diff options
Diffstat (limited to '23203-8.txt')
| -rw-r--r-- | 23203-8.txt | 8104 |
1 files changed, 8104 insertions, 0 deletions
diff --git a/23203-8.txt b/23203-8.txt new file mode 100644 index 0000000..ec60800 --- /dev/null +++ b/23203-8.txt @@ -0,0 +1,8104 @@ +Project Gutenberg's Scenas Contemporaneas, by Camilo Castelo-Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Scenas Contemporaneas + +Author: Camilo Castelo-Branco + +Release Date: October 26, 2007 [EBook #23203] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS CONTEMPORANEAS *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +book was produced from scanned images of public domain +material from the Google Print project.) + + + + + + + + + +SCENAS CONTEMPORANEAS. + + + + +SCENAS CONTEMPORANEAS + +POR + +CAMILLO CASTELLO-BRANCO. + +2.^a EDIÇÃO. + +PORTO: +EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR, +Rua dos Caldeireiros n.^{os} 18 e 20. +1862. + + + + +Porto--TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA, _Rua da Cancella +Velha n.^o 62._ + + + + +MORRER POR CAPRICHO. + + +I. + + +Os meus amigos, de certo, não sabem o que é caçar coelhos na neve? + +Não admira. + +Imaginem-se em qualquer aldêa, nas visinhanças do Marão. Olhem em redor +de si, e contemplem o quadro que os viajantes na Suissa lhes descrevem +todos os dias, supposto que nunca sahissem da sua terra. + +A primeira impressão que recebem é a do assombro. Leguas em roda, nem na +terra nem no céo, se descobre uma crista de rochedo, a frança d'uma +arvore, a dobra d'uma nuvem, que não seja branca, alvissima, desde um +horisonte a outro horisonte. + +E, depois, ha ahi em toda essa natureza amortalhada um silencio funebre. +Não cantam as aves, não balam os cordeiros, não silva o buzio de +pegureiro, não soam nas quebradas as campainhas da arreata de machos. + +Se ouvis um rugido assobiado ao qual respondem outros, não vos afasteis +para longe da casa d'onde presenceaes, com o coração confrangido, esta +scena. É uma alcatéa de lobos, que descem famintos da serra, e serão +capazes de vos hirem buscar á cozinha, onde naturalmente tiritaes de +frio, sentados ao pé do tóro de carvalho. + +Faço-vos esta recommendação porque sois uns homens afeminados, que nunca +sahistes dos salões, dos botequins, dos theatros, e das praças. Aposto +que se desseis de face com um lobo, de garras arqueadas, e fauces +inflammadas, antes que o lobo vos désse o cordial abraço da fome, já vós +tinheis perdida a sensibilidade, e consciencia da vida, e até o direito +que todo o homem tem de matar não só o seu semelhante, mas até um lobo, +em justa defeza! + +Se eu podesse contar com o vosso animo, aconselhar-vos-hia, que em uma +d'essas manhãs de neve, com meio covado de altura nos terrenos chãos, +tomasseis um cajado, e, com duas finas cadellas de coelho, fosseis dar +na serra um passeio d'algumas horas. + +O peor que podia succeder-vos era o desvio do caminho, que só com muita +pratica se acerta, e, quando mal vos precatasseis, resvalar n'um abysmo +de neve, onde nem as orelhas de fóra dissessem ao passageiro que um +moço, a todos os respeitos excellente, fôra alli absorvido por um +sorvete dos que a natureza offerece aos amantes de refrescos, com menos +economia que o _Guichard_. + +Afóra este inconveniente, ainda ha o dos lobos, que muitas vezes tomam +conta das nossas cadellas, devoram-nas com uma perfeição e rapidez +fabulosas, e, quando Deus quer, fazem dos nossos corpos um supplemento +nutritivo ás nossas cadellas, deixando-nos a alma por muito grande +obsequio. + +O terceiro percalço, affecto á caça do coelho na neve, aconteceu-me a +mim, ultimo dos mortaes, em 26 de Dezembro de 1844. + +É o que tereis a bondade de procurar saber no capitulo seguinte. + + +II. + + +Fui convidado por alguns amigos a acompanhal-os á serra, porque o sol +refrangia-se em scintillas na neve, que parecia desfazer-se em laminas +de prata. + +Fui muito contente da consideração que se me dava, como caçador, porque, +em verdade vos digo, atirei com certeiro olho a perdizes e galinholas. +Se nunca matei nenhuma, o que tambem é verdade, deve-se á pessima +polvora das nossas fabricas. Em compensação, matei muito melro e tordo +nas serdeiras, e consegui matar de noite uma coruja, africa que muitos +caçadores famosos de certo não fizeram. Eu fui um grande homem antes de +escrever folhetins! Deus perdôe a quem me torceu a vocação! Eu podia, a +estas horas, ser um habil corredor de lebres, e assim tornei-me a lebre +dos galgos sociaes. + +Estes galgos sociaes, meu leitor, se tu és um d'elles, permitte-me +dizer-te que tens o faro muito descaçado, e que eu hei-de saltar por +cima de ti, quando cuidares que me abocas. Se não és galgo, sensato +amigo, aqui rasgo o diploma de tolo, que te concedi, sem te levar +direitos de mercê. + +Agora, vai entrar a historia direitinha até ao fim. + + +III. + + +Subimos á esplanada da serra. Eramos seis. Dividimo-nos em tres grupos, +e combinamos em nos darmos signaes com tiros no caso de nos perdermos +encobertos pelo nevoeiro, que poderia de improviso esconder-nos os +cabeços das serras, unicas balizas que nos serviam de guia. + +Assim combinados, cada grupo, com dous cães, seguiu as pégadas dos +coelhos impressas de fresco na neve. Eram muitos, e morriam á pancada, +porque os pobresinhos alapados debaixo das urzes, se fugiam, eram logo +mordidos pelos cães; se esperavam eram apanhados á mão. Alguns, mais +previdentes, tinham emigrado para as fundas colheitas, formadas pelas +sinuosidades interiores dos penedos agglomerados. A estes perseguia-os o +furão, que eu levava no meu cacifo, desalapava-os, e os cães, farejando +as avenidas da colheita, recebiam-os nos dentes, sacudiam-nos com o +rancor do instincto, e atiravam-nos mortos aos nossos pés. + +Andamos assim uma hora, tão entretidos, tão esquecidos do mundo, que +nunca tão distrahida hora eu tive na minha vida, a não ser aquellas em +que durmo, e sonho que hei-de tornar áquelles meus dias de candura, +depois de lidar muito com a innocencia d'estas angelicas creaturas, que +vestiriam, por innocentes, como Adão e Eva, se a serpente lhes não +dissesse que andavam indecentes. + +Ao cabo d'essa hora, toldou-se o ar, e cahiu uma segunda camada de neve. + +O meu companheiro quiz logo voltar sobre os seus vestigios, porque +(dizia elle) d'aqui a minutos as nossas pégadas estarão cobertas, e não +saberemos caminhar para o nascente nem para o poente. + +--Eu, por ora, não vou--lhe disse eu. + +--Porque? + +--Estou bem aqui. Acho muita poesia n'este quadro. Imagino que esta +chuva de neve se transforma em chuva de fogo... Este nevoeiro, que rola +em ondas aos nossos pés, e sobre a nossa cabeça, afigura-se-me o fumo do +grande incendio no juizo final! Olha... não te parece que o vento +espalha já as cinzas d'uma grande cidade! Não vês Sodoma lá em baixo +vomitando columnas de fumo?... + +--Eu não vejo nada... Acho de muito mau gosto as tuas visões... vamos +embora... + +--Vai tu... e quando encontrares os nossos companheiros, dá um tiro, que +eu lá vou ter. Estou bem aqui; não me mudo por cousa nenhuma. + +--Até logo. + + +IV. + + +E eu continuei a vêr as minhas visões. + +Parece-me que, por esses tempos, fui poeta, muito poeta, em elevações +d'alma para cousas de imaginação, que não era esta fria imaginação, que +tenho hoje. + +Absorvido no meu quadro do juizo final, que só uma phantasia abrasada +poderia dar-me, transfigurando a neve em fogo, ouvi um tiro, e não fiz +caso. Ouvi segundo, e senti um piedoso desdem por aquelles homens, prosa +vil, que não tiravam partido do grandioso panorama, que a mão liberal da +natureza desenrolava diante de meus olhos absortos. + +Não sabeis que o nevoeiro embriaga? + +É uma verdade. A cabeça enfraquece; nos ouvidos ha um zunido, que vos +faz perder o rumo. Sentis uma sensação desagradavel, semelhante á do +giro penoso em que a indigestão do vinho vos traz a cabeça vertiginosa. + +Foi o que eu senti, quando me furtei ás minhas contemplações improprias +do tempo e do lugar. + +Ergui-me, e não sabia já designar a direcção que levára o meu +companheiro, nem o ponto onde se deram os tiros. Desfechei a minha +clavina, mas a humidade inutilisára a escorva. Os cães, que poderiam +ensinar-me o caminho, tinham seguido o meu companheiro. Não desanimei. + +Tal direcção pareceu-me que deveria ser a melhor, e segui-a. O nevoeiro +deixava-me vêr apenas o espaço que pisava. Atravessei a lombada da +serra, e comecei a descer. Escorreguei muitas vezes nos algares da +encosta, e senti a neve pela cintura. Gastei duas horas, tres, quatro, +descendo, descendo, sem encontrar uma povoação. Conheci que estava +perdido. A neve augmentava. A noite aproximava-se, e nem um symptoma de +vida! Então, sim; tive medo, e imaginei que a minha sepultura, sem +solemnidade alguma, deveria encontral-a brevemente no estomago d'algum +lobo. + +E, de mais a mais, eu tinha fome. + +Todos os provimentos, que eu levava na minha rede, eram um pedaço de +brôa para o meu furão. Reparti-o entre nós. O animalsinho comeu com +appetite, e pilhando-se solto, como o seu officio era desemlapar +coelhos, entrou na primeira lura que viu, e fez saltar fóra um gato +bravo, que espirrava diabolicamente por cima dos tojos coroados de neve. + +Nunca me esqueceram os espirros d'este gato bravo! + +Continuei o meu caminho, sem esperanças de encontrar pousada. + +Escureceu. + +Encostei-me, desalentado, a um castanheiro, e fiz da minha pobre cabeça +uma cabeça academica. + +Pensei muito, estabeleci varios raciocinios, que conspiraram em +provar-me, que, perto d'alli, devia existir uma povoação, por isso que +os castanheiros, campos, e paredes eram indicios de aldêa proxima. +N'este comenos, ouvi um mugido de boi, e em seguida uma sineta, que +tocava ás «Ave-Marias.» + +Aquellas tres badaladas ergueram a Deus o meu espirito reconhecido. Orei +com a devoção dos dezoito annos. Não vos digo mais nada a este respeito, +porque me não entenderieis. Sois excellentes pessoas para devorar um +romance em dez volumes; mas não lerieis, sem abrir tres vezes a bocca, +uma pagina de sentimentos embalsamados do aroma do céo, que o poeta não +deve nunca profanar, misturando-os a frioleiras d'uma historia, ao +alcance de todas as capacidades. + +Eu creio que entre vós ha entendimentos muito finos, paladares muito +apurados no sabor do bello, corações muito brandos para emoções suaves. +Creio que sim; mas o melhor é fazer de conta que os não ha. + + +V. + + +Minutos depois, achava-me n'uma povoação, onde nunca estivera. Encontrei +uma velha que castigava um porco, rebelde á invocação de sua ama, com +uma roca. + +Perguntei-lhe que povo era aquelle. + +--Alpedrinha--disse ella. + +Ora, Alpedrinha distava duas leguas e meia de minha casa. Era necessario +pernoitar alli. Perguntei á dita velha onde morava o parocho. Mostrou-me +a casa. Pedi gasalhado ao reverendo, que n'esse momento voltava da +igreja. Disse-me que subisse. Quiz saber quem eu era, e tratou-me +delicadamente, quando lhe citei um medico, pessoa de minha familia. + +O snr. padre Joaquim era um padre admiravel. Tinha maneiras da côrte. +Vestia com muita limpeza. Fallava com prodigiosa correcção, e offerecia +aos seus hospedes aguardente e biscoutos, tudo do melhor, e servido em +bons crystaes e polida salva de prata. + +Momentos depois que eu chegára, apeou á porta do meu sympathico +sacerdote um cavalleiro, ainda moço, muito pallido e magro, com chapéo +hespanhol, faxa vermelha, e botas d'agua. + +Era um estudante de Coimbra, que voltava doente para sua casa, e +costumava pernoitar em Alpedrinha, com aquella familia. + +A primeira pergunta do academico foi esta: + +--Como está a snr.^a D. Amelia? + +--O mesmo...--respondeu padre Joaquim. + +--E seu mano? Tem vindo a casa? + +--Não senhor: desde que foi delegado para * * *, ha tres mezes, não +voltou.... + +Eu estava ancioso por conhecer a snr.^a D. Amelia, porque até ao momento +em que o estudante chegou, suppunha eu que toda a familia do parocho se +limitaria a alguma ama, e alguns pequenitos, que, de ordinario, são +afilhados do padre. Depois das perguntas do meu illustre companheiro de +hospedagem, fiquei sabendo que n'aquella casa existia uma snr.^a D. +Amelia, e um senhor delegado de * * *. + +Padre Joaquim contou ao academico as minhas aventuras de caçador; +disse-lhe que me tinha achado muito fino (referia-se naturalmente á +magresa), e fez a apologia dos meus olhos, que, naturalmente, revelavam +uma extraordinaria esperteza, espiritualisados pelo espirito de vinho, +que o sacerdote me injectou nas veias marasmadas pelo frio. + +Conversei com o academico. Perguntei-lhe muitas cousas de Coimbra: +quantos canellões soffria um calouro; o calculo aproximado dos puxões de +orelhas; a solemnidade indecente de certo vaso na cabeça.... &c. &c. + +O academico respondia-me com muito agrado, e offerecia-se para meu +protector em Coimbra, no anno seguinte, que devia ser o da minha +partida. + + +VI. + + +--Snr. Valladares--disse o padre ao estudante--minha cunhada ergueu-se +da cama para vir comprimental-o... + +--É uma grande consideração, que eu lhe não mereço; mas a delicadeza da +snr.^a D. Amelia é sempre um severo preceito que ella se impõe. + +Fallou bem. + +N'isto, entrou uma senhora, com um ar de tanta nobreza, que me pareceu +uma cousa nova. Eu não conhecia assim nenhuma. Era alta, muito magra no +rosto, mas muito bella nos olhos, nos labios, nos cabellos, em tudo se +via tanta formosura, tanto donaire, um senhoril tão estreme do vulgo, +que eu, creança e poeta, senti-me tão acanhado como o mais boçal dos +pastores de cabras d'aquella freguezia. + +--Como passou, snr. Valladares?--perguntou ella com voz tremula, +tossindo a cada palavra, e aconchegando da face a golla de veludo da sua +capa. + +--Sempre doente, minha senhora... Por não poder mais, recolho-me a +casa... + +--Eu bem lhe disse que não fosse... v. s.^a teimou, agora já sabe que os +conselhos d'uma mulher não são sempre pieguices... + +--E os de v. exc.^a nunca poderão sêl-o... E a snr.^a D. Amelia como +está? + +--D'este modo que vê... Tossindo sempre, sempre mal, sem descanço d'este +lado, que me parece que já não vive, se não para matar o resto de vida +que tenho... + +D. Amelia indicava o coração. + +--Porque não dá um passeio até Lisboa?--tornou o academico. + +--Isso lhe tenho eu dito todos os dias--atalhou o padre. + +--De que me serve Lisboa? + +--São ares patrios, minha senhora. Talvez o contacto do coração com as +suas amigas de collegio... + +--Eu já não tenho coração para contacto com amigas nem inimigas, snr. +Valladares... + +--O que v. exc.^a tem é uma ardentissima imaginação, alma de poeta, que +só tem a sensibilidade do que é triste, e não sabe tirar recursos da +esperança... + +--Esperança!...--murmurou ella com um triste sorriso, e voltando-se para +mim, perguntou-me: + +--Já sei que este senhor esteve em risco de passar uma noite divertida +com os lobos... + +--É verdade, minha senhora; mas a Providencia encaminhou-me ao paraizo, +depois de me ter mostrado o inferno. + +--Ora ahi tem uma resposta d'um moço, que seria pena comerem-no os +lobos!...--disse o padre, desafiando um gracioso sorriso de Amelia. + +--Ha-de dizer ao seu parente medico que me salve da sepultura assim como +nós esta noite o salvaremos de ser victima dos lobos--disse-me ella, +apertando affectuosamente a mão de Valladares, em despedida, porque a +tosse exasperava-se cada vez mais. + +Esta rapida apparição impressionou-me muito. Queria fazer mil perguntas; +mas eu não tinha a quem. O padre e o estudante fallaram em assumptos, +que me não interessavam nada. O que eu queria era a vida, a historia, os +soffrimentos, a poesia d'aquella mulher. Eu tinha lido, dias antes, não +sei que romance, onde vira uma mulher assim... + +Appareceu um taboleiro com a cêa. O abbade fez o prato de D. Amelia. Era +uma aza de gallinha, que elle mesmo lhe serviu. + +Valladares tambem comeu do pucaro da doente. Eu, com o abbade, entramos +corajosamente n'um coelho guisado, cuja retaguarda cortamos com um +excellente caldo verde, e lourejantes castanhas assadas com manteiga. + +No fim, demos graças a Deus. + +O padre, segundo o seu costume, foi sentar-se á cabeceira de sua +cunhada. Eu e Valladares entramos n'um quarto commum. + + +VII. + + +O academico tinha uma physionomia franca e insinuante. Conversava comigo +sem desdenhosa superioridade. Familiarisamo-nos depressa, como dous +futuros companheiros de casa em Coimbra. + +Eu fui um grande fallador, n'aquella idade, em que pensava menos. O meu +recente amigo sympathisou com a minha garrula eloquencia, e dava signaes +de desenfado, quando naturalmente devêra querer dormir, depois de uma +fatigante jornada, em dia de neve. + +Eu não era rapaz que, por delicadeza, calasse a minha curiosidade a +respeito de D. Amelia. + +--O senhor faz-me o favor de me dizer uma cousa?--disse eu. + +--Que é? quantas horas são?... são 10... quer dormir? + +--Não, senhor: queria saber quem é esta snr.^a D. Amelia? + +--É cunhada do padre, e casada com um sujeito, delegado em * * *. + +--Isso já eu sabia... pouco mais ou menos. + +--Então sabe tanto como eu... + +--Mas é d'aqui d'esta aldêa esta senhora? Creio que ouvi dizer que era +de Lisboa. + +--É verdade... nasceu em Lisboa... + +--E como veio parar aqui n'este matagal? Naturalmente perdeu-se, como +eu, na serra, por causa da neve, e veio cá bater, e cá ficou! Pois eu +dou-lhe a minha palavra de honra, que apenas vir luzir o buraco, +retiro-me sem mais ceremonias d'este delicioso covil de cabras. + +O meu amigo ria-se. Estava disposto a achar-me graça, e o leitor póde +tambem rir-se, se lhe aprouver. + +E acrescentou ao sorriso: + +--Parece-lhe impossivel que a tal senhora viesse de Lisboa para aqui sem +ser impellida por um acaso? + +--De certo... Já não admira que ella tenha tosse de tisica... O que me +espanta é ella viver, se cá está desde hontem!... Quando veio ella? + +--Ha dous annos. + +--Então é eterna... ou santa. Hei-de dizer que encontrei esta martyr a +uma minha tia, que é capaz de jurar que a viu fazer milagres... + +--O menino é sarcastico! Se o não visse tão inclinado a rir-se de cousas +serias, contava-lhe uma historia triste... + +--E eu gosto muito de historias tristes... Verá que me não rio, quando +me dizem alguma cousa que me toque o sentimento. A minha familia +chama-me poeta; os visinhos chamam-me tolo; não sei bem o que sou; mas o +que não sou é insensivel... Vê... já não tenho vontade de gracejar... +Conte-me agora a historia, que eu prometto contar-lhe outra que me fez +chorar, porque é uma passagem tão infeliz, que, se eu fizesse novellas, +escrevia uma. + +--Talvez as escreva no futuro... + +--Eu?... Deixe-se d'isso... O meu mestre de logica diz que eu sou um +alarve, e o de rhetoria já me mandou ser aprendiz de alfaiate... Não +tenho habilidade nenhuma. O meu gosto é lêr os sonetos do abbade de +Jazente, e as quintilhas do Nicolau Tolentino. Não sei mais nada, nem +quero saber... Vamos á historia, sim? + +--Então aproxime-se de mim, que eu quero fallar baixo. Mas, antes de +mais nada, promette não contar a ninguem o que vou dizer-lhe? + +--Pois é segredo! + +--É. + +--Prometto... + +--Pois ahi vai. + + +VIII. + + +--Esta senhora viveu em Lisboa até aos dezeseis annos. Hoje o mais que +póde ter são vinte e dous. + +--Só?! Eu calculava trinta e tantos _bons_, como diz minha tia, quando +quer fazer todas as pessoas mais velhas que ella. + +--Pois deixemos lá sua tia, que deve ser, pouco mais ou menos, como +todas as tias... Vamos com a nossa historia, e depressa, senão adormeço, +e o meu curioso amigo perde a occasião de saber quem é a snr.^a D. +Amelia... + +--Isso de modo nenhum--atalhei eu com sobresalto--Prometto não +interromper a historia. + +--Pois bem. O pai d'esta senhora morreu em Lisboa, e o conselho de +familia deliberou que a orphã viesse para a provincia, onde tinha tios, +e o seu patrimonio em quintas. + +Quando appareceu em * * *, os rapazes fizeram-lhe montaria, e disputaram +a primazia no namoro. D. Amelia não aceitava, nem repellia a côrte de +nenhum. Tinha o mesmo riso para todos, e fallava a todos com a mesma +delicadeza. + +Havia alli um rapaz que não frequentava a sociedade de Amelia, porque +não frequentava sociedade nenhuma. Fôra educado em Genova, viera de lá +aos quinze annos, vivera no Porto até aos vinte e cinco, e quando +recolheu á provincia, d'onde sahira de tres annos, com a sua familia que +emigrára em 1828, ninguem o conhecia, e elle mesmo não queria conhecer +ninguem. + +Chamavam-lhe celebre, exquisito, excentrico, orgulhoso, impostor, e não +sei que muitas outras lisonjas do charco de certos espiritos, que não +podem sahir da pequena esphera de lama, que a natureza lhes deu por +homenagem. + +D. Amelia viu este rapaz n'um cemiterio: leu um epitaphio que elle +mandára abrir na sepultura de seu pai que o deixára em Genova no +collegio, e viera morrer em 1836 á patria: comprimentou-o de passagem, +respondendo a um distincto cortejo do melancolico poeta; e parece que, +desde esse encontro, Amelia transfigurou-se para todos os homens, deu +que pensar á sua familia, queria todos os dias visitar o cemiterio, e +retirava quasi sempre mais triste, porque muito raras vezes encontrou +alli o invisivel extravagante da opinião publica. + +--Como se chamava elle? Eu conheço alguns rapazes de * * * que foram +meus condiscipulos em logica. + +--Não é nenhum dos seus condiscipulos. Já lhe disse que este sujeito +veio do Porto para a provincia, com vinte e tantos annos pelo menos. O +seu appellido é Côrte-Real, conhece? + +--Nada, não conheço; mas ouço fallar todos os dias n'esse rapaz. + +--Que ouve dizer? + +--Que está em Lisboa, doudo, no hospital... + +--O senhor afiança-me isso? Ha que tempo endoudeceu? + +--Ha dous ou tres mezes... + +--Quem lh'o disse? + +--Um medico, meu parente, que o mandou conduzir para a enfermaria dos +doudos. + +O academico fez-me signal de silencio, e mandou-me ouvir. + +--Não ouve?--disse elle. + +--Ouço... é alguem que soluça... + +--É ella... + +--D. Amelia? + +--Sim... Ouviu a nossa conversa... Tem ouvidos de tisica... + +--É admiravel!... Pois o quarto d'ella não é longe d'este? + +--Passam-se tres quartos, mas os repartimentos são de tabique, e eu não +me lembrei de tal... Calemo-nos... + +--E a historia?... Falle mais baixo, que ella não ouvirá mais nada... + +--Agora, é impossivel... Aquelles soluços transtornaram-me a cabeça... +Deite-se, e ámanhã fallaremos antes de nos despedirmos... + + +IX. + + +Á cabeceira do meu leito, estava um volume das _Viagens de Cyro_, e o +quinto volume d'uma _Miscellanea curiosa e proveitosa_, onde encontrei +uma longa poesia a _D. Ignez de Castro_, que me fez dormir até ás 8 +horas da manhã. + +O meu companheiro, quando abri os olhos, estava sentado na cama, e +escrevendo nas paginas d'uma carteira. + +--O senhor está a fazer versos?--perguntei eu. + +--Adevinhou. + +--Faz favor de recitar, se não é segredo! + +--Recito: olhe lá se entende: + + _Eras um anjo? Se o eras + Que torvo facho do inferno + Te queimou as azas? Diz: + Porque, tão cedo, infeliz + Cahes no abysmo eterno_!... ETERNO! + +--Entendeu? + +--Não, senhor. + +--Veja se entende agora: + + _Eras pura, quando lagrimas + Tu me déste, e me pediste... + Tu choraste aqui, choravas... + Mas porque? prophetisavas + Este abysmo em que cahiste?_ + +--Entendeu? + +--Nada... Ora diga-me os versos tem alguma cousa com a historia que +ficou suspensa? + +--Não, senhor; pertencem a outra, que nasceu aqui n'esta casa, e que é +toda minha... + +--Esta casa parece-me uma casa de novella... Estou a vêr se aqui arranjo +tambem alguma historia para contar a minha tia, que está resando o +quadragesimo responso a Santo Antonio por minha causa, se é que já me +não resou por alma... Então o senhor não conta ao menos a primeira +historia completa? + +--Hei-de contar. + +--Quando? Eu vou-me embora logo. + +--Não vai. Já aqui esteve o padre, e disse que não sahiriamos d'aqui +hoje, porque augmentou de noite a neve. + +--Deixal-a; mas a minha familia, se eu não appareço, nem dou parte de +mim, julga-me morto, e é capaz de me fazer officio de corpo ausente. + +--Não se assuste, que o padre hontem á noite mesmo fez partir para a sua +aldêa um criado com a certeza de que o senhor ficava vivo, e mais o seu +furão. + +--A proposito, sabe se já dariam de almoçar ao meu furão. + +--É natural que sim... Ahi vem o snr. abbade; perguntemos-lhe... Snr. +padre Joaquim, pergunta alli o nosso amigo se o furão ja almoçou. + +--Comeu quatro ovos, e está agora brincando com minha cunhada, que é +muito amiga de bichos. + +--E como passou ella?--perguntou Valladares. + +--Penso que melhor... Ergueu-se muito cedo: a creada disse que a vira +chorar toda a noite; mas agora fui, com grande espanto meu, encontral-a +com o furão no regaço, a sorrir-se como quem é muito creança e muito +feliz... Sabe o senhor que... + +Não sei bem o que o padre disse ao ouvido do estudante. Desconfio, pela +resposta, que o resto do segredo era o receio de que ella endoudecesse. + +Tudo isto, apurava-me o desejo de saber o que era a demencia de +Côrte-Real, e a tisica de Amelia. + + +X. + + +Almoçamos. + +D. Amelia esteve comnosco alguns minutos, ouvindo não sei que palavras a +meia voz, do meu amigo, inintelligiveis para mim, supposto que ahi se +fallasse duas ou tres vezes n'uma D. Miquelina. Tudo mysterios! + +O padre foi dizer missa. D. Amelia foi com elle. Fiquei com Valladares, +tremendo de frio, ao pé d'uma bacia de brazas. O attencioso levita teve +a delicadeza de nos não convidar a participarmos da sua missa, que +n'aquelle dia, com tal frio, faria hereges espiritos devotos. + +--Ahi vai agora a continuação da historia--disse o academico, engulindo +o fumo de quatro cigarros successivos--A familia d'esta senhora é muito +realista, muito fanatica, arde em odio contra os impios, que são todos, +menos os sectarios de D. Miguel, e alguns, senão todos, de D. Sebastião. +A familia de Côrte-Real é ultra-liberal, odeia os realistas com aquelle +odio saturado na emigração, e não admitte honra, intelligencia, nem +merecimento em homem que não fosse capaz de cortar as orelhas a um +miguelista, se elle estiver por isso. Já vê que as duas familias +detestam-se. De parte a parte no momento em que as relações de Amelia +com Côrte-Real fossem percebidas, imagine o meu amigo que não hiria! + +--Então elles namoravam-se? + +--Pois eu não lhe disse já que sim? + +--Não, senhor: disse-me que Amelia passeava repetidas vezes no cemiterio +para vêl-o, mas que não o via muitas vezes. Eu queria saber como se +encontraram... porque... desejo saber como é que a gente póde sahir d'um +encontro d'esses!... Não ha muito que me vi entalado com um d'esses +encontros... Eu tinha o recado na ponta da lingua, e, quando vi a +mocetona, que não era cousa de atarantar um estudante de logica, +pegou-se-me a lingua ao céo da bocca, como diz não sei que poeta... _vox +faucibus hoesit_... Que lhe disse elle quando a viu? + +--Isso é que eu não sei, porque não ouvi. O que sei é que se fallavam +por cartas, e entretiveram assim relações seis mezes. Por fim, +descobre-se o namoro. Côrte-Real fallava da rua para a janella com +Amelia: um tio d'ella é avisado; espera-o no pateo, com a porta fechada, +e, quando elle principia a dizer bellas cousas, o tal bruto abre a +porta, e descarrega-lhe quatro bordoadas, que o pozeram fóra do combate. +No dia seguinte, mandou-lhe a casa a capa, o chapéo, e uma clavina, que +fôra tres vezes batida á queima roupa do tal varredor de feiras. + +--E depois? + +--D. Amelia, duas horas depois, foi mandada entrar n'uma liteira, e +conduzida a casa d'este padre. + +--Para que? + +--Para ninguem saber o seu destino, em quanto vinha de Lisboa, onde ella +tinha o conselho de familia, uma ordem para ser recolhida a um convento. + +--E Côrte-Real que fez? + +--Curou as feridas da cabeça, e indagou o destino de Amelia. Como o não +soube, cahiu n'uma melancolia profunda, teve accessos de loucura, e, +pelo que o senhor me disse, está hoje no hospital de Rilhafolles. + +--E Amelia casou-se? + +--Pois no casamento é que está o interessante da historia. + +Quinze dias depois da sua vinda para aqui, chegou de Coimbra o irmão do +padre. Parece que sentiu por Amelia o que era muito natural que +sentisse. Amou-a, mas não ousou declarar-se, porque sabia os +precedentes, que a trouxeram a esta casa. Ella, por si, tractava-o com a +fria delicadeza da indifferença, até ao momento, em que recebeu de uma +sua tia a noticia de que viera ordem do conselho de familia para ser +conduzida a Lisboa, e lá recolhida em um convento. + +Lida a carta, Amelia offereceu-se como esposa do bacharel. O imprudente +sem mais nem menos, aceitou a offerta. Alcançou do arcebispo dispensa de +banhos e consentimento do tutor: o irmão, sem consultar a philosophia, a +religião, e a consciencia, casou-os. Na tarde do dia das bodas, chegou a +liteira que devia levar a orphã a Lisboa. Amelia apresentou-se a seu tio +com um desdenhoso sorriso, e disse: «Não tenho duvida nenhuma em hir +para Lisboa, e para um convento, mas é necessario que meu marido vá +comigo.» + +--Seu marido!--exclamou o tio estupefacto. + +--Meu marido... aqui lh'o apresento. + + +XII. + + +--Dias depois, esta victima dos seus caprichos, cahiu doente. O medico +capitulou-lhe a enfermidade de tisica no primeiro grau. O marido +arrependeu-se muito cedo. Ella não se arrependeu, porque sabia que dava +um passo que devia matal-a. E, com effeito, está alli... está morta... + +...Ahi vem ella e o padre... Fallemos d'outra cousa... +........................................................................... +........................................................................... + + +CONCLUSÃO. + + +Um anno depois, em Coimbra, dizia-me Valladares: + +--Olha que tive carta do abbade de Alpedrinha. D. Amelia morreu, e as +suas ultimas palavras ao marido foram estas: MORRO POR CAPRICHO. + + + + +UMA PAIXÃO BEM EMPREGADA. + + + + +UMA PAIXÃO BEM EMPREGADA. + + +I. + + +O meu amigo Valladares, em uma tarde formosa, passeando comigo no +_Penedo da Saudade_, sentou-se, accendeu um cigarro com perfeição +academica, abriu a carteira, e recitou-me os versos, que, um anno antes, +me recitára em Alpedrinha. + +--Lembras-te?--disse elle. + +--Perfeitamente. Prometteste contar-me então uma historia. + +--Vou cumprir a promessa. + +--E disseste que o teu conto prendia muito com aquella casa. + +--Disse, e vaes vêr porque. Olha que eu não vou fazer estilo. Prepara-te +para uma narração simples, e clara. Não pertenço á escóla dos nossos +lapidarios de palavras, que nos dizem em estilo de Corneille as scenas +comicas de Moliere. A minha historia, se tal nome lhe cabe, é uma +tragedia com muitas scenas de farça. Ainda que me não vejas rir, tens a +liberdade da gargalhada. Ahi vai: + +Em 1843 fui á feira do Santo Antonio a Villa-Real. Encontrei ahi uma +familia que mora uma legua distante de minha casa. Compunha-se d'uma +senhora idosa, que era mãi d'um cavalheiro, e este cavalheiro era pai +d'uma bonita mulher, que teria dezoito annos. Gostei d'ella, ou antes +confirmei a sympathia que ella me tinha presa desde que a vi, pela +primeira vez, dous annos antes, n'umas ferias grandes. Não lhe disse +quasi nada. Eu era rapaz de dezoito annos, e, aos dezoito annos, um moço +d'aldêa tem o coração acanhado, e córa facilmente, quando encontra os +olhos d'uma mulher, supposto que os veja constantemente em sonhos. A +rapariga chamava-se Miquelina; isto não faz ao caso; mas sempre te digo +que nunca suppuz poder pronunciar este nome sem lagrimas... O que é o +tempo!... + +Combinamos partir juntos de Villa-Real. Não recordo na minha vida um dia +mais feliz do que o dia da nossa partida! A familiaridade animava-me a +dizer algumas palavras d'aquellas que nunca exprimem senão a sombra do +sentimento. Miquelina corava, mas nem por isso sustinha as redeas do +cavallo para esperar a avó e o pai, que vinham alguns passos distantes. + +Teriamos andado legua e meia, quando o macho em que vinha montada a +velha tomou susto d'um tiro, que se deu ao lado da estrada, recuou, e +deu em terra com a pobre senhora. Acudimos todos. + +Encontramos-lhe uma fractura profunda na cabeça, e uma perna quebrada. +Perguntamos se d'alli perto haveria uma casa onde nos recolhessemos. +Encaminharam-nos a Alpedrinha, e a casa era a do padre onde me +encontraste. + +O acolhimento que nos deram foi excellente. Encontrei ahi o irmão do +abbade que era meu contemporaneo em Coimbra. Os facultativos disseram +que era impossivel continuar jornada, e ahi ficamos vinte dias. + +N'este espaço de tempo, sonhei a felicidade, por que hoje sei que não +existe a realidade d'esses sonhos. Fui muito feliz, senti-me poeta, +idealisei á sombra de Miquelina cousas e pessoas que nunca tiveram senão +materia vilissima para as aspirações do poeta. Em fim, meu caro, cheguei +a recuperar a fé perdida nas cousas da Providencia, porque me parecia +impossivel tanta felicidade sem consentimento especial da Providencia. + +Disse a Miquelina tudo que humanamente póde dizer-se. Traduzi-lhe em +palavras os extasis, que as não tinham. Interessei-a na comprehensão da +minha alma, e arranquei-lhe uma palavra, que mil vezes lhe morrera nos +labios, como queimada pelo ardor do pejo. Quando ella me disse «amo-o» +se não endoudeci de contentamento, é porque a disposição do meu cerebro +é invulneravel aos golpes da demencia. Hoje rio-me d'isto, e tu, se te +não ris, agouro-te que não poderás dizer o mesmo a respeito da tua +cabeça, passados alguns annos. + +--Porque? + +--Porque das duas uma: ou doudo, ou cynico. Tomar a serio a sociedade é +endoudecer. Viver com ella em boa paz é escarnecel-a. Ou doudo ou +cynico. Não enlouqueci; mas depravei-me. Este escarneo, que +indistinctamente voto a tudo, é a negação da piedade para todas as dôres +nobres, e a do odio para todos os prazeres infames. Não me espanta nada. +Aperto a mão do mais corrupto, e a do mais virtuoso com a mesma graça. +Recebo todos os desaforos como factos consumados. Não dou dez reis pela +virtude dos missionarios do Japão, nem daria cinco de volta se elles me +trocassem a sua fé pela minha illustrada impiedade. Eu e elles somos +bons, ou maus: como quizerem. Eu acho que todos somos excellentes filhos +de Deus, e Deus, que nos conserva, lá sabe a razão porque o faz... + +--Tu não sentes o que dizes... + +--Estás a brincar comigo!... Pois não sinto o que digo?! Tu não vês o +que está dentro d'este homem, nem pódes ainda ajustar á face do cadaver +a mascara que o retrate... + +--Mas é possivel ser-se o que tu és?! + +--Se é!... Se me não tivesses interrompido, já sabias a razão porque o +sou... Nada de interrupções... Se começo a divagar, digo diabruras, +perco-me em abstracções, que te hão-de parecer pretenciosas, e lá vai a +historia... + +--Palavra, que não te interrompo... + +--Quando sahimos de Alpedrinha, as minhas intimidades com Miquelina eram +já suspeitas ao pai, que não se entremettia paternalmente no negocio. +Sabes que eu tenho uma soffrivel casa, e Miquelina não era muito mais +rica. Era possivel, e até vantajoso um casamento. Murmurou-se n'este +assumpto em casa do padre, e eu fui consultado por elle. + +Isto arrefeceu-me um pouco. Não queria que me viessem tão cedo direitos +ao materialismo. A pequena, porém, não tinha culpa. Eram cousas da +velha, que quebrára a perna, mas ficára com a alma inteira para seguir o +recto caminho, a logica implacavel do namoro, banhos, casamento, filhos, +aborrecimento, barrete de dormir, catarrho, cangalhas no nariz, e +rheumatismo. + +Eu amava verdadeiramente Miquelina. Instado pelas perguntas do officioso +abbade, respondi que me casaria um anno depois, porque não queria dar +tal passo sem o consentimento d'um tio, que fôra receber ao Brazil uma +herança, que viria augmentar consideravelmente a minha casa. + +Ficamos n'isto. + +Tres vezes por semana, durante os dous mezes de ferias, visitei +Miquelina, e revalidei os meus votos, porque esta paixão não era das que +fogem quanto mais faceis se aproximam. A minha Beatriz parecia-me boa de +coração, ajuizada de cabeça, fina de espirito, e em quanto á cara, ao +corpo, e ao donaire... dir-te-hei que as seducções eram tantas, e tão a +proposito que nunca tive occasião de me sentir de uma illusão +desvanecida. Vim para Coimbra. A nossa despedida foi pathetica. +Beijei-lhe a testa pela primeira vez. Comprimi-a ao coração com o +enthusiasmo do primeiro abraço. Recebi da sua mão tremula, como prenda, +o lenço com que enxugára as lagrimas, e retirei-me com o coração +partido, mas vaidoso de esperanças, que a saudade me dourava no meu +lindo futuro. + +Logo que aqui cheguei, escrevi-lhe. Imagina o que eu lhe diria! Eram +vinte folhas de papel, escriptas em todas as estalagens onde pernoitei, +e fechadas com uma especie de hymno de lagrimas, em que se me foi tudo o +que a minha alma podia dar de superior áquillo que todos os homens sabem +dizer n'uma carta de namoro. + +Respondeu-me. A sua carta era simples, mas os toques eram verdadeiros... +pareciam-no... via-se alli a mulher que escreve a primeira carta, o +coração timido que balbucia os sons d'uma selvagem innocencia, que é a +felicidade do homem que primeiro os tira do coração d'uma virgem. + +Tres mezes assim. Tres mezes d'uma vida phantastica. Ancias insaciaveis +das suas cartas. Tristezas dôces quando me faltavam n'um correio. Zangas +sem odio, se o coração de tão longe a criminava de ingrata. Tres mezes +assim... e no fim de tres mezes... adevinha o que aconteceu... + +--Eu sei cá... morreu? + +--Não. + +--Veio cá ter comtigo? + +--Não. + +--Abandonou-te? + +--Abandonou. + +--Isso é incrivel! + +--Acredita. Agora adevinha por quem eu fui preferido. + +--Eu só te conheço a ti na tua terra... + +--Imaginas que algum dandy a requestou de modo que a fragil creatura +succumbiu ás seducções invenciveis? + +--Só assim. + +--Ora adeus! Tu não adevinhas, porque não sabes nada de mulheres... + +--Foi o pai que a forçou a casar-se com algum brasileiro muito rico?... + +--Tambem não... + +--Diz lá isso, que estou impaciente... + +--Pois lá vai: a minha querida Miquelina, o meu anjo que corava se o meu +halito lhe roçava nas faces, a minha pudibunda Virginia que recebeu o +meu primeiro beijo a tremer, a minha mimosa sensitiva que parecia +resequir-se á mingoa dos meus carinhos... sempre queres que te diga? + +--Pois então? + +--A minha promettida esposa... fugiu com um... digo? + +--Acaba, homem! + +--Com um lacaio da casa!... Ólá! não fiques assim atordoado! Rite, como +eu... + +--Isto é inconcebivel!... E depois? + +--Depois... que queres que eu te diga? + +--Que fim teve essa mulher? + +--Foi agarrada por ordem do pai, e o lacaio morreu arcabusado +summariamente para não dar que fazer á justiça. + +--E ella... vive? + +--Creio que sim. + +--Na companhia da familia? + +--Não... Tu não me disseste que viras no Porto... Fiquemos aqui... + +--Isso de modo nenhum... Has-de concluir... + +--Pois sim... que importa!... Não me disseste que viste no Porto uma +meretriz que revelava uma boa educação, e não queria dizer d'onde era, +nem como viera áquella vida?... + +--Disse... mas não se chamava Miquelina... + +--Isso não faz nada ao caso... Rosa, ou Miquelina, é a mesma... é a +minha promettida esposa, é o anjo dos meus primeiros amores, é a pomba +alvissima da innocencia que encontrei em Alpedrinha... É ella... +Basta... É noite... Vou fazer monte, e depois, se te quizeres embriagar +comigo, vamos ao _Paço do Conde_, e beberemos á saude da exc.^{ma} +Miquelina Alpoim e Malafaia, victima d'uma paixão pelo infeliz lacaio, +que desceu ao tumulo... das illustres victimas. Já sabes como se faz um +cynico? A esses parvos, que por ahi andam a gaguejar um scepticismo que +cheira a cueiros, dá-lhe com uma palmatoria. + +E não tornou a fallar-me n'esta mulher. + + + + +DE ABYSMO EM ABYSMO. + + +Eu é que não podia satisfazer a minha curiosidade com a descosida +revelação de Valladares. + +Muitas vezes acalorei a questão do cynismo, applicando-a a Miquelina; +mas este nome enfurecia-o de tal modo, que as nossas relações estiveram +a romper-se, e reataram-se com a condição de eu nunca lhe tocar +ligeiramente em semelhante assumpto. + +Sujeitei-me; mas, na primeira occasião prosperada pelo acaso, alcancei +esclarecimentos, que illucidam a degradação da pobre mulher. + +Em 1848, Miquelina vivia ainda no Porto. A sua vida já a sabem. Como +veio ella tão abaixo? + +Foi assim: + +Alguns dias depois da fuga vergonhosa com o defunto lacaio, Miquelina +foi conduzida a Lisboa. A avó, que pôde sobreviver ao golpe, quiz salvar +a neta da colera do filho. Este ausentára-se para Chaves, no momento em +que a filha entrára em casa. De lá, escrevendo á mãi, dizia-lhe que +désse á infame algum destino, porque, em quanto a sua presença +envergonhasse aquella casa, nunca elle tornaria alli. + +D'aquella familia estava em Lisboa um magistrado, tio materno de +Miquelina. Foi este o encarregado de recebêl-a durante alguns mezes na +sua casa. + +Não se passaram muitos dias, sem que Miquelina revelasse os seus +instinctos. Namorava escandalosamente um homem, sem nome, que +frequentava as janellas d'um alfaiate, que morava em frente. + +O magistrado suspeitou, e prohibiu-lhe o uso das janellas. O homem, que, +por força, havia de ter um nome, e poderia muito bem chamar-se José +Maria, não era tão escasso de meios que não comprasse um creado da casa. +O creado era o intermedio da correspondencia, menos da ultima carta, +surprehendida pelo magistrado. Esta carta authorisava José Maria a +empregar a força judicial para tirar de casa Miquelina. N'esse mesmo +dia, a perigosa «donzella» foi mudada para casa de um general, cunhado +de seu tio. + +O general era solteiro, homem de cincoenta e tantos annos bem +conservados, admirador das boas mulheres, e vigoroso ainda para não +desmentir o culto, quando se lhe pedissem provas praticas das theorias +um pouco irrisorias na sua idade. + +Tinha comsigo duas irmãs, mais novas, que, _mutatis mutandis_, +professavam as idêas do irmão. + +Dito isto, vê-se que a casa, onde Miquelina foi reclusa, era um viveiro +de moral. + +Foi bem recebida, e até muito bem aconselhada. As irmãs do general +fallavam muito da virtude, e da honra. Quem as não conhecesse, +acrescentaria duas martyres ineditas ás onze mil virgens conhecidas, de +que Byron duvidou, e eu não me sinto muito propenso a acreditar, nem o +meu amigo Valladares. + +O José Maria não sei que fim levou. Seria algum d'esses quatro que em +1845 se precipitaram dos «Arcos das Aguas-livres!?» Se foi, não andou +bem, porque fez as cousas de modo que ninguem falla d'elle. Os +_Werthers_ sabem escolher as occasiões, senão... é melhor deixarem-se +morrer de tedio, que é a morte que me espera a mim, e a ti, leitor, no +fim d'este livro, se não morreres no meio. + +O general namorou Miquelina. Namorando-a, seduziu-a. Seduzindo-a, +abriu-lhe a outra meia porta da corrupção. + +Porque foi assim que as cousas se passaram: + +Miquelina affeiçoou-se ao general, como se affeiçoára a Valladares, ao +lacaio, e ao José Maria. Trazia o cunho da perdição! Era uma d'estas +desgraçadas que a gente vê cahir, cahir, cahir a despeito de todos os +estorvos! Que Deus, ou que demonio imprime o movimento n'estas machinas, +sem coração nem cabeça? Não se sabe! A verdade é que eu sinto vontade de +chorar essas victimas cegas d'um destino barbaro, e tenho furias de +blasphemo quando me dizem que Deus se entremette nas cousas d'este +mundo... Vamos adiante, senão atiro a penna fóra, e rasgo o papel... + +Ora já vedes que o general era um devasso, e a pobre menina deve +merecer-vos uma pouca de compaixão, se eu vos afianço que o amou, até ao +ciume. + +Disseram-lhe um dia que uma mulher de capote e lenço entrára no quarto +do general, que era ao rez da rua. Miquelina estava doente de cama. +Ergueu-se com febre, vestiu-se precipitadamente, desceu as escadas +cambaleando de fraqueza, escutou á porta do traidor, e ouviu risadas, e +palavras obscenas. + +Era noite, quando isto se passava. + +As irmãs do general deram pela falta da hospeda, e desceram a procurar o +irmão. Miquelina, quando as sentiu, na incerteza do que devia +responder-lhes, fugiu. Fugindo, achou-se n'uma rua que não conhecia, +atravessou umas poucas, chegou a uma praça onde encontrou umas mulheres +esfarrapadas que a tractaram por tu, e fugiu até deparar as escadas +d'uma igreja, onde um soldado lhe veio dizer palavras desconhecidas. + +Fugiu ainda; mas a desgraça corria a par d'ella. + +O frio da noite, e a febre do coração aniquilaram-na. Sentou-se n'um +portal, e desmaiou. Uma patrulha deu-lhe com a ponta do pé, e a +desgraçada não respondeu. Tomaram-na como bebeda, e foram seu caminho. + +Outra patrulha sacudiu-lhe a cabeça pelos cabellos. Miquelina gemeu, +abriu os olhos, e pediu erguendo as mãos que a deixassem morrer. Estava +perto do hospital de S. José. Os soldados pediram soccorro ao proximo +corpo da guarda, e mandaram-na para lá. + +No hospital, deram-lhe uma cama na enfermaria... não sabemos que +enfermaria; mas parece que o facultativo, na visita de manhã, mandou +retirar a mulher para um quarto particular, pago á sua custa. + +Que foi o que ella disse ao medico? Nada. Seria n'elle um arrojo de +caridade? Não. «Pois não tens uma palavra boa para explicar uma acção +nobre?» Nobilissimos leitores, deixai-me suppôr que sois melhores +pessoas que o medico. O que elle queria era uma creada, com as feições +de Miquelina. As despezas da cura, além de ficarem encontradas no seu +ordenado, seriam pequenas. Uma febre benigna não resistiria ao +tratamento de oito dias. + +Mas, ao setimo, Miquelina fugiu do hospital, favorecida pela enfermeira, +em cuja casa foi residir. + +Desde esse dia, chamou-se Rosa. +........................................................................... +........................................................................... + +--Que bonita rapariga é aquella que está em casa da A * * * na calçada +do Duque? + +--É uma rapariga da provincia, pela pronuncia: chama-se Rosa, mas não +diz d'onde é, nem quem a trouxe alli. + +--Parece bem educada! + +--Parece... e não é desbocada... Não tem ainda a consciencia do seu +officio... É necessario que perverta a linguagem, se quizer +celebrisar-se... + +--De quem fallam vossês?--disse um terceiro, que, na Praça do Rocio, +veio associar-se ao grupo. + +--D'aquella Rosa, que tu denominaste um _cherubim precipitado_ na tua +poesia. + +--E é... + +--É!... pois tu sabes a vida d'ella? + +--Sei... + +--Contas? + +--Não... + +Este terceiro era Valladares. + +Teve elle coragem de vêl-a face a face? + +Não teve: entrou alli com uma mascara na terça feira de Entrudo. + +Conheceu-o ella? Conheceu: porque no dia immediato desappareceu de +Lisboa. + +É por isso que eu a vi no Porto em 1848... +........................................................................... + +O general é hoje conde. O menos torpe dos florões da sua corôa é este... +Foi _honrado e hospitaleiro_!... + +Valladares embriaga-se todos os dias, e não póde assim viver muitos +mais, porque já não sente no paladar o acido do cognac. + +E Miquelina? + +Ha mais de seis annos que os estudantes da escóla medico-cirurgica do +Porto a retalharam fibra a fibra com os seus escalpellos observadores. + +Já vêdes que morreu no hospital, e foi em pedaços atirada ao monturo da +santa casa, depois de se prestar, como cadaver, ás lucubrações da +anatomia. + +Podeis não acreditar tudo, ou parte d'isto... Olhai, porém, que vos não +dei aqui a verdade descarnada como ella é no conto melindroso, que vos +contei. Escondi-vos metade. + + + + +AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA. + + + + +AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA. + + +O snr. Manoel Pires, pharmaceutico approvado por outro pharmaceutico que +não foi approvado em parte nenhuma, estabeleceu a sua botica n'uma aldêa +do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O seu laboratorio chimico era +um fogareiro e uma retorta de vidro, emendada no collo por um cylindro +de lata. A sua livraria era o _Medico lusitano_, in folio; uma +Pharmacopeia, edição de 1700; e um pequeno volume intitulado--_Segredos +da natureza_. Os lotes, que eram seis, continham garrafões de barro +vidrado, atapulhados de hervas, que tinham o merecimento chronologico de +serem contemporaneas dos garrafões. Afóra isto, não sei que liquidos +verdes e amarellos e azues variegavam um dos lotes, que, pelos modos, +continha os remedios heroicos, como oleo de amendoas dôces, extracto +d'amoras, solimão, e oleo de mamona. + +Com tantos elementos não admirava nada que o snr. Manoel Pires fosse um +sabio, não digo consumado, mas superior á intelligencia d'alguns +cirurgiões d'aquella redondeza. + +Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hypocrates honrou as cinzas +de seu pai fazendo a cura radical d'uma espinhela cahida na pessoa da +snr.^a Therezinha da Fonte. Este triumpho da pharmacia sobre a espinhela +elevou o snr. Pires, não direi até ás columnas do _Zacuto_, mas até onde +podiam leval-o as suas aspirações de mestre Manoel Pires, como +respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos freguezes. + +Um segundo triumpho veio consolidar a reputação adquirida no primeiro. A +cura d'uma _ostrução_, que eu não sei o que é, e outra d'umas +almorreimas renitentes, não deixou nada a desejar por aquelles +arredores. + +O snr. Manoel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providencia lhe +cedêra. Relacionou-se com o parocho, com o regedor, com o juiz de paz, e +associou-se assim a um triumvirato, que decidia dos destinos da +freguezia. E o que elles não fizessem dez leguas em redor ninguem o +faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antonio da Pôça que o sobredito juiz +de paz se correspondia com os _governos_ de Lisboa. Não posso abonar na +sua integra a verdade do dito; mas não será sem fundamento a cousa, +attendendo á importancia d'um juiz de paz, quando se tracta de fazer um +deputado. + +O boticario era uma figura incapaz das honras anatomicas do romance. +Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das +bochechas cahiam-lhe em fórma de sanefas sobre os collarinhos engommados +com pós de batata. + +As ventas eram dous vulcões que resfolegavam lavas de simonte; e, não +sei porque analogia estupenda, os dentes acavallados simulavam uma +Herculanum em miniatura, um destroço de pilastras e ogivas e capiteis. + +Como quer que fosse, o snr. Manoel Pires, aos quarenta annos, contava +quarenta conquistas das melhores raparigas da freguezia. E, honra lhe +seja feita, não deu nunca pasto nos soalheiros, nem consta que désse o +menor escandalo. Lá como elle fazia as cousas, e a felicidade dos seus +triumphos, vai o leitor ajuizar, se, em desconto dos seus peccados, +quizer lêr uma pagina altamente dramatica da biographia do nosso amigo. + +Manoel Pires foi chamado um dia para curar uma dôr de _reins_ na pessoa +da tia Maria do Eiró. Não é necessario dizer que a molestia obedeceu. Na +mesma casa curou da _triz_ o tio João, e por fim talhou o _bicho_ com +perfeição e felicidade á Mariquinhas, rapariga d'uma vez, e cousa de pôr +a cara a um lado a mais de quatro _Antonys_ de sócos que lhe andavam por +lá a regougar palavras de ternura. + +O leitor não saberá o que é talhar o bicho, e eu, realmente lhe digo, +que não consultei o diccionario das sciencias medicas. Fiquemos com a +nossa ignorancia; e eu faço sinceros votos porque nos não seja preciso +nunca talhar o bicho. + +O caso é que o mestre Manoel Pires fallou ao coração da rapariga, e +fez-lhe vibrar todas as cordas da viola de alma. Não sei se a moçoila +viu archanjos, serafins, e brizas, e raios de lua a pratear lagos +d'anil. O que eu sei é que a boa da rapariga achava que eram pouco os +olhos da cara para vêr o snr. Manoel Pires, que, diga-se a verdade, não +era sceptico, nem carpia tristezas por deshoras ao som do murmurar +saudoso do sujo regato que lhe passava á porta. + +Felizmente para elle, o dono da casa foi atacado d'um _estalecidio_ que +lhe cahiu nos bofes, segundo a opinião do boticario, e a cura demorada +d'esta séria enfermidade proporcionou aos ternos amantes occasiões +ditosas de se trocarem palavrinhas de pôrem o coração em maré-cheia de +poesia chula. + +O dialogo, que mais concorreu para a solução final, foi +incontestavelmente o seguinte: + +Elle.--O deus Cupido fez dos olhos de vm.^{ce} duas settas, que +trespassaram o meu coração. + +Ella.--E as palavras de vm.^{ce}, como o outro que diz, são palavrinhas +de mel a que não _regeste_ meu sensivel peito. + +Elle.--Eu bem queria dizer a vm.^{ce} as ternuras do meu coração, e as +congeminencias do meu pensamento. Vm.^{ce} é mais bonita que Venus, e +Cupido é o deus do amor que me derrete aos pés de vm.^{ce} + +Ella.--Pois se vm.^{ce} me tem amor para o bom fim o deve ter, que quem +mal anda mal acaba, como o outro que diz. + +Elle.--O fim para que eu fallei a vm.^{ce} só eu o sei; e a troco d'esse +negocio faz mingoa fallarmos outra vez. + +Ella.--Quando vm.^{ce} quizer, e Deus o faça para bem, que lá eu +querer-lhe isso quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se +assim não é. Uma rapariga que tem seus _cretos_ não deve de perdel-os, e +vm.^{ce} bem entende as cousas que é sabio e homem de cabeça, por muitos +annos e bês. + +Elle.--E vm.^{ce} que os conte. Ora pois; o que se ha-de fazer ao tarde +faça-se ao cedo. Se vm.^{ce} me der duas palavrinhas esta noite, ouvirá +da minha bocca as affectiveis ternuras do meu amante coração, onde o +deus Cupido cravou as mais duras settas. + +Ella.--Pois se vm.^{ce} promette de ter toda áquella de... sim, dizia +eu, se vm.^{ce} promette de ter toda áquella... sim... como diz lá o +ditado... + +Elle.--Pelo deus Cupido lhe prometto a vm.^{ce} de lhe não pôr a minha +mão, nem palavra lhe direi que seja escontra a honra de vm.^{ce}. + +A resistencia da rapariga era impossivel! Quando a eloquencia, assim +inspirada do intimo da alma, regorgita em jorros nos labios d'um amante, +é certo o triumpho. O amor é realmente o galvanismo dos estupidos, +d'esses cadaveres moraes, que se levantam do tumulo da intelligencia, e +cantam lerias n'um alamiré celeste! Não nos recordamos de ter lido em +romances francezes um dialogo tão fertil d'imagens, tão vibrante de +affectos, tão digno, em fim, de ser copiado na carteira d'estes obtusos +amadores das salas, para os quaes não ha assumpto, se lhes falharem as +reminiscencias do borda d'agua. + +Manoel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados +n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro causticos +para a numerosa clinica que o esperava. Sem exageração, este +pharmaceutico era uma pilula de Holloway viva! Resumia todas as virtudes +da revalenta arabica. Logo que o anjo da guarda,[1] não podesse salvar o +enfermo das aggressões mephiticas do espirito mau, Manoel Pires, anjo +sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade, +quer na bocca do _estamago_, quer nos _bofes_ quer nos _miolos_! Este +homem despresava a nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos +outros creadores de nomes barbaros que não fazem nada á saude do +cidadão. Honra lhe seja feita! + +O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma cousa enorme de +cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam não sei que +pythonissa magica, e, por fim de contas, era um relogio, cujo involucro +suppria á farta uma bacia de semicupios. + +Eram 8 horas. Na aldêa é esta a hora dos amantes. Manoel Pires enfiou as +suas meias de lã até á cintura, calçou os sapatos confidentes de mil +emprezas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho ferrado +de amarello, e partiu. + +Ás 8 e um quarto, estava Manoel Pires no quinteiro da Mariquinhas, +esperando-a, com a anciedade propria da sua organisação nervosa. Maus +fados quizeram que n'aquella noite, e a taes horas, andasse fóra de casa +o tio João do Eiró. A rapariga entendeu que devia esconder em casa o seu +boticario, em quanto o pai não recolhesse. Quiz primeiro sumil-o na +córte das vaccas, mas lembrou-se que o pai, antes de deitar-se, +costumava hir afagar a sua vacca castanha, pela qual na feira dos 8 +rejeitára sete moedas e um quarto! Metteu-o, depois, na loja da egua, +mas a bestinha, egoista e ciumosa da manjadoura, não comprehendeu que o +snr. Manoel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de couces, +que por um tris o não remetteu á galeria posthuma dos pharmaceuticos +illustres. Introduziu-o no curral dos carneiros, mas a entrada do +infeliz amante foi recebida com uma escaramuça de marradas, como se um +lobo cerval os surprehendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada, +levou o seu paciente amante para a cozinha, levantou um alçapão, fêl-o +descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal alçapão, entrava +o pai. + +--Que fazes tu ahi, rapariga?--bradou elle. + +Mariquinhas atrapalhou-se, e coçou a cabeça com ambas as mãos. + +Deve saber-se que o tio João desconfiava que a filha, quando podia, lhe +roubava das caixas o seu sacco de milho, que vendia para comprar, á +surrelfa, o seu cordãosinho de ouro. + +Na loja, onde o boticario desceu, estavam as caixas do milho, e não ha +nada mais natural que a irritação do velho, quando apanhou a rapariga em +flagrante delicto. + +--Onde está a chave d'este alçapão, rapariga? interpellou o tio João no +mesmo diapasão. + +--A chave tem-na vm.^{ce} + +O homem entrou no seu quarto, proximo da cozinha, e veio com a chave, +resmungando: + +--Ora deixa-te estar, que não has-de cá tornar po'lo vêso, minha cabra +de não sei que diga! + +Fechou o alçapão, e foi-se deitar. + +A loja não tinha outra sahida. O boticario, por tanto, achava-se n'uma +posição falsa, diz o leitor. Elle sabia lá o que eram posições falsas! O +que elle fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse lá +comsigo: «no chão não me deito eu.» Continuou fleugmaticamente a fazer o +seu juizo critico do local em que se achava, e esbarrou com o nariz n'um +presunto. Não obstante, o snr. Manoel Pires tirou uma segunda conclusão: +«de fome não morro eu.» Mais adiante esbarrou n'uma pipa, e teve a +pachorra de lhe tocar com os nós dos dedos para vêr se estava cheia. E o +caso é que estava! Manoel Pires era um onagro de felicidade! «Deixa +correr o mundo!...» disse elle, e estirou-se francamente sobre a caixa á +espera d'um somno regalado. + +Passára-se uma hora, e o boticario, começando a pensar seriamente na sua +situação, teve momentos de Napoleão na ilha de Santa Helena! Applicou o +ouvido, e nem um sussurro ouviu na cozinha. Sentiu frio, por que em +Dezembro não é facil aquecer o corpo no fogão do amor. Deu alguns passos +maquinaes, buscando uma sahida qualquer, e encontrou um albardão. +«Valha-nos ao menos isto,» disse elle, e pegou do albardão, collocou-o +convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar. + +Agora fallemos das colicas de Mariquinhas. + +Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto, já +que não posso dizer ao seu palheiro. Alma de pedreneira, ferida pelo +fuzil do amor, a moçoila não atinava com a maneira de pôr no olho da rua +o seu querido pharmaceutico. Inspirada pelo derradeiro esforço da sua +dôr sublime, lembrou-se de pôr em execução um plano digno de melhor +sorte. + +O pai resonava profundamente, Maria, pé ante pé, entrou-lhe no quarto e +sahiu com as calças, em cujo bolso estava a chave. Judith não sahiu mais +contente da tenda de Holofernes! + +Abriu o alçapão com subtileza, mas, no momento em que o levantava, os +gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um sacco de milho que lhe +emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama, gritando: «ó rapariga!» + +Não se diz, em linguagem portugueza, sem um conhecimento profundo dos +classicos, a atrapalhação da cachôpa! O tio João procurou as calças, e +não as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa (_proh pudor!_) saltou +do quarto para a cozinha, já quando a filha se esgueirava, escada +abaixo, para o quinteiro. + +O tio João, contra todas as leis da decencia, foi atraz de sua filha, e +filou-a pelo gasnete: + +--O que hias tu fazer á loja, Maria? + +--Raios me parta (disse ella a chorar) se eu hia á caixa do pão ou dos +feijões! + +--Então a que hias tu lá, diabo? + +--Assim me Deus salve, em como lhe não tirei nem um graeiro da caixa... + +O tio João sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da noite lhe +soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao alçapão; +mas... ai d'elle!... o alçapão estava aberto, e o honrado chefe de +familia resvalou com todo o peso da sua bestialidade até á loja. + +Manoel Pires soltou um urro de surpreza, que já não foi ouvido pelo João +do Eiró, que desmaiára. + +Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruido, +mas suppoz que era o cahir do alçapão. Atravessou a cozinha, +amaldiçoando a sua sorte, e metteu-se no seu quarto a pensar no +desenlace d'aquella tragedia. + +A tia Maria do Eiró, acordando, não achou na cama o seu velho, e sentiu +ciumes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com voz do intimo, tres +vezes, o seu João, e como ninguem lhe respondesse, a mulher começou a +vestir-se, enfiando responsos a Santo Antonio, de mistura com não sei +quantas pragas, que ella rogava ao sumidouro das suas sócas. + +E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra! + +A tia Maria accendeu a candêa, e foi direita á cozinha, que era o ponto +convergente de todas as operações d'aquelle drama. Viu o alçapão aberto, +e não tinha ainda reconcentrado em si todo o horror d'aquella +fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha lá debaixo. A pobre +mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janella e grita +desentoadamente «aqui d'el-rei ladrões!» A visinhança alarmou-se, e +pouco depois os 60 fogos d'aquella aldêa agglomeravam-se no quinteiro do +tio João do Eiró. + +Os mais destemidos rapazes da aldêa desceram á loja, e encontraram o +pobre velho com a cabeça aberta por dous lados, e não sei quantas +costellas desmanchadas. Reinou o silencio do mysterio! Ninguem +conjecturava a causa d'aquelle estranho successo, quando um dos que +farejavam os recantos da loja, descobre um pé por debaixo d'um albardão! +Levantou-se uma gritaria infernal: até que o mais resoluto, afastando o +albardão, soltou um brado terrivel d'espanto: + +--O senhor mestre Manoel Pires! + +Hão-de ter visto nos dramas descabellados um encapotado, que é +necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma sucia de +perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o effeito que o boticario +produziu na chusma de valentões de fouce roçadoura, que o cercavam. + +O tio João, tornando a si, foi direito ao boticario para agradecer-lhe a +promptidão com que viera cural-o. Mas a tia Maria poz tudo em pratos +límpos: contou tudo a seu marido, que a escutava com cara de parvo, +segundo convinha em semelhante conflicto. + +Mestre Manoel Pires hia ser apregoado ladrão, por que a sua importancia, +passado o momento da surpreza, começava a soffrer uma grande baixa na +opinião dos lavradores. + +Mas o seu caracter repellia tamanha affronta! A hora solemne d'uma +honrosa satisfação estava chegada. O pharmaceutico, superando com a sua +voz o ruido da turba conspirada, disse: + +--Chamem cá a Mariquinhas que essa é que sabe do negocio como elle é. + +O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos d'amante, o +segredo da cousa, quiz logo alli partir a cabeça do seu rival. + +--Oh su alma do diabo!... exclamou elle. + +Contiveram-no. O snr. João do Eiró chamou a filha. A pobre rapariga era +uma cascata de lagrimas. Veio a muito custo, cuidando que era então a +_sua fim_, como ella depois disse. + +A sua apparição impoz ás multidões um respeitavel silencio. + +Mestre Manoel Pires fallou assim, com ar de inspirado, e o braço direito +em attitude prophetica: + +--Esta rapariga é minha mulher, se m'a derem. Eu vim aqui a troco +d'ella. Em bom panno cahe uma nodoa. Mal remediado é mal acabado. Ámanhã +se Deus quizer lêem-se os banhos, e não ha nada mais a fazer aqui! + +A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia n'um sino. Os paes, +d'esses não se falla. Mestre Manoel era o casamento mais vantajoso da +freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu á saude da boa +companhia, e casou com grande prestito, onde não faltou o juiz de paz, +que teve de mais a mais o prazer de pendurar n'esse fausto dia o habito +de Christo na casaca. Nas bodas celebres para sempre, nos annaes de +Carrazedo de Monte-Negro, comeram-se dez cabritos assados com o +competente arroz de forno. + +Já lá vão cinco annos. + +Mestre Manoel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do +verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires já este anno veio a +banhos de mar, e viu por ahi baronezas, que lhe despertaram o louvavel +desejo de o ser. + +E ha-de ser, se Deus quizer. + + + + +COUSAS QUE SÓ EU SEI. + + + + +COUSAS QUE SÓ EU SEI. + + +I. + + +Na ultima noite do carnaval, que foi justamente aos 8 dias do mez de +Fevereiro, do corrente anno[2] pelas 9 horas e meia da noite entrava no +theatro de S. João, d'esta heroica, e muito nobre e sempre leal cidade, +um dominó de setim. + +Déra elle os dous primeiros passos no pavimento da platêa, quando um +outro dominó de velludo preto veio collocar-se-lhe frente a frente, +n'uma contemplação immovel. + +O primeiro demorou-se um pouco a medir as alturas do seu admirador, e +virou-lhe as costas com indifferença natural. + +O segundo, momentos depois, apparecia ao lado do primeiro, com a mesma +attenção, com a mesma penetração de vista. + +D'esta vez o dominó-setim aventurou uma pergunta n'aquelle desgracioso +falsete, que todos nós conhecemos: + +--Não quer mais do que isso? + +--Do _qu'isso_!...--respondeu um mascara que passava por casualidade, +esganiçando-se n'uma risada que raspava o tympano.--_Olha do +qu'isso!_... Já vejo que és pulha!... + +E retirou-se repetindo--_do qu'isso... do qu'isso..._ + +Mas o dominó-setim não soffreu, ao que parecia, a menor contrariedade +com este charivari. E o dominó-velludo nem se quer acompanhou com os +olhos o imprudente que viera embaraçar-lhe uma resposta digna da +pergunta, fosse ella qual fosse. + +O _setim_ (fique assim conhecido para evitarmos palavras, e tempo que é +um preciosissimo cabedal) o _setim_, d'esta vez, encarou com mais alguma +reflexão o _velludo_. Conjecturou supposições fugitivas, que se +destruiam mutuamente. O _velludo_ era forçosamente uma mulher. A +pequenez do corpo, cuja flexibilidade o dominó não encobria; a +delicadeza da mão, que protestava contra o ardil mentiroso d'uma luva +larga; a ponta de verniz, que um descuido, no lançar do pé, denunciára +debaixo da fimbria do velludo, este complexo de attributos, quasi nunca +reunidos em um homem, captaram as serias attenções do outro, que, +incontestavelmente, era um homem. + +--Quem quer que sejas, (disse o setim) não te gabo o gosto! Tomára eu +saber o que vês em mim, que tanta impressão te faz! + +--Nada--respondeu o velludo. + +--Então, deixa-me, ou diz-me alguma cousa ainda que seja uma semsaboria, +mais eloquente que o teu silencio. + +--Não te quero embrutecer. Sei que tens muito espirito, e seria um crime +de leso-carnaval, se te dissesse alguma d'essas graças salobras, capazes +de fazer calar para todo o sempre um Demosthenes de dominó. + +O _setim_ mudou de opinião a respeito do seu perseguidor. E não admira +que o recebesse com rudeza no principio, porque, em Portugal, um dominó +em corpo de mulher, que passeia «sosinha» n'um theatro, permitte umas +suspeitas que não abonam as virtudes do dominó, nem lisongeam a vaidade +de quem lhe recebe o conhecimento. Mas a mulher em quem recahe +semelhante hypothese não conhece Demosthenes, nem diz _leso-carnaval_, +nem aguça a phrase com o adjectivo _salobras_. + +O setim arrependeu-se da aspereza com que recebera os attenciosos +olhares d'aquella incognita, que principiava a fazer-se valer como tudo +aquillo que apenas se conhece por uma face boa. O _setim_ juraria, pelo +menos, que aquella mulher não era estupida. E, seja dito sem tenção +offensiva, já não era insignificante a descoberta, porque é mais facil +descobrir um mundo novo que uma mulher illustrada. É mais facil ser +Christovão Colombo que Emilio Girardin. + +O _setim_, ouvida a resposta do _velludo_, offereceu-lhe o braço, e +gostou da boa vontade com que lhe foi recebido. + +--Conheço (diz elle), que o teu contacto me espiritualisa, bello +dominó... + +--_Bello_, me chamas tu!... É realmente uma leviandade que te não faz +honra!... Se eu levantasse esta sanefa de sêda, que me faz bonita, +ficavas como aquelle poeta hespanhol que soltou uma exclamação de terror +na presença d'um nariz... que nariz não seria, santo Deus!... Não sabes +essa historia? + +--Não, meu anjo! + +--_Meu anjo!_... que graça! Pois eu t'a conto. Como o poeta se chama não +sei, nem me importa. Imagina tu que és um poeta, phantastico como +Lamartine, vulcanico como Byron, sonhador como Mac-Pherson, e voluptuoso +como Voltaire aos 60 annos. Imagina que o tedio d'esta vida chilra que +se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pythonissa +descabellada das tuas inspirações, e vieste por aqui dentro a procurar +um passatempo n'estes passatempos alvares d'um baile de carnaval. +Imagina que encontravas uma mulher extraordinaria de espirito, um anjo +de eloquencia, um demonio de epygramma, em fim, uma d'estas creações +miraculosas que fazem rebentar uma chamma improvisa no coração mais de +gêlo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expressão, +não é assim? Um coração de toucinho parece-te uma offensa ao bom senso +anatomico, não é verdade? Pois, meu caro dominó; ha corações de toucinho +estreme. São os corações, que reçumam oleo em certas caras estupidas... +por exemplo... olha este homem redondo, que aqui está, com as palpebras +em quatro refêgos, com os olhos vermelhos como os d'um coelho morto, com +o queixo inferior pendente, e o labio escarlate e vidrado como o bordo +d'uma pingadeira, orvalhada de banha de porco... Esta cara não te parece +um grande rijão? Não crês que este baboso tenha um coração de toucinho? + +--Creio, creio; mas falla mais baixo que o desgraçado está a gemer +debaixo do teu escalpello... + +--És tolo, meu cavalheiro! Elle entende-me lá!... É verdade, ahi vai a +historia do hespanhol, que tenho que fazer... + +--Então queres deixar-me? + +--E tu?... queres que eu te deixe? + +--Palavra d'honra que não! se me deixas, retiro-me... + +--És muito amavel, meu querido Carlos... + +--Conheces-me?! + +--Essa pergunta é ociosa. Não és tu _Carlos_! + +--Já fallaste comigo na tua voz natural? + +--Não; mas começo a fallar agora. + +E com effeito fallou. Carlos ouviu um som de voz sonora, metallica, e +insinuante. Cada palavra d'aquelles labios mysteriosos sahia vibrante e +afinada como a nota d'uma tecla. Tinha aquelle não-sei-que, que só se +escuta nas salas, onde fallam mulheres distinctas, mulheres que obrigam +a gente a prestar fé aos privilegios, ás prerogativas, aos dons muito +peculiares da aristocracia do sangue. Todavia, Carlos não se recordava +de ter ouvido semelhante voz, nem semelhante linguagem. + +«Uma aventura de romance!» dizia elle lá comsigo, em quanto o +dominó-velludo, conjecturando o enleio em que pozera o seu enthusiasta +companheiro, continuava a fazer gala do mysterio, que é de todas as +alfaias aquella que mais alinda a mulher! Se ellas podessem andar sempre +de dominó! Quantas mediocridades em intelligencia rivalisariam com Jorge +Sand! Quantas physionomias infelizes viveriam com a fama da mulher de +Abdel-Kader! + +--Então quem sou eu?--proseguiu ella--não me dirás?... Não dizes... pois +então, tu és Carlos, e eu sou Carlota... fiquemos n'isto, sim? + +--Em quanto eu não souber o teu nome, deixa-me chamar-te «anjo.» + +--Como quizeres; mas sinto dizer-te que não és nada original! _Anjo!_... +é um appellido tão safado como _Ferreira_, _Silva_, _Sousa_, _Costa_... +et cetera. Não vale a pena questionarmos: baptisa-me á tua vontade. +Ficarei sendo o teu «anjo de entrudo!» E a historia?... Imagina que te +possuias d'um amor impetuoso por essa mulher, que phantasiaste linda, e +insensivelmente lhe curvaste o joelho, pedindo-lhe uma esperança, um +sorriso affectuoso através da mascara, um aperto convulsivo de mão, uma +promessa, ao menos, de se mostrar um, dous, tres annos depois. E essa +mulher, cada vez mais sublime, cada vez mais litterata, cada vez mais +radiosa, protesta eloquentemente contra as tuas instancias, +declarando-se muita feia, indecentissima de nariz, horrivel até, e, como +tal, pesa-lhe na consciencia matar as tuas candidas illusões, levantando +a mascara. Tu que a não crês, instas, supplicas, abrasas-te n'um ideal, +que toca as extremas do ridiculo, e estás capaz de lhe dizer que te +abolas o craneo com um tiro de pistola, se ella não levanta a cortina +d'aquelle mysterio que te dilacera uma por uma as fibras do coração. +Chamas-lhe Beatriz, Laura, Fornarina, Natercia, e ella diz-te que se +chama Custodia, ou Genoveva para te aguar a poesia d'esses nomes, que, +na minha humilde opinião, são completamente fabulosos. O dominó quer +fugir-te ardilosamente, e tu não lhe deixas um passo livre, nem um dito +espirituoso a outro, nem um lançar d'olhos para os mascaras, que a fixam +como quem sabe que está alli uma rainha, envolta n'aquelle manto negro. +Por fim, a tua perseguição é tal, que a desconhecida Desdemona finge +assustar-se, e sahe comtigo ao salão do theatro para levantar a mascara. +Arfa-te o coração na anciedade d'uma esperança: sentes o jubilo do cego +de nascimento, que vai vêr o sol; estremeces como a creança a quem vão +dar um bonito, que ella não viu ainda, mas imagina ser quanto o seu +coração infantil ambiciona n'este mundo... Ergue-se a mascara!... +Horror!... vês um nariz... um nariz-pleonasmo, um nariz homerico, um +nariz maior que o do duque de Choiseul, onde cabiam tres jesuitas a +cavallo!... Recúas!... sentes despregar-se-te o coração das entranhas, +córas de vergonha, e foges desabridamente... + +--Tudo isso é muito natural. + +--Pois não ha nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe conto o +resto, que é o mais interessante para um mancebo que faz do nariz d'uma +mulher o thermometro de avaliar-lhe a temperatura do coração. Imagina, +meu joven Carlos, que sahiste do theatro depois, e entraste na _Aguia +d'Ouro_ a comer ostras, segundo o costume dos elegantes do Porto. E +quando, pensavas, ainda aterrado, na aventura do nariz, te apparecia +fatidico dominó, e se assentava ao teu lado, silencioso e immovel, como +a larva das tuas asneiras, cuja memoria procuravas delir na imaginação +com os vapores do vinho... Perturba-se-te a digestão, e sentes +contracções no estomago, que te ameaçam com o vomito. A massa enorme +d'aquelle nariz figura-se-te no prato em que tens a ostra, e já não +pódes levar á bocca um bocado do teu appetitoso manjar sem um fragmento +d'aquelle fatal nariz á mistura. Queres transigir com o silencio do +dominó; mas não pódes. A inexoravel mulher aproxima-se de ti, e tu, com +um sorriso cruelmente sarcastico, pedes-lhe que te não entorne com o +nariz o copo de vinho. Achas isto natural, Carlos? + +--Ha ahi crueldade de mais... O poeta devia ser mais generoso com a +desgraça, porque a missão do poeta é a indulgencia não só para as +grandes affrontas, mas até para os grandes narizes. + +--Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime missão da generosidade +para com as mulheres feias, vai ser punido. Imagina que aquella mulher, +pungida pelo sarcasmo, levanta a mascara. O poeta ergue-se, e vai fugir +com grande escandalo do dono da casa, que naturalmente tem a sorte do +boticario de Nicolau Tolentino. Mas... vingança do céo!... aquella +mulher ao levantar a mascara arranca do rosto um nariz postiço, e deixa +vêr a mais formosa cara que o céo alumia ha seis mil annos! O hespanhol +quer ajoelhar áquella dulcissima visão de um sonho, mas a nobre andaluza +repelle-o com um gesto, onde o despreso está associado á dignidade mais +senhoril. + + +II. + + +Carlos scismava na applicação da anedocta, quando o dominó lhe disse, +adivinhando-lhe o pensamento: + +--Não creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me supponhas capaz +de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modestia não vai tão +longe... Mas, meu pacientissimo amigo, ha em mim um defeito peor que um +nariz enorme: não é physico nem moral; é um defeito repulsivo e +repellente: é uma cousa que eu não sei exprimir-te com a linguagem do +inferno, que é a unica e mais eloquente que eu sei fallar, quando me +lembro que sou assim defeituosa! + +--És um enigma!...--atalhou Carlos, embaraçado, e convencido de que +encontrára um typo maior que os moldes tacanhos da vida romanesca em +Portugal. + +--Sou, sou!...--acudiu ella com rapidez--sou aos meus proprios olhos um +dominó, um continuado carnaval de lagrimas... Está bom! não quero +tristezas... Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu não +vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas aqui, +procurei-te, esperei-te mesmo com anciedade, porque sei que és +espirituoso, e podias, sem prejuizo da tua dignidade, ajudar-me a passar +algumas horas de illusão. Fóra d'aqui, tu ficas sendo Carlos, e eu serei +sempre uma incognita muito grata ao seu companheiro. Agora acompanha-me: +vamos ao camarote 10 da 2.^a ordem. Conheces aquella familia? + +--Não. + +--É uma gente da provincia. Não digas tu nada; deixa-me fallar a mim, e +verás que não passas mal... É muito orgulho, não achas? + +--Não acho, não, minha querida; mas eu antes queria não desperdiçar +estas horas porque fogem. Tu vaes fallar, mas não é comigo. Sabes que +tenho ciumes de ti? + +--Sei que tens ciumes de mim... Sabes tu que eu tenho um profundo +conhecimento do coração humano? Já vês que não sou a mulher que +imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a desvanecer-te com uma +conquista esperançosa. Faz calar o teu amor proprio, e emprega a tua +vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma innocente a quem possas +fazer feliz, em quanto a enganas... + +--Julgas, por tanto, que te minto!... + +--Não julgo, não. Se mentes a alguem é a ti proprio: bem vês que não te +creio... Tempo perdido! Anda, vem comigo, se não... + +--Senão... o que? + +--Senão... olha... + +E a melindrosa desconhecida largou-lhe o braço com delicadeza, e +retirara-se, apertando-lhe a mão. + +Carlos, sinceramente commovido, apertou aquella mão, com o frenesi +apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por quem se +mataria. + +--Não--exclamou elle com enthusiasmo--não me fujas, porque me levas a +esperança mais bella que o meu coração concebeu. Deixa-me adorar-te, sem +te conhecer!... Não levantes nunca esse véo... mas deixa-me vêr a face +da tua alma, que deve ser a realidade d'um sonho de vinte e sete +annos... + +--Estás dramatico, meu poeta! Eu sinto realmente a minha pobreza de +palavras garrafaes... Queria ser uma vestal d'estilo fervente para +sustentar o fogo sagrado do dialogo... O monologo deve cançar-te, e a +tragedia desde Sophocles até nós não póde dispensar uma segunda +pessoa... + +--És um prodigio... + +--De litteratura grega, não é verdade? Inda sei muitas outras cousas da +Grecia. A Lais tambem era muito versada, e repetia as rapsodias gregas +com um garbo sublime; mas a Lais era... sabes tu o que ella era?... E +serei eu o mesmo? Já vês que a litteratura não é symptoma de virtudes +dignas da tua affeição... + +Tinham chegado ao camarote na 2.^a ordem. O dominó-velludo bateu, e a +porta foi, como devia ser aberta. + +A familia, que occupava o camarote, compunha-se de muitas pessoas, sem +typo, vulgarissimas, e prosaicas de mais para captarem a attenção d'um +leitor avesso a trivialidades. Todavia, estava ahi uma mulher que valia +um mundo, ou cousa maior que o mundo--o coração d'um poeta. + +As rosas purpurinas dos vinte annos tinham-lhes sido crestadas pelo +halito abrasado dos salões. A placidez extemporanea d'uma vida agitada, +via-se-lhe no rosto protestando não contra os prazeres, mas contra a +debilidade d'um sexo, que não póde acompanhar com a materia as evoluções +desenfreadas do espirito. Mas que olhos! mas que vida! que electricidade +no frenesi d'aquellas feições! que projecção de uma sombra azulada lhe +descia das palpebras! Era uma mulher, em cujo rosto transluzia a +soberba, talvez demasiada, da sua superioridade. + +O dominó-velludo estendeu-lhe a mão, e chamou-lhe Laura. + +Seria Laura? É certo que ella estremeceu, e recuou a mão repentinamente +como se uma vibora lh'a tivesse mordido. + +Aquella palavra symbolisava um mysterio dilacerante: era a senha de uma +grande lucta em que a pobre senhora devia sahir escorrendo sangue. + +--Laura--repetiu o dominó--não me apertas a mão? Deixa-me ao menos +sentar-me perto... muito perto de ti... sim? + +O homem, que mais proximo estava de Laura, afastou-se urbanamente para +deixar aproximar um mascara, que denunciara o sexo pela voz, e a +distincção pela mão. + +E Carlos nunca mais despregou os olhos d'aquella mulher, que revelava a +cada instante um pensamento nas variadas physionomias com que queria +disfarçar a sua angustia intima. + +A desconhecida fez signal a Carlos para que se aproximasse. Carlos, +enleado nos embaraços naturaes d'aquella situação toda para elle +enygmatica, recusava cumprir as imperiosas determinações d'uma mulher +que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que +pareciam familiares de Laura, não deram muita importancia aos dominós. +Conjecturaram, primeiro, e quando suppozeram que tinham conhecido as +visitas, deixaram em plena liberdade as duas mulheres que se fallavam de +perto como duas amigas intimas. O cavalheiro passou por um tal Eduardo, +e a desconhecida tiveram-n'a por uma D. Antonia. + +Laura humedecia os labios com a lingua. As surprezas pungentes produzem +uma febre, e aquecem o mais bem calculado sangue frio. A incognita, +profundamente conhecedora da situação da sua victima, fallou ao ouvido +de Carlos: + +--Estuda-me aquella physionomia. Eu não estou em circumstancias de ser +Max... Soffro demasiado para contar as pulsações d'este coração. Se te +sentires condoido d'esta mulher, tem compaixão de mim, que sou mais +desgraçada que ella. + +E voltando-se para Laura: + +--Procuro, ha quatro annos, uma occasião de prestar homenagem á tua +conquista. Deus, que é Deus, não despreza os incensos do verme da terra, +nem esconde á vista dos homens a sua fronte magestosa n'um manto de +estrellas. Tu, Laura, que és mulher, embora os homens te chamem anjo, +não despresarás vaidosa a homenagem d'uma pobre creatura, que vem depôr +a teus pés o obulo sincero da sua adoração. + +Laura não levantava os olhos do leque; mas a mão, que o sustinha, +tremia; e os olhos, que o contemplavam, pareciam absortos n'um quadro +afflictivo. + +E o dominó continuou: + +--Foste muito feliz, minha cara amiga! Eras digna de o ser. Colheste o +fructo abençoado da abençoada semente que o Senhor fecundou no teu +coração de pomba!... Olha, Laura, deves dar muitas graças á Providencia, +que velou os teus passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no +abysmo da prostituição, subiste, radiante de virtudes, ao throno das +virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal! És uma excepção a milhares de +desgraçadas, que nasceram em estofos de damasco, e cresceram em perfumes +de opulencia. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas +da miseria, cresceste nos andrajos da indigencia, ainda viste com os +olhos da razão a desgraça sentada á cabeceira do teu leito... e, com +tudo, eis-te ahi rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que +pódes insultar toda essa turba de mulheres, que te admiram!... Ha tanta +mulher infeliz!... Queres saber a historia d'uma?... + +Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que estava, +não tinha ainda balbuciado um monosyllabo; mas a urgente pergunta, duas +vezes repetida, do dominó, obrigou-a a responder affirmativamente com um +gesto. + +--Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente. + +Um dos individuos, que estava presente, e ouvira pronunciar _Laura_, +perguntou á mulher que assim era chamada: + +--Elisa, ella chama-te _Laura_? + +--Não, meu pai...--respondeu Elisa, titubeando. + +--Chamo Laura, chamo... e que tem lá isso, snr. visconde?--Atalhou a +incognita, com affabilidade, erguendo o falsete para ser bem ouvida.--É +um nome de carnaval, que passa com os dominós. Quarta feira de cinza +torna a filha de v. exc.^a a chamar-se Elisa. + +O visconde sorriu-se, e o dominó continuou, abaixando a voz, e fallando +naturalmente: + + +III. + + +--Henriqueta... + +Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas as fibras de Elisa. O +rosto incendiou-se-lhe d'aquelle encarnado do pudor ou da raiva. Esta +sensação violenta não podia ser desapercebida. O visconde, que parecia +estranho á conversação intima d'aquellas suppostas amigas, não o pôde +ser á agitação febril de sua filha. + +--Que tens, Elisa?!--perguntou elle sobresaltado. + +--Nada, meu pai... Foi um ligeiro incommodo... Estou quasi boa... + +--Se queres respirar vamos ao salão, ou vamos para casa... + +--Antes para casa--respondeu Elisa. + +--Eu vou mandar buscar a sege--disse o visconde; e retirou-se. + +--Não vás, Elisa...--disse o dominó, com uma voz imperiosa, semelhante a +uma ameaça inexoravel.--Não vás... porque, se vaes, contarei a todo o +mundo uma historia que só tu has-de saber. Este outro dominó, que tu não +conheces, é um cavalheiro: não temas a menor imprudencia. + +--Não me martyrises!--disse Elisa.--Eu sou infeliz de mais, para ser +flagellada com a tua vingança... Tu és Henriqueta, não és? + +--Que te importa a ti saber quem eu sou?!... + +--Importa muito... Sei que és desgraçada!... Não sabia que vivias no +Porto; mas palpitou-me o coração que eras tu, apenas me chamaste Laura. + +O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia tardar, e +convidando a filha para dar alguns passeios no salão do theatro. Elisa +satisfez a carinhosa anciedade do pai, dizendo que se sentia boa, e +pedindo-lhe que se demorasse até mais tarde. + +--Onde julgavas tu que eu existia? No cemiterio não é assim?--perguntou +Henriqueta. + +--Não: sabia que vivias, e prophetisava que devia encontrar-te... Que +historia me queres tu contar?... a tua? Essa já eu sei... imagino-a... +tens sido muito infeliz... Olha, Henriqueta... deixa-me dar-te esse +tratamento affectuoso com que nos conhecemos, com que fomos tão amigas, +alguns fugitivos dias, no tempo em que o destino nos marcava com o mesmo +stygma de infortunio... + +--O mesmo... não!...--atalhou Henriqueta. + +--O mesmo, sim, o mesmo... e se me forças a contradizer-te, direi que +invejo a tua sorte, seja ella qual fôr... + +Elisa chorava, e Henriqueta emmudecera. Carlos estava impaciente pelo +desfecho d'esta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas +duas mulheres, e fazel-as amigas, sem saber a razão porque eram +inimigas. A belleza impõe-se á compaixão. Elisa era bella, e Carlos era +d'uma sensibilidade extremosa. Nem elle já sabia decidir-se entre +aquellas duas mulheres. A mascarada _poderia ser_, mas a outra _era_ um +anjo de sympathia e formosura. O espirito gosta do mysterio que esconde +o bello; mas decide-se pela belleza real, sem mysterio. + +Henriqueta, depois de alguns minutos de silencio, durante os quaes não +era possivel avaliar-lhe o coração pela exterioridade da physionomia, +exclamou com impeto, como se despertasse d'um sonho, d'aquelles intimos +sonhos de dôr, em que a alma se reconcentra: + +--Teu marido? + +--Está em Londres. + +--Ha quanto tempo o não viste? + +--Ha dous annos. + +--Abandonou-te? + +--Abandonou-me. + +--E tu?... abandonaste-o? + +--Não concebo a pergunta... + +--Ainda o amas? + +--Ainda... + +--Com paixão? + +--Com delirio... + +--Escreves-lhe? + +--Não me responde... Despresa-me, e chama-me _Laura_. + +--Elisa!--disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a mão com +enthusiasmo nervoso--Elisa! perdôo-te... És bem mais desgraçada que eu, +porque tens um homem que pôde chamar-te Laura, e eu não tenho senão um +nome... sou Henriqueta! Adeus. + +Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado d'aquelle prologo +d'um romance. Henriqueta tomou-lhe o braço com precipitação, e sahiu do +camarote abaixando levemente a cabeça aos cavalheiros, que se davam +tractos por adivinhar o segredo d'aquella conversa. + +--Não pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou Henriqueta; mas não +me atraiçoes, se queres a minha amisade. + +--Como hei-de eu atraiçoar-te, se não sei quem és? Pódes chamar-te Julia +em vez de Henriqueta, que, nem por isso te fico conhecendo mais... Tudo +mysterios! Tens-me, ha mais d'uma hora, n'um estado de tortura! Eu não +sirvo para estas emboscadas... Diz-me quem é aquella mulher... + +--Não viste que é D. Elisa Pimentel, filha do visconde do Prado? + +--Não a conhecia... + +--Então que mais queres que eu te diga? + +--Muitas outras cousas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes +tem aquella Laura, que se chama Elisa. Falla-me do marido d'aquella +mulher... + +--Eu te digo... O marido d'aquella mulher chama-se Vasco de Seabra... +Estás satisfeito? + +--Não... Quero saber que relações tens tu com esse Vasco ou com aquella +Laura? + +--Não saberás mais nada, se fores impaciente. Imponho-te mesmo um +profundo silencio a respeito do que ouviste. Á menor pergunta que me +faças, deixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz +parecer uma mulher de soalheiro. Eu contrahi comtigo a obrigação de te +contar a minha vida? + +--Não; mas contrahiste com a minha alma a obrigação de eu me interessar +na tua vida e nos teus infortunios desde este momento. + +--Obrigado, cavalheiro!--Juro-te uma sincera amisade.--Has-de ser o meu +confidente. + +Estavam, outra vez, na platêa. Henriqueta aproximou-se ao quarto +camarote da primeira ordem, firmou o pé de fada na frisa, segurou-se ao +peitoril do camarote, e travou conversação com a familia que o occupava. +Carlos acompanhou-a em todos estes movimentos, e preparou-se para um +novo enygma. + +Segundo o costume, as mãos de Henriqueta passaram por uma analyse +rigorosa. Não era possivel, porém, fazel-a tirar a luva da mão esquerda. + +--Dominó, porque não deixas vêr este annel?--Perguntava uma senhora de +olhos negros, e vestida de negro, como uma viuva rigorosamente +enluctada. + +--Que te importa o annel, minha querida Sophia!?... Fallemos de ti, aqui +em segredo. Ainda vives melancolica, como a Dido da fabula? Fica-te bem +essa côr de esquifes, mas não sustentas o caracter artistico com +perfeição. A tua tristeza é fingida, não é verdade? + +--Não me offendas, dominó, que eu não te mereço essa injuria... A +desgraça nunca se finge... + +--Disseste uma verdade, que é a tua condemnação. Eu, se tivesse sido +abandonada por um amante, não vinha aqui dar-me em espectaculo a um +baile de mascaras. A desgraça não se finge, é verdade; mas a saudade +esconde-se para chorar, e a vergonha não se ostenta radiosa d'esse +sorriso que te brinca nos labios... Olha, minha amiga, ha umas mulheres +que nasceram para esta época, e para estes homens. Ha outras que a +Providencia caprichosa atirou a esta geração corrompida como os +imperadores romanos atiravam os christãos ao amphitheatro dos leões. +Felizmente que tu não és das segundas, e sabes harmonisar com o teu +genio folgasão e desleixado uma hypocrisia que te vai bem n'um sophá de +pennas, onde te recostas com um perfeito conhecimento das attitudes +languidas das mulheres cançadas do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te +por desfastio!... És a unica mulher para quem este paiz é pequeno. +Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abbades de Versailles, e as +filhas do Regente, e as Heloïsas desenvoltas dos abbades, e as aias da +duqueza do Maine... et cetera. Isto por cá é pequenissimo para as +Phryneas. Uma mulher da tua indole morre asphyxiada n'este ambiente +pesado em que o coração, nas suas expansões romanticas, encontra, quasi +sempre, a mão burgueza das conveniencias a tapar-lhe os respiradouros... +Parece que te enfadas de mim?... + +--Não te enganas, dominó... Obsequeias-me se me não deres o incommodo de +te mandar retirar. + +--És muito delicada, minha nobre Sophia!... Já agora, porém, deixa-me +dar-te uma idêa mais precisa d'esta mulher que te enfada, e que, apesar +das tuas injustiças, se interessa na tua sorte. Diz-me cá... Tens uma +sincera paixão, uma saudade pungente por aquelle bello capitão de +cavallaria, que te deixou, tão sosinha, com as tuas agonias de amante? + +--Que te importa?... + +--És cruel! Pois não ouves o tom sentimental com que te faço esta +pergunta?... Quantos annos tens?... + +--Metade e outros tantos... + +--A resposta não me parece tua... Aprendeste essa vulgaridade com a +filha do teu sapateiro?... Ora olha: tu tens 38 annos, a não ser +mentiroso o assento de baptismo, que se lê no cartorio da freguezia dos +Martyres em Lisboa. + +Aos vinte annos amavas com ternura um tal Pedro Sepulveda. Aos vinte e +cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com +delirio, um tal Sebastião de Meirelles. Aos 35, amavas, em Londres, com +frenesi um tal... como se chamava... não me recordo... diz-me, por +piedade o nome d'esse homem, que, se não, fica o meu discurso sem o +effeito do drama... Não dizes, má?... Ai!... eu tenho aqui a +mnemonica... + +Henriqueta tirou a luva da mão esquerda, e deixou vêr um annel... Sophia +estremeceu, e córou até ás orelhas. + +--Já te recordas?... Não córes, minha querida amiga... que não fica bem +ao teu caracter de mulher que conhece o mundo pela face positiva... +Deixa-me agora arredondar o periodo, como dizem os litteratos... Ora tu +que amaste desenfreadamente cinco antes do sexto homem, como queres +fingir debaixo d'esse vestido negro, um coração varado de saudades e +orphão de consolações?... Adeus, minha bella hypocrita... + +Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o braço a Carlos. + + +IV. + + +Eram tres horas. + +Henriqueta disse que se retirava, depois de victimar com seus ligeiros, +mas pungentes gracejos, alguns d'aquelles muitos que provocam o sarcasmo +só com a presença, só com o vulto corporal, só com a semsaboria de um +remoque parvo e pretencioso. O carnaval é uma exposição annual d'estes +infelizes. + +Carlos, ao vêr que Henriqueta se retirava com um segredo que tanto +irritára a sua curiosidade, instou com delicadeza, com meiguice, e até +com resentimento, pela realidade de uma esperança, que fizera a sua +felicidade de algumas horas. + +--Eu não me arrependo--disse elle--de ter sido a voluntaria testemunha +de teus desforços... Ainda mesmo que me tivessem conhecido, e tu fosses +uma mulher licenciosa e depravada, não me arrependeria... Ouvi-te, +illudi-me na esperança vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser o +escolhido para sentir de perto as pulsações vertiginosas do teu +coração... estou recompensado de mais... Ainda assim, Henriqueta, eu não +tenho pejo de abrir-te a minha alma, confessando-te um desejo de +conhecer-te que não posso illudir... Este desejo vaes-m'o tu convertendo +n'uma dôr; e será logo uma saudade insupportavel, que te faria compaixão +se soubesses avaliar o que é na minha alma um desejo _impossivel_. Se tu +m'o não dizes, quem me dirá o teu nome? + +--Não sabes que sou Henriqueta? + +--Que importa? E serás tu Henriqueta? + +--Sou... juro-te que sou... + +--Não basta isto... Ora diz-me... não sentes a precisão de ser-me grata? + +--A que, meu cavalheiro? + +--Grata ao melindre com que te tenho tractado, grata á delicadeza com +que te peço uma revelação da tua vida, e grata a este impulso invencivel +que me manda ajoelhar-te... Será nobre zombar d'um amor que +involuntariamente fizeste nascer? + +--Não te illudas, Carlos--replicou Henriqueta n'um tom de seriedade, +semelhante ao de uma mãi que aconselha seu filho. O amor não é isso que +pica a tua curiosidade. As mulheres são faceis de transigir de boa fé +com a mentira, e, pobres mulheres!... succumbem muitas vezes á +eloquencia artificiosa d'um conquistador. Os homens, fartos de estudarem +as paixões na sua origem, e enfadados das rapidas illusões que elles +choram todos os dias, estão promptos sempre a declararem-se affectados +da cholera-paixão, e nunca apresentam _carta-limpa_ de scepticos. De +maneira que o sexo fragil das chimeras sois vós, creancinhas de toda a +vida, que brincaes aos trinta annos com a mulher como aos seis +brincaveis com os cavallinhos de pau, e os fradinhos de sabugo! Olha, +Carlos, eu não sou ingrata... Vou-me despedir de ti, mas hei-de +conversar comtigo ainda. Não instes; abandona-te á minha generosidade, e +verás que alguma cousa lucraste em me encontrar e em me não conhecer. +Adeus. + +Carlos acompanhou-a com os olhos, e permaneceu alguns minutos n'uma +especie de idiotismo, quando a viu desapparecer á sahida do theatro. O +seu primeiro pensamento foi seguil-a; mas a prudencia lembrou-lhe que +era uma indignidade. O segundo foi empregar a intriga astuciosa até +roubar alguma revelação áquella Sophia da primeira ordem ou á Laura da +segunda. Não lhe lembraram recursos, nem eu sei quaes elles poderiam +ser. Laura e Sophia, para dissiparem completamente a esperança anciosa +de Carlos, tinham-se retirado. Era necessario esperar, era necessario +confiar n'aquella mulher extraordinaria, cujas promessas o alvoroçado +poeta traduzia em mil versões. + +Carlos retirou-se, e esqueceu não sei quantas mulheres, que ainda, na +noite anterior, lhe povoaram os sonhos. Ao amanhecer, ergueu-se, e +escreveu as reminiscencias vivas da scena, quasi fabulosa, que lhe +transtornava o plano de vida. + +Não houve nunca um coração tão ambicioso de futuro, tão fervente de +poesia, e tão phantastico de conjecturas! Carlos adorava seriamente +aquella mulher! Como estas adorações se afervoram com tão pouco, não sei +eu: mas que o amor é assim, vou eu jural-o, e espero que os meus amigos +me não deixem mentir. + +Imaginem, por tanto, a inquietação d'aquelle grande espiritualista, +quando viu passarem, vagarosos e enfadonhos, oito dias, sem que o mais +ligeiro indicio lhe viesse confirmar a existencia de Henriqueta! Não +direi que o desesperado amante appellou para o supremo tribunal das +paixões impossiveis. O suicidio não lhe passou nunca pela imaginação; e +muito sinto que esta verdade diminua as sympathias que o meu heroe +poderia grangear. A verdade, porém, é que o apaixonado mancebo vivia +sombrio, isolava-se contra os seus habitos socialmente galhofeiros, +abominava as impertinencias de sua mãi que o consolava com anedoctas +tragicas a respeito de rapazes cegos de amor, e, emfim, soffrera a ponto +tal, que resolvera abandonar Portugal, se, no fim de quinze dias a +fatidica mulher continuasse a ludibriar a sua esperança. + +Diga-se, porém, em honra e louvor da astucia humana: Carlos, resolvido a +partir, lembrou-se de pedir a um seu amigo, que, na gazetilha do +_Nacional_, dissesse, por exemplo, o seguinte: + +«O snr. Carlos d'Almeida vai, no proximo paquete, para Inglaterra. S. +s.^a tenciona observar de perto a civilisação das primeiras capitaes da +Europa. O snr. Carlos d'Almeida é uma intelligencia, que, enriquecida +pela instrucção pratica da sua visita aos focos da civilisação, ha-de +voltar á sua patria com fecundo cabedal de conhecimentos em todos os +ramos das sciencias humanas. Fazemos votos porque s. s.^a se recolha em +breve ao seio dos seus numerosos amigos.» + +Esta local bem podia ser que chegasse ás mãos de Henriqueta. Henriqueta +bem podia ser que conjecturasse o imperioso motivo, que obrigava o +infeliz a buscar distracções longe da patria, onde a sua paixão era +invencivel. E, depois, nada mais facil que uma carta, uma palavra, um +raio de esperança, que lhe transtornasse os seus planos. + +Era esta a infallivel tenção de Carlos, quando ao decimo quarto dia lhe +foi entregue a seguinte carta: + + +V. + + + «Carlos. + +«Sem offender as leis da civilidade, continuo a dar-te o tratamento do +dominó, porque, em boa verdade, eu continuo a ser para ti um dominó +moral, não é assim? + +«Passaram-se quatorze dias, depois que tiveste o mau encontro d'uma +mulher, que te privou de algumas horas de deliciosa intriga. Victima da +tua delicadesa, levaste o sacrificio a ponto de te mostrares interessado +na sorte d'essa celebre desconhecida que te mortificou. Não serei eu, +generoso Carlos, ingrata a essa manifestação cavalheirosa, embora ella +seja um rasgo de artista, e não um desejo espontaneo. + +«Queres saber porque tenho demorado quatorze dias este grande sacrificio +que vou fazer? É porque ainda hoje me levanto d'uma febre incessante, +que me insultou n'aquelle camarote da segunda ordem, e que, n'este +momento, parece declinar. + +«Permitta Deus que seja longo o intervallo para ser longa a carta: mas +eu sinto-me tão pequena para os sacrificios grandes!... Não te quero +responsabilisar pela minha saude; mas, se o meu silencio de longos +tempos succeder a esta carta, conjectura, meu amigo, que Henriqueta +cahiu no leito, d'onde ha-de erguer-se, senão é graça que os mortos +hão-de erguer-se um dia. + +«Queres apontamentos para um romance que terá o merito de ser portuguez? +Vou dar-t'os. + +«Henriqueta nasceu em Lisboa. Seus paes tinham o lustre dos brazões, mas +não brilhavam nada pelo ouro. Viviam sem fausto, sem historia +contemporanea, sem bailes, e sem bilhetes de boas festas. As visitas que +Henriqueta conhecia eram, no sexo feminino, quatro velhas suas tias, e, +no masculino, quatro caseiros que vinham annualmente pagar as rendas, +com que seu pai regulava economicamente uma nobre independencia. + +«O irmão de Henriqueta era um moço de talento, que grangeara uma +instrucção, enriquecida sempre pelos desvelos com que afagava a sua +paixão unica. Isolado de todo o mundo, o irmão de Henriqueta confiou a +sua irmã os segredos do seu muito saber, e formou-lhe um espirito +varonil, e inspirou-lhe uma ambição faminta de sciencia. + +«Bem sabes, Carlos, que fallo de mim, e não posso, n'esta parte, +engrinaldar-me de flôres immodestas, se bem que não me faltariam depois +espinhos que me desculpassem as vaidosas flôres... + +«Eu cheguei a ser o ecco fiel dos talentos de meu irmão. Nossos paes não +comprehendiam as praticas litterarias com que aligeiravamos as noites +d'inverno; e, mesmo assim, folgavam de nos ouvir, e via-se-lhes nos +olhos aquelle rir de bondoso orgulho, que tanto inflamma as vaidades da +intelligencia. + +«Aos dezoito annos achei pequeno o horisonte da minha vida, e +enfastiei-me da leitura, que m'o fazia cada vez amesquinhar-se mais. Só +com a experiencia, se conhece o quanto a litteratura modifica a +organisação de uma mulher. Eu creio que a mulher, apurada na sciencia +das cousas, pensa de um modo extraordinario na sciencia das pessoas. O +prisma das suas vistas penetrantes é bello, mas as lindas cambiantes do +seu prisma são como as côres variegadas do arco iris, que annuncia +tempestade. + +«Meu irmão lia-me os segredos do coração! não é facil mentir ao talento +com as hypocrisias do talento. Comprehendeu-me, e teve dó de mim. + +«Meu pai morreu, e minha mãi pediu á alma de meu pai que lhe alcançasse +do Senhor uma vida longa para meu amparo. Ouviu-a Deus, porque eu vi um +milagre na rapida convalescença com que minha mãi sahiu d'uma +enfermidade de quatro annos. + +«Eu vi um dia um homem no quarto de meu irmão, onde entrei como entrava +sempre sem receio de encontrar um desconhecido. Quiz retirar-me, e meu +irmão chamou-me para me apresentar, pela primeira vez na sua vida, um +homem. + +«Este homem chama-se Vasco de Seabra. + +«Não sei se por orgulho, se por acaso, meu irmão chamou a conversa ao +campo da litteratura. Fallava-se em romances, em dramas, em estilos, em +escólas, e não sei que outros mais assumptos ligeiros e graciosos que me +captivaram o coração e a cabeça. + +«Vasco fallava bem, e revelava cousas que me não eram novas com estilo +novo. N'aquelle homem, via-se o genio aformoseado pela arte que só na +sociedade se adquire. Em meu irmão faltava-lhe o relevo de estilo, que +se lapida ao tracto dos maus e dos bons. Bem sabes Carlos, que te digo +uma verdade, sem pretenções de _bas-bleu_, que é de todas as miserias a +mais lastimosa miseria das mulheres cultivadas. + +«Vasco retirou-se, e eu quizera antes que elle se não retirasse. + +«Disse-me meu irmão que aquelle rapaz era uma intelligencia superior, +mas depravada pelos maus costumes. A razão porque elle viera a nossa +casa era muito simples; encarregara-o seu pai de fallar com meu irmão a +respeito da remissão d'uns fóros. + +«Vasco passou n'esse dia por debaixo das minhas janellas: fixou-me, +cortejou-me, corei, e não me atrevi a seguil-o com os olhos, mas segui-o +com o coração. Que suprema miseria, Carlos! Que renuncia tão impensada +faz uma mulher da sua tranquillidade! + +«Voltou um quarto d'hora depois: retirei-me, sem querer mostrar-lhe que +o percebia; fiz-me distrahida, por entre as cortinas, a contemplar a +marcha das nuvens, e das nuvens descia um olhar precipitado sobre +aquelle _indifferente_ que me fazia córar e soffrer. Viu-me, +adivinhou-me, talvez, e cortejou-me ainda. Eu vi o gesto da cortezia, +mas fingi-me, e não lhe correspondi. Foi isto um heroismo, não é +verdade? Seria; mas eu tive remorsos, apenas elle desapparecera, de o +tratar tão grosseiramente. + +«Demorei-me n'estas puerilidades, meu amigo, porque não ha nada mais +grato para nós que a recordação dos ultimos instantes de ventura a que +se prendem os primeiros instantes da desgraça. + +«Aquellas linhas fastidiosas são a historia da minha transfiguração. Ahi +principia a longa noite da minha vida. + +«Nos dias immediatos, a horas certas, vi sempre este homem. Concebi os +perigos da minha fraqueza, e quiz ser forte. Resolvi não vêl-o mais: +revesti-me d'um orgulho digno da minha immodesta superioridade ás outras +mulheres: sustentei este caracter dous dias; e, ao terceiro, era fraca +como todas as outras. + +«Eu já não podia divorciar-me da imagem d'aquelle homem, d'aquellas +nupcias infelizes, que meu coração contrahira. O meu instincto não era +mau; porque a educação tinha sido boa; e, não obstante a humildade +constante com que sempre sujeitei a minha mãi os meus innocentissimos +desejos, senti-me então, com magoa minha, rebelde, e capaz de conspirar +contra a minha familia. + +«A frequente repetição dos passeios de Vasco não podia ser indifferente +a meu irmão. Fui suavemente interrogada por minha mãi, a tal respeito, e +respondi-lhe com respeito, mas sem temor. Meu irmão presentiu a +necessidade de matar aquella inclinação nascente, e expoz-me um quadro +feio dos costumes pessimos de Vasco, e o conceito publico em que era +tido o primeiro homem a quem eu tão francamente me offerecia em namoro. +Fui altiva com meu irmão, e adverti-lhe que os nossos corações não +tinham contrahido a obrigação de se consultarem. + +«Meu irmão soffreu; eu tambem soffri; e, passado o momento da exaltação, +quiz cerrar a ferida que abrira n'aquelle coração, desde a infancia, +identificado com as minhas vontades. + +«Este sentimento era nobre; mas o do amor era inferior. Se eu podesse +reconcial-os ambos! Não podia, nem sabia fazel-o! Uma mulher, quando +principia a sua dolorosa tarefa do amor, não sabe mentir com +apparencias, nem calcula os prejuizos que póde evitar com uma pouca de +impostura. Eu fui assim. Deixei-me hir abandonada á correnteza, da minha +inclinação; e, quando forcejei por me tornar, tranquilla, á isenção da +minha alma, não pude vencer a corrente. + +«Vasco de Seabra perseguia-me: as cartas eram incessantes, e a grande +paixão que ellas exprimiam não era ainda igual á paixão que me faziam. + +«Meu irmão quiz tirar-me de Lisboa, e minha mãi instava pela sahida, ou +pela minha entrada a toda a pressa nas Silesias. Informei Vasco das +intenções de minha familia. + +«No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno d'outra +sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha mãi, e foi +urbanamente repellido. Eu sube-o, e torturei-me! Não sei do que seria +então capaz a minha alma offendida! Sei que foi capaz de tudo que póde +caber em forças d'uma mulher, contrariada nas ambições que nutrira, +sosinha comsigo, e conjurada a perder-se por ellas. + +«Vasco irritado d'um nobre estimulo, escreveu-me, como quem me pedia a +mim a satisfação dos despresos de minha familia. Respondi-lhe que lh'a +dava plena, como elle a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela +porta da deshonra, e muito cedo entraria n'ella com a minha honra +illibada. Que desgraça! n'aquelle tempo até as pompas do estilo me +seduziam!... Respondi que sim, e cumpri. + +«Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciencia é curta. Até ao +correio que vem. + + _Henriqueta_.» + + +VI. + + +Carlos relêra com sofrega anciedade, a singela expansão d'uma alma que, +talvez, nunca se abrira, se a não rasgasse o espinho d'um martyrio +surdo. Henriqueta não escrevia assim uma carta a um homem, que podesse +consolal-a. Afeita a gemer no silencio, e na solidão, tornava-se como +egoista das suas dôres, e suppunha que divulgal-as era esfolhar a mais +bella flôr da sua corôa de martyr. Escreveu, porque a sua carta era um +mytho de segredo e publicidade; porque a sua afflicção não rastejava +pelos queixumes lamuriantes e triviaes d'um grande numero de mulheres, +que não choram nunca a viuvez do coração, e lastimam sempre a demora das +segundas nupcias; escreveu em fim, porque a sua dôr, sem deshonrar-se +com uma publicidade esteril, interessava um coração, esposava uma +sympathia, um soffrimento simultaneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre +admiração! Ha mulheres vaidosas--deixem-me assim dizer--da fidalguia do +seu soffrer. Risonhas para o mundo, é muito sublime aquella angustia +represada que só póde extravasar os sobejos do seu fel em uma carta +anonyma. Lagrimosas para si, e fechadas no circulo estreito, que a +sociedade lhes traça com o compasso inexoravel das conveniencias, essas +sim, são duas vezes anjos despenhados! + +Quem podesse receber na taça de suas lagrimas algumas, que ahi se +choram, e que a opulencia material não enxuga, experimentaria +consolações d'um sabor novo. O padecimento, que se esconde, impõe o +respeito religioso do augusto mysterio d'esta religião universal, +symbolisada pelo soffrimento commum. O homem, que podesse verter uma +gota de orvalho na aridez d'algum coração, seria o sacerdote +providencial no tabernaculo d'um espirito superior, que velasse a vida +da terra para que tamanhas agonias não fossem estereis na vida do céo. +Não ha na terra mais gloriosa missão! + +Carlos por tanto, sentiu-se feliz d'este orgulho santo que ennobrece a +consciencia do homem que recebe o privilegio d'uma confidencia. Esta +mulher, dizia elle, é para mim um ente quasi phantastico. Allivios quaes +são os que eu posso dar-lhe?... Nem ao menos escrever-lhe!... E ella... +em que fará consistir o seu prazer?! Deus o sabe! Quem póde explicar, e +mesmo explicar-se a singularidade d'um proceder, ás vezes, inconcebivel? +........................................................................... + +No correio proximo, recebeu Carlos a segunda carta de Henriqueta: + +«Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta? Adivinhaste o +resto, com prestesa natural. Recordaste mil aventuras d'este genero, e +amoldaste a minha historia ás legitimas consequencias de todas as +aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem, com quem fugira, e +chamaste a isto, talvez, uma deducção contida nos principios. + +«Pensaste bem, amigo, a logica da desgraça é essa, e o contrario dos +teus juizos é o que se chama sophisma, porque eu estou em pensar que a +virtude é o absurdo da logica dos factos, é a heresia da religião das +sociedades, é a aberração monstruosa das leis, que regem o destino do +mundo. Achas-me metaphysica de mais? Não te impacientes. A dôr +refugia-se nas abstracções, e encontra melhor pabulo na Loucura de +Erasmo, que nas sisudas deducções de Montesquieu. + +«Minha mãi estava reservada para uma grande provação! Amparou-a Deus +n'aquelle golpe, e permittiu-lhe uma energia que não era de esperar. +Vasco de Seabra bateu ás portas de todas as igrejas de Lisboa, para me +apresentar, como sua mulher, ao cura da freguezia, e achou-as fechadas. +Eramos perseguidos, e Vasco não contava com a sua superioridade sobre +meu irmão, que lhe fizera certa e infallivel a morte, onde quer que a +fortuna lh'o deparasse. + +«Fugimos de Lisboa para Hespanha. Um dia entrou Vasco, alvoroçado, +pallido, e febril d'aquella febre de medo, que, realmente, era, até +então, a unica face prosaica do meu amante. Emmulamos a toda a pressa, e +partimos para Londres. É que Vasco de Seabra vira meu irmão em Madrid. + +«Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco tranquillisou-se, +porque lhe afiançaram de Lisboa a volta de meu irmão, que perdera as +esperanças de encontrar-me. + +«Se me perguntas como era a vida intima d'estes dous fugitivos, aos +quaes não faltava condição alguma das aventuras romanticas d'um rapto, +dir-t'a-hei em poucas linhas. + +«O primeiro mez das nossas nupcias de emboscada foi um sonho, uma febre, +uma anarchia de sensações que, levadas ao extremo do goso, pareciam +tocar as raias do soffrimento. Vasco parecia-me um Deus, com as +seductoras fraquezas d'um homem; queimava-me com o seu fogo, +divinisava-me com o seu espirito; levava-me de mundo em mundo á região +dos anjos onde a vida deve ser o extasis, o arrobamento, a alienação com +que a minha alma se derramava nas sensações ardentissimas d'aquelle +homem. + +«No segundo mez, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez «que era +muito meu amigo.» O coração pulsava-lhe vagaroso, os olhos não faiscavam +electricidade, os sorrisos eram frios... os meus beijos já os não +aqueciam n'aquelles labios! «Sinto por ti uma sincera estima.» Quando +isto se diz, depois d'um amor vertiginoso, que não sabe as phrases +triviaes, a paixão está morta. E estava... + +«Depois, Carlos, fallavamos em litteratura, analysavamos as operas, +discutiamos o merito dos romances, e viviamos em academia permanente, +quando Vasco me não deixava quatro, cinco, e seis horas entregue ás +minhas innocentes recreações scientificas. + +«Vasco cançara-se de mim. A consciencia affirmou-me esta verdade atroz. +Suffoquei a indignação, as lagrimas, e os gemidos. Soffri sem limites. +Abrasou-se-me na alma um inferno que me coava fogo nas vêas. Não houve +nunca mulher assim desgraçada! + +«E vivemos assim dezoito mezes. A palavra «casamento» foi banida de +nossas curtas conversações... Vasco desquitava-se de compromissos, que +elle chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia de ser o meu +escravo, como elle intitulava o nescio, que se deixava algemar ás +obscuras superstições do setimo sacramento... Foi ahi que Vasco de +Seabra encontrou a Sophia que te apresentei no real theatro de S. João, +na primeira ordem. + +«Comecei então a pensar em minha mãi, em meu irmão, na minha honra, na +minha infancia, na memoria deslustrada de meu pai, na tranquillidade de +minha vida até ao momento em que me atirei á lama e salpiquei com ella a +face da minha familia. + +«Peguei da penna para escrever a minha mãi. Escrevera a primeira +palavra, quando comprehendi o vexame, a degradação, e a villania com que +ousava apresentar-me áquella virtuosa senhora, com a face manchada de +nodoas, contagiosas. Repelli com nobreza esta tentação, e desejei +n'aquelle instante, que minha mãi me julgasse morta. + +«Em Londres viviamos n'uma hospedaria, depois que Vasco perdeu o medo a +meu irmão. Viera ahi hospedar-se uma familia portugueza. Era o visconde +do Prado, e sua mulher, e uma filha. O visconde relacionou-se com Vasco, +e a viscondessa e sua filha visitaram-me, tractando-me como irmã de +Vasco. + +«Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua curiosidade na +historia d'esta gente, que já conheceste no camarote da 2.^a ordem. + +«Mas não posso agora dispor de mim... Saberás, alguma vez, a razão +porque não pude continuar esta carta. + +«Adeus, até outro dia, + + _Henriqueta_.» + + +VII. + + +«Cumpro religiosamente as minhas promessas. Tu não avalias o sacrificio +que faço. Não importa. Como não quero captivar a tua gratidão, nem, +mesmo ainda, mover a tua piedade, basta-me a consciencia do que sou para +ti, que é (medita bem) o mais que posso ser... + +«A historia... não é assim? Principia agora. + +«Antonio Alves era um pobre amanuense do escriptorio de um tabellião de +Lisboa. Casou, e reuniu ao infortunio de casar a desgraça de ser pai. O +tabellião morreu, e Antonio Alves, privado dos escassos lucros de +amanuense, luctou com a fome. A mulher por um lado com a filhinha ao +collo, e elle pelo outro com as lagrimas da indigencia, conseguiram +algumas moedas, e com ellas a passagem do pobre marido para o Rio de +Janeiro. + +«Foi, e deixou entregues á Providencia a mulher e a filha. + +«Josepha esperava todos os dias carta de seu marido. Nem carta, nem um +indicio da sua existencia. Julgou-se viuva, vestiu-se de preto, e viveu +de esmolas, pedidas á noite na _praça do Rocio_. + +«A filha chamava-se Laura, e crescera bella, não obstante as angustias +da fome, que transformam a formosura do berço. + +«Aos quinze annos de Laura, já sua mãi não mendigava. A deshonra +proporcionara-lhe abundancia que uma honrosa mendicidade lhe não dera. +Laura era amante d'um rico, que cumpria fielmente com a mãi as +condicionaes estipuladas na escriptura de venda da filha. + +«Um anno depois, Laura explorava outra mina. Josepha não soffria com as +vicissitudes da filha, e continuava a gosar os fins da vida á sombra de +tão fecunda arvore. + +«A indigencia, e a sociedade fizeram-lhe comprehender que só ha deshonra +na fome e na nudez. + +«Outro anno depois, a radiosa Laura declarou-se o premio do cavalleiro, +que mais airoso entrasse no torneio. + +«Concorreram muitos gladiadores, e parece que todos foram premiados, +porque todos esgrimiam galhardamente. + +«Desgraça foi para Laura, quando os melhores campeões se retiraram +fatigados da liça. Os que vieram depois eram bisonhos no jogo das armas, +e viram que a dama das justas já não valia a pena de perigosos botes de +lança, e de arreios muito custosos de pedraria e ouro. + +«Pobre Laura, apeada do seu pedestal, olhou-se a um espelho, viu-se +ainda bella com vinte e cinco annos, e perguntou á sua consciencia a +baixa do preço com que corria no leilão de mulheres. A consciencia +respondeu-lhe que descesse da altura das suas ambições, que viesse para +onde a chamava a logica da sua vida, e continuaria a ser rainha n'um +reino de segunda ordem, já que a exauthoravam d'um throno que tivera na +primeira. + +«Laura desceu, e encontrou uma sociedade nova. Acclamaram-na soberana, +reuniu-se uma côrte tumultuosa na ante-camara d'esta odalisca facil, e +não houve grande nem pequeno a quem se baixassem os reposteiros do +throno. + +«Laura viu-se um dia abandonada. Viera uma outra disputar-lhe a sua +legitimidade. Os cortezãos voltaram-se para o sol nascente, e +apedrejaram, como os incas, o astro que se escondia para alumiar os +antipodas d'um outro mundo. + +«Os antipodas d'um outro mundo eram uma sociedade inculta, sem a +intelligencia da arte, sem o culto á formosura, sem as opulencias que o +ouro cria nas altas regiões da civilisação, e, finalmente, sem algum dos +attributos, que Laura amára tanto nos mundos, onde fôra soberana duas +vezes. + +«A infeliz tinha descido ao derradeiro grau de aviltamento; mas era +bella ainda. Sua mãi, enferma n'um hospital, pedia a Deus, como esmola, +a sua morte. A desgraçada foi punida. + +«No hospital, viu passar sua filha diante do seu leito; pediu que a +deitassem ao pé de si; o enfermeiro riu-se; e entrou com ella n'outra +enfermaria, onde o anjo do pudor e o das lagrimas cobriam o rosto na +presença da ulcera mais esqualida, e mais lastimosa do genero humano. + +«Laura principiava a sondar a profundidade do abysmo em que cahira. + +«Sua mãi recordava as fomes d'outro tempo, quando sua filha, virgem +ainda, chorava e supplicava, com ella, uma esmola ao passageiro. + +«As privações de então eram semelhantes, ás privações de agora, com a +differença, porém, que a Laura de hoje, deshonrada e repelida, não podia +já prometter o futuro da Laura de então. + +«Agora, Carlos, vejamos o que é o mundo, e pasmemos diante das evoluções +gymnasticas dos acontecimentos. + +«Apparece em Lisboa um capitalista, que chama a attenção dos +capitalistas, a consideração do governo, e, por via de regra, desafia +inimisades politicas, e invejas, que procuram o seu principio de vida +para denegrir-lhe o luzimento da sua affrontosa opulencia. + +«Este homem compra uma quinta na provincia do Minho, e, mais barato +ainda, compra o titulo de visconde do Prado. + +«Um jornal de Lisboa, que traz entre os dentes venenosos da politica o +pobre visconde, escreve um dia um artigo, onde se acham, entre muitas, +as seguintes allusões: + +«O snr. visconde do Prado adscreveu á immoralidade do governo a +immoralidade da sua fortuna. Como ella foi adquirida, dil-o-hiam as +costas d'Africa se os sertões contassem os horrorosos dramas da +escravatura, em que o snr. visconde foi heroe. +........................................................................... + +«O snr. visconde do Prado era Antonio Alves ha 26 annos, e a pobre +mulher que deixou em Portugal, com uma tenra filhinha ao collo, ninguem +dirá em que rua morreu de fome sobre as lages, ou em que agua-furtada +curtiram ambas as agonias da fome, em quanto o snr. visconde medrava +cynicamente na hydropisia do ouro, com que hoje vem arrotar moralidades +no theatro das suas infamias de esposo e de pai................ + +«Melhor fôra que o snr. visconde indagasse onde repousam os ossos de sua +mulher, e de sua filha, e nos pozesse ahi um padrão de marmore, que +possa attestar ao menos o remorso d'um infame contricto... + +«Este insulto directo, e fundamentado, ao visconde do Prado, fez ruido +em Lisboa. As edições do jornal espalharam-se, e leram-se, e +commentaram-se com frenetica maldade. + +«Ás mãos de Laura chegou este jornal. Sua mãi, ouvindo lêl-o, delirou. A +filha cuidou que sonhava; e a situação de ambas perderia muito se eu +tentasse roubar-lhe as côres vigorosas da tua imaginação. + +«No dia seguinte, Josepha e Laura entravam no palacete do visconde do +Prado. O porteiro respondeu que s. exc.^a não estava ainda a pé. +Esperaram. Ás 11 horas sahia o visconde, e, ao saltar para a carruagem, +viu duas mulheres que se aproximavam. Metteu a mão ao bolso do collete, +e tirou doze vintens que lançava na mão de uma das duas mulheres. Olhou +admirado para ellas, quando viu que a esmola lhe era recusada. + +«--Que querem?--interrogou elle, com soberba indignação. + +«--Quero vêr meu marido que não vejo, ha 26 annos...--respondeu Josepha. + +«O visconde estacou ferido d'um raio. O suor gotejava-lhe na testa em +bagas frias. Laura aproximou-se, em attitude de beijar-lhe a mão... + +«--Pois que?...--interpellou o visconde. + +«--Sou sua filha...--respondeu Laura com humildoso respeito. + +«O visconde, aturdido e parvo, voltou as costas á carruagem, e mandou ás +duas mulheres que o seguissem. + +«O resto no correio seguinte.--Adeus, Carlos. + + _Henriqueta_.» + + +VIII. + + +«Carlos, tenho quasi tocado a extrema d'esta minha peregrinação. A minha +illiada está no ultimo canto. Quero dizer-te que é esta a minha +penultima carta. + +«Não sou tão independente como pensava. A não serem os poetas, ninguem +gosta de contar as suas magoas ao vento. É bello dizer-se, que um gemido +nas azas da brisa vai da terra em dorido suspirar até ao côro dos anjos. +É bonito conversar com a fonte suspirosa, e contar á avesinha gemedôra +os segredos do nosso penar. Tudo isto é delicioso d'uma puerilidade +inoffensiva; mas eu, Carlos, não tenho alma para estas cousas, nem +engenho para estes artificios. + +«Vou contando as minhas penas a um homem, que não póde zombar de minhas +lagrimas, sem trahir a generosidade do seu coração, e a sensibilidade do +talento Sabes qual é o meu egoismo, o meu estipendio n'este trabalho, +n'esta franqueza d'alma, que ninguem te póde disputar como unico em +merecêl-a? Eu te digo. Quero uma carta tua, dirigida a Angelica +Michaela. Diz-me o que a tua alma te disse; não tenhas pejo em +denuncial-a; associa-te um momento á minha dôr, e dize-me o que farias +se tivesses sido Henriqueta. + +«Aqui tens o prologo d'esta carta: agora vamos espreitar o lance +extraordinario d'aquelle encontro, em que deixamos o visconde e a... +como hei-de chamar-lhe?... a viscondessa, e sua exc.^{ma} filha D. +Laura. + +«--Pois é possivel existires?--perguntava o visconde, sinceramente +admirado, a sua mulher. + +«--Pois não me conheces, Antonio?--respondia ella com estupida +naturalidade. + +«--Tinham-me dito que morreras...--tornou elle com desazada +hypocrisia--tinham-me dito, ha dezesete annos, que tu e a nossa filha +tinheis sido victimas da cholera-morbus... + +«--Felizmente que lhe mentiram--interrompeu Laura com affectada +meiguice.--Nós é que lhe tinhamos resado por alma, e nunca deixamos de +pronunciar o seu nome sem saudosas lagrimas. + +«--Como tendes vivido?--perguntou o visconde. + +«--Pobre, mas honradamente--respondeu Josepha, dando-se uns ares +austeros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o céo por +testemunha. + +«--Ainda bem!--tornou o visconde--mas que modo de vida tem sido o vosso? + +«--O trabalho, meu querido Antonio, o trabalho de nossa filha tem sido o +amparo da sua honra, e da minha velhice. Tu abandonaste-nos com tamanha +crueldade!... Que mal te fizemos nós? + +«--Nenhum, mas não vos disse eu que vos considerava mortas?--respondeu o +visconde a sua mulher, que tivera a habilidade de arrancar duas +volumosas lagrimas, tanto a proposito. + +«--O passado, passado--disse Laura, afagando carinhosamente as mãos +paternas, e dando-se uns ares de innocencia capazes de illudir S. Simão +Stylita.--Quer o pai saber (proseguiu ella com sentimento) qual tem sido +a minha vida? Olhe, meu pai, não se envergonhe da posição social em que +encontra sua filha... Tenho sido modista, tenho trabalhado +incessantemente... tenho luctado com as tentações da penuria, e tenho +feito consistir em minhas lagrimas o meu triumpho... + +«--Bem, minha filha--interrompeu o visconde com sincera +contrição--esqueçamos o passado.... D'hora em diante será a abundancia a +premio da tua virtude... Ora diz-me: o mundo sabe que tu és minha +filha?... disseste a alguem que eu era teu marido, Josepha? + +«--Não, meu pai.--Não meu Antoninho.--Responderam ambas, como se +tivessem previsto e calculado as perguntas e as respostas. + +«--Pois bem--continuou o visconde--vamos a conciliar com o mundo as +nossas posições presentes, passadas e futuras. D'hora ávante, Laura, és +minha filha, és filha do visconde do Prado, e não pódes chamar-te Laura. +Serás Elisa, comprehendes-me? é necessario que te chames Elisa... + +«--Sim, meu pai... eu serei Elisa--atalhou a _innocente modista_ com +impetuosa alegria. + +«--É necessario abandonar Lisboa--proseguiu o visconde. + +«--Sim, sim, meu pai... vivamos num sertão... quero gosar, sosinha, na +presença de Deus a felicidade de ter pai... + +«--Não hiremos para um sertão... vamos para Londres; mas... +attendam-me... é preciso que ninguem as veja, n'estes primeiros annos, +principalmente em Lisboa... A minha posição actual é muito melindrosa. +Tenho muitos inimigos, muitos invejosos, muitos infames, que procuram +perder-me no conceito que pude comprar com o meu dinheiro. Estou farto +de Lisboa; partiremos no primeiro paquete... Josepha, repara em ti, e vê +que és a viscondessa do Prado. Elisa, a tua educação foi desgraçadamente +mesquinha para te poderes mostrar qual eu quero que sejas na alta +sociedade. Voltaremos um dia, e terás então supprido com a educação +pratica a rudeza que indispensavelmente tens. + +«Não progrido, n'este dialogo, Carlos. O programma do visconde foi +rigorosamente cumprido. + +«Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em Londres, com +esta familia. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira vez, a filha do +visconde atravessar um corredor do hotel, fixou-a com pasmo, e veio +dizer-me que acabava de vêr, elegantemente trajada, uma mulher que +conhecera em Lisboa, chamada Laura. Acrescentou varias circumstancias da +vida d'esta mulher, e acabou por mostrar vivos desejos de saber o tolo +opulento, a quem tal mulher estava associada. + +«Vasco pediu a lista dos hospedes, e viu que os unicos portuguezes eram +Vasco de Seabra e _sua irmã_, e o visconde do Prado, a sua mulher, e sua +filha D. Elisa Pimentel. + +«Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se d'uma illusão. + +«No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e alegrou-se de ter +encontrado um patricio, que lhe explicasse aquelles gritos barbaros dos +serventes do hotel, que lhe davam agua por vinho. Vasco não duvidou em +ser interprete do visconde, com tanto que as suas luzes em lingua +ingleza podessem chegar ao escondrijo d'onde nunca mais vira sahir a +supposta Laura. + +«Correram as cousas á medida do seu desejo. Na noite d'esse dia, fomos +convidados para tomar chá, na saleta do visconde. Eu hesitei, sem saber +ainda se Laura seria familiar do visconde. Vasco, porém, despreveniu-me +d'este temor, afiançando-me que se tinha illudido com a semelhança das +duas mulheres. + +«Fui. Elisa pareceu-me uma menina bem educada. Nunca o artificio tirou +maior partido das maneiras adquiridas em habitos libertinos. Elisa era a +mulher de côrte, com os ademans fascinadores dos salões, onde a +immoralidade do coração passeia de braço dado com a illustração do +espirito. O som da palavra, a escolha da phrase, a compostura airosa da +mimica, o tom sublime em que as suas idêas eram voluptuosamente lançadas +na torrente de uma conversação animada, tudo isto me fez crêr que Laura +era a primeira mulher que eu tinha encontrado, talhada á feição do meu +espirito. + +«Quando agora pergunto á minha consciencia como estas transições se +fazem, descreio da educação, lamento os annos consumidos no cultivo da +intelligencia, e chego a persuadir-me que a escóla da devassidão é a +ante-camara por onde mais facil se entra no mundo da graça e da +civilisação. + +«Perdôa-me o absurdo, Carlos; mas ha mysterios na vida, que só pelo +absurdo se explicam. + + _Henriqueta_.» + + +IX. + + +«Li a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de lagrimas, e o coração de +reconhecimento. Não esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a +injustiça de te julgar infeccionado d'este marasmo de egoismo que +entorpece o espirito, e calcina o coração. E, de mais, suppunha-te +insensivel pelo facto de seres intelligente. Eis-aqui um disparate, que +eu não ousaria balbuciar na presença do mundo. O que vale é que as +minhas cartas não serão lidas pelas mediocridades, que se acham em +concilio permanente para condemnar, em nome de não sei que tolas +conveniencias, as heresias do genio. + +«Deixa-me dizer-te francamente o juizo que eu fórmo do homem +transcendente em genio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente +em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes. + +«O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns conheço eu que o mundo +proclama virtuosos, e sabios. Deixal-os proclamar. O talento não é a +sabedoria. Sabedoria é o trabalho incessante do espirito sobre a +sciencia. O talento é a vibração convulsiva do espirito, a originalidade +inventiva e rebelde á authoridade, a viagem extatica pelas regiões +incognitas da idêa. Santo Agostinho, Fenelon, Madame de Stael, e Bentham +são sabedorias. Luthero, Ninon de Lenclós, Voltaire e Byron são +talentos. Compara as vicissitudes d'essas duas mulheres, e os serviços +prestados á humanidade por esses homens, e terás encontrado o +antagonismo social em que luctam o talento com a sabedoria. + +«Porque é mau o homem de talento? Essa bella flôr porque tem no seio um +espinho envenenado? Essa esplendida taça de brilhantes e ouro porque é +que contem o fel, que abrasa os labios de quem a toca? + +«Aqui tens um thema para trabalhos superiores á cabeça d'uma mulher, +ainda mesmo reforçada por duas duzias de cabeças academicas! + +«Lembra-me ouvir dizer a um doudo que soffria por ter talento. Pedi-lhe +as circumstancias do seu martyrio sublime, e respondeu-me o seguinte com +a mais profunda convicção, e a mais tocante solemnidade philosophica: Os +talentos são raros, e os estupidos são muitos. Os estupidos guerream +barbaramente o talento: são os vandalos do mundo espiritual. O talento +não tem partido n'esta peleja desigual. Foge, dispara na retirada um +tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se, segrega-se do +contacto do mundo, e curte em silencio aquelle fel de vingança, que, +mais cedo ou mais tarde, cospe na cara d'algum inimigo, que encontra +desviado do corpo do exercito. + +«Ahi tem--acrescentou elle--a razão porque o homem de talento é perigoso +na sociedade. O odio inspira-lhe a eloquencia da traição. A mulher, que +lhe ouve o astucioso hymno das suas apaixonadas lamurias, acredita-o, +abandona-se, perde-se, e retira-se, por fim, gritando contra o seu +algoz, e pedindo á sociedade que grite com ella. + +«Agora, diz-me tu, Carlos, até que ponto devemos acreditar este doudo. +Eu por mim não me satisfaço com o seu systema, todavia sinto-me propensa +a aperfeiçoar o prisma do doudo, até encontrar as côres inalteraveis do +juizo. + +«Seja o que fôr, eu creio que és uma excepção e não soffra com isto a +tua modestia. A tua carta fez-me chorar, e acredito que soffrias, +escrevendo-a. Has-de continuar a visitar-me espiritualmente na minha +Thebaida, sem cilicios, sim? + +«Agora conclua-se a historia, que leva seus visos de folhetim +philosophico, moral, social, e não sei que mais por ahi se diz, que não +vale nada. + +«Contrahi amisade com a filha do visconde do Prado. Não era ella, porém, +tão intima, que me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra não era +meu irmão. Por elle me fôra imposto, como preceito, o segredo de nossas +relações. Bem longe estava eu de comprehender este zelo de virtuosa +honestidade, quando a mão d'um demonio me tirou a venda dos olhos. + +«Vasco amava Laura!! Eu puz dous pontos de admiração, mas acredita que +foi uma urgencia rhetorica, uma composição artistica, que me obrigou a +admirar-me, escrevendo, de cousas que me não admiram, pensando. + +«Que é o que levou tão depressa este homem a aborrecer-me, pobre mulher, +que despresei o mundo, e me despresei a mim propria para satisfazer-lhe +o capricho d'alguns mezes? Foi uma miseria que ainda hoje me envergonha, +supposto que esta vergonha devesse ser um reflexo das faces d'elle... +Vasco amava a filha do visconde do Prado, a _Laura_ d'alguns mezes +antes, porque a Elisa d'hoje era a herdeira de não sei quantos centos de +contos de reis. + +«Devo envergonhar-me de ter amado este homem, nao é verdade, Carlos? Não +devo soffrer um instante a perda d'um miseravel, que eu vejo d'aqui com +uma grilheta d'ouro algemada a uma perna, tapando em vão os ouvidos para +não ouvir-lhe o ruido... a sentença do forçado que o segue até ao fim +d'uma existencia farta de opprobrio, e celebre de infamias! + +«E não soffro, Carlos! Tenho aqui no seio uma ulcera que não tem cura... +choro, porque é intensa a dôr que ella me causa... mas, olha, não tenho +lagrimas que não sejam remorsos... não tenho remorsos que não sejam +picados pela affronta que fiz a minha mãi, e a meu irmão... Não me doe o +meu proprio aviltamento, não! Se em minha alma cabe algum enthusiasmo, +algum desejo, é o enthusiasmo da penitencia, é o desejo de +torturar-me... + +«Fugi tanto da historia, meu Deus!... Desculpa estes desvios, meu +paciente amigo!... Eu queria correr muito sobre o que me falta, e hei-de +conseguil-o, porque não posso parar, e temo de me converter em estatua, +como a mulher de Loth, quando olho com attenção para o meu passado... + +«O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu genro. Vasco não +sei como recebeu o convite; o que eu sei é que os vinculos d'estas +relações estreitaram-se muito, e Elisa, desde esse dia, expandiu-se +comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas. Estas +intimidades eram o prologo d'outra que tu avaliarás. Foi ella a propria +que me disse que esperava ainda poder chamar-me irmã! Isto é uma +atrocidade sublime, Carlos! Diante d'essa dôr calam-se todas as agonias +possiveis! O insulto não podia ser mais despedaçador! O punhal não podia +entrar mais dentro no virtuoso coração da pobre amante de Vasco de +Seabra!... Agora, sim, que eu quero a tua admiração, meu amigo! Tenho +direito á tua compaixão, se não pódes estremecer de enthusiasmo diante +do heroismo d'uma martyr! Ouvi este annuncio dilacerante!... Senti +fugir-me o entendimento... aquella mulher suffocou-me a voz na +garganta... horrorisei-me não sei se d'ella, se d'elle, se de mim... Nem +uma lagrima!... acreditei-me douda... Senti-me estupida d'aquelle +idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos vêem nos labios +um sorriso de imbecilidade... + +«Elisa parece que recuou aterrada da expressão da minha physionomia... +Fez-me não sei que perguntas... não me lembro mesmo se aquella mulher +permaneceu diante de mim... Basta!... não posso prolongar esta +situação... + +«Na tarde d'esse mesmo dia, chamei uma creada da hospedaria. Pedi-lhe +que me vendesse algumas joias de pouco valor que eu possuia; eram +minhas; minhas não... eram um roubo que eu fiz a minha mãi. + +«Na manhã do dia seguinte, quando Vasco, depois de almoço, visitava o +visconde do Prado, escrevi estas linhas: + +«Vasco de Seabra não póde gloriar-se de ter deshonrado Henriqueta de +Lencastre. Esta mulher sentia-se digna d'uma corôa de virgem, virgem do +coração, virgem na sua honra, quando abandonava um villão, que não pôde +infectar da sua infamia o coração da mulher, que arrastou ao abysmo da +sua lama, sem lhe salpicar a cara. Foi a Providencia que a salvou!» + +«Deixei este escripto sobre as luvas de Vasco, e fui á estação dos +caminhos de ferro. + +«Dous dias depois entrava n'um paquete. + +«Ao vêr a minha patria, cobri o rosto com as mãos, e chorei... Era a +vergonha e o remorso. Diante do Porto senti uma inspiração do céo. +Saltei n'uma catraia, e pouco depois achava-me n'esta terra, sem um +conhecimento, sem um apoio, e sem subsistencia para muitos dias. + +«Entrei em casa d'uma modista, e pedi obra. Não m'a negou. Aluguei uma +agua-furtada, onde trabalho ha quatro annos; onde, ha quatro annos, +comprimo bem aos rins, segundo a linguagem antiga, os cilicios do meu +remorso. + +«Minha mãi e meu irmão vivem. Julgam-me morta, e eu peço a Deus que não +haja um indicio da minha vida. Sê-me tu fiel, meu generoso amigo, não me +denuncies, pela tua honra, e pela sorte de tuas irmãs. + +«Tu sabes o resto. Ouviste, no theatro, Elisa. Foi ella a que disse que +seu marido a abandonára, chamando-lhe _Laura_. Aquella está punida... + +«Sophia... (lembras-te de Sophia?) essa é uma pequena aventura, que +aproveitei para tornar menos insipidas aquellas horas, em que me +acompanhaste... Foi uma rival que não honra ninguem... uma _Laura_ com +os respeitos publicos, e as considerações que se barateiam a corpos +ulcerosos, com tanto que se vistam de veludos matizados. Ainda eu era +feliz, quando o infame amante d'essa mulher me dava aquelle annel, que +viste, como oblação de sacrificio que me fazia d'uma rival... + +«Escreve-me. + +«Has-de ouvir-me no proximo carnaval. + +«Por ultimo, Carlos, deixa-me fazer-te uma pergunta: + +«Não me achas mais defeituosa que o nariz d'aquella andaluza da +historia, que te contei? + + _Henriqueta_.» + + +X. + + +É natural a exaltação de Carlos, depois de erguido o véo, em que se +escondiam os mysterios de Henriqueta. Alma apaixonada pela poesia do +bello, e pela poesia da desgraça, Carlos não teve nunca impressão na +vida, que mais lhe incendiasse uma paixão! + +As cartas a Angela Michaela eram o desafogo do seu amor sem esperança. +Os mais ferventes extasis da sua alma de poeta, imprimiu-os n'aquellas +cartas escriptas, debaixo de uma impressão, que lhe roubava a +tranquilidade do somno, e o refugio d'outros affectos. + +Henriqueta respondera concisamente ás explosões d'um delirio, que nem +sequer a fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta não podia amar. +Arrancaram-lhe pela raiz a flôr do coração. Esterilisaram-lhe a arvore +dos bellos fructos, e envenenaram-lhe de sarcasmo e ironia os instinctos +do carinho brando, que acompanham a mulher até á sepultura. + +Carlos não podia supportar uma repulsa nobre. Persuadira-se que havia um +estalão moral para todas. Confiava no seu ascendente, em não sei que +mulheres, entre as quaes lhe não fôra penoso nunca fixar o dia do seu +triumpho. + +Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. O +amor-proprio, angustiado nos apertos d'uma impossibilidade invencivel, +adquire uma nova feição, e converte-se em paixão, como as paixões +primeiras, que nos sopram a tempestade no limpido lago da adolescencia. + +Carlos, em ultimo recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No +lance extremo d'um desafogo, hiria elle, audacioso, humilhar-se aos pés +d'aquella mulher, que a não poder amal-o, choraria com elle ao menos. + +Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a imaginação, quando lhe +occorreu a astuciosa lembrança de surprehender a morada de Henriqueta +surprehendendo a pessoa que no correio lhe tirava as cartas, +subscriptadas a Angela Michaela. + +Conseguido o compromettimento d'um empregado do correio, Carlos empregou +n'esta missão um vigia insuspeito. + +No dia de correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n.^o 628. O que +a entregou fez um signal a um homem, que passeava no corredor, e este +homem seguiu de longe a velha até ao campo de Santo Ovidio. Feliz das +vantagens, que lucrára em tal commissão, correu a encontrar-se com +Carlos. É ocioso descrever a precipitação com que o enamorado mancebo, +espiritualisado por algumas libras, correu á indicada casa. Em honra de +Carlos, é necessario dizer que aquellas libras representavam a +eloquencia com que elle tentaria mover a velha em seu favor, por isso +que, á vista das informações que tivera da pobreza da casa, concluiu que +não era alli a residencia de Henriqueta. + +Acertou. + +A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua baiuca, quando Carlos +se aproximou, e muito urbanamente lhe pediu licença para dizer-lhe duas +palavras. + +A velha, que não podia receiar alguma aggressão traiçoeira aos seus +virtuosos oitenta annos, franqueou os umbraes da sua possilga, e prestou +ao seu hospede a cadeira unica do seu camarim de tecto de vigas, e +pavimento de lages. + +Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembrado da chave com que +Bernardes manda fechar os sonetos, applicou-a á abertura da prosa, e +conheceu de prompto as vantagens de ser classico, quando convém. A +velha, quando viu cahir no regaço duas libras, sentiu o que nunca +sentira a mais carinhosa das mães, com dous filhinhos no collo. +Luziram-lhe os olhos, e dançaram-lhe os nervos em todas as evoluções dos +seus vinte e cinco annos. + +Feito isto, Carlos precisou a sua missão nos seguintes termos: + +«Esse pequeno donativo, que lhe faço, ha-de ser repetido, se vm.^{ce} me +fizer um grande serviço, que póde fazer-me. Vm.^{ce} recebeu, ha pouco, +uma carta, e vai entregal-a a uma pessoa, cuja felicidade está nas +minhas mãos. Estou certo que vm.^{ce} não ha-de querer occultar-me a +morada d'essa senhora, e prival-a de ser feliz. O serviço que tenho a +pedir-lhe, e a pagar-lhe bem, é este; póde fazer-m'o? + +A fragil mulher, que não se sentia bastante heroina para hir de encontro +á legenda, que D. João V. fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com +mais algumas reflexões e denunciou o santo asylo das lagrimas de +Henriqueta, segunda vez atraiçoada por uma mulher, fragil á tentação do +ouro, que lhe roubára um amante, e vem agora devassar-lhe o seu sagrado +refugio. + +Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa da _rua dos Pelames_, +subia a um terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe não foi aberta. +Esperou. Momentos depois, subia um rapaz com uma caixa de chapéo de +senhora: bateu; perguntaram de dentro quem era, o rapaz fallou, e a +porta foi immediatamente aberta. + +Henriqueta estava sem dominó na presença de Carlos. + +Foi sublime esta apparição. A mulher, que Carlos viu, não saberemos nós +pintal-a. Era o original d'essas esplendidas illuminuras, que o pincel +do seculo XVI fazia saltar da téla, e consagrava a Deus, denominando-as +Magdalena, Maria Egypsiaca, e Margarida de Corthona. + +O homem é fraco, e sente-se mesquinho perante a magestade da belleza! +Carlos sentiu-se dobrar nos joelhos; e a primeira palavra, que balbuciou +foi «perdão!» + +Henriqueta não pôde receber com a firmesa, que devia suppor-se-lhe, uma +tal surpreza. Sentou-se e limpou o suor que lhe correra de improviso +todo o corpo. + +A coragem de Carlos desmereceu do muito em que elle a tinha. Succumbiu, +e nem, ao menos lhe deixou o dom dos lugares communs. Silenciosos, +olhavam-se com uma simplicidade infantil, indigna de ambos. Henriqueta +revolvia no pensamento a industria com que o seu segredo fôra violado. +Carlos invocava ao coração palavras que o salvassem d'aquella crise, que +o materialisava por ter tocado o extremo do espiritualismo. + +Não nos faremos cargo de satisfazer as despoticas exigencias do leitor, +que pede contas das interjeições, e das reticencias d'um dialogo. + +O que podemos garantir-lhe, debaixo da nossa palavra de folhetinista, é +que a musa das lamentações desceu á invocação de Carlos, que, por fim, +desenvolveu toda a eloquencia da paixão. Henriqueta ouviu-o com a +seriedade com que uma rainha absoluta escuta um ministro da fazenda, que +lhe conta os chatissismos e massudos negocios das finanças. + +Sorria-se, ás vezes, e respondia com um resaibo de magoa e de +resentimento, que matava, no nascedouro, os transportes do seu infeliz +amante. + +As suas ultimas palavras, essas sim, são dignas de se archivarem para +escarmento d'aquelles que se julgam herdeiros dos raios de Jupiter +Olympico, quando se empavonam de fulminar as mulheres, que tiveram a +desventura de se queimarem, como as mariposas, no lume electrico de seus +olhos. Foram estas as suas palavras: + +«Snr. Carlos! Até hoje os nossos espiritos viveram ligados por umas +nupcias, que eu pensei não perturbarem a nossa cara tranquillidade, nem +escandalisarem a caprichosa opinião publica. D'hora em diante, um +solemne divorcio entre os nossos espiritos. Estou punida de mais. Fui +fraca e talvez má, em prender-lhe a sua attenção n'um baile mascarado. +Perdoe-me, que sou, por isso, mais desgraçada do que pensa. Seja meu +amigo. Não me envenene esta santa obscuridade, este circulo estreito da +minha vida, em que a mão de Deus tem derramado algumas flôres. Se não +póde avaliar o travo das minhas lagrimas, respeite cavalheiramente uma +mulher, que lhe pede com as mãos erguidas o favor, a piedade de a deixar +sósinha com o segredo da sua deshonra; que eu prometto nunca mais +alargar a minha alma n'estas revelações, que morreriam comigo, se eu +podesse suspeitar que attrahia com ellas a minha desgraça...» + +Henriqueta continuava, quando Carlos, com lagrimas d'uma dôr sincera, +lhe pedia ao menos a sua estima, e lhe entregava as suas cartas, debaixo +do sagrado juramento de nunca mais a procurar. + +Henriqueta, enthusiasmada pelo pathetico d'esta nobre rogativa, apertou +anciosamente a mão de Carlos, e despediram-se.... +........................................................................... +........................................................................... + +E nunca mais se viram. + +Mas o leitor tem direito a saber mais alguma cousa. + +Carlos, um mez depois, partiu para Lisboa, colheu as necessarias +informações, e entrou em casa da mãi de Henriqueta. Uma senhora, vestida +de lucto, e encostada a duas creadas, veio encontral-o n'uma sala. + +--Não tenho a honra de conhecer...--disse a mãi de Henriqueta. + +--Sou um amigo... + +--De meu filho?!...--interrompeu ella--Vem-me dar parte do triste +acontecimento?... Eu já o sei!... Meu filho é um assassino!... + +E prerompeu n'um choro, que a não deixava articular palavras. + +--O filho de v. exc.^a assassino!... interpellou Carlos. + +--Sim... sim... pois não sabe que elle matou em Londres o seductor da +minha desgraçada filha?!... da minha filha... assassinada por elle... + +--Assassinada, sim, mas só na sua honra--atalhou Carlos. + +--Pois minha filha vive!... Henriqueta vive!... Oh meu Deus, meu Deus, +eu vos agradeço!... + +A pobre senhora ajoelhou, as creadas ajoelharam com ella, e Carlos +sentiu um calefrio nervoso, e uma exaltação religiosa, que quasi o +fizeram ajoelhar com aquelle grupo de mulheres, cobertas de lagrimas.... +........................................................................... + +Dias depois, Henriqueta era procurada no seu terceiro andar, por seu +irmão, e choravam ambos abraçados com toda a expansão d'uma dôr +represada. + +Houve ahi um drama de agonias grandiosas, que a linguagem do homem não +saberá descrever nunca. + +Henriqueta abraçou sua mãi, e entrou n'um convento onde pede +incessantemente a Deus a salvação de Vasco de Seabra. + +Carlos é o intimo amigo d'esta familia, e conta este lance da sua vida +como um heroismo digno d'outras épocas. + +Laura, viuva de quatro mezes, contrahe segundas nupcias, e vive feliz +com o seu segundo marido, digno d'ella. + +Acabou o conto. + + + + +DINHEIRO! DINHEIRO! + + + + +Contaram-me, ha poucas horas, um episodio da extraordinaria vida d'um +homem, que apenas hoje conta vinte e cinco annos. Quem elle é não o +direi eu, ainda que me façam... eu sei cá!? bacharel! Eu bem sei que não +posso encarecer-me com este segredo, porque ha ahi uma boa duzia de +pessoas que o sabem, por triste experiencia, mais miudamente que eu. + +Mas o que é mais bonito, e não sei mesmo se mais romantico, é que eu +conheço pelo menos quatro primas-donas, afóra as comprimarias, d'esta +partitura, que negam com toda a energia dos seus brios o importante +papel que desempenharam. + +Deixal-as negar, que eu tambem não digo quem ellas são, ainda que me +deem o habito de Christo. + +Outra cousa: + +O muito veridico archivista dos factos, que vão lêr-se, pediu-me, por +tudo quanto ha sagrado no folhetim, que não divulgasse, nem por sombras, +o seu nome. + +Não o direi nunca, ainda que me façam... barão! + +E está dito tudo. + +Agora, gentis leitoras e eruditos leitores, começa o romance, em nome da +moralidade, do decoro e dos interesses materiaes... + + + + +DINHEIRO! DINHEIRO! + + +I. + + +Foi assim que principiou o meu illustre amigo: + +--Alli onde o vês é um embryão de romances desgrenhados... + +Referia-se a um rapaz que passava por debaixo das minhas janellas. Era +uma boa figura, visto pelas costas; mas de frente não se podia +contemplar-lhe o rosto sem recuar... não de medo, mas d'um não sei que +desabrido e repulsivo. E não era feio. Eu por mim, custou-me muito a +sustentar cara firme quando elle me fitava com aquelles olhos negros e +magneticos. Fazia-me medo, palavra d'honra! Depois afiz-me áquella +petulancia d'olhar, áquelle carregado provocante da sobrancelha, e, +graças a Deus, já me não custa tanto. + +Ora ahi está, sem grave impertinencia, traçado corporalmente o snr. +Alvaro de Sousa, que passava na minha rua. + +--Com que então (disse eu) é um embryão de romances aquelle senhor?! Bem +me parecia a mim que a vida d'aquelle homem não devia ser symetrica, +pausada, e prosaicamente chata como a minha! Eu nem se quer lhe sei de +nada! Ando cá tão fóra das barreiras da sociedade, e dos dramas +contemporaneos... que nem ao menos sei se a mazurka está no quinto grau +da refinação, ou se as polkas cederam o terreno á restauração do minuete +da côrte... Que miseria! + +--Não perdes nada, meu caro. Olha que a verdadeira miseria está +escondida no manto de lentejoulas com que esta sociedade desdentada e +trôpega se encobre. E, se não, deixa-me lêr-te uma pagina da vida de +Alvaro de Sousa, e verás como se vive por lá... + +Como sabes, aquelle rapaz é da plebe, e aspirou sempre a ser da +fidalguia. O homem não podia tragar esta desigualdade de gosos imposta +pela desigualdade do dinheiro. Sem dinheiro, e sem avós, Alvaro +achava-se aos vinte annos n'este mundo sem saber o fim para que viera, +nem a fileira social em que devia perfilar-se. + +--Pois não ha tantos officios?--interrompi eu. + +--Essa pergunta não me parece tua! Pois tu querias sentar n'uma tripeça +um homem de intelligencia? + +--Que duvida! Os sapateiros de Lisboa não tem um jornal? Alvaro de Sousa +seria um habil redactor do _jornal dos sapateiros_. + +--Estás zombando! + +--Palavra de honra, que não zombo! Tu sabes lá porque horisontes vai +ampliar-se o espirito da arte? Sabes se a tripeça terá uma plastica e +uma esthetica! Sabes se a bota de canhão terá um bello ideal? Sabes se a +tomba e a intercospia terão uma philosophia? Sabes se as mathematicas +virão, com a sua geometria applicada á bota, regular as dimensões do +salto? Sabes se a dynamica será a ultima expressão do pino? E não achas +aqui n'este complexo de sciencias um succolento pabulo para um sapateiro +talentoso, para um sapateiro-Newton, para um sapateiro-Girardin? + +--Tenho entendido que não queres a historia do homem... Façamos +treguas... Eu dou-te o diploma de espirituoso, e tu fechas a torneira ao +espirito por algum tempo... Guarda esse cabedal, que desperdiças, para +os teus folhetins. Farás rir um fidalgo de raça, embora o seu quinto avô +fizesse borzeguins para a tua quinta avó. Farás indignar o sapateiro, +teu irmão pelo sangue, pelo osso, e pela carne, e teu irmão pela arte, +porque, em fim, eu não sei se a sociedade dispensa mais depressa os teus +folhetins que as botas... + +E eu vi que o meu amigo tinha razão, e dei-lhe plena liberdade de +historiar o episodio de Alvaro de Sousa, que continúa assim: + +--Alvaro, á custa de muitos vexames e affrontas conseguiu relacionar-se +em algumas casas, onde compareciam algumas das primeiras mulheres. Eram +talvez estas as notabilidades, as sacerdotisas de iniciação para os +noviços que entravam no faustuoso templo das vestaes em quinta mão. + +O rapaz foi mais adiante nas suas ambições. + +O coração pedia-lhe alimento, o espirito pedia-lhe amor, as aspirações +anceavam-lhe um ideal, e o altivo mancebo entendeu que aquellas mulheres +deviam comprehendel-o no coração, no espirito, e nas aspirações. + +Era, realmente, exigir muito, no anno do Senhor de 1849! + +A primeira declaração, que balbuciou, teve em troca um sorrir de +despreso. Aventurou uma segunda centelha da lava, que o escaldava, por +dentro, e achou de gêlo todas aquellas mulheres. E não era isto só. +Escarneciam-no. Lastimavam-lhe a mania das declarações; e algumas +galhofeiras senhoras reuniram-se, uma noite de baile, para lhe dizerem +que, todas juntas, hiam devotamente cumprir uma novena a Santo Anastacio +para que o servinho de Deus o livrasse d'aquella hydrophobia amorosa. É +onde podia levar-se o insulto! + +Alvaro de Sousa entrou no amago da sua consciencia, como n'um abysmo sem +luz, n'um segredo de torturas, e despedaçou um a um os sentimentos +generosos com que entrára n'este mundo ingrato. + +_Pobre!_ esta maldita palavra, estigma de reprovação, era o seu demonio +das vigilias e dos sonhos! + +Como o supersticioso, que recua espavorido á larva imaginaria do seu +crime, Alvaro de Sousa fugia dos homens, como se elles, juizes +implacaveis, devessem sentencial-o no crime da sua pobresa. + +Mas um coração altivo de impotente orgulho não podia transigir com estas +leis barbaras da sociedade, que amputam no coração do pobre os mais +augustos sentimentos da sua vitalidade. + +Ha uma apparente reconciliação entre a affronta e a pobresa: é a +reconciliação do odio: é um pacto de vingança, sellado pelas lagrimas do +affrontado; é uma letra de usura avara de desforço, a vencer-se, sem +praso fixo, mas a vencer-se um dia. + +Esta fôra a reconciliação de Alvaro de Sousa com as _generosas_ mulheres +da sua affeição. + +--Ellas, naturalmente, riam-se, se elle lhes désse parte d'essa +reconciliação... + +--Riram muito. Alguem lhes disse: «Aquelle pobre rapaz, que sentia +freneticamente as suas paixões, fugiu da sociedade, e devora, na solidão +do seu quarto, um rancor profundo...--A mim:--interrompeu uma +d'ellas--Que pena! Oh Theresinha, não é uma verdadeira calamidade o odio +d'aquelle rapaz?--Ai! Maria da Luz! que triste futuro nos espera...» + +E chasqueavam assim o seu _ridiculo_ inimigo, perguntando aos amigos +d'elle em que dia finalmente as hostilidades se romperiam. + +Isto ninguem o dizia a Alvaro, porque entre o odio e a vingança +impossivel, nas almas fortes, está o suicidio. + +--_Nas almas fortes!_ (atalhei eu com gravidade philosophica). Então não +sei eu o que são «almas fortes!» Cobardes chamo eu aquelles que +desesperam. A suprema das miserias humanas é a vingança reservada por +causa d'amores despresados. O tal Alvaro de Sousa será muito romanesco, +mas tambem é um grande tolo. Com que direito queria elle impôr-se ao +amor d'essas mulheres? «Despresaram-no porque era pobre» respondes tu. E +se o despresassem porque era feio? Achas que a pobresa tenha muitas +seducções? E porque não foi Alvaro de Sousa amar uma peixeira que as ha +bem bonitas? Se a sua alma de poeta aspirava a um _ideal olympico e +metaphysicamente imponderavel_ porque foi elle procurar o seu ideal nas +mulheres carnalmente vestidas de tafetás e veludos? A mulher ordinaria, +virgem na alma, sem a depravação das Aspasias que o repudiaram, não lhe +seria mais interessante pela candura, pela innocencia, e pelo angelico +scismar dos singelos devaneios? Eu não posso soffrer estes Werters +caricatos que appellam para o suicidio, quando a mulher dos seus sonhos +não póde altear-se ás delicadas concepções da sua alma! Vai a vêr-se a +mulher em que elles empregam todo o seu cabedal de sentimentalismo, e +depara-se uma estragada de espirito, abastardada nos instinctos, incapaz +de conceber a generosidade, gelada para as suaves impressões d'uma +amisade honesta, e finalmente uma Ninon sem o _espirito_ da franceza, +mas opulenta como ella de _materia_. Repito: porque não vão estes +impostores queimar o incenso das suas angelicas adorações aos pés d'uma +donzellinha d'olhos timidos, e faces purpurinas? Não é tão bello +surprehender o pejo da innocencia!? Não ha tanta poesia n'aquellas +lagrimas de um primeiro amor que desconfia da sombra de uma mulher, que +passa ao longe do seu Medro! Não ha ahi tantas Angelicas obscuras, +tantas Virginias, segregadas dos salões das Phryneas? Emfim, meu +sentimental historiador de paixões desgrenhadas, eu não posso sentir +comtigo as desventuras do snr. Alvaro. Quero ouvil-as, porque emfim, +escrevo folhetins, e minto quasi sempre para encher um espaço de papel. +Póde ser que digas alguma cousa que valha a pena de captar a attenção +d'este publico portuense, que lê constantemente, e, á falta de romances, +por não poder emendar o costume de lêr sempre, começa a mastigar +profundas lucubrações sobre a doença das vinhas.--Ora, diz lá. + + +II. + + +O meu amigo continuou: + +--Alvaro reconcentrou-se em uma tal misanthropia, que nem ao menos os +intimos amigos recebia em casa. Dir-se-hia que aquella vida estava a +levedar-se do amargo fermento de rancor que as mulheres lhe levaram á +alma. Eu vi-o uma vez. Parecia um Smarra, um magico, uma cousa d'um +outro mundo, onde os homens conversam com as larvas. Morava no quarto o +terror. A sombra da aza da morte empanava aquelle rosto, d'onde a vivesa +e o lume fugira, deixando como vestigios, as rugas cadavericas d'uma +lenta agonia. + +--Devia ser um demonio! Cuidei que uns figurões assim eram privilegio +dos romances!... E os cabellos? naturalmente arripiados como os do +Asaverus, de Orestes, ou de qualquer outro estafermo, não é verdade? + +--O que tu quizeres... O caso é que eu julguei-o demente, ou, pelo +menos, desgraçado, que não sei se é menos, por toda a vida. + +Agora, levanta-se o pano do segundo acto. + +Uma bella manhã, sahe um homem d'um navio com quatro bahús atraz de si. +Este homem procurou a morada de um seu irmão; este irmão, que tinha +morrido, era o pai de Alvaro. O tio de Alvaro, por consequencia, era um +rico brasileiro, que acabava de manifestar seiscentos contos. + +Alvaro recebeu-o com sinistra rudeza. O snr. Manoel da Silva abraçou seu +sobrinho, chorando a morte de seu irmão, que era muito semelhante com +seu sobrinho. Deu graças á Providencia por encontrar um herdeiro do seu +ouro e do seu sangue; e, deixa-me assim dizer sem offensa da +metaphysica, insufflou uma alma nova n'aquella casa, uma alma muito +grande, maior que a alma universal de Platão! só comparavel á alma que +faz girar um sangue azul nas veias d'um merceeiro. + +Alvaro, quando de improviso se viu rico, partiu a pedra do seu tumulo, e +respirou o ar dos vivos. Os olhos faiscaram-lhe um novo lume. Os labios +vibraram-lhe uma eloquencia nova. O coração bateu-lhe pulsações d'um +orgulho expansivo. O corpo endireitou-se na linha vertical que a +Providencia geometrica marcou a todos os que podem parodiar Luiz XIV, e +dizer: o dinheiro sou eu! + +O brasileiro não era abdominoso nem vermelho das bochechas. Era um homem +regular, com sentimentos de homem não bestealisado pelo ouro. + +Achando uma casa pobre, enriqueceu-a, ampliou-a, abriu-lhe os flancos, e +deu-lhe as fórmas arrogantes d'um palacete. Um tylburi, uma carruagem, e +duas parelhas de eguas hanoverianas harmonisaram o fausto d'aquella +magica metamorphose. + +E tudo era feito a bel-prazer de Alvaro. O tio authorisara-o para tudo, +menos para casar-se, porque detestava as mulheres. + +Elle lá sabia o porque, e, se eu o souber um dia, conta com um folhetim. + +--Muito obrigado; não me despeço do favor. + +--Agora vaes tu conhecer a astucia da intelligencia, que não prescinde, +na riqueza, da vingança premeditada no infortunio. + +Alvaro de Sousa não ostentou, como era de esperar, as suas eguas, a sua +carruagem, e os seus lacaios de verde e prata. Viveu, dous mezes, ao +fogão, conversando com o tio, e conquistou-lhe assim um conceito de +grave sisudez, e uma plena confiança. + +Na primavera, Alvaro appareceu com as flôres, e, agradavel como ellas, +grangeou amisades, que não tinha... + +--Necessariamente... Olha que novidade me dás!... É melhor dizer... +_comprou amisades, que não tinha_... + +--Não posso assim dizer absolutamente. Alvaro, em quanto pobre, era +desabridamente orgulhoso, e desconfiado... Um olhar de través +irritava-o, e uma palavra equivoca enfurecia-o. Era como os que soffrem +rheumatismo agudo, que não consentem uma mosca no travesseiro. E a +pobresa, seja dito em proveito da pathologia, é o rheumatismo agudissimo +da humanidade... + +Depois de rico, parece que a sua grandeza estava na consciencia d'ella. +O dinheiro tornou-o affavel, carinhoso, sollicito em procurar as +relações dos que lhe eram muito inferiores, e até d'aquelles que +repellira na infelicidade. É realmente um phenomeno, mas tu sabes que eu +não te minto. + +--E as mulheres que faziam? + +--As mulheres? Agora vamos nós lá... Isso é uma historia muito +complicada... + +--Quaes são as que figuram? + +--Vamos por partes. A mulher, que, primeiro, o repelliu foi a Maria da +Luz. Esta mulher é casada, e era solteira, mas solteira de trinta e +tantos annos, quando Alvaro a requestou. Não sei porque, Maria da Luz, +era a preferida no odio, talvez porque sendo a primeira a repellil-o, +desairou-o, para todas as outras... Não sei. + +Alvaro foi com seu tio pagar uma visita ao marido d'esta mulher, porque +a influencia do brasileiro em certos homens do poder obrigara aquelle a +captar-lhe a benevolencia para conservar certos proventos, que estavam +muito em perigo. + +O sobrinho começou a jogar com a influencia do tio. Quiz lêr-lhe o seu +programma de vingança, mas achou que era cedo, ou immoral. Calou-se e +esperou. + +Na visita, que fizeram, Maria da Luz veio á sala, e quiz sustentar a +dignidade matrimonial, com os artificios d'uma etiqueta safada. Alvaro +ria-se por dentro, mas fingia-se parvo por fóra. Dava-se uns ares de +esquecido, e apertava a mão da sua victima com a cordialidade d'um bom +homem. E Maria da Luz espantou-se. + +Passaram-se alguns mezes. Alvaro, que participava da influencia do tio +nos destinos da patria, reconcentrou toda a sua energia em realisar +desgraçadamente os terrores do marido de Maria da Luz. Quando menos se +esperava, este homem é demittido, e obrigado pela fazenda a um saldo de +contas que o empobrecia. O brasileiro, que n'este tempo já era visconde +de Sousa, quiz salval-o, mas encontrou em seu sobrinho um violento +accusador das immoralidades d'aquelle mau funccionario, cuja deshonra +reflectia na face de quem o protegesse. As instancias redobradas +encontraram frio o visconde, que, por fim, declarou que não intervinha +em certos negocios que delegara em seu sobrinho, mais conhecedor das +conveniencias do paiz, e da moralidade dos funccionarios. Com este +fragmento de _artigo do fundo_, foi despedido o marido da Luz, cujo +decahir para o abysmo de miseria era rapido como a facilidade com que +subira. + +Maria da Luz comprehendeu a vingança, e achou-a vil. + +--Realmente era... + +--Mas não ha vinganças nobres, creio eu. A mulher, que eu principio a +chamar pobre, fechára os seus salões, e não esperou que os alheios se +lhe fechassem. A tristeza sentára-se nos sophás d'aquellas salas +desertas, onde viria brevemente sentar-se o escrivão da penhora. A +desgraça, ainda assim, não lhe aniquilava a soberba. Julgava ella que, +humilhando-se a Alvaro, encontraria uma protecção, mas tambem uma +ignominia. O marido, que cahira primeiro na sua miseria, perdeu, +primeiro, a dignidade. Excitou-a para que escrevesse a Alvaro, e +encontrou-a sempre negativa. + +E Alvaro respirava com sofreguidão um momento que devia chegar. + +Ao mesmo tempo, desenvolvia-se o plano d'outra vingança. Thereza da Cruz +era a segunda victima de Alvaro. Esta não podia ser ferida nos +interesses materiaes. Era rica das suas propriedades. Era solteira, e +amava profundamente um homem casado. + +Este homem era delirantemente amado por sua mulher, e presava-a, senão +posso dizer que a adorava. Thereza da Cruz fascinava-lhe a cabeça +d'aquelle amor-appetite que Stendhal judiciosamente distingue do +amor-paixão. Mas Thereza da Cruz detestava a virtuosa esposa do seu +amante, com toda a raiva d'um ciume reconcentrado. + +E Alvaro sabia-o. + +Era-lhe necessario quebrar aquellas ligações com estrondo e deshonra +para Thereza da Cruz. + +O que elle fez é uma ignominia, é, porém uma vingança que medrara em fel +durante tres annos de torturas suffocadas. + +Alvaro obteve uma carta da mulher do amante de Thereza da Cruz, escripta +a uma sua amiga. + +O dinheiro proporcionou-lhe um falsificador de letra, perfeito na sua +perversa habilidade. + +Mandou-lhe escrever algumas cartas amorosas pelo molde d'aquella letra. +E não deixou uma ligeira duvida sobre o genero de relações que a +prendiam a um homem, que se não nomeava. + +Estas cartas enviadas a Thereza da Cruz, foram incluidas n'uma anonyma, +que dizia assim: + + «Minha querida amiga. + +«Sei que detestas Miquelina, e que procuras perdêl-a no conceito do +marido, para conquistares plenamente uma alma digna de ti. Queres +castigar o orgulho d'essa hypocrita que lamenta a nossa _prostituição_? +Ahi tens essas cartas, que eu pude obter d'um amante, que a despresou +por mim. Tira as têas d'aranha dos olhos d'esse piegas, e faz-lhe vêr +que sua mulher não é melhor que tu: porque tu és livre, e ella é casada. +Saberás o meu nome, no primeiro baile onde nos reunirmos. + + Tua amiga d'alma.» + +D. Thereza, recebendo estes cartas, sentiu uma alegria infernal. Daria +por ellas a reputação de honrada, se a tivesse. + +Por fatalidade, o amante, na noite d'aquelle dia tratou-a com +indifferença. A orgulhosa, enraivecida d'um tedio que não podia +supportar, esforçou-se por chamar a conversação a respeito de mulheres +casadas, e avançou a proposição de que não havia uma na primeira roda, +que não fosse adultera. O amante protestou colericamente contra o +absoluto da proposição. Defendeu sua mulher com ares de Collatino, e +exprobrou acremente a maledicencia da insolente. + +A indignação ferveu: trocaram-se epithetos ultrajantes. D. Thereza foi +uma eloquente regateira, e o seu apaixonado repetiu as phrases mais +peculiares da tarimba. Por fim, D. Thereza, chegado o momento dramatico, +apresentou-lhe as suppostas cartas da esposa. + +O homem abriu-as com frenesi: reconheceu a letra e sahiu como um vexado +pelo demonio. + +D. Thereza da Cruz, sentiu, pela primeira vez, um momento de completa +felicidade em sua vida!... + +--E depois? + + +III. + + +--Depois, o furioso entrou na camara de sua mulher, e encontro-a velando +o somno de um filhinho, que tinha no berço. Perguntou-lhe o marido o que +ella fazia a pé á uma hora da noite. Miquelina respondeu que o esperava +para lhe servir a cêa, por isso que as creadas, fatigadas de trabalho, +não podiam esperar que seu amo se recolhesse, alta noite, para +repousarem. + +O marido recebeu com um sorriso feroz esta resposta digna de uma senhora +virtuosa, e sentou-se junto d'ella. Tocado da faisca electrica de +tyranno de melodrama, enturvou os olhos, franziu a testa, arrancou a voz +dos subterraneos do pulmão, e fallou assim, com uma carta aberta: +«Conhece esta letra, senhora?»--É minha, penso eu--respondeu ella com +promptidão.--«Já sabe naturalmente que carta é esta.»--Não sei... será +escripta á Antoninha? ou á prima Angela? eu não escrevo a mais +ninguem.--«A mais ninguem, infame!... a senhora não escreve a mais +ninguem?»--Juro que não, juro que não... deixa-me vêr essa carta, Luiz, +deixa-me vêl-a, eu t'o peço pela boa sorte da nossa filhinha.--«Veja.» + +Miquelina leu estas duas linhas da carta: _Dous dias é uma ausencia +insupportavel!... Vem, meu anjo, faz que a minha vida tenha algumas +flôres_... + +Não continuou. Prerompeu em palavras inarticuladas. Eram os gritos da +desesperação! A surpreza transtornara-lhe o espirito, até converter-lhe +o dom da palavra em alarido selvagem. Parecia douda. O proprio marido +retirou aterrado diante d'aquella angustia sublime. Houve em casa um +motim, um tropel de creados, que se olhavam estupidamente. Miquelina, +exhausta de forças, e convencida da realidade daquella infame allusão, +desmaiou. Seu marido tateou-lhe o pulso e o coração. Reconheceu que +havia alli uma dôr legitima. Ficou estupidamente perplexo, e fazia dó +n'esta duvida afflictiva. Mas a innocencia, filha da justiça de Deus, +devia triumphar. + +Miquelina foi logo entregue aos cuidados da medicina. Julgaram-na +subindo a gradação d'uma demencia, e Luiz d'Abreu aterrou-se seriamente. + +Ás dez horas do dia seguinte, Luiz d'Abreu recebia a seguinte +carta:--«Deves possuir quatro cartas, que te foram dadas por Thereza da +Cruz. São quatro documentos inqualificaveis da infamia d'essa mulher. +Tua virtuosa senhora escrevera uma carta a sua prima Angela. Thereza da +Cruz pôde obter essa carta, de que se serviu para fazer imitar a letra +da que ella chama sua rival. Remetto a carta de que ella se serviu. Tua +senhora é innocente como os anjos. Pede-lhe perdão, se lhe já lançaste +em rosto a calumnia forjada pela ignobil mulher a que vives associado. +Se apesar de tudo, tiveres a impudencia de continuar relações com +Thereza da Cruz, hei-de eu, com os teus amigos, apregoar a baixeza do +teu caracter para engrandecer a nobreza de tua deploravel esposa. + + _Um teu amigo_.» + + +Luiz d'Abreu entrou na camara de sua mulher. Estavam com ella dous +medicos e duas creadas. Miquelina estremeceu ao vêl-o. Mal sabia ella +que esse homem hia ajoelhar-se na sua presença! Eram tocantes as +lagrimas que elle chorava, ajoelhado, balbuciando palavras +inintelligiveis. Miquelina ergueu a face para testemunhar aquella nova +surpreza. Os circumstantes quinhoavam do enthusiasmo d'aquella scena, +sem a comprehenderem. + +«Peço perdão a minha virtuosa mulher! (exclamou elle) perdão d'uma +affronta, d'uma calumnia, que a reduziu a esta situação... Na presença +de todo o mundo eu quizera que ella me perdoasse...»--Sim, sim,--bradou +ella com enthusiasmo febril--eu perdôo-te de toda a minha alma, Luiz, de +todo o meu coração, meu esposo querido!... + +Luiz d'Abreu ergueu-se, chorou sobre a mão que beijava, e foi feliz, +verdadeiramente feliz, n'aquella hora solemne da sua vida. + +Foram muito sensiveis os progressos nas melhoras de Miquelina. + +Na tarde d'esse dia, Abreu, com o mais carinhoso bilhete, pediu uma +entrevista, á meia noite, a Thereza da Cruz. Foi-lhe concedida. + +Ao dar da meia noite estava Luiz d'Abreu encostado á porta que devia +ser-lhe aberta por Thereza da Cruz. Abriu-se a porta. Abreu tomou +aquella mulher pelos cabellos, arrastou-a para o meio da rua, e, sem +dizer-lhe um monosyllabo, encheu-lhe o corpo dos vergões d'um chicote. +Thereza supportara as primeiras chicotadas com o silencio da vergonha; +mas quando a dôr physica dominou a moral, gritou. Abreu retirou a passo +rapido. Thereza fugia, quando um segundo homem lhe lançou a mão. Ella +reconheceu-o, e pediu que a deixasse. «Não, minha senhora,--replicou o +seu conhecido--eu não posso consentir que v. exc.^a seja assim +desfeiteada na rua como uma mulher de alcouce...»--Deixe-me, deixe-me... +por piedade, snr. Alvaro de Sousa! + +E debatia-se entre as mãos de Alvaro como atacada de gota coral. + +Aproximou-se a patrulha. Lançou mão de ambos, e perguntou a D. Thereza +se aquelle homem a insultara. D. Thereza respondeu que não, que ninguem +a insultara. Alvaro, que nem zombando mentia, desmentiu a sua velha +_amiga_, dizendo que elle a vira chicoteada cruelmente por um homem, que +fugira; e que o mais que a tal respeito podia dizer era que esta senhora +morava n'aquella casa, era uma respeitavel fidalga, e chamava-se D. +Thereza da Cruz. A patrulha não prescindiu d'estas informações +ratificadas por s. exc.^a Perguntou-lhe o nome do aggressor, e ella +respondeu que o não dizia. + +Imagina, meu amigo folhetinista, a colica despedaçadora em que a pobre +mulher se viu! A patrulha não queria largal-a; mas Alvaro de Sousa +capitulou por uma libra com as imperiosas exigencias da guarda +municipal, e conseguiu a liberdade da pobre mulher. + +E, ao despedir-se de D. Thereza, fel-a parar um momento, para dizer-lhe +com a mais fleumatica placidez: «Minha querida senhora! Eu comprei com +uma libra a satisfação de pagar a v. exc.^a a menor parte d'um grande +serviço que lhe devo... Eu não pude esquecer-me nunca de que v. exc.^a +com algumas amigas suas, cumpriram uma novena a Santo Anastacio, para +que o servinho de Deus alcançasse curar-me da hydrophobia do amor, que +me atacou... Tenha v. exc.^a uma noite feliz.» + +E retirou-se. Thereza da Cruz não respondeu uma palavra. + +Alvaro de Sousa estava vingado. + +--Tens mentido com a mais soberana presença de espirito!--atalhei eu. + +--Não minto, juro-te que não minto... + +Estás muito em occasião de verificar estes factos... Deseja conseguir a +verdade, que has-de conseguil-a.[3] + +E eu acreditei-o; e ámanhã acreditarei tambem que qualquer destemido +despejou um bacamarte nos intestinos do seu anjo... + +--O rigor da chronologia--proseguiu o implacavel noticiador--exige que +eu te conte agora a vingança de Maria da Luz. + +A hora da miseria extrema tinha soado. Os bens de raiz confiscou-os a +fazenda: os moveis estava designado o dia de leilão em que deviam ser +vendidos. + +O marido de Maria da Luz, que por nome não perca, soubera que sua mulher +ridiculisara as pretenções de Alvaro de Sousa n'aquelles dias de +vergonhosa pobreza. Bem conhecia elle a indignidade a que tentava forçar +sua mulher, instigando-a a que se valesse do prestimo d'um homem que +tinha fortes razões de aborrecel-a. Todavia, Alvaro gosava de um tal +conceito de nobreza de coração, e sensibilidade d'alma que qualquer +marido, mais escrupuloso ainda, não duvidaria instar, na hora critica +d'uma penhora, pela humildade da sua supposta Lucrecia. + +Maria da Luz, por fim, conveio na pessima situação em que se achavam os +negocios de seu marido. A fome avisinhava-se, e a deshonra é menos negra +que a fome, segundo a opinião d'alguns moralistas entendidos n'estas +côres. + +Alvaro de Sousa recebeu uma carta de Maria da Luz, em que lhe era pedido +o emprestimo de doze mil cruzados, pagaveis em doze annos. + +O cavalheiro respondeu que a obrigação onde eram estipulados doze annos +seria reformada pelo praso de duas horas...... + +Maria da Luz comprehendeu-o. O primeiro abalo, que sentiu no coração, +foi a raiva: o segundo foi a vergonha: o terceiro foi a negociação com +as condições do titulo reformado, conforme a vontade do credor. + +E respondeu affirmativamente, com a sagrada condição d'um segredo +inviolavel para seu marido. + +E Alvaro de Sousa enviou doze mil cruzados ao marido de Maria da Luz, +com esta carta: + + «Meu caro senhor. + +«Conforme á negociação que acabo de fazer com sua senhora, remetto doze +mil cruzados. Da inclusa carta da exc.^{ma} snr.^a D. Maria da Luz, verá +v. s.^a que este contracto é bilateral, e a parte que eu tenho n'elle em +vantagem minha é a renuncia que a dita senhora me faz d'uma propriedade +que eu não sei se está hypothecada a v. s.^a Supposto me devessem ter +sido dados estes esclarecimentos antes da remessa do dinheiro, eu não +tenho duvida em sujeitar-me a qualquer outra transacção que possamos +ambos amigavelmente fazer, visto que, d'hora em diante, nos devemos +ambos considerar com mais ou menos jus á mesma propriedade. E, como eu +tenha resolvido cedêl-a em beneficio de meu lacaio, v. s.^a não terá +duvida em consideral-o com os direitos que eu possuia. + + De v. s.^a attento venerador + + _Alvaro de Sousa_.» + + +--E depois?--interrompi com anciedade. + +--Depois...... tu vaes dizer que eu te minto!... + +--Não digo... palavra d'honra! + +--Depois, o codilhado foi Alvaro de Sousa, porque o marido da Maria da +Luz empregou convenientemente os doze mil cruzados e vive perfeitamente +com sua mulher. + +--Mas Alvaro de Sousa? nunca mais se importou com ella? + +--Nunca mais. A consciencia diz-lhe que está vingado. + +--E das outras? + +--Das outras... vingou-se sem ruido... Tomou d'ellas uma vingança que +não póde ser romantisada por ser muito simples. + +O meu amigo viu passar uma mulher, e foi atraz d'ella. + +Eu escrevi tudo isto com as reminiscencias vivissimas do dialogo. + +Querem saber onde tudo isto aconteceu? + +Agora é que v. exc.^{as} vão ficar surprehendidas... + +Foi em Pekim! + +Salvei a moral publica! + +Cante-se o hymno! + + + + +A CAVEIRA. + + + + +PROLOGO. + + +Quem disser que em Traz-os-Montes não ha romances, é capaz de dizer que +a lua não tem habitantes, e as alfandegas ratos. + +A provincia de Traz-os-Montes é um sertão desconhecido, um retalho de +Portugal segregado da civilisação; mas não deixa por isso de ter uma +chronica de tradições barbaras, que virá archivar-se em folhetins, +quando os caminhos de ferro, construidos pelos capitalistas da +Ovelhinha, aproximarem o contacto das intelligencias com as florestas +virgens d'aquella região polar. + +Esse dia amanhecerá bem cedo. A aurora da civilisação madrugou para +todos. A viabilidade discute-se á lareira. Mais d'um juiz das almas se +extasia nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia +rural, auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria +do augmento do salario pela facilidade dos transportes. Ha lavradores +que addicionaram á leitura do Borda d'Agua as prelecções escriptas de +economia politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao +mercado de Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O +enthusiasmo é universal. A expansão fervente dos interesses materiaes, a +febre eloquente da viabilidade, os traços profundos e rasgados, com que +as intelligencias financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da +nossa prosperidade, não são já um exclusivo da mocidade jornalistica. + +O meu collega Ricardo Guimarães, que salta de noite em cuecas, fóra da +cama, sonhando-se impellido por um wagon, doudeja de jubilo ao vêr-se +comprehendido, no seu ardente apostolado, desde Monção até ao Cabo da +Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas frontaes, cada vez que o +alvião do operario rasga no seio da terra o tumulo do carroção ignobil! +(Isto era escripto em 1853...) + +A mocidade é assim. A força creadora do talento ha-de supprir a +debilidade do thesouro. Onde os capitalistas não chegaram, hirá o artigo +de fundo, palpitante de vida, como um ouragan invencivel, desaterrar a +aterrar com as forças magneticas do genio, com a magia imperiosa dos +periodos arredondados artisticamente. + +E, por tanto, a provincia de Traz-os-Montes vai ser aquecida pelas +irradiações do foco civilisador. Um dia, os povos do Marão, agrupados +nas cristas das serranias, verão lá em baixo passar o traço negro do +carril; e cuidarão que um demonio, na cauda d'um raio, lhe talou as +campinas, no dia tremendo das vinganças do Senhor! + +Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustrados pela leitura +repentina, e pelos artigos de fundo, virão, de sócos e coroça, nas azas +do carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e +influir seriamente no futuro da empreza lyrica. + +Então, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas terão uma +associação industrial, uma caixa filial, um gabinete de leitura, e um +centro promotor das classes laboriosas. O cavador, na hora da sesta +lerá, na vinha, de barriga ao ar, o _Tymes_, e Benjamin Constant. O +proprietario, entregue ás subtilezas economicas, que distinguem o +cabedal da renda, andará em guerra littetaria com o seu visinho da +aldeia proxima, por causa d'uma falsa interpretação aos sophismas de +Bastiat. N'esse dia, serão banidos os estupidos da face da terra. O +proletariado, filho da estupidez, não virá coberto de farrapos pedir um +bocado de pão, no banquete social, por conta do futuro fomento. Pouco +ha-de viver quem não vir tudo isto. + +Será então chegado o momento solemne de pedir á provincia do norte a +historia do seu passado. Serão exploradas então as minas de poesia, +entulhadas pelo obscurantismo de longos seculos. Acontecerá muitas vezes +encontrar-se um sóco onde se esperava um borzeguim de castellan. O +leitor pedirá uma heroica lucta de dous infanções armados da fidalga +espada, e verá duas fouces roçadouras decidirem um pleito de apaixonado +melindre. + +Mas não será em tudo assim a chronica obscura da provincia, onde vivi +alguns annos, e em poucos dias colhi apontamentos para longos trabalhos +de muito proveito esthetico, plastico, artistico, e não sei mesmo se +cubico, anomalo, e hybrido. + +A historia, que vou contar, com innocentissima lealdade, póde ser +confirmada ainda por duas ou tres testemunhas, que, pelo menos, viviam, +ha cinco annos. Fallo assim com orgulhosa authoridade, porque tenho +direito a ser acreditado em romances, que tem a honra de assentarem +n'uma sincera base. + +A mentira no romance é uma nodoa, que nausêa o publico illustrado. +Alexandre Dumas, escrevendo um romance intitulado _Martim de Freitas_, +obrigou este heroe a desembarcar em Mafra, nomeou-o alcaide do castello +da Horta, e fez nascer D. Sancho II na Palestina, onde foi baptisado por +um tal monsieur d'Evora, arcebispo de Leiria! É uma cornucopia de +asneiras este litterato, fallando de Portugal. + +O publico tem direitos sagrados, e é realmente ultrajar-lh'os, querel-o +capacitar de que Mafra é um porto de mar, e Leiria uma cidade +archiepiscopal, e monsieur d'Evora cidadão portuguez. + +Comprehenda-se a missão do romancista. O romance, a viabilidade, e o +fluido transmutativo são a tripeça em que está sentada a civilisação. +Quebrar-lhe um dos pés é dar com ella em terra. + + + + +A CAVEIRA. + + +I. + + +Morreu, ha seis annos, em Villa Real, um velho de oitenta e oito annos. +Chamava-se D. João de Noronha, e habitava uma casa pequena, mas decorada +de grande brazão d'armas, e não sei quantas ameias modeladas pelos +pilares das açoteas mouriscas. O leitor, que, por louvavel curiosidade, +quizer, de perto, capacitar-se da fidelidade architectonica d'esta casa, +vá a Villa Real, e na _rua do Cabo da Villa_, pergunte pela casa de D. +João de Noronha. Não terá de que maravilhar-se, a não ser da sisuda +gravidade, e rigorosa certeza com que o author lhe conta historias +interessantissimas. + +Algumas palavras a respeito d'este D. João de Noronha. + +O _dom_ é quasi sempre, entre portuguezes, indicação de fidalguia +remota; mas em D. João de Noronha era uma irrisão para o povo, e uma +ignominia affrontosa aos fidalgos da terra. E a razão é esta: + +Ha cento e vinte annos que viveu em Villa Real uma senhora D. Paula +Coronel e Noronha, protectora d'um tal Antonio da Silva, sapateiro da +casa. + +Este homem era desordeiro e valentão. Em rixas com um freguez por causa +d'umas tombas, matou-o desastradamente. A justiça apanhou-o, e +condemnou-o a pena ultima. + +D. Paula exhaurira os grandes recursos da sua influencia, sem conseguir +salvar da forca o seu afilhado. Avaliem-se, porém, os extremos de D. +Paula pelo condemnado, e attenda-se á época em que os grandiosos +esforços d'uma fidalga são anciosamente empenhados na salvação d'um +arrastado verme da plebe. + +D. Paula, em ultimo recurso, declara que o sapateiro é filho bastardo de +seu irmão, e como tal o perfilha. Desde que esta adopção foi consignada +no livro dos alvarás de perfilhamentos, Antonio Coronel de Noronha está +salvo da forca. O processo atravessa novos tramites; e a lei, esmagada +sob o rebolo transformado em pedra d'armas condemna o réo a cinco annos +de degredo para Castro-Marim. + +O nobre exilado, um anno depois, morreu de uma indigestão de figos do +Algarve; e, honra lhe seja feita, á hora da morte, declarou que vivera +sapateiro e christão, e como sapateiro pedia perdão aos homens, e como +christão a Deus porque muito queria salvar-se. + +Seu irmão Francisco, mestre ferreiro, morreu ferreiro, porque não quiz +partilhar das honras heraldicas de seu irmão, que, pelos modos, não eram +muito lisongeiras para a memoria de sua mãi. + +Este ferreiro deixou um filho, chamado João, e uma fortuna avultada, +adquirida na bigorna. + +João, orphão aos quinze annos, quiz ordenar-se; mas o amor tolheu-lhe as +vocações ardentes do sacerdocio. + +Por aquelles tempos a sociedade estava retalhada em classes. João da +Silva invejava o acaso d'um nascimento, e desesperava-se na impotencia +de associar-se dous appellidos euphonicos, que o guindassem á região dos +homens superiores em raça aos outros homens, como o onagro de Sevilha +superior em raça ao onagro de Cacilhas. + +Zombavam cruelmente d'elle, quando lhe disseram que se encabeçasse na +linhagem, embora bastarda, de seu tio, que morrera legalmente inscripto +no livro dos costados a folhas 1473. + +João da Silva foi conscienciosamente fidalgo desde esse instante. Tirou +uma certidão, hypothecou metade da sua fortuna ao fôro, e consegui-o. +Não diremos ao certo quem foi o concussionario d'aquelles tempos, que +lhe recebeu os dous mil cruzados do pergaminho. As urgencias do estado +de hoje eram litteralmente as urgencias do estomago dos chancelleres +móres do reino. + +A fidalguia protestou silenciosa contra tão grave injuria. Fechou os +seus salões ao adepto insolente, que ousára assignar-se D. João de +Noronha, e mandára insculpir na fachada d'uma casa ameiada as armas dos +Noronhas, É tradição em Villa Real que os Pintos Coelhos, representados +hoje por José Antonio Teixeira Coelho de Mello Pinto da Mesquita, +mandaram borrifar de sangue as armas de D. João de Noronha. Nada fez +recuar o proposito do filho do ferreiro. Os tempos correram, mas os +odios ao pobre homem não se extinguiram. Digno d'estes tempos, D. João, +seria hoje affavelmente recebido pela velha nobreza, com tanto que as +differenças no azul do sangue fossem saldadas com o amarello do ouro. + +Conheci este homem, e tractei-o muito de perto. Era eu bem creança, e +respeitava as loucuras d'aquelle velho, com a mais sisuda tolerancia. +Quando o vi, aos oitenta e seis annos, casar-se com uma donzella (oitava +maravilha!) de oitenta e nove, cingi-me com aquelle par conjugal, e quiz +ouvir-lhe os colloquios amorosos, as expansões delirantes, as ternuras +idealissimas. Não pude; e o leitor perdeu muito com isso, que eu não era +homem de privar d'um capitulo precioso a _Physiologia do Casamento_ de +Balzac. + +O vento das tempestades da vida impelliu-me de Villa Real para outra +linha no mappa-mundi das minhas observações; e o meu caro D. João morreu +poucos dias depois de sua mulher, e é de crêr que, abraçados em +frenetica paixão, renascessem, viçosos e frescos como Paulo e Virginia, +em mundos novos, e novas constellações. Assim seja! + +Como vinha dizendo, leitor attencioso, quando eu tive a honra de ser +admittido ao tracto intimo de D. João de Noronha, reparei n'uma caveira, +contida em uma redoma de vidro, com pedestal de pau preto, enviezado de +arabescos de marfim. + +Esta redoma pousava em uma mesa torneada em bilros de custoso lavor. +Reparei, outrosim, que em certo dia do anno um véo funebre cobria +aquella redoma. Este dia era quinta feira santa. Não concebi que relação +podesse existir entre aquella caveira e a paixão de Jesus Christo não +ousava, porém, interrogar-lhe o profundo mysterio. + +Entrava eu uma vez, sem fazer-me annunciar, na sala da redoma, e +encontrei D. João ajoelhado com austero fervor na presença da caveira. +Voltou-se de repente sentindo-me os passos, e eu não pude recuar sem ser +conhecido. Vi-lhe lagrimas; eram magestosas, e eu juro que muitos dos +meus leitores de coração petrificado chorariam, se vissem a sincera +angustia d'aquelle rosto venerando. + +--Venha cá--me disse elle--que eu não tenho vergonha de chorar; +Choram-se na decrepitude os risos da mocidade. Entra-se no tumulo a +chorar como se entra na vida. + +Vi-me embaraçado em responder-lhe. Eu não tinha aprendido estas palavras +artificiosas, com que fingimos um quinhão de sentimento impostor. Então +senti e chorei. Hoje... eu sei cá! faria uma nenia em prosa de muita +melodia, e citara-lhe não sei quantos velhos, que a historia diz que +choraram desde Belisario até ao abbade de Chateneuf. + +--Sente-se aqui ao pé d'esta reliquia--proseguiu o consternado +ancião.--Devo-lhe um lavor muito delicado: nunca o senhor me perguntou o +segredo d'este craneo. Eu gosto de quem respeita a dôr alheia. Quero +pagar-lhe essa fineza invocando do tumulo do meu coração o mysterio, que +aqui está sepultado ha sessenta annos. Se eu me calar, no correr da +minha historia, respeite o meu silencio... É que não poderei... Talvez +possa... O coração... dizem que manda aos labios muito do seu fel, +quando os labios lhe pedem as amarguradas reminiscencias d'uma grande +desgraça... Será assim? Eu não sei... vel-o-hemos. + +Ora attenda-me, meu amigo. A innocencia deve alegrar-se com a historia, +onde figura um anjo. Hei-de fallar-lhe de Lucifer tambem... Seja o anjo +para o recreio; e o Lucifer para a experiencia... Um velho é um livro. +Eu vou abrir-me... quero dar-lhe a leitura de minha alma, hoje, que, +ámanhã, talvez a pedra rasa d'uma sepultura nem ao menos lhe diga que eu +durmo alli o suspirado somno do infeliz... + + +II. + + +D. João de Noronha, sentado de modo que encostava o cotovello á mesa da +redoma, principiou a historia do seu segredo, em tom de profunda +commoção: + +«Tinha eu vinte annos... ha que tempo isto vai!... ha sessenta e oito +annos que eu estudava latim no convento de S. Francisco. Era minha +tenção ordenar-me. Meu pai grangeara-me uma fortuna, que me estimulou +ambições de subir na posição social. Quiz ser padre, e era-o, se +nascesse na igreja lutherana, onde o padre não soffre a cruelissima +amputação da vida da alma, em commercio com o mundo. + +Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem, +perdi o imperio da vontade, e as fervorosas vocações do sacerdocio. +Adorei uma d'essas bellas mulheres, que trazem comsigo uma sina de +desgraças, um contagio de desastres, e a perpetuidade d'uma chaga, +aberta no coração com um ferro em brasa. + +Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso +d'um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem, +finalmente, me fizera estupido... atraiçoou-me. + +No meu tempo o amor era uma corôa de espinhos. Então apaixonava-se um +homem, e sentia-se perdido para a sua liberdade, e escravo de uma +angustia interminavel. Eu, por mim, senti-me ultrajado por uma traição +incrivel, e não pude, ainda assim, estalar as algemas ignobeis que me +prendiam á deshonra d'um abandono injustificavel. + +Ajoelhei aos pés de Martha. Pedi-lhe a pouca ventura que me roubára +cruelmente... pedi-lhe a dignidade do homem que por ella se +despresára... encontrei-a morta para mim, e vencida por uma paixão, que +devia matal-a! Tive então dó d'aquella flôr, que se desfolhava na +madrugada da sua primavera? O meu amor era grande e generoso! Pedi-lhe +que fosse minha irmã, minha amiga... Nem isso!... nem se quer me aceitou +um conselho de pai na hora em que mais precisa lhe fosse uma protecção +que a salvasse da deshonra, a que se tinha cegamente abandonado. + +Eu valia menos que Pedro de Mesquita. + +Este homem era official de cavallaria. Nascêra illustre; conquistara-se +uma opinião de heroe; batera-se ardidamente como um leão nas ultimas +batalhas. Era aqui apontado em Villa Real; como o primeiro homem nos +triumphos difficeis do amor. + +E não o lisongeavam! O homem, que obrigára Martha a despresar-me, devia +ser tudo isso. + +Era muito linda esta mulher! Diziam-no as emulações, os odios, e as +intrigas, que a sua formosura causára entre pretendentes, que não +queriam ceder a prioridade do merito a nenhum. + +Um dos mais poderosos era Heitor Corrêa, cadete de cavallaria e filho +segundo de uma nobre casa d'esta villa, que não tenho necessidade de +mencionar-lhe. + +Não obstante Heitor Corrêa era repellido, porque Pedro de Mesquita não +tinha concessões a esperar para ser mais amado que outro qualquer. + +Martha arrancára, como Luzia, os bellos olhos, se assim podesse afastar +de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem que tão caro +devia ser-lhe. E era. + +Estes dous homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam á porfia um +ensejo em que podessem travar as espadas. Corrêa confiava demasiado em +si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o debil adversario. + +O momento ambicionado chegou. + +Era quinta feira santa. + +Martha assistia ao officio da paixão na igreja de S. Francisco. + +Heitor Corrêa antecipára-se a occupar o mais proximo, lugar de Martha. +Pedro de Mesquita viera depois, e mordera colericamente o beiço +inferior. Martha tremeu e chorou. Quiz sahir; não a deixaram as +multidões espessas. Heitor Corrêa comprehendeu-a, e indignou-se. Era +muito despreso para a altivez do seu caracter. + +Terminára o officio. O povo evacuou o templo. Martha sumiu-se nas +turbas. Dous homens apenas, como duas estatuas, se fixavam sós, e +immoveis, na nave da igreja. + +Sahiram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e +rapidas palavras, e desembainharam os fains. + +Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor +chammejava a colera, a vingança, o capricho, e por ventura o desejo de +matar, ou morrer. + +Esta scena passava-se na presença de mil pessoas. As beatas benziam-se +horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de espedaçarem o +forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre o seu patricio era +indubitavel, e perigosa. + +Perigosa, não; porque o valente era generoso. Heitor não tinha já um +botão na farda, quando Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a +defesa, se sentiu ferido ligeiramente no braço esquerdo. + +A scena tornou-se cruel! O orgulhoso não podia conciliar com aquelle +sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e cahiu +banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra o +assassino. Mesquita esperou com bravura! Não houve mão que lhe tocasse. + + +III. + + +Heitor Corrêa, reanimado pelos alentos da desesperação, ergueu-se, e +esgrimiu ainda o florete com braço impotente. Mesquita, ferido n'um +braço, afastou-lhe os botes, com admiravel presença de espirito. + +O duello em Villa Real era uma cousa nova. O facto, em um dia tal, +redobrava de escandalo. Não se atravessavam as multidões espessas, que +reprovavam ruidosamente um tamanho desacato. A causa do seu espanto não +era a moral ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como +razão suprema de tal algazarra estar exposto o Santissimo Sacramento, +quando dous homens se cortavam a ferro frio. + +As authoridades, conscias do acontecimento, deram ordens immediatas de +captura. Estas ordens não podiam ser cumpridas por meirinhos; e não +houve desgraçadamente authoridade militar que capturasse os duelistas. + +Heitor Corrêa, exhausto de forças, perdidas no sangue, que os recursos +da cirurgia não estancára, desmaiou, e deu symptomas de morto. O alferes +de cavallaria, ligeiramente ferido no braço, curava-se n'uma botica, +affectando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na +rua. D'entre ellas sahiam gritos terriveis de «morra!» Os que assim +gritavam diziam que estava exposto o Santissimo Sacramento; e, por +tanto, não podiam deixar de matar o impio que desacatára, em quinta +feira santa, a solemnidade da paixão de Christo. Como elles saciavam a +sede de sangue com o fervor beatifico das suas crenças, explicam-no +milhares de factos semelhantes que acompanham sempre a edificante +historia dos muito austeros authores da integridade religiosa, tanto em +Roma, como em Constantinopla. + +Fernando Corrêa, irmão de Heitor, estava á janella quando viu entrar seu +irmão nos braços de dous soldados. Desceu ao atrio, e interrogou o +facto. Contaram-lhe, com as mais irritantes circumstancias, o +acontecimento. + +Fernando, sem attender a supplicas da familia, e de amigos prudentes, +sahiu de casa, tal qual estava, embrulhado n'um capote. Mas, debaixo +d'este capote, levava um bacamarte. + +Quando chegou á entrada da _rua do Jogo da Bolla_, viu um grupo de povo, +que parecia vedar a sahida d'uma botica. Lá dentro estava Pedro de +Mesquita, a quem faltára a coragem para affrontar a força bruta da +populaça. + +Em frente d'essa botica morava a infeliz Martha, a attribulada amante +d'aquelle homem, que alli estava ameaçado das iras da plebe, tigre +desenfreado da licença, n'aquelles dias de escravidão, logo que um acaso +lhe alargasse um pouco as algemas. + +Fernando Corrêa abriu uma clareira entre a multidão. Descobriram-se +todos, exclamando: «Chega o fidalgo! deixem passar o fidalgo.» + +E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu irmão. + +--Assassino... não!...--respondeu o alferes.--Fui eu quem o feri, e +honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati. + +Fernando Corrêa, estupido como fatalmente são os que podem contar muitos +avós robustos de musculos, e nenhum de vigor intellectual, não +comprehendeu a delicadesa d'aquella resposta. O que elle praticou é um +acto de barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo +atraz, aperrou o bacamarte, e despejou-lh'o, á queima roupa, no peito. + +Foi horrivel, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de +meus olhos, noite e dia, porque n'esse instante ouvi um grito de +arripiar as carnes. Era Martha que cahira, com a face na lage da +janella, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebivel dos +tormentos possiveis n'esta vida. + +Voltaram-se todos para aquella janella, e viram-me... a mim, que subira, +alentado pela coragem da minha dôr, as escadas d'aquella casa, e +levantára da janella a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de +mim... não vi ninguem, excepto uma creada que chorava, perplexa, sem +atinar com o que devia fazer. A familia, a essa hora, na igreja da +_Misericordia_, orava, talvez, á Virgem protectora das virgens... + +Fernando, consummado o assassinio, sahiu galhardamente por entre as +turbas que saudavam o nobre algoz. A paralysia do terror gelára os +poucos que lhe reprovavam a infamia. Ninguem ousou, sequer, lembrar-lhe +que aquelle sangue lhe tingia os pergaminhos! + +O nobre amante de Martha foi conduzido ao quartel. O seu ultimo lance +d'olhos n'esta vida, viram-no todos fixar-se na janella da infeliz. +Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre. + +Passada uma hora, Fernando Corrêa, montado n'uma possante mula, e +seguido d'um creado, e dous bacamartes, passava em _Almodena_, caminho +de Lisboa. E, para que esta circumstancia me não esqueça, dir-lhe-hei +que, um mez depois, o assassino, impune pelo privilegio dos seus +pergaminhos, entrava em Villa Real, com um alvará de real mercê que o +isentava de responder pela morte de Pedro de Mesquita. + +O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabeça ao fidalgo, que +passava soberbo por entre aquelles que lhe liam na face a altivez do +assassino, que zombára da lei. + +Heitor Corrêa... esse foi enterrado no mesmo dia em que os sinos +dobraram por alma de Pedro de Mesquita. + + +IV. + + +É necessario fallarmos de Martha... É a luz unica d'este quadro negro... +Nem a historia valia a pena de ser ouvida, se não tivesse um heroismo de +virtude para a admiração, e uma santa para o culto das almas nobres, e +apaixonadas pelo sublime do martyrio. + +Por ventura, póde o senhor comprehender a situação d'um homem, que tem +desmaiada nos braços aquella por quem fôra atraiçoado...? Não é bastante +comprehender isto: é necessario compenetrar-se mais da minha situação... + +Martha illudira-me... ou illudira-se; Martha despresara-me com cynismo +indigno da sua idade; Martha escarnecera as loucuras que me sacrificaram +a ella; Martha desmaiara, adivinhando a morte do meu rival... +Comprehende por ventura agora o tormento indefinivel da minha +situação?... Não comprehende, porque se eu lhe disser que n'aquelle +trance original o meu sentimento era a piedade... se eu lhe disser que +dera a minha vida pela do rival assassinado, com tanto que Martha não +fosse assim desgraçada... o senhor, por certo, não concebe este +phenomeno, este sacrificio... esta monstruosidade de resignação... Quem +sabe!... a sociedade capitular-me-hia de imbecil, e o meu amigo, por +muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inoffensivos, não é +assim?» + +Não lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D. João me +adivinhára. Córei, de certo, quando fui surprehendido no segredo dos +meus juizos. Nada menos lisongeiro que o meu silencio para o pobre +velho! Era de certo um pungente assentimento á sua conjectura! A dôr é +generosa, e cala as affrontas. Reconheço hoje que ultrajei aquelle +grande sacrificio, que comprehendo agora. Se não receasse mesclar com a +gravidade melancolica d'esta narrativa um anexim popular e graciosamente +philosophico, diria que o diabo não quiz nada com rapazes, e D. João de +Noronha, de certo, não era mais privilegiado que Lucifer para tirar de +mim melhor partido. + +D. João proseguiu: + +«A familia de Martha veio encontrar-me, com ella nos braços. A mãi, que +prophetisára, em seus virtuosos presentimentos, a desgraça da filha, +apertou-a contra o seio, cobriu-a de lagrimas, e acordou-a d'aquelle +lethargo, com afflictivos gemidos. + +Martha abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os labios. Esperavamos +anciosos que a sua angustia respirasse pelas lagrimas. Não chorou uma +só. Em quanto os sinos dobravam a finados pela alma dos dous amantes, +Martha estremecia, mas não posso dizer-lhe como era aquelle tremor... A +corda d'um instrumento ferida, e deixada ao impulso da vibração +estremece assim. + +No fim de tres dias extinguiu-se o soffrimento, por que a vimos pender +serenamente a cabeça nos braços de sua mãi. Felicitamos-nos pelo repouso +da infeliz. Imaginamos que ella devia acordar mais tranquilla, ou, pelo +menos, mais desabafada d'aquella agonia que lhe suffocava não só os +gemidos, mas até a respiração. Esperamos... mas quem não esperava era o +medico, que, ao retirar-se, deixou dito que não era Christo para +restituir a filha á viuva de Nahim. + +Estava morta, por tanto... e morta sem balbuciar uma palavra! Como se +morre assim? Dizem que a morte é a aniquilação da materia... mas aquelle +anjo morreu dentro em si, antes que os symptomas da destruição nos +revelassem o rapido dilacerar d'aquella morte! Quem dirá que aquella +mulher soffreu no corpo? Ninguem! A alma, só a alma, este ser immortal +que foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada +no seu mysterio de dôres inconcebiveis, reluctando por estalar as +algemas que a prendem ao cavallete do corpo... a alma, e só a alma, meu +amigo, consummou aquelle trance de incomportavel inferno, e passou ao +mundo da penitencia ou da gloria... + +Agora principia a minha scena n'esta tragedia... É só minha, e só eu a +comprehendo... mas hei-de contar-lh'a. Acompanhei á igreja de S. +Francisco o cadaver de Martha. Fui o ultimo que se retirou de ao pé da +sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em tres annos +successivos, lhe ajoelhou na pedra que eu não queria fosse a nossa +eterna separação. + +Empreguei os meios para obrigar o coveiro a não tocar n'aquella +sepultura durante tres annos. + +Findo este praso, venci com dinheiro a repugnancia do coveiro, e a pedra +que cobria os ossos de Martha foi levantada. + +Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror, +agitadas pelo lampejar tremulo das lampadas, suspensas no altar do +Santissimo Sacramento. + +O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava machinalmente +a enxada com que afastava as camadas da terra. + +Não posso dizer-lhe até que ponto fui enganado pelas larvas que a +desvairada phantasia, ou a mysteriosa realidade revocou em volta de +mim... Estou quasi jurando-lhe que a vi... a ella... como nos dias da +sua esplendida formosura illuminada pelo resplendor da sua innocencia, +purpureada do pejo com que a candura se rende ao imperio dos +instinctos... Era ella, quando, nos primeiros tempos da nossa infancia, +me offerecia de seu coração a parte que não podia dar a sua mãi, e a +seus irmãos... Era ella, quando me perguntava o segredo d'aquella +attracção irresistivel, que a arrastava para mim, que a entristecia sem +motivo, que a fazia ambicionar uma riqueza imaginaria, que a fazia +sonhar umas delicias que sua mãi lhe não explicava nem realisava com os +seus carinhos... Foi assim que eu a vi, em quanto o ecco da enxada, que +feria o seio da sepultura, reboava nas naves da igreja... Gelava-se-me +de terror o pensamento... a phantasia esfriava-se ao roçar pela mortalha +d'aquelles ossos, e eu sentia-me morto em metade da vida, quando a terra +sacudida da enxada me vinha cahir aos pés. + +E depois... as larvas, que a razão não podia espavorir, tornavam a +cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se nas grades do côro, a +tremularem por entre os cortinados dos altares, e a esvoaçarem na +abobada do templo como nuvens escuras, espedaçadas pela tempestade. + +Erguera-se do tumulo para ajoelhar, a meus pés... tinha a face lacerada +pelos vermes. E era bella ainda... Devo ser sincero, meu amigo... É +impossivel que a imaginação me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz... senti o +frio das suas mãos... ergui-a de meus pés... perdoei-lhe... chorei com +ella... + +A voz d'um homem chamou a minha alma á realidade acerba d'aquella scena, +que se me figurava um sacrilegio, uma profanação. + +Era o coveiro, que me dizia: «a enxada já topou com os ossos.» + +Esta nova, communicada friamente pelo coveiro, alvoroçou-me, e coou-me +nas veias não sei que terror semelhante ao do sacrilego, que não tem +ainda bastante barbarisada a alma pelo crime, e vacilla, horrorisado de +si proprio, quando atira ao pavimento do altar as hostias contidas no +calix, que rouba. + +Aquelles ossos, aquelle meu thesouro, ambicionado ha tres annos, tinham +agora para mim uma superstição, um cunho sagrado, que me fazia na alma +não sei que pesar semelhante ao remorso. + +Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do coração, que se +arrependera. Quiz deixar intactas aquellas cinzas. Luctei comigo para +vencer um excesso de medo, um abuso, talvez, da imaginação. Não pude; +mas não pude tambem retirar-me sem uma reliquia, um ser sem alma, uma +recordação para as lagrimas, e uma gloria só minha n'este mundo... a +gloria de possuir na morte uma companhia que tivesse sido incentivo de +lagrimas, já que não pude conseguir como companheira na vida essa +preciosa existencia, que me espera ha sessenta e seis annos na +eternidade. + +Eis-aqui a reliquia, a testemunha immovel, terrivel, e silenciosa dos +longos soffrimentos d'um homem, que atravessou uma longa existencia, sem +conciliar com os prazeres do mundo a eterna viuvez da sua alma! + +Eis-aqui a caveira de Martha que eu revisto a cada instante das feições +com que a vi partir d'este mundo. Ha alli n'aquellas orbitas uns olhos +que me vêem... olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos +angustiosos d'esta paixão desastrada, eu vejo sempre esta caveira, +animada umas vezes do gracioso riso da innocencia, outras vezes das +contorsões freneticas da desesperação... Ha alli n'aquelles ossos, onde +os labios articulavam hymnos dos anjos, uns labios que, a cada instante, +me balbuciam um perdão... E tenho momentos de inferno nas minhas +dolorosas contemplações, aqui diante d'esta redoma... Ás vezes juraria +que essa caveira estremece em convulsões rancorosas contra mim, +balbuciando o nome do homem, que a levou comsigo á sepultura!... +Então... sinto-me demente, porque tenho ciumes do nada... ciumes d'estas +cinzas esquecidas no mundo... ciumes da memoria d'outras cinzas, que, ha +tres quartos de seculo, esperam o dia final... É lamentavel a situação +d'este pobre velho, que não pôde roubar-se a uma agonia, das que o mundo +reputa chimeras, não é assim? + +Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lh'o não +disse, nem lh'o diria, se lhe não acreditasse umas lagrimas que lhe vejo +nos olhos. + +Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na dôr. O +que eu não creio é na morte. A morte é uma palavra convencional, com que +os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio d'uma nova +existencia. A immortalidade é uma idêa abstracta de tudo que é +comprehensivel aos homens. O homem não explica a immortalidade, em +quanto não sobe um grau na escala dos seres intelligentes. Veja se me +comprehende... Ha uma escala de seres que principia na materia bruta, e +termina nos espiritos. As funcções do espirito, sem fórmas corporeas, +pertencem á creatura, superior ao homem. Ora, o homem não explica essas +funcções, que devem ser a sua futura existencia, pela mesma razão que o +animal, inferior ao homem, não comprehende as funcções do pensamento +aperfeiçoadas, mas não perfeitas, no homem. Todos os seres, por tanto, +vão subindo na escala da intelligencia. Todos se transfiguram de fórma +em fórma até deixarem na terra o involucro da materia, e vagarem nos +espaços incognitos como vagam os espiritos. É lá em cima, nas +proximidades do grande mysterio, ao clarão da eterna luz, que se lê o +livro de Deus. É nas regiões, que a minha alma adivinha, que eu devo +sentir pelo orgão espiritual em que recebi a interminavel impressão de +agonia, que foi na terra a minha lenta peregrinação. O amor ardente e +sublime não é um attributo do espirito? Aquelle que muito ama, e muito +devorado morre de paixões grandes e ideaes, não é um propheta da vida +futura, uma preexistencia do futuro amor? A não ser o amor, qual será a +existencia do espirito? + +Conheço que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que quiz elevar o +seu espirito á altura das minhas grandes doutrinas, do meu querido +segredo. Quiz convencel-o, não digo bem, quiz enthusiasmal-o por essa +eternidade em que ahi se falla, despida de affectos, de poesia, de +esperanças, e... deixe-me dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens... + +Meu amigo, ha na minha vida um oasis. Tenho exaltações de jubilo, aqui, +n'este quarto, onde conto, ha perto de setenta annos, os minutos da +minha existencia. Este goso é a minha convicção na immortalidade... É a +minha esperança, confirmada pela meditação e pela sciencia, de que +hei-de encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do +céo... + +Basta... Seja digno da minha confidencia... Não diga ás turbas de Villa +Real os segredos de D. João de Noronha. Aqui escarnecem-se os que +soffrem, logo que não soffrem pelas más colheitas do vinho, ou pela +barateza dos cereaes. Não falle a linguagem dos espiritos, onde a +materia organisada dispõe do machinismo da bocca para lhe dar uma +gargalhada em resposta.» + +D. João de Noronha despediu-me. + +Desde esse dia foram mais da alma e da intelligencia as nossas +communicações. Aprendi com elle a sciencia do espiritualismo. Se depois +me materialisei, é porque a faisca d'aquelle genio não me tinha abrasado +mais que a superficie da materia. O espirito tem a força dos +imponderaveis. A força da materia póde muito bem calcular-se pela força +dos vapores... _tantos cavallos_. + +Pergunta-me uma senhora de critica muito fina: + +--Como se explica o casamento de D. João de Noronha aos 86 annos de +idade, com uma donzella sua contemporanea?! + +--De uma maneira muito simples. As nupcias de D. João não podem +considerar-se physicas nem moraes. «Absurdo!--replica a espirituosa +dama.» Está enganada, minha senhora. D. João tinha uma pequena fortuna, +e queria deixal-a a uma creada, que o servira desveladamente toda a sua +vida. D. João encarava philosophicamente as formulas sacramentaes do +casamento. Achava-o utilissimo como carimbo de contracto civil. Casou-se +para recompensar uma creada que lhe consolou muitas lagrimas, e lhe +enxugou nas faces mortas as ultimas que elle chorou. Era digna do +sacrificio. Poucos dias supportou a viuvez. + +--E a caveira?--perguntou ainda a amavel syndica dos meus romances. + +--A caveira deve estar confundida nos ossos de D. João de Noronha. A +viuva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na mesma +mortalha. + + + + +UMA PRAGA ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA. + + + + +UMA PRAGA ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA. + + +Este romance não devera chamar-se «romance.» Desde que esta palavra é o +atilho onde se enfeixam as mentirosas invenções do escriptor +phantastico, não ha historia verdadeira que possa, como tal, +recommendar-se com aquelle titulo. + +Estes acontecimentos, expostos aqui, segundo o formulario romantico, e +affeiçoados ás leis do estilo romantico, são verdades que não deram +brado, nem se gravaram na memoria da geração que as viu e as não +comprehendeu. + +Na vida moral da sociedade ha phenomenos cuja causa ninguem estuda. No +drama da familia ha lances que são do dominio do publico, e o publico +não póde, ainda que o tente, explical-os. Nas attribuições +individualissimas do homem ha phases extraordinarias de soffrimento, que +esta sociedade de entranhas crueis lhe recrimina, reputando-lh'as +effeitos necessarios das causas, consequencias do crime voluntario. + +A sociedade, a familia e o homem expiam incessantemente a culpa do +homem, da familia, e da sociedade. Opera-se uma continua redempção do +genero humano. O homem é, desde o seu principio, a victima da culpa com +o labio collocado no calix da agonia. + +A vida sobre a terra é uma interminavel expiação. Eu pago pelos crimes +de meu pai, meus filhos expiarão meus crimes, e o ultimo ser vivo da +animalidade intelligente será o holocausto do primeiro homem criminoso. + +É forçoso recorrer ao inconcebivel, ao sobre-natural, ao mysticismo da +providencia occulta para comprehender o que vulgarmente se diz +«fatalidade.» + +Na historia, que vai ser lida, é tão sensivel esta necessidade, tão +aterrado se sente o espirito diante d'um facto consummado, que eu não +tive escrupulo religioso ou philosophico em subordinar um encadeamento +de infortunios d'uma familia á _praga rogada nas escadas da forca_. + + +I. + + +Bernardo da Silva era um filho bastardo de um nobre de Vizeu. Do ventre +materno passou á roda dos expostos, e d'ahi aos cuidados d'uma pobre +mulher d'aldêa. + +Aos dez annos não conhecia pai; e sua mãi, mulher do povo, arrastada +sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o segredo do _nobre_, +que se dignára descer até ella para honral-a com deshonra. + +Bernardo, aos dez annos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus +companheiros era elle o mais despresado, porque tambem era o mais +preguiçoso. + +O rapaz vivia triste como se a idade lhe permittisse comprehender a dôr +immensa d'um grande desastre. Lá dentro n'aquelle coração infantil +fallava uma prophecia funebre. Com os olhos sempre extaticos no +horisonte negro do seu futuro, o pobre moço não tinha uma hora livre +para o trabalho. Muitas vezes uma bofetada acordava-o d'aquelle +lethargo; e o braço, que estava suspenso com a agulha, continuava a +tarefa molhada de lagrimas. + +Aos 13 annos era ainda um aprendiz de alfaiate, repellido d'este para +aquelle mestre, desacreditado em todos, e inutilmente espancado por +todos. Chamavam-no incorrigivel, e elle mesmo conheceu que o era. + +Abandonou a agulha, e foi servir em casa de Francisco de Lucena. Era +ahi, como em toda a parte, coconhecido pelo «Bernardo _Engeitado_.» +Nunca ninguem se lembrou de reputal-o filho _d'alguem_: nem Lucena se +lembrou, alguma vez, de que um de seus muitos filhos, atirados á roda, +poderia ser seu lacaio. + +Bernardo era creado de taboa. + + +II. + + +Este officio era-lhe mais generoso que o de alfaiate. Tinha muitas horas +livres para a sua melancolia, e muitos escondrijos no amplo palacio de +seu amo para refugiar-se d'uma sociedade que elle detestava sem saber +porque. + +Este viver excepcional n'aquella classe galhofeira, esturdia, e +estragada, excitou a curiosidade dos seus companheiros, e, depois, a dos +amos. Aquelles chasqueavam-nos com desabrimento: estes admiravam-no por +compaixão. + +Bernardo chorava sem motivo. Sorria-se com violencia. Era humilde com um +não sei que de estranha delicadesa. Destacava-se da sua classe com um ar +orgulhoso, mas não calculado. Cumpria as suas muitas obrigações, e +ninguem sabia quando as cumpria. Estas qualidades, rarissimas vezes +encontradas n'um lacaio, tornavam-no assumpto de estudo para os amos que +principiavam a interessar-se na analyse d'aquelle obscuro engeitado. + +Guardadas as inauferiveis distancias que separam o senhor do servo, os +fidalgos souberam que Bernardo desejava muito saber lêr, e gastava a +maior parte da noite soletrando o abecedario, e decorando as lições que +o mordomo da casa lhe dava nas horas de desenfado. + +Qualquer que fosse o impulso que a isso o levou, é certo que o amo, por +um nobre impulso, permittiu que o rapaz fosse a uma escóla, e para isso +alliviou-o dos encargos de moço de taboa, e levou-o á jerarchia de +escudeiro do menino mais velho. + + +III. + + +Um anno depois, Bernardo fizera admiraveis progressos. Lia com +intelligencia do que lia; escrevia com acerto, e aprêndera só comsigo a +grammatica portugueza, visto que seus amos lhe não tinham permittido +esta segunda parte dos seus estudos. Seria um caprichoso luxo permittir +ao servo sciencia que os amos não tinham! O muito illustre Francisco de +Lucena não daria o menor dos seus galgos pela vasta sciencia do Lobato. +E, talvez, tivesse razão. + +Em casa de fidalgos d'esta bitóla, quando um creado adquire a confiança +dos amos, ha sempre para isso uma de duas razões. Ou o creado, devasso +como elles, encobre astuciosamente as devassidões dos amos; ou se torna +estimavel pelo zelo honroso com que procura encobrir-lh'as, já que não +póde reprehender-lh'as. + +Bernardo estava na segunda razão. Os filhos de Lucena eram livres e +desmoralisados a não poder ser mais. Quizeram captar a benevolencia do +servo, não para aconselhal-os, que não desciam elles a isso, mas para +acompanhal-os em emprezas difficeis, d'aquellas em que o braço do plebeu +é muitas vezes a salvação das costas do fidalgo. + +Não o conseguiram nunca; mas tambem não tiveram de arrepender-se da +confiança d'esse convite. Bernardo exercia uma influencia admiravel +sobre os nobres libertinos. Era a superioridade da intelligencia. +Ouviam-no, e maravilhavam-se do acerto das suas idêas, e da linguagem +escolhida com que o engeitado se sahia! O facto de ser engeitado era em +Bernardo, talvez, um motivo de superstição n'aquella casa. Se elle fosse +reconhecido filho d'algum _borra-botas_, como em linguagem nobliarchica +se chama um plebeu, de certo lhe não dariam a importancia de o +considerarem pela intelligencia. Mas o mysterio, a possibilidade de ser +vergontea infeliz d'um tronco illustre, cingiam-lhe a fronte d'uma +aureola entre nuvens, que poderia talvez, mais tarde, dissipar-se, e +deixar na plenitude da sua luz aquelle fructo do amor criminoso d'alguma +raça nobilissima, mais ou menos aparentada com os Lucenas! + +Tudo isto era possivel; mas o que elles julgariam, entretanto, +impossivel, é o que vai lêr-se. + + +IV. + + +A familia que Bernardo servia compunha-se de pai, mãi, tres filhos, e +uma filha, de todos os irmãos a mais nova. Por então contava quinze +annos. Era bonita, mas pobre. Os morgados não a pediam; os filhos +segundos tambem não; e a sensivel menina precisava amar, porque o seu +coração era da tempera d'aquelles que não sabem conceber sómente o amor +com a condicional do casamento. + +Eulalia não tinha a mais superficial tintura de instrucção, e por isso +não podemos, em boa fé, chamar-lhe romantica. Não era janelleira, nem +rapinhava da papeleira dos irmãos o perfumado papel setim para deposito +de semsaborias amorosas, e por isso não podemos chamar-lhe douda. + +Era uma mulher, e n'isto está dito tudo. + +Este Bernardo é que realmente se parecia muito com os nossos poetas de +aspirações ferventes e meditações profundas. Mas não era impostor, nem +romanticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas, e uma tristesa +inconsolavel como nenhuma. «A minha organisação--dizia elle--é um +aborto, uma enfermidade incuravel.» + +Eulalia sympathisava com aquella tristesa, e com a figura do rapaz. +Achava-lhe traços de semelhança com seus irmãos, e via n'elle o que ella +chamava «cara de pessoa de bem.» E, com quanto eu deteste esta maneira +de classificar as caras, porque não conheço as «caras de pessoas de mal» +tenho-me visto em circumstancias forçadas de dizer o mesmo, porque ha +n'este val de lagrimas umas caras que não exprimem bem nem mal, e essas +são as peiores caras. + +Bernardo não se lembrou nunca de fazer sentir á cozinheira da casa, e +menos se lembraria de accender o fogo do amor no illustre coração d'uma +Lucena, com quem em toda a sua vida fallára tres vezes. + +Eulalia passou da dôce sympathia ao amor abrasado, e do amor abrasado á +paixão violenta. Por mais finos e eloquentes olhares que a fogosa menina +lançou ao escudeiro, o escudeiro ou não dava por elles, ou explicava-os +de qualquer modo, com tanto que não ousasse ensoberbecer-se d'aquelle +affecto disparatado. E Eulalia desesperava-se! + + +V. + + +Francisco de Lucena espreitava a opportunidade de empurrar a filha para +fóra de casa. Aspirou, primeiro, aos morgados; mas encontrou-os pouco +apreciadores de formosura e fidalguia. Recorreu, depois, aos burguezes +ricos, e encontrou um negociante d'alto bôrdo, que recebeu a proposta +com affabilidade e trabalhou desde logo em levar a fim um casamento que +permittia aos filhos de seu filho appellidarem-se Lucenas. + +O pai annunciou á filha o seu rico futuro, e encontrou-a fria. +Apresentou-lhe o noivo, e viu-a enjoada. O noivo, porém, era um rapaz de +fina educação, d'alguma intelligencia, de brios que o ouro lhe +estimulava, e de orgulho superior á sua classe, porque, ha 50 annos, a +classe commercial era muito humilde, supposto já trabalhasse para esta +época de barões commerciaes, que, digam lá o que disserem, é o mais +palpitante triumpho da democracia. Para me não metter em graves questões +sociaes, entenda-se que D. Eulalia repelliu a felicidade que seu pai lhe +annunciára com tanto jubilo, e declarou-se sentimental, por tempo de +quinze dias, fechada no seu quarto, sem querer vêr sol nem lua. + +Mas o pai apoquentava-a, sempre que podia, pintando-lhe a mesquinhez do +seu futuro, e a pobresa de sua legitima, que orçaria talvez por tres mil +cruzados. E era isto verdade. + + +VI. + + +E o peor era que o tal João Leite, noivo repellido, ficou amando +desesperadamente D. Eulalia. Ferido no seu amor proprio, e envergonhado +de tão má estreia, instava com Francisco de Lucena, lançando-lhe em +rosto a imprudencia com que viera roubal-o á sua tranquilidade, não +podendo contar com a obediencia de sua filha. Esta maneira de accusar +vexava Francisco de Lucena, porque era pôr em duvida o seu poder +paternal, e chamar-lhe fraco, imputação que elle odiava ainda mesmo que +se tratasse de vencer a repugnancia de uma fraca menina. + +Redobravam as mortificações, e Eulalia, immovel como o seu infeliz amor, +offerecia-se de bom grado á vingança paternal, mas dizia, em linguagem +tragica, que só reduzida a cadaver passaria para a posse do tal +miseravel, que não tinha vergonha de perseguir uma mulher que o +despresava. O pai realisou o dito popular: «casar, ou metter freira.» +Eulalia optou pelo segundo, e os preparativos para entrar no convento +principiaram. + +O amor faz a mulher varonil. Temos visto almas de lama apresentarem uma +energia corajosa, quando o tonico do amor lhes vibra as cordas +embrionarias d'um coração, que parece arfar de improviso ao repentino +choque, ao rapto da paixão violenta. + +Nas vesperas da sua entrada no mosteiro, Eulalia escreveu tres cartas. +Uma a seu pai. Dizia-lhe que amára um só homem e viveria d'esse amor +desgraçado toda a sua vida. + +Outra ao escudeiro. Dizia-lhe que tivesse compaixão d'ella, e chorasse +uma lagrima em troca das que ella chorára, e choraria até á morte. + +Outra ao seu implacavel pretendente. Dizia-lhe que o amaldiçoava com +todo o odio do seu coração. Que lhe atirára á cara com um _não_, e nem +assim o envergonhára de continuar a perseguir uma mulher. + +Esta correspondencia conservou-a Eulalia até ao momento em que transpoz +o limiar do convento. O seu primeiro acto foi dar-lhe o destino +competente. Depois, chorou, chorou, e attrahiu em volta de si os +carinhos da communidade que a mortificava com as suas frias consolações. + + +VII. + + +Francisco de Lucena recebeu com espanto semelhante carta. + +Bernardo da Silva embruteceu-se ao lêr a sua. + +João Leite deu quatro murros n'uma mesa, e sentiu-se suspenso no ar por +uma legião de demonios raivosos. + +Cada um fez seu papel; mas todos tres reunidos deviam formar um grupo +digno da melhor caricatura inédita! + +Francisco de Lucena correu ao locutorio do mosteiro, e fez alli +apparecer imperiosamente a filha. + +Quiz forçal-a a declarar o nome do homem que a preoccupára até a fazer +má filha. Não lhe arrancou a menor revelação. Foi por outro caminho para +chegar ao seu fim. Fez-se sentimental; lamentou, como bom pai, as +paixões invenciveis d'uma filha que se présa com extremo carinho; contou +historias análogas, que acabavam todas por casamentos desiguaes, mas nem +por isso menos venturosos. Pediu a sua filha o nome d'esse homem que a +impressionára, e fez-lhe ante-gostar a possibilidade de casar-se, se não +viesse d'alli uma absoluta deshonra para a sua familia. + +O amor fez heroes, mas tambem faz patetas. Eulalia desceu da sua altiva +energia ao raso da toleima. Declarou o nome... o nome de quem? o nome, +sem nome, do engeitado, do aprendiz de alfaiate, do lacaio, do +escudeiro!... + +Que horror! + +Nunca se viu um solavanco mais desamparado que o salto de tigre que +Francisco de Lucena deu contra a grade que o separava da filha! Por +Deus! que a esgana se lhe chega! A pobre menina, arripiada como quem vê +um lobo com as fauces vermelhas, e as unhas recurvas, foge pelo +dormitorio, e fecha-se no quarto. + + +VIII. + + +Lucena correu a casa com os olhos injectados de fogo. Precisava d'uma +victima! Encontrou no caminho João Leite, mas este não podia +justificadamente ser sua victima. João Leite mostra-lhe a carta que +recebêra de Eulalia. Isto foi exacerbal-o. «Não se lhe dê de ser +repellido por essa infame,--lhe disse elle--Eu vou provar-lhe que sou +pai!... Essa mulher amava um escudeiro... um lacaio... um +_engeitado_...» + +Entrando em casa, procurou o «engeitado.» Encontrou-o ainda +estupidamente absorvido na meditação d'aquella carta. A entrada rapida +que fez no quarto não deu tempo a que Bernardo escondesse a carta que +tinha aberta nas mãos tremulas. Lucena arrancou-lh'a com uma convulsão +de raiva superior á furia d'um demente. Passou-a pelos olhos, e, sem +articular um som, lançou mão d'uma cadeira, e, á segunda pancada, +Bernardo tinha a face coberta de sangue. Era um sangue innocente que +reclamava justiça. Era um sangue innocente que pedia a intervenção de +Deus. A justiça, filha legitima do céo, virá mais tarde salpicar +d'aquelle sangue a face de quem o derramava. + +Bernardo, ferido, e pisado de successivas pancadas, não pronunciára uma +só palavra durante este infernal martyrio. Impellido por pontapés, foi +lançado fóra da porta do quarto. As forças faltaram-lhe. O sangue corria +a jôrros. Esvaiu-se-lhe a cabeça, e cahiu. + +O fidalgo chamou dous creados, e mandou pôr aquelle homem fóra da porta. +Era ao anoitecer. O engeitado foi arremessado á rua. Quando recuperou os +sentidos, achou-se frio. Ergueu-se. Olhou com os olhos da alma para a +sua consciencia, e sentiu pela primeira vez vontade de sorrir da sua +desgraça pelos labios molhados de fel. + +E riu-se. Era um sorriso semelhante ao dos anjos. As almas que podem +sorrir assim são as que Deus elege para a santidade da bemaventurança. + + +IX. + + +Bernardo procurou um refugio em casa de uma mulher pobre que o tractára +sempre com amor, matando-lhe a fome, quando a aprendizagem de alfaiate +lhe não valia o pão de cada dia. Esta mulher fôra ama da roda no tempo +em que Bernardo lá fôra lançado. Suppunha ella que talvez o tivesse +alimentado ao seu seio por algumas horas, e esta só conjectura +attrahia-a para elle com instincto maternal. + +O engeitado curou-se dos leves ferimentos, e pediu a Deus que lhe +inspirasse um destino. Esperou. + +Em Vizeu fallava-se muito d'este successo, divulgado por Francisco de +Lucena, e por João Leite. + +Bernardo era procurado para ser punido; e quem mais diligencias fazia +para isso era o juiz de fóra Paulo Botelho. + +O honrado moço, quando se viu na penosa situação de agenciar a sua vida, +por não poder sahir da pobre casa em que vivia, impellido pela sua +innocencia, procurou o juiz de fóra, e expoz-lhe com a mais eloquente +naturalidade a injustiça com que fôra maltratado e com que estava sendo +perseguido. + +Paulo Botelho quiz espancal-o com um chicote por ter tido a audacia de +entrar em sua casa sem ferros aos pés. Olhou em redor de si procurando +um aguazil para fazel-o prender traiçoeiramente; mas o generoso mancebo, +adivinhando-lhe as intenções, disse que não precisava fingir-se; que +elle dava a sua palavra de honra de não retirar da casa em que estava +vivendo, e que mandasse sua senhoria captural-o quando quizesse. O juiz +riu-se da _palavra d'honra_ na bocca d'um creado de servir, e mandou-o +embora, por não ter a proposito um meirinho. + +Bernardo encontrou ao retirar-se, nas escadas do ministro, João Leite, +que apeava d'uma liteira, segundo o uso dos nobres, comprado pelo ouro +do burguez opulento. + +João Leite fixou-o com ar de soberano despreso, e perguntou-lhe: + +--És tu o lacaio de Francisco de Lucena? + +--Fui o lacaio do snr. Francisco de Lucena--respondeu Bernardo com +dignidade. + +--E tens o atrevimento de apparecer entre pessoas de bem? + +Bernardo suffocou uma resposta amarga, e fez uma continencia respeitosa +para retirar-se. + +--Vem cá, miseravel!--tornou João Leite--tu és o amante da filha do teu +amo? + +--Respeitei-a muito, por ser a filha de meu amo, em quanto o servi. Hoje +respeito-a, porque lhe não conheço a menor falta que a deshonre! + +--Nem ao menos a deshonra de receber as tuas affeições, lacaio? + +--Eu não lh'as offereci nunca, senhor. + +--Offereceu-t'as ella, sevandija? + +--Não, senhor. + +--Mas ella escrevia-te... + +--Sem ser criminosa, por isso... + +--Então achas que não é crime escrever a um bandalho? + +--Será, se v. s.^a o quer... + +--Tenho pena de seres um reptil que faz nojo esmagar com a solla da +bota! Se tivesses um nome... + +--Tenho um caracter, senhor! + +Bernardo respondeu com altivez; João Leite riu-se com despreso, e +olhando-o da cabeça aos pés, replicou: + +--Tu sabes que não podes ter caracter, engeitado!? + +--Então, terei um braço... + +--Um braço!--atalhou o fidalgo em projecto, imprimindo-lhe um valente +pontapé, que o fez descer tres escadas maquinalmente. + +Bernardo assumira toda a dignidade do homem de coração ultrajado. João +Leite achou-se comprimido entre os braços do _sevandija_ que elle +suppunha fugir ao primeiro pontapé para evitar o segundo. + +Quiz desfazer-se, de prompto, d'este empecilho, e não pôde, porque os +pés falsearam-lhe, e as costas bateram-lhe com todo o peso sobre os +degraus de pedra. Tirou rapido de um punhal, e roçou com elle duas vezes +sobre o braço direito de Bernardo, que o desarmou, no acto em que uma +terceira punhalada lhe resvalára no peito. O engeitado sentiu-se ferido: +vacillou um instante na resolução que se debatia entre o homicidio e o +perdão. Venceu o primeiro. Aquelle punhal tinto de sangue innocente, +pela segunda vez, derramado, entrou no coração de João Leite, e matou-o. + +Isto foi obra d'alguns segundos. João Leite gritára nas convulsões da +morte; acudiram os creados, e encontraram Bernardo da Silva, de braços +cruzados ao pé do cadaver, que vibrava nos seus derradeiros +estorcimentos. + +Paulo Botelho tambem acudiu. Primeiro recuou aterrado: depois gritou +«matem esse homem!» E vendo que ninguem de prompto lhe aceitava o +diploma de assassino, mandou-o carregar de ferros. + +Bernardo caminhou para o carcere, com a fronte altiva, com nobreza de +passo, com serenidade de consciencia e maneiras d'um principe, segundo a +linguagem popular dos que o viram. + + +X. + + +Foi processado. Paulo Botelho desenvolveu uma espantosa energia no +andamento d'esta causa crime. Erguia-se todos, os dias, sofrego da +escrever uma sentença de forca. + +Os depoimentos eram todos contrarios ao infeliz. Um só homem protegeu +esse preso; sabia-se que era um ancião que lhe levava umas sopas +diariamente, e palavras consoladoras de esperança sem esperança. + +Eulalia, sabendo estes acontecimentos até á vespera do dia em que o +escudeiro devia ser condemnado, requereu que queria ser ouvida em juizo. +Não lhe admitiram o seu depoimento. A pobre menina, inspirada da +eloquencia do martyrio, entrou um dia no côro, quando a communidade +orava, e invocou o testemunho de Jesus Christo, exclamando, de modo que +a escutasse o povo que estava na igreja: + +«Declaro que esse infeliz homem, que vai morrer, depois de martyrisado +por meu pai, e apunhalado por um homem que eu despresei, declaro diante +de Deus e dos homens, que esse infeliz nunca me disse uma palavra só +para que eu o amasse. Fui eu que o amei, fui eu que lhe escrevi, quando +entrei n'este mosteiro, fui eu que o fiz desgraçado, mas em recompensa +hei-de amal-o toda a minha vida, e hei-de unir-me a elle na presença de +Deus!» Era uma demencia! + +Foi grande o assombro dos que a ouviram. O ecco d'este grito chegou aos +ouvidos de Paulo Botelho, que estava presente; mas a sua alma fôra +cerrada pela mão corrupta do ouro. O povo murmurava, e dizia que não +havia de ser enforcado o escudeiro. + +Pobre povo, n'aquelles dias, se tentasse tirar das mãos d'um juiz o seu +instrumento inauferivel, o carrasco! + + +XI. + + +Bernardo foi condemnado á pena ultima; Ergueu-se uma forca nas +proximidades do delicto, entre a casa do juiz, e a de Francisco de +Lucena. + +Eulalia exaltára-se no martyrio até causar receios de loucura. +Inspiravam-se de uma dôr de morte as exclamações pungentes que soltava a +cada ruido que ouvia semelhante ao arranco retrahido d'um justiçado. O +espectaculo da forca era a sua idêa fixa, desde o momento que uma +religiosa imprudente lhe annunciou o destino de Bernardo da Silva. + +A infeliz, na madrugada do dia da execução, fugiu da cella com os +cabellos em desordem, com as faces chammejantes de febre, com os olhos +embriagados de delirio, e com o coração a estalar-lhe de uma dôr que a +endoudecia. + +Chegando á portaria não houveram forças humanas que a contivessem. Os +ferrolhos cederam ao impulso d'uma fraca mulher, forte da sua +desesperação; e esta virgem, com habitos de noviça, e bella, na sua +agonia, como um corpo epileptico que se levanta amortalhado do esquife, +corria por entre as multidões que principiavam a agglomerar-se para +testemunharem o desconjuntar dos ossos do pescoço d'um padecente entre +as mãos do carrasco, seu irmão, ambos filhos do mesmo Deus, ambos +remidos pelo sangue do mesmo Christo. + +Viram-na as multidões passar; muitos a conheceram: alguns pronunciaram o +seu nome, mas aquella pomba, ferida de morte, era um cadaver que se +movia impellido pelo choque da pilha galvanica. + +Erguera-se um alarido na cidade. As turbas corriam na direcção da +infeliz, a quem chamavam douda; mas não ousou alguem embargar o passo +áquella mulher que parecia fascinar com a magestade da sua demencia. + +Os que a seguiam esperavam vêl-a entrar em casa de seu pai. +Enganaram-se. Eulalia subiu as escadas de Paulo Botelho, e entrou no +salão onde fôra lavrada a sentença de cadafalso para Bernardo da Silva. + +Paulo Botelho estremeceu na cadeira, quando viu aquelle alvejar de uma +larva, ajoelhada nos degraus da tribuna. + +Deu-se um profundo silencio de alguns minutos. + +Eulalia já não podia coordenar as idêas que poucos dias antes clamára no +côro. O sorriso da loucura, o gemido suffocante, uma lagrima embebida +logo no ardor das faces, e algumas palavras entaladas, e apenas +intelligiveis, eram alternativas que a tornaram mais lastimavel durante +alguns minutos. + +A mulher e tres filhas de Paulo Botelho, que a viram entrar, correram ao +tribunal, e quizeram arrastal-a d'alli. Era impossivel. A estatua +parecia chumbada sobre o seu tumulo. + +A familia do juiz julgou conveniente empregar o insulto como solução. +Fallavam do justiçado com certa nauzea, que ellas suppozeram ser o +balsamo para a ferida mortal de Eulalia. Paulo Botelho, coadjuvando as +razões da sua familia, cobria de improperios affrontosos o homem que, +pouco depois, havia de perdoar as injurias com a cabeça no laço da +forca. + +A exaltação afflictiva de Eulalia tinha tocado o ponto culminante da +morte, ou da alienação irremediavel. + +--Innocente! Innocente!--eram os gritos unicos, as derradeiras palavras +que os labios d'aquella mulher tinham de proferir. + + +XII. + + +N'este momento entrou um homem que redobrou o espanto. Era Pedro Leite, +pai de João Leite. + +Este homem fez signal de querer fallar. Attenderam-no todos com +religioso respeito. + +As suas palavras foram estas: + +--Perdôo ao assassino de meu filho! O sangue d'esse homem cahirá sobre a +minha face! Matou defendendo-se d'um aggressor infame! Senhor juiz de +fóra, requeiro a suspensão da execução da sentença. Eu sou parte, e +declaro innocente o réo! + +Seguiram-se minutos d'uma estupefacção natural. Eulalia voltou os olhos +para o homem que fallára, quiz arrastar-se de joelhos aos pés d'elle; +não pôde; a impressão devia matal-a, ou resuscital-a... desmaiou a meio +caminho. + +O juiz era o algoz moral creado pelo ouro, assim como o carrasco physico +fôra creado pela lei. Não podia eximir-se a pegar do cutello, e seguir +seu caminho. + +--É tarde!--respondeu elle. + +--Não é tarde!--replicou Pedro Leite, e continuou com solemne +exaltação:--Tarde, senhor juiz, é depois que o tribunal do mundo se +fecha atraz d'aquelle que vai entrar no tribunal de Deus! Tarde, é +quando um juiz de entranhas ferozes se apresenta no banco dos réos +condemnados com a face borrifada de sangue innocente! + +--Basta!--exclamou Paulo Botelho com authoridade! + +--Pois sim... basta! mas, abaixo de Deus, invoco o testemunho das +pessoas que me escutam. Declaro que lavo as mãos d'este sangue innocente +que vai ser derramado! + +O povo murmurou com acanhamento, com a consciencia cobarde da sua +nullidade, mas balbuciou não sei que palavras que irritaram o juiz. + +--Não se trata só de punir o assassino de João Leite!--exclamou o +juiz--trata-se de castigar a affronta que recebeu um nobre, feita por um +lacaio que ousou levantar olhos de amante para sua filha! + +--Não, não!--gritou Eulalia, erguendo-se com impeto, com as mãos postas, +e cahindo outra vez sobre os joelhos. + +O cynico já não tinha coragem para tanto! Soára a hora do ultimo mandato +ao carcereiro. Expirára o ultimo instante de oratorio. + +--Cumpra-se a lei! + +Disse o juiz, e fez menção de retirarem-se as ondas de povo que tinham +concorrido em tropel, chamadas pelos gritos de Eulalia, e pelo perdão +publico de Pedro Leite. + +Eulalia foi conduzida em braços para o interior da habitação do juiz. + + +XIII. + + +A procissão onde a impudencia collocára um Christo, o Deus da caridade, +nas mãos d'um padecente, que hia ser esganado!... a procissão, onde se +via um homem de tunica branca, um algoz de cutello e alcofa, alguns +sacerdotes d'um Deus misericordioso!... a procissão descia terrivel de +repulsiva solemnidade para o açougue d'aquella rêz! A tumba da +misericordia fechava aquella orgia de sangue! Era um insulto a Deus! o +cadaver d'um homem atirado á face do Creador! um escarneo satanico á +intelligencia, e ao coração da humanidade! + +O prestito parou na praça do sacrificio. + +Bernardo com os olhos fitos no céo via nascer a risonha aurora da +eternidade. Sorriam-lhe os anjos, e a justiça de Deus mostrava-lhe o seu +regaço. A morte do justo era um crepusculo de nova existencia a +alumiar-lhe o rosto. Inspirava devoção aquelle seu santo sorrir para o +seio do céo que se lhe abria! Trazia nas mãos a imagem do Redemptor; mas +lá em cima via elle o Espirito Creador, a grande alma, onde se refugiam +as almas dispersas na face d'este mundo, e perseguidas pelo demonio da +ira, e da vingança, eternamente encarnado no homem, a quem a sociedade +entregou o azorrague da flagellação do virtuoso. + +Bernardo caminhava a passo firme para a escada da forca. Estavam +contrahidas as respirações. Um gemido, menos suffocado, podia ser ouvido +por quinze mil almas que vieram a contemplar aquelle apparelho de morte, +segundo a lei, _formulada pelas inspirações do Evangelho_! pelo codigo +dos perdões! pelos preceitos do Filho de Deus que morrêra, perdoando! + + +XIV. + + +Através da multidão abriu-se uma clareira para deixar passar um homem, +que devia representar um principal papel n'aquelle festim da lei. + +Convergiram todas as attenções para aquelle ponto. + +Era Pedro Leite--ainda o pregoeiro da innocencia de Bernardo, com a face +cadaverica das longas noites que chorára sobre o tumulo de seu filho +unico. + +Quem disse a este homem que Bernardo da Silva era um innocente? + +Que força occulta o arrasta a abençoar nas escadas da forca o assassino +de seu filho? + +Phenomenos occultos da Providencia! A voz de Deus, soando pelos labios +do mysterio! Explicai-me as operações de Deus, e eu vos explicarei a +inspiração sobrenatural que obriga a balbuciarem o perdão os labios, que +beijaram morto um filho estremecido... + +Pedro Leite aproximou-se do justiçado. Ninguem lhe embaraçou o passo. + +Cheio de magestade, de poesia funebre, e de santo terror, fallou assim: + +«Eu venho pedir o seu perdão á beira do patibulo. Fui eu que o arrastei +até ao tribunal em que foi condemnado; mas não sou eu que o arrasto +aqui. Bradei em favor da sua innocencia. Pedi, ha momentos, a suspensão +d'este acto, em que a minha dôr será mais... muito mais prolongada que a +sua. Não me ouviram: impozeram-me silencio, e mandaram-me sahir do +sanctuario da lei, que resfolegava sangue pela bocca do seu sacerdote. + +Venho pedir o seu perdão nas escadas da forca, e vasar o fel, que me +devora a consciencia, na consciencia do juiz implacavel que pede a sua +cabeça a altos gritos!» + +Ouviu-se um prolongado murmurio. Era a onda popular que refervia sopeada +entre as rochas da sua impotencia moral, n'aquelles dias, em que o +sangue d'um plebeu continuava a operação regeneradora do sangue de Jesus +Christo. + +Bernardo ouviu com presença de espirito a exclamação de Pedro Leite. + +«Eu lhe perdôo!» + +Foram as suas palavras unicas. + +Choraram-se então muitas lagrimas. A piedade teve uma explosão, que as +cronhas dos soldados reprimiram. As turbas queriam rasgar o quadrado +para arrancarem da morte um santo. Este conflicto foi serenado por outro +mais sublime. Ouviu-se uma voz. Viu-se um homem que sobresahia entre as +molas populares. Era o velho, protector unico de Bernardo da Silva, +durante a sua prisão. Poucos o conheciam. + +Foram estas as suas palavras: + +«Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr teu filho que morre +enforcado! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr o filho da mulher +que deshonraste, como é nobre nas escadas da forca! Nobre senhor +Francisco de Lucena! vem vêr teu filho, o filho de minha filha, que +borrifa os teus pergaminhos com o teu sangue illustre!» + +E calou-se. Calaram-se todos. E aquelle homem lá estava erguido como o +anjo dos tumulos á espera que Deus mande quebrar a lousa d'uma mulher +que ahi falta n'esse trance afflictivo! + +Essa mulher morrêra, deshonrada, suffocada pela mão da ignominia, a que +a soberania fidalga de Francisco de Lucena a abandonára. + +Esse ancião era o pai d'essa mulher, unico que recebêra em seus braços o +filho da deshonra, unico sabedor d'aquella existencia, que acompanhou +sempre, porque lhe marcára um braço com uma cruz. Desde o ventre á +forca, de longe, desconhecido, com o segredo da deshonra de sua filha +abafado no coração, este homem seguira os vestigios do neto, sem +declaral-o nunca, porque um appellido illustre não o salvava a elle +d'uma _illustre_ ignominia. + +Que impressão fez este homem nas turbas? A do espanto. Mas, momentos +depois, chamavam-lhe Doudo. Por ordem do juiz de fóra hia ser preso o +demente. Aproximou-se a justiça d'el-rei. «É doudo...!» dizia o meirinho +ao lançar-lhe a mão. + +«_Não é doudo_... é MORTO... » responderam algumas vozes. + +Morto, sim! + + +XV. + + +Hia consummar-se aquelle enredo de peripecias terriveis. + +Bernardo poz o pé direito na ultima prancha da forca. Voltou-se para o +povo. Brilhou-lhe na face o clarão d'um outro mundo. A sua voz era +melodiosa como o cantico do anjo da morte suavissima: mas n'aquelle todo +via-se a terrivel magestade do anjo do dia final. As suas ultimas +palavras foram estas: + +«Ouvide a praga d'um padecente, rogada nas escadas da forca: Que a +justiça de Deus se cumpra na presença dos homens!» +........................................................................... +........................................................................... + +O povo voltou o rosto do aspecto hediondo d'uma face injectada de sangue +negro. Outros viram-lhe uma onda de luz cingindo a fronte. N'esse +momento ajoelharam muitos justos pedindo ao espirito do justiçado a sua +protecção na presença de Deus! + + +CONCLUSÃO. + + +Passaram quinze dias. + +Eulalia de Lucena recuperára o juizo, e entrára no mosteiro. Um anno +depois, professára. A sua vida foram tres annos de adoração extatica. +Ouviram-na murmurar palavras celestes, como em dialogo. Dizia-se que um +anjo devia apparecer-lhe n'aquelles arrobamentos. Chamavam-lhe santa, e +adoraram-na morta. + +Passados quatro annos, Francisco de Lucena, sempre afastado de sua filha +pela mão do remorso, morreu de repente no mesmo local em que fôra +hasteada a forca. + +Simão Botelho, filho de Paulo Botelho, déra um tiro em seu pai. O pai +quiz sentencial-o: deu-lhe sentença de forca, que depois lhe foi +commutada em degredo perpetuo. Apenas desembarcou em Cabo Verde, +abriu-se-lhe uma sepultura. + +Paulo Botelho, desembargador aposentado, dez annos depois, morria á +vigesima quinta punhalada que recebêra, por não dar exactas informações +d'um peculio de cincoenta mil cruzados que guardava em uma quinta nas +visinhanças de Villa Real. + +A mulher de Paulo Botelho morria douda no hospital de S. José um anno +depois. + +Restavam tres filhas de Paulo Botelho. + +Foram devassas até ao escandalo de serem arrastadas a um recolhimento +por expresso mandado regio. + +Uma appareceu morta n'um aqueducto por onde procurára evadir-se. + +Outra casou com um homem que a retalhou de martyrios. + +A terceira enforcou-se no batente de uma porta. + +A Justiça de Deus Cumpriu-se na Presença dos Homens. + +A praga do justiçado nas escadas da forca teve o seu complemento do +genero de morte que a ultima pessoa d'aquella familia se déra. + +Forca por forca. +........................................................................... + +Tendes a curiosidade das averiguações? Procurai em alguns cartorios de +Vizeu a sentença pronunciada entre 1776 e 1780. + + +REMATE. + + +Não sou contumaz, nem me ufano de relapsia. + +De tudo que disse me desdigo, se algum inquisidor intoleravel deparar +ahi heresia, contra-senso, atrevimento ou cousa que duvida faça contra +Plutus, unico deus da unica religião cujo codigo penal me intimida. + +Ha cousas incriveis n'este volume? É que eu, e os meus amigos +litteratos, poetas, jornalistas, e até redactores encartados de +necrologios sabemos passagens que arripiam carnes e cabellos. Se o siso +commum as não adopta, é que os chronistas do tempo formam, á parte, um +_status in statu_, cousa inintelligivel aos que não sabem latim, por +grande fortuna sua. + +N'este synhedrim ha uma moral, estragada se o quizerem, mas os +evangelistas, que a propagam são Catões, com tanto que os não obriguem a +inquietar a sadia tranquillidade dos intestinos. Aqui, não se sacrifica +um dedo a uma pisadella, porque não vale a pena. + +É necessario escrever, visto que ha leitores. + +Eu, e os meus correligionarios, se até hoje não temos irradiado sobre a +humanidade ondas de luz, é porque a humanidade precisava ser, +primeiramente, operada na catarata. O luzeiro da civilisação aqueceu, +não ha muito, a concha em que, por aqui, se escondiam muitos molluscos +moraes, que vão sahindo agora a espanejar-se ao sol. + +Não quero dizer que os molluscos passassem a articulados. Póde muito bem +ser que o leitor, ou leitora sejam ainda legitimos molluscos; mas a +excepção deploravel não claudica a generalidade. E, por tanto: + +Eu, e os meus amigos, mencionados acima, considerando que a candeia não +deve estar muito tempo debaixo do alqueire, nem os talentos (dinheiro) +soterrados vencem juros: e tendo nós outro sim, em muito afan e desvelo +desaffrontar a litteratura patria de injurias com que estrangeiros e +nacionaes a desconceituam, desairando-a como pobre de romances, pela sua +incapacidade inventiva--o que não só é malicia, mas até aleivosia: +resolvemos escrever romances em que figurassem muitas pessoas nossas +conhecidas, e outras, que viremos a conhecer no decurso d'esta meritoria +tarefa. + +Pelo que, a mim, humilde entre os humildes apostolos d'esta idêa lucida, +coube o quinhão de trabalho, que a posteridade me devolverá em gabos e +applausos, e o futuro Plutarcho dos homens illustres d'esta freguezia de +Cedofeita, em que tenho a honra de morar, não deixará de consignar nos +fastos gloriosos. + +Disse. + + + + +PATHOLOGIA DO CASAMENTO. + + +DEDICATORIA. + + + _Exc.^{ma} snr.^a D. Fulana._ + + +Conceda-me v. exc.^a a gloria de offerecer-lhe um quadro d'esta galeria. +Vai lêr um drama intitulado Pathologia do Casamento. + +_Pathologia_, minha querida snr.^a D. Fulana, é uma palavra grega, +composta de _pathos_, doença, e _logos_, tractado. Quer, por tanto, +dizer _molestias do casamento_. + +Balzac escreveu a «_physiologia_»; outro, que me não vem á memoria, +escreveu «_anatomia do coração_»; faltava uma «_pathologia_» que +apparece agora, e, mais tarde, se me não faltar a vista intellectual, +que já sinto muito cançada, escreverei a «_Pharmacia do casamento_» que +hei-de dedicar a uma outra D. Fulana, que eu cá sei. + +V. exc.^a é uma senhora fina, que, além de ter a cabeça no seu lugar, +apresenta muitas vezes lume no olho. Sympathiso com o seu talento, e +talvez casasse com a snr.^a D. Fulana, se tivesse a certeza de podermos +entreter o nosso tempo traduzindo os trinta e sete livros de Plinio, e +os trinta e cinco _De Linguâ Latinâ_ de Terencio Varro, que Deus tem em +sua santa gloria. + +Penso que v. exc.^a não estaria por isto. O seu espirito tem calefrios +de enthusiasmo, e eu, a fallar-lhe a verdade na sua nudez patriarchal, +devo dizer-lhe que tenho dentro do peito uma mumia, que poderia valer +alguma cousa nas ruinas de Memphis, mas não vale nada no cavername +ossudo d'este seu creado. + +Eu preciso d'uma mulher d'oculos, e pitada constante nos dedos. Quero +que ella me falle dos Heraclidas, das Saturnaes de Macrobio, de Creta e +de Lacedemonia, da Beocia e Epaminondas. + +Eu não sei se v. exc.^a sabe alguma cousa d'isto; mas desconfio que não. +Falla-me muito em Victor Hugo, e na _Petite Fadete_ de George Sand. Já a +encontrei a lêr _les Liaisons Dangereuses_, e a _Manon Lescaut_. +Palpita-me que a snr.^a D. Fulana tem na cabeça muita somma de têas de +aranha, e não serei eu a vassoura da limpeza. + +Não obstante, respeito-a, admiro-a até ao ponto de lhe offerecer a minha +«_Pathologia do Casamento_.» + +Digne-se v. exc.^a acolhel-a no regaço da sua benevolencia, e dê-me +occasiões de mostrar-lhe que sou + + De v. exc.^a + +o ultimo creado, e o primeiro dos seus admiradores, + + _Camillo Castello Branco_. + + +PERSONAGENS. + + +D. Leocadia 18 annos. +D. Julia 20 » +A Viscondessa de Valbom 45 » +Jorge da Silveira 30 » +Alvaro de Castro 32 » +Eduardo Leite 30 » +O Visconde de Valbom 50 » + +_Damas, cavalheiros, e creados_. (Podem ter a idade que quizerem). + +A scena dizem que se passou no Porto; mas o author não impõe, Mafoma +dramatico, a crença a ninguem. Cada qual fique no que lhe parecer; mas, +se, effectivamente, os personagens existem, tenham paciencia. + + + + +PATHOLOGIA DO CASAMENTO. + + + + +ACTO I. + + +DECORAÇÃO. + + + _Uma saleta contigua a um salão de baile, separada por largas + portadas de vidro, através das quaes se vêem perpassar, em passeio, + damas e cavalheiros_. + + +SCENA I. + + Julia, _e_ Leocadia, _entrando, como fatigadas, sentam-se n'um + sophá._ Julia _tira da cabeça uma grinalda de flôres brancas, que + arremessa com desdem sobre o sophá_. + + +Julia.--Afflige-me tudo!... Tomára-me eu na minha liberdade, Leocadia! +Não goso nada... Tanta luz parece um insulto á escuridão da minha +alma... Queria-me sosinha... + +Leocadia.--Não tens paciencia nenhuma, Julia!... Que é o que te afflige +assim? + +Julia.--Que é!... É aquelle homem... Sempre aquelle homem!... não ha +nada que o desengane... + +Leocadia.--Nem as palavras?! + +Julia.--Eu sei!... nem as palavras, talvez... + +Leocadia.--Porque não és franca?! Eu, de mim, na tua posição, tinha-lhe +dito: «não me persiga!» É o que eu já disse a Eduardo... + +Julia.--Eu não sei dizer isso... Acho que é aviltar demasiadamente um +homem... Pois tão estupido é elle, que precisa uma franqueza tão +impropria d'uma senhora? Tenho feito tudo que póde desenganar um +homem... Teima, persegue-me, flagella-me... é insupportavel!... Ainda ha +pouco, entre mim e Jorge... + +Leocadia (_sobresaltada_).--E Jorge!... + +Julia.--Que modo é esse!? Jorge interessa-te!? + +Leocadia.--E a ti? + +Julia.--A mim?... Pois não sabes... + +Leocadia.--O que?... não sabia... Elle ama-te? + +Julia.--Tem-m'o dito... + +Leocadia.--Elle!... tem t'o dito... Jorge!... + +Julia.--E tambem a ti?... Falla depressa... + +Leocadia (_contrafeita_).--Não... a mim... não... mas a ti... sim? + +Julia.--Penso que sim... mas esse descorar... Leocadia!... + +Leocadia.--Fui eu que me enganei... Pensava... + +Julia.--Talvez te não enganasses... Que te disse elle? + +Leocadia.--Nada... Vamos nós á sala?... + +Julia.--Já?!... Eu não vou já... Vai tu, se queres... + +Leocadia.--Que é o que me querias dizer?... Disseste que entre ti e +Jorge... + +Julia.--Estava uma cadeira de vago... Alvaro vinha occupal-a, e eu +ergui-me de repente, e occupei-a primeiro... + +Leocadia.--E Alvaro... nem assim... + +Julia.--Me comprehendeu... Sentou-se na immediata, e disse não sei que +frioleira... + +Leocadia.--Se tu és tão amavel!... + +Julia.--Ai!... tu queres imital-o?! É o que elle me diz cem vezes em +cada baile... + +Leocadia.--Uma verdade, por muito repetida, nunca perde o merecimento... + +Julia.--Que maneira de fallar!... Quem me dera adivinhar-te! Tu amas +Jorge!... + +Leocadia.--Não, menina... Eu não amo ninguem... + +Julia.--Ninguem?! nem a tua Julia? + +Leocadia.--A minha Julia não póde repartir o seu coração... Não quero +entrar em partilha com Jorge... O peor quinhão seria para mim, porque +não ha nada superior a elle... Ficas? + +Julia.--Fico a scismar... Vem cá, Leocadia... sê franca, senão... não +sou tua amiga... Jorge será um impostor?... + +Leocadia.--Perguntasm'o a mim!? Eu não sei... + +Julia.--Terá tido a mesma linguagem para ambas? + +Leocadia.--Disse que te amava?... A mim... não me disse nada... + +Julia.--Então és tu que o amas? + +Leocadia.--Não... Olha, minha amiga, faz de conta que eu ouvi com +perfeita indifferença a tua revelação... Até logo... Ai!... diz-me cá... +O teu namoro é antigo... ou começou aqui? + +Julia.--Com Jorge? É muito moderno... Tem um mez... É uma creança, mas +já foi baptisado com lagrimas... + +Leocadia.--Já? Pois afaga-o muito na alma... Sê muito feliz.... que eu, +se te não felicitei mais cedo, é porque o não sabia... Vou lá dentro... +Minha mãi deve reparar n'esta ausencia... + +Julia.--Não me deixes agora que ahi vem Alvaro... É insupportavel! + +Leocadia.--Ora!... que mal te faz o homem?!... Eu volto já... Olha... +diz-lhe que amas Jorge... é impossivel que elle queira sustentar a +competencia... (_Sahe_). + + +SCENA II. + +Julia _e_ Alvaro. + + +Alvaro.--Está incommodada, snr.^a D. Julia? + +Julia.--Não, senhor. + +Alvaro.--Então está aborrecida... + +Julia.--De certo... + +Alvaro.--Menos, quando ao seu lado um certo cavalheiro de luneta... + +Julia.--Ah! o senhor vem pedir-me satisfações? É engraçada a +liberdade!... + +Alvaro.--Não lhe peço satisfações... Se as minhas palavras foram +indiscretas, seja generosa, perdoando-m'as. + +Julia.--Muitos perdões me tem pedido, snr. Alvaro!... A minha +generosidade com v. s.^a chega já a parecer-se... + +Alvaro.--Com a virtude d'uma santa? + +Julia.--Não queria dizer isso... + +Alvaro.--Queria dizer que chega a parecer-se... + +Julia.--Com um excesso de imbecil paciencia. + +Alvaro.--Isso é muito forte!... Eu não lhe mereço tanto! Nunca lhe disse +affrontas... + +Julia.--Com que direito ha-de dizerm'as? + +Alvaro.--Não tenho nenhum? absolutamente nenhum? + +Julia.--De certo, nenhum... + +Alvaro.--A paixão cega o entendimento... + +Julia.--Não é minha a culpa... + +Alvaro.--É toda... + +Julia.--Toda?... pois eu authorisei-o? Disse-lhe alguma vez que o amava? + +Alvaro.--Nunca m'o disse... porque... + +Julia.--Porque o não sentia... Que mais lhe posso dizer agora? + +Alvaro.--Depois d'isso, mais nada. (_Retira-se_). + +Julia.--Foi preciso isto... Ainda bem!... (_Ouve-se a musica d'uma +polka_. _Julia enfeita-se ao espelho com a grinalda, e sahe_). + + +SCENA III. + +Jorge _e_ Eduardo. + + +Jorge.--Tu vaes ser verdadeiro, Eduardo? + +Eduardo.--Como Epaminondas Thebano, que nem zombando mentia. Não me +lembra d'outro estafermo antigo que fallasse verdade... + +Jorge.--Tu tens algumas intelligencias com Leocadia? + +Eduardo.--Diz-me cá, Jorge, póde fumar-se aqui? + +Jorge.--Não... se queres vamos á sala debaixo... + +Eduardo.--Não posso, que tenho a sexta quadrilha com Leocadia... Diz lá +o que queres... + +Jorge.--Perguntei-te se amavas Leocadia. + +Eduardo.--Gosto muito d'ella... Depois d'um bom charuto, é o meu sonho +dourado. + +Jorge.--E ella... + +Eduardo.--Gosta de mim? não sei bem ainda... Perguntei-lh'o ainda agora +pela vigesima vez... Disse-me que sim, e é a primeira vez que m'o diz... +Se mente, lá se avenha com a sua consciencia... + +Jorge.--E é a primeira vez que te disse que sim? + +Eduardo.--A primeira, palavra d'honra, Jorge! + +Jorge.--E que conclues d'ahi? + +Eduardo.--Concluo que não gostou até hoje. + +Jorge.--E não conclues mais nada? + +Eduardo.--Nem quero. + +Jorge.--Não suppões que ella amasse, até este momento, outro homem? + +Eduardo.--Não só supponho; mas até acredito... Nada de emboscadas... +Essa diplomacia parece-me uma velhacaria rançosa... Sei que amas +Leocadia, ou, se a não amas, que a amaste já... Eu não tenho nada com o +passado, nem com o futuro... A minha grande questão é a actualidade. São +arrufos? Deixal-os ser: aqui estou eu para encher as lacunas, e tenho +n'isso muita honra... Nunca me importou saber que tentos lavravas no +coração da pequena. Vi-te fazer de Cesar, e eu fiz de Fabio. Agora, cada +um de nós segue o seu systema... E até logo... Acho que não te queres +bater... + +Jorge.--Eu não me bato por estimulos tão pouco despertadores do brio... + +Eduardo.--Fazes tu muito bem... Eu tambem zango de duellos, +principalmente por causa de mulheres... que comem _sandwichs_, e bebem +limonadas... Falla-me logo... (_Sahe_). + + +SCENA IV. + +Jorge _e depois_ Julia. + + +Jorge.--Eu tinha previsto tudo... Era necessario renunciar uma das +duas... + +Julia.--Procurava-o... + +Jorge.--Sim?... que é, Julia? + +Julia.--Diga-me: poderei confiar a Leocadia o segredo do nosso amor?... +Vacilla?... responda!... + +Jorge.--Tem precisão de confidentes? + +Julia (_sorrindo_).--Tenho, porque me não cabe a felicidade no +coração... Posso?... + +Jorge.--E é forçoso que seja Leocadia?! + +Julia.--É... preferi-a entre todas as minhas amigas... Que embaraços são +esses?! + +Jorge.--Entendo que não deve revelar a ninguem o nosso amor. + +Julia.--Sim?... porque m'o não disse?... Já agora, perdeu-se a sua +discrição... Eu disse tudo... + +Jorge.--A quem? + +Julia.--A Leocadia... + +Jorge (_á parte_).--Está explicado o enigma!... + +Julia.--Nada de monologos... falle comigo... Ora, snr. Jorge... que +necessidade tinhamos nós de corarmos um na presença do outro!? + +Jorge.--Eu não córo... A côr d'este rosto só póde alteral-a uma infamia. + +Julia.--Dê o nome que lhe aprouver ao seu acto, que eu não lhe conheço +outro... V. s.^a feriu-me, e cicatrizou-me a ferida... São boas todas as +affrontas que nos despertam a sensibilidade da honra... A lembrança do +ultraje ha-de fazer que eu esqueça a causa depressa... Fez bem... Deixou +cahir a mascara muito a tempo... (_Retira-se_). + +Jorge.--Escute-me, Julia... (_Vai sentar-se no sophá_). + + +SCENA V. + +Jorge, _e_ Eduardo, _dando o braço a_ Leocadia. + + +Eduardo.--Será isto um sonho?... Se o é, deixe-me sonhar uma hora, sim? + +Leocadia (_sorrindo_).--Tambem ha sonhos de que se acorda com a face +cheia de lagrimas... + +Eduardo (_para Jorge_).--Ainda aqui!... (_Leocadia estremece_). + +Jorge.--Ainda aqui... não estou mal... Tem dançado muito, minha senhora? + +Leocadia.--Principiei agora... + +Jorge.--Pois ainda tem muito tempo de gosar... São tres horas... Nunca +lhe esqueça que foi ás tres horas... + +Leocadia.--Não o comprehendo, snr. Jorge... Que tenho eu com as tres +horas do seu relogio? + +Jorge.--Não se finja simples como donzellinha que sahiu hontem do +collegio... + +Leocadia.--Antes uma fingida innocencia que uma descarada impostura. + +Jorge.--Não entendo. + +Eduardo.--Os senhores dizem que não se entendem, e eu de certo não os +entendo melhor. Não façam ceremonia de mim. Queiram explicar-se de modo +que eu possa reconcilial-os. + +Jorge.--Reconciliar-nos!... Não estamos divorciados... O que me prende a +esta senhora são os respeitos e considerações que se lhe devem. Em +quanto ella se não desviar da carreira d'um nobre procedimento, as +nossas relações não soffrem quebra... + +Eduardo.--Pois n'esse caso, meu caro Jorge, serás sempre o respeitador +d'esta senhora, porque os anjos não se precipitam desde que um, ha +muitos annos, teve o mau gosto de se precipitar do céo. + +Jorge (_sorrindo_).--Snr.^a D. Leocadia...... snr.^a D. Leocadia!... +(_Retira-se_). + + +SCENA VI. + +Eduardo _e_ Leocadia. + + +Eduardo.--Fallemos seriamente, minha senhora. V. exc.^a n'um momento de +ciume, dignou-se empregar-me no seu serviço como instrumento de barro, +que se quebra, feito o serviço, não é verdade? + +Ora ande lá... não perca o animo, supposto que o escarlate do pejo não +lhe fica mal... acho-a muito mais bella... Parece-me que adivinho o +segredo... V. exc.^a encontrou em flagrante delicto de ternura o +sensivel Jorge com a sensivel Julia... Ferida na sua vaidade, quer +vingar-se, e eu represento n'este negocio o _tertius_ sem o _gaudet_. +Perdoará o latim... quiz dizer que represento n'este negocio uma triste +figura... Já não é a primeira vez... Não se inquiete, que eu tambem me +não incommodo... Tire de mim o partido que quizer... + +Leocadia.--Snr. Eduardo... não devia fallar-me assim... Essas palavras +são tão repassadas de ironia... + +Eduardo.--É o meu genio... Sou um Democrito pequenino, porque tambem são +ridiculamente pequenas as cousas que me fazem rir... Ahi vem uma que me +arranca do profundo da consciencia uma legitima gargalhada. + +Leocadia.--Que é? + +Eduardo.--É a sua amiga Julia pelo braço de Alvaro, em intima +conversação... Não acha tudo isto tão comico? + + +SCENA VII. + +Leocadia, Eduardo, Julia _e_ Alvaro. + + +Eduardo (_para Alvaro, sorrindo_).--Os reis da noite somos nós, snr. +Alvaro... Logo despimos a purpura de reis de comedia, e fumamos um +pessimo cigarro do contracto... + +Alvaro.--Não entendo a finura do epigramma. + +Eduardo.--Então, é mais feliz do que eu suppunha... Póde contar com o +reino do céo... Deveras não entende? + +Alvaro.--Não, e dispenso as explicações officiosas do meu amigo... + +Eduardo (_rindo_).--Espero que á solemnidade do estilo, se não siga um +cartel de desafio... + +Leocadia.--Que linguagem!... É bem galhofeiro o seu caracter, snr. +Eduardo! + +Eduardo.--Muito galhofeiro, minha rica senhora... E alli o do meu amigo +é sombrio como o d'um encapotado de drama em cinco actos. + +Alvaro.--A verdade é que nos não parecemos... + +Eduardo.--Felizmente para o senhor ou para mim... Mas na singelesa do +coração, na temperatura do amor, ha-de permittir que sejamos parecidos +como Pylades com Orestes... + +Alvaro.--Não temos semelhança nenhuma... Eu não posso brincar com as +paixões... + +Eduardo (_áparte, a Leocadia_).--É da força de trinta Paulos; mas a +Virginia que o escuta, só com os olhos, d'aqui a pouco remette-o ao +catalogo dos Othellos em quarta mão. (_Alvaro e Julia retiram-se_). +Espero que não se baterá comigo, snr. Alvaro... Não respondeu!... +Aquelle silencio não quer dizer nada; mas, quem não conhecer o homem, +ha-de suppor que a cratera vai rebentar... Quer sentar-se, minha +senhora?... + +Leocadia.--Sim... um momento... Ahi vem Jorge. + +Eduardo.--Ah!... V. exc.^a estremece!... Muito me ama! (_rindo_). É +d'uma ingenuidade mythologica!... + + +SCENA VIII. + +Leocadia, Eduardo _e_ Jorge. + + +Jorge.--Eduardo, preciso roubar-te um instante a essa senhora... tens a +bondade! + +Eduardo.--Ah! sim... esta senhora não vai de certo queixar-se á policia +pelo roubo... + +Jorge (_a sós_).--Fazes um sacrificio deixando-me cinco minutos com +ella? + +Eduardo.--Sacrificio... nenhum; mas a decencia pede que eu não esteja +aqui servindo de sentinella á vista a um teu namoro... Ai!... espera... +eu dirijo-me a estas duas almas penadas, que ahi vem... Vou +comprimental-as, e tu, como penetrante abutre, desce o vôo sobre a +presa... (_Comprimenta duas damas, vestidas de branco, em quanto Jorge +vai sentar-se ao lado de Leocadia_). Parecem-me dous anjos, minhas +senhoras. São duas virgens de Taurida, que fazem lembrar as alvissimas +virtudes de Ephigenia... (_As damas, que elle acompanha, com gaifonas +cortezãs, retiram-se sorrindo_). + + +SCENA IX. + +Jorge _e_ Leocadia. + + +Jorge.--Que caprichos são estes, Leocadia? + +Leocadia.--Caprichos!... O sentimento d'uma offensa é um capricho?! + +Jorge.--Qual é a offensa? Uma leviandade de Julia? + +Leocadia.--A leviandade foi minha, que não quiz imital-a a ella e a +muitas, que sabem pisar os homens aos pés antes de lhes darem a mão para +que se levantem. Eu dei-lhe a minha alma sem reserva... Fiz do meu amor +um sagrado mysterio com medo que m'o profanassem. Violentei-me a +olhal-o, em publico, com indifferença, para que ninguem me invejasse. +Eram estes os seus conselhos, Jorge... Hoje é que eu comprehendo a +horrivel significação d'este plano. O senhor precisava do segredo para +agradar a muitas victimas illudidas com um só lance de olhos... Creia +que tenho tanta pena de mim como de Julia... + +Jorge.--Olha, Leocadia... se o meu crime foi grande, a tua vingança +excede-o... Não me pareces o anjo resignado que eu imaginei... O que eu +acabo de fazer foi uma experiencia na tua alma... O resultado foi +infeliz! Nunca previ que consentirias ao teu coração um arrojo +vingativo, indigno de ti... + +Leocadia.--Que fiz eu? + +Jorge.--Que fizestes tu?... É boa a pergunta!... Procuraste n'esse salão +o homem mais desacreditado, o espirito mais corrompido, o cynico mais +orgulhoso de o ser, e disseste-lhe que o amavas, sorriste angelicamente +ás suas phrases ironicas, e nivelaste-me com elle, apresentando-m'o como +rival!... Eu... rival de Eduardo!... + +Leocadia (_com vivacidade_).--Como rival... nunca! Elle não podia ser +seu rival... porque eu não tenho dous corações.... Fui imprudente... +confesso que fui; mas não pude mais... a punhalada feriu-me de repente, +não me deu tempo de pensar... disse-lhe não sei quê dos labios, mas o +coração aborrece-o, porque eu não posso amar alguem com mais virtudes do +que tu... pouco me importa que tu sejas tão cynico, tão desmoralisado +como Eduardo... Oh! Deus queira que me não ouvissem... Ahi vem Julia... +Eu retiro-me... A mãi está com os olhos fixos em mim... (_Menção de +sahir_). + + +SCENA X. + +Alvaro , Julia _e_ Jorge. + + +Julia (_passando por Leocadia_).--Muitos parabens, minha amiga... + +Leocadia.--De que? + +Julia.--Transigiste amigavelmente?... + +Leocadia.--Não sei que dizes... + +Julia (_ironica_).--Innocentinha... (_Leocadia sahe_. _Passam alguns +grupos de homens e senhoras_). + +Alvaro (_que não vê Jorge_).--Jorge não é homem talhado para o seu +coração... + +Julia.--Falle baixo, que elle está muito perto... Mas não se cale... +diga alguma cousa. + +Alvaro.--É necessario ter o coração puro de amores viciosos para +conceber a sublime candura do seu... + +Julia.--Hei-de morrer sem ser comprehendida... + +Alvaro.--Não nasceria eu para comprehendêl-a? + +Julia.--Ai! não... a minha alma é um abysmo, onde se esconde o anjo do +bem, e a serpente do mal... Tenho na mesma intensidade transportes +d'amor e odio... + +Alvaro.--Qual lhe mereço?... + +Julia.--Quer-me sincera? uma verdadeira estima de irmã... + +Alvaro.--Só? + +Jorge (_sem erguer-se do sophá_).--Ó snr. Alvaro!... Que tal acha a +eloquencia d'esta senhora? + +Alvaro.--A pergunta é celebre; todavia, responderei: a eloquencia d'esta +senhora é excellente... + +Jorge.--E v. exc.^a, snr.^a D. Julia, que tal acha a eloquencia +d'aquelle senhor? + +Julia.--Eu sou menos generosa que este cavalheiro: não lhe respondo. + +Jorge.--Responda, responda, que v. exc.^a não é responsavel pelo que +diz... + +Alvaro.--Eu não posso consentir que se affronte assim uma senhora!... + + +SCENA XI. + +_Os mesmos e_ Eduardo, _que vem passando com uma dama pelo braço, e +pára._ + + +Jorge.--Pois senão póde, resigne-se... + +Alvaro.--Tenho a optar por outro expediente antes da resignação... + +Eduardo.--Naturalmente quer bater-se... Eu sou de opinião que os meus +amigos devem cortar-se reciprocamente os pescoços ás 4 horas da tarde... + +Jorge (_sorrindo_).--Fecha lá as torneiras ao espirito, Eduardo. Aqui +falla-se seriamente... Não vês que aquelle senhor está formalisado? + +Eduardo.--Pois o senhor está formalisado? e v. exc.^a (_para Julia_) +tambem está formalisada? e a menina (_para a que tem no braço_) tambem +se formalisa?... Eu de mim, declaro-me formalisado sem saber porque. +Formalisem-se todos, desde o dono da casa até ao creado da campainha. +Isto deve acabar por hir cada um para sua casa, porque são quasi quatro +horas... não acha? + +Alvaro.--Se me dá licença... + +Eduardo.--A respeito de licenças, isso não é comigo: é com o dono da +casa... Que queria o meu amigo? quer duvidar de que a snr.^a D. Julia é +a rainha das mais formosas? (_Com escarneo_). + +Alvaro.--Snr. Eduardo, as suas zombarias são intempestivas!... Entre +cavalheiros é d'uso adoptar-se a linguagem seria e digna d'um salão... + +Eduardo.--O meu caro senhor está funebre como um mestre de cantochão... +Fallou muito bem; mas eu é que não me sinto disposto a manter a +reputação de eloquente ás quatro horas da manhã... Se me querem vêr +dormir, fallem-me em cousas serias... Diga-me cá... já tomou chocolate? + +Julia (_desprendendo-se do braço_).--Dê-me licença... Minha mana +chama-me... + +Alvaro.--Eu acompanho-a, minha senhora... (_Vão sahir_). + +Jorge.--Minha bella menina, estamos quites... D'hoje em diante cada um +de nós caminha para o seu polo diverso... + +Julia.--São indifferentes os seus passos... Caminhe para onde lhe +aprouver, snr. Jorge... (_Sahe_). + +Eduardo.--Disse que caminhasses para onde te approuvesse... Eu de mim +vou para casa... Queres vir?... É verdade... que é da transparente +creatura, que eu tinha no braço? Evaporou-se?... Deixal-a... (_Atira-se +ao sophá_). Ai que somno!... Em que pensas tu?... (_Entra um creado com +chavenas de chocolate_). Isso que é? Venha cá... É chocolate... Vm.^{ce} +não terá a habilidade de converter isto em vinho do Porto?... + +Creado.--Não, senhor... + +Eduardo.--Então vm.^{ce}, pelo que diz na sua, é um grande idiota. +(_Toma duas chavenas da bandeja_). Póde retirar-se... Aquelle senhor +está fazendo versos... (_O creado sahe_). Ó Jorge, não tens no coração +um reservatorio onde caiba uma chavena de excellente chocolate? + +Jorge.--Adeus... retiro-me... + +Eduardo.--Alto lá!... Eu preciso saber em que lei devo viver... +Reconsideraste a respeito de Leocadia? Quem é que a ama, sou eu, ou és +tu? + +Jorge.--Fallas d'ella com tão pouco respeito!... + +Eduardo.--De quem? de s. exc.^a!?... Pois eu disse alguma cousa que +possa chamar-se grosseira? + +Jorge.--Leocadia não é uma apolice que se passe com o mesmo valor de mão +em mão... + +Eduardo.--Justamente o peor que ella tem é não ser apolice, nem ao menos +acção da empreza do caminho de ferro de leste... + +Jorge.--Estás estragado!... + +Eduardo.--Do estomago? Palavra d'honra que sim! As taes sandwichs são +indigestas como um artigo de fundo... Mas do espirito estou optimo... +Ella ahi vem... Queres ficar só com ella?... Eu vou entreter Julia... +Que mais queres da minha docilidade? Um homem que faz isto não está de +todo estragado... + + +SCENA XII. + +Jorge _e_ Leocadia. + + +Leocadia.--Vou sahir, Jorge... Dê-me uma só palavra, que me salve... + +Jorge.--Que queres que eu te diga, Leocadia?... Ámanhã vou consultar a +vontade de teu pai... Queres assim tão breve o desenlace das tuas +affeições? + +Leocadia.--É muita felicidade, meu Deus. Eu não merecia tanto... E +Julia!... Coitadinha!... quanto não soffrerá ella!... + +Jorge.--Que tenho eu com Julia!... Poderia amal-a com a paixão violenta +d'uma febre... mas estimal-a com a serena amisade que te dedico, +Leocadia, isso nunca... + +Leocadia (_reparando_).--Ai!... minha mãi... não me deixa um instante... +Adeus... + + +SCENA XIII. + +_Os mesmos e_ Julia, _e depois_, Eduardo _e_ Alvaro. + + +Julia.--Espera, menina (_para Leocadia que se retira_)... São só duas +palavras... Snr Jorge... V. s.^a, não é digno d'ella, nem de mim, que +valho menos que ella... Não te felicito pela reconciliação, minha +querida amiga... D'este a Eduardo, que a sociedade chama cynico, não vai +distancia que tu não vejas desapparecer vinte e quatro horas depois de +casada... São tudo Eduardos... + +Eduardo.--Que é isso de Eduardos? Ainda falta este... Trata-se de levar +ao capitolio os Eduardos, minha senhora? N'esse caso peço que não sejam +exceptuados os Alvaros. (_Para Alvaro que entra_). + +Venha cá, meu amigo... Á vista d'este quadro, confesse que fizemos +tristissimas figuras... Aquelle senhor (_apontando Jorge_) fez monopolio +de dous corações, que nós tivemos o imbecil heroismo de conquistar ás +tres horas da noite... Sabe que mais? Olhemos para ellas, e digamos como +a raposa: «Estão verdes!» Pois não convém n'isto? + +Vozes dentro.--Vamos meninas! São quatro horas. + +Eduardo.--Nenhum dos senhores se quer bater pelo que vejo!... Boas +noites... Minhas senhoras... + +Vozes.--O ultimo _cotillon_, o ultimo. + +Eduardo (_para a viscondessa de Valbom que entra_).--O ultimo +_cotillon_, minha senhora, se não tem par... (_Retiram-se todos os +outros_). + +Viscondessa.--Eu não danço senão quadrilhas. + +Eduardo.--Faz v. exc.^a muito bem... Tem dançado muitas? + +Viscondessa.--_Un peu_... _un peu_. + +Eduardo.--Ah! V. exc.^a falla francez! Ha quantos annos aprendeu, minha +amavel senhora? Antigamente ensinava-se um francez muito solido... Hoje +é tudo pela superficie... + +Viscondessa.--É verdade; mas as bases d'uma verdadeira instrucção são os +solidos rudimentos. + +Eduardo.--Muito bem, minha senhora... O seu coração deve ser tão +sensivel como a sua cabeça é illustrada. + +Viscondessa.--O meu coração está morto. + +Eduardo.--Deveras!... Quem fará o milagre de o chamar á vida?... Eu de +certo não ousaria tão difficil empresa... + +Viscondessa.--V. s.^a zomba?... + +Eduardo.--Não zombo, porque não sei zombar com o amor... + +Viscondessa.--Falle baixo que ahi vem meu marido... + +Eduardo (_para o marido que entra_).--Snr. visconde!... estavamos +fallando na guerra da Crimea. + +Visconde.--Vai por lá o diabo... Eu acho que os alliados não mettem o +nariz em Sebastopol. + +Viscondessa.--Pelo menos em quanto a Austria e Prussia não expedirem +forças que suppram a mortandade dos inglezes... + +Visconde.--E que me diz o senhor á exportação dos bois? Cessa ou não +cessa? + +Eduardo.--A respeito de bois, não sei nada... (_reparando para fóra_) +Ahi vem tudo... Que é isto!... uma senhora desmaiada? + + +SCENA XIV. + +_Os mesmos, e_ Julia _desmaiada nos braços de algumas damas._ + + +Vozes.--Que seria? + +Coitadinha... + +Tragam agua... + +Eduardo.--Fumo de charuto não é mau... + +Visconde.--Faz favor de lhe botar um pouco de fumo pelas ventas?... + +Eduardo (_accendendo o charuto_).--Lá vou... lá vou, snr. visconde. + +Vozes.--Não é preciso... + +Julia.--É Jorge!... Jorge é o responsavel da minha vida... + +Vozes.--Ah!... + +Eduardo.--É uma maneira bonita de terminar um acto! Está tudo com a +bocca aberta... e eu tambem! (_Abrindo a bocca_). + +CORRE O PANO. + + + +ACTO II. + + _A scena é na Foz, justamente na praia dos Inglezes. Senhoras e + homens tomando banhos; outros, entrando nas barracas, horrivelmente + desfigurados, ou, antes, taes quaes a natureza os fez. Sobre os + penedos, pinhas de povo que pasmam diante dos ensaios do + salva-vidas. Estes podem dizer o que quizerem a tal respeito. O + author dá carta branca ao actor para que diga centenares de + parvoices: póde até discorrer sobre o dropp se lhe aprouver; mas o + melhor é calar-se_. + + +SCENA I. + +_Afóra estes entes nullos_, Jorge _e_ Leocadia _sentados em cadeiras_. + + +Leocadia (_fazendo SS com o guarda-sol na areia_).--Estás tão sombrio, +Jorge! + +Jorge (_fazendo TT na areia com a chibata_).--Estou optimamente. +(_Ouvem-se guinchos muito sympathicos das senhoras, que patinham no +banho_. _Alguns homens urram_). + +Leocadia.--Parece que te aborrece a Foz!... + +Jorge.--Nada me aborrece... Estou bem em toda a parte... + +Leocadia.--Niguem o ha-de dizer... Todas as minhas amigas me perguntam o +que tens... + +Jorge.--Diz-lhes que se não incommodem... + +Leocadia.--Hão-de suppor que a tua amisade para comigo foi uma illusão +desvanecida pelo casamento... + +Jorge.--A opinião é livre... Supponham o que quizerem. + +Leocadia.--Mas não consideras que eu soffro muito se ellas imaginam tal? + +Jorge.--Não me lembrava essa especie... Isso é amor proprio... + +Leocadia.--Não é amor proprio... é _dôr_ do coração... + +Jorge.--Será algum aneurisma? + +Leocadia.--É uma zombaria bem cruel!... Estranho-te, Jorge. + +Jorge.--Tambem eu me estranho... Não achas que é melhor estarmos +calados? + +Leocadia.--Calar-me-hei... + +Jorge.--E fazes bem... Estes dialogos terminam sempre mal... A +necessidade da variar a conversação é a tisica das grandes paixões... +Uma phrase repetida aborrece, por mais bonita que seja... Nós podiamos +ter sempre cousas novas a dizer, se não tivessemos gastado a inspiração +em quatro mezes de casados. Dissemos tudo... definimos tudo que nos +rodeava, e agora sentimos a dura necessidade de nos definirmos a nós... +É onde está o mal.... Tu queres que eu te repita o que te disse ha cinco +mezes, e eu zango de repetições... Não sei fazer phrases como tu fazes +punhos de camizas... Exhauri-me... Agora é necessario esperar uma nova +colheita do terreno que já deu fructo. Essas lagrimas vem muito a +proposito... (_Erguendo-se e espreguiçando-se_). Ai! que vida!... +(_Reparando_). Olá, Eduardo!... por cá? + + +SCENA II. + +_Os mesmos, e_ Eduardo. + + +Eduardo.--É verdade... Como passou, minha senhora? + +Leocadia (_disfarçando as lagrimas_).--Muito bem... agradecida... Está +bom? + +Eduardo.--Como sempre... Tenho uma saude insupportavel!... Não sou capaz +de arranjar uma dôr de cabeça, para me dar certos ares romanticos. Vejo +por ahi muitos mancebos, alquebrados no frescor da vida, e, em quanto a +mim, são infelizes creaturas que soffrem dos callos... Já tomou banho, +minha senhora? + +Leocadia.--Não tomo banho hoje. Constipei-me hontem. + +Eduardo (_para Jorge_).--E tu? + +Jorge.--Vou tractar d'isso... Ficas por aqui? + +Eduardo.--Vamos nós conversar, minha senhora... Eu hoje sinto-me com +disposição para dizer cousas muito philosophicas... (_Jorge sahe_). + + +SCENA III. + +Leocadia _e_ Eduardo. + + +Leocadia.--V. s.^a tem sempre um humor tão alegre... + +Eduardo.--Será isto idiotismo? Já me lembrou se eu seria tão doudo como +por ahi me julgam! + +Leocadia.--Quem o julga doudo?! + +Eduardo.--É toda essa sociedade... + +Leocadia.--Doudo... não!... Dizem que v. s.^a não tem persistencia em +cousa nenhuma; e escarnece tudo... + +Eduardo.--Em quanto á persistencia, é falso o que dizem, minha senhora, +e sinto que v. exc.^a, tão distincta do commum, queira ser o ecco das +opiniões vulgares da rançosa sociedade... Não sou inconstante... + +Leocadia.--A quem diz isso? Pois não sei eu a sua vida!... Só namoros, +tenho-lhe conhecido cincoenta. + +Eduardo.--Serão mais, talvez; mas... que namoros!... V. exc.^a não se +recorda de que foi meu namoro vinte minutos no baile do barão de Valbom? +(_Leocadia abaixa os olhos_). Pois os taes cincoenta namoros foram todos +assim... Não sou constante, porque não encontrei ainda uma mulher, que +possa adorar-se seriamente. Não ha paixão que o ridiculo não mate. As +minhas tem todas soffrido morte de gargalhada. + +Leocadia.--Pois não amou nunca seriamente? + +Eduardo.--Eu lhe digo, minha senhora... amei... Vou contar-lhe a minha +vida; mas só lhe digo os argumentos dos capitulos que são tres. +_Capitulo_ 1.^o Conta-se que Eduardo Leite amou diabolicamente uma +mulher, aos dezeseis annos, e fez tantas loucuras por ella, que, não +tendo mais que fazer, quiz suicidar-se com pós dos ratos, e foi uma tia +que lhe valeu com um copo de azeite... Pois v. exc.^a ri-se das minhas +desgraças!... E eu suppunha que a fazia chorar!... Estou como certo +dramaturgo que endoudeceu porque a platéa se riu justamente no pedaço +mais triste da tragedia!... + +Leocadia.--É que v. s.^a dá um colorido comico ás scenas mais tristes... + +Eduardo.--_Capitulo_ 2.^o No qual se diz que o dito Eduardo Leite fez +tristissima figura, vociferando injurias contra as mulheres, +emmagrecendo na razão inversa da hydropesia do scepticismo, e passeando +de noite nas Fontainhas, perguntando ás estrellas pela mulher dos seus +sonhos, e bebendo agua no chafariz para refrigerar o vulcão, que lhe +queimava as entranhas. Dizem-se outras muitas cousas tristes a este +respeito, como por exemplo um duello que elle teve com o seu rival, de +que lhe resultou estar quinze dias de cama, com uma bala mettida n'um +hombro. Que lhe parece o segundo capitulo? + +Leocadia (_sorrindo_).--É funebre; mas faz-lhe muita honra... + +Eduardo.--Estou por isso... É uma honra muito grande... + +Leocadia.--Pois não é? ser ferido em duello por causa d'uma senhora!... +Quem seria a ditosa? + +Eduardo.--Era a filha do meu sapateiro, minha senhora... + +Leocadia (_com seriedade_).--Não diga tal... V. s.^a não se fascinava +por tal mulher!... + +Eduardo.--Pois fascinei-me... Era linda como a edição mais nitida, que +sahiu da typographia celeste. Nos seus olhos espelhava-se a candura, e +dos labios fugiam-lhe espiritos d'azas scintillantes, como não vi em +nenhuns, excepto nos de v. exc.^a... + +Leocadia.--Dispenso a comparação... + +Eduardo.--E faz bem, minha senhora!... Ella por fim, cahiu do ministerio +a que eu a levantei, e tornou-se uma gorda matrona casada com um gordo +bate-folha, que é a minha vergonha porque teve a petulancia de luctar +comigo, e vencer-me... + +Leocadia.--E foi esse que teve o duello com v. s.^a? + +Eduardo.--Nada... foi uma segunda victima, que ainda hoje faz quadras a +uma certa visão que lhe appareceu no amanhecer da vida... E esta visão é +a sobredita filha do meu sapateiro... + +Leocadia.--A sua vida é um poema epico... E o terceiro capitulo? + +Eduardo.--É verdade, o terceiro capitulo... O terceiro capitulo... é +isto... É este riso, esta zombaria, esta conscienciosa abnegação de mim +mesmo... é a resignada docilidade com que me prestei a ser o instrumento +de v. exc.^a para ferir a vaidade de seu marido... Queira +desculpar-me... Entristeci-a? O passado, passado... Quer v. exc.^a que +eu lhe escolha duas conchinhas? (_Procurando na areia_). Aqui está uma +bem bonita... (_Reparando_). Ahi vem a sua amiga Julia... + +Leocadia (_sobresaltada_).--Ai!... vem?... + +Eduardo.--Como se dá ella com o marido, sabe dizer-me? + +Leocadia.--Não sei.. penso que não é feliz... + + +SCENA IV. + +Leocadia, Julia, _e_ Eduardo. + + +Julia.--Snr. Eduardo, se me concedesse alguns instantes com a minha +amiga... + +Eduardo.--Pois não, minha senhora... (_Sahe_). + +Julia.--São só duas palavras... Vi entrar teu marido para a barraca, e +não nos vê... Leocadia... Eu não sou mais feliz que tu... Jorge fez-nos +desgraçadas a ambas... Tu sabes que o meu casamento com Alvaro foi um +capricho que tenho sustentado com lagrimas... Mas tu não tens culpa... +Sei que não és amada... Eu tambem o não seria... Sou ainda tua amiga... +Não poderei prestar-me nunca a ser o cutello na mão do teu algoz... ahi +tens essas cartas. + +Leocadia.--Que cartas são estas?! + +Julia.--São cartas, que teu marido me escreve... + +Leocadia.--Meu marido!... + +Julia.--Sim... mais nada... adeus... (_Sahe_). + + +SCENA V. + +Leocadia, _e depois_ Eduardo. + + +Leocadia.--Vou sondando toda a profundidade do meu abysmo... Eu bem +sabia que era infeliz; mas tanto... não!... + +Eduardo.--Parece-me que a sua amiga não veio dar-lhe prazer... Tão +descorada, minha senhora! Que tem? + +Leocadia.--Nada, snr. Eduardo... É uma nuvem passageira... Queira dizer +a Jorge que me retirei... + +Eduardo.--Eu acompanho-a... + +Leocadia.--Não consinto... a minha casa é alli... + +Eduardo.--Não insto, minha senhora, para não ser importuno... (_Ella +sahe, cortejando-o_). + + +SCENA VI. + +Eduardo, _e depois a_ Viscondessa de Valbom, _com um creado de farda, +que conduz em sacco de damasco vermelho a roupa de banho_. + + +Eduardo (_accendendo um charuto_).--Ora aqui está o que são os môços +honestos, honrados, e bem comportados!... São estes dous maridos. Jorge +passa por um mancebo exemplar; Alvaro dizem que é o typo da bondade; e, +comtudo, vou descobrindo que as respectivas mulheres, se escrevessem +jornaes, estavam em opposição com os maridos. Os honrados são elles... +Eu é que sou o cynico!... Esta sociedade é uma grande patacuada!... Ahi +vem a viscondessa de Valbom. Não me larga desde aquelle baile... +(_Olhando sobre o hombro_). Ella cá está comigo... (_Erguendo-se_). +Minha querida senhora viscondessa, como passou v. exc.^a desde hontem? + +Viscondessa.--_Passablement_. Esperei-o á noite para a partidinha, e o +maganão não nos quiz honrar com a sua visita... + +Eduardo.--Urgentes negocios obrigaram-me a hir ao Porto. + +Viscondessa.--Namôro... diga a verdade... namôro... + +Eduardo.--Não, minha senhora. O meu coração está desde muito na terceira +secção... Não ha poder que o faça entrar na effectividade... + +Viscondessa.--Ora deixe-se d'isso... Eu sei que ama... e ama uma +senhora... que... digo? + +Eduardo.--Se lhe apraz... + +Viscondessa.--Não direi; mas... lembre-se de que _la proprieté n'est pas +un vol_ como diz Proudhon... + +Eduardo.--Eu acredito que a propriedade não seja um roubo, e por isso +mesmo não tento contra ella. + +Viscondessa.--Tenta, tenta... Isso não é bonito... Se quer merecer a +minha estima, não tente partir os vinculos matrimoniaes de... eu bem +sei... + +Eduardo.--E v. exc.^a acha que sou indigno da sua estima, se tentar... + +Viscondessa.--Pois não? Ha cousa mais sagrada sobre a terra?! A +reputação d'uma senhora!... (_Mudando de tom_). É verdade que muitas +vezes toda a philosophia é pouca para conter os impetos do coração... +(_Mudando para o tom da honestidade_). Ainda assim, a mulher digna +reprime-se, e faz-se superior a si propria... (_Mudando de tom_). Apesar +d'isso, eu absolvo alguns erros, que muitas infelizes commettem, porque +tem a imprudencia de tentar com a ponta do pé o desfiladeiro, e por +fim... + +Eduardo.--Escorregam... + +Viscondessa.--Justamente... + +Eduardo.--E n'esse caso... + +Viscondessa.--Está a pessoa de quem fallamos... + +Eduardo.--Nós não fallamos de pessoa nenhuma... Queria eu dizer que +n'esse caso não está de certo v. exc.^a + +Viscondessa.--Quem sabe!... (_Á parte_). Ai! o que eu fui dizer!... + +Eduardo.--Sei-o eu porque a conheço desde menino, sempre esposa +exemplar... + +Viscondessa.--Desde menino, não!... pois que annos tem v. s.^a?... + +Eduardo.--Trinta, minha senhora. + +Viscondessa.--Trinta?!... Ha-de ser isso... Não levamos grande +differença... + +Eduardo.--Queira perdoar-me, minha senhora, mas eu andava na escóla, +quando v. exc.^a deu um baile para celebrar os annos de seu filho, que +era meu condiscipulo... Ha quantos annos isto vai! + +Viscondessa (_enfronhada_).--Dê-me licença que vá ao meu banho... São +horas, e a maré principia a vasar... + +Eduardo.--Vasa, vasa, minha senhora... Será bom aproveitar a vasante... + +Viscondessa (_á parte_).--É muito grosseiro!... + +Eduardo.--Vai a resfolegar polvora pelos narizes... + +D'esta vez, creio que aboli este vinculo de nova especie!... Ahi está um +dos taes cincoenta namoros de que falla Leocadia... E é por causa +d'estas... que me chamam inconstante!... Que pessimo charuto!... Gilbert +se vivesse n'este tempo suicidava-se com um d'estes canudos de acido +prussico... + + +SCENA VII. + +Eduardo _e_ Jorge. + + +Jorge.--Leocadia? + +Eduardo.--Já lá vai... Disse que hia para casa. + +Jorge.--Dá-me lume... (_accende o charuto_). Quero dar-te um conselho, +Eduardo... + +Eduardo.--Sim?! + +Jorge.--Não te cases. + +Eduardo (_Alvaro, sem ser visto, entra n'uma das proximas +barracas_).--Deus me livre... Sendo eu, como realmente sou um cynico, +pobre da mulher que tivesse de luctar com o meu cynismo!... O casamento +é bom para ti que és um anjo de virtude, e para Alvaro que é o typo da +sisudez... Diz-me cá, és muito feliz, não és? + +Jorge.--Não. Estou cançado... Minha mulher... é uma mulher... + +Eduardo.--É _uma_ mulher? Pois louva a Deus por não serem duas... +Quantas querias tu? Aposto que estás desmoralisado como um turco?! + +Jorge.--Sempre galhofeiro... Agora serio... Tu que és homem de +expedientes, não me dizes como eu possa ser feliz com Leocadia? + +Eduardo (_ironicamente_).--Estás a zombar! Pois o anjo de virtude vem +consultar o cynico!? Não abuses da tua superioridade, Jorge... + +Jorge.--Se tu soubesses que tormentos aqui vão n'esta alma!... A paixão +allucinada que me abriu o inferno no coração!... Tenho necessidade de +respirar... Quero que tu me ouças, porque não és d'esses tartufos que +torcem o nariz á menor expansão d'um espirito atormentado!... Sabes que +amo até ao delirio uma mulher? + +Eduardo.--É a tua naturalmente... Isso é muito justo... + +Jorge.--Não é a minha... + +Eduardo.--Pois a minha tambem não... + +Jorge.--Não motejes a minha dôr... Se me não queres ouvir com seriedade, +calemo-nos... + +Eduardo.--Ora diz... + +Jorge.--Eu amo... Julia... + +Eduardo.--A mulher de... Oh escandalo!... Falla baixo que te não ouçam +os caranguejos... + +Jorge.--Não soffro o escarneo... És incapaz de comprehender um +sentimento nobre... + +Eduardo (_rindo_).--Sim... esse sentimento é muito nobre... Eu é que sou +o cynico... Tens razão... estou estragado a ponto de não comprehender a +nobreza d'esse sentimento... Prega essa moral, verás o galardão que +recebes... + +Jorge.--Não me importa a sociedade... Perco-me por aquella mulher... Era +ella quem eu amava... Casei com Leocadia por um capricho... mas a mulher +do meu coração era Julia... + +Eduardo.--E ella... concorda? + +Jorge.--Não... despresa-me... recebe as minhas cartas, e não me +responde... + +Eduardo.--Mas sempre vai lendo as cartas?... Então continúa, visto que +esse sentimento é nobre... Eu é que sou o cynico... + +Jorge.--E quem sabe o fim para que ella recebe as cartas? + +Eduardo.--Talvez para papelotes, quando se frisa... + +Jorge.--Adeus!... estás insoffrivel... Isso offende!... + +Eduardo.--Pois eu sei cá para que ella recebe as cartas? + +Jorge.--Talvez para mostral-as a minha mulher... e vingar-se assim... + +Eduardo.--Isso póde ser... A historia antiga conta tres factos +semelhantes. O primeiro aconteceu com Dido, a respeito de Eneas; o +segundo com Fredegonda... + +Jorge.--Deixa lá isso... que me importa a mim a historia?... Fazes-me um +favor?... Se fallas com ella, pódes sondal-a a meu respeito... + +Eduardo.--Sondal-a?... não sei de que modo!... Tu não sabes que o marido +é meu figadal inimigo? Só se a vir por aqui destacada do osso do seu +osso... Ella ainda agora aqui esteve com D. Leocadia... + +Jorge.--Com minha mulher! + +Eduardo.--Sim... + +Jorge.--Estou perdido!... Deu-lhe as cartas!... + +Eduardo.--Daria?! Que grande immoralidade! + +Jorge.--E por isso Leocadia se retirou... + +Eduardo.--E olha que não hia boa... Parece-me que a estas horas já ella +admirou o estilo das tuas preciosas cartas!... Olha... queres vêr +Julia?... Ella vem para aqui... Esconde-te atraz d'essa barraca, em +quanto ella te não vê... e quando passar, falla-lhe... + +Jorge (_cumpre_).--Que hei-de eu dizer-lhe?!... + +Eduardo (_sorrindo_).--Vê se ella comprehende o _o teu nobre +sentimento_... + +Jorge.--Ella não pára a ouvir-me... tu verás... + +Eduardo.--Se não parar, anda tu com ella... (_Retira-se_). + + +SCENA VIII. + +Jorge _e_ Julia. + + +Jorge.--Não tenho animo... Sou um imbecil... + +Julia (_sem o vêr, sentando-se em cadeira_).--A minha querida +vingança!... Não vim só para soffrer... Alguem ha-de soffrer comigo... + +Jorge (_dirigindo-se com irresolução_).--Animo! + +Julia (_voltando-se de repente, e erguendo-se_).--O senhor!... (_Quer +retirar-se_). + +Jorge (_sustendo-a_).--Não me fuja... + +Julia.--Retire essa mão, senhor! + +Jorge.--Esse enfado é muito pouco senhoril... Esta mão não mancha a sua +pureza... + +Julia.--Para mim tem o horror de mão que me feriu com um punhal... O +senhor não tem dignidade nenhuma... Retire-se, que meu marido póde +vêl-o. + +Jorge.--Que veja... Eu não temo seu marido... + +Julia.--Pois não o tema a elle, mas respeite-me a mim, para que a sua +posição de marido seja respeitada... (_Eduardo tem vindo por entre as +barracas esconder-se atraz da mais proxima do dialogo_). + +Jorge.--Eu já me não respeito na minha posição... Seu marido que tire +represalias, que eu sou indifferente a todos os ultrajes d'essa ordem. + +Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico... + +Julia.--Então devo acreditar que o senhor requintou em immoralidade... + +Jorge.--Acredite o que quizer... Saiba que foi uma paixão que me +perverteu... Hei-de cuspir na sociedade, visto que a não posso calcar +aos pés... Despreso todas as formalidades... Para a desesperação não ha +conveniencias a guardar... + +Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico!... + +Julia.--Pois, senhor, eu entendo que as devo guardar todas... Snr. +Jorge, tenha vergonha diante da sua propria consciencia. (_Vai +retirar-se_). + +Jorge (_segurando-a_).--Ha-de ouvir-me... Que destino deu ás minhas +cartas? + +Julia.--Entreguei-as a sua senhora. + +Jorge.--Isso foi um vil procedimento... + +Julia.--Deveria antes entregal-as a meu marido? + +Jorge.--Não tenho nada com seu marido, Julia... Não me cite tantas vezes +o nome de seu marido, que é de nenhuma importancia n'este objecto... + + +SCENA IX. + +_Os mesmos e_ Alvaro _sahindo da barraca, vestido de banho_. + + +Julia.--Ah! meu marido... + +Eduardo (_escondido_).--Isto ha-de ser bonito... + +Alvaro.--Pois, snr. Jorge, eu pensei que importava alguma cousa n'este +negocio... Isto que é? Cahiram miseravelmente n'um silencio estupido!... +Julia, tu não fallas? Snr. Jorge! não fique embuchado!... O senhor +está-me dando uma importancia, que não era a do seu programma... + +Jorge.--Esta situação é melhor que a não prolonguemos. V. s.^a vai +pedir-me uma satisfação... (_Julia retira-se_). + +Alvaro.--Está enganado... Não tenho de que lhe pedir satisfação... Faz +v. s.^a muito bem... Não lhe desagradam os olhos d'aquella senhora, e +põe os seus meios... Tudo isto é natural... Que satisfação lhe hei-de eu +pedir!... + +Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico! + +Jorge.--Acabemos, snr. Alvaro... + +Alvaro.--Tranquille-se, cavalheiro... Eu ainda não disse senão metade. +Visto que o senhor gosta dos olhos de minha mulher, eu aproveito a +occasião para lhe dizer que não desgosto dos olhos da sua. Com a +differença, porém, que eu, declarando-me a v. s.^a, dou-lhe a +importancia que v. s.^a me não deu... Visto que nos encontramos no +mercado, permutaremos os olhos de nossas mulheres. O senhor fica com os +olhos da minha, e eu com os olhos da sua... Parece-me que me vai pedir +uma satisfação... + +Jorge.--Não sei com que intenção me faz semelhante proposta... + +Alvaro.--Com a melhor intenção do mundo... É um contracto bilateral... +sem testemunhas... Eu concedo-lhe a frequencia de minha casa para v. +s.^a estudar bem os olhos de minha mulher, e o cavalheiro franqueia-me +occasiões de estudar os olhos da sua. + +Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico!... + +Jorge.--E se na sociedade se desconfia esta convenção? + +Alvaro.--Deixe-se d'isso... A sociedade, deu-nos diplomas de excellentes +pessoas... Eu creio que ambos temos a finura necessaria para +desempenharmos, sem pateada, os nossos papeis... Aqui o grande plano é +que afastemos do nosso commercio Eduardo, porque esse tem a alma +sufficientemente estragada para nos adivinhar... + +Eduardo (_á parte_).--Muito, obrigado!... Até este me dá diploma de +cynico! + +Alvaro.--Agora, meu amigo, vou tomar banho... Hoje á noite espero-o com +sua senhora em minha casa para tomarem uma chavena de chá... +(_Apertando-lhe a mão_). _Au revoir_, meu caro senhor... (_Sahem_). Ó +banheiro!... Vamos lá, que nos foge o mar... + + +SCENA X. + + +Eduardo.--Visto que eu sou o cynico, e os virtuosos são estes, passo a +ser um pouco mais virtuoso que elles, para que elles sejam cynicos como +eu... Alguma vez hei-de atinar com a virtude... A verdadeira acho que é +a d'elles... O genero não é caro... Veremos... + +CORRE O PANO. + + + + +ACTO III. + + +_Passa-se em casa do visconde de Valbom. Sala faustuosa: luxo sem gosto: +muita cadeira de estôfos amarellos: muito relogio: muita bugiaria de +vidro, de mistura com porcellanas de Sevres, e adornos d'ouro, sem +significação nem serventia_. _É noite_. + + +SCENA I. + +Viscondessa de Valbom, D. Julia, Jorge, visconde de Valbom. + + +_Um creado com uma bandeja, recebe as chavenas do chá; e retira-se_. + +Viscondessa (_a Jorge_).--A snr.^a D. Leocadia não virá? + +Jorge.--É natural que venha. + +Viscondessa.--Com o capellão? + +Jorge.--Sim... com o capellão... + +Viscondessa (_a Julia_).--O snr. Alvaro que andará a fazer? + +Julia.--Naturalmente... das suas... + +Visconde.--Das suas... isso que quer dizer?! Alvaro é o exemplo da +honradez personalisada... + +Julia.--Agradecida a v. exc.^a, snr. visconde. + +Viscondessa.--Não tem de que, menina. Seu marido é um anjo, e a +sociedade faz-lhe justiça. A reputação que elle tem grangeado é a prova +infallivel das suas virtudes. Elle, e aqui o snr. Jorge são os dous +cavalheiros mais queridos da nossa roda. Foram rapazes, sem rapaziadas. +São maridos, sem mancha, e hão-de ser sempre modêlos de probidade a +todos os respeitos. + +Jorge.--Muito grato, minha senhora. Tenho empregado todos os esforços +por merecer á sociedade um bom conceito, e creio que o tenho +conseguido... + +Viscondessa.--Porque o merece. Se o não merecesse, creia que o não +teria, porque a opinião publica é justiceira, e nunca se engana com os +bons, ou com os maus... Não se lembra da opinião que teve Eduardo? + +Jorge.--Uma pessima opinião. + +Visconde.--Oh! de certo, aquillo era um homem com uma lingua depravada, +e costumes horriveis... + +Viscondessa.--Mas vejam que lhe chegou a sua hora de reflexão. +Retirou-se completamente da sociedade; viveu tres mezes encerrado +comsigo mesmo na solidão, e voltou para o mundo completamente +desfigurado. É outro homem... + +Julia.--Totalmente outro. + +Visconde.--Faz mesmo espantar a differença que o homem fez!... + +Jorge.--É pasmosa! + +Viscondessa.--As suas palavras são todas serias, medidas, e reflectidas. +Os seus modos são circumspectos, civis, e insinuantes. O seu vestir é +muito grave, muito decente, e muito sisudo... Dizem-me que dá esmolas... +tenho lido nos jornaes alguns actos de philantropia que o honram +muito... em fim, está um cavalheiro, que não deixa nada a desejar! Vejam +o que são as cousas!... Aqui ha quatro mezes, se elle me olhasse para +uma das minhas creadas, despedil-a-hia immediatamente; e hoje, se eu +tivesse uma filha, dava-lh'a com immensa satisfação... + +Jorge.--Muito se lucra, quando se é honrado!... + +Visconde.--Pois não! Não ha nada como a honra! + +Jorge.--Oh! a honra é a salvaguarda de todas as inquietações! + +Viscondessa.--Que precipicios não encontrou Eduardo em quanto se deixou +hir á mercê dos seus extravagantes desejos!... + +Visconde.--Oh!... era insoffrivel!... Nunca se viu assim uma +libertinagem!... + +Julia.--Ouvi fallar tão mal d'esse homem, e nunca me disseram +distinctamente os seus crimes. + +Visconde.--Immensos, immensos... + +Viscondessa.--Immensissimos, immensissimos... + +Julia.--Mas posso eu saber algum d'elles? + +Visconde.--Eu não sei de nenhum; mas dizem por ahi que são muitos... +muitos... + +Julia.--E a snr.^a viscondessa sabe quaes são? + +Viscondessa.--Tambem não sei; mas, na boa roda, diziam que elle era um +prodigio de immoralidade... + +Julia.--E o snr. Jorge? Esse ha-de saber muitas cousas... + +Jorge.--Creio que ha muitas scenas horriveis na vida d'esse homem, +todavia, eu não sei nenhuma... + +Julia.--Mas vive com elle ha mais de sete annos... + +Jorge.--É verdade... mas, como elle me não chamava a testemunhar os seus +desvarios, nada sei... + +Julia.--O que se segue é que nenhum de nós sabe dizer em que consistiu a +depravação de Eduardo!... + +Viscondessa.--A sociedade não se engana, menina. Ella que o condemnou lá +sabe os motivos porque o fez. A virtude não é nunca infamada. Veja lá se +seu marido, e aqui o snr. Jorge foram victimas da calumnia!... + +Julia.--Mas eu queria que me citassem um crime de Eduardo... + +Um creado--O snr. Eduardo... + + +SCENA II. + +_Os mesmos e_ Eduardo. + + +(_Eduardo veste todo de preto. Maneiras muito acanhadas, dando-se uns +ares de virtude idiota. Uma cortezia a cada palavra. Recolhido sempre em +si, affectando uma imbecilidade moral, de fazer piedade_). + +Viscondessa _e_ visconde.--Muito bem vindo. + +Eduardo.--Como passaram vv. exc.^{as}? + +Viscondessa.--Maravilhosamente... queira sentar-se. + +Eduardo.--E a snr.^a D. Julia? + +Julia.--Um pouco affectada dos nervos. + +Eduardo.--Muito sinto, minha senhora, Deus a poupe a soffrimentos de +todo o genero... E o meu amigo Jorge... como passa? + +Jorge.--Assim, assim... + +Viscondessa.--Então! senta-se? (_Eduardo senta-se_). + +Eduardo.--Como está tua senhora, Jorge? + +Viscondessa.--Estamos á espera d'ella. + +Eduardo.--E seu marido, snr.^a D. Julia? + +Visconde.--Não deve tardar... (_Eduardo em ar de pensativo, esfregando +as costas das mãos_). + +Viscondessa.--Elle ahi vai recahir nas suas melancolias! Não o queremos +assim! Que tem? + +Eduardo.--Pesares... que vem de longe, minha senhora... + +Visconde.--O passado já lá vai... Agora v. s.^a é outro homem... Toda a +gente diz que quem o viu e quem o vê... + +Viscondessa.--Nada de tristezas. A virtude é sempre alegre... Ó menina, +vá tocar um bocadinho... Tenho notado que o snr. Eduardo está melhor +quando ouve tocar... Que quer que ella toque? + +Eduardo.--O que s. exc.^a quizer... + +Julia.--Cousas tristes? + +Viscondessa.--Não, menina! Bem triste está elle!... Toque alguma cousa +do Barbeiro de Sevilha... + +Julia.--Pois, sim... (_Vai tocar na sala immediata_). + +Viscondessa (_a Eduardo_).--Quer que vamos á sala do piano, ou quer +gosar de longe? + +Eduardo.--De longe, se v. exc.^a não manda o contrario. (_Jorge, logo +depois, segue Julia_). + +Visconde.--Muito folgamos de o vêr rehabilitado na opinião publica. + +Eduardo.--E estarei-o eu por ventura? + +Viscondessa.--Está... Veja... n'um só mez recuperou os creditos perdidos +em tantos annos... + +Eduardo.--Muito devo a Deus, porque é o contrario que costuma +acontecer... Então a snr.^a D. Julia não nós dá o prazer de a ouvirmos? +Vai-nos demorando o goso... + +Visconde.--Eu vou lá... (_Sahe_). + + +SCENA III. + +Eduardo _e a_ viscondessa. + + +Viscondessa (_com vivacidade_).--Vês como sahiu certo tudo o que eu te +disse? A sociedade é uma excellente pessoa. + +Eduardo (_mudança de tom. Ouve-se o piano_).--Tenho notado isso... Achas +que vou bem assim? + +Viscondessa.--O melhor possivel... Ponto é que te conserves... + +Eduardo.--N'este pé de virtude? Já me não desmancho... E, com effeito, +dizem que sou beato, virtuoso, martyr, contricto... + +Viscondessa.--Até o visconde está espantado da tua mudança... + +Um creado.--A snr.^a D. Leocadia, e o snr. Alvaro. (_Sahe_). + +Viscondessa.--Não sei o que me parece este grupo, a estas horas!... +Sabes que eu suspeito... + +Eduardo.--Suspeitas?!... Oh!... eu não... Facilidades da innocencia!... + + +SCENA IV. + +_Os mesmos_, D. Leocadia, _e_ Alvaro. + + +Viscondessa.--Tão tarde!... + +Leocadia.--Foi impossivel aquietar o pequeno até agora... + +Eduardo (_tornando ao tom beatifico_).--Passou bem, minha senhora? + +Leocadia.--Bem... + +Alvaro (_dá uma gargalhada_). + +Viscondessa.--Que riso é esse? + +Alvaro.--Não é nada, minha senhora... Quem toca, é minha mulher? + +Viscondessa.--É sim... se quer vá á sala... + +Alvaro.--Não, minha senhora. (_Senta-se trombudo a um canto da sala_). + +Viscondessa (_a Leocadia_).--Que terá elle? Estranho-o!... + +Leocadia.--Eu não sei... Chegou a minha casa quando eu estava para +sahir... Disse-me que me acompanhava... veio comigo sem dizer palavra... +e não sei mais nada, nem me importa... + +Eduardo (_pesaroso_).--Terá dôr de dentes? São dôres dos nossos +peccados... Deus nos acuda... + +Viscondessa.--Venha cá, snr. Alvaro!... O nosso bom amigo Eduardo, que é +o S. Paulo dos nossos tempos, pergunta se lhe doem os dentes... (_Alvaro +dá outra gargalhada_). + +Leocadia.--Ora entendam lá aquillo!... + + +SCENA V. + +_Os mesmos, e_ Julia, Jorge, _e o_ visconde. + + +Jorge (_apertando a mão de Leocadia_).--Até que finalmente... + +Julia (_apertando a mão de Alvaro_).--Com effeito... demoraste-te. + +Alvaro.--Negocios... + +Leocadia.--O pequeno não queria adormecer... (_Alvaro dá terceira +gargalhada_). + +Jorge.--Que riso é esse? + +Julia.--A que vem o destempero d'essa gargalhada?... + +Viscondessa.--Lá está outra vez mergulhado na sua melancolia o snr. +Eduardo!... Quer, talvez, mais musica... + +Eduardo.--Se não receasse ser indiscreto, pedia a v. exc.^a aquella aria +da Norma... no acto final... + +Viscondessa.--Executada por quem? + +Eduardo.--Por v. exc.^a... dá-lhe uma graça particular... Não quero +offender as duas senhoras que a desempenham habilmente; mas não sei que +toque melancolico... + +Viscondessa.--Pois sim... hirei... Vamos todos... + +Eduardo.--Se me concedesse... + +Viscondessa.--Ficar sósinho aqui?... Pois sim... fique. + +Visconde.--Eu cá fico com elle... + +Viscondessa.--Não, não... deixa-o... são necessidades organicas... Eu +tambem tenho d'estas tempestades moraes... + +Vozes.--Pois sim... pois sim... (_Sahem_). + + +SCENA VI. + +Eduardo, _e depois_ Julia. + + +Eduardo.--A gargalhada de Alvaro quer dizer muito... (_Ouve-se a aria da +Norma_). + +O maldito veria alguma cousa? Se viu, lá vai a terra todo o meu edificio +de virtude... Dizem que ella é facil, eu vejo-me illaqueado n'uma rede +tal, que se me descobrem não sei por onde hei-de evadir-me... Que pena +se me não deixam ser honrado!... Tenho, só n'um mez, colhido tantas +palmas de virtude, que, passados tres, n'este andar, eu todo seria um +palmito... + +Julia (_agitada_).--Eduardo... + +Eduardo.--Julia... + +Julia.--Pelo amor de Deus, desvanece-me d'uma suspeita que me +despedaça... + +Eduardo.--Que é?! + +Julia.--Tu amas Leocadia. + +Eduardo.--É falso... + +Julia.--Mas ella adora-te com delirio... + +Eduardo.--Que culpa tenho eu? + +Julia (_tomando-lhe a mão com frenesi_...)--Não me sacrifiques a ella... +a nenhuma... porque nenhuma te amará tanto... + +Jorge (_ao fundo_).--Isto é espantoso!... + +Eduardo.--Não vês que represento um papel hypocrita, tão contra o meu +caracter, para te não perder? + +Jorge (_o mesmo_).--É incrivel!... + +Julia.--Conheço tudo... meu anjo... Vou á sala... póde notar-se a minha +falta... + + +SCENA VII. + + Eduardo , _e depois_ Leocadia, _e depois o_ Visconde _na porta do + fundo sem ser visto_. (_Ouve-se ainda a musica da Norma_). + + +Eduardo.--Tornemos á posição do benemerito Tartufo. Oh meu querido +Moliere, onde quer que estás recebe os meus agradecimentos pelo +excellente molde que me cá deixaste! + +Leocadia (_impetuosamente_).--Eduardo... só duas palavras... Olha que +Alvaro viu-te sahir de minha casa... + +Eduardo.--Viu?! estão explicadas as gargalhadas... + +Leocadia.--Receio maus resultados... Elle é capaz de tirar qualquer +vingança... Oh meu Deus!... estou sobre um vulcão... + +Eduardo.--E eu dentro d'uma tina... Deixa correr os successos... Vai, +que podem descobrir-nos... + +Visconde (_á parte_).--Como se explica isto? + +Leocadia.--Que has-de tu dizer se elle nos denuncia? + +Eduardo.--Provo que não sou mais immoral que elle... As pretenções são +as mesmas... + +Visconde.--Isto é bonito!... (_Retira-se_). + +Leocadia.--Que situação a minha!... + +Eduardo.--Retira-te, que podem surprehender-nos... (_Leocadia sahe_). + + +SCENA VIII. + +Eduardo, _e depois a_ viscondessa, _e_ Alvaro _ao fundo_. + + +Eduardo.--Atropellam-se os acontecimentos!... Tudo isto faz persuadir +que eu tenho sido um homem verdadeiramente virtuoso! No tempo em que eu +era cynico, antes que a sociedade me chamasse regenerado, as mulheres +não andavam assim n'uma dobadoura em redor de mim! Ó benevola opinião +publica, quanto te devo!... Ahi vem outra que me não faz muita honra!... + +Viscondessa.--Aproveitei um instante para estar só comtigo antes que +elles venham... + +Eduardo.--Como és carinhosa! + +Viscondessa.--Desconfiei que Leocadia tivesse vindo para aqui... Sabes +que tenho ciumes de todas as mulheres!... + +Alvaro (_á parte_).--Que ouço!... + +Eduardo.--Continuo a representar bem? A platea applaude?... + +Viscondessa.--O visconde disse-me n'este momento que tinha muito que +contar-me... perguntei-lhe a que respeito... e elle de fugida pronunciou +o teu nome e de Leocadia... + +Alvaro (_aparte_).--E Leocadia!... + +Eduardo.--E Leocadia!... Como se entende isso?... + +Viscondessa.--Não sei... Mudemos de tom que elles ahi vem... + + +SCENA IX. + +_Os mesmos, e_ Julia, Alvaro, Jorge _e_ Leocadia. + + +Viscondessa (_com emphase_).--Pois não queremos uma virtude assim +melancolica... É necessario que resurja d'esse abatimento moral, snr. +Eduardo... A verdadeira felicidade está na consciencia. O seu passado +não tem a pedir contas ao seu presente... A sociedade abre-lhe o braços +como ao filho prodigo... (_Alvaro solta uma risada_). + +Que riso é esse, snr. Alvaro? + +Alvaro.--É um riso nervoso!... + +Eduardo (_á parte_).--Mau!... + +Leocadia.--Não tem razões para tanta melancolia!... É estimado +geralmente pelas suas virtudes, e merece a confiança de todas as +pessoas... (_O visconde solta uma risada_). + +Que risada é essa, snr. visconde? + +Visconde.--É uma risada como a d'aquelle senhor (_apontando Alvaro_). É +uma risada nervosa! + +Eduardo (_á parte_).--Peor!... + +Julia.--Parece que escarnecem a virtude!... Estas transfigurações moraes +custam muitas amarguras... Eu comprehendo a melancolia do snr. +Eduardo... Lembra-se do que foi, e, no prazer do que é, sente pesar de o +não ter sido desde muito... (_Jorge solta uma risada_). + +Tambem o senhor se ri? + +Jorge.--É uma risada como a d'aquelle senhor... (_apontando Alvaro_) é +uma risada nervosa... + +Eduardo (_á parte_).--Está tudo por terra!... (_Alto_). Vejo que os meus +amigos estão muito nervosos!... Banhos de mar podem ser-lhes +proveitosos... Não acho bonito que me escarneçam... Fazem-me lembrar a +fabula do leão e do... Em fim, seja tudo em desconto das minhas +culpas!... (_Riem todos tres_). + +Ora comprehendam isto!... É um abuso do riso!... Eu não lhes mereço +isso, senhores! Dizem por ahi que eu sou um honrado homem, e não se +cospe assim na honra... + +Jorge (_á parte_).--Vou-lhe arrancar a mascara!... + +Visconde (_á parte_).--Hypocrita! + +Alvaro (_á parte_).--O impostor não passará d'hoje... + +Viscondessa.--Que falsa posição é esta? + +Leocadia.--Não entendo isto! + +Julia.--Nem eu! + +Eduardo.--Nem eu!... + +Viscondessa.--Que modos são esses!... em que pensam os senhores?... + +Alvaro.--Eu pensava nos recursos do talento depravado!... Senhores!... é +necessario que se acabe este comedia d'algum modo!... Aquelle senhor +(_indicando Eduardo_) é um impostor! + +Eduardo.--Eu! Calumnia! infamia... quero as provas... + +Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia que as dê... + +Visconde.--Justamente: a snr.^a D. Leocadia que as dê!... + +Jorge.--Minha mulher!... + +Leocadia.--Eu! + +Eduardo.--Ella!... + +Alvaro _e_ Visconde.--Sim! ella!... + +Jorge.--Pois bem... cáia a mascara... Esse senhor é um infame seductor! + +Eduardo.--Eu! + +Viscondessa.--Elle! + +Jorge, Visconde, _e_ Alvaro.--Sim, sim, elle! + +Eduardo.--Provas, senhores calumniadores! + +Jorge.--Provas? a snr.^a D. Julia que as dê! + +Alvaro.--Minha mulher! + +Julia.--Eu! + +Eduardo.--Ella! + +Jorge _e_ Visconde.--Sim, sim, ella! + +Alvaro.--N'esse caso... rasgue-se o véo do mysterio... Todos somos +victimas da hypocrisia d'esse homem! + +Visconde.--Menos eu! + +Viscondessa.--Nem eu! + +Eduardo.--Provas, senhores! + +Alvaro.--Provas? a snr.^a viscondessa que as dê. + +Visconde.--Minha mulher! + +Viscondessa.--Eu! + +Eduardo.--Ella! + +Alvaro _e_ Jorge.--Sim, sim! + +Eduardo.--Todas tres!... + +Alvaro (_para Julia_).--Responde! + +Jorge (_para Leocadia_).--Que dizes a isto? + +O visconde (_para a viscondessa_).--Pois não te defendes? + +Todas tres.--É falso!... + +Eduardo (_mudando de tom_).--Eu vou defendêl-as, minhas senhoras! + +Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia não tem defeza nenhuma, porque... + +Eduardo.--Silencio! + +Jorge.--A snr.^a D. Julia não tem defeza nenhuma, porque... + +Eduardo.--Esperem!... + +Visconde.--Concordo que nenhuma d'essas tem defeza!... mas é preciso que +me provem que... + +Eduardo.--Alto lá... Queiram retirar-se, minhas senhoras... É defeza a +presença das rés no tribunal que vai installar-se... Queiram +retirar-se... (_Ellas sahem_). + + +SCENA X. + +Eduardo, Jorge, Alvaro, _e o_ Visconde. + + +Eduardo.--Venham cá... Os senhores não tem ouvido dizer que eu me +regenerei? Respondam, sim ou não? + +Alvaro.--Qual _regenerou-se_! É um impostor!... + +Eduardo.--Concordemos em que sou um impostor. Mas digam-me: a opinião +publica a meu respeito é essa? + +Visconde.--Não é... porque o senhor enganou-nos. + +Eduardo.--Pois, se não é, porque não respeitam os senhores a opinião +publica á qual me mandaram obedecer? + +Visconde.--Já lhe disse que a opinião publica está illudida com o +senhor! + +Eduardo.--E d'antes? ha quatro mezes era mais verdadeira que hoje? + +Jorge.--Não quero disputas... Não respondo ao seu interrogatorio... +Quero uma satisfação immediata. + +Alvaro.--E eu tambem. + +Eduardo.--E o snr. visconde? + +Visconde.--Veremos, depois... + +Eduardo (_sorrindo_).--Acha que não vale a pena decidir já... Pois lá +hiremos... Mas, antes d'isso, queiram attender-me: os senhores, com uma +bala, em duello, podem matar-me, primeira loucura; e, se me não matam, +arruinam a minha boa reputação, que eu aprecio mais que a vida; segunda +asneira... Que lucram os senhores com isto? + +Alvaro.--Nada de philosophias!... É indispensavel para a minha honra um +duello... + +Jorge.--Não prescindo. + +Eduardo.--Pois se não prescindem, lá vamos... Mas os primeiros que +hão-de bater-se um com o outro, são os senhores! (_Indicando Alvaro e +Jorge_). + +Alvaro _e_ Jorge.--Nós?!... + +Eduardo.--Os senhores... + +Alvaro.--Porque?! + +Eduardo.--Porque teem trabalhado reciprocamente na sua deshonra. + +Jorge.--Isso é uma nova infamia! + +Eduardo.--Mãos na consciencia, meus amigos! O contracto feito ha quatro +mezes na praia dos Inglezes não os exime de serem honrados! + +Alvaro _e_ Jorge.--Na praia dos Inglezes!... + +Eduardo.--Querem explicações?... Vejam lá o que resolvem... Querem +explicações?... Que dizem?!... Esse silencio annuncia bonança... +Aproveitemos o vento que é favoravel... Concordam em que occultemos +mutuamente as nossas miserias? Eu de mim... (_Comprime os labios com os +dedos_...) Os senhores, se -----File: +245.png---\psaborano\zurc\Manela\psaborano\luisa\---------------são +honrados como a opinião publica os apregôa, calem-se tambem... + +Visconde.--Mas eu é que não entro n'esse contracto... + +Eduardo.--Nem lh'o propuz... mas, v. exc.^a contando com o silencio +d'estes cavalheiros, de certo não quererá uma ignobil publicidade a +respeito de... Veja lá o que resolve... + +Visconde.--Mas v. s.^a não ha-de entrar mais em minha casa... + +Eduardo.--D'accordo. Amanhã embarco para a exposição de Pariz, e +tenciono viajar tres annos... Serve-lhe a condição?... O silencio +approva... Muito bem... (_Ao fundo_). Minhas senhoras! queiram +entrar!... (_As damas entram_). Vv. exc.^{as} foram julgadas +innocentissimas e absolvidas... Continuamos todos a ser excellentes +pessoas a todos os respeitos. Estes senhores, de parte a parte, pedem +perdão das calumnias sordidas com que quizeram reciprocamente manchar os +seus nomes... + +Viscondessa.--Assim o suppuz! + +Julia.--Assim devia acontecer! + +Leocadia.--Mas eu não perdôo a quem me infamou! + +Viscondessa _e_ Julia.--Nem nós! + +Eduardo.--Hão-de perdoar, que são muito boas senhoras, e o perdão das +injurias é o sentimento mais nobre do coração humano... Eu retiro-me com +os meus creditos, e vv. exc.^{as} ficam com os seus... Muito boas +noites... (_Sahe_). + + * * * * * + +Os outros, como é natural, ficam a olhar uns para os outros com aquellas +caras proprias de taes conflictos. O author vem fóra dizer que não ha na +comedia allusões nenhumas. A platéa retira satisfeita, e continúa a +guardar-se dos cynicos. + +No dia seguinte os jornaes dizem que a comedia é immoral, e attentatoria +contra os bons costumes. Os Sganarellos mandam comprar o jornal, e +mostram-no aos compadres. O author, conscio de que o mordem, vem no +conhecimento de que os mordentes são os legitimos _Orgons_ d'este +seculo; mas, um pouco menos felizes que os d'uma grande comedia, que o +leitor, se se não recorda, ou não leu nunca, póde encontrar com o titulo +de _Tartuffe_. Se, todavia, detesta a letra redonda, estude a vida +pratica, e chegará á mais difficil das formaturas, ao _ultimatum_ da +sabedoria: «o conhecimento dos homens.» É tão facil, ao primeiro +intuito, estremar o cynico do hypocrita!... Dai-me o primeiro, que +repellis, e não me relacioneis com o segundo, que abraçaes: que eu, +profundamente grato, ficarei pedindo a Deus que vos augmente o dinheiro, +e vos conserve uma saude bem vermelha, bem gorda, para que a virtude não +seja sempre uma irrisão n'este planeta. Disse. + +FIM. + + + + +INDICE. + + +Morrer por capricho (romance) 5 +Uma paixão bem empregada (romance) 25 +De abysmo em abysmo (romance) 35 +Aventuras d'um boticario d'aldêa (romance) 41 +Cousas que só eu sei (romance) 55 +Dinheiro! dinheiro! (romance) 109 +A caveira (romance) 131 +Uma praga rogada nas escadas da forca (romance) 155 +Pathologia do casamento (drama em 3 actos) 183 + + + + +Notas: + +[1] Systema pathologico do snr. Borges de Castro, facultativo distincto, +na cidade do Porto, em 1853. + +[2] Escripto em 1853. + +[3] ....... + + + + + +End of Project Gutenberg's Scenas Contemporaneas, by Camilo Castelo-Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS CONTEMPORANEAS *** + +***** This file should be named 23203-8.txt or 23203-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/3/2/0/23203/ + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +book was produced from scanned images of public domain +material from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. |
