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diff --git a/23203-h/23203-h.htm b/23203-h/23203-h.htm new file mode 100644 index 0000000..ca218ef --- /dev/null +++ b/23203-h/23203-h.htm @@ -0,0 +1,15206 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Scenas Contemporaneas</title> + + + <meta content="Camilo Castelo Branco" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote { +margin-left: 5%; +margin-right: 5%;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:20%;} +.poetry1 {margin-left:25%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Scenas Contemporaneas, by Camilo Castelo-Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Scenas Contemporaneas + +Author: Camilo Castelo-Branco + +Release Date: October 26, 2007 [EBook #23203] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS CONTEMPORANEAS *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +book was produced from scanned images of public domain +material from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<br /> + +<br /> + +<h1>SCENAS CONTEMPORANEAS. </h1> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<div style="text-align: center;"><br /> + +<h1>SCENAS CONTEMPORANEAS </h1> + +POR<br /> + +<h2>CAMILLO CASTELLO-BRANCO. </h2> + +<h3>2.ª EDIÇÃO. +<br /> + +<br /> + +</h3> + +<h3><br /> + +</h3> + +<h3><br /> + +<br /> + +PORTO:<br /> + +EM CASA DE CRUZ COUTINHO―EDITOR,<br /> + +Rua dos Caldeireiros<br /> + +n.<sup>os</sup> +18 e 20.<br /> + +</h3> + +<h3>1862.</h3> + +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<hr /> +<div style="text-align: center;">Porto―TYPOGRAPHIA DE +ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA,<br /> + +<em>Rua da Cancella Velha n.º 62.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="C1"></a>MORRER POR CAPRICHO. </h2> + +<br /> + +<h3>I. </h3> + +<br /> + +Os meus amigos, de certo, não sabem o que é +caçar coelhos na neve?<br /> + +<br /> + +Não admira.<br /> + +<br /> + +Imaginem-se em qualquer aldêa, nas visinhanças do +Marão. Olhem em redor de si, e contemplem o quadro que os +viajantes na Suissa lhes descrevem todos os dias, supposto que nunca +sahissem da sua terra.<br /> + +<br /> + +A primeira impressão que recebem é a do assombro. +Leguas em roda, nem na terra nem no céo, se descobre uma +crista de rochedo, a frança d'uma arvore, a dobra d'uma +nuvem, que não seja branca, alvissima, desde um horisonte a +outro horisonte.<br /> + +<br /> + +E, depois, ha ahi em toda essa natureza amortalhada um silencio +funebre. Não cantam as aves, não balam os +cordeiros, não silva o buzio de pegureiro, +não soam nas quebradas as campainhas da arreata de machos.<br /> + +<br /> + +Se ouvis um rugido assobiado ao qual respondem outros, não +vos afasteis para longe da casa d'onde +presenceaes, com o coração confrangido, esta +scena. +É uma alcatéa de lobos, que descem famintos da +serra, e <span class="pagenum">[6]</span> +serão capazes de vos hirem buscar á cozinha, onde +naturalmente tiritaes de frio, sentados ao pé do +tóro de carvalho.<br /> + +<br /> + +Faço-vos esta recommendação porque +sois uns homens afeminados, que nunca sahistes dos salões, +dos botequins, dos theatros, e das praças. Aposto que se +desseis de face com um lobo, de garras arqueadas, e fauces inflammadas, +antes que o lobo vos désse o cordial abraço da +fome, já vós tinheis perdida +a sensibilidade, e consciencia da vida, e até o direito que +todo o homem tem de matar não só o seu +semelhante, mas até um lobo, em justa defeza!<br /> + +<br /> + +Se eu podesse contar com o vosso animo, aconselhar-vos-hia, que em uma +d'essas manhãs de neve, com meio covado de altura nos +terrenos chãos, tomasseis um cajado, e, com duas finas +cadellas de coelho, fosseis dar na serra um passeio d'algumas horas.<br /> + +<br /> + +O peor que podia succeder-vos era o desvio do caminho, que +só com muita pratica se acerta, e, quando mal vos +precatasseis, resvalar n'um abysmo de neve, onde nem as orelhas de +fóra dissessem ao passageiro que um moço, a todos +os respeitos excellente, fôra +alli absorvido por um sorvete dos que a natureza offerece aos amantes +de refrescos, com menos economia que o +<em>Guichard</em>.<br /> + +<br /> + +Afóra este inconveniente, ainda ha o dos lobos, que muitas +vezes tomam conta das nossas cadellas, devoram-nas com uma +perfeição e rapidez fabulosas, e, quando Deus +quer, fazem dos nossos corpos um supplemento nutritivo ás +nossas cadellas, deixando-nos a alma por muito grande obsequio.<br /> + +<br /> + +O terceiro percalço, affecto á caça do +coelho na neve, aconteceu-me a mim, ultimo dos mortaes, em 26 de +Dezembro de 1844.<br /> + +<br /> + +É o que tereis a bondade de procurar saber no capitulo +seguinte.<span class="pagenum">[7]</span><br /> + +<br /> + +<h3> +II. </h3> + +<br /> + +Fui convidado por alguns amigos a acompanhal-os á serra, +porque o sol refrangia-se em scintillas na neve, que parecia +desfazer-se em laminas de prata.<br /> + +<br /> + +Fui muito contente da consideração que se me +dava, como caçador, porque, em verdade vos digo, atirei com +certeiro olho a perdizes e galinholas. Se nunca matei nenhuma, o que +tambem é verdade, deve-se á pessima polvora das +nossas fabricas. Em +compensação, matei muito melro e tordo nas +serdeiras, e consegui matar de noite uma coruja, africa que muitos +caçadores famosos de certo não fizeram. Eu fui um +grande homem antes de escrever folhetins! Deus perdôe a quem +me torceu a vocação! Eu podia, a estas horas, ser +um habil corredor de lebres, e assim tornei-me a lebre dos galgos +sociaes.<br /> + +<br /> + +Estes galgos sociaes, meu leitor, se tu és um d'elles, +permitte-me dizer-te que tens o faro muito descaçado, e que +eu hei-de saltar por cima de ti, quando cuidares que me abocas. Se +não és galgo, sensato +amigo, aqui rasgo o diploma de tolo, que te concedi, sem te levar +direitos de mercê.<br /> + +<br /> + +Agora, vai entrar a historia direitinha até ao fim.<br /> + +<br /> + +<h3> +III. </h3> + +<br /> + +Subimos á esplanada da serra. Eramos seis. Dividimo-nos em +tres grupos, e combinamos em nos darmos signaes com tiros no caso de +nos perdermos encobertos pelo nevoeiro, que poderia de improviso +esconder-nos<span class="pagenum">[8]</span>os +cabeços das serras, unicas balizas que nos serviam de guia.<br /> + +<br /> + +Assim combinados, cada grupo, com dous cães, seguiu as +pégadas dos coelhos impressas de fresco na neve. Eram +muitos, e morriam á pancada, porque os pobresinhos alapados +debaixo das urzes, se fugiam, eram logo mordidos pelos cães; +se esperavam eram apanhados á mão. Alguns, mais +previdentes, tinham +emigrado para as fundas colheitas, formadas pelas sinuosidades +interiores dos penedos agglomerados. A estes perseguia-os o +furão, que eu levava no meu cacifo, desalapava-os, e os +cães, farejando as avenidas da colheita, +recebiam-os nos dentes, sacudiam-nos com o rancor do instincto, e +atiravam-nos mortos aos nossos pés.<br /> + +<br /> + +Andamos assim uma hora, tão entretidos, tão +esquecidos do mundo, que nunca tão distrahida hora eu tive +na minha vida, a não ser aquellas em que durmo, e sonho que +hei-de tornar áquelles meus dias de candura, depois de lidar +muito com a innocencia d'estas angelicas creaturas, que vestiriam, por +innocentes, como Adão e Eva, se a serpente lhes +não dissesse que +andavam indecentes.<br /> + +<br /> + +Ao cabo d'essa hora, toldou-se o ar, e cahiu uma segunda camada de +neve.<br /> + +<br /> + +O meu companheiro quiz logo voltar sobre os seus vestigios, porque +(dizia elle) d'aqui a minutos as nossas pégadas +estarão cobertas, e não +saberemos caminhar para o nascente nem para o poente.<br /> + +<br /> + +―Eu, por ora, não vou―lhe disse eu.<br /> + +<br /> + +―Porque?<br /> + +<br /> + +―Estou bem aqui. Acho muita poesia n'este quadro. Imagino que esta +chuva de neve se transforma em chuva de fogo... Este nevoeiro, que rola +em ondas aos nossos pés, e sobre a nossa cabeça, +afigura-se-me +o fumo do grande incendio no juizo final! Olha... não te +parece que o vento espalha já as cinzas d'uma grande +<span class="pagenum">[9]</span>cidade! +Não vês Sodoma lá em baixo +vomitando columnas de fumo?...<br /> + +<br /> + +―Eu não vejo nada... Acho de muito mau gosto as tuas +visões... vamos embora...<br /> + +<br /> + +―Vai tu... e quando encontrares os nossos companheiros, dá +um tiro, que eu lá vou ter. Estou bem aqui; não +me mudo por cousa nenhuma.<br /> + +<br /> + +―Até logo.<br /> + +<br /> + +<h3> +IV. </h3> + +<br /> + +E eu continuei a vêr as minhas visões.<br /> + +<br /> + +Parece-me que, por esses tempos, fui poeta, muito poeta, em +elevações d'alma para cousas de +imaginação, que não era esta fria +imaginação, que +tenho hoje.<br /> + +<br /> + +Absorvido no meu quadro do juizo final, que só uma phantasia +abrasada poderia dar-me, transfigurando a neve em fogo, ouvi um tiro, e +não fiz caso. Ouvi segundo, e senti um piedoso desdem por +aquelles homens, prosa vil, que não tiravam partido do +grandioso panorama, que a mão liberal da natureza +desenrolava diante de meus olhos absortos.<br /> + +<br /> + +Não sabeis que o nevoeiro embriaga?<br /> + +<br /> + +É uma verdade. A cabeça enfraquece; nos ouvidos +ha um zunido, que vos faz perder o rumo. Sentis uma +sensação desagradavel, semelhante á do +giro penoso em que a indigestão do vinho vos traz a +cabeça +vertiginosa.<br /> + +<br /> + +Foi o que eu senti, quando me furtei ás minhas +contemplações improprias do tempo e do lugar.<br /> + +<br /> + +Ergui-me, e não sabia já designar a +direcção que levára o meu companheiro, +nem o ponto onde se deram os tiros. Desfechei a minha clavina, mas a +humidade inutilisára a escorva. Os cães, que +poderiam +ensinar-me o caminho, tinham seguido o meu companheiro. Não +desanimei.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[10]</span> +Tal direcção pareceu-me que deveria ser a melhor, +e segui-a. O nevoeiro deixava-me vêr apenas o +espaço que pisava. Atravessei a lombada da serra, e comecei +a descer. Escorreguei muitas vezes nos algares da encosta, e senti a +neve pela cintura. Gastei duas horas, tres, quatro, descendo, descendo, +sem encontrar uma +povoação. Conheci que estava perdido. A neve +augmentava. A noite aproximava-se, e nem um symptoma de vida! +Então, sim; tive medo, e imaginei que a minha sepultura, sem +solemnidade alguma, deveria encontral-a brevemente no estomago d'algum +lobo.<br /> + +<br /> + +E, de mais a mais, eu tinha fome.<br /> + +<br /> + +Todos os provimentos, que eu levava na minha rede, eram um +pedaço de brôa para o meu +furão. Reparti-o entre nós. O animalsinho comeu +com appetite, e pilhando-se solto, como o seu officio era desemlapar +coelhos, entrou na primeira lura que viu, e fez saltar fóra +um gato bravo, que espirrava diabolicamente por cima dos tojos coroados +de neve.<br /> + +<br /> + +Nunca me esqueceram os espirros d'este gato bravo!<br /> + +<br /> + +Continuei o meu caminho, sem esperanças de encontrar +pousada.<br /> + +<br /> + +Escureceu.<br /> + +<br /> + +Encostei-me, desalentado, a um castanheiro, e fiz da minha pobre +cabeça uma cabeça academica.<br /> + +<br /> + +Pensei muito, estabeleci varios raciocinios, que conspiraram em +provar-me, que, perto d'alli, devia existir uma +povoação, por isso que os +castanheiros, campos, e paredes eram indicios de aldêa +proxima. N'este comenos, ouvi um mugido de boi, e em seguida uma +sineta, que tocava ás «Ave-Marias.»<br /> + +<br /> + +Aquellas tres badaladas ergueram a Deus o meu espirito reconhecido. +Orei com a devoção dos +dezoito annos. Não vos digo mais nada a este respeito, +porque me não entenderieis. Sois excellentes pessoas para +devorar <span class="pagenum">[11]</span> +um romance em dez volumes; mas não lerieis, sem abrir tres +vezes a bocca, uma pagina de sentimentos embalsamados do aroma do +céo, que o poeta não deve nunca profanar, +misturando-os a frioleiras d'uma historia, ao alcance de todas as +capacidades.<br /> + +<br /> + +Eu creio que entre vós ha entendimentos muito finos, +paladares muito apurados no sabor do bello, +corações muito brandos para +emoções suaves. Creio que sim; mas o melhor +é fazer de conta que os não ha. +<br /> + +<br /> + +<h3>V. </h3> + +<br /> + +Minutos depois, achava-me n'uma povoação, onde +nunca estivera. Encontrei uma velha que castigava um porco, rebelde +á invocação de sua ama, +com uma roca.<br /> + +<br /> + +Perguntei-lhe que povo era aquelle.<br /> + +<br /> + +―Alpedrinha―disse ella.<br /> + +<br /> + +Ora, Alpedrinha distava duas leguas e meia de minha casa. Era +necessario pernoitar alli. Perguntei á dita velha onde +morava o parocho. Mostrou-me a casa. Pedi gasalhado ao reverendo, que +n'esse momento voltava da igreja. Disse-me que subisse. Quiz saber quem +eu era, e tratou-me delicadamente, quando lhe citei um medico, pessoa +de minha familia.<br /> + +<br /> + +O snr. padre Joaquim era um padre admiravel. Tinha maneiras da +côrte. Vestia com muita limpeza. Fallava com prodigiosa +correcção, e offerecia aos +seus hospedes aguardente e biscoutos, tudo do melhor, e servido em bons +crystaes e polida salva de prata.<br /> + +<br /> + +Momentos depois que eu chegára, apeou á porta do +meu sympathico sacerdote um cavalleiro, ainda moço, muito +pallido e magro, com chapéo hespanhol, faxa vermelha, e +botas d'agua.<br /> + +<br /> + +Era um estudante de Coimbra, que voltava doente <span class="pagenum">[12]</span> para +sua casa, e costumava pernoitar em Alpedrinha, com aquella familia.<br /> + +<br /> + +A primeira pergunta do academico foi esta:<br /> + +<br /> + +―Como está a snr.<sup>a</sup> D. Amelia?<br /> + +<br /> + +―O mesmo...―respondeu padre Joaquim.<br /> + +<br /> + +―E seu mano? Tem vindo a casa?<br /> + +<br /> + +―Não senhor: desde que foi delegado para * * *, ha tres +mezes, não voltou....<br /> + +<br /> + +Eu estava ancioso por conhecer a snr.<sup>a</sup> D. +Amelia, porque +até ao momento em que o estudante chegou, suppunha eu que +toda a familia do parocho se limitaria a alguma ama, e alguns +pequenitos, que, de ordinario, são afilhados do padre. +Depois das perguntas do meu illustre companheiro de hospedagem, fiquei +sabendo que n'aquella casa existia uma snr.<sup>a</sup> D. +Amelia, e um senhor +delegado de * * *.<br /> + +<br /> + +Padre Joaquim contou ao academico as minhas aventuras de +caçador; disse-lhe que me tinha achado muito fino +(referia-se naturalmente á magresa), e fez a apologia dos +meus olhos, que, naturalmente, revelavam uma extraordinaria esperteza, +espiritualisados pelo espirito de vinho, que o sacerdote me injectou +nas veias marasmadas pelo frio.<br /> + +<br /> + +Conversei com o academico. Perguntei-lhe muitas cousas de Coimbra: +quantos canellões soffria um calouro; o calculo aproximado +dos puxões de orelhas; a solemnidade indecente de certo vaso +na cabeça.... &c. +&c.<br /> + +<br /> + +O academico respondia-me com muito agrado, e offerecia-se para meu +protector em Coimbra, no anno seguinte, que devia ser o da minha +partida.<br /> + +<br /> + +<h3> +VI. </h3> + +<br /> + +―Snr. Valladares―disse o padre ao estudante―minha +<span class="pagenum">[13]</span>cunhada ergueu-se +da cama para vir comprimental-o...<br /> + +<br /> + +―É uma grande consideração, que eu +lhe não mereço; mas a delicadeza da snr.<sup>a</sup> +D. +Amelia é +sempre um severo preceito que ella se impõe.<br /> + +<br /> + +Fallou bem.<br /> + +<br /> + +N'isto, entrou uma senhora, com um ar de tanta nobreza, que me pareceu +uma cousa nova. Eu não conhecia assim nenhuma. Era alta, +muito magra no rosto, mas muito bella nos olhos, nos labios, nos +cabellos, em tudo se via tanta formosura, tanto donaire, um senhoril +tão estreme do vulgo, que eu, creança e poeta, +senti-me tão acanhado como o mais boçal dos +pastores de +cabras d'aquella freguezia.<br /> + +<br /> + +―Como passou, snr. Valladares?―perguntou ella com voz tremula, +tossindo a cada palavra, e aconchegando da face a golla de veludo da +sua capa.<br /> + +<br /> + +―Sempre doente, minha senhora... Por não poder mais, +recolho-me a casa...<br /> + +<br /> + +―Eu bem lhe disse que não fosse... v. s.<sup>a</sup> +teimou, agora +já sabe que os conselhos d'uma mulher não +são sempre pieguices...<br /> + +<br /> + +―E os de v. exc.<sup>a</sup> nunca poderão +sêl-o... E a +snr.<sup>a</sup> D. Amelia como está?<br /> + +<br /> + +―D'este modo que vê... Tossindo sempre, sempre mal, sem +descanço d'este lado, que me parece que já +não vive, se não para matar o resto +de vida que tenho...<br /> + +<br /> + +D. Amelia indicava o coração.<br /> + +<br /> + +―Porque não dá um passeio até +Lisboa?―tornou o academico.<br /> + +<br /> + +―Isso lhe tenho eu dito todos os dias―atalhou o padre.<br /> + +<br /> + +―De que me serve Lisboa?<br /> + +<br /> + +―São ares patrios, minha senhora. Talvez o contacto do +coração com as suas amigas de collegio... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[14]</span> ―Eu já +não tenho coração +para contacto com amigas nem inimigas, snr. Valladares...<br /> + +<br /> + +―O que v. exc.<sup>a</sup> tem é uma +ardentissima +imaginação, alma de poeta, que só tem +a sensibilidade do que é triste, e não sabe tirar +recursos da +esperança...<br /> + +<br /> + +―Esperança!...―murmurou ella com um triste sorriso, e +voltando-se para mim, perguntou-me:<br /> + +<br /> + +―Já sei que este senhor esteve em risco de passar uma noite +divertida com os lobos...<br /> + +<br /> + +―É verdade, minha senhora; mas a Providencia encaminhou-me +ao paraizo, depois de me ter mostrado o inferno.<br /> + +<br /> + +―Ora ahi tem uma resposta d'um moço, que seria pena +comerem-no os lobos!...―disse o padre, desafiando um gracioso sorriso +de Amelia.<br /> + +<br /> + +―Ha-de dizer ao seu parente medico que me salve da sepultura assim +como nós esta noite o salvaremos de ser victima dos +lobos―disse-me ella, apertando affectuosamente a mão de +Valladares, em despedida, porque a tosse exasperava-se cada vez mais.<br /> + +<br /> + +Esta rapida apparição impressionou-me muito. +Queria fazer mil perguntas; mas eu não tinha a quem. O padre +e o estudante fallaram em assumptos, que me não interessavam +nada. O que eu queria era a vida, a historia, os soffrimentos, a poesia +d'aquella mulher. Eu tinha lido, dias antes, não sei que +romance, onde vira uma mulher assim...<br /> + +<br /> + +Appareceu um taboleiro com a cêa. O abbade fez o prato de D. +Amelia. Era uma aza de gallinha, que elle mesmo lhe serviu.<br /> + +<br /> + +Valladares tambem comeu do pucaro da doente. Eu, com o abbade, entramos +corajosamente n'um coelho guisado, cuja retaguarda cortamos com um +excellente caldo verde, e lourejantes castanhas assadas com manteiga.<br /> + +<br /> + +No fim, demos graças a Deus.<br /> + +<br /> + +O padre, segundo o seu costume, foi sentar-se á +<span class="pagenum">[15]</span>cabeceira de sua +cunhada. Eu e Valladares entramos n'um quarto commum.<br /> + +<br /> + +<h3> +VII.</h3> + +<br /> + +O academico tinha uma physionomia franca e insinuante. Conversava +comigo sem desdenhosa superioridade. Familiarisamo-nos depressa, como +dous futuros companheiros de casa em Coimbra.<br /> + +<br /> + +Eu fui um grande fallador, n'aquella idade, em que pensava menos. O meu +recente amigo sympathisou com a minha garrula eloquencia, e dava +signaes de desenfado, quando naturalmente devêra querer +dormir, depois de uma fatigante jornada, em dia de neve.<br /> + +<br /> + +Eu não era rapaz que, por delicadeza, calasse a minha +curiosidade a respeito de D. Amelia.<br /> + +<br /> + +―O senhor faz-me o favor de me dizer uma cousa?―disse eu.<br /> + +<br /> + +―Que é? quantas horas são?... são +10... quer dormir?<br /> + +<br /> + +―Não, senhor: queria saber quem é esta snr.<sup>a</sup> +D. +Amelia?<br /> + +<br /> + +―É cunhada do padre, e casada com um sujeito, delegado em +* * *.<br /> + +<br /> + +―Isso já eu sabia... pouco mais ou menos.<br /> + +<br /> + +―Então sabe tanto como eu...<br /> + +<br /> + +―Mas é d'aqui d'esta aldêa esta senhora? Creio +que ouvi dizer que era de Lisboa.<br /> + +<br /> + +―É verdade... nasceu em Lisboa...<br /> + +<br /> + +―E como veio parar aqui n'este matagal? Naturalmente perdeu-se, como +eu, na serra, por causa da neve, e veio cá bater, e +cá ficou! Pois eu dou-lhe a +minha palavra de honra, que apenas vir luzir o buraco, retiro-me sem +mais ceremonias d'este delicioso covil de cabras.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[16]</span> +O meu amigo ria-se. Estava disposto a achar-me graça, e o +leitor póde tambem rir-se, se lhe +aprouver.<br /> + +<br /> + +E acrescentou ao sorriso:<br /> + +<br /> + +―Parece-lhe impossivel que a tal senhora viesse de Lisboa para aqui +sem ser impellida por um acaso?<br /> + +<br /> + +―De certo... Já não admira que ella tenha tosse +de tisica... O que me espanta é ella viver, se cá +está desde hontem!... Quando veio ella?<br /> + +<br /> + +―Ha dous annos.<br /> + +<br /> + +―Então é eterna... ou santa. Hei-de dizer que +encontrei esta martyr a uma minha tia, que é capaz de jurar +que a viu fazer milagres...<br /> + +<br /> + +―O menino é sarcastico! Se o não visse +tão inclinado a rir-se de cousas serias, contava-lhe uma +historia triste...<br /> + +<br /> + +―E eu gosto muito de historias tristes... Verá que me +não rio, quando me dizem alguma cousa que me toque o +sentimento. A minha familia chama-me poeta; os visinhos chamam-me tolo; +não sei bem o que sou; mas o que não sou +é insensivel... +Vê... já não tenho vontade de +gracejar... Conte-me agora a historia, que eu prometto contar-lhe outra +que me fez chorar, porque é uma passagem tão +infeliz, que, se eu +fizesse novellas, escrevia uma.<br /> + +<br /> + +―Talvez as escreva no futuro...<br /> + +<br /> + +―Eu?... Deixe-se d'isso... O meu mestre de logica diz que eu sou um +alarve, e o de rhetoria já me mandou ser aprendiz de +alfaiate... Não tenho habilidade nenhuma. O meu gosto +é lêr os sonetos do abbade de Jazente, e as +quintilhas do Nicolau Tolentino. Não sei mais nada, nem +quero saber... Vamos á historia, sim?<br /> + +<br /> + +―Então aproxime-se de mim, que eu quero fallar baixo. Mas, +antes de mais nada, promette não contar a ninguem o que vou +dizer-lhe?<br /> + +<br /> + +―Pois é segredo!<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[17]</span> ―É.<br /> + +<br /> + +―Prometto...<br /> + +<br /> + +―Pois ahi vai.<br /> + +<br /> + +<h3>VIII.</h3> + +<br /> + +―Esta senhora viveu em Lisboa até aos dezeseis annos. Hoje +o mais que póde ter são vinte e dous. +<br /> + +<br /> + +―Só?! Eu calculava trinta e tantos +<em>bons</em>, como diz minha tia, quando +quer fazer todas as pessoas mais velhas que ella.<br /> + +<br /> + +―Pois deixemos lá sua tia, que deve ser, pouco mais ou +menos, como todas as tias... Vamos com a nossa historia, e depressa, +senão adormeço, e o +meu curioso amigo perde a occasião de saber quem +é a +snr.<sup>a</sup> D. Amelia...<br /> + +<br /> + +―Isso de modo nenhum―atalhei eu com sobresalto―Prometto +não interromper a historia.<br /> + +<br /> + +―Pois bem. O pai d'esta senhora morreu em Lisboa, e o conselho de +familia deliberou que a orphã viesse para a provincia, onde +tinha tios, e o seu patrimonio em quintas.<br /> + +<br /> + +Quando appareceu em * * *, os rapazes fizeram-lhe montaria, e +disputaram +a primazia no namoro. D. Amelia não aceitava, nem repellia a +côrte de nenhum. +Tinha o mesmo riso para todos, e fallava a todos com a mesma +delicadeza.<br /> + +<br /> + +Havia alli um rapaz que não frequentava a sociedade de +Amelia, porque não frequentava sociedade nenhuma. +Fôra educado em Genova, viera de lá aos quinze +annos, vivera no Porto até aos vinte e cinco, e quando +recolheu á provincia, d'onde sahira de tres annos, com a sua +familia que emigrára em 1828, ninguem o conhecia, e elle +mesmo não queria conhecer ninguem.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[18]</span> +Chamavam-lhe celebre, exquisito, excentrico, orgulhoso, impostor, e +não sei que muitas outras lisonjas do charco de certos +espiritos, que não podem sahir da pequena esphera de lama, +que a natureza lhes deu por homenagem.<br /> + +<br /> + +D. Amelia viu este rapaz n'um cemiterio: leu um epitaphio que elle +mandára abrir na sepultura de seu pai que o +deixára em Genova no collegio, e viera morrer em 1836 +á patria: comprimentou-o de passagem, respondendo a um +distincto cortejo do melancolico poeta; e parece que, desde esse +encontro, Amelia transfigurou-se para todos os homens, deu que pensar +á sua familia, queria todos os dias visitar o cemiterio, e +retirava quasi sempre mais triste, porque muito raras vezes encontrou +alli o invisivel extravagante da opinião publica.<br /> + +<br /> + +―Como se chamava elle? Eu conheço alguns rapazes de * * * +que foram meus condiscipulos em logica.<br /> + +<br /> + +―Não é nenhum dos seus condiscipulos. +Já lhe disse que este sujeito veio do Porto para a +provincia, com vinte e tantos annos pelo menos. O seu appellido +é Côrte-Real, conhece?<br /> + +<br /> + +―Nada, não conheço; mas ouço fallar +todos os dias n'esse rapaz.<br /> + +<br /> + +―Que ouve dizer?<br /> + +<br /> + +―Que está em Lisboa, doudo, no hospital...<br /> + +<br /> + +―O senhor afiança-me isso? Ha que tempo endoudeceu?<br /> + +<br /> + +―Ha dous ou tres mezes...<br /> + +<br /> + +―Quem lh'o disse?<br /> + +<br /> + +―Um medico, meu parente, que o mandou conduzir para a enfermaria dos +doudos.<br /> + +<br /> + +O academico fez-me signal de silencio, e mandou-me ouvir.<br /> + +<br /> + +―Não ouve?―disse elle.<br /> + +<br /> + +―Ouço... é alguem que soluça...<br /> + +<br /> + +―É ella...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[19]</span> ―D. Amelia?<br /> + +<br /> + +―Sim... Ouviu a nossa conversa... Tem ouvidos de tisica...<br /> + +<br /> + +―É admiravel!... Pois o quarto d'ella não +é longe d'este?<br /> + +<br /> + +―Passam-se tres quartos, mas os repartimentos são de +tabique, e eu não me lembrei de tal... +Calemo-nos...<br /> + +<br /> + +―E a historia?... Falle mais baixo, que ella não +ouvirá mais nada...<br /> + +<br /> + +―Agora, é impossivel... Aquelles soluços +transtornaram-me a cabeça... Deite-se, e +ámanhã +fallaremos antes de nos despedirmos...<br /> + +<br /> + +<h3> +IX.</h3> + +<br /> + +Á cabeceira do meu leito, estava um volume das +<em>Viagens de Cyro</em>, e o quinto volume +d'uma <em>Miscellanea curiosa e +proveitosa</em>, onde encontrei uma longa poesia +a <em>D. Ignez de Castro</em>, que me fez +dormir até ás 8 horas da manhã.<br /> + +<br /> + +O meu companheiro, quando abri os olhos, estava sentado na cama, e +escrevendo nas paginas d'uma carteira.<br /> + +<br /> + +―O senhor está a fazer versos?―perguntei eu.<br /> + +<br /> + +―Adevinhou.<br /> + +<br /> + +―Faz favor de recitar, se não é segredo!<br /> + +<br /> + +―Recito: olhe lá se entende:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>Eras um anjo? Se o eras<br /> + +Que torvo facho do inferno<br /> + +Te queimou as azas? Diz:<br /> + +Porque, tão cedo, infeliz<br /> + +Cahes no +abysmo eterno!...</em> <span class="smallcaps">eterno</span>!</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[20]</span> ―Entendeu?<br /> + +<br /> + +―Não, senhor.<br /> + +<br /> + +―Veja se entende agora:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>Eras pura, quando lagrimas<br /> + +Tu me déste, +e me pediste...<br /> + +Tu choraste aqui, choravas...<br /> + +Mas porque? prophetisavas<br /> + +Este abysmo em que cahiste?</em></div> + +<br /> + +―Entendeu?<br /> + +<br /> + +―Nada... Ora diga-me os versos tem alguma cousa com a historia que +ficou suspensa?<br /> + +<br /> + +―Não, senhor; pertencem a outra, que nasceu aqui n'esta +casa, e que é toda minha...<br /> + +<br /> + +―Esta casa parece-me uma casa de novella... Estou a vêr se +aqui arranjo tambem alguma historia para contar a minha tia, que +está resando o quadragesimo responso a Santo Antonio por +minha causa, se é que +já me não resou por alma... Então o +senhor +não conta ao menos a primeira historia completa?<br /> + +<br /> + +―Hei-de contar.<br /> + +<br /> + +―Quando? Eu vou-me embora logo.<br /> + +<br /> + +―Não vai. Já aqui esteve o padre, e disse que +não sahiriamos d'aqui hoje, porque augmentou de noite a +neve.<br /> + +<br /> + +―Deixal-a; mas a minha familia, se eu não +appareço, nem dou parte de mim, julga-me morto, e +é capaz de me fazer officio de corpo ausente.<br /> + +<br /> + +―Não se assuste, que o padre hontem á noite +mesmo fez partir para a sua aldêa um criado com a certeza de +que o senhor ficava vivo, e mais o seu furão.<br /> + +<br /> + +―A proposito, sabe se já dariam de almoçar ao +meu furão.<br /> + +<br /> + +―É natural que sim... Ahi vem o snr. abbade; +<span class="pagenum">[21]</span>perguntemos-lhe... +Snr. padre Joaquim, pergunta alli o nosso amigo se o +furão ja almoçou.<br /> + +<br /> + +―Comeu quatro ovos, e está agora brincando com minha +cunhada, que é muito amiga de bichos.<br /> + +<br /> + +―E como passou ella?―perguntou Valladares.<br /> + +<br /> + +―Penso que melhor... Ergueu-se muito cedo: a creada disse que a vira +chorar toda a noite; mas agora fui, com grande espanto meu, encontral-a +com o furão no regaço, a sorrir-se como quem +é muito +creança e muito feliz... Sabe o senhor que...<br /> + +<br /> + +Não sei bem o que o padre disse ao ouvido do estudante. +Desconfio, pela resposta, que o resto do segredo era o receio de que +ella endoudecesse.<br /> + +<br /> + +Tudo isto, apurava-me o desejo de saber o que era a demencia de +Côrte-Real, e a tisica de Amelia.<br /> + +<br /> + +<h3> +X.</h3> + +<br /> + +Almoçamos.<br /> + +<br /> + +D. Amelia esteve comnosco alguns minutos, ouvindo não sei +que palavras a meia voz, do meu amigo, inintelligiveis para mim, +supposto que ahi se fallasse duas ou tres vezes n'uma D. Miquelina. +Tudo mysterios!<br /> + +<br /> + +O padre foi dizer missa. D. Amelia foi com elle. Fiquei com Valladares, +tremendo de frio, ao pé d'uma bacia de brazas. O attencioso +levita teve a delicadeza de nos não convidar a participarmos +da sua missa, que n'aquelle dia, com tal frio, faria hereges espiritos +devotos.<br /> + +<br /> + +―Ahi vai agora a continuação da historia―disse +o academico, engulindo o fumo de quatro cigarros successivos―A familia +d'esta senhora é muito realista, muito fanatica, arde em +odio contra os impios, que são todos, menos os sectarios de +D. Miguel, e alguns, senão todos, de D. +Sebastião. A familia de Côrte-Real +é <span class="pagenum">[22]</span> +ultra-liberal, odeia os realistas com aquelle odio saturado na +emigração, e não admitte honra, +intelligencia, nem merecimento em homem que não fosse capaz +de cortar as orelhas a um miguelista, se elle estiver por isso. +Já vê que as duas familias detestam-se. De parte a +parte no momento em que as relações de Amelia com +Côrte-Real fossem percebidas, imagine o meu amigo que +não hiria!<br /> + +<br /> + +―Então elles namoravam-se?<br /> + +<br /> + +―Pois eu não lhe disse já que sim?<br /> + +<br /> + +―Não, senhor: disse-me que Amelia passeava repetidas vezes +no cemiterio para vêl-o, mas que +não o via muitas vezes. Eu queria saber como se +encontraram... porque... desejo saber como é que a gente +póde sahir d'um encontro d'esses!... Não ha muito +que me vi entalado com um d'esses encontros... Eu tinha o recado na +ponta da lingua, e, quando vi a mocetona, que não era cousa +de atarantar um estudante de logica, pegou-se-me a lingua ao +céo da bocca, como diz +não sei que poeta... <em>vox faucibus +hoesit</em>... Que lhe disse elle quando a viu?<br /> + +<br /> + +―Isso é que eu não sei, porque não +ouvi. O que sei é que se fallavam por cartas, e entretiveram +assim relações seis mezes. Por fim, descobre-se o +namoro. Côrte-Real fallava da rua para a janella com Amelia: +um tio d'ella é avisado; espera-o no pateo, com a porta +fechada, e, quando elle principia a dizer bellas cousas, o tal bruto +abre a porta, e descarrega-lhe quatro bordoadas, que o pozeram +fóra do combate. No dia seguinte, mandou-lhe a casa a capa, +o chapéo, e uma clavina, que fôra tres vezes +batida á queima roupa do tal varredor de feiras.<br /> + +<br /> + +―E depois?<br /> + +<br /> + +―D. Amelia, duas horas depois, foi mandada entrar n'uma liteira, e +conduzida a casa d'este padre.<br /> + +<br /> + +―Para que?<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[23]</span> ―Para ninguem +saber o seu destino, em quanto vinha de Lisboa, onde +ella tinha o conselho de familia, uma ordem para ser recolhida a um +convento.<br /> + +<br /> + +―E Côrte-Real que fez?<br /> + +<br /> + +―Curou as feridas da cabeça, e indagou o destino de Amelia. +Como o não soube, cahiu n'uma melancolia profunda, teve +accessos de loucura, e, pelo que o senhor me disse, está +hoje no hospital de Rilhafolles.<br /> + +<br /> + +―E Amelia casou-se?<br /> + +<br /> + +―Pois no casamento é que está o interessante da +historia.<br /> + +<br /> + +Quinze dias depois da sua vinda para aqui, chegou de Coimbra o +irmão do padre. Parece que sentiu por Amelia o que era muito +natural que sentisse. Amou-a, mas não ousou declarar-se, +porque sabia os precedentes, que a trouxeram a esta casa. Ella, por si, +tractava-o com a fria delicadeza da indifferença, +até ao +momento, em que recebeu de uma sua tia a noticia de que viera ordem do +conselho de familia para ser conduzida a Lisboa, e lá +recolhida em um convento.<br /> + +<br /> + +Lida a carta, Amelia offereceu-se como esposa do bacharel. O imprudente +sem mais nem menos, aceitou a offerta. Alcançou do arcebispo +dispensa de banhos e consentimento do tutor: o irmão, sem +consultar a philosophia, a religião, e a consciencia, +casou-os. Na tarde do dia das bodas, chegou a liteira que devia levar a +orphã a Lisboa. Amelia apresentou-se a seu tio com um +desdenhoso sorriso, e disse: «Não tenho duvida +nenhuma em hir para Lisboa, e para um convento, mas é +necessario que meu marido vá comigo.» +<br /> + +<br /> + +―Seu marido!―exclamou o tio estupefacto.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[24]</span> +<h3>XII.</h3> + +<br /> + +―Dias depois, esta victima dos seus caprichos, cahiu doente. O medico +capitulou-lhe a enfermidade de tisica no primeiro grau. O marido +arrependeu-se muito cedo. Ella não se arrependeu, porque +sabia que dava um passo que devia matal-a. E, com effeito, +está alli... está morta...<br /> + +<br /> + +...Ahi vem ella e o padre... Fallemos d'outra cousa...<br /> + +<div class="dots"></div> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<h3> +CONCLUSÃO. </h3> + +<br /> + +Um anno depois, em Coimbra, dizia-me Valladares:<br /> + +<br /> + +―Olha que tive carta do abbade de Alpedrinha. D. Amelia morreu, e as +suas ultimas palavras ao marido foram estas: <span class="smallcaps">morro +por capricho</span>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="C2"></a>UMA PAIXÃO BEM +EMPREGADA.</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +UMA PAIXÃO BEM EMPREGADA. </h2> + +<br /> + +<h3>I. </h3> + +<br /> + +O meu amigo Valladares, em uma tarde formosa, passeando comigo no +<em>Penedo da +Saudade</em>, sentou-se, accendeu um cigarro com +perfeição academica, +abriu a carteira, e recitou-me os versos, que, um anno antes, me +recitára em Alpedrinha.<br /> + +<br /> + +―Lembras-te?―disse elle.<br /> + +<br /> + +―Perfeitamente. Prometteste contar-me então uma historia.<br /> + +<br /> + +―Vou cumprir a promessa.<br /> + +<br /> + +―E disseste que o teu conto prendia muito com aquella casa.<br /> + +<br /> + +―Disse, e vaes vêr porque. Olha que eu não vou +fazer estilo. Prepara-te para uma narração +simples, e clara. Não pertenço á +escóla dos nossos lapidarios de palavras, que nos dizem em +estilo de Corneille as scenas comicas de Moliere. A minha historia, se +tal nome lhe cabe, é uma tragedia com muitas scenas de +farça. Ainda que me não vejas rir, tens a +liberdade da gargalhada. Ahi vai:<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[28]</span> +Em 1843 fui á feira do Santo Antonio a Villa-Real. Encontrei +ahi uma familia que mora uma legua distante de minha casa. Compunha-se +d'uma senhora idosa, que era mãi d'um cavalheiro, e este +cavalheiro era pai d'uma bonita mulher, que teria dezoito annos. Gostei +d'ella, ou antes confirmei a sympathia que ella me tinha presa desde +que a vi, pela primeira vez, dous annos antes, n'umas ferias grandes. +Não lhe disse quasi nada. Eu era rapaz de dezoito annos, e, +aos dezoito annos, um moço d'aldêa tem o +coração +acanhado, e córa facilmente, quando encontra os olhos d'uma +mulher, supposto que os veja constantemente em sonhos. A rapariga +chamava-se Miquelina; isto não faz ao caso; mas sempre te +digo que nunca suppuz poder pronunciar este nome sem lagrimas... O que +é o tempo!...<br /> + +<br /> + +Combinamos partir juntos de Villa-Real. Não recordo na minha +vida um dia mais feliz do que o dia da nossa partida! A familiaridade +animava-me a dizer algumas palavras d'aquellas que nunca exprimem +senão a sombra do sentimento. Miquelina corava, mas nem por +isso sustinha as redeas do cavallo para esperar a avó e o +pai, que vinham alguns passos distantes.<br /> + +<br /> + +Teriamos andado legua e meia, quando o macho em que vinha montada a +velha tomou susto d'um tiro, que se deu ao lado da estrada, recuou, e +deu em terra com a pobre senhora. Acudimos todos.<br /> + +<br /> + +Encontramos-lhe uma fractura profunda na cabeça, e uma perna +quebrada. Perguntamos se d'alli perto haveria uma casa onde nos +recolhessemos. Encaminharam-nos a Alpedrinha, e a casa era a do padre +onde me encontraste.<br /> + +<br /> + +O acolhimento que nos deram foi excellente. Encontrei ahi o +irmão do abbade que era meu contemporaneo em Coimbra. Os +facultativos disseram que era impossivel continuar jornada, e ahi +ficamos vinte dias.<br /> + +<br /> + +N'este espaço de tempo, sonhei a felicidade, por +<span class="pagenum">[29]</span>que +hoje sei que não existe a realidade d'esses sonhos. Fui +muito feliz, senti-me poeta, idealisei á sombra de Miquelina +cousas e pessoas que nunca tiveram senão materia vilissima +para as aspirações do poeta. Em +fim, meu caro, cheguei a recuperar a fé perdida nas cousas +da Providencia, porque me parecia impossivel tanta felicidade sem +consentimento especial da Providencia.<br /> + +<br /> + +Disse a Miquelina tudo que humanamente póde dizer-se. +Traduzi-lhe em palavras os extasis, que as não tinham. +Interessei-a na comprehensão da minha alma, e arranquei-lhe +uma palavra, que mil vezes lhe morrera nos labios, como queimada pelo +ardor do pejo. Quando ella me disse «amo-o» se +não endoudeci +de contentamento, é porque a +disposição do meu cerebro +é invulneravel aos golpes da demencia. Hoje rio-me d'isto, e +tu, se te não ris, agouro-te que não +poderás dizer o mesmo a respeito da tua cabeça, +passados alguns annos.<br /> + +<br /> + +―Porque?<br /> + +<br /> + +―Porque das duas uma: ou doudo, ou cynico. Tomar a serio a sociedade +é endoudecer. Viver com ella em boa paz é +escarnecel-a. Ou doudo ou cynico. +Não enlouqueci; mas depravei-me. Este escarneo, que +indistinctamente voto a tudo, é a +negação da piedade +para todas as dôres nobres, e a do odio para todos os +prazeres infames. Não me espanta nada. Aperto a +mão do mais corrupto, e a do mais virtuoso com a mesma +graça. Recebo todos os desaforos como factos consumados. +Não dou dez reis pela virtude dos missionarios do +Japão, nem daria cinco de volta se elles me trocassem a sua +fé pela minha illustrada impiedade. Eu e elles somos bons, +ou maus: como quizerem. Eu acho que todos somos excellentes filhos de +Deus, e Deus, que nos conserva, lá sabe a razão +porque o faz...<br /> + +<br /> + +―Tu não sentes o que dizes...<br /> + +<br /> + +―Estás a brincar comigo!... Pois não sinto o que +digo?! Tu não vês o que está dentro +d'este homem, +<span class="pagenum">[30]</span>nem +pódes ainda ajustar á face do cadaver a +mascara que o retrate...<br /> + +<br /> + +―Mas é possivel ser-se o que tu és?!<br /> + +<br /> + +―Se é!... Se me não tivesses interrompido, +já sabias a razão porque o sou... Nada de +interrupções... Se começo a divagar, +digo diabruras, perco-me em abstracções, que te +hão-de parecer +pretenciosas, e lá vai a historia...<br /> + +<br /> + +―Palavra, que não te interrompo...<br /> + +<br /> + +―Quando sahimos de Alpedrinha, as minhas intimidades com Miquelina +eram já suspeitas ao pai, que não se entremettia +paternalmente no negocio. Sabes que eu tenho uma soffrivel casa, e +Miquelina não era muito mais rica. Era possivel, e +até vantajoso um casamento. Murmurou-se n'este assumpto em +casa do padre, e eu fui consultado por elle.<br /> + +<br /> + +Isto arrefeceu-me um pouco. Não queria que me viessem +tão cedo direitos ao materialismo. A pequena, +porém, não tinha culpa. Eram cousas da velha, que +quebrára a perna, mas ficára com a alma inteira +para seguir o recto caminho, a logica implacavel do namoro, banhos, +casamento, filhos, aborrecimento, barrete de dormir, catarrho, +cangalhas no nariz, e rheumatismo.<br /> + +<br /> + +Eu amava verdadeiramente Miquelina. Instado pelas perguntas do +officioso abbade, respondi que me casaria um anno depois, porque +não queria dar tal passo sem o consentimento d'um tio, que +fôra receber ao Brazil uma herança, que viria +augmentar consideravelmente a minha casa.<br /> + +<br /> + +Ficamos n'isto.<br /> + +<br /> + +Tres vezes por semana, durante os dous mezes de ferias, visitei +Miquelina, e revalidei os meus votos, porque esta paixão +não era das que fogem quanto mais +faceis se aproximam. A minha Beatriz parecia-me boa de +coração, ajuizada de cabeça, fina de +espirito, e em <span class="pagenum">[31]</span>quanto +á cara, ao corpo, e ao donaire... dir-te-hei que as +seducções eram tantas, e tão a +proposito que nunca tive occasião de me sentir de uma +illusão +desvanecida. Vim para Coimbra. A nossa despedida foi pathetica. +Beijei-lhe a testa pela primeira vez. Comprimi-a ao +coração com o enthusiasmo do primeiro +abraço. Recebi da sua mão tremula, como prenda, o +lenço com que enxugára as lagrimas, e retirei-me +com o +coração partido, mas vaidoso de +esperanças, que a saudade me dourava no meu lindo futuro.<br /> + +<br /> + +Logo que aqui cheguei, escrevi-lhe. Imagina o que eu lhe diria! Eram +vinte folhas de papel, escriptas em todas as estalagens onde pernoitei, +e fechadas com uma especie de hymno de lagrimas, em que se me foi tudo +o que a minha alma podia dar de superior áquillo que todos +os homens sabem dizer n'uma carta de namoro.<br /> + +<br /> + +Respondeu-me. A sua carta era simples, mas os toques eram +verdadeiros... pareciam-no... via-se alli a mulher que escreve a +primeira carta, o coração +timido que balbucia os sons d'uma selvagem innocencia, que é +a felicidade do homem que primeiro os tira do +coração d'uma virgem.<br /> + +<br /> + +Tres mezes assim. Tres mezes d'uma vida phantastica. Ancias insaciaveis +das suas cartas. Tristezas dôces quando me faltavam n'um +correio. Zangas sem odio, se o coração de +tão longe a criminava +de ingrata. Tres mezes assim... e no fim de tres mezes... adevinha o +que aconteceu...<br /> + +<br /> + +―Eu sei cá... morreu?<br /> + +<br /> + +―Não.<br /> + +<br /> + +―Veio cá ter comtigo?<br /> + +<br /> + +―Não.<br /> + +<br /> + +―Abandonou-te?<br /> + +<br /> + +―Abandonou.<br /> + +<br /> + +―Isso é incrivel!<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[32]</span> ―Acredita. Agora +adevinha por quem eu fui preferido.<br /> + +<br /> + +―Eu só te conheço a ti na tua terra...<br /> + +<br /> + +―Imaginas que algum dandy a requestou de modo que a fragil creatura +succumbiu ás +seducções invenciveis?<br /> + +<br /> + +―Só assim.<br /> + +<br /> + +―Ora adeus! Tu não adevinhas, porque não sabes +nada de mulheres...<br /> + +<br /> + +―Foi o pai que a forçou a casar-se com algum brasileiro +muito rico?...<br /> + +<br /> + +―Tambem não...<br /> + +<br /> + +―Diz lá isso, que estou impaciente...<br /> + +<br /> + +―Pois lá vai: a minha querida Miquelina, o meu anjo que +corava se o meu halito lhe roçava nas faces, a minha +pudibunda Virginia que recebeu o meu primeiro beijo a tremer, a minha +mimosa sensitiva que parecia resequir-se á mingoa dos meus +carinhos... sempre queres que te diga?<br /> + +<br /> + +―Pois então?<br /> + +<br /> + +―A minha promettida esposa... fugiu com um... digo?<br /> + +<br /> + +―Acaba, homem!<br /> + +<br /> + +―Com um lacaio da casa!... Ólá! não +fiques assim atordoado! Rite, como eu...<br /> + +<br /> + +―Isto é inconcebivel!... E depois?<br /> + +<br /> + +―Depois... que queres que eu te diga?<br /> + +<br /> + +―Que fim teve essa mulher?<br /> + +<br /> + +―Foi agarrada por ordem do pai, e o lacaio morreu arcabusado +summariamente para não dar que fazer á +justiça.<br /> + +<br /> + +―E ella... vive?<br /> + +<br /> + +―Creio que sim.<br /> + +<br /> + +―Na companhia da familia?<br /> + +<br /> + +―Não... Tu não me disseste que viras no Porto... +Fiquemos aqui...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[33]</span> ―Isso de modo +nenhum... Has-de concluir...<br /> + +<br /> + +―Pois sim... que importa!... Não me disseste que viste no +Porto uma meretriz que revelava uma boa educação, +e não queria dizer d'onde +era, nem como viera áquella vida?...<br /> + +<br /> + +―Disse... mas não se chamava Miquelina...<br /> + +<br /> + +―Isso não faz nada ao caso... Rosa, ou Miquelina, +é a mesma... é a minha promettida esposa, +é o anjo dos meus primeiros amores, é a pomba +alvissima da innocencia que encontrei em Alpedrinha... É +ella... Basta... É noite... Vou fazer monte, e depois, se te +quizeres embriagar comigo, vamos ao <em>Paço do +Conde</em>, e beberemos á saude da exc.<sup>ma</sup> +Miquelina Alpoim e Malafaia, victima d'uma paixão pelo +infeliz lacaio, que desceu ao tumulo... das illustres victimas. +Já sabes como se faz um cynico? A esses parvos, que por ahi +andam a gaguejar um scepticismo que cheira a cueiros, dá-lhe +com uma palmatoria.<br /> + +<br /> + +E não tornou a fallar-me n'esta mulher.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="C3"></a>DE ABYSMO EM ABYSMO.</h2> + +<br /> + +Eu é que não podia satisfazer a minha curiosidade +com a descosida revelação de Valladares.<br /> + +<br /> + +Muitas vezes acalorei a questão do cynismo, applicando-a a +Miquelina; mas este nome enfurecia-o de tal modo, que as nossas +relações estiveram a +romper-se, e reataram-se com a condição de eu +nunca lhe tocar +ligeiramente em semelhante assumpto.<br /> + +<br /> + +Sujeitei-me; mas, na primeira occasião prosperada pelo +acaso, alcancei esclarecimentos, que illucidam a +degradação da pobre mulher.<br /> + +<br /> + +Em 1848, Miquelina vivia ainda no Porto. A sua vida já a +sabem. Como veio ella tão abaixo?<br /> + +<br /> + +Foi assim:<br /> + +<br /> + +Alguns dias depois da fuga vergonhosa com o defunto lacaio, Miquelina +foi conduzida a Lisboa. A avó, que pôde sobreviver +ao golpe, quiz salvar a neta da colera do filho. Este +ausentára-se para Chaves, no momento em que a filha +entrára em casa. De lá, escrevendo +á mãi, dizia-lhe que désse +á infame algum destino, porque, em quanto a sua +presença envergonhasse aquella casa, nunca elle tornaria +alli.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[36]</span> +D'aquella familia estava em Lisboa um magistrado, tio materno de +Miquelina. Foi este o encarregado de recebêl-a durante alguns +mezes na sua casa.<br /> + +<br /> + +Não se passaram muitos dias, sem que Miquelina revelasse os +seus instinctos. Namorava escandalosamente um homem, sem nome, que +frequentava as janellas d'um alfaiate, que morava em frente.<br /> + +<br /> + +O magistrado suspeitou, e prohibiu-lhe o uso das janellas. O homem, +que, por força, havia de ter um nome, e poderia muito bem +chamar-se José Maria, +não era tão escasso de meios que não +comprasse um +creado da casa. O creado era o intermedio da correspondencia, menos da +ultima carta, surprehendida pelo magistrado. Esta carta authorisava +José Maria a empregar a +força judicial para tirar de casa Miquelina. N'esse mesmo +dia, a perigosa «donzella» foi mudada para casa de +um +general, cunhado de seu tio.<br /> + +<br /> + +O general era solteiro, homem de cincoenta e tantos annos bem +conservados, admirador das boas mulheres, e vigoroso ainda para +não desmentir o culto, quando se lhe pedissem provas +praticas das theorias um pouco irrisorias na sua idade.<br /> + +<br /> + +Tinha comsigo duas irmãs, mais novas, que, +<em>mutatis mutandis</em>, professavam as +idêas do +irmão.<br /> + +<br /> + +Dito isto, vê-se que a casa, onde Miquelina foi reclusa, era +um viveiro de moral.<br /> + +<br /> + +Foi bem recebida, e até muito bem aconselhada. As +irmãs do general fallavam muito da virtude, e da honra. Quem +as não conhecesse, acrescentaria duas martyres ineditas +ás onze mil virgens conhecidas, de que Byron duvidou, e eu +não me sinto muito propenso a acreditar, nem o meu amigo +Valladares.<br /> + +<br /> + +O José Maria não sei que fim levou. Seria algum +d'esses quatro que em 1845 se precipitaram dos «Arcos das +Aguas-livres!?» Se foi, não andou bem, porque fez +as cousas de modo que ninguem falla d'elle. Os +<span class="pagenum">[37]</span><em>Werthers</em> +sabem escolher as +occasiões, senão... é melhor +deixarem-se morrer de tedio, que é a morte que me espera a +mim, e a ti, leitor, no fim d'este livro, se não morreres no +meio.<br /> + +<br /> + +O general namorou Miquelina. Namorando-a, seduziu-a. Seduzindo-a, +abriu-lhe a outra meia porta da corrupção.<br /> + +<br /> + +Porque foi assim que as cousas se passaram:<br /> + +<br /> + +Miquelina affeiçoou-se ao general, como se +affeiçoára a Valladares, ao lacaio, e ao +José Maria. Trazia o cunho da +perdição! Era uma d'estas +desgraçadas que a gente vê cahir, cahir, cahir a +despeito de todos os estorvos! Que Deus, ou que demonio imprime o +movimento n'estas machinas, sem coração nem +cabeça? Não se sabe! A verdade é que +eu sinto vontade de +chorar essas victimas cegas d'um destino barbaro, e tenho furias de +blasphemo quando me dizem que Deus se entremette nas cousas d'este +mundo... Vamos adiante, senão atiro a penna fóra, +e rasgo o papel...<br /> + +<br /> + +Ora já vedes que o general era um devasso, e a pobre menina +deve merecer-vos uma pouca de compaixão, se eu vos +afianço que o amou, até ao ciume.<br /> + +<br /> + +Disseram-lhe um dia que uma mulher de capote e lenço +entrára no quarto do general, que era ao +rez da rua. Miquelina estava doente de cama. Ergueu-se com febre, +vestiu-se precipitadamente, desceu as escadas cambaleando de fraqueza, +escutou á porta do traidor, e ouviu risadas, e palavras +obscenas.<br /> + +<br /> + +Era noite, quando isto se passava.<br /> + +<br /> + +As irmãs do general deram pela falta da hospeda, e desceram +a procurar o irmão. Miquelina, quando as sentiu, na +incerteza do que devia responder-lhes, fugiu. Fugindo, achou-se n'uma +rua que não conhecia, atravessou umas poucas, chegou a uma +praça onde encontrou umas mulheres esfarrapadas que a +tractaram por tu, e fugiu até deparar as escadas d'uma +igreja, <span class="pagenum">[38]</span>onde um +soldado lhe veio dizer +palavras desconhecidas.<br /> + +<br /> + +Fugiu ainda; mas a desgraça corria a par d'ella.<br /> + +<br /> + +O frio da noite, e a febre do coração +aniquilaram-na. Sentou-se n'um portal, e desmaiou. Uma patrulha deu-lhe +com a ponta do pé, e a desgraçada +não respondeu. Tomaram-na como bebeda, e foram seu caminho.<br /> + +<br /> + +Outra patrulha sacudiu-lhe a cabeça pelos cabellos. +Miquelina gemeu, abriu os olhos, e pediu erguendo as mãos +que a deixassem morrer. Estava perto do hospital de S. José. +Os soldados pediram soccorro ao proximo corpo da guarda, e mandaram-na +para lá.<br /> + +<br /> + +No hospital, deram-lhe uma cama na enfermaria... não sabemos +que enfermaria; mas parece que o facultativo, na visita de +manhã, mandou retirar a mulher para um quarto particular, +pago á sua custa.<br /> + +<br /> + +Que foi o que ella disse ao medico? Nada. Seria n'elle um arrojo de +caridade? Não. «Pois +não tens uma palavra boa para explicar uma +acção +nobre?» Nobilissimos leitores, deixai-me suppôr que +sois melhores pessoas que o medico. O que elle queria era uma creada, +com as feições de Miquelina. As despezas da cura, +além de ficarem encontradas no seu ordenado, seriam +pequenas. Uma febre benigna não resistiria ao tratamento de +oito dias.<br /> + +<br /> + +Mas, ao setimo, Miquelina fugiu do hospital, favorecida pela +enfermeira, em cuja casa foi residir.<br /> + +<br /> + +Desde esse dia, chamou-se Rosa. +<div class="dots"></div> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +―Que bonita rapariga é aquella que está em casa +da A * * * na calçada do Duque?<br /> + +<br /> + +―É uma rapariga da provincia, pela pronuncia: chama-se +Rosa, mas não diz d'onde é, nem quem a trouxe +alli.<br /> + +<br /> + +―Parece bem educada!<br /> + +<br /> + +―Parece... e não é desbocada... Não +tem ainda <span class="pagenum">[39]</span>a +consciencia do seu officio... +É necessario que perverta a linguagem, se quizer +celebrisar-se...<br /> + +<br /> + +―De quem fallam vossês?―disse um terceiro, que, na +Praça do Rocio, veio associar-se ao grupo.<br /> + +<br /> + +―D'aquella Rosa, que tu denominaste um <em>cherubim +precipitado</em> na tua poesia.<br /> + +<br /> + +―E é...<br /> + +<br /> + +―É!... pois tu sabes a vida d'ella?<br /> + +<br /> + +―Sei...<br /> + +<br /> + +―Contas?<br /> + +<br /> + +―Não...<br /> + +<br /> + +Este terceiro era Valladares.<br /> + +<br /> + +Teve elle coragem de vêl-a face a face?<br /> + +<br /> + +Não teve: entrou alli com uma mascara na terça +feira de Entrudo.<br /> + +<br /> + +Conheceu-o ella? Conheceu: porque no dia immediato desappareceu de +Lisboa.<br /> + +<br /> + +É por isso que eu a vi no Porto em 1848... +<div class="dots"></div> + +<br /> + +O general é hoje conde. O menos torpe dos florões +da sua corôa é este... Foi +<em>honrado e hospitaleiro</em>!...<br /> + +<br /> + +Valladares embriaga-se todos os dias, e não póde +assim viver muitos mais, porque já não sente no +paladar o acido do cognac.<br /> + +<br /> + +E Miquelina?<br /> + +<br /> + +Ha mais de seis annos que os estudantes da escóla +medico-cirurgica do Porto a retalharam fibra a fibra com os seus +escalpellos observadores.<br /> + +<br /> + +Já vêdes que morreu no hospital, e foi em +pedaços atirada ao monturo da santa casa, depois de se +prestar, como cadaver, ás lucubrações +da +anatomia.<br /> + +<br /> + +Podeis não acreditar tudo, ou parte d'isto... Olhai, +porém, que vos não dei aqui a verdade descarnada +como ella é no conto melindroso, que vos contei. Escondi-vos +metade.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="C4"></a>AVENTURAS D'UM BOTICARIO +D'ALDÊA.</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA.</h2> + +<br /> + +<br /> + +O snr. Manoel Pires, pharmaceutico approvado por outro pharmaceutico +que não foi approvado em parte nenhuma, estabeleceu a sua +botica n'uma aldêa do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O +seu laboratorio chimico era um fogareiro e uma retorta de vidro, +emendada no collo por um cylindro de lata. A sua livraria era o +<em>Medico lusitano</em>, in folio; uma +Pharmacopeia, edição de 1700; e um pequeno volume +intitulado―<em>Segredos da natureza</em>. Os +lotes, que eram seis, continham +garrafões de barro vidrado, atapulhados de hervas, que +tinham o merecimento chronologico de serem contemporaneas dos +garrafões. Afóra isto, não sei que +liquidos verdes e amarellos e azues variegavam um dos lotes, que, pelos +modos, continha os remedios heroicos, como oleo de amendoas +dôces, extracto d'amoras, +solimão, e oleo de mamona.<br /> + +<br /> + +Com tantos elementos não admirava nada que o snr. Manoel +Pires fosse um sabio, não digo consumado, +<span class="pagenum">[44]</span>intelligencia +d'alguns cirurgiões +d'aquella redondeza.<br /> + +<br /> + +Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hypocrates honrou as cinzas +de seu pai fazendo a cura radical d'uma espinhela cahida na pessoa da +snr.<sup>a</sup> Therezinha da Fonte. Este triumpho da +pharmacia sobre a +espinhela elevou o snr. Pires, não direi até +ás +columnas do <em>Zacuto</em>, mas +até onde podiam leval-o as suas +aspirações de mestre Manoel Pires, como +respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos freguezes.<br /> + +<br /> + +Um segundo triumpho veio consolidar a reputação +adquirida no primeiro. A cura d'uma +<em>ostrução</em>, que +eu não sei o que é, e outra d'umas almorreimas +renitentes, não deixou nada a desejar por aquelles +arredores.<br /> + +<br /> + +O snr. Manoel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providencia lhe +cedêra. Relacionou-se com o parocho, com o regedor, com o +juiz de paz, e associou-se assim a um triumvirato, que decidia dos +destinos da freguezia. E o que elles não fizessem dez leguas +em redor ninguem o faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antonio da +Pôça que o sobredito juiz de paz se +correspondia com os <em>governos</em> de +Lisboa. +Não posso abonar na sua integra a verdade do dito; mas +não será +sem fundamento a cousa, attendendo á importancia d'um juiz +de paz, quando se tracta de fazer um deputado.<br /> + +<br /> + +O boticario era uma figura incapaz das honras anatomicas do romance. +Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das +bochechas cahiam-lhe em fórma de sanefas sobre os +collarinhos engommados com pós de batata.<br /> + +<br /> + +As ventas eram dous vulcões que resfolegavam lavas de +simonte; e, não sei porque analogia estupenda, os dentes +acavallados simulavam uma Herculanum em miniatura, um +destroço de pilastras e ogivas e capiteis.<br /> + +<br /> + +Como quer que fosse, o snr. Manoel Pires, aos quarenta annos, contava +quarenta conquistas das melhores <span class="pagenum">[45]</span>raparigas +da freguezia. E, honra +lhe seja feita, não deu nunca pasto nos soalheiros, nem +consta que désse o menor escandalo. Lá como elle +fazia as cousas, e a felicidade dos seus triumphos, vai o leitor +ajuizar, se, em desconto dos seus peccados, quizer lêr uma +pagina altamente dramatica da biographia do nosso amigo.<br /> + +<br /> + +Manoel Pires foi chamado um dia para curar uma dôr de +<em>reins</em> na pessoa da +tia Maria do Eiró. Não é necessario +dizer que a molestia obedeceu. Na mesma casa curou da +<em>triz</em> o tio João, +e por fim talhou o <em>bicho</em> com +perfeição e felicidade á Mariquinhas, +rapariga d'uma vez, e cousa de pôr a cara a um lado a mais de +quatro +<em>Antonys</em> de sócos que lhe +andavam por lá a regougar +palavras de ternura.<br /> + +<br /> + +O leitor não saberá o que é talhar o +bicho, e eu, realmente lhe digo, que não consultei o +diccionario das sciencias medicas. Fiquemos com a nossa ignorancia; e +eu faço sinceros votos porque nos não seja +preciso nunca talhar o bicho.<br /> + +<br /> + +O caso é que o mestre Manoel Pires fallou ao +coração da rapariga, e fez-lhe vibrar todas as +cordas da viola de alma. Não sei se a moçoila viu +archanjos, serafins, e brizas, e raios de lua a pratear lagos d'anil. O +que eu sei é que a boa da rapariga achava que eram pouco os +olhos da cara para vêr o snr. Manoel Pires, que, diga-se a +verdade, não era sceptico, nem carpia tristezas por deshoras +ao som do murmurar saudoso do sujo regato que lhe passava á +porta.<br /> + +<br /> + +Felizmente para elle, o dono da casa foi atacado d'um +<em>estalecidio</em> que lhe cahiu nos +bofes, segundo a opinião do boticario, e a cura demorada +d'esta +séria enfermidade proporcionou aos ternos amantes +occasiões ditosas de se trocarem palavrinhas de +pôrem o +coração em maré-cheia de poesia chula. +<br /> + +<br /> + +O dialogo, que mais concorreu para a solução +final, foi incontestavelmente o seguinte:<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[46]</span> +<span class="smallcaps">Elle</span>.―O deus Cupido +fez dos olhos +de vm.<sup>ce</sup> duas settas, que trespassaram o meu +coração.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Ella</span>.―E as palavras +de vm.<sup>ce</sup>, +como o outro que diz, são palavrinhas de mel a que +não +<em>regeste</em> meu sensivel peito.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Elle</span>.―Eu bem queria +dizer a +vm.<sup>ce</sup> as ternuras do meu +coração, e as +congeminencias do meu +pensamento. vm.<sup>ce</sup> é mais bonita que +Venus, e Cupido +é o deus do amor que me derrete aos pés de +vm.<sup>ce</sup><br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Ella</span>.―Pois se +vm.<sup>ce</sup> me tem +amor para o bom fim o deve ter, que quem mal anda mal acaba, como o +outro que diz.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Elle</span>.―O fim para que +eu fallei a +vm.<sup>ce</sup> só eu o sei; e a troco d'esse +negocio faz mingoa +fallarmos outra vez.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Ella</span>.―Quando +vm.<sup>ce</sup> quizer, e +Deus o faça para bem, que lá eu querer-lhe isso +quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se assim +não é. Uma rapariga que tem seus +<em>cretos</em> +não deve de perdel-os, e vm.<sup>ce</sup> bem +entende as cousas que +é sabio e homem de cabeça, por muitos annos e +bês.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Elle</span>.―E vm.<sup>ce</sup> +que +os conte. +Ora pois; o que se ha-de fazer ao tarde faça-se ao cedo. Se +vm.<sup>ce</sup> me der duas palavrinhas esta noite, +ouvirá da minha +bocca as affectiveis ternuras do meu +amante +coração, onde o deus Cupido cravou as mais duras +settas.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Ella</span>.―Pois se +vm.<sup>ce</sup> promette +de ter toda áquella de... sim, dizia eu, se vm.<sup>ce</sup> +promette de ter toda áquella... sim... como diz +lá o ditado...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Elle</span>.―Pelo deus +Cupido lhe +prometto a vm.<sup>ce</sup> de lhe não +pôr a minha +mão, nem palavra +lhe direi que seja escontra a honra de vm.<sup>ce</sup>.<br /> + +<br /> + +A resistencia da rapariga era impossivel! Quando a eloquencia, assim +inspirada do intimo da alma, regorgita em jorros nos labios d'um +amante, é certo o triumpho. O amor é realmente o +galvanismo dos estupidos,<span class="pagenum">[47]</span>d'esses +cadaveres moraes, que se +levantam do tumulo da intelligencia, e cantam lerias n'um +alamiré celeste! +Não nos recordamos de ter lido em romances francezes um +dialogo tão fertil d'imagens, tão vibrante de +affectos, tão digno, em fim, de ser copiado na carteira +d'estes obtusos amadores das salas, para os quaes não ha +assumpto, se lhes falharem as reminiscencias do borda d'agua.<br /> + +<br /> + +Manoel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados +n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro causticos +para a numerosa clinica que o esperava. Sem +exageração, este +pharmaceutico era uma pilula de Holloway viva! Resumia todas as +virtudes da revalenta arabica. Logo que o anjo da guarda,<sup><a href="#1">[1]</a></sup> +não podesse salvar o enfermo das +aggressões mephiticas do espirito mau, Manoel Pires, anjo +sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade, +quer na bocca do +<em>estamago</em>, quer nos +<em>bofes</em> quer nos +<em>miolos</em>! Este homem despresava a +nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos outros creadores +de nomes barbaros que não fazem nada á saude do +cidadão. Honra lhe seja feita!<br /> + +<br /> + +O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma cousa enorme de +cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam +não sei que pythonissa magica, e, por fim de contas, era um +relogio, cujo involucro suppria á farta uma bacia de +semicupios.<br /> + +<br /> + +Eram 8 horas. Na aldêa é esta a hora dos amantes. +Manoel Pires enfiou as suas meias de lã até +á cintura, calçou os sapatos confidentes de mil +emprezas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho +ferrado de amarello, e partiu.<br /> + +<br /> + +Ás 8 e um quarto, estava Manoel Pires no quinteiro da +Mariquinhas, esperando-a, com a anciedade propria da sua +organisação nervosa. Maus fados +quizeram <span class="pagenum">[48]</span>que +n'aquella +noite, e a taes horas, andasse fóra de casa o tio +João do Eiró. A rapariga entendeu que +devia esconder em casa o seu boticario, em quanto o pai não +recolhesse. Quiz primeiro sumil-o na córte das vaccas, mas +lembrou-se que o pai, antes de deitar-se, costumava hir afagar a sua +vacca castanha, pela qual na feira dos 8 rejeitára sete +moedas e um quarto! Metteu-o, depois, na loja da egua, mas a bestinha, +egoista e ciumosa da manjadoura, não comprehendeu que o snr. +Manoel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de couces, que +por um tris o não remetteu á +galeria posthuma dos pharmaceuticos illustres. Introduziu-o no curral +dos carneiros, mas a entrada do infeliz amante foi recebida com uma +escaramuça de marradas, como se um lobo cerval os +surprehendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada, levou o seu +paciente amante para a cozinha, levantou um +alçapão, +fêl-o descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal +alçapão, entrava o pai.<br /> + +<br /> + +―Que fazes tu ahi, rapariga?―bradou elle.<br /> + +<br /> + +Mariquinhas atrapalhou-se, e coçou a cabeça com +ambas as mãos.<br /> + +<br /> + +Deve saber-se que o tio João desconfiava que a filha, quando +podia, lhe roubava das caixas o seu sacco de milho, que vendia para +comprar, á surrelfa, o seu cordãosinho de ouro.<br /> + +<br /> + +Na loja, onde o boticario desceu, estavam as caixas do milho, e +não ha nada mais natural que a +irritação do velho, quando apanhou a rapariga em +flagrante delicto.<br /> + +<br /> + +―Onde está a chave d'este alçapão, +rapariga? interpellou o tio João no mesmo +diapasão.<br /> + +<br /> + +―A chave tem-na vm.<sup>ce</sup><br /> + +<br /> + +O homem entrou no seu quarto, proximo da cozinha, e veio com a chave, +resmungando:<br /> + +<br /> + +―Ora deixa-te estar, que não has-de cá tornar +po'lo vêso, minha cabra de não sei que diga! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[49]</span> +Fechou o alçapão, e foi-se deitar.<br /> + +<br /> + +A loja não tinha outra sahida. O boticario, por tanto, +achava-se n'uma posição falsa, diz o +leitor. Elle sabia lá o que eram +posições falsas! O +que elle fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse +lá comsigo: «no chão não me +deito eu.» +Continuou fleugmaticamente a fazer o seu juizo critico do local em que +se achava, e esbarrou com o nariz n'um presunto. Não +obstante, o snr. Manoel Pires tirou uma segunda conclusão: +«de fome não morro eu.» Mais adiante +esbarrou n'uma pipa, e teve a pachorra de lhe tocar com os +nós dos dedos para vêr se estava cheia. E o +caso é que estava! Manoel Pires era um onagro de felicidade! +«Deixa correr o mundo!...» disse elle, e estirou-se +francamente sobre a caixa á espera d'um somno regalado.<br /> + +<br /> + +Passára-se uma hora, e o boticario, começando a +pensar seriamente na sua situação, teve momentos +de Napoleão na ilha de Santa Helena! Applicou o ouvido, e +nem um sussurro ouviu na cozinha. Sentiu frio, por que em Dezembro +não é facil aquecer o corpo no +fogão do amor. Deu alguns passos maquinaes, buscando uma +sahida qualquer, e encontrou um albardão. +«Valha-nos ao menos isto,» disse elle, e pegou do +albardão, +collocou-o convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar.<br /> + +<br /> + +Agora fallemos das colicas de Mariquinhas.<br /> + +<br /> + +Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto, +já que não posso dizer ao seu palheiro. Alma de +pedreneira, ferida pelo fuzil do amor, a moçoila +não atinava com a maneira de +pôr no olho da rua o seu querido pharmaceutico. Inspirada +pelo derradeiro esforço da sua dôr sublime, +lembrou-se de +pôr em execução um plano digno de +melhor sorte.<br /> + +<br /> + +O pai resonava profundamente, Maria, pé ante pé, +entrou-lhe no quarto e sahiu com as calças, em cujo bolso +estava a chave. Judith não sahiu mais contente da tenda de +Holofernes!<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[50]</span> +Abriu o alçapão com subtileza, mas, no momento em +que o levantava, os gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um +sacco de milho que lhe emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama, +gritando: «ó +rapariga!»<br /> + +<br /> + +Não se diz, em linguagem portugueza, sem um conhecimento +profundo dos classicos, a +atrapalhação da cachôpa! O tio +João procurou as calças, +e não as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa +(<em>proh +pudor!</em>) saltou do quarto para a cozinha, +já quando a filha se esgueirava, escada abaixo, para o +quinteiro.<br /> + +<br /> + +O tio João, contra todas as leis da decencia, foi atraz de +sua filha, e filou-a pelo gasnete:<br /> + +<br /> + +―O que hias tu fazer á loja, Maria?<br /> + +<br /> + +―Raios me parta (disse ella a chorar) se eu hia á caixa do +pão ou dos feijões!<br /> + +<br /> + +―Então a que hias tu lá, diabo?<br /> + +<br /> + +―Assim me Deus salve, em como lhe não tirei nem um graeiro +da caixa...<br /> + +<br /> + +O tio João sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da +noite lhe soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao +alçapão; mas... ai +d'elle!... o alçapão estava aberto, e o honrado +chefe de +familia resvalou com todo o peso da sua bestialidade até +á loja.<br /> + +<br /> + +Manoel Pires soltou um urro de surpreza, que já +não foi ouvido pelo João do Eiró, que +desmaiára.<br /> + +<br /> + +Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruido, +mas suppoz que era o cahir do alçapão. Atravessou +a cozinha, +amaldiçoando a sua sorte, e metteu-se no seu quarto a pensar +no desenlace d'aquella tragedia.<br /> + +<br /> + +A tia Maria do Eiró, acordando, não achou na cama +o seu velho, e sentiu ciumes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com +voz do intimo, tres vezes, o seu João, e como ninguem lhe +respondesse, a mulher começou a vestir-se, enfiando +responsos a Santo Antonio, <span class="pagenum">[51]</span>de +mistura com +não sei quantas pragas, que ella rogava ao sumidouro das +suas sócas.<br /> + +<br /> + +E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra!<br /> + +<br /> + +A tia Maria accendeu a candêa, e foi direita á +cozinha, que era o ponto convergente de todas as +operações +d'aquelle drama. Viu o alçapão aberto, e +não tinha ainda reconcentrado em si todo o horror d'aquella +fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha lá +debaixo. A pobre mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janella e +grita desentoadamente «aqui d'el-rei +ladrões!» A visinhança alarmou-se, e +pouco depois os 60 fogos d'aquella aldêa agglomeravam-se no +quinteiro do tio João do Eiró.<br /> + +<br /> + +Os mais destemidos rapazes da aldêa desceram á +loja, e encontraram o pobre velho com a cabeça aberta por +dous lados, e não sei quantas costellas desmanchadas. Reinou +o silencio do mysterio! Ninguem conjecturava a causa d'aquelle estranho +successo, quando um dos que farejavam os recantos da loja, descobre um +pé por debaixo d'um albardão! Levantou-se uma +gritaria infernal: até que o mais resoluto, afastando o +albardão, soltou um brado terrivel d'espanto:<br /> + +<br /> + +―O senhor mestre Manoel Pires!<br /> + +<br /> + +Hão-de ter visto nos dramas descabellados um encapotado, que +é necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma +sucia de perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o effeito que o +boticario produziu na chusma de valentões de fouce +roçadoura, que o +cercavam.<br /> + +<br /> + +O tio João, tornando a si, foi direito ao boticario para +agradecer-lhe a promptidão com que viera cural-o. Mas a tia +Maria poz tudo em pratos límpos: contou tudo a seu marido, +que a +escutava com cara de parvo, segundo convinha em semelhante conflicto.<br /> + +<br /> + +Mestre Manoel Pires hia ser apregoado ladrão, por <span class="pagenum">[52]</span> +que a sua importancia, passado o +momento da surpreza, começava a soffrer uma grande baixa na +opinião +dos lavradores.<br /> + +<br /> + +Mas o seu caracter repellia tamanha affronta! A hora solemne d'uma +honrosa satisfação estava +chegada. O pharmaceutico, superando com a sua voz o ruido da turba +conspirada, disse:<br /> + +<br /> + +―Chamem cá a Mariquinhas que essa é que sabe do +negocio como elle é.<br /> + +<br /> + +O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos d'amante, +o segredo da cousa, quiz logo alli partir a cabeça do seu +rival.<br /> + +<br /> + +―Oh su alma do diabo!... exclamou elle.<br /> + +<br /> + +Contiveram-no. O snr. João do Eiró chamou a +filha. A pobre rapariga era uma cascata de lagrimas. Veio a muito +custo, cuidando que era então a <em>sua +fim</em>, como ella depois disse.<br /> + +<br /> + +A sua apparição impoz ás +multidões um respeitavel silencio.<br /> + +<br /> + +Mestre Manoel Pires fallou assim, com ar de inspirado, e o +braço direito em attitude prophetica:<br /> + +<br /> + +―Esta rapariga é minha mulher, se m'a derem. Eu vim aqui a +troco d'ella. Em bom panno cahe uma nodoa. Mal remediado é +mal acabado. +Ámanhã se Deus quizer lêem-se os +banhos, e não ha nada mais a +fazer aqui!<br /> + +<br /> + +A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia n'um sino. +Os paes, d'esses não se falla. Mestre Manoel era o casamento +mais vantajoso da freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu +á saude da boa companhia, e casou com grande prestito, onde +não faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer +de pendurar n'esse fausto dia o habito de Christo na casaca. Nas bodas +celebres para sempre, nos annaes de Carrazedo de Monte-Negro, +comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forn +A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia n'um sino. +Os paes, d'esses não se falla. Mestre Manoel era o casamento +mais vantajoso da freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu +á saude da boa companhia, e casou com grande prestito, onde +não faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer +de pendurar n'esse fausto dia o habito de Christo na casaca. Nas bodas +celebres para sempre, nos annaes de Carrazedo de Monte-Negro, +comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forno. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[53]</span> +Já lá vão cinco annos.<br /> + +<br /> + +Mestre Manoel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do +verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires já este +anno veio a banhos de mar, e viu por ahi baronezas, que lhe despertaram +o louvavel desejo de o ser.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="C5"></a>COUSAS QUE SÓ +EU SEI.</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +COUSAS QUE SÓ EU SEI.</h2> + +<br /> + +<h3> +I.</h3> + +<br /> + +Na ultima noite do carnaval, que foi justamente aos 8 dias do mez de +Fevereiro, do corrente anno<sup><a href="#2">[2]</a></sup> +pelas 9 horas e meia da noite entrava no +theatro de S. João, d'esta heroica, e muito nobre e sempre +leal cidade, um dominó de setim.<br /> + +<br /> + +Déra elle os dous primeiros passos no pavimento da +platêa, quando um outro dominó de velludo preto +veio collocar-se-lhe frente a frente, n'uma +contemplação immovel.<br /> + +<br /> + +O primeiro demorou-se um pouco a medir as alturas do seu admirador, e +virou-lhe as costas com indifferença natural.<br /> + +<br /> + +O segundo, momentos depois, apparecia ao lado do primeiro, com a mesma +attenção, com a mesma +penetração de vista.<br /> + +<br /> + +D'esta vez o dominó-setim aventurou uma pergunta <span class="pagenum">[58]</span> +n'aquelle desgracioso falsete, que +todos nós conhecemos: +<br /> + +<br /> + +―Não quer mais do que isso?<br /> + +<br /> + +―Do <em>qu'isso</em>!...―respondeu um +mascara que passava por casualidade, esganiçando-se n'uma +risada que raspava o tympano.―<em>Olha do +qu'isso!</em>... Já vejo que és +pulha!...<br /> + +<br /> + +E retirou-se repetindo―<em>do qu'isso... do +qu'isso...</em><br /> + +<br /> + +Mas o dominó-setim não soffreu, ao que parecia, a +menor contrariedade com este charivari. E o dominó-velludo +nem se quer acompanhou com os olhos o imprudente que viera +embaraçar-lhe uma resposta digna da pergunta, fosse ella +qual fosse.<br /> + +<br /> + +O <em>setim</em> (fique assim conhecido para +evitarmos palavras, e tempo que é um preciosissimo cabedal) +o +<em>setim</em>, d'esta vez, encarou com mais +alguma reflexão o +<em>velludo</em>. Conjecturou +supposições fugitivas, que se destruiam +mutuamente. O <em>velludo</em> era +forçosamente uma mulher. A pequenez do corpo, cuja +flexibilidade o dominó não encobria; a delicadeza +da mão, que protestava +contra o ardil mentiroso d'uma luva larga; a ponta de verniz, que um +descuido, no lançar do pé, +denunciára debaixo da fimbria +do velludo, este complexo de attributos, quasi nunca reunidos em um +homem, captaram as serias attenções do outro, +que, +incontestavelmente, era um homem.<br /> + +<br /> + +―Quem quer que sejas, (disse o setim) não te gabo o gosto! +Tomára eu saber o que vês em mim, que tanta +impressão te faz!<br /> + +<br /> + +―Nada―respondeu o velludo.<br /> + +<br /> + +―Então, deixa-me, ou diz-me alguma cousa ainda que seja uma +semsaboria, mais eloquente que o teu silencio.<br /> + +<br /> + +―Não te quero embrutecer. Sei que tens muito espirito, e +seria um crime de leso-carnaval, se te dissesse alguma d'essas +graças salobras, capazes de fazer <span class="pagenum">[59]</span> +calar para todo o sempre um Demosthenes +de dominó.<br /> + +<br /> + +O <em>setim</em> mudou de opinião +a respeito do seu perseguidor. E não admira que o recebesse +com rudeza no principio, porque, em Portugal, um dominó em +corpo de mulher, que passeia «sosinha» n'um +theatro, permitte umas suspeitas que não abonam as virtudes +do dominó, nem lisongeam a vaidade de quem lhe recebe o +conhecimento. Mas a mulher em quem recahe semelhante hypothese +não conhece Demosthenes, nem diz +<em>leso-carnaval</em>, nem aguça +a phrase com o adjectivo <em>salobras</em>.<br /> + +<br /> + +O setim arrependeu-se da aspereza com que recebera os attenciosos +olhares d'aquella incognita, que principiava a fazer-se valer como tudo +aquillo que apenas se conhece por uma face boa. O +<em>setim</em> +juraria, pelo menos, que aquella mulher não era estupida. E, +seja dito sem tenção offensiva, já +não +era insignificante a descoberta, porque é mais facil +descobrir um mundo novo que uma mulher illustrada. É mais +facil ser Christovão +Colombo que Emilio Girardin.<br /> + +<br /> + +O <em>setim</em>, ouvida a resposta do +<em>velludo</em>, offereceu-lhe o +braço, e gostou da boa vontade com que lhe foi recebido.<br /> + +<br /> + +―Conheço (diz elle), que o teu contacto me espiritualisa, +bello dominó...<br /> + +<br /> + +―<em>Bello</em>, me chamas tu!... +É realmente uma leviandade que te não faz +honra!... Se eu levantasse esta sanefa de sêda, que me faz +bonita, ficavas como aquelle poeta hespanhol que soltou uma +exclamação +de terror na presença d'um nariz... que nariz não +seria, santo Deus!... Não sabes essa historia?<br /> + +<br /> + +―Não, meu anjo!<br /> + +<br /> + +―<em>Meu anjo!</em>... que graça! +Pois eu t'a conto. Como o poeta se chama não sei, nem me +importa. Imagina tu que és um poeta, phantastico como +Lamartine, vulcanico como Byron, sonhador como Mac-Pherson, e +<span class="pagenum">[60]</span>voluptuoso como +Voltaire aos 60 annos. +Imagina que o tedio d'esta vida chilra que se vive no Porto te obrigou +a deixar no teu quarto a pythonissa descabellada das tuas +inspirações, e vieste por aqui dentro a +procurar um passatempo n'estes passatempos alvares d'um baile de +carnaval. Imagina que encontravas uma mulher extraordinaria de +espirito, um anjo de eloquencia, um demonio de epygramma, em fim, uma +d'estas creações miraculosas que fazem rebentar +uma chamma improvisa no coração mais de +gêlo, e de lama, e +de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expressão, +não +é assim? Um coração de toucinho +parece-te uma offensa ao bom +senso anatomico, não é verdade? Pois, meu caro +dominó; ha corações de toucinho +estreme. São +os corações, que reçumam oleo em +certas caras estupidas... por exemplo... olha este homem redondo, que +aqui está, com as palpebras em quatro refêgos, com +os olhos vermelhos como os d'um coelho morto, com o queixo inferior +pendente, e o labio escarlate e vidrado como o bordo d'uma pingadeira, +orvalhada de banha de porco... Esta cara não te parece um +grande rijão? +Não crês que este baboso tenha um +coração de toucinho?<br /> + +<br /> + +―Creio, creio; mas falla mais baixo que o desgraçado +está a gemer debaixo do teu escalpello...<br /> + +<br /> + +―És tolo, meu cavalheiro! Elle entende-me lá!... +É verdade, ahi vai a historia do +hespanhol, que tenho que fazer...<br /> + +<br /> + +―Então queres deixar-me?<br /> + +<br /> + +―E tu?... queres que eu te deixe?<br /> + +<br /> + +―Palavra d'honra que não! se me deixas, retiro-me...<br /> + +<br /> + +―És muito amavel, meu querido Carlos...<br /> + +<br /> + +―Conheces-me?!<br /> + +<br /> + +―Essa pergunta é ociosa. Não és tu +<em>Carlos</em>!<br /> + +<br /> + +―Já fallaste comigo na tua voz natural?<br /> + +<br /> + +―Não; mas começo a fallar agora.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[61]</span> +E com effeito fallou. Carlos ouviu um som de voz sonora, metallica, e +insinuante. Cada palavra d'aquelles labios mysteriosos sahia vibrante e +afinada como a nota d'uma tecla. Tinha aquelle não-sei-que, +que só se +escuta nas salas, onde fallam mulheres distinctas, mulheres que obrigam +a gente a prestar fé aos privilegios, +ás prerogativas, aos dons muito peculiares da aristocracia +do sangue. Todavia, Carlos não se recordava de ter ouvido +semelhante voz, nem semelhante linguagem.<br /> + +<br /> + +«Uma aventura de romance!» dizia elle lá +comsigo, em quanto o dominó-velludo, conjecturando o enleio +em que pozera o seu enthusiasta companheiro, continuava a fazer gala do +mysterio, que é de todas as alfaias aquella que mais alinda +a mulher! Se ellas podessem andar sempre de dominó! Quantas +mediocridades em intelligencia rivalisariam com Jorge Sand! Quantas +physionomias infelizes viveriam com a fama da mulher de Abdel-Kader!<br /> + +<br /> + +―Então quem sou eu?―proseguiu ella―não me +dirás?... Não dizes... pois então, +tu és Carlos, e eu sou Carlota... fiquemos n'isto, sim?<br /> + +<br /> + +―Em quanto eu não souber o teu nome, deixa-me chamar-te +«anjo.»<br /> + +<br /> + +―Como quizeres; mas sinto dizer-te que não és +nada original! <em>Anjo!</em>... é +um appellido tão safado como +<em>Ferreira</em>, +<em>Silva</em>, +<em>Sousa</em>, +<em>Costa</em>... et cetera. Não +vale a pena questionarmos: baptisa-me á tua vontade. Ficarei +sendo o teu «anjo de entrudo!» E a historia?... +Imagina que te possuias d'um amor impetuoso por essa mulher, que +phantasiaste linda, e insensivelmente lhe curvaste o joelho, +pedindo-lhe uma esperança, um sorriso affectuoso +através da mascara, um aperto convulsivo de mão, +uma promessa, ao menos, de se mostrar um, dous, tres annos depois. E +essa mulher, cada vez mais sublime, cada vez mais litterata, cada vez +mais radiosa, protesta eloquentemente contra as tuas instancias, +<span class="pagenum">[62]</span>declarando-se muita +feia, +indecentissima de nariz, horrivel até, e, como tal, pesa-lhe +na consciencia matar as tuas candidas illusões, levantando a +mascara. Tu que a não crês, instas, supplicas, +abrasas-te n'um +ideal, que toca as extremas do ridiculo, e estás capaz de +lhe dizer que te abolas o craneo com um tiro de pistola, se ella +não levanta a cortina d'aquelle mysterio que te dilacera uma +por uma as fibras do coração. Chamas-lhe +Beatriz, Laura, Fornarina, Natercia, e ella diz-te que se chama +Custodia, ou Genoveva para te aguar a poesia d'esses nomes, que, na +minha humilde opinião, são +completamente fabulosos. O dominó quer fugir-te +ardilosamente, e tu não lhe deixas um passo livre, nem um +dito espirituoso a outro, nem um lançar d'olhos para os +mascaras, que a fixam como quem sabe que está alli uma +rainha, envolta n'aquelle manto negro. Por fim, a tua +perseguição é tal, que a desconhecida +Desdemona finge assustar-se, e sahe comtigo ao salão do +theatro para levantar a mascara. Arfa-te o +coração na anciedade d'uma esperança: +sentes o jubilo do cego de nascimento, que vai vêr o sol; +estremeces como a creança a quem +vão dar um bonito, que ella não viu ainda, mas +imagina ser quanto o seu coração infantil +ambiciona n'este +mundo... Ergue-se a mascara!... Horror!... vês um nariz... um +nariz-pleonasmo, um nariz homerico, um nariz maior que o do duque de +Choiseul, onde cabiam tres jesuitas a cavallo!... Recúas!... +sentes despregar-se-te o coração das entranhas, +córas de +vergonha, e foges desabridamente...<br /> + +<br /> + +―Tudo isso é muito natural.<br /> + +<br /> + +―Pois não ha nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe +conto o resto, que é o mais interessante para um mancebo que +faz do nariz d'uma mulher o thermometro de avaliar-lhe a temperatura do +coração. Imagina, meu joven Carlos, que sahiste +do theatro depois, e entraste na <em>Aguia +d'Ouro</em> a comer +ostras, segundo <span class="pagenum">[63]</span>o +costume dos +elegantes do Porto. E quando, pensavas, ainda aterrado, na aventura do +nariz, te apparecia fatidico dominó, e se assentava ao teu +lado, silencioso e immovel, como a larva das tuas asneiras, cuja +memoria procuravas delir na imaginação com os +vapores do vinho... Perturba-se-te a digestão, e sentes +contracções no estomago, que te +ameaçam com o vomito. A massa enorme d'aquelle nariz +figura-se-te no prato em que tens a ostra, e já +não pódes +levar á bocca um bocado do teu appetitoso manjar sem um +fragmento d'aquelle fatal nariz á mistura. Queres transigir +com o silencio do dominó; mas não +pódes. A +inexoravel mulher aproxima-se de ti, e tu, com um sorriso cruelmente +sarcastico, pedes-lhe que te não entorne com o nariz o copo +de vinho. Achas isto natural, Carlos?<br /> + +<br /> + +―Ha ahi crueldade de mais... O poeta devia ser mais generoso com a +desgraça, porque a missão do +poeta é a indulgencia não só para as +grandes +affrontas, mas até para os grandes narizes.<br /> + +<br /> + +―Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime +missão da generosidade para com as mulheres feias, vai ser +punido. Imagina que aquella mulher, pungida pelo sarcasmo, levanta a +mascara. O poeta ergue-se, e vai fugir com grande escandalo do dono da +casa, que naturalmente tem a sorte do boticario de Nicolau Tolentino. +Mas... vingança do céo!... aquella mulher ao +levantar a mascara arranca do rosto um nariz postiço, e +deixa vêr a mais formosa cara que o céo alumia ha +seis mil annos! O hespanhol quer ajoelhar áquella dulcissima +visão de um sonho, mas a nobre andaluza repelle-o com um +gesto, onde o despreso está associado á +dignidade mais senhoril.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[64]</span> +<h3>II.</h3> + +<br /> + +Carlos scismava na applicação da anedocta, quando +o dominó lhe disse, adivinhando-lhe o pensamento:<br /> + +<br /> + +―Não creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me +supponhas capaz de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modestia +não vai tão +longe... Mas, meu pacientissimo amigo, ha em mim um defeito peor que um +nariz enorme: não é physico nem +moral; é um defeito repulsivo e repellente: é uma +cousa +que eu não sei exprimir-te com a linguagem do inferno, que +é a unica e mais eloquente que eu sei fallar, quando me +lembro que sou assim defeituosa!<br /> + +<br /> + +―És um enigma!...―atalhou Carlos, embaraçado, e +convencido de que encontrára um typo maior que os moldes +tacanhos da vida romanesca em Portugal.<br /> + +<br /> + +―Sou, sou!...―acudiu ella com rapidez―sou aos meus proprios olhos um +dominó, um continuado carnaval de lagrimas... +Está bom! não quero +tristezas... Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu +não vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas +aqui, procurei-te, esperei-te mesmo com anciedade, porque sei que +és espirituoso, e podias, sem prejuizo da tua dignidade, +ajudar-me a passar algumas horas de illusão. Fóra +d'aqui, tu ficas sendo +Carlos, e eu serei sempre uma incognita muito grata ao seu companheiro. +Agora acompanha-me: vamos ao camarote 10 da 2.ª ordem. +Conheces +aquella familia?<br /> + +<br /> + +―Não.<br /> + +<br /> + +―É uma gente da provincia. Não digas tu nada; +deixa-me fallar a mim, e verás que não passas +mal... É muito orgulho, não achas?<br /> + +<br /> + +―Não acho, não, minha querida; mas eu antes +<span class="pagenum">[65]</span>queria +não +desperdiçar estas horas porque fogem. +Tu vaes fallar, mas não é comigo. Sabes que tenho +ciumes de ti?<br /> + +<br /> + +―Sei que tens ciumes de mim... Sabes tu que eu tenho um profundo +conhecimento do coração +humano? Já vês que não sou a mulher que +imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a +desvanecer-te com uma conquista esperançosa. Faz calar o teu +amor proprio, e emprega a tua vaidade em bloquear com ternuras +calculadas uma innocente a quem possas fazer feliz, em quanto a +enganas...<br /> + +<br /> + +―Julgas, por tanto, que te minto!...<br /> + +<br /> + +―Não julgo, não. Se mentes a alguem é +a ti proprio: bem vês que não te creio... Tempo +perdido! Anda, vem comigo, se não...<br /> + +<br /> + +―Senão... o que?<br /> + +<br /> + +―Senão... olha...<br /> + +<br /> + +E a melindrosa desconhecida largou-lhe o braço com +delicadeza, e retirara-se, apertando-lhe a mão.<br /> + +<br /> + +Carlos, sinceramente commovido, apertou aquella mão, com o +frenesi apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por +quem se mataria.<br /> + +<br /> + +―Não―exclamou elle com enthusiasmo―não me +fujas, porque me levas a esperança mais bella que o meu +coração concebeu. Deixa-me adorar-te, sem te +conhecer!... Não levantes nunca esse véo... mas +deixa-me vêr a face da tua alma, que deve ser a realidade +d'um sonho de vinte e sete annos...<br /> + +<br /> + +―Estás dramatico, meu poeta! Eu sinto realmente a minha +pobreza de palavras garrafaes... Queria ser uma vestal d'estilo +fervente para sustentar o fogo sagrado do dialogo... O monologo deve +cançar-te, e a tragedia desde Sophocles até +nós não +póde dispensar uma segunda pessoa...<br /> + +<br /> + +―És um prodigio...<br /> + +<br /> + +―De litteratura grega, não é verdade? Inda sei +<span class="pagenum">[66]</span> muitas outras +cousas da Grecia. A +Lais tambem era muito versada, e repetia as rapsodias gregas com um +garbo sublime; mas a Lais era... sabes tu o que ella era?... E serei eu +o mesmo? Já vês que a +litteratura não é symptoma de virtudes dignas da +tua +affeição...<br /> + +<br /> + +Tinham chegado ao camarote na 2.ª ordem. O +dominó-velludo +bateu, e a porta foi, como devia ser aberta.<br /> + +<br /> + +A familia, que occupava o camarote, compunha-se de muitas pessoas, sem +typo, vulgarissimas, e prosaicas de mais para captarem a +attenção d'um leitor +avesso a trivialidades. Todavia, estava ahi uma mulher que valia um +mundo, ou cousa maior que o mundo―o coração d'um +poeta.<br /> + +<br /> + +As rosas purpurinas dos vinte annos tinham-lhes sido crestadas pelo +halito abrasado dos salões. A placidez extemporanea d'uma +vida agitada, via-se-lhe no rosto protestando não contra os +prazeres, mas contra a debilidade d'um sexo, que não +póde acompanhar com a materia as +evoluções desenfreadas do espirito. +Mas que olhos! mas que vida! que electricidade no frenesi d'aquellas +feições! que +projecção de uma sombra azulada lhe descia das +palpebras! Era uma mulher, em cujo rosto transluzia a soberba, talvez +demasiada, da sua superioridade.<br /> + +<br /> + +O dominó-velludo estendeu-lhe a mão, e chamou-lhe +Laura.<br /> + +<br /> + +Seria Laura? É certo que ella estremeceu, e recuou a +mão repentinamente como se uma vibora lh'a tivesse mordido.<br /> + +<br /> + +Aquella palavra symbolisava um mysterio dilacerante: era a senha de uma +grande lucta em que a pobre senhora devia sahir escorrendo sangue.<br /> + +<br /> + +―Laura―repetiu o dominó―não me apertas a +mão? Deixa-me ao menos sentar-me perto... muito perto de +ti... sim?<br /> + +<br /> + +O homem, que mais proximo estava de Laura, <span class="pagenum">[67]</span>afastou-se +urbanamente para deixar +aproximar um mascara, que denunciara o sexo pela voz, e a +distincção pela mão.<br /> + +<br /> + +E Carlos nunca mais despregou os olhos d'aquella mulher, que revelava a +cada instante um pensamento nas variadas physionomias com que queria +disfarçar a sua angustia intima.<br /> + +<br /> + +A desconhecida fez signal a Carlos para que se aproximasse. Carlos, +enleado nos embaraços naturaes d'aquella +situação toda para elle enygmatica, +recusava cumprir as imperiosas determinações +d'uma mulher +que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que +pareciam familiares de Laura, não deram muita importancia +aos dominós. Conjecturaram, primeiro, e quando suppozeram +que tinham conhecido as visitas, deixaram em plena liberdade as duas +mulheres que se fallavam de perto como duas amigas intimas. O +cavalheiro passou por um tal Eduardo, e a desconhecida tiveram-n'a por +uma D. Antonia.<br /> + +<br /> + +Laura humedecia os labios com a lingua. As surprezas pungentes produzem +uma febre, e aquecem o mais bem calculado sangue frio. A incognita, +profundamente conhecedora da situação da sua +victima, fallou ao +ouvido de Carlos:<br /> + +<br /> + +―Estuda-me aquella physionomia. Eu não estou em +circumstancias de ser Max... Soffro demasiado para contar as +pulsações d'este +coração. Se te sentires condoido d'esta mulher, +tem compaixão de mim, que sou mais desgraçada que +ella.<br /> + +<br /> + +E voltando-se para Laura:<br /> + +<br /> + +―Procuro, ha quatro annos, uma occasião de prestar +homenagem á tua conquista. Deus, que é +Deus, não despreza os incensos do verme da terra, nem +esconde á vista dos homens a sua fronte magestosa n'um manto +de estrellas. Tu, Laura, que és mulher, embora os homens te +chamem anjo, não despresarás vaidosa +a <span class="pagenum">[68]</span>homenagem d'uma +pobre creatura, que +vem depôr a teus pés o obulo sincero da sua +adoração.<br /> + +<br /> + +Laura não levantava os olhos do leque; mas a mão, +que o sustinha, tremia; e os olhos, que o contemplavam, +pareciam absortos n'um quadro afflictivo.<br /> + +<br /> + +E o dominó continuou:<br /> + +<br /> + +―Foste muito feliz, minha cara amiga! Eras digna de o ser. Colheste o +fructo abençoado da +abençoada semente que o Senhor fecundou no teu +coração de pomba!... Olha, Laura, deves dar +muitas graças á Providencia, que velou os teus +passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no abysmo da +prostituição, subiste, radiante de virtudes, ao +throno das virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal! És uma +excepção a milhares de desgraçadas, +que nasceram em estofos de damasco, e cresceram em perfumes de +opulencia. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas +da miseria, cresceste nos andrajos da indigencia, ainda viste com os +olhos da razão a desgraça +sentada á cabeceira do teu leito... e, com tudo, eis-te ahi +rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que pódes +insultar toda essa turba de mulheres, que te +admiram!... Ha tanta mulher infeliz!... Queres saber a historia +d'uma?...<br /> + +<br /> + +Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que +estava, não tinha ainda balbuciado um monosyllabo; mas a +urgente pergunta, duas vezes repetida, do dominó, obrigou-a +a responder affirmativamente com um gesto.<br /> + +<br /> + +―Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.<br /> + +<br /> + +Um dos individuos, que estava presente, e ouvira pronunciar +<em>Laura</em>, perguntou +á mulher que assim era chamada:<br /> + +<br /> + +―Elisa, ella chama-te <em>Laura</em>?<br /> + +<br /> + +―Não, meu pai...―respondeu Elisa, titubeando. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[69]</span> ―Chamo Laura, +chamo... e que tem lá isso, snr. +visconde?―Atalhou a incognita, com affabilidade, erguendo o falsete +para ser bem ouvida.―É um nome de carnaval, que passa com +os dominós. Quarta feira de cinza torna a filha de v. exc.<sup>a</sup> +a chamar-se Elisa.<br /> + +<br /> + +O visconde sorriu-se, e o dominó continuou, abaixando a voz, +e fallando naturalmente:<br /> + +<br /> + +<h3>III.</h3> + +<br /> + +―Henriqueta...<br /> + +<br /> + +Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas as fibras de Elisa. O +rosto incendiou-se-lhe d'aquelle encarnado do pudor ou da raiva. Esta +sensação violenta não podia ser +desapercebida. O visconde, que parecia estranho á +conversação intima +d'aquellas suppostas amigas, não o pôde ser +á +agitação febril de sua filha.<br /> + +<br /> + +―Que tens, Elisa?!―perguntou elle sobresaltado.<br /> + +<br /> + +―Nada, meu pai... Foi um ligeiro incommodo... Estou quasi boa...<br /> + +<br /> + +―Se queres respirar vamos ao salão, ou vamos para casa...<br /> + +<br /> + +―Antes para casa―respondeu Elisa.<br /> + +<br /> + +―Eu vou mandar buscar a sege―disse o visconde; e retirou-se.<br /> + +<br /> + +―Não vás, Elisa...―disse o dominó, +com uma voz imperiosa, semelhante a uma ameaça +inexoravel.―Não vás... porque, se vaes, contarei +a todo o mundo uma historia que só tu has-de saber. Este +outro +dominó, que tu não conheces, é um +cavalheiro: +não temas a menor imprudencia.<br /> + +<br /> + +―Não me martyrises!―disse Elisa.―Eu sou infeliz de mais, +para ser flagellada com a tua vingança... Tu és +Henriqueta, não és?<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[70]</span> ―Que te importa a +ti saber quem eu sou?!...<br /> + +<br /> + +―Importa muito... Sei que és desgraçada!... +Não sabia que vivias no Porto; mas palpitou-me o +coração que eras tu, apenas me chamaste Laura.<br /> + +<br /> + +O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia +tardar, e convidando a filha para dar alguns passeios no +salão do theatro. Elisa satisfez a carinhosa anciedade do +pai, dizendo que se sentia boa, e pedindo-lhe que se demorasse +até mais tarde.<br /> + +<br /> + +―Onde julgavas tu que eu existia? No cemiterio não +é assim?―perguntou Henriqueta.<br /> + +<br /> + +―Não: sabia que vivias, e prophetisava que devia +encontrar-te... Que historia me queres tu contar?... a tua? Essa +já eu sei... imagino-a... tens sido muito infeliz... Olha, +Henriqueta... deixa-me dar-te esse tratamento affectuoso com que nos +conhecemos, com que +fomos tão amigas, alguns fugitivos dias, no tempo em que o +destino nos marcava com o mesmo stygma de infortunio...<br /> + +<br /> + +―O mesmo... não!...―atalhou Henriqueta.<br /> + +<br /> + +―O mesmo, sim, o mesmo... e se me forças a contradizer-te, +direi que invejo a tua sorte, seja ella qual fôr...<br /> + +<br /> + +Elisa chorava, e Henriqueta emmudecera. Carlos estava impaciente pelo +desfecho d'esta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas +duas mulheres, e fazel-as amigas, sem saber a razão porque +eram inimigas. A belleza impõe-se á +compaixão. Elisa +era bella, e Carlos era d'uma sensibilidade extremosa. Nem elle +já sabia decidir-se entre aquellas duas mulheres. A +mascarada <em>poderia ser</em>, mas a outra +<em>era</em> um anjo de sympathia e +formosura. O espirito gosta do mysterio que esconde o bello; mas +decide-se pela belleza real, sem mysterio.<br /> + +<br /> + +Henriqueta, depois de alguns minutos de silencio, durante os quaes +não era possivel avaliar-lhe o +coração <span class="pagenum">[71]</span>pela +exterioridade da physionomia, +exclamou com impeto, como se despertasse d'um sonho, d'aquelles intimos +sonhos de dôr, em que a alma se reconcentra:<br /> + +<br /> + +―Teu marido?<br /> + +<br /> + +―Está em Londres.<br /> + +<br /> + +―Ha quanto tempo o não viste?<br /> + +<br /> + +―Ha dous annos.<br /> + +<br /> + +―Abandonou-te?<br /> + +<br /> + +―Abandonou-me.<br /> + +<br /> + +―E tu?... abandonaste-o?<br /> + +<br /> + +―Não concebo a pergunta...<br /> + +<br /> + +―Ainda o amas?<br /> + +<br /> + +―Ainda...<br /> + +<br /> + +―Com paixão?<br /> + +<br /> + +―Com delirio...<br /> + +<br /> + +―Escreves-lhe?<br /> + +<br /> + +―Não me responde... Despresa-me, e chama-me +<em>Laura</em>.<br /> + +<br /> + +―Elisa!―disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a +mão com enthusiasmo nervoso―Elisa! perdôo-te... +És bem mais desgraçada que +eu, porque tens um homem que pôde chamar-te Laura, e eu +não tenho senão um nome... sou Henriqueta! Adeus. +<br /> + +<br /> + +Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado d'aquelle prologo +d'um romance. Henriqueta tomou-lhe o braço com +precipitação, e sahiu do +camarote abaixando levemente a cabeça aos cavalheiros, que +se davam tractos por adivinhar o segredo d'aquella conversa.<br /> + +<br /> + +―Não pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou +Henriqueta; mas não me atraiçoes, se queres a +minha amisade.<br /> + +<br /> + +―Como hei-de eu atraiçoar-te, se não sei quem +és? Pódes chamar-te Julia em vez de Henriqueta, +que, nem por isso te fico conhecendo mais... Tudo mysterios! Tens-me, +ha mais d'uma hora, n'um estado de <span class="pagenum">[72]</span>tortura! +Eu não sirvo para +estas emboscadas... Diz-me quem é aquella mulher...<br /> + +<br /> + +―Não viste que é D. Elisa Pimentel, filha do +visconde do Prado?<br /> + +<br /> + +―Não a conhecia...<br /> + +<br /> + +―Então que mais queres que eu te diga?<br /> + +<br /> + +―Muitas outras cousas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes +tem aquella Laura, que se chama Elisa. Falla-me do marido d'aquella +mulher...<br /> + +<br /> + +―Eu te digo... O marido d'aquella mulher chama-se Vasco de Seabra... +Estás satisfeito?<br /> + +<br /> + +―Não... Quero saber que relações tens +tu com esse Vasco ou com aquella Laura?<br /> + +<br /> + +―Não saberás mais nada, se fores impaciente. +Imponho-te mesmo um profundo silencio a respeito do que ouviste. +Á menor pergunta que me faças, +deixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz parecer uma +mulher de soalheiro. Eu contrahi comtigo a +obrigação de te contar a minha vida?<br /> + +<br /> + +―Não; mas contrahiste com a minha alma a +obrigação de eu me interessar na tua vida e nos +teus infortunios desde este momento.<br /> + +<br /> + +―Obrigado, cavalheiro!―Juro-te uma sincera amisade.―Has-de ser o meu +confidente.<br /> + +<br /> + +Estavam, outra vez, na platêa. Henriqueta aproximou-se ao +quarto camarote da primeira ordem, firmou o pé de fada na +frisa, segurou-se ao peitoril do camarote, e travou +conversação com a familia que o +occupava. Carlos acompanhou-a em todos estes movimentos, e preparou-se +para um novo enygma.<br /> + +<br /> + +Segundo o costume, as mãos de Henriqueta passaram por uma +analyse rigorosa. Não era possivel, +porém, fazel-a tirar a luva da mão esquerda.<br /> + +<br /> + +―Dominó, porque não deixas vêr este +annel?―Perguntava uma senhora de olhos negros, e vestida de negro, +como uma viuva rigorosamente enluctada.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[73]</span> ―Que te importa o +annel, minha querida Sophia!?... Fallemos de ti, +aqui em segredo. Ainda vives melancolica, como a Dido da fabula? +Fica-te bem essa côr de esquifes, mas não +sustentas o caracter +artistico com perfeição. A tua tristeza +é +fingida, não é verdade?<br /> + +<br /> + +―Não me offendas, dominó, que eu não +te mereço essa injuria... A desgraça nunca se +finge...<br /> + +<br /> + +―Disseste uma verdade, que é a tua +condemnação. Eu, se tivesse sido abandonada por +um amante, não vinha aqui dar-me em espectaculo a um baile +de mascaras. A desgraça não se finge, +é +verdade; mas a saudade esconde-se para chorar, e a vergonha +não se ostenta radiosa d'esse sorriso que te brinca nos +labios... Olha, minha amiga, ha umas mulheres que nasceram para esta +época, e para estes homens. Ha outras que a Providencia +caprichosa atirou a esta geração +corrompida como os imperadores romanos atiravam os christãos +ao amphitheatro dos leões. Felizmente que tu não +és das segundas, e sabes harmonisar com o teu genio +folgasão e desleixado uma hypocrisia que te vai bem n'um +sophá de pennas, onde te recostas com um perfeito +conhecimento das attitudes languidas das mulheres cançadas +do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te por desfastio!... És +a unica mulher para quem este paiz é pequeno. +Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abbades de Versailles, e +as filhas do Regente, e as Heloïsas desenvoltas dos abbades, e +as aias da duqueza do Maine... et cetera. Isto por cá +é pequenissimo para as +Phryneas. Uma mulher da tua indole morre asphyxiada n'este ambiente +pesado em que o coração, nas suas +expansões romanticas, encontra, quasi sempre, a +mão burgueza das conveniencias a tapar-lhe os +respiradouros... Parece que te enfadas de mim?...<br /> + +<br /> + +―Não te enganas, dominó... Obsequeias-me se me +não deres o incommodo de te mandar retirar.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[74]</span> ―És +muito delicada, minha nobre Sophia!... Já +agora, porém, deixa-me dar-te uma +idêa mais precisa d'esta mulher que te enfada, e que, apesar +das tuas injustiças, se interessa na tua sorte. Diz-me +cá... Tens uma sincera paixão, uma saudade +pungente por aquelle bello capitão de cavallaria, que te +deixou, tão +sosinha, com as tuas agonias de amante?<br /> + +<br /> + +―Que te importa?...<br /> + +<br /> + +―És cruel! Pois não ouves o tom sentimental com +que te faço esta pergunta?... Quantos annos tens?...<br /> + +<br /> + +―Metade e outros tantos...<br /> + +<br /> + +―A resposta não me parece tua... Aprendeste essa +vulgaridade com a filha do teu sapateiro?... Ora olha: tu tens 38 +annos, a não ser mentiroso o assento de baptismo, que se +lê no cartorio da freguezia dos Martyres em Lisboa.<br /> + +<br /> + +Aos vinte annos amavas com ternura um tal Pedro Sepulveda. Aos vinte e +cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, +amavas com delirio, um tal Sebastião de Meirelles. Aos 35, +amavas, em Londres, com frenesi um tal... como se chamava... +não me recordo... diz-me, por piedade o nome d'esse homem, +que, se não, fica o meu discurso sem o effeito do drama... +Não dizes, má?... Ai!... eu tenho +aqui a mnemonica...<br /> + +<br /> + +Henriqueta tirou a luva da mão esquerda, e deixou +vêr um annel... Sophia estremeceu, e córou +até ás orelhas.<br /> + +<br /> + +―Já te recordas?... Não córes, minha +querida amiga... que não fica bem ao teu caracter de mulher +que conhece o mundo pela face positiva... Deixa-me agora arredondar o +periodo, como dizem os litteratos... Ora tu que amaste desenfreadamente +cinco antes do sexto homem, como queres fingir debaixo d'esse vestido +negro, um coração varado de saudades e +orphão de consolações?... Adeus, minha +bella hypocrita...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[75]</span> +Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o +braço a Carlos.<br /> + +<br /> + +<h3> +IV.</h3> + +<br /> + +Eram tres horas.<br /> + +<br /> + +Henriqueta disse que se retirava, depois de victimar com seus ligeiros, +mas pungentes gracejos, alguns d'aquelles muitos que provocam o +sarcasmo só com a presença, só com o +vulto corporal, só +com a semsaboria de um remoque parvo e pretencioso. O carnaval +é uma exposição annual d'estes +infelizes.<br /> + +<br /> + +Carlos, ao vêr que Henriqueta se retirava com um segredo que +tanto irritára a sua curiosidade, instou com delicadeza, com +meiguice, e até com resentimento, pela realidade de uma +esperança, que fizera a sua felicidade de algumas horas.<br /> + +<br /> + +―Eu não me arrependo―disse elle―de ter sido a voluntaria +testemunha de teus desforços... Ainda mesmo que me tivessem +conhecido, e tu fosses uma mulher licenciosa e depravada, +não me arrependeria... Ouvi-te, illudi-me na +esperança vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser o +escolhido para sentir de perto as pulsações +vertiginosas do teu +coração... estou recompensado de mais... Ainda +assim, Henriqueta, eu não tenho pejo de abrir-te a minha +alma, confessando-te um desejo de conhecer-te que não posso +illudir... Este desejo vaes-m'o tu convertendo n'uma dôr; e +será +logo uma saudade insupportavel, que te faria compaixão se +soubesses avaliar o que é na minha alma um desejo +<em>impossivel</em>. Se tu m'o não +dizes, quem me dirá o teu nome?<br /> + +<br /> + +―Não sabes que sou Henriqueta?<br /> + +<br /> + +―Que importa? E serás tu Henriqueta?<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[76]</span> ―Sou... juro-te +que sou...<br /> + +<br /> + +―Não basta isto... Ora diz-me... não sentes a +precisão de ser-me grata?<br /> + +<br /> + +―A que, meu cavalheiro?<br /> + +<br /> + +―Grata ao melindre com que te tenho tractado, grata á +delicadeza com que te peço uma +revelação da tua vida, e grata a este impulso +invencivel que me manda ajoelhar-te... Será nobre zombar +d'um amor que +involuntariamente fizeste nascer?<br /> + +<br /> + +―Não te illudas, Carlos―replicou Henriqueta n'um tom de +seriedade, semelhante ao de uma mãi que aconselha seu filho. +O amor não é isso que pica a +tua curiosidade. As mulheres são faceis de transigir de boa +fé com a mentira, e, pobres mulheres!... succumbem muitas +vezes á eloquencia artificiosa d'um conquistador. Os homens, +fartos de estudarem as paixões na sua origem, e enfadados +das rapidas illusões que elles choram todos os dias, +estão promptos sempre a declararem-se affectados da +cholera-paixão, e nunca apresentam +<em>carta-limpa</em> de scepticos. De maneira +que o sexo fragil das chimeras sois vós, creancinhas de toda +a vida, que brincaes aos trinta annos com a mulher como aos seis +brincaveis com os cavallinhos de pau, e os fradinhos de sabugo! Olha, +Carlos, eu não sou ingrata... Vou-me despedir de ti, mas +hei-de conversar comtigo ainda. Não instes; abandona-te +á minha generosidade, e +verás que alguma cousa lucraste em me encontrar e em me +não conhecer. Adeus.<br /> + +<br /> + +Carlos acompanhou-a com os olhos, e permaneceu alguns minutos n'uma +especie de idiotismo, quando a viu desapparecer á sahida do +theatro. O seu primeiro pensamento foi seguil-a; mas a prudencia +lembrou-lhe que era uma indignidade. O segundo foi empregar a intriga +astuciosa até roubar alguma +revelação áquella Sophia da primeira +ordem ou á Laura da segunda. Não lhe lembraram +recursos, nem eu sei quaes elles poderiam <span class="pagenum">[77]</span>ser. +Laura e Sophia, para +dissiparem completamente a esperança anciosa de Carlos, +tinham-se retirado. Era necessario esperar, era necessario confiar +n'aquella mulher extraordinaria, cujas promessas o +alvoroçado poeta traduzia em mil versões.<br /> + +<br /> + +Carlos retirou-se, e esqueceu não sei quantas mulheres, que +ainda, na noite anterior, lhe povoaram os sonhos. Ao amanhecer, +ergueu-se, e escreveu as reminiscencias vivas da scena, quasi fabulosa, +que lhe transtornava o plano de vida.<br /> + +<br /> + +Não houve nunca um coração +tão ambicioso de futuro, tão fervente de poesia, +e tão phantastico de +conjecturas! Carlos adorava seriamente aquella mulher! Como estas +adorações se afervoram com +tão pouco, não sei eu: mas que o amor +é assim, vou eu jural-o, e espero que os meus amigos me +não deixem mentir.<br /> + +<br /> + +Imaginem, por tanto, a inquietação d'aquelle +grande espiritualista, quando viu passarem, vagarosos e enfadonhos, +oito dias, sem que o mais ligeiro indicio lhe viesse confirmar a +existencia de Henriqueta! Não direi que o desesperado amante +appellou para o supremo tribunal das paixões impossiveis. O +suicidio não lhe +passou nunca pela imaginação; e muito sinto que +esta +verdade diminua as sympathias que o meu heroe poderia grangear. A +verdade, porém, é que o apaixonado +mancebo vivia sombrio, isolava-se contra os seus habitos socialmente +galhofeiros, abominava as impertinencias de sua mãi que o +consolava com anedoctas tragicas a respeito de rapazes cegos de amor, +e, emfim, soffrera a ponto tal, que resolvera abandonar Portugal, se, +no fim de quinze dias a fatidica mulher continuasse a ludibriar a sua +esperança.<br /> + +<br /> + +Diga-se, porém, em honra e louvor da astucia humana: Carlos, +resolvido a partir, lembrou-se de pedir a um seu amigo, que, na +gazetilha do +<em>Nacional</em>, dissesse, por exemplo, o +seguinte:<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[78]</span> +«O snr. Carlos d'Almeida vai, no proximo paquete, para +Inglaterra. S. s.<sup>a</sup> tenciona observar de perto a +civilisação das primeiras capitaes da Europa. O +snr. Carlos d'Almeida é uma intelligencia, que, enriquecida +pela instrucção pratica da sua visita aos focos +da civilisação, ha-de voltar á sua +patria +com fecundo cabedal de conhecimentos em todos os ramos das sciencias +humanas. Fazemos votos porque s. s.<sup>a</sup> se recolha +em breve ao seio dos +seus numerosos amigos.»<br /> + +<br /> + +Esta local bem podia ser que chegasse ás mãos de +Henriqueta. Henriqueta bem podia ser que conjecturasse o imperioso +motivo, que obrigava o infeliz a buscar +distracções longe da patria, onde a sua +paixão era invencivel. E, depois, nada mais facil que uma +carta, uma palavra, um raio de esperança, que lhe +transtornasse os seus planos.<br /> + +<br /> + +Era esta a infallivel tenção de Carlos, quando ao +decimo quarto dia lhe foi entregue a seguinte carta:<br /> + +<br /> + +<h3>V.</h3> + +<br /> + +<div class="signature">«Carlos.</div> + +<br /> + +<br /> + +«Sem offender as leis da civilidade, continuo a dar-te o +tratamento do dominó, porque, em boa verdade, eu continuo a +ser para ti um dominó moral, não +é assim?<br /> + +<br /> + +«Passaram-se quatorze dias, depois que tiveste o mau encontro +d'uma mulher, que te privou de algumas horas de deliciosa intriga. +Victima da tua delicadesa, levaste o sacrificio a ponto de te mostrares +interessado na sorte d'essa celebre desconhecida que te mortificou. +Não serei eu, generoso Carlos, ingrata a essa +manifestação <span class="pagenum">[79]</span>cavalheirosa, +embora ella seja um rasgo de +artista, e não um desejo espontaneo.<br /> + +<br /> + +«Queres saber porque tenho demorado quatorze dias este grande +sacrificio que vou fazer? É porque ainda hoje me levanto +d'uma febre incessante, que me insultou n'aquelle camarote da segunda +ordem, e que, n'este momento, parece declinar.<br /> + +<br /> + +«Permitta Deus que seja longo o intervallo para ser longa a +carta: mas eu sinto-me tão pequena para os sacrificios +grandes!... Não te quero responsabilisar pela minha saude; +mas, se o meu silencio de longos tempos succeder a esta carta, +conjectura, meu amigo, que Henriqueta cahiu no leito, d'onde ha-de +erguer-se, senão é graça que os mortos +hão-de erguer-se um dia.<br /> + +<br /> + +«Queres apontamentos para um romance que terá o +merito de ser portuguez? Vou dar-t'os.<br /> + +<br /> + +«Henriqueta nasceu em Lisboa. Seus paes tinham o lustre dos +brazões, mas não brilhavam nada pelo +ouro. Viviam sem fausto, sem historia contemporanea, sem bailes, e sem +bilhetes de boas festas. As visitas que Henriqueta conhecia eram, no +sexo feminino, quatro velhas suas tias, e, no masculino, quatro +caseiros que vinham annualmente pagar as rendas, com que seu pai +regulava economicamente uma nobre independencia.<br /> + +<br /> + +«O irmão de Henriqueta era um moço de +talento, que grangeara uma instrucção, +enriquecida sempre +pelos desvelos com que afagava a sua paixão unica. Isolado +de todo o mundo, o irmão de Henriqueta confiou a sua +irmã os segredos do seu muito saber, e formou-lhe um +espirito varonil, e inspirou-lhe uma ambição +faminta de sciencia.<br /> + +<br /> + +«Bem sabes, Carlos, que fallo de mim, e não posso, +n'esta parte, engrinaldar-me de flôres immodestas, se bem que +não me faltariam depois espinhos que me desculpassem as +vaidosas flôres...<br /> + +<br /> + +«Eu cheguei a ser o ecco fiel dos talentos de meu +<span class="pagenum">[80]</span>irmão. +Nossos paes não +comprehendiam as praticas +litterarias com que aligeiravamos as noites d'inverno; e, mesmo assim, +folgavam de nos ouvir, e via-se-lhes nos olhos aquelle rir de bondoso +orgulho, que tanto inflamma as vaidades da intelligencia.<br /> + +<br /> + +«Aos dezoito annos achei pequeno o horisonte da minha vida, e +enfastiei-me da leitura, que m'o fazia cada vez amesquinhar-se mais. +Só com a experiencia, se conhece o quanto a litteratura +modifica a organisação de uma mulher. Eu creio +que a mulher, apurada na sciencia das cousas, pensa de um modo +extraordinario na sciencia das pessoas. O prisma das suas vistas +penetrantes é bello, mas as lindas cambiantes do seu prisma +são como as côres variegadas do arco iris, que +annuncia tempestade.<br /> + +<br /> + +«Meu irmão lia-me os segredos do +coração! não é facil mentir +ao talento com as hypocrisias do talento. Comprehendeu-me, e teve +dó de mim.<br /> + +<br /> + +«Meu pai morreu, e minha mãi pediu á +alma de meu pai que lhe alcançasse do Senhor uma vida longa +para meu amparo. Ouviu-a Deus, porque eu vi um milagre na rapida +convalescença com que minha mãi sahiu d'uma +enfermidade de quatro annos.<br /> + +<br /> + +«Eu vi um dia um homem no quarto de meu irmão, +onde entrei como entrava sempre sem receio de encontrar um +desconhecido. Quiz retirar-me, e meu irmão chamou-me para me +apresentar, pela primeira vez na sua vida, um homem.<br /> + +<br /> + +«Este homem chama-se Vasco de Seabra.<br /> + +<br /> + +«Não sei se por orgulho, se por acaso, meu +irmão chamou a conversa ao campo da litteratura. Fallava-se +em romances, em dramas, em estilos, em escólas, e +não sei que outros mais assumptos ligeiros e graciosos que +me captivaram o coração e a +cabeça.<br /> + +<br /> + +«Vasco fallava bem, e revelava cousas que me não +eram novas com estilo novo. N'aquelle homem, via-se <span class="pagenum">[81]</span>o genio aformoseado pela +arte que +só na sociedade se adquire. Em meu irmão +faltava-lhe o relevo de estilo, que se lapida ao tracto dos maus e dos +bons. Bem sabes Carlos, que te digo uma verdade, sem +pretenções de +<em>bas-bleu</em>, que é de +todas as miserias a mais lastimosa miseria das mulheres cultivadas.<br /> + +<br /> + +«Vasco retirou-se, e eu quizera antes que elle se +não retirasse.<br /> + +<br /> + +«Disse-me meu irmão que aquelle rapaz era uma +intelligencia superior, mas depravada pelos maus costumes. A +razão porque elle viera a nossa casa era muito simples; +encarregara-o seu pai de fallar com meu irmão a respeito da +remissão d'uns fóros.<br /> + +<br /> + +«Vasco passou n'esse dia por debaixo das minhas janellas: +fixou-me, cortejou-me, corei, e não me atrevi a seguil-o com +os olhos, mas segui-o com o +coração. Que suprema miseria, Carlos! Que +renuncia tão impensada faz uma mulher da sua tranquillidade! +<br /> + +<br /> + +«Voltou um quarto d'hora depois: retirei-me, sem querer +mostrar-lhe que o percebia; fiz-me distrahida, por entre as cortinas, a +contemplar a marcha das nuvens, e das nuvens descia um olhar +precipitado sobre aquelle +<em>indifferente</em> que me fazia +córar e soffrer. Viu-me, adivinhou-me, talvez, e cortejou-me +ainda. Eu vi o gesto da cortezia, mas fingi-me, e não lhe +correspondi. Foi isto um heroismo, não é verdade? +Seria; mas +eu tive remorsos, apenas elle desapparecera, de o tratar tão +grosseiramente.<br /> + +<br /> + +«Demorei-me n'estas puerilidades, meu amigo, porque +não ha nada mais grato para nós que a +recordação dos ultimos instantes de ventura a que +se prendem os primeiros instantes da desgraça.<br /> + +<br /> + +«Aquellas linhas fastidiosas são a historia da +minha transfiguração. Ahi principia a longa noite +da +minha vida.<br /> + +<br /> + +«Nos dias immediatos, a horas certas, vi sempre <span class="pagenum">[82]</span>este +homem. Concebi os perigos da minha fraqueza, e quiz ser forte. Resolvi +não vêl-o mais: revesti-me +d'um orgulho digno da minha immodesta superioridade ás +outras mulheres: sustentei este caracter dous dias; e, ao terceiro, era +fraca como todas as outras.<br /> + +<br /> + +«Eu já não podia divorciar-me da imagem +d'aquelle homem, d'aquellas nupcias infelizes, que meu +coração contrahira. O meu instincto +não era mau; porque a +educação tinha sido boa; e, não +obstante a humildade constante com que sempre sujeitei a minha +mãi os meus innocentissimos desejos, senti-me +então, com magoa minha, rebelde, e capaz de conspirar contra +a minha familia.<br /> + +<br /> + +«A frequente repetição dos passeios de +Vasco não podia ser indifferente a meu irmão. Fui +suavemente +interrogada por minha mãi, a tal respeito, e respondi-lhe +com respeito, mas sem temor. Meu irmão presentiu a +necessidade de matar aquella inclinação nascente, +e expoz-me um quadro feio dos costumes pessimos de Vasco, e o conceito +publico em que era tido o primeiro homem a quem eu tão +francamente me offerecia em namoro. Fui altiva com meu +irmão, e adverti-lhe que os nossos +corações não tinham contrahido +a obrigação de se consultarem.<br /> + +<br /> + +«Meu irmão soffreu; eu tambem soffri; +e, passado o momento da exaltação, quiz cerrar a +ferida que abrira n'aquelle coração, desde a +infancia, +identificado com as minhas vontades.<br /> + +<br /> + +«Este sentimento era nobre; mas o do amor era inferior. Se eu +podesse reconcial-os ambos! Não podia, nem sabia fazel-o! +Uma mulher, quando principia a sua dolorosa tarefa do amor, +não sabe mentir com apparencias, nem calcula os prejuizos +que póde evitar com uma pouca de impostura. Eu fui assim. +Deixei-me hir abandonada á correnteza, da minha +inclinação; e, +quando forcejei por me tornar, tranquilla, á +isenção da minha alma, não pude vencer +a corrente.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[83]</span> +«Vasco de Seabra perseguia-me: as cartas eram incessantes, e +a grande paixão que ellas exprimiam +não era ainda igual á paixão que me +faziam.<br /> + +<br /> + +«Meu irmão quiz tirar-me de Lisboa, e minha +mãi instava pela sahida, ou pela minha entrada a toda a +pressa nas Silesias. Informei Vasco das intenções +de minha familia.<br /> + +<br /> + +«No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno +d'outra sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha +mãi, e foi urbanamente repellido. Eu sube-o, e torturei-me! +Não sei do que seria então capaz a minha alma +offendida! Sei que foi capaz de tudo que póde caber em +forças +d'uma mulher, contrariada nas ambições que +nutrira, +sosinha comsigo, e conjurada a perder-se por ellas.<br /> + +<br /> + +«Vasco irritado d'um nobre estimulo, escreveu-me, como quem +me pedia a mim a satisfação dos +despresos de minha familia. Respondi-lhe que lh'a dava plena, como elle +a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela porta da deshonra, e +muito cedo entraria n'ella com a minha honra illibada. Que +desgraça! n'aquelle tempo até as pompas do estilo +me seduziam!... Respondi que sim, e cumpri.<br /> + +<br /> + +«Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciencia +é curta. Até ao correio que vem.<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Henriqueta</em>.»</div> + +<br /> + +<h3>VI.</h3> + +<br /> + +Carlos relêra com sofrega anciedade, a singela +expansão d'uma alma que, talvez, nunca se abrira, se a +não rasgasse o espinho d'um martyrio surdo. Henriqueta +não escrevia assim uma carta a um homem, que podesse <span class="pagenum">[84]</span>consolal-a. Afeita a gemer +no +silencio, e na solidão, +tornava-se como egoista das suas dôres, e suppunha que +divulgal-as era esfolhar a mais bella flôr da sua +corôa de martyr. Escreveu, porque a sua carta era um mytho de +segredo e publicidade; porque a sua +afflicção não rastejava pelos +queixumes lamuriantes e triviaes d'um grande numero de mulheres, que +não choram nunca a viuvez do coração, +e lastimam sempre a +demora das segundas nupcias; escreveu em fim, porque a sua +dôr, sem deshonrar-se com uma publicidade esteril, +interessava um coração, esposava uma sympathia, +um soffrimento simultaneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre +admiração! Ha mulheres vaidosas―deixem-me assim +dizer―da fidalguia do seu soffrer. Risonhas para o mundo, é +muito sublime aquella angustia represada que só +póde extravasar os sobejos do seu fel em +uma carta anonyma. Lagrimosas para si, e fechadas no circulo estreito, +que a sociedade lhes traça com o compasso inexoravel das +conveniencias, essas sim, são duas vezes anjos despenhados!<br /> + +<br /> + +Quem podesse receber na taça de suas lagrimas algumas, que +ahi se choram, e que a opulencia material não enxuga, +experimentaria consolações +d'um sabor novo. O padecimento, que se esconde, impõe o +respeito religioso do augusto mysterio d'esta religião +universal, symbolisada pelo soffrimento commum. O homem, que podesse +verter uma gota de orvalho na aridez d'algum +coração, seria o sacerdote providencial no +tabernaculo d'um espirito superior, que velasse a vida da terra para +que tamanhas agonias não fossem estereis na vida do +céo. Não ha na terra mais gloriosa +missão!<br /> + +<br /> + +Carlos por tanto, sentiu-se feliz d'este orgulho santo que ennobrece a +consciencia do homem que recebe o privilegio d'uma confidencia. Esta +mulher, dizia elle, é para mim um ente quasi phantastico. +Allivios quaes são os que eu posso dar-lhe?... Nem ao menos +escrever-lhe!... <span class="pagenum">[85]</span>E +ella... em que +fará consistir o seu prazer?! Deus o sabe! Quem +póde explicar, e mesmo explicar-se a singularidade d'um +proceder, ás vezes, inconcebivel?<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +No correio proximo, recebeu Carlos a segunda carta de +Henriqueta:<br /> + +<br /> + +«Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta? +Adivinhaste o resto, com prestesa natural. Recordaste mil aventuras +d'este genero, e amoldaste a minha historia ás legitimas +consequencias de todas as aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem, +com quem fugira, e chamaste a isto, talvez, uma +deducção contida nos principios.<br /> + +<br /> + +«Pensaste bem, amigo, a logica da desgraça +é essa, e o contrario dos teus juizos é o que se +chama sophisma, porque eu estou em pensar que a virtude é o +absurdo da logica dos factos, é a heresia da +religião das sociedades, é a +aberração +monstruosa das leis, que regem o destino do mundo. Achas-me metaphysica +de mais? Não te impacientes. A dôr refugia-se nas +abstracções, e encontra melhor pabulo na Loucura +de Erasmo, que nas sisudas deducções de +Montesquieu.<br /> + +<br /> + +«Minha mãi estava reservada para uma grande +provação! Amparou-a Deus n'aquelle golpe, e +permittiu-lhe uma energia que não era de esperar. Vasco de +Seabra bateu ás portas de todas as igrejas de Lisboa, para +me apresentar, como sua mulher, ao cura da freguezia, e achou-as +fechadas. Eramos perseguidos, e Vasco não contava com a sua +superioridade sobre meu irmão, que lhe fizera certa e +infallivel a morte, onde quer que a fortuna lh'o deparasse.<br /> + +<br /> + +«Fugimos de Lisboa para Hespanha. Um dia entrou Vasco, +alvoroçado, pallido, e febril d'aquella febre de medo, que, +realmente, era, até então, a unica face prosaica +do meu amante. Emmulamos a toda <span class="pagenum">[86]</span>a +pressa, e partimos para Londres. É +que Vasco de Seabra vira meu irmão em Madrid.<br /> + +<br /> + +«Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco +tranquillisou-se, porque lhe afiançaram de Lisboa a volta de +meu irmão, que perdera as esperanças +de encontrar-me.<br /> + +<br /> + +«Se me perguntas como era a vida intima d'estes dous +fugitivos, aos quaes não faltava +condição alguma das aventuras romanticas d'um +rapto, dir-t'a-hei em poucas linhas.<br /> + +<br /> + +«O primeiro mez das nossas nupcias de emboscada foi um sonho, +uma febre, uma anarchia de +sensações que, levadas ao extremo do goso, +pareciam tocar as raias do soffrimento. Vasco parecia-me um Deus, com +as seductoras fraquezas d'um homem; queimava-me com o seu fogo, +divinisava-me com o seu espirito; levava-me de mundo em mundo +á região dos anjos +onde a vida deve ser o extasis, o arrobamento, a +alienação com que a minha alma se derramava nas +sensações +ardentissimas d'aquelle homem.<br /> + +<br /> + +«No segundo mez, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez +«que era muito meu amigo.» O +coração pulsava-lhe vagaroso, os olhos +não faiscavam electricidade, os sorrisos eram frios... os +meus beijos já os não aqueciam n'aquelles labios! +«Sinto por ti uma sincera estima.» Quando isto se +diz, depois d'um amor vertiginoso, que não sabe as phrases +triviaes, a +paixão está morta. E estava...<br /> + +<br /> + +«Depois, Carlos, fallavamos em litteratura, analysavamos as +operas, discutiamos o merito dos romances, e viviamos em academia +permanente, quando Vasco me não deixava quatro, cinco, e +seis horas entregue +ás minhas innocentes recreações +scientificas.<br /> + +<br /> + +«Vasco cançara-se de mim. A consciencia +affirmou-me esta verdade atroz. Suffoquei a +indignação, as lagrimas, e os gemidos. Soffri sem +limites. Abrasou-se-me <span class="pagenum">[87]</span>na +alma um inferno que me coava fogo nas +vêas. Não houve nunca mulher assim +desgraçada!<br /> + +<br /> + +«E vivemos assim dezoito mezes. A palavra +«casamento» foi banida de nossas curtas +conversações... Vasco desquitava-se de +compromissos, que elle chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia +de ser o meu escravo, como elle intitulava o nescio, que se deixava +algemar ás obscuras superstições do +setimo sacramento... Foi ahi que Vasco de Seabra encontrou a Sophia que +te apresentei no real theatro de S. João, na primeira ordem. +<br /> + +<br /> + +«Comecei então a pensar em minha mãi, +em meu irmão, na minha honra, na minha infancia, na memoria +deslustrada de meu pai, na tranquillidade de minha vida até +ao momento em que me atirei á lama e +salpiquei com ella a face da minha familia.<br /> + +<br /> + +«Peguei da penna para escrever a minha mãi. +Escrevera a primeira palavra, quando comprehendi o vexame, a +degradação, e a villania com que ousava +apresentar-me áquella virtuosa senhora, com a face manchada +de nodoas, contagiosas. Repelli com nobreza esta +tentação, e desejei n'aquelle instante, que minha +mãi me julgasse morta.<br /> + +<br /> + +«Em Londres viviamos n'uma hospedaria, depois que Vasco +perdeu o medo a meu irmão. Viera ahi hospedar-se uma familia +portugueza. Era o visconde do Prado, e sua mulher, e uma filha. O +visconde relacionou-se com Vasco, e a viscondessa e sua filha +visitaram-me, tractando-me como irmã de Vasco.<br /> + +<br /> + +«Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua +curiosidade na historia d'esta gente, que já +conheceste no camarote da 2.ª ordem.<br /> + +<br /> + +«Mas não posso agora dispor de mim... +Saberás, alguma vez, a razão porque +não pude continuar +esta carta.<br /> + +<br /> + +«Adeus, até outro dia,<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Henriqueta</em>.»</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[88]</span> +<h3>VII.</h3> + +<br /> + +«Cumpro religiosamente as minhas promessas. Tu não +avalias o sacrificio que faço. Não +importa. Como não quero captivar a tua gratidão, +nem, mesmo +ainda, mover a tua piedade, basta-me a consciencia do que sou para ti, +que é (medita bem) o mais que posso ser...<br /> + +<br /> + +«A historia... não é assim? Principia +agora.<br /> + +<br /> + +«Antonio Alves era um pobre amanuense do escriptorio de um +tabellião de Lisboa. Casou, e reuniu ao infortunio de casar +a desgraça de ser pai. O +tabellião morreu, e Antonio Alves, privado dos escassos +lucros de amanuense, luctou com a fome. A mulher por um lado com a +filhinha ao collo, e elle pelo outro com as lagrimas da indigencia, +conseguiram algumas moedas, e com ellas a passagem do pobre marido para +o Rio de Janeiro.<br /> + +<br /> + +«Foi, e deixou entregues á Providencia a mulher e +a filha.<br /> + +<br /> + +«Josepha esperava todos os dias carta de seu marido. Nem +carta, nem um indicio da sua existencia. Julgou-se viuva, vestiu-se de +preto, e viveu de esmolas, pedidas á noite na +<em>praça do +Rocio</em>.<br /> + +<br /> + +«A filha chamava-se Laura, e crescera bella, não +obstante as angustias da fome, que transformam a formosura do +berço.<br /> + +<br /> + +«Aos quinze annos de Laura, já sua mãi +não mendigava. A deshonra proporcionara-lhe abundancia que +uma honrosa mendicidade lhe não dera. Laura era amante d'um +rico, que cumpria fielmente com a mãi as condicionaes +estipuladas na escriptura de venda da filha.<br /> + +<br /> + +«Um anno depois, Laura explorava outra mina. Josepha +não soffria com as vicissitudes da filha, e continuava +<span class="pagenum">[89]</span>a gosar os fins da +vida á sombra de tão +fecunda arvore.<br /> + +<br /> + +«A indigencia, e a sociedade fizeram-lhe comprehender que +só ha deshonra na fome e na nudez.<br /> + +<br /> + +«Outro anno depois, a radiosa Laura declarou-se o premio do +cavalleiro, que mais airoso entrasse no torneio.<br /> + +<br /> + +«Concorreram muitos gladiadores, e parece que todos foram +premiados, porque todos esgrimiam galhardamente.<br /> + +<br /> + +«Desgraça foi para Laura, quando os melhores +campeões se retiraram fatigados da liça. Os que +vieram depois eram bisonhos no jogo das armas, e viram que a dama das +justas já não valia a pena de +perigosos botes de lança, e de arreios muito custosos de +pedraria e ouro.<br /> + +<br /> + +«Pobre Laura, apeada do seu pedestal, olhou-se a um espelho, +viu-se ainda bella com vinte e cinco annos, e perguntou á +sua consciencia a baixa do preço com que corria no +leilão de mulheres. A consciencia respondeu-lhe que descesse +da altura das suas +ambições, que viesse para onde a chamava a logica +da sua vida, e continuaria a ser rainha n'um reino de segunda ordem, +já que a exauthoravam d'um throno que tivera na primeira.<br /> + +<br /> + +«Laura desceu, e encontrou uma sociedade nova. Acclamaram-na +soberana, reuniu-se uma côrte tumultuosa na ante-camara +d'esta odalisca +facil, e não houve grande nem pequeno a quem se baixassem os +reposteiros do throno.<br /> + +<br /> + +«Laura viu-se um dia abandonada. Viera uma outra disputar-lhe +a sua legitimidade. Os cortezãos voltaram-se para o sol +nascente, e apedrejaram, como os incas, o astro que se escondia para +alumiar os antipodas d'um outro mundo.<br /> + +<br /> + +«Os antipodas d'um outro mundo eram uma sociedade +<span class="pagenum">[90]</span>inculta, sem a +intelligencia da arte, sem o culto á +formosura, sem as opulencias que o ouro cria nas altas +regiões da civilisação, e, +finalmente, sem algum dos attributos, que Laura amára tanto +nos mundos, onde fôra soberana duas vezes.<br /> + +<br /> + +«A infeliz tinha descido ao derradeiro grau de aviltamento; +mas era bella ainda. Sua mãi, enferma n'um hospital, pedia a +Deus, como esmola, a sua morte. A desgraçada foi punida.<br /> + +<br /> + +«No hospital, viu passar sua filha diante do seu leito; pediu +que a deitassem ao pé de si; o enfermeiro riu-se; e entrou +com ella n'outra enfermaria, onde o anjo do pudor e o das lagrimas +cobriam o rosto na presença da ulcera mais esqualida, e mais +lastimosa do genero humano.<br /> + +<br /> + +«Laura principiava a sondar a profundidade do abysmo em que +cahira.<br /> + +<br /> + +«Sua mãi recordava as fomes d'outro tempo, quando +sua filha, virgem ainda, chorava e supplicava, com ella, uma esmola ao +passageiro.<br /> + +<br /> + +«As privações de então eram +semelhantes, ás privações de agora, +com a differença, +porém, que a Laura de hoje, deshonrada e repelida, +não podia +já prometter o futuro da Laura de então.<br /> + +<br /> + +«Agora, Carlos, vejamos o que é o mundo, e +pasmemos diante das evoluções gymnasticas dos +acontecimentos.<br /> + +<br /> + +«Apparece em Lisboa um capitalista, que chama a +attenção dos capitalistas, a +consideração do governo, e, por via de regra, +desafia inimisades politicas, e invejas, que procuram o seu principio +de vida para denegrir-lhe o luzimento da sua affrontosa opulencia.<br /> + +<br /> + +«Este homem compra uma quinta na provincia do Minho, e, mais +barato ainda, compra o titulo de visconde do Prado.<br /> + +<br /> + +«Um jornal de Lisboa, que traz entre os dentes +<span class="pagenum">[91]</span>venenosos da +politica o pobre visconde, escreve um dia um artigo, onde +se acham, entre muitas, as seguintes allusões:<br /> + +<br /> + +«O snr. visconde do Prado adscreveu á immoralidade +do governo a immoralidade da sua fortuna. Como ella foi adquirida, +dil-o-hiam as costas d'Africa se os sertões contassem os +horrorosos dramas da escravatura, em que o snr. visconde foi heroe.<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +«O snr. visconde do Prado era Antonio Alves ha 26 annos, e a +pobre mulher que deixou em Portugal, com uma tenra filhinha ao collo, +ninguem dirá em que rua morreu de fome sobre as lages, ou em +que agua-furtada curtiram ambas as agonias da fome, em quanto o snr. +visconde medrava cynicamente na hydropisia do ouro, com que hoje vem +arrotar moralidades no theatro das suas infamias de esposo e de +pai.................................<br /> + +<br /> + +«Melhor fôra que o snr. visconde indagasse onde +repousam os ossos de sua mulher, e de sua filha, e nos pozesse ahi um +padrão de marmore, que possa attestar ao menos o remorso +d'um infame contricto...<br /> + +<br /> + +«Este insulto directo, e fundamentado, ao visconde do Prado, +fez ruido em Lisboa. As edições do +jornal espalharam-se, e leram-se, e commentaram-se com frenetica +maldade.<br /> + +<br /> + +«Ás mãos de Laura chegou este jornal. +Sua mãi, ouvindo lêl-o, delirou. A filha cuidou +que sonhava; e a situação de ambas perderia muito +se eu tentasse +roubar-lhe as côres vigorosas da tua +imaginação.<br /> + +<br /> + +«No dia seguinte, Josepha e Laura entravam no palacete do +visconde do Prado. O porteiro respondeu que s. exc.<sup>a</sup> +não +estava ainda a pé. Esperaram. +Ás 11 horas sahia o visconde, e, ao saltar para a carruagem, +viu duas mulheres que se aproximavam. Metteu a mão ao bolso +do collete, e tirou doze vintens que lançava na +mão de uma das duas mulheres. Olhou admirado para ellas, +quando viu que a esmola lhe era recusada.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[92]</span> +«―Que querem?―interrogou elle, com soberba +indignação.<br /> + +<br /> + +«―Quero vêr meu marido que não vejo, ha +26 annos...―respondeu Josepha.<br /> + +<br /> + +«O visconde estacou ferido d'um raio. O suor gotejava-lhe na +testa em bagas frias. Laura aproximou-se, em attitude de beijar-lhe a +mão...<br /> + +<br /> + +«―Pois que?...―interpellou o visconde.<br /> + +<br /> + +«―Sou sua filha...―respondeu Laura com humildoso respeito.<br /> + +<br /> + +«O visconde, aturdido e parvo, voltou as costas á +carruagem, e mandou ás duas mulheres que o +seguissem.<br /> + +<br /> + +«O resto no correio seguinte.―Adeus, Carlos.<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Henriqueta</em>.»</div> + +<br /> + +<h3> +VIII.</h3> + +<br /> + +«Carlos, tenho quasi tocado a extrema d'esta minha +peregrinação. A minha illiada está no +ultimo canto. Quero dizer-te que é esta a minha penultima +carta.<br /> + +<br /> + +«Não sou tão independente como pensava. +A não serem os poetas, ninguem gosta de contar as suas +magoas ao vento. É bello dizer-se, que um gemido nas azas da +brisa vai da terra em dorido suspirar até ao +côro dos anjos. É bonito conversar com a fonte +suspirosa, e contar á avesinha gemedôra os +segredos do nosso +penar. Tudo isto é delicioso d'uma puerilidade inoffensiva; +mas eu, Carlos, não tenho alma para estas cousas, nem +engenho para estes artificios.<br /> + +<br /> + +«Vou contando as minhas penas a um homem, que não +póde zombar de minhas lagrimas, sem +trahir a generosidade do seu coração, e a +sensibilidade do +talento. <span class="pagenum">[93]</span> +Sabes qual é o meu egoismo, o meu estipendio n'este +trabalho, n'esta franqueza d'alma, que ninguem te póde +disputar como unico em merecêl-a? Eu te digo. Quero uma carta +tua, dirigida a Angelica Michaela. Diz-me o que a tua alma te disse; +não tenhas pejo em denuncial-a; associa-te um momento +á minha dôr, e dize-me o que farias se tivesses +sido Henriqueta.<br /> + +<br /> + +«Aqui tens o prologo d'esta carta: agora vamos espreitar o +lance extraordinario d'aquelle encontro, em que deixamos o visconde e +a... como hei-de chamar-lhe?... a viscondessa, e sua exc.<sup>ma</sup> +filha D. +Laura.<br /> + +<br /> + +«―Pois é possivel existires?―perguntava o +visconde, sinceramente admirado, a sua mulher.<br /> + +<br /> + +«―Pois não me conheces, Antonio?―respondia ella +com estupida naturalidade.<br /> + +<br /> + +«―Tinham-me dito que morreras...―tornou elle com desazada +hypocrisia―tinham-me dito, ha dezesete annos, que tu e a nossa filha +tinheis sido victimas da cholera-morbus...<br /> + +<br /> + +«―Felizmente que lhe mentiram―interrompeu Laura com +affectada meiguice.―Nós é que lhe +tinhamos resado por alma, e nunca deixamos de pronunciar o seu nome sem +saudosas lagrimas.<br /> + +<br /> + +«―Como tendes vivido?―perguntou o visconde.<br /> + +<br /> + +«―Pobre, mas honradamente―respondeu Josepha, dando-se uns +ares austeros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o +céo por testemunha.<br /> + +<br /> + +«―Ainda bem!―tornou o visconde―mas que modo de vida tem +sido o vosso?<br /> + +<br /> + +«―O trabalho, meu querido Antonio, o trabalho de nossa filha +tem sido o amparo da sua honra, e da minha velhice. Tu abandonaste-nos +com tamanha crueldade!... Que mal te fizemos nós?<br /> + +<br /> + +«―Nenhum, mas não vos disse eu que vos +considerava mortas?―respondeu o visconde a sua mulher, <span class="pagenum">[94]</span>que +tivera a habilidade de arrancar duas volumosas lagrimas, tanto a +proposito.<br /> + +<br /> + +«―O passado, passado―disse Laura, afagando carinhosamente +as mãos paternas, e dando-se uns ares de innocencia capazes +de illudir S. Simão Stylita.―Quer o pai saber (proseguiu +ella com sentimento) qual tem sido a minha vida? Olhe, meu pai, +não se envergonhe da posição social em +que encontra sua filha... Tenho sido modista, tenho trabalhado +incessantemente... tenho luctado com as tentações +da penuria, e +tenho feito consistir em minhas lagrimas o meu triumpho...<br /> + +<br /> + +«―Bem, minha filha―interrompeu o visconde com sincera +contrição―esqueçamos o +passado.... D'hora em diante será a abundancia a premio da +tua +virtude... Ora diz-me: o mundo sabe que tu és minha +filha?... disseste a alguem que eu era teu marido, Josepha?<br /> + +<br /> + +«―Não, meu pai.―Não meu +Antoninho.―Responderam ambas, como se tivessem previsto e calculado as +perguntas e as respostas.<br /> + +<br /> + +«―Pois bem―continuou o visconde―vamos a conciliar com o +mundo as nossas posições +presentes, passadas e futuras. D'hora ávante, Laura, +és +minha filha, és filha do visconde do Prado, e não +pódes chamar-te Laura. Serás Elisa, +comprehendes-me? é necessario +que te chames Elisa...<br /> + +<br /> + +«―Sim, meu pai... eu serei Elisa―atalhou a +<em>innocente modista</em> com impetuosa +alegria.<br /> + +<br /> + +«―É necessario abandonar Lisboa―proseguiu o +visconde.<br /> + +<br /> + +«―Sim, sim, meu pai... vivamos num sertão... +quero gosar, sosinha, na presença de Deus a felicidade de +ter pai...<br /> + +<br /> + +«―Não hiremos para um sertão... vamos +para Londres; mas... attendam-me... é preciso que ninguem as +veja, n'estes primeiros annos, principalmente <span class="pagenum">[95]</span>em +Lisboa... A minha posição actual é +muito melindrosa. Tenho muitos inimigos, muitos invejosos, muitos +infames, que procuram perder-me no conceito que pude comprar com o meu +dinheiro. Estou farto de Lisboa; partiremos no primeiro paquete... +Josepha, repara em ti, e vê que és a viscondessa +do Prado. Elisa, a +tua educação foi desgraçadamente +mesquinha para te poderes mostrar qual eu quero que sejas na alta +sociedade. Voltaremos um dia, e terás então +supprido com a +educação pratica a rudeza que indispensavelmente +tens.<br /> + +<br /> + +«Não progrido, n'este dialogo, Carlos. O programma +do visconde foi rigorosamente cumprido.<br /> + +<br /> + +«Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em +Londres, com esta familia. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira +vez, a filha do visconde atravessar um corredor do hotel, fixou-a com +pasmo, e veio dizer-me que acabava de vêr, elegantemente +trajada, uma mulher que conhecera em Lisboa, chamada Laura. Acrescentou +varias circumstancias da vida d'esta mulher, e acabou por mostrar vivos +desejos de saber o tolo opulento, a quem tal mulher estava associada.<br /> + +<br /> + +«Vasco pediu a lista dos hospedes, e viu que os +unicos portuguezes eram Vasco de Seabra e +<em>sua irmã</em>, e o visconde do +Prado, a sua mulher, e sua filha D. Elisa Pimentel.<br /> + +<br /> + +«Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se d'uma +illusão.<br /> + +<br /> + +«No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e +alegrou-se de ter encontrado um patricio, que lhe explicasse aquelles +gritos barbaros dos serventes do hotel, que lhe davam agua por vinho. +Vasco não duvidou em ser interprete do visconde, com tanto +que as suas luzes em lingua ingleza podessem chegar ao escondrijo +d'onde nunca mais vira sahir a supposta Laura.<br /> + +<br /> + +«Correram as cousas á medida do seu desejo. Na +noite d'esse dia, fomos convidados para tomar chá, na +<span class="pagenum">[96]</span>saleta +do visconde. Eu hesitei, sem saber ainda se Laura seria familiar do +visconde. Vasco, porém, despreveniu-me d'este temor, +afiançando-me que se tinha illudido com a +semelhança das duas mulheres.<br /> + +<br /> + +«Fui. Elisa pareceu-me uma menina bem educada. Nunca o +artificio tirou maior partido das maneiras adquiridas em habitos +libertinos. Elisa era a mulher de côrte, com os ademans +fascinadores dos salões, +onde a immoralidade do coração passeia de +braço dado com a illustração do +espirito. O som da palavra, a +escolha da phrase, a compostura airosa da mimica, o tom sublime em que +as suas idêas eram voluptuosamente lançadas +na torrente de uma conversação animada, tudo isto +me fez crêr que Laura era a primeira mulher que eu tinha +encontrado, talhada á feição do meu +espirito.<br /> + +<br /> + +«Quando agora pergunto á minha consciencia como +estas transições se fazem, descreio da +educação, lamento os annos consumidos no cultivo +da intelligencia, e chego a persuadir-me que a escóla da +devassidão +é a ante-camara por onde mais facil se entra no mundo da +graça e da civilisação.<br /> + +<br /> + +«Perdôa-me o absurdo, Carlos; mas ha mysterios na +vida, que só pelo absurdo se explicam.<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Henriqueta</em>.»</div> + +<br /> + +<h3> +IX.</h3> + +<br /> + +«Li a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de lagrimas, e o +coração de reconhecimento. +Não esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a +injustiça de te julgar infeccionado d'este marasmo de +egoismo que entorpece o espirito, e calcina o +coração. E, de mais, +suppunha-te insensivel pelo facto de seres intelligente. Eis-aqui +<span class="pagenum">[97]</span>um disparate, que +eu não ousaria +balbuciar na +presença do mundo. O que vale é que as minhas +cartas não +serão lidas pelas mediocridades, que se acham em concilio +permanente para condemnar, em nome de não sei que tolas +conveniencias, as heresias do genio.<br /> + +<br /> + +«Deixa-me dizer-te francamente o juizo que eu +fórmo do homem transcendente em genio, em estro, em fogo, em +originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que +se detesta, muitas vezes.<br /> + +<br /> + +«O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns +conheço eu que o mundo proclama virtuosos, e sabios. +Deixal-os proclamar. O talento não é a sabedoria. +Sabedoria é o trabalho incessante do espirito sobre a +sciencia. O talento é a +vibração convulsiva do espirito, a originalidade +inventiva e rebelde á authoridade, +a viagem extatica pelas regiões incognitas da +idêa. Santo Agostinho, Fenelon, Madame de Stael, e Bentham +são sabedorias. Luthero, Ninon de Lenclós, +Voltaire e Byron são talentos. Compara as vicissitudes +d'essas duas mulheres, e os serviços prestados á +humanidade +por esses homens, e terás encontrado o antagonismo social em +que luctam o talento com a sabedoria.<br /> + +<br /> + +«Porque é mau o homem de talento? Essa bella +flôr porque tem no seio um espinho envenenado? Essa +esplendida taça de brilhantes e ouro porque é que +contem o fel, que abrasa os labios de quem a toca?<br /> + +<br /> + +«Aqui tens um thema para trabalhos superiores á +cabeça d'uma mulher, ainda mesmo reforçada por +duas duzias de cabeças academicas!<br /> + +<br /> + +«Lembra-me ouvir dizer a um doudo que soffria por ter +talento. Pedi-lhe as circumstancias do seu martyrio sublime, e +respondeu-me o seguinte com a mais profunda +convicção, e a mais tocante solemnidade +philosophica: Os talentos são raros, e os estupidos +são muitos. Os estupidos guerream barbaramente o talento: +são os vandalos do mundo espiritual. O talento +não tem <span class="pagenum">[98]</span>partido +n'esta peleja desigual. Foge, +dispara na retirada um tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por +fim, isola-se, segrega-se do contacto do mundo, e curte em +silencio aquelle fel de vingança, que, mais cedo ou mais +tarde, cospe na cara d'algum inimigo, que encontra desviado do corpo do +exercito.<br /> + +<br /> + +«Ahi tem―acrescentou elle―a razão porque o homem +de talento é perigoso na sociedade. O odio inspira-lhe a +eloquencia da traição. A mulher, +que lhe ouve o astucioso hymno das suas apaixonadas lamurias, +acredita-o, abandona-se, perde-se, e retira-se, por fim, gritando +contra o seu algoz, e pedindo á sociedade que grite com +ella.<br /> + +<br /> + +«Agora, diz-me tu, Carlos, até que ponto devemos +acreditar este doudo. Eu por mim não me satisfaço +com o seu systema, todavia sinto-me propensa a aperfeiçoar o +prisma do doudo, até encontrar as côres +inalteraveis do juizo.<br /> + +<br /> + +«Seja o que fôr, eu creio que és uma +excepção e não soffra com isto a tua +modestia. A tua carta fez-me chorar, e acredito que soffrias, +escrevendo-a. Has-de continuar a visitar-me espiritualmente na minha +Thebaida, sem cilicios, sim?<br /> + +<br /> + +«Agora conclua-se a historia, que leva seus visos de folhetim +philosophico, moral, social, e não sei que mais por ahi se +diz, que não vale nada.<br /> + +<br /> + +«Contrahi amisade com a filha do visconde do Prado. +Não era ella, porém, tão +intima, que me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra +não era meu +irmão. Por elle me fôra imposto, como preceito, o +segredo de nossas relações. Bem longe estava eu +de +comprehender este zelo de virtuosa honestidade, quando a mão +d'um demonio me tirou a venda dos olhos.<br /> + +<br /> + +«Vasco amava Laura!! Eu puz dous pontos de +admiração, mas acredita que foi uma urgencia +rhetorica, uma composição artistica, +que me obrigou a +admirar-me, <span class="pagenum">[99]</span>escrevendo, +de cousas que me não +admiram, pensando.<br /> + +<br /> + +«Que é o que levou tão depressa este +homem a aborrecer-me, pobre mulher, que despresei o mundo, e me +despresei a mim propria para satisfazer-lhe o capricho d'alguns mezes? +Foi uma miseria que ainda hoje me envergonha, supposto que esta +vergonha devesse ser um reflexo das faces d'elle... Vasco amava a filha +do visconde do Prado, a <em>Laura</em> +d'alguns +mezes antes, porque a Elisa d'hoje era a herdeira de não sei +quantos centos de contos de reis.<br /> + +<br /> + +«Devo envergonhar-me de ter amado este homem, nao +é verdade, Carlos? Não devo soffrer um +instante a perda d'um miseravel, que eu vejo d'aqui com uma grilheta +d'ouro algemada a uma perna, tapando em vão os ouvidos para +não ouvir-lhe o ruido... a sentença +do forçado que o segue até ao fim d'uma +existencia +farta de opprobrio, e celebre de infamias!<br /> + +<br /> + +«E não soffro, Carlos! Tenho aqui no seio uma +ulcera que não tem cura... choro, porque é +intensa a dôr que ella me causa... mas, olha, não +tenho +lagrimas que não sejam remorsos... não tenho +remorsos que não sejam picados pela affronta que fiz a minha +mãi, e a meu irmão... Não me doe o meu +proprio +aviltamento, não! Se em minha alma cabe algum enthusiasmo, +algum desejo, é o enthusiasmo da penitencia, é o +desejo de torturar-me...<br /> + +<br /> + +«Fugi tanto da historia, meu Deus!... Desculpa estes desvios, +meu paciente amigo!... Eu queria correr muito sobre o que me falta, e +hei-de conseguil-o, porque não posso parar, e temo de me +converter em estatua, como a mulher de Loth, quando olho com +attenção para o meu passado...<br /> + +<br /> + +«O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu +genro. Vasco não sei como recebeu o convite; o que eu sei +é que os vinculos d'estas +relações estreitaram-se <span class="pagenum">[100]</span>muito, +e Elisa, desde esse dia, +expandiu-se comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas. +Estas intimidades eram o prologo d'outra que tu avaliarás. +Foi ella a propria que me disse que esperava ainda poder chamar-me +irmã! Isto é uma atrocidade +sublime, Carlos! Diante d'essa dôr calam-se todas as agonias +possiveis! O insulto não podia ser mais +despedaçador! O punhal não podia entrar mais +dentro no virtuoso coração da pobre amante de +Vasco de Seabra!... +Agora, sim, que eu quero a tua admiração, meu +amigo! Tenho direito á tua compaixão, se +não +pódes estremecer de enthusiasmo diante do heroismo d'uma +martyr! Ouvi este annuncio dilacerante!... Senti fugir-me o +entendimento... aquella mulher suffocou-me a voz na garganta... +horrorisei-me não sei se d'ella, se d'elle, se de mim... Nem +uma lagrima!... acreditei-me douda... Senti-me estupida d'aquelle +idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos vêem +nos labios um sorriso de imbecilidade...<br /> + +<br /> + +«Elisa parece que recuou aterrada da expressão da +minha physionomia... Fez-me não sei que perguntas... +não me lembro mesmo se aquella mulher permaneceu diante de +mim... Basta!... não posso prolongar esta +situação...<br /> + +<br /> + +«Na tarde d'esse mesmo dia, chamei uma creada da hospedaria. +Pedi-lhe que me vendesse algumas joias de pouco valor que eu possuia; +eram minhas; minhas não... eram um roubo que eu fiz a minha +mãi.<br /> + +<br /> + +«Na manhã do dia seguinte, quando Vasco, depois de +almoço, visitava o visconde do Prado, escrevi estas linhas:<br /> + +<br /> + +«Vasco de Seabra não póde gloriar-se de +ter deshonrado Henriqueta de Lencastre. Esta mulher sentia-se digna +d'uma corôa de virgem, virgem do +coração, virgem na sua honra, quando abandonava +um villão, que não pôde infectar da sua +infamia o coração <span class="pagenum">[101]</span>da +mulher, que arrastou ao abysmo da sua +lama, sem lhe salpicar a cara. Foi a Providencia que a +salvou!»<br /> + +<br /> + +«Deixei este escripto sobre as luvas de Vasco, e fui +á estação dos caminhos de ferro.<br /> + +<br /> + +«Dous dias depois entrava n'um paquete.<br /> + +<br /> + +«Ao vêr a minha patria, cobri o rosto com as +mãos, e chorei... Era a vergonha e o remorso. Diante do +Porto senti uma inspiração do céo. +Saltei n'uma catraia, e pouco depois achava-me n'esta terra, sem um +conhecimento, sem um apoio, e sem subsistencia para muitos dias.<br /> + +<br /> + +«Entrei em casa d'uma modista, e pedi obra. Não +m'a negou. Aluguei uma agua-furtada, onde trabalho ha quatro annos; +onde, ha quatro annos, comprimo bem aos rins, segundo a linguagem +antiga, os cilicios do meu remorso.<br /> + +<br /> + +«Minha mãi e meu irmão vivem. Julgam-me +morta, e eu peço a Deus que não haja um indicio +da minha +vida. Sê-me tu fiel, meu generoso amigo, não me +denuncies, pela tua honra, e pela sorte de tuas irmãs.<br /> + +<br /> + +«Tu sabes o resto. Ouviste, no theatro, Elisa. Foi ella a que +disse que seu marido a abandonára, chamando-lhe +<em>Laura</em>. Aquella +está punida...<br /> + +<br /> + +«Sophia... (lembras-te de Sophia?) essa é uma +pequena aventura, que aproveitei para tornar menos insipidas aquellas +horas, em que me acompanhaste... Foi uma rival que não honra +ninguem... uma +<em>Laura</em> com os respeitos publicos, e +as considerações que se +barateiam a corpos ulcerosos, com tanto que se vistam de veludos +matizados. Ainda eu era feliz, quando o infame amante d'essa mulher me +dava aquelle annel, que viste, como oblação de +sacrificio que me fazia d'uma +rival...<br /> + +<br /> + +«Escreve-me.<br /> + +<br /> + +«Has-de ouvir-me no proximo carnaval.<br /> + +<br /> + +«Por ultimo, Carlos, deixa-me fazer-te uma pergunta: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[102]</span> +«Não me achas mais defeituosa que o nariz +d'aquella andaluza da historia, que te contei?<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Henriqueta</em>.»</div> + +<br /> + +<br /> + +<h3>X.</h3> + +<br /> + +É natural a exaltação de Carlos, +depois de erguido o véo, em que se escondiam os mysterios de +Henriqueta. Alma apaixonada pela poesia do bello, e pela poesia da +desgraça, Carlos não teve nunca +impressão na vida, que mais lhe incendiasse uma +paixão!<br /> + +<br /> + +As cartas a Angela Michaela eram o desafogo do seu amor sem +esperança. Os mais ferventes extasis da sua alma de poeta, +imprimiu-os n'aquellas cartas escriptas, debaixo de uma +impressão, que lhe roubava a tranquilidade do somno, e o +refugio d'outros affectos.<br /> + +<br /> + +Henriqueta respondera concisamente ás explosões +d'um delirio, que nem sequer a fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta +não podia amar. Arrancaram-lhe pela raiz a flôr do +coração. +Esterilisaram-lhe a arvore dos bellos fructos, e envenenaram-lhe de +sarcasmo e ironia os instinctos do carinho brando, que acompanham a +mulher até á sepultura.<br /> + +<br /> + +Carlos não podia supportar uma repulsa nobre. Persuadira-se +que havia um estalão moral para todas. Confiava no seu +ascendente, em não sei que mulheres, entre as quaes lhe +não fôra penoso nunca fixar o +dia do seu triumpho.<br /> + +<br /> + +Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. O +amor-proprio, angustiado nos apertos d'uma impossibilidade invencivel, +adquire uma nova feição, e converte-se em +paixão, como as paixões primeiras, que nos sopram +a tempestade no limpido lago da adolescencia.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[103]</span> +Carlos, em ultimo recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No +lance extremo d'um desafogo, hiria elle, audacioso, humilhar-se aos +pés d'aquella mulher, +que a não poder amal-o, choraria com elle ao menos.<br /> + +<br /> + +Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a +imaginação, quando lhe occorreu a astuciosa +lembrança de surprehender a morada de Henriqueta +surprehendendo a pessoa que no correio lhe tirava as cartas, +subscriptadas a Angela Michaela.<br /> + +<br /> + +Conseguido o compromettimento d'um empregado do correio, Carlos +empregou n'esta missão um vigia +insuspeito.<br /> + +<br /> + +No dia de correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n.º +628. O +que a entregou fez um signal a um homem, que passeava no corredor, e +este homem seguiu de longe a velha até ao campo de Santo +Ovidio. Feliz das vantagens, que lucrára em tal +commissão, correu a encontrar-se com Carlos. É +ocioso descrever a precipitação com que o +enamorado mancebo, +espiritualisado por algumas libras, correu á indicada casa. +Em honra de Carlos, é necessario dizer que aquellas libras +representavam a eloquencia com que elle tentaria mover a velha em seu +favor, por isso que, á vista das +informações que tivera da pobreza da casa, +concluiu que não era alli a residencia de Henriqueta.<br /> + +<br /> + +Acertou.<br /> + +<br /> + +A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua baiuca, quando Carlos +se aproximou, e muito urbanamente lhe pediu licença para +dizer-lhe duas palavras.<br /> + +<br /> + +A velha, que não podia receiar alguma aggressão +traiçoeira aos seus virtuosos oitenta annos, franqueou os +umbraes da sua possilga, e prestou ao seu hospede a cadeira unica do +seu camarim de tecto de vigas, e pavimento de lages.<br /> + +<br /> + +Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembrado +<span class="pagenum">[104]</span>da chave com que +Bernardes manda fechar os sonetos, applicou-a +á abertura da prosa, e conheceu de prompto as vantagens de +ser classico, quando convém. A velha, quando viu cahir no +regaço duas libras, sentiu o que nunca sentira a mais +carinhosa das mães, com dous filhinhos no collo. Luziram-lhe +os olhos, e +dançaram-lhe os nervos em todas as +evoluções dos seus vinte e cinco annos.<br /> + +<br /> + +Feito isto, Carlos precisou a sua missão nos seguintes +termos:<br /> + +<br /> + +«Esse pequeno donativo, que lhe faço, ha-de ser +repetido, se vm.<sup>ce</sup> me fizer um grande +serviço, que +póde fazer-me. vm.<sup>ce</sup> recebeu, ha +pouco, uma carta, e vai +entregal-a a uma pessoa, cuja felicidade está nas minhas +mãos. Estou certo que vm.<sup>ce</sup> +não ha-de +querer occultar-me a morada d'essa senhora, e prival-a de ser feliz. O +serviço que tenho a pedir-lhe, e a pagar-lhe bem, +é este; póde fazer-m'o?<br /> + +<br /> + +A fragil mulher, que não se sentia bastante heroina para hir +de encontro á legenda, que D. João V. +fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com mais algumas +reflexões e denunciou o santo asylo das lagrimas de +Henriqueta, segunda vez atraiçoada por uma mulher, fragil +á tentação do ouro, que lhe +roubára um amante, e vem agora devassar-lhe o seu sagrado +refugio.<br /> + +<br /> + +Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa da <em>rua +dos Pelames</em>, subia a um +terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe não foi aberta. +Esperou. Momentos depois, subia um rapaz com uma caixa de +chapéo de senhora: bateu; perguntaram de dentro quem era, o +rapaz fallou, e a porta foi immediatamente aberta.<br /> + +<br /> + +Henriqueta estava sem dominó na presença de +Carlos.<br /> + +<br /> + +Foi sublime esta apparição. A mulher, que Carlos +viu, não saberemos nós pintal-a. Era o original +d'essas esplendidas illuminuras, que o pincel do seculo XVI fazia +<span class="pagenum">[105]</span>saltar +da téla, e consagrava a Deus, denominando-as Magdalena, +Maria Egypsiaca, e Margarida de Corthona.<br /> + +<br /> + +O homem é fraco, e sente-se mesquinho perante a magestade da +belleza! Carlos sentiu-se dobrar nos joelhos; e a primeira palavra, que +balbuciou foi +«perdão!»<br /> + +<br /> + +Henriqueta não pôde receber com a firmesa, que +devia suppor-se-lhe, uma tal surpreza. Sentou-se e limpou o suor que +lhe correra de improviso todo o corpo.<br /> + +<br /> + +A coragem de Carlos desmereceu do muito em que elle a tinha. Succumbiu, +e nem, ao menos lhe deixou o dom dos lugares communs. Silenciosos, +olhavam-se com uma simplicidade infantil, indigna de ambos. Henriqueta +revolvia no pensamento a industria com que o seu segredo fôra +violado. Carlos invocava ao +coração palavras que o salvassem d'aquella crise, +que o materialisava por ter tocado o extremo do espiritualismo.<br /> + +<br /> + +Não nos faremos cargo de satisfazer as despoticas exigencias +do leitor, que pede contas das +interjeições, e das reticencias d'um dialogo.<br /> + +<br /> + +O que podemos garantir-lhe, debaixo da nossa palavra de folhetinista, +é que a musa das +lamentações desceu á +invocação de Carlos, que, por +fim, desenvolveu toda a eloquencia da paixão. Henriqueta +ouviu-o com a seriedade com que uma rainha absoluta escuta um ministro +da fazenda, que lhe conta os chatissismos e massudos negocios das +finanças.<br /> + +<br /> + +Sorria-se, ás vezes, e respondia com um resaibo de magoa e +de resentimento, que matava, no nascedouro, os transportes do seu +infeliz amante.<br /> + +<br /> + +As suas ultimas palavras, essas sim, são dignas de se +archivarem para escarmento d'aquelles que se julgam herdeiros dos raios +de Jupiter Olympico, quando se empavonam de fulminar as mulheres, que +tiveram a desventura de se queimarem, como as mariposas, no lume +electrico de seus olhos. Foram estas as suas palavras:<br /> + +<br /> + +«Snr. Carlos! Até hoje os nossos espiritos viveram +<span class="pagenum">[106]</span>ligados por umas +nupcias, que eu pensei não perturbarem +a nossa cara tranquillidade, nem escandalisarem a caprichosa +opinião publica. D'hora em diante, um solemne divorcio entre +os nossos espiritos. Estou punida de mais. Fui fraca e talvez +má, em prender-lhe a sua attenção n'um +baile mascarado. Perdoe-me, que +sou, por isso, mais desgraçada do que pensa. Seja meu amigo. +Não me envenene esta santa obscuridade, este circulo +estreito da minha vida, em que a mão de Deus tem derramado +algumas flôres. Se não póde +avaliar o travo das minhas lagrimas, respeite cavalheiramente uma +mulher, que lhe pede com as mãos erguidas o favor, a piedade +de a deixar sósinha com o segredo da sua deshonra; que eu +prometto nunca mais alargar a minha alma n'estas +revelações, que morreriam comigo, se +eu podesse suspeitar que attrahia com ellas a minha +desgraça...»<br /> + +<br /> + +Henriqueta continuava, quando Carlos, com lagrimas d'uma dôr +sincera, lhe pedia ao menos a sua estima, e lhe entregava as suas +cartas, debaixo do sagrado juramento de nunca mais a procurar.<br /> + +<br /> + +Henriqueta, enthusiasmada pelo pathetico d'esta nobre rogativa, apertou +anciosamente a mão de Carlos, e despediram-se....<br /> + +<div class="dots"></div> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +E nunca mais se viram.<br /> + +<br /> + +Mas o leitor tem direito a saber mais alguma cousa.<br /> + +<br /> + +Carlos, um mez depois, partiu para Lisboa, colheu as necessarias +informações, e entrou em casa da mãi +de Henriqueta. Uma senhora, vestida de lucto, e encostada a duas +creadas, veio encontral-o n'uma sala.<br /> + +<br /> + +―Não tenho a honra de conhecer...―disse a mãi +de Henriqueta.<br /> + +<br /> + +―Sou um amigo...<br /> + +<br /> + +―De meu filho?!...―interrompeu ella―Vem-me <span class="pagenum">[107]</span>dar +parte do triste acontecimento?... Eu já o sei!... Meu filho +é um assassino!...<br /> + +<br /> + +E prerompeu n'um choro, que a não deixava articular +palavras.<br /> + +<br /> + +―O filho de v. exc.<sup>a</sup> assassino!... interpellou +Carlos.<br /> + +<br /> + +―Sim... sim... pois não sabe que elle matou em Londres o +seductor da minha desgraçada filha?!... da minha filha... +assassinada por elle...<br /> + +<br /> + +―Assassinada, sim, mas só na sua honra―atalhou Carlos.<br /> + +<br /> + +―Pois minha filha vive!... Henriqueta vive!... Oh meu Deus, meu Deus, +eu vos agradeço!...<br /> + +<br /> + +A pobre senhora ajoelhou, as creadas ajoelharam com ella, e Carlos +sentiu um calefrio nervoso, e uma exaltação +religiosa, que quasi o fizeram ajoelhar +com aquelle grupo de mulheres, cobertas de lagrimas....<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +Dias depois, Henriqueta era procurada no seu terceiro andar, por seu +irmão, e choravam ambos abraçados com toda a +expansão d'uma dôr represada.<br /> + +<br /> + +Houve ahi um drama de agonias grandiosas, que a linguagem do homem +não saberá descrever nunca.<br /> + +<br /> + +Henriqueta abraçou sua mãi, e entrou n'um +convento onde pede incessantemente a Deus a +salvação de Vasco de Seabra.<br /> + +<br /> + +Carlos é o intimo amigo d'esta familia, e conta este lance +da sua vida como um heroismo digno d'outras épocas.<br /> + +<br /> + +Laura, viuva de quatro mezes, contrahe segundas nupcias, e vive feliz +com o seu segundo marido, digno d'ella.<br /> + +<br /> + +Acabou o conto.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="C6"></a>DINHEIRO! DINHEIRO!</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Contaram-me, ha poucas horas, um episodio da extraordinaria vida d'um +homem, que apenas hoje conta vinte e cinco annos. Quem elle +é não o direi eu, +ainda que me façam... eu sei cá!? bacharel! Eu +bem sei que não posso encarecer-me com este segredo, porque +ha ahi uma boa duzia de pessoas que o sabem, por triste experiencia, +mais miudamente que eu.<br /> + +<br /> + +Mas o que é mais bonito, e não sei mesmo se mais +romantico, é que eu conheço pelo menos quatro +primas-donas, afóra as comprimarias, d'esta partitura, que +negam com toda a energia dos seus brios o importante papel que +desempenharam.<br /> + +<br /> + +Deixal-as negar, que eu tambem não digo quem ellas +são, ainda que me deem o habito de Christo.<br /> + +<br /> + +Outra cousa:<br /> + +<br /> + +O muito veridico archivista dos factos, que vão +lêr-se, pediu-me, por tudo quanto ha sagrado no folhetim, que +não divulgasse, nem por sombras, o seu nome.<br /> + +<br /> + +Não o direi nunca, ainda que me façam... +barão!<br /> + +<br /> + +E está dito tudo.<br /> + +<br /> + +Agora, gentis leitoras e eruditos leitores, começa o +romance, em nome da moralidade, do decoro e dos interesses materiaes... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +DINHEIRO! DINHEIRO!</h2> + +<br /> + +<h3> +I.</h3> + +<br /> + +Foi assim que principiou o meu illustre amigo:<br /> + +<br /> + +―Alli onde o vês é um embryão de +romances desgrenhados...<br /> + +<br /> + +Referia-se a um rapaz que passava por debaixo das minhas janellas. Era +uma boa figura, visto pelas costas; mas de frente não se +podia contemplar-lhe o rosto sem recuar... não de medo, mas +d'um não sei que +desabrido e repulsivo. E não era feio. Eu por mim, custou-me +muito a sustentar cara firme quando elle me fitava com aquelles olhos +negros e magneticos. Fazia-me medo, palavra d'honra! Depois afiz-me +áquella petulancia d'olhar, áquelle carregado +provocante da sobrancelha, e, graças a Deus, já +me não custa +tanto.<br /> + +<br /> + +Ora ahi está, sem grave impertinencia, traçado +corporalmente o snr. Alvaro de Sousa, que passava na minha rua.<br /> + +<br /> + +―Com que então (disse eu) é um +embryão de romances aquelle senhor?! Bem me parecia a mim +que <span class="pagenum">[114]</span>a vida +d'aquelle homem não devia ser +symetrica, pausada, e prosaicamente chata como a minha! Eu nem se quer +lhe sei de nada! Ando cá tão fóra +das barreiras da sociedade, e dos dramas contemporaneos... que nem ao +menos sei se a mazurka está no quinto grau da +refinação, ou se as polkas cederam o terreno +á +restauração do minuete da côrte... Que +miseria!<br /> + +<br /> + +―Não perdes nada, meu caro. Olha que a verdadeira miseria +está escondida no manto de lentejoulas com que esta +sociedade desdentada e trôpega se encobre. E, se +não, deixa-me lêr-te uma pagina da vida de Alvaro +de Sousa, e verás como se vive por lá...<br /> + +<br /> + +Como sabes, aquelle rapaz é da plebe, e aspirou sempre a ser +da fidalguia. O homem não podia tragar esta desigualdade de +gosos imposta pela desigualdade do dinheiro. Sem dinheiro, e sem +avós, Alvaro achava-se aos vinte annos n'este mundo sem +saber o fim para que viera, nem a fileira social em que devia +perfilar-se.<br /> + +<br /> + +―Pois não ha tantos officios?―interrompi eu.<br /> + +<br /> + +―Essa pergunta não me parece tua! Pois tu querias sentar +n'uma tripeça um homem de intelligencia?<br /> + +<br /> + +―Que duvida! Os sapateiros de Lisboa não tem um jornal? +Alvaro de Sousa seria um habil redactor do <em>jornal dos +sapateiros</em>.<br /> + +<br /> + +―Estás zombando!<br /> + +<br /> + +―Palavra de honra, que não zombo! Tu sabes lá +porque horisontes vai ampliar-se o espirito da arte? Sabes se a +tripeça terá uma plastica e uma +esthetica! Sabes se a bota de canhão terá um +bello ideal? Sabes se +a tomba e a intercospia terão uma philosophia? Sabes se as +mathematicas virão, com a sua geometria applicada +á bota, regular as dimensões do salto? Sabes se a +dynamica será a ultima expressão do pino? E +não +achas aqui n'este complexo de sciencias um succolento +pabulo para um sapateiro talentoso, para um +sapateiro-Newton, para um sapateiro-Girardin?<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[115]</span> ―Tenho entendido +que não queres a historia do homem... +Façamos treguas... Eu dou-te o diploma de espirituoso, e tu +fechas a torneira ao espirito por algum tempo... Guarda esse cabedal, +que desperdiças, para os teus folhetins. Farás +rir um fidalgo de raça, +embora o seu quinto avô fizesse borzeguins para a tua quinta +avó. Farás indignar o sapateiro, teu +irmão pelo sangue, pelo osso, e pela carne, e teu +irmão pela arte, porque, em fim, eu não sei se a +sociedade dispensa mais depressa os teus folhetins que as botas...<br /> + +<br /> + +E eu vi que o meu amigo tinha razão, e dei-lhe plena +liberdade de historiar o episodio de Alvaro de Sousa, que +continúa assim:<br /> + +<br /> + +―Alvaro, á custa de muitos vexames e affrontas conseguiu +relacionar-se em algumas casas, onde compareciam algumas das primeiras +mulheres. Eram talvez estas as notabilidades, as sacerdotisas de +iniciação para os noviços que entravam +no faustuoso templo das vestaes em quinta mão.<br /> + +<br /> + +O rapaz foi mais adiante nas suas ambições.<br /> + +<br /> + +O coração pedia-lhe alimento, o espirito +pedia-lhe amor, as aspirações anceavam-lhe um +ideal, e o +altivo mancebo entendeu que aquellas mulheres deviam comprehendel-o no +coração, no espirito, e nas +aspirações.<br /> + +<br /> + +Era, realmente, exigir muito, no anno do Senhor de 1849!<br /> + +<br /> + +A primeira declaração, que balbuciou, teve em +troca um sorrir de despreso. Aventurou uma segunda centelha da lava, +que o escaldava, por dentro, e achou de gêlo todas aquellas +mulheres. E não era isto +só. Escarneciam-no. Lastimavam-lhe a mania das +declarações; e algumas galhofeiras senhoras +reuniram-se, uma noite de baile, para lhe dizerem que, todas juntas, +hiam devotamente cumprir uma novena a Santo Anastacio para que o +servinho de Deus o livrasse d'aquella hydrophobia amorosa. É +onde podia levar-se o insulto!<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[116]</span> +Alvaro de Sousa entrou no amago da sua consciencia, como n'um abysmo +sem luz, n'um segredo de torturas, e despedaçou um a um os +sentimentos generosos com que entrára n'este mundo ingrato.<br /> + +<br /> + +<em>Pobre!</em> esta maldita palavra, estigma +de reprovação, era o seu demonio das vigilias e +dos sonhos!<br /> + +<br /> + +Como o supersticioso, que recua espavorido á larva +imaginaria do seu crime, Alvaro de Sousa fugia dos homens, como se +elles, juizes implacaveis, devessem sentencial-o no crime da sua +pobresa.<br /> + +<br /> + +Mas um coração altivo de impotente orgulho +não podia transigir com estas leis barbaras da sociedade, +que amputam no coração do pobre os mais augustos +sentimentos da sua vitalidade.<br /> + +<br /> + +Ha uma apparente reconciliação entre a affronta e +a pobresa: é a reconciliação do odio: +é um pacto de vingança, sellado pelas lagrimas do +affrontado; é uma letra de usura avara de +desforço, a vencer-se, sem praso fixo, mas a vencer-se um +dia.<br /> + +<br /> + +Esta fôra a reconciliação de Alvaro de +Sousa com as <em>generosas</em> mulheres da +sua +affeição.<br /> + +<br /> + +―Ellas, naturalmente, riam-se, se elle lhes désse parte +d'essa reconciliação...<br /> + +<br /> + +―Riram muito. Alguem lhes disse: «Aquelle pobre rapaz, que +sentia freneticamente as suas paixões, fugiu da sociedade, e +devora, na solidão do seu quarto, um rancor profundo...―A +mim:―interrompeu uma d'ellas―Que pena! Oh Theresinha, não +é uma +verdadeira calamidade o odio d'aquelle rapaz?―Ai! Maria da Luz! que +triste futuro nos espera...»<br /> + +<br /> + +E chasqueavam assim o seu <em>ridiculo</em> +inimigo, perguntando aos amigos d'elle em que dia finalmente as +hostilidades se romperiam.<br /> + +<br /> + +Isto ninguem o dizia a Alvaro, porque entre o odio e a +vingança impossivel, nas almas fortes, está o +suicidio.<br /> + +<br /> + +―<em>Nas almas fortes!</em> (atalhei eu com +gravidade <span class="pagenum">[117]</span> +philosophica). Então não sei eu o que +são «almas fortes!» Cobardes chamo eu +aquelles que desesperam. A suprema das miserias humanas é a +vingança +reservada por causa d'amores despresados. O tal Alvaro de Sousa +será muito romanesco, mas tambem é um grande +tolo. Com que direito queria elle impôr-se ao amor d'essas +mulheres? «Despresaram-no porque era pobre» +respondes tu. E se o despresassem porque era feio? Achas que a pobresa +tenha muitas seducções? E porque +não foi Alvaro de Sousa amar uma peixeira que as ha bem +bonitas? Se a sua alma de poeta aspirava a um <em>ideal +olympico e metaphysicamente imponderavel</em> porque foi +elle procurar o seu ideal nas mulheres carnalmente vestidas de +tafetás e veludos? A mulher ordinaria, virgem na alma, sem a +depravação das Aspasias que o +repudiaram, não lhe seria mais interessante pela candura, +pela innocencia, e pelo angelico scismar dos singelos devaneios? Eu +não posso soffrer estes Werters caricatos que appellam para +o suicidio, quando a mulher dos seus sonhos não +póde altear-se ás delicadas +concepções da sua alma! Vai a vêr-se a +mulher em que elles empregam todo o seu cabedal de sentimentalismo, e +depara-se uma estragada de espirito, abastardada nos instinctos, +incapaz de conceber a generosidade, gelada para as suaves +impressões d'uma amisade honesta, e finalmente uma Ninon sem +o <em>espirito</em> da franceza, +mas opulenta como ella de <em>materia</em>. +Repito: porque +não vão estes impostores queimar o incenso das +suas angelicas adorações +aos pés d'uma donzellinha d'olhos timidos, e faces +purpurinas? Não é tão bello +surprehender o pejo da +innocencia!? Não ha tanta poesia n'aquellas lagrimas de um +primeiro amor que desconfia da sombra de uma mulher, que passa ao longe +do seu Medro! Não ha ahi tantas Angelicas obscuras, tantas +Virginias, segregadas dos salões das Phryneas? Emfim, meu +sentimental historiador de paixões desgrenhadas, eu +não posso sentir +comtigo <span class="pagenum">[118]</span>as +desventuras do snr. +Alvaro. Quero ouvil-as, porque emfim, escrevo folhetins, e minto quasi +sempre para encher um espaço de papel. Póde ser +que +digas alguma cousa que valha a pena de captar a +attenção +d'este publico portuense, que lê constantemente, e, +á +falta de romances, por não poder emendar o costume de +lêr sempre, começa a mastigar profundas +lucubrações sobre a doença das +vinhas.―Ora, diz lá.<br /> + +<br /> + +<h3> +II.</h3> + +<br /> + +O meu amigo continuou:<br /> + +<br /> + +―Alvaro reconcentrou-se em uma tal misanthropia, que nem ao menos os +intimos amigos recebia em casa. Dir-se-hia que aquella vida estava a +levedar-se do amargo fermento de rancor que as mulheres lhe levaram +á alma. Eu vi-o uma vez. Parecia um Smarra, um magico, uma +cousa d'um outro mundo, onde os homens conversam com as larvas. Morava +no quarto o terror. A sombra da aza da morte empanava aquelle rosto, +d'onde a vivesa e o lume fugira, deixando como vestigios, as rugas +cadavericas d'uma lenta agonia.<br /> + +<br /> + +―Devia ser um demonio! Cuidei que uns figurões assim eram +privilegio dos romances!... E os cabellos? naturalmente arripiados como +os do Asaverus, de Orestes, ou de qualquer outro estafermo, +não é verdade?<br /> + +<br /> + +―O que tu quizeres... O caso é que eu julguei-o demente, +ou, pelo menos, desgraçado, que não sei +se é menos, por toda a vida.<br /> + +<br /> + +Agora, levanta-se o pano do segundo acto.<br /> + +<br /> + +Uma bella manhã, sahe um homem d'um navio com quatro +bahús atraz de si. Este homem procurou a morada de um seu +irmão; este irmão, que tinha morrido, era o pai +de Alvaro. O tio de Alvaro, por consequencia, <span class="pagenum">[119]</span>era +um rico brasileiro, que acabava +de manifestar seiscentos contos.<br /> + +<br /> + +Alvaro recebeu-o com sinistra rudeza. O snr. Manoel da Silva +abraçou seu sobrinho, chorando a morte de seu +irmão, que era muito semelhante com seu sobrinho. Deu +graças á Providencia por encontrar um +herdeiro do seu ouro e do seu sangue; e, deixa-me assim dizer sem +offensa da metaphysica, insufflou uma alma nova n'aquella casa, uma +alma muito grande, maior que a alma universal de Platão! +só comparavel +á alma que faz girar um sangue azul nas veias d'um +merceeiro.<br /> + +<br /> + +Alvaro, quando de improviso se viu rico, partiu a pedra do seu tumulo, +e respirou o ar dos vivos. Os olhos faiscaram-lhe um novo lume. Os +labios vibraram-lhe uma eloquencia nova. O +coração bateu-lhe +pulsações d'um orgulho expansivo. O corpo +endireitou-se na linha vertical que a Providencia geometrica marcou a +todos os que podem parodiar Luiz XIV, e dizer: o dinheiro sou eu!<br /> + +<br /> + +O brasileiro não era abdominoso nem vermelho das bochechas. +Era um homem regular, com sentimentos de homem não +bestealisado pelo ouro.<br /> + +<br /> + +Achando uma casa pobre, enriqueceu-a, ampliou-a, abriu-lhe os flancos, +e deu-lhe as fórmas arrogantes d'um palacete. Um tylburi, +uma carruagem, e duas parelhas de eguas hanoverianas harmonisaram o +fausto d'aquella magica metamorphose.<br /> + +<br /> + +E tudo era feito a bel-prazer de Alvaro. O tio authorisara-o para tudo, +menos para casar-se, porque detestava as mulheres.<br /> + +<br /> + +Elle lá sabia o porque, e, se eu o souber um dia, conta com +um folhetim.<br /> + +<br /> + +―Muito obrigado; não me despeço do favor.<br /> + +<br /> + +―Agora vaes tu conhecer a astucia da intelligencia, que não +prescinde, na riqueza, da vingança +premeditada no infortunio.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[120]</span> +Alvaro de Sousa não ostentou, como era de esperar, as suas +eguas, a sua carruagem, e os seus lacaios de verde e prata. Viveu, dous +mezes, ao fogão, conversando com o tio, e conquistou-lhe +assim um conceito de grave sisudez, e uma plena confiança.<br /> + +<br /> + +Na primavera, Alvaro appareceu com as flôres, e, agradavel +como ellas, grangeou amisades, que não tinha...<br /> + +<br /> + +―Necessariamente... Olha que novidade me dás!... +É melhor dizer... <em>comprou amisades, que +não tinha</em>...<br /> + +<br /> + +―Não posso assim dizer absolutamente. Alvaro, em quanto +pobre, era desabridamente orgulhoso, e desconfiado... Um olhar de +través irritava-o, e uma palavra equivoca enfurecia-o. Era +como os que soffrem rheumatismo agudo, que não consentem uma +mosca no travesseiro. E a pobresa, seja dito em proveito da pathologia, +é o rheumatismo agudissimo da humanidade...<br /> + +<br /> + +Depois de rico, parece que a sua grandeza estava na consciencia d'ella. +O dinheiro tornou-o affavel, carinhoso, sollicito em procurar as +relações dos que lhe +eram muito inferiores, e até d'aquelles que repellira na +infelicidade. É realmente um phenomeno, mas tu sabes que eu +não te minto.<br /> + +<br /> + +―E as mulheres que faziam?<br /> + +<br /> + +―As mulheres? Agora vamos nós lá... Isso +é uma historia muito complicada...<br /> + +<br /> + +―Quaes são as que figuram?<br /> + +<br /> + +―Vamos por partes. A mulher, que, primeiro, o repelliu foi a Maria da +Luz. Esta mulher é casada, e era solteira, mas solteira de +trinta e tantos annos, quando Alvaro a requestou. Não sei +porque, Maria da Luz, era a preferida no odio, talvez porque sendo a +primeira a repellil-o, desairou-o, para todas as outras... +Não sei.<br /> + +<br /> + +Alvaro foi com seu tio pagar uma visita ao marido d'esta mulher, porque +a influencia do brasileiro em certos homens do poder obrigara aquelle a +captar-lhe a benevolencia <span class="pagenum">[121]</span>para +conservar certos +proventos, que estavam muito em perigo.<br /> + +<br /> + +O sobrinho começou a jogar com a influencia do tio. Quiz +lêr-lhe o seu programma de vingança, mas +achou que era cedo, ou immoral. Calou-se e esperou.<br /> + +<br /> + +Na visita, que fizeram, Maria da Luz veio á sala, e quiz +sustentar a dignidade matrimonial, com os artificios d'uma etiqueta +safada. Alvaro ria-se por dentro, mas fingia-se parvo por +fóra. Dava-se uns ares de esquecido, e apertava a +mão da sua victima com a cordialidade d'um bom homem. E +Maria da Luz espantou-se.<br /> + +<br /> + +Passaram-se alguns mezes. Alvaro, que participava da influencia do tio +nos destinos da patria, reconcentrou toda a sua energia em realisar +desgraçadamente os terrores do marido de Maria da Luz. +Quando menos se esperava, este homem é demittido, e obrigado +pela fazenda a um saldo de contas que o empobrecia. O brasileiro, que +n'este tempo já era visconde de Sousa, quiz salval-o, mas +encontrou em seu sobrinho um violento accusador das immoralidades +d'aquelle mau funccionario, cuja deshonra reflectia na face de quem o +protegesse. As instancias redobradas encontraram frio o visconde, que, +por fim, declarou que não intervinha em certos negocios que +delegara em seu sobrinho, mais conhecedor das conveniencias do paiz, e +da moralidade dos funccionarios. Com este fragmento de +<em>artigo do +fundo</em>, foi despedido o marido da Luz, cujo decahir +para o abysmo de miseria era rapido como a facilidade com que subira.<br /> + +<br /> + +Maria da Luz comprehendeu a vingança, e achou-a vil.<br /> + +<br /> + +―Realmente era...<br /> + +<br /> + +―Mas não ha vinganças nobres, creio eu. A +mulher, que eu principio a chamar pobre, fechára os seus +salões, e não esperou que os alheios se lhe +fechassem. A tristeza sentára-se nos sophás +d'aquellas salas desertas, +onde viria brevemente sentar-se o escrivão da penhora. A +<span class="pagenum">[122]</span>desgraça, +ainda assim, não lhe aniquilava a +soberba. Julgava ella que, humilhando-se a Alvaro, encontraria uma +protecção, mas tambem uma ignominia. O marido, +que cahira primeiro na sua miseria, perdeu, primeiro, a dignidade. +Excitou-a para que escrevesse a Alvaro, e encontrou-a sempre negativa.<br /> + +<br /> + +E Alvaro respirava com sofreguidão um momento que devia +chegar.<br /> + +<br /> + +Ao mesmo tempo, desenvolvia-se o plano d'outra vingança. +Thereza da Cruz era a segunda victima de Alvaro. Esta não +podia ser ferida nos interesses materiaes. Era rica das suas +propriedades. Era solteira, e amava profundamente um homem casado.<br /> + +<br /> + +Este homem era delirantemente amado por sua mulher, e presava-a, +senão posso dizer que a adorava. Thereza da Cruz +fascinava-lhe a cabeça d'aquelle amor-appetite que Stendhal +judiciosamente distingue do amor-paixão. Mas Thereza da Cruz +detestava a virtuosa esposa do seu amante, com toda a raiva d'um ciume +reconcentrado.<br /> + +<br /> + +E Alvaro sabia-o.<br /> + +<br /> + +Era-lhe necessario quebrar aquellas ligações com +estrondo e deshonra para Thereza da Cruz.<br /> + +<br /> + +O que elle fez é uma ignominia, é, +porém uma vingança que medrara em fel durante +tres annos de torturas suffocadas.<br /> + +<br /> + +Alvaro obteve uma carta da mulher do amante de Thereza da Cruz, +escripta a uma sua amiga.<br /> + +<br /> + +O dinheiro proporcionou-lhe um falsificador de letra, perfeito na sua +perversa habilidade.<br /> + +<br /> + +Mandou-lhe escrever algumas cartas amorosas pelo molde d'aquella letra. +E não deixou uma ligeira duvida sobre o genero de +relações que a prendiam a um +homem, que se não nomeava.<br /> + +<br /> + +Estas cartas enviadas a Thereza da Cruz, foram incluidas n'uma anonyma, +que dizia assim:<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[123]</span> +<div class="signature">«Minha querida amiga.</div> + +<br /> + +<br /> + +«Sei que detestas Miquelina, e que procuras +perdêl-a no conceito do marido, para conquistares plenamente +uma alma digna de ti. Queres castigar o orgulho d'essa hypocrita que +lamenta a nossa +<em>prostituição</em>? +Ahi tens essas cartas, que eu pude obter d'um amante, que a despresou +por mim. Tira as têas d'aranha dos olhos d'esse piegas, e +faz-lhe vêr que sua mulher não +é melhor que tu: porque tu és livre, e ella +é casada. +Saberás o meu nome, no primeiro baile onde nos reunirmos.<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Tua amiga d'alma.»</div> + +<br /> + +<br /> + +D. Thereza, recebendo estes cartas, sentiu uma alegria infernal. Daria +por ellas a reputação de honrada, +se a tivesse.<br /> + +<br /> + +Por fatalidade, o amante, na noite d'aquelle dia tratou-a com +indifferença. A orgulhosa, enraivecida d'um tedio que +não podia supportar, esforçou-se por +chamar a conversação a respeito de mulheres +casadas, e +avançou a proposição de que +não havia uma na +primeira roda, que não fosse adultera. O amante protestou +colericamente contra o absoluto da proposição. +Defendeu sua +mulher com ares de Collatino, e exprobrou acremente a maledicencia da +insolente.<br /> + +<br /> + +A indignação ferveu: trocaram-se epithetos +ultrajantes. D. Thereza foi uma eloquente regateira, e o seu apaixonado +repetiu as phrases mais peculiares da tarimba. Por fim, D. Thereza, +chegado o momento dramatico, apresentou-lhe as suppostas cartas da +esposa.<br /> + +<br /> + +O homem abriu-as com frenesi: reconheceu a letra e sahiu como um vexado +pelo demonio.<br /> + +<br /> + +D. Thereza da Cruz, sentiu, pela primeira vez, um momento de completa +felicidade em sua vida!...<br /> + +<br /> + +―E depois?<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[124]</span> +<h3>III.</h3> + +<br /> + +―Depois, o furioso entrou na camara de sua mulher, e encontro-a +velando o somno de um filhinho, que tinha no berço. +Perguntou-lhe o marido o que ella fazia a pé á +uma hora da noite. Miquelina respondeu que +o esperava para lhe servir a cêa, por isso que as creadas, +fatigadas de trabalho, não podiam esperar que seu amo se +recolhesse, alta noite, para repousarem.<br /> + +<br /> + +O marido recebeu com um sorriso feroz esta resposta digna de uma +senhora virtuosa, e sentou-se junto d'ella. Tocado da faisca electrica +de tyranno de melodrama, enturvou os olhos, franziu a testa, arrancou a +voz dos subterraneos do pulmão, e fallou assim, com uma +carta aberta: «Conhece esta letra, +senhora?»―É minha, penso eu―respondeu ella com +promptidão.―«Já sabe naturalmente que +carta é +esta.»―Não sei... será escripta +á Antoninha? ou á prima +Angela? eu não escrevo a mais ninguem.―«A mais +ninguem, infame!... a senhora não escreve a mais +ninguem?»―Juro que não, juro que +não... deixa-me vêr +essa carta, Luiz, deixa-me vêl-a, eu t'o peço pela +boa sorte +da nossa filhinha.―«Veja.»<br /> + +<br /> + +Miquelina leu estas duas linhas da carta: <em>Dous dias +é uma ausencia insupportavel!... Vem, meu anjo, faz que a +minha vida tenha algumas flôres</em>...<br /> + +<br /> + +Não continuou. Prerompeu em palavras inarticuladas. Eram os +gritos da desesperação! A surpreza +transtornara-lhe o espirito, até converter-lhe o dom da +palavra em alarido selvagem. Parecia douda. O proprio marido retirou +aterrado diante d'aquella angustia sublime. Houve em casa um motim, um +tropel de creados, que se olhavam estupidamente. Miquelina, exhausta de +forças, e <span class="pagenum">[125]</span> +convencida da realidade daquella infame allusão, desmaiou. +Seu marido tateou-lhe o pulso e o coração. +Reconheceu que havia alli uma dôr legitima. Ficou +estupidamente perplexo, e fazia dó n'esta duvida afflictiva. +Mas a innocencia, filha da justiça de Deus, devia triumphar. +<br /> + +<br /> + +Miquelina foi logo entregue aos cuidados da medicina. Julgaram-na +subindo a gradação d'uma demencia, e Luiz d'Abreu +aterrou-se seriamente.<br /> + +<br /> + +Ás dez horas do dia seguinte, Luiz d'Abreu recebia a +seguinte carta:―«Deves possuir quatro cartas, que te foram +dadas por Thereza da Cruz. São quatro documentos +inqualificaveis da infamia d'essa mulher. Tua virtuosa senhora +escrevera uma carta a sua prima Angela. Thereza da Cruz pôde +obter essa carta, de que se serviu para fazer imitar a letra da que +ella chama sua rival. Remetto a carta de que ella se serviu. Tua +senhora é innocente como os anjos. Pede-lhe +perdão, se lhe +já lançaste em rosto a calumnia forjada pela +ignobil mulher a que vives associado. Se apesar de tudo, tiveres a +impudencia de continuar relações com Thereza da +Cruz, hei-de +eu, com os teus amigos, apregoar a baixeza do teu caracter para +engrandecer a nobreza de tua deploravel esposa.<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Um teu amigo.</em>»</div> + +<br /> + +<br /> + +Luiz d'Abreu entrou na camara de sua mulher. Estavam com ella dous +medicos e duas creadas. Miquelina estremeceu ao vêl-o. Mal +sabia ella que esse homem hia ajoelhar-se na sua presença! +Eram tocantes as lagrimas que elle chorava, ajoelhado, balbuciando +palavras inintelligiveis. Miquelina ergueu a face para testemunhar +aquella nova surpreza. Os circumstantes quinhoavam do enthusiasmo +d'aquella scena, sem a comprehenderem.<br /> + +<br /> + +«Peço perdão a minha virtuosa mulher! +(exclamou elle) perdão d'uma affronta, d'uma calumnia, que a +reduziu <span class="pagenum">[126]</span> +a esta situação... Na presença +de todo o mundo eu quizera que ella me perdoasse...»―Sim, +sim,―bradou ella com enthusiasmo febril―eu perdôo-te de +toda a minha alma, Luiz, de todo o meu coração, +meu esposo querido!...<br /> + +<br /> + +Luiz d'Abreu ergueu-se, chorou sobre a mão que beijava, e +foi feliz, verdadeiramente feliz, n'aquella hora solemne da sua vida.<br /> + +<br /> + +Foram muito sensiveis os progressos nas melhoras de Miquelina.<br /> + +<br /> + +Na tarde d'esse dia, Abreu, com o mais carinhoso bilhete, pediu uma +entrevista, á meia noite, a Thereza da Cruz. Foi-lhe +concedida.<br /> + +<br /> + +Ao dar da meia noite estava Luiz d'Abreu encostado á porta +que devia ser-lhe aberta por Thereza da Cruz. Abriu-se a porta. Abreu +tomou aquella mulher pelos cabellos, arrastou-a para o meio da rua, e, +sem dizer-lhe um monosyllabo, encheu-lhe o corpo dos vergões +d'um chicote. Thereza supportara as primeiras chicotadas com o silencio +da vergonha; mas quando a dôr physica dominou a moral, +gritou. Abreu retirou a passo rapido. Thereza fugia, quando um segundo +homem lhe lançou a mão. Ella reconheceu-o, e +pediu que a deixasse. «Não, minha +senhora,―replicou o seu conhecido―eu +não posso consentir que v. exc.<sup>a</sup> seja +assim desfeiteada na +rua como uma mulher de alcouce...»―Deixe-me, deixe-me... por +piedade, snr. Alvaro de Sousa!<br /> + +<br /> + +E debatia-se entre as mãos de Alvaro como atacada de gota +coral.<br /> + +<br /> + +Aproximou-se a patrulha. Lançou mão de ambos, e +perguntou a D. Thereza se aquelle homem a insultara. D. Thereza +respondeu que não, que ninguem a insultara. Alvaro, que nem +zombando mentia, desmentiu a sua velha +<em>amiga</em>, dizendo que elle a vira +chicoteada cruelmente por um homem, que fugira; e que o mais que a tal +respeito podia dizer era que esta senhora morava +<span class="pagenum">[127]</span>n'aquella casa, +era uma respeitavel fidalga, e chamava-se D. Thereza da +Cruz. A patrulha não prescindiu d'estas +informações ratificadas por s. exc.<sup>a</sup> +Perguntou-lhe o nome do +aggressor, e ella +respondeu que o não dizia.<br /> + +<br /> + +Imagina, meu amigo folhetinista, a colica despedaçadora em +que a pobre mulher se viu! A patrulha não queria largal-a; +mas Alvaro de Sousa capitulou por uma libra com as imperiosas +exigencias da guarda municipal, e conseguiu a liberdade da pobre +mulher.<br /> + +<br /> + +E, ao despedir-se de D. Thereza, fel-a parar um momento, para dizer-lhe +com a mais fleumatica placidez: «Minha querida senhora! Eu +comprei com uma libra a satisfação de pagar a v. +exc.<sup>a</sup> a menor +parte d'um grande serviço que lhe devo... Eu não +pude +esquecer-me nunca de que v. exc.<sup>a</sup> com algumas +amigas suas, cumpriram +uma novena a Santo Anastacio, para que o servinho de Deus +alcançasse curar-me da hydrophobia do amor, que me atacou... +Tenha v. exc.<sup>a</sup> uma noite feliz.»<br /> + +<br /> + +E retirou-se. Thereza da Cruz não respondeu uma palavra.<br /> + +<br /> + +Alvaro de Sousa estava vingado.<br /> + +<br /> + +―Tens mentido com a mais soberana presença de +espirito!―atalhei eu.<br /> + +<br /> + +―Não minto, juro-te que não minto...<br /> + +<br /> + +Estás muito em occasião de verificar estes +factos... Deseja conseguir a verdade, que has-de consegu +Estás muito em occasião de verificar estes +factos... Deseja conseguir a verdade, que has-de conseguil-a.<sup><a href="#3">[3]</a></sup><br /> + +<br /> + +E eu acreditei-o; e ámanhã acreditarei tambem que +qualquer destemido despejou um bacamarte nos intestinos do seu anjo...<br /> + +<br /> + +―O rigor da chronologia―proseguiu o implacavel noticiador―exige que +eu te conte agora a vingança de Maria da Luz.<br /> + +<br /> + +A hora da miseria extrema tinha soado. Os bens de <span class="pagenum">[128]</span>raiz +confiscou-os a fazenda: os moveis estava designado o dia de +leilão em que deviam ser vendidos.<br /> + +<br /> + +O marido de Maria da Luz, que por nome não perca, soubera +que sua mulher ridiculisara as pretenções +de Alvaro de Sousa n'aquelles dias de vergonhosa pobreza. Bem conhecia +elle a indignidade a que tentava forçar sua mulher, +instigando-a a que se valesse do prestimo d'um homem que tinha fortes +razões de aborrecel-a. Todavia, Alvaro gosava de um tal +conceito de nobreza de coração, e sensibilidade +d'alma que qualquer +marido, mais escrupuloso ainda, não duvidaria instar, na +hora critica d'uma penhora, pela humildade da sua supposta Lucrecia.<br /> + +<br /> + +Maria da Luz, por fim, conveio na pessima +situação em que se achavam os negocios de seu +marido. A fome avisinhava-se, e a deshonra é menos negra que +a fome, segundo a opinião d'alguns moralistas entendidos +n'estas côres.<br /> + +<br /> + +Alvaro de Sousa recebeu uma carta de Maria da Luz, em que lhe era +pedido o emprestimo de doze mil cruzados, pagaveis em doze annos.<br /> + +<br /> + +O cavalheiro respondeu que a obrigação onde eram +estipulados doze annos seria reformada pelo praso de duas horas......<br /> + +<br /> + +Maria da Luz comprehendeu-o. O primeiro abalo, que sentiu no +coração, foi a raiva: o segundo foi +a vergonha: o terceiro foi a negociação com as +condições do titulo reformado, conforme a vontade +do credor.<br /> + +<br /> + +E respondeu affirmativamente, com a sagrada +condição d'um segredo inviolavel para seu marido. +<br /> + +<br /> + +E Alvaro de Sousa enviou doze mil cruzados ao marido de Maria da Luz, +com esta carta:<br /> + +<br /> + +<div class="signature">«Meu caro senhor.</div> + +<br /> + +<br /> + +«Conforme á negociação que +acabo de fazer com <span class="pagenum">[129]</span>sua +senhora, remetto doze mil cruzados. Da inclusa carta da exc.<sup>ma</sup> +snr.<sup>a</sup> D. Maria da Luz, verá v. s.<sup>a</sup> +que este contracto +é bilateral, e a parte que eu tenho n'elle em vantagem minha +é a renuncia que a dita senhora me faz d'uma propriedade que +eu não sei se está +hypothecada a v. s.<sup>a</sup> Supposto me devessem +ter sido +dados estes esclarecimentos antes da remessa do dinheiro, eu +não tenho duvida em sujeitar-me a qualquer outra +transacção +que possamos ambos amigavelmente fazer, visto que, d'hora em diante, +nos devemos ambos considerar com mais ou menos jus á mesma +propriedade. E, como eu tenha resolvido cedêl-a em beneficio +de meu lacaio, v. s.<sup>a</sup> não +terá duvida em +consideral-o com os direitos que eu possuia.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right;">De v. s.<sup>a</sup> +attento venerador<br /> + +</div> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Alvaro de Sousa.</em>»</div> + +<br /> + +<br /> + +―E depois?―interrompi com anciedade.<br /> + +<br /> + +―Depois...... tu vaes dizer que eu te minto!...<br /> + +<br /> + +―Não digo... palavra d'honra!<br /> + +<br /> + +―Depois, o codilhado foi Alvaro de Sousa, porque o marido da Maria da +Luz empregou convenientemente os doze mil cruzados e vive perfeitamente +com sua mulher.<br /> + +<br /> + +―Mas Alvaro de Sousa? nunca mais se importou com ella?<br /> + +<br /> + +―Nunca mais. A consciencia diz-lhe que está vingado.<br /> + +<br /> + +―E das outras?<br /> + +<br /> + +―Das outras... vingou-se sem ruido... Tomou d'ellas uma +vingança que não póde ser +romantisada por ser muito simples.<br /> + +<br /> + +O meu amigo viu passar uma mulher, e foi atraz d'ella.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[130]</span> +Eu escrevi tudo isto com as reminiscencias vivissimas do dialogo.<br /> + +<br /> + +Querem saber onde tudo isto aconteceu?<br /> + +<br /> + +Agora é que v. exc.<sup>as</sup> vão +ficar +surprehendidas...<br /> + +<br /> + +Foi em Pekim!<br /> + +<br /> + +Salvei a moral publica!<br /> + +<br /> + +Cante-se o hymno!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="C7"></a>A CAVEIRA.</h2> + +<br /> + +<h3> +PROLOGO.</h3> + +<br /> + +Quem disser que em Traz-os-Montes não ha romances, +é capaz de dizer que a lua não tem habitantes, e +as alfandegas ratos.<br /> + +<br /> + +A provincia de Traz-os-Montes é um sertão +desconhecido, um retalho de Portugal segregado da +civilisação; mas não deixa por isso de +ter uma chronica de +tradições barbaras, que virá +archivar-se em folhetins, quando os caminhos de ferro, construidos +pelos capitalistas da Ovelhinha, aproximarem o contacto das +intelligencias com as florestas virgens d'aquella região +polar.<br /> + +<br /> + +Esse dia amanhecerá bem cedo. A aurora da +civilisação madrugou para todos. A viabilidade +discute-se á lareira. Mais d'um juiz das almas se extasia +nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia rural, +auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria do +augmento do salario pela facilidade dos +<span class="pagenum">[134]</span>transportes. Ha +lavradores que addicionaram á leitura do +Borda d'Agua as prelecções escriptas de economia +politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao mercado de +Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O enthusiasmo +é universal. A expansão +fervente dos interesses materiaes, a febre eloquente da viabilidade, os +traços profundos e rasgados, com que as intelligencias +financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da nossa prosperidade, +não são já um +exclusivo da mocidade jornalistica.<br /> + +<br /> + +O meu collega Ricardo Guimarães, que salta de noite em +cuecas, fóra da cama, sonhando-se impellido por um wagon, +doudeja de jubilo ao vêr-se comprehendido, no seu ardente +apostolado, desde Monção +até ao Cabo da Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas +frontaes, cada vez que o alvião do operario rasga no seio da +terra o tumulo do carroção ignobil! (Isto era +escripto em +1853...)<br /> + +<br /> + +A mocidade é assim. A força creadora do talento +ha-de supprir a debilidade do thesouro. Onde os capitalistas +não chegaram, hirá o artigo de fundo, palpitante +de vida, como um ouragan invencivel, desaterrar a aterrar com as +forças magneticas do genio, com a magia imperiosa dos +periodos arredondados artisticamente.<br /> + +<br /> + +E, por tanto, a provincia de Traz-os-Montes vai ser aquecida pelas +irradiações do foco civilisador. +Um dia, os povos do Marão, agrupados nas cristas das +serranias, +verão lá em baixo passar o traço negro +do carril; e +cuidarão que um demonio, na cauda d'um raio, lhe talou as +campinas, no dia tremendo das vinganças do Senhor!<br /> + +<br /> + +Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustrados <span class="pagenum">[135]</span>pela +leitura repentina, e pelos artigos de fundo, virão, de +sócos e coroça, nas azas do +carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e +influir seriamente no futuro da empreza lyrica.<br /> + +<br /> + +Então, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas +terão uma associação industrial, uma +caixa filial, um gabinete de leitura, e um centro promotor das classes +laboriosas. O cavador, na hora da sesta lerá, na vinha, de +barriga ao ar, o <em>Tymes</em>, e +Benjamin Constant. O proprietario, entregue ás subtilezas +economicas, que +distinguem o cabedal da renda, andará em guerra littetaria +com o seu visinho da aldeia proxima, por causa d'uma falsa +interpretação aos sophismas de Bastiat. +N'esse dia, serão banidos os estupidos da face da terra. O +proletariado, +filho da estupidez, não virá coberto de farrapos +pedir um bocado de pão, no banquete social, por conta do +futuro fomento. Pouco ha-de viver quem não vir tudo isto.<br /> + +<br /> + +Será então chegado o momento solemne de pedir +á provincia do norte a historia do seu passado. +Serão +exploradas então as minas de poesia, entulhadas pelo +obscurantismo de longos seculos. Acontecerá muitas vezes +encontrar-se um sóco onde se esperava um borzeguim de +castellan. O leitor pedirá uma heroica lucta de dous +infanções armados da fidalga espada, e +verá duas fouces roçadouras decidirem um pleito +de apaixonado melindre.<br /> + +<br /> + +Mas não será em tudo assim a chronica obscura da +provincia, onde vivi alguns annos, e em poucos dias colhi apontamentos +para longos trabalhos de muito proveito esthetico, plastico, artistico, +e não sei mesmo se cubico, anomalo, e hybrido.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[136]</span> +A historia, que vou contar, com innocentissima lealdade, +póde ser confirmada ainda por duas ou tres testemunhas, que, +pelo menos, viviam, ha cinco annos. Fallo assim com orgulhosa +authoridade, porque tenho direito a ser acreditado em romances, que tem +a honra de assentarem n'uma sincera base.<br /> + +<br /> + +A mentira no romance é uma nodoa, que nausêa o +publico illustrado. Alexandre Dumas, escrevendo um romance intitulado +<em>Martim de Freitas</em>, +obrigou este heroe a desembarcar em Mafra, nomeou-o alcaide do castello +da Horta, e fez nascer D. Sancho II na Palestina, onde foi baptisado +por um tal monsieur d'Evora, arcebispo de Leiria! É uma +cornucopia de asneiras este litterato, +fallando de Portugal.<br /> + +<br /> + +O publico tem direitos sagrados, e é realmente +ultrajar-lh'os, querel-o capacitar de que Mafra é um porto +de mar, e Leiria uma cidade archiepiscopal, e monsieur d'Evora +cidadão portuguez.<br /> + +<br /> + +Comprehenda-se a missão do romancista. O romance, a +viabilidade, e o fluido transmutativo são a +tripeça em que está sentada a +civilisação. +Quebrar-lhe um dos pés é dar com ella em terra. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>A CAVEIRA.</h2> + +<br /> + +<h3> +I.</h3> + +<br /> + +Morreu, ha seis annos, em Villa Real, um velho de oitenta e oito annos. +Chamava-se D. João de Noronha, e habitava uma casa pequena, +mas decorada de grande brazão d'armas, e não sei +quantas ameias +modeladas pelos pilares das açoteas mouriscas. O leitor, +que, por louvavel curiosidade, quizer, de perto, capacitar-se da +fidelidade architectonica d'esta casa, vá a Villa Real, e na +<em>rua do Cabo da Villa</em>, pergunte pela +casa de D. +João de Noronha. Não terá de que +maravilhar-se, a não +ser da sisuda gravidade, e rigorosa certeza com que o author lhe conta +historias interessantissimas.<br /> + +<br /> + +Algumas palavras a respeito d'este D. João de Noronha.<br /> + +<br /> + +O <em>dom</em> é quasi sempre, +entre portuguezes, indicação de fidalguia remota; +mas em D. João de Noronha era <span class="pagenum">[138]</span>uma +irrisão para o povo, e uma ignominia affrontosa aos fidalgos +da terra. E a razão é esta:<br /> + +<br /> + +Ha cento e vinte annos que viveu em Villa Real uma senhora D. Paula +Coronel e Noronha, protectora d'um tal Antonio da Silva, sapateiro da +casa.<br /> + +<br /> + +Este homem era desordeiro e valentão. Em rixas com um +freguez por causa d'umas tombas, matou-o desastradamente. A +justiça apanhou-o, e condemnou-o a pena ultima.<br /> + +<br /> + +D. Paula exhaurira os grandes recursos da sua influencia, sem conseguir +salvar da forca o seu afilhado. Avaliem-se, porém, os +extremos de D. Paula pelo condemnado, e attenda-se á +época em que os grandiosos +esforços d'uma fidalga são anciosamente +empenhados na +salvação d'um arrastado verme da plebe.<br /> + +<br /> + +D. Paula, em ultimo recurso, declara que o sapateiro é filho +bastardo de seu irmão, e como tal o +perfilha. Desde que esta adopção foi consignada +no livro +dos alvarás de perfilhamentos, Antonio Coronel de Noronha +está salvo da forca. O processo atravessa novos tramites; e +a lei, esmagada sob o rebolo transformado em pedra d'armas condemna o +réo a cinco annos de degredo para Castro-Marim.<br /> + +<br /> + +O nobre exilado, um anno depois, morreu de uma indigestão de +figos do Algarve; e, honra lhe seja feita, +á hora da morte, declarou que vivera sapateiro e +christão, e como sapateiro pedia perdão aos +homens, e como christão a Deus porque muito queria +salvar-se.<br /> + +<br /> + +Seu irmão Francisco, mestre ferreiro, morreu ferreiro, +porque não quiz partilhar das honras heraldicas de seu +irmão, que, pelos modos, não eram muito +lisongeiras para a memoria de sua mãi.<br /> + +<br /> + +Este ferreiro deixou um filho, chamado João, e uma fortuna +avultada, adquirida na bigorna.<br /> + +<br /> + +João, orphão aos quinze annos, quiz ordenar-se; +mas o amor tolheu-lhe as vocações ardentes do +sacerdocio.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[139]</span> +Por aquelles tempos a sociedade estava retalhada em classes. +João da Silva invejava o acaso d'um nascimento, e +desesperava-se na impotencia de associar-se dous appellidos euphonicos, +que o guindassem á região dos homens superiores +em raça aos outros homens, como o onagro de Sevilha superior +em raça ao onagro de Cacilhas.<br /> + +<br /> + +Zombavam cruelmente d'elle, quando lhe disseram que se +encabeçasse na linhagem, embora bastarda, de seu tio, que +morrera legalmente inscripto no livro dos costados a folhas 1473.<br /> + +<br /> + +João da Silva foi conscienciosamente fidalgo desde esse +instante. Tirou uma certidão, hypothecou metade da sua +fortuna ao fôro, e consegui-o. Não diremos +ao certo quem foi o concussionario d'aquelles tempos, que lhe recebeu +os dous mil cruzados do pergaminho. As urgencias do estado de hoje eram +litteralmente as urgencias do estomago dos chancelleres +móres do reino.<br /> + +<br /> + +A fidalguia protestou silenciosa contra tão grave injuria. +Fechou os seus salões ao adepto insolente, que +ousára assignar-se D. João de Noronha, e +mandára +insculpir na fachada d'uma casa ameiada as armas dos Noronhas, +É tradição em Villa Real que os Pintos +Coelhos, representados hoje por José Antonio Teixeira Coelho +de Mello Pinto da Mesquita, mandaram borrifar de sangue as armas de D. +João de Noronha. Nada fez recuar o proposito do filho do +ferreiro. Os tempos correram, mas os odios ao pobre homem +não se extinguiram. Digno d'estes tempos, D. +João, seria hoje affavelmente recebido pela velha nobreza, +com tanto que as differenças no azul do sangue fossem +saldadas com o amarello do ouro.<br /> + +<br /> + +Conheci este homem, e tractei-o muito de perto. Era eu bem +creança, e respeitava as loucuras d'aquelle velho, com a +mais sisuda tolerancia. Quando o vi, aos oitenta e seis annos, casar-se +com uma donzella (oitava maravilha!) de oitenta e nove, cingi-me com +aquelle par conjugal, e <span class="pagenum">[140]</span>quiz +ouvir-lhe os colloquios amorosos, as expansões +delirantes, as ternuras idealissimas. Não pude; e o leitor +perdeu muito com isso, que eu não era homem de privar d'um +capitulo precioso a <em>Physiologia do +Casamento</em> de Balzac.<br /> + +<br /> + +O vento das tempestades da vida impelliu-me de Villa Real para outra +linha no mappa-mundi das minhas observações; e o +meu caro D. João +morreu poucos dias depois de sua mulher, e é de +crêr que, +abraçados em frenetica paixão, renascessem, +viçosos e frescos +como Paulo e Virginia, em mundos novos, e novas +constellações. Assim seja!<br /> + +<br /> + +Como vinha dizendo, leitor attencioso, quando eu tive a honra de ser +admittido ao tracto intimo de D. João de Noronha, reparei +n'uma caveira, contida em uma redoma de vidro, com pedestal de pau +preto, enviezado de arabescos de marfim.<br /> + +<br /> + +Esta redoma pousava em uma mesa torneada em bilros de custoso lavor. +Reparei, outrosim, que em certo dia do anno um véo funebre +cobria aquella redoma. Este dia era quinta feira santa. Não +concebi que +relação podesse existir entre aquella caveira e a +paixão de Jesus Christo não ousava, +porém, interrogar-lhe o profundo +mysterio.<br /> + +<br /> + +Entrava eu uma vez, sem fazer-me annunciar, na sala da redoma, e +encontrei D. João ajoelhado com austero fervor na +presença da caveira. Voltou-se de repente sentindo-me os +passos, e eu não pude recuar sem ser conhecido. Vi-lhe +lagrimas; eram magestosas, e eu juro que muitos dos meus leitores de +coração +petrificado chorariam, se vissem a sincera angustia d'aquelle rosto +venerando.<br /> + +<br /> + +―Venha cá―me disse elle―que eu não tenho +vergonha de chorar; Choram-se na decrepitude os risos da mocidade. +Entra-se no tumulo a chorar como se entra na vida.<br /> + +<br /> + +Vi-me embaraçado em responder-lhe. Eu não tinha +<span class="pagenum">[141]</span>aprendido estas +palavras artificiosas, com que fingimos um +quinhão de sentimento impostor. Então senti e +chorei. Hoje... eu sei cá! faria uma nenia em prosa de muita +melodia, e citara-lhe não sei quantos velhos, que a historia +diz que choraram desde Belisario até ao abbade de Chateneuf. +<br /> + +<br /> + +―Sente-se aqui ao pé d'esta reliquia―proseguiu o +consternado ancião.―Devo-lhe um lavor muito delicado: nunca +o senhor me perguntou o segredo d'este craneo. Eu gosto de quem +respeita a dôr alheia. Quero pagar-lhe essa fineza invocando +do tumulo do meu coração o mysterio, que aqui +está sepultado ha sessenta annos. Se eu me calar, no correr +da minha historia, respeite o meu silencio... É que +não poderei... Talvez +possa... O coração... dizem que manda aos labios +muito do +seu fel, quando os labios lhe pedem as amarguradas reminiscencias d'uma +grande desgraça... Será assim? Eu +não sei... vel-o-hemos.<br /> + +<br /> + +Ora attenda-me, meu amigo. A innocencia deve alegrar-se com a historia, +onde figura um anjo. Hei-de fallar-lhe de Lucifer tambem... Seja o anjo +para o recreio; e o Lucifer para a experiencia... Um velho é +um livro. Eu vou abrir-me... quero dar-lhe a leitura de minha alma, +hoje, que, ámanhã, talvez a pedra +rasa d'uma sepultura nem ao menos lhe diga que eu durmo alli o +suspirado somno do infeliz...<br /> + +<br /> + +<h3> +II.</h3> + +<br /> + +D. João de Noronha, sentado de modo que encostava o +cotovello á mesa da redoma, principiou a historia do seu +segredo, em tom de profunda commoção:<br /> + +<br /> + +«Tinha eu vinte annos... ha que tempo isto vai!... ha +sessenta e oito annos que eu estudava latim no convento +<span class="pagenum">[142]</span>de S. Francisco. +Era minha tenção +ordenar-me. Meu pai grangeara-me uma fortuna, que me estimulou +ambições de subir na +posição social. Quiz ser padre, e era-o, se +nascesse na igreja lutherana, onde o padre não soffre a +cruelissima amputação da +vida da alma, em commercio com o mundo.<br /> + +<br /> + +Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem, +perdi o imperio da vontade, e as fervorosas +vocações do sacerdocio. Adorei uma +d'essas bellas mulheres, que trazem comsigo uma sina de +desgraças, um contagio de desastres, e a perpetuidade d'uma +chaga, aberta no coração com um ferro em brasa.<br /> + +<br /> + +Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso +d'um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem, +finalmente, me fizera estupido... atraiçoou-me.<br /> + +<br /> + +No meu tempo o amor era uma corôa de espinhos. +Então apaixonava-se um homem, e sentia-se perdido para a sua +liberdade, e escravo de uma angustia interminavel. Eu, por mim, +senti-me ultrajado por uma traição +incrivel, e não pude, ainda assim, estalar as algemas +ignobeis que me prendiam á deshonra d'um abandono +injustificavel.<br /> + +<br /> + +Ajoelhei aos pés de Martha. Pedi-lhe a pouca ventura que me +roubára cruelmente... pedi-lhe a dignidade do homem que por +ella se despresára... encontrei-a morta para mim, e vencida +por uma paixão, que devia matal-a! Tive então +dó d'aquella flôr, +que se desfolhava na madrugada da sua primavera? O meu amor era grande +e generoso! Pedi-lhe que fosse minha irmã, minha amiga... +Nem isso!... nem se quer me aceitou um conselho de pai na hora em que +mais precisa lhe fosse uma protecção que a +salvasse da deshonra, a que +se tinha cegamente abandonado.<br /> + +<br /> + +Eu valia menos que Pedro de Mesquita.<br /> + +<br /> + +Este homem era official de cavallaria. Nascêra illustre; +<span class="pagenum">[143]</span>conquistara-se uma +opinião de heroe; batera-se +ardidamente como um leão nas ultimas batalhas. Era aqui +apontado em Villa Real; como o primeiro homem nos triumphos difficeis +do amor.<br /> + +<br /> + +E não o lisongeavam! O homem, que obrigára Martha +a despresar-me, devia ser tudo isso.<br /> + +<br /> + +Era muito linda esta mulher! Diziam-no as +emulações, os odios, e as intrigas, que a sua +formosura causára entre pretendentes, que não +queriam ceder a prioridade do merito a nenhum.<br /> + +<br /> + +Um dos mais poderosos era Heitor Corrêa, cadete de cavallaria +e filho segundo de uma nobre casa d'esta villa, que não +tenho necessidade de mencionar-lhe.<br /> + +<br /> + +Não obstante Heitor Corrêa era repellido, porque +Pedro de Mesquita não tinha concessões a esperar +para ser mais amado que outro qualquer.<br /> + +<br /> + +Martha arrancára, como Luzia, os bellos olhos, se assim +podesse afastar de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem +que tão caro devia ser-lhe. E era.<br /> + +<br /> + +Estes dous homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam á +porfia um ensejo em que podessem travar as espadas. Corrêa +confiava demasiado em si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o +debil adversario.<br /> + +<br /> + +O momento ambicionado chegou.<br /> + +<br /> + +Era quinta feira santa.<br /> + +<br /> + +Martha assistia ao officio da paixão na igreja de S. +Francisco.<br /> + +<br /> + +Heitor Corrêa antecipára-se a occupar o mais +proximo, lugar de Martha. Pedro de Mesquita viera depois, e mordera +colericamente o beiço inferior. Martha tremeu e chorou. Quiz +sahir; não a deixaram as multidões +espessas. Heitor Corrêa comprehendeu-a, e indignou-se. Era +muito despreso para a altivez do seu caracter.<br /> + +<br /> + +Terminára o officio. O povo evacuou o templo. Martha +sumiu-se nas turbas. Dous homens apenas, como <span class="pagenum">[144]</span>duas +estatuas, se fixavam sós, +e immoveis, na nave da igreja.<br /> + +<br /> + +Sahiram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e +rapidas palavras, e desembainharam os fains.<br /> + +<br /> + +Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor +chammejava a colera, a vingança, o capricho, e por ventura o +desejo de matar, ou morrer.<br /> + +<br /> + +Esta scena passava-se na presença de mil pessoas. As beatas +benziam-se horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de +espedaçarem o forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre +o seu patricio era indubitavel, e perigosa.<br /> + +<br /> + +Perigosa, não; porque o valente era generoso. Heitor +não tinha já um botão na farda, quando +Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a defesa, se sentiu +ferido ligeiramente no braço esquerdo.<br /> + +<br /> + +A scena tornou-se cruel! O orgulhoso não podia conciliar com +aquelle sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e +cahiu banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra +o assassino. Mesquita esperou com bravura! Não houve +mão que lhe tocasse.<br /> + +<br /> + +<h3>III.</h3> + +<br /> + +Heitor Corrêa, reanimado pelos alentos da +desesperação, ergueu-se, e esgrimiu ainda o +florete com braço impotente. Mesquita, ferido n'um +braço, afastou-lhe os botes, com admiravel +presença de espirito.<br /> + +<br /> + +O duello em Villa Real era uma cousa nova. O facto, em um dia tal, +redobrava de escandalo. Não se atravessavam as +multidões espessas, que reprovavam ruidosamente um tamanho +desacato. A causa do seu espanto <span class="pagenum">[145]</span>não +era a moral +ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como +razão suprema de tal algazarra estar exposto o Santissimo +Sacramento, quando dous homens se cortavam a ferro frio.<br /> + +<br /> + +As authoridades, conscias do acontecimento, deram ordens immediatas de +captura. Estas ordens não podiam ser cumpridas por +meirinhos; e não houve +desgraçadamente authoridade militar que capturasse os +duelistas.<br /> + +<br /> + +Heitor Corrêa, exhausto de forças, perdidas no +sangue, que os recursos da cirurgia não +estancára, +desmaiou, e deu symptomas de morto. O alferes de cavallaria, +ligeiramente ferido no braço, curava-se n'uma botica, +affectando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na +rua. D'entre ellas sahiam gritos terriveis de +«morra!» Os que assim gritavam diziam que estava +exposto o Santissimo Sacramento; e, por tanto, não podiam +deixar de matar o impio que +desacatára, em quinta feira santa, a solemnidade da +paixão de Christo. Como elles saciavam a sede de sangue com +o fervor beatifico das suas crenças, explicam-no milhares de +factos semelhantes que acompanham sempre a edificante historia dos +muito austeros authores da integridade religiosa, tanto em Roma, como +em Constantinopla.<br /> + +<br /> + +Fernando Corrêa, irmão de Heitor, estava +á janella quando viu entrar seu irmão nos +braços de dous +soldados. Desceu ao atrio, e interrogou o facto. Contaram-lhe, com as +mais irritantes circumstancias, o acontecimento.<br /> + +<br /> + +Fernando, sem attender a supplicas da familia, e de amigos prudentes, +sahiu de casa, tal qual estava, embrulhado n'um capote. Mas, debaixo +d'este capote, levava um bacamarte.<br /> + +<br /> + +Quando chegou á entrada da <em>rua do Jogo da +Bolla</em>, viu um grupo de povo, que parecia vedar a +sahida d'uma botica. Lá dentro estava Pedro de Mesquita, a +quem <span class="pagenum">[146]</span>faltára +a coragem para +affrontar a força bruta da +populaça.<br /> + +<br /> + +Em frente d'essa botica morava a infeliz Martha, a attribulada amante +d'aquelle homem, que alli estava ameaçado das iras da plebe, +tigre desenfreado da +licença, n'aquelles dias de escravidão, logo que +um acaso lhe alargasse um pouco as algemas.<br /> + +<br /> + +Fernando Corrêa abriu uma clareira entre a +multidão. Descobriram-se todos, exclamando: «Chega +o fidalgo! deixem passar o fidalgo.»<br /> + +<br /> + +E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu +irmão.<br /> + +<br /> + +―Assassino... não!...―respondeu o alferes.―Fui eu quem o +feri, e honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.<br /> + +<br /> + +Fernando Corrêa, estupido como fatalmente são os +que podem contar muitos avós robustos de musculos, e nenhum +de vigor intellectual, não comprehendeu a delicadesa +d'aquella resposta. O que elle praticou é um acto de +barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo atraz, +aperrou o bacamarte, e despejou-lh'o, á queima roupa, no +peito.<br /> + +<br /> + +Foi horrivel, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de +meus olhos, noite e dia, porque n'esse instante ouvi um grito de +arripiar as carnes. Era Martha que cahira, com a face na lage da +janella, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebivel dos +tormentos possiveis n'esta vida.<br /> + +<br /> + +Voltaram-se todos para aquella janella, e viram-me... a mim, que +subira, alentado pela coragem da minha dôr, as escadas +d'aquella casa, e levantára +da janella a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de mim... +não vi ninguem, excepto uma creada que chorava, perplexa, +sem atinar com o que devia fazer. A familia, a essa hora, na igreja da +<em>Misericordia</em>, orava, talvez, +á Virgem protectora das virgens...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[147]</span> +Fernando, consummado o assassinio, sahiu galhardamente por entre as +turbas que saudavam o nobre algoz. A paralysia do terror +gelára os poucos que lhe reprovavam a infamia. Ninguem +ousou, sequer, lembrar-lhe que aquelle sangue lhe tingia os +pergaminhos!<br /> + +<br /> + +O nobre amante de Martha foi conduzido ao quartel. O seu ultimo lance +d'olhos n'esta vida, viram-no todos fixar-se na janella da infeliz. +Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.<br /> + +<br /> + +Passada uma hora, Fernando Corrêa, montado n'uma possante +mula, e seguido d'um creado, e dous bacamartes, passava em +<em>Almodena</em>, caminho de +Lisboa. E, para que esta circumstancia me não +esqueça, +dir-lhe-hei que, um mez depois, o assassino, impune pelo privilegio dos +seus pergaminhos, entrava em Villa Real, com um alvará de +real mercê que o isentava de responder pela morte de Pedro de +Mesquita.<br /> + +<br /> + +O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabeça ao +fidalgo, que passava soberbo por entre aquelles que lhe liam na face a +altivez do assassino, que zombára da lei.<br /> + +<br /> + +Heitor Corrêa... esse foi enterrado no mesmo dia em que os +sinos dobraram por alma de Pedro de Mesquita.<br /> + +<br /> + +<h3>IV.</h3> + +<br /> + +É necessario fallarmos de Martha... É a luz unica +d'este quadro negro... Nem a historia valia a pena de ser ouvida, se +não tivesse um heroismo de virtude para a +admiração, e uma santa para o culto das almas +nobres, e apaixonadas pelo sublime do martyrio.<br /> + +<br /> + +Por ventura, póde o senhor comprehender a +situação d'um homem, que tem desmaiada nos +braços aquella por quem fôra +atraiçoado...? Não +é bastante comprehender <span class="pagenum">[148]</span>isto: +é +necessario compenetrar-se mais da minha +situação...<br /> + +<br /> + +Martha illudira-me... ou illudira-se; Martha despresara-me com cynismo +indigno da sua idade; Martha escarnecera as loucuras que me +sacrificaram a ella; Martha desmaiara, adivinhando a morte do meu +rival... Comprehende por ventura agora o tormento indefinivel da minha +situação?... Não comprehende, +porque se eu lhe disser que n'aquelle trance original o meu sentimento +era a piedade... se eu lhe disser que dera a minha vida pela do rival +assassinado, com tanto que Martha não fosse assim +desgraçada... o senhor, +por certo, não concebe este phenomeno, este sacrificio... +esta monstruosidade de resignação... Quem +sabe!... a sociedade capitular-me-hia de imbecil, e o meu amigo, por +muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inoffensivos, +não é assim?»<br /> + +<br /> + +Não lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D. +João me adivinhára. Córei, de +certo, quando fui surprehendido no segredo dos meus juizos. Nada +menos lisongeiro que o meu silencio para o pobre velho! Era de certo um +pungente assentimento á sua conjectura! A dôr +é generosa, e cala as affrontas. +Reconheço hoje que ultrajei aquelle grande sacrificio, que +comprehendo agora. Se não receasse mesclar com a gravidade +melancolica d'esta narrativa um anexim popular e graciosamente +philosophico, diria que o diabo não quiz nada com rapazes, e +D. João de Noronha, de certo, não era mais +privilegiado que Lucifer para tirar de mim melhor partido.<br /> + +<br /> + +D. João proseguiu:<br /> + +<br /> + +«A familia de Martha veio encontrar-me, com ella nos +braços. A mãi, que prophetisára, +em seus virtuosos presentimentos, a desgraça da filha, +apertou-a contra o seio, cobriu-a de lagrimas, e acordou-a d'aquelle +lethargo, com afflictivos gemidos.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[149]</span> +Martha abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os labios. Esperavamos +anciosos que a sua angustia respirasse pelas lagrimas. Não +chorou uma só. Em quanto os sinos dobravam a finados pela +alma dos dous amantes, Martha estremecia, mas não posso +dizer-lhe como era aquelle tremor... A corda d'um instrumento ferida, e +deixada ao impulso da vibração estremece assim. +<br /> + +<br /> + +No fim de tres dias extinguiu-se o soffrimento, por que a vimos pender +serenamente a cabeça nos +braços de sua mãi. Felicitamos-nos pelo repouso +da infeliz. Imaginamos +que ella devia acordar mais tranquilla, ou, pelo menos, mais desabafada +d'aquella agonia que lhe suffocava não só os +gemidos, mas até a +respiração. Esperamos... mas quem não +esperava era o medico, que, ao retirar-se, deixou dito que +não era Christo para restituir a filha á viuva de +Nahim.<br /> + +<br /> + +Estava morta, por tanto... e morta sem balbuciar uma palavra! Como se +morre assim? Dizem que a morte é a +aniquilação da materia... +mas aquelle anjo morreu dentro em si, antes que os symptomas da +destruição nos revelassem o rapido dilacerar +d'aquella morte! Quem dirá que aquella mulher soffreu no +corpo? Ninguem! A alma, só a alma, este ser immortal que +foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada no +seu mysterio de dôres inconcebiveis, reluctando por estalar +as algemas que a prendem ao cavallete do corpo... a alma, e +só a alma, meu amigo, consummou aquelle trance de +incomportavel inferno, e passou ao mundo da penitencia ou da gloria...<br /> + +<br /> + +Agora principia a minha scena n'esta tragedia... É +só minha, e só eu a comprehendo... +mas hei-de contar-lh'a. Acompanhei á igreja de S. Francisco +o cadaver de Martha. Fui o ultimo que se retirou de ao pé da +sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em tres annos +successivos, lhe ajoelhou na pedra que eu não queria fosse a +nossa eterna separação.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[150]</span> +Empreguei os meios para obrigar o coveiro a não tocar +n'aquella sepultura durante tres annos.<br /> + +<br /> + +Findo este praso, venci com dinheiro a repugnancia do coveiro, e a +pedra que cobria os ossos de Martha foi levantada.<br /> + +<br /> + +Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror, +agitadas pelo lampejar tremulo das lampadas, suspensas no altar do +Santissimo Sacramento.<br /> + +<br /> + +O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava +machinalmente a enxada com que afastava as camadas da terra.<br /> + +<br /> + +Não posso dizer-lhe até que ponto fui enganado +pelas larvas que a desvairada phantasia, ou a mysteriosa realidade +revocou em volta de mim... Estou quasi jurando-lhe que a vi... a +ella... como nos dias da sua esplendida formosura illuminada pelo +resplendor da sua innocencia, purpureada do pejo com que a candura se +rende ao imperio dos instinctos... Era ella, quando, nos primeiros +tempos da nossa infancia, me offerecia de seu +coração a parte que não podia +dar a sua mãi, e a seus irmãos... Era ella, +quando me perguntava o segredo d'aquella +attracção irresistivel, que a +arrastava para mim, que a entristecia sem motivo, que a fazia +ambicionar uma riqueza imaginaria, que a fazia sonhar umas delicias que +sua mãi lhe não explicava nem +realisava com os seus carinhos... Foi assim que eu a vi, em quanto o +ecco da enxada, que feria o seio da sepultura, reboava nas naves da +igreja... Gelava-se-me de terror o pensamento... a phantasia +esfriava-se ao roçar pela mortalha d'aquelles ossos, e eu +sentia-me morto em metade da vida, quando a terra sacudida da enxada me +vinha cahir aos pés.<br /> + +<br /> + +E depois... as larvas, que a razão não podia +espavorir, tornavam a cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se +nas grades do côro, a tremularem por entre os cortinados dos +altares, e a esvoaçarem na abobada <span class="pagenum">[151]</span>do +templo como nuvens +escuras, espedaçadas pela tempestade.<br /> + +<br /> + +Erguera-se do tumulo para ajoelhar, a meus pés... tinha a +face lacerada pelos vermes. E era bella ainda... Devo ser sincero, meu +amigo... É impossivel que a imaginação +me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz... +senti o frio das suas mãos... ergui-a de meus +pés... +perdoei-lhe... chorei com ella...<br /> + +<br /> + +A voz d'um homem chamou a minha alma á realidade acerba +d'aquella scena, que se me figurava um sacrilegio, uma +profanação.<br /> + +<br /> + +Era o coveiro, que me dizia: «a enxada já topou +com os ossos.»<br /> + +<br /> + +Esta nova, communicada friamente pelo coveiro, alvoroçou-me, +e coou-me nas veias não sei que terror +semelhante ao do sacrilego, que não tem ainda bastante +barbarisada a alma pelo crime, e vacilla, horrorisado de si proprio, +quando atira ao pavimento do altar as hostias contidas no calix, que +rouba.<br /> + +<br /> + +Aquelles ossos, aquelle meu thesouro, ambicionado ha tres annos, tinham +agora para mim uma +superstição, um cunho sagrado, que me fazia na +alma não sei que pesar semelhante ao remorso.<br /> + +<br /> + +Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do +coração, que se arrependera. Quiz deixar intactas +aquellas cinzas. Luctei comigo para vencer um excesso de medo, um +abuso, talvez, da imaginação. Não +pude; mas não pude tambem retirar-me sem uma reliquia, um +ser sem alma, uma recordação para as lagrimas, e +uma +gloria só minha n'este mundo... a gloria de possuir na morte +uma companhia que tivesse sido incentivo de lagrimas, já que +não pude conseguir como companheira na +vida essa preciosa existencia, que me espera ha sessenta e seis annos +na eternidade.<br /> + +<br /> + +Eis-aqui a reliquia, a testemunha immovel, terrivel, e silenciosa dos +longos soffrimentos d'um homem, que +<span class="pagenum">[152]</span>atravessou uma +longa existencia, sem conciliar com os prazeres do mundo +a eterna viuvez da sua alma!<br /> + +<br /> + +Eis-aqui a caveira de Martha que eu revisto a cada instante das +feições com que a vi partir d'este +mundo. Ha alli n'aquellas orbitas uns olhos que me vêem... +olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos angustiosos +d'esta paixão desastrada, eu vejo sempre esta caveira, +animada umas vezes do gracioso riso da innocencia, outras vezes das +contorsões freneticas da +desesperação... Ha alli n'aquelles ossos, onde os +labios articulavam hymnos dos anjos, uns labios que, a cada instante, +me balbuciam um perdão... E tenho momentos de inferno nas +minhas dolorosas contemplações, +aqui diante d'esta redoma... Ás vezes juraria que essa +caveira estremece em convulsões rancorosas contra mim, +balbuciando o nome do homem, que a levou comsigo á +sepultura!... Então... sinto-me demente, porque tenho ciumes +do nada... ciumes d'estas cinzas esquecidas no mundo... ciumes da +memoria d'outras cinzas, que, ha tres quartos de seculo, esperam o dia +final... É +lamentavel a situação d'este pobre velho, que +não +pôde roubar-se a uma agonia, das que o mundo reputa chimeras, +não é assim?<br /> + +<br /> + +Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lh'o +não disse, nem lh'o diria, se lhe +não acreditasse umas lagrimas que lhe vejo nos olhos.<br /> + +<br /> + +Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na +dôr. O que eu não creio +é na morte. A morte é uma palavra convencional, +com que os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio +d'uma nova existencia. A immortalidade é uma +idêa abstracta de tudo que é comprehensivel aos +homens. O homem não explica a immortalidade, em quanto +não sobe um grau na escala dos seres intelligentes. Veja se +me comprehende... Ha uma escala de seres que principia na materia +bruta, e termina nos espiritos. As funcções <span class="pagenum">[153]</span> +do espirito, sem fórmas +corporeas, pertencem á creatura, superior ao homem. Ora, o +homem não explica essas funcções, que +devem ser a sua futura +existencia, pela mesma razão que o animal, inferior ao +homem, não comprehende as funcções do +pensamento aperfeiçoadas, mas não perfeitas, no +homem. Todos os seres, por tanto, vão subindo na escala da +intelligencia. Todos se transfiguram de fórma em +fórma até +deixarem na terra o involucro da materia, e vagarem nos +espaços incognitos como vagam os espiritos. É +lá em cima, +nas proximidades do grande mysterio, ao clarão da eterna +luz, que se lê o livro de Deus. É nas +regiões, que a minha alma adivinha, que eu devo sentir pelo +orgão +espiritual em que recebi a interminavel impressão de agonia, +que foi na terra a minha lenta peregrinação. O +amor ardente e sublime não é um attributo do +espirito? +Aquelle que muito ama, e muito devorado morre de paixões +grandes e ideaes, não é um propheta da vida +futura, uma preexistencia do futuro amor? A não ser o amor, +qual será a existencia do espirito?<br /> + +<br /> + +Conheço que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que +quiz elevar o seu espirito á altura das minhas grandes +doutrinas, do meu querido segredo. Quiz convencel-o, não +digo bem, quiz enthusiasmal-o por essa eternidade em que ahi se falla, +despida de affectos, de poesia, de esperanças, e... deixe-me +dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens...<br /> + +<br /> + +Meu amigo, ha na minha vida um oasis. Tenho +exaltações de jubilo, aqui, n'este quarto, onde +conto, ha perto de setenta annos, os minutos da minha existencia. Este +goso é a minha convicção na +immortalidade... É a minha esperança, confirmada +pela +meditação e pela sciencia, de que hei-de +encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do +céo...<br /> + +<br /> + +Basta... Seja digno da minha confidencia... Não diga +ás turbas de Villa Real os segredos de D. +João de <span class="pagenum">[154]</span> +Noronha. Aqui escarnecem-se os que soffrem, logo que não +soffrem pelas más colheitas do vinho, ou pela +barateza dos cereaes. Não falle a linguagem dos espiritos, +onde a materia organisada dispõe do machinismo da bocca para +lhe dar uma gargalhada em resposta.»<br /> + +<br /> + +D. João de Noronha despediu-me.<br /> + +<br /> + +Desde esse dia foram mais da alma e da intelligencia as nossas +communicações. Aprendi com elle a +sciencia do espiritualismo. Se depois me materialisei, é +porque a faisca d'aquelle genio não me tinha abrasado mais +que a superficie da materia. O espirito tem a força dos +imponderaveis. A força da materia póde muito bem +calcular-se pela força dos vapores... +<em>tantos +cavallos</em>.<br /> + +<br /> + +Pergunta-me uma senhora de critica muito fina:<br /> + +<br /> + +―Como se explica o casamento de D. João de Noronha aos 86 +annos de idade, com uma donzella sua contemporanea?!<br /> + +<br /> + +―De uma maneira muito simples. As nupcias de D. João +não podem considerar-se physicas nem +moraes. «Absurdo!―replica a espirituosa dama.» +Está enganada, minha senhora. D. João tinha uma +pequena fortuna, e queria deixal-a a uma creada, que o servira +desveladamente toda a sua vida. D. João encarava +philosophicamente as formulas sacramentaes do casamento. Achava-o +utilissimo como carimbo de contracto civil. Casou-se para recompensar +uma creada que lhe consolou muitas lagrimas, e lhe enxugou nas faces +mortas as ultimas que elle chorou. Era digna do sacrificio. Poucos dias +supportou a viuvez.<br /> + +<br /> + +―E a caveira?―perguntou ainda a amavel syndica dos meus romances.<br /> + +<br /> + +―A caveira deve estar confundida nos ossos de D. João de +Noronha. A viuva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na +mesma mortalha.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="C8"></a>UMA PRAGA<br /> + +ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.</h2> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +UMA PRAGA<br /> + +ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.</h2> + +<br /> + +Este romance não devera chamar-se +«romance.» Desde que esta palavra é o +atilho onde se enfeixam as mentirosas invenções +do escriptor phantastico, +não ha historia verdadeira que possa, como tal, +recommendar-se com aquelle titulo.<br /> + +<br /> + +Estes acontecimentos, expostos aqui, segundo o formulario romantico, e +affeiçoados ás leis do estilo +romantico, são verdades que não deram brado, nem +se gravaram +na memoria da geração que as viu e as +não comprehendeu.<br /> + +<br /> + +Na vida moral da sociedade ha phenomenos cuja causa ninguem estuda. No +drama da familia ha lances que são do dominio do publico, e +o publico não +póde, ainda que o tente, explical-os. Nas +attribuições +individualissimas do homem ha phases extraordinarias de soffrimento, +que esta sociedade de entranhas crueis lhe recrimina, +<span class="pagenum">[158]</span> +reputando-lh'as effeitos necessarios das causas, consequencias do crime +voluntario.<br /> + +<br /> + +A sociedade, a familia e o homem expiam incessantemente a culpa do +homem, da familia, e da sociedade. Opera-se uma continua +redempção do genero humano. +O homem é, desde o seu principio, a victima da culpa com o +labio collocado no calix da agonia.<br /> + +<br /> + +A vida sobre a terra é uma interminavel +expiação. Eu pago pelos crimes de meu pai, meus +filhos expiarão meus crimes, e o ultimo ser vivo da +animalidade intelligente será o holocausto do primeiro homem +criminoso.<br /> + +<br /> + +É forçoso recorrer ao inconcebivel, ao +sobre-natural, ao mysticismo da providencia occulta para comprehender o +que vulgarmente se diz «fatalidade.»<br /> + +<br /> + +Na historia, que vai ser lida, é tão sensivel +esta necessidade, tão aterrado se sente o espirito diante +d'um facto consummado, que eu não tive escrupulo religioso +ou philosophico em subordinar um encadeamento de infortunios d'uma +familia á <em>praga rogada nas escadas da +forca</em>.<br /> + +<br /> + +<h3> +I.</h3> + +<br /> + +Bernardo da Silva era um filho bastardo de um nobre de Vizeu. Do ventre +materno passou á roda dos expostos, e d'ahi aos cuidados +d'uma pobre mulher d'aldêa.<br /> + +<br /> + +Aos dez annos não conhecia pai; e sua mãi, mulher +do povo, arrastada sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o +segredo do +<em>nobre</em>, que se dignára +descer até ella para honral-a com deshonra.<br /> + +<br /> + +Bernardo, aos dez annos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus +companheiros era elle o mais despresado, porque tambem era o mais +preguiçoso.<br /> + +<br /> + +O rapaz vivia triste como se a idade lhe permittisse +<span class="pagenum">[159]</span>comprehender a +dôr immensa d'um grande desastre. +Lá dentro n'aquelle coração infantil +fallava uma +prophecia funebre. Com os olhos sempre extaticos no horisonte negro do +seu futuro, o pobre moço não tinha uma +hora livre para o trabalho. Muitas vezes uma bofetada acordava-o +d'aquelle lethargo; e o braço, que estava suspenso com a +agulha, continuava a tarefa molhada de lagrimas.<br /> + +<br /> + +Aos 13 annos era ainda um aprendiz de alfaiate, repellido d'este para +aquelle mestre, desacreditado em todos, e inutilmente espancado por +todos. Chamavam-no incorrigivel, e elle mesmo conheceu que o era.<br /> + +<br /> + +Abandonou a agulha, e foi servir em casa de Francisco de Lucena. Era +ahi, como em toda a parte, coconhecido pelo «Bernardo +<em>Engeitado</em>.» Nunca ninguem +se lembrou de reputal-o filho +<em>d'alguem</em>: nem Lucena se lembrou, +alguma vez, de que um de seus muitos filhos, atirados á +roda, poderia ser seu lacaio.<br /> + +<br /> + +Bernardo era creado de taboa.<br /> + +<br /> + +<h3>II.</h3> + +<br /> + +Este officio era-lhe mais generoso que o de alfaiate. Tinha muitas +horas livres para a sua melancolia, e muitos escondrijos no amplo +palacio de seu amo para refugiar-se d'uma sociedade que elle detestava +sem saber porque.<br /> + +<br /> + +Este viver excepcional n'aquella classe galhofeira, esturdia, e +estragada, excitou a curiosidade dos seus companheiros, e, depois, a +dos amos. Aquelles chasqueavam-nos com desabrimento: estes admiravam-no +por compaixão.<br /> + +<br /> + +Bernardo chorava sem motivo. Sorria-se com violencia. Era humilde com +um não sei que de estranha delicadesa. <span class="pagenum">[160]</span>Destacava-se da sua classe +com um ar orgulhoso, mas não calculado. Cumpria as suas +muitas +obrigações, e ninguem sabia quando as cumpria. +Estas qualidades, rarissimas vezes encontradas n'um lacaio, tornavam-no +assumpto de estudo para os amos que principiavam a interessar-se na +analyse d'aquelle obscuro engeitado.<br /> + +<br /> + +Guardadas as inauferiveis distancias que separam o senhor do servo, os +fidalgos souberam que Bernardo desejava muito saber lêr, e +gastava a maior parte da noite soletrando o abecedario, e decorando as +lições que o mordomo da casa lhe dava nas horas +de desenfado.<br /> + +<br /> + +Qualquer que fosse o impulso que a isso o levou, é certo que +o amo, por um nobre impulso, permittiu que o rapaz fosse a uma +escóla, e para isso alliviou-o dos encargos de +moço de taboa, e levou-o á +jerarchia de escudeiro do menino mais velho.<br /> + +<br /> + +<h3> +III.</h3> + +<br /> + +Um anno depois, Bernardo fizera admiraveis progressos. Lia com +intelligencia do que lia; escrevia com acerto, e aprêndera +só comsigo a grammatica +portugueza, visto que seus amos lhe não tinham permittido +esta segunda parte dos seus estudos. Seria um caprichoso luxo permittir +ao servo sciencia que os amos não tinham! O muito illustre +Francisco de Lucena não daria o menor dos seus galgos pela +vasta sciencia do Lobato. E, talvez, tivesse razão.<br /> + +<br /> + +Em casa de fidalgos d'esta bitóla, quando um creado adquire +a confiança dos amos, ha sempre para isso uma de duas +razões. Ou o creado, devasso como elles, encobre +astuciosamente as devassidões dos amos; ou se torna +estimavel pelo zelo honroso com que procura encobrir-lh'as, +já que não póde reprehender-lh'as. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[161]</span> +Bernardo estava na segunda razão. Os filhos de Lucena eram +livres e desmoralisados a não poder ser mais. Quizeram +captar a benevolencia do servo, não para +aconselhal-os, que não desciam elles a isso, mas para +acompanhal-os em emprezas difficeis, d'aquellas em que o +braço do plebeu é muitas vezes a +salvação +das costas do fidalgo.<br /> + +<br /> + +Não o conseguiram nunca; mas tambem não tiveram +de arrepender-se da confiança d'esse convite. Bernardo +exercia uma influencia admiravel sobre os nobres libertinos. Era a +superioridade da intelligencia. Ouviam-no, e maravilhavam-se do acerto +das suas idêas, e da linguagem escolhida com que o engeitado +se sahia! O facto de ser engeitado era em Bernardo, talvez, um motivo +de superstição n'aquella casa. Se elle fosse +reconhecido filho d'algum +<em>borra-botas</em>, como em +linguagem nobliarchica se chama um plebeu, de certo lhe não +dariam a importancia de o considerarem pela intelligencia. Mas o +mysterio, a possibilidade de ser vergontea infeliz d'um tronco +illustre, cingiam-lhe a fronte d'uma aureola entre nuvens, que poderia +talvez, mais tarde, dissipar-se, e deixar na plenitude da sua luz +aquelle fructo do amor criminoso d'alguma raça nobilissima, +mais ou menos aparentada com os Lucenas!<br /> + +<br /> + +Tudo isto era possivel; mas o que elles julgariam, entretanto, +impossivel, é o que vai lêr-se.<br /> + +<br /> + +<h3>IV.</h3> + +<br /> + +A familia que Bernardo servia compunha-se de pai, mãi, tres +filhos, e uma filha, de todos os irmãos +a mais nova. Por então contava quinze annos. Era bonita, mas +pobre. Os morgados não a pediam; os filhos segundos tambem +não; e a sensivel menina precisava amar, porque o seu +coração era da tempera d'aquelles que +não sabem <span class="pagenum">[162]</span>conceber +sómente o amor +com a condicional do casamento.<br /> + +<br /> + +Eulalia não tinha a mais superficial tintura de +instrucção, e por isso não podemos, em +boa fé, chamar-lhe romantica. Não era janelleira, +nem rapinhava da papeleira dos irmãos o perfumado papel +setim para deposito de semsaborias amorosas, e por isso não +podemos chamar-lhe douda.<br /> + +<br /> + +Era uma mulher, e n'isto está dito tudo.<br /> + +<br /> + +Este Bernardo é que realmente se parecia muito com os nossos +poetas de aspirações ferventes e +meditações profundas. Mas não era +impostor, nem romanticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas, +e uma tristesa inconsolavel como nenhuma. «A minha +organisação―dizia elle―é um aborto, +uma enfermidade incuravel.»<br /> + +<br /> + +Eulalia sympathisava com aquella tristesa, e com a figura do rapaz. +Achava-lhe traços de semelhança +com seus irmãos, e via n'elle o que ella chamava +«cara +de pessoa de bem.» E, com quanto eu deteste esta maneira de +classificar as caras, porque não conheço as +«caras de pessoas de mal» tenho-me visto em +circumstancias +forçadas de dizer o mesmo, porque ha n'este val de lagrimas +umas caras que não exprimem bem nem mal, e essas +são as peiores caras.<br /> + +<br /> + +Bernardo não se lembrou nunca de fazer sentir á +cozinheira da casa, e menos se lembraria de accender o fogo do amor no +illustre coração d'uma Lucena, +com quem em toda a sua vida fallára tres vezes.<br /> + +<br /> + +Eulalia passou da dôce sympathia ao amor abrasado, e do amor +abrasado á paixão violenta. Por mais +finos e eloquentes olhares que a fogosa menina lançou ao +escudeiro, o escudeiro ou não dava por elles, ou +explicava-os de qualquer modo, com tanto que não ousasse +ensoberbecer-se d'aquelle affecto disparatado. E Eulalia +desesperava-se!<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[163]</span> +<h3>V.</h3> + +<br /> + +Francisco de Lucena espreitava a opportunidade de empurrar a filha para +fóra de casa. Aspirou, primeiro, aos morgados; mas +encontrou-os pouco apreciadores de formosura e fidalguia. Recorreu, +depois, aos burguezes ricos, e encontrou um negociante d'alto +bôrdo, que recebeu a proposta com affabilidade e trabalhou +desde logo em levar a fim um casamento que permittia aos filhos de seu +filho appellidarem-se Lucenas.<br /> + +<br /> + +O pai annunciou á filha o seu rico futuro, e encontrou-a +fria. Apresentou-lhe o noivo, e viu-a enjoada. O noivo, +porém, era um rapaz de fina +educação, d'alguma intelligencia, de brios que o +ouro lhe estimulava, e de orgulho superior á sua classe, +porque, ha 50 annos, a classe commercial era muito humilde, supposto +já +trabalhasse para esta época de barões +commerciaes, que, digam lá o que disserem, é o +mais palpitante +triumpho da democracia. Para me não metter em graves +questões sociaes, entenda-se que D. Eulalia repelliu a +felicidade que seu pai lhe annunciára com tanto jubilo, e +declarou-se sentimental, por tempo de quinze dias, fechada no seu +quarto, sem querer vêr sol nem lua.<br /> + +<br /> + +Mas o pai apoquentava-a, sempre que podia, pintando-lhe a mesquinhez do +seu futuro, e a pobresa de sua legitima, que orçaria talvez +por tres mil cruzados. E era isto verdade.<br /> + +<br /> + +<h3>VI.</h3> + +<br /> + +E o peor era que o tal João Leite, noivo repellido, ficou +amando desesperadamente D. Eulalia. Ferido no <span class="pagenum">[164]</span>seu +amor proprio, e envergonhado de tão má +estreia, instava com Francisco de Lucena, lançando-lhe em +rosto a imprudencia com que viera roubal-o á sua +tranquilidade, não podendo contar com a obediencia de sua +filha. Esta maneira de accusar vexava Francisco de Lucena, porque era +pôr em duvida o seu poder paternal, e chamar-lhe fraco, +imputação que elle odiava ainda mesmo que se +tratasse de vencer a repugnancia de uma fraca menina.<br /> + +<br /> + +Redobravam as mortificações, e Eulalia, immovel +como o seu infeliz amor, offerecia-se de bom grado á +vingança paternal, mas dizia, em linguagem tragica, que +só reduzida a cadaver passaria para a posse do tal +miseravel, que não tinha vergonha de perseguir uma mulher +que o despresava. O pai realisou o dito popular: «casar, ou +metter freira.» Eulalia optou pelo segundo, e os +preparativos para entrar no convento principiaram.<br /> + +<br /> + +O amor faz a mulher varonil. Temos visto almas de lama apresentarem uma +energia corajosa, quando o tonico do amor lhes vibra as cordas +embrionarias d'um coração, que parece arfar de +improviso ao +repentino choque, ao rapto da paixão violenta.<br /> + +<br /> + +Nas vesperas da sua entrada no mosteiro, Eulalia escreveu tres cartas. +Uma a seu pai. Dizia-lhe que amára um só homem e +viveria d'esse amor desgraçado toda +a sua vida.<br /> + +<br /> + +Outra ao escudeiro. Dizia-lhe que tivesse compaixão d'ella, +e chorasse uma lagrima em troca das que ella +chorára, e choraria até á morte.<br /> + +<br /> + +Outra ao seu implacavel pretendente. Dizia-lhe que o +amaldiçoava com todo o odio do seu +coração. Que lhe atirára á +cara com um +<em>não</em>, e nem assim o +envergonhára de continuar a perseguir uma mulher.<br /> + +<br /> + +Esta correspondencia conservou-a Eulalia até ao momento em +que transpoz o limiar do convento. O seu primeiro acto foi dar-lhe o +destino competente. Depois, chorou, +<span class="pagenum">[165]</span>chorou, e attrahiu +em volta de si os carinhos da communidade que a +mortificava com as suas frias +consolações.<br /> + +<br /> + +<h3>VII.</h3> + +<br /> + +Francisco de Lucena recebeu com espanto semelhante carta.<br /> + +<br /> + +Bernardo da Silva embruteceu-se ao lêr a sua.<br /> + +<br /> + +João Leite deu quatro murros n'uma mesa, e sentiu-se +suspenso no ar por uma legião de demonios raivosos.<br /> + +<br /> + +Cada um fez seu papel; mas todos tres reunidos deviam formar um grupo +digno da melhor caricatura inédita!<br /> + +<br /> + +Francisco de Lucena correu ao locutorio do mosteiro, e fez alli +apparecer imperiosamente a filha.<br /> + +<br /> + +Quiz forçal-a a declarar o nome do homem que a +preoccupára até a fazer má filha. +Não lhe arrancou a menor revelação. +Foi por outro caminho para +chegar ao seu fim. Fez-se sentimental; lamentou, como bom pai, as +paixões invenciveis d'uma filha que se présa +com extremo carinho; contou historias análogas, que acabavam +todas por casamentos desiguaes, mas nem por isso menos venturosos. +Pediu a sua filha o nome d'esse homem que a impressionára, e +fez-lhe ante-gostar a possibilidade de casar-se, se não +viesse d'alli uma absoluta deshonra para a sua familia.<br /> + +<br /> + +O amor fez heroes, mas tambem faz patetas. Eulalia desceu da sua altiva +energia ao raso da toleima. Declarou o nome... o nome de quem? o nome, +sem nome, do engeitado, do aprendiz de alfaiate, do lacaio, do +escudeiro!...<br /> + +<br /> + +Que horror!<br /> + +<br /> + +Nunca se viu um solavanco mais desamparado que <span class="pagenum">[166]</span>o +salto de tigre que Francisco de Lucena deu contra a grade que o +separava da filha! Por Deus! que a esgana se lhe chega! A pobre menina, +arripiada como quem vê um lobo com as fauces vermelhas, e as +unhas recurvas, foge pelo dormitorio, e fecha-se no quarto.<br /> + +<br /> + +<h3>VIII.</h3> + +<br /> + +Lucena correu a casa com os olhos injectados de fogo. Precisava d'uma +victima! Encontrou no caminho João Leite, mas este +não podia justificadamente ser sua victima. João +Leite mostra-lhe a carta que recebêra de +Eulalia. Isto foi exacerbal-o. «Não se lhe +dê de +ser repellido por essa infame,―lhe disse elle―Eu vou provar-lhe que +sou pai!... Essa mulher amava um escudeiro... um lacaio... um +<em>engeitado</em>...»<br /> + +<br /> + +Entrando em casa, procurou o «engeitado.» +Encontrou-o ainda estupidamente absorvido na +meditação d'aquella carta. A entrada rapida que +fez no quarto não deu tempo a que Bernardo escondesse a +carta que tinha aberta nas mãos tremulas. Lucena +arrancou-lh'a com uma convulsão de raiva superior +á furia d'um +demente. Passou-a pelos olhos, e, sem articular um som, +lançou mão d'uma cadeira, e, á segunda +pancada, Bernardo +tinha a face coberta de sangue. Era um sangue innocente que reclamava +justiça. Era um sangue innocente que pedia a +intervenção de Deus. A +justiça, filha legitima do céo, virá +mais tarde salpicar d'aquelle sangue a +face de quem o derramava.<br /> + +<br /> + +Bernardo, ferido, e pisado de successivas pancadas, não +pronunciára uma só palavra durante +este infernal martyrio. Impellido por pontapés, foi +lançado +fóra da porta do quarto. As forças faltaram-lhe. +O sangue corria a jôrros. Esvaiu-se-lhe a cabeça, +e cahiu.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[167]</span> +O fidalgo chamou dous creados, e mandou pôr aquelle homem +fóra da porta. Era ao anoitecer. O engeitado foi arremessado +á rua. Quando recuperou os sentidos, achou-se frio. +Ergueu-se. Olhou com os olhos da alma para a sua consciencia, e sentiu +pela primeira vez vontade de sorrir da sua desgraça pelos +labios molhados de fel.<br /> + +<br /> + +E riu-se. Era um sorriso semelhante ao dos anjos. As almas que podem +sorrir assim são as que Deus elege para a santidade da +bemaventurança.<br /> + +<br /> + +<h3>IX.</h3> + +<br /> + +Bernardo procurou um refugio em casa de uma mulher pobre que o +tractára sempre com amor, matando-lhe a fome, quando a +aprendizagem de alfaiate lhe não valia o pão de +cada dia. Esta mulher fôra ama da +roda no tempo em que Bernardo lá fôra +lançado. Suppunha ella que talvez o tivesse alimentado ao +seu seio por algumas horas, e esta só conjectura attrahia-a +para elle com instincto maternal.<br /> + +<br /> + +O engeitado curou-se dos leves ferimentos, e pediu a Deus que lhe +inspirasse um destino. Esperou.<br /> + +<br /> + +Em Vizeu fallava-se muito d'este successo, divulgado por Francisco de +Lucena, e por João Leite.<br /> + +<br /> + +Bernardo era procurado para ser punido; e quem mais diligencias fazia +para isso era o juiz de fóra Paulo +Botelho.<br /> + +<br /> + +O honrado moço, quando se viu na penosa +situação de agenciar a sua vida, por +não poder sahir da pobre casa em que vivia, impellido pela +sua innocencia, procurou o juiz de fóra, e expoz-lhe com a +mais eloquente +naturalidade a injustiça com que fôra maltratado e +com que estava sendo perseguido.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[168]</span> +Paulo Botelho quiz espancal-o com um chicote por ter tido a audacia de +entrar em sua casa sem ferros aos pés. Olhou em redor de si +procurando um aguazil para fazel-o prender traiçoeiramente; +mas o generoso mancebo, +adivinhando-lhe as intenções, disse que +não precisava +fingir-se; que elle dava a sua palavra de honra de não +retirar da casa em que estava vivendo, e que mandasse sua senhoria +captural-o quando quizesse. O juiz riu-se da <em>palavra +d'honra</em> na bocca d'um creado de servir, e mandou-o +embora, por não ter a proposito um meirinho.<br /> + +<br /> + +Bernardo encontrou ao retirar-se, nas escadas do ministro, +João Leite, que apeava d'uma liteira, segundo o uso dos +nobres, comprado pelo ouro do burguez opulento.<br /> + +<br /> + +João Leite fixou-o com ar de soberano despreso, e +perguntou-lhe:<br /> + +<br /> + +―És tu o lacaio de Francisco de Lucena?<br /> + +<br /> + +―Fui o lacaio do snr. Francisco de Lucena―respondeu Bernardo com +dignidade.<br /> + +<br /> + +―E tens o atrevimento de apparecer entre pessoas de bem?<br /> + +<br /> + +Bernardo suffocou uma resposta amarga, e fez uma continencia respeitosa +para retirar-se.<br /> + +<br /> + +―Vem cá, miseravel!―tornou João Leite―tu +és o amante da filha do teu amo?<br /> + +<br /> + +―Respeitei-a muito, por ser a filha de meu amo, em quanto o servi. +Hoje respeito-a, porque lhe não +conheço a menor falta que a deshonre!<br /> + +<br /> + +―Nem ao menos a deshonra de receber as tuas +affeições, lacaio?<br /> + +<br /> + +―Eu não lh'as offereci nunca, senhor.<br /> + +<br /> + +―Offereceu-t'as ella, sevandija?<br /> + +<br /> + +―Não, senhor.<br /> + +<br /> + +―Mas ella escrevia-te...<br /> + +<br /> + +―Sem ser criminosa, por isso...<br /> + +<br /> + +―Então achas que não é crime escrever +a um bandalho?<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[169]</span> ―Será, +se v. s.<sup>a</sup> o quer...<br /> + +<br /> + +―Tenho pena de seres um reptil que faz nojo esmagar com a solla da +bota! Se tivesses um nome...<br /> + +<br /> + +―Tenho um caracter, senhor!<br /> + +<br /> + +Bernardo respondeu com altivez; João Leite riu-se com +despreso, e olhando-o da cabeça aos pés, +replicou:<br /> + +<br /> + +―Tu sabes que não podes ter caracter, engeitado!?<br /> + +<br /> + +―Então, terei um braço...<br /> + +<br /> + +―Um braço!―atalhou o fidalgo em projecto, imprimindo-lhe +um valente pontapé, que o fez descer tres escadas +maquinalmente.<br /> + +<br /> + +Bernardo assumira toda a dignidade do homem de +coração ultrajado. João Leite achou-se +comprimido entre os braços do +<em>sevandija</em> +que elle suppunha fugir ao primeiro pontapé para evitar o +segundo.<br /> + +<br /> + +Quiz desfazer-se, de prompto, d'este empecilho, e não +pôde, porque os pés falsearam-lhe, +e as costas bateram-lhe com todo o peso sobre os degraus de pedra. +Tirou rapido de um punhal, e roçou com elle duas vezes sobre +o braço direito de Bernardo, que o desarmou, no acto em que +uma terceira punhalada lhe resvalára no peito. O engeitado +sentiu-se ferido: vacillou um instante na +resolução que se debatia entre o homicidio e o +perdão. Venceu o primeiro. Aquelle punhal tinto de sangue +innocente, pela segunda vez, derramado, entrou no +coração de João Leite, e matou-o.<br /> + +<br /> + +Isto foi obra d'alguns segundos. João Leite +gritára nas convulsões da morte; acudiram os +creados, e encontraram Bernardo da Silva, de braços cruzados +ao pé do cadaver, que vibrava nos seus derradeiros +estorcimentos.<br /> + +<br /> + +Paulo Botelho tambem acudiu. Primeiro recuou aterrado: depois gritou +«matem esse homem!» E vendo que ninguem de prompto +lhe aceitava o diploma de assassino, mandou-o carregar de ferros.<br /> + +<br /> + +Bernardo caminhou para o carcere, com a fronte altiva, com nobreza de +passo, com serenidade de consciencia <span class="pagenum">[170]</span>e +maneiras d'um principe, segundo a linguagem popular dos que o viram.<br /> + +<br /> + +<h3>X.</h3> + +<br /> + +Foi processado. Paulo Botelho desenvolveu uma espantosa energia no +andamento d'esta causa crime. Erguia-se todos, os dias, sofrego da +escrever uma sentença de forca.<br /> + +<br /> + +Os depoimentos eram todos contrarios ao infeliz. Um só homem +protegeu esse preso; sabia-se que era um +ancião que lhe levava umas sopas diariamente, e palavras +consoladoras de esperança sem esperança.<br /> + +<br /> + +Eulalia, sabendo estes acontecimentos até á +vespera do dia em que o escudeiro devia ser condemnado, requereu que +queria ser ouvida em juizo. Não lhe admitiram o seu +depoimento. A pobre menina, inspirada da eloquencia do martyrio, entrou +um dia no côro, quando a communidade orava, e invocou o +testemunho de Jesus Christo, exclamando, de modo que a escutasse o povo +que estava na igreja:<br /> + +<br /> + +«Declaro que esse infeliz homem, que vai morrer, depois de +martyrisado por meu pai, e apunhalado por um homem que eu despresei, +declaro diante de Deus e dos homens, que esse infeliz nunca me disse +uma palavra só para que eu o amasse. Fui eu que o amei, fui +eu que lhe escrevi, quando entrei n'este mosteiro, fui eu que o fiz +desgraçado, mas em recompensa hei-de amal-o toda a minha +vida, e hei-de unir-me a elle na presença de +Deus!» Era uma demencia!<br /> + +<br /> + +Foi grande o assombro dos que a ouviram. O ecco d'este grito chegou aos +ouvidos de Paulo Botelho, que estava presente; mas a sua alma +fôra cerrada pela +mão corrupta do ouro. O povo murmurava, e dizia que +não havia de ser enforcado o escudeiro.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[171]</span> +Pobre povo, n'aquelles dias, se tentasse tirar das mãos d'um +juiz o seu instrumento inauferivel, o carrasco!<br /> + +<br /> + +<h3>XI.</h3> + +<br /> + +Bernardo foi condemnado á pena ultima; Ergueu-se uma forca +nas proximidades do delicto, entre a casa do juiz, e a de Francisco de +Lucena.<br /> + +<br /> + +Eulalia exaltára-se no martyrio até causar +receios de loucura. Inspiravam-se de uma dôr de morte as +exclamações pungentes que soltava a cada ruido +que ouvia semelhante ao arranco retrahido d'um justiçado. O +espectaculo da forca era a sua idêa fixa, desde o momento que +uma religiosa imprudente lhe annunciou o destino de Bernardo da Silva.<br /> + +<br /> + +A infeliz, na madrugada do dia da execução, fugiu +da cella com os cabellos em desordem, com as faces chammejantes de +febre, com os olhos embriagados de delirio, e com o +coração a estalar-lhe de uma +dôr que a endoudecia.<br /> + +<br /> + +Chegando á portaria não houveram +forças humanas que a contivessem. Os ferrolhos cederam ao +impulso d'uma fraca mulher, forte da sua +desesperação; e +esta virgem, com habitos de noviça, e bella, na sua agonia, +como um corpo epileptico que se levanta amortalhado do esquife, corria +por entre as multidões que principiavam a agglomerar-se para +testemunharem o desconjuntar dos ossos do pescoço d'um +padecente entre as mãos +do carrasco, seu irmão, ambos filhos do mesmo Deus, ambos +remidos pelo sangue do mesmo Christo.<br /> + +<br /> + +Viram-na as multidões passar; muitos a conheceram: alguns +pronunciaram o seu nome, mas aquella pomba, ferida de morte, era um +cadaver que se movia impellido pelo choque da pilha galvanica.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[172]</span> +Erguera-se um alarido na cidade. As turbas corriam na +direcção da infeliz, a quem chamavam douda; +mas não ousou alguem embargar o passo áquella +mulher +que parecia fascinar com a magestade da sua demencia.<br /> + +<br /> + +Os que a seguiam esperavam vêl-a entrar em casa de seu pai. +Enganaram-se. Eulalia subiu as escadas de Paulo Botelho, e entrou no +salão onde fôra lavrada a +sentença de cadafalso para Bernardo da Silva.<br /> + +<br /> + +Paulo Botelho estremeceu na cadeira, quando viu aquelle alvejar de uma +larva, ajoelhada nos degraus da tribuna.<br /> + +<br /> + +Deu-se um profundo silencio de alguns minutos.<br /> + +<br /> + +Eulalia já não podia coordenar as idêas +que poucos dias antes clamára no côro. O sorriso +da loucura, +o gemido suffocante, uma lagrima embebida logo no ardor das faces, e +algumas palavras entaladas, e apenas intelligiveis, eram alternativas +que a tornaram mais lastimavel durante alguns minutos.<br /> + +<br /> + +A mulher e tres filhas de Paulo Botelho, que a viram entrar, correram +ao tribunal, e quizeram arrastal-a d'alli. Era impossivel. A estatua +parecia chumbada sobre o seu tumulo.<br /> + +<br /> + +A familia do juiz julgou conveniente empregar o insulto como +solução. Fallavam do +justiçado com certa nauzea, que ellas suppozeram ser o +balsamo para a ferida mortal de Eulalia. Paulo Botelho, coadjuvando as +razões da sua familia, cobria de improperios affrontosos o +homem que, pouco depois, havia de perdoar as injurias com a +cabeça no laço da forca.<br /> + +<br /> + +A exaltação afflictiva de Eulalia tinha tocado o +ponto culminante da morte, ou da alienação +irremediavel.<br /> + +<br /> + +―Innocente! Innocente!―eram os gritos unicos, as derradeiras palavras +que os labios d'aquella mulher tinham de proferir.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[173]</span> +<h3>XII.</h3> + +<br /> + +N'este momento entrou um homem que redobrou o espanto. Era Pedro Leite, +pai de João Leite.<br /> + +<br /> + +Este homem fez signal de querer fallar. Attenderam-no todos com +religioso respeito.<br /> + +<br /> + +As suas palavras foram estas:<br /> + +<br /> + +―Perdôo ao assassino de meu filho! O sangue d'esse homem +cahirá sobre a minha face! Matou defendendo-se d'um +aggressor infame! Senhor juiz de fóra, requeiro a +suspensão da execução da +sentença. Eu sou parte, e declaro innocente o +réo!<br /> + +<br /> + +Seguiram-se minutos d'uma estupefacção natural. +Eulalia voltou os olhos para o homem que fallára, quiz +arrastar-se de joelhos aos pés d'elle; não +pôde; a +impressão devia matal-a, ou resuscital-a... desmaiou a meio +caminho.<br /> + +<br /> + +O juiz era o algoz moral creado pelo ouro, assim como o carrasco +physico fôra creado pela lei. Não podia +eximir-se a pegar do cutello, e seguir seu caminho.<br /> + +<br /> + +―É tarde!―respondeu elle.<br /> + +<br /> + +―Não é tarde!―replicou Pedro Leite, e continuou +com solemne exaltação:―Tarde, senhor juiz, +é depois que o tribunal do mundo se fecha atraz d'aquelle +que vai entrar no tribunal de Deus! Tarde, é quando um juiz +de entranhas ferozes se apresenta no banco dos réos +condemnados +com a face borrifada de sangue innocente!<br /> + +<br /> + +―Basta!―exclamou Paulo Botelho com authoridade!<br /> + +<br /> + +―Pois sim... basta! mas, abaixo de Deus, invoco o testemunho das +pessoas que me escutam. Declaro que lavo as mãos d'este +sangue innocente que vai ser derramado!<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[174]</span> +O povo murmurou com acanhamento, com a consciencia cobarde da sua +nullidade, mas balbuciou não sei que palavras que irritaram +o juiz.<br /> + +<br /> + +―Não se trata só de punir o assassino de +João Leite!―exclamou o juiz―trata-se de castigar a +affronta que recebeu um nobre, feita por um lacaio que ousou levantar +olhos de amante para sua filha!<br /> + +<br /> + +―Não, não!―gritou Eulalia, erguendo-se com +impeto, com as mãos postas, e cahindo outra vez sobre os +joelhos.<br /> + +<br /> + +O cynico já não tinha coragem para tanto! +Soára a hora do ultimo mandato ao carcereiro. +Expirára o ultimo instante de oratorio.<br /> + +<br /> + +―Cumpra-se a lei!<br /> + +<br /> + +Disse o juiz, e fez menção de retirarem-se as +ondas de povo que tinham concorrido em tropel, chamadas pelos gritos de +Eulalia, e pelo perdão publico de Pedro Leite.<br /> + +<br /> + +Eulalia foi conduzida em braços para o interior da +habitação do juiz.<br /> + +<br /> + +<h3>XIII.</h3> + +<br /> + +A procissão onde a impudencia collocára um +Christo, o Deus da caridade, nas mãos d'um padecente, que +hia ser esganado!... a procissão, onde se via um homem de +tunica branca, um algoz de cutello e alcofa, alguns sacerdotes d'um +Deus misericordioso!... a procissão descia terrivel de +repulsiva solemnidade para o açougue d'aquella +rêz! A tumba da misericordia fechava aquella orgia de sangue! +Era um insulto a Deus! o cadaver d'um homem atirado á face +do Creador! um escarneo satanico á intelligencia, e ao +coração +da humanidade!<br /> + +<br /> + +O prestito parou na praça do sacrificio.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[175]</span> +Bernardo com os olhos fitos no céo via nascer a risonha +aurora da eternidade. Sorriam-lhe os anjos, e a justiça de +Deus mostrava-lhe o seu regaço. A +morte do justo era um crepusculo de nova existencia a alumiar-lhe o +rosto. Inspirava devoção aquelle seu santo +sorrir para o seio do céo que se lhe abria! Trazia nas +mãos a +imagem do Redemptor; mas lá em cima via elle o Espirito +Creador, a grande alma, onde se refugiam as almas dispersas na face +d'este mundo, e perseguidas pelo demonio da ira, e da +vingança, eternamente encarnado no homem, a quem a sociedade +entregou o azorrague da flagellação do virtuoso.<br /> + +<br /> + +Bernardo caminhava a passo firme para a escada da forca. Estavam +contrahidas as respirações. Um +gemido, menos suffocado, podia ser ouvido por quinze mil almas que +vieram a contemplar aquelle apparelho de morte, segundo a lei, +<em>formulada pelas +inspirações do Evangelho</em>! pelo +codigo dos perdões! pelos preceitos do Filho de Deus que +morrêra, perdoando!<br /> + +<br /> + +<h3>XIV.</h3> + +<br /> + +Através da multidão abriu-se uma clareira para +deixar passar um homem, que devia representar um principal papel +n'aquelle festim da lei.<br /> + +<br /> + +Convergiram todas as attenções para aquelle +ponto.<br /> + +<br /> + +Era Pedro Leite―ainda o pregoeiro da innocencia de Bernardo, com a +face cadaverica das longas noites que chorára sobre o tumulo +de seu filho unico.<br /> + +<br /> + +Quem disse a este homem que Bernardo da Silva era um innocente?<br /> + +<br /> + +Que força occulta o arrasta a abençoar nas +escadas da forca o assassino de seu filho?<br /> + +<br /> + +Phenomenos occultos da Providencia! A voz de <span class="pagenum">[176]</span>Deus, +soando pelos labios do mysterio! Explicai-me as +operações de Deus, e eu vos explicarei a +inspiração sobrenatural que obriga a balbuciarem +o perdão os labios, que beijaram morto um filho +estremecido...<br /> + +<br /> + +Pedro Leite aproximou-se do justiçado. Ninguem lhe +embaraçou o passo.<br /> + +<br /> + +Cheio de magestade, de poesia funebre, e de santo terror, fallou assim: +<br /> + +<br /> + +«Eu venho pedir o seu perdão á beira do +patibulo. Fui eu que o arrastei até ao tribunal em que foi +condemnado; +mas não sou eu que o arrasto aqui. Bradei em favor da sua +innocencia. Pedi, ha momentos, a suspensão d'este acto, em +que a minha dôr será mais... muito +mais prolongada que a sua. Não me ouviram: impozeram-me +silencio, e mandaram-me sahir do sanctuario da lei, que resfolegava +sangue pela bocca do seu sacerdote.<br /> + +<br /> + +Venho pedir o seu perdão nas escadas da forca, e vasar o +fel, que me devora a consciencia, na consciencia do juiz implacavel que +pede a sua cabeça a altos +gritos!»<br /> + +<br /> + +Ouviu-se um prolongado murmurio. Era a onda popular que refervia +sopeada entre as rochas da sua impotencia moral, n'aquelles dias, em +que o sangue d'um plebeu continuava a operação +regeneradora do +sangue de Jesus Christo.<br /> + +<br /> + +Bernardo ouviu com presença de espirito a +exclamação de Pedro Leite.<br /> + +<br /> + +«Eu lhe perdôo!»<br /> + +<br /> + +Foram as suas palavras unicas.<br /> + +<br /> + +Choraram-se então muitas lagrimas. A piedade teve uma +explosão, que as cronhas dos soldados reprimiram. As turbas +queriam rasgar o quadrado para arrancarem da morte um santo. Este +conflicto foi serenado por outro mais sublime. Ouviu-se uma voz. Viu-se +um homem que sobresahia entre as molas populares. Era o velho, +protector unico de Bernardo da Silva, durante a sua prisão. +Poucos o conheciam.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[177]</span> +Foram estas as suas palavras:<br /> + +<br /> + +«Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr teu +filho que morre enforcado! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem +vêr o filho da mulher que deshonraste, como é +nobre nas escadas da forca! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem +vêr teu filho, o filho de minha filha, que borrifa os teus +pergaminhos com o teu sangue illustre!»<br /> + +<br /> + +E calou-se. Calaram-se todos. E aquelle homem lá estava +erguido como o anjo dos tumulos á espera que Deus mande +quebrar a lousa d'uma mulher que ahi falta n'esse trance afflictivo!<br /> + +<br /> + +Essa mulher morrêra, deshonrada, suffocada pela +mão da ignominia, a que a soberania fidalga de Francisco de +Lucena a abandonára.<br /> + +<br /> + +Esse ancião era o pai d'essa mulher, unico que +recebêra em seus braços o filho da deshonra, unico +sabedor d'aquella existencia, que acompanhou sempre, porque lhe +marcára um braço com uma cruz. Desde o ventre +á forca, de longe, desconhecido, com o segredo da deshonra +de sua filha abafado no coração, este +homem seguira os vestigios do neto, sem declaral-o nunca, porque um +appellido illustre não o salvava a elle d'uma +<em>illustre</em> ignominia.<br /> + +<br /> + +Que impressão fez este homem nas turbas? A do espanto. Mas, +momentos depois, chamavam-lhe +<span class="smallcaps">doudo</span>. Por ordem do +juiz de +fóra hia ser preso o demente. Aproximou-se a +justiça d'el-rei. «É +doudo...!» dizia o meirinho ao lançar-lhe a +mão.<br /> + +<br /> + +«<em>Não é +doudo</em>... é +<span class="smallcaps">morto</span>... » +responderam +algumas vozes.<br /> + +<br /> + +Morto, sim!<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[178]</span> +<h3>XV.</h3> + +<br /> + +Hia consummar-se aquelle enredo de peripecias terriveis.<br /> + +<br /> + +Bernardo poz o pé direito na ultima prancha da forca. +Voltou-se para o povo. Brilhou-lhe na face o clarão d'um +outro mundo. A sua voz era melodiosa como o cantico do anjo da morte +suavissima: mas n'aquelle todo via-se a terrivel magestade do anjo do +dia final. As suas ultimas palavras foram estas:<br /> + +<br /> + +«Ouvide a praga d'um padecente, rogada nas escadas da forca: +<span class="smallcaps">Que a justiça de Deus +se cumpra +na presença dos homens</span>!»<br /> + +<div class="dots"></div> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +O povo voltou o rosto do aspecto hediondo d'uma face injectada de +sangue negro. Outros viram-lhe uma onda de luz cingindo a fronte. +N'esse momento ajoelharam muitos justos pedindo ao espirito do +justiçado a sua protecção na +presença de Deus!<br /> + +<br /> + +<h3>CONCLUSÃO.</h3> + +<br /> + +Passaram quinze dias.<br /> + +<br /> + +Eulalia de Lucena recuperára o juizo, e entrára +no mosteiro. Um anno depois, professára. A sua vida foram +tres annos de adoração extatica. Ouviram-na +murmurar palavras celestes, como em dialogo. Dizia-se que um anjo devia +apparecer-lhe n'aquelles arrobamentos. Chamavam-lhe santa, e +adoraram-na morta.<br /> + +<br /> + +Passados quatro annos, Francisco de Lucena, sempre +<span class="pagenum">[179]</span>afastado de sua +filha pela mão do remorso, morreu de repente +no mesmo local em que fôra hasteada a forca.<br /> + +<br /> + +Simão Botelho, filho de Paulo Botelho, déra um +tiro em seu pai. O pai quiz sentencial-o: deu-lhe sentença +de forca, que depois lhe foi commutada em degredo perpetuo. Apenas +desembarcou em Cabo Verde, abriu-se-lhe uma sepultura.<br /> + +<br /> + +Paulo Botelho, desembargador aposentado, dez annos depois, morria +á vigesima quinta punhalada que +recebêra, por não dar exactas +informações d'um +peculio de cincoenta mil cruzados que guardava em uma quinta nas +visinhanças de Villa Real.<br /> + +<br /> + +A mulher de Paulo Botelho morria douda no hospital de S. +José um anno depois.<br /> + +<br /> + +Restavam tres filhas de Paulo Botelho.<br /> + +<br /> + +Foram devassas até ao escandalo de serem arrastadas a um +recolhimento por expresso mandado regio.<br /> + +<br /> + +Uma appareceu morta n'um aqueducto por onde procurára +evadir-se.<br /> + +<br /> + +Outra casou com um homem que a retalhou de martyrios.<br /> + +<br /> + +A terceira enforcou-se no batente de uma porta.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">A justiça de Deus +cumpriu-se na +presença dos homens</span>.<br /> + +<br /> + +A praga do justiçado nas escadas da forca teve o seu +complemento do genero de morte que a ultima pessoa d'aquella familia se +déra.<br /> + +<br /> + +Forca por forca.<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +Tendes a curiosidade das averiguações? Procurai +em alguns cartorios de Vizeu a sentença pronunciada entre +1776 e 1780.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[180]</span> +<h3>REMATE.</h3> + +<br /> + +Não sou contumaz, nem me ufano de relapsia.<br /> + +<br /> + +De tudo que disse me desdigo, se algum inquisidor intoleravel deparar +ahi heresia, contra-senso, atrevimento ou cousa que duvida +faça contra Plutus, unico deus da unica religião +cujo codigo penal me intimida.<br /> + +<br /> + +Ha cousas incriveis n'este volume? É que eu, e os meus +amigos litteratos, poetas, jornalistas, e até +redactores encartados de necrologios sabemos passagens que arripiam +carnes e cabellos. Se o siso commum as não adopta, +é que os chronistas do tempo formam, +á parte, um <em>status in +statu</em>, cousa +inintelligivel aos que não sabem latim, por grande fortuna +sua.<br /> + +<br /> + +N'este synhedrim ha uma moral, estragada se o quizerem, mas os +evangelistas, que a propagam são Catões, com +tanto que os não obriguem a inquietar a sadia +tranquillidade dos intestinos. Aqui, não se sacrifica um +dedo a uma pisadella, porque não vale a pena.<br /> + +<br /> + +É necessario escrever, visto que ha leitores.<br /> + +<br /> + +Eu, e os meus correligionarios, se até hoje não +temos irradiado sobre a humanidade ondas de luz, é porque a +humanidade precisava ser, primeiramente, operada na catarata. O luzeiro +da civilisação aqueceu, +não ha muito, a concha em que, por aqui, se escondiam muitos +molluscos moraes, que vão sahindo agora a +espanejar-se ao sol.<br /> + +<br /> + +Não quero dizer que os molluscos passassem a articulados. +Póde muito bem ser que o leitor, ou leitora sejam ainda +legitimos molluscos; mas a excepção +deploravel não claudica a generalidade. E, por tanto:<br /> + +<br /> + +Eu, e os meus amigos, mencionados acima, considerando que a candeia +não deve estar muito tempo debaixo <span class="pagenum">[181]</span>do +alqueire, nem os +talentos (dinheiro) soterrados vencem juros: e tendo nós +outro sim, em muito afan e desvelo desaffrontar a litteratura patria de +injurias com que estrangeiros e nacionaes a desconceituam, desairando-a +como pobre de romances, pela sua incapacidade inventiva―o que +não só é malicia, mas +até aleivosia: resolvemos escrever romances em que +figurassem muitas pessoas nossas conhecidas, e outras, que viremos a +conhecer no decurso d'esta meritoria tarefa.<br /> + +<br /> + +Pelo que, a mim, humilde entre os humildes apostolos d'esta +idêa lucida, coube o quinhão de trabalho, que a +posteridade me devolverá em gabos e applausos, e o futuro +Plutarcho dos homens illustres d'esta freguezia de Cedofeita, em que +tenho a honra de morar, não deixará de consignar +nos fastos gloriosos.<br /> + +<br /> + +Disse.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="C9"></a>PATHOLOGIA DO CASAMENTO.</h2> + +<br /> + +<br /> + +<h3>DEDICATORIA.</h3> + +<br /> + +<div class="signature"><em>exc.<sup>ma</sup> +snr.<sup>a</sup> +D. Fulana.</em></div> + +<br /> + +Conceda-me v. exc.<sup>a</sup> a gloria de offerecer-lhe um +quadro d'esta +galeria. Vai lêr um drama intitulado +<span class="smallcaps">Pathologia do Casamento</span>. +<br /> + +<br /> + +<em>Pathologia</em>, minha querida snr.<sup>a</sup> +D. +Fulana, é uma palavra grega, composta de +<em>pathos</em>, +doença, e <em>logos</em>, +tractado. Quer, por tanto, dizer <em>molestias do +casamento</em>.<br /> + +<br /> + +Balzac escreveu a +«<em>physiologia</em>»; +outro, que me não vem á memoria, escreveu +«<em>anatomia +do coração</em>»; faltava +uma «<em>pathologia</em>» +que apparece agora, e, mais tarde, se me não faltar a vista +intellectual, que já +sinto muito cançada, escreverei a +«<em>Pharmacia +do casamento</em>» que hei-de dedicar a uma +outra D. Fulana, que eu cá sei.<br /> + +<br /> + +V. exc.<sup>a</sup> é uma senhora fina, que, +além de ter a +cabeça no seu lugar, apresenta muitas vezes lume no olho. +Sympathiso com o seu talento, e talvez casasse com a <span class="pagenum">[186]</span>snr.<sup>a</sup> +D. Fulana, se +tivesse a certeza de podermos entreter o nosso tempo traduzindo os +trinta e sete livros de Plinio, e os trinta e cinco <em>De +Linguâ +Latinâ</em> de Terencio Varro, que Deus tem em +sua santa gloria.<br /> + +<br /> + +Penso que v. exc.<sup>a</sup> não estaria por +isto. O seu espirito tem +calefrios de enthusiasmo, e eu, a fallar-lhe a verdade na sua nudez +patriarchal, devo dizer-lhe que tenho dentro do peito uma mumia, que +poderia valer alguma cousa nas ruinas de Memphis, mas não +vale nada no cavername ossudo d'este seu creado.<br /> + +<br /> + +Eu preciso d'uma mulher d'oculos, e pitada constante nos dedos. Quero +que ella me falle dos Heraclidas, das Saturnaes de Macrobio, de Creta e +de Lacedemonia, da Beocia e Epaminondas.<br /> + +<br /> + +Eu não sei se v. exc.<sup>a</sup> sabe alguma +cousa d'isto; mas +desconfio que não. Falla-me muito em Victor Hugo, e na +<em>Petite Fadete</em> de George Sand. +Já a encontrei a lêr <em>les Liaisons +Dangereuses</em>, e a <em>Manon +Lescaut</em>. Palpita-me que a snr.<sup>a</sup> D. +Fulana tem na +cabeça muita somma de +têas de aranha, e não serei eu a vassoura da +limpeza.<br /> + +<br /> + +Não obstante, respeito-a, admiro-a até ao ponto +de lhe offerecer a minha «<em>Pathologia do +Casamento</em>.»<br /> + +<br /> + +Digne-se v. exc.<sup>a</sup> acolhel-a no regaço +da sua benevolencia, +e dê-me occasiões de mostrar-lhe que sou<br /> + +<br /> + +<div class="signature">De v. exc.<sup>a</sup></div> + +<br /> + +<br /> + +o ultimo creado, e o primeiro dos seus admiradores,<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Camillo Castello Branco</em>.</div> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +PERSONAGENS.</h3> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">D. +Leocadia</span></td> + + <td style="text-align: right; width: 203px;">18 annos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">D. +Julia</span></td> + + <td style="text-align: right; width: 203px;">20 + « </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">A +Viscondessa de +Valbom</span></td> + + <td style="text-align: right; width: 203px;">45 + « </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">Jorge +da +Silveira</span></td> + + <td style="text-align: right; width: 203px;">30 + « </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">Alvaro +de +Castro</span></td> + + <td style="text-align: right; width: 203px;">32 + « </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">Eduardo +Leite</span></td> + + <td style="text-align: right; width: 203px;">30 + « </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">O +Visconde de +Valbom</span> </td> + + <td style="text-align: right; width: 203px;">50 + « </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<em>Damas, cavalheiros, e creados</em>. +(Podem ter a idade que quizerem).<br /> + +<br /> + +A scena dizem que se passou no Porto; mas o author não +impõe, Mafoma dramatico, a crença +a ninguem. Cada qual fique no que lhe parecer; mas, se, effectivamente, +os personagens existem, tenham paciencia.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>PATHOLOGIA DO CASAMENTO.</h2> + +<h3><br /> + +ACTO I.</h3> + +<h4>DECORAÇÃO.</h4> + +<br /> + +<div class="quote"><em>Uma saleta contigua a um +salão de baile, +separada por largas portadas de vidro, através das quaes se +vêem perpassar, em passeio, damas e +cavalheiros</em>.</div> + +<br /> + +<h4>SCENA I.</h4> + +<br /> + +<div class="quote"><span class="smallcaps">Julia</span>, +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Leocadia</span>, +<em>entrando, como fatigadas, sentam-se n'um +sophá.</em> +<span class="smallcaps">Julia</span> <em>tira +da +cabeça uma grinalda de flôres brancas, que +arremessa com desdem sobre o +sophá.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Afflige-me +tudo!... +Tomára-me eu na minha liberdade, Leocadia! Não +goso nada... Tanta luz parece um insulto á +escuridão da minha alma... +Queria-me sosinha...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[190]</span> +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Não +tens +paciencia nenhuma, Julia!... Que é o que te afflige assim?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Que +é!... +É aquelle homem... Sempre aquelle homem!... não +ha nada que o desengane...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Nem as +palavras?!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Eu sei!... +nem as +palavras, talvez...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Porque +não +és franca?! Eu, de mim, na tua +posição, tinha-lhe dito: +«não me persiga!» É o que eu +já disse a Eduardo...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Eu +não sei +dizer isso... Acho que é aviltar demasiadamente um homem... +Pois tão estupido é elle, que precisa uma +franqueza tão impropria +d'uma senhora? Tenho feito tudo que póde desenganar um +homem... Teima, persegue-me, flagella-me... é +insupportavel!... Ainda ha pouco, entre mim e Jorge...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span> +(<em>sobresaltada</em>).―E Jorge!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Que modo +é +esse!? Jorge interessa-te!?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―E a ti?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―A mim?... +Pois +não sabes...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―O que?... +não sabia... Elle ama-te?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Tem-m'o +dito...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Elle!... +tem t'o +dito... Jorge!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―E tambem a +ti?... Falla +depressa...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span> +(<em>contrafeita</em>).―Não... a +mim... não... mas a ti... sim?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Penso que +sim... mas esse +descorar... Leocadia!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Fui eu que +me +enganei... Pensava...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Talvez te +não +enganasses... Que te disse elle?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Nada... +Vamos +nós á sala?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Já?!... +Eu +não vou já... Vai tu, se queres...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Que +é o que +me querias dizer?... Disseste que entre ti e Jorge...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Estava uma +cadeira de +vago... Alvaro vinha <span class="pagenum">[191]</span>occupal-a, +e eu +ergui-me de repente, e occupei-a primeiro...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―E +Alvaro... nem +assim...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Me +comprehendeu... +Sentou-se na immediata, e disse não sei que frioleira...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Se tu +és +tão amavel!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Ai!... tu +queres +imital-o?! É o que elle me diz cem vezes em cada baile...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Uma +verdade, por muito +repetida, nunca perde o merecimento...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Que maneira +de fallar!... +Quem me dera adivinhar-te! Tu amas Jorge!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Não, +menina... Eu não amo ninguem...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Ninguem?! nem +a tua Julia? +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―A minha +Julia +não póde repartir o seu +coração... Não quero entrar em +partilha com Jorge... O peor quinhão seria para mim, porque +não ha nada superior a elle... Ficas?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Fico a +scismar... Vem +cá, Leocadia... sê franca, senão... +não sou tua +amiga... Jorge será um impostor?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Perguntasm'o +a mim!? Eu +não sei...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Terá +tido a +mesma linguagem para ambas?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Disse que +te amava?... +A mim... não me disse nada...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Então +és tu que o amas?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Não... +Olha, +minha amiga, faz de conta que eu ouvi com perfeita +indifferença a tua +revelação... Até logo... Ai!... diz-me +cá... O teu namoro é antigo... ou +começou aqui?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Com Jorge? +É +muito moderno... Tem um mez... É uma creança, mas +já foi +baptisado com lagrimas...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Já? +Pois +afaga-o muito na alma... Sê <span class="pagenum">[192]</span>muito +feliz.... que eu, se +te não felicitei mais cedo, +é porque o não sabia... Vou lá +dentro... Minha +mãi deve reparar n'esta ausencia...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Não +me deixes +agora que ahi vem Alvaro... É insupportavel!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Ora!... +que mal te faz +o homem?!... Eu volto já... Olha... diz-lhe que amas +Jorge... +é impossivel que elle queira sustentar a competencia... +(<em>Sahe</em>).<br /> + +<h4>SCENA II.</h4> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps"><br /> + +Julia</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Alvaro</span>. +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Está +incommodada, snr.<sup>a</sup> D. Julia?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Não, +senhor.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Então +está aborrecida...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―De certo...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Menos, +quando ao seu lado +um certo cavalheiro de luneta...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Ah! o senhor +vem pedir-me +satisfações? É engraçada a +liberdade!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Não +lhe +peço satisfações... Se as minhas +palavras foram indiscretas, seja generosa, perdoando-m'as.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Muitos +perdões +me tem pedido, snr. Alvaro!... A minha generosidade com v. s.<sup>a</sup> +chega +já a parecer-se...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Com a +virtude d'uma +santa?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Não +queria +dizer isso...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Queria dizer +que chega a +parecer-se...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Com um +excesso de imbecil +paciencia.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Isso +é muito +forte!... Eu não lhe mereço tanto! Nunca lhe +disse affrontas...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Com que +direito ha-de +dizerm'as?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Não +tenho +nenhum? absolutamente nenhum?<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[193]</span> +<span class="smallcaps">Julia</span>.―De certo, +nenhum...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―A +paixão cega +o entendimento...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Não +é minha a culpa...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―É +toda...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Toda?... pois +eu +authorisei-o? Disse-lhe alguma vez que o amava?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Nunca m'o +disse... +porque...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Porque o +não +sentia... Que mais lhe posso dizer agora?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Depois +d'isso, mais nada. +(<em>Retira-se</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Foi preciso +isto... Ainda +bem!... (<em>Ouve-se a musica d'uma polka</em>. <em>Julia +enfeita-se ao espelho com a grinalda, e sahe</em>).<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA III.</h4> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps"><br /> + +Jorge</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Tu vaes ser +verdadeiro, +Eduardo?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Como +Epaminondas +Thebano, que nem zombando mentia. Não me lembra d'outro +estafermo antigo que fallasse verdade...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Tu tens +algumas +intelligencias com Leocadia?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Diz-me +cá, +Jorge, póde fumar-se aqui?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não... +se +queres vamos á sala debaixo...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Não +posso, +que tenho a sexta quadrilha com Leocadia... Diz lá o que +queres...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Perguntei-te +se amavas +Leocadia.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Gosto muito +d'ella... +Depois d'um bom charuto, é o meu sonho dourado.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―E ella...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Gosta de +mim? +não sei bem ainda... Perguntei-lh'o ainda agora pela +vigesima vez... Disse-me que sim, e é a primeira vez que m'o +diz... Se mente, lá se avenha com a sua consciencia... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[194]</span> +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―E +é a primeira +vez que te disse que sim?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―A primeira, +palavra +d'honra, Jorge!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―E que +conclues d'ahi?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Concluo que +não gostou até hoje.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―E +não conclues +mais nada?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Nem quero.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +suppões que ella amasse, até este momento, outro +homem?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Não +só supponho; mas até acredito... Nada de +emboscadas... Essa diplomacia parece-me uma velhacaria +rançosa... Sei que amas Leocadia, ou, se a não +amas, que a amaste já... Eu não +tenho nada com o passado, nem com o futuro... A minha grande +questão é a actualidade. São arrufos? +Deixal-os ser: aqui +estou eu para encher as lacunas, e tenho n'isso muita honra... Nunca me +importou saber que tentos lavravas no coração da +pequena. Vi-te fazer de Cesar, e eu +fiz de Fabio. Agora, cada um de nós segue o seu systema... E +até logo... Acho que não te queres bater...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Eu +não me bato +por estimulos tão pouco despertadores do brio...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Fazes tu +muito bem... Eu +tambem zango de duellos, principalmente por causa de mulheres... que +comem <em>sandwichs</em>, e bebem +limonadas... Falla-me logo... +(<em>Sahe</em>).<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA IV.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Jorge</span> +<em>e +depois</em> <span class="smallcaps">Julia</span>. +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Eu tinha +previsto tudo... +Era necessario renunciar uma das duas...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Procurava-o... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Sim?... que +é, +Julia?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Diga-me: +poderei confiar a +Leocadia o segredo do nosso amor?... Vacilla?... responda!... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[195]</span> +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Tem +precisão de +confidentes?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span> +(<em>sorrindo</em>).―Tenho, porque me +não cabe a felicidade no coração... +Posso?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―E +é +forçoso que seja Leocadia?!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―É... +preferi-a +entre todas as minhas amigas... Que embaraços são +esses?!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Entendo que +não +deve revelar a ninguem o nosso amor.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Sim?... +porque m'o +não disse?... Já agora, perdeu-se a sua +discrição... Eu disse +tudo...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―A quem?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―A Leocadia... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> +(<em>á +parte</em>).―Está explicado o enigma!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Nada de +monologos... falle +comigo... Ora, snr. Jorge... que necessidade tinhamos nós de +corarmos um na presença do outro!?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Eu +não +córo... A côr d'este rosto só +póde alteral-a uma infamia.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Dê +o nome que +lhe aprouver ao seu acto, que eu não lhe conheço +outro... V. s.<sup>a</sup> feriu-me, +e cicatrizou-me a ferida... São boas todas as affrontas que +nos despertam a sensibilidade da honra... A lembrança do +ultraje ha-de fazer que eu esqueça a causa depressa... Fez +bem... Deixou cahir a mascara muito a tempo... +(<em>Retira-se</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Escute-me, +Julia... +(<em>Vai sentar-se no sophá</em>).<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA V.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Jorge</span>, +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Eduardo</span>, <em>dando +o +braço a</em> +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps"><br /> + +Eduardo</span>.―Será +isto um +sonho?... Se o é, deixe-me sonhar uma hora, sim?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span> +(<em>sorrindo</em>).―Tambem ha sonhos de que +se acorda com a face cheia de lagrimas...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[196]</span> +<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>para +Jorge</em>).―Ainda aqui!... +(<em>Leocadia estremece</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Ainda aqui... +não estou mal... Tem dançado muito, minha +senhora?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Principiei +agora...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Pois ainda +tem muito tempo +de gosar... São tres horas... Nunca lhe esqueça +que foi +ás tres horas...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Não +o +comprehendo, snr. Jorge... Que tenho eu com as tres horas do seu +relogio?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +se finja +simples como donzellinha que sahiu hontem do collegio...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Antes uma +fingida +innocencia que uma descarada impostura.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +entendo.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Os senhores +dizem que +não se entendem, e eu de certo não os entendo +melhor. Não +façam ceremonia de mim. Queiram explicar-se de modo que eu +possa reconcilial-os.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Reconciliar-nos!... +Não estamos divorciados... O que me prende a esta senhora +são os respeitos e considerações que +se lhe devem. Em quanto ella se não desviar da carreira d'um +nobre procedimento, as nossas relações +não soffrem +quebra...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Pois n'esse +caso, meu +caro Jorge, serás sempre o respeitador d'esta senhora, +porque os anjos não se precipitam desde que um, ha muitos +annos, teve o mau gosto de se precipitar do céo.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> +(<em>sorrindo</em>).―snr.<sup>a</sup> D. +Leocadia...... snr.<sup>a</sup> D. Leocadia!... +(<em>Retira-se</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[197]</span> +<h4>SCENA VI.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Fallemos +seriamente, +minha senhora. V. exc.<sup>a</sup> n'um momento de ciume, +dignou-se empregar-me +no seu serviço como instrumento de barro, que se quebra, +feito o serviço, não é +verdade?<br /> + +<br /> + +Ora ande lá... não perca o animo, supposto que o +escarlate do pejo não lhe fica mal... acho-a muito mais +bella... Parece-me que adivinho o segredo... V. exc.<sup>a</sup> +encontrou em +flagrante delicto de ternura o sensivel Jorge com a sensivel Julia... +Ferida na sua vaidade, quer vingar-se, e eu represento n'este negocio o +<em>tertius</em> sem o +<em>gaudet</em>. Perdoará o +latim... quiz dizer que represento n'este negocio uma triste figura... +Já não +é a primeira vez... Não se inquiete, que eu +tambem me não incommodo... Tire de mim o partido que +quizer...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Snr. +Eduardo... +não devia fallar-me assim... Essas palavras são +tão repassadas de +ironia...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―É +o meu +genio... Sou um Democrito pequenino, porque tambem são +ridiculamente pequenas as cousas que me fazem rir... Ahi vem uma que me +arranca do profundo da consciencia uma legitima gargalhada.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Que +é?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―É +a sua amiga +Julia pelo braço de Alvaro, em intima +conversação... Não acha tudo +isto tão comico?<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA VII.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Leocadia, +Eduardo, Julia</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>para +Alvaro, sorrindo</em>).―Os reis da noite somos +nós, snr. Alvaro... Logo despimos a purpura de <span class="pagenum">[198]</span>reis +de comedia, e fumamos um pessimo cigarro do contracto...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Não +entendo a +finura do epigramma.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Então, +é mais feliz do que eu suppunha... Póde contar +com o reino do céo... Deveras não entende?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Não, +e +dispenso as explicações officiosas do meu +amigo...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>rindo</em>).―Espero que á +solemnidade do estilo, se não siga um cartel de desafio...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Que +linguagem!... +É bem galhofeiro o seu caracter, snr. Eduardo!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Muito +galhofeiro, minha +rica senhora... E alli o do meu amigo é sombrio como o d'um +encapotado de drama em cinco actos.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―A verdade +é +que nos não parecemos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Felizmente +para o senhor +ou para mim... Mas na singelesa do coração, na +temperatura do +amor, ha-de permittir que sejamos parecidos como Pylades com Orestes... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Não +temos +semelhança nenhuma... Eu não posso brincar com as +paixões...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>áparte, a +Leocadia</em>).―É da força de +trinta Paulos; mas a Virginia que o escuta, só com os olhos, +d'aqui a pouco remette-o ao catalogo dos Othellos em quarta +mão. (<em>Alvaro e Julia +retiram-se</em>). Espero que não se +baterá comigo, snr. Alvaro... +Não respondeu!... Aquelle silencio não quer dizer +nada; mas, quem não conhecer o homem, ha-de suppor que a +cratera vai rebentar... Quer sentar-se, minha senhora?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Sim... um +momento... +Ahi vem Jorge.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Ah!... V. +exc.<sup>a</sup> +estremece!... Muito me ama! (<em>rindo</em>). +É d'uma +ingenuidade mythologica!<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[199]</span> +<h4>SCENA VIII.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Leocadia</span>, +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Jorge</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Eduardo, +preciso roubar-te +um instante a essa senhora... tens a bondade!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Ah! sim... +esta senhora +não vai de certo queixar-se á policia pelo +roubo...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>a +sós</em>).―Fazes um sacrificio deixando-me +cinco minutos com ella?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Sacrificio... +nenhum; +mas a decencia pede que eu não esteja aqui servindo de +sentinella +á vista a um teu namoro... Ai!... espera... eu dirijo-me a +estas duas almas penadas, que ahi vem... Vou comprimental-as, e tu, +como penetrante abutre, desce o vôo sobre a presa... +(<em>Comprimenta duas +damas, vestidas de branco, em quanto Jorge vai sentar-se ao lado de +Leocadia</em>). Parecem-me dous anjos, minhas +senhoras. São duas virgens de Taurida, que fazem lembrar as +alvissimas virtudes de Ephigenia... (<em>As damas, que +elle acompanha, com gaifonas cortezãs, retiram-se +sorrindo</em>).<br /> + +<h4><br /> + +SCENA IX.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Jorge</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Que caprichos +são estes, Leocadia?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Caprichos!... +O +sentimento d'uma offensa é um capricho?!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Qual +é a +offensa? Uma leviandade de Julia?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―A +leviandade foi minha, +que não quiz imital-a a ella e a muitas, que sabem pisar os +homens aos pés antes de lhes darem a mão para que +se +levantem. Eu dei-lhe a minha alma sem reserva... Fiz do <span class="pagenum">[200]</span>meu +amor um sagrado mysterio com medo que m'o profanassem. Violentei-me a +olhal-o, em publico, com indifferença, para que ninguem me +invejasse. Eram estes os seus conselhos, Jorge... Hoje é que +eu comprehendo a horrivel significação d'este +plano. O senhor +precisava do segredo para agradar a muitas victimas illudidas com um +só lance de olhos... Creia que tenho tanta pena de mim como +de Julia...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Olha, +Leocadia... se o meu +crime foi grande, a tua vingança excede-o... Não +me pareces +o anjo resignado que eu imaginei... O que eu acabo de fazer foi uma +experiencia na tua alma... O resultado foi infeliz! Nunca previ que +consentirias ao teu +coração um arrojo vingativo, indigno de ti...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Que fiz +eu?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Que fizestes +tu?... +É boa a pergunta!... Procuraste n'esse salão o +homem mais desacreditado, o espirito mais corrompido, o cynico mais +orgulhoso de o ser, e disseste-lhe que o amavas, sorriste angelicamente +ás suas phrases ironicas, e nivelaste-me com elle, +apresentando-m'o como rival!... Eu... rival de Eduardo!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span> (<em>com +vivacidade</em>).―Como rival... nunca! Elle +não podia ser seu rival... porque eu não +tenho dous corações.... Fui imprudente... +confesso que +fui; mas não pude mais... a punhalada feriu-me de repente, +não me deu tempo de pensar... disse-lhe não sei +quê dos labios, mas o coração +aborrece-o, porque eu +não posso amar alguem com mais virtudes do que tu... pouco +me importa que tu sejas tão cynico, tão +desmoralisado como Eduardo... Oh! Deus queira que me não +ouvissem... Ahi vem Julia... Eu retiro-me... A mãi +está com os olhos fixos em mim... +(<em>Menção de +sahir</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[201]</span> +<h4>SCENA X.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Alvaro +, Julia</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Jorge</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span> (<em>passando +por Leocadia</em>).―Muitos parabens, minha amiga...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―De que?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Transigiste +amigavelmente?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Não +sei que +dizes...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span> +(<em>ironica</em>).―Innocentinha... +(<em>Leocadia sahe</em>. <em>Passam alguns grupos de +homens e +senhoras</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span> (<em>que +não vê Jorge</em>).―Jorge +não é homem talhado para o seu +coração...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Falle baixo, +que elle +está muito perto... Mas não se cale... diga +alguma cousa.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―É +necessario +ter o coração puro de amores viciosos para +conceber a sublime candura do seu...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Hei-de morrer +sem ser +comprehendida...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Não +nasceria +eu para comprehendêl-a?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Ai! +não... a +minha alma é um abysmo, onde se esconde o anjo do bem, e a +serpente do mal... Tenho na mesma intensidade transportes d'amor e +odio...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Qual lhe +mereço?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Quer-me +sincera? uma +verdadeira estima de irmã...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Só? +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>sem +erguer-se do sophá</em>).―Ó snr. +Alvaro!... Que tal acha a eloquencia d'esta senhora?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―A pergunta +é +celebre; todavia, responderei: a eloquencia d'esta senhora é +excellente...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―E v. exc.<sup>a</sup>, +snr.<sup>a</sup> +D. +Julia, que tal acha a eloquencia d'aquelle senhor?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Eu sou menos +generosa que +este cavalheiro: não lhe respondo.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[202]</span><span class="smallcaps">Jorge</span>.―Responda, +responda, que v. +exc.<sup>a</sup> não é responsavel +pelo que diz...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Eu +não posso +consentir que se affronte assim uma senhora!...<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA XI.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos e</em> +<span class="smallcaps">Eduardo</span>, <em>que +vem +passando com uma dama pelo braço, e +pára.</em><br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Pois +senão +póde, resigne-se...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Tenho a +optar por outro +expediente antes da resignação...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Naturalmente +quer +bater-se... Eu sou de opinião que os meus amigos devem +cortar-se reciprocamente +os pescoços ás 4 horas da tarde...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> +(<em>sorrindo</em>).―Fecha lá as +torneiras ao espirito, Eduardo. Aqui falla-se seriamente... +Não vês que aquelle senhor está +formalisado?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Pois o +senhor +está formalisado? e v. exc.<sup>a</sup> (<em>para +Julia</em>) tambem +está formalisada? e a menina (<em>para a que +tem no braço</em>) +tambem se formalisa?... Eu de mim, declaro-me formalisado sem saber +porque. Formalisem-se todos, desde o dono da casa até ao +creado da campainha. Isto deve acabar por hir cada um para sua casa, +porque são quasi quatro horas... não +acha?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Se me +dá +licença...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―A respeito +de +licenças, isso não é comigo: +é com o dono da casa... Que queria o meu amigo? quer duvidar +de que a snr.<sup>a</sup> D. Julia é a rainha +das mais formosas? +(<em>Com escarneo</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Snr. +Eduardo, as suas +zombarias são intempestivas!... Entre cavalheiros +é d'uso adoptar-se a linguagem seria e digna d'um +salão...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―O meu caro +senhor +está funebre como um mestre de cantochão... +Fallou muito bem; mas <span class="pagenum">[203]</span>eu +é que +não me sinto disposto a manter a +reputação de eloquente ás quatro horas +da manhã... Se me +querem vêr dormir, fallem-me em cousas serias... Diga-me +cá... já tomou chocolate?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span> +(<em>desprendendo-se do +braço</em>).―Dê-me +licença... Minha mana chama-me...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Eu +acompanho-a, minha +senhora... (<em>Vão sahir</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Minha bella +menina, +estamos quites... D'hoje em diante cada um de nós caminha +para o seu polo diverso...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―São +indifferentes os seus passos... Caminhe para onde lhe aprouver, snr. +Jorge... +(<em>Sahe</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Disse que +caminhasses +para onde te approuvesse... Eu de mim vou para casa... Queres vir?... +É verdade... que é da transparente +creatura, que eu tinha no braço? Evaporou-se?... Deixal-a... +(<em>Atira-se ao sophá</em>). Ai +que somno!... Em que pensas tu?... (<em>Entra um creado +com chavenas de +chocolate</em>). Isso que é? Venha +cá... É chocolate... +vm.<sup>ce</sup> não terá a +habilidade de converter isto +em vinho do Porto?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Creado</span>.―Não, +senhor... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Então +vm.<sup>ce</sup>, pelo que diz na sua, é um +grande idiota. +(<em>Toma duas chavenas da +bandeja</em>). Póde retirar-se... Aquelle +senhor está fazendo +versos... (<em>O creado sahe</em>). +Ó Jorge, +não tens no coração um reservatorio +onde caiba uma chavena de excellente chocolate?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Adeus... +retiro-me...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Alto +lá!... +Eu preciso saber em que lei devo viver... Reconsideraste a respeito de +Leocadia? Quem é que a ama, sou eu, ou és tu?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Fallas d'ella +com +tão pouco respeito!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―De quem? de +s. +exc.<sup>a</sup>!?... Pois eu disse alguma cousa que possa +chamar-se grosseira?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Leocadia +não +é uma apolice que se passe com o mesmo valor de +mão em mão...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[204]</span> +<span class="smallcaps">Eduardo.</span>―Justamente +o peor que ella tem é não ser +apolice, nem ao menos acção da empreza do +caminho de ferro de leste...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Estás +estragado!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Do +estomago? Palavra +d'honra que sim! As taes sandwichs são indigestas como um +artigo de fundo... Mas do espirito estou optimo... Ella ahi vem... +Queres ficar só com ella?... Eu vou entreter Julia... Que +mais queres da minha docilidade? Um homem que faz isto não +está de todo estragado...<br /> + +<h4><br /> + +SCENA XII.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Jorge</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Vou sahir, +Jorge... +Dê-me uma só palavra, que me salve...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Que queres +que eu te diga, +Leocadia?... Ámanhã vou consultar a vontade de +teu pai... +Queres assim tão breve o desenlace das tuas +affeições?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―É +muita +felicidade, meu Deus. Eu não merecia tanto... E Julia!... +Coitadinha!... quanto não soffrerá ella!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Que tenho eu +com Julia!... +Poderia amal-a com a paixão violenta d'uma febre... mas +estimal-a com a serena amisade que te dedico, Leocadia, isso nunca...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span> +(<em>reparando</em>).―Ai!... minha +mãi... não me deixa um instante... Adeus...<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA XIII.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos e</em> +<span class="smallcaps">Julia</span>, <em>e +depois</em>, <span class="smallcaps">Eduardo</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Espera, +menina +(<em>para Leocadia que se retira</em>)... +São só duas +palavras... Snr Jorge... V. s.<sup>a</sup>, +<span class="pagenum">[205]</span>não +é digno d'ella, nem de mim, que valho menos +que ella... Não te felicito pela +reconciliação, minha querida amiga... D'este a +Eduardo, que a sociedade chama cynico, não vai distancia que +tu não vejas desapparecer +vinte e quatro horas depois de casada... São tudo +Eduardos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Que +é isso de +Eduardos? Ainda falta este... Trata-se de levar ao capitolio os +Eduardos, minha senhora? N'esse caso peço que não +sejam +exceptuados os Alvaros. (<em>Para Alvaro que +entra</em>). +<br /> + +<br /> + +Venha cá, meu amigo... Á vista d'este quadro, +confesse que fizemos tristissimas figuras... Aquelle senhor +(<em>apontando Jorge</em>) fez monopolio de +dous corações, que nós tivemos o +imbecil heroismo de conquistar +ás tres horas da noite... Sabe que mais? Olhemos para ellas, +e digamos como a raposa: «Estão +verdes!» Pois não convém n'isto?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Vozes dentro</span>.―Vamos +meninas! +São quatro horas.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Nenhum dos +senhores se +quer bater pelo que vejo!... Boas noites... Minhas senhoras...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Vozes</span>.―O ultimo +<em>cotillon</em>, o ultimo.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>para +a +viscondessa de Valbom que entra</em>).―O ultimo +<em>cotillon</em>, minha senhora, se +não tem par... (<em>Retiram-se todos os +outros</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Eu +não +danço senão quadrilhas.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Faz v. exc.<sup>a</sup> +muito +bem... Tem dançado muitas?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―<em>Un +peu</em>... <em>un peu</em>.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Ah! V. exc.<sup>a</sup> +falla +francez! Ha quantos annos aprendeu, minha amavel senhora? Antigamente +ensinava-se um francez muito solido... Hoje é tudo pela +superficie...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―É +verdade; mas as bases d'uma verdadeira instrucção +são os solidos +rudimentos.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Muito bem, +minha +senhora... O seu <span class="pagenum">[206]</span> +coração deve ser tão sensivel como a +sua cabeça é illustrada.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―O meu +coração está morto.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Deveras!... +Quem +fará o milagre de o chamar á vida?... Eu de certo +não ousaria +tão difficil empresa...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―V. s.<sup>a</sup> +zomba?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Não +zombo, +porque não sei zombar com o amor...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Falle +baixo que ahi +vem meu marido...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>para +o +marido que entra</em>).―Snr. visconde!... estavamos +fallando na guerra da Crimea.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Vai por +lá o +diabo... Eu acho que os alliados não mettem o nariz em +Sebastopol.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Pelo +menos em quanto +a Austria e Prussia não expedirem forças que +suppram a +mortandade dos inglezes...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―E que me +diz o senhor +á exportação dos bois? Cessa ou +não cessa?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―A respeito +de bois, +não sei nada... (<em>reparando para +fóra</em>) Ahi +vem tudo... Que é isto!... uma senhora desmaiada?<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA XIV.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos, e</em> +<span class="smallcaps">Julia</span> <em>desmaiada +nos braços de algumas damas.</em><br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Vozes</span>.―Que seria?<br /> + +<br /> + +Coitadinha...<br /> + +<br /> + +Tragam agua...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Fumo de +charuto +não é mau...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Faz favor +de lhe botar +um pouco de fumo pelas ventas?...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[207]</span> +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>accendendo o +charuto</em>).―Lá vou... lá vou, +snr. visconde.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Vozes</span>.―Não +é preciso...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―É +Jorge!... +Jorge é o responsavel da minha vida...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Vozes</span>.―Ah!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―É +uma maneira +bonita de terminar um acto! Está tudo com a bocca aberta... +e eu tambem! (<em>Abrindo a bocca</em>).<br /> + +<div style="text-align: center;"> +<h4>CORRE O PANO.</h4> + +</div> + + <br /> + +<br /> + +<h3>ACTO II.</h3> + +<br /> + +<div class="quote"><em>A scena é na Foz, +justamente na praia dos +Inglezes. Senhoras e homens tomando banhos; outros, entrando nas +barracas, horrivelmente desfigurados, ou, antes, taes quaes a natureza +os fez. Sobre os penedos, pinhas de povo que pasmam diante dos ensaios +do salva-vidas. Estes podem dizer o que quizerem a tal respeito. O +author dá carta branca ao actor para que diga centenares de +parvoices: póde até discorrer sobre +o dropp se lhe aprouver; mas o melhor é +calar-se</em>.</div> + +<br /> + +<h4>SCENA I.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Afóra +estes entes nullos</em>, +<span class="smallcaps">Jorge</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Leocadia</span> <em>sentados +em cadeiras</em>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span> (<em>fazendo +SS com o guarda-sol na areia</em>).―Estás +tão sombrio, Jorge!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>fazendo +TT +na areia com a chibata</em>).―Estou optimamente. +(<em>Ouvem-se guinchos muito sympathicos das senhoras, que +patinham no banho</em>. <em>Alguns homens urram</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Parece que +te aborrece +a Foz!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Nada me +aborrece... Estou +bem em toda a parte...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[210]</span> +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Niguem o +ha-de dizer... Todas as minhas amigas me perguntam o que +tens...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Diz-lhes que +se +não incommodem...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Hão-de +suppor que a tua amisade para comigo foi uma illusão +desvanecida pelo casamento...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―A +opinião +é livre... Supponham o que quizerem.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Mas +não +consideras que eu soffro muito se ellas imaginam tal?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +me lembrava +essa especie... Isso é amor proprio...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Não +é amor proprio... é +<em>dôr</em> do +coração...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Será +algum +aneurisma?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―É +uma +zombaria bem cruel!... Estranho-te, Jorge.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Tambem eu me +estranho... +Não achas que é melhor estarmos calados?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Calar-me-hei... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―E fazes +bem... Estes +dialogos terminam sempre mal... A necessidade da variar a +conversação é a tisica das grandes +paixões... Uma phrase repetida aborrece, por mais bonita que +seja... Nós podiamos ter sempre cousas novas a dizer, se +não tivessemos gastado a inspiração em +quatro mezes de casados. Dissemos +tudo... definimos tudo que nos rodeava, e agora sentimos a dura +necessidade de nos definirmos a nós... É onde +está o mal.... Tu queres que eu te repita +o que te disse ha cinco mezes, e eu zango de +repetições... Não sei fazer phrases +como tu fazes punhos de camizas... Exhauri-me... Agora é +necessario esperar uma nova colheita do terreno que já deu +fructo. Essas lagrimas vem muito a proposito... +(<em>Erguendo-se e +espreguiçando-se</em>). Ai! que vida!... +(<em>Reparando</em>). +Olá, Eduardo!... por cá?<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[211]</span> +<h4>SCENA II.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos, e</em> +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―É +verdade... +Como passou, minha senhora?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span> +(<em>disfarçando as +lagrimas</em>).―Muito bem... agradecida... +Está bom?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Como +sempre... Tenho uma +saude insupportavel!... Não sou capaz de arranjar uma +dôr de cabeça, para me dar certos ares romanticos. +Vejo por ahi muitos mancebos, alquebrados no frescor da vida, e, em +quanto a mim, são infelizes creaturas que soffrem dos +callos... Já tomou banho, minha senhora?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Não +tomo +banho hoje. Constipei-me hontem.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>para +Jorge</em>).―E tu?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Vou tractar +d'isso... +Ficas por aqui?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Vamos +nós +conversar, minha senhora... Eu hoje sinto-me com +disposição para dizer cousas +muito philosophicas... (<em>Jorge sahe</em>).<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA III.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Leocadia</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―V. s.<sup>a</sup> +tem sempre um +humor tão alegre...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Será +isto +idiotismo? Já me lembrou se eu seria tão doudo +como por ahi me julgam!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Quem o +julga doudo?!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―É +toda essa +sociedade...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Doudo... +não!... Dizem que v. s.<sup>a</sup> +não tem persistencia em +cousa nenhuma; e escarnece tudo...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[212]</span> +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Em quanto +á +persistencia, é falso o que dizem, minha senhora, e sinto +que v. exc.<sup>a</sup>, tão distincta do +commum, queira ser o ecco +das opiniões vulgares da rançosa sociedade... +Não sou inconstante...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―A quem diz +isso? Pois +não sei eu a sua vida!... Só namoros, tenho-lhe +conhecido cincoenta.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Serão +mais, +talvez; mas... que namoros!... V. exc.<sup>a</sup> +não se recorda de +que foi meu namoro vinte minutos no baile do barão de +Valbom? +(<em>Leocadia abaixa os olhos</em>). Pois os +taes cincoenta namoros +foram todos assim... Não sou constante, porque +não +encontrei ainda uma mulher, que possa adorar-se seriamente. +Não ha paixão que o ridiculo não mate. +As minhas tem todas soffrido morte de gargalhada.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Pois +não +amou nunca seriamente?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Eu lhe +digo, minha +senhora... amei... Vou contar-lhe a minha vida; mas só lhe +digo os argumentos dos capitulos que são tres. +<em>Capitulo</em> 1.º Conta-se que Eduardo +Leite amou diabolicamente uma mulher, aos dezeseis annos, e fez tantas +loucuras por ella, que, não tendo mais que fazer, quiz +suicidar-se com +pós dos ratos, e foi uma tia que lhe valeu com um copo de +azeite... Pois v. exc.<sup>a</sup> ri-se das minhas +desgraças!... E eu +suppunha que a fazia chorar!... Estou como certo dramaturgo que +endoudeceu porque a platéa se riu justamente no +pedaço mais triste da tragedia!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―É +que v. +s.<sup>a</sup> dá um colorido comico +ás scenas mais +tristes...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―<em>Capitulo</em> +2.º No qual se diz que o dito Eduardo Leite fez tristissima +figura, +vociferando injurias contra as mulheres, emmagrecendo na +razão inversa da hydropesia do scepticismo, e passeando de +noite nas Fontainhas, perguntando ás estrellas pela mulher +dos seus sonhos, e bebendo agua no chafariz para refrigerar o +vulcão, que lhe queimava as entranhas. Dizem-se outras +<span class="pagenum">[213]</span>muitas +cousas tristes a este respeito, como por exemplo um duello que elle +teve com o seu rival, de que lhe resultou estar quinze dias de cama, +com uma bala mettida n'um hombro. Que lhe parece o segundo capitulo?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span> +(<em>sorrindo</em>).―É funebre; +mas faz-lhe muita honra...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Estou por +isso... +É uma honra muito grande...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Pois +não +é? ser ferido em duello por causa d'uma senhora!... Quem +seria a ditosa?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Era a filha +do meu +sapateiro, minha senhora...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span> (<em>com +seriedade</em>).―Não diga tal... V. s.<sup>a</sup> +não se fascinava por tal mulher!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Pois +fascinei-me... Era +linda como a edição mais nitida, que sahiu da +typographia +celeste. Nos seus olhos espelhava-se a candura, e dos labios fugiam-lhe +espiritos d'azas scintillantes, como não vi em nenhuns, +excepto nos de v. exc.<sup>a</sup>...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Dispenso a +comparação...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E faz bem, +minha +senhora!... Ella por fim, cahiu do ministerio a que eu a levantei, e +tornou-se uma gorda matrona casada com um gordo bate-folha, que +é a minha vergonha porque teve a petulancia de luctar +comigo, e vencer-me...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―E foi esse +que teve o +duello com v. s.<sup>a</sup>?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Nada... foi +uma segunda +victima, que ainda hoje faz quadras a uma certa visão que +lhe appareceu no amanhecer da vida... E esta visão +é a +sobredita filha do meu sapateiro...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―A sua vida +é +um poema epico... E o terceiro capitulo?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―É +verdade, o +terceiro capitulo... O terceiro capitulo... é isto... +É este riso, esta +zombaria, esta conscienciosa abnegação de mim +mesmo... +é a resignada docilidade com que me prestei a ser o +instrumento +<span class="pagenum">[214]</span>de v. exc.<sup>a</sup> +para ferir a vaidade de seu +marido... Queira +desculpar-me... Entristeci-a? O passado, passado... Quer v. exc.<sup>a</sup> +que +eu lhe escolha duas conchinhas? (<em>Procurando na +areia</em>). Aqui +está uma bem bonita... +(<em>Reparando</em>). Ahi vem a sua amiga +Julia...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span> +(<em>sobresaltada</em>).―Ai!... vem?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Como se +dá +ella com o marido, sabe dizer-me?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Não +sei.. +penso que não é feliz...<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA IV.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Leocadia</span>, +<span class="smallcaps">Julia</span>, +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Snr. Eduardo, +se me +concedesse alguns instantes com a minha amiga...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Pois +não, +minha senhora... (<em>Sahe</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―São +só duas palavras... Vi entrar teu marido para a barraca, e +não nos vê... Leocadia... Eu não sou +mais feliz que tu... Jorge fez-nos +desgraçadas a ambas... Tu sabes que o meu casamento com +Alvaro foi um capricho que tenho sustentado com lagrimas... Mas tu +não tens culpa... Sei que não +és amada... Eu tambem o não seria... Sou ainda +tua amiga... Não poderei prestar-me nunca a ser o cutello na +mão do teu algoz... ahi tens essas cartas.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Que cartas +são estas?!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―São +cartas, que +teu marido me escreve...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Meu +marido!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Sim... mais +nada... +adeus... (<em>Sahe</em>).<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA V.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Leocadia</span>, +<em>e +depois</em> <span class="smallcaps">Eduardo</span>. +<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Vou +sondando toda a +profundidade do <span class="pagenum">[215]</span>meu +abysmo... Eu bem sabia que era infeliz; mas tanto... não!... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Parece-me +que a sua +amiga não veio dar-lhe prazer... Tão descorada, +minha senhora! Que tem?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Nada, snr. +Eduardo... +É uma nuvem passageira... Queira dizer a Jorge que me +retirei...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Eu +acompanho-a...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Não +consinto... a minha casa é alli...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Não +insto, +minha senhora, para não ser importuno... +(<em>Ella sahe, +cortejando-o</em>).<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA VI.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span>, +<em>e +depois +a</em> <span class="smallcaps">viscondessa de +Valbom</span>, <em>com um creado de farda, que +conduz em sacco de damasco vermelho a roupa de banho</em>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>accendendo um charuto</em>).―Ora aqui +está o que são os môços +honestos, honrados, +e bem comportados!... São estes dous maridos. Jorge passa +por um mancebo exemplar; Alvaro dizem que é o typo da +bondade; e, comtudo, vou descobrindo que as respectivas mulheres, se +escrevessem jornaes, estavam em opposição com os +maridos. Os honrados +são elles... Eu é que sou o cynico!... Esta +sociedade é uma +grande patacuada!... Ahi vem a viscondessa de Valbom. Não me +larga desde aquelle baile... (<em>Olhando sobre o +hombro</em>). Ella cá está comigo... +(<em>Erguendo-se</em>). Minha querida senhora +viscondessa, como passou v. exc.<sup>a</sup> desde hontem?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―<em>Passablement</em>. +Esperei-o á noite para a partidinha, e o maganão +não nos quiz +honrar com a sua visita...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Urgentes +negocios +obrigaram-me a hir ao Porto.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[216]</span> +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Namôro... +diga a verdade... namôro...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Não, +minha +senhora. O meu coração está desde +muito na terceira secção... +Não ha poder que o faça entrar na +effectividade...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Ora +deixe-se +d'isso... Eu sei que ama... e ama uma senhora... que... digo?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Se lhe +apraz...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Não +direi; mas... lembre-se de que <em>la proprieté +n'est pas un +vol</em> como diz Proudhon...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Eu acredito +que a +propriedade não seja um roubo, e por isso mesmo +não tento contra ella.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Tenta, +tenta... Isso +não é bonito... Se quer merecer a minha estima, +não tente partir os vinculos matrimoniaes de... eu bem +sei...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E v. exc.<sup>a</sup> +acha que sou +indigno da sua estima, se tentar...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Pois +não? +Ha cousa mais sagrada sobre a terra?! A reputação +d'uma senhora!... +(<em>Mudando de tom</em>). É +verdade que muitas vezes toda a +philosophia é pouca para conter os impetos do +coração... (<em>Mudando para o tom +da honestidade</em>). +Ainda assim, a mulher digna reprime-se, e faz-se superior a si +propria... (<em>Mudando de tom</em>). +Apesar d'isso, eu absolvo alguns erros, que muitas infelizes commettem, +porque tem a imprudencia de tentar com a ponta do pé o +desfiladeiro, e por fim...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Escorregam... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Justamente... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E n'esse +caso...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Está +a +pessoa de quem fallamos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Nós +não fallamos de pessoa nenhuma... Queria eu dizer que n'esse +caso não está de certo +v. exc.<sup>a</sup><br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Quem +sabe!... +(<em>Á parte</em>). Ai! o que eu +fui dizer!...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[217]</span> +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Sei-o eu +porque a +conheço desde menino, sempre esposa exemplar...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Desde +menino, +não!... pois que annos tem v. s.<sup>a</sup>?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Trinta, +minha senhora.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Trinta?!... +Ha-de +ser isso... Não levamos grande differença...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Queira +perdoar-me, minha +senhora, mas eu andava na escóla, quando v. exc.<sup>a</sup> +deu um +baile para celebrar os annos de seu filho, que era meu condiscipulo... +Ha quantos annos isto vai!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span> +(<em>enfronhada</em>).―Dê-me +licença que vá ao meu banho... São +horas, e a maré principia a +vasar...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Vasa, vasa, +minha +senhora... Será bom aproveitar a vasante...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span> +(<em>á parte</em>).―É +muito grosseiro!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Vai a +resfolegar polvora +pelos narizes...<br /> + +<br /> + +D'esta vez, creio que aboli este vinculo de nova especie!... Ahi +está um dos taes cincoenta namoros de que falla Leocadia... +E é por causa d'estas... que me chamam inconstante!... Que +pessimo charuto!... Gilbert se vivesse n'este tempo suicidava-se com um +d'estes canudos de acido prussico...<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA VII.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Jorge</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Leocadia?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Já +lá vai... Disse que hia para casa.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Dá-me +lume... +(<em>accende o charuto</em>). Quero dar-te um +conselho, Eduardo...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Sim?!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +te cases. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[218]</span> +<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>Alvaro, +sem ser visto, entra n'uma das proximas +barracas</em>).―Deus me livre... Sendo eu, como realmente +sou um cynico, pobre da mulher que tivesse de luctar com o meu +cynismo!... O casamento é bom para ti que és um +anjo de virtude, e para +Alvaro que é o typo da sisudez... Diz-me cá, +és muito feliz, não és?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não. +Estou +cançado... Minha mulher... é uma mulher...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―É +<em>uma</em> mulher? Pois louva a Deus por +não serem duas... Quantas querias tu? Aposto que +estás desmoralisado como um turco?!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Sempre +galhofeiro... Agora +serio... Tu que és homem de expedientes, não me +dizes como eu +possa ser feliz com Leocadia?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>ironicamente</em>).―Estás a +zombar! Pois o anjo de virtude vem consultar o cynico!? Não +abuses da tua superioridade, Jorge...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Se tu +soubesses que +tormentos aqui vão n'esta alma!... A paixão +allucinada que me abriu o inferno no coração!... +Tenho necessidade de +respirar... Quero que tu me ouças, porque não +és +d'esses tartufos que torcem o nariz á menor +expansão d'um espirito +atormentado!... Sabes que amo até ao delirio uma mulher?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―É +a tua +naturalmente... Isso é muito justo...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +é a minha...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Pois a +minha tambem +não...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +motejes a +minha dôr... Se me não queres ouvir com seriedade, +calemo-nos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Ora diz...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Eu amo... +Julia...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―A mulher +de... Oh +escandalo!... Falla baixo que te não ouçam os +caranguejos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +soffro o +escarneo... És incapaz de comprehender um sentimento +nobre...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[219]</span> +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>rindo</em>).―Sim... esse sentimento +é muito nobre... Eu é que sou o cynico... Tens +razão... estou estragado a ponto de não +comprehender a nobreza d'esse sentimento... Prega essa moral, +verás o +galardão que recebes...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +me importa +a sociedade... Perco-me por aquella mulher... Era ella quem eu amava... +Casei com Leocadia por um capricho... mas a mulher do meu +coração era Julia...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E ella... +concorda?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não... +despresa-me... recebe as minhas cartas, e não me responde... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Mas sempre +vai lendo as +cartas?... Então continúa, visto que esse +sentimento +é nobre... Eu é que sou o cynico...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―E quem sabe o +fim para que +ella recebe as cartas?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Talvez para +papelotes, +quando se frisa...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Adeus!... +estás +insoffrivel... Isso offende!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Pois eu sei +cá para que ella recebe as cartas?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Talvez para +mostral-as a +minha mulher... e vingar-se assim...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Isso +póde +ser... A historia antiga conta tres factos semelhantes. O primeiro +aconteceu com Dido, a respeito de Eneas; o segundo com Fredegonda...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Deixa +lá +isso... que me importa a mim a historia?... Fazes-me um favor?... Se +fallas com ella, pódes sondal-a a meu respeito...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Sondal-a?... +não sei de que modo!... Tu não sabes que o marido +é meu figadal inimigo? +Só se a vir por aqui destacada do osso do seu osso... Ella +ainda agora aqui esteve com D. Leocadia...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Com minha +mulher!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Sim... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[220]</span> +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Estou +perdido!... Deu-lhe +as cartas!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Daria?! Que +grande +immoralidade!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―E por isso +Leocadia se +retirou...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E olha que +não hia boa... Parece-me que a estas horas já +ella admirou o estilo das tuas +preciosas cartas!... Olha... queres vêr Julia?... Ella vem +para aqui... Esconde-te atraz d'essa barraca, em quanto ella te +não vê... e quando passar, falla-lhe...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> +(<em>cumpre</em>).―Que hei-de eu +dizer-lhe?!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>sorrindo</em>).―Vê se ella +comprehende o <em>o teu nobre +sentimento</em>...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Ella +não +pára a ouvir-me... tu verás...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Se +não parar, +anda tu com ella... (<em>Retira-se</em>).<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA VIII.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Jorge</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Julia</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +tenho +animo... Sou um imbecil...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span> (<em>sem +o +vêr, sentando-se em cadeira</em>).―A minha +querida vingança!... Não vim só para +soffrer... Alguem ha-de soffrer comigo...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> +(<em>dirigindo-se com +irresolução</em>).―Animo!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span> +(<em>voltando-se de repente, e +erguendo-se</em>).―O senhor!... (<em>Quer +retirar-se</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> +(<em>sustendo-a</em>).―Não me +fuja...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Retire essa +mão, senhor!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Esse enfado +é +muito pouco senhoril... Esta mão não mancha a sua +pureza...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Para mim tem +o horror de +mão que me feriu com um punhal... O senhor não +tem dignidade nenhuma... Retire-se, que meu marido póde +vêl-o.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Que veja... +Eu +não temo seu marido...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Pois +não o tema +a elle, mas respeite-me a <span class="pagenum">[221]</span>mim, +para que a sua posição de marido seja +respeitada... (<em>Eduardo tem vindo por entre as barracas +esconder-se atraz da mais proxima do dialogo</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Eu +já me +não respeito na minha posição... Seu +marido que tire represalias, que eu sou indifferente a todos os +ultrajes d'essa ordem.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>á parte</em>).―Eu +é que sou o cynico...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Então +devo +acreditar que o senhor requintou em immoralidade...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Acredite o +que quizer... +Saiba que foi uma paixão que me perverteu... Hei-de cuspir +na sociedade, visto que a não posso calcar aos +pés... Despreso todas as formalidades... Para a +desesperação +não ha conveniencias a guardar...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>á parte</em>).―Eu +é que sou o cynico!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Pois, senhor, +eu entendo +que as devo guardar todas... Snr. Jorge, tenha vergonha diante da sua +propria consciencia. (<em>Vai +retirar-se</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> +(<em>segurando-a</em>).―Ha-de ouvir-me... +Que destino deu ás minhas cartas?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Entreguei-as +a sua +senhora.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Isso foi um +vil +procedimento...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Deveria antes +entregal-as +a meu marido?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +tenho nada +com seu marido, Julia... Não me cite tantas vezes o nome de +seu marido, que +é de nenhuma importancia n'este objecto...<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA IX.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos e</em> +<span class="smallcaps">Alvaro</span> <em>sahindo +da +barraca, vestido de banho</em>.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Ah! meu +marido...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>escondido</em>).―Isto ha-de ser +bonito...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Pois, snr. +Jorge, eu +pensei que importava alguma cousa n'este negocio... Isto que +é? Cahiram miseravelmente <span class="pagenum">[222]</span>n'um +silencio estupido!... Julia, tu não +fallas? Snr. Jorge! não fique embuchado!... O senhor +está-me dando uma importancia, que não era a do +seu programma...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Esta +situação é melhor que a não +prolonguemos. V. s.<sup>a</sup> vai pedir-me uma +satisfação... +(<em>Julia retira-se</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Está +enganado... Não tenho de que lhe pedir +satisfação... Faz v. s.<sup>a</sup> +muito bem... +Não lhe desagradam os olhos d'aquella senhora, e +põe os seus meios... Tudo isto é natural... Que +satisfação lhe hei-de eu pedir!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>á parte</em>).―Eu +é que sou o cynico!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Acabemos, +snr. Alvaro...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Tranquille-se, +cavalheiro... Eu ainda não disse senão metade. +Visto que o senhor gosta dos olhos de minha mulher, eu aproveito a +occasião para lhe dizer que não desgosto dos +olhos da sua. Com a +differença, porém, que eu, declarando-me a v. +s.<sup>a</sup>, dou-lhe a +importancia que v. s.<sup>a</sup> me não deu... +Visto que nos +encontramos no mercado, permutaremos os olhos de nossas mulheres. O +senhor fica com os olhos da minha, e eu com os olhos da sua... +Parece-me que me vai pedir uma satisfação...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +sei com que +intenção me faz semelhante proposta...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Com a melhor +intenção do mundo... É um contracto +bilateral... sem testemunhas... Eu concedo-lhe a frequencia de minha +casa para v. s.<sup>a</sup> estudar bem os olhos de minha +mulher, e o cavalheiro +franqueia-me occasiões de estudar os olhos da sua.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>á parte</em>).―Eu +é que sou o cynico!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―E se na +sociedade se +desconfia esta convenção?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Deixe-se +d'isso... A +sociedade, deu-nos diplomas de excellentes pessoas... Eu creio que +ambos <span class="pagenum">[223]</span>temos +a finura necessaria para desempenharmos, sem pateada, os nossos +papeis... Aqui o grande plano é que afastemos do nosso +commercio Eduardo, porque esse tem a alma sufficientemente estragada +para nos adivinhar...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>á parte</em>).―Muito, +obrigado!... Até este me dá diploma de cynico!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Agora, meu +amigo, vou +tomar banho... Hoje á noite espero-o com sua senhora em +minha casa para tomarem uma chavena de chá... +(<em>Apertando-lhe a mão</em>). +<em>Au +revoir</em>, meu caro senhor... +(<em>Sahem</em>). Ó banheiro!... +Vamos lá, que nos foge o mar...<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA X.</h4> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Visto que +eu sou o +cynico, e os virtuosos são estes, passo a ser um pouco mais +virtuoso que elles, para que elles sejam cynicos como eu... Alguma vez +hei-de atinar com a virtude... A verdadeira acho que é a +d'elles... O genero não é caro... +Veremos...<br /> + +<div style="text-align: center;"> +<h4>CORRE O PANO.</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>ACTO III.</h3> + +<br /> + +<div class="quote"><em>Passa-se em casa do visconde +de +Valbom. Sala +faustuosa: luxo sem gosto: muita cadeira de estôfos +amarellos: muito relogio: muita bugiaria de vidro, de mistura com +porcellanas de Sevres, e adornos d'ouro, sem +significação nem serventia</em>. <em>É +noite</em>.</div> + +<br /> + +<h4>SCENA I.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Viscondessa +de Valbom</span>, +<span class="smallcaps">D. Julia</span>, +<span class="smallcaps">Jorge</span>, <span class="smallcaps">visconde +de Valbom</span>.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote"><em>Um creado com uma bandeja, +recebe as chavenas do +chá; e retira-se</em>.</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>a +Jorge</em>).―A snr.<sup>a</sup> D. Leocadia +não +virá?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―É +natural que +venha.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Com o +capellão?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Sim... com o +capellão...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>a +Julia</em>).―O snr. Alvaro que andará a fazer? +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Naturalmente... +das +suas...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Das +suas... isso que +quer dizer?! Alvaro é o exemplo da honradez personalisada... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Agradecida a +v. exc.<sup>a</sup>, +snr. visconde.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Não +tem +de que, menina. Seu marido +<span class="pagenum">[226]</span>é um +anjo, e a sociedade faz-lhe justiça. A +reputação que elle tem grangeado é a +prova infallivel das suas virtudes. Elle, e aqui o snr. Jorge +são os dous cavalheiros mais queridos da nossa roda. Foram +rapazes, sem rapaziadas. São maridos, sem mancha, e +hão-de ser +sempre modêlos de probidade a todos os respeitos.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Muito grato, +minha +senhora. Tenho empregado todos os esforços por merecer +á sociedade um bom conceito, e creio que o tenho +conseguido...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Porque +o merece. Se +o não merecesse, creia que o não teria, porque a +opinião publica +é justiceira, e nunca se engana com os bons, ou com os +maus... Não se lembra da opinião que teve +Eduardo?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Uma pessima +opinião.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Oh! de +certo, aquillo +era um homem com uma lingua depravada, e costumes horriveis...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Mas +vejam que lhe +chegou a sua hora de reflexão. Retirou-se completamente da +sociedade; viveu tres mezes encerrado comsigo mesmo na +solidão, e voltou para o mundo completamente desfigurado. +É outro homem...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Totalmente +outro.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Faz mesmo +espantar a +differença que o homem fez!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―É +pasmosa!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―As suas +palavras +são todas serias, medidas, e reflectidas. Os seus modos +são circumspectos, civis, e insinuantes. O seu vestir +é muito grave, muito decente, e muito sisudo... Dizem-me que +dá esmolas... tenho lido nos jornaes alguns actos de +philantropia que o honram muito... em fim, está um +cavalheiro, que não deixa nada a desejar! Vejam o que +são as cousas!... Aqui ha quatro mezes, se elle me olhasse +para uma das minhas creadas, despedil-a-hia immediatamente; e hoje, se +eu tivesse uma filha, dava-lh'a com immensa +satisfação...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[227]</span> +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Muito se +lucra, quando se +é honrado!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Pois +não! +Não ha nada como a honra!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Oh! a honra +é a +salvaguarda de todas as inquietações!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Que +precipicios +não encontrou Eduardo em quanto se deixou hir á +mercê dos seus +extravagantes desejos!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Oh!... era +insoffrivel!... Nunca se viu assim uma libertinagem!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Ouvi fallar +tão +mal d'esse homem, e nunca me disseram distinctamente os seus crimes.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Immensos, +immensos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Immensissimos, +immensissimos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Mas posso eu +saber algum +d'elles?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Eu +não sei +de nenhum; mas dizem por ahi que são muitos... muitos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―E a snr.<sup>a</sup> +viscondessa +sabe quaes são?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Tambem +não sei; mas, na boa roda, diziam que elle era um prodigio +de immoralidade...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―E o snr. +Jorge? Esse ha-de +saber muitas cousas...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Creio que ha +muitas scenas +horriveis na vida d'esse homem, todavia, eu não sei +nenhuma...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Mas vive com +elle ha mais +de sete annos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―É +verdade... +mas, como elle me não chamava a testemunhar os seus +desvarios, nada sei...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―O que se +segue +é que nenhum de nós sabe dizer em que consistiu a +depravação de +Eduardo!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―A +sociedade +não se engana, menina. Ella que o condemnou lá +sabe os motivos porque o fez. A virtude não é +nunca infamada. Veja +lá se seu marido, e aqui o snr. Jorge foram victimas da +calumnia!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Mas eu queria +que me +citassem um crime de Eduardo...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Um creado</span>―O snr. +Eduardo...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[228]</span> +<h4>SCENA II.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos e</em> +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.<br /> + +</div> + +<br /> + +<div class="quote">(<em>Eduardo veste todo de preto. +Maneiras muito +acanhadas, dando-se uns ares de virtude idiota. Uma cortezia a cada +palavra. Recolhido sempre em si, affectando uma imbecilidade moral, de +fazer piedade</em>).</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">visconde</span>.―Muito bem +vindo.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Como +passaram vv. +exc.<sup>as</sup>?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Maravilhosamente... +queira sentar-se.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E a snr.<sup>a</sup> +D. Julia?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Um pouco +affectada dos +nervos.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Muito +sinto, minha +senhora, Deus a poupe a soffrimentos de todo o genero... E o meu amigo +Jorge... como passa?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Assim, +assim...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Então! +senta-se? (<em>Eduardo senta-se</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Como +está tua +senhora, Jorge?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Estamos +á +espera d'ella.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E seu +marido, snr.<sup>a</sup> +D. +Julia?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Não +deve +tardar... (<em>Eduardo em ar de pensativo, esfregando as +costas das +mãos</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Elle +ahi vai recahir +nas suas melancolias! Não o queremos assim! Que tem?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Pesares... +que vem de +longe, minha senhora...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―O passado +já +lá vai... Agora v. s.<sup>a</sup> é +outro homem... Toda a +gente diz que quem o viu e quem o vê...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Nada de +tristezas. A +virtude é sempre alegre... Ó menina, +vá tocar um bocadinho... +Tenho notado que o snr. Eduardo está melhor quando ouve +tocar... Que quer que ella toque?<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[229]</span> +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―O que s. +exc.<sup>a</sup> +quizer...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Cousas +tristes?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Não, +menina! Bem triste está elle!... Toque alguma cousa do +Barbeiro de Sevilha...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Pois, sim... +(<em>Vai tocar na sala immediata</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>a +Eduardo</em>).―Quer que vamos á sala do piano, +ou quer gosar de longe?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―De longe, +se v. exc.<sup>a</sup> +não manda o contrario. (<em>Jorge, logo depois, +segue Julia</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Muito +folgamos de o +vêr rehabilitado na opinião publica.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E estarei-o +eu por +ventura?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Está... +Veja... n'um só mez recuperou os creditos perdidos em tantos +annos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Muito devo +a Deus, +porque é o contrario que costuma acontecer... +Então a snr.<sup>a</sup> D. Julia +não nós dá o prazer de a ouvirmos? +Vai-nos demorando +o goso...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Eu vou +lá... +(<em>Sahe</em>).<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA III.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span> +<em>e +a</em> <span class="smallcaps">viscondessa</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>com +vivacidade</em>).―Vês como sahiu certo tudo o +que eu te disse? A sociedade é uma excellente pessoa.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>mudança de tom. Ouve-se o +piano</em>).―Tenho notado isso... Achas que vou bem +assim?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―O +melhor possivel... +Ponto é que te conserves...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―N'este +pé de +virtude? Já me não desmancho... E, com effeito, +dizem que sou beato, virtuoso, martyr, contricto...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Até +o +visconde está espantado da tua mudança... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[230]</span> +<span class="smallcaps">Um creado</span>.―A snr.<sup>a</sup> +D. Leocadia, +e o snr. Alvaro. (<em>Sahe</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Não +sei o +que me parece este grupo, a estas horas!... Sabes que eu suspeito...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Suspeitas?!... +Oh!... eu +não... Facilidades da innocencia!...<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA IV.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos</em>, +<span class="smallcaps">D. +Leocadia</span>, <em>e</em> +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Tão +tarde!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Foi +impossivel aquietar +o pequeno até agora...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>tornando +ao tom beatifico</em>).―Passou bem, minha senhora?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Bem...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span> +(<em>dá uma gargalhada</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Que +riso +é esse?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Não +é nada, minha senhora... Quem toca, é minha +mulher?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―É +sim... +se quer vá á sala...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Não, +minha +senhora. (<em>Senta-se trombudo a um canto da +sala</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>a +Leocadia</em>).―Que terá elle? Estranho-o!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Eu +não +sei... Chegou a minha casa quando eu estava para sahir... Disse-me que +me acompanhava... veio comigo sem dizer palavra... e não sei +mais nada, nem me importa...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>pesaroso</em>).―Terá +dôr de dentes? São dôres dos nossos +peccados... Deus nos acuda...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Venha +cá, +snr. Alvaro!... O nosso bom amigo Eduardo, que é o S. Paulo +dos nossos tempos, pergunta se lhe doem os dentes... +(<em>Alvaro +dá outra gargalhada</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[231]</span> +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Ora +entendam +lá aquillo!...<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA V.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos, e</em> +<span class="smallcaps">Julia</span>, +<span class="smallcaps">Jorge</span>, <em>e +o</em> <span class="smallcaps">visconde</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>apertando +a mão de Leocadia</em>).―Até que +finalmente...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span> (<em>apertando +a mão de Alvaro</em>).―Com effeito... +demoraste-te.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Negocios...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―O pequeno +não queria adormecer... (<em>Alvaro +dá terceira +gargalhada</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Que riso +é +esse?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―A que vem o +destempero +d'essa gargalhada?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Lá +está outra vez mergulhado na sua melancolia o snr. +Eduardo!... Quer, talvez, mais musica...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Se +não +receasse ser indiscreto, pedia a v. exc.<sup>a</sup> +aquella aria da Norma... no +acto final...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Executada +por quem?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Por v. exc.<sup>a</sup>... +dá-lhe uma graça particular... Não +quero offender as duas senhoras que a desempenham habilmente; mas +não sei que toque melancolico... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Pois +sim... hirei... +Vamos todos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Se me +concedesse...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Ficar +sósinho aqui?... Pois sim... fique.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Eu +cá fico +com elle...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Não, +não... deixa-o... são necessidades organicas... +Eu tambem tenho d'estas tempestades moraes...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Vozes</span>.―Pois sim... +pois sim... +(<em>Sahem</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[232]</span> +<h4>SCENA VI.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span>, +<em>e +depois</em> <span class="smallcaps">Julia</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―A +gargalhada de Alvaro +quer dizer muito... (<em>Ouve-se a aria da +Norma</em>).<br /> + +<br /> + +O maldito veria alguma cousa? Se viu, lá vai a terra todo o +meu edificio de virtude... Dizem que ella é facil, eu +vejo-me illaqueado n'uma rede tal, que se me descobrem não +sei por onde hei-de evadir-me... Que pena se me não deixam +ser honrado!... Tenho, só n'um mez, colhido tantas palmas de +virtude, que, passados tres, n'este andar, eu todo seria um palmito...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span> +(<em>agitada</em>).―Eduardo...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Julia...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Pelo amor de +Deus, +desvanece-me d'uma suspeita que me despedaça...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Que +é?!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Tu amas +Leocadia.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―É +falso...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Mas ella +adora-te com +delirio...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Que culpa +tenho eu?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span> +(<em>tomando-lhe a mão com +frenesi</em>...)―Não me sacrifiques a ella... +a nenhuma... porque nenhuma te amará tanto...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>ao +fundo</em>).―Isto é espantoso!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Não +vês que represento um papel hypocrita, tão contra +o meu caracter, para te não perder?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>o +mesmo</em>).―É incrivel!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Conheço +tudo... +meu anjo... Vou á sala... póde notar-se a minha +falta...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[233]</span> +<h4>SCENA VII.</h4> + +<br /> + +<div class="quote"><span class="smallcaps">Eduardo</span> +, <em>e +depois</em> <span class="smallcaps">Leocadia</span>, +<em>e depois o</em> +<span class="smallcaps">visconde</span> <em>na +porta +do fundo sem ser visto</em>. +(<em>Ouve-se ainda a musica da Norma</em>).</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Tornemos +á +posição do benemerito Tartufo. Oh meu querido +Moliere, onde quer que estás recebe os meus agradecimentos +pelo excellente molde que me cá deixaste!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span> +(<em>impetuosamente</em>).―Eduardo... +só duas palavras... Olha que Alvaro viu-te sahir de minha +casa...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Viu?! +estão +explicadas as gargalhadas...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Receio +maus +resultados... Elle é capaz de tirar qualquer +vingança... Oh meu Deus!... estou sobre um +vulcão...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E eu dentro +d'uma +tina... Deixa correr os successos... Vai, que podem descobrir-nos...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span> +(<em>á parte</em>).―Como se +explica isto?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Que has-de +tu dizer se +elle nos denuncia?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Provo que +não +sou mais immoral que elle... As pretenções +são as mesmas... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Isto +é +bonito!... (<em>Retira-se</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Que +situação a minha!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Retira-te, +que podem +surprehender-nos... (<em>Leocadia sahe</em>).<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA VIII.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span>, +<em>e +depois +a</em> <span class="smallcaps">viscondessa</span>, +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Alvaro</span> <em>ao +fundo</em>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Atropellam-se +os +acontecimentos!... Tudo isto faz persuadir que eu tenho sido um homem +verdadeiramente virtuoso! No tempo em que eu era cynico, <span class="pagenum">[234]</span>antes +que a sociedade me chamasse regenerado, as mulheres +não andavam assim n'uma dobadoura em redor de mim! +Ó benevola opinião publica, quanto +te devo!... Ahi vem outra que me não faz muita honra!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Aproveitei +um +instante para estar só comtigo antes que elles venham...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Como +és +carinhosa!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Desconfiei +que +Leocadia tivesse vindo para aqui... Sabes que tenho ciumes de todas as +mulheres!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span> +(<em>á parte</em>).―Que +ouço!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Continuo a +representar +bem? A platea applaude?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―O +visconde disse-me +n'este momento que tinha muito que contar-me... perguntei-lhe a que +respeito... e elle de fugida pronunciou o teu nome e de Leocadia...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span> +(<em>aparte</em>).―E Leocadia!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E +Leocadia!... Como se +entende isso?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Não +sei... Mudemos de tom que elles ahi vem...<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA IX.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos, e</em> +<span class="smallcaps">Julia</span>, +<span class="smallcaps">Alvaro</span>, +<span class="smallcaps">Jorge</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>com +emphase</em>).―Pois não queremos uma virtude +assim melancolica... É necessario que resurja d'esse +abatimento moral, snr. Eduardo... A verdadeira felicidade +está na consciencia. O seu passado não tem a +pedir contas ao seu presente... A sociedade abre-lhe o +braços como ao filho prodigo... +(<em>Alvaro solta uma risada</em>).<br /> + +<br /> + +Que riso é esse, snr. Alvaro?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―É +um riso +nervoso!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>á parte</em>).―Mau!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Não +tem +razões para tanta melancolia!... <span class="pagenum">[235]</span>É +estimado geralmente pelas suas virtudes, e merece +a confiança de todas as pessoas... +(<em>O visconde solta uma risada</em>).<br /> + +<br /> + +Que risada é essa, snr. visconde?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―É +uma risada +como a d'aquelle senhor (<em>apontando +Alvaro</em>). É uma +risada nervosa!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>á parte</em>).―Peor!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Parece que +escarnecem a +virtude!... Estas transfigurações moraes custam +muitas +amarguras... Eu comprehendo a melancolia do snr. Eduardo... Lembra-se +do que foi, e, no prazer do que é, sente pesar de o +não ter sido desde muito... (<em>Jorge +solta uma risada</em>).<br /> + +<br /> + +Tambem o senhor se ri?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―É +uma risada +como a d'aquelle senhor... (<em>apontando +Alvaro</em>) é uma +risada nervosa...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>á +parte</em>).―Está tudo por terra!... +(<em>Alto</em>). Vejo que os meus amigos +estão muito nervosos!... Banhos de mar podem ser-lhes +proveitosos... Não acho bonito que me +escarneçam... Fazem-me lembrar a fabula do leão e +do... Em fim, seja tudo em desconto das minhas culpas!... +(<em>Riem todos +tres</em>).<br /> + +<br /> + +Ora comprehendam isto!... É um abuso do riso!... Eu +não lhes mereço isso, senhores! Dizem por ahi +que eu sou um honrado homem, e não se cospe assim na +honra...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> +(<em>á parte</em>).―Vou-lhe +arrancar a mascara!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span> +(<em>á parte</em>).―Hypocrita!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span> +(<em>á parte</em>).―O impostor +não passará d'hoje...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Que +falsa +posição é esta?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Não +entendo +isto!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Nem eu!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Nem eu!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Que +modos +são esses!... em que pensam os senhores?...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Eu pensava +nos recursos +do talento depravado!... <span class="pagenum">[236]</span>Senhores!... +é necessario que se acabe este +comedia d'algum modo!... Aquelle senhor +(<em>indicando Eduardo</em>) é um +impostor!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Eu! +Calumnia! infamia... +quero as provas...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―A snr.<sup>a</sup> +D. Leocadia que +as dê...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Justamente: +a snr.<sup>a</sup> +D. +Leocadia que as dê!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Minha +mulher!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Eu!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Ella!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">visconde</span>.―Sim! +ella!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Pois bem... +cáia a mascara... Esse senhor é um infame +seductor!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Eu!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Elle!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>, +<span class="smallcaps">visconde</span>, +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Sim, sim, +elle!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Provas, +senhores +calumniadores!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Provas? a snr.<sup>a</sup> +D. Julia +que as dê!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Minha +mulher!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Eu!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Ella!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">visconde</span>.―Sim, sim, +ella!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―N'esse +caso... rasgue-se +o véo do mysterio... Todos somos victimas da hypocrisia +d'esse homem!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Menos eu!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Nem eu! +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Provas, +senhores!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Provas? a +snr.<sup>a</sup> +viscondessa que as dê.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Minha +mulher!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Eu!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Ella!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Sim, sim!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Todas +tres!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span> (<em>para +Julia</em>).―Responde!<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[237]</span> +<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>para +Leocadia</em>).―Que dizes a isto?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">O visconde</span> (<em>para +a viscondessa</em>).―Pois não te defendes?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Todas tres</span>.―É +falso!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>mudando +de tom</em>).―Eu vou defendêl-as, minhas +senhoras!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―A snr.<sup>a</sup> +D. Leocadia +não tem defeza nenhuma, porque...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Silencio!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―A snr.<sup>a</sup> +D. Julia +não tem defeza nenhuma, porque...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Esperem!... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Concordo +que nenhuma +d'essas tem defeza!... mas é preciso que me provem que...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Alto +lá... +Queiram retirar-se, minhas senhoras... É defeza a +presença das +rés no tribunal que vai installar-se... Queiram +retirar-se... (<em>Ellas +sahem</em>).<br /> + +<br /> + +<h4>SCENA X.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span>, +<span class="smallcaps">Jorge</span>, +<span class="smallcaps">Alvaro</span>, <em>e +o</em> <span class="smallcaps">visconde</span>.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Venham +cá... +Os senhores não tem ouvido dizer que eu me regenerei? +Respondam, sim ou não?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Qual +<em>regenerou-se</em>! É um +impostor!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Concordemos +em que sou +um impostor. Mas digam-me: a opinião publica a meu respeito +é essa?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Não +é... porque o senhor enganou-nos.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Pois, se +não +é, porque não respeitam os senhores a +opinião publica á qual me mandaram +obedecer?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Já +lhe disse +que a opinião publica está illudida com o senhor! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[238]</span> +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E d'antes? +ha quatro +mezes era mais verdadeira que hoje?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +quero +disputas... Não respondo ao seu interrogatorio... Quero uma +satisfação +immediata.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―E eu tambem. +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―E o snr. +visconde?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Veremos, +depois...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span> +(<em>sorrindo</em>).―Acha que não +vale a pena decidir já... Pois lá hiremos... Mas, +antes d'isso, +queiram attender-me: os senhores, com uma bala, em duello, podem +matar-me, primeira loucura; e, se me não matam, arruinam a +minha boa reputação, que eu aprecio mais que a +vida; segunda asneira... Que lucram os senhores com isto?<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Nada de +philosophias!... +É indispensavel para a minha honra um duello...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Não +prescindo.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Pois se +não +prescindem, lá vamos... Mas os primeiros que +hão-de bater-se um com o outro, são os senhores! +(<em>Indicando Alvaro e +Jorge</em>).<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Nós?!... +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Os +senhores...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span>.―Porque?!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Porque teem +trabalhado +reciprocamente na sua deshonra.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Isso +é uma nova +infamia!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Mãos +na +consciencia, meus amigos! O contracto feito ha quatro mezes na praia +dos Inglezes não os exime de serem honrados!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Alvaro</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Jorge</span>.―Na praia dos +Inglezes!...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Querem +explicações?... Vejam lá o que +resolvem... Querem explicações?... Que +dizem?!... Esse silencio annuncia bonança... Aproveitemos o +vento que é favoravel... Concordam em que occultemos +mutuamente as nossas miserias? Eu de mim... (<em>Comprime +os labios com os dedos</em>...) +Os senhores, se <span class="pagenum">[239]</span>são +honrados como a opinião publica os +apregôa, calem-se tambem...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Mas eu +é que +não entro n'esse contracto...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Nem lh'o +propuz... mas, +v. exc.<sup>a</sup> contando com o silencio d'estes +cavalheiros, de certo +não quererá uma ignobil publicidade a respeito +de... Veja lá o que resolve...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Visconde</span>.―Mas v. +s.<sup>a</sup> +não ha-de entrar mais em minha casa...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―D'accordo. +Amanhã embarco para a exposição de +Pariz, e tenciono viajar tres annos... Serve-lhe a +condição?... O silencio approva... Muito bem... +(<em>Ao fundo</em>). Minhas senhoras! queiram +entrar!... (<em>As damas entram</em>). Vv. +exc.<sup>as</sup> foram julgadas +innocentissimas e absolvidas... Continuamos todos a ser excellentes +pessoas a todos os respeitos. Estes senhores, de parte a parte, pedem +perdão das calumnias sordidas com que quizeram +reciprocamente manchar os seus nomes...<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.―Assim o +suppuz!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Assim devia +acontecer!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Leocadia</span>.―Mas eu +não +perdôo a quem me infamou!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Viscondessa</span> +<em>e</em> +<span class="smallcaps">Julia</span>.―Nem +nós!<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Eduardo</span>.―Hão-de +perdoar, que são muito boas senhoras, e o perdão +das injurias é o sentimento mais nobre +do coração humano... Eu retiro-me com os meus +creditos, e vv. exc.<sup>as</sup> ficam com os seus... +Muito boas noites... +(<em>Sahe</em>).<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Os outros, como é natural, ficam a olhar uns para os outros +com aquellas caras proprias de taes conflictos. O author vem +fóra dizer que não ha na comedia +allusões nenhumas. A platéa retira satisfeita, e +continúa +a guardar-se dos cynicos.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[240]</span> +No dia seguinte os jornaes dizem que a comedia é immoral, e +attentatoria contra os bons costumes. Os Sganarellos mandam comprar o +jornal, e mostram-no aos compadres. O author, conscio de que o mordem, +vem no conhecimento de que os mordentes são os legitimos +<em>Orgons</em> d'este seculo; mas, um pouco +menos felizes que os d'uma grande comedia, que o leitor, se se +não recorda, ou não leu nunca, póde +encontrar com o titulo de <em>Tartuffe</em>. +Se, todavia, detesta a +letra redonda, estude a vida pratica, e chegará á +mais difficil das +formaturas, ao <em>ultimatum</em> da +sabedoria: +«o conhecimento dos homens.» É +tão facil, ao primeiro intuito, estremar o +cynico do hypocrita!... Dai-me o primeiro, que repellis, e +não me relacioneis com o segundo, que abraçaes: +que eu, profundamente grato, ficarei pedindo a Deus que vos augmente o +dinheiro, e vos conserve uma saude bem vermelha, bem gorda, para que a +virtude não seja sempre uma irrisão n'este +planeta. Disse.<br /> + +<br /> + +<h4>FIM.</h4> + +<br /> + +<h2>INDICE.</h2> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0"> + + <tbody> + + <tr> + + <td>Morrer por capricho +(romance) </td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#C1">5</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Uma paixão bem empregada +(romance)</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#C2">25</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>De abysmo em abysmo +(romance)</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#C3">35</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Aventuras d'um boticario d'aldêa +(romance)</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#C4">41</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Cousas que só eu sei +(romance)</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#C5">55</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Dinheiro! dinheiro! +(romance)</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#C6">109</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>A caveira (romance)</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#C7">131</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Uma praga rogada nas escadas da forca +(romance)</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#C8">155</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Pathologia do casamento (drama em 3 +actos)</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#C9">183</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<h2>Notas:</h2> + +<br /> + +<sup><a name="1"></a>[1]</sup> Systema +pathologico do snr. Borges de Castro, facultativo +distincto, na cidade do Porto, em 1853.<br /> + +<br /> + +<sup><a name="2"></a>[2]</sup> Escripto +em 1853.<br /> + +<br /> + +<sup><a name="3"></a>[3]</sup> ....... +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Scenas Contemporaneas, by Camilo Castelo-Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS CONTEMPORANEAS *** + +***** This file should be named 23203-h.htm or 23203-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/3/2/0/23203/ + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +book was produced from scanned images of public domain +material from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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