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-rw-r--r--23203-h/23203-h.htm15206
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+ <title>Scenas Contemporaneas</title>
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+Project Gutenberg's Scenas Contemporaneas, by Camilo Castelo-Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Scenas Contemporaneas
+
+Author: Camilo Castelo-Branco
+
+Release Date: October 26, 2007 [EBook #23203]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS CONTEMPORANEAS ***
+
+
+
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
+book was produced from scanned images of public domain
+material from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>SCENAS CONTEMPORANEAS. </h1>
+
+<br />
+
+<div class="bbox">
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+<h1>SCENAS CONTEMPORANEAS </h1>
+
+POR<br />
+
+<h2>CAMILLO CASTELLO-BRANCO. </h2>
+
+<h3>2.&ordf; EDI&Ccedil;&Atilde;O.
+<br />
+
+<br />
+
+</h3>
+
+<h3><br />
+
+</h3>
+
+<h3><br />
+
+<br />
+
+PORTO:<br />
+
+EM CASA DE CRUZ COUTINHO&#8213;EDITOR,<br />
+
+Rua dos Caldeireiros<br />
+
+n.<sup>os</sup>
+18 e 20.<br />
+
+</h3>
+
+<h3>1862.</h3>
+
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<hr />
+<div style="text-align: center;">Porto&#8213;TYPOGRAPHIA DE
+ANTONIO JOS&Eacute; DA SILVA TEIXEIRA,<br />
+
+<em>Rua da Cancella Velha n.&ordm; 62.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="C1"></a>MORRER POR CAPRICHO. </h2>
+
+<br />
+
+<h3>I. </h3>
+
+<br />
+
+Os meus amigos, de certo, n&atilde;o sabem o que &eacute;
+ca&ccedil;ar coelhos na neve?<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o admira.<br />
+
+<br />
+
+Imaginem-se em qualquer ald&ecirc;a, nas visinhan&ccedil;as do
+Mar&atilde;o. Olhem em redor de si, e contemplem o quadro que os
+viajantes na Suissa lhes descrevem todos os dias, supposto que nunca
+sahissem da sua terra.<br />
+
+<br />
+
+A primeira impress&atilde;o que recebem &eacute; a do assombro.
+Leguas em roda, nem na terra nem no c&eacute;o, se descobre uma
+crista de rochedo, a fran&ccedil;a d'uma arvore, a dobra d'uma
+nuvem, que n&atilde;o seja branca, alvissima, desde um horisonte a
+outro horisonte.<br />
+
+<br />
+
+E, depois, ha ahi em toda essa natureza amortalhada um silencio
+funebre. N&atilde;o cantam as aves, n&atilde;o balam os
+cordeiros, n&atilde;o silva o buzio de pegureiro,
+n&atilde;o soam nas quebradas as campainhas da arreata de machos.<br />
+
+<br />
+
+Se ouvis um rugido assobiado ao qual respondem outros, n&atilde;o
+vos afasteis para longe da casa d'onde
+presenceaes, com o cora&ccedil;&atilde;o confrangido, esta
+scena.
+&Eacute; uma alcat&eacute;a de lobos, que descem famintos da
+serra, e <span class="pagenum">[6]</span>
+ser&atilde;o capazes de vos hirem buscar &aacute; cozinha, onde
+naturalmente tiritaes de frio, sentados ao p&eacute; do
+t&oacute;ro de carvalho.<br />
+
+<br />
+
+Fa&ccedil;o-vos esta recommenda&ccedil;&atilde;o porque
+sois uns homens afeminados, que nunca sahistes dos sal&otilde;es,
+dos botequins, dos theatros, e das pra&ccedil;as. Aposto que se
+desseis de face com um lobo, de garras arqueadas, e fauces inflammadas,
+antes que o lobo vos d&eacute;sse o cordial abra&ccedil;o da
+fome, j&aacute; v&oacute;s tinheis perdida
+a sensibilidade, e consciencia da vida, e at&eacute; o direito que
+todo o homem tem de matar n&atilde;o s&oacute; o seu
+semelhante, mas at&eacute; um lobo, em justa defeza!<br />
+
+<br />
+
+Se eu podesse contar com o vosso animo, aconselhar-vos-hia, que em uma
+d'essas manh&atilde;s de neve, com meio covado de altura nos
+terrenos ch&atilde;os, tomasseis um cajado, e, com duas finas
+cadellas de coelho, fosseis dar na serra um passeio d'algumas horas.<br />
+
+<br />
+
+O peor que podia succeder-vos era o desvio do caminho, que
+s&oacute; com muita pratica se acerta, e, quando mal vos
+precatasseis, resvalar n'um abysmo de neve, onde nem as orelhas de
+f&oacute;ra dissessem ao passageiro que um mo&ccedil;o, a todos
+os respeitos excellente, f&ocirc;ra
+alli absorvido por um sorvete dos que a natureza offerece aos amantes
+de refrescos, com menos economia que o
+<em>Guichard</em>.<br />
+
+<br />
+
+Af&oacute;ra este inconveniente, ainda ha o dos lobos, que muitas
+vezes tomam conta das nossas cadellas, devoram-nas com uma
+perfei&ccedil;&atilde;o e rapidez fabulosas, e, quando Deus
+quer, fazem dos nossos corpos um supplemento nutritivo &aacute;s
+nossas cadellas, deixando-nos a alma por muito grande obsequio.<br />
+
+<br />
+
+O terceiro percal&ccedil;o, affecto &aacute; ca&ccedil;a do
+coelho na neve, aconteceu-me a mim, ultimo dos mortaes, em 26 de
+Dezembro de 1844.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o que tereis a bondade de procurar saber no capitulo
+seguinte.<span class="pagenum">[7]</span><br />
+
+<br />
+
+<h3>
+II. </h3>
+
+<br />
+
+Fui convidado por alguns amigos a acompanhal-os &aacute; serra,
+porque o sol refrangia-se em scintillas na neve, que parecia
+desfazer-se em laminas de prata.<br />
+
+<br />
+
+Fui muito contente da considera&ccedil;&atilde;o que se me
+dava, como ca&ccedil;ador, porque, em verdade vos digo, atirei com
+certeiro olho a perdizes e galinholas. Se nunca matei nenhuma, o que
+tambem &eacute; verdade, deve-se &aacute; pessima polvora das
+nossas fabricas. Em
+compensa&ccedil;&atilde;o, matei muito melro e tordo nas
+serdeiras, e consegui matar de noite uma coruja, africa que muitos
+ca&ccedil;adores famosos de certo n&atilde;o fizeram. Eu fui um
+grande homem antes de escrever folhetins! Deus perd&ocirc;e a quem
+me torceu a voca&ccedil;&atilde;o! Eu podia, a estas horas, ser
+um habil corredor de lebres, e assim tornei-me a lebre dos galgos
+sociaes.<br />
+
+<br />
+
+Estes galgos sociaes, meu leitor, se tu &eacute;s um d'elles,
+permitte-me dizer-te que tens o faro muito desca&ccedil;ado, e que
+eu hei-de saltar por cima de ti, quando cuidares que me abocas. Se
+n&atilde;o &eacute;s galgo, sensato
+amigo, aqui rasgo o diploma de tolo, que te concedi, sem te levar
+direitos de merc&ecirc;.<br />
+
+<br />
+
+Agora, vai entrar a historia direitinha at&eacute; ao fim.<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+III. </h3>
+
+<br />
+
+Subimos &aacute; esplanada da serra. Eramos seis. Dividimo-nos em
+tres grupos, e combinamos em nos darmos signaes com tiros no caso de
+nos perdermos encobertos pelo nevoeiro, que poderia de improviso
+esconder-nos<span class="pagenum">[8]</span>os
+cabe&ccedil;os das serras, unicas balizas que nos serviam de guia.<br />
+
+<br />
+
+Assim combinados, cada grupo, com dous c&atilde;es, seguiu as
+p&eacute;gadas dos coelhos impressas de fresco na neve. Eram
+muitos, e morriam &aacute; pancada, porque os pobresinhos alapados
+debaixo das urzes, se fugiam, eram logo mordidos pelos c&atilde;es;
+se esperavam eram apanhados &aacute; m&atilde;o. Alguns, mais
+previdentes, tinham
+emigrado para as fundas colheitas, formadas pelas sinuosidades
+interiores dos penedos agglomerados. A estes perseguia-os o
+fur&atilde;o, que eu levava no meu cacifo, desalapava-os, e os
+c&atilde;es, farejando as avenidas da colheita,
+recebiam-os nos dentes, sacudiam-nos com o rancor do instincto, e
+atiravam-nos mortos aos nossos p&eacute;s.<br />
+
+<br />
+
+Andamos assim uma hora, t&atilde;o entretidos, t&atilde;o
+esquecidos do mundo, que nunca t&atilde;o distrahida hora eu tive
+na minha vida, a n&atilde;o ser aquellas em que durmo, e sonho que
+hei-de tornar &aacute;quelles meus dias de candura, depois de lidar
+muito com a innocencia d'estas angelicas creaturas, que vestiriam, por
+innocentes, como Ad&atilde;o e Eva, se a serpente lhes
+n&atilde;o dissesse que
+andavam indecentes.<br />
+
+<br />
+
+Ao cabo d'essa hora, toldou-se o ar, e cahiu uma segunda camada de
+neve.<br />
+
+<br />
+
+O meu companheiro quiz logo voltar sobre os seus vestigios, porque
+(dizia elle) d'aqui a minutos as nossas p&eacute;gadas
+estar&atilde;o cobertas, e n&atilde;o
+saberemos caminhar para o nascente nem para o poente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, por ora, n&atilde;o vou&#8213;lhe disse eu.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou bem aqui. Acho muita poesia n'este quadro. Imagino que esta
+chuva de neve se transforma em chuva de fogo... Este nevoeiro, que rola
+em ondas aos nossos p&eacute;s, e sobre a nossa cabe&ccedil;a,
+afigura-se-me
+o fumo do grande incendio no juizo final! Olha... n&atilde;o te
+parece que o vento espalha j&aacute; as cinzas d'uma grande
+<span class="pagenum">[9]</span>cidade!
+N&atilde;o v&ecirc;s Sodoma l&aacute; em baixo
+vomitando columnas de fumo?...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o vejo nada... Acho de muito mau gosto as tuas
+vis&otilde;es... vamos embora...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vai tu... e quando encontrares os nossos companheiros, d&aacute;
+um tiro, que eu l&aacute; vou ter. Estou bem aqui; n&atilde;o
+me mudo por cousa nenhuma.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; logo.<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+IV. </h3>
+
+<br />
+
+E eu continuei a v&ecirc;r as minhas vis&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+Parece-me que, por esses tempos, fui poeta, muito poeta, em
+eleva&ccedil;&otilde;es d'alma para cousas de
+imagina&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o era esta fria
+imagina&ccedil;&atilde;o, que
+tenho hoje.<br />
+
+<br />
+
+Absorvido no meu quadro do juizo final, que s&oacute; uma phantasia
+abrasada poderia dar-me, transfigurando a neve em fogo, ouvi um tiro, e
+n&atilde;o fiz caso. Ouvi segundo, e senti um piedoso desdem por
+aquelles homens, prosa vil, que n&atilde;o tiravam partido do
+grandioso panorama, que a m&atilde;o liberal da natureza
+desenrolava diante de meus olhos absortos.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sabeis que o nevoeiro embriaga?<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma verdade. A cabe&ccedil;a enfraquece; nos ouvidos
+ha um zunido, que vos faz perder o rumo. Sentis uma
+sensa&ccedil;&atilde;o desagradavel, semelhante &aacute; do
+giro penoso em que a indigest&atilde;o do vinho vos traz a
+cabe&ccedil;a
+vertiginosa.<br />
+
+<br />
+
+Foi o que eu senti, quando me furtei &aacute;s minhas
+contempla&ccedil;&otilde;es improprias do tempo e do lugar.<br />
+
+<br />
+
+Ergui-me, e n&atilde;o sabia j&aacute; designar a
+direc&ccedil;&atilde;o que lev&aacute;ra o meu companheiro,
+nem o ponto onde se deram os tiros. Desfechei a minha clavina, mas a
+humidade inutilis&aacute;ra a escorva. Os c&atilde;es, que
+poderiam
+ensinar-me o caminho, tinham seguido o meu companheiro. N&atilde;o
+desanimei.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[10]</span>
+Tal direc&ccedil;&atilde;o pareceu-me que deveria ser a melhor,
+e segui-a. O nevoeiro deixava-me v&ecirc;r apenas o
+espa&ccedil;o que pisava. Atravessei a lombada da serra, e comecei
+a descer. Escorreguei muitas vezes nos algares da encosta, e senti a
+neve pela cintura. Gastei duas horas, tres, quatro, descendo, descendo,
+sem encontrar uma
+povoa&ccedil;&atilde;o. Conheci que estava perdido. A neve
+augmentava. A noite aproximava-se, e nem um symptoma de vida!
+Ent&atilde;o, sim; tive medo, e imaginei que a minha sepultura, sem
+solemnidade alguma, deveria encontral-a brevemente no estomago d'algum
+lobo.<br />
+
+<br />
+
+E, de mais a mais, eu tinha fome.<br />
+
+<br />
+
+Todos os provimentos, que eu levava na minha rede, eram um
+peda&ccedil;o de br&ocirc;a para o meu
+fur&atilde;o. Reparti-o entre n&oacute;s. O animalsinho comeu
+com appetite, e pilhando-se solto, como o seu officio era desemlapar
+coelhos, entrou na primeira lura que viu, e fez saltar f&oacute;ra
+um gato bravo, que espirrava diabolicamente por cima dos tojos coroados
+de neve.<br />
+
+<br />
+
+Nunca me esqueceram os espirros d'este gato bravo!<br />
+
+<br />
+
+Continuei o meu caminho, sem esperan&ccedil;as de encontrar
+pousada.<br />
+
+<br />
+
+Escureceu.<br />
+
+<br />
+
+Encostei-me, desalentado, a um castanheiro, e fiz da minha pobre
+cabe&ccedil;a uma cabe&ccedil;a academica.<br />
+
+<br />
+
+Pensei muito, estabeleci varios raciocinios, que conspiraram em
+provar-me, que, perto d'alli, devia existir uma
+povoa&ccedil;&atilde;o, por isso que os
+castanheiros, campos, e paredes eram indicios de ald&ecirc;a
+proxima. N'este comenos, ouvi um mugido de boi, e em seguida uma
+sineta, que tocava &aacute;s &laquo;Ave-Marias.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Aquellas tres badaladas ergueram a Deus o meu espirito reconhecido.
+Orei com a devo&ccedil;&atilde;o dos
+dezoito annos. N&atilde;o vos digo mais nada a este respeito,
+porque me n&atilde;o entenderieis. Sois excellentes pessoas para
+devorar <span class="pagenum">[11]</span>
+um romance em dez volumes; mas n&atilde;o lerieis, sem abrir tres
+vezes a bocca, uma pagina de sentimentos embalsamados do aroma do
+c&eacute;o, que o poeta n&atilde;o deve nunca profanar,
+misturando-os a frioleiras d'uma historia, ao alcance de todas as
+capacidades.<br />
+
+<br />
+
+Eu creio que entre v&oacute;s ha entendimentos muito finos,
+paladares muito apurados no sabor do bello,
+cora&ccedil;&otilde;es muito brandos para
+emo&ccedil;&otilde;es suaves. Creio que sim; mas o melhor
+&eacute; fazer de conta que os n&atilde;o ha.
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>V. </h3>
+
+<br />
+
+Minutos depois, achava-me n'uma povoa&ccedil;&atilde;o, onde
+nunca estivera. Encontrei uma velha que castigava um porco, rebelde
+&aacute; invoca&ccedil;&atilde;o de sua ama,
+com uma roca.<br />
+
+<br />
+
+Perguntei-lhe que povo era aquelle.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alpedrinha&#8213;disse ella.<br />
+
+<br />
+
+Ora, Alpedrinha distava duas leguas e meia de minha casa. Era
+necessario pernoitar alli. Perguntei &aacute; dita velha onde
+morava o parocho. Mostrou-me a casa. Pedi gasalhado ao reverendo, que
+n'esse momento voltava da igreja. Disse-me que subisse. Quiz saber quem
+eu era, e tratou-me delicadamente, quando lhe citei um medico, pessoa
+de minha familia.<br />
+
+<br />
+
+O snr. padre Joaquim era um padre admiravel. Tinha maneiras da
+c&ocirc;rte. Vestia com muita limpeza. Fallava com prodigiosa
+correc&ccedil;&atilde;o, e offerecia aos
+seus hospedes aguardente e biscoutos, tudo do melhor, e servido em bons
+crystaes e polida salva de prata.<br />
+
+<br />
+
+Momentos depois que eu cheg&aacute;ra, apeou &aacute; porta do
+meu sympathico sacerdote um cavalleiro, ainda mo&ccedil;o, muito
+pallido e magro, com chap&eacute;o hespanhol, faxa vermelha, e
+botas d'agua.<br />
+
+<br />
+
+Era um estudante de Coimbra, que voltava doente <span class="pagenum">[12]</span> para
+sua casa, e costumava pernoitar em Alpedrinha, com aquella familia.<br />
+
+<br />
+
+A primeira pergunta do academico foi esta:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como est&aacute; a snr.<sup>a</sup> D. Amelia?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mesmo...&#8213;respondeu padre Joaquim.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E seu mano? Tem vindo a casa?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o senhor: desde que foi delegado para * * *, ha tres
+mezes, n&atilde;o voltou....<br />
+
+<br />
+
+Eu estava ancioso por conhecer a snr.<sup>a</sup> D.
+Amelia, porque
+at&eacute; ao momento em que o estudante chegou, suppunha eu que
+toda a familia do parocho se limitaria a alguma ama, e alguns
+pequenitos, que, de ordinario, s&atilde;o afilhados do padre.
+Depois das perguntas do meu illustre companheiro de hospedagem, fiquei
+sabendo que n'aquella casa existia uma snr.<sup>a</sup> D.
+Amelia, e um senhor
+delegado de * * *.<br />
+
+<br />
+
+Padre Joaquim contou ao academico as minhas aventuras de
+ca&ccedil;ador; disse-lhe que me tinha achado muito fino
+(referia-se naturalmente &aacute; magresa), e fez a apologia dos
+meus olhos, que, naturalmente, revelavam uma extraordinaria esperteza,
+espiritualisados pelo espirito de vinho, que o sacerdote me injectou
+nas veias marasmadas pelo frio.<br />
+
+<br />
+
+Conversei com o academico. Perguntei-lhe muitas cousas de Coimbra:
+quantos canell&otilde;es soffria um calouro; o calculo aproximado
+dos pux&otilde;es de orelhas; a solemnidade indecente de certo vaso
+na cabe&ccedil;a.... &amp;c.
+&amp;c.<br />
+
+<br />
+
+O academico respondia-me com muito agrado, e offerecia-se para meu
+protector em Coimbra, no anno seguinte, que devia ser o da minha
+partida.<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+VI. </h3>
+
+<br />
+
+&#8213;Snr. Valladares&#8213;disse o padre ao estudante&#8213;minha
+<span class="pagenum">[13]</span>cunhada ergueu-se
+da cama para vir comprimental-o...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma grande considera&ccedil;&atilde;o, que eu
+lhe n&atilde;o mere&ccedil;o; mas a delicadeza da snr.<sup>a</sup>
+D.
+Amelia &eacute;
+sempre um severo preceito que ella se imp&otilde;e.<br />
+
+<br />
+
+Fallou bem.<br />
+
+<br />
+
+N'isto, entrou uma senhora, com um ar de tanta nobreza, que me pareceu
+uma cousa nova. Eu n&atilde;o conhecia assim nenhuma. Era alta,
+muito magra no rosto, mas muito bella nos olhos, nos labios, nos
+cabellos, em tudo se via tanta formosura, tanto donaire, um senhoril
+t&atilde;o estreme do vulgo, que eu, crean&ccedil;a e poeta,
+senti-me t&atilde;o acanhado como o mais bo&ccedil;al dos
+pastores de
+cabras d'aquella freguezia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como passou, snr. Valladares?&#8213;perguntou ella com voz tremula,
+tossindo a cada palavra, e aconchegando da face a golla de veludo da
+sua capa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre doente, minha senhora... Por n&atilde;o poder mais,
+recolho-me a casa...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu bem lhe disse que n&atilde;o fosse... v. s.<sup>a</sup>
+teimou, agora
+j&aacute; sabe que os conselhos d'uma mulher n&atilde;o
+s&atilde;o sempre pieguices...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E os de v. exc.<sup>a</sup> nunca poder&atilde;o
+s&ecirc;l-o... E a
+snr.<sup>a</sup> D. Amelia como est&aacute;?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'este modo que v&ecirc;... Tossindo sempre, sempre mal, sem
+descan&ccedil;o d'este lado, que me parece que j&aacute;
+n&atilde;o vive, se n&atilde;o para matar o resto
+de vida que tenho...<br />
+
+<br />
+
+D. Amelia indicava o cora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque n&atilde;o d&aacute; um passeio at&eacute;
+Lisboa?&#8213;tornou o academico.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso lhe tenho eu dito todos os dias&#8213;atalhou o padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De que me serve Lisboa?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o ares patrios, minha senhora. Talvez o contacto do
+cora&ccedil;&atilde;o com as suas amigas de collegio...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[14]</span> &#8213;Eu j&aacute;
+n&atilde;o tenho cora&ccedil;&atilde;o
+para contacto com amigas nem inimigas, snr. Valladares...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que v. exc.<sup>a</sup> tem &eacute; uma
+ardentissima
+imagina&ccedil;&atilde;o, alma de poeta, que s&oacute; tem
+a sensibilidade do que &eacute; triste, e n&atilde;o sabe tirar
+recursos da
+esperan&ccedil;a...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperan&ccedil;a!...&#8213;murmurou ella com um triste sorriso, e
+voltando-se para mim, perguntou-me:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sei que este senhor esteve em risco de passar uma noite
+divertida com os lobos...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, minha senhora; mas a Providencia encaminhou-me
+ao paraizo, depois de me ter mostrado o inferno.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora ahi tem uma resposta d'um mo&ccedil;o, que seria pena
+comerem-no os lobos!...&#8213;disse o padre, desafiando um gracioso sorriso
+de Amelia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha-de dizer ao seu parente medico que me salve da sepultura assim
+como n&oacute;s esta noite o salvaremos de ser victima dos
+lobos&#8213;disse-me ella, apertando affectuosamente a m&atilde;o de
+Valladares, em despedida, porque a tosse exasperava-se cada vez mais.<br />
+
+<br />
+
+Esta rapida appari&ccedil;&atilde;o impressionou-me muito.
+Queria fazer mil perguntas; mas eu n&atilde;o tinha a quem. O padre
+e o estudante fallaram em assumptos, que me n&atilde;o interessavam
+nada. O que eu queria era a vida, a historia, os soffrimentos, a poesia
+d'aquella mulher. Eu tinha lido, dias antes, n&atilde;o sei que
+romance, onde vira uma mulher assim...<br />
+
+<br />
+
+Appareceu um taboleiro com a c&ecirc;a. O abbade fez o prato de D.
+Amelia. Era uma aza de gallinha, que elle mesmo lhe serviu.<br />
+
+<br />
+
+Valladares tambem comeu do pucaro da doente. Eu, com o abbade, entramos
+corajosamente n'um coelho guisado, cuja retaguarda cortamos com um
+excellente caldo verde, e lourejantes castanhas assadas com manteiga.<br />
+
+<br />
+
+No fim, demos gra&ccedil;as a Deus.<br />
+
+<br />
+
+O padre, segundo o seu costume, foi sentar-se &aacute;
+<span class="pagenum">[15]</span>cabeceira de sua
+cunhada. Eu e Valladares entramos n'um quarto commum.<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+VII.</h3>
+
+<br />
+
+O academico tinha uma physionomia franca e insinuante. Conversava
+comigo sem desdenhosa superioridade. Familiarisamo-nos depressa, como
+dous futuros companheiros de casa em Coimbra.<br />
+
+<br />
+
+Eu fui um grande fallador, n'aquella idade, em que pensava menos. O meu
+recente amigo sympathisou com a minha garrula eloquencia, e dava
+signaes de desenfado, quando naturalmente dev&ecirc;ra querer
+dormir, depois de uma fatigante jornada, em dia de neve.<br />
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o era rapaz que, por delicadeza, calasse a minha
+curiosidade a respeito de D. Amelia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor faz-me o favor de me dizer uma cousa?&#8213;disse eu.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute;? quantas horas s&atilde;o?... s&atilde;o
+10... quer dormir?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor: queria saber quem &eacute; esta snr.<sup>a</sup>
+D.
+Amelia?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; cunhada do padre, e casada com um sujeito, delegado em
+* * *.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso j&aacute; eu sabia... pouco mais ou menos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o sabe tanto como eu...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; d'aqui d'esta ald&ecirc;a esta senhora? Creio
+que ouvi dizer que era de Lisboa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade... nasceu em Lisboa...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como veio parar aqui n'este matagal? Naturalmente perdeu-se, como
+eu, na serra, por causa da neve, e veio c&aacute; bater, e
+c&aacute; ficou! Pois eu dou-lhe a
+minha palavra de honra, que apenas vir luzir o buraco, retiro-me sem
+mais ceremonias d'este delicioso covil de cabras.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[16]</span>
+O meu amigo ria-se. Estava disposto a achar-me gra&ccedil;a, e o
+leitor p&oacute;de tambem rir-se, se lhe
+aprouver.<br />
+
+<br />
+
+E acrescentou ao sorriso:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-lhe impossivel que a tal senhora viesse de Lisboa para aqui
+sem ser impellida por um acaso?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De certo... J&aacute; n&atilde;o admira que ella tenha tosse
+de tisica... O que me espanta &eacute; ella viver, se c&aacute;
+est&aacute; desde hontem!... Quando veio ella?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha dous annos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; eterna... ou santa. Hei-de dizer que
+encontrei esta martyr a uma minha tia, que &eacute; capaz de jurar
+que a viu fazer milagres...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O menino &eacute; sarcastico! Se o n&atilde;o visse
+t&atilde;o inclinado a rir-se de cousas serias, contava-lhe uma
+historia triste...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu gosto muito de historias tristes... Ver&aacute; que me
+n&atilde;o rio, quando me dizem alguma cousa que me toque o
+sentimento. A minha familia chama-me poeta; os visinhos chamam-me tolo;
+n&atilde;o sei bem o que sou; mas o que n&atilde;o sou
+&eacute; insensivel...
+V&ecirc;... j&aacute; n&atilde;o tenho vontade de
+gracejar... Conte-me agora a historia, que eu prometto contar-lhe outra
+que me fez chorar, porque &eacute; uma passagem t&atilde;o
+infeliz, que, se eu
+fizesse novellas, escrevia uma.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez as escreva no futuro...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?... Deixe-se d'isso... O meu mestre de logica diz que eu sou um
+alarve, e o de rhetoria j&aacute; me mandou ser aprendiz de
+alfaiate... N&atilde;o tenho habilidade nenhuma. O meu gosto
+&eacute; l&ecirc;r os sonetos do abbade de Jazente, e as
+quintilhas do Nicolau Tolentino. N&atilde;o sei mais nada, nem
+quero saber... Vamos &aacute; historia, sim?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o aproxime-se de mim, que eu quero fallar baixo. Mas,
+antes de mais nada, promette n&atilde;o contar a ninguem o que vou
+dizer-lhe?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; segredo!<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[17]</span> &#8213;&Eacute;.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prometto...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ahi vai.<br />
+
+<br />
+
+<h3>VIII.</h3>
+
+<br />
+
+&#8213;Esta senhora viveu em Lisboa at&eacute; aos dezeseis annos. Hoje
+o mais que p&oacute;de ter s&atilde;o vinte e dous.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute;?! Eu calculava trinta e tantos
+<em>bons</em>, como diz minha tia, quando
+quer fazer todas as pessoas mais velhas que ella.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois deixemos l&aacute; sua tia, que deve ser, pouco mais ou
+menos, como todas as tias... Vamos com a nossa historia, e depressa,
+sen&atilde;o adorme&ccedil;o, e o
+meu curioso amigo perde a occasi&atilde;o de saber quem
+&eacute; a
+snr.<sup>a</sup> D. Amelia...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso de modo nenhum&#8213;atalhei eu com sobresalto&#8213;Prometto
+n&atilde;o interromper a historia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem. O pai d'esta senhora morreu em Lisboa, e o conselho de
+familia deliberou que a orph&atilde; viesse para a provincia, onde
+tinha tios, e o seu patrimonio em quintas.<br />
+
+<br />
+
+Quando appareceu em * * *, os rapazes fizeram-lhe montaria, e
+disputaram
+a primazia no namoro. D. Amelia n&atilde;o aceitava, nem repellia a
+c&ocirc;rte de nenhum.
+Tinha o mesmo riso para todos, e fallava a todos com a mesma
+delicadeza.<br />
+
+<br />
+
+Havia alli um rapaz que n&atilde;o frequentava a sociedade de
+Amelia, porque n&atilde;o frequentava sociedade nenhuma.
+F&ocirc;ra educado em Genova, viera de l&aacute; aos quinze
+annos, vivera no Porto at&eacute; aos vinte e cinco, e quando
+recolheu &aacute; provincia, d'onde sahira de tres annos, com a sua
+familia que emigr&aacute;ra em 1828, ninguem o conhecia, e elle
+mesmo n&atilde;o queria conhecer ninguem.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[18]</span>
+Chamavam-lhe celebre, exquisito, excentrico, orgulhoso, impostor, e
+n&atilde;o sei que muitas outras lisonjas do charco de certos
+espiritos, que n&atilde;o podem sahir da pequena esphera de lama,
+que a natureza lhes deu por homenagem.<br />
+
+<br />
+
+D. Amelia viu este rapaz n'um cemiterio: leu um epitaphio que elle
+mand&aacute;ra abrir na sepultura de seu pai que o
+deix&aacute;ra em Genova no collegio, e viera morrer em 1836
+&aacute; patria: comprimentou-o de passagem, respondendo a um
+distincto cortejo do melancolico poeta; e parece que, desde esse
+encontro, Amelia transfigurou-se para todos os homens, deu que pensar
+&aacute; sua familia, queria todos os dias visitar o cemiterio, e
+retirava quasi sempre mais triste, porque muito raras vezes encontrou
+alli o invisivel extravagante da opini&atilde;o publica.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como se chamava elle? Eu conhe&ccedil;o alguns rapazes de * * *
+que foram meus condiscipulos em logica.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; nenhum dos seus condiscipulos.
+J&aacute; lhe disse que este sujeito veio do Porto para a
+provincia, com vinte e tantos annos pelo menos. O seu appellido
+&eacute; C&ocirc;rte-Real, conhece?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada, n&atilde;o conhe&ccedil;o; mas ou&ccedil;o fallar
+todos os dias n'esse rapaz.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ouve dizer?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que est&aacute; em Lisboa, doudo, no hospital...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor afian&ccedil;a-me isso? Ha que tempo endoudeceu?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha dous ou tres mezes...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem lh'o disse?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um medico, meu parente, que o mandou conduzir para a enfermaria dos
+doudos.<br />
+
+<br />
+
+O academico fez-me signal de silencio, e mandou-me ouvir.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ouve?&#8213;disse elle.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou&ccedil;o... &eacute; alguem que solu&ccedil;a...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; ella...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[19]</span> &#8213;D. Amelia?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... Ouviu a nossa conversa... Tem ouvidos de tisica...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; admiravel!... Pois o quarto d'ella n&atilde;o
+&eacute; longe d'este?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Passam-se tres quartos, mas os repartimentos s&atilde;o de
+tabique, e eu n&atilde;o me lembrei de tal...
+Calemo-nos...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a historia?... Falle mais baixo, que ella n&atilde;o
+ouvir&aacute; mais nada...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, &eacute; impossivel... Aquelles solu&ccedil;os
+transtornaram-me a cabe&ccedil;a... Deite-se, e
+&aacute;manh&atilde;
+fallaremos antes de nos despedirmos...<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+IX.</h3>
+
+<br />
+
+&Aacute; cabeceira do meu leito, estava um volume das
+<em>Viagens de Cyro</em>, e o quinto volume
+d'uma <em>Miscellanea curiosa e
+proveitosa</em>, onde encontrei uma longa poesia
+a <em>D. Ignez de Castro</em>, que me fez
+dormir at&eacute; &aacute;s 8 horas da manh&atilde;.<br />
+
+<br />
+
+O meu companheiro, quando abri os olhos, estava sentado na cama, e
+escrevendo nas paginas d'uma carteira.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor est&aacute; a fazer versos?&#8213;perguntei eu.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adevinhou.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faz favor de recitar, se n&atilde;o &eacute; segredo!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Recito: olhe l&aacute; se entende:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>Eras um anjo? Se o eras<br />
+
+Que torvo facho do inferno<br />
+
+Te queimou as azas? Diz:<br />
+
+Porque, t&atilde;o cedo, infeliz<br />
+
+Cahes no
+abysmo eterno!...</em> <span class="smallcaps">eterno</span>!</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[20]</span> &#8213;Entendeu?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja se entende agora:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>Eras pura, quando lagrimas<br />
+
+Tu me d&eacute;ste,
+e me pediste...<br />
+
+Tu choraste aqui, choravas...<br />
+
+Mas porque? prophetisavas<br />
+
+Este abysmo em que cahiste?</em></div>
+
+<br />
+
+&#8213;Entendeu?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada... Ora diga-me os versos tem alguma cousa com a historia que
+ficou suspensa?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor; pertencem a outra, que nasceu aqui n'esta
+casa, e que &eacute; toda minha...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta casa parece-me uma casa de novella... Estou a v&ecirc;r se
+aqui arranjo tambem alguma historia para contar a minha tia, que
+est&aacute; resando o quadragesimo responso a Santo Antonio por
+minha causa, se &eacute; que
+j&aacute; me n&atilde;o resou por alma... Ent&atilde;o o
+senhor
+n&atilde;o conta ao menos a primeira historia completa?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hei-de contar.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando? Eu vou-me embora logo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o vai. J&aacute; aqui esteve o padre, e disse que
+n&atilde;o sahiriamos d'aqui hoje, porque augmentou de noite a
+neve.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixal-a; mas a minha familia, se eu n&atilde;o
+appare&ccedil;o, nem dou parte de mim, julga-me morto, e
+&eacute; capaz de me fazer officio de corpo ausente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se assuste, que o padre hontem &aacute; noite
+mesmo fez partir para a sua ald&ecirc;a um criado com a certeza de
+que o senhor ficava vivo, e mais o seu fur&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A proposito, sabe se j&aacute; dariam de almo&ccedil;ar ao
+meu fur&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; natural que sim... Ahi vem o snr. abbade;
+<span class="pagenum">[21]</span>perguntemos-lhe...
+Snr. padre Joaquim, pergunta alli o nosso amigo se o
+fur&atilde;o ja almo&ccedil;ou.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comeu quatro ovos, e est&aacute; agora brincando com minha
+cunhada, que &eacute; muito amiga de bichos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como passou ella?&#8213;perguntou Valladares.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Penso que melhor... Ergueu-se muito cedo: a creada disse que a vira
+chorar toda a noite; mas agora fui, com grande espanto meu, encontral-a
+com o fur&atilde;o no rega&ccedil;o, a sorrir-se como quem
+&eacute; muito
+crean&ccedil;a e muito feliz... Sabe o senhor que...<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei bem o que o padre disse ao ouvido do estudante.
+Desconfio, pela resposta, que o resto do segredo era o receio de que
+ella endoudecesse.<br />
+
+<br />
+
+Tudo isto, apurava-me o desejo de saber o que era a demencia de
+C&ocirc;rte-Real, e a tisica de Amelia.<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+X.</h3>
+
+<br />
+
+Almo&ccedil;amos.<br />
+
+<br />
+
+D. Amelia esteve comnosco alguns minutos, ouvindo n&atilde;o sei
+que palavras a meia voz, do meu amigo, inintelligiveis para mim,
+supposto que ahi se fallasse duas ou tres vezes n'uma D. Miquelina.
+Tudo mysterios!<br />
+
+<br />
+
+O padre foi dizer missa. D. Amelia foi com elle. Fiquei com Valladares,
+tremendo de frio, ao p&eacute; d'uma bacia de brazas. O attencioso
+levita teve a delicadeza de nos n&atilde;o convidar a participarmos
+da sua missa, que n'aquelle dia, com tal frio, faria hereges espiritos
+devotos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi vai agora a continua&ccedil;&atilde;o da historia&#8213;disse
+o academico, engulindo o fumo de quatro cigarros successivos&#8213;A familia
+d'esta senhora &eacute; muito realista, muito fanatica, arde em
+odio contra os impios, que s&atilde;o todos, menos os sectarios de
+D. Miguel, e alguns, sen&atilde;o todos, de D.
+Sebasti&atilde;o. A familia de C&ocirc;rte-Real
+&eacute; <span class="pagenum">[22]</span>
+ultra-liberal, odeia os realistas com aquelle odio saturado na
+emigra&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o admitte honra,
+intelligencia, nem merecimento em homem que n&atilde;o fosse capaz
+de cortar as orelhas a um miguelista, se elle estiver por isso.
+J&aacute; v&ecirc; que as duas familias detestam-se. De parte a
+parte no momento em que as rela&ccedil;&otilde;es de Amelia com
+C&ocirc;rte-Real fossem percebidas, imagine o meu amigo que
+n&atilde;o hiria!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o elles namoravam-se?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois eu n&atilde;o lhe disse j&aacute; que sim?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor: disse-me que Amelia passeava repetidas vezes
+no cemiterio para v&ecirc;l-o, mas que
+n&atilde;o o via muitas vezes. Eu queria saber como se
+encontraram... porque... desejo saber como &eacute; que a gente
+p&oacute;de sahir d'um encontro d'esses!... N&atilde;o ha muito
+que me vi entalado com um d'esses encontros... Eu tinha o recado na
+ponta da lingua, e, quando vi a mocetona, que n&atilde;o era cousa
+de atarantar um estudante de logica, pegou-se-me a lingua ao
+c&eacute;o da bocca, como diz
+n&atilde;o sei que poeta... <em>vox faucibus
+hoesit</em>... Que lhe disse elle quando a viu?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; que eu n&atilde;o sei, porque n&atilde;o
+ouvi. O que sei &eacute; que se fallavam por cartas, e entretiveram
+assim rela&ccedil;&otilde;es seis mezes. Por fim, descobre-se o
+namoro. C&ocirc;rte-Real fallava da rua para a janella com Amelia:
+um tio d'ella &eacute; avisado; espera-o no pateo, com a porta
+fechada, e, quando elle principia a dizer bellas cousas, o tal bruto
+abre a porta, e descarrega-lhe quatro bordoadas, que o pozeram
+f&oacute;ra do combate. No dia seguinte, mandou-lhe a casa a capa,
+o chap&eacute;o, e uma clavina, que f&ocirc;ra tres vezes
+batida &aacute; queima roupa do tal varredor de feiras.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D. Amelia, duas horas depois, foi mandada entrar n'uma liteira, e
+conduzida a casa d'este padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que?<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[23]</span> &#8213;Para ninguem
+saber o seu destino, em quanto vinha de Lisboa, onde
+ella tinha o conselho de familia, uma ordem para ser recolhida a um
+convento.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E C&ocirc;rte-Real que fez?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Curou as feridas da cabe&ccedil;a, e indagou o destino de Amelia.
+Como o n&atilde;o soube, cahiu n'uma melancolia profunda, teve
+accessos de loucura, e, pelo que o senhor me disse, est&aacute;
+hoje no hospital de Rilhafolles.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E Amelia casou-se?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois no casamento &eacute; que est&aacute; o interessante da
+historia.<br />
+
+<br />
+
+Quinze dias depois da sua vinda para aqui, chegou de Coimbra o
+irm&atilde;o do padre. Parece que sentiu por Amelia o que era muito
+natural que sentisse. Amou-a, mas n&atilde;o ousou declarar-se,
+porque sabia os precedentes, que a trouxeram a esta casa. Ella, por si,
+tractava-o com a fria delicadeza da indifferen&ccedil;a,
+at&eacute; ao
+momento, em que recebeu de uma sua tia a noticia de que viera ordem do
+conselho de familia para ser conduzida a Lisboa, e l&aacute;
+recolhida em um convento.<br />
+
+<br />
+
+Lida a carta, Amelia offereceu-se como esposa do bacharel. O imprudente
+sem mais nem menos, aceitou a offerta. Alcan&ccedil;ou do arcebispo
+dispensa de banhos e consentimento do tutor: o irm&atilde;o, sem
+consultar a philosophia, a religi&atilde;o, e a consciencia,
+casou-os. Na tarde do dia das bodas, chegou a liteira que devia levar a
+orph&atilde; a Lisboa. Amelia apresentou-se a seu tio com um
+desdenhoso sorriso, e disse: &laquo;N&atilde;o tenho duvida
+nenhuma em hir para Lisboa, e para um convento, mas &eacute;
+necessario que meu marido v&aacute; comigo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seu marido!&#8213;exclamou o tio estupefacto.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[24]</span>
+<h3>XII.</h3>
+
+<br />
+
+&#8213;Dias depois, esta victima dos seus caprichos, cahiu doente. O medico
+capitulou-lhe a enfermidade de tisica no primeiro grau. O marido
+arrependeu-se muito cedo. Ella n&atilde;o se arrependeu, porque
+sabia que dava um passo que devia matal-a. E, com effeito,
+est&aacute; alli... est&aacute; morta...<br />
+
+<br />
+
+...Ahi vem ella e o padre... Fallemos d'outra cousa...<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<h3>
+CONCLUS&Atilde;O. </h3>
+
+<br />
+
+Um anno depois, em Coimbra, dizia-me Valladares:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha que tive carta do abbade de Alpedrinha. D. Amelia morreu, e as
+suas ultimas palavras ao marido foram estas: <span class="smallcaps">morro
+por capricho</span>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="C2"></a>UMA PAIX&Atilde;O BEM
+EMPREGADA.</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>
+UMA PAIX&Atilde;O BEM EMPREGADA. </h2>
+
+<br />
+
+<h3>I. </h3>
+
+<br />
+
+O meu amigo Valladares, em uma tarde formosa, passeando comigo no
+<em>Penedo da
+Saudade</em>, sentou-se, accendeu um cigarro com
+perfei&ccedil;&atilde;o academica,
+abriu a carteira, e recitou-me os versos, que, um anno antes, me
+recit&aacute;ra em Alpedrinha.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lembras-te?&#8213;disse elle.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perfeitamente. Prometteste contar-me ent&atilde;o uma historia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou cumprir a promessa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E disseste que o teu conto prendia muito com aquella casa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse, e vaes v&ecirc;r porque. Olha que eu n&atilde;o vou
+fazer estilo. Prepara-te para uma narra&ccedil;&atilde;o
+simples, e clara. N&atilde;o perten&ccedil;o &aacute;
+esc&oacute;la dos nossos lapidarios de palavras, que nos dizem em
+estilo de Corneille as scenas comicas de Moliere. A minha historia, se
+tal nome lhe cabe, &eacute; uma tragedia com muitas scenas de
+far&ccedil;a. Ainda que me n&atilde;o vejas rir, tens a
+liberdade da gargalhada. Ahi vai:<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[28]</span>
+Em 1843 fui &aacute; feira do Santo Antonio a Villa-Real. Encontrei
+ahi uma familia que mora uma legua distante de minha casa. Compunha-se
+d'uma senhora idosa, que era m&atilde;i d'um cavalheiro, e este
+cavalheiro era pai d'uma bonita mulher, que teria dezoito annos. Gostei
+d'ella, ou antes confirmei a sympathia que ella me tinha presa desde
+que a vi, pela primeira vez, dous annos antes, n'umas ferias grandes.
+N&atilde;o lhe disse quasi nada. Eu era rapaz de dezoito annos, e,
+aos dezoito annos, um mo&ccedil;o d'ald&ecirc;a tem o
+cora&ccedil;&atilde;o
+acanhado, e c&oacute;ra facilmente, quando encontra os olhos d'uma
+mulher, supposto que os veja constantemente em sonhos. A rapariga
+chamava-se Miquelina; isto n&atilde;o faz ao caso; mas sempre te
+digo que nunca suppuz poder pronunciar este nome sem lagrimas... O que
+&eacute; o tempo!...<br />
+
+<br />
+
+Combinamos partir juntos de Villa-Real. N&atilde;o recordo na minha
+vida um dia mais feliz do que o dia da nossa partida! A familiaridade
+animava-me a dizer algumas palavras d'aquellas que nunca exprimem
+sen&atilde;o a sombra do sentimento. Miquelina corava, mas nem por
+isso sustinha as redeas do cavallo para esperar a av&oacute; e o
+pai, que vinham alguns passos distantes.<br />
+
+<br />
+
+Teriamos andado legua e meia, quando o macho em que vinha montada a
+velha tomou susto d'um tiro, que se deu ao lado da estrada, recuou, e
+deu em terra com a pobre senhora. Acudimos todos.<br />
+
+<br />
+
+Encontramos-lhe uma fractura profunda na cabe&ccedil;a, e uma perna
+quebrada. Perguntamos se d'alli perto haveria uma casa onde nos
+recolhessemos. Encaminharam-nos a Alpedrinha, e a casa era a do padre
+onde me encontraste.<br />
+
+<br />
+
+O acolhimento que nos deram foi excellente. Encontrei ahi o
+irm&atilde;o do abbade que era meu contemporaneo em Coimbra. Os
+facultativos disseram que era impossivel continuar jornada, e ahi
+ficamos vinte dias.<br />
+
+<br />
+
+N'este espa&ccedil;o de tempo, sonhei a felicidade, por
+<span class="pagenum">[29]</span>que
+hoje sei que n&atilde;o existe a realidade d'esses sonhos. Fui
+muito feliz, senti-me poeta, idealisei &aacute; sombra de Miquelina
+cousas e pessoas que nunca tiveram sen&atilde;o materia vilissima
+para as aspira&ccedil;&otilde;es do poeta. Em
+fim, meu caro, cheguei a recuperar a f&eacute; perdida nas cousas
+da Providencia, porque me parecia impossivel tanta felicidade sem
+consentimento especial da Providencia.<br />
+
+<br />
+
+Disse a Miquelina tudo que humanamente p&oacute;de dizer-se.
+Traduzi-lhe em palavras os extasis, que as n&atilde;o tinham.
+Interessei-a na comprehens&atilde;o da minha alma, e arranquei-lhe
+uma palavra, que mil vezes lhe morrera nos labios, como queimada pelo
+ardor do pejo. Quando ella me disse &laquo;amo-o&raquo; se
+n&atilde;o endoudeci
+de contentamento, &eacute; porque a
+disposi&ccedil;&atilde;o do meu cerebro
+&eacute; invulneravel aos golpes da demencia. Hoje rio-me d'isto, e
+tu, se te n&atilde;o ris, agouro-te que n&atilde;o
+poder&aacute;s dizer o mesmo a respeito da tua cabe&ccedil;a,
+passados alguns annos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque das duas uma: ou doudo, ou cynico. Tomar a serio a sociedade
+&eacute; endoudecer. Viver com ella em boa paz &eacute;
+escarnecel-a. Ou doudo ou cynico.
+N&atilde;o enlouqueci; mas depravei-me. Este escarneo, que
+indistinctamente voto a tudo, &eacute; a
+nega&ccedil;&atilde;o da piedade
+para todas as d&ocirc;res nobres, e a do odio para todos os
+prazeres infames. N&atilde;o me espanta nada. Aperto a
+m&atilde;o do mais corrupto, e a do mais virtuoso com a mesma
+gra&ccedil;a. Recebo todos os desaforos como factos consumados.
+N&atilde;o dou dez reis pela virtude dos missionarios do
+Jap&atilde;o, nem daria cinco de volta se elles me trocassem a sua
+f&eacute; pela minha illustrada impiedade. Eu e elles somos bons,
+ou maus: como quizerem. Eu acho que todos somos excellentes filhos de
+Deus, e Deus, que nos conserva, l&aacute; sabe a raz&atilde;o
+porque o faz...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu n&atilde;o sentes o que dizes...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s a brincar comigo!... Pois n&atilde;o sinto o que
+digo?! Tu n&atilde;o v&ecirc;s o que est&aacute; dentro
+d'este homem,
+<span class="pagenum">[30]</span>nem
+p&oacute;des ainda ajustar &aacute; face do cadaver a
+mascara que o retrate...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; possivel ser-se o que tu &eacute;s?!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se &eacute;!... Se me n&atilde;o tivesses interrompido,
+j&aacute; sabias a raz&atilde;o porque o sou... Nada de
+interrup&ccedil;&otilde;es... Se come&ccedil;o a divagar,
+digo diabruras, perco-me em abstrac&ccedil;&otilde;es, que te
+h&atilde;o-de parecer
+pretenciosas, e l&aacute; vai a historia...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Palavra, que n&atilde;o te interrompo...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando sahimos de Alpedrinha, as minhas intimidades com Miquelina
+eram j&aacute; suspeitas ao pai, que n&atilde;o se entremettia
+paternalmente no negocio. Sabes que eu tenho uma soffrivel casa, e
+Miquelina n&atilde;o era muito mais rica. Era possivel, e
+at&eacute; vantajoso um casamento. Murmurou-se n'este assumpto em
+casa do padre, e eu fui consultado por elle.<br />
+
+<br />
+
+Isto arrefeceu-me um pouco. N&atilde;o queria que me viessem
+t&atilde;o cedo direitos ao materialismo. A pequena,
+por&eacute;m, n&atilde;o tinha culpa. Eram cousas da velha, que
+quebr&aacute;ra a perna, mas fic&aacute;ra com a alma inteira
+para seguir o recto caminho, a logica implacavel do namoro, banhos,
+casamento, filhos, aborrecimento, barrete de dormir, catarrho,
+cangalhas no nariz, e rheumatismo.<br />
+
+<br />
+
+Eu amava verdadeiramente Miquelina. Instado pelas perguntas do
+officioso abbade, respondi que me casaria um anno depois, porque
+n&atilde;o queria dar tal passo sem o consentimento d'um tio, que
+f&ocirc;ra receber ao Brazil uma heran&ccedil;a, que viria
+augmentar consideravelmente a minha casa.<br />
+
+<br />
+
+Ficamos n'isto.<br />
+
+<br />
+
+Tres vezes por semana, durante os dous mezes de ferias, visitei
+Miquelina, e revalidei os meus votos, porque esta paix&atilde;o
+n&atilde;o era das que fogem quanto mais
+faceis se aproximam. A minha Beatriz parecia-me boa de
+cora&ccedil;&atilde;o, ajuizada de cabe&ccedil;a, fina de
+espirito, e em <span class="pagenum">[31]</span>quanto
+&aacute; cara, ao corpo, e ao donaire... dir-te-hei que as
+seduc&ccedil;&otilde;es eram tantas, e t&atilde;o a
+proposito que nunca tive occasi&atilde;o de me sentir de uma
+illus&atilde;o
+desvanecida. Vim para Coimbra. A nossa despedida foi pathetica.
+Beijei-lhe a testa pela primeira vez. Comprimi-a ao
+cora&ccedil;&atilde;o com o enthusiasmo do primeiro
+abra&ccedil;o. Recebi da sua m&atilde;o tremula, como prenda, o
+len&ccedil;o com que enxug&aacute;ra as lagrimas, e retirei-me
+com o
+cora&ccedil;&atilde;o partido, mas vaidoso de
+esperan&ccedil;as, que a saudade me dourava no meu lindo futuro.<br />
+
+<br />
+
+Logo que aqui cheguei, escrevi-lhe. Imagina o que eu lhe diria! Eram
+vinte folhas de papel, escriptas em todas as estalagens onde pernoitei,
+e fechadas com uma especie de hymno de lagrimas, em que se me foi tudo
+o que a minha alma podia dar de superior &aacute;quillo que todos
+os homens sabem dizer n'uma carta de namoro.<br />
+
+<br />
+
+Respondeu-me. A sua carta era simples, mas os toques eram
+verdadeiros... pareciam-no... via-se alli a mulher que escreve a
+primeira carta, o cora&ccedil;&atilde;o
+timido que balbucia os sons d'uma selvagem innocencia, que &eacute;
+a felicidade do homem que primeiro os tira do
+cora&ccedil;&atilde;o d'uma virgem.<br />
+
+<br />
+
+Tres mezes assim. Tres mezes d'uma vida phantastica. Ancias insaciaveis
+das suas cartas. Tristezas d&ocirc;ces quando me faltavam n'um
+correio. Zangas sem odio, se o cora&ccedil;&atilde;o de
+t&atilde;o longe a criminava
+de ingrata. Tres mezes assim... e no fim de tres mezes... adevinha o
+que aconteceu...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei c&aacute;... morreu?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veio c&aacute; ter comtigo?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abandonou-te?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abandonou.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; incrivel!<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[32]</span> &#8213;Acredita. Agora
+adevinha por quem eu fui preferido.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu s&oacute; te conhe&ccedil;o a ti na tua terra...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Imaginas que algum dandy a requestou de modo que a fragil creatura
+succumbiu &aacute;s
+seduc&ccedil;&otilde;es invenciveis?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; assim.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus! Tu n&atilde;o adevinhas, porque n&atilde;o sabes
+nada de mulheres...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi o pai que a for&ccedil;ou a casar-se com algum brasileiro
+muito rico?...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem n&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz l&aacute; isso, que estou impaciente...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois l&aacute; vai: a minha querida Miquelina, o meu anjo que
+corava se o meu halito lhe ro&ccedil;ava nas faces, a minha
+pudibunda Virginia que recebeu o meu primeiro beijo a tremer, a minha
+mimosa sensitiva que parecia resequir-se &aacute; mingoa dos meus
+carinhos... sempre queres que te diga?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha promettida esposa... fugiu com um... digo?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acaba, homem!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com um lacaio da casa!... &Oacute;l&aacute;! n&atilde;o
+fiques assim atordoado! Rite, como eu...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto &eacute; inconcebivel!... E depois?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois... que queres que eu te diga?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que fim teve essa mulher?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi agarrada por ordem do pai, e o lacaio morreu arcabusado
+summariamente para n&atilde;o dar que fazer &aacute;
+justi&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ella... vive?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Creio que sim.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na companhia da familia?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... Tu n&atilde;o me disseste que viras no Porto...
+Fiquemos aqui...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[33]</span> &#8213;Isso de modo
+nenhum... Has-de concluir...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... que importa!... N&atilde;o me disseste que viste no
+Porto uma meretriz que revelava uma boa educa&ccedil;&atilde;o,
+e n&atilde;o queria dizer d'onde
+era, nem como viera &aacute;quella vida?...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse... mas n&atilde;o se chamava Miquelina...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o faz nada ao caso... Rosa, ou Miquelina,
+&eacute; a mesma... &eacute; a minha promettida esposa,
+&eacute; o anjo dos meus primeiros amores, &eacute; a pomba
+alvissima da innocencia que encontrei em Alpedrinha... &Eacute;
+ella... Basta... &Eacute; noite... Vou fazer monte, e depois, se te
+quizeres embriagar comigo, vamos ao <em>Pa&ccedil;o do
+Conde</em>, e beberemos &aacute; saude da exc.<sup>ma</sup>
+Miquelina Alpoim e Malafaia, victima d'uma paix&atilde;o pelo
+infeliz lacaio, que desceu ao tumulo... das illustres victimas.
+J&aacute; sabes como se faz um cynico? A esses parvos, que por ahi
+andam a gaguejar um scepticismo que cheira a cueiros, d&aacute;-lhe
+com uma palmatoria.<br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o tornou a fallar-me n'esta mulher.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="C3"></a>DE ABYSMO EM ABYSMO.</h2>
+
+<br />
+
+Eu &eacute; que n&atilde;o podia satisfazer a minha curiosidade
+com a descosida revela&ccedil;&atilde;o de Valladares.<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes acalorei a quest&atilde;o do cynismo, applicando-a a
+Miquelina; mas este nome enfurecia-o de tal modo, que as nossas
+rela&ccedil;&otilde;es estiveram a
+romper-se, e reataram-se com a condi&ccedil;&atilde;o de eu
+nunca lhe tocar
+ligeiramente em semelhante assumpto.<br />
+
+<br />
+
+Sujeitei-me; mas, na primeira occasi&atilde;o prosperada pelo
+acaso, alcancei esclarecimentos, que illucidam a
+degrada&ccedil;&atilde;o da pobre mulher.<br />
+
+<br />
+
+Em 1848, Miquelina vivia ainda no Porto. A sua vida j&aacute; a
+sabem. Como veio ella t&atilde;o abaixo?<br />
+
+<br />
+
+Foi assim:<br />
+
+<br />
+
+Alguns dias depois da fuga vergonhosa com o defunto lacaio, Miquelina
+foi conduzida a Lisboa. A av&oacute;, que p&ocirc;de sobreviver
+ao golpe, quiz salvar a neta da colera do filho. Este
+ausent&aacute;ra-se para Chaves, no momento em que a filha
+entr&aacute;ra em casa. De l&aacute;, escrevendo
+&aacute; m&atilde;i, dizia-lhe que d&eacute;sse
+&aacute; infame algum destino, porque, em quanto a sua
+presen&ccedil;a envergonhasse aquella casa, nunca elle tornaria
+alli.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[36]</span>
+D'aquella familia estava em Lisboa um magistrado, tio materno de
+Miquelina. Foi este o encarregado de receb&ecirc;l-a durante alguns
+mezes na sua casa.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se passaram muitos dias, sem que Miquelina revelasse os
+seus instinctos. Namorava escandalosamente um homem, sem nome, que
+frequentava as janellas d'um alfaiate, que morava em frente.<br />
+
+<br />
+
+O magistrado suspeitou, e prohibiu-lhe o uso das janellas. O homem,
+que, por for&ccedil;a, havia de ter um nome, e poderia muito bem
+chamar-se Jos&eacute; Maria,
+n&atilde;o era t&atilde;o escasso de meios que n&atilde;o
+comprasse um
+creado da casa. O creado era o intermedio da correspondencia, menos da
+ultima carta, surprehendida pelo magistrado. Esta carta authorisava
+Jos&eacute; Maria a empregar a
+for&ccedil;a judicial para tirar de casa Miquelina. N'esse mesmo
+dia, a perigosa &laquo;donzella&raquo; foi mudada para casa de
+um
+general, cunhado de seu tio.<br />
+
+<br />
+
+O general era solteiro, homem de cincoenta e tantos annos bem
+conservados, admirador das boas mulheres, e vigoroso ainda para
+n&atilde;o desmentir o culto, quando se lhe pedissem provas
+praticas das theorias um pouco irrisorias na sua idade.<br />
+
+<br />
+
+Tinha comsigo duas irm&atilde;s, mais novas, que,
+<em>mutatis mutandis</em>, professavam as
+id&ecirc;as do
+irm&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Dito isto, v&ecirc;-se que a casa, onde Miquelina foi reclusa, era
+um viveiro de moral.<br />
+
+<br />
+
+Foi bem recebida, e at&eacute; muito bem aconselhada. As
+irm&atilde;s do general fallavam muito da virtude, e da honra. Quem
+as n&atilde;o conhecesse, acrescentaria duas martyres ineditas
+&aacute;s onze mil virgens conhecidas, de que Byron duvidou, e eu
+n&atilde;o me sinto muito propenso a acreditar, nem o meu amigo
+Valladares.<br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; Maria n&atilde;o sei que fim levou. Seria algum
+d'esses quatro que em 1845 se precipitaram dos &laquo;Arcos das
+Aguas-livres!?&raquo; Se foi, n&atilde;o andou bem, porque fez
+as cousas de modo que ninguem falla d'elle. Os
+<span class="pagenum">[37]</span><em>Werthers</em>
+sabem escolher as
+occasi&otilde;es, sen&atilde;o... &eacute; melhor
+deixarem-se morrer de tedio, que &eacute; a morte que me espera a
+mim, e a ti, leitor, no fim d'este livro, se n&atilde;o morreres no
+meio.<br />
+
+<br />
+
+O general namorou Miquelina. Namorando-a, seduziu-a. Seduzindo-a,
+abriu-lhe a outra meia porta da corrup&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Porque foi assim que as cousas se passaram:<br />
+
+<br />
+
+Miquelina affei&ccedil;oou-se ao general, como se
+affei&ccedil;o&aacute;ra a Valladares, ao lacaio, e ao
+Jos&eacute; Maria. Trazia o cunho da
+perdi&ccedil;&atilde;o! Era uma d'estas
+desgra&ccedil;adas que a gente v&ecirc; cahir, cahir, cahir a
+despeito de todos os estorvos! Que Deus, ou que demonio imprime o
+movimento n'estas machinas, sem cora&ccedil;&atilde;o nem
+cabe&ccedil;a? N&atilde;o se sabe! A verdade &eacute; que
+eu sinto vontade de
+chorar essas victimas cegas d'um destino barbaro, e tenho furias de
+blasphemo quando me dizem que Deus se entremette nas cousas d'este
+mundo... Vamos adiante, sen&atilde;o atiro a penna f&oacute;ra,
+e rasgo o papel...<br />
+
+<br />
+
+Ora j&aacute; vedes que o general era um devasso, e a pobre menina
+deve merecer-vos uma pouca de compaix&atilde;o, se eu vos
+afian&ccedil;o que o amou, at&eacute; ao ciume.<br />
+
+<br />
+
+Disseram-lhe um dia que uma mulher de capote e len&ccedil;o
+entr&aacute;ra no quarto do general, que era ao
+rez da rua. Miquelina estava doente de cama. Ergueu-se com febre,
+vestiu-se precipitadamente, desceu as escadas cambaleando de fraqueza,
+escutou &aacute; porta do traidor, e ouviu risadas, e palavras
+obscenas.<br />
+
+<br />
+
+Era noite, quando isto se passava.<br />
+
+<br />
+
+As irm&atilde;s do general deram pela falta da hospeda, e desceram
+a procurar o irm&atilde;o. Miquelina, quando as sentiu, na
+incerteza do que devia responder-lhes, fugiu. Fugindo, achou-se n'uma
+rua que n&atilde;o conhecia, atravessou umas poucas, chegou a uma
+pra&ccedil;a onde encontrou umas mulheres esfarrapadas que a
+tractaram por tu, e fugiu at&eacute; deparar as escadas d'uma
+igreja, <span class="pagenum">[38]</span>onde um
+soldado lhe veio dizer
+palavras desconhecidas.<br />
+
+<br />
+
+Fugiu ainda; mas a desgra&ccedil;a corria a par d'ella.<br />
+
+<br />
+
+O frio da noite, e a febre do cora&ccedil;&atilde;o
+aniquilaram-na. Sentou-se n'um portal, e desmaiou. Uma patrulha deu-lhe
+com a ponta do p&eacute;, e a desgra&ccedil;ada
+n&atilde;o respondeu. Tomaram-na como bebeda, e foram seu caminho.<br />
+
+<br />
+
+Outra patrulha sacudiu-lhe a cabe&ccedil;a pelos cabellos.
+Miquelina gemeu, abriu os olhos, e pediu erguendo as m&atilde;os
+que a deixassem morrer. Estava perto do hospital de S. Jos&eacute;.
+Os soldados pediram soccorro ao proximo corpo da guarda, e mandaram-na
+para l&aacute;.<br />
+
+<br />
+
+No hospital, deram-lhe uma cama na enfermaria... n&atilde;o sabemos
+que enfermaria; mas parece que o facultativo, na visita de
+manh&atilde;, mandou retirar a mulher para um quarto particular,
+pago &aacute; sua custa.<br />
+
+<br />
+
+Que foi o que ella disse ao medico? Nada. Seria n'elle um arrojo de
+caridade? N&atilde;o. &laquo;Pois
+n&atilde;o tens uma palavra boa para explicar uma
+ac&ccedil;&atilde;o
+nobre?&raquo; Nobilissimos leitores, deixai-me supp&ocirc;r que
+sois melhores pessoas que o medico. O que elle queria era uma creada,
+com as fei&ccedil;&otilde;es de Miquelina. As despezas da cura,
+al&eacute;m de ficarem encontradas no seu ordenado, seriam
+pequenas. Uma febre benigna n&atilde;o resistiria ao tratamento de
+oito dias.<br />
+
+<br />
+
+Mas, ao setimo, Miquelina fugiu do hospital, favorecida pela
+enfermeira, em cuja casa foi residir.<br />
+
+<br />
+
+Desde esse dia, chamou-se Rosa.
+<div class="dots"></div>
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que bonita rapariga &eacute; aquella que est&aacute; em casa
+da A * * * na cal&ccedil;ada do Duque?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma rapariga da provincia, pela pronuncia: chama-se
+Rosa, mas n&atilde;o diz d'onde &eacute;, nem quem a trouxe
+alli.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece bem educada!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece... e n&atilde;o &eacute; desbocada... N&atilde;o
+tem ainda <span class="pagenum">[39]</span>a
+consciencia do seu officio...
+&Eacute; necessario que perverta a linguagem, se quizer
+celebrisar-se...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De quem fallam voss&ecirc;s?&#8213;disse um terceiro, que, na
+Pra&ccedil;a do Rocio, veio associar-se ao grupo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'aquella Rosa, que tu denominaste um <em>cherubim
+precipitado</em> na tua poesia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute;...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;!... pois tu sabes a vida d'ella?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Contas?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+Este terceiro era Valladares.<br />
+
+<br />
+
+Teve elle coragem de v&ecirc;l-a face a face?<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o teve: entrou alli com uma mascara na ter&ccedil;a
+feira de Entrudo.<br />
+
+<br />
+
+Conheceu-o ella? Conheceu: porque no dia immediato desappareceu de
+Lisboa.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; por isso que eu a vi no Porto em 1848...
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+O general &eacute; hoje conde. O menos torpe dos flor&otilde;es
+da sua cor&ocirc;a &eacute; este... Foi
+<em>honrado e hospitaleiro</em>!...<br />
+
+<br />
+
+Valladares embriaga-se todos os dias, e n&atilde;o p&oacute;de
+assim viver muitos mais, porque j&aacute; n&atilde;o sente no
+paladar o acido do cognac.<br />
+
+<br />
+
+E Miquelina?<br />
+
+<br />
+
+Ha mais de seis annos que os estudantes da esc&oacute;la
+medico-cirurgica do Porto a retalharam fibra a fibra com os seus
+escalpellos observadores.<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; v&ecirc;des que morreu no hospital, e foi em
+peda&ccedil;os atirada ao monturo da santa casa, depois de se
+prestar, como cadaver, &aacute;s lucubra&ccedil;&otilde;es
+da
+anatomia.<br />
+
+<br />
+
+Podeis n&atilde;o acreditar tudo, ou parte d'isto... Olhai,
+por&eacute;m, que vos n&atilde;o dei aqui a verdade descarnada
+como ella &eacute; no conto melindroso, que vos contei. Escondi-vos
+metade.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="C4"></a>AVENTURAS D'UM BOTICARIO
+D'ALD&Ecirc;A.</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>
+AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALD&Ecirc;A.</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O snr. Manoel Pires, pharmaceutico approvado por outro pharmaceutico
+que n&atilde;o foi approvado em parte nenhuma, estabeleceu a sua
+botica n'uma ald&ecirc;a do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O
+seu laboratorio chimico era um fogareiro e uma retorta de vidro,
+emendada no collo por um cylindro de lata. A sua livraria era o
+<em>Medico lusitano</em>, in folio; uma
+Pharmacopeia, edi&ccedil;&atilde;o de 1700; e um pequeno volume
+intitulado&#8213;<em>Segredos da natureza</em>. Os
+lotes, que eram seis, continham
+garraf&otilde;es de barro vidrado, atapulhados de hervas, que
+tinham o merecimento chronologico de serem contemporaneas dos
+garraf&otilde;es. Af&oacute;ra isto, n&atilde;o sei que
+liquidos verdes e amarellos e azues variegavam um dos lotes, que, pelos
+modos, continha os remedios heroicos, como oleo de amendoas
+d&ocirc;ces, extracto d'amoras,
+solim&atilde;o, e oleo de mamona.<br />
+
+<br />
+
+Com tantos elementos n&atilde;o admirava nada que o snr. Manoel
+Pires fosse um sabio, n&atilde;o digo consumado,
+<span class="pagenum">[44]</span>intelligencia
+d'alguns cirurgi&otilde;es
+d'aquella redondeza.<br />
+
+<br />
+
+Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hypocrates honrou as cinzas
+de seu pai fazendo a cura radical d'uma espinhela cahida na pessoa da
+snr.<sup>a</sup> Therezinha da Fonte. Este triumpho da
+pharmacia sobre a
+espinhela elevou o snr. Pires, n&atilde;o direi at&eacute;
+&aacute;s
+columnas do <em>Zacuto</em>, mas
+at&eacute; onde podiam leval-o as suas
+aspira&ccedil;&otilde;es de mestre Manoel Pires, como
+respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos freguezes.<br />
+
+<br />
+
+Um segundo triumpho veio consolidar a reputa&ccedil;&atilde;o
+adquirida no primeiro. A cura d'uma
+<em>ostru&ccedil;&atilde;o</em>, que
+eu n&atilde;o sei o que &eacute;, e outra d'umas almorreimas
+renitentes, n&atilde;o deixou nada a desejar por aquelles
+arredores.<br />
+
+<br />
+
+O snr. Manoel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providencia lhe
+ced&ecirc;ra. Relacionou-se com o parocho, com o regedor, com o
+juiz de paz, e associou-se assim a um triumvirato, que decidia dos
+destinos da freguezia. E o que elles n&atilde;o fizessem dez leguas
+em redor ninguem o faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antonio da
+P&ocirc;&ccedil;a que o sobredito juiz de paz se
+correspondia com os <em>governos</em> de
+Lisboa.
+N&atilde;o posso abonar na sua integra a verdade do dito; mas
+n&atilde;o ser&aacute;
+sem fundamento a cousa, attendendo &aacute; importancia d'um juiz
+de paz, quando se tracta de fazer um deputado.<br />
+
+<br />
+
+O boticario era uma figura incapaz das honras anatomicas do romance.
+Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das
+bochechas cahiam-lhe em f&oacute;rma de sanefas sobre os
+collarinhos engommados com p&oacute;s de batata.<br />
+
+<br />
+
+As ventas eram dous vulc&otilde;es que resfolegavam lavas de
+simonte; e, n&atilde;o sei porque analogia estupenda, os dentes
+acavallados simulavam uma Herculanum em miniatura, um
+destro&ccedil;o de pilastras e ogivas e capiteis.<br />
+
+<br />
+
+Como quer que fosse, o snr. Manoel Pires, aos quarenta annos, contava
+quarenta conquistas das melhores <span class="pagenum">[45]</span>raparigas
+da freguezia. E, honra
+lhe seja feita, n&atilde;o deu nunca pasto nos soalheiros, nem
+consta que d&eacute;sse o menor escandalo. L&aacute; como elle
+fazia as cousas, e a felicidade dos seus triumphos, vai o leitor
+ajuizar, se, em desconto dos seus peccados, quizer l&ecirc;r uma
+pagina altamente dramatica da biographia do nosso amigo.<br />
+
+<br />
+
+Manoel Pires foi chamado um dia para curar uma d&ocirc;r de
+<em>reins</em> na pessoa da
+tia Maria do Eir&oacute;. N&atilde;o &eacute; necessario
+dizer que a molestia obedeceu. Na mesma casa curou da
+<em>triz</em> o tio Jo&atilde;o,
+e por fim talhou o <em>bicho</em> com
+perfei&ccedil;&atilde;o e felicidade &aacute; Mariquinhas,
+rapariga d'uma vez, e cousa de p&ocirc;r a cara a um lado a mais de
+quatro
+<em>Antonys</em> de s&oacute;cos que lhe
+andavam por l&aacute; a regougar
+palavras de ternura.<br />
+
+<br />
+
+O leitor n&atilde;o saber&aacute; o que &eacute; talhar o
+bicho, e eu, realmente lhe digo, que n&atilde;o consultei o
+diccionario das sciencias medicas. Fiquemos com a nossa ignorancia; e
+eu fa&ccedil;o sinceros votos porque nos n&atilde;o seja
+preciso nunca talhar o bicho.<br />
+
+<br />
+
+O caso &eacute; que o mestre Manoel Pires fallou ao
+cora&ccedil;&atilde;o da rapariga, e fez-lhe vibrar todas as
+cordas da viola de alma. N&atilde;o sei se a mo&ccedil;oila viu
+archanjos, serafins, e brizas, e raios de lua a pratear lagos d'anil. O
+que eu sei &eacute; que a boa da rapariga achava que eram pouco os
+olhos da cara para v&ecirc;r o snr. Manoel Pires, que, diga-se a
+verdade, n&atilde;o era sceptico, nem carpia tristezas por deshoras
+ao som do murmurar saudoso do sujo regato que lhe passava &aacute;
+porta.<br />
+
+<br />
+
+Felizmente para elle, o dono da casa foi atacado d'um
+<em>estalecidio</em> que lhe cahiu nos
+bofes, segundo a opini&atilde;o do boticario, e a cura demorada
+d'esta
+s&eacute;ria enfermidade proporcionou aos ternos amantes
+occasi&otilde;es ditosas de se trocarem palavrinhas de
+p&ocirc;rem o
+cora&ccedil;&atilde;o em mar&eacute;-cheia de poesia chula.
+<br />
+
+<br />
+
+O dialogo, que mais concorreu para a solu&ccedil;&atilde;o
+final, foi incontestavelmente o seguinte:<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[46]</span>
+<span class="smallcaps">Elle</span>.&#8213;O deus Cupido
+fez dos olhos
+de vm.<sup>ce</sup> duas settas, que trespassaram o meu
+cora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Ella</span>.&#8213;E as palavras
+de vm.<sup>ce</sup>,
+como o outro que diz, s&atilde;o palavrinhas de mel a que
+n&atilde;o
+<em>regeste</em> meu sensivel peito.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Elle</span>.&#8213;Eu bem queria
+dizer a
+vm.<sup>ce</sup> as ternuras do meu
+cora&ccedil;&atilde;o, e as
+congeminencias do meu
+pensamento. vm.<sup>ce</sup> &eacute; mais bonita que
+Venus, e Cupido
+&eacute; o deus do amor que me derrete aos p&eacute;s de
+vm.<sup>ce</sup><br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Ella</span>.&#8213;Pois se
+vm.<sup>ce</sup> me tem
+amor para o bom fim o deve ter, que quem mal anda mal acaba, como o
+outro que diz.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Elle</span>.&#8213;O fim para que
+eu fallei a
+vm.<sup>ce</sup> s&oacute; eu o sei; e a troco d'esse
+negocio faz mingoa
+fallarmos outra vez.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Ella</span>.&#8213;Quando
+vm.<sup>ce</sup> quizer, e
+Deus o fa&ccedil;a para bem, que l&aacute; eu querer-lhe isso
+quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se assim
+n&atilde;o &eacute;. Uma rapariga que tem seus
+<em>cretos</em>
+n&atilde;o deve de perdel-os, e vm.<sup>ce</sup> bem
+entende as cousas que
+&eacute; sabio e homem de cabe&ccedil;a, por muitos annos e
+b&ecirc;s.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Elle</span>.&#8213;E vm.<sup>ce</sup>
+que
+os conte.
+Ora pois; o que se ha-de fazer ao tarde fa&ccedil;a-se ao cedo. Se
+vm.<sup>ce</sup> me der duas palavrinhas esta noite,
+ouvir&aacute; da minha
+bocca as affectiveis ternuras do meu
+amante
+cora&ccedil;&atilde;o, onde o deus Cupido cravou as mais duras
+settas.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Ella</span>.&#8213;Pois se
+vm.<sup>ce</sup> promette
+de ter toda &aacute;quella de... sim, dizia eu, se vm.<sup>ce</sup>
+promette de ter toda &aacute;quella... sim... como diz
+l&aacute; o ditado...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Elle</span>.&#8213;Pelo deus
+Cupido lhe
+prometto a vm.<sup>ce</sup> de lhe n&atilde;o
+p&ocirc;r a minha
+m&atilde;o, nem palavra
+lhe direi que seja escontra a honra de vm.<sup>ce</sup>.<br />
+
+<br />
+
+A resistencia da rapariga era impossivel! Quando a eloquencia, assim
+inspirada do intimo da alma, regorgita em jorros nos labios d'um
+amante, &eacute; certo o triumpho. O amor &eacute; realmente o
+galvanismo dos estupidos,<span class="pagenum">[47]</span>d'esses
+cadaveres moraes, que se
+levantam do tumulo da intelligencia, e cantam lerias n'um
+alamir&eacute; celeste!
+N&atilde;o nos recordamos de ter lido em romances francezes um
+dialogo t&atilde;o fertil d'imagens, t&atilde;o vibrante de
+affectos, t&atilde;o digno, em fim, de ser copiado na carteira
+d'estes obtusos amadores das salas, para os quaes n&atilde;o ha
+assumpto, se lhes falharem as reminiscencias do borda d'agua.<br />
+
+<br />
+
+Manoel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados
+n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro causticos
+para a numerosa clinica que o esperava. Sem
+exagera&ccedil;&atilde;o, este
+pharmaceutico era uma pilula de Holloway viva! Resumia todas as
+virtudes da revalenta arabica. Logo que o anjo da guarda,<sup><a href="#1">[1]</a></sup>
+n&atilde;o podesse salvar o enfermo das
+aggress&otilde;es mephiticas do espirito mau, Manoel Pires, anjo
+sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade,
+quer na bocca do
+<em>estamago</em>, quer nos
+<em>bofes</em> quer nos
+<em>miolos</em>! Este homem despresava a
+nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos outros creadores
+de nomes barbaros que n&atilde;o fazem nada &aacute; saude do
+cidad&atilde;o. Honra lhe seja feita!<br />
+
+<br />
+
+O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma cousa enorme de
+cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam
+n&atilde;o sei que pythonissa magica, e, por fim de contas, era um
+relogio, cujo involucro suppria &aacute; farta uma bacia de
+semicupios.<br />
+
+<br />
+
+Eram 8 horas. Na ald&ecirc;a &eacute; esta a hora dos amantes.
+Manoel Pires enfiou as suas meias de l&atilde; at&eacute;
+&aacute; cintura, cal&ccedil;ou os sapatos confidentes de mil
+emprezas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho
+ferrado de amarello, e partiu.<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s 8 e um quarto, estava Manoel Pires no quinteiro da
+Mariquinhas, esperando-a, com a anciedade propria da sua
+organisa&ccedil;&atilde;o nervosa. Maus fados
+quizeram <span class="pagenum">[48]</span>que
+n'aquella
+noite, e a taes horas, andasse f&oacute;ra de casa o tio
+Jo&atilde;o do Eir&oacute;. A rapariga entendeu que
+devia esconder em casa o seu boticario, em quanto o pai n&atilde;o
+recolhesse. Quiz primeiro sumil-o na c&oacute;rte das vaccas, mas
+lembrou-se que o pai, antes de deitar-se, costumava hir afagar a sua
+vacca castanha, pela qual na feira dos 8 rejeit&aacute;ra sete
+moedas e um quarto! Metteu-o, depois, na loja da egua, mas a bestinha,
+egoista e ciumosa da manjadoura, n&atilde;o comprehendeu que o snr.
+Manoel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de couces, que
+por um tris o n&atilde;o remetteu &aacute;
+galeria posthuma dos pharmaceuticos illustres. Introduziu-o no curral
+dos carneiros, mas a entrada do infeliz amante foi recebida com uma
+escaramu&ccedil;a de marradas, como se um lobo cerval os
+surprehendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada, levou o seu
+paciente amante para a cozinha, levantou um
+al&ccedil;ap&atilde;o,
+f&ecirc;l-o descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal
+al&ccedil;ap&atilde;o, entrava o pai.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que fazes tu ahi, rapariga?&#8213;bradou elle.<br />
+
+<br />
+
+Mariquinhas atrapalhou-se, e co&ccedil;ou a cabe&ccedil;a com
+ambas as m&atilde;os.<br />
+
+<br />
+
+Deve saber-se que o tio Jo&atilde;o desconfiava que a filha, quando
+podia, lhe roubava das caixas o seu sacco de milho, que vendia para
+comprar, &aacute; surrelfa, o seu cord&atilde;osinho de ouro.<br />
+
+<br />
+
+Na loja, onde o boticario desceu, estavam as caixas do milho, e
+n&atilde;o ha nada mais natural que a
+irrita&ccedil;&atilde;o do velho, quando apanhou a rapariga em
+flagrante delicto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde est&aacute; a chave d'este al&ccedil;ap&atilde;o,
+rapariga? interpellou o tio Jo&atilde;o no mesmo
+diapas&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A chave tem-na vm.<sup>ce</sup><br />
+
+<br />
+
+O homem entrou no seu quarto, proximo da cozinha, e veio com a chave,
+resmungando:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora deixa-te estar, que n&atilde;o has-de c&aacute; tornar
+po'lo v&ecirc;so, minha cabra de n&atilde;o sei que diga!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[49]</span>
+Fechou o al&ccedil;ap&atilde;o, e foi-se deitar.<br />
+
+<br />
+
+A loja n&atilde;o tinha outra sahida. O boticario, por tanto,
+achava-se n'uma posi&ccedil;&atilde;o falsa, diz o
+leitor. Elle sabia l&aacute; o que eram
+posi&ccedil;&otilde;es falsas! O
+que elle fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse
+l&aacute; comsigo: &laquo;no ch&atilde;o n&atilde;o me
+deito eu.&raquo;
+Continuou fleugmaticamente a fazer o seu juizo critico do local em que
+se achava, e esbarrou com o nariz n'um presunto. N&atilde;o
+obstante, o snr. Manoel Pires tirou uma segunda conclus&atilde;o:
+&laquo;de fome n&atilde;o morro eu.&raquo; Mais adiante
+esbarrou n'uma pipa, e teve a pachorra de lhe tocar com os
+n&oacute;s dos dedos para v&ecirc;r se estava cheia. E o
+caso &eacute; que estava! Manoel Pires era um onagro de felicidade!
+&laquo;Deixa correr o mundo!...&raquo; disse elle, e estirou-se
+francamente sobre a caixa &aacute; espera d'um somno regalado.<br />
+
+<br />
+
+Pass&aacute;ra-se uma hora, e o boticario, come&ccedil;ando a
+pensar seriamente na sua situa&ccedil;&atilde;o, teve momentos
+de Napole&atilde;o na ilha de Santa Helena! Applicou o ouvido, e
+nem um sussurro ouviu na cozinha. Sentiu frio, por que em Dezembro
+n&atilde;o &eacute; facil aquecer o corpo no
+fog&atilde;o do amor. Deu alguns passos maquinaes, buscando uma
+sahida qualquer, e encontrou um albard&atilde;o.
+&laquo;Valha-nos ao menos isto,&raquo; disse elle, e pegou do
+albard&atilde;o,
+collocou-o convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar.<br />
+
+<br />
+
+Agora fallemos das colicas de Mariquinhas.<br />
+
+<br />
+
+Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto,
+j&aacute; que n&atilde;o posso dizer ao seu palheiro. Alma de
+pedreneira, ferida pelo fuzil do amor, a mo&ccedil;oila
+n&atilde;o atinava com a maneira de
+p&ocirc;r no olho da rua o seu querido pharmaceutico. Inspirada
+pelo derradeiro esfor&ccedil;o da sua d&ocirc;r sublime,
+lembrou-se de
+p&ocirc;r em execu&ccedil;&atilde;o um plano digno de
+melhor sorte.<br />
+
+<br />
+
+O pai resonava profundamente, Maria, p&eacute; ante p&eacute;,
+entrou-lhe no quarto e sahiu com as cal&ccedil;as, em cujo bolso
+estava a chave. Judith n&atilde;o sahiu mais contente da tenda de
+Holofernes!<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[50]</span>
+Abriu o al&ccedil;ap&atilde;o com subtileza, mas, no momento em
+que o levantava, os gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um
+sacco de milho que lhe emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama,
+gritando: &laquo;&oacute;
+rapariga!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se diz, em linguagem portugueza, sem um conhecimento
+profundo dos classicos, a
+atrapalha&ccedil;&atilde;o da cach&ocirc;pa! O tio
+Jo&atilde;o procurou as cal&ccedil;as,
+e n&atilde;o as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa
+(<em>proh
+pudor!</em>) saltou do quarto para a cozinha,
+j&aacute; quando a filha se esgueirava, escada abaixo, para o
+quinteiro.<br />
+
+<br />
+
+O tio Jo&atilde;o, contra todas as leis da decencia, foi atraz de
+sua filha, e filou-a pelo gasnete:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que hias tu fazer &aacute; loja, Maria?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Raios me parta (disse ella a chorar) se eu hia &aacute; caixa do
+p&atilde;o ou dos feij&otilde;es!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o a que hias tu l&aacute;, diabo?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim me Deus salve, em como lhe n&atilde;o tirei nem um graeiro
+da caixa...<br />
+
+<br />
+
+O tio Jo&atilde;o sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da
+noite lhe soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao
+al&ccedil;ap&atilde;o; mas... ai
+d'elle!... o al&ccedil;ap&atilde;o estava aberto, e o honrado
+chefe de
+familia resvalou com todo o peso da sua bestialidade at&eacute;
+&aacute; loja.<br />
+
+<br />
+
+Manoel Pires soltou um urro de surpreza, que j&aacute;
+n&atilde;o foi ouvido pelo Jo&atilde;o do Eir&oacute;, que
+desmai&aacute;ra.<br />
+
+<br />
+
+Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruido,
+mas suppoz que era o cahir do al&ccedil;ap&atilde;o. Atravessou
+a cozinha,
+amaldi&ccedil;oando a sua sorte, e metteu-se no seu quarto a pensar
+no desenlace d'aquella tragedia.<br />
+
+<br />
+
+A tia Maria do Eir&oacute;, acordando, n&atilde;o achou na cama
+o seu velho, e sentiu ciumes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com
+voz do intimo, tres vezes, o seu Jo&atilde;o, e como ninguem lhe
+respondesse, a mulher come&ccedil;ou a vestir-se, enfiando
+responsos a Santo Antonio, <span class="pagenum">[51]</span>de
+mistura com
+n&atilde;o sei quantas pragas, que ella rogava ao sumidouro das
+suas s&oacute;cas.<br />
+
+<br />
+
+E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra!<br />
+
+<br />
+
+A tia Maria accendeu a cand&ecirc;a, e foi direita &aacute;
+cozinha, que era o ponto convergente de todas as
+opera&ccedil;&otilde;es
+d'aquelle drama. Viu o al&ccedil;ap&atilde;o aberto, e
+n&atilde;o tinha ainda reconcentrado em si todo o horror d'aquella
+fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha l&aacute;
+debaixo. A pobre mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janella e
+grita desentoadamente &laquo;aqui d'el-rei
+ladr&otilde;es!&raquo; A visinhan&ccedil;a alarmou-se, e
+pouco depois os 60 fogos d'aquella ald&ecirc;a agglomeravam-se no
+quinteiro do tio Jo&atilde;o do Eir&oacute;.<br />
+
+<br />
+
+Os mais destemidos rapazes da ald&ecirc;a desceram &aacute;
+loja, e encontraram o pobre velho com a cabe&ccedil;a aberta por
+dous lados, e n&atilde;o sei quantas costellas desmanchadas. Reinou
+o silencio do mysterio! Ninguem conjecturava a causa d'aquelle estranho
+successo, quando um dos que farejavam os recantos da loja, descobre um
+p&eacute; por debaixo d'um albard&atilde;o! Levantou-se uma
+gritaria infernal: at&eacute; que o mais resoluto, afastando o
+albard&atilde;o, soltou um brado terrivel d'espanto:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor mestre Manoel Pires!<br />
+
+<br />
+
+H&atilde;o-de ter visto nos dramas descabellados um encapotado, que
+&eacute; necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma
+sucia de perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o effeito que o
+boticario produziu na chusma de valent&otilde;es de fouce
+ro&ccedil;adoura, que o
+cercavam.<br />
+
+<br />
+
+O tio Jo&atilde;o, tornando a si, foi direito ao boticario para
+agradecer-lhe a promptid&atilde;o com que viera cural-o. Mas a tia
+Maria poz tudo em pratos l&iacute;mpos: contou tudo a seu marido,
+que a
+escutava com cara de parvo, segundo convinha em semelhante conflicto.<br />
+
+<br />
+
+Mestre Manoel Pires hia ser apregoado ladr&atilde;o, por <span class="pagenum">[52]</span>
+que a sua importancia, passado o
+momento da surpreza, come&ccedil;ava a soffrer uma grande baixa na
+opini&atilde;o
+dos lavradores.<br />
+
+<br />
+
+Mas o seu caracter repellia tamanha affronta! A hora solemne d'uma
+honrosa satisfa&ccedil;&atilde;o estava
+chegada. O pharmaceutico, superando com a sua voz o ruido da turba
+conspirada, disse:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chamem c&aacute; a Mariquinhas que essa &eacute; que sabe do
+negocio como elle &eacute;.<br />
+
+<br />
+
+O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos d'amante,
+o segredo da cousa, quiz logo alli partir a cabe&ccedil;a do seu
+rival.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh su alma do diabo!... exclamou elle.<br />
+
+<br />
+
+Contiveram-no. O snr. Jo&atilde;o do Eir&oacute; chamou a
+filha. A pobre rapariga era uma cascata de lagrimas. Veio a muito
+custo, cuidando que era ent&atilde;o a <em>sua
+fim</em>, como ella depois disse.<br />
+
+<br />
+
+A sua appari&ccedil;&atilde;o impoz &aacute;s
+multid&otilde;es um respeitavel silencio.<br />
+
+<br />
+
+Mestre Manoel Pires fallou assim, com ar de inspirado, e o
+bra&ccedil;o direito em attitude prophetica:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta rapariga &eacute; minha mulher, se m'a derem. Eu vim aqui a
+troco d'ella. Em bom panno cahe uma nodoa. Mal remediado &eacute;
+mal acabado.
+&Aacute;manh&atilde; se Deus quizer l&ecirc;em-se os
+banhos, e n&atilde;o ha nada mais a
+fazer aqui!<br />
+
+<br />
+
+A Mariquinhas ficou com cara de tola, e n&atilde;o cabia n'um sino.
+Os paes, d'esses n&atilde;o se falla. Mestre Manoel era o casamento
+mais vantajoso da freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu
+&aacute; saude da boa companhia, e casou com grande prestito, onde
+n&atilde;o faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer
+de pendurar n'esse fausto dia o habito de Christo na casaca. Nas bodas
+celebres para sempre, nos annaes de Carrazedo de Monte-Negro,
+comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forn
+A Mariquinhas ficou com cara de tola, e n&atilde;o cabia n'um sino.
+Os paes, d'esses n&atilde;o se falla. Mestre Manoel era o casamento
+mais vantajoso da freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu
+&aacute; saude da boa companhia, e casou com grande prestito, onde
+n&atilde;o faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer
+de pendurar n'esse fausto dia o habito de Christo na casaca. Nas bodas
+celebres para sempre, nos annaes de Carrazedo de Monte-Negro,
+comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forno.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[53]</span>
+J&aacute; l&aacute; v&atilde;o cinco annos.<br />
+
+<br />
+
+Mestre Manoel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do
+verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires j&aacute; este
+anno veio a banhos de mar, e viu por ahi baronezas, que lhe despertaram
+o louvavel desejo de o ser.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="C5"></a>COUSAS QUE S&Oacute;
+EU SEI.</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>
+COUSAS QUE S&Oacute; EU SEI.</h2>
+
+<br />
+
+<h3>
+I.</h3>
+
+<br />
+
+Na ultima noite do carnaval, que foi justamente aos 8 dias do mez de
+Fevereiro, do corrente anno<sup><a href="#2">[2]</a></sup>
+pelas 9 horas e meia da noite entrava no
+theatro de S. Jo&atilde;o, d'esta heroica, e muito nobre e sempre
+leal cidade, um domin&oacute; de setim.<br />
+
+<br />
+
+D&eacute;ra elle os dous primeiros passos no pavimento da
+plat&ecirc;a, quando um outro domin&oacute; de velludo preto
+veio collocar-se-lhe frente a frente, n'uma
+contempla&ccedil;&atilde;o immovel.<br />
+
+<br />
+
+O primeiro demorou-se um pouco a medir as alturas do seu admirador, e
+virou-lhe as costas com indifferen&ccedil;a natural.<br />
+
+<br />
+
+O segundo, momentos depois, apparecia ao lado do primeiro, com a mesma
+atten&ccedil;&atilde;o, com a mesma
+penetra&ccedil;&atilde;o de vista.<br />
+
+<br />
+
+D'esta vez o domin&oacute;-setim aventurou uma pergunta <span class="pagenum">[58]</span>
+n'aquelle desgracioso falsete, que
+todos n&oacute;s conhecemos:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o quer mais do que isso?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do <em>qu'isso</em>!...&#8213;respondeu um
+mascara que passava por casualidade, esgani&ccedil;ando-se n'uma
+risada que raspava o tympano.&#8213;<em>Olha do
+qu'isso!</em>... J&aacute; vejo que &eacute;s
+pulha!...<br />
+
+<br />
+
+E retirou-se repetindo&#8213;<em>do qu'isso... do
+qu'isso...</em><br />
+
+<br />
+
+Mas o domin&oacute;-setim n&atilde;o soffreu, ao que parecia, a
+menor contrariedade com este charivari. E o domin&oacute;-velludo
+nem se quer acompanhou com os olhos o imprudente que viera
+embara&ccedil;ar-lhe uma resposta digna da pergunta, fosse ella
+qual fosse.<br />
+
+<br />
+
+O <em>setim</em> (fique assim conhecido para
+evitarmos palavras, e tempo que &eacute; um preciosissimo cabedal)
+o
+<em>setim</em>, d'esta vez, encarou com mais
+alguma reflex&atilde;o o
+<em>velludo</em>. Conjecturou
+supposi&ccedil;&otilde;es fugitivas, que se destruiam
+mutuamente. O <em>velludo</em> era
+for&ccedil;osamente uma mulher. A pequenez do corpo, cuja
+flexibilidade o domin&oacute; n&atilde;o encobria; a delicadeza
+da m&atilde;o, que protestava
+contra o ardil mentiroso d'uma luva larga; a ponta de verniz, que um
+descuido, no lan&ccedil;ar do p&eacute;,
+denunci&aacute;ra debaixo da fimbria
+do velludo, este complexo de attributos, quasi nunca reunidos em um
+homem, captaram as serias atten&ccedil;&otilde;es do outro,
+que,
+incontestavelmente, era um homem.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem quer que sejas, (disse o setim) n&atilde;o te gabo o gosto!
+Tom&aacute;ra eu saber o que v&ecirc;s em mim, que tanta
+impress&atilde;o te faz!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada&#8213;respondeu o velludo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, deixa-me, ou diz-me alguma cousa ainda que seja uma
+semsaboria, mais eloquente que o teu silencio.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te quero embrutecer. Sei que tens muito espirito, e
+seria um crime de leso-carnaval, se te dissesse alguma d'essas
+gra&ccedil;as salobras, capazes de fazer <span class="pagenum">[59]</span>
+calar para todo o sempre um Demosthenes
+de domin&oacute;.<br />
+
+<br />
+
+O <em>setim</em> mudou de opini&atilde;o
+a respeito do seu perseguidor. E n&atilde;o admira que o recebesse
+com rudeza no principio, porque, em Portugal, um domin&oacute; em
+corpo de mulher, que passeia &laquo;sosinha&raquo; n'um
+theatro, permitte umas suspeitas que n&atilde;o abonam as virtudes
+do domin&oacute;, nem lisongeam a vaidade de quem lhe recebe o
+conhecimento. Mas a mulher em quem recahe semelhante hypothese
+n&atilde;o conhece Demosthenes, nem diz
+<em>leso-carnaval</em>, nem agu&ccedil;a
+a phrase com o adjectivo <em>salobras</em>.<br />
+
+<br />
+
+O setim arrependeu-se da aspereza com que recebera os attenciosos
+olhares d'aquella incognita, que principiava a fazer-se valer como tudo
+aquillo que apenas se conhece por uma face boa. O
+<em>setim</em>
+juraria, pelo menos, que aquella mulher n&atilde;o era estupida. E,
+seja dito sem ten&ccedil;&atilde;o offensiva, j&aacute;
+n&atilde;o
+era insignificante a descoberta, porque &eacute; mais facil
+descobrir um mundo novo que uma mulher illustrada. &Eacute; mais
+facil ser Christov&atilde;o
+Colombo que Emilio Girardin.<br />
+
+<br />
+
+O <em>setim</em>, ouvida a resposta do
+<em>velludo</em>, offereceu-lhe o
+bra&ccedil;o, e gostou da boa vontade com que lhe foi recebido.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhe&ccedil;o (diz elle), que o teu contacto me espiritualisa,
+bello domin&oacute;...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Bello</em>, me chamas tu!...
+&Eacute; realmente uma leviandade que te n&atilde;o faz
+honra!... Se eu levantasse esta sanefa de s&ecirc;da, que me faz
+bonita, ficavas como aquelle poeta hespanhol que soltou uma
+exclama&ccedil;&atilde;o
+de terror na presen&ccedil;a d'um nariz... que nariz n&atilde;o
+seria, santo Deus!... N&atilde;o sabes essa historia?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu anjo!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Meu anjo!</em>... que gra&ccedil;a!
+Pois eu t'a conto. Como o poeta se chama n&atilde;o sei, nem me
+importa. Imagina tu que &eacute;s um poeta, phantastico como
+Lamartine, vulcanico como Byron, sonhador como Mac-Pherson, e
+<span class="pagenum">[60]</span>voluptuoso como
+Voltaire aos 60 annos.
+Imagina que o tedio d'esta vida chilra que se vive no Porto te obrigou
+a deixar no teu quarto a pythonissa descabellada das tuas
+inspira&ccedil;&otilde;es, e vieste por aqui dentro a
+procurar um passatempo n'estes passatempos alvares d'um baile de
+carnaval. Imagina que encontravas uma mulher extraordinaria de
+espirito, um anjo de eloquencia, um demonio de epygramma, em fim, uma
+d'estas crea&ccedil;&otilde;es miraculosas que fazem rebentar
+uma chamma improvisa no cora&ccedil;&atilde;o mais de
+g&ecirc;lo, e de lama, e
+de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a express&atilde;o,
+n&atilde;o
+&eacute; assim? Um cora&ccedil;&atilde;o de toucinho
+parece-te uma offensa ao bom
+senso anatomico, n&atilde;o &eacute; verdade? Pois, meu caro
+domin&oacute;; ha cora&ccedil;&otilde;es de toucinho
+estreme. S&atilde;o
+os cora&ccedil;&otilde;es, que re&ccedil;umam oleo em
+certas caras estupidas... por exemplo... olha este homem redondo, que
+aqui est&aacute;, com as palpebras em quatro ref&ecirc;gos, com
+os olhos vermelhos como os d'um coelho morto, com o queixo inferior
+pendente, e o labio escarlate e vidrado como o bordo d'uma pingadeira,
+orvalhada de banha de porco... Esta cara n&atilde;o te parece um
+grande rij&atilde;o?
+N&atilde;o cr&ecirc;s que este baboso tenha um
+cora&ccedil;&atilde;o de toucinho?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Creio, creio; mas falla mais baixo que o desgra&ccedil;ado
+est&aacute; a gemer debaixo do teu escalpello...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s tolo, meu cavalheiro! Elle entende-me l&aacute;!...
+&Eacute; verdade, ahi vai a historia do
+hespanhol, que tenho que fazer...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o queres deixar-me?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu?... queres que eu te deixe?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Palavra d'honra que n&atilde;o! se me deixas, retiro-me...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s muito amavel, meu querido Carlos...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conheces-me?!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa pergunta &eacute; ociosa. N&atilde;o &eacute;s tu
+<em>Carlos</em>!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; fallaste comigo na tua voz natural?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; mas come&ccedil;o a fallar agora.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[61]</span>
+E com effeito fallou. Carlos ouviu um som de voz sonora, metallica, e
+insinuante. Cada palavra d'aquelles labios mysteriosos sahia vibrante e
+afinada como a nota d'uma tecla. Tinha aquelle n&atilde;o-sei-que,
+que s&oacute; se
+escuta nas salas, onde fallam mulheres distinctas, mulheres que obrigam
+a gente a prestar f&eacute; aos privilegios,
+&aacute;s prerogativas, aos dons muito peculiares da aristocracia
+do sangue. Todavia, Carlos n&atilde;o se recordava de ter ouvido
+semelhante voz, nem semelhante linguagem.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Uma aventura de romance!&raquo; dizia elle l&aacute;
+comsigo, em quanto o domin&oacute;-velludo, conjecturando o enleio
+em que pozera o seu enthusiasta companheiro, continuava a fazer gala do
+mysterio, que &eacute; de todas as alfaias aquella que mais alinda
+a mulher! Se ellas podessem andar sempre de domin&oacute;! Quantas
+mediocridades em intelligencia rivalisariam com Jorge Sand! Quantas
+physionomias infelizes viveriam com a fama da mulher de Abdel-Kader!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o quem sou eu?&#8213;proseguiu ella&#8213;n&atilde;o me
+dir&aacute;s?... N&atilde;o dizes... pois ent&atilde;o,
+tu &eacute;s Carlos, e eu sou Carlota... fiquemos n'isto, sim?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em quanto eu n&atilde;o souber o teu nome, deixa-me chamar-te
+&laquo;anjo.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como quizeres; mas sinto dizer-te que n&atilde;o &eacute;s
+nada original! <em>Anjo!</em>... &eacute;
+um appellido t&atilde;o safado como
+<em>Ferreira</em>,
+<em>Silva</em>,
+<em>Sousa</em>,
+<em>Costa</em>... et cetera. N&atilde;o
+vale a pena questionarmos: baptisa-me &aacute; tua vontade. Ficarei
+sendo o teu &laquo;anjo de entrudo!&raquo; E a historia?...
+Imagina que te possuias d'um amor impetuoso por essa mulher, que
+phantasiaste linda, e insensivelmente lhe curvaste o joelho,
+pedindo-lhe uma esperan&ccedil;a, um sorriso affectuoso
+atrav&eacute;s da mascara, um aperto convulsivo de m&atilde;o,
+uma promessa, ao menos, de se mostrar um, dous, tres annos depois. E
+essa mulher, cada vez mais sublime, cada vez mais litterata, cada vez
+mais radiosa, protesta eloquentemente contra as tuas instancias,
+<span class="pagenum">[62]</span>declarando-se muita
+feia,
+indecentissima de nariz, horrivel at&eacute;, e, como tal, pesa-lhe
+na consciencia matar as tuas candidas illus&otilde;es, levantando a
+mascara. Tu que a n&atilde;o cr&ecirc;s, instas, supplicas,
+abrasas-te n'um
+ideal, que toca as extremas do ridiculo, e est&aacute;s capaz de
+lhe dizer que te abolas o craneo com um tiro de pistola, se ella
+n&atilde;o levanta a cortina d'aquelle mysterio que te dilacera uma
+por uma as fibras do cora&ccedil;&atilde;o. Chamas-lhe
+Beatriz, Laura, Fornarina, Natercia, e ella diz-te que se chama
+Custodia, ou Genoveva para te aguar a poesia d'esses nomes, que, na
+minha humilde opini&atilde;o, s&atilde;o
+completamente fabulosos. O domin&oacute; quer fugir-te
+ardilosamente, e tu n&atilde;o lhe deixas um passo livre, nem um
+dito espirituoso a outro, nem um lan&ccedil;ar d'olhos para os
+mascaras, que a fixam como quem sabe que est&aacute; alli uma
+rainha, envolta n'aquelle manto negro. Por fim, a tua
+persegui&ccedil;&atilde;o &eacute; tal, que a desconhecida
+Desdemona finge assustar-se, e sahe comtigo ao sal&atilde;o do
+theatro para levantar a mascara. Arfa-te o
+cora&ccedil;&atilde;o na anciedade d'uma esperan&ccedil;a:
+sentes o jubilo do cego de nascimento, que vai v&ecirc;r o sol;
+estremeces como a crean&ccedil;a a quem
+v&atilde;o dar um bonito, que ella n&atilde;o viu ainda, mas
+imagina ser quanto o seu cora&ccedil;&atilde;o infantil
+ambiciona n'este
+mundo... Ergue-se a mascara!... Horror!... v&ecirc;s um nariz... um
+nariz-pleonasmo, um nariz homerico, um nariz maior que o do duque de
+Choiseul, onde cabiam tres jesuitas a cavallo!... Rec&uacute;as!...
+sentes despregar-se-te o cora&ccedil;&atilde;o das entranhas,
+c&oacute;ras de
+vergonha, e foges desabridamente...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo isso &eacute; muito natural.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o ha nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe
+conto o resto, que &eacute; o mais interessante para um mancebo que
+faz do nariz d'uma mulher o thermometro de avaliar-lhe a temperatura do
+cora&ccedil;&atilde;o. Imagina, meu joven Carlos, que sahiste
+do theatro depois, e entraste na <em>Aguia
+d'Ouro</em> a comer
+ostras, segundo <span class="pagenum">[63]</span>o
+costume dos
+elegantes do Porto. E quando, pensavas, ainda aterrado, na aventura do
+nariz, te apparecia fatidico domin&oacute;, e se assentava ao teu
+lado, silencioso e immovel, como a larva das tuas asneiras, cuja
+memoria procuravas delir na imagina&ccedil;&atilde;o com os
+vapores do vinho... Perturba-se-te a digest&atilde;o, e sentes
+contrac&ccedil;&otilde;es no estomago, que te
+amea&ccedil;am com o vomito. A massa enorme d'aquelle nariz
+figura-se-te no prato em que tens a ostra, e j&aacute;
+n&atilde;o p&oacute;des
+levar &aacute; bocca um bocado do teu appetitoso manjar sem um
+fragmento d'aquelle fatal nariz &aacute; mistura. Queres transigir
+com o silencio do domin&oacute;; mas n&atilde;o
+p&oacute;des. A
+inexoravel mulher aproxima-se de ti, e tu, com um sorriso cruelmente
+sarcastico, pedes-lhe que te n&atilde;o entorne com o nariz o copo
+de vinho. Achas isto natural, Carlos?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha ahi crueldade de mais... O poeta devia ser mais generoso com a
+desgra&ccedil;a, porque a miss&atilde;o do
+poeta &eacute; a indulgencia n&atilde;o s&oacute; para as
+grandes
+affrontas, mas at&eacute; para os grandes narizes.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute;; mas o poeta, que transgrediu a sublime
+miss&atilde;o da generosidade para com as mulheres feias, vai ser
+punido. Imagina que aquella mulher, pungida pelo sarcasmo, levanta a
+mascara. O poeta ergue-se, e vai fugir com grande escandalo do dono da
+casa, que naturalmente tem a sorte do boticario de Nicolau Tolentino.
+Mas... vingan&ccedil;a do c&eacute;o!... aquella mulher ao
+levantar a mascara arranca do rosto um nariz posti&ccedil;o, e
+deixa v&ecirc;r a mais formosa cara que o c&eacute;o alumia ha
+seis mil annos! O hespanhol quer ajoelhar &aacute;quella dulcissima
+vis&atilde;o de um sonho, mas a nobre andaluza repelle-o com um
+gesto, onde o despreso est&aacute; associado &aacute;
+dignidade mais senhoril.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[64]</span>
+<h3>II.</h3>
+
+<br />
+
+Carlos scismava na applica&ccedil;&atilde;o da anedocta, quando
+o domin&oacute; lhe disse, adivinhando-lhe o pensamento:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me
+supponhas capaz de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modestia
+n&atilde;o vai t&atilde;o
+longe... Mas, meu pacientissimo amigo, ha em mim um defeito peor que um
+nariz enorme: n&atilde;o &eacute; physico nem
+moral; &eacute; um defeito repulsivo e repellente: &eacute; uma
+cousa
+que eu n&atilde;o sei exprimir-te com a linguagem do inferno, que
+&eacute; a unica e mais eloquente que eu sei fallar, quando me
+lembro que sou assim defeituosa!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s um enigma!...&#8213;atalhou Carlos, embara&ccedil;ado, e
+convencido de que encontr&aacute;ra um typo maior que os moldes
+tacanhos da vida romanesca em Portugal.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou, sou!...&#8213;acudiu ella com rapidez&#8213;sou aos meus proprios olhos um
+domin&oacute;, um continuado carnaval de lagrimas...
+Est&aacute; bom! n&atilde;o quero
+tristezas... Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu
+n&atilde;o vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas
+aqui, procurei-te, esperei-te mesmo com anciedade, porque sei que
+&eacute;s espirituoso, e podias, sem prejuizo da tua dignidade,
+ajudar-me a passar algumas horas de illus&atilde;o. F&oacute;ra
+d'aqui, tu ficas sendo
+Carlos, e eu serei sempre uma incognita muito grata ao seu companheiro.
+Agora acompanha-me: vamos ao camarote 10 da 2.&ordf; ordem.
+Conheces
+aquella familia?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma gente da provincia. N&atilde;o digas tu nada;
+deixa-me fallar a mim, e ver&aacute;s que n&atilde;o passas
+mal... &Eacute; muito orgulho, n&atilde;o achas?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o acho, n&atilde;o, minha querida; mas eu antes
+<span class="pagenum">[65]</span>queria
+n&atilde;o
+desperdi&ccedil;ar estas horas porque fogem.
+Tu vaes fallar, mas n&atilde;o &eacute; comigo. Sabes que tenho
+ciumes de ti?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei que tens ciumes de mim... Sabes tu que eu tenho um profundo
+conhecimento do cora&ccedil;&atilde;o
+humano? J&aacute; v&ecirc;s que n&atilde;o sou a mulher que
+imaginas, ou quererias que eu fosse. N&atilde;o comeces a
+desvanecer-te com uma conquista esperan&ccedil;osa. Faz calar o teu
+amor proprio, e emprega a tua vaidade em bloquear com ternuras
+calculadas uma innocente a quem possas fazer feliz, em quanto a
+enganas...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgas, por tanto, que te minto!...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o julgo, n&atilde;o. Se mentes a alguem &eacute;
+a ti proprio: bem v&ecirc;s que n&atilde;o te creio... Tempo
+perdido! Anda, vem comigo, se n&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sen&atilde;o... o que?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sen&atilde;o... olha...<br />
+
+<br />
+
+E a melindrosa desconhecida largou-lhe o bra&ccedil;o com
+delicadeza, e retirara-se, apertando-lhe a m&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Carlos, sinceramente commovido, apertou aquella m&atilde;o, com o
+frenesi apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por
+quem se mataria.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o&#8213;exclamou elle com enthusiasmo&#8213;n&atilde;o me
+fujas, porque me levas a esperan&ccedil;a mais bella que o meu
+cora&ccedil;&atilde;o concebeu. Deixa-me adorar-te, sem te
+conhecer!... N&atilde;o levantes nunca esse v&eacute;o... mas
+deixa-me v&ecirc;r a face da tua alma, que deve ser a realidade
+d'um sonho de vinte e sete annos...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s dramatico, meu poeta! Eu sinto realmente a minha
+pobreza de palavras garrafaes... Queria ser uma vestal d'estilo
+fervente para sustentar o fogo sagrado do dialogo... O monologo deve
+can&ccedil;ar-te, e a tragedia desde Sophocles at&eacute;
+n&oacute;s n&atilde;o
+p&oacute;de dispensar uma segunda pessoa...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s um prodigio...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De litteratura grega, n&atilde;o &eacute; verdade? Inda sei
+<span class="pagenum">[66]</span> muitas outras
+cousas da Grecia. A
+Lais tambem era muito versada, e repetia as rapsodias gregas com um
+garbo sublime; mas a Lais era... sabes tu o que ella era?... E serei eu
+o mesmo? J&aacute; v&ecirc;s que a
+litteratura n&atilde;o &eacute; symptoma de virtudes dignas da
+tua
+affei&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+Tinham chegado ao camarote na 2.&ordf; ordem. O
+domin&oacute;-velludo
+bateu, e a porta foi, como devia ser aberta.<br />
+
+<br />
+
+A familia, que occupava o camarote, compunha-se de muitas pessoas, sem
+typo, vulgarissimas, e prosaicas de mais para captarem a
+atten&ccedil;&atilde;o d'um leitor
+avesso a trivialidades. Todavia, estava ahi uma mulher que valia um
+mundo, ou cousa maior que o mundo&#8213;o cora&ccedil;&atilde;o d'um
+poeta.<br />
+
+<br />
+
+As rosas purpurinas dos vinte annos tinham-lhes sido crestadas pelo
+halito abrasado dos sal&otilde;es. A placidez extemporanea d'uma
+vida agitada, via-se-lhe no rosto protestando n&atilde;o contra os
+prazeres, mas contra a debilidade d'um sexo, que n&atilde;o
+p&oacute;de acompanhar com a materia as
+evolu&ccedil;&otilde;es desenfreadas do espirito.
+Mas que olhos! mas que vida! que electricidade no frenesi d'aquellas
+fei&ccedil;&otilde;es! que
+projec&ccedil;&atilde;o de uma sombra azulada lhe descia das
+palpebras! Era uma mulher, em cujo rosto transluzia a soberba, talvez
+demasiada, da sua superioridade.<br />
+
+<br />
+
+O domin&oacute;-velludo estendeu-lhe a m&atilde;o, e chamou-lhe
+Laura.<br />
+
+<br />
+
+Seria Laura? &Eacute; certo que ella estremeceu, e recuou a
+m&atilde;o repentinamente como se uma vibora lh'a tivesse mordido.<br />
+
+<br />
+
+Aquella palavra symbolisava um mysterio dilacerante: era a senha de uma
+grande lucta em que a pobre senhora devia sahir escorrendo sangue.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Laura&#8213;repetiu o domin&oacute;&#8213;n&atilde;o me apertas a
+m&atilde;o? Deixa-me ao menos sentar-me perto... muito perto de
+ti... sim?<br />
+
+<br />
+
+O homem, que mais proximo estava de Laura, <span class="pagenum">[67]</span>afastou-se
+urbanamente para deixar
+aproximar um mascara, que denunciara o sexo pela voz, e a
+distinc&ccedil;&atilde;o pela m&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+E Carlos nunca mais despregou os olhos d'aquella mulher, que revelava a
+cada instante um pensamento nas variadas physionomias com que queria
+disfar&ccedil;ar a sua angustia intima.<br />
+
+<br />
+
+A desconhecida fez signal a Carlos para que se aproximasse. Carlos,
+enleado nos embara&ccedil;os naturaes d'aquella
+situa&ccedil;&atilde;o toda para elle enygmatica,
+recusava cumprir as imperiosas determina&ccedil;&otilde;es
+d'uma mulher
+que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que
+pareciam familiares de Laura, n&atilde;o deram muita importancia
+aos domin&oacute;s. Conjecturaram, primeiro, e quando suppozeram
+que tinham conhecido as visitas, deixaram em plena liberdade as duas
+mulheres que se fallavam de perto como duas amigas intimas. O
+cavalheiro passou por um tal Eduardo, e a desconhecida tiveram-n'a por
+uma D. Antonia.<br />
+
+<br />
+
+Laura humedecia os labios com a lingua. As surprezas pungentes produzem
+uma febre, e aquecem o mais bem calculado sangue frio. A incognita,
+profundamente conhecedora da situa&ccedil;&atilde;o da sua
+victima, fallou ao
+ouvido de Carlos:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estuda-me aquella physionomia. Eu n&atilde;o estou em
+circumstancias de ser Max... Soffro demasiado para contar as
+pulsa&ccedil;&otilde;es d'este
+cora&ccedil;&atilde;o. Se te sentires condoido d'esta mulher,
+tem compaix&atilde;o de mim, que sou mais desgra&ccedil;ada que
+ella.<br />
+
+<br />
+
+E voltando-se para Laura:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Procuro, ha quatro annos, uma occasi&atilde;o de prestar
+homenagem &aacute; tua conquista. Deus, que &eacute;
+Deus, n&atilde;o despreza os incensos do verme da terra, nem
+esconde &aacute; vista dos homens a sua fronte magestosa n'um manto
+de estrellas. Tu, Laura, que &eacute;s mulher, embora os homens te
+chamem anjo, n&atilde;o despresar&aacute;s vaidosa
+a <span class="pagenum">[68]</span>homenagem d'uma
+pobre creatura, que
+vem dep&ocirc;r a teus p&eacute;s o obulo sincero da sua
+adora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Laura n&atilde;o levantava os olhos do leque; mas a m&atilde;o,
+que o sustinha, tremia; e os olhos, que o contemplavam,
+pareciam absortos n'um quadro afflictivo.<br />
+
+<br />
+
+E o domin&oacute; continuou:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foste muito feliz, minha cara amiga! Eras digna de o ser. Colheste o
+fructo aben&ccedil;oado da
+aben&ccedil;oada semente que o Senhor fecundou no teu
+cora&ccedil;&atilde;o de pomba!... Olha, Laura, deves dar
+muitas gra&ccedil;as &aacute; Providencia, que velou os teus
+passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no abysmo da
+prostitui&ccedil;&atilde;o, subiste, radiante de virtudes, ao
+throno das virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal! &Eacute;s uma
+excep&ccedil;&atilde;o a milhares de desgra&ccedil;adas,
+que nasceram em estofos de damasco, e cresceram em perfumes de
+opulencia. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas
+da miseria, cresceste nos andrajos da indigencia, ainda viste com os
+olhos da raz&atilde;o a desgra&ccedil;a
+sentada &aacute; cabeceira do teu leito... e, com tudo, eis-te ahi
+rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que p&oacute;des
+insultar toda essa turba de mulheres, que te
+admiram!... Ha tanta mulher infeliz!... Queres saber a historia
+d'uma?...<br />
+
+<br />
+
+Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que
+estava, n&atilde;o tinha ainda balbuciado um monosyllabo; mas a
+urgente pergunta, duas vezes repetida, do domin&oacute;, obrigou-a
+a responder affirmativamente com um gesto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.<br />
+
+<br />
+
+Um dos individuos, que estava presente, e ouvira pronunciar
+<em>Laura</em>, perguntou
+&aacute; mulher que assim era chamada:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elisa, ella chama-te <em>Laura</em>?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu pai...&#8213;respondeu Elisa, titubeando.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[69]</span> &#8213;Chamo Laura,
+chamo... e que tem l&aacute; isso, snr.
+visconde?&#8213;Atalhou a incognita, com affabilidade, erguendo o falsete
+para ser bem ouvida.&#8213;&Eacute; um nome de carnaval, que passa com
+os domin&oacute;s. Quarta feira de cinza torna a filha de v. exc.<sup>a</sup>
+a chamar-se Elisa.<br />
+
+<br />
+
+O visconde sorriu-se, e o domin&oacute; continuou, abaixando a voz,
+e fallando naturalmente:<br />
+
+<br />
+
+<h3>III.</h3>
+
+<br />
+
+&#8213;Henriqueta...<br />
+
+<br />
+
+Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas as fibras de Elisa. O
+rosto incendiou-se-lhe d'aquelle encarnado do pudor ou da raiva. Esta
+sensa&ccedil;&atilde;o violenta n&atilde;o podia ser
+desapercebida. O visconde, que parecia estranho &aacute;
+conversa&ccedil;&atilde;o intima
+d'aquellas suppostas amigas, n&atilde;o o p&ocirc;de ser
+&aacute;
+agita&ccedil;&atilde;o febril de sua filha.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tens, Elisa?!&#8213;perguntou elle sobresaltado.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada, meu pai... Foi um ligeiro incommodo... Estou quasi boa...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se queres respirar vamos ao sal&atilde;o, ou vamos para casa...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Antes para casa&#8213;respondeu Elisa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou mandar buscar a sege&#8213;disse o visconde; e retirou-se.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o v&aacute;s, Elisa...&#8213;disse o domin&oacute;,
+com uma voz imperiosa, semelhante a uma amea&ccedil;a
+inexoravel.&#8213;N&atilde;o v&aacute;s... porque, se vaes, contarei
+a todo o mundo uma historia que s&oacute; tu has-de saber. Este
+outro
+domin&oacute;, que tu n&atilde;o conheces, &eacute; um
+cavalheiro:
+n&atilde;o temas a menor imprudencia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me martyrises!&#8213;disse Elisa.&#8213;Eu sou infeliz de mais,
+para ser flagellada com a tua vingan&ccedil;a... Tu &eacute;s
+Henriqueta, n&atilde;o &eacute;s?<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[70]</span> &#8213;Que te importa a
+ti saber quem eu sou?!...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Importa muito... Sei que &eacute;s desgra&ccedil;ada!...
+N&atilde;o sabia que vivias no Porto; mas palpitou-me o
+cora&ccedil;&atilde;o que eras tu, apenas me chamaste Laura.<br />
+
+<br />
+
+O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege n&atilde;o podia
+tardar, e convidando a filha para dar alguns passeios no
+sal&atilde;o do theatro. Elisa satisfez a carinhosa anciedade do
+pai, dizendo que se sentia boa, e pedindo-lhe que se demorasse
+at&eacute; mais tarde.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde julgavas tu que eu existia? No cemiterio n&atilde;o
+&eacute; assim?&#8213;perguntou Henriqueta.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o: sabia que vivias, e prophetisava que devia
+encontrar-te... Que historia me queres tu contar?... a tua? Essa
+j&aacute; eu sei... imagino-a... tens sido muito infeliz... Olha,
+Henriqueta... deixa-me dar-te esse tratamento affectuoso com que nos
+conhecemos, com que
+fomos t&atilde;o amigas, alguns fugitivos dias, no tempo em que o
+destino nos marcava com o mesmo stygma de infortunio...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mesmo... n&atilde;o!...&#8213;atalhou Henriqueta.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mesmo, sim, o mesmo... e se me for&ccedil;as a contradizer-te,
+direi que invejo a tua sorte, seja ella qual f&ocirc;r...<br />
+
+<br />
+
+Elisa chorava, e Henriqueta emmudecera. Carlos estava impaciente pelo
+desfecho d'esta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas
+duas mulheres, e fazel-as amigas, sem saber a raz&atilde;o porque
+eram inimigas. A belleza imp&otilde;e-se &aacute;
+compaix&atilde;o. Elisa
+era bella, e Carlos era d'uma sensibilidade extremosa. Nem elle
+j&aacute; sabia decidir-se entre aquellas duas mulheres. A
+mascarada <em>poderia ser</em>, mas a outra
+<em>era</em> um anjo de sympathia e
+formosura. O espirito gosta do mysterio que esconde o bello; mas
+decide-se pela belleza real, sem mysterio.<br />
+
+<br />
+
+Henriqueta, depois de alguns minutos de silencio, durante os quaes
+n&atilde;o era possivel avaliar-lhe o
+cora&ccedil;&atilde;o <span class="pagenum">[71]</span>pela
+exterioridade da physionomia,
+exclamou com impeto, como se despertasse d'um sonho, d'aquelles intimos
+sonhos de d&ocirc;r, em que a alma se reconcentra:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Teu marido?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; em Londres.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha quanto tempo o n&atilde;o viste?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha dous annos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abandonou-te?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abandonou-me.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu?... abandonaste-o?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o concebo a pergunta...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda o amas?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com paix&atilde;o?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com delirio...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escreves-lhe?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me responde... Despresa-me, e chama-me
+<em>Laura</em>.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elisa!&#8213;disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a
+m&atilde;o com enthusiasmo nervoso&#8213;Elisa! perd&ocirc;o-te...
+&Eacute;s bem mais desgra&ccedil;ada que
+eu, porque tens um homem que p&ocirc;de chamar-te Laura, e eu
+n&atilde;o tenho sen&atilde;o um nome... sou Henriqueta! Adeus.
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado d'aquelle prologo
+d'um romance. Henriqueta tomou-lhe o bra&ccedil;o com
+precipita&ccedil;&atilde;o, e sahiu do
+camarote abaixando levemente a cabe&ccedil;a aos cavalheiros, que
+se davam tractos por adivinhar o segredo d'aquella conversa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou
+Henriqueta; mas n&atilde;o me atrai&ccedil;oes, se queres a
+minha amisade.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como hei-de eu atrai&ccedil;oar-te, se n&atilde;o sei quem
+&eacute;s? P&oacute;des chamar-te Julia em vez de Henriqueta,
+que, nem por isso te fico conhecendo mais... Tudo mysterios! Tens-me,
+ha mais d'uma hora, n'um estado de <span class="pagenum">[72]</span>tortura!
+Eu n&atilde;o sirvo para
+estas emboscadas... Diz-me quem &eacute; aquella mulher...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o viste que &eacute; D. Elisa Pimentel, filha do
+visconde do Prado?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o a conhecia...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que mais queres que eu te diga?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muitas outras cousas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes
+tem aquella Laura, que se chama Elisa. Falla-me do marido d'aquella
+mulher...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu te digo... O marido d'aquella mulher chama-se Vasco de Seabra...
+Est&aacute;s satisfeito?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... Quero saber que rela&ccedil;&otilde;es tens
+tu com esse Vasco ou com aquella Laura?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o saber&aacute;s mais nada, se fores impaciente.
+Imponho-te mesmo um profundo silencio a respeito do que ouviste.
+&Aacute; menor pergunta que me fa&ccedil;as,
+deixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz parecer uma
+mulher de soalheiro. Eu contrahi comtigo a
+obriga&ccedil;&atilde;o de te contar a minha vida?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; mas contrahiste com a minha alma a
+obriga&ccedil;&atilde;o de eu me interessar na tua vida e nos
+teus infortunios desde este momento.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado, cavalheiro!&#8213;Juro-te uma sincera amisade.&#8213;Has-de ser o meu
+confidente.<br />
+
+<br />
+
+Estavam, outra vez, na plat&ecirc;a. Henriqueta aproximou-se ao
+quarto camarote da primeira ordem, firmou o p&eacute; de fada na
+frisa, segurou-se ao peitoril do camarote, e travou
+conversa&ccedil;&atilde;o com a familia que o
+occupava. Carlos acompanhou-a em todos estes movimentos, e preparou-se
+para um novo enygma.<br />
+
+<br />
+
+Segundo o costume, as m&atilde;os de Henriqueta passaram por uma
+analyse rigorosa. N&atilde;o era possivel,
+por&eacute;m, fazel-a tirar a luva da m&atilde;o esquerda.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Domin&oacute;, porque n&atilde;o deixas v&ecirc;r este
+annel?&#8213;Perguntava uma senhora de olhos negros, e vestida de negro,
+como uma viuva rigorosamente enluctada.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[73]</span> &#8213;Que te importa o
+annel, minha querida Sophia!?... Fallemos de ti,
+aqui em segredo. Ainda vives melancolica, como a Dido da fabula?
+Fica-te bem essa c&ocirc;r de esquifes, mas n&atilde;o
+sustentas o caracter
+artistico com perfei&ccedil;&atilde;o. A tua tristeza
+&eacute;
+fingida, n&atilde;o &eacute; verdade?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me offendas, domin&oacute;, que eu n&atilde;o
+te mere&ccedil;o essa injuria... A desgra&ccedil;a nunca se
+finge...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disseste uma verdade, que &eacute; a tua
+condemna&ccedil;&atilde;o. Eu, se tivesse sido abandonada por
+um amante, n&atilde;o vinha aqui dar-me em espectaculo a um baile
+de mascaras. A desgra&ccedil;a n&atilde;o se finge,
+&eacute;
+verdade; mas a saudade esconde-se para chorar, e a vergonha
+n&atilde;o se ostenta radiosa d'esse sorriso que te brinca nos
+labios... Olha, minha amiga, ha umas mulheres que nasceram para esta
+&eacute;poca, e para estes homens. Ha outras que a Providencia
+caprichosa atirou a esta gera&ccedil;&atilde;o
+corrompida como os imperadores romanos atiravam os christ&atilde;os
+ao amphitheatro dos le&otilde;es. Felizmente que tu n&atilde;o
+&eacute;s das segundas, e sabes harmonisar com o teu genio
+folgas&atilde;o e desleixado uma hypocrisia que te vai bem n'um
+soph&aacute; de pennas, onde te recostas com um perfeito
+conhecimento das attitudes languidas das mulheres can&ccedil;adas
+do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te por desfastio!... &Eacute;s
+a unica mulher para quem este paiz &eacute; pequeno.
+Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abbades de Versailles, e
+as filhas do Regente, e as Helo&iuml;sas desenvoltas dos abbades, e
+as aias da duqueza do Maine... et cetera. Isto por c&aacute;
+&eacute; pequenissimo para as
+Phryneas. Uma mulher da tua indole morre asphyxiada n'este ambiente
+pesado em que o cora&ccedil;&atilde;o, nas suas
+expans&otilde;es romanticas, encontra, quasi sempre, a
+m&atilde;o burgueza das conveniencias a tapar-lhe os
+respiradouros... Parece que te enfadas de mim?...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te enganas, domin&oacute;... Obsequeias-me se me
+n&atilde;o deres o incommodo de te mandar retirar.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[74]</span> &#8213;&Eacute;s
+muito delicada, minha nobre Sophia!... J&aacute;
+agora, por&eacute;m, deixa-me dar-te uma
+id&ecirc;a mais precisa d'esta mulher que te enfada, e que, apesar
+das tuas injusti&ccedil;as, se interessa na tua sorte. Diz-me
+c&aacute;... Tens uma sincera paix&atilde;o, uma saudade
+pungente por aquelle bello capit&atilde;o de cavallaria, que te
+deixou, t&atilde;o
+sosinha, com as tuas agonias de amante?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que te importa?...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s cruel! Pois n&atilde;o ouves o tom sentimental com
+que te fa&ccedil;o esta pergunta?... Quantos annos tens?...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Metade e outros tantos...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A resposta n&atilde;o me parece tua... Aprendeste essa
+vulgaridade com a filha do teu sapateiro?... Ora olha: tu tens 38
+annos, a n&atilde;o ser mentiroso o assento de baptismo, que se
+l&ecirc; no cartorio da freguezia dos Martyres em Lisboa.<br />
+
+<br />
+
+Aos vinte annos amavas com ternura um tal Pedro Sepulveda. Aos vinte e
+cinco, amavas com paix&atilde;o, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30,
+amavas com delirio, um tal Sebasti&atilde;o de Meirelles. Aos 35,
+amavas, em Londres, com frenesi um tal... como se chamava...
+n&atilde;o me recordo... diz-me, por piedade o nome d'esse homem,
+que, se n&atilde;o, fica o meu discurso sem o effeito do drama...
+N&atilde;o dizes, m&aacute;?... Ai!... eu tenho
+aqui a mnemonica...<br />
+
+<br />
+
+Henriqueta tirou a luva da m&atilde;o esquerda, e deixou
+v&ecirc;r um annel... Sophia estremeceu, e c&oacute;rou
+at&eacute; &aacute;s orelhas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; te recordas?... N&atilde;o c&oacute;res, minha
+querida amiga... que n&atilde;o fica bem ao teu caracter de mulher
+que conhece o mundo pela face positiva... Deixa-me agora arredondar o
+periodo, como dizem os litteratos... Ora tu que amaste desenfreadamente
+cinco antes do sexto homem, como queres fingir debaixo d'esse vestido
+negro, um cora&ccedil;&atilde;o varado de saudades e
+orph&atilde;o de consola&ccedil;&otilde;es?... Adeus, minha
+bella hypocrita...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[75]</span>
+Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o
+bra&ccedil;o a Carlos.<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+IV.</h3>
+
+<br />
+
+Eram tres horas.<br />
+
+<br />
+
+Henriqueta disse que se retirava, depois de victimar com seus ligeiros,
+mas pungentes gracejos, alguns d'aquelles muitos que provocam o
+sarcasmo s&oacute; com a presen&ccedil;a, s&oacute; com o
+vulto corporal, s&oacute;
+com a semsaboria de um remoque parvo e pretencioso. O carnaval
+&eacute; uma exposi&ccedil;&atilde;o annual d'estes
+infelizes.<br />
+
+<br />
+
+Carlos, ao v&ecirc;r que Henriqueta se retirava com um segredo que
+tanto irrit&aacute;ra a sua curiosidade, instou com delicadeza, com
+meiguice, e at&eacute; com resentimento, pela realidade de uma
+esperan&ccedil;a, que fizera a sua felicidade de algumas horas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o me arrependo&#8213;disse elle&#8213;de ter sido a voluntaria
+testemunha de teus desfor&ccedil;os... Ainda mesmo que me tivessem
+conhecido, e tu fosses uma mulher licenciosa e depravada,
+n&atilde;o me arrependeria... Ouvi-te, illudi-me na
+esperan&ccedil;a vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser o
+escolhido para sentir de perto as pulsa&ccedil;&otilde;es
+vertiginosas do teu
+cora&ccedil;&atilde;o... estou recompensado de mais... Ainda
+assim, Henriqueta, eu n&atilde;o tenho pejo de abrir-te a minha
+alma, confessando-te um desejo de conhecer-te que n&atilde;o posso
+illudir... Este desejo vaes-m'o tu convertendo n'uma d&ocirc;r; e
+ser&aacute;
+logo uma saudade insupportavel, que te faria compaix&atilde;o se
+soubesses avaliar o que &eacute; na minha alma um desejo
+<em>impossivel</em>. Se tu m'o n&atilde;o
+dizes, quem me dir&aacute; o teu nome?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabes que sou Henriqueta?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que importa? E ser&aacute;s tu Henriqueta?<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[76]</span> &#8213;Sou... juro-te
+que sou...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o basta isto... Ora diz-me... n&atilde;o sentes a
+precis&atilde;o de ser-me grata?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A que, meu cavalheiro?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grata ao melindre com que te tenho tractado, grata &aacute;
+delicadeza com que te pe&ccedil;o uma
+revela&ccedil;&atilde;o da tua vida, e grata a este impulso
+invencivel que me manda ajoelhar-te... Ser&aacute; nobre zombar
+d'um amor que
+involuntariamente fizeste nascer?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te illudas, Carlos&#8213;replicou Henriqueta n'um tom de
+seriedade, semelhante ao de uma m&atilde;i que aconselha seu filho.
+O amor n&atilde;o &eacute; isso que pica a
+tua curiosidade. As mulheres s&atilde;o faceis de transigir de boa
+f&eacute; com a mentira, e, pobres mulheres!... succumbem muitas
+vezes &aacute; eloquencia artificiosa d'um conquistador. Os homens,
+fartos de estudarem as paix&otilde;es na sua origem, e enfadados
+das rapidas illus&otilde;es que elles choram todos os dias,
+est&atilde;o promptos sempre a declararem-se affectados da
+cholera-paix&atilde;o, e nunca apresentam
+<em>carta-limpa</em> de scepticos. De maneira
+que o sexo fragil das chimeras sois v&oacute;s, creancinhas de toda
+a vida, que brincaes aos trinta annos com a mulher como aos seis
+brincaveis com os cavallinhos de pau, e os fradinhos de sabugo! Olha,
+Carlos, eu n&atilde;o sou ingrata... Vou-me despedir de ti, mas
+hei-de conversar comtigo ainda. N&atilde;o instes; abandona-te
+&aacute; minha generosidade, e
+ver&aacute;s que alguma cousa lucraste em me encontrar e em me
+n&atilde;o conhecer. Adeus.<br />
+
+<br />
+
+Carlos acompanhou-a com os olhos, e permaneceu alguns minutos n'uma
+especie de idiotismo, quando a viu desapparecer &aacute; sahida do
+theatro. O seu primeiro pensamento foi seguil-a; mas a prudencia
+lembrou-lhe que era uma indignidade. O segundo foi empregar a intriga
+astuciosa at&eacute; roubar alguma
+revela&ccedil;&atilde;o &aacute;quella Sophia da primeira
+ordem ou &aacute; Laura da segunda. N&atilde;o lhe lembraram
+recursos, nem eu sei quaes elles poderiam <span class="pagenum">[77]</span>ser.
+Laura e Sophia, para
+dissiparem completamente a esperan&ccedil;a anciosa de Carlos,
+tinham-se retirado. Era necessario esperar, era necessario confiar
+n'aquella mulher extraordinaria, cujas promessas o
+alvoro&ccedil;ado poeta traduzia em mil vers&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+Carlos retirou-se, e esqueceu n&atilde;o sei quantas mulheres, que
+ainda, na noite anterior, lhe povoaram os sonhos. Ao amanhecer,
+ergueu-se, e escreveu as reminiscencias vivas da scena, quasi fabulosa,
+que lhe transtornava o plano de vida.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o houve nunca um cora&ccedil;&atilde;o
+t&atilde;o ambicioso de futuro, t&atilde;o fervente de poesia,
+e t&atilde;o phantastico de
+conjecturas! Carlos adorava seriamente aquella mulher! Como estas
+adora&ccedil;&otilde;es se afervoram com
+t&atilde;o pouco, n&atilde;o sei eu: mas que o amor
+&eacute; assim, vou eu jural-o, e espero que os meus amigos me
+n&atilde;o deixem mentir.<br />
+
+<br />
+
+Imaginem, por tanto, a inquieta&ccedil;&atilde;o d'aquelle
+grande espiritualista, quando viu passarem, vagarosos e enfadonhos,
+oito dias, sem que o mais ligeiro indicio lhe viesse confirmar a
+existencia de Henriqueta! N&atilde;o direi que o desesperado amante
+appellou para o supremo tribunal das paix&otilde;es impossiveis. O
+suicidio n&atilde;o lhe
+passou nunca pela imagina&ccedil;&atilde;o; e muito sinto que
+esta
+verdade diminua as sympathias que o meu heroe poderia grangear. A
+verdade, por&eacute;m, &eacute; que o apaixonado
+mancebo vivia sombrio, isolava-se contra os seus habitos socialmente
+galhofeiros, abominava as impertinencias de sua m&atilde;i que o
+consolava com anedoctas tragicas a respeito de rapazes cegos de amor,
+e, emfim, soffrera a ponto tal, que resolvera abandonar Portugal, se,
+no fim de quinze dias a fatidica mulher continuasse a ludibriar a sua
+esperan&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Diga-se, por&eacute;m, em honra e louvor da astucia humana: Carlos,
+resolvido a partir, lembrou-se de pedir a um seu amigo, que, na
+gazetilha do
+<em>Nacional</em>, dissesse, por exemplo, o
+seguinte:<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[78]</span>
+&laquo;O snr. Carlos d'Almeida vai, no proximo paquete, para
+Inglaterra. S. s.<sup>a</sup> tenciona observar de perto a
+civilisa&ccedil;&atilde;o das primeiras capitaes da Europa. O
+snr. Carlos d'Almeida &eacute; uma intelligencia, que, enriquecida
+pela instruc&ccedil;&atilde;o pratica da sua visita aos focos
+da civilisa&ccedil;&atilde;o, ha-de voltar &aacute; sua
+patria
+com fecundo cabedal de conhecimentos em todos os ramos das sciencias
+humanas. Fazemos votos porque s. s.<sup>a</sup> se recolha
+em breve ao seio dos
+seus numerosos amigos.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Esta local bem podia ser que chegasse &aacute;s m&atilde;os de
+Henriqueta. Henriqueta bem podia ser que conjecturasse o imperioso
+motivo, que obrigava o infeliz a buscar
+distrac&ccedil;&otilde;es longe da patria, onde a sua
+paix&atilde;o era invencivel. E, depois, nada mais facil que uma
+carta, uma palavra, um raio de esperan&ccedil;a, que lhe
+transtornasse os seus planos.<br />
+
+<br />
+
+Era esta a infallivel ten&ccedil;&atilde;o de Carlos, quando ao
+decimo quarto dia lhe foi entregue a seguinte carta:<br />
+
+<br />
+
+<h3>V.</h3>
+
+<br />
+
+<div class="signature">&laquo;Carlos.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Sem offender as leis da civilidade, continuo a dar-te o
+tratamento do domin&oacute;, porque, em boa verdade, eu continuo a
+ser para ti um domin&oacute; moral, n&atilde;o
+&eacute; assim?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Passaram-se quatorze dias, depois que tiveste o mau encontro
+d'uma mulher, que te privou de algumas horas de deliciosa intriga.
+Victima da tua delicadesa, levaste o sacrificio a ponto de te mostrares
+interessado na sorte d'essa celebre desconhecida que te mortificou.
+N&atilde;o serei eu, generoso Carlos, ingrata a essa
+manifesta&ccedil;&atilde;o <span class="pagenum">[79]</span>cavalheirosa,
+embora ella seja um rasgo de
+artista, e n&atilde;o um desejo espontaneo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Queres saber porque tenho demorado quatorze dias este grande
+sacrificio que vou fazer? &Eacute; porque ainda hoje me levanto
+d'uma febre incessante, que me insultou n'aquelle camarote da segunda
+ordem, e que, n'este momento, parece declinar.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Permitta Deus que seja longo o intervallo para ser longa a
+carta: mas eu sinto-me t&atilde;o pequena para os sacrificios
+grandes!... N&atilde;o te quero responsabilisar pela minha saude;
+mas, se o meu silencio de longos tempos succeder a esta carta,
+conjectura, meu amigo, que Henriqueta cahiu no leito, d'onde ha-de
+erguer-se, sen&atilde;o &eacute; gra&ccedil;a que os mortos
+h&atilde;o-de erguer-se um dia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Queres apontamentos para um romance que ter&aacute; o
+merito de ser portuguez? Vou dar-t'os.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Henriqueta nasceu em Lisboa. Seus paes tinham o lustre dos
+braz&otilde;es, mas n&atilde;o brilhavam nada pelo
+ouro. Viviam sem fausto, sem historia contemporanea, sem bailes, e sem
+bilhetes de boas festas. As visitas que Henriqueta conhecia eram, no
+sexo feminino, quatro velhas suas tias, e, no masculino, quatro
+caseiros que vinham annualmente pagar as rendas, com que seu pai
+regulava economicamente uma nobre independencia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O irm&atilde;o de Henriqueta era um mo&ccedil;o de
+talento, que grangeara uma instruc&ccedil;&atilde;o,
+enriquecida sempre
+pelos desvelos com que afagava a sua paix&atilde;o unica. Isolado
+de todo o mundo, o irm&atilde;o de Henriqueta confiou a sua
+irm&atilde; os segredos do seu muito saber, e formou-lhe um
+espirito varonil, e inspirou-lhe uma ambi&ccedil;&atilde;o
+faminta de sciencia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Bem sabes, Carlos, que fallo de mim, e n&atilde;o posso,
+n'esta parte, engrinaldar-me de fl&ocirc;res immodestas, se bem que
+n&atilde;o me faltariam depois espinhos que me desculpassem as
+vaidosas fl&ocirc;res...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eu cheguei a ser o ecco fiel dos talentos de meu
+<span class="pagenum">[80]</span>irm&atilde;o.
+Nossos paes n&atilde;o
+comprehendiam as praticas
+litterarias com que aligeiravamos as noites d'inverno; e, mesmo assim,
+folgavam de nos ouvir, e via-se-lhes nos olhos aquelle rir de bondoso
+orgulho, que tanto inflamma as vaidades da intelligencia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Aos dezoito annos achei pequeno o horisonte da minha vida, e
+enfastiei-me da leitura, que m'o fazia cada vez amesquinhar-se mais.
+S&oacute; com a experiencia, se conhece o quanto a litteratura
+modifica a organisa&ccedil;&atilde;o de uma mulher. Eu creio
+que a mulher, apurada na sciencia das cousas, pensa de um modo
+extraordinario na sciencia das pessoas. O prisma das suas vistas
+penetrantes &eacute; bello, mas as lindas cambiantes do seu prisma
+s&atilde;o como as c&ocirc;res variegadas do arco iris, que
+annuncia tempestade.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu irm&atilde;o lia-me os segredos do
+cora&ccedil;&atilde;o! n&atilde;o &eacute; facil mentir
+ao talento com as hypocrisias do talento. Comprehendeu-me, e teve
+d&oacute; de mim.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu pai morreu, e minha m&atilde;i pediu &aacute;
+alma de meu pai que lhe alcan&ccedil;asse do Senhor uma vida longa
+para meu amparo. Ouviu-a Deus, porque eu vi um milagre na rapida
+convalescen&ccedil;a com que minha m&atilde;i sahiu d'uma
+enfermidade de quatro annos.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eu vi um dia um homem no quarto de meu irm&atilde;o,
+onde entrei como entrava sempre sem receio de encontrar um
+desconhecido. Quiz retirar-me, e meu irm&atilde;o chamou-me para me
+apresentar, pela primeira vez na sua vida, um homem.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Este homem chama-se Vasco de Seabra.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o sei se por orgulho, se por acaso, meu
+irm&atilde;o chamou a conversa ao campo da litteratura. Fallava-se
+em romances, em dramas, em estilos, em esc&oacute;las, e
+n&atilde;o sei que outros mais assumptos ligeiros e graciosos que
+me captivaram o cora&ccedil;&atilde;o e a
+cabe&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vasco fallava bem, e revelava cousas que me n&atilde;o
+eram novas com estilo novo. N'aquelle homem, via-se <span class="pagenum">[81]</span>o genio aformoseado pela
+arte que
+s&oacute; na sociedade se adquire. Em meu irm&atilde;o
+faltava-lhe o relevo de estilo, que se lapida ao tracto dos maus e dos
+bons. Bem sabes Carlos, que te digo uma verdade, sem
+preten&ccedil;&otilde;es de
+<em>bas-bleu</em>, que &eacute; de
+todas as miserias a mais lastimosa miseria das mulheres cultivadas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vasco retirou-se, e eu quizera antes que elle se
+n&atilde;o retirasse.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Disse-me meu irm&atilde;o que aquelle rapaz era uma
+intelligencia superior, mas depravada pelos maus costumes. A
+raz&atilde;o porque elle viera a nossa casa era muito simples;
+encarregara-o seu pai de fallar com meu irm&atilde;o a respeito da
+remiss&atilde;o d'uns f&oacute;ros.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vasco passou n'esse dia por debaixo das minhas janellas:
+fixou-me, cortejou-me, corei, e n&atilde;o me atrevi a seguil-o com
+os olhos, mas segui-o com o
+cora&ccedil;&atilde;o. Que suprema miseria, Carlos! Que
+renuncia t&atilde;o impensada faz uma mulher da sua tranquillidade!
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Voltou um quarto d'hora depois: retirei-me, sem querer
+mostrar-lhe que o percebia; fiz-me distrahida, por entre as cortinas, a
+contemplar a marcha das nuvens, e das nuvens descia um olhar
+precipitado sobre aquelle
+<em>indifferente</em> que me fazia
+c&oacute;rar e soffrer. Viu-me, adivinhou-me, talvez, e cortejou-me
+ainda. Eu vi o gesto da cortezia, mas fingi-me, e n&atilde;o lhe
+correspondi. Foi isto um heroismo, n&atilde;o &eacute; verdade?
+Seria; mas
+eu tive remorsos, apenas elle desapparecera, de o tratar t&atilde;o
+grosseiramente.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Demorei-me n'estas puerilidades, meu amigo, porque
+n&atilde;o ha nada mais grato para n&oacute;s que a
+recorda&ccedil;&atilde;o dos ultimos instantes de ventura a que
+se prendem os primeiros instantes da desgra&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Aquellas linhas fastidiosas s&atilde;o a historia da
+minha transfigura&ccedil;&atilde;o. Ahi principia a longa noite
+da
+minha vida.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Nos dias immediatos, a horas certas, vi sempre <span class="pagenum">[82]</span>este
+homem. Concebi os perigos da minha fraqueza, e quiz ser forte. Resolvi
+n&atilde;o v&ecirc;l-o mais: revesti-me
+d'um orgulho digno da minha immodesta superioridade &aacute;s
+outras mulheres: sustentei este caracter dous dias; e, ao terceiro, era
+fraca como todas as outras.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eu j&aacute; n&atilde;o podia divorciar-me da imagem
+d'aquelle homem, d'aquellas nupcias infelizes, que meu
+cora&ccedil;&atilde;o contrahira. O meu instincto
+n&atilde;o era mau; porque a
+educa&ccedil;&atilde;o tinha sido boa; e, n&atilde;o
+obstante a humildade constante com que sempre sujeitei a minha
+m&atilde;i os meus innocentissimos desejos, senti-me
+ent&atilde;o, com magoa minha, rebelde, e capaz de conspirar contra
+a minha familia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A frequente repeti&ccedil;&atilde;o dos passeios de
+Vasco n&atilde;o podia ser indifferente a meu irm&atilde;o. Fui
+suavemente
+interrogada por minha m&atilde;i, a tal respeito, e respondi-lhe
+com respeito, mas sem temor. Meu irm&atilde;o presentiu a
+necessidade de matar aquella inclina&ccedil;&atilde;o nascente,
+e expoz-me um quadro feio dos costumes pessimos de Vasco, e o conceito
+publico em que era tido o primeiro homem a quem eu t&atilde;o
+francamente me offerecia em namoro. Fui altiva com meu
+irm&atilde;o, e adverti-lhe que os nossos
+cora&ccedil;&otilde;es n&atilde;o tinham contrahido
+a obriga&ccedil;&atilde;o de se consultarem.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu irm&atilde;o soffreu; eu tambem soffri;
+e, passado o momento da exalta&ccedil;&atilde;o, quiz cerrar a
+ferida que abrira n'aquelle cora&ccedil;&atilde;o, desde a
+infancia,
+identificado com as minhas vontades.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Este sentimento era nobre; mas o do amor era inferior. Se eu
+podesse reconcial-os ambos! N&atilde;o podia, nem sabia fazel-o!
+Uma mulher, quando principia a sua dolorosa tarefa do amor,
+n&atilde;o sabe mentir com apparencias, nem calcula os prejuizos
+que p&oacute;de evitar com uma pouca de impostura. Eu fui assim.
+Deixei-me hir abandonada &aacute; correnteza, da minha
+inclina&ccedil;&atilde;o; e,
+quando forcejei por me tornar, tranquilla, &aacute;
+isen&ccedil;&atilde;o da minha alma, n&atilde;o pude vencer
+a corrente.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[83]</span>
+&laquo;Vasco de Seabra perseguia-me: as cartas eram incessantes, e
+a grande paix&atilde;o que ellas exprimiam
+n&atilde;o era ainda igual &aacute; paix&atilde;o que me
+faziam.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu irm&atilde;o quiz tirar-me de Lisboa, e minha
+m&atilde;i instava pela sahida, ou pela minha entrada a toda a
+pressa nas Silesias. Informei Vasco das inten&ccedil;&otilde;es
+de minha familia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno
+d'outra sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha
+m&atilde;i, e foi urbanamente repellido. Eu sube-o, e torturei-me!
+N&atilde;o sei do que seria ent&atilde;o capaz a minha alma
+offendida! Sei que foi capaz de tudo que p&oacute;de caber em
+for&ccedil;as
+d'uma mulher, contrariada nas ambi&ccedil;&otilde;es que
+nutrira,
+sosinha comsigo, e conjurada a perder-se por ellas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vasco irritado d'um nobre estimulo, escreveu-me, como quem
+me pedia a mim a satisfa&ccedil;&atilde;o dos
+despresos de minha familia. Respondi-lhe que lh'a dava plena, como elle
+a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela porta da deshonra, e
+muito cedo entraria n'ella com a minha honra illibada. Que
+desgra&ccedil;a! n'aquelle tempo at&eacute; as pompas do estilo
+me seduziam!... Respondi que sim, e cumpri.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciencia
+&eacute; curta. At&eacute; ao correio que vem.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Henriqueta</em>.&raquo;</div>
+
+<br />
+
+<h3>VI.</h3>
+
+<br />
+
+Carlos rel&ecirc;ra com sofrega anciedade, a singela
+expans&atilde;o d'uma alma que, talvez, nunca se abrira, se a
+n&atilde;o rasgasse o espinho d'um martyrio surdo. Henriqueta
+n&atilde;o escrevia assim uma carta a um homem, que podesse <span class="pagenum">[84]</span>consolal-a. Afeita a gemer
+no
+silencio, e na solid&atilde;o,
+tornava-se como egoista das suas d&ocirc;res, e suppunha que
+divulgal-as era esfolhar a mais bella fl&ocirc;r da sua
+cor&ocirc;a de martyr. Escreveu, porque a sua carta era um mytho de
+segredo e publicidade; porque a sua
+afflic&ccedil;&atilde;o n&atilde;o rastejava pelos
+queixumes lamuriantes e triviaes d'um grande numero de mulheres, que
+n&atilde;o choram nunca a viuvez do cora&ccedil;&atilde;o,
+e lastimam sempre a
+demora das segundas nupcias; escreveu em fim, porque a sua
+d&ocirc;r, sem deshonrar-se com uma publicidade esteril,
+interessava um cora&ccedil;&atilde;o, esposava uma sympathia,
+um soffrimento simultaneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre
+admira&ccedil;&atilde;o! Ha mulheres vaidosas&#8213;deixem-me assim
+dizer&#8213;da fidalguia do seu soffrer. Risonhas para o mundo, &eacute;
+muito sublime aquella angustia represada que s&oacute;
+p&oacute;de extravasar os sobejos do seu fel em
+uma carta anonyma. Lagrimosas para si, e fechadas no circulo estreito,
+que a sociedade lhes tra&ccedil;a com o compasso inexoravel das
+conveniencias, essas sim, s&atilde;o duas vezes anjos despenhados!<br />
+
+<br />
+
+Quem podesse receber na ta&ccedil;a de suas lagrimas algumas, que
+ahi se choram, e que a opulencia material n&atilde;o enxuga,
+experimentaria consola&ccedil;&otilde;es
+d'um sabor novo. O padecimento, que se esconde, imp&otilde;e o
+respeito religioso do augusto mysterio d'esta religi&atilde;o
+universal, symbolisada pelo soffrimento commum. O homem, que podesse
+verter uma gota de orvalho na aridez d'algum
+cora&ccedil;&atilde;o, seria o sacerdote providencial no
+tabernaculo d'um espirito superior, que velasse a vida da terra para
+que tamanhas agonias n&atilde;o fossem estereis na vida do
+c&eacute;o. N&atilde;o ha na terra mais gloriosa
+miss&atilde;o!<br />
+
+<br />
+
+Carlos por tanto, sentiu-se feliz d'este orgulho santo que ennobrece a
+consciencia do homem que recebe o privilegio d'uma confidencia. Esta
+mulher, dizia elle, &eacute; para mim um ente quasi phantastico.
+Allivios quaes s&atilde;o os que eu posso dar-lhe?... Nem ao menos
+escrever-lhe!... <span class="pagenum">[85]</span>E
+ella... em que
+far&aacute; consistir o seu prazer?! Deus o sabe! Quem
+p&oacute;de explicar, e mesmo explicar-se a singularidade d'um
+proceder, &aacute;s vezes, inconcebivel?<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+No correio proximo, recebeu Carlos a segunda carta de
+Henriqueta:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta?
+Adivinhaste o resto, com prestesa natural. Recordaste mil aventuras
+d'este genero, e amoldaste a minha historia &aacute;s legitimas
+consequencias de todas as aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem,
+com quem fugira, e chamaste a isto, talvez, uma
+deduc&ccedil;&atilde;o contida nos principios.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Pensaste bem, amigo, a logica da desgra&ccedil;a
+&eacute; essa, e o contrario dos teus juizos &eacute; o que se
+chama sophisma, porque eu estou em pensar que a virtude &eacute; o
+absurdo da logica dos factos, &eacute; a heresia da
+religi&atilde;o das sociedades, &eacute; a
+aberra&ccedil;&atilde;o
+monstruosa das leis, que regem o destino do mundo. Achas-me metaphysica
+de mais? N&atilde;o te impacientes. A d&ocirc;r refugia-se nas
+abstrac&ccedil;&otilde;es, e encontra melhor pabulo na Loucura
+de Erasmo, que nas sisudas deduc&ccedil;&otilde;es de
+Montesquieu.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Minha m&atilde;i estava reservada para uma grande
+prova&ccedil;&atilde;o! Amparou-a Deus n'aquelle golpe, e
+permittiu-lhe uma energia que n&atilde;o era de esperar. Vasco de
+Seabra bateu &aacute;s portas de todas as igrejas de Lisboa, para
+me apresentar, como sua mulher, ao cura da freguezia, e achou-as
+fechadas. Eramos perseguidos, e Vasco n&atilde;o contava com a sua
+superioridade sobre meu irm&atilde;o, que lhe fizera certa e
+infallivel a morte, onde quer que a fortuna lh'o deparasse.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Fugimos de Lisboa para Hespanha. Um dia entrou Vasco,
+alvoro&ccedil;ado, pallido, e febril d'aquella febre de medo, que,
+realmente, era, at&eacute; ent&atilde;o, a unica face prosaica
+do meu amante. Emmulamos a toda <span class="pagenum">[86]</span>a
+pressa, e partimos para Londres. &Eacute;
+que Vasco de Seabra vira meu irm&atilde;o em Madrid.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco
+tranquillisou-se, porque lhe afian&ccedil;aram de Lisboa a volta de
+meu irm&atilde;o, que perdera as esperan&ccedil;as
+de encontrar-me.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Se me perguntas como era a vida intima d'estes dous
+fugitivos, aos quaes n&atilde;o faltava
+condi&ccedil;&atilde;o alguma das aventuras romanticas d'um
+rapto, dir-t'a-hei em poucas linhas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O primeiro mez das nossas nupcias de emboscada foi um sonho,
+uma febre, uma anarchia de
+sensa&ccedil;&otilde;es que, levadas ao extremo do goso,
+pareciam tocar as raias do soffrimento. Vasco parecia-me um Deus, com
+as seductoras fraquezas d'um homem; queimava-me com o seu fogo,
+divinisava-me com o seu espirito; levava-me de mundo em mundo
+&aacute; regi&atilde;o dos anjos
+onde a vida deve ser o extasis, o arrobamento, a
+aliena&ccedil;&atilde;o com que a minha alma se derramava nas
+sensa&ccedil;&otilde;es
+ardentissimas d'aquelle homem.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;No segundo mez, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez
+&laquo;que era muito meu amigo.&raquo; O
+cora&ccedil;&atilde;o pulsava-lhe vagaroso, os olhos
+n&atilde;o faiscavam electricidade, os sorrisos eram frios... os
+meus beijos j&aacute; os n&atilde;o aqueciam n'aquelles labios!
+&laquo;Sinto por ti uma sincera estima.&raquo; Quando isto se
+diz, depois d'um amor vertiginoso, que n&atilde;o sabe as phrases
+triviaes, a
+paix&atilde;o est&aacute; morta. E estava...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois, Carlos, fallavamos em litteratura, analysavamos as
+operas, discutiamos o merito dos romances, e viviamos em academia
+permanente, quando Vasco me n&atilde;o deixava quatro, cinco, e
+seis horas entregue
+&aacute;s minhas innocentes recrea&ccedil;&otilde;es
+scientificas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vasco can&ccedil;ara-se de mim. A consciencia
+affirmou-me esta verdade atroz. Suffoquei a
+indigna&ccedil;&atilde;o, as lagrimas, e os gemidos. Soffri sem
+limites. Abrasou-se-me <span class="pagenum">[87]</span>na
+alma um inferno que me coava fogo nas
+v&ecirc;as. N&atilde;o houve nunca mulher assim
+desgra&ccedil;ada!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E vivemos assim dezoito mezes. A palavra
+&laquo;casamento&raquo; foi banida de nossas curtas
+conversa&ccedil;&otilde;es... Vasco desquitava-se de
+compromissos, que elle chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia
+de ser o meu escravo, como elle intitulava o nescio, que se deixava
+algemar &aacute;s obscuras supersti&ccedil;&otilde;es do
+setimo sacramento... Foi ahi que Vasco de Seabra encontrou a Sophia que
+te apresentei no real theatro de S. Jo&atilde;o, na primeira ordem.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Comecei ent&atilde;o a pensar em minha m&atilde;i,
+em meu irm&atilde;o, na minha honra, na minha infancia, na memoria
+deslustrada de meu pai, na tranquillidade de minha vida at&eacute;
+ao momento em que me atirei &aacute; lama e
+salpiquei com ella a face da minha familia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Peguei da penna para escrever a minha m&atilde;i.
+Escrevera a primeira palavra, quando comprehendi o vexame, a
+degrada&ccedil;&atilde;o, e a villania com que ousava
+apresentar-me &aacute;quella virtuosa senhora, com a face manchada
+de nodoas, contagiosas. Repelli com nobreza esta
+tenta&ccedil;&atilde;o, e desejei n'aquelle instante, que minha
+m&atilde;i me julgasse morta.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Em Londres viviamos n'uma hospedaria, depois que Vasco
+perdeu o medo a meu irm&atilde;o. Viera ahi hospedar-se uma familia
+portugueza. Era o visconde do Prado, e sua mulher, e uma filha. O
+visconde relacionou-se com Vasco, e a viscondessa e sua filha
+visitaram-me, tractando-me como irm&atilde; de Vasco.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua
+curiosidade na historia d'esta gente, que j&aacute;
+conheceste no camarote da 2.&ordf; ordem.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas n&atilde;o posso agora dispor de mim...
+Saber&aacute;s, alguma vez, a raz&atilde;o porque
+n&atilde;o pude continuar
+esta carta.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Adeus, at&eacute; outro dia,<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Henriqueta</em>.&raquo;</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+<h3>VII.</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Cumpro religiosamente as minhas promessas. Tu n&atilde;o
+avalias o sacrificio que fa&ccedil;o. N&atilde;o
+importa. Como n&atilde;o quero captivar a tua gratid&atilde;o,
+nem, mesmo
+ainda, mover a tua piedade, basta-me a consciencia do que sou para ti,
+que &eacute; (medita bem) o mais que posso ser...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A historia... n&atilde;o &eacute; assim? Principia
+agora.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Antonio Alves era um pobre amanuense do escriptorio de um
+tabelli&atilde;o de Lisboa. Casou, e reuniu ao infortunio de casar
+a desgra&ccedil;a de ser pai. O
+tabelli&atilde;o morreu, e Antonio Alves, privado dos escassos
+lucros de amanuense, luctou com a fome. A mulher por um lado com a
+filhinha ao collo, e elle pelo outro com as lagrimas da indigencia,
+conseguiram algumas moedas, e com ellas a passagem do pobre marido para
+o Rio de Janeiro.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Foi, e deixou entregues &aacute; Providencia a mulher e
+a filha.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Josepha esperava todos os dias carta de seu marido. Nem
+carta, nem um indicio da sua existencia. Julgou-se viuva, vestiu-se de
+preto, e viveu de esmolas, pedidas &aacute; noite na
+<em>pra&ccedil;a do
+Rocio</em>.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A filha chamava-se Laura, e crescera bella, n&atilde;o
+obstante as angustias da fome, que transformam a formosura do
+ber&ccedil;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Aos quinze annos de Laura, j&aacute; sua m&atilde;i
+n&atilde;o mendigava. A deshonra proporcionara-lhe abundancia que
+uma honrosa mendicidade lhe n&atilde;o dera. Laura era amante d'um
+rico, que cumpria fielmente com a m&atilde;i as condicionaes
+estipuladas na escriptura de venda da filha.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Um anno depois, Laura explorava outra mina. Josepha
+n&atilde;o soffria com as vicissitudes da filha, e continuava
+<span class="pagenum">[89]</span>a gosar os fins da
+vida &aacute; sombra de t&atilde;o
+fecunda arvore.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A indigencia, e a sociedade fizeram-lhe comprehender que
+s&oacute; ha deshonra na fome e na nudez.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Outro anno depois, a radiosa Laura declarou-se o premio do
+cavalleiro, que mais airoso entrasse no torneio.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Concorreram muitos gladiadores, e parece que todos foram
+premiados, porque todos esgrimiam galhardamente.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Desgra&ccedil;a foi para Laura, quando os melhores
+campe&otilde;es se retiraram fatigados da li&ccedil;a. Os que
+vieram depois eram bisonhos no jogo das armas, e viram que a dama das
+justas j&aacute; n&atilde;o valia a pena de
+perigosos botes de lan&ccedil;a, e de arreios muito custosos de
+pedraria e ouro.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Pobre Laura, apeada do seu pedestal, olhou-se a um espelho,
+viu-se ainda bella com vinte e cinco annos, e perguntou &aacute;
+sua consciencia a baixa do pre&ccedil;o com que corria no
+leil&atilde;o de mulheres. A consciencia respondeu-lhe que descesse
+da altura das suas
+ambi&ccedil;&otilde;es, que viesse para onde a chamava a logica
+da sua vida, e continuaria a ser rainha n'um reino de segunda ordem,
+j&aacute; que a exauthoravam d'um throno que tivera na primeira.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Laura desceu, e encontrou uma sociedade nova. Acclamaram-na
+soberana, reuniu-se uma c&ocirc;rte tumultuosa na ante-camara
+d'esta odalisca
+facil, e n&atilde;o houve grande nem pequeno a quem se baixassem os
+reposteiros do throno.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Laura viu-se um dia abandonada. Viera uma outra disputar-lhe
+a sua legitimidade. Os cortez&atilde;os voltaram-se para o sol
+nascente, e apedrejaram, como os incas, o astro que se escondia para
+alumiar os antipodas d'um outro mundo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Os antipodas d'um outro mundo eram uma sociedade
+<span class="pagenum">[90]</span>inculta, sem a
+intelligencia da arte, sem o culto &aacute;
+formosura, sem as opulencias que o ouro cria nas altas
+regi&otilde;es da civilisa&ccedil;&atilde;o, e,
+finalmente, sem algum dos attributos, que Laura am&aacute;ra tanto
+nos mundos, onde f&ocirc;ra soberana duas vezes.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A infeliz tinha descido ao derradeiro grau de aviltamento;
+mas era bella ainda. Sua m&atilde;i, enferma n'um hospital, pedia a
+Deus, como esmola, a sua morte. A desgra&ccedil;ada foi punida.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;No hospital, viu passar sua filha diante do seu leito; pediu
+que a deitassem ao p&eacute; de si; o enfermeiro riu-se; e entrou
+com ella n'outra enfermaria, onde o anjo do pudor e o das lagrimas
+cobriam o rosto na presen&ccedil;a da ulcera mais esqualida, e mais
+lastimosa do genero humano.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Laura principiava a sondar a profundidade do abysmo em que
+cahira.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Sua m&atilde;i recordava as fomes d'outro tempo, quando
+sua filha, virgem ainda, chorava e supplicava, com ella, uma esmola ao
+passageiro.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;As priva&ccedil;&otilde;es de ent&atilde;o eram
+semelhantes, &aacute;s priva&ccedil;&otilde;es de agora,
+com a differen&ccedil;a,
+por&eacute;m, que a Laura de hoje, deshonrada e repelida,
+n&atilde;o podia
+j&aacute; prometter o futuro da Laura de ent&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Agora, Carlos, vejamos o que &eacute; o mundo, e
+pasmemos diante das evolu&ccedil;&otilde;es gymnasticas dos
+acontecimentos.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Apparece em Lisboa um capitalista, que chama a
+atten&ccedil;&atilde;o dos capitalistas, a
+considera&ccedil;&atilde;o do governo, e, por via de regra,
+desafia inimisades politicas, e invejas, que procuram o seu principio
+de vida para denegrir-lhe o luzimento da sua affrontosa opulencia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Este homem compra uma quinta na provincia do Minho, e, mais
+barato ainda, compra o titulo de visconde do Prado.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Um jornal de Lisboa, que traz entre os dentes
+<span class="pagenum">[91]</span>venenosos da
+politica o pobre visconde, escreve um dia um artigo, onde
+se acham, entre muitas, as seguintes allus&otilde;es:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O snr. visconde do Prado adscreveu &aacute; immoralidade
+do governo a immoralidade da sua fortuna. Como ella foi adquirida,
+dil-o-hiam as costas d'Africa se os sert&otilde;es contassem os
+horrorosos dramas da escravatura, em que o snr. visconde foi heroe.<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+&laquo;O snr. visconde do Prado era Antonio Alves ha 26 annos, e a
+pobre mulher que deixou em Portugal, com uma tenra filhinha ao collo,
+ninguem dir&aacute; em que rua morreu de fome sobre as lages, ou em
+que agua-furtada curtiram ambas as agonias da fome, em quanto o snr.
+visconde medrava cynicamente na hydropisia do ouro, com que hoje vem
+arrotar moralidades no theatro das suas infamias de esposo e de
+pai.................................<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Melhor f&ocirc;ra que o snr. visconde indagasse onde
+repousam os ossos de sua mulher, e de sua filha, e nos pozesse ahi um
+padr&atilde;o de marmore, que possa attestar ao menos o remorso
+d'um infame contricto...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Este insulto directo, e fundamentado, ao visconde do Prado,
+fez ruido em Lisboa. As edi&ccedil;&otilde;es do
+jornal espalharam-se, e leram-se, e commentaram-se com frenetica
+maldade.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&Aacute;s m&atilde;os de Laura chegou este jornal.
+Sua m&atilde;i, ouvindo l&ecirc;l-o, delirou. A filha cuidou
+que sonhava; e a situa&ccedil;&atilde;o de ambas perderia muito
+se eu tentasse
+roubar-lhe as c&ocirc;res vigorosas da tua
+imagina&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;No dia seguinte, Josepha e Laura entravam no palacete do
+visconde do Prado. O porteiro respondeu que s. exc.<sup>a</sup>
+n&atilde;o
+estava ainda a p&eacute;. Esperaram.
+&Aacute;s 11 horas sahia o visconde, e, ao saltar para a carruagem,
+viu duas mulheres que se aproximavam. Metteu a m&atilde;o ao bolso
+do collete, e tirou doze vintens que lan&ccedil;ava na
+m&atilde;o de uma das duas mulheres. Olhou admirado para ellas,
+quando viu que a esmola lhe era recusada.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[92]</span>
+&laquo;&#8213;Que querem?&#8213;interrogou elle, com soberba
+indigna&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Quero v&ecirc;r meu marido que n&atilde;o vejo, ha
+26 annos...&#8213;respondeu Josepha.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O visconde estacou ferido d'um raio. O suor gotejava-lhe na
+testa em bagas frias. Laura aproximou-se, em attitude de beijar-lhe a
+m&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Pois que?...&#8213;interpellou o visconde.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Sou sua filha...&#8213;respondeu Laura com humildoso respeito.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O visconde, aturdido e parvo, voltou as costas &aacute;
+carruagem, e mandou &aacute;s duas mulheres que o
+seguissem.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O resto no correio seguinte.&#8213;Adeus, Carlos.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Henriqueta</em>.&raquo;</div>
+
+<br />
+
+<h3>
+VIII.</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Carlos, tenho quasi tocado a extrema d'esta minha
+peregrina&ccedil;&atilde;o. A minha illiada est&aacute; no
+ultimo canto. Quero dizer-te que &eacute; esta a minha penultima
+carta.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o sou t&atilde;o independente como pensava.
+A n&atilde;o serem os poetas, ninguem gosta de contar as suas
+magoas ao vento. &Eacute; bello dizer-se, que um gemido nas azas da
+brisa vai da terra em dorido suspirar at&eacute; ao
+c&ocirc;ro dos anjos. &Eacute; bonito conversar com a fonte
+suspirosa, e contar &aacute; avesinha gemed&ocirc;ra os
+segredos do nosso
+penar. Tudo isto &eacute; delicioso d'uma puerilidade inoffensiva;
+mas eu, Carlos, n&atilde;o tenho alma para estas cousas, nem
+engenho para estes artificios.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vou contando as minhas penas a um homem, que n&atilde;o
+p&oacute;de zombar de minhas lagrimas, sem
+trahir a generosidade do seu cora&ccedil;&atilde;o, e a
+sensibilidade do
+talento. <span class="pagenum">[93]</span>
+Sabes qual &eacute; o meu egoismo, o meu estipendio n'este
+trabalho, n'esta franqueza d'alma, que ninguem te p&oacute;de
+disputar como unico em merec&ecirc;l-a? Eu te digo. Quero uma carta
+tua, dirigida a Angelica Michaela. Diz-me o que a tua alma te disse;
+n&atilde;o tenhas pejo em denuncial-a; associa-te um momento
+&aacute; minha d&ocirc;r, e dize-me o que farias se tivesses
+sido Henriqueta.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Aqui tens o prologo d'esta carta: agora vamos espreitar o
+lance extraordinario d'aquelle encontro, em que deixamos o visconde e
+a... como hei-de chamar-lhe?... a viscondessa, e sua exc.<sup>ma</sup>
+filha D.
+Laura.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Pois &eacute; possivel existires?&#8213;perguntava o
+visconde, sinceramente admirado, a sua mulher.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Pois n&atilde;o me conheces, Antonio?&#8213;respondia ella
+com estupida naturalidade.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Tinham-me dito que morreras...&#8213;tornou elle com desazada
+hypocrisia&#8213;tinham-me dito, ha dezesete annos, que tu e a nossa filha
+tinheis sido victimas da cholera-morbus...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Felizmente que lhe mentiram&#8213;interrompeu Laura com
+affectada meiguice.&#8213;N&oacute;s &eacute; que lhe
+tinhamos resado por alma, e nunca deixamos de pronunciar o seu nome sem
+saudosas lagrimas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Como tendes vivido?&#8213;perguntou o visconde.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Pobre, mas honradamente&#8213;respondeu Josepha, dando-se uns
+ares austeros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o
+c&eacute;o por testemunha.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Ainda bem!&#8213;tornou o visconde&#8213;mas que modo de vida tem
+sido o vosso?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;O trabalho, meu querido Antonio, o trabalho de nossa filha
+tem sido o amparo da sua honra, e da minha velhice. Tu abandonaste-nos
+com tamanha crueldade!... Que mal te fizemos n&oacute;s?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Nenhum, mas n&atilde;o vos disse eu que vos
+considerava mortas?&#8213;respondeu o visconde a sua mulher, <span class="pagenum">[94]</span>que
+tivera a habilidade de arrancar duas volumosas lagrimas, tanto a
+proposito.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;O passado, passado&#8213;disse Laura, afagando carinhosamente
+as m&atilde;os paternas, e dando-se uns ares de innocencia capazes
+de illudir S. Sim&atilde;o Stylita.&#8213;Quer o pai saber (proseguiu
+ella com sentimento) qual tem sido a minha vida? Olhe, meu pai,
+n&atilde;o se envergonhe da posi&ccedil;&atilde;o social em
+que encontra sua filha... Tenho sido modista, tenho trabalhado
+incessantemente... tenho luctado com as tenta&ccedil;&otilde;es
+da penuria, e
+tenho feito consistir em minhas lagrimas o meu triumpho...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Bem, minha filha&#8213;interrompeu o visconde com sincera
+contri&ccedil;&atilde;o&#8213;esque&ccedil;amos o
+passado.... D'hora em diante ser&aacute; a abundancia a premio da
+tua
+virtude... Ora diz-me: o mundo sabe que tu &eacute;s minha
+filha?... disseste a alguem que eu era teu marido, Josepha?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;N&atilde;o, meu pai.&#8213;N&atilde;o meu
+Antoninho.&#8213;Responderam ambas, como se tivessem previsto e calculado as
+perguntas e as respostas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Pois bem&#8213;continuou o visconde&#8213;vamos a conciliar com o
+mundo as nossas posi&ccedil;&otilde;es
+presentes, passadas e futuras. D'hora &aacute;vante, Laura,
+&eacute;s
+minha filha, &eacute;s filha do visconde do Prado, e n&atilde;o
+p&oacute;des chamar-te Laura. Ser&aacute;s Elisa,
+comprehendes-me? &eacute; necessario
+que te chames Elisa...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Sim, meu pai... eu serei Elisa&#8213;atalhou a
+<em>innocente modista</em> com impetuosa
+alegria.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;&Eacute; necessario abandonar Lisboa&#8213;proseguiu o
+visconde.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Sim, sim, meu pai... vivamos num sert&atilde;o...
+quero gosar, sosinha, na presen&ccedil;a de Deus a felicidade de
+ter pai...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;N&atilde;o hiremos para um sert&atilde;o... vamos
+para Londres; mas... attendam-me... &eacute; preciso que ninguem as
+veja, n'estes primeiros annos, principalmente <span class="pagenum">[95]</span>em
+Lisboa... A minha posi&ccedil;&atilde;o actual &eacute;
+muito melindrosa. Tenho muitos inimigos, muitos invejosos, muitos
+infames, que procuram perder-me no conceito que pude comprar com o meu
+dinheiro. Estou farto de Lisboa; partiremos no primeiro paquete...
+Josepha, repara em ti, e v&ecirc; que &eacute;s a viscondessa
+do Prado. Elisa, a
+tua educa&ccedil;&atilde;o foi desgra&ccedil;adamente
+mesquinha para te poderes mostrar qual eu quero que sejas na alta
+sociedade. Voltaremos um dia, e ter&aacute;s ent&atilde;o
+supprido com a
+educa&ccedil;&atilde;o pratica a rudeza que indispensavelmente
+tens.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o progrido, n'este dialogo, Carlos. O programma
+do visconde foi rigorosamente cumprido.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em
+Londres, com esta familia. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira
+vez, a filha do visconde atravessar um corredor do hotel, fixou-a com
+pasmo, e veio dizer-me que acabava de v&ecirc;r, elegantemente
+trajada, uma mulher que conhecera em Lisboa, chamada Laura. Acrescentou
+varias circumstancias da vida d'esta mulher, e acabou por mostrar vivos
+desejos de saber o tolo opulento, a quem tal mulher estava associada.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vasco pediu a lista dos hospedes, e viu que os
+unicos portuguezes eram Vasco de Seabra e
+<em>sua irm&atilde;</em>, e o visconde do
+Prado, a sua mulher, e sua filha D. Elisa Pimentel.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se d'uma
+illus&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e
+alegrou-se de ter encontrado um patricio, que lhe explicasse aquelles
+gritos barbaros dos serventes do hotel, que lhe davam agua por vinho.
+Vasco n&atilde;o duvidou em ser interprete do visconde, com tanto
+que as suas luzes em lingua ingleza podessem chegar ao escondrijo
+d'onde nunca mais vira sahir a supposta Laura.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Correram as cousas &aacute; medida do seu desejo. Na
+noite d'esse dia, fomos convidados para tomar ch&aacute;, na
+<span class="pagenum">[96]</span>saleta
+do visconde. Eu hesitei, sem saber ainda se Laura seria familiar do
+visconde. Vasco, por&eacute;m, despreveniu-me d'este temor,
+afian&ccedil;ando-me que se tinha illudido com a
+semelhan&ccedil;a das duas mulheres.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Fui. Elisa pareceu-me uma menina bem educada. Nunca o
+artificio tirou maior partido das maneiras adquiridas em habitos
+libertinos. Elisa era a mulher de c&ocirc;rte, com os ademans
+fascinadores dos sal&otilde;es,
+onde a immoralidade do cora&ccedil;&atilde;o passeia de
+bra&ccedil;o dado com a illustra&ccedil;&atilde;o do
+espirito. O som da palavra, a
+escolha da phrase, a compostura airosa da mimica, o tom sublime em que
+as suas id&ecirc;as eram voluptuosamente lan&ccedil;adas
+na torrente de uma conversa&ccedil;&atilde;o animada, tudo isto
+me fez cr&ecirc;r que Laura era a primeira mulher que eu tinha
+encontrado, talhada &aacute; fei&ccedil;&atilde;o do meu
+espirito.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quando agora pergunto &aacute; minha consciencia como
+estas transi&ccedil;&otilde;es se fazem, descreio da
+educa&ccedil;&atilde;o, lamento os annos consumidos no cultivo
+da intelligencia, e chego a persuadir-me que a esc&oacute;la da
+devassid&atilde;o
+&eacute; a ante-camara por onde mais facil se entra no mundo da
+gra&ccedil;a e da civilisa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Perd&ocirc;a-me o absurdo, Carlos; mas ha mysterios na
+vida, que s&oacute; pelo absurdo se explicam.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Henriqueta</em>.&raquo;</div>
+
+<br />
+
+<h3>
+IX.</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Li a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de lagrimas, e o
+cora&ccedil;&atilde;o de reconhecimento.
+N&atilde;o esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a
+injusti&ccedil;a de te julgar infeccionado d'este marasmo de
+egoismo que entorpece o espirito, e calcina o
+cora&ccedil;&atilde;o. E, de mais,
+suppunha-te insensivel pelo facto de seres intelligente. Eis-aqui
+<span class="pagenum">[97]</span>um disparate, que
+eu n&atilde;o ousaria
+balbuciar na
+presen&ccedil;a do mundo. O que vale &eacute; que as minhas
+cartas n&atilde;o
+ser&atilde;o lidas pelas mediocridades, que se acham em concilio
+permanente para condemnar, em nome de n&atilde;o sei que tolas
+conveniencias, as heresias do genio.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Deixa-me dizer-te francamente o juizo que eu
+f&oacute;rmo do homem transcendente em genio, em estro, em fogo, em
+originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que
+se detesta, muitas vezes.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O homem de talento &eacute; sempre um mau homem. Alguns
+conhe&ccedil;o eu que o mundo proclama virtuosos, e sabios.
+Deixal-os proclamar. O talento n&atilde;o &eacute; a sabedoria.
+Sabedoria &eacute; o trabalho incessante do espirito sobre a
+sciencia. O talento &eacute; a
+vibra&ccedil;&atilde;o convulsiva do espirito, a originalidade
+inventiva e rebelde &aacute; authoridade,
+a viagem extatica pelas regi&otilde;es incognitas da
+id&ecirc;a. Santo Agostinho, Fenelon, Madame de Stael, e Bentham
+s&atilde;o sabedorias. Luthero, Ninon de Lencl&oacute;s,
+Voltaire e Byron s&atilde;o talentos. Compara as vicissitudes
+d'essas duas mulheres, e os servi&ccedil;os prestados &aacute;
+humanidade
+por esses homens, e ter&aacute;s encontrado o antagonismo social em
+que luctam o talento com a sabedoria.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Porque &eacute; mau o homem de talento? Essa bella
+fl&ocirc;r porque tem no seio um espinho envenenado? Essa
+esplendida ta&ccedil;a de brilhantes e ouro porque &eacute; que
+contem o fel, que abrasa os labios de quem a toca?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Aqui tens um thema para trabalhos superiores &aacute;
+cabe&ccedil;a d'uma mulher, ainda mesmo refor&ccedil;ada por
+duas duzias de cabe&ccedil;as academicas!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Lembra-me ouvir dizer a um doudo que soffria por ter
+talento. Pedi-lhe as circumstancias do seu martyrio sublime, e
+respondeu-me o seguinte com a mais profunda
+convic&ccedil;&atilde;o, e a mais tocante solemnidade
+philosophica: Os talentos s&atilde;o raros, e os estupidos
+s&atilde;o muitos. Os estupidos guerream barbaramente o talento:
+s&atilde;o os vandalos do mundo espiritual. O talento
+n&atilde;o tem <span class="pagenum">[98]</span>partido
+n'esta peleja desigual. Foge,
+dispara na retirada um tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por
+fim, isola-se, segrega-se do contacto do mundo, e curte em
+silencio aquelle fel de vingan&ccedil;a, que, mais cedo ou mais
+tarde, cospe na cara d'algum inimigo, que encontra desviado do corpo do
+exercito.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ahi tem&#8213;acrescentou elle&#8213;a raz&atilde;o porque o homem
+de talento &eacute; perigoso na sociedade. O odio inspira-lhe a
+eloquencia da trai&ccedil;&atilde;o. A mulher,
+que lhe ouve o astucioso hymno das suas apaixonadas lamurias,
+acredita-o, abandona-se, perde-se, e retira-se, por fim, gritando
+contra o seu algoz, e pedindo &aacute; sociedade que grite com
+ella.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Agora, diz-me tu, Carlos, at&eacute; que ponto devemos
+acreditar este doudo. Eu por mim n&atilde;o me satisfa&ccedil;o
+com o seu systema, todavia sinto-me propensa a aperfei&ccedil;oar o
+prisma do doudo, at&eacute; encontrar as c&ocirc;res
+inalteraveis do juizo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Seja o que f&ocirc;r, eu creio que &eacute;s uma
+excep&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o soffra com isto a tua
+modestia. A tua carta fez-me chorar, e acredito que soffrias,
+escrevendo-a. Has-de continuar a visitar-me espiritualmente na minha
+Thebaida, sem cilicios, sim?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Agora conclua-se a historia, que leva seus visos de folhetim
+philosophico, moral, social, e n&atilde;o sei que mais por ahi se
+diz, que n&atilde;o vale nada.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Contrahi amisade com a filha do visconde do Prado.
+N&atilde;o era ella, por&eacute;m, t&atilde;o
+intima, que me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra
+n&atilde;o era meu
+irm&atilde;o. Por elle me f&ocirc;ra imposto, como preceito, o
+segredo de nossas rela&ccedil;&otilde;es. Bem longe estava eu
+de
+comprehender este zelo de virtuosa honestidade, quando a m&atilde;o
+d'um demonio me tirou a venda dos olhos.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vasco amava Laura!! Eu puz dous pontos de
+admira&ccedil;&atilde;o, mas acredita que foi uma urgencia
+rhetorica, uma composi&ccedil;&atilde;o artistica,
+que me obrigou a
+admirar-me, <span class="pagenum">[99]</span>escrevendo,
+de cousas que me n&atilde;o
+admiram, pensando.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Que &eacute; o que levou t&atilde;o depressa este
+homem a aborrecer-me, pobre mulher, que despresei o mundo, e me
+despresei a mim propria para satisfazer-lhe o capricho d'alguns mezes?
+Foi uma miseria que ainda hoje me envergonha, supposto que esta
+vergonha devesse ser um reflexo das faces d'elle... Vasco amava a filha
+do visconde do Prado, a <em>Laura</em>
+d'alguns
+mezes antes, porque a Elisa d'hoje era a herdeira de n&atilde;o sei
+quantos centos de contos de reis.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Devo envergonhar-me de ter amado este homem, nao
+&eacute; verdade, Carlos? N&atilde;o devo soffrer um
+instante a perda d'um miseravel, que eu vejo d'aqui com uma grilheta
+d'ouro algemada a uma perna, tapando em v&atilde;o os ouvidos para
+n&atilde;o ouvir-lhe o ruido... a senten&ccedil;a
+do for&ccedil;ado que o segue at&eacute; ao fim d'uma
+existencia
+farta de opprobrio, e celebre de infamias!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E n&atilde;o soffro, Carlos! Tenho aqui no seio uma
+ulcera que n&atilde;o tem cura... choro, porque &eacute;
+intensa a d&ocirc;r que ella me causa... mas, olha, n&atilde;o
+tenho
+lagrimas que n&atilde;o sejam remorsos... n&atilde;o tenho
+remorsos que n&atilde;o sejam picados pela affronta que fiz a minha
+m&atilde;i, e a meu irm&atilde;o... N&atilde;o me doe o meu
+proprio
+aviltamento, n&atilde;o! Se em minha alma cabe algum enthusiasmo,
+algum desejo, &eacute; o enthusiasmo da penitencia, &eacute; o
+desejo de torturar-me...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Fugi tanto da historia, meu Deus!... Desculpa estes desvios,
+meu paciente amigo!... Eu queria correr muito sobre o que me falta, e
+hei-de conseguil-o, porque n&atilde;o posso parar, e temo de me
+converter em estatua, como a mulher de Loth, quando olho com
+atten&ccedil;&atilde;o para o meu passado...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu
+genro. Vasco n&atilde;o sei como recebeu o convite; o que eu sei
+&eacute; que os vinculos d'estas
+rela&ccedil;&otilde;es estreitaram-se <span class="pagenum">[100]</span>muito,
+e Elisa, desde esse dia,
+expandiu-se comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas.
+Estas intimidades eram o prologo d'outra que tu avaliar&aacute;s.
+Foi ella a propria que me disse que esperava ainda poder chamar-me
+irm&atilde;! Isto &eacute; uma atrocidade
+sublime, Carlos! Diante d'essa d&ocirc;r calam-se todas as agonias
+possiveis! O insulto n&atilde;o podia ser mais
+despeda&ccedil;ador! O punhal n&atilde;o podia entrar mais
+dentro no virtuoso cora&ccedil;&atilde;o da pobre amante de
+Vasco de Seabra!...
+Agora, sim, que eu quero a tua admira&ccedil;&atilde;o, meu
+amigo! Tenho direito &aacute; tua compaix&atilde;o, se
+n&atilde;o
+p&oacute;des estremecer de enthusiasmo diante do heroismo d'uma
+martyr! Ouvi este annuncio dilacerante!... Senti fugir-me o
+entendimento... aquella mulher suffocou-me a voz na garganta...
+horrorisei-me n&atilde;o sei se d'ella, se d'elle, se de mim... Nem
+uma lagrima!... acreditei-me douda... Senti-me estupida d'aquelle
+idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos v&ecirc;em
+nos labios um sorriso de imbecilidade...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Elisa parece que recuou aterrada da express&atilde;o da
+minha physionomia... Fez-me n&atilde;o sei que perguntas...
+n&atilde;o me lembro mesmo se aquella mulher permaneceu diante de
+mim... Basta!... n&atilde;o posso prolongar esta
+situa&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Na tarde d'esse mesmo dia, chamei uma creada da hospedaria.
+Pedi-lhe que me vendesse algumas joias de pouco valor que eu possuia;
+eram minhas; minhas n&atilde;o... eram um roubo que eu fiz a minha
+m&atilde;i.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Na manh&atilde; do dia seguinte, quando Vasco, depois de
+almo&ccedil;o, visitava o visconde do Prado, escrevi estas linhas:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vasco de Seabra n&atilde;o p&oacute;de gloriar-se de
+ter deshonrado Henriqueta de Lencastre. Esta mulher sentia-se digna
+d'uma cor&ocirc;a de virgem, virgem do
+cora&ccedil;&atilde;o, virgem na sua honra, quando abandonava
+um vill&atilde;o, que n&atilde;o p&ocirc;de infectar da sua
+infamia o cora&ccedil;&atilde;o <span class="pagenum">[101]</span>da
+mulher, que arrastou ao abysmo da sua
+lama, sem lhe salpicar a cara. Foi a Providencia que a
+salvou!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Deixei este escripto sobre as luvas de Vasco, e fui
+&aacute; esta&ccedil;&atilde;o dos caminhos de ferro.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Dous dias depois entrava n'um paquete.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ao v&ecirc;r a minha patria, cobri o rosto com as
+m&atilde;os, e chorei... Era a vergonha e o remorso. Diante do
+Porto senti uma inspira&ccedil;&atilde;o do c&eacute;o.
+Saltei n'uma catraia, e pouco depois achava-me n'esta terra, sem um
+conhecimento, sem um apoio, e sem subsistencia para muitos dias.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Entrei em casa d'uma modista, e pedi obra. N&atilde;o
+m'a negou. Aluguei uma agua-furtada, onde trabalho ha quatro annos;
+onde, ha quatro annos, comprimo bem aos rins, segundo a linguagem
+antiga, os cilicios do meu remorso.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Minha m&atilde;i e meu irm&atilde;o vivem. Julgam-me
+morta, e eu pe&ccedil;o a Deus que n&atilde;o haja um indicio
+da minha
+vida. S&ecirc;-me tu fiel, meu generoso amigo, n&atilde;o me
+denuncies, pela tua honra, e pela sorte de tuas irm&atilde;s.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Tu sabes o resto. Ouviste, no theatro, Elisa. Foi ella a que
+disse que seu marido a abandon&aacute;ra, chamando-lhe
+<em>Laura</em>. Aquella
+est&aacute; punida...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Sophia... (lembras-te de Sophia?) essa &eacute; uma
+pequena aventura, que aproveitei para tornar menos insipidas aquellas
+horas, em que me acompanhaste... Foi uma rival que n&atilde;o honra
+ninguem... uma
+<em>Laura</em> com os respeitos publicos, e
+as considera&ccedil;&otilde;es que se
+barateiam a corpos ulcerosos, com tanto que se vistam de veludos
+matizados. Ainda eu era feliz, quando o infame amante d'essa mulher me
+dava aquelle annel, que viste, como obla&ccedil;&atilde;o de
+sacrificio que me fazia d'uma
+rival...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Escreve-me.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Has-de ouvir-me no proximo carnaval.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Por ultimo, Carlos, deixa-me fazer-te uma pergunta:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[102]</span>
+&laquo;N&atilde;o me achas mais defeituosa que o nariz
+d'aquella andaluza da historia, que te contei?<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Henriqueta</em>.&raquo;</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>X.</h3>
+
+<br />
+
+&Eacute; natural a exalta&ccedil;&atilde;o de Carlos,
+depois de erguido o v&eacute;o, em que se escondiam os mysterios de
+Henriqueta. Alma apaixonada pela poesia do bello, e pela poesia da
+desgra&ccedil;a, Carlos n&atilde;o teve nunca
+impress&atilde;o na vida, que mais lhe incendiasse uma
+paix&atilde;o!<br />
+
+<br />
+
+As cartas a Angela Michaela eram o desafogo do seu amor sem
+esperan&ccedil;a. Os mais ferventes extasis da sua alma de poeta,
+imprimiu-os n'aquellas cartas escriptas, debaixo de uma
+impress&atilde;o, que lhe roubava a tranquilidade do somno, e o
+refugio d'outros affectos.<br />
+
+<br />
+
+Henriqueta respondera concisamente &aacute;s explos&otilde;es
+d'um delirio, que nem sequer a fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta
+n&atilde;o podia amar. Arrancaram-lhe pela raiz a fl&ocirc;r do
+cora&ccedil;&atilde;o.
+Esterilisaram-lhe a arvore dos bellos fructos, e envenenaram-lhe de
+sarcasmo e ironia os instinctos do carinho brando, que acompanham a
+mulher at&eacute; &aacute; sepultura.<br />
+
+<br />
+
+Carlos n&atilde;o podia supportar uma repulsa nobre. Persuadira-se
+que havia um estal&atilde;o moral para todas. Confiava no seu
+ascendente, em n&atilde;o sei que mulheres, entre as quaes lhe
+n&atilde;o f&ocirc;ra penoso nunca fixar o
+dia do seu triumpho.<br />
+
+<br />
+
+Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. O
+amor-proprio, angustiado nos apertos d'uma impossibilidade invencivel,
+adquire uma nova fei&ccedil;&atilde;o, e converte-se em
+paix&atilde;o, como as paix&otilde;es primeiras, que nos sopram
+a tempestade no limpido lago da adolescencia.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[103]</span>
+Carlos, em ultimo recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No
+lance extremo d'um desafogo, hiria elle, audacioso, humilhar-se aos
+p&eacute;s d'aquella mulher,
+que a n&atilde;o poder amal-o, choraria com elle ao menos.<br />
+
+<br />
+
+Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a
+imagina&ccedil;&atilde;o, quando lhe occorreu a astuciosa
+lembran&ccedil;a de surprehender a morada de Henriqueta
+surprehendendo a pessoa que no correio lhe tirava as cartas,
+subscriptadas a Angela Michaela.<br />
+
+<br />
+
+Conseguido o compromettimento d'um empregado do correio, Carlos
+empregou n'esta miss&atilde;o um vigia
+insuspeito.<br />
+
+<br />
+
+No dia de correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n.&ordm;
+628. O
+que a entregou fez um signal a um homem, que passeava no corredor, e
+este homem seguiu de longe a velha at&eacute; ao campo de Santo
+Ovidio. Feliz das vantagens, que lucr&aacute;ra em tal
+commiss&atilde;o, correu a encontrar-se com Carlos. &Eacute;
+ocioso descrever a precipita&ccedil;&atilde;o com que o
+enamorado mancebo,
+espiritualisado por algumas libras, correu &aacute; indicada casa.
+Em honra de Carlos, &eacute; necessario dizer que aquellas libras
+representavam a eloquencia com que elle tentaria mover a velha em seu
+favor, por isso que, &aacute; vista das
+informa&ccedil;&otilde;es que tivera da pobreza da casa,
+concluiu que n&atilde;o era alli a residencia de Henriqueta.<br />
+
+<br />
+
+Acertou.<br />
+
+<br />
+
+A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua baiuca, quando Carlos
+se aproximou, e muito urbanamente lhe pediu licen&ccedil;a para
+dizer-lhe duas palavras.<br />
+
+<br />
+
+A velha, que n&atilde;o podia receiar alguma aggress&atilde;o
+trai&ccedil;oeira aos seus virtuosos oitenta annos, franqueou os
+umbraes da sua possilga, e prestou ao seu hospede a cadeira unica do
+seu camarim de tecto de vigas, e pavimento de lages.<br />
+
+<br />
+
+Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembrado
+<span class="pagenum">[104]</span>da chave com que
+Bernardes manda fechar os sonetos, applicou-a
+&aacute; abertura da prosa, e conheceu de prompto as vantagens de
+ser classico, quando conv&eacute;m. A velha, quando viu cahir no
+rega&ccedil;o duas libras, sentiu o que nunca sentira a mais
+carinhosa das m&atilde;es, com dous filhinhos no collo. Luziram-lhe
+os olhos, e
+dan&ccedil;aram-lhe os nervos em todas as
+evolu&ccedil;&otilde;es dos seus vinte e cinco annos.<br />
+
+<br />
+
+Feito isto, Carlos precisou a sua miss&atilde;o nos seguintes
+termos:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Esse pequeno donativo, que lhe fa&ccedil;o, ha-de ser
+repetido, se vm.<sup>ce</sup> me fizer um grande
+servi&ccedil;o, que
+p&oacute;de fazer-me. vm.<sup>ce</sup> recebeu, ha
+pouco, uma carta, e vai
+entregal-a a uma pessoa, cuja felicidade est&aacute; nas minhas
+m&atilde;os. Estou certo que vm.<sup>ce</sup>
+n&atilde;o ha-de
+querer occultar-me a morada d'essa senhora, e prival-a de ser feliz. O
+servi&ccedil;o que tenho a pedir-lhe, e a pagar-lhe bem,
+&eacute; este; p&oacute;de fazer-m'o?<br />
+
+<br />
+
+A fragil mulher, que n&atilde;o se sentia bastante heroina para hir
+de encontro &aacute; legenda, que D. Jo&atilde;o V.
+fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com mais algumas
+reflex&otilde;es e denunciou o santo asylo das lagrimas de
+Henriqueta, segunda vez atrai&ccedil;oada por uma mulher, fragil
+&aacute; tenta&ccedil;&atilde;o do ouro, que lhe
+roub&aacute;ra um amante, e vem agora devassar-lhe o seu sagrado
+refugio.<br />
+
+<br />
+
+Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa da <em>rua
+dos Pelames</em>, subia a um
+terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe n&atilde;o foi aberta.
+Esperou. Momentos depois, subia um rapaz com uma caixa de
+chap&eacute;o de senhora: bateu; perguntaram de dentro quem era, o
+rapaz fallou, e a porta foi immediatamente aberta.<br />
+
+<br />
+
+Henriqueta estava sem domin&oacute; na presen&ccedil;a de
+Carlos.<br />
+
+<br />
+
+Foi sublime esta appari&ccedil;&atilde;o. A mulher, que Carlos
+viu, n&atilde;o saberemos n&oacute;s pintal-a. Era o original
+d'essas esplendidas illuminuras, que o pincel do seculo XVI fazia
+<span class="pagenum">[105]</span>saltar
+da t&eacute;la, e consagrava a Deus, denominando-as Magdalena,
+Maria Egypsiaca, e Margarida de Corthona.<br />
+
+<br />
+
+O homem &eacute; fraco, e sente-se mesquinho perante a magestade da
+belleza! Carlos sentiu-se dobrar nos joelhos; e a primeira palavra, que
+balbuciou foi
+&laquo;perd&atilde;o!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Henriqueta n&atilde;o p&ocirc;de receber com a firmesa, que
+devia suppor-se-lhe, uma tal surpreza. Sentou-se e limpou o suor que
+lhe correra de improviso todo o corpo.<br />
+
+<br />
+
+A coragem de Carlos desmereceu do muito em que elle a tinha. Succumbiu,
+e nem, ao menos lhe deixou o dom dos lugares communs. Silenciosos,
+olhavam-se com uma simplicidade infantil, indigna de ambos. Henriqueta
+revolvia no pensamento a industria com que o seu segredo f&ocirc;ra
+violado. Carlos invocava ao
+cora&ccedil;&atilde;o palavras que o salvassem d'aquella crise,
+que o materialisava por ter tocado o extremo do espiritualismo.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o nos faremos cargo de satisfazer as despoticas exigencias
+do leitor, que pede contas das
+interjei&ccedil;&otilde;es, e das reticencias d'um dialogo.<br />
+
+<br />
+
+O que podemos garantir-lhe, debaixo da nossa palavra de folhetinista,
+&eacute; que a musa das
+lamenta&ccedil;&otilde;es desceu &aacute;
+invoca&ccedil;&atilde;o de Carlos, que, por
+fim, desenvolveu toda a eloquencia da paix&atilde;o. Henriqueta
+ouviu-o com a seriedade com que uma rainha absoluta escuta um ministro
+da fazenda, que lhe conta os chatissismos e massudos negocios das
+finan&ccedil;as.<br />
+
+<br />
+
+Sorria-se, &aacute;s vezes, e respondia com um resaibo de magoa e
+de resentimento, que matava, no nascedouro, os transportes do seu
+infeliz amante.<br />
+
+<br />
+
+As suas ultimas palavras, essas sim, s&atilde;o dignas de se
+archivarem para escarmento d'aquelles que se julgam herdeiros dos raios
+de Jupiter Olympico, quando se empavonam de fulminar as mulheres, que
+tiveram a desventura de se queimarem, como as mariposas, no lume
+electrico de seus olhos. Foram estas as suas palavras:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Snr. Carlos! At&eacute; hoje os nossos espiritos viveram
+<span class="pagenum">[106]</span>ligados por umas
+nupcias, que eu pensei n&atilde;o perturbarem
+a nossa cara tranquillidade, nem escandalisarem a caprichosa
+opini&atilde;o publica. D'hora em diante, um solemne divorcio entre
+os nossos espiritos. Estou punida de mais. Fui fraca e talvez
+m&aacute;, em prender-lhe a sua atten&ccedil;&atilde;o n'um
+baile mascarado. Perdoe-me, que
+sou, por isso, mais desgra&ccedil;ada do que pensa. Seja meu amigo.
+N&atilde;o me envenene esta santa obscuridade, este circulo
+estreito da minha vida, em que a m&atilde;o de Deus tem derramado
+algumas fl&ocirc;res. Se n&atilde;o p&oacute;de
+avaliar o travo das minhas lagrimas, respeite cavalheiramente uma
+mulher, que lhe pede com as m&atilde;os erguidas o favor, a piedade
+de a deixar s&oacute;sinha com o segredo da sua deshonra; que eu
+prometto nunca mais alargar a minha alma n'estas
+revela&ccedil;&otilde;es, que morreriam comigo, se
+eu podesse suspeitar que attrahia com ellas a minha
+desgra&ccedil;a...&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Henriqueta continuava, quando Carlos, com lagrimas d'uma d&ocirc;r
+sincera, lhe pedia ao menos a sua estima, e lhe entregava as suas
+cartas, debaixo do sagrado juramento de nunca mais a procurar.<br />
+
+<br />
+
+Henriqueta, enthusiasmada pelo pathetico d'esta nobre rogativa, apertou
+anciosamente a m&atilde;o de Carlos, e despediram-se....<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+E nunca mais se viram.<br />
+
+<br />
+
+Mas o leitor tem direito a saber mais alguma cousa.<br />
+
+<br />
+
+Carlos, um mez depois, partiu para Lisboa, colheu as necessarias
+informa&ccedil;&otilde;es, e entrou em casa da m&atilde;i
+de Henriqueta. Uma senhora, vestida de lucto, e encostada a duas
+creadas, veio encontral-o n'uma sala.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenho a honra de conhecer...&#8213;disse a m&atilde;i
+de Henriqueta.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou um amigo...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De meu filho?!...&#8213;interrompeu ella&#8213;Vem-me <span class="pagenum">[107]</span>dar
+parte do triste acontecimento?... Eu j&aacute; o sei!... Meu filho
+&eacute; um assassino!...<br />
+
+<br />
+
+E prerompeu n'um choro, que a n&atilde;o deixava articular
+palavras.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O filho de v. exc.<sup>a</sup> assassino!... interpellou
+Carlos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... sim... pois n&atilde;o sabe que elle matou em Londres o
+seductor da minha desgra&ccedil;ada filha?!... da minha filha...
+assassinada por elle...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assassinada, sim, mas s&oacute; na sua honra&#8213;atalhou Carlos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois minha filha vive!... Henriqueta vive!... Oh meu Deus, meu Deus,
+eu vos agrade&ccedil;o!...<br />
+
+<br />
+
+A pobre senhora ajoelhou, as creadas ajoelharam com ella, e Carlos
+sentiu um calefrio nervoso, e uma exalta&ccedil;&atilde;o
+religiosa, que quasi o fizeram ajoelhar
+com aquelle grupo de mulheres, cobertas de lagrimas....<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Dias depois, Henriqueta era procurada no seu terceiro andar, por seu
+irm&atilde;o, e choravam ambos abra&ccedil;ados com toda a
+expans&atilde;o d'uma d&ocirc;r represada.<br />
+
+<br />
+
+Houve ahi um drama de agonias grandiosas, que a linguagem do homem
+n&atilde;o saber&aacute; descrever nunca.<br />
+
+<br />
+
+Henriqueta abra&ccedil;ou sua m&atilde;i, e entrou n'um
+convento onde pede incessantemente a Deus a
+salva&ccedil;&atilde;o de Vasco de Seabra.<br />
+
+<br />
+
+Carlos &eacute; o intimo amigo d'esta familia, e conta este lance
+da sua vida como um heroismo digno d'outras &eacute;pocas.<br />
+
+<br />
+
+Laura, viuva de quatro mezes, contrahe segundas nupcias, e vive feliz
+com o seu segundo marido, digno d'ella.<br />
+
+<br />
+
+Acabou o conto.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="C6"></a>DINHEIRO! DINHEIRO!</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Contaram-me, ha poucas horas, um episodio da extraordinaria vida d'um
+homem, que apenas hoje conta vinte e cinco annos. Quem elle
+&eacute; n&atilde;o o direi eu,
+ainda que me fa&ccedil;am... eu sei c&aacute;!? bacharel! Eu
+bem sei que n&atilde;o posso encarecer-me com este segredo, porque
+ha ahi uma boa duzia de pessoas que o sabem, por triste experiencia,
+mais miudamente que eu.<br />
+
+<br />
+
+Mas o que &eacute; mais bonito, e n&atilde;o sei mesmo se mais
+romantico, &eacute; que eu conhe&ccedil;o pelo menos quatro
+primas-donas, af&oacute;ra as comprimarias, d'esta partitura, que
+negam com toda a energia dos seus brios o importante papel que
+desempenharam.<br />
+
+<br />
+
+Deixal-as negar, que eu tambem n&atilde;o digo quem ellas
+s&atilde;o, ainda que me deem o habito de Christo.<br />
+
+<br />
+
+Outra cousa:<br />
+
+<br />
+
+O muito veridico archivista dos factos, que v&atilde;o
+l&ecirc;r-se, pediu-me, por tudo quanto ha sagrado no folhetim, que
+n&atilde;o divulgasse, nem por sombras, o seu nome.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o o direi nunca, ainda que me fa&ccedil;am...
+bar&atilde;o!<br />
+
+<br />
+
+E est&aacute; dito tudo.<br />
+
+<br />
+
+Agora, gentis leitoras e eruditos leitores, come&ccedil;a o
+romance, em nome da moralidade, do decoro e dos interesses materiaes...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>
+DINHEIRO! DINHEIRO!</h2>
+
+<br />
+
+<h3>
+I.</h3>
+
+<br />
+
+Foi assim que principiou o meu illustre amigo:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alli onde o v&ecirc;s &eacute; um embry&atilde;o de
+romances desgrenhados...<br />
+
+<br />
+
+Referia-se a um rapaz que passava por debaixo das minhas janellas. Era
+uma boa figura, visto pelas costas; mas de frente n&atilde;o se
+podia contemplar-lhe o rosto sem recuar... n&atilde;o de medo, mas
+d'um n&atilde;o sei que
+desabrido e repulsivo. E n&atilde;o era feio. Eu por mim, custou-me
+muito a sustentar cara firme quando elle me fitava com aquelles olhos
+negros e magneticos. Fazia-me medo, palavra d'honra! Depois afiz-me
+&aacute;quella petulancia d'olhar, &aacute;quelle carregado
+provocante da sobrancelha, e, gra&ccedil;as a Deus, j&aacute;
+me n&atilde;o custa
+tanto.<br />
+
+<br />
+
+Ora ahi est&aacute;, sem grave impertinencia, tra&ccedil;ado
+corporalmente o snr. Alvaro de Sousa, que passava na minha rua.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com que ent&atilde;o (disse eu) &eacute; um
+embry&atilde;o de romances aquelle senhor?! Bem me parecia a mim
+que <span class="pagenum">[114]</span>a vida
+d'aquelle homem n&atilde;o devia ser
+symetrica, pausada, e prosaicamente chata como a minha! Eu nem se quer
+lhe sei de nada! Ando c&aacute; t&atilde;o f&oacute;ra
+das barreiras da sociedade, e dos dramas contemporaneos... que nem ao
+menos sei se a mazurka est&aacute; no quinto grau da
+refina&ccedil;&atilde;o, ou se as polkas cederam o terreno
+&aacute;
+restaura&ccedil;&atilde;o do minuete da c&ocirc;rte... Que
+miseria!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o perdes nada, meu caro. Olha que a verdadeira miseria
+est&aacute; escondida no manto de lentejoulas com que esta
+sociedade desdentada e tr&ocirc;pega se encobre. E, se
+n&atilde;o, deixa-me l&ecirc;r-te uma pagina da vida de Alvaro
+de Sousa, e ver&aacute;s como se vive por l&aacute;...<br />
+
+<br />
+
+Como sabes, aquelle rapaz &eacute; da plebe, e aspirou sempre a ser
+da fidalguia. O homem n&atilde;o podia tragar esta desigualdade de
+gosos imposta pela desigualdade do dinheiro. Sem dinheiro, e sem
+av&oacute;s, Alvaro achava-se aos vinte annos n'este mundo sem
+saber o fim para que viera, nem a fileira social em que devia
+perfilar-se.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o ha tantos officios?&#8213;interrompi eu.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa pergunta n&atilde;o me parece tua! Pois tu querias sentar
+n'uma tripe&ccedil;a um homem de intelligencia?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que duvida! Os sapateiros de Lisboa n&atilde;o tem um jornal?
+Alvaro de Sousa seria um habil redactor do <em>jornal dos
+sapateiros</em>.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s zombando!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Palavra de honra, que n&atilde;o zombo! Tu sabes l&aacute;
+porque horisontes vai ampliar-se o espirito da arte? Sabes se a
+tripe&ccedil;a ter&aacute; uma plastica e uma
+esthetica! Sabes se a bota de canh&atilde;o ter&aacute; um
+bello ideal? Sabes se
+a tomba e a intercospia ter&atilde;o uma philosophia? Sabes se as
+mathematicas vir&atilde;o, com a sua geometria applicada
+&aacute; bota, regular as dimens&otilde;es do salto? Sabes se a
+dynamica ser&aacute; a ultima express&atilde;o do pino? E
+n&atilde;o
+achas aqui n'este complexo de sciencias um succolento
+pabulo para um sapateiro talentoso, para um
+sapateiro-Newton, para um sapateiro-Girardin?<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[115]</span> &#8213;Tenho entendido
+que n&atilde;o queres a historia do homem...
+Fa&ccedil;amos treguas... Eu dou-te o diploma de espirituoso, e tu
+fechas a torneira ao espirito por algum tempo... Guarda esse cabedal,
+que desperdi&ccedil;as, para os teus folhetins. Far&aacute;s
+rir um fidalgo de ra&ccedil;a,
+embora o seu quinto av&ocirc; fizesse borzeguins para a tua quinta
+av&oacute;. Far&aacute;s indignar o sapateiro, teu
+irm&atilde;o pelo sangue, pelo osso, e pela carne, e teu
+irm&atilde;o pela arte, porque, em fim, eu n&atilde;o sei se a
+sociedade dispensa mais depressa os teus folhetins que as botas...<br />
+
+<br />
+
+E eu vi que o meu amigo tinha raz&atilde;o, e dei-lhe plena
+liberdade de historiar o episodio de Alvaro de Sousa, que
+contin&uacute;a assim:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alvaro, &aacute; custa de muitos vexames e affrontas conseguiu
+relacionar-se em algumas casas, onde compareciam algumas das primeiras
+mulheres. Eram talvez estas as notabilidades, as sacerdotisas de
+inicia&ccedil;&atilde;o para os novi&ccedil;os que entravam
+no faustuoso templo das vestaes em quinta m&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+O rapaz foi mais adiante nas suas ambi&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+O cora&ccedil;&atilde;o pedia-lhe alimento, o espirito
+pedia-lhe amor, as aspira&ccedil;&otilde;es anceavam-lhe um
+ideal, e o
+altivo mancebo entendeu que aquellas mulheres deviam comprehendel-o no
+cora&ccedil;&atilde;o, no espirito, e nas
+aspira&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+Era, realmente, exigir muito, no anno do Senhor de 1849!<br />
+
+<br />
+
+A primeira declara&ccedil;&atilde;o, que balbuciou, teve em
+troca um sorrir de despreso. Aventurou uma segunda centelha da lava,
+que o escaldava, por dentro, e achou de g&ecirc;lo todas aquellas
+mulheres. E n&atilde;o era isto
+s&oacute;. Escarneciam-no. Lastimavam-lhe a mania das
+declara&ccedil;&otilde;es; e algumas galhofeiras senhoras
+reuniram-se, uma noite de baile, para lhe dizerem que, todas juntas,
+hiam devotamente cumprir uma novena a Santo Anastacio para que o
+servinho de Deus o livrasse d'aquella hydrophobia amorosa. &Eacute;
+onde podia levar-se o insulto!<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[116]</span>
+Alvaro de Sousa entrou no amago da sua consciencia, como n'um abysmo
+sem luz, n'um segredo de torturas, e despeda&ccedil;ou um a um os
+sentimentos generosos com que entr&aacute;ra n'este mundo ingrato.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pobre!</em> esta maldita palavra, estigma
+de reprova&ccedil;&atilde;o, era o seu demonio das vigilias e
+dos sonhos!<br />
+
+<br />
+
+Como o supersticioso, que recua espavorido &aacute; larva
+imaginaria do seu crime, Alvaro de Sousa fugia dos homens, como se
+elles, juizes implacaveis, devessem sentencial-o no crime da sua
+pobresa.<br />
+
+<br />
+
+Mas um cora&ccedil;&atilde;o altivo de impotente orgulho
+n&atilde;o podia transigir com estas leis barbaras da sociedade,
+que amputam no cora&ccedil;&atilde;o do pobre os mais augustos
+sentimentos da sua vitalidade.<br />
+
+<br />
+
+Ha uma apparente reconcilia&ccedil;&atilde;o entre a affronta e
+a pobresa: &eacute; a reconcilia&ccedil;&atilde;o do odio:
+&eacute; um pacto de vingan&ccedil;a, sellado pelas lagrimas do
+affrontado; &eacute; uma letra de usura avara de
+desfor&ccedil;o, a vencer-se, sem praso fixo, mas a vencer-se um
+dia.<br />
+
+<br />
+
+Esta f&ocirc;ra a reconcilia&ccedil;&atilde;o de Alvaro de
+Sousa com as <em>generosas</em> mulheres da
+sua
+affei&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ellas, naturalmente, riam-se, se elle lhes d&eacute;sse parte
+d'essa reconcilia&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Riram muito. Alguem lhes disse: &laquo;Aquelle pobre rapaz, que
+sentia freneticamente as suas paix&otilde;es, fugiu da sociedade, e
+devora, na solid&atilde;o do seu quarto, um rancor profundo...&#8213;A
+mim:&#8213;interrompeu uma d'ellas&#8213;Que pena! Oh Theresinha, n&atilde;o
+&eacute; uma
+verdadeira calamidade o odio d'aquelle rapaz?&#8213;Ai! Maria da Luz! que
+triste futuro nos espera...&raquo;<br />
+
+<br />
+
+E chasqueavam assim o seu <em>ridiculo</em>
+inimigo, perguntando aos amigos d'elle em que dia finalmente as
+hostilidades se romperiam.<br />
+
+<br />
+
+Isto ninguem o dizia a Alvaro, porque entre o odio e a
+vingan&ccedil;a impossivel, nas almas fortes, est&aacute; o
+suicidio.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Nas almas fortes!</em> (atalhei eu com
+gravidade <span class="pagenum">[117]</span>
+philosophica). Ent&atilde;o n&atilde;o sei eu o que
+s&atilde;o &laquo;almas fortes!&raquo; Cobardes chamo eu
+aquelles que desesperam. A suprema das miserias humanas &eacute; a
+vingan&ccedil;a
+reservada por causa d'amores despresados. O tal Alvaro de Sousa
+ser&aacute; muito romanesco, mas tambem &eacute; um grande
+tolo. Com que direito queria elle imp&ocirc;r-se ao amor d'essas
+mulheres? &laquo;Despresaram-no porque era pobre&raquo;
+respondes tu. E se o despresassem porque era feio? Achas que a pobresa
+tenha muitas seduc&ccedil;&otilde;es? E porque
+n&atilde;o foi Alvaro de Sousa amar uma peixeira que as ha bem
+bonitas? Se a sua alma de poeta aspirava a um <em>ideal
+olympico e metaphysicamente imponderavel</em> porque foi
+elle procurar o seu ideal nas mulheres carnalmente vestidas de
+tafet&aacute;s e veludos? A mulher ordinaria, virgem na alma, sem a
+deprava&ccedil;&atilde;o das Aspasias que o
+repudiaram, n&atilde;o lhe seria mais interessante pela candura,
+pela innocencia, e pelo angelico scismar dos singelos devaneios? Eu
+n&atilde;o posso soffrer estes Werters caricatos que appellam para
+o suicidio, quando a mulher dos seus sonhos n&atilde;o
+p&oacute;de altear-se &aacute;s delicadas
+concep&ccedil;&otilde;es da sua alma! Vai a v&ecirc;r-se a
+mulher em que elles empregam todo o seu cabedal de sentimentalismo, e
+depara-se uma estragada de espirito, abastardada nos instinctos,
+incapaz de conceber a generosidade, gelada para as suaves
+impress&otilde;es d'uma amisade honesta, e finalmente uma Ninon sem
+o <em>espirito</em> da franceza,
+mas opulenta como ella de <em>materia</em>.
+Repito: porque
+n&atilde;o v&atilde;o estes impostores queimar o incenso das
+suas angelicas adora&ccedil;&otilde;es
+aos p&eacute;s d'uma donzellinha d'olhos timidos, e faces
+purpurinas? N&atilde;o &eacute; t&atilde;o bello
+surprehender o pejo da
+innocencia!? N&atilde;o ha tanta poesia n'aquellas lagrimas de um
+primeiro amor que desconfia da sombra de uma mulher, que passa ao longe
+do seu Medro! N&atilde;o ha ahi tantas Angelicas obscuras, tantas
+Virginias, segregadas dos sal&otilde;es das Phryneas? Emfim, meu
+sentimental historiador de paix&otilde;es desgrenhadas, eu
+n&atilde;o posso sentir
+comtigo <span class="pagenum">[118]</span>as
+desventuras do snr.
+Alvaro. Quero ouvil-as, porque emfim, escrevo folhetins, e minto quasi
+sempre para encher um espa&ccedil;o de papel. P&oacute;de ser
+que
+digas alguma cousa que valha a pena de captar a
+atten&ccedil;&atilde;o
+d'este publico portuense, que l&ecirc; constantemente, e,
+&aacute;
+falta de romances, por n&atilde;o poder emendar o costume de
+l&ecirc;r sempre, come&ccedil;a a mastigar profundas
+lucubra&ccedil;&otilde;es sobre a doen&ccedil;a das
+vinhas.&#8213;Ora, diz l&aacute;.<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+II.</h3>
+
+<br />
+
+O meu amigo continuou:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alvaro reconcentrou-se em uma tal misanthropia, que nem ao menos os
+intimos amigos recebia em casa. Dir-se-hia que aquella vida estava a
+levedar-se do amargo fermento de rancor que as mulheres lhe levaram
+&aacute; alma. Eu vi-o uma vez. Parecia um Smarra, um magico, uma
+cousa d'um outro mundo, onde os homens conversam com as larvas. Morava
+no quarto o terror. A sombra da aza da morte empanava aquelle rosto,
+d'onde a vivesa e o lume fugira, deixando como vestigios, as rugas
+cadavericas d'uma lenta agonia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Devia ser um demonio! Cuidei que uns figur&otilde;es assim eram
+privilegio dos romances!... E os cabellos? naturalmente arripiados como
+os do Asaverus, de Orestes, ou de qualquer outro estafermo,
+n&atilde;o &eacute; verdade?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que tu quizeres... O caso &eacute; que eu julguei-o demente,
+ou, pelo menos, desgra&ccedil;ado, que n&atilde;o sei
+se &eacute; menos, por toda a vida.<br />
+
+<br />
+
+Agora, levanta-se o pano do segundo acto.<br />
+
+<br />
+
+Uma bella manh&atilde;, sahe um homem d'um navio com quatro
+bah&uacute;s atraz de si. Este homem procurou a morada de um seu
+irm&atilde;o; este irm&atilde;o, que tinha morrido, era o pai
+de Alvaro. O tio de Alvaro, por consequencia, <span class="pagenum">[119]</span>era
+um rico brasileiro, que acabava
+de manifestar seiscentos contos.<br />
+
+<br />
+
+Alvaro recebeu-o com sinistra rudeza. O snr. Manoel da Silva
+abra&ccedil;ou seu sobrinho, chorando a morte de seu
+irm&atilde;o, que era muito semelhante com seu sobrinho. Deu
+gra&ccedil;as &aacute; Providencia por encontrar um
+herdeiro do seu ouro e do seu sangue; e, deixa-me assim dizer sem
+offensa da metaphysica, insufflou uma alma nova n'aquella casa, uma
+alma muito grande, maior que a alma universal de Plat&atilde;o!
+s&oacute; comparavel
+&aacute; alma que faz girar um sangue azul nas veias d'um
+merceeiro.<br />
+
+<br />
+
+Alvaro, quando de improviso se viu rico, partiu a pedra do seu tumulo,
+e respirou o ar dos vivos. Os olhos faiscaram-lhe um novo lume. Os
+labios vibraram-lhe uma eloquencia nova. O
+cora&ccedil;&atilde;o bateu-lhe
+pulsa&ccedil;&otilde;es d'um orgulho expansivo. O corpo
+endireitou-se na linha vertical que a Providencia geometrica marcou a
+todos os que podem parodiar Luiz XIV, e dizer: o dinheiro sou eu!<br />
+
+<br />
+
+O brasileiro n&atilde;o era abdominoso nem vermelho das bochechas.
+Era um homem regular, com sentimentos de homem n&atilde;o
+bestealisado pelo ouro.<br />
+
+<br />
+
+Achando uma casa pobre, enriqueceu-a, ampliou-a, abriu-lhe os flancos,
+e deu-lhe as f&oacute;rmas arrogantes d'um palacete. Um tylburi,
+uma carruagem, e duas parelhas de eguas hanoverianas harmonisaram o
+fausto d'aquella magica metamorphose.<br />
+
+<br />
+
+E tudo era feito a bel-prazer de Alvaro. O tio authorisara-o para tudo,
+menos para casar-se, porque detestava as mulheres.<br />
+
+<br />
+
+Elle l&aacute; sabia o porque, e, se eu o souber um dia, conta com
+um folhetim.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito obrigado; n&atilde;o me despe&ccedil;o do favor.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora vaes tu conhecer a astucia da intelligencia, que n&atilde;o
+prescinde, na riqueza, da vingan&ccedil;a
+premeditada no infortunio.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[120]</span>
+Alvaro de Sousa n&atilde;o ostentou, como era de esperar, as suas
+eguas, a sua carruagem, e os seus lacaios de verde e prata. Viveu, dous
+mezes, ao fog&atilde;o, conversando com o tio, e conquistou-lhe
+assim um conceito de grave sisudez, e uma plena confian&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Na primavera, Alvaro appareceu com as fl&ocirc;res, e, agradavel
+como ellas, grangeou amisades, que n&atilde;o tinha...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Necessariamente... Olha que novidade me d&aacute;s!...
+&Eacute; melhor dizer... <em>comprou amisades, que
+n&atilde;o tinha</em>...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o posso assim dizer absolutamente. Alvaro, em quanto
+pobre, era desabridamente orgulhoso, e desconfiado... Um olhar de
+trav&eacute;s irritava-o, e uma palavra equivoca enfurecia-o. Era
+como os que soffrem rheumatismo agudo, que n&atilde;o consentem uma
+mosca no travesseiro. E a pobresa, seja dito em proveito da pathologia,
+&eacute; o rheumatismo agudissimo da humanidade...<br />
+
+<br />
+
+Depois de rico, parece que a sua grandeza estava na consciencia d'ella.
+O dinheiro tornou-o affavel, carinhoso, sollicito em procurar as
+rela&ccedil;&otilde;es dos que lhe
+eram muito inferiores, e at&eacute; d'aquelles que repellira na
+infelicidade. &Eacute; realmente um phenomeno, mas tu sabes que eu
+n&atilde;o te minto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E as mulheres que faziam?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As mulheres? Agora vamos n&oacute;s l&aacute;... Isso
+&eacute; uma historia muito complicada...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quaes s&atilde;o as que figuram?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos por partes. A mulher, que, primeiro, o repelliu foi a Maria da
+Luz. Esta mulher &eacute; casada, e era solteira, mas solteira de
+trinta e tantos annos, quando Alvaro a requestou. N&atilde;o sei
+porque, Maria da Luz, era a preferida no odio, talvez porque sendo a
+primeira a repellil-o, desairou-o, para todas as outras...
+N&atilde;o sei.<br />
+
+<br />
+
+Alvaro foi com seu tio pagar uma visita ao marido d'esta mulher, porque
+a influencia do brasileiro em certos homens do poder obrigara aquelle a
+captar-lhe a benevolencia <span class="pagenum">[121]</span>para
+conservar certos
+proventos, que estavam muito em perigo.<br />
+
+<br />
+
+O sobrinho come&ccedil;ou a jogar com a influencia do tio. Quiz
+l&ecirc;r-lhe o seu programma de vingan&ccedil;a, mas
+achou que era cedo, ou immoral. Calou-se e esperou.<br />
+
+<br />
+
+Na visita, que fizeram, Maria da Luz veio &aacute; sala, e quiz
+sustentar a dignidade matrimonial, com os artificios d'uma etiqueta
+safada. Alvaro ria-se por dentro, mas fingia-se parvo por
+f&oacute;ra. Dava-se uns ares de esquecido, e apertava a
+m&atilde;o da sua victima com a cordialidade d'um bom homem. E
+Maria da Luz espantou-se.<br />
+
+<br />
+
+Passaram-se alguns mezes. Alvaro, que participava da influencia do tio
+nos destinos da patria, reconcentrou toda a sua energia em realisar
+desgra&ccedil;adamente os terrores do marido de Maria da Luz.
+Quando menos se esperava, este homem &eacute; demittido, e obrigado
+pela fazenda a um saldo de contas que o empobrecia. O brasileiro, que
+n'este tempo j&aacute; era visconde de Sousa, quiz salval-o, mas
+encontrou em seu sobrinho um violento accusador das immoralidades
+d'aquelle mau funccionario, cuja deshonra reflectia na face de quem o
+protegesse. As instancias redobradas encontraram frio o visconde, que,
+por fim, declarou que n&atilde;o intervinha em certos negocios que
+delegara em seu sobrinho, mais conhecedor das conveniencias do paiz, e
+da moralidade dos funccionarios. Com este fragmento de
+<em>artigo do
+fundo</em>, foi despedido o marido da Luz, cujo decahir
+para o abysmo de miseria era rapido como a facilidade com que subira.<br />
+
+<br />
+
+Maria da Luz comprehendeu a vingan&ccedil;a, e achou-a vil.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Realmente era...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o ha vingan&ccedil;as nobres, creio eu. A
+mulher, que eu principio a chamar pobre, fech&aacute;ra os seus
+sal&otilde;es, e n&atilde;o esperou que os alheios se lhe
+fechassem. A tristeza sent&aacute;ra-se nos soph&aacute;s
+d'aquellas salas desertas,
+onde viria brevemente sentar-se o escriv&atilde;o da penhora. A
+<span class="pagenum">[122]</span>desgra&ccedil;a,
+ainda assim, n&atilde;o lhe aniquilava a
+soberba. Julgava ella que, humilhando-se a Alvaro, encontraria uma
+protec&ccedil;&atilde;o, mas tambem uma ignominia. O marido,
+que cahira primeiro na sua miseria, perdeu, primeiro, a dignidade.
+Excitou-a para que escrevesse a Alvaro, e encontrou-a sempre negativa.<br />
+
+<br />
+
+E Alvaro respirava com sofreguid&atilde;o um momento que devia
+chegar.<br />
+
+<br />
+
+Ao mesmo tempo, desenvolvia-se o plano d'outra vingan&ccedil;a.
+Thereza da Cruz era a segunda victima de Alvaro. Esta n&atilde;o
+podia ser ferida nos interesses materiaes. Era rica das suas
+propriedades. Era solteira, e amava profundamente um homem casado.<br />
+
+<br />
+
+Este homem era delirantemente amado por sua mulher, e presava-a,
+sen&atilde;o posso dizer que a adorava. Thereza da Cruz
+fascinava-lhe a cabe&ccedil;a d'aquelle amor-appetite que Stendhal
+judiciosamente distingue do amor-paix&atilde;o. Mas Thereza da Cruz
+detestava a virtuosa esposa do seu amante, com toda a raiva d'um ciume
+reconcentrado.<br />
+
+<br />
+
+E Alvaro sabia-o.<br />
+
+<br />
+
+Era-lhe necessario quebrar aquellas liga&ccedil;&otilde;es com
+estrondo e deshonra para Thereza da Cruz.<br />
+
+<br />
+
+O que elle fez &eacute; uma ignominia, &eacute;,
+por&eacute;m uma vingan&ccedil;a que medrara em fel durante
+tres annos de torturas suffocadas.<br />
+
+<br />
+
+Alvaro obteve uma carta da mulher do amante de Thereza da Cruz,
+escripta a uma sua amiga.<br />
+
+<br />
+
+O dinheiro proporcionou-lhe um falsificador de letra, perfeito na sua
+perversa habilidade.<br />
+
+<br />
+
+Mandou-lhe escrever algumas cartas amorosas pelo molde d'aquella letra.
+E n&atilde;o deixou uma ligeira duvida sobre o genero de
+rela&ccedil;&otilde;es que a prendiam a um
+homem, que se n&atilde;o nomeava.<br />
+
+<br />
+
+Estas cartas enviadas a Thereza da Cruz, foram incluidas n'uma anonyma,
+que dizia assim:<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[123]</span>
+<div class="signature">&laquo;Minha querida amiga.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Sei que detestas Miquelina, e que procuras
+perd&ecirc;l-a no conceito do marido, para conquistares plenamente
+uma alma digna de ti. Queres castigar o orgulho d'essa hypocrita que
+lamenta a nossa
+<em>prostitui&ccedil;&atilde;o</em>?
+Ahi tens essas cartas, que eu pude obter d'um amante, que a despresou
+por mim. Tira as t&ecirc;as d'aranha dos olhos d'esse piegas, e
+faz-lhe v&ecirc;r que sua mulher n&atilde;o
+&eacute; melhor que tu: porque tu &eacute;s livre, e ella
+&eacute; casada.
+Saber&aacute;s o meu nome, no primeiro baile onde nos reunirmos.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Tua amiga d'alma.&raquo;</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+D. Thereza, recebendo estes cartas, sentiu uma alegria infernal. Daria
+por ellas a reputa&ccedil;&atilde;o de honrada,
+se a tivesse.<br />
+
+<br />
+
+Por fatalidade, o amante, na noite d'aquelle dia tratou-a com
+indifferen&ccedil;a. A orgulhosa, enraivecida d'um tedio que
+n&atilde;o podia supportar, esfor&ccedil;ou-se por
+chamar a conversa&ccedil;&atilde;o a respeito de mulheres
+casadas, e
+avan&ccedil;ou a proposi&ccedil;&atilde;o de que
+n&atilde;o havia uma na
+primeira roda, que n&atilde;o fosse adultera. O amante protestou
+colericamente contra o absoluto da proposi&ccedil;&atilde;o.
+Defendeu sua
+mulher com ares de Collatino, e exprobrou acremente a maledicencia da
+insolente.<br />
+
+<br />
+
+A indigna&ccedil;&atilde;o ferveu: trocaram-se epithetos
+ultrajantes. D. Thereza foi uma eloquente regateira, e o seu apaixonado
+repetiu as phrases mais peculiares da tarimba. Por fim, D. Thereza,
+chegado o momento dramatico, apresentou-lhe as suppostas cartas da
+esposa.<br />
+
+<br />
+
+O homem abriu-as com frenesi: reconheceu a letra e sahiu como um vexado
+pelo demonio.<br />
+
+<br />
+
+D. Thereza da Cruz, sentiu, pela primeira vez, um momento de completa
+felicidade em sua vida!...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois?<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[124]</span>
+<h3>III.</h3>
+
+<br />
+
+&#8213;Depois, o furioso entrou na camara de sua mulher, e encontro-a
+velando o somno de um filhinho, que tinha no ber&ccedil;o.
+Perguntou-lhe o marido o que ella fazia a p&eacute; &aacute;
+uma hora da noite. Miquelina respondeu que
+o esperava para lhe servir a c&ecirc;a, por isso que as creadas,
+fatigadas de trabalho, n&atilde;o podiam esperar que seu amo se
+recolhesse, alta noite, para repousarem.<br />
+
+<br />
+
+O marido recebeu com um sorriso feroz esta resposta digna de uma
+senhora virtuosa, e sentou-se junto d'ella. Tocado da faisca electrica
+de tyranno de melodrama, enturvou os olhos, franziu a testa, arrancou a
+voz dos subterraneos do pulm&atilde;o, e fallou assim, com uma
+carta aberta: &laquo;Conhece esta letra,
+senhora?&raquo;&#8213;&Eacute; minha, penso eu&#8213;respondeu ella com
+promptid&atilde;o.&#8213;&laquo;J&aacute; sabe naturalmente que
+carta &eacute;
+esta.&raquo;&#8213;N&atilde;o sei... ser&aacute; escripta
+&aacute; Antoninha? ou &aacute; prima
+Angela? eu n&atilde;o escrevo a mais ninguem.&#8213;&laquo;A mais
+ninguem, infame!... a senhora n&atilde;o escreve a mais
+ninguem?&raquo;&#8213;Juro que n&atilde;o, juro que
+n&atilde;o... deixa-me v&ecirc;r
+essa carta, Luiz, deixa-me v&ecirc;l-a, eu t'o pe&ccedil;o pela
+boa sorte
+da nossa filhinha.&#8213;&laquo;Veja.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Miquelina leu estas duas linhas da carta: <em>Dous dias
+&eacute; uma ausencia insupportavel!... Vem, meu anjo, faz que a
+minha vida tenha algumas fl&ocirc;res</em>...<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o continuou. Prerompeu em palavras inarticuladas. Eram os
+gritos da desespera&ccedil;&atilde;o! A surpreza
+transtornara-lhe o espirito, at&eacute; converter-lhe o dom da
+palavra em alarido selvagem. Parecia douda. O proprio marido retirou
+aterrado diante d'aquella angustia sublime. Houve em casa um motim, um
+tropel de creados, que se olhavam estupidamente. Miquelina, exhausta de
+for&ccedil;as, e <span class="pagenum">[125]</span>
+convencida da realidade daquella infame allus&atilde;o, desmaiou.
+Seu marido tateou-lhe o pulso e o cora&ccedil;&atilde;o.
+Reconheceu que havia alli uma d&ocirc;r legitima. Ficou
+estupidamente perplexo, e fazia d&oacute; n'esta duvida afflictiva.
+Mas a innocencia, filha da justi&ccedil;a de Deus, devia triumphar.
+<br />
+
+<br />
+
+Miquelina foi logo entregue aos cuidados da medicina. Julgaram-na
+subindo a grada&ccedil;&atilde;o d'uma demencia, e Luiz d'Abreu
+aterrou-se seriamente.<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s dez horas do dia seguinte, Luiz d'Abreu recebia a
+seguinte carta:&#8213;&laquo;Deves possuir quatro cartas, que te foram
+dadas por Thereza da Cruz. S&atilde;o quatro documentos
+inqualificaveis da infamia d'essa mulher. Tua virtuosa senhora
+escrevera uma carta a sua prima Angela. Thereza da Cruz p&ocirc;de
+obter essa carta, de que se serviu para fazer imitar a letra da que
+ella chama sua rival. Remetto a carta de que ella se serviu. Tua
+senhora &eacute; innocente como os anjos. Pede-lhe
+perd&atilde;o, se lhe
+j&aacute; lan&ccedil;aste em rosto a calumnia forjada pela
+ignobil mulher a que vives associado. Se apesar de tudo, tiveres a
+impudencia de continuar rela&ccedil;&otilde;es com Thereza da
+Cruz, hei-de
+eu, com os teus amigos, apregoar a baixeza do teu caracter para
+engrandecer a nobreza de tua deploravel esposa.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Um teu amigo.</em>&raquo;</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz d'Abreu entrou na camara de sua mulher. Estavam com ella dous
+medicos e duas creadas. Miquelina estremeceu ao v&ecirc;l-o. Mal
+sabia ella que esse homem hia ajoelhar-se na sua presen&ccedil;a!
+Eram tocantes as lagrimas que elle chorava, ajoelhado, balbuciando
+palavras inintelligiveis. Miquelina ergueu a face para testemunhar
+aquella nova surpreza. Os circumstantes quinhoavam do enthusiasmo
+d'aquella scena, sem a comprehenderem.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Pe&ccedil;o perd&atilde;o a minha virtuosa mulher!
+(exclamou elle) perd&atilde;o d'uma affronta, d'uma calumnia, que a
+reduziu <span class="pagenum">[126]</span>
+a esta situa&ccedil;&atilde;o... Na presen&ccedil;a
+de todo o mundo eu quizera que ella me perdoasse...&raquo;&#8213;Sim,
+sim,&#8213;bradou ella com enthusiasmo febril&#8213;eu perd&ocirc;o-te de
+toda a minha alma, Luiz, de todo o meu cora&ccedil;&atilde;o,
+meu esposo querido!...<br />
+
+<br />
+
+Luiz d'Abreu ergueu-se, chorou sobre a m&atilde;o que beijava, e
+foi feliz, verdadeiramente feliz, n'aquella hora solemne da sua vida.<br />
+
+<br />
+
+Foram muito sensiveis os progressos nas melhoras de Miquelina.<br />
+
+<br />
+
+Na tarde d'esse dia, Abreu, com o mais carinhoso bilhete, pediu uma
+entrevista, &aacute; meia noite, a Thereza da Cruz. Foi-lhe
+concedida.<br />
+
+<br />
+
+Ao dar da meia noite estava Luiz d'Abreu encostado &aacute; porta
+que devia ser-lhe aberta por Thereza da Cruz. Abriu-se a porta. Abreu
+tomou aquella mulher pelos cabellos, arrastou-a para o meio da rua, e,
+sem dizer-lhe um monosyllabo, encheu-lhe o corpo dos verg&otilde;es
+d'um chicote. Thereza supportara as primeiras chicotadas com o silencio
+da vergonha; mas quando a d&ocirc;r physica dominou a moral,
+gritou. Abreu retirou a passo rapido. Thereza fugia, quando um segundo
+homem lhe lan&ccedil;ou a m&atilde;o. Ella reconheceu-o, e
+pediu que a deixasse. &laquo;N&atilde;o, minha
+senhora,&#8213;replicou o seu conhecido&#8213;eu
+n&atilde;o posso consentir que v. exc.<sup>a</sup> seja
+assim desfeiteada na
+rua como uma mulher de alcouce...&raquo;&#8213;Deixe-me, deixe-me... por
+piedade, snr. Alvaro de Sousa!<br />
+
+<br />
+
+E debatia-se entre as m&atilde;os de Alvaro como atacada de gota
+coral.<br />
+
+<br />
+
+Aproximou-se a patrulha. Lan&ccedil;ou m&atilde;o de ambos, e
+perguntou a D. Thereza se aquelle homem a insultara. D. Thereza
+respondeu que n&atilde;o, que ninguem a insultara. Alvaro, que nem
+zombando mentia, desmentiu a sua velha
+<em>amiga</em>, dizendo que elle a vira
+chicoteada cruelmente por um homem, que fugira; e que o mais que a tal
+respeito podia dizer era que esta senhora morava
+<span class="pagenum">[127]</span>n'aquella casa,
+era uma respeitavel fidalga, e chamava-se D. Thereza da
+Cruz. A patrulha n&atilde;o prescindiu d'estas
+informa&ccedil;&otilde;es ratificadas por s. exc.<sup>a</sup>
+Perguntou-lhe o nome do
+aggressor, e ella
+respondeu que o n&atilde;o dizia.<br />
+
+<br />
+
+Imagina, meu amigo folhetinista, a colica despeda&ccedil;adora em
+que a pobre mulher se viu! A patrulha n&atilde;o queria largal-a;
+mas Alvaro de Sousa capitulou por uma libra com as imperiosas
+exigencias da guarda municipal, e conseguiu a liberdade da pobre
+mulher.<br />
+
+<br />
+
+E, ao despedir-se de D. Thereza, fel-a parar um momento, para dizer-lhe
+com a mais fleumatica placidez: &laquo;Minha querida senhora! Eu
+comprei com uma libra a satisfa&ccedil;&atilde;o de pagar a v.
+exc.<sup>a</sup> a menor
+parte d'um grande servi&ccedil;o que lhe devo... Eu n&atilde;o
+pude
+esquecer-me nunca de que v. exc.<sup>a</sup> com algumas
+amigas suas, cumpriram
+uma novena a Santo Anastacio, para que o servinho de Deus
+alcan&ccedil;asse curar-me da hydrophobia do amor, que me atacou...
+Tenha v. exc.<sup>a</sup> uma noite feliz.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+E retirou-se. Thereza da Cruz n&atilde;o respondeu uma palavra.<br />
+
+<br />
+
+Alvaro de Sousa estava vingado.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens mentido com a mais soberana presen&ccedil;a de
+espirito!&#8213;atalhei eu.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o minto, juro-te que n&atilde;o minto...<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute;s muito em occasi&atilde;o de verificar estes
+factos... Deseja conseguir a verdade, que has-de consegu
+Est&aacute;s muito em occasi&atilde;o de verificar estes
+factos... Deseja conseguir a verdade, que has-de conseguil-a.<sup><a href="#3">[3]</a></sup><br />
+
+<br />
+
+E eu acreditei-o; e &aacute;manh&atilde; acreditarei tambem que
+qualquer destemido despejou um bacamarte nos intestinos do seu anjo...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O rigor da chronologia&#8213;proseguiu o implacavel noticiador&#8213;exige que
+eu te conte agora a vingan&ccedil;a de Maria da Luz.<br />
+
+<br />
+
+A hora da miseria extrema tinha soado. Os bens de <span class="pagenum">[128]</span>raiz
+confiscou-os a fazenda: os moveis estava designado o dia de
+leil&atilde;o em que deviam ser vendidos.<br />
+
+<br />
+
+O marido de Maria da Luz, que por nome n&atilde;o perca, soubera
+que sua mulher ridiculisara as preten&ccedil;&otilde;es
+de Alvaro de Sousa n'aquelles dias de vergonhosa pobreza. Bem conhecia
+elle a indignidade a que tentava for&ccedil;ar sua mulher,
+instigando-a a que se valesse do prestimo d'um homem que tinha fortes
+raz&otilde;es de aborrecel-a. Todavia, Alvaro gosava de um tal
+conceito de nobreza de cora&ccedil;&atilde;o, e sensibilidade
+d'alma que qualquer
+marido, mais escrupuloso ainda, n&atilde;o duvidaria instar, na
+hora critica d'uma penhora, pela humildade da sua supposta Lucrecia.<br />
+
+<br />
+
+Maria da Luz, por fim, conveio na pessima
+situa&ccedil;&atilde;o em que se achavam os negocios de seu
+marido. A fome avisinhava-se, e a deshonra &eacute; menos negra que
+a fome, segundo a opini&atilde;o d'alguns moralistas entendidos
+n'estas c&ocirc;res.<br />
+
+<br />
+
+Alvaro de Sousa recebeu uma carta de Maria da Luz, em que lhe era
+pedido o emprestimo de doze mil cruzados, pagaveis em doze annos.<br />
+
+<br />
+
+O cavalheiro respondeu que a obriga&ccedil;&atilde;o onde eram
+estipulados doze annos seria reformada pelo praso de duas horas......<br />
+
+<br />
+
+Maria da Luz comprehendeu-o. O primeiro abalo, que sentiu no
+cora&ccedil;&atilde;o, foi a raiva: o segundo foi
+a vergonha: o terceiro foi a negocia&ccedil;&atilde;o com as
+condi&ccedil;&otilde;es do titulo reformado, conforme a vontade
+do credor.<br />
+
+<br />
+
+E respondeu affirmativamente, com a sagrada
+condi&ccedil;&atilde;o d'um segredo inviolavel para seu marido.
+<br />
+
+<br />
+
+E Alvaro de Sousa enviou doze mil cruzados ao marido de Maria da Luz,
+com esta carta:<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">&laquo;Meu caro senhor.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Conforme &aacute; negocia&ccedil;&atilde;o que
+acabo de fazer com <span class="pagenum">[129]</span>sua
+senhora, remetto doze mil cruzados. Da inclusa carta da exc.<sup>ma</sup>
+snr.<sup>a</sup> D. Maria da Luz, ver&aacute; v. s.<sup>a</sup>
+que este contracto
+&eacute; bilateral, e a parte que eu tenho n'elle em vantagem minha
+&eacute; a renuncia que a dita senhora me faz d'uma propriedade que
+eu n&atilde;o sei se est&aacute;
+hypothecada a v. s.<sup>a</sup> Supposto me devessem
+ter sido
+dados estes esclarecimentos antes da remessa do dinheiro, eu
+n&atilde;o tenho duvida em sujeitar-me a qualquer outra
+transac&ccedil;&atilde;o
+que possamos ambos amigavelmente fazer, visto que, d'hora em diante,
+nos devemos ambos considerar com mais ou menos jus &aacute; mesma
+propriedade. E, como eu tenha resolvido ced&ecirc;l-a em beneficio
+de meu lacaio, v. s.<sup>a</sup> n&atilde;o
+ter&aacute; duvida em
+consideral-o com os direitos que eu possuia.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right;">De v. s.<sup>a</sup>
+attento venerador<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Alvaro de Sousa.</em>&raquo;</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois?&#8213;interrompi com anciedade.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois...... tu vaes dizer que eu te minto!...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o digo... palavra d'honra!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois, o codilhado foi Alvaro de Sousa, porque o marido da Maria da
+Luz empregou convenientemente os doze mil cruzados e vive perfeitamente
+com sua mulher.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas Alvaro de Sousa? nunca mais se importou com ella?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca mais. A consciencia diz-lhe que est&aacute; vingado.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E das outras?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Das outras... vingou-se sem ruido... Tomou d'ellas uma
+vingan&ccedil;a que n&atilde;o p&oacute;de ser
+romantisada por ser muito simples.<br />
+
+<br />
+
+O meu amigo viu passar uma mulher, e foi atraz d'ella.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[130]</span>
+Eu escrevi tudo isto com as reminiscencias vivissimas do dialogo.<br />
+
+<br />
+
+Querem saber onde tudo isto aconteceu?<br />
+
+<br />
+
+Agora &eacute; que v. exc.<sup>as</sup> v&atilde;o
+ficar
+surprehendidas...<br />
+
+<br />
+
+Foi em Pekim!<br />
+
+<br />
+
+Salvei a moral publica!<br />
+
+<br />
+
+Cante-se o hymno!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="C7"></a>A CAVEIRA.</h2>
+
+<br />
+
+<h3>
+PROLOGO.</h3>
+
+<br />
+
+Quem disser que em Traz-os-Montes n&atilde;o ha romances,
+&eacute; capaz de dizer que a lua n&atilde;o tem habitantes, e
+as alfandegas ratos.<br />
+
+<br />
+
+A provincia de Traz-os-Montes &eacute; um sert&atilde;o
+desconhecido, um retalho de Portugal segregado da
+civilisa&ccedil;&atilde;o; mas n&atilde;o deixa por isso de
+ter uma chronica de
+tradi&ccedil;&otilde;es barbaras, que vir&aacute;
+archivar-se em folhetins, quando os caminhos de ferro, construidos
+pelos capitalistas da Ovelhinha, aproximarem o contacto das
+intelligencias com as florestas virgens d'aquella regi&atilde;o
+polar.<br />
+
+<br />
+
+Esse dia amanhecer&aacute; bem cedo. A aurora da
+civilisa&ccedil;&atilde;o madrugou para todos. A viabilidade
+discute-se &aacute; lareira. Mais d'um juiz das almas se extasia
+nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia rural,
+auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria do
+augmento do salario pela facilidade dos
+<span class="pagenum">[134]</span>transportes. Ha
+lavradores que addicionaram &aacute; leitura do
+Borda d'Agua as prelec&ccedil;&otilde;es escriptas de economia
+politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao mercado de
+Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O enthusiasmo
+&eacute; universal. A expans&atilde;o
+fervente dos interesses materiaes, a febre eloquente da viabilidade, os
+tra&ccedil;os profundos e rasgados, com que as intelligencias
+financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da nossa prosperidade,
+n&atilde;o s&atilde;o j&aacute; um
+exclusivo da mocidade jornalistica.<br />
+
+<br />
+
+O meu collega Ricardo Guimar&atilde;es, que salta de noite em
+cuecas, f&oacute;ra da cama, sonhando-se impellido por um wagon,
+doudeja de jubilo ao v&ecirc;r-se comprehendido, no seu ardente
+apostolado, desde Mon&ccedil;&atilde;o
+at&eacute; ao Cabo da Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas
+frontaes, cada vez que o alvi&atilde;o do operario rasga no seio da
+terra o tumulo do carro&ccedil;&atilde;o ignobil! (Isto era
+escripto em
+1853...)<br />
+
+<br />
+
+A mocidade &eacute; assim. A for&ccedil;a creadora do talento
+ha-de supprir a debilidade do thesouro. Onde os capitalistas
+n&atilde;o chegaram, hir&aacute; o artigo de fundo, palpitante
+de vida, como um ouragan invencivel, desaterrar a aterrar com as
+for&ccedil;as magneticas do genio, com a magia imperiosa dos
+periodos arredondados artisticamente.<br />
+
+<br />
+
+E, por tanto, a provincia de Traz-os-Montes vai ser aquecida pelas
+irradia&ccedil;&otilde;es do foco civilisador.
+Um dia, os povos do Mar&atilde;o, agrupados nas cristas das
+serranias,
+ver&atilde;o l&aacute; em baixo passar o tra&ccedil;o negro
+do carril; e
+cuidar&atilde;o que um demonio, na cauda d'um raio, lhe talou as
+campinas, no dia tremendo das vingan&ccedil;as do Senhor!<br />
+
+<br />
+
+Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustrados <span class="pagenum">[135]</span>pela
+leitura repentina, e pelos artigos de fundo, vir&atilde;o, de
+s&oacute;cos e coro&ccedil;a, nas azas do
+carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e
+influir seriamente no futuro da empreza lyrica.<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas
+ter&atilde;o uma associa&ccedil;&atilde;o industrial, uma
+caixa filial, um gabinete de leitura, e um centro promotor das classes
+laboriosas. O cavador, na hora da sesta ler&aacute;, na vinha, de
+barriga ao ar, o <em>Tymes</em>, e
+Benjamin Constant. O proprietario, entregue &aacute;s subtilezas
+economicas, que
+distinguem o cabedal da renda, andar&aacute; em guerra littetaria
+com o seu visinho da aldeia proxima, por causa d'uma falsa
+interpreta&ccedil;&atilde;o aos sophismas de Bastiat.
+N'esse dia, ser&atilde;o banidos os estupidos da face da terra. O
+proletariado,
+filho da estupidez, n&atilde;o vir&aacute; coberto de farrapos
+pedir um bocado de p&atilde;o, no banquete social, por conta do
+futuro fomento. Pouco ha-de viver quem n&atilde;o vir tudo isto.<br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; ent&atilde;o chegado o momento solemne de pedir
+&aacute; provincia do norte a historia do seu passado.
+Ser&atilde;o
+exploradas ent&atilde;o as minas de poesia, entulhadas pelo
+obscurantismo de longos seculos. Acontecer&aacute; muitas vezes
+encontrar-se um s&oacute;co onde se esperava um borzeguim de
+castellan. O leitor pedir&aacute; uma heroica lucta de dous
+infan&ccedil;&otilde;es armados da fidalga espada, e
+ver&aacute; duas fouces ro&ccedil;adouras decidirem um pleito
+de apaixonado melindre.<br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o ser&aacute; em tudo assim a chronica obscura da
+provincia, onde vivi alguns annos, e em poucos dias colhi apontamentos
+para longos trabalhos de muito proveito esthetico, plastico, artistico,
+e n&atilde;o sei mesmo se cubico, anomalo, e hybrido.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[136]</span>
+A historia, que vou contar, com innocentissima lealdade,
+p&oacute;de ser confirmada ainda por duas ou tres testemunhas, que,
+pelo menos, viviam, ha cinco annos. Fallo assim com orgulhosa
+authoridade, porque tenho direito a ser acreditado em romances, que tem
+a honra de assentarem n'uma sincera base.<br />
+
+<br />
+
+A mentira no romance &eacute; uma nodoa, que naus&ecirc;a o
+publico illustrado. Alexandre Dumas, escrevendo um romance intitulado
+<em>Martim de Freitas</em>,
+obrigou este heroe a desembarcar em Mafra, nomeou-o alcaide do castello
+da Horta, e fez nascer D. Sancho II na Palestina, onde foi baptisado
+por um tal monsieur d'Evora, arcebispo de Leiria! &Eacute; uma
+cornucopia de asneiras este litterato,
+fallando de Portugal.<br />
+
+<br />
+
+O publico tem direitos sagrados, e &eacute; realmente
+ultrajar-lh'os, querel-o capacitar de que Mafra &eacute; um porto
+de mar, e Leiria uma cidade archiepiscopal, e monsieur d'Evora
+cidad&atilde;o portuguez.<br />
+
+<br />
+
+Comprehenda-se a miss&atilde;o do romancista. O romance, a
+viabilidade, e o fluido transmutativo s&atilde;o a
+tripe&ccedil;a em que est&aacute; sentada a
+civilisa&ccedil;&atilde;o.
+Quebrar-lhe um dos p&eacute;s &eacute; dar com ella em terra.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A CAVEIRA.</h2>
+
+<br />
+
+<h3>
+I.</h3>
+
+<br />
+
+Morreu, ha seis annos, em Villa Real, um velho de oitenta e oito annos.
+Chamava-se D. Jo&atilde;o de Noronha, e habitava uma casa pequena,
+mas decorada de grande braz&atilde;o d'armas, e n&atilde;o sei
+quantas ameias
+modeladas pelos pilares das a&ccedil;oteas mouriscas. O leitor,
+que, por louvavel curiosidade, quizer, de perto, capacitar-se da
+fidelidade architectonica d'esta casa, v&aacute; a Villa Real, e na
+<em>rua do Cabo da Villa</em>, pergunte pela
+casa de D.
+Jo&atilde;o de Noronha. N&atilde;o ter&aacute; de que
+maravilhar-se, a n&atilde;o
+ser da sisuda gravidade, e rigorosa certeza com que o author lhe conta
+historias interessantissimas.<br />
+
+<br />
+
+Algumas palavras a respeito d'este D. Jo&atilde;o de Noronha.<br />
+
+<br />
+
+O <em>dom</em> &eacute; quasi sempre,
+entre portuguezes, indica&ccedil;&atilde;o de fidalguia remota;
+mas em D. Jo&atilde;o de Noronha era <span class="pagenum">[138]</span>uma
+irris&atilde;o para o povo, e uma ignominia affrontosa aos fidalgos
+da terra. E a raz&atilde;o &eacute; esta:<br />
+
+<br />
+
+Ha cento e vinte annos que viveu em Villa Real uma senhora D. Paula
+Coronel e Noronha, protectora d'um tal Antonio da Silva, sapateiro da
+casa.<br />
+
+<br />
+
+Este homem era desordeiro e valent&atilde;o. Em rixas com um
+freguez por causa d'umas tombas, matou-o desastradamente. A
+justi&ccedil;a apanhou-o, e condemnou-o a pena ultima.<br />
+
+<br />
+
+D. Paula exhaurira os grandes recursos da sua influencia, sem conseguir
+salvar da forca o seu afilhado. Avaliem-se, por&eacute;m, os
+extremos de D. Paula pelo condemnado, e attenda-se &aacute;
+&eacute;poca em que os grandiosos
+esfor&ccedil;os d'uma fidalga s&atilde;o anciosamente
+empenhados na
+salva&ccedil;&atilde;o d'um arrastado verme da plebe.<br />
+
+<br />
+
+D. Paula, em ultimo recurso, declara que o sapateiro &eacute; filho
+bastardo de seu irm&atilde;o, e como tal o
+perfilha. Desde que esta adop&ccedil;&atilde;o foi consignada
+no livro
+dos alvar&aacute;s de perfilhamentos, Antonio Coronel de Noronha
+est&aacute; salvo da forca. O processo atravessa novos tramites; e
+a lei, esmagada sob o rebolo transformado em pedra d'armas condemna o
+r&eacute;o a cinco annos de degredo para Castro-Marim.<br />
+
+<br />
+
+O nobre exilado, um anno depois, morreu de uma indigest&atilde;o de
+figos do Algarve; e, honra lhe seja feita,
+&aacute; hora da morte, declarou que vivera sapateiro e
+christ&atilde;o, e como sapateiro pedia perd&atilde;o aos
+homens, e como christ&atilde;o a Deus porque muito queria
+salvar-se.<br />
+
+<br />
+
+Seu irm&atilde;o Francisco, mestre ferreiro, morreu ferreiro,
+porque n&atilde;o quiz partilhar das honras heraldicas de seu
+irm&atilde;o, que, pelos modos, n&atilde;o eram muito
+lisongeiras para a memoria de sua m&atilde;i.<br />
+
+<br />
+
+Este ferreiro deixou um filho, chamado Jo&atilde;o, e uma fortuna
+avultada, adquirida na bigorna.<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o, orph&atilde;o aos quinze annos, quiz ordenar-se;
+mas o amor tolheu-lhe as voca&ccedil;&otilde;es ardentes do
+sacerdocio.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[139]</span>
+Por aquelles tempos a sociedade estava retalhada em classes.
+Jo&atilde;o da Silva invejava o acaso d'um nascimento, e
+desesperava-se na impotencia de associar-se dous appellidos euphonicos,
+que o guindassem &aacute; regi&atilde;o dos homens superiores
+em ra&ccedil;a aos outros homens, como o onagro de Sevilha superior
+em ra&ccedil;a ao onagro de Cacilhas.<br />
+
+<br />
+
+Zombavam cruelmente d'elle, quando lhe disseram que se
+encabe&ccedil;asse na linhagem, embora bastarda, de seu tio, que
+morrera legalmente inscripto no livro dos costados a folhas 1473.<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o da Silva foi conscienciosamente fidalgo desde esse
+instante. Tirou uma certid&atilde;o, hypothecou metade da sua
+fortuna ao f&ocirc;ro, e consegui-o. N&atilde;o diremos
+ao certo quem foi o concussionario d'aquelles tempos, que lhe recebeu
+os dous mil cruzados do pergaminho. As urgencias do estado de hoje eram
+litteralmente as urgencias do estomago dos chancelleres
+m&oacute;res do reino.<br />
+
+<br />
+
+A fidalguia protestou silenciosa contra t&atilde;o grave injuria.
+Fechou os seus sal&otilde;es ao adepto insolente, que
+ous&aacute;ra assignar-se D. Jo&atilde;o de Noronha, e
+mand&aacute;ra
+insculpir na fachada d'uma casa ameiada as armas dos Noronhas,
+&Eacute; tradi&ccedil;&atilde;o em Villa Real que os Pintos
+Coelhos, representados hoje por Jos&eacute; Antonio Teixeira Coelho
+de Mello Pinto da Mesquita, mandaram borrifar de sangue as armas de D.
+Jo&atilde;o de Noronha. Nada fez recuar o proposito do filho do
+ferreiro. Os tempos correram, mas os odios ao pobre homem
+n&atilde;o se extinguiram. Digno d'estes tempos, D.
+Jo&atilde;o, seria hoje affavelmente recebido pela velha nobreza,
+com tanto que as differen&ccedil;as no azul do sangue fossem
+saldadas com o amarello do ouro.<br />
+
+<br />
+
+Conheci este homem, e tractei-o muito de perto. Era eu bem
+crean&ccedil;a, e respeitava as loucuras d'aquelle velho, com a
+mais sisuda tolerancia. Quando o vi, aos oitenta e seis annos, casar-se
+com uma donzella (oitava maravilha!) de oitenta e nove, cingi-me com
+aquelle par conjugal, e <span class="pagenum">[140]</span>quiz
+ouvir-lhe os colloquios amorosos, as expans&otilde;es
+delirantes, as ternuras idealissimas. N&atilde;o pude; e o leitor
+perdeu muito com isso, que eu n&atilde;o era homem de privar d'um
+capitulo precioso a <em>Physiologia do
+Casamento</em> de Balzac.<br />
+
+<br />
+
+O vento das tempestades da vida impelliu-me de Villa Real para outra
+linha no mappa-mundi das minhas observa&ccedil;&otilde;es; e o
+meu caro D. Jo&atilde;o
+morreu poucos dias depois de sua mulher, e &eacute; de
+cr&ecirc;r que,
+abra&ccedil;ados em frenetica paix&atilde;o, renascessem,
+vi&ccedil;osos e frescos
+como Paulo e Virginia, em mundos novos, e novas
+constella&ccedil;&otilde;es. Assim seja!<br />
+
+<br />
+
+Como vinha dizendo, leitor attencioso, quando eu tive a honra de ser
+admittido ao tracto intimo de D. Jo&atilde;o de Noronha, reparei
+n'uma caveira, contida em uma redoma de vidro, com pedestal de pau
+preto, enviezado de arabescos de marfim.<br />
+
+<br />
+
+Esta redoma pousava em uma mesa torneada em bilros de custoso lavor.
+Reparei, outrosim, que em certo dia do anno um v&eacute;o funebre
+cobria aquella redoma. Este dia era quinta feira santa. N&atilde;o
+concebi que
+rela&ccedil;&atilde;o podesse existir entre aquella caveira e a
+paix&atilde;o de Jesus Christo n&atilde;o ousava,
+por&eacute;m, interrogar-lhe o profundo
+mysterio.<br />
+
+<br />
+
+Entrava eu uma vez, sem fazer-me annunciar, na sala da redoma, e
+encontrei D. Jo&atilde;o ajoelhado com austero fervor na
+presen&ccedil;a da caveira. Voltou-se de repente sentindo-me os
+passos, e eu n&atilde;o pude recuar sem ser conhecido. Vi-lhe
+lagrimas; eram magestosas, e eu juro que muitos dos meus leitores de
+cora&ccedil;&atilde;o
+petrificado chorariam, se vissem a sincera angustia d'aquelle rosto
+venerando.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venha c&aacute;&#8213;me disse elle&#8213;que eu n&atilde;o tenho
+vergonha de chorar; Choram-se na decrepitude os risos da mocidade.
+Entra-se no tumulo a chorar como se entra na vida.<br />
+
+<br />
+
+Vi-me embara&ccedil;ado em responder-lhe. Eu n&atilde;o tinha
+<span class="pagenum">[141]</span>aprendido estas
+palavras artificiosas, com que fingimos um
+quinh&atilde;o de sentimento impostor. Ent&atilde;o senti e
+chorei. Hoje... eu sei c&aacute;! faria uma nenia em prosa de muita
+melodia, e citara-lhe n&atilde;o sei quantos velhos, que a historia
+diz que choraram desde Belisario at&eacute; ao abbade de Chateneuf.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sente-se aqui ao p&eacute; d'esta reliquia&#8213;proseguiu o
+consternado anci&atilde;o.&#8213;Devo-lhe um lavor muito delicado: nunca
+o senhor me perguntou o segredo d'este craneo. Eu gosto de quem
+respeita a d&ocirc;r alheia. Quero pagar-lhe essa fineza invocando
+do tumulo do meu cora&ccedil;&atilde;o o mysterio, que aqui
+est&aacute; sepultado ha sessenta annos. Se eu me calar, no correr
+da minha historia, respeite o meu silencio... &Eacute; que
+n&atilde;o poderei... Talvez
+possa... O cora&ccedil;&atilde;o... dizem que manda aos labios
+muito do
+seu fel, quando os labios lhe pedem as amarguradas reminiscencias d'uma
+grande desgra&ccedil;a... Ser&aacute; assim? Eu
+n&atilde;o sei... vel-o-hemos.<br />
+
+<br />
+
+Ora attenda-me, meu amigo. A innocencia deve alegrar-se com a historia,
+onde figura um anjo. Hei-de fallar-lhe de Lucifer tambem... Seja o anjo
+para o recreio; e o Lucifer para a experiencia... Um velho &eacute;
+um livro. Eu vou abrir-me... quero dar-lhe a leitura de minha alma,
+hoje, que, &aacute;manh&atilde;, talvez a pedra
+rasa d'uma sepultura nem ao menos lhe diga que eu durmo alli o
+suspirado somno do infeliz...<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+II.</h3>
+
+<br />
+
+D. Jo&atilde;o de Noronha, sentado de modo que encostava o
+cotovello &aacute; mesa da redoma, principiou a historia do seu
+segredo, em tom de profunda commo&ccedil;&atilde;o:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Tinha eu vinte annos... ha que tempo isto vai!... ha
+sessenta e oito annos que eu estudava latim no convento
+<span class="pagenum">[142]</span>de S. Francisco.
+Era minha ten&ccedil;&atilde;o
+ordenar-me. Meu pai grangeara-me uma fortuna, que me estimulou
+ambi&ccedil;&otilde;es de subir na
+posi&ccedil;&atilde;o social. Quiz ser padre, e era-o, se
+nascesse na igreja lutherana, onde o padre n&atilde;o soffre a
+cruelissima amputa&ccedil;&atilde;o da
+vida da alma, em commercio com o mundo.<br />
+
+<br />
+
+Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem,
+perdi o imperio da vontade, e as fervorosas
+voca&ccedil;&otilde;es do sacerdocio. Adorei uma
+d'essas bellas mulheres, que trazem comsigo uma sina de
+desgra&ccedil;as, um contagio de desastres, e a perpetuidade d'uma
+chaga, aberta no cora&ccedil;&atilde;o com um ferro em brasa.<br />
+
+<br />
+
+Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso
+d'um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem,
+finalmente, me fizera estupido... atrai&ccedil;oou-me.<br />
+
+<br />
+
+No meu tempo o amor era uma cor&ocirc;a de espinhos.
+Ent&atilde;o apaixonava-se um homem, e sentia-se perdido para a sua
+liberdade, e escravo de uma angustia interminavel. Eu, por mim,
+senti-me ultrajado por uma trai&ccedil;&atilde;o
+incrivel, e n&atilde;o pude, ainda assim, estalar as algemas
+ignobeis que me prendiam &aacute; deshonra d'um abandono
+injustificavel.<br />
+
+<br />
+
+Ajoelhei aos p&eacute;s de Martha. Pedi-lhe a pouca ventura que me
+roub&aacute;ra cruelmente... pedi-lhe a dignidade do homem que por
+ella se despres&aacute;ra... encontrei-a morta para mim, e vencida
+por uma paix&atilde;o, que devia matal-a! Tive ent&atilde;o
+d&oacute; d'aquella fl&ocirc;r,
+que se desfolhava na madrugada da sua primavera? O meu amor era grande
+e generoso! Pedi-lhe que fosse minha irm&atilde;, minha amiga...
+Nem isso!... nem se quer me aceitou um conselho de pai na hora em que
+mais precisa lhe fosse uma protec&ccedil;&atilde;o que a
+salvasse da deshonra, a que
+se tinha cegamente abandonado.<br />
+
+<br />
+
+Eu valia menos que Pedro de Mesquita.<br />
+
+<br />
+
+Este homem era official de cavallaria. Nasc&ecirc;ra illustre;
+<span class="pagenum">[143]</span>conquistara-se uma
+opini&atilde;o de heroe; batera-se
+ardidamente como um le&atilde;o nas ultimas batalhas. Era aqui
+apontado em Villa Real; como o primeiro homem nos triumphos difficeis
+do amor.<br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o o lisongeavam! O homem, que obrig&aacute;ra Martha
+a despresar-me, devia ser tudo isso.<br />
+
+<br />
+
+Era muito linda esta mulher! Diziam-no as
+emula&ccedil;&otilde;es, os odios, e as intrigas, que a sua
+formosura caus&aacute;ra entre pretendentes, que n&atilde;o
+queriam ceder a prioridade do merito a nenhum.<br />
+
+<br />
+
+Um dos mais poderosos era Heitor Corr&ecirc;a, cadete de cavallaria
+e filho segundo de uma nobre casa d'esta villa, que n&atilde;o
+tenho necessidade de mencionar-lhe.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o obstante Heitor Corr&ecirc;a era repellido, porque
+Pedro de Mesquita n&atilde;o tinha concess&otilde;es a esperar
+para ser mais amado que outro qualquer.<br />
+
+<br />
+
+Martha arranc&aacute;ra, como Luzia, os bellos olhos, se assim
+podesse afastar de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem
+que t&atilde;o caro devia ser-lhe. E era.<br />
+
+<br />
+
+Estes dous homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam &aacute;
+porfia um ensejo em que podessem travar as espadas. Corr&ecirc;a
+confiava demasiado em si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o
+debil adversario.<br />
+
+<br />
+
+O momento ambicionado chegou.<br />
+
+<br />
+
+Era quinta feira santa.<br />
+
+<br />
+
+Martha assistia ao officio da paix&atilde;o na igreja de S.
+Francisco.<br />
+
+<br />
+
+Heitor Corr&ecirc;a antecip&aacute;ra-se a occupar o mais
+proximo, lugar de Martha. Pedro de Mesquita viera depois, e mordera
+colericamente o bei&ccedil;o inferior. Martha tremeu e chorou. Quiz
+sahir; n&atilde;o a deixaram as multid&otilde;es
+espessas. Heitor Corr&ecirc;a comprehendeu-a, e indignou-se. Era
+muito despreso para a altivez do seu caracter.<br />
+
+<br />
+
+Termin&aacute;ra o officio. O povo evacuou o templo. Martha
+sumiu-se nas turbas. Dous homens apenas, como <span class="pagenum">[144]</span>duas
+estatuas, se fixavam s&oacute;s,
+e immoveis, na nave da igreja.<br />
+
+<br />
+
+Sahiram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e
+rapidas palavras, e desembainharam os fains.<br />
+
+<br />
+
+Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor
+chammejava a colera, a vingan&ccedil;a, o capricho, e por ventura o
+desejo de matar, ou morrer.<br />
+
+<br />
+
+Esta scena passava-se na presen&ccedil;a de mil pessoas. As beatas
+benziam-se horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de
+espeda&ccedil;arem o forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre
+o seu patricio era indubitavel, e perigosa.<br />
+
+<br />
+
+Perigosa, n&atilde;o; porque o valente era generoso. Heitor
+n&atilde;o tinha j&aacute; um bot&atilde;o na farda, quando
+Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a defesa, se sentiu
+ferido ligeiramente no bra&ccedil;o esquerdo.<br />
+
+<br />
+
+A scena tornou-se cruel! O orgulhoso n&atilde;o podia conciliar com
+aquelle sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e
+cahiu banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra
+o assassino. Mesquita esperou com bravura! N&atilde;o houve
+m&atilde;o que lhe tocasse.<br />
+
+<br />
+
+<h3>III.</h3>
+
+<br />
+
+Heitor Corr&ecirc;a, reanimado pelos alentos da
+desespera&ccedil;&atilde;o, ergueu-se, e esgrimiu ainda o
+florete com bra&ccedil;o impotente. Mesquita, ferido n'um
+bra&ccedil;o, afastou-lhe os botes, com admiravel
+presen&ccedil;a de espirito.<br />
+
+<br />
+
+O duello em Villa Real era uma cousa nova. O facto, em um dia tal,
+redobrava de escandalo. N&atilde;o se atravessavam as
+multid&otilde;es espessas, que reprovavam ruidosamente um tamanho
+desacato. A causa do seu espanto <span class="pagenum">[145]</span>n&atilde;o
+era a moral
+ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como
+raz&atilde;o suprema de tal algazarra estar exposto o Santissimo
+Sacramento, quando dous homens se cortavam a ferro frio.<br />
+
+<br />
+
+As authoridades, conscias do acontecimento, deram ordens immediatas de
+captura. Estas ordens n&atilde;o podiam ser cumpridas por
+meirinhos; e n&atilde;o houve
+desgra&ccedil;adamente authoridade militar que capturasse os
+duelistas.<br />
+
+<br />
+
+Heitor Corr&ecirc;a, exhausto de for&ccedil;as, perdidas no
+sangue, que os recursos da cirurgia n&atilde;o
+estanc&aacute;ra,
+desmaiou, e deu symptomas de morto. O alferes de cavallaria,
+ligeiramente ferido no bra&ccedil;o, curava-se n'uma botica,
+affectando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na
+rua. D'entre ellas sahiam gritos terriveis de
+&laquo;morra!&raquo; Os que assim gritavam diziam que estava
+exposto o Santissimo Sacramento; e, por tanto, n&atilde;o podiam
+deixar de matar o impio que
+desacat&aacute;ra, em quinta feira santa, a solemnidade da
+paix&atilde;o de Christo. Como elles saciavam a sede de sangue com
+o fervor beatifico das suas cren&ccedil;as, explicam-no milhares de
+factos semelhantes que acompanham sempre a edificante historia dos
+muito austeros authores da integridade religiosa, tanto em Roma, como
+em Constantinopla.<br />
+
+<br />
+
+Fernando Corr&ecirc;a, irm&atilde;o de Heitor, estava
+&aacute; janella quando viu entrar seu irm&atilde;o nos
+bra&ccedil;os de dous
+soldados. Desceu ao atrio, e interrogou o facto. Contaram-lhe, com as
+mais irritantes circumstancias, o acontecimento.<br />
+
+<br />
+
+Fernando, sem attender a supplicas da familia, e de amigos prudentes,
+sahiu de casa, tal qual estava, embrulhado n'um capote. Mas, debaixo
+d'este capote, levava um bacamarte.<br />
+
+<br />
+
+Quando chegou &aacute; entrada da <em>rua do Jogo da
+Bolla</em>, viu um grupo de povo, que parecia vedar a
+sahida d'uma botica. L&aacute; dentro estava Pedro de Mesquita, a
+quem <span class="pagenum">[146]</span>falt&aacute;ra
+a coragem para
+affrontar a for&ccedil;a bruta da
+popula&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Em frente d'essa botica morava a infeliz Martha, a attribulada amante
+d'aquelle homem, que alli estava amea&ccedil;ado das iras da plebe,
+tigre desenfreado da
+licen&ccedil;a, n'aquelles dias de escravid&atilde;o, logo que
+um acaso lhe alargasse um pouco as algemas.<br />
+
+<br />
+
+Fernando Corr&ecirc;a abriu uma clareira entre a
+multid&atilde;o. Descobriram-se todos, exclamando: &laquo;Chega
+o fidalgo! deixem passar o fidalgo.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu
+irm&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assassino... n&atilde;o!...&#8213;respondeu o alferes.&#8213;Fui eu quem o
+feri, e honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.<br />
+
+<br />
+
+Fernando Corr&ecirc;a, estupido como fatalmente s&atilde;o os
+que podem contar muitos av&oacute;s robustos de musculos, e nenhum
+de vigor intellectual, n&atilde;o comprehendeu a delicadesa
+d'aquella resposta. O que elle praticou &eacute; um acto de
+barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo atraz,
+aperrou o bacamarte, e despejou-lh'o, &aacute; queima roupa, no
+peito.<br />
+
+<br />
+
+Foi horrivel, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de
+meus olhos, noite e dia, porque n'esse instante ouvi um grito de
+arripiar as carnes. Era Martha que cahira, com a face na lage da
+janella, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebivel dos
+tormentos possiveis n'esta vida.<br />
+
+<br />
+
+Voltaram-se todos para aquella janella, e viram-me... a mim, que
+subira, alentado pela coragem da minha d&ocirc;r, as escadas
+d'aquella casa, e levant&aacute;ra
+da janella a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de mim...
+n&atilde;o vi ninguem, excepto uma creada que chorava, perplexa,
+sem atinar com o que devia fazer. A familia, a essa hora, na igreja da
+<em>Misericordia</em>, orava, talvez,
+&aacute; Virgem protectora das virgens...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[147]</span>
+Fernando, consummado o assassinio, sahiu galhardamente por entre as
+turbas que saudavam o nobre algoz. A paralysia do terror
+gel&aacute;ra os poucos que lhe reprovavam a infamia. Ninguem
+ousou, sequer, lembrar-lhe que aquelle sangue lhe tingia os
+pergaminhos!<br />
+
+<br />
+
+O nobre amante de Martha foi conduzido ao quartel. O seu ultimo lance
+d'olhos n'esta vida, viram-no todos fixar-se na janella da infeliz.
+Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.<br />
+
+<br />
+
+Passada uma hora, Fernando Corr&ecirc;a, montado n'uma possante
+mula, e seguido d'um creado, e dous bacamartes, passava em
+<em>Almodena</em>, caminho de
+Lisboa. E, para que esta circumstancia me n&atilde;o
+esque&ccedil;a,
+dir-lhe-hei que, um mez depois, o assassino, impune pelo privilegio dos
+seus pergaminhos, entrava em Villa Real, com um alvar&aacute; de
+real merc&ecirc; que o isentava de responder pela morte de Pedro de
+Mesquita.<br />
+
+<br />
+
+O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabe&ccedil;a ao
+fidalgo, que passava soberbo por entre aquelles que lhe liam na face a
+altivez do assassino, que zomb&aacute;ra da lei.<br />
+
+<br />
+
+Heitor Corr&ecirc;a... esse foi enterrado no mesmo dia em que os
+sinos dobraram por alma de Pedro de Mesquita.<br />
+
+<br />
+
+<h3>IV.</h3>
+
+<br />
+
+&Eacute; necessario fallarmos de Martha... &Eacute; a luz unica
+d'este quadro negro... Nem a historia valia a pena de ser ouvida, se
+n&atilde;o tivesse um heroismo de virtude para a
+admira&ccedil;&atilde;o, e uma santa para o culto das almas
+nobres, e apaixonadas pelo sublime do martyrio.<br />
+
+<br />
+
+Por ventura, p&oacute;de o senhor comprehender a
+situa&ccedil;&atilde;o d'um homem, que tem desmaiada nos
+bra&ccedil;os aquella por quem f&ocirc;ra
+atrai&ccedil;oado...? N&atilde;o
+&eacute; bastante comprehender <span class="pagenum">[148]</span>isto:
+&eacute;
+necessario compenetrar-se mais da minha
+situa&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+Martha illudira-me... ou illudira-se; Martha despresara-me com cynismo
+indigno da sua idade; Martha escarnecera as loucuras que me
+sacrificaram a ella; Martha desmaiara, adivinhando a morte do meu
+rival... Comprehende por ventura agora o tormento indefinivel da minha
+situa&ccedil;&atilde;o?... N&atilde;o comprehende,
+porque se eu lhe disser que n'aquelle trance original o meu sentimento
+era a piedade... se eu lhe disser que dera a minha vida pela do rival
+assassinado, com tanto que Martha n&atilde;o fosse assim
+desgra&ccedil;ada... o senhor,
+por certo, n&atilde;o concebe este phenomeno, este sacrificio...
+esta monstruosidade de resigna&ccedil;&atilde;o... Quem
+sabe!... a sociedade capitular-me-hia de imbecil, e o meu amigo, por
+muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inoffensivos,
+n&atilde;o &eacute; assim?&raquo;<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D.
+Jo&atilde;o me adivinh&aacute;ra. C&oacute;rei, de
+certo, quando fui surprehendido no segredo dos meus juizos. Nada
+menos lisongeiro que o meu silencio para o pobre velho! Era de certo um
+pungente assentimento &aacute; sua conjectura! A d&ocirc;r
+&eacute; generosa, e cala as affrontas.
+Reconhe&ccedil;o hoje que ultrajei aquelle grande sacrificio, que
+comprehendo agora. Se n&atilde;o receasse mesclar com a gravidade
+melancolica d'esta narrativa um anexim popular e graciosamente
+philosophico, diria que o diabo n&atilde;o quiz nada com rapazes, e
+D. Jo&atilde;o de Noronha, de certo, n&atilde;o era mais
+privilegiado que Lucifer para tirar de mim melhor partido.<br />
+
+<br />
+
+D. Jo&atilde;o proseguiu:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A familia de Martha veio encontrar-me, com ella nos
+bra&ccedil;os. A m&atilde;i, que prophetis&aacute;ra,
+em seus virtuosos presentimentos, a desgra&ccedil;a da filha,
+apertou-a contra o seio, cobriu-a de lagrimas, e acordou-a d'aquelle
+lethargo, com afflictivos gemidos.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[149]</span>
+Martha abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os labios. Esperavamos
+anciosos que a sua angustia respirasse pelas lagrimas. N&atilde;o
+chorou uma s&oacute;. Em quanto os sinos dobravam a finados pela
+alma dos dous amantes, Martha estremecia, mas n&atilde;o posso
+dizer-lhe como era aquelle tremor... A corda d'um instrumento ferida, e
+deixada ao impulso da vibra&ccedil;&atilde;o estremece assim.
+<br />
+
+<br />
+
+No fim de tres dias extinguiu-se o soffrimento, por que a vimos pender
+serenamente a cabe&ccedil;a nos
+bra&ccedil;os de sua m&atilde;i. Felicitamos-nos pelo repouso
+da infeliz. Imaginamos
+que ella devia acordar mais tranquilla, ou, pelo menos, mais desabafada
+d'aquella agonia que lhe suffocava n&atilde;o s&oacute; os
+gemidos, mas at&eacute; a
+respira&ccedil;&atilde;o. Esperamos... mas quem n&atilde;o
+esperava era o medico, que, ao retirar-se, deixou dito que
+n&atilde;o era Christo para restituir a filha &aacute; viuva de
+Nahim.<br />
+
+<br />
+
+Estava morta, por tanto... e morta sem balbuciar uma palavra! Como se
+morre assim? Dizem que a morte &eacute; a
+aniquila&ccedil;&atilde;o da materia...
+mas aquelle anjo morreu dentro em si, antes que os symptomas da
+destrui&ccedil;&atilde;o nos revelassem o rapido dilacerar
+d'aquella morte! Quem dir&aacute; que aquella mulher soffreu no
+corpo? Ninguem! A alma, s&oacute; a alma, este ser immortal que
+foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada no
+seu mysterio de d&ocirc;res inconcebiveis, reluctando por estalar
+as algemas que a prendem ao cavallete do corpo... a alma, e
+s&oacute; a alma, meu amigo, consummou aquelle trance de
+incomportavel inferno, e passou ao mundo da penitencia ou da gloria...<br />
+
+<br />
+
+Agora principia a minha scena n'esta tragedia... &Eacute;
+s&oacute; minha, e s&oacute; eu a comprehendo...
+mas hei-de contar-lh'a. Acompanhei &aacute; igreja de S. Francisco
+o cadaver de Martha. Fui o ultimo que se retirou de ao p&eacute; da
+sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em tres annos
+successivos, lhe ajoelhou na pedra que eu n&atilde;o queria fosse a
+nossa eterna separa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[150]</span>
+Empreguei os meios para obrigar o coveiro a n&atilde;o tocar
+n'aquella sepultura durante tres annos.<br />
+
+<br />
+
+Findo este praso, venci com dinheiro a repugnancia do coveiro, e a
+pedra que cobria os ossos de Martha foi levantada.<br />
+
+<br />
+
+Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror,
+agitadas pelo lampejar tremulo das lampadas, suspensas no altar do
+Santissimo Sacramento.<br />
+
+<br />
+
+O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava
+machinalmente a enxada com que afastava as camadas da terra.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o posso dizer-lhe at&eacute; que ponto fui enganado
+pelas larvas que a desvairada phantasia, ou a mysteriosa realidade
+revocou em volta de mim... Estou quasi jurando-lhe que a vi... a
+ella... como nos dias da sua esplendida formosura illuminada pelo
+resplendor da sua innocencia, purpureada do pejo com que a candura se
+rende ao imperio dos instinctos... Era ella, quando, nos primeiros
+tempos da nossa infancia, me offerecia de seu
+cora&ccedil;&atilde;o a parte que n&atilde;o podia
+dar a sua m&atilde;i, e a seus irm&atilde;os... Era ella,
+quando me perguntava o segredo d'aquella
+attrac&ccedil;&atilde;o irresistivel, que a
+arrastava para mim, que a entristecia sem motivo, que a fazia
+ambicionar uma riqueza imaginaria, que a fazia sonhar umas delicias que
+sua m&atilde;i lhe n&atilde;o explicava nem
+realisava com os seus carinhos... Foi assim que eu a vi, em quanto o
+ecco da enxada, que feria o seio da sepultura, reboava nas naves da
+igreja... Gelava-se-me de terror o pensamento... a phantasia
+esfriava-se ao ro&ccedil;ar pela mortalha d'aquelles ossos, e eu
+sentia-me morto em metade da vida, quando a terra sacudida da enxada me
+vinha cahir aos p&eacute;s.<br />
+
+<br />
+
+E depois... as larvas, que a raz&atilde;o n&atilde;o podia
+espavorir, tornavam a cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se
+nas grades do c&ocirc;ro, a tremularem por entre os cortinados dos
+altares, e a esvoa&ccedil;arem na abobada <span class="pagenum">[151]</span>do
+templo como nuvens
+escuras, espeda&ccedil;adas pela tempestade.<br />
+
+<br />
+
+Erguera-se do tumulo para ajoelhar, a meus p&eacute;s... tinha a
+face lacerada pelos vermes. E era bella ainda... Devo ser sincero, meu
+amigo... &Eacute; impossivel que a imagina&ccedil;&atilde;o
+me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz...
+senti o frio das suas m&atilde;os... ergui-a de meus
+p&eacute;s...
+perdoei-lhe... chorei com ella...<br />
+
+<br />
+
+A voz d'um homem chamou a minha alma &aacute; realidade acerba
+d'aquella scena, que se me figurava um sacrilegio, uma
+profana&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Era o coveiro, que me dizia: &laquo;a enxada j&aacute; topou
+com os ossos.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Esta nova, communicada friamente pelo coveiro, alvoro&ccedil;ou-me,
+e coou-me nas veias n&atilde;o sei que terror
+semelhante ao do sacrilego, que n&atilde;o tem ainda bastante
+barbarisada a alma pelo crime, e vacilla, horrorisado de si proprio,
+quando atira ao pavimento do altar as hostias contidas no calix, que
+rouba.<br />
+
+<br />
+
+Aquelles ossos, aquelle meu thesouro, ambicionado ha tres annos, tinham
+agora para mim uma
+supersti&ccedil;&atilde;o, um cunho sagrado, que me fazia na
+alma n&atilde;o sei que pesar semelhante ao remorso.<br />
+
+<br />
+
+Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do
+cora&ccedil;&atilde;o, que se arrependera. Quiz deixar intactas
+aquellas cinzas. Luctei comigo para vencer um excesso de medo, um
+abuso, talvez, da imagina&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o
+pude; mas n&atilde;o pude tambem retirar-me sem uma reliquia, um
+ser sem alma, uma recorda&ccedil;&atilde;o para as lagrimas, e
+uma
+gloria s&oacute; minha n'este mundo... a gloria de possuir na morte
+uma companhia que tivesse sido incentivo de lagrimas, j&aacute; que
+n&atilde;o pude conseguir como companheira na
+vida essa preciosa existencia, que me espera ha sessenta e seis annos
+na eternidade.<br />
+
+<br />
+
+Eis-aqui a reliquia, a testemunha immovel, terrivel, e silenciosa dos
+longos soffrimentos d'um homem, que
+<span class="pagenum">[152]</span>atravessou uma
+longa existencia, sem conciliar com os prazeres do mundo
+a eterna viuvez da sua alma!<br />
+
+<br />
+
+Eis-aqui a caveira de Martha que eu revisto a cada instante das
+fei&ccedil;&otilde;es com que a vi partir d'este
+mundo. Ha alli n'aquellas orbitas uns olhos que me v&ecirc;em...
+olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos angustiosos
+d'esta paix&atilde;o desastrada, eu vejo sempre esta caveira,
+animada umas vezes do gracioso riso da innocencia, outras vezes das
+contors&otilde;es freneticas da
+desespera&ccedil;&atilde;o... Ha alli n'aquelles ossos, onde os
+labios articulavam hymnos dos anjos, uns labios que, a cada instante,
+me balbuciam um perd&atilde;o... E tenho momentos de inferno nas
+minhas dolorosas contempla&ccedil;&otilde;es,
+aqui diante d'esta redoma... &Aacute;s vezes juraria que essa
+caveira estremece em convuls&otilde;es rancorosas contra mim,
+balbuciando o nome do homem, que a levou comsigo &aacute;
+sepultura!... Ent&atilde;o... sinto-me demente, porque tenho ciumes
+do nada... ciumes d'estas cinzas esquecidas no mundo... ciumes da
+memoria d'outras cinzas, que, ha tres quartos de seculo, esperam o dia
+final... &Eacute;
+lamentavel a situa&ccedil;&atilde;o d'este pobre velho, que
+n&atilde;o
+p&ocirc;de roubar-se a uma agonia, das que o mundo reputa chimeras,
+n&atilde;o &eacute; assim?<br />
+
+<br />
+
+Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lh'o
+n&atilde;o disse, nem lh'o diria, se lhe
+n&atilde;o acreditasse umas lagrimas que lhe vejo nos olhos.<br />
+
+<br />
+
+Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na
+d&ocirc;r. O que eu n&atilde;o creio
+&eacute; na morte. A morte &eacute; uma palavra convencional,
+com que os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio
+d'uma nova existencia. A immortalidade &eacute; uma
+id&ecirc;a abstracta de tudo que &eacute; comprehensivel aos
+homens. O homem n&atilde;o explica a immortalidade, em quanto
+n&atilde;o sobe um grau na escala dos seres intelligentes. Veja se
+me comprehende... Ha uma escala de seres que principia na materia
+bruta, e termina nos espiritos. As func&ccedil;&otilde;es <span class="pagenum">[153]</span>
+do espirito, sem f&oacute;rmas
+corporeas, pertencem &aacute; creatura, superior ao homem. Ora, o
+homem n&atilde;o explica essas func&ccedil;&otilde;es, que
+devem ser a sua futura
+existencia, pela mesma raz&atilde;o que o animal, inferior ao
+homem, n&atilde;o comprehende as func&ccedil;&otilde;es do
+pensamento aperfei&ccedil;oadas, mas n&atilde;o perfeitas, no
+homem. Todos os seres, por tanto, v&atilde;o subindo na escala da
+intelligencia. Todos se transfiguram de f&oacute;rma em
+f&oacute;rma at&eacute;
+deixarem na terra o involucro da materia, e vagarem nos
+espa&ccedil;os incognitos como vagam os espiritos. &Eacute;
+l&aacute; em cima,
+nas proximidades do grande mysterio, ao clar&atilde;o da eterna
+luz, que se l&ecirc; o livro de Deus. &Eacute; nas
+regi&otilde;es, que a minha alma adivinha, que eu devo sentir pelo
+org&atilde;o
+espiritual em que recebi a interminavel impress&atilde;o de agonia,
+que foi na terra a minha lenta peregrina&ccedil;&atilde;o. O
+amor ardente e sublime n&atilde;o &eacute; um attributo do
+espirito?
+Aquelle que muito ama, e muito devorado morre de paix&otilde;es
+grandes e ideaes, n&atilde;o &eacute; um propheta da vida
+futura, uma preexistencia do futuro amor? A n&atilde;o ser o amor,
+qual ser&aacute; a existencia do espirito?<br />
+
+<br />
+
+Conhe&ccedil;o que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que
+quiz elevar o seu espirito &aacute; altura das minhas grandes
+doutrinas, do meu querido segredo. Quiz convencel-o, n&atilde;o
+digo bem, quiz enthusiasmal-o por essa eternidade em que ahi se falla,
+despida de affectos, de poesia, de esperan&ccedil;as, e... deixe-me
+dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens...<br />
+
+<br />
+
+Meu amigo, ha na minha vida um oasis. Tenho
+exalta&ccedil;&otilde;es de jubilo, aqui, n'este quarto, onde
+conto, ha perto de setenta annos, os minutos da minha existencia. Este
+goso &eacute; a minha convic&ccedil;&atilde;o na
+immortalidade... &Eacute; a minha esperan&ccedil;a, confirmada
+pela
+medita&ccedil;&atilde;o e pela sciencia, de que hei-de
+encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do
+c&eacute;o...<br />
+
+<br />
+
+Basta... Seja digno da minha confidencia... N&atilde;o diga
+&aacute;s turbas de Villa Real os segredos de D.
+Jo&atilde;o de <span class="pagenum">[154]</span>
+Noronha. Aqui escarnecem-se os que soffrem, logo que n&atilde;o
+soffrem pelas m&aacute;s colheitas do vinho, ou pela
+barateza dos cereaes. N&atilde;o falle a linguagem dos espiritos,
+onde a materia organisada disp&otilde;e do machinismo da bocca para
+lhe dar uma gargalhada em resposta.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+D. Jo&atilde;o de Noronha despediu-me.<br />
+
+<br />
+
+Desde esse dia foram mais da alma e da intelligencia as nossas
+communica&ccedil;&otilde;es. Aprendi com elle a
+sciencia do espiritualismo. Se depois me materialisei, &eacute;
+porque a faisca d'aquelle genio n&atilde;o me tinha abrasado mais
+que a superficie da materia. O espirito tem a for&ccedil;a dos
+imponderaveis. A for&ccedil;a da materia p&oacute;de muito bem
+calcular-se pela for&ccedil;a dos vapores...
+<em>tantos
+cavallos</em>.<br />
+
+<br />
+
+Pergunta-me uma senhora de critica muito fina:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como se explica o casamento de D. Jo&atilde;o de Noronha aos 86
+annos de idade, com uma donzella sua contemporanea?!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De uma maneira muito simples. As nupcias de D. Jo&atilde;o
+n&atilde;o podem considerar-se physicas nem
+moraes. &laquo;Absurdo!&#8213;replica a espirituosa dama.&raquo;
+Est&aacute; enganada, minha senhora. D. Jo&atilde;o tinha uma
+pequena fortuna, e queria deixal-a a uma creada, que o servira
+desveladamente toda a sua vida. D. Jo&atilde;o encarava
+philosophicamente as formulas sacramentaes do casamento. Achava-o
+utilissimo como carimbo de contracto civil. Casou-se para recompensar
+uma creada que lhe consolou muitas lagrimas, e lhe enxugou nas faces
+mortas as ultimas que elle chorou. Era digna do sacrificio. Poucos dias
+supportou a viuvez.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a caveira?&#8213;perguntou ainda a amavel syndica dos meus romances.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A caveira deve estar confundida nos ossos de D. Jo&atilde;o de
+Noronha. A viuva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na
+mesma mortalha.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="C8"></a>UMA PRAGA<br />
+
+ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>
+UMA PRAGA<br />
+
+ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.</h2>
+
+<br />
+
+Este romance n&atilde;o devera chamar-se
+&laquo;romance.&raquo; Desde que esta palavra &eacute; o
+atilho onde se enfeixam as mentirosas inven&ccedil;&otilde;es
+do escriptor phantastico,
+n&atilde;o ha historia verdadeira que possa, como tal,
+recommendar-se com aquelle titulo.<br />
+
+<br />
+
+Estes acontecimentos, expostos aqui, segundo o formulario romantico, e
+affei&ccedil;oados &aacute;s leis do estilo
+romantico, s&atilde;o verdades que n&atilde;o deram brado, nem
+se gravaram
+na memoria da gera&ccedil;&atilde;o que as viu e as
+n&atilde;o comprehendeu.<br />
+
+<br />
+
+Na vida moral da sociedade ha phenomenos cuja causa ninguem estuda. No
+drama da familia ha lances que s&atilde;o do dominio do publico, e
+o publico n&atilde;o
+p&oacute;de, ainda que o tente, explical-os. Nas
+attribui&ccedil;&otilde;es
+individualissimas do homem ha phases extraordinarias de soffrimento,
+que esta sociedade de entranhas crueis lhe recrimina,
+<span class="pagenum">[158]</span>
+reputando-lh'as effeitos necessarios das causas, consequencias do crime
+voluntario.<br />
+
+<br />
+
+A sociedade, a familia e o homem expiam incessantemente a culpa do
+homem, da familia, e da sociedade. Opera-se uma continua
+redemp&ccedil;&atilde;o do genero humano.
+O homem &eacute;, desde o seu principio, a victima da culpa com o
+labio collocado no calix da agonia.<br />
+
+<br />
+
+A vida sobre a terra &eacute; uma interminavel
+expia&ccedil;&atilde;o. Eu pago pelos crimes de meu pai, meus
+filhos expiar&atilde;o meus crimes, e o ultimo ser vivo da
+animalidade intelligente ser&aacute; o holocausto do primeiro homem
+criminoso.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; for&ccedil;oso recorrer ao inconcebivel, ao
+sobre-natural, ao mysticismo da providencia occulta para comprehender o
+que vulgarmente se diz &laquo;fatalidade.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Na historia, que vai ser lida, &eacute; t&atilde;o sensivel
+esta necessidade, t&atilde;o aterrado se sente o espirito diante
+d'um facto consummado, que eu n&atilde;o tive escrupulo religioso
+ou philosophico em subordinar um encadeamento de infortunios d'uma
+familia &aacute; <em>praga rogada nas escadas da
+forca</em>.<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+I.</h3>
+
+<br />
+
+Bernardo da Silva era um filho bastardo de um nobre de Vizeu. Do ventre
+materno passou &aacute; roda dos expostos, e d'ahi aos cuidados
+d'uma pobre mulher d'ald&ecirc;a.<br />
+
+<br />
+
+Aos dez annos n&atilde;o conhecia pai; e sua m&atilde;i, mulher
+do povo, arrastada sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o
+segredo do
+<em>nobre</em>, que se dign&aacute;ra
+descer at&eacute; ella para honral-a com deshonra.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo, aos dez annos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus
+companheiros era elle o mais despresado, porque tambem era o mais
+pregui&ccedil;oso.<br />
+
+<br />
+
+O rapaz vivia triste como se a idade lhe permittisse
+<span class="pagenum">[159]</span>comprehender a
+d&ocirc;r immensa d'um grande desastre.
+L&aacute; dentro n'aquelle cora&ccedil;&atilde;o infantil
+fallava uma
+prophecia funebre. Com os olhos sempre extaticos no horisonte negro do
+seu futuro, o pobre mo&ccedil;o n&atilde;o tinha uma
+hora livre para o trabalho. Muitas vezes uma bofetada acordava-o
+d'aquelle lethargo; e o bra&ccedil;o, que estava suspenso com a
+agulha, continuava a tarefa molhada de lagrimas.<br />
+
+<br />
+
+Aos 13 annos era ainda um aprendiz de alfaiate, repellido d'este para
+aquelle mestre, desacreditado em todos, e inutilmente espancado por
+todos. Chamavam-no incorrigivel, e elle mesmo conheceu que o era.<br />
+
+<br />
+
+Abandonou a agulha, e foi servir em casa de Francisco de Lucena. Era
+ahi, como em toda a parte, coconhecido pelo &laquo;Bernardo
+<em>Engeitado</em>.&raquo; Nunca ninguem
+se lembrou de reputal-o filho
+<em>d'alguem</em>: nem Lucena se lembrou,
+alguma vez, de que um de seus muitos filhos, atirados &aacute;
+roda, poderia ser seu lacaio.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo era creado de taboa.<br />
+
+<br />
+
+<h3>II.</h3>
+
+<br />
+
+Este officio era-lhe mais generoso que o de alfaiate. Tinha muitas
+horas livres para a sua melancolia, e muitos escondrijos no amplo
+palacio de seu amo para refugiar-se d'uma sociedade que elle detestava
+sem saber porque.<br />
+
+<br />
+
+Este viver excepcional n'aquella classe galhofeira, esturdia, e
+estragada, excitou a curiosidade dos seus companheiros, e, depois, a
+dos amos. Aquelles chasqueavam-nos com desabrimento: estes admiravam-no
+por compaix&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo chorava sem motivo. Sorria-se com violencia. Era humilde com
+um n&atilde;o sei que de estranha delicadesa. <span class="pagenum">[160]</span>Destacava-se da sua classe
+com um ar orgulhoso, mas n&atilde;o calculado. Cumpria as suas
+muitas
+obriga&ccedil;&otilde;es, e ninguem sabia quando as cumpria.
+Estas qualidades, rarissimas vezes encontradas n'um lacaio, tornavam-no
+assumpto de estudo para os amos que principiavam a interessar-se na
+analyse d'aquelle obscuro engeitado.<br />
+
+<br />
+
+Guardadas as inauferiveis distancias que separam o senhor do servo, os
+fidalgos souberam que Bernardo desejava muito saber l&ecirc;r, e
+gastava a maior parte da noite soletrando o abecedario, e decorando as
+li&ccedil;&otilde;es que o mordomo da casa lhe dava nas horas
+de desenfado.<br />
+
+<br />
+
+Qualquer que fosse o impulso que a isso o levou, &eacute; certo que
+o amo, por um nobre impulso, permittiu que o rapaz fosse a uma
+esc&oacute;la, e para isso alliviou-o dos encargos de
+mo&ccedil;o de taboa, e levou-o &aacute;
+jerarchia de escudeiro do menino mais velho.<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+III.</h3>
+
+<br />
+
+Um anno depois, Bernardo fizera admiraveis progressos. Lia com
+intelligencia do que lia; escrevia com acerto, e apr&ecirc;ndera
+s&oacute; comsigo a grammatica
+portugueza, visto que seus amos lhe n&atilde;o tinham permittido
+esta segunda parte dos seus estudos. Seria um caprichoso luxo permittir
+ao servo sciencia que os amos n&atilde;o tinham! O muito illustre
+Francisco de Lucena n&atilde;o daria o menor dos seus galgos pela
+vasta sciencia do Lobato. E, talvez, tivesse raz&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Em casa de fidalgos d'esta bit&oacute;la, quando um creado adquire
+a confian&ccedil;a dos amos, ha sempre para isso uma de duas
+raz&otilde;es. Ou o creado, devasso como elles, encobre
+astuciosamente as devassid&otilde;es dos amos; ou se torna
+estimavel pelo zelo honroso com que procura encobrir-lh'as,
+j&aacute; que n&atilde;o p&oacute;de reprehender-lh'as.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[161]</span>
+Bernardo estava na segunda raz&atilde;o. Os filhos de Lucena eram
+livres e desmoralisados a n&atilde;o poder ser mais. Quizeram
+captar a benevolencia do servo, n&atilde;o para
+aconselhal-os, que n&atilde;o desciam elles a isso, mas para
+acompanhal-os em emprezas difficeis, d'aquellas em que o
+bra&ccedil;o do plebeu &eacute; muitas vezes a
+salva&ccedil;&atilde;o
+das costas do fidalgo.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o o conseguiram nunca; mas tambem n&atilde;o tiveram
+de arrepender-se da confian&ccedil;a d'esse convite. Bernardo
+exercia uma influencia admiravel sobre os nobres libertinos. Era a
+superioridade da intelligencia. Ouviam-no, e maravilhavam-se do acerto
+das suas id&ecirc;as, e da linguagem escolhida com que o engeitado
+se sahia! O facto de ser engeitado era em Bernardo, talvez, um motivo
+de supersti&ccedil;&atilde;o n'aquella casa. Se elle fosse
+reconhecido filho d'algum
+<em>borra-botas</em>, como em
+linguagem nobliarchica se chama um plebeu, de certo lhe n&atilde;o
+dariam a importancia de o considerarem pela intelligencia. Mas o
+mysterio, a possibilidade de ser vergontea infeliz d'um tronco
+illustre, cingiam-lhe a fronte d'uma aureola entre nuvens, que poderia
+talvez, mais tarde, dissipar-se, e deixar na plenitude da sua luz
+aquelle fructo do amor criminoso d'alguma ra&ccedil;a nobilissima,
+mais ou menos aparentada com os Lucenas!<br />
+
+<br />
+
+Tudo isto era possivel; mas o que elles julgariam, entretanto,
+impossivel, &eacute; o que vai l&ecirc;r-se.<br />
+
+<br />
+
+<h3>IV.</h3>
+
+<br />
+
+A familia que Bernardo servia compunha-se de pai, m&atilde;i, tres
+filhos, e uma filha, de todos os irm&atilde;os
+a mais nova. Por ent&atilde;o contava quinze annos. Era bonita, mas
+pobre. Os morgados n&atilde;o a pediam; os filhos segundos tambem
+n&atilde;o; e a sensivel menina precisava amar, porque o seu
+cora&ccedil;&atilde;o era da tempera d'aquelles que
+n&atilde;o sabem <span class="pagenum">[162]</span>conceber
+s&oacute;mente o amor
+com a condicional do casamento.<br />
+
+<br />
+
+Eulalia n&atilde;o tinha a mais superficial tintura de
+instruc&ccedil;&atilde;o, e por isso n&atilde;o podemos, em
+boa f&eacute;, chamar-lhe romantica. N&atilde;o era janelleira,
+nem rapinhava da papeleira dos irm&atilde;os o perfumado papel
+setim para deposito de semsaborias amorosas, e por isso n&atilde;o
+podemos chamar-lhe douda.<br />
+
+<br />
+
+Era uma mulher, e n'isto est&aacute; dito tudo.<br />
+
+<br />
+
+Este Bernardo &eacute; que realmente se parecia muito com os nossos
+poetas de aspira&ccedil;&otilde;es ferventes e
+medita&ccedil;&otilde;es profundas. Mas n&atilde;o era
+impostor, nem romanticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas,
+e uma tristesa inconsolavel como nenhuma. &laquo;A minha
+organisa&ccedil;&atilde;o&#8213;dizia elle&#8213;&eacute; um aborto,
+uma enfermidade incuravel.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Eulalia sympathisava com aquella tristesa, e com a figura do rapaz.
+Achava-lhe tra&ccedil;os de semelhan&ccedil;a
+com seus irm&atilde;os, e via n'elle o que ella chamava
+&laquo;cara
+de pessoa de bem.&raquo; E, com quanto eu deteste esta maneira de
+classificar as caras, porque n&atilde;o conhe&ccedil;o as
+&laquo;caras de pessoas de mal&raquo; tenho-me visto em
+circumstancias
+for&ccedil;adas de dizer o mesmo, porque ha n'este val de lagrimas
+umas caras que n&atilde;o exprimem bem nem mal, e essas
+s&atilde;o as peiores caras.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo n&atilde;o se lembrou nunca de fazer sentir &aacute;
+cozinheira da casa, e menos se lembraria de accender o fogo do amor no
+illustre cora&ccedil;&atilde;o d'uma Lucena,
+com quem em toda a sua vida fall&aacute;ra tres vezes.<br />
+
+<br />
+
+Eulalia passou da d&ocirc;ce sympathia ao amor abrasado, e do amor
+abrasado &aacute; paix&atilde;o violenta. Por mais
+finos e eloquentes olhares que a fogosa menina lan&ccedil;ou ao
+escudeiro, o escudeiro ou n&atilde;o dava por elles, ou
+explicava-os de qualquer modo, com tanto que n&atilde;o ousasse
+ensoberbecer-se d'aquelle affecto disparatado. E Eulalia
+desesperava-se!<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[163]</span>
+<h3>V.</h3>
+
+<br />
+
+Francisco de Lucena espreitava a opportunidade de empurrar a filha para
+f&oacute;ra de casa. Aspirou, primeiro, aos morgados; mas
+encontrou-os pouco apreciadores de formosura e fidalguia. Recorreu,
+depois, aos burguezes ricos, e encontrou um negociante d'alto
+b&ocirc;rdo, que recebeu a proposta com affabilidade e trabalhou
+desde logo em levar a fim um casamento que permittia aos filhos de seu
+filho appellidarem-se Lucenas.<br />
+
+<br />
+
+O pai annunciou &aacute; filha o seu rico futuro, e encontrou-a
+fria. Apresentou-lhe o noivo, e viu-a enjoada. O noivo,
+por&eacute;m, era um rapaz de fina
+educa&ccedil;&atilde;o, d'alguma intelligencia, de brios que o
+ouro lhe estimulava, e de orgulho superior &aacute; sua classe,
+porque, ha 50 annos, a classe commercial era muito humilde, supposto
+j&aacute;
+trabalhasse para esta &eacute;poca de bar&otilde;es
+commerciaes, que, digam l&aacute; o que disserem, &eacute; o
+mais palpitante
+triumpho da democracia. Para me n&atilde;o metter em graves
+quest&otilde;es sociaes, entenda-se que D. Eulalia repelliu a
+felicidade que seu pai lhe annunci&aacute;ra com tanto jubilo, e
+declarou-se sentimental, por tempo de quinze dias, fechada no seu
+quarto, sem querer v&ecirc;r sol nem lua.<br />
+
+<br />
+
+Mas o pai apoquentava-a, sempre que podia, pintando-lhe a mesquinhez do
+seu futuro, e a pobresa de sua legitima, que or&ccedil;aria talvez
+por tres mil cruzados. E era isto verdade.<br />
+
+<br />
+
+<h3>VI.</h3>
+
+<br />
+
+E o peor era que o tal Jo&atilde;o Leite, noivo repellido, ficou
+amando desesperadamente D. Eulalia. Ferido no <span class="pagenum">[164]</span>seu
+amor proprio, e envergonhado de t&atilde;o m&aacute;
+estreia, instava com Francisco de Lucena, lan&ccedil;ando-lhe em
+rosto a imprudencia com que viera roubal-o &aacute; sua
+tranquilidade, n&atilde;o podendo contar com a obediencia de sua
+filha. Esta maneira de accusar vexava Francisco de Lucena, porque era
+p&ocirc;r em duvida o seu poder paternal, e chamar-lhe fraco,
+imputa&ccedil;&atilde;o que elle odiava ainda mesmo que se
+tratasse de vencer a repugnancia de uma fraca menina.<br />
+
+<br />
+
+Redobravam as mortifica&ccedil;&otilde;es, e Eulalia, immovel
+como o seu infeliz amor, offerecia-se de bom grado &aacute;
+vingan&ccedil;a paternal, mas dizia, em linguagem tragica, que
+s&oacute; reduzida a cadaver passaria para a posse do tal
+miseravel, que n&atilde;o tinha vergonha de perseguir uma mulher
+que o despresava. O pai realisou o dito popular: &laquo;casar, ou
+metter freira.&raquo; Eulalia optou pelo segundo, e os
+preparativos para entrar no convento principiaram.<br />
+
+<br />
+
+O amor faz a mulher varonil. Temos visto almas de lama apresentarem uma
+energia corajosa, quando o tonico do amor lhes vibra as cordas
+embrionarias d'um cora&ccedil;&atilde;o, que parece arfar de
+improviso ao
+repentino choque, ao rapto da paix&atilde;o violenta.<br />
+
+<br />
+
+Nas vesperas da sua entrada no mosteiro, Eulalia escreveu tres cartas.
+Uma a seu pai. Dizia-lhe que am&aacute;ra um s&oacute; homem e
+viveria d'esse amor desgra&ccedil;ado toda
+a sua vida.<br />
+
+<br />
+
+Outra ao escudeiro. Dizia-lhe que tivesse compaix&atilde;o d'ella,
+e chorasse uma lagrima em troca das que ella
+chor&aacute;ra, e choraria at&eacute; &aacute; morte.<br />
+
+<br />
+
+Outra ao seu implacavel pretendente. Dizia-lhe que o
+amaldi&ccedil;oava com todo o odio do seu
+cora&ccedil;&atilde;o. Que lhe atir&aacute;ra &aacute;
+cara com um
+<em>n&atilde;o</em>, e nem assim o
+envergonh&aacute;ra de continuar a perseguir uma mulher.<br />
+
+<br />
+
+Esta correspondencia conservou-a Eulalia at&eacute; ao momento em
+que transpoz o limiar do convento. O seu primeiro acto foi dar-lhe o
+destino competente. Depois, chorou,
+<span class="pagenum">[165]</span>chorou, e attrahiu
+em volta de si os carinhos da communidade que a
+mortificava com as suas frias
+consola&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+<h3>VII.</h3>
+
+<br />
+
+Francisco de Lucena recebeu com espanto semelhante carta.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo da Silva embruteceu-se ao l&ecirc;r a sua.<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Leite deu quatro murros n'uma mesa, e sentiu-se
+suspenso no ar por uma legi&atilde;o de demonios raivosos.<br />
+
+<br />
+
+Cada um fez seu papel; mas todos tres reunidos deviam formar um grupo
+digno da melhor caricatura in&eacute;dita!<br />
+
+<br />
+
+Francisco de Lucena correu ao locutorio do mosteiro, e fez alli
+apparecer imperiosamente a filha.<br />
+
+<br />
+
+Quiz for&ccedil;al-a a declarar o nome do homem que a
+preoccup&aacute;ra at&eacute; a fazer m&aacute; filha.
+N&atilde;o lhe arrancou a menor revela&ccedil;&atilde;o.
+Foi por outro caminho para
+chegar ao seu fim. Fez-se sentimental; lamentou, como bom pai, as
+paix&otilde;es invenciveis d'uma filha que se pr&eacute;sa
+com extremo carinho; contou historias an&aacute;logas, que acabavam
+todas por casamentos desiguaes, mas nem por isso menos venturosos.
+Pediu a sua filha o nome d'esse homem que a impression&aacute;ra, e
+fez-lhe ante-gostar a possibilidade de casar-se, se n&atilde;o
+viesse d'alli uma absoluta deshonra para a sua familia.<br />
+
+<br />
+
+O amor fez heroes, mas tambem faz patetas. Eulalia desceu da sua altiva
+energia ao raso da toleima. Declarou o nome... o nome de quem? o nome,
+sem nome, do engeitado, do aprendiz de alfaiate, do lacaio, do
+escudeiro!...<br />
+
+<br />
+
+Que horror!<br />
+
+<br />
+
+Nunca se viu um solavanco mais desamparado que <span class="pagenum">[166]</span>o
+salto de tigre que Francisco de Lucena deu contra a grade que o
+separava da filha! Por Deus! que a esgana se lhe chega! A pobre menina,
+arripiada como quem v&ecirc; um lobo com as fauces vermelhas, e as
+unhas recurvas, foge pelo dormitorio, e fecha-se no quarto.<br />
+
+<br />
+
+<h3>VIII.</h3>
+
+<br />
+
+Lucena correu a casa com os olhos injectados de fogo. Precisava d'uma
+victima! Encontrou no caminho Jo&atilde;o Leite, mas este
+n&atilde;o podia justificadamente ser sua victima. Jo&atilde;o
+Leite mostra-lhe a carta que receb&ecirc;ra de
+Eulalia. Isto foi exacerbal-o. &laquo;N&atilde;o se lhe
+d&ecirc; de
+ser repellido por essa infame,&#8213;lhe disse elle&#8213;Eu vou provar-lhe que
+sou pai!... Essa mulher amava um escudeiro... um lacaio... um
+<em>engeitado</em>...&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Entrando em casa, procurou o &laquo;engeitado.&raquo;
+Encontrou-o ainda estupidamente absorvido na
+medita&ccedil;&atilde;o d'aquella carta. A entrada rapida que
+fez no quarto n&atilde;o deu tempo a que Bernardo escondesse a
+carta que tinha aberta nas m&atilde;os tremulas. Lucena
+arrancou-lh'a com uma convuls&atilde;o de raiva superior
+&aacute; furia d'um
+demente. Passou-a pelos olhos, e, sem articular um som,
+lan&ccedil;ou m&atilde;o d'uma cadeira, e, &aacute; segunda
+pancada, Bernardo
+tinha a face coberta de sangue. Era um sangue innocente que reclamava
+justi&ccedil;a. Era um sangue innocente que pedia a
+interven&ccedil;&atilde;o de Deus. A
+justi&ccedil;a, filha legitima do c&eacute;o, vir&aacute;
+mais tarde salpicar d'aquelle sangue a
+face de quem o derramava.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo, ferido, e pisado de successivas pancadas, n&atilde;o
+pronunci&aacute;ra uma s&oacute; palavra durante
+este infernal martyrio. Impellido por pontap&eacute;s, foi
+lan&ccedil;ado
+f&oacute;ra da porta do quarto. As for&ccedil;as faltaram-lhe.
+O sangue corria a j&ocirc;rros. Esvaiu-se-lhe a cabe&ccedil;a,
+e cahiu.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[167]</span>
+O fidalgo chamou dous creados, e mandou p&ocirc;r aquelle homem
+f&oacute;ra da porta. Era ao anoitecer. O engeitado foi arremessado
+&aacute; rua. Quando recuperou os sentidos, achou-se frio.
+Ergueu-se. Olhou com os olhos da alma para a sua consciencia, e sentiu
+pela primeira vez vontade de sorrir da sua desgra&ccedil;a pelos
+labios molhados de fel.<br />
+
+<br />
+
+E riu-se. Era um sorriso semelhante ao dos anjos. As almas que podem
+sorrir assim s&atilde;o as que Deus elege para a santidade da
+bemaventuran&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+<h3>IX.</h3>
+
+<br />
+
+Bernardo procurou um refugio em casa de uma mulher pobre que o
+tract&aacute;ra sempre com amor, matando-lhe a fome, quando a
+aprendizagem de alfaiate lhe n&atilde;o valia o p&atilde;o de
+cada dia. Esta mulher f&ocirc;ra ama da
+roda no tempo em que Bernardo l&aacute; f&ocirc;ra
+lan&ccedil;ado. Suppunha ella que talvez o tivesse alimentado ao
+seu seio por algumas horas, e esta s&oacute; conjectura attrahia-a
+para elle com instincto maternal.<br />
+
+<br />
+
+O engeitado curou-se dos leves ferimentos, e pediu a Deus que lhe
+inspirasse um destino. Esperou.<br />
+
+<br />
+
+Em Vizeu fallava-se muito d'este successo, divulgado por Francisco de
+Lucena, e por Jo&atilde;o Leite.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo era procurado para ser punido; e quem mais diligencias fazia
+para isso era o juiz de f&oacute;ra Paulo
+Botelho.<br />
+
+<br />
+
+O honrado mo&ccedil;o, quando se viu na penosa
+situa&ccedil;&atilde;o de agenciar a sua vida, por
+n&atilde;o poder sahir da pobre casa em que vivia, impellido pela
+sua innocencia, procurou o juiz de f&oacute;ra, e expoz-lhe com a
+mais eloquente
+naturalidade a injusti&ccedil;a com que f&ocirc;ra maltratado e
+com que estava sendo perseguido.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[168]</span>
+Paulo Botelho quiz espancal-o com um chicote por ter tido a audacia de
+entrar em sua casa sem ferros aos p&eacute;s. Olhou em redor de si
+procurando um aguazil para fazel-o prender trai&ccedil;oeiramente;
+mas o generoso mancebo,
+adivinhando-lhe as inten&ccedil;&otilde;es, disse que
+n&atilde;o precisava
+fingir-se; que elle dava a sua palavra de honra de n&atilde;o
+retirar da casa em que estava vivendo, e que mandasse sua senhoria
+captural-o quando quizesse. O juiz riu-se da <em>palavra
+d'honra</em> na bocca d'um creado de servir, e mandou-o
+embora, por n&atilde;o ter a proposito um meirinho.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo encontrou ao retirar-se, nas escadas do ministro,
+Jo&atilde;o Leite, que apeava d'uma liteira, segundo o uso dos
+nobres, comprado pelo ouro do burguez opulento.<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Leite fixou-o com ar de soberano despreso, e
+perguntou-lhe:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s tu o lacaio de Francisco de Lucena?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fui o lacaio do snr. Francisco de Lucena&#8213;respondeu Bernardo com
+dignidade.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tens o atrevimento de apparecer entre pessoas de bem?<br />
+
+<br />
+
+Bernardo suffocou uma resposta amarga, e fez uma continencia respeitosa
+para retirar-se.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem c&aacute;, miseravel!&#8213;tornou Jo&atilde;o Leite&#8213;tu
+&eacute;s o amante da filha do teu amo?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Respeitei-a muito, por ser a filha de meu amo, em quanto o servi.
+Hoje respeito-a, porque lhe n&atilde;o
+conhe&ccedil;o a menor falta que a deshonre!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem ao menos a deshonra de receber as tuas
+affei&ccedil;&otilde;es, lacaio?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o lh'as offereci nunca, senhor.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Offereceu-t'as ella, sevandija?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ella escrevia-te...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sem ser criminosa, por isso...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o achas que n&atilde;o &eacute; crime escrever
+a um bandalho?<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[169]</span> &#8213;Ser&aacute;,
+se v. s.<sup>a</sup> o quer...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho pena de seres um reptil que faz nojo esmagar com a solla da
+bota! Se tivesses um nome...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho um caracter, senhor!<br />
+
+<br />
+
+Bernardo respondeu com altivez; Jo&atilde;o Leite riu-se com
+despreso, e olhando-o da cabe&ccedil;a aos p&eacute;s,
+replicou:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu sabes que n&atilde;o podes ter caracter, engeitado!?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, terei um bra&ccedil;o...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um bra&ccedil;o!&#8213;atalhou o fidalgo em projecto, imprimindo-lhe
+um valente pontap&eacute;, que o fez descer tres escadas
+maquinalmente.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo assumira toda a dignidade do homem de
+cora&ccedil;&atilde;o ultrajado. Jo&atilde;o Leite achou-se
+comprimido entre os bra&ccedil;os do
+<em>sevandija</em>
+que elle suppunha fugir ao primeiro pontap&eacute; para evitar o
+segundo.<br />
+
+<br />
+
+Quiz desfazer-se, de prompto, d'este empecilho, e n&atilde;o
+p&ocirc;de, porque os p&eacute;s falsearam-lhe,
+e as costas bateram-lhe com todo o peso sobre os degraus de pedra.
+Tirou rapido de um punhal, e ro&ccedil;ou com elle duas vezes sobre
+o bra&ccedil;o direito de Bernardo, que o desarmou, no acto em que
+uma terceira punhalada lhe resval&aacute;ra no peito. O engeitado
+sentiu-se ferido: vacillou um instante na
+resolu&ccedil;&atilde;o que se debatia entre o homicidio e o
+perd&atilde;o. Venceu o primeiro. Aquelle punhal tinto de sangue
+innocente, pela segunda vez, derramado, entrou no
+cora&ccedil;&atilde;o de Jo&atilde;o Leite, e matou-o.<br />
+
+<br />
+
+Isto foi obra d'alguns segundos. Jo&atilde;o Leite
+grit&aacute;ra nas convuls&otilde;es da morte; acudiram os
+creados, e encontraram Bernardo da Silva, de bra&ccedil;os cruzados
+ao p&eacute; do cadaver, que vibrava nos seus derradeiros
+estorcimentos.<br />
+
+<br />
+
+Paulo Botelho tambem acudiu. Primeiro recuou aterrado: depois gritou
+&laquo;matem esse homem!&raquo; E vendo que ninguem de prompto
+lhe aceitava o diploma de assassino, mandou-o carregar de ferros.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo caminhou para o carcere, com a fronte altiva, com nobreza de
+passo, com serenidade de consciencia <span class="pagenum">[170]</span>e
+maneiras d'um principe, segundo a linguagem popular dos que o viram.<br />
+
+<br />
+
+<h3>X.</h3>
+
+<br />
+
+Foi processado. Paulo Botelho desenvolveu uma espantosa energia no
+andamento d'esta causa crime. Erguia-se todos, os dias, sofrego da
+escrever uma senten&ccedil;a de forca.<br />
+
+<br />
+
+Os depoimentos eram todos contrarios ao infeliz. Um s&oacute; homem
+protegeu esse preso; sabia-se que era um
+anci&atilde;o que lhe levava umas sopas diariamente, e palavras
+consoladoras de esperan&ccedil;a sem esperan&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Eulalia, sabendo estes acontecimentos at&eacute; &aacute;
+vespera do dia em que o escudeiro devia ser condemnado, requereu que
+queria ser ouvida em juizo. N&atilde;o lhe admitiram o seu
+depoimento. A pobre menina, inspirada da eloquencia do martyrio, entrou
+um dia no c&ocirc;ro, quando a communidade orava, e invocou o
+testemunho de Jesus Christo, exclamando, de modo que a escutasse o povo
+que estava na igreja:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Declaro que esse infeliz homem, que vai morrer, depois de
+martyrisado por meu pai, e apunhalado por um homem que eu despresei,
+declaro diante de Deus e dos homens, que esse infeliz nunca me disse
+uma palavra s&oacute; para que eu o amasse. Fui eu que o amei, fui
+eu que lhe escrevi, quando entrei n'este mosteiro, fui eu que o fiz
+desgra&ccedil;ado, mas em recompensa hei-de amal-o toda a minha
+vida, e hei-de unir-me a elle na presen&ccedil;a de
+Deus!&raquo; Era uma demencia!<br />
+
+<br />
+
+Foi grande o assombro dos que a ouviram. O ecco d'este grito chegou aos
+ouvidos de Paulo Botelho, que estava presente; mas a sua alma
+f&ocirc;ra cerrada pela
+m&atilde;o corrupta do ouro. O povo murmurava, e dizia que
+n&atilde;o havia de ser enforcado o escudeiro.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[171]</span>
+Pobre povo, n'aquelles dias, se tentasse tirar das m&atilde;os d'um
+juiz o seu instrumento inauferivel, o carrasco!<br />
+
+<br />
+
+<h3>XI.</h3>
+
+<br />
+
+Bernardo foi condemnado &aacute; pena ultima; Ergueu-se uma forca
+nas proximidades do delicto, entre a casa do juiz, e a de Francisco de
+Lucena.<br />
+
+<br />
+
+Eulalia exalt&aacute;ra-se no martyrio at&eacute; causar
+receios de loucura. Inspiravam-se de uma d&ocirc;r de morte as
+exclama&ccedil;&otilde;es pungentes que soltava a cada ruido
+que ouvia semelhante ao arranco retrahido d'um justi&ccedil;ado. O
+espectaculo da forca era a sua id&ecirc;a fixa, desde o momento que
+uma religiosa imprudente lhe annunciou o destino de Bernardo da Silva.<br />
+
+<br />
+
+A infeliz, na madrugada do dia da execu&ccedil;&atilde;o, fugiu
+da cella com os cabellos em desordem, com as faces chammejantes de
+febre, com os olhos embriagados de delirio, e com o
+cora&ccedil;&atilde;o a estalar-lhe de uma
+d&ocirc;r que a endoudecia.<br />
+
+<br />
+
+Chegando &aacute; portaria n&atilde;o houveram
+for&ccedil;as humanas que a contivessem. Os ferrolhos cederam ao
+impulso d'uma fraca mulher, forte da sua
+desespera&ccedil;&atilde;o; e
+esta virgem, com habitos de novi&ccedil;a, e bella, na sua agonia,
+como um corpo epileptico que se levanta amortalhado do esquife, corria
+por entre as multid&otilde;es que principiavam a agglomerar-se para
+testemunharem o desconjuntar dos ossos do pesco&ccedil;o d'um
+padecente entre as m&atilde;os
+do carrasco, seu irm&atilde;o, ambos filhos do mesmo Deus, ambos
+remidos pelo sangue do mesmo Christo.<br />
+
+<br />
+
+Viram-na as multid&otilde;es passar; muitos a conheceram: alguns
+pronunciaram o seu nome, mas aquella pomba, ferida de morte, era um
+cadaver que se movia impellido pelo choque da pilha galvanica.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[172]</span>
+Erguera-se um alarido na cidade. As turbas corriam na
+direc&ccedil;&atilde;o da infeliz, a quem chamavam douda;
+mas n&atilde;o ousou alguem embargar o passo &aacute;quella
+mulher
+que parecia fascinar com a magestade da sua demencia.<br />
+
+<br />
+
+Os que a seguiam esperavam v&ecirc;l-a entrar em casa de seu pai.
+Enganaram-se. Eulalia subiu as escadas de Paulo Botelho, e entrou no
+sal&atilde;o onde f&ocirc;ra lavrada a
+senten&ccedil;a de cadafalso para Bernardo da Silva.<br />
+
+<br />
+
+Paulo Botelho estremeceu na cadeira, quando viu aquelle alvejar de uma
+larva, ajoelhada nos degraus da tribuna.<br />
+
+<br />
+
+Deu-se um profundo silencio de alguns minutos.<br />
+
+<br />
+
+Eulalia j&aacute; n&atilde;o podia coordenar as id&ecirc;as
+que poucos dias antes clam&aacute;ra no c&ocirc;ro. O sorriso
+da loucura,
+o gemido suffocante, uma lagrima embebida logo no ardor das faces, e
+algumas palavras entaladas, e apenas intelligiveis, eram alternativas
+que a tornaram mais lastimavel durante alguns minutos.<br />
+
+<br />
+
+A mulher e tres filhas de Paulo Botelho, que a viram entrar, correram
+ao tribunal, e quizeram arrastal-a d'alli. Era impossivel. A estatua
+parecia chumbada sobre o seu tumulo.<br />
+
+<br />
+
+A familia do juiz julgou conveniente empregar o insulto como
+solu&ccedil;&atilde;o. Fallavam do
+justi&ccedil;ado com certa nauzea, que ellas suppozeram ser o
+balsamo para a ferida mortal de Eulalia. Paulo Botelho, coadjuvando as
+raz&otilde;es da sua familia, cobria de improperios affrontosos o
+homem que, pouco depois, havia de perdoar as injurias com a
+cabe&ccedil;a no la&ccedil;o da forca.<br />
+
+<br />
+
+A exalta&ccedil;&atilde;o afflictiva de Eulalia tinha tocado o
+ponto culminante da morte, ou da aliena&ccedil;&atilde;o
+irremediavel.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Innocente! Innocente!&#8213;eram os gritos unicos, as derradeiras palavras
+que os labios d'aquella mulher tinham de proferir.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[173]</span>
+<h3>XII.</h3>
+
+<br />
+
+N'este momento entrou um homem que redobrou o espanto. Era Pedro Leite,
+pai de Jo&atilde;o Leite.<br />
+
+<br />
+
+Este homem fez signal de querer fallar. Attenderam-no todos com
+religioso respeito.<br />
+
+<br />
+
+As suas palavras foram estas:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;o ao assassino de meu filho! O sangue d'esse homem
+cahir&aacute; sobre a minha face! Matou defendendo-se d'um
+aggressor infame! Senhor juiz de f&oacute;ra, requeiro a
+suspens&atilde;o da execu&ccedil;&atilde;o da
+senten&ccedil;a. Eu sou parte, e declaro innocente o
+r&eacute;o!<br />
+
+<br />
+
+Seguiram-se minutos d'uma estupefac&ccedil;&atilde;o natural.
+Eulalia voltou os olhos para o homem que fall&aacute;ra, quiz
+arrastar-se de joelhos aos p&eacute;s d'elle; n&atilde;o
+p&ocirc;de; a
+impress&atilde;o devia matal-a, ou resuscital-a... desmaiou a meio
+caminho.<br />
+
+<br />
+
+O juiz era o algoz moral creado pelo ouro, assim como o carrasco
+physico f&ocirc;ra creado pela lei. N&atilde;o podia
+eximir-se a pegar do cutello, e seguir seu caminho.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; tarde!&#8213;respondeu elle.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; tarde!&#8213;replicou Pedro Leite, e continuou
+com solemne exalta&ccedil;&atilde;o:&#8213;Tarde, senhor juiz,
+&eacute; depois que o tribunal do mundo se fecha atraz d'aquelle
+que vai entrar no tribunal de Deus! Tarde, &eacute; quando um juiz
+de entranhas ferozes se apresenta no banco dos r&eacute;os
+condemnados
+com a face borrifada de sangue innocente!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Basta!&#8213;exclamou Paulo Botelho com authoridade!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... basta! mas, abaixo de Deus, invoco o testemunho das
+pessoas que me escutam. Declaro que lavo as m&atilde;os d'este
+sangue innocente que vai ser derramado!<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[174]</span>
+O povo murmurou com acanhamento, com a consciencia cobarde da sua
+nullidade, mas balbuciou n&atilde;o sei que palavras que irritaram
+o juiz.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se trata s&oacute; de punir o assassino de
+Jo&atilde;o Leite!&#8213;exclamou o juiz&#8213;trata-se de castigar a
+affronta que recebeu um nobre, feita por um lacaio que ousou levantar
+olhos de amante para sua filha!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o!&#8213;gritou Eulalia, erguendo-se com
+impeto, com as m&atilde;os postas, e cahindo outra vez sobre os
+joelhos.<br />
+
+<br />
+
+O cynico j&aacute; n&atilde;o tinha coragem para tanto!
+So&aacute;ra a hora do ultimo mandato ao carcereiro.
+Expir&aacute;ra o ultimo instante de oratorio.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cumpra-se a lei!<br />
+
+<br />
+
+Disse o juiz, e fez men&ccedil;&atilde;o de retirarem-se as
+ondas de povo que tinham concorrido em tropel, chamadas pelos gritos de
+Eulalia, e pelo perd&atilde;o publico de Pedro Leite.<br />
+
+<br />
+
+Eulalia foi conduzida em bra&ccedil;os para o interior da
+habita&ccedil;&atilde;o do juiz.<br />
+
+<br />
+
+<h3>XIII.</h3>
+
+<br />
+
+A prociss&atilde;o onde a impudencia colloc&aacute;ra um
+Christo, o Deus da caridade, nas m&atilde;os d'um padecente, que
+hia ser esganado!... a prociss&atilde;o, onde se via um homem de
+tunica branca, um algoz de cutello e alcofa, alguns sacerdotes d'um
+Deus misericordioso!... a prociss&atilde;o descia terrivel de
+repulsiva solemnidade para o a&ccedil;ougue d'aquella
+r&ecirc;z! A tumba da misericordia fechava aquella orgia de sangue!
+Era um insulto a Deus! o cadaver d'um homem atirado &aacute; face
+do Creador! um escarneo satanico &aacute; intelligencia, e ao
+cora&ccedil;&atilde;o
+da humanidade!<br />
+
+<br />
+
+O prestito parou na pra&ccedil;a do sacrificio.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[175]</span>
+Bernardo com os olhos fitos no c&eacute;o via nascer a risonha
+aurora da eternidade. Sorriam-lhe os anjos, e a justi&ccedil;a de
+Deus mostrava-lhe o seu rega&ccedil;o. A
+morte do justo era um crepusculo de nova existencia a alumiar-lhe o
+rosto. Inspirava devo&ccedil;&atilde;o aquelle seu santo
+sorrir para o seio do c&eacute;o que se lhe abria! Trazia nas
+m&atilde;os a
+imagem do Redemptor; mas l&aacute; em cima via elle o Espirito
+Creador, a grande alma, onde se refugiam as almas dispersas na face
+d'este mundo, e perseguidas pelo demonio da ira, e da
+vingan&ccedil;a, eternamente encarnado no homem, a quem a sociedade
+entregou o azorrague da flagella&ccedil;&atilde;o do virtuoso.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo caminhava a passo firme para a escada da forca. Estavam
+contrahidas as respira&ccedil;&otilde;es. Um
+gemido, menos suffocado, podia ser ouvido por quinze mil almas que
+vieram a contemplar aquelle apparelho de morte, segundo a lei,
+<em>formulada pelas
+inspira&ccedil;&otilde;es do Evangelho</em>! pelo
+codigo dos perd&otilde;es! pelos preceitos do Filho de Deus que
+morr&ecirc;ra, perdoando!<br />
+
+<br />
+
+<h3>XIV.</h3>
+
+<br />
+
+Atrav&eacute;s da multid&atilde;o abriu-se uma clareira para
+deixar passar um homem, que devia representar um principal papel
+n'aquelle festim da lei.<br />
+
+<br />
+
+Convergiram todas as atten&ccedil;&otilde;es para aquelle
+ponto.<br />
+
+<br />
+
+Era Pedro Leite&#8213;ainda o pregoeiro da innocencia de Bernardo, com a
+face cadaverica das longas noites que chor&aacute;ra sobre o tumulo
+de seu filho unico.<br />
+
+<br />
+
+Quem disse a este homem que Bernardo da Silva era um innocente?<br />
+
+<br />
+
+Que for&ccedil;a occulta o arrasta a aben&ccedil;oar nas
+escadas da forca o assassino de seu filho?<br />
+
+<br />
+
+Phenomenos occultos da Providencia! A voz de <span class="pagenum">[176]</span>Deus,
+soando pelos labios do mysterio! Explicai-me as
+opera&ccedil;&otilde;es de Deus, e eu vos explicarei a
+inspira&ccedil;&atilde;o sobrenatural que obriga a balbuciarem
+o perd&atilde;o os labios, que beijaram morto um filho
+estremecido...<br />
+
+<br />
+
+Pedro Leite aproximou-se do justi&ccedil;ado. Ninguem lhe
+embara&ccedil;ou o passo.<br />
+
+<br />
+
+Cheio de magestade, de poesia funebre, e de santo terror, fallou assim:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eu venho pedir o seu perd&atilde;o &aacute; beira do
+patibulo. Fui eu que o arrastei at&eacute; ao tribunal em que foi
+condemnado;
+mas n&atilde;o sou eu que o arrasto aqui. Bradei em favor da sua
+innocencia. Pedi, ha momentos, a suspens&atilde;o d'este acto, em
+que a minha d&ocirc;r ser&aacute; mais... muito
+mais prolongada que a sua. N&atilde;o me ouviram: impozeram-me
+silencio, e mandaram-me sahir do sanctuario da lei, que resfolegava
+sangue pela bocca do seu sacerdote.<br />
+
+<br />
+
+Venho pedir o seu perd&atilde;o nas escadas da forca, e vasar o
+fel, que me devora a consciencia, na consciencia do juiz implacavel que
+pede a sua cabe&ccedil;a a altos
+gritos!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Ouviu-se um prolongado murmurio. Era a onda popular que refervia
+sopeada entre as rochas da sua impotencia moral, n'aquelles dias, em
+que o sangue d'um plebeu continuava a opera&ccedil;&atilde;o
+regeneradora do
+sangue de Jesus Christo.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo ouviu com presen&ccedil;a de espirito a
+exclama&ccedil;&atilde;o de Pedro Leite.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eu lhe perd&ocirc;o!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Foram as suas palavras unicas.<br />
+
+<br />
+
+Choraram-se ent&atilde;o muitas lagrimas. A piedade teve uma
+explos&atilde;o, que as cronhas dos soldados reprimiram. As turbas
+queriam rasgar o quadrado para arrancarem da morte um santo. Este
+conflicto foi serenado por outro mais sublime. Ouviu-se uma voz. Viu-se
+um homem que sobresahia entre as molas populares. Era o velho,
+protector unico de Bernardo da Silva, durante a sua pris&atilde;o.
+Poucos o conheciam.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[177]</span>
+Foram estas as suas palavras:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Nobre senhor Francisco de Lucena! vem v&ecirc;r teu
+filho que morre enforcado! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem
+v&ecirc;r o filho da mulher que deshonraste, como &eacute;
+nobre nas escadas da forca! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem
+v&ecirc;r teu filho, o filho de minha filha, que borrifa os teus
+pergaminhos com o teu sangue illustre!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+E calou-se. Calaram-se todos. E aquelle homem l&aacute; estava
+erguido como o anjo dos tumulos &aacute; espera que Deus mande
+quebrar a lousa d'uma mulher que ahi falta n'esse trance afflictivo!<br />
+
+<br />
+
+Essa mulher morr&ecirc;ra, deshonrada, suffocada pela
+m&atilde;o da ignominia, a que a soberania fidalga de Francisco de
+Lucena a abandon&aacute;ra.<br />
+
+<br />
+
+Esse anci&atilde;o era o pai d'essa mulher, unico que
+receb&ecirc;ra em seus bra&ccedil;os o filho da deshonra, unico
+sabedor d'aquella existencia, que acompanhou sempre, porque lhe
+marc&aacute;ra um bra&ccedil;o com uma cruz. Desde o ventre
+&aacute; forca, de longe, desconhecido, com o segredo da deshonra
+de sua filha abafado no cora&ccedil;&atilde;o, este
+homem seguira os vestigios do neto, sem declaral-o nunca, porque um
+appellido illustre n&atilde;o o salvava a elle d'uma
+<em>illustre</em> ignominia.<br />
+
+<br />
+
+Que impress&atilde;o fez este homem nas turbas? A do espanto. Mas,
+momentos depois, chamavam-lhe
+<span class="smallcaps">doudo</span>. Por ordem do
+juiz de
+f&oacute;ra hia ser preso o demente. Aproximou-se a
+justi&ccedil;a d'el-rei. &laquo;&Eacute;
+doudo...!&raquo; dizia o meirinho ao lan&ccedil;ar-lhe a
+m&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;<em>N&atilde;o &eacute;
+doudo</em>... &eacute;
+<span class="smallcaps">morto</span>... &raquo;
+responderam
+algumas vozes.<br />
+
+<br />
+
+Morto, sim!<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[178]</span>
+<h3>XV.</h3>
+
+<br />
+
+Hia consummar-se aquelle enredo de peripecias terriveis.<br />
+
+<br />
+
+Bernardo poz o p&eacute; direito na ultima prancha da forca.
+Voltou-se para o povo. Brilhou-lhe na face o clar&atilde;o d'um
+outro mundo. A sua voz era melodiosa como o cantico do anjo da morte
+suavissima: mas n'aquelle todo via-se a terrivel magestade do anjo do
+dia final. As suas ultimas palavras foram estas:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ouvide a praga d'um padecente, rogada nas escadas da forca:
+<span class="smallcaps">Que a justi&ccedil;a de Deus
+se cumpra
+na presen&ccedil;a dos homens</span>!&raquo;<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O povo voltou o rosto do aspecto hediondo d'uma face injectada de
+sangue negro. Outros viram-lhe uma onda de luz cingindo a fronte.
+N'esse momento ajoelharam muitos justos pedindo ao espirito do
+justi&ccedil;ado a sua protec&ccedil;&atilde;o na
+presen&ccedil;a de Deus!<br />
+
+<br />
+
+<h3>CONCLUS&Atilde;O.</h3>
+
+<br />
+
+Passaram quinze dias.<br />
+
+<br />
+
+Eulalia de Lucena recuper&aacute;ra o juizo, e entr&aacute;ra
+no mosteiro. Um anno depois, profess&aacute;ra. A sua vida foram
+tres annos de adora&ccedil;&atilde;o extatica. Ouviram-na
+murmurar palavras celestes, como em dialogo. Dizia-se que um anjo devia
+apparecer-lhe n'aquelles arrobamentos. Chamavam-lhe santa, e
+adoraram-na morta.<br />
+
+<br />
+
+Passados quatro annos, Francisco de Lucena, sempre
+<span class="pagenum">[179]</span>afastado de sua
+filha pela m&atilde;o do remorso, morreu de repente
+no mesmo local em que f&ocirc;ra hasteada a forca.<br />
+
+<br />
+
+Sim&atilde;o Botelho, filho de Paulo Botelho, d&eacute;ra um
+tiro em seu pai. O pai quiz sentencial-o: deu-lhe senten&ccedil;a
+de forca, que depois lhe foi commutada em degredo perpetuo. Apenas
+desembarcou em Cabo Verde, abriu-se-lhe uma sepultura.<br />
+
+<br />
+
+Paulo Botelho, desembargador aposentado, dez annos depois, morria
+&aacute; vigesima quinta punhalada que
+receb&ecirc;ra, por n&atilde;o dar exactas
+informa&ccedil;&otilde;es d'um
+peculio de cincoenta mil cruzados que guardava em uma quinta nas
+visinhan&ccedil;as de Villa Real.<br />
+
+<br />
+
+A mulher de Paulo Botelho morria douda no hospital de S.
+Jos&eacute; um anno depois.<br />
+
+<br />
+
+Restavam tres filhas de Paulo Botelho.<br />
+
+<br />
+
+Foram devassas at&eacute; ao escandalo de serem arrastadas a um
+recolhimento por expresso mandado regio.<br />
+
+<br />
+
+Uma appareceu morta n'um aqueducto por onde procur&aacute;ra
+evadir-se.<br />
+
+<br />
+
+Outra casou com um homem que a retalhou de martyrios.<br />
+
+<br />
+
+A terceira enforcou-se no batente de uma porta.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">A justi&ccedil;a de Deus
+cumpriu-se na
+presen&ccedil;a dos homens</span>.<br />
+
+<br />
+
+A praga do justi&ccedil;ado nas escadas da forca teve o seu
+complemento do genero de morte que a ultima pessoa d'aquella familia se
+d&eacute;ra.<br />
+
+<br />
+
+Forca por forca.<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tendes a curiosidade das averigua&ccedil;&otilde;es? Procurai
+em alguns cartorios de Vizeu a senten&ccedil;a pronunciada entre
+1776 e 1780.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[180]</span>
+<h3>REMATE.</h3>
+
+<br />
+
+N&atilde;o sou contumaz, nem me ufano de relapsia.<br />
+
+<br />
+
+De tudo que disse me desdigo, se algum inquisidor intoleravel deparar
+ahi heresia, contra-senso, atrevimento ou cousa que duvida
+fa&ccedil;a contra Plutus, unico deus da unica religi&atilde;o
+cujo codigo penal me intimida.<br />
+
+<br />
+
+Ha cousas incriveis n'este volume? &Eacute; que eu, e os meus
+amigos litteratos, poetas, jornalistas, e at&eacute;
+redactores encartados de necrologios sabemos passagens que arripiam
+carnes e cabellos. Se o siso commum as n&atilde;o adopta,
+&eacute; que os chronistas do tempo formam,
+&aacute; parte, um <em>status in
+statu</em>, cousa
+inintelligivel aos que n&atilde;o sabem latim, por grande fortuna
+sua.<br />
+
+<br />
+
+N'este synhedrim ha uma moral, estragada se o quizerem, mas os
+evangelistas, que a propagam s&atilde;o Cat&otilde;es, com
+tanto que os n&atilde;o obriguem a inquietar a sadia
+tranquillidade dos intestinos. Aqui, n&atilde;o se sacrifica um
+dedo a uma pisadella, porque n&atilde;o vale a pena.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; necessario escrever, visto que ha leitores.<br />
+
+<br />
+
+Eu, e os meus correligionarios, se at&eacute; hoje n&atilde;o
+temos irradiado sobre a humanidade ondas de luz, &eacute; porque a
+humanidade precisava ser, primeiramente, operada na catarata. O luzeiro
+da civilisa&ccedil;&atilde;o aqueceu,
+n&atilde;o ha muito, a concha em que, por aqui, se escondiam muitos
+molluscos moraes, que v&atilde;o sahindo agora a
+espanejar-se ao sol.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o quero dizer que os molluscos passassem a articulados.
+P&oacute;de muito bem ser que o leitor, ou leitora sejam ainda
+legitimos molluscos; mas a excep&ccedil;&atilde;o
+deploravel n&atilde;o claudica a generalidade. E, por tanto:<br />
+
+<br />
+
+Eu, e os meus amigos, mencionados acima, considerando que a candeia
+n&atilde;o deve estar muito tempo debaixo <span class="pagenum">[181]</span>do
+alqueire, nem os
+talentos (dinheiro) soterrados vencem juros: e tendo n&oacute;s
+outro sim, em muito afan e desvelo desaffrontar a litteratura patria de
+injurias com que estrangeiros e nacionaes a desconceituam, desairando-a
+como pobre de romances, pela sua incapacidade inventiva&#8213;o que
+n&atilde;o s&oacute; &eacute; malicia, mas
+at&eacute; aleivosia: resolvemos escrever romances em que
+figurassem muitas pessoas nossas conhecidas, e outras, que viremos a
+conhecer no decurso d'esta meritoria tarefa.<br />
+
+<br />
+
+Pelo que, a mim, humilde entre os humildes apostolos d'esta
+id&ecirc;a lucida, coube o quinh&atilde;o de trabalho, que a
+posteridade me devolver&aacute; em gabos e applausos, e o futuro
+Plutarcho dos homens illustres d'esta freguezia de Cedofeita, em que
+tenho a honra de morar, n&atilde;o deixar&aacute; de consignar
+nos fastos gloriosos.<br />
+
+<br />
+
+Disse.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="C9"></a>PATHOLOGIA DO CASAMENTO.</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>DEDICATORIA.</h3>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>exc.<sup>ma</sup>
+snr.<sup>a</sup>
+D. Fulana.</em></div>
+
+<br />
+
+Conceda-me v. exc.<sup>a</sup> a gloria de offerecer-lhe um
+quadro d'esta
+galeria. Vai l&ecirc;r um drama intitulado
+<span class="smallcaps">Pathologia do Casamento</span>.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Pathologia</em>, minha querida snr.<sup>a</sup>
+D.
+Fulana, &eacute; uma palavra grega, composta de
+<em>pathos</em>,
+doen&ccedil;a, e <em>logos</em>,
+tractado. Quer, por tanto, dizer <em>molestias do
+casamento</em>.<br />
+
+<br />
+
+Balzac escreveu a
+&laquo;<em>physiologia</em>&raquo;;
+outro, que me n&atilde;o vem &aacute; memoria, escreveu
+&laquo;<em>anatomia
+do cora&ccedil;&atilde;o</em>&raquo;; faltava
+uma &laquo;<em>pathologia</em>&raquo;
+que apparece agora, e, mais tarde, se me n&atilde;o faltar a vista
+intellectual, que j&aacute;
+sinto muito can&ccedil;ada, escreverei a
+&laquo;<em>Pharmacia
+do casamento</em>&raquo; que hei-de dedicar a uma
+outra D. Fulana, que eu c&aacute; sei.<br />
+
+<br />
+
+V. exc.<sup>a</sup> &eacute; uma senhora fina, que,
+al&eacute;m de ter a
+cabe&ccedil;a no seu lugar, apresenta muitas vezes lume no olho.
+Sympathiso com o seu talento, e talvez casasse com a <span class="pagenum">[186]</span>snr.<sup>a</sup>
+D. Fulana, se
+tivesse a certeza de podermos entreter o nosso tempo traduzindo os
+trinta e sete livros de Plinio, e os trinta e cinco <em>De
+Lingu&acirc;
+Latin&acirc;</em> de Terencio Varro, que Deus tem em
+sua santa gloria.<br />
+
+<br />
+
+Penso que v. exc.<sup>a</sup> n&atilde;o estaria por
+isto. O seu espirito tem
+calefrios de enthusiasmo, e eu, a fallar-lhe a verdade na sua nudez
+patriarchal, devo dizer-lhe que tenho dentro do peito uma mumia, que
+poderia valer alguma cousa nas ruinas de Memphis, mas n&atilde;o
+vale nada no cavername ossudo d'este seu creado.<br />
+
+<br />
+
+Eu preciso d'uma mulher d'oculos, e pitada constante nos dedos. Quero
+que ella me falle dos Heraclidas, das Saturnaes de Macrobio, de Creta e
+de Lacedemonia, da Beocia e Epaminondas.<br />
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o sei se v. exc.<sup>a</sup> sabe alguma
+cousa d'isto; mas
+desconfio que n&atilde;o. Falla-me muito em Victor Hugo, e na
+<em>Petite Fadete</em> de George Sand.
+J&aacute; a encontrei a l&ecirc;r <em>les Liaisons
+Dangereuses</em>, e a <em>Manon
+Lescaut</em>. Palpita-me que a snr.<sup>a</sup> D.
+Fulana tem na
+cabe&ccedil;a muita somma de
+t&ecirc;as de aranha, e n&atilde;o serei eu a vassoura da
+limpeza.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o obstante, respeito-a, admiro-a at&eacute; ao ponto
+de lhe offerecer a minha &laquo;<em>Pathologia do
+Casamento</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Digne-se v. exc.<sup>a</sup> acolhel-a no rega&ccedil;o
+da sua benevolencia,
+e d&ecirc;-me occasi&otilde;es de mostrar-lhe que sou<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">De v. exc.<sup>a</sup></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+o ultimo creado, e o primeiro dos seus admiradores,<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Camillo Castello Branco</em>.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+PERSONAGENS.</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">D.
+Leocadia</span></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 203px;">18 annos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">D.
+Julia</span></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 203px;">20
+&nbsp; &nbsp; &laquo;&nbsp; &nbsp; </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">A
+Viscondessa de
+Valbom</span></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 203px;">45&nbsp;
+&nbsp;&nbsp; &laquo;&nbsp; &nbsp;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">Jorge
+da
+Silveira</span></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 203px;">30&nbsp;
+&nbsp;&nbsp; &laquo;&nbsp; &nbsp; </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">Alvaro
+de
+Castro</span></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 203px;">32&nbsp;
+&nbsp; &nbsp;&laquo;&nbsp; &nbsp; </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">Eduardo
+Leite</span></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 203px;">30&nbsp;
+&nbsp;&nbsp; &laquo;&nbsp; &nbsp; </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 342px;"><span class="smallcaps">O
+Visconde de
+Valbom</span>&nbsp;</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 203px;">50&nbsp;
+&nbsp;&nbsp; &laquo;&nbsp; &nbsp; </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<em>Damas, cavalheiros, e creados</em>.
+(Podem ter a idade que quizerem).<br />
+
+<br />
+
+A scena dizem que se passou no Porto; mas o author n&atilde;o
+imp&otilde;e, Mafoma dramatico, a cren&ccedil;a
+a ninguem. Cada qual fique no que lhe parecer; mas, se, effectivamente,
+os personagens existem, tenham paciencia.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>PATHOLOGIA DO CASAMENTO.</h2>
+
+<h3><br />
+
+ACTO I.</h3>
+
+<h4>DECORA&Ccedil;&Atilde;O.</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote"><em>Uma saleta contigua a um
+sal&atilde;o de baile,
+separada por largas portadas de vidro, atrav&eacute;s das quaes se
+v&ecirc;em perpassar, em passeio, damas e
+cavalheiros</em>.</div>
+
+<br />
+
+<h4>SCENA I.</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote"><span class="smallcaps">Julia</span>,
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>,
+<em>entrando, como fatigadas, sentam-se n'um
+soph&aacute;.</em>
+<span class="smallcaps">Julia</span> <em>tira
+da
+cabe&ccedil;a uma grinalda de fl&ocirc;res brancas, que
+arremessa com desdem sobre o
+soph&aacute;.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Afflige-me
+tudo!...
+Tom&aacute;ra-me eu na minha liberdade, Leocadia! N&atilde;o
+goso nada... Tanta luz parece um insulto &aacute;
+escurid&atilde;o da minha alma...
+Queria-me sosinha...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[190]</span>
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;N&atilde;o
+tens
+paciencia nenhuma, Julia!... Que &eacute; o que te afflige assim?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Que
+&eacute;!...
+&Eacute; aquelle homem... Sempre aquelle homem!... n&atilde;o
+ha nada que o desengane...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Nem as
+palavras?!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Eu sei!...
+nem as
+palavras, talvez...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Porque
+n&atilde;o
+&eacute;s franca?! Eu, de mim, na tua
+posi&ccedil;&atilde;o, tinha-lhe dito:
+&laquo;n&atilde;o me persiga!&raquo; &Eacute; o que eu
+j&aacute; disse a Eduardo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Eu
+n&atilde;o sei
+dizer isso... Acho que &eacute; aviltar demasiadamente um homem...
+Pois t&atilde;o estupido &eacute; elle, que precisa uma
+franqueza t&atilde;o impropria
+d'uma senhora? Tenho feito tudo que p&oacute;de desenganar um
+homem... Teima, persegue-me, flagella-me... &eacute;
+insupportavel!... Ainda ha pouco, entre mim e Jorge...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>
+(<em>sobresaltada</em>).&#8213;E Jorge!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Que modo
+&eacute;
+esse!? Jorge interessa-te!?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;E a ti?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;A mim?...
+Pois
+n&atilde;o sabes...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;O que?...
+n&atilde;o sabia... Elle ama-te?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Tem-m'o
+dito...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Elle!...
+tem t'o
+dito... Jorge!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;E tambem a
+ti?... Falla
+depressa...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>
+(<em>contrafeita</em>).&#8213;N&atilde;o... a
+mim... n&atilde;o... mas a ti... sim?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Penso que
+sim... mas esse
+descorar... Leocadia!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Fui eu que
+me
+enganei... Pensava...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Talvez te
+n&atilde;o
+enganasses... Que te disse elle?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Nada...
+Vamos
+n&oacute;s &aacute; sala?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;J&aacute;?!...
+Eu
+n&atilde;o vou j&aacute;... Vai tu, se queres...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Que
+&eacute; o que
+me querias dizer?... Disseste que entre ti e Jorge...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Estava uma
+cadeira de
+vago... Alvaro vinha <span class="pagenum">[191]</span>occupal-a,
+e eu
+ergui-me de repente, e occupei-a primeiro...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;E
+Alvaro... nem
+assim...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Me
+comprehendeu...
+Sentou-se na immediata, e disse n&atilde;o sei que frioleira...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Se tu
+&eacute;s
+t&atilde;o amavel!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Ai!... tu
+queres
+imital-o?! &Eacute; o que elle me diz cem vezes em cada baile...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Uma
+verdade, por muito
+repetida, nunca perde o merecimento...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Que maneira
+de fallar!...
+Quem me dera adivinhar-te! Tu amas Jorge!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;N&atilde;o,
+menina... Eu n&atilde;o amo ninguem...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Ninguem?! nem
+a tua Julia?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;A minha
+Julia
+n&atilde;o p&oacute;de repartir o seu
+cora&ccedil;&atilde;o... N&atilde;o quero entrar em
+partilha com Jorge... O peor quinh&atilde;o seria para mim, porque
+n&atilde;o ha nada superior a elle... Ficas?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Fico a
+scismar... Vem
+c&aacute;, Leocadia... s&ecirc; franca, sen&atilde;o...
+n&atilde;o sou tua
+amiga... Jorge ser&aacute; um impostor?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Perguntasm'o
+a mim!? Eu
+n&atilde;o sei...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Ter&aacute;
+tido a
+mesma linguagem para ambas?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Disse que
+te amava?...
+A mim... n&atilde;o me disse nada...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Ent&atilde;o
+&eacute;s tu que o amas?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;N&atilde;o...
+Olha,
+minha amiga, faz de conta que eu ouvi com perfeita
+indifferen&ccedil;a a tua
+revela&ccedil;&atilde;o... At&eacute; logo... Ai!... diz-me
+c&aacute;... O teu namoro &eacute; antigo... ou
+come&ccedil;ou aqui?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Com Jorge?
+&Eacute;
+muito moderno... Tem um mez... &Eacute; uma crean&ccedil;a, mas
+j&aacute; foi
+baptisado com lagrimas...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;J&aacute;?
+Pois
+afaga-o muito na alma... S&ecirc; <span class="pagenum">[192]</span>muito
+feliz.... que eu, se
+te n&atilde;o felicitei mais cedo,
+&eacute; porque o n&atilde;o sabia... Vou l&aacute;
+dentro... Minha
+m&atilde;i deve reparar n'esta ausencia...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;N&atilde;o
+me deixes
+agora que ahi vem Alvaro... &Eacute; insupportavel!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Ora!...
+que mal te faz
+o homem?!... Eu volto j&aacute;... Olha... diz-lhe que amas
+Jorge...
+&eacute; impossivel que elle queira sustentar a competencia...
+(<em>Sahe</em>).<br />
+
+<h4>SCENA II.</h4>
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps"><br />
+
+Julia</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Est&aacute;
+incommodada, snr.<sup>a</sup> D. Julia?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;N&atilde;o,
+senhor.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Ent&atilde;o
+est&aacute; aborrecida...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;De certo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Menos,
+quando ao seu lado
+um certo cavalheiro de luneta...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Ah! o senhor
+vem pedir-me
+satisfa&ccedil;&otilde;es? &Eacute; engra&ccedil;ada a
+liberdade!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;N&atilde;o
+lhe
+pe&ccedil;o satisfa&ccedil;&otilde;es... Se as minhas
+palavras foram indiscretas, seja generosa, perdoando-m'as.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Muitos
+perd&otilde;es
+me tem pedido, snr. Alvaro!... A minha generosidade com v. s.<sup>a</sup>
+chega
+j&aacute; a parecer-se...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Com a
+virtude d'uma
+santa?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;N&atilde;o
+queria
+dizer isso...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Queria dizer
+que chega a
+parecer-se...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Com um
+excesso de imbecil
+paciencia.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Isso
+&eacute; muito
+forte!... Eu n&atilde;o lhe mere&ccedil;o tanto! Nunca lhe
+disse affrontas...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Com que
+direito ha-de
+dizerm'as?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;N&atilde;o
+tenho
+nenhum? absolutamente nenhum?<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[193]</span>
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;De certo,
+nenhum...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;A
+paix&atilde;o cega
+o entendimento...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;N&atilde;o
+&eacute; minha a culpa...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;&Eacute;
+toda...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Toda?... pois
+eu
+authorisei-o? Disse-lhe alguma vez que o amava?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Nunca m'o
+disse...
+porque...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Porque o
+n&atilde;o
+sentia... Que mais lhe posso dizer agora?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Depois
+d'isso, mais nada.
+(<em>Retira-se</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Foi preciso
+isto... Ainda
+bem!... (<em>Ouve-se a musica d'uma polka</em>. <em>Julia
+enfeita-se ao espelho com a grinalda, e sahe</em>).<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA III.</h4>
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps"><br />
+
+Jorge</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Tu vaes ser
+verdadeiro,
+Eduardo?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Como
+Epaminondas
+Thebano, que nem zombando mentia. N&atilde;o me lembra d'outro
+estafermo antigo que fallasse verdade...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Tu tens
+algumas
+intelligencias com Leocadia?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Diz-me
+c&aacute;,
+Jorge, p&oacute;de fumar-se aqui?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o...
+se
+queres vamos &aacute; sala debaixo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;N&atilde;o
+posso,
+que tenho a sexta quadrilha com Leocadia... Diz l&aacute; o que
+queres...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Perguntei-te
+se amavas
+Leocadia.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Gosto muito
+d'ella...
+Depois d'um bom charuto, &eacute; o meu sonho dourado.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;E ella...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Gosta de
+mim?
+n&atilde;o sei bem ainda... Perguntei-lh'o ainda agora pela
+vigesima vez... Disse-me que sim, e &eacute; a primeira vez que m'o
+diz... Se mente, l&aacute; se avenha com a sua consciencia...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[194]</span>
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;E
+&eacute; a primeira
+vez que te disse que sim?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;A primeira,
+palavra
+d'honra, Jorge!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;E que
+conclues d'ahi?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Concluo que
+n&atilde;o gostou at&eacute; hoje.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;E
+n&atilde;o conclues
+mais nada?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Nem quero.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+supp&otilde;es que ella amasse, at&eacute; este momento, outro
+homem?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;N&atilde;o
+s&oacute; supponho; mas at&eacute; acredito... Nada de
+emboscadas... Essa diplomacia parece-me uma velhacaria
+ran&ccedil;osa... Sei que amas Leocadia, ou, se a n&atilde;o
+amas, que a amaste j&aacute;... Eu n&atilde;o
+tenho nada com o passado, nem com o futuro... A minha grande
+quest&atilde;o &eacute; a actualidade. S&atilde;o arrufos?
+Deixal-os ser: aqui
+estou eu para encher as lacunas, e tenho n'isso muita honra... Nunca me
+importou saber que tentos lavravas no cora&ccedil;&atilde;o da
+pequena. Vi-te fazer de Cesar, e eu
+fiz de Fabio. Agora, cada um de n&oacute;s segue o seu systema... E
+at&eacute; logo... Acho que n&atilde;o te queres bater...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Eu
+n&atilde;o me bato
+por estimulos t&atilde;o pouco despertadores do brio...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Fazes tu
+muito bem... Eu
+tambem zango de duellos, principalmente por causa de mulheres... que
+comem <em>sandwichs</em>, e bebem
+limonadas... Falla-me logo...
+(<em>Sahe</em>).<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA IV.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Jorge</span>
+<em>e
+depois</em> <span class="smallcaps">Julia</span>.
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Eu tinha
+previsto tudo...
+Era necessario renunciar uma das duas...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Procurava-o...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Sim?... que
+&eacute;,
+Julia?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Diga-me:
+poderei confiar a
+Leocadia o segredo do nosso amor?... Vacilla?... responda!...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[195]</span>
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Tem
+precis&atilde;o de
+confidentes?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>
+(<em>sorrindo</em>).&#8213;Tenho, porque me
+n&atilde;o cabe a felicidade no cora&ccedil;&atilde;o...
+Posso?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;E
+&eacute;
+for&ccedil;oso que seja Leocadia?!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;&Eacute;...
+preferi-a
+entre todas as minhas amigas... Que embara&ccedil;os s&atilde;o
+esses?!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Entendo que
+n&atilde;o
+deve revelar a ninguem o nosso amor.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Sim?...
+porque m'o
+n&atilde;o disse?... J&aacute; agora, perdeu-se a sua
+discri&ccedil;&atilde;o... Eu disse
+tudo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;A quem?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;A Leocadia...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>
+(<em>&aacute;
+parte</em>).&#8213;Est&aacute; explicado o enigma!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Nada de
+monologos... falle
+comigo... Ora, snr. Jorge... que necessidade tinhamos n&oacute;s de
+corarmos um na presen&ccedil;a do outro!?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Eu
+n&atilde;o
+c&oacute;ro... A c&ocirc;r d'este rosto s&oacute;
+p&oacute;de alteral-a uma infamia.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;D&ecirc;
+o nome que
+lhe aprouver ao seu acto, que eu n&atilde;o lhe conhe&ccedil;o
+outro... V. s.<sup>a</sup> feriu-me,
+e cicatrizou-me a ferida... S&atilde;o boas todas as affrontas que
+nos despertam a sensibilidade da honra... A lembran&ccedil;a do
+ultraje ha-de fazer que eu esque&ccedil;a a causa depressa... Fez
+bem... Deixou cahir a mascara muito a tempo...
+(<em>Retira-se</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Escute-me,
+Julia...
+(<em>Vai sentar-se no soph&aacute;</em>).<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA V.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Jorge</span>,
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>, <em>dando
+o
+bra&ccedil;o a</em>
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps"><br />
+
+Eduardo</span>.&#8213;Ser&aacute;
+isto um
+sonho?... Se o &eacute;, deixe-me sonhar uma hora, sim?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>
+(<em>sorrindo</em>).&#8213;Tambem ha sonhos de que
+se acorda com a face cheia de lagrimas...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[196]</span>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>para
+Jorge</em>).&#8213;Ainda aqui!...
+(<em>Leocadia estremece</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Ainda aqui...
+n&atilde;o estou mal... Tem dan&ccedil;ado muito, minha
+senhora?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Principiei
+agora...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Pois ainda
+tem muito tempo
+de gosar... S&atilde;o tres horas... Nunca lhe esque&ccedil;a
+que foi
+&aacute;s tres horas...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;N&atilde;o
+o
+comprehendo, snr. Jorge... Que tenho eu com as tres horas do seu
+relogio?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+se finja
+simples como donzellinha que sahiu hontem do collegio...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Antes uma
+fingida
+innocencia que uma descarada impostura.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+entendo.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Os senhores
+dizem que
+n&atilde;o se entendem, e eu de certo n&atilde;o os entendo
+melhor. N&atilde;o
+fa&ccedil;am ceremonia de mim. Queiram explicar-se de modo que eu
+possa reconcilial-os.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Reconciliar-nos!...
+N&atilde;o estamos divorciados... O que me prende a esta senhora
+s&atilde;o os respeitos e considera&ccedil;&otilde;es que
+se lhe devem. Em quanto ella se n&atilde;o desviar da carreira d'um
+nobre procedimento, as nossas rela&ccedil;&otilde;es
+n&atilde;o soffrem
+quebra...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Pois n'esse
+caso, meu
+caro Jorge, ser&aacute;s sempre o respeitador d'esta senhora,
+porque os anjos n&atilde;o se precipitam desde que um, ha muitos
+annos, teve o mau gosto de se precipitar do c&eacute;o.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>
+(<em>sorrindo</em>).&#8213;snr.<sup>a</sup> D.
+Leocadia...... snr.<sup>a</sup> D. Leocadia!...
+(<em>Retira-se</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[197]</span>
+<h4>SCENA VI.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Fallemos
+seriamente,
+minha senhora. V. exc.<sup>a</sup> n'um momento de ciume,
+dignou-se empregar-me
+no seu servi&ccedil;o como instrumento de barro, que se quebra,
+feito o servi&ccedil;o, n&atilde;o &eacute;
+verdade?<br />
+
+<br />
+
+Ora ande l&aacute;... n&atilde;o perca o animo, supposto que o
+escarlate do pejo n&atilde;o lhe fica mal... acho-a muito mais
+bella... Parece-me que adivinho o segredo... V. exc.<sup>a</sup>
+encontrou em
+flagrante delicto de ternura o sensivel Jorge com a sensivel Julia...
+Ferida na sua vaidade, quer vingar-se, e eu represento n'este negocio o
+<em>tertius</em> sem o
+<em>gaudet</em>. Perdoar&aacute; o
+latim... quiz dizer que represento n'este negocio uma triste figura...
+J&aacute; n&atilde;o
+&eacute; a primeira vez... N&atilde;o se inquiete, que eu
+tambem me n&atilde;o incommodo... Tire de mim o partido que
+quizer...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Snr.
+Eduardo...
+n&atilde;o devia fallar-me assim... Essas palavras s&atilde;o
+t&atilde;o repassadas de
+ironia...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;&Eacute;
+o meu
+genio... Sou um Democrito pequenino, porque tambem s&atilde;o
+ridiculamente pequenas as cousas que me fazem rir... Ahi vem uma que me
+arranca do profundo da consciencia uma legitima gargalhada.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Que
+&eacute;?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;&Eacute;
+a sua amiga
+Julia pelo bra&ccedil;o de Alvaro, em intima
+conversa&ccedil;&atilde;o... N&atilde;o acha tudo
+isto t&atilde;o comico?<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA VII.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Leocadia,
+Eduardo, Julia</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>para
+Alvaro, sorrindo</em>).&#8213;Os reis da noite somos
+n&oacute;s, snr. Alvaro... Logo despimos a purpura de <span class="pagenum">[198]</span>reis
+de comedia, e fumamos um pessimo cigarro do contracto...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;N&atilde;o
+entendo a
+finura do epigramma.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Ent&atilde;o,
+&eacute; mais feliz do que eu suppunha... P&oacute;de contar
+com o reino do c&eacute;o... Deveras n&atilde;o entende?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;N&atilde;o,
+e
+dispenso as explica&ccedil;&otilde;es officiosas do meu
+amigo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>rindo</em>).&#8213;Espero que &aacute;
+solemnidade do estilo, se n&atilde;o siga um cartel de desafio...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Que
+linguagem!...
+&Eacute; bem galhofeiro o seu caracter, snr. Eduardo!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Muito
+galhofeiro, minha
+rica senhora... E alli o do meu amigo &eacute; sombrio como o d'um
+encapotado de drama em cinco actos.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;A verdade
+&eacute;
+que nos n&atilde;o parecemos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Felizmente
+para o senhor
+ou para mim... Mas na singelesa do cora&ccedil;&atilde;o, na
+temperatura do
+amor, ha-de permittir que sejamos parecidos como Pylades com Orestes...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;N&atilde;o
+temos
+semelhan&ccedil;a nenhuma... Eu n&atilde;o posso brincar com as
+paix&otilde;es...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>&aacute;parte, a
+Leocadia</em>).&#8213;&Eacute; da for&ccedil;a de
+trinta Paulos; mas a Virginia que o escuta, s&oacute; com os olhos,
+d'aqui a pouco remette-o ao catalogo dos Othellos em quarta
+m&atilde;o. (<em>Alvaro e Julia
+retiram-se</em>). Espero que n&atilde;o se
+bater&aacute; comigo, snr. Alvaro...
+N&atilde;o respondeu!... Aquelle silencio n&atilde;o quer dizer
+nada; mas, quem n&atilde;o conhecer o homem, ha-de suppor que a
+cratera vai rebentar... Quer sentar-se, minha senhora?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Sim... um
+momento...
+Ahi vem Jorge.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Ah!... V.
+exc.<sup>a</sup>
+estremece!... Muito me ama! (<em>rindo</em>).
+&Eacute; d'uma
+ingenuidade mythologica!<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[199]</span>
+<h4>SCENA VIII.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Leocadia</span>,
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Eduardo,
+preciso roubar-te
+um instante a essa senhora... tens a bondade!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Ah! sim...
+esta senhora
+n&atilde;o vai de certo queixar-se &aacute; policia pelo
+roubo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>a
+s&oacute;s</em>).&#8213;Fazes um sacrificio deixando-me
+cinco minutos com ella?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Sacrificio...
+nenhum;
+mas a decencia pede que eu n&atilde;o esteja aqui servindo de
+sentinella
+&aacute; vista a um teu namoro... Ai!... espera... eu dirijo-me a
+estas duas almas penadas, que ahi vem... Vou comprimental-as, e tu,
+como penetrante abutre, desce o v&ocirc;o sobre a presa...
+(<em>Comprimenta duas
+damas, vestidas de branco, em quanto Jorge vai sentar-se ao lado de
+Leocadia</em>). Parecem-me dous anjos, minhas
+senhoras. S&atilde;o duas virgens de Taurida, que fazem lembrar as
+alvissimas virtudes de Ephigenia... (<em>As damas, que
+elle acompanha, com gaifonas cortez&atilde;s, retiram-se
+sorrindo</em>).<br />
+
+<h4><br />
+
+SCENA IX.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Jorge</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Que caprichos
+s&atilde;o estes, Leocadia?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Caprichos!...
+O
+sentimento d'uma offensa &eacute; um capricho?!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Qual
+&eacute; a
+offensa? Uma leviandade de Julia?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;A
+leviandade foi minha,
+que n&atilde;o quiz imital-a a ella e a muitas, que sabem pisar os
+homens aos p&eacute;s antes de lhes darem a m&atilde;o para que
+se
+levantem. Eu dei-lhe a minha alma sem reserva... Fiz do <span class="pagenum">[200]</span>meu
+amor um sagrado mysterio com medo que m'o profanassem. Violentei-me a
+olhal-o, em publico, com indifferen&ccedil;a, para que ninguem me
+invejasse. Eram estes os seus conselhos, Jorge... Hoje &eacute; que
+eu comprehendo a horrivel significa&ccedil;&atilde;o d'este
+plano. O senhor
+precisava do segredo para agradar a muitas victimas illudidas com um
+s&oacute; lance de olhos... Creia que tenho tanta pena de mim como
+de Julia...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Olha,
+Leocadia... se o meu
+crime foi grande, a tua vingan&ccedil;a excede-o... N&atilde;o
+me pareces
+o anjo resignado que eu imaginei... O que eu acabo de fazer foi uma
+experiencia na tua alma... O resultado foi infeliz! Nunca previ que
+consentirias ao teu
+cora&ccedil;&atilde;o um arrojo vingativo, indigno de ti...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Que fiz
+eu?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Que fizestes
+tu?...
+&Eacute; boa a pergunta!... Procuraste n'esse sal&atilde;o o
+homem mais desacreditado, o espirito mais corrompido, o cynico mais
+orgulhoso de o ser, e disseste-lhe que o amavas, sorriste angelicamente
+&aacute;s suas phrases ironicas, e nivelaste-me com elle,
+apresentando-m'o como rival!... Eu... rival de Eduardo!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span> (<em>com
+vivacidade</em>).&#8213;Como rival... nunca! Elle
+n&atilde;o podia ser seu rival... porque eu n&atilde;o
+tenho dous cora&ccedil;&otilde;es.... Fui imprudente...
+confesso que
+fui; mas n&atilde;o pude mais... a punhalada feriu-me de repente,
+n&atilde;o me deu tempo de pensar... disse-lhe n&atilde;o sei
+qu&ecirc; dos labios, mas o cora&ccedil;&atilde;o
+aborrece-o, porque eu
+n&atilde;o posso amar alguem com mais virtudes do que tu... pouco
+me importa que tu sejas t&atilde;o cynico, t&atilde;o
+desmoralisado como Eduardo... Oh! Deus queira que me n&atilde;o
+ouvissem... Ahi vem Julia... Eu retiro-me... A m&atilde;i
+est&aacute; com os olhos fixos em mim...
+(<em>Men&ccedil;&atilde;o de
+sahir</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[201]</span>
+<h4>SCENA X.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Alvaro
+, Julia</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span> (<em>passando
+por Leocadia</em>).&#8213;Muitos parabens, minha amiga...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;De que?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Transigiste
+amigavelmente?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;N&atilde;o
+sei que
+dizes...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>
+(<em>ironica</em>).&#8213;Innocentinha...
+(<em>Leocadia sahe</em>. <em>Passam alguns grupos de
+homens e
+senhoras</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span> (<em>que
+n&atilde;o v&ecirc; Jorge</em>).&#8213;Jorge
+n&atilde;o &eacute; homem talhado para o seu
+cora&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Falle baixo,
+que elle
+est&aacute; muito perto... Mas n&atilde;o se cale... diga
+alguma cousa.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;&Eacute;
+necessario
+ter o cora&ccedil;&atilde;o puro de amores viciosos para
+conceber a sublime candura do seu...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Hei-de morrer
+sem ser
+comprehendida...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;N&atilde;o
+nasceria
+eu para comprehend&ecirc;l-a?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Ai!
+n&atilde;o... a
+minha alma &eacute; um abysmo, onde se esconde o anjo do bem, e a
+serpente do mal... Tenho na mesma intensidade transportes d'amor e
+odio...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Qual lhe
+mere&ccedil;o?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Quer-me
+sincera? uma
+verdadeira estima de irm&atilde;...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;S&oacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>sem
+erguer-se do soph&aacute;</em>).&#8213;&Oacute; snr.
+Alvaro!... Que tal acha a eloquencia d'esta senhora?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;A pergunta
+&eacute;
+celebre; todavia, responderei: a eloquencia d'esta senhora &eacute;
+excellente...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;E v. exc.<sup>a</sup>,
+snr.<sup>a</sup>
+D.
+Julia, que tal acha a eloquencia d'aquelle senhor?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Eu sou menos
+generosa que
+este cavalheiro: n&atilde;o lhe respondo.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[202]</span><span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Responda,
+responda, que v.
+exc.<sup>a</sup> n&atilde;o &eacute; responsavel
+pelo que diz...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Eu
+n&atilde;o posso
+consentir que se affronte assim uma senhora!...<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA XI.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos e</em>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>, <em>que
+vem
+passando com uma dama pelo bra&ccedil;o, e
+p&aacute;ra.</em><br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Pois
+sen&atilde;o
+p&oacute;de, resigne-se...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Tenho a
+optar por outro
+expediente antes da resigna&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Naturalmente
+quer
+bater-se... Eu sou de opini&atilde;o que os meus amigos devem
+cortar-se reciprocamente
+os pesco&ccedil;os &aacute;s 4 horas da tarde...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>
+(<em>sorrindo</em>).&#8213;Fecha l&aacute; as
+torneiras ao espirito, Eduardo. Aqui falla-se seriamente...
+N&atilde;o v&ecirc;s que aquelle senhor est&aacute;
+formalisado?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Pois o
+senhor
+est&aacute; formalisado? e v. exc.<sup>a</sup> (<em>para
+Julia</em>) tambem
+est&aacute; formalisada? e a menina (<em>para a que
+tem no bra&ccedil;o</em>)
+tambem se formalisa?... Eu de mim, declaro-me formalisado sem saber
+porque. Formalisem-se todos, desde o dono da casa at&eacute; ao
+creado da campainha. Isto deve acabar por hir cada um para sua casa,
+porque s&atilde;o quasi quatro horas... n&atilde;o
+acha?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Se me
+d&aacute;
+licen&ccedil;a...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;A respeito
+de
+licen&ccedil;as, isso n&atilde;o &eacute; comigo:
+&eacute; com o dono da casa... Que queria o meu amigo? quer duvidar
+de que a snr.<sup>a</sup> D. Julia &eacute; a rainha
+das mais formosas?
+(<em>Com escarneo</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Snr.
+Eduardo, as suas
+zombarias s&atilde;o intempestivas!... Entre cavalheiros
+&eacute; d'uso adoptar-se a linguagem seria e digna d'um
+sal&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;O meu caro
+senhor
+est&aacute; funebre como um mestre de cantoch&atilde;o...
+Fallou muito bem; mas <span class="pagenum">[203]</span>eu
+&eacute; que
+n&atilde;o me sinto disposto a manter a
+reputa&ccedil;&atilde;o de eloquente &aacute;s quatro horas
+da manh&atilde;... Se me
+querem v&ecirc;r dormir, fallem-me em cousas serias... Diga-me
+c&aacute;... j&aacute; tomou chocolate?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>
+(<em>desprendendo-se do
+bra&ccedil;o</em>).&#8213;D&ecirc;-me
+licen&ccedil;a... Minha mana chama-me...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Eu
+acompanho-a, minha
+senhora... (<em>V&atilde;o sahir</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Minha bella
+menina,
+estamos quites... D'hoje em diante cada um de n&oacute;s caminha
+para o seu polo diverso...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;S&atilde;o
+indifferentes os seus passos... Caminhe para onde lhe aprouver, snr.
+Jorge...
+(<em>Sahe</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Disse que
+caminhasses
+para onde te approuvesse... Eu de mim vou para casa... Queres vir?...
+&Eacute; verdade... que &eacute; da transparente
+creatura, que eu tinha no bra&ccedil;o? Evaporou-se?... Deixal-a...
+(<em>Atira-se ao soph&aacute;</em>). Ai
+que somno!... Em que pensas tu?... (<em>Entra um creado
+com chavenas de
+chocolate</em>). Isso que &eacute;? Venha
+c&aacute;... &Eacute; chocolate...
+vm.<sup>ce</sup> n&atilde;o ter&aacute; a
+habilidade de converter isto
+em vinho do Porto?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Creado</span>.&#8213;N&atilde;o,
+senhor...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Ent&atilde;o
+vm.<sup>ce</sup>, pelo que diz na sua, &eacute; um
+grande idiota.
+(<em>Toma duas chavenas da
+bandeja</em>). P&oacute;de retirar-se... Aquelle
+senhor est&aacute; fazendo
+versos... (<em>O creado sahe</em>).
+&Oacute; Jorge,
+n&atilde;o tens no cora&ccedil;&atilde;o um reservatorio
+onde caiba uma chavena de excellente chocolate?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Adeus...
+retiro-me...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Alto
+l&aacute;!...
+Eu preciso saber em que lei devo viver... Reconsideraste a respeito de
+Leocadia? Quem &eacute; que a ama, sou eu, ou &eacute;s tu?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Fallas d'ella
+com
+t&atilde;o pouco respeito!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;De quem? de
+s.
+exc.<sup>a</sup>!?... Pois eu disse alguma cousa que possa
+chamar-se grosseira?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Leocadia
+n&atilde;o
+&eacute; uma apolice que se passe com o mesmo valor de
+m&atilde;o em m&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[204]</span>
+<span class="smallcaps">Eduardo.</span>&#8213;Justamente
+o peor que ella tem &eacute; n&atilde;o ser
+apolice, nem ao menos ac&ccedil;&atilde;o da empreza do
+caminho de ferro de leste...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Est&aacute;s
+estragado!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Do
+estomago? Palavra
+d'honra que sim! As taes sandwichs s&atilde;o indigestas como um
+artigo de fundo... Mas do espirito estou optimo... Ella ahi vem...
+Queres ficar s&oacute; com ella?... Eu vou entreter Julia... Que
+mais queres da minha docilidade? Um homem que faz isto n&atilde;o
+est&aacute; de todo estragado...<br />
+
+<h4><br />
+
+SCENA XII.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Jorge</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Vou sahir,
+Jorge...
+D&ecirc;-me uma s&oacute; palavra, que me salve...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Que queres
+que eu te diga,
+Leocadia?... &Aacute;manh&atilde; vou consultar a vontade de
+teu pai...
+Queres assim t&atilde;o breve o desenlace das tuas
+affei&ccedil;&otilde;es?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;&Eacute;
+muita
+felicidade, meu Deus. Eu n&atilde;o merecia tanto... E Julia!...
+Coitadinha!... quanto n&atilde;o soffrer&aacute; ella!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Que tenho eu
+com Julia!...
+Poderia amal-a com a paix&atilde;o violenta d'uma febre... mas
+estimal-a com a serena amisade que te dedico, Leocadia, isso nunca...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>
+(<em>reparando</em>).&#8213;Ai!... minha
+m&atilde;i... n&atilde;o me deixa um instante... Adeus...<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA XIII.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos e</em>
+<span class="smallcaps">Julia</span>, <em>e
+depois</em>, <span class="smallcaps">Eduardo</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Espera,
+menina
+(<em>para Leocadia que se retira</em>)...
+S&atilde;o s&oacute; duas
+palavras... Snr Jorge... V. s.<sup>a</sup>,
+<span class="pagenum">[205]</span>n&atilde;o
+&eacute; digno d'ella, nem de mim, que valho menos
+que ella... N&atilde;o te felicito pela
+reconcilia&ccedil;&atilde;o, minha querida amiga... D'este a
+Eduardo, que a sociedade chama cynico, n&atilde;o vai distancia que
+tu n&atilde;o vejas desapparecer
+vinte e quatro horas depois de casada... S&atilde;o tudo
+Eduardos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Que
+&eacute; isso de
+Eduardos? Ainda falta este... Trata-se de levar ao capitolio os
+Eduardos, minha senhora? N'esse caso pe&ccedil;o que n&atilde;o
+sejam
+exceptuados os Alvaros. (<em>Para Alvaro que
+entra</em>).
+<br />
+
+<br />
+
+Venha c&aacute;, meu amigo... &Aacute; vista d'este quadro,
+confesse que fizemos tristissimas figuras... Aquelle senhor
+(<em>apontando Jorge</em>) fez monopolio de
+dous cora&ccedil;&otilde;es, que n&oacute;s tivemos o
+imbecil heroismo de conquistar
+&aacute;s tres horas da noite... Sabe que mais? Olhemos para ellas,
+e digamos como a raposa: &laquo;Est&atilde;o
+verdes!&raquo; Pois n&atilde;o conv&eacute;m n'isto?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Vozes dentro</span>.&#8213;Vamos
+meninas!
+S&atilde;o quatro horas.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Nenhum dos
+senhores se
+quer bater pelo que vejo!... Boas noites... Minhas senhoras...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Vozes</span>.&#8213;O ultimo
+<em>cotillon</em>, o ultimo.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>para
+a
+viscondessa de Valbom que entra</em>).&#8213;O ultimo
+<em>cotillon</em>, minha senhora, se
+n&atilde;o tem par... (<em>Retiram-se todos os
+outros</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Eu
+n&atilde;o
+dan&ccedil;o sen&atilde;o quadrilhas.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Faz v. exc.<sup>a</sup>
+muito
+bem... Tem dan&ccedil;ado muitas?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;<em>Un
+peu</em>... <em>un peu</em>.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Ah! V. exc.<sup>a</sup>
+falla
+francez! Ha quantos annos aprendeu, minha amavel senhora? Antigamente
+ensinava-se um francez muito solido... Hoje &eacute; tudo pela
+superficie...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;&Eacute;
+verdade; mas as bases d'uma verdadeira instruc&ccedil;&atilde;o
+s&atilde;o os solidos
+rudimentos.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Muito bem,
+minha
+senhora... O seu <span class="pagenum">[206]</span>
+cora&ccedil;&atilde;o deve ser t&atilde;o sensivel como a
+sua cabe&ccedil;a &eacute; illustrada.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;O meu
+cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; morto.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Deveras!...
+Quem
+far&aacute; o milagre de o chamar &aacute; vida?... Eu de certo
+n&atilde;o ousaria
+t&atilde;o difficil empresa...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;V. s.<sup>a</sup>
+zomba?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;N&atilde;o
+zombo,
+porque n&atilde;o sei zombar com o amor...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Falle
+baixo que ahi
+vem meu marido...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>para
+o
+marido que entra</em>).&#8213;Snr. visconde!... estavamos
+fallando na guerra da Crimea.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Vai por
+l&aacute; o
+diabo... Eu acho que os alliados n&atilde;o mettem o nariz em
+Sebastopol.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Pelo
+menos em quanto
+a Austria e Prussia n&atilde;o expedirem for&ccedil;as que
+suppram a
+mortandade dos inglezes...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;E que me
+diz o senhor
+&aacute; exporta&ccedil;&atilde;o dos bois? Cessa ou
+n&atilde;o cessa?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;A respeito
+de bois,
+n&atilde;o sei nada... (<em>reparando para
+f&oacute;ra</em>) Ahi
+vem tudo... Que &eacute; isto!... uma senhora desmaiada?<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA XIV.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos, e</em>
+<span class="smallcaps">Julia</span> <em>desmaiada
+nos bra&ccedil;os de algumas damas.</em><br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Vozes</span>.&#8213;Que seria?<br />
+
+<br />
+
+Coitadinha...<br />
+
+<br />
+
+Tragam agua...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Fumo de
+charuto
+n&atilde;o &eacute; mau...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Faz favor
+de lhe botar
+um pouco de fumo pelas ventas?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[207]</span>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>accendendo o
+charuto</em>).&#8213;L&aacute; vou... l&aacute; vou,
+snr. visconde.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Vozes</span>.&#8213;N&atilde;o
+&eacute; preciso...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;&Eacute;
+Jorge!...
+Jorge &eacute; o responsavel da minha vida...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Vozes</span>.&#8213;Ah!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;&Eacute;
+uma maneira
+bonita de terminar um acto! Est&aacute; tudo com a bocca aberta...
+e eu tambem! (<em>Abrindo a bocca</em>).<br />
+
+<div style="text-align: center;">
+<h4>CORRE O PANO.</h4>
+
+</div>
+
+&nbsp;<br />
+
+<br />
+
+<h3>ACTO II.</h3>
+
+<br />
+
+<div class="quote"><em>A scena &eacute; na Foz,
+justamente na praia dos
+Inglezes. Senhoras e homens tomando banhos; outros, entrando nas
+barracas, horrivelmente desfigurados, ou, antes, taes quaes a natureza
+os fez. Sobre os penedos, pinhas de povo que pasmam diante dos ensaios
+do salva-vidas. Estes podem dizer o que quizerem a tal respeito. O
+author d&aacute; carta branca ao actor para que diga centenares de
+parvoices: p&oacute;de at&eacute; discorrer sobre
+o dropp se lhe aprouver; mas o melhor &eacute;
+calar-se</em>.</div>
+
+<br />
+
+<h4>SCENA I.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Af&oacute;ra
+estes entes nullos</em>,
+<span class="smallcaps">Jorge</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Leocadia</span> <em>sentados
+em cadeiras</em>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span> (<em>fazendo
+SS com o guarda-sol na areia</em>).&#8213;Est&aacute;s
+t&atilde;o sombrio, Jorge!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>fazendo
+TT
+na areia com a chibata</em>).&#8213;Estou optimamente.
+(<em>Ouvem-se guinchos muito sympathicos das senhoras, que
+patinham no banho</em>. <em>Alguns homens urram</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Parece que
+te aborrece
+a Foz!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Nada me
+aborrece... Estou
+bem em toda a parte...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[210]</span>
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Niguem o
+ha-de dizer... Todas as minhas amigas me perguntam o que
+tens...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Diz-lhes que
+se
+n&atilde;o incommodem...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;H&atilde;o-de
+suppor que a tua amisade para comigo foi uma illus&atilde;o
+desvanecida pelo casamento...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;A
+opini&atilde;o
+&eacute; livre... Supponham o que quizerem.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Mas
+n&atilde;o
+consideras que eu soffro muito se ellas imaginam tal?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+me lembrava
+essa especie... Isso &eacute; amor proprio...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;N&atilde;o
+&eacute; amor proprio... &eacute;
+<em>d&ocirc;r</em> do
+cora&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Ser&aacute;
+algum
+aneurisma?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;&Eacute;
+uma
+zombaria bem cruel!... Estranho-te, Jorge.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Tambem eu me
+estranho...
+N&atilde;o achas que &eacute; melhor estarmos calados?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Calar-me-hei...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;E fazes
+bem... Estes
+dialogos terminam sempre mal... A necessidade da variar a
+conversa&ccedil;&atilde;o &eacute; a tisica das grandes
+paix&otilde;es... Uma phrase repetida aborrece, por mais bonita que
+seja... N&oacute;s podiamos ter sempre cousas novas a dizer, se
+n&atilde;o tivessemos gastado a inspira&ccedil;&atilde;o em
+quatro mezes de casados. Dissemos
+tudo... definimos tudo que nos rodeava, e agora sentimos a dura
+necessidade de nos definirmos a n&oacute;s... &Eacute; onde
+est&aacute; o mal.... Tu queres que eu te repita
+o que te disse ha cinco mezes, e eu zango de
+repeti&ccedil;&otilde;es... N&atilde;o sei fazer phrases
+como tu fazes punhos de camizas... Exhauri-me... Agora &eacute;
+necessario esperar uma nova colheita do terreno que j&aacute; deu
+fructo. Essas lagrimas vem muito a proposito...
+(<em>Erguendo-se e
+espregui&ccedil;ando-se</em>). Ai! que vida!...
+(<em>Reparando</em>).
+Ol&aacute;, Eduardo!... por c&aacute;?<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[211]</span>
+<h4>SCENA II.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos, e</em>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;&Eacute;
+verdade...
+Como passou, minha senhora?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>
+(<em>disfar&ccedil;ando as
+lagrimas</em>).&#8213;Muito bem... agradecida...
+Est&aacute; bom?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Como
+sempre... Tenho uma
+saude insupportavel!... N&atilde;o sou capaz de arranjar uma
+d&ocirc;r de cabe&ccedil;a, para me dar certos ares romanticos.
+Vejo por ahi muitos mancebos, alquebrados no frescor da vida, e, em
+quanto a mim, s&atilde;o infelizes creaturas que soffrem dos
+callos... J&aacute; tomou banho, minha senhora?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;N&atilde;o
+tomo
+banho hoje. Constipei-me hontem.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>para
+Jorge</em>).&#8213;E tu?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Vou tractar
+d'isso...
+Ficas por aqui?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Vamos
+n&oacute;s
+conversar, minha senhora... Eu hoje sinto-me com
+disposi&ccedil;&atilde;o para dizer cousas
+muito philosophicas... (<em>Jorge sahe</em>).<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA III.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Leocadia</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;V. s.<sup>a</sup>
+tem sempre um
+humor t&atilde;o alegre...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Ser&aacute;
+isto
+idiotismo? J&aacute; me lembrou se eu seria t&atilde;o doudo
+como por ahi me julgam!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Quem o
+julga doudo?!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;&Eacute;
+toda essa
+sociedade...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Doudo...
+n&atilde;o!... Dizem que v. s.<sup>a</sup>
+n&atilde;o tem persistencia em
+cousa nenhuma; e escarnece tudo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[212]</span>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Em quanto
+&aacute;
+persistencia, &eacute; falso o que dizem, minha senhora, e sinto
+que v. exc.<sup>a</sup>, t&atilde;o distincta do
+commum, queira ser o ecco
+das opini&otilde;es vulgares da ran&ccedil;osa sociedade...
+N&atilde;o sou inconstante...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;A quem diz
+isso? Pois
+n&atilde;o sei eu a sua vida!... S&oacute; namoros, tenho-lhe
+conhecido cincoenta.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Ser&atilde;o
+mais,
+talvez; mas... que namoros!... V. exc.<sup>a</sup>
+n&atilde;o se recorda de
+que foi meu namoro vinte minutos no baile do bar&atilde;o de
+Valbom?
+(<em>Leocadia abaixa os olhos</em>). Pois os
+taes cincoenta namoros
+foram todos assim... N&atilde;o sou constante, porque
+n&atilde;o
+encontrei ainda uma mulher, que possa adorar-se seriamente.
+N&atilde;o ha paix&atilde;o que o ridiculo n&atilde;o mate.
+As minhas tem todas soffrido morte de gargalhada.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Pois
+n&atilde;o
+amou nunca seriamente?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Eu lhe
+digo, minha
+senhora... amei... Vou contar-lhe a minha vida; mas s&oacute; lhe
+digo os argumentos dos capitulos que s&atilde;o tres.
+<em>Capitulo</em> 1.&ordm; Conta-se que Eduardo
+Leite amou diabolicamente uma mulher, aos dezeseis annos, e fez tantas
+loucuras por ella, que, n&atilde;o tendo mais que fazer, quiz
+suicidar-se com
+p&oacute;s dos ratos, e foi uma tia que lhe valeu com um copo de
+azeite... Pois v. exc.<sup>a</sup> ri-se das minhas
+desgra&ccedil;as!... E eu
+suppunha que a fazia chorar!... Estou como certo dramaturgo que
+endoudeceu porque a plat&eacute;a se riu justamente no
+peda&ccedil;o mais triste da tragedia!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;&Eacute;
+que v.
+s.<sup>a</sup> d&aacute; um colorido comico
+&aacute;s scenas mais
+tristes...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;<em>Capitulo</em>
+2.&ordm; No qual se diz que o dito Eduardo Leite fez tristissima
+figura,
+vociferando injurias contra as mulheres, emmagrecendo na
+raz&atilde;o inversa da hydropesia do scepticismo, e passeando de
+noite nas Fontainhas, perguntando &aacute;s estrellas pela mulher
+dos seus sonhos, e bebendo agua no chafariz para refrigerar o
+vulc&atilde;o, que lhe queimava as entranhas. Dizem-se outras
+<span class="pagenum">[213]</span>muitas
+cousas tristes a este respeito, como por exemplo um duello que elle
+teve com o seu rival, de que lhe resultou estar quinze dias de cama,
+com uma bala mettida n'um hombro. Que lhe parece o segundo capitulo?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>
+(<em>sorrindo</em>).&#8213;&Eacute; funebre;
+mas faz-lhe muita honra...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Estou por
+isso...
+&Eacute; uma honra muito grande...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Pois
+n&atilde;o
+&eacute;? ser ferido em duello por causa d'uma senhora!... Quem
+seria a ditosa?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Era a filha
+do meu
+sapateiro, minha senhora...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span> (<em>com
+seriedade</em>).&#8213;N&atilde;o diga tal... V. s.<sup>a</sup>
+n&atilde;o se fascinava por tal mulher!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Pois
+fascinei-me... Era
+linda como a edi&ccedil;&atilde;o mais nitida, que sahiu da
+typographia
+celeste. Nos seus olhos espelhava-se a candura, e dos labios fugiam-lhe
+espiritos d'azas scintillantes, como n&atilde;o vi em nenhuns,
+excepto nos de v. exc.<sup>a</sup>...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Dispenso a
+compara&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E faz bem,
+minha
+senhora!... Ella por fim, cahiu do ministerio a que eu a levantei, e
+tornou-se uma gorda matrona casada com um gordo bate-folha, que
+&eacute; a minha vergonha porque teve a petulancia de luctar
+comigo, e vencer-me...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;E foi esse
+que teve o
+duello com v. s.<sup>a</sup>?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Nada... foi
+uma segunda
+victima, que ainda hoje faz quadras a uma certa vis&atilde;o que
+lhe appareceu no amanhecer da vida... E esta vis&atilde;o
+&eacute; a
+sobredita filha do meu sapateiro...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;A sua vida
+&eacute;
+um poema epico... E o terceiro capitulo?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;&Eacute;
+verdade, o
+terceiro capitulo... O terceiro capitulo... &eacute; isto...
+&Eacute; este riso, esta
+zombaria, esta conscienciosa abnega&ccedil;&atilde;o de mim
+mesmo...
+&eacute; a resignada docilidade com que me prestei a ser o
+instrumento
+<span class="pagenum">[214]</span>de v. exc.<sup>a</sup>
+para ferir a vaidade de seu
+marido... Queira
+desculpar-me... Entristeci-a? O passado, passado... Quer v. exc.<sup>a</sup>
+que
+eu lhe escolha duas conchinhas? (<em>Procurando na
+areia</em>). Aqui
+est&aacute; uma bem bonita...
+(<em>Reparando</em>). Ahi vem a sua amiga
+Julia...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>
+(<em>sobresaltada</em>).&#8213;Ai!... vem?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Como se
+d&aacute;
+ella com o marido, sabe dizer-me?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;N&atilde;o
+sei..
+penso que n&atilde;o &eacute; feliz...<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA IV.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Leocadia</span>,
+<span class="smallcaps">Julia</span>,
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Snr. Eduardo,
+se me
+concedesse alguns instantes com a minha amiga...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Pois
+n&atilde;o,
+minha senhora... (<em>Sahe</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;S&atilde;o
+s&oacute; duas palavras... Vi entrar teu marido para a barraca, e
+n&atilde;o nos v&ecirc;... Leocadia... Eu n&atilde;o sou
+mais feliz que tu... Jorge fez-nos
+desgra&ccedil;adas a ambas... Tu sabes que o meu casamento com
+Alvaro foi um capricho que tenho sustentado com lagrimas... Mas tu
+n&atilde;o tens culpa... Sei que n&atilde;o
+&eacute;s amada... Eu tambem o n&atilde;o seria... Sou ainda
+tua amiga... N&atilde;o poderei prestar-me nunca a ser o cutello na
+m&atilde;o do teu algoz... ahi tens essas cartas.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Que cartas
+s&atilde;o estas?!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;S&atilde;o
+cartas, que
+teu marido me escreve...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Meu
+marido!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Sim... mais
+nada...
+adeus... (<em>Sahe</em>).<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA V.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Leocadia</span>,
+<em>e
+depois</em> <span class="smallcaps">Eduardo</span>.
+<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Vou
+sondando toda a
+profundidade do <span class="pagenum">[215]</span>meu
+abysmo... Eu bem sabia que era infeliz; mas tanto... n&atilde;o!...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Parece-me
+que a sua
+amiga n&atilde;o veio dar-lhe prazer... T&atilde;o descorada,
+minha senhora! Que tem?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Nada, snr.
+Eduardo...
+&Eacute; uma nuvem passageira... Queira dizer a Jorge que me
+retirei...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Eu
+acompanho-a...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;N&atilde;o
+consinto... a minha casa &eacute; alli...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;N&atilde;o
+insto,
+minha senhora, para n&atilde;o ser importuno...
+(<em>Ella sahe,
+cortejando-o</em>).<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA VI.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span>,
+<em>e
+depois
+a</em> <span class="smallcaps">viscondessa de
+Valbom</span>, <em>com um creado de farda, que
+conduz em sacco de damasco vermelho a roupa de banho</em>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>accendendo um charuto</em>).&#8213;Ora aqui
+est&aacute; o que s&atilde;o os m&ocirc;&ccedil;os
+honestos, honrados,
+e bem comportados!... S&atilde;o estes dous maridos. Jorge passa
+por um mancebo exemplar; Alvaro dizem que &eacute; o typo da
+bondade; e, comtudo, vou descobrindo que as respectivas mulheres, se
+escrevessem jornaes, estavam em opposi&ccedil;&atilde;o com os
+maridos. Os honrados
+s&atilde;o elles... Eu &eacute; que sou o cynico!... Esta
+sociedade &eacute; uma
+grande patacuada!... Ahi vem a viscondessa de Valbom. N&atilde;o me
+larga desde aquelle baile... (<em>Olhando sobre o
+hombro</em>). Ella c&aacute; est&aacute; comigo...
+(<em>Erguendo-se</em>). Minha querida senhora
+viscondessa, como passou v. exc.<sup>a</sup> desde hontem?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;<em>Passablement</em>.
+Esperei-o &aacute; noite para a partidinha, e o magan&atilde;o
+n&atilde;o nos quiz
+honrar com a sua visita...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Urgentes
+negocios
+obrigaram-me a hir ao Porto.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[216]</span>
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Nam&ocirc;ro...
+diga a verdade... nam&ocirc;ro...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;N&atilde;o,
+minha
+senhora. O meu cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; desde
+muito na terceira sec&ccedil;&atilde;o...
+N&atilde;o ha poder que o fa&ccedil;a entrar na
+effectividade...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Ora
+deixe-se
+d'isso... Eu sei que ama... e ama uma senhora... que... digo?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Se lhe
+apraz...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;N&atilde;o
+direi; mas... lembre-se de que <em>la propriet&eacute;
+n'est pas un
+vol</em> como diz Proudhon...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Eu acredito
+que a
+propriedade n&atilde;o seja um roubo, e por isso mesmo
+n&atilde;o tento contra ella.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Tenta,
+tenta... Isso
+n&atilde;o &eacute; bonito... Se quer merecer a minha estima,
+n&atilde;o tente partir os vinculos matrimoniaes de... eu bem
+sei...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E v. exc.<sup>a</sup>
+acha que sou
+indigno da sua estima, se tentar...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Pois
+n&atilde;o?
+Ha cousa mais sagrada sobre a terra?! A reputa&ccedil;&atilde;o
+d'uma senhora!...
+(<em>Mudando de tom</em>). &Eacute;
+verdade que muitas vezes toda a
+philosophia &eacute; pouca para conter os impetos do
+cora&ccedil;&atilde;o... (<em>Mudando para o tom
+da honestidade</em>).
+Ainda assim, a mulher digna reprime-se, e faz-se superior a si
+propria... (<em>Mudando de tom</em>).
+Apesar d'isso, eu absolvo alguns erros, que muitas infelizes commettem,
+porque tem a imprudencia de tentar com a ponta do p&eacute; o
+desfiladeiro, e por fim...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Escorregam...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Justamente...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E n'esse
+caso...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Est&aacute;
+a
+pessoa de quem fallamos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;N&oacute;s
+n&atilde;o fallamos de pessoa nenhuma... Queria eu dizer que n'esse
+caso n&atilde;o est&aacute; de certo
+v. exc.<sup>a</sup><br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Quem
+sabe!...
+(<em>&Aacute; parte</em>). Ai! o que eu
+fui dizer!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[217]</span>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Sei-o eu
+porque a
+conhe&ccedil;o desde menino, sempre esposa exemplar...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Desde
+menino,
+n&atilde;o!... pois que annos tem v. s.<sup>a</sup>?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Trinta,
+minha senhora.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Trinta?!...
+Ha-de
+ser isso... N&atilde;o levamos grande differen&ccedil;a...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Queira
+perdoar-me, minha
+senhora, mas eu andava na esc&oacute;la, quando v. exc.<sup>a</sup>
+deu um
+baile para celebrar os annos de seu filho, que era meu condiscipulo...
+Ha quantos annos isto vai!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>
+(<em>enfronhada</em>).&#8213;D&ecirc;-me
+licen&ccedil;a que v&aacute; ao meu banho... S&atilde;o
+horas, e a mar&eacute; principia a
+vasar...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Vasa, vasa,
+minha
+senhora... Ser&aacute; bom aproveitar a vasante...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;&Eacute;
+muito grosseiro!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Vai a
+resfolegar polvora
+pelos narizes...<br />
+
+<br />
+
+D'esta vez, creio que aboli este vinculo de nova especie!... Ahi
+est&aacute; um dos taes cincoenta namoros de que falla Leocadia...
+E &eacute; por causa d'estas... que me chamam inconstante!... Que
+pessimo charuto!... Gilbert se vivesse n'este tempo suicidava-se com um
+d'estes canudos de acido prussico...<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA VII.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Leocadia?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;J&aacute;
+l&aacute; vai... Disse que hia para casa.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;D&aacute;-me
+lume...
+(<em>accende o charuto</em>). Quero dar-te um
+conselho, Eduardo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Sim?!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+te cases.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[218]</span>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>Alvaro,
+sem ser visto, entra n'uma das proximas
+barracas</em>).&#8213;Deus me livre... Sendo eu, como realmente
+sou um cynico, pobre da mulher que tivesse de luctar com o meu
+cynismo!... O casamento &eacute; bom para ti que &eacute;s um
+anjo de virtude, e para
+Alvaro que &eacute; o typo da sisudez... Diz-me c&aacute;,
+&eacute;s muito feliz, n&atilde;o &eacute;s?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o.
+Estou
+can&ccedil;ado... Minha mulher... &eacute; uma mulher...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;&Eacute;
+<em>uma</em> mulher? Pois louva a Deus por
+n&atilde;o serem duas... Quantas querias tu? Aposto que
+est&aacute;s desmoralisado como um turco?!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Sempre
+galhofeiro... Agora
+serio... Tu que &eacute;s homem de expedientes, n&atilde;o me
+dizes como eu
+possa ser feliz com Leocadia?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>ironicamente</em>).&#8213;Est&aacute;s a
+zombar! Pois o anjo de virtude vem consultar o cynico!? N&atilde;o
+abuses da tua superioridade, Jorge...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Se tu
+soubesses que
+tormentos aqui v&atilde;o n'esta alma!... A paix&atilde;o
+allucinada que me abriu o inferno no cora&ccedil;&atilde;o!...
+Tenho necessidade de
+respirar... Quero que tu me ou&ccedil;as, porque n&atilde;o
+&eacute;s
+d'esses tartufos que torcem o nariz &aacute; menor
+expans&atilde;o d'um espirito
+atormentado!... Sabes que amo at&eacute; ao delirio uma mulher?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;&Eacute;
+a tua
+naturalmente... Isso &eacute; muito justo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+&eacute; a minha...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Pois a
+minha tambem
+n&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+motejes a
+minha d&ocirc;r... Se me n&atilde;o queres ouvir com seriedade,
+calemo-nos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Ora diz...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Eu amo...
+Julia...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;A mulher
+de... Oh
+escandalo!... Falla baixo que te n&atilde;o ou&ccedil;am os
+caranguejos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+soffro o
+escarneo... &Eacute;s incapaz de comprehender um sentimento
+nobre...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[219]</span>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>rindo</em>).&#8213;Sim... esse sentimento
+&eacute; muito nobre... Eu &eacute; que sou o cynico... Tens
+raz&atilde;o... estou estragado a ponto de n&atilde;o
+comprehender a nobreza d'esse sentimento... Prega essa moral,
+ver&aacute;s o
+galard&atilde;o que recebes...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+me importa
+a sociedade... Perco-me por aquella mulher... Era ella quem eu amava...
+Casei com Leocadia por um capricho... mas a mulher do meu
+cora&ccedil;&atilde;o era Julia...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E ella...
+concorda?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o...
+despresa-me... recebe as minhas cartas, e n&atilde;o me responde...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Mas sempre
+vai lendo as
+cartas?... Ent&atilde;o contin&uacute;a, visto que esse
+sentimento
+&eacute; nobre... Eu &eacute; que sou o cynico...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;E quem sabe o
+fim para que
+ella recebe as cartas?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Talvez para
+papelotes,
+quando se frisa...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Adeus!...
+est&aacute;s
+insoffrivel... Isso offende!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Pois eu sei
+c&aacute; para que ella recebe as cartas?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Talvez para
+mostral-as a
+minha mulher... e vingar-se assim...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Isso
+p&oacute;de
+ser... A historia antiga conta tres factos semelhantes. O primeiro
+aconteceu com Dido, a respeito de Eneas; o segundo com Fredegonda...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Deixa
+l&aacute;
+isso... que me importa a mim a historia?... Fazes-me um favor?... Se
+fallas com ella, p&oacute;des sondal-a a meu respeito...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Sondal-a?...
+n&atilde;o sei de que modo!... Tu n&atilde;o sabes que o marido
+&eacute; meu figadal inimigo?
+S&oacute; se a vir por aqui destacada do osso do seu osso... Ella
+ainda agora aqui esteve com D. Leocadia...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Com minha
+mulher!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Sim...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[220]</span>
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Estou
+perdido!... Deu-lhe
+as cartas!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Daria?! Que
+grande
+immoralidade!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;E por isso
+Leocadia se
+retirou...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E olha que
+n&atilde;o hia boa... Parece-me que a estas horas j&aacute;
+ella admirou o estilo das tuas
+preciosas cartas!... Olha... queres v&ecirc;r Julia?... Ella vem
+para aqui... Esconde-te atraz d'essa barraca, em quanto ella te
+n&atilde;o v&ecirc;... e quando passar, falla-lhe...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>
+(<em>cumpre</em>).&#8213;Que hei-de eu
+dizer-lhe?!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>sorrindo</em>).&#8213;V&ecirc; se ella
+comprehende o <em>o teu nobre
+sentimento</em>...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Ella
+n&atilde;o
+p&aacute;ra a ouvir-me... tu ver&aacute;s...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Se
+n&atilde;o parar,
+anda tu com ella... (<em>Retira-se</em>).<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA VIII.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Jorge</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Julia</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+tenho
+animo... Sou um imbecil...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span> (<em>sem
+o
+v&ecirc;r, sentando-se em cadeira</em>).&#8213;A minha
+querida vingan&ccedil;a!... N&atilde;o vim s&oacute; para
+soffrer... Alguem ha-de soffrer comigo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>
+(<em>dirigindo-se com
+irresolu&ccedil;&atilde;o</em>).&#8213;Animo!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>
+(<em>voltando-se de repente, e
+erguendo-se</em>).&#8213;O senhor!... (<em>Quer
+retirar-se</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>
+(<em>sustendo-a</em>).&#8213;N&atilde;o me
+fuja...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Retire essa
+m&atilde;o, senhor!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Esse enfado
+&eacute;
+muito pouco senhoril... Esta m&atilde;o n&atilde;o mancha a sua
+pureza...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Para mim tem
+o horror de
+m&atilde;o que me feriu com um punhal... O senhor n&atilde;o
+tem dignidade nenhuma... Retire-se, que meu marido p&oacute;de
+v&ecirc;l-o.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Que veja...
+Eu
+n&atilde;o temo seu marido...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Pois
+n&atilde;o o tema
+a elle, mas respeite-me a <span class="pagenum">[221]</span>mim,
+para que a sua posi&ccedil;&atilde;o de marido seja
+respeitada... (<em>Eduardo tem vindo por entre as barracas
+esconder-se atraz da mais proxima do dialogo</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Eu
+j&aacute; me
+n&atilde;o respeito na minha posi&ccedil;&atilde;o... Seu
+marido que tire represalias, que eu sou indifferente a todos os
+ultrajes d'essa ordem.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;Eu
+&eacute; que sou o cynico...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Ent&atilde;o
+devo
+acreditar que o senhor requintou em immoralidade...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Acredite o
+que quizer...
+Saiba que foi uma paix&atilde;o que me perverteu... Hei-de cuspir
+na sociedade, visto que a n&atilde;o posso calcar aos
+p&eacute;s... Despreso todas as formalidades... Para a
+desespera&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o ha conveniencias a guardar...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;Eu
+&eacute; que sou o cynico!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Pois, senhor,
+eu entendo
+que as devo guardar todas... Snr. Jorge, tenha vergonha diante da sua
+propria consciencia. (<em>Vai
+retirar-se</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>
+(<em>segurando-a</em>).&#8213;Ha-de ouvir-me...
+Que destino deu &aacute;s minhas cartas?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Entreguei-as
+a sua
+senhora.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Isso foi um
+vil
+procedimento...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Deveria antes
+entregal-as
+a meu marido?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+tenho nada
+com seu marido, Julia... N&atilde;o me cite tantas vezes o nome de
+seu marido, que
+&eacute; de nenhuma importancia n'este objecto...<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA IX.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos e</em>
+<span class="smallcaps">Alvaro</span> <em>sahindo
+da
+barraca, vestido de banho</em>.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Ah! meu
+marido...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>escondido</em>).&#8213;Isto ha-de ser
+bonito...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Pois, snr.
+Jorge, eu
+pensei que importava alguma cousa n'este negocio... Isto que
+&eacute;? Cahiram miseravelmente <span class="pagenum">[222]</span>n'um
+silencio estupido!... Julia, tu n&atilde;o
+fallas? Snr. Jorge! n&atilde;o fique embuchado!... O senhor
+est&aacute;-me dando uma importancia, que n&atilde;o era a do
+seu programma...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Esta
+situa&ccedil;&atilde;o &eacute; melhor que a n&atilde;o
+prolonguemos. V. s.<sup>a</sup> vai pedir-me uma
+satisfa&ccedil;&atilde;o...
+(<em>Julia retira-se</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Est&aacute;
+enganado... N&atilde;o tenho de que lhe pedir
+satisfa&ccedil;&atilde;o... Faz v. s.<sup>a</sup>
+muito bem...
+N&atilde;o lhe desagradam os olhos d'aquella senhora, e
+p&otilde;e os seus meios... Tudo isto &eacute; natural... Que
+satisfa&ccedil;&atilde;o lhe hei-de eu pedir!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;Eu
+&eacute; que sou o cynico!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Acabemos,
+snr. Alvaro...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Tranquille-se,
+cavalheiro... Eu ainda n&atilde;o disse sen&atilde;o metade.
+Visto que o senhor gosta dos olhos de minha mulher, eu aproveito a
+occasi&atilde;o para lhe dizer que n&atilde;o desgosto dos
+olhos da sua. Com a
+differen&ccedil;a, por&eacute;m, que eu, declarando-me a v.
+s.<sup>a</sup>, dou-lhe a
+importancia que v. s.<sup>a</sup> me n&atilde;o deu...
+Visto que nos
+encontramos no mercado, permutaremos os olhos de nossas mulheres. O
+senhor fica com os olhos da minha, e eu com os olhos da sua...
+Parece-me que me vai pedir uma satisfa&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+sei com que
+inten&ccedil;&atilde;o me faz semelhante proposta...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Com a melhor
+inten&ccedil;&atilde;o do mundo... &Eacute; um contracto
+bilateral... sem testemunhas... Eu concedo-lhe a frequencia de minha
+casa para v. s.<sup>a</sup> estudar bem os olhos de minha
+mulher, e o cavalheiro
+franqueia-me occasi&otilde;es de estudar os olhos da sua.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;Eu
+&eacute; que sou o cynico!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;E se na
+sociedade se
+desconfia esta conven&ccedil;&atilde;o?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Deixe-se
+d'isso... A
+sociedade, deu-nos diplomas de excellentes pessoas... Eu creio que
+ambos <span class="pagenum">[223]</span>temos
+a finura necessaria para desempenharmos, sem pateada, os nossos
+papeis... Aqui o grande plano &eacute; que afastemos do nosso
+commercio Eduardo, porque esse tem a alma sufficientemente estragada
+para nos adivinhar...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;Muito,
+obrigado!... At&eacute; este me d&aacute; diploma de cynico!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Agora, meu
+amigo, vou
+tomar banho... Hoje &aacute; noite espero-o com sua senhora em
+minha casa para tomarem uma chavena de ch&aacute;...
+(<em>Apertando-lhe a m&atilde;o</em>).
+<em>Au
+revoir</em>, meu caro senhor...
+(<em>Sahem</em>). &Oacute; banheiro!...
+Vamos l&aacute;, que nos foge o mar...<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA X.</h4>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Visto que
+eu sou o
+cynico, e os virtuosos s&atilde;o estes, passo a ser um pouco mais
+virtuoso que elles, para que elles sejam cynicos como eu... Alguma vez
+hei-de atinar com a virtude... A verdadeira acho que &eacute; a
+d'elles... O genero n&atilde;o &eacute; caro...
+Veremos...<br />
+
+<div style="text-align: center;">
+<h4>CORRE O PANO.</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>ACTO III.</h3>
+
+<br />
+
+<div class="quote"><em>Passa-se em casa do visconde
+de
+Valbom. Sala
+faustuosa: luxo sem gosto: muita cadeira de est&ocirc;fos
+amarellos: muito relogio: muita bugiaria de vidro, de mistura com
+porcellanas de Sevres, e adornos d'ouro, sem
+significa&ccedil;&atilde;o nem serventia</em>. <em>&Eacute;
+noite</em>.</div>
+
+<br />
+
+<h4>SCENA I.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Viscondessa
+de Valbom</span>,
+<span class="smallcaps">D. Julia</span>,
+<span class="smallcaps">Jorge</span>, <span class="smallcaps">visconde
+de Valbom</span>.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote"><em>Um creado com uma bandeja,
+recebe as chavenas do
+ch&aacute;; e retira-se</em>.</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>a
+Jorge</em>).&#8213;A snr.<sup>a</sup> D. Leocadia
+n&atilde;o
+vir&aacute;?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;&Eacute;
+natural que
+venha.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Com o
+capell&atilde;o?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Sim... com o
+capell&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>a
+Julia</em>).&#8213;O snr. Alvaro que andar&aacute; a fazer?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Naturalmente...
+das
+suas...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Das
+suas... isso que
+quer dizer?! Alvaro &eacute; o exemplo da honradez personalisada...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Agradecida a
+v. exc.<sup>a</sup>,
+snr. visconde.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;N&atilde;o
+tem
+de que, menina. Seu marido
+<span class="pagenum">[226]</span>&eacute; um
+anjo, e a sociedade faz-lhe justi&ccedil;a. A
+reputa&ccedil;&atilde;o que elle tem grangeado &eacute; a
+prova infallivel das suas virtudes. Elle, e aqui o snr. Jorge
+s&atilde;o os dous cavalheiros mais queridos da nossa roda. Foram
+rapazes, sem rapaziadas. S&atilde;o maridos, sem mancha, e
+h&atilde;o-de ser
+sempre mod&ecirc;los de probidade a todos os respeitos.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Muito grato,
+minha
+senhora. Tenho empregado todos os esfor&ccedil;os por merecer
+&aacute; sociedade um bom conceito, e creio que o tenho
+conseguido...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Porque
+o merece. Se
+o n&atilde;o merecesse, creia que o n&atilde;o teria, porque a
+opini&atilde;o publica
+&eacute; justiceira, e nunca se engana com os bons, ou com os
+maus... N&atilde;o se lembra da opini&atilde;o que teve
+Eduardo?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Uma pessima
+opini&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Oh! de
+certo, aquillo
+era um homem com uma lingua depravada, e costumes horriveis...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Mas
+vejam que lhe
+chegou a sua hora de reflex&atilde;o. Retirou-se completamente da
+sociedade; viveu tres mezes encerrado comsigo mesmo na
+solid&atilde;o, e voltou para o mundo completamente desfigurado.
+&Eacute; outro homem...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Totalmente
+outro.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Faz mesmo
+espantar a
+differen&ccedil;a que o homem fez!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;&Eacute;
+pasmosa!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;As suas
+palavras
+s&atilde;o todas serias, medidas, e reflectidas. Os seus modos
+s&atilde;o circumspectos, civis, e insinuantes. O seu vestir
+&eacute; muito grave, muito decente, e muito sisudo... Dizem-me que
+d&aacute; esmolas... tenho lido nos jornaes alguns actos de
+philantropia que o honram muito... em fim, est&aacute; um
+cavalheiro, que n&atilde;o deixa nada a desejar! Vejam o que
+s&atilde;o as cousas!... Aqui ha quatro mezes, se elle me olhasse
+para uma das minhas creadas, despedil-a-hia immediatamente; e hoje, se
+eu tivesse uma filha, dava-lh'a com immensa
+satisfa&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[227]</span>
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Muito se
+lucra, quando se
+&eacute; honrado!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Pois
+n&atilde;o!
+N&atilde;o ha nada como a honra!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Oh! a honra
+&eacute; a
+salvaguarda de todas as inquieta&ccedil;&otilde;es!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Que
+precipicios
+n&atilde;o encontrou Eduardo em quanto se deixou hir &aacute;
+merc&ecirc; dos seus
+extravagantes desejos!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Oh!... era
+insoffrivel!... Nunca se viu assim uma libertinagem!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Ouvi fallar
+t&atilde;o
+mal d'esse homem, e nunca me disseram distinctamente os seus crimes.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Immensos,
+immensos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Immensissimos,
+immensissimos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Mas posso eu
+saber algum
+d'elles?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Eu
+n&atilde;o sei
+de nenhum; mas dizem por ahi que s&atilde;o muitos... muitos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;E a snr.<sup>a</sup>
+viscondessa
+sabe quaes s&atilde;o?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Tambem
+n&atilde;o sei; mas, na boa roda, diziam que elle era um prodigio
+de immoralidade...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;E o snr.
+Jorge? Esse ha-de
+saber muitas cousas...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Creio que ha
+muitas scenas
+horriveis na vida d'esse homem, todavia, eu n&atilde;o sei
+nenhuma...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Mas vive com
+elle ha mais
+de sete annos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;&Eacute;
+verdade...
+mas, como elle me n&atilde;o chamava a testemunhar os seus
+desvarios, nada sei...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;O que se
+segue
+&eacute; que nenhum de n&oacute;s sabe dizer em que consistiu a
+deprava&ccedil;&atilde;o de
+Eduardo!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;A
+sociedade
+n&atilde;o se engana, menina. Ella que o condemnou l&aacute;
+sabe os motivos porque o fez. A virtude n&atilde;o &eacute;
+nunca infamada. Veja
+l&aacute; se seu marido, e aqui o snr. Jorge foram victimas da
+calumnia!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Mas eu queria
+que me
+citassem um crime de Eduardo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Um creado</span>&#8213;O snr.
+Eduardo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[228]</span>
+<h4>SCENA II.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos e</em>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<div class="quote">(<em>Eduardo veste todo de preto.
+Maneiras muito
+acanhadas, dando-se uns ares de virtude idiota. Uma cortezia a cada
+palavra. Recolhido sempre em si, affectando uma imbecilidade moral, de
+fazer piedade</em>).</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">visconde</span>.&#8213;Muito bem
+vindo.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Como
+passaram vv.
+exc.<sup>as</sup>?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Maravilhosamente...
+queira sentar-se.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E a snr.<sup>a</sup>
+D. Julia?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Um pouco
+affectada dos
+nervos.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Muito
+sinto, minha
+senhora, Deus a poupe a soffrimentos de todo o genero... E o meu amigo
+Jorge... como passa?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Assim,
+assim...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Ent&atilde;o!
+senta-se? (<em>Eduardo senta-se</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Como
+est&aacute; tua
+senhora, Jorge?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Estamos
+&aacute;
+espera d'ella.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E seu
+marido, snr.<sup>a</sup>
+D.
+Julia?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;N&atilde;o
+deve
+tardar... (<em>Eduardo em ar de pensativo, esfregando as
+costas das
+m&atilde;os</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Elle
+ahi vai recahir
+nas suas melancolias! N&atilde;o o queremos assim! Que tem?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Pesares...
+que vem de
+longe, minha senhora...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;O passado
+j&aacute;
+l&aacute; vai... Agora v. s.<sup>a</sup> &eacute;
+outro homem... Toda a
+gente diz que quem o viu e quem o v&ecirc;...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Nada de
+tristezas. A
+virtude &eacute; sempre alegre... &Oacute; menina,
+v&aacute; tocar um bocadinho...
+Tenho notado que o snr. Eduardo est&aacute; melhor quando ouve
+tocar... Que quer que ella toque?<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[229]</span>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;O que s.
+exc.<sup>a</sup>
+quizer...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Cousas
+tristes?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;N&atilde;o,
+menina! Bem triste est&aacute; elle!... Toque alguma cousa do
+Barbeiro de Sevilha...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Pois, sim...
+(<em>Vai tocar na sala immediata</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>a
+Eduardo</em>).&#8213;Quer que vamos &aacute; sala do piano,
+ou quer gosar de longe?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;De longe,
+se v. exc.<sup>a</sup>
+n&atilde;o manda o contrario. (<em>Jorge, logo depois,
+segue Julia</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Muito
+folgamos de o
+v&ecirc;r rehabilitado na opini&atilde;o publica.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E estarei-o
+eu por
+ventura?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Est&aacute;...
+Veja... n'um s&oacute; mez recuperou os creditos perdidos em tantos
+annos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Muito devo
+a Deus,
+porque &eacute; o contrario que costuma acontecer...
+Ent&atilde;o a snr.<sup>a</sup> D. Julia
+n&atilde;o n&oacute;s d&aacute; o prazer de a ouvirmos?
+Vai-nos demorando
+o goso...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Eu vou
+l&aacute;...
+(<em>Sahe</em>).<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA III.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span>
+<em>e
+a</em> <span class="smallcaps">viscondessa</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>com
+vivacidade</em>).&#8213;V&ecirc;s como sahiu certo tudo o
+que eu te disse? A sociedade &eacute; uma excellente pessoa.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>mudan&ccedil;a de tom. Ouve-se o
+piano</em>).&#8213;Tenho notado isso... Achas que vou bem
+assim?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;O
+melhor possivel...
+Ponto &eacute; que te conserves...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;N'este
+p&eacute; de
+virtude? J&aacute; me n&atilde;o desmancho... E, com effeito,
+dizem que sou beato, virtuoso, martyr, contricto...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;At&eacute;
+o
+visconde est&aacute; espantado da tua mudan&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[230]</span>
+<span class="smallcaps">Um creado</span>.&#8213;A snr.<sup>a</sup>
+D. Leocadia,
+e o snr. Alvaro. (<em>Sahe</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;N&atilde;o
+sei o
+que me parece este grupo, a estas horas!... Sabes que eu suspeito...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Suspeitas?!...
+Oh!... eu
+n&atilde;o... Facilidades da innocencia!...<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA IV.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos</em>,
+<span class="smallcaps">D.
+Leocadia</span>, <em>e</em>
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;T&atilde;o
+tarde!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Foi
+impossivel aquietar
+o pequeno at&eacute; agora...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>tornando
+ao tom beatifico</em>).&#8213;Passou bem, minha senhora?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Bem...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>
+(<em>d&aacute; uma gargalhada</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Que
+riso
+&eacute; esse?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;N&atilde;o
+&eacute; nada, minha senhora... Quem toca, &eacute; minha
+mulher?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;&Eacute;
+sim...
+se quer v&aacute; &aacute; sala...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;N&atilde;o,
+minha
+senhora. (<em>Senta-se trombudo a um canto da
+sala</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>a
+Leocadia</em>).&#8213;Que ter&aacute; elle? Estranho-o!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Eu
+n&atilde;o
+sei... Chegou a minha casa quando eu estava para sahir... Disse-me que
+me acompanhava... veio comigo sem dizer palavra... e n&atilde;o sei
+mais nada, nem me importa...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>pesaroso</em>).&#8213;Ter&aacute;
+d&ocirc;r de dentes? S&atilde;o d&ocirc;res dos nossos
+peccados... Deus nos acuda...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Venha
+c&aacute;,
+snr. Alvaro!... O nosso bom amigo Eduardo, que &eacute; o S. Paulo
+dos nossos tempos, pergunta se lhe doem os dentes...
+(<em>Alvaro
+d&aacute; outra gargalhada</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[231]</span>
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Ora
+entendam
+l&aacute; aquillo!...<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA V.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos, e</em>
+<span class="smallcaps">Julia</span>,
+<span class="smallcaps">Jorge</span>, <em>e
+o</em> <span class="smallcaps">visconde</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>apertando
+a m&atilde;o de Leocadia</em>).&#8213;At&eacute; que
+finalmente...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span> (<em>apertando
+a m&atilde;o de Alvaro</em>).&#8213;Com effeito...
+demoraste-te.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Negocios...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;O pequeno
+n&atilde;o queria adormecer... (<em>Alvaro
+d&aacute; terceira
+gargalhada</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Que riso
+&eacute;
+esse?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;A que vem o
+destempero
+d'essa gargalhada?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;L&aacute;
+est&aacute; outra vez mergulhado na sua melancolia o snr.
+Eduardo!... Quer, talvez, mais musica...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Se
+n&atilde;o
+receasse ser indiscreto, pedia a v. exc.<sup>a</sup>
+aquella aria da Norma... no
+acto final...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Executada
+por quem?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Por v. exc.<sup>a</sup>...
+d&aacute;-lhe uma gra&ccedil;a particular... N&atilde;o
+quero offender as duas senhoras que a desempenham habilmente; mas
+n&atilde;o sei que toque melancolico...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Pois
+sim... hirei...
+Vamos todos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Se me
+concedesse...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Ficar
+s&oacute;sinho aqui?... Pois sim... fique.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Eu
+c&aacute; fico
+com elle...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;N&atilde;o,
+n&atilde;o... deixa-o... s&atilde;o necessidades organicas...
+Eu tambem tenho d'estas tempestades moraes...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Vozes</span>.&#8213;Pois sim...
+pois sim...
+(<em>Sahem</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[232]</span>
+<h4>SCENA VI.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span>,
+<em>e
+depois</em> <span class="smallcaps">Julia</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;A
+gargalhada de Alvaro
+quer dizer muito... (<em>Ouve-se a aria da
+Norma</em>).<br />
+
+<br />
+
+O maldito veria alguma cousa? Se viu, l&aacute; vai a terra todo o
+meu edificio de virtude... Dizem que ella &eacute; facil, eu
+vejo-me illaqueado n'uma rede tal, que se me descobrem n&atilde;o
+sei por onde hei-de evadir-me... Que pena se me n&atilde;o deixam
+ser honrado!... Tenho, s&oacute; n'um mez, colhido tantas palmas de
+virtude, que, passados tres, n'este andar, eu todo seria um palmito...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>
+(<em>agitada</em>).&#8213;Eduardo...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Julia...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Pelo amor de
+Deus,
+desvanece-me d'uma suspeita que me despeda&ccedil;a...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Que
+&eacute;?!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Tu amas
+Leocadia.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;&Eacute;
+falso...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Mas ella
+adora-te com
+delirio...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Que culpa
+tenho eu?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>
+(<em>tomando-lhe a m&atilde;o com
+frenesi</em>...)&#8213;N&atilde;o me sacrifiques a ella...
+a nenhuma... porque nenhuma te amar&aacute; tanto...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>ao
+fundo</em>).&#8213;Isto &eacute; espantoso!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;N&atilde;o
+v&ecirc;s que represento um papel hypocrita, t&atilde;o contra
+o meu caracter, para te n&atilde;o perder?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>o
+mesmo</em>).&#8213;&Eacute; incrivel!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Conhe&ccedil;o
+tudo...
+meu anjo... Vou &aacute; sala... p&oacute;de notar-se a minha
+falta...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[233]</span>
+<h4>SCENA VII.</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote"><span class="smallcaps">Eduardo</span>
+, <em>e
+depois</em> <span class="smallcaps">Leocadia</span>,
+<em>e depois o</em>
+<span class="smallcaps">visconde</span> <em>na
+porta
+do fundo sem ser visto</em>.
+(<em>Ouve-se ainda a musica da Norma</em>).</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Tornemos
+&aacute;
+posi&ccedil;&atilde;o do benemerito Tartufo. Oh meu querido
+Moliere, onde quer que est&aacute;s recebe os meus agradecimentos
+pelo excellente molde que me c&aacute; deixaste!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>
+(<em>impetuosamente</em>).&#8213;Eduardo...
+s&oacute; duas palavras... Olha que Alvaro viu-te sahir de minha
+casa...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Viu?!
+est&atilde;o
+explicadas as gargalhadas...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Receio
+maus
+resultados... Elle &eacute; capaz de tirar qualquer
+vingan&ccedil;a... Oh meu Deus!... estou sobre um
+vulc&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E eu dentro
+d'uma
+tina... Deixa correr os successos... Vai, que podem descobrir-nos...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;Como se
+explica isto?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Que has-de
+tu dizer se
+elle nos denuncia?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Provo que
+n&atilde;o
+sou mais immoral que elle... As preten&ccedil;&otilde;es
+s&atilde;o as mesmas...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Isto
+&eacute;
+bonito!... (<em>Retira-se</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Que
+situa&ccedil;&atilde;o a minha!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Retira-te,
+que podem
+surprehender-nos... (<em>Leocadia sahe</em>).<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA VIII.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span>,
+<em>e
+depois
+a</em> <span class="smallcaps">viscondessa</span>,
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Alvaro</span> <em>ao
+fundo</em>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Atropellam-se
+os
+acontecimentos!... Tudo isto faz persuadir que eu tenho sido um homem
+verdadeiramente virtuoso! No tempo em que eu era cynico, <span class="pagenum">[234]</span>antes
+que a sociedade me chamasse regenerado, as mulheres
+n&atilde;o andavam assim n'uma dobadoura em redor de mim!
+&Oacute; benevola opini&atilde;o publica, quanto
+te devo!... Ahi vem outra que me n&atilde;o faz muita honra!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Aproveitei
+um
+instante para estar s&oacute; comtigo antes que elles venham...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Como
+&eacute;s
+carinhosa!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Desconfiei
+que
+Leocadia tivesse vindo para aqui... Sabes que tenho ciumes de todas as
+mulheres!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;Que
+ou&ccedil;o!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Continuo a
+representar
+bem? A platea applaude?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;O
+visconde disse-me
+n'este momento que tinha muito que contar-me... perguntei-lhe a que
+respeito... e elle de fugida pronunciou o teu nome e de Leocadia...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>
+(<em>aparte</em>).&#8213;E Leocadia!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E
+Leocadia!... Como se
+entende isso?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;N&atilde;o
+sei... Mudemos de tom que elles ahi vem...<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA IX.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Os mesmos, e</em>
+<span class="smallcaps">Julia</span>,
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>,
+<span class="smallcaps">Jorge</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span> (<em>com
+emphase</em>).&#8213;Pois n&atilde;o queremos uma virtude
+assim melancolica... &Eacute; necessario que resurja d'esse
+abatimento moral, snr. Eduardo... A verdadeira felicidade
+est&aacute; na consciencia. O seu passado n&atilde;o tem a
+pedir contas ao seu presente... A sociedade abre-lhe o
+bra&ccedil;os como ao filho prodigo...
+(<em>Alvaro solta uma risada</em>).<br />
+
+<br />
+
+Que riso &eacute; esse, snr. Alvaro?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;&Eacute;
+um riso
+nervoso!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;Mau!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;N&atilde;o
+tem
+raz&otilde;es para tanta melancolia!... <span class="pagenum">[235]</span>&Eacute;
+estimado geralmente pelas suas virtudes, e merece
+a confian&ccedil;a de todas as pessoas...
+(<em>O visconde solta uma risada</em>).<br />
+
+<br />
+
+Que risada &eacute; essa, snr. visconde?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;&Eacute;
+uma risada
+como a d'aquelle senhor (<em>apontando
+Alvaro</em>). &Eacute; uma
+risada nervosa!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;Peor!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Parece que
+escarnecem a
+virtude!... Estas transfigura&ccedil;&otilde;es moraes custam
+muitas
+amarguras... Eu comprehendo a melancolia do snr. Eduardo... Lembra-se
+do que foi, e, no prazer do que &eacute;, sente pesar de o
+n&atilde;o ter sido desde muito... (<em>Jorge
+solta uma risada</em>).<br />
+
+<br />
+
+Tambem o senhor se ri?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;&Eacute;
+uma risada
+como a d'aquelle senhor... (<em>apontando
+Alvaro</em>) &eacute; uma
+risada nervosa...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>&aacute;
+parte</em>).&#8213;Est&aacute; tudo por terra!...
+(<em>Alto</em>). Vejo que os meus amigos
+est&atilde;o muito nervosos!... Banhos de mar podem ser-lhes
+proveitosos... N&atilde;o acho bonito que me
+escarne&ccedil;am... Fazem-me lembrar a fabula do le&atilde;o e
+do... Em fim, seja tudo em desconto das minhas culpas!...
+(<em>Riem todos
+tres</em>).<br />
+
+<br />
+
+Ora comprehendam isto!... &Eacute; um abuso do riso!... Eu
+n&atilde;o lhes mere&ccedil;o isso, senhores! Dizem por ahi
+que eu sou um honrado homem, e n&atilde;o se cospe assim na
+honra...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;Vou-lhe
+arrancar a mascara!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;Hypocrita!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>
+(<em>&aacute; parte</em>).&#8213;O impostor
+n&atilde;o passar&aacute; d'hoje...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Que
+falsa
+posi&ccedil;&atilde;o &eacute; esta?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;N&atilde;o
+entendo
+isto!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Nem eu!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Nem eu!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Que
+modos
+s&atilde;o esses!... em que pensam os senhores?...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Eu pensava
+nos recursos
+do talento depravado!... <span class="pagenum">[236]</span>Senhores!...
+&eacute; necessario que se acabe este
+comedia d'algum modo!... Aquelle senhor
+(<em>indicando Eduardo</em>) &eacute; um
+impostor!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Eu!
+Calumnia! infamia...
+quero as provas...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;A snr.<sup>a</sup>
+D. Leocadia que
+as d&ecirc;...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Justamente:
+a snr.<sup>a</sup>
+D.
+Leocadia que as d&ecirc;!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Minha
+mulher!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Eu!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Ella!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">visconde</span>.&#8213;Sim!
+ella!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Pois bem...
+c&aacute;ia a mascara... Esse senhor &eacute; um infame
+seductor!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Eu!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Elle!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>,
+<span class="smallcaps">visconde</span>,
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Sim, sim,
+elle!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Provas,
+senhores
+calumniadores!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Provas? a snr.<sup>a</sup>
+D. Julia
+que as d&ecirc;!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Minha
+mulher!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Eu!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Ella!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">visconde</span>.&#8213;Sim, sim,
+ella!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;N'esse
+caso... rasgue-se
+o v&eacute;o do mysterio... Todos somos victimas da hypocrisia
+d'esse homem!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Menos eu!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Nem eu!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Provas,
+senhores!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Provas? a
+snr.<sup>a</sup>
+viscondessa que as d&ecirc;.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Minha
+mulher!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Eu!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Ella!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Sim, sim!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Todas
+tres!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span> (<em>para
+Julia</em>).&#8213;Responde!<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[237]</span>
+<span class="smallcaps">Jorge</span> (<em>para
+Leocadia</em>).&#8213;Que dizes a isto?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">O visconde</span> (<em>para
+a viscondessa</em>).&#8213;Pois n&atilde;o te defendes?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Todas tres</span>.&#8213;&Eacute;
+falso!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span> (<em>mudando
+de tom</em>).&#8213;Eu vou defend&ecirc;l-as, minhas
+senhoras!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;A snr.<sup>a</sup>
+D. Leocadia
+n&atilde;o tem defeza nenhuma, porque...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Silencio!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;A snr.<sup>a</sup>
+D. Julia
+n&atilde;o tem defeza nenhuma, porque...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Esperem!...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Concordo
+que nenhuma
+d'essas tem defeza!... mas &eacute; preciso que me provem que...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Alto
+l&aacute;...
+Queiram retirar-se, minhas senhoras... &Eacute; defeza a
+presen&ccedil;a das
+r&eacute;s no tribunal que vai installar-se... Queiram
+retirar-se... (<em>Ellas
+sahem</em>).<br />
+
+<br />
+
+<h4>SCENA X.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Eduardo</span>,
+<span class="smallcaps">Jorge</span>,
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>, <em>e
+o</em> <span class="smallcaps">visconde</span>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Venham
+c&aacute;...
+Os senhores n&atilde;o tem ouvido dizer que eu me regenerei?
+Respondam, sim ou n&atilde;o?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Qual
+<em>regenerou-se</em>! &Eacute; um
+impostor!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Concordemos
+em que sou
+um impostor. Mas digam-me: a opini&atilde;o publica a meu respeito
+&eacute; essa?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;N&atilde;o
+&eacute;... porque o senhor enganou-nos.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Pois, se
+n&atilde;o
+&eacute;, porque n&atilde;o respeitam os senhores a
+opini&atilde;o publica &aacute; qual me mandaram
+obedecer?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;J&aacute;
+lhe disse
+que a opini&atilde;o publica est&aacute; illudida com o senhor!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[238]</span>
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E d'antes?
+ha quatro
+mezes era mais verdadeira que hoje?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+quero
+disputas... N&atilde;o respondo ao seu interrogatorio... Quero uma
+satisfa&ccedil;&atilde;o
+immediata.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;E eu tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;E o snr.
+visconde?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Veremos,
+depois...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>
+(<em>sorrindo</em>).&#8213;Acha que n&atilde;o
+vale a pena decidir j&aacute;... Pois l&aacute; hiremos... Mas,
+antes d'isso,
+queiram attender-me: os senhores, com uma bala, em duello, podem
+matar-me, primeira loucura; e, se me n&atilde;o matam, arruinam a
+minha boa reputa&ccedil;&atilde;o, que eu aprecio mais que a
+vida; segunda asneira... Que lucram os senhores com isto?<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Nada de
+philosophias!...
+&Eacute; indispensavel para a minha honra um duello...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&atilde;o
+prescindo.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Pois se
+n&atilde;o
+prescindem, l&aacute; vamos... Mas os primeiros que
+h&atilde;o-de bater-se um com o outro, s&atilde;o os senhores!
+(<em>Indicando Alvaro e
+Jorge</em>).<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;N&oacute;s?!...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Os
+senhores...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>.&#8213;Porque?!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Porque teem
+trabalhado
+reciprocamente na sua deshonra.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Isso
+&eacute; uma nova
+infamia!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;M&atilde;os
+na
+consciencia, meus amigos! O contracto feito ha quatro mezes na praia
+dos Inglezes n&atilde;o os exime de serem honrados!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Alvaro</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Jorge</span>.&#8213;Na praia dos
+Inglezes!...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Querem
+explica&ccedil;&otilde;es?... Vejam l&aacute; o que
+resolvem... Querem explica&ccedil;&otilde;es?... Que
+dizem?!... Esse silencio annuncia bonan&ccedil;a... Aproveitemos o
+vento que &eacute; favoravel... Concordam em que occultemos
+mutuamente as nossas miserias? Eu de mim... (<em>Comprime
+os labios com os dedos</em>...)
+Os senhores, se <span class="pagenum">[239]</span>s&atilde;o
+honrados como a opini&atilde;o publica os
+apreg&ocirc;a, calem-se tambem...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Mas eu
+&eacute; que
+n&atilde;o entro n'esse contracto...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;Nem lh'o
+propuz... mas,
+v. exc.<sup>a</sup> contando com o silencio d'estes
+cavalheiros, de certo
+n&atilde;o querer&aacute; uma ignobil publicidade a respeito
+de... Veja l&aacute; o que resolve...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Visconde</span>.&#8213;Mas v.
+s.<sup>a</sup>
+n&atilde;o ha-de entrar mais em minha casa...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;D'accordo.
+Amanh&atilde; embarco para a exposi&ccedil;&atilde;o de
+Pariz, e tenciono viajar tres annos... Serve-lhe a
+condi&ccedil;&atilde;o?... O silencio approva... Muito bem...
+(<em>Ao fundo</em>). Minhas senhoras! queiram
+entrar!... (<em>As damas entram</em>). Vv.
+exc.<sup>as</sup> foram julgadas
+innocentissimas e absolvidas... Continuamos todos a ser excellentes
+pessoas a todos os respeitos. Estes senhores, de parte a parte, pedem
+perd&atilde;o das calumnias sordidas com que quizeram
+reciprocamente manchar os seus nomes...<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>.&#8213;Assim o
+suppuz!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Assim devia
+acontecer!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Leocadia</span>.&#8213;Mas eu
+n&atilde;o
+perd&ocirc;o a quem me infamou!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Viscondessa</span>
+<em>e</em>
+<span class="smallcaps">Julia</span>.&#8213;Nem
+n&oacute;s!<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Eduardo</span>.&#8213;H&atilde;o-de
+perdoar, que s&atilde;o muito boas senhoras, e o perd&atilde;o
+das injurias &eacute; o sentimento mais nobre
+do cora&ccedil;&atilde;o humano... Eu retiro-me com os meus
+creditos, e vv. exc.<sup>as</sup> ficam com os seus...
+Muito boas noites...
+(<em>Sahe</em>).<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os outros, como &eacute; natural, ficam a olhar uns para os outros
+com aquellas caras proprias de taes conflictos. O author vem
+f&oacute;ra dizer que n&atilde;o ha na comedia
+allus&otilde;es nenhumas. A plat&eacute;a retira satisfeita, e
+contin&uacute;a
+a guardar-se dos cynicos.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[240]</span>
+No dia seguinte os jornaes dizem que a comedia &eacute; immoral, e
+attentatoria contra os bons costumes. Os Sganarellos mandam comprar o
+jornal, e mostram-no aos compadres. O author, conscio de que o mordem,
+vem no conhecimento de que os mordentes s&atilde;o os legitimos
+<em>Orgons</em> d'este seculo; mas, um pouco
+menos felizes que os d'uma grande comedia, que o leitor, se se
+n&atilde;o recorda, ou n&atilde;o leu nunca, p&oacute;de
+encontrar com o titulo de <em>Tartuffe</em>.
+Se, todavia, detesta a
+letra redonda, estude a vida pratica, e chegar&aacute; &aacute;
+mais difficil das
+formaturas, ao <em>ultimatum</em> da
+sabedoria:
+&laquo;o conhecimento dos homens.&raquo; &Eacute;
+t&atilde;o facil, ao primeiro intuito, estremar o
+cynico do hypocrita!... Dai-me o primeiro, que repellis, e
+n&atilde;o me relacioneis com o segundo, que abra&ccedil;aes:
+que eu, profundamente grato, ficarei pedindo a Deus que vos augmente o
+dinheiro, e vos conserve uma saude bem vermelha, bem gorda, para que a
+virtude n&atilde;o seja sempre uma irris&atilde;o n'este
+planeta. Disse.<br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM.</h4>
+
+<br />
+
+<h2>INDICE.</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>Morrer por capricho
+(romance)&nbsp;</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#C1">5</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Uma paix&atilde;o bem empregada
+(romance)</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#C2">25</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>De abysmo em abysmo
+(romance)</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#C3">35</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Aventuras d'um boticario d'ald&ecirc;a
+(romance)</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#C4">41</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cousas que s&oacute; eu sei
+(romance)</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#C5">55</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dinheiro! dinheiro!
+(romance)</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#C6">109</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>A caveira (romance)</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#C7">131</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Uma praga rogada nas escadas da forca
+(romance)</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#C8">155</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pathologia do casamento (drama em 3
+actos)</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#C9">183</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>Notas:</h2>
+
+<br />
+
+<sup><a name="1"></a>[1]</sup> Systema
+pathologico do snr. Borges de Castro, facultativo
+distincto, na cidade do Porto, em 1853.<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="2"></a>[2]</sup> Escripto
+em 1853.<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="3"></a>[3]</sup> .......
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
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+
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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