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+Project Gutenberg's Viagens na Minha Terra (Volume II), by Almeida Garrett
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Viagens na Minha Terra (Volume II)
+
+Author: Almeida Garrett
+
+Release Date: January 15, 2008 [EBook #24319]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA (VOLUME II) ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Jan. 2008)
+
+
+
+
+
+OBRAS
+
+DE
+
+J. B. DE A. GARRETT.
+
+IX.
+
+(_SEGUNDO DAS VIAGENS._)
+
+
+
+
+VIAGENS NA MINHA TERRA
+
+
+POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.
+
+
+II.
+
+
+LISBOA
+NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.
+1846.
+
+
+
+
+VIAGENS NA MINHA TERRA.
+
+
+
+
+CAPITULO XXVI.
+
+
+ Modo de ler os auctores antigos, e os modernos tambem.--Horacio na
+ sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa historia.--A policia
+ e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema que nos
+ rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo de
+ _old-sack_ sôbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que
+ Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sôbre
+ San'Thiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Próva-se a vinda d'este
+ último a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e
+ Abeillard no Pere-la-Chaise.--Bentham e Camões.--Chega o _auctor_ á
+ sua janella, e pasmosa miragem poetica produzida por umas oitavas
+ dos Lusiadas.--De como emfim proseguem éstas viagens para Santarem,
+ e que feito será de Joanninha.
+
+
+Se eu for algum dia a Roma, heide entrar na cidade eterna com o meu
+Tito-Livio e o meu Tacito nas algibeiras do meu paletó de viagem. Alli,
+sentado n'aquellas ruinas immortaes, sei que heide intender melhor a sua
+história, que o texto dos grandes escriptores se me hade illustrar com
+os monumentos d'arte que os viram escrever, e que uns recordam, outros
+presenciaram os feitos memoraveis, o progresso e a decadencia d'aquella
+civilização pasmosa.
+
+E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu velho e fiel amigo Horacio!..
+Deve ser um prazer regio ir lendo pela sacra-via fóra aquella deliciosa
+satyra, creio que a nona do L. I.,
+
+ Ibam forte sacra via, sicut meus est mos,
+ Nescio quid meditans nugarum...
+
+Deve ser maior prazer ainda, muito maior do que beijar o pé ao papa.
+Parece-me a mim; mas como eu nunca fui a Roma...
+
+E não é preciso. Pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, a
+que Duarte Nunes menos estragou...
+
+O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta das nossas chronicas
+antigas, truncou todas as imagens, raspou toda a poesia d'aquellas
+venerandas e deliciosas _sagas_ portuguezas... Em ponto historico pouco
+mais eram do que _sagas_, verdade seja, mas como taes, lindas. E o
+Duarte Nunes, que era um pobre grammaticão sem gôsto nem graça, foi-se
+ás filagranas e arrendados de finissimo lavor gothico d'aquelles
+monumentos, quebrou-lh'os; ficaram so os traços historicos que eram
+muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou que tinha arranjado uma
+história, tendo apenas destruido um poema. Ficámos sem Nibelungen,
+podendo-o ter, e não obtivemos história porque se não podia obter assim.
+
+Pois digo: pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, obedeça
+á lei concorrendo com o seu cruzado-novo para o augmento e glória da
+benemerita companhia que tem o exclusivo d'esses caranguejos de vapor
+que andam e desandam no rio, entre n'um dos referidos caranguejos, em
+que, além da porcaria e mau-cheiro, não ha perigo nenhum senão o de
+rebentar toda aquella camara-optica que anda por arames, e que em
+qualquer paiz civilizado onde a policia fizesse alguma coisa mais do que
+imaginar conspirações, ha muito estaria condemnada a ir alli caranguejar
+para as Lamas á sua vontade. Mas emfim ca não ha d'outros nem haverá tam
+cedo, graças ao muito que agora, diz que, se cuida nos interêsses
+materiaes do paiz: e portanto tome o seu logar, passe o mesmo que eu
+passei; chegue-me a Santarem, descanse e ponha-se-me a ler a chronica:
+verá se não é outra coisa, vera se deante d'aquellas preciosas
+reliquias, ainda mutiladas, deformadas como ellas estão por tantos e tam
+successivos barbaros, estragadas emfim pelos peiores e mais vandalos de
+todos os vandalos, as auctoridades administrativas e municipaes do feliz
+systema que nos rege, ainda assim mesmo não ve erguer-se deante de seus
+olhos os homens, as scenas dos tempos que foram; se não ouve fallar as
+pedras, bradar as inscripções, levantar-se as estátuas dos tumulos; e
+reviver-lhe a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia d'aquellas
+edades maravilhosas!
+
+Tenho-o experimentado muitas vezes: é infallivel. Nunca tinha intendido
+Shakspeare em quanto o não li em Warwick, aope do Avon, debaixo de um
+carvalho secular, á luz d'aquelle sol baço e branco do nublado ceo
+d'Albion... ou á noite com os pés no _fender_, a chaleira a ferver no
+fogão, e sôbre a banca o crystal antigo de um bom copo lapidado a
+luzir-me alambreado com os doces e perfumados resplendores do _old
+sack_; em quanto o fogão e os ponderosos castiçaes de cobre brunido
+projectam no antigo tecto almofadado, nos pardos compartimentos de
+carvalho que forram o apposento, aquellas fortes sombras vacillantes de
+que as velhas fazem visões e almas-do-outro-mundo, de que os
+poetas--poetas como Shakspeare--fazem sombras de _Banco_, bruxas de
+_Mackbeth_, e até a rotunda pansa e o arrastante espadagão do meu
+particular amigo Sir John Falstaff, o inventor das legítimas
+consequencias, o fundador da grande eschola dos restauradores caturras,
+dos poltrões pugnazes que salvam a patria de parolla e que ninguem os
+atura em tendo as costas quentes.
+
+Oh Falstaff, Falstaff! eu não sei se tu es maior homem que Sancho Pança.
+Creio que não. Mas maior pansa tens, mais capacidade na pansa tens.
+Quando nossos avós renegaram de San' Thiago por castelhano perro, e
+invocaram a San' Jorge, tu vieste, ó Falstaff, em sua comitiva de
+Inglaterra e aqui tomaste assento, aqui ficaste, e foste o patriarcha
+d'essa immensa progenie de Falstaffs que por ahi anda.
+
+Este importante ponto da nossa história, da demissão de San'Thiago e da
+vinda de San'Jorge de Inglaterra com Sir John Falstaff por seu
+_homem-de-ferro_--ésta grande descoberta archeologica que tanta coisa
+moderna explica, como a fiz eu? Indo aos sitios mesmos, estudando alli
+os antigos exemplares: que é a minha doutrina.
+
+Em tudo, para tudo é assim. Chegou um dia um inglez a Paris: um inglez
+legítimo e _cru_, virgem de toda a corrupção continental; calça de
+ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, chapeo fillado na
+cova-do-ladrão. Era enthusiasta de Heloisa e Abeillard, foi-se ao
+Pére-la-Chaise, chegou ao tumulo dos dois amantes, tirou um livrinho da
+algibeira, pôs-se a ler aquellas cartas do Paracleto que tem indoidecido
+muito menos excentricas cabeças que a do meu inglez puro-sangue. Não é
+nada; excitou-se a tal ponto que entrou a correr como um perdido,
+bradando por um conego da sé que lhe acudisse, que se queria identificar
+com o seu modêlo, purificar a sua paixão, ser emfim um completo--ou um
+incompleto Abeillard.
+
+Eu não sou susceptivel de tammanho enthusiasmo, sôbretudo desde que dei
+a minha demissão de poeta e cahi na prosa. Mas aqui tem o que me
+succedeu o outro dia. Tinha estado ás voltas com o meu Bentham, que é um
+grande homem por fim de contas o tal quaker, e são grandes livros os que
+elle escreveu: cançou-me a cabeça, peguei no Camões e fui para a
+janella. As minhas janellas agora são as primeiras janellas de Lisboa,
+dão em cheio por todo esse Tejo. Era uma d'estas brilhantes manhans
+d'hynverno, como as não ha senão em Lisboa. Abri os Lusiadas á ventura,
+deparei com o canto IV e puz-me a ler aquellas bellissimas estancias
+
+ E ja no porto da inclita Ulyssea...
+
+Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti baterem-me as arterias da
+fronte... as lettras fugiam-me do livro, levantei os olhos, dei com
+elles na pobre nau Vasco-da-Gama que ahi está em monumento-caricatura da
+nossa glória naval... E eu não vi nada d'isso, vi o Tejo, vi a bandeira
+portugueza fluctuando com a brisa da manhan, a tôrre de Belem ao
+longe... e sonhei, sonhei que era portuguez, que Portugal era outra vez
+Portugal.
+
+Tal fôrça deu o prestigio da scena ás imagens que aquelles versos
+evocavam!
+
+Senão quando, a nau que salva a uns escaleres que chegam... Era o
+ministro da marinha que ia a bórdo.
+
+Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui tractar das minhas
+camelias.
+
+Andei tres dias com odio á lettra-redonda.
+
+Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo isto para as minhas
+viagens ou para o episodio do valle de Santarem em que ha tantos
+capitulos nos temos demorado?
+
+Vem e vem muito: vem para mostrar que a história, lida ou contada nos
+proprios sitios em que se passou, tem outra graça e outra fôrça; vem
+para te eu dar o motivo porque n'estas minhas viagens, leitor amigo, me
+fiquei parado n'aquelle valle a ouvir do meu companheiro de jornada, e a
+escrever para teu aproveitamento, a interessante história da menina dos
+rouxinoes, da menina dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha.
+
+Sim, aqui tenho estado extendido no chão, as mulinhas pastando na relva,
+os arrieiros fummando tranquillamente sentados, e as últimas horas de
+uma longa e calmosa tarde de julho a cahir e a refrescar com a aragem
+percursora da noite.
+
+Mas basta de valle, que é tarde. Oh lá! venham as mulinhas e montemos.
+Picar para Santarem, que no inclyto alcaçar d'elrei D. Affonso-Henriques
+nos espera um bom jantar d'amigo--e não é so a _vacca e riso_ de Fr.
+Bartholomeu dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'amigo, muito menos
+austero e muito mais risonho.
+
+--'Porquê? ja se acabou a historia de Carlos e de Joanninha?' diz talvez
+a amavel leitora.
+
+--'Não, minha senhora,' responde o auctor mui lisongeado da pergunta:
+'não, minha senhora, a historia não acabou, quasi se póde dizer que
+ainda ella agora começa; mas houve mutação de scena. Vamos a Santarem,
+que lá se passa o segundo acto.'
+
+
+
+
+CAPITULO XXVII.
+
+
+ Chegada a Santarem.--Olivaes de Santarem.--Fóra-de-Villa.--Symetria
+ que não é para os olhos.--Modo de medir os versos da
+ biblia.--Architectura pedante do seculo XVII.--Entrada na Alcáçova.
+
+
+Eram as últimas horas do dia quando chegámos ao princípio da calçada que
+leva ao alto de Santarem. A pouca frequencia de povo, as hortas e
+pomares mal cultivados, as casas de campo arruinadas, tudo indicava as
+vizinhanças de uma grande povoação descahida e desamparada. O mais bello
+comtudo de seus ornatos e glórias suburbanas, ainda o possue a nobre
+villa, não lh'o destruiram de todo; são os seus olivaes. Os olivaes de
+Santarem cuja riqueza e formosura proverbial é uma das nossas crenças
+populares mais geraes e mais queridas!.. os olivaes de Santarem lá estão
+ainda. Reconheceu-os o meu coração e alegrou-se de os ver; saudei
+n'elles o symbolo patriarchal de nossa antiga existencia. N'aquelles
+troncos velhos e coroados de verdura, figurou-se-me ver, como nas selvas
+incantadas do Tasso, as venerandas imagens de nossos passados; e no
+murmurio das folhas que o vento agitava a espaços, ouvir o triste
+suspirar de seus lamentos pela vergonhosa degeneração dos netos...
+
+Estragado como os outros, profanado como todos, o olival de Santarem é
+ainda um monumento.
+
+Os povos do meio-dia, infelizmente, não professam com o mesmo respeito e
+austeridade aquella religião dos bosques, tam sagrada para as nações do
+norte. Os olivaes de Santarem são excepção: ha muito pouco entre nós o
+culto das árvores.
+
+Subimos, a bom trotar das mulinhas, a impinada ladeira--eu alvoraçado e
+impaciente por me achar face a face com aquella profusão de monumentos e
+de ruinas que a imaginação me tinha figurado e que ora temia, ora
+desejava comparar com a realidade.
+
+Chegámos emfim ao alto; a majestosa entrada da grande villa está deante
+de mim. Não me inganou a imaginação... grandiosa e magnífica scena!
+
+_Fóra-de-villa_ é um vasto largo, irregular e caprichoso como um poema
+romantico; ao primeiro aspecto, áquella hora tardía e de pouca luz, é de
+um effeito admiravel e sublime. Palacios, conventos, egrejas occupam
+gravemente e tristemente os seus antigos logares, infileirados sem ordem
+aos lados d'aquella immensa praça, em que a vista dos olhos não acha
+symetria alguma; mas sente-se n'alma. É como o rhytmo e medição dos
+grandes versos biblicos que se não cadenceiam por pés nem por sylabas,
+mas cahem certos no espirito e na _audição interior_ com uma
+regularidade admiravel.
+
+E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! Cuida-se entrar na grande
+metropole de um povo extincto, de uma nação que foi poderosa e celebrada
+mas que desappareceu da face da terra e so deixou o monumento de suas
+construcções gigantescas.
+
+Á esquerda o immenso convento do Sítio ou de Jesus, logo o das Donas,
+depois o de San'Domingos, célebre pelo jazigo do nosso Fausto
+portuguez--seja ditto sem irreverencia á memoria de San'Frei Gil que, é
+verdade, veio a ser grande sancto, mas que primeiro foi grande
+bruxo.--Defronte o antiquissimo mosteiro das Claras, e aopé as baixas
+arcadas gothicas de San'Francisco... de cujo último guardião, o austero
+Frei Diniz, tanta coisa te contei, amigo leitor, e tantas mais tenho
+ainda para te contar! Á direita o grandioso edificio philippino,
+perfeito exemplar da massissa e pedante architectura reaccionaria do
+seculo dezesette, o Collegio, typo largo e bello no seu genero, e quanto
+o seu genero póde ser, das construcções jesuiticas...
+
+Não ha alma, não ha genio, não ha espirito n'aquellas massas pesadas,
+sem elegancia nem simplicidade; mas ha uma certa grandeza que impõe, uma
+solidez travada, uma symetria de calculo, umas proporções frias, mas bem
+assentadas e esquadriadas com methodo, que revelam o pensamento do
+seculo e do instituto que tanto o characterizou.
+
+Não são as fortes crenças da meia-edade que se elevam no arco agudo da
+ogiva; não é a relaxação florída do seculo quinze e desesseis que ja
+vacilla entre o byzantino e o classico, entre o mystico ideal do
+christianismo que arrefece e os symbolos materiaes do paganismo que
+acorda; não, aqui a _renascença_ triumphou, e depois de triumphar,
+degenerou. É a inquisição, são os Jesuitas, são os Philippes, é a
+reacção catholica edificando templos _para que_ se creia e se ore, não
+_porque_ se crê e se ora.
+
+Até aqui o mosteiro e a cathedral, a ermida e o convento eram a
+expressão da idea popular, agora são a fórmula do pensamento
+governativo.
+
+Alli estão--olhae para elles--defronte uns dos outros, os monumentos das
+duas religiões, a qual mais expressivo e loquaz, dizendo mais claro que
+os livros, que os escriptos, que as tradições, o pensamento das edades
+que os ergueram, e que alli os deixaram gravados sem saber que o faziam.
+
+Mais embaixo, e no fundo d'esse declive, aquella massa negra é o resto
+ainda suberbo do ja immenso palacio dos condes de Unhão.
+
+Rodeámos o largo e fomos entrar em Marvilla pelo lado do norte. Estamos
+dentro dos muros da antiga Santarem. Tam magnífica é a entrada, tam
+mesquinho é agora tudo ca dentro, a maior parte d'estas casas velhas sem
+serem antigas, d'estas ruas moirescas sem nada de arabe, sem o menor
+vestigio de sua origem mais que a estreiteza e pouco aceio.
+
+As egrejas quasi todas porêm, as muralhas e os bastiões, algumas das
+portas, e poucas habitações particulares, conservam bastante da
+physionomia antiga e fazem esquecer a vulgaridade do resto.
+
+Seguimos a triste e pobre rua Direita, centro do debil commercio que
+ainda aqui ha: poucas e mal providas logeas, quasi nenhum movimento. Ca
+está a curiosa tôrre das Cabaças, a velha egreja de San'João do Alporão.
+Ámanhan iremos ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos á Alcaçova!
+
+Entrámos a porta da antiga cidadella.--Que espantosa e desgraciosa
+confusão de intulhos, de pedras, de montes de terra e calissa! Não ha
+ruas, não ha caminhos, é um labyrinto de ruinas feias e torpes. O nosso
+destino, a casa do nosso amigo é aopé mesmo da famosa e historica egreja
+de Sancta Maria da Alcaçova.--Hade custar a achar em tanta confusão.
+
+
+
+
+CAPITULO XXVIII.
+
+
+ Depois de muito procurar acha emfim o auctor a egreja de
+ Sancta-Maria d'Alcaçova.--Stylo da architectura nacional
+ perdido.--O terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do
+ Passeio-publico de Lisboa.--O chefe do partido progressista
+ portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.--Deliciosa vista dos
+ arredores de Santarem observada de uma janella da Alcaçova, de
+ manhan.--É tomado o auctor de ideas vagas, poeticas, phantasticas
+ como um sonho.--Introducção do Fausto.--Difficuldade de traduzir os
+ versos germanicos nos nossos dialectos romanos.
+
+
+Depois de muito procurar entre pardeiros e intulhos, achámo-la emfim a
+egreja de Sancta Maria d'Alcaçova. Achámos, não é exacto: ao menos eu,
+por mim, nunca a achava, nem queria accreditar que fôsse ella quando m'a
+mostraram. A real collegiada de Affonso Henriques, a quasi-cathedral da
+primeira villa do reino, um dos principaes, dos mais antigos, dos mais
+historicos templos de Portugal, isto?.. esse egrejorio insignificante de
+capuchos? mesquinha e ridicula massa d'alvenaria, sem nenhuma
+architectura, sem nenhum gôsto! risco, execução e trabalho de um mestre
+pedreiro d'aldeia e do seu apprendiz! É impossivel.
+
+Mas era, era essa. A antiga capella-real, a veneranda egreja da Alcaçova
+foi passando por successivos reparos e transformações, até que chegou a
+ésta miseria.
+
+Perverteu-se por tal arte o gôsto entre nós desde o meio do seculo
+passado especialmente, os estragos do terremoto grande quebraram por tal
+modo o fio de todas as tradições da architectura nacional, que na
+Europa, no mundo todo talvez se não ache um paiz onde, a par de tam
+bellos monumentos antigos como os nossos, se incontrem tam villans, tam
+ridiculas e absurdas construcções públicas como essas quasi todas que ha
+um seculo se fazem em Portugal.
+
+Nos reparos e reconstrucções dos templos antigos é que este pessimo
+stylo, ésta ausencia de todo stylo, de toda a arte mais offende e
+escandaliza.
+
+Olhem aquella impena classica posta de remate ao frontispicio todo
+renascença da Conceição-velha em Lisboa. Vejam a implastagem de geço com
+que estão mascarados os elegantes feixes de columnas gothicas da nossa
+sé.
+
+Não se póde cahir mais baixo em architectura do que nós cahimos quando,
+depois que o marquez de Pombal nos _traduziu_, em vulgar e arrastada
+prosa, os _rococós_ de Luiz XV, que no original, pelo menos, eram
+florídos, recortados, caprichosos e galantes como um madrigal, esse
+stylo bastardo, hybrido, degenerando progressivamente e tomando
+presumpções de classico, chegou nos nossos dias até ao chafariz do
+passeio-público!
+
+Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da Alcaçova tambem; entremos nos
+palacios de D. Affonso Henriques.
+
+Aqui, pegado com o pardeiro rebocado da capella hãode ser. Por onde se
+entra?
+
+Por ésta portinha estreita e baixa, rasgada, bem se ve que ha poucos
+annos, no que parece muro de um quintal ou de um páteo.
+
+É comeffeito aqui; apeemo'-nos.
+
+Recebeu-nos com os braços abertos o nosso bom e sincero amigo, actual
+possuidor e habitante do regio alcassar, o Sr. M. P.
+
+Notavel combinação do acaso! Que o illustre e venerado chefe do partido
+progressista em Portugal, que o homem de mais sinceras convicções
+democraticas, e que mais sinceramente as combina com o respeito e
+adhesão ás fórmas monarchicas, esse homem, vindo do Minho, do berço da
+dynastia e da nação, viesse fixar aqui a sua residencia no alcassar do
+nosso primeiro rei, conquistado pela sua espada n'um dos feitos mais
+insignes d'aquella era de prodigios!
+
+Entrámos na pequena horta em fórma de claustro que une a antiga casa dos
+reis com a sua capella. Assim foi sem dùvida n'outro tempo: a parede
+oriental da egreja é o muro do quintal de um lado, mas as communicações
+foram vedadas provavelmente quando a coroa alienou o palacio e o separou
+assim perpetuamente do templo.
+
+Plantado de larangeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e
+parreiras, aquella pequena cêrca, apezar dos muitos canteiros e
+alegretes de alvenaria com que está moirescamente intulhada, é amena e
+graciosa á vista.
+
+Appresentou-nos o nosso amigo a sua mulher, senhora de porte gentil e
+grave; beijámos seus lindos filhos, e fomos fazer as abluções
+indispensaveis depois de tal jornada para nos podermos sentar á mesa.
+
+O palacio de Affonso Henriques está como a sua capella: nem o mais leve,
+nem o mais apagado vestigio da antiga origem. Sabe-se que é alli pela
+bem confrontada e inquestionavel topographia dos logares, por mais
+nada...
+
+E que me importam a mim agora as antiguidades, as ruinas e as
+demolições, quando eu sinto demolir-me ca por dentro por uma fome
+exasperada e destruidora, uma fome vandalica insaciavel!
+
+Vamos a jantar.
+
+Comêmos, conversámos, tomámos chá, tornámos a conversar e tornámos a
+comer. Vieram visitas, fallou-se politica, fallou-se litteratura,
+fallou-se de Santarem sôbretudo, das suas ruinas, da sua grandeza
+antiga, da sua desgraça presente. Emfim, fomo'-nos deitar.
+
+Nunca dormi tam regalado somno em minha vida. Acordei no outro dia ao
+repicar incessante e appresurado dos sinos da Alcaçova. Saltei da cama,
+fui á janella, e dei com o mais bello, o mais grandioso, e ao mesmo
+tempo, mais ameno quadro em que ainda puz os meus olhos.
+
+No fundo de um largo valle aprazivel e sereno, está o socegado leito do
+Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua juncto ás
+margens, d'onde se debruçam verdes e frescos ainda os salgueiros que as
+ornam e defendem. D'alêm do rio, com os pés no pinque nateiro d'aquellas
+terras alluviaes, os riccos olivedos d'Alpiarça e Almeirim; depois a
+villa de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. D'aquem a immensa
+planicie ditta do Rocio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de
+grupos de árvores sylvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em
+cujo cimo estou, o picturesco bairro da Ribeira com as suas casas e as
+suas egrejas, tam graciosas vistas d'aqui, a sua cruz de Sancta Iria e
+as memorias romanescas do seu alfageme.
+
+Com os olhos vagando por este quadro immenso e formosissimo, a
+imaginação tomava-me azas e fugia pelo vago infinito das regiões ideaes.
+Recordações de todos os tempos, pensamentos de todo o genero me affluiam
+ao espirito, e me tinham como n'um sonho em que as imagens mais
+discordantes e disparatadas se succedem umas ás outras.
+
+Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, nenhuma de esperança!..
+
+Lembraram-me aquelles versos de Goethe, aquelles sublimes e inimitaveis
+versos da introducção do Fausto:
+
+ Resurgis outra vez, vagas figuras,
+ Vacillantes imagens que á turbada
+ Vista accudieis d'antes. E heide agora
+ Retter-vos firme? Sinto eu ainda
+ O coração propenso a illusões d'essas?
+ E appertais tanto!... Pois embora! seja:
+ Dominae, ja que em nevoa e vapor leve
+ Emtôrno a mim surgis. Sinto o meu seio
+ Juvenilmente trépido agitar-se
+ Co'a maga exhalação que vos circunda.
+ Trazeis-me a imagem de ditosos dias,
+ E d'ahi se ergue muita sombra amada:
+ Como um velho cantar meio-esquecido,
+ Véem os primeiros simplices amores
+ E a amizade com elles. Reverdece
+ A mágoa, lamentando o errado curso
+ Dos labyrintos da perdida vida;
+ E me está nomeando os que trahidos
+ Em horas bellas por fallaz ventura
+ Antes de mim na estrada se sumiram.
+ ..................................
+ ..................................
+
+Não me atrevo a pôr aqui o resto da minha infeliz traducção: fiel é
+ella, mas não tem outro merito. Quem póde traduzir taes versos, quem de
+uma lingua tam vasta e livre hade passá-los para os nossos appertados e
+severos dialectos romanos?[1]
+
+
+
+
+CAPITULO XXIX.
+
+
+ Doçuras da vida.--Imaginação e sentimento.--Poetas que morreram
+ moços e poetas que morreram velhos.--Como são escriptas éstas
+ viagens.--Livro de pedra. Criança que brinca com elle.--Ruinas e
+ reparações.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e
+ litterarias.--Sancta Iria ou Irene, e Santarem.--Romance de Sancta
+ Iria.--Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome?
+
+
+Este sonhar acordado, este scismar poetico deante dos sublimes
+spectaculos da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu ás
+almas de certa têmpera. Doce é gosar assim... mas em que doçuras da vida
+não predomina sempre o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica a
+insipidez; deixae-lh'o, ulcéra porfim os orgams: o gôso é mais vivo
+porque a acção do stímulo é mais sentida... mas a ulceração cresce, o
+coração está em carne-viva... agora o prazer é martyrio.
+
+Infeliz do que chegou a esse estado!
+
+Bemaventurado o que póde graduar, como Goethe, a dóze d'amphião que quer
+tomar, que poupa as sensações e a vida, e economiza as potencias de sua
+alma! N'esses porêm é a imaginação que domina, não o sentimento. Byron,
+Schiller, Camões, o Tasso morreram moços; matou-os o coração. Homero e
+Goethe, Sophocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a
+imaginação, que não despende vida porque não gasta sensibilidade.
+
+Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto; sentir é viver
+activamente, cansa-a e consomme-a.
+
+Isto é o que eu pensava--porque não pensava em nada, divagava--em quanto
+aquelles versos do Fausto me estavam na memoria, e aquella saudosa vista
+do Tejo e das suas margens deante dos olhos.
+
+Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que
+d'outro modo não sei escrever.
+
+Muito me pêza, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas
+Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse
+titulo, mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse,
+marco a marco, as leguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e
+larguras dos edificios? algarismo por algarismo, as datas de sua
+fundação? que te resummisse a historia de cada pedra, de cada ruina?..
+
+Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de Santarem, peta e verdade,
+ahi o acharás em amplo folio e gorda lettra: eu não sei compor d'esses
+livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.
+
+So tenho pena de uma coisa, é de ser tam desestrado com o lapis na mão;
+porque em dois traços d'elle te dizia muito mais e melhor do que em
+tanta palavra que porfim tam pouco diz e tam mal pinta.
+
+Santarem é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poetica
+parte das nossas chronicas está escripta. Ricco de illuminuras, de
+recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados
+primorosos, o livro era o mais bello e o mais precioso de Portugal.
+Inquadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras,
+fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas gothicas, o
+magnífico livro devia durar sempre em quanto a mão do Creador se não
+extendesse para apagar as memorias da creatura.
+
+Mas ésta Ninive não foi destruida, ésta Pompeia não foi submergida por
+nenhuma catastrophe grandiosa. O povo de cuja história ella é o livro,
+ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia, deram-lhe o livro para
+brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez
+papagaios e bonecas, fez carapuços com ellas.
+
+Não se descreve por outro modo o que ésta gente chamada govêrno, chamada
+administração, está fazendo e deixando fazer ha mais de seculo em
+Santarem.
+
+As ruínas do tempo são tristes mas bellas, as que as revoluções trazem,
+ficam marcadas com o cunho solemne da historia. Mas as brutas
+degradações e as mais brutas reparações da ignorancia, os mesquinhos
+concertos da arte parasyta, esses profanam, tiram todo o prestigio.
+
+Tal é a geral impressão que me faz ésta terra. Almocemos, que ja oiço
+chamar para isso, e iremos ver depois se me inganei.
+
+Ao almôço a conversação veio naturalmente a cahir no seu objecto mais
+óbvio, Santarem. D. Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e o
+Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei D. Fernando e a
+rainha D. Leonor, Camões desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui
+nascido, Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as grandes figuras
+da nossa historia passaram em revista. Porfim veio Sancta Iria tambem, a
+madrinha e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de
+romanos e celtas.
+
+Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette. A minha idea fixa em coisas de
+arte e litterarias da nossa peninsula são as xacaras e romances
+populares. Ha um de Sancta Iria.
+
+Porque é a Sancta Iria da trova popular tam differente da Sancta Iria
+das legendas monasticas?
+
+A trova é ésta, segundo agora a rectifiquei e appurei pela collação de
+muitas e várias versões provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que
+em geral é a que mais se deve seguir.[2]
+
+ Stando eu á janella co'a minha almofada,
+ Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;
+
+ Passa um cavalleiro, pedia pousada;
+ Meu pae lh'a negou: quanto me custava!
+
+ --'Ja vem vindo a noite, é tam so a estrada...
+ Senhor pae, não digam tal da nossa casa,
+
+ Que a um cavalleiro que pede pousada
+ Se fecha ésta porta á noite cerrada.'
+
+ Roguei e pedi--muito lhe pezava!
+ Mas eu tanto fiz que porfim deixava.
+
+ Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
+ Ao lar o levei, logo se assentava.
+
+ Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava;
+ Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava.
+
+ Poucas as pallavras, que mal me fallava,
+ Mas eu bem sentia que elle me mirava.
+
+ Fui a erguer os olhos, mal os levantava,
+ Os seus lindos olhos na terra os pregava.
+
+ Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava;
+ A cama lhe fiz, n'ella se deitava.
+
+ Dei-lhe as boas noites, não me replicava:
+ Tam má cortezia nunca a vi usada!
+
+ Lá por meia noite que me eu suffocava,
+ Sinto que me levam co'a bôcca tapada...
+
+ Levam-me a cavallo, levam-me abraçada,
+ Correndo, correndo sempre á desfilada.
+
+ Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;
+ Callei-me e chorei--elle não fallava.
+
+ D'alli muito longe que me perguntava
+ Eu na minha terra como me chamava.
+
+ --'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
+ Por aqui agora Iria, a cansada.'[3]
+
+ Andando, andando, toda a noite andava;
+ Lá por madrugada que me attentava...
+
+ Horas esquecidas commigo luctava;
+ Nem fôrça nem rogos, tudo lhe mancava.
+
+ Tirou do alfange... alli me matava,
+ Abriu uma cova onde me interrava.
+
+
+ No fim de sette annos passa o cavalleiro,
+ Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.
+
+ --'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,
+ Se me perdoares, serei teu romeiro.'
+
+ --'Perdoar não te heide, ladrão carniceiro,
+ Que me degollaste que nem um cordeiro.'
+
+
+Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de aventurosa vida e que ambas
+deixassem longa e profunda memoria de sua belleza e martyrio--o de que
+não tenho a menor idea--ou nos escriptos dos frades ha muita fábula de
+sua unica invenção d'elles que o povo não quiz acreditar: alias é
+inexplicavel a singeleza d'esta tradição oral.
+
+Tam simples, tam natural é a narração poetica do romance popular, quanto
+é complicada e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas recordações
+ecclesiasticas.
+
+O caso é grave, fique para novo capitulo.
+
+
+
+
+CAPITULO XXX.
+
+
+ Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance
+ popular.
+
+
+A milagrosa Sancta Iria--Sancta Irene--que deu o seu nome a Santarem,
+donzella nobre, natural da antiga Nabancia[4], e freira no convento
+dupplex[5] benedictino que pastoreava o sancto abbade Celio, floreceu
+pelos meados do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente o joven
+Britaldo, filho do conde ou consul Castinaldo que governava aquellas
+terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu infêrmo de
+molestia que nenhum physico acertava a conhecer, quanto mais a curar.
+
+É sabido que a mais sancta lhe não pêza de que estejam a morrer por
+ella; e, mais ou menos, sempre sympathisa com as victimas que faz.
+
+Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo; e ja que mais não podia
+por sua muita virtude, quiz ver se lhe tirava aquella louca paixão e o
+convertia. Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento--que não guardavam
+ainda as freiras tam absoluta e estreita clausura--e foi-se a casa do
+namorado Britaldo.
+
+Consolou como mulher e ralhou como sancta, e porfim, impondo-lhe na
+cabeça as lindas e bemdittas mãos, n'um instante o sarou de todo achaque
+do corpo; e se lhe não curou o d'alma tambem, pelo menos lh'o
+adormentou, que parecia acabado.
+
+Mas como o demo, em chegando a entrar n'um corpo humano, parece que não
+sai d'elle senão para se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo
+deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar em não menor
+personagem do que o monge Remigio, que era o mestre e director da bella
+Iria.
+
+Arde o frade em concupiscencia, e não obtendo nada com rogos e lamentos,
+jurou vingar-se. Disfarçou porêm, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando
+ella menos cuidava, uma bebida de sua diabolica preparação, que apenas a
+sancta a havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram a crescer
+todos os signaes da mais apparente maternidade.
+
+Corre a fama do supposto estado da donzella, chovem as injúrias e os
+insultos dos que mais a tinham respeitado até então. E Britaldo, que se
+julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher artificiosa, em vez
+de a esquecer com desprêzo--sente reviver-lhe, senão tam pura, muito
+mais ardente, toda a antiga paixão.
+
+Tam mysterioso é o coração do homem!--tam vil! dirão os asceticos--tam
+inexplicavel! direi eu com os mais tolerantes.
+
+Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso amante... A sancta
+resiste a tudo, forte na sua virtude.
+
+Costumava a devota donzella ir todas as noites a uma occulta lapa que
+jazia no fim da cêrca e juncto ao rio Nabão, para alli estar mais so com
+Deus, e desabafar com Elle á sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou a
+occasião e alli a fez apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda
+nos conservou para maior testimunho de verdade: chamava-se Banam.
+
+Banam! é um verdadeiro nome de mellodrama.
+
+Morta a innocente, Banam despiu-lhe o hábito e lançou o corpo ao rio,
+que depressa a levou ás arrebatadas correntes do Zezere em que desagua;
+e logo este ao Tejo--que defronte da antiga Scalabicastro lhe deu
+sepultura em suas louras areas, para maior glória da sancta e perpétua
+honra da nobillissima villa que hoje tem o seu nome.
+
+Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, teve Celio, o abbade do
+convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do
+caso; e communicando-a logo aos monges e ao povo de Nabancia, sahiu com
+todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegan fóra, até chegar
+á Ribeira de Santarem. Ahi benzendo as aguas do rio, éstas se retiraram
+cortezes e deixaram ver o sepulchro que era de fino alabastro, obrado á
+maravilha pelas mãos dos anjos.
+
+Chegaram aopé do tumulo, abriram-n'o, viram e tocaram o corpo da sancta,
+mas não o poderam tirar, por mais diligencias que fizeram. Conheceu-se
+que era milagre; e contentando-se de levar reliquias dos cabellos e da
+tunica, voltaram todos para a sua terra.
+
+As aguas tornaram a junctar-se e a correr como d'antes, e nunca mais se
+abriram senão d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha sancta
+Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas orações fez aopé do rio
+pedindo á sancta que lhe apparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o
+mar Vermelho á voz de Moises, dizem os devotos chronistas, e patenteou o
+benditto sepulchro.
+
+Entrou a rainha a pé inchuto pelo rio dentro, seguida de seu real espôso
+e de toda a sua côrte; mas por mais que rezasse ella, e que trabalhassem
+os outros com todas as fôrças humanas, não poderam abrir o tumulo;
+quebraram todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado el-rei de
+que um podêr sobrehumano não permittia que elle se abrisse, mandou a
+toda a pressa levantar um padrão muito alto sôbre o mesmo tumulo, e tam
+alto que o rio na maior inchente o não podesse cubrir.
+
+O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros acabassem, e quando
+viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos,
+tornaram a junctar-se as aguas e o padrão ficou sobresahindo por cima
+d'ellas.
+
+Passaram mais tres seculos e meio; e no anno de 1644 a camara de
+Santarem mandou refazer de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal
+que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem da sancta.
+
+Ainda lá está, assás mal cuidado com tudo; lá o vi com estes olhos
+peccadores no corrente mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem
+orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu
+leito, e o padrão estava perfeitamente em sêcco, e em sêcco está todo o
+anno até começarem as cheias.
+
+Tal é, em fidelissimo resummo, a historia da Sancta Iria dos livros.
+
+A das cantigas é, como ja disse, muito outra e muito mais simples,
+conta-se em duas palavras. A sancta está em casa de seus paes; um
+cavalleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por
+horas mortas, rouba a descuidada e innocente donzella, foge a todo o
+correr de seu cavallo, e chegado a um descampado d'alli muito longe,
+pretende fazer-lhe violencia... A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a
+annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma linda ermida levantada
+no proprio sítio onde commetteu o crime, pergunta de que sancta é,
+dizem-lhe que é de Sancta Iria. Elle cai de joelhos a pedir perdão á
+sancta, que lhe lança em rosto o seu peccado e o amaldiçoa.
+
+E acabou a historia.
+
+Sería o povo que se esqueceu nas suas tradições, ou os frades que
+augmentaram nas suas escripturas? Pois a legenda monastica é realmente
+bella e cheia de poesia e romance, coisas que o povo não costuma
+desprezar.
+
+É difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo para
+qualquer observador não vulgar, que n'estas crenças do commum, n'estas
+antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia dos nescios, quer
+estudar os homens e as nações e as edades onde elles mais sinceramente
+se mostram e se deixam conhecer.
+
+A extrema simplicidade do romance ou xacara de Sancta Iria, o ser elle,
+d'entre todos os que andam na memoria do nosso povo, o mais geralmente
+sabido e mais uniformente repettido em todos os districtos do reino, e
+com poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que
+ésta seja das mais antigas composições não so da nossa lingua, mas de
+toda a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo: este é um d'aquelles
+poemas quasi aborigines que a tradição tem vindo intregando, e ao mesmo
+tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente; e tambem não é
+porcerto dos que desceram do palacio ás choupanas e fugiram da cidade
+para as aldeas, como em muitos outros se conhece: este visivelmente
+nasceu nos arraiaes, nos oragos dos campos, e por lá tem vivido até
+agora.
+
+A fórma metrica da composição é a que a phrase didatica das Hispanhas
+chamou _romance em endechas_. Eu, adoptando para elle, mais que para a
+fórma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do ingenhoso philologo
+allemão, Deeping, tam benemerito da nossa litteratura peninsular, creio
+que estes são verdadeiros versos de dôze syllabas, e que as coplas não
+constam senão de dous versos cada uma, segundo a óbvia significação da
+palavra. O povo cantando não separa os hemistychios d'estes versos como
+fazem os que os escrevem: e ao contrário nos romances da medida mais
+commum, o canto popular reparte distinctamente cada membro de oito
+syllabas sôbre si.
+
+Não sei se me ingano, mas desconfio que as quatro coplas últimas, em que
+muda completamente a rhyma, sejam additamento posterior feito á cantiga
+original. Todavia estes oito versos apparecem, com ligeiras variantes,
+em toda a parte.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXI.
+
+
+ Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em verso e
+ Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de
+ architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As
+ salgadeiras de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de
+ Santarem.--Voltemos á historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos
+ verdes.
+
+
+Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos a começar a longa
+viasacra de reliquias, templos e monumentos que são hoje toda Santarem.
+
+A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente: hoje é um livro que
+so recorda o que foi. Entre a historia maravilhosa do passado que todas
+éstas pedras memoram, e as prophecias tremendas do futuro que parecem
+gravadas n'ellas em characteres mysteriosos, não ha mais nada: o
+presente não é, ou é como se não fosse: tam pequeno, tam mesquinho, tam
+insignificante, tam desproporcionado parece a tudo isto.
+
+Dá vontade de intoar com o poeta inspirado de Jerusalem: 'Quommodo sedet
+sola civitas!' Portugal é, foi sempre uma nação de milagre, de poesia.
+Desfizeram o prestigio; veremos como elle vive em _prosa_. Morrer, não
+morre a terra, nem a familia, nem as raças: mas as nações deixam de
+existir.--Pois embora, ja que assim o querem. A mim não me fica
+escrupulo.
+
+Passámos a egreja da Alcaçova, que achámos ja fechada; e tomando sempre
+sôbre a esquerda, fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre
+quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras a rua mais _fashionavel_
+d'esta villa cortezan. Aqui estão quasi aopé da egreja umas portas e
+janellas do mais fino lavor e gôsto mosarabe que me lembra de ter visto.
+
+E a proposito, porque se não hade adoptar na nossa peninsula ésta
+designação de _mosarabe_ para characterizar e classificar o genero
+architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christão da
+architectura da meia edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos
+habitos sensuaes moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia?
+
+De que palacio incantado foram éstas portas tam primorosamente lavradas?
+Que bellezas se debruçaram d'essas arrendadas janellas para ver passar o
+cavalleiro escolhido do seu coração? São tam lindas, tam elegantes ainda
+éstas pedras desconjunctadas, e mal sustidas de um muro insosso e
+grosseiro que as facea, que naturalmente despertam a mais adormecida
+imaginação a quanto sonho de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos
+mysterios da edade-média.
+
+Pouco mais adeante está, em um mau nicho escalavrado e feio, um
+pretendido busto de D. Affonso Henriques, a que attribuem grande
+antiguidade. Não me fez esse effeito a mim.
+
+Chegámos á porta do _Sol_; sentamo'-nos alli a gosar da majestosa vista.
+É majestosa mas triste. A ribanceira que d'alli corta abaixo, até ao
+rio, é arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como a mal povoada nuca
+de um velho, alguns tufos de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto
+rasteiro, meio _frutex_ meio herbaceo que aqui chamam 'Salgadeira' e que
+a tradicção diz ter vindo de Affrica para segurar a terra n'estes
+taludes e precipicios. O aspecto e hábito da planta é realmente
+affricano e oriental, não tem nada de europeu. Mas ésta derradeira e
+occidental parte da nossa Hespanha é, geologicamente fallando, ja tam
+affrica, tam pouco europa, que não sería necessaria a transplantação
+talvez; e porventura ficou ésta memoria entre o povo do uso que os
+moiros faziam da planta para esse fim.
+
+Ésta porta do sol dizem que é onde se faziam as execuções em tempos
+antigos. Foi bem escolhido o sítio; não o ha mais triste e melancholico.
+Aopé está um torreão quadrado da muralha que ahi fórma canto para seguir
+depois na direcção de sul a norte. D'este lado as fortificações e lanços
+de muro estão todas pouco estragadas; e do mirante a que subimos,
+póde-se formar perfeita idea do que era uma antiga cidade murada.
+
+Sería aqui, dizia eu commigo, que o nosso Fr. Diniz de quem ja tenho
+saudades--o velho guardião de San'Francisco veio chorar o seu ultimo
+threno sôbre as ruinas da antiga monarchia? Sería aqui n'este logar de
+desolação e melancholia que correram as suas derradeiras lagrymas! Elle
+que ja não chorava, acharia aqui quem desse aos seus olhos as fontes de
+agua que o coração lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o
+rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada velhice?
+
+Passavam-me éstas ideas pelo pensamento quando o historiador que tantos
+capitulos nos retteve no vale, contando-nos os successos de Joanninha e
+da sua familia, nos disse:
+
+'Sentemo-nos aqui na sombra que faz ésta muralha e acabemos a historia
+da menina dos rouxinoes. De tarde vamos á Ribeira saudar a memoria do
+Alfageme. Ámanhan de manhan está detalhado que iremos ver a Graça, o
+Sancto milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos hoje ésta
+historia.'
+
+'Seja' respondemos nós.
+
+Entraremos portanto em novo capitulo, leitor amigo; e agora não tenhas
+medo das minhas digressões fataes, nem das interrupções a que sou
+sujeito. Irá direita e corrente a historia da nossa Joanninha até que a
+terminemos... em bem ou em mal? D'antes um romance, um drama em que não
+morria ninguem era havido por semsabor; hoje ha um certo horror ao
+tragico, ao funesto que perfeitamente quadra ao seculo das commodidades
+materiaes em que vivemos.
+
+Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em principios nem em fins tenho
+eschola a que esteja sujeito, e heide contar o caso como elle foi.
+
+Escuta.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXII.
+
+
+ Tornámos á historia de Joanninha.--Preparativos de guerra.--A
+ morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O
+ infermeiro.--Georgina.
+
+
+'Escuta!' disse eu ao leitor benevolo no fim do último capítulo. Mas não
+basta que escute, é preciso que tenha a bondade de se recordar do que
+ouviu no capitulo XXV e da situação em que ahi deixámos os dous primos,
+Carlos e Joanninha.
+
+N'este despropositado e inclassificavel livro das minhas Viagens, não é
+que se quebre, mas inreda-se o fio das historias e das observações por
+tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com muita paciencia se póde
+deslindar e seguir em tam imbaraçada meada.
+
+Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei por ser breve e ir direito
+quanto eu podér.
+
+Lembra-te como n'uma noite pura, serena e estrellada, aquelles dous se
+despediram um do outro no meio do valle, como se despediram tristes,
+duvidosos, infelizes, e ja outros, tam outros do que d'antes foram.
+
+N'essa mesma noite, a ordenada confusão de um grande movimento de guerra
+reinava nos postos dos constitucionaes. Á longa apathia de tantos mezes
+succedia uma inesperada actividade. Preparavam-se os sanguinolentos
+combates de Pernes e de Almoster, que não foram decisivos logo, mas que
+tanto appressaram o termo da contenda.
+
+Carlos achou ordem de se appresentar no quartel-general, partiu
+immediatamente. O pensamento absorvido por ideas tam differentes, tam
+confuso, tam alheado de si mesmo, seguiu machinalmente o corpo. Foi,
+chegou, recebeu as instrucções que lhe deram, e voltou mais satisfeito,
+mais tranquillo.
+
+Tractava-se de morrer. Não sabe o que é verdadeira angústia d'alma o que
+ainda não abençoou a morte que viu deante de si, o que a não invocou
+ainda como unico remedio de seu mal, ou, o que é mais desesperado, como
+unica sahida de suas fataes perplexidades.
+
+Estes momentos são raros na vida, é certo; mas quando occorrem, não ha
+exaggeração nenhuma em dizer que antes, muito antes a morte do que
+elles.
+
+Oh! e se a morte que se contempla é de honra e glória, se o enthusiasmo,
+tirando fortemente a corda dos nervos, os faz vibrar n'aquelles tons
+secretos e mysteriosos que arrebatam, e elevam o coração do homem á
+sublime abnegação de si, e de tudo o que é piqueno, baixo e vil na sua
+natureza--oh então a morte parece um triumpho, uma bemaventurança
+porcerto!
+
+Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada que affiou com
+escrupuloso cuidado, e das suas boas e seguras pistolas inglezas que
+limpou minuciosamente, carregou e escorvou com um verdadeiro amor de
+artista que se compraz no último acabamento de um trabalho predilecto.
+
+O pouco da noite que lhe restava passou-se n'isto, a marcha começou
+antes do dia. E os primeiros raios do sol foram saudados pelo fuzilar
+das espingardas, e pelo trovejar dos canhões.
+
+Combateu-se larga e incarniçadamente--como entre irmãos que se odeiam de
+todo o odio que ja foi amor--o mais cruel odio que tem a natureza!
+
+O dia declinava ja quando n'um hospital em Santarem entravam muitas
+maccas de feridos, e entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto de
+sangue que, assim pelos restos do uniforme como por certo ar bem
+conhecido--e charecteristica então, se via claramente ser do exército
+constitucional.
+
+Eram muitas e perigosas as feridas d'esse homem; estenderam-n'o n'uma
+especie de tarimba sôbre que havia alguma palha, e quando lhe chegou a
+sua vez foi examinado e pençado como os outros. Não dava signal de
+padecer, tinha os olhos fechados, o pulso forte mas não agitado de
+febre; não proferia uma syllaba, não soltava um ai, e prestava-se a tudo
+o que lhe diziam e faziam, menos a soltar da mão esquerda que apertava
+contra o peito o que quer que fosse que alli tinha seguro e que lhe
+pendia ao pescosso de uma estreita fitta preta.
+
+Assim o deixaram largo tempo: elle adormeceu. Não sería largo, mas foi
+profundo o seu dormir. Quando acordou ja se não viu no vasto
+caravanseray d'aquelle confuso hospital, mas n'um pequeno quarto
+arejado, limpo, e quasi confortavel que em tudo parecia cella de
+convento, menos na boa cama em que jazia o doente, e na extremada
+elegancia do infermeiro que o velava.
+
+O quarto era comeffeito uma cella do convento de San'Francisco em
+Santarem, o doente o nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, uma
+bella mulher de estatura não acima de ordinaria mas nem uma linha menos,
+involvida nas amplissimas pregas de um longo roupão de seda d'aquella
+acertada côr que, em dialecto da rua Vivienne, se diz _scabieuse_; a
+cabeça toucada de finissima Bruxellas, com uns laços de preto e côr de
+granada que realçavam a transparencia das rendas, a infinita graça dos
+longos e ondados aneis louros do cabello, e a pureza symetrica de um
+rosto oval, classico, perfeito, sem grande mobilidade de expressão mas
+bello, bello, quanto póde ser bello um rosto em que pouco d'alma se
+reflecte, e em que a serena languidez de uns olhos azues entibía e
+modera a energia do sentimento que não é menos profundo talvez, mas
+certamente se expande menos.
+
+De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a mão direita d'elle nas suas,
+os olhos seccos mas fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella
+mulher estava alli como a estátua da dor e da anxiedade. A uma porta
+interior e que abria para uma especie de alcova obscura, em pé, os
+braços cruzados e mettidos nas mangas, o capuz na cabeça, estava um
+frade velho, alto mas curvado do pêso dos annos ou dos soffrimentos.
+
+O frade contemplava o infêrmo e a infermeira, mas visivelmente não
+queria ser visto n'essa occupação, porque ao menor estremecimento do
+doente recuava apressado e como assustado para o interior da sua alcova.
+
+Uma so vela de cera allumiava este quadro, accidentando-o de fortes
+sombras, e dando-lhe um tom de solemnidade verdadeiramente magico e
+sublime.
+
+Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo affêrro o relicario ou
+talisman, o que quer que era que não queria desprender de seu coração. A
+bella infermeira beijava de vez em quando aquella mão tenaz que
+estremecia a cada beijo, por mais suave e mimoso que fosse o leve
+contacto d'esses labios delicados.
+
+A outra mão estava nas mãos d'ella, mas era insensivel a tudo, essa.
+
+O silencio era o do sepulchro: so se ouvia o respirar incerto e
+descompassado do infêrmo.
+
+Derepente Carlos entreabriu as palpebras e exclamou em inglez: '_Oh
+Georgina, Georgina, I love you still._'--(Georgina, Georgina, eu ainda
+te amo).
+
+Duas lagrymas--duas perolas, d'estas que se criam com tanta dor no
+coração e que ás vezes sahem com tanto prazer dos olhos--romperam do
+celeste azul dos olhos da dama e suavemente correram por aquellas faces
+de uma alvura pallida e mortal.
+
+Carlos accordou de todo, abriu os olhos e cravou-os fixamente no rosto
+angelico d'essa mulher.
+
+Esteve assim minutos: ella não dizia nada nem de voz nem de gesto:
+fallavam-lhe so as lagrymas que corriam quietas, quietas, como corre uma
+fonte perenne e nativa d'agua que mana sem esfôrço nem impeto, por um
+declive natural e facil.
+
+--'Onde estou eu, Georgina?'
+
+--'Nos meus braços.'
+
+--'Que me succedeu?'
+
+--'Que não podes ser feliz senão n'elles: bem sabes.'
+
+--'Sei... devia saber.'
+
+--'Hasde sabe-lo agora. O passado...'
+
+--'O passado! qual?'
+
+--'O passado deixou de existir.'
+
+--'E o futuro?'
+
+--'Eu não creio no futuro.'
+
+--'Porquê?'
+
+--'Porque tu me disseste que não cresse.'
+
+--'Eu!.. Eu sou um...'
+
+--'Um homem.'
+
+--'Oh!'
+
+--'Basta e descança. Amanhan fallaremos.'
+
+--'Estou ferido, muito; e doe-me agora... não me doía.'
+
+--'Estás, mas sem perigo: e estou eu aqui. Dorme.'
+
+--'Não posso. Que casa é ésta?'
+
+--'San'Francisco de Santarem.'
+
+--'Deus de misericordia!'
+
+--'Es prisioneiro: sára, e eu te livrarei.'
+
+--'Tu!--E tu aqui, como?'
+
+--'Vim buscar-te, e achei-te assim.'
+
+--'Georgina!'
+
+--'Que tens tu ahi tam seguro na mão esquerda?'
+
+--'Vê: a medalha com o teu cabello.'
+
+--'Então amas-me tu ainda?'
+
+--'Se te amo! Como no primeiro...'
+
+--'Não mintas, Carlos... E dorme.'
+
+--'Oh meu Deus, meu Deus! Georgina aqui, eu n'este estado e... E a minha
+gente?'
+
+--'A tua gente está salva.'
+
+--'Aonde?'
+
+--'Aqui mesmo, em Santarem.'
+
+--'Quero... não quero... Oh sim, quero mas é morrer. Tende misericordia
+de mim, meu Deus!'
+
+--'Socega, Carlos.'
+
+Mas Carlos não socegava: immudeceu porque a torrente de seus
+pensamentos, o incontrado d'elles, e o inesperado d'aquella situação lhe
+imbargavam a voz, e o quebramento das fôrças lhe tolhia os movimentos do
+corpo; mas o espirito inquieto e alvoraçado revolvia-se dentro com um
+phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria.
+
+Á fôrça de bebidas calmantes o accesso diminuiu, a noite passou mais
+tranquilla; e pela manhan o doente não dava cuidado ao facultativo que o
+veio ver.
+
+Prohibiram-lhe fallar; e Georgina tinha a coragem de lhe resistir, de
+lhe não responder todas as vezes que elle tentava quebrar o preceito de
+que dependia a sua vida... e a d'ella, porque a infeliz amava-o... oh!
+amava-o como se não ama senão uma vez n'este mundo.
+
+Passaram dias, semanas, Carlos estava melhor, estava salvo; Georgina
+pôde dizer-lhe um dia:
+
+--'Carlos, meu Carlos, tu estás livre de perigo, vou restituir-te aos
+teus.'
+
+--'Os meus!'
+
+--'Os teus. Tua avó, tua prima...'
+
+--'Joaninha! oh! Joanninha...'
+
+--'Tua avó que tambem tem estado a morrer mas que emfim está escapa,
+ignora que tu estejas aqui. Occultámo-lo egualmente a tua prima.'
+
+--'Ah!'
+
+--'Sim, assentámos de lh'o não dizer a uma nem a outra até que
+tivessemos certeza da tua melhora. Hoje porêm vais ve-las. E eu...'
+
+--'Tu!'
+
+--'Eu não tenho aqui mais nada que fazer.'
+
+--'Georgina!'
+
+--'Carlos!'
+
+--'Tu ja me não amas?'
+
+--'Não.'
+
+Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o da calma que precede as
+grandes tempestades. O rosto de Georgina estava impassivel, Carlos
+estorcia-se debaixo de uma compressão horrivel e incapaz de se
+descrever.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXIII.
+
+
+ Carlos e Georgina. Explicação.--Ja te não amo! palavra
+ terrivel.--Que o amor verdadeiro não é cego.--Frade no caso outra
+ vez. _Ecce iterum Crispinus_; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco.
+
+
+--'Tu ja me não amas, Georgina, tu!' exclamou Carlos depois de uma longa
+e penosa lucta comsigo mesmo: 'Ja me não amas tu, Georgina? Ja não sou
+nada para ti n'este mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que
+derramavas em torrentes sôbre a minha alma, em que trasbordava o teu
+coração; aquelle amor que eu cheguei a persuadir-me que era o maior, o
+mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor de mulher que ainda houve
+no mundo, esse amor acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a fonte
+celeste d'onde manava? Nem as recordações de nossa passada felicidade,
+nem as memorias dos crueis lances que nos custou, dos sacrificios
+tremendos que por mim fizeste, nada, nada póde acordar na tua alma um
+echo, um echo sumido que fosse, da antiga harmonia de nossas vidas--da
+nossa vida, Georgina, porque nós chegámos a confundir n'um só os dois
+seres da nossa existencia--Oh! porque vivi eu até este dia? E tu, tu que
+refinada crueldade te inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado,
+que tinhas sacrificado quando a separaste da tua?'
+
+--'Carlos,' respondeu Georgina com a fria mas compassiva piedade que
+mais o desesperava:--'Carlos, não abuses da pouca saude que ainda tens.
+O esfôrço d'alma que estás fazendo póde-te ser prejudicial. Socega. Tu
+illudes-te, e sem querer, procuras illudir-me tambem a mim. Entra em ti,
+Carlos, e discorramos pausadamente sôbre a nossa situação, que não é
+agradavel porcerto nem para um nem para outro, mas que póde supportar-se
+se tivermos juizo para a incarar toda e sem medo, e para nos
+convencermos com lealdade e franqueza do que ella realmente é. Ouve-me,
+Carlos: tu amaste-me muito...'
+
+--'Oh como, oh quanto! Nenhum homem...'
+
+--'Poucos homens, é certo, amaram ainda como tu... quem sabe! talvez
+nenhum.--Não quero perder ésta última illusão... ja não tenho outra...
+Talvez nenhum amou como tu me amaste ou... ou cuidaste amar-me. Eu...
+oh! eu quiz-te... pelo eterno Deus que me ouve! eu quiz-te com uma
+cegueira d'alma, n'uma singeleza de coração, com um abandôno tam
+completo, uma abnegação tam inteira de mim mesma, que realmente creio,
+este é o amor que so a Deus se deve, que so ao Creador a creatura póde
+consagrar licitamente.
+
+Bem castigada estou: mereci-o.'
+
+--'Georgina, Georgina!'
+
+--'Deixa-me, quero desabafar eu tambem agora. Ouve-me, tens obrigação de
+me ouvir.--Se te dei provas d'este amor, tu o sabes; se desde que te
+amei, uma palavra, um gesto, um pensamento unico, um so e o mais leve
+relampejar da imaginação desmentiu em mim d'esta absoluta e exclusiva
+dedicação de todo o meu ser... dize-o tu.'
+
+--'Não, minha alma, não, minha vida, não; tu és um anjo, tu es...'
+
+--'Sou uma mulher que te amava como creio que ordinariamente se não
+ama.'
+
+--'Não, certo, não.'
+
+--'Fomos felizes, é verdade; e creio que poucos amantes ainda foram tam
+felizes como nós nos breves dias que isto durou.--Tu partiste para a tua
+ilha; era forçoso partir, conheci-o e resignei-me. Consolavam-me as tuas
+cartas, as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram escriptas com o
+mais puro sangue do teu coração. Nunca duvidei do que me ellas diziam:
+não se mente assim, tu não mentias então. É falso que o amor seja cego:
+o amor vulgar póde sê-lo, amor como o meu, o amor verdadeiro tem olhos
+de lynce: eu bem via que era amada. Nunca me escreveste a protestar
+fidelidade, e eu sabía, eu via que tu me eras fiel.--Assim passaram
+meses, annos. Na ilha e no Porto foste o mesmo. Eu padecia muito, mas
+confortava-me, vivia de esperanças... triste viver mas doce! Emfim
+vieste para Lisboa, para aqui... e as tuas cartas que não eram menos
+ternas nem menos apaixonadas...'
+
+--'Se eu nunca deixei, nem um momento...'
+
+Com um gesto expressivo, e de suave mas resoluta denegação, Georgina pôs
+a mão na bôcca do pobre Carlos, como para o impedir de dizer uma
+blasphemia. Elle segurou-a com as suas ambas e lh'a beijou mil vezes com
+um arrebatamento, uma _furia_, n'um paroxismo de lagrymas e de soluços,
+que partiriam o coração ao mais indifferente. Commoveu-se, vacillou a
+inalteravel rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se as longas
+palpebras de seus olhos; mas se chegou até elles alguma lagryma mais
+rebelde, prompta refluiu para o coração, porque ao levantá-los outra vez
+e ao fixá-los tranquillamente nos do seu amante, aquelles olhos puros,
+celestes e austeros como os de um anjo offendido, estavam seccos.
+
+Ella continuou:
+
+--'As tuas cartas, que não eram menos ternas nem menos apaixonadas,
+começaram todavia a ser menos naturaes, mais incarecidas... eram menos
+verdadeiras por fôrça. Senti-o, vi-o, e cuidei morrer. Uma familia da
+minha amizade vinha então para Portugal, accompanhei-a. Apenas cheguei,
+procurei e obtive os meios seguros de tranzitar pelos dous campos
+contendores: presagiava-me o coração que me havia de ser preciso. E foi;
+cheguei ao valle no dia em que tu o deixavas para aquella fatal acção
+que te ia custando a vida. Vim-te incontrar prisioneiro e meio morto no
+hospital dos feridos. Aopé de ti estava um frade...'
+
+--'Um frade! Meu Deus, se seria elle?'
+
+--'Era elle.'
+
+--'Pois tu sabes?..'
+
+--'Sei: eu disse-lhe quem era e o que tu me eras...'
+
+--'Tu a elle... disseste?..'
+
+--'Disse. Não sei se fiz mal ou bem, sei que me não importava o que
+fazia. Vi depois que me não inganára na confiança que posera n'elle.
+Trouxemos-te para este convento, trattámos de ti, conseguimos salvar-te
+a vida... E em quanto esse cuidado me livrava de outros, fui... fui
+feliz. A tua gente... a tua familia do valle tambem veio para
+Santarem... tua avó e tua prima, Carlos...'
+
+--'Joanninha! Joanninha está aqui?'
+
+--'Está; socega; ja t'o disse, logo a verás.'
+
+--'Eu! Eu para quê? Eu não quero...'
+
+--'Quero eu: hasde ve-la. Ja sabes que sei tudo.'
+
+--'Tudo o quê, Georgina?'
+
+--'Queres que t'o repitta? Repettirei. Que tu amas tua prima, que ella
+que te adora. E por Deus, Carlos eu ja lhe quero como se fôra minha
+irman. Intendes bem agora que te não amo? Comprehendes agora que tudo
+acabou entre nós, e que não vejo, não posso ver em ti ja senão o espôso,
+o marido da innocente criança que tomei debaixo da minha protecção, e a
+quem juro que hasde pertencer tu?'
+
+--'Juras falso.'
+
+--'Como assim! Pois queres mais victimas? Não estás satisfeito com a
+minha ruina? Eu aomenos não sou do teu sangue. E essa velha decrepita
+que é tua avó, que duas vezes foi em verdade tua mãe porque te
+criou,--essa innocente que te ama na singelleza do seu coração... e esse
+pobre frade velho...'
+
+--'Oh! aqui anda elle, bem o vejo, aqui anda o genio mau da minha
+familia. Malditto sejas tu, frade!'
+
+O desgraçado não acabára bem de pronunciar éstas palavras, quando a
+porta da alcova se abriu de par em par, e a rigida, ascetica figura de
+Fr. Diniz estava deante d'elle.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXIV.
+
+
+ Carlos, Georgina e Fr. Diniz.--A peripecia do drama.--
+
+
+Carlos estava meio sentado meio deitado n'uma longa cadeira de recôsto;
+Georgina em pé, com os braços cruzados e na attitude de reflexiva
+tranquillidade. Um sol brilhante e ardente, um sol de maio, feria os
+estreitos vidros da pequena janella que so dava luz áquelle quarto: a
+excessiva claridade era velada por uma longa e ampla cortina.
+
+Carlos lançou derepente a mão a essa cortina e a affastou para avivar a
+luz do aposento. Um raio agudissimo de sol foi bater direito no macerado
+rosto do frade, e reflectiu de seus olhos incovados, um como relampago
+de íra celeste que fez estremecer os dous amantes.
+
+Não foi porêm senão relampago; sumiu-se, apagou-se logo. Aquelles olhos
+ficaram mortaes, mudos, fixos, invidraçados como os de um homem que
+acabou de expirar e a quem não cerraram ainda as palpebras.
+
+E assim mesmo aquelles olhos tinham o podêr magnetico de fixar os
+outros, de os não deixar nem pestanejar.
+
+Curvo, incostado a um bordão grosseiro, o seu chapeo alvadio debaixo do
+braço, o frade deu alguns passos tremulos para onde estavam os dous,
+arrastando a custo as sôltas alpercatas que davam um som baço e batido,
+e faziam--não sei por quê nem como--estremecer a quem as sentia.
+
+Parou a pouca distancia, e tirando a voz fraca e tenue, mas vibrante e
+solemne, do íntimo do peito, disse para Carlos:
+
+--'Tu mal disseste-me, filho, e eu venho perdoar-te. Tu detestas-me,
+Carlos, de todos os podêres da tua alma, com toda a energia de teu
+coração; e eu venho-te dizer que te amo, que tomára dar a minha vida por
+ti, que do fundo das intranhas se ergue este immenso amor que não tem
+outro egual, a pedir-te misericordia, a clamar-te em nome de Deus e da
+natureza, a pedir-te, por quanto ha sancto no ceo e de respeito na
+terra, que levantes essa maldicção, filho, de cima da cabeça de um
+moribundo.'
+
+Eram dittas em tal som estas vozes, vinham pronunciadas lá de dentro
+d'alma com tal vehemencia, que lh'as não articulavam os labios,
+rompiam-n'os ellas e sahiam.
+
+O soldado parecia desaccordado, confuso e sem intelligencia do que
+ouvia. Georgina impassivel até alli, rigida e inabalavel com o seu
+amante, sentia commover-se agora d'aquella angústia do velho. É que
+partia pedras a dor que vinha n'aquellas fallas sepulchraes, que
+trassudava d'aquelle rosto cadaverico.
+
+Ao mesmo tempo, um som confuso, um tumulto vago e abafado de mil sons
+que pareciam arredar-se, incontrando-se, tornando, indo e vindo, e
+dispersando-se para se tornar a unir, e tornando a dispersar-se emfim,
+reboava ao longe pela villa, extendia-se nas praças, concentrava-se nas
+ruas, e mandava áquella solitaria e remota cella do convento uns echos
+surdos, como os do mar ao longe quando se retira da praia no murmurar
+melancholico que precede um temporal d'equinoxio.
+
+--'Ouves esse borburinho confuso, Carlos? É a tua causa que triumpha, é
+a d'estes loucos que succumbe, é a de Deus que a si mesmo se desamparou.
+A hora está chegada, escreveram-se as lettras de Balthasar; a confusão e
+a morte reinam sos e senhoras na face da terra. Eu quero ir morrer onde
+haja Deus... Perdoae-me, Senhor, a blasphemia!.. onde o seu nome não
+seja profanado e malditto...
+
+Ao canto de uma pedra, debaixo de uma árvore hade ser, n'algum logar
+escuso d'essas charnecas, onde me não rasguem aomenos ésta mortalha, e
+m'a não insultem nos ultimos instantes, porque eu sou frade, frade,
+frade... o malditto frade! Mas frade quero morrer, e heide morrer. Oh!
+assim tivera eu vivido!'
+
+--'Mas que foi; que succedeu?'
+
+--'O resto do exército realista evacua n'este momento Santarem; vão em
+fuga para o Alemtejo. Os constitucionaes venceram na Asseiceira, e tudo
+está ditto para nós. Para mim, Carlos, falta uma palavra so: quererás tu
+dizê-la?'
+
+--'Eu?'
+
+--'Sim tu, Carlos. Revoca as palavras terriveis que proferiste, e em
+nome de Deus, filho, perdoa a teu...'
+
+A Carlos revolvia-se-lhe no peito uma grande lucta. O horror, a
+compaixão, o odio, a piedade iam e vinham-lhe alternadamente do coração
+ás faces, e tornavam do rosto para o peito. Uma exclamação involuntaria
+lhe rebentou dos labios em meio d'este combate:
+
+--'Padre, padre! e quem assacinou meu pae, quem cegou minha avó, e quem
+cubriu de infamia a minha... a toda a minha familia?'
+
+--'Tens razão, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas oh!
+mata-me, mata-me por tuas mãos, e não me maldigas. Mata-me, mata-me. É
+decreto da divina justiça que seja assim. Oh! assim meu Deus! ás mãos
+d'elle, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faça...'
+
+O frade cahiu de bruços no chão, e com as mãos postas e extendidas para
+o mancebo, clamava:
+
+--'Mata-me, mata-me! aqui ha pouca vida ja: basta que me ponhas o pé
+sobre o pescoço; esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na tua
+familia e que fez a sua desgraça e a de quantos o amaram. Sim, Carlos,
+sê tu o executor das íras divinas. Mata-me. Tantos annos de penitencia e
+de remorsos nada fizeram; mata-me, livra-me de mim e da íra de Deus que
+me persegue.'
+
+
+
+
+CAPITULO XXXV.
+
+
+ Reunião de toda a familia.--Explicação dos mysterios.--O coração da
+ mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mão a Fr. Diniz e abraça
+ a pobre da avó.
+
+
+Georgina disse para Carlos:
+
+--'Dá a mão a esse homem, levanta-o e dize-lhe as palavras de perdão que
+te pede.'
+
+Carlos fez um gesto expressivo de horror e de repugnancia. Georgina
+ajoelhou aopé do frade, tomou as mãos d'elle nas suas, e lh'as affagou
+com piedade; depois levantou-lhe o rosto, incostou-o a si e gradualmente
+o foi accalmando. O velho parecia uma criança mimada e sentida que se
+vai accalantando nos braços da mãe: agora so murmurava de vez em quando
+alguns soluços, a mais e a mais raros.
+
+Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama; elle mal se tinha, ella
+amparava em seus braços e contra seu peito o amortecido corpo do velho.
+E Georgina disse com aquelle som de voz irresistivel que as filhas de
+Eva herdaram de sua primeira mãe, e que a ella ou lh'o tinham antes
+insinado os anjos, ou o apprendeu depois da serpente,--um som de voz que
+é a última e a mais decisiva da seducções femininas--disse:
+
+--'Este homem vai morrer, Carlos: e tu hasde-o deixar morrer assim, _meu
+Carlos_?'
+
+Todo o odio, todas as offensas se callaram, desappareceram deante
+d'aquellas palavras do anjo supplicante. _Meu Carlos_ ditto assim, não o
+ouvíra elle ha muito tempo, não lhe pôde resistir: extendeu os braços
+para o frade, cahiu de joelhos aopé d'elle, e um so abraço uniu a todos
+tres.
+
+Como no eterno grupo de Lacoonte, o velho e os dous mancebos sentiam
+estreitar-se das cobras da mesma dor, e affogavam junctos da mesma
+angústia.
+
+Assim estiveram longamente; e não se ouvía entre elles senão algum
+gemido sôlto, e aquelle sussurrar sumido das lagrymas que mais se ouve
+com o coração do que com os ouvidos.
+
+O frade disse emfim com uma voz apenas perceptivel de timida e de fraca:
+
+--'Carlos, meu Carlos, perdoa tambem... oh perdoa á memoria de tua
+desgraçada mãe!'
+
+O mancebo saltou convulsamente como o cadaver na pilha galvanica. Em pé,
+hirto, horrivel, tremendo, exclamou com um brado de trovão:
+
+--'Demonio! demonio incarnado em figura de homem, que vieste
+recordar-me? Dizias bem indagora, monstro: so ás minhas mãos deves
+morrer. E hasde.'
+
+Lançou-se a um enorme velador de pau-sancto que lhe jazia aopé, massa
+terrivel d'Hercules, e bastante a fender craneos de ferro, quanto mais a
+descarnada caveira do frade! D'ambas as mãos a levava no ar; e o velho
+extendeu para elle a cabeça como na ancia de morrer... Georgina fechou
+involuntariamente os olhos, e um grande e medonho crime ia
+consummar-se...
+
+Dous gritos agudissimos, dous gritos de desespêro e de terror,
+d'aquelles que so sahem da bôcca do homem quando suspenso entre a morte
+e a vida--soaram repentinamente no apposento; uma velha decrepita e meia
+morta, arrastada por uma criança de pouco mais de dezeseis annos, estava
+deante de Carlos, e ambas cubriam com seus debeis corpos a fragil e
+extenuada figura da sua victima.
+
+--'Filho, meu filho!' arrancou a velha com stertor do peito: 'é teu pae
+meu filho. Este homem é teu pae, Carlos.'
+
+O ponderoso velador cahiu inerte das mãos do mancebo, e rolou pesado e
+baço pelo pavimento. Carlos cahiu por terra sem sentidos. De um pulo
+Georgina estava aopé d'elle, e o fez incostar na longa cadeira de
+braços. Estava lavado em sangue; era uma ferida do pescôço que o excesso
+da commoção lhe fizera rebentar. Os dous velhos vieram ajoelhar-se aopé
+d'elle. As duas mulheres moças lidavam pelo restaurar e lhe estancar o
+sangue. A cambraia dos lenços, as rendas do collo e das cabeças, tudo se
+fez em ataduras e compressas: o sangue parou emfim.
+
+Admiravel belleza do coração feminino, generosa qualidade que todos seus
+infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam
+esse homem. Esse homem não merecia tal amor: não, por Deus! o monstro
+amava-as a ambas: está tudo ditto. E ellas que o sabiam, ellas que o
+sentiam, e que o julgavam digno de mil mortes, ellas rivalizavam de
+cuidados e de ancia para o salvarem.
+
+De tanto não somos capazes nós.
+
+E por isso admirâmos tanto.
+
+E perdoâmos tanto.
+
+E esquecêmos tanto.
+
+Mas amar tanto, não sabemos: verdade, verdade...
+
+Amâmos _melhor_; sim, isso sim: _tanto_ não.
+
+O mancebo permanecia em deliquio. Fr. Diniz e a velha rezavam. Georgina
+e Joanninha--ja vereis que era Joanninha--olharam uma para a outra,
+coraram e ficaram suspensas. A ingleza extendeu a mão á amavel criança,
+estremeceu involuntariamente, mas disse-lhe com firmeza:
+
+--'O ditto ditto, Joanninha! Eu ja o não amo; prometto.'
+
+--'Eu amo-o cada vez mais, Georgina: elle é tam infeliz!'
+
+--'Juras-me tu de o não deixar, de velar por elle sempre, de o defender
+de si mesmo que é o peior inimigo que tem?'
+
+--'Se juro!'
+
+--'Então adeus, Joanninha! Eu estou de mais aqui. Ja tenho ouvido o que
+não devia ouvir. Os segredos da tua familia não me pertencem. O coração
+d'esse homem não é meu, nem o quero. É um nobre e grande coração,
+Joanninha; mas... Não te deixes dominar por elle se o queres segurar.
+Adeus!--Santarem está desamparada pelos realistas; eu vou para Lisboa.
+Consola tua boa avó, e esse pobre velho. Elle não é tam criminoso, estou
+certa...'
+
+--'Oh não! Carlos cuida-o assassino de seu pae; e é falso. Minha avó ja
+me disse tudo.'
+
+--'Falso!' murmurou Carlos sem abrir os olhos: 'é falso? Pois não foi
+elle que matou meu pae?'
+
+--'Não, filho, clamou a velha: 'não, meu filho; teu pae é este infeliz.'
+
+--'E minha mãe?'
+
+--'Tua mãe... e eu somos duas desgraçadas. Que mais queres saber? Tua
+mãe amou esse homem...'
+
+--'Ah!' disse Carlos: 'ah!' e abriu os olhos pasmados para a avó e para
+o frade que cravaram os seus no chão, e ficaram como dous réos na
+presença do seu inflexivel juiz.
+
+--'Mas esse homem que é... que por fôrça querem que seja meu... meu
+pae... Sancto Deus! elle matou o outro.'
+
+--'Defendi-me, foi defendendo ésta vida miseravel... Oh nunca eu o
+fizera! E paraquê? Paraque quiz eu viver? Para isto!'
+
+--'E meu tio, o pae de Joanninha? Tambem esse era preciso que morresse?'
+
+--'Ambos se junctaram para me assassinar, e me accommetteram
+atraiçoadamente na charneca. Não os conheci; foi de noite escura e
+cerrada. Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraça de salvar a
+minha vida á custa da d'elles. Filho, filho, não queiras nunca sentir o
+que eu senti, quando pegando, um a um, n'esses cadaveres para os lançar
+no rio, conheci as minhas victimas... Era hynverno, a cheia ia de valle
+a monte: quando abateu e se acharam os corpos ja meios desfeitos,
+ninguem conheceu a morte de que morreram; passaram por se ter affogado.
+Ninguem mais soube a verdade senão eu--e tua infeliz mãe a quem o disse
+para meu castigo, a quem vi morrer de pezar e de remorsos, que expirou
+nos meus braços chorando por elle, e maldizendo-me a mim. Não sería
+bastante castigo, meu filho?--Não foi, não. Este burel que ha tantos
+annos me roça no corpo, estes cilicios que m'o desfazem, os jejuns, as
+vigilias, as orações nada obtiveram ainda de Deus. A sua íra não me
+deixa, a sua cholera vai até a sepultura sôbre mim... Se me perseguirá
+além d'ella!..'
+
+Fez-se aqui um silencio horroroso: ninguem respirava; o frade proseguiu:
+
+--'Não me dei por bastante castigado com a agonia de tua mãe, a mais
+horrorosa e desesperada agonia que ainda presenciei, oh meu Deus!.. Tive
+o cruel ânimo de explicar a tua avó as negras circumstancias d'aquella
+morte, e de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do meu crime.
+Rasguei-lhe o coração, e vi-lhe sahir sangue e agua pelos olhos, até que
+lhe cegaram. Que mais queres? Cuidei que podia morrer sem passar por
+ésta derradeira expiação. Deus não o quiz. Aqui estou penitente a teus
+pés, filho. Aqui está o assassino de tua mãe, de seu marido, de teu
+tio... o algoz e a deshonra de tua familia toda.--Faze de mim como fôr
+tua vontade. Sou teu pae...'
+
+--'Meu pae!.. Misericordia meu Deus!'
+
+--'Misericordia, filho, e perdão para teu pae!'
+
+Carlos levantou-se deliberadamente, veio ao velho, tomou-o a pêso nos
+braços, foi sentá-lo na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se de
+joelhos, beijou-lhe a mão em silencio. Depois foi abraçar-se com a avó,
+que o apalpava soffregamente com as mãos trémulas, e murmurava baixo:
+
+--'Agora sim, ja posso morrer, ja posso morrer porque o abracei, porque
+o senti juncto a mim, o meu filho, o filho da minha filha querida...'
+
+Carlos é que não proferiu mais palavra; tinha-se-lhe rompido corda no
+coração, que ou lhe quebrára o sentimento ou lh'o não deixava expressar.
+Sahiu da cella fazendo signal que vinha logo: mas esperaram-n'o em
+vão... não tornou.
+
+D'ahi a tres dias, veio uma carta d'elle, de juncto d'Evora onde estava
+com o exército constitucional.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXVI.
+
+
+ Que não se acabou a historia de Joanninha.--Processo ao coração de
+ Carlos.--Immoralidade.--Defeito de organização não é
+ immoralidade.--Horror, horror, maldicção!--Um barão que não
+ pertence á familia lineana dos barões propriamente dittos--Porta de
+ Atamarma.--Senatus consulto santareno.--Nossa Senhora da Victoria
+ _afforada_.--Threnos sôbre Santarem.
+
+
+--Pois ja se acabou a historia de Joanninha?
+
+--Não, de todo ainda não.
+
+--Falta muito?
+
+--Tambem não é muito.
+
+--Seja o que for, acabemos, que está a gente impaciente por saber como
+se concluiu tudo isso, o que fez o frade, o que foi feito da ingleza,
+Joanninha e a avó que caminho levaram, e o pobre Carlos se...
+
+--Pois interessam-se por Carlos, um homem immoral, sem principios, sem
+coração, que fazia a côrte--fazer a côrte ainda não é nada--que amava
+duas mulheres ao mesmo tempo? Horror, horror! como dizem os dramaticos
+romanticos: horror e maldicção!
+
+--Horror seja, horror será... e horror é, sem dúvida. E maldicção que
+deitaram ao pobre homem. Mas immoralidade! Immoralidade é inganar, é
+mentir, é atraiçoar: e elle não o fez. Desgraça grande ter um coração
+assim; mas não me digam que é próva de o não ter. Eu digo que elle tinha
+coração de mais: o que é um defeito e grande, é um estado pathologico e
+anormal. Physicamente produz a morte; e moralmente póde matar tambem o
+sentimento. Bem o creio: mas é molestia commum, e com que vai vivendo
+muita gente, até que um dia...
+
+--Um dia, o orgam, que progressivamente se foi dilatando, não póde
+funccionar mais, cessa a circulação e a vida. Deve ser horrivel morte!
+
+--Fallam physicamente?
+
+--Physicamente. Mas no moral anda pelo mesmo. E se esse é o defeito de
+Carlos...
+
+--Sentir muito?
+
+--Não; ter sentido muito: que o coração, como orgam moral, não se dilata
+a esse ponto senão pelo demaziado excesso e violencia de sensações que o
+gastaram e relaxaram. Se esse é o defeito, a molestia de Carlos, digo
+que ja sei o fim da sua historia sem a ouvir.
+
+--Então qual foi?
+
+--Que um bello dia cahiu no indifferentismo absoluto, que se fez o que
+chamam sceptico, que lhe morreu o coração para todo o affecto generoso,
+e que deu em homem politico ou em agiota.
+
+--Póde ser.
+
+--Mas qual das duas foi, deputado ou barão? queremos saber.
+
+--Saberão.
+
+--Queremos ja.
+
+--E se fossem ambas?
+
+--Oh horror, horror, maldicção, inferno! Ferros em braza, demonios
+pretos, vermelhos, azues, de todas as côres! Aqui sim que toda a
+artelharia grossa do romantismo deve cahir em massa sôbre esse monstro,
+esse...
+
+--Esse quê? Pois em se acabando o coração á gente...
+
+--Eu não creio n'isso. Acaba-se lá o coração a ninguem!..
+
+Houve gargalhada geral á custa do pobre incredulo, e levantamo'-nos para
+ir ver o Sancto-milagre, que era a hora apprazada, e estava o prior á
+nossa espera.
+
+Ámanhan o fim da historia da menina dos olhos verdes.
+
+No caminho incontrámos o nosso antigo amigo, o barão de P.--barão de
+outro genero, e que não pertence á familia lineana que n'esta obra
+procurámos classificar para illustração do seculo--cavalheiro generoso,
+e typo bem raro ja hoje da antiga nobreza das nossas provincias, com
+todos os seus brios e com toda a sua cortezia d'outro tempo, que em
+tanto relêvo destaca da grosseria villan d'essas notabilidades
+improvisadas...
+
+Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo.
+
+Fomos de passagem observando algumas das mais interessantes coisas
+d'aquella interessantissima terra em que se não póde dar um passo sem
+que a reflexão ou a imaginação incontre objecto para se entreter.
+Inclinando um pouco á direita, démos na celebrada porta de Atamarma.
+
+Por aqui entrou D. Affonso Henriques, por aqui foi aquella destemida
+surpreza que lhe intregou Santarem, e acabou para sempre com o dominio
+arabe n'esta terra.
+
+Os illustrados municipaes Santarenos têem tido por vezes o nobre e
+generoso pensamento de demolir ésta porta! o arco de triumpho de Affonso
+Henriques, o mais nobre monumento de Portugal!
+
+A idea é digna da epocha.
+
+Felizmente parece que tem faltado o dinheiro para a demolição; e o
+senatus consulto dos dignos padres conscriptos não pôde ainda
+executar-se.
+
+Não que eu creia este arco o genuino arco moiresco por onde entraram os
+bravos de D. Affonso; mas creio que essa porta da antiga villa se foi
+reparando, concertando e conservando em suas successivas alterações, até
+chegar ao que hoje está: e ainda assim como está, é um monumento de
+respeito que so barbaros pensariam desacatar e destruir.
+
+Porcima d'ella está uma capellinha de N. S. da Victoria: quer a
+tradicção que primeiro erguida e consagrada á Virgem pelo heroico
+fundador da monarchia e da independencia portugueza. Este é um dos
+muitos pontos em que a religião das tradições deve ser respeitada e
+crida sem grandes exames, porque nada ganha a crítica em pôr dúvidas, e
+o espirito nacional perde muito em as acceitar.
+
+Deixá-la estar a Virgem da Victoria sôbre o arco de Affonso Henriques.
+Prostremo'-nos e adoremos, como bons portuguezes, o symbolo da fé
+christan e da fé patriotica levantado pelas mãos insanguentadas do
+triumphador!
+
+Mas sería elle ou não que levantou essa capellinha? os documentos
+faltam, os escriptores contemporaneos guardam silencio; a historia deve
+ser rigorosa e verdadeira...
+
+Deve: e os grandes factos importantes que fazem epocha e são balizas da
+historia de uma nação, tambem eu os regeitarei sem dó quando lhes
+faltarem essas authênticas indispensaveis. Agora as circumstancias, para
+assim dizer, episodicas de um grande feito sabido e provado, quem as
+conservará senão forem os poetas, as tradições, e o grande poeta de
+todos, o grande guardador de tradições, o povo?
+
+Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem, e em muitos outros sanctos
+e sanctas, que a religião do povo tem por esses nichos e por essas
+capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar memorias de que
+se não lavrou outro auto, não se escreveu outra escriptura, de que não
+ha outro documento, e que os frades chroniqueiros não julgaram dever
+escrever no livro de terça ou de noa, em nenhum livro preto nem
+incarnado, porque o tinham por melhor escripto e mais bem guardado nos
+livros de pedra em que estava.
+
+Coitados! não contaram com os apperfeiçoadores, reparadores e
+demolidores das futuras civilizações que, para pôr as coisas em ordem,
+tiram primeiro tudo do seu logar.
+
+A camara de Santarem, não podendo demolir o arco, tomou um meio termo
+que appósto que ninguem é capaz de adivinhar. Afforou a capella por cima
+d'elle, com altar, com sanctos e tudo: e assim esteve afforada alguns
+annos, não sei paraquê nem porquê; o caso é que esteve.
+
+O anno passado porêm (1842) começou a manifestar-se ésta reacção
+religiosa que os especuladores quizeram logo converter em ganancia
+pessoal, descontando-a no mercado das agiotagens facciosas; mas perdem o
+seu tempo, inda bem! Veio, digo, ésta reacção nas ideas das gentes; e a
+capella da Senhora da Victoria sôbre o arco, não sei tambem como nem
+porquê, foi _desafforada_, e restituida ao culto popular.
+
+Subimos a ver a capella por dentro: é um rifacimento ridiculo e
+miseravel, sem nenhuma da solemnidade do antigo, nem elegancia moderna
+alguma.
+
+Desappontou-me tristemente. Vamos ao Sancto-milagre depressa, que me
+quero reconciliar com Santarem: e ja começa a ser difficil.
+
+Mas é injustiça minha. Que culpa tem ella, coitada?
+
+Ai Santarem, Santarem, abandonaram-te, mataram-te, e agora cospem-te no
+cadaver.
+
+Santarem, Santarem, levanta a tua cabeça coroada de tôrres e de
+mosteiros, de palacios e de templos!
+
+Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: e verás como eras bella e
+grande, ricca e poderosa entre todas as terras portuguezas.
+
+Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza, e mira-te no Tejo: verás
+como ainda são grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te
+restam.
+
+Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua foice, sacode os vermes que
+te poluem, esmaga os reptis que te corroem, as osgas torpes que te
+babam, as lagartixas peçonhentas que se passeiam atrevidas por teu
+sepulchro deshonrado.
+
+Ergue-te Santarem, e dize ao ingrato Portugal que te deixe em paz ao
+menos nas tuas ruinas, myrrhar tranquillamente os teus ossos gloriosos;
+que te deixe em seus cofres de marmore, sagrados pelos annos e pela
+veneração antiga, as cinzas dos teus capitães, dos teus lettrados e
+grandes homens.
+
+Dize-lhe que te não vendam as pedras de teus templos, que não façam
+palheiros e estrebarias de tuas egrejas; que não mandem os soldados
+jogar a pella com as caveiras dos teus reis, e a bilharda com as
+cannellas dos teus sanctos.
+
+Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres, os teus seminarios...
+tudo, menos o intulho e a caliça, as immundices e os monturos que
+deixaram accumular em tuas ruas, que espalharam por tuas praças.
+
+Santarem, nobre Santarem, a Liberdade não é inimiga da religião do ceo
+nem da religião da terra. Sem ambas não vive, degenera, corrompe-se, e
+em seus proprios desvarios se suicida.
+
+A religião do Christo é a mãe da Liberdade, a religião do Patriotismo a
+sua companheira. O que não respeita os templos, os monumentos de uma e
+outra, é mau amigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo,
+intrega-a á irrisão e ao odio do povo......................................
+...........................................................................
+
+Vamos ao Sancto-milagre.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXVII.
+
+
+ A Graça e sua bella fachada gothica.--Sepultura de Pedr'alvares
+ Cabral.--Outro barão que não é dos assignalados.--Egreja do
+ Sancto-milagre.--Bellos medalhões mosarabes.--De como, chegando o
+ prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que
+ solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a
+ infanta D. Maria da Assumpção.--Casa onde succedeu o milagre,
+ convertida em capella de stylo philipino.--O homem das botas, e o
+ que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel
+ e graciosa esperteza da regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e
+ theoria dos governos folgasões; os melhores governos
+ possiveis.--Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem.
+
+
+Inclinámos o nosso caminho para a esquerda, e fomos passar deante do
+arrendado e elegante frontispicio gothico da Graça. A ausencia de não
+sei que regedor, ou insignificante personagem de egual importancia que
+tem as chaves da egreja e convento, nos fez perder toda a esperança de
+visitar a sepultura de Pedr'alvares Cabral que alli jaz, assim como
+outras bellas e interessantes antiguidades de não menor preço.
+
+Fomos seguindo até casa do barão d'A., outro illegitimo, porque não
+pertence aos barões assignalados
+
+ Que, sem passar além da Taprobana,
+ No velho Portugal edificaram
+ Novo reino que tanto sublimaram.
+
+Incontrámo-lo prompto a accompanhar-nos, e a presidir, como juiz da
+irmandade que é, á grande cerimonia da exposição e ostensão do
+Sancto-milagre.
+
+Junctos descémos á egreja, que é perto.
+
+A egreja pequena e do peior gôsto moderno por dentro e por fóra. Notavel
+não tem nada se não uns quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de
+homens e mulheres em relêvo que visivelmente pertenceram a edificação
+antiga, e que actualmente estão incrustados na tosca alvenaria do
+cruzeiro.
+
+Os bustos são de puro e finissimo lavor gothico, altos de relêvo e
+desenhados com uma franqueza que se não incontra em esculpturas muito
+posteriores.
+
+São talvez reliquias da primitiva egreja do Sancto-milagre que nas
+successivas reedificações se teem ido conservando. Abençoado seja o
+escrupuloso que as salvou d'este último _melhoramento_ que houve no
+desgraçado e desgraçioso templo: o que não foi ha muitos annos por
+certo.
+
+Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabeças por que é a phrase vulgar e
+impropria usada de toda a gente: segundo ja observei n'outra parte, com
+mais exacção se devêra dizer mosarabe.
+
+Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, vieram uns poucos de
+irmãos com tochas, distribuiram-nos a cada um de nós a sua, e
+processionalmente nos dirigimos á porta lateral do altar-mor, da qual se
+sobe, por uma escada assás larga e commoda, á especie de camarim que
+está parallelo com o mais alto do throno em que perpetuamente se
+conserva o grande paladio santareno.
+
+Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz e estola; chegados ao
+alto, ajoelhámos em roda d'elle que subiu a uns degrausinhos, abriu, com
+a chave dourada que trazia pendente ao pescosso, uma como porta de
+sacrario, depois ajoelhou, incensou, tornou a ajoelhar, disse alguns
+versetos a que respondeu o sacristão, e finalmente tirou de seu
+repositorio uma especie de ambula de ouro de fábrica antiga, mas não
+mais antiga que o decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando muito.
+
+Depois de nos inclinarmos e receber a bençam que o padre nos deitou com
+a reliquia, foi-nos permittido erguer-nos, e chegar perto para ver e
+observar.
+
+Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados se descobre comeffeito o
+pequeno vulto amarellado-escuro que piedosamente se crê ser o resto da
+particula consagrada que a judia roubára para seus feitiços.
+
+Escuso contar a historia do Sancto-milagre de Santarem que toda a gente
+sabe. O bom do prior, ex-frade trino gordo e bem conservado, não nos
+perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos de ouvir com a maior
+compuncção.
+
+Incerrada outra vez a ambula com as mesmas solemnidades, entrámos em
+conversação com o prior.
+
+N'aquelle mesmo camarim juncto á devota reliquia se conservaram, por
+espaço de cinco ou seis annos, se bem me recordo do que o bom do parocho
+nos contou, os restos mortaes da senhora infanta D. Maria da Assumpção,
+que fallecêra em Santarem nos ultimos mezes da occupação d'aquella villa
+pelas fôrças realistas. O cadaver, mal imbalsemado e com más drogas, foi
+mettido n'um caixão de folha de Flandres. Em pouco tempo a corrupção
+estragou e rompeu a folha, e uma infecção terrivel apestava a egreja.
+Soffreu-se isto annos, representou-se ao govêrno por vezes, mas nenhuma
+resolução se pôde obter. Até que afinal, declarando o prior que, se não
+mandavam tomar conta d'aquelles tristes restos da pobre princeza, elle
+se via obrigado a mettê-los na terra, foi-lhe respondido que fizesse
+como intendesse; e elle intendeu que os devia sepultar no cruzeiro da
+egreja, como fez, do lado da epistola, isto é, á direita.
+
+E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distincção nem epitaphio, a muito
+alta e poderosa princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso
+principe D. João o VI, rei de Portugal, imperador do Brazil, e da
+conquista e navegação etc.
+
+Assim é o mundo, as suas grandezas e as suas glórias!
+
+A visita ao Sancto-milagre não é completa sem se ir ver a casa onde elle
+se operou. Conservou-se ella por alguns seculos em grande veneração, e
+em mil seiscentos e tantos se converteu porfim em capella. Hoje está
+abandonada, chove em toda ella, e apenas tem uma má porta que a defende
+das incursões dos animaes. Pena e desleixo grande, porque é elegante e
+graciosa a capellinha, lavrada de bons marmores, no melhor gôsto do
+decimo-sexto seculo, de renascença ja muito adiantada no classico: é um
+verdadeiro typo do stylo philippino, que tanto predomina n'essa epocha
+em toda a peninsula.
+
+A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas vezes tem andado ligada
+com a historia do reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da
+independencia, veio prender com um dos factos mais importantes, e tambem
+com a mais curiosa e comica aventura de que em Lisboa ha memoria.
+
+Alludo nada menos que ao 'homem das botas.' E perdoem-me as senhoras
+beatas a irreverencia apparente, que bem sabem não ser eu de motejar com
+as coisas sérias e sanctas. Mas o facto é que a historia do
+Sancto-milagre está ligada com a célebre historia do 'homem das botas.'
+
+Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a posteridade, para cuja
+instrucção principalmente escrevo este douto livro, que pela invasão de
+Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado recolher a Lisboa, e
+ahi se conservou alguns annos até muito depois da completa retirada dos
+francezes.
+
+Passado todo o perigo de que o exército invasor roubasse--ou
+profanasse--que era o mais provavel--a sancta reliquia, começou a
+reclamá-la o senado e povo santareno, e a mostrar muito pouca vontade de
+lh'a restituir o senado e povo ulyssiponense. Era uma questão d'entre
+Alba e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos Numas da regencia do
+Rocio.
+
+Em poucas preplexidades tam graves se viu aquelle pobre govêrno que
+tantas teve, e de quasi todas se sahiu tam mal.
+
+Não assim d'esta, que a evitou com o mais inesperado e admiravel
+stratagema, digno de ornar os maravilhosos fastos do grande Aaroun
+el-Raschid, ou de qualquer outro principe de bom humor, d'esses poucos
+felizes que em felizes tempos reinaram a brincar, e zombaram com o seu
+povo, mas fazendo-o rir.
+
+Pois, senhores, apertada se via a regencia d'estes reinos com a
+restituição do Sancto-milagre que era de justiça fazer-se a Santarem,
+mas que Lisboa recusava, e ameaçava impedir. Temia-se alborôto no povo.
+
+Não sei de quem foi o alvitre, mas foi de maganão de bom gôsto; e bom
+gôsto teve tambem o govêrno em o acceitar e approveitar. Para o dia em
+que o Sancto-milagre devia sahir de Lisboa Tejo acima, e que se esperava
+fosse com grande solemnidade e pompa ecclesiastica,--fez-se annunciar
+por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em
+umas botas de cortiça nas quaes se teria direito e inchuto, navegando a
+pé sem mais embarcação, vela nem remo.
+
+A logração era gorda e grande; melhor e mais depressa foi ingullida. No
+dia apprazado despovoou-se a capital, e uns em barcos outros por navios,
+outros por essas praias abaixo, tudo se encheu de gente de todas as
+classes, e todos passaram o melhor do dia á espera do homem das botas.
+
+No emtanto, muito surrateiramente imbarcava o Sancto-milagre no seu
+barco de agua-arriba, e navegava com vento e maré para as ditosas
+ribeiras de Santarem.
+
+Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle em Lisboa senão quando
+constou da sua chegada a Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram
+aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos.
+
+Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de soccapa: e nunca tam
+innocentemente se riu govêrno algum de ter inganado o povo.
+
+Nós celebrámos a historia como ella merecia, e fomos jantar á Alcaçova,
+para irmos de tarde ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu
+inclyto alfageme.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXVIII.
+
+
+ Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.--Sautés e
+ salmis.--Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do
+ Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salão
+ elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis.--Tudo
+ melhor quando visto de longe.--O baile público.--Soirée de piano
+ obrigado.--Theatro. Desafinações da prima-dona. Syphlis incuravel
+ das traducções. Destempêro dos originaes.--A xácara de rigor, o
+ subterraneo e o cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A
+ bella e necessaria palavra 'gallimathias.'--Se as saudades
+ matam.--Perigo de applicar o scalpello ou a lente ao mais perfeito
+ das coisas humanas.--De como a logica é a mais perniciosa de todas
+ as incoherencias.
+
+
+Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom hóspede, nos regios paços
+de Affonso Henriques, um esplendido jantar a que assistiram quasi todos
+os cavalheiros da terra.--Não quero dizer as notabilidades, por ser
+palavra peralvilha a que tenho invencivel zanga.--As iguarias de
+legítima eschola portugueza, não menos saborosas e delicadas por
+apparecerem estremes de _sautés e salmis_ extrangeirados. Brilharam
+sôbre tudo os productos das duas grandes vendimas rivaes, do Ribatejo e
+Ribadouro. Foi largo e alegre o jantar.
+
+Acabámos tarde, montámos logo a cavallo, e pela porta de Atamarma
+descémos á Ribeira; era quasi sol pôsto quando la chegámos.
+
+É o suburbio democratico da nobre villa, hoje o ricco e o forte d'ella.
+Faz lembrar aquellas aldeas que se criaram á sombra dos castellos
+feudaes e que, libertas, depois, da oppressora protecção, cresceram e
+ingrossaram em substancia e fôrça: o castello, esse está vazio e em
+ruinas.
+
+Por aqui se faz quasi todo o commercio da Extremadura e Beira com o
+Alemtejo. Os habitantes laboriosos e activos conservam os antigos brios
+e independencia do character primitivo: é a unica parte viva de
+Santarem.
+
+Cruzámos a povoação em todos os sentidos, procurando rastrear algum
+vestigio, confrontar algum sítio onde podessemos collocar, pela mais
+atrevida supposição que fosse, a tenda do nosso alfageme com as suas
+espadas bem 'corregidas', as suas armaduras luzentes e bem postas--e o
+joven Nun'alvares passeando alli por pé, ao longo do rio--como diz a
+chronica--namorado d'aquella perfeição de trabalho, e dando a 'correger'
+a bella espada velha de seu pae ao rustico propheta que tantos
+vaticinios de grandeza lhe fez, que o saudou condestavel, conde d'Ourem
+e salvador da sua patria.
+
+Nada podémos descubrir com que a imaginação se illudisse siquer, que nos
+désse, com mais ou menos anachronismo, uma leve base tamsomente para
+reconstruirmos a gothica morada do célebre cutileiro-propheta que a
+historia herdou das chronicas romanescas, e hoje o romance outra vez
+reclama da historia.
+
+Em Santarem ha poucas casas particulares que se possam dizer
+verdadeiramente antigas; na Ribeira, nenhuma. As implastagens e
+replastagens successivas teem anachronizado tudo. É uma feliz expressão
+do Sr. Conde de Raczinski bem applicada por elle ao estado de quasi
+todos os nossos monumentos, ésta de anachronismo.
+
+Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem propriamente ditto, ha
+os templos, os conventos, a cêrca das muralhas que todavia conservam a
+physionomia historica da terra; aqui nem isso ha.
+
+Voltei completamente desappontado da Ribeira, isto é, da sua pedra e
+cal: gósto immenso da sua gente.
+
+Outra surpreza de mui differente genero nos esperava á noite em
+Marvilla, no elegante salão da B. d'A. com quem fomos tomar cha.
+
+Em meio das ruinas e desconfôrto d'aquelles desertos e mortos pardeiros
+circumstantes, ir incontrar uma casa em plena florescencia de
+civilização e de vida; ver a amabilidade e a elegancia fazendo
+graciosamente as honras d'ella--por mais que se devesse esperar--sempre
+espanta á primeira vista: parecia golpe de varinha de condão.
+
+Em tam agradavel e joven companhia todas as ideas archeologicas se
+desvaneceram, apezar de dous ou tres fosseis que alli appareciam para se
+não perder detodo a côr local talvez.
+
+Largamente se conversou, de Lisboa principalmente, dos nossos mutuos
+amigos, das festas do último hynverno, das probabilidades que se deviam
+esperar do futuro.
+
+Ralhámos muito da sociedade portugueza; exaltámos París e Londres e não
+sei se Pekim e Nankim tambem, e concluimos que antes Timbokotuo do que a
+seccante capital do nosso pobre reino. E comtudo estavamos com saudades
+d'ella; e concessão d'aqui, concessão d'alli, viemos a que não era tam
+má terra como isso.
+
+Admiravel condicção da natureza humana, que tudo nos parece melhor e
+menos feio quando visto de longe!
+
+O baile público mais semsabor, detestavel de barulho e confusão, em que,
+para repousar os olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso
+furar por entre centenas de cotovellos barbaros que se não sabe d'onde
+vieram, levar desalmadas pisadellas do dançante noviço, do deputado
+recemchegado, e das botas novas do novo director da Galocha--e, mais
+horrivel que tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos, as
+caras incriveis e as antidiluvianas figuras de tanta mulher feia e
+desastrada... pois esse mesmo baile, quando ja não é senão reminiscencia
+que acorda no meio do infado ronceiro de uma terra de provincia, parece
+outro. As luzes, as flores, a musica, toda aquella animação lembra com
+prazer, o mais esquece, e involuntariamente se descai um pobre homem a
+suspirar por elle.
+
+A soirée mais massante, de piano obrigado, com dueto das manas, polka
+das primas e casino das tias velhas--recordada em eguaes circumstancias,
+tambem ja não accode á memoria senão como uma reunião escolhida e
+íntima, de facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da sociedade.
+
+Pois o theatro... Que se lembre alguem, na provincia, dos martyrios que
+soffreu o ouvido com os berros da prima-dona, as desafinações do tenor,
+ou com o infadonho resonar d'aquella adormecida orchestra de San'Carlos!
+
+A injoativa traducção de uma comedia da Rua-dos-condes, roída de
+incuravel syphilis, figura-se avelludada de todas as graças do stylo de
+Scribe.
+
+E o destempêro original de um drama plusquam romantico, laureado das
+imarcessiveis palmas do Conservatorio para eterno abrimento das nossas
+bôccas! Lá de longe applaude-o a gente com furor, e esquece-se que
+fummou todo o primeiro acto ca fóra, que dormiu no segundo, e conversou
+nos outros, até á infallivel scena da xacara, do subterraneo, do
+cemiterio, ou quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e em penteador
+branco, indoudece de rigor,--o gallan, passando a mão pela testa, tira
+do profundo thorax os tres _ahs!_ do stylo, e promette matar seu proprio
+pae que lhe appareça--o centro perde o centro de gravidade, o barbas
+arrepella as barbas... e maldicção, maldicção, inferno!... 'Ah mulher
+indigna, tu não sabes que n'este peito ha um coração, que d'este coração
+sahem umas arterias, d'estas arterias umas veias--e que n'estas veias
+corre sangue... sangue, sangue! Eu quero sangue, porque eu tenho sêde, e
+é de sangue... Ah! pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te quero
+matar... esquartejar, chacinar!'--E a mulher ajoelha, e não ha remedio
+senão applaudir...
+
+E applaude-se sempre.
+
+E não é de mim que fallo, que eu gósto d'isto: os outros é que se
+infastiam e cansam de tanta barafusta, sempre a mesma...
+
+Mas emfim o que digo é que na provincia não ha tal fastio, que esquece a
+canceira, e que nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se
+percebe.
+
+Peço aos illustres puritanos que, á fôrça de sublimado quinhentista, tem
+conseguido levar a lingua á decrepitude para a curar de suas
+infermidades francezas, peço-lhes que me perdoem o _gallimathias_,
+porque elle é muito mais portuguez que outra coisa. A célebre oração
+_pro gallo Mathiae_ deu origem a ésta bella e expressiva palavra, que
+sim foi procreada em francez, mas hoje precisâmos ca muito mais d'ella
+que em parte nenhuma.
+
+Volto ja da digressão philologica: tornemos á optica e á catoptrica.
+
+Grande coisa é a distancia!
+
+E dizem que saudades que matam! Saudades dão vida; são a salvação de
+muita coisa que, em seu pleno gôso e posse pacífica, pereceria de
+inanição ou morreria da oppressora molestia da saciedade.
+
+Por isso eu não gósto de metter o scalpello no mais perfeito da
+construcção humana, nem de applicar a lente ao mais fino e delicado do
+seu funccionar...
+
+Vamos usando d'estas palavras que herdámos, sem metter louvados na
+herança; não succeda descobrirmos que estamos mais pobres do que se
+cuidava... vamos repetindo éstas phrases que nos formularam nossos
+antepassados sem as analysar com muito rigor; não succeda vermos claro
+demais que temos passado a vida a mentir...
+
+Detesto a philosophia, detesto a razão; e sinceramente creio que n'um
+mundo tam desconchavado como este, n'uma sociedade tam falsa, n'uma vida
+tam absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições,
+as conveniencias d'ella, affectar nas palavras a exactidão, a logica, a
+rectidão que não ha nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as
+incoherencias.
+
+Não fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos aqui este capítulo.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXIX.
+
+
+ Processo de scepticismo em que está o auctor.--Moralistas de
+ _requiem_.--O maior sonho d'esta vida, a logica.--Differença do
+ poeta ao philosopho.--O coração de Horacio.--O collegio de
+ Santarem.--Jesuitas e templarios.--O alliado natural dos
+ reis.--'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que
+ 'Ficar no tinteiro.'--San'Frei Gil e o Doutor Fausto.--De como o A.
+ foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.--Quem o roubaria?
+
+
+O final do capítulo antecedente é, bem o sei, um terrivel documento para
+este processo de scepticismo em que me mandaram metter certos moralistas
+de _requiem_ de quem tenho a audacia de me rir, d'elles e da sua
+querella e do seu processo, protestando não me aggravar nem appellar,
+nem por nenhum modo recorrer da mirifica sentença que suas
+excellentissimas hypocrisias se dignarem proferir contra mim.
+
+Feita ésta declaração solemne, procedamos.
+
+E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so desejo dar satisfação, a ti,
+se ainda te cansas com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes a
+pagina obnoxia, porque essas reflexões do último capítulo são tam
+deslocadas no meu livro como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e não
+despertes do bello-ideal da tua logica.
+
+É uma descuberta minha de que estou vaidoso e presumido, ésta de ser a
+logica e a exacção nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais
+ideal do que o mais phantastico sonho e o mais requintado ideal da
+poesia.
+
+É que os philosophos são muito mais loucos do que os poetas; e de mais a
+mais, tontos: o que est'outros não são.
+
+Voltemos, voltemos a pagina comeffeito, que é melhor.
+
+Amanheceu hoje um bello dia, puro e sublime. Dorme nas cavernas do padre
+Eolo aquelle vento sêcco e duro, flagello dos estios portuguezes.
+Suspira no ar uma viração branda e suave que regenera e dá vida. Mal
+impregado dia para o passar a ver ruinas! No seio da sempre joven
+natureza, sob a remoçada espessura das árvores, sôbre a alcatifa sempre
+renovada das grammas verdes e variegadas boninas, queria eu que me
+corresse este dia em ocio bemaventurado de corpo e d'alma, sentindo
+pulsar lento e compassado o coração livre e sôlto de todo impenho, o
+verdadeiro coração de Horacio,
+
+ Solutus omni foenore!
+
+Tomára-me eu no valle outra vez, com a irman Francisca a dobar á porta,
+a nossa Joanninha a deslindar-lhe a meada; e embora venha o terrivel
+spectro de Fr. Diniz projectar sua funesta e tragica sombra no idilio
+d'este quadro suave, que não póde destruir-lhe toda a amenidade
+bucolica, por mais que faça.
+
+Lá voltaremos ao nosso valle, amigo leitor, e lá concluiremos, como é de
+razão, a historia da menina dos rouxinoes. Por agora almocemos, que é
+tarde, e terminemos os nossos estudos archeologicos em Marvilla de
+Santarem.
+
+Cá estamos no Collegio, edíficio grandioso, vasto, magnífico, propria
+habitação da companhia--rei que o mandou construir para educar os
+infantes seus filhos.
+
+Creio que ésta e a de Coimbra eram as duas principaes casas que para
+isto tinham os Jesuitas em Portugal.
+
+Foram os templarios dos seculos modernos, os Jesuitas. A potencia
+formidavel e quasi régia que aquelles levantaram com a espada, tinham
+estes fundado com a doutrina. Riquezas, podêr, influencia, uns e outros
+as tiveram com applauso e acquiescencia geral; uns e outros as perderam
+do mesmo modo.
+
+Extinctas e perseguidas, ambas as ordens renasceram no mysterio, e se
+converteram em associações secretas para conspirarem; ambas tomaram
+diversos nomes e variadas máscaras para o fazerem mais seguramente.
+
+Ambas em vão!
+
+O predominio, crescente ha seculos, do elemento democratico annulla
+todas essas conspirações. Sos e sem elle, os reis tinham succumbido... É
+a alliada natural dos reis a democracia.
+
+O edificio do Collegio é todo philippino, ja o disse: a egreja dos mais
+bellos specimens d'esse stylo, que em geral sêcco, duro e sem poesia,
+não deixa comtudo de ser grandioso.
+
+Aqui esteve depois muitos annos o seminario patriarchal, cujas aulas
+frequentava a mocidade do districto. Hoje leem-se alli outras palestras
+da cathedra administrativa. É a séde do govêrno civil chamado: corrumper
+a moral do povo, sophismar o systema representativo é o thema das
+licções.
+
+Todo outro insino se tirou de Santarem. Falla-se n'um liceu e não sei em
+que mais 'que ficou na gazetta:' phrase portugueza moderna que deve
+supprir a antiga e antiquada de--'ficou no tinteiro'--por muitas razões,
+até porque hoje não fica nada no tinteiro senão o senso commum, tudo o
+mais de lá sai, tudo. E muitas graças a Deus quando não passa ás ballas
+do impressor para dar a volta do mundo.
+
+Santarem é das terras de Portugal a melhor situada e qualificada para um
+grande estabelecimento de instrucção e de educação pública. Porque não
+hade estar aqui o Collegio-militar ou a Casa-pia, ou outra grande
+eschola, seja qual for? Porque hade ser ésta centralização d'insino em
+Lisboa? Em que se funda um privilegio dado á capital em prejuizo e á
+custa das provincias?
+
+Sahimos do Collegio, fomos direitos a San'Domingos, um dos mais antigos
+estabelecimentos monasticos do reino e que eu tanto desejava visitar.
+Não sei descrever o que senti quando a inferrujada chave deu a volta na
+porta da egreja e o velho templo se patenteiou aos nossos olhos. Acabára
+de servir, não imaginam de quê... de palheiro!
+
+A derradeira camada de palha que apodrecêra, adheria ainda ao lagedo
+humido, e exhalava um forte vapor mephitico que nos suffocava. Mal
+podémos ver os tumulos dos Docems e tantos outros interessantes
+monumentos que abundam na parte superior do templo. A inferior, ou corpo
+da egreja como dizem, é de um miseravel e moderno anachronismo.
+
+Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o tempo que lhe pudesse
+resistir, quiz approveitá-lo em examinar a principal e mais interessante
+reliquia da profanada egreja--a capella e jazigo do grande bruxo e
+grande santo, San'Frei-Gil.
+
+Algures lhe chamei ja o nosso Doutor Fausto: e é comeffeito. Não lhe
+falta senão o seu Goethe.
+
+ Vixere fortes ante Agamemnona multi.
+
+Houve fortes homens antes de Agamemnão, e fortes bruxos antes e depois
+do Doutor Fausto. Mas sem Homero ou Goethe é que se não chega á
+reputação e fama que alcansaram aquelles senhores. Nós precisâmos de
+quem nos cante as admiraveis luctas--ora comicas, ora tremendas--do
+nosso Frei Gil de Santarem com o diabo. O que eu fiz na 'Dona Branca' é
+pouco e mal esboçado á pressa. O grande mago lusitano não apparece alli
+senão episodicamente; e é necessario que appareça como protagonista de
+uma grande acção, pintado em corpo inteiro, na primeira luz, em toda a
+luz do quadro.
+
+Então o seu ardente e anciado desejo de saber, os seus vastos estudos,
+os reconditos mysterios da natureza que descobriu até penetrar no mundo
+invisivel--a sêde de oiro, de prazer e de podêr que o perseguia e o fez
+cahir nas garras do espirito maligno--o fastio e saciedade que o
+desincantaram depois--o seu arrependimento emfim, e a regeneração de sua
+alma pela penitencia, pela oração e pelo desprêzo da van sciencia
+humana--então essas variadas phases de uma existencia tam
+extraordinaria, tam poetica, devem mostrar-se como ainda não foram
+vistas, porque ainda não olhou para ellas ninguem com os olhos de grande
+moralista e de grande poeta que são precisos para as observar e
+intender.
+
+Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno, quando me faziam ler a
+historia de San'Domingos, tam rabujenta e semsabor ás vezes, apezar do
+incantado stylo do nosso melhor prosador; e que eu deixava os outros
+capitulos para ler e reler somente as aventuras do sancto feiticeiro que
+tanto me interessavam.
+
+Com todas éstas reminiscencias que me reviviam n'alma, com os admiraveis
+versos do Fausto a acudir-me á memoria, e com uma infinidade de
+associações que essas ideas me traziam, caminhei direito á capella do
+sancto, cheio de alvorôço, e como tocado, para assim dizer, de sua
+magica vara de condão.
+
+A capella--oh desappontamento! a cappella de San'Frei Gil é um mesquinho
+rifacimento moderno, do lado esquerdo da egreja, sem nenhum vestigio de
+antiguidade, nenhum ornato characteristico, pesada, grosseira--velha sem
+ser antiga--um verdadeiro non-descriptum de mau gôsto e semsaboria. Quem
+tal dissera?
+
+O tumulo do sancto está elevado do altar n'uma especie de mau throno.
+Subi acima da degradada e profanada credencia para o examinar deperto.
+
+É de pedra o jazigo; mas ultimamente ve-se que tinham pintado a pedra;
+não tem lavor algum.--E estava vazio, a loisa levantada e quebrada!..
+
+Quem me roubou o meu sancto?
+
+Quem foi o anathema que se atreveu a tal sacrilegio?..
+
+
+
+
+CAPITULO XL.
+
+
+ As Claras.--Aventura nocturna.--Se as freiras mettem medo aos
+ liberaes?--O Psalmo.--Tres frades.--Práctica do franciscano.--O
+ corpo de San' Fr. Gil.--Que se hade fazer das freiras?--Mal do
+ govêrno que deixar comer mais aos barões.
+
+
+Èra de noite, reinava a confusão, a desordem, o susto e a anciedade nos
+muros de Santarem, tres homens chegavam, por horas mortas, ao antigo
+mosteiro das Claras, davam á portaria um signal surdo e mysterioso;
+respondiam-lhe de dentro com outro egual; e d'ahi a pouco, sem rumor e
+com as mais escrupulosas precauções se abria quietamente a porta da
+clausura.
+
+Os tres homens entraram, a porta fechou-se sôbre elles do mesmo modo
+precatado.
+
+Que será?
+
+Os homens levavam uma especie de cofre que parecia conter preciosidades
+de grande valor: tal era o desvello com que o resguardavam.
+
+Ha um mysterio que se figura criminoso n'esta aventura. Mas os tempos
+são para tudo.
+
+Era no anno de 1834.
+
+Entremos n'esse convento das pobres Claras, tam afflictas e
+desconsoladas agora que as ameaçam de dissolução como aos frades.
+
+Não será assim: aquellas instituições não mettem medo aos verdadeiros
+liberaes, e os outros lá teem o espolio dos frades para devorar; estão
+entretidos: as freiras salvam-se porora.
+
+Taes eram as esperanças dos tres homens que entravam a essas deshoras
+nos vedados precinctos do mosteiro. Sigamo-los porêm, que é tempo.
+
+Chegavam elles a uma pequena capella do claustro das freiras, foram
+depor sôbre o altar o cofre que traziam, e ajoelharam devotamente deante
+d'elle. Logo se ouviu ao longe o psalmear baixo e sumido de vozes
+femininas; e d'ahi a pouco, toda a communidade das Claras, de tochas na
+mão, em duas alas, e a abbadessa com o seu baculo atraz, entravam
+processionalmente no claustro e se dirigiam á mesma capella.
+
+O psalmo que cantavam era este:
+
+[6] 'Meu Deus, vieram os barbaros ás tuas herdades, polluiram o teu
+sancto templo, pozeram Jerusalem como um grannel de fructos.
+
+'Pozeram os cadaveres de teus filhos de cevo ás aves do ceo; as carnes
+dos teus sanctos ás alimarias da terra.
+
+'O sangue d'elles derramaram-n'o como agua nos valles de Jerusalem; ja
+não havia quem sepultasse.
+
+'Estamos feitos o oppróbrio dos nossos vizinhos; o escarneo e a zombaria
+dos que vivem por nossos arredores.
+
+'Até aonde, ó Senhor, te hasde irar emfim; e se hade accender o teu zêlo
+como fogo?
+
+'Vérte a tua íra sôbre as gentes que te não conheceram, contra os reinos
+que não invocaram o teu nome;
+
+'Que devoraram a Jacob; e desolaram suas terras.
+
+'Não te lembres de nossas iniquidades passadas, e depressa nos alcancem
+as tuas misericordias; ja que tam pobres de mais estamos.
+
+'Ajuda-nos Deus, salvador nosso; e pela gloria do teu nome livra-nos,
+Senhor, amercea-te de nossos peccados por causa do teu nome.'
+
+Cantavam assim as pobres das freiras, cantavam em latim que ellas mal
+intendiam; mas dizia-lhes o instincto do coração, dizia-lhes a tam
+excitavel imaginação feminina, que era chegada a hora de se cumprir a
+seus olhos, e sôbre ellas mesmas tambem, a tremenda prophecia do psalmo
+que intoavam.
+
+Havia pois lagrymas n'aquellas vozes que assim cantavam, sahiam d'alma
+aquelles sons e n'alma vibravam tambem com profunda e solemne
+melancholia.
+
+Chegadas juncto á capella aonde estava o cofre, as freiras pararam
+conservando as mesmas duas alas da procissão e continuando no accentuado
+mormúrio de seu psalmo.
+
+Os tres vultos de homem permaneceram de joelhos e curvados deante do
+altar.
+
+Findou o psalmo e seguiu-se breve intervallo de silencio. Depois, os
+tres homens levantaram-se, e cahindo-lhes para os lados as longas capas
+em que vinham involtos, viu-se que o do meio era um frade velho, magro,
+curvado e sêcco, trajando ainda, apezar da lei, o burel preto dos
+franciscanos e cingido com sua corda. Os outros dous eram dominicos e
+vestiam de preto e branco segundo as côres de seu tambem proscripto
+instituto.
+
+O velho franciscano subiu com passo trémulo os degraus do altar, beijou
+o cofre que estava sôbre elle, e voltando-se para a communidade que o
+contemplava em religioso silencio, disse com uma voz cava que parecia
+vir do sepulchro mas accentuada e forte:
+
+'Irmans, vimos intregar-vos este depósito precioso. Deus não quer que os
+cadaveres dos seus sanctos fiquem expostos ás aves do ceo e ás alimarias
+da terra. Este é o sancto corpo de um dos maiores sanctos que produziu
+ésta terra de Portugal quando era abençoada. Hoje é malditta e não devia
+conservar as suas reliquias. Os filhos de San'Domingos foram expulsos de
+sua casa, assim como nós fomos, nós os filhos de Francisco,
+incontrámo'nos sem tecto nem abrigo uns e outros, e junctámos as nossas
+miserias para as chorarmos como irmãos que somos, como filhos de paes
+que tanto se amaram e ajudaram. Perigrinaremos junctos por essas
+solidões da terra, e junctos iremos bater por essas portas que cerrou a
+impiedade e a indifferença, a pedir o pão de cada dia porque temos fome.
+
+'Que importa! não professâmos nós, não nos honrâmos nós de ser mendigos?
+De que vivêmos nós sempre senão de esmolla?
+
+'Não choreis irmans, não choreis sôbre nós. Deus que o permittiu bem
+sabe o que fez. Louvado seja elle sempre! Nós tinhamos peccados para
+mais! Ainda foi misericordioso comnosco o Senhor da justiça e do
+castigo.
+
+'A nós tiraram-nos tudo, tudo! Até éstas mortalhas que tinhamos
+escolhido em vida e que nem a morte ousava roubar-nos.
+
+'A furto e como quem se esconde para um acto criminoso, nós as vestimos
+ésta noite para commetter o que elles chamarão um furto, e que era uma
+obrigação sagrada nossa.
+
+'Fomos á antiga casa de nossos irmãos e roubámos o corpo do
+bemaventurado San'Frei Gil.
+
+'Aqui vo-lo intregâmos; guardae-o. Emquanto estes muros estiverem em pe,
+que o abriguem dos desacatos d'essa gente sem Deus nem lei. A vós não
+ousarão expulsar-vos d'aqui: talvez vos matem á fome... Não póde ser:
+Deus não hade permitti-lo.
+
+'Mas qualquer que seja a sua vontade, resignae-vos a ella, minhas
+irmans. So elle sabe como nos ama e como nos castiga. Louvemo'-lo por
+tudo.'
+
+Aqui foi um chorar e um supplicar fervente como so se ouve na hora da
+angústia.
+
+As afflictas monjas, estavam prostradas nas lages humidas do claustro,
+sôbre as sepulturas de suas irmans, sôbre seus proprios jazigos que
+haviam de ser. O frade com os braços extendidos pronunciou as solemnes
+palavras de benção, descrevendo com a direita o augusto symbolo da
+redempção:
+
+'Bemdiga-vos Deus omnipotente, Pae, Filho e Espirito-sancto!' 'Amen!'
+respondeu o côro; e os tres proscriptos se retiraram, deixando a salvo o
+seu thesoiro.
+
+Assim desappareceu do tumulo o corpo de San'Frei Gil de Santarem.
+
+Ninguem sabía d'elle: soube eu e guardei o segredo religiosamente.
+
+Os tempos são outros hoje: os liberaes ja conhecem que devem ser
+tolerantes, e que precisam de ser religiosos. Não ha perigo em dizer-lhe
+onde elle está.
+
+Quando houver em Portugal um govêrno que saiba ser govêrno, hade regular
+e consolidar a existencia das freiras, hade approveitá-la para as
+piedosas instituições do insino da mocidade, da cura dos infermos, e do
+amparo dos invalidos.
+
+Os barões andam-lhe com o cheiro nos poucos bens que lhes restam ás
+pobres das freiras. Mal do govêrno que deixar comer mais aos barões!
+
+
+
+
+CAPITULO XLI.
+
+
+ O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta perspicacia do
+ leitor benevolo.--Grande lacuna na nossa historia.--Porque se não
+ preenche?--Página preta na historia de Tristam Shandy.--Novellas e
+ romances, livros insignificantes.--O adro de San'Francisco e as
+ suas acacias.--Que será feito de Joanninha?--O peito da mulher do
+ norte.--Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.--A
+ corneta do soldado e a trombeta do juizo final.--Eheu, Portugal,
+ eheu!
+
+
+Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho que vai de noite roubar os
+ossos do sancto ao seu tumulo, e os vem esconder na clausura das
+freiras, porcerto, digo, reconheceu ja a tua natural perspicacia ao
+nosso Frei Diniz, o frade por excellencia--frade por teima e acinte.
+
+Pois esse era, não ha dúvida.
+
+Assim se passou aquella scena e assim m'a contaram. Do que mediára entre
+ella e o acontecido com o frade, Carlos, Joanninha, a avó e a ingleza,
+d'isso é que nada pude saber.
+
+É uma grande lacuna na nossa historia; mas antes fique assim do que
+enchê-la de imaginação.
+
+Oh! eu detesto a imaginação.
+
+Onde a chronica se calla e a tradição não falla, antes quero uma pagina
+inteira de pontinhos, ou toda branca--ou toda preta, como na veneravel
+historia do nosso particular e respeitavel amigo Tristão Shandy, do que
+uma so linha da invenção do chroniqueiro.
+
+Isso é bom para novellas e romances, livros insignificantes que todos
+leem todavia, ainda os mesmos que o negam.
+
+Eu tambem me parece que os leio, mas vou sempre dizendo que não...
+
+Emfim, tornemos ao frade, e tornemos ás minhas viagens.
+
+Cheio d'elle e da sua memoria, palpitando com a recordação das tremendas
+scenas que, havia tam poucos annos, se tinham passado em seu antigo
+mosteiro, eu me approximei emfim do real convento de San'Francisco de
+Santarem.
+
+Dei pouca attenção ao bello adro e á solemne vista que d'elle se
+descobre--e menos ainda ás doentias acacias que ahi vejetam infezadas e
+rachiticas, como plantadas de má mão e em má hora--porque môças são
+ellas, é visivel: poseram-n'as ahi depois de extincto o convento. São
+triste mas verdadeiro symbolo da apagada e facticia vida que se quiz dar
+ao que era morto.
+
+Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e aguçadas arcadas do claustro,
+pelas altas naves do templo se descubrimos algum vestigio do último
+guardião d'esta casa, e d'essa fadada familia cujo destino em hora
+aziaga tam estreitamente se ligou com o d'elle.
+
+Ja me interessa isto mais, confesso, ai! muito mais, do que todos esses
+tumulos e inscripções que por ahi estão, e que tanto characterizam este
+um dos mais antigos e mais historicos edificios do reino.
+
+Mas em vão interrogo pedra a pedra, lage a lage: o echo morto da solidão
+responde tristemente ás minhas perguntas, responde que nada sabe, que
+esqueceu tudo, que aqui reina a desolação e o abandôno, e que se
+apagaram todas as lembranças de outro estado...
+
+Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus amores? Que será feito d'esse
+homem que ousou amar-te amando a outra? E essa outra onde está?
+Resignou-se ella devéras? Sepultou comeffeito, sob o gêlo apparente que
+veste de triplice mas falsa armadura o peito da mulher do norte, todo
+aquelle fogo intenso e íntimo que solapadamente lhe devora o coração?
+
+Não tenho esperanças de saber nada d'isso aqui.
+
+So pude descubrir que, no dia immediato á scena nocturna das Claras, Fr.
+Diniz sahiu de Santarem, não se sabe em que direcção--que n'esse mesmo
+dia Georgina sahíra tambem pela estrada de Lisboa, levando em sua
+carruagem a avó e a neta, ambas meias mortas e ambas meias loucas--que
+não houvera mais novas de Carlos--e que a sua última carta, aquella que
+escrevêra de juncto d'Evora, Joanninha a levava apertada nas mãos
+convulsas quando partíra.
+
+Pois tambem eu me quero partir, me quero ir embora. Ja me infada
+Santarem, ja me cansam éstas perpétuas ruinas, estes pardeiros
+interminaveis, o aspecto desgracioso d'estes intulhos, a tristeza
+d'estas ruas desertas. Vou-me embora.
+
+E comtudo San'Francisco é uma bella ruina, que merecia examinada de
+vagar, com outra paciencia que eu ja não tenho.
+
+Se tudo me impacienta aqui!
+
+Da bella egreja gothica, fizeram uma arrecadação milítar; andou a mão
+destruidora do soldado quebrando e abolando esses monumentos preciosos,
+riscando com a baioneta pelo verniz mais pulido e mais respeitado
+d'esses jazigos antiquissimos: os lavores mais delicados esmoucou-os,
+degradou-os. Levantaram as lages dos sepulchros; e ao som da corneta
+militar acordaram os mortos de seculos, cuidando ouvir a trombeta
+final...
+
+Decididamente vou-me embora, não posso estar aqui, não quero ver isto.
+Não é horror que me faz, é náusea, é asco, é zanga.
+
+Maldittas sejam as mãos que te profanaram, Santarem... que te
+deshonraram, Portugal... que te invilleceram e degradaram, nação que
+tudo perdeste, até os padrões da tua historia!..
+
+Eheu, eheu, Portugal!
+
+
+
+
+CAPITULO XLII.
+
+
+ Protesto do auctor.--Desaffinação dos nervos.--O que é preciso para
+ que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus está no Colliseu
+ assím como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de
+ Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que
+ estado se acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real
+ sôbre a caveira.--O rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem
+ nunca viu o rei cuida que é de oiro.--Brutalidades da soldadesca
+ n'um tumulo real.--O que se acha nas sepulturas dos reis.--A
+ phrenologia.--Vindicta publica, tardia mas ultrajante.--Camões e
+ Duarte Pacheco.--A sombra falsa da religião.--Regimen dos barões e
+ da materia.--A prosa e a poesia do povo.--Synthese e analyse.--O
+ senso íntimo.--Se o auctor é demagogo ou Jesuita?--Jesu Christo e
+ os barões.
+
+
+Não chamem exaggerado ao que vai escripto no fim do último capitulo;
+senti o que escrevi, senti muito mais do que escrevi. O que poderá haver
+é desacêrto nas palavras, porque em verdade não sei explicar a impressão
+que me faz uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os nervos, vibram-me
+n'uma discordancia e dissonancia insupportavel. Queria ver antes estes
+altares expostos ás chuvas e aos ventos do ceo,--que o sol os queimasse
+de dia,--que á noite, á luz branca da lua, ou ao tibio reflexo das
+estrellas, piasse o mocho e sussurrasse a coruja sôbre seus arcos
+meio-cahidos.
+
+Não me parecia profanado o templo assim, nem descahido de majestade o
+monumento. Podia ajoelhar-me no meio das pedras sôltas, entre as hervas
+humidas, e levantar o meu pensamento a Deus, o meu coração á glória, á
+grandeza, o meu espirito ás sublimes aspirações da idealidade. O
+material, o grosseiro, o pesado da vida não me vinham affligir ahi.
+
+Deus, a idea grande do mundo--Deus, a Razão Eterna--Deus, o amor--Deus,
+a glória--Deus, a fôrça, a poesia e a nobreza d'alma--Deus está nas
+ruinas escalavradas do Colliseu, como nos zimborios de bronze e marmore
+de San'Pedro.
+
+Mas aqui!.. nos pardeiros de um convento velho, concertado pelas
+Obras-públicas para servir de quartel de soldados--aqui não habita
+espirito nenhum.
+
+Quero-me ir embora d'aqui!
+
+E como? sem ver o tumulo d'elrei Fernando? Não póde ser, é verdade.
+
+Onde está elle?
+
+No côro alto.
+
+Subamos ao côro alto.
+
+ Oh! que não sei de nôjo como o conte!
+
+O bello jasigo do rei formoso e frivolo, tam dado ás delicias do prazer
+como foi seu pae ás austeridades da justiça, em que estado elle está!
+
+Oh nação de barbaros! Oh malditto povo de iconoclastas que é este!
+
+O tumulo do segundo marido de D. Leonor Telles é um sarcophago de pedra
+branca, fina e friavel, elegante e simplesmente cortada, com mais
+sobriedade de ornatos do que tem de ordinario os monumentos do seculo
+XIV, mas de uma acabada sculptura, casta e continente, como o não foi a
+vida do rei que ahi incerraram depois de morto.
+
+Percebem-se ainda vestigios das vivas côres em que foram induzidos os
+relevos da pedra branca:--stylo byzantino de que não sei outro exemplar
+em Portugal. Este é--ou antes, era--precioso.
+
+Era; porque a brutalidade da soldadesca o deturpou a um ponto incrivel.
+Imaginou a estupida cubiça d'estes Allanos modernos que devia de estar
+alli dentro algum grande haver de riquezas incantadas,--talvez cuidaram
+achar sôbre a caveira do rei a coroa real marchetada de perolas e rubis
+com que fosse interrado,--talvez pensaram incontrar appertado ainda
+entre as sêccas phalanges dos dedos myrhados, aquelle globo de oiro
+macisso que lhes figura o rei d'espadas do sujo baralho de sua tarimba,
+e que elles teem pela indisputavel e infallivel insignia do supremo
+imperio;--talvez supposeram que mesmo depois de morto, um rei devia de
+ser de oiro... Emfim quem sabe o que elles cuidaram e pensaram? O que se
+sabe, porque se ve, é que quizeram abrir e arrombar o tumulo. Tentaram,
+primeiro, levantar a campa; não poderam: tam solidamente está soldada a
+pedra decíma ao corpo ou caixão do jazigo, que o todo parece macisso e
+inconsutil. Mas n'este impenho quebraram e estallaram os lavores finos
+dos cantos, os caireis delicados das orlas; e a campa não cedeu: parece
+chumbada pelo anjo dos últimos julgamentos com o sêllo tremendo que so
+se hade quebrar no dia derradeiro do mundo.
+
+A cubiça estolida dos soldados não se aterrou com a religião do
+sepulchro, nem lhe causou attrição, ao menos, ésta resistencia quasi
+sobrenatural das pedras do moimento. Ve-se que trabalhou alli, de
+alavanca e de ariete, algum possante e ponderoso pé-de-cabra; mas que
+trabalhou em vão muito tempo.
+
+Desinganaram-se emfim com a tampa; e resolveram atacar, mais brutalmente
+mas com mais vantagem, as paredes do sarcophago, que justamente
+suspeitaram de menos espessos. Assim era; e conseguiram na parede da
+frente abrir um rombo grosseiro por onde entra facil um braço todo e
+póde explorar o interior do tumulo á vontade.
+
+Assim o fiz eu, que metti o meu braço por essa abertura barbara, e achei
+terra, pó, alguns ossos de vertebras, e duas caveiras, uma de homem,
+outra de criança.
+
+Não me lembra que haja memoria alguma de infante que ahi fosse sepultado
+tambem, segundo faziam os antigos muitas vezes que punham os cadaveres
+das crianças nos jazigos dos paes, dos parentes, até de meros amigos de
+suas familias.
+
+Tive, confésso, uma especie de prazer maligno em imaginar a estupida
+compridez de cara com que deviam de ficar os brutaes profanadores,
+quando achassem no tumulo do rei o que so teem os tumulos--de reis ou de
+mendigos--ossos, terra, cinza, nada!
+
+Por mim, estive tentado a furtar a caveira d'elrei D. Fernando. Se
+acreditasse na phrenologia, parece-me que não tinha resistido. Não creio
+na sciencia, felizmente--n'este caso--para a minha consciencia. Tambem
+não sei o que faria se a caveira fosse de outro homem. Mas o 'fraco rei'
+que fez 'fraca a forte gente' não são reliquias as suas que se guardem.
+
+Oh! e quem sabe? Ésta profanação, este abandôno, este desacato do tumulo
+de um rei, alli na sua terra predilecta--D. Fernando era santareno de
+affeição--não será elle o juizo severo da posteridade, a vindicta
+pública dos seculos, que tardia mas ultrajante, cai emfim sôbre a
+memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra as cinzas como ja lhe
+deshonrára o nome?
+
+Quero acreditar que tal não podia succceder aos tumulos de D. Diniz, de
+D. Pedro I, dos dois Joannes I e II, de...
+
+Sim: e aonde está o de Camões? O de Duarte Pacheco aonde _esteve_? que
+ainda é mais vergonhosa pergunta ésta última.
+
+Em Portugal não ha religião de nenhuma especie. Até a sua falsa sombra,
+que é a hypocrisia, desappareceu. Ficou o materialismo estupido, alvar,
+ignorante, devasso e desfaçado, a fazer gala de sua hedionda nudez
+cynica no meio das ruinas profanadas de tudo o que elevava o espirito...
+
+Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por melhor tempo,
+apezar d'esta paralysia que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre parte
+de seu corpo. Mas uma nação piquena, é impossivel; hade morrer.
+
+Mais dez annos de barões e de regimen da materia, e infallivelmente nos
+foge d'este corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do
+espirito.
+
+Creio isto firmemente.
+
+Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo, está são:
+os corruptos somos nós os que cuidâmos saber e ignorâmos tudo.
+
+Nós, que somos a prosa vil da nação, nós não intendemos a poesia do
+povo; nós, que so comprehendemos o tangivel dos sentidos, nós somos
+extranhos ás aspirações sublimes do senso-íntimo que despreza as nossas
+theorias presumpçosas, porque todas veem de uma acanhada anályse que
+procede curta e mesquinha dos dados materiaes, insignificantes e
+imperfeitos;--em quanto elle, aquelle senso-íntimo do povo, vem da Razão
+divina, e procede da synthese transcendente, superior, e inspirada pelas
+grandes e eternas verdades que se não demonstram porque se sentem.
+
+E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não sou.
+
+Serei fanatico, jesuita, hypocrita? Não sou.
+
+Que sou eu então?
+
+Quem não intender o que eu sou, não vale a pena que lh'o diga...
+
+Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim d'este capítulo ja
+tam seccante, e prometto não reflectir nunca mais.
+
+Jesu Christo, que foi o modêlo da paciencia, da tolerancia, o verdadeiro
+e unico fundador da liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu
+Christo soffreu com resignação e humildade quantas injustiças, quantos
+insultos lhe fizeram a elle e á sua missão divina; perdoou ao matador, á
+adúltera, ao blasphêmo, ao impio. Mas quando viu os barões a agiotar
+dentro do templo, não se pôde conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os
+sem dor.
+
+
+
+
+CAPITULO XLIII.
+
+
+ Partida de Santarem.--Pinacotheca.--Impaciencia e
+ saudades.--Sexta-feira.--Martyrio obscuro.--A figura do
+ peccado.--Estamos no valle outra vez.--Evocação de incanto.--A
+ irman Francisca e Fr. Diniz.--A teia de Penelope.--E
+ Joanninha?--Joanninha está no ceo.--A mulher morta a dobar
+ esperando que a interrem.--A esperança, virtude do
+ christianismo.--Uma carta.
+
+
+Estou devéras fatigado de Santarem; vou-me embora.
+
+Despedimo'-nos saudosos d'aquella boa e leal familia que nos hospedára
+com tanto carinho, com toda a velha cordialidade portugueza; partimos.
+
+Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhan nos olivaes, senti
+desaffogar-se-me alma d'aquella constricção cansada que se experimenta
+na longa visita a um museu de antiguidades, a uma galeria de pinturas.
+
+Perdoem-me que não diga 'pinacotheca': bem sei que é moda, e que a
+palavra é adoptavel segundo as mais strictas regras de Horacio, pois
+'cai da fonte grega' direitamente e sem mistura: mas soa-me tam mal em
+portuguez que não posso com ella.
+
+Santarem fatigou-me o espirito, como todas as coisas que fazem pensar
+muito. Deixo-a porêm com saudade, e não me heide esquecer nunca dos dias
+que aqui passei.
+
+De quê e como sou eu feito, que não posso estar muito tempo n'um logar,
+e não posso sahir d'elle sem pena?
+
+Ja me está custando ter deixado Santarem. Porque não haviamos de partir
+ámanhan, e ter ficado ainda hoje alli?
+
+E hoje que é sexta-feira?... Mau dia para começar viagem!
+
+Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso valle, da pobre velha cega que
+ahi vivia sua triste vida de dores, de remorsos e desconfôrto, esperando
+porêm em Deus, conformada com seu martyrio: martyrio obscuro, mas tam
+insanguentado d'aquelle sangue que mana gotta a gotta e dolorosamente do
+coração rasgado, devorado em silencio pelo abutre invisivel de uma dor
+que se não revela, que não tem prantos nem ais.
+
+Era na sexta-feira que o terrivel frade, o demonio vivo d'aquella mulher
+de angústias, lhe apparecia tremendo e espantoso deante de seus olhos
+cegos, elevado pela imaginação ás proporções descommunaes e gigantescas
+de um vingador sobrenatural.
+
+Era a figura tangivel, e visivel á vista de sua alma, do enorme peccado
+que contra ella estava sempre.
+
+Creio que escuso dizer que não tenho eu ésta superstição dos dias
+aziagos que tinha a desgraçada velha, que a sua Joanninha partilhava.
+Mas confesso que, recordando as fatalidades d'aquella familia e
+d'aquelle dia, não gostei de voltar n'elle ao valle de Santarem.
+
+Estavamos porêm no valle; e ja eu via de longe aquellas árvores e
+aquella janella que tanto me impressionaram, quando éstas reflexões me
+acudiam ao espirito e m'o contristavam.
+
+Affrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar larga dianteira aos meus
+companheiros de viagem; e quando chegava perto da casa, tinha-os perdido
+de vista.
+
+Involuntariamente parei defronte da janella; mordia-me um interêsse, uma
+curiosidade irresistivel... Nem viva alma por aquelles arredores;
+apeei-me e fui direito para a casa.
+
+Apenas passei as árvores, um spectaculo inesperado, uma evocação como de
+incanto me veio ferir os olhos.
+
+No mesmo sítio, do mesmo modo, com os mesmos trajos e na mesma attitude
+em que a descrevi nos primeiros capitulos d'esta historia, estava a
+nossa velha irman Francisca...
+
+Ella era, e não podia ser outra; sentada na sua antiga cadeira, dobando,
+como Penelope tecia, a sua interminavel meada. Não havia outra
+differença agora senão que a dobadoira não parava, e que o fio seguia,
+seguia, inrollando-se, inrollando-se contínuo e compassado no novêllo; e
+que os braços da velha lidavam lentamente mas sem cessar no seu
+movimento de authomato que fazia mal ver.
+
+Defronte d'ella, sentado n'uma pedra, a cabeça baixa, e os olhos fixos
+n'um grosso livro velho, que sustinha nos joelhos, estava um homem sêcco
+e magro, descarnado como um esqueleto, livido como um cadaver, immovel
+como uma estátua. Trajava um non-descriptum negro, que podia ser sotana
+de clerigo ou tunica de frade, mas descingida, sôlta, e pendente em
+grossas e largas pregas do extenuado pescosso do homem.
+
+Tambem não podia ser senão Frei Diniz.
+
+Cheguei juncto d'elles; não me sentiu nenhum dos dois; nem me viu elle,
+o que so via dos dois.
+
+Sem mais reflexão, e continuando alto na serie de pensamentos que me
+vinha correndo pelo espirito, exclamei:
+
+--'E Joanninha?'
+
+--'Joanninha está no ceo':--respondeu sem sobresalto, sem erguer os
+olhos do seu livro, a sombra do frade--que outra coisa não parecia.
+
+--'Joanninha, pobre Joanninha! Pois como foi, como acabou a infeliz?'
+
+--'Joanninha não é infeliz: foi ser anjo na presença de Deus.'
+
+--'E... e Carlos?' balbuciei eu hesitando, porque temia a
+susceptibilidade do frade.
+
+--'Carlos!' respondeu elle erguendo emfim os olhos e cravando-os em
+mim...
+
+E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem os heide ver!
+
+--'Carlos!... E quem é que m'o pergunta? quem é que tanto sabe de mim e
+dos meus?.. Dos meus! Eu não tenho meus: sou so.'
+
+--'So! Não está aqui, que eu vejo?..'
+
+--'Ve essa mulher morta que ahi ficou, que a matei eu, e que aqui está á
+espera que dê a hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou so e quero
+estar so. Morreu tudo. Que mais quer saber?'
+
+--'Venho de Santarem...'
+
+--'Santarem tambem morreu; e morreu Portugal. Aqui não, vive senão o meu
+peccado, que Deus não perdoou ainda, nem espero...'
+
+--'A nossa religião fez uma virtude da esperança.'
+
+--'Fez.'
+
+--'E n'isso se distingue das outras todas.'
+
+--'Pois ainda ha quem o saiba n'esta terra?'
+
+--'Ha mais do que não houve nunca--pelo menos ha mais quem o saiba
+melhor.'
+
+--'Póde ser: os juizos de Deus são incomprehensiveis.'
+
+--'E infinita a sua misericordia.'
+
+--'Mas a sua cholera implacavel, a sua justiça tremenda.'
+
+--'A misericordia é maior.'
+
+--'Quem lhe insinou tudo isso?'
+
+--'O evangelho, o coração, e minha mãe que m'os explicou ambos.'
+
+--'Sente-se aqui... aopé de mim.'
+
+Sentei-me. O frade pegou-me na mão com as suas ambas, e pôs-me os olhos
+com uma expressão que nenhuma lingua póde dizer, nem nenhum pincel
+pintar.
+
+Esteve assim algum tempo, como quem me observava. Vi-lhe apontar
+claramente uma lagryma, vi-lh'a retroceder, e ficarem-lhe inchutos os
+olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro que lhe vinha á garganta;
+percebi distinctamente o estremeção que lhe correu o corpo; mas observei
+que todo se serenou depois.
+
+Disse-me então com voz magoada mas placida e sem aspereza ja nenhuma:
+
+--'Sabe a historia do valle?'
+
+--'Sei tudo até á partida de Carlos para Evora.'
+
+--'Aqui tem a carta que elle escreveu.'
+
+Tirou do breviario um papel dobrado, amarello do tempo, e manchado, bem
+se via, de muitas lagrymas, algumas recentes ainda.
+
+--'Leia.'
+
+Li.
+
+Ésta era a carta de Carlos.
+
+
+
+
+CAPITULO XLIV.
+
+
+ Carta de Carlos a Joanninha.
+
+
+
+
+ Evora-monte...
+ de maio de 1834.
+
+
+É a ti que escrevo, Joanna, minha irman, minha prima, a ti so.
+
+Com nenhum outro dos meus não posso nem ouso fallar.
+
+Nem eu ja sei quem são os meus: confunde-se, perde-se-me ésta cabeça nos
+desvarios do coração. Errei com elle, perdeu-me elle... Oh! bem sei que
+estou perdido.
+
+Perdido para todos, e para ti tambem. Não me digas que não; tens
+generosidade para o dizer, mas não o digas. Tens generosidade para o
+pensar, mas não pódes evitar de o sentir.
+
+Eu estou perdido.
+
+E sem remedio, Joanna, porque a minha natureza é incorrigivel. Tenho
+energia de mais, tenho podêres de mais no coração. Estes excessos d'elle
+me mataram... e me matam!
+
+Tu não comprehendes isto, Joanninha, não me intendes decerto; e é
+difficil.
+
+Es mulher, e as mulheres não intendem os homens. Sempre o entrevi, hoje
+sei-o perfeitamente. A mulher não póde nem deve comprehender o homem.
+Triste da que chega a sabê-lo!..
+
+E d'ahi... quando se tem de morrer, antes saber a morte de que se morre,
+do que expirar na ignorancia do mal que nos matou.
+
+Tu es joven e inexperiente, a tua alma está cheia de illusões doces; vou
+dissipar-t'as em quanto se não condensam, que te offusquem a razão e te
+deixem para sempre escrava cega do maior inimigo que temos, o coração.
+
+Quero contar-te a minha historia: verás n'ella o que vale um homem.
+
+Sabe que os não ha melhores que eu; e tam bons, poucos. Olha o que será
+o resto!
+
+Tu não ignoras ja hoje o porque fugi da casa materna: sabía-a manchada
+de um grande peccado, e imaginei-a polluida de um enorme crime.
+
+Esse homem que é meu pae, não o podia ver; hoje que sei o que me elle
+é... Deus me perdoe, que ainda o posso ver menos!
+
+Minha avó, julguei-a cumplice no crime; ella so o era no peccado.
+Perdoe-lhe Deus; e bem póde e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha
+pobre mãe succumbiu por sua culpa, por sua irremissivel complacencia...
+
+Deus póde e deve, repitto... mas eu, como lhe heide perdoar eu este
+rubor que sinto nas faces ao nomear minha mãe?
+
+Tem padecido e soffrido muito... coitada! A sua penitencia é um
+martyrio, a sua velhice uma longa paixão, e esse homem que a perdeu um
+verdugo sem piedade. Mas tudo isso é com Deus, não é commigo.
+
+Eu sou filho; minha mãe morreu sem perdoar--não posso perdoar eu.
+
+E quem me hade perdoar a mim? Ninguem, nem quero.
+
+Não serás tu, minha irman; não, que não deves. Porque eu amei-te com um
+coração que ja não era meu; acceitei o teu amor sem o merecer, sem o
+podêr possuir, trahi quando te amava, menti quando t'o disse, menti-te a
+ti, menti-me a mim, e não guardei verdade a ninguem.
+
+Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar o fio d'esta minha incrivel
+historia--incrivel para ti, bem simples para quem conheça o coração do
+homem.
+
+Sahi de Portugal, e posso dizer que não tinha amado ainda. Inclinações
+de criança, galanteios de sociedade, ligações que nasceram da vaidade,
+ou que so os sentidos alimentam, não merecem o nome de amor.
+
+Eu não tinha amado.
+
+Ha tres especies de mulheres n'este mundo: a mulher que se admira, a
+mulher que se deseja, e a mulher que se ama.
+
+A belleza, o espirito, a graça, os dotes d'alma e do corpo geram a
+admiração.
+
+Certas fórmas, certo ar voluptuoso criam o desejo.
+
+O que produz o amor não se sabe; é tudo isto ás vezes, é mais do que
+isto, não é nada d'isto.
+
+Não sei o que é; mas sei que se póde admirar uma mulher sem a desejar,
+que se póde desejar sem a amar.
+
+O amor não está definido, nem o póde ser nunca. O amor verdadeiro; que
+as outras coisas não são isso.
+
+Eu vivi poucos mezes em Inglaterra; mas foram os primeiros que posso
+dizer que vivi. Levou-me o acaso, o destino--a minha estrella, porque eu
+ainda creio nas estrellas, e em pouco mais d'este mundo creio
+ja--levou-me ao interior de uma familia elegante, ricca de tudo o que
+póde dar distincção n'este mundo.
+
+Extranhei aquelles habitos de alta civilização, que me agradavam
+comtudo; moldei-me facilmente por elles, affiz-me a vejetar docemente na
+branda atmosphera artificial d'aquella estufa sem perder a minha
+natureza de planta extrangeira. Agradei: e não o merecia. No fundo
+d'alma e de character eu não era aquillo por que me tomavam. Menti: o
+homem não faz outra coisa. Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o
+fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir.
+
+Menti pois, e agradei porque mentia. Sancto Deus! para que sahiria a
+verdade da tua bôcca, e para que a mandaste ao mundo, Senhor?
+
+Havia tres meninas n'aquella familia. Dizer que eram as tres graças é
+uma vulgaridade cansada, e tam bannal que não dá idea de coisa alguma.
+Tres anjos seriam; tres anjos posso dizer com mais propriedade. E quando
+em nossos longos passeios solitarios, por aquelles campos sempre verdes,
+por aquellas collinas coroadas de arvoredo, tapessadas de relva macia,
+os seus vestidos brancos, singelos, simples, trajados sem arte,
+fluctuavam com a brisa da tarde... e os longos anneis de seus
+cabellos--os de uma eram loiros, os de outra castanhos, não ha nome para
+a indefinida côr dos da terceira--quando esses longos anneis descahiam
+de sua ondada spiral com o orvalho humido do crepusculo--e que a essa
+luz vaga e mysteriosa eu as contemplava todas tres com adoração e
+recolhimento devoto d'alma--sinceramente exclamava: 'São tres anjos
+celestes que é forçoso adorar!..'
+
+E assim é que os adorava os tres anjos, todos tres, e não podia adorar
+um sem os outros.
+
+Que me queriam ellas, é certo; que insensivelmente se habituaram á minha
+companhia e ja não podiam viver sem ella... ai! era preciso ser um
+monstro para o não confessar com lagrymas de gratidão e de remorso.
+
+Os mais difficeis e delicados apices da perfeição de sua tam caprichosa
+e tam expressiva lingua, as bellezas mais sentidas de seus auctores
+queridos, o espirito e tom difficil de sua sociedade tam desdenhosa e
+fastienta, mas tam completa e tam calculada para sublimar a vida e a
+desmaterializar--isso tudo, e um indefinivel sentimento do _gentil_, que
+so com natural tacto se adquire, é verdade, mas que se não alcansa com
+elle so--isso tudo o apprendi alli das suaves licções que
+insensivelmente recebia a cada instante.
+
+Se valho alguma coisa, tudo valho por ellas; se tenho merecido alguma
+consideração no mundo, toda lh'a devo.
+
+Ves que confesso a dívida, verás como a paguei.
+
+O tom perfeito da sociedade ingleza inventou uma palavra que não ha nem
+póde haver n'outras linguas emquanto a civilização as não aparar. _To
+flirt_ é um verbo innocente que se conjuga alli entre os dois sexos, e
+não significa _namorar_--palavra grossa e absurda que eu detesto--não
+significa 'fazer a côrte'; é mais do que estar amavel, é menos do que
+galantear, não obriga a nada, não tem consequencias, começa-se,
+acaba-se, interrompe-se, addia-se, continúa-se ou descontinúa-se á
+vontade e sem compromettimento.
+
+Eu _flartava_, nós _flartavamos_ ellas _flartavam_...
+
+E não ha mais doce nem mais suave intertenimento d'espirito do que o
+_flartar_ com uma elegante e graciosa menina ingleza; com duas é prazer
+angelico, e com tres é divino.
+
+Para quem nasceu n'aquillo, não é perigoso; para mim degenerou, breve,
+aquella placida sensação em mais profundo sentimento.
+
+Veio a admiração primeiro.
+
+E como as eu admirava todas tres as minhas gentis fascinadoras!
+
+E ellas conheciam-n'o, riam, folgavam e estavam incantadas de me
+incantar.
+
+Fizeram nascer os desejos!
+
+Julguei-me perdido, e quiz fugir.
+
+Não me deixaram e zombaram de mim, da ardencia do meu sangue hespanhol,
+da vehemencia das minhas sensações...
+
+Em breve eu amava perdidamente uma d'ellas--queria muito ás outras duas;
+mas amar, amar devéras, d'alma cuidava eu, de coração ia jurá-lo, era a
+segunda--Laura, a mais gentil, mais nobre, mais elegante e radiosa
+figura de mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora de verdadeiro
+amor de artista que se dignou tomar por esse pouco de greda que tinha
+nas mãos ao formá-la.
+
+
+
+
+CAPITULO XLV.
+
+
+ Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
+
+
+Laura não era alta nem baixa, era forte sem ser gorda, e delicada sem
+magreza. Os olhos de um côr-de-avelan diaphano, puro, avelludado,
+grandes, vivos, cheios de tal majestade quando se iravam, de tal doçura
+quando se abrandavam, que é difficil dizer quando eram mais bellos. O
+cabello quasi da mesma côr tinha, demais, um reflexo dourado,
+vacillante, que ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,--mas a
+espaços, não era sempre, nem em todas as posições da cabeça:--cabeça
+pequena, modelada no mais classico da statuaria antiga, poisada sôbre um
+collo de immensa nobreza, que harmonizava com a perfeição das linhas dos
+hombros.
+
+A cintura breve e estreita, mas sem exaggeração, via-se que o era assim
+por natureza e sem a menor contrafeição d'arte. O pé não tinha as
+exiguidades fabulosas da nossa peninsula, era proporcionado como o da
+Venus de Medicis.
+
+Tenho visto muita mulher mais bella, algumas mais adoraveis, nenhuma tam
+fascinante.
+
+Fascinante é a palavra para ella.
+
+O rosto oval e perfeitamente symetrico, pallido; so os beiços eram
+vermelhos como a rosa de côr mais viva.
+
+A expressão de toda ésta figura é que se não descreve. A bôcca breve e
+fina surria pouco; mas quando surria, oh!..
+
+Ve-la n'um baile, vestida e calçada de branco, cingida com um cinto de
+vidrilhos pretos--toilete inalteravel para ella desde certa epocha--sem
+mais ornato, sem mais flores, apenas um farto fio de perolas
+derramando-se-lhe pelo collo--era ver alguma coisa de superior, de mais
+sublime que uma simples mulher.
+
+Tal era Laura, Laura que eu amei quanto podia e sabía amar. Era pouco,
+sei-o agora; entao parecia-me infinito.
+
+Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que passeavamos sós, e depois de
+andarmos horas e horas esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensavamos, eu
+n'ella, ella não sei em quê.
+
+Sería em mim?
+
+Sería mas não m'o confessou.
+
+E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar para mim uma so vez, sem fugir
+com a mão que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que sentia fria e
+humida nas minhas que escaldavam.
+
+Era tarde, dirigimo'-nos para casa. Á porta disse-me: 'Não entre'; e
+vi-a banhada em lagrymas. Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso que
+me confundiu. Pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui so, triste e
+melancholico para a minha pobre habitação, onde passei a noite.
+
+Quando era madrugada quiz-me deitar. Não dormi.
+
+No dia seguinte recebi uma carta de Julia: assim se chamava a mais
+velha, a mais sensivel e a mais carinhosa das tres irmans.
+
+O bilhete parecia indifferente; não continha senão palavras usuaes,
+pedia-me que fosse almoçar com ella... não fallava nas irmans.
+
+Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me que ia ser expulso
+d'aquelle Eden de innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia, uma
+lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me um aggregado de signaes
+caballisticos terriveis que incerravam o mysterio da minha condemnação.
+
+Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no _parlour_ elegante de seu
+exclusivo uso.
+
+Era um pequeno gabinete de estudo, ornado somente de umas _etagères_ com
+livros e musicas, uma harpa e um cavallete.
+
+Sôbre o cavallete estava o meu retratto esboçado, na estante da harpa
+uma romança franceza a que eu tinha feito lettras portuguezas...
+
+A urna asoviava sôbre a mesa, Julia fazia o cha e não parecia attender a
+mais nada.
+
+É preciso que eu te descreva a piquena Julia--Julietta como nós lhe
+chamavamos--nós, as duas irmans e eu que rivalizavamos a qual lhe havia
+de querer mais...
+
+Oh! que saudade e que remorso para toda a minha vida n'estas recordações
+de fraternal intimidade!
+
+Julia era piquena, delicadissima, propriamente infantina no rosto, na
+figura, na expressão e no hábito de toda a sua incantadora e diminutiva
+pessoa.
+
+Nenhuma ingleza, desde o tempo da rainha Bess, teve pé e _ancle_ mais
+delicado. Nenhuma, desde o rei Alfredo, se occupou tam elegantemente dos
+elegantes cuidados de um interior britannico--gentil quadro 'de genero'
+como não ha outro.
+
+Lady Julia R. era a mais piquena e a mais bonita subdita britannica que
+eu creio que tenha existido.
+
+Vista á lua, no meio do seu parque, volteiando por entre os raros
+exoticos que no curto verão inglez se expoem ao ar livre, facilmente se
+tomava pela bella soberana das fadas realizando aquella preciosa visão
+de Shakspeare, o 'Midsumer night's dream.'
+
+Seus olhos de azul celeste, sempre humidos e sempre doces, os cabellos
+de um claro e assedado castanho todos soltos em anneis á roda da cabeça
+e cahindo pelos hombros, espalhando-se pelo rosto, que era uma lida
+contínua para os tirar dos olhos, um corpo airoso, uma bôcca de beijar,
+os dentes miudos, alvissimos e apertados, a mão piquena estreita, e de
+cera--tudo isto fazia de Julia um typo ideal de bondade, de candura, de
+innocencia angelica.
+
+E era um anjo... oh se era!
+
+Contemplei-a muito tempo em silencio: ella surria-me tristemente de vez
+em quando, mas não fallava. Emfim almoçámos, levaram o trem.
+
+Ella disse á sua aia:
+
+--'Phebe, eu estou so com Carlos; e quero estar so. Em casa para
+ninguem.'
+
+--'Sim, minha senhora.' Resposta obrigada do criado inglez a tudo.
+
+E ficámos sos completamente.
+
+
+
+
+CAPITULO XLVI.
+
+
+ Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
+
+
+Julia levantou finalmente para mim os seus olhos humidos, assombrados
+das mais longas e assedadas pestanas que ainda vi em olhos de mulher, e
+disse-me:
+
+--'Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me; diga-me alguma coisa que
+me console. Falle-me.'
+
+--'Que heide eu dizer?..'
+
+--'É um cavalheiro, Carlos: diga-me que o é, e desassombre-me d'este
+terror em que estou.'
+
+--'Pois duvída, Julia?..'
+
+--'Não duvido. Queremos-lhe todos muito aqui... muito demais... receio:
+como havemos de duvidar?'
+
+--'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lançando-me a seus pés, tomando-lhe
+as mãos ambas nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um paroxysmo de
+verdadeira contricção. 'Perdoe-me, Julia: bem sei que fiz mal, e
+prometto...'
+
+--'Não prometta nada, senão que hade ser cavalheiro. Isso sei eu e sinto
+que o póde cumprir.'
+
+--'Juro por... por ella.'
+
+--'Ella!.. Ella ama-o, Carlos. É melhor dizer a verdade de uma vez, e
+incarar todas as consequencias de uma posição difficil, do que
+illudir-se a gente sem as evitar. Laura ama-o, mas não deve nem póde
+amá-lo. Se fosse livre, não sei o que diria--não sei o que faria eu...
+Mas não se tratta de mim'--proseguiu com volubilidade febril--'não se
+tratta de mim, Carlos, tratta-se d'ella. Laura não o póde amar, está
+compromettida. Hade partir em tres mezes para a India.'
+
+--'Para a India!'
+
+--'Sim: é verdade: velo-ha. O seu noivo é capitão ao serviço da
+companhia, e parte em casando.'
+
+Eu sentia-me morrer o coração dentro do peito: foi a primeira dor
+verdadeira d'alma que soffri... Aquelle era o primeiro amor sincero da
+minha vida, e aquella foi tambem a primeira excruciante pena d'amor por
+que passei.
+
+Eu que de taes penas zombára sempre, que as desterrava da realidade para
+os romances, eu!.. Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar um
+padecer como eu experimentei n'aquella hora?
+
+Não sei o que fiz nem o que disse; não me recordo senão que senti as
+lagrymas de Julia cahirem-me sôbre a face e misturarem-se com as minhas
+que corriam em abundancia. Levantei os olhos para ella, e a expressão
+que vi nos seus... oh! como a heide esquecer nunca?
+
+Quanto ha de piedade e compaixão no thesouro infinito de um coração
+feminino se derramava d'aquelles olhos celestes para me consolar. Lá não
+ficava senão uma tristeza profunda, desanimada e mortal...
+
+Não sei que vago pensamento, que idea louca... ou antes, que
+presentimento indeterminado e confuso me atravessou pelo espirito--ou
+sería pelo coração?--n'aquelle momento...
+
+Se Julia?..
+
+Mas não póde ser.
+
+--'Julia, Julia' bradei eu 'quero vê-la: heide vê-la uma vez ao menos.
+Não me negue este último favor. Sei que devo, que preciso, que é forçoso
+fugir d'ella. Mas antes heide dizer-lhe...'
+
+--'O quê?..'
+
+--'Que a amo como nunca amei, como nunca mais heide amar...'
+
+--'Ai Carlos!'
+
+--'Que para sempre, sempre...'
+
+Julia levantou-se sem dizer palavra, e lançando sôbre mim um olhar de
+ineffavel compaixão, sahiu rapidamente do quarto.
+
+Achei-me so, não sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me aturdido da
+cabeça, exhausto do coração--n'uma depressão d'espirito que tocava na
+estupidez. Se me apontassem uma pistola aos peitos, não levantava o
+braço para a arredar... Ja não sentia pena nem desejo. Parecia-me que
+começava a morrer; e não achava que morrer custasse muito.
+
+N'este estado fiquei não sei que tempo; muito não foi. Percebi que se
+abria a porta, não tive fôrça para levantar os olhos. Até que senti uma
+doce e querida mão na minha... era Julia... e era Laura tambem... sancto
+Deus! que estavam aopé de mim ambas.
+
+Julia tinha a minha mão na sua; e Laura incostada ao hombro da irman,
+deixava cahir sôbre mim aquelles olhos em que a severidade habitual se
+tinha relaxado n'uma indulgencia tam doce, n'uma compaixão tam celeste
+que, juro por Deus, n'aquella hora acreditei firmemente que tinha deante
+de mim dous anjos seus, baixados nas azas da piedade divina para me
+trazer todo o perdão, toda a misericordia do ceo á minha alma.
+
+Como te direi eu, Joanna, querida Joanninha, como te direi a ti que me
+amas, a ti que eu amo--porque te amo, e Deus me castigue que deve!
+porque te amo, cegamente te amo com este infame e abominavel coração que
+Elle me deu--como te heide eu dizer a ti, e para quê, as palavras que
+alli dissemos, os protestos que alli fiz, os juramentos que alli se
+deram, as promessas que alli foram trocadas?
+
+Julia foi para a janella--indulgente chaperão que nos não via e fingia
+não nos ouvir. O dia passou-se assim, um longo dia de junho que tam
+curto e rapido nos pareceu. Era noite quando fomos jantar.
+
+Á mesa Laura appareceu em trajos de viagem; partia n'aquella noite para
+o paiz de Galles onde tinha uma amiga, com quem ia estar até o dia
+terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe de mim, no seio da
+amizade.
+
+Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingiamos. Ao sahir da mesa achámos
+á porta da casa a caleche posta, o cocheiro na almofada, e o criado á
+portinhola. Montámos, as tres irmans e eu.
+
+Eram duas milhas d'alli á estalagem onde tocava a malla-posta e onde
+Laura devia incontrá-la. Fizemo-las sem proferir palavra nenhum dos
+quatro.
+
+A lua ia grande e bella com sua luz triste e fria por um ceo sem nuvens.
+Era uma d'aquellas noites raras, mas admiraveis do breve estio
+britannico.
+
+A areia que rangia com o attrito das rodas da carruagem nas lisas ruas
+do parque, os ramos descahidos das árvores por que roçavamos levemente
+ao passar, os veados mansos que se levantavam para nos ver--os phaesães
+que erguiam seu rasteiro voo de moita para moita ao sentir o estalido do
+chicote, com que o cocheiro mais moderava do que excitava os seus
+cavallos, tudo para mim eram impressões de nunca sentida e inexplicavel
+tristeza. Ficava-me a alma apoz tudo aquillo, sentia fugir-me a
+felicidade para sempre, e que era eu que a affugentava, e que me ia
+incontrar so, desamparado e proscripto no deserto da vida.
+
+Não me sentia fôrça para blasphemar, para maldizer de Deus, senão
+tinha-o feito.
+
+Tinha: e outras ancias mais angustiadas e mortaes me teem afflicto na
+vida; em nenhuma me senti tam capaz de renegar de Deus e descrer d'elle
+como n'esta.
+
+Sería effeito de sua inexhaurivel piedade que talvez quiz acudir á minha
+alma antes que se perdesse, sería por certo--pois n'esse mesmo instante
+distinctamente me appareceu deante dos olhos d'alma a unica imagem que
+podia chamá-lo do abysmo: era a tua, Joanna! Era a minha Joanninha
+piquena, innocente, aquelle anginho de criança, tam viva, tam alegre,
+tam graciosa que eu tinha deixado a brincar no nosso valle: o nosso
+valle rustico, tam grosseiro e tam inculto! oh como as saudades d'elle
+me foram alcançar no meio d'aquellas allinhadas e perfeitas bellezas da
+cultura britannica! Os raios verdes de teus olhos, faiscantes como
+esmeraldas, atravessaram o espaço, e foram luzir no meio d'aquell'outros
+lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo aspero da nossa charneca
+mandavam-me ao longe as exhalações de seu perfume agreste, e matavam o
+suave cheiro do feno macio d'essas relvas sempre verdes que me rodeavam.
+As folhas crespas, sêccas, alvacentas das nossas oliveiras como que me
+luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante vegetação do norte,
+promettendo-me paz ao coração, annunciando-me o fim de uma peleja em que
+m'o dilaceravam as paixões.
+
+E tu, Joanna, tu, pobre innocente, e desvallida criancinha, tu
+apparecias-me no meio de tudo isso, extendendo para mim os teus
+bracinhos amantes como no dia que me despedira de ti n'esse fatal,
+n'esse querido, n'esse doce e amargo valle das minhas lagrymas e dos
+meus risos, onde so me tinham de correr os poucos minutos de felicidade
+verdadeira da minha vida, onde as verdadeiras dores da minha alma tinham
+de m'a cortar e destruir para sempre...
+
+Oh! de quê e como é feito o homem, para quê e porque vive elle? Que vim
+eu, que vimos nós todos fazer a este mundo?
+
+Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella splendida e macia
+carruagem, rodeado de tres mulheres divinas que me queriam todas, que eu
+confundia n'uma adoração mysteriosa e mystica--cego, louco d'amores por
+uma d'ellas, no momento de lhe dizer adeus para sempre... eu tinha o
+pensamento fixo n'uma criança que ainda andava ao collo!--Revendo-me nos
+olhos pardos de Laura que eu adorava, eram os teus olhos verdes que eu
+tinha n'alma! Os sentidos todos embriagados d'aquelle perfume de luxo e
+civilização que me cercava,--era o nosso valle rustico e selvagem o que
+eu tinha no coração...
+
+Oh! eu sou um monstro, um aleijão moral devéras, ou não sei o que sou.
+
+Se todos os homens serão assim?
+
+Talvez, e que o não digam.
+
+Joanna, minha Joanna, minha Joanninha querida, anjo adorado da minha
+alma, tem compaixão de mim, não me maldigas. Não quero que me perdoes,
+nem tu nem ninguem, que o não mereço: mas que tenhas dó e lástima de
+mim.
+
+Ai! que isso mereço eu, oh sim.
+
+Deixa-me parar aqui. Falta-me o ânimo para me estar vendo a este
+terrivel espelho moral em que jurei mirar-me para meu castigo, d'onde
+estou copiando o horroroso retratto de minha alma que te desenho n'este
+papel.
+
+Sabía que era monstro, não tinha examinado por partes toda a hediondez
+das feições que me reconheço agora.
+
+Tenho espanto e horror de mim mesmo.
+
+
+
+
+CAPITULO XLVII.
+
+
+ Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
+
+
+Chegámos ao Inn (estalagem), triste casa solitaria no meio dos campos á
+borda da estrada. A malla chegava ao mesmo tempo quasi.
+
+Eu dei a mão a Laura para sahir da caleche e entrar no coche; e apenas
+tivemos tempo para um convulsivo shake-hands e para nos dizer adeus!
+adeus! com a affectada seccura que exige a lei das conveniencias
+britannicas.
+
+A malla partiu ao grande trote... E dir-te-hei a verdade ou queres que
+minta? Não, heide dizer-te a verdade. Pois senti como um alívio
+desesperado, uma consolação cruel em a ver partir. Senti o que imagino
+que deve sentir um infêrmo depois da operação dolorosa em que lhe
+amputaram parte do corpo com que já não podia viver, e que era forçoso
+perder ou perder a vida.
+
+Tambem deve de ser assim a morte: um descanço apathico e nullo depois de
+inexplicavel padecer.
+
+Era como morto que eu estava; não soffria pois.
+
+E ja não pensava em ti, ja te não via na minha alma: eu não existia,
+estava alli.
+
+Voltámos ao parque; apeei silenciosamente as minhas duas gentis
+companheiras, e eu fui so, apé, com passo firme e resoluto para a minha
+habitação. Nenhuma d'ellas me procurou retter, nem me disse nada, nem
+tentou consolar-me. Paraquê?
+
+L. William R. chegava, na manhan seguinte, de uma de suas habituaes
+excursões a Londres. Veio ver-me assim que chegou, e trazer-me cartas de
+Portugal que eu esperava ha muito.--Disse-me que partia no outro dia
+para Swansea, a terra de Galles para onde Laura fôra; e que me
+incarregava de fazer companhia ás duas filhas que ficavam sos.
+
+A mim!..
+
+Estive tres dias sem as ver: em todos tres não fiz mais do que escrever
+a Laura.
+
+No quarto dia fui ao parque. Julia deu um grito de alegria quando me
+viu: raro exemplo de excepção ás formuladas regras que tyrannizam a vida
+ingleza, que prescrevem até a cara com que se hade morrer, e teem
+graduado o tom em que se deve exhalar o último suspiro.
+
+Mas a natureza chega a triumphar ás vezes até da propria etiqueta
+britannica.
+
+Julia cuidava que eu não queria voltar áquella casa, tinha-se resignado
+a não tornar a ver-me; não pôde reprimir a alegria que lhe causou a
+minha inexperada apparição.
+
+Passámos todo o dia junctos e sos: quasi todo se nos foi passeando no
+parque, ou sentados á sombra de seus espessos arvoredos, ou mirando-nos
+nas crystallinas aguas de uma vasta represa povoada de aves aquaticas e
+rodeada d'aquelles immensos mantos de velludo verde de que perpetuamente
+se infeita a terra ingleza e que so desapparecem quando vem o hynverno
+extender-lhe porcima seus alvos lençoes de neve.
+
+Quiz ver o que eu escrevia á irman; dei-lhe a carta, leu-a, meditou-a,
+restituiu-m'a sem dizer palavra.
+
+Que horas passámos n'este silencio, n'esta eloquente mudez que não vem
+senão do muito de mais que a alma sente, do muito de mais que diria se
+fallasse!
+
+Á despedida, essa noite, deu-me uma bolsa de rede que Laura tinha estado
+fazendo para mim e que lhe deixára para me intregar. Senti que tinha
+dentro o que quer que fosse a bolsa, não quiz examinar. Achei, quando
+voltei a casa, que era o _fadado cinto_ de vidrilhos pretos que eu tanto
+tinha admirado em certo baile onde foramos junctos, e que Laura não
+deixára de pôr nunca mais em se vestindo de branco e que fizesse alguma
+toilette.
+
+Ainda o conservo aquelle cinto precioso, Joanna; ainda a tenho, no meu
+thesoiro mais guardado, aquella joia, aquella reliquia. E amo-te, e
+amo-te a ti so como realmente nunca amei nem poderei tornar a amar. Mas
+aquelle cinto é uma sorte, um talisman, um amuleto em que está o meu
+destino.
+
+Amei... isto é, amei... pois sim, amei, ja que não ha outra palavra
+n'estas estupidas linguas que fallam os homens; pois amei outras
+mulheres, e nos dias de maior enthusiasmo por ellas, não deixei nunca de
+beijar devotamente aquelle cinto, de o appertar sôbre o meu coração, de
+me incommendar a elle--como o salteador napolitano se incommenda ao
+escapulario da madona que traz ao peito, com as mãos insanguentadas de
+matar, ou carregado do roubo que acaba de fazer.
+
+Ai, Joanna, não te digo eu que estou perdido, sem remedio, e que para
+mim não ha, não póde haver salvação nunca?
+
+Vivi assim dois mezes. Laura não me escrevia: recebia as minhas cartas e
+respondia a Julia: por este modo nos correspondiamos. Julia era parte de
+nós, era uma porção do nosso amor, viviamos n'ella a nossa vida. E ja as
+confundia ambas por tal modo no meu coração que me surpreendia a não
+saber a qual queria mais. Julia parecia feliz d'este estado; eu era-o.
+Insensivelmente me habituei a elle, ja não tinha saudades do passado. E
+quando se approximou o casamento de Laura, que ella tinha de voltar de
+Galles, e que eu, fiel ao que promettêra, devia pretextar negócio
+urgentissimo em Londres que me obrigasse a ausentar-me até á sua partida
+para a India, eu tive uma pena, uma difficuldade em cumprir o que
+promettêra que me invergonhava.
+
+Parti porêm; e alli me demorei um mez. Julia escrevia-me todos os dias e
+eu a ella. Na véspera do dia fatal em que Laura ia ser de outro homem,
+Julia escreveu-me éstas palavras sos:--'O nosso romance acabou; começa
+uma historia séria. Laura manda-lhe o seu último adeus.'
+
+E nunca mais se escreveu nem se pronunciou o nome de Laura entre nós
+dous.
+
+O galeão que me levava para o Oriente as ruinas de toda a minha
+esperança ha muito que navegava; entrava outubro e o hynverno inglez com
+suas mais asperas, e n'este anno tam precoces, severidades. Eu sentia-me
+morrer de tristeza e de isolamento no meio da populosa e turbulenta
+Londres, Julia percebeu-o, e mandou-me voltar a ----shire. Voltei.
+
+
+
+
+CAPITULO XLVIII.
+
+
+ Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
+
+
+O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados pelos tres-altos de
+neve que os cubriam, comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhança
+do parque, e a confrontar as árvores, os pastios, os casaes d'aquelles
+arredores!
+
+Era outra a expressão de physionomia da paizagem, mas as queridas
+feições eram as mesmas, e uma a uma lh'as ia estremando.
+
+Emfim o meu _stage_ parou á entrada do parque, e eu tomei apé pela longa
+avenida. Eram nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria, mas o
+tempo macio, não estava _cru_, segundo a expressiva phrase do paiz.
+
+Por entre a nevoa que me incubria a antiga mansão e involvia as árvores
+circumstantes n'um sudario cinzento e melancholico, fui caminhando,
+quasi pelo tacto, até meia alameda talvez.
+
+Parei a reflectir na minha posição e no que eu ia ser n'aquella casa que
+de novo me abria suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina
+brancacenta e onde ella era mais rara, descubri um vulto que vinha a mim
+de entre as árvores do parque.
+
+O vulto era de mulher e parecia uma sombra, uma apparição phantastica em
+meio d'aquella scena mysteriosa, so, triste.
+
+Na distancia figurava-se-me alto em demazia: Julia não era nem podia
+ser; Julia a mais diminutiva e delicada de quantas fadas bonitas e
+graciosas teem trazido varinha de condão. Laura... ai! Laura tam longe
+estava d'alli... Quem sería pois? So se fosse!.. Quem?
+
+Aquella elegancia, aquelle cabello sôlto e annellado, aquelle ar gentil
+não podia ser senão d'ella...
+
+D'ella, quem?
+
+Ainda te não fallei, quasi, da última das tres bellas irmans que me
+incantavam, não t'a descrevi, não t'a nomeei pelo seu nome. Repugnava-me
+fazê-lo. Mas é preciso: custa-me, não ha remedio.
+
+Era Georgina...
+
+Georgina que tu conheces, Georgina que... era Georgina a que vinha a mim
+n'aquella--fatal ou feliz?--manhan; Georgina que de todas tres era a que
+menos me fallava, que eu verdadeiramente menos conhecia.
+
+Este meu coração, á fôrça de ferido e de mal curado que tem sido,
+pressente e adivinha as mudanças de tempo com uma dor chronica que me
+dá. Pressenti não sei quê ao ver approximar-se Georgina...
+
+--'Como foi bom em vir! Estou realmente feliz de o ver. E Julia, a pobre
+Julia, que alegria que vai ter, hade curá-la de todo.'
+
+--'Pois quê! Julia está doente?'
+
+--'Não o sabía!... Ai! não, bem sei que não: ella não lh'o quiz dizer.
+Julia está doente; mas não é de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo antes
+que a visse, por isso calculei as horas do coche e vim para aqui
+esperá-lo.'
+
+Éstas palavras eram simples, não tinham nada que me devesse impressionar
+extraordinariamente, e todavia eu sentia-me agitado como nunca me
+sentira. Olhava para Georgina como se a visse a primeira vez, e pasmava
+de a ver tam bella, tam interessante.
+
+É uma situação d'alma ésta que não sei que a descrevessem ainda poetas
+nem romancistas: desprezam-n'a talvez, ou não a conhecem. Está recebido
+que as subitas impressões causadas por um primeiro incôntro sejam as
+mais interessantes, as mais poeticas.
+
+Eu não nego o effeito theatral d'essas primeiras e repentinas sensações;
+mas sustento que interessa mais ess'outra inesperada e extranha
+impressão que nos faz um objecto ja conhecido, que víramos com
+indifferença atéalli, e que derrepente se nos mostra tam outro do que
+sempre o tinhamos considerado...
+
+Mas ésta mulher é bella realmente! E eu que nunca o vi! Mas aquelles
+olhos são divinos! Onde tinha eu os meus atégora? Mas este ar, mas ésta
+graça onde os tinha ella escondidos? etc. etc.
+
+Vão-se gradualmente, vão-se pouco a pouco descobrindo perfeições,
+incantos; e o sentimento que resulta é mil vezes mais profundo, mais
+fundado, sôbretudo, que o das taes primeiras impressões tam cantadas e
+decantadas.
+
+Que mais te direi depois d'isto? Entrámos em casa, vi Julia, fallámos de
+Laura muito e muito. Mas eu ja o não fiz com o enthusiasmo, com a
+admiração exclusiva com que d'antes o fazia...
+
+Julia recobrou, breve, a saude, e com ella o equilibrio do espirito.
+Renovou-se toda a alegria, todo o incanto das nossas conversações
+íntimas, dos nossos longos passeios. Laura lembrava com saudade; mas
+suavizava-se, imbrandecia gradualmente aquella saudade.
+
+Georgina, que atéalli parecia impenhar-se em se deixar eclipsar pela
+irman, agora, ausente ella, brilhava de toda a sua luz, em graça, em
+espirito, por um natural singelo e franco, por uma exquisita doçura de
+maneiras, de voz, de expressão, de tudo.
+
+Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar. Vergonha eterna sôbre
+mim! mas é a verdade: quiz-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me
+querer-lhe mais... que tanto vale.
+
+Eu sei?.. Não, não lhe queria tanto. Mas amei-a.
+
+Amei, sim, e fui amado!
+
+Tres mezes durou a minha felicidade. É o mais longo periodo de ventura
+que posso contar na vida. Falsa ventura, mas era.
+
+A imperiosa lei da honra exigiu que nos separassemos, que partisse para
+os Açores. Fui. Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto como eu para
+aquella expedição. A historia fallará de muitos serviços, de muitas
+dedicações. Quem saberá nunca d'esta?
+
+A historia é uma tola.
+
+Eu não posso abrir um livro de historia que me não ria. Sôbretudo as
+ponderações e adivinhações dos historiadores acho-as de um comico
+irresistivel. O que sabem elles das causas, dos motivos, do valor e
+importancia de quasi todos os factos que recontam?
+
+Ainda não sei como parti, como cheguei, como vivi os primeiros tempos da
+minha estada n'aquelle escôlho no meio do mar, chamado a ilha Terceira,
+onde se tinham refugiado as pobres reliquias do partido constitucional.
+
+Habituei-me porfim. A que se não affaz o homem?
+
+Levaram-me uma tarde á grade de um convento de freiras que ahi havia. O
+meu ar triste, distrahido, indifferente excitou a piedade das boas
+monjas. Uma d'ellas, joven, ardente, apaixonada, quiz tomar a empresa de
+me consolar. Não o conseguiu, coitada! O meu coração estava em ----shire
+em Inglaterra, estava na India, estava no valle de Santarem,
+
+ Pelo mundo em pedaços repartido;
+
+estava em toda a parte, menos alli, que nada d'elle estava nem podia
+estar.
+
+Era Soledade que se chamava a freirinha, e com o seu nome ficou.
+Disseram o que quizeram os falladores que nunca faltam, mas mentiram
+como mentem quasi sempre, inganaram-se como se inganam sempre.
+
+Eu não amei a Soledade.
+
+E comtudo lembro-me d'ella com pena, com sympathia... Se eu sou feito
+assim, meu Deus, e assim heide morrer!
+
+Viemos para Portugal; e o resto agora da minha historia sabes tu.
+
+Cheguei porfim ao nosso valle, todo o passado me esqueceu assim que te
+vi. Amei-te... não, não é verdade assim. Conheci, mal que te vi entre
+aquellas árvores, á luz das estrellas, conheci que era a ti so que eu
+tinha amado sempre, que para ti nascêra, que teu so devia ser, se eu
+ainda tivera coração que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse
+digna de junctar-se com essa alma d'anjo que em ti habita.
+
+Não é, Joanna; bem o ves, bem o sentes, como eu o sinto e o vejo.
+
+Eu sim tinha nascido para gosar as doçuras da paz e da felicidade
+doméstica; fui creado, estou certo, para a glória tranquilla, para as
+delicias modestas de um bom pae de familias.
+
+Mas não o quiz a minha estrella. Embriagou-se de poesia a minha
+imaginação e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar hade
+ser infeliz por fôrça, a que me intregar o seu destino, hade vê-lo
+perdido.
+
+Não quero, não posso, não devo amar a ninguem mais.
+
+A desolação e o oppróbrio entraram no seio da nossa familia. Eu renuncio
+para sempre ao lar doméstico, a tudo quanto quiz, a tudo quanto posso
+querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustiça, porque eu não
+me fiz o que sou, não me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me
+persegue não é obra minha.
+
+Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus irman da minha alma! Tu
+accompanha nossa avó, tu consola esse infeliz que é o auctor da sua e
+das nossas desgraças. Tu, sim, que podes; e esquece-me.
+
+Eu, que nem morrer ja posso, que vejo terminar desgraçadamente ésta
+guerra no unico momento em que a podia abençoar, em que ella podia
+felicitar-me com uma balla que me mandasse aqui bem direita ao coração,
+eu que farei?
+
+Creio que me vou fazer homem politico, fallar muito na patria com que me
+não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus
+serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?.. talvez darei porfim
+em agiota, que é a unica vida de emoções para quem ja não póde ter
+outras.
+
+Adeus minha Joanna, minha adorada Joanna, pela última vez, adeus!
+
+
+
+
+CAPITULO XLIX.
+
+
+ De como Carlos se fez barão.--Fim da historia de
+ Joanninha.--Georgina abbadessa.--Juizo de Fr. Diniz sôbre a questão
+ dos frades e dos barões.--Que não póde tornar a ser o que foi, mas
+ muito menos póde ser o que é. O que hade ser, Deus o sabe e
+ proverá.--Vai o A. dormir ao Cartaxo.--Sonho que ahi tem.--Volta a
+ Lisboa.--Caminhos de ferro e de papel.--Conclusão da viagem e
+ d'este livro.
+
+
+Acabei de ler a carta de Carlos, intreguei-a a Fr. Diniz em silencio.
+Elle tornou-me:
+
+--'Leu?'
+
+--'Li.'
+
+--'Que mais quer saber? Sinto que lhe posso dizer tudo: não o conheço,
+mas...'
+
+--'Mas deve conhecer-me por um homem que se interessa vivamente...'
+
+--'Em quê? nas eleições, na agiotagem, nos bens nacionaes?'
+
+--'Não senhor. Fui camarada de Carlos, não o vejo ha muitos annos e...'
+
+--'Nem o conhecia se o visse agora: ingordou, inriqueceu, e é barão...'
+
+--'Barão!'
+
+--'É barão, e vai ser deputado qualquer dia.'
+
+--'Que transformação! Como se fez isso, sancto Deus! E Joanninha e
+Georgina?'
+
+--'Joanninha inlouqueceu e morreu. Georgina é abbadessa de um convento
+em Inglaterra.'
+
+--'Abbadessa?'
+
+--'Sim. Converteu-se á communhão catholica; era ricca, fundou um
+convento em ----shire e lá está servindo a Deus.'
+
+--'E ésta pobre senhora, a avó de Joanninha?'
+
+--'Ahi está como a ve, morta de alma para tudo. Não ve, não ouve, não
+falla, e não conhece ninguem. Joanninha veio morrer aqui n'esta fatal
+casa do valle, eu estava ausente, expirou nos braços d'ella e de
+Georgina. Desde esse instante a avó cahiu n'aquelle estado. Está morta,
+e não espero aqui senão a dissolução do corpo para o interrar, se eu não
+for primeiro, e Deus queira que não! quem hade tomar conta d'ella, ter
+charidade com a pobre da demente? Mas depois... oh! depois... espero no
+Senhor que se compadeça emfim de tanto soffrer e me leve para si.'
+
+--'Mas Carlos?'
+
+--'Carlos é barão: não lh'o disse ja?'
+
+--'Mas por ser barão?..'
+
+--'Não sabe o que é ser barão?'
+
+--'Oh se sei! Tam poucos temos nós?'
+
+--'Pois barão é o succedaneo dos...'
+
+--'Dos frades... Ruim substituição!'
+
+--'Vi um dos taes papeis liberaes em que isso vinha: e é a unica coisa
+que leio d'essas ha muitos annos. Mas fizeram-m'o ler.'
+
+--'E que lhe pareceu?'
+
+--'Bem escripto e com verdade. Tivemos culpa nós, é certo; mas os
+liberaes não tiveram menos.'
+
+--'Errámos ambos.'
+
+--'Errámos e sem remedio. A sociedade ja não é o que foi, não póde
+tornar a ser o que era;--mas muito menos ainda póde ser o que é. O que
+hade ser, não sei. Deus proverá.'
+
+Ditto isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviario e poz-se a rezar.
+A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos
+alguns segundos. Nenhum me deu mais attenção nem pareceu conscio da
+minha estada alli.
+
+Sentia-me como na presença da morte e atterrei-me.
+
+Fiz um esfôrço sôbre mim, fui deliberadamente ao meu cavallo, montei,
+piquei desesperado d'esporas, e não parei senão no Cartaxo.
+
+Incontrei alli os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fóra da
+villa á hospedeira casa do Sr. L. S.
+
+Rimos e folgámos até alta noite: o resto dormimos a somno sôlto.
+
+Mas eu sonhei com o frade, com a velha--e com uma enorme constellação de
+barões que luzia n'um ceu de papel, d'onde choviam, como farrapos de
+neve, n'uma noite pollar, notas azues, verdes, brancas, amarellas, de
+todas as côres e matizes possiveis. Eram milhões e milhões e milhões...
+
+Nunca vi tanto milhão, nem ouvi fallar de tanta riqueza senão nas mil e
+uma noites.
+
+Acordei no outro dia e não vi nada... so uns pobres que pediam esmola á
+porta.
+
+Metti a mão na algibeira, e não achei senão notas... papeis!
+
+Parti para Lisboa cheio de agoiros, de inguiços e de tristes
+presentimentos.
+
+O vapor vinha quasi vazio, mas nem por isso andou mais depressa.
+
+Eram boas cinco horas da tarde quando desimbarcámos no Terreiro-do-Paço.
+
+Assim terminou a nossa viagem a Santarem: e assim termina este livro.
+
+Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De
+todas quantas viagens porêm fiz, as que mais me interessaram sempre
+foram as viagens na minha terra.
+
+Se assim o pensares, leitor benevolo, quem sabe? póde ser que eu tome
+outra vez o bordão de romeiro, e va perigrinando por esse Portugal fóra,
+em busca de historias para te contar.
+
+Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar.
+
+Escusada é a jura porêm.
+
+Se as estradas fossem de papel, fa-las-iam, não digo que não.
+
+Mas de metal!
+
+Que tenha o govêrno juizo, que as faça de pedra, que póde, e viajaremos
+com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra.
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+
+
+NOTAS
+
+AO LIVRO SEGUNDO.
+
+
+
+*Nota A.*
+
+
+ Ficámos sem Nibelungen
+
+ pag. 3.
+
+
+
+Collecção de antigas rhapsodias germanicas contendo o maravilhoso e
+poetico de suas origens historicas e que é para os povos theutonicos o
+que era a Ilíada para os hellenos. So se não sabe o nome do Homero
+allemão que as redigiu e uniformizou como hoje se acham.
+
+
+*Nota B.*
+
+
+ Caranguejar para as Lamas
+
+ pag. 3.
+
+
+
+Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de Sanctos, que tem este nome e é
+onde vão apodrecer as carcassas dos navios velhos e ja inuteis.
+
+
+*Nota C.*
+
+
+ Os pés no _fender_
+
+ pag. 4.
+
+
+
+Fender se chama em inglez a pequena e baixa tea de metal que defende o
+fogão nas salas, paraque não caiam brazas nos sobrados. Descançam n'elle
+os pés naturalmente quando a gente se está confortavelmente aquecendo em
+liberdade.
+
+
+*Nota D.*
+
+
+ Perfumados resplendores do _Old sack_
+
+ pag. 5.
+
+
+
+Tem-se disputado muito sôbre qual seja a bebida espirituosa celebrada
+por Shakspeare tantas vezes com este nome. A opinião mais acceita é que
+fosse boa e velha aguardente de França.
+
+
+*Nota E.*
+
+
+ Renegaram de San'Tiago por castelhano
+
+ pag. 5.
+
+
+
+O grito de guerra commum a todas as nações christans hespanholas era:
+San'Tiago! Quando na accessão da casa de Avis nos alliámos intimamente
+com a Inglaterra contra Castella, começámos a invocar San'Jorge.
+
+
+*Nota F.*
+
+
+ Vacca e riso de Fr. Bartholomeu dos Martyres
+
+ pag. 9.
+
+
+
+Singela e original expressão do sancto arcebispo n'uma carta de convite
+a um seu amigo. Fez-se, como devia ser, proverbial ésta phrase.
+
+
+*Nota G.*
+
+
+ Feliz expressão do Sr. Conde de Raczinski
+
+ pag. 124.
+
+
+
+Na sua obra intitulada 'Les arts en Portugal', Paris 1845.
+
+
+*Nota H.*
+
+
+ O centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella as barbas
+
+ pag. 127.
+
+
+
+Centro e barbas são qualificações e nomes de impregos theatraes.
+
+
+
+
+INDICE.
+
+
+Capitulo XXVI--Modo de ler os auctores antigos, e os modernos
+tambem.--Horacio na sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa
+historia.--A policia e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema
+que nos rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo
+de _old-sack_ sôbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que
+Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sôbre
+San'Tiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Próva-se a vinda d'este
+último a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e
+Abeillard no Père-la-Chaise.--Bentham e Camões.--Chega o auctor á sua
+janella, e pasmosa _miragem_ poetica produzida por umas oitavas dos
+Lusiadas.--De como em fim proseguem éstas viagens para Santarem, e que
+feito será de Joanninha. 1
+
+Capitulo XXVII--Chegada a Santarem.--Olivaes de
+Santarem.--Fóra-de-Villa.--Symetria que não é para os olhos.--Modo de
+medir os versos da biblia.--Architectura pedante do seculo
+XVII.--Entrada na Alcáçova. 11
+
+Capitulo XXVIII--Depois de muito procurar acha em fim o auctor a egreja
+de Sancta-Maria d'Alcáçova.--Stylo da architectura nacional perdido.--O
+terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do Passeio-público
+de Lisboa.--O chefe do partido progressista portuguez no alcassar de D.
+Affonso Henriques.--Deliciosa vista dos arredores de Santarem observada
+de uma janella da Alcáçova, de manhan.--É tomado o auctor de ideas
+vagas, poeticas, phantasticas como um sonho.--Introducção do
+Fausto.--Difficuldade de traduzir os versos germanicos nos nossos
+dialectos romanos. 19
+
+Capitulo XXIX--Doçuras da vida.--Imaginação e sentimento.--Poetas que
+morreram moços e poetas que morreram velhos.--Como são escriptas éstas
+viagens.--Livro de pedra. Criança que brinca com elle.--Ruinas e
+reparações.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.--Sancta
+Iria ou Irene, e Sanctarem.--Romance de Sancta Iria.--Quantas sanctas ha
+em Portugal d'este nome? 29
+
+Capitulo XXX--Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o
+romance popular. 39
+
+Capitulo XXXI--Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em
+verso e Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de
+architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As salgadeiras
+de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de Santarem.--Voltemos á historia
+de Fr. Diniz e da menina dos olhos verdes. 49
+
+Capitulo XXXII--Tornâmos á historia do Joanninha.--Preparativos de
+guerra.--A morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O
+infermeiro.--Georgina. 55
+
+Capitulo XXXIII--Carlos e Georgina. Explicação.--Ja te não amo! palavra
+terrivel.--Que o amor verdadeiro não é cego.--Frade no caso outra vez.
+_Ecce iterum Crispinus_; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco. 69
+
+Capitulo XXXIV--Carlos, Georgina e Fr. Diniz.--A peripecia do drama. 79
+
+Capitulo XXXV--Reunião de toda a familia.--Explicação dos mysterios.--O
+coração da mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mão a Fr. Diniz e
+abraça a pobre da avó. 87
+
+Capitulo XXXVI--Que não se acabou a historia de Joanninha.--Processo ao
+coração de Carlos.--Immoralidade.--Defeito de organização não é
+immoralidade.--Horror, horror, maldicção!--Um barão que não pertence á
+familia lineana dos barões propriamente dittos.--Porta de
+Atamarma.--Senatus consulto santareno.--Nossa Senhora da Victoria
+_afforada_.--Threnos sôbre Santarem. 99
+
+Capitulo XXXVII--A Graça e sua bella fachada gothica.--Sepultura de
+Pedr'alvares Cabral.--Outro barão que não é dos assignalados.--Egreja do
+Sancto-milagre.--Bellos medalhões mosarabes.--De como, chegando o prior
+e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que
+solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a infanta D.
+Maria da Assumpção.--Casa onde succedeu o milagre convertida em capella
+de stylo philippino.--O homem das botas, e o que tem elle que haver com
+o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel e graciosa esperteza da
+regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos
+folgasões, os melhores governos possiveis.--Volta o paladio scalabitano
+de Lisboa para Santarem. 111
+
+Capitulo XXXVIII--Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.--Sautés e
+salmis.--Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do
+Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salão elegante.
+Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis. Tudo melhor quando visto
+de longe.--O baile público.--Soirée de piano obrigado.--Theatro.
+Desaffinações da prima-dona.--Syphlis incuravel das traducções.
+Destempêro dos originaes.--A xácara de rigor, o subterraneo e o
+cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A bella e necessaria
+palavra 'gallimathias.'--Se as saudades matam.--Perigo de applicar o
+scalpello ou a lente ao mais perfeito das coisas humanas.--De como a
+logica é a mais perniciosa de todas as incoherencias. 121
+
+Capitulo XXXIX--Processo de scepticismo em que está o
+auctor.--Moralistas de _requiem_.--O maior sonho d'esta vida, a
+logica.--Differença do poeta ao philosopho.--O coração de Horacio.--O
+collegio de Santarem.--Jesuitas e templarios.--O alliado natural dos
+reis:--'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no
+tinteiro'.--San'Frei Gil e o Doutor Fausto.--De como o A. foi ao tumulo
+do sancto bruxo e o achou vazio.--Quem o roubaria? 131
+
+Capitulo XL--As Claras.--Aventura nocturna.--Se as freiras mettem medo
+aos liberaes? O Psalmo.--Tres frades.--Práctica do franciscano.--O corpo
+de San' Fr. Gil.--Que se hade fazer das freiras?--Mal do govêrno que
+deixar comer mais aos barões. 141
+
+Capitulo XLI--O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta
+prespicacia do leitor benevolo.--Grande lacuna na nossa
+historia.--Porque se não preenche?--Página preta na historia de Tristam
+Shandy.--Novellas e romances, livros insignificantes.--O adro de
+San'Francisco e as suas acacias.--Que será feito de Joanninha?--O peito
+da mulher do norte.--Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas
+ruinas.--A corneta do soldado e a trombeta do juizo final.--Eheu,
+Portugal, eheu! 151
+
+Capitulo XLII--Protesto do auctor.--Desaffinação dos nervos.--O que é
+preciso para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus está no
+Colliseu assim como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de
+Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que estado se
+acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real sôbre a caveira.--O
+rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem nunca viu o rei cuida que é
+de oiro.--Brutalidades da soldadesca n'um tumulo real.--O que se acha
+nas sepulturas dos reis.--A phrenologia.--Vindicta pública, tardia mas
+ultrajante.--Camões e Duarte Pacheco.--A sombra falsa da
+religião.--Regimen dos barões e da materia.--A prosa e a poesia do
+povo.--Synthese e anályse.--O senso íntimo.--Se o auctor é demagogo ou
+Jesuita?--Jesu Christo e os barões. 157
+
+Capitulo XLIII--Partida de Santarem.--Pinacotheca.--Impaciencia e
+saudades.--Sexta-feira.--Martyrio obscuro.--A figura do
+peccado.--Estamos no valle outra vez.--Evocação de incanto.--A irman
+Francisca e Fr. Diniz.--A teia de Penelope.--E Joanninha?--Joanninha
+está no ceo.--A mulher morta a dobar esperando que a interrem.--A
+esperança, virtude do christianismo.--Uma carta. 167
+
+Capitulo XLIV--Carta de Carlos a Joanninha. 177
+
+Capitulo XLV--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 187
+
+Capitulo XLVI--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 195
+
+Capitulo XLVII--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 207
+
+Capitulo XLVIII--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 215
+
+Capitulo XLIX--De como Carlos se fez barão.--Fim da historia da
+Joanninha.--Georgina abbadessa.--Juiso de Fr. Diniz sôbre a questão dos
+frades e dos barões.--Que não póde tornar a ser o que foi, mas muito
+menos póde ser o que é? O que hade ser, Deus o sabe e proverá.--Vai o A.
+dormir ao Cartaxo.--Sonho que ahi tem.--Volta a Lisboa.--Caminhos de
+ferro e de papel.--Conclusão da viagem e d'este livro. 227
+
+Notas 237
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] Transcrevemos aqui o original allemão, para se avaliar o que fica
+ditto no texto.
+
+ Ihr naht euch wieder, schwankende Gestalten,
+ Die früh sich einst dem trüben Blick gezeigt.
+ Versuch ich wohl euch diesmal fest zu halten?
+ Fühl' ich mein Herz noch jenem Wahn geneigt?
+ Ihr drängt euch zu! nun gut, so mögt ihr walten
+ Wie ihr aus Dunst und Nebel um mich steigt;
+ Mein Busen fühlt sich jugendlich erschüttert
+ Vom Zauberhauch, der euren Zug umwittert.
+ Ihr bringt mit euch die Bilder froher Tage,
+ Und manche liebe Schatten steigen auf;
+ Gleich einer halbverklungen Sage
+ Commt erste Lieb' und Freundschaft mit herauf;
+ Der Schmerz wird neu, es wiederholt die klage
+ Des lebens labyrintisch irren Lauf,
+ Und nennt die Guten, die, um schöne Stunden
+ Vom Glück getäuscht, vor mir hinweggeschwunden
+
+[2] Nas notas a Adozinda, vol. I do 'Romanceiro,' nota N, citei
+differentemente ésta copla pela imperfeita licção de um Ms. do Minho,
+unico que tinha á mão.
+
+[3] Outra licção, e talvez melhor diz _a coitada_.
+
+[4] Thomar.
+
+[5] De frades e de freiras.
+
+[6] Deus, venerunt gentes in hereditatem tuam. Ps. 78.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+----------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+----------------------+----------------------+
+ |#pág. 2| et mos | est mos* |
+ |#pág. 5| Faltaffs | Falstaffs |
+ |#pág. 17| San'João-de-Alpiarça | San'João do Alporão* |
+ |#pág. 17| egrea | egreja* |
+ |#pág. 43| retiraam | retiraram |
+ |#pág. 50| recordam | memoram* |
+ |#pág. 62| stil | still* |
+ |#pág. 81| da intranhas | das intranhas |
+ |#pág. 99| Horor | Horror |
+ |#pág. 118| quelle | aquelle |
+ |#pág. 118| digno do ornar | digno de ornar |
+ |#pág. 119| LisboaTejo | Lisboa Tejo |
+ |#pág. 123| confrontar- algum | confrontar algum |
+ |#pág. 138| extistencia | existencia |
+ |#pág. 213| com com | com |
+ |#pág. 217| desdescrevi | descrevi |
+ |#pág. 218| ma curado | mal curado |
+ |#pág. 241| modernas | modernos |
+ |#pág. 241| Flastaff | Falstaff |
+ +----------+----------------------+----------------------+
+
+
+* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
+
+Shakespeare, San' Thiago e Joanninha surgem neste livro como Shakspeare,
+San'Tiago e Joaninha respectivamente. Dada a repetitividade constante,
+decidi manter de acordo com o original.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra (Volume II), by
+Almeida Garrett
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA (VOLUME II) ***
+
+***** This file should be named 24319-8.txt or 24319-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/4/3/1/24319/
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+
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+*** START: FULL LICENSE ***
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
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+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
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+electronic works
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+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
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+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
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+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+a constant state of change. If you are outside the United States, check
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+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
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+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
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+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+active links or immediate access to the full terms of the Project
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+
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+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
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+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
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+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
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+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
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+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
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+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+- You comply with all other terms of this agreement for free
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+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
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+received the work on a physical medium, you must return the medium with
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+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
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+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+
+
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+ <title>Viagens na minha terra (Volume II)</title>
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+Project Gutenberg's Viagens na Minha Terra (Volume II), by Almeida Garrett
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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+Title: Viagens na Minha Terra (Volume II)
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+Author: Almeida Garrett
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+Release Date: January 15, 2008 [EBook #24319]
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA (VOLUME II) ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Jan. 2008)
+</div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2>OBRAS<br />
+
+
+<br />
+
+
+DE<br />
+
+
+<br />
+
+
+J. B. DE A. GARRETT.<br />
+
+
+<br />
+
+
+IX.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="smallcaps">(<em>segundo das viagens.</em>)</span></h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="bbox">
+<h1>VIAGENS<br />
+
+
+</h1>
+
+
+<h4>NA MINHA TERRA
+</h4>
+
+
+<h2>POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.</h2>
+
+
+<h2><br />
+
+
+II.
+</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+
+NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.<br />
+
+
+1846.<br />
+
+
+</h4>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2>VIAGENS NA MINHA TERRA.
+</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c1"></a>CAPITULO XXVI.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Modo de ler os auctores antigos, e os
+modernos tambem.&#8213;Horacio
+na sacra-via.&#8213;Duarte Nunes iconoclasta da nossa
+historia.&#8213;A policia e os barcos de vapor.&#8213;Os vandalos
+do feliz systema que nos rege.&#8213;Shakspeare lido em Inglaterra
+a um bom fogo, com um copo de
+<em>old-sack</em> s&ocirc;bre
+a banca.&#8213;Sir John Falstaff se foi maior homem que
+Sancho-Pansa?&#8213;Grande
+e importante descuberta archeologica
+s&ocirc;bre San'Thiago, San'Jorge e Sir John
+Falstaff.&#8213;Pr&oacute;va-se
+a vinda d'este &uacute;ltimo a Portugal.&#8213;O enthusiasta
+britannico no tumulo de Heloisa e Abeillard no Pere-la-Chaise.&#8213;Bentham
+e Cam&otilde;es.&#8213;Chega o <em>auctor</em>
+&aacute; sua janella, e pasmosa
+miragem poetica produzida por umas oitavas dos Lusiadas.&#8213;De
+como emfim proseguem &eacute;stas viagens para Santarem,
+e que feito ser&aacute; de Joanninha.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se eu for algum dia a Roma, heide entrar
+na cidade eterna com o meu Tito-Livio e o
+meu Tacito nas algibeiras do meu palet&oacute; de
+viagem. Alli, sentado n'aquellas ruinas immortaes,
+<span class="pagenum"><a name="p2">[2]</a></span>
+sei que heide intender melhor a sua hist&oacute;ria,
+que o texto dos grandes escriptores se me
+hade illustrar com os monumentos d'arte que os
+viram escrever, e que uns recordam, outros presenciaram
+os feitos memoraveis, o progresso e a
+decadencia d'aquella civiliza&ccedil;&atilde;o pasmosa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu
+velho e fiel amigo Horacio!.. Deve ser um prazer
+regio ir lendo pela sacra-via f&oacute;ra aquella deliciosa
+satyra, creio que a nona do L. I.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Ibam forte sacra via, sicut meus <a href="#e1">est mos</a>,<br />
+
+
+Nescio quid meditans nugarum...
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+Deve ser maior prazer ainda, muito maior do
+que beijar o p&eacute; ao papa. Parece-me a mim;
+mas como eu nunca fui a Roma...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E n&atilde;o &eacute; preciso. Pegue qualquer na bella
+chronica d'elrei D. Fernando, a que Duarte
+Nunes menos estragou...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta
+das nossas chronicas antigas, truncou todas as
+imagens, raspou toda a poesia d'aquellas venerandas
+<span class="pagenum">[3]</span>
+e deliciosas <em>sagas</em>
+portuguezas... Em ponto
+historico pouco mais eram do que
+<em>sagas</em>, verdade
+seja, mas como taes, lindas. E o Duarte Nunes,
+que era um pobre grammatic&atilde;o sem g&ocirc;sto
+nem gra&ccedil;a, foi-se &aacute;s filagranas e arrendados de
+finissimo lavor gothico d'aquelles monumentos,
+quebrou-lh'os; ficaram so os tra&ccedil;os historicos que
+eram muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou
+que tinha arranjado uma hist&oacute;ria, tendo apenas
+destruido um poema. <a name="n1"></a>Fic&aacute;mos
+sem Nibelungen,
+podendo-o ter, e n&atilde;o obtivemos hist&oacute;ria
+porque se n&atilde;o podia obter assim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois digo: pegue qualquer na bella chronica
+d'elrei D. Fernando, obede&ccedil;a &aacute; lei concorrendo
+com o seu cruzado-novo para o augmento e gl&oacute;ria
+da benemerita companhia que tem o exclusivo
+d'esses caranguejos de vapor que andam e desandam
+no rio, entre n'um dos referidos caranguejos,
+em que, al&eacute;m da porcaria e mau-cheiro,
+n&atilde;o ha perigo nenhum sen&atilde;o o de rebentar
+toda aquella camara-optica que anda por arames,
+e que em qualquer paiz civilizado onde a policia
+fizesse alguma coisa mais do que imaginar
+conspira&ccedil;&otilde;es,
+ha muito estaria condemnada a ir alli <a name="n2"></a>caranguejar
+para as Lamas
+&aacute; sua vontade. Mas
+<span class="pagenum">[4]</span>
+emfim ca n&atilde;o ha d'outros nem haver&aacute; tam cedo,
+gra&ccedil;as ao muito que agora, diz que, se cuida
+nos inter&ecirc;sses materiaes do paiz: e portanto tome
+o seu logar, passe o mesmo que eu passei; chegue-me
+a Santarem, descanse e ponha-se-me a
+ler a chronica: ver&aacute; se n&atilde;o &eacute; outra
+coisa, vera
+se deante d'aquellas preciosas reliquias, ainda
+mutiladas, deformadas como ellas est&atilde;o por tantos
+e tam successivos barbaros, estragadas emfim
+pelos peiores e mais vandalos de todos os
+vandalos, as auctoridades administrativas e municipaes
+do feliz systema que nos rege, ainda assim
+mesmo n&atilde;o ve erguer-se deante de seus olhos
+os homens, as scenas dos tempos que foram; se
+n&atilde;o ouve fallar as pedras, bradar as
+inscrip&ccedil;&otilde;es,
+levantar-se as est&aacute;tuas dos tumulos; e reviver-lhe
+a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia
+d'aquellas edades maravilhosas!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tenho-o experimentado muitas vezes: &eacute; infallivel.
+Nunca tinha intendido Shakspeare em quanto
+o n&atilde;o li em Warwick, aope do Avon,
+debaixo
+de um carvalho secular, &aacute; luz d'aquelle sol
+ba&ccedil;o e branco do nublado ceo d'Albion... ou &aacute;
+noite com <a name="n3"></a>os p&eacute;s no
+<em>fender</em>, a chaleira a ferver
+no fog&atilde;o, e s&ocirc;bre a banca o crystal antigo de
+<span class="pagenum"><a name="p5">[5]</a></span>
+um bom copo lapidado a luzir-me alambreado com
+os doces e <a name="n4"></a>perfumados resplendores
+do <em>old
+sack</em>;
+em quanto o fog&atilde;o e os ponderosos casti&ccedil;aes de
+cobre brunido projectam no antigo tecto almofadado,
+nos pardos compartimentos de carvalho que
+forram o apposento, aquellas fortes sombras vacillantes
+de que as velhas fazem vis&otilde;es e almas-do-outro-mundo,
+de que os poetas&#8213;poetas como
+Shakspeare&#8213;fazem sombras de <em>Banco</em>,
+bruxas
+de <em>Mackbeth</em>, e
+at&eacute; a rotunda pansa e o arrastante
+espadag&atilde;o do meu particular amigo Sir
+John Falstaff, o inventor das leg&iacute;timas consequencias,
+o fundador da grande eschola dos restauradores
+caturras, dos poltr&otilde;es pugnazes que
+salvam a patria de parolla e que ninguem os
+atura em tendo as costas quentes.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh Falstaff, Falstaff! eu n&atilde;o sei se tu es
+maior homem que Sancho Pan&ccedil;a. Creio que n&atilde;o.
+Mas maior pansa tens, mais capacidade na pansa
+tens. Quando nossos av&oacute;s <a name="n5"></a>renegaram
+de San'
+Thiago por castelhano perro, e invocaram a San'
+Jorge, tu vieste, &oacute; Falstaff, em sua comitiva de
+Inglaterra e aqui tomaste assento, aqui ficaste,
+e foste o patriarcha d'essa immensa progenie de
+<a href="#e2">Falstaffs</a>&nbsp;que
+por ahi anda.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[6]</span>
+Este importante ponto da nossa hist&oacute;ria, da
+demiss&atilde;o de San'Thiago e da vinda de San'Jorge
+de Inglaterra com Sir John Falstaff por seu
+<em>homem-de-ferro</em>&#8213;&eacute;sta
+grande descoberta archeologica
+que tanta coisa moderna explica, como a
+fiz eu? Indo aos sitios mesmos, estudando alli os
+antigos exemplares: que &eacute; a minha doutrina.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em tudo, para tudo &eacute; assim. Chegou um dia
+um inglez a Paris: um inglez leg&iacute;timo e
+<em>cru</em>,
+virgem de toda a corrup&ccedil;&atilde;o continental;
+cal&ccedil;a de
+ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, chapeo
+fillado na cova-do-ladr&atilde;o. Era enthusiasta de
+Heloisa e Abeillard, foi-se ao P&eacute;re-la-Chaise,
+chegou ao tumulo dos dois amantes, tirou um
+livrinho da algibeira, p&ocirc;s-se a ler aquellas cartas
+do Paracleto que tem indoidecido muito menos
+excentricas cabe&ccedil;as que a do meu inglez puro-sangue.
+N&atilde;o &eacute; nada; excitou-se a tal ponto
+que entrou a correr como um perdido, bradando
+por um conego da s&eacute; que lhe acudisse, que se queria
+identificar com o seu mod&ecirc;lo, purificar a sua
+paix&atilde;o,
+ser emfim um completo&#8213;ou um incompleto
+Abeillard.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu n&atilde;o sou susceptivel de tammanho enthusiasmo,
+<span class="pagenum">[7]</span>
+s&ocirc;bretudo desde que dei a minha demiss&atilde;o
+de poeta e cahi na prosa. Mas aqui tem
+o que me succedeu o outro dia. Tinha estado &aacute;s
+voltas com o meu Bentham, que &eacute; um grande
+homem por fim de contas o tal quaker, e s&atilde;o
+grandes livros os que elle escreveu: can&ccedil;ou-me
+a cabe&ccedil;a, peguei no Cam&otilde;es e fui para a janella.
+As minhas janellas agora s&atilde;o as primeiras
+janellas de Lisboa, d&atilde;o em cheio por todo esse
+Tejo. Era uma d'estas brilhantes manhans d'hynverno,
+como as n&atilde;o ha sen&atilde;o em Lisboa. Abri
+os Lusiadas &aacute; ventura, deparei com o canto IV
+e puz-me a ler aquellas bellissimas estancias
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">
+E ja no porto da inclita Ulyssea...
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti
+baterem-me as arterias da fronte... as lettras fugiam-me
+do livro, levantei os olhos, dei com
+elles na pobre nau Vasco-da-Gama que ahi est&aacute;
+em monumento-caricatura da nossa gl&oacute;ria naval...
+E eu n&atilde;o vi nada d'isso, vi o Tejo, vi a bandeira
+portugueza fluctuando com a brisa da manhan,
+a t&ocirc;rre de Belem ao longe... e sonhei, sonhei
+que era portuguez, que Portugal era outra vez
+Portugal.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[8]</span>
+Tal f&ocirc;r&ccedil;a deu o prestigio da scena &aacute;s
+imagens
+que aquelles versos evocavam!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sen&atilde;o quando, a nau que salva a uns escaleres
+que chegam... Era o ministro da marinha que ia
+a b&oacute;rdo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui
+tractar das minhas camelias.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Andei tres dias com odio &aacute; lettra-redonda.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo
+isto para as minhas viagens ou para o episodio
+do valle de Santarem em que ha tantos capitulos
+nos temos demorado?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vem e vem muito: vem para mostrar que a
+hist&oacute;ria, lida ou contada nos proprios sitios em que
+se passou, tem outra gra&ccedil;a e outra
+f&ocirc;r&ccedil;a; vem
+para te eu dar o motivo porque n'estas minhas viagens,
+leitor amigo, me fiquei parado n'aquelle
+valle a ouvir do meu companheiro de jornada, e
+a escrever para teu aproveitamento, a interessante
+hist&oacute;ria da menina dos rouxinoes, da menina
+dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[9]</span>
+Sim, aqui tenho estado extendido no ch&atilde;o, as
+mulinhas pastando na relva, os arrieiros fummando
+tranquillamente sentados, e as &uacute;ltimas horas
+de uma longa e calmosa tarde de julho a cahir
+e a refrescar com a aragem percursora da
+noite.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas basta de valle, que &eacute; tarde. Oh l&aacute;! venham
+as mulinhas e montemos. Picar para Santarem,
+que no inclyto alca&ccedil;ar d'elrei D. Affonso-Henriques
+nos espera um bom jantar d'amigo&#8213;e
+n&atilde;o &eacute; so a <a name="n6"></a><em>vacca
+e
+riso</em> de Fr. Bartholomeu
+dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'amigo,
+muito menos austero e muito mais risonho.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Porqu&ecirc;? ja se acabou a historia de Carlos
+e de Joanninha?' diz talvez a amavel leitora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o, minha senhora,' responde o auctor
+mui lisongeado da pergunta: 'n&atilde;o, minha senhora,
+a historia n&atilde;o acabou, quasi se p&oacute;de dizer
+que ainda ella agora come&ccedil;a; mas houve
+muta&ccedil;&atilde;o
+de scena. Vamos a Santarem, que l&aacute; se passa
+o segundo acto.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c2"></a>CAPITULO XXVII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Chegada a Santarem.&#8213;Olivaes de
+Santarem.&#8213;F&oacute;ra-de-Villa.&#8213;Symetria
+que n&atilde;o &eacute; para os olhos.&#8213;Modo de medir
+os versos da biblia.&#8213;Architectura pedante do seculo XVII.&#8213;Entrada
+na Alc&aacute;&ccedil;ova.</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram as &uacute;ltimas horas do dia quando cheg&aacute;mos
+ao princ&iacute;pio da cal&ccedil;ada que leva ao alto
+de Santarem. A pouca frequencia de povo, as
+hortas e pomares mal cultivados, as casas de
+<span class="pagenum">[12]</span>
+campo arruinadas, tudo indicava as vizinhan&ccedil;as
+de uma grande povoa&ccedil;&atilde;o descahida e desamparada.
+O mais bello comtudo de seus ornatos e gl&oacute;rias
+suburbanas, ainda o possue a nobre villa,
+n&atilde;o lh'o destruiram de todo; s&atilde;o os seus olivaes.
+Os olivaes de Santarem cuja riqueza e formosura
+proverbial &eacute; uma das nossas cren&ccedil;as populares
+mais geraes e mais queridas!.. os olivaes de
+Santarem l&aacute; est&atilde;o ainda. Reconheceu-os o meu
+cora&ccedil;&atilde;o e alegrou-se de os ver; saudei n'elles o
+symbolo patriarchal de nossa antiga existencia.
+N'aquelles troncos velhos e coroados de verdura,
+figurou-se-me ver, como nas selvas incantadas do
+Tasso, as venerandas imagens de nossos passados;
+e no murmurio das folhas que o vento agitava a
+espa&ccedil;os, ouvir o triste suspirar de seus lamentos
+pela vergonhosa degenera&ccedil;&atilde;o dos netos...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estragado como os outros, profanado como
+todos, o olival de Santarem &eacute; ainda um monumento.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os povos do meio-dia, infelizmente, n&atilde;o professam
+com o mesmo respeito e austeridade aquella
+religi&atilde;o dos bosques, tam sagrada para as
+na&ccedil;&otilde;es
+do norte. Os olivaes de Santarem s&atilde;o
+excep&ccedil;&atilde;o:
+<span class="pagenum">[13]</span>
+ha muito pouco entre n&oacute;s o
+culto das
+&aacute;rvores.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Subimos, a bom trotar das mulinhas, a impinada
+ladeira&#8213;eu alvora&ccedil;ado e impaciente por
+me achar face a face com aquella profus&atilde;o de monumentos
+e de ruinas que a imagina&ccedil;&atilde;o me tinha
+figurado e que ora temia, ora desejava comparar
+com a realidade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheg&aacute;mos emfim ao alto; a majestosa entrada
+da grande villa est&aacute; deante de mim. N&atilde;o me
+inganou a imagina&ccedil;&atilde;o... grandiosa e
+magn&iacute;fica
+scena!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<em>F&oacute;ra-de-villa</em>
+&eacute; um vasto largo, irregular e
+caprichoso como um poema romantico; ao primeiro
+aspecto, &aacute;quella hora tard&iacute;a e de pouca
+luz, &eacute; de um effeito admiravel e sublime. Palacios,
+conventos, egrejas occupam gravemente e tristemente
+os seus antigos logares, infileirados sem
+ordem aos lados d'aquella immensa pra&ccedil;a, em
+que a vista dos olhos n&atilde;o acha symetria alguma;
+mas sente-se n'alma. &Eacute; como o rhytmo e
+medi&ccedil;&atilde;o
+dos grandes versos biblicos que se n&atilde;o cadenceiam
+por p&eacute;s nem por sylabas, mas cahem certos
+<span class="pagenum">[14]</span>
+no espirito e na <em>audi&ccedil;&atilde;o
+interior</em> com uma
+regularidade admiravel.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto!
+Cuida-se entrar na grande metropole de um
+povo extincto, de uma na&ccedil;&atilde;o que foi poderosa e
+celebrada mas que desappareceu da face da terra
+e so deixou o monumento de suas construc&ccedil;&otilde;es
+gigantescas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute; esquerda o immenso convento do S&iacute;tio ou de
+Jesus, logo o das Donas, depois o de San'Domingos,
+c&eacute;lebre pelo jazigo do nosso Fausto portuguez&#8213;seja
+ditto sem irreverencia &aacute; memoria
+de San'Frei Gil que, &eacute; verdade, veio a ser grande
+sancto, mas que primeiro foi grande bruxo.&#8213;Defronte
+o antiquissimo mosteiro das Claras,
+e aop&eacute; as baixas arcadas gothicas de San'Francisco...
+de cujo &uacute;ltimo guardi&atilde;o, o austero Frei
+Diniz, tanta coisa te contei, amigo leitor, e tantas
+mais tenho ainda para te contar! &Aacute; direita
+o grandioso edificio philippino, perfeito exemplar
+da massissa e pedante architectura reaccionaria do
+seculo dezesette, o Collegio, typo largo e bello
+no seu genero, e quanto o seu genero p&oacute;de
+ser, das construc&ccedil;&otilde;es jesuiticas...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[15]</span>
+N&atilde;o ha alma, n&atilde;o ha genio, n&atilde;o ha
+espirito
+n'aquellas massas pesadas, sem elegancia nem
+simplicidade; mas ha uma certa grandeza que
+imp&otilde;e, uma solidez travada, uma symetria de
+calculo, umas propor&ccedil;&otilde;es frias, mas bem
+assentadas
+e esquadriadas com methodo, que revelam
+o pensamento do seculo e do instituto que tanto
+o characterizou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o s&atilde;o as fortes cren&ccedil;as da
+meia-edade que
+se elevam no arco agudo da ogiva; n&atilde;o &eacute; a
+relaxa&ccedil;&atilde;o
+flor&iacute;da do seculo quinze e desesseis que
+ja vacilla entre o byzantino e o classico, entre
+o mystico ideal do christianismo que arrefece e os
+symbolos materiaes do paganismo que acorda;
+n&atilde;o, aqui a
+<em>renascen&ccedil;a</em> triumphou, e
+depois de
+triumphar, degenerou. &Eacute; a inquisi&ccedil;&atilde;o,
+s&atilde;o os
+Jesuitas, s&atilde;o os Philippes, &eacute; a
+reac&ccedil;&atilde;o catholica
+edificando templos <em>para que</em> se creia
+e se ore,
+n&atilde;o <em>porque</em> se
+cr&ecirc; e se ora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+At&eacute; aqui o mosteiro e a cathedral, a ermida
+e o convento eram a express&atilde;o da idea popular,
+agora s&atilde;o a f&oacute;rmula do pensamento governativo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Alli est&atilde;o&#8213;olhae para elles&#8213;defronte uns
+<span class="pagenum">[16]</span>
+dos outros, os monumentos das duas religi&otilde;es,
+a qual mais expressivo e loquaz, dizendo mais
+claro que os livros, que os escriptos, que as
+tradi&ccedil;&otilde;es, o pensamento das edades que os
+ergueram,
+e que alli os deixaram gravados sem
+saber que o faziam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mais embaixo, e no fundo d'esse declive,
+aquella massa negra &eacute; o resto ainda suberbo
+do ja immenso palacio dos condes de Unh&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Rode&aacute;mos o largo e fomos entrar em Marvilla
+pelo lado do norte. Estamos dentro dos muros
+da antiga Santarem. Tam magn&iacute;fica &eacute; a entrada,
+tam mesquinho &eacute; agora tudo ca dentro, a maior parte
+d'estas casas velhas sem serem antigas, d'estas
+ruas moirescas sem nada de arabe, sem o menor
+vestigio de sua origem mais que a estreiteza
+e pouco aceio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+As egrejas quasi todas por&ecirc;m, as muralhas e
+os basti&otilde;es, algumas das portas, e poucas
+habita&ccedil;&otilde;es
+particulares, conservam bastante da physionomia
+antiga e fazem esquecer a vulgaridade do
+resto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p17">[17]</a></span>
+Seguimos a triste e pobre rua Direita, centro
+do debil commercio que ainda aqui ha: poucas e
+mal providas logeas, quasi nenhum movimento.
+Ca est&aacute; a curiosa t&ocirc;rre das Caba&ccedil;as, a
+velha
+egreja de <a href="#e3">San'Jo&atilde;o do<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>Alpor&atilde;o</a>.
+&Aacute;manhan iremos
+ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos &aacute;
+Alca&ccedil;ova!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entr&aacute;mos a porta da antiga cidadella.&#8213;Que
+espantosa e desgraciosa confus&atilde;o de intulhos, de
+pedras, de montes de terra e calissa! N&atilde;o ha
+ruas, n&atilde;o ha caminhos, &eacute; um labyrinto de ruinas
+feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso
+amigo &eacute; aop&eacute; mesmo da famosa e historica
+<a href="#e4">egreja</a>
+de Sancta Maria da Alca&ccedil;ova.&#8213;Hade custar
+a achar em tanta confus&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c3"></a>CAPITULO XXVIII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Depois de muito procurar acha emfim o
+auctor a egreja de Sancta-Maria d'Alca&ccedil;ova.&#8213;Stylo da
+architectura nacional
+perdido.&#8213;O
+terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz
+do Passeio-publico de Lisboa.&#8213;O chefe do partido
+progressista portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.&#8213;Deliciosa
+vista dos arredores de Santarem observada de
+uma janella da Alca&ccedil;ova, de manhan.&#8213;&Eacute; tomado o
+auctor
+de ideas vagas, poeticas, phantasticas como um
+sonho.&#8213;Introduc&ccedil;&atilde;o
+do Fausto.&#8213;Difficuldade de traduzir os versos
+germanicos nos nossos dialectos romanos.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois de muito procurar entre pardeiros e
+intulhos, ach&aacute;mo-la emfim a egreja de Sancta
+Maria d'Alca&ccedil;ova. Ach&aacute;mos, n&atilde;o
+&eacute; exacto:
+ao menos eu, por mim, nunca a achava, nem
+<span class="pagenum">[20]</span>
+queria accreditar que f&ocirc;sse ella quando m'a mostraram.
+A real collegiada de Affonso Henriques,
+a quasi-cathedral da primeira villa do reino, um
+dos principaes, dos mais antigos, dos mais historicos
+templos de Portugal, isto?.. esse egrejorio insignificante
+de capuchos? mesquinha e ridicula
+massa d'alvenaria, sem nenhuma architectura,
+sem nenhum g&ocirc;sto! risco, execu&ccedil;&atilde;o e
+trabalho
+de um mestre pedreiro d'aldeia e do seu apprendiz!
+&Eacute; impossivel.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas era, era essa. A antiga capella-real, a veneranda
+egreja da Alca&ccedil;ova foi passando por successivos
+reparos e transforma&ccedil;&otilde;es, at&eacute; que
+chegou
+a &eacute;sta miseria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Perverteu-se por tal arte o g&ocirc;sto entre n&oacute;s desde
+o meio do seculo passado especialmente, os estragos
+do terremoto grande quebraram por tal modo
+o fio de todas as tradi&ccedil;&otilde;es da architectura
+nacional,
+que na Europa, no mundo todo talvez se
+n&atilde;o ache um paiz onde, a par de tam bellos monumentos
+antigos como os nossos, se incontrem tam
+villans, tam ridiculas e absurdas construc&ccedil;&otilde;es
+p&uacute;blicas
+como essas quasi todas que ha um seculo
+se fazem em Portugal.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+Nos reparos e reconstruc&ccedil;&otilde;es dos templos antigos
+&eacute; que este pessimo stylo, &eacute;sta ausencia de
+todo stylo, de toda a arte mais offende e escandaliza.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Olhem aquella impena classica posta de remate
+ao frontispicio todo renascen&ccedil;a da
+Concei&ccedil;&atilde;o-velha
+em Lisboa. Vejam a implastagem de ge&ccedil;o
+com que est&atilde;o mascarados os elegantes feixes de
+columnas gothicas da nossa s&eacute;.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o se p&oacute;de cahir mais baixo em architectura
+do que n&oacute;s cahimos quando, depois que o marquez
+de Pombal nos <em>traduziu</em>, em vulgar e
+arrastada
+prosa, os <em>rococ&oacute;s</em> de Luiz
+XV, que no original,
+pelo menos, eram flor&iacute;dos, recortados, caprichosos
+e galantes como um madrigal, esse stylo
+bastardo, hybrido, degenerando progressivamente
+e tomando presump&ccedil;&otilde;es de classico, chegou
+nos nossos dias at&eacute; ao chafariz do
+passeio-p&uacute;blico!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da
+Alca&ccedil;ova tambem; entremos nos palacios de D.
+Affonso Henriques.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[22]</span>
+Aqui, pegado com o pardeiro rebocado da capella
+h&atilde;ode ser. Por onde se entra?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por &eacute;sta portinha estreita e baixa, rasgada,
+bem se ve que ha poucos annos, no que parece
+muro de um quintal ou de um p&aacute;teo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; comeffeito aqui; apeemo'-nos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Recebeu-nos com os bra&ccedil;os abertos o nosso
+bom e sincero amigo, actual possuidor e habitante
+do regio alcassar, o Sr. M. P.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Notavel combina&ccedil;&atilde;o do acaso! Que o illustre
+e venerado chefe do partido progressista em Portugal,
+que o homem de mais sinceras convic&ccedil;&otilde;es
+democraticas, e que mais sinceramente as combina
+com o respeito e adhes&atilde;o &aacute;s f&oacute;rmas
+monarchicas,
+esse homem, vindo do Minho, do ber&ccedil;o
+da dynastia e da na&ccedil;&atilde;o, viesse fixar aqui a sua
+residencia no alcassar do nosso primeiro rei, conquistado
+pela sua espada n'um dos feitos mais
+insignes d'aquella era de prodigios!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entr&aacute;mos na pequena horta em f&oacute;rma de claustro
+que une a antiga casa dos reis com a
+<span class="pagenum">[23]</span>
+sua capella. Assim foi sem d&ugrave;vida n'outro tempo:
+a parede oriental da egreja &eacute; o muro do
+quintal de um lado, mas as communica&ccedil;&otilde;es foram
+vedadas provavelmente quando a coroa alienou
+o palacio e o separou assim perpetuamente
+do templo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Plantado de larangeiras antigas, os muros forrados
+de limoeiros e parreiras, aquella pequena
+c&ecirc;rca, apezar dos muitos canteiros e alegretes
+de alvenaria com que est&aacute; moirescamente intulhada,
+&eacute; amena e graciosa &aacute; vista.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Appresentou-nos o nosso amigo a sua mulher,
+senhora de porte gentil e grave; beij&aacute;mos seus
+lindos filhos, e fomos fazer as ablu&ccedil;&otilde;es
+indispensaveis
+depois de tal jornada para nos podermos
+sentar &aacute; mesa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O palacio de Affonso Henriques est&aacute; como a
+sua capella: nem o mais leve, nem o mais apagado
+vestigio da antiga origem. Sabe-se que &eacute; alli
+pela bem confrontada e inquestionavel topographia
+dos logares, por mais nada...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E que me importam a mim agora as antiguidades,
+<span class="pagenum">[24]</span>
+as ruinas e as demoli&ccedil;&otilde;es, quando eu sinto
+demolir-me
+ca por dentro por uma fome exasperada
+e destruidora, uma fome vandalica insaciavel!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vamos a jantar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Com&ecirc;mos, convers&aacute;mos, tom&aacute;mos
+ch&aacute;, torn&aacute;mos
+a conversar e torn&aacute;mos a comer. Vieram
+visitas, fallou-se politica, fallou-se litteratura,
+fallou-se de Santarem s&ocirc;bretudo, das suas ruinas,
+da sua grandeza antiga, da sua desgra&ccedil;a
+presente. Emfim, fomo'-nos deitar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nunca dormi tam regalado somno em minha
+vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante
+e appresurado dos sinos da Alca&ccedil;ova. Saltei
+da cama, fui &aacute; janella, e dei com o mais bello,
+o mais grandioso, e ao mesmo tempo, mais
+ameno quadro em que ainda puz os meus olhos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No fundo de um largo valle aprazivel e sereno,
+est&aacute; o socegado leito do Tejo, cuja areia
+ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua
+juncto &aacute;s margens, d'onde se debru&ccedil;am verdes
+e frescos ainda os salgueiros que as ornam e
+defendem. D'al&ecirc;m do rio, com os p&eacute;s no pingue
+<span class="pagenum">[25]</span>
+nateiro d'aquellas terras alluviaes, os riccos
+olivedos d'Alpiar&ccedil;a e Almeirim; depois a villa
+de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas.
+D'aquem a immensa planicie ditta do Rocio,
+semeada de casas, de aldeias, de hortas, de
+grupos de &aacute;rvores sylvestres, de pomares. Mais
+para a raiz do monte em cujo cimo estou, o
+picturesco bairro da Ribeira com as suas casas e
+as suas egrejas, tam graciosas vistas d'aqui, a
+sua cruz de Sancta Iria e as memorias romanescas
+do seu alfageme.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Com os olhos vagando por este quadro immenso
+e formosissimo, a imagina&ccedil;&atilde;o tomava-me
+azas e fugia pelo vago infinito das regi&otilde;es ideaes.
+Recorda&ccedil;&otilde;es de todos os tempos, pensamentos
+de todo o genero me affluiam ao espirito, e me
+tinham como n'um sonho em que as imagens
+mais discordantes e disparatadas se succedem umas
+&aacute;s outras.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas eram todas melancholicas, todas de saudade,
+nenhuma de esperan&ccedil;a!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Lembraram-me aquelles versos de Goethe,
+<span class="pagenum">[26]</span>
+aquelles sublimes e inimitaveis versos da
+introduc&ccedil;&atilde;o
+do Fausto:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Resurgis outra vez, vagas figuras,<br />
+
+
+Vacillantes imagens que &aacute; turbada<br />
+
+
+Vista accudieis d'antes. E heide agora<br />
+
+
+Retter-vos firme? Sinto eu ainda<br />
+
+
+O cora&ccedil;&atilde;o propenso a illus&otilde;es d'essas?<br />
+
+
+E appertais tanto!... Pois embora! seja:<br />
+
+
+Dominae, ja que em nevoa e vapor leve<br />
+
+
+Emt&ocirc;rno a mim surgis. Sinto o meu seio<br />
+
+
+Juvenilmente tr&eacute;pido agitar-se<br />
+
+
+Co'a maga exhala&ccedil;&atilde;o que vos circunda.<br />
+
+
+Trazeis-me a imagem de ditosos dias,<br />
+
+
+E d'ahi se ergue muita sombra amada:<br />
+
+
+Como um velho cantar meio-esquecido,<br />
+
+
+V&eacute;em os primeiros simplices amores<br />
+
+
+E a amizade com elles. Reverdece<br />
+
+
+A m&aacute;goa, lamentando o errado curso<br />
+
+
+Dos labyrintos da perdida vida;<br />
+
+
+E me est&aacute; nomeando os que trahidos<br />
+
+
+Em horas bellas por fallaz ventura<br />
+
+
+Antes de mim na estrada se sumiram.<br />
+
+
+....................................................<br />
+
+
+....................................................<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o me atrevo a p&ocirc;r aqui o resto da minha
+infeliz traduc&ccedil;&atilde;o: fiel &eacute; ella, mas
+n&atilde;o tem outro
+merito. Quem p&oacute;de traduzir taes versos,
+quem de uma lingua tam vasta e livre hade pass&aacute;-los
+<span class="pagenum">[27]</span>
+para os nossos appertados e severos dialectos
+romano
+para os nossos appertados e severos dialectos
+romanos?<sup><a href="#1">[1]</a></sup>
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c4"></a>CAPITULO XXIX.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Do&ccedil;uras da
+vida.&#8213;Imagina&ccedil;&atilde;o e
+sentimento.&#8213;Poetas que
+morreram mo&ccedil;os e poetas que morreram velhos.&#8213;Como
+s&atilde;o
+escriptas &eacute;stas viagens.&#8213;Livro de pedra. Crian&ccedil;a
+que brinca
+com elle.&#8213;Ruinas e repara&ccedil;&otilde;es.&#8213;Idea fixa do A.
+em
+coisas d'arte e litterarias.&#8213;Sancta Iria ou Irene, e
+Santarem.&#8213;Romance
+de Sancta Iria.&#8213;Quantas sanctas ha
+em Portugal d'este nome?
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Este sonhar acordado, este scismar poetico
+deante dos sublimes spectaculos da natureza,
+&eacute; dos prazeres grandes que Deus concedeu &aacute;s almas
+de certa t&ecirc;mpera. Doce &eacute; gosar assim... mas
+<span class="pagenum">[30]</span>
+em que do&ccedil;uras da vida n&atilde;o predomina sempre
+o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica
+a insipidez; deixae-lh'o, ulc&eacute;ra porfim os orgams:
+o&nbsp;g&ocirc;so &eacute; mais vivo
+porque a ac&ccedil;&atilde;o do
+st&iacute;mulo &eacute; mais sentida... mas a
+ulcera&ccedil;&atilde;o cresce,
+o cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; em carne-viva... agora
+o prazer
+&eacute; martyrio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Infeliz do que chegou a esse estado!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Bemaventurado o que p&oacute;de graduar, como
+Goethe, a d&oacute;ze d'amphi&atilde;o que quer tomar, que
+poupa as sensa&ccedil;&otilde;es e a vida, e economiza as
+potencias
+de sua alma! N'esses por&ecirc;m &eacute; a
+imagina&ccedil;&atilde;o
+que domina, n&atilde;o o sentimento. Byron, Schiller,
+Cam&otilde;es, o Tasso morreram mo&ccedil;os; matou-os
+o cora&ccedil;&atilde;o. Homero e Goethe, Sophocles e Voltaire
+acabaram de velhos: sustinha-os a imagina&ccedil;&atilde;o,
+que n&atilde;o despende vida porque n&atilde;o gasta
+sensibilidade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Imaginar &eacute; sonhar, dorme e repousa a vida
+no entretanto; sentir &eacute; viver activamente, cansa-a
+e consomme-a.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Isto &eacute; o que eu pensava&#8213;porque n&atilde;o pensava
+<span class="pagenum">[31]</span>
+em nada, divagava&#8213;em quanto aquelles versos
+do Fausto me estavam na memoria, e aquella
+saudosa vista do Tejo e das suas margens deante
+dos olhos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma,
+isto vai no papel: que d'outro modo n&atilde;o sei escrever.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Muito me p&ecirc;za, leitor amigo, se
+outra coisa
+esperavas das minhas <span class="smallcaps">Viagens</span>,
+se
+te falto,
+sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse
+titulo, mas que eu n&atilde;o fiz decerto. Querias
+talvez que te contasse, marco a marco, as leguas
+da estrada? palmo a palmo, as alturas e
+larguras dos edificios? algarismo por algarismo,
+as datas de sua funda&ccedil;&atilde;o? que te resummisse a
+historia de cada pedra, de cada ruina?..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de
+Santarem, peta e verdade, ahi o achar&aacute;s em
+amplo folio e gorda lettra: eu n&atilde;o sei compor
+d'esses livros, e quando soubesse, tenho mais
+que fazer.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+So tenho pena de uma coisa, &eacute; de ser tam
+<span class="pagenum">[32]</span>
+desestrado com o lapis na m&atilde;o; porque em dois
+tra&ccedil;os d'elle te dizia muito mais e melhor do que
+em tanta palavra que porfim tam pouco diz e
+tam mal pinta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Santarem &eacute; um livro de pedra em que a mais
+interessante e mais poetica parte das nossas chronicas
+est&aacute; escripta. Ricco de illuminuras, de recortados,
+de flor&otilde;es, de imagens, de arabescos e
+arrendados primorosos, o livro era o mais bello e
+o mais precioso de Portugal. Inquadernado em
+esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras,
+fechado a broches de bronze por suas fortes
+muralhas gothicas, o magn&iacute;fico livro devia durar
+sempre em quanto a m&atilde;o do Creador se n&atilde;o
+extendesse para apagar as memorias da creatura.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas &eacute;sta Ninive n&atilde;o foi destruida,
+&eacute;sta Pompeia
+n&atilde;o foi submergida por nenhuma catastrophe
+grandiosa. O povo de cuja hist&oacute;ria ella &eacute; o
+livro, ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia,
+deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o,
+mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios
+e bonecas, fez carapu&ccedil;os com ellas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o se descreve por outro modo o que &eacute;sta
+<span class="pagenum">[33]</span>
+gente chamada gov&ecirc;rno, chamada
+administra&ccedil;&atilde;o,
+est&aacute; fazendo e deixando fazer ha mais de seculo
+em Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+As ru&iacute;nas do tempo s&atilde;o tristes mas bellas, as
+que as revolu&ccedil;&otilde;es trazem, ficam marcadas com o
+cunho solemne da historia. Mas as brutas
+degrada&ccedil;&otilde;es
+e as mais brutas repara&ccedil;&otilde;es da ignorancia,
+os mesquinhos concertos da arte parasyta, esses
+profanam, tiram todo o prestigio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tal &eacute; a geral impress&atilde;o que me faz
+&eacute;sta terra.
+Almocemos, que ja oi&ccedil;o chamar para isso, e iremos
+ver depois se me inganei.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao alm&ocirc;&ccedil;o a conversa&ccedil;&atilde;o veio
+naturalmente a
+cahir no seu objecto mais &oacute;bvio, Santarem. D.
+Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e
+o Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei
+D. Fernando e a rainha D. Leonor, Cam&otilde;es
+desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui nascido,
+Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as
+grandes figuras da nossa historia passaram em revista.
+Porfim veio Sancta Iria tambem, a madrinha
+e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui
+fez esquecer o de romanos e celtas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[34]</span>
+Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette.
+A minha idea fixa em coisas de arte e litterarias
+da nossa peninsula s&atilde;o as xacaras e romances
+populares. Ha um de Sancta Iria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Porque &eacute; a Sancta Iria da trova popular tam
+differente da Sancta Iria das legendas monasticas?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A trova &eacute; &eacute;sta, segundo agora a rectifiquei e
+appurei pela colla&ccedil;&atilde;o de muitas e
+v&aacute;rias vers&otilde;es
+provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que
+em geral &eacute; a que mais se deve seguir.<sup><a href="#2">[2]</a></sup><br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Stando eu &aacute; janella co'a
+minha almofada,<br />
+
+
+Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passa um cavalleiro, pedia pousada;<br />
+
+
+Meu pae lh'a negou: quanto me custava!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ja vem vindo a noite, &eacute; tam so a estrada...<br />
+
+
+Senhor pae, n&atilde;o digam tal da nossa casa,
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que a um cavalleiro que pede pousada<br />
+
+
+Se fecha &eacute;sta porta &aacute; noite cerrada.'
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[35]</span>
+<div class="poetry">Roguei e pedi&#8213;muito lhe pezava!<br />
+
+
+Mas eu tanto fiz que porfim deixava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;<br />
+
+
+Ao lar o levei, logo se assentava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute;s m&atilde;os lhe dei agua, elle se lavava;<br />
+
+
+Puz-lhe uma toalha, n'ella me
+limpava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Poucas as pallavras, que mal me fallava,<br />
+
+
+Mas eu bem sentia que elle me mirava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fui a erguer os olhos, mal os levantava,<br />
+
+
+Os seus lindos olhos na terra os pregava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fui-lhe p&ocirc;r a cea, muito bem ceava;<br />
+
+
+A cama lhe fiz, n'ella se deitava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dei-lhe as boas noites, n&atilde;o me replicava:<br />
+
+
+Tam m&aacute; cortezia nunca a vi usada!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+L&aacute; por meia noite que me eu suffocava,<br />
+
+
+Sinto que me levam co'a b&ocirc;cca tapada...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Levam-me a cavallo, levam-me abra&ccedil;ada,<br />
+
+
+Correndo, correndo sempre &aacute; desfilada.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;<br />
+
+
+Callei-me e chorei&#8213;elle n&atilde;o fallava.</div>
+
+
+<span class="pagenum">[36]</span>
+<br />
+
+
+<div class="poetry">D'alli muito longe que me perguntava<br />
+
+
+Eu na minha terra como me chamava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;<br />
+
+
+Por aqui agora Iria, a cansada.'<sup><a href="#3">[3]</a></sup>
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Andando, andando, toda a noite andava;<br />
+
+
+L&aacute; por madrugada que me attentava...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Horas esquecidas commigo luctava;<br />
+
+
+Nem f&ocirc;r&ccedil;a nem rogos, tudo lhe mancava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tirou do alfange... alli me matava,<br />
+
+
+Abriu uma cova onde me interrava.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">No fim de&nbsp;sette annos passa o
+cavalleiro,<br />
+
+
+Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,<br />
+
+
+Se me perdoares, serei teu romeiro.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Perdoar n&atilde;o te heide, ladr&atilde;o carniceiro,<br />
+
+
+Que me degollaste que nem um cordeiro.'
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+
+<br />
+
+
+Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de
+aventurosa vida e que ambas deixassem longa e profunda
+memoria de sua belleza e martyrio&#8213;o de
+<span class="pagenum">[37]</span>
+que n&atilde;o tenho a menor idea&#8213;ou nos
+escriptos
+dos frades ha muita f&aacute;bula de sua unica
+inven&ccedil;&atilde;o
+d'elles que o povo n&atilde;o quiz acreditar: alias
+&eacute; inexplicavel a singeleza d'esta
+tradi&ccedil;&atilde;o oral.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tam simples, tam natural &eacute; a narra&ccedil;&atilde;o
+poetica
+do romance popular, quanto &eacute; complicada e
+cheia de maravilhas a que se auctoriza nas
+recorda&ccedil;&otilde;es
+ecclesiasticas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O caso &eacute; grave, fique para novo capitulo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c5"></a>CAPITULO XXX.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">
+Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e
+segundo o
+romance popular.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A milagrosa Sancta Iria&#8213;Sancta Irene&#8213;que
+deu o seu nome a Santarem, donzella nobre,
+natural da antiga Nabancia<sup><a href="#4">[4]</a></sup>,
+e freira
+<span class="pagenum">[40]</span>
+no convento dupplex<sup><a href="#5">[5]</a></sup>
+benedictino que pastoreava
+o sancto abbade Celio, floreceu pelos meados
+do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente
+o joven Britaldo, filho do conde ou consul
+Castinaldo que governava aquellas terras, e
+n&atilde;o podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu
+inf&ecirc;rmo de molestia que nenhum physico acertava
+a conhecer, quanto mais a curar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; sabido que a mais sancta lhe n&atilde;o p&ecirc;za
+de
+que estejam a morrer por ella; e, mais ou menos,
+sempre sympathisa com as victimas que faz.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo;
+e ja que mais n&atilde;o podia por sua muita virtude, quiz
+ver se lhe tirava aquella louca paix&atilde;o e o convertia.
+Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento&#8213;que
+n&atilde;o guardavam ainda as freiras tam absoluta
+e estreita clausura&#8213;e foi-se a casa do namorado
+Britaldo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Consolou como mulher e ralhou como sancta,
+e porfim, impondo-lhe na cabe&ccedil;a as lindas e
+bemdittas m&atilde;os, n'um instante o sarou de todo
+<span class="pagenum">[41]</span>
+achaque do corpo; e se lhe n&atilde;o curou o d'alma
+tambem, pelo menos lh'o adormentou, que parecia
+acabado.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas como o demo, em chegando a entrar n'um
+corpo humano, parece que n&atilde;o sai d'elle sen&atilde;o
+para
+se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo deixou
+ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar
+em n&atilde;o menor personagem do que o monge Remigio,
+que era o mestre e director da bella
+Iria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Arde o frade em concupiscencia, e n&atilde;o obtendo
+nada com rogos e lamentos, jurou vingar-se.
+Disfar&ccedil;ou por&ecirc;m, fingiu-se emendado, e deu-lhe,
+quando ella menos cuidava, uma bebida de
+sua diabolica prepara&ccedil;&atilde;o, que apenas a sancta a
+havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram
+a crescer todos os signaes da mais apparente
+maternidade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Corre a fama do supposto estado da donzella,
+chovem as inj&uacute;rias e os insultos dos que mais a
+tinham respeitado at&eacute; ent&atilde;o. E Britaldo, que se
+julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher
+artificiosa, em vez de a esquecer com despr&ecirc;zo&#8213;sente
+<span class="pagenum">[42]</span>
+reviver-lhe, sen&atilde;o tam pura, muito
+mais ardente, toda a antiga paix&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tam mysterioso &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o do
+homem!&#8213;tam
+vil! dir&atilde;o os asceticos&#8213;tam inexplicavel!
+direi eu com os mais tolerantes.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Novas tentativas, promessas, amea&ccedil;as do furioso
+amante... A sancta resiste a tudo, forte na
+sua virtude.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Costumava a devota donzella ir todas as noites
+a uma occulta lapa que jazia no fim da c&ecirc;rca e
+juncto ao rio Nab&atilde;o, para alli estar mais so com
+Deus, e desabafar com Elle &aacute; sua vontade. Soube-o
+Britaldo, espreitou a occasi&atilde;o e alli a fez
+apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda
+nos conservou para maior testimunho de verdade:
+chamava-se Banam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Banam! &eacute; um verdadeiro nome de mellodrama.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Morta a innocente, Banam despiu-lhe o h&aacute;bito
+e lan&ccedil;ou o corpo ao rio, que depressa a levou
+&aacute;s arrebatadas correntes do Zezere em que
+desagua; e logo este ao Tejo&#8213;que defronte da
+<span class="pagenum"><a name="p43">[43]</a></span>
+antiga Scalabicastro lhe deu sepultura em suas
+louras areas, para maior gl&oacute;ria da sancta e
+perp&eacute;tua
+honra da nobillissima villa que hoje tem o
+seu nome.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta,
+teve Celio, o abbade do convento, uma revela&ccedil;&atilde;o
+que lhe descobriu a verdade e os milagres
+do caso; e communicando-a logo aos
+monges e ao povo de Nabancia, sahiu com todos
+de cruz al&ccedil;ada, e foi por esses campos da
+Golegan f&oacute;ra, at&eacute; chegar &aacute; Ribeira de
+Santarem.
+Ahi benzendo as aguas do rio, &eacute;stas se <a href="#e5">retiraram</a>
+cortezes e deixaram ver o sepulchro que era
+de fino alabastro, obrado &aacute; maravilha pelas m&atilde;os
+dos anjos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegaram aop&eacute; do tumulo, abriram-n'o, viram
+e tocaram o corpo da sancta, mas n&atilde;o o poderam
+tirar, por mais diligencias que fizeram.
+Conheceu-se que era milagre; e contentando-se
+de levar reliquias dos cabellos e da tunica, voltaram
+todos para a sua terra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+As aguas tornaram a junctar-se e a correr
+como d'antes, e nunca mais se abriram sen&atilde;o
+<span class="pagenum">[44]</span>
+d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha
+sancta Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas
+ora&ccedil;&otilde;es fez aop&eacute; do rio pedindo
+&aacute; sancta
+que lhe apparecesse, que o rio tornou a
+abrir-se como o mar Vermelho &aacute; voz de Moises,
+dizem os devotos chronistas, e patenteou o benditto
+sepulchro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entrou a rainha a p&eacute; inchuto pelo rio dentro,
+seguida de seu real esp&ocirc;so e de toda a
+sua c&ocirc;rte; mas por mais que rezasse ella, e que
+trabalhassem os outros com todas as f&ocirc;r&ccedil;as
+humanas,
+n&atilde;o poderam abrir o tumulo; quebraram
+todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado
+el-rei de que um pod&ecirc;r sobrehumano n&atilde;o permittia
+que elle se abrisse, mandou a toda a pressa levantar
+um padr&atilde;o muito alto s&ocirc;bre o mesmo tumulo,
+e tam alto que o rio na maior inchente o
+n&atilde;o podesse cubrir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros
+acabassem, e quando viu que podia continuar
+a correr, deu aviso, retiraram-se todos,
+tornaram a junctar-se as a
+O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros
+acabassem, e quando viu que podia continuar
+a correr, deu aviso, retiraram-se todos,
+tornaram a junctar-se as aguas e o padr&atilde;o ficou
+sobresahindo por cima d'ellas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[45]</span>
+Passaram mais tres seculos e meio; e no anno
+de 1644 a camara de Santarem mandou refazer
+de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal
+que n&atilde;o era sen&atilde;o de alvenaria, e
+p&ocirc;r-lhe
+em cima a imagem da sancta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ainda l&aacute; est&aacute;, ass&aacute;s mal cuidado com
+tudo;
+l&aacute; o vi com estes olhos peccadores no corrente
+mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem
+ora&ccedil;&otilde;es, o rio tinha-se retirado, havia muito,
+para um cantinho do seu leito, e o padr&atilde;o estava
+perfeitamente em s&ecirc;cco, e em s&ecirc;cco est&aacute;
+todo o anno at&eacute; come&ccedil;arem as cheias.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tal &eacute;, em fidelissimo resummo, a historia da
+Sancta Iria dos livros.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A das cantigas &eacute;, como ja disse, muito outra
+e muito mais simples, conta-se em duas palavras.
+A sancta est&aacute; em casa de seus paes; um
+cavalleiro desconhecido, a quem d&atilde;o pousada uma
+noite, levanta-se por horas mortas, rouba a descuidada
+e innocente donzella, foge a todo o correr
+de seu cavallo, e chegado a um descampado
+d'alli muito longe, pretende fazer-lhe violencia...
+A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a annos
+<span class="pagenum">[46]</span>
+passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma
+linda ermida levantada no proprio s&iacute;tio onde
+commetteu o crime, pergunta de que sancta &eacute;,
+dizem-lhe que &eacute; de Sancta Iria. Elle cai de joelhos
+a pedir perd&atilde;o &aacute; sancta, que lhe lan&ccedil;a
+em
+rosto o seu peccado e o amaldi&ccedil;oa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E acabou a historia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&iacute;a o povo que se esqueceu nas suas
+tradi&ccedil;&otilde;es,
+ou os frades que augmentaram nas suas escripturas?
+Pois a legenda monastica &eacute; realmente
+bella e cheia de poesia e romance, coisas que
+o povo n&atilde;o costuma desprezar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo
+para qualquer observador n&atilde;o vulgar,
+que n'estas cren&ccedil;as do commum, n'estas
+antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia
+dos nescios, quer estudar os homens e as
+na&ccedil;&otilde;es e as edades onde elles mais sinceramente
+se mostram e se deixam conhecer.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A extrema simplicidade do romance ou xacara
+de Sancta Iria, o ser elle, d'entre todos os
+que andam na memoria do nosso povo, o
+<span class="pagenum">[47]</span>
+mais geralmente sabido e mais uniformente
+repettido
+em todos os districtos do reino, e com
+poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto,
+me faz crer que &eacute;sta seja das mais antigas
+composi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o so da nossa lingua,
+mas de toda
+a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo:
+este &eacute; um d'aquelles poemas quasi aborigines
+que a tradi&ccedil;&atilde;o tem vindo intregando, e ao
+mesmo tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente;
+e tambem n&atilde;o &eacute; porcerto dos
+que desceram do palacio &aacute;s choupanas e fugiram
+da cidade para as aldeas, como em muitos outros
+se conhece: este visivelmente nasceu nos
+arraiaes, nos oragos dos campos, e por l&aacute; tem
+vivido at&eacute; agora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A f&oacute;rma metrica da composi&ccedil;&atilde;o
+&eacute; a que a
+phrase didatica das Hispanhas chamou <em>romance em
+endechas</em>. Eu, adoptando para elle, mais que para a
+f&oacute;rma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do
+ingenhoso philologo allem&atilde;o, Deeping, tam benemerito
+da nossa litteratura peninsular, creio que
+estes s&atilde;o verdadeiros versos de d&ocirc;ze syllabas, e
+que as coplas n&atilde;o constam sen&atilde;o de dous versos
+cada uma, segundo a &oacute;bvia significa&ccedil;&atilde;o
+da palavra.
+O povo cantando n&atilde;o separa os hemistychios
+<span class="pagenum">[48]</span>
+d'estes versos como fazem os que os escrevem:
+e ao contr&aacute;rio nos romances da medida
+mais commum, o canto popular reparte distinctamente
+cada membro de oito syllabas s&ocirc;bre si.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o sei se me ingano, mas desconfio que as
+quatro coplas &uacute;ltimas, em que muda completamente
+a rhyma, sejam additamento posterior
+feito &aacute; cantiga original. Todavia estes oito versos
+apparecem, com ligeiras variantes, em toda
+a parte.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c6"></a>CAPITULO XXXI.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Quommodo sedet sola
+civitas.&#8213;Santarem.&#8213;Portugal em
+verso e Portugal em prosa.&#8213;Exquisito lavor de umas portas
+e janellas de architectura mosarabe.&#8213;Busto de D. Affonso
+Henriques.&#8213;As salgadeiras de Affrica.&#8213;Porta do Sol.&#8213;Muralhas
+de Santarem.&#8213;Voltemos &aacute; historia de Fr.
+Diniz
+e da menina dos olhos verdes.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos
+a come&ccedil;ar a longa viasacra de reliquias,
+templos e monumentos que s&atilde;o hoje toda Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p50">[50]</a></span>
+A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente:
+hoje &eacute; um livro que so recorda o que foi. Entre
+a historia maravilhosa do passado que todas &eacute;stas
+pedras <a href="#e6">memoram</a>, e as
+prophecias tremendas
+do futuro que parecem gravadas n'ellas em characteres
+mysteriosos, n&atilde;o ha mais nada: o presente
+n&atilde;o &eacute;, ou &eacute; como se n&atilde;o
+fosse: tam pequeno,
+tam mesquinho, tam insignificante, tam
+desproporcionado parece a tudo isto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+D&aacute; vontade de intoar com o poeta inspirado
+de Jerusalem: 'Quommodo sedet sola civitas!'
+Portugal &eacute;, foi sempre uma na&ccedil;&atilde;o de
+milagre,
+de poesia. Desfizeram o prestigio; veremos como
+elle vive em <em>prosa</em>. Morrer,
+n&atilde;o morre a terra,
+nem a familia, nem as ra&ccedil;as: mas as
+na&ccedil;&otilde;es
+deixam de existir.&#8213;Pois embora, ja que assim
+o querem. A mim n&atilde;o me fica escrupulo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pass&aacute;mos a egreja da Alca&ccedil;ova, que
+ach&aacute;mos
+ja fechada; e tomando sempre s&ocirc;bre a esquerda,
+fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre
+quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras
+a rua mais <em>fashionavel</em> d'esta villa
+cortezan. Aqui
+est&atilde;o quasi aop&eacute; da egreja umas portas e janellas
+<span class="pagenum">[51]</span>
+do mais fino lavor e g&ocirc;sto mosarabe que me
+lembra de ter visto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a proposito, porque se n&atilde;o hade adoptar na
+nossa peninsula &eacute;sta designa&ccedil;&atilde;o de
+<em>mosarabe</em> para
+characterizar e classificar o genero architectonico
+especial nosso, em que o severo pensamento christ&atilde;o
+da architectura da meia
+edade se sente relaxar
+pelo contacto e exemplo dos habitos sensuaes
+moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+De que palacio incantado foram &eacute;stas portas
+tam primorosamente lavradas? Que bellezas se
+debru&ccedil;aram d'essas arrendadas janellas para ver
+passar o cavalleiro escolhido do seu cora&ccedil;&atilde;o?
+S&atilde;o
+tam lindas, tam elegantes ainda &eacute;stas pedras
+desconjunctadas,
+e mal sustidas de um muro insosso
+e grosseiro que as facea, que naturalmente despertam
+a mais adormecida imagina&ccedil;&atilde;o a quanto sonho
+de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos
+mysterios da edade-m&eacute;dia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pouco mais adeante est&aacute;, em um mau nicho
+escalavrado e feio, um pretendido busto de D.
+Affonso Henriques, a que attribuem grande antiguidade.
+<span class="pagenum">[52]</span>
+N&atilde;o me fez esse effeito a mim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheg&aacute;mos &aacute; porta do
+<em>Sol</em>; sentamo'-nos alli a
+gosar da majestosa vista. &Eacute; majestosa mas triste.
+A ribanceira que d'alli corta abaixo, at&eacute; ao rio,
+&eacute; arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como
+a mal povoada nuca de um velho, alguns tufos
+de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto
+rasteiro, meio <em>frutex</em> meio herbaceo
+que aqui
+chamam 'Salgadeira' e que a tradic&ccedil;&atilde;o diz ter
+vindo de Affrica para segurar a terra n'estes taludes
+e precipicios. O aspecto e h&aacute;bito da planta
+&eacute; realmente affricano e oriental, n&atilde;o tem nada
+de europeu. Mas &eacute;sta derradeira e occidental
+parte da nossa Hespanha &eacute;, geologicamente fallando,
+ja tam affrica, tam pouco europa, que
+n&atilde;o ser&iacute;a necessaria a
+transplanta&ccedil;&atilde;o talvez; e
+porventura ficou &eacute;sta memoria entre o povo do
+uso que os moiros faziam da planta para esse
+fim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute;sta porta do sol dizem que &eacute; onde se faziam
+as execu&ccedil;&otilde;es em tempos antigos. Foi bem
+escolhido o s&iacute;tio; n&atilde;o o ha mais triste e
+melancholico.
+Aop&eacute; est&aacute; um torre&atilde;o quadrado da
+muralha
+que ahi f&oacute;rma canto para seguir depois na
+<span class="pagenum">[53]</span>
+direc&ccedil;&atilde;o de sul a norte. D'este lado as
+fortifica&ccedil;&otilde;es
+e lan&ccedil;os de muro est&atilde;o todas pouco estragadas;
+e do mirante a que subimos, p&oacute;de-se formar
+perfeita idea do que era uma antiga cidade
+murada.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&iacute;a aqui, dizia eu commigo, que o nosso
+Fr. Diniz de quem ja tenho saudades&#8213;o velho
+guardi&atilde;o de San'Francisco veio chorar o seu ultimo
+threno s&ocirc;bre as ruinas da antiga monarchia?
+Ser&iacute;a aqui n'este logar de desola&ccedil;&atilde;o e
+melancholia
+que correram as suas derradeiras lagrymas!
+Elle que ja n&atilde;o chorava, acharia aqui quem desse
+aos seus olhos as fontes de agua que o cora&ccedil;&atilde;o
+lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o
+rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada
+velhice?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passavam-me &eacute;stas ideas pelo pensamento quando
+o historiador que tantos capitulos nos retteve
+no vale, contando-nos os successos de Joanninha
+e da sua familia, nos disse:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Sentemo-nos aqui na sombra que faz &eacute;sta muralha
+e acabemos a historia da menina dos rouxinoes.
+De tarde vamos &aacute; Ribeira saudar a memoria
+<span class="pagenum">[54]</span>
+do Alfageme. &Aacute;manhan de manhan est&aacute;
+detalhado que iremos ver a Gra&ccedil;a, o Sancto
+milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos
+hoje &eacute;sta historia.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Seja' respondemos n&oacute;s.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entraremos portanto em novo capitulo, leitor
+amigo; e agora n&atilde;o tenhas medo das minhas
+digress&otilde;es
+fataes, nem das interrup&ccedil;&otilde;es a que sou
+sujeito. Ir&aacute; direita e corrente a historia da
+nossa
+Joanninha at&eacute; que a terminemos... em bem
+ou em mal? D'antes um romance, um drama em
+que n&atilde;o morria ninguem era havido por semsabor;
+hoje ha um certo horror ao tragico, ao
+funesto que perfeitamente quadra ao seculo das
+commodidades materiaes em que vivemos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em
+principios nem em fins tenho eschola a que esteja
+sujeito, e heide contar o caso como elle
+foi.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Escuta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c7"></a>CAPITULO XXXII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">
+Torn&aacute;mos &aacute; historia de Joanninha.&#8213;Preparativos
+de guerra.&#8213;A
+morte.&#8213;Carlos ferido e prisioneiro.&#8213;O hospital.&#8213;O
+infermeiro.&#8213;Georgina.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Escuta!' disse eu ao leitor benevolo no fim do
+&uacute;ltimo cap&iacute;tulo. Mas n&atilde;o basta que
+escute, &eacute;
+preciso que tenha a bondade de se recordar do
+que ouviu no capitulo XXV e da situa&ccedil;&atilde;o em
+<span class="pagenum">[56]</span>
+que ahi deix&aacute;mos os dous primos, Carlos e Joanninha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N'este despropositado e inclassificavel livro das
+minhas <span class="smallcaps">Viagens</span>,
+n&atilde;o
+&eacute; que se quebre, mas inreda-se
+o fio das historias e das observa&ccedil;&otilde;es por
+tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com
+muita paciencia se p&oacute;de deslindar e seguir em
+tam imbara&ccedil;ada meada.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei
+por ser breve e ir direito quanto eu pod&eacute;r.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Lembra-te como n'uma noite pura, serena e
+estrellada, aquelles dous se despediram um do
+outro no meio do valle, como se despediram tristes,
+duvidosos, infelizes, e ja outros, tam outros
+do que d'antes foram.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N'essa mesma noite, a ordenada confus&atilde;o de
+um grande movimento de guerra reinava nos postos
+dos constitucionaes. &Aacute; longa apathia de tantos
+mezes succedia uma inesperada actividade.
+Preparavam-se os sanguinolentos combates de Pernes
+e de Almoster, que n&atilde;o foram decisivos logo,
+mas que tanto appressaram o termo da contenda.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[57]</span>
+Carlos achou ordem de se appresentar no quartel-general,
+partiu immediatamente. O pensamento
+absorvido por ideas tam differentes, tam
+confuso, tam alheado de si mesmo, seguiu machinalmente
+o corpo. Foi, chegou, recebeu as
+instruc&ccedil;&otilde;es que lhe deram, e voltou mais
+satisfeito,
+mais tranquillo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tractava-se de morrer. N&atilde;o sabe o que &eacute;
+verdadeira
+ang&uacute;stia d'alma o que ainda n&atilde;o
+aben&ccedil;oou
+a morte que viu deante de si, o que a n&atilde;o
+invocou ainda como unico remedio de seu mal,
+ou, o que &eacute; mais desesperado, como unica sahida
+de suas fataes perplexidades.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estes momentos s&atilde;o raros na vida, &eacute; certo;
+mas quando occorrem, n&atilde;o ha
+exaggera&ccedil;&atilde;o nenhuma
+em dizer que antes, muito antes a morte
+do que elles.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! e se a morte que se contempla &eacute; de honra
+e gl&oacute;ria, se o enthusiasmo, tirando fortemente
+a corda dos nervos, os faz vibrar n'aquelles
+tons secretos e mysteriosos que arrebatam, e elevam
+o cora&ccedil;&atilde;o do homem &aacute; sublime
+abnega&ccedil;&atilde;o
+de si, e de tudo o que &eacute; piqueno, baixo e vil
+<span class="pagenum">[58]</span>
+na sua natureza&#8213;oh ent&atilde;o a morte parece um
+triumpho, uma bemaventuran&ccedil;a porcerto!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada
+que affiou com escrupuloso cuidado, e das
+suas boas e seguras pistolas inglezas que limpou
+minuciosamente, carregou e escorvou com um
+verdadeiro amor de artista que se compraz no
+&uacute;ltimo acabamento de um trabalho predilecto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pouco da noite que lhe restava passou-se
+n'isto, a marcha come&ccedil;ou antes do dia. E os primeiros
+raios do sol foram saudados pelo fuzilar
+das espingardas, e pelo trovejar dos canh&otilde;es.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Combateu-se larga e incarni&ccedil;adamente&#8213;como
+entre irm&atilde;os que se odeiam de todo o odio
+que ja foi amor&#8213;o mais cruel odio que tem a
+natureza!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O dia declinava ja quando n'um hospital em
+Santarem entravam muitas maccas de feridos, e
+entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto
+de sangue que, assim pelos restos do un
+O dia declinava ja quando n'um hospital em
+Santarem entravam muitas maccas de feridos, e
+entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto
+de sangue que, assim pelos restos do uniforme
+como por certo ar bem conhecido&#8213;e charecteristica
+<span class="pagenum">[59]</span>
+ent&atilde;o, se via claramente ser do
+ex&eacute;rcito
+constitucional.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram muitas e perigosas as feridas d'esse homem;
+estenderam-n'o n'uma especie de tarimba
+s&ocirc;bre que havia alguma palha, e quando lhe chegou
+a sua vez foi examinado e pen&ccedil;ado como os
+outros. N&atilde;o dava signal de padecer, tinha os olhos
+fechados, o pulso forte mas n&atilde;o agitado de febre;
+n&atilde;o proferia uma syllaba, n&atilde;o soltava um
+ai, e prestava-se a tudo o que lhe diziam e faziam,
+menos a soltar da m&atilde;o esquerda que apertava
+contra o peito o que quer que fosse que alli
+tinha seguro e que lhe pendia ao pescosso de uma
+estreita fitta preta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim o deixaram largo tempo: elle adormeceu.
+N&atilde;o ser&iacute;a largo, mas foi profundo o seu
+dormir. Quando acordou ja se n&atilde;o viu no vasto caravanseray
+d'aquelle confuso hospital,
+mas n'um
+pequeno quarto arejado, limpo, e quasi confortavel
+que em tudo parecia cella de convento, menos
+na boa cama em que jazia o doente, e na
+extremada elegancia do infermeiro que o velava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O quarto era comeffeito uma cella do convento
+<span class="pagenum">[60]</span>
+de San'Francisco em Santarem, o doente o
+nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, uma
+bella mulher de estatura n&atilde;o acima de ordinaria
+mas nem uma linha menos, involvida nas amplissimas
+pregas de um longo roup&atilde;o de seda d'aquella
+acertada c&ocirc;r que, em dialecto da rua Vivienne,
+se diz <em>scabieuse</em>; a
+cabe&ccedil;a toucada de finissima
+Bruxellas, com uns la&ccedil;os de preto e c&ocirc;r de
+granada que real&ccedil;avam a transparencia das rendas,
+a infinita gra&ccedil;a dos longos e ondados aneis
+louros do cabello, e a pureza symetrica de um
+rosto oval, classico, perfeito, sem grande mobilidade
+de express&atilde;o mas bello, bello, quanto p&oacute;de
+ser bello um rosto em que pouco d'alma se
+reflecte, e em que a serena languidez de uns
+olhos azues entib&iacute;a e modera a energia do sentimento
+que n&atilde;o &eacute; menos profundo talvez, mas
+certamente se expande menos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a
+m&atilde;o direita d'elle nas suas, os olhos seccos mas
+fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella
+mulher estava alli como a est&aacute;tua da dor e da
+anxiedade. A uma porta interior e que abria para
+De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a
+m&atilde;o direita d'elle nas suas, os olhos seccos mas
+fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella
+mulher estava alli como a est&aacute;tua da dor e da
+anxiedade. A uma porta interior e que abria para
+uma especie de alcova obscura, em p&eacute;, os
+bra&ccedil;os cruzados e mettidos nas mangas, o capuz
+<span class="pagenum">[61]</span>
+na cabe&ccedil;a, estava um frade velho, alto mas curvado
+do p&ecirc;so dos annos ou dos soffrimentos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O frade contemplava o inf&ecirc;rmo e a infermeira,
+mas visivelmente n&atilde;o queria ser visto n'essa
+occupa&ccedil;&atilde;o,
+porque ao menor estremecimento do
+doente recuava apressado e como assustado para
+o interior da sua alcova.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma so vela de cera allumiava este quadro,
+accidentando-o de fortes sombras, e dando-lhe
+um tom de solemnidade verdadeiramente magico
+e sublime.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo
+aff&ecirc;rro o relicario ou talisman, o que quer
+que era que n&atilde;o queria desprender de seu
+cora&ccedil;&atilde;o.
+A bella infermeira beijava de vez em quando
+aquella m&atilde;o tenaz que estremecia a cada beijo,
+por mais suave e mimoso que fosse o leve
+contacto d'esses labios delicados.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A outra m&atilde;o estava nas m&atilde;os d'ella, mas era
+insensivel a tudo, essa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p62">[62]</a></span>
+O silencio era o do sepulchro: so se ouvia o
+respirar incerto e descompassado do inf&ecirc;rmo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Derepente Carlos entreabriu as palpebras e
+exclamou em inglez: '<em>Oh Georgina, Georgina,
+I love you <a href="#e7">still</a>.</em>'&#8213;(Georgina,
+Georgina, eu ainda
+te amo).
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Duas lagrymas&#8213;duas perolas, d'estas que se
+criam com tanta dor no cora&ccedil;&atilde;o e que
+&aacute;s vezes
+sahem com tanto prazer dos olhos&#8213;romperam
+do celeste azul dos olhos da dama e suavemente
+correram por aquellas faces de uma alvura pallida
+e mortal.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos accordou de todo, abriu os olhos e cravou-os
+fixamente no rosto angelico d'essa mulher.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esteve assim minutos: ella n&atilde;o dizia nada nem
+de voz nem de gesto: fallavam-lhe so as lagrymas
+que corriam quietas, quietas, como corre
+uma fonte perenne e nativa d'agua que mana sem
+esf&ocirc;r&ccedil;o nem impeto, por um declive natural e
+facil.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[63]</span> &#8213;'Onde estou eu, Georgina?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Nos meus bra&ccedil;os.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que me succedeu?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que n&atilde;o podes ser feliz sen&atilde;o n'elles:
+bem sabes.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sei... devia saber.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Hasde sabe-lo agora. O passado...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O passado! qual?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O passado deixou de existir.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E o futuro?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu n&atilde;o creio no futuro.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Porqu&ecirc;?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Porque tu me disseste que n&atilde;o cresse.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu!.. Eu sou um...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[64]</span> &#8213;'Um homem.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Basta e descan&ccedil;a. Amanhan fallaremos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Estou ferido, muito; e doe-me agora...
+n&atilde;o me do&iacute;a.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Est&aacute;s, mas sem perigo: e estou eu aqui.
+Dorme.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o posso. Que casa &eacute; &eacute;sta?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'San'Francisco de Santarem.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Deus de misericordia!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Es prisioneiro:&nbsp;s&aacute;ra, e eu te livrarei.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu!&#8213;E tu aqui, como?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Vim buscar-te, e achei-te assim.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Georgina!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[65]</span> &#8213;'Que tens tu ahi tam seguro na m&atilde;o esquerda?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'V&ecirc;: a medalha com o teu cabello.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ent&atilde;o amas-me tu ainda?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Se te amo! Como no primeiro...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o mintas, Carlos... E dorme.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh meu Deus, meu Deus! Georgina
+aqui, eu n'este estado e... E a minha gente?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'A tua gente est&aacute; salva.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Aonde?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Aqui mesmo, em Santarem.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Quero... n&atilde;o quero... Oh sim, quero mas &eacute;
+morrer. Tende misericordia de mim, meu Deus!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Socega, Carlos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas Carlos n&atilde;o socegava: immudeceu porque
+<span class="pagenum">[66]</span>
+a torrente de seus pensamentos, o incontrado
+d'elles, e o inesperado d'aquella situa&ccedil;&atilde;o lhe
+imbargavam
+a voz, e o quebramento das f&ocirc;r&ccedil;as lhe
+tolhia os movimentos do corpo; mas o espirito
+inquieto e alvora&ccedil;ado revolvia-se dentro com um
+phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de bebidas calmantes o accesso
+diminuiu,
+a noite passou mais tranquilla; e pela manhan
+o doente n&atilde;o dava cuidado ao facultativo que
+o veio ver.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Prohibiram-lhe fallar; e Georgina tinha a coragem
+de lhe resistir, de lhe n&atilde;o responder todas
+as vezes que elle tentava quebrar o preceito
+de que dependia a sua vida... e a d'ella, porque
+a infeliz amava-o... oh! amava-o como se n&atilde;o ama
+sen&atilde;o uma vez n'este mundo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passaram dias, semanas, Carlos estava melhor,
+estava salvo; Georgina p&ocirc;de dizer-lhe um dia:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Carlos, meu Carlos, tu est&aacute;s livre de perigo,
+vou restituir-te aos teus.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Os meus!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[67]</span> &#8213;'Os teus. Tua av&oacute;, tua prima...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joaninha! oh! Joanninha...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tua av&oacute; que tambem tem estado a morrer
+mas que emfim est&aacute; escapa, ignora que tu
+estejas aqui. Occult&aacute;mo-lo egualmente a tua prima.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ah!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sim, assent&aacute;mos de lh'o n&atilde;o dizer a uma
+nem a outra at&eacute; que tivessemos certeza da tua
+melhora. Hoje por&ecirc;m vais ve-las. E eu...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu n&atilde;o tenho aqui mais nada que fazer.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Georgina!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Carlos!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu ja me n&atilde;o amas?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[68]</span>
+Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o
+da calma que precede as grandes tempestades. O
+rosto de Georgina estava impassivel, Carlos estorcia-se
+debaixo de uma compress&atilde;o horrivel e
+incapaz de se descrever.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c8"></a>CAPITULO XXXIII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Carlos e Georgina.
+Explica&ccedil;&atilde;o.&#8213;Ja te
+n&atilde;o amo! palavra terrivel.&#8213;Que
+o amor verdadeiro n&atilde;o &eacute; cego.&#8213;Frade no caso
+outra vez. <em>Ecce iterum Crispinus</em>; ca
+est&aacute; o nosso Fr.
+Diniz comnosco.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu ja me n&atilde;o amas, Georgina, tu!'
+exclamou Carlos depois de uma longa e penosa
+lucta comsigo mesmo: 'Ja me n&atilde;o amas
+tu, Georgina? Ja n&atilde;o sou nada para ti n'este
+<span class="pagenum">[70]</span>
+mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que
+derramavas em torrentes s&ocirc;bre a minha alma,
+em que trasbordava o teu cora&ccedil;&atilde;o; aquelle amor
+que eu cheguei a persuadir-me que era o maior,
+o mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor
+de mulher que ainda houve no mundo, esse amor
+acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a
+fonte celeste d'onde manava? Nem as recorda&ccedil;&otilde;es
+de nossa passada felicidade, nem as memorias
+dos crueis lances que nos custou, dos
+sacrificios tremendos que por mim fizeste, nada,
+nada p&oacute;de acordar na tua alma um echo, um
+echo sumido que fosse, da antiga harmonia de
+nossas vidas&#8213;da nossa vida, Georgina, porque
+n&oacute;s cheg&aacute;mos a confundir n'um s&oacute; os
+dois seres
+da nossa existencia&#8213;Oh! porque vivi eu at&eacute;
+este dia? E tu, tu que refinada crueldade te
+inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado,
+que tinhas sacrificado quando a separaste
+da tua?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Carlos,' respondeu Georgina com a fria
+mas compassiva piedade que mais o desesperava:&#8213;'Carlos,
+n&atilde;o abuses da pouca saude que
+ainda tens. O esf&ocirc;r&ccedil;o d'alma que est&aacute;s
+fazendo
+p&oacute;de-te ser prejudicial. Socega. Tu illudes-te, e
+<span class="pagenum">[71]</span>
+sem querer, procuras illudir-me tambem a mim.
+Entra em ti, Carlos, e discorramos pausadamente
+s&ocirc;bre a nossa situa&ccedil;&atilde;o, que
+n&atilde;o &eacute; agradavel
+porcerto nem para um nem para outro,
+mas que p&oacute;de supportar-se se tivermos juizo para
+a incarar toda e sem medo, e para nos convencermos
+com lealdade e franqueza do que ella
+realmente &eacute;. Ouve-me, Carlos: tu amaste-me
+muito...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh como, oh quanto! Nenhum homem...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Poucos homens, &eacute; certo, amaram ainda
+como tu... quem sabe! talvez nenhum.&#8213;N&atilde;o
+quero perder &eacute;sta &uacute;ltima illus&atilde;o... ja
+n&atilde;o tenho outra... Talvez nenhum amou como tu me
+amaste ou... ou cuidaste amar-me. Eu... oh! eu
+quiz-te... pelo eterno Deus que me ouve! eu
+quiz-te com uma cegueira d'alma, n'uma singeleza
+de cora&ccedil;&atilde;o, com um aband&ocirc;no tam
+completo,
+uma abnega&ccedil;&atilde;o tam inteira de mim mesma,
+que realmente creio, este &eacute; o amor que so a
+Deus se deve, que so ao Creador a creatura p&oacute;de
+consagrar licitamente.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Bem castigada estou: mereci-o.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[72]</span> &#8213;'Georgina, Georgina!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Deixa-me, quero desabafar eu tambem
+agora. Ouve-me, tens obriga&ccedil;&atilde;o de me ouvir.&#8213;Se
+te dei provas d'este amor, tu o sabes; se
+desde que te amei, uma palavra, um gesto, um
+pensamento unico, um so e o mais leve relampejar
+da imagina&ccedil;&atilde;o desmentiu em mim d'esta
+absoluta e exclusiva dedica&ccedil;&atilde;o de todo o meu
+ser... dize-o tu.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o, minha alma, n&atilde;o, minha vida,
+n&atilde;o;
+tu &eacute;s um anjo, tu es...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sou uma mulher que te amava como creio
+que ordinariamente se n&atilde;o ama.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o, certo, n&atilde;o.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Fomos felizes, &eacute; verdade; e creio que
+poucos amantes ainda foram tam felizes como
+n&oacute;s nos breves dias que isto durou.&#8213;Tu partiste
+para a tua ilha; era for&ccedil;oso partir, conheci-o
+e resignei-me. Consolavam-me as tuas cartas,
+as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram
+escriptas com o mais puro sangue do teu cora&ccedil;&atilde;o.
+<span class="pagenum">[73]</span>
+Nunca duvidei do que me ellas diziam:
+n&atilde;o
+se mente assim, tu n&atilde;o mentias ent&atilde;o.
+&Eacute; falso
+que o amor seja cego: o amor vulgar p&oacute;de s&ecirc;-lo,
+amor como o meu, o amor verdadeiro tem
+olhos de lynce: eu bem via que era amada.
+Nunca me escreveste a protestar fidelidade, e
+eu sab&iacute;a, eu via que tu me eras fiel.&#8213;Assim
+passaram meses, annos. Na ilha e no Porto foste
+o mesmo. Eu padecia muito, mas confortava-me,
+vivia de esperan&ccedil;as... triste viver mas doce!
+Emfim vieste para Lisboa, para aqui... e as
+tuas cartas que n&atilde;o eram menos ternas nem menos
+apaixonadas...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Se eu nunca deixei, nem um momento...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Com um gesto expressivo, e de suave mas
+resoluta denega&ccedil;&atilde;o, Georgina p&ocirc;s a
+m&atilde;o na b&ocirc;cca
+do pobre Carlos, como para o impedir de dizer
+uma blasphemia. Elle segurou-a com as suas
+ambas e lh'a beijou mil vezes com um arrebatamento,
+uma <em>furia</em>, n'um paroxismo de
+lagrymas
+e de solu&ccedil;os, que partiriam o cora&ccedil;&atilde;o
+ao mais
+indifferente. Commoveu-se, vacillou a inalteravel
+rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se
+<span class="pagenum">[74]</span>
+as longas palpebras de seus olhos; mas se chegou
+at&eacute; elles alguma lagryma mais rebelde, prompta
+refluiu para o cora&ccedil;&atilde;o, porque ao
+levant&aacute;-los
+outra vez e ao fix&aacute;-los tranquillamente nos do
+seu amante, aquelles olhos puros, celestes e austeros
+como os de um anjo offendido, estavam
+seccos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ella continuou:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'As tuas cartas, que n&atilde;o eram menos ternas
+nem menos apaixonadas, come&ccedil;aram todavia
+a ser menos naturaes, mais incarecidas... eram
+menos verdadeiras por f&ocirc;r&ccedil;a. Senti-o, vi-o, e
+cuidei morrer. Uma familia da minha amizade
+vinha ent&atilde;o para Portugal, accompanhei-a. Apenas
+cheguei, procurei e obtive os meios seguros
+de tranzitar pelos dous campos contendores: presagiava-me
+o cora&ccedil;&atilde;o que me havia de ser preciso.
+E foi; cheguei ao valle no dia em que tu
+o deixavas para aquella fatal ac&ccedil;&atilde;o que te ia
+custando
+a vida. Vim-te incontrar prisioneiro e meio
+morto no hospital dos feridos. Aop&eacute; de ti estava
+um frade...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Um frade! Meu Deus, se seria elle?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[75]</span> &#8213;'Era elle.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Pois tu sabes?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sei: eu disse-lhe quem era e o que tu me
+eras...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu a elle... disseste?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Disse. N&atilde;o sei se fiz mal ou bem, sei
+que me n&atilde;o importava o que fazia. Vi depois que
+me n&atilde;o ingan&aacute;ra na confian&ccedil;a que
+posera n'elle.
+Trouxemos-te para este convento, tratt&aacute;mos de
+ti, conseguimos salvar-te a vida... E em quanto
+esse cuidado me livrava de outros, fui... fui feliz.
+A tua gente... a tua familia do valle tambem
+veio para Santarem... tua av&oacute; e tua prima, Carlos...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joanninha! Joanninha est&aacute; aqui?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Est&aacute;; socega; ja t'o disse, logo a ver&aacute;s.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu! Eu para qu&ecirc;? Eu n&atilde;o quero...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[76]</span> &#8213;'Quero eu: hasde ve-la. Ja sabes que sei
+tudo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tudo o qu&ecirc;, Georgina?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Queres que t'o repitta? Repettirei. Que
+tu amas tua prima, que ella que te adora. E
+por Deus, Carlos eu ja lhe quero como se f&ocirc;ra
+minha irman. Intendes bem agora que te n&atilde;o amo?
+Comprehendes agora que tudo acabou entre n&oacute;s,
+e que n&atilde;o vejo, n&atilde;o posso ver em ti ja
+sen&atilde;o o
+esp&ocirc;so, o marido da innocente crian&ccedil;a que tomei
+debaixo da minha protec&ccedil;&atilde;o, e a quem juro
+que hasde pertencer tu?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Juras falso.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Como assim! Pois queres mais victimas?
+N&atilde;o est&aacute;s satisfeito com a minha ruina? Eu
+aomenos
+n&atilde;o sou do teu sangue. E essa velha decrepita
+que &eacute; tua av&oacute;, que duas vezes foi em
+verdade tua m&atilde;e porque te criou,&#8213;essa innocente
+que te ama na singelleza do seu cora&ccedil;&atilde;o...
+e esse pobre frade velho...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh! aqui anda elle, bem o vejo, aqui
+<span class="pagenum">[77]</span>
+anda o genio mau da minha familia. Malditto sejas
+tu, frade!'<br />
+
+
+<br />
+
+
+O desgra&ccedil;ado n&atilde;o acab&aacute;ra bem de
+pronunciar
+&eacute;stas palavras, quando a porta da alcova se abriu
+de par em par, e a rigida, ascetica figura de
+Fr. Diniz estava deante d'elle.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c9"></a>CAPITULO XXXIV.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">Carlos,
+Georgina e Fr. Diniz.&#8213;A
+peripecia do drama.&#8213;
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos estava meio sentado meio deitado n'uma
+longa cadeira de rec&ocirc;sto; Georgina em
+p&eacute;, com os bra&ccedil;os cruzados e na attitude de
+reflexiva
+tranquillidade. Um sol brilhante e ardente,
+<span class="pagenum">[80]</span>
+um sol de maio, feria os estreitos vidros da
+pequena janella que so dava luz &aacute;quelle quarto:
+a excessiva claridade era velada por uma longa e
+ampla cortina.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos lan&ccedil;ou derepente a m&atilde;o a essa cortina
+e a affastou para avivar a luz do aposento. Um
+raio agudissimo de sol foi bater direito no macerado
+rosto do frade, e reflectiu de seus olhos
+incovados, um como relampago de &iacute;ra celeste que
+fez estremecer os dous amantes.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o foi por&ecirc;m sen&atilde;o relampago;
+sumiu-se,
+apagou-se logo. Aquelles olhos ficaram mortaes,
+mudos, fixos, invidra&ccedil;ados como os de um homem
+que acabou de expirar e a quem n&atilde;o cerraram
+ainda as palpebras.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E assim mesmo aquelles olhos tinham o pod&ecirc;r
+magnetico de fixar os outros, de os n&atilde;o deixar
+nem pestanejar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Curvo, incostado a um bord&atilde;o grosseiro, o seu
+chapeo alvadio debaixo do bra&ccedil;o, o frade deu
+alguns passos tremulos para onde estavam os dous,
+arrastando a custo as s&ocirc;ltas alpercatas que davam
+<span class="pagenum"><a name="p81">[81]</a></span>
+um som ba&ccedil;o e batido, e faziam&#8213;n&atilde;o sei por
+qu&ecirc; nem como&#8213;estremecer a quem as sentia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Parou a pouca distancia, e tirando a voz fraca e
+tenue, mas vibrante e solemne, do &iacute;ntimo do
+peito, disse para Carlos:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu mal disseste-me, filho, e eu venho perdoar-te.
+Tu detestas-me, Carlos, de todos os pod&ecirc;res
+da tua alma, com toda a energia de teu
+cora&ccedil;&atilde;o; e eu venho-te dizer que te amo, que
+tom&aacute;ra dar a minha vida por ti, que do fundo
+<a href="#e8">das intranhas</a> se ergue este
+immenso amor que
+n&atilde;o tem outro egual, a pedir-te misericordia, a
+clamar-te em nome de Deus e da natureza, a pedir-te,
+por quanto ha sancto no ceo e de respeito
+na terra, que levantes essa maldic&ccedil;&atilde;o, filho,
+de cima da cabe&ccedil;a de um moribundo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram dittas em tal som estas vozes, vinham
+pronunciadas l&aacute; de dentro d'alma com tal vehemencia,
+que lh'as n&atilde;o articulavam os labios, rompiam-n'os
+ellas e sahiam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O soldado parecia desaccordado, confuso e
+sem intelligencia do que ouvia. Georgina impassivel
+<span class="pagenum">[82]</span>
+at&eacute; alli, rigida e inabalavel com o seu
+amante, sentia commover-se agora d'aquella ang&uacute;stia
+do velho. &Eacute; que partia pedras a dor que
+vinha n'aquellas fallas sepulchraes, que trassudava
+d'aquelle rosto cadaverico.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao mesmo tempo, um som confuso, um tumulto
+vago e abafado de mil sons que pareciam
+arredar-se, incontrando-se, tornando, indo e
+vindo, e dispersando-se para se tornar a unir,
+e tornando a dispersar-se emfim, reboava ao
+longe pela villa, extendia-se nas pra&ccedil;as, concentrava-se
+nas ruas, e mandava &aacute;quella solitaria e
+remota cella do convento uns echos surdos, como
+os do mar ao longe quando se retira da praia no
+murmurar melancholico que precede um temporal
+d'equinoxio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ouves esse borburinho confuso, Carlos?
+&Eacute; a tua causa que triumpha, &eacute; a d'estes loucos
+que succumbe, &eacute; a de Deus que a si mesmo se
+desamparou. A hora est&aacute; chegada, escreveram-se
+as lettras de Balthasar; a confus&atilde;o e a morte
+reinam sos e senhoras na face da terra. Eu quero
+ir morrer onde haja Deus... Perdoae-me, Senhor,
+<span class="pagenum">[83]</span>
+a blasphemia!.. onde o seu nome n&atilde;o seja
+profanado e malditto...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao canto de uma pedra, debaixo de uma &aacute;rvore
+hade ser, n'algum logar escuso d'essas
+charnecas, onde me n&atilde;o rasguem aomenos &eacute;sta
+mortalha, e m'a n&atilde;o insultem nos ultimos instantes,
+porque eu sou frade, frade, frade... o
+malditto frade! Mas frade quero morrer, e heide
+morrer. Oh! assim tivera eu vivido!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas que foi; que succedeu?'<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O resto do ex&eacute;rcito realista evacua n'este
+momento Santarem; v&atilde;o em fuga para o Alemtejo.
+Os constitucionaes venceram na Asseiceira,
+e tudo est&aacute; ditto para n&oacute;s. Para mim, Carlos,
+falta uma palavra so: querer&aacute;s tu diz&ecirc;-la?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sim tu, Carlos. Revoca as palavras terriveis
+que proferiste, e em nome de Deus, filho,
+perdoa a teu...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A Carlos revolvia-se-lhe no peito uma grande
+<span class="pagenum">[84]</span>
+lucta. O horror, a compaix&atilde;o, o odio, a piedade
+iam e vinham-lhe alternadamente do cora&ccedil;&atilde;o
+&aacute;s faces, e tornavam do rosto para o peito.
+Uma exclama&ccedil;&atilde;o involuntaria lhe rebentou
+dos labios em meio d'este combate:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Padre, padre! e quem assacinou meu pae,
+quem cegou minha av&oacute;, e quem cubriu de infamia
+a minha... a toda a minha familia?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tens raz&atilde;o, Carlos, fui eu; eu fiz tudo
+isso: mata-me. Mas oh! mata-me, mata-me por
+tuas m&atilde;os, e n&atilde;o me maldigas. Mata-me, mata-me.
+&Eacute; decreto da divina justi&ccedil;a que seja assim.
+Oh! assim meu Deus! &aacute;s m&atilde;os d'elle, Senhor!
+Seja, e a vossa vontade se fa&ccedil;a...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O frade cahiu de bru&ccedil;os no ch&atilde;o, e com as
+m&atilde;os postas e extendidas para o mancebo, clamava:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mata-me, mata-me! aqui ha pouca vida
+ja: basta que me ponhas o p&eacute; sobre o pesco&ccedil;o;
+esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na tua
+familia e que fez a sua desgra&ccedil;a e a de quantos
+o amaram. Sim, Carlos, s&ecirc; tu o executor das
+<span class="pagenum">[85]</span>
+&iacute;ras divinas. Mata-me. Tantos annos de penitencia
+e de remorsos nada fizeram; mata-me, livra-me
+de mim e da &iacute;ra de Deus que me persegue.'<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c10"></a>CAPITULO XXXV.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">
+Reuni&atilde;o de toda a familia.&#8213;Explica&ccedil;&atilde;o
+dos mysterios.&#8213;O
+cora&ccedil;&atilde;o da mulher.&#8213;Parricidio.&#8213;Carlos beija
+emfim a
+m&atilde;o a Fr. Diniz e abra&ccedil;a a pobre da
+av&oacute;.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Georgina disse para Carlos:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'D&aacute; a m&atilde;o a esse homem, levanta-o e dize-lhe
+as palavras de perd&atilde;o que te pede.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+Carlos fez um gesto expressivo de horror e de
+repugnancia. Georgina ajoelhou aop&eacute; do frade,
+tomou as m&atilde;os d'elle nas suas, e lh'as affagou com
+piedade; depois levantou-lhe o rosto, incostou-o
+a si e gradualmente o foi accalmando. O velho
+parecia uma crian&ccedil;a mimada e sentida que se vai
+accalantando nos bra&ccedil;os da m&atilde;e: agora so
+murmurava
+de vez em quando alguns solu&ccedil;os, a mais
+e a mais raros.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama;
+elle mal se tinha, ella amparava em seus bra&ccedil;os
+e contra seu peito o amortecido corpo do velho.
+E Georgina disse com aquelle som de voz irresistivel
+que as filhas de Eva herdaram de sua
+primeira m&atilde;e, e que a ella ou lh'o tinham antes
+insinado os anjos, ou o apprendeu depois da serpente,&#8213;um
+som de voz que &eacute; a &uacute;ltima e a mais
+decisiva da seduc&ccedil;&otilde;es femininas&#8213;disse:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Este homem vai morrer, Carlos: e tu
+hasde-o deixar morrer assim, <em>meu
+Carlos</em>?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todo o odio, todas as offensas se callaram, desappareceram
+deante d'aquellas palavras do anjo
+supplicante. <em>Meu Carlos</em> ditto assim,
+n&atilde;o o ouv&iacute;ra
+<span class="pagenum">[89]</span>
+elle ha muito tempo, n&atilde;o lhe p&ocirc;de resistir:
+extendeu
+os bra&ccedil;os para o frade, cahiu de joelhos aop&eacute;
+d'elle, e um so abra&ccedil;o uniu a todos tres.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Como no eterno grupo de Lacoonte, o velho e
+os dous mancebos sentiam estreitar-se das cobras
+da mesma dor, e affogavam junctos da mesma
+ang&uacute;stia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim estiveram longamente; e n&atilde;o se ouv&iacute;a
+entre elles sen&atilde;o algum gemido s&ocirc;lto, e aquelle
+sussurrar sumido das lagrymas que mais se ouve
+com o cora&ccedil;&atilde;o do que com os ouvidos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O frade disse emfim com uma voz apenas perceptivel
+de timida e de fraca:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Carlos, meu Carlos, perdoa tambem... oh
+perdoa &aacute; memoria de tua desgra&ccedil;ada
+m&atilde;e!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O mancebo saltou convulsamente como o cadaver
+na pilha galvanica. Em p&eacute;, hirto, horrivel,
+tremendo, exclamou com um brado de trov&atilde;o:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Demonio! demonio incarnado em figura
+de homem, que vieste recordar-me? Dizias bem
+<span class="pagenum">[90]</span>
+indagora, monstro: so &aacute;s minhas m&atilde;os deves
+morrer.
+E hasde.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Lan&ccedil;ou-se a um enorme velador de pau-sancto
+que lhe jazia aop&eacute;, massa terrivel d'Hercules,
+e bastante a fender craneos de ferro, quanto
+mais a descarnada caveira do frade! D'ambas
+as m&atilde;os a levava no ar; e o velho extendeu para
+elle a cabe&ccedil;a como na ancia de morrer... Georgina
+fechou involuntariamente os olhos, e um grande
+e medonho crime ia consummar-se...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dous gritos agudissimos, dous gritos de desesp&ecirc;ro
+e de terror, d'aquelles que so sahem da b&ocirc;cca
+do homem quando suspenso entre a morte e
+a vida&#8213;soaram repentinamente no apposento;
+uma velha decrepita e meia morta, arrastada por
+uma crian&ccedil;a de pouco mais de dezeseis annos,
+estava deante de Carlos, e ambas cubriam com
+seus debeis corpos a fragil e extenuada figura
+da sua victima.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Filho, meu filho!' arrancou a velha com
+stertor do peito: '&eacute; teu pae meu filho. Este homem
+&eacute; teu pae, Carlos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[91]</span>
+O ponderoso velador cahiu inerte das m&atilde;os do
+mancebo, e rolou pesado e ba&ccedil;o pelo pavimento.
+Carlos cahiu por terra sem sentidos. De um pulo
+Georgina estava aop&eacute; d'elle, e o fez incostar
+na longa cadeira de bra&ccedil;os. Estava lavado em sangue;
+era uma ferida do pesc&ocirc;&ccedil;o que o excesso
+da commo&ccedil;&atilde;o lhe fizera rebentar. Os dous velhos
+vieram ajoelhar-se aop&eacute; d'elle. As duas mulheres
+mo&ccedil;as lidavam pelo restaurar e lhe estancar o
+sangue. A cambraia dos len&ccedil;os, as rendas do collo
+e das cabe&ccedil;as, tudo se fez em ataduras e compressas:
+o sangue parou emfim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Admiravel belleza do cora&ccedil;&atilde;o feminino, generosa
+qualidade que todos seus infinitos defeitos
+faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam
+esse homem. Esse homem n&atilde;o merecia tal
+amor: n&atilde;o, por Deus! o monstro amava-as a ambas:
+est&aacute; tudo ditto. E ellas que o sabiam, ellas
+que o sentiam, e que o julgavam digno de mil mortes,
+ellas rivalizavam de cuidados e de ancia para
+o salvarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+De tanto n&atilde;o somos capazes n&oacute;s.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E por isso admir&acirc;mos tanto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[92]</span>
+E perdo&acirc;mos tanto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E esquec&ecirc;mos tanto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas amar tanto, n&atilde;o sabemos: verdade, verdade...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Am&acirc;mos <em>melhor</em>; sim, isso
+sim: <em>tanto</em> n&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O mancebo permanecia em deliquio. Fr. Diniz
+e a velha rezavam. Georgina e Joanninha&#8213;ja
+vereis que era Joanninha&#8213;olharam uma para a
+outra, coraram e ficaram suspensas. A ingleza
+extendeu a m&atilde;o &aacute; amavel crian&ccedil;a,
+estremeceu
+involuntariamente, mas disse-lhe com firmeza:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O ditto ditto, Joanninha! Eu ja o n&atilde;o amo;
+prometto.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu amo-o cada vez mais, Georgina: elle
+&eacute; tam infeliz!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Juras-me tu de o n&atilde;o deixar, de velar
+por elle sempre, de o defender de si mesmo que
+&eacute; o peior inimigo que tem?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[93]</span> &#8213;'Se juro!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ent&atilde;o adeus, Joanninha! Eu estou de mais
+aqui. Ja tenho ouvido o que n&atilde;o devia ouvir. Os
+segredos da tua familia n&atilde;o me pertencem. O
+cora&ccedil;&atilde;o d'esse homem n&atilde;o &eacute;
+meu, nem o quero.
+&Eacute; um nobre e grande cora&ccedil;&atilde;o,
+Joanninha; mas...
+N&atilde;o te deixes dominar por elle se o queres segurar.
+Adeus!&#8213;Santarem est&aacute; desamparada pelos
+realistas; eu vou para Lisboa. Consola tua
+boa av&oacute;, e esse pobre velho. Elle n&atilde;o
+&eacute; tam
+criminoso, estou certa...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh n&atilde;o! Carlos cuida-o assassino de seu
+pae; e &eacute; falso. Minha av&oacute; ja me disse tudo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Falso!' murmurou Carlos sem abrir os
+olhos: '&eacute; falso? Pois n&atilde;o foi elle que matou meu
+pae?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o, filho, clamou a velha: 'n&atilde;o, meu
+filho; teu pae &eacute; este infeliz.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E minha m&atilde;e?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tua m&atilde;e... e eu somos duas desgra&ccedil;adas.
+<span class="pagenum">[94]</span>
+Que mais queres saber? Tua m&atilde;e amou esse homem...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ah!' disse Carlos: 'ah!' e abriu os
+olhos pasmados para a av&oacute; e para o frade que
+cravaram os seus no ch&atilde;o, e ficaram como dous
+r&eacute;os na presen&ccedil;a do seu inflexivel juiz.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas esse homem que &eacute;... que por
+f&ocirc;r&ccedil;a
+querem que seja meu... meu pae... Sancto Deus!
+elle matou o outro.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Defendi-me, foi defendendo &eacute;sta vida miseravel...
+Oh nunca eu o fizera! E paraqu&ecirc;?
+Paraque quiz eu viver? Para isto!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E meu tio, o pae de Joanninha? Tambem
+esse era preciso que morresse?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ambos se junctaram para me assassinar, e
+me accommetteram atrai&ccedil;oadamente na charneca.
+N&atilde;o os conheci; foi de noite escura e cerrada.
+Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgra&ccedil;a
+de salvar a minha vida &aacute; custa da d'elles.
+Filho, filho, n&atilde;o queiras nunca sentir o que eu
+senti, quando pegando, um a um, n'esses cadaveres
+<span class="pagenum">[95]</span>
+para os lan&ccedil;ar no rio, conheci as minhas
+victimas... Era hynverno, a cheia ia de valle a
+monte: quando abateu e se acharam os corpos ja
+meios desfeitos, ninguem conheceu a morte de
+que morreram; passaram por se ter affogado.
+Ninguem mais soube a verdade sen&atilde;o eu&#8213;e tua
+infeliz m&atilde;e a quem o disse para meu castigo, a
+quem vi morrer de pezar e de remorsos, que
+expirou nos meus bra&ccedil;os chorando por elle, e
+maldizendo-me a mim. N&atilde;o ser&iacute;a bastante castigo,
+meu filho?&#8213;N&atilde;o foi, n&atilde;o. Este burel que
+ha tantos annos me ro&ccedil;a no corpo, estes cilicios
+que m'o desfazem, os jejuns, as vigilias, as
+ora&ccedil;&otilde;es
+nada obtiveram ainda de Deus. A sua &iacute;ra
+n&atilde;o me deixa, a sua cholera vai at&eacute; a sepultura
+s&ocirc;bre mim... Se me perseguir&aacute; al&eacute;m
+d'ella!..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fez-se aqui um silencio horroroso: ninguem
+respirava; o frade proseguiu:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o me dei por bastante castigado com
+a agonia de tua m&atilde;e, a mais horrorosa e desesperada
+agonia que ainda presenciei, oh meu
+Deus!.. Tive o cruel &acirc;nimo de explicar a tua
+av&oacute; as negras circumstancias d'aquella morte, e
+de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do
+<span class="pagenum">[96]</span>
+meu crime. Rasguei-lhe o cora&ccedil;&atilde;o, e vi-lhe sahir
+sangue e agua pelos olhos, at&eacute; que lhe cegaram.
+Que mais queres? Cuidei que podia morrer
+sem passar por &eacute;sta derradeira
+expia&ccedil;&atilde;o. Deus
+n&atilde;o o quiz. Aqui estou penitente a teus p&eacute;s,
+filho.
+Aqui est&aacute; o assassino de tua m&atilde;e, de seu marido,
+de teu tio... o algoz e a deshonra de tua familia
+toda.&#8213;Faze de mim como f&ocirc;r tua vontade.
+Sou teu pae...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Meu pae!.. Misericordia meu Deus!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Misericordia, filho, e perd&atilde;o para teu pae!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos levantou-se deliberadamente, veio ao velho,
+tomou-o a p&ecirc;so nos bra&ccedil;os, foi sent&aacute;-lo
+na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se
+de joelhos, beijou-lhe a m&atilde;o em silencio. Depois
+foi abra&ccedil;ar-se com a av&oacute;, que o apalpava
+soffregamente
+com as m&atilde;os tr&eacute;mulas, e murmurava
+baixo:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Agora sim, ja posso morrer, ja posso
+morrer porque o abracei, porque o senti juncto
+a mim, o meu filho, o filho da minha filha querida...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[97]</span>
+Carlos &eacute; que n&atilde;o proferiu mais palavra;
+tinha-se-lhe
+rompido corda no cora&ccedil;&atilde;o, que ou
+lhe quebr&aacute;ra o sentimento ou lh'o n&atilde;o deixava
+expressar. Sahiu da cella fazendo signal que vinha
+logo: mas esperaram-n'o em v&atilde;o... n&atilde;o tornou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+D'ahi a tres dias, veio uma carta d'elle, de
+juncto d'Evora onde estava com o ex&eacute;rcito constitucional.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c11"></a>CAPITULO XXXVI.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Que n&atilde;o se acabou a historia
+de Joanninha.&#8213;Processo ao
+cora&ccedil;&atilde;o de Carlos.&#8213;Immoralidade.&#8213;Defeito de
+organiza&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o &eacute; immoralidade.&#8213;<a href="#e9">Horror</a>,
+horror, maldic&ccedil;&atilde;o!&#8213;Um
+bar&atilde;o que n&atilde;o pertence &aacute; familia
+lineana dos bar&otilde;es
+propriamente dittos&#8213;Porta de Atamarma.&#8213;Senatus
+consulto
+santareno.&#8213;Nossa Senhora da Victoria
+<em>afforada</em>.&#8213;Threnos
+s&ocirc;bre Santarem.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pois ja se acabou a historia de Joanninha?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o, de todo ainda n&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[100]</span> &#8213;Falta muito?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tambem n&atilde;o &eacute; muito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Seja o que for, acabemos, que est&aacute; a
+gente impaciente por saber como se concluiu tudo
+isso, o que fez o frade, o que foi feito da
+ingleza, Joanninha e a av&oacute; que caminho levaram,
+e o pobre Carlos se...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pois interessam-se por Carlos, um homem
+immoral, sem principios, sem cora&ccedil;&atilde;o, que fazia
+a c&ocirc;rte&#8213;fazer a c&ocirc;rte ainda n&atilde;o
+&eacute; nada&#8213;que
+amava duas mulheres ao mesmo tempo?
+Horror, horror! como dizem os dramaticos romanticos:
+horror e maldic&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Horror seja, horror ser&aacute;... e horror &eacute;,
+sem d&uacute;vida. E maldic&ccedil;&atilde;o que deitaram
+ao pobre
+homem. Mas immoralidade! Immoralidade
+&eacute; inganar, &eacute; mentir, &eacute;
+atrai&ccedil;oar: e elle n&atilde;o o
+fez. Desgra&ccedil;a grande ter um cora&ccedil;&atilde;o
+assim; mas
+n&atilde;o me digam que &eacute; pr&oacute;va de o
+n&atilde;o ter. Eu
+digo que elle tinha cora&ccedil;&atilde;o de mais: o que
+&eacute;
+um defeito e grande, &eacute; um estado pathologico
+e anormal. Physicamente produz a morte; e moralmente
+<span class="pagenum">[101]</span>
+p&oacute;de matar tambem o sentimento. Bem
+o creio: mas &eacute; molestia commum, e com que
+vai vivendo muita gente, at&eacute; que um dia...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Um dia, o orgam, que progressivamente
+se foi dilatando, n&atilde;o p&oacute;de funccionar mais, cessa
+a circula&ccedil;&atilde;o e a vida. Deve ser horrivel morte!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fallam physicamente?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Physicamente. Mas no moral anda pelo
+mesmo. E se esse &eacute; o defeito de Carlos...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sentir muito?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o; ter sentido muito: que o
+cora&ccedil;&atilde;o,
+como orgam moral, n&atilde;o se dilata a esse ponto
+sen&atilde;o pelo demaziado excesso e violencia de
+sensa&ccedil;&otilde;es
+que o gastaram e relaxaram. Se esse &eacute; o
+defeito, a molestia de Carlos, digo que ja sei o
+fim da sua historia sem a ouvir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o qual foi?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que um bello dia cahiu no indifferentismo
+absoluto, que se fez o que chamam sceptico,
+<span class="pagenum">[102]</span>
+que lhe morreu o cora&ccedil;&atilde;o para todo o affecto
+generoso,
+e que deu em homem politico ou em
+agiota.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;P&oacute;de ser.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas qual das duas foi, deputado ou bar&atilde;o?
+queremos saber.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Saber&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Queremos ja.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E se fossem ambas?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh horror, horror, maldic&ccedil;&atilde;o, inferno!
+Ferros em braza, demonios pretos, vermelhos,
+azues, de todas as c&ocirc;res! Aqui sim que toda a
+artelharia grossa do romantismo deve cahir em
+massa s&ocirc;bre esse monstro, esse...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Esse qu&ecirc;? Pois em se acabando o
+cora&ccedil;&atilde;o
+&aacute; gente...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu n&atilde;o creio n'isso. Acaba-se l&aacute; o
+cora&ccedil;&atilde;o
+a ninguem!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[103]</span>
+Houve gargalhada geral &aacute; custa do pobre incredulo,
+e levantamo'-nos para ir ver o Sancto-milagre,
+que era a hora apprazada, e estava o
+prior &aacute; nossa espera.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute;manhan o fim da historia da menina dos olhos
+verdes.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No caminho incontr&aacute;mos o nosso antigo amigo,
+o bar&atilde;o de P.&#8213;bar&atilde;o de outro genero, e
+que n&atilde;o pertence &aacute; familia lineana que n'esta
+obra
+procur&aacute;mos classificar para
+illustra&ccedil;&atilde;o do seculo&#8213;cavalheiro
+generoso, e typo bem raro ja hoje
+da antiga nobreza das nossas provincias, com todos
+os seus brios e com toda a sua cortezia
+d'outro tempo, que em tanto rel&ecirc;vo destaca da
+grosseria villan d'essas notabilidades improvisadas...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fomos de passagem observando algumas das
+mais interessantes coisas d'aquella interessantissima
+terra em que se n&atilde;o p&oacute;de dar um passo sem
+que a reflex&atilde;o ou a imagina&ccedil;&atilde;o
+incontre objecto
+<span class="pagenum">[104]</span>
+para se entreter. Inclinando um pouco &aacute; direita,
+d&eacute;mos na celebrada porta de Atamarma.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por aqui entrou D. Affonso Henriques, por
+aqui foi aquella destemida surpreza que lhe intregou
+Santarem, e acabou para sempre com o
+dominio arabe n'esta terra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os illustrados municipaes Santarenos t&ecirc;em tido
+por vezes o nobre e generoso pensamento de
+demolir &eacute;sta porta! o arco de triumpho de Affonso
+Henriques, o mais nobre monumento de
+Portugal!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A idea &eacute; digna da epocha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Felizmente parece que tem faltado o dinheiro
+para a demoli&ccedil;&atilde;o; e o senatus consulto dos
+dignos
+padres conscriptos n&atilde;o p&ocirc;de ainda executar-se.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o que eu creia este arco o genuino arco
+moiresco por onde entraram os bravos de D. Affonso;
+mas creio que essa porta da antiga villa
+se foi reparando, concertando e conservando em suas
+successivas altera&ccedil;&otilde;es, at&eacute; chegar ao
+que hoje est&aacute;:
+<span class="pagenum">[105]</span>
+e ainda assim como est&aacute;, &eacute; um
+monumento
+de respeito que so barbaros pensariam desacatar
+e destruir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Porcima d'ella est&aacute; uma capellinha de N. S.
+da Victoria: quer a tradic&ccedil;&atilde;o que primeiro
+erguida
+e consagrada &aacute; Virgem pelo heroico fundador
+da monarchia e da independencia portugueza.
+Este &eacute; um dos muitos pontos em que a religi&atilde;o
+das tradi&ccedil;&otilde;es deve ser respeitada e crida
+sem grandes exames, porque nada ganha a cr&iacute;tica
+em p&ocirc;r d&uacute;vidas, e o espirito nacional perde
+muito em as acceitar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deix&aacute;-la estar a Virgem da Victoria s&ocirc;bre o
+arco de Affonso Henriques. Prostremo'-nos e adoremos,
+como bons portuguezes, o symbolo da f&eacute;
+christan e da f&eacute; patriotica levantado pelas m&atilde;os
+insanguentadas do triumphador!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas ser&iacute;a elle ou n&atilde;o que levantou essa
+capellinha?
+os documentos faltam, os escriptores
+contemporaneos guardam silencio; a historia deve
+ser rigorosa e verdadeira...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deve: e os grandes factos importantes que fazem
+<span class="pagenum">[106]</span>
+epocha e s&atilde;o balizas da historia de uma
+na&ccedil;&atilde;o,
+tambem eu os regeitarei sem d&oacute; quando lhes
+faltarem essas auth&ecirc;nticas indispensaveis. Agora
+as circumstancias, para assim dizer, episodicas
+de um grande feito sabido e provado, quem as
+conservar&aacute; sen&atilde;o forem os poetas, as
+tradi&ccedil;&otilde;es,
+e o grande poeta de todos, o grande guardador
+de tradi&ccedil;&otilde;es, o povo?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem,
+e em muitos outros sanctos e sanctas, que a religi&atilde;o
+do povo tem por esses nichos e por essas
+capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar
+memorias de que se n&atilde;o lavrou outro
+auto, n&atilde;o se escreveu outra escriptura, de que
+n&atilde;o ha outro documento, e que os frades chroniqueiros
+n&atilde;o julgaram dever escrever no livro
+de ter&ccedil;a ou de noa, em nenhum livro preto nem
+incarnado, porque o tinham por melhor escripto
+e mais bem guardado nos livros de pedra em
+que estava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Coitados! n&atilde;o contaram com os apperfei&ccedil;oadores,
+reparadores e demolidores das futuras
+civiliza&ccedil;&otilde;es
+que, para p&ocirc;r as coisas em ordem, tiram
+primeiro tudo do seu logar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[107]</span>
+A camara de Santarem, n&atilde;o podendo demolir
+o arco, tomou um meio termo que app&oacute;sto
+que ninguem &eacute; capaz de adivinhar. Afforou a capella
+por cima d'elle, com altar, com sanctos e
+tudo: e assim esteve afforada alguns annos, n&atilde;o
+sei paraqu&ecirc; nem porqu&ecirc;; o caso &eacute; que
+esteve.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O anno passado por&ecirc;m (1842) come&ccedil;ou a
+manifestar-se
+&eacute;sta reac&ccedil;&atilde;o religiosa que os
+especuladores
+quizeram logo converter em ganancia pessoal,
+descontando-a no mercado das agiotagens
+facciosas; mas perdem o seu tempo, inda bem!
+Veio, digo, &eacute;sta reac&ccedil;&atilde;o nas ideas das
+gentes;
+e a capella da Senhora da Victoria s&ocirc;bre o arco,
+n&atilde;o sei tambem como nem porqu&ecirc;, foi
+<em>desafforada</em>,
+e restituida ao culto popular.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Subimos a ver a capella por dentro: &eacute; um
+rifacimento ridiculo e miseravel, sem nenhuma
+da solemnidade do antigo, nem elegancia moderna
+alguma.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desappontou-me tristemente. Vamos ao Sancto-milagre
+depressa, que me quero reconciliar
+com Santarem: e ja come&ccedil;a a ser difficil.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[108]</span>
+Mas &eacute; injusti&ccedil;a minha. Que culpa tem ella,
+coitada?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ai Santarem, Santarem, abandonaram-te, mataram-te,
+e agora cospem-te no cadaver.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Santarem, Santarem, levanta a tua cabe&ccedil;a coroada
+de t&ocirc;rres e de mosteiros, de palacios e de
+templos!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: e
+ver&aacute;s como eras bella e grande, ricca e poderosa
+entre todas as terras portuguezas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza,
+e mira-te no Tejo: ver&aacute;s como ainda s&atilde;o
+grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te
+restam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua
+foice, sacode os vermes que te poluem, esmaga
+os reptis que te corroem, as osgas torpes que
+te babam, as lagartixas pe&ccedil;onhentas que se passeiam
+atrevidas por teu sepulchro deshonrado.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ergue-te Santarem, e dize ao ingrato Portugal
+<span class="pagenum">[109]</span>
+que te deixe em paz ao menos nas tuas ruinas,
+myrrhar tranquillamente os teus ossos gloriosos;
+que te deixe em seus cofres de marmore,
+sagrados pelos annos e pela venera&ccedil;&atilde;o antiga,
+as cinzas dos teus capit&atilde;es, dos teus lettrados
+e grandes homens.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dize-lhe que te n&atilde;o vendam as pedras de teus
+templos, que n&atilde;o fa&ccedil;am palheiros e estrebarias de
+tuas egrejas; que n&atilde;o mandem os soldados jogar
+a pella com as caveiras dos teus reis, e a bilharda
+com as cannellas dos teus sanctos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres,
+os teus seminarios... tudo, menos o intulho
+e a cali&ccedil;a, as immundices e os monturos que
+deixaram accumular em tuas ruas, que espalharam
+por tuas pra&ccedil;as.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Santarem, nobre Santarem, a Liberdade n&atilde;o &eacute;
+inimiga da religi&atilde;o do ceo nem da religi&atilde;o da
+terra. Sem ambas n&atilde;o vive, degenera, corrompe-se,
+e em seus proprios desvarios se suicida.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A religi&atilde;o do Christo &eacute; a m&atilde;e da
+Liberdade,
+a religi&atilde;o do Patriotismo a sua companheira. O
+<span class="pagenum">[110]</span>
+que n&atilde;o respeita os templos, os monumentos de
+uma e outra, &eacute; mau amigo da Liberdade, deshonra-a,
+deixa-a em desamparo, intrega-a &aacute; irris&atilde;o
+e ao odio do povo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="dots"></div>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="dots"></div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vamos ao Sancto-milagre.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c12"></a>CAPITULO XXXVII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">
+A Gra&ccedil;a e sua bella fachada gothica.&#8213;Sepultura de
+Pedr'alvares
+Cabral.&#8213;Outro bar&atilde;o que n&atilde;o &eacute; dos
+assignalados.&#8213;Egreja
+do Sancto-milagre.&#8213;Bellos medalh&otilde;es mosarabes.&#8213;De
+como, chegando o prior e o juiz, houve o
+A. vista do Sancto-milagre, e com que solemnidades.&#8213;Monumento
+da muito alta e poderosa princeza a infanta D.
+Maria da Assump&ccedil;&atilde;o.&#8213;Casa onde succedeu o
+milagre,
+convertida em capella de stylo philipino.&#8213;O homem das
+botas, e o que tem elle que haver com o Sancto-milagre
+de Santarem.&#8213;Admiravel e graciosa esperteza da regencia
+do Rocio.&#8213;Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos
+folgas&otilde;es; os melhores governos
+possiveis.&#8213;Volta o paladio
+scalabitano de Lisboa para Santarem.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Inclin&aacute;mos o nosso caminho para a esquerda,
+e fomos passar deante do arrendado e elegante
+frontispicio gothico da Gra&ccedil;a. A ausencia
+de n&atilde;o sei que regedor, ou insignificante personagem
+<span class="pagenum">[112]</span>
+que n&atilde;o respeita os templos, os monumentos de
+de egual importancia que tem as chaves
+da egreja e convento, nos fez perder toda a
+esperan&ccedil;a de visitar a sepultura de Pedr'alvares
+Cabral que alli jaz, assim como outras bellas e
+interessantes antiguidades de n&atilde;o menor pre&ccedil;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fomos seguindo at&eacute; casa do bar&atilde;o d'A., outro
+illegitimo, porque n&atilde;o pertence aos bar&otilde;es
+assignalados
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Que, sem passar al&eacute;m da
+Taprobana,<br />
+
+
+No velho Portugal edificaram<br />
+
+
+Novo reino que tanto sublimaram.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+Incontr&aacute;mo-lo prompto a accompanhar-nos, e a
+presidir, como juiz da irmandade que &eacute;, &aacute; grande
+cerimonia da exposi&ccedil;&atilde;o e ostens&atilde;o do
+Sancto-milagre.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Junctos desc&eacute;mos &aacute; egreja; que &eacute;
+perto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A egreja pequena e do peior g&ocirc;sto moderno por
+dentro e por f&oacute;ra. Notavel n&atilde;o tem nada se
+n&atilde;o uns
+quatro medalh&otilde;es de pedra lavrada com bustos de
+homens e mulheres em rel&ecirc;vo q
+A egreja pequena e do peior g&ocirc;sto moderno por
+dentro e por f&oacute;ra. Notavel n&atilde;o tem nada se
+n&atilde;o uns
+quatro medalh&otilde;es de pedra lavrada com bustos de
+homens e mulheres em rel&ecirc;vo que visivelmente
+pertenceram a edifica&ccedil;&atilde;o antiga, e que
+actualmente
+<span class="pagenum">[113]</span>
+est&atilde;o incrustados na tosca alvenaria do cruzeiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os bustos s&atilde;o de puro e finissimo lavor gothico,
+altos de rel&ecirc;vo e desenhados com uma
+franqueza que se n&atilde;o incontra em esculpturas
+muito posteriores.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+S&atilde;o talvez reliquias da primitiva egreja do
+Sancto-milagre que nas successivas reedifica&ccedil;&otilde;es
+se teem ido conservando. Aben&ccedil;oado seja o escrupuloso
+que as salvou d'este &uacute;ltimo
+<em>melhoramento</em>
+que houve no desgra&ccedil;ado e desgra&ccedil;ioso templo:
+o que n&atilde;o foi ha muitos annos por certo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabe&ccedil;as por
+que &eacute; a phrase vulgar e impropria usada de toda
+a gente: segundo ja observei n'outra parte, com
+mais exac&ccedil;&atilde;o se dev&ecirc;ra dizer mosarabe.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens,
+vieram uns poucos de irm&atilde;os com tochas, distribuiram-nos
+a cada um de n&oacute;s a sua, e processionalmente
+nos dirigimos &aacute; porta lateral do
+altar-mor, da qual se sobe, por uma escada ass&aacute;s
+larga e commoda, &aacute; especie de camarim
+<span class="pagenum">[114]</span>
+que est&aacute; parallelo com o mais alto do throno
+em que perpetuamente se conserva o grande
+paladio santareno.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz
+e estola; chegados ao alto, ajoelh&aacute;mos em roda d'elle
+que subiu a uns degrausinhos, abriu, com a chave
+dourada que trazia pendente ao pescosso, uma
+como porta de sacrario, depois ajoelhou, incensou,
+tornou a ajoelhar, disse alguns versetos a
+que respondeu o sacrist&atilde;o, e finalmente tirou de
+seu repositorio uma especie de ambula de ouro
+de f&aacute;brica antiga, mas n&atilde;o mais antiga que o
+decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando
+muito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois de nos inclinarmos e receber a ben&ccedil;am
+que o padre nos deitou com a reliquia, foi-nos
+permittido erguer-nos, e chegar perto para ver
+e observar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados
+se descobre comeffeito o pequeno vulto
+amarellado-escuro que piedosamente se cr&ecirc; ser
+o resto da particula consagrada qu
+Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados
+se descobre comeffeito o pequeno vulto
+amarellado-escuro que piedosamente se cr&ecirc; ser
+o resto da particula consagrada que a judia roub&aacute;ra
+para seus feiti&ccedil;os.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[115]</span>
+Escuso contar a historia do Sancto-milagre de
+Santarem que toda a gente sabe. O bom do
+prior, ex-frade trino gordo e bem conservado,
+n&atilde;o nos perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos
+de ouvir com a maior compunc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Incerrada outra vez a ambula com as mesmas
+solemnidades, entr&aacute;mos em conversa&ccedil;&atilde;o
+com o
+prior.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N'aquelle mesmo camarim juncto &aacute; devota
+reliquia se conservaram, por espa&ccedil;o de cinco ou
+seis annos, se bem me recordo do que o bom
+do parocho nos contou, os restos mortaes da
+senhora infanta D. Maria da Assump&ccedil;&atilde;o, que
+fallec&ecirc;ra em Santarem nos ultimos mezes da
+occupa&ccedil;&atilde;o d'aquella villa pelas
+f&ocirc;r&ccedil;as realistas.
+O cadaver, mal imbalsemado e com m&aacute;s drogas,
+foi mettido n'um caix&atilde;o de folha de Flandres.
+Em pouco tempo a corrup&ccedil;&atilde;o estragou e rompeu
+a folha, e uma infec&ccedil;&atilde;o terrivel apestava a
+egreja. Soffreu-se isto annos, representou-se ao
+gov&ecirc;rno por vezes, mas nenhuma
+resolu&ccedil;&atilde;o se
+p&ocirc;de obter. At&eacute; que afinal, declarando o prior
+que, se n&atilde;o mandavam tomar conta d'aquelles
+tristes restos da pobre princeza, elle se via obrigado
+<span class="pagenum">[116]</span>
+a mett&ecirc;-los na terra, foi-lhe respondido
+que fizesse como intendesse; e elle intendeu
+que os devia sepultar no cruzeiro da
+egreja, como fez, do lado da epistola, isto &eacute;,
+&aacute; direita.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distinc&ccedil;&atilde;o
+nem epitaphio, a muito alta e poderosa
+princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso
+principe D. Jo&atilde;o o VI, rei de Portugal,
+imperador do Brazil, e da conquista e navega&ccedil;&atilde;o
+etc.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim &eacute; o mundo, as suas grandezas e as
+suas gl&oacute;rias!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A visita ao Sancto-milagre n&atilde;o &eacute; completa
+sem se ir ver a casa onde elle se operou. Conservou-se
+ella por alguns seculos em grande venera&ccedil;&atilde;o,
+e em mil seiscentos e tantos se converteu
+porfim em capella. Hoje est&aacute; abandonada,
+chove em toda ella, e apenas tem uma m&aacute; porta
+que a defende das incurs&otilde;es dos animaes. Pena
+e desleixo grande, porque &eacute; elegante e graciosa
+a capellinha, lavrada de bons marmores,
+no melhor g&ocirc;sto do decimo-sexto seculo, de
+renascen&ccedil;a ja muito adiantada no classico: &eacute;
+<span class="pagenum">[117]</span>
+um verdadeiro typo do stylo philippino, que
+tanto predomina n'essa epocha em toda a peninsula.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas
+vezes tem andado ligada com a historia do
+reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da
+independencia, veio prender com um dos factos
+mais importantes, e tambem com a mais curiosa
+e comica aventura de que em Lisboa ha memoria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Alludo nada menos que ao 'homem das botas.'
+E perdoem-me as senhoras beatas a irreverencia
+apparente, que bem sabem n&atilde;o ser eu de motejar
+com as coisas s&eacute;rias e sanctas. Mas o facto
+&eacute; que a historia do Sancto-milagre est&aacute; ligada
+com a c&eacute;lebre historia do 'homem das botas.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a
+posteridade, para cuja instruc&ccedil;&atilde;o principalmente
+escrevo este douto livro, que pela invas&atilde;o de
+Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado
+recolher a Lisboa, e ahi se conservou alguns
+annos at&eacute; muito depois da completa retirada dos
+francezes.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p118">[118]</a></span>
+Passado todo o perigo de que o ex&eacute;rcito invasor
+roubasse&#8213;ou profanasse&#8213;que era o mais
+provavel&#8213;a sancta reliquia, come&ccedil;ou a reclam&aacute;-la
+o senado e povo santareno, e a mostrar
+muito pouca vontade de lh'a restituir o senado e
+povo ulyssiponense. Era uma quest&atilde;o d'entre Alba
+e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos
+Numas da regencia do Rocio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em poucas preplexidades tam graves se viu
+<a href="#e10">aquelle</a> pobre
+gov&ecirc;rno que tantas teve, e de
+quasi
+todas se sahiu tam mal.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o assim d'esta, que a evitou com o mais
+inesperado e admiravel stratagema, <a href="#e11">digno
+de
+ornar</a> os maravilhosos fastos do grande Aaroun
+el-Raschid, ou de qualquer outro principe de
+bom humor, d'esses poucos felizes que em felizes
+tempos reinaram a brincar, e zombaram com
+o seu povo, mas fazendo-o rir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois, senhores, apertada se via a regencia
+d'estes reinos com a restitui&ccedil;&atilde;o do
+Sancto-milagre
+que era de justi&ccedil;a fazer-se a Santarem, mas
+que Lisboa recusava, e amea&ccedil;ava impedir. Temia-se
+albor&ocirc;to no povo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p119">[119]</a></span>
+N&atilde;o sei de quem foi o alvitre, mas foi de magan&atilde;o
+de bom g&ocirc;sto; e bom g&ocirc;sto teve tambem o
+gov&ecirc;rno em o acceitar e approveitar. Para o dia em
+que o Sancto-milagre devia sahir de <a href="#e12">Lisboa
+Tejo</a>
+acima, e que se esperava fosse com grande solemnidade
+e pompa ecclesiastica,&#8213;fez-se annunciar
+por cartazes que um fulano de tal passaria
+o rio, de Lisboa a Almada, em umas botas
+de corti&ccedil;a nas quaes se teria direito e inchuto,
+navegando a p&eacute; sem mais embarca&ccedil;&atilde;o,
+vela nem
+remo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A logra&ccedil;&atilde;o era gorda e grande; melhor e mais
+depressa foi ingullida. No dia apprazado despovoou-se
+a capital, e uns em barcos outros por navios,
+outros por essas praias abaixo, tudo se encheu
+de gente de todas as classes, e todos passaram
+o melhor do dia &aacute; espera do homem das botas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No emtanto, muito surrateiramente imbarcava
+o Sancto-milagre no seu barco de agua-arriba,
+e navegava com vento e mar&eacute; para as ditosas
+ribeiras de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle
+em Lisboa sen&atilde;o quando constou da sua chegada
+<span class="pagenum">[120]</span>
+a Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram
+aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de
+soccapa: e nunca tam innocentemente se riu gov&ecirc;rno
+algum de ter inganado o povo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&oacute;s celebr&aacute;mos a historia como ella merecia,
+e fomos jantar &aacute; Alca&ccedil;ova, para irmos de tarde
+ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu inclyto
+alfageme.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c13"></a>CAPITULO XXXVIII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Jantar nos reaes pa&ccedil;os de
+Affonso
+Henriques.&#8213;Saut&eacute;s e salmis.&#8213;Desce
+o A. &aacute; Ribeira de Santarem em busca da tenda
+do Alfageme.&#8213;A espada do Condestavel.&#8213;Desappontamento.&#8213;O
+sal&atilde;o elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas.
+Os fosseis.&#8213;Tudo melhor quando visto de longe.&#8213;O
+baile p&uacute;blico.&#8213;Soir&eacute;e de piano
+obrigado.&#8213;Theatro.
+Desafina&ccedil;&otilde;es da prima-dona. Syphlis incuravel das
+traduc&ccedil;&otilde;es.
+Destemp&ecirc;ro dos originaes.&#8213;A x&aacute;cara de rigor, o
+subterraneo e o cemiterio.&#8213;Sublime gallimathias do ridiculo.&#8213;A
+bella e necessaria palavra 'gallimathias.'&#8213;Se as
+saudades matam.&#8213;Perigo de applicar o scalpello ou a lente
+ao mais perfeito das coisas humanas.&#8213;De como a logica
+&eacute; a mais perniciosa de todas as incoherencias.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom
+h&oacute;spede, nos regios pa&ccedil;os de Affonso Henriques,
+um esplendido jantar a que assistiram
+quasi todos os cavalheiros da terra.&#8213;N&atilde;o quero
+<span class="pagenum">[122]</span>
+dizer as notabilidades, por ser palavra peralvilha
+a que tenho invencivel zanga.&#8213;As iguarias
+de leg&iacute;tima eschola portugueza, n&atilde;o menos
+saborosas e delicadas por apparecerem estremes
+de <em>saut&eacute;s e salmis</em>
+extrangeirados. Brilharam s&ocirc;bre
+tudo os productos das duas grandes vendimas
+rivaes, do Ribatejo e Ribadouro. Foi largo
+e alegre o jantar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acab&aacute;mos tarde, mont&aacute;mos logo a cavallo,
+e pela porta de Atamarma
+desc&eacute;mos &aacute; Ribeira;
+era quasi sol p&ocirc;sto quando la cheg&aacute;mos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; o suburbio democratico da nobre villa, hoje
+o ricco e o forte d'ella. Faz lembrar aquellas aldeas
+que se criaram &aacute; sombra dos castellos feudaes
+e que, libertas, depois, da oppressora protec&ccedil;&atilde;o,
+cresceram e ingrossaram em substancia
+e f&ocirc;r&ccedil;a: o castello, esse est&aacute; vazio e
+em ruinas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por aqui se faz quasi todo o commercio da Extremadura
+e Beira com o Alemtejo. Os habitantes
+laboriosos e activos conservam os antigos brios e
+independencia do character primitivo: &eacute; a unica
+parte viva de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p123">[123]</a></span>
+Cruz&aacute;mos a povoa&ccedil;&atilde;o em todos os
+sentidos,
+procurando rastrear algum vestigio, <a href="#e13">confrontar
+algum</a> s&iacute;tio onde podessemos collocar, pela mais
+atrevida supposi&ccedil;&atilde;o que fosse, a tenda do nosso
+alfageme
+com as suas espadas bem 'corregidas', as suas
+armaduras luzentes e bem postas&#8213;e o joven
+Nun'alvares passeando alli por p&eacute;, ao longo do
+rio&#8213;como diz a chronica&#8213;namorado d'aquella
+perfei&ccedil;&atilde;o de trabalho, e dando a 'correger'
+a bella espada velha de seu pae ao rustico propheta
+que tantos vaticinios de grandeza lhe fez,
+que o saudou condestavel, conde d'Ourem e salvador
+da sua patria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nada pod&eacute;mos descubrir com que a
+imagina&ccedil;&atilde;o
+se illudisse siquer, que nos d&eacute;sse, com
+mais ou menos anachronismo, uma leve base tamsomente
+para reconstruirmos a gothica morada do
+c&eacute;lebre cutileiro-propheta que a historia herdou
+das chronicas romanescas, e hoje o romance outra
+vez reclama da historia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em Santarem ha poucas casas particulares que
+se possam dizer verdadeiramente antigas; na Ribeira,
+nenhuma. As implastagens e replastagens
+successivas teem anachronizado tudo. &Eacute; uma <a name="n7"></a>feliz
+<span class="pagenum">[124]</span>
+express&atilde;o do Sr. Conde de Raczinski bem applicada
+por elle ao estado de quasi todos os nossos
+monumentos, &eacute;sta de anachronismo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem
+propriamente ditto, ha os templos, os conventos,
+a c&ecirc;rca das muralhas que todavia conservam
+a physionomia historica da terra; aqui
+nem isso ha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Voltei completamente desappontado da Ribeira,
+isto &eacute;, da sua pedra e cal: g&oacute;sto immenso
+da sua gente.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Outra surpreza de mui differente genero nos
+esperava &aacute; noite em Marvilla, no elegante sal&atilde;o
+da B. d'A. com quem fomos tomar cha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em meio das ruinas e desconf&ocirc;rto d'aquelles
+desertos e mortos pardeiros circumstantes, ir incontrar
+uma casa em plena florescencia de civiliza&ccedil;&atilde;o
+e de vida; ver a amabilidade e a elegancia
+fazendo graciosamente as honras d'ella&#8213;por
+mais que se devesse esperar&#8213;sempre espanta &aacute;
+primeira vista: parecia golpe de varinha de cond&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[125]</span>
+Em tam agradavel e joven companhia todas as
+ideas archeologicas se desvaneceram, apezar de
+dous ou tres fosseis que alli appareciam para se
+n&atilde;o perder detodo a c&ocirc;r local talvez.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Largamente se conversou, de Lisboa principalmente,
+dos nossos mutuos amigos, das festas do
+&uacute;ltimo hynverno, das probabilidades que se deviam
+esperar do futuro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ralh&aacute;mos muito da sociedade portugueza; exalt&aacute;mos
+Par&iacute;s e Londres e n&atilde;o sei se Pekim e Nankim
+tambem, e concluimos que antes Timbokotuo
+do que a seccante capital do nosso pobre reino.
+E comtudo estavamos com saudades d'ella;
+e concess&atilde;o d'aqui, concess&atilde;o d'alli, viemos a
+que n&atilde;o era tam m&aacute; terra como isso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Admiravel condic&ccedil;&atilde;o da natureza humana, que
+tudo nos parece melhor e menos feio quando visto
+de longe!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O baile p&uacute;blico mais semsabor, detestavel de
+barulho e confus&atilde;o, em que, para repousar os
+olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso
+furar por entre centenas de cotovellos barbaros
+<span class="pagenum">[126]</span>
+que se n&atilde;o sabe d'onde vieram, levar desalmadas
+pisadellas do dan&ccedil;ante novi&ccedil;o, do deputado
+recemchegado, e das botas novas do novo
+director da Galocha&#8213;e, mais horrivel que
+tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos,
+as caras incriveis e as antidiluvianas figuras
+de tanta mulher feia e desastrada... pois
+esse mesmo baile, quando ja n&atilde;o &eacute;
+sen&atilde;o reminiscencia
+que acorda no meio do infado ronceiro
+de uma terra de provincia, parece outro. As luzes,
+as flores, a musica, toda aquella anima&ccedil;&atilde;o
+lembra com prazer, o mais esquece, e involuntariamente
+se descai um pobre homem a suspirar
+por elle.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A soir&eacute;e mais massante, de piano obrigado,
+com dueto das manas, polka das primas e casino
+das tias velhas&#8213;recordada em eguaes circumstancias,
+tambem ja n&atilde;o accode &aacute; memoria
+sen&atilde;o como uma reuni&atilde;o escolhida e
+&iacute;ntima, de
+facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da
+sociedade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois o theatro... Que se lembre alguem, na
+provincia, dos martyrios que soffreu o ouvido com
+os berros da prima-dona, as desafina&ccedil;&otilde;es do
+tenor,
+<span class="pagenum">[127]</span>
+ou com o infadonho resonar
+d'aquella adormecida
+orchestra de San'Carlos!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A injoativa traduc&ccedil;&atilde;o de uma comedia da
+Rua-dos-condes,
+ro&iacute;da de incuravel syphilis, figura-se
+avelludada de todas as gra&ccedil;as do stylo de Scribe.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o destemp&ecirc;ro original de um drama plusquam
+romantico, laureado das imarcessiveis palmas
+do Conservatorio para eterno abrimento das
+nossas b&ocirc;ccas! L&aacute; de longe applaude-o a gente
+com furor, e esquece-se que fummou todo o
+primeiro acto ca f&oacute;ra, que dormiu no segundo,
+e conversou nos outros, at&eacute; &aacute; infallivel scena
+da xacara, do subterraneo, do cemiterio, ou
+quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e
+em penteador branco, indoudece de rigor,&#8213;o
+gallan, passando a m&atilde;o pela testa, tira do
+profundo thorax os tres <em>ahs!</em> do
+stylo, e promette
+matar seu proprio pae que lhe appare&ccedil;a&#8213;<a name="n8"></a>o
+centro perde o centro de gravidade, o barbas
+arrepella as barbas... e maldic&ccedil;&atilde;o,
+maldic&ccedil;&atilde;o,
+inferno!... 'Ah mulher indigna, tu n&atilde;o sabes
+que n'este peito ha um cora&ccedil;&atilde;o, que d'este
+cora&ccedil;&atilde;o
+sahem umas arterias, d'estas arterias
+umas veias&#8213;e que n'estas veias corre sangue...
+<span class="pagenum">[128]</span>
+sangue, sangue! Eu quero sangue, porque
+eu tenho s&ecirc;de, e &eacute; de sangue... Ah!
+pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te
+quero matar... esquartejar, chacinar!'&#8213;E a
+mulher ajoelha, e n&atilde;o ha remedio sen&atilde;o
+applaudir...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E applaude-se sempre.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E n&atilde;o &eacute; de mim que fallo, que eu g&oacute;sto
+d'isto: os outros &eacute; que se infastiam e cansam de
+tanta barafusta, sempre a mesma...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas emfim o que digo &eacute; que na provincia
+n&atilde;o ha tal fastio, que esquece a canceira, e que
+nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se
+percebe.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pe&ccedil;o aos illustres puritanos que, &aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;a de
+sublimado quinhentista, tem conseguido levar a
+lingua &aacute; decrepitude para a curar de suas infermidades
+francezas, pe&ccedil;o-lhes que me perdoem o
+<em>gallimathias</em>, porque elle
+&eacute; muito mais portuguez
+que outra coisa. A c&eacute;lebre ora&ccedil;&atilde;o
+<em>pro gallo Mathiae</em>
+deu origem a &eacute;sta bella e ex
+deu origem a &eacute;sta bella e expressiva palavra,
+que sim foi procreada em francez, mas hoje
+<span class="pagenum">[129]</span>
+precis&acirc;mos ca muito mais d'ella que em parte
+nenhuma.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Volto ja da digress&atilde;o philologica: tornemos
+&aacute; optica e &aacute; catoptrica.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Grande coisa &eacute; a distancia!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E dizem que saudades que matam! Saudades
+d&atilde;o vida; s&atilde;o a salva&ccedil;&atilde;o de
+muita coisa que,
+em seu pleno g&ocirc;so e posse pac&iacute;fica,
+pereceria
+de inani&ccedil;&atilde;o ou morreria da oppressora molestia
+da saciedade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por isso eu n&atilde;o g&oacute;sto de metter o scalpello no
+mais perfeito da construc&ccedil;&atilde;o humana, nem de
+applicar a lente ao mais fino e delicado do seu
+funccionar...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vamos usando d'estas palavras que herd&aacute;mos,
+sem metter louvados na heran&ccedil;a; n&atilde;o succeda
+descobrirmos que estamos mais pobres do que
+se cuidava... vamos repetindo &eacute;stas phrases que
+nos formularam nossos antepassados sem as analysar
+com muito rigor; n&atilde;o succeda vermos claro
+demais que temos passado a vida a mentir...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[130]</span>
+Detesto a philosophia, detesto a raz&atilde;o; e sinceramente
+creio que n'um mundo tam desconchavado
+como este, n'uma sociedade tam falsa,
+n'uma vida tam absurda como a que nos fazem
+as leis, os costumes, as institui&ccedil;&otilde;es, as
+conveniencias
+d'ella, affectar nas palavras a exactid&atilde;o,
+a logica, a rectid&atilde;o que n&atilde;o ha nas coisas,
+&eacute; a
+maior e mais perniciosa de todas as incoherencias.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos
+aqui este cap&iacute;tulo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c14"></a>CAPITULO XXXIX.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Processo de scepticismo em que
+est&aacute; o auctor.&#8213;Moralistas de
+<em>requiem</em>.&#8213;O maior sonho d'esta vida,
+a logica.&#8213;Differen&ccedil;a
+do poeta ao philosopho.&#8213;O cora&ccedil;&atilde;o de Horacio.&#8213;O
+collegio de Santarem.&#8213;Jesuitas e templarios.&#8213;O alliado
+natural dos reis.&#8213;'Ficar na gazeta' phrase muito mais
+exacta hoje do que 'Ficar no tinteiro.'&#8213;San'Frei Gil e o
+Doutor Fausto.&#8213;De como o A. foi ao tumulo do sancto
+bruxo e o achou vazio.&#8213;Quem o roubaria?
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O final do cap&iacute;tulo antecedente &eacute;, bem o
+sei, um terrivel documento para este processo
+de scepticismo em que me mandaram metter certos
+moralistas de <em>requiem</em> de quem tenho
+a audacia
+<span class="pagenum">[132]</span>
+de me rir, d'elles e da sua querella e do
+seu processo, protestando n&atilde;o me aggravar nem
+appellar, nem por nenhum modo recorrer da
+mirifica senten&ccedil;a que suas excellentissimas hypocrisias
+se dignarem proferir contra mim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Feita &eacute;sta declara&ccedil;&atilde;o solemne,
+procedamos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so
+desejo dar satisfa&ccedil;&atilde;o, a ti, se ainda te cansas
+com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes
+a pagina obnoxia, porque essas reflex&otilde;es do
+&uacute;ltimo cap&iacute;tulo s&atilde;o tam deslocadas no
+meu livro
+como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e
+n&atilde;o despertes do bello-ideal da tua logica.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; uma descuberta minha de que estou vaidoso
+e presumido, &eacute;sta de ser a logica e a
+exac&ccedil;&atilde;o
+nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais
+ideal do que o mais phantastico sonho e o mais
+requintado ideal da poesia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; que os philosophos s&atilde;o muito mais loucos
+do que os poetas; e de mais a mais, tontos: o
+que est'outros n&atilde;o s&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[133]</span>
+Voltemos, voltemos a pagina comeffeito, que
+&eacute; melhor.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Amanheceu hoje um bello dia, puro e sublime.
+Dorme nas cavernas do padre Eolo aquelle
+vento s&ecirc;cco e duro, flagello dos estios portuguezes.
+Suspira no ar uma vira&ccedil;&atilde;o branda e suave
+que regenera e d&aacute; vida. Mal impregado dia para
+o passar a ver ruinas! No seio da sempre joven
+natureza, sob a remo&ccedil;ada espessura das &aacute;rvores,
+s&ocirc;bre a alcatifa sempre renovada das grammas
+verdes e variegadas boninas, queria eu que me
+corresse este dia em ocio bemaventurado de corpo
+e d'alma, sentindo pulsar lento e compassado
+o cora&ccedil;&atilde;o livre e s&ocirc;lto de todo
+impenho, o verdadeiro
+cora&ccedil;&atilde;o de Horacio,
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">
+Solutus omni foenore!
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+Tom&aacute;ra-me eu no valle outra vez, com a irman
+Francisca a dobar &aacute; porta, a nossa Joanninha
+a deslindar-lhe a meada; e embora venha
+o terrivel spectro de Fr. Diniz projectar sua funesta
+e tragica sombra no idilio d'este quadro
+suave, que n&atilde;o p&oacute;de destruir-lhe toda a amenidade
+bucolica, por mais que fa&ccedil;a.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[134]</span>
+L&aacute; voltaremos ao nosso valle, amigo leitor,
+e l&aacute; concluiremos, como &eacute; de
+raz&atilde;o, a historia
+da menina dos rouxinoes. Por agora almocemos,
+que &eacute; tarde, e terminemos os nossos estudos
+archeologicos em Marvilla de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+C&aacute; estamos no Collegio, ed&iacute;ficio grandioso,
+vasto, magn&iacute;fico, propria
+habita&ccedil;&atilde;o da
+companhia&#8213;rei
+que o mandou construir para educar os
+infantes seus filhos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Creio que &eacute;sta e a de Coimbra eram as duas
+principaes casas que para isto tinham os Jesuitas
+em Portugal.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foram os templarios dos seculos modernos,
+os Jesuitas. A potencia formidavel e quasi r&eacute;gia
+que aquelles levantaram com a espada, tinham
+estes fundado com a doutrina. Riquezas, pod&ecirc;r,
+influencia, uns e outros as tiveram com applauso
+e acquiescencia geral; uns e outros as perderam
+do mesmo modo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Extinctas e perseguidas, ambas as ordens renasceram
+no mysterio, e se converteram em associa&ccedil;&otilde;es
+secretas para conspirarem; ambas tomaram
+<span class="pagenum">[135]</span>
+diversos nomes e variadas m&aacute;scaras para
+o fazerem mais seguramente.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ambas em v&atilde;o!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O predominio, crescente ha seculos, do elemento
+democratico annulla todas essas conspira&ccedil;&otilde;es.
+Sos e sem elle, os reis tinham succumbido...
+&Eacute; a alliada natural dos reis a democracia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O edificio do Collegio &eacute; todo philippino, ja
+o disse: a egreja dos mais bellos specimens d'esse
+stylo, que em geral s&ecirc;cco, duro e sem poesia,
+n&atilde;o deixa comtudo de ser grandioso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Aqui esteve depois muitos annos o seminario patriarchal,
+cujas aulas frequentava a mocidade do
+districto. Hoje leem-se alli outras palestras da
+cathedra administrativa. &Eacute; a s&eacute;de do
+gov&ecirc;rno
+civil chamado: corrumper a moral do povo, sophismar
+o systema representativo &eacute; o thema das
+lic&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todo outro insino se tirou de Santarem. Falla-se
+n'um liceu e n&atilde;o sei em que mais 'que ficou
+na gazetta:' phrase portugueza moderna que
+<span class="pagenum">[136]</span>
+deve supprir a antiga e antiquada de&#8213;'ficou
+no tinteiro'&#8213;por muitas raz&otilde;es, at&eacute; porque
+hoje n&atilde;o fica nada no tinteiro sen&atilde;o o senso
+commum,
+tudo o mais de l&aacute; sai, tudo. E muitas
+gra&ccedil;as a Deus quando n&atilde;o passa &aacute;s
+ballas do
+impressor para dar a volta do mundo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Santarem &eacute; das terras de Portugal a melhor situada
+e qualificada para um grande estabelecimento
+de instruc&ccedil;&atilde;o e de educa&ccedil;&atilde;o
+p&uacute;blica. Porque
+n&atilde;o hade estar aqui o Collegio-militar ou a Casa-pia,
+ou outra grande eschola, seja qual for?
+Porque hade ser &eacute;sta centraliza&ccedil;&atilde;o
+d'insino em
+Lisboa? Em que se funda um privilegio dado
+&aacute; capital em prejuizo e &aacute; custa das provincias?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sahimos do Collegio, fomos direitos a San'Domingos,
+um dos mais antigos estabelecimentos
+monasticos do reino e que eu tanto desejava
+visitar. N&atilde;o sei descrever o que senti quando a
+inferrujada chave deu a volta na porta da egreja
+e o velho templo se patenteiou aos nossos olhos.
+Acab&aacute;ra de servir, n&atilde;o imaginam de
+qu&ecirc;... de
+palheiro!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A derradeira camada de palha que apodrec&ecirc;ra,
+<span class="pagenum">[137]</span>
+adheria ainda ao lagedo humido, e exhalava
+um forte vapor mephitico que nos suffocava.
+Mal pod&eacute;mos ver os tumulos dos Docems e tantos
+outros interessantes monumentos que abundam
+na parte superior do templo. A inferior, ou corpo
+da egreja como dizem, &eacute; de um miseravel e
+moderno anachronismo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o
+tempo que lhe pudesse resistir, quiz approveit&aacute;-lo
+em examinar a principal e mais interessante
+reliquia da profanada egreja&#8213;a capella e
+jazigo do grande bruxo e grande santo, San'Frei-Gil.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Algures lhe chamei ja o nosso Doutor Fausto:
+e &eacute; comeffeito. N&atilde;o lhe falta sen&atilde;o o
+seu Goethe.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Vixere fortes ante Agamemnona multi.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+Houve fortes homens antes de Agamemn&atilde;o, e
+fortes bruxos antes e depois do Doutor Fausto.
+Mas sem Homero ou Goethe &eacute; que se n&atilde;o chega
+&aacute; reputa&ccedil;&atilde;o e fama que alcansaram
+aquelles senhores.
+N&oacute;s precis&acirc;mos de quem nos cante as admiraveis
+<span class="pagenum"><a name="p138">[138]</a></span>
+luctas&#8213;ora comicas, ora tremendas&#8213;do
+nosso Frei Gil de Santarem com o diabo. O
+que eu fiz na 'Dona Branca' &eacute; pouco e mal
+esbo&ccedil;ado
+&aacute; pressa. O grande mago lusitano n&atilde;o apparece
+alli sen&atilde;o episodicamente; e &eacute; necessario
+que appare&ccedil;a como protagonista de uma grande
+ac&ccedil;&atilde;o, pintado em corpo inteiro, na primeira
+luz, em toda a luz do quadro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ent&atilde;o o seu ardente e anciado desejo de saber,
+os seus vastos estudos, os reconditos mysterios da
+natureza que descobriu at&eacute; penetrar no mundo
+invisivel&#8213;a s&ecirc;de de oiro, de prazer e de pod&ecirc;r
+que o perseguia e o fez cahir nas garras do
+espirito maligno&#8213;o fastio e saciedade que o
+desincantaram depois&#8213;o seu arrependimento emfim,
+e a regenera&ccedil;&atilde;o de sua alma pela penitencia,
+pela ora&ccedil;&atilde;o e pelo despr&ecirc;zo da van
+sciencia
+humana&#8213;ent&atilde;o essas variadas phases de uma
+<a href="#e14">existencia</a> tam extraordinaria,
+tam poetica, devem
+mostrar-se como ainda n&atilde;o foram vistas,
+porque ainda n&atilde;o olhou para ellas ninguem com
+os olhos de grande moralista e de grande poeta
+que s&atilde;o precisos para as observar e intender.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno,
+<span class="pagenum">[139]</span>
+quando me faziam ler a historia de San'Domingos,
+tam rabujenta e semsabor &aacute;s vezes, apezar
+do incantado stylo do nosso melhor prosador;
+e que eu deixava os outros capitulos para ler e
+reler somente as aventuras do sancto feiticeiro
+que tanto me interessavam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Com todas &eacute;stas reminiscencias que me reviviam
+n'alma, com os admiraveis versos do Fausto
+a acudir-me &aacute; memoria, e com uma infinidade
+de associa&ccedil;&otilde;es que essas ideas me traziam,
+caminhei direito &aacute; capella do sancto, cheio de
+alvor&ocirc;&ccedil;o,
+e como tocado, para assim dizer, de sua
+magica vara de cond&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A capella&#8213;oh desappontamento! a cappella
+de San'Frei Gil &eacute; um mesquinho rifacimento moderno,
+do lado esquerdo da egreja, sem nenhum
+vestigio de antiguidade, nenhum ornato characteristico,
+pesada, grosseira&#8213;velha sem ser antiga&#8213;um
+verdadeiro non-descriptum de mau
+g&ocirc;sto e semsaboria. Quem tal dissera?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O tumulo do sancto est&aacute; elevado do altar
+n'uma especie de mau throno. Subi acima da
+<span class="pagenum">[140]</span>
+degradada e profanada credencia para o examinar
+deperto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; de pedra o jazigo; mas ultimamente ve-se
+que tinham pintado a pedra; n&atilde;o tem lavor algum.&#8213;E
+estava vazio, a loisa levantada e
+quebrada!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quem me roubou o meu sancto?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quem foi o anathema que se atreveu a tal sacrilegio?..<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c15"></a>CAPITULO XL.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">As Claras.&#8213;Aventura nocturna.&#8213;Se as
+freiras mettem medo
+aos liberaes?&#8213;O Psalmo.&#8213;Tres frades.&#8213;Pr&aacute;ctica do
+franciscano.&#8213;O
+corpo de San' Fr. Gil.&#8213;Que se hade fazer
+das freiras?&#8213;Mal do gov&ecirc;rno que deixar comer mais aos
+bar&otilde;es.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Egrave;ra de noite, reinava a
+confus&atilde;o, a desordem,
+o susto e a anciedade nos muros de
+Santarem, tres homens chegavam, por horas
+mortas, ao antigo mosteiro das Claras, davam
+<span class="pagenum">[142]</span>
+&aacute; portaria um signal surdo e mysterioso; respondiam-lhe
+de dentro com outro egual; e d'ahi
+a pouco, sem rumor e com as mais escrupulosas
+precau&ccedil;&otilde;es se abria quietamente a porta da
+clausura.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os tres homens entraram, a porta fechou-se
+s&ocirc;bre elles do mesmo modo precatado.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que ser&aacute;?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os homens levavam uma especie de cofre que
+parecia conter preciosidades de grande valor: tal
+era o desvello com que o resguardavam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ha um mysterio que se figura criminoso n'esta
+aventura. Mas os tempos s&atilde;o para tudo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era no anno de 1834.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entremos n'esse convento das pobres Claras,
+tam afflictas e desconsoladas agora que as amea&ccedil;am
+de dissolu&ccedil;&atilde;o como aos frades.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o ser&aacute; assim: aquellas
+institui&ccedil;&otilde;es n&atilde;o mettem
+medo aos verdadeiros liberaes, e os outros l&aacute;
+<span class="pagenum">[143]</span>
+teem o espolio dos frades para devorar; est&atilde;o
+entretidos: as freiras salvam-se porora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Taes eram as esperan&ccedil;as dos tres homens que
+entravam a essas deshoras nos vedados precinctos
+do mosteiro. Sigamo-los por&ecirc;m, que &eacute; tempo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegavam elles a uma pequena capella do
+claustro das freiras, foram depor s&ocirc;bre o altar o
+cofre que traziam, e ajoelharam devotamente
+deante d'elle. Logo se ouviu ao longe o psalmear
+baixo e sumido de vozes femininas; e d'ahi a
+pouco, toda a communidade das Claras, de tochas
+na m&atilde;o, em duas alas, e a abbadessa com
+o seu baculo atraz, entravam processionalmente
+no claustro e se dirigiam &aacute; mesma capella.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O psalmo que cantavam era este:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a href="#6">[6]</a></sup> 'Meu
+Deus, vieram os barbaros &aacute;s tuas herdades,
+polluiram o teu sancto templo, pozeram
+Jerusalem como um grannel de fructos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Pozeram os cadaveres de teus filhos de cevo
+<span class="pagenum">[144]</span>
+&aacute;s aves do ceo; as carnes dos teus sanctos &aacute;s
+alimarias da terra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'O sangue d'elles derramaram-n'o como agua
+nos valles de Jerusalem; ja n&atilde;o havia quem sepultasse.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Estamos feitos o oppr&oacute;brio dos nossos vizinhos;
+o escarneo e a zombaria dos que vivem por nossos
+arredores.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'At&eacute; aonde, &oacute; Senhor, te hasde irar emfim;
+e se hade accender o teu z&ecirc;lo como fogo?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'V&eacute;rte a tua &iacute;ra s&ocirc;bre as
+gentes que te n&atilde;o
+conheceram, contra os reinos que n&atilde;o invocaram
+o teu nome;
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Que devoraram a Jacob; e desolaram suas
+terras.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'N&atilde;o te lembres de nossas iniquidades passadas,
+e depressa nos alcancem as tuas misericordias;
+ja que tam pobres de mais estamos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Ajuda-nos Deus, salvador nosso; e pela gloria
+<span class="pagenum">[145]</span>
+do teu nome livra-nos, Senhor, amercea-te
+de nossos peccados por causa do teu nome.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cantavam assim as pobres das freiras, cantavam
+em latim que ellas mal intendiam; mas
+dizia-lhes o instincto do cora&ccedil;&atilde;o, dizia-lhes a
+tam excitavel imagina&ccedil;&atilde;o feminina, que era
+chegada
+a hora de se cumprir a seus olhos, e s&ocirc;bre
+ellas mesmas tambem, a tremenda prophecia
+do psalmo que intoavam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia pois lagrymas n'aquellas vozes que
+assim cantavam, sahiam d'alma aquelles sons e
+n'alma vibravam tambem com profunda e solemne
+melancholia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegadas juncto &aacute; capella aonde estava o cofre,
+as freiras pararam conservando as mesmas
+duas alas da prociss&atilde;o e continuando no accentuado
+morm&uacute;rio de seu psalmo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os tres vultos de homem permaneceram de
+joelhos e curvados deante do altar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Findou o psalmo e seguiu-se breve intervallo
+de silencio. Depois, os tres homens levantaram-se,
+<span class="pagenum">[146]</span>
+e cahindo-lhes para os lados as longas
+capas
+em que vinham
+involtos, viu-se que o do meio
+era um frade velho, magro, curvado e s&ecirc;cco,
+trajando ainda, apezar da lei, o burel preto dos
+franciscanos e cingido com sua corda. Os outros
+dous eram dominicos e vestiam de preto e branco
+segundo as c&ocirc;res de seu tambem proscripto instituto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O velho franciscano subiu com passo tr&eacute;mulo
+os degraus do altar, beijou o cofre que estava
+s&ocirc;bre elle, e voltando-se para a communidade
+que o contemplava em religioso silencio, disse
+com uma voz cava que parecia vir do sepulchro
+mas accentuada e forte:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Irmans, vimos intregar-vos este dep&oacute;sito precioso.
+Deus n&atilde;o quer que os cadaveres dos seus
+sanctos fiquem expostos &aacute;s aves do ceo e &aacute;s
+alimarias
+da terra. Este &eacute; o sancto corpo de um
+dos maiores sanctos que produziu &eacute;sta terra de Portugal
+quando era aben&ccedil;oada. Hoje &eacute; malditta e
+n&atilde;o devia conservar as suas reliquias. Os filhos
+de San'Domingos foram expulsos de sua casa, assim
+como n&oacute;s fomos, n&oacute;s os filhos de Francisco,
+incontr&aacute;mo'nos sem tecto nem
+abrigo uns e outros,
+<span class="pagenum">[147]</span>
+e junct&aacute;mos as nossas miserias para as chorarmos
+como irm&atilde;os que somos, como filhos de
+paes que tanto se amaram e ajudaram. Perigrinaremos
+junctos por essas solid&otilde;es da terra, e
+junctos iremos bater por essas portas que cerrou
+a impiedade e a indifferen&ccedil;a, a pedir o p&atilde;o de
+cada dia porque temos fome.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Que importa! n&atilde;o profess&acirc;mos n&oacute;s,
+n&atilde;o nos
+honr&acirc;mos n&oacute;s de ser mendigos? De que
+viv&ecirc;mos
+n&oacute;s sempre sen&atilde;o de esmolla?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'N&atilde;o choreis irmans, n&atilde;o choreis s&ocirc;bre
+n&oacute;s.
+Deus que o permittiu bem sabe o que fez. Louvado
+seja elle sempre! N&oacute;s tinhamos peccados
+para mais! Ainda foi misericordioso comnosco
+o Senhor da justi&ccedil;a e do castigo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'A n&oacute;s tiraram-nos tudo, tudo! At&eacute;
+&eacute;stas mortalhas
+que tinhamos escolhido em vida e que nem
+a morte ousava roubar-nos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'A furto e como quem se esconde para um acto
+criminoso, n&oacute;s as vestimos &eacute;sta noite para
+commetter o que elles chamar&atilde;o um furto, e
+que era uma obriga&ccedil;&atilde;o sagrada nossa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[148]</span>
+'Fomos &aacute; antiga casa de nossos irm&atilde;os e
+roub&aacute;mos o corpo do bemaventurado San'Frei
+Gil.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Aqui vo-lo intreg&acirc;mos; guardae-o. Emquanto
+estes muros estiverem em pe, que o abriguem dos
+desacatos d'essa gente sem Deus nem lei. A v&oacute;s
+n&atilde;o ousar&atilde;o expulsar-vos d'aqui: talvez vos matem
+&aacute; fome... N&atilde;o p&oacute;de ser: Deus
+n&atilde;o hade permitti-lo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Mas qualquer que seja a sua vontade, resignae-vos
+a ella, minhas irmans. So elle sabe como
+nos ama e como nos castiga. Louvemo'-lo
+por tudo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Aqui foi um chorar e um supplicar fervente
+como so se ouve na hora da ang&uacute;stia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+As afflictas monjas, estavam prostradas nas lages
+humidas do claustro, s&ocirc;bre as sepulturas de
+suas irmans, s&ocirc;bre seus proprios jazigos que haviam
+de ser. O frade com os bra&ccedil;os extendidos
+pronunciou as solemnes palavras de ben&ccedil;&atilde;o,
+descrevendo
+com a direita o augusto symbolo da redemp&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[149]</span>
+'Bemdiga-vos Deus omnipotente, Pae, Filho
+e Espirito-sancto!' 'Amen!' respondeu o c&ocirc;ro;
+e os tres proscriptos se retiraram, deixando a
+salvo o seu thesoiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim desappareceu do tumulo o corpo de
+San'Frei Gil de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ninguem sab&iacute;a d'elle: soube eu e guardei o
+segredo religiosamente.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os tempos s&atilde;o outros hoje: os liberaes ja conhecem
+que devem ser tolerantes, e que precisam
+de ser religiosos. N&atilde;o ha perigo em dizer-lhe onde
+elle est&aacute;.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando houver em Portugal um gov&ecirc;rno que
+saiba ser gov&ecirc;rno, hade regular e consolidar a
+existencia das freiras, hade approveit&aacute;-la para as
+piedosas institui&ccedil;&otilde;es do insino da mocidade, da
+cura dos infermos, e do amparo dos invalidos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os bar&otilde;es andam-lhe com o cheiro nos poucos
+bens que lhes restam &aacute;s pobres das freiras. Mal
+do gov&ecirc;rno que deixar comer mais aos bar&otilde;es!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c16"></a>CAPITULO XLI.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">
+O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta
+perspicacia
+do leitor benevolo.&#8213;Grande lacuna na nossa historia.&#8213;Porque
+se n&atilde;o preenche?&#8213;P&aacute;gina preta na historia
+de Tristam Shandy.&#8213;Novellas e romances, livros insignificantes.&#8213;O
+adro de San'Francisco e as suas acacias.&#8213;Que
+ser&aacute; feito de Joanninha?&#8213;O peito da mulher do norte.&#8213;Vamos
+embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.&#8213;A
+corneta do soldado e a trombeta do juizo final.&#8213;Eheu,
+Portugal, eheu!
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho
+que vai de noite roubar os ossos do sancto
+ao seu tum
+Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho
+que vai de noite roubar os ossos do sancto
+ao seu tumulo, e os vem esconder na clausura
+das freiras, porcerto, digo, reconheceu ja
+<span class="pagenum">[152]</span>
+a tua natural perspicacia ao nosso Frei Diniz, o
+frade por excellencia&#8213;frade por teima e acinte.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois esse era, n&atilde;o ha d&uacute;vida.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim se passou aquella scena e assim m'a
+contaram. Do que medi&aacute;ra entre ella e o acontecido
+com o frade, Carlos, Joanninha, a av&oacute;
+e a ingleza, d'isso &eacute; que nada pude saber.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; uma grande lacuna na nossa historia; mas
+antes fique assim do que ench&ecirc;-la de
+imagina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! eu detesto a imagina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Onde a chronica se calla e a tradi&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o falla,
+antes quero uma pagina inteira de pontinhos,
+ou toda branca&#8213;ou toda preta, como na veneravel
+historia do nosso particular e respeitavel
+amigo Trist&atilde;o Shandy, do que uma so linha da
+inven&ccedil;&atilde;o do chroniqueiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Isso &eacute; bom para novellas e romances, livros
+insignificantes que todos leem todavia, ainda os
+mesmos que o negam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[153]</span>
+Eu tambem me parece que os leio, mas vou
+sempre dizendo que n&atilde;o...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Emfim, tornemos ao frade, e tornemos &aacute;s minhas
+viagens.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheio d'elle e da sua memoria, palpitando
+com a recorda&ccedil;&atilde;o das tremendas scenas que, havia
+tam poucos annos, se tinham passado em seu
+antigo mosteiro, eu me approximei emfim do
+real convento de San'Francisco de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dei pouca atten&ccedil;&atilde;o ao bello adro e &aacute;
+solemne
+vista que d'elle se descobre&#8213;e menos ainda &aacute;s
+doentias acacias que ahi vejetam infezadas e rachiticas,
+como plantadas de m&aacute; m&atilde;o e em m&aacute;
+hora&#8213;porque m&ocirc;&ccedil;as s&atilde;o ellas,
+&eacute; visivel: poseram-n'as
+ahi depois de extincto o convento.
+S&atilde;o triste mas verdadeiro symbolo da apagada
+e facticia vida que se quiz dar ao que era morto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e agu&ccedil;adas
+arcadas do claustro, pelas altas naves do
+templo se descubrimos algum vestigio do &uacute;ltimo
+guardi&atilde;o d'esta casa, e d'essa fadada familia cujo
+<span class="pagenum">[154]</span>
+destino em hora aziaga tam estreitamente se
+ligou com o d'elle.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ja me interessa isto mais, confesso, ai! muito
+mais, do que todos esses tumulos e inscrip&ccedil;&otilde;es
+que por ahi est&atilde;o, e que tanto characterizam este
+um dos mais antigos e mais historicos edificios
+do reino.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas em v&atilde;o interrogo pedra a pedra, lage a
+lage: o echo morto da solid&atilde;o responde tristemente
+&aacute;s minhas perguntas, responde que nada
+sabe, que esqueceu tudo, que aqui reina a
+desola&ccedil;&atilde;o
+e o aband&ocirc;no, e que se apagaram todas
+as lembran&ccedil;as de outro estado...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus
+amores? Que ser&aacute; feito d'esse homem que ousou
+amar-te amando a outra? E essa outra onde est&aacute;?
+Resignou-se ella dev&eacute;ras? Sepultou comeffeito,
+sob o g&ecirc;lo apparente que veste de triplice
+mas falsa armadura o peito da mulher do norte,
+todo aquelle fogo intenso e &iacute;ntimo que solapadamente
+lhe devora o cora&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o tenho esperan&ccedil;as de saber nada d'isso aqui.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[155]</span>
+So pude descubrir que, no dia immediato &aacute;
+scena nocturna das Claras, Fr. Diniz sahiu de
+Santarem, n&atilde;o se sabe em que
+direc&ccedil;&atilde;o&#8213;que
+n'esse mesmo dia Georgina sah&iacute;ra tambem pela
+estrada de Lisboa, levando em sua carruagem a
+av&oacute; e a neta, ambas meias mortas e ambas meias
+loucas&#8213;que n&atilde;o houvera mais novas de Carlos&#8213;e
+que a sua &uacute;ltima carta, aquella que escrev&ecirc;ra
+de juncto d'Evora, Joanninha a levava apertada
+nas m&atilde;os convulsas quando part&iacute;ra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois tambem eu me quero partir, me quero
+ir embora. Ja me infada Santarem, ja me cansam
+&eacute;stas perp&eacute;tuas ruinas, estes pardeiros
+interminaveis,
+o aspecto desgracioso d'estes intulhos,
+a tristeza d'estas ruas desertas. Vou-me embora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E comtudo San'Francisco &eacute; uma bella&nbsp;ruina,
+que merecia examinada de vagar, com outra
+paciencia que eu ja n&atilde;o tenho.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se tudo me impacienta aqui!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Da bella egreja gothica, fizeram uma arrecada&ccedil;&atilde;o
+mil&iacute;tar; andou a m&atilde;o destruidora do soldado
+quebrando e abolando esses monumentos preciosos,
+<span class="pagenum">[156]</span>
+riscando com a baioneta pelo verniz mais
+pulido e mais respeitado d'esses jazigos antiquissimos:
+os lavores mais delicados esmoucou-os,
+degradou-os. Levantaram as lages dos sepulchros;
+e ao som da corneta militar acordaram os
+mortos de seculos, cuidando ouvir a trombeta final...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Decididamente vou-me embora, n&atilde;o posso estar
+aqui, n&atilde;o quero ver isto. N&atilde;o &eacute; horror
+que
+me faz, &eacute; n&aacute;usea, &eacute; asco, &eacute;
+zanga.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Maldittas sejam as m&atilde;os que te profanaram,
+Santarem... que te deshonraram, Portugal... que
+te invilleceram e degradaram, na&ccedil;&atilde;o que tudo
+perdeste, at&eacute; os padr&otilde;es da tua historia!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eheu, eheu, Portugal!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c17"></a>CAPITULO XLII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Protesto do
+auctor.&#8213;Desaffina&ccedil;&atilde;o dos nervos.&#8213;O
+que &eacute; preciso
+para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.&#8213;Que Deus
+est&aacute; no Colliseu ass&iacute;m como em
+San'Pedro.&#8213;Quer-se o auctor
+ir embora de Santarem.&#8213;Como, sem ver o tumulo d'elrei
+D. Fernando?&#8213;Em que estado se acha este.&#8213;Exemplar
+de stylo byzantino.&#8213;Coroa real s&ocirc;bre a caveira.&#8213;O rei
+d'espadas e o symbolo do imperio.&#8213;Quem nunca viu o rei
+cuida que &eacute; de oiro.&#8213;Brutalidades da soldadesca n'um tumulo
+real.&#8213;O que se acha nas sepulturas dos reis.&#8213;A
+phrenologia.&#8213;Vindicta publica, tardia mas
+ultrajante.&#8213;Cam&otilde;es
+e Duarte Pacheco.&#8213;A sombra falsa da religi&atilde;o.&#8213;Regimen
+dos bar&otilde;es e da materia.&#8213;A prosa e a poesia
+do povo.&#8213;Synthese e analyse.&#8213;O senso &iacute;ntimo.&#8213;Se o
+auctor &eacute; demagogo ou Jesuita?&#8213;Jesu Christo e os
+bar&otilde;es.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o chamem exaggerado ao que vai escripto
+no fim do &uacute;ltimo capitulo; senti o que escrevi,
+senti muito mais do que escrevi. O que
+poder&aacute; haver &eacute; desac&ecirc;rto nas palavras,
+porque
+<span class="pagenum">[158]</span>
+em verdade n&atilde;o sei explicar a impress&atilde;o que me
+faz uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os
+nervos, vibram-me n'uma discordancia e dissonancia
+insupportavel. Queria ver antes estes altares
+expostos &aacute;s chuvas e aos ventos do ceo,&#8213;que
+o sol os queimasse de dia,&#8213;que &aacute; noite, &aacute;
+luz branca da lua, ou ao tibio reflexo das estrellas,
+piasse o mocho e sussurrasse a coruja s&ocirc;bre
+seus arcos meio-cahidos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o me parecia profanado o templo assim,
+nem descahido de majestade o monumento. Podia
+ajoelhar-me no meio das pedras s&ocirc;ltas, entre
+as hervas humidas, e levantar o meu pensamento
+a Deus, o meu cora&ccedil;&atilde;o &aacute;
+gl&oacute;ria, &aacute; grandeza,
+o meu espirito &aacute;s sublimes aspira&ccedil;&otilde;es
+da
+idealidade. O material, o grosseiro, o pesado da
+vida n&atilde;o me vinham affligir ahi.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deus, a idea grande do mundo&#8213;Deus, a Raz&atilde;o
+Eterna&#8213;Deus, o amor&#8213;Deus, a gl&oacute;ria&#8213;Deus,
+a f&ocirc;r&ccedil;a, a poesia e a nobreza d'alma&#8213;Deus
+est&aacute; nas ruinas escalavradas do Colliseu,
+como nos zimborios de bronze e marmore
+de San'Pedro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[159]</span>
+Mas aqui!.. nos pardeiros de um convento velho,
+concertado pelas Obras-p&uacute;blicas para servir
+de quartel de soldados&#8213;aqui n&atilde;o habita espirito
+nenhum.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quero-me ir embora d'aqui!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E como? sem ver o tumulo d'elrei Fernando?
+N&atilde;o p&oacute;de ser, &eacute; verdade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Onde est&aacute; elle?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No c&ocirc;ro alto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Subamos ao c&ocirc;ro alto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Oh! que n&atilde;o sei de
+n&ocirc;jo como o conte!
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+O bello jasigo do rei formoso e frivolo, tam
+dado &aacute;s delicias do prazer como foi seu pae &aacute;s
+austeridades da justi&ccedil;a, em que estado elle est&aacute;!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh na&ccedil;&atilde;o de barbaros! Oh malditto povo de
+iconoclastas que &eacute; este!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O tumulo do segundo marido de D. Leonor
+<span class="pagenum">[160]</span>
+Telles &eacute; um sarcophago de pedra branca, fina e
+friavel, elegante e simplesmente cortada, com
+mais sobriedade de ornatos do que tem de ordinario
+os monumentos do seculo XIV, mas de
+uma acabada sculptura, casta e continente, como
+o n&atilde;o foi a vida do rei que ahi incerraram
+depois de morto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Percebem-se ainda vestigios das vivas c&ocirc;res
+em que foram induzidos os relevos da pedra branca:&#8213;stylo
+byzantino de que n&atilde;o sei outro exemplar
+em Portugal. Este &eacute;&#8213;ou antes, era&#8213;precioso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era; porque a brutalidade da soldadesca o
+deturpou a um ponto incrivel. Imaginou a estupida
+cubi&ccedil;a d'estes Allanos modernos que devia
+de estar alli dentro algum grande haver de riquezas
+incantadas,&#8213;talvez cuidaram achar s&ocirc;bre
+a caveira do rei a coroa real marchetada de
+perolas e rubis com que fosse interrado,&#8213;talvez
+pensaram incontrar appertado ainda entre as
+s&ecirc;ccas phalanges dos dedos myrhados, aquelle globo
+de oiro macisso que lhes figura o rei d'espadas
+do sujo baralho de sua tarimba, e que elles
+teem pela indisputavel e infallivel insignia do
+<span class="pagenum">[161]</span>
+supremo imperio;&#8213;talvez supposeram que mesmo
+depois de morto, um rei devia de ser de
+oiro... Emfim quem sabe o que elles cuidaram e
+pensaram? O que se sabe, porque se ve, &eacute; que
+quizeram abrir e arrombar o tumulo. Tentaram,
+primeiro, levantar a campa; n&atilde;o poderam: tam
+solidamente est&aacute; soldada a pedra dec&iacute;ma ao corpo
+ou caix&atilde;o do jazigo, que o todo parece macisso
+e inconsutil. Mas n'este impenho quebraram
+e estallaram os lavores finos dos cantos, os
+caireis delicados das orlas; e a campa n&atilde;o cedeu:
+parece chumbada pelo anjo dos &uacute;ltimos julgamentos
+com o s&ecirc;llo tremendo que so se hade
+quebrar no dia derradeiro do mundo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A cubi&ccedil;a estolida dos soldados n&atilde;o se aterrou
+com a religi&atilde;o do sepulchro, nem lhe causou
+attri&ccedil;&atilde;o,
+ao menos, &eacute;sta resistencia quasi sobrenatural
+das pedras do moimento. Ve-se que trabalhou
+alli, de alavanca e de ariete, algum possante
+e ponderoso p&eacute;-de-cabra; mas que trabalhou
+em v&atilde;o muito tempo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desinganaram-se emfim com a tampa; e resolveram
+atacar, mais brutalmente mas com mais
+vantagem, as paredes do sarcophago, que justamente
+<span class="pagenum">[162]</span>
+suspeitaram de menos espessos. Assim era;
+e conseguiram na parede da frente abrir um rombo
+grosseiro por onde entra facil um bra&ccedil;o todo
+e p&oacute;de explorar o interior do tumulo &aacute; vontade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim o fiz eu, que metti o meu bra&ccedil;o por
+essa abertura barbara, e achei terra, p&oacute;, alguns
+ossos de vertebras, e duas caveiras, uma de homem,
+outra de crian&ccedil;a.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o me lembra que haja memoria alguma de
+infante que ahi fosse sepultado tambem, segundo
+faziam os antigos muitas vezes que punham os
+cadaveres das crian&ccedil;as nos jazigos dos paes, dos
+parentes, at&eacute; de meros amigos de suas familias.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tive, conf&eacute;sso, uma especie de prazer maligno
+em imaginar a estupida compridez de cara
+com que deviam de ficar os brutaes profanadores,
+quando achassem no tumulo do rei o que so
+teem os tumulos&#8213;de reis ou de mendigos&#8213;ossos,
+terra, cinza, nada!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por mim, estive tentado a furtar a caveira
+d'elrei D. Fernando. Se acreditasse na phrenologia,
+parece-me que n&atilde;o tinha resistido. N&atilde;o
+<span class="pagenum">[163]</span>
+creio na sciencia, felizmente&#8213;n'este caso&#8213;para
+a minha consciencia. Tambem n&atilde;o sei o que faria
+se a caveira fosse de outro homem. Mas o
+'fraco rei' que fez 'fraca a forte gente' n&atilde;o s&atilde;o
+reliquias as suas que se guardem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! e quem sabe? &Eacute;sta profana&ccedil;&atilde;o, este
+aband&ocirc;no,
+este desacato do tumulo de um rei, alli
+na sua terra predilecta&#8213;D. Fernando era santareno
+de affei&ccedil;&atilde;o&#8213;n&atilde;o ser&aacute; elle
+o juizo severo
+da posteridade, a vindicta p&uacute;blica dos seculos,
+que tardia mas ultrajante, cai emfim s&ocirc;bre a
+memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra
+as cinzas como ja lhe deshonr&aacute;ra o nome?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quero acreditar que tal n&atilde;o podia succceder
+aos tumulos de D. Diniz, de D. Pedro I, dos
+dois Joannes I e II, de...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sim: e aonde est&aacute; o de Cam&otilde;es? O de Duarte
+Pacheco aonde <em>esteve</em>? que ainda
+&eacute; mais vergonhosa
+pergunta &eacute;sta &uacute;ltima.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em Portugal n&atilde;o ha religi&atilde;o de nenhuma especie.
+At&eacute; a sua falsa sombra, que &eacute; a hypocrisia,
+desappareceu. Ficou o materialismo estupido,
+<span class="pagenum">[164]</span>
+alvar, ignorante, devasso e desfa&ccedil;ado,
+a fazer gala de sua hedionda nudez cynica no meio
+das ruinas profanadas de tudo o que elevava o
+espirito...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma na&ccedil;&atilde;o grande ainda poder&aacute; ir
+vivendo e
+esperar por melhor tempo, apezar d'esta paralysia
+que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre
+parte de seu corpo. Mas uma na&ccedil;&atilde;o piquena,
+&eacute;
+impossivel; hade morrer.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mais dez annos de bar&otilde;es e de regimen da
+materia, e infallivelmente nos foge d'este corpo
+agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do
+espirito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Creio isto firmemente.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas ainda espero melhor todavia, porque o
+povo, o povo povo, est&aacute; s&atilde;o: os corruptos somos
+n&oacute;s os que cuid&acirc;mos saber e ignor&acirc;mos
+tudo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&oacute;s, que somos a prosa vil da na&ccedil;&atilde;o,
+n&oacute;s
+n&atilde;o intendemos a poesia do povo; n&oacute;s, que so
+comprehendemos o tangivel dos sentidos, n&oacute;s somos
+extranhos &aacute;s aspira&ccedil;&otilde;es sublimes do
+senso-&iacute;ntimo
+<span class="pagenum">[165]</span>
+que despreza as nossas theorias
+presump&ccedil;osas,
+porque todas veem de uma acanhada an&aacute;lyse
+que procede curta e mesquinha dos dados
+materiaes, insignificantes e imperfeitos;&#8213;em
+quanto elle, aquelle senso-&iacute;ntimo do povo, vem
+da Raz&atilde;o divina, e procede da synthese transcendente,
+superior, e inspirada pelas grandes e
+eternas verdades que se n&atilde;o demonstram porque se
+sentem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E eu que escrevo isto serei eu demagogo? N&atilde;o
+sou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Serei fanatico, jesuita, hypocrita? N&atilde;o sou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que sou eu ent&atilde;o?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quem n&atilde;o intender o que eu sou, n&atilde;o vale a
+pena que lh'o diga...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Perdoa-me, leitor amigo, uma reflex&atilde;o &uacute;ltima
+no fim d'este cap&iacute;tulo ja tam seccante, e
+prometto n&atilde;o reflectir nunca mais.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jesu Christo, que foi o mod&ecirc;lo da paciencia,
+da tolerancia, o verdadeiro e unico fundador da
+<span class="pagenum">[166]</span>
+liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu
+Christo soffreu com resigna&ccedil;&atilde;o e humildade
+quantas
+injusti&ccedil;as, quantos insultos lhe fizeram a elle
+e &aacute; sua miss&atilde;o divina; perdoou ao matador,
+&aacute;
+ad&uacute;ltera, ao blasph&ecirc;mo, ao impio. Mas quando
+viu os bar&otilde;es a agiotar dentro do templo, n&atilde;o
+se p&ocirc;de conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os
+sem dor.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c18"></a>CAPITULO XLIII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">
+Partida de Santarem.&#8213;Pinacotheca.&#8213;Impaciencia e
+saudades.&#8213;Sexta-feira.&#8213;Martyrio
+obscuro.&#8213;A figura do peccado.&#8213;Estamos
+no valle outra vez.&#8213;Evoca&ccedil;&atilde;o de incanto.&#8213;A
+irman Francisca e Fr. Diniz.&#8213;A teia de Penelope.&#8213;E
+Joanninha?&#8213;Joanninha est&aacute; no ceo.&#8213;A mulher
+morta a dobar esperando que a interrem.&#8213;A esperan&ccedil;a,
+virtude do christianismo.&#8213;Uma carta.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estou dev&eacute;ras fatigado de Santarem; vou-me
+embora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Despedimo'-nos saudosos d'aquella boa e leal
+<span class="pagenum">[168]</span>
+familia que nos hosped&aacute;ra com tanto carinho,
+com toda a velha cordialidade portugueza; partimos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhan
+nos olivaes, senti desaffogar-se-me alma
+d'aquella constric&ccedil;&atilde;o cansada que se experimenta
+na longa visita a um museu de antiguidades, a
+uma galeria de pinturas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Perdoem-me que n&atilde;o diga 'pinacotheca': bem
+sei que &eacute; moda, e que a palavra &eacute; adoptavel
+segundo
+as mais strictas regras de Horacio, pois
+'cai da fonte grega' direitamente e sem mistura:
+mas soa-me tam mal em portuguez que n&atilde;o posso
+com ella.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Santarem fatigou-me o espirito, como todas as
+coisas que fazem pensar muito. Deixo-a por&ecirc;m
+com saudade, e n&atilde;o me heide esquecer nunca
+dos dias que aqui passei.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+De qu&ecirc; e como sou eu feito, que n&atilde;o posso
+estar muito tempo n'um logar, e n&atilde;o posso sahir
+d'elle sem pena?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[169]</span>
+Ja me est&aacute; custando ter deixado Santarem.
+Porque n&atilde;o haviamos de partir &aacute;manhan, e ter
+ficado
+ainda hoje alli?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E hoje que &eacute; sexta-feira?... Mau dia para come&ccedil;ar
+viagem!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso valle,
+da pobre velha cega que ahi vivia sua triste vida
+de dores, de remorsos e desconf&ocirc;rto, esperando
+por&ecirc;m em Deus, conformada com seu martyrio:
+martyrio obscuro, mas tam insanguentado
+d'aquelle sangue que mana gotta a gotta e dolorosamente
+do cora&ccedil;&atilde;o rasgado, devorado em silencio
+pelo abutre invisivel de uma dor que se
+n&atilde;o revela, que n&atilde;o tem prantos nem ais.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era na sexta-feira que o terrivel frade, o
+demonio vivo d'aquella mulher de ang&uacute;stias, lhe
+apparecia tremendo e espantoso deante de seus
+olhos cegos, elevado pela imagina&ccedil;&atilde;o
+&aacute;s propor&ccedil;&otilde;es
+descommunaes e gigantescas de um vingador
+sobrenatural.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era a figura tangivel, e visivel &aacute; vista de sua
+<span class="pagenum">[170]</span>
+alma, do enorme peccado que contra ella estava
+sempre.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Creio que escuso dizer que n&atilde;o tenho eu &eacute;sta
+supersti&ccedil;&atilde;o dos dias aziagos que tinha a
+desgra&ccedil;ada
+velha, que a sua Joanninha partilhava. Mas
+confesso que, recordando as fatalidades d'aquella
+familia e d'aquelle dia, n&atilde;o gostei de voltar n'elle
+ao valle de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estavamos por&ecirc;m no valle; e ja eu via de longe
+aquellas &aacute;rvores e aquella janella que tanto
+me impressionaram, quando &eacute;stas reflex&otilde;es me
+acudiam ao espirito e m'o contristavam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Affrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar
+larga dianteira aos meus companheiros de
+viagem; e quando chegava perto da casa, tinha-os
+perdido de vista.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Involuntariamente parei defronte da janella;
+mordia-me um inter&ecirc;sse, uma curiosidade irresistivel...
+Nem viva alma por aquelles arredores;
+apeei-me e fui direito para a casa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Apenas passei as &aacute;rvores, um spectaculo inesperado,
+<span class="pagenum">[171]</span>
+uma evoca&ccedil;&atilde;o como de incanto me veio
+ferir os olhos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No mesmo s&iacute;tio, do mesmo modo, com os
+mesmos trajos e na mesma attitude em que a
+descrevi nos primeiros capitulos d'esta historia,
+estava a nossa velha irman Francisca...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ella era, e n&atilde;o podia ser outra; sentada na
+sua antiga cadeira, dobando, como Penelope tecia,
+a sua interminavel meada. N&atilde;o havia outra
+differen&ccedil;a agora sen&atilde;o que a dobadoira
+n&atilde;o parava,
+e que o fio seguia, seguia, inrollando-se,
+inrollando-se cont&iacute;nuo e compassado no nov&ecirc;llo;
+e que os bra&ccedil;os da velha lidavam lentamente mas
+sem cessar no seu movimento de authomato que
+fazia mal ver.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Defronte d'ella, sentado n'uma pedra, a cabe&ccedil;a
+baixa, e os olhos fixos n'um grosso livro
+velho, que sustinha nos joelhos, estava um homem
+s&ecirc;cco e magro, descarnado como um esqueleto,
+livido como um cadaver, immovel como
+uma est&aacute;tua. Trajava um non-descriptum negro,
+que podia ser sotana de clerigo ou tunica
+de frade, mas descingida, s&ocirc;lta, e pendente em
+<span class="pagenum">[172]</span>
+grossas e largas pregas do extenuado pescosso do
+homem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tambem n&atilde;o podia ser sen&atilde;o Frei Diniz.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheguei juncto d'elles; n&atilde;o me sentiu nenhum
+dos dois; nem me viu elle, o que so via dos dois.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sem mais reflex&atilde;o, e continuando alto na serie
+de pensamentos que me vinha correndo pelo espirito,
+exclamei:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E Joanninha?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joanninha est&aacute; no ceo':&#8213;respondeu sem
+sobresalto, sem erguer os olhos do seu livro, a
+sombra do frade&#8213;que outra coisa n&atilde;o parecia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joanninha, pobre Joanninha! Pois como
+foi, como acabou a infeliz?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joanninha n&atilde;o &eacute; infeliz: foi ser anjo na
+presen&ccedil;a de Deus.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E... e Carlos?'&nbsp;balbuciei eu hesitando,
+porque temia a susceptibilidade do frade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[173]</span> &#8213;'Carlos!' respondeu elle erguendo emfim
+os olhos e cravando-os em mim...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem
+os heide ver!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Carlos!... E quem &eacute; que m'o pergunta?
+quem &eacute; que tanto sabe de mim e dos meus?..
+Dos meus! Eu n&atilde;o tenho meus: sou so.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'So! N&atilde;o est&aacute; aqui, que eu vejo?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ve essa mulher morta que ahi ficou, que
+a matei eu, e que aqui est&aacute; &aacute; espera que
+d&ecirc; a
+hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou
+so e quero estar so. Morreu tudo. Que mais quer
+saber?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Venho de Santarem...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Santarem tambem morreu; e morreu Portugal.
+Aqui n&atilde;o, vive sen&atilde;o o meu
+peccado, que
+Deus n&atilde;o perdoou ainda, nem espero...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'A nossa religi&atilde;o fez uma virtude da
+esperan&ccedil;a.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[174]</span> &#8213;'Fez.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E n'isso se distingue das outras
+todas.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Pois ainda ha quem o saiba n'esta terra?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ha mais do que n&atilde;o houve nunca&#8213;pelo
+menos ha mais quem o saiba melhor.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'P&oacute;de ser: os juizos de Deus s&atilde;o
+incomprehensiveis.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E infinita a sua misericordia.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas a sua cholera implacavel, a sua justi&ccedil;a
+tremenda.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'A misericordia &eacute; maior.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Quem lhe insinou tudo isso?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O evangelho, o cora&ccedil;&atilde;o, e minha m&atilde;e
+que m'os explicou ambos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sente-se aqui... aop&eacute; de mim.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[175]</span>
+Sentei-me. O frade pegou-me na m&atilde;o com as
+suas ambas, e p&ocirc;s-me os olhos com uma express&atilde;o
+que nenhuma lingua p&oacute;de dizer, nem
+nenhum pincel pintar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esteve assim algum tempo, como quem me
+observava. Vi-lhe apontar claramente uma lagryma,
+vi-lh'a retroceder, e ficarem-lhe inchutos
+os olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro
+que lhe vinha &aacute; garganta; percebi distinctamente
+o estreme&ccedil;&atilde;o que lhe correu o corpo; mas observei
+que todo se serenou depois.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Disse-me ent&atilde;o com voz magoada mas placida
+e sem aspereza ja nenhuma:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sabe a historia do valle?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sei tudo at&eacute; &aacute; partida de Carlos para
+Evora.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Aqui tem a carta que elle escreveu.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tirou do breviario um papel dobrado, amarello
+do tempo, e manchado, bem se via, de
+muitas lagrymas, algumas recentes ainda.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[176]</span> &#8213;'Leia.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Li.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute;sta era a carta de Carlos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c19"></a>CAPITULO XLIV.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">Carta
+de Carlos a Joanninha.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature">Evora-monte...<br />
+
+
+de maio de 1834.</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; a ti que escrevo, Joanna, minha irman, minha
+prima, a ti so.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Com nenhum outro dos meus n&atilde;o posso nem
+ouso fallar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[178]</span>
+Nem eu ja sei quem s&atilde;o os meus: confunde-se,
+perde-se-me &eacute;sta cabe&ccedil;a nos desvarios do
+cora&ccedil;&atilde;o. Errei com elle, perdeu-me elle... Oh!
+bem sei que estou perdido.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Perdido para todos, e para ti tambem. N&atilde;o
+me digas que n&atilde;o; tens generosidade para o dizer,
+mas n&atilde;o o digas. Tens generosidade para
+o pensar, mas n&atilde;o p&oacute;des evitar de o sentir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu estou perdido.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E sem remedio, Joanna, porque a minha natureza
+&eacute; incorrigivel. Tenho energia de mais,
+tenho pod&ecirc;res de mais no cora&ccedil;&atilde;o. Estes
+excessos
+d'elle me mataram... e me matam!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tu n&atilde;o comprehendes isto, Joanninha, n&atilde;o
+me intendes decerto; e &eacute; difficil.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Es mulher, e as mulheres n&atilde;o intendem os
+homens. Sempre o entrevi, hoje sei-o perfeitamente.
+A mulher n&atilde;o p&oacute;de nem deve comprehender
+o homem. Triste da que chega a sab&ecirc;-lo!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E d'ahi... quando se tem de morrer, antes
+<span class="pagenum">[179]</span>
+saber a morte de que se morre, do que expirar
+na ignorancia do mal que nos matou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tu es joven e inexperiente, a tua alma est&aacute;
+cheia de illus&otilde;es doces; vou dissipar-t'as em
+quanto se n&atilde;o condensam, que te offusquem a raz&atilde;o
+e te deixem para sempre escrava cega do
+maior inimigo que temos, o cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quero contar-te a minha historia: ver&aacute;s n'ella
+o que vale um homem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sabe que os n&atilde;o ha melhores que eu; e tam
+bons, poucos. Olha o que ser&aacute; o resto!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tu n&atilde;o ignoras ja hoje o porque fugi da casa
+materna: sab&iacute;a-a manchada de um grande peccado,
+e imaginei-a polluida de um enorme crime.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esse homem que &eacute; meu pae, n&atilde;o o podia
+ver; hoje que sei o que me elle &eacute;... Deus me
+perdoe, que ainda o posso ver menos!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Minha av&oacute;, julguei-a cumplice no crime; ella
+so o era no peccado. Perdoe-lhe Deus; e bem
+<span class="pagenum">[180]</span>
+p&oacute;de e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha
+pobre m&atilde;e succumbiu por sua culpa, por
+sua irremissivel complacencia...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deus p&oacute;de e deve, repitto... mas eu, como
+lhe heide perdoar eu este rubor que sinto nas
+faces ao nomear minha m&atilde;e?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tem padecido e soffrido muito... coitada! A
+sua penitencia &eacute; um martyrio, a sua velhice uma
+longa paix&atilde;o, e esse homem que a perdeu um
+verdugo sem piedade. Mas tudo isso &eacute; com Deus,
+n&atilde;o &eacute; commigo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu sou filho; minha m&atilde;e morreu sem perdoar&#8213;n&atilde;o
+posso perdoar eu.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E quem me hade perdoar a mim? Ninguem,
+nem quero.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o ser&aacute;s tu, minha irman; n&atilde;o, que
+n&atilde;o
+deves. Porque eu amei-te com um cora&ccedil;&atilde;o que
+ja n&atilde;o era meu; acceitei o teu amor sem o merecer,
+sem o pod&ecirc;r possuir, trahi quando te
+amava, menti quando t'o disse, menti-te a ti,
+<span class="pagenum">[181]</span>
+menti-me a mim, e n&atilde;o guardei verdade a ninguem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar
+o fio d'esta minha incrivel historia&#8213;incrivel
+para ti, bem simples para quem conhe&ccedil;a o
+cora&ccedil;&atilde;o
+do homem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sahi de Portugal, e posso dizer que n&atilde;o tinha
+amado ainda. Inclina&ccedil;&otilde;es de crian&ccedil;a,
+galanteios
+de sociedade, liga&ccedil;&otilde;es que nasceram da vaidade,
+ou que so os sentidos alimentam, n&atilde;o merecem
+o nome de amor.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu n&atilde;o tinha amado.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ha tres especies de mulheres n'este mundo:
+a mulher que se admira, a mulher que se deseja,
+e a mulher que se ama.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A belleza, o espirito, a gra&ccedil;a, os dotes d'alma
+e do corpo geram a admira&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Certas f&oacute;rmas, certo ar voluptuoso criam o
+desejo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[182]</span>
+O que produz o amor n&atilde;o se sabe; &eacute; tudo
+isto &aacute;s vezes, &eacute; mais do que isto, n&atilde;o
+&eacute; nada
+d'isto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o sei o que &eacute;; mas sei que se
+p&oacute;de admirar
+uma mulher sem a desejar, que se p&oacute;de desejar
+sem a amar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O amor n&atilde;o est&aacute; definido, nem o p&oacute;de
+ser
+nunca. O amor verdadeiro; que as outras coisas
+n&atilde;o s&atilde;o isso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu vivi poucos mezes em Inglaterra; mas foram
+os primeiros que posso dizer que vivi. Levou-me
+o acaso, o destino&#8213;a minha estrella, porque
+eu ainda creio nas estrellas, e em pouco mais d'este
+mundo creio ja&#8213;levou-me ao interior de uma
+familia elegante, ricca de tudo o que p&oacute;de dar
+distinc&ccedil;&atilde;o n'este mundo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Extranhei aquelles habitos de alta civiliza&ccedil;&atilde;o,
+que me agradavam comtudo; moldei-me facilmente
+por elles, affiz-me a vejetar docemente
+na branda atmosphera artificial d'aquella estufa
+sem perder a minha natureza de planta extrangeira.
+Agradei: e n&atilde;o o merecia. No fundo d'alma
+<span class="pagenum">[183]</span>
+e de character eu n&atilde;o era aquillo por que me
+tomavam. Menti: o homem n&atilde;o faz outra coisa.
+Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o
+fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Menti pois, e agradei porque mentia. Sancto
+Deus! para que sahiria a verdade da tua b&ocirc;cca,
+e para que a mandaste ao mundo, Senhor?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia tres meninas n'aquella familia. Dizer
+que eram as tres gra&ccedil;as &eacute; uma vulgaridade
+cansada,
+e tam bannal que n&atilde;o d&aacute; idea de coisa alguma.
+Tres anjos seriam; tres anjos posso dizer
+com mais propriedade. E quando em nossos
+longos passeios solitarios, por aquelles campos
+sempre verdes, por aquellas collinas coroadas
+de arvoredo, tapessadas de relva macia, os
+seus vestidos brancos, singelos, simples, trajados
+sem arte, fluctuavam com a brisa da tarde...
+e os longos anneis de seus cabellos&#8213;os de uma
+eram loiros, os de outra castanhos, n&atilde;o ha nome
+para a indefinida c&ocirc;r dos da terceira&#8213;quando
+esses longos anneis descahiam de sua ondada
+spiral com o orvalho humido do crepusculo&#8213;e
+que a essa luz vaga e mysteriosa eu as contemplava
+todas tres com adora&ccedil;&atilde;o e recolhimento
+<span class="pagenum">[184]</span>
+devoto d'alma&#8213;sinceramente exclamava: 'S&atilde;o
+tres anjos celestes que &eacute; for&ccedil;oso adorar!..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E assim &eacute; que os adorava os tres anjos, todos
+tres, e n&atilde;o podia adorar um sem os outros.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que me queriam ellas, &eacute; certo; que insensivelmente
+se habituaram &aacute; minha companhia e
+ja n&atilde;o podiam viver sem ella... ai! era preciso
+ser um monstro para o n&atilde;o confessar com lagrymas
+de gratid&atilde;o e de remorso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os mais difficeis e delicados apices da perfei&ccedil;&atilde;o
+de sua tam caprichosa e tam expressiva
+lingua, as bellezas mais sentidas de seus
+auctores queridos, o espirito e tom difficil de
+sua sociedade tam desdenhosa e fastienta, mas
+tam completa e tam calculada para sublimar a
+vida e a desmaterializar&#8213;isso tudo, e um indefinivel
+sentimento do <em>gentil</em>, que so com
+natural
+tacto se adquire, &eacute; verdade, mas que se n&atilde;o
+alcansa com elle so&#8213;isso tudo o apprendi alli
+das suaves lic&ccedil;&otilde;es que insensivelmente recebia a
+cada instante.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se valho alguma coisa, tudo valho por ellas;
+<span class="pagenum">[185]</span>
+se tenho merecido alguma considera&ccedil;&atilde;o no mundo,
+toda lh'a devo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ves que confesso a d&iacute;vida, ver&aacute;s como a paguei.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O tom perfeito da sociedade ingleza inventou
+uma palavra que n&atilde;o ha nem p&oacute;de haver n'outras
+linguas emquanto a civiliza&ccedil;&atilde;o as n&atilde;o
+aparar.
+<em>To flirt</em> &eacute; um verbo
+innocente que se conjuga
+alli entre os dois sexos, e n&atilde;o significa
+<em>namorar</em>&#8213;palavra
+grossa e absurda que eu detesto&#8213;n&atilde;o
+significa 'fazer a c&ocirc;rte'; &eacute; mais do que estar
+amavel, &eacute; menos do que galantear, n&atilde;o obriga
+a nada, n&atilde;o tem consequencias, come&ccedil;a-se,
+acaba-se, interrompe-se, addia-se, contin&uacute;a-se
+ou descontin&uacute;a-se &aacute; vontade e sem
+compromettimento.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu <em>flartava</em>, n&oacute;s
+<em>flartavamos</em> ellas
+<em>flartavam</em>...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E n&atilde;o ha mais doce nem mais suave intertenimento
+d'espirito do que o <em>flartar</em> com uma
+elegante
+e graciosa menina ingleza; com duas &eacute; prazer
+angelico, e com tres &eacute; divino.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Para quem nasceu n'aquillo, n&atilde;o &eacute; perigoso;
+<span class="pagenum">[186]</span>
+para mim degenerou, breve, aquella placida
+sensa&ccedil;&atilde;o
+em mais profundo sentimento.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Veio a admira&ccedil;&atilde;o primeiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E como as eu admirava todas tres as minhas
+gentis fascinadoras!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E ellas conheciam-n'o, riam, folgavam e estavam
+incantadas de me incantar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fizeram nascer os desejos!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julguei-me perdido, e quiz fugir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o me deixaram e zombaram de mim, da
+ardencia do meu sangue hespanhol, da vehemencia
+das minhas sensa&ccedil;&otilde;es...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em breve eu amava perdidamente uma d'ellas&#8213;queria
+muito &aacute;s outras duas; mas amar,
+amar dev&eacute;ras, d'alma cuidava eu, de
+cora&ccedil;&atilde;o ia
+jur&aacute;-lo, era a segunda&#8213;Laura, a mais gentil,
+mais nobre, mais elegante e radiosa figura de
+mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora
+de verdadeiro amor de artista que se dignou
+tomar por esse pouco de greda que tinha nas
+m&atilde;os ao form&aacute;-la.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c20"></a>CAPITULO XLV.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">Carta
+de Carlos a Joanninha:
+contin&uacute;a.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Laura n&atilde;o era alta nem baixa, era forte sem
+ser gorda, e delicada sem magreza. Os olhos
+de um c&ocirc;r-de-avelan diaphano, puro, avelludado,
+grandes, vivos, cheios de tal majestade
+<span class="pagenum">[188]</span>
+quando se iravam, de tal do&ccedil;ura quando
+se abrandavam, que &eacute; difficil dizer quando eram
+mais bellos. O cabello quasi da mesma c&ocirc;r tinha,
+demais, um reflexo dourado, vacillante, que
+ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,&#8213;mas
+a espa&ccedil;os, n&atilde;o era sempre, nem em todas
+as posi&ccedil;&otilde;es da
+cabe&ccedil;a:&#8213;cabe&ccedil;a pequena, modelada
+no mais classico da statuaria antiga, poisada
+s&ocirc;bre um collo de immensa nobreza, que harmonizava
+com a perfei&ccedil;&atilde;o das linhas dos hombros.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A cintura breve e estreita, mas sem exaggera&ccedil;&atilde;o,
+via-se que o era assim por natureza e
+sem a menor contrafei&ccedil;&atilde;o d'arte. O p&eacute;
+n&atilde;o tinha
+as exiguidades fabulosas da nossa peninsula,
+era proporcionado como o da Venus de Medicis.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tenho visto muita mulher mais bella, algumas
+mais adoraveis, nenhuma tam fascinante.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fascinante &eacute; a palavra para ella.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O rosto oval e perfeitamente symetrico, pallido;
+so os bei&ccedil;os eram vermelhos como a rosa
+de c&ocirc;r mais viva.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A express&atilde;o de toda &eacute;sta figura &eacute; que
+se
+<span class="pagenum">[189]</span>
+n&atilde;o descreve. A b&ocirc;cca breve e fina surria pouco;
+mas quando surria, oh!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ve-la n'um baile, vestida e cal&ccedil;ada de branco,
+cingida com um cinto de vidrilhos pretos&#8213;toilete
+inalteravel para ella desde certa epocha&#8213;sem
+mais ornato, sem mais flores, apenas
+um farto fio de perolas derramando-se-lhe
+pelo collo&#8213;era ver alguma coisa de superior,
+de mais sublime que uma simples mulher.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tal era Laura, Laura que eu amei quanto
+podia e sab&iacute;a amar. Era pouco, sei-o agora;
+entao parecia-me infinito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que passeavamos
+s&oacute;s, e depois de andarmos horas e
+horas esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensavamos,
+eu n'ella, ella n&atilde;o sei em qu&ecirc;.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&iacute;a em mim?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&iacute;a mas n&atilde;o m'o confessou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar
+para mim uma so vez, sem fugir com a m&atilde;o
+<span class="pagenum">[190]</span>
+que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que
+sentia fria e humida nas minhas que escaldavam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era tarde, dirigimo'-nos para casa. &Aacute; porta
+disse-me: 'N&atilde;o entre'; e vi-a banhada em lagrymas.
+Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso
+que me confundiu. Pela primeira vez, depois
+de tanto tempo, fui so, triste e melancholico
+para a minha pobre habita&ccedil;&atilde;o, onde passei
+a noite.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando era madrugada quiz-me deitar. N&atilde;o
+dormi.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte recebi uma carta de Julia:
+assim se chamava a mais velha, a mais sensivel
+e a mais carinhosa das tres irmans.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O bilhete parecia indifferente; n&atilde;o continha
+sen&atilde;o palavras usuaes, pedia-me que fosse almo&ccedil;ar
+com ella... n&atilde;o fallava nas irmans.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me
+que ia ser expulso d'aquelle Eden de
+innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia,
+<span class="pagenum">[191]</span>
+uma lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me
+um aggregado de signaes caballisticos terriveis
+que incerravam o mysterio da minha condemna&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no
+<em>parlour</em> elegante de seu exclusivo
+uso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era um pequeno gabinete de estudo, ornado
+somente de umas <em>etag&egrave;res</em>
+com livros e musicas,
+uma harpa e um cavallete.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+S&ocirc;bre o cavallete estava o meu retratto esbo&ccedil;ado,
+na estante da harpa uma roman&ccedil;a franceza
+a que eu tinha feito lettras portuguezas...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A urna asoviava s&ocirc;bre a mesa, Julia fazia o
+cha e n&atilde;o parecia attender a mais nada.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; preciso que eu te descreva a piquena Julia&#8213;Julietta
+como n&oacute;s lhe chamavamos&#8213;n&oacute;s,
+as duas irmans e eu que rivalizavamos a qual lhe
+havia de querer mais...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! que saudade e que remorso para toda a
+<span class="pagenum">[192]</span>
+minha vida n'estas recorda&ccedil;&otilde;es de fraternal
+intimidade!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia era piquena, delicadissima, propriamente
+infantina no rosto, na figura, na express&atilde;o e
+no h&aacute;bito de toda a sua incantadora e diminutiva
+pessoa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nenhuma ingleza, desde o tempo da rainha
+Bess, teve p&eacute; e <em>ancle</em>
+mais delicado. Nenhuma,
+desde o rei Alfredo, se occupou tam elegantemente
+dos elegantes cuidados de um interior britannico&#8213;gentil
+quadro 'de genero' como n&atilde;o
+ha outro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Lady Julia R. era a mais piquena e a mais
+bonita subdita britannica que eu creio que tenha
+existido.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vista &aacute; lua, no meio do seu parque, volteiando
+por entre os raros exoticos que no curto ver&atilde;o
+inglez se expoem ao ar livre, facilmente se
+tomava pela bella soberana das fadas realizando
+aquella preciosa vis&atilde;o de Shakspeare, o 'Midsumer
+night's dream.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[193]</span>
+Seus olhos de azul celeste, sempre humidos e
+sempre doces, os cabellos de um claro e assedado
+castanho todos soltos em anneis &aacute; roda da
+cabe&ccedil;a e cahindo pelos hombros, espalhando-se
+pelo rosto, que era uma lida cont&iacute;nua para os
+tirar dos olhos, um corpo airoso, uma b&ocirc;cca de
+beijar, os dentes miudos, alvissimos e apertados,
+a m&atilde;o piquena estreita, e de cera&#8213;tudo
+isto fazia de Julia um typo ideal de bondade, de
+candura, de innocencia angelica.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E era um anjo... oh se era!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Contemplei-a muito tempo em silencio: ella
+surria-me tristemente de vez em quando, mas
+n&atilde;o fallava. Emfim almo&ccedil;&aacute;mos, levaram
+o trem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ella disse &aacute; sua aia:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Phebe, eu estou so com Carlos; e quero
+estar so. Em casa para ninguem.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sim, minha
+senhora.' Resposta obrigada
+do criado inglez a tudo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E fic&aacute;mos sos completamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c21"></a>CAPITULO XLVI.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">
+Carta de Carlos a Joanninha: contin&uacute;a.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia levantou finalmente para mim os seus olhos
+humidos, assombrados das mais longas e assedadas
+pestanas que ainda vi em olhos de mulher,
+e disse-me:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[196]</span> &#8213;'Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me;
+diga-me alguma coisa que me console.
+Falle-me.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que heide eu dizer?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'&Eacute; um cavalheiro, Carlos: diga-me que o
+&eacute;, e desassombre-me d'este terror em que estou.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Pois duv&iacute;da, Julia?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o duvido. Queremos-lhe todos muito
+aqui... muito demais... receio: como havemos
+de duvidar?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lan&ccedil;ando-me
+a seus p&eacute;s, tomando-lhe as m&atilde;os ambas
+nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um
+paroxysmo de verdadeira contric&ccedil;&atilde;o. 'Perdoe-me,
+Julia: bem sei que fiz mal, e prometto...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o prometta nada, sen&atilde;o que hade ser
+cavalheiro. Isso sei eu e sinto que o p&oacute;de cumprir.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Juro por... por ella.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[197]</span> &#8213;'Ella!.. Ella ama-o, Carlos. &Eacute; melhor dizer
+a verdade de uma vez, e incarar todas as
+consequencias de uma posi&ccedil;&atilde;o difficil, do que
+illudir-se
+a gente sem as evitar. Laura ama-o,
+mas n&atilde;o deve nem p&oacute;de am&aacute;-lo. Se fosse
+livre,
+n&atilde;o sei o que diria&#8213;n&atilde;o sei o que faria eu...
+Mas n&atilde;o se tratta de mim'&#8213;proseguiu com volubilidade
+febril&#8213;'n&atilde;o se tratta de mim, Carlos,
+tratta-se d'ella. Laura n&atilde;o o p&oacute;de amar,
+est&aacute;
+compromettida. Hade partir em tres mezes
+para a India.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Para a India!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sim: &eacute; verdade: velo-ha. O seu noivo &eacute;
+capit&atilde;o ao servi&ccedil;o da companhia, e parte em
+casando.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu sentia-me morrer o cora&ccedil;&atilde;o dentro do peito:
+foi a primeira dor verdadeira d'alma que
+soffri... Aquelle era o primeiro amor sincero da
+minha vida, e aquella foi tambem a primeira
+excruciante pena d'amor por que passei.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu que de taes penas zomb&aacute;ra sempre, que
+as desterrava da realidade para os romances, eu!..
+<span class="pagenum">[198]</span>
+Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar
+um padecer como eu experimentei n'aquella
+hora?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o sei o que fiz nem o que disse; n&atilde;o me
+recordo sen&atilde;o que senti as lagrymas de Julia cahirem-me
+s&ocirc;bre a face e misturarem-se com as
+minhas que corriam em abundancia. Levantei os
+olhos para ella, e a express&atilde;o que vi nos seus...
+oh! como a heide esquecer nunca?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quanto ha de piedade e compaix&atilde;o no thesouro
+infinito de um cora&ccedil;&atilde;o feminino se derramava
+d'aquelles olhos celestes para me consolar. L&aacute;
+n&atilde;o ficava sen&atilde;o uma tristeza profunda,
+desanimada
+e mortal...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o sei que vago pensamento, que idea louca...
+ou antes, que presentimento indeterminado
+e confuso me atravessou pelo espirito&#8213;ou
+ser&iacute;a pelo cora&ccedil;&atilde;o?&#8213;n'aquelle
+momento...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se Julia?..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas n&atilde;o p&oacute;de ser.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[199]</span> &#8213;'Julia, Julia' bradei eu 'quero v&ecirc;-la: heide
+v&ecirc;-la uma vez ao menos. N&atilde;o me negue este
+&uacute;ltimo
+favor. Sei que devo, que preciso, que &eacute;
+for&ccedil;oso fugir d'ella. Mas antes heide dizer-lhe...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O qu&ecirc;?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que a amo como nunca amei, como nunca
+mais heide amar...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ai Carlos!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que para sempre, sempre...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia levantou-se sem dizer palavra, e lan&ccedil;ando
+s&ocirc;bre mim um olhar de ineffavel compaix&atilde;o,
+sahiu rapidamente do quarto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Achei-me so, n&atilde;o sei o que pensei nem se
+pensei. Sentia-me aturdido da cabe&ccedil;a, exhausto
+do cora&ccedil;&atilde;o&#8213;n'uma depress&atilde;o d'espirito
+que tocava
+na estupidez. Se me apontassem uma pistola
+aos peitos, n&atilde;o levantava o bra&ccedil;o para a
+arredar...
+Ja n&atilde;o sentia pena nem desejo. Parecia-me
+que come&ccedil;ava a morrer; e n&atilde;o achava que
+morrer custasse muito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[200]</span>
+N'este estado fiquei n&atilde;o sei que tempo; muito
+n&atilde;o foi. Percebi que se abria a porta, n&atilde;o
+tive f&ocirc;r&ccedil;a para levantar os olhos. At&eacute;
+que senti
+uma doce e querida m&atilde;o na minha... era Julia...
+e era Laura tambem... sancto Deus! que estavam
+aop&eacute; de mim ambas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia tinha a minha m&atilde;o na sua; e Laura incostada
+ao hombro da irman, deixava cahir s&ocirc;bre
+mim aquelles olhos em que a severidade
+habitual se tinha relaxado n'uma indulgencia tam
+doce, n'uma compaix&atilde;o tam celeste que, juro
+por Deus, n'aquella hora acreditei firmemente
+que tinha deante de mim dous anjos seus, baixados
+nas azas da piedade divina para me trazer todo
+o perd&atilde;o, toda a misericordia do ceo &aacute; minha
+alma.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Como te direi eu, Joanna, querida Joanninha,
+como te direi a ti que me amas, a ti que
+eu amo&#8213;porque te amo, e Deus me castigue
+que deve! porque te amo, cegamente te amo
+com este infame e abominavel cora&ccedil;&atilde;o que Elle
+me deu&#8213;como te heide eu dizer a ti, e para
+qu&ecirc;, as palavras que alli dissemos, os protestos
+<span class="pagenum">[201]</span>
+que alli fiz, os juramentos que alli se deram, as
+promessas que alli foram trocadas?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia foi para a janella&#8213;indulgente chaper&atilde;o
+que nos n&atilde;o via e fingia n&atilde;o nos ouvir. O dia
+passou-se assim, um longo dia de junho que tam
+curto e rapido nos pareceu. Era noite quando
+fomos jantar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute; mesa Laura appareceu em trajos de viagem;
+partia n'aquella noite para o paiz de Galles onde
+tinha uma amiga, com quem ia estar at&eacute; o dia
+terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe
+de mim, no seio da amizade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingiamos.
+Ao sahir da mesa ach&aacute;mos &aacute; porta da casa
+a caleche posta, o cocheiro na almofada, e
+o criado &aacute; portinhola. Mont&aacute;mos, as tres irmans
+e eu.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram duas milhas d'alli &aacute; estalagem onde
+tocava a malla-posta e onde Laura devia incontr&aacute;-la.
+Fizemo-las sem proferir palavra nenhum
+dos quatro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[202]</span>
+A lua ia grande e bella com sua luz triste e
+fria por um ceo sem nuvens. Era uma d'aquellas noites
+raras, mas admiraveis do breve estio britannico.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A areia que rangia com o attrito das rodas
+da carruagem nas lisas ruas do parque, os ramos
+descahidos das &aacute;rvores por que ro&ccedil;avamos
+levemente
+ao passar, os veados mansos que se levantavam
+para nos ver&#8213;os phaes&atilde;es que erguiam
+seu rasteiro voo de moita para moita ao
+sentir o estalido do chicote, com que o cocheiro
+mais moderava do que excitava os seus cavallos,
+tudo para mim eram impress&otilde;es de nunca
+sentida e inexplicavel tristeza. Ficava-me a alma
+apoz tudo aquillo, sentia fugir-me a felicidade
+para sempre, e que era eu que a affugentava,
+e que me ia incontrar so, desamparado e proscripto
+no deserto da vida.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o me sentia f&ocirc;r&ccedil;a para blasphemar,
+para
+maldizer de Deus, sen&atilde;o tinha-o feito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tinha: e outras ancias mais angustiadas e
+mortaes me teem afflicto na vida; em nenhuma
+<span class="pagenum">[203]</span>
+me senti tam capaz de renegar de Deus e descrer
+d'elle como n'esta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&iacute;a effeito de sua inexhaurivel piedade que
+talvez quiz acudir &aacute; minha alma antes que se perdesse,
+ser&iacute;a por certo&#8213;pois n'esse mesmo instante
+distinctamente me appareceu deante dos
+olhos d'alma a unica imagem que podia cham&aacute;-lo
+do abysmo: era a tua, Joanna! Era a minha
+Joanninha piquena, innocente, aquelle anginho
+de crian&ccedil;a, tam viva, tam alegre, tam graciosa
+que eu tinha deixado a brincar no nosso valle:
+o nosso valle rustico, tam grosseiro e tam inculto!
+oh como as saudades d'elle me foram alcan&ccedil;ar
+no meio d'aquellas allinhadas e perfeitas bellezas
+da cultura britannica! Os raios verdes de
+teus olhos, faiscantes como esmeraldas, atravessaram
+o espa&ccedil;o, e foram luzir no meio d'aquell'outros
+lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo
+aspero da nossa charneca mandavam-me ao longe as
+exhala&ccedil;&otilde;es de seu perfume agreste, e matavam o
+suave cheiro do feno macio d'essas relvas sempre
+verdes que me rodeavam. As folhas crespas, s&ecirc;ccas,
+alvacentas das nossas oliveiras como que me
+luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante
+vegeta&ccedil;&atilde;o do norte, promettendo-me paz
+<span class="pagenum">[204]</span>
+ao cora&ccedil;&atilde;o, annunciando-me o fim de uma peleja
+em que m'o dilaceravam as paix&otilde;es.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E tu, Joanna, tu, pobre innocente, e desvallida
+criancinha, tu apparecias-me no meio de tudo
+isso, extendendo para mim os teus bracinhos
+amantes como no dia que me despedira de ti
+n'esse fatal, n'esse querido, n'esse doce e amargo
+valle das minhas lagrymas e dos meus risos,
+onde so me tinham de correr os poucos minutos
+de felicidade verdadeira da minha vida, onde as
+verdadeiras dores da minha alma tinham de m'a
+cortar e destruir para sempre...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! de qu&ecirc; e como &eacute; feito o homem, para
+qu&ecirc; e porque vive elle? Que vim eu, que vimos
+n&oacute;s todos fazer a este mundo?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella
+splendida e macia carruagem, rodeado de tres
+mulheres divinas que me queriam todas, que eu
+confundia n'uma adora&ccedil;&atilde;o mysteriosa e
+mystica&#8213;cego,
+louco d'amores por uma d'ellas, no momento
+de lhe dizer adeus para sempre... eu tinha o pensamento
+fixo n'uma crian&ccedil;a que ainda andava ao collo!&#8213;Revendo-me
+nos olhos pardos de Laura que eu
+<span class="pagenum">[205]</span>
+adorava, eram os teus olhos verdes que eu tinha
+n'alma! Os sentidos todos embriagados d'aquelle
+perfume de luxo e civiliza&ccedil;&atilde;o que me
+cercava,&#8213;era
+o nosso valle rustico e selvagem o que eu
+tinha no cora&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! eu sou um monstro, um aleij&atilde;o moral
+dev&eacute;ras, ou n&atilde;o sei o que sou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se todos os homens ser&atilde;o assim?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Talvez, e que o n&atilde;o digam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Joanna, minha Joanna, minha Joanninha querida,
+anjo adorado da minha alma, tem compaix&atilde;o
+de mim, n&atilde;o me maldigas. N&atilde;o quero que me
+perdoes,
+nem tu nem ninguem, que o n&atilde;o mere&ccedil;o:
+mas que tenhas d&oacute; e l&aacute;stima de mim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ai! que isso mere&ccedil;o eu, oh sim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deixa-me parar aqui. Falta-me o &acirc;nimo para
+me estar vendo a este terrivel espelho moral em
+que jurei mirar-me para meu castigo, d'onde
+estou copiando o horroroso retratto de minha alma
+que te desenho n'este papel.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[206]</span>
+Sab&iacute;a que era monstro, n&atilde;o tinha examinado
+por partes toda a hediondez das fei&ccedil;&otilde;es que me
+reconhe&ccedil;o agora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tenho espanto e horror de mim mesmo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c22"></a>CAPITULO XLVII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">
+Carta de Carlos a Joanninha: contin&uacute;a.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheg&aacute;mos ao Inn (estalagem), triste casa solitaria
+no meio dos campos &aacute; borda da estrada. A
+malla chegava ao mesmo tempo quasi.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu dei a m&atilde;o a Laura para sahir da caleche
+<span class="pagenum">[208]</span>
+e entrar no coche; e apenas tivemos tempo para
+um convulsivo shake-hands e para nos dizer
+adeus! adeus! com a affectada seccura que exige
+a lei das conveniencias britannicas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A malla partiu ao grande trote... E dir-te-hei
+a verdade ou queres que minta? N&atilde;o, heide dizer-te
+a verdade. Pois senti como um al&iacute;vio desesperado,
+uma consola&ccedil;&atilde;o cruel em a ver partir.
+Senti o que imagino que deve sentir um inf&ecirc;rmo
+depois da opera&ccedil;&atilde;o dolorosa em que lhe amputaram
+parte do corpo com que j&aacute; n&atilde;o podia viver,
+e que era for&ccedil;oso perder ou perder a vida.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tambem deve de ser assim a morte: um descan&ccedil;o
+apathico e nullo depois de inexplicavel padecer.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era como morto que eu estava; n&atilde;o soffria
+pois.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E ja n&atilde;o pensava em ti, ja te n&atilde;o via na minha
+alma: eu n&atilde;o existia, estava alli.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Volt&aacute;mos ao parque; apeei silenciosamente as
+minhas duas gentis companheiras, e eu fui so,
+<span class="pagenum">[209]</span>
+ap&eacute;, com passo firme e resoluto
+para a minha habita&ccedil;&atilde;o.
+Nenhuma d'ellas me procurou retter, nem
+me disse nada, nem tentou consolar-me. Paraqu&ecirc;?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+L. William R. chegava, na manhan seguinte, de
+uma de suas habituaes excurs&otilde;es a Londres. Veio
+ver-me assim que chegou, e trazer-me cartas
+de Portugal que eu esperava ha muito.&#8213;Disse-me
+que partia no outro dia para Swansea, a
+terra de Galles para onde Laura f&ocirc;ra; e que
+me incarregava de fazer companhia &aacute;s duas filhas
+que ficavam sos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A mim!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estive tres dias sem as ver: em todos tres n&atilde;o
+fiz mais do que escrever a Laura.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No quarto dia fui ao parque. Julia deu um
+grito de alegria quando me viu: raro exemplo
+de excep&ccedil;&atilde;o &aacute;s formuladas regras que
+tyrannizam
+a vida ingleza, que prescrevem at&eacute; a cara com
+que se hade morrer, e teem graduado o tom em
+que se deve exhalar o &uacute;ltimo suspiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas a natureza chega a triumphar &aacute;s vezes
+at&eacute; da propria etiqueta britannica.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[210]</span>
+Julia cuidava que eu n&atilde;o queria voltar &aacute;quella
+casa, tinha-se resignado a n&atilde;o tornar a ver-me;
+n&atilde;o p&ocirc;de reprimir a alegria que lhe causou
+a minha inexperada appari&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pass&aacute;mos todo o dia junctos e sos: quasi todo
+se nos foi passeando no parque, ou sentados &aacute;
+sombra de seus espessos arvoredos, ou mirando-nos
+nas crystallinas aguas de uma vasta represa
+povoada de aves aquaticas e rodeada d'aquelles
+immensos mantos de velludo verde de que perpetuamente
+se infeita a terra ingleza e que so
+desapparecem quando vem o hynverno extender-lhe
+porcima seus alvos len&ccedil;oes de neve.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quiz ver o que eu escrevia &aacute; irman; dei-lhe
+a carta, leu-a, meditou-a, restituiu-m'a sem dizer
+palavra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que horas pass&aacute;mos n'este silencio, n'esta eloquente
+mudez que n&atilde;o vem sen&atilde;o do muito de
+mais que a alma sente, do muito de mais que
+diria se fallasse!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute; despedida, essa noite, deu-me uma bolsa
+de rede que Laura tinha estado fazendo para mim
+<span class="pagenum">[211]</span>
+e que lhe deix&aacute;ra para me intregar. Senti que
+tinha dentro o que quer que fosse a bolsa, n&atilde;o
+quiz examinar. Achei, quando voltei a casa,
+que era o <em>fadado cinto</em> de vidrilhos
+pretos que
+eu tanto tinha admirado em certo baile onde foramos
+junctos, e que Laura n&atilde;o deix&aacute;ra de p&ocirc;r
+nunca mais em se vestindo de branco e que fizesse
+alguma toilette.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ainda o conservo aquelle cinto precioso, Joanna;
+ainda a tenho, no meu thesoiro mais guardado,
+aquella joia, aquella reliquia. E amo-te,
+e amo-te a ti so como realmente nunca amei nem
+poderei tornar a amar. Mas aquelle cinto &eacute; uma
+sorte, um talisman, um amuleto em que est&aacute; o
+meu destino.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Amei... isto &eacute;, amei... pois sim, amei,
+ja que n&atilde;o ha outra palavra n'estas estupidas
+linguas que fallam os homens; pois amei
+outras mulheres, e nos dias de maior enthusiasmo
+por ellas, n&atilde;o deixei nunca de beijar devotamente
+aquelle cinto, de o appertar s&ocirc;bre o
+meu cora&ccedil;&atilde;o, de me incommendar a elle&#8213;como
+o salteador napolitano se incommenda ao escapulario
+da madona que traz ao peito, com as
+<span class="pagenum">[212]</span>
+m&atilde;os insanguentadas de matar, ou carregado do
+roubo que acaba de fazer.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ai, Joanna, n&atilde;o te digo eu que estou perdido,
+sem remedio, e que para mim n&atilde;o ha, n&atilde;o
+p&oacute;de haver salva&ccedil;&atilde;o nunca?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vivi assim dois mezes. Laura n&atilde;o me escrevia:
+recebia as minhas cartas e respondia a Julia:
+por este modo nos correspondiamos. Julia era parte
+de n&oacute;s, era uma por&ccedil;&atilde;o do nosso amor,
+viviamos
+n'ella a nossa vida. E ja as confundia ambas por tal
+modo no meu cora&ccedil;&atilde;o que me surpreendia a
+n&atilde;o
+saber a qual queria mais. Julia parecia feliz d'este
+estado; eu era-o. Insensivelmente me habituei
+a elle, ja n&atilde;o tinha saudades do passado.
+E quando se approximou o casamento de Laura,
+que ella tinha de voltar de Galles, e que eu,
+fiel ao que promett&ecirc;ra, devia pretextar neg&oacute;cio
+urgentissimo em Londres que me obrigasse a ausentar-me
+at&eacute; &aacute; sua partida para a India, eu tive
+uma pena, uma difficuldade em cumprir o que
+promett&ecirc;ra que me invergonhava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Parti por&ecirc;m; e alli me demorei um mez. Julia
+escrevia-me todos os dias e eu a ella. Na v&eacute;spera
+<span class="pagenum"><a name="p213">[213]</a></span>
+do dia fatal em que Laura ia ser de outro
+homem, Julia escreveu-me &eacute;stas palavras sos:&#8213;'O
+nosso romance acabou; come&ccedil;a uma historia
+s&eacute;ria. Laura manda-lhe o seu &uacute;ltimo adeus.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E nunca mais se escreveu nem se pronunciou
+o nome de Laura entre n&oacute;s dous.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O gale&atilde;o que me levava para o Oriente as ruinas
+de toda a minha esperan&ccedil;a ha muito que navegava;
+entrava outubro e o hynverno inglez
+<a href="#e15">com</a> suas mais asperas, e n'este
+anno tam
+precoces, severidades. Eu sentia-me morrer de
+tristeza e de isolamento no meio da populosa e
+turbulenta Londres, Julia percebeu-o, e mandou-me
+voltar a &#8213;&#8213;shire. Voltei.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c23"></a>CAPITULO XLVIII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">Carta
+de Carlos a Joanninha: contin&uacute;a.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados
+pelos tres-altos de neve que os cubriam,
+comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhan&ccedil;a
+do parque, e a confrontar as &aacute;rvores, os pastios,
+os casaes d'aquelles arredores!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[216]</span>
+Era outra a express&atilde;o de physionomia da paizagem,
+mas as queridas fei&ccedil;&otilde;es eram as mesmas,
+e uma a uma lh'as ia estremando.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Emfim o meu <em>stage</em> parou &aacute;
+entrada do parque,
+e eu tomei ap&eacute; pela longa avenida.
+Eram
+nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria,
+mas o tempo macio, n&atilde;o estava
+<em>cru</em>, segundo a
+expressiva phrase do paiz.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por entre a nevoa que me incubria a antiga
+mans&atilde;o e involvia as &aacute;rvores circumstantes n'um
+sudario cinzento e melancholico, fui caminhando,
+quasi pelo tacto, at&eacute; meia alameda talvez.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Parei a reflectir na minha posi&ccedil;&atilde;o e no que eu
+ia ser n'aquella casa que de novo me abria
+suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina
+brancacenta e onde ella era mais rara, descubri
+um vulto que vinha a mim de entre as
+&aacute;rvores do parque.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O vulto era de mulher e parecia uma sombra,
+uma appari&ccedil;&atilde;o phantastica em meio d'aquella
+scena mysteriosa, so, triste.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p217">[217]</a></span>
+Na distancia figurava-se-me alto em demazia:
+Julia n&atilde;o era nem podia ser; Julia a mais diminutiva
+e delicada de quantas fadas bonitas e
+graciosas teem trazido varinha de cond&atilde;o. Laura...
+ai! Laura tam longe estava d'alli... Quem
+ser&iacute;a pois? So se fosse!.. Quem?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Aquella elegancia, aquelle cabello s&ocirc;lto e annellado,
+aquelle ar gentil n&atilde;o podia ser sen&atilde;o d'ella...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+D'ella, quem?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ainda te n&atilde;o fallei, quasi, da &uacute;ltima das tres
+bellas irmans que me incantavam, n&atilde;o t'a <a href="#e16">descrevi</a>,
+n&atilde;o t'a nomeei pelo seu nome. Repugnava-me
+faz&ecirc;-lo. Mas &eacute; preciso: custa-me, n&atilde;o
+ha remedio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era Georgina...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Georgina que tu conheces, Georgina que...
+era Georgina a que vinha a mim n'aquella&#8213;fatal
+ou feliz?&#8213;manhan; Georgina que de todas
+tres era a que menos me fallava, que eu
+verdadeiramente menos conhecia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p218">[218]</a></span>
+Este meu cora&ccedil;&atilde;o, &aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;a de ferido e de <a href="#e17">mal
+curado</a> que tem sido, pressente e adivinha as
+mudan&ccedil;as
+de tempo com uma dor chronica que me
+d&aacute;. Pressenti n&atilde;o sei qu&ecirc; ao ver
+approximar-se
+Georgina...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Como foi bom em vir! Estou realmente
+feliz de o ver. E Julia, a pobre Julia, que alegria
+que vai ter, hade cur&aacute;-la de todo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Pois qu&ecirc;! Julia est&aacute; doente?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o o sab&iacute;a!... Ai! n&atilde;o, bem sei
+que
+n&atilde;o: ella n&atilde;o lh'o quiz dizer. Julia
+est&aacute; doente;
+mas n&atilde;o &eacute; de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo
+antes que a visse, por isso calculei as horas
+do coche e vim para aqui esper&aacute;-lo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute;stas palavras eram simples, n&atilde;o tinham nada
+que me devesse impressionar extraordinariamente,
+e todavia eu sentia-me agitado como nunca
+me sentira. Olhava para Georgina como se a visse
+a primeira vez, e pasmava de a ver tam bella,
+tam interessante.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o d'alma &eacute;sta
+que n&atilde;o sei que
+<span class="pagenum">[219]</span>
+a descrevessem ainda poetas nem romancistas:
+desprezam-n'a talvez, ou n&atilde;o a conhecem. Est&aacute;
+recebido que as subitas impress&otilde;es causadas por
+um primeiro inc&ocirc;ntro sejam as mais interessantes,
+as mais poeticas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu n&atilde;o nego o effeito theatral d'essas primeiras
+e repentinas sensa&ccedil;&otilde;es; mas sustento que
+interessa mais ess'outra inesperada e extranha
+impress&atilde;o que nos faz um objecto ja conhecido,
+que v&iacute;ramos com indifferen&ccedil;a at&eacute;alli,
+e que derrepente
+se nos mostra tam outro do que sempre
+o tinhamos considerado...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas &eacute;sta mulher &eacute; bella realmente! E eu que
+nunca o vi! Mas aquelles olhos s&atilde;o divinos! Onde
+tinha eu os meus at&eacute;gora? Mas este ar, mas
+&eacute;sta gra&ccedil;a onde os tinha ella escondidos? etc.
+etc.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+V&atilde;o-se gradualmente, v&atilde;o-se pouco a pouco
+descobrindo perfei&ccedil;&otilde;es, incantos; e o sentimento
+que resulta &eacute; mil vezes mais profundo, mais fundado,
+s&ocirc;bretudo, que o das taes primeiras impress&otilde;es
+tam cantadas e decantadas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que mais te direi depois d'isto? Entr&aacute;mos
+<span class="pagenum">[220]</span>
+em casa, vi Julia, fall&aacute;mos de Laura muito e
+muito. Mas eu ja o n&atilde;o fiz com o enthusiasmo,
+com a admira&ccedil;&atilde;o exclusiva com que d'antes o
+fazia...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia recobrou, breve, a saude, e com ella o
+equilibrio do espirito. Renovou-se toda a alegria,
+todo o incanto das nossas conversa&ccedil;&otilde;es
+&iacute;ntimas,
+dos nossos longos passeios. Laura lembrava com
+saudade; mas suavizava-se, imbrandecia gradualmente
+aquella saudade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Georgina, que at&eacute;alli parecia
+impenhar-se em
+se deixar eclipsar pela irman, agora, ausente ella,
+brilhava de toda a sua luz, em gra&ccedil;a, em espirito,
+por um natural singelo e franco, por uma exquisita
+do&ccedil;ura de maneiras, de voz, de express&atilde;o, de
+tudo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar.
+Vergonha eterna s&ocirc;bre mim! mas &eacute; a verdade:
+quiz-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me
+querer-lhe mais... que tanto vale.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu sei?.. N&atilde;o, n&atilde;o lhe queria tanto. Mas
+amei-a.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[221]</span>
+Amei, sim, e fui amado!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tres mezes durou a minha felicidade. &Eacute; o
+mais longo periodo de ventura que posso contar
+na vida. Falsa ventura, mas era.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A imperiosa lei da honra exigiu que nos separassemos,
+que partisse para os A&ccedil;ores. Fui.
+Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto como
+eu para aquella expedi&ccedil;&atilde;o. A historia
+fallar&aacute;
+de muitos servi&ccedil;os, de muitas
+dedica&ccedil;&otilde;es.
+Quem saber&aacute; nunca d'esta?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A historia &eacute; uma tola.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu n&atilde;o posso abrir um livro de historia que
+me n&atilde;o ria. S&ocirc;bretudo as
+pondera&ccedil;&otilde;es e adivinha&ccedil;&otilde;es
+dos historiadores acho-as de um comico
+irresistivel. O que sabem elles das causas, dos
+motivos, do valor e importancia de quasi todos
+os factos que recontam?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ainda n&atilde;o sei como parti, como cheguei, como
+vivi os primeiros tempos da minha estada
+n'aquelle esc&ocirc;lho no meio do mar, chamado a ilha
+<span class="pagenum">[222]</span>
+Terceira, onde se tinham refugiado as pobres reliquias
+do partido constitucional.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Habituei-me porfim. A que se n&atilde;o affaz o
+homem?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Levaram-me uma tarde &aacute; grade de um convento
+de freiras que ahi havia. O meu ar triste,
+distrahido, indifferente excitou a piedade das
+boas monjas. Uma d'ellas, joven, ardente, apaixonada,
+quiz tomar a empresa de me consolar.
+N&atilde;o o conseguiu, coitada! O meu
+cora&ccedil;&atilde;o estava
+em &#8213;&#8213;shire em Inglaterra, estava na India,
+estava no valle de Santarem,
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Pelo mundo em peda&ccedil;os
+repartido;
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+estava em toda a parte, menos alli, que nada
+d'elle estava nem podia estar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era Soledade que se chamava a freirinha, e
+com o seu nome ficou. Disseram o que quizeram
+os falladores que nunca faltam, mas mentiram
+como mentem quasi sempre, inganaram-se como
+se inganam sempre.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu n&atilde;o amei a Soledade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[223]</span>
+E comtudo lembro-me d'ella com pena, com
+sympathia... Se eu sou feito assim, meu Deus,
+e assim heide morrer!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Viemos para Portugal; e o resto agora da
+minha historia sabes tu.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheguei porfim ao nosso valle, todo o passado
+me esqueceu assim que te vi. Amei-te... n&atilde;o,
+n&atilde;o &eacute; verdade assim. Conheci, mal que te vi
+entre aquellas &aacute;rvores, &aacute; luz das estrellas,
+conheci
+que era a ti so que eu tinha amado sempre,
+que para ti nasc&ecirc;ra, que teu so devia ser,
+se eu ainda tivera cora&ccedil;&atilde;o que te dar, se a minha
+alma fosse capaz, fosse digna de junctar-se
+com essa alma d'anjo que em ti habita.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o &eacute;, Joanna; bem o ves, bem o sentes,
+como eu o sinto e o vejo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu sim tinha nascido para gosar as do&ccedil;uras da
+paz e da felicidade dom&eacute;stica; fui creado, estou certo,
+para a gl&oacute;ria tranquilla, para as delicias modestas
+de um bom pae de familias.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas n&atilde;o o quiz a minha estrella. Embriagou-se
+de poesia a minha imagina&ccedil;&atilde;o e perdeu-se:
+n&atilde;o me recobro mais. A mulher que me amar
+<span class="pagenum">[224]</span>
+hade ser infeliz por f&ocirc;r&ccedil;a, a que me intregar o
+seu destino, hade v&ecirc;-lo perdido.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o quero, n&atilde;o posso, n&atilde;o devo amar a
+ninguem
+mais.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A desola&ccedil;&atilde;o e o oppr&oacute;brio entraram no
+seio
+da nossa familia. Eu renuncio para sempre ao lar
+dom&eacute;stico, a tudo quanto quiz, a tudo quanto
+posso querer. Deus que me castigue, se ousa fazer
+uma injusti&ccedil;a, porque eu n&atilde;o me fiz o que
+sou, n&atilde;o me talhei a minha sorte, e a fatalidade
+que me persegue n&atilde;o &eacute; obra minha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus
+irman da minha alma! Tu accompanha nossa av&oacute;,
+tu consola esse infeliz que &eacute; o auctor da sua e das
+nossas desgra&ccedil;as. Tu, sim, que podes; e esquece-me.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu, que nem morrer ja posso, que vejo terminar
+desgra&ccedil;adamente &eacute;sta guerra no unico momento
+em que a podia aben&ccedil;oar, em que ella
+podia felicitar-me com uma balla que me mandasse
+aqui bem direita ao cora&ccedil;&atilde;o, eu que farei?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Creio que me vou fazer homem politico, fallar
+<span class="pagenum">[225]</span>
+muito na patria com que me n&atilde;o importa,
+ralhar dos ministros que n&atilde;o sei quem s&atilde;o, palrar
+dos meus servi&ccedil;os que nunca fiz por vontade;
+e quem sabe?.. talvez darei porfim em agiota,
+que &eacute; a unica vida de emo&ccedil;&otilde;es para
+quem ja
+n&atilde;o p&oacute;de ter outras.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Adeus minha Joanna, minha adorada Joanna,
+pela &uacute;ltima vez, adeus!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c24"></a>CAPITULO XLIX.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">De como Carlos se fez
+bar&atilde;o.&#8213;Fim da historia de
+Joanninha.&#8213;Georgina
+abbadessa.&#8213;Juizo de Fr. Diniz s&ocirc;bre a
+quest&atilde;o dos frades e dos bar&otilde;es.&#8213;Que
+n&atilde;o p&oacute;de tornar a
+ser o que foi, mas muito menos p&oacute;de ser o que &eacute;.
+O que
+hade ser, Deus o sabe e prover&aacute;.&#8213;Vai o A. dormir ao
+Cartaxo.&#8213;Sonho
+que ahi tem.&#8213;Volta a Lisboa.&#8213;Caminhos
+de ferro e de papel.&#8213;Conclus&atilde;o da viagem e d'este livro.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acabei de ler a carta de Carlos, intreguei-a a
+Fr. Diniz em silencio. Elle tornou-me:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Leu?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[228]</span> &#8213;'Li.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que mais quer saber? Sinto que lhe posso
+dizer tudo: n&atilde;o o conhe&ccedil;o, mas...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas deve conhecer-me por um homem
+que se interessa vivamente...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Em qu&ecirc;? nas elei&ccedil;&otilde;es, na agiotagem,
+nos
+bens nacionaes?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o senhor. Fui camarada de Carlos, n&atilde;o
+o vejo ha muitos annos e...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Nem o conhecia se o visse agora: ingordou,
+inriqueceu, e &eacute; bar&atilde;o...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Bar&atilde;o!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'&Eacute; bar&atilde;o, e vai ser deputado qualquer
+dia.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que transforma&ccedil;&atilde;o! Como se fez isso,
+sancto Deus! E Joanninha e Georgina?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joanninha inlouqueceu e morreu. Georgina
+<span class="pagenum">[229]</span>
+&eacute; abbadessa de um convento em Inglaterra.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Abbadessa?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sim. Converteu-se &aacute; communh&atilde;o catholica;
+era ricca, fundou um convento em &#8213;&#8213;shire e l&aacute;
+est&aacute; servindo a Deus.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E &eacute;sta pobre senhora, a av&oacute; de Joanninha?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ahi est&aacute; como a ve, morta de alma para tudo.
+N&atilde;o ve, n&atilde;o ouve, n&atilde;o falla, e
+n&atilde;o conhece
+ninguem. Joanninha veio morrer aqui n'esta
+fatal casa do valle, eu estava ausente, expirou
+nos bra&ccedil;os d'ella e de Georgina. Desde esse instante
+a av&oacute; cahiu n'aquelle estado. Est&aacute; morta,
+e n&atilde;o espero aqui sen&atilde;o a
+dissolu&ccedil;&atilde;o do corpo
+para o interrar, se eu n&atilde;o for primeiro, e
+Deus queira que n&atilde;o! quem hade tomar conta
+d'ella, ter charidade com a pobre da demente?
+Mas depois... oh! depois... espero no Senhor que se
+compade&ccedil;a emfim de tanto soffrer e me leve
+para si.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas Carlos?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[230]</span> &#8213;'Carlos &eacute; bar&atilde;o: n&atilde;o lh'o disse ja?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas por ser bar&atilde;o?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o sabe o que &eacute; ser bar&atilde;o?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh se sei! Tam poucos temos n&oacute;s?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Pois bar&atilde;o &eacute; o succedaneo dos...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Dos frades... Ruim substitui&ccedil;&atilde;o!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Vi um dos taes papeis liberaes em que isso
+vinha: e &eacute; a unica coisa que leio d'essas ha
+muitos annos. Mas fizeram-m'o ler.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E que lhe pareceu?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Bem escripto e com verdade. Tivemos
+culpa n&oacute;s, &eacute; certo; mas os liberaes
+n&atilde;o tiveram
+menos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Err&aacute;mos ambos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Err&aacute;mos e sem remedio. A sociedade ja
+n&atilde;o &eacute; o que foi, n&atilde;o p&oacute;de
+tornar a ser o que
+<span class="pagenum">[231]</span>
+era;&#8213;mas muito menos ainda p&oacute;de ser o que &eacute;.
+O que hade ser, n&atilde;o sei. Deus prover&aacute;.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ditto isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviario
+e poz-se a rezar. A velha dobava sempre,
+sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos alguns
+segundos. Nenhum me deu mais atten&ccedil;&atilde;o
+nem pareceu conscio da minha estada alli.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sentia-me como na presen&ccedil;a da morte e atterrei-me.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fiz um esf&ocirc;r&ccedil;o s&ocirc;bre mim, fui
+deliberadamente
+ao meu cavallo, montei, piquei desesperado
+d'esporas, e n&atilde;o parei sen&atilde;o no Cartaxo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Incontrei alli os meus companheiros; era tarde,
+fomos ficar f&oacute;ra da villa &aacute; hospedeira casa
+do Sr. L. S.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Rimos e folg&aacute;mos at&eacute; alta noite: o resto dormimos
+a somno s&ocirc;lto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas eu sonhei com o frade, com a velha&#8213;e
+com uma enorme constella&ccedil;&atilde;o de bar&otilde;es
+que
+luzia n'um ceu de papel, d'onde choviam, como
+<span class="pagenum">[232]</span>
+farrapos de neve, n'uma noite pollar, notas azues,
+verdes, brancas, amarellas, de todas as c&ocirc;res e
+matizes possiveis. Eram milh&otilde;es e milh&otilde;es e
+milh&otilde;es...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nunca vi tanto milh&atilde;o, nem ouvi fallar de
+tanta riqueza sen&atilde;o nas mil e uma noites.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acordei no outro dia e n&atilde;o vi nada... so uns
+pobres que pediam esmola &aacute; porta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Metti a m&atilde;o na algibeira, e n&atilde;o achei
+sen&atilde;o
+notas... papeis!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Parti para Lisboa cheio de agoiros, de ingui&ccedil;os
+e de tristes presentimentos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O vapor vinha quasi vazio, mas nem por isso
+andou mais depressa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram boas cinco horas da tarde quando desimbarc&aacute;mos
+no Terreiro-do-Pa&ccedil;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim terminou a nossa viagem a Santarem: e
+assim termina este livro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[233]</span>
+Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado
+alguma coisa do que vi. De todas quantas
+viagens por&ecirc;m fiz, as que mais me interessaram
+sempre foram as viagens na minha terra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se assim o pensares, leitor benevolo, quem
+sabe? p&oacute;de ser que eu tome outra vez o bord&atilde;o
+de romeiro, e va perigrinando por esse Portugal
+f&oacute;ra, em busca de historias para te contar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nos caminhos de ferro dos bar&otilde;es &eacute; que eu
+juro n&atilde;o andar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Escusada &eacute; a jura por&ecirc;m.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se as estradas fossem de papel, fa-las-iam,
+n&atilde;o digo que n&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas de metal!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que tenha o gov&ecirc;rno juizo, que as fa&ccedil;a de
+pedra, que p&oacute;de, e viajaremos com muito prazer
+e com muita utilidade e proveito na nossa
+boa terra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2>NOTAS</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2><a name="c25"></a>NOTAS
+</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<h3>AO LIVRO SEGUNDO.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota A.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">Fic&aacute;mos sem
+Nibelungen
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n1">pag.
+3.</a>
+</div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Collec&ccedil;&atilde;o de antigas rhapsodias germanicas
+contendo
+o maravilhoso e poetico de suas origens historicas
+e que &eacute; para os povos theutonicos o que era a
+Il&iacute;ada
+para os hellenos. So se n&atilde;o sabe o nome do Homero
+<span class="pagenum">[238]</span>
+allem&atilde;o que as redigiu e uniformizou como hoje se
+acham.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota B.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Caranguejar para as
+Lamas<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n2">
+pag. 3.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de Sanctos,
+que tem este nome e &eacute; onde v&atilde;o apodrecer as
+carcassas
+dos navios velhos e ja inuteis.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota C.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Os p&eacute;s no
+<em>fender</em><br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n3">
+pag. 4.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fender se chama em inglez a pequena e baixa tea
+de metal que defende o fog&atilde;o nas salas, paraque
+n&atilde;o
+caiam brazas nos sobrados. Descan&ccedil;am n'elle os
+p&eacute;s
+naturalmente quando a gente se est&aacute; confortavelmente
+aquecendo em liberdade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota D.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Perfumados resplendores do <em>Old
+sack</em><br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n4">
+pag. 5.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tem-se disputado muito s&ocirc;bre qual seja a bebida
+espirituosa celebrada por Shakspeare tantas vezes
+com este nome. A opini&atilde;o mais acceita &eacute; que fosse
+boa e velha aguardente de Fran&ccedil;a.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[239]</span>
+<h4><span class="smallcaps">Nota E.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Renegaram de San'Tiago por
+castelhano<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n5">
+pag. 5.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O grito de guerra commum a todas as na&ccedil;&otilde;es
+christans
+hespanholas era: San'Tiago! Quando na access&atilde;o
+da casa de Avis nos alli&aacute;mos intimamente com a
+Inglaterra contra Castella, come&ccedil;&aacute;mos a invocar
+San'Jorge.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota F.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Vacca e riso de Fr. Bartholomeu dos
+Martyres<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n6">
+pag. 9.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Singela e original express&atilde;o do sancto arcebispo
+n'uma carta de convite a um seu amigo. Fez-se, como
+devia ser, proverbial &eacute;sta phrase.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota G.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Feliz express&atilde;o do Sr. Conde de
+Raczinski<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n7">
+pag. 124.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na sua obra intitulada 'Les arts en Portugal', Paris
+1845.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota H.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+O centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella
+as barbas<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n8">
+pag. 127.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Centro e barbas s&atilde;o qualifica&ccedil;&otilde;es e
+nomes de impregos
+theatraes.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2><a name="p241"></a>INDICE.
+</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXVI</span>&#8213;Modo
+de ler os
+auctores antigos,
+e os <a href="#e18">modernos</a>
+tambem.&#8213;Horacio na
+sacra-via.&#8213;Duarte Nunes iconoclasta da nossa
+historia.&#8213;A policia e os barcos de vapor.&#8213;Os
+vandalos do feliz systema que nos rege.&#8213;Shakspeare
+lido em Inglaterra a um bom fogo,
+com um copo de <em>old-sack</em>
+s&ocirc;bre a banca.&#8213;Sir
+John <a href="#e19">Falstaff</a> se foi maior homem
+que
+Sancho-Pansa?&#8213;Grande
+e importante descuberta archeologica
+s&ocirc;bre San'Tiago, San'Jorge e Sir
+John Falstaff.&#8213;Pr&oacute;va-se a vinda d'este &uacute;ltimo
+a Portugal.&#8213;O enthusiasta britannico no
+tumulo
+de Heloisa e Abeillard no P&egrave;re-la-Chaise.&#8213;Bentham
+e Cam&otilde;es.&#8213;Chega o auctor &aacute; sua
+janella, e pasmosa <em>miragem</em> poetica
+produzida
+por umas oitavas dos Lusiadas.&#8213;De como em
+fim proseguem &eacute;stas viagens para Santarem, e
+que feito ser&aacute; de
+Joanninha.</td>
+
+
+ <td style="width: 1px;"></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 30px;"><a href="#c1">1</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXVII</span>&#8213;Chegada
+a
+Santarem.&#8213;Olivaes
+de Santarem.&#8213;F&oacute;ra-de-Villa.&#8213;Symetria que n&atilde;o
+&eacute; para os olhos.&#8213;Modo de medir os versos da
+biblia.&#8213;Architectura pedante do seculo XVII.&#8213;Entrada na
+Alc&aacute;&ccedil;ova.</td>
+
+
+ <td style="width: 1px;"></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c2">11</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXVIII</span>&#8213;Depois
+de muito procurar acha em fim o auctor a egreja de Sancta-Maria
+d'Alc&aacute;&ccedil;ova.&#8213;Stylo da architectura nacional
+perdido.&#8213;O terremoto de 1755, o marquez
+de Pombal e o chafariz do Passeio-p&uacute;blico de
+Lisboa.&#8213;O chefe do partido progressista portuguez
+no alcassar de D. Affonso Henriques.&#8213;Deliciosa
+vista dos arredores de Santarem observada
+de uma janella da Alc&aacute;&ccedil;ova, de
+manhan.&#8213;&Eacute;
+tomado o auctor de ideas vagas,
+poeticas, phantasticas como um
+sonho.&#8213;Introduc&ccedil;&atilde;o
+do Fausto.&#8213;Difficuldade de traduzir
+os versos germanicos nos nossos dialectos
+romanos.</td>
+
+
+ <td style="width: 1px;"></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c3">19</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[242]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXIX</span>&#8213;Do&ccedil;uras
+da vida.&#8213;Imagina&ccedil;&atilde;o
+e sentimento.&#8213;Poetas que morreram mo&ccedil;os
+e poetas que morreram velhos.&#8213;Como s&atilde;o
+escriptas &eacute;stas viagens.&#8213;Livro de pedra. Crian&ccedil;a
+que brinca com elle.&#8213;Ruinas e repara&ccedil;&otilde;es.&#8213;Idea
+fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.&#8213;Sancta
+Iria ou Irene, e Sanctarem.&#8213;Romance
+de Sancta Iria.&#8213;Quantas sanctas ha
+em Portugal d'este
+nome?</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="width: 30px; vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#c4">29</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXX</span>&#8213;Historia
+de Sancta
+Iria segundo
+os chronistas e segundo o romance
+popular.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c5">39</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXI</span>&#8213;Quommodo
+sedet sola
+civitas.&#8213;Santarem.&#8213;Portugal
+em verso e Portugal
+em prosa.&#8213;Exquisito lavor de umas portas e
+janellas de architectura mosarabe.&#8213;Busto de
+D. Affonso Henriques.&#8213;As salgadeiras de Affrica.&#8213;Porta
+do Sol.&#8213;Muralhas de Santarem.&#8213;Voltemos &aacute; historia de Fr.
+Diniz e da menina
+dos olhos verdes.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c6">49</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[243]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXII</span>&#8213;Torn&acirc;mos
+&aacute; historia do Joanninha.&#8213;Preparativos
+de guerra.&#8213;A morte.&#8213;Carlos
+ferido e prisioneiro.&#8213;O hospital.&#8213;O
+infermeiro.&#8213;Georgina</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c7">55</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXIII</span>&#8213;Carlos
+e
+Georgina. Explica&ccedil;&atilde;o.&#8213;Ja
+te n&atilde;o amo! palavra terrivel.&#8213;Que
+o amor verdadeiro n&atilde;o &eacute; cego.&#8213;Frade no caso
+outra vez. <em>Ecce iterum Crispinus</em>; ca
+est&aacute; o
+nosso Fr. Diniz
+comnosco.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c8">69</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXIV</span>&#8213;Carlos,
+Georgina e
+Fr. Diniz.&#8213;A
+peripecia do drama.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c9">79</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXV</span>&#8213;Reuni&atilde;o
+de toda a familia.&#8213;Explica&ccedil;&atilde;o
+dos mysterios.&#8213;O cora&ccedil;&atilde;o da
+mulher.&#8213;Parricidio.&#8213;Carlos beija emfim a m&atilde;o
+a Fr. Diniz e abra&ccedil;a a pobre da
+av&oacute;.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c10">87</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXVI</span>&#8213;Que
+n&atilde;o
+se acabou a historia
+de Joanninha.&#8213;Processo ao cora&ccedil;&atilde;o de
+Carlos.&#8213;Immoralidade.&#8213;Defeito de organiza&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o &eacute; immoralidade.&#8213;Horror, horror,
+maldic&ccedil;&atilde;o!&#8213;Um bar&atilde;o que
+n&atilde;o pertence &aacute;
+familia lineana dos bar&otilde;es propriamente dittos.&#8213;Porta
+de Atamarma.&#8213;Senatus consulto santareno.&#8213;Nossa
+Senhora&nbsp; da Victoria
+ <em>afforada</em>.&#8213;Threnos
+s&ocirc;bre
+Santarem.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c11">99</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXVII</span>&#8213;A
+Gra&ccedil;a e sua bella fachada gothica.&#8213;Sepultura de
+Pedr'alvares Cabral.&#8213;Outro
+bar&atilde;o que n&atilde;o &eacute; dos
+assignalados.&#8213;Egreja
+do Sancto-milagre.&#8213;Bellos medalh&otilde;es
+mosarabes.&#8213;De como, chegando o
+prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre,
+e com que solemnidades.&#8213;Monumento
+da muito alta e poderosa princeza a infanta
+D. Maria da Assump&ccedil;&atilde;o.&#8213;Casa onde
+succedeu o milagre convertida em capella de
+stylo philippino.&#8213;O homem das botas, e o
+que tem elle que haver com o Sancto-milagre
+de Santarem.&#8213;Admiravel e graciosa esperteza
+da regencia do Rocio.&#8213;Aaroun-el-Arraschid:
+e theoria dos governos folgas&otilde;es, os melhores
+governos possiveis.&#8213;Volta o paladio
+scalabitano de Lisboa para
+Santarem.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c12">111</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[244]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXVIII</span>&#8213;Jantar
+nos reaes
+pa&ccedil;os de
+Affonso Henriques.&#8213;Saut&eacute;s e salmis.&#8213;Desce
+o A. &aacute; Ribeira de Santarem em busca da
+tenda do Alfageme.&#8213;A espada do Condestavel.&#8213;Desappontamento.&#8213;O
+sal&atilde;o elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os
+fosseis.
+Tudo melhor quando visto de longe.&#8213;O
+baile p&uacute;blico.&#8213;Soir&eacute;e de piano
+obrigado.&#8213;Theatro.
+Desaffina&ccedil;&otilde;es da prima-dona.&#8213;Syphlis
+incuravel das traduc&ccedil;&otilde;es. Destemp&ecirc;ro
+dos originaes.&#8213;A x&aacute;cara de rigor, o subterraneo
+e o cemiterio.&#8213;Sublime gallimathias
+do ridiculo.&#8213;A bella e necessaria palavra
+'gallimathias.'&#8213;Se as saudades matam.&#8213;Perigo
+de applicar o scalpello ou a lente ao
+mais perfeito das coisas humanas.&#8213;De como
+a logica &eacute; a mais perniciosa de todas as
+incoherencias.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c13">121</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[245]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXIX</span>&#8213;Processo
+de
+scepticismo em
+que est&aacute; o auctor.&#8213;Moralistas de
+ <em>requiem</em>.&#8213;O
+maior sonho d'esta vida, a logica.&#8213;Differen&ccedil;a
+do poeta ao philosopho.&#8213;O cora&ccedil;&atilde;o de
+Horacio.&#8213;O collegio de Santarem.&#8213;Jesuitas
+e templarios.&#8213;O alliado natural dos reis:&#8213;'Ficar
+na gazeta' phrase muito mais exacta
+hoje do que 'Ficar no tinteiro'.&#8213;San'Frei
+Gil e o Doutor Fausto.&#8213;De como o A. foi ao
+tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.&#8213;Quem
+o roubaria?</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c14">131</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XL</span>&#8213;As
+Claras.&#8213;Aventura
+nocturna.&#8213;Se
+as freiras mettem&nbsp;medo aos liberaes?
+O Psalmo.&#8213;Tres frades.&#8213;Pr&aacute;ctica do franciscano.&#8213;O
+corpo de San' Fr. Gil.&#8213;Que se
+hade fazer das freiras?&#8213;Mal do gov&ecirc;rno que
+deixar comer mais aos
+bar&otilde;es.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c15">141</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLI</span>&#8213;O
+roubador do corpo
+do sancto
+descuberto pela arguta prespicacia do leitor
+benevolo.&#8213;Grande lacuna na nossa historia.&#8213;Porque
+se n&atilde;o preenche?&#8213;P&aacute;gina preta
+na historia de Tristam Shandy.&#8213;Novellas e
+romances, livros insignificantes.&#8213;O adro de
+San'Francisco e as suas acacias.&#8213;Que ser&aacute;
+feito de Joanninha?&#8213;O peito da mulher do
+norte.&#8213;Vamos embora: ja me infada Santarem
+e as suas ruinas.&#8213;A corneta do soldado
+e a trombeta do juizo final.&#8213;Eheu, Portugal, eheu!</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c16">151</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[246]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLII</span>&#8213;Protesto
+do
+auctor.&#8213;Desaffina&ccedil;&atilde;o
+dos nervos.&#8213;O que &eacute; preciso para que
+as ruinas sejam solemnes e sublimes.&#8213;Que
+Deus est&aacute; no Colliseu assim como em San'Pedro.&#8213;Quer-se
+o auctor ir embora de Santarem.&#8213;Como,
+sem ver o tumulo d'elrei D.
+Fernando?&#8213;Em que estado se acha este.&#8213;Exemplar
+de stylo byzantino.&#8213;Coroa real s&ocirc;bre
+a caveira.&#8213;O rei d'espadas e o symbolo
+do imperio.&#8213;Quem nunca viu o rei cuida que
+&eacute; de oiro.&#8213;Brutalidades da soldadesca n'um
+tumulo real.&#8213;O que se acha nas sepulturas
+dos reis.&#8213;A phrenologia.&#8213;Vindicta p&uacute;blica,
+tardia mas ultrajante.&#8213;Cam&otilde;es e Duarte Pacheco.&#8213;A
+sombra falsa da religi&atilde;o.&#8213;Regimen
+dos bar&otilde;es e da materia.&#8213;A prosa e a
+poesia do povo.&#8213;Synthese e an&aacute;lyse.&#8213;O senso
+&iacute;ntimo.&#8213;Se o auctor &eacute; demagogo ou Jesuita?&#8213;Jesu
+Christo e os
+bar&otilde;es&nbsp;</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c17">157</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLIII</span>&#8213;Partida
+de
+Santarem.&#8213;Pinacotheca.&#8213;Impaciencia
+e saudades.&#8213;Sexta-feira.&#8213;Martyrio
+obscuro.&#8213;A figura do peccado.&#8213;Estamos
+no valle outra vez.&#8213;Evoca&ccedil;&atilde;o
+de incanto.&#8213;A irman Francisca e Fr. Diniz.&#8213;A
+teia de Penelope.&#8213;E Joanninha?&#8213;Joanninha
+est&aacute; no ceo.&#8213;A mulher morta a dobar
+esperando que a interrem.&#8213;A esperan&ccedil;a,
+virtude do christianismo.&#8213;Uma
+carta.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c18">167</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="smallcaps">Capitulo XLIV</span>&#8213;Carta
+de Carlos a
+Joanninha.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c19">177</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[247]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLV</span>&#8213;Carta
+de Carlos a
+Joanninha:
+contin&uacute;a.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c20">187</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLVI</span>&#8213;Carta
+de Carlos a
+Joanninha:
+contin&uacute;a.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c21">195</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLVII</span>&#8213;Carta
+de Carlos a
+Joanninha:
+contin&uacute;a.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c22">207</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLVIII</span>&#8213;Carta
+de Carlos a
+Joanninha:
+contin&uacute;a.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c23">215</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLIX</span>&#8213;De
+como Carlos se
+fez bar&atilde;o.&#8213;Fim
+da historia da Joanninha.&#8213;Georgina
+abbadessa.&#8213;Juiso de Fr. Diniz s&ocirc;bre a quest&atilde;o
+dos frades e dos bar&otilde;es.&#8213;Que n&atilde;o p&oacute;de
+tornar a ser o que foi, mas muito menos p&oacute;de
+ser o que &eacute;? O que hade ser, Deus o sabe e
+prover&aacute;.&#8213;Vai o A. dormir ao Cartaxo.&#8213;Sonho
+que ahi tem.&#8213;Volta a Lisboa.&#8213;Caminhos
+de ferro e de papel.&#8213;Conclus&atilde;o da viagem
+e d'este livro.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c24">227</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Notas</span></td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c25">237</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="smallcaps"></span><br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<b>Notas:</b><br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="1">[1]</a></sup>
+Transcrevemos aqui o original allem&amp;atilde;o, para
+se
+avaliar o que fica ditto no texto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Ihr naht euch wieder, schwankende
+Gestalten, <br />
+
+
+Die fr&uuml;h sich einst dem tr&uuml;ben Blick gezeigt. <br />
+
+
+Versuch ich wohl euch diesmal fest zu halten? <br />
+
+
+F&uuml;hl' ich mein Herz noch jenem Wahn geneigt? <br />
+
+
+Ihr dr&auml;ngt euch zu! nun gut, so m&ouml;gt ihr walten <br />
+
+
+Wie ihr aus Dunst und Nebel um mich steigt; <br />
+
+
+Mein Busen f&uuml;hlt sich jugendlich ersch&uuml;ttert <br />
+
+
+Vom Zauberhauch, der euren Zug umwittert. <br />
+
+
+Ihr bringt mit euch die Bilder froher Tage, <br />
+
+
+Und manche liebe Schatten steigen auf; <br />
+
+
+Gleich einer halbverklungen Sage <br />
+
+
+Commt erste Lieb' und Freundschaft mit herauf; <br />
+
+
+Der Schmerz wird neu, es wiederholt die klage <br />
+
+
+Des lebens labyrintisch irren Lauf, <br />
+
+
+Und nennt die Guten, die, um sch&ouml;ne Stunden <br />
+
+
+Vom Gl&uuml;ck get&auml;uscht, vor mir hinweggeschwunden<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="2">[2]</a></sup> Nas notas
+a <span class="smallcaps">Adozinda</span>,
+vol. I do 'Romanceiro,'
+nota N,
+citei differentemente &eacute;sta copla pela
+imperfeita lic&ccedil;&atilde;o
+de um Ms. do Minho, unico que tinha &aacute; m&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="3">[3]</a></sup> Outra
+lic&ccedil;&atilde;o, e talvez melhor diz
+<em>a coitada</em>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="4">[4]</a></sup> Thomar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="5">[5]</a></sup> De frades
+e de freiras.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="6">[6]</a></sup> Deus,
+venerunt gentes in hereditatem tuam. Ps. 78.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr align="right">
+
+
+ <td style="width: 64px;"></td>
+
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 131px;">Original</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;"></td>
+
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e1"></a><a href="#p2">#p&aacute;g.
+2</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">et mos</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">est
+mos*</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e2"></a><a href="#p5">#p&aacute;g.
+5</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">Faltaffs</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Falstaffs</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e3"></a><a href="#p17">#p&aacute;g.
+17</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">San'Jo&atilde;o-de-Alpiar&ccedil;a</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">San'Jo&atilde;o
+do Alpor&atilde;o*</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e4"></a><a href="#p17">#p&aacute;g.
+17</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">egrea</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">egreja*</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a href="#p43" name="e5"></a><a href="#p43">#p&aacute;g.
+43</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">retiraam</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">retiraram</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e6"></a><a href="#p50">#p&aacute;g.
+50</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">recordam</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">memoram*</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e7"></a><a href="#p62">#p&aacute;g.
+62</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">stil</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">still*</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e8"></a><a href="#p81">#p&aacute;g.
+81</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">da
+intranhas</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">das
+intranhas</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e9"></a><a href="#c11">#p&aacute;g.
+99</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">Horor</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Horror</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e10"></a><a href="#p118">#p&aacute;g.
+118</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">quelle</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">aquelle</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e11"></a><a href="#p118">#p&aacute;g.
+118</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">digno
+do
+ornar</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">digno
+de
+ornar</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e12"></a><a href="#p119">#p&aacute;g.
+119</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">LisboaTejo</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Lisboa
+Tejo</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e13"></a><a href="#p123">#p&aacute;g.
+123</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">confrontar-
+algum</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">confrontar
+algum</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 64px;"><a name="e14"></a><a href="#p138">#p&aacute;g.
+138</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">extistencia</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px; vertical-align: middle;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">existencia</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e15"></a><a href="#p213">#p&aacute;g.
+213</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">com com</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">com</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e16"></a><a href="#p217">#p&aacute;g.
+217</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">desdescrevi</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">descrevi</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e17"></a><a href="#p218">#p&aacute;g.
+218</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">ma
+curado</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">mal
+curado</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e18"></a><a href="#p241">#p&aacute;g.
+241</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">modernas</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">modernos</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e19"></a><a href="#p241">#p&aacute;g.
+241</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">Flastaff</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Falstaff</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;">*
+correc&ccedil;&otilde;es feitas com base na errata do
+pr&oacute;prio livro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Shakespeare, San' Thiago e Joanninha surgem neste livro como
+Shakspeare, San'Tiago e Joaninha respectivamente.<br />
+
+
+Dada a repetitividade constante, decidi
+manter de acordo com o original.<br />
+
+
+<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+</div>
+
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra (Volume II), by
+Almeida Garrett
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA (VOLUME II) ***
+
+***** This file should be named 24319-h.htm or 24319-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/4/3/1/24319/
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
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+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
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+distribution of electronic works, by using or distributing this work
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+electronic works
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+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
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+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
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+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
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+States.
+
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+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
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+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+
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+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
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+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
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+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
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+1.F.
+
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+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+For additional contact information:
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+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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