinião, comquanto, n'essa epocha, só +houvesse encontrado vestigios de que a rua tinha aquella denominação no +seculo XVIII. + +Depois d'isso, alguem lembrou que já era assim chamada na primeira +metade do seculo XVII (1634) como se reconheceu por um documento digno +de fé[2]. + + [2] _Elementos para a historia do municipio de Lisboa_, tomo IV, + pag. 41. Ahi se vê que o conde de Atouguia morava «ao Chiado». + +E eu proprio li, posteriormente, uma referencia mais antiga, porque é +relativa á primeira década do mesmo seculo XVII: «Outras casas do bairro +do Marquez ficavam situadas _ao Chiado_, quando se entra na rua Direita +da Porta de Santa Catharina (1610)[3]» + + [3] Archivo Nacional. _Chancellaria de D. Filippe II_. livro XIX, + fol. 269. + +Mas hoje cuido trazer prova convincente de que foi o poeta que, por +consenso espontaneo do povo, deu o nome de Chiado á antiga rua da Porta +de Santa Catharina ou a parte d'ella. + +O povo baptiza melhor do que a camara municipal, porque baptiza com mais +acerto, quasi sempre com inteira razão de ser; por isso, nome que elle +ponha, péga, fica, perdura. + +E, não obstante a camara municipal mudar em 1880 o nome á rua, de +_Chiado_ para _Garrett_, o povo não quiz saber de reviravoltas de +letreiros nas esquinas: continua a chamar-lhe _Chiado_; _Chiado_ é que +é, porque o povo quer que seja assim. + +As novas descobertas que hoje tiro a lume sobre a vida azevieira do +poeta Chiado, anecdotas passadas entre o povo e com o povo, das quaes +resulta que elle foi um bohemio tão acabado e popular no seculo XVI como +Bocage o veiu a ser no seculo XVIII, essas novas descobertas, dizia eu, +acodem a reforçar a prova, que em documentos colhi, de haver sido elle +que celebrizou a rua em que morava e que por esse facto, sem que ninguem +o decretasse, mas porque todos assentiram, ficou a alcunha do poeta +tradicionalmente ligada á rua como um padrão de celebridade local[4]. + + [4] De todas as ruas de Lisboa o Chiado é a mais cantada e + decantada. Na literatura, além de infinitas referencias, tem + fornecido o titulo de algumas obras: _Do Chiado a Veneza_ por Julio + Cesar Machado (1867); _Viagens no Chiado_ por Beldemonio (Ed. de + Barros Lobo) 1857; _A campanha do Chiado_, scena comica; _Trez ao + Chiado_, cançoneta. No principio do anno de 1868 começou a + publicar-se em Lisboa um periodico com o titulo _O Chiado_, em + formato grande e excellente papel. Teve ephémera existencia. No n^o + 5. correspondente a 6 de fevereiro, inseriu um artigo do sr. Brito + Rebello sobre o poeta Chiado. D'esse artigo recortamos os seguintes + periodos: + + «Mas d'onde lhe veiu a alcunha: Eis os eruditos em duvida. A opinião + correntia até alguns annos era de que esta lhe proviera da rua onde + habitava, que era a parte da subida desde o Espirito Santo, hoje + palacio da casa de Barcellinhos, até á rua de S. Francisco + (_Ivens_). Ha porém um contra: em monumento ou documento algum + anterior ao seculo XVI, se encontra tal designação. É pois mais + natural a hypothese do sr. Alberto Pimentel, de que do poeta veiu o + nome á rua.» + + A hypothese, formulada em 1889, é hoje uma these documentada. + + + + +II + + +Eu conjecturei em 1889 que--Chiado--era alcunha popular e nao appellido +de familia. Hoje possuo provas de ter havido no districto de Evora, +d'onde o poeta era natural, uma familia de appellido Chiado, anterior ao +poeta. + +Bem pode ser que o appellido proviesse de alcunha, no sentido em que a +tomei[5], o que muitas vezes acontece. Mas não ha duvida que já no +seculo XV existiam Chiados no baixo Alemtejo. + + [5] _Ver Obras do poeta Chiado_, pag. XXVIII a XXX. + +Perante D. João II queixaram-se João Lopes Chiado e Francisco Lopes +Chiado, ambos eborenses e irmãos, contra a perseguição judicial que lhes +moviam Ayres Gamito e Gonçalo d'Elvas, serviçaes d'el-rei. + +Por carta regia, datada de Evora, D. João mandou annullar-lhes a culpa +deixando-os illibados[6]. + + [6] Archivo Nacional. Chancellaria de D. João II, liv. 17, fl. 89, + v. + +No seculo XVI havia em Montemor-o-Novo um Antonio Fernandes Chiado, +homem muito pobre, a quem D. João III perdoou o delicto (em 11 de +setembro de 1553) de ter caçado perdizes com boiz, contra o que +dispunham as Ordenações[7]. + + [7] Archivo Nacional. D. João III. Perdões e legitimações, liv, 19, + fl. 398, v. + +Mas nenhuma d'estas noticias vale tanto como a de ter existido ao tempo +do poeta, no anno de 1567, em Lisboa, uma Catharina Dias, «dona viuva», +mulher que foi de Gaspar Dias o Chiado, a qual residia «na rua Direita +da Porta de Santa Catharina.» + +Colhi esta noticia n'um documento authentico[8]. + + [8] Archivo Nacional. _Collegiada de São Julião de Lisboa_, maço + unico n^o 14. Instrumento lacerado no fim. Transcrevemos apenas o + começo, por ser a parte que mais nos interessa: + +«Em nome de deus amem sajbam quãtos este estromento de emnouacão de +prazo e nouo emprazamento vyrem que no Anno do nascymento de nosso +senhor Jesus Christo de myll e quinhentos e sesemta e sete Aos tres dias +do mes de Junho na cydade de llixboa demtro da parochiall Igreya de sam +Gjão estãdo ahy de presente o senhores lljonardo nardez de cyxo (sic) +prior da dita Igreya e guomcallo diaz e Jorge Rebejro e pedro ortyz e +ffrancisquo de lhãnes beneffyciados em ella todos presentes e +Imtaresemtes na dita ygreya e todos jumtos e cõgregados por som de +campam tãgjda em cabido e cabydo ffazemdo ffazemdo (sic) especyallmente +sobre o auto de que abayxo ffara memçam e todos de huã parte e da outra +estamdo a esto presente cateryna diaz dona veuua molher que ffoy de +gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja e ella vyue hora +nesta cidade na Rua derejta da porta de samta cateryna e lloguo por +elles senhores pryor e majs beneficiados ffoy dyto que amtre os majs +bens e propriadades que A dita Sua Igreja pertemce e de que ella esta de +pose como derejto senhoryo asy sam huas cassas que estão nesta cydade no +topo da callcada de pay de nabays na Rua derejta da porta de samta +cateryna as quoajs pessue hora como vtill senhoryo A dyta caterina diaz +por as nomear em ellas por segunda pessoa o dito gaspar diaz chyado que +nellas hera a primeira pessoa comfforme ao emprazameto que dellas lhe +ffoy ffeyto por A dyta Igreya pryor e benefficiados della e pagua de +fforo myl e trezemtos e cimquoenta reis em cada num Anno com galljnhas e +tudo e com outras majs comdjcões e obrigações de seu comtrato, etc.» + +Ora ahi se diz textualmente a respeito d'aquella Catharina Dias: «molher +que ffoy de gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja.» + +A falta de pontuação nos documentos antigos dá origem a muitas +escuridades e equivocos. Assim, na phrase que deixamos transcripta, +poderiam caber duas interpretações: que Gaspar Dias tinha a alcunha de +Chiado ou tinha a alcunha de Vinhateiro. Mas a anteposição do artigo á +palavra--Chiado--reforçaria por si mesma a hypothese de ser alcunha, se +a não confirmasse plenamente esta passagem que se encontra no texto do +documento: + + +«Aos seys dias do mes de junho de myll e quynhemtos e sesemta e sete +Annos na cydade de llixboa Rua derejta da porta de ssamta cateryna nas +cassas de caterina diaz _A chiada dalcunha_ donna veuua etc.» + + +Assim, pois, ficamos seguros de que o Gaspar Dias da rua Direita da +Porta de Santa Catharina não tinha o appellido de Chiado, como alguns +individuos do Alemtejo, mas sim a alcunha, e de que exercia a profissão +de «vinhateiro» por ser viticultor ou negociante de vinhos. Bem poderia +succeder que os vendesse a retalho na propria casa de residencia, +especie de estalagem talvez, onde admittisse hospedes. + +N'elle era, portanto, alcunha o que n'outros fôra appellido de familia; +mas bem póde haver sido que a origem do appellido no Alemtejo proviesse +primitivamente de uma alcunha. + +Quanto á significação da palavra _chiado_ não ha duvida. Na _Revista +Lusitana_ VI, 79, encontra-se um estudo intitulado--Dialecto +indo-português de Gôa--, auctor monsenhor Sebastião Rodolpho Dalgado +(_sic_), no qual estudo se lê: «_Chiado_, astuto, ladino. «Não é porque +eu seja mais chiado, mais astuto do que os outros». Do k., sansk +_chhadmin_.» Mas, sem recorrermos ao concani, o nosso verbo «chiar» e o +seu participio podem dar ideia de um sujeito de «ruidosa» reputação como +bargante e dizidor. No Brazil o nome--Camões--tomou a accepção popular +de--cego de um olho; e até me informam--ó sacrilegio!--que lá se diz, +por exemplo, «um cavallo camões». O povo tem um grande instincto de +generalisação: certos individuos seriam--chiados--por se assimilharem +moralmente. Da alcunha proviria talvez o appellido; mas não vale a pena +insistir n'este ponto. + +O que faz ao nosso proposito é dizer que a Gaspar Dias fôram aforadas +pela collegiada de S. Julião umas casas sitas «no topo da calçada de Pai +de Nabaes na rua Direita da Porta de Santa Catharina» e que houve +renovação do prazo no tempo da viuva, segundo ella requereu e obteve. + +A referida calçada é descripta em documentos antigos como sendo--de Payo +de Novaes--Pai de Navaes ou--Pai de Nabaes[9]. + + [9] «Calçada de Payo de Novaes--Corre a dita Calçada ao principio + quasi norte sul e contem seu comprimento desde o Largo da Cruz do + Azulejo thé donde volta 173 p. e de Largura 16 p. e voltando corre + Leste oeste, e contem thé intestar com a rua do Chiado donde parte o + destricto do Bayrro 42 p. e de Largura pello leste 42 p. e pello + oeste 25 p.». _Tombo da Cidade de Lisboa, Livro 10, Rocio fl. 20._ + +O _Mappa de Portugal_, III, 391, diz que a calçada de Payo de Novaes +pertencia á freguezia de S. Nicolau. + +No livro 8 da _Extremadura_ lê-se, fl. 27: «na rua que vem da callçada +que vem de pay de nauaaes pera o poço do chãao e parten (_as casas_) de +hûa parte cõ a albergaria dos tanoeiros da outra cõ casas de S. Vicente +de Fora etc. e da outra cõ casas dos banhos do espitall de dona maria de +aboym etc. e com Rua pubrica». T em a data de 1467. + +Na _Lisboa antiga_, de Julio de Castilho, vol. VI, vem um fragmento da +planta traçada por José Valentim, e ahi se póde vêr claramente qual era +a situação da calçada de Pai de Nabaes em relação á rua Direita da Porta +de Santa Catharina. + +[Ilustração: Planta do Chiado por José Valentim] + +Por este fragmento, que reproduzimos, reconhece-se que a calçada de Pai +de Nabaes ficava ao fundo do Chiado actual, entalada entre o palacio do +conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo, e que foi do predio +ahi situado, onde residira Gaspar Dias, que se alastrou o nome de Chiado +para um trecho apenas da rua Direita da Porta de Santa Catharina, +conservando esta rua o seu antigo nome desde a Cordoaria Velha[10] até +propriamente á porta de Santa Catharina, isto é, até ao Loreto moderno. + + [10] A Cordoaria Velha correspondia á rua de S. Francisco, hoje rua + Ivens. + +Seria em casa de Catharina Dias a Chiada que o poeta Antonio Ribeiro se +hospedou. Não podêmos admittir que fosse o marido d'ella que désse o +nome á rua, a qual no tempo da viuva ainda tinha a designação antiga e +total--de rua Direita da Porta de Santa Catharina. + +Pode ser que o poeta recebesse da propria casa de Pai de Nabaes, como +seu hospede ou freguez, a alcunha de Chiado, tanto mais que esta alcunha +lhe quadrava como astuto e ladino, e que elle, segundo uma accusação de +Affonso Alvares, se dava a frequentar lojas de bebidas: + + E tu queres ser rufião + e beber como francez. + +Pode ser que fosse parente, adherente ou intimo da viuva de Gaspar Dias, +e que por parte do povo tambem houvesse malicia em dar ao commensal a +alcunha que pertencêra ao marido. + +A tradição diz que o poeta morou n'aquella rua e, segundo a maior +certeza possivel, parece poder agora ficar assente que foi elle, pela +notoriedade de que gosou, devida a suas ribaldarias e veia comica, que +deu o nome á rua. + +É menos admissivel a hypothese de que o poeta, por singular +coincidencia, fosse um dos Chiados do Alemtejo, apesar de ter nascido no +districto de Evora, onde, na cidade capital do districto e na villa de +Montemor-o-Novo, existia aquelle appellido. No Alandroal, cêrca de seis +leguas ao sul de Evora, ha um _monte_ (casa de habitação de uma herdade) +que tem o nome de--Chiado[11]--e um logar chamado--Chiada. No districto +de Faro (Algarve) tambem ha um logar com a denominação de--Chiado,--como +se vê da _Chorographia_ de Baptista. Chiado é, pois, um vocabulo do sul. +Mas tanto o poeta como seu irmão Jeronymo, tambem poeta, assignavam +apenas o appellido--Ribeiro. O que me leva a crêr que Chiado fôra +alcunha posta a Antonio Ribeiro, bem assente n'elle, que a merecia; e +por ser alcunha a precediam de um artigo. + + [11] Situado a dois kilometros da villa. Haverá um seculo pertenciam + este _monte_ e herdade a um individuo chamado Pedro Gonçalves. + Passando de paes a filhos, veio a propriedade a pertencer ao pai do + sr. Martins, do Redondo, actual proprietario. + +Em resumo: antes do poeta a rua não tinha o nome de Chiado[12]. + + [12] Fica, pois, documentalmente contradictada a opinião, tantas + vezes repetida, de que o poeta recebeu o nome da rua. Ainda + recentemente disse a _Encyclopedia portugueza illustrada_: «Indo + para Lisboa (o poeta), foi morar para o Chiado, e d'ahi o ser + conhecido por este nome.» É verdade que a mesma _Encyclopedia_ + tambem diz que o Chiado escreveu varios autos, sendo conhecidos + dois: _Auto de Gonçalo Chambão_ e _Auto da natural invenção_.» + justamente estes dois é que ninguem tem podido vêr. Dos trez que + publiquei em 1889, não fala: esses então é que são os desconhecidos! + + + + +III + + +Já agora seja-me permittida uma divagação, que reputo interessante, a +respeito do sitio do Chiado, que o nosso poeta tornou famoso. + +Eu disse que a calçada de Pai de Nabaes ficava entalada entre o palacio +do conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo da Pedreira. + +«Da Pedreira», porque os alicerces d'este edificio foram assentes no +alto da escarpa, que impendia em tempos remotos sobre um esteiro do +Tejo, cidade dentro, e que ainda hoje se deixa adivinhar na enorme +differença de nivel que ha entre o fundo do Chiado e a rua do Crucifixo. + +A egreja e hospital do Espirito Santo estão actualmente substituidos, no +mesmo local, pelo moderno palacio da familia Barcellinhos. + +A egreja era muito antiga, pois que no anno de 1279 já tinha sido +fundada. + +No seculo XVI foi reconstruida com donativos de el-rei D. Manoel e +outros bemfeitores. Ficou o templo com trez naves, e tinha uma +capella-mór artificiosamente lavrada, obra de muita estimação e riqueza. + +O padre Carvalho, na _Chorographia Portuguesa_[13], dá larga noticia +d'esta egreja depois de reconstruida. + + [13] Tomo III, pag. 445 e seguintes. + +Junto ao templo, e com serventia para elle, havia o hospital do Santo +Espirito, que albergava permanentemente doze pessoas necessitadas, entre +as quaes «dez mulheres donzellas ou donas viuvas de boa vida». + +A bem dizer, era mais um recolhimento do que um hospital. + +E assim foi até o anno de 1672, em que os padres da Congregação do +Oratorio, que se tinham instituido alli perto, no sitio das Fangas da +Farinha, á rua do Almada, tiveram auctorização para tomar conta do +hospital do Santo Espirito, onde passaram a estabelecer-se dois annos +depois. + +Alli permaneceram os oratorianos, tranquillos e contentes. Mas por +occasião do terremoto de 1755 a egreja e convento arderam, perdendo-se +os preciosos haveres d'aquelles padres. A congregação transferiu-se +então para o convento das Necessidades, que é hoje palacio real. + +Ficaram apenas de pé as paredes dos dois edificios incendiados. + +No frontispicio da egreja havia grandes columnas de cantaria, que o +leitor ainda hoje pode ver... aonde? + +Aonde? Não em outro templo, mas na fachada de um theatro, porque as +pedras tambem teem seus fados. Estas transitaram, por caprichoso +destino, do sagrado para o profano. Estão agora na frontaria do theatro +de D. Maria II; são as mesmas columnas da egreja do Espirito Santo. + +O leitor não acreditaria esta noticia, se eu não pudesse comproval-a com +um documento authentico. + +Mas posso. Ahi vai o documento, que, por ser curioso, não quero que +fique esquecido entre os meus papeis velhos: + + +«Ministerio do Reino--3.^a Repartição--Havendo Manuel José d'Oliveira, +actual proprietario do edificio da supprimida Casa do Espirito Santo da +Congregação do Oratorio, cedido as grandes columnas de cantaria e seus +capiteis, que ornão o frontispicio d'aquella Igreja, para serem +empregadas na fachada do novo theatro nacional, que se projecta fazer; +com a condição de que não seja feito á sua custa o descimento e +conducção das mesmas columnas: Manda Sua Magestade a Rainha, que o +Conselheiro Fiscal das Obras Publicas faça preparar todo o apparelho +necessario para aquelle descimento, combinando com o mencionado Manuel +José d'Oliveira a occasião e dia em que elle deve ter logar; fazendo +depois conduzir as ditas columnas e capiteis para o Arsenal da Marinha, +onde achará as ordens necessarias para serem recolhidas e depositadas +até que se lhes dê o indicado destino: devendo outrosim o mesmo +Conselheiro Fiscal dar todas as providencias para que, tanto no acto do +descimento, como no da conducção, não soffram o menor damno as columnas +e particularmente os lavrados de seus capiteis. Palacio das Necessidades +em 9 de janeiro de 1836. (assignado) _L. M. S. de Albuquerque_». + + +Pois não é interessante o destino d'estas columnas? + +Procurei saber quando foi que entraram em deposito no Arsenal de +Marinha, e quando sahiram de lá para o theatro. + +Metti de empenho o meu illustre amigo sr. conde de Paço d'Arcos, que +gentilmente, como sempre costuma, se interessou pela minha solicitação. +Fez-se a pergunta ao Arsenal. Passaram mezes. Não veiu resposta. Não era +negocio de expediente ordinario; ficou para traz. Pois deixal-o ficar; +eu é que vou andando para deante, já aborrecido de esperar. + +E agora tornemos ao nosso poeta. + + + + +IV + + +A popularidade de Antonio Ribeiro o Chiado proveiu não tanto da sua veia +poetica, aliás muito apreciada pelos entendidos, como das suas repetidas +tunantadas, de que o povo tinha directo conhecimento, porque as +presenceava em plena rua. + +Era entre o povo, entre as classes humildes de que elle provinha, porque +lá diz Affonso Alvares no proposito de deprimil-o + + Nasceste de regateira + e teu pai lançava solas; + +era entre a arraya miuda que o Chiado localizava o theatro das suas +façanhas picarescas, dos seus feitos esturdios, das suas «partidas» e +«piadas», como hoje dizemos. + +Um códice do Archivo Nacional, de que só agora tive conhecimento, revela +algumas das suas estroinices e chalaças, que não ficam a dever nada ás +mais gaiatas e desbragadas de Bocage. + +O codice a que me refiro tem o n.^o 1817 e o titulo--_Diversas historias +e ditos facetos a diversos propositos._ + +É uma interessante collecção de anecdotas, que deve ser anterior ao anno +de 1617 e pertenceu á livraria do mosteiro de S. Vicente. + +Vamos passar em revista as paginas que n'essa miscellanea dizem respeito +ao Chiado; e, onde fôr preciso, lançaremos um véo por decencia sobre as +anecdotas que entrarem no dominio da pornographia. + +É claro que a palavra--véo--não promette mais do que um anteparo +diáphano. + + * * * * * + +Quiz o poeta comprar a uma regateira um peixe de estimação. +Offereceu-lhe apenas 7 réis e meio. Volveu-lhe a regateira por escarneo: + +--Tomal-o-heis com um trapo quente. + +N'esta resposta havia tanto desdem, que picou fundo o Chiado; certamente +elle se teria doído menos de uma descompostura destemperada, como +aquellas que as peixeiras de Lisboa não precisam ensaiar-se para +desfechar na cara de toda a gente. Mas a ironia, o desprezo da réplica, +abespinhou-o; suggeriu-lhe um plano de vingança, que logo poz em +execução. + +Disfarçadamente aproximou-se do fogareiro de alguma assadeira de +castanhas ou quejando mister. Aqueceu um trapo, o primeiro que se lhe +deparou, e apossou-se violentamente do peixe, empregando o trapo na +tomadia. + +Escarcéo da peixeira, que se dizia roubada. Agglomeração de povo, que +ria do caso exaltando a astucia do Chiado. Appêllo dos dois contendores +para a justiça, visto faltar ainda n'esse tempo o _bureau_ policial da +Parreirinha. + +A varina fez a sua queixa. Chiado ponderou a circumstancia de se haver +apoderado do peixe com um trapo quente, condição imposta pela peixeira. +Decisão da justiça: que o poeta pagasse os 7 réis e meio que offerecera, +e ficasse com o peixe, pois que a condição do trapo havia sido +satisfeita, ficando salva a fé do contrato. + + * * * * * + +Era o Chiado ainda frade franciscano--porque depois despiu o habito por +indisciplina ou lh'o despiram por castigo--e começou a embirrar uma vez +com o magro caldo de lentilhas, que lhe deram no refeitorio. + +Vai isto de accôrdo com a proverbial pobreza dos franciscanos. + +Remexendo no caldo, não encontrou mais que uma lentilha. Pareceu-lhe +pouco nutritivo o singular, e começou a despir-se, como se quizesse +atirar-se a um charco. Reprehenderam-n'o com estranheza. Elle explicou: +que tinha visto apenas um legume no fundo da tigela e que o queria tomar +de mergulho. + + * * * * * + +D'outra vez--e aqui vai ser preciso o véo--apostou que em pleno Terreiro +do Paço, entre um grupo de dez ou doze picões (arruadores) que alli +estanceavam, era capaz de improvisar um _water closet_, sem que elles +protestassem. + +Fingiu-se acossado pela justiça e, correndo direito aos faias (como hoje +diriamos) pediu-lhes que fizessem roda para o livrar de ser preso. +Cahiram no langará, elles, e cerraram-se em parede, de modo que o +supposto fugitivo não pudesse ser visto. Passado algum tempo, o Chiado +parte agradecendo, e só depois foi que, pelo olfacto ou pelos olhos, os +logrados reconheceram o logro. + + * * * * * + +Não havia aposta bréjeira que lhe não propozessem, e que elle não +acceitasse. + +Se seria capaz de açoitar um vinagreiro que ia passando com dois ôdres +sobre a mula? Que sim. Dito e feito. Acercou-se do vinagreiro e +disse-lhe que desatasse um dos ôdres, pois queria provar o vinagre. +Tomou um bochecho e fez cara de não achar bom. Exigiu provar do outro +ôdre, segurando elle proprio no que já estava desatado. De repente finge +vêr alguem ao longe ou querer acudir de prompto a qualquer incidente. +Passa o ôdre ao vinagreiro, que ficou com um em cada mão, ambos +desatados. E então começa a açoitar o pobre homem, que não poderia +defender-se sem deixar perder o vinagre. + + * * * * * + +Conchavou-se o Chiado com outros tunantes da força d'elle para +engarampar um villão, que veiu a Lisboa comprar trigo. Disse-lhe que se +queria trigo bom o não podia achar melhor que o de um seu irmão, em +certa nau que estava á descarga; que fosse a bordo compral-o, mas que +para não sujar o sombreiro e a capa lh'os deixasse alli no caes, onde o +ficaria esperando. O villão pagou logo sete tostões pelo trigo, e deu a +capa e o sombreiro a guardar. Foi a bordo, em cabello e corpo bem feito. +Mas disseram-lhe lá que não tinham commissario em terra, e que só faziam +negocio com dinheiro na palma da mão. Voltou o homem ao caes, e já não +viu o Chiado; encontrou, porém, os outros guilhotes, os quaes lhe deram +uma carta de quitação que o Chiado deixára para o parocho do basbaque, +explicando tudo. Ora a carta dizia: + + João Pires do Outeiro + Me deu a capa e o sombreiro, + Sete tostões em dinheiro, + E mais me dera + Se mais tivera. + + * * * * * + +Não tendo que jantar um dia, lobrigou certo mancebo a comprar peixe na +Ribeira. Chegou-se a elle, dizendo ser grande amigo de seu pai. Sob esta +côr o convidou a jantar. Foram os dois, mano a mano, para o local que o +Chiado indicou. Ahi, disse lhe que poizasse o peixe, que logo se +cozinharia, e que fôsse buscar qualquer tempêro que faltava. Quando o +ingénuo moço tornou, já não viu o Chiado nem o peixe. + + * * * * * + +D'outra vez chamou um polhastro e industriou-o a fingir-se vendilhão, +levando no fundo de uma panela excremento humano. O rapazola apregoava, +como o Chiado lhe ensinou: «Quem merca isto?» Alguns curiosos queriam +ver o que era para comprar. E, reconhecendo a mercadoria, diziam por +claro o nome que se lhe dá. O polhastro respondia enfadado: «Pois não é +outra cousa.» + + * * * * * + +Vem agora uma anecdota geralmente attribuida a Bocage, mas que não póde +ser sua, pois que o manuscripto d'onde a tomamos é anterior a 1617 e +portanto quasi seculo e meio anterior ao nascimento de Bocage. + +Entraram ratoneiros em casa do Chiado, e levaram-lhe o melhor que tinha. +Elle viu-os a tempo de poder gritar por soccorro; mas, em vez de bradar, +poz ás costas o refugo que lhe deixaram e foi-os seguindo derreado sob a +carga. Os gatunos, espantados, fizeram alto e perguntaram-lhe para onde +ia. O Chiado respondeu tranquilamente: «Venho vêr para onde nos +mudamos.» Com o que desarmou a audacia dos amigos do alheio que, +rendidos á chalaça, lhe restituiram o bom que levavam. + + * * * * * + +Quando alguem queria engendrar uma bréjeirice, ia ter com o Chiado, que +era padre-mestre na materia. + +Por isso o consultaram certos vaganaus sobre a «partida» que deveriam +fazer a um mulato fôrro que andava por Lisboa, e a quem tinham asca por +ser valentão e soberbão. + +Aconselhou os o Chiado a que, logo que entrasse alguma nau ingleza, lhe +dessem aviso. + +Chegou a occasião, veiu um navio inglez e o Chiado, fingindo-se fidalgo, +foi a bordo com alguns d'aquelles tunantes, que dizia seus criados. + +Propoz ao capitão da nau que lhe comprasse um escravo mulato, que era +robusto para o trabalho do mar, mas que não podia amansar em terra. + +Fez-se o ajuste, sob condição de que o escravo iria á mostra. + +Os outros picões levaram-n'o a bordo, e como agradasse aos inglezes, +logo receberam d'elles o preço que fôra combinado. + +Protestou o mulato não ser captivo, mas não foi acreditado, visto +terem-lhe posto fama de soberbão. Quiz reagir á viva força, mas +lançaram-lhe ferros, visto saberem n'o valente. E teria ido mar em fóra, +como escravo, se a justiça, informada da occorrencia, o não fosse +libertar a bordo, obrigando os vaganaus a restituir o dinheiro recebido +dos inglezes. + +Não houve mais nenhum outro procedimento da justiça contra o inventor e +executores d'esta tunantada, que aos proprios magistrados pareceu +graciosa. + +O Chiado sahiu incolume, porque foram os socios que pagaram por elle, e +porque a justiça prohibiu ao mulato que tirasse qualquer desfórra. + +Palavras textuaes do manuscripto: «...com pena de morte ao negro, que +sobre aquella graça com o Chiado não entendesse, pois fôra tão bem +achada a graça.» + +Tal era a cotação da jocosidade do poeta, que até a justiça se lhe +rendia; a natureza dera ao nosso bohemio todos os predicados de +gracioso, incluindo a facilidade de imitar simultaneamente as vozes de +muitas pessoas[14]. + + [14] «Parece que era ventriloquo, porque imitava ao mesmo tempo as + vozes de differentes pessoas.» _Dic. Popular_, vol. IV, pag 268. + + * * * * * + +Tinha o Chiado em casa um pote onde fazia os despejos. Um dia lembrou-se +de lhe pôr um tampão e embreal-o exteriormente no bocal e no bojo, de +modo a parecer vasilha para exportar. Chamando depois quatro mariolas, +encommendou-lhes que levassem aquelle pote de conservas á Ribeira, que o +queria embarcar, e que esperassem lá por elle para lhes pagar o frete. + +Como o Chiado não tornasse a apparecer, foram os carrejões avisar a +justiça e requerer que lhes entregasse o pote por indemnisação de seu +trabalho. + +Sendo-lhes entregue como cousa perdida, destaparam-n'o «e mettendo a mão +dentro--diz o manuscripto--acharam-se com a conserva que não imaginavam, +e logo viram que fôra lanço do Chiado.» + +Logo viram que fôra lanço do Chiado: esta phrase testemunha quanto era +fecunda e inventiva em chistes e logros a imaginação do famoso bohemio +do seculo XVI. + +Conheciam-n'o pelo dedo--como gigantesco entre os mais preeminentes +foliões do seu tempo. + + * * * * * + +Para concluir o extracto do manuscripto, que nos fornece todas estas +anecdotas, resta dizer que passando o Chiado pela porta da Sé viu um +grupo de muchachos e, dando-lhes attenção, ouviu-os dizer: + +--Eu tomára ser bispo. + +--Eu tomára ser pápa. + +--Eu tomára ser rei. + +O Chiado, acercando-se d'elles, interpellou-os dizendo: + +--E sabeis vós o que eu tomára ser? + +--?... + +--Tomára ser melão para me beijardes... no sitio em que se beijam os +melões. + +Com a differença que elle falou mais claro do que eu. + + * * * * * + +Aqui terminam os elementos anecdoticos fornecidos pelo manuscripto para +a reconstituição da biographia picaresca do poeta Chiado. + +Mas estes, que já não são poucos, bastam a egualar o Chiado com Bocage +em materia de bréjeirices e tunantarias. + + + + +V + + +Entre as producções literarias de Chiado, que eu não pude encontrar em +1889, havia uma, que, pouco tempo depois, veiu casualmente ao meu +encontro. + +Era aquella que o abbade Barbosa designa d'este modo na _Bibliotheca +Lusitana_: + + +«Carta que escreveu de Lisboa a Coimbra da entrada do bispo D. João +Soares, em Lisboa, quando foi á raia pela princeza. É jocosa, e se +conservava na bibliotheca do cardeal de Sousa». + + +Achei-a em copia n'uma miscellanea, que pertenceu ao convento da Graça, +de Lisboa, e que eu comprei ao Rodrigues do Pote das Almas por dez +tostões. Se exceptuarmos a carta de Chiado, a miscellanea vale pouco. +Mas eu, folheando-a, li o titulo da carta, passei-a rapidamente pela +vista, reconheci que o texto concordava com o titulo, e adquiri logo o +livro, que o Rodrigues teria vendido mais caro se pudesse adivinhar a +rasão por que eu o comprava. + +D'isso era elle capaz, Deus lhe fale na alma. + +Antes de transcrever a carta que o Chiado escreveu a um seu amigo de +Coimbra, preciso esclarecer o leitor sobre o assumpto que a inspirou e o +momento em que foi escripta. + +O mallogrado principe D. João, filho de D. João III, desposou sua prima +a linda princeza D. Joanna de Castella, que veiu a ser mãe de D. +Sebastião o _Desejado_. + +A princeza entrou em Portugal no fim de novembro de 1553[15]. + + [15] Francisco de Andrade diz que foi em 1552; Pedro de Mariz que + foi em 1554. Mas a carta de Chiado, que merece fé por ser um + documento da epoca, fixa o anno de 1553. + +El-rei mandou que fossem buscal-a á fronteira D. João de Lencastre, +duque de Aveiro, e o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, os quaes se +fizeram acompanhar de pessoas de categoria, entre as quaes D. Affonso de +Lencastre e D. Luiz de Lencastre, irmãos do duque de Aveiro. + +Na fronteira, D. Diogo Lopes Pacheco, duque de Escalona, e D. Pedro da +Costa, bispo de Osma, fizeram entrega da princeza aos embaixadores +portuguezes. + +D. Joanna entrou por Elvas, e d'ahi, após breve demora, seguiu em +jornadas até ao Barreiro, onde D. João III a foi esperar para +acompanhal-a a Lisboa. + +O professor Manuel Bento de Sousa poz em relevo a fatalidade pathologica +que desde o berço condemnou D. Sebastião aos desatinos que veiu a +praticar em detrimento e ruina do paiz. + + +«D. Sebastião, diz o illustre e fallecido professor, é pela mãe neto de +um epileptico[16], e a accumulação da hereditariedade morbida +verificou-se sem perturbação. + +«Sua mãe é filha de epileptico e neta de doidos[17], sua avó é irmã do +mesmo epileptico e filha dos mesmos doidos, sua bisavó é irmã e filha do +mesmo epileptico e dos mesmos doidos. Seu avô, por consequencia, é neto +de doidos, e seu pae é bisneto dos mesmos doidos. + +«Como exemplo de nevropathia accumulada por herança não ha melhor[18]!» + + [16] O imperador Carlos V. + + [17] Joanna _a Doida_ e Filippe I, leviano, perdulario, incapaz de + governar. + + [18] _O Doutor Minerva_, pag. 198. + + +Sobre a inconveniencia physiologica dos casamentos consanguineos, +repetidos de geração em geração entre as casas reaes de Portugal e +Hespanha, vieram accumular-se, pelo enlace do principe D. João com a +princeza D. Joanna, as taras hereditarias da epilepsia e da loucura que +os dois desposados, primos co-irmãos, tinham recebido dos seus proximos +ascendentes communs. + +A mãe de D. Sebastião deu provas de uma exaltada hysteria, com +allucinações pavorosas, durante o periodo da gravidez. + +Este casamento precipitou a morte do principe D. João e aggravou as +taras da princeza D. Joanna. + +Eram duas creanças, ella de 18 annos[19] elle de 16[20], doentes dos +mesmos vicios constitucionaes, e apaixonados um pelo outro. Não +conheceram limites ás suas relações amorosas, entregaram-se a uma +«demasiada communicação» dilacerando-se carinhosamente em extremos de +prazer insaciavel. + + [19] D. Joanna tinha nascido a 23 de junho de 1535. + + [20] D. João nasceu em Evora a 3 de junho de 1537. + +O principe ardia n'um fogo de voluptuosidade, que o devorou +prematuramente. Foi preciso separal-o da princeza, mas já era tarde. +Estava perdido na flor dos annos. + +Os medicos d'aquella epocha classificaram a doença de--paixão hebetica. +Os chronistas explicam que o enfermo sentia uma sêde devoradora; e D. +Manuel de Menezes, na chronica que lhe é attribuida, filia esse +phenomeno pathologico no desregramento dos prazeres carnaes. + +Ora o hebetismo--segundo a medicina do nosso tempo--é um estado morbido, +que inutiliza as faculdades intellectuaes, sem comtudo inutilizar a +acção dos sentidos: uma especie de embrutecimento devido a commoção +cerebral[21]. + + [21] _Dict. de medicine_, segundo o plano de Nysten, refundido por + Littré e Robin. + +Assim devia ser, pois que o principe D. João precipitára a crise dos +seus males hereditarios com um exgotamento nervoso. + +Mas a--sêde devoradora--_polydipsia_, é um symptoma da diabetes +saccharina, que anda muitas vezes ligada ás nevroses e, principalmente, +á epilepsia. + +Não repugna acreditar que a sêde exagerada e continua, que abrazava o +principe, derivasse d'esse conjuncto pathologico recebido por herança e +aggravado por excessos. + +E que os chronistas não empregavam a palavra sêde em sentido figurado, +vê-se d'estas palavras da chronica attribuida a D. Manuel de Menezes: +«mas elle (o principe) perseguido da sêde levantou-se uma manhã da cama +a beber agua da chuva, que achou empoçada ao pé de uma janella, por +descuido dos que lhe assistiam, que então o deixaram só, e sendo muita, +e choca, fez-lhe muito mais mal, e logo empeiorou, e morreu no dia +seguinte». + +A princeza, excitada pelas sensações amorosas e pelos sobresaltos da +gravidez, redobrou de hysterismos, teve allucinadas visões, pavores +imaginarios, de que ficou noticia. + +Na véspera do principe cahir doente, estando elle a dormir, julgou ella +vêr, á luz da tocha que allumiava a camara conjugal, surgir uma figura +de mulher vestida de luto, com larga touca, a qual mulher, crescendo em +vulto, ameaçadora, fez estrincar os dedos e, após um assopro que parecia +o halito quente d'uma féra, desappareceu. + +A princeza ficou n'uma grande perturbação de terror, julgando verdadeira +a visão, e interpretou-a no sentido de que o assopro annunciava que +todas as suas esperanças haviam de desfazer-se em vento. + +Quanto ao trinco com os dedos não interpretou coisa nenhuma ou as +chronicas o não dizem. + +Tendo fallecido o principe D. João[22] sem que a princeza o soubesse ao +certo, posto o suspeitasse, e já nas vésperas do parto, as damas que +acompanhavam D. Joanna quizeram leval-a a espairecer na Varanda da +Pella, do Paço da Ribeira, + + [22] O principe falleceu em terça feira 2 de janeiro de 1554, + dezoito dias antes do parto da princeza. + +O palacio dos pricipes era o de Alvaro Peres de Andrade, junto ao Arco +dos Pregos, mas communicava interiormente com o palacio real. + +A princeza, profundamente abatida, deixou-se conduzir. A noite e o +silencio favoreceram ainda d'esta vez o terror, sempre contagioso, +mórmente entre as impressionaveis damas, que os tristes acontecimentos +da côrte traziam sobresaltadas. + +Bastaria, portanto, que a princeza tivesse uma visão, para que logo +fossem egualmente suggestionadas as suas damas, portuguezas e +castelhanas. + +Assim, pois, todas julgaram vêr sahir pela Varanda d'El-rei, direitos ao +Forte[23], muitos homens vestidos á moirisca, com fatos de variegadas +cores, agitando tochas accêsas e soltando repetidas vozes de--_Ly, ly, +ly_. Eira uma especie de dança macabra, em que os moiros revoluteavam, +despedindo clarões e gritos; e quando a chorea, percorrendo a Varanda, +chegava ao Forte, os moiros precipitavam-se ao Tejo, deixando no +silencio da noite uma atmosphera soturna de terror e mysterio. + + [23] O Forte, nome que depois conservou o torreão mandado construir + por Filippe II, rematava sobre o Tejo, uma vasta galeria com + terraço, a meio do qual se erguia uma torre ameiada. + +As damas fizeram decerto alarma. Acudiria gente do Paço, que não soube +explicar a apparição sinistra dos moiros. Reconheceu-se que as portas +estavam fechadas; que o ingresso de estranhos era impossivel. Então +cresceria o pavor, e com elle a predisposição para repetir-se a +visualidade no mesmo local e nas mesmas condições. + +Foi o que aconteceu. Poucos dias depois tornou a princeza á Varanda da +Pella, fez algum exercicio passeiando; depois sentou-se a uma das +janellas e então se lhe renovou a visão dos moiros, com os mesmos +trajes, as mesmas tochas, os mesmos gritos--na mesma farandola sinistra. + +A princeza e as suas damas fugiram espavoridas sob a mesma suggestão, +pelo contagio do terror. Todas «tinham visto» segunda vez os moiros. +Lembra-nos, por analogia, um facto que Renan refere nos _Apostolos_. +Entre os protestantes perseguidos correu voz de que, nas ruinas de um +templo destruido recentemente, se ouviam psalmos cantados pelos anjos; +tanto bastou para que todos os protestantes que se aproximavam +d'aquellas ruinas, ouvissem os psalmos. + +O rei e a rainha, informados do que se passava, recommendaram segredo. + +Convinha não excitar mais a superstição popular, que já estava muito +exaltada por varios factos anteriores, taes como o desacato praticado +por um inglez, logo depois do casamento do principe na capella do Paço; +e a apparição de um meteóro luminoso que todas as noites era visivel em +Lisboa, quasi em cima da Sé, e parecia tomar a fórma de um athaúde. + +Dos nove filhos legitimos de D. João III ficára apenas um, o principe D. +João, e o povo já sabia que elle tinha morrido tambem, posto se +occultasse a sua morte. + +Se o parto da princeza se mallograsse, acabar-se-ia a successão directa. +Portugal perderia a sua independencia, não porque el-rei não tivesse +irmãos, que poderiam succeder-lhe no throno, mas porque pelo contrato de +casamento da princeza D. Maria, filha de D. João III, com Filippe II, a +corôa portugueza passaria para D. Carlos, filho d'aquella princeza. + +Por isso o povo, cuidadoso de ver garantida a independencia do reino, +«desejava» que a princeza D. Joanna desse á luz um filho varão. + +O arcebispo de Lisboa ordenára uma procissão de préces, que se +effectuaria logo que a princeza começasse a sentir as dores do parto. + +Pela meia noite de 19 a 20 de janeiro[24] de 1554, quando os sinos dos +conventos tocavam a matinas, houve rebate de que a princeza +experimentava os primeiros symptomas do parto. Logo se organizou a +procissão, que sahiu da Sé para S. Domingos. Rompia a manhã quando a +procissão ia recolhendo á Sé e então se espalhou «a nova feliz de ter +nascido o _desejado_[25].» + + [24] Dia de S. Sebastião, motivo por que recebeu este nome o + herdeiro da coroa. + + [25] _Portugal cuidadoso e lastimado_, pag. 2. + +Desejado foi em verdade D. Sebastião, e duas vezes o foi, antes de ter +nascido e depois de ter morrido. + +Em taes circunstancias, o nascimento do herdeiro da corôa teve a +importancia de um acontecimento nacional, que profundamente interessou a +alma popular. Não foi apenas um regosijo privativo da familia real ou da +côrte, como acontece sempre que nasce «mais um» principe. Aquelle que +tinha nascido era «o unico» fiador possivel da autonomia de Portugal: +por isso tal acontecimento poz em jogo o brio, o orgulho, o amor patrio +de todos os portuguezes. + +Antes do parto, organizam-se devoções propiciatorias, em que o povo se +mistura com o alto clero, fundindo suas preces. + +Em Santarem até as creanças effectuam procissões nocturnas, piedosa +pratica infantil, que foi muito nossa, e que apparecia sempre nas +grandes crises nacionaes, revestindo um gracioso caracter de ingenuidade +religiosa e de fé simples. + +Eram procissões minusculas, com pequenos andores, pequenas lanternas, +sendo o prestito constituido por homensinhos lilliputianos, rapazes da +rua, creanças do povo, que iam entoando ladainhas e psalmos numa +unisonancia de vozes ainda debeis e esganiçadas. + +É peculiar á infancia o espirito de imitação, maiormente entre as +classes populares. Nos filhos do povo encontram sempre écco os +acontecimentos que tomam maior relevo na vida da nação. Dir-se-ia que +por viverem na rua são mais depressa sacudidos pela opinião publica do +que os filhos dos nobres. Por isso são as creanças da arraya miuda que +propagam, inconscientemente, as canções politicas, os hymnos +revolucionarios, e que muitas vezes se encarregam de fazer a critica e +inventar a parodia dos negocios do Estado e dos mais ruidosos conflictos +da administração publica. + +As procissões infantis duraram seculos. Viram-n'as os contemporaneos de +D. João III. Viu-as Filinto Elysio, que nos descreve uma que todos os +annos, pela quaresma, vinha da Ajuda exhibir nas ruas de Lisboa muitos +«Senhorsinhos dos Passos» allumiados com rolinhos de cêra. Vi-as ainda +eu na minha infancia, que passei n'aquella devota, patriotica e antiga +cidade do Porto. + +Foi bom termos tido occasião de falar do povo, pois que tomando por +assumpto uma celebridade das ruas, como era o poeta Chiado, já se ia +alongando de mais a narrativa sobre a vida da côrte, sem pausa nem +fôlego, que désse tempo a pensar em quem vegeta no infimo grau da escala +social--tal como no fundo de um poço escuro o musgo rasteiro. + +Podemos agora tornar á côrte. D. João III, para não lançar maior +perturbação nos espiritos, já muito apprehensivos e agitados, ordenou, +pois, que se não divulgasse a visão da princeza na Varanda da Pella. + +El-rei, receioso do futuro, sentia o peso de todas as suas +responsabilidades politicas, que eram enormes desde que, por um +imprudente contrato de casamento, a independencia do reino ficava +suspensa do nascimento de um successor varão. + +Mas o que D. João III não podia prohibir era que a princeza D. Joanna +continuasse a ter visões, que aliás se repetiram. + +Uma noite, na sua camara, tornou a princeza a vêr os moiros, que +entravam e sahiam em tropel. Cahiu logo desmaiada no regaço de uma dama, +e nem essa nem as outras receberam a suggestão, porque a princeza não +teve tempo de falar. + +Pareceu a todas que apenas seria uma syncope propria da gravidez; mas +depois, explicado o caso, apurou-se que ainda mais uma vez tinham +«apparecido» os moiros. + +A crença popular relaciona sempre o maravilhoso com a vida das altas +personagens e a realização dos grandes acontecimentos historicos. É um +fundo de superstição commum a todos os povos. Assim, entre nós, +encontrou-se uma relação sobrenatural entre a visão dos moiros e a +derrota de D. Sebastião em Alcacerquibir. + +Que a princeza D. Joanna tivesse allucinações e visualidades pavorosas, +cabalmente o pode explicar a medicina; que os phantasmas que ella +julgava ver, fossem moiros, basta que o diga a lenda, urdida _a +posteriore_, depois da perda de D. Sebastião em Africa. + +De outras visões falam ainda as chronicas, todas n'um sentido lugubre e +presago, como era proprio do estado morbido da princeza e das suas +condições physiologicas. + +Accordava de noite em sobresalto, queixando-se de não ver nada, de ter +ouvido estrondos mysteriosos, vozes afflictivas, taes como suspiros +maguados, gemidos cortantes. + +No leito de dois doentes foi gerado um filho doentissimo, cuja cabeça, +por desgraça nossa, havia de cingir a corôa de Portugal. + +Depois do parto, o hysterismo da princeza tornou-se essencialmente +mystico, tanto em Portugal como em Castella, para onde voltou. + +Contribuiram para esta evolução, aliás naturalissima em taes +circumstancias, as relações de D. Joanna com o padre Francisco de Borja, +primeiro em Lisboa, depois em Madrid. Essas relações, por demasiado +assiduas, chegaram a tornar-se suspeitas; e Francisco de Borja, que se +retirou para Portugal quando a suspeição cresceu, teve de procurar +justificar-se n'uma carta que, em 1561, dirigiu do Porto a Filippe II. + +D. Joanna fundou em Madrid um convento á imitação do da Madre de Deus, +de Lisboa[26]; é o das _Descalzas Reales_, cuja historia Ricardo +Sepulveda traçou n'um dos capitulos da sua interessante obra _Madrid +viejo_. + + [26] _Hist. Gen._, t. III, pag. 559 + +Tal foi a princeza que o bispo de Coimbra D. Fr. João Soares e o duque +de Aveiro foram receber á fronteira do Alemtejo, quando ella veiu +desposar o mallogrado principe D. João[27]. + + [27] D. Joanna morreu com 38 annos, no Escorial, a 7 de setembro de + 1573. + + + + +VI + + +Por que foi que D. João III escolheu, entre todos os prelados +portuguezes, o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, para ir á fronteira +esperar a princeza? + +Houve, para isso, razões especiaes. + +Frei João, religioso eremita de Santo Agostinho e varão distincto em +letras, tinha sido mestre do herdeiro da corôa e de seu irmão D. +Filippe[28], alem de ser prégador e confessor de el-rei, o que bastaria +a explicar a preferencia. + + [28] D. Filippe foi o 6.^o filho de D. João III. Pela morte de seus + irmãos, chegou a ser jurado herdeiro do reino. Falleceu com seis + annos de edade. + +Das virtudes que a _Historia genealogica_[29] attribue a D. Frei João +Soares, não se pode falar com tanta segurança como de suas letras; +Alexandre Herculano[30], baseando-se n'umas instrucções de Paulo III, +attribue lhe audacia e ambição; vida dissoluta; espirito de rebellião +contra a Santa Sé. + + [29] Tom. III, pag. 552. + + [30] _Da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal._ + +É verdade que os diocesanos de Coimbra o estimaram; que os pobres e os +necessitados recebiam d'elle esmolas; que favoreceu a Misericordia +d'aquella cidade; que doou á respectiva Sé muitos guisamentos, entre os +quaes um valioso cális de oiro; e que na mesma Sé mandou construir a +capella do Santissimo, de galante e excellente architectura[31]. + + [31] _Noticia historica e descriptiva da Sé Velha de Coimbra_, por + A. M. Simões de Castro. + +Toda a diocese o pranteou na morte, o que parece mostrar que era mais +estimado em Coimbra do que em Roma. + +As instrucçóes de Paulo III, citadas por Herculano, tambem o dão como +frade de poucas letras. + +Ora isto não é exacto. D Frei João Soares produziu obras varias[32], em +que affirmou competencia doutrinaria e dicção gentil. Como prégador, se +a principio não agradou em Portugal, porque discursava em castelhano +muito cerrado, pois havia estudado em Salamanca, chegou depois, quando +readquiriu o manejo da lingua portugueza, a ter grande fama e clientela. +Não se pode exceder o elogio que lhe faz Frei Luiz de Souza: «Foi +eminentissimo no ministerio do pulpito; tanto que os maiores pregadores +do seu tempo lhe reconheciam a vantagem, e como a segundo Demosthenes o +veneravam[33].» + + [32] Veja-se _Dicc. Bib._, de Innocencio, vol. IV, pag. 38, vol. X, + pag. 350. + + [33] _Vida de D. Frei Bartholomeu dos Martyres_, liv. II, cap. XVII. + +Alem d'estes predicados literarios, possuia especial graça no dizer, dom +natural que não seria o menos attractivo para lhe conquistar sympathias +e facilidades na côrte. + +D. Frei João Soares nasceu em S. Miguel de Urró, concelho de Arrifana, +hoje Penafiel. Parece que pertenceu a uma familia illustre, pois que +elle algumas vezes assignou tambem o appellido Albergaria. + +Foi deputado do Santo-Officio, e governou a diocese de Coimbra desde +1545 até 1572; como prelado portuguez, assistiu ao concilio de Trento, +onde o respeitaram como orador e theologo. + +Falleceu com 65 annos de edade a 26 de novembro de 1572. Por humildade +quiz ser sepultado no chão, fóra da capella do Santissimo que mandára +edificar. + +Se algum defeito toma maior vulto na individualidade d'este prelado, é o +gosto pela ostentação. + +Conta Frei Luiz de Sousa que se apresentou no concilio de Trento com um +fausto proprio de principe secular, fazendo-se representar com esplendor +e magnificencia notaveis. + + +«E porque se visse--diz o chronista dominicano--que fôra isto força do +estado, mais que de animo vão, passada a occasião do Concilio se poz em +caminho de Jerusalem recompensando com a moderação de peregrino +voluntaria, as superfluidades de senhor forçadas.» + + +Talvez que este procedimento fosse determinado por indicação ou censura +da Santa Sé, a qual, como já vimos, não lhe era demasiadamente affecta. + +A tendencia do prelado conimbricense levava-o effectivamente para a +ostentação. + +Na commissão que desempenhou com o duque de Aveiro, quando foi á raia de +Castella buscar a princeza D. Joanna, já havia pompeado o mesmo +esplendor e magnificencia que depois exhibiu no concilio de Trento. + +Um manuscripto de Pedro Alvares Nogueira, existente no cartorio do +cabido de Coimbra, diz sobre o modo por que o bispo desempenhou aquella +commissão: «Levou muita gente de cavallo mui bem concertada, no que +gastou muito de sua renda». + +A _Chronica_ attribuida a D. Manuel de Menezes ainda é mais explicita +quando diz: + +«Não menos adornado (que o duque de Aveiro) veiu o Reverendo Bispo D. +Frei João Soares, com grande numero de cavalleiros, nobremente +ataviados, conforme o seu estado; e a sua divisa, que trazia nos +reposteiros eram suas Armas, e a letra que dizia: _Soli Deo honor et +gloria_, e quer dizer: _A honra e gloria se dê somente a Deus._ E isto +com muitas trombetas, e charamelas, e outros instrumentos, e cantores +para o effeito de tão regia funcção, como convinha». + +O chronista Francisco de Andrade afina pelo mesmo diapasão, dizendo: + + +«O bispo de Coimbra tambem por sua parte se apercebeu para esta jornada +com o fausto e apparato, que se requeria para a honra d'este reino, para +a auctoridade de sua pessoa, e para o grave negocio para que fôra +eleito, porque ajuntou para o acompanhar muita e muito lustrosa gente de +cavallo, e os que o acompanhavam a pé tambem iam da mesma maneira, e não +lhe faltou então cousa alguma de quantas se uzam, e são importantes e +necessarias nos negocios d'esta qualidade, sem perdoar por isso a +grandes gastos e despesa». + +Apenas uma voz zombeteira se levantou para tirar effeitos comicos do +apparato com que o bispo de Coimbra entrou em Lisboa quando se dirigia á +raia de Castella. + +Apenas um carcaz despejou todas as suas settas, vibradas por adestrada +mão, em menoscabo do cortejo que rodeiava o bispo de Coimbra, conde de +Arganil, senhor de Coja, alcaide-mór de Avô. + +Essa voz foi a de Antonio Ribeiro, o Chiado, cuja carta sobre este +assumpto lembra os artigos dos jornaes republicanos de hoje em dia +quando procuram amesquinhar a pompa das festas monarchicas. + +N'aquelle tempo, não deixou de ser um acto de perigosa audacia a satyra +com que o Chiado visou tão alta personagem como era o bispo de Coimbra, +em occasião tão solemne para a côrte como era o casamento do principe +herdeiro da corôa. + +Aggravado o bispo, el-rei o desagravaria contra quem quer que fosse, se +elle se queixasse. + +Do valimento do prelado conimbricense junto de D. João III não ha que +duvidar; bastava a justifical-o a sua qualidade de confessor d'el-rei, e +não chega a ser preciso admittir, como se diz nas instrucções de Paulo +III, que a pretexto da confissão obtivesse a solução de muitos negocios. + +Chiado era, porém, destemido como todos os bohemios e dizidores do seu +tempo, incluindo o proprio Camões. E a fortuna ajuda os audazes... pelo +menos algumas vezes. Não consta que Chiado fosse molestado por causa +d'esta sua satyra em prosa, de que talvez o bispo nem chegasse a ter +conhecimento. + +Simula o auctor escrever a um seu amigo de Coimbra, visto que lhe +diz--«estas novas da entrada do vosso bispo.» + +É um artificio literario, para justificar a origem da satyra. +Manifestamente, vindo o cortejo de Coimbra, não precisava ninguem +d'aquella diocese que lhe dessem novas do modo como vinha organizado. Lá +o saberiam perfeitamente ou perfeitamente o poderiam saber. + +Tambem, por outro artificio literario, diz o Chiado «que não viu a +entrada do bispo em Lisboa». Mas tão minuciosamente a descreve que bem +se reconhece ter sido testemunha presencial. D'este modo, abria uma +valvula de segurança para o caso de lhe imporem a responsabilidade da +satyra: teria feito obra por informações inexactas. + +Claramente se percebe que o Chiado viu a chegada do cortejo plantando-se +entre a multidão em alguma rua do transito e chasqueando no meio de um +grupo de clientes que lhe admiravam a veia sarcastica. + +A sua narração é a de um impressionista, que surprehendeu o espectaculo +em flagrante. + +E tal homem como o Chiado não poderia estar calado nem indifferente por +muito tempo, quando toda a população de Lisboa se alvoroçava para +assistir a um acontecimento anormal, muito annunciado e não menos +pomposo. + +A carta de Chiado é, segundo o moderno falar, uma _charge_; pertence aos +dominios da caricatura escripta, que madrugou com os primeiros alvores +da nossa literatura, antecipando-se alguns seculos á caricatura +desenhada. + +Assim é que já no _Cancioneiro da Vaticana_ encontramos a seguinte +chistosa caricatura de um cavalleiro da idade-média: + + caval'agudo que semelha forom, + em cima d'el un velho selegon, + sem estrebeyras e con roto bardon, + nem porta loriga, nem porta lorigon, + nen geolheiras quaes de ferro son, + mays trax perponto roto sen algodon, + e cuberturas d'un velho zarelhon, + lança de pinh'e de bragal o pendon, + e chapel de ferro que x'i lhi mui mal pon; + e sobarçad' un velh' espadarron; + cuytel'a cachas, cintas sen forcilhom, + duas esporas destras, ca sestras non som, + maça de fusto que lhi pende do arçom. + +Etc. + +Este fragmento é o avô da caricatura portugueza nos dominios da +literatura. + +Vamos vêr como Antonio Ribeiro o Chiado, navegando nas mesmas aguas, +caricaturou ao correr da penna a entrada do bispo de Coimbra em Lisboa +com todo o seu cortejo de pagens, escudeiros, varletes, azemolas, +trombetas, atabales e charamelas. + +Diz o documento, tal como se me deparou na miscellanea, que pertenceu á +livraria do convento da Graça: + + Carta que o Chiado escreveu a um seu amigo da entrada do Bispo de + Coimbra em Lisboa, quando veio para ir pela Princeza a Castella que + é mãe d'El-Rei D. Sebastião. + + _Quereis saber quanto póde a importunação, que muito contra minha + vontade vos escrevo estas novas da entrada do vosso bispo n'esta + cidade, só por cumprir com o que tanto me tendes rogado. Vêde-as em + nome de quem quizerdes, que eu não quero senão fallar comvosco._ + + _Deixarei sua estada no Lumiar, que durou tres dias, onde preparou e + proveu de sapatos, de pescoços[34] e atacas[35] toda a sua gente, + que vinham algum tanto damnificados do caminho._ + + [34] Como quem diz--gargantilhas + + [35] Ligas, correias, etc. + + _N'este tempo foi Sua Senhoria mais nomeado por Lisboa que assada + quente[36] e todos com olhos longos por sua entrada, a qual eu não + vi. Dizem que a 25 de outubro de 553 annos ás tres horas depois do + meio dia entrou o vosso bispo, o qual vinha na maneira seguinte, + todos de dous em dous, como cachos em redea[37], sómente as + azemolas, se o eram, vinham um cacho por redea:--Primeiramente vinha + deante de tudo um villão, por nome Amador Colaço, a quem a natureza + negou barbas, o qual foi moço de pé d'este bispo, que a ventura bem + casou nessa cidade, em cima de um rocim de meia sela, chapeu branco, + vestido preto com peças d'ouro em certos logares, que denunciam + festa, o qual, como se o villão do almocreve, desordenava, tornava + atraz e tirava o pé do estribo, que era um madeiro, e pegava-lhe, + cousa que lhe fazia mostrar as bragas que o capotim de côr traria + coberto de más linguas._ + + [36] Allusão ao pregão das castanhas assadas. + + [37] Restea de uvas; isto é, reste de cachos de pendura (Moraes). + Reste, corda feita de peças trançadas; v. g. uma reste de alhos, de + cebolas, etc. + + _Quarenta bestas vinham n'esta ordem, suas mataduras cobertas com + reposteiros que lá se fizeram. Já sabeis quejandos eram._ + + _No couce vinham duas escolhidas para aquella hora, que traziam cama + e cofre, acompanhadas de seis villãos, cada um com sua partezana nas + mãos, tão frouxos que os desarmariam sem gafas[38]; e logo no rabo + vinha um estribeiro, que o outro bispo creou, tão triste e + descontente que parecia que se arrependera do que accettara._ + + [38] Sem gafas, o mesmo que--sem esforço, nem violencia. Gafa era o + gancho com que se puxava a corda da bésta para armal-a. + + _Nas costas d'estes todos vinham a procissão da gente, onde não + faltaram cavallinhos fuscos. Só o sagitario esqueceu._ + + _Vinha deante um molho de trombetas; em vez de virem vermelhas + vinham amarellas, e logo os atabaleiros que já não traziam braços._ + + _Os das charamelas, já sabeis que são pão de rala, não puderam mudar + cor. Como uns acabavam uns versos, outros começavam, sempre os + ouvidos tinham que fazer, como os olhos que vêr. As cavalgaduras + d'estes todos eram ossos sem posta de polpa._ + + _Detraz vinham trinta moços da camara, todos almagrados,[39] os + quaes parece que os comprou o bispo por junto e lhes deram as + encavalgaduras todas em cima, e de chapeus brancos, como romeiros, e + os mais delles com calças e sapatos, sem espadas, gente religiosa, + algum tanto no vestir castelhanos, porque quem levava luvas + faltavam-lhe as esporas._ + + [39] Pintados de almagre ou almagra; isto é, de vermelho. + + _E logo na dita ordem vinham os coimbrãos tão tristes e + descontentes, que pareciam que perderam todos suas fazendas. Nomear + um por um será muita honra sua e canceira minha e enfadamento vosso; + basta que alguns d'elles traziam frenos[40] de ouro, mas mal pelas + mulheres que ficam sem arrecadas, todos em cavallos de tornas, + tirando o chanceller que vinha momo feito, outrosim pagem do + arremeção,[41] que não havia mais no sel'o.[42]_ + + [40] Freios. + + [41] Talvez pagem da lança, porque arremessão (melhor graphia que + arremeção) significava, segundo o Dic. da Academia, qualquer arma + missiva ou de arremesso, como lança, dardo etc. + + [42] Isto é, mais acabado e perfeito. + + _Inofre Francisco vinha bem acompanhado e bem encavalgado, todos os + seus feitos rosmaninhos[43] e bem encavalgados. A todos pareceu bem; + só um senão lhe acharam, que não levava o ferro do arremeção + esfolado._ + + [43] Engalanados. Hoje diriamos--uns palmitos. + + _O meirinho Gaspar Dias não se achava ahi sem vara, acompanhado de + dous beleguins, que lhe foram sempre fieis, um lhe trazia um + cabresto com que vinha silhado, o outro lhe trazia uma ferradura que + lhe cahiu no campo de Alvalade.[44]_ + + [44] O Campo Grande actual, com a differença de que n'aquelle tempo + era bosque silvestre, muito povoado de rouxinoes, como se vê da + _Ulysippo_ de Jorge Ferreira de Vasconcellos, quando diz (acto IV, + scen. 5.^a): «Vós estaveis mais namorado que um rouxinol de + Alvalade.» + + Só no reinado de D. Maria I foi que o campo de Alvalade começou a + ser transformado em alameda publica. + + _Os mais, que aqui não vão, traziam tanto que dizer que será nunca + acabar. Quando nos virmos ambos, então vos representarei a farça._ + + _Passado este chuveiro d'escudeiros tornou melhor dia, Arthur de Sá + e Francisco Pereira, seu irmão, honestos no trajo, confiados na + fidalguia. Mas então disseram que trazia Arthur de Sá feita a + petição do morgado, perguntando uns aos outros quanto renderia o + praso._ + + _E n'isto appareceu Dom João, Bispo Conde, tres pessoas, um só + frade, cercado de vinte e tantos villãos, que todos pareciam paes + d'orfãos de Jesus, desazados, barbas d'estrigas, todos molares, sem + vir entre elles nenhum só duvazio, vestidos em uns alqueceres[45] + brancos e azues, que lhes davam pelos artelhos. O mais que de S. + S.^a disseram, não direi eu por não pôr a mão em sagrado._ + + [45] Alquice ou alquicer, capa mourisca. + + _Toda a outra clerezia vinha má com boa, como romãs de Castella, + esta ordem levaram todos pela Rua dos que padecem martyrio,[46] + levando nas unhas[47] o Rocio e toda a Rua Nova[48] até chegarem ao + Terreiro do Paço, donde muitos descavalgaram sem criados, ficando os + ginetes tão mansos, que nem as apupadas dos rapazes, nem o rumor da + gente teve poder para os fazer rinchar._ + + [46] Era a rua que, tomando se por ponto de referencia o Rocio, + conduzia ao Campo de Santa Barbara, então chamado _da Forca_ + (_Lisboa antiga_, 2.^a parte, tomo V, pag. 65 e 78; tomo VI, pag. 65 + e 68.) Não quero asseverar que correspondesse á actual rua direita + dos Anjos, porque o Campo da Forca era muito mais vasto então; + estendia se desde o sitio dos Anjos até ao actual largo de Arroyos. + + [47] Ainda hoje dizemos «na ponta da unha» para designar a maxima + velocidade. + + [48] A Rua Nova dos Ferros correspondia, approximadamente, á actual + rua dos Capellistas. Diz-se que foi mandada construir por el-rei D. + Diniz. + + _El-Rei nosso senhor, com a Rainha e Principe, os esperavam na + varanda, onde lhes S. S.^a beijou as mãos e lhe fizeram arrazoado + agazalhado. Acabado elle os dous irmãos Sá Pereira fizeram outro + tanto e apoz estes, «cabeça em cu, que não fique nenhu». Alvaro + Mendes, contador da Universidade, foi por cá._ + + _Acabado o officio, tornou-se Sua Senhoria a seus paços, e ao descer + da escada encostado a um pagem, que dizem ser seu sobrinho, o qual + fez muito ruins mesuras, vinha caiado de novo, trazia umas pontinhas + de ouro no capello da capa d'onde nunca tirou o olho, que tão + recatado vinha da tezoura._ + + _Ao bispo tornaram a arripiar carreira algum tanto a procissão + desfeita, fazendo cada um caminho para suas pousadas, e de maneira + os enguliu Lisboa, que nunca mais appareceram nem fizeram mossa._ + + _Isto tudo passou na verdade, que m'o disseram homens de respeito. + Se mais quizerdes peitae lampreas[49], que os homens d'essa terra + n'isso desenfornam todos seus cumprimentos. Nosso Senhor vos dê + muita saude e vida e muito dinheiro, e vos livre d'estas trovoadas + que o tiram e gastam.»_ + + [49] Comprai-me, subornai-me com lampreas. Vê-se que sempre tiveram + grande fama as lampreas do rio Mondego; e que de Coimbra as mandavam + como mimo para outras terras do paiz. Era gentileza vulgar dos + conimbricenses. A lamprea cozinhada na famosa estalagem do Paço do + Conde foi, em nossos dias, um piteo muito celebrado por estudantes. + +Esta carta, que não pudemos encontrar em 1889, não completa ainda o +espolio literario do Chiado, porque não tem sido possivel encontrar +exemplares de outras especies, taes como o _Auto de Gonçalo Chambão_, +que, segundo Barbosa, teve nada menos de trez edições. + +Mas constitue um achado, que reputei feliz, e que me deixou contente +quando se me deparou n'uma epoca em que eu versava com enthusiasmo +assumptos literarios. + +Se hoje dou a lume esta carta de Chiado, foi porque para esse effeito +encontrei as maiores facilidades n'uma empreza editora, que se tem +assignalado por bons serviços ás letras patrias. + +Não é que eu fie do exito d'esta monographia e fique imaginando que hão +de acudir a compral-a numerosas legiões de leitores. + +Em Portugal só o romance francez tem procura no mercado. + +Qualquer outra especie literaria representa um desastre de livraria. + +Por haver chegado a esta convicção é que nunca pensei em fazer segunda +edição das _Obras do poeta Chiado_, que bem podia ter sido enriquecida +com a materia do presente opusculo e com varias correcções que me foram +indicadas, sobre a difficil interpretação dos textos, pelos srs. +visconde de Castilho, Antonio Francisco Barata e professor Epiphanio. + +Mas seria perder tempo, e o tempo é a vida. Esperdiçal-a era desatino. +Poupemol-a. + +Estou n'este ponto de vista ha muito tempo. + +Lisboa, 9 de julho de 1901. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O poeta Chiado, by +Alberto Augusto de Almeida Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O POETA CHIADO *** + +***** This file should be named 22509-8.txt or 22509-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/2/5/0/22509/ + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O poeta Chiado + (Novas investigações sobre a sua vida e escriptos) + +Author: Alberto Augusto de Almeida Pimentel + +Release Date: September 4, 2007 [EBook #22509] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O POETA CHIADO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + + +<h1>O POETA CHIADO</h1> + +<div class="ficha_tecnica"> +<h3>ALBERTO PIMENTEL</h3> + + +<h1>O POETA CHIADO</h1> + + +<h4>(Novas investigações sobre a sua vida e escriptos)</h4> + +<div class="quote2"> +<div class="poesia"> + Reverendo frei Chiado + de Virtude grande imigo, + sente tua alma comtigo + e verás se estas desculpado + d'isto que agora te digo. + + AFFONSO ALVARES. +</div> +</div> + +<p class="centrado"><img src="images/logo.png" border="0" width="75" alt="Decoração de capítulo"/></p> + +<p class="centrado">LISBOA +<br /> +Empreza da Historia de Portugal. +<br /> +<i>Sociedade editora</i> +<br /> +LIVRARIA MODERNA +<br /> +<i>R. Augusta, 95</i> +<br /> +TYPOGRAPHIA +<br /> +<i>35, R. Ivens, 37</i> +<br /> +1903</p> +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 5</span> +<p class="centrado"><img src="images/sep1.png" border="0" alt="Decoração de capítulo"/></p> + + + + +<h2>I</h2> + + +<p>As relações de amizade entre os vivos e os mortos são menos quebradiças +e ephémeras do que as dos vivos uns com outros.</p> + +<p>E a razão é facil de explicar: quem vai, não volta.</p> + +<p>Os mortos não falam, não intrigam, não atraiçôam, não desmerecem, por +isso, da estima e consideração em que uma vez os tomamos.</p> + +<p>Affeiçôa-se a gente a um escriptor, a um <i>maestro</i>, a um pintor ou a um +estatuário, que morreu ha muitos annos ou ha longos seculos, e não +deixamos apagar nunca a lampada do seu culto: colleccionamos-lhe as +obras sem olhar a dinheiro, por mais raras que sejam; conservamol-as em +grande veneração como thesouros que um avarento aferrolha a sete chaves; +e estamos sempre promptos a combater de ponto em branco pela gloria e +belleza <span class='pagenum'>Pág. 6</span> de suas producções, quando apparece algum zoilo a +menosprezal-as com azedume.</p> + +<p>E se nas relações com os vivos fazemos selecção do caracter d'elles para +estabelecer convivencia e amizade, pouco nos importa a condição e +procedimento dos mortos quando os estimamos em suas creações artisticas +ou literarias com intransigente fanatismo.</p> + +<p>O meu fallecido amigo visconde de Alemquer, que era um <i>gentleman</i> +distinctissimo, primoroso em maneiras e acções, além de ser um +biblióphilo digno de apreço e consulta, tomou tanto gosto pelas obras do +padre José Agostinho de Macedo, que passou a maior parte da existencia a +colleccional-as por bom preço e a muito custo.</p> + +<p>Comtudo, havia tanta disparidade entre o caracter de um e do outro, +porque o auctor dos <i>Burros</i> foi o mais atrabiliario, inconstante e +perigoso homem de letras de todo o nosso Portugal, que o visconde de +Alemquer, se houvesse sido contemporaneo do padre José Agostinho, nunca +teria podido ser seu amigo, nem seu defensor, nem jámais o quereria vêr +em intimidade de portas a dentro.</p> + +<p>Pela minha parte, tambem sou obrigado a confessar um similhante fraco, +não pelo mesmo padre, mas por outro que, sob o ponto de vista da +disciplina monastica e da dignidade sacerdotal, não valia mais. +Refiro-me ao franciscano Antonio Ribeiro o Chiado, que tambem despiu o +habito e foi tunante irrequieto, sendo egualmente homem de letras.</p> + +<p>Até 1889, anno em que logrei dar a lume as suas obras, quasi perdidas, e +geralmente desconhecidas<a href="#nota1"><sup class="footnote">[1]</sup></a>, <span class='pagenum'>Pág. 7</span> custou-me o Chiado bom trabalho e +canceiras para resuscital-o aos olhos do grande publico em toda a sua +individualidade literaria.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota1">[1]</a> <i>Obras do poeta Chiado</i>, colligidas, annotadas e prefaciadas por +Alberto Pimentel. Na officina typographica da Empreza Literaria de +Lisboa, calçada de S. Francisco, 1 a 7.</p> </div> + +<p>D'então para cá não deixei de pensar n'elle a investigar-lhe a +biographia, que é das mais obscuras e complicadas, e a procurar aquellas +de suas obras que até 1889 não consegui haver á mão por mais que as +desejasse e buscasse.</p> + +<p>Alguma coisa achei n'este lapso de onze annos. Não é tudo ainda. Mas não +perdi o tempo, nem parei, porque me repugna a inercia, e porque, +verdade-verdade, tomei gosto ao Chiado, que não foi um vulto preeminente +nas letras, mas que tem relevo como bohemio e dizedor, como trovista +alegre e zombeteiro, farçante popularissimo, que a praça publica +applaudia e que os escriptores mais notaveis não desconsideravam.</p> + +<p>Outros meus contemporaneos teem consagrado todo o seu tempo ao Chiado +rua, e talvez esses se riam de mim, que prezo mais o literato do que o +<i>Regent Street</i> alfacinha.</p> + +<p>Todavia, cumpre advertil-os de que a rua lembra o escriptor, e de que +foi elle, como julgo poder demonstrar agora, que deu nome á rua.</p> + +<p>Eu já em 1889 pendia para esta opinião, comquanto, n'essa epocha, só +houvesse encontrado vestigios de que a rua tinha aquella denominação no +seculo XVIII.</p> + +<p>Depois d'isso, alguem lembrou que já era assim <span class='pagenum'>Pág. 8</span> chamada na +primeira metade do seculo XVII (1634) como se reconheceu por um +documento digno de fé<a href="#nota2"><sup class="footnote">[2]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota2">[2]</a> <i>Elementos para a historia do municipio de Lisboa</i>, tomo IV, pag. +41. Ahi se vê que o conde de Atouguia morava «ao Chiado».</p> </div> + +<p>E eu proprio li, posteriormente, uma referencia mais antiga, porque é +relativa á primeira década do mesmo seculo XVII: «Outras casas do bairro +do Marquez ficavam situadas <i>ao Chiado</i>, quando se entra na rua Direita +da Porta de Santa Catharina (1610)<a href="#nota3"><sup class="footnote">[3]</sup></a>»</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota3">[3]</a> Archivo Nacional. <i>Chancellaria de D. Filippe II</i>. livro XIX, fol. +269.</p> </div> + +<p>Mas hoje cuido trazer prova convincente de que foi o poeta que, por +consenso espontaneo do povo, deu o nome de Chiado á antiga rua da Porta +de Santa Catharina ou a parte d'ella.</p> + +<p>O povo baptiza melhor do que a camara municipal, porque baptiza com mais +acerto, quasi sempre com inteira razão de ser; por isso, nome que elle +ponha, péga, fica, perdura.</p> + +<p>E, não obstante a camara municipal mudar em 1880 o nome á rua, de +<i>Chiado</i> para <i>Garrett</i>, o povo não quiz saber de reviravoltas de +letreiros nas esquinas: continua a chamar-lhe <i>Chiado</i>; <i>Chiado</i> é que +é, porque o povo quer que seja assim.</p> + +<p>As novas descobertas que hoje tiro a lume sobre a vida azevieira do +poeta Chiado, anecdotas passadas entre o povo e com o povo, das quaes +resulta que elle foi um bohemio tão acabado e popular no seculo XVI como +Bocage o veiu a ser no <span class='pagenum'>Pág. 9</span> seculo XVIII, essas novas descobertas, +dizia eu, acodem a reforçar a prova, que em documentos colhi, de haver +sido elle que celebrizou a rua em que morava e que por esse facto, sem +que ninguem o decretasse, mas porque todos assentiram, ficou a alcunha +do poeta tradicionalmente ligada á rua como um padrão de celebridade +local<a href="#nota4"><sup class="footnote">[4]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota4">[4]</a> De todas as ruas de Lisboa o Chiado é a mais cantada e decantada. +Na literatura, além de infinitas referencias, tem fornecido o titulo de +algumas obras: <i>Do Chiado a Veneza</i> por Julio Cesar Machado (1867); +<i>Viagens no Chiado</i> por Beldemonio (Ed. de Barros Lobo) 1857; <i>A +campanha do Chiado</i>, scena comica; <i>Trez ao Chiado</i>, cançoneta. No +principio do anno de 1868 começou a publicar-se em Lisboa um periodico +com o titulo <i>O Chiado</i>, em formato grande e excellente papel. Teve +ephémera existencia. No n<sup>o</sup> 5. correspondente a 6 de fevereiro, inseriu +um artigo do sr. Brito Rebello sobre o poeta Chiado. D'esse artigo +recortamos os seguintes periodos:</p> + +<p>«Mas d'onde lhe veiu a alcunha: Eis os eruditos em duvida. A opinião +correntia até alguns annos era de que esta lhe proviera da rua onde +habitava, que era a parte da subida desde o Espirito Santo, hoje palacio +da casa de Barcellinhos, até á rua de S. Francisco (<i>Ivens</i>). Ha porém +um contra: em monumento ou documento algum anterior ao seculo XVI, se +encontra tal designação. É pois mais natural a hypothese do sr. Alberto +Pimentel, de que do poeta veiu o nome á rua.»</p> + +<p>A hypothese, formulada em 1889, é hoje uma these documentada.</p> </div> <span class='pagenum'>Pág. 11</span> +<p class="centrado"><img src="images/sep2.png" border="0" alt="Decoração de capítulo"/></p> + + + + +<h2>II</h2> + + +<p>Eu conjecturei em 1889 que--Chiado--era alcunha popular e nao appellido +de familia. Hoje possuo provas de ter havido no districto de Evora, +d'onde o poeta era natural, uma familia de appellido Chiado, anterior ao +poeta.</p> + +<p>Bem pode ser que o appellido proviesse de alcunha, no sentido em que a +tomei<a href="#nota5"><sup class="footnote">[5]</sup></a>, o que muitas vezes acontece. Mas não ha duvida que já no +seculo XV existiam Chiados no baixo Alemtejo.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota5">[5]</a> <i>Ver Obras do poeta Chiado</i>, pag. XXVIII a XXX.</p> </div> + +<p>Perante D. João II queixaram-se João Lopes Chiado e Francisco Lopes +Chiado, ambos eborenses e irmãos, contra a perseguição judicial que lhes +moviam Ayres Gamito e Gonçalo d'Elvas, serviçaes d'el-rei.</p> <span class='pagenum'>Pág. 12</span> + +<p>Por carta regia, datada de Evora, D. João mandou annullar-lhes a culpa +deixando-os illibados<a href="#nota6"><sup class="footnote">[6]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota6">[6]</a> Archivo Nacional. Chancellaria de D. João II, liv. 17, fl. 89, v.</p> </div> + +<p>No seculo XVI havia em Montemor-o-Novo um Antonio Fernandes Chiado, +homem muito pobre, a quem D. João III perdoou o delicto (em 11 de +setembro de 1553) de ter caçado perdizes com boiz, contra o que +dispunham as Ordenações<a href="#nota7"><sup class="footnote">[7]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota7">[7]</a> Archivo Nacional. D. João III. Perdões e legitimações, liv, 19, fl. +398, v.</p> </div> + +<p>Mas nenhuma d'estas noticias vale tanto como a de ter existido ao tempo +do poeta, no anno de 1567, em Lisboa, uma Catharina Dias, «dona viuva», +mulher que foi de Gaspar Dias o Chiado, a qual residia «na rua Direita +da Porta de Santa Catharina.»</p> + +<p>Colhi esta noticia n'um documento authentico<a href="#nota8"><sup class="footnote">[8]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota8">[8]</a> Archivo Nacional. <i>Collegiada de São Julião de Lisboa</i>, maço unico +n<sup>o</sup> 14. Instrumento lacerado no fim. Transcrevemos apenas o começo, por +ser a parte que mais nos interessa:</p> + +<p>«Em nome de deus amem sajbam quãtos este estromento de emnouacão de +prazo e nouo emprazamento vyrem que no Anno do nascymento de nosso +senhor Jesus Christo de myll e quinhentos e sesemta e sete Aos tres dias +do mes de Junho na cydade de llixboa demtro da parochiall Igreya de sam +Gjão estãdo ahy de presente o senhores lljonardo nardez de cyxo (sic) +prior da dita Igreya e guomcallo diaz e Jorge Rebejro e pedro ortyz e +ffrancisquo de lhãnes beneffyciados em ella todos presentes e +Imtaresemtes na dita ygreya e todos jumtos e cõgregados por som de +campam tãgjda em cabido e cabydo ffazemdo ffazemdo (sic) especyallmente +sobre o auto de que abayxo ffara memçam e todos de huã parte e da outra +estamdo a esto presente cateryna diaz dona veuua molher que ffoy de +gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja e ella vyue hora +nesta cidade na Rua derejta da porta de samta cateryna e lloguo por +elles senhores pryor e majs beneficiados ffoy dyto que amtre os majs +bens e propriadades que A dita Sua Igreja pertemce e de que ella esta de +pose como derejto senhoryo asy sam huas cassas que estão nesta cydade no +topo da callcada de pay de nabays na Rua derejta da porta de samta +cateryna as quoajs pessue hora como vtill senhoryo A dyta caterina diaz +por as nomear em ellas por segunda pessoa o dito gaspar diaz chyado que +nellas hera a primeira pessoa comfforme ao emprazameto que dellas lhe +ffoy ffeyto por A dyta Igreya pryor e benefficiados della e pagua de +fforo myl e trezemtos e cimquoenta reis em cada num Anno com galljnhas e +tudo e com outras majs comdjcões e obrigações de seu comtrato, etc.»</p> </div> + +<p>Ora ahi se diz textualmente a respeito d'aquella Catharina Dias: «molher +que ffoy de gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja.»</p> + +<p>A falta de pontuação nos documentos antigos dá origem a muitas +escuridades e equivocos. Assim, <span class='pagenum'>Pág. 13</span> na phrase que deixamos +transcripta, poderiam caber duas interpretações: que Gaspar Dias tinha a +alcunha de Chiado ou tinha a alcunha de Vinhateiro. Mas a anteposição do +artigo á palavra--Chiado--reforçaria por si mesma a hypothese de ser +alcunha, se a não confirmasse plenamente esta passagem que se encontra +no texto do documento:</p> + +<br /> <p>«Aos seys dias do mes de junho de myll e quynhemtos e sesemta e sete +Annos na cydade de llixboa Rua derejta da porta de ssamta cateryna nas +cassas de caterina diaz <i>A chiada dalcunha</i> donna veuua etc.»</p> + +<br /> <p>Assim, pois, ficamos seguros de que o Gaspar Dias da rua Direita da +Porta de Santa Catharina não tinha o appellido de Chiado, como alguns +individuos do Alemtejo, mas sim a alcunha, e de que <span class='pagenum'>Pág. 14</span> exercia a +profissão de «vinhateiro» por ser viticultor ou negociante de vinhos. +Bem poderia succeder que os vendesse a retalho na propria casa de +residencia, especie de estalagem talvez, onde admittisse hospedes.</p> + +<p>N'elle era, portanto, alcunha o que n'outros fôra appellido de familia; +mas bem póde haver sido que a origem do appellido no Alemtejo proviesse +primitivamente de uma alcunha.</p> + +<p>Quanto á significação da palavra <i>chiado</i> não ha duvida. Na <i>Revista +Lusitana</i> VI, 79, encontra-se um estudo intitulado--Dialecto +indo-português de Gôa--, auctor monsenhor Sebastião Rodolpho Dalgado +(<i>sic</i>), no qual estudo se lê: «<i>Chiado</i>, astuto, ladino. «Não é porque +eu seja mais chiado, mais astuto do que os outros». Do k., sansk +<i>chhadmin</i>.» Mas, sem recorrermos ao concani, o nosso verbo «chiar» e o +seu participio podem dar ideia de um sujeito de «ruidosa» reputação como +bargante e dizidor. No Brazil o nome--Camões--tomou a accepção popular +de--cego de um olho; e até me informam--ó sacrilegio!--que lá se diz, +por exemplo, «um cavallo camões». O povo tem um grande instincto de +generalisação: certos individuos seriam--chiados--por se assimilharem +moralmente. Da alcunha proviria talvez o appellido; mas não vale a pena +insistir n'este ponto.</p> + +<p>O que faz ao nosso proposito é dizer que a Gaspar Dias fôram aforadas +pela collegiada de S. Julião umas casas sitas «no topo da calçada de Pai +de Nabaes na rua Direita da Porta de Santa Catharina» e que houve +renovação do prazo no tempo da viuva, segundo ella requereu e obteve.</p> + +<p>A referida calçada é descripta em documentos <span class='pagenum'>Pág. 15</span> antigos como +sendo--de Payo de Novaes--Pai de Navaes ou--Pai de Nabaes<a href="#nota9"><sup class="footnote">[9]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota9">[9]</a> «Calçada de Payo de Novaes--Corre a dita Calçada ao principio quasi +norte sul e contem seu comprimento desde o Largo da Cruz do Azulejo thé +donde volta 173 p. e de Largura 16 p. e voltando corre Leste oeste, e +contem thé intestar com a rua do Chiado donde parte o destricto do +Bayrro 42 p. e de Largura pello leste 42 p. e pello oeste 25 p.». <i>Tombo +da Cidade de Lisboa, Livro 10, Rocio fl. 20.</i></p> + +<p>O <i>Mappa de Portugal</i>, III, 391, diz que a calçada de Payo de Novaes +pertencia á freguezia de S. Nicolau.</p> + +<p>No livro 8 da <i>Extremadura</i> lê-se, fl. 27: «na rua que vem da callçada +que vem de pay de nauaaes pera o poço do chãao e parten (<i>as casas</i>) de +hûa parte cõ a albergaria dos tanoeiros da outra cõ casas de S. Vicente +de Fora etc. e da outra cõ casas dos banhos do espitall de dona maria de +aboym etc. e com Rua pubrica». T em a data de 1467.</p> </div> + +<p>Na <i>Lisboa antiga</i>, de Julio de Castilho, vol. VI, vem um fragmento da +planta traçada por José Valentim, e ahi se póde vêr claramente qual era +a situação da calçada de Pai de Nabaes em relação á rua Direita da Porta +de Santa Catharina.</p> + +<p class="centrado"><img src="images/mapa.png" border="0" alt="Planta do Chiado por José Valentim"/></p> + +<p>Por este fragmento, que reproduzimos, reconhece-se que a calçada de Pai +de Nabaes ficava ao fundo do Chiado actual, entalada entre o palacio +<span class='pagenum'>Pág. 16</span> do conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo, e que foi +do predio ahi situado, onde residira Gaspar Dias, que se alastrou o nome +de Chiado para um trecho apenas da rua Direita da Porta de Santa +Catharina, conservando esta rua o seu antigo nome desde a Cordoaria +Velha<a href="#nota10"><sup class="footnote">[10]</sup></a> até propriamente á porta de Santa Catharina, isto é, até ao +Loreto moderno.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota10">[10]</a> A Cordoaria Velha correspondia á rua de S. Francisco, hoje rua +Ivens.</p> </div> + +<p>Seria em casa de Catharina Dias a Chiada que o poeta Antonio Ribeiro se +hospedou. Não podêmos admittir que fosse o marido d'ella que désse o +nome á rua, a qual no tempo da viuva ainda tinha a designação antiga e +total--de rua Direita da Porta de Santa Catharina.</p> + +<p>Pode ser que o poeta recebesse da propria casa de Pai de Nabaes, como +seu hospede ou freguez, a alcunha de Chiado, tanto mais que esta alcunha +lhe quadrava como astuto e ladino, e que elle, segundo uma accusação de +Affonso Alvares, se dava a frequentar lojas de bebidas:</p> + +<div class="poesia">E tu queres ser rufião +e beber como francez. +</div> + +<p>Pode ser que fosse parente, adherente ou intimo da viuva de Gaspar Dias, +e que por parte do povo tambem houvesse malicia em dar ao commensal a +alcunha que pertencêra ao marido.</p> + +<p>A tradição diz que o poeta morou n'aquella rua e, segundo a maior +certeza possivel, parece poder <span class='pagenum'>Pág. 17</span> agora ficar assente que foi elle, +pela notoriedade de que gosou, devida a suas ribaldarias e veia comica, +que deu o nome á rua.</p> + +<p>É menos admissivel a hypothese de que o poeta, por singular +coincidencia, fosse um dos Chiados do Alemtejo, apesar de ter nascido no +districto de Evora, onde, na cidade capital do districto e na villa de +Montemor-o-Novo, existia aquelle appellido. No Alandroal, cêrca de seis +leguas ao sul de Evora, ha um <i>monte</i> (casa de habitação de uma herdade) +que tem o nome de--Chiado<a href="#nota11"><sup class="footnote">[11]</sup></a>--e um logar chamado--Chiada. No districto +de Faro (Algarve) tambem ha um logar com a denominação de--Chiado,--como +se vê da <i>Chorographia</i> de Baptista. Chiado é, pois, um vocabulo do sul. +Mas tanto o poeta como seu irmão Jeronymo, tambem poeta, assignavam +apenas o appellido--Ribeiro. O que me leva a crêr que Chiado fôra +alcunha posta a Antonio Ribeiro, bem assente n'elle, que a merecia; e +por ser alcunha a precediam de um artigo.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota11">[11]</a> Situado a dois kilometros da villa. Haverá um seculo pertenciam +este <i>monte</i> e herdade a um individuo chamado Pedro Gonçalves. Passando +de paes a filhos, veio a propriedade a pertencer ao pai do sr. Martins, +do Redondo, actual proprietario.</p> </div> + +<p>Em resumo: antes do poeta a rua não tinha o nome de Chiado<a href="#nota12"><sup class="footnote">[12]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota12">[12]</a> Fica, pois, documentalmente contradictada a opinião, tantas vezes +repetida, de que o poeta recebeu o nome da rua. Ainda recentemente disse +a <i>Encyclopedia portugueza illustrada</i>: «Indo para Lisboa (o poeta), foi +morar para o Chiado, e d'ahi o ser conhecido por este nome.» É verdade +que a mesma <i>Encyclopedia</i> tambem diz que o Chiado escreveu varios +autos, sendo conhecidos dois: <i>Auto de Gonçalo Chambão</i> e <i>Auto da +natural invenção</i>.» justamente estes dois é que ninguem tem podido vêr. +Dos trez que publiquei em 1889, não fala: esses então é que são os +desconhecidos!</p> </div> <span class='pagenum'>Pág. 19</span> <p class="centrado"><img src="images/sep3.png" border="0" +alt="Decoração de capítulo"/></p> + + + + +<h2>III</h2> + + +<p>Já agora seja-me permittida uma divagação, que reputo interessante, a +respeito do sitio do Chiado, que o nosso poeta tornou famoso.</p> + +<p>Eu disse que a calçada de Pai de Nabaes ficava entalada entre o palacio +do conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo da Pedreira.</p> + +<p>«Da Pedreira», porque os alicerces d'este edificio foram assentes no +alto da escarpa, que impendia em tempos remotos sobre um esteiro do +Tejo, cidade dentro, e que ainda hoje se deixa adivinhar na enorme +differença de nivel que ha entre o fundo do Chiado e a rua do Crucifixo.</p> + +<p>A egreja e hospital do Espirito Santo estão actualmente substituidos, no +mesmo local, pelo moderno palacio da familia Barcellinhos.</p> + +<p>A egreja era muito antiga, pois que no anno de 1279 já tinha sido +fundada.</p> + +<p>No seculo XVI foi reconstruida com donativos <span class='pagenum'>Pág. 20</span> de el-rei D. Manoel +e outros bemfeitores. Ficou o templo com trez naves, e tinha uma +capella-mór artificiosamente lavrada, obra de muita estimação e riqueza.</p> + +<p>O padre Carvalho, na <i>Chorographia Portuguesa</i><a href="#nota13"><sup class="footnote">[13]</sup></a>, dá larga noticia +d'esta egreja depois de reconstruida.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota13">[13]</a> Tomo III, pag. 445 e seguintes.</p> </div> + +<p>Junto ao templo, e com serventia para elle, havia o hospital do Santo +Espirito, que albergava permanentemente doze pessoas necessitadas, entre +as quaes «dez mulheres donzellas ou donas viuvas de boa vida».</p> + +<p>A bem dizer, era mais um recolhimento do que um hospital.</p> + +<p>E assim foi até o anno de 1672, em que os padres da Congregação do +Oratorio, que se tinham instituido alli perto, no sitio das Fangas da +Farinha, á rua do Almada, tiveram auctorização para tomar conta do +hospital do Santo Espirito, onde passaram a estabelecer-se dois annos +depois.</p> + +<p>Alli permaneceram os oratorianos, tranquillos e contentes. Mas por +occasião do terremoto de 1755 a egreja e convento arderam, perdendo-se +os preciosos haveres d'aquelles padres. A congregação transferiu-se +então para o convento das Necessidades, que é hoje palacio real.</p> + +<p>Ficaram apenas de pé as paredes dos dois edificios incendiados.</p> + +<p>No frontispicio da egreja havia grandes columnas de cantaria, que o +leitor ainda hoje pode ver... aonde?</p> <span class='pagenum'>Pág. 21</span> + +<p>Aonde? Não em outro templo, mas na fachada de um theatro, porque as +pedras tambem teem seus fados. Estas transitaram, por caprichoso +destino, do sagrado para o profano. Estão agora na frontaria do theatro +de D. Maria II; são as mesmas columnas da egreja do Espirito Santo.</p> + +<p>O leitor não acreditaria esta noticia, se eu não pudesse comproval-a com +um documento authentico.</p> + +<p>Mas posso. Ahi vai o documento, que, por ser curioso, não quero que +fique esquecido entre os meus papeis velhos:</p> <br /> + +<p>«Ministerio do Reino--3.^a Repartição--Havendo Manuel José d'Oliveira, +actual proprietario do edificio da supprimida Casa do Espirito Santo da +Congregação do Oratorio, cedido as grandes columnas de cantaria e seus +capiteis, que ornão o frontispicio d'aquella Igreja, para serem +empregadas na fachada do novo theatro nacional, que se projecta fazer; +com a condição de que não seja feito á sua custa o descimento e +conducção das mesmas columnas: Manda Sua Magestade a Rainha, que o +Conselheiro Fiscal das Obras Publicas faça preparar todo o apparelho +necessario para aquelle descimento, combinando com o mencionado Manuel +José d'Oliveira a occasião e dia em que elle deve ter logar; fazendo +depois conduzir as ditas columnas e capiteis para o Arsenal da Marinha, +onde achará as ordens necessarias para serem recolhidas e depositadas +até que se lhes dê o indicado destino: devendo outrosim o mesmo +Conselheiro Fiscal dar todas as providencias para que, tanto no acto do +<span class='pagenum'>Pág. 22</span> descimento, como no da conducção, não soffram o menor damno as +columnas e particularmente os lavrados de seus capiteis. Palacio das +Necessidades em 9 de janeiro de 1836. (assignado) <i>L. M. S. de +Albuquerque</i>».</p> <br /> + +<p>Pois não é interessante o destino d'estas columnas?</p> + +<p>Procurei saber quando foi que entraram em deposito no Arsenal de +Marinha, e quando sahiram de lá para o theatro.</p> + +<p>Metti de empenho o meu illustre amigo sr. conde de Paço d'Arcos, que +gentilmente, como sempre costuma, se interessou pela minha solicitação. +Fez-se a pergunta ao Arsenal. Passaram mezes. Não veiu resposta. Não era +negocio de expediente ordinario; ficou para traz. Pois deixal-o ficar; +eu é que vou andando para deante, já aborrecido de esperar.</p> + +<p>E agora tornemos ao nosso poeta.</p> <span class='pagenum'>Pág. 23</span> <p class="centrado"><img src="images/sep4.png" +border="0" alt="Decoração de capítulo"/></p> + + + + +<h2>IV</h2> + + +<p>A popularidade de Antonio Ribeiro o Chiado proveiu não tanto da sua veia +poetica, aliás muito apreciada pelos entendidos, como das suas repetidas +tunantadas, de que o povo tinha directo conhecimento, porque as +presenceava em plena rua.</p> + +<p>Era entre o povo, entre as classes humildes de que elle provinha, porque +lá diz Affonso Alvares no proposito de deprimil-o</p> + +<div class="poesia">Nasceste de regateira +e teu pai lançava solas; +</div> + +<p>era entre a arraya miuda que o Chiado localizava o theatro das suas +façanhas picarescas, dos seus feitos esturdios, das suas «partidas» e +«piadas», como hoje dizemos.</p> + +<p>Um códice do Archivo Nacional, de que só <span class='pagenum'>Pág. 24</span> agora tive +conhecimento, revela algumas das suas estroinices e chalaças, que não +ficam a dever nada ás mais gaiatas e desbragadas de Bocage.</p> + +<p>O codice a que me refiro tem o n.<sup>o</sup> 1817 e o titulo--<i>Diversas historias +e ditos facetos a diversos propositos.</i></p> + +<p>É uma interessante collecção de anecdotas, que deve ser anterior ao anno +de 1617 e pertenceu á livraria do mosteiro de S. Vicente.</p> + +<p>Vamos passar em revista as paginas que n'essa miscellanea dizem respeito +ao Chiado; e, onde fôr preciso, lançaremos um véo por decencia sobre as +anecdotas que entrarem no dominio da pornographia.</p> + +<p>É claro que a palavra--véo--não promette mais do que um anteparo +diáphano.</p> + +<hr /> + +<p>Quiz o poeta comprar a uma regateira um peixe de estimação. +Offereceu-lhe apenas 7 réis e meio. Volveu-lhe a regateira por escarneo:</p> + +<p>--Tomal-o-heis com um trapo quente.</p> + +<p>N'esta resposta havia tanto desdem, que picou fundo o Chiado; certamente +elle se teria doído menos de uma descompostura destemperada, como +aquellas que as peixeiras de Lisboa não precisam ensaiar-se para +desfechar na cara de toda a gente. Mas a ironia, o desprezo da réplica, +abespinhou-o; suggeriu-lhe um plano de vingança, que logo poz em +execução.</p> + +<p>Disfarçadamente aproximou-se do fogareiro de alguma assadeira de +castanhas ou quejando mister. <span class='pagenum'>Pág. 25</span> Aqueceu um trapo, o primeiro que +se lhe deparou, e apossou-se violentamente do peixe, empregando o trapo +na tomadia.</p> + +<p>Escarcéo da peixeira, que se dizia roubada. Agglomeração de povo, que +ria do caso exaltando a astucia do Chiado. Appêllo dos dois contendores +para a justiça, visto faltar ainda n'esse tempo o <i>bureau</i> policial da +Parreirinha.</p> + +<p>A varina fez a sua queixa. Chiado ponderou a circumstancia de se haver +apoderado do peixe com um trapo quente, condição imposta pela peixeira. +Decisão da justiça: que o poeta pagasse os 7 réis e meio que offerecera, +e ficasse com o peixe, pois que a condição do trapo havia sido +satisfeita, ficando salva a fé do contrato.</p> + +<hr /> + +<p>Era o Chiado ainda frade franciscano--porque depois despiu o habito por +indisciplina ou lh'o despiram por castigo--e começou a embirrar uma vez +com o magro caldo de lentilhas, que lhe deram no refeitorio.</p> + +<p>Vai isto de accôrdo com a proverbial pobreza dos franciscanos.</p> + +<p>Remexendo no caldo, não encontrou mais que uma lentilha. Pareceu-lhe +pouco nutritivo o singular, e começou a despir-se, como se quizesse +atirar-se a um charco. Reprehenderam-n'o com estranheza. Elle explicou: +que tinha visto apenas um legume no fundo da tigela e que o queria tomar +de mergulho.</p> <span class='pagenum'>Pág. 26</span> + +<hr /> + +<p>D'outra vez--e aqui vai ser preciso o véo--apostou que em pleno Terreiro +do Paço, entre um grupo de dez ou doze picões (arruadores) que alli +estanceavam, era capaz de improvisar um <i>water closet</i>, sem que elles +protestassem.</p> + +<p>Fingiu-se acossado pela justiça e, correndo direito aos faias (como hoje +diriamos) pediu-lhes que fizessem roda para o livrar de ser preso. +Cahiram no langará, elles, e cerraram-se em parede, de modo que o +supposto fugitivo não pudesse ser visto. Passado algum tempo, o Chiado +parte agradecendo, e só depois foi que, pelo olfacto ou pelos olhos, os +logrados reconheceram o logro.</p> + +<hr /> + +<p>Não havia aposta bréjeira que lhe não propozessem, e que elle não +acceitasse.</p> + +<p>Se seria capaz de açoitar um vinagreiro que ia passando com dois ôdres +sobre a mula? Que sim. Dito e feito. Acercou-se do vinagreiro e +disse-lhe que desatasse um dos ôdres, pois queria provar o vinagre. +Tomou um bochecho e fez cara de não achar bom. Exigiu provar do outro +ôdre, segurando elle proprio no que já estava desatado. De repente finge +vêr alguem ao longe ou querer acudir de prompto a qualquer incidente. +Passa o ôdre ao vinagreiro, que ficou com um em cada mão, ambos +desatados. E então começa a açoitar o pobre <span class='pagenum'>Pág. 27</span> homem, que não +poderia defender-se sem deixar perder o vinagre.</p> + +<hr /> + +<p>Conchavou-se o Chiado com outros tunantes da força d'elle para +engarampar um villão, que veiu a Lisboa comprar trigo. Disse-lhe que se +queria trigo bom o não podia achar melhor que o de um seu irmão, em +certa nau que estava á descarga; que fosse a bordo compral-o, mas que +para não sujar o sombreiro e a capa lh'os deixasse alli no caes, onde o +ficaria esperando. O villão pagou logo sete tostões pelo trigo, e deu a +capa e o sombreiro a guardar. Foi a bordo, em cabello e corpo bem feito. +Mas disseram-lhe lá que não tinham commissario em terra, e que só faziam +negocio com dinheiro na palma da mão. Voltou o homem ao caes, e já não +viu o Chiado; encontrou, porém, os outros guilhotes, os quaes lhe deram +uma carta de quitação que o Chiado deixára para o parocho do basbaque, +explicando tudo. Ora a carta dizia:</p> + +<div class="poesia">João Pires do Outeiro +Me deu a capa e o sombreiro, +Sete tostões em dinheiro, + E mais me dera + Se mais tivera. +</div> + +<hr /> + +<p>Não tendo que jantar um dia, lobrigou certo mancebo a comprar peixe na +Ribeira. Chegou-se a elle, dizendo ser grande amigo de seu pai. Sob +<span class='pagenum'>Pág. 28</span> esta côr o convidou a jantar. Foram os dois, mano a mano, para o +local que o Chiado indicou. Ahi, disse lhe que poizasse o peixe, que +logo se cozinharia, e que fôsse buscar qualquer tempêro que faltava. +Quando o ingénuo moço tornou, já não viu o Chiado nem o peixe.</p> + +<hr /> + +<p>D'outra vez chamou um polhastro e industriou-o a fingir-se vendilhão, +levando no fundo de uma panela excremento humano. O rapazola apregoava, +como o Chiado lhe ensinou: «Quem merca isto?» Alguns curiosos queriam +ver o que era para comprar. E, reconhecendo a mercadoria, diziam por +claro o nome que se lhe dá. O polhastro respondia enfadado: «Pois não é +outra cousa.»</p> + +<hr /> + +<p>Vem agora uma anecdota geralmente attribuida a Bocage, mas que não póde +ser sua, pois que o manuscripto d'onde a tomamos é anterior a 1617 e +portanto quasi seculo e meio anterior ao nascimento de Bocage.</p> + +<p>Entraram ratoneiros em casa do Chiado, e levaram-lhe o melhor que tinha. +Elle viu-os a tempo de poder gritar por soccorro; mas, em vez de bradar, +poz ás costas o refugo que lhe deixaram e foi-os seguindo derreado sob a +carga. Os gatunos, espantados, fizeram alto e perguntaram-lhe para onde +ia. O Chiado respondeu tranquilamente: <span class='pagenum'>Pág. 29</span> «Venho vêr para onde nos +mudamos.» Com o que desarmou a audacia dos amigos do alheio que, +rendidos á chalaça, lhe restituiram o bom que levavam.</p> + +<hr /> + +<p>Quando alguem queria engendrar uma bréjeirice, ia ter com o Chiado, que +era padre-mestre na materia.</p> + +<p>Por isso o consultaram certos vaganaus sobre a «partida» que deveriam +fazer a um mulato fôrro que andava por Lisboa, e a quem tinham asca por +ser valentão e soberbão.</p> + +<p>Aconselhou os o Chiado a que, logo que entrasse alguma nau ingleza, lhe +dessem aviso.</p> + +<p>Chegou a occasião, veiu um navio inglez e o Chiado, fingindo-se fidalgo, +foi a bordo com alguns d'aquelles tunantes, que dizia seus criados.</p> + +<p>Propoz ao capitão da nau que lhe comprasse um escravo mulato, que era +robusto para o trabalho do mar, mas que não podia amansar em terra.</p> + +<p>Fez-se o ajuste, sob condição de que o escravo iria á mostra.</p> + +<p>Os outros picões levaram-n'o a bordo, e como agradasse aos inglezes, +logo receberam d'elles o preço que fôra combinado.</p> + +<p>Protestou o mulato não ser captivo, mas não foi acreditado, visto +terem-lhe posto fama de soberbão. Quiz reagir á viva força, mas +lançaram-lhe ferros, visto saberem n'o valente. E teria ido mar em fóra, +como escravo, se a justiça, informada da occorrencia, o não fosse +libertar a bordo, obrigando <span class='pagenum'>Pág. 30</span> os vaganaus a restituir o dinheiro +recebido dos inglezes.</p> + +<p>Não houve mais nenhum outro procedimento da justiça contra o inventor e +executores d'esta tunantada, que aos proprios magistrados pareceu +graciosa.</p> + +<p>O Chiado sahiu incolume, porque foram os socios que pagaram por elle, e +porque a justiça prohibiu ao mulato que tirasse qualquer desfórra.</p> + +<p>Palavras textuaes do manuscripto: «...com pena de morte ao negro, que +sobre aquella graça com o Chiado não entendesse, pois fôra tão bem +achada a graça.»</p> + +<p>Tal era a cotação da jocosidade do poeta, que até a justiça se lhe +rendia; a natureza dera ao nosso bohemio todos os predicados de +gracioso, incluindo a facilidade de imitar simultaneamente as vozes de +muitas pessoas<a href="#nota14"><sup class="footnote">[14]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota14">[14]</a> «Parece que era ventriloquo, porque imitava ao mesmo tempo as +vozes de differentes pessoas.» <i>Dic. Popular</i>, vol. IV, pag 268.</p> </div> + +<hr /> + +<p>Tinha o Chiado em casa um pote onde fazia os despejos. Um dia lembrou-se +de lhe pôr um tampão e embreal-o exteriormente no bocal e no bojo, de +modo a parecer vasilha para exportar. Chamando depois quatro mariolas, +encommendou-lhes que levassem aquelle pote de conservas á Ribeira, <span class='pagenum'>Pág. +31</span> que o queria embarcar, e que esperassem lá por elle para lhes pagar o +frete.</p> + +<p>Como o Chiado não tornasse a apparecer, foram os carrejões avisar a +justiça e requerer que lhes entregasse o pote por indemnisação de seu +trabalho.</p> + +<p>Sendo-lhes entregue como cousa perdida, destaparam-n'o «e mettendo a mão +dentro--diz o manuscripto--acharam-se com a conserva que não imaginavam, +e logo viram que fôra lanço do Chiado.»</p> + +<p>Logo viram que fôra lanço do Chiado: esta phrase testemunha quanto era +fecunda e inventiva em chistes e logros a imaginação do famoso bohemio +do seculo XVI.</p> + +<p>Conheciam-n'o pelo dedo--como gigantesco entre os mais preeminentes +foliões do seu tempo.</p> + +<hr /> + +<p>Para concluir o extracto do manuscripto, que nos fornece todas estas +anecdotas, resta dizer que passando o Chiado pela porta da Sé viu um +grupo de muchachos e, dando-lhes attenção, ouviu-os dizer:</p> + +<p>--Eu tomára ser bispo.</p> + +<p>--Eu tomára ser pápa.</p> + +<p>--Eu tomára ser rei.</p> + +<p>O Chiado, acercando-se d'elles, interpellou-os dizendo:</p> + +<p>--E sabeis vós o que eu tomára ser?</p> + +<p>--?...</p> <span class='pagenum'>Pág. 32</span> + +<p>--Tomára ser melão para me beijardes... no sitio em que se beijam os +melões.</p> + +<p>Com a differença que elle falou mais claro do que eu.</p> + +<hr /> + +<p>Aqui terminam os elementos anecdoticos fornecidos pelo manuscripto para +a reconstituição da biographia picaresca do poeta Chiado.</p> + +<p>Mas estes, que já não são poucos, bastam a egualar o Chiado com Bocage +em materia de bréjeirices e tunantarias.</p> <span class='pagenum'>Pág. 33</span> <p class="centrado"><img +src="images/sep5.png" border="0" alt="Decoração de capítulo"/></p> + + + + +<h2>V</h2> + + +<p>Entre as producções literarias de Chiado, que eu não pude encontrar em +1889, havia uma, que, pouco tempo depois, veiu casualmente ao meu +encontro.</p> + +<p>Era aquella que o abbade Barbosa designa d'este modo na <i>Bibliotheca +Lusitana</i>:</p> <br /> + +<p>«Carta que escreveu de Lisboa a Coimbra da entrada do bispo D. João +Soares, em Lisboa, quando foi á raia pela princeza. É jocosa, e se +conservava na bibliotheca do cardeal de Sousa».</p> <br /> + +<p>Achei-a em copia n'uma miscellanea, que pertenceu ao convento da Graça, +de Lisboa, e que eu comprei ao Rodrigues do Pote das Almas por dez +tostões. Se exceptuarmos a carta de Chiado, a miscellanea vale pouco. +Mas eu, folheando-a, li o titulo da carta, passei-a rapidamente pela +vista, reconheci <span class='pagenum'>Pág. 34</span> que o texto concordava com o titulo, e adquiri +logo o livro, que o Rodrigues teria vendido mais caro se pudesse +adivinhar a rasão por que eu o comprava.</p> + +<p>D'isso era elle capaz, Deus lhe fale na alma.</p> + +<p>Antes de transcrever a carta que o Chiado escreveu a um seu amigo de +Coimbra, preciso esclarecer o leitor sobre o assumpto que a inspirou e o +momento em que foi escripta.</p> + +<p>O mallogrado principe D. João, filho de D. João III, desposou sua prima +a linda princeza D. Joanna de Castella, que veiu a ser mãe de D. +Sebastião o <i>Desejado</i>.</p> + +<p>A princeza entrou em Portugal no fim de novembro de 1553<a href="#nota15"><sup class="footnote">[15]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota15">[15]</a> Francisco de Andrade diz que foi em 1552; Pedro de Mariz que foi +em 1554. Mas a carta de Chiado, que merece fé por ser um documento da +epoca, fixa o anno de 1553.</p> </div> + +<p>El-rei mandou que fossem buscal-a á fronteira D. João de Lencastre, +duque de Aveiro, e o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, os quaes se +fizeram acompanhar de pessoas de categoria, entre as quaes D. Affonso de +Lencastre e D. Luiz de Lencastre, irmãos do duque de Aveiro.</p> + +<p>Na fronteira, D. Diogo Lopes Pacheco, duque de Escalona, e D. Pedro da +Costa, bispo de Osma, fizeram entrega da princeza aos embaixadores +portuguezes.</p> + +<p>D. Joanna entrou por Elvas, e d'ahi, após breve demora, seguiu em +jornadas até ao Barreiro, onde D. João III a foi esperar para +acompanhal-a a Lisboa.</p> <span class='pagenum'>Pág. 35</span> + +<p>O professor Manuel Bento de Sousa poz em relevo a fatalidade pathologica +que desde o berço condemnou D. Sebastião aos desatinos que veiu a +praticar em detrimento e ruina do paiz.</p> <br /> + +<p>«D. Sebastião, diz o illustre e fallecido professor, é pela mãe neto de +um epileptico<a href="#nota16"><sup class="footnote">[16]</sup></a>, e a accumulação da hereditariedade morbida +verificou-se sem perturbação.</p> + +<p>«Sua mãe é filha de epileptico e neta de doidos<a href="#nota17"><sup class="footnote">[17]</sup></a>, sua avó é irmã do +mesmo epileptico e filha dos mesmos doidos, sua bisavó é irmã e filha do +mesmo epileptico e dos mesmos doidos. Seu avô, por consequencia, é neto +de doidos, e seu pae é bisneto dos mesmos doidos.</p> + +<p>«Como exemplo de nevropathia accumulada por herança não ha melhor<a href="#nota18"><sup class="footnote">[18]</sup></a>!»</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota16">[16]</a> O imperador Carlos V.</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota17">[17]</a> Joanna <i>a Doida</i> e Filippe I, leviano, perdulario, incapaz de +governar.</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota18">[18]</a> <i>O Doutor Minerva</i>, pag. 198.</p> </div> <br /> + +<p>Sobre a inconveniencia physiologica dos casamentos consanguineos, +repetidos de geração em geração entre as casas reaes de Portugal e +Hespanha, vieram accumular-se, pelo enlace do principe D. João com a +princeza D. Joanna, as taras hereditarias da epilepsia e da loucura que +os dois desposados, primos co-irmãos, tinham recebido dos seus proximos +ascendentes communs.</p> + +<p>A mãe de D. Sebastião deu provas de uma exaltada hysteria, com +allucinações pavorosas, durante o periodo da gravidez.</p> <span class='pagenum'>Pág. 36</span> + +<p>Este casamento precipitou a morte do principe D. João e aggravou as +taras da princeza D. Joanna.</p> + +<p>Eram duas creanças, ella de 18 annos<a href="#nota19"><sup class="footnote">[19]</sup></a> elle de 16<a href="#nota20"><sup class="footnote">[20]</sup></a>, doentes dos +mesmos vicios constitucionaes, e apaixonados um pelo outro. Não +conheceram limites ás suas relações amorosas, entregaram-se a uma +«demasiada communicação» dilacerando-se carinhosamente em extremos de +prazer insaciavel.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota19">[19]</a> D. Joanna tinha nascido a 23 de junho de 1535.</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota20">[20]</a> D. João nasceu em Evora a 3 de junho de 1537.</p> </div> + +<p>O principe ardia n'um fogo de voluptuosidade, que o devorou +prematuramente. Foi preciso separal-o da princeza, mas já era tarde. +Estava perdido na flor dos annos.</p> + +<p>Os medicos d'aquella epocha classificaram a doença de--paixão hebetica. +Os chronistas explicam que o enfermo sentia uma sêde devoradora; e D. +Manuel de Menezes, na chronica que lhe é attribuida, filia esse +phenomeno pathologico no desregramento dos prazeres carnaes.</p> + +<p>Ora o hebetismo--segundo a medicina do nosso tempo--é um estado morbido, +que inutiliza as faculdades intellectuaes, sem comtudo inutilizar a +acção dos sentidos: uma especie de embrutecimento devido a commoção +cerebral<a href="#nota21"><sup class="footnote">[21]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota21">[21]</a> <i>Dict. de medicine</i>, segundo o plano de Nysten, refundido por +Littré e Robin.</p> </div> + +<p>Assim devia ser, pois que o principe D. João precipitára a crise dos +seus males hereditarios com um exgotamento nervoso.</p> + +<p>Mas a--sêde devoradora--<i>polydipsia</i>, é um symptoma da diabetes +saccharina, que anda muitas <span class='pagenum'>Pág. 37</span> vezes ligada ás nevroses e, +principalmente, á epilepsia.</p> + +<p>Não repugna acreditar que a sêde exagerada e continua, que abrazava o +principe, derivasse d'esse conjuncto pathologico recebido por herança e +aggravado por excessos.</p> + +<p>E que os chronistas não empregavam a palavra sêde em sentido figurado, +vê-se d'estas palavras da chronica attribuida a D. Manuel de Menezes: +«mas elle (o principe) perseguido da sêde levantou-se uma manhã da cama +a beber agua da chuva, que achou empoçada ao pé de uma janella, por +descuido dos que lhe assistiam, que então o deixaram só, e sendo muita, +e choca, fez-lhe muito mais mal, e logo empeiorou, e morreu no dia +seguinte».</p> + +<p>A princeza, excitada pelas sensações amorosas e pelos sobresaltos da +gravidez, redobrou de hysterismos, teve allucinadas visões, pavores +imaginarios, de que ficou noticia.</p> + +<p>Na véspera do principe cahir doente, estando elle a dormir, julgou ella +vêr, á luz da tocha que allumiava a camara conjugal, surgir uma figura +de mulher vestida de luto, com larga touca, a qual mulher, crescendo em +vulto, ameaçadora, fez estrincar os dedos e, após um assopro que parecia +o halito quente d'uma féra, desappareceu.</p> + +<p>A princeza ficou n'uma grande perturbação de terror, julgando verdadeira +a visão, e interpretou-a no sentido de que o assopro annunciava que +todas as suas esperanças haviam de desfazer-se em vento.</p> + +<p>Quanto ao trinco com os dedos não interpretou coisa nenhuma ou as +chronicas o não dizem.</p> <span class='pagenum'>Pág. 38</span> + +<p>Tendo fallecido o principe D. João<a href="#nota22"><sup class="footnote">[22]</sup></a> sem que a princeza o soubesse ao +certo, posto o suspeitasse, e já nas vésperas do parto, as damas que +acompanhavam D. Joanna quizeram leval-a a espairecer na Varanda da +Pella, do Paço da Ribeira,</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota22">[22]</a> O principe falleceu em terça feira 2 de janeiro de 1554, dezoito +dias antes do parto da princeza.</p> </div> + +<p>O palacio dos pricipes era o de Alvaro Peres de Andrade, junto ao Arco +dos Pregos, mas communicava interiormente com o palacio real.</p> + +<p>A princeza, profundamente abatida, deixou-se conduzir. A noite e o +silencio favoreceram ainda d'esta vez o terror, sempre contagioso, +mórmente entre as impressionaveis damas, que os tristes acontecimentos +da côrte traziam sobresaltadas.</p> + +<p>Bastaria, portanto, que a princeza tivesse uma visão, para que logo +fossem egualmente suggestionadas as suas damas, portuguezas e +castelhanas.</p> + +<p>Assim, pois, todas julgaram vêr sahir pela Varanda d'El-rei, direitos ao +Forte<a href="#nota23"><sup class="footnote">[23]</sup></a>, muitos homens vestidos á moirisca, com fatos de variegadas +cores, agitando tochas accêsas e soltando repetidas vozes de--<i>Ly, ly, +ly</i>. Eira uma especie de dança macabra, em que os moiros revoluteavam, +despedindo clarões e gritos; e quando a chorea, percorrendo a Varanda, +chegava ao Forte, os moiros precipitavam-se ao Tejo, deixando no +silencio da noite uma atmosphera soturna de terror e mysterio.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota23">[23]</a> O Forte, nome que depois conservou o torreão mandado construir por +Filippe II, rematava sobre o Tejo, uma vasta galeria com terraço, a meio +do qual se erguia uma torre ameiada.</p> </div> + +<p>As damas fizeram decerto alarma. Acudiria <span class='pagenum'>Pág. 39</span> gente do Paço, que não +soube explicar a apparição sinistra dos moiros. Reconheceu-se que as +portas estavam fechadas; que o ingresso de estranhos era impossivel. +Então cresceria o pavor, e com elle a predisposição para repetir-se a +visualidade no mesmo local e nas mesmas condições.</p> + +<p>Foi o que aconteceu. Poucos dias depois tornou a princeza á Varanda da +Pella, fez algum exercicio passeiando; depois sentou-se a uma das +janellas e então se lhe renovou a visão dos moiros, com os mesmos +trajes, as mesmas tochas, os mesmos gritos--na mesma farandola sinistra.</p> + +<p>A princeza e as suas damas fugiram espavoridas sob a mesma suggestão, +pelo contagio do terror. Todas «tinham visto» segunda vez os moiros. +Lembra-nos, por analogia, um facto que Renan refere nos <i>Apostolos</i>. +Entre os protestantes perseguidos correu voz de que, nas ruinas de um +templo destruido recentemente, se ouviam psalmos cantados pelos anjos; +tanto bastou para que todos os protestantes que se aproximavam +d'aquellas ruinas, ouvissem os psalmos.</p> + +<p>O rei e a rainha, informados do que se passava, recommendaram segredo.</p> + +<p>Convinha não excitar mais a superstição popular, que já estava muito +exaltada por varios factos anteriores, taes como o desacato praticado +por um inglez, logo depois do casamento do principe na capella do Paço; +e a apparição de um meteóro luminoso que todas as noites era visivel em +Lisboa, quasi em cima da Sé, e parecia tomar a fórma de um athaúde.</p> + +<p>Dos nove filhos legitimos de D. João III ficára apenas um, o principe D. +João, e o povo já sabia <span class='pagenum'>Pág. 40</span> que elle tinha morrido tambem, posto se +occultasse a sua morte.</p> + +<p>Se o parto da princeza se mallograsse, acabar-se-ia a successão directa. +Portugal perderia a sua independencia, não porque el-rei não tivesse +irmãos, que poderiam succeder-lhe no throno, mas porque pelo contrato de +casamento da princeza D. Maria, filha de D. João III, com Filippe II, a +corôa portugueza passaria para D. Carlos, filho d'aquella princeza.</p> + +<p>Por isso o povo, cuidadoso de ver garantida a independencia do reino, +«desejava» que a princeza D. Joanna desse á luz um filho varão.</p> + +<p>O arcebispo de Lisboa ordenára uma procissão de préces, que se +effectuaria logo que a princeza começasse a sentir as dores do parto.</p> + +<p>Pela meia noite de 19 a 20 de janeiro<a href="#nota24"><sup class="footnote">[24]</sup></a> de 1554, quando os sinos dos +conventos tocavam a matinas, houve rebate de que a princeza +experimentava os primeiros symptomas do parto. Logo se organizou a +procissão, que sahiu da Sé para S. Domingos. Rompia a manhã quando a +procissão ia recolhendo á Sé e então se espalhou «a nova feliz de ter +nascido o <i>desejado</i><a href="#nota25"><sup class="footnote">[25]</sup></a>.»</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota24">[24]</a> Dia de S. Sebastião, motivo por que recebeu este nome o herdeiro +da coroa.</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota25">[25]</a> <i>Portugal cuidadoso e lastimado</i>, pag. 2.</p> </div> + +<p>Desejado foi em verdade D. Sebastião, e duas vezes o foi, antes de ter +nascido e depois de ter morrido.</p> + +<p>Em taes circunstancias, o nascimento do herdeiro da corôa teve a +importancia de um acontecimento <span class='pagenum'>Pág. 41</span> nacional, que profundamente +interessou a alma popular. Não foi apenas um regosijo privativo da +familia real ou da côrte, como acontece sempre que nasce «mais um» +principe. Aquelle que tinha nascido era «o unico» fiador possivel da +autonomia de Portugal: por isso tal acontecimento poz em jogo o brio, o +orgulho, o amor patrio de todos os portuguezes.</p> + +<p>Antes do parto, organizam-se devoções propiciatorias, em que o povo se +mistura com o alto clero, fundindo suas preces.</p> + +<p>Em Santarem até as creanças effectuam procissões nocturnas, piedosa +pratica infantil, que foi muito nossa, e que apparecia sempre nas +grandes crises nacionaes, revestindo um gracioso caracter de ingenuidade +religiosa e de fé simples.</p> + +<p>Eram procissões minusculas, com pequenos andores, pequenas lanternas, +sendo o prestito constituido por homensinhos lilliputianos, rapazes da +rua, creanças do povo, que iam entoando ladainhas e psalmos numa +unisonancia de vozes ainda debeis e esganiçadas.</p> + +<p>É peculiar á infancia o espirito de imitação, maiormente entre as +classes populares. Nos filhos do povo encontram sempre écco os +acontecimentos que tomam maior relevo na vida da nação. Dir-se-ia que +por viverem na rua são mais depressa sacudidos pela opinião publica do +que os filhos dos nobres. Por isso são as creanças da arraya miuda que +propagam, inconscientemente, as canções politicas, os hymnos +revolucionarios, e que muitas vezes se encarregam de fazer a critica e +inventar a parodia dos negocios do Estado e dos mais ruidosos conflictos +da administração publica.</p> <span class='pagenum'>Pág. 42</span> + +<p>As procissões infantis duraram seculos. Viram-n'as os contemporaneos de +D. João III. Viu-as Filinto Elysio, que nos descreve uma que todos os +annos, pela quaresma, vinha da Ajuda exhibir nas ruas de Lisboa muitos +«Senhorsinhos dos Passos» allumiados com rolinhos de cêra. Vi-as ainda +eu na minha infancia, que passei n'aquella devota, patriotica e antiga +cidade do Porto.</p> + +<p>Foi bom termos tido occasião de falar do povo, pois que tomando por +assumpto uma celebridade das ruas, como era o poeta Chiado, já se ia +alongando de mais a narrativa sobre a vida da côrte, sem pausa nem +fôlego, que désse tempo a pensar em quem vegeta no infimo grau da escala +social--tal como no fundo de um poço escuro o musgo rasteiro.</p> + +<p>Podemos agora tornar á côrte. D. João III, para não lançar maior +perturbação nos espiritos, já muito apprehensivos e agitados, ordenou, +pois, que se não divulgasse a visão da princeza na Varanda da Pella.</p> + +<p>El-rei, receioso do futuro, sentia o peso de todas as suas +responsabilidades politicas, que eram enormes desde que, por um +imprudente contrato de casamento, a independencia do reino ficava +suspensa do nascimento de um successor varão.</p> + +<p>Mas o que D. João III não podia prohibir era que a princeza D. Joanna +continuasse a ter visões, que aliás se repetiram.</p> + +<p>Uma noite, na sua camara, tornou a princeza a vêr os moiros, que +entravam e sahiam em tropel. Cahiu logo desmaiada no regaço de uma dama, +e nem essa nem as outras receberam a suggestão, porque a princeza não +teve tempo de falar.</p> <span class='pagenum'>Pág. 43</span> + +<p>Pareceu a todas que apenas seria uma syncope propria da gravidez; mas +depois, explicado o caso, apurou-se que ainda mais uma vez tinham +«apparecido» os moiros.</p> + +<p>A crença popular relaciona sempre o maravilhoso com a vida das altas +personagens e a realização dos grandes acontecimentos historicos. É um +fundo de superstição commum a todos os povos. Assim, entre nós, +encontrou-se uma relação sobrenatural entre a visão dos moiros e a +derrota de D. Sebastião em Alcacerquibir.</p> + +<p>Que a princeza D. Joanna tivesse allucinações e visualidades pavorosas, +cabalmente o pode explicar a medicina; que os phantasmas que ella +julgava ver, fossem moiros, basta que o diga a lenda, urdida <i>a +posteriore</i>, depois da perda de D. Sebastião em Africa.</p> + +<p>De outras visões falam ainda as chronicas, todas n'um sentido lugubre e +presago, como era proprio do estado morbido da princeza e das suas +condições physiologicas.</p> + +<p>Accordava de noite em sobresalto, queixando-se de não ver nada, de ter +ouvido estrondos mysteriosos, vozes afflictivas, taes como suspiros +maguados, gemidos cortantes.</p> + +<p>No leito de dois doentes foi gerado um filho doentissimo, cuja cabeça, +por desgraça nossa, havia de cingir a corôa de Portugal.</p> + +<p>Depois do parto, o hysterismo da princeza tornou-se essencialmente +mystico, tanto em Portugal como em Castella, para onde voltou.</p> + +<p>Contribuiram para esta evolução, aliás naturalissima em taes +circumstancias, as relações de D. Joanna com o padre Francisco de Borja, +primeiro <span class='pagenum'>Pág. 44</span> em Lisboa, depois em Madrid. Essas relações, por +demasiado assiduas, chegaram a tornar-se suspeitas; e Francisco de +Borja, que se retirou para Portugal quando a suspeição cresceu, teve de +procurar justificar-se n'uma carta que, em 1561, dirigiu do Porto a +Filippe II.</p> + +<p>D. Joanna fundou em Madrid um convento á imitação do da Madre de Deus, +de Lisboa<a href="#nota26"><sup class="footnote">[26]</sup></a>; é o das <i>Descalzas Reales</i>, cuja historia Ricardo +Sepulveda traçou n'um dos capitulos da sua interessante obra <i>Madrid +viejo</i>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota26">[26]</a> <i>Hist. Gen.</i>, t. III, pag. 559</p> </div> + +<p>Tal foi a princeza que o bispo de Coimbra D. Fr. João Soares e o duque +de Aveiro foram receber á fronteira do Alemtejo, quando ella veiu +desposar o mallogrado principe D. João<a href="#nota27"><sup class="footnote">[27]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota27">[27]</a> D. Joanna morreu com 38 annos, no Escorial, a 7 de setembro de +1573.</p> </div> <span class='pagenum'>Pág. 45</span> <p class="centrado"><img src="images/sep6.png" border="0" alt="Decoração de capítulo"/></p> + + + + +<h2>VI</h2> + + +<p>Por que foi que D. João III escolheu, entre todos os prelados +portuguezes, o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, para ir á fronteira +esperar a princeza?</p> + +<p>Houve, para isso, razões especiaes.</p> + +<p>Frei João, religioso eremita de Santo Agostinho e varão distincto em +letras, tinha sido mestre do herdeiro da corôa e de seu irmão D. +Filippe<a href="#nota28"><sup class="footnote">[28]</sup></a>, alem de ser prégador e confessor de el-rei, o que bastaria +a explicar a preferencia.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota28">[28]</a> D. Filippe foi o 6.<sup>o</sup> filho de D. João III. Pela morte de seus +irmãos, chegou a ser jurado herdeiro do reino. Falleceu com seis annos +de edade.</p> </div> + +<p>Das virtudes que a <i>Historia genealogica</i><a href="#nota29"><sup class="footnote">[29]</sup></a> attribue a D. Frei João +Soares, não se pode falar com <span class='pagenum'>Pág. 46</span> tanta segurança como de suas +letras; Alexandre Herculano<a href="#nota30"><sup class="footnote">[30]</sup></a>, baseando-se n'umas instrucções de Paulo +III, attribue lhe audacia e ambição; vida dissoluta; espirito de +rebellião contra a Santa Sé.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota29">[29]</a> Tom. III, pag. 552.</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota30">[30]</a> <i>Da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal.</i></p> </div> + +<p>É verdade que os diocesanos de Coimbra o estimaram; que os pobres e os +necessitados recebiam d'elle esmolas; que favoreceu a Misericordia +d'aquella cidade; que doou á respectiva Sé muitos guisamentos, entre os +quaes um valioso cális de oiro; e que na mesma Sé mandou construir a +capella do Santissimo, de galante e excellente architectura<a href="#nota31"><sup class="footnote">[31]</sup></a>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota31">[31]</a> <i>Noticia historica e descriptiva da Sé Velha de Coimbra</i>, por A. +M. Simões de Castro.</p> </div> + +<p>Toda a diocese o pranteou na morte, o que parece mostrar que era mais +estimado em Coimbra do que em Roma.</p> + +<p>As instrucçóes de Paulo III, citadas por Herculano, tambem o dão como +frade de poucas letras.</p> + +<p>Ora isto não é exacto. D Frei João Soares produziu obras varias<a href="#nota32"><sup class="footnote">[32]</sup></a>, em +que affirmou competencia doutrinaria e dicção gentil. Como prégador, se +a principio não agradou em Portugal, porque discursava em castelhano +muito cerrado, pois havia estudado em Salamanca, chegou depois, quando +readquiriu o manejo da lingua portugueza, a ter grande fama e clientela. +Não se pode exceder o elogio que lhe faz Frei Luiz de Souza: «Foi +eminentissimo no ministerio do pulpito; tanto que os <span class='pagenum'>Pág. 47</span> maiores +pregadores do seu tempo lhe reconheciam a vantagem, e como a segundo +Demosthenes o veneravam<a href="#nota33"><sup class="footnote">[33]</sup></a>.»</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota32">[32]</a> Veja-se <i>Dicc. Bib.</i>, de Innocencio, vol. IV, pag. 38, vol. X, +pag. 350.</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota33">[33]</a> <i>Vida de D. Frei Bartholomeu dos Martyres</i>, liv. II, cap. XVII.</p> </div> + +<p>Alem d'estes predicados literarios, possuia especial graça no dizer, dom +natural que não seria o menos attractivo para lhe conquistar sympathias +e facilidades na côrte.</p> + +<p>D. Frei João Soares nasceu em S. Miguel de Urró, concelho de Arrifana, +hoje Penafiel. Parece que pertenceu a uma familia illustre, pois que +elle algumas vezes assignou tambem o appellido Albergaria.</p> + +<p>Foi deputado do Santo-Officio, e governou a diocese de Coimbra desde +1545 até 1572; como prelado portuguez, assistiu ao concilio de Trento, +onde o respeitaram como orador e theologo.</p> + +<p>Falleceu com 65 annos de edade a 26 de novembro de 1572. Por humildade +quiz ser sepultado no chão, fóra da capella do Santissimo que mandára +edificar.</p> + +<p>Se algum defeito toma maior vulto na individualidade d'este prelado, é o +gosto pela ostentação.</p> + +<p>Conta Frei Luiz de Sousa que se apresentou no concilio de Trento com um +fausto proprio de principe secular, fazendo-se representar com esplendor +e magnificencia notaveis.</p> <br /> + +<p>«E porque se visse--diz o chronista dominicano--que fôra isto força do +estado, mais que de <span class='pagenum'>Pág. 48</span> animo vão, passada a occasião do Concilio se +poz em caminho de Jerusalem recompensando com a moderação de peregrino +voluntaria, as superfluidades de senhor forçadas.»</p> <br /> + +<p>Talvez que este procedimento fosse determinado por indicação ou censura +da Santa Sé, a qual, como já vimos, não lhe era demasiadamente affecta.</p> + +<p>A tendencia do prelado conimbricense levava-o effectivamente para a +ostentação.</p> + +<p>Na commissão que desempenhou com o duque de Aveiro, quando foi á raia de +Castella buscar a princeza D. Joanna, já havia pompeado o mesmo +esplendor e magnificencia que depois exhibiu no concilio de Trento.</p> + +<p>Um manuscripto de Pedro Alvares Nogueira, existente no cartorio do +cabido de Coimbra, diz sobre o modo por que o bispo desempenhou aquella +commissão: «Levou muita gente de cavallo mui bem concertada, no que +gastou muito de sua renda».</p> + +<p>A <i>Chronica</i> attribuida a D. Manuel de Menezes ainda é mais explicita +quando diz:</p> + +<p>«Não menos adornado (que o duque de Aveiro) veiu o Reverendo Bispo D. +Frei João Soares, com grande numero de cavalleiros, nobremente +ataviados, conforme o seu estado; e a sua divisa, que trazia nos +reposteiros eram suas Armas, e a letra que dizia: <i>Soli Deo honor et +gloria</i>, e quer dizer: <i>A honra e gloria se dê somente a Deus.</i> E isto +com muitas trombetas, e charamelas, e outros instrumentos, e cantores +para o effeito de tão regia funcção, como convinha».</p> <span class='pagenum'>Pág. 49 </span> + +<p>O chronista Francisco de Andrade afina pelo mesmo diapasão, dizendo:</p> <br /> + +<p>«O bispo de Coimbra tambem por sua parte se apercebeu para esta jornada +com o fausto e apparato, que se requeria para a honra d'este reino, para +a auctoridade de sua pessoa, e para o grave negocio para que fôra +eleito, porque ajuntou para o acompanhar muita e muito lustrosa gente de +cavallo, e os que o acompanhavam a pé tambem iam da mesma maneira, e não +lhe faltou então cousa alguma de quantas se uzam, e são importantes e +necessarias nos negocios d'esta qualidade, sem perdoar por isso a +grandes gastos e despesa».</p> + +<p>Apenas uma voz zombeteira se levantou para tirar effeitos comicos do +apparato com que o bispo de Coimbra entrou em Lisboa quando se dirigia á +raia de Castella.</p> + +<p>Apenas um carcaz despejou todas as suas settas, vibradas por adestrada +mão, em menoscabo do cortejo que rodeiava o bispo de Coimbra, conde de +Arganil, senhor de Coja, alcaide-mór de Avô.</p> + +<p>Essa voz foi a de Antonio Ribeiro, o Chiado, cuja carta sobre este +assumpto lembra os artigos dos jornaes republicanos de hoje em dia +quando procuram amesquinhar a pompa das festas monarchicas.</p> + +<p>N'aquelle tempo, não deixou de ser um acto de perigosa audacia a satyra +com que o Chiado visou tão alta personagem como era o bispo de Coimbra, +em occasião tão solemne para a côrte como era o casamento do principe +herdeiro da corôa.</p> + +<p>Aggravado o bispo, el-rei o desagravaria contra quem quer que fosse, se +elle se queixasse.</p> <span class='pagenum'>Pág. 50</span> + +<p>Do valimento do prelado conimbricense junto de D. João III não ha que +duvidar; bastava a justifical-o a sua qualidade de confessor d'el-rei, e +não chega a ser preciso admittir, como se diz nas instrucções de Paulo +III, que a pretexto da confissão obtivesse a solução de muitos negocios.</p> + +<p>Chiado era, porém, destemido como todos os bohemios e dizidores do seu +tempo, incluindo o proprio Camões. E a fortuna ajuda os audazes... pelo +menos algumas vezes. Não consta que Chiado fosse molestado por causa +d'esta sua satyra em prosa, de que talvez o bispo nem chegasse a ter +conhecimento.</p> + +<p>Simula o auctor escrever a um seu amigo de Coimbra, visto que lhe +diz--«estas novas da entrada do vosso bispo.»</p> + +<p>É um artificio literario, para justificar a origem da satyra. +Manifestamente, vindo o cortejo de Coimbra, não precisava ninguem +d'aquella diocese que lhe dessem novas do modo como vinha organizado. Lá +o saberiam perfeitamente ou perfeitamente o poderiam saber.</p> + +<p>Tambem, por outro artificio literario, diz o Chiado «que não viu a +entrada do bispo em Lisboa». Mas tão minuciosamente a descreve que bem +se reconhece ter sido testemunha presencial. D'este modo, abria uma +valvula de segurança para o caso de lhe imporem a responsabilidade da +satyra: teria feito obra por informações inexactas.</p> + +<p>Claramente se percebe que o Chiado viu a chegada do cortejo plantando-se +entre a multidão em alguma rua do transito e chasqueando no meio de um +grupo de clientes que lhe admiravam a veia sarcastica.</p> <span class='pagenum'>Pág. 51</span> + +<p>A sua narração é a de um impressionista, que surprehendeu o espectaculo +em flagrante.</p> + +<p>E tal homem como o Chiado não poderia estar calado nem indifferente por +muito tempo, quando toda a população de Lisboa se alvoroçava para +assistir a um acontecimento anormal, muito annunciado e não menos +pomposo.</p> + +<p>A carta de Chiado é, segundo o moderno falar, uma <i>charge</i>; pertence aos +dominios da caricatura escripta, que madrugou com os primeiros alvores +da nossa literatura, antecipando-se alguns seculos á caricatura +desenhada.</p> + +<p>Assim é que já no <i>Cancioneiro da Vaticana</i> encontramos a seguinte +chistosa caricatura de um cavalleiro da idade-média:</p> + +<div class="poesia"> +caval'agudo que semelha forom, +em cima d'el un velho selegon, +sem estrebeyras e con roto bardon, +nem porta loriga, nem porta lorigon, +nen geolheiras quaes de ferro son, +mays trax perponto roto sen algodon, +e cuberturas d'un velho zarelhon, +lança de pinh'e de bragal o pendon, +e chapel de ferro que x'i lhi mui mal pon; +e sobarçad' un velh' espadarron; +cuytel'a cachas, cintas sen forcilhom, +duas esporas destras, ca sestras non som, +maça de fusto que lhi pende do arçom. +</div> + +<p>Etc.</p> + +<p>Este fragmento é o avô da caricatura portugueza nos dominios da +literatura.</p> + +<p>Vamos vêr como Antonio Ribeiro o Chiado, navegando nas mesmas aguas, +caricaturou ao correr da penna a entrada do bispo de Coimbra em Lisboa +<span class='pagenum'>Pág. 52</span> com todo o seu cortejo de pagens, escudeiros, varletes, +azemolas, trombetas, atabales e charamelas.</p> + +<p>Diz o documento, tal como se me deparou na miscellanea, que pertenceu á +livraria do convento da Graça:</p> + +<div class="quote"> <p>Carta que o Chiado escreveu a um seu amigo da entrada do Bispo de +Coimbra em Lisboa, quando veio para ir pela Princeza a Castella que é +mãe d'El-Rei D. Sebastião.</p> + +<p><i>Quereis saber quanto póde a importunação, que muito contra minha +vontade vos escrevo estas novas da entrada do vosso bispo n'esta cidade, +só por cumprir com o que tanto me tendes rogado. Vêde-as em nome de quem +quizerdes, que eu não quero senão fallar comvosco.</i></p> + +<p><i>Deixarei sua estada no Lumiar, que durou tres dias, onde preparou e +proveu de sapatos, de pescoços<a href="#nota34"><sup class="footnote">[34]</sup></a> e atacas<a href="#nota35"><sup class="footnote">[35]</sup></a> toda a sua gente, que +vinham algum tanto damnificados do caminho.</i></p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota34">[34]</a> Como quem diz--gargantilhas</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota35">[35]</a> Ligas, correias, etc.</p> </div> <span class='pagenum'>Pág. 53</span> + +<p><i>N'este tempo foi Sua Senhoria mais nomeado por Lisboa que assada +quente<a href="#nota36"><sup class="footnote">[36]</sup></a> e todos com olhos longos por sua entrada, a qual eu não vi. +Dizem que a 25 de outubro de 553 annos ás tres horas depois do meio dia +entrou o vosso bispo, o qual vinha na maneira seguinte, todos de dous em +dous, como cachos em redea<a href="#nota37"><sup class="footnote">[37]</sup></a>, sómente as azemolas, se o eram, vinham +um cacho por redea:--Primeiramente vinha deante de tudo um villão, por +nome Amador Colaço, a quem a natureza negou barbas, o qual foi moço de +pé d'este bispo, que a ventura bem casou nessa cidade, em cima de um +rocim de meia sela, chapeu branco, vestido preto com peças d'ouro em +certos logares, que denunciam festa, o qual, como se o villão do +almocreve, desordenava, tornava atraz e tirava o pé do estribo, que era +um madeiro, e pegava-lhe, cousa que lhe fazia mostrar as bragas que o +capotim de côr traria coberto de más linguas.</i></p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota36">[36]</a> Allusão ao pregão das castanhas assadas.</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota37">[37]</a> Restea de uvas; isto é, reste de cachos de pendura (Moraes). +Reste, corda feita de peças trançadas; v. g. uma reste de alhos, de +cebolas, etc.</p> </div> + +<p><i>Quarenta bestas vinham n'esta ordem, suas mataduras cobertas com +reposteiros que lá se fizeram. Já sabeis quejandos eram.</i></p> + +<p><i>No couce vinham duas escolhidas para aquella hora, que traziam cama e +cofre, acompanhadas de seis villãos, cada um com <span class='pagenum'>Pág. 54</span> sua partezana +nas mãos, tão frouxos que os desarmariam sem gafas<a href="#nota38"><sup class="footnote">[38]</sup></a>; e logo no rabo +vinha um estribeiro, que o outro bispo creou, tão triste e descontente +que parecia que se arrependera do que accettara.</i></p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota38">[38]</a> Sem gafas, o mesmo que--sem esforço, nem violencia. Gafa era o +gancho com que se puxava a corda da bésta para armal-a.</p> </div> + +<p><i>Nas costas d'estes todos vinham a procissão da gente, onde não faltaram +cavallinhos fuscos. Só o sagitario esqueceu.</i></p> + +<p><i>Vinha deante um molho de trombetas; em vez de virem vermelhas vinham +amarellas, e logo os atabaleiros que já não traziam braços.</i></p> + +<p><i>Os das charamelas, já sabeis que são pão de rala, não puderam mudar +cor. Como uns acabavam uns versos, outros começavam, sempre os ouvidos +tinham que fazer, como os olhos que vêr. As cavalgaduras d'estes todos +eram ossos sem posta de polpa.</i></p> + +<p><i>Detraz vinham trinta moços da camara, todos almagrados,<a href="#nota39"><sup class="footnote">[39]</sup></a> os quaes +parece que os comprou o bispo por junto e lhes deram as encavalgaduras +todas em cima, e de chapeus brancos, como romeiros, e os mais delles com +calças e sapatos, sem espadas, gente religiosa, algum tanto no vestir +castelhanos, porque quem levava luvas faltavam-lhe as esporas.</i></p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota39">[39]</a> Pintados de almagre ou almagra; isto é, de vermelho.</p> </div> + +<p><i>E logo na dita ordem vinham os coimbrãos tão tristes e descontentes, +que pareciam que perderam todos suas fazendas. Nomear um <span class='pagenum'>Pág. 55</span> por um +será muita honra sua e canceira minha e enfadamento vosso; basta que +alguns d'elles traziam frenos<a href="#nota40"><sup class="footnote">[40]</sup></a> de ouro, mas mal pelas mulheres que +ficam sem arrecadas, todos em cavallos de tornas, tirando o chanceller +que vinha momo feito, outrosim pagem do arremeção,<a href="#nota41"><sup class="footnote">[41]</sup></a> que não havia +mais no sel'o.<a href="#nota42"><sup class="footnote">[42]</sup></a></i></p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota40">[40]</a> Freios.</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota41">[41]</a> Talvez pagem da lança, porque arremessão (melhor graphia que +arremeção) significava, segundo o Dic. da Academia, qualquer arma +missiva ou de arremesso, como lança, dardo etc.</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota42">[42]</a> Isto é, mais acabado e perfeito.</p> </div> + +<p><i>Inofre Francisco vinha bem acompanhado e bem encavalgado, todos os seus +feitos rosmaninhos<a href="#nota43"><sup class="footnote">[43]</sup></a> e bem encavalgados. A todos pareceu bem; só um +senão lhe acharam, que não levava o ferro do arremeção esfolado.</i></p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota43">[43]</a> Engalanados. Hoje diriamos--uns palmitos.</p> </div> + +<p><i>O meirinho Gaspar Dias não se achava ahi sem vara, acompanhado de dous +beleguins, que lhe foram sempre fieis, um lhe trazia um cabresto com que +vinha silhado, o outro lhe trazia uma ferradura que lhe cahiu no campo +de Alvalade.<a href="#nota44"><sup class="footnote">[44]</sup></a></i></p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota44">[44]</a> O Campo Grande actual, com a differença de que n'aquelle tempo era +bosque silvestre, muito povoado de rouxinoes, como se vê da <i>Ulysippo</i> +de Jorge Ferreira de Vasconcellos, quando diz (acto IV, scen. 5.<sup>a</sup>): «Vós +estaveis mais namorado que um rouxinol de Alvalade.»</p> + +<p>Só no reinado de D. Maria I foi que o campo de Alvalade começou a ser +transformado em alameda publica.</p> </div> + +<p><i>Os mais, que aqui não vão, traziam tanto que dizer que será nunca +acabar. Quando <span class='pagenum'>Pág. 56</span> nos virmos ambos, então vos representarei a +farça.</i></p> + +<p><i>Passado este chuveiro d'escudeiros tornou melhor dia, Arthur de Sá e +Francisco Pereira, seu irmão, honestos no trajo, confiados na fidalguia. +Mas então disseram que trazia Arthur de Sá feita a petição do morgado, +perguntando uns aos outros quanto renderia o praso.</i></p> + +<p><i>E n'isto appareceu Dom João, Bispo Conde, tres pessoas, um só frade, +cercado de vinte e tantos villãos, que todos pareciam paes d'orfãos de +Jesus, desazados, barbas d'estrigas, todos molares, sem vir entre elles +nenhum só duvazio, vestidos em uns alqueceres<a href="#nota45"><sup class="footnote">[45]</sup></a> brancos e azues, que +lhes davam pelos artelhos. O mais que de S. S.<sup>a</sup> disseram, não direi eu +por não pôr a mão em sagrado.</i></p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota45">[45]</a> Alquice ou alquicer, capa mourisca.</p> </div> + +<p><i>Toda a outra clerezia vinha má com boa, como romãs de Castella, esta +ordem levaram todos pela Rua dos que padecem martyrio,<a href="#nota46"><sup class="footnote">[46]</sup></a> levando nas +unhas<a href="#nota47"><sup class="footnote">[47]</sup></a> o Rocio e toda a Rua Nova<a href="#nota48"><sup class="footnote">[48]</sup></a> até chegarem ao Terreiro do +Paço, <span class='pagenum'>Pág. 56</span> donde muitos descavalgaram sem criados, ficando os ginetes +tão mansos, que nem as apupadas dos rapazes, nem o rumor da gente teve +poder para os fazer rinchar.</i></p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota46">[46]</a> Era a rua que, tomando se por ponto de referencia o Rocio, +conduzia ao Campo de Santa Barbara, então chamado <i>da Forca</i> (<i>Lisboa +antiga</i>, 2.<sup>a</sup> parte, tomo V, pag. 65 e 78; tomo VI, pag. 65 e 68.) Não +quero asseverar que correspondesse á actual rua direita dos Anjos, +porque o Campo da Forca era muito mais vasto então; estendia se desde o +sitio dos Anjos até ao actual largo de Arroyos.</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota47">[47]</a> Ainda hoje dizemos «na ponta da unha» para designar a maxima +velocidade.</p> </div> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota48">[48]</a> A Rua Nova dos Ferros correspondia, approximadamente, á actual rua +dos Capellistas. Diz-se que foi mandada construir por el-rei D. Diniz.</p> </div> + +<p><i>El-Rei nosso senhor, com a Rainha e Principe, os esperavam na varanda, +onde lhes S. S.<sup>a</sup> beijou as mãos e lhe fizeram arrazoado agazalhado. +Acabado elle os dous irmãos Sá Pereira fizeram outro tanto e apoz estes, +«cabeça em cu, que não fique nenhu». Alvaro Mendes, contador da +Universidade, foi por cá.</i></p> + +<p><i>Acabado o officio, tornou-se Sua Senhoria a seus paços, e ao descer da +escada encostado a um pagem, que dizem ser seu sobrinho, o qual fez +muito ruins mesuras, vinha caiado de novo, trazia umas pontinhas de ouro +no capello da capa d'onde nunca tirou o olho, que tão recatado vinha da +tezoura.</i></p> + +<p><i>Ao bispo tornaram a arripiar carreira algum tanto a procissão desfeita, +fazendo cada um caminho para suas pousadas, e de maneira os enguliu +Lisboa, que nunca mais appareceram nem fizeram mossa.</i></p> + +<p><i>Isto tudo passou na verdade, que m'o disseram homens de respeito. Se +mais quizerdes peitae lampreas<a href="#nota49"><sup class="footnote">[49]</sup></a>, que os homens d'essa terra <span class='pagenum'>Pág. 58</span> +n'isso desenfornam todos seus cumprimentos. Nosso Senhor vos dê muita +saude e vida e muito dinheiro, e vos livre d'estas trovoadas que o tiram +e gastam.»</i></p> + +<div class="rodape"> <p><a name="nota49">[49]</a> Comprai-me, subornai-me com lampreas. Vê-se que sempre tiveram +grande fama as lampreas do rio Mondego; e que de Coimbra as mandavam +como mimo para outras terras do paiz. Era gentileza vulgar dos +conimbricenses. A lamprea cozinhada na famosa estalagem do Paço do Conde +foi, em nossos dias, um piteo muito celebrado por estudantes.</p> </div> </div> + +<p>Esta carta, que não pudemos encontrar em 1889, não completa ainda o +espolio literario do Chiado, porque não tem sido possivel encontrar +exemplares de outras especies, taes como o <i>Auto de Gonçalo Chambão</i>, +que, segundo Barbosa, teve nada menos de trez edições.</p> + +<p>Mas constitue um achado, que reputei feliz, e que me deixou contente +quando se me deparou n'uma epoca em que eu versava com enthusiasmo +assumptos literarios.</p> + +<p>Se hoje dou a lume esta carta de Chiado, foi porque para esse effeito +encontrei as maiores facilidades n'uma empreza editora, que se tem +assignalado por bons serviços ás letras patrias.</p> + +<p>Não é que eu fie do exito d'esta monographia e fique imaginando que hão +de acudir a compral-a numerosas legiões de leitores.</p> + +<p>Em Portugal só o romance francez tem procura no mercado.</p> + +<p>Qualquer outra especie literaria representa um desastre de livraria.</p> + +<p>Por haver chegado a esta convicção é que nunca pensei em fazer segunda +edição das <i>Obras do poeta Chiado</i>, que bem podia ter sido enriquecida +com a materia do presente opusculo e com varias <span class='pagenum'>Pág. 59</span> correcções que +me foram indicadas, sobre a difficil interpretação dos textos, pelos +srs. visconde de Castilho, Antonio Francisco Barata e professor +Epiphanio.</p> + +<p>Mas seria perder tempo, e o tempo é a vida. Esperdiçal-a era desatino. +Poupemol-a.</p> + +<p>Estou n'este ponto de vista ha muito tempo.</p> + +<p>Lisboa, 9 de julho de 1901.</p> + +<p class="centrado"><img src="images/final.png" border="0" alt="Decoração de Fim de Livro"/></p> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O poeta Chiado, by +Alberto Augusto de Almeida Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O POETA CHIADO *** + +***** This file should be named 22509-h.htm or 22509-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/2/5/0/22509/ + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/22509-h/images/final.png b/22509-h/images/final.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b488f8a --- /dev/null +++ b/22509-h/images/final.png diff --git a/22509-h/images/logo.png b/22509-h/images/logo.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..d430a6a --- /dev/null +++ b/22509-h/images/logo.png diff --git a/22509-h/images/mapa.png b/22509-h/images/mapa.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..c73d572 --- /dev/null +++ b/22509-h/images/mapa.png diff --git a/22509-h/images/sep1.png b/22509-h/images/sep1.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..c43bf66 --- /dev/null +++ b/22509-h/images/sep1.png diff --git a/22509-h/images/sep2.png b/22509-h/images/sep2.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..1750bb3 --- /dev/null +++ b/22509-h/images/sep2.png diff --git a/22509-h/images/sep3.png b/22509-h/images/sep3.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..8aea974 --- /dev/null +++ b/22509-h/images/sep3.png diff --git a/22509-h/images/sep4.png b/22509-h/images/sep4.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e44d9ca --- /dev/null +++ b/22509-h/images/sep4.png diff --git a/22509-h/images/sep5.png b/22509-h/images/sep5.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..d9079df --- /dev/null +++ b/22509-h/images/sep5.png diff --git a/22509-h/images/sep6.png b/22509-h/images/sep6.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..72251e9 --- /dev/null +++ b/22509-h/images/sep6.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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