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+Project Gutenberg's Scenas Contemporaneas, by Camilo Castelo-Branco
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Scenas Contemporaneas
+
+Author: Camilo Castelo-Branco
+
+Release Date: October 26, 2007 [EBook #23203]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS CONTEMPORANEAS ***
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+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
+book was produced from scanned images of public domain
+material from the Google Print project.)
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+SCENAS CONTEMPORANEAS.
+
+
+
+
+SCENAS CONTEMPORANEAS
+
+POR
+
+CAMILLO CASTELLO-BRANCO.
+
+2.^a EDIÇÃO.
+
+PORTO:
+EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR,
+Rua dos Caldeireiros n.^{os} 18 e 20.
+1862.
+
+
+
+
+Porto--TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA, _Rua da Cancella
+Velha n.^o 62._
+
+
+
+
+MORRER POR CAPRICHO.
+
+
+I.
+
+
+Os meus amigos, de certo, não sabem o que é caçar coelhos na neve?
+
+Não admira.
+
+Imaginem-se em qualquer aldêa, nas visinhanças do Marão. Olhem em redor
+de si, e contemplem o quadro que os viajantes na Suissa lhes descrevem
+todos os dias, supposto que nunca sahissem da sua terra.
+
+A primeira impressão que recebem é a do assombro. Leguas em roda, nem na
+terra nem no céo, se descobre uma crista de rochedo, a frança d'uma
+arvore, a dobra d'uma nuvem, que não seja branca, alvissima, desde um
+horisonte a outro horisonte.
+
+E, depois, ha ahi em toda essa natureza amortalhada um silencio funebre.
+Não cantam as aves, não balam os cordeiros, não silva o buzio de
+pegureiro, não soam nas quebradas as campainhas da arreata de machos.
+
+Se ouvis um rugido assobiado ao qual respondem outros, não vos afasteis
+para longe da casa d'onde presenceaes, com o coração confrangido, esta
+scena. É uma alcatéa de lobos, que descem famintos da serra, e serão
+capazes de vos hirem buscar á cozinha, onde naturalmente tiritaes de
+frio, sentados ao pé do tóro de carvalho.
+
+Faço-vos esta recommendação porque sois uns homens afeminados, que nunca
+sahistes dos salões, dos botequins, dos theatros, e das praças. Aposto
+que se desseis de face com um lobo, de garras arqueadas, e fauces
+inflammadas, antes que o lobo vos désse o cordial abraço da fome, já vós
+tinheis perdida a sensibilidade, e consciencia da vida, e até o direito
+que todo o homem tem de matar não só o seu semelhante, mas até um lobo,
+em justa defeza!
+
+Se eu podesse contar com o vosso animo, aconselhar-vos-hia, que em uma
+d'essas manhãs de neve, com meio covado de altura nos terrenos chãos,
+tomasseis um cajado, e, com duas finas cadellas de coelho, fosseis dar
+na serra um passeio d'algumas horas.
+
+O peor que podia succeder-vos era o desvio do caminho, que só com muita
+pratica se acerta, e, quando mal vos precatasseis, resvalar n'um abysmo
+de neve, onde nem as orelhas de fóra dissessem ao passageiro que um
+moço, a todos os respeitos excellente, fôra alli absorvido por um
+sorvete dos que a natureza offerece aos amantes de refrescos, com menos
+economia que o _Guichard_.
+
+Afóra este inconveniente, ainda ha o dos lobos, que muitas vezes tomam
+conta das nossas cadellas, devoram-nas com uma perfeição e rapidez
+fabulosas, e, quando Deus quer, fazem dos nossos corpos um supplemento
+nutritivo ás nossas cadellas, deixando-nos a alma por muito grande
+obsequio.
+
+O terceiro percalço, affecto á caça do coelho na neve, aconteceu-me a
+mim, ultimo dos mortaes, em 26 de Dezembro de 1844.
+
+É o que tereis a bondade de procurar saber no capitulo seguinte.
+
+
+II.
+
+
+Fui convidado por alguns amigos a acompanhal-os á serra, porque o sol
+refrangia-se em scintillas na neve, que parecia desfazer-se em laminas
+de prata.
+
+Fui muito contente da consideração que se me dava, como caçador, porque,
+em verdade vos digo, atirei com certeiro olho a perdizes e galinholas.
+Se nunca matei nenhuma, o que tambem é verdade, deve-se á pessima
+polvora das nossas fabricas. Em compensação, matei muito melro e tordo
+nas serdeiras, e consegui matar de noite uma coruja, africa que muitos
+caçadores famosos de certo não fizeram. Eu fui um grande homem antes de
+escrever folhetins! Deus perdôe a quem me torceu a vocação! Eu podia, a
+estas horas, ser um habil corredor de lebres, e assim tornei-me a lebre
+dos galgos sociaes.
+
+Estes galgos sociaes, meu leitor, se tu és um d'elles, permitte-me
+dizer-te que tens o faro muito descaçado, e que eu hei-de saltar por
+cima de ti, quando cuidares que me abocas. Se não és galgo, sensato
+amigo, aqui rasgo o diploma de tolo, que te concedi, sem te levar
+direitos de mercê.
+
+Agora, vai entrar a historia direitinha até ao fim.
+
+
+III.
+
+
+Subimos á esplanada da serra. Eramos seis. Dividimo-nos em tres grupos,
+e combinamos em nos darmos signaes com tiros no caso de nos perdermos
+encobertos pelo nevoeiro, que poderia de improviso esconder-nos os
+cabeços das serras, unicas balizas que nos serviam de guia.
+
+Assim combinados, cada grupo, com dous cães, seguiu as pégadas dos
+coelhos impressas de fresco na neve. Eram muitos, e morriam á pancada,
+porque os pobresinhos alapados debaixo das urzes, se fugiam, eram logo
+mordidos pelos cães; se esperavam eram apanhados á mão. Alguns, mais
+previdentes, tinham emigrado para as fundas colheitas, formadas pelas
+sinuosidades interiores dos penedos agglomerados. A estes perseguia-os o
+furão, que eu levava no meu cacifo, desalapava-os, e os cães, farejando
+as avenidas da colheita, recebiam-os nos dentes, sacudiam-nos com o
+rancor do instincto, e atiravam-nos mortos aos nossos pés.
+
+Andamos assim uma hora, tão entretidos, tão esquecidos do mundo, que
+nunca tão distrahida hora eu tive na minha vida, a não ser aquellas em
+que durmo, e sonho que hei-de tornar áquelles meus dias de candura,
+depois de lidar muito com a innocencia d'estas angelicas creaturas, que
+vestiriam, por innocentes, como Adão e Eva, se a serpente lhes não
+dissesse que andavam indecentes.
+
+Ao cabo d'essa hora, toldou-se o ar, e cahiu uma segunda camada de neve.
+
+O meu companheiro quiz logo voltar sobre os seus vestigios, porque
+(dizia elle) d'aqui a minutos as nossas pégadas estarão cobertas, e não
+saberemos caminhar para o nascente nem para o poente.
+
+--Eu, por ora, não vou--lhe disse eu.
+
+--Porque?
+
+--Estou bem aqui. Acho muita poesia n'este quadro. Imagino que esta
+chuva de neve se transforma em chuva de fogo... Este nevoeiro, que rola
+em ondas aos nossos pés, e sobre a nossa cabeça, afigura-se-me o fumo do
+grande incendio no juizo final! Olha... não te parece que o vento
+espalha já as cinzas d'uma grande cidade! Não vês Sodoma lá em baixo
+vomitando columnas de fumo?...
+
+--Eu não vejo nada... Acho de muito mau gosto as tuas visões... vamos
+embora...
+
+--Vai tu... e quando encontrares os nossos companheiros, dá um tiro, que
+eu lá vou ter. Estou bem aqui; não me mudo por cousa nenhuma.
+
+--Até logo.
+
+
+IV.
+
+
+E eu continuei a vêr as minhas visões.
+
+Parece-me que, por esses tempos, fui poeta, muito poeta, em elevações
+d'alma para cousas de imaginação, que não era esta fria imaginação, que
+tenho hoje.
+
+Absorvido no meu quadro do juizo final, que só uma phantasia abrasada
+poderia dar-me, transfigurando a neve em fogo, ouvi um tiro, e não fiz
+caso. Ouvi segundo, e senti um piedoso desdem por aquelles homens, prosa
+vil, que não tiravam partido do grandioso panorama, que a mão liberal da
+natureza desenrolava diante de meus olhos absortos.
+
+Não sabeis que o nevoeiro embriaga?
+
+É uma verdade. A cabeça enfraquece; nos ouvidos ha um zunido, que vos
+faz perder o rumo. Sentis uma sensação desagradavel, semelhante á do
+giro penoso em que a indigestão do vinho vos traz a cabeça vertiginosa.
+
+Foi o que eu senti, quando me furtei ás minhas contemplações improprias
+do tempo e do lugar.
+
+Ergui-me, e não sabia já designar a direcção que levára o meu
+companheiro, nem o ponto onde se deram os tiros. Desfechei a minha
+clavina, mas a humidade inutilisára a escorva. Os cães, que poderiam
+ensinar-me o caminho, tinham seguido o meu companheiro. Não desanimei.
+
+Tal direcção pareceu-me que deveria ser a melhor, e segui-a. O nevoeiro
+deixava-me vêr apenas o espaço que pisava. Atravessei a lombada da
+serra, e comecei a descer. Escorreguei muitas vezes nos algares da
+encosta, e senti a neve pela cintura. Gastei duas horas, tres, quatro,
+descendo, descendo, sem encontrar uma povoação. Conheci que estava
+perdido. A neve augmentava. A noite aproximava-se, e nem um symptoma de
+vida! Então, sim; tive medo, e imaginei que a minha sepultura, sem
+solemnidade alguma, deveria encontral-a brevemente no estomago d'algum
+lobo.
+
+E, de mais a mais, eu tinha fome.
+
+Todos os provimentos, que eu levava na minha rede, eram um pedaço de
+brôa para o meu furão. Reparti-o entre nós. O animalsinho comeu com
+appetite, e pilhando-se solto, como o seu officio era desemlapar
+coelhos, entrou na primeira lura que viu, e fez saltar fóra um gato
+bravo, que espirrava diabolicamente por cima dos tojos coroados de neve.
+
+Nunca me esqueceram os espirros d'este gato bravo!
+
+Continuei o meu caminho, sem esperanças de encontrar pousada.
+
+Escureceu.
+
+Encostei-me, desalentado, a um castanheiro, e fiz da minha pobre cabeça
+uma cabeça academica.
+
+Pensei muito, estabeleci varios raciocinios, que conspiraram em
+provar-me, que, perto d'alli, devia existir uma povoação, por isso que
+os castanheiros, campos, e paredes eram indicios de aldêa proxima.
+N'este comenos, ouvi um mugido de boi, e em seguida uma sineta, que
+tocava ás «Ave-Marias.»
+
+Aquellas tres badaladas ergueram a Deus o meu espirito reconhecido. Orei
+com a devoção dos dezoito annos. Não vos digo mais nada a este respeito,
+porque me não entenderieis. Sois excellentes pessoas para devorar um
+romance em dez volumes; mas não lerieis, sem abrir tres vezes a bocca,
+uma pagina de sentimentos embalsamados do aroma do céo, que o poeta não
+deve nunca profanar, misturando-os a frioleiras d'uma historia, ao
+alcance de todas as capacidades.
+
+Eu creio que entre vós ha entendimentos muito finos, paladares muito
+apurados no sabor do bello, corações muito brandos para emoções suaves.
+Creio que sim; mas o melhor é fazer de conta que os não ha.
+
+
+V.
+
+
+Minutos depois, achava-me n'uma povoação, onde nunca estivera. Encontrei
+uma velha que castigava um porco, rebelde á invocação de sua ama, com
+uma roca.
+
+Perguntei-lhe que povo era aquelle.
+
+--Alpedrinha--disse ella.
+
+Ora, Alpedrinha distava duas leguas e meia de minha casa. Era necessario
+pernoitar alli. Perguntei á dita velha onde morava o parocho. Mostrou-me
+a casa. Pedi gasalhado ao reverendo, que n'esse momento voltava da
+igreja. Disse-me que subisse. Quiz saber quem eu era, e tratou-me
+delicadamente, quando lhe citei um medico, pessoa de minha familia.
+
+O snr. padre Joaquim era um padre admiravel. Tinha maneiras da côrte.
+Vestia com muita limpeza. Fallava com prodigiosa correcção, e offerecia
+aos seus hospedes aguardente e biscoutos, tudo do melhor, e servido em
+bons crystaes e polida salva de prata.
+
+Momentos depois que eu chegára, apeou á porta do meu sympathico
+sacerdote um cavalleiro, ainda moço, muito pallido e magro, com chapéo
+hespanhol, faxa vermelha, e botas d'agua.
+
+Era um estudante de Coimbra, que voltava doente para sua casa, e
+costumava pernoitar em Alpedrinha, com aquella familia.
+
+A primeira pergunta do academico foi esta:
+
+--Como está a snr.^a D. Amelia?
+
+--O mesmo...--respondeu padre Joaquim.
+
+--E seu mano? Tem vindo a casa?
+
+--Não senhor: desde que foi delegado para * * *, ha tres mezes, não
+voltou....
+
+Eu estava ancioso por conhecer a snr.^a D. Amelia, porque até ao momento
+em que o estudante chegou, suppunha eu que toda a familia do parocho se
+limitaria a alguma ama, e alguns pequenitos, que, de ordinario, são
+afilhados do padre. Depois das perguntas do meu illustre companheiro de
+hospedagem, fiquei sabendo que n'aquella casa existia uma snr.^a D.
+Amelia, e um senhor delegado de * * *.
+
+Padre Joaquim contou ao academico as minhas aventuras de caçador;
+disse-lhe que me tinha achado muito fino (referia-se naturalmente á
+magresa), e fez a apologia dos meus olhos, que, naturalmente, revelavam
+uma extraordinaria esperteza, espiritualisados pelo espirito de vinho,
+que o sacerdote me injectou nas veias marasmadas pelo frio.
+
+Conversei com o academico. Perguntei-lhe muitas cousas de Coimbra:
+quantos canellões soffria um calouro; o calculo aproximado dos puxões de
+orelhas; a solemnidade indecente de certo vaso na cabeça.... &c. &c.
+
+O academico respondia-me com muito agrado, e offerecia-se para meu
+protector em Coimbra, no anno seguinte, que devia ser o da minha
+partida.
+
+
+VI.
+
+
+--Snr. Valladares--disse o padre ao estudante--minha cunhada ergueu-se
+da cama para vir comprimental-o...
+
+--É uma grande consideração, que eu lhe não mereço; mas a delicadeza da
+snr.^a D. Amelia é sempre um severo preceito que ella se impõe.
+
+Fallou bem.
+
+N'isto, entrou uma senhora, com um ar de tanta nobreza, que me pareceu
+uma cousa nova. Eu não conhecia assim nenhuma. Era alta, muito magra no
+rosto, mas muito bella nos olhos, nos labios, nos cabellos, em tudo se
+via tanta formosura, tanto donaire, um senhoril tão estreme do vulgo,
+que eu, creança e poeta, senti-me tão acanhado como o mais boçal dos
+pastores de cabras d'aquella freguezia.
+
+--Como passou, snr. Valladares?--perguntou ella com voz tremula,
+tossindo a cada palavra, e aconchegando da face a golla de veludo da sua
+capa.
+
+--Sempre doente, minha senhora... Por não poder mais, recolho-me a
+casa...
+
+--Eu bem lhe disse que não fosse... v. s.^a teimou, agora já sabe que os
+conselhos d'uma mulher não são sempre pieguices...
+
+--E os de v. exc.^a nunca poderão sêl-o... E a snr.^a D. Amelia como
+está?
+
+--D'este modo que vê... Tossindo sempre, sempre mal, sem descanço d'este
+lado, que me parece que já não vive, se não para matar o resto de vida
+que tenho...
+
+D. Amelia indicava o coração.
+
+--Porque não dá um passeio até Lisboa?--tornou o academico.
+
+--Isso lhe tenho eu dito todos os dias--atalhou o padre.
+
+--De que me serve Lisboa?
+
+--São ares patrios, minha senhora. Talvez o contacto do coração com as
+suas amigas de collegio...
+
+--Eu já não tenho coração para contacto com amigas nem inimigas, snr.
+Valladares...
+
+--O que v. exc.^a tem é uma ardentissima imaginação, alma de poeta, que
+só tem a sensibilidade do que é triste, e não sabe tirar recursos da
+esperança...
+
+--Esperança!...--murmurou ella com um triste sorriso, e voltando-se para
+mim, perguntou-me:
+
+--Já sei que este senhor esteve em risco de passar uma noite divertida
+com os lobos...
+
+--É verdade, minha senhora; mas a Providencia encaminhou-me ao paraizo,
+depois de me ter mostrado o inferno.
+
+--Ora ahi tem uma resposta d'um moço, que seria pena comerem-no os
+lobos!...--disse o padre, desafiando um gracioso sorriso de Amelia.
+
+--Ha-de dizer ao seu parente medico que me salve da sepultura assim como
+nós esta noite o salvaremos de ser victima dos lobos--disse-me ella,
+apertando affectuosamente a mão de Valladares, em despedida, porque a
+tosse exasperava-se cada vez mais.
+
+Esta rapida apparição impressionou-me muito. Queria fazer mil perguntas;
+mas eu não tinha a quem. O padre e o estudante fallaram em assumptos,
+que me não interessavam nada. O que eu queria era a vida, a historia, os
+soffrimentos, a poesia d'aquella mulher. Eu tinha lido, dias antes, não
+sei que romance, onde vira uma mulher assim...
+
+Appareceu um taboleiro com a cêa. O abbade fez o prato de D. Amelia. Era
+uma aza de gallinha, que elle mesmo lhe serviu.
+
+Valladares tambem comeu do pucaro da doente. Eu, com o abbade, entramos
+corajosamente n'um coelho guisado, cuja retaguarda cortamos com um
+excellente caldo verde, e lourejantes castanhas assadas com manteiga.
+
+No fim, demos graças a Deus.
+
+O padre, segundo o seu costume, foi sentar-se á cabeceira de sua
+cunhada. Eu e Valladares entramos n'um quarto commum.
+
+
+VII.
+
+
+O academico tinha uma physionomia franca e insinuante. Conversava comigo
+sem desdenhosa superioridade. Familiarisamo-nos depressa, como dous
+futuros companheiros de casa em Coimbra.
+
+Eu fui um grande fallador, n'aquella idade, em que pensava menos. O meu
+recente amigo sympathisou com a minha garrula eloquencia, e dava signaes
+de desenfado, quando naturalmente devêra querer dormir, depois de uma
+fatigante jornada, em dia de neve.
+
+Eu não era rapaz que, por delicadeza, calasse a minha curiosidade a
+respeito de D. Amelia.
+
+--O senhor faz-me o favor de me dizer uma cousa?--disse eu.
+
+--Que é? quantas horas são?... são 10... quer dormir?
+
+--Não, senhor: queria saber quem é esta snr.^a D. Amelia?
+
+--É cunhada do padre, e casada com um sujeito, delegado em * * *.
+
+--Isso já eu sabia... pouco mais ou menos.
+
+--Então sabe tanto como eu...
+
+--Mas é d'aqui d'esta aldêa esta senhora? Creio que ouvi dizer que era
+de Lisboa.
+
+--É verdade... nasceu em Lisboa...
+
+--E como veio parar aqui n'este matagal? Naturalmente perdeu-se, como
+eu, na serra, por causa da neve, e veio cá bater, e cá ficou! Pois eu
+dou-lhe a minha palavra de honra, que apenas vir luzir o buraco,
+retiro-me sem mais ceremonias d'este delicioso covil de cabras.
+
+O meu amigo ria-se. Estava disposto a achar-me graça, e o leitor póde
+tambem rir-se, se lhe aprouver.
+
+E acrescentou ao sorriso:
+
+--Parece-lhe impossivel que a tal senhora viesse de Lisboa para aqui sem
+ser impellida por um acaso?
+
+--De certo... Já não admira que ella tenha tosse de tisica... O que me
+espanta é ella viver, se cá está desde hontem!... Quando veio ella?
+
+--Ha dous annos.
+
+--Então é eterna... ou santa. Hei-de dizer que encontrei esta martyr a
+uma minha tia, que é capaz de jurar que a viu fazer milagres...
+
+--O menino é sarcastico! Se o não visse tão inclinado a rir-se de cousas
+serias, contava-lhe uma historia triste...
+
+--E eu gosto muito de historias tristes... Verá que me não rio, quando
+me dizem alguma cousa que me toque o sentimento. A minha familia
+chama-me poeta; os visinhos chamam-me tolo; não sei bem o que sou; mas o
+que não sou é insensivel... Vê... já não tenho vontade de gracejar...
+Conte-me agora a historia, que eu prometto contar-lhe outra que me fez
+chorar, porque é uma passagem tão infeliz, que, se eu fizesse novellas,
+escrevia uma.
+
+--Talvez as escreva no futuro...
+
+--Eu?... Deixe-se d'isso... O meu mestre de logica diz que eu sou um
+alarve, e o de rhetoria já me mandou ser aprendiz de alfaiate... Não
+tenho habilidade nenhuma. O meu gosto é lêr os sonetos do abbade de
+Jazente, e as quintilhas do Nicolau Tolentino. Não sei mais nada, nem
+quero saber... Vamos á historia, sim?
+
+--Então aproxime-se de mim, que eu quero fallar baixo. Mas, antes de
+mais nada, promette não contar a ninguem o que vou dizer-lhe?
+
+--Pois é segredo!
+
+--É.
+
+--Prometto...
+
+--Pois ahi vai.
+
+
+VIII.
+
+
+--Esta senhora viveu em Lisboa até aos dezeseis annos. Hoje o mais que
+póde ter são vinte e dous.
+
+--Só?! Eu calculava trinta e tantos _bons_, como diz minha tia, quando
+quer fazer todas as pessoas mais velhas que ella.
+
+--Pois deixemos lá sua tia, que deve ser, pouco mais ou menos, como
+todas as tias... Vamos com a nossa historia, e depressa, senão adormeço,
+e o meu curioso amigo perde a occasião de saber quem é a snr.^a D.
+Amelia...
+
+--Isso de modo nenhum--atalhei eu com sobresalto--Prometto não
+interromper a historia.
+
+--Pois bem. O pai d'esta senhora morreu em Lisboa, e o conselho de
+familia deliberou que a orphã viesse para a provincia, onde tinha tios,
+e o seu patrimonio em quintas.
+
+Quando appareceu em * * *, os rapazes fizeram-lhe montaria, e disputaram
+a primazia no namoro. D. Amelia não aceitava, nem repellia a côrte de
+nenhum. Tinha o mesmo riso para todos, e fallava a todos com a mesma
+delicadeza.
+
+Havia alli um rapaz que não frequentava a sociedade de Amelia, porque
+não frequentava sociedade nenhuma. Fôra educado em Genova, viera de lá
+aos quinze annos, vivera no Porto até aos vinte e cinco, e quando
+recolheu á provincia, d'onde sahira de tres annos, com a sua familia que
+emigrára em 1828, ninguem o conhecia, e elle mesmo não queria conhecer
+ninguem.
+
+Chamavam-lhe celebre, exquisito, excentrico, orgulhoso, impostor, e não
+sei que muitas outras lisonjas do charco de certos espiritos, que não
+podem sahir da pequena esphera de lama, que a natureza lhes deu por
+homenagem.
+
+D. Amelia viu este rapaz n'um cemiterio: leu um epitaphio que elle
+mandára abrir na sepultura de seu pai que o deixára em Genova no
+collegio, e viera morrer em 1836 á patria: comprimentou-o de passagem,
+respondendo a um distincto cortejo do melancolico poeta; e parece que,
+desde esse encontro, Amelia transfigurou-se para todos os homens, deu
+que pensar á sua familia, queria todos os dias visitar o cemiterio, e
+retirava quasi sempre mais triste, porque muito raras vezes encontrou
+alli o invisivel extravagante da opinião publica.
+
+--Como se chamava elle? Eu conheço alguns rapazes de * * * que foram
+meus condiscipulos em logica.
+
+--Não é nenhum dos seus condiscipulos. Já lhe disse que este sujeito
+veio do Porto para a provincia, com vinte e tantos annos pelo menos. O
+seu appellido é Côrte-Real, conhece?
+
+--Nada, não conheço; mas ouço fallar todos os dias n'esse rapaz.
+
+--Que ouve dizer?
+
+--Que está em Lisboa, doudo, no hospital...
+
+--O senhor afiança-me isso? Ha que tempo endoudeceu?
+
+--Ha dous ou tres mezes...
+
+--Quem lh'o disse?
+
+--Um medico, meu parente, que o mandou conduzir para a enfermaria dos
+doudos.
+
+O academico fez-me signal de silencio, e mandou-me ouvir.
+
+--Não ouve?--disse elle.
+
+--Ouço... é alguem que soluça...
+
+--É ella...
+
+--D. Amelia?
+
+--Sim... Ouviu a nossa conversa... Tem ouvidos de tisica...
+
+--É admiravel!... Pois o quarto d'ella não é longe d'este?
+
+--Passam-se tres quartos, mas os repartimentos são de tabique, e eu não
+me lembrei de tal... Calemo-nos...
+
+--E a historia?... Falle mais baixo, que ella não ouvirá mais nada...
+
+--Agora, é impossivel... Aquelles soluços transtornaram-me a cabeça...
+Deite-se, e ámanhã fallaremos antes de nos despedirmos...
+
+
+IX.
+
+
+Á cabeceira do meu leito, estava um volume das _Viagens de Cyro_, e o
+quinto volume d'uma _Miscellanea curiosa e proveitosa_, onde encontrei
+uma longa poesia a _D. Ignez de Castro_, que me fez dormir até ás 8
+horas da manhã.
+
+O meu companheiro, quando abri os olhos, estava sentado na cama, e
+escrevendo nas paginas d'uma carteira.
+
+--O senhor está a fazer versos?--perguntei eu.
+
+--Adevinhou.
+
+--Faz favor de recitar, se não é segredo!
+
+--Recito: olhe lá se entende:
+
+ _Eras um anjo? Se o eras
+ Que torvo facho do inferno
+ Te queimou as azas? Diz:
+ Porque, tão cedo, infeliz
+ Cahes no abysmo eterno_!... ETERNO!
+
+--Entendeu?
+
+--Não, senhor.
+
+--Veja se entende agora:
+
+ _Eras pura, quando lagrimas
+ Tu me déste, e me pediste...
+ Tu choraste aqui, choravas...
+ Mas porque? prophetisavas
+ Este abysmo em que cahiste?_
+
+--Entendeu?
+
+--Nada... Ora diga-me os versos tem alguma cousa com a historia que
+ficou suspensa?
+
+--Não, senhor; pertencem a outra, que nasceu aqui n'esta casa, e que é
+toda minha...
+
+--Esta casa parece-me uma casa de novella... Estou a vêr se aqui arranjo
+tambem alguma historia para contar a minha tia, que está resando o
+quadragesimo responso a Santo Antonio por minha causa, se é que já me
+não resou por alma... Então o senhor não conta ao menos a primeira
+historia completa?
+
+--Hei-de contar.
+
+--Quando? Eu vou-me embora logo.
+
+--Não vai. Já aqui esteve o padre, e disse que não sahiriamos d'aqui
+hoje, porque augmentou de noite a neve.
+
+--Deixal-a; mas a minha familia, se eu não appareço, nem dou parte de
+mim, julga-me morto, e é capaz de me fazer officio de corpo ausente.
+
+--Não se assuste, que o padre hontem á noite mesmo fez partir para a sua
+aldêa um criado com a certeza de que o senhor ficava vivo, e mais o seu
+furão.
+
+--A proposito, sabe se já dariam de almoçar ao meu furão.
+
+--É natural que sim... Ahi vem o snr. abbade; perguntemos-lhe... Snr.
+padre Joaquim, pergunta alli o nosso amigo se o furão ja almoçou.
+
+--Comeu quatro ovos, e está agora brincando com minha cunhada, que é
+muito amiga de bichos.
+
+--E como passou ella?--perguntou Valladares.
+
+--Penso que melhor... Ergueu-se muito cedo: a creada disse que a vira
+chorar toda a noite; mas agora fui, com grande espanto meu, encontral-a
+com o furão no regaço, a sorrir-se como quem é muito creança e muito
+feliz... Sabe o senhor que...
+
+Não sei bem o que o padre disse ao ouvido do estudante. Desconfio, pela
+resposta, que o resto do segredo era o receio de que ella endoudecesse.
+
+Tudo isto, apurava-me o desejo de saber o que era a demencia de
+Côrte-Real, e a tisica de Amelia.
+
+
+X.
+
+
+Almoçamos.
+
+D. Amelia esteve comnosco alguns minutos, ouvindo não sei que palavras a
+meia voz, do meu amigo, inintelligiveis para mim, supposto que ahi se
+fallasse duas ou tres vezes n'uma D. Miquelina. Tudo mysterios!
+
+O padre foi dizer missa. D. Amelia foi com elle. Fiquei com Valladares,
+tremendo de frio, ao pé d'uma bacia de brazas. O attencioso levita teve
+a delicadeza de nos não convidar a participarmos da sua missa, que
+n'aquelle dia, com tal frio, faria hereges espiritos devotos.
+
+--Ahi vai agora a continuação da historia--disse o academico, engulindo
+o fumo de quatro cigarros successivos--A familia d'esta senhora é muito
+realista, muito fanatica, arde em odio contra os impios, que são todos,
+menos os sectarios de D. Miguel, e alguns, senão todos, de D. Sebastião.
+A familia de Côrte-Real é ultra-liberal, odeia os realistas com aquelle
+odio saturado na emigração, e não admitte honra, intelligencia, nem
+merecimento em homem que não fosse capaz de cortar as orelhas a um
+miguelista, se elle estiver por isso. Já vê que as duas familias
+detestam-se. De parte a parte no momento em que as relações de Amelia
+com Côrte-Real fossem percebidas, imagine o meu amigo que não hiria!
+
+--Então elles namoravam-se?
+
+--Pois eu não lhe disse já que sim?
+
+--Não, senhor: disse-me que Amelia passeava repetidas vezes no cemiterio
+para vêl-o, mas que não o via muitas vezes. Eu queria saber como se
+encontraram... porque... desejo saber como é que a gente póde sahir d'um
+encontro d'esses!... Não ha muito que me vi entalado com um d'esses
+encontros... Eu tinha o recado na ponta da lingua, e, quando vi a
+mocetona, que não era cousa de atarantar um estudante de logica,
+pegou-se-me a lingua ao céo da bocca, como diz não sei que poeta... _vox
+faucibus hoesit_... Que lhe disse elle quando a viu?
+
+--Isso é que eu não sei, porque não ouvi. O que sei é que se fallavam
+por cartas, e entretiveram assim relações seis mezes. Por fim,
+descobre-se o namoro. Côrte-Real fallava da rua para a janella com
+Amelia: um tio d'ella é avisado; espera-o no pateo, com a porta fechada,
+e, quando elle principia a dizer bellas cousas, o tal bruto abre a
+porta, e descarrega-lhe quatro bordoadas, que o pozeram fóra do combate.
+No dia seguinte, mandou-lhe a casa a capa, o chapéo, e uma clavina, que
+fôra tres vezes batida á queima roupa do tal varredor de feiras.
+
+--E depois?
+
+--D. Amelia, duas horas depois, foi mandada entrar n'uma liteira, e
+conduzida a casa d'este padre.
+
+--Para que?
+
+--Para ninguem saber o seu destino, em quanto vinha de Lisboa, onde ella
+tinha o conselho de familia, uma ordem para ser recolhida a um convento.
+
+--E Côrte-Real que fez?
+
+--Curou as feridas da cabeça, e indagou o destino de Amelia. Como o não
+soube, cahiu n'uma melancolia profunda, teve accessos de loucura, e,
+pelo que o senhor me disse, está hoje no hospital de Rilhafolles.
+
+--E Amelia casou-se?
+
+--Pois no casamento é que está o interessante da historia.
+
+Quinze dias depois da sua vinda para aqui, chegou de Coimbra o irmão do
+padre. Parece que sentiu por Amelia o que era muito natural que
+sentisse. Amou-a, mas não ousou declarar-se, porque sabia os
+precedentes, que a trouxeram a esta casa. Ella, por si, tractava-o com a
+fria delicadeza da indifferença, até ao momento, em que recebeu de uma
+sua tia a noticia de que viera ordem do conselho de familia para ser
+conduzida a Lisboa, e lá recolhida em um convento.
+
+Lida a carta, Amelia offereceu-se como esposa do bacharel. O imprudente
+sem mais nem menos, aceitou a offerta. Alcançou do arcebispo dispensa de
+banhos e consentimento do tutor: o irmão, sem consultar a philosophia, a
+religião, e a consciencia, casou-os. Na tarde do dia das bodas, chegou a
+liteira que devia levar a orphã a Lisboa. Amelia apresentou-se a seu tio
+com um desdenhoso sorriso, e disse: «Não tenho duvida nenhuma em hir
+para Lisboa, e para um convento, mas é necessario que meu marido vá
+comigo.»
+
+--Seu marido!--exclamou o tio estupefacto.
+
+--Meu marido... aqui lh'o apresento.
+
+
+XII.
+
+
+--Dias depois, esta victima dos seus caprichos, cahiu doente. O medico
+capitulou-lhe a enfermidade de tisica no primeiro grau. O marido
+arrependeu-se muito cedo. Ella não se arrependeu, porque sabia que dava
+um passo que devia matal-a. E, com effeito, está alli... está morta...
+
+...Ahi vem ella e o padre... Fallemos d'outra cousa...
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+
+CONCLUSÃO.
+
+
+Um anno depois, em Coimbra, dizia-me Valladares:
+
+--Olha que tive carta do abbade de Alpedrinha. D. Amelia morreu, e as
+suas ultimas palavras ao marido foram estas: MORRO POR CAPRICHO.
+
+
+
+
+UMA PAIXÃO BEM EMPREGADA.
+
+
+
+
+UMA PAIXÃO BEM EMPREGADA.
+
+
+I.
+
+
+O meu amigo Valladares, em uma tarde formosa, passeando comigo no
+_Penedo da Saudade_, sentou-se, accendeu um cigarro com perfeição
+academica, abriu a carteira, e recitou-me os versos, que, um anno antes,
+me recitára em Alpedrinha.
+
+--Lembras-te?--disse elle.
+
+--Perfeitamente. Prometteste contar-me então uma historia.
+
+--Vou cumprir a promessa.
+
+--E disseste que o teu conto prendia muito com aquella casa.
+
+--Disse, e vaes vêr porque. Olha que eu não vou fazer estilo. Prepara-te
+para uma narração simples, e clara. Não pertenço á escóla dos nossos
+lapidarios de palavras, que nos dizem em estilo de Corneille as scenas
+comicas de Moliere. A minha historia, se tal nome lhe cabe, é uma
+tragedia com muitas scenas de farça. Ainda que me não vejas rir, tens a
+liberdade da gargalhada. Ahi vai:
+
+Em 1843 fui á feira do Santo Antonio a Villa-Real. Encontrei ahi uma
+familia que mora uma legua distante de minha casa. Compunha-se d'uma
+senhora idosa, que era mãi d'um cavalheiro, e este cavalheiro era pai
+d'uma bonita mulher, que teria dezoito annos. Gostei d'ella, ou antes
+confirmei a sympathia que ella me tinha presa desde que a vi, pela
+primeira vez, dous annos antes, n'umas ferias grandes. Não lhe disse
+quasi nada. Eu era rapaz de dezoito annos, e, aos dezoito annos, um moço
+d'aldêa tem o coração acanhado, e córa facilmente, quando encontra os
+olhos d'uma mulher, supposto que os veja constantemente em sonhos. A
+rapariga chamava-se Miquelina; isto não faz ao caso; mas sempre te digo
+que nunca suppuz poder pronunciar este nome sem lagrimas... O que é o
+tempo!...
+
+Combinamos partir juntos de Villa-Real. Não recordo na minha vida um dia
+mais feliz do que o dia da nossa partida! A familiaridade animava-me a
+dizer algumas palavras d'aquellas que nunca exprimem senão a sombra do
+sentimento. Miquelina corava, mas nem por isso sustinha as redeas do
+cavallo para esperar a avó e o pai, que vinham alguns passos distantes.
+
+Teriamos andado legua e meia, quando o macho em que vinha montada a
+velha tomou susto d'um tiro, que se deu ao lado da estrada, recuou, e
+deu em terra com a pobre senhora. Acudimos todos.
+
+Encontramos-lhe uma fractura profunda na cabeça, e uma perna quebrada.
+Perguntamos se d'alli perto haveria uma casa onde nos recolhessemos.
+Encaminharam-nos a Alpedrinha, e a casa era a do padre onde me
+encontraste.
+
+O acolhimento que nos deram foi excellente. Encontrei ahi o irmão do
+abbade que era meu contemporaneo em Coimbra. Os facultativos disseram
+que era impossivel continuar jornada, e ahi ficamos vinte dias.
+
+N'este espaço de tempo, sonhei a felicidade, por que hoje sei que não
+existe a realidade d'esses sonhos. Fui muito feliz, senti-me poeta,
+idealisei á sombra de Miquelina cousas e pessoas que nunca tiveram senão
+materia vilissima para as aspirações do poeta. Em fim, meu caro, cheguei
+a recuperar a fé perdida nas cousas da Providencia, porque me parecia
+impossivel tanta felicidade sem consentimento especial da Providencia.
+
+Disse a Miquelina tudo que humanamente póde dizer-se. Traduzi-lhe em
+palavras os extasis, que as não tinham. Interessei-a na comprehensão da
+minha alma, e arranquei-lhe uma palavra, que mil vezes lhe morrera nos
+labios, como queimada pelo ardor do pejo. Quando ella me disse «amo-o»
+se não endoudeci de contentamento, é porque a disposição do meu cerebro
+é invulneravel aos golpes da demencia. Hoje rio-me d'isto, e tu, se te
+não ris, agouro-te que não poderás dizer o mesmo a respeito da tua
+cabeça, passados alguns annos.
+
+--Porque?
+
+--Porque das duas uma: ou doudo, ou cynico. Tomar a serio a sociedade é
+endoudecer. Viver com ella em boa paz é escarnecel-a. Ou doudo ou
+cynico. Não enlouqueci; mas depravei-me. Este escarneo, que
+indistinctamente voto a tudo, é a negação da piedade para todas as dôres
+nobres, e a do odio para todos os prazeres infames. Não me espanta nada.
+Aperto a mão do mais corrupto, e a do mais virtuoso com a mesma graça.
+Recebo todos os desaforos como factos consumados. Não dou dez reis pela
+virtude dos missionarios do Japão, nem daria cinco de volta se elles me
+trocassem a sua fé pela minha illustrada impiedade. Eu e elles somos
+bons, ou maus: como quizerem. Eu acho que todos somos excellentes filhos
+de Deus, e Deus, que nos conserva, lá sabe a razão porque o faz...
+
+--Tu não sentes o que dizes...
+
+--Estás a brincar comigo!... Pois não sinto o que digo?! Tu não vês o
+que está dentro d'este homem, nem pódes ainda ajustar á face do cadaver
+a mascara que o retrate...
+
+--Mas é possivel ser-se o que tu és?!
+
+--Se é!... Se me não tivesses interrompido, já sabias a razão porque o
+sou... Nada de interrupções... Se começo a divagar, digo diabruras,
+perco-me em abstracções, que te hão-de parecer pretenciosas, e lá vai a
+historia...
+
+--Palavra, que não te interrompo...
+
+--Quando sahimos de Alpedrinha, as minhas intimidades com Miquelina eram
+já suspeitas ao pai, que não se entremettia paternalmente no negocio.
+Sabes que eu tenho uma soffrivel casa, e Miquelina não era muito mais
+rica. Era possivel, e até vantajoso um casamento. Murmurou-se n'este
+assumpto em casa do padre, e eu fui consultado por elle.
+
+Isto arrefeceu-me um pouco. Não queria que me viessem tão cedo direitos
+ao materialismo. A pequena, porém, não tinha culpa. Eram cousas da
+velha, que quebrára a perna, mas ficára com a alma inteira para seguir o
+recto caminho, a logica implacavel do namoro, banhos, casamento, filhos,
+aborrecimento, barrete de dormir, catarrho, cangalhas no nariz, e
+rheumatismo.
+
+Eu amava verdadeiramente Miquelina. Instado pelas perguntas do officioso
+abbade, respondi que me casaria um anno depois, porque não queria dar
+tal passo sem o consentimento d'um tio, que fôra receber ao Brazil uma
+herança, que viria augmentar consideravelmente a minha casa.
+
+Ficamos n'isto.
+
+Tres vezes por semana, durante os dous mezes de ferias, visitei
+Miquelina, e revalidei os meus votos, porque esta paixão não era das que
+fogem quanto mais faceis se aproximam. A minha Beatriz parecia-me boa de
+coração, ajuizada de cabeça, fina de espirito, e em quanto á cara, ao
+corpo, e ao donaire... dir-te-hei que as seducções eram tantas, e tão a
+proposito que nunca tive occasião de me sentir de uma illusão
+desvanecida. Vim para Coimbra. A nossa despedida foi pathetica.
+Beijei-lhe a testa pela primeira vez. Comprimi-a ao coração com o
+enthusiasmo do primeiro abraço. Recebi da sua mão tremula, como prenda,
+o lenço com que enxugára as lagrimas, e retirei-me com o coração
+partido, mas vaidoso de esperanças, que a saudade me dourava no meu
+lindo futuro.
+
+Logo que aqui cheguei, escrevi-lhe. Imagina o que eu lhe diria! Eram
+vinte folhas de papel, escriptas em todas as estalagens onde pernoitei,
+e fechadas com uma especie de hymno de lagrimas, em que se me foi tudo o
+que a minha alma podia dar de superior áquillo que todos os homens sabem
+dizer n'uma carta de namoro.
+
+Respondeu-me. A sua carta era simples, mas os toques eram verdadeiros...
+pareciam-no... via-se alli a mulher que escreve a primeira carta, o
+coração timido que balbucia os sons d'uma selvagem innocencia, que é a
+felicidade do homem que primeiro os tira do coração d'uma virgem.
+
+Tres mezes assim. Tres mezes d'uma vida phantastica. Ancias insaciaveis
+das suas cartas. Tristezas dôces quando me faltavam n'um correio. Zangas
+sem odio, se o coração de tão longe a criminava de ingrata. Tres mezes
+assim... e no fim de tres mezes... adevinha o que aconteceu...
+
+--Eu sei cá... morreu?
+
+--Não.
+
+--Veio cá ter comtigo?
+
+--Não.
+
+--Abandonou-te?
+
+--Abandonou.
+
+--Isso é incrivel!
+
+--Acredita. Agora adevinha por quem eu fui preferido.
+
+--Eu só te conheço a ti na tua terra...
+
+--Imaginas que algum dandy a requestou de modo que a fragil creatura
+succumbiu ás seducções invenciveis?
+
+--Só assim.
+
+--Ora adeus! Tu não adevinhas, porque não sabes nada de mulheres...
+
+--Foi o pai que a forçou a casar-se com algum brasileiro muito rico?...
+
+--Tambem não...
+
+--Diz lá isso, que estou impaciente...
+
+--Pois lá vai: a minha querida Miquelina, o meu anjo que corava se o meu
+halito lhe roçava nas faces, a minha pudibunda Virginia que recebeu o
+meu primeiro beijo a tremer, a minha mimosa sensitiva que parecia
+resequir-se á mingoa dos meus carinhos... sempre queres que te diga?
+
+--Pois então?
+
+--A minha promettida esposa... fugiu com um... digo?
+
+--Acaba, homem!
+
+--Com um lacaio da casa!... Ólá! não fiques assim atordoado! Rite, como
+eu...
+
+--Isto é inconcebivel!... E depois?
+
+--Depois... que queres que eu te diga?
+
+--Que fim teve essa mulher?
+
+--Foi agarrada por ordem do pai, e o lacaio morreu arcabusado
+summariamente para não dar que fazer á justiça.
+
+--E ella... vive?
+
+--Creio que sim.
+
+--Na companhia da familia?
+
+--Não... Tu não me disseste que viras no Porto... Fiquemos aqui...
+
+--Isso de modo nenhum... Has-de concluir...
+
+--Pois sim... que importa!... Não me disseste que viste no Porto uma
+meretriz que revelava uma boa educação, e não queria dizer d'onde era,
+nem como viera áquella vida?...
+
+--Disse... mas não se chamava Miquelina...
+
+--Isso não faz nada ao caso... Rosa, ou Miquelina, é a mesma... é a
+minha promettida esposa, é o anjo dos meus primeiros amores, é a pomba
+alvissima da innocencia que encontrei em Alpedrinha... É ella...
+Basta... É noite... Vou fazer monte, e depois, se te quizeres embriagar
+comigo, vamos ao _Paço do Conde_, e beberemos á saude da exc.^{ma}
+Miquelina Alpoim e Malafaia, victima d'uma paixão pelo infeliz lacaio,
+que desceu ao tumulo... das illustres victimas. Já sabes como se faz um
+cynico? A esses parvos, que por ahi andam a gaguejar um scepticismo que
+cheira a cueiros, dá-lhe com uma palmatoria.
+
+E não tornou a fallar-me n'esta mulher.
+
+
+
+
+DE ABYSMO EM ABYSMO.
+
+
+Eu é que não podia satisfazer a minha curiosidade com a descosida
+revelação de Valladares.
+
+Muitas vezes acalorei a questão do cynismo, applicando-a a Miquelina;
+mas este nome enfurecia-o de tal modo, que as nossas relações estiveram
+a romper-se, e reataram-se com a condição de eu nunca lhe tocar
+ligeiramente em semelhante assumpto.
+
+Sujeitei-me; mas, na primeira occasião prosperada pelo acaso, alcancei
+esclarecimentos, que illucidam a degradação da pobre mulher.
+
+Em 1848, Miquelina vivia ainda no Porto. A sua vida já a sabem. Como
+veio ella tão abaixo?
+
+Foi assim:
+
+Alguns dias depois da fuga vergonhosa com o defunto lacaio, Miquelina
+foi conduzida a Lisboa. A avó, que pôde sobreviver ao golpe, quiz salvar
+a neta da colera do filho. Este ausentára-se para Chaves, no momento em
+que a filha entrára em casa. De lá, escrevendo á mãi, dizia-lhe que
+désse á infame algum destino, porque, em quanto a sua presença
+envergonhasse aquella casa, nunca elle tornaria alli.
+
+D'aquella familia estava em Lisboa um magistrado, tio materno de
+Miquelina. Foi este o encarregado de recebêl-a durante alguns mezes na
+sua casa.
+
+Não se passaram muitos dias, sem que Miquelina revelasse os seus
+instinctos. Namorava escandalosamente um homem, sem nome, que
+frequentava as janellas d'um alfaiate, que morava em frente.
+
+O magistrado suspeitou, e prohibiu-lhe o uso das janellas. O homem, que,
+por força, havia de ter um nome, e poderia muito bem chamar-se José
+Maria, não era tão escasso de meios que não comprasse um creado da casa.
+O creado era o intermedio da correspondencia, menos da ultima carta,
+surprehendida pelo magistrado. Esta carta authorisava José Maria a
+empregar a força judicial para tirar de casa Miquelina. N'esse mesmo
+dia, a perigosa «donzella» foi mudada para casa de um general, cunhado
+de seu tio.
+
+O general era solteiro, homem de cincoenta e tantos annos bem
+conservados, admirador das boas mulheres, e vigoroso ainda para não
+desmentir o culto, quando se lhe pedissem provas praticas das theorias
+um pouco irrisorias na sua idade.
+
+Tinha comsigo duas irmãs, mais novas, que, _mutatis mutandis_,
+professavam as idêas do irmão.
+
+Dito isto, vê-se que a casa, onde Miquelina foi reclusa, era um viveiro
+de moral.
+
+Foi bem recebida, e até muito bem aconselhada. As irmãs do general
+fallavam muito da virtude, e da honra. Quem as não conhecesse,
+acrescentaria duas martyres ineditas ás onze mil virgens conhecidas, de
+que Byron duvidou, e eu não me sinto muito propenso a acreditar, nem o
+meu amigo Valladares.
+
+O José Maria não sei que fim levou. Seria algum d'esses quatro que em
+1845 se precipitaram dos «Arcos das Aguas-livres!?» Se foi, não andou
+bem, porque fez as cousas de modo que ninguem falla d'elle. Os
+_Werthers_ sabem escolher as occasiões, senão... é melhor deixarem-se
+morrer de tedio, que é a morte que me espera a mim, e a ti, leitor, no
+fim d'este livro, se não morreres no meio.
+
+O general namorou Miquelina. Namorando-a, seduziu-a. Seduzindo-a,
+abriu-lhe a outra meia porta da corrupção.
+
+Porque foi assim que as cousas se passaram:
+
+Miquelina affeiçoou-se ao general, como se affeiçoára a Valladares, ao
+lacaio, e ao José Maria. Trazia o cunho da perdição! Era uma d'estas
+desgraçadas que a gente vê cahir, cahir, cahir a despeito de todos os
+estorvos! Que Deus, ou que demonio imprime o movimento n'estas machinas,
+sem coração nem cabeça? Não se sabe! A verdade é que eu sinto vontade de
+chorar essas victimas cegas d'um destino barbaro, e tenho furias de
+blasphemo quando me dizem que Deus se entremette nas cousas d'este
+mundo... Vamos adiante, senão atiro a penna fóra, e rasgo o papel...
+
+Ora já vedes que o general era um devasso, e a pobre menina deve
+merecer-vos uma pouca de compaixão, se eu vos afianço que o amou, até ao
+ciume.
+
+Disseram-lhe um dia que uma mulher de capote e lenço entrára no quarto
+do general, que era ao rez da rua. Miquelina estava doente de cama.
+Ergueu-se com febre, vestiu-se precipitadamente, desceu as escadas
+cambaleando de fraqueza, escutou á porta do traidor, e ouviu risadas, e
+palavras obscenas.
+
+Era noite, quando isto se passava.
+
+As irmãs do general deram pela falta da hospeda, e desceram a procurar o
+irmão. Miquelina, quando as sentiu, na incerteza do que devia
+responder-lhes, fugiu. Fugindo, achou-se n'uma rua que não conhecia,
+atravessou umas poucas, chegou a uma praça onde encontrou umas mulheres
+esfarrapadas que a tractaram por tu, e fugiu até deparar as escadas
+d'uma igreja, onde um soldado lhe veio dizer palavras desconhecidas.
+
+Fugiu ainda; mas a desgraça corria a par d'ella.
+
+O frio da noite, e a febre do coração aniquilaram-na. Sentou-se n'um
+portal, e desmaiou. Uma patrulha deu-lhe com a ponta do pé, e a
+desgraçada não respondeu. Tomaram-na como bebeda, e foram seu caminho.
+
+Outra patrulha sacudiu-lhe a cabeça pelos cabellos. Miquelina gemeu,
+abriu os olhos, e pediu erguendo as mãos que a deixassem morrer. Estava
+perto do hospital de S. José. Os soldados pediram soccorro ao proximo
+corpo da guarda, e mandaram-na para lá.
+
+No hospital, deram-lhe uma cama na enfermaria... não sabemos que
+enfermaria; mas parece que o facultativo, na visita de manhã, mandou
+retirar a mulher para um quarto particular, pago á sua custa.
+
+Que foi o que ella disse ao medico? Nada. Seria n'elle um arrojo de
+caridade? Não. «Pois não tens uma palavra boa para explicar uma acção
+nobre?» Nobilissimos leitores, deixai-me suppôr que sois melhores
+pessoas que o medico. O que elle queria era uma creada, com as feições
+de Miquelina. As despezas da cura, além de ficarem encontradas no seu
+ordenado, seriam pequenas. Uma febre benigna não resistiria ao
+tratamento de oito dias.
+
+Mas, ao setimo, Miquelina fugiu do hospital, favorecida pela enfermeira,
+em cuja casa foi residir.
+
+Desde esse dia, chamou-se Rosa.
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+--Que bonita rapariga é aquella que está em casa da A * * * na calçada
+do Duque?
+
+--É uma rapariga da provincia, pela pronuncia: chama-se Rosa, mas não
+diz d'onde é, nem quem a trouxe alli.
+
+--Parece bem educada!
+
+--Parece... e não é desbocada... Não tem ainda a consciencia do seu
+officio... É necessario que perverta a linguagem, se quizer
+celebrisar-se...
+
+--De quem fallam vossês?--disse um terceiro, que, na Praça do Rocio,
+veio associar-se ao grupo.
+
+--D'aquella Rosa, que tu denominaste um _cherubim precipitado_ na tua
+poesia.
+
+--E é...
+
+--É!... pois tu sabes a vida d'ella?
+
+--Sei...
+
+--Contas?
+
+--Não...
+
+Este terceiro era Valladares.
+
+Teve elle coragem de vêl-a face a face?
+
+Não teve: entrou alli com uma mascara na terça feira de Entrudo.
+
+Conheceu-o ella? Conheceu: porque no dia immediato desappareceu de
+Lisboa.
+
+É por isso que eu a vi no Porto em 1848...
+...........................................................................
+
+O general é hoje conde. O menos torpe dos florões da sua corôa é este...
+Foi _honrado e hospitaleiro_!...
+
+Valladares embriaga-se todos os dias, e não póde assim viver muitos
+mais, porque já não sente no paladar o acido do cognac.
+
+E Miquelina?
+
+Ha mais de seis annos que os estudantes da escóla medico-cirurgica do
+Porto a retalharam fibra a fibra com os seus escalpellos observadores.
+
+Já vêdes que morreu no hospital, e foi em pedaços atirada ao monturo da
+santa casa, depois de se prestar, como cadaver, ás lucubrações da
+anatomia.
+
+Podeis não acreditar tudo, ou parte d'isto... Olhai, porém, que vos não
+dei aqui a verdade descarnada como ella é no conto melindroso, que vos
+contei. Escondi-vos metade.
+
+
+
+
+AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA.
+
+
+
+
+AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA.
+
+
+O snr. Manoel Pires, pharmaceutico approvado por outro pharmaceutico que
+não foi approvado em parte nenhuma, estabeleceu a sua botica n'uma aldêa
+do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O seu laboratorio chimico era
+um fogareiro e uma retorta de vidro, emendada no collo por um cylindro
+de lata. A sua livraria era o _Medico lusitano_, in folio; uma
+Pharmacopeia, edição de 1700; e um pequeno volume intitulado--_Segredos
+da natureza_. Os lotes, que eram seis, continham garrafões de barro
+vidrado, atapulhados de hervas, que tinham o merecimento chronologico de
+serem contemporaneas dos garrafões. Afóra isto, não sei que liquidos
+verdes e amarellos e azues variegavam um dos lotes, que, pelos modos,
+continha os remedios heroicos, como oleo de amendoas dôces, extracto
+d'amoras, solimão, e oleo de mamona.
+
+Com tantos elementos não admirava nada que o snr. Manoel Pires fosse um
+sabio, não digo consumado, mas superior á intelligencia d'alguns
+cirurgiões d'aquella redondeza.
+
+Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hypocrates honrou as cinzas
+de seu pai fazendo a cura radical d'uma espinhela cahida na pessoa da
+snr.^a Therezinha da Fonte. Este triumpho da pharmacia sobre a espinhela
+elevou o snr. Pires, não direi até ás columnas do _Zacuto_, mas até onde
+podiam leval-o as suas aspirações de mestre Manoel Pires, como
+respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos freguezes.
+
+Um segundo triumpho veio consolidar a reputação adquirida no primeiro. A
+cura d'uma _ostrução_, que eu não sei o que é, e outra d'umas
+almorreimas renitentes, não deixou nada a desejar por aquelles
+arredores.
+
+O snr. Manoel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providencia lhe
+cedêra. Relacionou-se com o parocho, com o regedor, com o juiz de paz, e
+associou-se assim a um triumvirato, que decidia dos destinos da
+freguezia. E o que elles não fizessem dez leguas em redor ninguem o
+faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antonio da Pôça que o sobredito juiz
+de paz se correspondia com os _governos_ de Lisboa. Não posso abonar na
+sua integra a verdade do dito; mas não será sem fundamento a cousa,
+attendendo á importancia d'um juiz de paz, quando se tracta de fazer um
+deputado.
+
+O boticario era uma figura incapaz das honras anatomicas do romance.
+Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das
+bochechas cahiam-lhe em fórma de sanefas sobre os collarinhos engommados
+com pós de batata.
+
+As ventas eram dous vulcões que resfolegavam lavas de simonte; e, não
+sei porque analogia estupenda, os dentes acavallados simulavam uma
+Herculanum em miniatura, um destroço de pilastras e ogivas e capiteis.
+
+Como quer que fosse, o snr. Manoel Pires, aos quarenta annos, contava
+quarenta conquistas das melhores raparigas da freguezia. E, honra lhe
+seja feita, não deu nunca pasto nos soalheiros, nem consta que désse o
+menor escandalo. Lá como elle fazia as cousas, e a felicidade dos seus
+triumphos, vai o leitor ajuizar, se, em desconto dos seus peccados,
+quizer lêr uma pagina altamente dramatica da biographia do nosso amigo.
+
+Manoel Pires foi chamado um dia para curar uma dôr de _reins_ na pessoa
+da tia Maria do Eiró. Não é necessario dizer que a molestia obedeceu. Na
+mesma casa curou da _triz_ o tio João, e por fim talhou o _bicho_ com
+perfeição e felicidade á Mariquinhas, rapariga d'uma vez, e cousa de pôr
+a cara a um lado a mais de quatro _Antonys_ de sócos que lhe andavam por
+lá a regougar palavras de ternura.
+
+O leitor não saberá o que é talhar o bicho, e eu, realmente lhe digo,
+que não consultei o diccionario das sciencias medicas. Fiquemos com a
+nossa ignorancia; e eu faço sinceros votos porque nos não seja preciso
+nunca talhar o bicho.
+
+O caso é que o mestre Manoel Pires fallou ao coração da rapariga, e
+fez-lhe vibrar todas as cordas da viola de alma. Não sei se a moçoila
+viu archanjos, serafins, e brizas, e raios de lua a pratear lagos
+d'anil. O que eu sei é que a boa da rapariga achava que eram pouco os
+olhos da cara para vêr o snr. Manoel Pires, que, diga-se a verdade, não
+era sceptico, nem carpia tristezas por deshoras ao som do murmurar
+saudoso do sujo regato que lhe passava á porta.
+
+Felizmente para elle, o dono da casa foi atacado d'um _estalecidio_ que
+lhe cahiu nos bofes, segundo a opinião do boticario, e a cura demorada
+d'esta séria enfermidade proporcionou aos ternos amantes occasiões
+ditosas de se trocarem palavrinhas de pôrem o coração em maré-cheia de
+poesia chula.
+
+O dialogo, que mais concorreu para a solução final, foi
+incontestavelmente o seguinte:
+
+Elle.--O deus Cupido fez dos olhos de vm.^{ce} duas settas, que
+trespassaram o meu coração.
+
+Ella.--E as palavras de vm.^{ce}, como o outro que diz, são palavrinhas
+de mel a que não _regeste_ meu sensivel peito.
+
+Elle.--Eu bem queria dizer a vm.^{ce} as ternuras do meu coração, e as
+congeminencias do meu pensamento. Vm.^{ce} é mais bonita que Venus, e
+Cupido é o deus do amor que me derrete aos pés de vm.^{ce}
+
+Ella.--Pois se vm.^{ce} me tem amor para o bom fim o deve ter, que quem
+mal anda mal acaba, como o outro que diz.
+
+Elle.--O fim para que eu fallei a vm.^{ce} só eu o sei; e a troco d'esse
+negocio faz mingoa fallarmos outra vez.
+
+Ella.--Quando vm.^{ce} quizer, e Deus o faça para bem, que lá eu
+querer-lhe isso quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se
+assim não é. Uma rapariga que tem seus _cretos_ não deve de perdel-os, e
+vm.^{ce} bem entende as cousas que é sabio e homem de cabeça, por muitos
+annos e bês.
+
+Elle.--E vm.^{ce} que os conte. Ora pois; o que se ha-de fazer ao tarde
+faça-se ao cedo. Se vm.^{ce} me der duas palavrinhas esta noite, ouvirá
+da minha bocca as affectiveis ternuras do meu amante coração, onde o
+deus Cupido cravou as mais duras settas.
+
+Ella.--Pois se vm.^{ce} promette de ter toda áquella de... sim, dizia
+eu, se vm.^{ce} promette de ter toda áquella... sim... como diz lá o
+ditado...
+
+Elle.--Pelo deus Cupido lhe prometto a vm.^{ce} de lhe não pôr a minha
+mão, nem palavra lhe direi que seja escontra a honra de vm.^{ce}.
+
+A resistencia da rapariga era impossivel! Quando a eloquencia, assim
+inspirada do intimo da alma, regorgita em jorros nos labios d'um amante,
+é certo o triumpho. O amor é realmente o galvanismo dos estupidos,
+d'esses cadaveres moraes, que se levantam do tumulo da intelligencia, e
+cantam lerias n'um alamiré celeste! Não nos recordamos de ter lido em
+romances francezes um dialogo tão fertil d'imagens, tão vibrante de
+affectos, tão digno, em fim, de ser copiado na carteira d'estes obtusos
+amadores das salas, para os quaes não ha assumpto, se lhes falharem as
+reminiscencias do borda d'agua.
+
+Manoel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados
+n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro causticos
+para a numerosa clinica que o esperava. Sem exageração, este
+pharmaceutico era uma pilula de Holloway viva! Resumia todas as virtudes
+da revalenta arabica. Logo que o anjo da guarda,[1] não podesse salvar o
+enfermo das aggressões mephiticas do espirito mau, Manoel Pires, anjo
+sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade,
+quer na bocca do _estamago_, quer nos _bofes_ quer nos _miolos_! Este
+homem despresava a nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos
+outros creadores de nomes barbaros que não fazem nada á saude do
+cidadão. Honra lhe seja feita!
+
+O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma cousa enorme de
+cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam não sei que
+pythonissa magica, e, por fim de contas, era um relogio, cujo involucro
+suppria á farta uma bacia de semicupios.
+
+Eram 8 horas. Na aldêa é esta a hora dos amantes. Manoel Pires enfiou as
+suas meias de lã até á cintura, calçou os sapatos confidentes de mil
+emprezas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho ferrado
+de amarello, e partiu.
+
+Ás 8 e um quarto, estava Manoel Pires no quinteiro da Mariquinhas,
+esperando-a, com a anciedade propria da sua organisação nervosa. Maus
+fados quizeram que n'aquella noite, e a taes horas, andasse fóra de casa
+o tio João do Eiró. A rapariga entendeu que devia esconder em casa o seu
+boticario, em quanto o pai não recolhesse. Quiz primeiro sumil-o na
+córte das vaccas, mas lembrou-se que o pai, antes de deitar-se,
+costumava hir afagar a sua vacca castanha, pela qual na feira dos 8
+rejeitára sete moedas e um quarto! Metteu-o, depois, na loja da egua,
+mas a bestinha, egoista e ciumosa da manjadoura, não comprehendeu que o
+snr. Manoel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de couces,
+que por um tris o não remetteu á galeria posthuma dos pharmaceuticos
+illustres. Introduziu-o no curral dos carneiros, mas a entrada do
+infeliz amante foi recebida com uma escaramuça de marradas, como se um
+lobo cerval os surprehendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada,
+levou o seu paciente amante para a cozinha, levantou um alçapão, fêl-o
+descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal alçapão, entrava
+o pai.
+
+--Que fazes tu ahi, rapariga?--bradou elle.
+
+Mariquinhas atrapalhou-se, e coçou a cabeça com ambas as mãos.
+
+Deve saber-se que o tio João desconfiava que a filha, quando podia, lhe
+roubava das caixas o seu sacco de milho, que vendia para comprar, á
+surrelfa, o seu cordãosinho de ouro.
+
+Na loja, onde o boticario desceu, estavam as caixas do milho, e não ha
+nada mais natural que a irritação do velho, quando apanhou a rapariga em
+flagrante delicto.
+
+--Onde está a chave d'este alçapão, rapariga? interpellou o tio João no
+mesmo diapasão.
+
+--A chave tem-na vm.^{ce}
+
+O homem entrou no seu quarto, proximo da cozinha, e veio com a chave,
+resmungando:
+
+--Ora deixa-te estar, que não has-de cá tornar po'lo vêso, minha cabra
+de não sei que diga!
+
+Fechou o alçapão, e foi-se deitar.
+
+A loja não tinha outra sahida. O boticario, por tanto, achava-se n'uma
+posição falsa, diz o leitor. Elle sabia lá o que eram posições falsas! O
+que elle fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse lá
+comsigo: «no chão não me deito eu.» Continuou fleugmaticamente a fazer o
+seu juizo critico do local em que se achava, e esbarrou com o nariz n'um
+presunto. Não obstante, o snr. Manoel Pires tirou uma segunda conclusão:
+«de fome não morro eu.» Mais adiante esbarrou n'uma pipa, e teve a
+pachorra de lhe tocar com os nós dos dedos para vêr se estava cheia. E o
+caso é que estava! Manoel Pires era um onagro de felicidade! «Deixa
+correr o mundo!...» disse elle, e estirou-se francamente sobre a caixa á
+espera d'um somno regalado.
+
+Passára-se uma hora, e o boticario, começando a pensar seriamente na sua
+situação, teve momentos de Napoleão na ilha de Santa Helena! Applicou o
+ouvido, e nem um sussurro ouviu na cozinha. Sentiu frio, por que em
+Dezembro não é facil aquecer o corpo no fogão do amor. Deu alguns passos
+maquinaes, buscando uma sahida qualquer, e encontrou um albardão.
+«Valha-nos ao menos isto,» disse elle, e pegou do albardão, collocou-o
+convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar.
+
+Agora fallemos das colicas de Mariquinhas.
+
+Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto, já
+que não posso dizer ao seu palheiro. Alma de pedreneira, ferida pelo
+fuzil do amor, a moçoila não atinava com a maneira de pôr no olho da rua
+o seu querido pharmaceutico. Inspirada pelo derradeiro esforço da sua
+dôr sublime, lembrou-se de pôr em execução um plano digno de melhor
+sorte.
+
+O pai resonava profundamente, Maria, pé ante pé, entrou-lhe no quarto e
+sahiu com as calças, em cujo bolso estava a chave. Judith não sahiu mais
+contente da tenda de Holofernes!
+
+Abriu o alçapão com subtileza, mas, no momento em que o levantava, os
+gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um sacco de milho que lhe
+emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama, gritando: «ó rapariga!»
+
+Não se diz, em linguagem portugueza, sem um conhecimento profundo dos
+classicos, a atrapalhação da cachôpa! O tio João procurou as calças, e
+não as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa (_proh pudor!_) saltou
+do quarto para a cozinha, já quando a filha se esgueirava, escada
+abaixo, para o quinteiro.
+
+O tio João, contra todas as leis da decencia, foi atraz de sua filha, e
+filou-a pelo gasnete:
+
+--O que hias tu fazer á loja, Maria?
+
+--Raios me parta (disse ella a chorar) se eu hia á caixa do pão ou dos
+feijões!
+
+--Então a que hias tu lá, diabo?
+
+--Assim me Deus salve, em como lhe não tirei nem um graeiro da caixa...
+
+O tio João sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da noite lhe
+soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao alçapão;
+mas... ai d'elle!... o alçapão estava aberto, e o honrado chefe de
+familia resvalou com todo o peso da sua bestialidade até á loja.
+
+Manoel Pires soltou um urro de surpreza, que já não foi ouvido pelo João
+do Eiró, que desmaiára.
+
+Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruido,
+mas suppoz que era o cahir do alçapão. Atravessou a cozinha,
+amaldiçoando a sua sorte, e metteu-se no seu quarto a pensar no
+desenlace d'aquella tragedia.
+
+A tia Maria do Eiró, acordando, não achou na cama o seu velho, e sentiu
+ciumes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com voz do intimo, tres
+vezes, o seu João, e como ninguem lhe respondesse, a mulher começou a
+vestir-se, enfiando responsos a Santo Antonio, de mistura com não sei
+quantas pragas, que ella rogava ao sumidouro das suas sócas.
+
+E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra!
+
+A tia Maria accendeu a candêa, e foi direita á cozinha, que era o ponto
+convergente de todas as operações d'aquelle drama. Viu o alçapão aberto,
+e não tinha ainda reconcentrado em si todo o horror d'aquella
+fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha lá debaixo. A pobre
+mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janella e grita
+desentoadamente «aqui d'el-rei ladrões!» A visinhança alarmou-se, e
+pouco depois os 60 fogos d'aquella aldêa agglomeravam-se no quinteiro do
+tio João do Eiró.
+
+Os mais destemidos rapazes da aldêa desceram á loja, e encontraram o
+pobre velho com a cabeça aberta por dous lados, e não sei quantas
+costellas desmanchadas. Reinou o silencio do mysterio! Ninguem
+conjecturava a causa d'aquelle estranho successo, quando um dos que
+farejavam os recantos da loja, descobre um pé por debaixo d'um albardão!
+Levantou-se uma gritaria infernal: até que o mais resoluto, afastando o
+albardão, soltou um brado terrivel d'espanto:
+
+--O senhor mestre Manoel Pires!
+
+Hão-de ter visto nos dramas descabellados um encapotado, que é
+necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma sucia de
+perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o effeito que o boticario
+produziu na chusma de valentões de fouce roçadoura, que o cercavam.
+
+O tio João, tornando a si, foi direito ao boticario para agradecer-lhe a
+promptidão com que viera cural-o. Mas a tia Maria poz tudo em pratos
+límpos: contou tudo a seu marido, que a escutava com cara de parvo,
+segundo convinha em semelhante conflicto.
+
+Mestre Manoel Pires hia ser apregoado ladrão, por que a sua importancia,
+passado o momento da surpreza, começava a soffrer uma grande baixa na
+opinião dos lavradores.
+
+Mas o seu caracter repellia tamanha affronta! A hora solemne d'uma
+honrosa satisfação estava chegada. O pharmaceutico, superando com a sua
+voz o ruido da turba conspirada, disse:
+
+--Chamem cá a Mariquinhas que essa é que sabe do negocio como elle é.
+
+O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos d'amante, o
+segredo da cousa, quiz logo alli partir a cabeça do seu rival.
+
+--Oh su alma do diabo!... exclamou elle.
+
+Contiveram-no. O snr. João do Eiró chamou a filha. A pobre rapariga era
+uma cascata de lagrimas. Veio a muito custo, cuidando que era então a
+_sua fim_, como ella depois disse.
+
+A sua apparição impoz ás multidões um respeitavel silencio.
+
+Mestre Manoel Pires fallou assim, com ar de inspirado, e o braço direito
+em attitude prophetica:
+
+--Esta rapariga é minha mulher, se m'a derem. Eu vim aqui a troco
+d'ella. Em bom panno cahe uma nodoa. Mal remediado é mal acabado. Ámanhã
+se Deus quizer lêem-se os banhos, e não ha nada mais a fazer aqui!
+
+A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia n'um sino. Os paes,
+d'esses não se falla. Mestre Manoel era o casamento mais vantajoso da
+freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu á saude da boa
+companhia, e casou com grande prestito, onde não faltou o juiz de paz,
+que teve de mais a mais o prazer de pendurar n'esse fausto dia o habito
+de Christo na casaca. Nas bodas celebres para sempre, nos annaes de
+Carrazedo de Monte-Negro, comeram-se dez cabritos assados com o
+competente arroz de forno.
+
+Já lá vão cinco annos.
+
+Mestre Manoel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do
+verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires já este anno veio a
+banhos de mar, e viu por ahi baronezas, que lhe despertaram o louvavel
+desejo de o ser.
+
+E ha-de ser, se Deus quizer.
+
+
+
+
+COUSAS QUE SÓ EU SEI.
+
+
+
+
+COUSAS QUE SÓ EU SEI.
+
+
+I.
+
+
+Na ultima noite do carnaval, que foi justamente aos 8 dias do mez de
+Fevereiro, do corrente anno[2] pelas 9 horas e meia da noite entrava no
+theatro de S. João, d'esta heroica, e muito nobre e sempre leal cidade,
+um dominó de setim.
+
+Déra elle os dous primeiros passos no pavimento da platêa, quando um
+outro dominó de velludo preto veio collocar-se-lhe frente a frente,
+n'uma contemplação immovel.
+
+O primeiro demorou-se um pouco a medir as alturas do seu admirador, e
+virou-lhe as costas com indifferença natural.
+
+O segundo, momentos depois, apparecia ao lado do primeiro, com a mesma
+attenção, com a mesma penetração de vista.
+
+D'esta vez o dominó-setim aventurou uma pergunta n'aquelle desgracioso
+falsete, que todos nós conhecemos:
+
+--Não quer mais do que isso?
+
+--Do _qu'isso_!...--respondeu um mascara que passava por casualidade,
+esganiçando-se n'uma risada que raspava o tympano.--_Olha do
+qu'isso!_... Já vejo que és pulha!...
+
+E retirou-se repetindo--_do qu'isso... do qu'isso..._
+
+Mas o dominó-setim não soffreu, ao que parecia, a menor contrariedade
+com este charivari. E o dominó-velludo nem se quer acompanhou com os
+olhos o imprudente que viera embaraçar-lhe uma resposta digna da
+pergunta, fosse ella qual fosse.
+
+O _setim_ (fique assim conhecido para evitarmos palavras, e tempo que é
+um preciosissimo cabedal) o _setim_, d'esta vez, encarou com mais alguma
+reflexão o _velludo_. Conjecturou supposições fugitivas, que se
+destruiam mutuamente. O _velludo_ era forçosamente uma mulher. A
+pequenez do corpo, cuja flexibilidade o dominó não encobria; a
+delicadeza da mão, que protestava contra o ardil mentiroso d'uma luva
+larga; a ponta de verniz, que um descuido, no lançar do pé, denunciára
+debaixo da fimbria do velludo, este complexo de attributos, quasi nunca
+reunidos em um homem, captaram as serias attenções do outro, que,
+incontestavelmente, era um homem.
+
+--Quem quer que sejas, (disse o setim) não te gabo o gosto! Tomára eu
+saber o que vês em mim, que tanta impressão te faz!
+
+--Nada--respondeu o velludo.
+
+--Então, deixa-me, ou diz-me alguma cousa ainda que seja uma semsaboria,
+mais eloquente que o teu silencio.
+
+--Não te quero embrutecer. Sei que tens muito espirito, e seria um crime
+de leso-carnaval, se te dissesse alguma d'essas graças salobras, capazes
+de fazer calar para todo o sempre um Demosthenes de dominó.
+
+O _setim_ mudou de opinião a respeito do seu perseguidor. E não admira
+que o recebesse com rudeza no principio, porque, em Portugal, um dominó
+em corpo de mulher, que passeia «sosinha» n'um theatro, permitte umas
+suspeitas que não abonam as virtudes do dominó, nem lisongeam a vaidade
+de quem lhe recebe o conhecimento. Mas a mulher em quem recahe
+semelhante hypothese não conhece Demosthenes, nem diz _leso-carnaval_,
+nem aguça a phrase com o adjectivo _salobras_.
+
+O setim arrependeu-se da aspereza com que recebera os attenciosos
+olhares d'aquella incognita, que principiava a fazer-se valer como tudo
+aquillo que apenas se conhece por uma face boa. O _setim_ juraria, pelo
+menos, que aquella mulher não era estupida. E, seja dito sem tenção
+offensiva, já não era insignificante a descoberta, porque é mais facil
+descobrir um mundo novo que uma mulher illustrada. É mais facil ser
+Christovão Colombo que Emilio Girardin.
+
+O _setim_, ouvida a resposta do _velludo_, offereceu-lhe o braço, e
+gostou da boa vontade com que lhe foi recebido.
+
+--Conheço (diz elle), que o teu contacto me espiritualisa, bello
+dominó...
+
+--_Bello_, me chamas tu!... É realmente uma leviandade que te não faz
+honra!... Se eu levantasse esta sanefa de sêda, que me faz bonita,
+ficavas como aquelle poeta hespanhol que soltou uma exclamação de terror
+na presença d'um nariz... que nariz não seria, santo Deus!... Não sabes
+essa historia?
+
+--Não, meu anjo!
+
+--_Meu anjo!_... que graça! Pois eu t'a conto. Como o poeta se chama não
+sei, nem me importa. Imagina tu que és um poeta, phantastico como
+Lamartine, vulcanico como Byron, sonhador como Mac-Pherson, e voluptuoso
+como Voltaire aos 60 annos. Imagina que o tedio d'esta vida chilra que
+se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pythonissa
+descabellada das tuas inspirações, e vieste por aqui dentro a procurar
+um passatempo n'estes passatempos alvares d'um baile de carnaval.
+Imagina que encontravas uma mulher extraordinaria de espirito, um anjo
+de eloquencia, um demonio de epygramma, em fim, uma d'estas creações
+miraculosas que fazem rebentar uma chamma improvisa no coração mais de
+gêlo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expressão,
+não é assim? Um coração de toucinho parece-te uma offensa ao bom senso
+anatomico, não é verdade? Pois, meu caro dominó; ha corações de toucinho
+estreme. São os corações, que reçumam oleo em certas caras estupidas...
+por exemplo... olha este homem redondo, que aqui está, com as palpebras
+em quatro refêgos, com os olhos vermelhos como os d'um coelho morto, com
+o queixo inferior pendente, e o labio escarlate e vidrado como o bordo
+d'uma pingadeira, orvalhada de banha de porco... Esta cara não te parece
+um grande rijão? Não crês que este baboso tenha um coração de toucinho?
+
+--Creio, creio; mas falla mais baixo que o desgraçado está a gemer
+debaixo do teu escalpello...
+
+--És tolo, meu cavalheiro! Elle entende-me lá!... É verdade, ahi vai a
+historia do hespanhol, que tenho que fazer...
+
+--Então queres deixar-me?
+
+--E tu?... queres que eu te deixe?
+
+--Palavra d'honra que não! se me deixas, retiro-me...
+
+--És muito amavel, meu querido Carlos...
+
+--Conheces-me?!
+
+--Essa pergunta é ociosa. Não és tu _Carlos_!
+
+--Já fallaste comigo na tua voz natural?
+
+--Não; mas começo a fallar agora.
+
+E com effeito fallou. Carlos ouviu um som de voz sonora, metallica, e
+insinuante. Cada palavra d'aquelles labios mysteriosos sahia vibrante e
+afinada como a nota d'uma tecla. Tinha aquelle não-sei-que, que só se
+escuta nas salas, onde fallam mulheres distinctas, mulheres que obrigam
+a gente a prestar fé aos privilegios, ás prerogativas, aos dons muito
+peculiares da aristocracia do sangue. Todavia, Carlos não se recordava
+de ter ouvido semelhante voz, nem semelhante linguagem.
+
+«Uma aventura de romance!» dizia elle lá comsigo, em quanto o
+dominó-velludo, conjecturando o enleio em que pozera o seu enthusiasta
+companheiro, continuava a fazer gala do mysterio, que é de todas as
+alfaias aquella que mais alinda a mulher! Se ellas podessem andar sempre
+de dominó! Quantas mediocridades em intelligencia rivalisariam com Jorge
+Sand! Quantas physionomias infelizes viveriam com a fama da mulher de
+Abdel-Kader!
+
+--Então quem sou eu?--proseguiu ella--não me dirás?... Não dizes... pois
+então, tu és Carlos, e eu sou Carlota... fiquemos n'isto, sim?
+
+--Em quanto eu não souber o teu nome, deixa-me chamar-te «anjo.»
+
+--Como quizeres; mas sinto dizer-te que não és nada original! _Anjo!_...
+é um appellido tão safado como _Ferreira_, _Silva_, _Sousa_, _Costa_...
+et cetera. Não vale a pena questionarmos: baptisa-me á tua vontade.
+Ficarei sendo o teu «anjo de entrudo!» E a historia?... Imagina que te
+possuias d'um amor impetuoso por essa mulher, que phantasiaste linda, e
+insensivelmente lhe curvaste o joelho, pedindo-lhe uma esperança, um
+sorriso affectuoso através da mascara, um aperto convulsivo de mão, uma
+promessa, ao menos, de se mostrar um, dous, tres annos depois. E essa
+mulher, cada vez mais sublime, cada vez mais litterata, cada vez mais
+radiosa, protesta eloquentemente contra as tuas instancias,
+declarando-se muita feia, indecentissima de nariz, horrivel até, e, como
+tal, pesa-lhe na consciencia matar as tuas candidas illusões, levantando
+a mascara. Tu que a não crês, instas, supplicas, abrasas-te n'um ideal,
+que toca as extremas do ridiculo, e estás capaz de lhe dizer que te
+abolas o craneo com um tiro de pistola, se ella não levanta a cortina
+d'aquelle mysterio que te dilacera uma por uma as fibras do coração.
+Chamas-lhe Beatriz, Laura, Fornarina, Natercia, e ella diz-te que se
+chama Custodia, ou Genoveva para te aguar a poesia d'esses nomes, que,
+na minha humilde opinião, são completamente fabulosos. O dominó quer
+fugir-te ardilosamente, e tu não lhe deixas um passo livre, nem um dito
+espirituoso a outro, nem um lançar d'olhos para os mascaras, que a fixam
+como quem sabe que está alli uma rainha, envolta n'aquelle manto negro.
+Por fim, a tua perseguição é tal, que a desconhecida Desdemona finge
+assustar-se, e sahe comtigo ao salão do theatro para levantar a mascara.
+Arfa-te o coração na anciedade d'uma esperança: sentes o jubilo do cego
+de nascimento, que vai vêr o sol; estremeces como a creança a quem vão
+dar um bonito, que ella não viu ainda, mas imagina ser quanto o seu
+coração infantil ambiciona n'este mundo... Ergue-se a mascara!...
+Horror!... vês um nariz... um nariz-pleonasmo, um nariz homerico, um
+nariz maior que o do duque de Choiseul, onde cabiam tres jesuitas a
+cavallo!... Recúas!... sentes despregar-se-te o coração das entranhas,
+córas de vergonha, e foges desabridamente...
+
+--Tudo isso é muito natural.
+
+--Pois não ha nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe conto o
+resto, que é o mais interessante para um mancebo que faz do nariz d'uma
+mulher o thermometro de avaliar-lhe a temperatura do coração. Imagina,
+meu joven Carlos, que sahiste do theatro depois, e entraste na _Aguia
+d'Ouro_ a comer ostras, segundo o costume dos elegantes do Porto. E
+quando, pensavas, ainda aterrado, na aventura do nariz, te apparecia
+fatidico dominó, e se assentava ao teu lado, silencioso e immovel, como
+a larva das tuas asneiras, cuja memoria procuravas delir na imaginação
+com os vapores do vinho... Perturba-se-te a digestão, e sentes
+contracções no estomago, que te ameaçam com o vomito. A massa enorme
+d'aquelle nariz figura-se-te no prato em que tens a ostra, e já não
+pódes levar á bocca um bocado do teu appetitoso manjar sem um fragmento
+d'aquelle fatal nariz á mistura. Queres transigir com o silencio do
+dominó; mas não pódes. A inexoravel mulher aproxima-se de ti, e tu, com
+um sorriso cruelmente sarcastico, pedes-lhe que te não entorne com o
+nariz o copo de vinho. Achas isto natural, Carlos?
+
+--Ha ahi crueldade de mais... O poeta devia ser mais generoso com a
+desgraça, porque a missão do poeta é a indulgencia não só para as
+grandes affrontas, mas até para os grandes narizes.
+
+--Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime missão da generosidade
+para com as mulheres feias, vai ser punido. Imagina que aquella mulher,
+pungida pelo sarcasmo, levanta a mascara. O poeta ergue-se, e vai fugir
+com grande escandalo do dono da casa, que naturalmente tem a sorte do
+boticario de Nicolau Tolentino. Mas... vingança do céo!... aquella
+mulher ao levantar a mascara arranca do rosto um nariz postiço, e deixa
+vêr a mais formosa cara que o céo alumia ha seis mil annos! O hespanhol
+quer ajoelhar áquella dulcissima visão de um sonho, mas a nobre andaluza
+repelle-o com um gesto, onde o despreso está associado á dignidade mais
+senhoril.
+
+
+II.
+
+
+Carlos scismava na applicação da anedocta, quando o dominó lhe disse,
+adivinhando-lhe o pensamento:
+
+--Não creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me supponhas capaz
+de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modestia não vai tão
+longe... Mas, meu pacientissimo amigo, ha em mim um defeito peor que um
+nariz enorme: não é physico nem moral; é um defeito repulsivo e
+repellente: é uma cousa que eu não sei exprimir-te com a linguagem do
+inferno, que é a unica e mais eloquente que eu sei fallar, quando me
+lembro que sou assim defeituosa!
+
+--És um enigma!...--atalhou Carlos, embaraçado, e convencido de que
+encontrára um typo maior que os moldes tacanhos da vida romanesca em
+Portugal.
+
+--Sou, sou!...--acudiu ella com rapidez--sou aos meus proprios olhos um
+dominó, um continuado carnaval de lagrimas... Está bom! não quero
+tristezas... Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu não
+vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas aqui,
+procurei-te, esperei-te mesmo com anciedade, porque sei que és
+espirituoso, e podias, sem prejuizo da tua dignidade, ajudar-me a passar
+algumas horas de illusão. Fóra d'aqui, tu ficas sendo Carlos, e eu serei
+sempre uma incognita muito grata ao seu companheiro. Agora acompanha-me:
+vamos ao camarote 10 da 2.^a ordem. Conheces aquella familia?
+
+--Não.
+
+--É uma gente da provincia. Não digas tu nada; deixa-me fallar a mim, e
+verás que não passas mal... É muito orgulho, não achas?
+
+--Não acho, não, minha querida; mas eu antes queria não desperdiçar
+estas horas porque fogem. Tu vaes fallar, mas não é comigo. Sabes que
+tenho ciumes de ti?
+
+--Sei que tens ciumes de mim... Sabes tu que eu tenho um profundo
+conhecimento do coração humano? Já vês que não sou a mulher que
+imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a desvanecer-te com uma
+conquista esperançosa. Faz calar o teu amor proprio, e emprega a tua
+vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma innocente a quem possas
+fazer feliz, em quanto a enganas...
+
+--Julgas, por tanto, que te minto!...
+
+--Não julgo, não. Se mentes a alguem é a ti proprio: bem vês que não te
+creio... Tempo perdido! Anda, vem comigo, se não...
+
+--Senão... o que?
+
+--Senão... olha...
+
+E a melindrosa desconhecida largou-lhe o braço com delicadeza, e
+retirara-se, apertando-lhe a mão.
+
+Carlos, sinceramente commovido, apertou aquella mão, com o frenesi
+apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por quem se
+mataria.
+
+--Não--exclamou elle com enthusiasmo--não me fujas, porque me levas a
+esperança mais bella que o meu coração concebeu. Deixa-me adorar-te, sem
+te conhecer!... Não levantes nunca esse véo... mas deixa-me vêr a face
+da tua alma, que deve ser a realidade d'um sonho de vinte e sete
+annos...
+
+--Estás dramatico, meu poeta! Eu sinto realmente a minha pobreza de
+palavras garrafaes... Queria ser uma vestal d'estilo fervente para
+sustentar o fogo sagrado do dialogo... O monologo deve cançar-te, e a
+tragedia desde Sophocles até nós não póde dispensar uma segunda
+pessoa...
+
+--És um prodigio...
+
+--De litteratura grega, não é verdade? Inda sei muitas outras cousas da
+Grecia. A Lais tambem era muito versada, e repetia as rapsodias gregas
+com um garbo sublime; mas a Lais era... sabes tu o que ella era?... E
+serei eu o mesmo? Já vês que a litteratura não é symptoma de virtudes
+dignas da tua affeição...
+
+Tinham chegado ao camarote na 2.^a ordem. O dominó-velludo bateu, e a
+porta foi, como devia ser aberta.
+
+A familia, que occupava o camarote, compunha-se de muitas pessoas, sem
+typo, vulgarissimas, e prosaicas de mais para captarem a attenção d'um
+leitor avesso a trivialidades. Todavia, estava ahi uma mulher que valia
+um mundo, ou cousa maior que o mundo--o coração d'um poeta.
+
+As rosas purpurinas dos vinte annos tinham-lhes sido crestadas pelo
+halito abrasado dos salões. A placidez extemporanea d'uma vida agitada,
+via-se-lhe no rosto protestando não contra os prazeres, mas contra a
+debilidade d'um sexo, que não póde acompanhar com a materia as evoluções
+desenfreadas do espirito. Mas que olhos! mas que vida! que electricidade
+no frenesi d'aquellas feições! que projecção de uma sombra azulada lhe
+descia das palpebras! Era uma mulher, em cujo rosto transluzia a
+soberba, talvez demasiada, da sua superioridade.
+
+O dominó-velludo estendeu-lhe a mão, e chamou-lhe Laura.
+
+Seria Laura? É certo que ella estremeceu, e recuou a mão repentinamente
+como se uma vibora lh'a tivesse mordido.
+
+Aquella palavra symbolisava um mysterio dilacerante: era a senha de uma
+grande lucta em que a pobre senhora devia sahir escorrendo sangue.
+
+--Laura--repetiu o dominó--não me apertas a mão? Deixa-me ao menos
+sentar-me perto... muito perto de ti... sim?
+
+O homem, que mais proximo estava de Laura, afastou-se urbanamente para
+deixar aproximar um mascara, que denunciara o sexo pela voz, e a
+distincção pela mão.
+
+E Carlos nunca mais despregou os olhos d'aquella mulher, que revelava a
+cada instante um pensamento nas variadas physionomias com que queria
+disfarçar a sua angustia intima.
+
+A desconhecida fez signal a Carlos para que se aproximasse. Carlos,
+enleado nos embaraços naturaes d'aquella situação toda para elle
+enygmatica, recusava cumprir as imperiosas determinações d'uma mulher
+que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que
+pareciam familiares de Laura, não deram muita importancia aos dominós.
+Conjecturaram, primeiro, e quando suppozeram que tinham conhecido as
+visitas, deixaram em plena liberdade as duas mulheres que se fallavam de
+perto como duas amigas intimas. O cavalheiro passou por um tal Eduardo,
+e a desconhecida tiveram-n'a por uma D. Antonia.
+
+Laura humedecia os labios com a lingua. As surprezas pungentes produzem
+uma febre, e aquecem o mais bem calculado sangue frio. A incognita,
+profundamente conhecedora da situação da sua victima, fallou ao ouvido
+de Carlos:
+
+--Estuda-me aquella physionomia. Eu não estou em circumstancias de ser
+Max... Soffro demasiado para contar as pulsações d'este coração. Se te
+sentires condoido d'esta mulher, tem compaixão de mim, que sou mais
+desgraçada que ella.
+
+E voltando-se para Laura:
+
+--Procuro, ha quatro annos, uma occasião de prestar homenagem á tua
+conquista. Deus, que é Deus, não despreza os incensos do verme da terra,
+nem esconde á vista dos homens a sua fronte magestosa n'um manto de
+estrellas. Tu, Laura, que és mulher, embora os homens te chamem anjo,
+não despresarás vaidosa a homenagem d'uma pobre creatura, que vem depôr
+a teus pés o obulo sincero da sua adoração.
+
+Laura não levantava os olhos do leque; mas a mão, que o sustinha,
+tremia; e os olhos, que o contemplavam, pareciam absortos n'um quadro
+afflictivo.
+
+E o dominó continuou:
+
+--Foste muito feliz, minha cara amiga! Eras digna de o ser. Colheste o
+fructo abençoado da abençoada semente que o Senhor fecundou no teu
+coração de pomba!... Olha, Laura, deves dar muitas graças á Providencia,
+que velou os teus passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no
+abysmo da prostituição, subiste, radiante de virtudes, ao throno das
+virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal! És uma excepção a milhares de
+desgraçadas, que nasceram em estofos de damasco, e cresceram em perfumes
+de opulencia. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas
+da miseria, cresceste nos andrajos da indigencia, ainda viste com os
+olhos da razão a desgraça sentada á cabeceira do teu leito... e, com
+tudo, eis-te ahi rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que
+pódes insultar toda essa turba de mulheres, que te admiram!... Ha tanta
+mulher infeliz!... Queres saber a historia d'uma?...
+
+Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que estava,
+não tinha ainda balbuciado um monosyllabo; mas a urgente pergunta, duas
+vezes repetida, do dominó, obrigou-a a responder affirmativamente com um
+gesto.
+
+--Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.
+
+Um dos individuos, que estava presente, e ouvira pronunciar _Laura_,
+perguntou á mulher que assim era chamada:
+
+--Elisa, ella chama-te _Laura_?
+
+--Não, meu pai...--respondeu Elisa, titubeando.
+
+--Chamo Laura, chamo... e que tem lá isso, snr. visconde?--Atalhou a
+incognita, com affabilidade, erguendo o falsete para ser bem ouvida.--É
+um nome de carnaval, que passa com os dominós. Quarta feira de cinza
+torna a filha de v. exc.^a a chamar-se Elisa.
+
+O visconde sorriu-se, e o dominó continuou, abaixando a voz, e fallando
+naturalmente:
+
+
+III.
+
+
+--Henriqueta...
+
+Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas as fibras de Elisa. O
+rosto incendiou-se-lhe d'aquelle encarnado do pudor ou da raiva. Esta
+sensação violenta não podia ser desapercebida. O visconde, que parecia
+estranho á conversação intima d'aquellas suppostas amigas, não o pôde
+ser á agitação febril de sua filha.
+
+--Que tens, Elisa?!--perguntou elle sobresaltado.
+
+--Nada, meu pai... Foi um ligeiro incommodo... Estou quasi boa...
+
+--Se queres respirar vamos ao salão, ou vamos para casa...
+
+--Antes para casa--respondeu Elisa.
+
+--Eu vou mandar buscar a sege--disse o visconde; e retirou-se.
+
+--Não vás, Elisa...--disse o dominó, com uma voz imperiosa, semelhante a
+uma ameaça inexoravel.--Não vás... porque, se vaes, contarei a todo o
+mundo uma historia que só tu has-de saber. Este outro dominó, que tu não
+conheces, é um cavalheiro: não temas a menor imprudencia.
+
+--Não me martyrises!--disse Elisa.--Eu sou infeliz de mais, para ser
+flagellada com a tua vingança... Tu és Henriqueta, não és?
+
+--Que te importa a ti saber quem eu sou?!...
+
+--Importa muito... Sei que és desgraçada!... Não sabia que vivias no
+Porto; mas palpitou-me o coração que eras tu, apenas me chamaste Laura.
+
+O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia tardar, e
+convidando a filha para dar alguns passeios no salão do theatro. Elisa
+satisfez a carinhosa anciedade do pai, dizendo que se sentia boa, e
+pedindo-lhe que se demorasse até mais tarde.
+
+--Onde julgavas tu que eu existia? No cemiterio não é assim?--perguntou
+Henriqueta.
+
+--Não: sabia que vivias, e prophetisava que devia encontrar-te... Que
+historia me queres tu contar?... a tua? Essa já eu sei... imagino-a...
+tens sido muito infeliz... Olha, Henriqueta... deixa-me dar-te esse
+tratamento affectuoso com que nos conhecemos, com que fomos tão amigas,
+alguns fugitivos dias, no tempo em que o destino nos marcava com o mesmo
+stygma de infortunio...
+
+--O mesmo... não!...--atalhou Henriqueta.
+
+--O mesmo, sim, o mesmo... e se me forças a contradizer-te, direi que
+invejo a tua sorte, seja ella qual fôr...
+
+Elisa chorava, e Henriqueta emmudecera. Carlos estava impaciente pelo
+desfecho d'esta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas
+duas mulheres, e fazel-as amigas, sem saber a razão porque eram
+inimigas. A belleza impõe-se á compaixão. Elisa era bella, e Carlos era
+d'uma sensibilidade extremosa. Nem elle já sabia decidir-se entre
+aquellas duas mulheres. A mascarada _poderia ser_, mas a outra _era_ um
+anjo de sympathia e formosura. O espirito gosta do mysterio que esconde
+o bello; mas decide-se pela belleza real, sem mysterio.
+
+Henriqueta, depois de alguns minutos de silencio, durante os quaes não
+era possivel avaliar-lhe o coração pela exterioridade da physionomia,
+exclamou com impeto, como se despertasse d'um sonho, d'aquelles intimos
+sonhos de dôr, em que a alma se reconcentra:
+
+--Teu marido?
+
+--Está em Londres.
+
+--Ha quanto tempo o não viste?
+
+--Ha dous annos.
+
+--Abandonou-te?
+
+--Abandonou-me.
+
+--E tu?... abandonaste-o?
+
+--Não concebo a pergunta...
+
+--Ainda o amas?
+
+--Ainda...
+
+--Com paixão?
+
+--Com delirio...
+
+--Escreves-lhe?
+
+--Não me responde... Despresa-me, e chama-me _Laura_.
+
+--Elisa!--disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a mão com
+enthusiasmo nervoso--Elisa! perdôo-te... És bem mais desgraçada que eu,
+porque tens um homem que pôde chamar-te Laura, e eu não tenho senão um
+nome... sou Henriqueta! Adeus.
+
+Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado d'aquelle prologo
+d'um romance. Henriqueta tomou-lhe o braço com precipitação, e sahiu do
+camarote abaixando levemente a cabeça aos cavalheiros, que se davam
+tractos por adivinhar o segredo d'aquella conversa.
+
+--Não pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou Henriqueta; mas não
+me atraiçoes, se queres a minha amisade.
+
+--Como hei-de eu atraiçoar-te, se não sei quem és? Pódes chamar-te Julia
+em vez de Henriqueta, que, nem por isso te fico conhecendo mais... Tudo
+mysterios! Tens-me, ha mais d'uma hora, n'um estado de tortura! Eu não
+sirvo para estas emboscadas... Diz-me quem é aquella mulher...
+
+--Não viste que é D. Elisa Pimentel, filha do visconde do Prado?
+
+--Não a conhecia...
+
+--Então que mais queres que eu te diga?
+
+--Muitas outras cousas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes
+tem aquella Laura, que se chama Elisa. Falla-me do marido d'aquella
+mulher...
+
+--Eu te digo... O marido d'aquella mulher chama-se Vasco de Seabra...
+Estás satisfeito?
+
+--Não... Quero saber que relações tens tu com esse Vasco ou com aquella
+Laura?
+
+--Não saberás mais nada, se fores impaciente. Imponho-te mesmo um
+profundo silencio a respeito do que ouviste. Á menor pergunta que me
+faças, deixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz
+parecer uma mulher de soalheiro. Eu contrahi comtigo a obrigação de te
+contar a minha vida?
+
+--Não; mas contrahiste com a minha alma a obrigação de eu me interessar
+na tua vida e nos teus infortunios desde este momento.
+
+--Obrigado, cavalheiro!--Juro-te uma sincera amisade.--Has-de ser o meu
+confidente.
+
+Estavam, outra vez, na platêa. Henriqueta aproximou-se ao quarto
+camarote da primeira ordem, firmou o pé de fada na frisa, segurou-se ao
+peitoril do camarote, e travou conversação com a familia que o occupava.
+Carlos acompanhou-a em todos estes movimentos, e preparou-se para um
+novo enygma.
+
+Segundo o costume, as mãos de Henriqueta passaram por uma analyse
+rigorosa. Não era possivel, porém, fazel-a tirar a luva da mão esquerda.
+
+--Dominó, porque não deixas vêr este annel?--Perguntava uma senhora de
+olhos negros, e vestida de negro, como uma viuva rigorosamente
+enluctada.
+
+--Que te importa o annel, minha querida Sophia!?... Fallemos de ti, aqui
+em segredo. Ainda vives melancolica, como a Dido da fabula? Fica-te bem
+essa côr de esquifes, mas não sustentas o caracter artistico com
+perfeição. A tua tristeza é fingida, não é verdade?
+
+--Não me offendas, dominó, que eu não te mereço essa injuria... A
+desgraça nunca se finge...
+
+--Disseste uma verdade, que é a tua condemnação. Eu, se tivesse sido
+abandonada por um amante, não vinha aqui dar-me em espectaculo a um
+baile de mascaras. A desgraça não se finge, é verdade; mas a saudade
+esconde-se para chorar, e a vergonha não se ostenta radiosa d'esse
+sorriso que te brinca nos labios... Olha, minha amiga, ha umas mulheres
+que nasceram para esta época, e para estes homens. Ha outras que a
+Providencia caprichosa atirou a esta geração corrompida como os
+imperadores romanos atiravam os christãos ao amphitheatro dos leões.
+Felizmente que tu não és das segundas, e sabes harmonisar com o teu
+genio folgasão e desleixado uma hypocrisia que te vai bem n'um sophá de
+pennas, onde te recostas com um perfeito conhecimento das attitudes
+languidas das mulheres cançadas do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te
+por desfastio!... És a unica mulher para quem este paiz é pequeno.
+Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abbades de Versailles, e as
+filhas do Regente, e as Heloïsas desenvoltas dos abbades, e as aias da
+duqueza do Maine... et cetera. Isto por cá é pequenissimo para as
+Phryneas. Uma mulher da tua indole morre asphyxiada n'este ambiente
+pesado em que o coração, nas suas expansões romanticas, encontra, quasi
+sempre, a mão burgueza das conveniencias a tapar-lhe os respiradouros...
+Parece que te enfadas de mim?...
+
+--Não te enganas, dominó... Obsequeias-me se me não deres o incommodo de
+te mandar retirar.
+
+--És muito delicada, minha nobre Sophia!... Já agora, porém, deixa-me
+dar-te uma idêa mais precisa d'esta mulher que te enfada, e que, apesar
+das tuas injustiças, se interessa na tua sorte. Diz-me cá... Tens uma
+sincera paixão, uma saudade pungente por aquelle bello capitão de
+cavallaria, que te deixou, tão sosinha, com as tuas agonias de amante?
+
+--Que te importa?...
+
+--És cruel! Pois não ouves o tom sentimental com que te faço esta
+pergunta?... Quantos annos tens?...
+
+--Metade e outros tantos...
+
+--A resposta não me parece tua... Aprendeste essa vulgaridade com a
+filha do teu sapateiro?... Ora olha: tu tens 38 annos, a não ser
+mentiroso o assento de baptismo, que se lê no cartorio da freguezia dos
+Martyres em Lisboa.
+
+Aos vinte annos amavas com ternura um tal Pedro Sepulveda. Aos vinte e
+cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com
+delirio, um tal Sebastião de Meirelles. Aos 35, amavas, em Londres, com
+frenesi um tal... como se chamava... não me recordo... diz-me, por
+piedade o nome d'esse homem, que, se não, fica o meu discurso sem o
+effeito do drama... Não dizes, má?... Ai!... eu tenho aqui a
+mnemonica...
+
+Henriqueta tirou a luva da mão esquerda, e deixou vêr um annel... Sophia
+estremeceu, e córou até ás orelhas.
+
+--Já te recordas?... Não córes, minha querida amiga... que não fica bem
+ao teu caracter de mulher que conhece o mundo pela face positiva...
+Deixa-me agora arredondar o periodo, como dizem os litteratos... Ora tu
+que amaste desenfreadamente cinco antes do sexto homem, como queres
+fingir debaixo d'esse vestido negro, um coração varado de saudades e
+orphão de consolações?... Adeus, minha bella hypocrita...
+
+Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o braço a Carlos.
+
+
+IV.
+
+
+Eram tres horas.
+
+Henriqueta disse que se retirava, depois de victimar com seus ligeiros,
+mas pungentes gracejos, alguns d'aquelles muitos que provocam o sarcasmo
+só com a presença, só com o vulto corporal, só com a semsaboria de um
+remoque parvo e pretencioso. O carnaval é uma exposição annual d'estes
+infelizes.
+
+Carlos, ao vêr que Henriqueta se retirava com um segredo que tanto
+irritára a sua curiosidade, instou com delicadeza, com meiguice, e até
+com resentimento, pela realidade de uma esperança, que fizera a sua
+felicidade de algumas horas.
+
+--Eu não me arrependo--disse elle--de ter sido a voluntaria testemunha
+de teus desforços... Ainda mesmo que me tivessem conhecido, e tu fosses
+uma mulher licenciosa e depravada, não me arrependeria... Ouvi-te,
+illudi-me na esperança vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser o
+escolhido para sentir de perto as pulsações vertiginosas do teu
+coração... estou recompensado de mais... Ainda assim, Henriqueta, eu não
+tenho pejo de abrir-te a minha alma, confessando-te um desejo de
+conhecer-te que não posso illudir... Este desejo vaes-m'o tu convertendo
+n'uma dôr; e será logo uma saudade insupportavel, que te faria compaixão
+se soubesses avaliar o que é na minha alma um desejo _impossivel_. Se tu
+m'o não dizes, quem me dirá o teu nome?
+
+--Não sabes que sou Henriqueta?
+
+--Que importa? E serás tu Henriqueta?
+
+--Sou... juro-te que sou...
+
+--Não basta isto... Ora diz-me... não sentes a precisão de ser-me grata?
+
+--A que, meu cavalheiro?
+
+--Grata ao melindre com que te tenho tractado, grata á delicadeza com
+que te peço uma revelação da tua vida, e grata a este impulso invencivel
+que me manda ajoelhar-te... Será nobre zombar d'um amor que
+involuntariamente fizeste nascer?
+
+--Não te illudas, Carlos--replicou Henriqueta n'um tom de seriedade,
+semelhante ao de uma mãi que aconselha seu filho. O amor não é isso que
+pica a tua curiosidade. As mulheres são faceis de transigir de boa fé
+com a mentira, e, pobres mulheres!... succumbem muitas vezes á
+eloquencia artificiosa d'um conquistador. Os homens, fartos de estudarem
+as paixões na sua origem, e enfadados das rapidas illusões que elles
+choram todos os dias, estão promptos sempre a declararem-se affectados
+da cholera-paixão, e nunca apresentam _carta-limpa_ de scepticos. De
+maneira que o sexo fragil das chimeras sois vós, creancinhas de toda a
+vida, que brincaes aos trinta annos com a mulher como aos seis
+brincaveis com os cavallinhos de pau, e os fradinhos de sabugo! Olha,
+Carlos, eu não sou ingrata... Vou-me despedir de ti, mas hei-de
+conversar comtigo ainda. Não instes; abandona-te á minha generosidade, e
+verás que alguma cousa lucraste em me encontrar e em me não conhecer.
+Adeus.
+
+Carlos acompanhou-a com os olhos, e permaneceu alguns minutos n'uma
+especie de idiotismo, quando a viu desapparecer á sahida do theatro. O
+seu primeiro pensamento foi seguil-a; mas a prudencia lembrou-lhe que
+era uma indignidade. O segundo foi empregar a intriga astuciosa até
+roubar alguma revelação áquella Sophia da primeira ordem ou á Laura da
+segunda. Não lhe lembraram recursos, nem eu sei quaes elles poderiam
+ser. Laura e Sophia, para dissiparem completamente a esperança anciosa
+de Carlos, tinham-se retirado. Era necessario esperar, era necessario
+confiar n'aquella mulher extraordinaria, cujas promessas o alvoroçado
+poeta traduzia em mil versões.
+
+Carlos retirou-se, e esqueceu não sei quantas mulheres, que ainda, na
+noite anterior, lhe povoaram os sonhos. Ao amanhecer, ergueu-se, e
+escreveu as reminiscencias vivas da scena, quasi fabulosa, que lhe
+transtornava o plano de vida.
+
+Não houve nunca um coração tão ambicioso de futuro, tão fervente de
+poesia, e tão phantastico de conjecturas! Carlos adorava seriamente
+aquella mulher! Como estas adorações se afervoram com tão pouco, não sei
+eu: mas que o amor é assim, vou eu jural-o, e espero que os meus amigos
+me não deixem mentir.
+
+Imaginem, por tanto, a inquietação d'aquelle grande espiritualista,
+quando viu passarem, vagarosos e enfadonhos, oito dias, sem que o mais
+ligeiro indicio lhe viesse confirmar a existencia de Henriqueta! Não
+direi que o desesperado amante appellou para o supremo tribunal das
+paixões impossiveis. O suicidio não lhe passou nunca pela imaginação; e
+muito sinto que esta verdade diminua as sympathias que o meu heroe
+poderia grangear. A verdade, porém, é que o apaixonado mancebo vivia
+sombrio, isolava-se contra os seus habitos socialmente galhofeiros,
+abominava as impertinencias de sua mãi que o consolava com anedoctas
+tragicas a respeito de rapazes cegos de amor, e, emfim, soffrera a ponto
+tal, que resolvera abandonar Portugal, se, no fim de quinze dias a
+fatidica mulher continuasse a ludibriar a sua esperança.
+
+Diga-se, porém, em honra e louvor da astucia humana: Carlos, resolvido a
+partir, lembrou-se de pedir a um seu amigo, que, na gazetilha do
+_Nacional_, dissesse, por exemplo, o seguinte:
+
+«O snr. Carlos d'Almeida vai, no proximo paquete, para Inglaterra. S.
+s.^a tenciona observar de perto a civilisação das primeiras capitaes da
+Europa. O snr. Carlos d'Almeida é uma intelligencia, que, enriquecida
+pela instrucção pratica da sua visita aos focos da civilisação, ha-de
+voltar á sua patria com fecundo cabedal de conhecimentos em todos os
+ramos das sciencias humanas. Fazemos votos porque s. s.^a se recolha em
+breve ao seio dos seus numerosos amigos.»
+
+Esta local bem podia ser que chegasse ás mãos de Henriqueta. Henriqueta
+bem podia ser que conjecturasse o imperioso motivo, que obrigava o
+infeliz a buscar distracções longe da patria, onde a sua paixão era
+invencivel. E, depois, nada mais facil que uma carta, uma palavra, um
+raio de esperança, que lhe transtornasse os seus planos.
+
+Era esta a infallivel tenção de Carlos, quando ao decimo quarto dia lhe
+foi entregue a seguinte carta:
+
+
+V.
+
+
+ «Carlos.
+
+«Sem offender as leis da civilidade, continuo a dar-te o tratamento do
+dominó, porque, em boa verdade, eu continuo a ser para ti um dominó
+moral, não é assim?
+
+«Passaram-se quatorze dias, depois que tiveste o mau encontro d'uma
+mulher, que te privou de algumas horas de deliciosa intriga. Victima da
+tua delicadesa, levaste o sacrificio a ponto de te mostrares interessado
+na sorte d'essa celebre desconhecida que te mortificou. Não serei eu,
+generoso Carlos, ingrata a essa manifestação cavalheirosa, embora ella
+seja um rasgo de artista, e não um desejo espontaneo.
+
+«Queres saber porque tenho demorado quatorze dias este grande sacrificio
+que vou fazer? É porque ainda hoje me levanto d'uma febre incessante,
+que me insultou n'aquelle camarote da segunda ordem, e que, n'este
+momento, parece declinar.
+
+«Permitta Deus que seja longo o intervallo para ser longa a carta: mas
+eu sinto-me tão pequena para os sacrificios grandes!... Não te quero
+responsabilisar pela minha saude; mas, se o meu silencio de longos
+tempos succeder a esta carta, conjectura, meu amigo, que Henriqueta
+cahiu no leito, d'onde ha-de erguer-se, senão é graça que os mortos
+hão-de erguer-se um dia.
+
+«Queres apontamentos para um romance que terá o merito de ser portuguez?
+Vou dar-t'os.
+
+«Henriqueta nasceu em Lisboa. Seus paes tinham o lustre dos brazões, mas
+não brilhavam nada pelo ouro. Viviam sem fausto, sem historia
+contemporanea, sem bailes, e sem bilhetes de boas festas. As visitas que
+Henriqueta conhecia eram, no sexo feminino, quatro velhas suas tias, e,
+no masculino, quatro caseiros que vinham annualmente pagar as rendas,
+com que seu pai regulava economicamente uma nobre independencia.
+
+«O irmão de Henriqueta era um moço de talento, que grangeara uma
+instrucção, enriquecida sempre pelos desvelos com que afagava a sua
+paixão unica. Isolado de todo o mundo, o irmão de Henriqueta confiou a
+sua irmã os segredos do seu muito saber, e formou-lhe um espirito
+varonil, e inspirou-lhe uma ambição faminta de sciencia.
+
+«Bem sabes, Carlos, que fallo de mim, e não posso, n'esta parte,
+engrinaldar-me de flôres immodestas, se bem que não me faltariam depois
+espinhos que me desculpassem as vaidosas flôres...
+
+«Eu cheguei a ser o ecco fiel dos talentos de meu irmão. Nossos paes não
+comprehendiam as praticas litterarias com que aligeiravamos as noites
+d'inverno; e, mesmo assim, folgavam de nos ouvir, e via-se-lhes nos
+olhos aquelle rir de bondoso orgulho, que tanto inflamma as vaidades da
+intelligencia.
+
+«Aos dezoito annos achei pequeno o horisonte da minha vida, e
+enfastiei-me da leitura, que m'o fazia cada vez amesquinhar-se mais. Só
+com a experiencia, se conhece o quanto a litteratura modifica a
+organisação de uma mulher. Eu creio que a mulher, apurada na sciencia
+das cousas, pensa de um modo extraordinario na sciencia das pessoas. O
+prisma das suas vistas penetrantes é bello, mas as lindas cambiantes do
+seu prisma são como as côres variegadas do arco iris, que annuncia
+tempestade.
+
+«Meu irmão lia-me os segredos do coração! não é facil mentir ao talento
+com as hypocrisias do talento. Comprehendeu-me, e teve dó de mim.
+
+«Meu pai morreu, e minha mãi pediu á alma de meu pai que lhe alcançasse
+do Senhor uma vida longa para meu amparo. Ouviu-a Deus, porque eu vi um
+milagre na rapida convalescença com que minha mãi sahiu d'uma
+enfermidade de quatro annos.
+
+«Eu vi um dia um homem no quarto de meu irmão, onde entrei como entrava
+sempre sem receio de encontrar um desconhecido. Quiz retirar-me, e meu
+irmão chamou-me para me apresentar, pela primeira vez na sua vida, um
+homem.
+
+«Este homem chama-se Vasco de Seabra.
+
+«Não sei se por orgulho, se por acaso, meu irmão chamou a conversa ao
+campo da litteratura. Fallava-se em romances, em dramas, em estilos, em
+escólas, e não sei que outros mais assumptos ligeiros e graciosos que me
+captivaram o coração e a cabeça.
+
+«Vasco fallava bem, e revelava cousas que me não eram novas com estilo
+novo. N'aquelle homem, via-se o genio aformoseado pela arte que só na
+sociedade se adquire. Em meu irmão faltava-lhe o relevo de estilo, que
+se lapida ao tracto dos maus e dos bons. Bem sabes Carlos, que te digo
+uma verdade, sem pretenções de _bas-bleu_, que é de todas as miserias a
+mais lastimosa miseria das mulheres cultivadas.
+
+«Vasco retirou-se, e eu quizera antes que elle se não retirasse.
+
+«Disse-me meu irmão que aquelle rapaz era uma intelligencia superior,
+mas depravada pelos maus costumes. A razão porque elle viera a nossa
+casa era muito simples; encarregara-o seu pai de fallar com meu irmão a
+respeito da remissão d'uns fóros.
+
+«Vasco passou n'esse dia por debaixo das minhas janellas: fixou-me,
+cortejou-me, corei, e não me atrevi a seguil-o com os olhos, mas segui-o
+com o coração. Que suprema miseria, Carlos! Que renuncia tão impensada
+faz uma mulher da sua tranquillidade!
+
+«Voltou um quarto d'hora depois: retirei-me, sem querer mostrar-lhe que
+o percebia; fiz-me distrahida, por entre as cortinas, a contemplar a
+marcha das nuvens, e das nuvens descia um olhar precipitado sobre
+aquelle _indifferente_ que me fazia córar e soffrer. Viu-me,
+adivinhou-me, talvez, e cortejou-me ainda. Eu vi o gesto da cortezia,
+mas fingi-me, e não lhe correspondi. Foi isto um heroismo, não é
+verdade? Seria; mas eu tive remorsos, apenas elle desapparecera, de o
+tratar tão grosseiramente.
+
+«Demorei-me n'estas puerilidades, meu amigo, porque não ha nada mais
+grato para nós que a recordação dos ultimos instantes de ventura a que
+se prendem os primeiros instantes da desgraça.
+
+«Aquellas linhas fastidiosas são a historia da minha transfiguração. Ahi
+principia a longa noite da minha vida.
+
+«Nos dias immediatos, a horas certas, vi sempre este homem. Concebi os
+perigos da minha fraqueza, e quiz ser forte. Resolvi não vêl-o mais:
+revesti-me d'um orgulho digno da minha immodesta superioridade ás outras
+mulheres: sustentei este caracter dous dias; e, ao terceiro, era fraca
+como todas as outras.
+
+«Eu já não podia divorciar-me da imagem d'aquelle homem, d'aquellas
+nupcias infelizes, que meu coração contrahira. O meu instincto não era
+mau; porque a educação tinha sido boa; e, não obstante a humildade
+constante com que sempre sujeitei a minha mãi os meus innocentissimos
+desejos, senti-me então, com magoa minha, rebelde, e capaz de conspirar
+contra a minha familia.
+
+«A frequente repetição dos passeios de Vasco não podia ser indifferente
+a meu irmão. Fui suavemente interrogada por minha mãi, a tal respeito, e
+respondi-lhe com respeito, mas sem temor. Meu irmão presentiu a
+necessidade de matar aquella inclinação nascente, e expoz-me um quadro
+feio dos costumes pessimos de Vasco, e o conceito publico em que era
+tido o primeiro homem a quem eu tão francamente me offerecia em namoro.
+Fui altiva com meu irmão, e adverti-lhe que os nossos corações não
+tinham contrahido a obrigação de se consultarem.
+
+«Meu irmão soffreu; eu tambem soffri; e, passado o momento da exaltação,
+quiz cerrar a ferida que abrira n'aquelle coração, desde a infancia,
+identificado com as minhas vontades.
+
+«Este sentimento era nobre; mas o do amor era inferior. Se eu podesse
+reconcial-os ambos! Não podia, nem sabia fazel-o! Uma mulher, quando
+principia a sua dolorosa tarefa do amor, não sabe mentir com
+apparencias, nem calcula os prejuizos que póde evitar com uma pouca de
+impostura. Eu fui assim. Deixei-me hir abandonada á correnteza, da minha
+inclinação; e, quando forcejei por me tornar, tranquilla, á isenção da
+minha alma, não pude vencer a corrente.
+
+«Vasco de Seabra perseguia-me: as cartas eram incessantes, e a grande
+paixão que ellas exprimiam não era ainda igual á paixão que me faziam.
+
+«Meu irmão quiz tirar-me de Lisboa, e minha mãi instava pela sahida, ou
+pela minha entrada a toda a pressa nas Silesias. Informei Vasco das
+intenções de minha familia.
+
+«No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno d'outra
+sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha mãi, e foi
+urbanamente repellido. Eu sube-o, e torturei-me! Não sei do que seria
+então capaz a minha alma offendida! Sei que foi capaz de tudo que póde
+caber em forças d'uma mulher, contrariada nas ambições que nutrira,
+sosinha comsigo, e conjurada a perder-se por ellas.
+
+«Vasco irritado d'um nobre estimulo, escreveu-me, como quem me pedia a
+mim a satisfação dos despresos de minha familia. Respondi-lhe que lh'a
+dava plena, como elle a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela
+porta da deshonra, e muito cedo entraria n'ella com a minha honra
+illibada. Que desgraça! n'aquelle tempo até as pompas do estilo me
+seduziam!... Respondi que sim, e cumpri.
+
+«Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciencia é curta. Até ao
+correio que vem.
+
+ _Henriqueta_.»
+
+
+VI.
+
+
+Carlos relêra com sofrega anciedade, a singela expansão d'uma alma que,
+talvez, nunca se abrira, se a não rasgasse o espinho d'um martyrio
+surdo. Henriqueta não escrevia assim uma carta a um homem, que podesse
+consolal-a. Afeita a gemer no silencio, e na solidão, tornava-se como
+egoista das suas dôres, e suppunha que divulgal-as era esfolhar a mais
+bella flôr da sua corôa de martyr. Escreveu, porque a sua carta era um
+mytho de segredo e publicidade; porque a sua afflicção não rastejava
+pelos queixumes lamuriantes e triviaes d'um grande numero de mulheres,
+que não choram nunca a viuvez do coração, e lastimam sempre a demora das
+segundas nupcias; escreveu em fim, porque a sua dôr, sem deshonrar-se
+com uma publicidade esteril, interessava um coração, esposava uma
+sympathia, um soffrimento simultaneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre
+admiração! Ha mulheres vaidosas--deixem-me assim dizer--da fidalguia do
+seu soffrer. Risonhas para o mundo, é muito sublime aquella angustia
+represada que só póde extravasar os sobejos do seu fel em uma carta
+anonyma. Lagrimosas para si, e fechadas no circulo estreito, que a
+sociedade lhes traça com o compasso inexoravel das conveniencias, essas
+sim, são duas vezes anjos despenhados!
+
+Quem podesse receber na taça de suas lagrimas algumas, que ahi se
+choram, e que a opulencia material não enxuga, experimentaria
+consolações d'um sabor novo. O padecimento, que se esconde, impõe o
+respeito religioso do augusto mysterio d'esta religião universal,
+symbolisada pelo soffrimento commum. O homem, que podesse verter uma
+gota de orvalho na aridez d'algum coração, seria o sacerdote
+providencial no tabernaculo d'um espirito superior, que velasse a vida
+da terra para que tamanhas agonias não fossem estereis na vida do céo.
+Não ha na terra mais gloriosa missão!
+
+Carlos por tanto, sentiu-se feliz d'este orgulho santo que ennobrece a
+consciencia do homem que recebe o privilegio d'uma confidencia. Esta
+mulher, dizia elle, é para mim um ente quasi phantastico. Allivios quaes
+são os que eu posso dar-lhe?... Nem ao menos escrever-lhe!... E ella...
+em que fará consistir o seu prazer?! Deus o sabe! Quem póde explicar, e
+mesmo explicar-se a singularidade d'um proceder, ás vezes, inconcebivel?
+...........................................................................
+
+No correio proximo, recebeu Carlos a segunda carta de Henriqueta:
+
+«Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta? Adivinhaste o
+resto, com prestesa natural. Recordaste mil aventuras d'este genero, e
+amoldaste a minha historia ás legitimas consequencias de todas as
+aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem, com quem fugira, e
+chamaste a isto, talvez, uma deducção contida nos principios.
+
+«Pensaste bem, amigo, a logica da desgraça é essa, e o contrario dos
+teus juizos é o que se chama sophisma, porque eu estou em pensar que a
+virtude é o absurdo da logica dos factos, é a heresia da religião das
+sociedades, é a aberração monstruosa das leis, que regem o destino do
+mundo. Achas-me metaphysica de mais? Não te impacientes. A dôr
+refugia-se nas abstracções, e encontra melhor pabulo na Loucura de
+Erasmo, que nas sisudas deducções de Montesquieu.
+
+«Minha mãi estava reservada para uma grande provação! Amparou-a Deus
+n'aquelle golpe, e permittiu-lhe uma energia que não era de esperar.
+Vasco de Seabra bateu ás portas de todas as igrejas de Lisboa, para me
+apresentar, como sua mulher, ao cura da freguezia, e achou-as fechadas.
+Eramos perseguidos, e Vasco não contava com a sua superioridade sobre
+meu irmão, que lhe fizera certa e infallivel a morte, onde quer que a
+fortuna lh'o deparasse.
+
+«Fugimos de Lisboa para Hespanha. Um dia entrou Vasco, alvoroçado,
+pallido, e febril d'aquella febre de medo, que, realmente, era, até
+então, a unica face prosaica do meu amante. Emmulamos a toda a pressa, e
+partimos para Londres. É que Vasco de Seabra vira meu irmão em Madrid.
+
+«Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco tranquillisou-se,
+porque lhe afiançaram de Lisboa a volta de meu irmão, que perdera as
+esperanças de encontrar-me.
+
+«Se me perguntas como era a vida intima d'estes dous fugitivos, aos
+quaes não faltava condição alguma das aventuras romanticas d'um rapto,
+dir-t'a-hei em poucas linhas.
+
+«O primeiro mez das nossas nupcias de emboscada foi um sonho, uma febre,
+uma anarchia de sensações que, levadas ao extremo do goso, pareciam
+tocar as raias do soffrimento. Vasco parecia-me um Deus, com as
+seductoras fraquezas d'um homem; queimava-me com o seu fogo,
+divinisava-me com o seu espirito; levava-me de mundo em mundo á região
+dos anjos onde a vida deve ser o extasis, o arrobamento, a alienação com
+que a minha alma se derramava nas sensações ardentissimas d'aquelle
+homem.
+
+«No segundo mez, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez «que era
+muito meu amigo.» O coração pulsava-lhe vagaroso, os olhos não faiscavam
+electricidade, os sorrisos eram frios... os meus beijos já os não
+aqueciam n'aquelles labios! «Sinto por ti uma sincera estima.» Quando
+isto se diz, depois d'um amor vertiginoso, que não sabe as phrases
+triviaes, a paixão está morta. E estava...
+
+«Depois, Carlos, fallavamos em litteratura, analysavamos as operas,
+discutiamos o merito dos romances, e viviamos em academia permanente,
+quando Vasco me não deixava quatro, cinco, e seis horas entregue ás
+minhas innocentes recreações scientificas.
+
+«Vasco cançara-se de mim. A consciencia affirmou-me esta verdade atroz.
+Suffoquei a indignação, as lagrimas, e os gemidos. Soffri sem limites.
+Abrasou-se-me na alma um inferno que me coava fogo nas vêas. Não houve
+nunca mulher assim desgraçada!
+
+«E vivemos assim dezoito mezes. A palavra «casamento» foi banida de
+nossas curtas conversações... Vasco desquitava-se de compromissos, que
+elle chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia de ser o meu
+escravo, como elle intitulava o nescio, que se deixava algemar ás
+obscuras superstições do setimo sacramento... Foi ahi que Vasco de
+Seabra encontrou a Sophia que te apresentei no real theatro de S. João,
+na primeira ordem.
+
+«Comecei então a pensar em minha mãi, em meu irmão, na minha honra, na
+minha infancia, na memoria deslustrada de meu pai, na tranquillidade de
+minha vida até ao momento em que me atirei á lama e salpiquei com ella a
+face da minha familia.
+
+«Peguei da penna para escrever a minha mãi. Escrevera a primeira
+palavra, quando comprehendi o vexame, a degradação, e a villania com que
+ousava apresentar-me áquella virtuosa senhora, com a face manchada de
+nodoas, contagiosas. Repelli com nobreza esta tentação, e desejei
+n'aquelle instante, que minha mãi me julgasse morta.
+
+«Em Londres viviamos n'uma hospedaria, depois que Vasco perdeu o medo a
+meu irmão. Viera ahi hospedar-se uma familia portugueza. Era o visconde
+do Prado, e sua mulher, e uma filha. O visconde relacionou-se com Vasco,
+e a viscondessa e sua filha visitaram-me, tractando-me como irmã de
+Vasco.
+
+«Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua curiosidade na
+historia d'esta gente, que já conheceste no camarote da 2.^a ordem.
+
+«Mas não posso agora dispor de mim... Saberás, alguma vez, a razão
+porque não pude continuar esta carta.
+
+«Adeus, até outro dia,
+
+ _Henriqueta_.»
+
+
+VII.
+
+
+«Cumpro religiosamente as minhas promessas. Tu não avalias o sacrificio
+que faço. Não importa. Como não quero captivar a tua gratidão, nem,
+mesmo ainda, mover a tua piedade, basta-me a consciencia do que sou para
+ti, que é (medita bem) o mais que posso ser...
+
+«A historia... não é assim? Principia agora.
+
+«Antonio Alves era um pobre amanuense do escriptorio de um tabellião de
+Lisboa. Casou, e reuniu ao infortunio de casar a desgraça de ser pai. O
+tabellião morreu, e Antonio Alves, privado dos escassos lucros de
+amanuense, luctou com a fome. A mulher por um lado com a filhinha ao
+collo, e elle pelo outro com as lagrimas da indigencia, conseguiram
+algumas moedas, e com ellas a passagem do pobre marido para o Rio de
+Janeiro.
+
+«Foi, e deixou entregues á Providencia a mulher e a filha.
+
+«Josepha esperava todos os dias carta de seu marido. Nem carta, nem um
+indicio da sua existencia. Julgou-se viuva, vestiu-se de preto, e viveu
+de esmolas, pedidas á noite na _praça do Rocio_.
+
+«A filha chamava-se Laura, e crescera bella, não obstante as angustias
+da fome, que transformam a formosura do berço.
+
+«Aos quinze annos de Laura, já sua mãi não mendigava. A deshonra
+proporcionara-lhe abundancia que uma honrosa mendicidade lhe não dera.
+Laura era amante d'um rico, que cumpria fielmente com a mãi as
+condicionaes estipuladas na escriptura de venda da filha.
+
+«Um anno depois, Laura explorava outra mina. Josepha não soffria com as
+vicissitudes da filha, e continuava a gosar os fins da vida á sombra de
+tão fecunda arvore.
+
+«A indigencia, e a sociedade fizeram-lhe comprehender que só ha deshonra
+na fome e na nudez.
+
+«Outro anno depois, a radiosa Laura declarou-se o premio do cavalleiro,
+que mais airoso entrasse no torneio.
+
+«Concorreram muitos gladiadores, e parece que todos foram premiados,
+porque todos esgrimiam galhardamente.
+
+«Desgraça foi para Laura, quando os melhores campeões se retiraram
+fatigados da liça. Os que vieram depois eram bisonhos no jogo das armas,
+e viram que a dama das justas já não valia a pena de perigosos botes de
+lança, e de arreios muito custosos de pedraria e ouro.
+
+«Pobre Laura, apeada do seu pedestal, olhou-se a um espelho, viu-se
+ainda bella com vinte e cinco annos, e perguntou á sua consciencia a
+baixa do preço com que corria no leilão de mulheres. A consciencia
+respondeu-lhe que descesse da altura das suas ambições, que viesse para
+onde a chamava a logica da sua vida, e continuaria a ser rainha n'um
+reino de segunda ordem, já que a exauthoravam d'um throno que tivera na
+primeira.
+
+«Laura desceu, e encontrou uma sociedade nova. Acclamaram-na soberana,
+reuniu-se uma côrte tumultuosa na ante-camara d'esta odalisca facil, e
+não houve grande nem pequeno a quem se baixassem os reposteiros do
+throno.
+
+«Laura viu-se um dia abandonada. Viera uma outra disputar-lhe a sua
+legitimidade. Os cortezãos voltaram-se para o sol nascente, e
+apedrejaram, como os incas, o astro que se escondia para alumiar os
+antipodas d'um outro mundo.
+
+«Os antipodas d'um outro mundo eram uma sociedade inculta, sem a
+intelligencia da arte, sem o culto á formosura, sem as opulencias que o
+ouro cria nas altas regiões da civilisação, e, finalmente, sem algum dos
+attributos, que Laura amára tanto nos mundos, onde fôra soberana duas
+vezes.
+
+«A infeliz tinha descido ao derradeiro grau de aviltamento; mas era
+bella ainda. Sua mãi, enferma n'um hospital, pedia a Deus, como esmola,
+a sua morte. A desgraçada foi punida.
+
+«No hospital, viu passar sua filha diante do seu leito; pediu que a
+deitassem ao pé de si; o enfermeiro riu-se; e entrou com ella n'outra
+enfermaria, onde o anjo do pudor e o das lagrimas cobriam o rosto na
+presença da ulcera mais esqualida, e mais lastimosa do genero humano.
+
+«Laura principiava a sondar a profundidade do abysmo em que cahira.
+
+«Sua mãi recordava as fomes d'outro tempo, quando sua filha, virgem
+ainda, chorava e supplicava, com ella, uma esmola ao passageiro.
+
+«As privações de então eram semelhantes, ás privações de agora, com a
+differença, porém, que a Laura de hoje, deshonrada e repelida, não podia
+já prometter o futuro da Laura de então.
+
+«Agora, Carlos, vejamos o que é o mundo, e pasmemos diante das evoluções
+gymnasticas dos acontecimentos.
+
+«Apparece em Lisboa um capitalista, que chama a attenção dos
+capitalistas, a consideração do governo, e, por via de regra, desafia
+inimisades politicas, e invejas, que procuram o seu principio de vida
+para denegrir-lhe o luzimento da sua affrontosa opulencia.
+
+«Este homem compra uma quinta na provincia do Minho, e, mais barato
+ainda, compra o titulo de visconde do Prado.
+
+«Um jornal de Lisboa, que traz entre os dentes venenosos da politica o
+pobre visconde, escreve um dia um artigo, onde se acham, entre muitas,
+as seguintes allusões:
+
+«O snr. visconde do Prado adscreveu á immoralidade do governo a
+immoralidade da sua fortuna. Como ella foi adquirida, dil-o-hiam as
+costas d'Africa se os sertões contassem os horrorosos dramas da
+escravatura, em que o snr. visconde foi heroe.
+...........................................................................
+
+«O snr. visconde do Prado era Antonio Alves ha 26 annos, e a pobre
+mulher que deixou em Portugal, com uma tenra filhinha ao collo, ninguem
+dirá em que rua morreu de fome sobre as lages, ou em que agua-furtada
+curtiram ambas as agonias da fome, em quanto o snr. visconde medrava
+cynicamente na hydropisia do ouro, com que hoje vem arrotar moralidades
+no theatro das suas infamias de esposo e de pai................
+
+«Melhor fôra que o snr. visconde indagasse onde repousam os ossos de sua
+mulher, e de sua filha, e nos pozesse ahi um padrão de marmore, que
+possa attestar ao menos o remorso d'um infame contricto...
+
+«Este insulto directo, e fundamentado, ao visconde do Prado, fez ruido
+em Lisboa. As edições do jornal espalharam-se, e leram-se, e
+commentaram-se com frenetica maldade.
+
+«Ás mãos de Laura chegou este jornal. Sua mãi, ouvindo lêl-o, delirou. A
+filha cuidou que sonhava; e a situação de ambas perderia muito se eu
+tentasse roubar-lhe as côres vigorosas da tua imaginação.
+
+«No dia seguinte, Josepha e Laura entravam no palacete do visconde do
+Prado. O porteiro respondeu que s. exc.^a não estava ainda a pé.
+Esperaram. Ás 11 horas sahia o visconde, e, ao saltar para a carruagem,
+viu duas mulheres que se aproximavam. Metteu a mão ao bolso do collete,
+e tirou doze vintens que lançava na mão de uma das duas mulheres. Olhou
+admirado para ellas, quando viu que a esmola lhe era recusada.
+
+«--Que querem?--interrogou elle, com soberba indignação.
+
+«--Quero vêr meu marido que não vejo, ha 26 annos...--respondeu Josepha.
+
+«O visconde estacou ferido d'um raio. O suor gotejava-lhe na testa em
+bagas frias. Laura aproximou-se, em attitude de beijar-lhe a mão...
+
+«--Pois que?...--interpellou o visconde.
+
+«--Sou sua filha...--respondeu Laura com humildoso respeito.
+
+«O visconde, aturdido e parvo, voltou as costas á carruagem, e mandou ás
+duas mulheres que o seguissem.
+
+«O resto no correio seguinte.--Adeus, Carlos.
+
+ _Henriqueta_.»
+
+
+VIII.
+
+
+«Carlos, tenho quasi tocado a extrema d'esta minha peregrinação. A minha
+illiada está no ultimo canto. Quero dizer-te que é esta a minha
+penultima carta.
+
+«Não sou tão independente como pensava. A não serem os poetas, ninguem
+gosta de contar as suas magoas ao vento. É bello dizer-se, que um gemido
+nas azas da brisa vai da terra em dorido suspirar até ao côro dos anjos.
+É bonito conversar com a fonte suspirosa, e contar á avesinha gemedôra
+os segredos do nosso penar. Tudo isto é delicioso d'uma puerilidade
+inoffensiva; mas eu, Carlos, não tenho alma para estas cousas, nem
+engenho para estes artificios.
+
+«Vou contando as minhas penas a um homem, que não póde zombar de minhas
+lagrimas, sem trahir a generosidade do seu coração, e a sensibilidade do
+talento Sabes qual é o meu egoismo, o meu estipendio n'este trabalho,
+n'esta franqueza d'alma, que ninguem te póde disputar como unico em
+merecêl-a? Eu te digo. Quero uma carta tua, dirigida a Angelica
+Michaela. Diz-me o que a tua alma te disse; não tenhas pejo em
+denuncial-a; associa-te um momento á minha dôr, e dize-me o que farias
+se tivesses sido Henriqueta.
+
+«Aqui tens o prologo d'esta carta: agora vamos espreitar o lance
+extraordinario d'aquelle encontro, em que deixamos o visconde e a...
+como hei-de chamar-lhe?... a viscondessa, e sua exc.^{ma} filha D.
+Laura.
+
+«--Pois é possivel existires?--perguntava o visconde, sinceramente
+admirado, a sua mulher.
+
+«--Pois não me conheces, Antonio?--respondia ella com estupida
+naturalidade.
+
+«--Tinham-me dito que morreras...--tornou elle com desazada
+hypocrisia--tinham-me dito, ha dezesete annos, que tu e a nossa filha
+tinheis sido victimas da cholera-morbus...
+
+«--Felizmente que lhe mentiram--interrompeu Laura com affectada
+meiguice.--Nós é que lhe tinhamos resado por alma, e nunca deixamos de
+pronunciar o seu nome sem saudosas lagrimas.
+
+«--Como tendes vivido?--perguntou o visconde.
+
+«--Pobre, mas honradamente--respondeu Josepha, dando-se uns ares
+austeros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o céo por
+testemunha.
+
+«--Ainda bem!--tornou o visconde--mas que modo de vida tem sido o vosso?
+
+«--O trabalho, meu querido Antonio, o trabalho de nossa filha tem sido o
+amparo da sua honra, e da minha velhice. Tu abandonaste-nos com tamanha
+crueldade!... Que mal te fizemos nós?
+
+«--Nenhum, mas não vos disse eu que vos considerava mortas?--respondeu o
+visconde a sua mulher, que tivera a habilidade de arrancar duas
+volumosas lagrimas, tanto a proposito.
+
+«--O passado, passado--disse Laura, afagando carinhosamente as mãos
+paternas, e dando-se uns ares de innocencia capazes de illudir S. Simão
+Stylita.--Quer o pai saber (proseguiu ella com sentimento) qual tem sido
+a minha vida? Olhe, meu pai, não se envergonhe da posição social em que
+encontra sua filha... Tenho sido modista, tenho trabalhado
+incessantemente... tenho luctado com as tentações da penuria, e tenho
+feito consistir em minhas lagrimas o meu triumpho...
+
+«--Bem, minha filha--interrompeu o visconde com sincera
+contrição--esqueçamos o passado.... D'hora em diante será a abundancia a
+premio da tua virtude... Ora diz-me: o mundo sabe que tu és minha
+filha?... disseste a alguem que eu era teu marido, Josepha?
+
+«--Não, meu pai.--Não meu Antoninho.--Responderam ambas, como se
+tivessem previsto e calculado as perguntas e as respostas.
+
+«--Pois bem--continuou o visconde--vamos a conciliar com o mundo as
+nossas posições presentes, passadas e futuras. D'hora ávante, Laura, és
+minha filha, és filha do visconde do Prado, e não pódes chamar-te Laura.
+Serás Elisa, comprehendes-me? é necessario que te chames Elisa...
+
+«--Sim, meu pai... eu serei Elisa--atalhou a _innocente modista_ com
+impetuosa alegria.
+
+«--É necessario abandonar Lisboa--proseguiu o visconde.
+
+«--Sim, sim, meu pai... vivamos num sertão... quero gosar, sosinha, na
+presença de Deus a felicidade de ter pai...
+
+«--Não hiremos para um sertão... vamos para Londres; mas...
+attendam-me... é preciso que ninguem as veja, n'estes primeiros annos,
+principalmente em Lisboa... A minha posição actual é muito melindrosa.
+Tenho muitos inimigos, muitos invejosos, muitos infames, que procuram
+perder-me no conceito que pude comprar com o meu dinheiro. Estou farto
+de Lisboa; partiremos no primeiro paquete... Josepha, repara em ti, e vê
+que és a viscondessa do Prado. Elisa, a tua educação foi desgraçadamente
+mesquinha para te poderes mostrar qual eu quero que sejas na alta
+sociedade. Voltaremos um dia, e terás então supprido com a educação
+pratica a rudeza que indispensavelmente tens.
+
+«Não progrido, n'este dialogo, Carlos. O programma do visconde foi
+rigorosamente cumprido.
+
+«Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em Londres, com
+esta familia. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira vez, a filha do
+visconde atravessar um corredor do hotel, fixou-a com pasmo, e veio
+dizer-me que acabava de vêr, elegantemente trajada, uma mulher que
+conhecera em Lisboa, chamada Laura. Acrescentou varias circumstancias da
+vida d'esta mulher, e acabou por mostrar vivos desejos de saber o tolo
+opulento, a quem tal mulher estava associada.
+
+«Vasco pediu a lista dos hospedes, e viu que os unicos portuguezes eram
+Vasco de Seabra e _sua irmã_, e o visconde do Prado, a sua mulher, e sua
+filha D. Elisa Pimentel.
+
+«Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se d'uma illusão.
+
+«No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e alegrou-se de ter
+encontrado um patricio, que lhe explicasse aquelles gritos barbaros dos
+serventes do hotel, que lhe davam agua por vinho. Vasco não duvidou em
+ser interprete do visconde, com tanto que as suas luzes em lingua
+ingleza podessem chegar ao escondrijo d'onde nunca mais vira sahir a
+supposta Laura.
+
+«Correram as cousas á medida do seu desejo. Na noite d'esse dia, fomos
+convidados para tomar chá, na saleta do visconde. Eu hesitei, sem saber
+ainda se Laura seria familiar do visconde. Vasco, porém, despreveniu-me
+d'este temor, afiançando-me que se tinha illudido com a semelhança das
+duas mulheres.
+
+«Fui. Elisa pareceu-me uma menina bem educada. Nunca o artificio tirou
+maior partido das maneiras adquiridas em habitos libertinos. Elisa era a
+mulher de côrte, com os ademans fascinadores dos salões, onde a
+immoralidade do coração passeia de braço dado com a illustração do
+espirito. O som da palavra, a escolha da phrase, a compostura airosa da
+mimica, o tom sublime em que as suas idêas eram voluptuosamente lançadas
+na torrente de uma conversação animada, tudo isto me fez crêr que Laura
+era a primeira mulher que eu tinha encontrado, talhada á feição do meu
+espirito.
+
+«Quando agora pergunto á minha consciencia como estas transições se
+fazem, descreio da educação, lamento os annos consumidos no cultivo da
+intelligencia, e chego a persuadir-me que a escóla da devassidão é a
+ante-camara por onde mais facil se entra no mundo da graça e da
+civilisação.
+
+«Perdôa-me o absurdo, Carlos; mas ha mysterios na vida, que só pelo
+absurdo se explicam.
+
+ _Henriqueta_.»
+
+
+IX.
+
+
+«Li a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de lagrimas, e o coração de
+reconhecimento. Não esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a
+injustiça de te julgar infeccionado d'este marasmo de egoismo que
+entorpece o espirito, e calcina o coração. E, de mais, suppunha-te
+insensivel pelo facto de seres intelligente. Eis-aqui um disparate, que
+eu não ousaria balbuciar na presença do mundo. O que vale é que as
+minhas cartas não serão lidas pelas mediocridades, que se acham em
+concilio permanente para condemnar, em nome de não sei que tolas
+conveniencias, as heresias do genio.
+
+«Deixa-me dizer-te francamente o juizo que eu fórmo do homem
+transcendente em genio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente
+em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes.
+
+«O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns conheço eu que o mundo
+proclama virtuosos, e sabios. Deixal-os proclamar. O talento não é a
+sabedoria. Sabedoria é o trabalho incessante do espirito sobre a
+sciencia. O talento é a vibração convulsiva do espirito, a originalidade
+inventiva e rebelde á authoridade, a viagem extatica pelas regiões
+incognitas da idêa. Santo Agostinho, Fenelon, Madame de Stael, e Bentham
+são sabedorias. Luthero, Ninon de Lenclós, Voltaire e Byron são
+talentos. Compara as vicissitudes d'essas duas mulheres, e os serviços
+prestados á humanidade por esses homens, e terás encontrado o
+antagonismo social em que luctam o talento com a sabedoria.
+
+«Porque é mau o homem de talento? Essa bella flôr porque tem no seio um
+espinho envenenado? Essa esplendida taça de brilhantes e ouro porque é
+que contem o fel, que abrasa os labios de quem a toca?
+
+«Aqui tens um thema para trabalhos superiores á cabeça d'uma mulher,
+ainda mesmo reforçada por duas duzias de cabeças academicas!
+
+«Lembra-me ouvir dizer a um doudo que soffria por ter talento. Pedi-lhe
+as circumstancias do seu martyrio sublime, e respondeu-me o seguinte com
+a mais profunda convicção, e a mais tocante solemnidade philosophica: Os
+talentos são raros, e os estupidos são muitos. Os estupidos guerream
+barbaramente o talento: são os vandalos do mundo espiritual. O talento
+não tem partido n'esta peleja desigual. Foge, dispara na retirada um
+tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se, segrega-se do
+contacto do mundo, e curte em silencio aquelle fel de vingança, que,
+mais cedo ou mais tarde, cospe na cara d'algum inimigo, que encontra
+desviado do corpo do exercito.
+
+«Ahi tem--acrescentou elle--a razão porque o homem de talento é perigoso
+na sociedade. O odio inspira-lhe a eloquencia da traição. A mulher, que
+lhe ouve o astucioso hymno das suas apaixonadas lamurias, acredita-o,
+abandona-se, perde-se, e retira-se, por fim, gritando contra o seu
+algoz, e pedindo á sociedade que grite com ella.
+
+«Agora, diz-me tu, Carlos, até que ponto devemos acreditar este doudo.
+Eu por mim não me satisfaço com o seu systema, todavia sinto-me propensa
+a aperfeiçoar o prisma do doudo, até encontrar as côres inalteraveis do
+juizo.
+
+«Seja o que fôr, eu creio que és uma excepção e não soffra com isto a
+tua modestia. A tua carta fez-me chorar, e acredito que soffrias,
+escrevendo-a. Has-de continuar a visitar-me espiritualmente na minha
+Thebaida, sem cilicios, sim?
+
+«Agora conclua-se a historia, que leva seus visos de folhetim
+philosophico, moral, social, e não sei que mais por ahi se diz, que não
+vale nada.
+
+«Contrahi amisade com a filha do visconde do Prado. Não era ella, porém,
+tão intima, que me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra não era
+meu irmão. Por elle me fôra imposto, como preceito, o segredo de nossas
+relações. Bem longe estava eu de comprehender este zelo de virtuosa
+honestidade, quando a mão d'um demonio me tirou a venda dos olhos.
+
+«Vasco amava Laura!! Eu puz dous pontos de admiração, mas acredita que
+foi uma urgencia rhetorica, uma composição artistica, que me obrigou a
+admirar-me, escrevendo, de cousas que me não admiram, pensando.
+
+«Que é o que levou tão depressa este homem a aborrecer-me, pobre mulher,
+que despresei o mundo, e me despresei a mim propria para satisfazer-lhe
+o capricho d'alguns mezes? Foi uma miseria que ainda hoje me envergonha,
+supposto que esta vergonha devesse ser um reflexo das faces d'elle...
+Vasco amava a filha do visconde do Prado, a _Laura_ d'alguns mezes
+antes, porque a Elisa d'hoje era a herdeira de não sei quantos centos de
+contos de reis.
+
+«Devo envergonhar-me de ter amado este homem, nao é verdade, Carlos? Não
+devo soffrer um instante a perda d'um miseravel, que eu vejo d'aqui com
+uma grilheta d'ouro algemada a uma perna, tapando em vão os ouvidos para
+não ouvir-lhe o ruido... a sentença do forçado que o segue até ao fim
+d'uma existencia farta de opprobrio, e celebre de infamias!
+
+«E não soffro, Carlos! Tenho aqui no seio uma ulcera que não tem cura...
+choro, porque é intensa a dôr que ella me causa... mas, olha, não tenho
+lagrimas que não sejam remorsos... não tenho remorsos que não sejam
+picados pela affronta que fiz a minha mãi, e a meu irmão... Não me doe o
+meu proprio aviltamento, não! Se em minha alma cabe algum enthusiasmo,
+algum desejo, é o enthusiasmo da penitencia, é o desejo de
+torturar-me...
+
+«Fugi tanto da historia, meu Deus!... Desculpa estes desvios, meu
+paciente amigo!... Eu queria correr muito sobre o que me falta, e hei-de
+conseguil-o, porque não posso parar, e temo de me converter em estatua,
+como a mulher de Loth, quando olho com attenção para o meu passado...
+
+«O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu genro. Vasco não
+sei como recebeu o convite; o que eu sei é que os vinculos d'estas
+relações estreitaram-se muito, e Elisa, desde esse dia, expandiu-se
+comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas. Estas
+intimidades eram o prologo d'outra que tu avaliarás. Foi ella a propria
+que me disse que esperava ainda poder chamar-me irmã! Isto é uma
+atrocidade sublime, Carlos! Diante d'essa dôr calam-se todas as agonias
+possiveis! O insulto não podia ser mais despedaçador! O punhal não podia
+entrar mais dentro no virtuoso coração da pobre amante de Vasco de
+Seabra!... Agora, sim, que eu quero a tua admiração, meu amigo! Tenho
+direito á tua compaixão, se não pódes estremecer de enthusiasmo diante
+do heroismo d'uma martyr! Ouvi este annuncio dilacerante!... Senti
+fugir-me o entendimento... aquella mulher suffocou-me a voz na
+garganta... horrorisei-me não sei se d'ella, se d'elle, se de mim... Nem
+uma lagrima!... acreditei-me douda... Senti-me estupida d'aquelle
+idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos vêem nos labios
+um sorriso de imbecilidade...
+
+«Elisa parece que recuou aterrada da expressão da minha physionomia...
+Fez-me não sei que perguntas... não me lembro mesmo se aquella mulher
+permaneceu diante de mim... Basta!... não posso prolongar esta
+situação...
+
+«Na tarde d'esse mesmo dia, chamei uma creada da hospedaria. Pedi-lhe
+que me vendesse algumas joias de pouco valor que eu possuia; eram
+minhas; minhas não... eram um roubo que eu fiz a minha mãi.
+
+«Na manhã do dia seguinte, quando Vasco, depois de almoço, visitava o
+visconde do Prado, escrevi estas linhas:
+
+«Vasco de Seabra não póde gloriar-se de ter deshonrado Henriqueta de
+Lencastre. Esta mulher sentia-se digna d'uma corôa de virgem, virgem do
+coração, virgem na sua honra, quando abandonava um villão, que não pôde
+infectar da sua infamia o coração da mulher, que arrastou ao abysmo da
+sua lama, sem lhe salpicar a cara. Foi a Providencia que a salvou!»
+
+«Deixei este escripto sobre as luvas de Vasco, e fui á estação dos
+caminhos de ferro.
+
+«Dous dias depois entrava n'um paquete.
+
+«Ao vêr a minha patria, cobri o rosto com as mãos, e chorei... Era a
+vergonha e o remorso. Diante do Porto senti uma inspiração do céo.
+Saltei n'uma catraia, e pouco depois achava-me n'esta terra, sem um
+conhecimento, sem um apoio, e sem subsistencia para muitos dias.
+
+«Entrei em casa d'uma modista, e pedi obra. Não m'a negou. Aluguei uma
+agua-furtada, onde trabalho ha quatro annos; onde, ha quatro annos,
+comprimo bem aos rins, segundo a linguagem antiga, os cilicios do meu
+remorso.
+
+«Minha mãi e meu irmão vivem. Julgam-me morta, e eu peço a Deus que não
+haja um indicio da minha vida. Sê-me tu fiel, meu generoso amigo, não me
+denuncies, pela tua honra, e pela sorte de tuas irmãs.
+
+«Tu sabes o resto. Ouviste, no theatro, Elisa. Foi ella a que disse que
+seu marido a abandonára, chamando-lhe _Laura_. Aquella está punida...
+
+«Sophia... (lembras-te de Sophia?) essa é uma pequena aventura, que
+aproveitei para tornar menos insipidas aquellas horas, em que me
+acompanhaste... Foi uma rival que não honra ninguem... uma _Laura_ com
+os respeitos publicos, e as considerações que se barateiam a corpos
+ulcerosos, com tanto que se vistam de veludos matizados. Ainda eu era
+feliz, quando o infame amante d'essa mulher me dava aquelle annel, que
+viste, como oblação de sacrificio que me fazia d'uma rival...
+
+«Escreve-me.
+
+«Has-de ouvir-me no proximo carnaval.
+
+«Por ultimo, Carlos, deixa-me fazer-te uma pergunta:
+
+«Não me achas mais defeituosa que o nariz d'aquella andaluza da
+historia, que te contei?
+
+ _Henriqueta_.»
+
+
+X.
+
+
+É natural a exaltação de Carlos, depois de erguido o véo, em que se
+escondiam os mysterios de Henriqueta. Alma apaixonada pela poesia do
+bello, e pela poesia da desgraça, Carlos não teve nunca impressão na
+vida, que mais lhe incendiasse uma paixão!
+
+As cartas a Angela Michaela eram o desafogo do seu amor sem esperança.
+Os mais ferventes extasis da sua alma de poeta, imprimiu-os n'aquellas
+cartas escriptas, debaixo de uma impressão, que lhe roubava a
+tranquilidade do somno, e o refugio d'outros affectos.
+
+Henriqueta respondera concisamente ás explosões d'um delirio, que nem
+sequer a fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta não podia amar.
+Arrancaram-lhe pela raiz a flôr do coração. Esterilisaram-lhe a arvore
+dos bellos fructos, e envenenaram-lhe de sarcasmo e ironia os instinctos
+do carinho brando, que acompanham a mulher até á sepultura.
+
+Carlos não podia supportar uma repulsa nobre. Persuadira-se que havia um
+estalão moral para todas. Confiava no seu ascendente, em não sei que
+mulheres, entre as quaes lhe não fôra penoso nunca fixar o dia do seu
+triumpho.
+
+Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. O
+amor-proprio, angustiado nos apertos d'uma impossibilidade invencivel,
+adquire uma nova feição, e converte-se em paixão, como as paixões
+primeiras, que nos sopram a tempestade no limpido lago da adolescencia.
+
+Carlos, em ultimo recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No
+lance extremo d'um desafogo, hiria elle, audacioso, humilhar-se aos pés
+d'aquella mulher, que a não poder amal-o, choraria com elle ao menos.
+
+Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a imaginação, quando lhe
+occorreu a astuciosa lembrança de surprehender a morada de Henriqueta
+surprehendendo a pessoa que no correio lhe tirava as cartas,
+subscriptadas a Angela Michaela.
+
+Conseguido o compromettimento d'um empregado do correio, Carlos empregou
+n'esta missão um vigia insuspeito.
+
+No dia de correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n.^o 628. O que
+a entregou fez um signal a um homem, que passeava no corredor, e este
+homem seguiu de longe a velha até ao campo de Santo Ovidio. Feliz das
+vantagens, que lucrára em tal commissão, correu a encontrar-se com
+Carlos. É ocioso descrever a precipitação com que o enamorado mancebo,
+espiritualisado por algumas libras, correu á indicada casa. Em honra de
+Carlos, é necessario dizer que aquellas libras representavam a
+eloquencia com que elle tentaria mover a velha em seu favor, por isso
+que, á vista das informações que tivera da pobreza da casa, concluiu que
+não era alli a residencia de Henriqueta.
+
+Acertou.
+
+A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua baiuca, quando Carlos
+se aproximou, e muito urbanamente lhe pediu licença para dizer-lhe duas
+palavras.
+
+A velha, que não podia receiar alguma aggressão traiçoeira aos seus
+virtuosos oitenta annos, franqueou os umbraes da sua possilga, e prestou
+ao seu hospede a cadeira unica do seu camarim de tecto de vigas, e
+pavimento de lages.
+
+Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembrado da chave com que
+Bernardes manda fechar os sonetos, applicou-a á abertura da prosa, e
+conheceu de prompto as vantagens de ser classico, quando convém. A
+velha, quando viu cahir no regaço duas libras, sentiu o que nunca
+sentira a mais carinhosa das mães, com dous filhinhos no collo.
+Luziram-lhe os olhos, e dançaram-lhe os nervos em todas as evoluções dos
+seus vinte e cinco annos.
+
+Feito isto, Carlos precisou a sua missão nos seguintes termos:
+
+«Esse pequeno donativo, que lhe faço, ha-de ser repetido, se vm.^{ce} me
+fizer um grande serviço, que póde fazer-me. Vm.^{ce} recebeu, ha pouco,
+uma carta, e vai entregal-a a uma pessoa, cuja felicidade está nas
+minhas mãos. Estou certo que vm.^{ce} não ha-de querer occultar-me a
+morada d'essa senhora, e prival-a de ser feliz. O serviço que tenho a
+pedir-lhe, e a pagar-lhe bem, é este; póde fazer-m'o?
+
+A fragil mulher, que não se sentia bastante heroina para hir de encontro
+á legenda, que D. João V. fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com
+mais algumas reflexões e denunciou o santo asylo das lagrimas de
+Henriqueta, segunda vez atraiçoada por uma mulher, fragil á tentação do
+ouro, que lhe roubára um amante, e vem agora devassar-lhe o seu sagrado
+refugio.
+
+Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa da _rua dos Pelames_,
+subia a um terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe não foi aberta.
+Esperou. Momentos depois, subia um rapaz com uma caixa de chapéo de
+senhora: bateu; perguntaram de dentro quem era, o rapaz fallou, e a
+porta foi immediatamente aberta.
+
+Henriqueta estava sem dominó na presença de Carlos.
+
+Foi sublime esta apparição. A mulher, que Carlos viu, não saberemos nós
+pintal-a. Era o original d'essas esplendidas illuminuras, que o pincel
+do seculo XVI fazia saltar da téla, e consagrava a Deus, denominando-as
+Magdalena, Maria Egypsiaca, e Margarida de Corthona.
+
+O homem é fraco, e sente-se mesquinho perante a magestade da belleza!
+Carlos sentiu-se dobrar nos joelhos; e a primeira palavra, que balbuciou
+foi «perdão!»
+
+Henriqueta não pôde receber com a firmesa, que devia suppor-se-lhe, uma
+tal surpreza. Sentou-se e limpou o suor que lhe correra de improviso
+todo o corpo.
+
+A coragem de Carlos desmereceu do muito em que elle a tinha. Succumbiu,
+e nem, ao menos lhe deixou o dom dos lugares communs. Silenciosos,
+olhavam-se com uma simplicidade infantil, indigna de ambos. Henriqueta
+revolvia no pensamento a industria com que o seu segredo fôra violado.
+Carlos invocava ao coração palavras que o salvassem d'aquella crise, que
+o materialisava por ter tocado o extremo do espiritualismo.
+
+Não nos faremos cargo de satisfazer as despoticas exigencias do leitor,
+que pede contas das interjeições, e das reticencias d'um dialogo.
+
+O que podemos garantir-lhe, debaixo da nossa palavra de folhetinista, é
+que a musa das lamentações desceu á invocação de Carlos, que, por fim,
+desenvolveu toda a eloquencia da paixão. Henriqueta ouviu-o com a
+seriedade com que uma rainha absoluta escuta um ministro da fazenda, que
+lhe conta os chatissismos e massudos negocios das finanças.
+
+Sorria-se, ás vezes, e respondia com um resaibo de magoa e de
+resentimento, que matava, no nascedouro, os transportes do seu infeliz
+amante.
+
+As suas ultimas palavras, essas sim, são dignas de se archivarem para
+escarmento d'aquelles que se julgam herdeiros dos raios de Jupiter
+Olympico, quando se empavonam de fulminar as mulheres, que tiveram a
+desventura de se queimarem, como as mariposas, no lume electrico de seus
+olhos. Foram estas as suas palavras:
+
+«Snr. Carlos! Até hoje os nossos espiritos viveram ligados por umas
+nupcias, que eu pensei não perturbarem a nossa cara tranquillidade, nem
+escandalisarem a caprichosa opinião publica. D'hora em diante, um
+solemne divorcio entre os nossos espiritos. Estou punida de mais. Fui
+fraca e talvez má, em prender-lhe a sua attenção n'um baile mascarado.
+Perdoe-me, que sou, por isso, mais desgraçada do que pensa. Seja meu
+amigo. Não me envenene esta santa obscuridade, este circulo estreito da
+minha vida, em que a mão de Deus tem derramado algumas flôres. Se não
+póde avaliar o travo das minhas lagrimas, respeite cavalheiramente uma
+mulher, que lhe pede com as mãos erguidas o favor, a piedade de a deixar
+sósinha com o segredo da sua deshonra; que eu prometto nunca mais
+alargar a minha alma n'estas revelações, que morreriam comigo, se eu
+podesse suspeitar que attrahia com ellas a minha desgraça...»
+
+Henriqueta continuava, quando Carlos, com lagrimas d'uma dôr sincera,
+lhe pedia ao menos a sua estima, e lhe entregava as suas cartas, debaixo
+do sagrado juramento de nunca mais a procurar.
+
+Henriqueta, enthusiasmada pelo pathetico d'esta nobre rogativa, apertou
+anciosamente a mão de Carlos, e despediram-se....
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+E nunca mais se viram.
+
+Mas o leitor tem direito a saber mais alguma cousa.
+
+Carlos, um mez depois, partiu para Lisboa, colheu as necessarias
+informações, e entrou em casa da mãi de Henriqueta. Uma senhora, vestida
+de lucto, e encostada a duas creadas, veio encontral-o n'uma sala.
+
+--Não tenho a honra de conhecer...--disse a mãi de Henriqueta.
+
+--Sou um amigo...
+
+--De meu filho?!...--interrompeu ella--Vem-me dar parte do triste
+acontecimento?... Eu já o sei!... Meu filho é um assassino!...
+
+E prerompeu n'um choro, que a não deixava articular palavras.
+
+--O filho de v. exc.^a assassino!... interpellou Carlos.
+
+--Sim... sim... pois não sabe que elle matou em Londres o seductor da
+minha desgraçada filha?!... da minha filha... assassinada por elle...
+
+--Assassinada, sim, mas só na sua honra--atalhou Carlos.
+
+--Pois minha filha vive!... Henriqueta vive!... Oh meu Deus, meu Deus,
+eu vos agradeço!...
+
+A pobre senhora ajoelhou, as creadas ajoelharam com ella, e Carlos
+sentiu um calefrio nervoso, e uma exaltação religiosa, que quasi o
+fizeram ajoelhar com aquelle grupo de mulheres, cobertas de lagrimas....
+...........................................................................
+
+Dias depois, Henriqueta era procurada no seu terceiro andar, por seu
+irmão, e choravam ambos abraçados com toda a expansão d'uma dôr
+represada.
+
+Houve ahi um drama de agonias grandiosas, que a linguagem do homem não
+saberá descrever nunca.
+
+Henriqueta abraçou sua mãi, e entrou n'um convento onde pede
+incessantemente a Deus a salvação de Vasco de Seabra.
+
+Carlos é o intimo amigo d'esta familia, e conta este lance da sua vida
+como um heroismo digno d'outras épocas.
+
+Laura, viuva de quatro mezes, contrahe segundas nupcias, e vive feliz
+com o seu segundo marido, digno d'ella.
+
+Acabou o conto.
+
+
+
+
+DINHEIRO! DINHEIRO!
+
+
+
+
+Contaram-me, ha poucas horas, um episodio da extraordinaria vida d'um
+homem, que apenas hoje conta vinte e cinco annos. Quem elle é não o
+direi eu, ainda que me façam... eu sei cá!? bacharel! Eu bem sei que não
+posso encarecer-me com este segredo, porque ha ahi uma boa duzia de
+pessoas que o sabem, por triste experiencia, mais miudamente que eu.
+
+Mas o que é mais bonito, e não sei mesmo se mais romantico, é que eu
+conheço pelo menos quatro primas-donas, afóra as comprimarias, d'esta
+partitura, que negam com toda a energia dos seus brios o importante
+papel que desempenharam.
+
+Deixal-as negar, que eu tambem não digo quem ellas são, ainda que me
+deem o habito de Christo.
+
+Outra cousa:
+
+O muito veridico archivista dos factos, que vão lêr-se, pediu-me, por
+tudo quanto ha sagrado no folhetim, que não divulgasse, nem por sombras,
+o seu nome.
+
+Não o direi nunca, ainda que me façam... barão!
+
+E está dito tudo.
+
+Agora, gentis leitoras e eruditos leitores, começa o romance, em nome da
+moralidade, do decoro e dos interesses materiaes...
+
+
+
+
+DINHEIRO! DINHEIRO!
+
+
+I.
+
+
+Foi assim que principiou o meu illustre amigo:
+
+--Alli onde o vês é um embryão de romances desgrenhados...
+
+Referia-se a um rapaz que passava por debaixo das minhas janellas. Era
+uma boa figura, visto pelas costas; mas de frente não se podia
+contemplar-lhe o rosto sem recuar... não de medo, mas d'um não sei que
+desabrido e repulsivo. E não era feio. Eu por mim, custou-me muito a
+sustentar cara firme quando elle me fitava com aquelles olhos negros e
+magneticos. Fazia-me medo, palavra d'honra! Depois afiz-me áquella
+petulancia d'olhar, áquelle carregado provocante da sobrancelha, e,
+graças a Deus, já me não custa tanto.
+
+Ora ahi está, sem grave impertinencia, traçado corporalmente o snr.
+Alvaro de Sousa, que passava na minha rua.
+
+--Com que então (disse eu) é um embryão de romances aquelle senhor?! Bem
+me parecia a mim que a vida d'aquelle homem não devia ser symetrica,
+pausada, e prosaicamente chata como a minha! Eu nem se quer lhe sei de
+nada! Ando cá tão fóra das barreiras da sociedade, e dos dramas
+contemporaneos... que nem ao menos sei se a mazurka está no quinto grau
+da refinação, ou se as polkas cederam o terreno á restauração do minuete
+da côrte... Que miseria!
+
+--Não perdes nada, meu caro. Olha que a verdadeira miseria está
+escondida no manto de lentejoulas com que esta sociedade desdentada e
+trôpega se encobre. E, se não, deixa-me lêr-te uma pagina da vida de
+Alvaro de Sousa, e verás como se vive por lá...
+
+Como sabes, aquelle rapaz é da plebe, e aspirou sempre a ser da
+fidalguia. O homem não podia tragar esta desigualdade de gosos imposta
+pela desigualdade do dinheiro. Sem dinheiro, e sem avós, Alvaro
+achava-se aos vinte annos n'este mundo sem saber o fim para que viera,
+nem a fileira social em que devia perfilar-se.
+
+--Pois não ha tantos officios?--interrompi eu.
+
+--Essa pergunta não me parece tua! Pois tu querias sentar n'uma tripeça
+um homem de intelligencia?
+
+--Que duvida! Os sapateiros de Lisboa não tem um jornal? Alvaro de Sousa
+seria um habil redactor do _jornal dos sapateiros_.
+
+--Estás zombando!
+
+--Palavra de honra, que não zombo! Tu sabes lá porque horisontes vai
+ampliar-se o espirito da arte? Sabes se a tripeça terá uma plastica e
+uma esthetica! Sabes se a bota de canhão terá um bello ideal? Sabes se a
+tomba e a intercospia terão uma philosophia? Sabes se as mathematicas
+virão, com a sua geometria applicada á bota, regular as dimensões do
+salto? Sabes se a dynamica será a ultima expressão do pino? E não achas
+aqui n'este complexo de sciencias um succolento pabulo para um sapateiro
+talentoso, para um sapateiro-Newton, para um sapateiro-Girardin?
+
+--Tenho entendido que não queres a historia do homem... Façamos
+treguas... Eu dou-te o diploma de espirituoso, e tu fechas a torneira ao
+espirito por algum tempo... Guarda esse cabedal, que desperdiças, para
+os teus folhetins. Farás rir um fidalgo de raça, embora o seu quinto avô
+fizesse borzeguins para a tua quinta avó. Farás indignar o sapateiro,
+teu irmão pelo sangue, pelo osso, e pela carne, e teu irmão pela arte,
+porque, em fim, eu não sei se a sociedade dispensa mais depressa os teus
+folhetins que as botas...
+
+E eu vi que o meu amigo tinha razão, e dei-lhe plena liberdade de
+historiar o episodio de Alvaro de Sousa, que continúa assim:
+
+--Alvaro, á custa de muitos vexames e affrontas conseguiu relacionar-se
+em algumas casas, onde compareciam algumas das primeiras mulheres. Eram
+talvez estas as notabilidades, as sacerdotisas de iniciação para os
+noviços que entravam no faustuoso templo das vestaes em quinta mão.
+
+O rapaz foi mais adiante nas suas ambições.
+
+O coração pedia-lhe alimento, o espirito pedia-lhe amor, as aspirações
+anceavam-lhe um ideal, e o altivo mancebo entendeu que aquellas mulheres
+deviam comprehendel-o no coração, no espirito, e nas aspirações.
+
+Era, realmente, exigir muito, no anno do Senhor de 1849!
+
+A primeira declaração, que balbuciou, teve em troca um sorrir de
+despreso. Aventurou uma segunda centelha da lava, que o escaldava, por
+dentro, e achou de gêlo todas aquellas mulheres. E não era isto só.
+Escarneciam-no. Lastimavam-lhe a mania das declarações; e algumas
+galhofeiras senhoras reuniram-se, uma noite de baile, para lhe dizerem
+que, todas juntas, hiam devotamente cumprir uma novena a Santo Anastacio
+para que o servinho de Deus o livrasse d'aquella hydrophobia amorosa. É
+onde podia levar-se o insulto!
+
+Alvaro de Sousa entrou no amago da sua consciencia, como n'um abysmo sem
+luz, n'um segredo de torturas, e despedaçou um a um os sentimentos
+generosos com que entrára n'este mundo ingrato.
+
+_Pobre!_ esta maldita palavra, estigma de reprovação, era o seu demonio
+das vigilias e dos sonhos!
+
+Como o supersticioso, que recua espavorido á larva imaginaria do seu
+crime, Alvaro de Sousa fugia dos homens, como se elles, juizes
+implacaveis, devessem sentencial-o no crime da sua pobresa.
+
+Mas um coração altivo de impotente orgulho não podia transigir com estas
+leis barbaras da sociedade, que amputam no coração do pobre os mais
+augustos sentimentos da sua vitalidade.
+
+Ha uma apparente reconciliação entre a affronta e a pobresa: é a
+reconciliação do odio: é um pacto de vingança, sellado pelas lagrimas do
+affrontado; é uma letra de usura avara de desforço, a vencer-se, sem
+praso fixo, mas a vencer-se um dia.
+
+Esta fôra a reconciliação de Alvaro de Sousa com as _generosas_ mulheres
+da sua affeição.
+
+--Ellas, naturalmente, riam-se, se elle lhes désse parte d'essa
+reconciliação...
+
+--Riram muito. Alguem lhes disse: «Aquelle pobre rapaz, que sentia
+freneticamente as suas paixões, fugiu da sociedade, e devora, na solidão
+do seu quarto, um rancor profundo...--A mim:--interrompeu uma
+d'ellas--Que pena! Oh Theresinha, não é uma verdadeira calamidade o odio
+d'aquelle rapaz?--Ai! Maria da Luz! que triste futuro nos espera...»
+
+E chasqueavam assim o seu _ridiculo_ inimigo, perguntando aos amigos
+d'elle em que dia finalmente as hostilidades se romperiam.
+
+Isto ninguem o dizia a Alvaro, porque entre o odio e a vingança
+impossivel, nas almas fortes, está o suicidio.
+
+--_Nas almas fortes!_ (atalhei eu com gravidade philosophica). Então não
+sei eu o que são «almas fortes!» Cobardes chamo eu aquelles que
+desesperam. A suprema das miserias humanas é a vingança reservada por
+causa d'amores despresados. O tal Alvaro de Sousa será muito romanesco,
+mas tambem é um grande tolo. Com que direito queria elle impôr-se ao
+amor d'essas mulheres? «Despresaram-no porque era pobre» respondes tu. E
+se o despresassem porque era feio? Achas que a pobresa tenha muitas
+seducções? E porque não foi Alvaro de Sousa amar uma peixeira que as ha
+bem bonitas? Se a sua alma de poeta aspirava a um _ideal olympico e
+metaphysicamente imponderavel_ porque foi elle procurar o seu ideal nas
+mulheres carnalmente vestidas de tafetás e veludos? A mulher ordinaria,
+virgem na alma, sem a depravação das Aspasias que o repudiaram, não lhe
+seria mais interessante pela candura, pela innocencia, e pelo angelico
+scismar dos singelos devaneios? Eu não posso soffrer estes Werters
+caricatos que appellam para o suicidio, quando a mulher dos seus sonhos
+não póde altear-se ás delicadas concepções da sua alma! Vai a vêr-se a
+mulher em que elles empregam todo o seu cabedal de sentimentalismo, e
+depara-se uma estragada de espirito, abastardada nos instinctos, incapaz
+de conceber a generosidade, gelada para as suaves impressões d'uma
+amisade honesta, e finalmente uma Ninon sem o _espirito_ da franceza,
+mas opulenta como ella de _materia_. Repito: porque não vão estes
+impostores queimar o incenso das suas angelicas adorações aos pés d'uma
+donzellinha d'olhos timidos, e faces purpurinas? Não é tão bello
+surprehender o pejo da innocencia!? Não ha tanta poesia n'aquellas
+lagrimas de um primeiro amor que desconfia da sombra de uma mulher, que
+passa ao longe do seu Medro! Não ha ahi tantas Angelicas obscuras,
+tantas Virginias, segregadas dos salões das Phryneas? Emfim, meu
+sentimental historiador de paixões desgrenhadas, eu não posso sentir
+comtigo as desventuras do snr. Alvaro. Quero ouvil-as, porque emfim,
+escrevo folhetins, e minto quasi sempre para encher um espaço de papel.
+Póde ser que digas alguma cousa que valha a pena de captar a attenção
+d'este publico portuense, que lê constantemente, e, á falta de romances,
+por não poder emendar o costume de lêr sempre, começa a mastigar
+profundas lucubrações sobre a doença das vinhas.--Ora, diz lá.
+
+
+II.
+
+
+O meu amigo continuou:
+
+--Alvaro reconcentrou-se em uma tal misanthropia, que nem ao menos os
+intimos amigos recebia em casa. Dir-se-hia que aquella vida estava a
+levedar-se do amargo fermento de rancor que as mulheres lhe levaram á
+alma. Eu vi-o uma vez. Parecia um Smarra, um magico, uma cousa d'um
+outro mundo, onde os homens conversam com as larvas. Morava no quarto o
+terror. A sombra da aza da morte empanava aquelle rosto, d'onde a vivesa
+e o lume fugira, deixando como vestigios, as rugas cadavericas d'uma
+lenta agonia.
+
+--Devia ser um demonio! Cuidei que uns figurões assim eram privilegio
+dos romances!... E os cabellos? naturalmente arripiados como os do
+Asaverus, de Orestes, ou de qualquer outro estafermo, não é verdade?
+
+--O que tu quizeres... O caso é que eu julguei-o demente, ou, pelo
+menos, desgraçado, que não sei se é menos, por toda a vida.
+
+Agora, levanta-se o pano do segundo acto.
+
+Uma bella manhã, sahe um homem d'um navio com quatro bahús atraz de si.
+Este homem procurou a morada de um seu irmão; este irmão, que tinha
+morrido, era o pai de Alvaro. O tio de Alvaro, por consequencia, era um
+rico brasileiro, que acabava de manifestar seiscentos contos.
+
+Alvaro recebeu-o com sinistra rudeza. O snr. Manoel da Silva abraçou seu
+sobrinho, chorando a morte de seu irmão, que era muito semelhante com
+seu sobrinho. Deu graças á Providencia por encontrar um herdeiro do seu
+ouro e do seu sangue; e, deixa-me assim dizer sem offensa da
+metaphysica, insufflou uma alma nova n'aquella casa, uma alma muito
+grande, maior que a alma universal de Platão! só comparavel á alma que
+faz girar um sangue azul nas veias d'um merceeiro.
+
+Alvaro, quando de improviso se viu rico, partiu a pedra do seu tumulo, e
+respirou o ar dos vivos. Os olhos faiscaram-lhe um novo lume. Os labios
+vibraram-lhe uma eloquencia nova. O coração bateu-lhe pulsações d'um
+orgulho expansivo. O corpo endireitou-se na linha vertical que a
+Providencia geometrica marcou a todos os que podem parodiar Luiz XIV, e
+dizer: o dinheiro sou eu!
+
+O brasileiro não era abdominoso nem vermelho das bochechas. Era um homem
+regular, com sentimentos de homem não bestealisado pelo ouro.
+
+Achando uma casa pobre, enriqueceu-a, ampliou-a, abriu-lhe os flancos, e
+deu-lhe as fórmas arrogantes d'um palacete. Um tylburi, uma carruagem, e
+duas parelhas de eguas hanoverianas harmonisaram o fausto d'aquella
+magica metamorphose.
+
+E tudo era feito a bel-prazer de Alvaro. O tio authorisara-o para tudo,
+menos para casar-se, porque detestava as mulheres.
+
+Elle lá sabia o porque, e, se eu o souber um dia, conta com um folhetim.
+
+--Muito obrigado; não me despeço do favor.
+
+--Agora vaes tu conhecer a astucia da intelligencia, que não prescinde,
+na riqueza, da vingança premeditada no infortunio.
+
+Alvaro de Sousa não ostentou, como era de esperar, as suas eguas, a sua
+carruagem, e os seus lacaios de verde e prata. Viveu, dous mezes, ao
+fogão, conversando com o tio, e conquistou-lhe assim um conceito de
+grave sisudez, e uma plena confiança.
+
+Na primavera, Alvaro appareceu com as flôres, e, agradavel como ellas,
+grangeou amisades, que não tinha...
+
+--Necessariamente... Olha que novidade me dás!... É melhor dizer...
+_comprou amisades, que não tinha_...
+
+--Não posso assim dizer absolutamente. Alvaro, em quanto pobre, era
+desabridamente orgulhoso, e desconfiado... Um olhar de través
+irritava-o, e uma palavra equivoca enfurecia-o. Era como os que soffrem
+rheumatismo agudo, que não consentem uma mosca no travesseiro. E a
+pobresa, seja dito em proveito da pathologia, é o rheumatismo agudissimo
+da humanidade...
+
+Depois de rico, parece que a sua grandeza estava na consciencia d'ella.
+O dinheiro tornou-o affavel, carinhoso, sollicito em procurar as
+relações dos que lhe eram muito inferiores, e até d'aquelles que
+repellira na infelicidade. É realmente um phenomeno, mas tu sabes que eu
+não te minto.
+
+--E as mulheres que faziam?
+
+--As mulheres? Agora vamos nós lá... Isso é uma historia muito
+complicada...
+
+--Quaes são as que figuram?
+
+--Vamos por partes. A mulher, que, primeiro, o repelliu foi a Maria da
+Luz. Esta mulher é casada, e era solteira, mas solteira de trinta e
+tantos annos, quando Alvaro a requestou. Não sei porque, Maria da Luz,
+era a preferida no odio, talvez porque sendo a primeira a repellil-o,
+desairou-o, para todas as outras... Não sei.
+
+Alvaro foi com seu tio pagar uma visita ao marido d'esta mulher, porque
+a influencia do brasileiro em certos homens do poder obrigara aquelle a
+captar-lhe a benevolencia para conservar certos proventos, que estavam
+muito em perigo.
+
+O sobrinho começou a jogar com a influencia do tio. Quiz lêr-lhe o seu
+programma de vingança, mas achou que era cedo, ou immoral. Calou-se e
+esperou.
+
+Na visita, que fizeram, Maria da Luz veio á sala, e quiz sustentar a
+dignidade matrimonial, com os artificios d'uma etiqueta safada. Alvaro
+ria-se por dentro, mas fingia-se parvo por fóra. Dava-se uns ares de
+esquecido, e apertava a mão da sua victima com a cordialidade d'um bom
+homem. E Maria da Luz espantou-se.
+
+Passaram-se alguns mezes. Alvaro, que participava da influencia do tio
+nos destinos da patria, reconcentrou toda a sua energia em realisar
+desgraçadamente os terrores do marido de Maria da Luz. Quando menos se
+esperava, este homem é demittido, e obrigado pela fazenda a um saldo de
+contas que o empobrecia. O brasileiro, que n'este tempo já era visconde
+de Sousa, quiz salval-o, mas encontrou em seu sobrinho um violento
+accusador das immoralidades d'aquelle mau funccionario, cuja deshonra
+reflectia na face de quem o protegesse. As instancias redobradas
+encontraram frio o visconde, que, por fim, declarou que não intervinha
+em certos negocios que delegara em seu sobrinho, mais conhecedor das
+conveniencias do paiz, e da moralidade dos funccionarios. Com este
+fragmento de _artigo do fundo_, foi despedido o marido da Luz, cujo
+decahir para o abysmo de miseria era rapido como a facilidade com que
+subira.
+
+Maria da Luz comprehendeu a vingança, e achou-a vil.
+
+--Realmente era...
+
+--Mas não ha vinganças nobres, creio eu. A mulher, que eu principio a
+chamar pobre, fechára os seus salões, e não esperou que os alheios se
+lhe fechassem. A tristeza sentára-se nos sophás d'aquellas salas
+desertas, onde viria brevemente sentar-se o escrivão da penhora. A
+desgraça, ainda assim, não lhe aniquilava a soberba. Julgava ella que,
+humilhando-se a Alvaro, encontraria uma protecção, mas tambem uma
+ignominia. O marido, que cahira primeiro na sua miseria, perdeu,
+primeiro, a dignidade. Excitou-a para que escrevesse a Alvaro, e
+encontrou-a sempre negativa.
+
+E Alvaro respirava com sofreguidão um momento que devia chegar.
+
+Ao mesmo tempo, desenvolvia-se o plano d'outra vingança. Thereza da Cruz
+era a segunda victima de Alvaro. Esta não podia ser ferida nos
+interesses materiaes. Era rica das suas propriedades. Era solteira, e
+amava profundamente um homem casado.
+
+Este homem era delirantemente amado por sua mulher, e presava-a, senão
+posso dizer que a adorava. Thereza da Cruz fascinava-lhe a cabeça
+d'aquelle amor-appetite que Stendhal judiciosamente distingue do
+amor-paixão. Mas Thereza da Cruz detestava a virtuosa esposa do seu
+amante, com toda a raiva d'um ciume reconcentrado.
+
+E Alvaro sabia-o.
+
+Era-lhe necessario quebrar aquellas ligações com estrondo e deshonra
+para Thereza da Cruz.
+
+O que elle fez é uma ignominia, é, porém uma vingança que medrara em fel
+durante tres annos de torturas suffocadas.
+
+Alvaro obteve uma carta da mulher do amante de Thereza da Cruz, escripta
+a uma sua amiga.
+
+O dinheiro proporcionou-lhe um falsificador de letra, perfeito na sua
+perversa habilidade.
+
+Mandou-lhe escrever algumas cartas amorosas pelo molde d'aquella letra.
+E não deixou uma ligeira duvida sobre o genero de relações que a
+prendiam a um homem, que se não nomeava.
+
+Estas cartas enviadas a Thereza da Cruz, foram incluidas n'uma anonyma,
+que dizia assim:
+
+ «Minha querida amiga.
+
+«Sei que detestas Miquelina, e que procuras perdêl-a no conceito do
+marido, para conquistares plenamente uma alma digna de ti. Queres
+castigar o orgulho d'essa hypocrita que lamenta a nossa _prostituição_?
+Ahi tens essas cartas, que eu pude obter d'um amante, que a despresou
+por mim. Tira as têas d'aranha dos olhos d'esse piegas, e faz-lhe vêr
+que sua mulher não é melhor que tu: porque tu és livre, e ella é casada.
+Saberás o meu nome, no primeiro baile onde nos reunirmos.
+
+ Tua amiga d'alma.»
+
+D. Thereza, recebendo estes cartas, sentiu uma alegria infernal. Daria
+por ellas a reputação de honrada, se a tivesse.
+
+Por fatalidade, o amante, na noite d'aquelle dia tratou-a com
+indifferença. A orgulhosa, enraivecida d'um tedio que não podia
+supportar, esforçou-se por chamar a conversação a respeito de mulheres
+casadas, e avançou a proposição de que não havia uma na primeira roda,
+que não fosse adultera. O amante protestou colericamente contra o
+absoluto da proposição. Defendeu sua mulher com ares de Collatino, e
+exprobrou acremente a maledicencia da insolente.
+
+A indignação ferveu: trocaram-se epithetos ultrajantes. D. Thereza foi
+uma eloquente regateira, e o seu apaixonado repetiu as phrases mais
+peculiares da tarimba. Por fim, D. Thereza, chegado o momento dramatico,
+apresentou-lhe as suppostas cartas da esposa.
+
+O homem abriu-as com frenesi: reconheceu a letra e sahiu como um vexado
+pelo demonio.
+
+D. Thereza da Cruz, sentiu, pela primeira vez, um momento de completa
+felicidade em sua vida!...
+
+--E depois?
+
+
+III.
+
+
+--Depois, o furioso entrou na camara de sua mulher, e encontro-a velando
+o somno de um filhinho, que tinha no berço. Perguntou-lhe o marido o que
+ella fazia a pé á uma hora da noite. Miquelina respondeu que o esperava
+para lhe servir a cêa, por isso que as creadas, fatigadas de trabalho,
+não podiam esperar que seu amo se recolhesse, alta noite, para
+repousarem.
+
+O marido recebeu com um sorriso feroz esta resposta digna de uma senhora
+virtuosa, e sentou-se junto d'ella. Tocado da faisca electrica de
+tyranno de melodrama, enturvou os olhos, franziu a testa, arrancou a voz
+dos subterraneos do pulmão, e fallou assim, com uma carta aberta:
+«Conhece esta letra, senhora?»--É minha, penso eu--respondeu ella com
+promptidão.--«Já sabe naturalmente que carta é esta.»--Não sei... será
+escripta á Antoninha? ou á prima Angela? eu não escrevo a mais
+ninguem.--«A mais ninguem, infame!... a senhora não escreve a mais
+ninguem?»--Juro que não, juro que não... deixa-me vêr essa carta, Luiz,
+deixa-me vêl-a, eu t'o peço pela boa sorte da nossa filhinha.--«Veja.»
+
+Miquelina leu estas duas linhas da carta: _Dous dias é uma ausencia
+insupportavel!... Vem, meu anjo, faz que a minha vida tenha algumas
+flôres_...
+
+Não continuou. Prerompeu em palavras inarticuladas. Eram os gritos da
+desesperação! A surpreza transtornara-lhe o espirito, até converter-lhe
+o dom da palavra em alarido selvagem. Parecia douda. O proprio marido
+retirou aterrado diante d'aquella angustia sublime. Houve em casa um
+motim, um tropel de creados, que se olhavam estupidamente. Miquelina,
+exhausta de forças, e convencida da realidade daquella infame allusão,
+desmaiou. Seu marido tateou-lhe o pulso e o coração. Reconheceu que
+havia alli uma dôr legitima. Ficou estupidamente perplexo, e fazia dó
+n'esta duvida afflictiva. Mas a innocencia, filha da justiça de Deus,
+devia triumphar.
+
+Miquelina foi logo entregue aos cuidados da medicina. Julgaram-na
+subindo a gradação d'uma demencia, e Luiz d'Abreu aterrou-se seriamente.
+
+Ás dez horas do dia seguinte, Luiz d'Abreu recebia a seguinte
+carta:--«Deves possuir quatro cartas, que te foram dadas por Thereza da
+Cruz. São quatro documentos inqualificaveis da infamia d'essa mulher.
+Tua virtuosa senhora escrevera uma carta a sua prima Angela. Thereza da
+Cruz pôde obter essa carta, de que se serviu para fazer imitar a letra
+da que ella chama sua rival. Remetto a carta de que ella se serviu. Tua
+senhora é innocente como os anjos. Pede-lhe perdão, se lhe já lançaste
+em rosto a calumnia forjada pela ignobil mulher a que vives associado.
+Se apesar de tudo, tiveres a impudencia de continuar relações com
+Thereza da Cruz, hei-de eu, com os teus amigos, apregoar a baixeza do
+teu caracter para engrandecer a nobreza de tua deploravel esposa.
+
+ _Um teu amigo_.»
+
+
+Luiz d'Abreu entrou na camara de sua mulher. Estavam com ella dous
+medicos e duas creadas. Miquelina estremeceu ao vêl-o. Mal sabia ella
+que esse homem hia ajoelhar-se na sua presença! Eram tocantes as
+lagrimas que elle chorava, ajoelhado, balbuciando palavras
+inintelligiveis. Miquelina ergueu a face para testemunhar aquella nova
+surpreza. Os circumstantes quinhoavam do enthusiasmo d'aquella scena,
+sem a comprehenderem.
+
+«Peço perdão a minha virtuosa mulher! (exclamou elle) perdão d'uma
+affronta, d'uma calumnia, que a reduziu a esta situação... Na presença
+de todo o mundo eu quizera que ella me perdoasse...»--Sim, sim,--bradou
+ella com enthusiasmo febril--eu perdôo-te de toda a minha alma, Luiz, de
+todo o meu coração, meu esposo querido!...
+
+Luiz d'Abreu ergueu-se, chorou sobre a mão que beijava, e foi feliz,
+verdadeiramente feliz, n'aquella hora solemne da sua vida.
+
+Foram muito sensiveis os progressos nas melhoras de Miquelina.
+
+Na tarde d'esse dia, Abreu, com o mais carinhoso bilhete, pediu uma
+entrevista, á meia noite, a Thereza da Cruz. Foi-lhe concedida.
+
+Ao dar da meia noite estava Luiz d'Abreu encostado á porta que devia
+ser-lhe aberta por Thereza da Cruz. Abriu-se a porta. Abreu tomou
+aquella mulher pelos cabellos, arrastou-a para o meio da rua, e, sem
+dizer-lhe um monosyllabo, encheu-lhe o corpo dos vergões d'um chicote.
+Thereza supportara as primeiras chicotadas com o silencio da vergonha;
+mas quando a dôr physica dominou a moral, gritou. Abreu retirou a passo
+rapido. Thereza fugia, quando um segundo homem lhe lançou a mão. Ella
+reconheceu-o, e pediu que a deixasse. «Não, minha senhora,--replicou o
+seu conhecido--eu não posso consentir que v. exc.^a seja assim
+desfeiteada na rua como uma mulher de alcouce...»--Deixe-me, deixe-me...
+por piedade, snr. Alvaro de Sousa!
+
+E debatia-se entre as mãos de Alvaro como atacada de gota coral.
+
+Aproximou-se a patrulha. Lançou mão de ambos, e perguntou a D. Thereza
+se aquelle homem a insultara. D. Thereza respondeu que não, que ninguem
+a insultara. Alvaro, que nem zombando mentia, desmentiu a sua velha
+_amiga_, dizendo que elle a vira chicoteada cruelmente por um homem, que
+fugira; e que o mais que a tal respeito podia dizer era que esta senhora
+morava n'aquella casa, era uma respeitavel fidalga, e chamava-se D.
+Thereza da Cruz. A patrulha não prescindiu d'estas informações
+ratificadas por s. exc.^a Perguntou-lhe o nome do aggressor, e ella
+respondeu que o não dizia.
+
+Imagina, meu amigo folhetinista, a colica despedaçadora em que a pobre
+mulher se viu! A patrulha não queria largal-a; mas Alvaro de Sousa
+capitulou por uma libra com as imperiosas exigencias da guarda
+municipal, e conseguiu a liberdade da pobre mulher.
+
+E, ao despedir-se de D. Thereza, fel-a parar um momento, para dizer-lhe
+com a mais fleumatica placidez: «Minha querida senhora! Eu comprei com
+uma libra a satisfação de pagar a v. exc.^a a menor parte d'um grande
+serviço que lhe devo... Eu não pude esquecer-me nunca de que v. exc.^a
+com algumas amigas suas, cumpriram uma novena a Santo Anastacio, para
+que o servinho de Deus alcançasse curar-me da hydrophobia do amor, que
+me atacou... Tenha v. exc.^a uma noite feliz.»
+
+E retirou-se. Thereza da Cruz não respondeu uma palavra.
+
+Alvaro de Sousa estava vingado.
+
+--Tens mentido com a mais soberana presença de espirito!--atalhei eu.
+
+--Não minto, juro-te que não minto...
+
+Estás muito em occasião de verificar estes factos... Deseja conseguir a
+verdade, que has-de conseguil-a.[3]
+
+E eu acreditei-o; e ámanhã acreditarei tambem que qualquer destemido
+despejou um bacamarte nos intestinos do seu anjo...
+
+--O rigor da chronologia--proseguiu o implacavel noticiador--exige que
+eu te conte agora a vingança de Maria da Luz.
+
+A hora da miseria extrema tinha soado. Os bens de raiz confiscou-os a
+fazenda: os moveis estava designado o dia de leilão em que deviam ser
+vendidos.
+
+O marido de Maria da Luz, que por nome não perca, soubera que sua mulher
+ridiculisara as pretenções de Alvaro de Sousa n'aquelles dias de
+vergonhosa pobreza. Bem conhecia elle a indignidade a que tentava forçar
+sua mulher, instigando-a a que se valesse do prestimo d'um homem que
+tinha fortes razões de aborrecel-a. Todavia, Alvaro gosava de um tal
+conceito de nobreza de coração, e sensibilidade d'alma que qualquer
+marido, mais escrupuloso ainda, não duvidaria instar, na hora critica
+d'uma penhora, pela humildade da sua supposta Lucrecia.
+
+Maria da Luz, por fim, conveio na pessima situação em que se achavam os
+negocios de seu marido. A fome avisinhava-se, e a deshonra é menos negra
+que a fome, segundo a opinião d'alguns moralistas entendidos n'estas
+côres.
+
+Alvaro de Sousa recebeu uma carta de Maria da Luz, em que lhe era pedido
+o emprestimo de doze mil cruzados, pagaveis em doze annos.
+
+O cavalheiro respondeu que a obrigação onde eram estipulados doze annos
+seria reformada pelo praso de duas horas......
+
+Maria da Luz comprehendeu-o. O primeiro abalo, que sentiu no coração,
+foi a raiva: o segundo foi a vergonha: o terceiro foi a negociação com
+as condições do titulo reformado, conforme a vontade do credor.
+
+E respondeu affirmativamente, com a sagrada condição d'um segredo
+inviolavel para seu marido.
+
+E Alvaro de Sousa enviou doze mil cruzados ao marido de Maria da Luz,
+com esta carta:
+
+ «Meu caro senhor.
+
+«Conforme á negociação que acabo de fazer com sua senhora, remetto doze
+mil cruzados. Da inclusa carta da exc.^{ma} snr.^a D. Maria da Luz, verá
+v. s.^a que este contracto é bilateral, e a parte que eu tenho n'elle em
+vantagem minha é a renuncia que a dita senhora me faz d'uma propriedade
+que eu não sei se está hypothecada a v. s.^a Supposto me devessem ter
+sido dados estes esclarecimentos antes da remessa do dinheiro, eu não
+tenho duvida em sujeitar-me a qualquer outra transacção que possamos
+ambos amigavelmente fazer, visto que, d'hora em diante, nos devemos
+ambos considerar com mais ou menos jus á mesma propriedade. E, como eu
+tenha resolvido cedêl-a em beneficio de meu lacaio, v. s.^a não terá
+duvida em consideral-o com os direitos que eu possuia.
+
+ De v. s.^a attento venerador
+
+ _Alvaro de Sousa_.»
+
+
+--E depois?--interrompi com anciedade.
+
+--Depois...... tu vaes dizer que eu te minto!...
+
+--Não digo... palavra d'honra!
+
+--Depois, o codilhado foi Alvaro de Sousa, porque o marido da Maria da
+Luz empregou convenientemente os doze mil cruzados e vive perfeitamente
+com sua mulher.
+
+--Mas Alvaro de Sousa? nunca mais se importou com ella?
+
+--Nunca mais. A consciencia diz-lhe que está vingado.
+
+--E das outras?
+
+--Das outras... vingou-se sem ruido... Tomou d'ellas uma vingança que
+não póde ser romantisada por ser muito simples.
+
+O meu amigo viu passar uma mulher, e foi atraz d'ella.
+
+Eu escrevi tudo isto com as reminiscencias vivissimas do dialogo.
+
+Querem saber onde tudo isto aconteceu?
+
+Agora é que v. exc.^{as} vão ficar surprehendidas...
+
+Foi em Pekim!
+
+Salvei a moral publica!
+
+Cante-se o hymno!
+
+
+
+
+A CAVEIRA.
+
+
+
+
+PROLOGO.
+
+
+Quem disser que em Traz-os-Montes não ha romances, é capaz de dizer que
+a lua não tem habitantes, e as alfandegas ratos.
+
+A provincia de Traz-os-Montes é um sertão desconhecido, um retalho de
+Portugal segregado da civilisação; mas não deixa por isso de ter uma
+chronica de tradições barbaras, que virá archivar-se em folhetins,
+quando os caminhos de ferro, construidos pelos capitalistas da
+Ovelhinha, aproximarem o contacto das intelligencias com as florestas
+virgens d'aquella região polar.
+
+Esse dia amanhecerá bem cedo. A aurora da civilisação madrugou para
+todos. A viabilidade discute-se á lareira. Mais d'um juiz das almas se
+extasia nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia
+rural, auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria
+do augmento do salario pela facilidade dos transportes. Ha lavradores
+que addicionaram á leitura do Borda d'Agua as prelecções escriptas de
+economia politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao
+mercado de Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O
+enthusiasmo é universal. A expansão fervente dos interesses materiaes, a
+febre eloquente da viabilidade, os traços profundos e rasgados, com que
+as intelligencias financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da
+nossa prosperidade, não são já um exclusivo da mocidade jornalistica.
+
+O meu collega Ricardo Guimarães, que salta de noite em cuecas, fóra da
+cama, sonhando-se impellido por um wagon, doudeja de jubilo ao vêr-se
+comprehendido, no seu ardente apostolado, desde Monção até ao Cabo da
+Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas frontaes, cada vez que o
+alvião do operario rasga no seio da terra o tumulo do carroção ignobil!
+(Isto era escripto em 1853...)
+
+A mocidade é assim. A força creadora do talento ha-de supprir a
+debilidade do thesouro. Onde os capitalistas não chegaram, hirá o artigo
+de fundo, palpitante de vida, como um ouragan invencivel, desaterrar a
+aterrar com as forças magneticas do genio, com a magia imperiosa dos
+periodos arredondados artisticamente.
+
+E, por tanto, a provincia de Traz-os-Montes vai ser aquecida pelas
+irradiações do foco civilisador. Um dia, os povos do Marão, agrupados
+nas cristas das serranias, verão lá em baixo passar o traço negro do
+carril; e cuidarão que um demonio, na cauda d'um raio, lhe talou as
+campinas, no dia tremendo das vinganças do Senhor!
+
+Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustrados pela leitura
+repentina, e pelos artigos de fundo, virão, de sócos e coroça, nas azas
+do carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e
+influir seriamente no futuro da empreza lyrica.
+
+Então, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas terão uma
+associação industrial, uma caixa filial, um gabinete de leitura, e um
+centro promotor das classes laboriosas. O cavador, na hora da sesta
+lerá, na vinha, de barriga ao ar, o _Tymes_, e Benjamin Constant. O
+proprietario, entregue ás subtilezas economicas, que distinguem o
+cabedal da renda, andará em guerra littetaria com o seu visinho da
+aldeia proxima, por causa d'uma falsa interpretação aos sophismas de
+Bastiat. N'esse dia, serão banidos os estupidos da face da terra. O
+proletariado, filho da estupidez, não virá coberto de farrapos pedir um
+bocado de pão, no banquete social, por conta do futuro fomento. Pouco
+ha-de viver quem não vir tudo isto.
+
+Será então chegado o momento solemne de pedir á provincia do norte a
+historia do seu passado. Serão exploradas então as minas de poesia,
+entulhadas pelo obscurantismo de longos seculos. Acontecerá muitas vezes
+encontrar-se um sóco onde se esperava um borzeguim de castellan. O
+leitor pedirá uma heroica lucta de dous infanções armados da fidalga
+espada, e verá duas fouces roçadouras decidirem um pleito de apaixonado
+melindre.
+
+Mas não será em tudo assim a chronica obscura da provincia, onde vivi
+alguns annos, e em poucos dias colhi apontamentos para longos trabalhos
+de muito proveito esthetico, plastico, artistico, e não sei mesmo se
+cubico, anomalo, e hybrido.
+
+A historia, que vou contar, com innocentissima lealdade, póde ser
+confirmada ainda por duas ou tres testemunhas, que, pelo menos, viviam,
+ha cinco annos. Fallo assim com orgulhosa authoridade, porque tenho
+direito a ser acreditado em romances, que tem a honra de assentarem
+n'uma sincera base.
+
+A mentira no romance é uma nodoa, que nausêa o publico illustrado.
+Alexandre Dumas, escrevendo um romance intitulado _Martim de Freitas_,
+obrigou este heroe a desembarcar em Mafra, nomeou-o alcaide do castello
+da Horta, e fez nascer D. Sancho II na Palestina, onde foi baptisado por
+um tal monsieur d'Evora, arcebispo de Leiria! É uma cornucopia de
+asneiras este litterato, fallando de Portugal.
+
+O publico tem direitos sagrados, e é realmente ultrajar-lh'os, querel-o
+capacitar de que Mafra é um porto de mar, e Leiria uma cidade
+archiepiscopal, e monsieur d'Evora cidadão portuguez.
+
+Comprehenda-se a missão do romancista. O romance, a viabilidade, e o
+fluido transmutativo são a tripeça em que está sentada a civilisação.
+Quebrar-lhe um dos pés é dar com ella em terra.
+
+
+
+
+A CAVEIRA.
+
+
+I.
+
+
+Morreu, ha seis annos, em Villa Real, um velho de oitenta e oito annos.
+Chamava-se D. João de Noronha, e habitava uma casa pequena, mas decorada
+de grande brazão d'armas, e não sei quantas ameias modeladas pelos
+pilares das açoteas mouriscas. O leitor, que, por louvavel curiosidade,
+quizer, de perto, capacitar-se da fidelidade architectonica d'esta casa,
+vá a Villa Real, e na _rua do Cabo da Villa_, pergunte pela casa de D.
+João de Noronha. Não terá de que maravilhar-se, a não ser da sisuda
+gravidade, e rigorosa certeza com que o author lhe conta historias
+interessantissimas.
+
+Algumas palavras a respeito d'este D. João de Noronha.
+
+O _dom_ é quasi sempre, entre portuguezes, indicação de fidalguia
+remota; mas em D. João de Noronha era uma irrisão para o povo, e uma
+ignominia affrontosa aos fidalgos da terra. E a razão é esta:
+
+Ha cento e vinte annos que viveu em Villa Real uma senhora D. Paula
+Coronel e Noronha, protectora d'um tal Antonio da Silva, sapateiro da
+casa.
+
+Este homem era desordeiro e valentão. Em rixas com um freguez por causa
+d'umas tombas, matou-o desastradamente. A justiça apanhou-o, e
+condemnou-o a pena ultima.
+
+D. Paula exhaurira os grandes recursos da sua influencia, sem conseguir
+salvar da forca o seu afilhado. Avaliem-se, porém, os extremos de D.
+Paula pelo condemnado, e attenda-se á época em que os grandiosos
+esforços d'uma fidalga são anciosamente empenhados na salvação d'um
+arrastado verme da plebe.
+
+D. Paula, em ultimo recurso, declara que o sapateiro é filho bastardo de
+seu irmão, e como tal o perfilha. Desde que esta adopção foi consignada
+no livro dos alvarás de perfilhamentos, Antonio Coronel de Noronha está
+salvo da forca. O processo atravessa novos tramites; e a lei, esmagada
+sob o rebolo transformado em pedra d'armas condemna o réo a cinco annos
+de degredo para Castro-Marim.
+
+O nobre exilado, um anno depois, morreu de uma indigestão de figos do
+Algarve; e, honra lhe seja feita, á hora da morte, declarou que vivera
+sapateiro e christão, e como sapateiro pedia perdão aos homens, e como
+christão a Deus porque muito queria salvar-se.
+
+Seu irmão Francisco, mestre ferreiro, morreu ferreiro, porque não quiz
+partilhar das honras heraldicas de seu irmão, que, pelos modos, não eram
+muito lisongeiras para a memoria de sua mãi.
+
+Este ferreiro deixou um filho, chamado João, e uma fortuna avultada,
+adquirida na bigorna.
+
+João, orphão aos quinze annos, quiz ordenar-se; mas o amor tolheu-lhe as
+vocações ardentes do sacerdocio.
+
+Por aquelles tempos a sociedade estava retalhada em classes. João da
+Silva invejava o acaso d'um nascimento, e desesperava-se na impotencia
+de associar-se dous appellidos euphonicos, que o guindassem á região dos
+homens superiores em raça aos outros homens, como o onagro de Sevilha
+superior em raça ao onagro de Cacilhas.
+
+Zombavam cruelmente d'elle, quando lhe disseram que se encabeçasse na
+linhagem, embora bastarda, de seu tio, que morrera legalmente inscripto
+no livro dos costados a folhas 1473.
+
+João da Silva foi conscienciosamente fidalgo desde esse instante. Tirou
+uma certidão, hypothecou metade da sua fortuna ao fôro, e consegui-o.
+Não diremos ao certo quem foi o concussionario d'aquelles tempos, que
+lhe recebeu os dous mil cruzados do pergaminho. As urgencias do estado
+de hoje eram litteralmente as urgencias do estomago dos chancelleres
+móres do reino.
+
+A fidalguia protestou silenciosa contra tão grave injuria. Fechou os
+seus salões ao adepto insolente, que ousára assignar-se D. João de
+Noronha, e mandára insculpir na fachada d'uma casa ameiada as armas dos
+Noronhas, É tradição em Villa Real que os Pintos Coelhos, representados
+hoje por José Antonio Teixeira Coelho de Mello Pinto da Mesquita,
+mandaram borrifar de sangue as armas de D. João de Noronha. Nada fez
+recuar o proposito do filho do ferreiro. Os tempos correram, mas os
+odios ao pobre homem não se extinguiram. Digno d'estes tempos, D. João,
+seria hoje affavelmente recebido pela velha nobreza, com tanto que as
+differenças no azul do sangue fossem saldadas com o amarello do ouro.
+
+Conheci este homem, e tractei-o muito de perto. Era eu bem creança, e
+respeitava as loucuras d'aquelle velho, com a mais sisuda tolerancia.
+Quando o vi, aos oitenta e seis annos, casar-se com uma donzella (oitava
+maravilha!) de oitenta e nove, cingi-me com aquelle par conjugal, e quiz
+ouvir-lhe os colloquios amorosos, as expansões delirantes, as ternuras
+idealissimas. Não pude; e o leitor perdeu muito com isso, que eu não era
+homem de privar d'um capitulo precioso a _Physiologia do Casamento_ de
+Balzac.
+
+O vento das tempestades da vida impelliu-me de Villa Real para outra
+linha no mappa-mundi das minhas observações; e o meu caro D. João morreu
+poucos dias depois de sua mulher, e é de crêr que, abraçados em
+frenetica paixão, renascessem, viçosos e frescos como Paulo e Virginia,
+em mundos novos, e novas constellações. Assim seja!
+
+Como vinha dizendo, leitor attencioso, quando eu tive a honra de ser
+admittido ao tracto intimo de D. João de Noronha, reparei n'uma caveira,
+contida em uma redoma de vidro, com pedestal de pau preto, enviezado de
+arabescos de marfim.
+
+Esta redoma pousava em uma mesa torneada em bilros de custoso lavor.
+Reparei, outrosim, que em certo dia do anno um véo funebre cobria
+aquella redoma. Este dia era quinta feira santa. Não concebi que relação
+podesse existir entre aquella caveira e a paixão de Jesus Christo não
+ousava, porém, interrogar-lhe o profundo mysterio.
+
+Entrava eu uma vez, sem fazer-me annunciar, na sala da redoma, e
+encontrei D. João ajoelhado com austero fervor na presença da caveira.
+Voltou-se de repente sentindo-me os passos, e eu não pude recuar sem ser
+conhecido. Vi-lhe lagrimas; eram magestosas, e eu juro que muitos dos
+meus leitores de coração petrificado chorariam, se vissem a sincera
+angustia d'aquelle rosto venerando.
+
+--Venha cá--me disse elle--que eu não tenho vergonha de chorar;
+Choram-se na decrepitude os risos da mocidade. Entra-se no tumulo a
+chorar como se entra na vida.
+
+Vi-me embaraçado em responder-lhe. Eu não tinha aprendido estas palavras
+artificiosas, com que fingimos um quinhão de sentimento impostor. Então
+senti e chorei. Hoje... eu sei cá! faria uma nenia em prosa de muita
+melodia, e citara-lhe não sei quantos velhos, que a historia diz que
+choraram desde Belisario até ao abbade de Chateneuf.
+
+--Sente-se aqui ao pé d'esta reliquia--proseguiu o consternado
+ancião.--Devo-lhe um lavor muito delicado: nunca o senhor me perguntou o
+segredo d'este craneo. Eu gosto de quem respeita a dôr alheia. Quero
+pagar-lhe essa fineza invocando do tumulo do meu coração o mysterio, que
+aqui está sepultado ha sessenta annos. Se eu me calar, no correr da
+minha historia, respeite o meu silencio... É que não poderei... Talvez
+possa... O coração... dizem que manda aos labios muito do seu fel,
+quando os labios lhe pedem as amarguradas reminiscencias d'uma grande
+desgraça... Será assim? Eu não sei... vel-o-hemos.
+
+Ora attenda-me, meu amigo. A innocencia deve alegrar-se com a historia,
+onde figura um anjo. Hei-de fallar-lhe de Lucifer tambem... Seja o anjo
+para o recreio; e o Lucifer para a experiencia... Um velho é um livro.
+Eu vou abrir-me... quero dar-lhe a leitura de minha alma, hoje, que,
+ámanhã, talvez a pedra rasa d'uma sepultura nem ao menos lhe diga que eu
+durmo alli o suspirado somno do infeliz...
+
+
+II.
+
+
+D. João de Noronha, sentado de modo que encostava o cotovello á mesa da
+redoma, principiou a historia do seu segredo, em tom de profunda
+commoção:
+
+«Tinha eu vinte annos... ha que tempo isto vai!... ha sessenta e oito
+annos que eu estudava latim no convento de S. Francisco. Era minha
+tenção ordenar-me. Meu pai grangeara-me uma fortuna, que me estimulou
+ambições de subir na posição social. Quiz ser padre, e era-o, se
+nascesse na igreja lutherana, onde o padre não soffre a cruelissima
+amputação da vida da alma, em commercio com o mundo.
+
+Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem,
+perdi o imperio da vontade, e as fervorosas vocações do sacerdocio.
+Adorei uma d'essas bellas mulheres, que trazem comsigo uma sina de
+desgraças, um contagio de desastres, e a perpetuidade d'uma chaga,
+aberta no coração com um ferro em brasa.
+
+Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso
+d'um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem,
+finalmente, me fizera estupido... atraiçoou-me.
+
+No meu tempo o amor era uma corôa de espinhos. Então apaixonava-se um
+homem, e sentia-se perdido para a sua liberdade, e escravo de uma
+angustia interminavel. Eu, por mim, senti-me ultrajado por uma traição
+incrivel, e não pude, ainda assim, estalar as algemas ignobeis que me
+prendiam á deshonra d'um abandono injustificavel.
+
+Ajoelhei aos pés de Martha. Pedi-lhe a pouca ventura que me roubára
+cruelmente... pedi-lhe a dignidade do homem que por ella se
+despresára... encontrei-a morta para mim, e vencida por uma paixão, que
+devia matal-a! Tive então dó d'aquella flôr, que se desfolhava na
+madrugada da sua primavera? O meu amor era grande e generoso! Pedi-lhe
+que fosse minha irmã, minha amiga... Nem isso!... nem se quer me aceitou
+um conselho de pai na hora em que mais precisa lhe fosse uma protecção
+que a salvasse da deshonra, a que se tinha cegamente abandonado.
+
+Eu valia menos que Pedro de Mesquita.
+
+Este homem era official de cavallaria. Nascêra illustre; conquistara-se
+uma opinião de heroe; batera-se ardidamente como um leão nas ultimas
+batalhas. Era aqui apontado em Villa Real; como o primeiro homem nos
+triumphos difficeis do amor.
+
+E não o lisongeavam! O homem, que obrigára Martha a despresar-me, devia
+ser tudo isso.
+
+Era muito linda esta mulher! Diziam-no as emulações, os odios, e as
+intrigas, que a sua formosura causára entre pretendentes, que não
+queriam ceder a prioridade do merito a nenhum.
+
+Um dos mais poderosos era Heitor Corrêa, cadete de cavallaria e filho
+segundo de uma nobre casa d'esta villa, que não tenho necessidade de
+mencionar-lhe.
+
+Não obstante Heitor Corrêa era repellido, porque Pedro de Mesquita não
+tinha concessões a esperar para ser mais amado que outro qualquer.
+
+Martha arrancára, como Luzia, os bellos olhos, se assim podesse afastar
+de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem que tão caro
+devia ser-lhe. E era.
+
+Estes dous homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam á porfia um
+ensejo em que podessem travar as espadas. Corrêa confiava demasiado em
+si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o debil adversario.
+
+O momento ambicionado chegou.
+
+Era quinta feira santa.
+
+Martha assistia ao officio da paixão na igreja de S. Francisco.
+
+Heitor Corrêa antecipára-se a occupar o mais proximo, lugar de Martha.
+Pedro de Mesquita viera depois, e mordera colericamente o beiço
+inferior. Martha tremeu e chorou. Quiz sahir; não a deixaram as
+multidões espessas. Heitor Corrêa comprehendeu-a, e indignou-se. Era
+muito despreso para a altivez do seu caracter.
+
+Terminára o officio. O povo evacuou o templo. Martha sumiu-se nas
+turbas. Dous homens apenas, como duas estatuas, se fixavam sós, e
+immoveis, na nave da igreja.
+
+Sahiram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e
+rapidas palavras, e desembainharam os fains.
+
+Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor
+chammejava a colera, a vingança, o capricho, e por ventura o desejo de
+matar, ou morrer.
+
+Esta scena passava-se na presença de mil pessoas. As beatas benziam-se
+horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de espedaçarem o
+forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre o seu patricio era
+indubitavel, e perigosa.
+
+Perigosa, não; porque o valente era generoso. Heitor não tinha já um
+botão na farda, quando Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a
+defesa, se sentiu ferido ligeiramente no braço esquerdo.
+
+A scena tornou-se cruel! O orgulhoso não podia conciliar com aquelle
+sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e cahiu
+banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra o
+assassino. Mesquita esperou com bravura! Não houve mão que lhe tocasse.
+
+
+III.
+
+
+Heitor Corrêa, reanimado pelos alentos da desesperação, ergueu-se, e
+esgrimiu ainda o florete com braço impotente. Mesquita, ferido n'um
+braço, afastou-lhe os botes, com admiravel presença de espirito.
+
+O duello em Villa Real era uma cousa nova. O facto, em um dia tal,
+redobrava de escandalo. Não se atravessavam as multidões espessas, que
+reprovavam ruidosamente um tamanho desacato. A causa do seu espanto não
+era a moral ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como
+razão suprema de tal algazarra estar exposto o Santissimo Sacramento,
+quando dous homens se cortavam a ferro frio.
+
+As authoridades, conscias do acontecimento, deram ordens immediatas de
+captura. Estas ordens não podiam ser cumpridas por meirinhos; e não
+houve desgraçadamente authoridade militar que capturasse os duelistas.
+
+Heitor Corrêa, exhausto de forças, perdidas no sangue, que os recursos
+da cirurgia não estancára, desmaiou, e deu symptomas de morto. O alferes
+de cavallaria, ligeiramente ferido no braço, curava-se n'uma botica,
+affectando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na
+rua. D'entre ellas sahiam gritos terriveis de «morra!» Os que assim
+gritavam diziam que estava exposto o Santissimo Sacramento; e, por
+tanto, não podiam deixar de matar o impio que desacatára, em quinta
+feira santa, a solemnidade da paixão de Christo. Como elles saciavam a
+sede de sangue com o fervor beatifico das suas crenças, explicam-no
+milhares de factos semelhantes que acompanham sempre a edificante
+historia dos muito austeros authores da integridade religiosa, tanto em
+Roma, como em Constantinopla.
+
+Fernando Corrêa, irmão de Heitor, estava á janella quando viu entrar seu
+irmão nos braços de dous soldados. Desceu ao atrio, e interrogou o
+facto. Contaram-lhe, com as mais irritantes circumstancias, o
+acontecimento.
+
+Fernando, sem attender a supplicas da familia, e de amigos prudentes,
+sahiu de casa, tal qual estava, embrulhado n'um capote. Mas, debaixo
+d'este capote, levava um bacamarte.
+
+Quando chegou á entrada da _rua do Jogo da Bolla_, viu um grupo de povo,
+que parecia vedar a sahida d'uma botica. Lá dentro estava Pedro de
+Mesquita, a quem faltára a coragem para affrontar a força bruta da
+populaça.
+
+Em frente d'essa botica morava a infeliz Martha, a attribulada amante
+d'aquelle homem, que alli estava ameaçado das iras da plebe, tigre
+desenfreado da licença, n'aquelles dias de escravidão, logo que um acaso
+lhe alargasse um pouco as algemas.
+
+Fernando Corrêa abriu uma clareira entre a multidão. Descobriram-se
+todos, exclamando: «Chega o fidalgo! deixem passar o fidalgo.»
+
+E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu irmão.
+
+--Assassino... não!...--respondeu o alferes.--Fui eu quem o feri, e
+honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.
+
+Fernando Corrêa, estupido como fatalmente são os que podem contar muitos
+avós robustos de musculos, e nenhum de vigor intellectual, não
+comprehendeu a delicadesa d'aquella resposta. O que elle praticou é um
+acto de barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo
+atraz, aperrou o bacamarte, e despejou-lh'o, á queima roupa, no peito.
+
+Foi horrivel, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de
+meus olhos, noite e dia, porque n'esse instante ouvi um grito de
+arripiar as carnes. Era Martha que cahira, com a face na lage da
+janella, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebivel dos
+tormentos possiveis n'esta vida.
+
+Voltaram-se todos para aquella janella, e viram-me... a mim, que subira,
+alentado pela coragem da minha dôr, as escadas d'aquella casa, e
+levantára da janella a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de
+mim... não vi ninguem, excepto uma creada que chorava, perplexa, sem
+atinar com o que devia fazer. A familia, a essa hora, na igreja da
+_Misericordia_, orava, talvez, á Virgem protectora das virgens...
+
+Fernando, consummado o assassinio, sahiu galhardamente por entre as
+turbas que saudavam o nobre algoz. A paralysia do terror gelára os
+poucos que lhe reprovavam a infamia. Ninguem ousou, sequer, lembrar-lhe
+que aquelle sangue lhe tingia os pergaminhos!
+
+O nobre amante de Martha foi conduzido ao quartel. O seu ultimo lance
+d'olhos n'esta vida, viram-no todos fixar-se na janella da infeliz.
+Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.
+
+Passada uma hora, Fernando Corrêa, montado n'uma possante mula, e
+seguido d'um creado, e dous bacamartes, passava em _Almodena_, caminho
+de Lisboa. E, para que esta circumstancia me não esqueça, dir-lhe-hei
+que, um mez depois, o assassino, impune pelo privilegio dos seus
+pergaminhos, entrava em Villa Real, com um alvará de real mercê que o
+isentava de responder pela morte de Pedro de Mesquita.
+
+O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabeça ao fidalgo, que
+passava soberbo por entre aquelles que lhe liam na face a altivez do
+assassino, que zombára da lei.
+
+Heitor Corrêa... esse foi enterrado no mesmo dia em que os sinos
+dobraram por alma de Pedro de Mesquita.
+
+
+IV.
+
+
+É necessario fallarmos de Martha... É a luz unica d'este quadro negro...
+Nem a historia valia a pena de ser ouvida, se não tivesse um heroismo de
+virtude para a admiração, e uma santa para o culto das almas nobres, e
+apaixonadas pelo sublime do martyrio.
+
+Por ventura, póde o senhor comprehender a situação d'um homem, que tem
+desmaiada nos braços aquella por quem fôra atraiçoado...? Não é bastante
+comprehender isto: é necessario compenetrar-se mais da minha situação...
+
+Martha illudira-me... ou illudira-se; Martha despresara-me com cynismo
+indigno da sua idade; Martha escarnecera as loucuras que me sacrificaram
+a ella; Martha desmaiara, adivinhando a morte do meu rival...
+Comprehende por ventura agora o tormento indefinivel da minha
+situação?... Não comprehende, porque se eu lhe disser que n'aquelle
+trance original o meu sentimento era a piedade... se eu lhe disser que
+dera a minha vida pela do rival assassinado, com tanto que Martha não
+fosse assim desgraçada... o senhor, por certo, não concebe este
+phenomeno, este sacrificio... esta monstruosidade de resignação... Quem
+sabe!... a sociedade capitular-me-hia de imbecil, e o meu amigo, por
+muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inoffensivos, não é
+assim?»
+
+Não lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D. João me
+adivinhára. Córei, de certo, quando fui surprehendido no segredo dos
+meus juizos. Nada menos lisongeiro que o meu silencio para o pobre
+velho! Era de certo um pungente assentimento á sua conjectura! A dôr é
+generosa, e cala as affrontas. Reconheço hoje que ultrajei aquelle
+grande sacrificio, que comprehendo agora. Se não receasse mesclar com a
+gravidade melancolica d'esta narrativa um anexim popular e graciosamente
+philosophico, diria que o diabo não quiz nada com rapazes, e D. João de
+Noronha, de certo, não era mais privilegiado que Lucifer para tirar de
+mim melhor partido.
+
+D. João proseguiu:
+
+«A familia de Martha veio encontrar-me, com ella nos braços. A mãi, que
+prophetisára, em seus virtuosos presentimentos, a desgraça da filha,
+apertou-a contra o seio, cobriu-a de lagrimas, e acordou-a d'aquelle
+lethargo, com afflictivos gemidos.
+
+Martha abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os labios. Esperavamos
+anciosos que a sua angustia respirasse pelas lagrimas. Não chorou uma
+só. Em quanto os sinos dobravam a finados pela alma dos dous amantes,
+Martha estremecia, mas não posso dizer-lhe como era aquelle tremor... A
+corda d'um instrumento ferida, e deixada ao impulso da vibração
+estremece assim.
+
+No fim de tres dias extinguiu-se o soffrimento, por que a vimos pender
+serenamente a cabeça nos braços de sua mãi. Felicitamos-nos pelo repouso
+da infeliz. Imaginamos que ella devia acordar mais tranquilla, ou, pelo
+menos, mais desabafada d'aquella agonia que lhe suffocava não só os
+gemidos, mas até a respiração. Esperamos... mas quem não esperava era o
+medico, que, ao retirar-se, deixou dito que não era Christo para
+restituir a filha á viuva de Nahim.
+
+Estava morta, por tanto... e morta sem balbuciar uma palavra! Como se
+morre assim? Dizem que a morte é a aniquilação da materia... mas aquelle
+anjo morreu dentro em si, antes que os symptomas da destruição nos
+revelassem o rapido dilacerar d'aquella morte! Quem dirá que aquella
+mulher soffreu no corpo? Ninguem! A alma, só a alma, este ser immortal
+que foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada
+no seu mysterio de dôres inconcebiveis, reluctando por estalar as
+algemas que a prendem ao cavallete do corpo... a alma, e só a alma, meu
+amigo, consummou aquelle trance de incomportavel inferno, e passou ao
+mundo da penitencia ou da gloria...
+
+Agora principia a minha scena n'esta tragedia... É só minha, e só eu a
+comprehendo... mas hei-de contar-lh'a. Acompanhei á igreja de S.
+Francisco o cadaver de Martha. Fui o ultimo que se retirou de ao pé da
+sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em tres annos
+successivos, lhe ajoelhou na pedra que eu não queria fosse a nossa
+eterna separação.
+
+Empreguei os meios para obrigar o coveiro a não tocar n'aquella
+sepultura durante tres annos.
+
+Findo este praso, venci com dinheiro a repugnancia do coveiro, e a pedra
+que cobria os ossos de Martha foi levantada.
+
+Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror,
+agitadas pelo lampejar tremulo das lampadas, suspensas no altar do
+Santissimo Sacramento.
+
+O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava machinalmente
+a enxada com que afastava as camadas da terra.
+
+Não posso dizer-lhe até que ponto fui enganado pelas larvas que a
+desvairada phantasia, ou a mysteriosa realidade revocou em volta de
+mim... Estou quasi jurando-lhe que a vi... a ella... como nos dias da
+sua esplendida formosura illuminada pelo resplendor da sua innocencia,
+purpureada do pejo com que a candura se rende ao imperio dos
+instinctos... Era ella, quando, nos primeiros tempos da nossa infancia,
+me offerecia de seu coração a parte que não podia dar a sua mãi, e a
+seus irmãos... Era ella, quando me perguntava o segredo d'aquella
+attracção irresistivel, que a arrastava para mim, que a entristecia sem
+motivo, que a fazia ambicionar uma riqueza imaginaria, que a fazia
+sonhar umas delicias que sua mãi lhe não explicava nem realisava com os
+seus carinhos... Foi assim que eu a vi, em quanto o ecco da enxada, que
+feria o seio da sepultura, reboava nas naves da igreja... Gelava-se-me
+de terror o pensamento... a phantasia esfriava-se ao roçar pela mortalha
+d'aquelles ossos, e eu sentia-me morto em metade da vida, quando a terra
+sacudida da enxada me vinha cahir aos pés.
+
+E depois... as larvas, que a razão não podia espavorir, tornavam a
+cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se nas grades do côro, a
+tremularem por entre os cortinados dos altares, e a esvoaçarem na
+abobada do templo como nuvens escuras, espedaçadas pela tempestade.
+
+Erguera-se do tumulo para ajoelhar, a meus pés... tinha a face lacerada
+pelos vermes. E era bella ainda... Devo ser sincero, meu amigo... É
+impossivel que a imaginação me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz... senti o
+frio das suas mãos... ergui-a de meus pés... perdoei-lhe... chorei com
+ella...
+
+A voz d'um homem chamou a minha alma á realidade acerba d'aquella scena,
+que se me figurava um sacrilegio, uma profanação.
+
+Era o coveiro, que me dizia: «a enxada já topou com os ossos.»
+
+Esta nova, communicada friamente pelo coveiro, alvoroçou-me, e coou-me
+nas veias não sei que terror semelhante ao do sacrilego, que não tem
+ainda bastante barbarisada a alma pelo crime, e vacilla, horrorisado de
+si proprio, quando atira ao pavimento do altar as hostias contidas no
+calix, que rouba.
+
+Aquelles ossos, aquelle meu thesouro, ambicionado ha tres annos, tinham
+agora para mim uma superstição, um cunho sagrado, que me fazia na alma
+não sei que pesar semelhante ao remorso.
+
+Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do coração, que se
+arrependera. Quiz deixar intactas aquellas cinzas. Luctei comigo para
+vencer um excesso de medo, um abuso, talvez, da imaginação. Não pude;
+mas não pude tambem retirar-me sem uma reliquia, um ser sem alma, uma
+recordação para as lagrimas, e uma gloria só minha n'este mundo... a
+gloria de possuir na morte uma companhia que tivesse sido incentivo de
+lagrimas, já que não pude conseguir como companheira na vida essa
+preciosa existencia, que me espera ha sessenta e seis annos na
+eternidade.
+
+Eis-aqui a reliquia, a testemunha immovel, terrivel, e silenciosa dos
+longos soffrimentos d'um homem, que atravessou uma longa existencia, sem
+conciliar com os prazeres do mundo a eterna viuvez da sua alma!
+
+Eis-aqui a caveira de Martha que eu revisto a cada instante das feições
+com que a vi partir d'este mundo. Ha alli n'aquellas orbitas uns olhos
+que me vêem... olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos
+angustiosos d'esta paixão desastrada, eu vejo sempre esta caveira,
+animada umas vezes do gracioso riso da innocencia, outras vezes das
+contorsões freneticas da desesperação... Ha alli n'aquelles ossos, onde
+os labios articulavam hymnos dos anjos, uns labios que, a cada instante,
+me balbuciam um perdão... E tenho momentos de inferno nas minhas
+dolorosas contemplações, aqui diante d'esta redoma... Ás vezes juraria
+que essa caveira estremece em convulsões rancorosas contra mim,
+balbuciando o nome do homem, que a levou comsigo á sepultura!...
+Então... sinto-me demente, porque tenho ciumes do nada... ciumes d'estas
+cinzas esquecidas no mundo... ciumes da memoria d'outras cinzas, que, ha
+tres quartos de seculo, esperam o dia final... É lamentavel a situação
+d'este pobre velho, que não pôde roubar-se a uma agonia, das que o mundo
+reputa chimeras, não é assim?
+
+Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lh'o não
+disse, nem lh'o diria, se lhe não acreditasse umas lagrimas que lhe vejo
+nos olhos.
+
+Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na dôr. O
+que eu não creio é na morte. A morte é uma palavra convencional, com que
+os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio d'uma nova
+existencia. A immortalidade é uma idêa abstracta de tudo que é
+comprehensivel aos homens. O homem não explica a immortalidade, em
+quanto não sobe um grau na escala dos seres intelligentes. Veja se me
+comprehende... Ha uma escala de seres que principia na materia bruta, e
+termina nos espiritos. As funcções do espirito, sem fórmas corporeas,
+pertencem á creatura, superior ao homem. Ora, o homem não explica essas
+funcções, que devem ser a sua futura existencia, pela mesma razão que o
+animal, inferior ao homem, não comprehende as funcções do pensamento
+aperfeiçoadas, mas não perfeitas, no homem. Todos os seres, por tanto,
+vão subindo na escala da intelligencia. Todos se transfiguram de fórma
+em fórma até deixarem na terra o involucro da materia, e vagarem nos
+espaços incognitos como vagam os espiritos. É lá em cima, nas
+proximidades do grande mysterio, ao clarão da eterna luz, que se lê o
+livro de Deus. É nas regiões, que a minha alma adivinha, que eu devo
+sentir pelo orgão espiritual em que recebi a interminavel impressão de
+agonia, que foi na terra a minha lenta peregrinação. O amor ardente e
+sublime não é um attributo do espirito? Aquelle que muito ama, e muito
+devorado morre de paixões grandes e ideaes, não é um propheta da vida
+futura, uma preexistencia do futuro amor? A não ser o amor, qual será a
+existencia do espirito?
+
+Conheço que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que quiz elevar o
+seu espirito á altura das minhas grandes doutrinas, do meu querido
+segredo. Quiz convencel-o, não digo bem, quiz enthusiasmal-o por essa
+eternidade em que ahi se falla, despida de affectos, de poesia, de
+esperanças, e... deixe-me dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens...
+
+Meu amigo, ha na minha vida um oasis. Tenho exaltações de jubilo, aqui,
+n'este quarto, onde conto, ha perto de setenta annos, os minutos da
+minha existencia. Este goso é a minha convicção na immortalidade... É a
+minha esperança, confirmada pela meditação e pela sciencia, de que
+hei-de encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do
+céo...
+
+Basta... Seja digno da minha confidencia... Não diga ás turbas de Villa
+Real os segredos de D. João de Noronha. Aqui escarnecem-se os que
+soffrem, logo que não soffrem pelas más colheitas do vinho, ou pela
+barateza dos cereaes. Não falle a linguagem dos espiritos, onde a
+materia organisada dispõe do machinismo da bocca para lhe dar uma
+gargalhada em resposta.»
+
+D. João de Noronha despediu-me.
+
+Desde esse dia foram mais da alma e da intelligencia as nossas
+communicações. Aprendi com elle a sciencia do espiritualismo. Se depois
+me materialisei, é porque a faisca d'aquelle genio não me tinha abrasado
+mais que a superficie da materia. O espirito tem a força dos
+imponderaveis. A força da materia póde muito bem calcular-se pela força
+dos vapores... _tantos cavallos_.
+
+Pergunta-me uma senhora de critica muito fina:
+
+--Como se explica o casamento de D. João de Noronha aos 86 annos de
+idade, com uma donzella sua contemporanea?!
+
+--De uma maneira muito simples. As nupcias de D. João não podem
+considerar-se physicas nem moraes. «Absurdo!--replica a espirituosa
+dama.» Está enganada, minha senhora. D. João tinha uma pequena fortuna,
+e queria deixal-a a uma creada, que o servira desveladamente toda a sua
+vida. D. João encarava philosophicamente as formulas sacramentaes do
+casamento. Achava-o utilissimo como carimbo de contracto civil. Casou-se
+para recompensar uma creada que lhe consolou muitas lagrimas, e lhe
+enxugou nas faces mortas as ultimas que elle chorou. Era digna do
+sacrificio. Poucos dias supportou a viuvez.
+
+--E a caveira?--perguntou ainda a amavel syndica dos meus romances.
+
+--A caveira deve estar confundida nos ossos de D. João de Noronha. A
+viuva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na mesma
+mortalha.
+
+
+
+
+UMA PRAGA ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.
+
+
+
+
+UMA PRAGA ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.
+
+
+Este romance não devera chamar-se «romance.» Desde que esta palavra é o
+atilho onde se enfeixam as mentirosas invenções do escriptor
+phantastico, não ha historia verdadeira que possa, como tal,
+recommendar-se com aquelle titulo.
+
+Estes acontecimentos, expostos aqui, segundo o formulario romantico, e
+affeiçoados ás leis do estilo romantico, são verdades que não deram
+brado, nem se gravaram na memoria da geração que as viu e as não
+comprehendeu.
+
+Na vida moral da sociedade ha phenomenos cuja causa ninguem estuda. No
+drama da familia ha lances que são do dominio do publico, e o publico
+não póde, ainda que o tente, explical-os. Nas attribuições
+individualissimas do homem ha phases extraordinarias de soffrimento, que
+esta sociedade de entranhas crueis lhe recrimina, reputando-lh'as
+effeitos necessarios das causas, consequencias do crime voluntario.
+
+A sociedade, a familia e o homem expiam incessantemente a culpa do
+homem, da familia, e da sociedade. Opera-se uma continua redempção do
+genero humano. O homem é, desde o seu principio, a victima da culpa com
+o labio collocado no calix da agonia.
+
+A vida sobre a terra é uma interminavel expiação. Eu pago pelos crimes
+de meu pai, meus filhos expiarão meus crimes, e o ultimo ser vivo da
+animalidade intelligente será o holocausto do primeiro homem criminoso.
+
+É forçoso recorrer ao inconcebivel, ao sobre-natural, ao mysticismo da
+providencia occulta para comprehender o que vulgarmente se diz
+«fatalidade.»
+
+Na historia, que vai ser lida, é tão sensivel esta necessidade, tão
+aterrado se sente o espirito diante d'um facto consummado, que eu não
+tive escrupulo religioso ou philosophico em subordinar um encadeamento
+de infortunios d'uma familia á _praga rogada nas escadas da forca_.
+
+
+I.
+
+
+Bernardo da Silva era um filho bastardo de um nobre de Vizeu. Do ventre
+materno passou á roda dos expostos, e d'ahi aos cuidados d'uma pobre
+mulher d'aldêa.
+
+Aos dez annos não conhecia pai; e sua mãi, mulher do povo, arrastada
+sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o segredo do _nobre_,
+que se dignára descer até ella para honral-a com deshonra.
+
+Bernardo, aos dez annos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus
+companheiros era elle o mais despresado, porque tambem era o mais
+preguiçoso.
+
+O rapaz vivia triste como se a idade lhe permittisse comprehender a dôr
+immensa d'um grande desastre. Lá dentro n'aquelle coração infantil
+fallava uma prophecia funebre. Com os olhos sempre extaticos no
+horisonte negro do seu futuro, o pobre moço não tinha uma hora livre
+para o trabalho. Muitas vezes uma bofetada acordava-o d'aquelle
+lethargo; e o braço, que estava suspenso com a agulha, continuava a
+tarefa molhada de lagrimas.
+
+Aos 13 annos era ainda um aprendiz de alfaiate, repellido d'este para
+aquelle mestre, desacreditado em todos, e inutilmente espancado por
+todos. Chamavam-no incorrigivel, e elle mesmo conheceu que o era.
+
+Abandonou a agulha, e foi servir em casa de Francisco de Lucena. Era
+ahi, como em toda a parte, coconhecido pelo «Bernardo _Engeitado_.»
+Nunca ninguem se lembrou de reputal-o filho _d'alguem_: nem Lucena se
+lembrou, alguma vez, de que um de seus muitos filhos, atirados á roda,
+poderia ser seu lacaio.
+
+Bernardo era creado de taboa.
+
+
+II.
+
+
+Este officio era-lhe mais generoso que o de alfaiate. Tinha muitas horas
+livres para a sua melancolia, e muitos escondrijos no amplo palacio de
+seu amo para refugiar-se d'uma sociedade que elle detestava sem saber
+porque.
+
+Este viver excepcional n'aquella classe galhofeira, esturdia, e
+estragada, excitou a curiosidade dos seus companheiros, e, depois, a dos
+amos. Aquelles chasqueavam-nos com desabrimento: estes admiravam-no por
+compaixão.
+
+Bernardo chorava sem motivo. Sorria-se com violencia. Era humilde com um
+não sei que de estranha delicadesa. Destacava-se da sua classe com um ar
+orgulhoso, mas não calculado. Cumpria as suas muitas obrigações, e
+ninguem sabia quando as cumpria. Estas qualidades, rarissimas vezes
+encontradas n'um lacaio, tornavam-no assumpto de estudo para os amos que
+principiavam a interessar-se na analyse d'aquelle obscuro engeitado.
+
+Guardadas as inauferiveis distancias que separam o senhor do servo, os
+fidalgos souberam que Bernardo desejava muito saber lêr, e gastava a
+maior parte da noite soletrando o abecedario, e decorando as lições que
+o mordomo da casa lhe dava nas horas de desenfado.
+
+Qualquer que fosse o impulso que a isso o levou, é certo que o amo, por
+um nobre impulso, permittiu que o rapaz fosse a uma escóla, e para isso
+alliviou-o dos encargos de moço de taboa, e levou-o á jerarchia de
+escudeiro do menino mais velho.
+
+
+III.
+
+
+Um anno depois, Bernardo fizera admiraveis progressos. Lia com
+intelligencia do que lia; escrevia com acerto, e aprêndera só comsigo a
+grammatica portugueza, visto que seus amos lhe não tinham permittido
+esta segunda parte dos seus estudos. Seria um caprichoso luxo permittir
+ao servo sciencia que os amos não tinham! O muito illustre Francisco de
+Lucena não daria o menor dos seus galgos pela vasta sciencia do Lobato.
+E, talvez, tivesse razão.
+
+Em casa de fidalgos d'esta bitóla, quando um creado adquire a confiança
+dos amos, ha sempre para isso uma de duas razões. Ou o creado, devasso
+como elles, encobre astuciosamente as devassidões dos amos; ou se torna
+estimavel pelo zelo honroso com que procura encobrir-lh'as, já que não
+póde reprehender-lh'as.
+
+Bernardo estava na segunda razão. Os filhos de Lucena eram livres e
+desmoralisados a não poder ser mais. Quizeram captar a benevolencia do
+servo, não para aconselhal-os, que não desciam elles a isso, mas para
+acompanhal-os em emprezas difficeis, d'aquellas em que o braço do plebeu
+é muitas vezes a salvação das costas do fidalgo.
+
+Não o conseguiram nunca; mas tambem não tiveram de arrepender-se da
+confiança d'esse convite. Bernardo exercia uma influencia admiravel
+sobre os nobres libertinos. Era a superioridade da intelligencia.
+Ouviam-no, e maravilhavam-se do acerto das suas idêas, e da linguagem
+escolhida com que o engeitado se sahia! O facto de ser engeitado era em
+Bernardo, talvez, um motivo de superstição n'aquella casa. Se elle fosse
+reconhecido filho d'algum _borra-botas_, como em linguagem nobliarchica
+se chama um plebeu, de certo lhe não dariam a importancia de o
+considerarem pela intelligencia. Mas o mysterio, a possibilidade de ser
+vergontea infeliz d'um tronco illustre, cingiam-lhe a fronte d'uma
+aureola entre nuvens, que poderia talvez, mais tarde, dissipar-se, e
+deixar na plenitude da sua luz aquelle fructo do amor criminoso d'alguma
+raça nobilissima, mais ou menos aparentada com os Lucenas!
+
+Tudo isto era possivel; mas o que elles julgariam, entretanto,
+impossivel, é o que vai lêr-se.
+
+
+IV.
+
+
+A familia que Bernardo servia compunha-se de pai, mãi, tres filhos, e
+uma filha, de todos os irmãos a mais nova. Por então contava quinze
+annos. Era bonita, mas pobre. Os morgados não a pediam; os filhos
+segundos tambem não; e a sensivel menina precisava amar, porque o seu
+coração era da tempera d'aquelles que não sabem conceber sómente o amor
+com a condicional do casamento.
+
+Eulalia não tinha a mais superficial tintura de instrucção, e por isso
+não podemos, em boa fé, chamar-lhe romantica. Não era janelleira, nem
+rapinhava da papeleira dos irmãos o perfumado papel setim para deposito
+de semsaborias amorosas, e por isso não podemos chamar-lhe douda.
+
+Era uma mulher, e n'isto está dito tudo.
+
+Este Bernardo é que realmente se parecia muito com os nossos poetas de
+aspirações ferventes e meditações profundas. Mas não era impostor, nem
+romanticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas, e uma tristesa
+inconsolavel como nenhuma. «A minha organisação--dizia elle--é um
+aborto, uma enfermidade incuravel.»
+
+Eulalia sympathisava com aquella tristesa, e com a figura do rapaz.
+Achava-lhe traços de semelhança com seus irmãos, e via n'elle o que ella
+chamava «cara de pessoa de bem.» E, com quanto eu deteste esta maneira
+de classificar as caras, porque não conheço as «caras de pessoas de mal»
+tenho-me visto em circumstancias forçadas de dizer o mesmo, porque ha
+n'este val de lagrimas umas caras que não exprimem bem nem mal, e essas
+são as peiores caras.
+
+Bernardo não se lembrou nunca de fazer sentir á cozinheira da casa, e
+menos se lembraria de accender o fogo do amor no illustre coração d'uma
+Lucena, com quem em toda a sua vida fallára tres vezes.
+
+Eulalia passou da dôce sympathia ao amor abrasado, e do amor abrasado á
+paixão violenta. Por mais finos e eloquentes olhares que a fogosa menina
+lançou ao escudeiro, o escudeiro ou não dava por elles, ou explicava-os
+de qualquer modo, com tanto que não ousasse ensoberbecer-se d'aquelle
+affecto disparatado. E Eulalia desesperava-se!
+
+
+V.
+
+
+Francisco de Lucena espreitava a opportunidade de empurrar a filha para
+fóra de casa. Aspirou, primeiro, aos morgados; mas encontrou-os pouco
+apreciadores de formosura e fidalguia. Recorreu, depois, aos burguezes
+ricos, e encontrou um negociante d'alto bôrdo, que recebeu a proposta
+com affabilidade e trabalhou desde logo em levar a fim um casamento que
+permittia aos filhos de seu filho appellidarem-se Lucenas.
+
+O pai annunciou á filha o seu rico futuro, e encontrou-a fria.
+Apresentou-lhe o noivo, e viu-a enjoada. O noivo, porém, era um rapaz de
+fina educação, d'alguma intelligencia, de brios que o ouro lhe
+estimulava, e de orgulho superior á sua classe, porque, ha 50 annos, a
+classe commercial era muito humilde, supposto já trabalhasse para esta
+época de barões commerciaes, que, digam lá o que disserem, é o mais
+palpitante triumpho da democracia. Para me não metter em graves questões
+sociaes, entenda-se que D. Eulalia repelliu a felicidade que seu pai lhe
+annunciára com tanto jubilo, e declarou-se sentimental, por tempo de
+quinze dias, fechada no seu quarto, sem querer vêr sol nem lua.
+
+Mas o pai apoquentava-a, sempre que podia, pintando-lhe a mesquinhez do
+seu futuro, e a pobresa de sua legitima, que orçaria talvez por tres mil
+cruzados. E era isto verdade.
+
+
+VI.
+
+
+E o peor era que o tal João Leite, noivo repellido, ficou amando
+desesperadamente D. Eulalia. Ferido no seu amor proprio, e envergonhado
+de tão má estreia, instava com Francisco de Lucena, lançando-lhe em
+rosto a imprudencia com que viera roubal-o á sua tranquilidade, não
+podendo contar com a obediencia de sua filha. Esta maneira de accusar
+vexava Francisco de Lucena, porque era pôr em duvida o seu poder
+paternal, e chamar-lhe fraco, imputação que elle odiava ainda mesmo que
+se tratasse de vencer a repugnancia de uma fraca menina.
+
+Redobravam as mortificações, e Eulalia, immovel como o seu infeliz amor,
+offerecia-se de bom grado á vingança paternal, mas dizia, em linguagem
+tragica, que só reduzida a cadaver passaria para a posse do tal
+miseravel, que não tinha vergonha de perseguir uma mulher que o
+despresava. O pai realisou o dito popular: «casar, ou metter freira.»
+Eulalia optou pelo segundo, e os preparativos para entrar no convento
+principiaram.
+
+O amor faz a mulher varonil. Temos visto almas de lama apresentarem uma
+energia corajosa, quando o tonico do amor lhes vibra as cordas
+embrionarias d'um coração, que parece arfar de improviso ao repentino
+choque, ao rapto da paixão violenta.
+
+Nas vesperas da sua entrada no mosteiro, Eulalia escreveu tres cartas.
+Uma a seu pai. Dizia-lhe que amára um só homem e viveria d'esse amor
+desgraçado toda a sua vida.
+
+Outra ao escudeiro. Dizia-lhe que tivesse compaixão d'ella, e chorasse
+uma lagrima em troca das que ella chorára, e choraria até á morte.
+
+Outra ao seu implacavel pretendente. Dizia-lhe que o amaldiçoava com
+todo o odio do seu coração. Que lhe atirára á cara com um _não_, e nem
+assim o envergonhára de continuar a perseguir uma mulher.
+
+Esta correspondencia conservou-a Eulalia até ao momento em que transpoz
+o limiar do convento. O seu primeiro acto foi dar-lhe o destino
+competente. Depois, chorou, chorou, e attrahiu em volta de si os
+carinhos da communidade que a mortificava com as suas frias consolações.
+
+
+VII.
+
+
+Francisco de Lucena recebeu com espanto semelhante carta.
+
+Bernardo da Silva embruteceu-se ao lêr a sua.
+
+João Leite deu quatro murros n'uma mesa, e sentiu-se suspenso no ar por
+uma legião de demonios raivosos.
+
+Cada um fez seu papel; mas todos tres reunidos deviam formar um grupo
+digno da melhor caricatura inédita!
+
+Francisco de Lucena correu ao locutorio do mosteiro, e fez alli
+apparecer imperiosamente a filha.
+
+Quiz forçal-a a declarar o nome do homem que a preoccupára até a fazer
+má filha. Não lhe arrancou a menor revelação. Foi por outro caminho para
+chegar ao seu fim. Fez-se sentimental; lamentou, como bom pai, as
+paixões invenciveis d'uma filha que se présa com extremo carinho; contou
+historias análogas, que acabavam todas por casamentos desiguaes, mas nem
+por isso menos venturosos. Pediu a sua filha o nome d'esse homem que a
+impressionára, e fez-lhe ante-gostar a possibilidade de casar-se, se não
+viesse d'alli uma absoluta deshonra para a sua familia.
+
+O amor fez heroes, mas tambem faz patetas. Eulalia desceu da sua altiva
+energia ao raso da toleima. Declarou o nome... o nome de quem? o nome,
+sem nome, do engeitado, do aprendiz de alfaiate, do lacaio, do
+escudeiro!...
+
+Que horror!
+
+Nunca se viu um solavanco mais desamparado que o salto de tigre que
+Francisco de Lucena deu contra a grade que o separava da filha! Por
+Deus! que a esgana se lhe chega! A pobre menina, arripiada como quem vê
+um lobo com as fauces vermelhas, e as unhas recurvas, foge pelo
+dormitorio, e fecha-se no quarto.
+
+
+VIII.
+
+
+Lucena correu a casa com os olhos injectados de fogo. Precisava d'uma
+victima! Encontrou no caminho João Leite, mas este não podia
+justificadamente ser sua victima. João Leite mostra-lhe a carta que
+recebêra de Eulalia. Isto foi exacerbal-o. «Não se lhe dê de ser
+repellido por essa infame,--lhe disse elle--Eu vou provar-lhe que sou
+pai!... Essa mulher amava um escudeiro... um lacaio... um
+_engeitado_...»
+
+Entrando em casa, procurou o «engeitado.» Encontrou-o ainda
+estupidamente absorvido na meditação d'aquella carta. A entrada rapida
+que fez no quarto não deu tempo a que Bernardo escondesse a carta que
+tinha aberta nas mãos tremulas. Lucena arrancou-lh'a com uma convulsão
+de raiva superior á furia d'um demente. Passou-a pelos olhos, e, sem
+articular um som, lançou mão d'uma cadeira, e, á segunda pancada,
+Bernardo tinha a face coberta de sangue. Era um sangue innocente que
+reclamava justiça. Era um sangue innocente que pedia a intervenção de
+Deus. A justiça, filha legitima do céo, virá mais tarde salpicar
+d'aquelle sangue a face de quem o derramava.
+
+Bernardo, ferido, e pisado de successivas pancadas, não pronunciára uma
+só palavra durante este infernal martyrio. Impellido por pontapés, foi
+lançado fóra da porta do quarto. As forças faltaram-lhe. O sangue corria
+a jôrros. Esvaiu-se-lhe a cabeça, e cahiu.
+
+O fidalgo chamou dous creados, e mandou pôr aquelle homem fóra da porta.
+Era ao anoitecer. O engeitado foi arremessado á rua. Quando recuperou os
+sentidos, achou-se frio. Ergueu-se. Olhou com os olhos da alma para a
+sua consciencia, e sentiu pela primeira vez vontade de sorrir da sua
+desgraça pelos labios molhados de fel.
+
+E riu-se. Era um sorriso semelhante ao dos anjos. As almas que podem
+sorrir assim são as que Deus elege para a santidade da bemaventurança.
+
+
+IX.
+
+
+Bernardo procurou um refugio em casa de uma mulher pobre que o tractára
+sempre com amor, matando-lhe a fome, quando a aprendizagem de alfaiate
+lhe não valia o pão de cada dia. Esta mulher fôra ama da roda no tempo
+em que Bernardo lá fôra lançado. Suppunha ella que talvez o tivesse
+alimentado ao seu seio por algumas horas, e esta só conjectura
+attrahia-a para elle com instincto maternal.
+
+O engeitado curou-se dos leves ferimentos, e pediu a Deus que lhe
+inspirasse um destino. Esperou.
+
+Em Vizeu fallava-se muito d'este successo, divulgado por Francisco de
+Lucena, e por João Leite.
+
+Bernardo era procurado para ser punido; e quem mais diligencias fazia
+para isso era o juiz de fóra Paulo Botelho.
+
+O honrado moço, quando se viu na penosa situação de agenciar a sua vida,
+por não poder sahir da pobre casa em que vivia, impellido pela sua
+innocencia, procurou o juiz de fóra, e expoz-lhe com a mais eloquente
+naturalidade a injustiça com que fôra maltratado e com que estava sendo
+perseguido.
+
+Paulo Botelho quiz espancal-o com um chicote por ter tido a audacia de
+entrar em sua casa sem ferros aos pés. Olhou em redor de si procurando
+um aguazil para fazel-o prender traiçoeiramente; mas o generoso mancebo,
+adivinhando-lhe as intenções, disse que não precisava fingir-se; que
+elle dava a sua palavra de honra de não retirar da casa em que estava
+vivendo, e que mandasse sua senhoria captural-o quando quizesse. O juiz
+riu-se da _palavra d'honra_ na bocca d'um creado de servir, e mandou-o
+embora, por não ter a proposito um meirinho.
+
+Bernardo encontrou ao retirar-se, nas escadas do ministro, João Leite,
+que apeava d'uma liteira, segundo o uso dos nobres, comprado pelo ouro
+do burguez opulento.
+
+João Leite fixou-o com ar de soberano despreso, e perguntou-lhe:
+
+--És tu o lacaio de Francisco de Lucena?
+
+--Fui o lacaio do snr. Francisco de Lucena--respondeu Bernardo com
+dignidade.
+
+--E tens o atrevimento de apparecer entre pessoas de bem?
+
+Bernardo suffocou uma resposta amarga, e fez uma continencia respeitosa
+para retirar-se.
+
+--Vem cá, miseravel!--tornou João Leite--tu és o amante da filha do teu
+amo?
+
+--Respeitei-a muito, por ser a filha de meu amo, em quanto o servi. Hoje
+respeito-a, porque lhe não conheço a menor falta que a deshonre!
+
+--Nem ao menos a deshonra de receber as tuas affeições, lacaio?
+
+--Eu não lh'as offereci nunca, senhor.
+
+--Offereceu-t'as ella, sevandija?
+
+--Não, senhor.
+
+--Mas ella escrevia-te...
+
+--Sem ser criminosa, por isso...
+
+--Então achas que não é crime escrever a um bandalho?
+
+--Será, se v. s.^a o quer...
+
+--Tenho pena de seres um reptil que faz nojo esmagar com a solla da
+bota! Se tivesses um nome...
+
+--Tenho um caracter, senhor!
+
+Bernardo respondeu com altivez; João Leite riu-se com despreso, e
+olhando-o da cabeça aos pés, replicou:
+
+--Tu sabes que não podes ter caracter, engeitado!?
+
+--Então, terei um braço...
+
+--Um braço!--atalhou o fidalgo em projecto, imprimindo-lhe um valente
+pontapé, que o fez descer tres escadas maquinalmente.
+
+Bernardo assumira toda a dignidade do homem de coração ultrajado. João
+Leite achou-se comprimido entre os braços do _sevandija_ que elle
+suppunha fugir ao primeiro pontapé para evitar o segundo.
+
+Quiz desfazer-se, de prompto, d'este empecilho, e não pôde, porque os
+pés falsearam-lhe, e as costas bateram-lhe com todo o peso sobre os
+degraus de pedra. Tirou rapido de um punhal, e roçou com elle duas vezes
+sobre o braço direito de Bernardo, que o desarmou, no acto em que uma
+terceira punhalada lhe resvalára no peito. O engeitado sentiu-se ferido:
+vacillou um instante na resolução que se debatia entre o homicidio e o
+perdão. Venceu o primeiro. Aquelle punhal tinto de sangue innocente,
+pela segunda vez, derramado, entrou no coração de João Leite, e matou-o.
+
+Isto foi obra d'alguns segundos. João Leite gritára nas convulsões da
+morte; acudiram os creados, e encontraram Bernardo da Silva, de braços
+cruzados ao pé do cadaver, que vibrava nos seus derradeiros
+estorcimentos.
+
+Paulo Botelho tambem acudiu. Primeiro recuou aterrado: depois gritou
+«matem esse homem!» E vendo que ninguem de prompto lhe aceitava o
+diploma de assassino, mandou-o carregar de ferros.
+
+Bernardo caminhou para o carcere, com a fronte altiva, com nobreza de
+passo, com serenidade de consciencia e maneiras d'um principe, segundo a
+linguagem popular dos que o viram.
+
+
+X.
+
+
+Foi processado. Paulo Botelho desenvolveu uma espantosa energia no
+andamento d'esta causa crime. Erguia-se todos, os dias, sofrego da
+escrever uma sentença de forca.
+
+Os depoimentos eram todos contrarios ao infeliz. Um só homem protegeu
+esse preso; sabia-se que era um ancião que lhe levava umas sopas
+diariamente, e palavras consoladoras de esperança sem esperança.
+
+Eulalia, sabendo estes acontecimentos até á vespera do dia em que o
+escudeiro devia ser condemnado, requereu que queria ser ouvida em juizo.
+Não lhe admitiram o seu depoimento. A pobre menina, inspirada da
+eloquencia do martyrio, entrou um dia no côro, quando a communidade
+orava, e invocou o testemunho de Jesus Christo, exclamando, de modo que
+a escutasse o povo que estava na igreja:
+
+«Declaro que esse infeliz homem, que vai morrer, depois de martyrisado
+por meu pai, e apunhalado por um homem que eu despresei, declaro diante
+de Deus e dos homens, que esse infeliz nunca me disse uma palavra só
+para que eu o amasse. Fui eu que o amei, fui eu que lhe escrevi, quando
+entrei n'este mosteiro, fui eu que o fiz desgraçado, mas em recompensa
+hei-de amal-o toda a minha vida, e hei-de unir-me a elle na presença de
+Deus!» Era uma demencia!
+
+Foi grande o assombro dos que a ouviram. O ecco d'este grito chegou aos
+ouvidos de Paulo Botelho, que estava presente; mas a sua alma fôra
+cerrada pela mão corrupta do ouro. O povo murmurava, e dizia que não
+havia de ser enforcado o escudeiro.
+
+Pobre povo, n'aquelles dias, se tentasse tirar das mãos d'um juiz o seu
+instrumento inauferivel, o carrasco!
+
+
+XI.
+
+
+Bernardo foi condemnado á pena ultima; Ergueu-se uma forca nas
+proximidades do delicto, entre a casa do juiz, e a de Francisco de
+Lucena.
+
+Eulalia exaltára-se no martyrio até causar receios de loucura.
+Inspiravam-se de uma dôr de morte as exclamações pungentes que soltava a
+cada ruido que ouvia semelhante ao arranco retrahido d'um justiçado. O
+espectaculo da forca era a sua idêa fixa, desde o momento que uma
+religiosa imprudente lhe annunciou o destino de Bernardo da Silva.
+
+A infeliz, na madrugada do dia da execução, fugiu da cella com os
+cabellos em desordem, com as faces chammejantes de febre, com os olhos
+embriagados de delirio, e com o coração a estalar-lhe de uma dôr que a
+endoudecia.
+
+Chegando á portaria não houveram forças humanas que a contivessem. Os
+ferrolhos cederam ao impulso d'uma fraca mulher, forte da sua
+desesperação; e esta virgem, com habitos de noviça, e bella, na sua
+agonia, como um corpo epileptico que se levanta amortalhado do esquife,
+corria por entre as multidões que principiavam a agglomerar-se para
+testemunharem o desconjuntar dos ossos do pescoço d'um padecente entre
+as mãos do carrasco, seu irmão, ambos filhos do mesmo Deus, ambos
+remidos pelo sangue do mesmo Christo.
+
+Viram-na as multidões passar; muitos a conheceram: alguns pronunciaram o
+seu nome, mas aquella pomba, ferida de morte, era um cadaver que se
+movia impellido pelo choque da pilha galvanica.
+
+Erguera-se um alarido na cidade. As turbas corriam na direcção da
+infeliz, a quem chamavam douda; mas não ousou alguem embargar o passo
+áquella mulher que parecia fascinar com a magestade da sua demencia.
+
+Os que a seguiam esperavam vêl-a entrar em casa de seu pai.
+Enganaram-se. Eulalia subiu as escadas de Paulo Botelho, e entrou no
+salão onde fôra lavrada a sentença de cadafalso para Bernardo da Silva.
+
+Paulo Botelho estremeceu na cadeira, quando viu aquelle alvejar de uma
+larva, ajoelhada nos degraus da tribuna.
+
+Deu-se um profundo silencio de alguns minutos.
+
+Eulalia já não podia coordenar as idêas que poucos dias antes clamára no
+côro. O sorriso da loucura, o gemido suffocante, uma lagrima embebida
+logo no ardor das faces, e algumas palavras entaladas, e apenas
+intelligiveis, eram alternativas que a tornaram mais lastimavel durante
+alguns minutos.
+
+A mulher e tres filhas de Paulo Botelho, que a viram entrar, correram ao
+tribunal, e quizeram arrastal-a d'alli. Era impossivel. A estatua
+parecia chumbada sobre o seu tumulo.
+
+A familia do juiz julgou conveniente empregar o insulto como solução.
+Fallavam do justiçado com certa nauzea, que ellas suppozeram ser o
+balsamo para a ferida mortal de Eulalia. Paulo Botelho, coadjuvando as
+razões da sua familia, cobria de improperios affrontosos o homem que,
+pouco depois, havia de perdoar as injurias com a cabeça no laço da
+forca.
+
+A exaltação afflictiva de Eulalia tinha tocado o ponto culminante da
+morte, ou da alienação irremediavel.
+
+--Innocente! Innocente!--eram os gritos unicos, as derradeiras palavras
+que os labios d'aquella mulher tinham de proferir.
+
+
+XII.
+
+
+N'este momento entrou um homem que redobrou o espanto. Era Pedro Leite,
+pai de João Leite.
+
+Este homem fez signal de querer fallar. Attenderam-no todos com
+religioso respeito.
+
+As suas palavras foram estas:
+
+--Perdôo ao assassino de meu filho! O sangue d'esse homem cahirá sobre a
+minha face! Matou defendendo-se d'um aggressor infame! Senhor juiz de
+fóra, requeiro a suspensão da execução da sentença. Eu sou parte, e
+declaro innocente o réo!
+
+Seguiram-se minutos d'uma estupefacção natural. Eulalia voltou os olhos
+para o homem que fallára, quiz arrastar-se de joelhos aos pés d'elle;
+não pôde; a impressão devia matal-a, ou resuscital-a... desmaiou a meio
+caminho.
+
+O juiz era o algoz moral creado pelo ouro, assim como o carrasco physico
+fôra creado pela lei. Não podia eximir-se a pegar do cutello, e seguir
+seu caminho.
+
+--É tarde!--respondeu elle.
+
+--Não é tarde!--replicou Pedro Leite, e continuou com solemne
+exaltação:--Tarde, senhor juiz, é depois que o tribunal do mundo se
+fecha atraz d'aquelle que vai entrar no tribunal de Deus! Tarde, é
+quando um juiz de entranhas ferozes se apresenta no banco dos réos
+condemnados com a face borrifada de sangue innocente!
+
+--Basta!--exclamou Paulo Botelho com authoridade!
+
+--Pois sim... basta! mas, abaixo de Deus, invoco o testemunho das
+pessoas que me escutam. Declaro que lavo as mãos d'este sangue innocente
+que vai ser derramado!
+
+O povo murmurou com acanhamento, com a consciencia cobarde da sua
+nullidade, mas balbuciou não sei que palavras que irritaram o juiz.
+
+--Não se trata só de punir o assassino de João Leite!--exclamou o
+juiz--trata-se de castigar a affronta que recebeu um nobre, feita por um
+lacaio que ousou levantar olhos de amante para sua filha!
+
+--Não, não!--gritou Eulalia, erguendo-se com impeto, com as mãos postas,
+e cahindo outra vez sobre os joelhos.
+
+O cynico já não tinha coragem para tanto! Soára a hora do ultimo mandato
+ao carcereiro. Expirára o ultimo instante de oratorio.
+
+--Cumpra-se a lei!
+
+Disse o juiz, e fez menção de retirarem-se as ondas de povo que tinham
+concorrido em tropel, chamadas pelos gritos de Eulalia, e pelo perdão
+publico de Pedro Leite.
+
+Eulalia foi conduzida em braços para o interior da habitação do juiz.
+
+
+XIII.
+
+
+A procissão onde a impudencia collocára um Christo, o Deus da caridade,
+nas mãos d'um padecente, que hia ser esganado!... a procissão, onde se
+via um homem de tunica branca, um algoz de cutello e alcofa, alguns
+sacerdotes d'um Deus misericordioso!... a procissão descia terrivel de
+repulsiva solemnidade para o açougue d'aquella rêz! A tumba da
+misericordia fechava aquella orgia de sangue! Era um insulto a Deus! o
+cadaver d'um homem atirado á face do Creador! um escarneo satanico á
+intelligencia, e ao coração da humanidade!
+
+O prestito parou na praça do sacrificio.
+
+Bernardo com os olhos fitos no céo via nascer a risonha aurora da
+eternidade. Sorriam-lhe os anjos, e a justiça de Deus mostrava-lhe o seu
+regaço. A morte do justo era um crepusculo de nova existencia a
+alumiar-lhe o rosto. Inspirava devoção aquelle seu santo sorrir para o
+seio do céo que se lhe abria! Trazia nas mãos a imagem do Redemptor; mas
+lá em cima via elle o Espirito Creador, a grande alma, onde se refugiam
+as almas dispersas na face d'este mundo, e perseguidas pelo demonio da
+ira, e da vingança, eternamente encarnado no homem, a quem a sociedade
+entregou o azorrague da flagellação do virtuoso.
+
+Bernardo caminhava a passo firme para a escada da forca. Estavam
+contrahidas as respirações. Um gemido, menos suffocado, podia ser ouvido
+por quinze mil almas que vieram a contemplar aquelle apparelho de morte,
+segundo a lei, _formulada pelas inspirações do Evangelho_! pelo codigo
+dos perdões! pelos preceitos do Filho de Deus que morrêra, perdoando!
+
+
+XIV.
+
+
+Através da multidão abriu-se uma clareira para deixar passar um homem,
+que devia representar um principal papel n'aquelle festim da lei.
+
+Convergiram todas as attenções para aquelle ponto.
+
+Era Pedro Leite--ainda o pregoeiro da innocencia de Bernardo, com a face
+cadaverica das longas noites que chorára sobre o tumulo de seu filho
+unico.
+
+Quem disse a este homem que Bernardo da Silva era um innocente?
+
+Que força occulta o arrasta a abençoar nas escadas da forca o assassino
+de seu filho?
+
+Phenomenos occultos da Providencia! A voz de Deus, soando pelos labios
+do mysterio! Explicai-me as operações de Deus, e eu vos explicarei a
+inspiração sobrenatural que obriga a balbuciarem o perdão os labios, que
+beijaram morto um filho estremecido...
+
+Pedro Leite aproximou-se do justiçado. Ninguem lhe embaraçou o passo.
+
+Cheio de magestade, de poesia funebre, e de santo terror, fallou assim:
+
+«Eu venho pedir o seu perdão á beira do patibulo. Fui eu que o arrastei
+até ao tribunal em que foi condemnado; mas não sou eu que o arrasto
+aqui. Bradei em favor da sua innocencia. Pedi, ha momentos, a suspensão
+d'este acto, em que a minha dôr será mais... muito mais prolongada que a
+sua. Não me ouviram: impozeram-me silencio, e mandaram-me sahir do
+sanctuario da lei, que resfolegava sangue pela bocca do seu sacerdote.
+
+Venho pedir o seu perdão nas escadas da forca, e vasar o fel, que me
+devora a consciencia, na consciencia do juiz implacavel que pede a sua
+cabeça a altos gritos!»
+
+Ouviu-se um prolongado murmurio. Era a onda popular que refervia sopeada
+entre as rochas da sua impotencia moral, n'aquelles dias, em que o
+sangue d'um plebeu continuava a operação regeneradora do sangue de Jesus
+Christo.
+
+Bernardo ouviu com presença de espirito a exclamação de Pedro Leite.
+
+«Eu lhe perdôo!»
+
+Foram as suas palavras unicas.
+
+Choraram-se então muitas lagrimas. A piedade teve uma explosão, que as
+cronhas dos soldados reprimiram. As turbas queriam rasgar o quadrado
+para arrancarem da morte um santo. Este conflicto foi serenado por outro
+mais sublime. Ouviu-se uma voz. Viu-se um homem que sobresahia entre as
+molas populares. Era o velho, protector unico de Bernardo da Silva,
+durante a sua prisão. Poucos o conheciam.
+
+Foram estas as suas palavras:
+
+«Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr teu filho que morre
+enforcado! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr o filho da mulher
+que deshonraste, como é nobre nas escadas da forca! Nobre senhor
+Francisco de Lucena! vem vêr teu filho, o filho de minha filha, que
+borrifa os teus pergaminhos com o teu sangue illustre!»
+
+E calou-se. Calaram-se todos. E aquelle homem lá estava erguido como o
+anjo dos tumulos á espera que Deus mande quebrar a lousa d'uma mulher
+que ahi falta n'esse trance afflictivo!
+
+Essa mulher morrêra, deshonrada, suffocada pela mão da ignominia, a que
+a soberania fidalga de Francisco de Lucena a abandonára.
+
+Esse ancião era o pai d'essa mulher, unico que recebêra em seus braços o
+filho da deshonra, unico sabedor d'aquella existencia, que acompanhou
+sempre, porque lhe marcára um braço com uma cruz. Desde o ventre á
+forca, de longe, desconhecido, com o segredo da deshonra de sua filha
+abafado no coração, este homem seguira os vestigios do neto, sem
+declaral-o nunca, porque um appellido illustre não o salvava a elle
+d'uma _illustre_ ignominia.
+
+Que impressão fez este homem nas turbas? A do espanto. Mas, momentos
+depois, chamavam-lhe Doudo. Por ordem do juiz de fóra hia ser preso o
+demente. Aproximou-se a justiça d'el-rei. «É doudo...!» dizia o meirinho
+ao lançar-lhe a mão.
+
+«_Não é doudo_... é MORTO... » responderam algumas vozes.
+
+Morto, sim!
+
+
+XV.
+
+
+Hia consummar-se aquelle enredo de peripecias terriveis.
+
+Bernardo poz o pé direito na ultima prancha da forca. Voltou-se para o
+povo. Brilhou-lhe na face o clarão d'um outro mundo. A sua voz era
+melodiosa como o cantico do anjo da morte suavissima: mas n'aquelle todo
+via-se a terrivel magestade do anjo do dia final. As suas ultimas
+palavras foram estas:
+
+«Ouvide a praga d'um padecente, rogada nas escadas da forca: Que a
+justiça de Deus se cumpra na presença dos homens!»
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+O povo voltou o rosto do aspecto hediondo d'uma face injectada de sangue
+negro. Outros viram-lhe uma onda de luz cingindo a fronte. N'esse
+momento ajoelharam muitos justos pedindo ao espirito do justiçado a sua
+protecção na presença de Deus!
+
+
+CONCLUSÃO.
+
+
+Passaram quinze dias.
+
+Eulalia de Lucena recuperára o juizo, e entrára no mosteiro. Um anno
+depois, professára. A sua vida foram tres annos de adoração extatica.
+Ouviram-na murmurar palavras celestes, como em dialogo. Dizia-se que um
+anjo devia apparecer-lhe n'aquelles arrobamentos. Chamavam-lhe santa, e
+adoraram-na morta.
+
+Passados quatro annos, Francisco de Lucena, sempre afastado de sua filha
+pela mão do remorso, morreu de repente no mesmo local em que fôra
+hasteada a forca.
+
+Simão Botelho, filho de Paulo Botelho, déra um tiro em seu pai. O pai
+quiz sentencial-o: deu-lhe sentença de forca, que depois lhe foi
+commutada em degredo perpetuo. Apenas desembarcou em Cabo Verde,
+abriu-se-lhe uma sepultura.
+
+Paulo Botelho, desembargador aposentado, dez annos depois, morria á
+vigesima quinta punhalada que recebêra, por não dar exactas informações
+d'um peculio de cincoenta mil cruzados que guardava em uma quinta nas
+visinhanças de Villa Real.
+
+A mulher de Paulo Botelho morria douda no hospital de S. José um anno
+depois.
+
+Restavam tres filhas de Paulo Botelho.
+
+Foram devassas até ao escandalo de serem arrastadas a um recolhimento
+por expresso mandado regio.
+
+Uma appareceu morta n'um aqueducto por onde procurára evadir-se.
+
+Outra casou com um homem que a retalhou de martyrios.
+
+A terceira enforcou-se no batente de uma porta.
+
+A Justiça de Deus Cumpriu-se na Presença dos Homens.
+
+A praga do justiçado nas escadas da forca teve o seu complemento do
+genero de morte que a ultima pessoa d'aquella familia se déra.
+
+Forca por forca.
+...........................................................................
+
+Tendes a curiosidade das averiguações? Procurai em alguns cartorios de
+Vizeu a sentença pronunciada entre 1776 e 1780.
+
+
+REMATE.
+
+
+Não sou contumaz, nem me ufano de relapsia.
+
+De tudo que disse me desdigo, se algum inquisidor intoleravel deparar
+ahi heresia, contra-senso, atrevimento ou cousa que duvida faça contra
+Plutus, unico deus da unica religião cujo codigo penal me intimida.
+
+Ha cousas incriveis n'este volume? É que eu, e os meus amigos
+litteratos, poetas, jornalistas, e até redactores encartados de
+necrologios sabemos passagens que arripiam carnes e cabellos. Se o siso
+commum as não adopta, é que os chronistas do tempo formam, á parte, um
+_status in statu_, cousa inintelligivel aos que não sabem latim, por
+grande fortuna sua.
+
+N'este synhedrim ha uma moral, estragada se o quizerem, mas os
+evangelistas, que a propagam são Catões, com tanto que os não obriguem a
+inquietar a sadia tranquillidade dos intestinos. Aqui, não se sacrifica
+um dedo a uma pisadella, porque não vale a pena.
+
+É necessario escrever, visto que ha leitores.
+
+Eu, e os meus correligionarios, se até hoje não temos irradiado sobre a
+humanidade ondas de luz, é porque a humanidade precisava ser,
+primeiramente, operada na catarata. O luzeiro da civilisação aqueceu,
+não ha muito, a concha em que, por aqui, se escondiam muitos molluscos
+moraes, que vão sahindo agora a espanejar-se ao sol.
+
+Não quero dizer que os molluscos passassem a articulados. Póde muito bem
+ser que o leitor, ou leitora sejam ainda legitimos molluscos; mas a
+excepção deploravel não claudica a generalidade. E, por tanto:
+
+Eu, e os meus amigos, mencionados acima, considerando que a candeia não
+deve estar muito tempo debaixo do alqueire, nem os talentos (dinheiro)
+soterrados vencem juros: e tendo nós outro sim, em muito afan e desvelo
+desaffrontar a litteratura patria de injurias com que estrangeiros e
+nacionaes a desconceituam, desairando-a como pobre de romances, pela sua
+incapacidade inventiva--o que não só é malicia, mas até aleivosia:
+resolvemos escrever romances em que figurassem muitas pessoas nossas
+conhecidas, e outras, que viremos a conhecer no decurso d'esta meritoria
+tarefa.
+
+Pelo que, a mim, humilde entre os humildes apostolos d'esta idêa lucida,
+coube o quinhão de trabalho, que a posteridade me devolverá em gabos e
+applausos, e o futuro Plutarcho dos homens illustres d'esta freguezia de
+Cedofeita, em que tenho a honra de morar, não deixará de consignar nos
+fastos gloriosos.
+
+Disse.
+
+
+
+
+PATHOLOGIA DO CASAMENTO.
+
+
+DEDICATORIA.
+
+
+ _Exc.^{ma} snr.^a D. Fulana._
+
+
+Conceda-me v. exc.^a a gloria de offerecer-lhe um quadro d'esta galeria.
+Vai lêr um drama intitulado Pathologia do Casamento.
+
+_Pathologia_, minha querida snr.^a D. Fulana, é uma palavra grega,
+composta de _pathos_, doença, e _logos_, tractado. Quer, por tanto,
+dizer _molestias do casamento_.
+
+Balzac escreveu a «_physiologia_»; outro, que me não vem á memoria,
+escreveu «_anatomia do coração_»; faltava uma «_pathologia_» que
+apparece agora, e, mais tarde, se me não faltar a vista intellectual,
+que já sinto muito cançada, escreverei a «_Pharmacia do casamento_» que
+hei-de dedicar a uma outra D. Fulana, que eu cá sei.
+
+V. exc.^a é uma senhora fina, que, além de ter a cabeça no seu lugar,
+apresenta muitas vezes lume no olho. Sympathiso com o seu talento, e
+talvez casasse com a snr.^a D. Fulana, se tivesse a certeza de podermos
+entreter o nosso tempo traduzindo os trinta e sete livros de Plinio, e
+os trinta e cinco _De Linguâ Latinâ_ de Terencio Varro, que Deus tem em
+sua santa gloria.
+
+Penso que v. exc.^a não estaria por isto. O seu espirito tem calefrios
+de enthusiasmo, e eu, a fallar-lhe a verdade na sua nudez patriarchal,
+devo dizer-lhe que tenho dentro do peito uma mumia, que poderia valer
+alguma cousa nas ruinas de Memphis, mas não vale nada no cavername
+ossudo d'este seu creado.
+
+Eu preciso d'uma mulher d'oculos, e pitada constante nos dedos. Quero
+que ella me falle dos Heraclidas, das Saturnaes de Macrobio, de Creta e
+de Lacedemonia, da Beocia e Epaminondas.
+
+Eu não sei se v. exc.^a sabe alguma cousa d'isto; mas desconfio que não.
+Falla-me muito em Victor Hugo, e na _Petite Fadete_ de George Sand. Já a
+encontrei a lêr _les Liaisons Dangereuses_, e a _Manon Lescaut_.
+Palpita-me que a snr.^a D. Fulana tem na cabeça muita somma de têas de
+aranha, e não serei eu a vassoura da limpeza.
+
+Não obstante, respeito-a, admiro-a até ao ponto de lhe offerecer a minha
+«_Pathologia do Casamento_.»
+
+Digne-se v. exc.^a acolhel-a no regaço da sua benevolencia, e dê-me
+occasiões de mostrar-lhe que sou
+
+ De v. exc.^a
+
+o ultimo creado, e o primeiro dos seus admiradores,
+
+ _Camillo Castello Branco_.
+
+
+PERSONAGENS.
+
+
+D. Leocadia 18 annos.
+D. Julia 20 »
+A Viscondessa de Valbom 45 »
+Jorge da Silveira 30 »
+Alvaro de Castro 32 »
+Eduardo Leite 30 »
+O Visconde de Valbom 50 »
+
+_Damas, cavalheiros, e creados_. (Podem ter a idade que quizerem).
+
+A scena dizem que se passou no Porto; mas o author não impõe, Mafoma
+dramatico, a crença a ninguem. Cada qual fique no que lhe parecer; mas,
+se, effectivamente, os personagens existem, tenham paciencia.
+
+
+
+
+PATHOLOGIA DO CASAMENTO.
+
+
+
+
+ACTO I.
+
+
+DECORAÇÃO.
+
+
+ _Uma saleta contigua a um salão de baile, separada por largas
+ portadas de vidro, através das quaes se vêem perpassar, em passeio,
+ damas e cavalheiros_.
+
+
+SCENA I.
+
+ Julia, _e_ Leocadia, _entrando, como fatigadas, sentam-se n'um
+ sophá._ Julia _tira da cabeça uma grinalda de flôres brancas, que
+ arremessa com desdem sobre o sophá_.
+
+
+Julia.--Afflige-me tudo!... Tomára-me eu na minha liberdade, Leocadia!
+Não goso nada... Tanta luz parece um insulto á escuridão da minha
+alma... Queria-me sosinha...
+
+Leocadia.--Não tens paciencia nenhuma, Julia!... Que é o que te afflige
+assim?
+
+Julia.--Que é!... É aquelle homem... Sempre aquelle homem!... não ha
+nada que o desengane...
+
+Leocadia.--Nem as palavras?!
+
+Julia.--Eu sei!... nem as palavras, talvez...
+
+Leocadia.--Porque não és franca?! Eu, de mim, na tua posição, tinha-lhe
+dito: «não me persiga!» É o que eu já disse a Eduardo...
+
+Julia.--Eu não sei dizer isso... Acho que é aviltar demasiadamente um
+homem... Pois tão estupido é elle, que precisa uma franqueza tão
+impropria d'uma senhora? Tenho feito tudo que póde desenganar um
+homem... Teima, persegue-me, flagella-me... é insupportavel!... Ainda ha
+pouco, entre mim e Jorge...
+
+Leocadia (_sobresaltada_).--E Jorge!...
+
+Julia.--Que modo é esse!? Jorge interessa-te!?
+
+Leocadia.--E a ti?
+
+Julia.--A mim?... Pois não sabes...
+
+Leocadia.--O que?... não sabia... Elle ama-te?
+
+Julia.--Tem-m'o dito...
+
+Leocadia.--Elle!... tem t'o dito... Jorge!...
+
+Julia.--E tambem a ti?... Falla depressa...
+
+Leocadia (_contrafeita_).--Não... a mim... não... mas a ti... sim?
+
+Julia.--Penso que sim... mas esse descorar... Leocadia!...
+
+Leocadia.--Fui eu que me enganei... Pensava...
+
+Julia.--Talvez te não enganasses... Que te disse elle?
+
+Leocadia.--Nada... Vamos nós á sala?...
+
+Julia.--Já?!... Eu não vou já... Vai tu, se queres...
+
+Leocadia.--Que é o que me querias dizer?... Disseste que entre ti e
+Jorge...
+
+Julia.--Estava uma cadeira de vago... Alvaro vinha occupal-a, e eu
+ergui-me de repente, e occupei-a primeiro...
+
+Leocadia.--E Alvaro... nem assim...
+
+Julia.--Me comprehendeu... Sentou-se na immediata, e disse não sei que
+frioleira...
+
+Leocadia.--Se tu és tão amavel!...
+
+Julia.--Ai!... tu queres imital-o?! É o que elle me diz cem vezes em
+cada baile...
+
+Leocadia.--Uma verdade, por muito repetida, nunca perde o merecimento...
+
+Julia.--Que maneira de fallar!... Quem me dera adivinhar-te! Tu amas
+Jorge!...
+
+Leocadia.--Não, menina... Eu não amo ninguem...
+
+Julia.--Ninguem?! nem a tua Julia?
+
+Leocadia.--A minha Julia não póde repartir o seu coração... Não quero
+entrar em partilha com Jorge... O peor quinhão seria para mim, porque
+não ha nada superior a elle... Ficas?
+
+Julia.--Fico a scismar... Vem cá, Leocadia... sê franca, senão... não
+sou tua amiga... Jorge será um impostor?...
+
+Leocadia.--Perguntasm'o a mim!? Eu não sei...
+
+Julia.--Terá tido a mesma linguagem para ambas?
+
+Leocadia.--Disse que te amava?... A mim... não me disse nada...
+
+Julia.--Então és tu que o amas?
+
+Leocadia.--Não... Olha, minha amiga, faz de conta que eu ouvi com
+perfeita indifferença a tua revelação... Até logo... Ai!... diz-me cá...
+O teu namoro é antigo... ou começou aqui?
+
+Julia.--Com Jorge? É muito moderno... Tem um mez... É uma creança, mas
+já foi baptisado com lagrimas...
+
+Leocadia.--Já? Pois afaga-o muito na alma... Sê muito feliz.... que eu,
+se te não felicitei mais cedo, é porque o não sabia... Vou lá dentro...
+Minha mãi deve reparar n'esta ausencia...
+
+Julia.--Não me deixes agora que ahi vem Alvaro... É insupportavel!
+
+Leocadia.--Ora!... que mal te faz o homem?!... Eu volto já... Olha...
+diz-lhe que amas Jorge... é impossivel que elle queira sustentar a
+competencia... (_Sahe_).
+
+
+SCENA II.
+
+Julia _e_ Alvaro.
+
+
+Alvaro.--Está incommodada, snr.^a D. Julia?
+
+Julia.--Não, senhor.
+
+Alvaro.--Então está aborrecida...
+
+Julia.--De certo...
+
+Alvaro.--Menos, quando ao seu lado um certo cavalheiro de luneta...
+
+Julia.--Ah! o senhor vem pedir-me satisfações? É engraçada a
+liberdade!...
+
+Alvaro.--Não lhe peço satisfações... Se as minhas palavras foram
+indiscretas, seja generosa, perdoando-m'as.
+
+Julia.--Muitos perdões me tem pedido, snr. Alvaro!... A minha
+generosidade com v. s.^a chega já a parecer-se...
+
+Alvaro.--Com a virtude d'uma santa?
+
+Julia.--Não queria dizer isso...
+
+Alvaro.--Queria dizer que chega a parecer-se...
+
+Julia.--Com um excesso de imbecil paciencia.
+
+Alvaro.--Isso é muito forte!... Eu não lhe mereço tanto! Nunca lhe disse
+affrontas...
+
+Julia.--Com que direito ha-de dizerm'as?
+
+Alvaro.--Não tenho nenhum? absolutamente nenhum?
+
+Julia.--De certo, nenhum...
+
+Alvaro.--A paixão cega o entendimento...
+
+Julia.--Não é minha a culpa...
+
+Alvaro.--É toda...
+
+Julia.--Toda?... pois eu authorisei-o? Disse-lhe alguma vez que o amava?
+
+Alvaro.--Nunca m'o disse... porque...
+
+Julia.--Porque o não sentia... Que mais lhe posso dizer agora?
+
+Alvaro.--Depois d'isso, mais nada. (_Retira-se_).
+
+Julia.--Foi preciso isto... Ainda bem!... (_Ouve-se a musica d'uma
+polka_. _Julia enfeita-se ao espelho com a grinalda, e sahe_).
+
+
+SCENA III.
+
+Jorge _e_ Eduardo.
+
+
+Jorge.--Tu vaes ser verdadeiro, Eduardo?
+
+Eduardo.--Como Epaminondas Thebano, que nem zombando mentia. Não me
+lembra d'outro estafermo antigo que fallasse verdade...
+
+Jorge.--Tu tens algumas intelligencias com Leocadia?
+
+Eduardo.--Diz-me cá, Jorge, póde fumar-se aqui?
+
+Jorge.--Não... se queres vamos á sala debaixo...
+
+Eduardo.--Não posso, que tenho a sexta quadrilha com Leocadia... Diz lá
+o que queres...
+
+Jorge.--Perguntei-te se amavas Leocadia.
+
+Eduardo.--Gosto muito d'ella... Depois d'um bom charuto, é o meu sonho
+dourado.
+
+Jorge.--E ella...
+
+Eduardo.--Gosta de mim? não sei bem ainda... Perguntei-lh'o ainda agora
+pela vigesima vez... Disse-me que sim, e é a primeira vez que m'o diz...
+Se mente, lá se avenha com a sua consciencia...
+
+Jorge.--E é a primeira vez que te disse que sim?
+
+Eduardo.--A primeira, palavra d'honra, Jorge!
+
+Jorge.--E que conclues d'ahi?
+
+Eduardo.--Concluo que não gostou até hoje.
+
+Jorge.--E não conclues mais nada?
+
+Eduardo.--Nem quero.
+
+Jorge.--Não suppões que ella amasse, até este momento, outro homem?
+
+Eduardo.--Não só supponho; mas até acredito... Nada de emboscadas...
+Essa diplomacia parece-me uma velhacaria rançosa... Sei que amas
+Leocadia, ou, se a não amas, que a amaste já... Eu não tenho nada com o
+passado, nem com o futuro... A minha grande questão é a actualidade. São
+arrufos? Deixal-os ser: aqui estou eu para encher as lacunas, e tenho
+n'isso muita honra... Nunca me importou saber que tentos lavravas no
+coração da pequena. Vi-te fazer de Cesar, e eu fiz de Fabio. Agora, cada
+um de nós segue o seu systema... E até logo... Acho que não te queres
+bater...
+
+Jorge.--Eu não me bato por estimulos tão pouco despertadores do brio...
+
+Eduardo.--Fazes tu muito bem... Eu tambem zango de duellos,
+principalmente por causa de mulheres... que comem _sandwichs_, e bebem
+limonadas... Falla-me logo... (_Sahe_).
+
+
+SCENA IV.
+
+Jorge _e depois_ Julia.
+
+
+Jorge.--Eu tinha previsto tudo... Era necessario renunciar uma das
+duas...
+
+Julia.--Procurava-o...
+
+Jorge.--Sim?... que é, Julia?
+
+Julia.--Diga-me: poderei confiar a Leocadia o segredo do nosso amor?...
+Vacilla?... responda!...
+
+Jorge.--Tem precisão de confidentes?
+
+Julia (_sorrindo_).--Tenho, porque me não cabe a felicidade no
+coração... Posso?...
+
+Jorge.--E é forçoso que seja Leocadia?!
+
+Julia.--É... preferi-a entre todas as minhas amigas... Que embaraços são
+esses?!
+
+Jorge.--Entendo que não deve revelar a ninguem o nosso amor.
+
+Julia.--Sim?... porque m'o não disse?... Já agora, perdeu-se a sua
+discrição... Eu disse tudo...
+
+Jorge.--A quem?
+
+Julia.--A Leocadia...
+
+Jorge (_á parte_).--Está explicado o enigma!...
+
+Julia.--Nada de monologos... falle comigo... Ora, snr. Jorge... que
+necessidade tinhamos nós de corarmos um na presença do outro!?
+
+Jorge.--Eu não córo... A côr d'este rosto só póde alteral-a uma infamia.
+
+Julia.--Dê o nome que lhe aprouver ao seu acto, que eu não lhe conheço
+outro... V. s.^a feriu-me, e cicatrizou-me a ferida... São boas todas as
+affrontas que nos despertam a sensibilidade da honra... A lembrança do
+ultraje ha-de fazer que eu esqueça a causa depressa... Fez bem... Deixou
+cahir a mascara muito a tempo... (_Retira-se_).
+
+Jorge.--Escute-me, Julia... (_Vai sentar-se no sophá_).
+
+
+SCENA V.
+
+Jorge, _e_ Eduardo, _dando o braço a_ Leocadia.
+
+
+Eduardo.--Será isto um sonho?... Se o é, deixe-me sonhar uma hora, sim?
+
+Leocadia (_sorrindo_).--Tambem ha sonhos de que se acorda com a face
+cheia de lagrimas...
+
+Eduardo (_para Jorge_).--Ainda aqui!... (_Leocadia estremece_).
+
+Jorge.--Ainda aqui... não estou mal... Tem dançado muito, minha senhora?
+
+Leocadia.--Principiei agora...
+
+Jorge.--Pois ainda tem muito tempo de gosar... São tres horas... Nunca
+lhe esqueça que foi ás tres horas...
+
+Leocadia.--Não o comprehendo, snr. Jorge... Que tenho eu com as tres
+horas do seu relogio?
+
+Jorge.--Não se finja simples como donzellinha que sahiu hontem do
+collegio...
+
+Leocadia.--Antes uma fingida innocencia que uma descarada impostura.
+
+Jorge.--Não entendo.
+
+Eduardo.--Os senhores dizem que não se entendem, e eu de certo não os
+entendo melhor. Não façam ceremonia de mim. Queiram explicar-se de modo
+que eu possa reconcilial-os.
+
+Jorge.--Reconciliar-nos!... Não estamos divorciados... O que me prende a
+esta senhora são os respeitos e considerações que se lhe devem. Em
+quanto ella se não desviar da carreira d'um nobre procedimento, as
+nossas relações não soffrem quebra...
+
+Eduardo.--Pois n'esse caso, meu caro Jorge, serás sempre o respeitador
+d'esta senhora, porque os anjos não se precipitam desde que um, ha
+muitos annos, teve o mau gosto de se precipitar do céo.
+
+Jorge (_sorrindo_).--Snr.^a D. Leocadia...... snr.^a D. Leocadia!...
+(_Retira-se_).
+
+
+SCENA VI.
+
+Eduardo _e_ Leocadia.
+
+
+Eduardo.--Fallemos seriamente, minha senhora. V. exc.^a n'um momento de
+ciume, dignou-se empregar-me no seu serviço como instrumento de barro,
+que se quebra, feito o serviço, não é verdade?
+
+Ora ande lá... não perca o animo, supposto que o escarlate do pejo não
+lhe fica mal... acho-a muito mais bella... Parece-me que adivinho o
+segredo... V. exc.^a encontrou em flagrante delicto de ternura o
+sensivel Jorge com a sensivel Julia... Ferida na sua vaidade, quer
+vingar-se, e eu represento n'este negocio o _tertius_ sem o _gaudet_.
+Perdoará o latim... quiz dizer que represento n'este negocio uma triste
+figura... Já não é a primeira vez... Não se inquiete, que eu tambem me
+não incommodo... Tire de mim o partido que quizer...
+
+Leocadia.--Snr. Eduardo... não devia fallar-me assim... Essas palavras
+são tão repassadas de ironia...
+
+Eduardo.--É o meu genio... Sou um Democrito pequenino, porque tambem são
+ridiculamente pequenas as cousas que me fazem rir... Ahi vem uma que me
+arranca do profundo da consciencia uma legitima gargalhada.
+
+Leocadia.--Que é?
+
+Eduardo.--É a sua amiga Julia pelo braço de Alvaro, em intima
+conversação... Não acha tudo isto tão comico?
+
+
+SCENA VII.
+
+Leocadia, Eduardo, Julia _e_ Alvaro.
+
+
+Eduardo (_para Alvaro, sorrindo_).--Os reis da noite somos nós, snr.
+Alvaro... Logo despimos a purpura de reis de comedia, e fumamos um
+pessimo cigarro do contracto...
+
+Alvaro.--Não entendo a finura do epigramma.
+
+Eduardo.--Então, é mais feliz do que eu suppunha... Póde contar com o
+reino do céo... Deveras não entende?
+
+Alvaro.--Não, e dispenso as explicações officiosas do meu amigo...
+
+Eduardo (_rindo_).--Espero que á solemnidade do estilo, se não siga um
+cartel de desafio...
+
+Leocadia.--Que linguagem!... É bem galhofeiro o seu caracter, snr.
+Eduardo!
+
+Eduardo.--Muito galhofeiro, minha rica senhora... E alli o do meu amigo
+é sombrio como o d'um encapotado de drama em cinco actos.
+
+Alvaro.--A verdade é que nos não parecemos...
+
+Eduardo.--Felizmente para o senhor ou para mim... Mas na singelesa do
+coração, na temperatura do amor, ha-de permittir que sejamos parecidos
+como Pylades com Orestes...
+
+Alvaro.--Não temos semelhança nenhuma... Eu não posso brincar com as
+paixões...
+
+Eduardo (_áparte, a Leocadia_).--É da força de trinta Paulos; mas a
+Virginia que o escuta, só com os olhos, d'aqui a pouco remette-o ao
+catalogo dos Othellos em quarta mão. (_Alvaro e Julia retiram-se_).
+Espero que não se baterá comigo, snr. Alvaro... Não respondeu!...
+Aquelle silencio não quer dizer nada; mas, quem não conhecer o homem,
+ha-de suppor que a cratera vai rebentar... Quer sentar-se, minha
+senhora?...
+
+Leocadia.--Sim... um momento... Ahi vem Jorge.
+
+Eduardo.--Ah!... V. exc.^a estremece!... Muito me ama! (_rindo_). É
+d'uma ingenuidade mythologica!...
+
+
+SCENA VIII.
+
+Leocadia, Eduardo _e_ Jorge.
+
+
+Jorge.--Eduardo, preciso roubar-te um instante a essa senhora... tens a
+bondade!
+
+Eduardo.--Ah! sim... esta senhora não vai de certo queixar-se á policia
+pelo roubo...
+
+Jorge (_a sós_).--Fazes um sacrificio deixando-me cinco minutos com
+ella?
+
+Eduardo.--Sacrificio... nenhum; mas a decencia pede que eu não esteja
+aqui servindo de sentinella á vista a um teu namoro... Ai!... espera...
+eu dirijo-me a estas duas almas penadas, que ahi vem... Vou
+comprimental-as, e tu, como penetrante abutre, desce o vôo sobre a
+presa... (_Comprimenta duas damas, vestidas de branco, em quanto Jorge
+vai sentar-se ao lado de Leocadia_). Parecem-me dous anjos, minhas
+senhoras. São duas virgens de Taurida, que fazem lembrar as alvissimas
+virtudes de Ephigenia... (_As damas, que elle acompanha, com gaifonas
+cortezãs, retiram-se sorrindo_).
+
+
+SCENA IX.
+
+Jorge _e_ Leocadia.
+
+
+Jorge.--Que caprichos são estes, Leocadia?
+
+Leocadia.--Caprichos!... O sentimento d'uma offensa é um capricho?!
+
+Jorge.--Qual é a offensa? Uma leviandade de Julia?
+
+Leocadia.--A leviandade foi minha, que não quiz imital-a a ella e a
+muitas, que sabem pisar os homens aos pés antes de lhes darem a mão para
+que se levantem. Eu dei-lhe a minha alma sem reserva... Fiz do meu amor
+um sagrado mysterio com medo que m'o profanassem. Violentei-me a
+olhal-o, em publico, com indifferença, para que ninguem me invejasse.
+Eram estes os seus conselhos, Jorge... Hoje é que eu comprehendo a
+horrivel significação d'este plano. O senhor precisava do segredo para
+agradar a muitas victimas illudidas com um só lance de olhos... Creia
+que tenho tanta pena de mim como de Julia...
+
+Jorge.--Olha, Leocadia... se o meu crime foi grande, a tua vingança
+excede-o... Não me pareces o anjo resignado que eu imaginei... O que eu
+acabo de fazer foi uma experiencia na tua alma... O resultado foi
+infeliz! Nunca previ que consentirias ao teu coração um arrojo
+vingativo, indigno de ti...
+
+Leocadia.--Que fiz eu?
+
+Jorge.--Que fizestes tu?... É boa a pergunta!... Procuraste n'esse salão
+o homem mais desacreditado, o espirito mais corrompido, o cynico mais
+orgulhoso de o ser, e disseste-lhe que o amavas, sorriste angelicamente
+ás suas phrases ironicas, e nivelaste-me com elle, apresentando-m'o como
+rival!... Eu... rival de Eduardo!...
+
+Leocadia (_com vivacidade_).--Como rival... nunca! Elle não podia ser
+seu rival... porque eu não tenho dous corações.... Fui imprudente...
+confesso que fui; mas não pude mais... a punhalada feriu-me de repente,
+não me deu tempo de pensar... disse-lhe não sei quê dos labios, mas o
+coração aborrece-o, porque eu não posso amar alguem com mais virtudes do
+que tu... pouco me importa que tu sejas tão cynico, tão desmoralisado
+como Eduardo... Oh! Deus queira que me não ouvissem... Ahi vem Julia...
+Eu retiro-me... A mãi está com os olhos fixos em mim... (_Menção de
+sahir_).
+
+
+SCENA X.
+
+Alvaro , Julia _e_ Jorge.
+
+
+Julia (_passando por Leocadia_).--Muitos parabens, minha amiga...
+
+Leocadia.--De que?
+
+Julia.--Transigiste amigavelmente?...
+
+Leocadia.--Não sei que dizes...
+
+Julia (_ironica_).--Innocentinha... (_Leocadia sahe_. _Passam alguns
+grupos de homens e senhoras_).
+
+Alvaro (_que não vê Jorge_).--Jorge não é homem talhado para o seu
+coração...
+
+Julia.--Falle baixo, que elle está muito perto... Mas não se cale...
+diga alguma cousa.
+
+Alvaro.--É necessario ter o coração puro de amores viciosos para
+conceber a sublime candura do seu...
+
+Julia.--Hei-de morrer sem ser comprehendida...
+
+Alvaro.--Não nasceria eu para comprehendêl-a?
+
+Julia.--Ai! não... a minha alma é um abysmo, onde se esconde o anjo do
+bem, e a serpente do mal... Tenho na mesma intensidade transportes
+d'amor e odio...
+
+Alvaro.--Qual lhe mereço?...
+
+Julia.--Quer-me sincera? uma verdadeira estima de irmã...
+
+Alvaro.--Só?
+
+Jorge (_sem erguer-se do sophá_).--Ó snr. Alvaro!... Que tal acha a
+eloquencia d'esta senhora?
+
+Alvaro.--A pergunta é celebre; todavia, responderei: a eloquencia d'esta
+senhora é excellente...
+
+Jorge.--E v. exc.^a, snr.^a D. Julia, que tal acha a eloquencia
+d'aquelle senhor?
+
+Julia.--Eu sou menos generosa que este cavalheiro: não lhe respondo.
+
+Jorge.--Responda, responda, que v. exc.^a não é responsavel pelo que
+diz...
+
+Alvaro.--Eu não posso consentir que se affronte assim uma senhora!...
+
+
+SCENA XI.
+
+_Os mesmos e_ Eduardo, _que vem passando com uma dama pelo braço, e
+pára._
+
+
+Jorge.--Pois senão póde, resigne-se...
+
+Alvaro.--Tenho a optar por outro expediente antes da resignação...
+
+Eduardo.--Naturalmente quer bater-se... Eu sou de opinião que os meus
+amigos devem cortar-se reciprocamente os pescoços ás 4 horas da tarde...
+
+Jorge (_sorrindo_).--Fecha lá as torneiras ao espirito, Eduardo. Aqui
+falla-se seriamente... Não vês que aquelle senhor está formalisado?
+
+Eduardo.--Pois o senhor está formalisado? e v. exc.^a (_para Julia_)
+tambem está formalisada? e a menina (_para a que tem no braço_) tambem
+se formalisa?... Eu de mim, declaro-me formalisado sem saber porque.
+Formalisem-se todos, desde o dono da casa até ao creado da campainha.
+Isto deve acabar por hir cada um para sua casa, porque são quasi quatro
+horas... não acha?
+
+Alvaro.--Se me dá licença...
+
+Eduardo.--A respeito de licenças, isso não é comigo: é com o dono da
+casa... Que queria o meu amigo? quer duvidar de que a snr.^a D. Julia é
+a rainha das mais formosas? (_Com escarneo_).
+
+Alvaro.--Snr. Eduardo, as suas zombarias são intempestivas!... Entre
+cavalheiros é d'uso adoptar-se a linguagem seria e digna d'um salão...
+
+Eduardo.--O meu caro senhor está funebre como um mestre de cantochão...
+Fallou muito bem; mas eu é que não me sinto disposto a manter a
+reputação de eloquente ás quatro horas da manhã... Se me querem vêr
+dormir, fallem-me em cousas serias... Diga-me cá... já tomou chocolate?
+
+Julia (_desprendendo-se do braço_).--Dê-me licença... Minha mana
+chama-me...
+
+Alvaro.--Eu acompanho-a, minha senhora... (_Vão sahir_).
+
+Jorge.--Minha bella menina, estamos quites... D'hoje em diante cada um
+de nós caminha para o seu polo diverso...
+
+Julia.--São indifferentes os seus passos... Caminhe para onde lhe
+aprouver, snr. Jorge... (_Sahe_).
+
+Eduardo.--Disse que caminhasses para onde te approuvesse... Eu de mim
+vou para casa... Queres vir?... É verdade... que é da transparente
+creatura, que eu tinha no braço? Evaporou-se?... Deixal-a... (_Atira-se
+ao sophá_). Ai que somno!... Em que pensas tu?... (_Entra um creado com
+chavenas de chocolate_). Isso que é? Venha cá... É chocolate... Vm.^{ce}
+não terá a habilidade de converter isto em vinho do Porto?...
+
+Creado.--Não, senhor...
+
+Eduardo.--Então vm.^{ce}, pelo que diz na sua, é um grande idiota.
+(_Toma duas chavenas da bandeja_). Póde retirar-se... Aquelle senhor
+está fazendo versos... (_O creado sahe_). Ó Jorge, não tens no coração
+um reservatorio onde caiba uma chavena de excellente chocolate?
+
+Jorge.--Adeus... retiro-me...
+
+Eduardo.--Alto lá!... Eu preciso saber em que lei devo viver...
+Reconsideraste a respeito de Leocadia? Quem é que a ama, sou eu, ou és
+tu?
+
+Jorge.--Fallas d'ella com tão pouco respeito!...
+
+Eduardo.--De quem? de s. exc.^a!?... Pois eu disse alguma cousa que
+possa chamar-se grosseira?
+
+Jorge.--Leocadia não é uma apolice que se passe com o mesmo valor de mão
+em mão...
+
+Eduardo.--Justamente o peor que ella tem é não ser apolice, nem ao menos
+acção da empreza do caminho de ferro de leste...
+
+Jorge.--Estás estragado!...
+
+Eduardo.--Do estomago? Palavra d'honra que sim! As taes sandwichs são
+indigestas como um artigo de fundo... Mas do espirito estou optimo...
+Ella ahi vem... Queres ficar só com ella?... Eu vou entreter Julia...
+Que mais queres da minha docilidade? Um homem que faz isto não está de
+todo estragado...
+
+
+SCENA XII.
+
+Jorge _e_ Leocadia.
+
+
+Leocadia.--Vou sahir, Jorge... Dê-me uma só palavra, que me salve...
+
+Jorge.--Que queres que eu te diga, Leocadia?... Ámanhã vou consultar a
+vontade de teu pai... Queres assim tão breve o desenlace das tuas
+affeições?
+
+Leocadia.--É muita felicidade, meu Deus. Eu não merecia tanto... E
+Julia!... Coitadinha!... quanto não soffrerá ella!...
+
+Jorge.--Que tenho eu com Julia!... Poderia amal-a com a paixão violenta
+d'uma febre... mas estimal-a com a serena amisade que te dedico,
+Leocadia, isso nunca...
+
+Leocadia (_reparando_).--Ai!... minha mãi... não me deixa um instante...
+Adeus...
+
+
+SCENA XIII.
+
+_Os mesmos e_ Julia, _e depois_, Eduardo _e_ Alvaro.
+
+
+Julia.--Espera, menina (_para Leocadia que se retira_)... São só duas
+palavras... Snr Jorge... V. s.^a, não é digno d'ella, nem de mim, que
+valho menos que ella... Não te felicito pela reconciliação, minha
+querida amiga... D'este a Eduardo, que a sociedade chama cynico, não vai
+distancia que tu não vejas desapparecer vinte e quatro horas depois de
+casada... São tudo Eduardos...
+
+Eduardo.--Que é isso de Eduardos? Ainda falta este... Trata-se de levar
+ao capitolio os Eduardos, minha senhora? N'esse caso peço que não sejam
+exceptuados os Alvaros. (_Para Alvaro que entra_).
+
+Venha cá, meu amigo... Á vista d'este quadro, confesse que fizemos
+tristissimas figuras... Aquelle senhor (_apontando Jorge_) fez monopolio
+de dous corações, que nós tivemos o imbecil heroismo de conquistar ás
+tres horas da noite... Sabe que mais? Olhemos para ellas, e digamos como
+a raposa: «Estão verdes!» Pois não convém n'isto?
+
+Vozes dentro.--Vamos meninas! São quatro horas.
+
+Eduardo.--Nenhum dos senhores se quer bater pelo que vejo!... Boas
+noites... Minhas senhoras...
+
+Vozes.--O ultimo _cotillon_, o ultimo.
+
+Eduardo (_para a viscondessa de Valbom que entra_).--O ultimo
+_cotillon_, minha senhora, se não tem par... (_Retiram-se todos os
+outros_).
+
+Viscondessa.--Eu não danço senão quadrilhas.
+
+Eduardo.--Faz v. exc.^a muito bem... Tem dançado muitas?
+
+Viscondessa.--_Un peu_... _un peu_.
+
+Eduardo.--Ah! V. exc.^a falla francez! Ha quantos annos aprendeu, minha
+amavel senhora? Antigamente ensinava-se um francez muito solido... Hoje
+é tudo pela superficie...
+
+Viscondessa.--É verdade; mas as bases d'uma verdadeira instrucção são os
+solidos rudimentos.
+
+Eduardo.--Muito bem, minha senhora... O seu coração deve ser tão
+sensivel como a sua cabeça é illustrada.
+
+Viscondessa.--O meu coração está morto.
+
+Eduardo.--Deveras!... Quem fará o milagre de o chamar á vida?... Eu de
+certo não ousaria tão difficil empresa...
+
+Viscondessa.--V. s.^a zomba?...
+
+Eduardo.--Não zombo, porque não sei zombar com o amor...
+
+Viscondessa.--Falle baixo que ahi vem meu marido...
+
+Eduardo (_para o marido que entra_).--Snr. visconde!... estavamos
+fallando na guerra da Crimea.
+
+Visconde.--Vai por lá o diabo... Eu acho que os alliados não mettem o
+nariz em Sebastopol.
+
+Viscondessa.--Pelo menos em quanto a Austria e Prussia não expedirem
+forças que suppram a mortandade dos inglezes...
+
+Visconde.--E que me diz o senhor á exportação dos bois? Cessa ou não
+cessa?
+
+Eduardo.--A respeito de bois, não sei nada... (_reparando para fóra_)
+Ahi vem tudo... Que é isto!... uma senhora desmaiada?
+
+
+SCENA XIV.
+
+_Os mesmos, e_ Julia _desmaiada nos braços de algumas damas._
+
+
+Vozes.--Que seria?
+
+Coitadinha...
+
+Tragam agua...
+
+Eduardo.--Fumo de charuto não é mau...
+
+Visconde.--Faz favor de lhe botar um pouco de fumo pelas ventas?...
+
+Eduardo (_accendendo o charuto_).--Lá vou... lá vou, snr. visconde.
+
+Vozes.--Não é preciso...
+
+Julia.--É Jorge!... Jorge é o responsavel da minha vida...
+
+Vozes.--Ah!...
+
+Eduardo.--É uma maneira bonita de terminar um acto! Está tudo com a
+bocca aberta... e eu tambem! (_Abrindo a bocca_).
+
+CORRE O PANO.
+
+
+
+ACTO II.
+
+ _A scena é na Foz, justamente na praia dos Inglezes. Senhoras e
+ homens tomando banhos; outros, entrando nas barracas, horrivelmente
+ desfigurados, ou, antes, taes quaes a natureza os fez. Sobre os
+ penedos, pinhas de povo que pasmam diante dos ensaios do
+ salva-vidas. Estes podem dizer o que quizerem a tal respeito. O
+ author dá carta branca ao actor para que diga centenares de
+ parvoices: póde até discorrer sobre o dropp se lhe aprouver; mas o
+ melhor é calar-se_.
+
+
+SCENA I.
+
+_Afóra estes entes nullos_, Jorge _e_ Leocadia _sentados em cadeiras_.
+
+
+Leocadia (_fazendo SS com o guarda-sol na areia_).--Estás tão sombrio,
+Jorge!
+
+Jorge (_fazendo TT na areia com a chibata_).--Estou optimamente.
+(_Ouvem-se guinchos muito sympathicos das senhoras, que patinham no
+banho_. _Alguns homens urram_).
+
+Leocadia.--Parece que te aborrece a Foz!...
+
+Jorge.--Nada me aborrece... Estou bem em toda a parte...
+
+Leocadia.--Niguem o ha-de dizer... Todas as minhas amigas me perguntam o
+que tens...
+
+Jorge.--Diz-lhes que se não incommodem...
+
+Leocadia.--Hão-de suppor que a tua amisade para comigo foi uma illusão
+desvanecida pelo casamento...
+
+Jorge.--A opinião é livre... Supponham o que quizerem.
+
+Leocadia.--Mas não consideras que eu soffro muito se ellas imaginam tal?
+
+Jorge.--Não me lembrava essa especie... Isso é amor proprio...
+
+Leocadia.--Não é amor proprio... é _dôr_ do coração...
+
+Jorge.--Será algum aneurisma?
+
+Leocadia.--É uma zombaria bem cruel!... Estranho-te, Jorge.
+
+Jorge.--Tambem eu me estranho... Não achas que é melhor estarmos
+calados?
+
+Leocadia.--Calar-me-hei...
+
+Jorge.--E fazes bem... Estes dialogos terminam sempre mal... A
+necessidade da variar a conversação é a tisica das grandes paixões...
+Uma phrase repetida aborrece, por mais bonita que seja... Nós podiamos
+ter sempre cousas novas a dizer, se não tivessemos gastado a inspiração
+em quatro mezes de casados. Dissemos tudo... definimos tudo que nos
+rodeava, e agora sentimos a dura necessidade de nos definirmos a nós...
+É onde está o mal.... Tu queres que eu te repita o que te disse ha cinco
+mezes, e eu zango de repetições... Não sei fazer phrases como tu fazes
+punhos de camizas... Exhauri-me... Agora é necessario esperar uma nova
+colheita do terreno que já deu fructo. Essas lagrimas vem muito a
+proposito... (_Erguendo-se e espreguiçando-se_). Ai! que vida!...
+(_Reparando_). Olá, Eduardo!... por cá?
+
+
+SCENA II.
+
+_Os mesmos, e_ Eduardo.
+
+
+Eduardo.--É verdade... Como passou, minha senhora?
+
+Leocadia (_disfarçando as lagrimas_).--Muito bem... agradecida... Está
+bom?
+
+Eduardo.--Como sempre... Tenho uma saude insupportavel!... Não sou capaz
+de arranjar uma dôr de cabeça, para me dar certos ares romanticos. Vejo
+por ahi muitos mancebos, alquebrados no frescor da vida, e, em quanto a
+mim, são infelizes creaturas que soffrem dos callos... Já tomou banho,
+minha senhora?
+
+Leocadia.--Não tomo banho hoje. Constipei-me hontem.
+
+Eduardo (_para Jorge_).--E tu?
+
+Jorge.--Vou tractar d'isso... Ficas por aqui?
+
+Eduardo.--Vamos nós conversar, minha senhora... Eu hoje sinto-me com
+disposição para dizer cousas muito philosophicas... (_Jorge sahe_).
+
+
+SCENA III.
+
+Leocadia _e_ Eduardo.
+
+
+Leocadia.--V. s.^a tem sempre um humor tão alegre...
+
+Eduardo.--Será isto idiotismo? Já me lembrou se eu seria tão doudo como
+por ahi me julgam!
+
+Leocadia.--Quem o julga doudo?!
+
+Eduardo.--É toda essa sociedade...
+
+Leocadia.--Doudo... não!... Dizem que v. s.^a não tem persistencia em
+cousa nenhuma; e escarnece tudo...
+
+Eduardo.--Em quanto á persistencia, é falso o que dizem, minha senhora,
+e sinto que v. exc.^a, tão distincta do commum, queira ser o ecco das
+opiniões vulgares da rançosa sociedade... Não sou inconstante...
+
+Leocadia.--A quem diz isso? Pois não sei eu a sua vida!... Só namoros,
+tenho-lhe conhecido cincoenta.
+
+Eduardo.--Serão mais, talvez; mas... que namoros!... V. exc.^a não se
+recorda de que foi meu namoro vinte minutos no baile do barão de Valbom?
+(_Leocadia abaixa os olhos_). Pois os taes cincoenta namoros foram todos
+assim... Não sou constante, porque não encontrei ainda uma mulher, que
+possa adorar-se seriamente. Não ha paixão que o ridiculo não mate. As
+minhas tem todas soffrido morte de gargalhada.
+
+Leocadia.--Pois não amou nunca seriamente?
+
+Eduardo.--Eu lhe digo, minha senhora... amei... Vou contar-lhe a minha
+vida; mas só lhe digo os argumentos dos capitulos que são tres.
+_Capitulo_ 1.^o Conta-se que Eduardo Leite amou diabolicamente uma
+mulher, aos dezeseis annos, e fez tantas loucuras por ella, que, não
+tendo mais que fazer, quiz suicidar-se com pós dos ratos, e foi uma tia
+que lhe valeu com um copo de azeite... Pois v. exc.^a ri-se das minhas
+desgraças!... E eu suppunha que a fazia chorar!... Estou como certo
+dramaturgo que endoudeceu porque a platéa se riu justamente no pedaço
+mais triste da tragedia!...
+
+Leocadia.--É que v. s.^a dá um colorido comico ás scenas mais tristes...
+
+Eduardo.--_Capitulo_ 2.^o No qual se diz que o dito Eduardo Leite fez
+tristissima figura, vociferando injurias contra as mulheres,
+emmagrecendo na razão inversa da hydropesia do scepticismo, e passeando
+de noite nas Fontainhas, perguntando ás estrellas pela mulher dos seus
+sonhos, e bebendo agua no chafariz para refrigerar o vulcão, que lhe
+queimava as entranhas. Dizem-se outras muitas cousas tristes a este
+respeito, como por exemplo um duello que elle teve com o seu rival, de
+que lhe resultou estar quinze dias de cama, com uma bala mettida n'um
+hombro. Que lhe parece o segundo capitulo?
+
+Leocadia (_sorrindo_).--É funebre; mas faz-lhe muita honra...
+
+Eduardo.--Estou por isso... É uma honra muito grande...
+
+Leocadia.--Pois não é? ser ferido em duello por causa d'uma senhora!...
+Quem seria a ditosa?
+
+Eduardo.--Era a filha do meu sapateiro, minha senhora...
+
+Leocadia (_com seriedade_).--Não diga tal... V. s.^a não se fascinava
+por tal mulher!...
+
+Eduardo.--Pois fascinei-me... Era linda como a edição mais nitida, que
+sahiu da typographia celeste. Nos seus olhos espelhava-se a candura, e
+dos labios fugiam-lhe espiritos d'azas scintillantes, como não vi em
+nenhuns, excepto nos de v. exc.^a...
+
+Leocadia.--Dispenso a comparação...
+
+Eduardo.--E faz bem, minha senhora!... Ella por fim, cahiu do ministerio
+a que eu a levantei, e tornou-se uma gorda matrona casada com um gordo
+bate-folha, que é a minha vergonha porque teve a petulancia de luctar
+comigo, e vencer-me...
+
+Leocadia.--E foi esse que teve o duello com v. s.^a?
+
+Eduardo.--Nada... foi uma segunda victima, que ainda hoje faz quadras a
+uma certa visão que lhe appareceu no amanhecer da vida... E esta visão é
+a sobredita filha do meu sapateiro...
+
+Leocadia.--A sua vida é um poema epico... E o terceiro capitulo?
+
+Eduardo.--É verdade, o terceiro capitulo... O terceiro capitulo... é
+isto... É este riso, esta zombaria, esta conscienciosa abnegação de mim
+mesmo... é a resignada docilidade com que me prestei a ser o instrumento
+de v. exc.^a para ferir a vaidade de seu marido... Queira
+desculpar-me... Entristeci-a? O passado, passado... Quer v. exc.^a que
+eu lhe escolha duas conchinhas? (_Procurando na areia_). Aqui está uma
+bem bonita... (_Reparando_). Ahi vem a sua amiga Julia...
+
+Leocadia (_sobresaltada_).--Ai!... vem?...
+
+Eduardo.--Como se dá ella com o marido, sabe dizer-me?
+
+Leocadia.--Não sei.. penso que não é feliz...
+
+
+SCENA IV.
+
+Leocadia, Julia, _e_ Eduardo.
+
+
+Julia.--Snr. Eduardo, se me concedesse alguns instantes com a minha
+amiga...
+
+Eduardo.--Pois não, minha senhora... (_Sahe_).
+
+Julia.--São só duas palavras... Vi entrar teu marido para a barraca, e
+não nos vê... Leocadia... Eu não sou mais feliz que tu... Jorge fez-nos
+desgraçadas a ambas... Tu sabes que o meu casamento com Alvaro foi um
+capricho que tenho sustentado com lagrimas... Mas tu não tens culpa...
+Sei que não és amada... Eu tambem o não seria... Sou ainda tua amiga...
+Não poderei prestar-me nunca a ser o cutello na mão do teu algoz... ahi
+tens essas cartas.
+
+Leocadia.--Que cartas são estas?!
+
+Julia.--São cartas, que teu marido me escreve...
+
+Leocadia.--Meu marido!...
+
+Julia.--Sim... mais nada... adeus... (_Sahe_).
+
+
+SCENA V.
+
+Leocadia, _e depois_ Eduardo.
+
+
+Leocadia.--Vou sondando toda a profundidade do meu abysmo... Eu bem
+sabia que era infeliz; mas tanto... não!...
+
+Eduardo.--Parece-me que a sua amiga não veio dar-lhe prazer... Tão
+descorada, minha senhora! Que tem?
+
+Leocadia.--Nada, snr. Eduardo... É uma nuvem passageira... Queira dizer
+a Jorge que me retirei...
+
+Eduardo.--Eu acompanho-a...
+
+Leocadia.--Não consinto... a minha casa é alli...
+
+Eduardo.--Não insto, minha senhora, para não ser importuno... (_Ella
+sahe, cortejando-o_).
+
+
+SCENA VI.
+
+Eduardo, _e depois a_ Viscondessa de Valbom, _com um creado de farda,
+que conduz em sacco de damasco vermelho a roupa de banho_.
+
+
+Eduardo (_accendendo um charuto_).--Ora aqui está o que são os môços
+honestos, honrados, e bem comportados!... São estes dous maridos. Jorge
+passa por um mancebo exemplar; Alvaro dizem que é o typo da bondade; e,
+comtudo, vou descobrindo que as respectivas mulheres, se escrevessem
+jornaes, estavam em opposição com os maridos. Os honrados são elles...
+Eu é que sou o cynico!... Esta sociedade é uma grande patacuada!... Ahi
+vem a viscondessa de Valbom. Não me larga desde aquelle baile...
+(_Olhando sobre o hombro_). Ella cá está comigo... (_Erguendo-se_).
+Minha querida senhora viscondessa, como passou v. exc.^a desde hontem?
+
+Viscondessa.--_Passablement_. Esperei-o á noite para a partidinha, e o
+maganão não nos quiz honrar com a sua visita...
+
+Eduardo.--Urgentes negocios obrigaram-me a hir ao Porto.
+
+Viscondessa.--Namôro... diga a verdade... namôro...
+
+Eduardo.--Não, minha senhora. O meu coração está desde muito na terceira
+secção... Não ha poder que o faça entrar na effectividade...
+
+Viscondessa.--Ora deixe-se d'isso... Eu sei que ama... e ama uma
+senhora... que... digo?
+
+Eduardo.--Se lhe apraz...
+
+Viscondessa.--Não direi; mas... lembre-se de que _la proprieté n'est pas
+un vol_ como diz Proudhon...
+
+Eduardo.--Eu acredito que a propriedade não seja um roubo, e por isso
+mesmo não tento contra ella.
+
+Viscondessa.--Tenta, tenta... Isso não é bonito... Se quer merecer a
+minha estima, não tente partir os vinculos matrimoniaes de... eu bem
+sei...
+
+Eduardo.--E v. exc.^a acha que sou indigno da sua estima, se tentar...
+
+Viscondessa.--Pois não? Ha cousa mais sagrada sobre a terra?! A
+reputação d'uma senhora!... (_Mudando de tom_). É verdade que muitas
+vezes toda a philosophia é pouca para conter os impetos do coração...
+(_Mudando para o tom da honestidade_). Ainda assim, a mulher digna
+reprime-se, e faz-se superior a si propria... (_Mudando de tom_). Apesar
+d'isso, eu absolvo alguns erros, que muitas infelizes commettem, porque
+tem a imprudencia de tentar com a ponta do pé o desfiladeiro, e por
+fim...
+
+Eduardo.--Escorregam...
+
+Viscondessa.--Justamente...
+
+Eduardo.--E n'esse caso...
+
+Viscondessa.--Está a pessoa de quem fallamos...
+
+Eduardo.--Nós não fallamos de pessoa nenhuma... Queria eu dizer que
+n'esse caso não está de certo v. exc.^a
+
+Viscondessa.--Quem sabe!... (_Á parte_). Ai! o que eu fui dizer!...
+
+Eduardo.--Sei-o eu porque a conheço desde menino, sempre esposa
+exemplar...
+
+Viscondessa.--Desde menino, não!... pois que annos tem v. s.^a?...
+
+Eduardo.--Trinta, minha senhora.
+
+Viscondessa.--Trinta?!... Ha-de ser isso... Não levamos grande
+differença...
+
+Eduardo.--Queira perdoar-me, minha senhora, mas eu andava na escóla,
+quando v. exc.^a deu um baile para celebrar os annos de seu filho, que
+era meu condiscipulo... Ha quantos annos isto vai!
+
+Viscondessa (_enfronhada_).--Dê-me licença que vá ao meu banho... São
+horas, e a maré principia a vasar...
+
+Eduardo.--Vasa, vasa, minha senhora... Será bom aproveitar a vasante...
+
+Viscondessa (_á parte_).--É muito grosseiro!...
+
+Eduardo.--Vai a resfolegar polvora pelos narizes...
+
+D'esta vez, creio que aboli este vinculo de nova especie!... Ahi está um
+dos taes cincoenta namoros de que falla Leocadia... E é por causa
+d'estas... que me chamam inconstante!... Que pessimo charuto!... Gilbert
+se vivesse n'este tempo suicidava-se com um d'estes canudos de acido
+prussico...
+
+
+SCENA VII.
+
+Eduardo _e_ Jorge.
+
+
+Jorge.--Leocadia?
+
+Eduardo.--Já lá vai... Disse que hia para casa.
+
+Jorge.--Dá-me lume... (_accende o charuto_). Quero dar-te um conselho,
+Eduardo...
+
+Eduardo.--Sim?!
+
+Jorge.--Não te cases.
+
+Eduardo (_Alvaro, sem ser visto, entra n'uma das proximas
+barracas_).--Deus me livre... Sendo eu, como realmente sou um cynico,
+pobre da mulher que tivesse de luctar com o meu cynismo!... O casamento
+é bom para ti que és um anjo de virtude, e para Alvaro que é o typo da
+sisudez... Diz-me cá, és muito feliz, não és?
+
+Jorge.--Não. Estou cançado... Minha mulher... é uma mulher...
+
+Eduardo.--É _uma_ mulher? Pois louva a Deus por não serem duas...
+Quantas querias tu? Aposto que estás desmoralisado como um turco?!
+
+Jorge.--Sempre galhofeiro... Agora serio... Tu que és homem de
+expedientes, não me dizes como eu possa ser feliz com Leocadia?
+
+Eduardo (_ironicamente_).--Estás a zombar! Pois o anjo de virtude vem
+consultar o cynico!? Não abuses da tua superioridade, Jorge...
+
+Jorge.--Se tu soubesses que tormentos aqui vão n'esta alma!... A paixão
+allucinada que me abriu o inferno no coração!... Tenho necessidade de
+respirar... Quero que tu me ouças, porque não és d'esses tartufos que
+torcem o nariz á menor expansão d'um espirito atormentado!... Sabes que
+amo até ao delirio uma mulher?
+
+Eduardo.--É a tua naturalmente... Isso é muito justo...
+
+Jorge.--Não é a minha...
+
+Eduardo.--Pois a minha tambem não...
+
+Jorge.--Não motejes a minha dôr... Se me não queres ouvir com seriedade,
+calemo-nos...
+
+Eduardo.--Ora diz...
+
+Jorge.--Eu amo... Julia...
+
+Eduardo.--A mulher de... Oh escandalo!... Falla baixo que te não ouçam
+os caranguejos...
+
+Jorge.--Não soffro o escarneo... És incapaz de comprehender um
+sentimento nobre...
+
+Eduardo (_rindo_).--Sim... esse sentimento é muito nobre... Eu é que sou
+o cynico... Tens razão... estou estragado a ponto de não comprehender a
+nobreza d'esse sentimento... Prega essa moral, verás o galardão que
+recebes...
+
+Jorge.--Não me importa a sociedade... Perco-me por aquella mulher... Era
+ella quem eu amava... Casei com Leocadia por um capricho... mas a mulher
+do meu coração era Julia...
+
+Eduardo.--E ella... concorda?
+
+Jorge.--Não... despresa-me... recebe as minhas cartas, e não me
+responde...
+
+Eduardo.--Mas sempre vai lendo as cartas?... Então continúa, visto que
+esse sentimento é nobre... Eu é que sou o cynico...
+
+Jorge.--E quem sabe o fim para que ella recebe as cartas?
+
+Eduardo.--Talvez para papelotes, quando se frisa...
+
+Jorge.--Adeus!... estás insoffrivel... Isso offende!...
+
+Eduardo.--Pois eu sei cá para que ella recebe as cartas?
+
+Jorge.--Talvez para mostral-as a minha mulher... e vingar-se assim...
+
+Eduardo.--Isso póde ser... A historia antiga conta tres factos
+semelhantes. O primeiro aconteceu com Dido, a respeito de Eneas; o
+segundo com Fredegonda...
+
+Jorge.--Deixa lá isso... que me importa a mim a historia?... Fazes-me um
+favor?... Se fallas com ella, pódes sondal-a a meu respeito...
+
+Eduardo.--Sondal-a?... não sei de que modo!... Tu não sabes que o marido
+é meu figadal inimigo? Só se a vir por aqui destacada do osso do seu
+osso... Ella ainda agora aqui esteve com D. Leocadia...
+
+Jorge.--Com minha mulher!
+
+Eduardo.--Sim...
+
+Jorge.--Estou perdido!... Deu-lhe as cartas!...
+
+Eduardo.--Daria?! Que grande immoralidade!
+
+Jorge.--E por isso Leocadia se retirou...
+
+Eduardo.--E olha que não hia boa... Parece-me que a estas horas já ella
+admirou o estilo das tuas preciosas cartas!... Olha... queres vêr
+Julia?... Ella vem para aqui... Esconde-te atraz d'essa barraca, em
+quanto ella te não vê... e quando passar, falla-lhe...
+
+Jorge (_cumpre_).--Que hei-de eu dizer-lhe?!...
+
+Eduardo (_sorrindo_).--Vê se ella comprehende o _o teu nobre
+sentimento_...
+
+Jorge.--Ella não pára a ouvir-me... tu verás...
+
+Eduardo.--Se não parar, anda tu com ella... (_Retira-se_).
+
+
+SCENA VIII.
+
+Jorge _e_ Julia.
+
+
+Jorge.--Não tenho animo... Sou um imbecil...
+
+Julia (_sem o vêr, sentando-se em cadeira_).--A minha querida
+vingança!... Não vim só para soffrer... Alguem ha-de soffrer comigo...
+
+Jorge (_dirigindo-se com irresolução_).--Animo!
+
+Julia (_voltando-se de repente, e erguendo-se_).--O senhor!... (_Quer
+retirar-se_).
+
+Jorge (_sustendo-a_).--Não me fuja...
+
+Julia.--Retire essa mão, senhor!
+
+Jorge.--Esse enfado é muito pouco senhoril... Esta mão não mancha a sua
+pureza...
+
+Julia.--Para mim tem o horror de mão que me feriu com um punhal... O
+senhor não tem dignidade nenhuma... Retire-se, que meu marido póde
+vêl-o.
+
+Jorge.--Que veja... Eu não temo seu marido...
+
+Julia.--Pois não o tema a elle, mas respeite-me a mim, para que a sua
+posição de marido seja respeitada... (_Eduardo tem vindo por entre as
+barracas esconder-se atraz da mais proxima do dialogo_).
+
+Jorge.--Eu já me não respeito na minha posição... Seu marido que tire
+represalias, que eu sou indifferente a todos os ultrajes d'essa ordem.
+
+Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico...
+
+Julia.--Então devo acreditar que o senhor requintou em immoralidade...
+
+Jorge.--Acredite o que quizer... Saiba que foi uma paixão que me
+perverteu... Hei-de cuspir na sociedade, visto que a não posso calcar
+aos pés... Despreso todas as formalidades... Para a desesperação não ha
+conveniencias a guardar...
+
+Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico!...
+
+Julia.--Pois, senhor, eu entendo que as devo guardar todas... Snr.
+Jorge, tenha vergonha diante da sua propria consciencia. (_Vai
+retirar-se_).
+
+Jorge (_segurando-a_).--Ha-de ouvir-me... Que destino deu ás minhas
+cartas?
+
+Julia.--Entreguei-as a sua senhora.
+
+Jorge.--Isso foi um vil procedimento...
+
+Julia.--Deveria antes entregal-as a meu marido?
+
+Jorge.--Não tenho nada com seu marido, Julia... Não me cite tantas vezes
+o nome de seu marido, que é de nenhuma importancia n'este objecto...
+
+
+SCENA IX.
+
+_Os mesmos e_ Alvaro _sahindo da barraca, vestido de banho_.
+
+
+Julia.--Ah! meu marido...
+
+Eduardo (_escondido_).--Isto ha-de ser bonito...
+
+Alvaro.--Pois, snr. Jorge, eu pensei que importava alguma cousa n'este
+negocio... Isto que é? Cahiram miseravelmente n'um silencio estupido!...
+Julia, tu não fallas? Snr. Jorge! não fique embuchado!... O senhor
+está-me dando uma importancia, que não era a do seu programma...
+
+Jorge.--Esta situação é melhor que a não prolonguemos. V. s.^a vai
+pedir-me uma satisfação... (_Julia retira-se_).
+
+Alvaro.--Está enganado... Não tenho de que lhe pedir satisfação... Faz
+v. s.^a muito bem... Não lhe desagradam os olhos d'aquella senhora, e
+põe os seus meios... Tudo isto é natural... Que satisfação lhe hei-de eu
+pedir!...
+
+Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico!
+
+Jorge.--Acabemos, snr. Alvaro...
+
+Alvaro.--Tranquille-se, cavalheiro... Eu ainda não disse senão metade.
+Visto que o senhor gosta dos olhos de minha mulher, eu aproveito a
+occasião para lhe dizer que não desgosto dos olhos da sua. Com a
+differença, porém, que eu, declarando-me a v. s.^a, dou-lhe a
+importancia que v. s.^a me não deu... Visto que nos encontramos no
+mercado, permutaremos os olhos de nossas mulheres. O senhor fica com os
+olhos da minha, e eu com os olhos da sua... Parece-me que me vai pedir
+uma satisfação...
+
+Jorge.--Não sei com que intenção me faz semelhante proposta...
+
+Alvaro.--Com a melhor intenção do mundo... É um contracto bilateral...
+sem testemunhas... Eu concedo-lhe a frequencia de minha casa para v.
+s.^a estudar bem os olhos de minha mulher, e o cavalheiro franqueia-me
+occasiões de estudar os olhos da sua.
+
+Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico!...
+
+Jorge.--E se na sociedade se desconfia esta convenção?
+
+Alvaro.--Deixe-se d'isso... A sociedade, deu-nos diplomas de excellentes
+pessoas... Eu creio que ambos temos a finura necessaria para
+desempenharmos, sem pateada, os nossos papeis... Aqui o grande plano é
+que afastemos do nosso commercio Eduardo, porque esse tem a alma
+sufficientemente estragada para nos adivinhar...
+
+Eduardo (_á parte_).--Muito, obrigado!... Até este me dá diploma de
+cynico!
+
+Alvaro.--Agora, meu amigo, vou tomar banho... Hoje á noite espero-o com
+sua senhora em minha casa para tomarem uma chavena de chá...
+(_Apertando-lhe a mão_). _Au revoir_, meu caro senhor... (_Sahem_). Ó
+banheiro!... Vamos lá, que nos foge o mar...
+
+
+SCENA X.
+
+
+Eduardo.--Visto que eu sou o cynico, e os virtuosos são estes, passo a
+ser um pouco mais virtuoso que elles, para que elles sejam cynicos como
+eu... Alguma vez hei-de atinar com a virtude... A verdadeira acho que é
+a d'elles... O genero não é caro... Veremos...
+
+CORRE O PANO.
+
+
+
+
+ACTO III.
+
+
+_Passa-se em casa do visconde de Valbom. Sala faustuosa: luxo sem gosto:
+muita cadeira de estôfos amarellos: muito relogio: muita bugiaria de
+vidro, de mistura com porcellanas de Sevres, e adornos d'ouro, sem
+significação nem serventia_. _É noite_.
+
+
+SCENA I.
+
+Viscondessa de Valbom, D. Julia, Jorge, visconde de Valbom.
+
+
+_Um creado com uma bandeja, recebe as chavenas do chá; e retira-se_.
+
+Viscondessa (_a Jorge_).--A snr.^a D. Leocadia não virá?
+
+Jorge.--É natural que venha.
+
+Viscondessa.--Com o capellão?
+
+Jorge.--Sim... com o capellão...
+
+Viscondessa (_a Julia_).--O snr. Alvaro que andará a fazer?
+
+Julia.--Naturalmente... das suas...
+
+Visconde.--Das suas... isso que quer dizer?! Alvaro é o exemplo da
+honradez personalisada...
+
+Julia.--Agradecida a v. exc.^a, snr. visconde.
+
+Viscondessa.--Não tem de que, menina. Seu marido é um anjo, e a
+sociedade faz-lhe justiça. A reputação que elle tem grangeado é a prova
+infallivel das suas virtudes. Elle, e aqui o snr. Jorge são os dous
+cavalheiros mais queridos da nossa roda. Foram rapazes, sem rapaziadas.
+São maridos, sem mancha, e hão-de ser sempre modêlos de probidade a
+todos os respeitos.
+
+Jorge.--Muito grato, minha senhora. Tenho empregado todos os esforços
+por merecer á sociedade um bom conceito, e creio que o tenho
+conseguido...
+
+Viscondessa.--Porque o merece. Se o não merecesse, creia que o não
+teria, porque a opinião publica é justiceira, e nunca se engana com os
+bons, ou com os maus... Não se lembra da opinião que teve Eduardo?
+
+Jorge.--Uma pessima opinião.
+
+Visconde.--Oh! de certo, aquillo era um homem com uma lingua depravada,
+e costumes horriveis...
+
+Viscondessa.--Mas vejam que lhe chegou a sua hora de reflexão.
+Retirou-se completamente da sociedade; viveu tres mezes encerrado
+comsigo mesmo na solidão, e voltou para o mundo completamente
+desfigurado. É outro homem...
+
+Julia.--Totalmente outro.
+
+Visconde.--Faz mesmo espantar a differença que o homem fez!...
+
+Jorge.--É pasmosa!
+
+Viscondessa.--As suas palavras são todas serias, medidas, e reflectidas.
+Os seus modos são circumspectos, civis, e insinuantes. O seu vestir é
+muito grave, muito decente, e muito sisudo... Dizem-me que dá esmolas...
+tenho lido nos jornaes alguns actos de philantropia que o honram
+muito... em fim, está um cavalheiro, que não deixa nada a desejar! Vejam
+o que são as cousas!... Aqui ha quatro mezes, se elle me olhasse para
+uma das minhas creadas, despedil-a-hia immediatamente; e hoje, se eu
+tivesse uma filha, dava-lh'a com immensa satisfação...
+
+Jorge.--Muito se lucra, quando se é honrado!...
+
+Visconde.--Pois não! Não ha nada como a honra!
+
+Jorge.--Oh! a honra é a salvaguarda de todas as inquietações!
+
+Viscondessa.--Que precipicios não encontrou Eduardo em quanto se deixou
+hir á mercê dos seus extravagantes desejos!...
+
+Visconde.--Oh!... era insoffrivel!... Nunca se viu assim uma
+libertinagem!...
+
+Julia.--Ouvi fallar tão mal d'esse homem, e nunca me disseram
+distinctamente os seus crimes.
+
+Visconde.--Immensos, immensos...
+
+Viscondessa.--Immensissimos, immensissimos...
+
+Julia.--Mas posso eu saber algum d'elles?
+
+Visconde.--Eu não sei de nenhum; mas dizem por ahi que são muitos...
+muitos...
+
+Julia.--E a snr.^a viscondessa sabe quaes são?
+
+Viscondessa.--Tambem não sei; mas, na boa roda, diziam que elle era um
+prodigio de immoralidade...
+
+Julia.--E o snr. Jorge? Esse ha-de saber muitas cousas...
+
+Jorge.--Creio que ha muitas scenas horriveis na vida d'esse homem,
+todavia, eu não sei nenhuma...
+
+Julia.--Mas vive com elle ha mais de sete annos...
+
+Jorge.--É verdade... mas, como elle me não chamava a testemunhar os seus
+desvarios, nada sei...
+
+Julia.--O que se segue é que nenhum de nós sabe dizer em que consistiu a
+depravação de Eduardo!...
+
+Viscondessa.--A sociedade não se engana, menina. Ella que o condemnou lá
+sabe os motivos porque o fez. A virtude não é nunca infamada. Veja lá se
+seu marido, e aqui o snr. Jorge foram victimas da calumnia!...
+
+Julia.--Mas eu queria que me citassem um crime de Eduardo...
+
+Um creado--O snr. Eduardo...
+
+
+SCENA II.
+
+_Os mesmos e_ Eduardo.
+
+
+(_Eduardo veste todo de preto. Maneiras muito acanhadas, dando-se uns
+ares de virtude idiota. Uma cortezia a cada palavra. Recolhido sempre em
+si, affectando uma imbecilidade moral, de fazer piedade_).
+
+Viscondessa _e_ visconde.--Muito bem vindo.
+
+Eduardo.--Como passaram vv. exc.^{as}?
+
+Viscondessa.--Maravilhosamente... queira sentar-se.
+
+Eduardo.--E a snr.^a D. Julia?
+
+Julia.--Um pouco affectada dos nervos.
+
+Eduardo.--Muito sinto, minha senhora, Deus a poupe a soffrimentos de
+todo o genero... E o meu amigo Jorge... como passa?
+
+Jorge.--Assim, assim...
+
+Viscondessa.--Então! senta-se? (_Eduardo senta-se_).
+
+Eduardo.--Como está tua senhora, Jorge?
+
+Viscondessa.--Estamos á espera d'ella.
+
+Eduardo.--E seu marido, snr.^a D. Julia?
+
+Visconde.--Não deve tardar... (_Eduardo em ar de pensativo, esfregando
+as costas das mãos_).
+
+Viscondessa.--Elle ahi vai recahir nas suas melancolias! Não o queremos
+assim! Que tem?
+
+Eduardo.--Pesares... que vem de longe, minha senhora...
+
+Visconde.--O passado já lá vai... Agora v. s.^a é outro homem... Toda a
+gente diz que quem o viu e quem o vê...
+
+Viscondessa.--Nada de tristezas. A virtude é sempre alegre... Ó menina,
+vá tocar um bocadinho... Tenho notado que o snr. Eduardo está melhor
+quando ouve tocar... Que quer que ella toque?
+
+Eduardo.--O que s. exc.^a quizer...
+
+Julia.--Cousas tristes?
+
+Viscondessa.--Não, menina! Bem triste está elle!... Toque alguma cousa
+do Barbeiro de Sevilha...
+
+Julia.--Pois, sim... (_Vai tocar na sala immediata_).
+
+Viscondessa (_a Eduardo_).--Quer que vamos á sala do piano, ou quer
+gosar de longe?
+
+Eduardo.--De longe, se v. exc.^a não manda o contrario. (_Jorge, logo
+depois, segue Julia_).
+
+Visconde.--Muito folgamos de o vêr rehabilitado na opinião publica.
+
+Eduardo.--E estarei-o eu por ventura?
+
+Viscondessa.--Está... Veja... n'um só mez recuperou os creditos perdidos
+em tantos annos...
+
+Eduardo.--Muito devo a Deus, porque é o contrario que costuma
+acontecer... Então a snr.^a D. Julia não nós dá o prazer de a ouvirmos?
+Vai-nos demorando o goso...
+
+Visconde.--Eu vou lá... (_Sahe_).
+
+
+SCENA III.
+
+Eduardo _e a_ viscondessa.
+
+
+Viscondessa (_com vivacidade_).--Vês como sahiu certo tudo o que eu te
+disse? A sociedade é uma excellente pessoa.
+
+Eduardo (_mudança de tom. Ouve-se o piano_).--Tenho notado isso... Achas
+que vou bem assim?
+
+Viscondessa.--O melhor possivel... Ponto é que te conserves...
+
+Eduardo.--N'este pé de virtude? Já me não desmancho... E, com effeito,
+dizem que sou beato, virtuoso, martyr, contricto...
+
+Viscondessa.--Até o visconde está espantado da tua mudança...
+
+Um creado.--A snr.^a D. Leocadia, e o snr. Alvaro. (_Sahe_).
+
+Viscondessa.--Não sei o que me parece este grupo, a estas horas!...
+Sabes que eu suspeito...
+
+Eduardo.--Suspeitas?!... Oh!... eu não... Facilidades da innocencia!...
+
+
+SCENA IV.
+
+_Os mesmos_, D. Leocadia, _e_ Alvaro.
+
+
+Viscondessa.--Tão tarde!...
+
+Leocadia.--Foi impossivel aquietar o pequeno até agora...
+
+Eduardo (_tornando ao tom beatifico_).--Passou bem, minha senhora?
+
+Leocadia.--Bem...
+
+Alvaro (_dá uma gargalhada_).
+
+Viscondessa.--Que riso é esse?
+
+Alvaro.--Não é nada, minha senhora... Quem toca, é minha mulher?
+
+Viscondessa.--É sim... se quer vá á sala...
+
+Alvaro.--Não, minha senhora. (_Senta-se trombudo a um canto da sala_).
+
+Viscondessa (_a Leocadia_).--Que terá elle? Estranho-o!...
+
+Leocadia.--Eu não sei... Chegou a minha casa quando eu estava para
+sahir... Disse-me que me acompanhava... veio comigo sem dizer palavra...
+e não sei mais nada, nem me importa...
+
+Eduardo (_pesaroso_).--Terá dôr de dentes? São dôres dos nossos
+peccados... Deus nos acuda...
+
+Viscondessa.--Venha cá, snr. Alvaro!... O nosso bom amigo Eduardo, que é
+o S. Paulo dos nossos tempos, pergunta se lhe doem os dentes... (_Alvaro
+dá outra gargalhada_).
+
+Leocadia.--Ora entendam lá aquillo!...
+
+
+SCENA V.
+
+_Os mesmos, e_ Julia, Jorge, _e o_ visconde.
+
+
+Jorge (_apertando a mão de Leocadia_).--Até que finalmente...
+
+Julia (_apertando a mão de Alvaro_).--Com effeito... demoraste-te.
+
+Alvaro.--Negocios...
+
+Leocadia.--O pequeno não queria adormecer... (_Alvaro dá terceira
+gargalhada_).
+
+Jorge.--Que riso é esse?
+
+Julia.--A que vem o destempero d'essa gargalhada?...
+
+Viscondessa.--Lá está outra vez mergulhado na sua melancolia o snr.
+Eduardo!... Quer, talvez, mais musica...
+
+Eduardo.--Se não receasse ser indiscreto, pedia a v. exc.^a aquella aria
+da Norma... no acto final...
+
+Viscondessa.--Executada por quem?
+
+Eduardo.--Por v. exc.^a... dá-lhe uma graça particular... Não quero
+offender as duas senhoras que a desempenham habilmente; mas não sei que
+toque melancolico...
+
+Viscondessa.--Pois sim... hirei... Vamos todos...
+
+Eduardo.--Se me concedesse...
+
+Viscondessa.--Ficar sósinho aqui?... Pois sim... fique.
+
+Visconde.--Eu cá fico com elle...
+
+Viscondessa.--Não, não... deixa-o... são necessidades organicas... Eu
+tambem tenho d'estas tempestades moraes...
+
+Vozes.--Pois sim... pois sim... (_Sahem_).
+
+
+SCENA VI.
+
+Eduardo, _e depois_ Julia.
+
+
+Eduardo.--A gargalhada de Alvaro quer dizer muito... (_Ouve-se a aria da
+Norma_).
+
+O maldito veria alguma cousa? Se viu, lá vai a terra todo o meu edificio
+de virtude... Dizem que ella é facil, eu vejo-me illaqueado n'uma rede
+tal, que se me descobrem não sei por onde hei-de evadir-me... Que pena
+se me não deixam ser honrado!... Tenho, só n'um mez, colhido tantas
+palmas de virtude, que, passados tres, n'este andar, eu todo seria um
+palmito...
+
+Julia (_agitada_).--Eduardo...
+
+Eduardo.--Julia...
+
+Julia.--Pelo amor de Deus, desvanece-me d'uma suspeita que me
+despedaça...
+
+Eduardo.--Que é?!
+
+Julia.--Tu amas Leocadia.
+
+Eduardo.--É falso...
+
+Julia.--Mas ella adora-te com delirio...
+
+Eduardo.--Que culpa tenho eu?
+
+Julia (_tomando-lhe a mão com frenesi_...)--Não me sacrifiques a ella...
+a nenhuma... porque nenhuma te amará tanto...
+
+Jorge (_ao fundo_).--Isto é espantoso!...
+
+Eduardo.--Não vês que represento um papel hypocrita, tão contra o meu
+caracter, para te não perder?
+
+Jorge (_o mesmo_).--É incrivel!...
+
+Julia.--Conheço tudo... meu anjo... Vou á sala... póde notar-se a minha
+falta...
+
+
+SCENA VII.
+
+ Eduardo , _e depois_ Leocadia, _e depois o_ Visconde _na porta do
+ fundo sem ser visto_. (_Ouve-se ainda a musica da Norma_).
+
+
+Eduardo.--Tornemos á posição do benemerito Tartufo. Oh meu querido
+Moliere, onde quer que estás recebe os meus agradecimentos pelo
+excellente molde que me cá deixaste!
+
+Leocadia (_impetuosamente_).--Eduardo... só duas palavras... Olha que
+Alvaro viu-te sahir de minha casa...
+
+Eduardo.--Viu?! estão explicadas as gargalhadas...
+
+Leocadia.--Receio maus resultados... Elle é capaz de tirar qualquer
+vingança... Oh meu Deus!... estou sobre um vulcão...
+
+Eduardo.--E eu dentro d'uma tina... Deixa correr os successos... Vai,
+que podem descobrir-nos...
+
+Visconde (_á parte_).--Como se explica isto?
+
+Leocadia.--Que has-de tu dizer se elle nos denuncia?
+
+Eduardo.--Provo que não sou mais immoral que elle... As pretenções são
+as mesmas...
+
+Visconde.--Isto é bonito!... (_Retira-se_).
+
+Leocadia.--Que situação a minha!...
+
+Eduardo.--Retira-te, que podem surprehender-nos... (_Leocadia sahe_).
+
+
+SCENA VIII.
+
+Eduardo, _e depois a_ viscondessa, _e_ Alvaro _ao fundo_.
+
+
+Eduardo.--Atropellam-se os acontecimentos!... Tudo isto faz persuadir
+que eu tenho sido um homem verdadeiramente virtuoso! No tempo em que eu
+era cynico, antes que a sociedade me chamasse regenerado, as mulheres
+não andavam assim n'uma dobadoura em redor de mim! Ó benevola opinião
+publica, quanto te devo!... Ahi vem outra que me não faz muita honra!...
+
+Viscondessa.--Aproveitei um instante para estar só comtigo antes que
+elles venham...
+
+Eduardo.--Como és carinhosa!
+
+Viscondessa.--Desconfiei que Leocadia tivesse vindo para aqui... Sabes
+que tenho ciumes de todas as mulheres!...
+
+Alvaro (_á parte_).--Que ouço!...
+
+Eduardo.--Continuo a representar bem? A platea applaude?...
+
+Viscondessa.--O visconde disse-me n'este momento que tinha muito que
+contar-me... perguntei-lhe a que respeito... e elle de fugida pronunciou
+o teu nome e de Leocadia...
+
+Alvaro (_aparte_).--E Leocadia!...
+
+Eduardo.--E Leocadia!... Como se entende isso?...
+
+Viscondessa.--Não sei... Mudemos de tom que elles ahi vem...
+
+
+SCENA IX.
+
+_Os mesmos, e_ Julia, Alvaro, Jorge _e_ Leocadia.
+
+
+Viscondessa (_com emphase_).--Pois não queremos uma virtude assim
+melancolica... É necessario que resurja d'esse abatimento moral, snr.
+Eduardo... A verdadeira felicidade está na consciencia. O seu passado
+não tem a pedir contas ao seu presente... A sociedade abre-lhe o braços
+como ao filho prodigo... (_Alvaro solta uma risada_).
+
+Que riso é esse, snr. Alvaro?
+
+Alvaro.--É um riso nervoso!...
+
+Eduardo (_á parte_).--Mau!...
+
+Leocadia.--Não tem razões para tanta melancolia!... É estimado
+geralmente pelas suas virtudes, e merece a confiança de todas as
+pessoas... (_O visconde solta uma risada_).
+
+Que risada é essa, snr. visconde?
+
+Visconde.--É uma risada como a d'aquelle senhor (_apontando Alvaro_). É
+uma risada nervosa!
+
+Eduardo (_á parte_).--Peor!...
+
+Julia.--Parece que escarnecem a virtude!... Estas transfigurações moraes
+custam muitas amarguras... Eu comprehendo a melancolia do snr.
+Eduardo... Lembra-se do que foi, e, no prazer do que é, sente pesar de o
+não ter sido desde muito... (_Jorge solta uma risada_).
+
+Tambem o senhor se ri?
+
+Jorge.--É uma risada como a d'aquelle senhor... (_apontando Alvaro_) é
+uma risada nervosa...
+
+Eduardo (_á parte_).--Está tudo por terra!... (_Alto_). Vejo que os meus
+amigos estão muito nervosos!... Banhos de mar podem ser-lhes
+proveitosos... Não acho bonito que me escarneçam... Fazem-me lembrar a
+fabula do leão e do... Em fim, seja tudo em desconto das minhas
+culpas!... (_Riem todos tres_).
+
+Ora comprehendam isto!... É um abuso do riso!... Eu não lhes mereço
+isso, senhores! Dizem por ahi que eu sou um honrado homem, e não se
+cospe assim na honra...
+
+Jorge (_á parte_).--Vou-lhe arrancar a mascara!...
+
+Visconde (_á parte_).--Hypocrita!
+
+Alvaro (_á parte_).--O impostor não passará d'hoje...
+
+Viscondessa.--Que falsa posição é esta?
+
+Leocadia.--Não entendo isto!
+
+Julia.--Nem eu!
+
+Eduardo.--Nem eu!...
+
+Viscondessa.--Que modos são esses!... em que pensam os senhores?...
+
+Alvaro.--Eu pensava nos recursos do talento depravado!... Senhores!... é
+necessario que se acabe este comedia d'algum modo!... Aquelle senhor
+(_indicando Eduardo_) é um impostor!
+
+Eduardo.--Eu! Calumnia! infamia... quero as provas...
+
+Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia que as dê...
+
+Visconde.--Justamente: a snr.^a D. Leocadia que as dê!...
+
+Jorge.--Minha mulher!...
+
+Leocadia.--Eu!
+
+Eduardo.--Ella!...
+
+Alvaro _e_ Visconde.--Sim! ella!...
+
+Jorge.--Pois bem... cáia a mascara... Esse senhor é um infame seductor!
+
+Eduardo.--Eu!
+
+Viscondessa.--Elle!
+
+Jorge, Visconde, _e_ Alvaro.--Sim, sim, elle!
+
+Eduardo.--Provas, senhores calumniadores!
+
+Jorge.--Provas? a snr.^a D. Julia que as dê!
+
+Alvaro.--Minha mulher!
+
+Julia.--Eu!
+
+Eduardo.--Ella!
+
+Jorge _e_ Visconde.--Sim, sim, ella!
+
+Alvaro.--N'esse caso... rasgue-se o véo do mysterio... Todos somos
+victimas da hypocrisia d'esse homem!
+
+Visconde.--Menos eu!
+
+Viscondessa.--Nem eu!
+
+Eduardo.--Provas, senhores!
+
+Alvaro.--Provas? a snr.^a viscondessa que as dê.
+
+Visconde.--Minha mulher!
+
+Viscondessa.--Eu!
+
+Eduardo.--Ella!
+
+Alvaro _e_ Jorge.--Sim, sim!
+
+Eduardo.--Todas tres!...
+
+Alvaro (_para Julia_).--Responde!
+
+Jorge (_para Leocadia_).--Que dizes a isto?
+
+O visconde (_para a viscondessa_).--Pois não te defendes?
+
+Todas tres.--É falso!...
+
+Eduardo (_mudando de tom_).--Eu vou defendêl-as, minhas senhoras!
+
+Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia não tem defeza nenhuma, porque...
+
+Eduardo.--Silencio!
+
+Jorge.--A snr.^a D. Julia não tem defeza nenhuma, porque...
+
+Eduardo.--Esperem!...
+
+Visconde.--Concordo que nenhuma d'essas tem defeza!... mas é preciso que
+me provem que...
+
+Eduardo.--Alto lá... Queiram retirar-se, minhas senhoras... É defeza a
+presença das rés no tribunal que vai installar-se... Queiram
+retirar-se... (_Ellas sahem_).
+
+
+SCENA X.
+
+Eduardo, Jorge, Alvaro, _e o_ Visconde.
+
+
+Eduardo.--Venham cá... Os senhores não tem ouvido dizer que eu me
+regenerei? Respondam, sim ou não?
+
+Alvaro.--Qual _regenerou-se_! É um impostor!...
+
+Eduardo.--Concordemos em que sou um impostor. Mas digam-me: a opinião
+publica a meu respeito é essa?
+
+Visconde.--Não é... porque o senhor enganou-nos.
+
+Eduardo.--Pois, se não é, porque não respeitam os senhores a opinião
+publica á qual me mandaram obedecer?
+
+Visconde.--Já lhe disse que a opinião publica está illudida com o
+senhor!
+
+Eduardo.--E d'antes? ha quatro mezes era mais verdadeira que hoje?
+
+Jorge.--Não quero disputas... Não respondo ao seu interrogatorio...
+Quero uma satisfação immediata.
+
+Alvaro.--E eu tambem.
+
+Eduardo.--E o snr. visconde?
+
+Visconde.--Veremos, depois...
+
+Eduardo (_sorrindo_).--Acha que não vale a pena decidir já... Pois lá
+hiremos... Mas, antes d'isso, queiram attender-me: os senhores, com uma
+bala, em duello, podem matar-me, primeira loucura; e, se me não matam,
+arruinam a minha boa reputação, que eu aprecio mais que a vida; segunda
+asneira... Que lucram os senhores com isto?
+
+Alvaro.--Nada de philosophias!... É indispensavel para a minha honra um
+duello...
+
+Jorge.--Não prescindo.
+
+Eduardo.--Pois se não prescindem, lá vamos... Mas os primeiros que
+hão-de bater-se um com o outro, são os senhores! (_Indicando Alvaro e
+Jorge_).
+
+Alvaro _e_ Jorge.--Nós?!...
+
+Eduardo.--Os senhores...
+
+Alvaro.--Porque?!
+
+Eduardo.--Porque teem trabalhado reciprocamente na sua deshonra.
+
+Jorge.--Isso é uma nova infamia!
+
+Eduardo.--Mãos na consciencia, meus amigos! O contracto feito ha quatro
+mezes na praia dos Inglezes não os exime de serem honrados!
+
+Alvaro _e_ Jorge.--Na praia dos Inglezes!...
+
+Eduardo.--Querem explicações?... Vejam lá o que resolvem... Querem
+explicações?... Que dizem?!... Esse silencio annuncia bonança...
+Aproveitemos o vento que é favoravel... Concordam em que occultemos
+mutuamente as nossas miserias? Eu de mim... (_Comprime os labios com os
+dedos_...) Os senhores, se -----File:
+245.png---\psaborano\zurc\Manela\psaborano\luisa\---------------são
+honrados como a opinião publica os apregôa, calem-se tambem...
+
+Visconde.--Mas eu é que não entro n'esse contracto...
+
+Eduardo.--Nem lh'o propuz... mas, v. exc.^a contando com o silencio
+d'estes cavalheiros, de certo não quererá uma ignobil publicidade a
+respeito de... Veja lá o que resolve...
+
+Visconde.--Mas v. s.^a não ha-de entrar mais em minha casa...
+
+Eduardo.--D'accordo. Amanhã embarco para a exposição de Pariz, e
+tenciono viajar tres annos... Serve-lhe a condição?... O silencio
+approva... Muito bem... (_Ao fundo_). Minhas senhoras! queiram
+entrar!... (_As damas entram_). Vv. exc.^{as} foram julgadas
+innocentissimas e absolvidas... Continuamos todos a ser excellentes
+pessoas a todos os respeitos. Estes senhores, de parte a parte, pedem
+perdão das calumnias sordidas com que quizeram reciprocamente manchar os
+seus nomes...
+
+Viscondessa.--Assim o suppuz!
+
+Julia.--Assim devia acontecer!
+
+Leocadia.--Mas eu não perdôo a quem me infamou!
+
+Viscondessa _e_ Julia.--Nem nós!
+
+Eduardo.--Hão-de perdoar, que são muito boas senhoras, e o perdão das
+injurias é o sentimento mais nobre do coração humano... Eu retiro-me com
+os meus creditos, e vv. exc.^{as} ficam com os seus... Muito boas
+noites... (_Sahe_).
+
+ * * * * *
+
+Os outros, como é natural, ficam a olhar uns para os outros com aquellas
+caras proprias de taes conflictos. O author vem fóra dizer que não ha na
+comedia allusões nenhumas. A platéa retira satisfeita, e continúa a
+guardar-se dos cynicos.
+
+No dia seguinte os jornaes dizem que a comedia é immoral, e attentatoria
+contra os bons costumes. Os Sganarellos mandam comprar o jornal, e
+mostram-no aos compadres. O author, conscio de que o mordem, vem no
+conhecimento de que os mordentes são os legitimos _Orgons_ d'este
+seculo; mas, um pouco menos felizes que os d'uma grande comedia, que o
+leitor, se se não recorda, ou não leu nunca, póde encontrar com o titulo
+de _Tartuffe_. Se, todavia, detesta a letra redonda, estude a vida
+pratica, e chegará á mais difficil das formaturas, ao _ultimatum_ da
+sabedoria: «o conhecimento dos homens.» É tão facil, ao primeiro
+intuito, estremar o cynico do hypocrita!... Dai-me o primeiro, que
+repellis, e não me relacioneis com o segundo, que abraçaes: que eu,
+profundamente grato, ficarei pedindo a Deus que vos augmente o dinheiro,
+e vos conserve uma saude bem vermelha, bem gorda, para que a virtude não
+seja sempre uma irrisão n'este planeta. Disse.
+
+FIM.
+
+
+
+
+INDICE.
+
+
+Morrer por capricho (romance) 5
+Uma paixão bem empregada (romance) 25
+De abysmo em abysmo (romance) 35
+Aventuras d'um boticario d'aldêa (romance) 41
+Cousas que só eu sei (romance) 55
+Dinheiro! dinheiro! (romance) 109
+A caveira (romance) 131
+Uma praga rogada nas escadas da forca (romance) 155
+Pathologia do casamento (drama em 3 actos) 183
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] Systema pathologico do snr. Borges de Castro, facultativo distincto,
+na cidade do Porto, em 1853.
+
+[2] Escripto em 1853.
+
+[3] .......
+
+
+
+
+
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+
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+even without complying with the full terms of this agreement. See
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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