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+Project Gutenberg's O poeta Chiado, by Alberto Augusto de Almeida Pimentel
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O poeta Chiado
+ (Novas investigações sobre a sua vida e escriptos)
+
+Author: Alberto Augusto de Almeida Pimentel
+
+Release Date: September 4, 2007 [EBook #22509]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O POETA CHIADO ***
+
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+
+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+O POETA CHIADO
+
+
+ALBERTO PIMENTEL
+
+
+O POETA CHIADO
+
+
+(Novas investigações sobre a sua vida e escriptos)
+
+ Reverendo frei Chiado
+ de Virtude grande imigo,
+ sente tua alma comtigo
+ e verás se estas desculpado
+ d'isto que agora te digo.
+
+ AFFONSO ALVARES.
+
+
+LISBOA
+
+Empreza da Historia de Portugal.
+
+_Sociedade editora_
+
+LIVRARIA MODERNA
+
+_R. Augusta, 95_
+
+TYPOGRAPHIA
+
+_35, R. Ivens, 37_
+
+1903
+
+
+
+
+I
+
+
+As relações de amizade entre os vivos e os mortos são menos quebradiças
+e ephémeras do que as dos vivos uns com outros.
+
+E a razão é facil de explicar: quem vai, não volta.
+
+Os mortos não falam, não intrigam, não atraiçôam, não desmerecem, por
+isso, da estima e consideração em que uma vez os tomamos.
+
+Affeiçôa-se a gente a um escriptor, a um _maestro_, a um pintor ou a um
+estatuário, que morreu ha muitos annos ou ha longos seculos, e não
+deixamos apagar nunca a lampada do seu culto: colleccionamos-lhe as
+obras sem olhar a dinheiro, por mais raras que sejam; conservamol-as em
+grande veneração como thesouros que um avarento aferrolha a sete chaves;
+e estamos sempre promptos a combater de ponto em branco pela gloria e
+belleza de suas producções, quando apparece algum zoilo a menosprezal-as
+com azedume.
+
+E se nas relações com os vivos fazemos selecção do caracter d'elles para
+estabelecer convivencia e amizade, pouco nos importa a condição e
+procedimento dos mortos quando os estimamos em suas creações artisticas
+ou literarias com intransigente fanatismo.
+
+O meu fallecido amigo visconde de Alemquer, que era um _gentleman_
+distinctissimo, primoroso em maneiras e acções, além de ser um
+biblióphilo digno de apreço e consulta, tomou tanto gosto pelas obras do
+padre José Agostinho de Macedo, que passou a maior parte da existencia a
+colleccional-as por bom preço e a muito custo.
+
+Comtudo, havia tanta disparidade entre o caracter de um e do outro,
+porque o auctor dos _Burros_ foi o mais atrabiliario, inconstante e
+perigoso homem de letras de todo o nosso Portugal, que o visconde de
+Alemquer, se houvesse sido contemporaneo do padre José Agostinho, nunca
+teria podido ser seu amigo, nem seu defensor, nem jámais o quereria vêr
+em intimidade de portas a dentro.
+
+Pela minha parte, tambem sou obrigado a confessar um similhante fraco,
+não pelo mesmo padre, mas por outro que, sob o ponto de vista da
+disciplina monastica e da dignidade sacerdotal, não valia mais.
+Refiro-me ao franciscano Antonio Ribeiro o Chiado, que tambem despiu o
+habito e foi tunante irrequieto, sendo egualmente homem de letras.
+
+Até 1889, anno em que logrei dar a lume as suas obras, quasi perdidas, e
+geralmente desconhecidas[1], custou-me o Chiado bom trabalho e canceiras
+para resuscital-o aos olhos do grande publico em toda a sua
+individualidade literaria.
+
+ [1] _Obras do poeta Chiado_, colligidas, annotadas e prefaciadas por
+ Alberto Pimentel. Na officina typographica da Empreza Literaria de
+ Lisboa, calçada de S. Francisco, 1 a 7.
+
+D'então para cá não deixei de pensar n'elle a investigar-lhe a
+biographia, que é das mais obscuras e complicadas, e a procurar aquellas
+de suas obras que até 1889 não consegui haver á mão por mais que as
+desejasse e buscasse.
+
+Alguma coisa achei n'este lapso de onze annos. Não é tudo ainda. Mas não
+perdi o tempo, nem parei, porque me repugna a inercia, e porque,
+verdade-verdade, tomei gosto ao Chiado, que não foi um vulto preeminente
+nas letras, mas que tem relevo como bohemio e dizedor, como trovista
+alegre e zombeteiro, farçante popularissimo, que a praça publica
+applaudia e que os escriptores mais notaveis não desconsideravam.
+
+Outros meus contemporaneos teem consagrado todo o seu tempo ao Chiado
+rua, e talvez esses se riam de mim, que prezo mais o literato do que o
+_Regent Street_ alfacinha.
+
+Todavia, cumpre advertil-os de que a rua lembra o escriptor, e de que
+foi elle, como julgo poder demonstrar agora, que deu nome á rua.
+
+Eu já em 1889 pendia para esta opinião, comquanto, n'essa epocha, só
+houvesse encontrado vestigios de que a rua tinha aquella denominação no
+seculo XVIII.
+
+Depois d'isso, alguem lembrou que já era assim chamada na primeira
+metade do seculo XVII (1634) como se reconheceu por um documento digno
+de fé[2].
+
+ [2] _Elementos para a historia do municipio de Lisboa_, tomo IV,
+ pag. 41. Ahi se vê que o conde de Atouguia morava «ao Chiado».
+
+E eu proprio li, posteriormente, uma referencia mais antiga, porque é
+relativa á primeira década do mesmo seculo XVII: «Outras casas do bairro
+do Marquez ficavam situadas _ao Chiado_, quando se entra na rua Direita
+da Porta de Santa Catharina (1610)[3]»
+
+ [3] Archivo Nacional. _Chancellaria de D. Filippe II_. livro XIX,
+ fol. 269.
+
+Mas hoje cuido trazer prova convincente de que foi o poeta que, por
+consenso espontaneo do povo, deu o nome de Chiado á antiga rua da Porta
+de Santa Catharina ou a parte d'ella.
+
+O povo baptiza melhor do que a camara municipal, porque baptiza com mais
+acerto, quasi sempre com inteira razão de ser; por isso, nome que elle
+ponha, péga, fica, perdura.
+
+E, não obstante a camara municipal mudar em 1880 o nome á rua, de
+_Chiado_ para _Garrett_, o povo não quiz saber de reviravoltas de
+letreiros nas esquinas: continua a chamar-lhe _Chiado_; _Chiado_ é que
+é, porque o povo quer que seja assim.
+
+As novas descobertas que hoje tiro a lume sobre a vida azevieira do
+poeta Chiado, anecdotas passadas entre o povo e com o povo, das quaes
+resulta que elle foi um bohemio tão acabado e popular no seculo XVI como
+Bocage o veiu a ser no seculo XVIII, essas novas descobertas, dizia eu,
+acodem a reforçar a prova, que em documentos colhi, de haver sido elle
+que celebrizou a rua em que morava e que por esse facto, sem que ninguem
+o decretasse, mas porque todos assentiram, ficou a alcunha do poeta
+tradicionalmente ligada á rua como um padrão de celebridade local[4].
+
+ [4] De todas as ruas de Lisboa o Chiado é a mais cantada e
+ decantada. Na literatura, além de infinitas referencias, tem
+ fornecido o titulo de algumas obras: _Do Chiado a Veneza_ por Julio
+ Cesar Machado (1867); _Viagens no Chiado_ por Beldemonio (Ed. de
+ Barros Lobo) 1857; _A campanha do Chiado_, scena comica; _Trez ao
+ Chiado_, cançoneta. No principio do anno de 1868 começou a
+ publicar-se em Lisboa um periodico com o titulo _O Chiado_, em
+ formato grande e excellente papel. Teve ephémera existencia. No n^o
+ 5. correspondente a 6 de fevereiro, inseriu um artigo do sr. Brito
+ Rebello sobre o poeta Chiado. D'esse artigo recortamos os seguintes
+ periodos:
+
+ «Mas d'onde lhe veiu a alcunha: Eis os eruditos em duvida. A opinião
+ correntia até alguns annos era de que esta lhe proviera da rua onde
+ habitava, que era a parte da subida desde o Espirito Santo, hoje
+ palacio da casa de Barcellinhos, até á rua de S. Francisco
+ (_Ivens_). Ha porém um contra: em monumento ou documento algum
+ anterior ao seculo XVI, se encontra tal designação. É pois mais
+ natural a hypothese do sr. Alberto Pimentel, de que do poeta veiu o
+ nome á rua.»
+
+ A hypothese, formulada em 1889, é hoje uma these documentada.
+
+
+
+
+II
+
+
+Eu conjecturei em 1889 que--Chiado--era alcunha popular e nao appellido
+de familia. Hoje possuo provas de ter havido no districto de Evora,
+d'onde o poeta era natural, uma familia de appellido Chiado, anterior ao
+poeta.
+
+Bem pode ser que o appellido proviesse de alcunha, no sentido em que a
+tomei[5], o que muitas vezes acontece. Mas não ha duvida que já no
+seculo XV existiam Chiados no baixo Alemtejo.
+
+ [5] _Ver Obras do poeta Chiado_, pag. XXVIII a XXX.
+
+Perante D. João II queixaram-se João Lopes Chiado e Francisco Lopes
+Chiado, ambos eborenses e irmãos, contra a perseguição judicial que lhes
+moviam Ayres Gamito e Gonçalo d'Elvas, serviçaes d'el-rei.
+
+Por carta regia, datada de Evora, D. João mandou annullar-lhes a culpa
+deixando-os illibados[6].
+
+ [6] Archivo Nacional. Chancellaria de D. João II, liv. 17, fl. 89,
+ v.
+
+No seculo XVI havia em Montemor-o-Novo um Antonio Fernandes Chiado,
+homem muito pobre, a quem D. João III perdoou o delicto (em 11 de
+setembro de 1553) de ter caçado perdizes com boiz, contra o que
+dispunham as Ordenações[7].
+
+ [7] Archivo Nacional. D. João III. Perdões e legitimações, liv, 19,
+ fl. 398, v.
+
+Mas nenhuma d'estas noticias vale tanto como a de ter existido ao tempo
+do poeta, no anno de 1567, em Lisboa, uma Catharina Dias, «dona viuva»,
+mulher que foi de Gaspar Dias o Chiado, a qual residia «na rua Direita
+da Porta de Santa Catharina.»
+
+Colhi esta noticia n'um documento authentico[8].
+
+ [8] Archivo Nacional. _Collegiada de São Julião de Lisboa_, maço
+ unico n^o 14. Instrumento lacerado no fim. Transcrevemos apenas o
+ começo, por ser a parte que mais nos interessa:
+
+«Em nome de deus amem sajbam quãtos este estromento de emnouacão de
+prazo e nouo emprazamento vyrem que no Anno do nascymento de nosso
+senhor Jesus Christo de myll e quinhentos e sesemta e sete Aos tres dias
+do mes de Junho na cydade de llixboa demtro da parochiall Igreya de sam
+Gjão estãdo ahy de presente o senhores lljonardo nardez de cyxo (sic)
+prior da dita Igreya e guomcallo diaz e Jorge Rebejro e pedro ortyz e
+ffrancisquo de lhãnes beneffyciados em ella todos presentes e
+Imtaresemtes na dita ygreya e todos jumtos e cõgregados por som de
+campam tãgjda em cabido e cabydo ffazemdo ffazemdo (sic) especyallmente
+sobre o auto de que abayxo ffara memçam e todos de huã parte e da outra
+estamdo a esto presente cateryna diaz dona veuua molher que ffoy de
+gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja e ella vyue hora
+nesta cidade na Rua derejta da porta de samta cateryna e lloguo por
+elles senhores pryor e majs beneficiados ffoy dyto que amtre os majs
+bens e propriadades que A dita Sua Igreja pertemce e de que ella esta de
+pose como derejto senhoryo asy sam huas cassas que estão nesta cydade no
+topo da callcada de pay de nabays na Rua derejta da porta de samta
+cateryna as quoajs pessue hora como vtill senhoryo A dyta caterina diaz
+por as nomear em ellas por segunda pessoa o dito gaspar diaz chyado que
+nellas hera a primeira pessoa comfforme ao emprazameto que dellas lhe
+ffoy ffeyto por A dyta Igreya pryor e benefficiados della e pagua de
+fforo myl e trezemtos e cimquoenta reis em cada num Anno com galljnhas e
+tudo e com outras majs comdjcões e obrigações de seu comtrato, etc.»
+
+Ora ahi se diz textualmente a respeito d'aquella Catharina Dias: «molher
+que ffoy de gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja.»
+
+A falta de pontuação nos documentos antigos dá origem a muitas
+escuridades e equivocos. Assim, na phrase que deixamos transcripta,
+poderiam caber duas interpretações: que Gaspar Dias tinha a alcunha de
+Chiado ou tinha a alcunha de Vinhateiro. Mas a anteposição do artigo á
+palavra--Chiado--reforçaria por si mesma a hypothese de ser alcunha, se
+a não confirmasse plenamente esta passagem que se encontra no texto do
+documento:
+
+
+«Aos seys dias do mes de junho de myll e quynhemtos e sesemta e sete
+Annos na cydade de llixboa Rua derejta da porta de ssamta cateryna nas
+cassas de caterina diaz _A chiada dalcunha_ donna veuua etc.»
+
+
+Assim, pois, ficamos seguros de que o Gaspar Dias da rua Direita da
+Porta de Santa Catharina não tinha o appellido de Chiado, como alguns
+individuos do Alemtejo, mas sim a alcunha, e de que exercia a profissão
+de «vinhateiro» por ser viticultor ou negociante de vinhos. Bem poderia
+succeder que os vendesse a retalho na propria casa de residencia,
+especie de estalagem talvez, onde admittisse hospedes.
+
+N'elle era, portanto, alcunha o que n'outros fôra appellido de familia;
+mas bem póde haver sido que a origem do appellido no Alemtejo proviesse
+primitivamente de uma alcunha.
+
+Quanto á significação da palavra _chiado_ não ha duvida. Na _Revista
+Lusitana_ VI, 79, encontra-se um estudo intitulado--Dialecto
+indo-português de Gôa--, auctor monsenhor Sebastião Rodolpho Dalgado
+(_sic_), no qual estudo se lê: «_Chiado_, astuto, ladino. «Não é porque
+eu seja mais chiado, mais astuto do que os outros». Do k., sansk
+_chhadmin_.» Mas, sem recorrermos ao concani, o nosso verbo «chiar» e o
+seu participio podem dar ideia de um sujeito de «ruidosa» reputação como
+bargante e dizidor. No Brazil o nome--Camões--tomou a accepção popular
+de--cego de um olho; e até me informam--ó sacrilegio!--que lá se diz,
+por exemplo, «um cavallo camões». O povo tem um grande instincto de
+generalisação: certos individuos seriam--chiados--por se assimilharem
+moralmente. Da alcunha proviria talvez o appellido; mas não vale a pena
+insistir n'este ponto.
+
+O que faz ao nosso proposito é dizer que a Gaspar Dias fôram aforadas
+pela collegiada de S. Julião umas casas sitas «no topo da calçada de Pai
+de Nabaes na rua Direita da Porta de Santa Catharina» e que houve
+renovação do prazo no tempo da viuva, segundo ella requereu e obteve.
+
+A referida calçada é descripta em documentos antigos como sendo--de Payo
+de Novaes--Pai de Navaes ou--Pai de Nabaes[9].
+
+ [9] «Calçada de Payo de Novaes--Corre a dita Calçada ao principio
+ quasi norte sul e contem seu comprimento desde o Largo da Cruz do
+ Azulejo thé donde volta 173 p. e de Largura 16 p. e voltando corre
+ Leste oeste, e contem thé intestar com a rua do Chiado donde parte o
+ destricto do Bayrro 42 p. e de Largura pello leste 42 p. e pello
+ oeste 25 p.». _Tombo da Cidade de Lisboa, Livro 10, Rocio fl. 20._
+
+O _Mappa de Portugal_, III, 391, diz que a calçada de Payo de Novaes
+pertencia á freguezia de S. Nicolau.
+
+No livro 8 da _Extremadura_ lê-se, fl. 27: «na rua que vem da callçada
+que vem de pay de nauaaes pera o poço do chãao e parten (_as casas_) de
+hûa parte cõ a albergaria dos tanoeiros da outra cõ casas de S. Vicente
+de Fora etc. e da outra cõ casas dos banhos do espitall de dona maria de
+aboym etc. e com Rua pubrica». T em a data de 1467.
+
+Na _Lisboa antiga_, de Julio de Castilho, vol. VI, vem um fragmento da
+planta traçada por José Valentim, e ahi se póde vêr claramente qual era
+a situação da calçada de Pai de Nabaes em relação á rua Direita da Porta
+de Santa Catharina.
+
+[Ilustração: Planta do Chiado por José Valentim]
+
+Por este fragmento, que reproduzimos, reconhece-se que a calçada de Pai
+de Nabaes ficava ao fundo do Chiado actual, entalada entre o palacio do
+conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo, e que foi do predio
+ahi situado, onde residira Gaspar Dias, que se alastrou o nome de Chiado
+para um trecho apenas da rua Direita da Porta de Santa Catharina,
+conservando esta rua o seu antigo nome desde a Cordoaria Velha[10] até
+propriamente á porta de Santa Catharina, isto é, até ao Loreto moderno.
+
+ [10] A Cordoaria Velha correspondia á rua de S. Francisco, hoje rua
+ Ivens.
+
+Seria em casa de Catharina Dias a Chiada que o poeta Antonio Ribeiro se
+hospedou. Não podêmos admittir que fosse o marido d'ella que désse o
+nome á rua, a qual no tempo da viuva ainda tinha a designação antiga e
+total--de rua Direita da Porta de Santa Catharina.
+
+Pode ser que o poeta recebesse da propria casa de Pai de Nabaes, como
+seu hospede ou freguez, a alcunha de Chiado, tanto mais que esta alcunha
+lhe quadrava como astuto e ladino, e que elle, segundo uma accusação de
+Affonso Alvares, se dava a frequentar lojas de bebidas:
+
+ E tu queres ser rufião
+ e beber como francez.
+
+Pode ser que fosse parente, adherente ou intimo da viuva de Gaspar Dias,
+e que por parte do povo tambem houvesse malicia em dar ao commensal a
+alcunha que pertencêra ao marido.
+
+A tradição diz que o poeta morou n'aquella rua e, segundo a maior
+certeza possivel, parece poder agora ficar assente que foi elle, pela
+notoriedade de que gosou, devida a suas ribaldarias e veia comica, que
+deu o nome á rua.
+
+É menos admissivel a hypothese de que o poeta, por singular
+coincidencia, fosse um dos Chiados do Alemtejo, apesar de ter nascido no
+districto de Evora, onde, na cidade capital do districto e na villa de
+Montemor-o-Novo, existia aquelle appellido. No Alandroal, cêrca de seis
+leguas ao sul de Evora, ha um _monte_ (casa de habitação de uma herdade)
+que tem o nome de--Chiado[11]--e um logar chamado--Chiada. No districto
+de Faro (Algarve) tambem ha um logar com a denominação de--Chiado,--como
+se vê da _Chorographia_ de Baptista. Chiado é, pois, um vocabulo do sul.
+Mas tanto o poeta como seu irmão Jeronymo, tambem poeta, assignavam
+apenas o appellido--Ribeiro. O que me leva a crêr que Chiado fôra
+alcunha posta a Antonio Ribeiro, bem assente n'elle, que a merecia; e
+por ser alcunha a precediam de um artigo.
+
+ [11] Situado a dois kilometros da villa. Haverá um seculo pertenciam
+ este _monte_ e herdade a um individuo chamado Pedro Gonçalves.
+ Passando de paes a filhos, veio a propriedade a pertencer ao pai do
+ sr. Martins, do Redondo, actual proprietario.
+
+Em resumo: antes do poeta a rua não tinha o nome de Chiado[12].
+
+ [12] Fica, pois, documentalmente contradictada a opinião, tantas
+ vezes repetida, de que o poeta recebeu o nome da rua. Ainda
+ recentemente disse a _Encyclopedia portugueza illustrada_: «Indo
+ para Lisboa (o poeta), foi morar para o Chiado, e d'ahi o ser
+ conhecido por este nome.» É verdade que a mesma _Encyclopedia_
+ tambem diz que o Chiado escreveu varios autos, sendo conhecidos
+ dois: _Auto de Gonçalo Chambão_ e _Auto da natural invenção_.»
+ justamente estes dois é que ninguem tem podido vêr. Dos trez que
+ publiquei em 1889, não fala: esses então é que são os desconhecidos!
+
+
+
+
+III
+
+
+Já agora seja-me permittida uma divagação, que reputo interessante, a
+respeito do sitio do Chiado, que o nosso poeta tornou famoso.
+
+Eu disse que a calçada de Pai de Nabaes ficava entalada entre o palacio
+do conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo da Pedreira.
+
+«Da Pedreira», porque os alicerces d'este edificio foram assentes no
+alto da escarpa, que impendia em tempos remotos sobre um esteiro do
+Tejo, cidade dentro, e que ainda hoje se deixa adivinhar na enorme
+differença de nivel que ha entre o fundo do Chiado e a rua do Crucifixo.
+
+A egreja e hospital do Espirito Santo estão actualmente substituidos, no
+mesmo local, pelo moderno palacio da familia Barcellinhos.
+
+A egreja era muito antiga, pois que no anno de 1279 já tinha sido
+fundada.
+
+No seculo XVI foi reconstruida com donativos de el-rei D. Manoel e
+outros bemfeitores. Ficou o templo com trez naves, e tinha uma
+capella-mór artificiosamente lavrada, obra de muita estimação e riqueza.
+
+O padre Carvalho, na _Chorographia Portuguesa_[13], dá larga noticia
+d'esta egreja depois de reconstruida.
+
+ [13] Tomo III, pag. 445 e seguintes.
+
+Junto ao templo, e com serventia para elle, havia o hospital do Santo
+Espirito, que albergava permanentemente doze pessoas necessitadas, entre
+as quaes «dez mulheres donzellas ou donas viuvas de boa vida».
+
+A bem dizer, era mais um recolhimento do que um hospital.
+
+E assim foi até o anno de 1672, em que os padres da Congregação do
+Oratorio, que se tinham instituido alli perto, no sitio das Fangas da
+Farinha, á rua do Almada, tiveram auctorização para tomar conta do
+hospital do Santo Espirito, onde passaram a estabelecer-se dois annos
+depois.
+
+Alli permaneceram os oratorianos, tranquillos e contentes. Mas por
+occasião do terremoto de 1755 a egreja e convento arderam, perdendo-se
+os preciosos haveres d'aquelles padres. A congregação transferiu-se
+então para o convento das Necessidades, que é hoje palacio real.
+
+Ficaram apenas de pé as paredes dos dois edificios incendiados.
+
+No frontispicio da egreja havia grandes columnas de cantaria, que o
+leitor ainda hoje pode ver... aonde?
+
+Aonde? Não em outro templo, mas na fachada de um theatro, porque as
+pedras tambem teem seus fados. Estas transitaram, por caprichoso
+destino, do sagrado para o profano. Estão agora na frontaria do theatro
+de D. Maria II; são as mesmas columnas da egreja do Espirito Santo.
+
+O leitor não acreditaria esta noticia, se eu não pudesse comproval-a com
+um documento authentico.
+
+Mas posso. Ahi vai o documento, que, por ser curioso, não quero que
+fique esquecido entre os meus papeis velhos:
+
+
+«Ministerio do Reino--3.^a Repartição--Havendo Manuel José d'Oliveira,
+actual proprietario do edificio da supprimida Casa do Espirito Santo da
+Congregação do Oratorio, cedido as grandes columnas de cantaria e seus
+capiteis, que ornão o frontispicio d'aquella Igreja, para serem
+empregadas na fachada do novo theatro nacional, que se projecta fazer;
+com a condição de que não seja feito á sua custa o descimento e
+conducção das mesmas columnas: Manda Sua Magestade a Rainha, que o
+Conselheiro Fiscal das Obras Publicas faça preparar todo o apparelho
+necessario para aquelle descimento, combinando com o mencionado Manuel
+José d'Oliveira a occasião e dia em que elle deve ter logar; fazendo
+depois conduzir as ditas columnas e capiteis para o Arsenal da Marinha,
+onde achará as ordens necessarias para serem recolhidas e depositadas
+até que se lhes dê o indicado destino: devendo outrosim o mesmo
+Conselheiro Fiscal dar todas as providencias para que, tanto no acto do
+descimento, como no da conducção, não soffram o menor damno as columnas
+e particularmente os lavrados de seus capiteis. Palacio das Necessidades
+em 9 de janeiro de 1836. (assignado) _L. M. S. de Albuquerque_».
+
+
+Pois não é interessante o destino d'estas columnas?
+
+Procurei saber quando foi que entraram em deposito no Arsenal de
+Marinha, e quando sahiram de lá para o theatro.
+
+Metti de empenho o meu illustre amigo sr. conde de Paço d'Arcos, que
+gentilmente, como sempre costuma, se interessou pela minha solicitação.
+Fez-se a pergunta ao Arsenal. Passaram mezes. Não veiu resposta. Não era
+negocio de expediente ordinario; ficou para traz. Pois deixal-o ficar;
+eu é que vou andando para deante, já aborrecido de esperar.
+
+E agora tornemos ao nosso poeta.
+
+
+
+
+IV
+
+
+A popularidade de Antonio Ribeiro o Chiado proveiu não tanto da sua veia
+poetica, aliás muito apreciada pelos entendidos, como das suas repetidas
+tunantadas, de que o povo tinha directo conhecimento, porque as
+presenceava em plena rua.
+
+Era entre o povo, entre as classes humildes de que elle provinha, porque
+lá diz Affonso Alvares no proposito de deprimil-o
+
+ Nasceste de regateira
+ e teu pai lançava solas;
+
+era entre a arraya miuda que o Chiado localizava o theatro das suas
+façanhas picarescas, dos seus feitos esturdios, das suas «partidas» e
+«piadas», como hoje dizemos.
+
+Um códice do Archivo Nacional, de que só agora tive conhecimento, revela
+algumas das suas estroinices e chalaças, que não ficam a dever nada ás
+mais gaiatas e desbragadas de Bocage.
+
+O codice a que me refiro tem o n.^o 1817 e o titulo--_Diversas historias
+e ditos facetos a diversos propositos._
+
+É uma interessante collecção de anecdotas, que deve ser anterior ao anno
+de 1617 e pertenceu á livraria do mosteiro de S. Vicente.
+
+Vamos passar em revista as paginas que n'essa miscellanea dizem respeito
+ao Chiado; e, onde fôr preciso, lançaremos um véo por decencia sobre as
+anecdotas que entrarem no dominio da pornographia.
+
+É claro que a palavra--véo--não promette mais do que um anteparo
+diáphano.
+
+ * * * * *
+
+Quiz o poeta comprar a uma regateira um peixe de estimação.
+Offereceu-lhe apenas 7 réis e meio. Volveu-lhe a regateira por escarneo:
+
+--Tomal-o-heis com um trapo quente.
+
+N'esta resposta havia tanto desdem, que picou fundo o Chiado; certamente
+elle se teria doído menos de uma descompostura destemperada, como
+aquellas que as peixeiras de Lisboa não precisam ensaiar-se para
+desfechar na cara de toda a gente. Mas a ironia, o desprezo da réplica,
+abespinhou-o; suggeriu-lhe um plano de vingança, que logo poz em
+execução.
+
+Disfarçadamente aproximou-se do fogareiro de alguma assadeira de
+castanhas ou quejando mister. Aqueceu um trapo, o primeiro que se lhe
+deparou, e apossou-se violentamente do peixe, empregando o trapo na
+tomadia.
+
+Escarcéo da peixeira, que se dizia roubada. Agglomeração de povo, que
+ria do caso exaltando a astucia do Chiado. Appêllo dos dois contendores
+para a justiça, visto faltar ainda n'esse tempo o _bureau_ policial da
+Parreirinha.
+
+A varina fez a sua queixa. Chiado ponderou a circumstancia de se haver
+apoderado do peixe com um trapo quente, condição imposta pela peixeira.
+Decisão da justiça: que o poeta pagasse os 7 réis e meio que offerecera,
+e ficasse com o peixe, pois que a condição do trapo havia sido
+satisfeita, ficando salva a fé do contrato.
+
+ * * * * *
+
+Era o Chiado ainda frade franciscano--porque depois despiu o habito por
+indisciplina ou lh'o despiram por castigo--e começou a embirrar uma vez
+com o magro caldo de lentilhas, que lhe deram no refeitorio.
+
+Vai isto de accôrdo com a proverbial pobreza dos franciscanos.
+
+Remexendo no caldo, não encontrou mais que uma lentilha. Pareceu-lhe
+pouco nutritivo o singular, e começou a despir-se, como se quizesse
+atirar-se a um charco. Reprehenderam-n'o com estranheza. Elle explicou:
+que tinha visto apenas um legume no fundo da tigela e que o queria tomar
+de mergulho.
+
+ * * * * *
+
+D'outra vez--e aqui vai ser preciso o véo--apostou que em pleno Terreiro
+do Paço, entre um grupo de dez ou doze picões (arruadores) que alli
+estanceavam, era capaz de improvisar um _water closet_, sem que elles
+protestassem.
+
+Fingiu-se acossado pela justiça e, correndo direito aos faias (como hoje
+diriamos) pediu-lhes que fizessem roda para o livrar de ser preso.
+Cahiram no langará, elles, e cerraram-se em parede, de modo que o
+supposto fugitivo não pudesse ser visto. Passado algum tempo, o Chiado
+parte agradecendo, e só depois foi que, pelo olfacto ou pelos olhos, os
+logrados reconheceram o logro.
+
+ * * * * *
+
+Não havia aposta bréjeira que lhe não propozessem, e que elle não
+acceitasse.
+
+Se seria capaz de açoitar um vinagreiro que ia passando com dois ôdres
+sobre a mula? Que sim. Dito e feito. Acercou-se do vinagreiro e
+disse-lhe que desatasse um dos ôdres, pois queria provar o vinagre.
+Tomou um bochecho e fez cara de não achar bom. Exigiu provar do outro
+ôdre, segurando elle proprio no que já estava desatado. De repente finge
+vêr alguem ao longe ou querer acudir de prompto a qualquer incidente.
+Passa o ôdre ao vinagreiro, que ficou com um em cada mão, ambos
+desatados. E então começa a açoitar o pobre homem, que não poderia
+defender-se sem deixar perder o vinagre.
+
+ * * * * *
+
+Conchavou-se o Chiado com outros tunantes da força d'elle para
+engarampar um villão, que veiu a Lisboa comprar trigo. Disse-lhe que se
+queria trigo bom o não podia achar melhor que o de um seu irmão, em
+certa nau que estava á descarga; que fosse a bordo compral-o, mas que
+para não sujar o sombreiro e a capa lh'os deixasse alli no caes, onde o
+ficaria esperando. O villão pagou logo sete tostões pelo trigo, e deu a
+capa e o sombreiro a guardar. Foi a bordo, em cabello e corpo bem feito.
+Mas disseram-lhe lá que não tinham commissario em terra, e que só faziam
+negocio com dinheiro na palma da mão. Voltou o homem ao caes, e já não
+viu o Chiado; encontrou, porém, os outros guilhotes, os quaes lhe deram
+uma carta de quitação que o Chiado deixára para o parocho do basbaque,
+explicando tudo. Ora a carta dizia:
+
+ João Pires do Outeiro
+ Me deu a capa e o sombreiro,
+ Sete tostões em dinheiro,
+ E mais me dera
+ Se mais tivera.
+
+ * * * * *
+
+Não tendo que jantar um dia, lobrigou certo mancebo a comprar peixe na
+Ribeira. Chegou-se a elle, dizendo ser grande amigo de seu pai. Sob esta
+côr o convidou a jantar. Foram os dois, mano a mano, para o local que o
+Chiado indicou. Ahi, disse lhe que poizasse o peixe, que logo se
+cozinharia, e que fôsse buscar qualquer tempêro que faltava. Quando o
+ingénuo moço tornou, já não viu o Chiado nem o peixe.
+
+ * * * * *
+
+D'outra vez chamou um polhastro e industriou-o a fingir-se vendilhão,
+levando no fundo de uma panela excremento humano. O rapazola apregoava,
+como o Chiado lhe ensinou: «Quem merca isto?» Alguns curiosos queriam
+ver o que era para comprar. E, reconhecendo a mercadoria, diziam por
+claro o nome que se lhe dá. O polhastro respondia enfadado: «Pois não é
+outra cousa.»
+
+ * * * * *
+
+Vem agora uma anecdota geralmente attribuida a Bocage, mas que não póde
+ser sua, pois que o manuscripto d'onde a tomamos é anterior a 1617 e
+portanto quasi seculo e meio anterior ao nascimento de Bocage.
+
+Entraram ratoneiros em casa do Chiado, e levaram-lhe o melhor que tinha.
+Elle viu-os a tempo de poder gritar por soccorro; mas, em vez de bradar,
+poz ás costas o refugo que lhe deixaram e foi-os seguindo derreado sob a
+carga. Os gatunos, espantados, fizeram alto e perguntaram-lhe para onde
+ia. O Chiado respondeu tranquilamente: «Venho vêr para onde nos
+mudamos.» Com o que desarmou a audacia dos amigos do alheio que,
+rendidos á chalaça, lhe restituiram o bom que levavam.
+
+ * * * * *
+
+Quando alguem queria engendrar uma bréjeirice, ia ter com o Chiado, que
+era padre-mestre na materia.
+
+Por isso o consultaram certos vaganaus sobre a «partida» que deveriam
+fazer a um mulato fôrro que andava por Lisboa, e a quem tinham asca por
+ser valentão e soberbão.
+
+Aconselhou os o Chiado a que, logo que entrasse alguma nau ingleza, lhe
+dessem aviso.
+
+Chegou a occasião, veiu um navio inglez e o Chiado, fingindo-se fidalgo,
+foi a bordo com alguns d'aquelles tunantes, que dizia seus criados.
+
+Propoz ao capitão da nau que lhe comprasse um escravo mulato, que era
+robusto para o trabalho do mar, mas que não podia amansar em terra.
+
+Fez-se o ajuste, sob condição de que o escravo iria á mostra.
+
+Os outros picões levaram-n'o a bordo, e como agradasse aos inglezes,
+logo receberam d'elles o preço que fôra combinado.
+
+Protestou o mulato não ser captivo, mas não foi acreditado, visto
+terem-lhe posto fama de soberbão. Quiz reagir á viva força, mas
+lançaram-lhe ferros, visto saberem n'o valente. E teria ido mar em fóra,
+como escravo, se a justiça, informada da occorrencia, o não fosse
+libertar a bordo, obrigando os vaganaus a restituir o dinheiro recebido
+dos inglezes.
+
+Não houve mais nenhum outro procedimento da justiça contra o inventor e
+executores d'esta tunantada, que aos proprios magistrados pareceu
+graciosa.
+
+O Chiado sahiu incolume, porque foram os socios que pagaram por elle, e
+porque a justiça prohibiu ao mulato que tirasse qualquer desfórra.
+
+Palavras textuaes do manuscripto: «...com pena de morte ao negro, que
+sobre aquella graça com o Chiado não entendesse, pois fôra tão bem
+achada a graça.»
+
+Tal era a cotação da jocosidade do poeta, que até a justiça se lhe
+rendia; a natureza dera ao nosso bohemio todos os predicados de
+gracioso, incluindo a facilidade de imitar simultaneamente as vozes de
+muitas pessoas[14].
+
+ [14] «Parece que era ventriloquo, porque imitava ao mesmo tempo as
+ vozes de differentes pessoas.» _Dic. Popular_, vol. IV, pag 268.
+
+ * * * * *
+
+Tinha o Chiado em casa um pote onde fazia os despejos. Um dia lembrou-se
+de lhe pôr um tampão e embreal-o exteriormente no bocal e no bojo, de
+modo a parecer vasilha para exportar. Chamando depois quatro mariolas,
+encommendou-lhes que levassem aquelle pote de conservas á Ribeira, que o
+queria embarcar, e que esperassem lá por elle para lhes pagar o frete.
+
+Como o Chiado não tornasse a apparecer, foram os carrejões avisar a
+justiça e requerer que lhes entregasse o pote por indemnisação de seu
+trabalho.
+
+Sendo-lhes entregue como cousa perdida, destaparam-n'o «e mettendo a mão
+dentro--diz o manuscripto--acharam-se com a conserva que não imaginavam,
+e logo viram que fôra lanço do Chiado.»
+
+Logo viram que fôra lanço do Chiado: esta phrase testemunha quanto era
+fecunda e inventiva em chistes e logros a imaginação do famoso bohemio
+do seculo XVI.
+
+Conheciam-n'o pelo dedo--como gigantesco entre os mais preeminentes
+foliões do seu tempo.
+
+ * * * * *
+
+Para concluir o extracto do manuscripto, que nos fornece todas estas
+anecdotas, resta dizer que passando o Chiado pela porta da Sé viu um
+grupo de muchachos e, dando-lhes attenção, ouviu-os dizer:
+
+--Eu tomára ser bispo.
+
+--Eu tomára ser pápa.
+
+--Eu tomára ser rei.
+
+O Chiado, acercando-se d'elles, interpellou-os dizendo:
+
+--E sabeis vós o que eu tomára ser?
+
+--?...
+
+--Tomára ser melão para me beijardes... no sitio em que se beijam os
+melões.
+
+Com a differença que elle falou mais claro do que eu.
+
+ * * * * *
+
+Aqui terminam os elementos anecdoticos fornecidos pelo manuscripto para
+a reconstituição da biographia picaresca do poeta Chiado.
+
+Mas estes, que já não são poucos, bastam a egualar o Chiado com Bocage
+em materia de bréjeirices e tunantarias.
+
+
+
+
+V
+
+
+Entre as producções literarias de Chiado, que eu não pude encontrar em
+1889, havia uma, que, pouco tempo depois, veiu casualmente ao meu
+encontro.
+
+Era aquella que o abbade Barbosa designa d'este modo na _Bibliotheca
+Lusitana_:
+
+
+«Carta que escreveu de Lisboa a Coimbra da entrada do bispo D. João
+Soares, em Lisboa, quando foi á raia pela princeza. É jocosa, e se
+conservava na bibliotheca do cardeal de Sousa».
+
+
+Achei-a em copia n'uma miscellanea, que pertenceu ao convento da Graça,
+de Lisboa, e que eu comprei ao Rodrigues do Pote das Almas por dez
+tostões. Se exceptuarmos a carta de Chiado, a miscellanea vale pouco.
+Mas eu, folheando-a, li o titulo da carta, passei-a rapidamente pela
+vista, reconheci que o texto concordava com o titulo, e adquiri logo o
+livro, que o Rodrigues teria vendido mais caro se pudesse adivinhar a
+rasão por que eu o comprava.
+
+D'isso era elle capaz, Deus lhe fale na alma.
+
+Antes de transcrever a carta que o Chiado escreveu a um seu amigo de
+Coimbra, preciso esclarecer o leitor sobre o assumpto que a inspirou e o
+momento em que foi escripta.
+
+O mallogrado principe D. João, filho de D. João III, desposou sua prima
+a linda princeza D. Joanna de Castella, que veiu a ser mãe de D.
+Sebastião o _Desejado_.
+
+A princeza entrou em Portugal no fim de novembro de 1553[15].
+
+ [15] Francisco de Andrade diz que foi em 1552; Pedro de Mariz que
+ foi em 1554. Mas a carta de Chiado, que merece fé por ser um
+ documento da epoca, fixa o anno de 1553.
+
+El-rei mandou que fossem buscal-a á fronteira D. João de Lencastre,
+duque de Aveiro, e o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, os quaes se
+fizeram acompanhar de pessoas de categoria, entre as quaes D. Affonso de
+Lencastre e D. Luiz de Lencastre, irmãos do duque de Aveiro.
+
+Na fronteira, D. Diogo Lopes Pacheco, duque de Escalona, e D. Pedro da
+Costa, bispo de Osma, fizeram entrega da princeza aos embaixadores
+portuguezes.
+
+D. Joanna entrou por Elvas, e d'ahi, após breve demora, seguiu em
+jornadas até ao Barreiro, onde D. João III a foi esperar para
+acompanhal-a a Lisboa.
+
+O professor Manuel Bento de Sousa poz em relevo a fatalidade pathologica
+que desde o berço condemnou D. Sebastião aos desatinos que veiu a
+praticar em detrimento e ruina do paiz.
+
+
+«D. Sebastião, diz o illustre e fallecido professor, é pela mãe neto de
+um epileptico[16], e a accumulação da hereditariedade morbida
+verificou-se sem perturbação.
+
+«Sua mãe é filha de epileptico e neta de doidos[17], sua avó é irmã do
+mesmo epileptico e filha dos mesmos doidos, sua bisavó é irmã e filha do
+mesmo epileptico e dos mesmos doidos. Seu avô, por consequencia, é neto
+de doidos, e seu pae é bisneto dos mesmos doidos.
+
+«Como exemplo de nevropathia accumulada por herança não ha melhor[18]!»
+
+ [16] O imperador Carlos V.
+
+ [17] Joanna _a Doida_ e Filippe I, leviano, perdulario, incapaz de
+ governar.
+
+ [18] _O Doutor Minerva_, pag. 198.
+
+
+Sobre a inconveniencia physiologica dos casamentos consanguineos,
+repetidos de geração em geração entre as casas reaes de Portugal e
+Hespanha, vieram accumular-se, pelo enlace do principe D. João com a
+princeza D. Joanna, as taras hereditarias da epilepsia e da loucura que
+os dois desposados, primos co-irmãos, tinham recebido dos seus proximos
+ascendentes communs.
+
+A mãe de D. Sebastião deu provas de uma exaltada hysteria, com
+allucinações pavorosas, durante o periodo da gravidez.
+
+Este casamento precipitou a morte do principe D. João e aggravou as
+taras da princeza D. Joanna.
+
+Eram duas creanças, ella de 18 annos[19] elle de 16[20], doentes dos
+mesmos vicios constitucionaes, e apaixonados um pelo outro. Não
+conheceram limites ás suas relações amorosas, entregaram-se a uma
+«demasiada communicação» dilacerando-se carinhosamente em extremos de
+prazer insaciavel.
+
+ [19] D. Joanna tinha nascido a 23 de junho de 1535.
+
+ [20] D. João nasceu em Evora a 3 de junho de 1537.
+
+O principe ardia n'um fogo de voluptuosidade, que o devorou
+prematuramente. Foi preciso separal-o da princeza, mas já era tarde.
+Estava perdido na flor dos annos.
+
+Os medicos d'aquella epocha classificaram a doença de--paixão hebetica.
+Os chronistas explicam que o enfermo sentia uma sêde devoradora; e D.
+Manuel de Menezes, na chronica que lhe é attribuida, filia esse
+phenomeno pathologico no desregramento dos prazeres carnaes.
+
+Ora o hebetismo--segundo a medicina do nosso tempo--é um estado morbido,
+que inutiliza as faculdades intellectuaes, sem comtudo inutilizar a
+acção dos sentidos: uma especie de embrutecimento devido a commoção
+cerebral[21].
+
+ [21] _Dict. de medicine_, segundo o plano de Nysten, refundido por
+ Littré e Robin.
+
+Assim devia ser, pois que o principe D. João precipitára a crise dos
+seus males hereditarios com um exgotamento nervoso.
+
+Mas a--sêde devoradora--_polydipsia_, é um symptoma da diabetes
+saccharina, que anda muitas vezes ligada ás nevroses e, principalmente,
+á epilepsia.
+
+Não repugna acreditar que a sêde exagerada e continua, que abrazava o
+principe, derivasse d'esse conjuncto pathologico recebido por herança e
+aggravado por excessos.
+
+E que os chronistas não empregavam a palavra sêde em sentido figurado,
+vê-se d'estas palavras da chronica attribuida a D. Manuel de Menezes:
+«mas elle (o principe) perseguido da sêde levantou-se uma manhã da cama
+a beber agua da chuva, que achou empoçada ao pé de uma janella, por
+descuido dos que lhe assistiam, que então o deixaram só, e sendo muita,
+e choca, fez-lhe muito mais mal, e logo empeiorou, e morreu no dia
+seguinte».
+
+A princeza, excitada pelas sensações amorosas e pelos sobresaltos da
+gravidez, redobrou de hysterismos, teve allucinadas visões, pavores
+imaginarios, de que ficou noticia.
+
+Na véspera do principe cahir doente, estando elle a dormir, julgou ella
+vêr, á luz da tocha que allumiava a camara conjugal, surgir uma figura
+de mulher vestida de luto, com larga touca, a qual mulher, crescendo em
+vulto, ameaçadora, fez estrincar os dedos e, após um assopro que parecia
+o halito quente d'uma féra, desappareceu.
+
+A princeza ficou n'uma grande perturbação de terror, julgando verdadeira
+a visão, e interpretou-a no sentido de que o assopro annunciava que
+todas as suas esperanças haviam de desfazer-se em vento.
+
+Quanto ao trinco com os dedos não interpretou coisa nenhuma ou as
+chronicas o não dizem.
+
+Tendo fallecido o principe D. João[22] sem que a princeza o soubesse ao
+certo, posto o suspeitasse, e já nas vésperas do parto, as damas que
+acompanhavam D. Joanna quizeram leval-a a espairecer na Varanda da
+Pella, do Paço da Ribeira,
+
+ [22] O principe falleceu em terça feira 2 de janeiro de 1554,
+ dezoito dias antes do parto da princeza.
+
+O palacio dos pricipes era o de Alvaro Peres de Andrade, junto ao Arco
+dos Pregos, mas communicava interiormente com o palacio real.
+
+A princeza, profundamente abatida, deixou-se conduzir. A noite e o
+silencio favoreceram ainda d'esta vez o terror, sempre contagioso,
+mórmente entre as impressionaveis damas, que os tristes acontecimentos
+da côrte traziam sobresaltadas.
+
+Bastaria, portanto, que a princeza tivesse uma visão, para que logo
+fossem egualmente suggestionadas as suas damas, portuguezas e
+castelhanas.
+
+Assim, pois, todas julgaram vêr sahir pela Varanda d'El-rei, direitos ao
+Forte[23], muitos homens vestidos á moirisca, com fatos de variegadas
+cores, agitando tochas accêsas e soltando repetidas vozes de--_Ly, ly,
+ly_. Eira uma especie de dança macabra, em que os moiros revoluteavam,
+despedindo clarões e gritos; e quando a chorea, percorrendo a Varanda,
+chegava ao Forte, os moiros precipitavam-se ao Tejo, deixando no
+silencio da noite uma atmosphera soturna de terror e mysterio.
+
+ [23] O Forte, nome que depois conservou o torreão mandado construir
+ por Filippe II, rematava sobre o Tejo, uma vasta galeria com
+ terraço, a meio do qual se erguia uma torre ameiada.
+
+As damas fizeram decerto alarma. Acudiria gente do Paço, que não soube
+explicar a apparição sinistra dos moiros. Reconheceu-se que as portas
+estavam fechadas; que o ingresso de estranhos era impossivel. Então
+cresceria o pavor, e com elle a predisposição para repetir-se a
+visualidade no mesmo local e nas mesmas condições.
+
+Foi o que aconteceu. Poucos dias depois tornou a princeza á Varanda da
+Pella, fez algum exercicio passeiando; depois sentou-se a uma das
+janellas e então se lhe renovou a visão dos moiros, com os mesmos
+trajes, as mesmas tochas, os mesmos gritos--na mesma farandola sinistra.
+
+A princeza e as suas damas fugiram espavoridas sob a mesma suggestão,
+pelo contagio do terror. Todas «tinham visto» segunda vez os moiros.
+Lembra-nos, por analogia, um facto que Renan refere nos _Apostolos_.
+Entre os protestantes perseguidos correu voz de que, nas ruinas de um
+templo destruido recentemente, se ouviam psalmos cantados pelos anjos;
+tanto bastou para que todos os protestantes que se aproximavam
+d'aquellas ruinas, ouvissem os psalmos.
+
+O rei e a rainha, informados do que se passava, recommendaram segredo.
+
+Convinha não excitar mais a superstição popular, que já estava muito
+exaltada por varios factos anteriores, taes como o desacato praticado
+por um inglez, logo depois do casamento do principe na capella do Paço;
+e a apparição de um meteóro luminoso que todas as noites era visivel em
+Lisboa, quasi em cima da Sé, e parecia tomar a fórma de um athaúde.
+
+Dos nove filhos legitimos de D. João III ficára apenas um, o principe D.
+João, e o povo já sabia que elle tinha morrido tambem, posto se
+occultasse a sua morte.
+
+Se o parto da princeza se mallograsse, acabar-se-ia a successão directa.
+Portugal perderia a sua independencia, não porque el-rei não tivesse
+irmãos, que poderiam succeder-lhe no throno, mas porque pelo contrato de
+casamento da princeza D. Maria, filha de D. João III, com Filippe II, a
+corôa portugueza passaria para D. Carlos, filho d'aquella princeza.
+
+Por isso o povo, cuidadoso de ver garantida a independencia do reino,
+«desejava» que a princeza D. Joanna desse á luz um filho varão.
+
+O arcebispo de Lisboa ordenára uma procissão de préces, que se
+effectuaria logo que a princeza começasse a sentir as dores do parto.
+
+Pela meia noite de 19 a 20 de janeiro[24] de 1554, quando os sinos dos
+conventos tocavam a matinas, houve rebate de que a princeza
+experimentava os primeiros symptomas do parto. Logo se organizou a
+procissão, que sahiu da Sé para S. Domingos. Rompia a manhã quando a
+procissão ia recolhendo á Sé e então se espalhou «a nova feliz de ter
+nascido o _desejado_[25].»
+
+ [24] Dia de S. Sebastião, motivo por que recebeu este nome o
+ herdeiro da coroa.
+
+ [25] _Portugal cuidadoso e lastimado_, pag. 2.
+
+Desejado foi em verdade D. Sebastião, e duas vezes o foi, antes de ter
+nascido e depois de ter morrido.
+
+Em taes circunstancias, o nascimento do herdeiro da corôa teve a
+importancia de um acontecimento nacional, que profundamente interessou a
+alma popular. Não foi apenas um regosijo privativo da familia real ou da
+côrte, como acontece sempre que nasce «mais um» principe. Aquelle que
+tinha nascido era «o unico» fiador possivel da autonomia de Portugal:
+por isso tal acontecimento poz em jogo o brio, o orgulho, o amor patrio
+de todos os portuguezes.
+
+Antes do parto, organizam-se devoções propiciatorias, em que o povo se
+mistura com o alto clero, fundindo suas preces.
+
+Em Santarem até as creanças effectuam procissões nocturnas, piedosa
+pratica infantil, que foi muito nossa, e que apparecia sempre nas
+grandes crises nacionaes, revestindo um gracioso caracter de ingenuidade
+religiosa e de fé simples.
+
+Eram procissões minusculas, com pequenos andores, pequenas lanternas,
+sendo o prestito constituido por homensinhos lilliputianos, rapazes da
+rua, creanças do povo, que iam entoando ladainhas e psalmos numa
+unisonancia de vozes ainda debeis e esganiçadas.
+
+É peculiar á infancia o espirito de imitação, maiormente entre as
+classes populares. Nos filhos do povo encontram sempre écco os
+acontecimentos que tomam maior relevo na vida da nação. Dir-se-ia que
+por viverem na rua são mais depressa sacudidos pela opinião publica do
+que os filhos dos nobres. Por isso são as creanças da arraya miuda que
+propagam, inconscientemente, as canções politicas, os hymnos
+revolucionarios, e que muitas vezes se encarregam de fazer a critica e
+inventar a parodia dos negocios do Estado e dos mais ruidosos conflictos
+da administração publica.
+
+As procissões infantis duraram seculos. Viram-n'as os contemporaneos de
+D. João III. Viu-as Filinto Elysio, que nos descreve uma que todos os
+annos, pela quaresma, vinha da Ajuda exhibir nas ruas de Lisboa muitos
+«Senhorsinhos dos Passos» allumiados com rolinhos de cêra. Vi-as ainda
+eu na minha infancia, que passei n'aquella devota, patriotica e antiga
+cidade do Porto.
+
+Foi bom termos tido occasião de falar do povo, pois que tomando por
+assumpto uma celebridade das ruas, como era o poeta Chiado, já se ia
+alongando de mais a narrativa sobre a vida da côrte, sem pausa nem
+fôlego, que désse tempo a pensar em quem vegeta no infimo grau da escala
+social--tal como no fundo de um poço escuro o musgo rasteiro.
+
+Podemos agora tornar á côrte. D. João III, para não lançar maior
+perturbação nos espiritos, já muito apprehensivos e agitados, ordenou,
+pois, que se não divulgasse a visão da princeza na Varanda da Pella.
+
+El-rei, receioso do futuro, sentia o peso de todas as suas
+responsabilidades politicas, que eram enormes desde que, por um
+imprudente contrato de casamento, a independencia do reino ficava
+suspensa do nascimento de um successor varão.
+
+Mas o que D. João III não podia prohibir era que a princeza D. Joanna
+continuasse a ter visões, que aliás se repetiram.
+
+Uma noite, na sua camara, tornou a princeza a vêr os moiros, que
+entravam e sahiam em tropel. Cahiu logo desmaiada no regaço de uma dama,
+e nem essa nem as outras receberam a suggestão, porque a princeza não
+teve tempo de falar.
+
+Pareceu a todas que apenas seria uma syncope propria da gravidez; mas
+depois, explicado o caso, apurou-se que ainda mais uma vez tinham
+«apparecido» os moiros.
+
+A crença popular relaciona sempre o maravilhoso com a vida das altas
+personagens e a realização dos grandes acontecimentos historicos. É um
+fundo de superstição commum a todos os povos. Assim, entre nós,
+encontrou-se uma relação sobrenatural entre a visão dos moiros e a
+derrota de D. Sebastião em Alcacerquibir.
+
+Que a princeza D. Joanna tivesse allucinações e visualidades pavorosas,
+cabalmente o pode explicar a medicina; que os phantasmas que ella
+julgava ver, fossem moiros, basta que o diga a lenda, urdida _a
+posteriore_, depois da perda de D. Sebastião em Africa.
+
+De outras visões falam ainda as chronicas, todas n'um sentido lugubre e
+presago, como era proprio do estado morbido da princeza e das suas
+condições physiologicas.
+
+Accordava de noite em sobresalto, queixando-se de não ver nada, de ter
+ouvido estrondos mysteriosos, vozes afflictivas, taes como suspiros
+maguados, gemidos cortantes.
+
+No leito de dois doentes foi gerado um filho doentissimo, cuja cabeça,
+por desgraça nossa, havia de cingir a corôa de Portugal.
+
+Depois do parto, o hysterismo da princeza tornou-se essencialmente
+mystico, tanto em Portugal como em Castella, para onde voltou.
+
+Contribuiram para esta evolução, aliás naturalissima em taes
+circumstancias, as relações de D. Joanna com o padre Francisco de Borja,
+primeiro em Lisboa, depois em Madrid. Essas relações, por demasiado
+assiduas, chegaram a tornar-se suspeitas; e Francisco de Borja, que se
+retirou para Portugal quando a suspeição cresceu, teve de procurar
+justificar-se n'uma carta que, em 1561, dirigiu do Porto a Filippe II.
+
+D. Joanna fundou em Madrid um convento á imitação do da Madre de Deus,
+de Lisboa[26]; é o das _Descalzas Reales_, cuja historia Ricardo
+Sepulveda traçou n'um dos capitulos da sua interessante obra _Madrid
+viejo_.
+
+ [26] _Hist. Gen._, t. III, pag. 559
+
+Tal foi a princeza que o bispo de Coimbra D. Fr. João Soares e o duque
+de Aveiro foram receber á fronteira do Alemtejo, quando ella veiu
+desposar o mallogrado principe D. João[27].
+
+ [27] D. Joanna morreu com 38 annos, no Escorial, a 7 de setembro de
+ 1573.
+
+
+
+
+VI
+
+
+Por que foi que D. João III escolheu, entre todos os prelados
+portuguezes, o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, para ir á fronteira
+esperar a princeza?
+
+Houve, para isso, razões especiaes.
+
+Frei João, religioso eremita de Santo Agostinho e varão distincto em
+letras, tinha sido mestre do herdeiro da corôa e de seu irmão D.
+Filippe[28], alem de ser prégador e confessor de el-rei, o que bastaria
+a explicar a preferencia.
+
+ [28] D. Filippe foi o 6.^o filho de D. João III. Pela morte de seus
+ irmãos, chegou a ser jurado herdeiro do reino. Falleceu com seis
+ annos de edade.
+
+Das virtudes que a _Historia genealogica_[29] attribue a D. Frei João
+Soares, não se pode falar com tanta segurança como de suas letras;
+Alexandre Herculano[30], baseando-se n'umas instrucções de Paulo III,
+attribue lhe audacia e ambição; vida dissoluta; espirito de rebellião
+contra a Santa Sé.
+
+ [29] Tom. III, pag. 552.
+
+ [30] _Da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal._
+
+É verdade que os diocesanos de Coimbra o estimaram; que os pobres e os
+necessitados recebiam d'elle esmolas; que favoreceu a Misericordia
+d'aquella cidade; que doou á respectiva Sé muitos guisamentos, entre os
+quaes um valioso cális de oiro; e que na mesma Sé mandou construir a
+capella do Santissimo, de galante e excellente architectura[31].
+
+ [31] _Noticia historica e descriptiva da Sé Velha de Coimbra_, por
+ A. M. Simões de Castro.
+
+Toda a diocese o pranteou na morte, o que parece mostrar que era mais
+estimado em Coimbra do que em Roma.
+
+As instrucçóes de Paulo III, citadas por Herculano, tambem o dão como
+frade de poucas letras.
+
+Ora isto não é exacto. D Frei João Soares produziu obras varias[32], em
+que affirmou competencia doutrinaria e dicção gentil. Como prégador, se
+a principio não agradou em Portugal, porque discursava em castelhano
+muito cerrado, pois havia estudado em Salamanca, chegou depois, quando
+readquiriu o manejo da lingua portugueza, a ter grande fama e clientela.
+Não se pode exceder o elogio que lhe faz Frei Luiz de Souza: «Foi
+eminentissimo no ministerio do pulpito; tanto que os maiores pregadores
+do seu tempo lhe reconheciam a vantagem, e como a segundo Demosthenes o
+veneravam[33].»
+
+ [32] Veja-se _Dicc. Bib._, de Innocencio, vol. IV, pag. 38, vol. X,
+ pag. 350.
+
+ [33] _Vida de D. Frei Bartholomeu dos Martyres_, liv. II, cap. XVII.
+
+Alem d'estes predicados literarios, possuia especial graça no dizer, dom
+natural que não seria o menos attractivo para lhe conquistar sympathias
+e facilidades na côrte.
+
+D. Frei João Soares nasceu em S. Miguel de Urró, concelho de Arrifana,
+hoje Penafiel. Parece que pertenceu a uma familia illustre, pois que
+elle algumas vezes assignou tambem o appellido Albergaria.
+
+Foi deputado do Santo-Officio, e governou a diocese de Coimbra desde
+1545 até 1572; como prelado portuguez, assistiu ao concilio de Trento,
+onde o respeitaram como orador e theologo.
+
+Falleceu com 65 annos de edade a 26 de novembro de 1572. Por humildade
+quiz ser sepultado no chão, fóra da capella do Santissimo que mandára
+edificar.
+
+Se algum defeito toma maior vulto na individualidade d'este prelado, é o
+gosto pela ostentação.
+
+Conta Frei Luiz de Sousa que se apresentou no concilio de Trento com um
+fausto proprio de principe secular, fazendo-se representar com esplendor
+e magnificencia notaveis.
+
+
+«E porque se visse--diz o chronista dominicano--que fôra isto força do
+estado, mais que de animo vão, passada a occasião do Concilio se poz em
+caminho de Jerusalem recompensando com a moderação de peregrino
+voluntaria, as superfluidades de senhor forçadas.»
+
+
+Talvez que este procedimento fosse determinado por indicação ou censura
+da Santa Sé, a qual, como já vimos, não lhe era demasiadamente affecta.
+
+A tendencia do prelado conimbricense levava-o effectivamente para a
+ostentação.
+
+Na commissão que desempenhou com o duque de Aveiro, quando foi á raia de
+Castella buscar a princeza D. Joanna, já havia pompeado o mesmo
+esplendor e magnificencia que depois exhibiu no concilio de Trento.
+
+Um manuscripto de Pedro Alvares Nogueira, existente no cartorio do
+cabido de Coimbra, diz sobre o modo por que o bispo desempenhou aquella
+commissão: «Levou muita gente de cavallo mui bem concertada, no que
+gastou muito de sua renda».
+
+A _Chronica_ attribuida a D. Manuel de Menezes ainda é mais explicita
+quando diz:
+
+«Não menos adornado (que o duque de Aveiro) veiu o Reverendo Bispo D.
+Frei João Soares, com grande numero de cavalleiros, nobremente
+ataviados, conforme o seu estado; e a sua divisa, que trazia nos
+reposteiros eram suas Armas, e a letra que dizia: _Soli Deo honor et
+gloria_, e quer dizer: _A honra e gloria se dê somente a Deus._ E isto
+com muitas trombetas, e charamelas, e outros instrumentos, e cantores
+para o effeito de tão regia funcção, como convinha».
+
+O chronista Francisco de Andrade afina pelo mesmo diapasão, dizendo:
+
+
+«O bispo de Coimbra tambem por sua parte se apercebeu para esta jornada
+com o fausto e apparato, que se requeria para a honra d'este reino, para
+a auctoridade de sua pessoa, e para o grave negocio para que fôra
+eleito, porque ajuntou para o acompanhar muita e muito lustrosa gente de
+cavallo, e os que o acompanhavam a pé tambem iam da mesma maneira, e não
+lhe faltou então cousa alguma de quantas se uzam, e são importantes e
+necessarias nos negocios d'esta qualidade, sem perdoar por isso a
+grandes gastos e despesa».
+
+Apenas uma voz zombeteira se levantou para tirar effeitos comicos do
+apparato com que o bispo de Coimbra entrou em Lisboa quando se dirigia á
+raia de Castella.
+
+Apenas um carcaz despejou todas as suas settas, vibradas por adestrada
+mão, em menoscabo do cortejo que rodeiava o bispo de Coimbra, conde de
+Arganil, senhor de Coja, alcaide-mór de Avô.
+
+Essa voz foi a de Antonio Ribeiro, o Chiado, cuja carta sobre este
+assumpto lembra os artigos dos jornaes republicanos de hoje em dia
+quando procuram amesquinhar a pompa das festas monarchicas.
+
+N'aquelle tempo, não deixou de ser um acto de perigosa audacia a satyra
+com que o Chiado visou tão alta personagem como era o bispo de Coimbra,
+em occasião tão solemne para a côrte como era o casamento do principe
+herdeiro da corôa.
+
+Aggravado o bispo, el-rei o desagravaria contra quem quer que fosse, se
+elle se queixasse.
+
+Do valimento do prelado conimbricense junto de D. João III não ha que
+duvidar; bastava a justifical-o a sua qualidade de confessor d'el-rei, e
+não chega a ser preciso admittir, como se diz nas instrucções de Paulo
+III, que a pretexto da confissão obtivesse a solução de muitos negocios.
+
+Chiado era, porém, destemido como todos os bohemios e dizidores do seu
+tempo, incluindo o proprio Camões. E a fortuna ajuda os audazes... pelo
+menos algumas vezes. Não consta que Chiado fosse molestado por causa
+d'esta sua satyra em prosa, de que talvez o bispo nem chegasse a ter
+conhecimento.
+
+Simula o auctor escrever a um seu amigo de Coimbra, visto que lhe
+diz--«estas novas da entrada do vosso bispo.»
+
+É um artificio literario, para justificar a origem da satyra.
+Manifestamente, vindo o cortejo de Coimbra, não precisava ninguem
+d'aquella diocese que lhe dessem novas do modo como vinha organizado. Lá
+o saberiam perfeitamente ou perfeitamente o poderiam saber.
+
+Tambem, por outro artificio literario, diz o Chiado «que não viu a
+entrada do bispo em Lisboa». Mas tão minuciosamente a descreve que bem
+se reconhece ter sido testemunha presencial. D'este modo, abria uma
+valvula de segurança para o caso de lhe imporem a responsabilidade da
+satyra: teria feito obra por informações inexactas.
+
+Claramente se percebe que o Chiado viu a chegada do cortejo plantando-se
+entre a multidão em alguma rua do transito e chasqueando no meio de um
+grupo de clientes que lhe admiravam a veia sarcastica.
+
+A sua narração é a de um impressionista, que surprehendeu o espectaculo
+em flagrante.
+
+E tal homem como o Chiado não poderia estar calado nem indifferente por
+muito tempo, quando toda a população de Lisboa se alvoroçava para
+assistir a um acontecimento anormal, muito annunciado e não menos
+pomposo.
+
+A carta de Chiado é, segundo o moderno falar, uma _charge_; pertence aos
+dominios da caricatura escripta, que madrugou com os primeiros alvores
+da nossa literatura, antecipando-se alguns seculos á caricatura
+desenhada.
+
+Assim é que já no _Cancioneiro da Vaticana_ encontramos a seguinte
+chistosa caricatura de um cavalleiro da idade-média:
+
+ caval'agudo que semelha forom,
+ em cima d'el un velho selegon,
+ sem estrebeyras e con roto bardon,
+ nem porta loriga, nem porta lorigon,
+ nen geolheiras quaes de ferro son,
+ mays trax perponto roto sen algodon,
+ e cuberturas d'un velho zarelhon,
+ lança de pinh'e de bragal o pendon,
+ e chapel de ferro que x'i lhi mui mal pon;
+ e sobarçad' un velh' espadarron;
+ cuytel'a cachas, cintas sen forcilhom,
+ duas esporas destras, ca sestras non som,
+ maça de fusto que lhi pende do arçom.
+
+Etc.
+
+Este fragmento é o avô da caricatura portugueza nos dominios da
+literatura.
+
+Vamos vêr como Antonio Ribeiro o Chiado, navegando nas mesmas aguas,
+caricaturou ao correr da penna a entrada do bispo de Coimbra em Lisboa
+com todo o seu cortejo de pagens, escudeiros, varletes, azemolas,
+trombetas, atabales e charamelas.
+
+Diz o documento, tal como se me deparou na miscellanea, que pertenceu á
+livraria do convento da Graça:
+
+ Carta que o Chiado escreveu a um seu amigo da entrada do Bispo de
+ Coimbra em Lisboa, quando veio para ir pela Princeza a Castella que
+ é mãe d'El-Rei D. Sebastião.
+
+ _Quereis saber quanto póde a importunação, que muito contra minha
+ vontade vos escrevo estas novas da entrada do vosso bispo n'esta
+ cidade, só por cumprir com o que tanto me tendes rogado. Vêde-as em
+ nome de quem quizerdes, que eu não quero senão fallar comvosco._
+
+ _Deixarei sua estada no Lumiar, que durou tres dias, onde preparou e
+ proveu de sapatos, de pescoços[34] e atacas[35] toda a sua gente,
+ que vinham algum tanto damnificados do caminho._
+
+ [34] Como quem diz--gargantilhas
+
+ [35] Ligas, correias, etc.
+
+ _N'este tempo foi Sua Senhoria mais nomeado por Lisboa que assada
+ quente[36] e todos com olhos longos por sua entrada, a qual eu não
+ vi. Dizem que a 25 de outubro de 553 annos ás tres horas depois do
+ meio dia entrou o vosso bispo, o qual vinha na maneira seguinte,
+ todos de dous em dous, como cachos em redea[37], sómente as
+ azemolas, se o eram, vinham um cacho por redea:--Primeiramente vinha
+ deante de tudo um villão, por nome Amador Colaço, a quem a natureza
+ negou barbas, o qual foi moço de pé d'este bispo, que a ventura bem
+ casou nessa cidade, em cima de um rocim de meia sela, chapeu branco,
+ vestido preto com peças d'ouro em certos logares, que denunciam
+ festa, o qual, como se o villão do almocreve, desordenava, tornava
+ atraz e tirava o pé do estribo, que era um madeiro, e pegava-lhe,
+ cousa que lhe fazia mostrar as bragas que o capotim de côr traria
+ coberto de más linguas._
+
+ [36] Allusão ao pregão das castanhas assadas.
+
+ [37] Restea de uvas; isto é, reste de cachos de pendura (Moraes).
+ Reste, corda feita de peças trançadas; v. g. uma reste de alhos, de
+ cebolas, etc.
+
+ _Quarenta bestas vinham n'esta ordem, suas mataduras cobertas com
+ reposteiros que lá se fizeram. Já sabeis quejandos eram._
+
+ _No couce vinham duas escolhidas para aquella hora, que traziam cama
+ e cofre, acompanhadas de seis villãos, cada um com sua partezana nas
+ mãos, tão frouxos que os desarmariam sem gafas[38]; e logo no rabo
+ vinha um estribeiro, que o outro bispo creou, tão triste e
+ descontente que parecia que se arrependera do que accettara._
+
+ [38] Sem gafas, o mesmo que--sem esforço, nem violencia. Gafa era o
+ gancho com que se puxava a corda da bésta para armal-a.
+
+ _Nas costas d'estes todos vinham a procissão da gente, onde não
+ faltaram cavallinhos fuscos. Só o sagitario esqueceu._
+
+ _Vinha deante um molho de trombetas; em vez de virem vermelhas
+ vinham amarellas, e logo os atabaleiros que já não traziam braços._
+
+ _Os das charamelas, já sabeis que são pão de rala, não puderam mudar
+ cor. Como uns acabavam uns versos, outros começavam, sempre os
+ ouvidos tinham que fazer, como os olhos que vêr. As cavalgaduras
+ d'estes todos eram ossos sem posta de polpa._
+
+ _Detraz vinham trinta moços da camara, todos almagrados,[39] os
+ quaes parece que os comprou o bispo por junto e lhes deram as
+ encavalgaduras todas em cima, e de chapeus brancos, como romeiros, e
+ os mais delles com calças e sapatos, sem espadas, gente religiosa,
+ algum tanto no vestir castelhanos, porque quem levava luvas
+ faltavam-lhe as esporas._
+
+ [39] Pintados de almagre ou almagra; isto é, de vermelho.
+
+ _E logo na dita ordem vinham os coimbrãos tão tristes e
+ descontentes, que pareciam que perderam todos suas fazendas. Nomear
+ um por um será muita honra sua e canceira minha e enfadamento vosso;
+ basta que alguns d'elles traziam frenos[40] de ouro, mas mal pelas
+ mulheres que ficam sem arrecadas, todos em cavallos de tornas,
+ tirando o chanceller que vinha momo feito, outrosim pagem do
+ arremeção,[41] que não havia mais no sel'o.[42]_
+
+ [40] Freios.
+
+ [41] Talvez pagem da lança, porque arremessão (melhor graphia que
+ arremeção) significava, segundo o Dic. da Academia, qualquer arma
+ missiva ou de arremesso, como lança, dardo etc.
+
+ [42] Isto é, mais acabado e perfeito.
+
+ _Inofre Francisco vinha bem acompanhado e bem encavalgado, todos os
+ seus feitos rosmaninhos[43] e bem encavalgados. A todos pareceu bem;
+ só um senão lhe acharam, que não levava o ferro do arremeção
+ esfolado._
+
+ [43] Engalanados. Hoje diriamos--uns palmitos.
+
+ _O meirinho Gaspar Dias não se achava ahi sem vara, acompanhado de
+ dous beleguins, que lhe foram sempre fieis, um lhe trazia um
+ cabresto com que vinha silhado, o outro lhe trazia uma ferradura que
+ lhe cahiu no campo de Alvalade.[44]_
+
+ [44] O Campo Grande actual, com a differença de que n'aquelle tempo
+ era bosque silvestre, muito povoado de rouxinoes, como se vê da
+ _Ulysippo_ de Jorge Ferreira de Vasconcellos, quando diz (acto IV,
+ scen. 5.^a): «Vós estaveis mais namorado que um rouxinol de
+ Alvalade.»
+
+ Só no reinado de D. Maria I foi que o campo de Alvalade começou a
+ ser transformado em alameda publica.
+
+ _Os mais, que aqui não vão, traziam tanto que dizer que será nunca
+ acabar. Quando nos virmos ambos, então vos representarei a farça._
+
+ _Passado este chuveiro d'escudeiros tornou melhor dia, Arthur de Sá
+ e Francisco Pereira, seu irmão, honestos no trajo, confiados na
+ fidalguia. Mas então disseram que trazia Arthur de Sá feita a
+ petição do morgado, perguntando uns aos outros quanto renderia o
+ praso._
+
+ _E n'isto appareceu Dom João, Bispo Conde, tres pessoas, um só
+ frade, cercado de vinte e tantos villãos, que todos pareciam paes
+ d'orfãos de Jesus, desazados, barbas d'estrigas, todos molares, sem
+ vir entre elles nenhum só duvazio, vestidos em uns alqueceres[45]
+ brancos e azues, que lhes davam pelos artelhos. O mais que de S.
+ S.^a disseram, não direi eu por não pôr a mão em sagrado._
+
+ [45] Alquice ou alquicer, capa mourisca.
+
+ _Toda a outra clerezia vinha má com boa, como romãs de Castella,
+ esta ordem levaram todos pela Rua dos que padecem martyrio,[46]
+ levando nas unhas[47] o Rocio e toda a Rua Nova[48] até chegarem ao
+ Terreiro do Paço, donde muitos descavalgaram sem criados, ficando os
+ ginetes tão mansos, que nem as apupadas dos rapazes, nem o rumor da
+ gente teve poder para os fazer rinchar._
+
+ [46] Era a rua que, tomando se por ponto de referencia o Rocio,
+ conduzia ao Campo de Santa Barbara, então chamado _da Forca_
+ (_Lisboa antiga_, 2.^a parte, tomo V, pag. 65 e 78; tomo VI, pag. 65
+ e 68.) Não quero asseverar que correspondesse á actual rua direita
+ dos Anjos, porque o Campo da Forca era muito mais vasto então;
+ estendia se desde o sitio dos Anjos até ao actual largo de Arroyos.
+
+ [47] Ainda hoje dizemos «na ponta da unha» para designar a maxima
+ velocidade.
+
+ [48] A Rua Nova dos Ferros correspondia, approximadamente, á actual
+ rua dos Capellistas. Diz-se que foi mandada construir por el-rei D.
+ Diniz.
+
+ _El-Rei nosso senhor, com a Rainha e Principe, os esperavam na
+ varanda, onde lhes S. S.^a beijou as mãos e lhe fizeram arrazoado
+ agazalhado. Acabado elle os dous irmãos Sá Pereira fizeram outro
+ tanto e apoz estes, «cabeça em cu, que não fique nenhu». Alvaro
+ Mendes, contador da Universidade, foi por cá._
+
+ _Acabado o officio, tornou-se Sua Senhoria a seus paços, e ao descer
+ da escada encostado a um pagem, que dizem ser seu sobrinho, o qual
+ fez muito ruins mesuras, vinha caiado de novo, trazia umas pontinhas
+ de ouro no capello da capa d'onde nunca tirou o olho, que tão
+ recatado vinha da tezoura._
+
+ _Ao bispo tornaram a arripiar carreira algum tanto a procissão
+ desfeita, fazendo cada um caminho para suas pousadas, e de maneira
+ os enguliu Lisboa, que nunca mais appareceram nem fizeram mossa._
+
+ _Isto tudo passou na verdade, que m'o disseram homens de respeito.
+ Se mais quizerdes peitae lampreas[49], que os homens d'essa terra
+ n'isso desenfornam todos seus cumprimentos. Nosso Senhor vos dê
+ muita saude e vida e muito dinheiro, e vos livre d'estas trovoadas
+ que o tiram e gastam.»_
+
+ [49] Comprai-me, subornai-me com lampreas. Vê-se que sempre tiveram
+ grande fama as lampreas do rio Mondego; e que de Coimbra as mandavam
+ como mimo para outras terras do paiz. Era gentileza vulgar dos
+ conimbricenses. A lamprea cozinhada na famosa estalagem do Paço do
+ Conde foi, em nossos dias, um piteo muito celebrado por estudantes.
+
+Esta carta, que não pudemos encontrar em 1889, não completa ainda o
+espolio literario do Chiado, porque não tem sido possivel encontrar
+exemplares de outras especies, taes como o _Auto de Gonçalo Chambão_,
+que, segundo Barbosa, teve nada menos de trez edições.
+
+Mas constitue um achado, que reputei feliz, e que me deixou contente
+quando se me deparou n'uma epoca em que eu versava com enthusiasmo
+assumptos literarios.
+
+Se hoje dou a lume esta carta de Chiado, foi porque para esse effeito
+encontrei as maiores facilidades n'uma empreza editora, que se tem
+assignalado por bons serviços ás letras patrias.
+
+Não é que eu fie do exito d'esta monographia e fique imaginando que hão
+de acudir a compral-a numerosas legiões de leitores.
+
+Em Portugal só o romance francez tem procura no mercado.
+
+Qualquer outra especie literaria representa um desastre de livraria.
+
+Por haver chegado a esta convicção é que nunca pensei em fazer segunda
+edição das _Obras do poeta Chiado_, que bem podia ter sido enriquecida
+com a materia do presente opusculo e com varias correcções que me foram
+indicadas, sobre a difficil interpretação dos textos, pelos srs.
+visconde de Castilho, Antonio Francisco Barata e professor Epiphanio.
+
+Mas seria perder tempo, e o tempo é a vida. Esperdiçal-a era desatino.
+Poupemol-a.
+
+Estou n'este ponto de vista ha muito tempo.
+
+Lisboa, 9 de julho de 1901.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O poeta Chiado, by
+Alberto Augusto de Almeida Pimentel
+
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+people in all walks of life.
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+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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@@ -0,0 +1,2017 @@
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+Project Gutenberg's O poeta Chiado, by Alberto Augusto de Almeida Pimentel
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: O poeta Chiado
+ (Novas investigações sobre a sua vida e escriptos)
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+Author: Alberto Augusto de Almeida Pimentel
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+Release Date: September 4, 2007 [EBook #22509]
+
+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O POETA CHIADO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+
+<h1>O POETA CHIADO</h1>
+
+<div class="ficha_tecnica">
+<h3>ALBERTO PIMENTEL</h3>
+
+
+<h1>O POETA CHIADO</h1>
+
+
+<h4>(Novas investigações sobre a sua vida e escriptos)</h4>
+
+<div class="quote2">
+<div class="poesia">
+ Reverendo frei Chiado
+ de Virtude grande imigo,
+ sente tua alma comtigo
+ e verás se estas desculpado
+ d'isto que agora te digo.
+
+ AFFONSO ALVARES.
+</div>
+</div>
+
+<p class="centrado"><img src="images/logo.png" border="0" width="75" alt="Decoração de capítulo"/></p>
+
+<p class="centrado">LISBOA
+<br />
+Empreza da Historia de Portugal.
+<br />
+<i>Sociedade editora</i>
+<br />
+LIVRARIA MODERNA
+<br />
+<i>R. Augusta, 95</i>
+<br />
+TYPOGRAPHIA
+<br />
+<i>35, R. Ivens, 37</i>
+<br />
+1903</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 5</span>
+<p class="centrado"><img src="images/sep1.png" border="0" alt="Decoração de capítulo"/></p>
+
+
+
+
+<h2>I</h2>
+
+
+<p>As relações de amizade entre os vivos e os mortos são menos quebradiças
+e ephémeras do que as dos vivos uns com outros.</p>
+
+<p>E a razão é facil de explicar: quem vai, não volta.</p>
+
+<p>Os mortos não falam, não intrigam, não atraiçôam, não desmerecem, por
+isso, da estima e consideração em que uma vez os tomamos.</p>
+
+<p>Affeiçôa-se a gente a um escriptor, a um <i>maestro</i>, a um pintor ou a um
+estatuário, que morreu ha muitos annos ou ha longos seculos, e não
+deixamos apagar nunca a lampada do seu culto: colleccionamos-lhe as
+obras sem olhar a dinheiro, por mais raras que sejam; conservamol-as em
+grande veneração como thesouros que um avarento aferrolha a sete chaves;
+e estamos sempre promptos a combater de ponto em branco pela gloria e
+belleza <span class='pagenum'>Pág. 6</span> de suas producções, quando apparece algum zoilo a
+menosprezal-as com azedume.</p>
+
+<p>E se nas relações com os vivos fazemos selecção do caracter d'elles para
+estabelecer convivencia e amizade, pouco nos importa a condição e
+procedimento dos mortos quando os estimamos em suas creações artisticas
+ou literarias com intransigente fanatismo.</p>
+
+<p>O meu fallecido amigo visconde de Alemquer, que era um <i>gentleman</i>
+distinctissimo, primoroso em maneiras e acções, além de ser um
+biblióphilo digno de apreço e consulta, tomou tanto gosto pelas obras do
+padre José Agostinho de Macedo, que passou a maior parte da existencia a
+colleccional-as por bom preço e a muito custo.</p>
+
+<p>Comtudo, havia tanta disparidade entre o caracter de um e do outro,
+porque o auctor dos <i>Burros</i> foi o mais atrabiliario, inconstante e
+perigoso homem de letras de todo o nosso Portugal, que o visconde de
+Alemquer, se houvesse sido contemporaneo do padre José Agostinho, nunca
+teria podido ser seu amigo, nem seu defensor, nem jámais o quereria vêr
+em intimidade de portas a dentro.</p>
+
+<p>Pela minha parte, tambem sou obrigado a confessar um similhante fraco,
+não pelo mesmo padre, mas por outro que, sob o ponto de vista da
+disciplina monastica e da dignidade sacerdotal, não valia mais.
+Refiro-me ao franciscano Antonio Ribeiro o Chiado, que tambem despiu o
+habito e foi tunante irrequieto, sendo egualmente homem de letras.</p>
+
+<p>Até 1889, anno em que logrei dar a lume as suas obras, quasi perdidas, e
+geralmente desconhecidas<a href="#nota1"><sup class="footnote">[1]</sup></a>, <span class='pagenum'>Pág. 7</span> custou-me o Chiado bom trabalho e
+canceiras para resuscital-o aos olhos do grande publico em toda a sua
+individualidade literaria.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota1">[1]</a> <i>Obras do poeta Chiado</i>, colligidas, annotadas e prefaciadas por
+Alberto Pimentel. Na officina typographica da Empreza Literaria de
+Lisboa, calçada de S. Francisco, 1 a 7.</p> </div>
+
+<p>D'então para cá não deixei de pensar n'elle a investigar-lhe a
+biographia, que é das mais obscuras e complicadas, e a procurar aquellas
+de suas obras que até 1889 não consegui haver á mão por mais que as
+desejasse e buscasse.</p>
+
+<p>Alguma coisa achei n'este lapso de onze annos. Não é tudo ainda. Mas não
+perdi o tempo, nem parei, porque me repugna a inercia, e porque,
+verdade-verdade, tomei gosto ao Chiado, que não foi um vulto preeminente
+nas letras, mas que tem relevo como bohemio e dizedor, como trovista
+alegre e zombeteiro, farçante popularissimo, que a praça publica
+applaudia e que os escriptores mais notaveis não desconsideravam.</p>
+
+<p>Outros meus contemporaneos teem consagrado todo o seu tempo ao Chiado
+rua, e talvez esses se riam de mim, que prezo mais o literato do que o
+<i>Regent Street</i> alfacinha.</p>
+
+<p>Todavia, cumpre advertil-os de que a rua lembra o escriptor, e de que
+foi elle, como julgo poder demonstrar agora, que deu nome á rua.</p>
+
+<p>Eu já em 1889 pendia para esta opinião, comquanto, n'essa epocha, só
+houvesse encontrado vestigios de que a rua tinha aquella denominação no
+seculo XVIII.</p>
+
+<p>Depois d'isso, alguem lembrou que já era assim <span class='pagenum'>Pág. 8</span> chamada na
+primeira metade do seculo XVII (1634) como se reconheceu por um
+documento digno de fé<a href="#nota2"><sup class="footnote">[2]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota2">[2]</a> <i>Elementos para a historia do municipio de Lisboa</i>, tomo IV, pag.
+41. Ahi se vê que o conde de Atouguia morava «ao Chiado».</p> </div>
+
+<p>E eu proprio li, posteriormente, uma referencia mais antiga, porque é
+relativa á primeira década do mesmo seculo XVII: «Outras casas do bairro
+do Marquez ficavam situadas <i>ao Chiado</i>, quando se entra na rua Direita
+da Porta de Santa Catharina (1610)<a href="#nota3"><sup class="footnote">[3]</sup></a>»</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota3">[3]</a> Archivo Nacional. <i>Chancellaria de D. Filippe II</i>. livro XIX, fol.
+269.</p> </div>
+
+<p>Mas hoje cuido trazer prova convincente de que foi o poeta que, por
+consenso espontaneo do povo, deu o nome de Chiado á antiga rua da Porta
+de Santa Catharina ou a parte d'ella.</p>
+
+<p>O povo baptiza melhor do que a camara municipal, porque baptiza com mais
+acerto, quasi sempre com inteira razão de ser; por isso, nome que elle
+ponha, péga, fica, perdura.</p>
+
+<p>E, não obstante a camara municipal mudar em 1880 o nome á rua, de
+<i>Chiado</i> para <i>Garrett</i>, o povo não quiz saber de reviravoltas de
+letreiros nas esquinas: continua a chamar-lhe <i>Chiado</i>; <i>Chiado</i> é que
+é, porque o povo quer que seja assim.</p>
+
+<p>As novas descobertas que hoje tiro a lume sobre a vida azevieira do
+poeta Chiado, anecdotas passadas entre o povo e com o povo, das quaes
+resulta que elle foi um bohemio tão acabado e popular no seculo XVI como
+Bocage o veiu a ser no <span class='pagenum'>Pág. 9</span> seculo XVIII, essas novas descobertas,
+dizia eu, acodem a reforçar a prova, que em documentos colhi, de haver
+sido elle que celebrizou a rua em que morava e que por esse facto, sem
+que ninguem o decretasse, mas porque todos assentiram, ficou a alcunha
+do poeta tradicionalmente ligada á rua como um padrão de celebridade
+local<a href="#nota4"><sup class="footnote">[4]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota4">[4]</a> De todas as ruas de Lisboa o Chiado é a mais cantada e decantada.
+Na literatura, além de infinitas referencias, tem fornecido o titulo de
+algumas obras: <i>Do Chiado a Veneza</i> por Julio Cesar Machado (1867);
+<i>Viagens no Chiado</i> por Beldemonio (Ed. de Barros Lobo) 1857; <i>A
+campanha do Chiado</i>, scena comica; <i>Trez ao Chiado</i>, cançoneta. No
+principio do anno de 1868 começou a publicar-se em Lisboa um periodico
+com o titulo <i>O Chiado</i>, em formato grande e excellente papel. Teve
+ephémera existencia. No n<sup>o</sup> 5. correspondente a 6 de fevereiro, inseriu
+um artigo do sr. Brito Rebello sobre o poeta Chiado. D'esse artigo
+recortamos os seguintes periodos:</p>
+
+<p>«Mas d'onde lhe veiu a alcunha: Eis os eruditos em duvida. A opinião
+correntia até alguns annos era de que esta lhe proviera da rua onde
+habitava, que era a parte da subida desde o Espirito Santo, hoje palacio
+da casa de Barcellinhos, até á rua de S. Francisco (<i>Ivens</i>). Ha porém
+um contra: em monumento ou documento algum anterior ao seculo XVI, se
+encontra tal designação. É pois mais natural a hypothese do sr. Alberto
+Pimentel, de que do poeta veiu o nome á rua.»</p>
+
+<p>A hypothese, formulada em 1889, é hoje uma these documentada.</p> </div> <span class='pagenum'>Pág. 11</span>
+<p class="centrado"><img src="images/sep2.png" border="0" alt="Decoração de capítulo"/></p>
+
+
+
+
+<h2>II</h2>
+
+
+<p>Eu conjecturei em 1889 que--Chiado--era alcunha popular e nao appellido
+de familia. Hoje possuo provas de ter havido no districto de Evora,
+d'onde o poeta era natural, uma familia de appellido Chiado, anterior ao
+poeta.</p>
+
+<p>Bem pode ser que o appellido proviesse de alcunha, no sentido em que a
+tomei<a href="#nota5"><sup class="footnote">[5]</sup></a>, o que muitas vezes acontece. Mas não ha duvida que já no
+seculo XV existiam Chiados no baixo Alemtejo.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota5">[5]</a> <i>Ver Obras do poeta Chiado</i>, pag. XXVIII a XXX.</p> </div>
+
+<p>Perante D. João II queixaram-se João Lopes Chiado e Francisco Lopes
+Chiado, ambos eborenses e irmãos, contra a perseguição judicial que lhes
+moviam Ayres Gamito e Gonçalo d'Elvas, serviçaes d'el-rei.</p> <span class='pagenum'>Pág. 12</span>
+
+<p>Por carta regia, datada de Evora, D. João mandou annullar-lhes a culpa
+deixando-os illibados<a href="#nota6"><sup class="footnote">[6]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota6">[6]</a> Archivo Nacional. Chancellaria de D. João II, liv. 17, fl. 89, v.</p> </div>
+
+<p>No seculo XVI havia em Montemor-o-Novo um Antonio Fernandes Chiado,
+homem muito pobre, a quem D. João III perdoou o delicto (em 11 de
+setembro de 1553) de ter caçado perdizes com boiz, contra o que
+dispunham as Ordenações<a href="#nota7"><sup class="footnote">[7]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota7">[7]</a> Archivo Nacional. D. João III. Perdões e legitimações, liv, 19, fl.
+398, v.</p> </div>
+
+<p>Mas nenhuma d'estas noticias vale tanto como a de ter existido ao tempo
+do poeta, no anno de 1567, em Lisboa, uma Catharina Dias, «dona viuva»,
+mulher que foi de Gaspar Dias o Chiado, a qual residia «na rua Direita
+da Porta de Santa Catharina.»</p>
+
+<p>Colhi esta noticia n'um documento authentico<a href="#nota8"><sup class="footnote">[8]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota8">[8]</a> Archivo Nacional. <i>Collegiada de São Julião de Lisboa</i>, maço unico
+n<sup>o</sup> 14. Instrumento lacerado no fim. Transcrevemos apenas o começo, por
+ser a parte que mais nos interessa:</p>
+
+<p>«Em nome de deus amem sajbam quãtos este estromento de emnouacão de
+prazo e nouo emprazamento vyrem que no Anno do nascymento de nosso
+senhor Jesus Christo de myll e quinhentos e sesemta e sete Aos tres dias
+do mes de Junho na cydade de llixboa demtro da parochiall Igreya de sam
+Gjão estãdo ahy de presente o senhores lljonardo nardez de cyxo (sic)
+prior da dita Igreya e guomcallo diaz e Jorge Rebejro e pedro ortyz e
+ffrancisquo de lhãnes beneffyciados em ella todos presentes e
+Imtaresemtes na dita ygreya e todos jumtos e cõgregados por som de
+campam tãgjda em cabido e cabydo ffazemdo ffazemdo (sic) especyallmente
+sobre o auto de que abayxo ffara memçam e todos de huã parte e da outra
+estamdo a esto presente cateryna diaz dona veuua molher que ffoy de
+gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja e ella vyue hora
+nesta cidade na Rua derejta da porta de samta cateryna e lloguo por
+elles senhores pryor e majs beneficiados ffoy dyto que amtre os majs
+bens e propriadades que A dita Sua Igreja pertemce e de que ella esta de
+pose como derejto senhoryo asy sam huas cassas que estão nesta cydade no
+topo da callcada de pay de nabays na Rua derejta da porta de samta
+cateryna as quoajs pessue hora como vtill senhoryo A dyta caterina diaz
+por as nomear em ellas por segunda pessoa o dito gaspar diaz chyado que
+nellas hera a primeira pessoa comfforme ao emprazameto que dellas lhe
+ffoy ffeyto por A dyta Igreya pryor e benefficiados della e pagua de
+fforo myl e trezemtos e cimquoenta reis em cada num Anno com galljnhas e
+tudo e com outras majs comdjcões e obrigações de seu comtrato, etc.»</p> </div>
+
+<p>Ora ahi se diz textualmente a respeito d'aquella Catharina Dias: «molher
+que ffoy de gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja.»</p>
+
+<p>A falta de pontuação nos documentos antigos dá origem a muitas
+escuridades e equivocos. Assim, <span class='pagenum'>Pág. 13</span> na phrase que deixamos
+transcripta, poderiam caber duas interpretações: que Gaspar Dias tinha a
+alcunha de Chiado ou tinha a alcunha de Vinhateiro. Mas a anteposição do
+artigo á palavra--Chiado--reforçaria por si mesma a hypothese de ser
+alcunha, se a não confirmasse plenamente esta passagem que se encontra
+no texto do documento:</p>
+
+<br /> <p>«Aos seys dias do mes de junho de myll e quynhemtos e sesemta e sete
+Annos na cydade de llixboa Rua derejta da porta de ssamta cateryna nas
+cassas de caterina diaz <i>A chiada dalcunha</i> donna veuua etc.»</p>
+
+<br /> <p>Assim, pois, ficamos seguros de que o Gaspar Dias da rua Direita da
+Porta de Santa Catharina não tinha o appellido de Chiado, como alguns
+individuos do Alemtejo, mas sim a alcunha, e de que <span class='pagenum'>Pág. 14</span> exercia a
+profissão de «vinhateiro» por ser viticultor ou negociante de vinhos.
+Bem poderia succeder que os vendesse a retalho na propria casa de
+residencia, especie de estalagem talvez, onde admittisse hospedes.</p>
+
+<p>N'elle era, portanto, alcunha o que n'outros fôra appellido de familia;
+mas bem póde haver sido que a origem do appellido no Alemtejo proviesse
+primitivamente de uma alcunha.</p>
+
+<p>Quanto á significação da palavra <i>chiado</i> não ha duvida. Na <i>Revista
+Lusitana</i> VI, 79, encontra-se um estudo intitulado--Dialecto
+indo-português de Gôa--, auctor monsenhor Sebastião Rodolpho Dalgado
+(<i>sic</i>), no qual estudo se lê: «<i>Chiado</i>, astuto, ladino. «Não é porque
+eu seja mais chiado, mais astuto do que os outros». Do k., sansk
+<i>chhadmin</i>.» Mas, sem recorrermos ao concani, o nosso verbo «chiar» e o
+seu participio podem dar ideia de um sujeito de «ruidosa» reputação como
+bargante e dizidor. No Brazil o nome--Camões--tomou a accepção popular
+de--cego de um olho; e até me informam--ó sacrilegio!--que lá se diz,
+por exemplo, «um cavallo camões». O povo tem um grande instincto de
+generalisação: certos individuos seriam--chiados--por se assimilharem
+moralmente. Da alcunha proviria talvez o appellido; mas não vale a pena
+insistir n'este ponto.</p>
+
+<p>O que faz ao nosso proposito é dizer que a Gaspar Dias fôram aforadas
+pela collegiada de S. Julião umas casas sitas «no topo da calçada de Pai
+de Nabaes na rua Direita da Porta de Santa Catharina» e que houve
+renovação do prazo no tempo da viuva, segundo ella requereu e obteve.</p>
+
+<p>A referida calçada é descripta em documentos <span class='pagenum'>Pág. 15</span> antigos como
+sendo--de Payo de Novaes--Pai de Navaes ou--Pai de Nabaes<a href="#nota9"><sup class="footnote">[9]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota9">[9]</a> «Calçada de Payo de Novaes--Corre a dita Calçada ao principio quasi
+norte sul e contem seu comprimento desde o Largo da Cruz do Azulejo thé
+donde volta 173 p. e de Largura 16 p. e voltando corre Leste oeste, e
+contem thé intestar com a rua do Chiado donde parte o destricto do
+Bayrro 42 p. e de Largura pello leste 42 p. e pello oeste 25 p.». <i>Tombo
+da Cidade de Lisboa, Livro 10, Rocio fl. 20.</i></p>
+
+<p>O <i>Mappa de Portugal</i>, III, 391, diz que a calçada de Payo de Novaes
+pertencia á freguezia de S. Nicolau.</p>
+
+<p>No livro 8 da <i>Extremadura</i> lê-se, fl. 27: «na rua que vem da callçada
+que vem de pay de nauaaes pera o poço do chãao e parten (<i>as casas</i>) de
+hûa parte cõ a albergaria dos tanoeiros da outra cõ casas de S. Vicente
+de Fora etc. e da outra cõ casas dos banhos do espitall de dona maria de
+aboym etc. e com Rua pubrica». T em a data de 1467.</p> </div>
+
+<p>Na <i>Lisboa antiga</i>, de Julio de Castilho, vol. VI, vem um fragmento da
+planta traçada por José Valentim, e ahi se póde vêr claramente qual era
+a situação da calçada de Pai de Nabaes em relação á rua Direita da Porta
+de Santa Catharina.</p>
+
+<p class="centrado"><img src="images/mapa.png" border="0" alt="Planta do Chiado por José Valentim"/></p>
+
+<p>Por este fragmento, que reproduzimos, reconhece-se que a calçada de Pai
+de Nabaes ficava ao fundo do Chiado actual, entalada entre o palacio
+<span class='pagenum'>Pág. 16</span> do conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo, e que foi
+do predio ahi situado, onde residira Gaspar Dias, que se alastrou o nome
+de Chiado para um trecho apenas da rua Direita da Porta de Santa
+Catharina, conservando esta rua o seu antigo nome desde a Cordoaria
+Velha<a href="#nota10"><sup class="footnote">[10]</sup></a> até propriamente á porta de Santa Catharina, isto é, até ao
+Loreto moderno.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota10">[10]</a> A Cordoaria Velha correspondia á rua de S. Francisco, hoje rua
+Ivens.</p> </div>
+
+<p>Seria em casa de Catharina Dias a Chiada que o poeta Antonio Ribeiro se
+hospedou. Não podêmos admittir que fosse o marido d'ella que désse o
+nome á rua, a qual no tempo da viuva ainda tinha a designação antiga e
+total--de rua Direita da Porta de Santa Catharina.</p>
+
+<p>Pode ser que o poeta recebesse da propria casa de Pai de Nabaes, como
+seu hospede ou freguez, a alcunha de Chiado, tanto mais que esta alcunha
+lhe quadrava como astuto e ladino, e que elle, segundo uma accusação de
+Affonso Alvares, se dava a frequentar lojas de bebidas:</p>
+
+<div class="poesia">E tu queres ser rufião
+e beber como francez.
+</div>
+
+<p>Pode ser que fosse parente, adherente ou intimo da viuva de Gaspar Dias,
+e que por parte do povo tambem houvesse malicia em dar ao commensal a
+alcunha que pertencêra ao marido.</p>
+
+<p>A tradição diz que o poeta morou n'aquella rua e, segundo a maior
+certeza possivel, parece poder <span class='pagenum'>Pág. 17</span> agora ficar assente que foi elle,
+pela notoriedade de que gosou, devida a suas ribaldarias e veia comica,
+que deu o nome á rua.</p>
+
+<p>É menos admissivel a hypothese de que o poeta, por singular
+coincidencia, fosse um dos Chiados do Alemtejo, apesar de ter nascido no
+districto de Evora, onde, na cidade capital do districto e na villa de
+Montemor-o-Novo, existia aquelle appellido. No Alandroal, cêrca de seis
+leguas ao sul de Evora, ha um <i>monte</i> (casa de habitação de uma herdade)
+que tem o nome de--Chiado<a href="#nota11"><sup class="footnote">[11]</sup></a>--e um logar chamado--Chiada. No districto
+de Faro (Algarve) tambem ha um logar com a denominação de--Chiado,--como
+se vê da <i>Chorographia</i> de Baptista. Chiado é, pois, um vocabulo do sul.
+Mas tanto o poeta como seu irmão Jeronymo, tambem poeta, assignavam
+apenas o appellido--Ribeiro. O que me leva a crêr que Chiado fôra
+alcunha posta a Antonio Ribeiro, bem assente n'elle, que a merecia; e
+por ser alcunha a precediam de um artigo.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota11">[11]</a> Situado a dois kilometros da villa. Haverá um seculo pertenciam
+este <i>monte</i> e herdade a um individuo chamado Pedro Gonçalves. Passando
+de paes a filhos, veio a propriedade a pertencer ao pai do sr. Martins,
+do Redondo, actual proprietario.</p> </div>
+
+<p>Em resumo: antes do poeta a rua não tinha o nome de Chiado<a href="#nota12"><sup class="footnote">[12]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota12">[12]</a> Fica, pois, documentalmente contradictada a opinião, tantas vezes
+repetida, de que o poeta recebeu o nome da rua. Ainda recentemente disse
+a <i>Encyclopedia portugueza illustrada</i>: «Indo para Lisboa (o poeta), foi
+morar para o Chiado, e d'ahi o ser conhecido por este nome.» É verdade
+que a mesma <i>Encyclopedia</i> tambem diz que o Chiado escreveu varios
+autos, sendo conhecidos dois: <i>Auto de Gonçalo Chambão</i> e <i>Auto da
+natural invenção</i>.» justamente estes dois é que ninguem tem podido vêr.
+Dos trez que publiquei em 1889, não fala: esses então é que são os
+desconhecidos!</p> </div> <span class='pagenum'>Pág. 19</span> <p class="centrado"><img src="images/sep3.png" border="0"
+alt="Decoração de capítulo"/></p>
+
+
+
+
+<h2>III</h2>
+
+
+<p>Já agora seja-me permittida uma divagação, que reputo interessante, a
+respeito do sitio do Chiado, que o nosso poeta tornou famoso.</p>
+
+<p>Eu disse que a calçada de Pai de Nabaes ficava entalada entre o palacio
+do conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo da Pedreira.</p>
+
+<p>«Da Pedreira», porque os alicerces d'este edificio foram assentes no
+alto da escarpa, que impendia em tempos remotos sobre um esteiro do
+Tejo, cidade dentro, e que ainda hoje se deixa adivinhar na enorme
+differença de nivel que ha entre o fundo do Chiado e a rua do Crucifixo.</p>
+
+<p>A egreja e hospital do Espirito Santo estão actualmente substituidos, no
+mesmo local, pelo moderno palacio da familia Barcellinhos.</p>
+
+<p>A egreja era muito antiga, pois que no anno de 1279 já tinha sido
+fundada.</p>
+
+<p>No seculo XVI foi reconstruida com donativos <span class='pagenum'>Pág. 20</span> de el-rei D. Manoel
+e outros bemfeitores. Ficou o templo com trez naves, e tinha uma
+capella-mór artificiosamente lavrada, obra de muita estimação e riqueza.</p>
+
+<p>O padre Carvalho, na <i>Chorographia Portuguesa</i><a href="#nota13"><sup class="footnote">[13]</sup></a>, dá larga noticia
+d'esta egreja depois de reconstruida.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota13">[13]</a> Tomo III, pag. 445 e seguintes.</p> </div>
+
+<p>Junto ao templo, e com serventia para elle, havia o hospital do Santo
+Espirito, que albergava permanentemente doze pessoas necessitadas, entre
+as quaes «dez mulheres donzellas ou donas viuvas de boa vida».</p>
+
+<p>A bem dizer, era mais um recolhimento do que um hospital.</p>
+
+<p>E assim foi até o anno de 1672, em que os padres da Congregação do
+Oratorio, que se tinham instituido alli perto, no sitio das Fangas da
+Farinha, á rua do Almada, tiveram auctorização para tomar conta do
+hospital do Santo Espirito, onde passaram a estabelecer-se dois annos
+depois.</p>
+
+<p>Alli permaneceram os oratorianos, tranquillos e contentes. Mas por
+occasião do terremoto de 1755 a egreja e convento arderam, perdendo-se
+os preciosos haveres d'aquelles padres. A congregação transferiu-se
+então para o convento das Necessidades, que é hoje palacio real.</p>
+
+<p>Ficaram apenas de pé as paredes dos dois edificios incendiados.</p>
+
+<p>No frontispicio da egreja havia grandes columnas de cantaria, que o
+leitor ainda hoje pode ver... aonde?</p> <span class='pagenum'>Pág. 21</span>
+
+<p>Aonde? Não em outro templo, mas na fachada de um theatro, porque as
+pedras tambem teem seus fados. Estas transitaram, por caprichoso
+destino, do sagrado para o profano. Estão agora na frontaria do theatro
+de D. Maria II; são as mesmas columnas da egreja do Espirito Santo.</p>
+
+<p>O leitor não acreditaria esta noticia, se eu não pudesse comproval-a com
+um documento authentico.</p>
+
+<p>Mas posso. Ahi vai o documento, que, por ser curioso, não quero que
+fique esquecido entre os meus papeis velhos:</p> <br />
+
+<p>«Ministerio do Reino--3.^a Repartição--Havendo Manuel José d'Oliveira,
+actual proprietario do edificio da supprimida Casa do Espirito Santo da
+Congregação do Oratorio, cedido as grandes columnas de cantaria e seus
+capiteis, que ornão o frontispicio d'aquella Igreja, para serem
+empregadas na fachada do novo theatro nacional, que se projecta fazer;
+com a condição de que não seja feito á sua custa o descimento e
+conducção das mesmas columnas: Manda Sua Magestade a Rainha, que o
+Conselheiro Fiscal das Obras Publicas faça preparar todo o apparelho
+necessario para aquelle descimento, combinando com o mencionado Manuel
+José d'Oliveira a occasião e dia em que elle deve ter logar; fazendo
+depois conduzir as ditas columnas e capiteis para o Arsenal da Marinha,
+onde achará as ordens necessarias para serem recolhidas e depositadas
+até que se lhes dê o indicado destino: devendo outrosim o mesmo
+Conselheiro Fiscal dar todas as providencias para que, tanto no acto do
+<span class='pagenum'>Pág. 22</span> descimento, como no da conducção, não soffram o menor damno as
+columnas e particularmente os lavrados de seus capiteis. Palacio das
+Necessidades em 9 de janeiro de 1836. (assignado) <i>L. M. S. de
+Albuquerque</i>».</p> <br />
+
+<p>Pois não é interessante o destino d'estas columnas?</p>
+
+<p>Procurei saber quando foi que entraram em deposito no Arsenal de
+Marinha, e quando sahiram de lá para o theatro.</p>
+
+<p>Metti de empenho o meu illustre amigo sr. conde de Paço d'Arcos, que
+gentilmente, como sempre costuma, se interessou pela minha solicitação.
+Fez-se a pergunta ao Arsenal. Passaram mezes. Não veiu resposta. Não era
+negocio de expediente ordinario; ficou para traz. Pois deixal-o ficar;
+eu é que vou andando para deante, já aborrecido de esperar.</p>
+
+<p>E agora tornemos ao nosso poeta.</p> <span class='pagenum'>Pág. 23</span> <p class="centrado"><img src="images/sep4.png"
+border="0" alt="Decoração de capítulo"/></p>
+
+
+
+
+<h2>IV</h2>
+
+
+<p>A popularidade de Antonio Ribeiro o Chiado proveiu não tanto da sua veia
+poetica, aliás muito apreciada pelos entendidos, como das suas repetidas
+tunantadas, de que o povo tinha directo conhecimento, porque as
+presenceava em plena rua.</p>
+
+<p>Era entre o povo, entre as classes humildes de que elle provinha, porque
+lá diz Affonso Alvares no proposito de deprimil-o</p>
+
+<div class="poesia">Nasceste de regateira
+e teu pai lançava solas;
+</div>
+
+<p>era entre a arraya miuda que o Chiado localizava o theatro das suas
+façanhas picarescas, dos seus feitos esturdios, das suas «partidas» e
+«piadas», como hoje dizemos.</p>
+
+<p>Um códice do Archivo Nacional, de que só <span class='pagenum'>Pág. 24</span> agora tive
+conhecimento, revela algumas das suas estroinices e chalaças, que não
+ficam a dever nada ás mais gaiatas e desbragadas de Bocage.</p>
+
+<p>O codice a que me refiro tem o n.<sup>o</sup> 1817 e o titulo--<i>Diversas historias
+e ditos facetos a diversos propositos.</i></p>
+
+<p>É uma interessante collecção de anecdotas, que deve ser anterior ao anno
+de 1617 e pertenceu á livraria do mosteiro de S. Vicente.</p>
+
+<p>Vamos passar em revista as paginas que n'essa miscellanea dizem respeito
+ao Chiado; e, onde fôr preciso, lançaremos um véo por decencia sobre as
+anecdotas que entrarem no dominio da pornographia.</p>
+
+<p>É claro que a palavra--véo--não promette mais do que um anteparo
+diáphano.</p>
+
+<hr />
+
+<p>Quiz o poeta comprar a uma regateira um peixe de estimação.
+Offereceu-lhe apenas 7 réis e meio. Volveu-lhe a regateira por escarneo:</p>
+
+<p>--Tomal-o-heis com um trapo quente.</p>
+
+<p>N'esta resposta havia tanto desdem, que picou fundo o Chiado; certamente
+elle se teria doído menos de uma descompostura destemperada, como
+aquellas que as peixeiras de Lisboa não precisam ensaiar-se para
+desfechar na cara de toda a gente. Mas a ironia, o desprezo da réplica,
+abespinhou-o; suggeriu-lhe um plano de vingança, que logo poz em
+execução.</p>
+
+<p>Disfarçadamente aproximou-se do fogareiro de alguma assadeira de
+castanhas ou quejando mister. <span class='pagenum'>Pág. 25</span> Aqueceu um trapo, o primeiro que
+se lhe deparou, e apossou-se violentamente do peixe, empregando o trapo
+na tomadia.</p>
+
+<p>Escarcéo da peixeira, que se dizia roubada. Agglomeração de povo, que
+ria do caso exaltando a astucia do Chiado. Appêllo dos dois contendores
+para a justiça, visto faltar ainda n'esse tempo o <i>bureau</i> policial da
+Parreirinha.</p>
+
+<p>A varina fez a sua queixa. Chiado ponderou a circumstancia de se haver
+apoderado do peixe com um trapo quente, condição imposta pela peixeira.
+Decisão da justiça: que o poeta pagasse os 7 réis e meio que offerecera,
+e ficasse com o peixe, pois que a condição do trapo havia sido
+satisfeita, ficando salva a fé do contrato.</p>
+
+<hr />
+
+<p>Era o Chiado ainda frade franciscano--porque depois despiu o habito por
+indisciplina ou lh'o despiram por castigo--e começou a embirrar uma vez
+com o magro caldo de lentilhas, que lhe deram no refeitorio.</p>
+
+<p>Vai isto de accôrdo com a proverbial pobreza dos franciscanos.</p>
+
+<p>Remexendo no caldo, não encontrou mais que uma lentilha. Pareceu-lhe
+pouco nutritivo o singular, e começou a despir-se, como se quizesse
+atirar-se a um charco. Reprehenderam-n'o com estranheza. Elle explicou:
+que tinha visto apenas um legume no fundo da tigela e que o queria tomar
+de mergulho.</p> <span class='pagenum'>Pág. 26</span>
+
+<hr />
+
+<p>D'outra vez--e aqui vai ser preciso o véo--apostou que em pleno Terreiro
+do Paço, entre um grupo de dez ou doze picões (arruadores) que alli
+estanceavam, era capaz de improvisar um <i>water closet</i>, sem que elles
+protestassem.</p>
+
+<p>Fingiu-se acossado pela justiça e, correndo direito aos faias (como hoje
+diriamos) pediu-lhes que fizessem roda para o livrar de ser preso.
+Cahiram no langará, elles, e cerraram-se em parede, de modo que o
+supposto fugitivo não pudesse ser visto. Passado algum tempo, o Chiado
+parte agradecendo, e só depois foi que, pelo olfacto ou pelos olhos, os
+logrados reconheceram o logro.</p>
+
+<hr />
+
+<p>Não havia aposta bréjeira que lhe não propozessem, e que elle não
+acceitasse.</p>
+
+<p>Se seria capaz de açoitar um vinagreiro que ia passando com dois ôdres
+sobre a mula? Que sim. Dito e feito. Acercou-se do vinagreiro e
+disse-lhe que desatasse um dos ôdres, pois queria provar o vinagre.
+Tomou um bochecho e fez cara de não achar bom. Exigiu provar do outro
+ôdre, segurando elle proprio no que já estava desatado. De repente finge
+vêr alguem ao longe ou querer acudir de prompto a qualquer incidente.
+Passa o ôdre ao vinagreiro, que ficou com um em cada mão, ambos
+desatados. E então começa a açoitar o pobre <span class='pagenum'>Pág. 27</span> homem, que não
+poderia defender-se sem deixar perder o vinagre.</p>
+
+<hr />
+
+<p>Conchavou-se o Chiado com outros tunantes da força d'elle para
+engarampar um villão, que veiu a Lisboa comprar trigo. Disse-lhe que se
+queria trigo bom o não podia achar melhor que o de um seu irmão, em
+certa nau que estava á descarga; que fosse a bordo compral-o, mas que
+para não sujar o sombreiro e a capa lh'os deixasse alli no caes, onde o
+ficaria esperando. O villão pagou logo sete tostões pelo trigo, e deu a
+capa e o sombreiro a guardar. Foi a bordo, em cabello e corpo bem feito.
+Mas disseram-lhe lá que não tinham commissario em terra, e que só faziam
+negocio com dinheiro na palma da mão. Voltou o homem ao caes, e já não
+viu o Chiado; encontrou, porém, os outros guilhotes, os quaes lhe deram
+uma carta de quitação que o Chiado deixára para o parocho do basbaque,
+explicando tudo. Ora a carta dizia:</p>
+
+<div class="poesia">João Pires do Outeiro
+Me deu a capa e o sombreiro,
+Sete tostões em dinheiro,
+ E mais me dera
+ Se mais tivera.
+</div>
+
+<hr />
+
+<p>Não tendo que jantar um dia, lobrigou certo mancebo a comprar peixe na
+Ribeira. Chegou-se a elle, dizendo ser grande amigo de seu pai. Sob
+<span class='pagenum'>Pág. 28</span> esta côr o convidou a jantar. Foram os dois, mano a mano, para o
+local que o Chiado indicou. Ahi, disse lhe que poizasse o peixe, que
+logo se cozinharia, e que fôsse buscar qualquer tempêro que faltava.
+Quando o ingénuo moço tornou, já não viu o Chiado nem o peixe.</p>
+
+<hr />
+
+<p>D'outra vez chamou um polhastro e industriou-o a fingir-se vendilhão,
+levando no fundo de uma panela excremento humano. O rapazola apregoava,
+como o Chiado lhe ensinou: «Quem merca isto?» Alguns curiosos queriam
+ver o que era para comprar. E, reconhecendo a mercadoria, diziam por
+claro o nome que se lhe dá. O polhastro respondia enfadado: «Pois não é
+outra cousa.»</p>
+
+<hr />
+
+<p>Vem agora uma anecdota geralmente attribuida a Bocage, mas que não póde
+ser sua, pois que o manuscripto d'onde a tomamos é anterior a 1617 e
+portanto quasi seculo e meio anterior ao nascimento de Bocage.</p>
+
+<p>Entraram ratoneiros em casa do Chiado, e levaram-lhe o melhor que tinha.
+Elle viu-os a tempo de poder gritar por soccorro; mas, em vez de bradar,
+poz ás costas o refugo que lhe deixaram e foi-os seguindo derreado sob a
+carga. Os gatunos, espantados, fizeram alto e perguntaram-lhe para onde
+ia. O Chiado respondeu tranquilamente: <span class='pagenum'>Pág. 29</span> «Venho vêr para onde nos
+mudamos.» Com o que desarmou a audacia dos amigos do alheio que,
+rendidos á chalaça, lhe restituiram o bom que levavam.</p>
+
+<hr />
+
+<p>Quando alguem queria engendrar uma bréjeirice, ia ter com o Chiado, que
+era padre-mestre na materia.</p>
+
+<p>Por isso o consultaram certos vaganaus sobre a «partida» que deveriam
+fazer a um mulato fôrro que andava por Lisboa, e a quem tinham asca por
+ser valentão e soberbão.</p>
+
+<p>Aconselhou os o Chiado a que, logo que entrasse alguma nau ingleza, lhe
+dessem aviso.</p>
+
+<p>Chegou a occasião, veiu um navio inglez e o Chiado, fingindo-se fidalgo,
+foi a bordo com alguns d'aquelles tunantes, que dizia seus criados.</p>
+
+<p>Propoz ao capitão da nau que lhe comprasse um escravo mulato, que era
+robusto para o trabalho do mar, mas que não podia amansar em terra.</p>
+
+<p>Fez-se o ajuste, sob condição de que o escravo iria á mostra.</p>
+
+<p>Os outros picões levaram-n'o a bordo, e como agradasse aos inglezes,
+logo receberam d'elles o preço que fôra combinado.</p>
+
+<p>Protestou o mulato não ser captivo, mas não foi acreditado, visto
+terem-lhe posto fama de soberbão. Quiz reagir á viva força, mas
+lançaram-lhe ferros, visto saberem n'o valente. E teria ido mar em fóra,
+como escravo, se a justiça, informada da occorrencia, o não fosse
+libertar a bordo, obrigando <span class='pagenum'>Pág. 30</span> os vaganaus a restituir o dinheiro
+recebido dos inglezes.</p>
+
+<p>Não houve mais nenhum outro procedimento da justiça contra o inventor e
+executores d'esta tunantada, que aos proprios magistrados pareceu
+graciosa.</p>
+
+<p>O Chiado sahiu incolume, porque foram os socios que pagaram por elle, e
+porque a justiça prohibiu ao mulato que tirasse qualquer desfórra.</p>
+
+<p>Palavras textuaes do manuscripto: «...com pena de morte ao negro, que
+sobre aquella graça com o Chiado não entendesse, pois fôra tão bem
+achada a graça.»</p>
+
+<p>Tal era a cotação da jocosidade do poeta, que até a justiça se lhe
+rendia; a natureza dera ao nosso bohemio todos os predicados de
+gracioso, incluindo a facilidade de imitar simultaneamente as vozes de
+muitas pessoas<a href="#nota14"><sup class="footnote">[14]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota14">[14]</a> «Parece que era ventriloquo, porque imitava ao mesmo tempo as
+vozes de differentes pessoas.» <i>Dic. Popular</i>, vol. IV, pag 268.</p> </div>
+
+<hr />
+
+<p>Tinha o Chiado em casa um pote onde fazia os despejos. Um dia lembrou-se
+de lhe pôr um tampão e embreal-o exteriormente no bocal e no bojo, de
+modo a parecer vasilha para exportar. Chamando depois quatro mariolas,
+encommendou-lhes que levassem aquelle pote de conservas á Ribeira, <span class='pagenum'>Pág.
+31</span> que o queria embarcar, e que esperassem lá por elle para lhes pagar o
+frete.</p>
+
+<p>Como o Chiado não tornasse a apparecer, foram os carrejões avisar a
+justiça e requerer que lhes entregasse o pote por indemnisação de seu
+trabalho.</p>
+
+<p>Sendo-lhes entregue como cousa perdida, destaparam-n'o «e mettendo a mão
+dentro--diz o manuscripto--acharam-se com a conserva que não imaginavam,
+e logo viram que fôra lanço do Chiado.»</p>
+
+<p>Logo viram que fôra lanço do Chiado: esta phrase testemunha quanto era
+fecunda e inventiva em chistes e logros a imaginação do famoso bohemio
+do seculo XVI.</p>
+
+<p>Conheciam-n'o pelo dedo--como gigantesco entre os mais preeminentes
+foliões do seu tempo.</p>
+
+<hr />
+
+<p>Para concluir o extracto do manuscripto, que nos fornece todas estas
+anecdotas, resta dizer que passando o Chiado pela porta da Sé viu um
+grupo de muchachos e, dando-lhes attenção, ouviu-os dizer:</p>
+
+<p>--Eu tomára ser bispo.</p>
+
+<p>--Eu tomára ser pápa.</p>
+
+<p>--Eu tomára ser rei.</p>
+
+<p>O Chiado, acercando-se d'elles, interpellou-os dizendo:</p>
+
+<p>--E sabeis vós o que eu tomára ser?</p>
+
+<p>--?...</p> <span class='pagenum'>Pág. 32</span>
+
+<p>--Tomára ser melão para me beijardes... no sitio em que se beijam os
+melões.</p>
+
+<p>Com a differença que elle falou mais claro do que eu.</p>
+
+<hr />
+
+<p>Aqui terminam os elementos anecdoticos fornecidos pelo manuscripto para
+a reconstituição da biographia picaresca do poeta Chiado.</p>
+
+<p>Mas estes, que já não são poucos, bastam a egualar o Chiado com Bocage
+em materia de bréjeirices e tunantarias.</p> <span class='pagenum'>Pág. 33</span> <p class="centrado"><img
+src="images/sep5.png" border="0" alt="Decoração de capítulo"/></p>
+
+
+
+
+<h2>V</h2>
+
+
+<p>Entre as producções literarias de Chiado, que eu não pude encontrar em
+1889, havia uma, que, pouco tempo depois, veiu casualmente ao meu
+encontro.</p>
+
+<p>Era aquella que o abbade Barbosa designa d'este modo na <i>Bibliotheca
+Lusitana</i>:</p> <br />
+
+<p>«Carta que escreveu de Lisboa a Coimbra da entrada do bispo D. João
+Soares, em Lisboa, quando foi á raia pela princeza. É jocosa, e se
+conservava na bibliotheca do cardeal de Sousa».</p> <br />
+
+<p>Achei-a em copia n'uma miscellanea, que pertenceu ao convento da Graça,
+de Lisboa, e que eu comprei ao Rodrigues do Pote das Almas por dez
+tostões. Se exceptuarmos a carta de Chiado, a miscellanea vale pouco.
+Mas eu, folheando-a, li o titulo da carta, passei-a rapidamente pela
+vista, reconheci <span class='pagenum'>Pág. 34</span> que o texto concordava com o titulo, e adquiri
+logo o livro, que o Rodrigues teria vendido mais caro se pudesse
+adivinhar a rasão por que eu o comprava.</p>
+
+<p>D'isso era elle capaz, Deus lhe fale na alma.</p>
+
+<p>Antes de transcrever a carta que o Chiado escreveu a um seu amigo de
+Coimbra, preciso esclarecer o leitor sobre o assumpto que a inspirou e o
+momento em que foi escripta.</p>
+
+<p>O mallogrado principe D. João, filho de D. João III, desposou sua prima
+a linda princeza D. Joanna de Castella, que veiu a ser mãe de D.
+Sebastião o <i>Desejado</i>.</p>
+
+<p>A princeza entrou em Portugal no fim de novembro de 1553<a href="#nota15"><sup class="footnote">[15]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota15">[15]</a> Francisco de Andrade diz que foi em 1552; Pedro de Mariz que foi
+em 1554. Mas a carta de Chiado, que merece fé por ser um documento da
+epoca, fixa o anno de 1553.</p> </div>
+
+<p>El-rei mandou que fossem buscal-a á fronteira D. João de Lencastre,
+duque de Aveiro, e o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, os quaes se
+fizeram acompanhar de pessoas de categoria, entre as quaes D. Affonso de
+Lencastre e D. Luiz de Lencastre, irmãos do duque de Aveiro.</p>
+
+<p>Na fronteira, D. Diogo Lopes Pacheco, duque de Escalona, e D. Pedro da
+Costa, bispo de Osma, fizeram entrega da princeza aos embaixadores
+portuguezes.</p>
+
+<p>D. Joanna entrou por Elvas, e d'ahi, após breve demora, seguiu em
+jornadas até ao Barreiro, onde D. João III a foi esperar para
+acompanhal-a a Lisboa.</p> <span class='pagenum'>Pág. 35</span>
+
+<p>O professor Manuel Bento de Sousa poz em relevo a fatalidade pathologica
+que desde o berço condemnou D. Sebastião aos desatinos que veiu a
+praticar em detrimento e ruina do paiz.</p> <br />
+
+<p>«D. Sebastião, diz o illustre e fallecido professor, é pela mãe neto de
+um epileptico<a href="#nota16"><sup class="footnote">[16]</sup></a>, e a accumulação da hereditariedade morbida
+verificou-se sem perturbação.</p>
+
+<p>«Sua mãe é filha de epileptico e neta de doidos<a href="#nota17"><sup class="footnote">[17]</sup></a>, sua avó é irmã do
+mesmo epileptico e filha dos mesmos doidos, sua bisavó é irmã e filha do
+mesmo epileptico e dos mesmos doidos. Seu avô, por consequencia, é neto
+de doidos, e seu pae é bisneto dos mesmos doidos.</p>
+
+<p>«Como exemplo de nevropathia accumulada por herança não ha melhor<a href="#nota18"><sup class="footnote">[18]</sup></a>!»</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota16">[16]</a> O imperador Carlos V.</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota17">[17]</a> Joanna <i>a Doida</i> e Filippe I, leviano, perdulario, incapaz de
+governar.</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota18">[18]</a> <i>O Doutor Minerva</i>, pag. 198.</p> </div> <br />
+
+<p>Sobre a inconveniencia physiologica dos casamentos consanguineos,
+repetidos de geração em geração entre as casas reaes de Portugal e
+Hespanha, vieram accumular-se, pelo enlace do principe D. João com a
+princeza D. Joanna, as taras hereditarias da epilepsia e da loucura que
+os dois desposados, primos co-irmãos, tinham recebido dos seus proximos
+ascendentes communs.</p>
+
+<p>A mãe de D. Sebastião deu provas de uma exaltada hysteria, com
+allucinações pavorosas, durante o periodo da gravidez.</p> <span class='pagenum'>Pág. 36</span>
+
+<p>Este casamento precipitou a morte do principe D. João e aggravou as
+taras da princeza D. Joanna.</p>
+
+<p>Eram duas creanças, ella de 18 annos<a href="#nota19"><sup class="footnote">[19]</sup></a> elle de 16<a href="#nota20"><sup class="footnote">[20]</sup></a>, doentes dos
+mesmos vicios constitucionaes, e apaixonados um pelo outro. Não
+conheceram limites ás suas relações amorosas, entregaram-se a uma
+«demasiada communicação» dilacerando-se carinhosamente em extremos de
+prazer insaciavel.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota19">[19]</a> D. Joanna tinha nascido a 23 de junho de 1535.</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota20">[20]</a> D. João nasceu em Evora a 3 de junho de 1537.</p> </div>
+
+<p>O principe ardia n'um fogo de voluptuosidade, que o devorou
+prematuramente. Foi preciso separal-o da princeza, mas já era tarde.
+Estava perdido na flor dos annos.</p>
+
+<p>Os medicos d'aquella epocha classificaram a doença de--paixão hebetica.
+Os chronistas explicam que o enfermo sentia uma sêde devoradora; e D.
+Manuel de Menezes, na chronica que lhe é attribuida, filia esse
+phenomeno pathologico no desregramento dos prazeres carnaes.</p>
+
+<p>Ora o hebetismo--segundo a medicina do nosso tempo--é um estado morbido,
+que inutiliza as faculdades intellectuaes, sem comtudo inutilizar a
+acção dos sentidos: uma especie de embrutecimento devido a commoção
+cerebral<a href="#nota21"><sup class="footnote">[21]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota21">[21]</a> <i>Dict. de medicine</i>, segundo o plano de Nysten, refundido por
+Littré e Robin.</p> </div>
+
+<p>Assim devia ser, pois que o principe D. João precipitára a crise dos
+seus males hereditarios com um exgotamento nervoso.</p>
+
+<p>Mas a--sêde devoradora--<i>polydipsia</i>, é um symptoma da diabetes
+saccharina, que anda muitas <span class='pagenum'>Pág. 37</span> vezes ligada ás nevroses e,
+principalmente, á epilepsia.</p>
+
+<p>Não repugna acreditar que a sêde exagerada e continua, que abrazava o
+principe, derivasse d'esse conjuncto pathologico recebido por herança e
+aggravado por excessos.</p>
+
+<p>E que os chronistas não empregavam a palavra sêde em sentido figurado,
+vê-se d'estas palavras da chronica attribuida a D. Manuel de Menezes:
+«mas elle (o principe) perseguido da sêde levantou-se uma manhã da cama
+a beber agua da chuva, que achou empoçada ao pé de uma janella, por
+descuido dos que lhe assistiam, que então o deixaram só, e sendo muita,
+e choca, fez-lhe muito mais mal, e logo empeiorou, e morreu no dia
+seguinte».</p>
+
+<p>A princeza, excitada pelas sensações amorosas e pelos sobresaltos da
+gravidez, redobrou de hysterismos, teve allucinadas visões, pavores
+imaginarios, de que ficou noticia.</p>
+
+<p>Na véspera do principe cahir doente, estando elle a dormir, julgou ella
+vêr, á luz da tocha que allumiava a camara conjugal, surgir uma figura
+de mulher vestida de luto, com larga touca, a qual mulher, crescendo em
+vulto, ameaçadora, fez estrincar os dedos e, após um assopro que parecia
+o halito quente d'uma féra, desappareceu.</p>
+
+<p>A princeza ficou n'uma grande perturbação de terror, julgando verdadeira
+a visão, e interpretou-a no sentido de que o assopro annunciava que
+todas as suas esperanças haviam de desfazer-se em vento.</p>
+
+<p>Quanto ao trinco com os dedos não interpretou coisa nenhuma ou as
+chronicas o não dizem.</p> <span class='pagenum'>Pág. 38</span>
+
+<p>Tendo fallecido o principe D. João<a href="#nota22"><sup class="footnote">[22]</sup></a> sem que a princeza o soubesse ao
+certo, posto o suspeitasse, e já nas vésperas do parto, as damas que
+acompanhavam D. Joanna quizeram leval-a a espairecer na Varanda da
+Pella, do Paço da Ribeira,</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota22">[22]</a> O principe falleceu em terça feira 2 de janeiro de 1554, dezoito
+dias antes do parto da princeza.</p> </div>
+
+<p>O palacio dos pricipes era o de Alvaro Peres de Andrade, junto ao Arco
+dos Pregos, mas communicava interiormente com o palacio real.</p>
+
+<p>A princeza, profundamente abatida, deixou-se conduzir. A noite e o
+silencio favoreceram ainda d'esta vez o terror, sempre contagioso,
+mórmente entre as impressionaveis damas, que os tristes acontecimentos
+da côrte traziam sobresaltadas.</p>
+
+<p>Bastaria, portanto, que a princeza tivesse uma visão, para que logo
+fossem egualmente suggestionadas as suas damas, portuguezas e
+castelhanas.</p>
+
+<p>Assim, pois, todas julgaram vêr sahir pela Varanda d'El-rei, direitos ao
+Forte<a href="#nota23"><sup class="footnote">[23]</sup></a>, muitos homens vestidos á moirisca, com fatos de variegadas
+cores, agitando tochas accêsas e soltando repetidas vozes de--<i>Ly, ly,
+ly</i>. Eira uma especie de dança macabra, em que os moiros revoluteavam,
+despedindo clarões e gritos; e quando a chorea, percorrendo a Varanda,
+chegava ao Forte, os moiros precipitavam-se ao Tejo, deixando no
+silencio da noite uma atmosphera soturna de terror e mysterio.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota23">[23]</a> O Forte, nome que depois conservou o torreão mandado construir por
+Filippe II, rematava sobre o Tejo, uma vasta galeria com terraço, a meio
+do qual se erguia uma torre ameiada.</p> </div>
+
+<p>As damas fizeram decerto alarma. Acudiria <span class='pagenum'>Pág. 39</span> gente do Paço, que não
+soube explicar a apparição sinistra dos moiros. Reconheceu-se que as
+portas estavam fechadas; que o ingresso de estranhos era impossivel.
+Então cresceria o pavor, e com elle a predisposição para repetir-se a
+visualidade no mesmo local e nas mesmas condições.</p>
+
+<p>Foi o que aconteceu. Poucos dias depois tornou a princeza á Varanda da
+Pella, fez algum exercicio passeiando; depois sentou-se a uma das
+janellas e então se lhe renovou a visão dos moiros, com os mesmos
+trajes, as mesmas tochas, os mesmos gritos--na mesma farandola sinistra.</p>
+
+<p>A princeza e as suas damas fugiram espavoridas sob a mesma suggestão,
+pelo contagio do terror. Todas «tinham visto» segunda vez os moiros.
+Lembra-nos, por analogia, um facto que Renan refere nos <i>Apostolos</i>.
+Entre os protestantes perseguidos correu voz de que, nas ruinas de um
+templo destruido recentemente, se ouviam psalmos cantados pelos anjos;
+tanto bastou para que todos os protestantes que se aproximavam
+d'aquellas ruinas, ouvissem os psalmos.</p>
+
+<p>O rei e a rainha, informados do que se passava, recommendaram segredo.</p>
+
+<p>Convinha não excitar mais a superstição popular, que já estava muito
+exaltada por varios factos anteriores, taes como o desacato praticado
+por um inglez, logo depois do casamento do principe na capella do Paço;
+e a apparição de um meteóro luminoso que todas as noites era visivel em
+Lisboa, quasi em cima da Sé, e parecia tomar a fórma de um athaúde.</p>
+
+<p>Dos nove filhos legitimos de D. João III ficára apenas um, o principe D.
+João, e o povo já sabia <span class='pagenum'>Pág. 40</span> que elle tinha morrido tambem, posto se
+occultasse a sua morte.</p>
+
+<p>Se o parto da princeza se mallograsse, acabar-se-ia a successão directa.
+Portugal perderia a sua independencia, não porque el-rei não tivesse
+irmãos, que poderiam succeder-lhe no throno, mas porque pelo contrato de
+casamento da princeza D. Maria, filha de D. João III, com Filippe II, a
+corôa portugueza passaria para D. Carlos, filho d'aquella princeza.</p>
+
+<p>Por isso o povo, cuidadoso de ver garantida a independencia do reino,
+«desejava» que a princeza D. Joanna desse á luz um filho varão.</p>
+
+<p>O arcebispo de Lisboa ordenára uma procissão de préces, que se
+effectuaria logo que a princeza começasse a sentir as dores do parto.</p>
+
+<p>Pela meia noite de 19 a 20 de janeiro<a href="#nota24"><sup class="footnote">[24]</sup></a> de 1554, quando os sinos dos
+conventos tocavam a matinas, houve rebate de que a princeza
+experimentava os primeiros symptomas do parto. Logo se organizou a
+procissão, que sahiu da Sé para S. Domingos. Rompia a manhã quando a
+procissão ia recolhendo á Sé e então se espalhou «a nova feliz de ter
+nascido o <i>desejado</i><a href="#nota25"><sup class="footnote">[25]</sup></a>.»</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota24">[24]</a> Dia de S. Sebastião, motivo por que recebeu este nome o herdeiro
+da coroa.</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota25">[25]</a> <i>Portugal cuidadoso e lastimado</i>, pag. 2.</p> </div>
+
+<p>Desejado foi em verdade D. Sebastião, e duas vezes o foi, antes de ter
+nascido e depois de ter morrido.</p>
+
+<p>Em taes circunstancias, o nascimento do herdeiro da corôa teve a
+importancia de um acontecimento <span class='pagenum'>Pág. 41</span> nacional, que profundamente
+interessou a alma popular. Não foi apenas um regosijo privativo da
+familia real ou da côrte, como acontece sempre que nasce «mais um»
+principe. Aquelle que tinha nascido era «o unico» fiador possivel da
+autonomia de Portugal: por isso tal acontecimento poz em jogo o brio, o
+orgulho, o amor patrio de todos os portuguezes.</p>
+
+<p>Antes do parto, organizam-se devoções propiciatorias, em que o povo se
+mistura com o alto clero, fundindo suas preces.</p>
+
+<p>Em Santarem até as creanças effectuam procissões nocturnas, piedosa
+pratica infantil, que foi muito nossa, e que apparecia sempre nas
+grandes crises nacionaes, revestindo um gracioso caracter de ingenuidade
+religiosa e de fé simples.</p>
+
+<p>Eram procissões minusculas, com pequenos andores, pequenas lanternas,
+sendo o prestito constituido por homensinhos lilliputianos, rapazes da
+rua, creanças do povo, que iam entoando ladainhas e psalmos numa
+unisonancia de vozes ainda debeis e esganiçadas.</p>
+
+<p>É peculiar á infancia o espirito de imitação, maiormente entre as
+classes populares. Nos filhos do povo encontram sempre écco os
+acontecimentos que tomam maior relevo na vida da nação. Dir-se-ia que
+por viverem na rua são mais depressa sacudidos pela opinião publica do
+que os filhos dos nobres. Por isso são as creanças da arraya miuda que
+propagam, inconscientemente, as canções politicas, os hymnos
+revolucionarios, e que muitas vezes se encarregam de fazer a critica e
+inventar a parodia dos negocios do Estado e dos mais ruidosos conflictos
+da administração publica.</p> <span class='pagenum'>Pág. 42</span>
+
+<p>As procissões infantis duraram seculos. Viram-n'as os contemporaneos de
+D. João III. Viu-as Filinto Elysio, que nos descreve uma que todos os
+annos, pela quaresma, vinha da Ajuda exhibir nas ruas de Lisboa muitos
+«Senhorsinhos dos Passos» allumiados com rolinhos de cêra. Vi-as ainda
+eu na minha infancia, que passei n'aquella devota, patriotica e antiga
+cidade do Porto.</p>
+
+<p>Foi bom termos tido occasião de falar do povo, pois que tomando por
+assumpto uma celebridade das ruas, como era o poeta Chiado, já se ia
+alongando de mais a narrativa sobre a vida da côrte, sem pausa nem
+fôlego, que désse tempo a pensar em quem vegeta no infimo grau da escala
+social--tal como no fundo de um poço escuro o musgo rasteiro.</p>
+
+<p>Podemos agora tornar á côrte. D. João III, para não lançar maior
+perturbação nos espiritos, já muito apprehensivos e agitados, ordenou,
+pois, que se não divulgasse a visão da princeza na Varanda da Pella.</p>
+
+<p>El-rei, receioso do futuro, sentia o peso de todas as suas
+responsabilidades politicas, que eram enormes desde que, por um
+imprudente contrato de casamento, a independencia do reino ficava
+suspensa do nascimento de um successor varão.</p>
+
+<p>Mas o que D. João III não podia prohibir era que a princeza D. Joanna
+continuasse a ter visões, que aliás se repetiram.</p>
+
+<p>Uma noite, na sua camara, tornou a princeza a vêr os moiros, que
+entravam e sahiam em tropel. Cahiu logo desmaiada no regaço de uma dama,
+e nem essa nem as outras receberam a suggestão, porque a princeza não
+teve tempo de falar.</p> <span class='pagenum'>Pág. 43</span>
+
+<p>Pareceu a todas que apenas seria uma syncope propria da gravidez; mas
+depois, explicado o caso, apurou-se que ainda mais uma vez tinham
+«apparecido» os moiros.</p>
+
+<p>A crença popular relaciona sempre o maravilhoso com a vida das altas
+personagens e a realização dos grandes acontecimentos historicos. É um
+fundo de superstição commum a todos os povos. Assim, entre nós,
+encontrou-se uma relação sobrenatural entre a visão dos moiros e a
+derrota de D. Sebastião em Alcacerquibir.</p>
+
+<p>Que a princeza D. Joanna tivesse allucinações e visualidades pavorosas,
+cabalmente o pode explicar a medicina; que os phantasmas que ella
+julgava ver, fossem moiros, basta que o diga a lenda, urdida <i>a
+posteriore</i>, depois da perda de D. Sebastião em Africa.</p>
+
+<p>De outras visões falam ainda as chronicas, todas n'um sentido lugubre e
+presago, como era proprio do estado morbido da princeza e das suas
+condições physiologicas.</p>
+
+<p>Accordava de noite em sobresalto, queixando-se de não ver nada, de ter
+ouvido estrondos mysteriosos, vozes afflictivas, taes como suspiros
+maguados, gemidos cortantes.</p>
+
+<p>No leito de dois doentes foi gerado um filho doentissimo, cuja cabeça,
+por desgraça nossa, havia de cingir a corôa de Portugal.</p>
+
+<p>Depois do parto, o hysterismo da princeza tornou-se essencialmente
+mystico, tanto em Portugal como em Castella, para onde voltou.</p>
+
+<p>Contribuiram para esta evolução, aliás naturalissima em taes
+circumstancias, as relações de D. Joanna com o padre Francisco de Borja,
+primeiro <span class='pagenum'>Pág. 44</span> em Lisboa, depois em Madrid. Essas relações, por
+demasiado assiduas, chegaram a tornar-se suspeitas; e Francisco de
+Borja, que se retirou para Portugal quando a suspeição cresceu, teve de
+procurar justificar-se n'uma carta que, em 1561, dirigiu do Porto a
+Filippe II.</p>
+
+<p>D. Joanna fundou em Madrid um convento á imitação do da Madre de Deus,
+de Lisboa<a href="#nota26"><sup class="footnote">[26]</sup></a>; é o das <i>Descalzas Reales</i>, cuja historia Ricardo
+Sepulveda traçou n'um dos capitulos da sua interessante obra <i>Madrid
+viejo</i>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota26">[26]</a> <i>Hist. Gen.</i>, t. III, pag. 559</p> </div>
+
+<p>Tal foi a princeza que o bispo de Coimbra D. Fr. João Soares e o duque
+de Aveiro foram receber á fronteira do Alemtejo, quando ella veiu
+desposar o mallogrado principe D. João<a href="#nota27"><sup class="footnote">[27]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota27">[27]</a> D. Joanna morreu com 38 annos, no Escorial, a 7 de setembro de
+1573.</p> </div> <span class='pagenum'>Pág. 45</span> <p class="centrado"><img src="images/sep6.png" border="0" alt="Decoração de capítulo"/></p>
+
+
+
+
+<h2>VI</h2>
+
+
+<p>Por que foi que D. João III escolheu, entre todos os prelados
+portuguezes, o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, para ir á fronteira
+esperar a princeza?</p>
+
+<p>Houve, para isso, razões especiaes.</p>
+
+<p>Frei João, religioso eremita de Santo Agostinho e varão distincto em
+letras, tinha sido mestre do herdeiro da corôa e de seu irmão D.
+Filippe<a href="#nota28"><sup class="footnote">[28]</sup></a>, alem de ser prégador e confessor de el-rei, o que bastaria
+a explicar a preferencia.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota28">[28]</a> D. Filippe foi o 6.<sup>o</sup> filho de D. João III. Pela morte de seus
+irmãos, chegou a ser jurado herdeiro do reino. Falleceu com seis annos
+de edade.</p> </div>
+
+<p>Das virtudes que a <i>Historia genealogica</i><a href="#nota29"><sup class="footnote">[29]</sup></a> attribue a D. Frei João
+Soares, não se pode falar com <span class='pagenum'>Pág. 46</span> tanta segurança como de suas
+letras; Alexandre Herculano<a href="#nota30"><sup class="footnote">[30]</sup></a>, baseando-se n'umas instrucções de Paulo
+III, attribue lhe audacia e ambição; vida dissoluta; espirito de
+rebellião contra a Santa Sé.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota29">[29]</a> Tom. III, pag. 552.</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota30">[30]</a> <i>Da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal.</i></p> </div>
+
+<p>É verdade que os diocesanos de Coimbra o estimaram; que os pobres e os
+necessitados recebiam d'elle esmolas; que favoreceu a Misericordia
+d'aquella cidade; que doou á respectiva Sé muitos guisamentos, entre os
+quaes um valioso cális de oiro; e que na mesma Sé mandou construir a
+capella do Santissimo, de galante e excellente architectura<a href="#nota31"><sup class="footnote">[31]</sup></a>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota31">[31]</a> <i>Noticia historica e descriptiva da Sé Velha de Coimbra</i>, por A.
+M. Simões de Castro.</p> </div>
+
+<p>Toda a diocese o pranteou na morte, o que parece mostrar que era mais
+estimado em Coimbra do que em Roma.</p>
+
+<p>As instrucçóes de Paulo III, citadas por Herculano, tambem o dão como
+frade de poucas letras.</p>
+
+<p>Ora isto não é exacto. D Frei João Soares produziu obras varias<a href="#nota32"><sup class="footnote">[32]</sup></a>, em
+que affirmou competencia doutrinaria e dicção gentil. Como prégador, se
+a principio não agradou em Portugal, porque discursava em castelhano
+muito cerrado, pois havia estudado em Salamanca, chegou depois, quando
+readquiriu o manejo da lingua portugueza, a ter grande fama e clientela.
+Não se pode exceder o elogio que lhe faz Frei Luiz de Souza: «Foi
+eminentissimo no ministerio do pulpito; tanto que os <span class='pagenum'>Pág. 47</span> maiores
+pregadores do seu tempo lhe reconheciam a vantagem, e como a segundo
+Demosthenes o veneravam<a href="#nota33"><sup class="footnote">[33]</sup></a>.»</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota32">[32]</a> Veja-se <i>Dicc. Bib.</i>, de Innocencio, vol. IV, pag. 38, vol. X,
+pag. 350.</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota33">[33]</a> <i>Vida de D. Frei Bartholomeu dos Martyres</i>, liv. II, cap. XVII.</p> </div>
+
+<p>Alem d'estes predicados literarios, possuia especial graça no dizer, dom
+natural que não seria o menos attractivo para lhe conquistar sympathias
+e facilidades na côrte.</p>
+
+<p>D. Frei João Soares nasceu em S. Miguel de Urró, concelho de Arrifana,
+hoje Penafiel. Parece que pertenceu a uma familia illustre, pois que
+elle algumas vezes assignou tambem o appellido Albergaria.</p>
+
+<p>Foi deputado do Santo-Officio, e governou a diocese de Coimbra desde
+1545 até 1572; como prelado portuguez, assistiu ao concilio de Trento,
+onde o respeitaram como orador e theologo.</p>
+
+<p>Falleceu com 65 annos de edade a 26 de novembro de 1572. Por humildade
+quiz ser sepultado no chão, fóra da capella do Santissimo que mandára
+edificar.</p>
+
+<p>Se algum defeito toma maior vulto na individualidade d'este prelado, é o
+gosto pela ostentação.</p>
+
+<p>Conta Frei Luiz de Sousa que se apresentou no concilio de Trento com um
+fausto proprio de principe secular, fazendo-se representar com esplendor
+e magnificencia notaveis.</p> <br />
+
+<p>«E porque se visse--diz o chronista dominicano--que fôra isto força do
+estado, mais que de <span class='pagenum'>Pág. 48</span> animo vão, passada a occasião do Concilio se
+poz em caminho de Jerusalem recompensando com a moderação de peregrino
+voluntaria, as superfluidades de senhor forçadas.»</p> <br />
+
+<p>Talvez que este procedimento fosse determinado por indicação ou censura
+da Santa Sé, a qual, como já vimos, não lhe era demasiadamente affecta.</p>
+
+<p>A tendencia do prelado conimbricense levava-o effectivamente para a
+ostentação.</p>
+
+<p>Na commissão que desempenhou com o duque de Aveiro, quando foi á raia de
+Castella buscar a princeza D. Joanna, já havia pompeado o mesmo
+esplendor e magnificencia que depois exhibiu no concilio de Trento.</p>
+
+<p>Um manuscripto de Pedro Alvares Nogueira, existente no cartorio do
+cabido de Coimbra, diz sobre o modo por que o bispo desempenhou aquella
+commissão: «Levou muita gente de cavallo mui bem concertada, no que
+gastou muito de sua renda».</p>
+
+<p>A <i>Chronica</i> attribuida a D. Manuel de Menezes ainda é mais explicita
+quando diz:</p>
+
+<p>«Não menos adornado (que o duque de Aveiro) veiu o Reverendo Bispo D.
+Frei João Soares, com grande numero de cavalleiros, nobremente
+ataviados, conforme o seu estado; e a sua divisa, que trazia nos
+reposteiros eram suas Armas, e a letra que dizia: <i>Soli Deo honor et
+gloria</i>, e quer dizer: <i>A honra e gloria se dê somente a Deus.</i> E isto
+com muitas trombetas, e charamelas, e outros instrumentos, e cantores
+para o effeito de tão regia funcção, como convinha».</p> <span class='pagenum'>Pág. 49 </span>
+
+<p>O chronista Francisco de Andrade afina pelo mesmo diapasão, dizendo:</p> <br />
+
+<p>«O bispo de Coimbra tambem por sua parte se apercebeu para esta jornada
+com o fausto e apparato, que se requeria para a honra d'este reino, para
+a auctoridade de sua pessoa, e para o grave negocio para que fôra
+eleito, porque ajuntou para o acompanhar muita e muito lustrosa gente de
+cavallo, e os que o acompanhavam a pé tambem iam da mesma maneira, e não
+lhe faltou então cousa alguma de quantas se uzam, e são importantes e
+necessarias nos negocios d'esta qualidade, sem perdoar por isso a
+grandes gastos e despesa».</p>
+
+<p>Apenas uma voz zombeteira se levantou para tirar effeitos comicos do
+apparato com que o bispo de Coimbra entrou em Lisboa quando se dirigia á
+raia de Castella.</p>
+
+<p>Apenas um carcaz despejou todas as suas settas, vibradas por adestrada
+mão, em menoscabo do cortejo que rodeiava o bispo de Coimbra, conde de
+Arganil, senhor de Coja, alcaide-mór de Avô.</p>
+
+<p>Essa voz foi a de Antonio Ribeiro, o Chiado, cuja carta sobre este
+assumpto lembra os artigos dos jornaes republicanos de hoje em dia
+quando procuram amesquinhar a pompa das festas monarchicas.</p>
+
+<p>N'aquelle tempo, não deixou de ser um acto de perigosa audacia a satyra
+com que o Chiado visou tão alta personagem como era o bispo de Coimbra,
+em occasião tão solemne para a côrte como era o casamento do principe
+herdeiro da corôa.</p>
+
+<p>Aggravado o bispo, el-rei o desagravaria contra quem quer que fosse, se
+elle se queixasse.</p> <span class='pagenum'>Pág. 50</span>
+
+<p>Do valimento do prelado conimbricense junto de D. João III não ha que
+duvidar; bastava a justifical-o a sua qualidade de confessor d'el-rei, e
+não chega a ser preciso admittir, como se diz nas instrucções de Paulo
+III, que a pretexto da confissão obtivesse a solução de muitos negocios.</p>
+
+<p>Chiado era, porém, destemido como todos os bohemios e dizidores do seu
+tempo, incluindo o proprio Camões. E a fortuna ajuda os audazes... pelo
+menos algumas vezes. Não consta que Chiado fosse molestado por causa
+d'esta sua satyra em prosa, de que talvez o bispo nem chegasse a ter
+conhecimento.</p>
+
+<p>Simula o auctor escrever a um seu amigo de Coimbra, visto que lhe
+diz--«estas novas da entrada do vosso bispo.»</p>
+
+<p>É um artificio literario, para justificar a origem da satyra.
+Manifestamente, vindo o cortejo de Coimbra, não precisava ninguem
+d'aquella diocese que lhe dessem novas do modo como vinha organizado. Lá
+o saberiam perfeitamente ou perfeitamente o poderiam saber.</p>
+
+<p>Tambem, por outro artificio literario, diz o Chiado «que não viu a
+entrada do bispo em Lisboa». Mas tão minuciosamente a descreve que bem
+se reconhece ter sido testemunha presencial. D'este modo, abria uma
+valvula de segurança para o caso de lhe imporem a responsabilidade da
+satyra: teria feito obra por informações inexactas.</p>
+
+<p>Claramente se percebe que o Chiado viu a chegada do cortejo plantando-se
+entre a multidão em alguma rua do transito e chasqueando no meio de um
+grupo de clientes que lhe admiravam a veia sarcastica.</p> <span class='pagenum'>Pág. 51</span>
+
+<p>A sua narração é a de um impressionista, que surprehendeu o espectaculo
+em flagrante.</p>
+
+<p>E tal homem como o Chiado não poderia estar calado nem indifferente por
+muito tempo, quando toda a população de Lisboa se alvoroçava para
+assistir a um acontecimento anormal, muito annunciado e não menos
+pomposo.</p>
+
+<p>A carta de Chiado é, segundo o moderno falar, uma <i>charge</i>; pertence aos
+dominios da caricatura escripta, que madrugou com os primeiros alvores
+da nossa literatura, antecipando-se alguns seculos á caricatura
+desenhada.</p>
+
+<p>Assim é que já no <i>Cancioneiro da Vaticana</i> encontramos a seguinte
+chistosa caricatura de um cavalleiro da idade-média:</p>
+
+<div class="poesia">
+caval'agudo que semelha forom,
+em cima d'el un velho selegon,
+sem estrebeyras e con roto bardon,
+nem porta loriga, nem porta lorigon,
+nen geolheiras quaes de ferro son,
+mays trax perponto roto sen algodon,
+e cuberturas d'un velho zarelhon,
+lança de pinh'e de bragal o pendon,
+e chapel de ferro que x'i lhi mui mal pon;
+e sobarçad' un velh' espadarron;
+cuytel'a cachas, cintas sen forcilhom,
+duas esporas destras, ca sestras non som,
+maça de fusto que lhi pende do arçom.
+</div>
+
+<p>Etc.</p>
+
+<p>Este fragmento é o avô da caricatura portugueza nos dominios da
+literatura.</p>
+
+<p>Vamos vêr como Antonio Ribeiro o Chiado, navegando nas mesmas aguas,
+caricaturou ao correr da penna a entrada do bispo de Coimbra em Lisboa
+<span class='pagenum'>Pág. 52</span> com todo o seu cortejo de pagens, escudeiros, varletes,
+azemolas, trombetas, atabales e charamelas.</p>
+
+<p>Diz o documento, tal como se me deparou na miscellanea, que pertenceu á
+livraria do convento da Graça:</p>
+
+<div class="quote"> <p>Carta que o Chiado escreveu a um seu amigo da entrada do Bispo de
+Coimbra em Lisboa, quando veio para ir pela Princeza a Castella que é
+mãe d'El-Rei D. Sebastião.</p>
+
+<p><i>Quereis saber quanto póde a importunação, que muito contra minha
+vontade vos escrevo estas novas da entrada do vosso bispo n'esta cidade,
+só por cumprir com o que tanto me tendes rogado. Vêde-as em nome de quem
+quizerdes, que eu não quero senão fallar comvosco.</i></p>
+
+<p><i>Deixarei sua estada no Lumiar, que durou tres dias, onde preparou e
+proveu de sapatos, de pescoços<a href="#nota34"><sup class="footnote">[34]</sup></a> e atacas<a href="#nota35"><sup class="footnote">[35]</sup></a> toda a sua gente, que
+vinham algum tanto damnificados do caminho.</i></p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota34">[34]</a> Como quem diz--gargantilhas</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota35">[35]</a> Ligas, correias, etc.</p> </div> <span class='pagenum'>Pág. 53</span>
+
+<p><i>N'este tempo foi Sua Senhoria mais nomeado por Lisboa que assada
+quente<a href="#nota36"><sup class="footnote">[36]</sup></a> e todos com olhos longos por sua entrada, a qual eu não vi.
+Dizem que a 25 de outubro de 553 annos ás tres horas depois do meio dia
+entrou o vosso bispo, o qual vinha na maneira seguinte, todos de dous em
+dous, como cachos em redea<a href="#nota37"><sup class="footnote">[37]</sup></a>, sómente as azemolas, se o eram, vinham
+um cacho por redea:--Primeiramente vinha deante de tudo um villão, por
+nome Amador Colaço, a quem a natureza negou barbas, o qual foi moço de
+pé d'este bispo, que a ventura bem casou nessa cidade, em cima de um
+rocim de meia sela, chapeu branco, vestido preto com peças d'ouro em
+certos logares, que denunciam festa, o qual, como se o villão do
+almocreve, desordenava, tornava atraz e tirava o pé do estribo, que era
+um madeiro, e pegava-lhe, cousa que lhe fazia mostrar as bragas que o
+capotim de côr traria coberto de más linguas.</i></p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota36">[36]</a> Allusão ao pregão das castanhas assadas.</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota37">[37]</a> Restea de uvas; isto é, reste de cachos de pendura (Moraes).
+Reste, corda feita de peças trançadas; v. g. uma reste de alhos, de
+cebolas, etc.</p> </div>
+
+<p><i>Quarenta bestas vinham n'esta ordem, suas mataduras cobertas com
+reposteiros que lá se fizeram. Já sabeis quejandos eram.</i></p>
+
+<p><i>No couce vinham duas escolhidas para aquella hora, que traziam cama e
+cofre, acompanhadas de seis villãos, cada um com <span class='pagenum'>Pág. 54</span> sua partezana
+nas mãos, tão frouxos que os desarmariam sem gafas<a href="#nota38"><sup class="footnote">[38]</sup></a>; e logo no rabo
+vinha um estribeiro, que o outro bispo creou, tão triste e descontente
+que parecia que se arrependera do que accettara.</i></p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota38">[38]</a> Sem gafas, o mesmo que--sem esforço, nem violencia. Gafa era o
+gancho com que se puxava a corda da bésta para armal-a.</p> </div>
+
+<p><i>Nas costas d'estes todos vinham a procissão da gente, onde não faltaram
+cavallinhos fuscos. Só o sagitario esqueceu.</i></p>
+
+<p><i>Vinha deante um molho de trombetas; em vez de virem vermelhas vinham
+amarellas, e logo os atabaleiros que já não traziam braços.</i></p>
+
+<p><i>Os das charamelas, já sabeis que são pão de rala, não puderam mudar
+cor. Como uns acabavam uns versos, outros começavam, sempre os ouvidos
+tinham que fazer, como os olhos que vêr. As cavalgaduras d'estes todos
+eram ossos sem posta de polpa.</i></p>
+
+<p><i>Detraz vinham trinta moços da camara, todos almagrados,<a href="#nota39"><sup class="footnote">[39]</sup></a> os quaes
+parece que os comprou o bispo por junto e lhes deram as encavalgaduras
+todas em cima, e de chapeus brancos, como romeiros, e os mais delles com
+calças e sapatos, sem espadas, gente religiosa, algum tanto no vestir
+castelhanos, porque quem levava luvas faltavam-lhe as esporas.</i></p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota39">[39]</a> Pintados de almagre ou almagra; isto é, de vermelho.</p> </div>
+
+<p><i>E logo na dita ordem vinham os coimbrãos tão tristes e descontentes,
+que pareciam que perderam todos suas fazendas. Nomear um <span class='pagenum'>Pág. 55</span> por um
+será muita honra sua e canceira minha e enfadamento vosso; basta que
+alguns d'elles traziam frenos<a href="#nota40"><sup class="footnote">[40]</sup></a> de ouro, mas mal pelas mulheres que
+ficam sem arrecadas, todos em cavallos de tornas, tirando o chanceller
+que vinha momo feito, outrosim pagem do arremeção,<a href="#nota41"><sup class="footnote">[41]</sup></a> que não havia
+mais no sel'o.<a href="#nota42"><sup class="footnote">[42]</sup></a></i></p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota40">[40]</a> Freios.</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota41">[41]</a> Talvez pagem da lança, porque arremessão (melhor graphia que
+arremeção) significava, segundo o Dic. da Academia, qualquer arma
+missiva ou de arremesso, como lança, dardo etc.</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota42">[42]</a> Isto é, mais acabado e perfeito.</p> </div>
+
+<p><i>Inofre Francisco vinha bem acompanhado e bem encavalgado, todos os seus
+feitos rosmaninhos<a href="#nota43"><sup class="footnote">[43]</sup></a> e bem encavalgados. A todos pareceu bem; só um
+senão lhe acharam, que não levava o ferro do arremeção esfolado.</i></p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota43">[43]</a> Engalanados. Hoje diriamos--uns palmitos.</p> </div>
+
+<p><i>O meirinho Gaspar Dias não se achava ahi sem vara, acompanhado de dous
+beleguins, que lhe foram sempre fieis, um lhe trazia um cabresto com que
+vinha silhado, o outro lhe trazia uma ferradura que lhe cahiu no campo
+de Alvalade.<a href="#nota44"><sup class="footnote">[44]</sup></a></i></p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota44">[44]</a> O Campo Grande actual, com a differença de que n'aquelle tempo era
+bosque silvestre, muito povoado de rouxinoes, como se vê da <i>Ulysippo</i>
+de Jorge Ferreira de Vasconcellos, quando diz (acto IV, scen. 5.<sup>a</sup>): «Vós
+estaveis mais namorado que um rouxinol de Alvalade.»</p>
+
+<p>Só no reinado de D. Maria I foi que o campo de Alvalade começou a ser
+transformado em alameda publica.</p> </div>
+
+<p><i>Os mais, que aqui não vão, traziam tanto que dizer que será nunca
+acabar. Quando <span class='pagenum'>Pág. 56</span> nos virmos ambos, então vos representarei a
+farça.</i></p>
+
+<p><i>Passado este chuveiro d'escudeiros tornou melhor dia, Arthur de Sá e
+Francisco Pereira, seu irmão, honestos no trajo, confiados na fidalguia.
+Mas então disseram que trazia Arthur de Sá feita a petição do morgado,
+perguntando uns aos outros quanto renderia o praso.</i></p>
+
+<p><i>E n'isto appareceu Dom João, Bispo Conde, tres pessoas, um só frade,
+cercado de vinte e tantos villãos, que todos pareciam paes d'orfãos de
+Jesus, desazados, barbas d'estrigas, todos molares, sem vir entre elles
+nenhum só duvazio, vestidos em uns alqueceres<a href="#nota45"><sup class="footnote">[45]</sup></a> brancos e azues, que
+lhes davam pelos artelhos. O mais que de S. S.<sup>a</sup> disseram, não direi eu
+por não pôr a mão em sagrado.</i></p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota45">[45]</a> Alquice ou alquicer, capa mourisca.</p> </div>
+
+<p><i>Toda a outra clerezia vinha má com boa, como romãs de Castella, esta
+ordem levaram todos pela Rua dos que padecem martyrio,<a href="#nota46"><sup class="footnote">[46]</sup></a> levando nas
+unhas<a href="#nota47"><sup class="footnote">[47]</sup></a> o Rocio e toda a Rua Nova<a href="#nota48"><sup class="footnote">[48]</sup></a> até chegarem ao Terreiro do
+Paço, <span class='pagenum'>Pág. 56</span> donde muitos descavalgaram sem criados, ficando os ginetes
+tão mansos, que nem as apupadas dos rapazes, nem o rumor da gente teve
+poder para os fazer rinchar.</i></p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota46">[46]</a> Era a rua que, tomando se por ponto de referencia o Rocio,
+conduzia ao Campo de Santa Barbara, então chamado <i>da Forca</i> (<i>Lisboa
+antiga</i>, 2.<sup>a</sup> parte, tomo V, pag. 65 e 78; tomo VI, pag. 65 e 68.) Não
+quero asseverar que correspondesse á actual rua direita dos Anjos,
+porque o Campo da Forca era muito mais vasto então; estendia se desde o
+sitio dos Anjos até ao actual largo de Arroyos.</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota47">[47]</a> Ainda hoje dizemos «na ponta da unha» para designar a maxima
+velocidade.</p> </div>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota48">[48]</a> A Rua Nova dos Ferros correspondia, approximadamente, á actual rua
+dos Capellistas. Diz-se que foi mandada construir por el-rei D. Diniz.</p> </div>
+
+<p><i>El-Rei nosso senhor, com a Rainha e Principe, os esperavam na varanda,
+onde lhes S. S.<sup>a</sup> beijou as mãos e lhe fizeram arrazoado agazalhado.
+Acabado elle os dous irmãos Sá Pereira fizeram outro tanto e apoz estes,
+«cabeça em cu, que não fique nenhu». Alvaro Mendes, contador da
+Universidade, foi por cá.</i></p>
+
+<p><i>Acabado o officio, tornou-se Sua Senhoria a seus paços, e ao descer da
+escada encostado a um pagem, que dizem ser seu sobrinho, o qual fez
+muito ruins mesuras, vinha caiado de novo, trazia umas pontinhas de ouro
+no capello da capa d'onde nunca tirou o olho, que tão recatado vinha da
+tezoura.</i></p>
+
+<p><i>Ao bispo tornaram a arripiar carreira algum tanto a procissão desfeita,
+fazendo cada um caminho para suas pousadas, e de maneira os enguliu
+Lisboa, que nunca mais appareceram nem fizeram mossa.</i></p>
+
+<p><i>Isto tudo passou na verdade, que m'o disseram homens de respeito. Se
+mais quizerdes peitae lampreas<a href="#nota49"><sup class="footnote">[49]</sup></a>, que os homens d'essa terra <span class='pagenum'>Pág. 58</span>
+n'isso desenfornam todos seus cumprimentos. Nosso Senhor vos dê muita
+saude e vida e muito dinheiro, e vos livre d'estas trovoadas que o tiram
+e gastam.»</i></p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="nota49">[49]</a> Comprai-me, subornai-me com lampreas. Vê-se que sempre tiveram
+grande fama as lampreas do rio Mondego; e que de Coimbra as mandavam
+como mimo para outras terras do paiz. Era gentileza vulgar dos
+conimbricenses. A lamprea cozinhada na famosa estalagem do Paço do Conde
+foi, em nossos dias, um piteo muito celebrado por estudantes.</p> </div> </div>
+
+<p>Esta carta, que não pudemos encontrar em 1889, não completa ainda o
+espolio literario do Chiado, porque não tem sido possivel encontrar
+exemplares de outras especies, taes como o <i>Auto de Gonçalo Chambão</i>,
+que, segundo Barbosa, teve nada menos de trez edições.</p>
+
+<p>Mas constitue um achado, que reputei feliz, e que me deixou contente
+quando se me deparou n'uma epoca em que eu versava com enthusiasmo
+assumptos literarios.</p>
+
+<p>Se hoje dou a lume esta carta de Chiado, foi porque para esse effeito
+encontrei as maiores facilidades n'uma empreza editora, que se tem
+assignalado por bons serviços ás letras patrias.</p>
+
+<p>Não é que eu fie do exito d'esta monographia e fique imaginando que hão
+de acudir a compral-a numerosas legiões de leitores.</p>
+
+<p>Em Portugal só o romance francez tem procura no mercado.</p>
+
+<p>Qualquer outra especie literaria representa um desastre de livraria.</p>
+
+<p>Por haver chegado a esta convicção é que nunca pensei em fazer segunda
+edição das <i>Obras do poeta Chiado</i>, que bem podia ter sido enriquecida
+com a materia do presente opusculo e com varias <span class='pagenum'>Pág. 59</span> correcções que
+me foram indicadas, sobre a difficil interpretação dos textos, pelos
+srs. visconde de Castilho, Antonio Francisco Barata e professor
+Epiphanio.</p>
+
+<p>Mas seria perder tempo, e o tempo é a vida. Esperdiçal-a era desatino.
+Poupemol-a.</p>
+
+<p>Estou n'este ponto de vista ha muito tempo.</p>
+
+<p>Lisboa, 9 de julho de 1901.</p>
+
+<p class="centrado"><img src="images/final.png" border="0" alt="Decoração de Fim de Livro"/></p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O poeta Chiado, by
+Alberto Augusto de Almeida Pimentel
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O POETA CHIADO ***
+
+***** This file should be named 22509-h.htm or 22509-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
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+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
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+</html>
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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