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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:05:28 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Folhas cahidas, apanhadas na lama + por um antigo juiz das almas de Campanhan + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: November 15, 2007 [EBook #23486] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FOLHAS CAHIDAS, APANHADAS NA LAMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + +FOLHAS CAHIDAS, + +APANHADAS NA LAMA, + +POR + +UM ANTIGO JUIZ DAS ALMAS DE CAMPANHAN, + +E + +SÓCIO ACTUAL DA ASSEMBLEA PORTUENSE, + +COM EXERCICIO NO _Palheiro_. + + +_OBRA DE QUATRO VINTENS_, + +E DE MUITA INSTRUCÇÃO, + + +PORTO: + +TYPOGRAPHIA DE F. G. DA FONSECA, + +_Rua das Hortas n.º 152 e 153._ + +1854. + + + + +EU. + + +Saibam todos quantos virem +Este publico instrumento, +Que surgiu mais um poeta +Nos aloques do talento. +Não pertenço á mocidade, +Que fechou sem caridade +Da velhice a pobre tumba. +Não sei palavras d'estouro, +Nem descanto em lyra d'ouro: +Minha lyra é um zabumba. + +Eu, sou eu. Juiz das Almas, +Nos bons tempos, que lá vão, +Conheci que tinha uma +Como poucas almas são... +Campanhan! terra dos saveis! +Que doçuras inefaveis +Tens nos teus prados amenos! +Ai! Maria da Cancella!... +Cada vez que fallo n'ella, +Sou Petrarcha... em fralda, ao menos! + +Dai logar á catarata +D'uma lagrima que rola +Pelas faces, como orvalho +A aljofrar uma papôla, +Respeitai a desynth'ria +Desta enferma poesia, +Que resiste á Revalenta! +_Braz Tisana_, esse que diga, +Em que estado anda a barriga +Da Musa, nos seus outenta! + +Deixai que um velho recorde +Aureos sonhos infantis!.. +Campanhan, mansão das fadas +Onde estão tuas houris? +Ledas brisas que brincaveis +Entre as pestanas dos saveis, +Lindos saveis de coral! +Onde estaes, em que paues +Murmuraes, auras tafues, +Vosso hymno angelical! + +Raios palidos da lua +Alta noute, em ceo d'anil, +Já não são os que argentavam +Estes lagos de esmeril! +Nem é este o pulcro savel +Que me deu sorriso afavel +D'entre os verdes salgueiraes! +Nem aqui meu peito anceia +Os carinhos da lampreia +(E outras asneiras que taes). + +Quando eu era o mago enlevo +Das fadas de Campanhan, +Apanhava a borboleta, +Que doudejava louçan. +E, por tardes d'almo estio, +Lá nas margens do meu rio +Vi delicias de encantar.... +--Pyrilampos, suspirando, +Qual Camoens suspira arfando +Os estos do seu penar. + +Ai! trovas da minha aldeia, +Que saudades me doeis! +Doçuras da minha vida, +Quando eu cantava os reis! +Viola d'Antonio Pinto, +Onde estás, que inda cá sinto +O gemer dos teus bordoens! +Minhas chinelas côr d'ovo, +E meu par de sócos novo, +Tão rico d'inspiraçoens! + +Lá vai tudo! E minha alma +Erma, esteril, sinto aqui.... +Como o lyrio enruga o calix +A fronte calva pendi! +Poeta da lyra amarga, +Vérgo ao peso desta carga +De descrença e maldição! +Lacerado em meu orgulho, +Quero o sangue, o serrabulho +Desta infame geração! + +E, depois que a minha lousa +Parta d'um raio a centelha, +Hão-de ouvir ranger meus ossos +Como carruagem velha. +E a mortalha ensanguentada +Como a tunica manchada +Do Cesar de Campanhan, +Ha-de ser mostrada ao povo, +Ha-de ouvir-se um grito novo +Nas praias do Gengis-kan! + + + + +AOS BAROENS. + + +Amigos! sinceridade! +Não sejamos todos tolos; +Deixai vêr os vossos rôlos + De brasoens. +Ninguem disse ainda ao certo +Onde vão, donde vieram + Os baroens. + +Dizem velhos alfarrabios +Que os baroens da idade d'ouro +Davam tapona de mouro, + Fanfarroens! +Nesse tempo eram _crusados_, +Hoje fogem dos _cruseiros_, + Os baroens. + +Os de então na Palestina +Eram rijos e potentes; +Mas os d'hoje são valentes + Nos certoens. +Quem domina as vastas tribus +Dessas plagas africanas? + Os baroens. + +Quem envia, mar em fora, +As esquadras dos _Trajanos_, +D'archejantes e ufanos + Galeoens? +Quem envia _Guerra_ aos barbaros, +E lhe algema os pulsos livres? + Os baroens. + + +Digam lá o que disserem +Contra os _crusados_ da moda, +Sois os grandes deste reino, +Meus baroens!.. sabeil-a toda! + +«Carne humana!! escravaria!!! +Crime atroz!!!!» são palavroens. +Chia a imprensa? ha-de calar-se... +Sabeil-a toda, baroens! + +Vossos pais quando vieram +De Figueiró para aqui, +Quem diria... vendo vil-os +Como eu chegal-os vi!.. + +Era assim: via-se um mono +De jaqueta de cotim, +E calças de estopa grossa +E pernas côr do carmim. + +Trazia sócos ferrados, +Em que pés!.. Deus nos accuda!.. +Lenço vermelho amarrado +Na cabeça ponteaguda. + +Vosso avô vinha com elle, +E gemia derreado +Sob um saco de batatas +Do patrão mimo adorado. + +Vossa avó, de pé descalço, +Traz canastra com toucinho, +Pão de broa corpulenta, +Borracha de verde vinho. + +Inda hontem eu vi isto!.. +E vossês sus patuscoens, +Devem espantar-se comigo +De serem hoje baroens! + +Querem de graça um conselho? +Não fallem, que faz tristeza, +Vêr o raso da toleima +A que desceu a nobreza! + +Burros ficam sempre burros, +Embora tragam selim, +Cravado de diamantes +E estofado de setim. + +O brilhar dessas commendas +Não vos muda a condição. +O instincto vos arrasta +Para o covado e balcão. + + + + +HYMNO + +AO HECKER SALOIO. + + +Senhor Fontes Pereira de Mello, +Que sois Pitt, e _pitada_ tambem, +Já que tudo metteis n'um chinelo +A cantar-vos a banza aqui vem! + + Senhor Fontes! Sois de Lysia + O que ninguem inda foi! + Quem dissera que tão perto + D'um Sangrado existe um heroi! + +Longo tempo o cultor da batata, +Senhor Pitt, por vós suspirou. +As abob'ras meninas murcharam, +E a mesquinha cebola grelou! + + Mas creaste um ministerio + D'agricultura, ó portento! + Era um gosto vêr o grêlo + Sob o imperio do Fomento! + +E o repôlho, a cinôra, o coentro +Espontaneos brotavam nos montes; +E nas folhas da côve tronxuda +Viu-se escripto: «Gloria ao Sôr Fontes!» + + Senhor Fontes! vosso nome + Pelas hortas se dilata! + Como o Cesar é na _Fabia_, + Sois salvador da batata! + +Carangueijos os lusos viviam +Desterrados n'um solo infeliz!.. +E, comvosco, quebrar inda esperam +Nos caminhos de ferro o nariz. + + Senhor Fontes! este povo + Vossa gloria proclama, + Quando viaja enterrado + Té ao pescoço na lama. + +Era triste esse tempo d'outr'ora +Em que um homem quebrava um quadril, +Nessas quinas d'estrada de pedra +Onde agora fumega um carril! + + Á vista disto, Sôr Fontes, + (Á parte censuras tolas) + O paiz quer-vos na fronte + Uma restea de cebolas. + +Quando o Porto vos deu quatro patos, +E de forno o arroz competente, +Quiz mostrar-vos que a gloria é um sonho, +Quando o ventre não anda contente. + + E comestes, senhor Fontes, + E fizestes muito bem; + Colbert, Necker, e Pitt + Comiam patos tambem. + +Quem nas polkas mostrou mais donaire? +Quem nas walsas mais quebra a cintura? +Quem melhor joga a tibia flexivel? +Quem compete comvosco em tesura? + + Senhor Fontes, dous instinctos + A natura em vós relata; + A não serdes o Fomento, + Devieis ser acrobata. + +_Beatus venter qui te portavit,_ +Diz a patria na sua expansão! +Desde o Vistula ao Douro retumbam +Algazarras de rouca ovação! + + Gloria, gloria ao rasgado + Fomentador immortal! + Modelo dos bons bigodes, + Permanente carnaval! + + + + +O DROPP. + + +Aranha de pau de pinho +Caranguejola, que és? +És o dropp; ora o dropp, +É uma cousa (diz Pop) +Sem ter cabeça nem pés. + +Visto isso; temos dropp; +Ninguem tenha á barra medo. +A asneira não é tão calva; +A gente sempre se salva; +De que modo? isso é segredo, + +Os praguentos já resmungam +Contra aquelle immenso trem; +Dizem que é força acabar, +Não só nas furias do mar +Mas nas do dropp tambem. + +Este dropp é um segredo, +As finanças um mysterio. +Vêdes n'aquella gaiola, +Uma parva cabriola, +Imagem do ministerio? + +Navegantes! acautelem-se! +Em posição desastrada +Empreguem maior cuidado +Que lhe não venha ao costado +Uma tremenda caibrada. + +Aquelles paus são synistros +Como o cavallo de Troya; +Tudo aquillo é muito serio; +Tem não sei que de funereo +Dos carroçoens do Lagoia! + +Tanta tabua consummida +Nessa funeraria asneira!.. +Não 'stava ahi um sujeito +Com tanto dropp já feito, +Manoel José d'Oliveira? + +_Economia_! sarcasmo +Deste ministerio-dropp, +Que cravou no calcanhar +A espora que faz andar +As finanças a galope! + +Sou de voto que se dê +Ao dropp um uso real: +--Seja a estufa, com recatos, +P'ra guardar os cinco catos +Do ministerio actual. + + + + +O SEU A SEU DONO. + + +A Cesar o que é de Cesar, +Aos velhos o que é dos velhos! +Quem da crytica se encarga, +Deve andar estrada larga +E não metter-se por quelhos. + +Sou assim! E mais sou velho +Mas a verdade é tambem, +Custe embora a quem custar, +A verdade hei-de-a fallar +Seja em mal, ou seja em bem. + +Epaminondas Tebano, +A _Concordia_ e o _Nacional_, +Nem a rir disseram petas: +Eu tambem como as gazetas, +Sou da honra o pedestal. + +Não consinto que se diga, +Que só lavra a corrupção +Nas entranhas dos mancebos. +Eu conheço muitos gebos +Corruptos de profissão + +Quem quizer venha ao _Palheiro_ +Desta nossa Assemblea, +Ha-de vêr linguas farpadas +Em bocas já desdentadas +Maculando a honra alheia. + +Ha-de vêr velhos devassos +Como em lubrica orgia, +Já vergados nas cernelhas, +Memorando infamias velhas +Com satanica alegria. + +Ha-de vêr o extincto frade, +C'o a bochecha rubra e gorda, +Acerando o epygramma, +Nem se quer poupando a _ama_, +Que lhe faz em casa a sôrda. + +Ha-de vêr o millionario +Brazileiro, com mil tretas, +A contar, com sujas cores, +As lendas dos seus amores +Com as _suas_ trinta pretas. + +Estes taes são os que infamam +A mocidade infeliz! +São estes em cuja tez +O oleo da estupidez +É da vergonha o verniz. + +A mocidade não pode +Vencêl-os, não pode, não! +Dominam, são respeitados, +Representam vinculados +Os tempos da corrucção. + +Nascidos, quando por terra +Os homens lançaram Deus; +Tem só fé no sensualismo, +E escarnecem com cynismo, +As crenças filhas dos ceus. + +Gangrenado o corpo e alma, +Sem saber, e sem piedade, +São authomatos de barro, +Que resistem ao catharro +Pr'a vexar a humanidade. + +Onde existe a virgem pobre, +Que de maguas vive cheia, +Lá vai ter uma mensagem +Da senil libertinagem, +Que o pudor lhe regateia. + +Perguntai nesses alcouces +De miseria e compaixão, +Quantas victimas da fome +A deshonra ahi consomme, +E de quem victimas são. + +Heis d'ouvir factos nojentos +Destes velhos que se arrastam +Sobre a lama das torpezas, +Das luxurias e villezas +Em que, cynicos, repastam. + +Velho sou, bem alto o disse; +Mas deshonro-me de ser +Desta geração de velhos, +Em que os moços tem espelhos +Onde infamias possam ver! + +Mocidade generosa! +Os teus crimes, tem nobreza; +Quando falla a consciencia, +Nem negaes a Providencia, +Nem manchaes a natureza. + +Elles não; sempre atufados +Em nojentos tremedaes, +Crêem só no seu dinheiro, +No cavaco do _palheiro_, +Na barriga, e nada mais. + +A Cesar o que é de Cesar, +Aos velhos o que é dos velhos! +Quem da crytica se encarga, +Deve andar estrada larga, +E não metter-se por quelhos. + + + + +CONTO MORAL. + + +Um _attaché_, que vivera +Em Pariz uns quatro mezes, +Voltando á patria mesquinha, +Não roubou nem palavrinha +Aos seus amigos francezes. + +Quando entrou nos patrios lares, +Já não era o mesmo filho; +Sua mãe dobando estava, +E o _attaché_ perguntava +Que nome tinha o sarilho? + +Desceu á loja onde estava +O honrado pai ao balcão. +E mal dera ainda um passo, +Quando viu que estava um engaço +Estendido alli no chão. + +Ora, o engaço tinha uns dentes, +Onde o tolo põe um pé, +Quando ao pai enthusiasmado, +Perguntou todo anafado: +_Este engarilho que é?_ + +Vai o cabo levantou-se, +Que assim era de suppor; +Vem direito ao infeliz +Quebra a ponta do nariz, +Do futuro embaixador! + + +MORAL. + +Não venham fazer-se finos +Á patria os _attachés_, +Quem vai tolo tolo volta, +Inda que traga uma escolta +De anedoctas dos _Cafés_. + + + + +EPYSTOLA + +AO EXCM.^o VISCONDE DE ATHOGUIA EM DUAS VIDAS; MINISTRO DA MARINHA DOS +TRES BRIGUES, E DOS NEGOCIOS ESTRANGEIROS... AO SENSO COMMUM. + + +Illustre paspalhão, pasmo dos orbes, +Nata da estupidez, alcool dos parvos, +De Campanhan o bardo te sauda! + +Eu nunca fui sentar-me á tua porta, +Mendigando mercês; nunca os meus cantos, +Fedendo ao macassar da vil lisonja, +As nedeas ventas incensar te foram! +É livre a minha voz: creiam-me os povos! +Nobre feudo pagar aos grandes parvos +É do bardo a missão. A minha é esta. + +Ha muito que eu de ti pasmado andava, +Contando á minha Antonia, e aos pequenos, +O nome que no peito escripto tinha. +Em casa do Francisco da Thomasia +Os teus discursos li, Visconde incrivel! +N'aquellas chatas caras que me ouviam, +Vi faiscas saltar de enthusiasmo. + +Bebêmos-te á saude, a rego cheio! +E, no excesso do goso, os teus amigos +Não podiam lamber-se... eram uns cachos! + +Tu, mais novo que o neto, ousado Gorgias, +Ha pouco trituraste os cabralistas +No rijo almofariz do craneo ôco. +Salvaste Roma, ó ganço!.. se não grasnas +Piravam-se os taes páos[1] e a Lusitania, +Viuva dos seus páos, ia-se á mingua! +És o Curcio das lonas, que remiste[2] + +Do jogo infame da Albion perversa +A patria dos Affonsos e Affonsinhos! +A divida fatal, chamada externa, +Saldaste-a c'o producto dessas chapas, +Em que fica chapada a crassa asneira, +Eterna viscondessa d'Athoguia! + +Do _Conde de Thomar_ se intitulava +O patacho fatal, terror dos povos! +Fulminaste o patacho! A Europa accesa, +Pedira-te energia audaciosa. +Passaste heroica esponja sobre o nome, +E fizeste callar a voz da Europa! + +Ó Jervis! tu nem sabes quanto vales! +Que o diga Campanhan, Valbom, S. Cosme, +Onde eu pude chegar, e a minha Antonia. + +A machado e eixó, de páo castanho, +Um busto construí: era o teu busto. +Teu nome eternisei, nome que teve +Um _u_, maldito _u_, que tantas febres +Na mente escandecida te abrazára! + +Não sei se diga mais, palavra d'honra! +Com esta não te enfado mais, visconde. +Não desdenhes vaidoso a offerta humilde, +Que mesquinho reptil aos pés te arrasta. +Recebe dusia e meia de lampreias, +Cosinhadas por mim; são de escabeche... +A proposito, amigo, ha quanto tempo +Conservas de escabeche a intelligencia? + +[1] S. exc.^a mandou vender os páos, porque deu na melgueira d'uns +empregados, que os regeneravam á surelfa, com grave detrimento da +marinha portugueza. + +[2] S. exc.^a vendeu umas lonas, cujo producto fez subir os fundos em +Londres, e permittiu a construcção de trinta navios de guerra, com que +s. exc.^a espera «sulcar as salsas ondas d'Amphitrite,» segundo a +gravissima opinião do snr. J. M. Grande. + + + + +O MINISTRO E O JORNALISTA. + +(_Dealogo_). + + +MINISTRO + +Eu vim chamado ao leito desta patria +Matava-a a corrupção, e eu salvei-a! +Se prostrada jazia, ou talvez morta, +Qual Lazaro da campa, alevantei-a! + +JORNALISTA + +De certo levantou Vossa Excellencia! +Que brade embora a vil opposição... +Esquálidos vestigios de gangrena +Bem profundos deixou a corrupção. + +MINISTRO + +Se crê nessas doutrinas luminosas, +E quer ser prestadio a Portugal, +Acceite a empreza honrosa, augusta, e nobre, +D'expol-as, sustental-as n'um jornal. + +JORNALISTA + +Empreza honrosa é; della me ufano! +Irei apostolar o credo novo; +Direi ás multidoens verdades francas, +Será o meu jornal jornal do povo. + +MINISTRO + +Bem sei que da defeza é árdua a luta... +Odeia-me, sem causa, esta nação... +Embora! na grandeza dos serviços +Compete ao defensor môr galardão. + +JORNALISTA + +Bem sei quantas calumnias forja a intriga... +Já dellas foi manchado o grande Decio. +Quizeram macular Vossa Excellencia +Chamando-lhe espião, rival de _Mecio_! + +MINISTRO + +(_Commovido, e esfregando os olhos com cebola_). + +Bemdito seja Deus! só elle sabe +As nobres intençoens de tal acção! +Por honra, por nobreza, e por caracter, +De certo fui, meu caro, um espião! + +JORNALISTA + +Não é lá grande feito de virtude; +Mas cumpre que eu me saiba haver na luta. +Convém negar o facto, ou confirmal-o? +Bem sabe que é de crêr haja disputa. + +MINISTRO + +(_Limpando os oculos_). + +Eu lhe digo, senhor, a patria exige +Medidas uteis, providencias, factos. +Accusaçoens banaes, não lhes responda; +A pedra é livre em mãos desses _gaiatos_. + +JORNALISTA + +Pois bem! sou desse voto, ei-de julgal-as; +Accusaçoens banaes, pretr'idas, nullas; +Mas dado o caso infausto de citarem +Não sei que transacçoens com certas bullas? + +MINISTRO + +(_Enternecido_). + +Responda-lhe que eu fui proscripto, errante... +E quando ao ninho caro alfim tornei, +Não só não tinha um pinto pr'a despezas, +Mas nem a livraria, em casa achei. + +JORNALISTA + +Pois bem, triumphará Vossa Excellencia... +Agora, se lhe apraz... sim... cada qual +Emprega neste mundo, como pode, +O seu... ou pouco ou muito cabedal... + +MINISTRO + +Intendo... quer dizer que não dispensa +Além do beneficio, uma pensão... +É justa, a quem trabalha a recompensa... +Quer cincoenta mil reis? pagos, serão. + +_Cinco mezes depois._ + +JORNALISTA + +(_Escrevendo_). + +Senhor ministro, eu não posso +Este jornal sustentar +Tenho esp'rado, em vão tres mezes, +Não me acabam de pagar. + +Vossa Excellencia me disse, +A vinte e tres de Janeiro, +Que no Governo Civil +Recebesse o meu dinheiro, + +Nem um chavo! e os assignantes +Abandonam-me o jornal, +Porque defendo um governo +Vergonha de Portugal. + +Se não manda, quanto antes, +Senhor ministro, as mesadas, +Com pesar vou abraçar-me +Ás outras crenças passadas. + +MINISTRO + +(_Só_). + +Á vista disto, não ha mais fugir-lhe... +Pouco me serve... mas é pobre moço!.. +Fazem-me pena quando assim os vejo... +Não ha remedio senão dar-lhe um osso. + + + + +A D. EUSEBIA DA ASSUMPÇÃO, + +ALMA DE VACA. + + +Noitebó que esvoaçaste +No meu ceo d'alva illusão; +E na chaminé pousaste +Deste ardente coração; +Que mal te fiz, pulga d'alma, +Que mordes, sem compaixão? + +Dona Eusebia, gança amada, +Que picaste a minha flor, +Tão do intimo orvalhada +Pelos prantos desta dôr, +Dona Eusebia não me piques +Esta alcachofra d'amor! + +Gata brava, não me bufes +Esta luz d'aspiração; +Por quem és, tu não me atufes +Dona Eusebia d'Assumpção, +Nos abysmos insondaveis +D'assanhada ingratidão! + +Tu chamaste-me pangaio, +Quando eu quiz um riso teu! +Fulminou-me um impio raio, +Minha aspiração morreu! +Ai! Natercia de chinelos, +Serei eu _pangaio?_ eu!! + +Tens no peito ingrata, um chato +Coração de melancia. +Tanto tempo fui teu gato, +Gato d'amor e poesia! +Dona Eusebia, alma de vaca, +Morras tu de hydropesia! + + + + +AS LITTERATAS. + + +Paes de familia, hybridos caturras, +Escrevo para vós! Se tendes filhas +Com sestro massador de fazer versos, +Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas! + +Eu vejo serigaitas, mal lavadas +Do almiscar infantil de seus cueiros, +Fazerem relaçoens _c'os raios pallidos,_ +_Da estrella matinal, do lago lympido,_ +_Das auras ciciantes, e da aragem,_ +E d'outras semelhantes trampolinas, +Que vós não entendeis, nem eu, nem ellas. + +Espevitam-se todas estas gaitas +Da musa melancolica das noutes. +Mal sabem onde tem a mão direita, +Não viram do nariz um palmo adiante, +E fallam de _paixoens intimas d'alma,_ +_De crenças desbotadas, e de flores_ +_Fanadas ao soprar da leda infancia._ + +Acaso comprehendeis, paes de familia, +Da nova geração destas piegas +A triste chiadeira que nos fazem? +Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas! + +Não tendes uns fundilhos nas cilouras? +Não tendes roto o calcanhar da piuga? +Não tendes uma estriga, um fuso, e roca? +Mandai-as trabalhar; dai-lhe a sciencia +Precisa para o rol da roupa suja. +Se lhe virdes romance, ou essas cousas +Chamadas folhetins, sobre a _toilette_, +(A _toilette_, meu Deus! por causa d'ellas +Perverteu-se a dicção do nosso Barros!) +Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas! + +Quem é o parvo que espozar-se queira +Com litterata alambicada e chocha? +Sentada n'um sophá, sapho saloia, +Em languida postura requebrada, +Se eu visse a minha Antonia! ai que panasio, +Que revez de careca eu lhe pregava! + +Paes de familia! não achaes bem triste +Entrar um cidadão em sua casa, +Cansado de lavrar o pão da vida, +E vêr sua mulher repotreada +Na othomana gentil, lendo romances? +Pobre marido quer fallar d'uns frangos +Que baratos comprou, e a litterata +Pergunta-lhe se leu _Kossuth e os hungaros_! +O parvo franze a testa aborrecido, +Procura entre os lençoes um refrigerio; +Mas, no excesso da dôr, rasga as cilouras, +E no mundo não tem mulher ou anjo +Que lh'as saiba coser!.. ai do mesquinho! + +Onze horas já são. O bom do homem +Tres vezes já pediu café com leite, +Apertam-no negocios; mas em balde +Pediu com desespero o tardo almoço. + +A litterata esposa inda ressona, +Pois vira despontar a estrella d'alva +Nos rubros arreboes dos horisontes, +E, inspirada, fizera quatro quadras, +Ardentes de ideal romantecismo. + +«Café com leite!» brada em vão tres vezes, +O bode expiatorio dos romances... +«Café com leite» os eccos lhe respondem, +Que a Stael d'agua doce inda ressona! + +Maridos imbecis! eu vos lamento! +A culpa não foi vossa! Aos pais a imputo. + +Madame Podestá dizem que ensina +Grammatica, rethorica, hidraulica, +Mecanica, gymnastica, estetica, +E chymica, e botanica, e plastica, +O arabe, o sanskrit, a geographia, +A prosodia, a syntaxe, industria e canones, +E muitas cousas mais, como th'rapeutica. + +Será tudo mui bom; mas eu aposto +Que o remate de tantas luzes juntas +É capaz de fazer perfeitas tolas +As muitas que lá vão com seu Juizo! +Paes de familia! tendes filhas d'estas? +Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas! + +Um pai eu conheci, que nunca soube +O seu nome escrever sem quatro asneiras, +E mandou ensinar francez á filha. +A filha conseguiu, passados annos, +Uma cousa fallar mui duvidosa +Que os francezes, talvez, diriam tartaro! +Mas seria francez, o caso é este: + +Um dia estava o pai, e ella, e um outro +Janota almiscarado, conversando. +De improviso a menina a lingua solta +Em barbaros grasnidos que atarantam +A cabeça do velho. O «petimetre» +Responde em algarvia semelhante. +O pai, no centro delles, era um parvo +Gemendo sob o peso do ridiculo... +Mas lá vai o peor do caso infausto! +Ao dar da meia noute desse dia +Cumpria-se a promessa contratada +Na presença d'um pai, que bem podera +Embargos de terceiro inda intentar +Se fosse em portuguez organisada +A injusta petição do supplicante. + +Pais de familia, vossas filhas fallam +Italiano, francez, gallego, ou turco? +Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas. + + + + +_UM JANTAR DE BAROENS._ + + +INVOCAÇÃO. + +Musa da sopa e do cosido, inspira-me! +Pandega musa, que sorris ao vate +Em môlho d'açafrão, e de tomate, +Um cego adorador... achaste em mim. +Transforma o estro meu em lombo assado, +Da minha inspiração faz um podim. + +Tu filha dos baroens, musa do unto, +Nasceste na cosinha entre caçôlas; +Saudaram-te no berço alhos, cebôlas, +Do cominho tiveste uma ovação. +Depois, trajando gallas de toucinho, +Eu vi-te nas bochechas d'um barão. + +Namorado de ti, fiz-te meiguices, +Por de traz d'um pirum, e tu de lá +Sorriste-me atravez da nedea pá +De vitella gentil, rica de arroz! +Ai! era!.. e nem eu sei se foi mais linda +Aquella gorda pata... que te poz! + +Tu fizeste de mim novo Claudio, +Inspiraste-me fé no rodavalho. +Traguei indigestoens, arrotos d'alho, +_Bernardas_ na barriga supportei. +Tomei chá de marcella... e, em premio d'isto. +O teu auxilio, ó musa, não terei?! + + +I + +Dentro e fóra illuminado +O palacio d'um barão, +Fulgurante representa +Um enorme lampião. +Jorram lympidas vidraças +Sobre as populosas praças +Ondas tremulas de luzes. +Vai lá dentro grande goso, +Nesse alcaçar radioso +Do barão dos Alcatruzes. + +D'Alcatruzes é chamado, +Porque, sendo ainda moço, +Muitos baldes d'agua fresca +Dizem que tirou d'um poço. +Nenhum outro mais destreza +Revellou na ardua empreza. +De puchar acima um balde. +Um que seja tão robusto +Ha-de vir mui tarde e a custo, +Do concelho de Ramalde. + +É barão; não vale a pena +Discutir-lhe os nobres feitos. +É barão dos Alcatruzes +Já tem pagos os direitos. +Inda é mais; pois além d'isto +É commendador de Christo +Com bastante indiscripção. +Mal diria Christo outr'ora, +Que seria posto agora +No peito d'um vendilhão! + +E mais elle, que os tocava +Com terrivel azorrague!.. +Mas os Judas vendem Christo, +Ponto é haver quem pague. +E o barão dos Alcatruzes +Neste seculo das luzes +Tambem fez de farizeu: +E, tambem, se é necessario, +Representa de Calvario, +Onde a cruz se suspendeu. + + +II. + +N'um salão vasto, opulento, +Um banquete se vai dar; +Nos christaes reflecte o ouro, +A fulgir, a scintillar. +Os rubis, e a côr da opala +Transfiguram esta sala +Em olympicas mansoens. +Mas a alma cae por terra, +Quando vê que alli se encerra +Duzia e meia de baroens. + +Da terrina a caudal sopa +Em silencio é devorada. +Só então fingiram d'homens, +Porque não disseram nada. +Mas venceu a natureza! +Um barão por sobre a mesa +Estendendo o prato, diz: +«Ó compadre! isto é qu'é bô! +Venha sopa, e acabô! +Cá de mim, torno á matriz!» + +O barão de Cogumelos +Junto estando á baroneza, +Que se diz dos Sacatrapos, +Quiz fazer-lhe uma fineza. +Arrastou p'ra junto d'ella +Um pirum, e a cabidela +No prato lhe despejou. +E lhe diz: «cá isto é nosso; +Cousa que não tenha osso +É p'ró estamago, e arrimou!» + +Outro diz á gorda esposa, +Que bem perto de si tem: +«Bai-lhe bebendo po'riba, +Ó mulher, come-lhe bem!» +Este pede ao seu visinho: +«Que lh'atice bem no binho +Qu'é da belha companhia.» +Diz aquelle ao seu fronteiro: +«Que lhe chegue um frango inteiro +E biba a sancta alegria!» + + +III. + +As saudes já começam. +É um gosto agora vêl-os. +Estas caras representam +Tomates de cotovêlos. +E, a travez do escarlate +Do legitimo tomate, +Transsuda um oleo que brilha, +Cada qual tem as orelhas +Encarniçadas, vermelhas +Como as azas d'uma bilha. + +Pega no copo, e exclama +O barão das Pimpinelas: +«Vito serio! um home fala +Sem preamblos nem aquellas! +Á saude e alegria +Desta bella companhia +E com toda a estifação! +P'ra que todos cá binhamos +Estifeitos como bamos +De casa do sôr barão!» + +E os hurras retumbaram +Pela sala do festim. +Balthazar nos seus banquetes +Não ouviu gritar assim! +Sobre a mesa deram murros, +Saudaram com grandes urros +O barão dos Alcatruzes; +Mas alguns com magua sua, +Já cuidavam ver a lua, +Não podendo vêr as luzes. + +Mas, entre elles, um existe, +Litterato em seu conceito. +A palavra pede, e reina +Um silencio de respeito. +Elle diz: «Risonhas gallas +Que refrangem n'estas salas +Repercutem, symbolisam +Acrimónias insoluveis, +Nos acrósticos voluveis +D'epopeas que eternisam. +Pandemonios exhauriveis +D'indeleveis congruencias. +Requintados se escurecem +Nos imporios das sciencias +E liberrimos se escudam +Nas façanhas que transsudam +Em fantasiosas luzes. +E, por tanto, a mais alludo, +Quando, fervido, saudo +O barão dos Alcatruzes!» + +Succedeu o grito ao pasmo! +Nunca se viu cousa assim! +O orador foi abraçado +Com furor, com frenezim! +«Isto é qu'é!» dizia um, +Convertido em rubro atum, +Betarraba até não mais. +«Viva Cissro!» outro dizia, +Despejando a malvazia, +Com grasnidos infernaes. + + +IV. + +E a pandega findou. Mas alta noute, +Disseram-nos fieis informaçoens; +Que grande movimento ouve de tripas, +E grande salto deram as torneiras +Das pipas convertidas em baroens +Ou antes dos baroens tornados pipas. + + + + +ELOGIO FUNEBRE + +_A uma dama, prodigio de fecundidade, que dá á luz tres romances, por +semana, nos jornaes do Porto._ + + +Atafona de romances, +És um carril a vapor! +Romantisas quanto achas, +E nos folhetins encaixas +Com satanico furor. + +Cornocopia da toleima! +Nós fizemos-te algum mal? +Tu não sabes, escriptora, +Como zombam lá por fóra +Das lettras de Portugal? + +Não lucrara mais a patria, +E lucráras tu tambem, +Se fiasses n'uma roca. +Com primor, a massaroca, +Que desprezas, com desdem? + +Não te fôra mais airoso +Bispontar bem uns fundilhos +Para em tempo competente +Um remendo pôr decente +Nas cuecas de teus filhos? + +Mal tu sabes que sciencia +Tem da meia o calcanhar! +Talvez penses que o romance +É mister de mais alcance +Que nas meias pontos dar!.. + +Eu por mim antes quizera +Nunca ter lido Camoens, +Nem romances d'uma tola, +Que vestir rôta a ciroula, +Ou camisa sem botoens. + +Accredito seja um dia +A mulher emancipada; +Ha-de então ser regedora, +Escrivan, e contadora, +Eleitora, e deputada. + +Nesse tempo, se existisses, +Tendo em vista essa pericia +Com que ostentas teu saber, +Que logar podias ter? +Eras cabo de policia. + +Tenho pena, quando penso +Que serás formosa e meiga, +E encontro os teus escriptos +Nos embrulhos dos palitos +Do toucinho, e da manteiga! + +Faz-me dó, pois tu bem podes +Bordar lenços de cambraia +Com bonito _petit-point_; +E, não sendo aqui ninguem, +Podes, ser tudo na Maia. + + + + +EPISTOLA + + +AO VISCONDE DE QUEBRANTOENS. + +Instrumento do ceo, desceste ao Porto, +Corajoso mancebo, que desandas +Nos borlistas fataes sopapo ingente! + +Oppresso longo tempo, ahi gemera +Nas entalas crueis d'um camarote +O misero assignante! Amargo calix +Em silencio tragava, ouvindo os passos +Do acerbo massador, impio borlista! +As notas de Rossini eram-lhe espinhos, +As fusas de Bellini eram-lhe fusos +Que o intimo das visceras lhe espetam! +E os duetos em _fá_ do Machbet +Eram-lhe cantos de raivosas górgonas! + +O ferro fez-lhe vêr visoens do inferno! +A propria Jeny-Lind se cantasse, +Nesse palco, talvez, aos olhos d'elle +Não fosse mais gentil, que a _Cholera-morbus_[3] +É que a larva immortal do pesadello, +A sombra do borlista ergue-se impavida, +Synistra, nos umbraes do camarote! + +Derreado e servil no corpo e alma, +Arrasta-se o borlista em cortesias, +Gagueja cumprimentos requentados, +Recebe em cada noute affrontas novas, +E, cynico, sorri, graceja sempre! + +Mas cerram-se ao borlista os horisontes, +Apenas surges tu, Pedro-Eremita, +E aos povos um pregão de guerra envias! +De toda a parte bellicosa ferve +Raivosa indignação contra os _Bernardos_.[4] +Aqui batata pôdre o povo ajunta, +Além prendem-se em páos bexigas tumidas, +E cebola grelada em grande escala +De Freixo de Numão o Porto importa. + +Se no livro fatal d'altos destinos +Proscripta a extincção foi do borlista +Da borla a abolição a ti se deve, +De ti, visconde emana o nobre impulso! + +Em nome dos sensiveis assignantes, +Recebe o galardão que o Porto envia +Ao caro filho seu que a patria salva +Do typho mais cruel--_typho-borlista!_ + +[3] É uma cegonha, cousa duvidosa entre a forôa, e a giboia, que canta +entre as coristas. + +[4] Quem não conhece o sr. Bernardo, digno Achiles do _Barriense_? + + + + +IMPRESSOENS + +D'UM PASSEIO, NO _JARDIM DE S. LAZARO_. + + +Que delicias não encerra +Esta bem fadada terra +N'um domingo, em mez d'Abril! +Nem eu sei se a natureza +Deu mais pompas a Veneza, +Que no mar reina gentil. + +Não na ha terra mais linda +Nem sonhal-a eu pude ainda +Nos meus sonhos da manhan. +Uma só os dons lhe abate, +És só tu, patria do vate, +Donairosa Campanhan! + +Mas, aqui, terra das auras, +Espontaneas brotam Lauras +Por entre sacas d'arroz. +E, quaes ferteis cogomelos, +Nascem Dantes de chinelos, +E Petrarcas d'albornoz. + +Tudo vai do ceo formoso, +Que derrama ondas de goso +Nestas almas d'alfinim. +Ouem não viu anjos de saia, +Serafins d'alva cambraia +No fantastico _jardim_? + +Inda, ha pouco, eu vi delicias +Invejei doces caricias, +Que lá vi... oxalá não! +Entre tantas a mais bella, +A rainha... ai! era ella... +D. Eusebia d'Assumpção! + +Ella sempre!.. espectro! larva +Por quem fiz esta alma parva, +Por quem dei cavaco até! +E tão linda!.. impia cegonha, +Tão folhuda!.. era uma fronha, +Um travesseiro de pé! + +E, tão tolo, eu quiz fallar-lhe +Quiz mysterios revelar-lhe +Deste amor, desta agonia; +Quiz dizer-lhe em voz terrivel, +Com rancor inconcebivel: +«Passou bem? que bello dia!» + +Não me ouviu, virou-me a cara, +E eu jurei vingança avara, +E a vingança... oh! eide-a ter! +Não te rias, lagarticha, +Eide atirar-te uma bicha, +Eide vêr-te a fralda a arder. + +Feito o horrivel juramento, +N'aquelle acerbo momento +Dona Eusebia me esqueceu!.. +Procurei entre outras flores +Nova fé, novos amores... +Poderia achal-os eu? + +Dona Eustaquia era formosa, +Tinha os dentes côr de rosa, +Meigos olhos de marfim; +Tinha o collo verde-gaio, +Lindos braços cor de paio, +Lindas mãos de marroquim. + +Mas Eustaquia não podia, +Conceber-me esta poesia, +Que me escalda o coração! +Ao pé d'ella estava um grulha, +Um rival, um gêta, um pulha, +Um palerma, um pelitrão. + +A pretexto de meiguices, +Vomitorio de sandices +Era o tal... que eu não direi... +O que eu fiz foi pôr-me ao largo, +Pois luctar é sempre amargo +Contra um estupido de lei. + +Outra vi; julguei-a vaga; +Era Dona Saramaga, +D'olhos garços de matar. +De cabello em grande rôlo, +Sua testa era um rebôlo, +Mas rebôlo de encantar! + +Esta sim: ouviu-me as fallas, +Conheceu que estava em tallas +Meu dorido coração. +Deu me affectos desvellados, +Deu-me quatro rebuçados +Com sensivel emoção! + +Perguntou-me se a Geordano +Ficaria para o anno, +Ou iria p'ra Pariz. +Respondi-lhe que a cantora, +Por em quanto, era senhora +Da garganta e do nariz. + +Dito isto (e não é pouco) +Retirei-me quasi louco +De paixão, que é de matar. +Mas palpita-me que um dia, +Consummida esta poesia, +Pés de burro eide apanhar! + + + + +P. S. + + +O auctor desta obra é uma pessoa honesta, que reconhece Deus no ceo, e o +ridiculo na terra. Não crê no representante de Deus entre os homens, por +que não quer ultrajar a divindade; mas confessa que o demonio tem um +representante em cada freguezia, sem attribuiçoens no codigo +administractivo, mas funccionario muito superior aos regedores e juizes +eleitos. O auctor accredita que o diabo não é tão feio como o pintam, e +reputa-o, nas suas elevadissimas intuiçoens, como um espirito que se ri +desentoadamente das muito parvas evoluçoens da humanidade. O auctor ousa +declarar-se commissionado provisoriamente desse espirito do sarcasmo, e +não poderá d'hora em diante irrogar injuria a quem lhe chamar «alma do +diabo.» Conscio da missão que lhe é delegada, o auctor intenta uma +publicação semanal, que será uma pagina que o Lucifer do seculo XX +receberá da mão do Lucifer do seculo XIX. A geração, que vai levantar-se +sobre os tumulos da geração que se esconde na grande valla d'uma epocha, +virá estudar a nossa biographia nessa obra que o auctor intenta. Quem +quizer assignar para ella fará um serviço aos seus netos. + + + + +PROSPECTO. + +UM BICO DE GAZ. + +JORNAL SEMANAL. + + +Assignatura por mez: 160 réis. O jornal é distribuido aos sabbados; e +assigna-se + +No Porto--em todas as lojas onde se vende este folheto; Lisboa, Coimbra, +Vizeu, Lamego, Vianna, e Braga. + +Admittem-se correspondencias que attinjam a missão rasgadamente +civilisadora deste jornal. É preciso que a luz da intelligencia humana +deixe de ser alimentada por azeite de purgueira. O espirito reclama um +bico de gaz. E o auctor tem a vaidade de reputar-se o Hislop do mundo +espiritual. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Folhas cahidas, apanhadas na lama, by +Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FOLHAS CAHIDAS, APANHADAS NA LAMA *** + +***** This file should be named 23486-8.txt or 23486-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/3/4/8/23486/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/23486-8.zip b/23486-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..d1a0b9b --- /dev/null +++ b/23486-8.zip diff --git a/23486-h.zip b/23486-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..2605234 --- /dev/null +++ b/23486-h.zip diff --git a/23486-h/23486-h.htm b/23486-h/23486-h.htm new file mode 100644 index 0000000..7a5a417 --- /dev/null +++ b/23486-h/23486-h.htm @@ -0,0 +1,1999 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> + +<head> + <title>Folhas cahidas, apanhadas na Lama</title> + <meta name="AUTHOR" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <style type="text/css"> + + body {width:480px; margin: auto;} + + h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center} + h1 {margin-top: 2em; } + h2 {margin-top: 2em; margin-bottom: 1em;} + h3 {font-variant: small-caps; margin-top: 2em;} + .centrado {text-align: center;} + .quote { + font-size: 0.8em; + margin-left: 60%; + margin-right: 5%;} + .ppagina {text-align:center; border: solid 1px #000000;} + .poesia {white-space:pre; text-align: left; margin-left: 5%;} + sup {font-size: 0.6em;} + .instruccoes_cena { + text-align: center; + } + .direita { + text-align: right; + margin-right: 5%; + } + a {text-decoration: none; border-bottom: dotted 1px #cccccc; color: #000000;} + hr { + border: 0; + border-bottom: 1px solid #000000; + } + th {font-variant: small-caps; font-weight: normal; text-align: left;} + .smallcaps {font-variant: small-caps} + .rodape { + text-align: justify; + margin: 1em; + font-size: 0.8em; + } + .bordeado{border-top: solid 1px #000000;border-bottom: solid 1px #000000;} + .texto_pequeno {font-size: 0.8em; text-align: center;} + .pagenum { + position: absolute; + left: 90%; + width: 5em; + font-size: 0.7em; + text-align: center; + color: #cccccc; + } + + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Folhas cahidas, apanhadas na lama, by +Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Folhas cahidas, apanhadas na lama + por um antigo juiz das almas de Campanhan + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: November 15, 2007 [EBook #23486] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FOLHAS CAHIDAS, APANHADAS NA LAMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<br> +<div class="ppagina"> +<span class='pagenum'>[1]</span> + +<p style="font-size: 2em;">FOLHAS CAHIDAS,</p> + +<p style="font-size: 2.2em;">APANHADAS NA LAMA,</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">UM ANTIGO JUIZ DAS ALMAS DE CAMPANHAN,</p> + +<p>E</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">SÓCIO ACTUAL DA ASSEMBLEA PORTUENSE,</p> + +<p>COM EXERCICIO NO <em>Palheiro</em>.</p> + +<hr style="width: 6em;"> + +<p style="font-size: 1.1em;"><em>OBRA DE QUATRO VINTENS</em>,</p> + +<p>E DE MUITA INSTRUCÇÃO,</p> +<br> +<hr style="width: 8em;"> +<br> +<p style="font-weight: bold;">PORTO:</p> + +<p>TYPOGRAPHIA DE F. G. DA FONSECA,</p> + +<p><em>Rua das Hortas n.º 152 e 153.</em></p> + +<hr style="width: 2em;"> + +<p>1854.</p> +</div> +<span class='pagenum'>[3]</span> + + + + +<h2>EU.</h2> + + +Saibam todos quantos virem<br> +Este publico instrumento,<br> +Que surgiu mais um poeta<br> +Nos aloques do talento.<br> +Não pertenço á mocidade,<br> +Que fechou sem caridade<br> +Da velhice a pobre tumba.<br> +Não sei palavras d'estouro,<br> +Nem descanto em lyra d'ouro:<br> +Minha lyra é um zabumba.<br> +<br> +Eu, sou eu. Juiz das Almas,<br> +Nos bons tempos, que lá vão,<br> +Conheci que tinha uma<br> +Como poucas almas são...<br> +Campanhan! terra dos saveis!<br> +<span class='pagenum'>[4]</span> +Que doçuras inefaveis<br> +Tens nos teus prados amenos!<br> +Ai! Maria da Cancella!...<br> +Cada vez que fallo n'ella,<br> +Sou Petrarcha... em fralda, ao menos!<br> +<br> +Dai logar á catarata<br> +D'uma lagrima que rola<br> +Pelas faces, como orvalho<br> +A aljofrar uma papôla,<br> +Respeitai a desynth'ria<br> +Desta enferma poesia,<br> +Que resiste á Revalenta!<br> +<em>Braz Tisana</em>, esse que diga,<br> +Em que estado anda a barriga<br> +Da Musa, nos seus outenta!<br> +<br> +Deixai que um velho recorde<br> +Aureos sonhos infantis!..<br> +Campanhan, mansão das fadas<br> +Onde estão tuas houris?<br> +Ledas brisas que brincaveis<br> +Entre as pestanas dos saveis,<br> +Lindos saveis de coral!<br> +Onde estaes, em que paues<br> +Murmuraes, auras tafues,<br> +Vosso hymno angelical!<br> +<span class='pagenum'>[5]</span> +<br> +Raios palidos da lua<br> +Alta noute, em ceo d'anil,<br> +Já não são os que argentavam<br> +Estes lagos de esmeril!<br> +Nem é este o pulcro savel<br> +Que me deu sorriso afavel<br> +D'entre os verdes salgueiraes!<br> +Nem aqui meu peito anceia<br> +Os carinhos da lampreia<br> +(E outras asneiras que taes).<br> +<br> +Quando eu era o mago enlevo<br> +Das fadas de Campanhan,<br> +Apanhava a borboleta,<br> +Que doudejava louçan.<br> +E, por tardes d'almo estio,<br> +Lá nas margens do meu rio<br> +Vi delicias de encantar....<br> +--Pyrilampos, suspirando,<br> +Qual Camoens suspira arfando<br> +Os estos do seu penar.<br> +<br> +Ai! trovas da minha aldeia,<br> +Que saudades me doeis!<br> +Doçuras da minha vida,<br> +Quando eu cantava os reis!<br> +Viola d'Antonio Pinto,<br> +<span class='pagenum'>[6]</span> +Onde estás, que inda cá sinto<br> +O gemer dos teus bordoens!<br> +Minhas chinelas côr d'ovo,<br> +E meu par de sócos novo,<br> +Tão rico d'inspiraçoens!<br> +<br> +Lá vai tudo! E minha alma<br> +Erma, esteril, sinto aqui....<br> +Como o lyrio enruga o calix<br> +A fronte calva pendi!<br> +Poeta da lyra amarga,<br> +Vérgo ao peso desta carga<br> +De descrença e maldição!<br> +Lacerado em meu orgulho,<br> +Quero o sangue, o serrabulho<br> +Desta infame geração!<br> +<br> +E, depois que a minha lousa<br> +Parta d'um raio a centelha,<br> +Hão-de ouvir ranger meus ossos<br> +Como carruagem velha.<br> +E a mortalha ensanguentada<br> +Como a tunica manchada<br> +Do Cesar de Campanhan,<br> +Ha-de ser mostrada ao povo,<br> +Ha-de ouvir-se um grito novo<br> +Nas praias do Gengis-kan!<br> +<span class='pagenum'>[7]</span> + + + + +<h2>AOS BAROENS.</h2> + + +Amigos! sinceridade!<br> +Não sejamos todos tolos;<br> +Deixai vêr os vossos rôlos<br> +<span style="margin-left: 8em"> De brasoens.</span><br> +Ninguem disse ainda ao certo<br> +Onde vão, donde vieram<br> +<span style="margin-left: 8em"> Os baroens.</span><br> +<br> +Dizem velhos alfarrabios<br> +Que os baroens da idade d'ouro<br> +Davam tapona de mouro,<br> +<span style="margin-left: 8em"> Fanfarroens!</span><br> +Nesse tempo eram <em>crusados</em>,<br> +Hoje fogem dos <em>cruseiros</em>,<br> +<span style="margin-left: 8em"> Os baroens.</span><br> +<br> +Os de então na Palestina<br> +Eram rijos e potentes;<br> +Mas os d'hoje são valentes<br> +<span style="margin-left: 8em"> Nos certoens.</span><br> +Quem domina as vastas tribus<br> +Dessas plagas africanas?<br> +<span style="margin-left: 8em"> Os baroens.</span><br> +<span class='pagenum'>[8]</span> +<br> +Quem envia, mar em fora,<br> +As esquadras dos <em>Trajanos</em>,<br> +D'archejantes e ufanos<br> +<span style="margin-left: 8em"> Galeoens?</span><br> +Quem envia <em>Guerra</em> aos barbaros,<br> +E lhe algema os pulsos livres?<br> +<span style="margin-left: 8em"> Os baroens.</span><br> + +<hr style="width: 5em;"> + +Digam lá o que disserem<br> +Contra os <em>crusados</em> da moda,<br> +Sois os grandes deste reino,<br> +Meus baroens!.. sabeil-a toda!<br> +<br> +«Carne humana!! escravaria!!!<br> +Crime atroz!!!!» são palavroens.<br> +Chia a imprensa? ha-de calar-se...<br> +Sabeil-a toda, baroens!<br> +<br> +Vossos pais quando vieram<br> +De Figueiró para aqui,<br> +Quem diria... vendo vil-os<br> +Como eu chegal-os vi!..<br> +<span class='pagenum'>[9]</span> +<br> +Era assim: via-se um mono<br> +De jaqueta de cotim,<br> +E calças de estopa grossa<br> +E pernas côr do carmim.<br> +<br> +Trazia sócos ferrados,<br> +Em que pés!.. Deus nos accuda!..<br> +Lenço vermelho amarrado<br> +Na cabeça ponteaguda.<br> +<br> +Vosso avô vinha com elle,<br> +E gemia derreado<br> +Sob um saco de batatas<br> +Do patrão mimo adorado.<br> +<br> +Vossa avó, de pé descalço,<br> +Traz canastra com toucinho,<br> +Pão de broa corpulenta,<br> +Borracha de verde vinho.<br> +<br> +Inda hontem eu vi isto!..<br> +E vossês sus patuscoens,<br> +Devem espantar-se comigo<br> +De serem hoje baroens!<br> +<span class='pagenum'>[10]</span> +<br> +Querem de graça um conselho?<br> +Não fallem, que faz tristeza,<br> +Vêr o raso da toleima<br> +A que desceu a nobreza!<br> +<br> +Burros ficam sempre burros,<br> +Embora tragam selim,<br> +Cravado de diamantes<br> +E estofado de setim.<br> +<br> +O brilhar dessas commendas<br> +Não vos muda a condição.<br> +O instincto vos arrasta<br> +Para o covado e balcão.<br> +<span class='pagenum'>[11]</span> + + + + +<h2>HYMNO<br> + +<span style="font-weight: bold; font-size: 1.5em;">AO HECKER SALOIO.</span></h2> + + +Senhor Fontes Pereira de Mello,<br> +Que sois Pitt, e <em>pitada</em> tambem,<br> +Já que tudo metteis n'um chinelo<br> +A cantar-vos a banza aqui vem!<br> +<br> +<span style="margin-left: 8em"> Senhor Fontes! Sois de Lysia</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> O que ninguem inda foi!</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Quem dissera que tão perto</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> D'um Sangrado existe um heroi!</span><br> +<br> +Longo tempo o cultor da batata,<br> +Senhor Pitt, por vós suspirou.<br> +As abob'ras meninas murcharam,<br> +E a mesquinha cebola grelou!<br> +<br> +<span style="margin-left: 8em"> Mas creaste um ministerio</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> D'agricultura, ó portento!</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Era um gosto vêr o grêlo</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Sob o imperio do Fomento!</span><br> +<span class='pagenum'>[12]</span> +<br> +E o repôlho, a cinôra, o coentro<br> +Espontaneos brotavam nos montes;<br> +E nas folhas da côve tronxuda<br> +Viu-se escripto: «Gloria ao Sôr Fontes!»<br> +<br> +<span style="margin-left: 8em"> Senhor Fontes! vosso nome</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Pelas hortas se dilata!</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Como o Cesar é na <em>Fabia</em>,</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Sois salvador da batata!</span><br> +<br> +Carangueijos os lusos viviam<br> +Desterrados n'um solo infeliz!..<br> +E, comvosco, quebrar inda esperam<br> +Nos caminhos de ferro o nariz.<br> +<br> +<span style="margin-left: 8em"> Senhor Fontes! este povo</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Vossa gloria proclama,</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Quando viaja enterrado</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Té ao pescoço na lama.</span><br> +<br> +Era triste esse tempo d'outr'ora<br> +Em que um homem quebrava um quadril,<br> +Nessas quinas d'estrada de pedra<br> +Onde agora fumega um carril!<br> +<br> +<span style="margin-left: 8em"> Á vista disto, Sôr Fontes,</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> (Á parte censuras tolas)</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> O paiz quer-vos na fronte</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Uma restea de cebolas.</span><br> +<span class='pagenum'>[13]</span> +<br> +Quando o Porto vos deu quatro patos,<br> +E de forno o arroz competente,<br> +Quiz mostrar-vos que a gloria é um sonho,<br> +Quando o ventre não anda contente.<br> +<br> +<span style="margin-left: 8em"> E comestes, senhor Fontes,</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> E fizestes muito bem;</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Colbert, Necker, e Pitt</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Comiam patos tambem.</span><br> +<br> +Quem nas polkas mostrou mais donaire?<br> +Quem nas walsas mais quebra a cintura?<br> +Quem melhor joga a tibia flexivel?<br> +Quem compete comvosco em tesura?<br> +<br> +<span style="margin-left: 8em"> Senhor Fontes, dous instinctos</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> A natura em vós relata;</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> A não serdes o Fomento,</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Devieis ser acrobata.</span><br> +<br> +<em>Beatus venter qui te portavit,</em><br> +Diz a patria na sua expansão!<br> +Desde o Vistula ao Douro retumbam<br> +Algazarras de rouca ovação!<br> +<br> +<span style="margin-left: 8em"> Gloria, gloria ao rasgado</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Fomentador immortal!</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Modelo dos bons bigodes,</span><br> +<span style="margin-left: 8em"> Permanente carnaval!</span><br> +<span class='pagenum'>[14]</span> + + + + +<h2>O DROPP.</h2> + + +Aranha de pau de pinho<br> +Caranguejola, que és?<br> +És o dropp; ora o dropp,<br> +É uma cousa (diz Pop)<br> +Sem ter cabeça nem pés.<br> +<br> +Visto isso; temos dropp;<br> +Ninguem tenha á barra medo.<br> +A asneira não é tão calva;<br> +A gente sempre se salva;<br><br> +De que modo? isso é segredo,<br> +<br> +Os praguentos já resmungam<br> +Contra aquelle immenso trem;<br> +Dizem que é força acabar,<br> +Não só nas furias do mar<br> +Mas nas do dropp tambem.<br> +<span class='pagenum'>[15]</span> +<br> +Este dropp é um segredo,<br> +As finanças um mysterio.<br> +Vêdes n'aquella gaiola,<br> +Uma parva cabriola,<br> +Imagem do ministerio?<br> +<br> +Navegantes! acautelem-se!<br> +Em posição desastrada<br> +Empreguem maior cuidado<br> +Que lhe não venha ao costado<br> +Uma tremenda caibrada.<br> +<br> +Aquelles paus são synistros<br> +Como o cavallo de Troya;<br> +Tudo aquillo é muito serio;<br> +Tem não sei que de funereo<br> +Dos carroçoens do Lagoia!<br> +<br> +Tanta tabua consummida<br> +Nessa funeraria asneira!..<br> +Não 'stava ahi um sujeito<br> +Com tanto dropp já feito,<br> +Manoel José d'Oliveira?<br> +<span class='pagenum'>[16]</span> +<br> +<em>Economia</em>! sarcasmo<br> +Deste ministerio-dropp,<br> +Que cravou no calcanhar<br> +A espora que faz andar<br> +As finanças a galope!<br> +<br> +Sou de voto que se dê<br> +Ao dropp um uso real:<br> +--Seja a estufa, com recatos,<br> +P'ra guardar os cinco catos<br> +Do ministerio actual.<br> +<span class='pagenum'>[17]</span> + + + + +<h2>O SEU A SEU DONO.</h2> + + +A Cesar o que é de Cesar,<br> +Aos velhos o que é dos velhos!<br> +Quem da crytica se encarga,<br> +Deve andar estrada larga<br> +E não metter-se por quelhos.<br> +<br> +Sou assim! E mais sou velho<br> +Mas a verdade é tambem,<br> +Custe embora a quem custar,<br> +A verdade hei-de-a fallar<br> +Seja em mal, ou seja em bem.<br> +<br> +Epaminondas Tebano,<br> +A <em>Concordia</em> e o <em>Nacional</em>,<br> +Nem a rir disseram petas:<br> +Eu tambem como as gazetas,<br> +Sou da honra o pedestal.<br> +<span class='pagenum'>[18]</span> +<br> +Não consinto que se diga,<br> +Que só lavra a corrupção<br> +Nas entranhas dos mancebos.<br> +Eu conheço muitos gebos<br> +Corruptos de profissão<br> +<br> +Quem quizer venha ao <em>Palheiro</em><br> +Desta nossa Assemblea,<br> +Ha-de vêr linguas farpadas<br> +Em bocas já desdentadas<br> +Maculando a honra alheia.<br> +<br> +Ha-de vêr velhos devassos<br> +Como em lubrica orgia,<br> +Já vergados nas cernelhas,<br> +Memorando infamias velhas<br> +Com satanica alegria.<br> +<br> +Ha-de vêr o extincto frade,<br> +C'o a bochecha rubra e gorda,<br> +Acerando o epygramma,<br> +Nem se quer poupando a <em>ama</em>,<br> +Que lhe faz em casa a sôrda.<br> +<span class='pagenum'>[19]</span> +<br> +Ha-de vêr o millionario<br> +Brazileiro, com mil tretas,<br> +A contar, com sujas cores,<br> +As lendas dos seus amores<br> +Com as <em>suas</em> trinta pretas.<br> +<br> +Estes taes são os que infamam<br> +A mocidade infeliz!<br> +São estes em cuja tez<br> +O oleo da estupidez<br> +É da vergonha o verniz.<br> +<br> +A mocidade não pode<br> +Vencêl-os, não pode, não!<br> +Dominam, são respeitados,<br> +Representam vinculados<br> +Os tempos da corrucção.<br> +<br> +Nascidos, quando por terra<br> +Os homens lançaram Deus;<br> +Tem só fé no sensualismo,<br> +E escarnecem com cynismo,<br> +As crenças filhas dos ceus.<br> +<span class='pagenum'>[20]</span> +<br> +Gangrenado o corpo e alma,<br> +Sem saber, e sem piedade,<br> +São authomatos de barro,<br> +Que resistem ao catharro<br> +Pr'a vexar a humanidade.<br> +<br> +Onde existe a virgem pobre,<br> +Que de maguas vive cheia,<br> +Lá vai ter uma mensagem<br> +Da senil libertinagem,<br> +Que o pudor lhe regateia.<br> +<br> +Perguntai nesses alcouces<br> +De miseria e compaixão,<br> +Quantas victimas da fome<br> +A deshonra ahi consomme,<br> +E de quem victimas são.<br> +<br> +Heis d'ouvir factos nojentos<br> +Destes velhos que se arrastam<br> +Sobre a lama das torpezas,<br> +Das luxurias e villezas<br> +Em que, cynicos, repastam.<br> +<span class='pagenum'>[21]</span> +<br> +Velho sou, bem alto o disse;<br> +Mas deshonro-me de ser<br> +Desta geração de velhos,<br> +Em que os moços tem espelhos<br> +Onde infamias possam ver!<br> +<br> +Mocidade generosa!<br> +Os teus crimes, tem nobreza;<br> +Quando falla a consciencia,<br> +Nem negaes a Providencia,<br> +Nem manchaes a natureza.<br> +<br> +Elles não; sempre atufados<br> +Em nojentos tremedaes,<br> +Crêem só no seu dinheiro,<br> +No cavaco do <em>palheiro</em>,<br> +Na barriga, e nada mais.<br> +<br> +A Cesar o que é de Cesar,<br> +Aos velhos o que é dos velhos!<br> +Quem da crytica se encarga,<br> +Deve andar estrada larga,<br> +E não metter-se por quelhos.<br> +<span class='pagenum'>[22]</span> + + + + +<h2>CONTO MORAL.</h2> + + +Um <em>attaché</em>, que vivera<br> +Em Pariz uns quatro mezes,<br> +Voltando á patria mesquinha,<br> +Não roubou nem palavrinha<br> +Aos seus amigos francezes.<br> +<br> +Quando entrou nos patrios lares,<br> +Já não era o mesmo filho;<br> +Sua mãe dobando estava,<br> +E o <em>attaché</em> perguntava<br> +Que nome tinha o sarilho?<br> +<br> +Desceu á loja onde estava<br> +O honrado pai ao balcão.<br> +E mal dera ainda um passo,<br> +Quando viu que estava um engaço<br> +Estendido alli no chão.<br> +<span class='pagenum'>[23]</span> +<br> +Ora, o engaço tinha uns dentes,<br> +Onde o tolo põe um pé,<br> +Quando ao pai enthusiasmado,<br> +Perguntou todo anafado:<br> +<em>Este engarilho que é?</em><br> +<br> +Vai o cabo levantou-se,<br> +Que assim era de suppor;<br> +Vem direito ao infeliz<br> +Quebra a ponta do nariz,<br> +Do futuro embaixador!<br> + + +<p style="text-align:center;">MORAL.</p> + +Não venham fazer-se finos<br> +Á patria os <em>attachés</em>,<br> +Quem vai tolo tolo volta,<br> +Inda que traga uma escolta<br> +De anedoctas dos <em>Cafés</em>.<br> +<span class='pagenum'>[24]</span> + + + + +<h2>EPYSTOLA</h2> + +<h3>AO EXCM.<sup>o</sup> VISCONDE DE ATHOGUIA EM DUAS VIDAS; MINISTRO DA MARINHA DOS +TRES BRIGUES, E DOS NEGOCIOS ESTRANGEIROS... AO SENSO COMMUM.</h3> + + +Illustre paspalhão, pasmo dos orbes,<br> +Nata da estupidez, alcool dos parvos,<br> +De Campanhan o bardo te sauda!<br> +<br> +Eu nunca fui sentar-me á tua porta,<br> +Mendigando mercês; nunca os meus cantos,<br> +Fedendo ao macassar da vil lisonja,<br> +As nedeas ventas incensar te foram!<br> +É livre a minha voz: creiam-me os povos!<br> +Nobre feudo pagar aos grandes parvos<br> +É do bardo a missão. A minha é esta.<br> +<span class='pagenum'>[25]</span> +<br> +Ha muito que eu de ti pasmado andava,<br> +Contando á minha Antonia, e aos pequenos,<br> +O nome que no peito escripto tinha.<br> +Em casa do Francisco da Thomasia<br> +Os teus discursos li, Visconde incrivel!<br> +N'aquellas chatas caras que me ouviam,<br> +Vi faiscas saltar de enthusiasmo.<br> +<br> +Bebêmos-te á saude, a rego cheio!<br> +E, no excesso do goso, os teus amigos<br> +Não podiam lamber-se... eram uns cachos!<br> +<br> +Tu, mais novo que o neto, ousado Gorgias,<br> +Ha pouco trituraste os cabralistas<br> +No rijo almofariz do craneo ôco.<br> +Salvaste Roma, ó ganço!.. se não grasnas<br> +Piravam-se os taes páos<sup><a href="#nota1">[1]</a></sup> e a Lusitania,<br> +Viuva dos seus páos, ia-se á mingua!<br> +És o Curcio das lonas, que remiste<sup><a href="#nota2">[2]</a></sup><br> +<span class='pagenum'>[26]</span> +<br> +Do jogo infame da Albion perversa<br> +A patria dos Affonsos e Affonsinhos!<br> +A divida fatal, chamada externa,<br> +Saldaste-a c'o producto dessas chapas,<br> +Em que fica chapada a crassa asneira,<br> +Eterna viscondessa d'Athoguia!<br> +<br> +Do <em>Conde de Thomar</em> se intitulava<br> +O patacho fatal, terror dos povos!<br> +Fulminaste o patacho! A Europa accesa,<br> +Pedira-te energia audaciosa.<br> +Passaste heroica esponja sobre o nome,<br> +E fizeste callar a voz da Europa!<br> +<br> +Ó Jervis! tu nem sabes quanto vales!<br> +Que o diga Campanhan, Valbom, S. Cosme,<br> +Onde eu pude chegar, e a minha Antonia.<br> +<br> +A machado e eixó, de páo castanho,<br> +Um busto construí: era o teu busto.<br> +Teu nome eternisei, nome que teve<br> +Um <em>u</em>, maldito <em>u</em>, que tantas febres<br> +Na mente escandecida te abrazára!<br> +<span class='pagenum'>[27]</span> +<br> +Não sei se diga mais, palavra d'honra!<br> +Com esta não te enfado mais, visconde.<br> +Não desdenhes vaidoso a offerta humilde,<br> +Que mesquinho reptil aos pés te arrasta.<br> +Recebe dusia e meia de lampreias,<br> +Cosinhadas por mim; são de escabeche...<br> +A proposito, amigo, ha quanto tempo<br> +Conservas de escabeche a intelligencia?<br> + +<div class="rodape"> +<p><a name="nota1">[1]</a> S. exc.<sup>a</sup> mandou vender os páos, porque deu na melgueira d'uns +empregados, que os regeneravam á surelfa, com grave detrimento da +marinha portugueza.</p> + +<p><a name="nota2">[2]</a> S. exc.<sup>a</sup> vendeu umas lonas, cujo producto fez subir os fundos em +Londres, e permittiu a construcção de trinta navios de guerra, com que +s. exc.<sup>a</sup> espera «sulcar as salsas ondas d'Amphitrite,» segundo a +gravissima opinião do snr. J. M. Grande.</p> +</div> +<span class='pagenum'>[28]</span> + + + + +<h2>O MINISTRO E O JORNALISTA.<br> + +(<em>Dealogo</em>).</h2> + + +<h5>MINISTRO</h5> + +Eu vim chamado ao leito desta patria<br> +Matava-a a corrupção, e eu salvei-a!<br> +Se prostrada jazia, ou talvez morta,<br> +Qual Lazaro da campa, alevantei-a!<br> + +<h5>JORNALISTA</h5> + +De certo levantou Vossa Excellencia!<br> +Que brade embora a vil opposição...<br> +Esquálidos vestigios de gangrena<br> +Bem profundos deixou a corrupção. +<span class='pagenum'>[29]</span> + +<h5>MINISTRO</h5> + +Se crê nessas doutrinas luminosas,<br> +E quer ser prestadio a Portugal,<br> +Acceite a empreza honrosa, augusta, e nobre,<br> +D'expol-as, sustental-as n'um jornal. + +<h5>JORNALISTA</h5> + +Empreza honrosa é; della me ufano!<br> +Irei apostolar o credo novo;<br> +Direi ás multidoens verdades francas,<br> +Será o meu jornal jornal do povo. + +<h5>MINISTRO</h5> + +Bem sei que da defeza é árdua a luta...<br> +Odeia-me, sem causa, esta nação...<br> +Embora! na grandeza dos serviços<br> +Compete ao defensor môr galardão. + +<h5>JORNALISTA</h5> + +Bem sei quantas calumnias forja a intriga...<br> +Já dellas foi manchado o grande Decio.<br> +Quizeram macular Vossa Excellencia<br> +Chamando-lhe espião, rival de <em>Mecio</em>! +<span class='pagenum'>[30]</span> + +<h5>MINISTRO</h5> + +<p style="text-align: center;">(<em>Commovido, e esfregando os olhos com cebola</em>).</p> + +Bemdito seja Deus! só elle sabe<br> +As nobres intençoens de tal acção!<br> +Por honra, por nobreza, e por caracter,<br> +De certo fui, meu caro, um espião! + +<h5>JORNALISTA</h5> + +Não é lá grande feito de virtude;<br> +Mas cumpre que eu me saiba haver na luta.<br> +Convém negar o facto, ou confirmal-o?<br> +Bem sabe que é de crêr haja disputa. + +<h5>MINISTRO</h5> + +<p style="text-align: center;">(<em>Limpando os oculos</em>).</p> + +Eu lhe digo, senhor, a patria exige<br> +Medidas uteis, providencias, factos.<br> +Accusaçoens banaes, não lhes responda;<br> +A pedra é livre em mãos desses <em>gaiatos</em>. +<span class='pagenum'>[31]</span> + +<h5>JORNALISTA</h5> + +Pois bem! sou desse voto, ei-de julgal-as;<br> +Accusaçoens banaes, pretr'idas, nullas;<br> +Mas dado o caso infausto de citarem<br> +Não sei que transacçoens com certas bullas? + +<h5>MINISTRO</h5> + +<p style="text-align: center;">(<em>Enternecido</em>).</p> + +Responda-lhe que eu fui proscripto, errante...<br> +E quando ao ninho caro alfim tornei,<br> +Não só não tinha um pinto pr'a despezas,<br> +Mas nem a livraria, em casa achei. + +<h5>JORNALISTA</h5> + +Pois bem, triumphará Vossa Excellencia...<br> +Agora, se lhe apraz... sim... cada qual<br> +Emprega neste mundo, como pode,<br> +O seu... ou pouco ou muito cabedal... + +<h5>MINISTRO</h5> + +Intendo... quer dizer que não dispensa<br> +Além do beneficio, uma pensão...<br> +É justa, a quem trabalha a recompensa...<br> +Quer cincoenta mil reis? pagos, serão. +<span class='pagenum'>[32]</span> + +<h5><em>Cinco mezes depois.</em></h5> + +<h5>JORNALISTA</h5> + +<p style="text-align: center;">(<em>Escrevendo</em>).</p> + +Senhor ministro, eu não posso<br> +Este jornal sustentar<br> +Tenho esp'rado, em vão tres mezes,<br> +Não me acabam de pagar.<br> +<br> +Vossa Excellencia me disse,<br> +A vinte e tres de Janeiro,<br> +Que no Governo Civil<br> +Recebesse o meu dinheiro,<br> +<br> +Nem um chavo! e os assignantes<br> +Abandonam-me o jornal,<br> +Porque defendo um governo<br> +Vergonha de Portugal.<br> +<br> +Se não manda, quanto antes,<br> +Senhor ministro, as mesadas,<br> +Com pesar vou abraçar-me<br> +Ás outras crenças passadas. +<span class='pagenum'>[33]</span> + +<h5>MINISTRO</h5> + +<p style="text-align: center;">(<em>Só</em>).</p> + +Á vista disto, não ha mais fugir-lhe...<br> +Pouco me serve... mas é pobre moço!..<br> +Fazem-me pena quando assim os vejo...<br> +Não ha remedio senão dar-lhe um osso. +<span class='pagenum'>[34]</span> + + + + +<h2>A D. EUSEBIA DA ASSUMPÇÃO,</h2> + +<h3>ALMA DE VACA.</h3> + + +Noitebó que esvoaçaste<br> +No meu ceo d'alva illusão;<br> +E na chaminé pousaste<br> +Deste ardente coração;<br> +Que mal te fiz, pulga d'alma,<br> +Que mordes, sem compaixão?<br> +<br> +Dona Eusebia, gança amada,<br> +Que picaste a minha flor,<br> +Tão do intimo orvalhada<br> +Pelos prantos desta dôr,<br> +Dona Eusebia não me piques<br> +Esta alcachofra d'amor!<br> +<span class='pagenum'>[35]</span> +<br> +Gata brava, não me bufes<br> +Esta luz d'aspiração;<br> +Por quem és, tu não me atufes<br> +Dona Eusebia d'Assumpção,<br> +Nos abysmos insondaveis<br> +D'assanhada ingratidão!<br> +<br> +Tu chamaste-me pangaio,<br> +Quando eu quiz um riso teu!<br> +Fulminou-me um impio raio,<br> +Minha aspiração morreu!<br> +Ai! Natercia de chinelos,<br> +Serei eu <em>pangaio?</em> eu!!<br> +<br> +Tens no peito ingrata, um chato<br> +Coração de melancia.<br> +Tanto tempo fui teu gato,<br> +Gato d'amor e poesia!<br> +Dona Eusebia, alma de vaca,<br> +Morras tu de hydropesia!<br> +<span class='pagenum'>[36]</span> + + + + +<h2>AS LITTERATAS.</h2> + + +Paes de familia, hybridos caturras,<br> +Escrevo para vós! Se tendes filhas<br> +Com sestro massador de fazer versos,<br> +Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!<br> +<br> +Eu vejo serigaitas, mal lavadas<br> +Do almiscar infantil de seus cueiros,<br> +Fazerem relaçoens <em>c'os raios pallidos,</em><br> +<em>Da estrella matinal, do lago lympido,</em><br> +<em>Das auras ciciantes, e da aragem,</em><br> +E d'outras semelhantes trampolinas,<br> +Que vós não entendeis, nem eu, nem ellas.<br> +<span class='pagenum'>[37]</span> +<br> +Espevitam-se todas estas gaitas<br> +Da musa melancolica das noutes.<br> +Mal sabem onde tem a mão direita,<br> +Não viram do nariz um palmo adiante,<br> +E fallam de <em>paixoens intimas d'alma,</em><br> +<em>De crenças desbotadas, e de flores</em><br> +<em>Fanadas ao soprar da leda infancia.</em><br> +<br> +Acaso comprehendeis, paes de familia,<br> +Da nova geração destas piegas<br> +A triste chiadeira que nos fazem?<br> +Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!<br> +<br> +Não tendes uns fundilhos nas cilouras?<br> +Não tendes roto o calcanhar da piuga?<br> +Não tendes uma estriga, um fuso, e roca?<br> +Mandai-as trabalhar; dai-lhe a sciencia<br> +Precisa para o rol da roupa suja.<br> +Se lhe virdes romance, ou essas cousas<br> +Chamadas folhetins, sobre a <em>toilette</em>,<br> +(A <em>toilette</em>, meu Deus! por causa d'ellas<br> +Perverteu-se a dicção do nosso Barros!)<br> +Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!<br> +<br> +Quem é o parvo que espozar-se queira<br> +Com litterata alambicada e chocha?<br> +<span class='pagenum'>[38]</span> +Sentada n'um sophá, sapho saloia,<br> +Em languida postura requebrada,<br> +Se eu visse a minha Antonia! ai que panasio,<br> +Que revez de careca eu lhe pregava!<br> +<br> +Paes de familia! não achaes bem triste<br> +Entrar um cidadão em sua casa,<br> +Cansado de lavrar o pão da vida,<br> +E vêr sua mulher repotreada<br> +Na othomana gentil, lendo romances?<br> +Pobre marido quer fallar d'uns frangos<br> +Que baratos comprou, e a litterata<br> +Pergunta-lhe se leu <em>Kossuth e os hungaros</em>!<br> +O parvo franze a testa aborrecido,<br> +Procura entre os lençoes um refrigerio;<br> +Mas, no excesso da dôr, rasga as cilouras,<br> +E no mundo não tem mulher ou anjo<br> +Que lh'as saiba coser!.. ai do mesquinho!<br> +<br> +Onze horas já são. O bom do homem<br> +Tres vezes já pediu café com leite,<br> +Apertam-no negocios; mas em balde<br> +Pediu com desespero o tardo almoço.<br> +<br> +A litterata esposa inda ressona,<br> +Pois vira despontar a estrella d'alva<br> +<span class='pagenum'>[39]</span> +Nos rubros arreboes dos horisontes,<br> +E, inspirada, fizera quatro quadras,<br> +Ardentes de ideal romantecismo.<br> +<br> +«Café com leite!» brada em vão tres vezes,<br> +O bode expiatorio dos romances...<br> +«Café com leite» os eccos lhe respondem,<br> +Que a Stael d'agua doce inda ressona!<br> +<br> +Maridos imbecis! eu vos lamento!<br> +A culpa não foi vossa! Aos pais a imputo.<br> +<br> +Madame Podestá dizem que ensina<br> +Grammatica, rethorica, hidraulica,<br> +Mecanica, gymnastica, estetica,<br> +E chymica, e botanica, e plastica,<br> +O arabe, o sanskrit, a geographia,<br> +A prosodia, a syntaxe, industria e canones,<br> +E muitas cousas mais, como th'rapeutica.<br> +<br> +Será tudo mui bom; mas eu aposto<br> +Que o remate de tantas luzes juntas<br> +É capaz de fazer perfeitas tolas<br> +As muitas que lá vão com seu Juizo!<br> +<span class='pagenum'>[40]</span> +Paes de familia! tendes filhas d'estas?<br> +Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!<br> +<br> +Um pai eu conheci, que nunca soube<br> +O seu nome escrever sem quatro asneiras,<br> +E mandou ensinar francez á filha.<br> +A filha conseguiu, passados annos,<br> +Uma cousa fallar mui duvidosa<br> +Que os francezes, talvez, diriam tartaro!<br> +Mas seria francez, o caso é este:<br> +<br> +Um dia estava o pai, e ella, e um outro<br> +Janota almiscarado, conversando.<br> +De improviso a menina a lingua solta<br> +Em barbaros grasnidos que atarantam<br> +A cabeça do velho. O «petimetre»<br> +Responde em algarvia semelhante.<br> +O pai, no centro delles, era um parvo<br> +Gemendo sob o peso do ridiculo...<br> +Mas lá vai o peor do caso infausto!<br> +Ao dar da meia noute desse dia<br> +Cumpria-se a promessa contratada<br> +Na presença d'um pai, que bem podera<br> +<span class='pagenum'>[41]</span> +Embargos de terceiro inda intentar<br> +Se fosse em portuguez organisada<br> +A injusta petição do supplicante.<br> +<br> +Pais de familia, vossas filhas fallam<br> +Italiano, francez, gallego, ou turco?<br> +Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas.<br> +<span class='pagenum'>[42]</span> + + + + +<h2><em>UM JANTAR DE BAROENS.</em></h2> + + +<h3>INVOCAÇÃO.</h3> + +Musa da sopa e do cosido, inspira-me!<br> +Pandega musa, que sorris ao vate<br> +Em môlho d'açafrão, e de tomate,<br> +Um cego adorador... achaste em mim.<br> +Transforma o estro meu em lombo assado,<br> +Da minha inspiração faz um podim.<br> +<br> +Tu filha dos baroens, musa do unto,<br> +Nasceste na cosinha entre caçôlas;<br> +Saudaram-te no berço alhos, cebôlas,<br> +Do cominho tiveste uma ovação.<br> +Depois, trajando gallas de toucinho,<br> +Eu vi-te nas bochechas d'um barão.<br> +<span class='pagenum'>[43]</span> +<br> +Namorado de ti, fiz-te meiguices,<br> +Por de traz d'um pirum, e tu de lá<br> +Sorriste-me atravez da nedea pá<br> +De vitella gentil, rica de arroz!<br> +Ai! era!.. e nem eu sei se foi mais linda<br> +Aquella gorda pata... que te poz!<br> +<br> +Tu fizeste de mim novo Claudio,<br> +Inspiraste-me fé no rodavalho.<br> +Traguei indigestoens, arrotos d'alho,<br> +<em>Bernardas</em> na barriga supportei.<br> +Tomei chá de marcella... e, em premio d'isto.<br> +O teu auxilio, ó musa, não terei?!<br> + +<hr style="width: 4em;"> + + +<h3>I</h3> + +Dentro e fóra illuminado<br> +O palacio d'um barão,<br> +Fulgurante representa<br> +Um enorme lampião.<br> +Jorram lympidas vidraças<br> +<span class='pagenum'>[44]</span> +Sobre as populosas praças<br> +Ondas tremulas de luzes.<br> +Vai lá dentro grande goso,<br> +Nesse alcaçar radioso<br> +Do barão dos Alcatruzes.<br> +<br> +D'Alcatruzes é chamado,<br> +Porque, sendo ainda moço,<br> +Muitos baldes d'agua fresca<br> +Dizem que tirou d'um poço.<br> +Nenhum outro mais destreza<br> +Revellou na ardua empreza.<br> +De puchar acima um balde.<br> +Um que seja tão robusto<br> +Ha-de vir mui tarde e a custo,<br> +Do concelho de Ramalde.<br> +<br> +É barão; não vale a pena<br> +Discutir-lhe os nobres feitos.<br> +É barão dos Alcatruzes<br> +Já tem pagos os direitos.<br> +Inda é mais; pois além d'isto<br> +É commendador de Christo<br> +Com bastante indiscripção.<br> +Mal diria Christo outr'ora,<br> +Que seria posto agora<br> +No peito d'um vendilhão!<br> +<span class='pagenum'>[45]</span> +<br> +E mais elle, que os tocava<br> +Com terrivel azorrague!..<br> +Mas os Judas vendem Christo,<br> +Ponto é haver quem pague.<br> +E o barão dos Alcatruzes<br> +Neste seculo das luzes<br> +Tambem fez de farizeu:<br> +E, tambem, se é necessario,<br> +Representa de Calvario,<br> +Onde a cruz se suspendeu.<br> + +<hr style="width: 4em;"> + + +<h3>II.</h3> + +N'um salão vasto, opulento,<br> +Um banquete se vai dar;<br> +Nos christaes reflecte o ouro,<br> +A fulgir, a scintillar.<br> +Os rubis, e a côr da opala<br> +Transfiguram esta sala<br> +Em olympicas mansoens.<br> +Mas a alma cae por terra,<br> +Quando vê que alli se encerra<br> +Duzia e meia de baroens.<br> +<span class='pagenum'>[46]</span> +<br> +Da terrina a caudal sopa<br> +Em silencio é devorada.<br> +Só então fingiram d'homens,<br> +Porque não disseram nada.<br> +Mas venceu a natureza!<br> +Um barão por sobre a mesa<br> +Estendendo o prato, diz:<br> +«Ó compadre! isto é qu'é bô!<br> +Venha sopa, e acabô!<br> +Cá de mim, torno á matriz!»<br> +<br> +O barão de Cogumelos<br> +Junto estando á baroneza,<br> +Que se diz dos Sacatrapos,<br> +Quiz fazer-lhe uma fineza.<br> +Arrastou p'ra junto d'ella<br> +Um pirum, e a cabidela<br> +No prato lhe despejou.<br> +E lhe diz: «cá isto é nosso;<br> +Cousa que não tenha osso<br> +É p'ró estamago, e arrimou!»<br> +<br> +Outro diz á gorda esposa,<br> +Que bem perto de si tem:<br> +«Bai-lhe bebendo po'riba,<br> +Ó mulher, come-lhe bem!»<br> +Este pede ao seu visinho:<br> +<span class='pagenum'>[47]</span> +«Que lh'atice bem no binho<br> +Qu'é da belha companhia.»<br> +Diz aquelle ao seu fronteiro:<br> +«Que lhe chegue um frango inteiro<br> +E biba a sancta alegria!»<br> + +<hr style="width: 4em;"> + + +<h3>III.</h3> + +As saudes já começam.<br> +É um gosto agora vêl-os.<br> +Estas caras representam<br> +Tomates de cotovêlos.<br> +E, a travez do escarlate<br> +Do legitimo tomate,<br> +Transsuda um oleo que brilha,<br> +Cada qual tem as orelhas<br> +Encarniçadas, vermelhas<br> +Como as azas d'uma bilha.<br> +<br> +Pega no copo, e exclama<br> +O barão das Pimpinelas:<br> +«Vito serio! um home fala<br> +Sem preamblos nem aquellas!<br> +Á saude e alegria<br> +<span class='pagenum'>[48]</span> +Desta bella companhia<br> +E com toda a estifação!<br> +P'ra que todos cá binhamos<br> +Estifeitos como bamos<br> +De casa do sôr barão!»<br> +<br> +E os hurras retumbaram<br> +Pela sala do festim.<br> +Balthazar nos seus banquetes<br> +Não ouviu gritar assim!<br> +Sobre a mesa deram murros,<br> +Saudaram com grandes urros<br> +O barão dos Alcatruzes;<br> +Mas alguns com magua sua,<br> +Já cuidavam ver a lua,<br> +Não podendo vêr as luzes.<br> +<br> +Mas, entre elles, um existe,<br> +Litterato em seu conceito.<br> +A palavra pede, e reina<br> +Um silencio de respeito.<br> +Elle diz: «Risonhas gallas<br> +Que refrangem n'estas salas<br> +Repercutem, symbolisam<br> +Acrimónias insoluveis,<br> +Nos acrósticos voluveis<br> +D'epopeas que eternisam.<br> +<span class='pagenum'>[49]</span> +Pandemonios exhauriveis<br> +D'indeleveis congruencias.<br> +Requintados se escurecem<br> +Nos imporios das sciencias<br> +E liberrimos se escudam<br> +Nas façanhas que transsudam<br> +Em fantasiosas luzes.<br> +E, por tanto, a mais alludo,<br> +Quando, fervido, saudo<br> +O barão dos Alcatruzes!»<br> +<br> +Succedeu o grito ao pasmo!<br> +Nunca se viu cousa assim!<br> +O orador foi abraçado<br> +Com furor, com frenezim!<br> +«Isto é qu'é!» dizia um,<br> +Convertido em rubro atum,<br> +Betarraba até não mais.<br> +«Viva Cissro!» outro dizia,<br> +Despejando a malvazia,<br> +Com grasnidos infernaes.<br> + +<hr style="width: 4em;"> + + +<h3>IV.</h3> + +E a pandega findou. Mas alta noute,<br> +Disseram-nos fieis informaçoens;<br> +<span class='pagenum'>[50]</span> +Que grande movimento ouve de tripas,<br> +E grande salto deram as torneiras<br> +Das pipas convertidas em baroens<br> +Ou antes dos baroens tornados pipas.<br> +<span class='pagenum'>[51]</span> + + + + +<h2>ELOGIO FUNEBRE</h2> + +<p><em>A uma dama, prodigio de fecundidade, que dá á luz tres romances, por +semana, nos jornaes do Porto.</em></p> + + +Atafona de romances,<br> +És um carril a vapor!<br> +Romantisas quanto achas,<br> +E nos folhetins encaixas<br> +Com satanico furor.<br> +<br> +Cornocopia da toleima!<br> +Nós fizemos-te algum mal?<br> +Tu não sabes, escriptora,<br> +Como zombam lá por fóra<br> +Das lettras de Portugal?<br> +<span class='pagenum'>[52]</span> +<br> +Não lucrara mais a patria,<br> +E lucráras tu tambem,<br> +Se fiasses n'uma roca.<br> +Com primor, a massaroca,<br> +Que desprezas, com desdem?<br> +<br> +Não te fôra mais airoso<br> +Bispontar bem uns fundilhos<br> +Para em tempo competente<br> +Um remendo pôr decente<br> +Nas cuecas de teus filhos?<br> +<br> +Mal tu sabes que sciencia<br> +Tem da meia o calcanhar!<br> +Talvez penses que o romance<br> +É mister de mais alcance<br> +Que nas meias pontos dar!..<br> +<br> +Eu por mim antes quizera<br> +Nunca ter lido Camoens,<br> +Nem romances d'uma tola,<br> +Que vestir rôta a ciroula,<br> +Ou camisa sem botoens.<br> +<span class='pagenum'>[53]</span> +<br> +Accredito seja um dia<br> +A mulher emancipada;<br> +Ha-de então ser regedora,<br> +Escrivan, e contadora,<br> +Eleitora, e deputada.<br> +<br> +Nesse tempo, se existisses,<br> +Tendo em vista essa pericia<br> +Com que ostentas teu saber,<br> +Que logar podias ter?<br> +Eras cabo de policia.<br> +<br> +Tenho pena, quando penso<br> +Que serás formosa e meiga,<br> +E encontro os teus escriptos<br> +Nos embrulhos dos palitos<br> +Do toucinho, e da manteiga!<br> +<br> +Faz-me dó, pois tu bem podes<br> +Bordar lenços de cambraia<br> +Com bonito <em>petit-point</em>;<br> +E, não sendo aqui ninguem,<br> +Podes, ser tudo na Maia.<br> +<span class='pagenum'>[54]</span> + + + + +<h2>EPISTOLA</h2> + + +<h3>AO VISCONDE DE QUEBRANTOENS.</h3> + +Instrumento do ceo, desceste ao Porto,<br> +Corajoso mancebo, que desandas<br> +Nos borlistas fataes sopapo ingente!<br> +<br> +Oppresso longo tempo, ahi gemera<br> +Nas entalas crueis d'um camarote<br> +O misero assignante! Amargo calix<br> +Em silencio tragava, ouvindo os passos<br> +Do acerbo massador, impio borlista!<br> +As notas de Rossini eram-lhe espinhos,<br> +As fusas de Bellini eram-lhe fusos<br> +Que o intimo das visceras lhe espetam!<br> +E os duetos em <em>fá</em> do Machbet<br> +Eram-lhe cantos de raivosas górgonas!<br> +<span class='pagenum'>[55]</span> +<br> +O ferro fez-lhe vêr visoens do inferno!<br> +A propria Jeny-Lind se cantasse,<br> +Nesse palco, talvez, aos olhos d'elle<br> +Não fosse mais gentil, que a <em>Cholera-morbus</em><sup><a href="#nota3">[3]</a></sup><br> +É que a larva immortal do pesadello,<br> +A sombra do borlista ergue-se impavida,<br> +Synistra, nos umbraes do camarote!<br> +<br> +Derreado e servil no corpo e alma,<br> +Arrasta-se o borlista em cortesias,<br> +Gagueja cumprimentos requentados,<br> +Recebe em cada noute affrontas novas,<br> +E, cynico, sorri, graceja sempre!<br> +<br> +Mas cerram-se ao borlista os horisontes,<br> +Apenas surges tu, Pedro-Eremita,<br> +E aos povos um pregão de guerra envias!<br> +De toda a parte bellicosa ferve<br> +Raivosa indignação contra os <em>Bernardos</em>.<sup><a href="#nota4">[4]</a></sup><br> +Aqui batata pôdre o povo ajunta,<br> +Além prendem-se em páos bexigas tumidas,<br> +E cebola grelada em grande escala<br> +De Freixo de Numão o Porto importa.<br> +<span class='pagenum'>[56]</span> +<br> +Se no livro fatal d'altos destinos<br> +Proscripta a extincção foi do borlista<br> +Da borla a abolição a ti se deve,<br> +De ti, visconde emana o nobre impulso!<br> +<br> +Em nome dos sensiveis assignantes,<br> +Recebe o galardão que o Porto envia<br> +Ao caro filho seu que a patria salva<br> +Do typho mais cruel--<em>typho-borlista!</em><br> + +<div class="rodape"> +<p><a name="nota3">[3]</a> É uma cegonha, cousa duvidosa entre a forôa, e a giboia, que canta +entre as coristas.</p> + +<p><a name="nota4">[4]</a> Quem não conhece o sr. Bernardo, digno Achiles do <em>Barriense</em>?</p> + +</div> +<span class='pagenum'>[57]</span> + + + + +<h2>IMPRESSOENS</h2> + +<h3>D'UM PASSEIO, NO <em>JARDIM DE S. LAZARO</em>.</h3> + + +Que delicias não encerra<br> +Esta bem fadada terra<br> +N'um domingo, em mez d'Abril!<br> +Nem eu sei se a natureza<br> +Deu mais pompas a Veneza,<br> +Que no mar reina gentil.<br> +<br> +Não na ha terra mais linda<br> +Nem sonhal-a eu pude ainda<br> +Nos meus sonhos da manhan.<br> +Uma só os dons lhe abate,<br> +És só tu, patria do vate,<br> +Donairosa Campanhan!<br> +<span class='pagenum'>[58]</span> +<br> +Mas, aqui, terra das auras,<br> +Espontaneas brotam Lauras<br> +Por entre sacas d'arroz.<br> +E, quaes ferteis cogomelos,<br> +Nascem Dantes de chinelos,<br> +E Petrarcas d'albornoz.<br> +<br> +Tudo vai do ceo formoso,<br> +Que derrama ondas de goso<br> +Nestas almas d'alfinim.<br> +Ouem não viu anjos de saia,<br> +Serafins d'alva cambraia<br> +No fantastico <em>jardim</em>?<br> +<br> +Inda, ha pouco, eu vi delicias<br> +Invejei doces caricias,<br> +Que lá vi... oxalá não!<br> +Entre tantas a mais bella,<br> +A rainha... ai! era ella...<br> +D. Eusebia d'Assumpção!<br> +<br> +Ella sempre!.. espectro! larva<br> +Por quem fiz esta alma parva,<br> +Por quem dei cavaco até!<br> +E tão linda!.. impia cegonha,<br> +Tão folhuda!.. era uma fronha,<br> +Um travesseiro de pé!<br> +<span class='pagenum'>[59]</span> +<br> +E, tão tolo, eu quiz fallar-lhe<br> +Quiz mysterios revelar-lhe<br> +Deste amor, desta agonia;<br> +Quiz dizer-lhe em voz terrivel,<br> +Com rancor inconcebivel:<br> +«Passou bem? que bello dia!»<br> +<br> +Não me ouviu, virou-me a cara,<br> +E eu jurei vingança avara,<br> +E a vingança... oh! eide-a ter!<br> +Não te rias, lagarticha,<br> +Eide atirar-te uma bicha,<br> +Eide vêr-te a fralda a arder.<br> +<br> +Feito o horrivel juramento,<br> +N'aquelle acerbo momento<br> +Dona Eusebia me esqueceu!..<br> +Procurei entre outras flores<br> +Nova fé, novos amores...<br> +Poderia achal-os eu?<br> +<br> +Dona Eustaquia era formosa,<br> +Tinha os dentes côr de rosa,<br> +Meigos olhos de marfim;<br> +Tinha o collo verde-gaio,<br> +Lindos braços cor de paio,<br> +Lindas mãos de marroquim.<br> +<span class='pagenum'>[60]</span> +<br> +Mas Eustaquia não podia,<br> +Conceber-me esta poesia,<br> +Que me escalda o coração!<br> +Ao pé d'ella estava um grulha,<br> +Um rival, um gêta, um pulha,<br> +Um palerma, um pelitrão.<br> +<br> +A pretexto de meiguices,<br> +Vomitorio de sandices<br> +Era o tal... que eu não direi...<br> +O que eu fiz foi pôr-me ao largo,<br> +Pois luctar é sempre amargo<br> +Contra um estupido de lei.<br> +<br> +Outra vi; julguei-a vaga;<br> +Era Dona Saramaga,<br> +D'olhos garços de matar.<br> +De cabello em grande rôlo,<br> +Sua testa era um rebôlo,<br> +Mas rebôlo de encantar!<br> +<br> +Esta sim: ouviu-me as fallas,<br> +Conheceu que estava em tallas<br> +Meu dorido coração.<br> +Deu me affectos desvellados,<br> +Deu-me quatro rebuçados<br> +Com sensivel emoção!<br> +<span class='pagenum'>[61]</span> +<br> +Perguntou-me se a Geordano<br> +Ficaria para o anno,<br> +Ou iria p'ra Pariz.<br> +Respondi-lhe que a cantora,<br> +Por em quanto, era senhora<br> +Da garganta e do nariz.<br> +<br> +Dito isto (e não é pouco)<br> +Retirei-me quasi louco<br> +De paixão, que é de matar.<br> +Mas palpita-me que um dia,<br> +Consummida esta poesia,<br> +Pés de burro eide apanhar!<br> +<span class='pagenum'>[62]</span> + + + + +<h2>P. S.</h2> + + +<p>O auctor desta obra é uma pessoa honesta, que reconhece Deus no ceo, e o +ridiculo na terra. Não crê no representante de Deus entre os homens, por +que não quer ultrajar a divindade; mas confessa que o demonio tem um +representante em cada freguezia, sem attribuiçoens no codigo +administractivo, mas funccionario muito superior aos regedores e juizes +eleitos. O auctor accredita que o diabo não é tão feio como o pintam, e +reputa-o, nas suas elevadissimas intuiçoens, como um espirito que se ri +desentoadamente das muito parvas evoluçoens da humanidade. O auctor ousa +declarar-se commissionado provisoriamente desse espirito do sarcasmo, e +não poderá d'hora em diante irrogar injuria a quem lhe chamar «alma do +diabo.» Conscio da missão que lhe é delegada, o auctor intenta uma +publicação semanal, que será uma pagina que o Lucifer do seculo XX +receberá da mão do Lucifer do seculo XIX. A geração, que vai levantar-se +sobre os tumulos da geração que se esconde na grande valla d'uma epocha, +virá estudar a nossa biographia nessa obra que o auctor intenta. Quem +quizer assignar para ella fará um serviço aos seus netos.</p> + +<span class='pagenum'>[63]</span> + + + + +<h2><span style="font-weight: normal;">PROSPECTO.</span><br> +<br> +<span style="font-size: 0.8em; font-weight: bold;">UM BICO DE GAZ.</span><br> +<br> +<span style="font-size: 0.6em; font-weight: normal;">JORNAL SEMANAL.</span></h2> + + +<p>Assignatura por mez: 160 réis. O jornal é distribuido aos sabbados; e +assigna-se</p> + +<p>No Porto--em todas as lojas onde se vende este folheto; Lisboa, Coimbra, +Vizeu, Lamego, Vianna, e Braga.</p> + +<p>Admittem-se correspondencias que attinjam a missão rasgadamente +civilisadora deste jornal. É preciso que a luz da intelligencia humana +deixe de ser alimentada por azeite de purgueira. O espirito reclama um +bico de gaz. E o auctor tem a vaidade de reputar-se o Hislop do mundo +espiritual.</p> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Folhas cahidas, apanhadas na lama, by +Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FOLHAS CAHIDAS, APANHADAS NA LAMA *** + +***** This file should be named 23486-h.htm or 23486-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/3/4/8/23486/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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